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Numero do processo: 13896.722525/2013-37
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jun 07 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Tue Jul 12 00:00:00 UTC 2016
Numero da decisão: 1402-000.363
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, o retorno dos autos à primeira instância julgadora para que seja proferida decisão complementar com análise dos argumentos apresentados em impugnação e que não foram objeto de manifestação na decisão recorrida (Conta Contábil 4.2.1.01.008 - Despesas de Viagens - Vendor Name Vazio (R$ 1.868.560,45), bem como sobre o mérito da infração não abordada no acórdão guerreado (Conta Contábil - 4.2.1.01.020 - Despesas Legais - Provisões) nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado.
(assinado digitalmente)
Leonardo de Andrade Couto - Presidente
(assinado digitalmente)
Fernando Brasil de Oliveira Pinto Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Demetrius Nichele Macei, Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Gilberto Baptista, Leonardo de Andrade Couto, Leonardo Luís Pagano Gonçalves, Paulo Mateus Ciccone e Roberto Silva Júnior.
Relatório
WAL MART BRASIL LTDA recorre a este Conselho, com fulcro no art. 33 do Decreto nº 70.235, de 1972, objetivando a reforma do acórdão nº 14-55.990 da 3ª Turma da Delegacia de Julgamento em Ribeirão Preto que julgou parcialmente procedente a impugnação apresentada.
E, haja vista que em tal acórdão exonerou-se crédito tributário superior a R$ 1.000.000,00, nos termos do artigo 2º da Portaria MF nº 3, de 03/01/2008, a turma julgadora recorreu de ofício a este Conselho, com fulcro no art. 34 do Decreto nº 70.235, de 1972.
Por bem refletir o litígio até aquela fase, adoto o relatório da decisão recorrida, complementando-o ao final:
Conforme Termo de Verificação Fiscal TVF (fls. 2707/2738), foi procedida ação fiscal na empresa acima identificada, relativamente ao ano-calendário de 2009. Conforme consta do referido termo fiscal, a contribuinte foi diversas vezes intimada com o intuito de se verificar a dedutibilidade dos custos e despesas operacionais, sendo orientada a apresentá-los em formato que possibilitasse conciliar os documentos com os lançamentos, fazendo referência ao número de Anexo e também ao número do documento.
Da análise de tais documentos foram constatadas as seguintes irregularidades que caracterizam infração à legislação tributária:
1) CUSTOS, DESPESAS OPERACIONAIS E ENCARGOS - NÃO COMPROVADOS
Despesas não comprovadas referentes à PLANILHA 2 ANEXO 1 - 4.2.1.01.001 DESPESAS COM SEGUROS MTR TRANSFER, PLANILHA 5 ANEXO 2 - 4.2.1.01.008 DESPESAS DE VIAGENS PLANILHA 6 - ANEXO 2 - 4.2.1.01.008 DESPESAS DE VIAGENS - WEEKLY CASH REPORT, PLANILHA 7 - ANEXO 2 - 4.2.1.01.008 DESPESAS DE VIAGENS - VENDOR NAME VAZIO, PLANILHA 9 - ANEXO 5 -4.2.1.01.020 DESPESAS LEGAIS - MTR TRANSFER, PLANILHA 14 - ANEXO 8 - 4.2.1.01.075 REUNIÕES E CONVENÇÕES - VENDOR NAME VAZIO, PLANILHA 15 - ANEXO 8 - 4.2.1.01.075 REUNIÕES E CONVENÇÕES - ALUGUEL INT, PLANILHA 16 - ANEXO 8 - 4.2.1.01.075 REUNIÕES E CONVENÇÕES - PATRICIA, PLANILHA 18 - ANEXO 8 - 4.2.1.01.075 REUNIÕES E CONVENÇÕES - WALMART E PLANILHA 22 - ANEXO 14 - 4.2.1.04.015 RELAÇÕES PÚBLICAS - WAL MART apuradas conforme relatório fiscal.
2) CUSTOS/DESPESAS OPERACIONAIS/ENCARGOS NÃO DEDUTÍVEIS.
Despesas com contribuições e doações indedutíveis, por inobservância dos requisitos legais, referente à PLANILHA 21 - ANEXO 14 - 4.2.1.04.015 RELAÇÕES PÚBLICAS CONTRIBUIÇÃO, conforme relatório fiscal.
Despesas de brindes- RELAÇÕES PÚBLICAS - BRINDES conforme relatório fiscal.
Multa por infração fiscal, indedutível por não ser de natureza compensatória, ou por ter sido imposta por infração de que resultou falta ou insuficiência de pagamento de tributo, referente à PLANILHA 10 - ANEXO 5 - 4.2.1.01.020 DESPESAS LEGAIS - DARF, PLANILHA 11 - ANEXO 5 - 4.2.1.01.020 DESPESAS LEGAIS - MULTAS FISCAIS e PLANILHA 19 - ANEXO 8 - 4.2.1.01.075 REUNIÕES E CONVENÇÕES - DARF conforme relatório fiscal.
Despesas não necessárias referentes à Planilha 1 Anexo 1 4.2.1.01.001 Despesas com Seguros PF, Planilha 3 ANEXO 1 4.2.1.01.001 Despesas com seguro PF, Planilha 4- Anexo 2 4.2.1.008 Despesas de viagens Líder Táxi Aéreo Oceanair, Planilha 12- Anexo 5 4.2.2.01.020 Despesas Legais Despesas Bancárias, apuradas conforme relatório fiscal.
Provisão indedutível por não estar expressamente autorizada pelo Regulamento do Imposto de Renda, ou por ter sido feita em excesso ao permitido pela legislação, referente à PLANILHA 8 - ANEXO2 - 4.2.1.01.008 DESPESAS DE VIAGENS PROVISÃO, PLANILHA 13- ANEXO 5 - 4.2.1.01.020 DESPESAS LEGAIS PROVISÃO PLANILHA 17- ABEXO 8 - 4.2.1.01.075 REUNIÕES E CONVENÇÕE- PROVISÕES- ANEXO 4 - 4.2.1.01.017 DESPESAS ADMINISTRATIVAS, ANEXO 18 - 4.2.1.04.036 PROVISÃO PARA CONTINGÊCIAS, ANEXO 19 - 4.2.1.01.154 PROVISÃO PARA CONTINGÊNCIAS TRABALHISTAS, ANEXO 6 4.2.1.01.051, RECUPERAÇÃO DESPESAS PROP. COOPERADA, ANEXO 19 PROVISÃO PARA CONTINGÊNCIAS TRABALHISTAS, ANEXO 3 - 4.2.1.01.012 DESPESAS DIVERSAS E ANEXO 11 - 4.2.1.01.119 DESPESAS NÃO DEDUTÍVEIS, conforme TVF.
3) EXCLUSÕES INDEVIDAS NA DETERMINAÇÃO DA BASE DE CÁLCULO DO IRPJ E CSLL.
Valor excluído indevidamente do Lucro Líquido do período, na determinação do Lucro Real e Base de Cálculo da CSLL, referente ao ANEXO 3 - 4.2.1.01.012 DESPESAS DIVERSAS e ANEXO 7 - 4.2.1.01.066 PROJETOS NÃO APROVADOS, conforme relatório fiscal.
Diante dessas constatações, conforme os demonstrativos elaborados pelo Fisco, anexos aos autos, foram lavrados os autos de infração de fls. 2686/2705 que exigem crédito tributário no montante de R$ 20.562.357,55 conforme a seguir discriminado:
TRIBUTO
Valor do tributo
Juros de Mora (Cálculo válido até dez/2013)
Multa de ofício (75%)
Total
IRPJ
6.702.590,68
2.416.283,94
5.026.943,01
14.145.817,63
CSLL
3.040.293,73
1.096.025,89
2.280.220,30
6.416.539,92
Os lançamentos foram efetuados com fulcro nas disposições legais apontadas nos respectivos autos de infração.
Ciente do lançamento em 04/12/2013, a contribuinte ingressou em 03/01/2014 com a impugnação de fls. 2748/2804. Após o prazo para impugnação, solicitou a juntada de documentos que fazem as fls. 2805/16301.
Em suma, refuta os lançamentos sob as seguintes alegações:
IMPUGNAÇÃO
A Impugnante é pessoa jurídica de direito privado, tendo por principal atividade o comércio varejista de mercadorias em geral (hipermercado).
No regular desenvolvimento de suas atividades, a Impugnante sempre zelou pela mais rigorosa apuração e pagamento de seus tributos. Nesse contexto é de se mencionar que, conforme se aduz da análise de sua DIPJ (já juntada a estes autos) a Impugnante apurou prejuízos no ano de 2009, não havendo, portanto, imposto de renda ou CSLL a recolher no período.
A Fiscalização glosou certas despesas e exclusões consideradas pela Impugnante na base de cálculo do IRPJ e CSLL apurados naquele ano (como já mencionado, tais bases foram negativas), por diversos motivos a serem detalhados posteriormente.
Em decorrência do exposto, o procedimento fiscal culminou na lavratura de auto de infração contra a Impugnante, exigindo valores supostamente devidos a título de IRPJ e CSLL, sendo as supostas infrações assim descritas pela Fiscalização no TVF.
0001 CUSTOS, DESPESAS OPERACIONAIS E ENCARGOS DESPESAS NÃO NECESSÁRIAS (. . .)
0002 CUSTOS, DESPESAS OPERACIONAIS E ENCARGOS DESPESAS NÃO COMPROVADAS (...)
0003 PROVISÕES. PROVISÕES NÃO DEDUTÍVEIS (...)
0004 MULTAS NÃO DEDUTÍVEIS. MULTAS DE NATUREZA TRIBUTÁRIA NÃO DEDUTÍVEIS (...)
0005 CONTRIBUIÇÕES E DOAÇÕES. INOBSERVÂNCIA DOS REQUISITOS LEGAIS (...)
0006 DESPESAS DE PROPAGANDA E/OU BRINDES. DESPESAS DE BRINDES (...)
0007EXCLUSÕES/COMPENSAÇÕES NÃO AUTORIZADAS NA APURAÇÃO DO LUCRO REAL. EXCLUSÕES INDEVIDAS (...)
Em face das conclusões do Fisco, foram lavrados auto de infração para exigência do IRPJ e CSLL. Contudo, os autos de infração não poderão prevalecer, uma vez que essas conclusões padecem de equívocos insanáveis.
Antes de abordar os equívocos, informa que os documentos anexos a esta impugnação serão apresentados em via eletrônica (CD ROM), tanto em razão da maior facilidade para análise, quanto em razão de seu enorme volume.
Em que pese a documentação já juntada aos autos, desde já a impugnante protesta pela realização da diligência a fim de confirmar as informações que serão abaixo prestadas, tendo em vista a complexidade dos lançamentos contábeis ora descritos e o enorme volume de documentos que suportam tais lançamentos.
A impugnante informa que seus funcionários estão à inteira disposição desse colegiado caso se entenda pela necessidade de realização de diligência a fim de confirmar as informações ora apresentadas.
A seguir, apresentam-se os motivos pelos quais deve a presente autuação ser integralmente cancelada. Necessário se faz observar o contido no art. 299 do Decreto nº 3.000, de 1999, que traz o conceito de despesa operacional.
Depreende-se do texto legal desse artigo que as despesas operacionais dedutíveis são aquelas necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora de receitas. O § 2º desse dispositivo reza que são despesas operacionais admitidas, as usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa. Tal análise, no entanto, deve ser feita com muita atenção, já que a conceituação dos termos usuais e normais definirá se a despesa será dedutível ou indedutível. Assim determinar a dedutibilidade de uma despesa requer análise da situação como um todo de maneira objetiva, levando em consideração o que o texto legal tem por propósito, quando autoriza a dedução.
Não pode o auditor, com base em critérios subjetivos, determinar o que é usual e necessário à atividade dos contribuintes. Ao contrário, o próprio contribuinte é quem está familiarizado com suas atividades e, portanto, está apto a determinar quais despesas são efetivamente necessárias ao desenvolvimento de suas atividades. Assim, passa a analisar cada uma das glosas efetuadas pela autoridade fiscal, na mesma ordem adotada no TVF:
I - Conta contábil 4.2.1.01.001 Despesas com seguros
Seguro da aeronave:
Cabe observar que a despesa se refere ao seguro da aeronave que a empresa possuía. Para o Fisco, a despesa seria indedutível por tratar-se de aeronave de uso quase estritamente particular, desvinculada do objetivo social principal da empresa, comércio varejista, agente de comércio não se encaixaria no conceito legal de despesas operacionais e, portanto, totalmente indedutível para fins de apuração do lucro real.
A efetividade da despesa questionada pela Fiscalização, dada a existência de pagamentos relativos à contratação de seguro de aeronave foi plenamente reconhecida. Dessa forma o que se discute é apenas a possibilidade dessa despesa se enquadrar no conceito de despesa operacional.
Não foi apresentada pelo Fisco, prova de que a aeronave é utilizada quase estritamente para fins particulares. Não pode o Fisco apenas presumir, ao contrário, qualquer presunção deveria ser feita em favor da contribuinte. Não é incomum que empresa do porte da impugnante com estabelecimentos em todo o país (e controladora no exterior) possuam aviões para atender as necessidades de suas operações.
A Impugnante ressalta ainda que é extremamente parcimoniosa no uso de seus recursos, o que é necessário para que suas lojas consigam manter um preço competitivo. Nesse contexto, não seria admissível adquirir uma aeronave para fins não corporativos, eis que tal fato impactaria severamente em seus preços e, consequentemente, em sua competitividade.
A fim de deixar claro o equivoco fiscal, a Impugnante informa que todas as viagens efetuadas em sua aeronave deveriam ser documentadas por meio de uma "Solicitação de Viagem", na qual deve haver informações sobre todos os passageiros do avião e declaração de que a viagem se presta a motivos profissionais.
A fim de documentar tal fato, a Impugnante anexa a estes autos exemplo de Solicitação de Viagem (Doe. 5).
Como se verifica, a conclusão fiscal não poderia estar mais longe da verdade. Na realidade, a utilização primordial dada pela Impugnante a sua aeronave está intrinsecamente vinculada ao seu objeto social: o transporte de executivos e empregados da empresa a eventos corporativos e convenções de entidades do setor varejista.
A fim de comprovar o alegado, está buscando outros documentos comprobatórios tais como as demais solicitações de viagem que compõem a integralidade das despesas glosadas. Tais documentos ainda não foram juntados em razão de seu volume e antiguidade.
MTR transfer:
As despesas registradas sob essa rubrica foram glosadas sob a justificativa de que não estariam suportadas por documentos hábeis e idôneos.
Ocorre que os lançamentos referem-se a reclassificações contábeis efetuadas em suas contas de resultado, que passam a ser explicadas: o valor correspondente à despesa em discussão foi registrado (juntamente a diversas outras despesas) em uma determinada conta de resultado da Impugnante, com contrapartida em uma conta patrimonial, com base em documentação hábil ("Lançamento 1"). Esta conta será doravante denominada "Conta Original". Posteriormente, a Impugnante verificou que parcela das referidas despesas (R$ 7.653,41) deveria ser alocada à outra conta de resultado: justamente a conta ora discutida, de n. 4.2.1.01.001 ("Conta Questionada") . Assim, a Impugnante reclassificou o lançamento acima descrito, por meio de um lançamento a crédito na Conta Original (eliminando o efeito da despesa questionada nessa conta).
O efeito dessas reclassificações no resultado da impugnante e na base de cálculo do IRPJ e da CSLL é nulo. No entanto, a dedutibilidade da despesa questionada permanece, pois o lançamento 1 foi baseado em documentação hábil, que será juntada a estes autos com descrição minuciosa dos lançamentos contábeis e documentos comprobatórios da efetividade das despesas em questão. Mais uma vez informa que não foram juntados quando da impugnação em razão de sua antiguidade, volume de documentos e complexidade dos lançamentos.
c) Despesa com seguros Pessoas Físicas
De acordo com o TVF, as despesas relativas a seguros de pessoa física seria mera liberalidade da empresa e não se adequaria ao conceito de despesas necessárias, portanto seria indedutível. Ao contrário do que afirma a Fiscalização, tais despesas são absolutamente necessárias à atividade da Impugnante. Referem-se a reembolsos e indenizações concedidos a clientes em decorrência de furtos e danos ao patrimônio, sofridos por eles nas dependências da impugnante.
O fato de investir na segurança de seus clientes é, infelizmente, porque não há como evitar eventuais ocorrências de danos e furtos nas suas dependências. Nessa situação, as despesas correspondentes devem ser consideradas necessárias e usuais para sua atividade, pois a responsabilidade da impugnante perante seus clientes não pode ser afastada, tampouco deve ser considerada mera liberalidade.
O Superior Tribunal de Justiça editou súmula sobre o tema, na qual ficou claramente consignada a responsabilidade da empresa em situações similares:
Súmula STJ n. 130
A Empresa responde, perante o cliente, pela reparação de dano ou furto de veículo ocorridos em seu estacionamento.
Informa que levantará os comprovantes de pagamento relativos a tais despesas de forma a demonstrar cabalmente a efetividade de tais despesas.
II - Conta contábil 4.2.1.01.008- Despesas de viagens
a) -Fretamento Oceanair Táxi Aéreo
Tais despesas no valor de R$ 105.062,50 foram glosadas pela Fiscalização com base na justificativa de que o fretamento de aeronave por empresa que tem por objeto social principal comércio varejista, agentes do comércio não se encaixa no conceito legal de despesas operacionais, e portanto seriam indedutíveis para fins de apuração do IRPJ e CSLL.
Note-se que a efetividade da despesa não foi contestada pelo Fisco em momento algum, mas apenas a sua dedutibilidade. Para a fiscalização, o deslocamento de empregados e diretores estaria desvinculado do objeto social da empresa. A impugnante é empresa multinacional com estabelecimentos em todo o país e no exterior. É natural que numa empresa desse porte, ocasionalmente, necessite enviar empregados de uma unidade a outra unidade para visitas, reuniões de gerentes com o propósito de definir determinadas políticas e outras atividades, o que demonstra o claro enquadramento das despesas no conceito de despesa operacional.
Nota-se que a fiscalização incorreu em equívoco. Embora as despesas se refiram a pagamento efetuado às empresas Oceanair Táxi Aéreo e Líder Táxi Aéreo, elas não se referem apenas a fretamento de aeronaves. Os pagamentos efetuados à Líder, referem-se a despesas de fretamento de aeronaves, o que é plenamente dedutível. Já, os pagamentos efetuados a Oceanair referem-se a serviços por manutenção executados na aeronave então possuída pela impugnante conforme demonstram comprovantes já apresentados à Fiscalização (mencionada no tópico seguro de aeronave).
Demonstrada a vinculação da aeronave ao objeto social da empresa, forçosa se torna a conclusão de que as despesas relativas a sua manutenção devam ser consideradas dedutíveis na determinação da base de cálculo do IRPJ e da CSLL.
Informa que está levantando documentos que comprovem a natureza das viagens (passagens e motivos) e irá juntá-los a estes autos com a maior brevidade possível.
b) MTR Transfer, Weekly Cash Report e Vendor Name Vazio
b1) MTR transfer
Referidas despesas, de R$ 255.644,77, se referem à exata situação descrita no item b (reclassificação contábil sem efeito no resultado). A fim de comprovar também a efetividade dessas despesas, juntará a estes autos descrição minuciosa dos lançamentos contábeis relativos às despesas ora discutidas, bem como cópias dos documentos comprobatórios de sua efetividade.
b2) Weekly Cash Report
Essas despesas, no montante de R$ 3.076.979,36, se referem a gastos efetuados com recursos do caixa de cada uma das lojas da Impugnante. Mais especificamente, a reembolsos e pagamentos referentes a despesas de viagens profissionais realizadas por empregados dos estabelecimentos da Impugnante (visitas a outras lojas, deslocamentos para reuniões dentre outras situações).
Como se verifica, portanto, tais despesas estão claramente relacionadas às atividades da Impugnante, nos termos já expostos em tópicos anteriores e, portanto, devem ser consideradas dedutíveis.
A fim de demonstrar o exposto, a Impugnante irá levantar e juntar a estes autos informações e documentos aptos a comprovar a efetividade das despesas em questão, de forma a restar absolutamente comprovada a regularidade da conduta por ela adotada.
b3)Vendor Name Vazio
Referida rubrica se refere a despesas no valor de R$ 3.868.560,43, relativas à contabilização de despesas pré-operacionais incorridas por lojas em construção.
Como já mencionado, a Fiscalização glosou tais despesas por entender que não estariam amparadas por documentação hábil e idônea. Ocorre, pois, que tais despesas foram integralmente revertidas por lançamentos a crédito na mesma conta questionada pela Fiscalização. Em outras palavras, tais despesas não poderiam ser glosadas em razão de um único fato: elas não produziram efeito algum no resultado da recorrente.
Dessa forma, a grosso modo, a glosa dos lançamentos contábeis ora discutidos implica a tributação em duplicidade dos valores questionados. Considerações se fazem necessárias:
Em consonância com a legislação fiscal e contábil aplicável até a edição da medida provisória n. 449/2008, despesas pré-operacionais podiam ser contabilizadas no ativo diferido da empresa, podendo ser amortizadas em prazo não inferior a cinco anos e não superior a dez anos, a partir do início da operação normal ou do exercício em que passem a ser usufruídos os benefícios decorrentes.
À época dos fatos em discussão, era exatamente esse o tratamento dado pela Impugnante às despesas ora questionadas, que, conforme informado acima, se referem a despesas pré-operacionais: registro no ativo diferido e amortização em 10 anos, iniciada a partir da inauguração da loja. Ocorre, porém, que, por questões sistêmicas, referidas despesas eram inicialmente registradas em conta de resultado como despesa para então serem reclassificadas para o ativo diferido.
Explica-se. A conta contábil ora questionada (conta 4.2.1.01.008) registra todas as despesas de viagens registradas pela Impugnante (considerando todos os seus estabelecimentos).
Despesas de viagens atribuídas a unidades em construção (as despesas pré-operacionais de que trata a glosa ora discutida) eram, por uma questão sistêmica, inicialmente registradas nessa mesma conta contábil. Como o estabelecimento que incorreu na despesa ainda não havia sido oficialmente inaugurado, à época dos fatos, o lançamento foi feito sob a rubrica Vendor Name Vazio. Posteriormente, referidos lançamentos foram reclassificados para uma conta de ativo diferido, mas seus sistemas contábeis não haviam sido adaptados à mudança no ano de 2009 (encontrão que foi resolvido atualmente).
c) Provisão
De acordo com a fiscalização a despesa em questão, no valor de R$ 18.621,59 possui o histórico de provisão, sendo portanto não dedutível da base de cálculo do IRPJ e CSLL. Todavia, ao contrário do que afirma a fiscalização, essa despesa foi adicionada à base cálculo dos tributos. Está preparando planilha para demonstrar que as despesas foram corretamente adicionadas ao lucro líquido que será juntada aos autos tão logo esteja finalizada.
III - Despesas Legais (conta 4.2.1.01.020)
a) MTR Transfer
Essas despesas no montante de R$ 27.640,64 também tiveram reclassificações contábeis sem efeito no resultado tributável. A fim de comprovar também a efetividade das despesas levantará e juntará descrição minuciosa dos lançamentos relativos as despesas ora discutidas, bem como cópias dos documentos comprobatórios de sua efetividade.
b) Darf código 1256 e Multas fiscais.
A glosa refere-se a pagamento de despesa relativa a débitos fiscais no âmbito do REFIS IV (código 1256), no valor de R$ 1.254.968,96, e R$ 141.080,55 relativo a multas fiscais.
De acordo com a fiscalização, a glosa se justifica com base no art. 344, § 5º do RIR de 1999. que determina não serem dedutíveis como custo ou despesas operacionais as multas por infrações fiscais, salvo as de natureza compensatória e as impostas por infrações que não resultem fala ou insuficiência de tributo.
No que diz respeito ao Darf no valor de R$ 1.254.968,96 , de fato transitou pela conta 4.2.1.01.020, mas somente em razão de um equívoco da impugnante que registrou tal valor equivocadamente nesta conta. A despesa foi reclassificada não produzindo efeito na conta de resultado. Ao se analisar o razão contábil verifica-se que após a reclassificação a despesa foi efetivamente contabilizada na conta 4.2.1.01.119 que também foi objeto de glosa fiscal.
Entende a despesa em questão é integralmente dedutível, pois não se refere a multas fiscais, mas sim a pagamento de tributo, conforme darf anexo, motivo pelo qual é inteiramente dedutível
A multa pode ser paga à vista e liquidar multas e juros com prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa da CSLL. O Darf glosado, ao contrário do que argumenta a Fiscalização, não foi utilizado para pagamento das multas e juros, mas tão somente para pagamento de tributo. Se tivessem sido analisados os Darfs, não seriam glosadas as despesas, já que é clara a disposição do art. 344 do RIR de 1999, no sentido de serem dedutíveis na apuração do Lucro Real, os tributos e as contribuições.
O art. 374 do RIR de 1999, assegura a dedução como custo ou despesa financeira, do valor relativo aos juros de mora pagos ou incorridos. O Parecer CST nº 174 de 2004, da mesma forma possibilita essa dedução, concluindo que os juros de mora, por se tratar de compensação pelo atraso na liquidação de débitos, caracterizam-se como despesa financeira e, como tal, são dedutíveis.
As razões expostas, relativamente ao Darf de R$ 141.080,55 são plenamente aplicáveis ao Darf de R$ 1.254.968, 96.
Com relação às multas, o regulamento do IR permite dedução das de natureza compensatória e as impostas por infrações que não resultem em falta ou insuficiência de pagamento de tributo.
Assim, a análise da fiscalização esta incorreta, devendo ser cancelado o item do AI.
c)Despesas Bancárias
Foram glosadas despesas bancárias de R$ 828.463,40, decorrentes de contratos de prestação de fiança celebrados entre a impugnante e instituições financeiras para garantia de débitos objeto de ações judiciais sob o argumento de que não poderiam ser consideras operacionais, pois não fariam parte da apuração do lucro da empresa, sendo gastos com a estrutura do capital. Mas, a conclusão fiscal é infundada pois enquadram-se perfeitamente no conceito de despesas operacionais. Como é cediço, a maioria das empresas necessitam celebrar esses contratos de prestação de fiança para poder apresentar defesa nas ações judiciais propostas contra si, como as execuções fiscais, em que é necessário e obrigatório garantir o juízo para apresentação de embargos à execução. São portanto absolutamente necessárias usuais e normais para a empresa executar suas atividades.
Portanto deve ser cancelado esse item do auto de infração.
d) Provisão
Aplicam-se a este item as mesmas argumentações apresentadas no item II c. Esclarece que a é a conta 2.1.1.07.002 que determina quais valores deverão ser adicionados ou excluídos da base de cálculo dos tributos. Reitera que o saldo da citada conta de passivo foi integralmente adicionada à base de cálculo do IRPJ e da CSLL.
IV Conta contábil 4.2.1.01.075 Reuniões e Convenções
Vendor Name Vazio
As despesas registradas nessa conta no montante de R$ 506.716,41, foram glosadas pela fiscalização por entender que os lançamentos não estavam embasados em documentação hábil e idônea. Referem-se tais despesas a pagamento de cursos e seminários realizados no exterior. Apresentam-se documentos relativos a pagamento de cursos (solicitação de pagamento, contrato de cambio e faturas dos prestadores) (doc.22).
Informa que está levantando maiores informações sobre os cursos em questão e eventuais documentos comprobatórios que serão devidamente juntados aos autos tão logo sejam obtidos, para mostrar a improcedência dessa glosa questionada.
b) Alocação aluguel Int e Patrícia de Paula C
As despesas em questão, nos montantes de R$ 453.836,32 e R$ 31.314,52, foram glosadas pela fiscalização por entender que correspondem a lançamentos não embasados em documentação hábil e idônea.
b1) Alocação Aluguel Int.
A impugnante informa que está levantando maiores informações e documentação comprobatória dessas despesas que serão juntadas a estes autos, ocasião em que será demonstrada a total improcedência da glosa em questão.
b2)Patrícia de Paula C
Referem-se a despesas de serviços de publicidade (mão de obra e confecção de painéis e outras mídias para comunicação) prestados pela empresa Devisu- Criação e Comunicação Visual (Patrícia de Paula Com. Visual EPP) no âmbito de eventos realizados pela impugnante.
c) Provisão
Em que pese a nomenclatura provisão, as despesas glosadas registradas nessa conta no montante de R$ 1.652,00 correspondem a efetivas despesas incorridas pela Impugnante, que esta levantando documentos aptos a comprovar tal fato.
d) Wal Mart
Foram glosadas as despesas contabilizadas sob essa rubrica, no montante de R$ 365.400,10, por entender que referidos lançamentos não estavam embasados em documentação hábil e idônea. Referem-se a pagamento de cursos e seminários realizados no exterior, (vide mais uma vez, o doc. 22 para documentação exemplificativa). Informa que serão juntados a estes autos tão logo sejam obtidos, ocasião em que será demonstrada a total improcedência da glosa em questão.
e) Darf código 0473
Mais uma vez, a fiscalização glosou despesas alegando tratarem-se de multas indedutíveis, quando na verdade trata-se apenas de pagamento de imposto. Darf de R$ 33.675,33 refere-se ao pagamento de Imposto de Renda Retido na Fonte no mês de setembro de 2009, conforme atesta o Darf e DCTF ora anexados (doc.20), que são dedutíveis de acordo com o art. 344 do RIR de 1996. Portanto requer o cancelamento desse item.
V- Conta contábil 4.2.1.04.015 Auxilio Alimentação Relações Públicas
a) Brindes
Entendeu o fisco que as despesas incorridas pela recorrente com material promocional não seriam dedutíveis do Lucro tributável para apuração do IR e da CSLL. Todavia, essas despesas não se caracterizam como brindes, mas sim, propaganda, sendo absolutamente necessárias ao desenvolvimento da atividade social da impugnante, portanto, possibilitando a sua dedutibilidade, nos termos do art. 366 do RIR de 1999.
É bastante amplo o instrumento da propaganda, na medida em que são inúmeras as formas pelas quais a marca da empresa ou um produto específico poderão ser divulgados com o fim de atrair consumidores para os seus produtos. São gastos constituídos não por mera liberalidade, mas dispêndios que tem a clara expectativa de retorno comercial.
O objeto social da impugnante envolve importação, exportação, industrialização e comercialização, no atacado e no varejo de produtos em geral. Assim, tais gastos com materiais promocionais cedidos aos seus clientes têm o intuito de incrementar suas vendas. Por meio de propaganda divulga a seus potenciais clientes a boa qualidade dos produtos que coloca no mercado. Trata-se de típica despesa necessária à manutenção da fonte produtora do rendimento, enquadrando-se na condição prevista no art. 366 do RIR de 1999.
As despesas enquadram-se perfeitamente na condição prevista no art. 366 do RIR de 1999 que permite a dedução. Além disso, o inciso VII do art. 13 da Lei nº 9.249, de 1995 foi introduzido no ordenamento jurídico com o intuito de afastar a dedutibilidade de gastos incorridos pelos contribuintes em que absolutamente nada coadunam com suas atividades, ou seja, gastos não vinculados à operacionalidade de seu objeto social. É o caso de despesas com brindes, que não devem ser confundidas com as despesas de propaganda. Há de se fazer distinção entre brinde e material promocional para fins de dedução da base de cálculo da CSLL.
Se mantida a adição, a tributação deixará de incidir sobre o lucro da impugnante para recair sobre seu patrimônio, o que é absolutamente inconstitucional. Qualquer adição indevida à base de cálculo do IRPJ e CSLL, contraria o disposto nos arts. 153, III e 195, I da Constituição Federal, pois não se estaria tributando Renda mas representará ilegítima instituição de empréstimo compulsório, em desacordo com o disposto no art. 148 da CF.
b) Contribuição e Patrocínio
Foram glosadas duas despesas decorrentes de pagamentos para as empresas Difusão Editora e Valor Econômico S/A, no valor total de R$ 89.000,00. A fiscalização limitou-se a expor que o artigo 13 da Lei nº 9.249, de 1996 excluiu a maioria das contribuições e doações na dedução do lucro real. Em momento algum enquadrou as despesas incorridas pela impugnante em qualquer das condutas expostas no referido art. 13. Essas enquadram-se no art. 368 do RIR de 1999, que dispõe que poderão ser deduzidos os gastos incorridos, com a formação profissional de empregados. Referem-se as despesas a cursos/seminários pagos pela impugnante aos seus funcionários, inclusive do III Seminário Créditos de Carbono e Mudanças Climáticas. Essas despesas são necessárias e usuais para seu negócio de maneira que são revertidas em seu próprio beneficio.
c) Wal Mart
As despesas contabilizadas sob essa rubrica, no montante de R$ 117.794,41, foram glosadas pela Fiscalização por ter entendido que tais despesas não estavam embasadas em documentação hábil e idônea. Informa a impugnante que tão logo sejam obtidos, os documentos necessários para comprovar tais despesas, serão devidamente juntados aos autos, ocasião em que será demonstrada a total improcedência da glosa em questão.
VI. Despesas operacionais Provisões
a) considerações iniciais
De acordo com a Fiscalização, durante o ano de 2009 foram contabilizadas diversas provisões que teriam reduzido o resultado tributável, sem ter efetuado as adições correspondentes para determinação da base de cálculo do IRPJ e da CSLL.
Tal conclusão é improcedente, eis que se baseia em uma simples análise que não levou em conta peculiaridades da contabilidade da empresa. A fim de demonstrar tal fato, faz-se necessário tecer algumas considerações iniciais sobre a forma de contabilização de provisões adotada pela impugnante. A impugnante adota uma metodologia distinta: Ela efetua as adições e exclusões de valores provisionados com base nas contas de passivo (nas quais as provisões foram originalmente constituídas), em decorrência de certas limitações de seus sistemas contábeis. Tais adições e exclusões são efetuadas com base nas alterações no saldo das contas de passivo. Ou seja, se em um mesmo período há constituição e reversão de provisão a impugnante exclui ou adiciona o valor líquido das operações à base de calculo do IRPJ e da CSLL.
Isso ocorre porque, muitas vezes, as contas de resultado da Impugnante registram diversos valores objeto de reclassificação contábil, que não geram efeitos no resultado da empresa e, portanto, não devem ser adicionados. Mais ainda, por vezes, tais contas de resultado registram também despesas efetivas (em que pese o fato de tais contas adotarem a nomenclatura "provisão").
Frise-se que a metodologia adotada pela Impugnante (adição/exclusão das despesas/receitas de provisão pelo saldo da conta de passivo) não diminui a base tributável apurada. Isto porque a contas contém reclassificações de contas contábeis (despesas cujo efeito foi anulado por um crédito no mesmo valor) e despesas efetivas, não relacionadas à constituição de provisão. Como se demonstrará, o montante que efetivamente corresponde às provisões constituídas no ano de 2009 foram integralmente adicionadas ao resultado, com base nas alterações dos saldos das contas de passivo.
b) Contas 4.2.1.01.017 Despesas administrativas, 4.2.1.04.036 Provisão para contingências e 4.2.1.01.154 - Provisão para contingências trabalhistas. O número Batch é de controle dos lançamentos contábeis efetuados pela impugnante sem seu sistema de contabilidade. Os lançamentos indicados na cor amarela indicam os valores que efetivamente equivalem a provisões e que foram devidamente adicionados à base de calculo do IRPJ e da CSLL. Houve reclassificações contábeis.
Como exemplo reproduze-se abaixo o quadro originalmente apresentado no doc. 1023, no qual se pode verificar que o valor de R$ 1.264.474,21, objeto de glosa fiscal, é, em parte, contrapartida de lançamento de R$ 612.490.41, que corresponde a uma efetiva provisão.
Conta 4.2.1.01.017 Despesas administrativas
a) despesas de juros - despesas efetivas, passíveis de exclusão das bases de cálculo do IRPJ e CSLL; e
b) Reclassificações contábeis para as contas 4.2.1.04.036 e 4.2.1.01.155. Note-se que os valores em questão não produziram efeito nenhum no resultado da Impugnante, eis que as despesas em questão foram anuladas por meio de créditos nas contas 4.2.1.04.036 e 4.2.1.01-155.
Como se verifica, parcela dos valores glosados pela Fiscalização nesta conta foi reclassificada para as contas 4.2.1.04.036 e 4.2.1.01.155 sendo que a primeira foi novamente glosada (como se verá seguir) e a segunda foi integralmente aceita pela Fiscalização.
Conta 4.2.1.04.036 Provisão para contingências
Da análise do quadro resumo contido no Doc. 10 e abaixo transcrito, verifica-se que, o valor de R$ 1.956.905,21, objeto de glosa fiscal, é na realidade, contrapartida de lançamentos a crédito efetuados nas contas de passivo 2.2.3.02.007 e 2.2.3.02.006, que foram devidamente adicionadas às bases do IRPJ e da CSLL.
Conta
Conta SPED
Account Name
Montante
441
2.2.3.02.007
PROVISÃO P CONTINGÊNCIAS T
-2.910.109,38
438
2.2.3.02.006
PROVISÃO PARA CONTINGÊNCIAS
-332.712,94
937
4.2.1.04.036
PROVISÃO PARA CONTINGÊNCIAS
1.956.905,21
1083
4.2.1.02.011
DESPESAS COM JUROS
242.455,41
947
4.2.1.01.155
PROVISÃO PARA CONTINGÊNCIAS CIVIL
145.395,57 =
970
4.2.1.04.018
ACOES TRABALHISTAS
26.890,47
1051
4.2.1.04.036
PROVISÃO PARA CONTINGÊNCIAS
201.917,72
929
4.2.1.01.017
DESPESAS ADMINISTRATIVAS
669.257,94
Note-se que os lançamentos efetuados nas contas 2.2.3.02.007 e 2.2.3.02.006 que foram adicionadas à base de cálculo do IRPJ e da CSLL têm também contrapartida em outras contas de provisão, bem como de despesas efetivas.
Destaque-se que a conta 4.2.1.04.036 apresenta registro de reversão de provisão no montante de R$ 136.979,06, sobre o qual a Impugnante deixa de comentar, eis que a exclusão da receita correspondente da base de cálculo dos tributos foi devidamente reconhecida pelo Fisco (conforme quadro na página 27 do TVF).
Conta 4.2.1.01.154 - Provisão para contingências trabalhista
Da análise do quadro resumo abaixo transcrito, verifica-se que o valor de R$ 1.584.122,94 objeto de glosa fiscal, tem por contrapartida lançamentos a crédito efetuados na conta de passivo 2.2.3.02.007, que foram devidamente adicionados às bases de cálculo do IRPJ e da CSLL. Os valores remanescentes representam despesas efetivas de diversas naturezas (lançamentos individualizados no doc.9) reclassificados de acordo. Note-se que, mais uma vez a reclassificação se deu por meio de um crédito efetuado em outras contas de resultados que eliminou o efeito original da despesa na conta questionada pela fiscalização.
Como visto, parcela significativa dos valores glosados são contrapartidas de despesas efetivas (em que pese o fato de tais despesas terem sido levadas a resultado em conta com a denominação provisão), ou valores reclassificados, portanto revertidos sem efeitos legais no resultado da impugnante, fato que foi ignorado pelo Fisco.
O montante remanescente que efetivamente corresponde a provisões e tem por contrapartida registros feitos na conta 2.2.3.02.007 foi devidamente adicionado à base de cálculo do IRPJ e da CSLL, com base nas alterações dos saldos das contas. A própria Fiscalização reconheceu que a Impugnante adicionou o montante de R$ 4.262.095,07. Referido montante equivale ao saldo da conta 2.2.3.02.007, na qual a Impugnante controla as provisões questionadas pela Fiscalização. Ou seja, a Impugnante adicionou o saldo da conta contábil - o qual considera tanto as despesas de constituição de provisão quanto as receitas de reversão - à base dos tributos em questão. Para demonstrar tal fato, a Impugnante apresenta o razão da conta 2.2.3.02.007 - cujo saldo foi devidamente acrescido à base de cálculo do IRPJ e da CSLL (doc 12), bem como quadros contendo os lançamentos efetuados na referida conta (grifados em amarelo) (doe 13) e suas contrapartidas. Novamente, é possível fazer o cotejo entre os documentos com base nos Batch indicados.
Resta, portanto, demonstrado o equívoco fiscal que glosou despesas efetivas e reclassificações contábeis, como se provisão fossem e a regularidade dos procedimentos adotados pela impugnante, que considerou tanto as despesas relativas à constituição de provisões quanto às receitas decorrentes da reversão de provisões na base de cálculo do IRPJ e da CSLL por ela devidos.
Conta 4.2.1.01.051 Recuperação Despesa Prop. Cooperada
Ocorre que as despesas glosadas pela fiscalização, são na realidade despesas efetivas de propaganda e publicidade, totalmente dedutíveis nos termos da legislação vigente (art. 366 do RIR de 1999) e não simples provisões, as quais são dedutíveis, respeitado o regime de competência, ou seja, a despesa se reporta a um determinado mês, deve necessariamente ser contabilizada nesse mês.
É sabido que a impugnante possui diversos anunciantes e tem significativas despesas de propaganda e publicidade. A empresa registra a despesa em sua contabilidade, com base na nota fiscal do fornecedor de serviço ou material. Ocorre que durante o ano de 2009, em razão de questões sistêmicas e de um complexo fluxo de aprovação de pagamentos, as supracitadas notas fiscais somente poderiam ser inseridas nos sistemas contábeis, após o decurso temporal, muitas vezes superior a um mês. Nesse contexto, uma nota emitida em janeiro, somente poderia ser registrada em fevereiro, sem violação ao princípio de competência. Problema sanado atualmente.
Assim, a impugnante passou a elaborar mensalmente uma planilha na qual registrava as notas fiscais e documentos de cobrança que deveriam ser registrados por competência em um dado mês (planilha NF). Com base no somatório dos valores registrados nessas planilhas, passa a registrar uma provisão na conta de passivo nº 2.1.1.07.007. Do ponto de vista fiscal, essa provisão é dedutível, reconhecida por competência no período pertinente. Tais montantes poderiam ser reconhecidos como contas a pagar, mas não o são, unicamente por questões sistêmicas.
No mês imediatamente posterior à constituição da referida provisão as notas fiscais são registradas no sistema gerando uma nova despesa. Porém o resultado dessa despesa é nulo, tendo em vista que a provisão constituída é revertida em outra conta de resultado, tendo por contrapartida lançamentos na conta de passivo n. 2.1.1.07.007.
Uma última explicação deve ser feita: Em dezembro de 2009, a Impugnante reverteu a provisão constituida em novembro do mesmo ano (contabilizando, portanto, receitas decorrentes) e constituiu provisão relativa a janeiro de 2010 (contabilizando as despesas decorrentes). Considerando que a provisão constituída pela Impugnante foi superior à reversão no montante de R$ 1.648.374,13 e que o ano se encerrava, conservadoramente, adicionou o valor em questão à base de cálculo do IRPJ e CSLL apurados em 2009.
Feitas essas considerações, a impugnante passa a demonstrar o quanto alegado. Para tanto, junta a estes autos cópia das Planilhas NF mensais, que listam as notas fiscais e documentos de cobrança que embasaram a contabilização da "provisão" (que, como já mencionado, corresponde a uma despesa efetiva de publicidade, reconhecida por competência) (doe. 14).
Adicionalmente, a impugnante também traz a estes autos quadros contendo os lançamentos questionados pela fiscalização e suas respectivas contrapartidas, separados por Batch (doc. 15), acompanhado de quadro resumo, a exemplo do que foi feito no item anterior.
Como se verifica da análise de cada quadro, os lançamentos glosados pela Fiscalização (marcados em verde) são valores debitados na conta de resultado n° 4.2.1.01.051, que têm, como contrapartida, valores creditados na conta de passivo n° 2.1.1.07.007 (estes lançamentos representam o valor efetivo da provisão e estão indicados em amarelo escuro), bem como reclassificações gerenciais creditadas em outras contas de resultado.
É de se observar que referidas reclassificações acabam por anular parte da despesa registrada na conta 4.2.1.01.051. Ora, se a Impugnante contabiliza uma despesa de R$ 100,00, tendo por contrapartida uma receita de R$ 100,00, o efeito deste lançamento é nulo. Na prática, é o que ocorre ao somar tais reclassificações. Para demonstrar o alegado foi inserido na impugnação, o quadro demonstrativo à fl. 2795, relativo ao mês de janeiro de 2009.
Portanto, desconsiderando-se o montante de R$ 422.989,78, resta uma despesa de R$ 7.019.406,04 que tem como contrapartida o lançamento efetuado na conta 2.1.1.07.007 devidamente levada a resultado. Situação similar se repete em todos os meses posteriores. Mais ainda, como se observa da análise do doc. 15, os lançamentos relativos a provisões registrados na conta 2.1.1.07.007 são efetuados mensalmente, sendo que, salvo pequenas variações observadas em alguns poucos meses, decorrentes de ajustes manuais, eles correspondem ao exato valor registrado mensalmente nas Planilhas NF.
Demonstrado, portanto, que as despesas de constituição de "provisão" estão registradas na conta 2.1.1.07.007 e não na conta 4.2.1.01.051, como afirmado pela Fiscalização, sendo tais despesas, na verdade, contas a pagar que competem ao mês em que são reconhecidas contabilmente.
Cabe agora demonstrar que cada valor debitado do resultado e registrado na conta 2.1.1.07.007 é revertido no mês seguinte, tendo por contrapartida um débito na referida conta de passivo e créditos em diversas contas de resultado.
A partir da página 5 do Doe. 15, a Impugnante listou os lançamentos efetuados na conta 2.1.1.07.007, incluindo aqueles relativos às reversões de "provisão" (indicados em amarelo claro), bem como suas contrapartidas. Note-se que a reversão efetuada em janeiro/2009 se refere à provisão constituída em dezembro/2008.
A fim de demonstrar que a reversão equivale exatamente ao valor constituído no mês anterior, a Impugnante reproduziu quadro relativo aos lançamentos de 28.2.2009 (item 279 da impugnação). A conta de passivo 2.1.1.07.007 é debitada no exato montante da provisão constituída no mês anterior, 7.019.406,04, tendo por contrapartida créditos em diversas contas de resultado (receitas de reversão). O mesmo procedimento se repete nos meses posteriores.
Ainda que o fisco entenda que os montantes registrados na conta 2.1.1.07.007 devam ser adicionados ao seu lucro tributável, não se pode deixar de reconhecer que as receitas de reversão também devem ser abatidas contra as receitas decorretes das reversões retromencionadas, que devem ser excluídas do mesmo lucro tributável. Portanto, demonstrada está a necessidade do cancelamento dessas glosas.
Conta 4.2.1.01.119 - Despesas não dedutíveis
A conta em questão registra despesas no montante total de RS 3.332.071,86, sendo que a Fiscalização reconheceu que a Impugnante efetuou a adição de RS 1.303.882,72 ao seu lucro tributável. Nesse sentido, houve por bem o agente Fiscal adicionar a diferença apurada (RS 2.028.189,14) ao lucro tributável da Impugnante. Todavia, deixou de considerar que a referida conta de resultado registra despesas efetivas, totalmente passíveis de dedução.
Como já mencionado anteriormente, o Fisco, ao analisar a conta 4.2.1.01.020, glosou despesas relativas a um Darf no montante e R$ 1.254.968,96 (código de recolhimento 1256). Ocorre que, como já demonstrado, referida despesa somente transitou por aquela conta, sendo posteriormente reclassificada para a conta 4.2.1.01.119 ora analisada. As mesmas razões justificam a dedutibilidade do valor de R$ 141.080,55.
No que diz respeito aos valores remanescentes, a impugnante está buscando documentos aptos a comprovar a efetividade e dedutibilidade das despesas, que serão juntados tão logo sejam localizados.
Contas 4.2.1.01.012 - Despesas diversas e 4.2.1.01.066 -Projetos não aprovados
A Fiscalização houve por bem adicionar os saldos das contas contábeis -1.2.3.01.012 e 4.2.1.01-066 nos montantes, respectivamente, de RS 12.972.699,89 e RS 5.158.648,64 (total de R$ 18.131.348,53) ao lucro tributável da Impugnante, por entenderem que referidas contas eram, na realidade, meras provisões e, portanto, indedutíveis. Todavia, novamente o Fisco incorreu em equívoco, pois as contas 4.2.1.01.012 e 4.2.1.01.066 registram não apenas provisões, mas despesas efetivas.
Esclarece, que a parcela dos registros das contas que efetivamente corresponde a despesas de constituição de provisões foi devidamente acrescida à base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Ainda, que a exemplo do que ocorre com outras contas abordadas em tópicos anteriores, a empresa controla as adições e exclusões relativas à constituição de provisões com base na variação do saldo da conta de passivo que registra a provisão. No caso em tela, essas contas abordadas em tópicos anteriores a impugnante controla as adições e exclusões relativas à constituição de provisões, com base na variação do saldo da conta de passivo que registra a provisão. A fim de demonstrar o alegado produziu quadros explicativos às fls. 2799 e 2800 da impugnação.
Como se verifica, do montante de R$ 18.131.348,53 adicionados ao lucro tributável da Impugnante, o montante de R$ 11.515.701,35 já havia sido adicionado pela Impugnante, por meio da conta 2.1.1.07.002. A análise dos razões das supracitadas contas (doe. 18), por meio da consulta aos lançamentos efetuados com os Batch indicados nos referidos quadros, demonstrará cabalmente a veracidade de todo o alegado.
No que diz respeito aos valores remanescentes, esclarece a Impugnante que correspondem a despesas efetivas. A Impugnante está buscando maiores informações, bem como comprovação dos pagamentos. Tais documentos serão juntados a estes autos tão logo sejam localizados.
Subsidiariamente Necessidade de consideração da base negativa de CSLL de períodos anteriores
O auto de infração também merece ser cancelado em razão de erro no critério quantitativo de apuração do valor devido. Isto porque ao apurar a contribuição, o Fisco não considerou a Base de Cálculo Negativa de períodos anteriores, da qual poderia compensar até 30% do lucro líquido ajustado, nos termos do art. 58 da Lei nº 8.981, de 1995.
A jurisprudência do CARF é clara no sentido de que, ao lavrar auto de infração, a Fiscalização deve realizar de oficio a compensação dos prejuízos fiscais/base negativa de CSLL.
Caso a D. Fiscalização tivesse procedido de acordo com a legislação, os valores de CSLL lançados teriam sido muito inferiores aos apurados, razão pela qual deve ser cancelado o presente auto de infração.
Ilegalidade da incidência de juros Selic sobre a multa de ofício.
Nos termos do que estabelece o artigo 61 da Lei n. 9.430/96, resta evidente que somente são admitidos os acréscimos moratórios referentes aos débitos decorrentes de tributos e contribuições, mas não sobre as penalidades pecuniárias. Assim, não há como se admitir a incidência de juros sobre a multa, na medida em que, por definição, se os juros remuneram o credor pela privação do uso de seu capital, eles devem incidir apenas sobre o que deveria ter sido recolhido no prazo legal e não foi.
Isto é, o único pressuposto da cobrança dos juros decorre da não transferência voluntária e dentro do prazo legal do capital do contribuinte aos cofres públicos. Excetuando-se essa situação, qualquer incidência de juros revela-se abusiva e arbitrária, por ausência de seu pressuposto de fato, qual seja, a reposição de capital.
Nesse sentido, é evidente que os juros não existem por si só e não podem ser aplicados aleatoriamente sobre qualquer evento. Decorrem, antes de tudo, de uma obrigação principal. O mesmo ocorre em relação à multa, que só será devida se existir uma obrigação anterior não quitada no prazo legal.
Os juros não podem incidir sobre a multa, já que essa penalidade não retrata obrigação principal, mas sim encargo que se agrega ao valor da dívida, como forma de punir o contribuinte.
Ademais, a aplicação de tal percentual, de forma ilimitada, sobre o principal e sobre a multa, acarreta verdadeira afronta ao principio constitucional do não confisco, bem como viola o direito de propriedade, já que faz incidir juros exorbitantes sobre o imposto devido e, ainda, sobre a multa aplicada ! Portanto, deve ser integralmente cancelado o auto de infração.
Em face de todo o exposto, a Impugnante requer:
a) Que seja o Auto de Infração julgado totalmente improcedente, cancelando-se integralmente o crédito tributário por ele constituido.
b) Subsidiariamente, caso não seja acolhido o pedido de cancelamento da autuação - o que se admite a mero titulo argumentativo - requer a Impugnante que seja afastada a incidencia de juros SELIC sobre a multa de oficio.
c) Juntada de quaisquer outros documentos e informações que venham a corroborar com os fatos e argumentos descritos na presente Impugnação.
d) Que todas as intimações e publicações relativas a este processo sejam efetuadas, exclusivamente, em nome das advogadas Raquel Cristina Ribeiro Novais e Daniella Zagari Gonçalves, inscritas na OAB/SP sob os n°s 76.649 e 116.343, respectivamente, com escritório localizado na Av. Brigadeiro Faria Lima, 3144, 8o andar, São Paulo, SP.
Juntou à impugnação:
Lista de documentos (via física):
DOC. 1 - Cartão do CNPJ
DOC. 2 - Documentos Societários
DOC. 3 - Procurações e documentos dos advogados DOC. 4 - Auto de Infração
DOC. 22 - Cursos no exterior: solicitações de pagamento, contrato de câmbio e faturas dos prestadores
Lista de documentos CD-ROM:
DOC. 5 - Exemplo de Solicitação de Viagem
DOC. 6 - Razão contábil da conta 4.2.1.01.020
DOC. 7 - Cópia de notas fiscais emitidas pela empresa Devisu -Criação e Comunicação Visual (Patricia de Paula Com. Visual EPP)
DOC. 8 - Planilha exemplificativa: lançamentos efetuados na conta 4.2.1.01.008
DOC. 9 - Quadros com lançamentos contábeis efetuados nas conta 2.1.01.017, 4.2.1.04.036 e 4.2.1.01.154
DOC. 10 - Resumo des lançamentos contábeis efetuados nas conta: 2.1.01.017, 4.2.1.04.036 e 4.2.1.01.154
DOC. 11 - Razões contábeis das contas 4.2.1.01.017, 4.2.1.04.036 e 4.2.1.01.154
DOC. 12 - Razão contábil da conta 2.2.3.02.007
DOC. 13 - Quadro de lançamentos contábeis da conta 2.2.3.02.007
DOC.14 - Planilhas mensais listando as notas fiscais consideradas na efetivação dos lançamentos efetuados na Conta 4.2.1.01.05
DOC. 15 - Quadros com os lançamentos efetuados na Conta 4.2.1.01.051
DOC. 16 - Razões das contas 2.1.1.07.007, 4.2.1.01.051 e outras contas de resultado.
DOC. 17 - Razão contábil da conta 4.2.1.01.119.
DOC. 18 - Razões contábeis das contas 4.2.1.01.012 e 4.2.1.01.066 e 2.1.1.07.00.
DOC. 19 - DARF Código 1256 no valor de R$ 1.254.968,96
DOC. 20 - DARF Código 0473 no valor de R$ R$ 33.675,33
DOC. 21 - Fatura de Serviços - Valor Econômico.
A 3ª Turma da DRJ em Ribeirão Preto, em análise da impugnação apresentada, julgou-a procedente em parte, tendo a decisão recebido a seguinte ementa:
Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2009
DEDUTIBILIDADE DE CUSTOS E DESPESAS.
A dedutibilidade de custos e despesas na determinação da base de cálculo do imposto somente é possível se prevista na legislação e devidamente comprovada.
Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
Ano-calendário: 2009
DEDUTIBILIDADE DE CUSTOS E DESPESAS.
A dedutibilidade de custos e despesas na determinação da base de cálculo da contribuição somente é possível se prevista na legislação e devidamente comprovada.
COMPENSAÇÃO DE BASE DE CÁLCULO NEGATIVA.
Retifica-se o lançamento para levar a efeito no cálculo da CSLL devida a compensação de Base de Cálculo Negativa de períodos anteriores efetuada pelo Fisco, mas não considerada na determinação de seu valor.
Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2009
JUNTADA POSTERIOR DE DOCUMENTAÇÃO.
O protesto pela juntada posterior de documentação não obsta a apreciação da impugnação, e ela só é possível em casos especificados na lei.
SOLICITAÇÃO DE DILIGÊNCIA.
O pedido de diligência deve ser considerado não formulado, por não ter sido regularmente formalizado, além de inexistir justificativa para sua realização.
INTIMAÇÃO. ENDEREÇAMENTO.
Feita a eleição pelo sujeito passivo do domicilio tributário, não se admite domicílio especial no processo administrativo.
Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2009
INCONSTITUCIONALIDADE.
É competência atribuída, em caráter privativo, ao Poder Judiciário pela Constituição Federal, manifestar-se sobre a constitucionalidade das leis, cabendo à esfera administrativa zelar pelo seu cumprimento.
JUROS DE MORA. INCIDÊNCIA SOBRE A MULTA DE OFÍCIO.
A incidência de juros de mora sobre a multa de ofício, após o seu vencimento, tem previsão legal.
Em resumo, a decisão de primeira instância somente cancelou parcela de CSLL decorrente da compensação de 30% de CSLL com bases negativas de períodos anteriores não levadas em consideração pela autoridade lançadora.
O contribuinte foi cientificado da decisão em 10 de fevereiro de 2015, uma terça-feira (fls. 16.357-16.358), apresentando recurso voluntário de fls. 16.384-16.453 em 12 de março de 2015, uma quinta-feira.
Aduz a Recorrente que a DRJ se limitou a analisar superficialmente as alegações contidas na impugnação, sem levar em consideração a documentação acostada aos autos em total afronta aos princípios da ampla defesa e do contraditório.
Em sede preliminar requer, assim, a declaração de nulidade da decisão recorrida, nos seguintes termos:
- em razão da gama de documentos que necessitava para comprovar a dedutibilidade das despesas glosadas, a Recorrente anexou documentos não só na impugnação apresentada, mas também em momento posterior, mas ainda antes da prolação da decisão recorrida;
- a DRJ entendeu por bem não analisar tal documentação em razão da preclusão prevista no art. 4º do art. 16 do Decreto nº 70.235/72, o que estaria em total descompasso com a jurisprudência do CARF;
- alega, contudo, que diversos documentos apresentados na impugnação também teriam sido absolutamente ignorados pela DRJ, uma vez que a decisão recorrida, em diversos pontos, teria mantido a glosa em razão da não apresentação de documentos por parte da Recorrente, mesmo em diversos casos em que a documentação fora apresentada em sede de impugnação;
- a turma julgadora de primeira instância teria desqualificado as provas apresentadas pela Recorrente ao afirmar que alegar genericamente e simplesmente juntar papéis ou demonstrativos não é provar, embora a Recorrente tivesse, a seu ver, vinculado os documentos à matéria que se referiam.
No mérito, em resumo, assim se manifesta a Recorrente:
- Conta Contábil 4.2.1.01.001 Despesas com Seguros
a) Seguro aeronave (R$ 107.591,20): não se questiona a efetividade da despesa, mas sim se seria ou não dedutível. Aduz a Recorrente que de que a conclusão da Fiscalização e da DRJ de que o uso dos aviões seriam quase que estritamente particular, desvinulado do objeto social da empresa e de que a despesa não estaria intrinsecamente relacionada com a produção ou comercialização não estaria embasa por qualquer documentação ou informação mais detalhada contraria a jurisprudência do CARF, a qual indica que competiria ao Fisco fazer prova dessa alegação. Segundo a Recorrente do doc. 5 juntado à impugnação demonstraria o controle que possuía sobre a utilização da aeronave, que teria sido utilizada somente com fins corporativos;
b) MTR Transfer (R$ 7.653,41): alega que as despesas registradas sob esta rubrica decorre de meros ajustes contábeis realizados, com subsequente crédito na conta de despesa original (eliminando a despesa inicialmente contabilizada) e débito na conta questionada. Aduz que não foi possível juntar a documentação aos autos em razão de sua antiguidade, bem como pelo envolvimento de grande volume de documentos;
c) Despesas com Seguros Pessoa Física (R$ 532.167,35): referem-se a reembolsos e indenizações concedidos a clientes em decorrência de furtos e danos ao patrimônio, sofridos por eles nas dependências da Recorrente. Segundo a decisão recorrida foram apresentados formulários internos de controle da área de contabilidade e de contas a pagar, os quais indicam em seu corpo que se referem basicamente a reembolsos por furto de veículos, CD player, estepes etc. Não apresentou durante a ação fiscal, nem no prazo para impugnação, documentos que comprovassem a necessidade dessa despesa, valor exigido por terceiro, caracterizando mera liberalidade. Assim, não se pode conceituar tal despesa como dedutível, necessária à atividade da empresa como definido no art. 299 do RIR de 1999. Contudo, entende a Recorrente que os documentos já apresentados durante o procedimento fiscal são aptos a comprovar a dedutibilidade de tais despesas;
- Conta Contábil 4.2.1.01.008 Despesas de Viagens
a) Fretamento Oceanair Táxi Aéreo e Líder Táxi Aéreo (R$ 105.062,50): despesas pagas a Oceanair Táxi Aéreo se referem a fretamento de aeronovaves, o que seria normal para a atividade desenvolvida, em especial para o deslocamento de associados/diretores e empregados. Quanto aos valores pagos à Líder Táxi Aéreo diriam respeito a manutenção da aeronave própria, e não à fretamente, conforme alegou a Fiscalização. Alega que a DRJ manteve a glosa analisando superficialmente as provas e suas alegações, o que implicaria nulidade do lançamento.
b) MTR Transfer, Weekly Cash Report e Vendor Name Vazio
- MTR Transfer (R$ 255.644,77): diria respeito à reclassificações contábeis, o que a Recorrente entende já ter demonstrado sua correição;
- Weekly Cash Report (R$ 3.076.979,88): despesas se referem a gastos efetuados com recursos do caixa de cada uma das lojas da Impugnante. Diriam respeito a reembolsos e pagamentos referentes a despesas de viagens profissionais realizadas por empregados dos estabelecimentos da Impugnante (visitas a outras lojas, deslocamentos para reuniões dentre outras situações). Não houve apresentação de documentação;
- Vendor Name Vazio (R$ 1.868.560,45): Recorrente alega que se trata de despesas pré-operacionais e que foram contabilizadas em conta de despesa mas teria havido créditos nos mesmos valores nessa mesma conta, sendo a contrapartida conta de ativo diferido (1.1.9.01.014 despesas pré-operacionais). A DRJ teria baseado seu voto na ausência de apresentação de documentos, mas não teria analisado a questão dos lançamentos a crédito que anulariam os efeitos na determinação do lucro líquido do período e, consequentemente, da apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL;
c) Provisão (R$ 18.621,59): argumenta a Recorrente que os valores em questão foram adicionados na apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL. Esclarece que seria a conta 2.1.1.07.002 que determinaria quais valores deveriam ser adicionados ou excluídos das bases de cálculo dos tributos;
- Despesas Legais (conta 4.2.1.01.020)
a) MTR Transfer (R$ 27.640,54): diria respeito à reclassificações contábeis, o que a Recorrente entende já ter demonstrado sua correição;
b) Darf código 1256 e Multas fiscais (R$ 1.254.968,96 Refis IV- e de R$ 141.080,55 relativo a multas fiscais): para a Fiscalização e a decisão recorrida, o DARF teria sido utilizado para pagamento de multa de ofício e juros de mora no âmbito do Refis IV, o que implicaria ofensa ao art. 344 § 5º do RIR/99 dispõe que "não são dedutíveis como custo ou despesas operacionais as multas por infrações, salvo as de natureza compensatória e as impostas por Infrações de que não resultem falta ou insuficiência de pagamento de tributo (Lei n° 8.981, de 1995, art. 41, §5°)". Para a Recorrente, a decisão seria nula por não analisar os lançamentos realizados a crédito nesta mesma conta, em contrapartida para outra conta de despesa também glosada (4.2.1.01.119), o que implicaria dupla glosa. A comprovação dos lançamentos a crédito em tal conta teriam sido comprovadas mediante cópia dos lançamentos realizados (doc. 5 da impugnação). Relativamente à glosa de R$ 141.080,55, os motivos da DRJ para manutenção do lançamento foram os mesmos relativos ao outro DARF. Em primeiro lugar, explica a Recorrente que houve erro de contabilização, sendo debitada a conta referente a multas fiscais. Contudo, salienta a Recorrente que nesse caso ocorreu a mesma omissão no julgado relativa: creditou-se a conta de despesa e a contrapartida deu-se em outra conta de despesa também glosada pela Fiscalização, ou seja, novamente teria ocorrido a dupla glosa. A comprovação dos lançamentos a crédito em tal conta teriam sido comprovadas mediante cópia dos lançamentos realizados (doc. 5 da impugnação). Além disso, salienta que o DARF foi utilizado para pagar tributo com os benefícios previstos na Lei nº 11.941/2009 (Refis IV). Argumenta que nos termos do art. 1º, §§ 7º e 8º de que trata dessa lei, o contribuinte poderia pagar à vista seus débitos e liquidar multas e juros com prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa de CSLL. Esclarece que a multa e os juros são extintos com utilização de prejuízos fiscais, e não por meio de pagamento de DARF. O DARF em questão teria sido utilizado para quitação do principal, ou seja, do tributo em que multa e juros teriam sido quitados com utilização de prejuízo fiscal e base negativa de CSLL. De toda forma, salienta que o tributo pago seria dedutível, assim como a multa e os juros de mora correspondentes;
c) Despesas Bancárias: aduz a Recorrente que o gasto em contratos de fiança bancária são necessários para garantia de futuras execuções fiscais que serão alvo de embargos à execução, sendo essencial manter sua regularidade fiscal. Em razão disso se tratariam de despesas necessárias, usuais e normais em suas atividades não podendo ser mantida a glosa com base no fundamento utilizado pela DRJ no sentido de que tais despesas não devem ser classificadas como operacionais por não serem gastos com a operação e manutenção da capacidade de produção da empresa, mas gastos com a estrutura de capital;
d) Provisão: a decisão recorrida não teria enfrentado a questão, sendo necessária a declaração de sua nulidade. De toda forma, argumenta a Recorrente que os valores em questão foram adicionados na apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL. Esclarece que seria a conta 2.1.1.07.002 que determinaria quais valores deveriam ser adicionados ou excluídos das bases de cálculo dos tributos;
- Conta Contábil 4.2.1.01.075 Reuniões e Convenções
a) Vendor Name Vazio (R$ 506.716,41): segundo a Recorrente as despesas seriam decorrentes de ao pagamento de cursos e seminários realizados no exterior. A decisão recorrida informa que não foram apresentados documentos. Já a Recorrente alega que os documentos foram apresentados junto à impugnação (doc. 22);
b) Alocação aluguel Int e Patrícia de Paula C (R$ 453.886,32 e R$ 31.314,52): a glosa foi realizada e mantida pela DRJ por não terem sido apresentados os documentos comprobatórios. Segundo a Recorrente, os documentos comprobatórios das despesas referentes a Alocação Aluguel Int. (R$ 453.886,32 ) estariam à disposição da Fiscalização caso se entenda necessária a realização de diligência. No que atine a pagamentos realizados a Patrícia de Paula C (R$ 31.314,52), diriam respeito a a serviços de publicidade. Alega a Recorrente que anexou à impugnação cópia de parcela significativa das notas fiscais emitidas pelo prestador de serviço (doc. 7 da impugnação), mas não teriam sido analisadas pela decisão de primeira instância. Pede a declaração de nulidade da decisão de piso, ou, se for o caso, a sua análise por este colegiado;
c) Provisão (R$ 1.652,00): a Recorrente informa que os documentos estão à disposição da Fiscalização em caso de realização de diligência;
d) Wal-Mart (R$ 365.400,10): segundo a Recorrente as despesas seriam decorrentes de ao pagamento de cursos e seminários realizados no exterior. A decisão recorrida informa que não foram apresentados documentos. Já a Recorrente alega que os documentos foram apresentados junto à impugnação (doc. 22);
e) Darf código 0473 (R$ 33.675,33): a decisão recorrida afirma que por se tratar de recolhimento de imposto de renda retido na fonte, ou seja, recolhido na condição de responsável, tal valor não seria dedutível. Já a Recorrente afirma que o § 3º do art. 344 do RIR/99 lhe permite deduzir como despesa o imposto de renda retido na fonte;
- Conta Contábil 4.2.1.104.015 Auxílio Alimentação Relações Públicas
a) Brindes (R$ 59.299,11): a decisão recorrida entende que a confecção de porta retrato, móbiles e cartas se caracterizaria como brinde, e, portanto, tais despesas seriam indedutíveis em face do disposto no inciso VII do art. 13 da Lei nº 9.249/95. Já a Recorrente aduz que se tratariam de despesas de propaganda. A esse respeito, a decisão recorrida argumenta que ainda que fossem despesas de propaganda, elas não estariam destacadamente relacionadas em conta própria conforme impõe o § 3º do art. 366 do RIR/99;
b) Contribuição e Patrocínio (R$ 89.000,00): a Recorrente afirma que se trata de despesa com cursos/seminários pagos para seus funcionários. A DRJ entende que não resta caracterizada tal situação, tratando-se de contribuições não compulsórias, indedutíveis por força do disposto no inciso V do art. 13 da Lei nº 9.249/95;
c) Wal-Mart (R$ 117.794,41): a decisão recorrida conclui que não houve apresentação de documentos que comprovassem tais despesas. Já a Recorrente, por sua vez, informa que os documentos estão à disposição da Fiscalização em caso de realização de diligência;
- Despesas Operacionais - Provisões
- Contas 4.2.1.01.017 Despesas administrativas, 4.2.1.04.036 Provisão para contingências e 4.2.1.01.154 - Provisão para contingências trabalhistas;
- Conta 4.2.1.01.017 Despesas administrativas;
- Conta 4.2.1.04.036 Provisão para contingências;
- Conta 4.2.1.01.154 - Provisão para contingências trabalhista;
- Conta 4.2.1.01.051 Recuperação Despesa Prop. Cooperada;
- Conta 4.2.1.01.119 - Despesas não dedutíveis;
- Contas 4.2.1.01.012 - Despesas diversas e 4.2.1.01.066 -Projetos não aprovados
- para todas essas contas a DRJ concluiu que os demonstrativos elaborados pela Recorrente nada provam e que não foram apresentados no prazo de impugnação qualquer documentação que pudesse comprovar a dedutibilidade das despesas em questão, ou, ainda que parte dessas tivessem sido adicionadas na apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL. A Recorrente alega que em razão de limitações em seu sistema contábil, efetua o controle das contas de provisão pelo resultado líquido entre créditos (constituição da provisão) e débitos (reversão da provisão) realizados em determinado período, adicionando o valor líquido das operações à base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Além disso, vários outros valores glosados pela Fiscalização teriam sido creditados e revertidos para outras contas de despesa, ou ainda tinham como contrapartida outra conta de resultado, ou seja, seriam nulas para fim de apuração do lucro líquido. Especificamente em relação à conta 4.2.1.01.051 Recuperação Despesa Prop. Cooperada (R$ 90.809.148,98 de despesas contabilizadas e, de acordo com a Fiscalização, somente adicionados R$ 1.648.374,13), aduz a Recorrente que não se tratava de provisão, mas sim de despesas efetivas de propaganda. A esse respeito foram anexadas às fls. 16.360-16.380 petição e documentos complementares protocolados após o prazo fatal para apresentação de impugnação que comprovariam suas alegações, documentos esses não analisados pela DRJ, conforme já relatado. Em razão disso, requer a nulidade da decisão de primeira instância.
- a Recorrente pugna, subsidiriamente, pela necessidade de consideração da base negativa de CSLL de períodos anteriores, matéria objeto de recurso de ofício;
- questiona-se ainda a cobrança de juros moratórios sobre a multa de ofício.
É o relatório.
Nome do relator: FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, o retorno dos autos à primeira instância julgadora para que seja proferida decisão complementar com análise dos argumentos apresentados em impugnação e que não foram objeto de manifestação na decisão recorrida (Conta Contábil 4.2.1.01.008 - Despesas de Viagens - Vendor Name Vazio (R$ 1.868.560,45), bem como sobre o mérito da infração não abordada no acórdão guerreado (Conta Contábil - 4.2.1.01.020 - Despesas Legais - Provisões) nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. (assinado digitalmente) Leonardo de Andrade Couto - Presidente (assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Demetrius Nichele Macei, Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Gilberto Baptista, Leonardo de Andrade Couto, Leonardo Luís Pagano Gonçalves, Paulo Mateus Ciccone e Roberto Silva Júnior. Relatório WAL MART BRASIL LTDA recorre a este Conselho, com fulcro no art. 33 do Decreto nº 70.235, de 1972, objetivando a reforma do acórdão nº 14-55.990 da 3ª Turma da Delegacia de Julgamento em Ribeirão Preto que julgou parcialmente procedente a impugnação apresentada. E, haja vista que em tal acórdão exonerou-se crédito tributário superior a R$ 1.000.000,00, nos termos do artigo 2º da Portaria MF nº 3, de 03/01/2008, a turma julgadora recorreu de ofício a este Conselho, com fulcro no art. 34 do Decreto nº 70.235, de 1972. Por bem refletir o litígio até aquela fase, adoto o relatório da decisão recorrida, complementando-o ao final: Conforme Termo de Verificação Fiscal TVF (fls. 2707/2738), foi procedida ação fiscal na empresa acima identificada, relativamente ao ano-calendário de 2009. Conforme consta do referido termo fiscal, a contribuinte foi diversas vezes intimada com o intuito de se verificar a dedutibilidade dos custos e despesas operacionais, sendo orientada a apresentá-los em formato que possibilitasse conciliar os documentos com os lançamentos, fazendo referência ao número de Anexo e também ao número do documento. Da análise de tais documentos foram constatadas as seguintes irregularidades que caracterizam infração à legislação tributária: 1) CUSTOS, DESPESAS OPERACIONAIS E ENCARGOS - NÃO COMPROVADOS Despesas não comprovadas referentes à PLANILHA 2 ANEXO 1 - 4.2.1.01.001 DESPESAS COM SEGUROS MTR TRANSFER, PLANILHA 5 ANEXO 2 - 4.2.1.01.008 DESPESAS DE VIAGENS PLANILHA 6 - ANEXO 2 - 4.2.1.01.008 DESPESAS DE VIAGENS - WEEKLY CASH REPORT, PLANILHA 7 - ANEXO 2 - 4.2.1.01.008 DESPESAS DE VIAGENS - VENDOR NAME VAZIO, PLANILHA 9 - ANEXO 5 -4.2.1.01.020 DESPESAS LEGAIS - MTR TRANSFER, PLANILHA 14 - ANEXO 8 - 4.2.1.01.075 REUNIÕES E CONVENÇÕES - VENDOR NAME VAZIO, PLANILHA 15 - ANEXO 8 - 4.2.1.01.075 REUNIÕES E CONVENÇÕES - ALUGUEL INT, PLANILHA 16 - ANEXO 8 - 4.2.1.01.075 REUNIÕES E CONVENÇÕES - PATRICIA, PLANILHA 18 - ANEXO 8 - 4.2.1.01.075 REUNIÕES E CONVENÇÕES - WALMART E PLANILHA 22 - ANEXO 14 - 4.2.1.04.015 RELAÇÕES PÚBLICAS - WAL MART apuradas conforme relatório fiscal. 2) CUSTOS/DESPESAS OPERACIONAIS/ENCARGOS NÃO DEDUTÍVEIS. Despesas com contribuições e doações indedutíveis, por inobservância dos requisitos legais, referente à PLANILHA 21 - ANEXO 14 - 4.2.1.04.015 RELAÇÕES PÚBLICAS CONTRIBUIÇÃO, conforme relatório fiscal. Despesas de brindes- RELAÇÕES PÚBLICAS - BRINDES conforme relatório fiscal. Multa por infração fiscal, indedutível por não ser de natureza compensatória, ou por ter sido imposta por infração de que resultou falta ou insuficiência de pagamento de tributo, referente à PLANILHA 10 - ANEXO 5 - 4.2.1.01.020 DESPESAS LEGAIS - DARF, PLANILHA 11 - ANEXO 5 - 4.2.1.01.020 DESPESAS LEGAIS - MULTAS FISCAIS e PLANILHA 19 - ANEXO 8 - 4.2.1.01.075 REUNIÕES E CONVENÇÕES - DARF conforme relatório fiscal. Despesas não necessárias referentes à Planilha 1 Anexo 1 4.2.1.01.001 Despesas com Seguros PF, Planilha 3 ANEXO 1 4.2.1.01.001 Despesas com seguro PF, Planilha 4- Anexo 2 4.2.1.008 Despesas de viagens Líder Táxi Aéreo Oceanair, Planilha 12- Anexo 5 4.2.2.01.020 Despesas Legais Despesas Bancárias, apuradas conforme relatório fiscal. Provisão indedutível por não estar expressamente autorizada pelo Regulamento do Imposto de Renda, ou por ter sido feita em excesso ao permitido pela legislação, referente à PLANILHA 8 - ANEXO2 - 4.2.1.01.008 DESPESAS DE VIAGENS PROVISÃO, PLANILHA 13- ANEXO 5 - 4.2.1.01.020 DESPESAS LEGAIS PROVISÃO PLANILHA 17- ABEXO 8 - 4.2.1.01.075 REUNIÕES E CONVENÇÕE- PROVISÕES- ANEXO 4 - 4.2.1.01.017 DESPESAS ADMINISTRATIVAS, ANEXO 18 - 4.2.1.04.036 PROVISÃO PARA CONTINGÊCIAS, ANEXO 19 - 4.2.1.01.154 PROVISÃO PARA CONTINGÊNCIAS TRABALHISTAS, ANEXO 6 4.2.1.01.051, RECUPERAÇÃO DESPESAS PROP. COOPERADA, ANEXO 19 PROVISÃO PARA CONTINGÊNCIAS TRABALHISTAS, ANEXO 3 - 4.2.1.01.012 DESPESAS DIVERSAS E ANEXO 11 - 4.2.1.01.119 DESPESAS NÃO DEDUTÍVEIS, conforme TVF. 3) EXCLUSÕES INDEVIDAS NA DETERMINAÇÃO DA BASE DE CÁLCULO DO IRPJ E CSLL. Valor excluído indevidamente do Lucro Líquido do período, na determinação do Lucro Real e Base de Cálculo da CSLL, referente ao ANEXO 3 - 4.2.1.01.012 DESPESAS DIVERSAS e ANEXO 7 - 4.2.1.01.066 PROJETOS NÃO APROVADOS, conforme relatório fiscal. Diante dessas constatações, conforme os demonstrativos elaborados pelo Fisco, anexos aos autos, foram lavrados os autos de infração de fls. 2686/2705 que exigem crédito tributário no montante de R$ 20.562.357,55 conforme a seguir discriminado: TRIBUTO Valor do tributo Juros de Mora (Cálculo válido até dez/2013) Multa de ofício (75%) Total IRPJ 6.702.590,68 2.416.283,94 5.026.943,01 14.145.817,63 CSLL 3.040.293,73 1.096.025,89 2.280.220,30 6.416.539,92 Os lançamentos foram efetuados com fulcro nas disposições legais apontadas nos respectivos autos de infração. Ciente do lançamento em 04/12/2013, a contribuinte ingressou em 03/01/2014 com a impugnação de fls. 2748/2804. Após o prazo para impugnação, solicitou a juntada de documentos que fazem as fls. 2805/16301. Em suma, refuta os lançamentos sob as seguintes alegações: IMPUGNAÇÃO A Impugnante é pessoa jurídica de direito privado, tendo por principal atividade o comércio varejista de mercadorias em geral (hipermercado). No regular desenvolvimento de suas atividades, a Impugnante sempre zelou pela mais rigorosa apuração e pagamento de seus tributos. Nesse contexto é de se mencionar que, conforme se aduz da análise de sua DIPJ (já juntada a estes autos) a Impugnante apurou prejuízos no ano de 2009, não havendo, portanto, imposto de renda ou CSLL a recolher no período. A Fiscalização glosou certas despesas e exclusões consideradas pela Impugnante na base de cálculo do IRPJ e CSLL apurados naquele ano (como já mencionado, tais bases foram negativas), por diversos motivos a serem detalhados posteriormente. Em decorrência do exposto, o procedimento fiscal culminou na lavratura de auto de infração contra a Impugnante, exigindo valores supostamente devidos a título de IRPJ e CSLL, sendo as supostas infrações assim descritas pela Fiscalização no TVF. 0001 CUSTOS, DESPESAS OPERACIONAIS E ENCARGOS DESPESAS NÃO NECESSÁRIAS (. . .) 0002 CUSTOS, DESPESAS OPERACIONAIS E ENCARGOS DESPESAS NÃO COMPROVADAS (...) 0003 PROVISÕES. PROVISÕES NÃO DEDUTÍVEIS (...) 0004 MULTAS NÃO DEDUTÍVEIS. MULTAS DE NATUREZA TRIBUTÁRIA NÃO DEDUTÍVEIS (...) 0005 CONTRIBUIÇÕES E DOAÇÕES. INOBSERVÂNCIA DOS REQUISITOS LEGAIS (...) 0006 DESPESAS DE PROPAGANDA E/OU BRINDES. DESPESAS DE BRINDES (...) 0007EXCLUSÕES/COMPENSAÇÕES NÃO AUTORIZADAS NA APURAÇÃO DO LUCRO REAL. EXCLUSÕES INDEVIDAS (...) Em face das conclusões do Fisco, foram lavrados auto de infração para exigência do IRPJ e CSLL. Contudo, os autos de infração não poderão prevalecer, uma vez que essas conclusões padecem de equívocos insanáveis. Antes de abordar os equívocos, informa que os documentos anexos a esta impugnação serão apresentados em via eletrônica (CD ROM), tanto em razão da maior facilidade para análise, quanto em razão de seu enorme volume. Em que pese a documentação já juntada aos autos, desde já a impugnante protesta pela realização da diligência a fim de confirmar as informações que serão abaixo prestadas, tendo em vista a complexidade dos lançamentos contábeis ora descritos e o enorme volume de documentos que suportam tais lançamentos. A impugnante informa que seus funcionários estão à inteira disposição desse colegiado caso se entenda pela necessidade de realização de diligência a fim de confirmar as informações ora apresentadas. A seguir, apresentam-se os motivos pelos quais deve a presente autuação ser integralmente cancelada. Necessário se faz observar o contido no art. 299 do Decreto nº 3.000, de 1999, que traz o conceito de despesa operacional. Depreende-se do texto legal desse artigo que as despesas operacionais dedutíveis são aquelas necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora de receitas. O § 2º desse dispositivo reza que são despesas operacionais admitidas, as usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa. Tal análise, no entanto, deve ser feita com muita atenção, já que a conceituação dos termos usuais e normais definirá se a despesa será dedutível ou indedutível. Assim determinar a dedutibilidade de uma despesa requer análise da situação como um todo de maneira objetiva, levando em consideração o que o texto legal tem por propósito, quando autoriza a dedução. Não pode o auditor, com base em critérios subjetivos, determinar o que é usual e necessário à atividade dos contribuintes. Ao contrário, o próprio contribuinte é quem está familiarizado com suas atividades e, portanto, está apto a determinar quais despesas são efetivamente necessárias ao desenvolvimento de suas atividades. Assim, passa a analisar cada uma das glosas efetuadas pela autoridade fiscal, na mesma ordem adotada no TVF: I - Conta contábil 4.2.1.01.001 Despesas com seguros Seguro da aeronave: Cabe observar que a despesa se refere ao seguro da aeronave que a empresa possuía. Para o Fisco, a despesa seria indedutível por tratar-se de aeronave de uso quase estritamente particular, desvinculada do objetivo social principal da empresa, comércio varejista, agente de comércio não se encaixaria no conceito legal de despesas operacionais e, portanto, totalmente indedutível para fins de apuração do lucro real. A efetividade da despesa questionada pela Fiscalização, dada a existência de pagamentos relativos à contratação de seguro de aeronave foi plenamente reconhecida. Dessa forma o que se discute é apenas a possibilidade dessa despesa se enquadrar no conceito de despesa operacional. Não foi apresentada pelo Fisco, prova de que a aeronave é utilizada quase estritamente para fins particulares. Não pode o Fisco apenas presumir, ao contrário, qualquer presunção deveria ser feita em favor da contribuinte. Não é incomum que empresa do porte da impugnante com estabelecimentos em todo o país (e controladora no exterior) possuam aviões para atender as necessidades de suas operações. A Impugnante ressalta ainda que é extremamente parcimoniosa no uso de seus recursos, o que é necessário para que suas lojas consigam manter um preço competitivo. Nesse contexto, não seria admissível adquirir uma aeronave para fins não corporativos, eis que tal fato impactaria severamente em seus preços e, consequentemente, em sua competitividade. A fim de deixar claro o equivoco fiscal, a Impugnante informa que todas as viagens efetuadas em sua aeronave deveriam ser documentadas por meio de uma "Solicitação de Viagem", na qual deve haver informações sobre todos os passageiros do avião e declaração de que a viagem se presta a motivos profissionais. A fim de documentar tal fato, a Impugnante anexa a estes autos exemplo de Solicitação de Viagem (Doe. 5). Como se verifica, a conclusão fiscal não poderia estar mais longe da verdade. Na realidade, a utilização primordial dada pela Impugnante a sua aeronave está intrinsecamente vinculada ao seu objeto social: o transporte de executivos e empregados da empresa a eventos corporativos e convenções de entidades do setor varejista. A fim de comprovar o alegado, está buscando outros documentos comprobatórios tais como as demais solicitações de viagem que compõem a integralidade das despesas glosadas. Tais documentos ainda não foram juntados em razão de seu volume e antiguidade. MTR transfer: As despesas registradas sob essa rubrica foram glosadas sob a justificativa de que não estariam suportadas por documentos hábeis e idôneos. Ocorre que os lançamentos referem-se a reclassificações contábeis efetuadas em suas contas de resultado, que passam a ser explicadas: o valor correspondente à despesa em discussão foi registrado (juntamente a diversas outras despesas) em uma determinada conta de resultado da Impugnante, com contrapartida em uma conta patrimonial, com base em documentação hábil ("Lançamento 1"). Esta conta será doravante denominada "Conta Original". Posteriormente, a Impugnante verificou que parcela das referidas despesas (R$ 7.653,41) deveria ser alocada à outra conta de resultado: justamente a conta ora discutida, de n. 4.2.1.01.001 ("Conta Questionada") . Assim, a Impugnante reclassificou o lançamento acima descrito, por meio de um lançamento a crédito na Conta Original (eliminando o efeito da despesa questionada nessa conta). O efeito dessas reclassificações no resultado da impugnante e na base de cálculo do IRPJ e da CSLL é nulo. No entanto, a dedutibilidade da despesa questionada permanece, pois o lançamento 1 foi baseado em documentação hábil, que será juntada a estes autos com descrição minuciosa dos lançamentos contábeis e documentos comprobatórios da efetividade das despesas em questão. Mais uma vez informa que não foram juntados quando da impugnação em razão de sua antiguidade, volume de documentos e complexidade dos lançamentos. c) Despesa com seguros Pessoas Físicas De acordo com o TVF, as despesas relativas a seguros de pessoa física seria mera liberalidade da empresa e não se adequaria ao conceito de despesas necessárias, portanto seria indedutível. Ao contrário do que afirma a Fiscalização, tais despesas são absolutamente necessárias à atividade da Impugnante. Referem-se a reembolsos e indenizações concedidos a clientes em decorrência de furtos e danos ao patrimônio, sofridos por eles nas dependências da impugnante. O fato de investir na segurança de seus clientes é, infelizmente, porque não há como evitar eventuais ocorrências de danos e furtos nas suas dependências. Nessa situação, as despesas correspondentes devem ser consideradas necessárias e usuais para sua atividade, pois a responsabilidade da impugnante perante seus clientes não pode ser afastada, tampouco deve ser considerada mera liberalidade. O Superior Tribunal de Justiça editou súmula sobre o tema, na qual ficou claramente consignada a responsabilidade da empresa em situações similares: Súmula STJ n. 130 A Empresa responde, perante o cliente, pela reparação de dano ou furto de veículo ocorridos em seu estacionamento. Informa que levantará os comprovantes de pagamento relativos a tais despesas de forma a demonstrar cabalmente a efetividade de tais despesas. II - Conta contábil 4.2.1.01.008- Despesas de viagens a) -Fretamento Oceanair Táxi Aéreo Tais despesas no valor de R$ 105.062,50 foram glosadas pela Fiscalização com base na justificativa de que o fretamento de aeronave por empresa que tem por objeto social principal comércio varejista, agentes do comércio não se encaixa no conceito legal de despesas operacionais, e portanto seriam indedutíveis para fins de apuração do IRPJ e CSLL. Note-se que a efetividade da despesa não foi contestada pelo Fisco em momento algum, mas apenas a sua dedutibilidade. Para a fiscalização, o deslocamento de empregados e diretores estaria desvinculado do objeto social da empresa. A impugnante é empresa multinacional com estabelecimentos em todo o país e no exterior. É natural que numa empresa desse porte, ocasionalmente, necessite enviar empregados de uma unidade a outra unidade para visitas, reuniões de gerentes com o propósito de definir determinadas políticas e outras atividades, o que demonstra o claro enquadramento das despesas no conceito de despesa operacional. Nota-se que a fiscalização incorreu em equívoco. Embora as despesas se refiram a pagamento efetuado às empresas Oceanair Táxi Aéreo e Líder Táxi Aéreo, elas não se referem apenas a fretamento de aeronaves. Os pagamentos efetuados à Líder, referem-se a despesas de fretamento de aeronaves, o que é plenamente dedutível. Já, os pagamentos efetuados a Oceanair referem-se a serviços por manutenção executados na aeronave então possuída pela impugnante conforme demonstram comprovantes já apresentados à Fiscalização (mencionada no tópico seguro de aeronave). Demonstrada a vinculação da aeronave ao objeto social da empresa, forçosa se torna a conclusão de que as despesas relativas a sua manutenção devam ser consideradas dedutíveis na determinação da base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Informa que está levantando documentos que comprovem a natureza das viagens (passagens e motivos) e irá juntá-los a estes autos com a maior brevidade possível. b) MTR Transfer, Weekly Cash Report e Vendor Name Vazio b1) MTR transfer Referidas despesas, de R$ 255.644,77, se referem à exata situação descrita no item b (reclassificação contábil sem efeito no resultado). A fim de comprovar também a efetividade dessas despesas, juntará a estes autos descrição minuciosa dos lançamentos contábeis relativos às despesas ora discutidas, bem como cópias dos documentos comprobatórios de sua efetividade. b2) Weekly Cash Report Essas despesas, no montante de R$ 3.076.979,36, se referem a gastos efetuados com recursos do caixa de cada uma das lojas da Impugnante. Mais especificamente, a reembolsos e pagamentos referentes a despesas de viagens profissionais realizadas por empregados dos estabelecimentos da Impugnante (visitas a outras lojas, deslocamentos para reuniões dentre outras situações). Como se verifica, portanto, tais despesas estão claramente relacionadas às atividades da Impugnante, nos termos já expostos em tópicos anteriores e, portanto, devem ser consideradas dedutíveis. A fim de demonstrar o exposto, a Impugnante irá levantar e juntar a estes autos informações e documentos aptos a comprovar a efetividade das despesas em questão, de forma a restar absolutamente comprovada a regularidade da conduta por ela adotada. b3)Vendor Name Vazio Referida rubrica se refere a despesas no valor de R$ 3.868.560,43, relativas à contabilização de despesas pré-operacionais incorridas por lojas em construção. Como já mencionado, a Fiscalização glosou tais despesas por entender que não estariam amparadas por documentação hábil e idônea. Ocorre, pois, que tais despesas foram integralmente revertidas por lançamentos a crédito na mesma conta questionada pela Fiscalização. Em outras palavras, tais despesas não poderiam ser glosadas em razão de um único fato: elas não produziram efeito algum no resultado da recorrente. Dessa forma, a grosso modo, a glosa dos lançamentos contábeis ora discutidos implica a tributação em duplicidade dos valores questionados. Considerações se fazem necessárias: Em consonância com a legislação fiscal e contábil aplicável até a edição da medida provisória n. 449/2008, despesas pré-operacionais podiam ser contabilizadas no ativo diferido da empresa, podendo ser amortizadas em prazo não inferior a cinco anos e não superior a dez anos, a partir do início da operação normal ou do exercício em que passem a ser usufruídos os benefícios decorrentes. À época dos fatos em discussão, era exatamente esse o tratamento dado pela Impugnante às despesas ora questionadas, que, conforme informado acima, se referem a despesas pré-operacionais: registro no ativo diferido e amortização em 10 anos, iniciada a partir da inauguração da loja. Ocorre, porém, que, por questões sistêmicas, referidas despesas eram inicialmente registradas em conta de resultado como despesa para então serem reclassificadas para o ativo diferido. Explica-se. A conta contábil ora questionada (conta 4.2.1.01.008) registra todas as despesas de viagens registradas pela Impugnante (considerando todos os seus estabelecimentos). Despesas de viagens atribuídas a unidades em construção (as despesas pré-operacionais de que trata a glosa ora discutida) eram, por uma questão sistêmica, inicialmente registradas nessa mesma conta contábil. Como o estabelecimento que incorreu na despesa ainda não havia sido oficialmente inaugurado, à época dos fatos, o lançamento foi feito sob a rubrica Vendor Name Vazio. Posteriormente, referidos lançamentos foram reclassificados para uma conta de ativo diferido, mas seus sistemas contábeis não haviam sido adaptados à mudança no ano de 2009 (encontrão que foi resolvido atualmente). c) Provisão De acordo com a fiscalização a despesa em questão, no valor de R$ 18.621,59 possui o histórico de provisão, sendo portanto não dedutível da base de cálculo do IRPJ e CSLL. Todavia, ao contrário do que afirma a fiscalização, essa despesa foi adicionada à base cálculo dos tributos. Está preparando planilha para demonstrar que as despesas foram corretamente adicionadas ao lucro líquido que será juntada aos autos tão logo esteja finalizada. III - Despesas Legais (conta 4.2.1.01.020) a) MTR Transfer Essas despesas no montante de R$ 27.640,64 também tiveram reclassificações contábeis sem efeito no resultado tributável. A fim de comprovar também a efetividade das despesas levantará e juntará descrição minuciosa dos lançamentos relativos as despesas ora discutidas, bem como cópias dos documentos comprobatórios de sua efetividade. b) Darf código 1256 e Multas fiscais. A glosa refere-se a pagamento de despesa relativa a débitos fiscais no âmbito do REFIS IV (código 1256), no valor de R$ 1.254.968,96, e R$ 141.080,55 relativo a multas fiscais. De acordo com a fiscalização, a glosa se justifica com base no art. 344, § 5º do RIR de 1999. que determina não serem dedutíveis como custo ou despesas operacionais as multas por infrações fiscais, salvo as de natureza compensatória e as impostas por infrações que não resultem fala ou insuficiência de tributo. No que diz respeito ao Darf no valor de R$ 1.254.968,96 , de fato transitou pela conta 4.2.1.01.020, mas somente em razão de um equívoco da impugnante que registrou tal valor equivocadamente nesta conta. A despesa foi reclassificada não produzindo efeito na conta de resultado. Ao se analisar o razão contábil verifica-se que após a reclassificação a despesa foi efetivamente contabilizada na conta 4.2.1.01.119 que também foi objeto de glosa fiscal. Entende a despesa em questão é integralmente dedutível, pois não se refere a multas fiscais, mas sim a pagamento de tributo, conforme darf anexo, motivo pelo qual é inteiramente dedutível A multa pode ser paga à vista e liquidar multas e juros com prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa da CSLL. O Darf glosado, ao contrário do que argumenta a Fiscalização, não foi utilizado para pagamento das multas e juros, mas tão somente para pagamento de tributo. Se tivessem sido analisados os Darfs, não seriam glosadas as despesas, já que é clara a disposição do art. 344 do RIR de 1999, no sentido de serem dedutíveis na apuração do Lucro Real, os tributos e as contribuições. O art. 374 do RIR de 1999, assegura a dedução como custo ou despesa financeira, do valor relativo aos juros de mora pagos ou incorridos. O Parecer CST nº 174 de 2004, da mesma forma possibilita essa dedução, concluindo que os juros de mora, por se tratar de compensação pelo atraso na liquidação de débitos, caracterizam-se como despesa financeira e, como tal, são dedutíveis. As razões expostas, relativamente ao Darf de R$ 141.080,55 são plenamente aplicáveis ao Darf de R$ 1.254.968, 96. Com relação às multas, o regulamento do IR permite dedução das de natureza compensatória e as impostas por infrações que não resultem em falta ou insuficiência de pagamento de tributo. Assim, a análise da fiscalização esta incorreta, devendo ser cancelado o item do AI. c)Despesas Bancárias Foram glosadas despesas bancárias de R$ 828.463,40, decorrentes de contratos de prestação de fiança celebrados entre a impugnante e instituições financeiras para garantia de débitos objeto de ações judiciais sob o argumento de que não poderiam ser consideras operacionais, pois não fariam parte da apuração do lucro da empresa, sendo gastos com a estrutura do capital. Mas, a conclusão fiscal é infundada pois enquadram-se perfeitamente no conceito de despesas operacionais. Como é cediço, a maioria das empresas necessitam celebrar esses contratos de prestação de fiança para poder apresentar defesa nas ações judiciais propostas contra si, como as execuções fiscais, em que é necessário e obrigatório garantir o juízo para apresentação de embargos à execução. São portanto absolutamente necessárias usuais e normais para a empresa executar suas atividades. Portanto deve ser cancelado esse item do auto de infração. d) Provisão Aplicam-se a este item as mesmas argumentações apresentadas no item II c. Esclarece que a é a conta 2.1.1.07.002 que determina quais valores deverão ser adicionados ou excluídos da base de cálculo dos tributos. Reitera que o saldo da citada conta de passivo foi integralmente adicionada à base de cálculo do IRPJ e da CSLL. IV Conta contábil 4.2.1.01.075 Reuniões e Convenções Vendor Name Vazio As despesas registradas nessa conta no montante de R$ 506.716,41, foram glosadas pela fiscalização por entender que os lançamentos não estavam embasados em documentação hábil e idônea. Referem-se tais despesas a pagamento de cursos e seminários realizados no exterior. Apresentam-se documentos relativos a pagamento de cursos (solicitação de pagamento, contrato de cambio e faturas dos prestadores) (doc.22). Informa que está levantando maiores informações sobre os cursos em questão e eventuais documentos comprobatórios que serão devidamente juntados aos autos tão logo sejam obtidos, para mostrar a improcedência dessa glosa questionada. b) Alocação aluguel Int e Patrícia de Paula C As despesas em questão, nos montantes de R$ 453.836,32 e R$ 31.314,52, foram glosadas pela fiscalização por entender que correspondem a lançamentos não embasados em documentação hábil e idônea. b1) Alocação Aluguel Int. A impugnante informa que está levantando maiores informações e documentação comprobatória dessas despesas que serão juntadas a estes autos, ocasião em que será demonstrada a total improcedência da glosa em questão. b2)Patrícia de Paula C Referem-se a despesas de serviços de publicidade (mão de obra e confecção de painéis e outras mídias para comunicação) prestados pela empresa Devisu- Criação e Comunicação Visual (Patrícia de Paula Com. Visual EPP) no âmbito de eventos realizados pela impugnante. c) Provisão Em que pese a nomenclatura provisão, as despesas glosadas registradas nessa conta no montante de R$ 1.652,00 correspondem a efetivas despesas incorridas pela Impugnante, que esta levantando documentos aptos a comprovar tal fato. d) Wal Mart Foram glosadas as despesas contabilizadas sob essa rubrica, no montante de R$ 365.400,10, por entender que referidos lançamentos não estavam embasados em documentação hábil e idônea. Referem-se a pagamento de cursos e seminários realizados no exterior, (vide mais uma vez, o doc. 22 para documentação exemplificativa). Informa que serão juntados a estes autos tão logo sejam obtidos, ocasião em que será demonstrada a total improcedência da glosa em questão. e) Darf código 0473 Mais uma vez, a fiscalização glosou despesas alegando tratarem-se de multas indedutíveis, quando na verdade trata-se apenas de pagamento de imposto. Darf de R$ 33.675,33 refere-se ao pagamento de Imposto de Renda Retido na Fonte no mês de setembro de 2009, conforme atesta o Darf e DCTF ora anexados (doc.20), que são dedutíveis de acordo com o art. 344 do RIR de 1996. Portanto requer o cancelamento desse item. V- Conta contábil 4.2.1.04.015 Auxilio Alimentação Relações Públicas a) Brindes Entendeu o fisco que as despesas incorridas pela recorrente com material promocional não seriam dedutíveis do Lucro tributável para apuração do IR e da CSLL. Todavia, essas despesas não se caracterizam como brindes, mas sim, propaganda, sendo absolutamente necessárias ao desenvolvimento da atividade social da impugnante, portanto, possibilitando a sua dedutibilidade, nos termos do art. 366 do RIR de 1999. É bastante amplo o instrumento da propaganda, na medida em que são inúmeras as formas pelas quais a marca da empresa ou um produto específico poderão ser divulgados com o fim de atrair consumidores para os seus produtos. São gastos constituídos não por mera liberalidade, mas dispêndios que tem a clara expectativa de retorno comercial. O objeto social da impugnante envolve importação, exportação, industrialização e comercialização, no atacado e no varejo de produtos em geral. Assim, tais gastos com materiais promocionais cedidos aos seus clientes têm o intuito de incrementar suas vendas. Por meio de propaganda divulga a seus potenciais clientes a boa qualidade dos produtos que coloca no mercado. Trata-se de típica despesa necessária à manutenção da fonte produtora do rendimento, enquadrando-se na condição prevista no art. 366 do RIR de 1999. As despesas enquadram-se perfeitamente na condição prevista no art. 366 do RIR de 1999 que permite a dedução. Além disso, o inciso VII do art. 13 da Lei nº 9.249, de 1995 foi introduzido no ordenamento jurídico com o intuito de afastar a dedutibilidade de gastos incorridos pelos contribuintes em que absolutamente nada coadunam com suas atividades, ou seja, gastos não vinculados à operacionalidade de seu objeto social. É o caso de despesas com brindes, que não devem ser confundidas com as despesas de propaganda. Há de se fazer distinção entre brinde e material promocional para fins de dedução da base de cálculo da CSLL. Se mantida a adição, a tributação deixará de incidir sobre o lucro da impugnante para recair sobre seu patrimônio, o que é absolutamente inconstitucional. Qualquer adição indevida à base de cálculo do IRPJ e CSLL, contraria o disposto nos arts. 153, III e 195, I da Constituição Federal, pois não se estaria tributando Renda mas representará ilegítima instituição de empréstimo compulsório, em desacordo com o disposto no art. 148 da CF. b) Contribuição e Patrocínio Foram glosadas duas despesas decorrentes de pagamentos para as empresas Difusão Editora e Valor Econômico S/A, no valor total de R$ 89.000,00. A fiscalização limitou-se a expor que o artigo 13 da Lei nº 9.249, de 1996 excluiu a maioria das contribuições e doações na dedução do lucro real. Em momento algum enquadrou as despesas incorridas pela impugnante em qualquer das condutas expostas no referido art. 13. Essas enquadram-se no art. 368 do RIR de 1999, que dispõe que poderão ser deduzidos os gastos incorridos, com a formação profissional de empregados. Referem-se as despesas a cursos/seminários pagos pela impugnante aos seus funcionários, inclusive do III Seminário Créditos de Carbono e Mudanças Climáticas. Essas despesas são necessárias e usuais para seu negócio de maneira que são revertidas em seu próprio beneficio. c) Wal Mart As despesas contabilizadas sob essa rubrica, no montante de R$ 117.794,41, foram glosadas pela Fiscalização por ter entendido que tais despesas não estavam embasadas em documentação hábil e idônea. Informa a impugnante que tão logo sejam obtidos, os documentos necessários para comprovar tais despesas, serão devidamente juntados aos autos, ocasião em que será demonstrada a total improcedência da glosa em questão. VI. Despesas operacionais Provisões a) considerações iniciais De acordo com a Fiscalização, durante o ano de 2009 foram contabilizadas diversas provisões que teriam reduzido o resultado tributável, sem ter efetuado as adições correspondentes para determinação da base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Tal conclusão é improcedente, eis que se baseia em uma simples análise que não levou em conta peculiaridades da contabilidade da empresa. A fim de demonstrar tal fato, faz-se necessário tecer algumas considerações iniciais sobre a forma de contabilização de provisões adotada pela impugnante. A impugnante adota uma metodologia distinta: Ela efetua as adições e exclusões de valores provisionados com base nas contas de passivo (nas quais as provisões foram originalmente constituídas), em decorrência de certas limitações de seus sistemas contábeis. Tais adições e exclusões são efetuadas com base nas alterações no saldo das contas de passivo. Ou seja, se em um mesmo período há constituição e reversão de provisão a impugnante exclui ou adiciona o valor líquido das operações à base de calculo do IRPJ e da CSLL. Isso ocorre porque, muitas vezes, as contas de resultado da Impugnante registram diversos valores objeto de reclassificação contábil, que não geram efeitos no resultado da empresa e, portanto, não devem ser adicionados. Mais ainda, por vezes, tais contas de resultado registram também despesas efetivas (em que pese o fato de tais contas adotarem a nomenclatura "provisão"). Frise-se que a metodologia adotada pela Impugnante (adição/exclusão das despesas/receitas de provisão pelo saldo da conta de passivo) não diminui a base tributável apurada. Isto porque a contas contém reclassificações de contas contábeis (despesas cujo efeito foi anulado por um crédito no mesmo valor) e despesas efetivas, não relacionadas à constituição de provisão. Como se demonstrará, o montante que efetivamente corresponde às provisões constituídas no ano de 2009 foram integralmente adicionadas ao resultado, com base nas alterações dos saldos das contas de passivo. b) Contas 4.2.1.01.017 Despesas administrativas, 4.2.1.04.036 Provisão para contingências e 4.2.1.01.154 - Provisão para contingências trabalhistas. O número Batch é de controle dos lançamentos contábeis efetuados pela impugnante sem seu sistema de contabilidade. Os lançamentos indicados na cor amarela indicam os valores que efetivamente equivalem a provisões e que foram devidamente adicionados à base de calculo do IRPJ e da CSLL. Houve reclassificações contábeis. Como exemplo reproduze-se abaixo o quadro originalmente apresentado no doc. 1023, no qual se pode verificar que o valor de R$ 1.264.474,21, objeto de glosa fiscal, é, em parte, contrapartida de lançamento de R$ 612.490.41, que corresponde a uma efetiva provisão. Conta 4.2.1.01.017 Despesas administrativas a) despesas de juros - despesas efetivas, passíveis de exclusão das bases de cálculo do IRPJ e CSLL; e b) Reclassificações contábeis para as contas 4.2.1.04.036 e 4.2.1.01.155. Note-se que os valores em questão não produziram efeito nenhum no resultado da Impugnante, eis que as despesas em questão foram anuladas por meio de créditos nas contas 4.2.1.04.036 e 4.2.1.01-155. Como se verifica, parcela dos valores glosados pela Fiscalização nesta conta foi reclassificada para as contas 4.2.1.04.036 e 4.2.1.01.155 sendo que a primeira foi novamente glosada (como se verá seguir) e a segunda foi integralmente aceita pela Fiscalização. Conta 4.2.1.04.036 Provisão para contingências Da análise do quadro resumo contido no Doc. 10 e abaixo transcrito, verifica-se que, o valor de R$ 1.956.905,21, objeto de glosa fiscal, é na realidade, contrapartida de lançamentos a crédito efetuados nas contas de passivo 2.2.3.02.007 e 2.2.3.02.006, que foram devidamente adicionadas às bases do IRPJ e da CSLL. Conta Conta SPED Account Name Montante 441 2.2.3.02.007 PROVISÃO P CONTINGÊNCIAS T -2.910.109,38 438 2.2.3.02.006 PROVISÃO PARA CONTINGÊNCIAS -332.712,94 937 4.2.1.04.036 PROVISÃO PARA CONTINGÊNCIAS 1.956.905,21 1083 4.2.1.02.011 DESPESAS COM JUROS 242.455,41 947 4.2.1.01.155 PROVISÃO PARA CONTINGÊNCIAS CIVIL 145.395,57 = 970 4.2.1.04.018 ACOES TRABALHISTAS 26.890,47 1051 4.2.1.04.036 PROVISÃO PARA CONTINGÊNCIAS 201.917,72 929 4.2.1.01.017 DESPESAS ADMINISTRATIVAS 669.257,94 Note-se que os lançamentos efetuados nas contas 2.2.3.02.007 e 2.2.3.02.006 que foram adicionadas à base de cálculo do IRPJ e da CSLL têm também contrapartida em outras contas de provisão, bem como de despesas efetivas. Destaque-se que a conta 4.2.1.04.036 apresenta registro de reversão de provisão no montante de R$ 136.979,06, sobre o qual a Impugnante deixa de comentar, eis que a exclusão da receita correspondente da base de cálculo dos tributos foi devidamente reconhecida pelo Fisco (conforme quadro na página 27 do TVF). Conta 4.2.1.01.154 - Provisão para contingências trabalhista Da análise do quadro resumo abaixo transcrito, verifica-se que o valor de R$ 1.584.122,94 objeto de glosa fiscal, tem por contrapartida lançamentos a crédito efetuados na conta de passivo 2.2.3.02.007, que foram devidamente adicionados às bases de cálculo do IRPJ e da CSLL. Os valores remanescentes representam despesas efetivas de diversas naturezas (lançamentos individualizados no doc.9) reclassificados de acordo. Note-se que, mais uma vez a reclassificação se deu por meio de um crédito efetuado em outras contas de resultados que eliminou o efeito original da despesa na conta questionada pela fiscalização. Como visto, parcela significativa dos valores glosados são contrapartidas de despesas efetivas (em que pese o fato de tais despesas terem sido levadas a resultado em conta com a denominação provisão), ou valores reclassificados, portanto revertidos sem efeitos legais no resultado da impugnante, fato que foi ignorado pelo Fisco. O montante remanescente que efetivamente corresponde a provisões e tem por contrapartida registros feitos na conta 2.2.3.02.007 foi devidamente adicionado à base de cálculo do IRPJ e da CSLL, com base nas alterações dos saldos das contas. A própria Fiscalização reconheceu que a Impugnante adicionou o montante de R$ 4.262.095,07. Referido montante equivale ao saldo da conta 2.2.3.02.007, na qual a Impugnante controla as provisões questionadas pela Fiscalização. Ou seja, a Impugnante adicionou o saldo da conta contábil - o qual considera tanto as despesas de constituição de provisão quanto as receitas de reversão - à base dos tributos em questão. Para demonstrar tal fato, a Impugnante apresenta o razão da conta 2.2.3.02.007 - cujo saldo foi devidamente acrescido à base de cálculo do IRPJ e da CSLL (doc 12), bem como quadros contendo os lançamentos efetuados na referida conta (grifados em amarelo) (doe 13) e suas contrapartidas. Novamente, é possível fazer o cotejo entre os documentos com base nos Batch indicados. Resta, portanto, demonstrado o equívoco fiscal que glosou despesas efetivas e reclassificações contábeis, como se provisão fossem e a regularidade dos procedimentos adotados pela impugnante, que considerou tanto as despesas relativas à constituição de provisões quanto às receitas decorrentes da reversão de provisões na base de cálculo do IRPJ e da CSLL por ela devidos. Conta 4.2.1.01.051 Recuperação Despesa Prop. Cooperada Ocorre que as despesas glosadas pela fiscalização, são na realidade despesas efetivas de propaganda e publicidade, totalmente dedutíveis nos termos da legislação vigente (art. 366 do RIR de 1999) e não simples provisões, as quais são dedutíveis, respeitado o regime de competência, ou seja, a despesa se reporta a um determinado mês, deve necessariamente ser contabilizada nesse mês. É sabido que a impugnante possui diversos anunciantes e tem significativas despesas de propaganda e publicidade. A empresa registra a despesa em sua contabilidade, com base na nota fiscal do fornecedor de serviço ou material. Ocorre que durante o ano de 2009, em razão de questões sistêmicas e de um complexo fluxo de aprovação de pagamentos, as supracitadas notas fiscais somente poderiam ser inseridas nos sistemas contábeis, após o decurso temporal, muitas vezes superior a um mês. Nesse contexto, uma nota emitida em janeiro, somente poderia ser registrada em fevereiro, sem violação ao princípio de competência. Problema sanado atualmente. Assim, a impugnante passou a elaborar mensalmente uma planilha na qual registrava as notas fiscais e documentos de cobrança que deveriam ser registrados por competência em um dado mês (planilha NF). Com base no somatório dos valores registrados nessas planilhas, passa a registrar uma provisão na conta de passivo nº 2.1.1.07.007. Do ponto de vista fiscal, essa provisão é dedutível, reconhecida por competência no período pertinente. Tais montantes poderiam ser reconhecidos como contas a pagar, mas não o são, unicamente por questões sistêmicas. No mês imediatamente posterior à constituição da referida provisão as notas fiscais são registradas no sistema gerando uma nova despesa. Porém o resultado dessa despesa é nulo, tendo em vista que a provisão constituída é revertida em outra conta de resultado, tendo por contrapartida lançamentos na conta de passivo n. 2.1.1.07.007. Uma última explicação deve ser feita: Em dezembro de 2009, a Impugnante reverteu a provisão constituida em novembro do mesmo ano (contabilizando, portanto, receitas decorrentes) e constituiu provisão relativa a janeiro de 2010 (contabilizando as despesas decorrentes). Considerando que a provisão constituída pela Impugnante foi superior à reversão no montante de R$ 1.648.374,13 e que o ano se encerrava, conservadoramente, adicionou o valor em questão à base de cálculo do IRPJ e CSLL apurados em 2009. Feitas essas considerações, a impugnante passa a demonstrar o quanto alegado. Para tanto, junta a estes autos cópia das Planilhas NF mensais, que listam as notas fiscais e documentos de cobrança que embasaram a contabilização da "provisão" (que, como já mencionado, corresponde a uma despesa efetiva de publicidade, reconhecida por competência) (doe. 14). Adicionalmente, a impugnante também traz a estes autos quadros contendo os lançamentos questionados pela fiscalização e suas respectivas contrapartidas, separados por Batch (doc. 15), acompanhado de quadro resumo, a exemplo do que foi feito no item anterior. Como se verifica da análise de cada quadro, os lançamentos glosados pela Fiscalização (marcados em verde) são valores debitados na conta de resultado n° 4.2.1.01.051, que têm, como contrapartida, valores creditados na conta de passivo n° 2.1.1.07.007 (estes lançamentos representam o valor efetivo da provisão e estão indicados em amarelo escuro), bem como reclassificações gerenciais creditadas em outras contas de resultado. É de se observar que referidas reclassificações acabam por anular parte da despesa registrada na conta 4.2.1.01.051. Ora, se a Impugnante contabiliza uma despesa de R$ 100,00, tendo por contrapartida uma receita de R$ 100,00, o efeito deste lançamento é nulo. Na prática, é o que ocorre ao somar tais reclassificações. Para demonstrar o alegado foi inserido na impugnação, o quadro demonstrativo à fl. 2795, relativo ao mês de janeiro de 2009. Portanto, desconsiderando-se o montante de R$ 422.989,78, resta uma despesa de R$ 7.019.406,04 que tem como contrapartida o lançamento efetuado na conta 2.1.1.07.007 devidamente levada a resultado. Situação similar se repete em todos os meses posteriores. Mais ainda, como se observa da análise do doc. 15, os lançamentos relativos a provisões registrados na conta 2.1.1.07.007 são efetuados mensalmente, sendo que, salvo pequenas variações observadas em alguns poucos meses, decorrentes de ajustes manuais, eles correspondem ao exato valor registrado mensalmente nas Planilhas NF. Demonstrado, portanto, que as despesas de constituição de "provisão" estão registradas na conta 2.1.1.07.007 e não na conta 4.2.1.01.051, como afirmado pela Fiscalização, sendo tais despesas, na verdade, contas a pagar que competem ao mês em que são reconhecidas contabilmente. Cabe agora demonstrar que cada valor debitado do resultado e registrado na conta 2.1.1.07.007 é revertido no mês seguinte, tendo por contrapartida um débito na referida conta de passivo e créditos em diversas contas de resultado. A partir da página 5 do Doe. 15, a Impugnante listou os lançamentos efetuados na conta 2.1.1.07.007, incluindo aqueles relativos às reversões de "provisão" (indicados em amarelo claro), bem como suas contrapartidas. Note-se que a reversão efetuada em janeiro/2009 se refere à provisão constituída em dezembro/2008. A fim de demonstrar que a reversão equivale exatamente ao valor constituído no mês anterior, a Impugnante reproduziu quadro relativo aos lançamentos de 28.2.2009 (item 279 da impugnação). A conta de passivo 2.1.1.07.007 é debitada no exato montante da provisão constituída no mês anterior, 7.019.406,04, tendo por contrapartida créditos em diversas contas de resultado (receitas de reversão). O mesmo procedimento se repete nos meses posteriores. Ainda que o fisco entenda que os montantes registrados na conta 2.1.1.07.007 devam ser adicionados ao seu lucro tributável, não se pode deixar de reconhecer que as receitas de reversão também devem ser abatidas contra as receitas decorretes das reversões retromencionadas, que devem ser excluídas do mesmo lucro tributável. Portanto, demonstrada está a necessidade do cancelamento dessas glosas. Conta 4.2.1.01.119 - Despesas não dedutíveis A conta em questão registra despesas no montante total de RS 3.332.071,86, sendo que a Fiscalização reconheceu que a Impugnante efetuou a adição de RS 1.303.882,72 ao seu lucro tributável. Nesse sentido, houve por bem o agente Fiscal adicionar a diferença apurada (RS 2.028.189,14) ao lucro tributável da Impugnante. Todavia, deixou de considerar que a referida conta de resultado registra despesas efetivas, totalmente passíveis de dedução. Como já mencionado anteriormente, o Fisco, ao analisar a conta 4.2.1.01.020, glosou despesas relativas a um Darf no montante e R$ 1.254.968,96 (código de recolhimento 1256). Ocorre que, como já demonstrado, referida despesa somente transitou por aquela conta, sendo posteriormente reclassificada para a conta 4.2.1.01.119 ora analisada. As mesmas razões justificam a dedutibilidade do valor de R$ 141.080,55. No que diz respeito aos valores remanescentes, a impugnante está buscando documentos aptos a comprovar a efetividade e dedutibilidade das despesas, que serão juntados tão logo sejam localizados. Contas 4.2.1.01.012 - Despesas diversas e 4.2.1.01.066 -Projetos não aprovados A Fiscalização houve por bem adicionar os saldos das contas contábeis -1.2.3.01.012 e 4.2.1.01-066 nos montantes, respectivamente, de RS 12.972.699,89 e RS 5.158.648,64 (total de R$ 18.131.348,53) ao lucro tributável da Impugnante, por entenderem que referidas contas eram, na realidade, meras provisões e, portanto, indedutíveis. Todavia, novamente o Fisco incorreu em equívoco, pois as contas 4.2.1.01.012 e 4.2.1.01.066 registram não apenas provisões, mas despesas efetivas. Esclarece, que a parcela dos registros das contas que efetivamente corresponde a despesas de constituição de provisões foi devidamente acrescida à base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Ainda, que a exemplo do que ocorre com outras contas abordadas em tópicos anteriores, a empresa controla as adições e exclusões relativas à constituição de provisões com base na variação do saldo da conta de passivo que registra a provisão. No caso em tela, essas contas abordadas em tópicos anteriores a impugnante controla as adições e exclusões relativas à constituição de provisões, com base na variação do saldo da conta de passivo que registra a provisão. A fim de demonstrar o alegado produziu quadros explicativos às fls. 2799 e 2800 da impugnação. Como se verifica, do montante de R$ 18.131.348,53 adicionados ao lucro tributável da Impugnante, o montante de R$ 11.515.701,35 já havia sido adicionado pela Impugnante, por meio da conta 2.1.1.07.002. A análise dos razões das supracitadas contas (doe. 18), por meio da consulta aos lançamentos efetuados com os Batch indicados nos referidos quadros, demonstrará cabalmente a veracidade de todo o alegado. No que diz respeito aos valores remanescentes, esclarece a Impugnante que correspondem a despesas efetivas. A Impugnante está buscando maiores informações, bem como comprovação dos pagamentos. Tais documentos serão juntados a estes autos tão logo sejam localizados. Subsidiariamente Necessidade de consideração da base negativa de CSLL de períodos anteriores O auto de infração também merece ser cancelado em razão de erro no critério quantitativo de apuração do valor devido. Isto porque ao apurar a contribuição, o Fisco não considerou a Base de Cálculo Negativa de períodos anteriores, da qual poderia compensar até 30% do lucro líquido ajustado, nos termos do art. 58 da Lei nº 8.981, de 1995. A jurisprudência do CARF é clara no sentido de que, ao lavrar auto de infração, a Fiscalização deve realizar de oficio a compensação dos prejuízos fiscais/base negativa de CSLL. Caso a D. Fiscalização tivesse procedido de acordo com a legislação, os valores de CSLL lançados teriam sido muito inferiores aos apurados, razão pela qual deve ser cancelado o presente auto de infração. Ilegalidade da incidência de juros Selic sobre a multa de ofício. Nos termos do que estabelece o artigo 61 da Lei n. 9.430/96, resta evidente que somente são admitidos os acréscimos moratórios referentes aos débitos decorrentes de tributos e contribuições, mas não sobre as penalidades pecuniárias. Assim, não há como se admitir a incidência de juros sobre a multa, na medida em que, por definição, se os juros remuneram o credor pela privação do uso de seu capital, eles devem incidir apenas sobre o que deveria ter sido recolhido no prazo legal e não foi. Isto é, o único pressuposto da cobrança dos juros decorre da não transferência voluntária e dentro do prazo legal do capital do contribuinte aos cofres públicos. Excetuando-se essa situação, qualquer incidência de juros revela-se abusiva e arbitrária, por ausência de seu pressuposto de fato, qual seja, a reposição de capital. Nesse sentido, é evidente que os juros não existem por si só e não podem ser aplicados aleatoriamente sobre qualquer evento. Decorrem, antes de tudo, de uma obrigação principal. O mesmo ocorre em relação à multa, que só será devida se existir uma obrigação anterior não quitada no prazo legal. Os juros não podem incidir sobre a multa, já que essa penalidade não retrata obrigação principal, mas sim encargo que se agrega ao valor da dívida, como forma de punir o contribuinte. Ademais, a aplicação de tal percentual, de forma ilimitada, sobre o principal e sobre a multa, acarreta verdadeira afronta ao principio constitucional do não confisco, bem como viola o direito de propriedade, já que faz incidir juros exorbitantes sobre o imposto devido e, ainda, sobre a multa aplicada ! Portanto, deve ser integralmente cancelado o auto de infração. Em face de todo o exposto, a Impugnante requer: a) Que seja o Auto de Infração julgado totalmente improcedente, cancelando-se integralmente o crédito tributário por ele constituido. b) Subsidiariamente, caso não seja acolhido o pedido de cancelamento da autuação - o que se admite a mero titulo argumentativo - requer a Impugnante que seja afastada a incidencia de juros SELIC sobre a multa de oficio. c) Juntada de quaisquer outros documentos e informações que venham a corroborar com os fatos e argumentos descritos na presente Impugnação. d) Que todas as intimações e publicações relativas a este processo sejam efetuadas, exclusivamente, em nome das advogadas Raquel Cristina Ribeiro Novais e Daniella Zagari Gonçalves, inscritas na OAB/SP sob os n°s 76.649 e 116.343, respectivamente, com escritório localizado na Av. Brigadeiro Faria Lima, 3144, 8o andar, São Paulo, SP. Juntou à impugnação: Lista de documentos (via física): DOC. 1 - Cartão do CNPJ DOC. 2 - Documentos Societários DOC. 3 - Procurações e documentos dos advogados DOC. 4 - Auto de Infração DOC. 22 - Cursos no exterior: solicitações de pagamento, contrato de câmbio e faturas dos prestadores Lista de documentos CD-ROM: DOC. 5 - Exemplo de Solicitação de Viagem DOC. 6 - Razão contábil da conta 4.2.1.01.020 DOC. 7 - Cópia de notas fiscais emitidas pela empresa Devisu -Criação e Comunicação Visual (Patricia de Paula Com. Visual EPP) DOC. 8 - Planilha exemplificativa: lançamentos efetuados na conta 4.2.1.01.008 DOC. 9 - Quadros com lançamentos contábeis efetuados nas conta 2.1.01.017, 4.2.1.04.036 e 4.2.1.01.154 DOC. 10 - Resumo des lançamentos contábeis efetuados nas conta: 2.1.01.017, 4.2.1.04.036 e 4.2.1.01.154 DOC. 11 - Razões contábeis das contas 4.2.1.01.017, 4.2.1.04.036 e 4.2.1.01.154 DOC. 12 - Razão contábil da conta 2.2.3.02.007 DOC. 13 - Quadro de lançamentos contábeis da conta 2.2.3.02.007 DOC.14 - Planilhas mensais listando as notas fiscais consideradas na efetivação dos lançamentos efetuados na Conta 4.2.1.01.05 DOC. 15 - Quadros com os lançamentos efetuados na Conta 4.2.1.01.051 DOC. 16 - Razões das contas 2.1.1.07.007, 4.2.1.01.051 e outras contas de resultado. DOC. 17 - Razão contábil da conta 4.2.1.01.119. DOC. 18 - Razões contábeis das contas 4.2.1.01.012 e 4.2.1.01.066 e 2.1.1.07.00. DOC. 19 - DARF Código 1256 no valor de R$ 1.254.968,96 DOC. 20 - DARF Código 0473 no valor de R$ R$ 33.675,33 DOC. 21 - Fatura de Serviços - Valor Econômico. A 3ª Turma da DRJ em Ribeirão Preto, em análise da impugnação apresentada, julgou-a procedente em parte, tendo a decisão recebido a seguinte ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2009 DEDUTIBILIDADE DE CUSTOS E DESPESAS. A dedutibilidade de custos e despesas na determinação da base de cálculo do imposto somente é possível se prevista na legislação e devidamente comprovada. Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL Ano-calendário: 2009 DEDUTIBILIDADE DE CUSTOS E DESPESAS. A dedutibilidade de custos e despesas na determinação da base de cálculo da contribuição somente é possível se prevista na legislação e devidamente comprovada. COMPENSAÇÃO DE BASE DE CÁLCULO NEGATIVA. Retifica-se o lançamento para levar a efeito no cálculo da CSLL devida a compensação de Base de Cálculo Negativa de períodos anteriores efetuada pelo Fisco, mas não considerada na determinação de seu valor. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2009 JUNTADA POSTERIOR DE DOCUMENTAÇÃO. O protesto pela juntada posterior de documentação não obsta a apreciação da impugnação, e ela só é possível em casos especificados na lei. SOLICITAÇÃO DE DILIGÊNCIA. O pedido de diligência deve ser considerado não formulado, por não ter sido regularmente formalizado, além de inexistir justificativa para sua realização. INTIMAÇÃO. ENDEREÇAMENTO. Feita a eleição pelo sujeito passivo do domicilio tributário, não se admite domicílio especial no processo administrativo. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2009 INCONSTITUCIONALIDADE. É competência atribuída, em caráter privativo, ao Poder Judiciário pela Constituição Federal, manifestar-se sobre a constitucionalidade das leis, cabendo à esfera administrativa zelar pelo seu cumprimento. JUROS DE MORA. INCIDÊNCIA SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. A incidência de juros de mora sobre a multa de ofício, após o seu vencimento, tem previsão legal. Em resumo, a decisão de primeira instância somente cancelou parcela de CSLL decorrente da compensação de 30% de CSLL com bases negativas de períodos anteriores não levadas em consideração pela autoridade lançadora. O contribuinte foi cientificado da decisão em 10 de fevereiro de 2015, uma terça-feira (fls. 16.357-16.358), apresentando recurso voluntário de fls. 16.384-16.453 em 12 de março de 2015, uma quinta-feira. Aduz a Recorrente que a DRJ se limitou a analisar superficialmente as alegações contidas na impugnação, sem levar em consideração a documentação acostada aos autos em total afronta aos princípios da ampla defesa e do contraditório. Em sede preliminar requer, assim, a declaração de nulidade da decisão recorrida, nos seguintes termos: - em razão da gama de documentos que necessitava para comprovar a dedutibilidade das despesas glosadas, a Recorrente anexou documentos não só na impugnação apresentada, mas também em momento posterior, mas ainda antes da prolação da decisão recorrida; - a DRJ entendeu por bem não analisar tal documentação em razão da preclusão prevista no art. 4º do art. 16 do Decreto nº 70.235/72, o que estaria em total descompasso com a jurisprudência do CARF; - alega, contudo, que diversos documentos apresentados na impugnação também teriam sido absolutamente ignorados pela DRJ, uma vez que a decisão recorrida, em diversos pontos, teria mantido a glosa em razão da não apresentação de documentos por parte da Recorrente, mesmo em diversos casos em que a documentação fora apresentada em sede de impugnação; - a turma julgadora de primeira instância teria desqualificado as provas apresentadas pela Recorrente ao afirmar que alegar genericamente e simplesmente juntar papéis ou demonstrativos não é provar, embora a Recorrente tivesse, a seu ver, vinculado os documentos à matéria que se referiam. No mérito, em resumo, assim se manifesta a Recorrente: - Conta Contábil 4.2.1.01.001 Despesas com Seguros a) Seguro aeronave (R$ 107.591,20): não se questiona a efetividade da despesa, mas sim se seria ou não dedutível. Aduz a Recorrente que de que a conclusão da Fiscalização e da DRJ de que o uso dos aviões seriam quase que estritamente particular, desvinulado do objeto social da empresa e de que a despesa não estaria intrinsecamente relacionada com a produção ou comercialização não estaria embasa por qualquer documentação ou informação mais detalhada contraria a jurisprudência do CARF, a qual indica que competiria ao Fisco fazer prova dessa alegação. Segundo a Recorrente do doc. 5 juntado à impugnação demonstraria o controle que possuía sobre a utilização da aeronave, que teria sido utilizada somente com fins corporativos; b) MTR Transfer (R$ 7.653,41): alega que as despesas registradas sob esta rubrica decorre de meros ajustes contábeis realizados, com subsequente crédito na conta de despesa original (eliminando a despesa inicialmente contabilizada) e débito na conta questionada. Aduz que não foi possível juntar a documentação aos autos em razão de sua antiguidade, bem como pelo envolvimento de grande volume de documentos; c) Despesas com Seguros Pessoa Física (R$ 532.167,35): referem-se a reembolsos e indenizações concedidos a clientes em decorrência de furtos e danos ao patrimônio, sofridos por eles nas dependências da Recorrente. Segundo a decisão recorrida foram apresentados formulários internos de controle da área de contabilidade e de contas a pagar, os quais indicam em seu corpo que se referem basicamente a reembolsos por furto de veículos, CD player, estepes etc. Não apresentou durante a ação fiscal, nem no prazo para impugnação, documentos que comprovassem a necessidade dessa despesa, valor exigido por terceiro, caracterizando mera liberalidade. Assim, não se pode conceituar tal despesa como dedutível, necessária à atividade da empresa como definido no art. 299 do RIR de 1999. Contudo, entende a Recorrente que os documentos já apresentados durante o procedimento fiscal são aptos a comprovar a dedutibilidade de tais despesas; - Conta Contábil 4.2.1.01.008 Despesas de Viagens a) Fretamento Oceanair Táxi Aéreo e Líder Táxi Aéreo (R$ 105.062,50): despesas pagas a Oceanair Táxi Aéreo se referem a fretamento de aeronovaves, o que seria normal para a atividade desenvolvida, em especial para o deslocamento de associados/diretores e empregados. Quanto aos valores pagos à Líder Táxi Aéreo diriam respeito a manutenção da aeronave própria, e não à fretamente, conforme alegou a Fiscalização. Alega que a DRJ manteve a glosa analisando superficialmente as provas e suas alegações, o que implicaria nulidade do lançamento. b) MTR Transfer, Weekly Cash Report e Vendor Name Vazio - MTR Transfer (R$ 255.644,77): diria respeito à reclassificações contábeis, o que a Recorrente entende já ter demonstrado sua correição; - Weekly Cash Report (R$ 3.076.979,88): despesas se referem a gastos efetuados com recursos do caixa de cada uma das lojas da Impugnante. Diriam respeito a reembolsos e pagamentos referentes a despesas de viagens profissionais realizadas por empregados dos estabelecimentos da Impugnante (visitas a outras lojas, deslocamentos para reuniões dentre outras situações). Não houve apresentação de documentação; - Vendor Name Vazio (R$ 1.868.560,45): Recorrente alega que se trata de despesas pré-operacionais e que foram contabilizadas em conta de despesa mas teria havido créditos nos mesmos valores nessa mesma conta, sendo a contrapartida conta de ativo diferido (1.1.9.01.014 despesas pré-operacionais). A DRJ teria baseado seu voto na ausência de apresentação de documentos, mas não teria analisado a questão dos lançamentos a crédito que anulariam os efeitos na determinação do lucro líquido do período e, consequentemente, da apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL; c) Provisão (R$ 18.621,59): argumenta a Recorrente que os valores em questão foram adicionados na apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL. Esclarece que seria a conta 2.1.1.07.002 que determinaria quais valores deveriam ser adicionados ou excluídos das bases de cálculo dos tributos; - Despesas Legais (conta 4.2.1.01.020) a) MTR Transfer (R$ 27.640,54): diria respeito à reclassificações contábeis, o que a Recorrente entende já ter demonstrado sua correição; b) Darf código 1256 e Multas fiscais (R$ 1.254.968,96 Refis IV- e de R$ 141.080,55 relativo a multas fiscais): para a Fiscalização e a decisão recorrida, o DARF teria sido utilizado para pagamento de multa de ofício e juros de mora no âmbito do Refis IV, o que implicaria ofensa ao art. 344 § 5º do RIR/99 dispõe que "não são dedutíveis como custo ou despesas operacionais as multas por infrações, salvo as de natureza compensatória e as impostas por Infrações de que não resultem falta ou insuficiência de pagamento de tributo (Lei n° 8.981, de 1995, art. 41, §5°)". Para a Recorrente, a decisão seria nula por não analisar os lançamentos realizados a crédito nesta mesma conta, em contrapartida para outra conta de despesa também glosada (4.2.1.01.119), o que implicaria dupla glosa. A comprovação dos lançamentos a crédito em tal conta teriam sido comprovadas mediante cópia dos lançamentos realizados (doc. 5 da impugnação). Relativamente à glosa de R$ 141.080,55, os motivos da DRJ para manutenção do lançamento foram os mesmos relativos ao outro DARF. Em primeiro lugar, explica a Recorrente que houve erro de contabilização, sendo debitada a conta referente a multas fiscais. Contudo, salienta a Recorrente que nesse caso ocorreu a mesma omissão no julgado relativa: creditou-se a conta de despesa e a contrapartida deu-se em outra conta de despesa também glosada pela Fiscalização, ou seja, novamente teria ocorrido a dupla glosa. A comprovação dos lançamentos a crédito em tal conta teriam sido comprovadas mediante cópia dos lançamentos realizados (doc. 5 da impugnação). Além disso, salienta que o DARF foi utilizado para pagar tributo com os benefícios previstos na Lei nº 11.941/2009 (Refis IV). Argumenta que nos termos do art. 1º, §§ 7º e 8º de que trata dessa lei, o contribuinte poderia pagar à vista seus débitos e liquidar multas e juros com prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa de CSLL. Esclarece que a multa e os juros são extintos com utilização de prejuízos fiscais, e não por meio de pagamento de DARF. O DARF em questão teria sido utilizado para quitação do principal, ou seja, do tributo em que multa e juros teriam sido quitados com utilização de prejuízo fiscal e base negativa de CSLL. De toda forma, salienta que o tributo pago seria dedutível, assim como a multa e os juros de mora correspondentes; c) Despesas Bancárias: aduz a Recorrente que o gasto em contratos de fiança bancária são necessários para garantia de futuras execuções fiscais que serão alvo de embargos à execução, sendo essencial manter sua regularidade fiscal. Em razão disso se tratariam de despesas necessárias, usuais e normais em suas atividades não podendo ser mantida a glosa com base no fundamento utilizado pela DRJ no sentido de que tais despesas não devem ser classificadas como operacionais por não serem gastos com a operação e manutenção da capacidade de produção da empresa, mas gastos com a estrutura de capital; d) Provisão: a decisão recorrida não teria enfrentado a questão, sendo necessária a declaração de sua nulidade. De toda forma, argumenta a Recorrente que os valores em questão foram adicionados na apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL. Esclarece que seria a conta 2.1.1.07.002 que determinaria quais valores deveriam ser adicionados ou excluídos das bases de cálculo dos tributos; - Conta Contábil 4.2.1.01.075 Reuniões e Convenções a) Vendor Name Vazio (R$ 506.716,41): segundo a Recorrente as despesas seriam decorrentes de ao pagamento de cursos e seminários realizados no exterior. A decisão recorrida informa que não foram apresentados documentos. Já a Recorrente alega que os documentos foram apresentados junto à impugnação (doc. 22); b) Alocação aluguel Int e Patrícia de Paula C (R$ 453.886,32 e R$ 31.314,52): a glosa foi realizada e mantida pela DRJ por não terem sido apresentados os documentos comprobatórios. Segundo a Recorrente, os documentos comprobatórios das despesas referentes a Alocação Aluguel Int. (R$ 453.886,32 ) estariam à disposição da Fiscalização caso se entenda necessária a realização de diligência. No que atine a pagamentos realizados a Patrícia de Paula C (R$ 31.314,52), diriam respeito a a serviços de publicidade. Alega a Recorrente que anexou à impugnação cópia de parcela significativa das notas fiscais emitidas pelo prestador de serviço (doc. 7 da impugnação), mas não teriam sido analisadas pela decisão de primeira instância. Pede a declaração de nulidade da decisão de piso, ou, se for o caso, a sua análise por este colegiado; c) Provisão (R$ 1.652,00): a Recorrente informa que os documentos estão à disposição da Fiscalização em caso de realização de diligência; d) Wal-Mart (R$ 365.400,10): segundo a Recorrente as despesas seriam decorrentes de ao pagamento de cursos e seminários realizados no exterior. A decisão recorrida informa que não foram apresentados documentos. Já a Recorrente alega que os documentos foram apresentados junto à impugnação (doc. 22); e) Darf código 0473 (R$ 33.675,33): a decisão recorrida afirma que por se tratar de recolhimento de imposto de renda retido na fonte, ou seja, recolhido na condição de responsável, tal valor não seria dedutível. Já a Recorrente afirma que o § 3º do art. 344 do RIR/99 lhe permite deduzir como despesa o imposto de renda retido na fonte; - Conta Contábil 4.2.1.104.015 Auxílio Alimentação Relações Públicas a) Brindes (R$ 59.299,11): a decisão recorrida entende que a confecção de porta retrato, móbiles e cartas se caracterizaria como brinde, e, portanto, tais despesas seriam indedutíveis em face do disposto no inciso VII do art. 13 da Lei nº 9.249/95. Já a Recorrente aduz que se tratariam de despesas de propaganda. A esse respeito, a decisão recorrida argumenta que ainda que fossem despesas de propaganda, elas não estariam destacadamente relacionadas em conta própria conforme impõe o § 3º do art. 366 do RIR/99; b) Contribuição e Patrocínio (R$ 89.000,00): a Recorrente afirma que se trata de despesa com cursos/seminários pagos para seus funcionários. A DRJ entende que não resta caracterizada tal situação, tratando-se de contribuições não compulsórias, indedutíveis por força do disposto no inciso V do art. 13 da Lei nº 9.249/95; c) Wal-Mart (R$ 117.794,41): a decisão recorrida conclui que não houve apresentação de documentos que comprovassem tais despesas. Já a Recorrente, por sua vez, informa que os documentos estão à disposição da Fiscalização em caso de realização de diligência; - Despesas Operacionais - Provisões - Contas 4.2.1.01.017 Despesas administrativas, 4.2.1.04.036 Provisão para contingências e 4.2.1.01.154 - Provisão para contingências trabalhistas; - Conta 4.2.1.01.017 Despesas administrativas; - Conta 4.2.1.04.036 Provisão para contingências; - Conta 4.2.1.01.154 - Provisão para contingências trabalhista; - Conta 4.2.1.01.051 Recuperação Despesa Prop. Cooperada; - Conta 4.2.1.01.119 - Despesas não dedutíveis; - Contas 4.2.1.01.012 - Despesas diversas e 4.2.1.01.066 -Projetos não aprovados - para todas essas contas a DRJ concluiu que os demonstrativos elaborados pela Recorrente nada provam e que não foram apresentados no prazo de impugnação qualquer documentação que pudesse comprovar a dedutibilidade das despesas em questão, ou, ainda que parte dessas tivessem sido adicionadas na apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL. A Recorrente alega que em razão de limitações em seu sistema contábil, efetua o controle das contas de provisão pelo resultado líquido entre créditos (constituição da provisão) e débitos (reversão da provisão) realizados em determinado período, adicionando o valor líquido das operações à base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Além disso, vários outros valores glosados pela Fiscalização teriam sido creditados e revertidos para outras contas de despesa, ou ainda tinham como contrapartida outra conta de resultado, ou seja, seriam nulas para fim de apuração do lucro líquido. Especificamente em relação à conta 4.2.1.01.051 Recuperação Despesa Prop. Cooperada (R$ 90.809.148,98 de despesas contabilizadas e, de acordo com a Fiscalização, somente adicionados R$ 1.648.374,13), aduz a Recorrente que não se tratava de provisão, mas sim de despesas efetivas de propaganda. A esse respeito foram anexadas às fls. 16.360-16.380 petição e documentos complementares protocolados após o prazo fatal para apresentação de impugnação que comprovariam suas alegações, documentos esses não analisados pela DRJ, conforme já relatado. Em razão disso, requer a nulidade da decisão de primeira instância. - a Recorrente pugna, subsidiriamente, pela necessidade de consideração da base negativa de CSLL de períodos anteriores, matéria objeto de recurso de ofício; - questiona-se ainda a cobrança de juros moratórios sobre a multa de ofício. É o relatório.
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Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, o retorno dos autos à primeira instância julgadora para que seja proferida decisão complementar com análise dos argumentos apresentados em impugnação e que não foram objeto de manifestação na decisão recorrida (Conta Contábil 4.2.1.01.008 Despesas de Viagens Vendor Name Vazio (R$ 1.868.560,45), bem como sobre o mérito da infração não abordada no acórdão guerreado (Conta Contábil 4.2.1.01.020 Despesas Legais Provisões) nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. (assinado digitalmente) Leonardo de Andrade Couto Presidente (assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto – Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Demetrius Nichele Macei, Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Gilberto Baptista, Leonardo de Andrade Couto, Leonardo Luís Pagano Gonçalves, Paulo Mateus Ciccone e Roberto Silva Júnior. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 38 96 .7 22 52 5/ 20 13 -3 7 Fl. 16538DF CARF MF Impresso em 12/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/07/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 13896.722525/201337 Resolução nº 1402000.363 S1C4T2 Fl. 16.539 2 Relatório WAL MART BRASIL LTDA recorre a este Conselho, com fulcro no art. 33 do Decreto nº 70.235, de 1972, objetivando a reforma do acórdão nº 1455.990 da 3ª Turma da Delegacia de Julgamento em Ribeirão Preto que julgou parcialmente procedente a impugnação apresentada. E, haja vista que em tal acórdão exonerouse crédito tributário superior a R$ 1.000.000,00, nos termos do artigo 2º da Portaria MF nº 3, de 03/01/2008, a turma julgadora recorreu de ofício a este Conselho, com fulcro no art. 34 do Decreto nº 70.235, de 1972. Por bem refletir o litígio até aquela fase, adoto o relatório da decisão recorrida, complementandoo ao final: Conforme Termo de Verificação Fiscal – TVF (fls. 2707/2738), foi procedida ação fiscal na empresa acima identificada, relativamente ao anocalendário de 2009. Conforme consta do referido termo fiscal, a contribuinte foi diversas vezes intimada com o intuito de se verificar a dedutibilidade dos custos e despesas operacionais, sendo orientada a apresentálos em formato que possibilitasse conciliar os documentos com os lançamentos, fazendo referência ao número de Anexo e também ao número do documento. Da análise de tais documentos foram constatadas as seguintes irregularidades que caracterizam infração à legislação tributária: 1) CUSTOS, DESPESAS OPERACIONAIS E ENCARGOS NÃO COMPROVADOS · Despesas não comprovadas referentes à PLANILHA 2 – ANEXO 1 4.2.1.01.001 DESPESAS COM SEGUROS – MTR TRANSFER, PLANILHA 5 – ANEXO 2 4.2.1.01.008 DESPESAS DE VIAGENS – PLANILHA 6 ANEXO 2 4.2.1.01.008 DESPESAS DE VIAGENS WEEKLY CASH REPORT, PLANILHA 7 ANEXO 2 4.2.1.01.008 DESPESAS DE VIAGENS VENDOR NAME VAZIO, PLANILHA 9 ANEXO 5 4.2.1.01.020 DESPESAS LEGAIS MTR TRANSFER, PLANILHA 14 ANEXO 8 4.2.1.01.075 REUNIÕES E CONVENÇÕES VENDOR NAME VAZIO, PLANILHA 15 ANEXO 8 4.2.1.01.075 REUNIÕES E CONVENÇÕES ALUGUEL INT, PLANILHA 16 ANEXO 8 4.2.1.01.075 REUNIÕES E CONVENÇÕES PATRICIA, PLANILHA 18 ANEXO 8 4.2.1.01.075 REUNIÕES E CONVENÇÕES WALMART E PLANILHA 22 ANEXO 14 4.2.1.04.015 RELAÇÕES PÚBLICAS WAL MART apuradas conforme relatório fiscal. 2) CUSTOS/DESPESAS OPERACIONAIS/ENCARGOS NÃO DEDUTÍVEIS. Fl. 16539DF CARF MF Impresso em 12/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/07/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 13896.722525/201337 Resolução nº 1402000.363 S1C4T2 Fl. 16.540 3 · Despesas com contribuições e doações indedutíveis, por inobservância dos requisitos legais, referente à PLANILHA 21 ANEXO 14 4.2.1.04.015 RELAÇÕES PÚBLICAS – CONTRIBUIÇÃO, conforme relatório fiscal. · Despesas de brindes RELAÇÕES PÚBLICAS BRINDES conforme relatório fiscal. · Multa por infração fiscal, indedutível por não ser de natureza compensatória, ou por ter sido imposta por infração de que resultou falta ou insuficiência de pagamento de tributo, referente à PLANILHA 10 ANEXO 5 4.2.1.01.020 DESPESAS LEGAIS DARF, PLANILHA 11 ANEXO 5 4.2.1.01.020 DESPESAS LEGAIS MULTAS FISCAIS e PLANILHA 19 ANEXO 8 4.2.1.01.075 REUNIÕES E CONVENÇÕES DARF conforme relatório fiscal. · Despesas não necessárias referentes à Planilha 1 Anexo 1 – 4.2.1.01.001 – Despesas com Seguros – PF, Planilha 3 – ANEXO 1 – 4.2.1.01.001 – Despesas com seguro – PF, Planilha 4 Anexo 2 – 4.2.1.008 – Despesas de viagens – Líder Táxi Aéreo – Oceanair, Planilha 12 Anexo 5 – 4.2.2.01.020 – Despesas Legais – Despesas Bancárias, apuradas conforme relatório fiscal. · Provisão indedutível por não estar expressamente autorizada pelo Regulamento do Imposto de Renda, ou por ter sido feita em excesso ao permitido pela legislação, referente à PLANILHA 8 ANEXO2 4.2.1.01.008 – DESPESAS DE VIAGENS – PROVISÃO, PLANILHA 13 ANEXO 5 4.2.1.01.020 DESPESAS LEGAIS – PROVISÃO PLANILHA 17 ABEXO 8 4.2.1.01.075 REUNIÕES E CONVENÇÕE PROVISÕES ANEXO 4 4.2.1.01.017 DESPESAS ADMINISTRATIVAS, ANEXO 18 4.2.1.04.036 PROVISÃO PARA CONTINGÊCIAS, ANEXO 19 4.2.1.01.154 PROVISÃO PARA CONTINGÊNCIAS TRABALHISTAS, ANEXO 6 – 4.2.1.01.051, RECUPERAÇÃO DESPESAS PROP. COOPERADA, ANEXO 19 – PROVISÃO PARA CONTINGÊNCIAS TRABALHISTAS, ANEXO 3 4.2.1.01.012 DESPESAS DIVERSAS E ANEXO 11 4.2.1.01.119 DESPESAS NÃO DEDUTÍVEIS, conforme TVF. 3) EXCLUSÕES INDEVIDAS NA DETERMINAÇÃO DA BASE DE CÁLCULO DO IRPJ E CSLL. Valor excluído indevidamente do Lucro Líquido do período, na determinação do Lucro Real e Base de Cálculo da CSLL, referente ao ANEXO 3 Fl. 16540DF CARF MF Impresso em 12/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/07/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 13896.722525/201337 Resolução nº 1402000.363 S1C4T2 Fl. 16.541 4 4.2.1.01.012 DESPESAS DIVERSAS e ANEXO 7 4.2.1.01.066 PROJETOS NÃO APROVADOS, conforme relatório fiscal. Diante dessas constatações, conforme os demonstrativos elaborados pelo Fisco, anexos aos autos, foram lavrados os autos de infração de fls. 2686/2705 que exigem crédito tributário no montante de R$ 20.562.357,55 conforme a seguir discriminado: TRIBUTO Valor do tributo Juros de Mora (Cálculo válido até dez/2013) Multa de ofício (75%) Total IRPJ 6.702.590,68 2.416.283,94 5.026.943,01 14.145.817,63 CSLL 3.040.293,73 1.096.025,89 2.280.220,30 6.416.539,92 Os lançamentos foram efetuados com fulcro nas disposições legais apontadas nos respectivos autos de infração. Ciente do lançamento em 04/12/2013, a contribuinte ingressou em 03/01/2014 com a impugnação de fls. 2748/2804. Após o prazo para impugnação, solicitou a juntada de documentos que fazem as fls. 2805/16301. Em suma, refuta os lançamentos sob as seguintes alegações: IMPUGNAÇÃO A Impugnante é pessoa jurídica de direito privado, tendo por principal atividade o comércio varejista de mercadorias em geral (hipermercado). No regular desenvolvimento de suas atividades, a Impugnante sempre zelou pela mais rigorosa apuração e pagamento de seus tributos. Nesse contexto é de se mencionar que, conforme se aduz da análise de sua DIPJ (já juntada a estes autos) a Impugnante apurou prejuízos no ano de 2009, não havendo, portanto, imposto de renda ou CSLL a recolher no período. A Fiscalização glosou certas despesas e exclusões consideradas pela Impugnante na base de cálculo do IRPJ e CSLL apurados naquele ano (como já mencionado, tais bases foram negativas), por diversos motivos a serem detalhados posteriormente. Em decorrência do exposto, o procedimento fiscal culminou na lavratura de auto de infração contra a Impugnante, exigindo valores supostamente devidos a título de IRPJ e CSLL, sendo as supostas infrações assim descritas pela Fiscalização no TVF. 0001 CUSTOS, DESPESAS OPERACIONAIS E ENCARGOS DESPESAS NÃO NECESSÁRIAS (. . .) 0002 CUSTOS, DESPESAS OPERACIONAIS E ENCARGOS DESPESAS NÃO COMPROVADAS (...) Fl. 16541DF CARF MF Impresso em 12/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/07/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 13896.722525/201337 Resolução nº 1402000.363 S1C4T2 Fl. 16.542 5 0003 PROVISÕES. PROVISÕES NÃO DEDUTÍVEIS (...) 0004 MULTAS NÃO DEDUTÍVEIS. MULTAS DE NATUREZA TRIBUTÁRIA NÃO DEDUTÍVEIS (...) 0005 CONTRIBUIÇÕES E DOAÇÕES. INOBSERVÂNCIA DOS REQUISITOS LEGAIS (...) 0006 DESPESAS DE PROPAGANDA E/OU BRINDES. DESPESAS DE BRINDES (...) 0007EXCLUSÕES/COMPENSAÇÕES NÃO AUTORIZADAS NA APURAÇÃO DO LUCRO REAL. EXCLUSÕES INDEVIDAS (...) Em face das conclusões do Fisco, foram lavrados auto de infração para exigência do IRPJ e CSLL. Contudo, os autos de infração não poderão prevalecer, uma vez que essas conclusões padecem de equívocos insanáveis. Antes de abordar os equívocos, informa que os documentos anexos a esta impugnação serão apresentados em via eletrônica (CD ROM), tanto em razão da maior facilidade para análise, quanto em razão de seu enorme volume. Em que pese a documentação já juntada aos autos, desde já a impugnante protesta pela realização da diligência a fim de confirmar as informações que serão abaixo prestadas, tendo em vista a complexidade dos lançamentos contábeis ora descritos e o enorme volume de documentos que suportam tais lançamentos. A impugnante informa que seus funcionários estão à inteira disposição desse colegiado caso se entenda pela necessidade de realização de diligência a fim de confirmar as informações ora apresentadas. A seguir, apresentamse os motivos pelos quais deve a presente autuação ser integralmente cancelada. Necessário se faz observar o contido no art. 299 do Decreto nº 3.000, de 1999, que traz o conceito de despesa operacional. Depreendese do texto legal desse artigo que as despesas operacionais dedutíveis são aquelas necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora de receitas. O § 2º desse dispositivo reza que são despesas operacionais admitidas, as usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa. Tal análise, no entanto, deve ser feita com muita atenção, já que a conceituação dos termos “usuais” e “normais” definirá se a despesa será dedutível ou indedutível. Assim determinar a dedutibilidade de uma despesa requer análise da situação como um todo de maneira objetiva, levando em consideração o que o texto legal tem por propósito, quando autoriza a dedução. Não pode o auditor, com base em critérios subjetivos, determinar o que é usual e necessário à atividade dos contribuintes. Ao contrário, o próprio contribuinte é quem está familiarizado com suas atividades e, portanto, está apto a determinar quais despesas são efetivamente necessárias ao desenvolvimento de suas atividades. Assim, passa a analisar cada uma das glosas efetuadas pela autoridade fiscal, na mesma ordem adotada no TVF: Fl. 16542DF CARF MF Impresso em 12/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/07/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 13896.722525/201337 Resolução nº 1402000.363 S1C4T2 Fl. 16.543 6 I Conta contábil 4.2.1.01.001 – Despesas com seguros a) Seguro da aeronave: Cabe observar que a despesa se refere ao seguro da aeronave que a empresa possuía. Para o Fisco, a despesa seria indedutível por tratarse de aeronave de uso quase estritamente particular, desvinculada do objetivo social principal da empresa, comércio varejista, agente de comércio não se encaixaria no conceito legal de despesas operacionais e, portanto, totalmente indedutível para fins de apuração do lucro real. A efetividade da despesa questionada pela Fiscalização, dada a existência de pagamentos relativos à contratação de seguro de aeronave foi plenamente reconhecida. Dessa forma o que se discute é apenas a possibilidade dessa despesa se enquadrar no conceito de despesa operacional. Não foi apresentada pelo Fisco, prova de que a aeronave é utilizada “quase estritamente” para fins particulares. Não pode o Fisco apenas presumir, ao contrário, qualquer presunção deveria ser feita em favor da contribuinte. Não é incomum que empresa do porte da impugnante com estabelecimentos em todo o país (e controladora no exterior) possuam aviões para atender as necessidades de suas operações. A Impugnante ressalta ainda que é extremamente parcimoniosa no uso de seus recursos, o que é necessário para que suas lojas consigam manter um preço competitivo. Nesse contexto, não seria admissível adquirir uma aeronave para fins não corporativos, eis que tal fato impactaria severamente em seus preços e, consequentemente, em sua competitividade. A fim de deixar claro o equivoco fiscal, a Impugnante informa que todas as viagens efetuadas em sua aeronave deveriam ser documentadas por meio de uma "Solicitação de Viagem", na qual deve haver informações sobre todos os passageiros do avião e declaração de que a viagem se presta a motivos profissionais. A fim de documentar tal fato, a Impugnante anexa a estes autos exemplo de Solicitação de Viagem (Doe. 5). Como se verifica, a conclusão fiscal não poderia estar mais longe da verdade. Na realidade, a utilização primordial dada pela Impugnante a sua aeronave está intrinsecamente vinculada ao seu objeto social: o transporte de executivos e empregados da empresa a eventos corporativos e convenções de entidades do setor varejista. A fim de comprovar o alegado, está buscando outros documentos comprobatórios tais como as demais solicitações de viagem que compõem a integralidade das despesas glosadas. Tais documentos ainda não foram juntados em razão de seu volume e antiguidade. b) MTR transfer: Fl. 16543DF CARF MF Impresso em 12/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/07/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 13896.722525/201337 Resolução nº 1402000.363 S1C4T2 Fl. 16.544 7 As despesas registradas sob essa rubrica foram glosadas sob a justificativa de que não estariam suportadas por documentos hábeis e idôneos. Ocorre que os lançamentos referemse a reclassificações contábeis efetuadas em suas contas de resultado, que passam a ser explicadas: “o valor correspondente à despesa em discussão foi registrado (juntamente a diversas outras despesas) em uma determinada conta de resultado da Impugnante, com contrapartida em uma conta patrimonial, com base em documentação hábil ("Lançamento 1"). Esta conta será doravante denominada "Conta Original". Posteriormente, a Impugnante verificou que parcela das referidas despesas (R$ 7.653,41) deveria ser alocada à outra conta de resultado: justamente a conta ora discutida, de n. 4.2.1.01.001 ("Conta Questionada") . Assim, a Impugnante reclassificou o lançamento acima descrito, por meio de um lançamento a crédito na Conta Original (eliminando o efeito da despesa questionada nessa conta). O efeito dessas reclassificações no resultado da impugnante e na base de cálculo do IRPJ e da CSLL é nulo. No entanto, a dedutibilidade da despesa questionada permanece, pois o lançamento 1 foi baseado em documentação hábil, que será juntada a estes autos com descrição minuciosa dos lançamentos contábeis e documentos comprobatórios da efetividade das despesas em questão. Mais uma vez informa que não foram juntados quando da impugnação em razão de sua antiguidade, volume de documentos e complexidade dos lançamentos. c) Despesa com seguros – Pessoas Físicas De acordo com o TVF, as despesas relativas a seguros de pessoa física seria mera liberalidade da empresa e não se adequaria ao conceito de despesas necessárias, portanto seria indedutível. Ao contrário do que afirma a Fiscalização, tais despesas são absolutamente necessárias à atividade da Impugnante. Referemse a reembolsos e indenizações concedidos a clientes em decorrência de furtos e danos ao patrimônio, sofridos por eles nas dependências da impugnante. O fato de investir na segurança de seus clientes é, infelizmente, porque não há como evitar eventuais ocorrências de danos e furtos nas suas dependências. Nessa situação, as despesas correspondentes devem ser consideradas necessárias e usuais para sua atividade, pois a responsabilidade da impugnante perante seus clientes não pode ser afastada, tampouco deve ser considerada “mera liberalidade”. O Superior Tribunal de Justiça editou súmula sobre o tema, na qual ficou claramente consignada a responsabilidade da empresa em situações similares: Súmula STJ n. 130 A Empresa responde, perante o cliente, pela reparação de dano ou furto de veículo ocorridos em seu estacionamento. Informa que levantará os comprovantes de pagamento relativos a tais despesas de forma a demonstrar cabalmente a efetividade de tais despesas. II Conta contábil 4.2.1.01.008 Despesas de viagens a) Fretamento Oceanair Táxi Aéreo Fl. 16544DF CARF MF Impresso em 12/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/07/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 13896.722525/201337 Resolução nº 1402000.363 S1C4T2 Fl. 16.545 8 Tais despesas no valor de R$ 105.062,50 foram glosadas pela Fiscalização com base na justificativa de que o fretamento de aeronave por empresa que tem por objeto social principal “comércio varejista, agentes do comércio” não se encaixa no conceito legal de despesas operacionais, e portanto seriam indedutíveis para fins de apuração do IRPJ e CSLL. Notese que a efetividade da despesa não foi contestada pelo Fisco em momento algum, mas apenas a sua dedutibilidade. Para a fiscalização, o deslocamento de empregados e diretores estaria desvinculado do objeto social da empresa. A impugnante é empresa multinacional com estabelecimentos em todo o país e no exterior. É natural que numa empresa desse porte, ocasionalmente, necessite enviar empregados de uma unidade a outra unidade para visitas, reuniões de gerentes com o propósito de definir determinadas políticas e outras atividades, o que demonstra o claro enquadramento das despesas no conceito de despesa operacional. Notase que a fiscalização incorreu em equívoco. Embora as despesas se refiram a pagamento efetuado às empresas Oceanair Táxi Aéreo e Líder Táxi Aéreo, elas não se referem apenas a fretamento de aeronaves. Os pagamentos efetuados à Líder, referemse a despesas de fretamento de aeronaves, o que é plenamente dedutível. Já, os pagamentos efetuados a Oceanair referemse a serviços por manutenção executados na aeronave então possuída pela impugnante conforme demonstram comprovantes já apresentados à Fiscalização (mencionada no tópico “seguro de aeronave”). Demonstrada a vinculação da aeronave ao objeto social da empresa, forçosa se torna a conclusão de que as despesas relativas a sua manutenção devam ser consideradas dedutíveis na determinação da base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Informa que está levantando documentos que comprovem a natureza das viagens (passagens e motivos) e irá juntálos a estes autos com a maior brevidade possível. b) MTR Transfer, Weekly Cash Report e Vendor Name Vazio b1) MTR transfer Referidas despesas, de R$ 255.644,77, se referem à exata situação descrita no item b (reclassificação contábil sem efeito no resultado). A fim de comprovar também a efetividade dessas despesas, juntará a estes autos descrição minuciosa dos lançamentos contábeis relativos às despesas ora discutidas, bem como cópias dos documentos comprobatórios de sua efetividade. b2) Weekly Cash Report Essas despesas, no montante de R$ 3.076.979,36, se referem a gastos efetuados com recursos do caixa de cada uma das lojas da Impugnante. Mais especificamente, a reembolsos e pagamentos referentes a despesas de viagens profissionais realizadas por empregados dos estabelecimentos da Impugnante (visitas a outras lojas, deslocamentos para reuniões dentre outras situações). Fl. 16545DF CARF MF Impresso em 12/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/07/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 13896.722525/201337 Resolução nº 1402000.363 S1C4T2 Fl. 16.546 9 Como se verifica, portanto, tais despesas estão claramente relacionadas às atividades da Impugnante, nos termos já expostos em tópicos anteriores e, portanto, devem ser consideradas dedutíveis. A fim de demonstrar o exposto, a Impugnante irá levantar e juntar a estes autos informações e documentos aptos a comprovar a efetividade das despesas em questão, de forma a restar absolutamente comprovada a regularidade da conduta por ela adotada. b3)Vendor Name Vazio Referida rubrica se refere a despesas no valor de R$ 3.868.560,43, relativas à contabilização de despesas préoperacionais incorridas por lojas em construção. Como já mencionado, a Fiscalização glosou tais despesas por entender que não estariam amparadas por documentação hábil e idônea. Ocorre, pois, que tais despesas foram integralmente revertidas por lançamentos a crédito na mesma conta questionada pela Fiscalização. Em outras palavras, tais despesas não poderiam ser glosadas em razão de um único fato: elas não produziram efeito algum no resultado da recorrente. Dessa forma, a grosso modo, a glosa dos lançamentos contábeis ora discutidos implica a tributação em duplicidade dos valores questionados. Considerações se fazem necessárias: Em consonância com a legislação fiscal e contábil aplicável até a edição da medida provisória n. 449/2008, despesas préoperacionais podiam ser contabilizadas no ativo diferido da empresa, podendo ser amortizadas em prazo não inferior a cinco anos e não superior a dez anos, a partir do início da operação normal ou do exercício em que passem a ser usufruídos os benefícios decorrentes. À época dos fatos em discussão, era exatamente esse o tratamento dado pela Impugnante às despesas ora questionadas, que, conforme informado acima, se referem a despesas préoperacionais: registro no ativo diferido e amortização em 10 anos, iniciada a partir da inauguração da loja. Ocorre, porém, que, por questões sistêmicas, referidas despesas eram inicialmente registradas em conta de resultado como despesa para então serem reclassificadas para o ativo diferido. Explicase. A conta contábil ora questionada (conta 4.2.1.01.008) registra todas as despesas de viagens registradas pela Impugnante (considerando todos os seus estabelecimentos). Despesas de viagens atribuídas a unidades em construção (as despesas préoperacionais de que trata a glosa ora discutida) eram, por uma questão sistêmica, inicialmente registradas nessa mesma conta contábil. Como o estabelecimento que incorreu na despesa ainda não havia sido oficialmente inaugurado, à época dos fatos, o lançamento foi feito sob a rubrica “Vendor Name Vazio”. Posteriormente, referidos lançamentos foram reclassificados para uma conta de “ativo diferido”, mas seus sistemas contábeis não haviam sido adaptados à mudança no ano de 2009 (“encontrão” que foi resolvido atualmente). Fl. 16546DF CARF MF Impresso em 12/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/07/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 13896.722525/201337 Resolução nº 1402000.363 S1C4T2 Fl. 16.547 10 c) Provisão De acordo com a fiscalização a despesa em questão, no valor de R$ 18.621,59 possui o histórico de provisão, sendo portanto não dedutível da base de cálculo do IRPJ e CSLL. Todavia, ao contrário do que afirma a fiscalização, essa despesa foi adicionada à base cálculo dos tributos. Está preparando planilha para demonstrar que as despesas foram corretamente adicionadas ao lucro líquido que será juntada aos autos tão logo esteja finalizada. III Despesas Legais (conta 4.2.1.01.020) a) MTR Transfer Essas despesas no montante de R$ 27.640,64 também tiveram reclassificações contábeis sem efeito no resultado tributável. A fim de comprovar também a efetividade das despesas levantará e juntará descrição minuciosa dos lançamentos relativos as despesas ora discutidas, bem como cópias dos documentos comprobatórios de sua efetividade. b) Darf código 1256 e Multas fiscais. A glosa referese a pagamento de despesa relativa a débitos fiscais no âmbito do REFIS IV (código 1256), no valor de R$ 1.254.968,96, e R$ 141.080,55 relativo a multas fiscais. De acordo com a fiscalização, a glosa se justifica com base no art. 344, § 5º do RIR de 1999. que determina não serem dedutíveis como custo ou despesas operacionais as multas por infrações fiscais, salvo as de natureza compensatória e as impostas por infrações que não resultem fala ou insuficiência de tributo. No que diz respeito ao Darf no valor de R$ 1.254.968,96 , de fato transitou pela conta 4.2.1.01.020, mas somente em razão de um equívoco da impugnante que registrou tal valor equivocadamente nesta conta. A despesa foi reclassificada não produzindo efeito na conta de resultado. Ao se analisar o razão contábil verificase que após a reclassificação a despesa foi efetivamente contabilizada na conta 4.2.1.01.119 que também foi objeto de glosa fiscal. Entende a despesa em questão é integralmente dedutível, pois não se refere a multas fiscais, mas sim a pagamento de tributo, conforme darf anexo, motivo pelo qual é inteiramente dedutível A multa pode ser paga à vista e liquidar multas e juros com prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa da CSLL. O Darf glosado, ao contrário do que argumenta a Fiscalização, não foi utilizado para pagamento das multas e juros, mas tão somente para pagamento de tributo. Se tivessem sido analisados os Darfs, não seriam glosadas as despesas, já que é clara a disposição do art. 344 do RIR de 1999, no sentido de serem dedutíveis na apuração do Lucro Real, os tributos e as contribuições. O art. 374 do RIR de 1999, assegura a dedução como custo ou despesa financeira, do valor relativo aos juros de mora pagos ou incorridos. O Parecer CST nº Fl. 16547DF CARF MF Impresso em 12/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/07/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 13896.722525/201337 Resolução nº 1402000.363 S1C4T2 Fl. 16.548 11 174 de 2004, da mesma forma possibilita essa dedução, concluindo que os juros de mora, por se tratar de compensação pelo atraso na liquidação de débitos, caracterizamse como despesa financeira e, como tal, são dedutíveis. As razões expostas, relativamente ao Darf de R$ 141.080,55 são plenamente aplicáveis ao Darf de R$ 1.254.968, 96. Com relação às multas, o regulamento do IR permite dedução das de natureza compensatória e as impostas por infrações que não resultem em falta ou insuficiência de pagamento de tributo. Assim, a análise da fiscalização esta incorreta, devendo ser cancelado o item do AI. c)Despesas Bancárias Foram glosadas despesas bancárias de R$ 828.463,40, decorrentes de contratos de prestação de fiança celebrados entre a impugnante e instituições financeiras para garantia de débitos objeto de ações judiciais sob o argumento de que não poderiam ser consideras operacionais, pois não fariam parte da apuração do lucro da empresa, sendo gastos com a estrutura do capital. Mas, a conclusão fiscal é infundada pois enquadramse perfeitamente no conceito de despesas operacionais. Como é cediço, a maioria das empresas necessitam celebrar esses contratos de prestação de fiança para poder apresentar defesa nas ações judiciais propostas contra si, como as execuções fiscais, em que é necessário e obrigatório garantir o juízo para apresentação de embargos à execução. São portanto absolutamente necessárias usuais e normais para a empresa executar suas atividades. Portanto deve ser cancelado esse item do auto de infração. d) Provisão Aplicamse a este item as mesmas argumentações apresentadas no item “II – c”. Esclarece que a é a conta 2.1.1.07.002 que determina quais valores deverão ser adicionados ou excluídos da base de cálculo dos tributos. Reitera que o saldo da citada conta de passivo foi integralmente adicionada à base de cálculo do IRPJ e da CSLL. IV – Conta contábil 4.2.1.01.075 – Reuniões e Convenções a) Vendor Name Vazio As despesas registradas nessa conta no montante de R$ 506.716,41, foram glosadas pela fiscalização por entender que os lançamentos não estavam embasados em documentação hábil e idônea. Referemse tais despesas a pagamento de cursos e seminários realizados no exterior. Apresentamse documentos relativos a pagamento de cursos (solicitação de pagamento, contrato de cambio e faturas dos prestadores) (doc.22). Fl. 16548DF CARF MF Impresso em 12/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/07/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 13896.722525/201337 Resolução nº 1402000.363 S1C4T2 Fl. 16.549 12 Informa que está levantando maiores informações sobre os cursos em questão e eventuais documentos comprobatórios que serão devidamente juntados aos autos tão logo sejam obtidos, para mostrar a improcedência dessa glosa questionada. b) Alocação aluguel Int e Patrícia de Paula C As despesas em questão, nos montantes de R$ 453.836,32 e R$ 31.314,52, foram glosadas pela fiscalização por entender que correspondem a lançamentos não embasados em documentação hábil e idônea. b1) Alocação Aluguel Int. A impugnante informa que está levantando maiores informações e documentação comprobatória dessas despesas que serão juntadas a estes autos, ocasião em que será demonstrada a total improcedência da glosa em questão. b2)Patrícia de Paula C Referemse a despesas de serviços de publicidade (mão de obra e confecção de painéis e outras mídias para comunicação) prestados pela empresa Devisu Criação e Comunicação Visual (Patrícia de Paula Com. Visual EPP) no âmbito de eventos realizados pela impugnante. c) Provisão Em que pese a nomenclatura “provisão”, as despesas glosadas registradas nessa conta no montante de R$ 1.652,00 correspondem a efetivas despesas incorridas pela Impugnante, que esta levantando documentos aptos a comprovar tal fato. d) Wal Mart Foram glosadas as despesas contabilizadas sob essa rubrica, no montante de R$ 365.400,10, por entender que referidos lançamentos não estavam embasados em documentação hábil e idônea. Referemse a pagamento de cursos e seminários realizados no exterior, (vide mais uma vez, o doc. 22 para documentação exemplificativa). Informa que serão juntados a estes autos tão logo sejam obtidos, ocasião em que será demonstrada a total improcedência da glosa em questão. e) Darf código 0473 Mais uma vez, a fiscalização glosou despesas alegando trataremse de multas indedutíveis, quando na verdade tratase apenas de pagamento de imposto. Darf de R$ 33.675,33 referese ao pagamento de Imposto de Renda Retido na Fonte no mês de setembro de 2009, conforme atesta o Darf e DCTF ora anexados (doc.20), que são dedutíveis de acordo com o art. 344 do RIR de 1996. Portanto requer o cancelamento desse item. V Conta contábil 4.2.1.04.015 – Auxilio Alimentação Relações Públicas a) Brindes Fl. 16549DF CARF MF Impresso em 12/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/07/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 13896.722525/201337 Resolução nº 1402000.363 S1C4T2 Fl. 16.550 13 Entendeu o fisco que as despesas incorridas pela recorrente com material promocional não seriam dedutíveis do Lucro tributável para apuração do IR e da CSLL. Todavia, essas despesas não se caracterizam como brindes, mas sim, propaganda, sendo absolutamente necessárias ao desenvolvimento da atividade social da impugnante, portanto, possibilitando a sua dedutibilidade, nos termos do art. 366 do RIR de 1999. É bastante amplo o instrumento da propaganda, na medida em que são inúmeras as formas pelas quais a marca da empresa ou um produto específico poderão ser divulgados com o fim de atrair consumidores para os seus produtos. São gastos constituídos não por mera liberalidade, mas dispêndios que tem a clara expectativa de retorno comercial. O objeto social da impugnante envolve importação, exportação, industrialização e comercialização, no atacado e no varejo de produtos em geral. Assim, tais gastos com materiais promocionais cedidos aos seus clientes têm o intuito de incrementar suas vendas. Por meio de propaganda divulga a seus potenciais clientes a boa qualidade dos produtos que coloca no mercado. Tratase de típica despesa necessária à manutenção da fonte produtora do rendimento, enquadrandose na condição prevista no art. 366 do RIR de 1999. As despesas enquadramse perfeitamente na condição prevista no art. 366 do RIR de 1999 que permite a dedução. Além disso, o inciso VII do art. 13 da Lei nº 9.249, de 1995 foi introduzido no ordenamento jurídico com o intuito de afastar a dedutibilidade de gastos incorridos pelos contribuintes em que absolutamente nada coadunam com suas atividades, ou seja, gastos não vinculados à operacionalidade de seu objeto social. É o caso de despesas com brindes, que não devem ser confundidas com as despesas de propaganda. Há de se fazer distinção entre brinde e material promocional para fins de dedução da base de cálculo da CSLL. Se mantida a adição, a tributação deixará de incidir sobre o lucro da impugnante para recair sobre seu patrimônio, o que é absolutamente inconstitucional. Qualquer adição indevida à base de cálculo do IRPJ e CSLL, contraria o disposto nos arts. 153, III e 195, I da Constituição Federal, pois não se estaria tributando Renda mas representará ilegítima instituição de empréstimo compulsório, em desacordo com o disposto no art. 148 da CF. b) Contribuição e Patrocínio Foram glosadas duas despesas decorrentes de pagamentos para as empresas Difusão Editora e Valor Econômico S/A, no valor total de R$ 89.000,00. A fiscalização limitouse a expor que o artigo 13 da Lei nº 9.249, de 1996 excluiu a maioria das contribuições e doações na dedução do lucro real. Em momento algum enquadrou as despesas incorridas pela impugnante em qualquer das condutas expostas no referido art. 13. Essas enquadramse no art. 368 do RIR de 1999, que dispõe que poderão ser deduzidos os gastos incorridos, com a formação profissional de empregados. Referemse as despesas a cursos/seminários pagos pela impugnante aos seus funcionários, inclusive do “III Seminário Créditos de Carbono e Mudanças Climáticas”. Essas despesas são necessárias e usuais para seu negócio de maneira que são revertidas em seu próprio beneficio. Fl. 16550DF CARF MF Impresso em 12/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/07/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 13896.722525/201337 Resolução nº 1402000.363 S1C4T2 Fl. 16.551 14 c) Wal Mart As despesas contabilizadas sob essa rubrica, no montante de R$ 117.794,41, foram glosadas pela Fiscalização por ter entendido que tais despesas não estavam embasadas em documentação hábil e idônea. Informa a impugnante que tão logo sejam obtidos, os documentos necessários para comprovar tais despesas, serão devidamente juntados aos autos, ocasião em que será demonstrada a total improcedência da glosa em questão. VI. Despesas operacionais – Provisões a) considerações iniciais De acordo com a Fiscalização, durante o ano de 2009 foram contabilizadas diversas provisões que teriam reduzido o resultado tributável, sem ter efetuado as adições correspondentes para determinação da base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Tal conclusão é improcedente, eis que se baseia em uma simples análise que não levou em conta peculiaridades da contabilidade da empresa. A fim de demonstrar tal fato, fazse necessário tecer algumas considerações iniciais sobre a forma de contabilização de provisões adotada pela impugnante. A impugnante adota uma metodologia distinta: Ela efetua as adições e exclusões de valores provisionados com base nas contas de passivo (nas quais as provisões foram originalmente constituídas), em decorrência de certas limitações de seus sistemas contábeis. Tais adições e exclusões são efetuadas com base nas alterações no saldo das contas de passivo. Ou seja, se em um mesmo período há constituição e reversão de provisão a impugnante exclui ou adiciona o valor líquido das operações à base de calculo do IRPJ e da CSLL. Isso ocorre porque, muitas vezes, as contas de resultado da Impugnante registram diversos valores objeto de reclassificação contábil, que não geram efeitos no resultado da empresa e, portanto, não devem ser adicionados. Mais ainda, por vezes, tais contas de resultado registram também despesas efetivas (em que pese o fato de tais contas adotarem a nomenclatura "provisão"). Frisese que a metodologia adotada pela Impugnante (adição/exclusão das despesas/receitas de provisão pelo saldo da conta de passivo) não diminui a base tributável apurada. Isto porque a contas contém reclassificações de contas contábeis “(despesas cujo efeito foi anulado por um crédito no mesmo valor)” e despesas efetivas, não relacionadas à constituição de provisão. Como se demonstrará, o montante que efetivamente corresponde às provisões constituídas no ano de 2009 foram integralmente adicionadas ao resultado, com base nas alterações dos saldos das contas de passivo. b) Contas 4.2.1.01.017 – Despesas administrativas, 4.2.1.04.036 – Provisão para contingências e 4.2.1.01.154 Provisão para contingências trabalhistas. O número Batch é de controle dos lançamentos contábeis efetuados pela impugnante sem seu sistema de contabilidade. Os lançamentos indicados na cor Fl. 16551DF CARF MF Impresso em 12/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/07/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 13896.722525/201337 Resolução nº 1402000.363 S1C4T2 Fl. 16.552 15 amarela indicam os valores que efetivamente equivalem a provisões e que foram devidamente adicionados à base de calculo do IRPJ e da CSLL. Houve reclassificações contábeis. Como exemplo reproduzese abaixo o quadro originalmente apresentado no doc. 1023, “no qual se pode verificar que o valor de R$ 1.264.474,21, objeto de glosa fiscal, é, em parte, contrapartida de lançamento de R$ 612.490.41, que corresponde a uma efetiva provisão.” Conta 4.2.1.01.017 – Despesas administrativas a) despesas de juros despesas efetivas, passíveis de exclusão das bases de cálculo do IRPJ e CSLL; e b) Reclassificações contábeis para as contas 4.2.1.04.036 e 4.2.1.01.155. Notese que os valores em questão não produziram efeito nenhum no resultado da Impugnante, eis que as despesas em questão foram anuladas por meio de créditos nas contas 4.2.1.04.036 e 4.2.1.01155. Como se verifica, parcela dos valores glosados pela Fiscalização nesta conta foi reclassificada para as contas 4.2.1.04.036 e 4.2.1.01.155 – sendo que a primeira foi novamente glosada (como se verá seguir) e a segunda foi integralmente aceita pela Fiscalização. Conta 4.2.1.04.036 – Provisão para contingências Da análise do quadro resumo contido no Doc. 10 e abaixo transcrito, verificase que, o valor de R$ 1.956.905,21, objeto de glosa fiscal, é na realidade, contrapartida de lançamentos a crédito efetuados nas contas de passivo 2.2.3.02.007 e 2.2.3.02.006, que foram devidamente adicionadas às bases do IRPJ e da CSLL. Conta Conta SPED Account Name Montante 441 2.2.3.02.007 PROVISÃO P CONTINGÊNCIAS T 2.910.109,38 438 2.2.3.02.006 PROVISÃO PARA CONTINGÊNCIAS 332.712,94 937 4.2.1.04.036 PROVISÃO PARA CONTINGÊNCIAS 1.956.905,21 1083 4.2.1.02.011 DESPESAS COM JUROS 242.455,41 947 4.2.1.01.155 PROVISÃO PARA CONTINGÊNCIAS CIVIL 145.395,57 = 970 4.2.1.04.018 ACOES TRABALHISTAS 26.890,47 Fl. 16552DF CARF MF Impresso em 12/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/07/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 13896.722525/201337 Resolução nº 1402000.363 S1C4T2 Fl. 16.553 16 1051 4.2.1.04.036 PROVISÃO PARA CONTINGÊNCIAS 201.917,72 929 4.2.1.01.017 DESPESAS ADMINISTRATIVAS 669.257,94 Notese que os lançamentos efetuados nas contas 2.2.3.02.007 e 2.2.3.02.006 que foram adicionadas à base de cálculo do IRPJ e da CSLL têm também contrapartida em outras contas de provisão, bem como de despesas efetivas. Destaquese que a conta 4.2.1.04.036 apresenta registro de reversão de provisão no montante de R$ 136.979,06, sobre o qual a Impugnante deixa de comentar, eis que a exclusão da receita correspondente da base de cálculo dos tributos foi devidamente reconhecida pelo Fisco (conforme quadro na página 27 do TVF). Conta 4.2.1.01.154 Provisão para contingências trabalhista Da análise do quadro resumo abaixo transcrito, verificase que o valor de R$ 1.584.122,94 objeto de glosa fiscal, tem por contrapartida lançamentos a crédito efetuados na conta de passivo 2.2.3.02.007, que foram devidamente adicionados às bases de cálculo do IRPJ e da CSLL. Os valores remanescentes representam despesas efetivas de diversas naturezas (lançamentos individualizados no doc.9) reclassificados de acordo. Notese que, mais uma vez a reclassificação se deu por meio de um crédito efetuado em outras contas de resultados que eliminou o efeito original da despesa na conta questionada pela fiscalização. Como visto, parcela significativa dos valores glosados são contrapartidas de despesas efetivas (em que pese o fato de tais despesas terem sido levadas a resultado em conta com a denominação “provisão”), ou valores reclassificados, portanto revertidos sem efeitos legais no resultado da impugnante, fato que foi ignorado pelo Fisco. O montante remanescente que efetivamente corresponde a provisões e tem por contrapartida registros feitos na conta 2.2.3.02.007 foi devidamente adicionado à base de cálculo do IRPJ e da CSLL, com base nas alterações dos saldos das contas. A própria Fiscalização reconheceu que a Impugnante adicionou o montante de R$ 4.262.095,07. Referido montante equivale ao saldo da conta 2.2.3.02.007, na qual a Impugnante controla as provisões questionadas pela Fiscalização. Ou seja, a Impugnante adicionou o saldo da conta contábil o qual considera tanto as despesas de constituição de provisão quanto as receitas de reversão à base dos tributos em questão. Para demonstrar tal fato, a Impugnante apresenta o razão da conta 2.2.3.02.007 cujo saldo foi devidamente acrescido à base de cálculo do IRPJ e da CSLL (doc 12), bem como quadros contendo os lançamentos efetuados na referida conta (grifados em amarelo) (doe 13) e suas contrapartidas. Novamente, é possível fazer o cotejo entre os documentos com base nos Batch indicados. Fl. 16553DF CARF MF Impresso em 12/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/07/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 13896.722525/201337 Resolução nº 1402000.363 S1C4T2 Fl. 16.554 17 Resta, portanto, demonstrado o equívoco fiscal que glosou despesas efetivas e reclassificações contábeis, como se provisão fossem e a regularidade dos procedimentos adotados pela impugnante, que considerou tanto as despesas relativas à constituição de provisões quanto às receitas decorrentes da reversão de provisões na base de cálculo do IRPJ e da CSLL por ela devidos. Conta 4.2.1.01.051 – Recuperação Despesa Prop. Cooperada Ocorre que as despesas glosadas pela fiscalização, são na realidade despesas efetivas de propaganda e publicidade, totalmente dedutíveis nos termos da legislação vigente (art. 366 do RIR de 1999) e não simples provisões, as quais são dedutíveis, respeitado o regime de competência, ou seja, a despesa se reporta a um determinado mês, deve necessariamente ser contabilizada nesse mês. É sabido que a impugnante possui diversos anunciantes e tem significativas despesas de propaganda e publicidade. A empresa registra a despesa em sua contabilidade, com base na nota fiscal do fornecedor de serviço ou material. Ocorre que durante o ano de 2009, em razão de questões sistêmicas e de um complexo fluxo de aprovação de pagamentos, as supracitadas notas fiscais somente poderiam ser inseridas nos sistemas contábeis, após o decurso temporal, muitas vezes superior a um mês. Nesse contexto, uma nota emitida em janeiro, somente poderia ser registrada em fevereiro, sem violação ao princípio de competência. Problema sanado atualmente. Assim, a impugnante passou a elaborar mensalmente uma planilha na qual registrava as notas fiscais e documentos de cobrança que deveriam ser registrados por competência em um dado mês (“planilha NF”). Com base no somatório dos valores registrados nessas planilhas, passa a registrar uma “provisão” na conta de passivo nº 2.1.1.07.007. Do ponto de vista fiscal, essa “provisão” é dedutível, reconhecida por competência no período pertinente. Tais montantes poderiam ser reconhecidos como contas a pagar, mas não o são, unicamente por questões sistêmicas. No mês imediatamente posterior à constituição da referida “provisão” as notas fiscais são registradas no sistema gerando uma nova despesa. Porém o resultado dessa despesa é nulo, tendo em vista que a provisão constituída é revertida em outra conta de resultado, tendo por contrapartida lançamentos na conta de passivo n. 2.1.1.07.007. Uma última explicação deve ser feita: Em dezembro de 2009, a Impugnante reverteu a provisão constituida em novembro do mesmo ano (contabilizando, portanto, receitas decorrentes) e constituiu provisão relativa a janeiro de 2010 (contabilizando as despesas decorrentes). Considerando que a provisão constituída pela Impugnante foi superior à reversão no montante de R$ 1.648.374,13 e que o ano se encerrava, conservadoramente, adicionou o valor em questão à base de cálculo do IRPJ e CSLL apurados em 2009. Feitas essas considerações, a impugnante passa a demonstrar o quanto alegado. Para tanto, junta a estes autos cópia das Planilhas NF mensais, que listam as notas fiscais e documentos de cobrança que embasaram a contabilização da "provisão" (que, como já mencionado, corresponde a uma despesa efetiva de publicidade, reconhecida por competência) (doe. 14). Fl. 16554DF CARF MF Impresso em 12/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/07/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 13896.722525/201337 Resolução nº 1402000.363 S1C4T2 Fl. 16.555 18 Adicionalmente, a impugnante também traz a estes autos quadros contendo os lançamentos questionados pela fiscalização e suas respectivas contrapartidas, separados por Batch (doc. 15), acompanhado de quadro resumo, a exemplo do que foi feito no item anterior. Como se verifica da análise de cada quadro, os lançamentos glosados pela Fiscalização (marcados em verde) são valores debitados na conta de resultado n° 4.2.1.01.051, que têm, como contrapartida, valores creditados na conta de passivo n° 2.1.1.07.007 (estes lançamentos representam o valor efetivo da provisão e estão indicados em amarelo escuro), bem como reclassificações gerenciais creditadas em outras contas de resultado. É de se observar que referidas reclassificações acabam por anular parte da despesa registrada na conta 4.2.1.01.051. Ora, se a Impugnante contabiliza uma despesa de R$ 100,00, tendo por contrapartida uma receita de R$ 100,00, o efeito deste lançamento é nulo. Na prática, é o que ocorre ao somar tais reclassificações. Para demonstrar o alegado foi inserido na impugnação, o quadro demonstrativo à fl. 2795, relativo ao mês de janeiro de 2009. Portanto, desconsiderandose o montante de R$ 422.989,78, resta uma despesa de R$ 7.019.406,04 que tem como contrapartida o lançamento efetuado na conta 2.1.1.07.007 – devidamente levada a resultado. Situação similar se repete em todos os meses posteriores. Mais ainda, como se observa da análise do doc. 15, os lançamentos relativos a provisões registrados na conta 2.1.1.07.007 são efetuados mensalmente, sendo que, salvo pequenas variações observadas em alguns poucos meses, decorrentes de ajustes manuais, eles correspondem ao exato valor registrado mensalmente nas Planilhas NF. Demonstrado, portanto, que as despesas de constituição de "provisão" estão registradas na conta 2.1.1.07.007 e não na conta 4.2.1.01.051, como afirmado pela Fiscalização, sendo tais despesas, na verdade, contas a pagar que competem ao mês em que são reconhecidas contabilmente. Cabe agora demonstrar que cada valor debitado do resultado e registrado na conta 2.1.1.07.007 é revertido no mês seguinte, tendo por contrapartida um débito na referida conta de passivo e créditos em diversas contas de resultado. A partir da página 5 do Doe. 15, a Impugnante listou os lançamentos efetuados na conta 2.1.1.07.007, incluindo aqueles relativos às reversões de "provisão" (indicados em amarelo claro), bem como suas contrapartidas. Notese que a reversão efetuada em janeiro/2009 se refere à provisão constituída em dezembro/2008. A fim de demonstrar que a reversão equivale exatamente ao valor constituído no mês anterior, a Impugnante reproduziu quadro relativo aos lançamentos de 28.2.2009 (item 279 da impugnação). A conta de passivo 2.1.1.07.007 é debitada no exato montante da provisão constituída no mês anterior, 7.019.406,04, tendo por contrapartida créditos em diversas contas de resultado (receitas de reversão). O mesmo procedimento se repete nos meses posteriores. Ainda que o fisco entenda que os montantes registrados na conta 2.1.1.07.007 devam ser adicionados ao seu lucro tributável, não se pode deixar de Fl. 16555DF CARF MF Impresso em 12/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/07/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 13896.722525/201337 Resolução nº 1402000.363 S1C4T2 Fl. 16.556 19 reconhecer que as receitas de reversão também devem ser abatidas contra as receitas decorretes das reversões retromencionadas, que devem ser excluídas do mesmo lucro tributável. Portanto, demonstrada está a necessidade do cancelamento dessas glosas. Conta 4.2.1.01.119 Despesas não dedutíveis A conta em questão registra despesas no montante total de RS 3.332.071,86, sendo que a Fiscalização reconheceu que a Impugnante efetuou a adição de RS 1.303.882,72 ao seu lucro tributável. Nesse sentido, houve por bem o agente Fiscal adicionar a diferença apurada (RS 2.028.189,14) ao lucro tributável da Impugnante. Todavia, deixou de considerar que a referida conta de resultado registra despesas efetivas, totalmente passíveis de dedução. Como já mencionado anteriormente, o Fisco, ao analisar a conta 4.2.1.01.020, glosou despesas relativas a um Darf no montante e R$ 1.254.968,96 (código de recolhimento 1256). Ocorre que, como já demonstrado, referida despesa somente transitou por aquela conta, sendo posteriormente reclassificada para a conta 4.2.1.01.119 ora analisada. As mesmas razões justificam a dedutibilidade do valor de R$ 141.080,55. No que diz respeito aos valores remanescentes, a impugnante está buscando documentos aptos a comprovar a efetividade e dedutibilidade das despesas, que serão juntados tão logo sejam localizados. Contas 4.2.1.01.012 Despesas diversas e 4.2.1.01.066 Projetos não aprovados A Fiscalização houve por bem adicionar os saldos das contas contábeis 1.2.3.01.012 e 4.2.1.01066 nos montantes, respectivamente, de RS 12.972.699,89 e RS 5.158.648,64 (total de R$ 18.131.348,53) ao lucro tributável da Impugnante, por entenderem que referidas contas eram, na realidade, meras provisões e, portanto, indedutíveis. Todavia, novamente o Fisco incorreu em equívoco, pois as contas 4.2.1.01.012 e 4.2.1.01.066 registram não apenas provisões, mas despesas efetivas. Esclarece, que a parcela dos registros das contas que efetivamente corresponde a despesas de constituição de provisões foi devidamente acrescida à base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Ainda, que a exemplo do que ocorre com outras contas abordadas em tópicos anteriores, a empresa controla as adições e exclusões relativas à constituição de provisões com base na variação do saldo da conta de passivo que registra a provisão. No caso em tela, essas contas abordadas em tópicos anteriores a impugnante controla as adições e exclusões relativas à constituição de provisões, com base na variação do saldo da conta de passivo que registra a provisão. A fim de demonstrar o alegado produziu quadros explicativos às fls. 2799 e 2800 da impugnação. Como se verifica, do montante de R$ 18.131.348,53 adicionados ao lucro tributável da Impugnante, o montante de R$ 11.515.701,35 já havia sido adicionado pela Impugnante, por meio da conta 2.1.1.07.002. A análise dos razões das supracitadas contas (doe. 18), por meio da consulta aos lançamentos efetuados com os Fl. 16556DF CARF MF Impresso em 12/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/07/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 13896.722525/201337 Resolução nº 1402000.363 S1C4T2 Fl. 16.557 20 Batch indicados nos referidos quadros, demonstrará cabalmente a veracidade de todo o alegado. No que diz respeito aos valores remanescentes, esclarece a Impugnante que correspondem a despesas efetivas. A Impugnante está buscando maiores informações, bem como comprovação dos pagamentos. Tais documentos serão juntados a estes autos tão logo sejam localizados. Subsidiariamente – Necessidade de consideração da base negativa de CSLL de períodos anteriores O auto de infração também merece ser cancelado em razão de erro no critério quantitativo de apuração do valor devido. Isto porque ao apurar a contribuição, o Fisco não considerou a Base de Cálculo Negativa de períodos anteriores, da qual poderia compensar até 30% do lucro líquido ajustado, nos termos do art. 58 da Lei nº 8.981, de 1995. A jurisprudência do CARF é clara no sentido de que, ao lavrar auto de infração, a Fiscalização deve realizar de oficio a compensação dos prejuízos fiscais/base negativa de CSLL. Caso a D. Fiscalização tivesse procedido de acordo com a legislação, os valores de CSLL lançados teriam sido muito inferiores aos apurados, razão pela qual deve ser cancelado o presente auto de infração. Ilegalidade da incidência de juros Selic sobre a multa de ofício. Nos termos do que estabelece o artigo 61 da Lei n. 9.430/96, resta evidente que somente são admitidos os acréscimos moratórios referentes aos débitos decorrentes de tributos e contribuições, mas não sobre as penalidades pecuniárias. Assim, não há como se admitir a incidência de juros sobre a multa, na medida em que, por definição, se os juros remuneram o credor pela privação do uso de seu capital, eles devem incidir apenas sobre o que deveria ter sido recolhido no prazo legal e não foi. Isto é, o único pressuposto da cobrança dos juros decorre da não transferência voluntária e dentro do prazo legal do capital do contribuinte aos cofres públicos. Excetuandose essa situação, qualquer incidência de juros revelase abusiva e arbitrária, por ausência de seu pressuposto de fato, qual seja, a reposição de capital. Nesse sentido, é evidente que os juros não existem por si só e não podem ser aplicados aleatoriamente sobre qualquer evento. Decorrem, antes de tudo, de uma obrigação principal. O mesmo ocorre em relação à multa, que só será devida se existir uma obrigação anterior não quitada no prazo legal. Os juros não podem incidir sobre a multa, já que essa penalidade não retrata obrigação principal, mas sim encargo que se agrega ao valor da dívida, como forma de punir o contribuinte. Ademais, a aplicação de tal percentual, de forma ilimitada, sobre o principal e sobre a multa, acarreta verdadeira afronta ao principio constitucional do não confisco, bem como viola o direito de propriedade, já que faz incidir juros Fl. 16557DF CARF MF Impresso em 12/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/07/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 13896.722525/201337 Resolução nº 1402000.363 S1C4T2 Fl. 16.558 21 exorbitantes sobre o imposto devido e, ainda, sobre a multa aplicada ! Portanto, deve ser integralmente cancelado o auto de infração. Em face de todo o exposto, a Impugnante requer: a) Que seja o Auto de Infração julgado totalmente improcedente, cancelandose integralmente o crédito tributário por ele constituido. b) Subsidiariamente, caso não seja acolhido o pedido de cancelamento da autuação o que se admite a mero titulo argumentativo requer a Impugnante que seja afastada a incidencia de juros SELIC sobre a multa de oficio. c) Juntada de quaisquer outros documentos e informações que venham a corroborar com os fatos e argumentos descritos na presente Impugnação. d) Que todas as intimações e publicações relativas a este processo sejam efetuadas, exclusivamente, em nome das advogadas Raquel Cristina Ribeiro Novais e Daniella Zagari Gonçalves, inscritas na OAB/SP sob os n°s 76.649 e 116.343, respectivamente, com escritório localizado na Av. Brigadeiro Faria Lima, 3144, 8o andar, São Paulo, SP. Juntou à impugnação: “Lista de documentos” (via física): DOC. 1 Cartão do CNPJ DOC. 2 Documentos Societários DOC. 3 Procurações e documentos dos advogados DOC. 4 Auto de Infração DOC. 22 Cursos no exterior: solicitações de pagamento, contrato de câmbio e faturas dos prestadores “Lista de documentos” – CDROM: DOC. 5 Exemplo de Solicitação de Viagem DOC. 6 Razão contábil da conta 4.2.1.01.020 DOC. 7 Cópia de notas fiscais emitidas pela empresa Devisu Criação e Comunicação Visual (Patricia de Paula Com. Visual EPP) DOC. 8 Planilha exemplificativa: lançamentos efetuados na conta 4.2.1.01.008 DOC. 9 Quadros com lançamentos contábeis efetuados nas conta 2.1.01.017, 4.2.1.04.036 e 4.2.1.01.154 DOC. 10 Resumo des lançamentos contábeis efetuados nas conta: 2.1.01.017, 4.2.1.04.036 e 4.2.1.01.154 DOC. 11 Razões contábeis das contas 4.2.1.01.017, 4.2.1.04.036 e 4.2.1.01.154 DOC. 12 Razão contábil da conta 2.2.3.02.007 Fl. 16558DF CARF MF Impresso em 12/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/07/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 13896.722525/201337 Resolução nº 1402000.363 S1C4T2 Fl. 16.559 22 DOC. 13 Quadro de lançamentos contábeis da conta 2.2.3.02.007 DOC.14 Planilhas mensais listando as notas fiscais consideradas na efetivação dos lançamentos efetuados na Conta 4.2.1.01.05 DOC. 15 Quadros com os lançamentos efetuados na Conta 4.2.1.01.051 DOC. 16 Razões das contas 2.1.1.07.007, 4.2.1.01.051 e outras contas de resultado. DOC. 17 Razão contábil da conta 4.2.1.01.119. DOC. 18 Razões contábeis das contas 4.2.1.01.012 e 4.2.1.01.066 e 2.1.1.07.00. DOC. 19 DARF Código 1256 no valor de R$ 1.254.968,96 DOC. 20 DARF Código 0473 no valor de R$ R$ 33.675,33 DOC. 21 Fatura de Serviços Valor Econômico. A 3ª Turma da DRJ em Ribeirão Preto, em análise da impugnação apresentada, julgoua procedente em parte, tendo a decisão recebido a seguinte ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2009 DEDUTIBILIDADE DE CUSTOS E DESPESAS. A dedutibilidade de custos e despesas na determinação da base de cálculo do imposto somente é possível se prevista na legislação e devidamente comprovada. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2009 DEDUTIBILIDADE DE CUSTOS E DESPESAS. A dedutibilidade de custos e despesas na determinação da base de cálculo da contribuição somente é possível se prevista na legislação e devidamente comprovada. COMPENSAÇÃO DE BASE DE CÁLCULO NEGATIVA. Retificase o lançamento para levar a efeito no cálculo da CSLL devida a compensação de Base de Cálculo Negativa de períodos anteriores efetuada pelo Fisco, mas não considerada na determinação de seu valor. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2009 JUNTADA POSTERIOR DE DOCUMENTAÇÃO. O protesto pela juntada posterior de documentação não obsta a apreciação da impugnação, e ela só é possível em casos especificados na lei. SOLICITAÇÃO DE DILIGÊNCIA. O pedido de diligência deve ser considerado não formulado, por não ter sido regularmente formalizado, além de inexistir justificativa para sua realização. Fl. 16559DF CARF MF Impresso em 12/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/07/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 13896.722525/201337 Resolução nº 1402000.363 S1C4T2 Fl. 16.560 23 INTIMAÇÃO. ENDEREÇAMENTO. Feita a eleição pelo sujeito passivo do domicilio tributário, não se admite domicílio especial no processo administrativo. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2009 INCONSTITUCIONALIDADE. É competência atribuída, em caráter privativo, ao Poder Judiciário pela Constituição Federal, manifestarse sobre a constitucionalidade das leis, cabendo à esfera administrativa zelar pelo seu cumprimento. JUROS DE MORA. INCIDÊNCIA SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. A incidência de juros de mora sobre a multa de ofício, após o seu vencimento, tem previsão legal. Em resumo, a decisão de primeira instância somente cancelou parcela de CSLL decorrente da compensação de 30% de CSLL com bases negativas de períodos anteriores não levadas em consideração pela autoridade lançadora. O contribuinte foi cientificado da decisão em 10 de fevereiro de 2015, uma terçafeira (fls. 16.35716.358), apresentando recurso voluntário de fls. 16.38416.453 em 12 de março de 2015, uma quintafeira. Aduz a Recorrente que a DRJ se limitou a analisar superficialmente as alegações contidas na impugnação, sem levar em consideração a documentação acostada aos autos em total afronta aos princípios da ampla defesa e do contraditório. Em sede preliminar requer, assim, a declaração de nulidade da decisão recorrida, nos seguintes termos: em razão da gama de documentos que necessitava para comprovar a dedutibilidade das despesas glosadas, a Recorrente anexou documentos não só na impugnação apresentada, mas também em momento posterior, mas ainda antes da prolação da decisão recorrida; a DRJ entendeu por bem não analisar tal documentação em razão da preclusão prevista no art. 4º do art. 16 do Decreto nº 70.235/72, o que estaria em total descompasso com a jurisprudência do CARF; alega, contudo, que diversos documentos apresentados na impugnação também teriam sido absolutamente ignorados pela DRJ, uma vez que a decisão recorrida, em diversos pontos, teria mantido a glosa em razão da não apresentação de documentos por parte da Recorrente, mesmo em diversos casos em que a documentação fora apresentada em sede de impugnação; a turma julgadora de primeira instância teria desqualificado as provas apresentadas pela Recorrente ao afirmar que “alegar genericamente e simplesmente juntar Fl. 16560DF CARF MF Impresso em 12/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/07/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 13896.722525/201337 Resolução nº 1402000.363 S1C4T2 Fl. 16.561 24 papéis ou demonstrativos não é provar”, embora a Recorrente tivesse, a seu ver, vinculado os documentos à matéria que se referiam. No mérito, em resumo, assim se manifesta a Recorrente: Conta Contábil 4.2.1.01.001 – Despesas com Seguros a) Seguro aeronave (R$ 107.591,20): não se questiona a efetividade da despesa, mas sim se seria ou não dedutível. Aduz a Recorrente que de que a conclusão da Fiscalização e da DRJ de que o uso dos aviões seriam quase que estritamente particular, desvinulado do objeto social da empresa e de que a despesa não estaria intrinsecamente relacionada com a produção ou comercialização não estaria embasa por qualquer documentação ou informação mais detalhada contraria a jurisprudência do CARF, a qual indica que competiria ao Fisco fazer prova dessa alegação. Segundo a Recorrente do doc. 5 juntado à impugnação demonstraria o controle que possuía sobre a utilização da aeronave, que teria sido utilizada somente com fins corporativos; b) MTR Transfer (R$ 7.653,41): alega que as despesas registradas sob esta rubrica decorre de meros ajustes contábeis realizados, com subsequente crédito na conta de despesa original (eliminando a despesa inicialmente contabilizada) e débito na conta questionada. Aduz que não foi possível juntar a documentação aos autos em razão de sua antiguidade, bem como pelo envolvimento de grande volume de documentos; c) Despesas com Seguros Pessoa Física (R$ 532.167,35): referemse a reembolsos e indenizações concedidos a clientes em decorrência de furtos e danos ao patrimônio, sofridos por eles nas dependências da Recorrente. Segundo a decisão recorrida “foram apresentados formulários internos de controle da área de contabilidade e de contas a pagar, os quais indicam em seu corpo que se referem basicamente a reembolsos por furto de veículos, CD player, estepes etc. Não apresentou durante a ação fiscal, nem no prazo para impugnação, documentos que comprovassem a necessidade dessa despesa, valor exigido por terceiro, caracterizando mera liberalidade. Assim, não se pode conceituar tal despesa como dedutível, necessária à atividade da empresa como definido no art. 299 do RIR de 1999”. Contudo, entende a Recorrente que os documentos já apresentados durante o procedimento fiscal são aptos a comprovar a dedutibilidade de tais despesas; Conta Contábil 4.2.1.01.008 – Despesas de Viagens a) Fretamento Oceanair Táxi Aéreo e Líder Táxi Aéreo (R$ 105.062,50): despesas pagas a Oceanair Táxi Aéreo se referem a fretamento de aeronovaves, o que seria normal para a atividade desenvolvida, em especial para o deslocamento de associados/diretores e empregados. Quanto aos valores pagos à Líder Táxi Aéreo diriam respeito a manutenção da aeronave própria, e não à fretamente, conforme alegou a Fiscalização. Alega que a DRJ manteve a glosa analisando Fl. 16561DF CARF MF Impresso em 12/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/07/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 13896.722525/201337 Resolução nº 1402000.363 S1C4T2 Fl. 16.562 25 superficialmente as provas e suas alegações, o que implicaria nulidade do lançamento. b) MTR Transfer, Weekly Cash Report e Vendor Name Vazio MTR Transfer (R$ 255.644,77): diria respeito à reclassificações contábeis, o que a Recorrente entende já ter demonstrado sua correição; Weekly Cash Report (R$ 3.076.979,88): despesas se referem a gastos efetuados com recursos do caixa de cada uma das lojas da Impugnante. Diriam respeito a reembolsos e pagamentos referentes a despesas de viagens profissionais realizadas por empregados dos estabelecimentos da Impugnante (visitas a outras lojas, deslocamentos para reuniões dentre outras situações). Não houve apresentação de documentação; Vendor Name Vazio (R$ 1.868.560,45): Recorrente alega que se trata de despesas préoperacionais e que foram contabilizadas em conta de despesa mas teria havido créditos nos mesmos valores nessa mesma conta, sendo a contrapartida conta de ativo diferido (1.1.9.01.014 – despesas préoperacionais). A DRJ teria baseado seu voto na ausência de apresentação de documentos, mas não teria analisado a questão dos lançamentos a crédito que anulariam os efeitos na determinação do lucro líquido do período e, consequentemente, da apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL; c) Provisão (R$ 18.621,59): argumenta a Recorrente que os valores em questão foram adicionados na apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL. Esclarece que seria a conta 2.1.1.07.002 que determinaria quais valores deveriam ser adicionados ou excluídos das bases de cálculo dos tributos; Despesas Legais (conta 4.2.1.01.020) a) MTR Transfer (R$ 27.640,54): diria respeito à reclassificações contábeis, o que a Recorrente entende já ter demonstrado sua correição; b) Darf código 1256 e Multas fiscais (R$ 1.254.968,96 – Refis IV e de R$ 141.080,55 relativo a multas fiscais): para a Fiscalização e a decisão recorrida, o DARF teria sido utilizado para pagamento de multa de ofício e juros de mora no âmbito do “Refis IV”, o que implicaria ofensa ao art. 344 § 5º do RIR/99 dispõe que "não são dedutíveis como custo ou despesas operacionais as multas por infrações, salvo as de natureza compensatória e as impostas por Infrações de que não resultem falta ou insuficiência de pagamento de tributo (Lei n° 8.981, de 1995, art. 41, §5°)". Para a Recorrente, a decisão seria nula por não analisar os lançamentos realizados a crédito nesta mesma conta, em contrapartida para outra conta de despesa também glosada (4.2.1.01.119), o que implicaria dupla glosa. A comprovação dos lançamentos a crédito em tal Fl. 16562DF CARF MF Impresso em 12/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/07/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 13896.722525/201337 Resolução nº 1402000.363 S1C4T2 Fl. 16.563 26 conta teriam sido comprovadas mediante cópia dos lançamentos realizados (doc. 5 da impugnação). Relativamente à glosa de R$ 141.080,55, os motivos da DRJ para manutenção do lançamento foram os mesmos relativos ao outro DARF. Em primeiro lugar, explica a Recorrente que houve erro de contabilização, sendo debitada a conta referente a multas fiscais. Contudo, salienta a Recorrente que nesse caso ocorreu a mesma omissão no julgado relativa: creditouse a conta de despesa e a contrapartida deuse em outra conta de despesa também glosada pela Fiscalização, ou seja, novamente teria ocorrido a dupla glosa. A comprovação dos lançamentos a crédito em tal conta teriam sido comprovadas mediante cópia dos lançamentos realizados (doc. 5 da impugnação). Além disso, salienta que o DARF foi utilizado para pagar tributo com os benefícios previstos na Lei nº 11.941/2009 (“Refis IV”). Argumenta que nos termos do art. 1º, §§ 7º e 8º de que trata dessa lei, o contribuinte poderia pagar à vista seus débitos e liquidar multas e juros com prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa de CSLL. Esclarece que a multa e os juros são extintos com utilização de prejuízos fiscais, e não por meio de pagamento de DARF. O DARF em questão teria sido utilizado para quitação do principal, ou seja, do tributo em que multa e juros teriam sido quitados com utilização de prejuízo fiscal e base negativa de CSLL. De toda forma, salienta que o tributo pago seria dedutível, assim como a multa e os juros de mora correspondentes; c) Despesas Bancárias: aduz a Recorrente que o gasto em contratos de fiança bancária são necessários para garantia de futuras execuções fiscais que serão alvo de embargos à execução, sendo essencial manter sua regularidade fiscal. Em razão disso se tratariam de despesas necessárias, usuais e normais em suas atividades não podendo ser mantida a glosa com base no fundamento utilizado pela DRJ no sentido de que tais despesas não devem ser classificadas como operacionais por não serem gastos com a operação e manutenção da capacidade de produção da empresa, mas gastos com a estrutura de capital; d) Provisão: a decisão recorrida não teria enfrentado a questão, sendo necessária a declaração de sua nulidade. De toda forma, argumenta a Recorrente que os valores em questão foram adicionados na apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL. Esclarece que seria a conta 2.1.1.07.002 que determinaria quais valores deveriam ser adicionados ou excluídos das bases de cálculo dos tributos; Conta Contábil 4.2.1.01.075 – Reuniões e Convenções a) Vendor Name Vazio (R$ 506.716,41): segundo a Recorrente as despesas seriam decorrentes de ao pagamento de cursos e seminários realizados no exterior. A decisão recorrida informa que não foram apresentados documentos. Já a Recorrente alega que os documentos foram apresentados junto à impugnação (doc. 22); b) Alocação aluguel Int e Patrícia de Paula C (R$ 453.886,32 e R$ 31.314,52): a glosa foi realizada e mantida pela DRJ por não terem sido Fl. 16563DF CARF MF Impresso em 12/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/07/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 13896.722525/201337 Resolução nº 1402000.363 S1C4T2 Fl. 16.564 27 apresentados os documentos comprobatórios. Segundo a Recorrente, os documentos comprobatórios das despesas referentes a “Alocação Aluguel Int.” (R$ 453.886,32 ) estariam à disposição da Fiscalização caso se entenda necessária a realização de diligência. No que atine a pagamentos realizados a “Patrícia de Paula C” (R$ 31.314,52), diriam respeito a a serviços de publicidade. Alega a Recorrente que anexou à impugnação cópia de parcela significativa das notas fiscais emitidas pelo prestador de serviço (doc. 7 da impugnação), mas não teriam sido analisadas pela decisão de primeira instância. Pede a declaração de nulidade da decisão de piso, ou, se for o caso, a sua análise por este colegiado; c) Provisão (R$ 1.652,00): a Recorrente informa que os documentos estão à disposição da Fiscalização em caso de realização de diligência; d) WalMart (R$ 365.400,10): segundo a Recorrente as despesas seriam decorrentes de ao pagamento de cursos e seminários realizados no exterior. A decisão recorrida informa que não foram apresentados documentos. Já a Recorrente alega que os documentos foram apresentados junto à impugnação (doc. 22); e) Darf código 0473 (R$ 33.675,33): a decisão recorrida afirma que por se tratar de recolhimento de imposto de renda retido na fonte, ou seja, recolhido na condição de responsável, tal valor não seria dedutível. Já a Recorrente afirma que o § 3º do art. 344 do RIR/99 lhe permite deduzir como despesa o imposto de renda retido na fonte; Conta Contábil 4.2.1.104.015 – Auxílio Alimentação Relações Públicas a) Brindes (R$ 59.299,11): a decisão recorrida entende que a confecção de porta retrato, móbiles e cartas se caracterizaria como brinde, e, portanto, tais despesas seriam indedutíveis em face do disposto no inciso VII do art. 13 da Lei nº 9.249/95. Já a Recorrente aduz que se tratariam de despesas de propaganda. A esse respeito, a decisão recorrida argumenta que ainda que fossem despesas de propaganda, elas não estariam destacadamente relacionadas em conta própria conforme impõe o § 3º do art. 366 do RIR/99; b) Contribuição e Patrocínio (R$ 89.000,00): a Recorrente afirma que se trata de despesa com cursos/seminários pagos para seus funcionários. A DRJ entende que não resta caracterizada tal situação, tratandose de contribuições não compulsórias, indedutíveis por força do disposto no inciso V do art. 13 da Lei nº 9.249/95; c) WalMart (R$ 117.794,41): a decisão recorrida conclui que não houve apresentação de documentos que comprovassem tais despesas. Já a Recorrente, por sua vez, informa que os documentos estão à disposição da Fiscalização em caso de realização de diligência; Despesas Operacionais Provisões Fl. 16564DF CARF MF Impresso em 12/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/07/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 13896.722525/201337 Resolução nº 1402000.363 S1C4T2 Fl. 16.565 28 Contas 4.2.1.01.017 – Despesas administrativas, 4.2.1.04.036 – Provisão para contingências e 4.2.1.01.154 Provisão para contingências trabalhistas; Conta 4.2.1.01.017 – Despesas administrativas; Conta 4.2.1.04.036 – Provisão para contingências; Conta 4.2.1.01.154 Provisão para contingências trabalhista; Conta 4.2.1.01.051 – Recuperação Despesa Prop. Cooperada; Conta 4.2.1.01.119 Despesas não dedutíveis; Contas 4.2.1.01.012 Despesas diversas e 4.2.1.01.066 Projetos não aprovados para todas essas contas a DRJ concluiu que os demonstrativos elaborados pela Recorrente nada provam e que não foram apresentados no prazo de impugnação qualquer documentação que pudesse comprovar a dedutibilidade das despesas em questão, ou, ainda que parte dessas tivessem sido adicionadas na apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL. A Recorrente alega que em razão de limitações em seu sistema contábil, efetua o controle das contas de provisão pelo resultado líquido entre créditos (constituição da provisão) e débitos (reversão da provisão) realizados em determinado período, adicionando o valor líquido das operações à base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Além disso, vários outros valores glosados pela Fiscalização teriam sido creditados e revertidos para outras contas de despesa, ou ainda tinham como contrapartida outra conta de resultado, ou seja, seriam nulas para fim de apuração do lucro líquido. Especificamente em relação à conta 4.2.1.01.051 – Recuperação Despesa Prop. Cooperada (R$ 90.809.148,98 de despesas contabilizadas e, de acordo com a Fiscalização, somente adicionados R$ 1.648.374,13), aduz a Recorrente que não se tratava de provisão, mas sim de despesas efetivas de propaganda. A esse respeito foram anexadas às fls. 16.36016.380 petição e documentos complementares protocolados após o prazo fatal para apresentação de impugnação que comprovariam suas alegações, documentos esses não analisados pela DRJ, conforme já relatado. Em razão disso, requer a nulidade da decisão de primeira instância. a Recorrente pugna, subsidiriamente, pela necessidade de consideração da base negativa de CSLL de períodos anteriores, matéria objeto de recurso de ofício; questionase ainda a cobrança de juros moratórios sobre a multa de ofício. É o relatório. Fl. 16565DF CARF MF Impresso em 12/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/07/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 13896.722525/201337 Resolução nº 1402000.363 S1C4T2 Fl. 16.566 29 Voto Conselheiro FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Relator. O recurso voluntário é tempestivo e preenche os demais pressupostos de admissibilidade, dele, portanto, tomo conhecimento. Alega a Recorrente que a decisão de primeira instância seria nula. A primeira razão em que se apoia a Recorrente foi o fato de a decisão de piso não ter apreciado documentos acostados após o prazo para apresentação de impugnação. Embora, de fato, a jurisprudência dominante no CARF indique que, em face do princípio da verdade material, os documentos deveriam ser analisados mesmo que apresentados após o prazo para a impugnação, não há como inquinar de nula a decisão recorrida por fundamentar seu entendimento no disposto no art. 4º do art. 16 do Decreto nº 70.235/72. Caso este colegiado entenda que os documentos devem ser apreciados, assim o fará o relator, ou, se for o caso, a unidade de origem em face de eventual conversão do julgamento em diligência. O segundo motivo que fundamenta o pedido de nulidade da decisão de primeira instância seria a análise superficial das provas. Entendo que, uma vez feita a análise de provas, não há que se falar em nulidade da decisão. A decisão pode estar até incorreta, mas tal conclusão adviria de nova análise, por este colegiado, do conjunto probatório constante nos autos, ou seja, essa questão está ligada ao mérito da exigência e será analisada oportunamente. O terceiro motivo diz respeito à ausência de análise de alguns de seus argumentos, relativamente a algumas infrações, ou até mesmo análise quanto à infração propriamente dita. Passo a analisar cada um dos pontos indicados. Conta Contábil 4.2.1.01.008 – Despesas de Viagens [...] b) MTR Transfer, Weekly Cash Report e Vendor Name Vazio [...] Vendor Name Vazio (R$ 1.868.560,45): Recorrente alega que se trata de despesas préoperacionais e que foram contabilizadas em conta de despesa, mas teria havido créditos nos mesmos valores nessa mesma conta, sendo a contrapartida conta de ativo diferido (1.1.9.01.014 – despesas préoperacionais). A DRJ teria baseado seu voto na ausência de apresentação de documentos, mas não teria analisado a questão dos lançamentos a crédito que anulariam os efeitos na determinação do lucro líquido do período Fl. 16566DF CARF MF Impresso em 12/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/07/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 13896.722525/201337 Resolução nº 1402000.363 S1C4T2 Fl. 16.567 30 e, consequentemente, da apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL; Analisando a questão, de fato, a decisão recorrida limitouse a verificar se havia ou não documentos que comprovassem a dedutibilidade dos valores lançados a débito em tal conta. Não há qualquer pronunciamento a respeito do argumento da Recorrente de que não houve efeito na apuração do lucro líquido (e, consequentemente, do lucro real e da base de cálculo da CSLL) em razão dos lançamentos realizados a crédito dessa mesma conta (tendo como contrapartida uma conta de ativo a ser amortizada oportunamente 1.1.9.01.014 – despesas préoperacionais). Vejase a decisão da DRJ em relação ao tema: Alegou que se referem a despesas no valor de R$ 1.868.560,43, relativas à contabilização de despesas préoperacionais incorridas por lojas em construção. A fiscalização efetuou a glosa por entender que não estariam amparadas por documentação hábil e idônea, mas estas teriam sido integralmente revertidas por lançamentos a crédito na mesma conta questionada pela fiscalização. Não poderiam ter sido glosadas em razão de que não produziram efeito algum no resultado. A glosa implicaria tributação em duplicidade dos valores questionados. Aduziu que registrava tais despesas em conta de resultado e depois eram reclassificadas para conta do ativo diferido. Explicou que a conta 4.2.1.01.008 registra todas as despesas de viagens (considerando todos os seus estabelecimentos). Ocorre que, na conta contábil 4.2.1.01.008 Despesas de Viagens constam lançamentos cujo histórico se refere a pagamentos a "MTR Transfer" e "Weekly Cash Report", e também com históricos ou "Vendor Name" sem a descrição dos beneficiários destes pagamentos referentes a estas despesas operacionais. Nos Termos de Intimação n° 4 e n° 7, e no Termo de Constatação e Intimação Fiscal foram solicitados documentos por amostragem referentes a estes lançamentos sem discriminação, e não foram apresentados, razão pela qual foram glosadas as despesas correspondentes, pois conforme legislação em vigor, as despesas operacionais devem estar devidamente suportadas por documentos hábeis e idôneos a comprovarem a sua natureza, a identidade do beneficiário, a quantidade, o valor da operação (RIR/1999). Os valores glosados estão demonstrados na Planilha 5 Anexo 2 Despesas de Viagens MTR Transfer, Planilha 6 Anexo 2 Despesas de Viagens Weekly Cash Report e Planilha 7 Anexo 2 Despesas de Viagens Vendor Name Vazio. Por esse motivo foram adicionados na apuração do lucro real e base de cálculo da CSLL. Não apresentados durante a fiscalização, tampouco com a impugnação, os documentos necessários a comprovar a dedutibilidade dessas despesas, deve ser mantido o lançamento. Conforme se observa a DRJ analisou se haveria documentos hábeis a comprovar a dedutibilidade das despesas. Contudo, se realmente os lançamentos a débito realizados pela Recorrente na conta de despesa foram seguidos de lançamentos a créditos nesta mesma rubrica, nos mesmos valores, para ativação de despesas préoperacionais, como argumenta a Recorrente, a exigência correspondente não poderia subsistir. A esse respeito, contudo, a decisão recorrida é silente. Fl. 16567DF CARF MF Impresso em 12/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/07/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 13896.722525/201337 Resolução nº 1402000.363 S1C4T2 Fl. 16.568 31 Por essa razão, entendo que a decisão de primeira instância deve ser parcialmente anulada, devendo a turma julgadora a quo proferir decisão complementar a fim de analisar tal argumento entabulado pela então impugnante. Despesas Legais (conta 4.2.1.01.020) [...] b) Darf código 1256 e Multas fiscais (R$ 1.254.968,96 – Refis IV e de R$ 141.080,55 relativo a multas fiscais): para a Fiscalização e a decisão recorrida, o DARF teria sido utilizado para pagamento de multa de ofício e juros de mora no âmbito do “Refis IV”, o que implicaria ofensa ao art. 344 § 5º do RIR/99 dispõe que "não são dedutíveis como custo ou despesas operacionais as multas por infrações, salvo as de natureza compensatória e as impostas por Infrações de que não resultem falta ou insuficiência de pagamento de tributo (Lei n° 8.981, de 1995, art. 41, §5°)". Para a Recorrente, a decisão seria nula por não analisar os lançamentos realizados a crédito nesta mesma conta, em contrapartida para outra conta de despesa também glosada (4.2.1.01.119), o que implicaria dupla glosa. A comprovação dos lançamentos a crédito em tal conta teria sido demonstrada mediante cópia dos lançamentos realizados (doc. 5 da impugnação). Relativamente à glosa de R$ 141.080,55, os motivos da DRJ para manutenção do lançamento foram os mesmos relativos ao outro DARF. Em primeiro lugar, explica a Recorrente que houve erro de contabilização, sendo debitada a conta referente a multas fiscais. Contudo, salienta a Recorrente que nesse caso ocorreu a mesma omissão no julgado relativa: creditouse a conta de despesa e a contrapartida deuse em outra conta de despesa também glosada pela Fiscalização, ou seja, novamente teria ocorrido a dupla glosa. A comprovação dos lançamentos a crédito em tal conta teriam sido comprovadas mediante cópia dos lançamentos realizados (doc. 5 da impugnação). d) Provisão: a decisão recorrida não teria enfrentado a questão, sendo necessária a declaração de sua nulidade. De toda forma, argumenta a Recorrente que os valores em questão foram adicionados na apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL. Esclarece que seria a conta 2.1.1.07.002 que determinaria quais valores deveriam ser adicionados ou excluídos das bases de cálculo dos tributos. Vejase a decisão da DRJ em relação à questão dos DARF: Darf código 1256 e Multas fiscais. A contribuinte contestou a glosa de despesa relativa aos Darf(s) nos valores de R$ 1.254.968,96 e R$ 141.080,55. Alegou que os pagamentos foram pagos da forma prevista na Lei nº 11.941, de 2009, sob o código 1256, referemse a tributos e, portanto, seriam dedutíveis na apuração da base de cálculo do imposto e do IRPJ e da CSLL. Teriam sido erroneamente classificados como “multas fiscais” mas que teria reclassificado a despesa. Aduziu que o Darf, ao contrário do que argumenta a Fiscalização, não se Fl. 16568DF CARF MF Impresso em 12/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/07/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 13896.722525/201337 Resolução nº 1402000.363 S1C4T2 Fl. 16.569 32 refere a pagamento das multas e juros, mas tão somente para pagamento de tributo. É clara a disposição do art. 344 do RIR de 1999, no sentido de serem dedutíveis na apuração do Lucro Real, os tributos e as contribuições. Ainda, que o art. 374 do RIR de 1999, assegura a dedução como custo ou despesa financeira, do valor relativo aos juros de mora pagos ou incorridos. O Parecer CST nº 174 de 2004, da mesma forma possibilita essa dedução, concluindo que os juros de mora, por se tratar de compensação pelo atraso na liquidação de débitos, caracterizamse como despesa financeira e, como tal, são dedutíveis. Pelas mesmas razões considerou dedutível o Darf de R$ 141.080,55. Observese que os documentos de arrecadação com código 1256 referemse ao seguinte débito tributário: RFB – Débitos Previdenciários Pagamento à vista com utilização de Prejuízo Fiscal e Base de Cálculo Negativa da CSLL para liquidar multa e juros 1256 Constam da conta 4.2.1.01.020 Despesas Legais Multas Fiscais, o pagamento via DARF Documento de Arrecadação de Tributos Federais, código de receita 1256 RFB Débitos Previdenciários Pagamento à vista com utilização de Prejuízo Fiscal e base de Cálculo Negativa da CSLL para liquidar multa e juros. Tratase de expediente em que a pessoa jurídica que optar pelo pagamento a vista ou pelo parcelamento na forma dos artigos 1o, 2o ou 3o da Lei 11.941, de 2009, pode liquidar valores correspondentes a multas, de mora ou de ofício, e a juros moratórios, inclusive relativos a débitos inscritos em DAU, com a utilização de créditos decorrentes de prejuízo fiscal e de base de cálculo negativa de CSLL próprios. Ocorre que o artigo 344 § 5o do RIR/99 dispõe que "não são dedutíveis como custo ou despesas operacionais as multas por infrações, salvo as de natureza compensatória e as impostas por Infrações de que não resultem falta ou insuficiência de pagamento de tributo (Lei n° 8.981, de 1995, art. 41, §5°)". O Parecer Normativo CST n° 61, de 1979, determina que multas fiscais são "aquelas impostas pela lei tributária, e quando decorrentes de falta ou insuficiência de pagamento de tributo e não sejam de natureza compensatória, serão indedutíveis". Os valores glosados referentes a estas despesas são de R$ 1.254.968,96 (um milhão duzentos e cinqüenta e quatro mil novecentos e sessenta e oito reais e noventa e seis centavos), DARF 1256, demonstrado na Planilha 10 Anexo 5 Despesas Legais e de R$ 141.080,55 (cento e quarenta e um mil oitenta reais e cinqüenta e cinco centavos), Multas Fiscais, demonstrado na Planilha 11 Anexo 5 Despesas Legais Multas Fiscais. De fato a Lei nº 11.941, de 2009, no § 7º do art. 1º, concede a possibilidade de pagar multa de mora ou de ofício e juros moratórios com a utilização de prejuízo fiscal e de base de cálculo negativa da contribuição social sobre o lucro líquido próprios. Dispõe a norma: § 7º As empresas que optarem pelo pagamento ou parcelamento dos débitos nos termos deste artigo poderão liquidar os valores correspondentes a multa, de mora ou de ofício, e a juros moratórios, inclusive as relativas a débitos inscritos em dívida ativa, com a utilização de prejuízo fiscal e de base de cálculo negativa da contribuição social sobre o lucro líquido próprios. Fl. 16569DF CARF MF Impresso em 12/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/07/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 13896.722525/201337 Resolução nº 1402000.363 S1C4T2 Fl. 16.570 33 As condições desse dispositivo são dadas para liquidação de multa de ofício, de mora e juros moratórios. Observese que os valores recolhidos mediante o Darf (código 1256), foram contabilizados como Débitos Previdenciários Pagamento à Vista, conforme o anexo 5 – DESPESAS LEGAIS MULTAS FISCAIS. A respeito desse assunto, manifestouse o 1º CC, proferindo o seguinte acórdão: DESPESAS COM MULTAS FISCAIS – Nos termos do art. 225 § 4º e esclarecimentos contidos no PN 61/79, as multas e os acréscimos legais considerados dedutíveis e que têm natureza compensatória são: as que decorrem do recolhimento do tributo fora do prazo legal; os juros de mora resultantes do recolhimento espontâneo fora do prazo; e as multas por apresentação espontânea de declarações fora do prazo. São consideradas indedutíveis as multas por infrações fiscais que diferem daquelas anteriormente discriminadas e outras contabilizadas sem a devida identificação. (1º CC/ 7ª Câmara / Acórdão 10705531, em 23.021999 – Dou de 19.05.1999). Ocorre que não foram apresentados documentos que comprovem a reclassificação alegada, e principalmente, que as parcelas liquidadas dessa forma se refiram a juros moratórios, multa de natureza compensatória ou impostas por infrações de que não resultem falta ou insuficiência de pagamento de tributo. [grifo nosso] Qualquer dedução efetuada pela contribuinte deve estar amparada em norma legal e em documentos que a viabilize. Ocorre que o valor pago sob o código 1256 foi contabilizado como “multas fiscais”, e não foi comprovado a que se refere o valor pago. Assim, considerando o registro contábil, sem qualquer prova de sua dedutibilidade (que se refiram a juros moratórios e/ou outras parcelas dedutíveis) , não há como acatar a pretensão da contribuinte, devendo ser mantida a glosa. Compulsando os autos, de fato, não identifiquei a documentação que comprovaria tal reclassificação. Aliás, o citado doc. 5 da impugnação revestese de apenas uma folha referente a suposta comprovação de solicitação de viagem, não tendo qualquer correlação com os fatos ora analisados. Assim, rejeito a arguição de nulidade em relação à glosa em questão (Darf código 1256 e multas fiscais). Contudo, no que diz respeito às provisões relacionadas à conta 4.2.1.01.020 Despesas Legais, de fato, a decisão recorrida deixou de analisála, razão pela qual reconheço sua nulidade parcial, devendo a turma julgadora a quo também analisar tal ponto na decisão complementar a ser proferida. Fl. 16570DF CARF MF Impresso em 12/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/07/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 13896.722525/201337 Resolução nº 1402000.363 S1C4T2 Fl. 16.571 34 Conta Contábil 4.2.1.01.075 – Reuniões e Convenções a) Vendor Name Vazio (R$ 506.716,41): segundo a Recorrente as despesas seriam decorrentes de ao pagamento de cursos e seminários realizados no exterior. A decisão recorrida informa que não foram apresentados documentos. Já a Recorrente alega que os documentos foram apresentados junto à impugnação (doc. 22). Em relação ao tema, compulsando os autos, não identifiquei o doc. 22 que estaria anexo à impugnação. Nos autos, s.m.j., estão anexados documentos numerados até “21”. Nesse cenário, não há omissão na decisão recorrida em relação ao tema, o que implica a rejeição de tal arguição de nulidade. b) No que atine a pagamentos realizados a “Patrícia de Paula C” (R$ 31.314,52), diriam respeito a a serviços de publicidade. Alega a Recorrente que anexou à impugnação cópia de parcela significativa das notas fiscais emitidas pelo prestador de serviço (doc. 7 da impugnação), mas não teriam sido analisadas pela decisão de primeira instância. Pede a declaração de nulidade da decisão de piso, ou, se for o caso, a sua análise por este colegiado. Analisando a documentação apresentada na impugnação constatei que o referido doc. 7, na verdade, é tão somente uma nota fiscal, no valor de R$ 3.590,00. Reproduzo, a seguir, excerto de tal nota fiscal (fl. 3.245): Logo, a decisão recorrida não se mostra nula em relação ao tema. d) WalMart (R$ 365.400,10): segundo a Recorrente as despesas seriam decorrentes de ao pagamento de cursos e seminários realizados no exterior. A decisão recorrida informa que não foram apresentados documentos. Já a Recorrente alega que os documentos foram apresentados junto à impugnação (doc. 22). Em relação ao tema, compulsando os autos, não identifiquei o doc. 22 que estaria anexo à impugnação. Nos autos, s.m.j., estão anexados documentos numerados até “21”. Nesse cenário, não há omissão na decisão recorrida em relação ao tema, o que implica a rejeição de tal arguição de nulidade. Fl. 16571DF CARF MF Impresso em 12/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/07/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 13896.722525/201337 Resolução nº 1402000.363 S1C4T2 Fl. 16.572 35 CONCLUSÃO Assim sendo, impõese o retorno dos autos à turma julgadora de origem para que analise os argumentos apresentados em impugnação e que não foram objeto de manifestação na decisão recorrida (Conta Contábil 4.2.1.01.008 – Despesas de Viagens Vendor Name Vazio (R$ 1.868.560,45), bem como sobre o mérito da infração não abordada no acórdão guerreado (Conta Contábil 4.2.1.01.020 Despesas Legais Provisões), prolatando acórdão complementar. Após ciência desse novo acórdão, transcorrido o prazo para a apresentação do recurso voluntário sobre a matéria e demais providências cabíveis pela unidade de origem, retornemse os autos a este colegiado para inclusão em nova pauta de julgamentos. É como voto. (assinado digitalmente) FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO Relator Fl. 16572DF CARF MF Impresso em 12/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/07/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 11/07/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO
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Numero do processo: 10120.900045/2011-34
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Mar 01 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Mon Apr 04 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2002
PRAZO PARA REPETIÇÃO DE INDÉBITO.
O regramento estabelecido pelo artigo 3o da Lei Complementar no 118/2005 aplica-se somente aos pedidos de restituição formalizados após o decurso da vacatio legis de 120 dias, ou seja, a partir de 9 de junho de 2005 (STF/RE 566.621/RS, sessão de 04/08/2011, DJ 11/10/2011). No caso de pedidos de restituição formalizados antes daquela data, aplica-se o prazo de dez anos com termo inicial na data do fato gerador do indébito, conforme entendimento consolidado no STJ e na Súmula CARF nº 91.
DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. INEXISTÊNCIA DE PEDIDO DE RESTITUIÇÃO ANTECEDENTE.
A DCOMP - Declaração de Compensação não veicula pedido de restituição de indébito. No limite, consubstancia pedido de repetição (indireto) apenas no tocante ao valor do débito fiscal indicado no encontro de contas. Se inexistente o antecedente pedido de restituição, a apresentação da DCOMP deve observar o prazo de cinco anos a que alude o artigo 168, I, do CTN, sob pena de não homologação do encontro de contas por inexistência do direito crédito, ante a sua caducidade.
Recurso voluntário negado.
Não é nula a decisão que tenha analisado todos os pontos controvertidos, e da qual conste fundamentação adequada e suficiente para respaldar a conclusão nela exposta.
Numero da decisão: 1201-001.369
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado.
Documento assinado digitalmente.
Marcelo Cuba Netto - Presidente.
Documento assinado digitalmente.
João Otávio Oppermann Thomé - Relator.
Participaram do julgamento os Conselheiros: Marcelo Cuba Netto, João Otávio Oppermann Thomé, Luis Fabiano Alves Penteado, Roberto Caparroz de Almeida, João Carlos de Figueiredo Neto e Ester Marques Lins de Sousa.
Nome do relator: JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME
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SALDO NEGATIVO DE IRPJ. Recorrente NAVESA NACIONAL DE VEÍCULOS LTDA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2002 PERÍCIA. SOLICITAÇÃO INDEFERIDA. Perícias e diligências são instrumentos postos à disposição do julgador para auxiliálo na formação do seu livre convencimento, se entendêlas necessárias ou imprescindíveis para a elucidação de pontos duvidosos. O pressuposto para realização de perícia é a insuficiência de conhecimento técnico do julgador a respeito de algum elemento que compõe o litígio, o que não ocorre no caso concreto. DESPACHO DECISÓRIO. INTIMAÇÃO PRÉVIA. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. Se a repartição já dispõe de todos os elementos necessários para decidir sobre a homologação ou não da compensação, nenhum óbice há para que a autoridade fiscal profira a sua decisão. Não há na lei comando que obrigue a autoridade fiscal a efetuar prévia intimação do contribuinte antes da prolação do despacho decisório. Não é nulo o despacho do qual constem claramente as razões da não homologação da compensação pretendida. DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. FUNDAMENTAÇÃO. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. Não é nula a decisão que tenha analisado todos os pontos controvertidos, e da qual conste fundamentação adequada e suficiente para respaldar a conclusão nela exposta. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2002 PRAZO PARA REPETIÇÃO DE INDÉBITO. O regramento estabelecido pelo artigo 3o da Lei Complementar no 118/2005 aplicase somente aos pedidos de restituição formalizados após o decurso da AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 12 0. 90 00 45 /2 01 1- 34 Fl. 266DF CARF MF Impresso em 04/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/03/2016 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 30/ 03/2016 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 01/04/2016 por MARCELO CUBA NETTO Processo nº 10120.900045/201134 Acórdão n.º 1201001.369 S1C2T1 Fl. 3 2 vacatio legis de 120 dias, ou seja, a partir de 9 de junho de 2005 (STF/RE 566.621/RS, sessão de 04/08/2011, DJ 11/10/2011). No caso de pedidos de restituição formalizados antes daquela data, aplicase o prazo de dez anos com termo inicial na data do fato gerador do indébito, conforme entendimento consolidado no STJ e na Súmula CARF nº 91. DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. INEXISTÊNCIA DE PEDIDO DE RESTITUIÇÃO ANTECEDENTE. A DCOMP Declaração de Compensação não veicula pedido de restituição de indébito. No limite, consubstancia pedido de repetição (indireto) apenas no tocante ao valor do débito fiscal indicado no encontro de contas. Se inexistente o antecedente pedido de restituição, a apresentação da DCOMP deve observar o prazo de cinco anos a que alude o artigo 168, I, do CTN, sob pena de não homologação do encontro de contas por inexistência do direito crédito, ante a sua caducidade. Recurso voluntário negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. Documento assinado digitalmente. Marcelo Cuba Netto Presidente. Documento assinado digitalmente. João Otávio Oppermann Thomé Relator. Participaram do julgamento os Conselheiros: Marcelo Cuba Netto, João Otávio Oppermann Thomé, Luis Fabiano Alves Penteado, Roberto Caparroz de Almeida, João Carlos de Figueiredo Neto e Ester Marques Lins de Sousa. Relatório Tratase de recurso voluntário interposto por NAVESA NACIONAL DE VEÍCULOS LTDA, contra acórdão proferido pela 4ª Turma de Julgamento da DRJ/Brasília DF, cuja ementa a seguir se transcreve: “Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica – IRPJ Anocalendário: 2002 Fl. 267DF CARF MF Impresso em 04/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/03/2016 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 30/ 03/2016 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 01/04/2016 por MARCELO CUBA NETTO Processo nº 10120.900045/201134 Acórdão n.º 1201001.369 S1C2T1 Fl. 4 3 DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA. Incumbe ao sujeito passivo a demonstração, acompanhada das provas hábeis, da composição e a existência do crédito que alega possuir junto à Fazenda Nacional para que sejam aferidas sua liquidez e certeza pela autoridade administrativa. DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. INEXISTÊNCIA DE CRÉDITO. A compensação de créditos tributários (débitos do contribuinte) só pode ser efetuada com crédito líquido e certo do sujeito passivo, sendo que a compensação somente pode ser autorizada nas condições e sob as garantias estipuladas em lei; no caso, o crédito pleiteado é inexistente. PRAZO PRESCRICIONAL. COMPENSAÇÃO O direito de pleitear a compensação extinguese com o decurso do prazo de 5 (cinco) anos, contados da data da extinção do crédito tributário. APLICAÇÃO DA TESE CINCO MAIS CINCO. IMPOSSIBILIDADE. No âmbito da administração tributária, não se aplica o prazo prescricional de dez anos previsto na LC nº 118/2005, tanto para o contribuinte que pleiteou administrativamente a restituição, como para aquele que optou diretamente pela via judicial. Manifestação de Inconformidade Improcedente. Direito Creditório Não Reconhecido.” O caso foi assim relatado pela autoridade julgadora a quo: “Tratam os autos das Declarações de Compensação (DCOMP) de nº 21700.11043.311007.1.3.025984 e 10057.25846.010908.1.3.028815, transmitidas eletronicamente com base em créditos decorrentes de saldo negativo de Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ (exercício 2003 01/01/2002 a 31/12/2002). Analisadas as informações prestadas e considerando que a soma das parcelas de composição do crédito informadas no PER/DCOMP deve ser suficiente para comprovar a quitação do imposto devido e a apuração do saldo negativo, não ficou demonstrada a existência de crédito suficiente para ser utilizado na compensação integral dos débitos confessados na Declaração de Compensação. Assim, em 14/02/2011, foi emitido eletronicamente o Despacho Decisório (fl. 51), cuja decisão homologou integralmente a DCOMP nº 21700.11043.311007.1.3.025984 e não homologou a DCOMP n° 10057.25846.010908.1.3.028815. O valor do principal correspondente aos débitos informados é de R$ 477.407,98. Relatório emitido pela Delegacia de Goiânia em 25/11/2010 (fls. 173 a 175), esclarece que a análise do PER/DCOMP nº 21700.11043.311007.1.3.025984 foi iniciada eletronicamente, porém, a validação de parte do crédito pleiteado foi direcionada pelo Sistema de Controle de Crédito – SCC para análise do usuário, tendo sido detectadas inconsistências referentes às antecipações “fonte”, “pagamentos” e “compensações”. A análise feita chegou às seguinte conclusões: • Pagamentos: foram localizados e confirmados nos sistemas SiefFiscel e Sinal; Fl. 268DF CARF MF Impresso em 04/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/03/2016 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 30/ 03/2016 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 01/04/2016 por MARCELO CUBA NETTO Processo nº 10120.900045/201134 Acórdão n.º 1201001.369 S1C2T1 Fl. 5 4 • Fonte: a retenção na fonte no valor de R$ 688,08 não foi confirmada em pesquisa às Dirf emitidas em nome da contribuinte; • Compensações: foi glosada a compensação da estimativa do IRPJ de dezembro de 2002, no valor de R$ 455.941,64. A contribuinte foi intimada a prestar informações por meio do Termo de Intimação n° 651/2010, de 06/10/2010, do qual tomou conhecimento em 13/10/2010. Em resposta, informou que o referido valor seria formado pelo saldo negativo do IRPJ do exercício 2001 (R$ 387.508,62), atualizado pela taxa Selic (R$ 68.434,02). O somatório desses valores foi transportado para a Dcomp como se fosse o débito da estimativa do IRPJ apurada em dezembro de 2002, compensada com o saldo negativo do anocalendário 2001. A interessada declarou na Dcomp em análise a compensação do débito da estimativa do IRPJ apurada em dezembro de 2002, no valor de R$ 455.942,64, com o saldo negativo do IRPJ do exercício 2001. Entretanto, o débito de estimativa do IRPJ de dezembro de 2002 não foi declarado na D1PJ e nem na DCTF. Por outro lado, a partir de outubro de 2002 era obrigatório o processo administrativo para fazer a compensação. Por esse motivo, a compensação da estimativa do IRPJ de dezembro de 2002, no valor de R$ 455.942,64, foi glosada. Cientificado, via postal, dessa decisão em 22/02/2011 (fl. 57), bem como da cobrança dos débitos declarados na Dcomp, o sujeito passivo apresentou em 24/03/2011, manifestação de inconformidade às fls. 2 a 6, acrescida de documentação anexa. Em síntese, após fazer considerações sobre o saldo negativo de Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ, a contribuinte argumenta que a utilização dos créditos pleiteados estaria amparada pelas regras de transição estabelecidas pela Lei Complementar nº 118, de 2005. Dessa forma, apresenta o seguinte entendimento: a) Os recolhimentos efetuados até 08/06/2000 (cinco antes do início da vigência LC 1118/2005) aplicase a regra dos “cinco anos mais cinco”; b) Para recolhimentos efetuados entre 09/06/2000 a 08/06/2005 a prescrição ocorreu em 08/06/2010 (cinco anos a contar da vigência da LC 118/2005; c) para recolhimentos efetuados a partir de 09/06/2005 (início de vigência da LC 118/2005) aplicase a prescrição qüinqüenal contada da data do pagamento. Apresenta posicionamento do STJ sobre a questão. Acrescenta, que a Receita Federal não se pronunciou sobre o PER/DCOMP n° 10057.25846.010908.1.3.028815, afirmando que cada declaração de compensação transmitida deve ter o Despacho Decisório Individualizado. Ao final, requer que seja apreciada a documentação dos autos, afim de se que comprovem as informação presentes no PER/DCOMP, DIPJ e DCTF, bem como julgar procedente a presente manifestação de inconformidade, declarando homologado o crédito compensado.” A DRJ julgou improcedente a manifestação de inconformidade, pelos fundamentos sinteticamente expostos na ementa ao norte transcrita. Em síntese, ratificou os dois motivos expostos no despacho decisório pelos quais não foi homologada a compensação Fl. 269DF CARF MF Impresso em 04/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/03/2016 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 30/ 03/2016 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 01/04/2016 por MARCELO CUBA NETTO Processo nº 10120.900045/201134 Acórdão n.º 1201001.369 S1C2T1 Fl. 6 5 contida na DCOMP 10057.25846.010908.1.3.028815, quais sejam: a inexistência do crédito alegado, em face de não ter sido comprovada a compensação da estimativa do IRPJ de dezembro de 2002, e a prescrição do direito do contribuinte de pleitear a repetição do indébito. Em sede de recurso, o contribuinte renova seus argumentos com vistas à obtenção da homologação da compensação pretendida, aduzindo em síntese, o seguinte: (i) nulidade do despacho decisório por vício formal, em razão da falta de intimação prévia da recorrente para prestar esclarecimentos sobre o crédito detido que se pretendia compensar; (ii) nulidade do acórdão recorrido por cerceamento de defesa, em razão de sua fundamentação deficiente; (iii) efetiva existência do crédito (saldo negativo de IRPJ do ano calendário 2002), plenamente demonstrada nos documentos apresentados, vez que fruto de acúmulos de saldos negativos de períodos anteriores, que com este foi somado para fins de apuração do saldo credor; (iv) mesmo que se entenda que tenha havido erro na transmissão das informações relativas ao crédito em questão, este não pode ser óbice ao reconhecimento do crédito e do direito da recorrente à sua fruição; (v) observância, para efeito do prazo para pleitear a repetição do indébito, da “tese dos 5+5”; (vi) no caso de superação de todos os argumentos acima discorridos, que seja realizada perícia técnica contábil a fim de se confirmar a existência e liquidez dos créditos em questão, para cujos fins indica perito e quesitos a serem respondidos. É o relatório. Voto Conselheiro João Otávio Oppermann Thomé O recurso é tempestivo e preenche os requisitos de admissibilidade, dele tomo conhecimento. Nulidade do despacho decisório A recorrente requer a declaração de nulidade do despacho decisório, tendo em vista a falta de intimação prévia da recorrente para prestar esclarecimentos sobre o crédito que pretendia compensar. Noutro giro, sustenta que a autoridade fiscal competente, antes de se manifestar sobre a compensação materializada através das Per/Dcomps constantes do Despacho Decisório atacado, proceda à necessária investigação do débito e crédito apresentados pela recorrente. Sem razão a recorrente. Não há na lei comando que obrigue a autoridade fiscal a efetuar prévia intimação do contribuinte antes de proferir o seu despacho decisório. A própria recorrente transcreve na sua peça recursal apenas um artigo de ato normativo do órgão fazendário (art. 65 da Instrução Normativa RFB no 900/2008), o qual apenas menciona a possibilidade de a fiscalização empreender diligência fiscal nos estabelecimentos do sujeito passivo, ou então de Fl. 270DF CARF MF Impresso em 04/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/03/2016 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 30/ 03/2016 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 01/04/2016 por MARCELO CUBA NETTO Processo nº 10120.900045/201134 Acórdão n.º 1201001.369 S1C2T1 Fl. 7 6 intimar o sujeito passivo para que apresente documentos comprobatórios do referido direito, antes de decidir. Se a repartição já dispõe de todos os elementos necessários, nenhum óbice há para que a autoridade fiscal profira sua decisão. Por outro lado, sequer se pode compreender a inconformidade da recorrente, uma vez que, no caso concreto, o contribuinte foi previamente intimado para a apresentação de documentos e esclarecimentos relativos ao crédito (fls. 115116). O fato de os esclarecimentos não terem sido suficientes para comprovar o crédito alegado reflete apenas uma decorrência natural (uma das consequências possíveis) do processo de análise do crédito alegado, à vista desses esclarecimentos e das demais circunstâncias e peculiaridades do caso concreto. Ademais, as razões da não homologação da compensação pretendida estão perfeitamente delineadas no despacho decisório exarado, que não padece, portanto, de qualquer vício. Nulidade da decisão recorrida A recorrente requer a declaração de nulidade da decisão recorrida, por não propiciar à Recorrente os elementos concretos que formaram a sua convicção, mas apenas lançar mão de dispositivos de lei genéricos, que não permitem concluir quais os reais motivos do julgamento de improcedência da impugnação apresentada, o que caracteriza o cerceamento do direito de defesa. Sem razão a recorrente. A exemplo do despacho decisório, também a decisão recorrida explicitou as razões da não homologação da compensação pretendida, que foram duas. Neste sentido, transcrevo os seguintes excertos do voto condutor do acórdão recorrido: “Um dos motivos da não homologação foi a glosa de R$ 455.942,64 referente a compensação da estimativa do IRPJ de dezembro de 2002, pelo fato de não terem sido conformadas as estimativas compensadas na contabilidade com saldo negativo de período anteriores. Segundo Relatório emitido pela Delegacia de Goiânia em 25/11/2010 (fls. 174), a contribuinte declarou no PER/DCOMP débito da estimativa do IRPJ apurada em dezembro de 2002, no valor de R$ 455.942,64, com o saldo negativo do IRPJ do exercício 2001. Entretanto, tal compensação não consta da DCTF/2002, nem da DIPJ. Além disso, a partir de outubro de 2002 era obrigatório formalizar a compensação por meio de processo administrativo fiscal. (...) Como a contribuinte não formalizou a compensação declarada por meio do processo administrativo fiscal, nem trouxe aos autos documentos que comprovassem a certeza e liquidez do crédito pleiteado, a glosa efetuada é mantida. Outro motivo foi que parte do saldo negativo disponível foi considerado valor não passível de restituição, tendo em vista que a Declaração de Compensação não foi transmitida no prazo legal de 5 anos, estabelecido no at. 168 do Código Tributário Nacional – CTN. Fl. 271DF CARF MF Impresso em 04/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/03/2016 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 30/ 03/2016 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 01/04/2016 por MARCELO CUBA NETTO Processo nº 10120.900045/201134 Acórdão n.º 1201001.369 S1C2T1 Fl. 8 7 (...) No caso em análise, o direito creditório pleiteado tem origem no saldo negativo de IRPJ, referente ao anocalendário de 2002. Pela sistemática da apuração do imposto de renda pelo lucro real, considerase que o direito creditório foi apurado em 31/12/2002, de forma que o termo final do prazo prescricional para a contribuinte pleitear a repetição do indébito se deu 31/12/2007.” Sem qualquer procedência, portanto, o pleito de nulidade do acórdão recorrido por suposta fundamentação deficiente. Perícia técnica contábil A recorrente requer a realização de perícia técnica contábil para que se confirme a existência e liquidez dos créditos em questão, indicando perito e formulando os quesitos que pretende ver respondidos. A realização de perícia é desnecessária. O pressuposto para realização de perícia é a insuficiência de conhecimento técnico do julgador a respeito de algum elemento que compõe o litígio. Tal não ocorre no caso concreto. Perícias e diligências são instrumentos postos à disposição do julgador para auxiliálo na formação do seu livre convencimento, se entendêlas necessárias ou imprescindíveis para a elucidação de pontos duvidosos. Conforme se verá a seguir, os autos estão devidamente consubstanciados com todos os documentos necessários para embasar o convencimento do julgador. Indefiro, portanto, o pedido. Saldo negativo de IRPJ. Alega a recorrente que não houve uma efetiva análise dos documentos e esclarecimentos prestados, os quais, se corretamente analisados, demonstrariam de modo claro a efetiva existência do crédito. Entretanto, não se pode deixar de registrar que os documentos e esclarecimentos apresentados pela recorrente, no limite, somente teriam alguma serventia para o propósito genérico de tentar demonstrar a existência de algum crédito, mas certamente não a existência do crédito que aqui se discute. Nada obstante a existência de sólida jurisprudência no CARF, inclusive precedentes de minha própria relatoria, no sentido de reconhecer, em certas situações, a possibilidade de o crédito ser analisado sob uma ótica distinta da que foi apresentada na DCOMP (por exemplo, efetuando a análise do crédito como saldo negativo, quando o pedido foi de repetição de imposto de renda retido na fonte, ou, então, redirecionando a análise para Fl. 272DF CARF MF Impresso em 04/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/03/2016 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 30/ 03/2016 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 01/04/2016 por MARCELO CUBA NETTO Processo nº 10120.900045/201134 Acórdão n.º 1201001.369 S1C2T1 Fl. 9 8 outro período de apuração, ante o erro de fato devidamente comprovado, entre outros casos já julgados por este relator), o fato é que, no caso, a recorrente sequer deixou claro qual teria sido exatamente o erro ou equívoco que teria ocorrido, limitandose apenas a argumentar que eventuais erros no preenchimento de declarações não lhe poderiam retirar o legítimo direito à fruição do crédito. No caso, o crédito alegado é de saldo negativo de IRPJ do ano calendário 2002. A recorrente apresentou duas declarações de compensação para aproveitar o referido crédito: a DCOMP nº 21700.11043.311007.1.3.025984, apresentada em 31/10/2007, e integralmente homologada, e a DCOMP n° 10057.25846.010908.1.3.028815, apresentada em 01/09/2008, não homologada. Esta segunda DCOMP foi inteiramente não homologada, a despeito de ter sido reconhecido, pelo despacho decisório, que haveria um crédito remanescente (ainda não utilizado) de saldo negativo de IRPJ do ano calendário 2002, no montante de R$ 4.354,31. A não homologação se deu porque, no caso, o referido crédito não seria mais passível de utilização, em face da caducidade do direito do contribuinte de pleitear a sua repetição, nos termos do art. 168, I, do CTN. De fato, o crédito teria surgido em 31/12/2002, e somente foi utilizado em 01/09/2008, quando passados, portanto, mais de cinco anos. A recorrente tece diversas considerações sobre a correta interpretação da chamada “tese dos 5 + 5”, pela qual o prazo referido no art. 168, I, do CTN, restou “estendido” para dez anos, sob o fundamento de que a extinção do crédito tributário estaria condicionada à homologação expressa ou tácita do pagamento, e não ao próprio pagamento. Contudo, a jurisprudência do CARF consolidouse no sentido de que o prazo de dez anos somente é aplicável aos pedidos administrativos de repetição de indébito apresentados antes de 9 de junho de 2005. Neste sentido, o seguinte precedente: PRAZO PARA REPETIÇÃO DE INDÉBITO. O regramento estabelecido pelo artigo 3o da Lei Complementar no 118/2005 aplicase somente aos pedidos de restituição formalizados após o decurso da vacatio legis de 120 dias, ou seja, a partir de 9 de junho de 2005 (STF/RE 566.621/RS, sessão de 04/08/2011, DJ 11/10/2011). No caso de pedidos de restituição formalizados antes daquela data, aplicase o prazo de dez anos com termo inicial na data do fato gerador do indébito, conforme entendimento consolidado no STJ. (Acórdão 1102001.028, sessão de 13 de fevereiro de 2014) Mais recentemente, este entendimento restou definitivamente assentado na esfera administrativa, por meio da Súmula CARF nº 91: “Súmula CARF nº 91: Ao pedido de restituição pleiteado administrativamente antes de 9 de junho de 2005, no caso de tributo sujeito a Fl. 273DF CARF MF Impresso em 04/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/03/2016 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 30/ 03/2016 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 01/04/2016 por MARCELO CUBA NETTO Processo nº 10120.900045/201134 Acórdão n.º 1201001.369 S1C2T1 Fl. 10 9 lançamento por homologação, aplicase o prazo prescricional de 10 (dez) anos, contado do fato gerador.” No caso concreto, a DCOMP foi apresentada em 01/09/2008, logo, a ela não se aplica o prazo decenal. Irrelevante o fato de o saldo negativo reclamado ser de período anterior a 9 de junho de 2005. É verdade que a DCOMP em questão faz referência à DCOMP anterior (aquela apresentada em 31/10/2007), nos seguintes campos da declaração que abaixo transcrevo: “Crédito Saldo Negativo de IRPJ Informado em Outro PER/DCOMP: SIM N° do PER/DCOMP Inicial: 21700.11043.311007.1.3.025984” Alguém poderia questionar, então, se o fato de o pedido anterior (tempestivamente apresentado em 31/10/2007) não seria suficiente para afastar de vez a hipótese de prescrição, uma vez que se trata do mesmo crédito. Para responder a esta questão, é necessário responder a outra: se a declaração de compensação (ou o pedido de compensação nela transformado por força do artigo 49 da Lei nº 10.637/2002) encerra ou não pretensão repetitória. E para responder a esta segunda questão, sirvome dos ensinamentos do ilustre conselheiro José Sérgio Gomes, contidos no voto proferido na sessão de 07 de abril de 2010, no acórdão 110200.175: “Não pairam dúvidas que a Dcomp consubstancia pedido de repetição (indireto) no que diz respeito ao valor, melhor dizendo, até o valor, do débito fiscal indicado no encontro de contas. Todavia, tenho que o mesmo não ocorre no tocante à parcela que a este excede. É que o regime jurídico da compensação tributária em vigor a partir da Lei nº 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e da Lei nº 10.833, de 29 de dezembro de 2003, as quais introduziram alterações no artigo 74 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, requisita iniciativa do contribuinte que, mediante o instrumento da Dcomp, diz ao Fisco que já efetuou o encontro de contas, inclusive com o efeito de extinção do débito fiscal nela indicado, incumbido ao sujeito ativo, no prazo de cinco anos, homologar o ato compensatório por ele praticado, findo o qual, não efetivada qualquer apreciação, a compensação se resolve pelo evento da homologação tácita, a ver: (...) Como visto, a Dcomp sequer veicula pedido de compensação, nem muito menos pedido de restituição, mas sim formaliza a utilização de direito creditório na compensação com débitos próprios. Noutras palavras: nada se pede; declarase que o encontro de contas já foi feito. (...) Portanto, inexistindo anterior pedido de restituição temse que eventual Dcomp há de observar, em relação ao pretendido crédito nela indicado, o prazo Fl. 274DF CARF MF Impresso em 04/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/03/2016 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 30/ 03/2016 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 01/04/2016 por MARCELO CUBA NETTO Processo nº 10120.900045/201134 Acórdão n.º 1201001.369 S1C2T1 Fl. 11 10 decadencial de cinco anos, sob pena de não homologação do encontro de contas por inexistência do crédito, fulminado pela decadência a que alude o artigo 168, I, do CTN.” Portanto, extinto estava, em 01/09/2008, o direito de a recorrente repetir o indébito relativo ao saldo negativo de IRPJ de 2002. Neste mesmo sentido, transcrevo o seguinte precedente do CARF, de cujo julgamento também participei: COMPENSAÇÃO DE CRÉDITO APÓS EXTINTO O DIREITO DE PLEITEAR A RESTITUIÇÃO. UTILIZAÇÃO DO EXCESSO DE CRÉDITO EM DCOMP ANTERIOR. IMPOSSIBILIDADE. O contribuinte só pode se utilizar, em declarações de compensação, de créditos relativos a pagamentos indevidos realizados há menos de cinco anos. Caso deseje aproveitar o indébito por prazo superior, deve apresentar pedido de restituição dentro do prazo quinquenal, e realizar as compensações a partir desse pedido. O excesso de crédito apresentado em declaração de compensação tempestiva não converte o documento em pedido de restituição, e não pode ser utilizado em compensação posterior, enviada após o prazo de cinco anos do pagamento indevido. (Acórdão 1102001.097, sessão de 10 de abril de 2014, relator José Evande Carvalho Araujo) Neste contexto, tornase de fato irrelevante discutir qual seria o montante do crédito eventualmente remanescente. De qualquer sorte, verifico ainda que a recorrente em nenhum momento contestou o motivo principal, na questão de mérito, para a não homologação da compensação pretendida, qual seja, a falta de comprovação de que teria efetivamente compensado a estimativa de dezembro de 2002, no valor de R$ 455.942,64, com saldo negativo de período anterior. No caso, a defesa apresentada deuse apenas no sentido de que o saldo negativo reclamado seria “fruto de acúmulos de saldos negativos de períodos anteriores, que com este foi somado para fins de apuração do saldo credor TOTAL”, postura esta que revela ou o completo desconhecimento, ou então um total descompromisso para com as normas que regem a compensação tributária, o que, em qualquer caso, não pode ser aceito. Se a intenção da recorrente era alegar tratarse de mero erro de fato, há que se registrar que este há de ser, em primeiro lugar, adequadamente demonstrado. Ademais, o erro de fato, via de regra, é facilmente perceptível, e fica caracterizado quando se verifica que o interessado preencheu o documento em desconformidade com a sua intenção original, mas não quando o contribuinte simplesmente formula pedido ou declaração em total desconformidade com as normas de regência, como é o caso dos autos. Em linha com o aqui exposto, os seguintes precedentes: CSLL. FINSOCIAL. TÍTULO JUDICIAL TRANSITADO EM JULGADO. AUSÊNCIA DE REGISTRO DO PROCEDIMENTO COMPENSATÓRIO. A existência de incontroverso direito creditório decorrente do recolhimento indevido a título de FINSOCIAL não é suficiente para comprovar a realização de Fl. 275DF CARF MF Impresso em 04/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/03/2016 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 30/ 03/2016 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 01/04/2016 por MARCELO CUBA NETTO Processo nº 10120.900045/201134 Acórdão n.º 1201001.369 S1C2T1 Fl. 12 11 procedimentos compensatórios, haja vista a necessidade de prévia declaração com a individualização dos períodos de competência abrangidos. (Acórdão 1102000.464, sessão de 30 de junho de 2011, relatora Silvana Rescigno Guerra Barretto) ERRO MATERIAL. Ocorre erro material suscetível de retificação quando há divergência facilmente perceptível entre o que foi escrito e aquilo que se queria ter escrito, normalmente revelada no próprio contexto da declaração ou através das circunstâncias em que a declaração é feita. Hipótese inocorrente nesses autos. (Acórdão 1102000.970, sessão de 07 de novembro de 2013, relator João Carlos de Figueiredo Neto) ÔNUS DA PROVA. RESTITUIÇÃO. COMPENSAÇÃO. É ônus do sujeito passivo, na condição de autor do feito, provar o direito creditório que alega possuir nos processos que envolvem restituição ou compensação de tributos. (Acórdão 1102001.109, sessão de 08 de maio de 2014, relator Ricardo Marozzi Gregorio) Por qualquer ótica que se analise, portanto, nenhuma razão assiste ao recorrente. Conclusão Pelo exposto, rejeito as preliminares de nulidade do despacho decisório e da decisão recorrida, indefiro o pedido de perícia, e, no mérito, nego provimento ao recurso voluntário. Documento assinado digitalmente. João Otávio Oppermann Thomé Relator Fl. 276DF CARF MF Impresso em 04/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/03/2016 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 30/ 03/2016 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 01/04/2016 por MARCELO CUBA NETTO
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Numero do processo: 10680.007049/2001-24
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Jun 09 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Wed Jun 15 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Exercício: 2003
DOCUMENTO APRESENTADO APÓS A DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. CERCEAMENTO AO DIREITO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA.
Não se há de reconhecer qualquer nulidade do acórdão recorrido por cercamento ao direito à ampla defesa quando aquela decisão não se manifesta acerca de documento apresentado pelo contribuinte em data posterior ao julgamento mas anterior à ciência da decisão.
Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Exercício: 2003
COMPENSAÇÃO TRIBUTÁRIA. INAPLICABILIDADE DA LEI CIVIL.
A compensação tributária se rege por leis próprias. Inaplicáveis as disposições do Código Civil sobre essa matéria.
COMPENSAÇÃO TRIBUTÁRIA. DISCIPLINA. COMPETÊNCIA DA RECEITA FEDERAL. DECLARAÇÕES APRESENTADAS ATÉ 27/05/2003. DATA DO ENCONTRO DE CONTAS. DATA DO CRÉDITO.
A Receita Federal possui competência, outorgada por lei, para disciplinar a compensação tributária. Para os Pedidos ou Declarações de Compensação apresentados até 27/05/2003, a compensação deverá ser efetuada considerando-se a data do pagamento indevido ou a maior que o devido.
DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. RETIFICADORA. HOMOLOGAÇÃO TÁCITA. INOCORRÊNCIA.
O prazo para o fisco homologar compensação declarada pelo sujeito passivo
é de cinco anos, contado da data de sua entrega. Se antes da emissão do despacho decisório, houver a substituição da declaração original mediante apresentação de declaração retificadora, o termo inicial da contagem do prazo para homologação será a partir da data da apresentação da declaração de compensação retificadora.
Numero da decisão: 1301-002.059
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
ACORDAM os membros do Colegiado, por maioria de votos, em NEGAR provimento ao recurso, nos termos do relatório e voto proferidos pelo relator, vencido o Conselheiro José Eduardo Dornelas Souza. Ausente, momentaneamente, o conselheiro Hélio Eduardo de Paiva Araújo.
(assinado digitalmente)
Wilson Fernandes Guimarães - Presidente
(assinado digitalmente)
Waldir Veiga Rocha - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Waldir Veiga Rocha, Hélio Eduardo de Paiva Araújo, Paulo Jakson da Silva Lucas, José Eduardo Dornelas Souza, Flávio Franco Corrêa, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro e Wilson Fernandes Guimarães.
Nome do relator: WALDIR VEIGA ROCHA
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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Exercício: 2003 DOCUMENTO APRESENTADO APÓS A DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. CERCEAMENTO AO DIREITO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Não se há de reconhecer qualquer nulidade do acórdão recorrido por cercamento ao direito à ampla defesa quando aquela decisão não se manifesta acerca de documento apresentado pelo contribuinte em data posterior ao julgamento mas anterior à ciência da decisão. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Exercício: 2003 COMPENSAÇÃO TRIBUTÁRIA. INAPLICABILIDADE DA LEI CIVIL. A compensação tributária se rege por leis próprias. Inaplicáveis as disposições do Código Civil sobre essa matéria. COMPENSAÇÃO TRIBUTÁRIA. DISCIPLINA. COMPETÊNCIA DA RECEITA FEDERAL. DECLARAÇÕES APRESENTADAS ATÉ 27/05/2003. DATA DO ENCONTRO DE CONTAS. DATA DO CRÉDITO. A Receita Federal possui competência, outorgada por lei, para disciplinar a compensação tributária. Para os Pedidos ou Declarações de Compensação apresentados até 27/05/2003, a compensação deverá ser efetuada considerando-se a data do pagamento indevido ou a maior que o devido. DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. RETIFICADORA. HOMOLOGAÇÃO TÁCITA. INOCORRÊNCIA. O prazo para o fisco homologar compensação declarada pelo sujeito passivo é de cinco anos, contado da data de sua entrega. Se antes da emissão do despacho decisório, houver a substituição da declaração original mediante apresentação de declaração retificadora, o termo inicial da contagem do prazo para homologação será a partir da data da apresentação da declaração de compensação retificadora.
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CERCEAMENTO AO DIREITO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Não se há de reconhecer qualquer nulidade do acórdão recorrido por cercamento ao direito à ampla defesa quando aquela decisão não se manifesta acerca de documento apresentado pelo contribuinte em data posterior ao julgamento mas anterior à ciência da decisão. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Exercício: 2003 COMPENSAÇÃO TRIBUTÁRIA. INAPLICABILIDADE DA LEI CIVIL. A compensação tributária se rege por leis próprias. Inaplicáveis as disposições do Código Civil sobre essa matéria. COMPENSAÇÃO TRIBUTÁRIA. DISCIPLINA. COMPETÊNCIA DA RECEITA FEDERAL. DECLARAÇÕES APRESENTADAS ATÉ 27/05/2003. DATA DO ENCONTRO DE CONTAS. DATA DO CRÉDITO. A Receita Federal possui competência, outorgada por lei, para disciplinar a compensação tributária. Para os Pedidos ou Declarações de Compensação apresentados até 27/05/2003, a compensação deverá ser efetuada considerandose a data do pagamento indevido ou a maior que o devido. DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. RETIFICADORA. HOMOLOGAÇÃO TÁCITA. INOCORRÊNCIA. O prazo para o fisco homologar compensação declarada pelo sujeito passivo é de cinco anos, contado da data de sua entrega. Se antes da emissão do despacho decisório, houver a substituição da declaração original mediante apresentação de declaração retificadora, o termo inicial da contagem do prazo AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 68 0. 00 70 49 /2 00 1- 24 Fl. 343DF CARF MF Impresso em 15/06/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/06/2016 por WALDIR VEIGA ROCHA, Assinado digitalmente em 15/06/2016 p or WALDIR VEIGA ROCHA, Assinado digitalmente em 15/06/2016 por WILSON FERNANDES GUIMARAES Processo nº 10680.007049/200124 Acórdão n.º 1301002.059 S1C3T1 Fl. 344 2 para homologação será a partir da data da apresentação da declaração de compensação retificadora. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. ACORDAM os membros do Colegiado, por maioria de votos, em NEGAR provimento ao recurso, nos termos do relatório e voto proferidos pelo relator, vencido o Conselheiro José Eduardo Dornelas Souza. Ausente, momentaneamente, o conselheiro Hélio Eduardo de Paiva Araújo. (assinado digitalmente) Wilson Fernandes Guimarães Presidente (assinado digitalmente) Waldir Veiga Rocha Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Waldir Veiga Rocha, Hélio Eduardo de Paiva Araújo, Paulo Jakson da Silva Lucas, José Eduardo Dornelas Souza, Flávio Franco Corrêa, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro e Wilson Fernandes Guimarães. Relatório ECONOMIA CRÉDITO IMOBILIÁRIO S/A ECONOMISA, já devidamente qualificada nestes autos, recorre a este Conselho contra a decisão prolatada pela 3ª Turma da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Belo Horizonte/MG, que indeferiu os pedidos veiculados através de manifestação de inconformidade apresentada contra a decisão da Delegacia da Receita Federal em Belo Horizonte/MG. Por bem descrever o ocorrido, valhome do relatório elaborado por ocasião do julgamento do processo em primeira instância, a seguir transcrito. Tratase de Pedido de Restituição de Imposto de Renda Retido na Fonte, originado de aplicações financeiras ocorridas durante o ano calendário de 1996, no valor de R$ 1.014.214,77, protocolizado através do documento anexado à fl. 01, aos 09/07/2001. 2. O contribuinte solicitou ainda a utilização do crédito pleiteado na extinção de débitos pela compensação, através dos Pedidos de Compensação anexados ao processo: PPEEDDIIDDOOSS DDEE CCOOMMPPEENNSSAAÇÇÃÃOO Data Débito Receita Valor Vencimento Observações 09/07/2001 2319 R$ 24.335,95 29/06/01 fl. 02 09/07/2001 7987 R$ 26.562,33 15/06/01 fl. 03 Fl. 344DF CARF MF Impresso em 15/06/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/06/2016 por WALDIR VEIGA ROCHA, Assinado digitalmente em 15/06/2016 p or WALDIR VEIGA ROCHA, Assinado digitalmente em 15/06/2016 por WILSON FERNANDES GUIMARAES Processo nº 10680.007049/200124 Acórdão n.º 1301002.059 S1C3T1 Fl. 345 3 PPEEDDIIDDOOSS DDEE CCOOMMPPEENNSSAAÇÇÃÃOO Data Débito Receita Valor Vencimento Observações 09/07/2001 4574 R$ 5.755,17 15/06/01 fl. 04 09/07/2001 2469 R$ 9.480,94 29/06/01 fl. 05 23/08/2001 3426 R$ 5.515,17 15/08/01 fl. 69 7987 R$ 25.454,65 15/08/01 fl. 69 2469 R$ 10.107,99 31/08/01 fl. 69 2319 R$ 26.077,75 31/08/01 fl. 69 23/08/2001 4574 R$ 8.457,35 13/07/01 fl. 70 7987 R$ 39.033,93 13/07/01 fl. 70 2469 R$ 13.678,63 31/07/01 fl. 70 2319 R$ 35.996,22 31/07/01 fl. 70 08/10/2001 4574 R$ 6.410,52 14/09/01 fl. 71 7987 R$ 29.587,00 14/09/01 fl. 71 2469 R$ 7.200,97 28/09/01 fl. 71 2319 R$ 26.077,75 28/09/01 fl. 71 27/11/2001 2319 R$ 19.114,41 30/11/01 fl. 72 2469 R$ 7.601,87 30/11/01 fl. 72 4547 R$ 6.365,59 14/11/01 fl. 72 7987 R$ 29.379,62 14/11/01 fl. 72 27/11/2001 2319 R$ 48.803,83 31/10/01 fl. 73 2469 R$ 18.289,38 31/10/01 fl. 73 4574 R$ 5.316,41 15/10/01 fl. 73 7987 R$ 25.537,28 15/10/01 fl. 73 27/11/2001 2319 R$ 18.077,75 28/09/01 fl. 74 2469 R$ 7.200,97 28/09/01 fl. 74 4574 R$ 6.410,52 14/09/01 fl. 74 7987 R$ 29.587,00 14/09/01 fl. 74 20/01/2002 2319 R$ 195.150,01 31/01/02 fl. 75 2469 R$ 70.974,00 31/01/02 fl. 75 4574 R$ 11.754,91 14/01/02 fl. 75 7987 R$ 54.253,45 14/01/02 fl. 75 20/01/2002 2319 R$ 36.310,41 28/12/01 fl. 76 2469 R$ 13.791,74 28/12/01 fl. 76 4574 R$ 4.704,74 14/12/01 fl. 76 7987 R$ 21.714,18 14/12/01 fl. 76 01/03/2002 4574 R$ 5.572,58 15/02/02 fl. 77 7987 R$ 25.719,58 15/02/02 fl. 77 2469 R$ 12.867,14 28/02/02 fl. 77 2319 R$ 33.742,04 28/02/02 fl. 77 30/04/2002 4574 R$ 6.371,47 15/04/02 fl. 78 7987 R$ 29.406,88 15/04/02 fl. 78 2469 R$ 7.901,54 30/04/02 fl. 78 2319 R$ 19.948,73 30/04/02 fl. 78 02/04/2002 4574 R$ 5.158,56 15/03/02 fl. 79 7987 R$ 23.808,73 15/03/02 fl. 79 2469 R$ 9.338,05 28/03/02 fl. 79 2319 R$ 25.338,05 28/03/02 fl. 79 29/05/2002 4574 R$ 5.090,04 15/05/02 fl. 80 7987 R$ 23.492,50 15/05/02 fl. 80 2469 R$ 6.147,04 31/05/02 fl. 80 2319 R$ 15.075,13 31/05/02 fl. 80 25/11/2002 4574 R$ 5.158,56 15/03/02 fl. 81 7987 R$ 23.808,73 15/03/02 fl. 81 Fl. 345DF CARF MF Impresso em 15/06/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/06/2016 por WALDIR VEIGA ROCHA, Assinado digitalmente em 15/06/2016 p or WALDIR VEIGA ROCHA, Assinado digitalmente em 15/06/2016 por WILSON FERNANDES GUIMARAES Processo nº 10680.007049/200124 Acórdão n.º 1301002.059 S1C3T1 Fl. 346 4 PPEEDDIIDDOOSS DDEE CCOOMMPPEENNSSAAÇÇÃÃOO Data Débito Receita Valor Vencimento Observações 2469 R$ 9.841,70 28/03/02 fl. 81 2319 R$ 25.338,05 28/03/02 fl. 81 R$ 1.249.195,49 3. Em análise às solicitações do contribuinte, a DRF/Belo HorizonteMG emite em 06/11/2007 o Despacho Decisório anexado às fls. 165 a 167, concluindo: “reconheço ao contribuinte o direito ao crédito sobre o importe de R$487.332,74 em 02/01/1997, o qual deverá ser utilizado para extinguir por compensação os débitos objeto dos pedidos/declarações de compensação, desde já homologadas até o limite do crédito reconhecido”. A DRF reconheceu parcialmente o crédito pleiteado, considerando que o saldo negativo de IRPJ apurado no ano calendário de 1996, no valor de R$ 580.846,76 foi parcialmente utilizado na compensação informada em DCTF no período de agosto/2000 a abril/2001. 4. Efetuado o “encontro de contas”, ou seja, operacionalizada a compensação, apurouse que o crédito reconhecido foi insuficiente para extinguir todos os débitos indicados pelo contribuinte nos pedidos de compensação. Os débitos remanescentes deste encontro de contas encontramse discriminados à fl. 169. 5. O contribuinte foi cientificado do procedimento, bem como da cobrança dos débitos remanescentes, aos 12/11/2007, conforme ateste pessoal à fl. 175. Irresignado, apresenta a manifestação de inconformidade aos 12/12/2007, anexada às fls. 179 a 190, nos seguintes termos: · “Com a devida vênia, apesar de reconhecer o direito creditório originário, o despacho decisório em foco deixou de decretar a homologação tácita de várias compensações feitas. Ele não observou, também, os critérios legais de imputação dos pagamentos”. · “Como os pedidos de compensação (...) foram “transformados” em declarações de compensação por força da Lei nº 10.637/2002, e a Lei nº 10.833/2003 definiu que o fisco possui prazo de cinco anos, contados da data de protocolo dos requerimentos, para se insurgir contra a compensação declarada, não resta a menor dúvida de que, no presente caso, ocorreu a homologação tácita das doze compensações feitas.” Ilustra com Acórdão da DRJ e do Conselho de Contribuintes. · “A auditoria fiscal deflacionou o débito objeto de compensação, apurando o valor correspondente no momento em que nasceu o crédito do contribuinte e efetuando, em seguida a subtração respectiva”. O impugnante discorda do procedimento executado, invocando em seu auxílio o art. 37 da IN SRF nº 600, de 2005 e artigos do Código Civil. Busca amparo para seu entendimento em Acórdão do Conselho de Fl. 346DF CARF MF Impresso em 15/06/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/06/2016 por WALDIR VEIGA ROCHA, Assinado digitalmente em 15/06/2016 p or WALDIR VEIGA ROCHA, Assinado digitalmente em 15/06/2016 por WILSON FERNANDES GUIMARAES Processo nº 10680.007049/200124 Acórdão n.º 1301002.059 S1C3T1 Fl. 347 5 Contribuintes e em pronunciamentos do Tribunal Regional Federal da 4ª Região e do Superior Tribunal de Justiça. 6. Por fim, propugna pela reforma do Despacho Decisório emitido pela DRF, com o reconhecimento do direito creditório pretendido, a alteração dos critérios de utilização do crédito e a homologação expressa ou tácita das compensações declaradas. Requer ainda a juntada posterior de documentos, especialmente a planilha de cálculos com a “adequada imputação”. A 3ª Turma da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Belo Horizonte/MG analisou a manifestação de inconformidade apresentada pela contribuinte e, mediante o Acórdão nº 0217.320, de 27/02/2008 (fls. 279/294), deferiu parcialmente a solicitação, conforme ementa a seguir transcrita: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Anocalendário: 1996 HOMOLOGAÇÃO TÁCITA Somente será considerada tacitamente homologada, a compensação dos débitos constantes de pedido de compensação, convertido em declaração de compensação, não apreciada pela SRF, no prazo de cinco anos, contados da data da protocolização do pedido, independentemente da procedência e do montante do crédito utilizado. A parte dispositiva restou assim redigida: Acordam os membros da 3ª Turma de Julgamento, por unanimidade de votos, nos termos do voto da relatora, parte integrante deste Acórdão, em INDEFERIR a juntada de novos documentos e, no mérito DEFERIR PARCIALMENTE a solicitação do contribuinte para: · INDEFERIR a utilização de qualquer direito creditório além do já reconhecido pela DRF de origem, já totalmente consumido nas compensações efetuadas. · CONSIDERAR HOMOLOGADAS TACITAMENTE as compensações de débitos declaradas nos pedidos de compensação protocolizados até 29/05/2002, a saber: Data Receita Valor Vencimento Obs. 30/04/2002 2469 R$ 7.901,54 30/04/02 fl. 78 COMPENSAÇÃO TACITAMENTE HOMOLOGADA 2319 R$ 19.948,73 30/04/02 fl. 78 COMPENSAÇÃO TACITAMENTE HOMOLOGADA 29/05/2002 4574 R$ 5.090,04 15/05/02 fl. 80 COMPENSAÇÃO TACITAMENTE HOMOLOGADA 7987 R$ 23.492,50 15/05/02 fl. 80 COMPENSAÇÃO TACITAMENTE HOMOLOGADA 2469 R$ 6.147,04 31/05/02 fl. 80 COMPENSAÇÃO TACITAMENTE HOMOLOGADA 2319 R$ 15.075,13 31/05/02 fl. 80 COMPENSAÇÃO TACITAMENTE HOMOLOGADA · NÃO HOMOLOGAR as compensações de débitos declaradas na DCOMP protocolizada em 25/11/2002, a saber: Data Receita Valor Vencimento Obs. 25/11/2002 4574 R$ 5.158,56 15/03/02 fl. 81 COMPENSAÇÃO NÃO HOMOLOGADA 7987 R$ 23.808,73 15/03/02 fl. 81 COMPENSAÇÃO NÃO HOMOLOGADA 2469 R$ 9.841,70 28/03/02 fl. 81 COMPENSAÇÃO NÃO HOMOLOGADA 2319 R$ 25.338,05 28/03/02 fl. 81 COMPENSAÇÃO NÃO HOMOLOGADA Fl. 347DF CARF MF Impresso em 15/06/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/06/2016 por WALDIR VEIGA ROCHA, Assinado digitalmente em 15/06/2016 p or WALDIR VEIGA ROCHA, Assinado digitalmente em 15/06/2016 por WILSON FERNANDES GUIMARAES Processo nº 10680.007049/200124 Acórdão n.º 1301002.059 S1C3T1 Fl. 348 6 Em 11/03/2008, após o julgamento de primeira instância, mas antes que houvesse ocorrido a ciência daquela decisão, a interessada solicitou a juntada aos autos da planilha de fls. 295/297, alegando “impossibilidade de apresentação oportuna por motivo de força maior” (fl. 295). Com essa planilha, a interessada pretende demonstrar os cálculos que, a seu ver, seriam os corretos para fins da compensação discutida nos autos. Ciente da decisão de primeira instância em 14/03/2008, conforme documento de fl. 300, e com ela inconformada, a empresa apresentou recurso voluntário em 15/04/2008 (registro de recepção à fl. 301, razões de recurso às fls. 301/316). Após historiar o ocorrido e a decisão de primeira instância, sob sua ótica, a interessada traz os argumentos a seguir sintetizados, conforme os tópicos em que se divide a peça recursal. · II — NÃO APRECIAÇÃO DE DOCUMENTO JUNTADO PELA RECORRENTE CERCEAMENTO DE DEFESA E NULIDADE DA DECISÃO DA DECISÃO DA DRJ A recorrente se reporta à planilha apresentada em 11/03/2008. Reclama que seus cálculos não teriam sido analisados pela autoridade julgadora, que a planilha somente poderia ter sido rejeitada por decisão fundamentada e que seu objetivo seria evidenciar a verdade material, inexistindo qualquer óbice à sua juntada posterior. Considera não haver dúvidas de que houve cerceamento de defesa, pelo que pede a nulidade do acórdão recorrido e o retorno dos autos à DRJ de origem para nova decisão, com manifestação expressa sobre sues cálculos. · III — DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO PROTOCOLADA EM 02/04/2002. NÃO ALTERAÇÃO DO PIS, DA COFINS E DO IRPJ NELA INDICADOS PELA OUTRA ENTREGUE EM 25/11/2002 A recorrente se reporta a um dos pedidos de compensação, especificamente aquele protocolizado em 02/04/2002, contendo quatro diferentes débitos. Afirma que, em 25/11/2002, teria entregue outra declaração de compensação, em substituição à anterior, diante de erro de digitação no valor do tributo de código 2469. Acrescenta que: Analisando a questão, a DRJ entendeu que a declaração acima seria retificadora e, assim, contou o prazo de cinco anos para a homologação tácita não de 02/04/2002, mas de 25/11/2002. Como a intimação contestando as compensações ocorreu em 12/11/2007, a autoridade julgadora concluiu que o PIS, a COFINS e o IRPJ informados em 02/04/2002 e repetidos em 25/11/2002 teriam sido glosados em tempo hábil, razão pela qual permaneceriam exigíveis. A interessada sustenta que a declaração entregue em 25/11/2002 não poderia ser considera “retificadora”, visto que tal situação não estava prevista na IN SRF 210/2002, então vigente. Não se poderia aplicar ao caso disposição de instrução normativa de 2005. Além disso, ainda que se considerasse a nova declaração como retificadora, isso somente seria aplicável àquilo que foi modificado, nunca em relação ao PIS, COFINS e IRPJ, tributos para os quais nada se alterou na nova declaração. A interessada conclui com o pedido de que sejam consideradas tacitamente homologadas as compensações de PIS, COFINS e IRPJ requeridas em 02/04/2002 e que sejam declarados extintos os débitos ali indicados. Fl. 348DF CARF MF Impresso em 15/06/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/06/2016 por WALDIR VEIGA ROCHA, Assinado digitalmente em 15/06/2016 p or WALDIR VEIGA ROCHA, Assinado digitalmente em 15/06/2016 por WILSON FERNANDES GUIMARAES Processo nº 10680.007049/200124 Acórdão n.º 1301002.059 S1C3T1 Fl. 349 7 · IV — IMPUTAÇÃO DE PAGAMENTOS NA COMPENSAÇÃO — PRIMEIRO OS JUROS E SÓ DEPOIS O CAPITAL A recorrente se insurge contra os critérios de cálculo empregados (regra prevista na IN SRF nº 600/2005, encontro de contas na data do pagamento indevido ou a maior, com deflação do débito até essa data), e afirma que tal critério não encontra respaldo em lei. A seu ver, o critério legal seria aquele previsto no art. 993 do Código Civil de 1916 e no art. 354 do Código Civil de 2002. Colaciona jurisprudência do Poder Judiciário que entende suportar sua tese e pede que seja acolhida sua planilha (fls. 295/297). · V — SEGUNDO O ART. 49 DA MP Nº 66/2002, MANTIDO NA LEI Nº 10.637/2002, O ENCONTRO DE CONTAS DEVE SER FEITO NA DATA DA ENTREGA DA DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO Nas palavras da recorrente: Um último ponto a abordar diz respeito às "declarações de compensação" apresentadas entre outubro e dezembro de 2002. Apesar de a decisão recorrida ter deflacionado o débito e promovido o acerto na data do pagamento indevido/a maior, a partir de 01/10/2002, o artigo 49 da MP nº 66/2002 (convertido no art. 49 da Lei nº 10.637/02) determinou que o "encontro de contas" será feito na data da entrega da respectiva declaração de compensação: [...] Ora, tendo em vista que, mesmo depois de 01/10/2002, a autoridade administrativa continuou levando o débito compensado (valor presente) ao momento do pagamento indevido ou a maior (valor passado) e não o contrário (trazer o pagamento indevido, com juros, até o momento de efetuar a compensação), o que, evidentemente, impacta na imputação dos pagamentos (reduz o principal que, assim, produz menos juros), concluise que houve desobediência à metodologia prevista em lei, razão pela qual as glosas de compensações posteriores a outubro/2002 devem ser prontamente afastadas. · PETIÇÃO DATADA DE 25/04/2008 Às fls. 317/318, encontro petição, recebida pela repartição fiscal em 25/04/2008, mediante a qual a interessada busca esclarecer (por sua ótica) que o critério de imputação de pagamentos previsto na Lei Civil seria perfeitamente aplicável ao caso dos autos. A base de seu raciocínio é o art. 374 do Código Civil de 2002, que teve vigência entre 11/01/2003 e 22/05/2003. No entender da interessada, tal dispositivo seria de cunho esclarecedor e interpretativo, com nítido efeito retroativo. Seria, então, aplicável a todas as compensações anteriores a 23/05/2003, alcançando todas as compensações dos presentes autos. · DESISTÊNCIA PARCIAL À fl. 322 encontro “requerimento de desistência”, mediante o qual a interessada comunica a desistência parcial do recurso, exclusivamente no que se refere ao Fl. 349DF CARF MF Impresso em 15/06/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/06/2016 por WALDIR VEIGA ROCHA, Assinado digitalmente em 15/06/2016 p or WALDIR VEIGA ROCHA, Assinado digitalmente em 15/06/2016 por WILSON FERNANDES GUIMARAES Processo nº 10680.007049/200124 Acórdão n.º 1301002.059 S1C3T1 Fl. 350 8 débito de código 2469, PA fev/2002, no valor de R$ 9.841,70. Informa, ainda, que já teria quitado, à vista, o débito correspondente a essa parte É o Relatório. Voto Conselheiro Waldir Veiga Rocha, Relator O recurso é tempestivo e dele conheço. Em preliminares, a recorrente pede a nulidade da decisão recorrida, por cerceamento ao seu direito de defesa. Isso teria ocorrido porque os cálculos constantes da planilha de fls. 295/297, apresentada em 11/03/2008, não teriam sido considerados. Não assiste razão à recorrente. Em primeiro lugar, porque a referida planilha foi apresentada à repartição fiscal em 11/03/2008, após a decisão de primeira instância (datada de 27/02/2008), embora antes do ato de ciência dessa decisão. Não há qualquer sentido em pensar que a decisão de primeira instância devesse se manifestar sobre documento que sequer existia nos autos na data em que proferida. Em segundo lugar, porque a planilha tão somente reflete, numericamente, os argumentos trazidos em sede de manifestação de inconformidade acerca dos critérios para a compensação tributária (aplicabilidade, ou não, da Lei Civil). E tais argumentos, tempestivamente aduzidos, foram enfrentados e fundamentadamente rejeitados pelo julgador a quo, decidindose que a compensação tributária se rege pelas regras específicas declinadas no voto condutor do acórdão recorrido. Rejeitado o argumento jurídico, os cálculos feitos segundo esse argumento afastado se mostram irrelevantes. Rejeito, pois, a arguição de nulidade do acórdão recorrido. O próximo argumento da recorrente, a ser apreciado, diz respeito à aplicabilidade, ou não, da Lei Civil à compensação tributária, especificamente o art. 993 do Código Civil de 1916 e o art. 354 do Código Civil de 2002. A decisão recorrida já havia deixado bastante claro que a compensação em matéria tributária se rege por regras específicas, mas, a espancar quaisquer dúvidas remanescentes, considero oportuna a transcrição do breve histórico que constou de meu voto no acórdão nº 130100.386, de 02/09/2010: A compensação em matéria tributária regese por disposições específicas, diversas daquelas aplicáveis à compensação na esfera civil. Aqui, vigora o artigo 170 da Lei nº 5.172/1966 (Código Tributário Nacional – CTN): Art. 170. A lei pode, nas condições e sob as garantias que estipular, ou cuja estipulação em cada caso atribuir à autoridade administrativa, autorizar a compensação de créditos Fl. 350DF CARF MF Impresso em 15/06/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/06/2016 por WALDIR VEIGA ROCHA, Assinado digitalmente em 15/06/2016 p or WALDIR VEIGA ROCHA, Assinado digitalmente em 15/06/2016 por WILSON FERNANDES GUIMARAES Processo nº 10680.007049/200124 Acórdão n.º 1301002.059 S1C3T1 Fl. 351 9 tributários com créditos líquidos e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda pública. Parágrafo único. Sendo vincendo o crédito do sujeito passivo, a lei determinará, para os efeitos deste artigo, a apuração do seu montante, não podendo, porém, cominar redução maior que a correspondente ao juro de 1% (um por cento) ao mês pelo tempo a decorrer entre a data da compensação e a do vencimento. Em cumprimento da faculdade outorgada pelo supracitado art. 170 do CTN, foi promulgada a Lei nº 9.430/1996, cujo artigo 74 tinha, originalmente, a redação abaixo: Art. 74. Observado o disposto no artigo anterior, a Secretaria da Receita Federal, atendendo a requerimento do contribuinte, poderá autorizar a utilização de créditos a serem a ele restituídos ou ressarcidos para a quitação de quaisquer tributos e contribuições sob sua administração. A Lei nº 10.637, de 30/12/2002 (DOU de 31/12/2002), alterou essa redação, que passou a ser a seguinte: Artigo 74. O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizálo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão. § 1º A compensação de que trata o caput será efetuada mediante a entrega, pelo sujeito passivo, de declaração na qual constarão informações relativas aos créditos utilizados e aos respectivos débitos compensados. § 2º A compensação declarada à Secretaria da Receita Federal extingue o crédito tributário, sob condição resolutória de sua ulterior homologação. § 3º Além das hipóteses previstas nas leis específicas de cada tributo ou contribuição, não poderão ser objeto de compensação: I o saldo a restituir apurado na Declaração de Ajuste Anual do Imposto de Renda da Pessoa Física; II os débitos relativos a tributos e contribuições devidos no registro da Declaração de Importação. § 4º Os pedidos de compensação pendentes de apreciação pela autoridade administrativa serão considerados declaração de compensação, desde o seu protocolo, para os efeitos previstos neste artigo. § 5º A Secretaria da Receita Federal disciplinará o disposto neste artigo. Fl. 351DF CARF MF Impresso em 15/06/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/06/2016 por WALDIR VEIGA ROCHA, Assinado digitalmente em 15/06/2016 p or WALDIR VEIGA ROCHA, Assinado digitalmente em 15/06/2016 por WILSON FERNANDES GUIMARAES Processo nº 10680.007049/200124 Acórdão n.º 1301002.059 S1C3T1 Fl. 352 10 Em havendo lei específica a disciplinar a compensação tributária, prevendo expressamente “condições e garantias” e, ainda, permitindo a delegação da estipulação de tais condições e garantias à Autoridade Administrativa, não se há de cogitar da aplicação da Lei Civil. Esse raciocínio é, a meu ver, reforçado pela breve vigência do art. 374 do Código Civil de 2002. Por certo que houve, por parte do legislador, a intenção de estender os efeitos da compensação civil à compensação tributária mas, tão logo identificada a impropriedade de tal extensão, o artigo foi prontamente revogado. Não vejo como atribuir a sua breve existência um efeito interpretativo e retroativo, como deseja a recorrente. Na sequência, é de se observar que a autorização para que a então Secretaria da Receita Federal disciplinasse os procedimentos de compensação, seja na redação original do art. 74 (“a Secretaria da Receita Federal, [...], poderá autorizar [...]”), seja expressamente pelo § 5º do dispositivo, introduzido pela Lei nº 10.637/2002, levou à edição de normativos adequados e conformes à legislação vigente em cada momento. Em destaque, o art. 28 da IN SRF 210/2002, com sua redação original: Art. 28. A compensação deverá ser efetuada considerandose as seguintes datas: I do pagamento indevido ou a maior que o devido, no caso de restituição, ressalvadas as hipóteses seguintes; [...] Foi com base nessa disciplina que a Autoridade Tributária procedeu aos cálculos das compensações no presente processo, visto que as alterações nessa sistemática somente passaram a ter vigência com o advento da IN SRF nº 323/2003 (DOU de 28/05/2003). Ao contrário do que sustenta a recorrente, não foi a MP 66/2002, posteriormente convertida na Lei nº 10.637/2002 que alterou esse critério. As importantes modificações introduzidas pela MP convertida em lei foram a criação do instrumento declaratório (Declaração de Compensação). Mas a data do encontro de contas (data da compensação) somente foi modificada pela IN SRF 323/2003. Transcrevo, a seguir, a nova redação do art. 28 da IN SRF nº 210/2002, com as alterações introduzidas pela IN SRF nº 323, de 24/04/2003, DOU 28/05/2003: Art. 28. Na compensação efetuada pelo sujeito passivo, os créditos serão acrescidos de juros compensatórios na forma prevista nos arts. 38 e 39 e os débitos sofrerão a incidência de acréscimos moratórios, na forma da legislação de regência, até a data da entrega da Declaração de Compensação. [...] No caso concreto sob exame, todos os pedidos de compensação, convertidos em declarações de compensação, foram apresentados em data anterior a 28/05/2003, pelo que inaplicáveis as disposições da IN 323/2003. Aliás, é exatamente o que está previsto nas regras de transição do art. 63 da posterior IN SRF nº 600/2005, mencionada pela Turma Julgadora em primeira instância. Com esses fundamentos, rejeito os argumentos da recorrente sobre a aplicabilidade da Lei Civil à compensação tributária e de que, no caso concreto, o “encontro de contas” deveria ser feito na data da entrega da declaração de compensação. Fl. 352DF CARF MF Impresso em 15/06/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/06/2016 por WALDIR VEIGA ROCHA, Assinado digitalmente em 15/06/2016 p or WALDIR VEIGA ROCHA, Assinado digitalmente em 15/06/2016 por WILSON FERNANDES GUIMARAES Processo nº 10680.007049/200124 Acórdão n.º 1301002.059 S1C3T1 Fl. 353 11 Resta, finalmente, apreciar os argumentos contrários ao não reconhecimento da homologação tácita das compensações objeto da Declaração de Compensação de fl. 99, entregue em 25/11/2002. Essa declaração indica expressamente ser “em substituição ao Pedido de Compensação anterior, protocolado em 02/04/02, por motivo de erro de digitação no valor do imposto de cód. 2469”. Do Pedido de Compensação “substituído”, datado de 02/04/2002 (fl. 97), consta: Código P.A. Vcto. Valor 4574 02/02 15/03/02 5.158,56 7987 02/02 15/03/02 23.808,73 2469 02/02 28/03/02 9.338,05 2319 02/02 28/03/02 25.338,05 Da Declaração de Compensação apresentada “em substituição”, datada de 25/11/2002 (fl. 99), consta: Código P.A. Vcto. Valor 4574 02/02 15/03/02 5.158,56 7987 02/02 15/03/02 23.808,73 2469 02/02 28/03/02 9.841,70 2319 02/02 28/03/02 25.338,05 O acórdão recorrido entendeu que a segunda declaração seria retificadora da primeira e, com base no art. 60 da IN SRF nº 600/2005, considerou como termo inicial para a contagem do prazo para a homologação tácita a data da entrega da declaração retificadora. Como consequência, não reconheceu a homologação tácita sobre essas compensações. De plano, registrese que a interessada desistiu do litígio acerca da compensação de código 2469, permanecendo a discussão acerca das outras três (códigos 4574, 7987 e 2319). O primeiro argumento da interessada é de que a segunda declaração não poderia ser considerada “retificadora” da primeira, visto que tal situação não estava prevista na então vigente IN SRF nº 210/2002. O dispositivo invocado pela Autoridade Julgadora em primeira instância (art. 60 da IN SRF nº 600/2005) não seria aplicável, por ser posterior às declarações aqui discutidas. Há que se considerar que, à época, grandes eram as novidades no campo da compensação tributária, com a criação da declaração de compensação e, logo a seguir, com a transformação desse instrumento declaratório em declaração eletrônica (PER/DCOMP). Não tenho dúvidas de que, de fato, a segunda declaração acima referida se propunha a retificar a primeira, substituindoa integralmente, não obstante a retificação não estivesse regulamentada. De fato, a retificação ocorreu. Resta investigar quais efeitos podem ser a ela atribuídos. A lei tributária não fazia qualquer referência à retificação do novo instrumento declaratório, nem sua modalidade eletrônica. De modo genérico, aplicável à “retificação de declaração de impostos e contribuições”, de se registrar o art. 18 da Medida Provisória nº 2.18949/2001: Art. 18. A retificação de declaração de impostos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, nas hipóteses em que admitida, terá a mesma natureza da declaração Fl. 353DF CARF MF Impresso em 15/06/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/06/2016 por WALDIR VEIGA ROCHA, Assinado digitalmente em 15/06/2016 p or WALDIR VEIGA ROCHA, Assinado digitalmente em 15/06/2016 por WILSON FERNANDES GUIMARAES Processo nº 10680.007049/200124 Acórdão n.º 1301002.059 S1C3T1 Fl. 354 12 originariamente apresentada, independentemente de autorização pela autoridade administrativa. Parágrafo único. A Secretaria da Receita Federal estabelecerá as hipóteses de admissibilidade e os procedimentos aplicáveis à retificação de declaração. Mas, também aqui, carentes de regulamentação as hipóteses de admissibilidade e os procedimentos aplicáveis. A regulamentação da retificação da declaração de compensação e seus efeitos somente veio a lume com os artigos 55 a 60 da Instrução Normativa SRF nº 460/2004. Tais disposições foram repetidas nos artigos 56 a 61 da Instrução Normativa SRF nº 600/2005 (grifos não constam do original): Art. 56. A retificação do Pedido de Restituição, do Pedido de Ressarcimento e da Declaração de Compensação gerados a partir do Programa PER/DCOMP, nas hipóteses em que admitida, deverá ser requerida pelo sujeito passivo mediante a apresentação à SRF de documento retificador gerado a partir do referido Programa. Parágrafo único. A retificação do Pedido de Restituição, do Pedido de Ressarcimento e da Declaração de Compensação apresentados em formulário (papel), nas hipóteses em que admitida, deverá ser requerida pelo sujeito passivo mediante a apresentação à SRF de formulário retificador, o qual será juntado ao processo administrativo de restituição, de ressarcimento ou de compensação para posterior exame pela autoridade competente da SRF. Art. 57. O Pedido de Restituição, o Pedido de Ressarcimento e a Declaração de Compensação somente poderão ser retificados pelo sujeito passivo caso se encontrem pendentes de decisão administrativa à data do envio do documento retificador e, no que se refere à Declaração de Compensação, que seja observado o disposto nos arts. 58 e 59. Art. 58. A retificação da Declaração de Compensação gerada a partir do Programa PER/DCOMP ou elaborada mediante utilização de formulário (papel) somente será admitida na hipótese de inexatidões materiais verificadas no preenchimento do referido documento e, ainda, da inocorrência da hipótese prevista no art. 59. Art. 59. A retificação da Declaração de Compensação gerada a partir do Programa PER/DCOMP ou elaborada mediante utilização de formulário (papel) não será admitida quanto tiver por objeto a inclusão de novo débito ou o aumento do valor do débito compensado mediante a apresentação da Declaração de Compensação à SRF. Parágrafo único. Na hipótese prevista no caput, o sujeito passivo que desejar compensar o novo débito ou a diferença de débito deverá apresentar à SRF nova Declaração de Compensação. Fl. 354DF CARF MF Impresso em 15/06/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/06/2016 por WALDIR VEIGA ROCHA, Assinado digitalmente em 15/06/2016 p or WALDIR VEIGA ROCHA, Assinado digitalmente em 15/06/2016 por WILSON FERNANDES GUIMARAES Processo nº 10680.007049/200124 Acórdão n.º 1301002.059 S1C3T1 Fl. 355 13 Art. 60. Admitida a retificação da Declaração de Compensação, o termo inicial da contagem do prazo previsto no § 2º do art. 29 será a data da apresentação da Declaração de Compensação retificadora. Art. 61. A retificação da Declaração de Compensação não altera a data de valoração prevista no art. 28, que permanecerá sendo a data da apresentação da Declaração de Compensação original. Observese que essa regulamentação guarda conformidade com as disposições legais então vigentes: estabelece as hipóteses em que será admitida a retificação e disciplina seus procedimentos e efeitos. Quanto às hipóteses de admissibilidade, tenho que não são relevantes para o caso sob análise. É que, conforme ressaltado, a retificação ocorreu de fato, mostrandose despiciendo cogitar se poderia, ou não, ter sido a retificação aceita pela Autoridade Administrativa. Quanto aos efeitos de tal retificação, a situação é diferente. Observese que a regulamentação (arts. 60 e 61 da IN, acima transcritos), busca preservar os direitos de ambas as partes. Pelo lado do contribuinte, a data de valoração permanece sendo a data da declaração original. Vale dizer, não se há de imputar multa moratória se, entre a data da declaração original e a data da retificadora, vier a ocorrer o vencimento do tributo compensado. Pelo lado do Fisco, preservase o prazo adequado à análise criteriosa da compensação declarada, com vistas a sua homologação, ao considerar que o prazo para homologação tácita será contado a partir da entrega da declaração retificadora. Observese que não se trata, como sustenta a recorrente, da possibilidade de “eternização” do litígio, com sucessivas reaberturas de prazo para análise. Se tais reaberturas de prazo ocorrerem, isso se deverá exclusivamente à iniciativa do contribuinte ao promover sucessivas retificações das compensações declaradas. Concluo, assim, que a normatização dos efeitos da retificação da declaração de compensação, de que tratam os arts. 59 e 60 da IN SRF nº 460/2004 (arts. 60 e 61 da IN SRF nº 600/2005), não cria qualquer restrição não prevista em lei aos direitos do contribuinte que deseja se utilizar da compensação tributária. Na verdade, tais disposições nada mais fazem do que integrar e interpretar a legislação então vigente, sendo correta sua aplicação a compensações declaradas em 2002, quando tais efeitos ainda não se encontravam positivados em normativos infralegais. A recorrente acrescenta, como segundo argumento, que, ainda que a segunda declaração possa ser tida como retificadora da primeira, isso somente seria válido para o débito de código 2469 (para o qual, lembro, não mais existe litígio). Para os tributos de códigos 4574, 7987 e 2319 não teria havido qualquer alteração entre a primeira e a segunda declarações, pelo que seria descabido se cogitar de retificação. Também aqui não lhe assiste razão. A jurisprudência administrativa é pacífica no sentido de que a declaração retificadora, quando admitida, substitui a original em todos os seus valores e efeitos. Fl. 355DF CARF MF Impresso em 15/06/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/06/2016 por WALDIR VEIGA ROCHA, Assinado digitalmente em 15/06/2016 p or WALDIR VEIGA ROCHA, Assinado digitalmente em 15/06/2016 por WILSON FERNANDES GUIMARAES Processo nº 10680.007049/200124 Acórdão n.º 1301002.059 S1C3T1 Fl. 356 14 Já me manifestei, acima, no sentido de que a segunda declaração aqui tratada retificou, de fato, a primeira. Em assim sendo, toda a primeira declaração (e não apenas algumas de suas informações) foi substituída pela retificadora. Não se pode cogitar atribuir determinados efeitos a alguns dos débitos na declaração original e outros efeitos a outros débitos na declaração retificadora. A declaração retificada, como um todo, deixa de produzir efeitos, pelo que, também aqui, o pleito da recorrente não pode ser atendido. Em conclusão, por todo o exposto, voto por rejeitar a preliminar de nulidade do acórdão recorrido e, no mérito, negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Waldir Veiga Rocha Fl. 356DF CARF MF Impresso em 15/06/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/06/2016 por WALDIR VEIGA ROCHA, Assinado digitalmente em 15/06/2016 p or WALDIR VEIGA ROCHA, Assinado digitalmente em 15/06/2016 por WILSON FERNANDES GUIMARAES
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Numero do processo: 10932.720169/2013-45
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Apr 27 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Mon May 16 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 01/10/2009 a 31/12/2012
CONCOMITÂNCIA. AÇÃO JUDICIAL. APLICAÇÃO DA SÚMULA Nº 1 DO CARF.
Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial.
PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. EXIGÊNCIA DE PROVA.
Não pode ser aceito para julgamento a simples alegação sem a demonstração da existência ou da veracidade daquilo alegado.
IPI. EXCLUSÃO DO ICMS DA BASE DE CÁLCULO. IMPOSSIBILIDADE.
A base de cálculo do IPI é dada pelo valor da operação de que decorrer a saída do produto. O ICMS, por ser tributo calculado por dentro do valor da operação (preço de venda), nele já está inserido, de modo que a expressão valor da operação deve ser compreendida com a sua inclusão.
INCONSTITUCIONALIDADE DE NORMAS TRIBUTÁRIAS. INCOMPETÊNCIA. APLICAÇÃO DA SÚMULA Nº 2 DO CARF.
Este Colegiado é incompetente para apreciar questões que versem sobre constitucionalidade das leis tributárias.
AUTO DE INFRAÇÃO. MULTA DE OFÍCIO. LEGALIDADE.
A multa de ofício de 75 % (setenta e cinco por cento) aplicada nos lançamentos de ofício esta prevista no inciso I, do art. 44 da Lei nº 9.430/96.
JUROS DE MORA. SELIC. APLICAÇÃO DA SÚMULA Nº 4 DO CARF.
A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC paratítulos federais.
JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO
No lançamento de ofício, o valor originário do crédito tributário compreende o valor do tributo e da multa por lançamento de ofício. Sobre a multa por lançamento de oficio não paga no vencimento incidem juros de mora.
Recurso Voluntário Negado
Numero da decisão: 3201-002.131
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não se conhecer do recurso voluntário, por concomitância de matéria na esfera judicial, quanto ao creditamento do IPI sobre a aquisição de bens do ativo permanente. Por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário quanto às demais matérias, exceto quanto à incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício, em que ficaram vencidos os Conselheiros Tatiana Josefovicz Belisário, Elias Fernandes Eufrásio e Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, que davam provimento ao recurso. Ausente justificadamente, a Conselheira Ana Clarissa Masuko dos Santos Araújo.
Charles Mayer de Castro Souza - Presidente.
Winderley Morais Pereira - Relator.
Participaram do presente julgamento, os Conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza, Mércia Helena Trajano Damorim, Elias Fernandes Eufrásio, Winderley Morais Pereira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Carlos Alberto Nascimento e Silva Pinto e Tatiana Josefovicz Belisario.
Nome do relator: WINDERLEY MORAIS PEREIRA
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AÇÃO JUDICIAL. APLICAÇÃO DA SÚMULA Nº 1 DO CARF. Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. EXIGÊNCIA DE PROVA. Não pode ser aceito para julgamento a simples alegação sem a demonstração da existência ou da veracidade daquilo alegado. IPI. EXCLUSÃO DO ICMS DA BASE DE CÁLCULO. IMPOSSIBILIDADE. A base de cálculo do IPI é dada pelo valor da operação de que decorrer a saída do produto. O ICMS, por ser tributo calculado por dentro do valor da operação (preço de venda), nele já está inserido, de modo que a expressão “valor da operação” deve ser compreendida com a sua inclusão. INCONSTITUCIONALIDADE DE NORMAS TRIBUTÁRIAS. INCOMPETÊNCIA. APLICAÇÃO DA SÚMULA Nº 2 DO CARF. Este Colegiado é incompetente para apreciar questões que versem sobre constitucionalidade das leis tributárias. AUTO DE INFRAÇÃO. MULTA DE OFÍCIO. LEGALIDADE. A multa de ofício de 75 % (setenta e cinco por cento) aplicada nos lançamentos de ofício esta prevista no inciso I, do art. 44 da Lei nº 9.430/96. JUROS DE MORA. SELIC. APLICAÇÃO DA SÚMULA Nº 4 DO CARF. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 93 2. 72 01 69 /2 01 3- 45 Fl. 16903DF CARF MF Impresso em 16/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 12/05/2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA, Assinado digitalmente em 14/05/ 2016 por CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA, Assinado digitalmente em 12/05/2016 por WINDERLEY MORAIS PER EIRA 2 A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC paratítulos federais. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO No lançamento de ofício, o valor originário do crédito tributário compreende o valor do tributo e da multa por lançamento de ofício. Sobre a multa por lançamento de oficio não paga no vencimento incidem juros de mora. Recurso Voluntário Negado Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não se conhecer do recurso voluntário, por concomitância de matéria na esfera judicial, quanto ao creditamento do IPI sobre a aquisição de bens do ativo permanente. Por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário quanto às demais matérias, exceto quanto à incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício, em que ficaram vencidos os Conselheiros Tatiana Josefovicz Belisário, Elias Fernandes Eufrásio e Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, que davam provimento ao recurso. Ausente justificadamente, a Conselheira Ana Clarissa Masuko dos Santos Araújo. Charles Mayer de Castro Souza Presidente. Winderley Morais Pereira Relator. Participaram do presente julgamento, os Conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza, Mércia Helena Trajano Damorim, Elias Fernandes Eufrásio, Winderley Morais Pereira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Carlos Alberto Nascimento e Silva Pinto e Tatiana Josefovicz Belisario. Relatório Por bem descrever os fatos adoto, com as devidas adições, o relatório da primeira instância que passo a transcrever. "Tratase de impugnação tempestiva ao Auto de Infração das fls. 16689 a 16691, lavrado pela fiscalização da Delegacia da Fl. 16904DF CARF MF Impresso em 16/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 12/05/2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA, Assinado digitalmente em 14/05/ 2016 por CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA, Assinado digitalmente em 12/05/2016 por WINDERLEY MORAIS PER EIRA Processo nº 10932.720169/201345 Acórdão n.º 3201002.131 S3C2T1 Fl. 16.904 3 Receita Federal do Brasil em São Bernardo do Campo/SP, para formalizar a exigência do Imposto sobre Produtos Industrializados – IPI, acrescido de juros de mora e multa de ofício no percentual de 75%, totalizando o crédito tributário R$ 13.540.201,15, à data da autuação. Conforme a descrição dos fatos, o estabelecimento industrial deixou de recolher o imposto por ter escriturado e utilizado créditos indevidos decorrentes: da aquisição de bens destinados ao ativo permanente, de materiais intermediários, partes e peças para máquinas; e sobre a exclusão do ICMS da base de cálculo do IPI. A fiscalização procedeu a glosa dos referidos créditos, reconstituindo a escrita fiscal do estabelecimento, conforme demonstrativo das fls. 16706 a 16708, tendo emergido os saldos devedores que ora estão sendo exigidos. O enquadramento legal das infrações consta das fls. 16690 e 16691, e da multa de ofício e dos juros de mora no respectivo demonstrativo às 16698 a 16699. Irresignado o contribuinte vem contestar a exigência pelo arrazoado das fls. 16714 a 16764, alegando o que segue. “I DO DIREITO AO CRÉDITO REFERENTE AQUISIÇÕES MERCADORIAS DESTINADAS AO PROCESSO PRODUTIVO A Impugnante é empresa industrial tendo por objetivo social a fabricação de peças e acessórios para veículos automotores, sendo no desempenho de suas atividades contribuinte do IPI. (...) Preambularmente, notase que não há demonstração clara e precisa que as mercadorias objeto dos créditos impugnados pelo Fisco, não são consumidas no processo de industrialização da empresa, bem como, não há qualquer explicação ou demonstração do critério técnico de como se chegou à conclusão que tais produtos não são consumidos no processo produtivo, não restando provada a ilegitimidade dos créditos glosados pela fiscalização. Com isso vêse que a motivação da glosa sem a análise técnica para alegar que os mesmos não participam do processo produtivo, valendose apenas do disposto nos artigos 164, I do Decreto n° 4.544/02 RIP1/2002 e do art. 226, I do Decreto 7.212/2010, digase de passagem, pela leitura dos mencionados dispositivos legais, não se encontra vedação aos créditos escriturados pela Impugnante. Desta feita, a prova da ocorrência do fato jurídico prevista na norma legal, deve ser juridicamente constituída através das provas colhidas pela autoridade fiscal, e não por mera dedução do agente fiscalizador, como se apresenta no presente Auto de Infração. Imprescindível haver a prova da relação de causalidade entre os fatos jurídicos constantes no lançamento, descabendo a incidência na norma sancionatória em caso de haver mera presunção do agente fiscalizador. (...) Constatase, desta feita, que a presunção de validade dos atos administrativos, não exime a administração do dever de comprovar a ocorrência do fato jurídico, bem como as Fl. 16905DF CARF MF Impresso em 16/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 12/05/2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA, Assinado digitalmente em 14/05/ 2016 por CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA, Assinado digitalmente em 12/05/2016 por WINDERLEY MORAIS PER EIRA 4 circunstâncias em que esse ocorreu, tendo em vista que os atos de lançamento da administração são vinculados e regidos pela estrita legalidade e tipicidade, dependendo, portanto, de cabal demonstração da ocorrência dos motivos que ensejaram a autuação. (...) Os princípios da legalidade e da tipicidade na esfera da tributação, exigem que as relações obrigacionais e sancionatórias sejam desencadeadas apenas se efetivamente verificados os fatos conotativamente descritos nas correspondentes hipóteses normativas, não bastando o simples relato do motivo. É que a suposta conduta irregular da ora Impugnante tem que estar pautada em provas, o que não ocorre no auto de infração em debate. (...) Permissa vênia, a Impugnante não concorda com as glosas realizadas, posto que não se encontra vedação legal aos créditos foram escriturados por força do disposto no REGULAMENTO DO I.P.I., que autoriza o creditamento, dos materiais intermediários consumidos no processo de industrialização dos produtos de sua fabricação, ou seja, são indispensáveis no processo produtivo, inexistindo qualquer explicação técnica dos motivos pelos quais os créditos não foram aceitos, razão pela qual não se justifica a autuação. (...) Nesse sentido, os denominados Produtos Intermediários, definição de amplitude abrangente de forma que sejam todos e quaisquer produtos que venham a ser aplicados no processo produtivo e dele resultem consumidos. E, consumidos, no significado de desgastados, corroídos, destruídos, obviamente, sem a necessidade de seremno de imediato ou integralmente. (...) Durante muito tempo a interpretação Administrativa e Jurisprudencial do que fosse "PRODUTO INTERMEDIÁRIO" limitavase àqueles bens que fossem CONSUMIDOS imediatamente, numa única fase da produção, restringindose, pois, o Direito ao Crédito, nas aquisições de inúmeros componentes físicos indispensáveis e utilizados no processo de fabricação como elemento essencial. Portanto, para o pretendido fim, são PRODUTOS INTERMEDIÁRIOS: Todos e quaisquer componentes físicos e químicos que, em virtude de sua PERMANENTE E NECESSÁRIA participação no processo de industrialização se desgastem, inutilizem, percam suas propriedades físicas ou químicas originais, ou cujo dano impossibilite seu reaproveitamento, bastando que tal ocorra com certa regularidade. (...) II DO DIREITO AO CRÉDITO REFERENTE AQUISIÇÕES DE PARTES E PEÇAS PARA MÁQUINAS E BENS DO ATIVO PERMANENTE (...) Preambularmente, notase que não há demonstração clara e precisa que as mercadorias que foram objeto dos créditos impugnados pelo Fisco, não há indicação nem a demonstração de quais partes e peças para máquinas e de quais mercadorias Fl. 16906DF CARF MF Impresso em 16/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 12/05/2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA, Assinado digitalmente em 14/05/ 2016 por CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA, Assinado digitalmente em 12/05/2016 por WINDERLEY MORAIS PER EIRA Processo nº 10932.720169/201345 Acórdão n.º 3201002.131 S3C2T1 Fl. 16.905 5 são bens do ativo permanente, bem como, não há qualquer explicação ou demonstração do critério técnico de como se chegou à conclusão que os produtos são de destinação exclusiva do ativo permanente, não restando provada a ilegitimidade dos créditos em questão. Com isso vêse que a motivação da glosa sem a análise técnica para alegar que os mesmos não participam do processo produtivo, valendose apenas do disposto nos artigos 164, I do Decreto n° 4.544/02 RIPI/2002 e do art. 226, I do Decreto 7.212/2010, não é o suficiente para amparar a autuação, sendo, portanto, nulo o lançamento fiscal, como demonstrado no item precedente, por violação ao artigo 142 do Código Tributário Nacional. Contudo, ocorre que para um bem ser considerado do ativo permanente, de acordo com a legislação do imposto de renda artigo 301, §§ l° e 2° Decreto 3.000/99 RIR e do Parecer CST n° 2/84, "as contas que registrem recursos aplicados na aquisição de partes, peças, máquinas e equipamentos de reposição de bens do imobilizado, quando referidas partes e peças tiverem vida útil superiores há um ano devem ser classificadas no ativo imobilizado", (...) Como a vida útil das peças e materiais diversos para a manutenção de máquinas e equipamentos são inferiores há um ano, nos termos do artigo 301, §2° do RIR, tais mercadorias não podem ser escrituradas como bens do ativo permanente, vez que, como visto existem critérios e regras contábeis a serem observadas, sob pena de incorrer em irregularidade na apuração do imposto de renda. (...) Logo, o mesmo critério há de ser observado para fins de crédito de IPI, posto que para fins de Imposto de Renda não podem ser considerados como bens do ativo permanente, mas sim, como materiais de consumo da produção. (...) De qualquer sorte, mesmo se as aquisições que geraram os créditos escriturados pela Impugnante fossem caracterizadas como sendo do ativo permanente de acordo com as normas do Imposto de Renda, o direito de creditarse do IPI quando anteriormente cobrado em operações que resultam em entrada de mercadoria, em seu Estabelecimento, destinadas ao Ativo Permanente, encontra amparo legal face o impostergável princípio da não cumulatividade estabelecido no Art. 153 § 3º, II da MAGNA CARTA, (...) Desse Diploma (art. 49 de CTN) também se extrai a irrelevância da espécie/tipo ou destinação das mercadorias/produtos para efeito de crédito do imposto; dai concluirmos que a Constituição Federal foi bem interpretada, pois a compensação será efetuada entre o valor global das operações realizadas. A Carta da República no inciso II, do §3°, Artigo 153, arrogou se na competência para, com segura precisão, definir o mecanismo da compensação, justamente porque se trata de definição. E é exatamente por esse fato que a nãocumulatividade erigida à categoria de princípio, esgotase no Texto Supremo, vale dizer, nenhum diploma legal poderia ampliar, restringir ou Fl. 16907DF CARF MF Impresso em 16/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 12/05/2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA, Assinado digitalmente em 14/05/ 2016 por CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA, Assinado digitalmente em 12/05/2016 por WINDERLEY MORAIS PER EIRA 6 mesmo suprimir o direito à compensação do IPI tal como lá conceituado. Portanto, a efetivação da técnica da nãocumulatividade só é possível cotejandose operações com operações, núcleo do aspecto material da hipótese de incidência do IPI; aspecto esse fundamental para a identificação da ocorrência do fato descrito na norma, aliados aos conceitos constitucionais de compensação e operações, com desprezo da qualificação da mercadoria ou seu destino. (...) Nesse sentido, o regime não cumulativo do ICMS, PIS e COFINS atualmente permite o creditamento das aquisições de ativo, não havendo motivação para que tal possibilidade não se estenda também ao IPI, em homenagem ao Princípio da Isonomia e em observância ao Princípio da nãocumulatividade que rege igualmente todos esses tributos, (...) III DO DIREITO DO CRÉDITO SOBRE A EXCLUSÃO DA PARCELA DO ICMS DA BASE DE CÁLCULO DO IPI Os créditos referentes à exclusão do ICMS da base de cálculo do IPI foram apropriados com base na interpretação da legislação de regência do tributo, pois os valores do ICMS incidentes nas vendas dos produtos industrializados, por não corresponder aos gastos de produção e por se tratar de parcela absolutamente estranha ao valor da operação não deve ser incluído na base de cálculo, conforme decisões proferidas pelo Egrégio Superior Tribunal de Justiça e do Conselho de Contribuinte, senão vejamos. (...) Nos termos dos artigos supra transcritos, vêse que nas operações relativas à saída de produtos industrializados do estabelecimento, a base de cálculo é o valor da operação de que decorrer a saída da mercadoria", sendo certo que o VALOR dessa operação referese aos valores decorrentes dos gastos inerentes e indispensáveis ao processo de industrialização dos produtos, tais como, insumos, mãodeobra e despesas acessórias, sem os quais não se industrializa o produto final vendido pela Impugnante, (...) Portanto, a Base de Cálculo do IPI só poderá ser relativa aos valores representativos dos gastos de produção, ou seja, aqueles decorrentes da industrialização do produto. (...) Por outro lado, sabidamente, a parcela correspondente ao ICMS não é componente da produção, MAS SIM recurso financeiro que APENAS "TRANSITA" em caráter temporário pela posse/detenção do sujeito passivo o qual tem a obrigação legal de, em dado momento posterior, repassar tais importes a quem de direito pertencerem posto constituírem receita própria destinada a integrar patrimônio/cofres "DE OUTREM". (cujo montante embora esteja incluído no preço das mercadorias e seja recebido pelo contribuinte "de jure” quando este realiza vendas, deve por este sujeito passivo ser repassado/recolhido aos cofres estaduais em momento posterior por força de obrigação que lhe é legalmente imposta nesse sentido) visto tratarse tal valor de inequívoca RECEITA PÚBLICA privativa dos ESTADOS Federativos destinada a integrar exclusivamente o erário/patrimônio estatal desses referidos Entes Tributantes. (...) Fl. 16908DF CARF MF Impresso em 16/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 12/05/2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA, Assinado digitalmente em 14/05/ 2016 por CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA, Assinado digitalmente em 12/05/2016 por WINDERLEY MORAIS PER EIRA Processo nº 10932.720169/201345 Acórdão n.º 3201002.131 S3C2T1 Fl. 16.906 7 Nesse pensar, concluise que a lei ao determinar a inclusão do valor correspondente ao ICMS, na base de cálculo do IPI é ilegal por afrontar o artigo 47 Código Tributário Nacional, vez que inexistiu a operação elemento sem o qual não há como aferir a base de cálculo do imposto porque alterou a base de cálculo definida pelo CTN, violando o artigo 146, III, "a" da CF/88. (...) IV DA DESPROPORCIONALIDADE E CONFISCATORIEDADE DA MULTA APLICADA Conforme demonstrado os créditos escriturados pela Impugnante são legítimos, contudo, cabe salientar que é inaplicável a multa de 75% sobre o creditamento efetuado, por ser desproporcional e confiscatória. "Ad argumentandum tantum" ainda que a Impugnante seja devedora do valor autuado, é de se observar que a designação do montante de multa é totalmente elevada, afrontando o determinado na legislação fiscal. Não existe, pois, fundamento jurídico ou moral que legitime a manutenção de uma sanção dessa natureza, de 75%. É certo, que a sanção tributária, como qualquer outra sanção jurídica, possui a finalidade de desestimular o possível devedor de descumprir a obrigação tributária a que está sujeito e, desta forma estimular o correto e pontual pagamento dos tributos. Desta forma, a multa fiscal não pode ser usada como expediente ou técnica de arrecadação, constituindo um ônus equiparável ou superior ao tributo. A suposta falta de pagamento do IPI, não poderá restringir o DIREITO DE PROPRIEDADE, isto porque, a Constituição Federal assegura a todos o direito de propriedade em seu artigo 5o, XXII. Desta forma, é inconstitucional qualquer manifestação legal no sentido de reduzir o patrimônio do contribuinte. Veja que configurase, também, enriquecimento sem causa do poder público, visto tal enriquecimento acarreta um desequilíbrio patrimonial, pois, acresce injustificadamente um patrimônio, no caso do Estado, em detrimento de outro, do contribuinte, e esse enriquecimento está estritamente ligado com o empobrecimento, numa relação de causa e efeito. Resta assim claro, que o montante da multa aplicada de 75%, fere sobremaneira o princípio de direito que proíbe o enriquecimento sem causa, que é aplicável ao Direito Tributário pela regra do artigo 108, inciso III do CTN. Além do direito de propriedade estar consagrado na Constituição Federal como bem intangível (artigo 5o, inciso XXII) respeitadas as exceções legais há, no âmbito do sistema tributário nacional, dentro das limitações ao poder de tributar, a proibição de que o tributo seja utilizado, com efeito, de confisco (artigo 150, inciso IV). A doutrina e a jurisprudência já firmaram entendimento de que as multas não podem assumir caráter confiscatório, sendo imperiosa a suas redução, a fim de que se preserve o artigo 150, IV da Constituição Federal, que assevera ser vedada a utilização de tributo, com efeito, de confisco. (...) Fl. 16909DF CARF MF Impresso em 16/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 12/05/2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA, Assinado digitalmente em 14/05/ 2016 por CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA, Assinado digitalmente em 12/05/2016 por WINDERLEY MORAIS PER EIRA 8 V DA NÃO INCIDÊNCIA DA TAXA SELIC SOBRE A MULTA DE OFÍCIO Conforme demonstrado os créditos escriturados pela Impugnante são legítimos, razão pela qual é inaplicável a multa de ofício sobre o creditamento efetuado, contudo, cabe demonstrar que caso seja mantido o lançamento fiscal, o que discorda em absoluto, como cediço o Fisco Federal aplica ilegalmente juros sobre a multa de ofício. Nesse sentido, cabe salientar que a cobrança de juros selic sobre o valor da multa de ofício calculado a partir do 30° dia da lavratura do auto de infração é ilegal, pois, não encontra respaldo na legislação ordinária inexistindo previsão para a sua incidência, (...)” O impugnante colaciona, a fim de amparar suas teses, posições da doutrina e arestos de julgados administrativos e judiciais. Encerra, requerendo, a improcedência do lançamento, reconhecendose o direito aos créditos efetuados e que se torne sem efeito a reconstituição da escrita fiscal, com o conseqüente cancelamento dos débitos decorrentes." A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento manteve integralmente o despacho decisório. A decisão foi assim ementada: “ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2012 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. OPÇÃO PELA VIA JUDICIAL. A propositura pelo contribuinte de ação judicial de qualquer espécie contra a Fazenda Pública com o mesmo objeto do processo administrativo fiscal implica renúncia às instâncias administrativas, ou desistência de eventual recurso de qualquer espécie interposto. BASE DE CÁLCULO. INCLUSÃO DO ICMS. A base de cálculo do IPI é dada pelo valor da operação de que decorrer a saída do produto. O ICMS, por ser tributo calculado por dentro do valor da operação (preço de venda), nele já está inserido, de modo que a expressão “valor da operação” deve ser compreendida com a sua inclusão. IMPOSTO LANÇADO E NÃO RECOLHIDO. MULTA DE OFÍCIO. PROCEDÊNCIA. A falta de recolhimento do imposto lançado impõe a exigência da multa de ofício no percentual de 75% sobre o valor que deixou de ser recolhido, nos termos da legislação de regência. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido.” Cientificada, a empresa interpôs recurso voluntário onde repisa as alegações apresentadas na impugnação. Fl. 16910DF CARF MF Impresso em 16/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 12/05/2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA, Assinado digitalmente em 14/05/ 2016 por CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA, Assinado digitalmente em 12/05/2016 por WINDERLEY MORAIS PER EIRA Processo nº 10932.720169/201345 Acórdão n.º 3201002.131 S3C2T1 Fl. 16.907 9 É o Relatório. Voto Conselheiro Winderley Morais Pereira, Relator. A teor do relatado, as discussões quanto à utilização de créditos do IPI nas aquisições de partes e peças para bens do ativo restam prejudicadas, em razão da Ação Judicial nº 98.15.066013 ajuizada na 2ª Vara Federal de São Bernardo do Campo/SP, que discute matéria idêntica e na primeira instância, a decisão foi contra as pretensões da Recorrente. Sentença que posteriormente foi confirmada pelo Tribunal Regional Federal da 3ª Região, conforme consta da Certidão de Objeto e Pé às fls. 223 e 224. O código Tributário Nacional exclui da apreciação dos tribunais administrativos, a matéria objeto de ação judicial, em obediência ao principio da unidade de jurisdição, prevalente no País, em que decisões judiciais são soberanas e afastam a possibilidade de apreciação da mesma matéria pela via administrativa. No caso em tela, tratandose da mesma matéria. A propositura de ação judicial afasta a apreciação pelos ritos do Processo Administrativo Fiscal. Tal entendimento foi objeto da Súmula nº 1 do CARF, publicada no DOU de 22/12/2009. “Súmula CARF nº 1 Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial.” Portanto, quanto a esta matéria o recurso não pode ser conhecido em razão da concomitância. Quanto as demais matérias, o recurso é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, merecendo, por isto, ser conhecidas. A Recorrente questiona a metodologia e os conceitos utilizados pela Fiscalização para definir as matériasprimas, produtos intermediários e material de embalagem utilizados para apurar o IPI e que configuram as diferenças apuradas no presente lançamento. Alega a Recorrente que a Fiscalização ao proceder a glosa dos créditos não provou de forma clara e evidente, que tais produtos não estariam incluídos nos conceitos necessários a legislação para aproveitamento do crédito. Apesar da longa e extensa discussão no recurso voluntário, não assiste razão a Recorrente. As informações das glosas realizadas pela Fiscalização estão bem detalhadas no Fl. 16911DF CARF MF Impresso em 16/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 12/05/2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA, Assinado digitalmente em 14/05/ 2016 por CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA, Assinado digitalmente em 12/05/2016 por WINDERLEY MORAIS PER EIRA 10 Termo de Verificação Fiscal (capítulo "C DA CONSTITUIÇÃO DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO"). A Recorrente se insurge de forma genérica sobre o conceito de insumo definido na legislação do IPI, sem questionar as glosas efetivamente realizadas pela Fiscalização. A Recorrente em resumo, questiona o conceito utilizado pela Fiscalização na apuração dos creditados de IPI, previstos no art. 226, I do Decreto nº 7.212/2010. Art. 226. Os estabelecimentos industriais e os que lhes são equiparados poderão creditarse: I do imposto relativo a matériaprima, produto intermediário e material de embalagem, adquiridos para emprego na industrialização de produtos tributados, incluindose, entre as matériasprimas e os produtos intermediários, aqueles que, embora não se integrando ao novo produto, forem consumidos no processo de industrialização, salvo se compreendidos entre os bens do ativo permanente; A Recorrente foi cientificada da decisão da primeira instância e apresentou seu recurso voluntário, ou seja, cientificada da exigência fiscal e já com o conhecimento das conclusões da Fiscalização e da decisão da primeira instância, apresentou seu recurso voluntário trazendo em linhas gerais, as mesmas alegações já apresentadas na impugnação e não trouxe nenhum questionamento objetivo que pudesse levantar qualquer dúvida quanto as conclusões do trabalho fiscal, atacando o conceito de matériaprima, produto intermediário e material de embalagem, utilizado pela apurar o IPI. Quanto a discussão sobre a inclusão do ICMS na base de cálculo do IPI não procede as pretensões do recurso. O ICMS, cujo cálculo é "por dentro", compõe a base de cálculo do IPI, nos termos previstos no DecretoLei nº 406/68. A matéria já foi objeto de manifestação deste Conselho em diversos julgados e também já foi enfrentada por esta Turma no Acórdão 3201001.920 julgado na sessão de 18 de março de 2015, com relatoria da Conselheira Ana Clarissa Masuko dos Santos Araujo, por concordar inteiramente com a posição adotada naquele julgado, peço vênia para incluir no meu voto e dele também fazer minhas razões para decidir. "Depreendese dos autos que a Recorrente destacou o IPI nas notas fiscais de saída, escriturou os referidos débitos no RAIPI e apurou saldo devedor do IPI nos períodos de apuração em análise, que , todavia não foram constituídos, pois alega que direito creditório de R$ 9.093.993,10, decorrente da exclusão da base de cálculo do IPI, dos valores referentes ao ICMS, ao PIS e à Cofins. Não assiste razão à Recorrente, pois a inclusão do ICMS, cujo cálculo é “por dentro”, compõe a base de cálculo do IPI, por disposição expressa do DecretoLei nº 406, de 1968, art. 2º , § 7º. Com relação à inclusão do PIS e da Cofins na base de cálculo do IPI, não há previsão de que referidas contribuições componham a base de cálculo do IPI, pois incidem sobre o faturamento. Por outro lado, não há qualquer demonstrativo de Fl. 16912DF CARF MF Impresso em 16/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 12/05/2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA, Assinado digitalmente em 14/05/ 2016 por CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA, Assinado digitalmente em 12/05/2016 por WINDERLEY MORAIS PER EIRA Processo nº 10932.720169/201345 Acórdão n.º 3201002.131 S3C2T1 Fl. 16.908 11 cálculos para que se demonstrasse como a Recorrente apurou esses créditos. No que tange à multa de ofício, veiculada no art. 80, caput, da Lei nº 4.502/64, com a redação dada pelo art. 13 da Lei nº 11.488/07, é aplicável na hipótese de falta de recolhimento do imposto, de maneira que, não reconhecido o direito creditório e apurado saldo devedor de IPI, incide a penalidade. Finalmente, destaquese que as questões abordadas no presente processo esbarram na Súmula n. 2, que determina que o CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Em face do exposto, voto por negar provimento ao recurso voluntário." (Acórdão 3201001.920, Relator Ana Clarissa Masuko dos Santos Araujo, 18/03/2015) Quanto a multa de ofício no valor de 75% (setenta e cinco por cento), não assiste razão a recorrente, a multa está prevista no inciso I, do art. 44, da Lei 9.430/96, sendo aplicada nos lançamentos de ofício para exigência de tributos. “Art.44 Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I – de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata;” No caso em tela foi realizado o lançamento de ofício, formalizado por meio do Auto de Infração e, portanto, tornase obrigatória a exigência da multa de ofício no valor de 75% (setenta e cinco por cento) aplicada sobre o valor do tributo exigido. O contribuinte também se insurge contra a cobrança de juros de mora e utilização da taxa SELIC. Também nesta matéria não assiste razão a recorrente, os juros moratórios incidem sobre o crédito tributário não integralmente pago, no intuito de corrigir os valores devidos, sem se configurar em penalidade. A previsão para a cobrança dos juros de mora consta do art. 161 do Código Tributário Nacional. “Art. 161. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária. § 1º Se a lei não dispuser de modo diverso, os juros de mora são calculados à taxa de um por cento ao mês. § 2º O disposto neste artigo não se aplica na pendência de consulta formulada pelo devedor dentro do prazo legal para pagamento do crédito.” Fl. 16913DF CARF MF Impresso em 16/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 12/05/2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA, Assinado digitalmente em 14/05/ 2016 por CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA, Assinado digitalmente em 12/05/2016 por WINDERLEY MORAIS PER EIRA 12 Depreendese da leitura do § 1º que a cobrança de um por cento fica afastada no caso de lei dispuser de modo diverso. No caso em análise, a legislação trouxe novos valores de cobrança, em substituição àquele original, que vem a ser o art. 2º do DecretoLei 1.736/79, alterado pelo artigo 16 do DecretoLei 2.32387 com redação dada pelo artigo 6º do DecretoLei 2.33187 e art. 54 parágrafo 2º da Lei 8.383/91. Quanto ao cabimento da cobrança de juros de mora, utilizando a taxa SELIC. O CARF editou a súmula nº 4, publicada no DOU de 22/12/2009. “Súmula CARF nº 4 A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais”. Alega ainda a Recorrente, suposta ilegalidade na exigência de juros sobre a multa de ofício. Também quanto a esta matéria não assiste razão ao recurso. A multa de ofício é lançada em conjunto com o principal fazendo um crédito único. Não ocorrendo o pagamento, a Fazenda Pública deixa de receber todo o crédito tributário que a ela era devida, e assim, faz jus a receber juros de mora sobre este montante. O CTN define como sujeito a multa de mora, o crédito não integralmente pago no vencimento, não existindo nenhuma determinação legal para excluir do conceito de créditos não integralmente pagos, a multa de ofício. Destarte não há como separar a multa de ofício do total do crédito exigido. A matéria já foi objeto de julgamento pela 1ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais do CARF, no Acórdão nº 9101001.350, na sessão do dia 15 de maio de 2012, quando foi decidido pela incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício. A ementa do citado acórdão ficou assim redigida. "JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO No lançamento de ofício, o valor originário do crédito tributário compreende o valor do tributo e da multa por lançamento de ofício. Sobre a multa por lançamento de oficio não paga no vencimento incidem juros de mora. Em se tratando de débitos relacionados com tributos cujos fatos geradores tenham ocorrido até 31/12/1994, sobre a multa por lançamento de ofício incidem, a partir de 1° de janeiro de 1997, juros de mora calculados segundo a taxa Selic, exvi dos arts.29 e 30, da Lei n° 10.522, de 19 de julho de 2002." Por fim, consta do recurso, diversas alegações de ofensa a princípios constitucionais. Quanto a esta matéria, este colegiado esta impedido de se manifestar, diante da emissão da súmula nº 2 do CARF, publicada no DOU de 22/12/2009, que veda o pronunciamento sobre constitucionalidade de lei tributária. Fl. 16914DF CARF MF Impresso em 16/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 12/05/2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA, Assinado digitalmente em 14/05/ 2016 por CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA, Assinado digitalmente em 12/05/2016 por WINDERLEY MORAIS PER EIRA Processo nº 10932.720169/201345 Acórdão n.º 3201002.131 S3C2T1 Fl. 16.909 13 “Súmula CARF nº 2 O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária” Diante do exposto, voto no sentido de não se conhecer do recurso voluntário, por concomitância de matéria na esfera judicial, quanto ao creditamento do IPI sobre a aquisição de bens do ativo permanente e negar provimento ao recurso voluntário quanto às demais matérias. Winderley Morais Pereira Fl. 16915DF CARF MF Impresso em 16/05/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 12/05/2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA, Assinado digitalmente em 14/05/ 2016 por CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA, Assinado digitalmente em 12/05/2016 por WINDERLEY MORAIS PER EIRA
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Numero do processo: 14337.000026/2007-45
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Jan 25 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Tue Apr 05 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/09/2001 a 30/06/2003
DE´BITO REGULARMENTE LAVRADO. FORMALIDADES LEGAIS ATENDIDAS. Cre´dito previdenciário constitui´do dentro das te´cnicas fiscais e atendendo à legislac¸a~o previdenciária vigente e´ plenamente regular, em conformidade com o art. 37, da Lei n° 8.212/91 e alterac¸o~es posteriores.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 2401-004.005
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
ACORDAM os membros do colegiado, por unanimidade, em conhecer do recurso voluntário para, no mérito, negar-lhe provimento, mantendo incólume os termos do v. Acórdão no 01-12.868 - 5ª Turma da DRJ/BEL.
Maria Cleci Coti Martins - Presidente Substituta
Luciana Matos Pereira Barbosa - Relatora
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Maria Cleci Coti Martins, Carlos Alexandre Tortato, Miriam Denise Xavier Lazarini, Arlindo da Costa e Silva, Carlos Henrique de Oliveira, Luciana Matos Pereira Barbosa e Rayd Santana Ferreira.
Nome do relator: LUCIANA MATOS PEREIRA BARBOSA
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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/09/2001 a 30/06/2003 DE´BITO REGULARMENTE LAVRADO. FORMALIDADES LEGAIS ATENDIDAS. Cre´dito previdenciário constitui´do dentro das te´cnicas fiscais e atendendo à legislac¸a~o previdenciária vigente e´ plenamente regular, em conformidade com o art. 37, da Lei n° 8.212/91 e alterac¸o~es posteriores. Recurso Voluntário Negado.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. ACORDAM os membros do colegiado, por unanimidade, em conhecer do recurso voluntário para, no mérito, negar-lhe provimento, mantendo incólume os termos do v. Acórdão no 01-12.868 - 5ª Turma da DRJ/BEL. Maria Cleci Coti Martins - Presidente Substituta Luciana Matos Pereira Barbosa - Relatora Participaram do presente julgamento os conselheiros: Maria Cleci Coti Martins, Carlos Alexandre Tortato, Miriam Denise Xavier Lazarini, Arlindo da Costa e Silva, Carlos Henrique de Oliveira, Luciana Matos Pereira Barbosa e Rayd Santana Ferreira.
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FORMALIDADES LEGAIS ATENDIDAS. Crédito previdenciário constituído dentro das técnicas fiscais e atendendo à legislação previdenciária vigente é plenamente regular, em conformidade com o art. 37, da Lei n° 8.212/91 e alterações posteriores. Recurso Voluntário Negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. ACORDAM os membros do colegiado, por unanimidade, em conhecer do recurso voluntário para, no mérito, negarlhe provimento, mantendo incólume os termos do v. Acórdão no 0112.868 5ª Turma da DRJ/BEL. Maria Cleci Coti Martins Presidente Substituta Luciana Matos Pereira Barbosa Relatora Participaram do presente julgamento os conselheiros: Maria Cleci Coti Martins, Carlos Alexandre Tortato, Miriam Denise Xavier Lazarini, Arlindo da Costa e Silva, Carlos Henrique de Oliveira, Luciana Matos Pereira Barbosa e Rayd Santana Ferreira. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 14 33 7. 00 00 26 /2 00 7- 45 Fl. 225DF CARF MF Impresso em 05/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/03/2016 por LUCIANA MATOS PEREIRA BARBOSA, Assinado digitalmente em 1 1/03/2016 por LUCIANA MATOS PEREIRA BARBOSA, Assinado digitalmente em 16/03/2016 por MARIA CLECI COT I MARTINS 2 Relatório Período de apuração: 01/09/2001 a 30/06/2003 Data de emissão da NFLD: 18/06/2007 Data de ciência da NFLD: 21/06/2007 Tratase de Recurso Voluntário interposto em face de Decisão Administrativa de 1ª Instância proferida pela DRJ em Belém (PA), que julgou PROCEDENTE EM PARTE o lançamento constituído pela NFLD DEBCAD no 37.074.6856, originado de contribuições sociais não recolhidas destinadas à Seguridade Social arrecadadas, mediante desconto do empregador, dos segurados que lhe prestaram serviços. O montante original do crédito previdenciário contra o sujeito passivo acima identificado foi no valor de R$ 354.594,71 (trezentos e cinquenta e quatro mil e quinhentos e noventa e quatro reais e setenta e um centavos). O contribuinte apresentou impugnação, que foi acolhida em parte para reconhecer a decadência quinquenal para as competências 09/2001 a 11/2001, 13/2001, 02/2002, 03/2002, 04/2002 e 05/2002. Inconformado com a decisão exarada pelo órgão julgador a quo, foi interposto o Recurso Voluntário de fls. 215/217, ratificando parte de suas alegações anteriormente expendidas e respaldando sua inconformidade, sob as seguintes alegações: que o lançamento descrito na NFLD DEBCAD n° 37.074.6856 referese a divergências de 09/2002 a 13/2006 e os valores recolhidos em GPS e o período constante do referido Acórdão 0112.868, juntado às fls. 188/197, referese a apuração de 01/09/2001 a 30/06/2003, logo desconexo dos dados lançados no relatório acima descrito no parágrafo anterior; que assim, estaria demonstrado que o v. Acórdão recorrido encontrase “desconexo com o Relatório de fls. 88”; que pelo princípio da razoabilidade e economicidade, foi aplicado corretamente a prescrição dos períodos descritos no acórdão recorrido, entretanto, a decisão de 1ª instância vai de encontro com os dados constantes dos autos, devendo ser anulado em parte o processo, pois o débito remanescente se encontra devidamente quitado; ao final requer a manutenção do provimento parcial dado pela 1ª Instância e a anulação da parte que versa sobre a manutenção do lançamento. Após, sem contrarrazões da Procuradoria da Fazenda Nacional, subiram os autos a este Eg. Conselho. É o relatório. Fl. 226DF CARF MF Impresso em 05/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/03/2016 por LUCIANA MATOS PEREIRA BARBOSA, Assinado digitalmente em 1 1/03/2016 por LUCIANA MATOS PEREIRA BARBOSA, Assinado digitalmente em 16/03/2016 por MARIA CLECI COT I MARTINS Processo nº 14337.000026/200745 Acórdão n.º 2401004.005 S2C4T1 Fl. 3 3 Voto Conselheira Luciana Matos Pereira Barbosa, Relatora 1. DOS PRESSUPOSTOS DE ADMISSIBILIDADE 1.1. DA TEMPESTIVIDADE O Recorrente foi cientificado da r. decisão em debate no dia 11/03/2009, conforme AR juntado às fl. 121, e o presente Recurso Voluntário foi apresentado, TEMPESTIVAMENTE, no dia 13/04/2009, razão pela qual CONHEÇO DO RECURSO já que presentes os requisitos de admissibilidade. 2. DO MÉRITO A fiscalização previdenciária abrangeu o período de 01/2000 a 12/2006 (inclusive 13°), com período de apuração relativo às seguintes competências: 09/2001 a 06/2003 (fl. 87). A DRJ reconheceu a decadência para as competências compreendidas entre 09/2001 a 11/2001, 13/2001, 02/2002, 03/2002, 04/2002 e 05/2002, promovendo a retificação do lançamento, conforme consta do item 16 do v. Acórdão recorrido (fl. 194). O crédito previdenciário, mantido em parte após o julgamento de primeiro grau, teve sua higidez analisada no v. Acórdão recorrido, sendo que os períodos constantes do DADR DISCRIMINATIVO ANALÍTICO DO DEBITO RETIFICADO está em absoluta consonância com as competências não abrangidas pela decadência, apontadas como crédito residual a ser recolhido pelo contribuinte. O Recurso Voluntário ataca os períodos da Notificação Fiscal de Lançamento de Débito e do Relatório Fiscal, em confronto com o v. Acórdão recorrido. Segundo o Recorrente, “O lançamento descrito na NFLD DEBCAD n° 37.074.6856, as fls. 88, constante do Relatório Fiscal da NFDL, traz em seu bojo que o período constante da referida Notificação referese a divergências de 09/2002 a 13/2006 e os valores recolhidos em GPS” e “o período constante do referido Acórdão 0112.868 as fls. 188 a 197, referese a apuração de 01/09/2001 a 30/06/2003, logo desconexo dos dados lançados no relatório acima descrito”. Essa argumentação não merece prosperar. Fl. 227DF CARF MF Impresso em 05/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/03/2016 por LUCIANA MATOS PEREIRA BARBOSA, Assinado digitalmente em 1 1/03/2016 por LUCIANA MATOS PEREIRA BARBOSA, Assinado digitalmente em 16/03/2016 por MARIA CLECI COT I MARTINS 4 O período da fiscalização abrangeu as competências de 01/2000 a 12/2006 (inclusive 13°), com período de apuração relativo às seguintes competências: 09/2001 a 06/2003 (fl. 87). Desse interregno, foi reconhecida a decadência apenas para as competências compreendidas entre 09/2001 a 11/2001, 13/2001, 02/2002, 03/2002, 04/2002 e 05/2002. Não há, portanto, qualquer divergência de data. O Relatório Fiscal da NLFD, juntado à fl. 84, delimita o período da fiscalização e o período da apuração, não havendo qualquer divergência que possa acoimar de vício o procedimento fiscalizatório. Notese que a i. Autoridade julgadora de primeira instância, inclusive, analisou o período de apuração, mês a mês, promovendo a exclusão dos montantes atingidos pela decadência, não havendo nada para se retificar nesta instância recursal. Cumpre ainda esclarecer quanto a alegação do Recorrente de que as Listas de Ordem Bancárias (Fls. 117/162), estariam a comprovar o efetivo recolhimento das contribuições previdenciárias referentes aos servidores comissionados, é totalmente improcedente. Notese que o sujeito passivo não colacionou aos autos nenhum documento apto a comprovar que as Listas Bancárias juntadas às fls. 98/116, possuem relação com outro processo de parcelamento, abrangendo o mesmo fato gerador e período de que trata a presente autuação. Ressaltese ainda que, em Consulta ao Extrato do Devedor (fl. 184), além dos créditos previdenciários levantados na presente ação fiscal, somente constam para o sujeito passivo a NFLD DEBCAD n° 35.498.9766 e o LDC n° 35.498.9758, créditos previdenciários lançados em 30/04/2002, que foram incluídos em Parcelamento Especial, o que pode ser comprovado ao exame da Consulta Dados Identificadores de Processo (fl. 186/187), logo a alegação lançada não restou comprovada. Os sobreditos lançamentos referemse a créditos apurados nas competências compreendidas entre 01/1992 a 13/1998 (NFLD DECAD n. ° 35.498.9766) e 01/1999 a 06/2001 (LDC n. ° 35.498.9758), ou seja, não abrange o mesmo período do lançamento impugnado (competências 09/2001 a 06/2003). Não havendo prova do pagamento dos valores relativos aos períodos de apuração ora examinados, o crédito previdenciário constituído por meio da NFLD deve ser mantido, conforme acertadamente decidiu a instância inferior. Por fim, é importante consignar que a Fazenda Nacional deixou de recorrer de ofício a este Eg. Conselho, nos termos do art. 366, inciso I e §§ 2° e 3°, do Regulamento da Previdência Social, aprovado pelo Decreto 3.048/99, com a redação dada pelo Decreto n° 6.224/07, tend em vista que o valor exonerado não ultrapassou o valor de alçada, de que trata o art. 1° da Portaria/MF n° 03, de 03/01/2008. Logo, o pedido formulado no Recurso Voluntário para manter a decisão a quo na parte do reconhecimento da decadência não merece ser conhecido, por falta de interesse recursal nessa matéria. Fl. 228DF CARF MF Impresso em 05/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/03/2016 por LUCIANA MATOS PEREIRA BARBOSA, Assinado digitalmente em 1 1/03/2016 por LUCIANA MATOS PEREIRA BARBOSA, Assinado digitalmente em 16/03/2016 por MARIA CLECI COT I MARTINS Processo nº 14337.000026/200745 Acórdão n.º 2401004.005 S2C4T1 Fl. 4 5 3. CONCLUSÃO Pelos motivos expendidos, CONHEÇO do Recurso Voluntário para, no mérito, NEGARLHE PROVIMENTO, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado. É como voto. Luciana Matos Pereira Barbosa. Fl. 229DF CARF MF Impresso em 05/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/03/2016 por LUCIANA MATOS PEREIRA BARBOSA, Assinado digitalmente em 1 1/03/2016 por LUCIANA MATOS PEREIRA BARBOSA, Assinado digitalmente em 16/03/2016 por MARIA CLECI COT I MARTINS
score : 1.0
Numero do processo: 10183.006121/92-55
Turma: Primeira Câmara
Seção: Segundo Conselho de Contribuintes
Data da sessão: Wed Jun 15 00:00:00 UTC 1994
Ementa: PROCESSO FISCAL PRAZOS - REVELIA IMPUGNAÇÃO
INTEMPESTIVA. Intimado o contribuinte por AR sem divergência de identificação e domicílio fiscal, satisfeita a exigência do artigo 23,, II do Decreto no 70 „235/72,, independentemente de quem tenha firmado o respectivo Aviso de Recebimento,, Prece d ente s d o Conselho de Contribuintes Recurso não conhecido por falta de objeto.
Numero da decisão: 201-69.280
Decisão: ACORDAM os Membros da Primeira Câmara do Segundo Conselho de contribuintes, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso, POR FALTA DE OBJETO, EM FACE DA INTEMPESTIVIDADE DA IMPUGNAÇÃO.
Nome do relator: Rogério Gustavo Dreyer
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Numero do processo: 10280.720475/2010-51
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu May 12 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Wed Aug 10 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural - ITR
Exercício: 2007
ITR. SUJEITO PASSIVO. TÍTULO ILEGAL. INVASÃO. O cancelamento do título de propriedade do imóvel rural com efeitos ex-tunc, alidado à configuração do esbulho, de forma continuada, caso dos autos, descaracteriza o sujeito passivo da obrigação tributária.
Recurso Voluntário Provido.
Numero da decisão: 2401-004.372
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso voluntário e, no mérito, dar-lhe provimento.
Maria Cleci Coti Martins
Presidente e Relatora
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Maria Cleci Coti Martins, Carlos Alexandre Tortato, Miriam Denise Xavier Lazarini, Cleberson Alex Friess, Theodoro Vicente Agostinho, Rosemary Figueiroa Augusto, Luciana Matos Pereira Barbosa, Rayd Santana Ferreira.
Nome do relator: MARIA CLECI COTI MARTINS
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SUJEITO PASSIVO. TÍTULO ILEGAL. INVASÃO. O cancelamento do título de propriedade do imóvel rural com efeitos extunc, alidado à configuração do esbulho, de forma continuada, caso dos autos, descaracteriza o sujeito passivo da obrigação tributária. Recurso Voluntário Provido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso voluntário e, no mérito, darlhe provimento. Maria Cleci Coti Martins Presidente e Relatora Participaram do presente julgamento os conselheiros: Maria Cleci Coti Martins, Carlos Alexandre Tortato, Miriam Denise Xavier Lazarini, Cleberson Alex Friess, Theodoro Vicente Agostinho, Rosemary Figueiroa Augusto, Luciana Matos Pereira Barbosa, Rayd Santana Ferreira. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 28 0. 72 04 75 /2 01 0- 51 Fl. 717DF CARF MF Impresso em 10/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 04/07/2016 por MARIA CLECI COTI MARTINS, Assinado digitalmente em 04/07/ 2016 por MARIA CLECI COTI MARTINS 2 Relatório O Recurso Voluntário visa reverter a decisão proferida no Acórdão 0433.131 1ª Turma da DRJ/CGE, que manteve integralmente o lançamento tributário de ITR no imóvel rural denominado Fazenda Borba Gato, NIRF 6.540.8675, localizada no município de Acará PA, com área total de 8.712,0ha. A certidão carreada aos autos referese a uma propriedade no município de ToméAçu, Estado do Pará. A propriedade está registrada no CAFIR como localizada no distrito TomeAçu, município Acará. A ciência do Acórdão de Impugnação ocorreu em 17/09/2013. A interposição do Recurso Voluntário deuse em 15/10/2013. A decisão a quo está assim ementada. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE TERRITORIAL RURAL ITR Exercício: 2007 ÁREA INVADIDA REINTEGRAÇÃO DE POSSE ALEGAÇÃO DE NÃO EXECUÇÃO O Mandado de Reintegração de Posse de propriedade rural invadida, expedida pela justiça na forma requerida pelo interessado, consolida a titularidade da propriedade e a concretização dos direitos do proprietário. Mera alegação de recusa do Estado para execução do respectivo Mandado, por si só, desacompanhada de certidão ou documento que ateste essa negativa, não descaracteriza a condição de proprietário do imóvel e nem possibilita excluir sua responsabilidade tributária sobre a propriedade, tal como a regularização documental para fins de isenção. ÁREAS DE FLORESTAS PRESERVADAS REQUISITOS DE ISENÇÃO A concessão de isenção de ITR para as Áreas de Preservação Permanente APP, cobertas por Florestas Nativas AFN ou Área de Reserva Legal ARL, está vinculada à comprovação de sua existência, como laudo técnico específico e averbação na matrícula até a data do fato gerador, respectivamente, e de sua regularização junto aos órgãos ambientais competentes, como o Ato Declaratório Ambiental ADA, cujo requerimento deve ser protocolado no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis IBAMA, em até seis meses após o prazo final para entrega da Declaração do ITR. A prova de uma não exclui a da outra. ISENÇÃO HERMENÊUTICA Fl. 718DF CARF MF Impresso em 10/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 04/07/2016 por MARIA CLECI COTI MARTINS, Assinado digitalmente em 04/07/ 2016 por MARIA CLECI COTI MARTINS Processo nº 10280.720475/201051 Acórdão n.º 2401004.372 S2C4T1 Fl. 3 3 A legislação tributária para concessão de benefício fiscal deve ser interpretada literalmente, assim, se não atendidos os requisitos legais para a isenção, a mesma não deve ser concedida. O contribuinte alega que a cobrança do tributo é ilegítima pois desde antes de 1999 não detém a posse e uso do imóvel, e que em 09/09/2010 teve averbado o cancelamento da matrícula do imóvel em cumprimento à decisão do Corregedor Nacional de Justiça, por intermédio da decisão proferida em 16/08/2010, no Pedido de Providências n. 0001943 67.2009.2.00.0000 (efls. 188 a 198). No recurso o contribuinte apresenta o histórico de ocupação da propriedade, conforme a seguir. 1. Exerceu atividades agrícolas, florestais e agropecuárias entre 1970 e 1999. 2. A propriedade foi invadida pelo Movimento dos Sem Terra, que ocupam a propriedade há 13 anos, quando não mais exerceu atividade econômica no imóvel. 3. A situação de perpetuidade da invasão do imóvel rural está reconhecida e legitimada pelo Estado, através da Portaria INCRA 161, de 11/11/2009, que reconhece o assentamento rural para 126 famílias na propriedade em questão. 3. Apesar de Ação de Reintegração de Posse (Processo 5111/00) com decisão liminar favorável, a decisão nunca foi levada a efeito tendo em vista um incêndio criminoso no fórum local, conforme documento acostado aos autos. 4. Mesmo não tendo acesso ao imóvel, tampouco a posse e uso, formalizou a entrega de DITR ao fisco em 2006, tendo em vista salvaguardar os próprios interesses e evitar exigências fiscais. Declarou a existência de reserva legal e de área de preservação permanente. Contudo, tendo em vista o esbulho sofrido na propriedade, não teria como indicar com precisão o quantitativo dessas áreas. 5. O lançamento de ofício sobreveio devido à falta de apresentação de ADA e de averbação da reserva legal. 6. Apresentou impugnação tempestiva argumentando que não detinha a posse e uso do imóvel e que o imóvel estava em litígio, ocupado pelo Movimento dos Sem Terra. 7. Juntou documentos : a) Certidão atual de Matrícula do Imóvel Rural com averbação de cancelamento(doc. 4); b) Certidão emitida pelo Cartório da Vara de Tomé Açu, no Pará sobre a ocorrência do incêndio criminoso (doc. 05); c) Portarias e Decretos relativos à criação do Assentamento denominado Borba Gato (doc. 06); d) Certidão emitida pela Polícia Civil da comarca de Tomé Açu, que demonstram a continuidade do processo de invasão (doc. 7); e)Decisão no pedido de providências n. 000194367.2009.2.0.0000 pelo CNJ. Entende que o título de propriedade está esvaziado, visto que não detém a posse, nem o domínio, nem o uso, e, a partir de 2010, nem a propriedade. O cancelamento do título de propriedade teria efeitos extunc e lastreouse nos arts. 8A e 8B da Lei 6.739/79, dispositivos que outorgam à União, Estados, Municípios e Distrito Federal a faculdade de promover, por via administrativa, a retificação das matrículas do registro ou da averbação feita, Fl. 719DF CARF MF Impresso em 10/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 04/07/2016 por MARIA CLECI COTI MARTINS, Assinado digitalmente em 04/07/ 2016 por MARIA CLECI COTI MARTINS 4 quando a alteração da área ou dos limites do imóvel importar em transferência de terras públicas, conforme segue: Art. 8oB Verificado que terras públicas foram objeto de apropriação indevida por quaisquer meios, inclusive decisões judiciais, a União, o Estado, o Distrito Federal ou o Município prejudicado, bem como seus respectivos órgãos ou entidades competentes, poderão, à vista de prova da nulidade identificada, requerer o cancelamento da matrícula e do registro na forma prevista nesta Lei, caso não aplicável o procedimento estabelecido no art. 8oA. (Incluído pela Lei nº 10.267, de 28.8.2001) Colaciona decisões judiciais e deste Conselho sobre situações similares. Argumenta que a concessão de isenção de ITR independe da apresentação de ADA pelo contribuinte. Afirma que a existência de reserva legal em imóvel rural é uma presunção legal , cujas dimensões variam conforme a região territorial, e, portanto, não podem ser desconsideradas sem prova ao contrário de sua preservação. (art. 3 e 12 da lei 12651/12). Insiste que a falta de capacidade contributiva do recorrente para suportar as cobranças do ITR, tendo em vista a ausência de posse que inviabiliza o uso doméstico ou comercial do imóvel, viola o princípio da vedação da utilização de impostos com o efeito de confisco, conforme art. 145 da Carta Magna de 1988. Por fim, conclui que em não sendo detentor do imóvel rural (posse ou domínio útil) e agora com o cancelamento do título de propriedade, não existe fato gerador do tributo. Pugna pela anulação da exigência do ITR motivo do processo administrativo fiscal. Em 4/11/2014, a Turma decidiu transformar o julgamento em diligência esclarecimento de questões de fato, sobre a localização da Fazenda Borba Gato e a localização do assentamento Borba Gato. É o relatório. Fl. 720DF CARF MF Impresso em 10/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 04/07/2016 por MARIA CLECI COTI MARTINS, Assinado digitalmente em 04/07/ 2016 por MARIA CLECI COTI MARTINS Processo nº 10280.720475/201051 Acórdão n.º 2401004.372 S2C4T1 Fl. 4 5 Voto Conselheira Maria Cleci Coti Martins Relatora O recurso é tempestivo, atende aos requisitos legais e dele conheço. Preliminarmente, têmse que analisar a titularidade do imóvel. O recorrente alega que não mais detém posse, domínio, uso ou propriedade do imóvel. Relativamente à propriedade, os documentos acostados aos autos confirmam que a propriedade do imóvel estaria sendo exercida pelo recorrente ao arrepio da lei. O recorrente nunca teria sido o proprietário legal das terras, pois não teve um título de propriedade concedido originariamente pelo Senado Federal, tanto que o título de propriedade foi cancelado. Conforme a Constituição Federal de 1946, com a redação dada pela Emenda Constitucional n. 10 de 1964, a seguir transcrita, o título da propriedade em questão era ilegal, e por isso foi cancelado. Art 156 A lei facilitará a fixação do homem no campo, estabelecendo planos de colonização e de aproveitamento das terras pública. Para esse fim, serão preferidos os nacionais e, dentre eles, os habitantes das zonas empobrecidas e os desempregados. § 1º Os Estados assegurarão aos posseiros de terras devolutas que tenham morada habitual, preferência para aquisição até cem hectares. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 10, de 1964) § 2º Sem prévia autorização do Senado Federal, não se fará qualquer alienação ou concessão de terras públicas, com área superior a três mil hectares, salvo quando se tratar de execução de planos de colonização aprovados pelo Govêrno Federal. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 10, de 1964) O documento autorizador do cancelamento da matrícula do imóvel determina que devem ser cancelados os registros inequivocamente incompatíveis com a legislação constitucional e infraconstitucional, ainda que não individualmente identificados. Prossegue o documento (fls.190) relacionando os critérios para a definição dos títulos a serem cancelados nos cartórios de registro de imóveis: " Nesses limites, devem ser cancelados todos os registros, com averbações necessárias em todos os atos e transferências subsequentes, encerrandose a matrícula respectiva, nos Cartórios de Registros de Imóveis do interior do Estado do Pará de sua situação, referentes aos imóveis rurais atribuídos a particulares pessoas físicas o jurídicas e, originariamente desmembrados do patrimônio público estadual por ato da Administração que configure concessão, cessão legitimação, usucapião, compra e venda ou qualquer tipo de alienação onerosa ou não, e que, sem autorização do Senado ou do Congresso: Fl. 721DF CARF MF Impresso em 10/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 04/07/2016 por MARIA CLECI COTI MARTINS, Assinado digitalmente em 04/07/ 2016 por MARIA CLECI COTI MARTINS 6 ... tenham sido lançados, no período de 9 de novembro de 1964 a 4 de outubro de 1988, com área superior a 3.000 (três mil) hectares; .." A certidão de registro do imóvel em questão, do Registro de Imóveis da Comarca de ToméAçu, Estado do Pará, relaciona todos os possuidores/proprietários do imóvel rural. O documento está registrado no livro 3A, folhas 43, transcrição 887. O título inicial de propriedade da terra duas glebas de terras, sem denominação especial da primeira gleba teria sido emitido pelo Governo do Estado do Pará, em 15/02/1968, transcrito no Registro de Imóveis sob n. 276, fls. 73, livro 3, nas notas do Cartório de Registro da Cidade de Acará; da segunda gleba título de aquisição inicial do Governo do Estado do Pará, aquisição n. 274, fls. 73, livro 3, nas notas do livro de registro de imóveis da cidade de Acará. A localidade de ToméAçu era distrito de Acará até 1959. Ao final do documento, está registrado primeiramente o bloqueio da matrícula em 07/07/2006 e, posteriormente, em 25/10/2010, o cancelamento da matrícula, em cumprimento à decisão do Corregedor Nacional de Justiça, Ministro Gilson Dipp, nos autos do Pedido de Providências n. 0001942.67.2009.2.00.0000. Observase que o documento autorizador do cancelamento da matrícula do imóvel (efls. 179189) inclui um procedimento anterior, de bloqueio da matrícula, para que o titular do imóvel prove a legalidade do título de propriedade. O mesmo documento delega poderes aos Juízes de Direito das Varas Agrárias do Estado do Pará para determinar o desbloqueio das matrículas, desde que requerido pelo interessado e atendidos os requisitos legais, tendo em vista efetuar a regularização das áreas. Dessa decisão caberia recurso administrativo, sem efeito suspensivo à Corregedoria. Isso quer dizer que foi dado o direito de ampla defesa aos interessados para que regularizassem o título. De acordo com o documento, o bloqueio dos registros "tem o efeito de sustar outras operações derivadas e o significado de divulgar publicamente a pendência, a dúvida ou a impugnação sobre o assunto". Adicionalmente, o referido provimento garante o direito daqueles que exercem regularmente a posse com base no título afetado, o que não é o caso dos autos. Pelas razões: a) vício na origem da concessão do título de propriedade; b) cancelamento do título, podendo ter havido uma simples suspensão para que o titular do direito se defendesse; c) não existência, nos autos, de qualquer documento atestando a legalidade da origem do título de propriedade do recorrente; e d) prazo decorrido desde o cancelamento do título (2010), entendo que o cancelamento do título de propriedade é definitivo e tem efeitos extunc, ou seja, a propriedade do imóvel rural nunca pertenceu ao recorrente. Relativamente à posse, o recorrente também carreou aos autos, documentos comprobatórios de que não mais detém a posse do imóvel rural desde 1999. Conforme certidão expedida pelo Delegado de Polícia Civil do município de ToméAçu, Pará, em 07/10/2013, a empresa do recorrente é desconhecida na localidade. O Delegado certifica a existências de diversas famílias em um assentamento rural de fato, existente há mais de 10 anos no perímetro da Fazenda Borba Gato Agropecuária, situada às margens do rio AcaráGrande. Não informa, contudo o município a que pertence a fazenda vistoriada. O rio Acará corta o município de Acará ao meio e não passa perto do município de ToméAçu. Os documentos de fls. 179 a 185 comprovam a criação do Assentamento Sustentável denominado BORBA GATO, no município de Tailândia, com área de 8.514ha50a98ca( oito mil, quinhentos e quatorze hectares, cinquenta ares e noventa e oito centiares), com o objetivo de regularizar a ocupação de terras cultivadas por 126 famílias de agricultores da localidade delimitada no documento, no município de TAILÂNDIA (no sítio http://www.iterpa.pa.gov.br/SiteIterpa/ProjetoAssentamentoConsulta2.jsf consta o assentamento com área de 8.510,5098 ha). Observase que no registro da propriedade consta Fl. 722DF CARF MF Impresso em 10/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 04/07/2016 por MARIA CLECI COTI MARTINS, Assinado digitalmente em 04/07/ 2016 por MARIA CLECI COTI MARTINS Processo nº 10280.720475/201051 Acórdão n.º 2401004.372 S2C4T1 Fl. 5 7 área total de 8.712,0ha e localizase no município de AcaráPA. O município de Acará é vizinho dos municípios de ToméAçu e Tailândia. Assim, antes da diligência, não era possível concluir com certeza se o Assentamento criado estaria dentro da propriedade do recorrente. Conforme a enciclopédia eletrônica Wikipedia, ToméAçu era um distrito de Acará até 1959, quando foi emancipado. A diligência esclareceu o motivo da confusão existente e, não restam dúvidas de que o assentamento utilizou o imóvel objeto deste processo (efls. 219 a 235). A Lei 9.393/96 assim define o fato gerador do tributo: Art. 1º O Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural ITR, de apuração anual, tem como fato gerador a propriedade, o domínio útil ou a posse de imóvel por natureza, localizado fora da zona urbana do município, em 1º de janeiro de cada ano. § 1º O ITR incide inclusive sobre o imóvel declarado de interesse social para fins de reforma agrária, enquanto não transferida a propriedade, exceto se houver imissão prévia na posse. Apesar do imóvel rural ter sido utilizado para fins de assentamento rural, observase que a matrícula foi cancelada porque o título originário da propriedade era ilegal. Contudo, verificase que, mesmo com o título ilegal, mas estando o recorrente na posse e domínio útil do imóvel rural, teria ele que arcar com o tributo. Conforme o art. 4o. da Lei 9.393/96, o sujeito passivo da obrigação tributária é o proprietário de imóvel rural, o titular de seu domínio útil ou o seu possuidor a qualquer título. Tendo em vista o cancelamento do título de propriedade por vício na origem, entendo que o cancelamento tem efeitos extunc, e que a posse e o domínio útil da propriedade não se encontram com o recorrente há pelo menos 10 anos, conforme documentos dos autos, voto por prover integralmente o recurso voluntário considerando o lançamento tributário improcedente por erro na identificação do sujeito passivo da obrigação tributária. Nesse sentido, decisão do STJ no REsp 1144982 PR 2009/01147493, a seguir colacionada. TRIBUTÁRIO. ITR. INCIDÊNCIA SOBRE IMÓVEL. INVASÃO DO MOVIMENTO "SEM TERRA". PERDA DO DOMÍNIO E DOS DIREITOS INERENTES À PROPRIEDADE. IMPOSSIBILIDADE DA SUBSISTÊNCIA DA EXAÇÃO TRIBUTÁRIA. PRINCÍPIO DA PROPORCIONALIDADE. RECURSO ESPECIAL NÃO PROVIDO. 1. Conforme salientado no acórdão recorrido, o Tribunal a quo, no exame da matéria fática e probatória constante nos autos, explicitou que a recorrida não se encontraria na posse dos bens de sua propriedade desde 1987. 2. Verificase que houve a efetiva violação ao dever constitucional do Estado em garantir a propriedade da impetrante, configurandose uma grave omissão do seu dever de garantir a observância dos direitos fundamentais da Constituição. 3. Ofende os princípios básicos da razoabilidade e da justiça o fato do Estado violar o direito de garantia de propriedade e, concomitantemente, exercer a sua prerrogativa de constituir ônus tributário sobre imóvel expropriado por particulares (proibição do venire contra factum proprium). 4. A propriedade plena pressupõe o domínio, que se subdivide nos poderes de usar, gozar, dispor e reinvidicar a coisa. Em que pese ser a propriedade um dos fatos geradores do ITR, essa propriedade não é plena quando o imóvel encontrase invadido, pois o proprietário é tolhido das faculdades Fl. 723DF CARF MF Impresso em 10/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 04/07/2016 por MARIA CLECI COTI MARTINS, Assinado digitalmente em 04/07/ 2016 por MARIA CLECI COTI MARTINS 8 inerentes ao domínio sobre o imóvel. 5. Com a invasão do movimento "sem terra", o direito da recorrida ficou tolhido de praticamente todos seus elementos: não há mais posse, possibilidade de uso ou fruição do bem; consequentemente, não havendo a exploração do imóvel, não há, a partir dele, qualquer tipo de geração de renda ou de benefícios para a proprietária. 6. Ocorre que a função social da propriedade se caracteriza pelo fato do proprietário condicionar o uso e a exploração do imóvel não só de acordo com os seus interesses particulares e egoísticos, mas pressupõe o condicionamento do direito de propriedade à satisfação de objetivos para com a sociedade, tais como a obtenção de um grau de produtividade, o respeito ao meio ambiente, o pagamento de impostos etc. 7. Sobreleva nesse ponto, desde o advento da Emenda Constitucional n. 42/2003, o pagamento do ITR como questão inerente à função social da propriedade. O proprietário, por possuir o domínio sobre o imóvel, deve atender aos objetivos da função social da propriedade; por conseguinte, se não há um efetivo exercício de domínio, não seria razoável exigir desse proprietário o cumprimento da sua função social, o que se inclui aí a exigência de pagamento dos impostos reais. 8. Na peculiar situação dos autos, ao considerarse a privação antecipada da posse e o esvaziamento dos elementos de propriedade sem o devido êxito do processo de desapropriação, é inexigível o ITR diante do desaparecimento da base material do fato gerador e da violação dos referidos princípios da propriedade, da função social e da proporcionalidade. 9. Recurso especial não provido. Com relação à possibilidade da posse no ano 2007, observo que documentos dos autos (efls. 472/506), emitido pelo Instituto de Terras do Pará, dão conta de que a propriedade fora ocupada por trabalhadores sem terra em 1999, lá permanecendo desde então. Está claro no documento às efls. 219/235, que o recorrente não detém posse, propriedade ou uso do imóvel sob análise. As questões sobre a obrigatoriedade de ADA (Área de Preservação Permanente e Área de Reserva Legal) e averbação tempestivos(Área de Reserva legal) estão devidamente consideradas no acórdão de impugnação e nada há a acrescentar. Os motivos do provimento do Recurso Voluntário independem da reanálise desses pontos. Maria Cleci Coti Martins. Fl. 724DF CARF MF Impresso em 10/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 04/07/2016 por MARIA CLECI COTI MARTINS, Assinado digitalmente em 04/07/ 2016 por MARIA CLECI COTI MARTINS
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Numero do processo: 10803.000071/2009-67
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jun 21 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Fri Jul 15 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 01/01/2004 a 31/10/2007
IMPORTAÇÃO COM RECURSOS DE TERCEIROS. EQUIPARAÇÃO A ESTABELECIMENTO INDUSTRIAL. PRESUNÇÃO DA OPERAÇÃO POR CONTA E ORDEM. POSSIBILIDADE.
Para fins de equiparação a estabelecimento industrial, presume-se por conta e ordem a operação de importação realizada com recursos de terceiro oculto mediante interposição fraudulenta.
CONTRIBUINTE DO IPI. REAL IMPORTADOR. IMPORTAÇÃO POR CONTA E ORDEM DISSIMULADA. POSSIBILIDADE.
Se comprovado que a operação de importação por conta e ordem foi dissimulada, mediante utilização de interposta pessoa, o real importador assume a condição de contribuinte do IPI, por equiparação a estabelecimento industrial.
IMPORTADOR EQUIPARADO A ESTABELECIMENTO INDUSTRIAL. CUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÕES PRINCIPAIS E ACESSÓRIAS. OBRIGATORIEDADE.
Na saída dos produtos de procedência estrangeira do estabelecimento, o contribuinte do IPI equiparado a estabelecimento industrial está sujeito ao cumprimento da obrigação principal, consistente no pagamento do tributo devido, e das obrigações acessórias, especialmente, a emissão de notas fiscais com o lançamento do IPI e a escrituração de livros fiscais.
CRÉDITO DO IPI. PRINCÍPIO DA NÃO CUMULATIVIDADE. IMPORTAÇÃO POR CONTA E ORDEM. APROPRIAÇÃO PELO REAL IMPORTADOR. POSSIBILIDADE.
Por força do princípio da não cumulatividade, na apuração do IPI a pagar, o real importador pode apropriar como crédito o valor de IPI pago no desembaraço aduaneiro, para fim de dedução do valor do IPI devido na operação de saída do produto importado por conta e ordem do seu estabelecimento.
Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Período de apuração: 01/01/2004 a 31/10/2007
PRAZO DECADENCIAL. TRIBUTO SUJEITO A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. COMPROVADA A EXISTÊNCIA DE FRAUDE OU SIMULAÇÃO E A INEXISTÊNCIA DE PAGAMENTO ANTECIPADO. TERMO INICIAL.
Em relação aos tributos sujeitos a lançamento por homologação, se comprovada a existência de fraude ou simulação e a inexistência de pagamento antecipado, a contagem do prazo quinquenal de decadência do direito de constituir o crédito tributário tem início no primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado.
SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA. ATOS PRATICADOS PELA PESSOA JURÍDICA. COMPROVADA A EXISTÊNCIA DE INTERESSE COMUM DE PESSOAS FÍSICAS E JURÍDICAS. POSSIBILIDADE.
As pessoas físicas e jurídicas que, informalmente, tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal são solidariamente obrigadas em relação ao crédito tributário lançado em nome contribuinte formal pessoa jurídica.
SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA. INTERESSE COMUM DAS PESSOAS FÍSICAS QUE COMANDAM, DE FATO, A PESSOA JURÍDICA. PRÁTICA DE ATOS FRAUDULENTOS. CABIMENTO.
1. Uma vez comprovado nos autos que as pessoas físicas, ausentes do contrato social da pessoa jurídica autuada, eram seus verdadeiros controladores, dirigentes e beneficiários do resultado econômico, correta a determinação de responsabilidade solidária às mesmas pelos tributos devidos pela pessoa jurídica, porque caracterizado interesse direto nas operações econômicas que geram as respectivas obrigações tributárias.
2. O interesse comum dos responsáveis solidários fica evidente quando se verifica que eles exerciam o controle de todas as operações gerenciais/comerciais/financeiras efetuadas pela sociedade empresária autuada, desde as operações desenvolvidas no exterior até os procedimentos de importação das mercadorias e venda dessas no mercado nacional e percebiam o lucro advindo desta atividade.
SOLIDARIEDADE PASSIVA POR INFRAÇÃO. CONCURSO NA PRÁTICA E NOS BENEFÍCIOS. POSSIBILIDADE.
A pessoa física ou jurídica que concorra, de alguma forma, para a prática de atos fraudulentos ou deles se beneficie responde solidariamente pelo crédito tributário decorrente.
JUROS MORATÓRIOS. TAXA SELIC. INCIDÊNCIA SOBRE DÉBITOS TRIBUTÁRIOS VENCIDOS. LEGALIDADE.
Após o vencimento, os débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB) devem ser acrescidos dos juros moratórios, calculados com base na variação da Taxa Selic (Súmula Carf nº 4).
MULTA QUALIFICADA. COMPROVADA A FRAUDE MEDIANTE SIMULAÇÃO E CONLUIO. APLICAÇÃO SOBRE A TOTALIDADE OU DIFERENÇA TRIBUTO APURADA. POSSIBILIDADE.
Se comprova a fraude mediante simulação e conluio é devida aplicação da multa qualificada de 150% (cento e cinquenta por cento), calculada sobre a totalidade ou diferença de tributos apurados em procedimento de fiscalização.
JUROS DE MORA. INCLUSÃO NA BASE DE CÁLCULO DA MULTA DE OFÍCIO. CÁLCULO INDIRETO. POSSIBILIDADE.
A multa de oficio incide sobre o valor do crédito tributário devido e não pago, acrescido dos juros moratórios, calculados com base na variação da taxa Selic, logo, se os juros moratórios integram a base de cálculo da referida multa, necessariamente, eles comporão o valor da multa de ofício devida.
Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/01/2004 a 31/10/2007
NULIDADE. DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. INOCORRÊNCIA DO CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. IMPOSSIBILIDADE.
Não é passível de nulidade a decisão primeira instância em que apreciada todas as razões de defesa suscitadas pelos impugnantes contra todas as exigências consignadas no auto de infração de forma fundamentada e motivada.
AUTO DE INFRAÇÃO. ATENDIMENTO DOS REQUISITOS LEGAIS. NULIDADE. IMPOSSIBILIDADE.
Não é passível de nulidade, o Auto de Infração lavrado por autoridade competente, com observância dos requisitos legais e ciência regular do sujeito passivo, que exerceu plena e adequadamente o direito defesa.
NULIDADE. PROCEDIMENTO FISCAL. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. SUJEITOS PASSIVOS SOLIDÁRIOS REGULARMENTE CIENTIFICADOS. IMPOSSIBILIDADE.
Não há cerceamento do direito de defesa, se após a conclusão do procedimento fiscal foi oportunizado e exercido adequadamente o direito de defesa por todos os sujeitos passivos solidários.
LANÇAMENTO DE OFÍCIO. DADOS INTERNOS SUFICIENTES. INTIMAÇÃO DO CONTRIBUINTE. DESNECESSIDADE.
O lançamento de ofício pode ser realizado sem prévia intimação ao sujeito passivo, nos casos em que o Fisco dispuser de elementos suficientes à constituição do crédito tributário (Súmula CARF nº 46).
PROVA EMPRESTADA. DIÁLOGOS DE ESCUTA TELEFÔNICA. COMPARTILHAMENTO NO PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. EXISTÊNCIA DE AUTORIZAÇÃO JUDICIAL. VALIDADE.
É válida a prova carreada aos autos do processo administrativo fiscal extraída de escuta telefônica se a coleta e o repasse à fiscalização da RFB foram judicialmente autorizados.
ESCUTA TELEFÔNICA. REPRODUÇÃO INTEGRAL DOS DIÁLOGOS. DESNECESSIDADE.
Somente os diálogos telefônicos regularmente interceptados por autorização judicial relevantes para a instrução probatória devem ser reproduzidos e coligidos aos autos do processo administrativo fiscal.
PEDIDO DE DILIGÊNCIA/PERÍCIA. REALIZAÇÃO PRESCINDÍVEL. INDEFERIMENTO. POSSIBILIDADE.
Se os elementos probatórios coligidos aos autos revelam-se suficientes para formação da convicção do julgador acerca das questões fáticas, a realização de diligência ou a produção de prova pericial torna-se prescindível.
Recurso de Ofício Negado e Recurso Voluntário Provido em Parte.
Numero da decisão: 3302-003.225
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
ACORDAM os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer o Recurso Voluntário do Sr. Luiz Scarpelli Filho. Por maioria de votos, em rejeitar as preliminares arguídas pelas Recorrentes e o pedido de diligência apresentado, vencido o Conselheiro Domingos de Sá, que reconhecia a nulidade do Auto de Infração em face da invalidade das provas colacionadas aos autos. Por maioria de votos, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário apenas para reconhecer o direito da empresa Mude Comércio e Serviços Ltda. de deduzir, do valor do crédito tributário constituído no Auto de Infração, o valor do IPI destacado na nota fiscal de venda do importador, parcialmente vencido o Conselheiro Ricardo Paulo Rosa, que negava provimento ao Recurso; o Conselheiro Walker Araújo, que, além do provido, excluía do polo passivo a empresa Cisco do Brasil Ltda. e o Sr. Carlos Roberto Carnevali; o Conselheiro Domingos de Sá, que, além do provido, excluía pólo do passivo a empresa Cisco do Brasil Ltda., o Sr. Carlos Roberto Carnevali e o Sr. Marcílio Palhares Lemos e afastava a incidência de juros de mora sobre as multas; e a Conselheira Sarah Linhares que, além do provido, afastava a incidência de juros de mora sobre as multas. A Conselheira Lenisa Prado se declarou impedida. O Conselheiro Domingos de Sá fará declaração de voto. Por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso de Ofício. Fez sustentação oral: o Dr. Paulo Sehn - OAB 108.361/SP; o Dr. Flávio Eduardo Carvalho - OAB 20.720/DF; o Dr. Mário Franco - OAB 140.284/SP; e o Procurador Miquerlam Chaves Cavalcante - AOB 19.135/CE.
(assinado digitalmente)
Ricardo Paulo Rosa - Presidente.
(assinado digitalmente)
José Fernandes do Nascimento - Relator.
Participaram do julgamento os Conselheiros Ricardo Paulo Rosa, José Fernandes do Nascimento, Domingos de Sá Filho, Paulo Guilherme Déroulède, José Luiz Feistauer de Oliveira, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza e Walker Araújo.
Nome do relator: JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI Período de apuração: 01/01/2004 a 31/10/2007 IMPORTAÇÃO COM RECURSOS DE TERCEIROS. EQUIPARAÇÃO A ESTABELECIMENTO INDUSTRIAL. PRESUNÇÃO DA OPERAÇÃO POR CONTA E ORDEM. POSSIBILIDADE. Para fins de equiparação a estabelecimento industrial, presume-se por conta e ordem a operação de importação realizada com recursos de terceiro oculto mediante interposição fraudulenta. CONTRIBUINTE DO IPI. REAL IMPORTADOR. IMPORTAÇÃO POR CONTA E ORDEM DISSIMULADA. POSSIBILIDADE. Se comprovado que a operação de importação por conta e ordem foi dissimulada, mediante utilização de interposta pessoa, o real importador assume a condição de contribuinte do IPI, por equiparação a estabelecimento industrial. IMPORTADOR EQUIPARADO A ESTABELECIMENTO INDUSTRIAL. CUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÕES PRINCIPAIS E ACESSÓRIAS. OBRIGATORIEDADE. Na saída dos produtos de procedência estrangeira do estabelecimento, o contribuinte do IPI equiparado a estabelecimento industrial está sujeito ao cumprimento da obrigação principal, consistente no pagamento do tributo devido, e das obrigações acessórias, especialmente, a emissão de notas fiscais com o lançamento do IPI e a escrituração de livros fiscais. CRÉDITO DO IPI. PRINCÍPIO DA NÃO CUMULATIVIDADE. IMPORTAÇÃO POR CONTA E ORDEM. APROPRIAÇÃO PELO REAL IMPORTADOR. POSSIBILIDADE. Por força do princípio da não cumulatividade, na apuração do IPI a pagar, o real importador pode apropriar como crédito o valor de IPI pago no desembaraço aduaneiro, para fim de dedução do valor do IPI devido na operação de saída do produto importado por conta e ordem do seu estabelecimento. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 01/01/2004 a 31/10/2007 PRAZO DECADENCIAL. TRIBUTO SUJEITO A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. COMPROVADA A EXISTÊNCIA DE FRAUDE OU SIMULAÇÃO E A INEXISTÊNCIA DE PAGAMENTO ANTECIPADO. TERMO INICIAL. Em relação aos tributos sujeitos a lançamento por homologação, se comprovada a existência de fraude ou simulação e a inexistência de pagamento antecipado, a contagem do prazo quinquenal de decadência do direito de constituir o crédito tributário tem início no primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA. ATOS PRATICADOS PELA PESSOA JURÍDICA. COMPROVADA A EXISTÊNCIA DE INTERESSE COMUM DE PESSOAS FÍSICAS E JURÍDICAS. POSSIBILIDADE. As pessoas físicas e jurídicas que, informalmente, tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal são solidariamente obrigadas em relação ao crédito tributário lançado em nome contribuinte formal pessoa jurídica. SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA. INTERESSE COMUM DAS PESSOAS FÍSICAS QUE COMANDAM, DE FATO, A PESSOA JURÍDICA. PRÁTICA DE ATOS FRAUDULENTOS. CABIMENTO. 1. Uma vez comprovado nos autos que as pessoas físicas, ausentes do contrato social da pessoa jurídica autuada, eram seus verdadeiros controladores, dirigentes e beneficiários do resultado econômico, correta a determinação de responsabilidade solidária às mesmas pelos tributos devidos pela pessoa jurídica, porque caracterizado interesse direto nas operações econômicas que geram as respectivas obrigações tributárias. 2. O interesse comum dos responsáveis solidários fica evidente quando se verifica que eles exerciam o controle de todas as operações gerenciais/comerciais/financeiras efetuadas pela sociedade empresária autuada, desde as operações desenvolvidas no exterior até os procedimentos de importação das mercadorias e venda dessas no mercado nacional e percebiam o lucro advindo desta atividade. SOLIDARIEDADE PASSIVA POR INFRAÇÃO. CONCURSO NA PRÁTICA E NOS BENEFÍCIOS. POSSIBILIDADE. A pessoa física ou jurídica que concorra, de alguma forma, para a prática de atos fraudulentos ou deles se beneficie responde solidariamente pelo crédito tributário decorrente. JUROS MORATÓRIOS. TAXA SELIC. INCIDÊNCIA SOBRE DÉBITOS TRIBUTÁRIOS VENCIDOS. LEGALIDADE. Após o vencimento, os débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB) devem ser acrescidos dos juros moratórios, calculados com base na variação da Taxa Selic (Súmula Carf nº 4). MULTA QUALIFICADA. COMPROVADA A FRAUDE MEDIANTE SIMULAÇÃO E CONLUIO. APLICAÇÃO SOBRE A TOTALIDADE OU DIFERENÇA TRIBUTO APURADA. POSSIBILIDADE. Se comprova a fraude mediante simulação e conluio é devida aplicação da multa qualificada de 150% (cento e cinquenta por cento), calculada sobre a totalidade ou diferença de tributos apurados em procedimento de fiscalização. JUROS DE MORA. INCLUSÃO NA BASE DE CÁLCULO DA MULTA DE OFÍCIO. CÁLCULO INDIRETO. POSSIBILIDADE. A multa de oficio incide sobre o valor do crédito tributário devido e não pago, acrescido dos juros moratórios, calculados com base na variação da taxa Selic, logo, se os juros moratórios integram a base de cálculo da referida multa, necessariamente, eles comporão o valor da multa de ofício devida. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/01/2004 a 31/10/2007 NULIDADE. DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. INOCORRÊNCIA DO CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. IMPOSSIBILIDADE. Não é passível de nulidade a decisão primeira instância em que apreciada todas as razões de defesa suscitadas pelos impugnantes contra todas as exigências consignadas no auto de infração de forma fundamentada e motivada. AUTO DE INFRAÇÃO. ATENDIMENTO DOS REQUISITOS LEGAIS. NULIDADE. IMPOSSIBILIDADE. Não é passível de nulidade, o Auto de Infração lavrado por autoridade competente, com observância dos requisitos legais e ciência regular do sujeito passivo, que exerceu plena e adequadamente o direito defesa. NULIDADE. PROCEDIMENTO FISCAL. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. SUJEITOS PASSIVOS SOLIDÁRIOS REGULARMENTE CIENTIFICADOS. IMPOSSIBILIDADE. Não há cerceamento do direito de defesa, se após a conclusão do procedimento fiscal foi oportunizado e exercido adequadamente o direito de defesa por todos os sujeitos passivos solidários. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. DADOS INTERNOS SUFICIENTES. INTIMAÇÃO DO CONTRIBUINTE. DESNECESSIDADE. O lançamento de ofício pode ser realizado sem prévia intimação ao sujeito passivo, nos casos em que o Fisco dispuser de elementos suficientes à constituição do crédito tributário (Súmula CARF nº 46). PROVA EMPRESTADA. DIÁLOGOS DE ESCUTA TELEFÔNICA. COMPARTILHAMENTO NO PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. EXISTÊNCIA DE AUTORIZAÇÃO JUDICIAL. VALIDADE. É válida a prova carreada aos autos do processo administrativo fiscal extraída de escuta telefônica se a coleta e o repasse à fiscalização da RFB foram judicialmente autorizados. ESCUTA TELEFÔNICA. REPRODUÇÃO INTEGRAL DOS DIÁLOGOS. DESNECESSIDADE. Somente os diálogos telefônicos regularmente interceptados por autorização judicial relevantes para a instrução probatória devem ser reproduzidos e coligidos aos autos do processo administrativo fiscal. PEDIDO DE DILIGÊNCIA/PERÍCIA. REALIZAÇÃO PRESCINDÍVEL. INDEFERIMENTO. POSSIBILIDADE. Se os elementos probatórios coligidos aos autos revelam-se suficientes para formação da convicção do julgador acerca das questões fáticas, a realização de diligência ou a produção de prova pericial torna-se prescindível. Recurso de Ofício Negado e Recurso Voluntário Provido em Parte.
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E OUTROS FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/01/2004 a 31/10/2007 IMPORTAÇÃO COM RECURSOS DE TERCEIROS. EQUIPARAÇÃO A ESTABELECIMENTO INDUSTRIAL. PRESUNÇÃO DA OPERAÇÃO POR CONTA E ORDEM. POSSIBILIDADE. Para fins de equiparação a estabelecimento industrial, presumese por conta e ordem a operação de importação realizada com recursos de terceiro oculto mediante interposição fraudulenta. CONTRIBUINTE DO IPI. REAL IMPORTADOR. IMPORTAÇÃO POR CONTA E ORDEM DISSIMULADA. POSSIBILIDADE. Se comprovado que a operação de importação por conta e ordem foi dissimulada, mediante utilização de interposta pessoa, o real importador assume a condição de contribuinte do IPI, por equiparação a estabelecimento industrial. IMPORTADOR EQUIPARADO A ESTABELECIMENTO INDUSTRIAL. CUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÕES PRINCIPAIS E ACESSÓRIAS. OBRIGATORIEDADE. Na saída dos produtos de procedência estrangeira do estabelecimento, o contribuinte do IPI equiparado a estabelecimento industrial está sujeito ao cumprimento da obrigação principal, consistente no pagamento do tributo devido, e das obrigações acessórias, especialmente, a emissão de notas fiscais com o lançamento do IPI e a escrituração de livros fiscais. CRÉDITO DO IPI. PRINCÍPIO DA NÃO CUMULATIVIDADE. IMPORTAÇÃO POR CONTA E ORDEM. APROPRIAÇÃO PELO REAL IMPORTADOR. POSSIBILIDADE. Por força do princípio da não cumulatividade, na apuração do IPI a pagar, o real importador pode apropriar como crédito o valor de IPI pago no desembaraço aduaneiro, para fim de dedução do valor do IPI devido na AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 80 3. 00 00 71 /2 00 9- 67 Fl. 52515DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 2 operação de saída do produto importado por conta e ordem do seu estabelecimento. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/01/2004 a 31/10/2007 PRAZO DECADENCIAL. TRIBUTO SUJEITO A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. COMPROVADA A EXISTÊNCIA DE FRAUDE OU SIMULAÇÃO E A INEXISTÊNCIA DE PAGAMENTO ANTECIPADO. TERMO INICIAL. Em relação aos tributos sujeitos a lançamento por homologação, se comprovada a existência de fraude ou simulação e a inexistência de pagamento antecipado, a contagem do prazo quinquenal de decadência do direito de constituir o crédito tributário tem início no primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA. ATOS PRATICADOS PELA PESSOA JURÍDICA. COMPROVADA A EXISTÊNCIA DE INTERESSE COMUM DE PESSOAS FÍSICAS E JURÍDICAS. POSSIBILIDADE. As pessoas físicas e jurídicas que, informalmente, tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal são solidariamente obrigadas em relação ao crédito tributário lançado em nome contribuinte formal pessoa jurídica. SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA. INTERESSE COMUM DAS PESSOAS FÍSICAS QUE COMANDAM, DE FATO, A PESSOA JURÍDICA. PRÁTICA DE ATOS FRAUDULENTOS. CABIMENTO. 1. Uma vez comprovado nos autos que as pessoas físicas, ausentes do contrato social da pessoa jurídica autuada, eram seus verdadeiros controladores, dirigentes e beneficiários do resultado econômico, correta a determinação de responsabilidade solidária às mesmas pelos tributos devidos pela pessoa jurídica, porque caracterizado interesse direto nas operações econômicas que geram as respectivas obrigações tributárias. 2. O interesse comum dos responsáveis solidários fica evidente quando se verifica que eles exerciam o controle de todas as operações gerenciais/comerciais/financeiras efetuadas pela sociedade empresária autuada, desde as operações desenvolvidas no exterior até os procedimentos de importação das mercadorias e venda dessas no mercado nacional e percebiam o lucro advindo desta atividade. SOLIDARIEDADE PASSIVA POR INFRAÇÃO. CONCURSO NA PRÁTICA E NOS BENEFÍCIOS. POSSIBILIDADE. A pessoa física ou jurídica que concorra, de alguma forma, para a prática de atos fraudulentos ou deles se beneficie responde solidariamente pelo crédito tributário decorrente. JUROS MORATÓRIOS. TAXA SELIC. INCIDÊNCIA SOBRE DÉBITOS TRIBUTÁRIOS VENCIDOS. LEGALIDADE. Após o vencimento, os débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB) devem ser acrescidos dos juros moratórios, calculados com base na variação da Taxa Selic (Súmula Carf nº 4). Fl. 52516DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.515 3 MULTA QUALIFICADA. COMPROVADA A FRAUDE MEDIANTE SIMULAÇÃO E CONLUIO. APLICAÇÃO SOBRE A TOTALIDADE OU DIFERENÇA TRIBUTO APURADA. POSSIBILIDADE. Se comprova a fraude mediante simulação e conluio é devida aplicação da multa qualificada de 150% (cento e cinquenta por cento), calculada sobre a totalidade ou diferença de tributos apurados em procedimento de fiscalização. JUROS DE MORA. INCLUSÃO NA BASE DE CÁLCULO DA MULTA DE OFÍCIO. CÁLCULO INDIRETO. POSSIBILIDADE. A multa de oficio incide sobre o valor do crédito tributário devido e não pago, acrescido dos juros moratórios, calculados com base na variação da taxa Selic, logo, se os juros moratórios integram a base de cálculo da referida multa, necessariamente, eles comporão o valor da multa de ofício devida. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/01/2004 a 31/10/2007 NULIDADE. DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. INOCORRÊNCIA DO CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. IMPOSSIBILIDADE. Não é passível de nulidade a decisão primeira instância em que apreciada todas as razões de defesa suscitadas pelos impugnantes contra todas as exigências consignadas no auto de infração de forma fundamentada e motivada. AUTO DE INFRAÇÃO. ATENDIMENTO DOS REQUISITOS LEGAIS. NULIDADE. IMPOSSIBILIDADE. Não é passível de nulidade, o Auto de Infração lavrado por autoridade competente, com observância dos requisitos legais e ciência regular do sujeito passivo, que exerceu plena e adequadamente o direito defesa. NULIDADE. PROCEDIMENTO FISCAL. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. SUJEITOS PASSIVOS SOLIDÁRIOS REGULARMENTE CIENTIFICADOS. IMPOSSIBILIDADE. Não há cerceamento do direito de defesa, se após a conclusão do procedimento fiscal foi oportunizado e exercido adequadamente o direito de defesa por todos os sujeitos passivos solidários. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. DADOS INTERNOS SUFICIENTES. INTIMAÇÃO DO CONTRIBUINTE. DESNECESSIDADE. O lançamento de ofício pode ser realizado sem prévia intimação ao sujeito passivo, nos casos em que o Fisco dispuser de elementos suficientes à constituição do crédito tributário (Súmula CARF nº 46). PROVA EMPRESTADA. DIÁLOGOS DE ESCUTA TELEFÔNICA. COMPARTILHAMENTO NO PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. EXISTÊNCIA DE AUTORIZAÇÃO JUDICIAL. VALIDADE. É válida a prova carreada aos autos do processo administrativo fiscal extraída de escuta telefônica se a coleta e o repasse à fiscalização da RFB foram judicialmente autorizados. Fl. 52517DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 4 ESCUTA TELEFÔNICA. REPRODUÇÃO INTEGRAL DOS DIÁLOGOS. DESNECESSIDADE. Somente os diálogos telefônicos regularmente interceptados por autorização judicial relevantes para a instrução probatória devem ser reproduzidos e coligidos aos autos do processo administrativo fiscal. PEDIDO DE DILIGÊNCIA/PERÍCIA. REALIZAÇÃO PRESCINDÍVEL. INDEFERIMENTO. POSSIBILIDADE. Se os elementos probatórios coligidos aos autos revelamse suficientes para formação da convicção do julgador acerca das questões fáticas, a realização de diligência ou a produção de prova pericial tornase prescindível. Recurso de Ofício Negado e Recurso Voluntário Provido em Parte. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. ACORDAM os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer o Recurso Voluntário do Sr. Luiz Scarpelli Filho. Por maioria de votos, em rejeitar as preliminares arguídas pelas Recorrentes e o pedido de diligência apresentado, vencido o Conselheiro Domingos de Sá, que reconhecia a nulidade do Auto de Infração em face da invalidade das provas colacionadas aos autos. Por maioria de votos, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário apenas para reconhecer o direito da empresa Mude Comércio e Serviços Ltda. de deduzir, do valor do crédito tributário constituído no Auto de Infração, o valor do IPI destacado na nota fiscal de venda do importador, parcialmente vencido o Conselheiro Ricardo Paulo Rosa, que negava provimento ao Recurso; o Conselheiro Walker Araújo, que, além do provido, excluía do polo passivo a empresa Cisco do Brasil Ltda. e o Sr. Carlos Roberto Carnevali; o Conselheiro Domingos de Sá, que, além do provido, excluía pólo do passivo a empresa Cisco do Brasil Ltda., o Sr. Carlos Roberto Carnevali e o Sr. Marcílio Palhares Lemos e afastava a incidência de juros de mora sobre as multas; e a Conselheira Sarah Linhares que, além do provido, afastava a incidência de juros de mora sobre as multas. A Conselheira Lenisa Prado se declarou impedida. O Conselheiro Domingos de Sá fará declaração de voto. Por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso de Ofício. Fez sustentação oral: o Dr. Paulo Sehn OAB 108.361/SP; o Dr. Flávio Eduardo Carvalho OAB 20.720/DF; o Dr. Mário Franco OAB 140.284/SP; e o Procurador Miquerlam Chaves Cavalcante AOB 19.135/CE. (assinado digitalmente) Ricardo Paulo Rosa Presidente. (assinado digitalmente) José Fernandes do Nascimento Relator. Participaram do julgamento os Conselheiros Ricardo Paulo Rosa, José Fernandes do Nascimento, Domingos de Sá Filho, Paulo Guilherme Déroulède, José Luiz Feistauer de Oliveira, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza e Walker Araújo. Relatório Tratase de auto de infração (fls. 1529/1563), em que formalizada a cobrança do crédito tributário no valor total de R$ 2.642.340.486,49, correspondente a exigência (i) do Fl. 52518DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.516 5 IPI do período 01/01/2004 a 31/10/2007, que, acrescido de multa de ofício qualificada de 150% (cento e cinquenta por cento) e juros moratórios calculados até 30/11/2008, resultou na importância de R$ 888.822.267,20, e (ii) da multa regulamentar de 100% (cem por cento) do valor das mercadorias, por entrega a consumo de produto de procedência estrangeira importado irregular ou fraudulentamente, no valor de R$ 1.753.518.219,29. Por falta de competência da DRJ Ribeirão Preto/PB, para julgamento da referida multa regulamentar, por meio do Termo de Transferência de Crédito Tributário de fl. 47394, a respectiva parcela do crédito foi transferida para os autos do processo nº 16151.720.068/201186. Como permaneceu nestes autos apenas a cobrança do IPI e respectivos consectários legais, o presente julgamento se restringirá ao litígio concernente à matéria remanescente. De acordo com o Termo de Verificação Fiscal de fls. 494/1085, o procedimento fiscal em apreço decorreu do trabalho realizado pelo Escritório de Pesquisa e Investigação da Receita Federal, em conjunto com a Polícia Federal, desenvolvido no âmbito do Procedimento Criminal Diverso nº 2005.61.0092851, instaurado perante a 4ª Vara Federal Criminal da 1ª Subseção Judiciária de São Paulo/SP, com o objetivo de investigar a regularidade da “a logística de importação e distribuição de produtos eletroeletrônicos e de telecomunicações da empresa norteamericana CISCO SYSTEM INC”. Além da contribuinte Mude Comércio e Serviços Ltda., doravante denominada de MUDE, forma incluídos no polo passivo da autuação como responsáveis solidários, a pessoa jurídica Cisco do Brasil Ltda., as seguintes pessoas físicas: Fernando Machado Grecco; Marcelo Naoki Ikeda; Marcílio Palhares Lemos; Moacyr Álvaro Sampaio, Hélio Benetti Pedreira; Gustavo Henrique Castellari Procópio; José Roberto Pernomian Rodrigues; Luiz Scarpelli Filho; Pedro Luis Alves Costa; Reinaldo de Paiva Grillo; Carlos Roberto Carnevali, Cid Guardia Filho e Ernani Bertino Maciel. Segundo a fiscalização, as referidas pessoas físicas e pessoa jurídica, integrantes do Grupo CISCO/MUDE, foram consideradas responsáveis solidárias porque, nos termos do art. 124, I, do CTN, elas tinham interesse comum na situação que constitutiva do fato gerador do IPI cobrado, em razão dos fatos apurados no curso das investigações promovidas no âmbito da Operação Persona (Relatório RFB/IPEI BA 2007.0005) e do presente procedimento fiscal, em que ficou comprovado que: a) os citados responsáveis solidários tinham conhecimento da interposição fraudulenta; b) houve conluio entre os componentes do grupo, com o objetivo de sonegação fiscal; c) as citadas pessoas físicas eram sócios reais ou ocultos da MUDE; e d) todos os integrantes do grupo contribuíram para o sucesso da fraude e obtiveram ganhos ilícitos significativos. O modus operandi do esquema de fraude nas operações de importação planejado e implementado pelo “Grupo MUDE” foi descrito pela fiscalização com seguintes dizeres, in verbis: No comando do esquema operacional de importações, encontramse os principais dirigentes das empresas CISCO DO BRASIL LTDA e da sua distribuidora, MUDE COMÉRCIO E SERVIÇOS LTDA e ainda, juntandose a estes, outras pessoas físicas e jurídicas especificadas ao longo deste Termo Fiscal, notadamente no capítulo III, que montaram uma seqüência de operações para ocultação do real importador, simulando a Fl. 52519DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 6 ocorrência de importação direta ou própria em nome das terceiras pessoas jurídicas interpostas, quando, na verdade, as importações ocorriam por conta e ordem da própria MUDE COMÉRCIO E SERVIÇOS LTDA. Através deste esquema, atingiamse os objetivos nas metas de vendas na América Latina da empresa norteamericana CISCO SYSTEM INC., colocando seus produtos eletroeletrônicos e de telecomunicações no mercado nacional, reduzindo drasticamente e ilegalmente a tributação do IPI e demais tributos federais e estaduais incidentes. Desta forma, indiscutível a grande vantagem na competitividade comercial, além, é obvio, da subtração de recursos ao erário público. Conforme já explicitado, as fraudes visavam a ocultação dos reais adquirentes e beneficiários das operações de comércio exterior, MUDE COMERCIO E SERVIÇOS LTDA e CISCO DO BRASIL LTDA, através da estrutura de importação fraudulenta baseada na criação de empresas interpostas entre os extremos da cadeia logística (fabricante/real exportador e real importador/adquirente). Obscurecendose ainda mais os fatos reais, o grupo optou por criar o chamado "duplo grau de blindagem", ou seja, além da criação do importador e exportador interpostos, o grupo também criou distribuidores interpostos no Brasil e nos Estados Unidos. Essas empresas interpostas, normalmente tinham seus quadros societários compostos por empresas offshore (sediadas em paraísos fiscais) e/ou pessoas desprovidas de recursos econômicos vulgarmente denominadas "laranjas", como pedreiros, ambulantes, operadores de telemarketing, auxiliares de escritório, ferramenteiros etc., conforme será exposto ao longo do presente Termo. O modelo de interposição utilizado pelo grupo CISCO/MUDE permitiu a eles (reais importadores e adquirentes) atuarem no comércio exterior sem sujeitarse a qualquer controle exercido pela Receita Federal do Brasil RFB. Todas as nacionalizações foram declaradas ao Fisco como importações realizadas por conta própria das importadoras interpostas, quando na realidade são operações por conta e ordem de terceiros (MUDE/CISCO). O real importador e adquirente, portanto, permanecia oculto ao Fisco. (grifos do original) O lançamento do IPI e consectários legais em apreço foi realizado com base nos seguintes fundamentos: a) as operações de compra dos produtos importados no mercado interno foram simuladas, com finalidade de ocultar as reais operações de importação realizadas pela MUDE por intermédio de interpostas pessoas em situação irregular; b) a contribuinte MUDE foi equiparada a estabelecimento industrial, nos termos do art. 9º, I, do Decreto 4.544/2002 (RIPI/2002), por ser a real importadora das mercadorias, uma vez que incidira nas condutas definidas no art. 27 da Lei 10.637/2002, combinado com o art. 79 da Medida Provisório 2.15835/2001; e Fl. 52520DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.517 7 c) comprovada a fraude, mediante interposição fraudulenta na operação de importação, e não lançados e recolhidos IPI devido na operação de saída/revenda dos produtos no mercado interno, a multa de ofício aplicada foi qualificada de 150% (cento e cinqüenta por cento), prevista no art. 44, II, da Lei 9.430/1996. Cientificados da autuação, em sede de impugnação, a autuada e os responsáveis solidários apresentaram impugnações, cujas razões de defesa foram resumidas no relatório encartado na decisão de primeiro grau, nos termos que seguem transcritos: 1. IMPUGNAÇÃO. MUDE COMERCIO E SERVIÇOS LTDA Regularmente cientificada da autuação, em 21/12/2009, conforme consta do auto de infração (fls. 1543), a empresa ingressou com impugnação na qual, após explanação sobre o modelo de negócio adotado, alegou, em preliminar, que o fato de a empresa ter sido alvo de operação policial, com interceptação de ligações telefônicas e de mensagens telemáticas, não pode influenciar a análise da impugnação, que deve ser julgada nos moldes da legislação aplicável, o que certamente acarretará a declaração de insubsistência do auto de infração. Alertou, ainda, que a ausência dos elementos da impessoalidade e da imparcialidade nos atos administrativos (auto de infração e decisão administrativa) acarreta sua nulidade. Em síntese, também em preliminar, fez as seguintes considerações: 1.1 CERCEAMENTO DEFESA: A empresa alegou cerceamento de seu direito de defesa, por ter solicitado cópias dos autos (documentos) e estas não terem sido disponibilizadas até a data da impugnação. Acrescentou que recebeu simultaneamente a ciência de diversos autos de infração, nos últimos dias do ano fiscal, com prazos para impugnação praticamente idênticos e esse fato juntamente com a obtenção de cópias do processo que continha 17 mil páginas de documentos impediu o exercício do contraditório e da ampla defesa, na medida em que a empresa não pode confrontar as acusações do Termo de Verificação Fiscal com os documentos que compõe o auto. E que, as provas que sustentam as acusações de fraude, simulação e conluio são justamente aquelas que foram indevidamente utilizadas no processo administrativo fiscal, de modo que a contestação somente poderá ocorrer com a devida análise do conjunto probatório. 1.2 NULIDADE DAS PROVAS: Alegou que as provas que fundamentaram a autuação foram colhidas nos autos do procedimento criminal no âmbito da operação policial deflagrada em conjunto com a Receita Federal do Brasil e, sendo assim, por terem sido obtidas com o único objetivo de instruir ação criminal, jamais poderiam ser utilizadas no processo administrativo fiscal, violando o artigo 5º da Constituição Federal, incisos X, XI e XII, devendo a D. Fl. 52521DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 8 Turma Julgadora determinar a desconstituição do crédito tributário. A quebra do sigilo das informações pessoais somente poderá ser admitida por ordem judicial e para fins de investigação criminal ou instrução processual penal (Lei nº 9.296/96). A indevida utilização dessas provas implica considerar também os mecanismos à disposição da defesa no âmbito criminal, transportandose aquele contraditório especialíssimo para o bojo do procedimento fiscal, o que se mostra totalmente inviável. Por conseguinte, a D. Turma Julgadora deve deixar de reconhecer a validade das provas colhidas no âmbito criminal no presente processo administrativo reconhecendo, assim, que o auto de infração carece de “fundamentação fáticoprobatória” e determinandose seu cancelamento. 1.3 AUSÊNCIA DE RELAÇÃO ENTRE AS PROVAS E O LANÇAMENTO: Suscitou que as provas colecionadas nos autos referemse a períodos diferentes daqueles tratados no auto de infração (janeiro de 2004 a outubro de 2007), porquanto as ligações e e mails coletados para comprovação do “esquema fraudulento de importações”, ocorreram no ano de 2007, sem qualquer relação com os fatos geradores do presente auto. É princípio basilar de direito que as provas devam ter relação direta com os fatos tidos como infracionais, não se admitindo que tais documentos sejam base para a constituição do crédito tributário do ano de 2003, nem para a aplicação da multa agravada. 1.4 AUTUAÇÃO COM BASE EM SUPOSIÇÕES NULIDADE DO PROCEDIMENTO: Argumentou que, de acordo com a doutrina, para que haja o lançamento tributário se faz necessário que a descrição do fato contido no auto de infração seja bastante clara e objetiva, não se admitindo presunções, de forma que não pairem dúvidas acerca da ocorrência do fato e que haja a completa subsunção desse fato à norma jurídicotributária, sob pena de nulidade do lançamento, não se permitindo aplicar qualquer tipo de punição com base em presunções. E que sendo assim, a aplicação de sanções depende de prova que deve ser exaustivamente promovida pelo fisco, de forma a convencer, por meios não indiciários, mas diretos, o julgador quanto da procedência do alegado. Tratase de uma proteção estabelecida em favor da liberdade e do patrimônio do contribuinte, que não pode ser punido com base em presunções. Portanto, comete a fiscalização uma ilegalidade ao exigir da impugnante tributos e multas sobre um fato jurídico presumido (supostas irregularidades nos processos de importação do ano base de 2003) e não provado, mormente quando se verifica que a impugnante jamais antecipou valores às importadoras. Necessário para que o auto de infração possa subsistir que a fiscalização comprove, documentalmente, por meios diretos e não indiretos (presuntivos) a alegada intenção de ocultar o real adquirente das mercadorias, ante toda a documentação que lhe Fl. 52522DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.518 9 foi apresentada, ou ainda, que tivesse comprovado a ocorrência da realização de atos simulados, o que também não foi feito, pois, ao contrário, o que se verificou foi que nenhum dos atos praticados poderia ser considerado ilícito ou ilegal. 1.5 IMPOSSIBILIDADE DE UTILIZAÇÃO DE PROVA EMPRESTADA: O auto de infração foi lavrado com base em prova emprestada, produzida no âmbito criminal, o que não é admitido, já que a fiscalização deve guardar estrita obediência aos princípios que regem a administração pública, dentre os quais destacase o da motivação e o da legalidade. Sendo assim, os agentes fiscais jamais poderiam lavrar os autos sem fazer levantamento e exame completo de toda a documentação contábil das empresa que participaram da fiscalização. O Conselho de Contribuinte tem entendimento de que não se pode utilizar prova emprestada, cancelando o lançamento lavrado nessa situação. 1.6 DA NULIDADE DA TRANSCRIÇÃO DAS PROVAS NO TERMO DE VERIFICAÇÃO FISCAL: Fácil notar a absoluta manipulação dos supostos meios de prova que, além de muitas vezes serem objeto de conclusões sem qualquer fundamento ou relação com o documento a que se faz referência, nunca são transcritos em sua totalidade. Na quase totalidade das transcrições a fiscalização sequer transcreveu o diálogo, utilizandose, como meio de prova, mera descrição ou resumo da conversa a partir das impressões dos próprios Auditores Fiscais. Impossível não notar a facilidade com que se pode manipular esse procedimento “probatório”, configurando claro e evidente cerceamento do direito à ampla defesa. 1.7 INSUBSISTÊNCIA DAS ALEGAÇÕES DE IMPORTAÇÃO FRAUDULENTA: A alegação de prática de uma série de operações comerciais simuladas com objetivo de fraudar o fisco não possui a mínima fundamentação, seja porque (i) nem a impugnante, nem os importadores operavam exclusivamente com produtos da CISCO, de modo não fazer qualquer sentido a acusação de que se tratava de uma organização sob comando único; (ii) a simulação, além de não existir e, por conseqüência, não ter sido documentalmente comprovada, seria relativa a períodos diferentes daqueles que foram autuados e (iii) não existe qualquer fraude ao Fisco, já que não houve prova de que as operações comerciais realizadas pela impugnante geraram redução de carga tributária (haveria a necessidade de considerar que o importador, na forma como realmente ocorreu a operação, recolheu o PIS e a Cofins sobre o total das vendas realizadas, ao passo que, na hipótese de importação por conta e ordem, a base de cálculo das operações do importador seria simplesmente o preço do serviço). Fl. 52523DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 10 Acrescentou que as acusações sobre o suposto adiantamento de valores, bem como o suposto acompanhamento da cadeia por parte da impugnante, como justificativas da interdependência, nada mais são que frutos de uma visão equivocada do modelo just in time, o qual se funda na intensa e rápida interação entre os membros da cadeia produtiva e, em ultima hipótese, se fosse possível dizer que um ou mais agentes controlavam a cadeia de distribuição, sem dúvida tais agentes somente poderiam ser o fabricante ou o usuário final, pois são esses agentes que “empurram e puxam” a cadeia produtiva. Outro ponto que demonstra a improcedência das acusações referese às acusações de que as importações foram realizadas por empresas offshore ou desprovidas de recursos econômicos, pois cada importação realizada convalida a existência das empresas importadoras, já que a Receita Federal autorizava o desembaraço aduaneiro sem qualquer óbice à operação. Também é de se observar que utilizando o critério adotado pela Fiscalização, a maioria das empresas poderiam ser caracterizadas como interpostas, pois é sabido que uma empresa com grande volume de operação não precisa, necessariamente, ter sócios de grande poder aquisitivo. Ademais, a prova sobre a existência regular dos importadores cumpre a eles (importadores) e não à impugnante. Questão relevante também diz respeito à contabilidade da impugnante. Por um lado o Fisco afirma que se trata de contabilidade imprestável, que não espelha verdadeiramente os fatos contábeis ocorridos, registrando apenas a simulação das operações, mas por outro, aproveita os valores das saídas das mercadorias, constantes das notas fiscais, para exigir o IPI e a multa objeto do AI, sem efetuar o arbitramento previsto no artigo 138 do Regulamento do IPI. O questionamento que se faz é se faria sentido estruturar uma operação com suposto objetivo de economizar tributos se, por outro lado, haveria tantas outras incidências tributárias (PIS, Cofins, etc...). O preço das mercadorias vendidas pela impugnante é maior do que o praticado pelos concorrentes, fazendo a diferença dos serviços a velocidade e a segurança oferecidas pela impugnante. 1.8 DA DESMISTIFICAÇÃO DA LINGUAGEM COLOQUIAL UTILIZADA NAS MENSAGENS TELEMÁTICAS E CONVERSAS TELEFÔNICAS. A expressão“antecipação de pagamentos”, que aos olhos da Fiscalização trata de antecipação de recursos aos importadores, na realidade nada mais é do que o pagamento antecipado de faturas a vencer, mas de mercadorias já entregues, recebidas e com o pagamento em aberto. Ressaltese, uma vez mais, que nunca houve financiamento das importações por parte da impugnante. Outra interpretação incorreta diz respeito ao verbete “comissão” que não se trata de remuneração paga aos importadores pelos serviços prestados aos reais adquirentes, Fl. 52524DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.519 11 conforme entendeu a Fiscalização, mas ao percentual de adicional de preço praticado por cada fornecedor de mercadorias. As alegações de MÉRITO são transcritas resumidamente a seguir: 1.9 DA INEXISTÊNCIA DE ANTECIPAÇÃO DE RECURSOS E DA INDEVIDA EQUIPARAÇÃO A ESTABELECIMENTO INDUSTRIAL: Jamais poderia prevalecer a acusação de antecipação de recursos aos Importadores tendo em vista que não houve, por parte da Fiscalização um levantamento individualizado da movimentação de recursos para pagamento da aquisição de mercadorias CISCO. Analisando a planilha elaborada pelo fisco no intuito de demonstrar a antecipação de recursos, não se verifica nenhuma coluna dedicada à operação de compra e venda de mercadorias, tampouco à sua aquisição e entrada no estabelecimento. Ademias constatase que não houve qualquer antecipação de recursos, já que a operação se deu num mesmo dia (14/04/2003). Também é fato de que o trabalho fiscal não poderia se ater à verificação de uma única operação de aquisição de mercadorias feita pela impugnante, necessário que fosse produzida prova material individualizada para cada uma as operações de compra praticada pela impugnante, demonstrando a ocorrência das supostas irregularidades. Ademais, se fosse válido tal documento ele faria prova em favor da impugnante já que o total das despesas do fornecedor (até o dia 10 de setembro de 2003) soma R$ 2.002.193, ao passo que, em 25/09/2003 a impugnante teria depositado a quantia de R$ 1.685.255,95, o que demonstraria que não ocorreu qualquer antecipação de recursos e que o fornecedor tinha recursos próprios para arcar com suas operações. Nos termos do artigo 276 do RIR/99, a escrituração mantida com observância das disposições legais FAZ PROVA A FAVOR DO CONTRIBUINTE dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis. Assim, a declaração de vontade consubstanciada nos documentos emitidos pelas importadoras, devidamente registrados na contabilidade como compra e venda de mercadorias, não havendo impedimento para tanto e sendo os agentes capazes e lícito o objeto é hábil para comprovar o fato. A principal prova da antecipação de recursos é uma planilha apócrifa e alterada pela d. fiscalização. Esse documento não é hábil e idôneo para justificar a autuação, uma vez que o direito não pode se pautar em suposições. Os importadores figuram como legítimos compradores dos produtos CISCO pois a operação foi realizada com obediência ao Ato Declaratório Interpretativo nº 07/02 – legitima compra de mercadorias nacionalizadas. Caso não tivessem agido desta forma, estariam sujeitos ao PIS e a Cofins sobre a totalidade das operações com o acréscimo de juros de multa de até 150% do valor do tributo lançado. Por conseguinte, não se pode aplicar à Fl. 52525DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 12 impugnante qualquer penalidade, já que ela e os importadores trataram as suas operações em conformidade com ato administrativo válido. Mudanças de posicionamento do Fisco em razão de determinada matéria não pode acarretar a autuação do Contribuinte quando este seguiu à risca as instruções daquele órgão. 1.10 DEMONSTRAÇÃO DOS PAGAMENTOS: A impugnante realizou minucioso levantamento em sua contabilidade considerando a data de entrada das mercadorias adquiridas em 2003, o dia em que foi emitida a cobrança e o que em que realmente foi quitada a operação de compra e venda, no qual restou constatado que NUNCA HOUVE ANTECIPAÇÃO DE RECURSOS POR PARTE DA IMPUGNANTE PARA FINANCIAR O IMPORTADOR, mas tãosomente pagamentos de faturas antes do vencimento (doc. 08). A impugnante solicitou realização de PERÍCIA contábil, conforme laudo em anexo (doc. 09), que afirmou não ter havido antecipação de recursos aos fornecedores. 1.11 DA AUSÊNCIA DE PROCEDIMENTO PRÓPRIO (IN/SRF Nº 228/02) PARA A CONSTATAÇÃO DE INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA: A legislação estabeleceu procedimento específico para a verificação da origem dos recursos utilizados nas operações com do comércio exterior, a Portaria MF nº 350/2002 e IN SRF nº 228/2002, esta estabelecendo instauração de procedimento especial de verificação da origem dos recursos sem a qual o auto é nulo. Tal procedimento prévio não foi praticado pelas autoridades fiscais, não podendo subsistir a autuação lavrada. Ao analisar o cadastro das empresas mencionadas na peça fazendária como sendo as importadoras e distribuidoras, verificase três situações distintas: (i) inaptidão do CNPJ da BRASTEC em 14/01/2008; (ii) suspensão do CNPJ da ABC Industrial da Bahia Ltda. em 16/03/2009; e (iii) todos os demais CNPJ estão ativos. Fato é que, à época das aquisições, não havia qualquer declaração de inaptidão ou de suspensão, não podendo o Fisco considerar que aquelas operações teriam sido praticadas de forma irregular. Todos os importadores detinham o “RADAR” e todas as importações foram objeto de registro das respectivas DI. 1.12 DA IMPROCEDÊNCIA DA ALEGAÇÃO DE QUE AS IMPORTADORAS E AS DISTRIBUIDORAS SÃO EMPRESAS DE “FACHADA” A impugnante procurou as empresas envolvidas para obter elementos que corroborassem sua convicção acerca da idoneidade de seus fornecedores, trazendo aos autos documentos que comprovam a regularidade de suas atividades. Fl. 52526DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.520 13 1.13 DA ILEGALIDADE DA INCIDÊNCIA DE JUROS SOBRE A MULTA DE OFÍCIO AGRAVADA E SOBRE A MULTA EQUIVALENTE AO VALOR DAS MERCADORIAS. Não pode prosperar a incidência de juros sobre as multas lançadas no presente auto, pois a partir do vencimento do prazo para recolhimento do crédito tributário apurado no AI, as autoridades fiscais certamente computarão juros de mora sobre a multa de ofício e sobre a multa de 100% do valor das mercadorias, não obstante os juros que já incidem sobre o valor da obrigação principal. Tal procedimento é ilegal. 1.14 DA INEXISTÊNCIA DE CONTROLE ACOMPANHAMENTO NATURAL DE MERCADO PARA QUALQUER CADEIA DE COMÉRCIO. As acusações acerca do suposto acompanhamento da cadeia de negócios por parte da impugnante, como justificativas da interdependência, nada mais é do uma visão equivocada do modelo just in time, o qual se funda na intensa e rápida interação entre os membros da cadeia produtiva e, em ultima hipótese, se fosse possível dizer que um ou mais agentes controlavam a cadeia de distribuição, sem dúvida tais agentes somente poderiam ser o fabricante ou o usuário final, pois são esses agentes que “empurram e puxam” a cadeia produtiva. 1.15 NÃO COMPROVAÇÃO DE SUBFATURAMENTO BANALIZAÇÃO DO CRIME. A fiscalização não perdeu a oportunidade de acusar a impugnante de promover o subfaturamento nas operações de importação, como se ela fosse a real importadora dos produtos comprados de seus distribuidores e verdadeira chefe de uma quadrilha de criminosos, unidos para fraudar o Fisco. Para este fato a fiscalização desrespeitou a personalidade jurídica de incontáveis empresas, taxandoas de interpostas e, seus sócios, de “laranjas”. Não pode a fiscalização agir com tamanha irresponsabilidade e despreparo, com acusações infundadas, feitas sem qualquer prova ou por meio de provas manipuladas. Obvio que este tipo de procedimento macula a autuação de vício insanável e a torna absolutamente nula. 1.16 DA AUSÊNCIA DE FRAUDE, SIMULAÇÃO E CONLUIO INAPLICABILIDADE DA MULTA AGRAVADA DE 150%: A matriz legal da multa agravada foi revogada pelo artigo 40 da Lei nº 11.488/2007 de modo que não poderá prevalecer qualquer cobrança com fundamento legal em dispositivo revogado expressamente. Ainda que houvesse alguma simulação nas operações realizadas pela impugnante, esta não configuraria, por si só, a hipótese de aplicação da multa agravada, pois, para que esta multa possa ser exigida é necessário que a fiscalização demonstre que as operações foram feitas com evidente intuito de fraude, conforme definido nos artigos 71, 72 e 73, da Lei nº 4.502/64, ou seja, que Fl. 52527DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 14 a empresa intencionalmente adotou uma conduta com o objetivo de fraudar. No Termo de Verificação Fiscal, a fiscalização sequer mencionou ter havido dolo e máfé, não se preocupando em provar o fato. 1.17 DA DECADÊNCIA DO DIREITO DE CONSTITUIR CRÉDITOS DE IPI. Como não se pode falar em fraude, simulação ou conluio, verificase que parte do crédito tributário constituído nos autos (ano de 2004) foi atingida pela decadência, prevista no artigo 150, § 4º, do Código Tributário Nacional. 1.18 VALOR TRIBUTÁVEL A impugnante também argumentou quanto à obrigatoriedade de o fisco em arbitrar o valor tributável do IPI e o valor das mercadorias para fins de apuração dos tributos na importação, ao constatar a suposta idoneidade dos documentos fiscais e a interposição fraudulenta nas operações de importação, fato previsto no artigo 148 do CTN, aplicável sempre que o valor ou o preço de bens, direitos ou serviços sejam omitidos ou não mereçam fé das declarações ou os esclarecimentos prestados pelo sujeito passivo, ou os documentos emitidos por este ou por terceiro legalmente obrigado. 1.19 ERRO NA SUJEIÇÃO PASSIVA. ALTERAÇÃO DE CRITÉRIO ADOTADO PELA FISCALIZAÇÃO. Ao exigir do impugnante o pagamento do IPI e das multas, o Fisco identificou incorretamente o sujeito passivo, o que acarreta a nulidade do auto de infração. No entendimento consolidado no E. Conselho, nos casos em que houver operação por conta e ordem, o estabelecimento que será equiparado a industrial será aquele que realmente financiar a operação. Em sendo assim, no caso de prevalecer o entendimento que houve importação por conta e ordem, jamais poderia ser equiparada a industrial a impugnante, pois, em última análise, a fiscalização entendeu que quem financiava a operação com produtos Cisco System INC., seja diretamente, seja pela CISCO Capital ou GE Capital, era a CISCO. Por outro lado, a situação abordada nos autos é exatamente igual à tratada no caso da empresa TELECON. No entanto, no caso presente, o Fisco lavrou o auto de infração contra a impugnante (equiparandoa a industrial) e, no caso da TELECON, o auto de infração foi lavrado contra o destinatário final das mercadorias. 1.20 DA AUSÊNCIA DA APURAÇÃO DOS CRÉDITOS DO IPI. OFENSA AO PRINCÍPIO DA NÃO CUMULATIVIDADE: O Fisco, para exigência do tributo devido, equiparou a impugnante a estabelecimento industrial e exigiulhe o IPI sobre Fl. 52528DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.521 15 o valor total das mercadorias vendidas, considerando como crédito apenas as entradas à titulo de devolução, não considerando como crédito o montante do IPI pago nas operações anteriores, devidamente lançados nas notas fiscais de aquisição, em clara ofensa ao princípio constitucional da não cumulatividade do imposto. Caso a fiscalização tivesse utilizado os créditos de IPI na entrada, o valor deste crédito seria de cerca de R$ 28.053.185,52, o que resultariam um IPI supostamente devido de R$ 216.503,48. Tal ato se deu sob a alegação de que tais créditos foram considerados como custo na apuração do IRPJ e da CSLL, fato sequer provado nos autos. E mesmo que houvesse esta demonstração, caberia a fiscalização “demonstrar que o reflexo tributário desse procedimento é exatamente o mesmo do que o creditamento do IPI” e o lançamento da diferença destes impostos e contribuições e não desconsiderar o crédito do IPI. 1.21 ILEGALIDADE DA UTILIZAÇÃO DA TAXA SELIC: Não pode prosperar a cobrança dos juros moratórios mediante a utilização da taxa selic, já que sua fixação visa a remuneração do investidor e não para ser aplicada como sanção por atraso no cumprimento de uma obrigação. Ademais, devese ressaltar que a referida taxa não foi criada e definida em lei, mas por Resolução do Banco Central do Brasil, o que ofende o princípio constitucional da legalidade, bem como ao disposto no artigo 161, § 1º, do CTN. 1.22 PEDIDO DE PERÍCIA E PEDIDO DE DILIGÊNCIA. Por fim, com respaldo no disposto no artigo 16, IV, do Decreto nº 70.235/72 e no artigo 11 da Portaria RFB nº 10.875/2007, solicitou realização de perícia para que se comprovem todos os argumentos anteriormente delineados, nomeando como perito o Sr. Luiz Fernando Lyra Magalhães, contador e indicando quesitos: a) se houve adiantamento de recursos; b) apurar os créditos de IPI nas operações anteriores as praticadas pela impugnante e calcular o montante que seria devido a título de IPI considerando tais créditos; c) esclarecer se, de fato, havia o endividamento da impugnante frente a seus fornecedores e como se registrou esse endividamento. Também solicitou a realização de diligência, para que se comprovem todos os argumentos anteriores, solicitando às autoridades fiscais que respondam aos seguintes quesitos: a) verificar, perante a WHAT´S UP, mediante análise, se houve, durante o período compreendido pela autuação, algum pagamento da impugnante para tal empresa; Fl. 52529DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 16 b) averiguar contra quem a WHAT´S UP, no período compreendido no AI, emitia suas faturas e qual era o serviço por ela prestado e, c) elaborar relação identificando os nomes dos adquirentes finais das mercadorias CISCO e respectivos valores.Após, identificar nas notas fiscais de saída emitidas pela impugnante as vendas dos produtos encomendados por intermédio das purchase orders . Por fim diligenciar junto aos encomendantes para que eles relacionem as notas fiscais de saída para os usuários finais. Em 06/05/2010, a empresa encaminhou os documentos de fls. 27.905 a 28.202, solicitando , com fulcro no artigo 16, § 4º, a e § 5º do Decreto nº 70.235/72, a juntada do anexo: Relatório de Análise de Créditos de IPI 2007 (doc. 02), elaborado pela empresa M/Legate Soluções Empresariais, relativamente aos créditos do IPI de 2007, que comprova créditos no montante de R$ 75.962.547,95 Em 19/10/2010 a empresa encaminhou os documentos de fls 28.297 a 28.804 solicitando, com fulcro no artigo 16, § 4º, a e § 5º do Decreto nº 70.235/72, a juntado de provas que contradizem a alegação do Fisco que as empresas envolvidas eram “tudo uma coisa só” e comprovam a existência das importadoras, inclusive, demonstrando sua personalidade jurídica respeitada pelo próprio Fisco em autuações aduaneiras. Na mesma data juntou Pareceres dos professores Paulo de Barros Carvalho e Eurico Marcos Diniz de Santi, analisando o modelo de negócio adotado pela empresa. 2. IMPUGNAÇÃO DOS RESPONSÁVEIS 2.1 CISCO DO BRASIL. A empresa CISCO apresentou, em 26/01/2010, impugnação ao Termo de Sujeição Passiva Solidária, protestando pela posterior juntada de elementos de prova. Fez, em resumo, as seguintes considerações: 2.1.1 DO MODELO NEGOCIAL DA CISCO: A CdB, ora impugnante, é uma subsidiária da CSI e foi constituída em 1994 para desenvolver, basicamente, atividades de suporte de prévenda, serviços relativos à geração de demanda e fornecimento de partes para reposição em virtude de garantia. O modelo de negócios, padrão do grupo Cisco em mais de 80 países e também adotado pela maioria de seus concorrentes, consiste basicamente em um sistema de vendas indiretas (“channel partiner program” ou “canais de distribuição”), segundo o qual os produtos de sua fabricação são distribuídos por terceiros nãorelacionados (parceiros). As vendas realizadas nos USA de forma transparente e segundo as regras do “Incoterms”. O preço de venda dos produtos Cisco era determinado em total consistência com a política global de descontos do grupo (que geralmente concede abatimentos Fl. 52530DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.522 17 relevantes em torno de 30% a 60% dependendo dos níveis de certificação) e, em 2003, o nível de descontos praticado para todos os distribuidores na América Latina era da ordem de 40%, podendo ser maior em grandes transações, negócios estratégicos e distribuidores aptos à prestação de serviços de alto nível em seus territórios. Referidos parceiros são empresas multinacionais, as quais ficam responsáveis pelo gerenciamento de estoque, pela logística internacional (inclusive no tocante a todos os trâmites aduaneiros) e pela revenda de produtos Cisco, não se tratando de esquema para redução de carga tributária, mas sim de prática negocial lícita e usual no setor de tecnologia da informação (TI). O modelo “onetier”, os parceiros adquirem os produtos diretamente da CSI para revenda de seus usuários finais. Referidos integradores de sistema são, em sua grande maioria, empresas de grande porte, como, por exemplo, a IBM e Telefônica. O modelo “twotier” o distribuidor nãorelacionado localizado nos USA adquire os produtos da CSI e exporta para os parceiros nãorelacionados no Brasil, os quais, por sua vez, revendem o produto localmente. Por regra, os distribuidores não relacionados nos USA são contratualmente proibidos de vender diretamente aos consumidores finais e normalmente possuem estoques de produtos. Em ambos os modelos, os parceiros efetuam as compras no exterior e são responsáveis pela importação e pelos procedimentos relativos ao desembaraço aduaneiro dos equipamentos no Brasil, bem como pela revenda para os consumidores finais e são os responsáveis por estabelecer os preços aplicáveis na revenda, assim como quaisquer outros termos e condições – exceto em condições específicas previstas na política de descontos do grupo Cisco. A impugnante, portanto, não importa produtos para revenda, mas apenas para uso próprio (ativo fixo) ou partes e peças de reposição para fornecimento aos adquirentes dos produtos Cisco em virtude de garantia. Incluise na atividade de suporte de prévenda a : i) demonstração de produtos, ii) a apresentação de seminários técnicos e o treinamento para os engenheiros de seus parceiros; iii) a apresentação de seminários de vendas e treinamento para os executivos do departamento de vendas dos parceiros; iv) visitas aos clientes juntamente com os parceiros; v) a revisão de propostas técnicas e vi) a solicitação de desconto junto à CSI, dentro dos limites da referida política de descontos estabelecida pelo grupo. É de se enfatizar que constitui prática normal a busca de maiores descontos possíveis pelos parceiros da CSI e, de igual sorte, o envolvimento dos funcionários da impugnante nesse Fl. 52531DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 18 processo é igualmente regular e corriqueiro, constituindo, na verdade, uma das atividades previstas contratualmente, pela qual a impugnante é remunerada pela CSI, além dos serviços de suporte de marketing e vendas e assistência técnica e treinamento. 2.1.2 DAS PROVAS: Nenhuma das provas colididas pela fiscalização demonstra qualquer fundamento para invocar a sujeição passiva solidária e tampouco qualquer conhecimento por esta quanto aos alegados fatos fraudulentos que teriam sido cometido pela Mude. A maioria das provas coligidas se refere à Mude e a terceiros, não à impugnante e tampouco se refere ao período autuado; Invalidade das provas emprestadas e do cerceamento de defesa decorrente da violação do contraditório e da ampla defesa na formação da prova; O procedimento criminal nº 2005.61.81.0092851 foi instaurado exclusivamente em desfavor das pessoas físicas investigadas, não havendo evidências de contraditório envolvendo as pessoas jurídicas envolvidas. Não foi concedido à impugnante, no processo criminal a oportunidade de examinar formalmente, em juízo, o conteúdo das gravações, alegar incoerências, requerer a verificação de sua autenticidade, entre outros, como ocorreria se parte ela fosse de tal procedimento. Com a transferência irregular das mencionadas “provas emprestadas” (falta de identidade entre as partes), de cuja produção da impugnante jamais tomou parte, restou violado o princípio constitucional do devido processo legal, com as suas inerentes e fundamentais garantias, quais sejam: o contraditório e a ampla defesa, o que representa claro cerceamento de defesa. As provas, evidências e indícios daí obtidos serão necessariamente inválidos e não podem embasar uma medida de sanção contra a empresa. Sendo assim, a prova emprestada na presente ação fiscal não pode embasar a solidariedade da impugnante, a quem se quer imputar uma gravíssima sanção sem que tenha contraditado devidamente a principal prova, que contra ela não foi produzida no âmbito criminal. Mesmo se as provas coletadas fossem válidas, não demonstram qualquer responsabilidade da impugnante com relação às alegadas condutas ilícitas da improcedência das acusações feitas contra a impugnante; Da improcedência das acusações feitas contra a impugnante A fiscalização não parece haver atentado para o fato de que nem sempre provas atuais refletem com exatidão situações pretéritas além de não demonstrarem qualquer conduta ilícita da impugnante ou da CSI. A prova de estreita relação comercial entre o grupo Cisco e seus distribuidores, comprovada por diversos ângulos ao longo do TSPS não só era de se esperar como, principalmente, não prova que a impugnante teria conhecimento e/ou participação em eventuais fraudes que estariam sendo cometidas pela empresa Mude e demais partes envolvidas na investigação. Vale lembrar Fl. 52532DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.523 19 que as atividades comerciais efetivas realizadas pelo grupo Cisco consistiam na venda, formalizada em contratos reais e perfeitamente idôneos e o relacionamento comercial com a Mude não prova que a CdB ou a CSI tenham se beneficiado de qualquer forma pela eventual prática das atividades fraudulentas imputadas a terceiros. Na eventualidade de o seu então administrador, Carlos Roberto Carnevali, haver participado, em alguma extensão, das fraudes de que a Mude e as demais empresas auditadas são acusadas, é importante mencionar que a impugnante nunca permitiu, tomou conhecimento ou chancelou tal prática. A política interna da Cisco é severa com relação a esse tipo de assunto, sendo imediatamente rechaçadas atitudes que atentem contra os princípios éticos e normas legais que regem as suas atividades. Das investigações realizadas pela CSI: Em razão de denúncia anônima, em 2004, a CSI iniciou investigação interna para apurar a veracidade de acusações feitas contra a empresa Mude e Carlos Roberto Carnevali, bem como sobre a alegada vinculação de ambos, razão pela qual formalizou “acordo de não revelação de informações”para que pudesse ter acesso aos atos constitutivos das empresas “offshore” sócias da empresa Mude e ver se a denúncia era procedente, não havendo por parte da CSI intuito de burlar as leis brasileiras, tampouco menosprezo por parte da empresa americana com relação às atividades da Receita Federal do Brasil. O que queria a CSI era detectar a suposta vinculação do então presidente da empresa do grupo no Brasil com o distribuidor Mude. O Código de Conduta interna da Cisco proíbe de forma expressa que seus funcionários em todos os níveis tenham interesses financeiros ou de qualquer outra ordem com empresas com as quais transaciona – ao qual voluntariamente se submetera o referido dirigente é renovado formalmente a cada ano (doc. 13). Nem se diga que o resultado obtido pela CSI – o de que não haviam provas suficientes a embasar a denúncia anônima efetuada contra a Mude e Roberto Carlos Carnevali – autorizaria a fiscalização federal a concluir que a CSI teria conhecimento ou participação no alegado esquema fraudulento apontado na chamada “operação persona”, a uma, porque o Relatório IPEI BA 2008 006 é de se questionar se a CSI teria meios para chegar a um resultado diverso daquele obtido na mencionada investigação; a duas, porque o simples acesso aos atos constitutivos nas “offshore” não permitiria que a CSI vislumbrasse o alegado esquema de interposição fraudulenta de empresas; a três, porque a CSI não está sujeita às leis Brasileiras e a quatro, porque a acusação é carente de provas. Da definição do preço e das condições do negócio: Fl. 52533DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 20 O TSPS traz emails trocados entre funcionários da impugnante e da CSI no que diz respeito a desconto concedido em compra de produtos Cisco efetuada pela empresa TAM e Telefônica, na qual é fornecido o preço total dos equipamentos que seriam comprados por essa ultima. Esses dois negócios são anteriores ao período abrangido no TSPS e, portanto, imprestáveis para embasar as conclusões do Fisco. Quanto ao exemplo da TAM, devese ressaltar que a fiscalização aparentemente confundiuse acerca de qual seria o cliente da CSI, o qual, neste caso, era a Fulfill, que solicitada à CSI um desconto maior. E, de acordo com o procedimento de aprovação de descontos então vigente, a concordância prévia da impugnante era necessária antes que a CSI o aceitasse. No que diz respeito à Telefônica, esta, na condição de Provedora de Serviços, poderia comprar diretamente da CSI ou por via de um parceiro selecionado pela própria empresa. Uma das funções da impugnante no Brasil é justamente a revisão de propostas técnicas e a solicitação de descontos junto à CSI, dentro dos limites da referida política de descontos estabelecida pela empresa e, mesmo nessas ocasiões específicas previstas, são os parceiros responsáveis pela importação e pelos procedimentos relativos ao desembaraço aduaneiro dos equipamentos no Brasil, bem domo pela revenda para os destinatários. Seja por qual ângulo se examine, vêse que as operações realizadas pela Mude com a CSI efetivamente ocorreram dentro de um dos modelos de distribuição adotados pela Cisco, “two tier”, de acordo com o qual o distribuidor nãorelacionado localizado nos USA adquiriu os produtos CSI e os exportou para o Brasil, sendo então revendido o produto localmente em linha com a política de preços e desconto da Cisco. Não é por outro motivo que, no documento relativo à aquisição de produtos pela empresa TAM, se lê que o autor daquela ordem de compra havia sido a Fulfill Holding Company, que à época era a empresa que adquiria os produtos Cisco nos USA para posterior exportação para o Brasil, que posteriormente foi substituída pela Mude USA. A Fulfill estava solicitando da CSI um desconto maior do que 62% na compra. O mesmo pode ser encontrado na carta emitida pela impugnante à empresa Telefônica, na qual se lê claramente que “... o valor mencionado acima deverá ser pago pela Telefônica ao parceiro Cisco selecionado. O faturamento poderá ser feito diretamente pelo distribuidor autorizado Cisco para a Telefônica nos termos do contrato a ser celebrado com o parceiro Cisco selecionado”. Nos dois documentos seguintes (págs. 13 a 16 do TSPS) vêse que os produtos Cisco vendidos seriam faturados contra a Mude USA e enviados pelo agente exportador LOGCIS e entregues diretamente ao seu comprador final, no caso as empresas de telefonia Brasil Telecom e Telefônica. O envolvimento da CSI ocorreria somente na venda para a Mude USA. A afirmação de que a participação da impugnante no esquema de importação fraudulenta seria comprovada pela fato de o representante da empresa, na época, Pedro Ripper, mencionar a separação (split) de software e hardware que estaria sendo Fl. 52534DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.524 21 efetuada pela Mude, já que as importações individualizadas estariam sendo realizadas por interpostas pessoas é inverídica. A leitura cuidadosa da transcrição da escuta telefônica, contudo, traz que do início ao fim, seus interlocutores mencionam que o referido “split” seria efetuado pela Mude e, jamais, por outras empresas interpostas e não autoriza o fisco a concluir que a impugnante teria conhecimento dessas outras empresas. E, com relação à alegação específica acerca da separação do valor relativo a software e hardware, a política da Cisco sempre foi a de que o software embutido no hardware deve ser tratado como hardware, de modo que o preço cobrado pela CSI na venda dos seus produtos inclui o valor do software. Além disso, considerando que nem a CSI exporta diretamente e nem a impugnante importa produtos para revenda, não lhe cabe decidir acerca do tratamento que será dado aos produtos importados para o Brasil e seus efeitos fiscais. 2.1.3 DA VINCULAÇÃO CISCO/MUDE: A empresa Mude não é o setor de importação da impugnante no país e todas as provas levantadas pela própria fiscalização comprovam tal fato, já que a Mude não é uma empresa de fachada, bem como a impugnante não importa produtos Cisco a não ser aqueles destinados a reparos e substituição em garantia. A CSI ou a impugnante não tinham qualquer interesse jurídico ou titularidade econômica ou societária em qualquer das empresas alegadamente interpostas e nas operações de importação e revenda no Brasil. Todas as transações realizadas diretamente pela CSI ou pela impugnante foram e são regulares. Como já dito, o grupo Cisco opera por intermédio de distribuidores, sendo que a empresa Mude era a principal distribuidora de seus produtos no ano auditado. No período da autuação e em quanto perdurou a relação comercial da empresa Mude com a impugnante e a sua controladora no exterior (CSI), a Mude sempre atuou de forma independente e por sua conta e risco, sendo certo que também comercializava outros produtos, fabricados por outras empresas e a CSI também vendia para duas outras empresas estabelecidas no Brasil (Ingram Micro e Techdata), as quais seguem atuando nessa condição até hoje. Cabia à Mude no Brasil proceder à importação dos produtos fabricados e vendidos pela CSI nos USA a preços de mercado, tal como o grupo Cisco procede em relação a centenas de outros adquirentes dos seus produtos. Cabia, ainda, à Mude proceder à distribuição desses produtos no Brasil, conforme o já citado modelo de negócios do grupo Cisco. 2.1.4 DO FINANCIAMENTO DAS IMPORTAÇÕES: A concessão de linhas de crédito para os distribuidores é um dos itens do programa de recompensa criado pelo grupo Cisco para Fl. 52535DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 22 o desenvolvimento de suas vendas por intermédio dos chamados “parceiros”. Além de linhas de crédito há, ainda, o acesso aos melhores produtos e serviços de cada linha, suporte técnico, ferramentas de produtividade, treinamento online, recursos de marketing e promoção de vendas, benefícios esses concedidos de acordo com o nível de certificação de cada parceiro. A concessão de linhas de crédito à Mude, portanto, constitui medida comum entre a CSI e seus parceiros, inclusive para determinadas categorias de distribuidores. Representa, de fato, uma vinculação comercial existente entre as empresas, mas jamais, o financiamento de supostas fraudes. 2.1.5 DAS PESSOAS QUE EFETIVAMENTE DIRIGEM A EMPRESA. As acusações da fiscalização de ser a impugnante a grande beneficiária do esquema de interposição fraudulenta investigado demonstram seu desconhecimento sobre o modelo de negócios adotado pela empresa, aliado ao intuito velado de trazer o grupo Cisco para perto das fraudes apontadas. No entanto, a fiscalização limitase a provar o óbvio: a existência de vínculo entre o fabricante e seu distribuidor, mas falha em comprovar que a impugnante teria conhecimento e/ou tomado parte do esquema fraudulento impingindo à empresa Mude, ou mesmo dele se beneficiado concretamente e por liame causal adequado a tal comprovação. 2.1.6 DA INEXISTÊNCIA DE INTERESSE COMUM NA SITUAÇÃO QUE CONSTITUA O FATO GERADOR DO IPI: O interesse comum, previsto no artigo 124, do CTN pressupõe que duas ou mais partes sejam igualmente obrigadas ao pagamento de um determinado tributo, podendo o erário exigir a satisfação integral de seu crédito contra qualquer uma delas, sem que se obedeça a qualquer benefício de ordem, como se fossem apenas um devedor, tratandose, portanto, da transferência da responsabilidade tributária a terceiros e exige que as partes tidas por solidárias estejam igualmente ligadas ao fato que deu ensejo ao nascimento da relação jurídica cujo resultado é o pagamento do tributo previsto em lei. Portanto, só há que se falar na solidariedade tributária prevista no dispositivo em questão quando os sujeitos passivos derem causa a uma única obrigação tributária decorrente da efetivação, por todos, de um só fato gerador, o que permite, conseqüentemente, que o erário os considere como um só devedor. Tais elementos, contudo, não podem ser encontrados no caso em exame, no qual a autoridade fiscal, calcada em conclusões equivocadas e distorcidas sobre o modelo negocial do grupo Cisco, procura trazer para dentro da relação jurídica tendente ao pagamento do IPI , a impugnante, que tal como expressamente reconhecido pelo próprio fisco, não importou, por sua conta e ordem ou qualquer outro modelo de importação existente e, conseqüentemente, não deu saída às mercadorias de propriedade da Mude. Fl. 52536DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.525 23 É fato inconteste que a impugnante jamais foi acusada de importar, por qualquer modalidade existente, ou dar saída das mercadorias de procedência estrangeira objeto da fiscalização em exame. A conseqüência direta e indelegável desse fato é que, independentemente de todos os outros fatos que permeiam o caso, o próprio fisco federal declara reconhecer que a impugnante jamais foi a importadora ou revendedora das mercadorias, jamais ocupando o pólo passivo da relação obrigacional tendente ao pagamento do IPI sobre tais mercadorias, não havendo como aplicar a solidariedade passiva prevista no art. 124,I, do CTN. Ainda mais evidenciada fica a impossibilidade dessa cobrança em se tratando não da exigência de imposto (IPI) por solidariedade, mas sim de penalidade, caso em que não se aplica a solidariedade pelo caráter personalíssimo que decorre da sanção por ato ilícito, conforme a melhor doutrina e jurisprudência. 2.2 PESSOAS FÍSICAS Constam, também do processo, impugnações apresentadas pelas seguintes pessoas físicas: Fernando Machado Grecco; Marcelo Naoki Ikeda; Marcílio Palhares Lemos; Moacyr Álvaro Sampaio, Hélio Benetti Pedreira; Gustavo Henrique Castellari Procópio; José Roberto Pernomian Rodrigues; Luiz Scarpelli Filho; Pedro Luis Alves Costa; Reinaldo de Paiva Grillo; Carlos Roberto Carnevali, Cid Guardia Filho e Ernani Bertino Maciel. 2.2.1 Fernando Machado Grecco; Marcelo Naoki Ikeda; Marcílio Palhares Lemos; Moacyr Álvaro Sampaio; Hélio Benetti Pedreira, Gustavo Henrique Castellari Procópio e José Roberto Pernomian Rodrigues, representados pelo escritório Souza Schineider e Pugliese Advogados, apresentaram impugnações semelhantes quanto ao termo de sujeição passiva e à autuação, alegando em síntese, o que se segue: a) Cerceamento do Direito de Defesa decorrente da falta de obtenção de cópia dos documentos que instruem o Auto de Infração, o que torna impossível não só rebater as acusações, como também impede a correta contextualização destas acusações; b) Nulidade das provas: o Termo de Sujeição Passiva foi fundamentado por documentos obtidos para instruir ação criminal e jamais poderiam ter sido utilizados no processo administrativo fiscal; c) Ausência de relação entre as provas e os fatos que ensejam a responsabilidade solidária; pois as provas colhidas referemse ao ano de 2006 e 2007 e não ao ano de 2003; d) Ausência de procedimento fiscal em face dos impugnantes: O Fisco, mesmo sem direcionar qualquer intimação aos impugnantes durante o procedimento fiscalizatório, considerou Fl. 52537DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 24 os sujeitos passivos da obrigação tributária, exigindolhes o crédito constituído contra a MUDE; e) Na hipótese de terem agido os sócios com infração à lei ou estatuto, dando causa a situação que tenham gerado atos tributários cujas obrigações fiscais não tenham sido cumpridas, cabe a aplicação da responsabilidade pessoal (e não solidária) prevista no artigo 135 do CTN, o que implica outra forma e fundamento de lançamento. Para figurar como obrigado solidário com base no artigo 124, I, a pessoa teria de estar numa posição em que poderia ser considerada contribuinte, ainda que em relação a apenas uma parte da obrigação. A sujeição passiva solidária decorreria da impossibilidade de divisão, dado o interesse comum, da parcela da obrigação a ser imputada a cada um ou mesmo da opção do legislador, no caso de interesse comum, de atribuir responsabilidade solidária, sem interferir na divisão entre os coobrigados da parcela de cada um. Não basta, para ser apontado como responsável solidário, nos termos do artigo 124, I, do CTN, que a pessoa concorra para a realização do fato gerador, que participe de ações que culminem com a ocorrência do fato gerador. É preciso que, mais do que participar do fato gerador, o realize, ao lado de outras pessoas, que envergue a condição pessoal ou realize as ações definidas como necessárias à ocorrência do fato gerador: obter a disponibilidade de renda, ter o domínio útil de imóvel, obter receita, etc.; f) O primeiro aspecto que macula o Termo de Sujeição Passiva Solidária é a falta de prova que pudesse comprovar a antecipação de recursos por parte das interessadas, já que não participaram da operação de compra e venda de mercadorias CISCO pela MUDE e, por esse motivo, jamais poderiam ser responsabilizadas solidariamente pelo crédito tributário constituído. Também não podem ser equiparados a estabelecimento industrial, por não ser atacadista ou varejista, já que são pessoas físicas, e jamais poderiam ser contribuintes do IPI; g) A multa exigida no auto de infração, no montante de 150% do valor do IPI apurado, não poderá ser imputada , por solidariedade, pois, como é cediço, a multa imputada possui caráter personalíssimo, não podendo ser cobrada dos responsáveis solidários. Neste sentido somente o agente da infração poderá ser apenado com a cobrança de multa de ofício e o próprio artigo 124, I, do CTN, prevê que o instituto da solidariedade é restrito À cobrança da obrigação principal; Quanto ao crédito tributário levantaram os mesmos argumentos desenvolvidos pela empresa Mude em sua peça impugnatória. Por fim, protestaram pela possibilidade de juntar novos documentos tão logo tenham a possibilidade de retirar cópias do processo, bem como de analisálas adequadamente. 2.2.2 Luiz Scarpelli Filho, representado pelo escritório Amato Filho Advogados, apresentou sua impugnação ao auto de infração alegando, em preliminar, a decadência preconizada no artigo 150, §4º do Código Tributário Nacional para os fatos geradores havidos entre janeiro e novembro de 2004, já que ao impugnante não fora imputada conduta ilícita. Fl. 52538DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.526 25 No mérito, alegou em suma, que prestava serviços (engenharia, informática, administração de empresas e de pessoas) para a empresa MUDE, por meio da pessoa jurídica MANUS ASSESSORIA LTDA., da qual era diretor, e não teve qualquer participação em esquema fraudulento, apesar de ter , por força do trabalho realizado, contato direto com fornecedores e clientes da empresa, mas com objetivo único que ordenar informações para otimizar os trabalhos na MUDE, sem qualquer interferência na área comercial da empresa. Em meados de 2003, teve pequena participação societária na MUDE, tendo a empresa lhe conferido como bônus, com o objetivo para que deixasse de prestar serviços por meio de sua empresa e atuar de maneira mais próxima, a fim de implementar plano de crescimento. A existência pura e simples de empresas offshore ou internacionais não pode servir, por si só, como presunção de ilegalidade ou atividade ilícita, como transparece o entendimento do ente fiscalizador. A falsa equiparação da MUDE à industria, reportandose à impugnação da empresa que se encontra munida de documentos a demonstrar que as operações realizadas pela Mude eram comerciais e de serviços; Da mesma forma, reportando à impugnação da Mude, alegou a ausência de antecipação de recursos; Quanto à sujeição passiva solidária, argumentou que nem mesmo a ação penal sofrida no processo criminal 2005.61.81.0092851 arrolou o impugnante como parte do esquema fraudulento, deixandoo de fora da denúncia e que a responsabilidade fiscal dos sócios restringese à prática de atos que configurem abuso de poder ou infração de lei, contrato social ou estatuto da sociedade. Com relação às provas acostadas aos autos, argumentou que, por serem provas emprestadas, não são suficientes por si só para provar o faro jurídico ou o ilícito tributário e que os apontamentos dos autos fazem referência a supostas transações havidas após o ano de 2003 ou desvirtuadas do contexto, além de não conterem datas, fato que as invalidam como prova de suposto excesso de poder. 2.2.3 Pedro Luis Alves Costa, representado pelo escritório Camargo & Araújo Advogados Associados, apresentou sua impugnação quanto ao auto de infração e a imposição de multa, alegando em preliminar cerceamento de defesa, vez que cabia ao fisco notificar o interessado para que apresentasse esclarecimentos, documentos e demais informações que comprovassem ou, de outra forma, o absolvesse sumariamente da responsabilidade solidária a que está sujeito. Também em preliminar, argumentou que as provas carreadas aos autos não fazem menção ao ano de 2003, 2004 e 2005 pois obtidas nos anos de 2006 e 2007, não havendo como admitilas Fl. 52539DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 26 sem qualquer vínculo temporal com o suposto ilícito tributário imputado a MUDE. Quanto ao Termo de Sujeição Passiva Solidária, argumentou que o artigo 124, I, do CTN não pode ser interpretado isoladamente, devendo ser analisado juntamente com o artigo 135, inciso III do mesmo diploma legal e que fazse necessário que a pessoa física responsabilizada solidariamente tenha praticado atos de gerência e de administração em relação à empresa fiscalizada ou, que de qualquer modo, tenha refletido na atividade geradora do fato imponível. O “interesse comum”, a que se refere o artigo 124, I, do CTN, não se resume em interesse econômico, devendo existir para que se configure a solidariedade passiva tributária o interesse jurídico na realização da situação que deu origem ao fato gerador do tributo. Toda a ação fiscal foi calcada em presunções, não havendo qualquer prova de que Pedro Luís Alves costa tenha se beneficiado do suposto ilícito tributário ou tenha contribuído na execução do mesmo ou tenha qualquer ligação com o fato gerador Acrescentou que toda a ação fiscal foi calcada em presunções, não havendo qualquer prova de que Pedro Luís Alves Costa tenha se beneficiado do suposto ilícito tributário, tenha contribuído na execução do mesmo ou tenha qualquer ligação com o fato gerador. Argumentou ainda que cabe ao fisco a prova de que o impugnante praticou atos de administração ou gerência em nome da Mude e com intuito de fraude. Alegou, ainda, que a responsabilidade por multa decorrente de infração tributária não pode ser repassada ao impugnante, já que o artigo 124 do CTN faz referência somente a solidariedade em relação à obrigação principal gerada pelo fato imponível. 2.2.4 Reinaldo de Paiva Grillo, representado por seu advogado (Sr.Guilherme de Azevedo Camargo) apresentou impugnação alegando, em preliminar, decadência sobre todo o período autuado e cerceamento de defesa configurado pela falta de acesso aos autos, além de alegações totalmente insubsistentes e provas precárias. Sustentou que a imputação de coresponsabilidade é totalmente indevida, pois nunca participou do contrato social da empresa autuada, nem da respectiva administração ou negócios, limitandose apenas à prestação de serviços de logística, sendo nula sua inclusão no pólo passivo da presente exação. Acrescentou que a inexistência de sua relação com os fatos imputados na autuação corroborase pela absoluta ausência de provas concretas de qualquer participação sua no fato danoso e as provas utilizadas ofendem os preceitos constitucionais dispostos no artigo 5º da Constituição Federal. E que, no ano de 2003, a empresa What´s Up Business sequer existia, tendo sido aberta somente em 2005. Acrescentou que a jurisprudência dominante tem entendido que a responsabilidade é subjetiva, devendo ser comprovada cabalmente a intenção do agente em suprimir tributos, omitir declarações e deixar de pagálos pontualmente. Quanto ao auto de infração, alegou cerceamento de seu direito de defesa, por ter a fiscalização mencionado diversos “áudios Fl. 52540DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.527 27 obtidos”, mas não se preocupando em transcrevêlos nos autos, nem juntar a autorização judicial para comprovar a legalidade da prova. Tal fato, corroborado pela impossibilidade de vista dos autos, negada pela autoridade fiscal, prejudica de forma inexorável a elaboração da defesa do autuado. Alegou também haver equívoco de interpretação dos fatos pelo Fisco e que não há provas no processo que a impugnante à empresa Mude. 2.2.5 Carlos Roberto Carnevali, representado pelo escritório Martins Chamon e Franco Advogados, apresentou sua impugnação quanto ao Termo de Sujeição Passiva Solidária alegando que não existe qualquer prova que demonstre que o impugnante foi (ou é) sócio, ou se beneficiou pelas supostas operações simuladas praticadas pela Mude, tampouco que comprove qualquer participação na administração da autuada e que sua vinculação não passa daquelas pertinentes à sua função profissional como funcionário da empresa Cisco do Brasil Ltda. Defendeu haver evidente violação do princípio da ampla defesa e do contraditório na imposição de sujeição passiva, porque embora tenha sido notificado de sua inclusão no pólo passivo da autuação no dia 19/12/2008, somente lhe foi concedido o direito de vista dos autos em 09/01/2009, apenas 11 dias para o término do prazo de defesa. Também protestou pela violação do princípio da verdade material, alegando que a autoridade fiscal não procedeu a investigação minuciosa para verificar se efetivamente teria responsabilidade solidária sobre o valor exigido na autuação, baseandose em meras suposições e ilações de que teria interesse comum na importação supostamente fraudulenta. Teceu breve histórico de sua carreira profissional argumentando que sempre teve conduta digna na condução das empresas que presidiu e alegou que a imputação do artigo 124, I, do CTN é incompatível com os fatos narrados, pois os sujeitos que possuem interesse comum na situação que constitua o fato gerador sempre se revestem da qualidade de contribuintes, assim como os co proprietários e condôminos em relação aos tributos imobiliários e nem mesmo a inverídica alegação da sua condição de sócio poderia levar a autuação, ainda que de sócio se tratasse (o que não é verdade), pois a sua eventual responsabilidade repousaria em outra fundamentação jurídica, a do artigo 135 do CTN. No mérito, argumentou que a fiscalização tentou embasar a acusação de que o impugnante teria vínculo com a empresa autuada por meio de interpretações distorcidas e equivocadas dos emails e conversas telefônicas mantidas com os executivos da Mude (transcritas no termo de sujeição passiva), que na verdade demonstram apenas o interesse empresarial condizente com a função e cargo de presidente que ocupava no Brasil. Contudo, nenhum destes diálogos constituem indícios de que o impugnante exercia atos executórios ou de coordenação do gerenciamento dos negócios realizados pela Mude. A atribuição de responsabilidade solidária pela fiscalização decorre de meras ilações baseadas em: 1) fatos circunstanciais, 2) documentos que não constituem nexo causal para imputação da sujeição passiva Fl. 52541DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 28 solidária e 3) emails que apenas demonstram a relação de amizade entre o executivo da Mude (Hélio Pedreira) e o impugnante, comprovada, inclusive pela linguagem coloquial utilizada pelos interlocutores aos se comunicarem. E que, embora evidente a existência de um vínculo de amizade entre o impugnante e o Sr. Hélio, tal fato não pode ser utilizado como premissa ou indício de que o impugnante atuava como sócio oculto da Mude. A fiscalização não conseguiu demonstrar o nexo de causalidade entre os supostos indícios apurados e o fato que se desejou demonstrar. Alegou que a União Digital somente passou a revender os produtos da Cisco no Brasil em razão da incorporação pela Cisco norteamericana da empresa Newport. A União Digital era a principal revendedora dos produtos da Newport no Brasil, tornandose parceira da Cisco por um fato aleatório e circunstancial, ou seja, não houve um planejamento arquitetado pelo impugnante e pelo Sr. Hélio para que a União Digital fosse constituída e se tornasse a principal revendedora dos produtos Cisco no país e antes mesmo da constituição da cisco do Brasil a União Digital já comercializava equipamentos de telecomunicações, distribuindo produtos da Newport. Acrescentou que a União Digital foi constituída em 1992, enquanto o impugnante somente ingressou na Cisco do Brasil em 1994. Acrescentou que o impugnante era sócio da empresa Storm Ventures com sede nos USA e durante muito tempo realizou aporte de capital para investir em empreendimentos de sua titularidade. Em razão do lucro que vinha sendo auferido pela empresa, o Sr. Hélio Pedreira se interessou em adquirir participações para tornarse sócio do empreendimento, mas jamais houve aporte de capital por parte do impugnante na empresa JDTC. Continuou alegando que também não merece prosperar a interpretação da fiscalização quanto aos email transcritos às paginas 13, 14 e 15, do termo de sujeição passiva, pois tratam de aspectos relativos ao investimento e administração da empresa TORNADO, que nada tem a ver com a Mude. Sustentou que estava afastado das operações diárias da Cisco do Brasil à época dos fatos, já que em 2002 assumiu a vice presidência da Cisco na América Latina, função encarregada por desenvolver novos mercados e não mais teve qualquer relação com os denominados “canais” implementados pela Cisco Inc. e, a partir de 2007, afastouse quase que definitivamente da Cisco do Brasil, iniciando um novo ciclo em sua carreira profissional, prestando consultoria a diversas empresas, entre elas a Mude que, no caso, objetivava a possível venda da empresa ou a realização de abertura de capital. Alegou que, o organograma utilizado como meio de prova pela fiscalização para imputar responsabilidade tributária ao impugnante decorre exatamente desta época em que estudava várias propostas para voltar ao mercado de trabalho, inclusive a de integrar o Conselho de Administração da Mude. Destacou, ainda, que no termo de verificação, no capítulo intitulado “PESSOAS QUE EFETIVAMENTE DIRIGEM A MUDE COMÉRCIO E Fl. 52542DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.528 29 SERVIÇOS LTDA.” não se menciona a pessoa do impugnante, embora sejam citados todos os demais executivos do grupo. Com o corolário do princípio da legalidade, o auto de infração (e o processo administrativo dele decorrente) tem de se pautar também no princípio da verdade material, ou seja, a realidade dos fatos, de forma a possibilitar a constatação da ocorrência ou não do fato gerador do tributo e a correta identificação do sujeito passivo, o que evidentemente não se verificou no presente caso, tendo em vista que a fiscalização preferiu partir de suposições não autorizadas para imputação da responsabilidade tributária. Por fim, esclareceu que deixa de manifestarse quanto ao mérito da autuação em si, por profundo desconhecimento de qualquer questão operacional das autuadas, protestando por provar por todos os meios de provas admitidos e pela posterior juntada de documentos que se fizerem necessários. 2.2.6 Cid Guardia Filho e Ernani Bertino Maciel, representados pelo escritório Dias de Souza Advogados Associados, apresentaram impugnações similares quanto ao Termo de Sujeição Passiva Solidária, alegando sua nulidade na medida em que não atenderia aos preceitos constitucionais e legais necessários a atividade fiscal de lançamento e de constituição de créditos tributários. A impugnação, em resumo, sustentou que todos os elementos fundamentadores da autuação foram obtidos exclusivamente no âmbito da investigação em curso nos autos do procedimento criminal nº 2005.61.0092851 o que é vedado, já que a utilização de prova emprestada do processo criminal, destinadas exclusivamente a fins penais, não pode substituir os procedimentos de fiscalização que são próprios da administração, além de violar os princípios constitucionais da ampla defesa e do contraditório. Afirmou ser incabível a responsabilização solidária, na medida em que o impugnante sequer em tese teria participado das operações no mercado interno, objeto da autuação originária, inexistindo o requisito do “interesse comum” previsto no artigo 124, I, do CTN e que os indícios colacionados pela fiscalização, a par de não serem dotados de clareza, precisão e de concordância, não demonstram que o impugnante seria sócio das empresas importadoras. Quanto ao auto de infração, defendeu que este seria nulo, por ter também se baseado em provas emprestadas, destinadas exclusivamente a fins penais, sendo imprestáveis os indícios e presunções apontados pela fiscalização. Sustentou que a importadora D´Luck Com. Imp. e Exportação Ltda. teve sua regularidade fiscal comprovada no bojo do procedimento fiscal previsto na IN nº 228/2002, sendo vedada a alteração do critério jurídico do lançamento, nos termos do artigo 146 do CTN e os indícios colacionados pela fiscalização não Fl. 52543DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 30 demonstram a ocorrência de importação por conta e ordem de terceiros. Defendeu, ainda, que os valores relativos aos períodos anteriores a 29/12/2004 foram atingidos pela decadência, nos termos dos artigos 150, § 4º, c/c art. 156, VII, do CTN. Na Sessão de 8 de fevereiro de 2011, a 8ª Turma de Julgamento da DRJ de Ribeirão Preto/SP decidiu: a) não se manifestar sobre às questões atinentes ao lançamento da multa regulamentar, por consumo de mercadoria de procedência estrangeira introduzida clandestina ou irregularmente no País, prevista no art. 490, I, do RIPI/2002, com base no argumento de que a competência para o julgamento dessa matéria era da DRJ em São Paulo/SP II; b) que fossem apartados dos autos os valores da multa regulamentar aplicada e a remessa dos novos autos apartados à DRJ SP II para julgamento desta matéria; c) não se manifestar quanto às impugnações dos solidários, com base no entendimento de que a solidariedade se aplicava somente quando da execução do débito fiscal, ficando a cargo da Procuradoria da Fazenda Nacional decidir sobre esta matéria quando da execução fiscal dos débitos; e d) pela improcedência da impugnação apresentada pela MUDE e manteve integralmente o lançamento. Cientificados do referido acórdão (fls. 47412/47489), a contribuinte e os responsáveis solidários apresentaram os recursos voluntários de fls. 47498/49547 e a Fazenda Nacional as contrarrazões de fls. 49940/49993. Na Sessão de 23 de maio de 2013, por meio do acórdão nº 3102001.872 (fls. 50011/50038), os membros da extinta 2ª Turma Ordinária da 1ª Câmara desta 3ª Seção, decidiram, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao recurso voluntário, para anular o processo a partir da decisão de primeira instância, inclusive, sob o fundamento de que a Turma de Julgamento de primeiro grau não havia apreciado as impugnações apresentadas pelos responsáveis solidários. O enunciado da ementa do referido julgado, segue transcrito: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 15/01/2004 a 31/10/2007 MATÉRIA IMPUGNADA E NÃO APRECIADA NO JULGAMENTO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. ANULAÇÃO DA DECISÃO. NECESSIDADE DE NOVO JULGAMENTO. Comprovado que existiu matéria impugnada que não foi objeto de manifestação no julgamento de primeira instância, devese anular o julgamento para que a autoridade a quo realize novo julgamento, apreciando todas as impugnações apresentadas. Recurso Voluntário Provido em Parte Cientificada do referido acórdão, por meio da petição de fl. 50041, a Fazenda Nacional informou que não interporia recurso perante a Câmara Superior de Recursos Fiscais Fl. 52544DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.529 31 (CSRF). Por sua vez, cientificados do referido acórdão (fls. 50048/50077), não houve manifestação por parte da contribuinte e dos responsáveis solidários. Em novo julgamento, realizado em 5 de novembro de 2013, o órgão julgador de primeira instância proferiu o acórdão de fls. 50091/50170, em que decidiu, por unanimidade de votos, em preliminar, excluir a responsabilidade dos Srs. CID GUARDIA FILHO e ERNÂNI BERTINO MACIEL e, no mérito, julgar a impugnação improcedente, mantendo o crédito tributário exigido, com base nos fundamentos resumidos nos enunciados das ementas que seguem transcritos: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2004, 2005, 2006, 2007 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA Não configura cerceamento do direito de defesa quando o conhecimento dos atos processuais, pelo acusado, e o seu direito de resposta ou de reação encontram plenamente assegurados. Mesmo não tendo recebido em tempo hábil as cópias de todas as peças que fundamentam o auto de infração, é facultada a vista ao processo, na repartição competente, durante o prazo legal para a impugnação, sendo inaceitável a invocação de preterimento de defesa, ainda mais se demonstrada a inércia do impugnante em fazer o pedido em tempo hábil suficiente e se restar demonstrado o conhecimento integral da imputação. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. FASE FISCALIZATÓRIA. INEXISTÊNCIA. Não há que se falar em cerceamento do direito de defesa antes de iniciado o prazo para a impugnação do lançamento, haja vista que, no decurso da ação fiscal, inexiste litígio ou contraditório, por força do artigo 14 do Decreto n° 70.235/1972. PROVA EMPRESTADA. ADMISSIBILIDADE É lícito ao Fisco Federal valerse de informações colhidas por outras autoridades fiscais, administrativas ou judiciais para efeito de lançamento, desde que estas guardem pertinência com os fatos cuja prova se pretenda oferecer. Descabe a alegação de ilicitude na obtenção de prova ou de quebra de sigilo, quando as informações e documentos que instruem processo criminal são compartilhados em processo administrativo fiscal, por expressa autorização Judicial. CONTRADITÓRIO. INÍCIO. Somente com a impugnação iniciase o litígio, quando devem ser observados os princípios da ampla defesa e do contraditório. PROVAS INDICIÁRIAS. Fl. 52545DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 32 A comprovação material de uma dada situação fática pode ser feita, em regra, por uma de duas vias: ou por uma prova única, direta, concludente por si só; ou por um conjunto de elementos/indícios que, se isoladamente nada atestam, agrupados têm o condão de estabelecer a certeza daquela matéria de fato. JUNTADA POSTERIOR DE DOCUMENTAÇÃO. IMPEDIMENTO DE APRECIAÇÃO DA IMPUGNAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. O protesto pela juntada posterior de documentação não obsta a apreciação da impugnação, e ela só é possível em casos especificados na lei. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Anocalendário: 2003, 2004, 2005, 2006, 2007 PRAZO DECADENCIAL. FRAUDE. Nos lançamentos por homologação, o prazo decadencial começa a fluir a partir do fato gerador. Porém, na hipótese de comprovada ocorrência de dolo, fraude ou simulação a contagem do referido prazo se inicia no primeiro dia do exercício seguinte ao do fato gerador. EQUIPARAÇÃO A ESTABELECIMENTO INDUSTRIAL. O estabelecimento importador de produtos de procedência estrangeira que dá saída a esses produtos equiparase a estabelecimento industrial, estando sujeito à obrigação principal, que consiste no pagamento do tributo, e às obrigações acessórias, consistentes, por exemplo, na emissão de notas fiscais com o lançamento do IPI e na escrituração de livros fiscais. SAÍDA DE PRODUTO TRIBUTADO DE ESTABELECIMENTO EQUIPARADO A INDUSTRIAL. Ocorre o fato gerador do IPI na saída, a qualquer título, inclusive transferência, de produtos do estabelecimento que os tenha importado. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2004, 2005, 2006, 2007 RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. INTERESSE COMUM DAS PESSOAS FÍSICAS QUE COMANDAM, DE FATO, A PESSOA JURÍDICA. Evidenciado que pessoas físicas, ausentes do contrato social da empresa, são seus verdadeiros controladores, correta a determinação de responsabilidade solidária às mesmas pelos tributos devidos pela empresa, vez que caracterizado que estas pessoas físicas possuem interesse direto nas operações econômicas que geram as obrigações tributárias insertas nos autos. Fl. 52546DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.530 33 O interesse comum dos responsáveis solidários fica evidente quando se verifica que eles exerciam o controle de todas as operações gerenciais/comerciais/financeiras efetuadas pela sociedade empresária autuada, desde as operações desenvolvidas no exterior até os procedimentos de importação das mercadorias e venda dessas no mercado nacional e percebiam o lucro advindo desta atividade. JUROS DE MORA. SELIC. A cobrança de juros de mora com base no valor acumulado mensal da taxa referencial do Selic tem previsão legal. MULTA QUALIFICADA. SIMULAÇÃO. Mantémse a multa por infração qualificada quando reste inequivocamente comprovada a simulação. JUROS DE MORA. INCIDÊNCIA SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. A incidência de juros de mora sobre a multa de ofício, após o seu vencimento, tem previsão legal. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Em face da exclusão do polo passivo dos responsáveis solidário CID GUARDIA FILHO e ERNÂNI BERTINO MACIEL, o Colegiado prolator do acórdão recorrido interposto recurso de ofício perante este Conselho, em cumprimento ao disposto no art. 34 do Decreto 70.235/1972, e alterações introduzidas pela Lei 9.532/1997, e Portaria MF nº 3, de 3 de janeiro de 2008. Em 8/1/2014, a contribuinte MUDE foi cientificada do referido acórdão (fls. 50187 e 50206). Em 7/2/2014, apresentou o recurso voluntário de fls. 51765/51845, em que reafirmou a preliminar nulidade do auto de infração, em razão do procedimento fiscal ter se baseado em meras suposições, e no mérito reprisou as razões de defesa suscitadas na peça impugnatória. Adicionalmente, em preliminar, alegou a nulidade da decisão de primeira instância, por cerceamento do direito de defesa, baseada nos seguintes argumentos: a) o desmembramento do julgamento da multa regulamentar era uma manobra do órgão julgador de primeiro grau, para que os mesmos fatos fossem julgados por turmas distintas deste Conselho, com a real possibilidade de desfechos distintos para uma mesma autuação fiscal; e b) o indeferimento da produção da prova pericial e da realização da diligência requeridas impedira a verificação se efetivamente houve a alegada antecipação de recursos financeiros; A pessoa jurídica e responsável solidária Cisco do Brasil Ltda., em 8/1/2014, foi cientificada do referido acórdão. Em 6/2/2014, apresentou o recurso voluntário de fls. 50516/50635, em que reafirmou as razões de defesa suscitadas na peça impugnatória. Adicionalmente, em preliminar, alegou a nulidade da decisão de primeira instância, por Fl. 52547DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 34 carência de motivação, sob o argumento de que o Colegiado julgador a quo não se pronunciara sobre a maior parte dos argumentos e documentos apresentados nos autos, o que resultara na inobservância dos princípios da ampla defesa, do contraditório e do devido processo legal. As pessoas físicas responsáveis solidárias foram cientificadas: a) em 8/1/2014: Fernando Machado Grecco; Marcelo Naoki Ikeda; Marcílio Palhares Lemos; Hélio Benetti Pedreira; José Roberto Pernomian Rodrigues; Luiz Scarpelli Filho; Carlos Roberto Carnevali; Cid Guardia Filho e Ernani Bertino Maciel; b) em 9/1/2014: Moacyr Álvaro Sampaio, Gustavo Henrique Castellari Procópio e Pedro Luis Alves Costa; e c) em 16/1/2014: Reinaldo de Paiva Grillo. As pessoas físicas responsáveis solidárias, a seguir mencionadas, apresentaram recurso voluntário nas seguintes datas: a) em 5/2/2014: Carlos Roberto Carnevali (fls. 50281 e ss.); b) em 7/1/2014: José Roberto Pernomian Rodrigues (fls. 50845 e ss.); Marcílio Palhares Lemos (fls. 50976 e ss.); Hélio Benetti Pedreira (fls. 51106 e ss.); Fernando Machado Grecco (fls. 51242 e ss.); Gustavo Henrique Castellari Procópio (fls. 51372 e ss.); Moacyr Álvaro Sampaio (fls. 51506 e ss.) e Marcelo Naoki Ikeda (fls. 51636 e ss.); c) em 10/2/2014: Pedro Luis Alves Costa (fls. 50756 e ss.) e Luiz Scarpelli Filho (fls. 50800 e ss.); e d) em 14/2/2014: Reinaldo de Paiva Grillo. Os responsáveis solidários Cid Guardia Filho e Ernani Bertino Maciel não apresentaram recurso voluntário. Os responsáveis solidários Fernando Machado Grecco; Marcelo Naoki Ikeda; Marcílio Palhares Lemos; Moacyr Álvaro Sampaio; Hélio Benetti Pedreira, Gustavo Henrique Castellari Procópio e José Roberto Pernomian Rodrigues, representados pelos mesmos patronos, apresentaram recurso voluntário em que reafirmam as razões de defesa quanto a insubsistência dos respectivos Termos de Sujeição Passiva Solidária, com base nos mesmos argumentos apresentados na peça impugnatória. Em aditamento, os responsáveis solidários Hélio Benetti Pedreira e Gustavo Henrique Castellari Procópio informaram que foram absolvidos por sentença proferida pelo Juiz da 4ª Vara Criminal Federal de São Paulo/SP, nos autos do Processo Criminal nº 000582749.2003.403.6181, o que evidenciava a precariedade das acusações de solidariedade passiva a eles atribuídas, ancoradas em meras ilações, pois as lavraturas do auto de infração e dos termos de sujeição passiva decorreram de fiscalização que se embasou nas provas colhidas nos autos do citado processo criminal. Os sujeitos passivos solidários Luiz Scarpelli Filho e Reinaldo de Paiva Grillo reafirmaram as razões de defesas suscitadas na peça impugnatória. O sujeito passivo solidário Pedro Luis Alves Costa reafirmou as razões de defesa apresentada na impugnação e, em aditamento, alegou a nulidade da decisão recorrida, sob o argumento de que houve omissão quanto ao julgamento da sua impugnação. O responsável solidário Carlos Roberto Carnevali reafirmou as razões de defesa apresentadas na impugnação e, em aditamento, alegou a nulidade da decisão recorrida, sob o argumento de que a Turma de Julgamento de primeiro grau não apreciara a legalidade da citada multa regulamentar, descumprindo determinação deste Conselho no sentido de que fosse a este apensado o processo nº 16515.720068/201186, ilegal e indevidamente desmembrado deste. Informou ainda que fora absolvido da acusação de sócio oculto da MUDE, por sentença do Juiz da 4ª Vara Criminal Federal de São Paulo/SP, proferida nos autos do Processo Criminal nº 000582749.2003.403.6181, do qual foram colhidas as provas que embasaram a autuação e a imputação de sujeição passiva solidária, ancoradas em meras ilações. Fl. 52548DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.531 35 Cientificada do acórdão recorrido, a Fazenda Nacional apresentou as contrarrazões de fls. 52135/52186, em que propugnou pelo não provimento dos recursos voluntários e a manutenção da decisão recorrida, baseada nos seguintes argumentos: 1) Em relação ao recurso voluntário da MUDE: a) o desmembramento da multa regulamentar pela DRJ Ribeirão Preto/SP e o seu julgamento pela DRJ São Paulo/SP estava em conformidade com o que determinava a Portaria RFB 1.006/2013, portanto não havia qualquer ilegalidade no procedimento; b) eram legais as provas utilizadas no procedimento fiscal, pois a quebra do sigilo de correspondência, de dados fiscais, bancários, contábeis etc. foi deferida judicialmente para investigação criminal ou instrução processual penal em razão de indícios de crimes de descaminho e outros contra a ordem tributária; e houve autorização judicial para o acesso da fiscalização a tais; c) as gravações e correspondências eletrônicas transcritas no TVF apenas demonstravam o modus operandi da organização, que fora corroborado pelos documentos colhidos nas diligências efetuadas junto a cada uma das empresas envolvidas no esquema fraudulento; d) o STF já decidira pela desnecessidade da degravação integral das escutas telefônicas, bastando que fossem degravados os trechos necessários ao embasamento da denúncia; e) em algumas das transcrições acostadas aos autos, os participantes confessaram a existência do esquema e o repasse dos recursos, afirmando que a pessoa jurídica MUDE estava com problemas de fluxo de caixa, por ter antecipado impostos e taxas para liberação de cargas, confirmando, assim, a cadeia de importação fraudulenta. Ademais, os valores antecipados, coincidam ou eram muito próximos dos subsequentes desembaraços realizados pelas importadoras recebedoras dos recursos; f) com base na análise de livros contábeis e fiscais, notas fiscais de entradas e saídas de mercadorias, contratos de câmbio, declarações de importação e extratos bancários, referente ao período fiscalizado, de cada uma das empresas que figuravam como importadoras ou como distribuidoras interpostas, a fiscalização comprovara o suprimento de recursos por parte da MUDE e a completa inexistência de capacidade operacional de boa parte das referidas empresas; g) sequer era controverso que a MUDE era quem realizava os pedidos junto à CISCO USA; que os produtos sequer transitavam pelos estabelecimentos das supostas importadoras ou distribuidoras; que as empresas importadoras, em regra, existiam apenas para realizar demandas da MUDE; e todas essas características estavam usualmente presentes em casos de interposição fraudulenta; h) tantas evidências, conjuntamente analisadas, não podiam ser encaradas como mera coincidência, ou apenas como decorrência “natural” do modelo de negócios adotado pela recorrente. A não ser que se reconhecesse que o modelo de negócios adotado consistisse justamente em realizar importações por meio de interpostas pessoas, o que não era possível, pelo menos dentro da legalidade; Fl. 52549DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 36 i) a recorrente não podia alegar que desconhecia os riscos do seu “modelo de negócios”, o Relatório de Auditoria colacionado aos autos (Anexo IV, volume 1, fls. 41348 e ss.), apreendido no curso da operação de busca e apreensão realizada na MUDE, representava prova cabal e irrefutável de que a contribuinte desempenhava sua atividade de forma fraudulenta e estava plenamente ciente das graves consequências tributárias que ela poderia acarretar; j) os comentários sobre o risco de equiparação da MUDE a estabelecimento industrial, apresentados no Relatório de Auditoria do mês de dezembro de 2004 (Anexo IV, volume 1, fls. 41424 e ss.), revelam que, pelo menos desde do ano de 2003, a MUDE já era alertada sobre a impropriedade do seu modus operandi, de forma semelhante à advertência feita no Relatório no citado na alínea anterior; h) em relação ao alerta da empresa de auditoria, o comentário da MUDE foi no sentido de que, para o exercício de 2004, ela não mais adquiria diretamente das tradings, mas sim de distribuidores nacionais (2004 foi o ano a partir do qual se instituiu o duplo grau de blindagem). Esse relatório vem a se somar às demais provas dos autos, para não deixar dúvidas de que o modus operandi revelado com mais ênfase a partir do ano de 2007, era praticado pelo menos desde 2003; l) o não reconhecimento dos créditos de IPI na aquisição das mercadorias revendidas não implicou ofensa ao princípio da não cumulatividade, tendo em vista que a MUDE escriturou o valor do referido imposto como custo, nos livros contábeis, o que impossibilitava, no lançamento de ofício, a utilização de eventuais créditos do imposto, para fim de compensação com o IPI devido nas saídas dos produtos revendidos; m) o auto de infração não era passível de nulidade por falta de instauração do procedimento especial previsto na Instrução Normativa SRF 228/2002, porque tratavase de uma possibilidade aberta à fiscalização, um instrumento a sua disposição, mas não se vislumbrava a obrigatoriedade da instauração deste procedimento para que se constatasse a interposição fraudulenta de terceiros, até porque o procedimento levado a efeito nestes autos cumpriu as mesmas finalidades, sem ofender nenhum direito da contribuinte; n) o valor faturado nas suas notas fiscais de saída poderia sim ser utilizado como base de cálculo do IPI lançado, em vez do arbitramento do valor tributável previsto no art. 88 da Medida Provisória 2.15835/2001, pois, para o presente lançamento não importava o preço praticado na importação, mas o preço praticado na saída de mercadorias de estabelecimento equiparado a industrial, nos termos do artigo 79 da citada MP; o) não houve a alegada decadência, porque, nos termos do art. 150, § 4º, do CTN, em havendo fraude, como comprovado nos autos, era afastada a regra de contagem do prazo decadencial a partir do fato gerador, prevista para o lançamento por homologação, e aplicada a regra geral do artigo 173, I, do CTN, que tem como termo inicial o primeiro dia o exercício seguinte aquele em que lançamento poderia ser efetuado; p) a Lei 11.488 não revogou a multa qualificada, apenas deulhe nova configuração topográfica, que passou a ser tipificada no § 6º do art. 80 da Lei 4.502/1964. E todo o arcabouço probatórios resultante das apreensões realizadas e do minucioso cruzamento de dados mostrava à exaustão o intuito doloso de fraudar o Fisco, que orientava as ações do grupo econômico, o que era suficiente para demonstrar o dolo específico de fraudar o Fisco. As mesmas considerações aplicavamse a multa isolada; Fl. 52550DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.532 37 q) por ser a multa de ofício obrigação principal, certamente, ela integra o crédito tributário, logo, assim como tributo (principal), sobre deve incidir os juros moratórios, como determina o § 1º do art. 161 do CTN, calculado com base na variação da taxa Selic; 2) Em relação ao recurso voluntário da CISCO: a) a CISCO tinha a plena ciência acerca dos procedimentos de importação realizados pela MUDE e as provas colacionadas aos autos demonstram não só o seu interesse comum no fato gerador das importações fraudulentas, como também a sua participação ativa no sentido de colaborar com as importações, sabidamente fraudadas; b) a CISCO tinha interesse em todo o fluxo das mercadorias e as acompanhava de perto. Ao fazer a venda para a FULFILL ou MUDE USA (distribuidoras interpostas nos EUA), tanto a CISCO INC. quanto a CISCO do Brasil sabiam de antemão quem era o end user e sabiam inclusive o preço pelo qual a mercadoria havia de chegar até ele, preço esse negociado e definido pela CISCO Brasil. Portanto, obviamente que era do seu interesse não só o fluxo das mercadorias como também os custos inerentes a esse processo, em particular os tributários; c) a CISCO, por meio de sua matriz americana, colaborou ativamente com a operação da MUDE, não obstante conhecesse do seu caráter ilícito. Neste sentido, assinou acordo de confidencialidade, se comprometendo a não revelar informações sobre as empresas estrangeiras do grupo MUDE a qualquer autoridade brasileira (A5V14, fls. 2720/2722), bem como intermediou e foi garante de linhas de créditos para empresas do esquema “FULFILL/MUDE” (fls. 2729 em diante), não obstante, repitase, estivesse “por dentro” das irregularidades e dos riscos do modelo de importações da MUDE; d) a participação da CISCO no esquema ficava ainda mais evidente quando se tinha em conta que seu presidente, CARLOS CARNEVALI, era sócio oculto do Grupo JDTCMUDE. Tantas evidências deixam claro que a participação de CARNEVALI no grupo não se restringia à condição de sócio oculto, mas também de participante ativo, tanto do lado da CISCO, onde era presidente, quanto da MUDE, como sócio oculto. Por todas essas evidências não havia como infirmar a sujeição passiva solidária, seja da CISCO, seja de seu então presidente; e) As provas dos autos, já exploradas nestas razões, demonstram o interesse tanto econômico quanto jurídico da CISCO na situação que constituiu o fato gerador da multa, atraindo para a hipótese a incidência do artigo 124, I, do CTN. O proceder da CISCO a classifica como verdadeira partícipe das fraudes perpetradas, enquanto demandante e financiadora, em que pese a notável consciência do ilícito e da redução ilegal da carga tributária. Portanto, tratase de um imperativo de direito seu arrolamento em termo de sujeição passiva solidária, não merecendo qualquer reparo o auto de infração lavrado; e 3) Em relação aos recursos voluntários das pessoas físicas responsáveis solidárias: a) havia provas suficientes da plena ciência que todos os arrolados tinham sobre o esquema fraudulento de importações, bem como a colaboração de cada um para viabilizálo, evidenciando o interesse comum na situação que ensejou a imposição da penalidade. Tais provas encontravamse reunidas no anexo V do processo; Fl. 52551DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 38 b) era inegável a contribuição de cada uma das pessoas arroladas nos termos de sujeição passiva solidária para que o esquema de importações fraudulentas fosse desenvolvido com sucesso. As provas declinadas nos respectivos termos demonstram que cada um deles detinha plena consciência das irregularidades perpetradas pelo grupo, bem como demonstram a participação, muitas vezes oculta, de cada um deles na distribuição disfarçada de lucros que as empresas promoviam; c) os documentos que instruem os autos comprovavam, que, desde 2004, todos os responsáveis solidários, cada um a sua maneira, desempenhavam tarefaschave nas empresas integrantes do esquema, seja pela titularidade de cargos administrativos ou de direção, seja pelo controle de fato das empresas utilizadas no esquema ou das sociedades controladoras destas. Foram, inclusive, demonstrados os meios oblíquos pelos quais recebiam os polpudos resultados financeiros das empresas envolvidas; d) não havia como negar o interesse comum na prática das fraudes, nem tampouco a singular contribuição de cada qual para que o esquema se efetivasse durante tantos anos, apesar da plena ciência da sua ilicitude, confirmada, entre outros elementos já citados, pela existência de relatórios desenvolvidos por escritório de advocacia, expondo os riscos fiscais a que aquele modus operandi expunha a operação; e) esse tipo de envolvimento dos responsáveis solidários com o fato gerador atraía a aplicação do artigo 124, I, do CTN. Alguns dos autuados, inclusive, já tinham sido condenados em primeira instância pela 4ª Vara Federal de São Paulo por crimes relacionados à infração apurada nestes autos; e f) não obstante a absolvição de algumas pessoas processo judicial, as provas que constavam dos termos de sujeição passiva deixavam claro que todos os co responsabilizados agiram conscientemente direcionados a contribuir com o esquema fraudulento de importações, o que, no entender Fazenda Nacional, atraía com ainda mais força a incidência da norma do artigo 124, I, do CTN, principalmente quando demonstrado que todos participaram dos frutos da fraude, por meio da distribuição de lucros através de offshores. Em 19/11/2014, a autuada e recorrente Mude Comercio e Serviços Ltda., protocolou a petição de fls. 52215/52219, endereçada ao Presidente desta 3ª Seção, em que requereu, com fundamento no artigo 49, § 8º, do RICARF na época vigente, a redistribuição do presente processo ao Conselheiro Winderley Morais Pereira, que, na referida data, compunha a Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara desta Terceira Seção; e caso entendesse que não existiam fundamentos jurídicos regimentais suficientemente claros para que este processo fosse remetido ao citado Conselheiro, o que admitia apenas por amor ao debate, que aplicasse o disposto no artigo 3º, XI, do Anexo I do citado RICARF, e remetesse os autos ao Presidente deste Conselho, pois se estaria diante de omissão ou dúvida suscitada na aplicação do RICARF, o que exigia a manifestação do Presidente do CARF, para que a omissão fosse sanada e a dúvida esclarecida. No requerimento em destaque, a peticionaria apresentou como justificativa o fato de o Conselheiro Winderley Morais Pereira ter mudado de Turma e Câmara dentro dessa Terceira Seção não impedia que o citado processo permanecesse sob sua relatoria, pois, assim determinava o art. 49, § 8º, do RICARF na época vigente. Por meio do despacho de fls. 52234/52238, o Presidente desta 3ª Seção indeferiu o pedido de redistribuição formulado, por falta de amparo regimental, respaldado nas conclusões exaradas no referido despacho por este Conselheiro, a seguir transcritas: Fl. 52552DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.533 39 No entendimento deste Conselheiro, o pleito da requerente não merece prosperar, porque o disposto no art. 49, § 8º, do RICARF na época vigente aplicase apenas aos processos já sorteados, inclusive os relatados e ainda não julgados e os que retornarem de diligência. No caso em tela, embora na primeira estada neste Conselho, este processo tenha sido distribuído ao nobre Conselheiro Winderley Morais Pereira, inequivocamente, o julgamento sob sua relatoria foi concluído pelo Colegiado (a extinta 2ª Turma Ordinária da 1ª Câmara) na Sessão 23 de maio de 2013, conforme acórdão nº 3102001.873 (fls. 50011/50038), que anulou a primeira decisão a quo. Assim, com citado julgamento concluído no âmbito deste Conselho, obviamente, este processo retornou a fase de primeiro grau, dando ensejo a nova decisão e, em decorrência, uma nova fase recursal, que se iniciou com a apresentação dos novos recursos voluntários de fls. 50845 e ss. Dessa forma, fica demonstrado que, ao contrário do que alegou a requerente, o julgamento dos recursos interpostos contra a primeira decisão, foi devidamente concluído, no âmbito deste Conselho, logo, o retorno dos autos, para o julgamento dos novos recursos interpostos contra a segunda decisão da instância a quo, induvidosamente, não se enquadra nas situações estabelecidas no art. 49, § 8º, do RICARF na época vigente, portanto, não merece acolhimento o pleito em tela. Além disso, diante da clareza do preceito regimental em destaque, também não merece acatamento o pedido de envio deste processo ao Sr. Presidente deste Conselho. Regularmente cientificada referido despacho (fl. 52246), a interessado MUDE não se manifestou a respeito e os autos foram devolvidos a este Conselho para prosseguimento do julgamento. Em 28/9/2015, o responsável solidário Carlos Roberto Carnevali juntou aos autos a petição de fls. 52248/52250, em que requereu que fosse analisado, para fim de dar provimento ao seu recurso voluntário colacionado aos autos e cancelado o Termo de Sujeição Passiva Solidária lavrado em seu nome, o fato novo consistente na prolação do acórdão pela Primeira Turma do TRF da 3ª Região, nos autos da Apelação Criminal nº 0005827 49.2003.4.03.618 (fls. 52252/52257), que manteve a sua absolvição na esfera penal. Em 4/10/2015, novamente o sujeito passivo solidário Carlos Roberto Carnevali juntou aos autos a petição de fls. 52260/52261, na qual comunicou o trânsito em julgado da referida decisão da Primeira Turma do TRF da 3ª Região, com base no fato de que o Ministério Público Federal havia desistido da interposição de recurso especial, nos termos da petição de fl. 52271. Enfim, 8/6/2016, por meio da petição de fls. 52297/52299, os sujeitos passivos solidários Hélio Benetti Pedreira e Gustavo Henrique Castellari Procópio informaram que a sentença absolutória, proferida no âmbito da referida ação criminal, fora confirmada pelo TRF da 3ª Região e transitara em julgado em 10/6/2015. Assim, devidamente demonstrado, no caso em apreço, a inocorrência do fato delituoso por meio do trânsito em julgado da decisão de Fl. 52553DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 40 absolvição, a ratio decidendi alcançada no âmbito da esfera penal atingia, instantaneamente, a esfera civil e administrativa. À vista dessas considerações, não havia dúvidas quanto ao fato de que nenhum ato praticado pelos peticionários fora considerado pelo Poder Judiciário ilícito, de modo que não era possível que eles fossem considerados responsáveis por qualquer infração à legislação tributária ou aduaneira, logo, por mais esse motivo, devia ser integralmente cancelado os respectivos Termos de Sujeição Passiva Salidária lavrados em face deles. É o relatório. Voto Conselheiro José Fernandes do Nascimento, Relator. Com exceção do recurso voluntário apresentado pelo responsável solidário Luiz Scarpelli Filho, os demais recursos voluntários foram apresentados tempestivamente e atendem os demais pressupostos regimentais, portanto devem ser conhecidos. O recurso de ofício também deve ser conhecido, porque interposto em conformidade com o disposto no o art. 34 do Decreto 70.235/1972, e alterações introduzidas pela Lei 9.532/1997, e está dentro dos parâmetros estabelecidos na Portaria MF nº 3, de 3 de janeiro de 2008. O recurso voluntário do sujeito passivo solidário Luiz Scarpelli Filho não será conhecido, porque foi apresentado fora do prazo recursal de 30 (trinta) dias, fixado no art. 33 do Decreto 70.235/1972. Com efeito, cientificado do acórdão recorrido em 8/1/2014 (fls. 50200 e 50213), o recorrente protocolou o seu recurso voluntário em 10/2/2014 (fls. 50800 e ss.), ou seja, no 33º (trigésimo terceiro) dia, quando já expirado o prazo recursal, encerrado em 7/2/2014 (sextafeira), dia de expediente normal na unidade preparadora da Receita Federal. Em relação aos pedidos e documentos do recorrente Carlos Roberto Carnevali, apresentados em 24/9/2015 e 6/10/2015, portanto, após o prazo recursal, por se tratar de fato superveniente, em consonância com o disposto no art. 16, § 4º, “b”, do Decreto 70.235/1972, serão levados em consideração na apreciação do seu recurso voluntário. Cabe esclarecer que o presente julgamento restringese às questões atinentes à cobrança do IPI não lançado do período de janeiro de 2004 a outubro de 2007, acompanhado de multa de ofício qualificada e dos juros moratórios, uma vez que a parcela do crédito referente à da multa regulamentar, por entrega a consumo de produto de procedência estrangeira importado irregular ou fraudulentamente, foi transferida para os autos do processo nº 16151.720.068/201186, com tramitação independente deste. Em consulta ao sítio deste Conselho, realizada no dia 20/6/2016, verificouse que o referido processo encontrase pautado para julgamento pelo 1ª Turma Ordinária da 4ª Câmara desta Seção, na Sessão de 23/6/2016. Da leitura das robustas peças recursais colacionadas aos autos, verificase que há identidade ou similaridade em relação a maior parte das razões de defesa nelas aduzidas. Dessa forma, com vistas a conferir racionalidade, objetividade e evitar repetições desnecessárias, as razões de defesa idênticas ou semelhantes serão analisadas em conjunto, contudo, caso algumas delas estejam baseadas em argumentos distintos, se relevantes, serão destacados e abordados em separado. A) DOS RECURSOS VOLUNTÁRIOS Fl. 52554DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.534 41 Nos recursos voluntários apresentados pela contribuinte MUDE e pelos sujeitos passivos solidários foram suscitadas questões preliminares e de mérito, a seguir analisadas. A.1) DAS PRELIMINARES DE NULIDADE Em preliminar, os recorrentes alegaram a nulidade (i) do acórdão recorrido, (ii) de parte das provas colacionadas aos autos pela fiscalização e (iii) do procedimento fiscal. I Da Nulidade da Decisão de Primeira Instância Em preliminar, a recorrente MUDE alegou a nulidade da decisão de primeira instância, por cerceamento do direito de defesa, com base nos argumentos a seguir analisados. Segundo a recorrente, o desmembramento do julgamento da multa regulamentar fora uma manobra do órgão julgador de primeiro grau, para que os mesmos fatos fossem julgados por turmas distintas deste Conselho, com a real possibilidade de desfechos distintos para uma mesma autuação fiscal. Tratase de alegação desprovida de fundamento. A formalização dos autos apartados, para fim de cobrança do crédito tributário relativo a citada multa regulamentar, capitulada no art. 470, I, do Decreto 4.544/2002 (RIPI/2002), foi motivada por falta de competência da DRJ Ribeirão Preto para apreciação do contencioso concernente à imposição da referida multa. No caso, de acordo o Anexo I da Portaria RFB nº 1.006, de 24 de julho de 2013, o órgão julgador de primeiro grau competente para o julgamento da referida multa regulamentar é a DRJ São Paulo. Portanto, ao contrário do alegado, tratase de procedimento que foi realizado em cumprimento ao disposto na referida Portaria, logo, decidiu com acerto a DRJ de Ribeirão Preto ao julgar apenas as questões controvertidas atinentes ao lançamento do IPI nas saídas de produtos do estabelecimento equiparado à industrial e determinar a formalização de autos apartados, para o julgamento do contencioso sobre a referida multa fosse realizado pela DRJ São Paulo, órgão julgador competente para julgar a questão, nos termos da referida portaria. Pelas mesmas razões, também revelase improcedente a alegação do responsável solidário Carlos Roberto Carnevali, de que a decisão recorrida padecia de vício de nulidade, porque não apreciara a legalidade da multa regulamentar, descumprindo determinação deste Conselho no sentido de que fosse a este apensado o processo nº 16515.720068/201186, que fora ilegal e indevidamente desmembrado deste. Especialmente, tendo em conta que não houve a alegada determinação deste Conselho para que o citado processo fosse apensado a este. Também não procede o argumento suscitado pela recorrente MUDE de que o indeferimento da produção da prova pericial e da realização da diligência requeridas impossibilitara de verificar se efetivamente houve a alegada antecipação de recursos financeiros. No âmbito do processo administrativo fiscal, o destinatário da prova é autoridade julgador, nos termos do art. 29 do Decreto 70.235/1972. Logo, se na apreciação das provas coligidas aos autos a autoridade julgadora entende que elas são suficientes para formação da sua convicção não cabe qualquer apreciação a respeito dessa decisão, Fl. 52555DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 42 especialmente, quando devida e corretamente motivada, como ocorreu acórdão recorrido, em que consignado que a produção de prova pericial era despicienda, porque não havia necessidade do pronunciamento por parte de técnico especializado, haja vista que se tratava de matéria de conhecimento do julgador, logo, o pedido de perícia, nos termos propostos, em nada contribuiria para o deslinde da controvérsia, pois tratavase de simple exame de registros contábeis. A realização da diligência também era dispensável, porque não havia necessidade, para a elucidação das questões suscitadas na impugnação, posto que constavam dos autos todas as informações necessárias para formação de convicção do referido órgão de julgamento. Não se pode olvidar, que, nos termos do art. 18 do Decreto 70.235/1972, a realização de perícia ou diligência, seja de ofício ou a requerimento da interessada, somente será determinada se autoridade julgadora entender que a produção de tais provas revelase necessária para a formação da sua convicção sobre os fatos controvertidos. No caso, entendeu o Colegiado julgador de primeiro grau que os elementos probatórios colacionados aos autos eram suficientes para a formação de convicção sobre a matéria fática objeto da lide. Pelas razões aduzidas no voto condutor do julgado recorrido, este Relator também entende que a referida documentação é suficiente para demonstrar que os recursos financeiros utilizados nas referidas operações de importação foram antecipados pela MUDE às demais pessoas jurídicas interpostas (importadoras e distribuidoras), a exemplo das planilhas e documentos apreendidos no âmbito da “Operação Persona” e nas diligências realizadas pela fiscalização nos estabelecimentos das empresas integrantes do esquema, que se encontram colacionados nos Anexos III e IV (fls. 35502 e ss.). Também não procede a alegação de nulidade da referida decisão, suscitada pelo sujeito passivo solidário Pedro Luis Alves Costa, baseada no argumento de que houve omissão quanto ao julgamento da sua impugnação. A uma, porque o recorrente não apontou quais pontos da sua impugnação não foram apreciados no julgamento de primeiro grau. A duas, porque a leitura do voto condutor do julgado recorrido, especialmente dos trechos do subitem 6.1.3 do citado voto, revela que as alegações relevantes suscitadas pelo recorrente foram devidamente analisadas. Por fim, a recorrente CISCO alegou nulidade da decisão de primeira instância por carência de motivação, sob o argumento de que o Colegiado julgador a quo não se pronunciara sobre a maior parte dos argumentos e documentos apresentados nos autos, o que resultara na inobservância dos princípios da ampla defesa, do contraditório e do devido processo legal. Sem razão à recorrente, pois, além de se tratar de alegação genérica, diferentemente do alegado, extraise da leitura do voto condutor julgado, que todas as alegações relevantes suscitadas pela recorrente CISCO foram devidamente apreciadas. O fato de a turma julgadora de primeiro grau não ter se pronunciado sobre a totalidade dos argumentos e documentos apresentados recorrente, por si só, não macula a decisão recorrida. A propósito, cabe ressaltar que o dever de fundamentação fixado no art. 93, IX, da CF/1988, combinado com disposto no art. 31 do Decreto 70.235/1972, exige que a autoridade julgadora ou órgão julgador se manifeste, de forma fundamentado, sobre as razões de defesa das partes, sem, contudo, determinar que o julgador examine, completa e Fl. 52556DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.535 43 pormenorizadamente, cada uma das alegações ou provas apresentadas pelas partes, nem que seja correto os fundamentos por ele aduzidos. No mesmo sentido, o entendimento consolidado na jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça (STJ), a exemplo do que fora externado no julgamento do AgRg no RE nos EDcl no AgRg no AREsp 268.238/SP, cujo enunciado da ementa segue transcrito: AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO EXTRAORDINÁRIO. INCIDÊNCIA DO ISSQN. REGISTRO PÚBLICOS, CARTORÁRIOS E NOTARIAIS. ADI 3.089/DF. POSSIBILIDADE. BASE DE CÁLCULO DO ISSQN DEVIDO PELOS TABELIÃES. PREÇO FIXO OU PREÇO DO SERVIÇO. AUSÊNCIA DE REPERCUSSÃO GERAL. INDEFERIMENTO LIMINAR. ART. 543A, § 5º, DO CPC. ART 5º, XXXV E ART. 93, IX, AMBOS DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. AUSÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO. INOCORRÊNCIA. RECURSO PREJUDICADO. AGRAVO DESPROVIDO. [...] III. A Corte Suprema, nos autos do AIRGQO 791.292/PE, julgado sob o regime da repercussão geral, reafirmou a sua jurisprudência no sentido de que o art. 93, IX, da Constituição Federal exigem que o acórdão ou decisão sejam fundamentados, ainda que sucintamente, sem determinar, contudo, o exame pormenorizado de cada uma das alegações ou provas, nem que sejam corretos os fundamentos da decisão. IV Agravo regimental desprovido.1 (grifos não originais) Da mesma forma, tem trilhado a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal (STF), conforme bem ilustra o julgamento realizado sob regime de repercussão geral, cujo enunciado da ementa segue transcrito: Questão de ordem. Agravo de Instrumento. Conversão em recurso extraordinário (CPC, art. 544, §§ 3° e 4°). 2. Alegação de ofensa aos incisos XXXV e LX do art. 5º e ao inciso IX do art. 93 da Constituição Federal. Inocorrência. 3. O art. 93, IX, da Constituição Federal exige que o acórdão ou decisão sejam fundamentados, ainda que sucintamente, sem determinar, contudo, o exame pormenorizado de cada uma das alegações ou provas, nem que sejam corretos os fundamentos da decisão. 4. Questão de ordem acolhida para reconhecer a repercussão geral, reafirmar a jurisprudência do Tribunal, negar provimento ao recurso e autorizar a adoção dos procedimentos relacionados à repercussão geral.2 (grifos não originais) 1 BRASIL. STJ. CORTE ESPECIAL. AgRg no RE nos EDcl no AgRg no AREsp 268.238/SP, Rel. Ministro GILSON DIPP, julgado em 18/12/2013, DJe 03/02/2014) 2 BRASIL. STF. PLENÁRIO. AI 791292 QORG, Relator(a): Min. GILMAR MENDES, julgado em 23/06/2010, DJe149 DIVULG 12082010 PUBLIC 13082010 EMENT VOL0241006 PP01289 RDECTRAB v. 18, n. 203, 2011, p. 113118 ) Fl. 52557DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 44 Por todas essas razões, fica demonstrado que não existem, na decisão recorrida, as máculas apontadas pelos recorrentes, logo, rejeitase todas as preliminares de nulidade suscitadas. II Da Nulidade das Provas Emprestadas A recorrente MUDE, com base no Parecer de fls. 47644/47712, da lavra dos renomados Professores Ada Pellegrini Grinover e Flávio Luiz Yarshell, alegou nulidade das provas colhidas no âmbito do Procedimento Criminal Diverso nº 2005.61.0092851, com base no argumento de que, como o referido procedimento criminal fora instaurado com finalidade exclusivamente penal, por conseguinte as provas nele colhidas não poderia ser compartilhada pela fiscalização, porque não havia autorização judicial nem legal para tal finalidade. Com a devida vênia, não procede esse argumento, pois, diferentemente do alegado, o referido procedimento criminal foi instaurado para investigar o esquema de fraude na importação dos equipamentos eletroeletrônicos e de telecomunicações da marca CISCO, importados por conta e ordem da recorrente MUDE. Ademais, ele foi realizado a pedido e com base nos fortes indícios de fraude colhidos pela fiscalização da RFB. Inclusive, a força da tarefa de investigação da Polícia Federal contou com a participação ativa e direta dos AuditoresFiscais da Receita Federal do Brasil (AFRFB), que atuaram na condição de assistentes técnicos. Nesse sentido, a quebra do sigilo de correspondência, de dados fiscais, bancários e contábeis foi autorizada judicialmente, para fim de investigação dos fortes indícios de crimes “de quadrilha, falsidade documental, descaminho e crimes tributários”. Além disso, o magistrado que autorizou a captação dos questionados dados/informações também autorizou a sua utilização deles por parte da fiscalização da RFB, conforme documentos de fls. 342/346, enviados por meio do Oficio nº 3693/2008 S.7 SVZ, de onde se extrai o elucidativo excerto que segue transcrito: A legal obtenção da prova para apuração de crimes, mesmo no caso de interceptações telefônicas, não inviabiliza a posterior utilização dessas provas para outros fins judiciais ou administrativos. O que precisa ficar devidamente comprovado é que a interceptação foi originalmente solicitada e deferida visando efetivamente sua utilização em apuração de crimes e isso, inegavelmente, é o caso dos autos. As interceptações telefônicas e telemáticas, bem como as demais quebras de sigilo de dados, foram regularmente deferidas para apuração de crimes de quadrilha, falsidade documental, descaminho e crimes tributários. Com isso, perfeitamente cabível, em um segundo plano, que esses elementos possam ser utilizados como provas em outros procedimentos, mesmo que administrativos (prova emprestada). (grifos não originais) Dado esse escopo, certamente, além da apuração dos crimes praticados pelos lideres do “Grupo MUDE”, a investigação também visou a obtenção de provas do sofisticado esquema de fraude, para fim de instrução dos autos de cobrança dos tributos sonegados nas operações de importação fraudulentas e imposição das penalidades previstas para as infrações cometidas, como forma de inibir ou cessar as práticas ilícitas de importação praticadas pelo Fl. 52558DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.536 45 citado grupo. Logo, resta evidenciada a licitude da utilização das referidas provas que foram coligidas aos autos. E o entendimento aqui esposado, está em perfeita consonância com a jurisprudência deste Conselho. A título de exemplo, citase o acordo nº 3403002.434, da lavra da 3ª Turma Ordinária da 4ª Câmara desta 3ª Seção, cujo enunciado da ementa segue transcrito: ESCUTA TELEFÔNICA. AUTORIZAÇÃO JUDICIAL. VALIDADE. É válida a prova carreada aos autos decorrente de escuta telefônica se a coleta e o repasse à RFB das informações derivadas da escuta forem judicialmente autorizados.3 A propósito do assunto, cabe ainda consignar que o Plenário do STF, no recente julgamento do Recurso Extraordinário (RE) 601.314, da relatoria do Ministro Edson Fachin, e das Ação Direta de Inconstitucionalidade 2859, 2390, 2386 e 2397, concluiu que era constitucional os dispositivos da Lei Complementar (LC) 105/2001, que permitem à Receita Federal receber dados bancários de contribuintes fornecidos diretamente pelos bancos, sem prévia autorização judicial, sob o entendimento de que a norma não resultava em quebra de sigilo bancário, mas sim em transferência de sigilo da órbita bancária para a fiscal, ambas protegidas contra o acesso de terceiros. Também não procede o argumento da recorrente MUDE de que a falta de transcrição integral das escutas telefônicas e dos arquivos telemáticos, bem como o uso de documento em língua estrangeira sem tradução juramentada, implicava na nulidade das respectivas provas utilizadas pela fiscalização. Em relação ao assunto, há expressa determinação no art. 9º da Lei 9.296/1996, no sentido de que somente os dados regularmente interceptados que interessarem à instrução probatória devem ser reproduzidos e coligidos aos autos, enquanto que os demais sem interesse para investigação devem ser inutilizados. Portanto, diferentemente do alegado, o procedimento em questão foi realizado em perfeita sintonia com a referida determinação legal. Assim, em conformidade com o que determina do citado preceito legal, a fiscalização trouxe à colação dos autos somente os trechos dos diálogos telefônicos e das mensagens eletrônicas relevantes para instrução probatória da questionada autuação. Portanto, fica demonstrada a licitude do procedimento adotado pela fiscalização. No mesmo sentido, o entendimento manifestado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), no julgamento do Hábeas Corpus 91207/MC, de que era desnecessária a degravação integral das escutas telefônicas, bastando que fossem degravados e coligidos aos autos os excertos necessários ao embasamento da denúncia, conforme esposado no enunciado da ementa que segue transcrito: EMENTA: HABEAS CORPUS. MEDIDA CAUTELAR. PROCESSUAL PENAL. PEDIDO DE LIMINAR PARA GARANTIR À DEFESA DO PACIENTE O ACESSO À TRANSCRIÇÃO INTEGRAL DAS ESCUTAS TELEFÔNICAS REALIZADAS NO INQUÉRITO. ALEGAÇÃO DE OFENSA AO 3 BRASIL. CARF. 3ª Seção. 4ª Câmara. 3ª Turma Ordinária. Ac. 3403002.434, Rel. Cons. Rosaldo Trevisan, j. 24.set.2013. Fl. 52559DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 46 PRINCÍPIO DO DEVIDO PROCESSO LEGAL (ART. 5º, INC. LV, DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA): INOCORRÊNCIA: LIMINAR INDEFERIDA. 1. É desnecessária a juntada do conteúdo integral das degravações das escutas telefônicas realizadas nos autos do inquérito no qual são investigados os ora Pacientes, pois bastam que se tenham degravados os excertos necessários ao embasamento da denúncia oferecida, não configurando, essa restrição, ofensa ao princípio do devido processo legal (art. 5º, inc. LV, da Constituição da República). 2. Liminar indeferida.4 Em relação aos documentos em língua estrangeira sem tradução juramentada, além da recorrente não indicar quais os documentos que prejudicaram a sua defesa, com base nas poucas peças ou conversas não traduzidas para o vernáculo, colacionadas aos autos, observase que elas não tinham o condão de causar qualquer embaraço ou dificuldade para a defesa dos recorrentes, especialmente, tendo em conta que os documentos relevantes para o embasamento da autuação foram todos traduzidos para vernáculo nos ofícios e laudos da Polícia Federal, bem como no âmbito do procedimento administrativo. Além disso, se há nos autos expressa autorização judicial (fls. 307/310) para utilização das provas produzidas no âmbito citado Inquérito Policial e uma vez comprovada a participação de todos os recorrentes no citado esquema de fraude, consequentemente, não existe qualquer ilicitude na utilização das referidas provas, para fim de comprovação das infrações tributárias e ao controle administrativo das importações, que foram imputadas pela fiscalização aos recorrentes. Com base nesse entendimento, também fica afasta a alegação de ilicitude das referidas provas, suscitada pela recorrente CISCO, em razão de não ter integrado a relação dos investigados no âmbito do citado inquérito policial. A recorrente CISCO alegou ainda que, na formação da prova, houve violação ao contraditório e ao direito de defesa, sob o argumento de que não lhe fora dada oportunidade de intervir ou participar do referido procedimento criminal. Sem razão a recorrente. Ora, se o referido procedimento criminal fora instaurado exclusivamente para apurar as possíveis condutas delitivas das pessoas físicas integrantes do “Grupo MUDE”, obviamente, não havia justificativa plausível para a recorrente CISCO, na condição pessoa jurídica, interviesse ou participasse do citado procedimento, examinando ou questionando as provas colhidas. Além disso, por ser regido pelo princípio da inquisitoriedade, a fase do procedimento criminal, assim como a fase do procedimento fiscal, sabidamente, não é o momento propício para o exercício do contraditório e do amplo direito de defesa. No caso, com a ciência da recorrente da conclusão do procedimento fiscal em apreço, o contraditório e o pleno exercício do direito de defesa foilhe assegurado e plenamente exercido, nas duas oportunidades em que compareceu aos autos, conforme bem demonstram as robustas peças defensivas colacionadas aos autos. E nesta fase, cabia a recorrente contestar as provas colhidas no âmbito do citado procedimento criminal e coligidas aos presentes autos, o que foi feito oportuna e adequadamente pela recorrente CISCO. 4 BRASIL. STF. HC 91207 MC, Relator(a): Min. MARCO AURÉLIO, Relator(a) p/ Acórdão: Min. CÁRMEN LÚCIA, Tribunal Pleno, julgado em 11/06/2007, DJe106 DIVULG20092007 PUBLIC21092007 DJ 2109 2007 PP00020 EMENT VOL0229002 PP00325. Fl. 52560DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.537 47 Com base nessas considerações, demonstrase a total higidez das provas colhidas no âmbito procedimento criminal e coligidas aos autos, em especial, aquelas obtidas no curso do citado procedimento criminal, que foram disponibilizadas à fiscalização, por expressa autorização judicial. Assim, demonstrada que foram obtidas de forma lícita as provas colacionadas autos e utilizadas pela fiscalização para demonstrar os fatos imputados aos recorrentes, rejeita se a presente preliminar de nulidade. III Da Nulidade do Procedimento Fiscal e da Necessidade de Diligência A recorrente MUDE alegou nulidade do procedimento fiscal, sob o argumento de que houve desobediência ao art. 142 do CTN, que impunha à fiscalização o dever de averiguar a ocorrência do fato concreto, previsto na norma geral e abstrata, individualizandoo e tipificandoo, tudo mediante prova concreta e material, e não somente proceder o lançamento com base em presunções. Segundo a recorrente, a presente autuação não poderia prosperar, pois não ficara comprovada a antecipação de recursos que poderia ensejar a aplicação da presunção legal de importação por conta e ordem. Sem razão à recorrente. O presente procedimento fiscal não foi realizado com base em meras presunções, mas embasado em robusto acervo probatório, que se encontra colacionado aos autos. Diferentemente do alegado pela recorrente, há nos autos provas documentais, distribuídas nos vários volumes deste processo, em especial os que constam dos Anexos II e III (fls. 31722 e ss.), que foram elaborados e colhidos pela fiscalização no curso das várias diligências fiscais realizadas nos estabelecimentos da MUDE e das demais empresas que atuaram de forma ativa no esquema de importação fraudulenta em referência. Os documentos do período de janeiro de 2004 a outubro de 2007, que embasaram a autuação, dentre outros, foram os seguintes: a) escrituração contábil e fiscal das respectivas empresas; b) notas fiscais de entradas e saídas de mercadorias; c) contratos de câmbio; d) declarações de importações, e d) extratos bancários. Essa documentação, inequivocamente, infirmam a alegação da recorrente MUDE e dos demais recorrentes de que a fiscalização havia se utilizado documentos do ano 2003, para comprovar os fatos motivadores da presente autuação. Além do referido acervo probatório, entregue ou apreendido no curso das referidas diligências, subsidiariamente, a fiscalização utilizou os documentos e arquivos magnéticos apreendidos no âmbito da “Operação Persona”, que integram os Anexos I e IV dos presentes autos (fls. 29805/31721 e 42553/44022), que, de forma congruente, corroboraram os ilícitos cometidos pelos integrantes do esquema fraudulento em destaque. E com base nos referidos documentos, ao contrário do que alegou a recorrente, a fiscalização comprovou que: a) a real operação de importação fora realizada entre a fabricante dos equipamentos da marca CISCO, sediada nos EUA (a CISCO SYSTEM INC.) e a MUDE, a real importadora e adquirente dos referidos produtos; b) todas as operações intermediárias foram simuladas, para aparentar legalidade às operações de compra e venda realizadas no mercado interno, dissimular ou acobertar a real operação de operação, com vistas fraudar o controle aduaneiro e evitar ou reduzir a carga tributária; c) a real importadora MUDE Fl. 52561DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 48 repassava os recursos para a distribuidora interposta que, por sua vez, os repassava à importadora interposta; e d) as empresas interpostas (importadoras e distribuidoras) não tinha disponibilidade econômicofinanceira nem estrutura operacional, para realizar as referidas importações. O fornecimento dos recursos financeiros pela MUDE às empresas importadoras e distribuidoras encontrase minuciosamente demonstrado no Capítulo IV do TVF ( fls. 719 e ss.). Os dados apresentados nos vários demonstrativos/planilhas elaborados pela fiscalização, detalhado por empresa importadora e distribuidora, corroborados pelos documentos coligidos autos, comprovam que as empresas que aparecem como importadoras diretas, bem como as distribuidoras, foram utilizadas para ocultar a real importadora MUDE, mediante simulação da operação de aquisição das mercadorias de origem estrangeira já nacionalizadas, e assim excluindo a MUDE do processo direto de importação, de modo a evitar a sua equiparação a estabelecimento industrial e, em decorrência, excluílo da condição de contribuinte do IPI. Em suma, a comprovação da transferência dos recursos financeiros da recorrente MUDE às referidas empresas importadoras, por força da presunção, determinada no disposto no art. 275 da Lei 10.627/2002, além de equiparar as correspondentes operações de compra no exterior dos equipamentos da marca CISCO à operação de importação por conta e ordem da MUDE, também equiparava esta empresa a condição de estabelecimento industrial, nos termos do art. 796 da Medida Provisória 2.15835/2001. Todas essas questões serão analisadas, em detalhe, a seguir, por ocasião da apreciação das questões de mérito. Assim, resta demonstrado que o procedimento fiscal encontrase respaldado em fartos elementos probatórios e que as operações de importação, por presunção legal relativa (juris tantum), foram consideradas por conta e ordem, em razão da comprovação de que as empresas importadoras utilizaram os recursos financeiros da real importadora MUDE, para custear a totalidade das importações realizadas no período da autuação. Dada essa configuração, cabia a recorrente MUDE infirmar as robustas provas colacionadas aos autos pela fiscalização, com base em elementos probatórios hábeis e idôneos. No entanto, em vez de tentar contraditar o teor das mencionadas provas, sem qualquer respaldo em elementos adequados de prova, a recorrente preferiu o caminho fácil de retoricamente alegar que não havia documento “capaz de provar a alegada antecipação de recursos”. Os recorrentes responsáveis solidários também alegaram nulidade do procedimento fiscal e dos respectivos TSPS por ofensa aos princípios do contraditório e da ampla defesa, sob o argumento de que não foram submetidos a prévio procedimento fiscal, visando o levantamento das informações e documentos relacionados ao fato jurídico infracional. Sem razão os recorrentes. No âmbito do processo administrativo fiscal de exigência de crédito tributário, a fase do contraditório tem início com a ciência do auto de infração pelo contribuinte e sujeitos passivos solidários, o que foi feito, de forma regular no caso em tela. 5 "Art. 27. A operação de comércio exterior realizada mediante utilização de recursos de terceiro presumese por conta e ordem deste, para fins de aplicação do disposto nos arts. 77 a 81 da Medida Provisória no2.15835, de 24 de agosto de 2001." 6 "Art. 79. Equiparamse a estabelecimento industrial os estabelecimentos, atacadistas ou varejistas, que adquirirem produtos de procedência estrangeira, importados por sua conta e ordem, por intermédio de pessoa jurídica importadora." Fl. 52562DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.538 49 Além disso, com a regular ciência de todos os responsáveis solidários foi facultada a possibilidade deles impugnarem a exigência fiscal, o que foi regulamente exercido por todos. E, no caso, tanto as robustas peças impugnatórias, quanto os extensos recursos voluntários apresentados pelos recorrentes, representam provas incontestes de que o contraditório e o direito de defesa foram assegurados aos sujeitos passivos solidários em toda sua plenitude, inclusive a faculdade de apresentar as provas que entendessem adequadas e pertinentes com vistas à comprovação das aduzidas razões de defesas. No mesmo sentido, consolidouse a jurisprudência deste Conselho, conforme se infere do enunciado da Súmula CARF nº 46, que segue transcrito: “O lançamento de ofício pode ser realizado sem prévia intimação ao sujeito passivo, nos casos em que o Fisco dispuser de elementos suficientes à constituição do crédito tributário.” Portanto, revelase de todo descabida a alegação de mácula dos respectivos TSPS, em razão da necessidade de prévio procedimento fiscal contra as pessoas físicas arroladas como sujeitos passivos solidários. No caso, o questionado auto de infração atende todos os requisitos do art. 10 do Decreto 70.235/1972. E o TVF que o integra contém todos os dados e informações necessários e suficientes para o perfeito conhecimento das irregularidade tributárias e aduaneiras imputadas ao sujeitos passivos principal e solidários. E na fase de instrução ou inquisitorial do procedimento fiscal, sabidamente, não há qualquer determinação legal no sentido de obrigar a fiscalização instaurar procedimento contra cada um dos responsáveis solidários, ou até mesmo cientificar todos eles da instauração e do curso do procedimento realizado contra o contribuinte fiscalizado. Tais medidas somente serão adotadas, se curso do procedimento elas se revelarem indispensáveis, para fins de instrução processual, o que não ocorreu na autuação em apreço. Por essas razões, diferentemente do alegado, não há que falar em prejuízo ao direito defesa e tampouco em vulneração do contraditório, no curso da fase de procedimental ou de instrução. Em decorrência, revelase de todo inapropriado alegar cerceamento do direito de defesa antes de iniciado o prazo para a impugnação do lançamento, que, se apresentada tempestivamente pelo autuado, instaura a fase litigiosa do processo, nos termos do art. 14 do Decreto 70.235/1972. Também revelase descabido o desafio lançado pela recorrente a este Conselho, com vista a demonstrar que houve a alegada antecipação de recursos financeiros, inclusive, mediante solicitação de toda e qualquer diligência que entendesse necessária. Sabidamente, no âmbito do processo administrativo fiscal, por força do disposto caput dos arts. 9º e 15 do Decreto 70.235/1972, ônus probatório cabe a autoridade fiscal incumbido da autuação e ao impugnante que discorda do procedimento. De outra parte, à autoridade ou ao órgão julgador só cabe demandar a produção de provas, se na apreciação dos fatos for constatada deficiência probatória e a prova a ser produzida revelarse imprescindível para formação da sua convicção, com respaldo no art. 18 do Decreto 70.235/1972, o que poderá ser feito de ofício ou a requerimento das partes, mediante a conversão do julgamento em diligência, inclusive para produção de produção pericial. Entretanto, no caso em tela a realização de diligência ou perícia, revelase de todo desnecessária, porque a fiscalização apresentou a documentação comprobatória das Fl. 52563DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 50 operações de antecipação de recursos financeiros, que deveria ter sido contestada ou infirmada pela recorrente, com base em elementos probatórios idôneos, o que não ocorreu. Assim, como os referidos elementos probatórios coligidos aos autos pela fiscalização são suficientes para formação da convicção deste julgador acerca dos fatos controvertidos, em conformidade com o disposto no art. 29 do Decreto 70.235/1972, no caso em tela, revelase de todo prescindível a realização de qualquer diligência ou realização de perícia, para o deslinde de controvérsia. Por todas essas razões, rejeitase a preliminar de nulidade do procedimento fiscal, bem como o pedido de realização de diligência ou perícia, por se revelar totalmente desnecessária para o deslinde do contencioso. A.2) DAS QUESTÕES DE MÉRITO No mérito, a controvérsia gira em torno da legitimidade da cobrança dos débitos do IPI do período de 01/01/2004 a 31/10/2007 e consectários legais (multa de ofício qualificada e juros moratórios), bem como da legitimidade passiva das pessoas físicas e jurídica arroladas como sujeitos passivos solidários. Novamente, ressaltase que, por não mais integrar os presentes autos, aqui não será analisada as questões atinentes a legitimidade da imposição da multa isolada regulamentar de 100% (cem por cento) do valor das mercadorias, por entrega a consumo de produto de procedência estrangeira importado fraudulentamente, objeto do processo nº 16151.720.068/201186, que se encontra na pauta de julgamento de outra Turma Ordinária desta 3ª Seção, conforme informado anteriormente. I DA LEGITIMIDADE DA COBRANÇA DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO Os principais questionamentos acerca da legitimidade da cobrança do IPI e respectivos consectários legais foram suscitadas pela recorrente MUDE. Assim, neste tópico serão analisadas, com primazia, as razões de defesa por ela suscitadas. Porém, para evitar repetição desnecessária, se existir argumentos relevantes e distintos sobre a mesma questão, apresentada por qualquer dos sujeitos passivos solidários, eles também serão analisados neste tópico. Inicialmente, para fim de definição dos contornos da lide, revelase de todo oportuno apresentar o motivo da cobrança crédito tributário objeto da presente autuação, que, se encontra resumido no excerto extraído do questionado auto de infração, que segue transcrito: A presente tributação no sujeito passivo, como equiparado a estabelecimento industrial, foi efetuada com base no inciso IX, c/c com o parágrafo 2°, ambos do artigo 9° do DECRETO N ° 4.544, DE 26/12/2002, e decorreu da constatação de que o autuado incidiu na conduta tipificada no artigo 27 da Lei n° 10.637, de 30/12/2002, combinado com o artigo 79 da Medida Provisória nº 2.15835, de 24/08/2001 [...]. Os referidos preceitos legais, que tipificam a conduta atribuída à recorrente MUDE, têm a seguinte redação, in verbis: Art. 27. A operação de comércio exterior realizada mediante utilização de recursos de terceiro presumese por conta e ordem deste, para fins de aplicação do disposto nos arts. 77 a 81 da Medida Provisória nº 2.15835, de 24 de agosto de 2001. Fl. 52564DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.539 51 Art. 79. Equiparamse a estabelecimento industrial os estabelecimentos, atacadistas ou varejistas, que adquirirem produtos de procedência estrangeira, importados por sua conta e ordem, por intermédio de pessoa jurídica importadora. Da leitura combinada dos textos transcritos, extraise que, para fins de equiparação à estabelecimento industrial, a operação de importação “realizada mediante utilização de recursos de terceiro presumese por conta e ordem” do terceiro fornecedor dos recursos. I.1 Da Equiparação a Estabelecimento Industrial No caso em tela, a presunção legal de equiparação a estabelecimento industrial, que serviu de fundamento para a cobrança do IPI objeto do lançamento em questão, foi fundamentada na prova da utilização de recursos da recorrente MUDE pelas empresas importadoras dos produtos da marca CISCO. Dada essa configuração, ressaltase que a presunção prevista no art. 237, § 2º, do Decretolei 1.455/1976, incluído pela Lei 10.637/2002, alegado pela recorrente MUDE, não foi apresentada como fundamento do lançamento em apreço. Portanto, tratase de matéria estranha aos fundamentos da cobrança dos débitos do IPI, objeto da questionada autuação. Por essa razão, a referida presunção não será aqui analisada. Com efeito, o referido preceito legal trata da presunção da interposição fraudulenta na operação de comércio exterior, que exige a comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados, para fim de aplicação da pena de perdimento ou da multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria, na importação, quando a mercadoria não for localizada, ou tiver sido consumida ou revendida. Os presentes autos, inequivocamente, não tratam da imposição da referida penalidade, portanto, tratase de matéria estranha aos autos. Assim, a comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados não representa condição necessária, para fim de aplicação da presunção de equiparação a estabelecimento industrial, que exige como condição necessária e suficiente, conforme já demonstrado, a comprovação do fornecimento dos recursos financeiros ao importador pelo estabelecimento equiparado a industrial. Aqui também não será objeto de análise eventual divergência de entendimento manifestada nas diferentes decisões de primeiro grau proferidas nos diversos processos que tratam de autuações contra a recorrente MUDE. Tais argumentos, certamente, servem de fundamento para as respectivas decisões, porém não tem o condão de alterar ou aperfeiçoar o fundamento do lançamento em apreço, cuja legalidade cabe a este Colegiado analisar e decidir a respeito. 7 "Art 23. Consideramse dano ao Erário as infrações relativas às mercadorias: [...] V estrangeiras ou nacionais, na importação ou na exportação, na hipótese de ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros. (Incluído pela Lei nº 10.637, de 30.12.2002) [...] § 2º Presumese interposição fraudulenta na operação de comércio exterior a nãocomprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados. (Incluído pela Lei nº 10.637, de 30.12.2002) [...]" Fl. 52565DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 52 Assim, o ponto central da controvérsia cingese à comprovação do fato presuntivo, consistente na utilização dos recursos financeiros da recorrente MUDE pelas empresas importadoras dos produtos da marca CISCO. Portanto, dada essa característica, tem se que o deslinde da controvérsia envolve questão de natureza, eminentemente, fático probatória, ou seja, se as importações objeto da tributação em questão foram realizadas com recursos das próprias importadoras ou com recursos fornecidos pela recorrente MUDE. Definida a questão relevante para o deslinde da controvérsia, passase a analisar as razões apresentadas pela fiscalização para o lançamento em cotejo com as razões de defesa apresentadas pelos recorrentes, com destaque para as alegações da recorrente MUDE. Da transferência de recursos financeiros: elementos probatórios apresentados pela fiscalização. Previamente à análise dos elementos probatórios, que foram apresentados pela fiscalização, para demonstrar as transferências dos recursos financeiros da recorrente MUDE para as empresas importadoras/distribuidoras e, assim, facilitar a compreensão do fluxo financeiro entre as empresas do “Grupo MUDE” e as demais empresas integrantes da logística operacional de importação do grupo, reproduzse a seguir o quadro resumo da logística de importação dos produtos da marca CISCO, extraído do TVF (fls. 500/501), em que destacado o fluxo das mercadorias e fluxo dos recursos financeiros: Fl. 52566DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.540 53 DESIGNAÇÃO DAS FUNÇÕES: A = Fabricante: CISCO SYSTEM INC. B = Distribuidoras interpostas USA: MUDE USA; e FULFILL HOLDING LTDA. C = Exportadoras Interpostas USA 3TECH INTERNATIONAL; LATAM TECHNOLOGY CORP.; SUPERKIT INTERNATIONAL IND.; ROMFORD TRADING CORP.; LOGCIS EXPORT LLC e GSD TECHNOLOGIES D = Importadoras interpostas Brasil: Fl. 52567DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 54 PRIME TECNOLOGIA IND. E COM. LTDA; D'LUCK COM. IMP. EXP. LTDA; ARCO EQUIPAMENTOS LTDA; BRASTEC TECNOLOGIA e INFORMÁTICA LTDA; ABC INDUSTRIAL DA BAHIA LTDA; WAYTEC TECNOLOGIA EM COMUNICAÇÃO LTDA; WAYTEC COMERCIAL LTDA; TDC TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO LTDA; LIVON IND. E TECNOLOGIA EM ELETRÔNICA DA BAHIA; PI PROPRIEDADE INTLECTUAL COM. REPRES. LIDA.; MICROTEC SISTEMAS IND. COM. S/ª; e KELOW INFORMÁTICA LTDA. E = Distribuidoras Interpostas Brasil: TECNOSUL DIST. PROD ELETROELETRÔNICO E INFORM. LTDA.; NACIONAL DISTRIBUIDORA DE PROD. ELETRÔNICOS LTDA.; SPCOM PRESTAÇÃO DE SERV. EM INFORMÁTICA LTDA.; e CONTEC COM. E DISTR. PROD. ELETROELETRÔNICOS LTDA. F = Real importador e adquirente oculto: MUDE COMÉRCIO E SERVIÇOS LTDA. G = Comprador no mercado interno: são os clientes do “Grupo MUDE”. A logística das importações do denominado “Grupo MUDE” foi descrita pela fiscalização, nos trechos do TVF (fls. 502/503), a seguir transcritos: A CISCO DO BRASIL é o escritório comercial do fabricante americano no Brasil e controla todas as vendas dos produtos CISCO no Brasil, possuindo inclusive metas de vendas definidas pela matriz norte americana. Ela negocia com seus clientes o valor dos produtos a serem fabricados nos Estados Unidos, inclusive em relação a descontos concedidos, prazos de entrega, enfim, toda a parte comercial. Após o recebimento do pedido feito pelo comprador final no Brasil, a CISCO indica um revendedor de seus produtos (MUDE) que faz o pedido junto a CISCO USA, repassando ao comprador final todos os descontos que foram anteriormente negociados com a CISCO BRASIL. O fabricante produz os equipamentos com pleno conhecimento de que após a importação dos produtos, os mesmos serão revendidos ao comprador final no Brasil ("G"). A Cisco não realiza as importações diretamente de sua matriz, mas "terceiriza" o serviço de importação através da MUDE. Esta, por sua vez, contacta o importador interposto para a realização das importações. A CISCO (EUA) também não vende diretamente para o Brasil. Ela vende a um distribuidor interposto ("B"), que revende a um exportador interposto ("C"), que exporta para o Brasil. Na venda para o distribuidor, a CISCO EUA concede descontos que variam entre 40 a 70% do valor da mercadoria. Fl. 52568DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.541 55 Na venda da distribuidora para a exportadora, o valor dos produtos, que já possuíam um desconto de 40 a 70%, sofre mais uma redução, com o objetivo de pagar menos tributos incidentes na importação na entrada no Brasil. Esta variação ocorre pela redução do valor do hardware, compensandose com um aumento do valor do software. A operação de comércio exterior, então, se processa entre as empresas interpostas "C" e "D", controladas pelo grupo. Toda a documentação aduaneira é instruída em nome do importador ("D"), que recebe em seu nome a mercadoria e as nacionaliza como se fosse seu real adquirente. Para o registro da declaração de importação, momento no qual ocorre o recolhimento dos tributos, e para o fechamento do contrato de câmbio (remessa ao exterior pelo paqamento dos produtos), o real importador e adquirente ("F") envia os recursos para a distribuidora interposta ("E"), que por sua vez repassa os recursos à importadora interposta ("D"). O repasse dos recursos é feito devido ao fato de que, nem a importadora, nem a distribuidora no Brasil, disporem de capacidade econômicofinanceira para a realização das importações (empresas laranjas). O envio dos recursos também tipifica, por força de disposição legal, as importações como sendo "por conta e ordem de terceiro", no caso a MUDE. Posteriormente, em uma operação de compra e venda simulada, a importadora interposta ("D") transfere para a distribuidora interposta ("E") que, NO MESMO DIA, simula uma venda para o real importador e adquirente ("F"). Na maioria dos casos, as mercadorias seguem do local de desembaraço aduaneiro diretamente para o cliente final ("G"), ocorrendo no caminho apenas a troca de notas fiscais. A distribuidora interposta tem o papel de "blindar" o real adquirente de eventuais cobranças de tributos devidos nestas operações, como, por exemplo, o ICMS que seria devido ao Estado de São Paulo em relação ao benefício concedido no local da importação (Bahia), quando utilizado indevidamente, como é o caso, bem como colocar mais uma empresa entre o importador e o real adquirente, tornando mais nebulosa suas relações e dificultando assim a atuação dos fiscos federal e estadual. Quanto ao fluxo financeiro, o real importador ("F") remete os recursos ao distribuidor interposto ("E"), que por sua vez o repassa ao importador interposto ("D"), cabendo a este último, a liquidação do câmbio ao exportador nos EUA ("C"), pelo pagamento das importações realizadas. Assim, a operação de comércio exterior, de fato, ocorre entre a fabricante nos EUA CISCO SYSTEM CO. ("A") e o real importador e adquirente MUDE COMÉRCIO E SERVIÇOS LTDA. ("F"), sendo todas as operações intermediárias SIMULADAS e criadas apenas para dar uma aparência de legalidade à operação, e, em conseqüência, usufruir ilegalmente das reduções tributárias descritas. (grifos do original) Fl. 52569DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 56 Da leitura do texto transcrito, inferese que o esquema fraudulento relatado envolvia dupla tentativa de esconder das autoridades brasileiras a real exportadora e fabricante (“dupla blindagem”), a multinacional estadunidense CISCO SISTEMS INC., e a real adquirente e importadora, MUDE COMÉRCIO E SERVIÇOS LTDA., pois, interpostos entre as duas havia, respectivamente, uma distribuidora e uma exportadora nos Estados Unidos e uma importadora e uma distribuidora no Brasil. Quanto ao fluxo financeiro, as importadoras interpostas, após receber, por meio das distribuidoras interpostas, os recursos provenientes do real adquirente e ora recorrente MUDE, remetiaos, em dólar americano, ao exportador interposto (GSD), a título de pagamento das importações realizadas. Por fim, nos Estados Unidos, os valores em dólar americano eram destinados ao distribuidor estrangeiro (MUDE USA) que, em última instância, repassavaos ao real importador e fabricante dos produtos, a CISCO SISTEMS INC., fechando o ciclo financeiro da real operação comercial celebrada entre a real exportadora e real importadora. Além da referida logística de importação, no Capítulo III do citado TVF (fls. 503/718), respaldada em documentos e planilhas extraídas dos arquivos magnéticos apreendidos no âmbito da “Operação Persona” (Anexo I fls. 29805 e ss.), a fiscalização apresentou o rol de todas as empresas vinculadas ao esquema de importação do “Grupo MUDE”, nos EUA e no Brasil, bem como descreveu a função que cada uma delas desempenhava no esquema importação em destaque, o grupo empresarial a que pertencia, o quadro societário de direito e de fato, os reais dirigentes, a capacidade econômico financeira das empresas etc. Dentre os grupos descritos pela fiscalização, pela relevância para o caso em preço, merece destaque o “GRUPO KIKO/ERNANI (K/E)”, controlado pelos solidários Cid Guardia Filho, conhecido como “KIKO” e Ernani Bertino Maciel, doravante denominado “GRUPO K/E”. A composição e função do referido grupo no esquema de fraude em destaque foi assim descrito pela fiscalização: O GRUPO K/E era responsável pelas IMPORTADORAS E DISTRIBUIDORAS INTERPOSTAS sediadas no Brasil. Estas empresas tinham como função (I) ocultar o REAL ADQUIRENTE (e beneficiário) MUDE LTDA e o beneficiário CISCO BRASIL), (II) propiciar redução ilícita do recolhimento de tributos, notadamente do IPI e ICMS. Este GRUPO participava da parte operacional do esquema, atuando também após a nacionalização das mercadorias importadas por suas empresas, na distribuição das mesmas até a sua entrada na MUDE LTDA, em uma série de operações simuladas de compra e venda. Referidas empresas agiam como verdadeiras fábricas de emissão de notas fiscais, vez que não possuíam atividade comercial verdadeira, sendo suas operações comerciais meras simulações com objetivo de ocultação da verdadeira responsável pelas operações de comércio exterior, a empresa MUDE COMÉRCIO E SERVIÇOS LTDA. Por constituírem parte visível do esquema, tais empresas, notadamente as IMPORTADORAS INTERPOSTAS, vinham sendo alvo constante de autuações por parte da Receita Federal do Brasil. Fl. 52570DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.542 57 Mas, na medida em que a Receita Federal do Brasil atuava sobre quaisquer das empresas do GRUPO K/E, no sentido de investigar sua real condição econômica, financeira ou fiscal, este GRUPO prontamente criava outra pessoa jurídica, com o fim de substituir a empresa investigada, de modo a promover a continuidade do esquema fraudulento. Compõem este grupo as seguintes empresas: a) IMPORTADORAS INTERPOSTAS BRASTEC, PRIME, ABC, D'LUCK, LI VON e ARCO EQUIPAMENTOS; b) DISTRIBUIDORAS INTERPOSTAS TECNOSUL e NACIONAL; [...]. (grifos do original). As principais características das empresas pertencentes ao “GRUPO K/E”, segundo a fiscalização, eram as seguintes: a) quadros societários constituídos por interpostas pessoas, em geral pessoas sem capacidade econômicofinanceira ou empresas offshore sediadas em paraísos fiscais; b) número reduzido de funcionários; c) operação em imóveis alugados; d) ausência de estoque de mercadorias; e e) reduzidos investimentos em ativo imobilizado. No Capítulo IV do TVF (fls. 719 e ss.), a fiscalização apresentou o resultado das diligências fiscais realizadas nas principais empresas que operavam o esquema de importações do “Grupo MUDE”, no período da autuação, com o objetivo de colher provas complementares às que foram obtidas no âmbito “Operação Persona”, para fim de demonstrar que as operações de importação do período foram realizadas por conta e ordem da recorrente MUDE, por intermédio das interpostas empresas importadoras e distribuidoras do “GRUPO K/E”. O grande acervo documental, colhido ou apreendido no curso das referidas diligências fiscais, consta dos vários volumes que integram os Anexos III e IV dos presentes autos (fls. 35502/44022), dentre os quais merecem destaque os documentos da escrituração contábil e fiscal, as notas fiscais de entrada e saída, as duplicatas/faturas emitidas, as declarações de importação, os contratos de câmbio, os extratos bancários etc. Para confirmar as transferências dos recursos financeiros da recorrente MUDE para custear as importações realizadas pelas referidas empresas importadoras interpostas, a fiscalização analisou os extratos bancários das empresas envolvidas nas respectivas operações de importação, os pagamentos das duplicatas/faturas realizada pela MUDE (transferências de recursos entre contascorrentes bancárias), a escrituração das respectivas empresas e as datas dos vencimentos dos contratos de câmbio das importações informadas nas respectivas declarações de importação etc. Após a compilação de todos os dados extraídos da referida documentação, apreendida ou fornecida pelas empresas importadoras e distribuidoras e pela MUDE, e o cotejo dos dados compilados com os registrados nas planilhas contidas nos arquivos magnéticos, apreendidos no estabelecimento da MUDE e das outras empresas do “Grupo MUDE” ou a ele vinculado, a fiscalização elaborou, para cada empresa importadora e respectiva distribuidora, uma planilha com o fluxo diário das transferência de numerário da MUDE para a distribuidora e desta para a importadora, de modo que restou demonstrado que, nas mesmas datas, os recursos financeiros transitavam, no mínimo, por três contas bancárias diferentes Fl. 52571DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 58 (MUDE/distribuidora/importadora), e sempre por ocasião dos desembaraços das mercadorias ou liquidação do câmbio. Também ficou demonstrado que a MUDE enviava, no mesmo dia, a quantia exata ou muito próxima de dinheiro suficiente para cobrir as despesas da importação das mercadorias, incluindo os tributos, as despesas de desembaraço e a liquidação do câmbio. As referidas remessas eram sempre feita a título de antecipação de pagamentos de duplicatas já emitidas, que eram pagas conjuntamente e, inclusive, algumas duplicatas eram pagas parcialmente. O fluxo das mercadorias e o fluxo financeiro entre importadora, distribuidora e a MUDE corroboram tal conclusão. Segundo a fiscalização, os produtos da CISCO desembaraçados pela importadora iam parar na MUDE, sempre por intermédio de uma empresa distribuidora. Esta adquiria os produtos da importadora e os faturava para a MUDE. Coincidentemente, nas datas em que a distribuidora precisava honrar os compromissos financeiros relativos às despesas de desembaraço (tributárias, portuárias etc.) e à liquidação do câmbio, a distribuidora liquidava “supostos” saldos de faturas contra ela emitidas, mediante a utilização de recursos financeiros que foram encaminhados pela empresa MUDE e, na maioria das vezes, eram integralmente repassados para a importadora. Em suma, a fiscalização concluiu que a logística IMPORTADOR => DISTRIBUIDOR => MUDE era realizada em um ou dois dias e tratavase de meras emissões de notas fiscais, de maneira a dar aparência legal às respectivas operações comerciais. Tais informações podem ser conferidas na “Planilha 1 Origem de Recursos”, “Planilha 2 Fluxo das Mercadorias” e “Planilha 3 Pagamento das Importações” (fls. 1086 e ss.), elaboradas para determinadas importadoras e distribuidoras. Para as importadoras e distribuidoras que dispunham de contabilidade regular, a fiscalização elaborou ainda as planilhas “ANÁLISE RECURSOS” (fls. 1178/1526), em que se encontram consolidados os dados extraídos dos registros contábeis e dos correspondentes extratos bancários das próprias empresas. Portanto, tratase de documentação hábil e idônea, para comprovar como os recursos financeiros eram, simultaneamente, transferidos da MUDE para as distribuidoras e destas para as importadoras. Nas referidas planilhas, podese verificar o caminho percorrido pelo numerário originário da MUDE até chegar na importadora interposta. Segundo a fiscalização, embora a quase totalidade desse numerário fosse transferida da distribuidora para a importadora, os valores naquela remanescentes foram utilizados para pagamento dos impostos devidos. Já na importadora, dos recursos financeiros ingressados, parte era destinada aos pagamentos dos encargos das importações (despesas com desembaraço e liquidação de câmbio), parte relevante para antecipações de lucros para os sócios da importadora, especialmente, para as empresas offshores sócias das importadoras, e uma a menor parcela para a liquidação de impostos e despesas operacionais. Com base nessas informações, a fiscalização chegou a conclusão, que as vendas das mercadorias efetuadas pelas distribuidoras, provenientes das importações realizadas pelas importadoras, não eram originárias de importações diretas (importação por conta e risco do importador sem clientela definida), mas sim, importações por conta e ordem da MUDE. Os extratos bancários, os documentos e livros fiscais, além da escrituração contábil das empresas importadoras, distribuidoras e da MUDE comprovam, de forma cabal, que cabia a MUDE, predominantemente, o controle administrativo e operacional sobre as operações de importação, e, fundamentalmente, o suprimento dos recursos financeiros (via distribuidoras) Fl. 52572DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.543 59 aos importadores, necessários aos pagamentos das importações, por ocasião do desembaraço da mercadoria e da liquidação do câmbio correspondente. Outras irregularidades relevantes foram imputadas ao “Grupo MUDE” pela fiscalização, a saber: a) algumas empresas importadoras destacavam o IPI, manualmente, apenas nas vias das notas fiscais que ficavam em seu poder. Nas vias das notas fiscais faturas encaminhadas às empresas distribuidoras, os valores do IPI não eram destacados. Em decorrência, os valores do IPI eram registrados somente nos livros de Registro de Saídas, Apuração do IPI e escrituração contábil das importadoras; b) as empresas importadoras (de fachada ou “laranja”) supervalorizavam os preços nas vendas para as distribuidoras, enquanto estas revendiam para a MUDE quase pelo mesmo preço (a título de exemplo, citase as planilhas de fls. 46612/46613, contendo os dados da movimentação financeira da importadora BRASTEX e da respectiva distribuidora TECNOSUL). E, finalmente, a MUDE revendia os produtos com baixíssima margem de preço em relação ao preço de compra (a taxa de lucro da MUDE foi inferior a 1%, no período fiscalizado). Segundo a fiscalização (fls. 30375/30376), “a MUDE não precisaria dar lucro, apenas seus dirigentes é que precisariam ser bem remunerados”, via empresas offshores sócias das importadoras. c) essas modalidades de super e subfaturamento tinham por finalidade concentrar a maior parte dos encargos tributários das operações de importação nas importadoras (empresas de fachada), que não cumpriam, na integralidade ou na maior parte, as obrigações tributárias e, por não terem capacidade econômicofinanceira nem patrimônio, também inviabilizavam a cobrança dos tributos devidos e não pagos; d) os recursos transferidos para as importadoras eram utilizados para pagamento das despesas com desembaraço aduaneiro e no fechamento do cambio das importações e a grande parte remanescente era transferida para a empresa offshore sócia da respectiva importadora, situada em paraíso fiscais, a título de distribuição antecipada de lucros etc.; e) no exterior, tais recursos financeiros eram livremente movimentados. Parte era usada para o pagamento de fornecedores estrangeiros, em situações de subfaturamento de operações de importação, e parte considerável remanescente eram, de imediato, transferidos para as offshores sócias da MUDE ou dos seus controladores e colaboradores. Assim, as divisas que saíam do país, a titulo de suposta distribuição de lucros para as offshores pertencentes às respectivas empresas importadoras, eram transferidas, de imediato, às referidas offshores da MUDE ou de seus reais sócios, de modo que parte significativa dos lucros obtidos no País, com o esquema fraudulento de importação e distribuição de produtos da marca CISCO, ao final, eram apropriados pelas citadas offshores. Uma parcela desses recursos retornavam ao País, geralmente para a integralização de capital de empresas administradoras de ativos, fechando o ciclo da operação de apropriação dos resultados auferidos nas referidas operações de importação; e f) segundo o subitem 3.5.9 do Relatório RFB/IPEI n° BA20070005 (fls. 30419/30432), os principais dirigentes da MUDE tinham vinculação com o escritório panamenho ALEMAN, CORDERO, GALINDO & LEE, especializado na criação de empresas offshores. E a existência de operações financeiras no exterior, possivelmente simuladas, Fl. 52573DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 60 envolvia pessoas da MUDE, empresas offshores e funcionários do banco de investimentos americano MERRILL LYNCH. Diante de tais fatos, comprovados com farta documentação colacionada aos autos, especialmente, em relação a distribuidora TECNOSUL, extensível às demais importadas e distribuidoras interpostas, a fiscalização chegou a seguinte conclusão, extraída do referido TVF (fls. 805/806), que segue transcrito: A TECNOSUL, assim como as demais importadoras e distribuidoras, integram um bem urdido esquema de INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA, que age na importação de produtos eletroeletrônicos e de telecomunicações, para abastecer o mercado nacional, concentrado em São Paulo/SP. O objetivo é ocultar os reais importadores destes produtos, mediante o uso de empresas interpostas, envolvendo a prática de diversos ilícitos fiscais, tais como: sonegação de tributos; subfaturamento das importações; remessa de divisas para o exterior, sob a forma de pagamento de importações e distribuição de lucros; crédito indevido de ICMS, entre outros, que estariam lesando os cofres públicos. Tratase da etapa mais visível do esquema, e, portanto, a mais vulnerável, razão por que as empresas que dela fazem parte foram constituídas em nome de interpostas pessoas ("laranjas" ou testasdeferro) e offshores, tendo sido, previsivelmente, alvo de constantes autuações por parte da Receita Federal do Brasil. Esta cadeia de interposição busca esconder, a principio, a empresa MUDE, para a qual se destina a quase totalidade das importações efetuadas pelas importadoras interpostas e distribuídas pela TECNOSUL, tornandoa uma grande distribuidora nacional de produtos de informática e eletro eletrônicos, em quase sua totalidade de fabricação CISCO, mesmo sem ter realizado praticamente nenhuma importação desde janeiro de 2004. Em suma, portanto, a TECNOSUL, na função de distribuidora interposta, dentro da seqüência da cadeia engendrada é quem aparece como fornecedora direta da real importadora, a MUDE COMÉRCIO E SERVIÇOS LTDA. Verificamos que o dinheiro não é enviado diretamente da conta da MUDE BRASIL para a conta da importadora interposta, e sim por uma empresa que se interpõe na operação comercial. Esta ocultação do real importador através de duas empresas é chamada de "duplo grau de blindagem". Apesar de ser mais oneroso, o custo compensa a segurança proporcionada ao real importador, que neste caso movimentou milhões de reais anuais entre 2004 e 2007. [...] Conforme quadro acima as importadoras interpostas BRASTEC, PRIME, WAYTEC, LIVON e TDC simulam vendas para a distribuidora TECNOSUL, enquanto a importadora interposta ABC simula vendas para a empresa NACIONAL. Das distribuidoras as mercadorias seguem diretamente para a MUDE BRASIL. A cadeia logística IMPORTADOR => Fl. 52574DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.544 61 DISTRIBUIDOR => MUDE BRASIL é realizada em um ou dois dias e tratase de meras emissões de notas fiscais, de maneira a dar uma aparência legal a operação comercial. Assim, respaldada em robusto acervo probatório, a fiscalização chegou as seguintes conclusões: a) toda a cadeia de interposição tinha como objetivo “blindar” a recorrente CISCO (beneficiária) e a recorrente MUDE (real adquirente), esta última o sujeito passivo oculto e verdadeira responsável pelas operações de comércio exterior realizadas; b) todas as etapas do processo de importação eram controladas pela recorrente MUDE, que repassava, antecipadamente, às distribuidoras interpostas, os recursos necessários à realização das importações registradas pelas importadoras interpostas; e c) a comprovação de que a recorrente MUDE fornecera os recursos utilizados pelas importadoras, implicava presunção da sua equiparação a estabelecimento industrial, nos termos do art. 79 da Medida Provisória 2.15835/2001. Da transferência de recursos financeiros: elementos probatórios apresentados pela recorrente MUDE. Por se tratar de presunção relativa (juris tantum), cabia a recorrente infirmar as conclusões apresentadas pela fiscalização, mediante prova em contrário. Inicialmente, cabe esclarecer que as planilhas previamente citadas no recurso (fls. 1086 e ss.) foram elaboradas pela fiscalização, com base na documentação contábil, fiscal e bancária da MUDE e das empresas importadoras e distribuidoras. E a denominada “planilha fluxodia”, referenciada no recurso voluntário da recorrente MUDE, foi extraída dos arquivos magnéticos encontrados no computador do Sr. Marcílio Palhares Lemos, gerente do departamento financeiro da MUDE, regulamente apreendido no curso da “Operação Persona”. Logo, diferentemente do alegado, a citada planilha não se trata de documento apócrifo, mas de documento elaborado com os dados contábeis, fiscais e bancários extraídos da escrituração da própria recorrente MUDE e que se encontrava no computador utilizado pelo citado gerente, responsável pelo controle financeiro do “Grupo JTDC/MUDE”. Além disso, cabe esclarecer, que, no lançamento em apreço, tal documento foi utilizado apenas como fonte subsidiária de informação, para fim de corroborar os dados colhidos na documentação da referida empresa, para fim de comprovar a transferência dos recursos financeiros da MUDE para as empresas importadoras e distribuidoras interpostas. E os dados nela apresentados não destoam dos dados apresentados nas planilhas elaboradas pela fiscalização, para embasar a questionada autuação, conforme explicitado no exceto extraído do TVF (fl. 723), que segue transcrito: Muito ampla esta planilha se destinava ao controle do fluxo financeiro em geral, no que dizia respeito aos desembaraços aduaneiros, pagamentos dos contratos de câmbio, despesas bancárias, gastos com seguros e despachantes, remessas de lucros, etc. Embora se refira a várias outras empresas do esquema, neste subcapítulo será tratado somente o fluxo Fl. 52575DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 62 mantido com a PRIME no ano calendário de 2004. Nela estão detalhadas os processos de importação (DI’s) com a numeração interna de controle atribuída pela MUDE os recursos enviados para os sócios à titulo de adiantamento de lucros, os recursos financeiros recebidos da TECNOSUL que são tratados como transferência da TECNOSUL os desembolsos havidos por ocasião dos desembaraços, os gastos com tarifas bancárias, seguros, etc. Estes valores estão refletidos nos extratos bancários e na contabilidade da PRIME, o que atesta a veracidade das informações contidas nesta planilha. Com relação as transferências advindas da TECNOSUL, verificamos que os dados são coincidentes e datas e valores com aqueles contidos na contabilidade e extratos da TECNOSUL. Para contraditar a conclusão da fiscalização, baseada no robusto acervo probatório colacionado aos autos, a recorrente MUDE alegou que contratara empresa de auditoria especializada, que elaborara minucioso levantamento acerca da sua movimentação financeira e contábil. E com base nesse levantamento, asseverou a recorrente que foram elaborados os laudos de “PERÍCIA CONTÁBIL” de fls. 47.822/47.868, em que apresentada a conclusão de que, nos anos de 2004 a 2007, não houve antecipação de recursos financeiros aos fornecedores ou esta antecipação foi insignificante. No caso, o que a recorrente denomina de “laudo de perícia contábil” são 4 (quatro) Relatórios de Análise de Pagamentos a Fornecedores, elaborado pelo contador João Carlos Castilho Garcia, referente aos pagamentos realizados pela recorrente MUDE aos seus fornecedores nos de 2004 a 2007. Tais relatórios, além de não atender os requisitos mínimos do “Laudo Pericial Contábil”, estabelecidos na Norma Brasileira de Contabilidade T 13.6, aprovada pela Resolução Conselho Federal de Contabilidade (CFC) nº 1.041/2005, contêm apenas dados financeiros genéricos, sem respaldado em qualquer documento, e conclusões sobre os pagamentos realizados nos anos de 2004 e 2007 pela recorrente MUDE, que não têm o condão de infirmar as conclusões da fiscalização apresentadas no tópico precedente, respaldadas em documentos fartos documentos e na escrituração contábil e fiscal da própria recorrente. Além disso, ainda que válida fosse as conclusões de que “os valores dos pagamentos foram efetuados após a data de emissão das notas fiscais dos fornecedores”, induvidosamente, elas não seria suficiente para comprovar que não houve a transferência e utilização de recursos financeiros da recorrente MUDE, para as empresas importadoras, especialmente tendo em conta que a totalidade dos recursos financeiros utilizados pelas importadoras foram fornecidos pela recorrente, por intermédio das interpostas distribuidoras. Assim, não tem qualquer relevância o fato de tais recursos terem sido fornecidos antes ou após a emissão das notas fiscais e respectivas faturas, posto que, a condição necessária e suficiente para a presunção em apreço, consiste na simples utilização de recursos de terceiros nas operações de importação, conforme dispõe o art. 27 da Lei 10.637/2002. E essa condição foi devidamente comprovada nos autos pela fiscalização. Também sem qualquer valor probatório, o Parecer de fls. 52009/52015, apresentado nesta fase recursal, emitido pela empresa Ernst & Young, que além de não atender as condições excepcionais do art. 16, § 4º, do Decreto 70.235/1972, limitouse apenas em ratificar as conclusões apresentadas nos citados “Relatórios de Análise de Pagamentos a Fornecedores”, sem respaldo em qualquer elemento probatório. Fl. 52576DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.545 63 Ainda alegou a recorrente que “encomendou pareceres dos mais renomados juristas e estudiosos do Direito Tributário, que analisaram o presente caso concreto e o modelo de negócio praticado, proferindo conclusões de grande relevância para o deslinde da presente demanda.” De fato, na fase impugnatória, a recorrente trouxe à colação dos autos os citados pareceres, que foram colacionados (fls. 47870 e ss.). No Parecer de fls. 47870/47929, o ilustre Prof. Paulo de Barros Carvalho, após informar, preambularmente, que fora submetido a sua apreciação “problema jurídico tributário relativo à legalidade e à constitucionalidade da estrutura negocial” adotada pela recorrente MUDE, passou a discorrer magistralmente, como é do seu feitio, sobre os seguintes assuntos: a) a disciplina da elisão e da evasão e o conceito de fraude, dolo e simulação no direito brasileiro; b) requisitos sobre aplicação de sanções; c) regramatriz de incidência do IPI; d) critérios distintivos entre importação por conta própria, importação por conta e ordem de terceiro e importação por encomenda; e) considerações sobre a chamada “guerra fiscal” no âmbito do ICMS; f) os requisitos necessários para a configuração do crime de descaminho. No final, em resposta aos quesitos formulados pela consulente, o eminente jurista apresentou, em síntese, as seguintes conclusões: a) no modelo negocial que lhe fora apresentado, todas as operações ocorreram na forma prescrita em lei; b) na estrutura negocial adotada pela recorrente, não se verificava, em momento algum, o não pagamento dos tributos devidos nas operações de revenda dos produtos, porque não havia configuração importação por conta e ordem ou por encomenda; e c) era lícito “o emprego de meios autorizados pela lei para escapar da percussão tributária”. Já no Parecer de fls. 47930/47971, o também douto Prof. Eurico Marcos Diniz de Santi discorreu com brilhantismo sobre extrativismo fiscal, limites da legalidade do IPI nas operações de importação e a ameaça do planejamento tributário às avessas, para, no final, concluir que “entre o BEM e o MAL, o CERTO e o ERRADO, entre ANJOS e DEMÔNIOS, em meio às chamadas ardentes do maniqueísmo fiscal, pouco espaço sobra para reflexão, para a legalidade e para o direito.” Enquanto no Parecer de fls. 47972/48038, o eminente Prof. Celso Fernandes Campilongo examinou a legalidade do modelo econômico de negócio desenvolvido pela recorrente MUDE e, ao final, concluiu que “o modelo não apenas foi, e é, lícito, como também é típico, mundial e característico do atual estágio jurídico e econômico do campo empresarial”. E na fase recursal, a recorrente trouxe à colação dos autos o Parecer de fls. 52038/52110, elaborado pelo renomado Professor Ivo Teixeira Gico Jr., que também examinou o modelo de negócios da recorrente e concluiu, sob ótica do Direito Concorrencial, que não existia por parte da MUDE ou da CISCO (i) qualquer dado ou informação que permitisse a caracterização de prática de concorrência desleal, (ii) qualquer indício de prática de preço predatório e (iii) qualquer indício de prática dumping. Em que pese a profundidade e o rigor teóricocientífico, com a devida vênia, os referidos pareceres não trouxeram elementos relevantes, com vista a contraditar os fatos comprovados nos autos pela fiscalização, que demonstram, de forma inequívoca, a existência do esquema fraudulento ocorrido nas importações realizadas pelo “Grupo MUDE” e a utilização pelas importadoras interpostas dos recursos financeiros fornecidos pela recorrente MUDE. Fl. 52577DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 64 As profundas análises jurídicas e bem fundamentadas conclusões apresentadas nos citados pareceres sobre o modelo negócio da recorrente MUDE também não agregaram contribuição relevante para o deslinde da controvérsia, haja vista que, na autuação em apreço, não houve questionamento sobre legalidade ou imputação de irregularidade ao propalado modelo de negócio. Com efeito, no presente procedimento fiscal, o que foi questionado foi legalidade da forma como o referido modelo de negócio e, em especial, as operações de importação dos produtos da marca CISCO foram operacionalizadas, em razão dos evidentes descumprimentos das normas tributárias e de controle aduaneiro do País, mediante simulação das operações de importação por conta própria, com o nítido propósito quebrar a cadeia incidência do IPI e, assim, evitar que a recorrente MUDE fosse considerada contribuinte do imposto, por equiparação a estabelecimento industrial. Portanto, nestes autos, o que está em questão não é o modelo de negócio da recorrente MUDE ou da sua fornecedora e parceira CISCO, mas as fraudes que foram cometidas no âmbito das referidas operações de importação, com o claro propósito de burlar o controle aduaneiro e de eximir a recorrente MUDE do pagamento do IPI. Em suma, o que está em questão não é o modelo de negócio da recorrente, mas o seu modelo fraudulento de importação. Entretanto, embora irrelevante para o deslinde controvérsia, cabe ressaltar que o modelo de negócio Just in Time, tão decantado pela recorrente MUDE, revelase de todo incompatível com o referenciado esquema de fraude. Pois, se a característica do citado modelo de negócio é a existência de único fornecedor e único comprador na cadeia de negócio, com a consequente eliminação de intermediários e operações, como justificar a existência das diversas empresas e operações comerciais interpostas entre a real exportadora e a real importadora ou compradora. A única justificativa plausível e sensata para inserção de tão grande número de empresas na cadeia de comercialização dos citados produtos foi, induvidosamente, o propósito deliberado de ocultar os reais intervenientes nas operações de importação, mediante a produção de documentos não representativos da realidade negocial subjacente. Ou seja, mediante simulação de operações de importação por conta própria inexistentes e, simultaneamente, dissimulação da real operação de exportação e de importação praticada pela real exportadora CISCO SISTEMS INC. e pela real importadora, a recorrente MUDE. Logo, se a recorrente adotou ou utilizou o decantado modelo de negócio Just in Time, certamente, não há qualquer evidência que ele tenha sido adotado em relação às importações dos produtos objeto das presentes autuações. Também não corresponde aos fatos comprovados nos autos, a alegação da recorrente que não teve qualquer ganho concorrencial ou de mercado, pois, diferentemente do alegado, no período de funcionamento do esquema de fraude em referência, os produtos da marca CISCO detinham parte relevante do mercado nacional, a MUDE foi premiada por ser 4ª maior vendedora de produtos CISCO no mundo e a líder de venda no Brasil e em toda América Latina. Entretanto, conforme demonstrado anteriormente, o ponto central da controvérsia, cingese à comprovação do fato presuntivo, consistente na utilização dos recursos financeiros fornecidos pala recorrente MUDE para as empresas importadoras (de fachada ou “laranja”) dos produtos da marca CISCO. Assim, dada essa característica, para deslinde da controvérsia, a recorrente teria eficazmente contribuído se tivesse trazido à colação dos autos, em vez dos robustos argumentos retóricos, corroborados pelas conclusões apresentadas nos Fl. 52578DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.546 65 brilhantes pareceres, provas documentais hábeis e idôneas que comprovassem a origem dos recursos utilizados pelas importadoras e distribuidoras interpostas. Além disso, os referidos pareceres, certamente, teriam contribuído para deslinde da controvérsia se, além da abordagem do decantado modelo de negócio, tivesse esclarecido ou justificado a participação das empresas importadoras inidôneas (de fachada ou “laranja”) no referido “modelo de negócio”, especialmente, as razões porque: a) o quadro de sócios das referidas empresas era formado por pessoas físicas sem capacidade gerencial e econômicofinanceira (“laranjas” ou “testa de ferro”) e por empresa offshore, situada em paraíso fiscal, e gerenciadas ou administradas por procuradores, com poderes ilimitados, normalmente, pessoas físicas colaboradoras e vinculadas ao “Grupo MUDE”; b) os preços praticados no País eram superfaturados nas referidas empresas importadoras inidôneas e revendidos com baixíssima margem de preço nas operações de revenda seguintes feitas pelas distribuidoras interpostas e, ao final, pela recorrente MUDE; e c) eram utilizadas tão grande quantidade de empresas offshores, sediadas em paraísos fiscais, administradas por procuradores, geralmente, as pessoas físicas arroladas como sujeitos passivos solidários, conforme relação de fls. 44159/44161. Da conclusão parcial. Pelas razões anteriormente expostas, ficou evidenciado que a recorrente MUDE não logrou comprovar outra origem para os volumosos recursos financeiros utilizados pelas importadoras interpostas, que não aquela proveniente da recorrente MUDE. De outra parte, as provas coligidas aos autos pela fiscalização demonstram, de forma inequívoca, que as empresas distribuidoras e importadoras interpostas tinham como características comuns: (a) quadros societários constituídos por interpostas pessoas, sem capacidade econômicofinanceira, e/ou offshores (sediadas em “paraísos fiscais”); (b) número reduzido de funcionários.; (c) imóveis alugados; e (d) recursos patrimoniais inexistentes ou insignificantes. As provas colacionadas aos autos pela fiscalização também comprovam que as empresas importadoras simularam vendas para as empresas distribuidoras, com a evidente propósito de “blindar” a recorrente MUDE das exigências atinentes ao controle aduaneiro e dos encargos tributários decorrentes da sua equiparação a estabelecimento industrial, especialmente, em relação à cobrança do IPI devido na operação de saída dos referidos produtos do estabelecimento da recorrente, objeto da presente autuação. Enfim, os dados consolidados nas planilhas elaboradas pela fiscalização (fls. 1086/1526), comprovam que os recursos financeiros utilizados pelas importadoras foram transferidos/fornecidos integralmente pela MUDE, por intermédio das distribuidoras interpostas. Com base nessas considerações, fica demonstrada que a recorrente MUDE atuou como real importadora dos produtos da marca CISCO e, por força dessa atuação, agiu com acerto a fiscalização ao equiparála a estabelecimento industrial e proceder a cobrança dos Fl. 52579DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 66 valores do IPI devidos nas correspondentes operações de revenda/saída dos referidos produtos do seu estabelecimento, ocorridas período de janeiro de 2004 a outubro de 2007. I.2 Da Ofensa ao Princípio da Não Cumulatividade Por Falta de Desconto dos Créditos do IPI nas Operações Entradas A recorrente MUDE alegou que, na apuração do valor do tributo devido, a fiscalização havia lhe equiparado a estabelecimento industrial e exigidolhe o valor do IPI calculado sobre o valor total das mercadorias vendidas, contudo havia deduzido apenas os crédito calculados sobre as entradas a titulo de devolução e desconsiderado a totalidade dos créditos relativo aos valores do IPI pagos nas operações anteriores, devidamente lançados nas notas fiscais de aquisição, em clara ofensa ao princípio constitucional da não cumulatividade do imposto. De acordo com referido TVF, a fiscalização atribuiu a recorrente a condição de real adquirente ou importadora dos produtos da marca CISCO, conforme explicitado, no excerto que segue transcrito: Em conclusão, de todo o exposto no presente capitulo, das investigações desenvolvidas, dos documentos anexados, bem como os áudios e emails citados ao longo deste relatório, demonstram que as operações realizadas pela MUDE COMÉRCIO E SERVIÇOS LTDA não configuravam aquisição de produtos no mercado interno, como poderia parecer. Todas as etapas do processo de importação eram controladas e financiadas pela MUDE COMÉRCIO E SERVIÇOS LTDA, que era, na verdade, a REAL ADQUIRENTE dos produtos importados. E na condição de real importadora, a recorrente MUDE, nos termos do art. 79 da Medida Provisória 2.15835/2001, foi equiparada a estabelecimento industrial e nesta condição ela fazia jus ao crédito do valor do IPI destacado na nota fiscal de venda dos produtos importados pelo importador aparente (por conta e ordem), nos termos do art. 164, VIII, do RIPI/2002, a seguir transcrito: Art. 164. Os estabelecimentos industriais, e os que lhes são equiparados, poderão creditarse (Lei nº 4.502, de 1964, art. 25): [...] VIII do imposto relativo aos produtos recebidos pelos estabelecimentos equiparados a industrial que, na saída destes, estejam sujeitos ao imposto, nos demais casos não compreendidos nos incisos V a VII; [...] No caso, se na condição de contribuinte, por equiparação a estabelecimento industrial, os produtos revendidos/saídos do estabelecimento estavam sujeito ao pagamento do IPI, sob pena afronta do princípio da não cumulatividade do imposto, na condição de real importadora, a recorrente fazia jus ao crédito do valor do IPI destacado na nota fiscal emitida pela empresa importadora por sua conta e ordem. O fato de a contribuinte ter contabilizado o referido imposto como custos dos produtos revendidos, ainda que tenha repercussão na apuração da base de cálculo do IRPJ e da Fl. 52580DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.547 67 CSLL, por certo, tal circunstância não tem o condão de afastar o direito de a recorrente deduzir o valor do imposto destacado na nota fiscal emitida pelo estabelecimento importador por sua conta e ordem, por se tratar de direito expressamente assegurado no art. 164, VIII, do RIPI/2002. Assim, fica demonstrador que, além de contrariar o princípio da não cumulatividade, não há razoabilidade no critério de atribuir à recorrente MUDE a condição de contribuinte do IPI, para fim de cobrança do imposto, e, simultaneamente, não lhe reconhecer a mesma condição, para fim de lhe reconhecer o direito à dedução do crédito do imposto pago na correspondente operação de entrada do produto no estabelecimento. Com base nessas considerações, reconhecese o direito da recorrente de deduzir do valor do IPI lançado o valor do IPI destacado na nota fiscal de venda do importador por sua conta e ordem, nos respectivos períodos de apuração. I.3 Do Arbitramento do Valor Tributável. A recorrente MUDE alegou que a fiscalização não poderia calcular o valor do IPI lançado com base nas notas fiscais de saída por ela emitidas no período da autuação, porque tais notas fiscais seriam inidôneas e não representariam o real valor ou preço de venda das mercadorias. Sem razão à recorrente, pois, não há nos autos qualquer acusação por parte da fiscalização de que as notas fiscais de saída por ela emitidas eram inidôneas. A única irregularidade atribuída pela fiscalização aos referidos documentos foi a falta de destaque do valor do IPI devido na correspondente operação. Dessa forma, se em relação ao valor da operação de venda, as referidas notas não apresentavam nenhuma irregularidade, inequivocamente, procedeu com acerto a fiscalização ao utilizar os referidos valores como base de cálculo, na apuração dos valores do IPI devidos, conforme estabelecido nas planilhas colacionadas aos autos (fls. 31739 e ss.). E tal procedimento está em consonância com o disposto art. 131, I, “b”, RIPI/2002. Também não procede a alegação da recorrente MUDE de que, no caso em tela, o procedimento correto seria o arbitramento do valor tributável, nos termos do artigo 138 do RIPI/2002, porque, sabidamente, tal arbitramento somente se aplica quando os documentos emitidos pelo contribuinte forem omissos ou não mereçam fé, condição que não se vislumbra no procedimento fiscal em apreço. Assim, resta demonstrado que procedimento de cálculo do imposto, realizado pela fiscalização, foi feito em consonância com disposto no art. 131, I, “b”, RIPI/2002, o que afasta a alegada ofensa aos arts. 142 e 148 do CTN. I.4 Da Decadência do Direito de Lançar. Em caráter principal, a recorrente MUDE alegou que, por força do art. 150, § 4º, do CTN, todos os fatos geradores, ocorridos antes 20/12/2004, foram atingidos pela decadência, pois a recorrente foi intimada do auto de infração no dia 21/12/2009, quando já havia transcorrido prazo quinquenal de decadência. Fl. 52581DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 68 Sem razão à recorrente. No caso, duas situações afastam aplicação da regra de contagem do prazo decadencial estabelecida no art. 150, § 4º, do CTN. A primeira consiste na comprovação da ocorrência de fraude e simulação. A segunda consiste na ausência de pagamento do imposto no período. Aliás, esse último entendimento foi pacificado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), no julgamento do Recurso Especial no 973.733/SC, sob regime do recurso repetitivo, disciplinado no art. 543C do Código de Processo Civil (CPC), de adoção obrigatória pelos integrantes deste Conselho, por força do disposto no art. 62, § 2º, do Anexo II do Regimento Interno deste Conselho, aprovado pela Portaria MF 343/2015. O enunciado da ementa do referido julgado ficou assim redigido, in verbis: PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ARTIGO 543C, DO CPC. TRIBUTÁRIO. TRIBUTO SUJEITO A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. INEXISTÊNCIA DE PAGAMENTO ANTECIPADO. DECADÊNCIA DO DIREITO DE O FISCO CONSTITUIR O CRÉDITO TRIBUTÁRIO. TERMO INICIAL. ARTIGO 173, I, DO CTN. APLICAÇÃO CUMULATIVA DOS PRAZOS PREVISTOS NOS ARTIGOS 150, § 4º, e 173, do CTN. IMPOSSIBILIDADE. 1. O prazo decadencial qüinqüenal para o Fisco constituir o crédito tributário (lançamento de ofício) contase do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, nos casos em que a lei não prevê o pagamento antecipado da exação ou quando, a despeito da previsão legal, o mesmo inocorre, sem a constatação de dolo, fraude ou simulação do contribuinte, inexistindo declaração prévia do débito (Precedentes da Primeira Seção: REsp 766.050/PR, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 28.11.2007, DJ 25.02.2008; AgRg nos EREsp 216.758/SP, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, julgado em 22.03.2006, DJ 10.04.2006; e EREsp 276.142/SP, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 13.12.2004, DJ 28.02.2005). 2. É que a decadência ou caducidade, no âmbito do Direito Tributário, importa no perecimento do direito potestativo de o Fisco constituir o crédito tributário pelo lançamento, e, consoante doutrina abalizada, encontrase regulada por cinco regras jurídicas gerais e abstratas, entre as quais figura a regra da decadência do direito de lançar nos casos de tributos sujeitos ao lançamento de ofício, ou nos casos dos tributos sujeitos ao lançamento por homologação em que o contribuinte não efetua o pagamento antecipado (Eurico Marcos Diniz de Santi, "Decadência e Prescrição no Direito Tributário", 3ª ed., Max Limonad, São Paulo, 2004, págs. 163/210). 3. O dies a quo do prazo qüinqüenal da aludida regra decadencial regese pelo disposto no artigo 173, I, do CTN, sendo certo que o "primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado" corresponde, iniludivelmente, ao primeiro dia do exercício seguinte à ocorrência do fato imponível, ainda que se trate de tributos sujeitos a lançamento por homologação, revelandose inadmissível a aplicação cumulativa/concorrente dos prazos previstos nos artigos 150, § 4º, e 173, do Codex Tributário, ante Fl. 52582DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.548 69 a configuração de desarrazoado prazo decadencial decenal (Alberto Xavier, "Do Lançamento no Direito Tributário Brasileiro", 3ª ed., Ed. Forense, Rio de Janeiro, 2005, págs. 91/104; Luciano Amaro, "Direito Tributário Brasileiro", 10ª ed., Ed. Saraiva, 2004, págs. 396/400; e Eurico Marcos Diniz de Santi, "Decadência e Prescrição no Direito Tributário", 3ª ed., Max Limonad, São Paulo, 2004, págs. 183/199). [...] 7. Recurso especial desprovido. Acórdão submetido ao regime do artigo 543C, do CPC, e da Resolução STJ 08/2008.8 (Grifos não originais) Na autuação em questão, como não houve pagamento antecipado, aplicase a regra de contagem do prazo decadencial estabelecida no art. 173, I, do CTN. Dessa forma, em relação aos fatos geradores do IPI, ocorridos no ano de 2004, o termo inicial do prazo de decadência teve início no dia 1o de janeiro de 2005, tendo expirado o prazo para constituir o crédito tributário somente em 1o de janeiro de 2010. Assim, considerando que a recorrente MUDE tomou ciência do auto de infração em 21 de dezembro de 2009 (fl. 1543), inequivocamente, não se consumou o prazo decadencial, para nenhum período de apuração do imposto. Com base nesse entendimento, também fica afastada a alegação da recorrente MUDE de que, em relação ao IPI, o termo inicial de contagem do prazo fixado no art. 173, I, do CTN, seria o 1º dia do período de apuração seguinte e não do exercício seguinte. Para a citada recorrente, como até o final do ano de 2004 o período de apuração do IPI era decendial e a partir do ano de 2005 passou a ser mensal, o dies a quo do prazo decadencial não seria o 1o dia do ano seguinte ao fato gerador, mas o 1o dia do decêndio/mês seguinte ao fato jurídico tributário, para os respectivos anos. Em suma, afastadas todas as alegações suscitadas pela recorrente MUDE, chegase a conclusão de que não houve alegada decadência na autuação em apreço. I.5 Da Inaplicabilidade da Multa Qualificada. A recorrente MUDE alegou que a multa de ofício qualificada, imposta com fundamento art. 488, II, do RIPI/2002, teve sua matriz legal (o art. 80, II, da Lei 4.502/1964 e art. 45 da Lei 9.430/1996) revogada pelo art. 40 da Lei 11.488/2007, logo não poderia prevalecer qualquer cobrança com fundamento no referido dispositivo legal expressamente revogado. Não assiste razão à recorrente, porque, ao contrário do alegado, o art. 40 da Lei 11.488/2007 não revogou a referida matriz legal da multa qualificada, mas apenas conferiulhe nova redação ao tipificála no § 6 do artigo 80 da Lei 4.502/1964. Portanto não há qualquer alteração legislativa que beneficie a contribuinte quanto à multa a ser aplicada, não havendo razão para aplicação da retroatividade benigna, prevista no artigo 106, II, “a”, do CTN. 8 BRASIL. STJ. PRIMEIRA SEÇÃO. REsp 973733/SC, Rel. Ministro LUIZ FUX, julgado em 12/08/2009, DJe 18/09/2009. Fl. 52583DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 70 A recorrente alegou ainda que, para que fosse caracterizada a fraude, a simulação ou o conluio, era necessário que a fiscalização demonstrasse, por intermédio da apresentação de provas inequívocas, que as operações foram feitas com evidente intuito de fraude, conforme definido nos arts. 71, 72 e 73 da Lei 4.502/1964, o que exigia a comprovação do dolo específico, ou seja, que a contribuinte tinha a real intenção de fraudar o Fisco. Mais uma vez, sem razão a recorrente. Seja nos termos do art. 68, § 2º, da Lei 4.502/1964, vigente na data dos fatos objeto das presentes autuações, ou seja segundo disposto no art. 80, § 6º, II, do mesmo diploma legal, atualmente vigente, as circunstâncias qualificativas da multa de ofício são a sonegação, a fraude e o conluio, definidos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei 4.502/1964. O acervo de documentos coligidos aos autos comprovam que a recorrente MUDE utilizouse de interpostas pessoas, as empresas importadoras e distribuidoras, geralmente empresas inidôneas (de fachada ou laranja), para se ocultar da fiscalização e assim se eximir dos controles aduaneiros, da equiparação a estabelecimento industrial e, por conseguinte, do pagamento do IPI devido na operação de saída do seu estabelecimento dos produtos importados fraudulentamente. Assim, o cometimento da fraude, mediante interposição de pessoas, encontra se demonstrado nos autos. Os fartos elementos probatórios colacionados aos autos levam a confirmação de que as referidas empresas importadoras interpostas apresentaramse como real adquirentes das mercadorias da marca CISCO, mas, de fato atuavam por conta e ordem da recorrente MUDE, cabendo a esta todo o gerenciamento e controle da logística de importação e do fornecimento dos recursos financeiros necessários ao custeamento das importações realizadas. Também não procede a alegação da recorrente MUDE de que procedera de acordo com o Ato Declaratório Interpretativo SRF (ADI/SRF) nº 7, de 2002, haja vista que o citado ADI dispõe sobre a cobrança da Contribuição para o PIS/Pasep e a Cofins nas operações em que a pessoa jurídica comercial importadora empresa comercial importadora atue apenas como prestadora de serviços, nos termos das Instruções Normativas SRF 75/2001 e 98/2001, e fixa as condições para que a referida operação seja caracterizada com sendo de aquisição da propriedade das mercadorias importadas. Para melhor compreensão, seguem transcritos os arts. 1º e 2º do referido ADI: Art. 1º As disposições das Instruções Normativas nº 75, de 2001, e nº 98, de 2001, aplicamse somente às operações em que a pessoa jurídica comercial importadora empresa comercial importadora atue apenas como prestadora de serviços. Parágrafo único. A empresa comercial importadora atua como prestadora de serviços somente na hipótese em que ela não adquira a propriedade das mercadorias importadas. Art. 2º Para que se caracterize a aquisição, pela empresa comercial importadora, da propriedade das mercadorias importadas, é suficiente que ocorra uma das seguintes hipóteses em que a referida empresa: I conste como adquirente no contrato de câmbio; II conste como adquirente na fatura internacional (invoice); Fl. 52584DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.549 71 III emita nota fiscal de entrada ou de saída a título de compra ou venda; ou IV contabilize a entrada ou a saída da mercadoria importada como compra ou venda. Parágrafo único. Na hipótese de a empresa não ter escrituração comercial regular, o aferimento da condição prevista no inciso IV farseá com base na natureza da operação efetivada, constante de notas fiscais. No caso, é evidente que a recorrente descumpriu o disposto nos incisos III e IV do art. 2º do citado ADI, pois, a documentação fiscal coligida aos autos confirmam que ela (ii) emitiu nota fiscal de saída a título de venda e (ii) contabilizou a entrada e a saída da mercadoria importada como compra e venda. Portanto, contrariamente ao alegado, a recorrente não se enquadra como importadora por conta e ordem de terceiro, ao contrário, conforme anteriormente demonstrado, a recorrente atuou como a real adquirente e importadora dos equipamentos importados por conta ordem das importadoras interpostas. Há ainda provas nos autos que demonstram ter havido conluio entre a recorrente MUDE e a recorrente CISCO e todas as pessoas físicas arroladas como responsáveis solidários, que operaram o esquema de fraude, com o nítido objetivo de obterem elevados ganhos financeiros. Também ficou comprovado nos autos o dolo específico da recorrente MUDE. Os relatórios de auditoria fiscal de fls. 41347/41451, apreendidos no curso da “Operação Persona”, elaboradas a pedido da MUDE, deixam evidente que a dita empresa tinha pleno conhecimento das fraudes cometidas e procurava assessoria tributária e contábil, com vistas a enfrentar eventual atuação do fiscalização. No relatório de assessoria tributária (fls. 41349/41401), elaborado por um renomado escritório de advocacia do País, merece destaque a conclusão de que a fiscalizada encontravase “exposta” a um risco tributário da ordem de 1,04 bilhões de reais nas áreas do ICMS e IPI e, incluindo as demais contingências, a dívida chegaria ao total de 1,064 bilhões de reais. Ainda do referido relatório, por relevantes, cabe transcrever os seguintes excertos: Ocorre o fato gerador do IPI no desembaraço aduaneiro de produto industrializado, bem como na saída do bem importado do estabelecimento importador (RIPI, art. 34, I e II). Equiparamse a estabelecimentos industriais os atacadistas ou varejistas, que adquirirem produtos de procedência estrangeira, importados por encomenda ou por sua conta e ordem, por intermédio de pessoa jurídica importadora, devendo efetuar o destaque do IPI, por ocasião da saída destes produtos, conforme estabelece o artigo 13 da Lei n° 11.281/06. Dependendo das margens de lucro aplicadas por cada um dos elos da cadeia, a nãoincidência do IPI poderá representar uma economia fiscal significativa, uma vez que os produtos de comercialização da Sociedade seriam tributados a alíquotas que variam entre 5% e 25%. Fl. 52585DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 72 Em uma eventual fiscalização, o Fisco Federal poderá entender que a essa Sociedade é o verdadeiro importador das mercadorias que comercializa e aplicar as multas pela falta de destaque do IPI e pela falta de pagamento do imposto. Indícios que poderão ser encontrados pela Receita Federal e pela Fazenda do Estado de Silo Paulo para justificar a cobrança dos impostos. Entendemos que alguns indícios abordados a seguir poderão levar os Fiscos Federal e do Estado de São Paulo a rastrear as operações da Sociedade. Uma pesquisa na internet revela que essa Sociedade é um dos maiores distribuidores dos produtos fabricados pela Cisco; entretanto, os parceiros Brastec, Waytec, ABC Industrial, Nacional e Tecnosul, não são encontrados, na rede de computadores, como parceiros da Cisco. As referidas empresas (exceto a Cisco) têm as suas operações totalmente comprometidas com o atendimento da demanda dessa Sociedade, o que denota a existência de um acordo de exclusividade vinculando toda a cadeia de comercialização dos equipamentos importados. Outro ponto de destaque é que desde o momento do desembarque das mercadorias até a efetiva venda final a essa Sociedade (ou seja, importação/desembaraço aduaneiro, venda os distribuidores e revenda à Sociedade), são transcorridos aproximadamente 04 (quatro) dias, o que pode sugerir que tanto o importador quanto o distribuidor não têm estrutura física (depósito) para abrigar as mercadorias cuja real importadora seria essa Sociedade. Corrobora esse entendimento o fato de que o transporte das mercadorias no território nacional é realizado pela mesma transportadora, desde o desembaraço aduaneiro, seja este praticado pelos importadores Brastec, Waytec, ou ABC, até a revenda final à Sociedade, seja esta realizada pelos distribuidores Tecnosul ou Nacional. Dessa forma, a Receita Federal e a Fazenda do Estado de São Paulo poderão autuar a Sociedade sob a alegação de que as operações mencionadas teriam como finalidade ocultar o real importador, qual seja, essa Sociedade. Nesta hipótese a Receita Federal poderá alegar a “interposição fraudulenta de pessoas”, figura penal que requer crime conexo, qual seja, crime de lavagem ou ocultação de bens, direitos e valores, em que pese, para esta hipótese, ser necessária a existência de fortes indícios de que os recursos utilizados para pagamento das importações têm origem ilícita ou que a importação realizada pela empresa importadora, com recursos de terceiros. Nesta análise, a Receita Federal irá verificar a capacidade econômica e financeira do estabelecimento importador. Assim, sendo revelados indícios de incompatibilidade entre os volumes transacionados no comércio exterior e a capacidade econômica e financeira do importador, este ficará sujeito a procedimento especial de fiscalização, nos termos da Instrução Normativa da Fl. 52586DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.550 73 Secretaria da Receita Federal n° 228/02, podendo ter o CNPJ e / ou RADAR suspensos o que, por si, já se constitui em enorme inconveniente. A capacidade econômica da empresa importadora pode ser comprovada através de documentos contábeis que demonstrem a origem dos recursos utilizados para pagamento das importações. No relatório seguinte (fls. 41.402/41451), elaborado por uma conhecida empresa de auditoria, há expressa menção ao Relatório de Comentários e Recomendações sobre o serviço de auditoria anteriormente prestados, em que analisado as operações comerciais da recorrente MUDE, referentes ao ano de 2004. No relatório em referência, merece atenção o tópico sobre os “pontos já apresentados em relatórios anteriores”. Nele são apresentados comentários sobre o risco de equiparação da recorrente MUDE a estabelecimento industrial. Em relação esse alerta, a MUDE comentou que, a partir do ano de 2004, não mais adquiria os produtos da marca CISCO diretamente das tradings, mas das distribuidoras nacionais. Essa informação ratifica a informação da fiscalização de que, a partir do citado ano, a recorrente passou a adotar o denominado “duplo grau de blindagem”, com vistas a dificultar a descoberta do esquema de interposição fraudulenta pela fiscalização da Receita Federal. Induvidosamente, o conteúdo dos citados relatórios revelam que, desde o ano de 2003, a recorrente MUDE já tinha pleno conhecimento das impropriedades existentes no seu modelo de negócios com os produtos da marca CISCO, bem como das ilicitude do modus operandi das importações dos referidos produtos, realizadas com a participação de interpostas pessoas desprovidas de capacidade econômicofinanceira. No mesmo sentido, em 2007, o referido relatório de consultoria tributária também advertiu a recorrente MUDE de que o seu modelo de negócio, com os citados produtos, ainda apresentava fragilidades, de modo que a fiscalização da Receita Federal poderia caracterizar tais operações como sendo realizadas por “interposição fraudulenta de pessoas” e atribuirlhe a condição da “verdadeiro importador das mercadorias que comercializa e aplicar as multas pela falta de destaque do IPI e pela falta de pagamento do imposto.” E tal profecia se concretizou, em toda sua plenitude. Além disso, no item que trata da evolução do esquema de interposição fraudulenta em comento (fls. 29896/29912), a fiscalização informou que o esquema de importação fraudulenta em apreço iniciouse no ano de 2001. Em 30 de janeiro de 2003, na jurisdição da Delegacia da Receita Federal em Ilhéus/BA, foi deflagrada a primeira operação de fiscalização de combate à interposição fraudulenta envolvendo a importação de produtos da marca CISCO. Porém, em vez de cessar as importações fraudulentas, o “Grupo MUDE” ampliou e adotou procedimentos mais sofisticados de fraude, o que resultou na deflagração, em setembro de 2005, de uma segunda operação de fiscalização. Mais uma vez, o Grupo também não cessou as práticas fraudulentas, ao contrário, sofisticou ainda mais, porém mudou a central de operação do esquema para a cidade de São Paulo/SP e passou atuar na jurisdição da Inspetoria da Receita Federal em São Paulo, até a deflagração da operação “Persona” em 16/10/2007. Por todas essas considerações, fica demonstrado que a recorrente, não só participou do esquema fraudulento em referência, como o planejou, aperfeiçoou e o executou com o claro propósito de fugir dos controles aduaneiros e não se enquadrar na condição de real importadora e contribuinte do IPI, por equiparação a estabelecimento industrial. Portanto, agiu de forma dolosa e deve responder pela multa ofício qualificada, conforme aplicada pela fiscalização. Fl. 52587DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 74 I.6 Da Não Incidência dos Juros Moratórios sobre a Multa de Ofício Em relação a esse ponto, a recorrente MUDE alegou que, na remota hipótese de prevalecer a cobrança da multa de ofício, o que se admitia apenas a título argumentativo, não poderia incidir sobre ela os juros de mora, por ser flagrantemente ilegal a sua cobrança, por ausência de previsão legal. Para recorrente, os juros não podiam incidir sobre a referida multa, na medida em que ela não retratava a obrigação principal, mas sim encargo que se agregava ao valor da dívida, como forma de punir o devedor. Sem razão a recorrente. A cobrança dos juros moratórios sobre débito decorrente de tributos e contribuições encontrase prevista no art. 61, § 3º, enquanto que a cobrança do referido gravame sobre multa isolada encontrase estabelecida, expressamente, no parágrafo único do art. 43 do mesmo diploma legal, a seguir transcritos: Art. 43. Poderá ser formalizada exigência de crédito tributário correspondente exclusivamente a multa ou a juros de mora, isolada ou conjuntamente. Parágrafo único. Sobre o crédito constituído na forma deste artigo, não pago no respectivo vencimento, incidirão juros de mora, calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. (grifos não originais) Art. 61. Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1º de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. (...). § 3º Sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. (grifos não originais) Tratase de preceitos legais constantes do mesmo diploma legal, o que demonstra que o legislador, deliberada e intencionalmente, conferiu tratamento distinto para ambas as situações, mas com o objetivo de conferir tratamento isonômico, ou seja, cobrança dos juros moratórios em ambas os casos. E a justificativa para esse tratamento isonômico está no fato de a multa de ofício incidir sobre o valor do tributo devido, acrescido dos juros moratórios. Assim, na data do pagamento, tal gravame, automaticamente, também integrará o valor da multa de ofício, calculada proporcionalmente ao valor do tributo devido. Dito de outra forma: não são os juros moratórios que incidem sobre a multa de ofício, mas a multa que incide sobre o crédito tributário acrescido de juros moratórios. Logo, no âmbito do lançamento de ofício, por força do disposto no art. 80 da Lei 4.502/1964, com as alterações posteriores, os juros moratórios sempre comporão o valor da Fl. 52588DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.551 75 multa ofício, qualificada ou não, cujo valor é calculado proporcionalmente ao “valor do imposto que deixou de ser lançado ou recolhido”, acrescido do valor dos juros moratórios. De toda sorte, independente da cobrança da multa ser feita de forma isolada ou proporcional ao valor do imposto, os juros moratórios sempre serão devidos. No primeiro caso, o valor dos juros é calculado de forma direta, mediante aplicação do percentual dos juros sobre o valor da multa aplicada, enquanto que no segundo caso, o valor dos juros é calculado de forma indireta, mediante aplicação do percentual da multa sobre o valor do tributo devido, acrescido da dos juros moratórios. No mesmo sentido, o entendimento explicitado no enunciado da ementa do julgado que segue transcrito: JUROS SOBRE MULTA. A multa de oficio, segundo o disposto no art. 44 da Lei nº 9.430/96, deverá incidir sobre o crédito tributário não pago, consistente na diferença entre o tributo devido e aquilo que fora recolhido. Não procede ao argumento de que somente no caso do parágrafo único do art. 43 da Lei n° 9.430/96 é que poderá incidir juros de mora sobre a multa aplicada. Isso porque a previsão contida no dispositivo referese à aplicação de multa isolada sem crédito tributário, Assim, nada mais lógico que venha dispositivo legal expresso para fazer incidir os juros sobre a multa que não toma como base de incidência valores de crédito tributário sujeitos à incidência ordinária da multa. 9 Com base nessas considerações, fica demonstrada a improcedência da alegação da recorrente MUDE de que não havia amparo legal para a cobrança dos juros moratórios sobre o valor da referida multa de ofício. II DAS SUJEIÇÕES PASSIVAS SOLIDÁRIAS No Capítulo IX do TVF (fls. 1076/1081), a fiscalização incluiu no polo passivo da autuação 13 (treze pessoas físicas) e uma pessoa jurídica, com respaldo no art. 124, I, do CTN, a seguir transcrito: 124, I, do CTN, a seguir transcrito: Art. 124. São solidariamente obrigadas: I as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal; [...] (grifos não originais) Segundo a fiscalização, os fatos apurados e comprovados no curso da “Operação Persona” e do procedimento fiscal em apreço revelaram que as referidas pessoas tinham interesse comum nas operações constitutivas dos fatos geradores do crédito tributário objeto das presentes autuações, pelas seguintes razões, que seguem transcritas: 9 CARF. 1ª Seção. 4ª Câmara. 1ª Turma Ordinária, Ac. 140100.155, j. 28.01.2010, rel. Alexandre Antônio Allcmim Teixeira. Fl. 52589DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 76 A que as pessoas físicas e pessoa jurídica (grupo) abaixo relacionados tinham conhecimento da interposição fraudulenta e também tinham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal; B fraude ou conluio entre os componentes do grupo (na fraude ou conluio, o interesse comum se evidencia pelo próprio ajuste entre as partes, almejando a sonegação). A solidariedade passiva no pagamento de tributos por aqueles que agiram fraudulentamente, ou que concorreram para tal, é pacifica; C que as pessoas físicas relacionadas são sócios reais ou ocultos da MUDE; D que os elementos do grupo participaram para o sucesso da fraude; E que os elementos do grupo obtiveram ganhos ilícitos significativos. Para evidenciar a participação de cada um dos sujeitos passivos solidários pessoas físicas, vinculadas formal ou informalmente ao “Grupo MUDE”, cabe transcrever o seguinte excerto extraído TVF, que trata do quadro societário da recorrente MUDE: O seu quadro societário atual é composto por FERNANDO MACHADO GRECCO, [...], sócio administrativo com 75% do capital social, e HÉLIO BENETTI PEDREIRA, [...], sócio com 25% do capital social, ambos ingressos em 07 de julho de 2006. Já fizeram parte da sociedade JOSÉ ROBERTO PERNOMIAN RODRIGUES, [...], como sócio gerente (5%), ingresso em 15/01/2002, excluído em 12/03/2003; MARCÍLIO PALHARES LEMOS, [...], como administrador (0%), incluído em 15/01/2002, excluído em 07/01/2004; e LUIZ SCARPELLI FILHO, [...], como sócio (0,16%), ingresso em 07/01/2004, excluído em 07/07/2006. Todas estas pessoas têm atuação bem definida no esquema, e serão objeto de análise especifica no presente relatório. Também constam como exsócias as empresas estrangeiras: FULFILL HOLDING LTD (ILHAS VIRGENS BRITÂNICAS), [...], ingressa em 15/01/2002 (99,84%), excluída em 07/01/2004, cujo responsável perante a Receita Federal é o contador do grupo LENIVALDO FERNANDES DOS SANTOS, e o procurador é MARCÍLIO PALHARES LEMOS; e NORDSTROM TRADING S.A. (REPUBLICA DO PANAMA), [...], ingressa em 07/01/2004 (99,84%), excluída em 07/07/2006, cujo responsável é GUSTAVO HENRIQUE CASTELLARI PROCÓPIO, [...]. ANDRES MAXIMINO SANCHEZ e JOHN BENJAMIN FOSTER constam como diretores de ambas as empresas. MYRNA DE NAVARRO também consta como diretora da NORDSTROM. Estas pessoas, de origem panamenha, são interpostas pessoas do escritório de advocacia ALEMAN, CORDERO, GALINDO & LEE, especializado em direito financeiro e na criação e administração de empresas offshore, com sede no Panamá, e filiais em Luxemburgo, Bahamas, Belize e Ilhas Virgens Britânicas, e que, segundo seu site www.alcogal.com , possui entre seus clientes, a CISCO SYSTEM INC. Fl. 52590DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.552 77 No entanto, as investigações demonstraram que o quadro societário da MUDE seria uma farsa. (grifos não originais) Em suas peças recursais, os sujeitos passivos solidários recorrentes contestam os motivos da autuação e pedem a insubsistência dos respectivos Termos de Sujeição Passiva Solidária (TSPS), com base nas alegações que serão a seguir analisadas. II.1 Das Preliminares de Insubsistência dos TSPS. Os motivos pelos quais os responsáveis solidários foram incluídos no polo passivo da autuação em apreço encontramse explicitados nos respectivos TSPS, que integram os 14 volumes do Anexo V dos presentes autos (fls. 44023 e ss.). Em relação a esse ponto, a maioria dos recursos voluntários apresentam razões de defesa idênticas ou semelhantes. Assim, para evitar repetições desnecessárias, quando possível, elas serão apreciadas em conjunto. Das alegações comuns dos recorrentes pessoas físicas. A grande parte das pessoas físicas solidárias passivas alegaram a insubsistência dos respectivos TSPS, sob alegação de não era possível a utilização de provas emprestadas, produzidas no âmbito de procedimento criminal, para fim instrução do procedimento fiscal, matéria já anteriormente analisada e, pelas mesmas razões lá aduzidas, rejeita tais alegações. Ainda alegaram que a fiscalização não havia indicado o fato e o fundamento legal que deram ensejo à sujeição passiva solidária dos recorrentes, o que havia gerado prejuízo para elaboração das respectivas peças de defesa. Essa alegação não procede, pois, conforme precedentemente exposto, além de mencionar o motivo que ensejaram a inclusão dos recorrentes no polo passivo do questionado auto de infração (“interesse comum na situação constitutiva do fato gerador das obrigações tributárias”), há menção expressa ao fundamento legal que deu suporte a imputação da solidariedade em destaque. Ademais, nos respectivos TSPS, encontrase mencionado o art. 124, I, do CTN, bem como apresentados os fatos, acompanhado das respectivas provas, que motivaram a inclusão das referidas pessoas no polo passivo da autuação. Todos essas referências demonstram que tanto o enquadramento legal da imputação, quanto o fato que deu ensejo a sujeição passiva solidária, foram adequada e expressamente consignados pela fiscalização na autuação em apreço. Além disso, ao contrário do alegado, o teor das robustas peças de defesa colacionadas aos autos revela que os recorrentes não só compreenderam como se defenderam adequada e suficientemente da fundamentação fática e jurídica da questionada atribuição de sujeição passiva solidária. Das alegações da recorrente CISCO. A recorrente CISCO alegou que o TSPS contra ela lavrado era inválido, porque fora baseado em provas obtidas por meio de interceptação telefônica, exclusivamente destinada ao âmbito criminal, e sem que ela tivesse participado do contraditório e exercido o direito de defesa no âmbito citado procedimento criminal. Fl. 52591DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 78 Tais alegações foram anteriormente analisadas e restou demonstrado a improcedência, pois não existia a alegada vedação legal de que a prova, de qualquer tipo, produzida no âmbito do processo criminal, fosse utilizada no âmbito do processo administrativo fiscal, inclusive em relação às pessoas estranhas ao rol de investigados, especialmente, se restar comprovado, com base nas provas colhidas no curso procedimento investigatório, que os imputados cometeram ilícitos de natureza administrativa. Por essas razões, rejeitase as presentes alegações de insubsistência dos respectivos TSPS. II.2 Da Sujeição Passiva Solidária por Interesse Comum. Na autuação em apreço, conforme já mencionado, os recorrentes foram considerados sujeitos passivos solidários por interesse comum, com fundamento no art. 124, I, do CTN. A sujeição passiva solidária por interesse comum tratase de assunto que tem suscitado forte dissenso no âmbito da jurisprudência e da doutrina do País, de onde é possível extrair duas correntes com posições opostas. A primeira corrente, defendida por parte relevante da doutrina e endossada por parte da jurisprudência administrativa e judicial, defende que somente há solidariedade por interesse comum se houver interesse jurídico (comum), consistente na realização do fato jurídico tributário pelo solidário (solidariedade entre contribuintes). No seio dessa corrente, há os que defendem uma forma híbrida de solidariedade, com a seguinte característica: a uma parte da obrigação tributária determinado sujeito passivo solidário figuraria na condição de contribuinte e na parte restante ele figuraria como responsável, com se fosse possível dividir o fato jurídico em pedaços e imputar a determinado sujeito passivo a condição de contribuinte em relação a determinada fatia do fato gerador por ele realizado e a condição de responsável em relação a outra fatia do fato jurídico tributável realizada pelos demais solidários (solidariedade como contribuinte e solidariedade como responsável). A segunda corrente, capitaneada pelas autoridades fiscais, representantes da Fazenda Nacional, parte da jurisprudência e parte minoritária da doutrina, defende que há solidariedade passiva por interesse comum se houver interesse econômico (comum), que consiste no fato de o solidário ser beneficiário da operação que deu origem à tributação, ou seja, tenha tido algum proveito material ou econômico da transação ou negócio subjacente ao evento jurídico tributário. Uma vez definida, em apertada síntese, o ponto considerado essencial para cada corrente, passase a analisar, o entendimento esposado por cada delas. De início, cabe consignar que o entendimento, apresentado pela primeira corrente, esvazia por completo o conteúdo jurídico da norma em comento, tornandoa sem qualquer efeito jurídico, haja vista que, na condição de contribuinte, em face da indivisibilidade do fato jurídico tributário, todo contribuinte, necessariamente, é considerado sujeito passivo de o todo débito tributário e não apenas de parte dele como entendem os defensores da solidariedade mista. Ao passo que o entendimento esposado pela segunda, confere alcance demasiado amplo, de modo que poderia ser incluído no polo passivo da obrigação tributário pessoas sem, de fato, revelar interesse comum na situação constitutiva do fato gerador da respectiva obrigação. Fl. 52592DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.553 79 O significado e alcance da referida norma, com a devida vênia aos entendimentos distintos, pode ser extraído da expressão interesse comum, de conteúdo indeterminado, sem lhe atribuir qualquer qualificativo, que não seja aquele atribuído pelo próprio texto legal, ou seja, “interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal”. E qual é a situação constitutiva do fato gerador? Nos termos do art. 116 do CTN, pode ser uma situação de fato ou uma situação jurídica, integrante de uma relação jurídica de direito privado, caracterizada pela nota da bilateralidade de fatos, ou de uma situação jurídica isolada, marcada pela nota da unilateralidade. Com base nessa premissa, podese inferir que o interesse comum de que trata o citado preceito legal vinculase ao fato gerador do tributo (o fato imediato). De outra parte, fica excluído da possibilidade de participar do polo passivo da obrigação tributária, na condição de sujeito passivo solidário, toda pessoa que não manifeste interesse direto e imediato pelo fato eleito como gerador da obrigação tributária, em comum com a pessoa eleita como contribuinte. Com base nesse critério, a expressão “interesse comum”, isoladamente, não representa dado satisfatório ou roteiro seguro para a identificação do nexo de solidariedade tributária passiva, porém, quando relacionada com o fato gerador da obrigação tributária do respectivo tributo, agrega elementos seguros para se verificar a existência ou não de interesse comum entre o contribuinte e os solidários pelo crédito tributário devido. Com a ressaltava de que, em relação a determinados tipos de tributos, especialmente, aqueles caracterizados pela bilateralidade, maior dificuldade existe para se identificar o interesse comum revelados pelas pessoas intervenientes. No entanto, anda neste caso, se a análise for baseada no fato jurídico tributário, é possível vislumbrar quem, de fato, tem interesse na situação constituinte do fato gerador da obrigação tributária principal. Em relação aos tributos que tem como materialidade uma situação jurídica, caracterizada pela unilateralidade, a exemplo dos tributos sobre a propriedade (IPTU, IPVA, ITR etc.), tal dificuldade revelase quase inexiste, pois, para esses tipos de impostos, as únicas pessoas que têm interesse comum no fato gerador são os coproprietários dos bens alvo da tributação. Portanto, uma vez comprovada a propriedade em comum, todos os copartícipes, passam integrar o polo passivo da respectiva obrigação tributária, na condição de sujeitos passivos solidários. De outra parte, como já mencionado, há maior dificuldade, para a referida identificação, em relação aos tributos, cuja materialidade definida na Constituição Federal consiste numa situação caracterizada pela bilateralidade factual. Nesta hipótese, o legislador ordinário tem a opção de eleger qualquer dos fatos da relação jurídica como fato gerador do tributo, como se dá com os impostos sobre transmissão da propriedade imobiliária e os impostos sobre a produção e circulação. Em relação a esses impostos, sabidamente, por força do disposto nos arts. 42 e 66 do CTN, o fato gerador da obrigação tributária pode ser qualquer dos fatos que compõem a operação ou negócio bilateral, como dispuser a lei específica de cada imposto. A título de exemplo, citase o ITBI, nos casos em que há dois ou mais compradores. O mesmo se aplica ao IPI, quando dois ou mais forem os comerciantes vendedores. Fl. 52593DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 80 Outro dado relevante para o deslinde da controvérsia, consiste em saber se existe interesse comum nos casos de conluio, com vistas a realização de fraude tributária, especialmente, nos casos de fraude mediante simulação. Por óbvio, nessas hipóteses a verificação da existência do interesse comum não será analisado em relação ao fato simulado, mas relativamente ao fato jurídico tributário dissimulado e se provado que houve benefício ou proveito comum com a prática deste último, certamente, todos os beneficiários diretos e imediatos serão arrolados como sujeito passivo solidário do contribuinte formal, ou seja, aquele que praticou o fato jurídico tributário em nome e em benefício de todos. A análise da inclusão de cada um dos sujeitos passivos solidários no polo passivo da presente autuação, por revelar interesse comum com a contribuinte MUDE, será aqui analisada com base nesse critério, ou seja, se havia interesse de cada um deles no fato jurídico tributário constituinte da obrigação de pagar o IPI devido nas operações de revenda dos produtos da marca CISCO pela contribuinte MUDE. II.3 Das Alegações Comuns dos Recorrentes Pessoas Físicas e da CISCO. De modo geral, os recorrentes pessoas físicas alegaram que não podiam prevalecer os correspondentes TSPS, com base no argumento de que não tinham interesse jurídico na ocorrência do fato gerador, pois não haviam preenchido qualquer DI, não efetuaram em qualquer desembaraço aduaneiro, tampouco calcularam os valores dos tributos devidos nas operações, que foram atividades praticadas pelos importadores. Para os recorrentes, a responsabilidade solidária prevista no art. 124, I, do CTN, somente se aplicava aos contribuintes (art. 121, parágrafo único, I, do CTN), “assim considerados aqueles que efetivamente praticaram o verbo do critério material da hipótese de incidência”. Como exemplo, eles citaram a copropriedade de imóvel urbano, com participação igual de dois condôminos, em que, por força do regime de solidariedade, previsto no referido preceito legal, cada um seria responsável por toda dívida tributária do imóvel. Sem razão os recorrentes. O entendimento por eles esposado, com a devida vênia, além de não representar a melhor exegese do enunciado normativo veiculado no art. 124, I, do CTN, conforme anteriormente demonstrado, excluiria do polo passivo da obrigação tributária todas as pessoas que não se enquadrassem na condição de contribuinte formal, inclusive, os contribuintes de fato, que (i) se utilizassem da simulação e da fraude, com vistas a se eximir da condição de contribuinte, (ii) se beneficiassem de forma direta ou indireta dos ilícitos praticados e (iii) revelassem interesse no fato jurídico tributário, na mesma intensidade ou até mais do que o contribuinte que, formalmente, aparecesse e assumisse toda a responsabilidade tributária. Há prevalecer esse entendimento, o que se admite apenas para argumentar, o conteúdo normativo veiculado no art. 124, I, do CTN não teria qualquer efeito e tornarseia letramorta. Em decorrência estaria estabelecido o melhor dos mundos para os fraudadores e demais pessoas que agem e atuam a margem da lei. E a Administração tributária não teria instrumento jurídico algum para combater tais ilícitos contra Erário. Assim, como o direito não se presta como instrumento de incentivo ao ilícito, o entendimento que melhor confere significado e sentido ao disposto no art. 124, I, do CTN, é aquele que lhe atribui o efeito normativo de incorporar ao polo passivo da obrigação tributária todas as pessoas que demonstrem interesse comum na situação constituinte do fato gerador da obrigação tributária principal, ainda que, aparentemente, em face da simulação ou de outro Fl. 52594DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.554 81 meio fraudulento empregado, não tenham manifestado, de forma direta ou imediata, participação e interesse nos fatos fraudados ou simulados. Mas, uma vez retirado o véu que encobre as condutas fraudulentamente dissimuladas, emergem os fatos reais que foram ocultados, em relação aos quais, da mesma forma que o contribuinte aparente, ficam evidenciados o real interesse das pessoas ocultas no fato jurídicotributário dissimulado. No caso em tela, restou devidamente comprovado nos autos que as pessoas físicas integrantes do “Grupo MUDE” (sócios formais ou de fato, controladores, colaboradores etc.), arrolados no polo passivo da presente autuação, agiram como uma sociedade de fato, com o evidente intuito de evitar a equiparação da recorrente MUDE a estabelecimento industrial, mediante interposição fraudulenta de pessoas. Também restou demonstrado nos autos o proveito comum de todos os sujeitos passivos solidários nos vultosos ganhos obtidos com o esquema de fraude em comento, seja sob a forma de recebimento disfarçados de lucros, via empresas offshores particulares, seja sob a forma de ganhos adicionais elevados no aumento das vendas etc. O caso hipotético de cometimento de ilícito tributário, por parte de pessoa jurídica ativa e operacional, que, comprovadamente, tenha ocultado ou registrado indevidamente negócios jurídicos realizados em parceria com terceiros (sócios ocultos), para fim de benefício comum, foi analisada pelo exconselheiro Marcus Vinicius Neder, com seguintes termos, in verbis: Nessa hipótese, não há falar em fictícia interposição de pessoas, mas em sociedade comum ou de fato, pois não é possível distinguir a sociedade de fato de seus integrantes (pessoas físicas e jurídicas). Diante dessas condições, é perfeitamente possível evidenciar solidariedade entre as pessoas que compõem a sociedade de fato, eis que, além do patrimônio comum amealhado em razão do ilícito, há interesse comum nos negócios jurídicos realizados em benefício dos envolvidos.10 (grifos não originais) No caso em tela, é evidente a participação de todos os responsáveis solidários nas operações de importação objeto das presentes autuação, formalmente, realizadas por conta das mencionadas importadoras interpostas, mas, de fato, realizadas por conta e ordem da recorrente MUDE. Com efeito, as provas coligidas aos autos confirmam a união informal e clandestina de esforços da recorrente MUDE e dos recorrentes pessoas físicas e da recorrente CISCO, com o evidente intuito de fraudar o controle aduaneiro, cambial e administrativo, bem como o pagamento dos tributos incidentes nas operações de importação, especialmente, o valor do IPI devido pela real importadora MUDE, em razão da equiparação a estabelecimento industrial. E com esse procedimento, os sujeitos passivos solidários visaram se eximir, da mesma forma que a recorrente MUDE, de qualquer responsabilidade tributária, mediante ocultação dos reais responsáveis pelas operações de importação e beneficiários dos resultados econômicos obtidos com tais operações fraudulentas. Tratase, portanto, de ato antijurídico praticado sob a forma de coautoria, situação a que a doutrina civilista denomina de causalidade comum, que se caracteriza pela 10 NEDER, Marcos Vinicius. Solidariedade de direito e de fato reflexões acerca de seu conceito. FERRAGUT, Maria Rita; NEDER, Marcos Vinicius (Coord.). Responsabilidade tributária. 2007. São Paulo: Dialética, p. 46 Fl. 52595DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 82 existência de um único fato causador (unicidade de causa) no caso, a dissimulação da condição de real importador da MUDE , mas com a participação de diversas pessoas (pluralidade de autores) no caso, a contribuinte MUDE e todos os responsáveis solidários integrantes do “Grupo MUDE”, incluindo seus sócios ostensivos e ocultos. O entendimento aqui esposado não discrepa daquele que foi apresentado pela ilustre Prof. Maria Rita Ferragut, em brilhante parecer colacionado aos autos pela recorrente MUDE, no sentido de que “na solidariedade fundada na fraude, é condição necessária para sua aplicação a prova de que o sujeito tenha concorrido para o ilícito.” E, no caso em tela, tal condição foi plenamente atendida, porque, conforme a seguir demonstrado, todos os sujeitos passivos solidários recorrentes, não só concorreram para fraude, como dela tiraram proveito comum. Com base nesse entendimento, passase analisar as alegações comuns relevantes suscitadas pelos recorrentes sobre a inexistência de interesse comum entre eles e a contribuinte MUDE. Os recorrente alegaram que a sujeição passiva solidária somente existia se comprovada existência de interesse jurídico entre as partes, ou seja, quando as mesmas pessoas concorressem para prática do mesmo fato jurídico tributário e, em decorrência, houvesse coincidência do dever jurídico entre eles. Induvidosamente, os recorrentes referemse à forma de sujeição passiva solidária decorrente da condição de contribuintes (contribuintes formais), definida no art. 121, parágrafo único, I, do CTN. E o exemplo de sujeição passiva solidária relativa ao IPTU, caracterizada pela existência da copropriedade sobre o mesmo imóvel, ratifica o entendimento de que, neste caso, todos os coproprietários são solidários passivos por se enquadrarem na condição de contribuintes (formais). Essa hipótese é totalmente distinta do caso concreto objeto da presente autuação, em que as pessoas físicas e jurídica foram arroladas como sujeitos passivos solidários da contribuinte MUDE, por terem concorrido, mediante conluio, para a prática dos atos fraudulentos dissimuladores da equiparação da MUDE a estabelecimento industrial e, por conseguinte, dos fatos geradores do IPI. Assim, por revelarem interesse direto e imediato sobre tais fatos constitutivos da respectiva obrigação tributária, informalmente, todos eles são considerados contribuintes (contribuintes informais)11. No caso, a alegação de nulidade dos respectivos TSPS, por falta de prova que demonstrasse a antecipação de recursos por parte dos solidários, não procede, porque esse não foi o motivo da integração dos solidários ao polo passivo das autuações, mas da contribuinte formal MUDE, conforme anteriormente demonstrado. O motivo da atribuição da sujeição passiva solidária em questão, citase novamente, foi a demonstração do interesse comum dos solidários nas operações constitutivas dos fatos geradores do crédito tributário objeto das presentes autuações. Os recorrente alegaram ainda que a referida sujeição passiva não era extensível à multa de ofício qualificada aplicada. Essa alegação também não procede, haja vista que a solidariedade definida no art. 124, I, do CTN, referese a “situação que constitua o 11 Da analise das duas situações, fica evidenciado que a solidariedade passiva dos integrantes de um mesmo grupo econômico está condicionada a que fique devidamente comprovado: a) a existência de interesse imediato e comum nos resultados dos fatos geradores constitutivos da obrigação tributária principal (contribuintes formais); ou b) a existência do interesse imediato e comum na fraude ou no conluio, com o objetivo de se eximir do pagamento de tributos (contribuintes informais). Fl. 52596DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.555 83 fato gerador da obrigação principal”, logo, abrange o tributo e as multas de natureza tributária, conforme estabelecido no art. 113, § 1º, do CTN. Com base nessas conclusões, rejeitase todas as alegações comuns anteriormente explicitadas e passase a análise das razões da sujeição passiva solidária de cada recorrente. II.4 Das Razões da Sujeição Passiva Solidária e Alegações Específicas dos Recorrentes. Neste tópico, serão apresentadas as razões porque os sujeitos passivos solidários foram incorporados ao polo passivo da autuação e as razões de defesa específicas suscitadas por cada um deles. Da sujeição passiva solidária da recorrente CISCO. De acordo com TSPS colacionado aos autos (fls. 46710 e ss.), a recorrente CISCO foi incluída no polo passivo da autuação, na condição de sujeito passivo solidário, por ter concebido e executado, por intermédio do seu então Presidente para a América Latina, Carlos Roberto Carnevali, juntamente com Helio Benetti Pedreira e demais sujeitos passivos solidários integrantes do “Grupo MUDE”, o referenciado esquema de importação fraudulenta, conforme explicitado no Relatório RFB/IPEI n° BA20070005, que integra o Anexo I destes autos (fls. 29805 e ss.). A recorrente CISCO, constituída em 8/8/1994, atuava como representante, no Pais, da empresa norteamericana CISCO SYSTEM INC. Em face dessa condição, segundo a fiscalização, era esperado que esta empresa apresentasse um volume de importação de mercadorias compatível com a condição de líder mundial na área de tecnologia de informação. No entanto, grande parte das operações de comércio exterior realizada pela recorrente CISCO referiase a serviços e mercadorias para substituição de equipamentos em garantia. Segundo a fiscalização, a recorrente MUDE era quem se encarregava de operacionalizar as importações da quase totalidade dos produtos e serviços da marca CISCO para o País, por intermédio da rede de interposição fraudulenta já mencionada, e segundo as condições previamente estabelecidas pela CISCO DO BRASIL. No período da autuação, a fiscalização apurou que: a) as principais mercadorias estrangeiras comercializadas pela MUDE (em torno de 90% do total) eram os produtos acabados, fabricados pela CISCO na Califórnia/USA, que não necessitavam de nenhuma industrialização para o consumo final, tais como: chaves (switches), roteadores, módulos para roteadores/switch, cabos e distribuidores; b) os clientes brasileiros interessados nos produtos da marca CISCO faziam contato inicialmente com a recorrente CISCO, que definia o preço e as condições do negócio, que eram repassadas à recorrente MUDE, que fazia o pedido diretamente a CISCO SYSTEM INC. (Califórnia/USA); c) nos registros e documentos oficiais, entretanto, a exportação não era realizada diretamente pela CISCO americana, nem a importação diretamente pela MUDE, mas pelas empresas importadoras interpostas, que tinham como sócios, pessoas físicas sem capacidade econômicofinanceira e, geralmente, uma empresa offshore, situada em paraísos fiscais; e Fl. 52597DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 84 d) no exterior, a CISCO simulava a venda dos produtos, como se fosse uma operação interna nos Estados Unidos, para uma empresa do grupo MUDE, no caso a FULFILL HOLDING (Califórnia/USA), ou, em operações mais recentes, MUDE USA LCC (Miami/USA). Essas empresas, que representavam mais um nível de blindagem, atuavam entre a CISCO SYSTEM INC. e as exportadoras do esquema (3TECH, LATAM, GSD, LOGCIS, SUPERKIT), integrantes do “Grupo JDTC/MUDE”, que revendiam os produtos, também em operações simuladas, para importadoras interpostas (BRASTEC, ABC, PRIME e WAYTEC). Com base nessas informações, corroboradas com documentos idôneos, a fiscalização chegou a conclusão que a recorrente MUDE atuava como verdadeiro setor de importação da recorrente CISCO e, da essa condição, ela era a grande beneficiário do esquema de interposição fraudulenta criado para fugir aos controles fiscais e tributários nacionais. As provas colhidas no curso da “Operação Persona”, em especial, as transcrições dos diálogos telefônicos e das mensagens eletrônicas de fls. 46728/46741, demonstram que era a CISCO quem definia o preço e as condições dos negócios celebrados entre a MUDE e seus clientes finais. Nas mensagens, transcrições dos diálogos e planilhas eletrônicas, apreendidas na “Operação Persona”, colacionadas aos autos (fls. 46743/46757), comprovam que: a) havia estreita vinculação comercial entre a recorrente CISCO e a MUDE, b) a CISCO tinha pleno conhecimento do esquema de importação fraudulenta, planejado e executado pelo “Grupo MUDE” e, de forma próativa, contribuía para que ele fosse implementado; e c) os maiores ganhos era obtidos com a separação (split) 30% para hardware e 70% para software. Outro aspecto relevante para compreensão do forte vínculo entre a MUDE e a CISCO era a forma de financiamento das importações do “Grupo MUDE” e os agentes financeiros responsáveis pelo financiamento. Nesse sentido, os documentos de fls. 46760/46769 (mensagens eletrônicas, relatórios, atas de reunião, contratos financiamentos etc.), revelam que as operações da MUDE de aquisição de mercadorias junto à CISCO SYSTEM INC., nos Estados Unidos, baseavamse na obtenção de linhas de crédito perante os seguintes agentes financeiros americanos: CISCO CAPITAL, GE COMMERCIAL DISTRIBUTION FINANCE CORPORATION e o Banco CITIBANK. A empresa CISCO CAPITAL era uma empresa financeira pertencente diretamente ao “Grupo CISCO” e principal financiadora das operações de importação da MUDE. Em 2006, havia concedido a MUDE uma linha de crédito em torno de U$ 53 milhões. A GE COMMERCIAL, braço comercial financeiro do grupo GENERAL ELETRIC, teria concedido ao “Grupo MUDE” um crédito em torno de U$ 30 milhões, garantido, em parte, pelos estoques do grupo MUDE nos Estados Unidos. A concessão de créditos junto a estas instituições teria sempre o respaldo da própria CISCO SYSTEM INC., o que vincula, de forma significativa, a recorrente CISCO ao esquema de importação fraudulento do “Grupo MUDE”. Em suma, o financiamento das compras da MUDE perante a CISCO SYSTEM INC., era lastreado em créditos obtidos perante os agentes financeiros GE COMMERCIAL FINANCE, CITIBANK e à própria CISCO (através de sua subsidiária CISCO CAPITAL). E a obtenção ou aumento de crédito tinha sempre o respaldo da própria CISCO SYSTEM INC. Há ainda nos autos, um ACORDO DE NÃO REVELAÇÃO (NON DISCLOSURE AGREEMENT) (fls. 46757/46759), celebrado entre a MUDE, representada pela seu Diretor Operações, com a matriz americana CISCO SYSTEMS INC., representada pelo seu Gerente do Programa de Auditoria, por meio do qual esta empresa comprometese a não revelar as informações confidenciais a qualquer terceiro que não fossem funcionários da Fl. 52598DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.556 85 CISCO e empreiteiros que tinham uma necessidade de ter acesso ao conhecimento e à informação confidencial exclusivamente para fins internos da CISCO. Cabe ainda consignar que, ao utilizar o referido esquema de importação fraudulento, a recorrente CISCO abastecia o mercado nacional com preços abaixo dos de mercado, reduzia indevidamente a carga tributária que incidente sobre suas atividades e ainda evitava o controle da fiscalização sobre os “Preços de Transferência e Tributação em Bases Universais”, a que estaria sujeita, caso realizasse as operações de importação por conta própria ou por conta e ordem de terceiro regularmente habilitado. Com base nessas informações, confirmadas por documentação colacionada aos autos, fica demonstrada a improcedência das alegações da recorrente CISCO de que não era beneficiária do esquema das operações de importação realizadas pela MUDE, nem tinha conhecimento do esquema de importação fraudulenta e das empresas envolvidas. Também não merece guarida as alegações da recorrente CISCO no sentido de desqualificar as robustas provas regularmente colhidas e coligidas aos autos pela fiscalização, com autorização judicial. A recorrente ainda transcreve em seus recursos diversos trechos extraídos de diferentes relatórios elaborados pela fiscalização sobre o esquema de fraude em destaque, que, por estarem fora de contexto, não refletem as firmes conclusões a que chegou a fiscalização sobre a participação da recorrente no referido esquema de fraude. Em relação ao modelo negócio utilizado para na venda dos seus produtos no Brasil, a recorrente alegou que houve interpretação equivocada e tendenciosa por parte da fiscalização. Com devida vênia, diferentemente do alegado, a fiscalização não interpretou e tampouco questionou o suposto modelo de negócio da recorrente CISCO, mas o esquema de fraude nas importações dos referidos produtos para o Brasil. Portanto, sem relevância, para o deslinde da controvérsia essa alegação, por se tratar de fato estranho ao objeto das autuações. Diante dos fatos devidamente comprovados nos autos, também não se revela crível a alegação da recorrente de que atuava somente no suporte de prévenda (demonstração de produtos, apresentação de seminários etc.) e no fornecimento de partes para reposição em virtude de garantia. Diferentemente do alegado, as referidas informações prestadas pela fiscalização, respaldadas por documentação adequada, revelam que a recorrente CISCO não só tinha pleno conhecimento das importações fraudulentas, como foi uma das criadoras do esquema fraudulento em referência e colaboradoras da operacionalização e funcionamento do referido esquema. E financeiramente foi muito bem recompensada pelo esquema. Os seguintes fatos, relatados no TSPS e corroborados por documentos, ratificam essa conclusão: a) antes da existência da MUDE, relatou a fiscalização, que Carlos Roberto Carnevali e Hélio Benetti Pedreira, juntamente com a recorrente CISCO, na segunda metade dos anos de 1990 e início dos anos 2000 (até 2002), montaram uma pareceria estratégica com a UNIÃO DIGITAL”, empresa de Hélio Benetti Pedreira. Em pouco tempo, a UNIÃO DIGITAL se tornou a maior revendedora CISCO do País e da América Latina; Fl. 52599DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 86 b) a UNIÃO DIGITAL foi sucedida pela recorrente MUDE, no final do ano 2002, e continuou a atividade de revendedora dos produtos da marca CISCO. Quando, além de Hélio Benetti Pedreira, os demais responsáveis solidários pessoas físicas passaram a integrar o “Grupo MUDE”, que se transformou na quarta maior distribuidora dos produtos da marca CISCO do mundo e a melhor distribuidora da América Latina, nos últimos 7 (sete) anos anteriores a deflagração da “Operação Persona”; c) as mensagens eletrônicas e os diálogos dos executivos e gerentes da CISCO, extraído das interceptações telefônicas, confirmam a participação ativa e efetiva da empresa no esquema de importação com interposição fraudulenta operacionalizado pelo “Grupo MUDE”; e d) o oferecimento das condições para separação, apenas documental, entre software e hardware, para eximir as importadoras interpostas do pagamento dos tributos incidentes na operação de importação, em relação ao valor do software (em torno de 70%) integrado aos equipamentos importados. Por todas essas considerações, fica demonstrado que, ao contrário do alegado, a recorrente CISCO tinha pleno conhecimento e, ao lado MUDE e de seus sócios aparentes e ocultos, foi uma das beneficiárias do esquema de fraude em comento, pois obtivera expressivos ganhos econômicofinanceiros com as importações subfaturadas e o domínio de fatia relevante do mercador nacional. Em face dessa condição, a dita recorrente revela interesse comum na situação que constituía o fatos geradores das obrigações tributária dos tributos lançados, nos termos do art. 124, I, do CTN, portanto, deve ser mantida no polo passivo da autuação, na forma estabelecida no respectivo TSPS. Da sujeição passiva solidária de Fernando Machado Grecco. De acordo com o TSPS nº 001 (fls. 44024/44052), o recorrente Fernando Machado Grecco era, no período da autuação, o seu sócio formal majoritário (75% do capital social). O restante do capital social pertencia, formalmente, a Hélio Benetti Pedreira (25%). Na data da autuação, era sócio, ou exsócio, de diversas empresas do “Grupo JDTC/MUDE”. No “Grupo JDTC”, holding controladora da MUDE, ele participava com 3,41% do capital social, segundo levantamento feito pela fiscalização. Na MUDE, segundo a fiscalização, o recorrente tinha destacada atuação. No período da autuação, ocupava o cargo de Diretor de Marketing e Produtos. Também atuou como procurador da offshore operacional do “Grupo MUDE”, CANSONS INVESTMENTS. Assumiu uma dívida com a offshore operacional NORDSTROM, sediada no Panamá, controlada pelo “Grupo JDTC”, para enviar recursos ao exterior de maneira disfarçada. A posição ocupada pelo recorrente nos cargos de gerência e de direção da MUDE, segundo a fiscalização, permitia inferir que ele tinha pleno conhecimento e colaborava, de forma ativa e efetiva, para a prática dos fatos fraudulentos praticados pelo “Grupo MUDE”. Os documentos apreendidos no curso da “Operação Persona” (fls. 44065/44174) comprovam a sua participação no esquema de fraude e o recebimento do “Grupo MUDE” de elevadas quantias em dinheiro, de forma direta ou indireta (via empresa ORPHEUS, por serviços não prestados fls. 44053/44055), que confirmam que ele era um dos Fl. 52600DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.557 87 principais beneficiários dos resultados econômicofinanceiros angariados pelo esquema fraude em apreço. Há documentos acostados aos autos (fls. 44044/44049), que comprovam que o recorrente: a) recebeu vultosos depósitos nas contas bancárias da sua offshore particular BOYNTON (administrada, no Brasil, por sua irmã por procuração), localizada nas Ilhas Virgens Britânicas, decorrentes de pagamento de proventos e lucros distribuídos, certamente, auferidos com as atividades irregulares praticadas pelo “Grupo MUDE”; b) em seguida, tais recursos financeiros foram remetidos de volta para o País, a título de integralização de capital social da empresa ECOSSISTEMA EMPREENDIMENTOS E PARTICIPAÇÕES LTDA. (participação no capital social: 99% da offshore BOYNTON e 1% da irmã do recorrente); e, c) por fim, a referida empresa nacional utilizou tais recursos para aquisição de imóveis de valores elevados no País. Cabe ressaltar ainda que, após a deflagração da “Operação Persona”, o recorrente assumiu a propriedade da referida offshore, mediante retificações das suas declarações de IRPF (DIRPF). Esse procedimento ratifica o entendimento da fiscalização de que o recorrente era o controlador, de fato, da empresa ECOSSISTEMAS, e que os recursos financeiros introduzidos no País, para integralização de 99% do capital social da citada empresa, representavam parte dos recursos financeiros remetidos ao exterior pelo “Grupo MUDE” em favor da offshore do recorrente. Em relação a essas gravíssimas imputações e respectivos documentos, que as corroboram, nada de relevante foi alegado pelo recorrente ou apresentado qualquer documento idôneo que informassem as provas coligidas aos autos pela fiscalização. Por todas essas razões, não subsiste qualquer dúvida da configuração do interesse comum do citado recorrente nos fatos jurídicos tributários objeto da autuação em questão, logo, deve ser mantido no polo passivo da autuação, conforme proposto no citado TSPS. Da sujeição passiva solidária de Marcelo Naoki Ikeda. Segundo o TSPS nº 002 (fls. 44175/44215), o recorrente Marcelo Naoki Ikeda tinha participação ativa no Grupo JTDC/MUDE. De acordo com os organogramas do grupo, apreendidos no âmbito da “Operação Persona”, ele ocupava a posição de Diretor Comercial da MUDE, posição que, certamente, propicioulhe pleno conhecimento e ampla coloração para implementação do esquema de fraude em destaque. Após a deflagração da referida operação, retificou suas DIRPF, para declarar que era proprietário da offshore CORDELL, por meio da qual recebia vultosas quantias depositadas pelas empresas offshores operacionais do “Grupo MUDE”, a título de pagamentos de proventos e distribuição de lucros, auferidos com as atividades irregulares praticadas pelo grupo. Alguns depósitos eram proveniente das pessoas jurídicas interpostas utilizadas pelo grupo MUDE. Os documentos apreendidos com os integrantes do “Grupo MUDE” comprovam a venda de 75% da MUDE pelo Grupo JDTC. Após essa venda, segundo levantamento da fiscalização, o recorrente, em conjunto com Fernando Machado Grecco e Luiz Scarpelli Filho (Grupo LIG), passaram a deter 75% e o Grupo JDTC 25% de participação na MUDE. Fl. 52601DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 88 Tais depósitos comprovam que o recorrente foi um dos principais beneficiários dos resultados financeiros obtidos das importações fraudulentos realizadas pelo “Grupo MUDE”. Em relação a essas gravíssimas imputações e respectivos documentos, que as corroboram, nada de relevante foi alegado pelo recorrente ou apresentado qualquer documento idôneo que informassem as provas coligidas aos autos pela fiscalização. Por todos esses fatos, restou demonstrado o interesse comum do citado recorrente nos fatos jurídicos tributários objeto da autuação em apreço, logo, deve ser mantido no polo passivo das autuações, conforme proposto no correspondente TSPS. Da sujeição passiva solidária de Marcílio Palhares Lemos De acordo com o TSPS nº 003 (fls. 44384/44497), na época da autuação, o recorrente Marcílio Palhares Lemos era sócio e possuía vínculo com as seguintes e empresas do Grupo JDTC/MUDE: PLCON (90%); CBFM (56%); MUDE (exadministrador) e PHASE2 (exadministrador). Ele é contador, exadministrador da MUDE e, na época dos fatos, exercia o cargo de Diretor Financeiro da MUDE. Era o responsável pelo controle de todo o fluxo financeiro do esquema de importação realizado pelo “Grupo MUDE”, inclusive das empresas estrangeiras exportadoras e distribuidoras e das empresas offshores operacionais do “Grupo JDTC/MUDE”. Os documentos apreendidos no curso da “Operação Persona” (fls. 44390 e ss.) comprovam que ele acompanhava e controlava todos os custos envolvidos nos processos de importação realizados pelas importadoras interpostas, bem como monitorava, em relação a cada operação de importação: o valor das compras e despesas internacionais, bem como os valores de importação (frete, seguro, armazenagem, capatazia, despesa com agentes, impostos aduaneiros, comissão da importadora interposta etc.). Também participava da definição do preço de venda da importadora para a distribuidora e do preço de venda desta para a MUDE, o que comprova que a real importadora era a MUDE, e as operações de compra e venda realizadas entre as empresas eram simuladas para acobertar a real importadora. Ele também controlava as remessas de recursos financeiros, realizadas para a FULFILL HOLDING, que administrava por procuração, com amplos poderes de gestão, e para as offshores operacionais do “Grupo MUDE”, NORDSTROM e RAYWELL. As remessas eram feitas de duas formas distintas: via “IMPORTAÇÃO” (sob a forma de pagamento de fornecedores) e via “CABO” (por meio de doleiro). Ele também era responsável pelo controle das contas correntes abertas em instituições financeiras do exterior, em nome da FULFILL HOLDING. Por estas contas eram pagos os fornecedores, dentre os quais a CISCO SYSTEM INC., bem como realizadas transferências para as offshores operacionais do grupo e offshores particulares dos sócios formais e informais do grupo. A partir de setembro de 2006, a FULFILL HOLDING foi substituída pela MUDE USA na função de distribuidora interposta nos Estados e de “adquirir” as mercadorias junto à CISCO SYSTEM INC. para “revendêlas” para os exportadores interpostos. As investigações demonstraram ainda que o recorrente era a pessoa responsável pelas transferências internacionais, através de ordens dadas a LEO CORADINI (funcionário do Banco MERRILL LYNCH), para pagamento de serviços prestados pelo escritório de advocacia panamenho ALEMAN, CORDERO, GALINDO & LEE ALCOGAL. Fl. 52602DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.558 89 Ele participava formalmente da organização, compondo o chamado grupo dos seis (G6), os chamados “sócios minoritários”, com uma participação de 1,5% cada (totalizando 6 x 1,5% = 9%) nos resultados da empresa MUDE. Por tudo isso, o recorrente revelase ser um dos principais participantes do esquema interposição fraudulento operacionalizado pelo “Grupo MUDE”. A sua participação nesse esquema de importação fraudulenta vai além do cargo de Diretor Financeiro da MUDE. De fato, ele era um dos sócios ocultos de um grupo ainda maior denominado JDTC, sendo a MUDE um dos seus investimentos no País, estando cabalmente provado que se beneficiou do esquema de fraude em referência. Em razão dessa condição, fica demonstrado o interesse comum do recorrente nos fatos jurídicos tributários objeto da autuação, em decorrência, deve ser mantido no polo passivo das autuações, conforme proposto no TSPS lavrado em seu nome. Da sujeição passiva solidária de Moacyr Álvaro Sampaio. De acordo com o TSPS nº 004 (fls. 44498 e ss.), na época da autuação, o recorrente Moacyr Álvaro Sampaio era sócio de diversas empresas do “Grupo JDTC/MUDE”. Na época dos fatos, na MUDE, ocupava o cargo de Chief Executive Officer (CEO), considerado o mais elevado cargo da empresa. Segundo apurou a fiscalização, ao lado de Hélio Benetti Pedreira e Carlos Carnevali, ele era um dos três sócios majoritário do “Grupo JDTC”, holding controladora da MUDE, com participação de 27,98% no capital social. Apesar de não constar formalmente do quadro societário da MUDE, documentos apreendidos comprovam que ele era um dos principais colabores do esquema fraudulento de importação em comento. Participava ainda do quadro societário da MUDE USA e de uma exportadora interposta, a “LOGCIS”. Após a deflagração da “Operação Persona”, também retificou, várias vezes, suas DIRPF, para reconhecer participação em várias empresas offshores, por meio das quais recebia distribuição disfarçada de lucros, provenientes dos negócios fraudulentos do “Grupo MUDE”.. Ele utilizava tais offshores, para envio de recursos ao exterior e posterior retorno ao País, em geral, sob a forma de investimentos estrangeiros, em empresas patrimoniais, administradas por procuradores, com amplos poderes gerenciais. Segundo a fiscalização, tais condutas caracterizavam, em tese, crimes de evasão de divisas e de “lavagem” dinheiro ou ocultação de bens, direitos ou valores, tipificados, respectivamente, nas Leis 7.492/1986 e 9.613/1998. Era o proprietário da offshore patrimonial APRIL HOLDINGS OVERSEAS, utilizada para receber os depósitos dos lucros distribuídos disfarçadamente pelo grupo. O retorno desses recursos ao País se materializava por meio de remessas a empresas nacionais, vinculadas diretamente a referida offshore, sob a forma de investimentos de empresas estrangeiras no País. Em geral, são empresas patrimoniais, como a MOMA, cuja única função era ocultar a origem dos recursos utilizados na construção do patrimônio pessoal de cada “sócio”. Fl. 52603DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 90 Assim, provado que ele conhecia, participava e se beneficiou do referenciado esquema fraudulento, resta configurado o interesse comum do recorrente nos fatos jurídicos tributários objeto da autuação, portanto, deve ser mantido no polo passivo, conforme proposto no respectivo TSPS. Da sujeição passiva solidária de José Roberto Pernomian Rodrigues. De acordo do TSPS nº 007 (fls. 45069 e ss.), na data da autuação, o recorrente José Roberto Pernomian Rodrigues era sócio ou exsócio de diversas empresas do “Grupo JDTC/MUDE” e responsável por empresas estrangeiras. Ele ocupava o cargo de Diretor Operacional e de Finanças do “Grupo MUDE”. Ele foi um dos colabores e mentores do esquema de interposição fraudulenta e subfaturamento das importações dos produtos da marca CISCO. Entre os diretores do grupo, era o mais atuante. Sua jurisdição se estende a outras empresas do grupo, além da MUDE. A apreensão de planilhas e de outros documentos no curso da “Operação Persona”, na sua residência e no seu escritório, comprovam que tinha o controle da estrutura e das movimentações financeiras da organização. Dada essa condição, induvidosamente, ele tinha pleno conhecimento das operações do grupo no exterior e no Brasil e era um dos principais beneficiários do esquema de fraude em comento. Em razão dessa condição, fica demonstrado o interesse comum do recorrente nos fatos jurídicos tributários objeto da autuação, logo, deve ser mantido no polo passivo, conforme proposto no TSPS lavrado em seu nome. Da sujeição passiva solidária de Hélio Benetti Pedreira, Gustavo Henrique Castellari Procópio e Carlos Roberto Carnevali: alegações comuns. Os recorrentes Hélio Benetti Pedreira, Gustavo Henrique Castellari Procópio e Carlos Roberto Carnevali alegaram que, por meio da sentença proferida nos autos do Processo Criminal nº 000582749.2003.403.6181, que tramitou na 4ª Vara Criminal Federal em São Paulo/SP (fls. 50362/50512), foram absolvidos dos crimes objeto da denúncia do MPF. Essa decisão foi mantida pelo acórdão de fls. 52252/52257, proferido pela Primeira Turma do TRF da 3ª Região, no julgamento da Apelação Criminal nº 000582749.2003.4.03.618, que transito em julgado em 10/6/2015. De acordo com o dispositivo da referida Sentença, os referidos responsáveis solidários foram absolvidos da acusação dos delitos referentes ao uso de documentos ideologicamente falsos, com fulcro no art. 386, III, do CPP, e da prática dos demais crimes imputados na inicial, nos termos do art. 386, V, do CPP. E essa decisão foi integralmente confirmada no referido acórdão, prolatado pela Primeira Turma do TRF da 3ª Região, inclusive, com trânsito em julgado, conforme relatado. Em face da referida absolvição, os citados recorrentes pleitearam o cancelamento dos respectivos TSPS, sob o argumento de que a decisão prolatada na esfera criminal devia ser aplicada, ao caso em tela, uma vez que as provas utilizadas pela fiscalização, para lhes imputar responsabilidade tributária solidária, eram as mesmas utilizadas no Juízo criminal. Os recorrentes Hélio Benetti Pedreira e Gustavo Henrique Castellari Procópio alegaram ainda que havia independência relativa entre as esferas civil, criminal e Fl. 52604DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.559 91 administrativa no caso de absolvição por motivo formal, ao passo que seria meramente relativa, quanto a decisão criminal que negasse autoria do crime imputado ao acusado, o que, segundo eles, ocorrera no caso em tela. Da sujeição passiva solidária de Carlos Roberto Carnevali. De acordo com o TSPS nº 011 (fls. 46042/46085), na data da autuação, o recorrente Carlos Roberto Carnevali era sócio ou exsócio de empresas do “Grupo CISCO”. Ele foi incluído no polo passivo por ser o responsável pelos negócios no “Grupo CISCO” no Brasil e sócio oculto do “Grupo JDTC/MUDE”. Neste grupo, ele fazia parte do Conselho de Administração12 e participava ativamente da gestão das empresas do grupo. No “Grupo CISCO”, segundo o seu currículo extraído do sitio da CISCO (fls. 46047/46048), o recorrente fez parte do Conselho de Organização mundial de vendas, na área de estratégia e planejamento. Segundo o próprio recorrente, por seu excelente desempenho, a partir de 2004, passou a ser o responsável não apenas por todas as regiões da América Latina, como também pelas atividades do grupo Cisco no México, América Central e Caribe. O ingresso do recorrente no “Grupo CISCO” aconteceu no ano de 1994, com a missão de assessorar a implantação da subsidiária brasileira do referido grupo, CISCO DO BRASIL LTDA., a primeira empresa do grupo em operação na América Latina. Nessa empresa, ele permaneceu até a deflagração da “Operação Persona”, em setembro de 2007, quando foi demitido do cargo de vicepresidente para a América Latina. Com tanto prestígio e influência perante o “Grupo CISCO”, não há explicação plausível, a não ser os enormes ganhos com a referida fraude, porque, durante mais treze anos, o recorrente não tenha implantado a fábrica de componentes da CISCO no País, conforme alegou em sua defesa e que foi um dos argumento apresentados na referida Sentença para isentálo da acusação de sócio oculto da MUDE. Essa alegação, sem suporte em qualquer documento idôneo, mas apenas em depoimentos do próprio recorrente, confirmado por pessoas integrantes do “Grupo MUDE”, contraria provas cabais coligidas aos autos, em especial, os diálogos extraídos das interceptações telefônicas que, em conjunto e de forma congruente com as demais provas colacionadas aos autos, demonstram que, em vez de defensor de instalação de fábrica no Brasil, na verdade, o recorrente fora um dos principais mentores e executores do esquema de fraude em questão, cumprindo a função de sustentáculo do esquema perante a real exportadora CISCO SISTEMS INC., até a deflagração da “Operação Persona”, quando afastado do “Grupo CISCO”. Assim, não foi por mero acaso, que a partir do momento em que o esquema de importação fraudulento em referência foi debelado, com a prisão dos seus principais mentores e líderes, o recorrente foi, imediatamente, afastado do Grupo CISCO. Com base nas razões de decidir esposadas na referida decisão judicial, verificase que, em relação ao recorrente, foram apresentados, adicionalmente, os argumentos a seguir analisados. 12 Dcumento SP02IT1312 Email no qual HÉLIO PEDREIRA resume uma série de diretrizes decididas pelo Conselho de Administração ("Board"), citando, inclusive, função específica para CARLOS ROBERTO CARNEVALI. Fl. 52605DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 92 Em depoimento, o recorrente negara que nunca dirigiu a empresa COSELE, nem fora sócio de Hélio Benetti Pedreira na referida empresa, e que, apesar de haver trabalhado na referida empresa com ele, tal convívio fora interrompido por anos, sendo retomado somente em 1995 ou 1996, quando a mais de dois anos já era presidente da CISCO DO BRASIL LTDA., época em que a empresa UNIÃO DIGITAL, atual MUDE, vendia produtos para a empresa NEW PORT, adquirida pela CISCO; e que tal informação fora confirmada, em depoimento, por Hélio Benetti Pedreira. Tais fatos referemse a segunda metade dos anos de 1990 e início dos anos 2000 (até o final de 2002). E diferentemente do alegado pelo recorrente, a parceria entre ele e Hélio Benetti Pedreira, proprietário da empresa UNIÃO DIGITAL, que, na época se tornou a maior revendedora CISCO do País e da América Latina, não terminou com a desativação da referida empresa, em razão das elevadas autuações fiscais do ICMS, realizada pela fiscalização da SEFAZ/SP. Ao contrário do alegado, a partir do ano de 2002, com criação da empresa MUDE, que substituiu a empresa UNIÃO DIGITAL, a parceria entre o recorrente e Hélio Benetti Pedreira ganhou nova dimensão e se expandiu com a incorporação de novos sócios ao grupo, também relacionados como sujeitos passivos solidários, que deu origem a uma nova parceria, duradoura e muito lucrativa, entre o novo “Grupo JDTC/MUDE” e o “Grupo CISCO”, com vistas a implementação das operações de importação e distribuição dos produtos da marca CISCO no País. Em depoimento, o recorrente negou que era sócio oculto do “Grupo JDTC/MUDE” e que no diálogo com Moacyr Alvaro Sampaio buscava informações da MUDE, pois estava sendo sondado para participar da referida empresa, na medida em que estava em vias de ser demitido da CISCO, versão que foi confirmada pelos demais integrantes do “Grupo MUDE”. Além de não ter apresentado qualquer elemento idôneo que comprovasse o que alegara, os documentos colacionados aos autos, apreendidos no curso da “Operação Persona” demonstram que ele (i) teve participação na venda de 75% do “Grupo MUDE”, conforme planilhas de fls. 46058/46059, (ii) fez um aporte de capital para a JDTC Empreendimentos e Participações Ltda., mediante aplicação em um fundo da empresa americana STORM VENTURES, (iii) fez transferência de numerário para o fundo STORM VENTURES FUND II, LLC, por intermédio da sua offshore HARBORSIDE LTD., (iv) participou ativamente na gestão de novos projetos do grupo, (v) diversos documentos do “Grupo JDTC/MUDE foram encontrados na sua residência, que demonstram que, de forma oculta, ele integrava e participava do grupo. Além disso, mensagens eletrônicas apreendidas no âmbito da citada operação (fls. 46056/46057) revelam a preocupação que os demais parceiros/sócios do grupo tinham no sentido de não mencionar o nome do recorrente Carlos Roberto Carnevali como sócio do grupo, em razão dele exercer um cargo de direção na CISCO SYSTEMS INC. Ainda foram encontrados e apreendidos na residência do recorrente diversos documentos (fls. 46061 e ss.) que comprovam que ele era proprietário de várias empresas offshores em distintos paraísos fiscais (Ilhas Virgens Britânicas, Bahamas etc.). De todas as empresas offshores, merece destaque especial a PULLMAN OVERSEAS CORP., por intermédio da qual o recorrente recebia os recursos financeiros originários das práticas de interposição fraudulentas do “Grupo JDTC/MUDE”, depositados por intermédio da offshore operacional do “Grupo JDTC/MUDE”, de doleiro e do sócio Hélio Benetti Pedreira, conforme documentos de fls. 46072/46074. Fl. 52606DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.560 93 Assim, em cotejo com as provas documentais coligidas aos autos, entende este Relator que as referidas provas documentais colacionadas aos autos revelamse mais consistentes e verossímeis do que as simples provas testemunhais, confirmadas pelos próprios envolvidos no esquema de fraude e também acusados da prática dos mesmos ilícitos penais, que serviram de fundamento da referida decisão judicial. Especialmente, tendo em conta que na esfera cível são impedidos e suspeitos de atuar como testemunha, respectivamente, a pessoa que é parte na causa e a que tem interesse no litígio, conforme expressamente dispõem o inciso II do § 2º e o inciso do IV do § 3º do art. 40513 do CPC, que se aplica subsidiariamente ao PAF. Assim, fica demonstrado que, ao contrário do que alegou o recorrente, as provas utilizadas no Juízo criminal, para motivar a sua absolvição, inequivocamente, não foram as mesmas colacionadas aos autos pela fiscalização, para lhe imputar a sujeição passiva solidária em questão. Aliás, tais provas testemunhais sequer constam dos autos. Além disso, por força do disposto no art. 93514 do Código Civil, o fundamento da referida decisão absolutória, não vincula a decisão a ser proferida nesta instância administrativa. Tal vinculação somente ocorre, nos casos de absolvição do acusado na esfera penal por inexistência do fato ou negativa de autoria, nos termos do artigo 386, I e IV, do CPP, respectivamente. No caso, o motivo da absolvição do recorrente foi (i) por não constituir o fato infração penal, em relação aos delitos de uso de documentos ideologicamente falsos, e (ii) por existir circunstância que excluía o crime ou isentava o réu de pena, em relação aos demais crimes imputados na inicial, condições absolutórias previstas, respectivamente, no art. 386, III e V, do CPP, na época dos fatos vigente. Dada essa circunstância, este Relator entende que, por resultar em conclusão distinta, não se aplica ao caso em tela as razões de decidir consignadas na referida decisão judicial. Nos pressentes autos, os fatos apurados pela fiscalização, corroborados por provas adequadas, demonstram de forma irrefutável, que o recorrente, juntamente com Hélio Benetti Pedreira, foi um dos fundadores do esquema fraudulento e, durante todo o período da implementação da fraude, ele foi uma das pessoas chave na organização e execução do esquema fraudulento, ao promover a integração e colaboração entre o “Grupo CISCO” e o “Grupo JDTC/MUDE”. Ele foi ainda um dos grandes beneficiários do esquema, haja vista que, por intermédio de suas empresas offshores, recebeu vultosos recursos financeiros no exterior, provenientes dos resultados auferidos com os ilícitos aduaneiros e tributários cometido pela contribuinte MUDE. 13 Art. 405 Podem depor como testemunhas todas as pessoas, exceto as incapazes, impedidas ou suspeitas. (Alterado pela L005.9251973) [...] § 2º São impedidos: (Alterado pela L005.9251973) [...] II o que é parte na causa; [...] § 3º São suspeitos: (Alterado pela L005.9251973) [...] IV o que tiver interesse no litígio." 14 Art. 935. A responsabilidade civil é independente da criminal, não se podendo questionar mais sobre a existência do fato, ou sobre quem seja o seu autor, quando estas questões se acharem decididas no juízo criminal. Fl. 52607DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 94 Por todas essas razões, resta configurado o interesse comum do recorrente nos fatos jurídicos tributários objeto da autuação, portanto deve ser mantido no polo passivo, conforme proposto no respectivo TSPS. Da sujeição passiva solidária de Hélio Benetti Pedreira De acordo com o TSPS nº 005 (fls. 45563 e ss.), o sujeito passivo solidário Hélio Benetti Pedreira, na data autuação, era sócio, ou exsócio, de diversas empresas vinculadas ao “Grupo MUDE”. Ele participa do esquema de fraude, juntamente com Carlos Roberto Carnevali, desde seus primórdios. Inicialmente, por intermédio da empresa UNIÃO DIGITAL, e a partir do ano 2002, com a recorrente MUDE, inclusive, integrando o seu quadro societário, com 25% do capital social. Por essa razão, ele e Carlos Roberto Carnevali foram apontados pela fiscalização como os mentores e fundadores do esquema fraudulento em comento. Somente a partir da criação da MUDE, os demais sujeitos passivos solidários se integraram ao esquema fraudulento. Com base em planilhas apreendidas no curso da “Operação Persona” (fls. 45565/45568), a fiscalização apurou que, assim como Carlos Roberto Carnevali e Moacyr Álvaro Sampaio, Hélio Benetti Pedreira era um dos sócios majoritários informal (oculto) do “Grupo JDTC”, com participação de 27,98% do capital social. Outros documentos (planilhas, mensagens, carta de autorização de crédito etc.) apreendidos no curso da referida operação (fls. 45568 e ss.) comprovam que o recorrente tinha pleno conhecimento, praticava atos de gestão e se beneficiava do esquema de logística de importação e distribuição de produtos da marca CISCO no País. A título de exemplo, citase a planilha referente a distribuição de lucros da JDTC, no ano de 2007, em que o recorrente foi contemplado com a quantia de U$ 1.164.369,94, e distribuição de lucros da MUDE, no ano de 2006, contendo os valores distribuídos para cada um dos sócios, formais ou oculto, dentre eles o recorrente. Ainda foram encontrados e apreendidos no curso da citada operação (fls. 45577 e ss.) documentos que comprovam que ele era proprietário de várias empresas offshores em distintos paraísos fiscais (Ilhas Virgens Britânicas, Bahamas etc.), utilizadas para receber recursos financeiros do esquema no exterior e também participar do quadro societário de empresas patrimoniais no Brasil, com vista à ocultação do patrimônio pessoal do recorrente. Cabe ainda ressaltar que essas empresas, como outras offshores utilizadas pelo “Grupo JDTC/MUDE”, possuem em seu quadro diretivo interpostas pessoas (“laranjas”), vinculadas ao já referenciado escritório de advocacia ALEMAN, CORDERO, GALINDO & LEE (ALCOGAL), com sede no Panamá. Por intermédio dessas empresas offshores, o recorrente recebia os recursos financeiros originários das práticas de interposição fraudulentas do “Grupo JDTC/MUDE”, depositados por intermédio da offshore operacional do “Grupo JDTC/MUDE” e de doleiro, conforme documentos de fls. 45596/45597. Entretanto, apesar das referidas provas demonstrarem o contrário, na referida decisão judicial, que o absolveu do delito de descaminho, as razões apresentadas foram que nos autos do processo criminal (i) havia elementos que indicavam que o recorrente não participara da administração da MUDE e (ii) não havia comprovação de que o recorrente tivesse participado dos fatos ilícitos praticados pela MUDE. Segundo o MM. Juiz “a responsabilidade Fl. 52608DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.561 95 penal é subjetiva, não podendo haver condenação de quem quer que seja somente por figurar no contrato social de empresa.” Além disso, a decisão absolutória do recorrente foi fundamentada na versão explicitada no seu depoimento, confirmada por testemunhos dos próprios envolvidos no esquema de fraude e também acusados da prática dos mesmos ilícitos penais. Portanto, as provas utilizadas no Juízo criminal, para isentálo de culpa, não foram as mesmas colacionadas aos autos pela fiscalização, para lhe imputar a sujeição tributária solidária em questão. De outra parte, segundo a fiscalização, o recorrente não participava, formalmente, dos negócios do grupo, mas, de fato, ele era um dos principais mentores, executores e beneficiários da fraude em questão. Os fartos elementos de provas apreendidos no curso da “Operação Persona”, em especial as planilhas, os documentos bancários, as transcrições de interceptações telefônicas, extratos de aplicações financeiras no Brasil e no exterior etc., acima referenciados, corroboram tais conclusões apresentadas pela fiscalização. Com base nessas informações, resta evidenciado que não se aplica ao caso em tela as razões de decidir consignadas na referida decisão judicial. Em decorrência, fica demonstrada a improcedência da alegação do recorrente de que, em face da citada absolvição no processo criminal, as pretensas provas colacionadas a estes autos não podiam ser utilizadas para imputarlhe solidariedade passiva em questão. Também não se aplica ao caso em tela, a alegação do recorrente de que, no caso, não havia que se falar em independência das esferas cível, criminal e administrativa, uma vez que a sua absolvição foi por suposta negativa de autoria dos crimes que lhe foram imputados. Não procede a alegação do recorrente, porque a sua absolvição não foi por negativa de autoria, mas, (i) por não constituir o fato infração penal, nos termos do art. 386, III, do CPP, em relação aos delitos de uso de documentos ideologicamente falsos, e (ii) por existir circunstância que exclui o crime ou isente o réu de pena, na forma do art. 386, V, do CPP, conforme expressamente consignado no dispositivo da Sentença. E por esse motivo, por força do disposto no art. 935 do Código Civil, não há vinculação da instância administrativa ao que decidido na instância criminal. Tal vinculação somente ocorre, nos casos absolvição penal por inexistência do fato ou negativa de autoria, nos termos do artigo 386, I e IV, do CPP. Nesse sentido, tem se manifestado a jurisprudência do STF e do STJ, conforme se infere da leitura dos enunciados das ementas dos julgados, a seguir transcritos: DIREITO PROCESSUAL PENAL. RECURSO EM HABEAS CORPUS. MATÉRIA ELEITORAL. ALEGAÇÃO DE AUSÊNCIA DE JUSTA CAUSA. INDEPENDÊNCIA DAS INSTÂNCIAS. AÇÃO DE IMPUGNAÇÃO DE MANDATO ELETIVO E AÇÃO PENAL. IMPROVIMENTO. [...] Fl. 52609DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 96 3. O tema envolve a relativa independência das instâncias (civil e criminal), não sendo matéria desconhecida no Direito brasileiro. De acordo com o sistema jurídico brasileiro, é possível que de um mesmo fato (aí incluída a conduta humana) possa decorrer efeitos jurídicos diversos, inclusive em setores distintos do universo jurídico. Logo, um comportamento pode ser, simultaneamente, considerado ilícito civil, penal e administrativo, mas também pode repercutir em apenas uma das instâncias, daí a relativa independência. [...] 5. Somente haveria impossibilidade de questionamento em outra instância caso o juízo criminal houvesse deliberado categoricamente a respeito da inexistência do fato ou acerca da negativa de autoria (ou participação), o que evidencia a relativa independência das instâncias (Código Civil, art. 935). [...] 8. Recurso ordinário improvido. (RHC 91110, Relator(a): Min. ELLEN GRACIE, Segunda Turma, julgado em 05/08/2008, DJe 157 DIVULG 21082008 PUBLIC 22082008) ADMINISTRATIVO. MANDADO DE SEGURANÇA. PROCESSO ADMINISTRATIVO DISCIPLINAR. INFRAÇÃO ADMINISTRATIVA TAMBÉM TIPIFICADA COMO CRIME DE CONCUSSÃO. PRESCRIÇÃO. NÃOOCORRÊNCIA. INTERRUPÇÃO DO PRAZO. DEMISSÃO. ESFERA CRIMINAL. ABSOLVIÇÃO. INSUFICIÊNCIA DE PROVAS. INDEPENDÊNCIA DA INSTÂNCIA ADMINISTRATIVA. [...] 3. Tendo em vista a independência das instâncias administrativa e penal, a sentença criminal somente afastará a punição administrativa se reconhecer a nãoocorrência do fato ou a negativa de autoria, hipóteses inexistentes na espécie. Precedentes. 4. Segurança denegada. (MS 9772/DF, Rel. Ministra LAURITA VAZ, TERCEIRA SEÇÃO, julgado em 14/09/2005, DJ 26/10/2005, p. 73) RECURSO ESPECIAL. ADMINISTRATIVO. DIVERGÊNCIA JURISPRUDENCIAL. COTEJO ANALÍTICO. INEXISTÊNCIA. SIMILITUDE FÁTICA. DEMISSÃO. SENTENÇA PENAL ABSOLUTÓRIA. FALTA RESIDUAL. AUSÊNCIA DE REPERCUSSÃO. SÚMULA 18/STF. PRESCRIÇÃO. TERMO A QUO. SÚMULA 07/STJ. PUBLICAÇÃO. ATO DEMISSÓRIO. [...] 3. Prevalece no direito brasileiro a regra da independência das instâncias penal, civil e disciplinar, ressalvadas algumas exceções, v.g, em que a decisão proferida no juízo penal fará coisa julgada na seara cível e administrativa. 4. Neste sentido, a responsabilidade administrativa do servidor será afastada no caso de absolvição criminal que negue a Fl. 52610DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.562 97 existência do fato ou sua autoria, nos termos do art. 126 da Lei n.º 8.112/90, exceto se verificada falta disciplinar residual, não englobada pela sentença penal absolutória. Inteligência da Súmula 18/STF. [...] 7. Recurso especial parcialmente conhecido e, nesta parte, não provido. (REsp 1199083/SP, Rel. Ministro CASTRO MEIRA, SEGUNDA TURMA, julgado em 24/08/2010, DJe 08/09/2010) Ainda na tentativa justificar a sua alegação, o recorrente ainda cometeu um erro grosseiro, mas que não deixa de ser relevante. Tratase da transcrição do inciso V do artigo 386 do CPP, não com a sua redação, mas com a redação do inciso IV, vigente na época dos fatos15, conforme se observa nos textos a seguir transcritos: Art. 386. O juiz absolverá o réu, mencionando a causa na parte dispositiva, desde que reconheça: I estar provada a inexistência do fato; II não haver prova da existência do fato; III não constituir o fato infração penal; IV não existir prova de ter o réu concorrido para a infração penal; V existir circunstância que exclua o crime ou isente o réu de pena (arts. 17, 18, 19,22e24, §1o, do Código Penal); VI não existir prova suficiente para a condenação. [...] (grifos não originais) Da simples comparando das duas redações em destaque, verificase que a transcrição do inciso V, feita no recurso em apreço (fl. 51115), corresponde a redação do inciso IV, o que comprova o mencionado equívoco. Nos pressentes autos, os fatos apurados pela fiscalização, corroborados por provas adequadas, demonstram de forma irrefutável, que o recorrente, juntamente com Carlos Roberto Carnevali, foi um dos fundadores do esquema fraudulento e, durante todo o período da implementação da fraude, participou e colaborou e foi um dos beneficiários do esquema de fraude em referência, haja vista que, por intermédio de suas empresas offshores, recebeu vultosos recursos financeiros no exterior, provenientes dos resultados auferidos com os ilícitos aduaneiros e tributários cometido pela contribuinte MUDE. 15 A partir da vigência da Lei nº 11.690, de 2008, os incisos IV a VI passaram a ter a seguinte redação: "IV estar provado que o réu não concorreu para a infração penal;(Redação dada pela Lei nº 11.690, de 2008) V – não existir prova de ter o réu concorrido para a infração penal;(Redação dada pela Lei nº 11.690, de 2008) VI – existirem circunstâncias que excluam o crime ou isentem o réu de pena (arts. 20, 21, 22, 23,26e§ 1º do art. 28, todos do Código Penal), ou mesmo se houver fundada dúvida sobre sua existência;(Redação dada pela Lei nº 11.690, de 2008)" Fl. 52611DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 98 Por todas essas razões, resta configurado o interesse comum do recorrente nos fatos jurídicos tributários objeto da autuação, portanto, deve ser mantido no polo passivo, conforme proposto no respectivo TSPS. Da sujeição passiva solidária de Gustavo Henrique Castellari Procópio De acordo com o TSPS nº 006 (fls. 45306/45339), o recorrente Gustavo Henrique Castellari Procópio pertenceu ao “Grupo MUDE” desde a sua constituição. Ele era o advogado da MUDE e procurador das empresas offshore operacionais pertencente ao grupo e chegou a ocupar o cargo de Gerente de Operações. Nessa condição, ele tinha interesse comum nos fatos jurídicos tributários objeto do lançamento em apreço. Ele atuava nas empresas do grupo, sempre por meio de procurações com plenos poderes de gestão. Seja na constituição de empresas envolvidas no esquema de importação fraudulento, seja na administração delas, os conhecimentos jurídicos do recorrente foram fundamentais para implementação e manutenção do esquema fraudulento em destaque. Ele atuava como sócio oculto da empresa MUDE. Segundo a fiscalização, cabia ao recorrente “realizar o controle dos aspectos jurídicos que envolviam todas as empresas do grupo JDTC/MUDE no Brasil e no exterior. Esta atuação tem um alcance estendido também às empresas patrimoniais dos sócios ocultos da MUDE, em especial de MOACYR SAMPAIO.” De acordo com os documentos apreendidos no curso da “Operação Persona” (fls. 45325/45326), o recorrente recebia participação nos resultados da MUDE, por intermédio da sua empresa CASTELLARI PROCÓPIO ADVOGADOS. Por sua vez, o motivo consignado na referida decisão judicial, para absolvêlo do delito de descaminho foi baseado no fato de que, nos autos do processo criminal, havia provas que indicavam que ele possivelmente tinha conhecimento do esquema, mas que não participava da direção da MUDE nem das importações fraudulentas. Segundo o MM. Juiz, apenas o conhecimento do esquema fraudulento, o qual não restou totalmente comprovado, não era suficiente para responsabilizálo criminalmente. Além disso, a absolvição do recorrente foi fundamentada na versão explicitada no seu depoimento, confirmada por testemunhos dos próprios envolvidos no esquema de fraude e também acusados da prática dos mesmos ilícitos penais. Portanto, as provas utilizadas no Juízo criminal, para isentálo de culpa, não foram as mesmas colacionadas aos autos pela fiscalização, para lhe imputar a sujeição tributária solidária em questão. Com base nos relatos da fiscalização, fica demonstrado que o recorrente, embora não participasse, formalmente, da direção do Grupo, de fato, ele participava diretamente dos seus negócios e era um dos principais mentores, executores e beneficiários da fraude em questão. Assim, resta evidenciado que não se aplica ao caso em tela as razões de decidir consignadas na referida Sentença. Em decorrência, fica demonstrada a improcedência da alegação do recorrente de que, em face da citada absolvição no processo criminal, as pretensas provas colacionadas a estes autos não podiam ser utilizadas para imputarlhe a solidariedade tributária passiva em questão. Fl. 52612DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.563 99 Também não se aplica ao caso em tela a alegação do recorrente de inexistência de independência das esferas cível, criminal e administrativa, posto que a sua absolvição fora por suposta negativa de autoria dos crimes que lhe foram imputados na denúncia do MPF. A uma, porque a sua absolvição não foi por negativa de autoria, mas, (i) por não constituir o fato infração penal, nos termos do art. 386, III, do CPP, em relação aos delitos de uso de documentos ideologicamente falsos, e (ii) por existir circunstância que excluía o crime ou isentava o réu de pena, na forma do art. 386, V, do CPP, conforme expressamente consignado no Dispositivo da Sentença. A duas, porque encontrase consolidado na jurisprudência do STF e do STJ o entendimento de que somente nos casos em que há absolvição penal por inexistência do fato ou negativa de autoria, nos termos do artigo 386, I e IV, do CPP, é que, excepcionalmente, há vinculação das demais instância ao que decido no âmbito do processo criminal. Nesse sentido, confira o teor dos julgados anteriormente transcritos. A três, porque, na tentativa justificar a sua pretensão, o recorrente cometera o mesmo equívoco da troca da redação do inciso IV pela do inciso V do artigo 386 do CPP (fl. 6.144), anteriormente referenciada. Nos pressentes autos, os fatos apurados pela fiscalização, corroborados por provas adequadas, demonstram de forma irrefutável, que o recorrente conhecia, participou e colaborou e foi um dos beneficiários do esquema de fraude em referência, haja vista que, por intermédio de sua empresa de advocacia, recebeu recursos financeiros, provenientes dos resultados auferidos com os ilícitos aduaneiros e tributários cometido pela contribuinte MUDE. Por todas essas razões, resta configurado o interesse comum do recorrente nos fatos jurídicos tributários objeto da autuação, deve ser mantido no polo passivo, conforme proposto no respectivo TSPS. Com base nessas considerações, fica demonstrado o interesse comum do recorrente nos fatos jurídicos tributários objeto das autuações, devendo ser mantido no polo passivo das autuações, conforme proposto no TSPS. Da sujeição passiva solidária de Reinaldo de Paiva Grillo. De acordo com o TSPS nº 010 (fls. 45993/, o recorrente Reinaldo de Paiva Grillo foi incluído no polo passivo da autuação, porque atuava nas empresas do Grupo MUDE por procuração, com plenos poderes de gestão. Esse fato contradiz a alegação do recorrente de que era mero prestador de serviços ao “Grupo MUDE”. Os documentos colacionados aos autos demonstram que, além de ter pleno conhecimento do esquema fraudulento, ele contribuiu para o sucesso do grupo na fraude e dela era um dos beneficiários. Era ele quem controlava e operacionalizava toda a logística de importação dos produtos da marca CISCO. Segundo a fiscalização, ele comandava a empresa WHAT'S UP, responsável por supervisionar e controlar todos os procedimentos de compra, importação e entrega de produtos para a empresa MUDE. Os elementos obtidos demonstram que a WHATS' UP, chefiada pelo recorrente era o verdadeiro setor de importação da MUDE, tendo, inclusive, seus funcionários remunerados como empregados desta, e sendo incluída no organograma da MUDE como seu setor de logística. Fl. 52613DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 100 Como integrante da organização desde os seus primórdios, o recorrente tinha uma função importante na administração das offshores operacionais do grupo JDTC/MUDE. Ele atuava como procurador de algumas destas empresas, com plenos poderes para a prática de atos de gestão. Por todas essas razões, fica demonstrado o interesse comum do recorrente nos fatos jurídicos tributários objeto das autuações, devendo ser mantido no polo passivo da autuação, conforme proposto no TSPS lavrado em seu nome. Da sujeição passiva solidária de Pedro Luis Alves Costa. Segundo o TSPS nº 009 (fls. 45821/, o recorrente foi um dos principais responsável e beneficiário das operações fraudulentas do “Grupo MUDE”. Os documentos acostados aos autos confirmam que ele tinha participação direta na administração do Grupo JDTC/MUDE e foi contemplado por vultosa participação nos resultados econômico financeiros auferidos das atividades fraudulentas pelo referido grupo. As empresas offshores da sua propriedade, ostensivas ou ocultas, movimentaram elevadas quantias financeiras repassadas pelo esquema fraudulento do grupo, provenientes da distribuição de bônus pelas empresas importadoras de fachada. Essas atividades demonstram que recorrente tinha participantes direto e um dos principais beneficiários dos referidos econômicofinanceiros do esquema de fraude em comento. Portanto, diferentemente do alegado pelo recorrente, há provas abundantes nos autos que comprovam a sua participação nos resultados do “Grupo MUDE”, a exemplo , das planilhas de fls. 45836/45838, apreendidas no curso da “Operação Persona”, que comprovam que os valores recebidos pelo recorrente, em função de sua participação nas atividades fraudulentas do grupo, eram remetidos para suas offshores, dentre as quais, a offshore ZENROSS. Por todas essas razões, fica demonstrado o interesse comum do recorrente nos fatos jurídicos tributários objeto das autuações, devendo ser mantido no polo passivo da autuação, conforme proposto no TSPS lavrado em seu nome. B) DO RECURSO DE OFÍCIO O motivo da interposição do presente recurso de oficio foi a exclusão do polo passivo da autuação das pessoas físicas Cid Guardia Filho (conhecido por Kiko) e Ernâni Bertino Maciel, ambas arroladas como sujeitos passivos solidário. Para tal exclusão, as razões apresentadas pela Turma de Julgamento de primeiro foram as seguintes: a) que não restara comprovado que os citados sujeitos passivos solidários tivessem poder de comando, ou atuassem efetivamente na MUDE ou fizessem parte do “Grupo MUDE” como sócios, administradores, prepostos ou mandatários; e b) que não restara caracterizado que eles beneficiaramse financeiramente do esquema, mediante o recebimento de lucros advindos das operações simuladas, ou que tivessem ligação jurídica com o fato gerador do IPI devido nas operações de saída dos produtos da marca CISO do estabelecimento da recorrente MUDE. De acordo com o TSPS nº 012 (fls. 46348 e ss.) e o TSPS nº 013 (fls. 46610 e ss.), os recorridos, assim como os sócios da MUDE, eram considerados os mentores da estrutura de importação fraudulenta dos produtos da marca CISCO, montada pelo grupo JDTC/MUDE. Fl. 52614DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.564 101 Além integrarem formalmente o quadro societários de outras empresas, os recorridos eram os controladores do denominado “Grupo KIKO/ERNANI (K/E)” ou “Grupo K/E”, a quem pertenciam (i) as importadoras interpostas ABC, PRIME e BRASTEC e (ii) as distribuidoras interpostas NACIONAL e TECNOSUL. Essas foram as principais importadoras e distribuidoras interpostas utilizadas pelo esquema de interposição fraudulenta no período da autuação. A documentação colacionada aos autos, comprovam que essas empresas (importadoras e distribuidoras) eram responsáveis por parte da cadeia da logística de importação fraudulenta do “Grupo JDTC/MUDE”. E os seus controladores ocultos, ora recorridos, recebiam uma porcentagem sobre o valor das mercadorias que passavam por suas empresas interpostas (de “fachada”). As duas primeiras empresas importadoras interpostas (ABC e PRIME), formalmente, tinham como sócios uma pessoa física, sem capacidade econômicofinanceira (“laranja”), com participação, respectivamente, de 5% e 30% no capital social, e uma empresa offshore sediada, respectivamente, no Panamá e Bahamas (paraísos fiscais). A administração das referidas empresas era feita, por procuração com amplos poderes, por pessoa estranha ao quadro societário, vinculada aos reais controladores. O perfil operacional dessas empresas mostra que elas foram criadas para simular operações de importação por conta própria e ocultar o real importador, em especial, a recorrente MUDE. Além disso, supervalorizavam as mercadorias vendidas para as referidas distribuidoras e não pagavam os tributos devidos. Por sua vez, a empresa importadora BRASTEC tinha como sócio duas pessoas físicas sem capacidade econômicofinanceira (“laranja”), sendo um ambulante/pedreiro (95% do capital social) e o outro auxiliar administrativo (5% do capital social). Assim, como as duas primeiras, a administração da referida empresa era feita por procuração, pessoa estranha ao quadro societário, vinculada aos reais controladores (Kiko e Ernani). O perfil da empresa mostra que ela foi criada para simular operações de importação por conta própria e ocultar o real importador, no caso a MUDE. As duas empresas distribuidoras interpostas tinham como sócios duas pessoas físicas sem capacidade econômicofinanceira (“laranjas”) ferramenteiro, operadora de telemarketing etc. Elas tinham a função de simular as compras das importadoras e as revendas para a MUDE, conforme demonstrado nos autos. Segundo a fiscalização, os documentos apreendidos em meio magnético demonstravam: a) a estreita vinculação do “Grupo K/E” com o “Grupo JDTC/MUDE”, apesar deste não parecer ser o seu único cliente; e b) a existência do esquema de importação fraudulenta do grupo JDTC/MUDE, por meio das importadoras e distribuidoras pertencentes ao “Grupo K/E”. Na planilha eletrônica “FluxodiaOutra Atual.xls” (fl. 46379), apreendida no curso da “Operação Persona”, na residência de Marcílio Palhares Lemos, gerente financeiro da MUDE, continha informações do fluxo financeiro das pessoas jurídicas interpostas vinculadas ao “Grupo K/E”,. Dela foram extraídos dados referentes ao recebimento de valores por Cid Guardia Filho, oriundos de sua participação no esquema de importações irregulares capitaneada pelo “Grupo JDTC/MUDE”. Nos extratos bancários (fls. 46383/46384), apreendidos em meio magnético, na residência de Marcílio Palhares Lemos, constavam depósitos de elevados valores em contas Fl. 52615DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A 102 bancárias de empresas pertencentes ao “Grupo JDTC/MUDE”, provenientes das offshores do “Grupo K/E”, controladas por meio de procuração pelos citados recorridos. Os depoimentos prestados na Polícia Federal, por pessoas vinculadas ao “Grupo K/E”, ratificam essa condição. Os elementos apreendidos comprovam que os recorridos participavam ativamente do procedimento de importação fraudulenta em comento, onde apareciam como importadoras e distribuidoras para o “Grupo JDTC/MUDE” as empresas por eles criadas, cujos sócios eram interpostas pessoas e empresas offshores sediadas em paraísos fiscais, controladas por procuração, com amplo e ilimitados poderes, pelos recorridos. Os dados da planilha eletrônica “Kiko Maio.xls” (fls. 30030/30032), apreendida no curso da “Operação Persona”, comprovam que a remuneração dos serviços de interposição fraudulenta prestados pelas referidas importadoras e distribuidoras do “Grupo K/E” eram feita sob forma de comissão, calculada sobre o valor das mercadorias importadas. E de acordo com as conversas telefônicas (fls. 30034/30040), interceptadas com autorização judicial, os percentuais de comissão eram os seguintes: a) 3,0% para as importadoras nos processos de importação comerciais; b) 4,0% para as importadoras nos processos de importação industriais, e c) 0,5% para as distribuidoras. Os referidos dados ainda comprovam que a real importadora MUDE, além da comissão, reembolsava os valores dos tributos pagos pelas referidas empresas, incluindo a CPMF. As conversas telefônicas dos integrantes, interceptadas no curso da citada operação, ratificam tais informações. E os recorridos, na condição de sócios controladores ocultos das referidas empresas, eram os principais beneficiados pelos resultados obtidos pelas referidas empresas. Dessa forma, embora suficientes para demonstrar o interesse comum dos recorridos na situação constitutiva dos fatos geradores da obrigação principal, praticados pelas referidas empresas importadoras e distribuidoras do “Grupo K/E”, o mesmo não pode ser inferido em relação a situação constitutiva dos fatos geradores do IPI objeto da presente autuação, realizada contra a contribuinte MUDE. Assim, embora tenha ficado evidente que os recorridos atuaram em conluio com o “Grupo MUDE”, não restou comprovado o interesse comum deles na prática do fato gerador do tributo objeto da presente autuação. Com base nessas considerações, na parte que excluiu a sujeição passiva solidária dos recorrentes Cid Guardia Filho e Ernâni Bertino Maciel, não merece reparo a decisão de primeiro grau, logo os recorridos devem ser mantidos fora do polo passivo da presente autuação. C) DA CONCLUSÃO GERAL Por todo o exposto, votase pela rejeição das preliminares e pelo indeferimento do pedido de diligência/perícia e, no mérito, por NEGAR PROVIMENTO ao recurso de ofício e DAR PARCIAL PROVIMENTO ao recurso voluntário da MUDE, para reconhecer o direito de deduzir do valor do IPI lançado o valor do IPI destacado nas notas fiscais de venda emitidas pelas empresas importadoras interpostas. (assinado digitalmente) José Fernandes do Nascimento Fl. 52616DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A Processo nº 10803.000071/200967 Acórdão n.º 3302003.225 S3C3T2 Fl. 52.565 103 Fl. 52617DF CARF MF Impresso em 15/07/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 07/07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 07 /07/2016 por JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO, Assinado digitalmente em 14/07/2016 por RICARDO PAULO ROS A
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Numero do processo: 19515.003576/2005-70
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu May 19 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Mon Jun 20 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2003, 2004
DECLINAÇÃO DE COMPETÊNCIA. LANÇAMENTO DECORRENTE DE FISCALIZAÇÃO DE IRPJ.
Quando o lançamento para exigência do IPI tem origem em fatos apurados na fiscalização de IRPJ, deve-se declinar a competência do julgamento para a Primeira Seção do CARF.
Recurso de Ofício Não Conhecido
Numero da decisão: 3201-002.206
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não se conhecer do recurso de ofício e declinar a competência de julgamento para a Primeira Seção de Julgamento. Ausentes, justificadamente, as Conselheiras Mércia Helena Trajano D'Amorim e Ana Clarissa Masuko dos Santos Araujo.
Charles Mayer de Castro Souza - Presidente.
Winderley Morais Pereira - Relator.
Participaram do presente julgamento, os Conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza, José Luiz Feistauer de Oliveira, Cassio Shappo, Winderley Morais Pereira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Carlos Alberto Nascimento e Silva Pinto e Tatiana Josefovicz Belisario.
Nome do relator: WINDERLEY MORAIS PEREIRA
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ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2003, 2004 DECLINAÇÃO DE COMPETÊNCIA. LANÇAMENTO DECORRENTE DE FISCALIZAÇÃO DE IRPJ. Quando o lançamento para exigência do IPI tem origem em fatos apurados na fiscalização de IRPJ, devese declinar a competência do julgamento para a Primeira Seção do CARF. Recurso de Ofício Não Conhecido Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não se conhecer do recurso de ofício e declinar a competência de julgamento para a Primeira Seção de Julgamento. Ausentes, justificadamente, as Conselheiras Mércia Helena Trajano D'Amorim e Ana Clarissa Masuko dos Santos Araujo. Charles Mayer de Castro Souza Presidente. Winderley Morais Pereira Relator. Participaram do presente julgamento, os Conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza, José Luiz Feistauer de Oliveira, Cassio Shappo, Winderley Morais Pereira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Carlos Alberto Nascimento e Silva Pinto e Tatiana Josefovicz Belisario. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 51 5. 00 35 76 /2 00 5- 70 Fl. 1893DF CARF MF Impresso em 20/06/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/06/2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA, Assinado digitalmente em 18/06/ 2016 por CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA, Assinado digitalmente em 15/06/2016 por WINDERLEY MORAIS PER EIRA 2 Relatório Por bem descrever os fatos adoto, com as devidas adições, o relatório da primeira instância que passo a transcrever. "Com fulcro no Regulamento do Imposto Sobre Produtos Industrializados, aprovado pelo Decreto n° 4.544, de 26 de dezembro de 2002, foi lavrado o auto de infração de fl. 1.789, pelo AFRF Massanori Monobe, para exigir R$ 5.183.779,56 de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), R$ 1.860.760,90 de juros de mora calculados até 31/01/2006 e R$ 3.887.834,61 de multa proporcional ao valor do imposto, o que representa o crédito tributário consolidado de R$ 10.932.375,07. Consoante a descrição dos fatos, de fls. 1.790/1.791, e o termo de verificação e constatação, de fls. 1.780/1.782, a contribuinte recolheu a menor o imposto lançado; no que concerne ao período de abril de 2003 a agosto de 2004, foram constatadas diferenças entre os valores de faturamento constantes da GIA (Guia de Informação e Apuração do ICMS) e do livro Registro de Saídas, e os valores da DIPJ e DCTF, correspondentes à base de cálculo do imposto, de acordo com o demonstrativo de fls. 1.780 e 1.781. O lançamento de ofício decorreu do cotejo entre os valores informados nas referidas declarações, tendo sido aplicada a alíquota de 8% sobre a base de cálculo do tributo, a mais elevada das alíquotas praticadas pelo sujeito passivo, ex vi do RIPI/98, art. 423, §§ 1° e 2°. Regularmente cientificado em 24/02/2006 pelo mandatário Luiz Manuel Fittipaldi Ramos de Oliveira, advogado (cópia da procuração de fl. 43), apresentou o sujeito passivo a impugnação de fls. 1.795/1.817 em 28/03/2006, subscrita pelo mesmo procurador já mencionado (cópia da procuração também à fl. 1.818). A peça impugnatória apresentada pela pessoa jurídica autuada tem, em suma, os seguintes pontos a ser arrostados: 1. Preliminarmente, é demonstrada a tempestividade da impugnação; 2. A aplicação apenas da alíquota de 8%, sem levar em conta os reais percentuais aplicáveis a cada operação (inclusive ope ações não tributáveis), provoca uma superavaliação do valor total do auto de infração, com violação dos princípios da essencialidade e da seletividade que regem o IPI; no próprio auto de infração há o reconhecimento de que a impugnante promove saídas de produtos com alíquota de 5%; pelas inconstitucionalidades indicadas, o lançamento deve ser anulado; 3. A multa aplicada representa uma ofensa aos princípios da razoabilidade e da proporcionalidade, não sendo razoável , nem proporcional, sujeitar a impugnante à multa de 75% sobre o suposto crédito tributário, ou seja, em valores tão exacerbados; Fl. 1894DF CARF MF Impresso em 20/06/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/06/2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA, Assinado digitalmente em 18/06/ 2016 por CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA, Assinado digitalmente em 15/06/2016 por WINDERLEY MORAIS PER EIRA Processo nº 19515.003576/200570 Acórdão n.º 3201002.206 S3C2T1 Fl. 1.894 3 também deve ser mencionado o mandamento constitucional que veda o confisco (CF, art. 150, IV); 4. Há, ademais, ilegalidade e inconstitucionalidade na aplicação de juros de mora baseados na taxa Selic, que, instituída pelo Banco Central e tendo em vista a natureza eminentemente remuneratória e não moratória, somente poderia ser utilizada no caso de obrigações privadas, nos termos de julgado do STJ; a prerrogativa do Banco Central de aumentar a taxa Selic a qualquer tempo acarreta majoração ilegítima de tributo, sendo que existe o limite posto pelo CTN (art. 161, § 1°), de 1% ao mês; o princípio constitucional do nãoconfisco também é violado; 5. Como foi concedida concordata preventiva nos autos do processo n° 711.482/1998, ajuizado perante a 19 Vara Cível da Comarca de São Paulo, Capital, deve ser afastada a sanção imposta, uma vez que o período de apuração está compreendido naquele em que operavam os efeitos da concordata preventiva (anteriormente ao advento da Lei n° 11.101, de 2005, que regula a recuperação judicial), pois a lei deve ser aplicada de maneira mais favorável ao sujeito passivo (CTN, art. 112), conforme pronunciamento judicial trazido à baila; 6. Por derradeiro, deve ser dado provimento à impugnação, com a anulação do auto de infração, por ser este baseado em alíquota máxima, sem distinção das operações praticadas pela contribuinte, o que é uma violação constitucional; outrossim, deve ser anulada a multa aplicada e afastada a taxa Selic; as intimações de despachos e de decisões devem ser encaminhadas aos procuradores da empresa." A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento deu provimento as alegações da recorrente, cancelando integralmente o lançamento. A decisão foi assim ementada: “ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Anocalendário: 2003, 2004 NULIDADE. VÍCIO FORMAL. A ausência ou deficiência de requisito nuclear do auto de infração, notadamente a descrição dos fatos, dá azo à declaração de nulidade do feito, de oficio, por vício formal, ressalvada a possibilidade de renovação do ato administrativo dentro do prazo decadencial previsto em lei. Lançamento Nulo.” Sendo o valor exonerado superior ao valor de alçada, foi proposto o competente recurso de ofício. Fl. 1895DF CARF MF Impresso em 20/06/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/06/2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA, Assinado digitalmente em 18/06/ 2016 por CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA, Assinado digitalmente em 15/06/2016 por WINDERLEY MORAIS PER EIRA 4 É o Relatório. Voto Conselheiro Winderley Morais Pereira, Relator. A teor do relatado, os fatos que ensejaram o lançamento tiveram origem em procedimento anterior de fiscalização do IRPJ, sendo o auto de infração, controlado no presente processo, decorrente daquela fiscalização. Tal posição é confirmada pela decisão da DRJ. Transcrevo abaixo trecho do voto condutor da decisão de piso, que analisou o mérito do presente lançamento. (fl. 1872) Do exame percuciente do auto de infração e suas circunstâncias, a seguinte constatação pode ser explicitada: 1. Houve lançamento de ofício na órbita do IRPJ, entre outras hipóteses, pela caracterização de omissão de receita em virtude de divergências apuradas entre os valores relativos aos faturamentos mensais, informados aos fiscos estadual e federal, sendo que estes se apresentam em valores inferiores àqueles (processo n° 19515.003578/200569; Acórdão DRJ/SPOI n° 16 10.068, de 17/08/2006); 2. Foram juntadas aos autos, pela autoridade fiscal, cópias do livro Registro de Saídas (em que constam operações com débito de IPI), às fls. 48/1.624, e de Guias de Informação e Apuração do ICMS (GIA), às fls. 1.625/1.775; todavia, não foram anexadas cópias do livro Registro de Apuração do IPI, não obstante a empresa ser estabelecimento industrial e este ser um livro de escrituração obrigatória, em que é empreendida a apuração periódica do imposto; 3. Os montantes apurados em ambos os documentos acima aludidos não apresentam divergências comparáveis àquelas existentes entre os valores registrados em GIA e em DIPJ/DCTF: p. ex. abril/2003, Registro de Saídas (valor contábil: R$ 3.904.817,02; base de cálculo: R$ 3.619.897,11) e GIA (valor contábil: R$ 3.799.721,59; base de cálculo: R$3.799.721,59); outubro/2003, Registro de Saídas (valor contábil: R$ 5.078.099,37; base de cálculo: R$ 4.840.569,03) e GIA (valor contábil: R$ 4.940.335,89; base de cálculo: R$4.676.275,28);." Ao analisar a competência desta Seção para apreciar o recurso em questão, faz se necessária acatar a determinação do Regimento Interno do CARF, que define à Primeira Seção a competência para julgar recursos de oficio e voluntário, dos tributos conexos, decorrentes ou reflexos, cuja exigência esteja lastreada em fatos apurados em fiscalização do IRPJ, conforme previsto art. 2º, inciso IV do Anexo II, do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015, com as alterações promovidas pela Portaria MF nº 151, de 03 maio de 2016, transcrito abaixo. Fl. 1896DF CARF MF Impresso em 20/06/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/06/2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA, Assinado digitalmente em 18/06/ 2016 por CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA, Assinado digitalmente em 15/06/2016 por WINDERLEY MORAIS PER EIRA Processo nº 19515.003576/200570 Acórdão n.º 3201002.206 S3C2T1 Fl. 1.895 5 “Art. 2º À 1ª (primeira) Seção cabe processar e julgar recursos de ofício e voluntário de decisão de 1ª (primeira) instância que versem sobre aplicação da legislação relativa a: I Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ); II Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL); III Imposto sobre a Renda Retido na Fonte (IRRF), quando se tratar de antecipação do IRPJ; IV CSLL, IRRF, Contribuição para o PIS/Pasep ou Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins), Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), Contribuição Previdenciária sobre a Receita Bruta (CPRB), quando reflexos do IRPJ, formalizados com base nos mesmos elementos de prova;.” A conexão o presente processo com o lançamento de IRPJ foi objeto de despacho que já tinha declinado a competência do julgamento a Primeira Seção do CARF (fl. 1889). Entretanto, o processo retornou para esta Terceira Seção, sendo sorteado para minha relatoria. Acredito que o fato decorra das alterações dos regimentos internos do CARF, que a partir da edição da Portaria MF nº 343/2015 excluiu a competência do julgamento dos processos de IPI reflexos de IRPJ pela Primeira Seção do CARF. Porém, com a edição da Portaria MF nº 151/2016 foi restaurada a competência da Primeira Seção para o julgamento destes processos que tratam de lançamento de IPI reflexos de fiscalização de IRPJ. No case em tela, confirmado que a exigência do IPI decorre de fatos apurados em fiscalização de IRPJ, voto no sentido de não conhecer do recurso e declinar a competência do julgamento à Primeira Seção do CARF. Winderley Morais Pereira Fl. 1897DF CARF MF Impresso em 20/06/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/06/2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA, Assinado digitalmente em 18/06/ 2016 por CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA, Assinado digitalmente em 15/06/2016 por WINDERLEY MORAIS PER EIRA
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Numero do processo: 16561.720053/2013-58
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Mar 01 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Wed Apr 13 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2008, 2009, 2010, 2011
JUROS DE MORA. TAXA SELIC.
A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC para títulos federais (Súmula CARF nº 4).
JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO.
A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à taxa SELIC. Precedentes das três turmas da Câmara Superior - Acórdãos 9101-001.863, 9202-003.150 e 9303-002.400. Precedentes do STJ - AgRg no REsp 1.335.688-PR, REsp 1.492.246-RS e REsp 1.510.603-CE.
MULTA ISOLADA POR FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS. MULTA DE OFÍCIO PELA FALTA OU INSUFICIÊNCIA DE TRIBUTO. MATERIALIDADES DISTINTAS. NOVA REDAÇÃO DADA PELA MP 351/2007. APLICÁVEL À FALTA DE RECOLHIMENTO DAS ESTIMATIVAS A PARTIR DA COMPETÊNCIA DE DEZEMBRO DE 2006.
A partir do advento da MP 351/2007, convertida na Lei 11.488/2007 a multa isolada passa a incidir sobre o valor não recolhido da estimativa mensal independentemente do valor do tributo devido ao final do ano, cuja falta ou insuficiência, se apurada, estaria sujeita à incidência da multa de ofício. São duas materialidades distintas, uma refere-se ao ressarcimento ao Estado pela não entrada de recursos no tempo determinado e a outra pelo não oferecimento à tributação de valores que estariam sujeitos à mesma.
Recurso Voluntário Provido em Parte.
Se determinada despesa dedutível era dedutível do lucro real apurado pela holding, se esta vem a ser incorporada pela investida, a despesa antes dedutível assim permanecerá sendo na sucessora. Inteligência do disposto no caput do art. 227 da Lei nº 6.404/76.
JUROS SOBRE O CAPITAL PRÓPRIO. PAGAMENTO DESPROPORCIONAL À PARTICIPAÇÃO NO CAPITAL SOCIAL
Os juros sobre capital próprio que são dedutíveis na apuração do resultado tributável são somente os que são pagos ou creditados individualizadamente a cada titular, sócio ou acionista a título de remuneração do capital. Não se enquadram como tal e são indedutíveis os juros pagos ou creditados que excederem ao que beneficiário teria direito de acordo com sua participação no capital social da empresa.
COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZO FISCAL. RESTABELECIMENTO DO SALDO GLOSADO.
Tendo sido restabelecida a dedutibilidade de despesas glosadas no lançamento, restabelecem-se também os saldos de prejuízo fiscal e de base negativa de CSLL.
Constatado que o saldo restabelecido é superior à insuficiência de saldo apontada no lançamento, cancela-se também a infração correspondente.
LANÇAMENTO REFLEXO. CSLL
Dada a íntima relação de causa e efeito, aplica-se ao lançamento reflexo o decidido no principal.
Numero da decisão: 1402-002.119
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, dar provimento parcial nos seguintes termos: i) por unanimidade de votos, para cancelar a exigência referente à glosa de despesas financeiras e determinar a reconstituição do saldo de prejuízos fiscais e base de cálculo negativa da CSLL como decorrência desse entendimento; e ii) por maioria de votos, para reduzir a multa de ofício ao percentual de 75%, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. Vencidos os Conselheiros Frederico Augusto Gomes de Alencar e Paulo Mateus Ciccone, que votaram por manter a multa no percentual em que foi aplicada. Os Conselheiros Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Frederico Augusto Gomes de Alencar e Demetrius Nichele Macei votaram por cancelar a exigência da multa isolada que foi mantida por voto de qualidade.
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(assinado digitalmente)
LEONARDO DE ANDRADE COUTO - Presidente
(assinado digitalmente)
FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Demetrius Nichele Macei, Frederico Augusto Gomes de Alencar, Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Leonardo de Andrade Couto, Leonardo Luís Pagano Gonçalves e Paulo Mateus Ciccone.
Nome do relator: FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO
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INEXISTÊNCIA DE EXTINÇÃO DO INVESTIMENTO. REESTRUTURAÇÃO SOCIETÁRIA. UTILIZAÇÃO DE EMPRESA VEÍCULO. AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO INDEVIDA. O direito à contabilização do ágio não pode ser confundido com o direito à sua amortização. Em regra, o ágio efetivamente pago em operação entre empresas não ligadas e calcadas em laudo que comprove a expectativa de rentabilidade futura deve compor o custo do investimento, sendo dedutível somente no momento da alienação de tal investimento (inteligência do art. 426 do RIR/99). A exceção trazida pelo caput do art. 386, e seu inciso III, pressupõe uma efetiva reestruturação societária na qual a investidora absorve parcela do patrimônio da investida, ou viceversa (§6º, II). A utilização de sociedade veículo, de curta duração, colimando atingir posição legal privilegiada, constitui prova da artificialidade daquela sociedade e das operações nas quais ela tomou parte, notadamente a antecipação de exclusões do lucro real e da base de cálculo da CSLL. A operação mediante incorporação intermediária, intragrupo, com o propósito eminentemente fiscal, deve ser desconsiderada para fins tributários. Inexistindo real extinção do investimento mediante reestruturação societária entre investida e investidora não há que se falar em amortização do ágio, não se admitindo sua transferência para terceiros para que usufruam de tais despesas. ENCARGOS FINANCEIROS DEDUTÍVEIS NA HOLDING. INCORPORAÇÃO REVERSA. IMPOSSIBILIDADE DE GLOSA DOS MESMOS ENCARGOS. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 56 1. 72 00 53 /2 01 3- 58 Fl. 17269DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 2 Se determinada despesa dedutível era dedutível do lucro real apurado pela holding, se esta vem a ser incorporada pela investida, a despesa antes dedutível assim permanecerá sendo na sucessora. Inteligência do disposto no caput do art. 227 da Lei nº 6.404/76. JUROS SOBRE O CAPITAL PRÓPRIO. PAGAMENTO DESPROPORCIONAL À PARTICIPAÇÃO NO CAPITAL SOCIAL Os juros sobre capital próprio que são dedutíveis na apuração do resultado tributável são somente os que são pagos ou creditados individualizadamente a cada titular, sócio ou acionista a título de remuneração do capital. Não se enquadram como tal e são indedutíveis os juros pagos ou creditados que excederem ao que beneficiário teria direito de acordo com sua participação no capital social da empresa. COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZO FISCAL. RESTABELECIMENTO DO SALDO GLOSADO. Tendo sido restabelecida a dedutibilidade de despesas glosadas no lançamento, restabelecemse também os saldos de prejuízo fiscal e de base negativa de CSLL. Constatado que o saldo restabelecido é superior à insuficiência de saldo apontada no lançamento, cancelase também a infração correspondente. LANÇAMENTO REFLEXO. CSLL Dada a íntima relação de causa e efeito, aplicase ao lançamento reflexo o decidido no principal. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2008, 2009, 2010, 2011 JUROS DE MORA. TAXA SELIC. A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais (Súmula CARF nº 4). JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à taxa SELIC. Precedentes das três turmas da Câmara Superior Acórdãos 9101001.863, 9202003.150 e 9303 002.400. Precedentes do STJ AgRg no REsp 1.335.688PR, REsp 1.492.246RS e REsp 1.510.603CE. MULTA ISOLADA POR FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS. MULTA DE OFÍCIO PELA FALTA OU INSUFICIÊNCIA DE TRIBUTO. MATERIALIDADES DISTINTAS. NOVA REDAÇÃO DADA PELA MP 351/2007. APLICÁVEL À FALTA DE RECOLHIMENTO DAS ESTIMATIVAS A PARTIR DA COMPETÊNCIA DE DEZEMBRO DE 2006. A partir do advento da MP 351/2007, convertida na Lei 11.488/2007 a multa isolada passa a incidir sobre o valor não recolhido da estimativa mensal independentemente do valor do tributo devido ao final do ano, cuja falta ou insuficiência, se apurada, estaria sujeita à incidência da multa de ofício. São Fl. 17270DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.270 3 duas materialidades distintas, uma referese ao ressarcimento ao Estado pela não entrada de recursos no tempo determinado e a outra pelo não oferecimento à tributação de valores que estariam sujeitos à mesma. Recurso Voluntário Provido em Parte. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, dar provimento parcial nos seguintes termos: i) por unanimidade de votos, para cancelar a exigência referente à glosa de despesas financeiras e determinar a reconstituição do saldo de prejuízos fiscais e base de cálculo negativa da CSLL como decorrência desse entendimento; e ii) por maioria de votos, para reduzir a multa de ofício ao percentual de 75%, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. Vencidos os Conselheiros Frederico Augusto Gomes de Alencar e Paulo Mateus Ciccone, que votaram por manter a multa no percentual em que foi aplicada. Os Conselheiros Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Frederico Augusto Gomes de Alencar e Demetrius Nichele Macei votaram por cancelar a exigência da multa isolada que foi mantida por voto de qualidade. . (assinado digitalmente) LEONARDO DE ANDRADE COUTO Presidente (assinado digitalmente) FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO – Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Demetrius Nichele Macei, Frederico Augusto Gomes de Alencar, Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Leonardo de Andrade Couto, Leonardo Luís Pagano Gonçalves e Paulo Mateus Ciccone. Fl. 17271DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 4 Relatório ATACADÃO DISTRIBUIÇÃO COMÉRCIO E INDÚSTRIA LTDA recorre a este Conselho, com fulcro no art. 33 do Decreto nº 70.235, de 1972, objetivando a reforma do acórdão nº 0253.006 da 3ª Turma da Delegacia de Julgamento em Belo Horizonte que julgou improcedente a impugnação apresentada. Por bem refletir o litígio até aquela fase, adoto excertos do relatório da decisão recorrida, complementandoo ao final: Descrição das infrações imputadas Auto de infração de IRPJ O autuante, fazendo referência ao termo de verificação fiscal anexado a folhas 15.473 a 15.535, atribui à autuada o cometimento das infrações de cuja descrição adiante se faz uma síntese. 1A. DESPESAS FINANCEIRAS NÃO DEDUTÍVEIS – Despesas financeiras indedutíveis, em decorrência de empréstimo utilizado na sua própria aquisição. [...] 1B. DESPESAS FINANCEIRAS NÃO DEDUTÍVEIS – Despesas financeiras indedutíveis, em decorrência de pagamento de juros sobre o capital próprio em desacordo com a participação societária. [...] 2. ADIÇÕES NÃO COMPUTADAS NA APURAÇÃO DO LUCRO REAL – CUSTO OU DESPESA INDEDUTÍVEL Valor relativo à amortização de ágio não adicionado ao lucro líquido para a determinação do lucro real. [...] 3. SALDO INSUFICIENTE – COMPENSAÇÃO INDEVIDA DE PREJUÍZO OPERACIONAL COM RESULTADO DA ATIVIDADE GERAL – Compensação de prejuízos operacionais em montante superior ao saldo desse prejuízo, [...] 4. MULTA ISOLADA – FALTA DE RECOLHIMENTO DO IRPJ SOBRE BASE DE CÁLCULO ESTIMADA – Falta de pagamento do IRPJ incidente sobre a base de cálculo estimada em função de balanço de suspensão ou redução, conforme demonstrativo anexo. Períodos de apuração: todos os meses de entre janeiro de 2009 e dezembro de 2011. [...] Auto de infração de CSLL O autuante, fazendo referência ao termo de verificação fiscal anexado a folhas 15.473 a 15.535, atribui à autuada o cometimento das infrações de cuja descrição adiante se faz uma síntese. 1. CUSTOS OU DESPESAS OPERACIONAIS E ENCARGOS NÃO DEDUTÍVEIS Valor relativo à amortização de ágio não adicionado ao lucro líquido para a determinação do lucro real. [...] Fl. 17272DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.271 5 Despesas financeiras indedutíveis, em decorrência de empréstimo utilizado na sua própria aquisição. [...] Despesas financeiras indedutíveis, em decorrência de pagamento de juros sobre o capital próprio em desacordo com a participação societária. [...] 2. SALDO INSUFICIENTE – COMPENSAÇÃO INDEVIDA DE BASE DE CÁLCULO NEGATIVA – Compensação de base de cálculo negativa de períodos anteriores em montante superior ao saldo existente, [...] 3. MULTA ISOLADA – FALTA DE RECOLHIMENTO DA CSLL SOBRE BASE DE CÁLCULO ESTIMADA – Falta de pagamento do CSLL incidente sobre a base de cálculo estimada em função de balanço de suspensão ou redução, conforme demonstrativo anexo. Períodos de apuração: todos os meses de entre janeiro de 2009 e dezembro de 2011. [...] Termo de verificação fiscal No termo de verificação fiscal a folhas 15.473 a 15.535 o autuante apresenta a motivação dos lançamentos. Dele extraemse as observações e argumentos resumidos adiante. · Tratase de planejamento tributário em que negócios simples são revestidos de características complexas, algumas das quais surgem com o único propósito de justificar ganhos tributários indevidos. Houve uma simples operação de compra e venda de participação societária, tendo de um lado, como comprador, o Carrefour Nederland B.V. (Carrefour BV), sediado nos Países Baixos, e de outro, como vendedores, as pessoas físicas então controladoras do Atacadão. · A complexidade começa porque a relação Carrefour BV e pessoas físicas controladoras não aparece diretamente, mas é intermediada por empresas de que os interessados participam. Do lado do comprador, achamse Carrefour BV, Korcula Participações Ltda (Korcula), Brepa Comércio e Participações Ltda (Brepa) e Carrefour Comércio e Indústria Ltda (Carrefour); do lado dos vendedores, a pessoa física Farid Curi e as pessoas jurídicas Primart Empreendimentos Participações e Administração Ltda (Primart), representando a família Lima; Loly Administração, Empreendimentos Agropecuários e Participações Ltda (Loly), controlada pela família Schmeil. · Outro complicador é que o pagamento da aquisição pelo Carrefour BV não aparece com esse nome, pois cerca da metade do valor ao final transferido aos vendedores chegou ao Brasil como se fosse aumento de capital; a outra metade, também ao fim e ao cabo paga aos vendedores, foi remetida pelo investidor estrangeiro sob a forma de empréstimo. · As formas assumidas pelo pagamento provocaram ganhos tributários indevidos: amortização pelo Atacadão do ágio apurado na sua própria aquisição pelo grupo Carrefour, que para isso internalizou o ágio desembolsado pelo Carrefour BV e se valeu de operações de reorganização societária em sequencia, sem nenhum interesse negocial [grifo nosso], buscando pretenso enquadramento nos artigos 7º e 8º da Lei 9.532/97; despesas financeiras decorrentes do pagamento travestido de empréstimo; pagamento de juros sobre capital próprio em valores inflados por patrimônio líquido inexistente e pagos em desacordo com a participação societária. Fl. 17273DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 6 · A empresa Atacadão é atacadista do ramo de alimentação e integrante do grupo Carrefour, e em 31/01/2008, incorporou sua controladora Korcula. · O contrato de compra e venda de quotas do Atacadão foi assinado em 30 de março de 2007. O capital social totalmente integralizado estava assim dividido: Sócios Quotas Valor RS Participação Primart Participações Ltda 215.946.411 215.946.411,00 45,50% Loly Participações Ltda 154.247.436 154.247.436,00 32,50% Farid Curi 104.413.649 104.413.649,00 22,00% Total 474.607.496 474.607.496,00 100,00% · A empresa Korcula, "holding" de instituições não financeiras, foi constituída em fevereiro de 2007 pelos sócios Onivaldo Antonio Chechetto e Ivo Pereira de Freitas Filho. Seu objeto social previa a participação em outras sociedades, a administração de bens próprios e a representação de sociedade nacional ou estrangeira. O capital da sociedade, totalmente subscrito, era de R$ 100,00. · Os sócios resolveram, em 10 de abril de 2007, ceder e transferir a totalidade de suas quotas às empresas Brepa e Carrefour, ficando os novos sócios com 99% e 1% de participação, respectivamente. · A Brepa é uma holding de instituições nãofinanceiras que controla o Carrefour com 97,49% da participação. Por sua vez, é controlada pela empresa Carrefour BV, com 97,26 % de participação no capital. · A sede da Korcula passou para o mesmo prédio onde as novas sócias estavam instaladas. · Nova alteração do contrato social foi efetuada ainda no mês de abril de 2007. Em 30/04/2007, a sócia Brepa, com o consentimento da sócia Carrefour, integralizou, em moeda corrente nacional, o aumento que promoveu no capital social da Korcula, que passou de R$100,00 para R$ 1.137.810.898,00, divididos em quotas no valor nominal de R$1,00 cada, permanecendo a sócia Carrefour com uma quota. · Em 27/04/2007, três dias antes, os sócios da Brepa deliberaram pelo aumento de seu capital social de valor quase que exatamente o mesmo que do aumento de capital da Korcula. O valor de R$ 1.137.810.798,17 foi integralizado pela sócia Carrefour BV, em moeda corrente nacional proveniente de ordem de pagamento do exterior. · Os percentuais de participação na Korcula ficaram assim: Sócios Quotas Valor em RS Participação Brepa Com. Part. Ltda 1.137.810.897 1.137.810.897,00 99,9999999% Carrefour Com. Ind. Ltda 1 1,00 0,0000001% Total 1.137.810.898 1.137.810.898,00 100,00% · Quinze dias após o aumento de capital promovido pela Brepa, em 15/05/2007, o Carrefour integralizou e aumentou o capital social da Korcula em mais R$ 12.507.285,00, em moeda corrente, representando novas quotas no valor nominal de R$ 1,00 cada. · A aquisição da empresa Atacadão pelo grupo Carrefour teve início em 20/04/2007, com a assinatura do Contrato de Venda e Compra de Quotas do Atacadão. O contrato foi celebrado entre as pessoas físicas sócias da Primart II, referidas como família Lima, as pessoas físicas sócias da Loly II, referidas como família Schmeil, e Farid Curi como vendedores, e como comprador a Korcula. Fl. 17274DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.272 7 · Apesar de a Korcula figurar como compradora, o contrato previa que as notificações decorrentes das obrigações aí assumidas deveriam ser enviadas à Brepa, como garantidora e principal pagadora das obrigações da compradora. · Notese também que no momento da assinatura do Contrato de Venda e Compra de Quotas nem a Korcula nem a Brepa dispunham dos recursos necessários para efetivar a compra do Atacadão, e tampouco houve qualquer movimento dessas empresas para obter esses recursos. Os recursos para a compra vieram do exterior, da empresa Carrefour BV, na véspera do efetivo pagamento aos vendedores. · Com esses recursos a Korcula comprou as quotas da Primart II, da Loly II e de Farid Curi, passando a deter o controle total do Atacadão, direta ou indiretamente. · O preço de venda acertado entre as partes foi de R$ 1.016.215.200,00 pelas quotas da Primart II, R$ 725.868.000,00 pelas quotas da Loly II e R$ 491.356.800,00 pelas quotas detidas por Farid Curi, totalizando R$ 2.233.440.000,00. · O dia 30/04/2007 foi definido para o fechamento do negócio, com o pagamento do preço de aquisição combinado, e foram transferidos os valores mediante remessas do Banco ABN AMRO. · Foram pagos pelo controle de 100% da participação societária do Atacadão foi R$2.233.440.000,00. Entretanto, a Korcula detinha apenas R$1.137.810.898,00, provenientes do aumento de capital promovido pela Brepa. O restante foi obtido mediante empréstimo direto do Carrefour BV à Korcula, no montante de R$ 1.095.629.201,83. Ou seja, o Carrefour BV foi a origem dos recursos para a compra do Atacadão, seja através de aumento de capital que passou pela Brepa, seja através de empréstimo direto para a Korcula. · A incorporação da Korcula pelo Atacadão foi precedida pela incorporação da Primart II e Loly II pela Korcula. · Consta nas atas de reuniões de sócios ocorridas nas empresas Primart, Loly e Korcula no dia 17/09/2007, que as duas primeiras empresas seriam incorporadas pela Korcula e para isso seria celebrado Protocolo e Justificativa de Incorporação e seriam elaborados laudos de avaliação pela empresa de auditoria Deloitte Touche Tohmatsu Auditores Independentes. · Consta no referido Protocolo e Justificativa de Incorporação que era do real interesse de todas as sociedades as incorporações da Primart II e Loly II, pois isso proporcionaria uma maior sinergia com o desenvolvimento de outras atividades afins, além da economia operacional e administrativa com a concentração das atividades administrativas em uma única unidade. Foram estimados os valores de patrimônio líquido das empresas que seriam incorporadas, Primart II R$ 230 milhões e Loly II R$ 160 milhões. · As empresas Primart II e Loly II deixaram de figurar no organograma do grupo Carrefour em dezembro de 2007, aparecendo a Korcula como única acionista da fiscalizada, visto que a aquisição direta e indireta da totalidade das quotas já havia ocorrido em abril de 2007. · Na seqüência, como consta em Ata de Reunião de Sócios ocorrida em 30/01/2008, a Korcula, única sócia da fiscalizada, autorizou a sua própria incorporação e nomeou a empresa de auditoria Deloitte Touche Tohmatsu Auditores Independentes para avaliar o patrimônio líquido da sociedade a ser incorporada. · Reunião semelhante ocorreu na Korcula, em que os sócios Brepa e Carrefour aprovaram a incorporação da controladora Korcula pela controlada Atacadão. Nesta reunião foi aprovado o laudo de avaliação elaborado pela Deloitte que fixou o valor do patrimônio líquido da Korcula Fl. 17275DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 8 em R$ 1.232.902.648,01, com data base de 31/12/2007. Também foi determinado que o capital da incorporadora seria aumentado em R$ 675.238.682,84. · Notase divergência entre as datas do laudo e do protocolo de justificativa de incorporação, pois embora conste que o laudo foi elaborado conforme o definido no protocolo, o laudo tem data de 31/01/2008, e o protocolo de 15/02/2008. Então, o protocolo tratou de uma incorporação já ocorrida. · O trecho desse documento que contém a justificativa da incorporação é o mesmo encontrado nos protocolos de incorporação da Primart II e Loly II, ambas pela Korcula. · Foi promovida alteração no Contrato Social da Atacadão, em 31/01/2008, finalizando a incorporação da Korcula. O capital social passou de R$474.607.496,00 para R$1.149.846.178,84. Portanto, a empresa Atacadão passou a ser controlada direta da Brepa e do Carrefour. · Com a incorporação da Korcula pelo Atacadão, completase o planejamento tributário de aquisição do Atacadão pelo Carrefour BV, ao fazer com que o próprio adquirido suporte as despesas de sua aquisição. O ágio apurado e o empréstimo contraído passaram a ser de responsabilidade do Atacadão. · Como consta do Laudo de Avaliação a Valores Contábeis, em 31/12/2007, do acervo líquido da Korcula, os principais valores a serem incorporados eram o ágio decorrente do investimento no Atacadão, que estava registrado por R$ 1.710.121.686,25, e no passivo a conta de empréstimos que registrava o valor de R$ 1.085.266.000,00. · Os valores pagos pela Korcula estavam acima dos valores patrimoniais. O patrimônio líquido do Atacadão em 30/04/2007 era de R$ 438.125.000,00. Assim, o ágio pago na aquisição das três participações chegou a R$ 1.780.738.273,26. Após os ajustes no valor da aquisição, decorrentes de compromissos existentes no Atacadão anteriores à data de fechamento e de responsabilidade dos vendedores conforme o Contrato de Venda e Compra de Quotas, o valor efetivo do ágio apurado na operação atinge R$1.702.116.571,3642. · A partir de fevereiro de 2008, após a incorporação reversa da Korcula pelo Atacadão, a fiscalizada iniciou a contabilização da despesa com amortização do ágio, a razão de um sessenta avos por mês, no valor mensal de R$ 28.368.609,52, de maneira que foram amortizados os seguintes valores na apuração da base de cálculo do IRPJ e da CSLL: ANO VALOR 2008 312.054.704,75 2009 340.423.314,27 2010 340.423.314,27 2011 340.423.314,27 Total 1.333.324.647,56 · O ágio surge na aquisição de investimento avaliado pelo método da equivalência patrimonial e corresponde à diferença a maior entre o preço de aquisição e o valor do patrimônio líquido contábil da participação societária adquirida. Integra o custo de aquisição da participação societária para fins de determinação de eventual ganho de capital quando da alienação do investimento. Cabe ao investidor segregar na contabilidade o preço total do custo em duas subcontas distintas, ou seja, o valor do patrimônio líquido da investida numa subconta e o valor do ágio (ou deságio) em outra subconta. · Assim, a aquisição de participação societária com ágio ou deságio é uma transação de capital, entre sócios, que não envolve as atividades normais da empresa e, portanto, não deve influenciar o seu resultado. · O resultado da adquirida, transmitido para a sua controladora pelo mecanismo da equivalência patrimonial, não é tributado nessa controladora. A equivalência patrimonial Fl. 17276DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.273 9 recebida pode ser excluída na apuração do lucro real dessa controladora. Da mesma forma, o ágio apurado e registrado pela controladora que for amortizado contabilmente deve ser adicionado na apuração do Lucro Real. Essas operações de capital não influenciam o resultado tributável. · Mesmo no caso de que a participação societária seja vendida posteriormente, a controladora pode adicionar o valor do ágio apurado quando da aquisição ao valor contábil da controlada que está sendo vendida para fins de apuração do ganho ou perda de capital. · A separação da transação societária das atividades normais da empresa só não se mantém se houver uma situação de extinção dessa participação societária. No caso de haver uma fusão, incorporação ou cisão dessa controlada com a controladora, os resultados das atividades da controlada e da controladora passam a ser apurados dentro da mesma empresa, não havendo mais transmissão de resultados de uma empresa para outra pelo mecanismo da equivalência patrimonial. Nesta situação, o patrimônio da controladora e o patrimônio da controlada tornam se um só, havendo uma confusão patrimonial. Da mesma forma, os resultados das atividades normais e os resultados das atividades de capital estão no mesmo patrimônio. · Além disso, nesse caso também já não é mais haver a venda da participação societária como tal e, portanto, não é possível a adição do valor do ágio apurado quando da aquisição ao valor contábil de uma controlada que estivesse sendo vendida. Dessa forma, quando ocorre a situação de confusão patrimonial, o valor do ágio que for amortizado pode ser deduzido na apuração do lucro real, no prazo mínimo de 60 meses e desde que a sua constituição tenha se dado em função de rentabilidade de resultados futuros. É. o que determina a legislação a seguir, base legal de diversos artigos do RIR/99. · Embora o ágio deva ser segregado em uma subconta distinta, a contrapartida da sua amortização contábil não pode gerar efeitos no lucro real, de acordo com o parágrafo único do art. 23 do Decretolei n° 1.598/77. · O art. 33 do mesmo diploma legal dispõe que o ágio apurado na aquisição do investimento comporá o valor contábil para fins de determinar se houve ganho ou perda de capital na alienação desse mesmo investimento, ainda que o ágio tenha sido amortizado na escrituração do contribuinte. · Além da situação de alienação ou liquidação do investimento anteriormente adquirido com ágio, o Decretolei n° 1.598/77 também disciplinou a situação de fusão, incorporação ou cisão de participações societárias. De acordo com o art. 34, no caso de extinção da participação societária por fusão, incorporação ou cisão, o ganho de capital deveria ser computado na apuração do lucro real e somente poderia ser diferida a parte do ganho de capital decorrente de bens do ativo permanente, ao passo que a perda de capital poderia ser deduzida para fins fiscais imediatamente ou diferida em até 10 anos. · Posteriormente, com o objetivo de estabelecer condições para a dedutibilidade dos encargos de amortização do ágio, de forma a coibir alguns abusos que eram cometidos em virtude desse tratamento dispensado pelo art. 34 do Decretolei n° 1.598/77, o legislador definiu as situações em que os encargos dessa amortização podem ser deduzidos para a apuração das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL. · Esse entendimento consta do parágrafo 11 da Exposição de Motivos n° 644/MF, relacionada à Medida Provisória n° 1.602, que por sua vez foi convertida na Lei n° 9.532/97 (o art. 8º citado no parágrafo 11 passou a ser o art. 7º quando da conversão da medida provisória em lei). Fl. 17277DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 10 · Os denominados ganhos de natureza tributária a que fez referência a exposição de motivos baseavamse na baixa integral do ágio autorizada pelo art. 34 do Decretolei n° 1.598/77. · O ganho tributário visado pelos tais planejamentos estava centrado na comparação entre o valor contábil e o de mercado da participação societária extinta. O art. 34 fazia menção à extinção da participação societária pela qual se pagara um valor maior (valor contábil) do que o seu acervo líquido (valor de mercado) no momento em que desaparecia o investimento. O inciso I, que deve ser interpretado em consonância com o caput do art. 34, mencionava que a parte dedutível como perda era a diferença entre o valor contábil e o valor do PL extinto avaliado a valor de mercado. Portanto, a baixa do ágio só tinha sentido se extinta a participação paga com ágio. Esse artigo foi objeto do Parecer Normativo CST n° 51/79 que tratou de ganhos e perdas de capital em casos de incorporação, fusão e cisão de sociedades, quando esses eventos correspondem à extinção de ações ou quotas de capital da participação societária. · A Lei n° 9.532/97 veio estabelecer novo tratamento fiscal para o ágio ou deságio na aquisição de investimento em outras empresas, de forma a somente permitir a apuração da perda ou ganho de capital para os casos de extinção do investimento por incorporação, fusão ou cisão das sociedades, não no momento do evento, mas num prazo de amortização não inferior a 60 meses. A possibilidade de deduzir o ágio na apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL está restrita ao caso de rentabilidade futura, como previsto no inciso III, art. 386, do RIR/99. · A legislação tributária, especificamente no comando do art. 386 do RIR/99, para permitir a dedutibilidade da amortização do ágio, tem sua inteligência fundamentada na efetiva extinção do investimento através dos institutos da incorporação, fusão e cisão entre empresas (investidora e investida), ou seja, a legislação tributária instituiu uma disciplina para tributação do resultado (ganho/perda) de um negócio jurídico particular que culmina numa confusão patrimonial. Impõese, portanto, a absorção do patrimônio da incorporada, fusionada ou cindida, pois, de outra forma (permanecendo a existir o investimento) não se caracteriza a situação prevista na norma, que é exatamente o de estabelecer uma regra de tributação para quando acontece a confusão patrimonial do investimento. · De acordo com o artigo 426 do RIR/99, com base legal no art. 33 do Decretolei n° 1.598/77, se a participação societária for alienada, o ágio verificado na aquisição do investimento faz parte do valor contábil para a determinação do ganho (tributável) ou perda (dedutível) de capital. Esse artigo perderia o sentido se fosse admitida a amortização do ágio transferido sem a extinção do investimento. · Essa situação se dá nos casos em que o investimento é transferido para uma nova sociedade controladora (empresa veículo) que é incorporada, ou incorpora, o investimento original. A antiga sociedade controladora permanece com o valor do investimento representado pela participação na empresa veículo. O valor do ágio é registrado na empresa veículo e permanece na antiga controladora, ou seja, o investimento não é extinto. · De acordo com os dispositivos legais citados, uma condição obrigatória para a garantia da dedutibilidade fiscal da amortização do ágio registrado em uma pessoa jurídica é o encontro da participação societária adquirida e do ágio pago por tal participação em um mesmo patrimônio (confusão patrimonial). · No caso em análise, o ágio contabilizado foi baseado no valor da rentabilidade futura da empresa adquirida. Tal fundamento foi justificado por diversos demonstrativos e tabelas, várias em francês, sem nenhuma identificação, que foram apresentados à fiscalização como sendo a Avaliação EconômicoFinanceira do Atacadão que teria sido feita pela Korcula. É de se notar a rapidez com que a Korcula conseguiu elaborar uma avaliação de rentabilidade futura, uma vez que passou a fazer parte do grupo Carrefour somente em 10/04/2007 e, em 30/04/2007, já Fl. 17278DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.274 11 estava adquirindo a empresa objeto da avaliação. E mais, sem ter despesa alguma seja com empregados ou com prestadores de serviço. · Em 20/09/2007 a empresa KPMG Corporate Finance apresentou o resultado da revisão da Avaliação EconômicoFinanceiro da empresa Atacadão que teria sido efetuada pela Korcula. · A database da avaliação foi 30/04/2007 e foram utilizadas informações gerenciais dos exercícios de 2005 e 2006, orçamento de 2007 e plano de longo prazo de 2008 a 2015. A empresa KPMG concluiu seu relatório informando "que o valor econômicofinanceiro do Atacadão em 30 de abril de 2007 calculado pela Korcula de R$ 3.739 milhões foi, em linhas gerais, calculado de forma coerente e dentro de práticas adotadas normalmente para a avaliação de empresas." · Questionase o cabimento da dedutibilidade, na apuração do IRPJ e da CSLL, da despesa de amortização de um ágio transferido entre entidades do mesmo grupo econômico, em que a empresa Korcula registrou o ágio gerado na aquisição da empresa Atacadão pelo Carrefour BV e, desta maneira, o ágio gerado nesta aquisição é um ativo do Carrefour BV. · O Carrefour BV foi a real adquirente do Atacadão, tendo não só fornecido a totalidade dos recursos financeiros (via aumento de capital social e empréstimo), que fizeram uma rápida passagem pela Brepa e pela Korcula antes de serem transferidos para os vendedores do Atacadão, como provavelmente foi o centro decisório da aquisição. · Embora questionados diversas vezes, desde julho de 2012, nem a fiscalizada (Atacadão) nem a sua suposta controladora (Brepa), lograram apresentar, até o presente momento, qualquer documento societário em que a decisão da aquisição do Atacadão foi tomada. · Em resposta protocolada em 29/11/2012, a Brepa parece confirmar que a decisão pela compra do Atacadão foi mesmo tomada no exterior: A fiscalizada esclarece que até a presente data não foi possível localizar a documentação solicitada no prazo concedido. Não obstante, vale ressaltar que, conforme prática comum nas companhias multinacionais, as decisões empresariais relacionadas à estratégia de crescimento da sua atividade são tomadas pelo grupo Carrefour como um todo, com a participação de todas as empresas envolvidas, levando em consideração os aspectos locais e internacionais das suas atividades. · A passagem desses recursos pela Brepa e pela Korcula foi de apenas algumas horas, visto que foram recebidos em 30/04/2007 e transferidos para os vendedores no mesmo dia 30/04/2007. Essa rápida passagem serviu apenas para dar a aparência formal ao negócio. E na seqüência, a subsidiária Atacadão incorporou sua controladora formal Korcula, em operação denominada de "incorporação às avessas", para dar aparência de extinção do investimento. · A incorporação às avessas está prevista no § 4º do art. 264 da Lei 6.404/1976, porém esta previsão não afasta a relevância das circunstâncias que podem cercar o caso concreto, visto que a operação reversa pode estar sendo realizada abusivamente ou como negócio indireto com o intuito de ludibriar a lei, não só a lei societária, mas também a lei tributária. · A empresa Carrefour BV, empresa sediada na Holanda, através da Brepa, controladora do grupo Carrefour no Brasil, adquiriu a empresa Atacadão com ágio de R$ 1.702.116.571,36, utilizando a empresa Korcula, que foi inserida no grupo exclusivamente para aquisição do novo investimento, com expectativa de curta existência, funcionando apenas como empresa veículo. Como era previsível, logo foi extinta por incorporação, restando claro o objetivo de obter a redução de tributos pela amortização do ágio acima citado. Em síntese, a Korcula serviu unicamente para a passagem dos recursos financeiros, para o registro do ativo adquirido (especialmente o ágio), além do registro do empréstimo contraído. Fl. 17279DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 12 · Apesar dessa constatação, a fiscalizada foi intimada a justificar os motivos e fins da existência da sociedade Korcula, destacando os benefícios esperados. Em resposta foi informado que: (...) Como se tratava de um novo negócio, sobre o qual o grupo Carrefour ainda não tinha certeza dos resultados que iria alcançar, foi feita a opção por desenvolver a nova atividade em empresa autônoma, desvinculada das empresas que já existiam e se dedicavam ao mercado varejista. (...) após um período de adaptação, a existência da empresa Korcula Participações Ltda passou a ser desnecessária. Assim, foi feito um projeto de reestruturação societária do grupo Carrefour no Brasil, com o objetivo de integrar essa sociedade e as demais empresas antes pertencentes ao Atacadão, ao grupo Carrefour. Com a reorganização das empresas, conseguiuse reduzir os custos totais de manutenção das estruturas, bem como foram verificados ganhos de eficiência operacional, administrativa e financeira. · Confrontandose a justificativa supra com a justificativa dada para a incorporação da Korcula, observase que o que era um novo negócio sobre o qual não se tinha certeza dos resultados, tornouse uma atividade afim, a qual é conveniente que seja concentrada em uma única unidade, acarretando considerável economia operacional e administrativa. Não se pode deixar de destacar que a atividade era "afim" desde a aquisição do Atacadão, e que a economia resultante da incorporação da Korcula não foi muito considerável, visto que não tinha custos, as despesas eram aquelas decorrentes da operação com o Atacadão, assim como as receitas. Ainda de acordo com as informações da DIPJ 2008, anocalendário 2007, era uma empresa sem empregados. · Tais alegações demonstram mais ainda a artificialidade das operações. Todos esses eventuais custos administrativos com diversas empresas que precisaram ser incorporadas teriam sido evitados se a operação real tivesse ocorrido, ou seja, a compra do Atacadão diretamente pelo Carrefour BV. Esse é o real negócio que foi realizado. No caso de haver o interesse em concentrar todos os negócios na holding brasileira, a Brepa compraria diretamente o Atacadão. · Na verdade, o real motivo para que a operação em análise se efetuasse com a utilização de uma empresa veículo foi informado na resposta transcrita a seguir, em que foram solicitados esclarecimentos detalhados de quais teriam sido as providências e os atos desenvolvidos pela Korcula e que não poderiam ter sido desenvolvidos pela Brepa sem afetar as atividades normais de varejo: · Além do intuito de desenvolver atividade no negócio de atacado por meio de uma empresa autônoma, a Fiscalizada esclarece que o pagamento do preço de aquisição das quotas das sociedades adquiridas, conforme acertado negocialmente pelas partes, só seria possível mediante a contratação de uma dívida em montante relevante, por conta da falta de caixa suficiente nas sociedades do grupo Carrefour no Brasil. Essa dívida foi tomada pela Korcula, no valor de RS 1.095.629.201,83 (um bilhão, noventa e cinco milhões, seiscentos e vinte e nove mil, duzentos e um reais e oitenta e três centavos), diretamente da sociedade Carrefour Nederland BV. Posteriormente, a Korcula tomou novo empréstimo para quitar a dívida original com o Carrefour Nederland BV, tendo a dívida migrado para o Atacadão no momento da incorporação da Korcula. · A Fiscalizada esclarece ainda que a intenção do grupo Carrefour sempre foi transferir a referida dívida para a própria sociedade operacional adquirida, ou seja, transferir a dívida para o Atacadão, de forma que a dívida fosse paga pelas próprias atividades econômicas daquela sociedade. · Assim, ao tempo da aquisição, seria inconveniente, do ponto de vista de uma administração societária eficiente, utilizar a Brepa para a aquisição do novo investimento, Fl. 17280DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.275 13 tendo em vista que essa sociedade sempre foi, e ainda é, utilizada como a sociedade holding centralizadora das atividades do grupo Carrefour no Brasil. · Isso significa que a utilização da Brepa como sociedade adquirente do investimento no Atacadão, ou qualquer outra sociedade do grupo Carrefour, não teria permitido o preenchimento de condicionantes fundamentais da aquisição, tais como: (i) o desenvolvimento do negócio de atacado por meio de uma sociedade autônoma; e (ii) a contratação da dívida no valor R$ 1.095.629.201,83 a ser transferida para a sociedade operacional. · Nesta resposta fica claro o real motivo para a existência da empresa veículo Korcula, que não estava explicitado ainda: transferir a dívida da aquisição do Atacadão para a própria sociedade operacional adquirida, de forma que a dívida fosse paga pelas próprias atividades econômicas do Atacadão · Embora não seja explicitamente mencionado nessa resposta, o mesmo se aplica ao ágio apurado nessa aquisição. · Para não deixar nenhuma dúvida quanto a esse propósito, na resposta apresentada ao item 9 do Termo de Intimação n° 20, em que foi solicitado ao contribuinte que demonstrasse e quantificasse claramente a redução dos custos de manutenção das estruturas e os ganhos de eficiência operacional, administrativa e financeira obtidos com a incorporação da Korcula, diz se que o principal benefício gerado pela incorporação reversa da Korcula pelo Atacadão é a transferência do passivo relacionado com a aquisição do Atacadão para o próprio Atacadão. · Há um outro aspecto bastante engenhoso nesta operação, que é o pagamento de parte da aquisição com empréstimo. O empréstimo concedido pelo Carrefour BV à empresa Korcula representou 49% do pagamento aos vendedores, portanto, 49% do ágio apurado no negócio. · Da concessão do empréstimo, em 30/04/2007, até a incorporação pelo Atacadão, em janeiro de 2008, a Korcula não pagou juros nem nenhum valor do principal. Em 18/01/2008, pouco antes da sua incorporação, a Korcula tomou um novo empréstimo com o grupo BNP Paribas, através de venda de títulos de sua emissão, representativos de quotas de capital, com prazo para recompra. Com a incorporação reversa, esse empréstimo passou a ser encargo do próprio Atacadão. · O ágio é um ativo de quem paga o investimento. Neste caso, é o Carrefour BV, empresa sediada no exterior, o local de decisão da operação e a provedora dos recursos necessários para a sua execução, é a ela que pertencem o investimento e o ágio decorrente. E por estar no exterior a fonte dos recursos, por conseguinte, o ágio não tem como ser amortizado aqui no Brasil. · E ainda que se admita que o adquirente fosse a holding do grupo no Brasil, a Brepa, ou que o Carrefour BV transferisse o controle do Atacadão para a Brepa após a aquisição, também não haveria como amortizar o ágio. Nas próprias respostas apresentadas pela fiscalizada, admitese que o grupo Carrefour nunca pretendeu, ou não podia, incorporar a Brepa ou o Atacadão. E sem a ocorrência dessa operação de incorporação não há como amortizar ágio, visto que a amortização prevista no art. 386 do RIR/99 requer a extinção do investimento, o que de fato não ocorreu no presente caso. · Para comprovar o fato de que o investimento não foi extinto, obtevese o Razão contábil da Brepa que registra os seus investimentos em participações societárias. Constatouse que a Brepa contabiliza o valor do investimento no Atacadão pelo mesmo valor que contabilizou o investimento na Korcula, simplesmente trocando o nome da empresa investida. Ou seja, a Fl. 17281DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 14 Brepa detém, atualmente, o investimento no Atacadão em seu ativo pelo equivalente ao valor do patrimônio liquido, à época da aquisição, mais ágio apurado com os recursos aportados (o aumento de capital na Korcula). Se o investimento no Atacadão permanece no ativo da Brepa é porque o investimento não foi extinto. · Não cabe aqui avaliar as razões empresariais apresentadas, porém nenhuma das razões exige a criação de uma terceira empresa, pois todas as alegações apresentadas poderiam ser atendidas perfeitamente se a empresa Atacadão permanecesse como controlada direta da Brepa e do Carrefour. Aliás, é essa a situação da empresa Atacadão hoje: controlada direta das citadas empresas e inserida no grupo Carrefour. Porém, amortizando despesas de ágio surgido por ocasião de sua própria aquisição e reduzindo o total de tributos a pagar. · O problema é que ao lado desse interesse empresarial de manter as empresas independentes, houve também o interesse em se beneficiar tributariamente, melhorando as condições financeiras da aquisição. Para isso foi criada a Korcula, para forjar um pretenso enquadramento nas condições do art. 386 do RIR/99. Assim, o grupo Carrefour pretendeu atender o seu interesse empresarial e com a vantagem da dedução da despesa de amortização. Se a aquisição do Atacadão tivesse sido efetuada pela Brepa ou pelo Carrefour, ou outra empresa do grupo, e nela permanecesse, somente seria atendido um dos interesses: ou o empresarial de ficar com a holding e o Atacadão, tal como estão, ou a redução tributária. · Em reorganizações societárias que envolvam um conjunto de etapas sucessivas e que tenham como objetivo a redução da carga tributária há de se conhecer o todo, pois o fato a ser enquadrado é o conjunto e não apenas etapas isoladas. · O elemento relevante quando se analisa a existência de uma pessoa jurídica não é apenas a sua existência formal, mas também a identificação do empreendimento que justifique a sua existência. A constituição de uma empresa só tem sentido na medida em que corresponda à vestimenta jurídica de determinado empreendimento econômico ou profissional. · É preciso levar em conta as definições legais trazidas pela Lei n° 10.406, de 2002, o Código Civil (CC), em seu artigo 44, inciso II, artigo 45, artigo 46, incisos I a VI, artigos 50, 966, 967, 968, 981 e 985. · Apesar de todos os atos de constituição da pessoa jurídica serem atos que requerem a adoção de formalidades específicas, o reconhecimento da autonomia pessoal e patrimonial da pessoa jurídica não se esgota na verificação da adoção das formalidades previstas em lei (registro dos atos constitutivos nos órgãos competentes). · Cumpre verificar se a pessoa jurídica foi de fato constituída para fins específicos (em regra, destinada à atividade empresarial especificamente definida no objeto do contrato social), ou se, ao contrário, apesar de contratualmente constituída para o desempenho de uma atividade empresarial, é utilizada apenas para abrigar determinadas operações e evitar a incidência de tributos. · Um pressuposto fático de existência da sociedade comercial é a affectio societatis, que diz respeito à disposição dos sócios de lucrar ou suportar prejuízos em decorrência da exploração do negócio comum. Sem essa disposição não haverá a conjugação de esforços necessária ao desenvolvimento da empresa, em conformidade com o art. 981 do Código Civil. Esse artigo dispõe que celebram contrato de sociedade as pessoas que reciprocamente se obrigam a contribuir, com bens ou serviços, para o exercício de atividade econômica e para partilhar, entre si, os resultados obtidos, podendo realizar atividades de um ou mais negócios determinados. E o art. 982 do Código Civil dispõe que, salvo as exceções expressas, considera se empresária a sociedade que tem por objeto o exercício de atividade própria de empresário sujeito a registro. Fl. 17282DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.276 15 · Assim, a finalidade precípua é a realização de negócios que caracterizam o exercício de atividade econômica. No caso específico da sociedade empresária, pelo teor do art. 966 do CC, é empresário quem exerce profissionalmente atividade econômica visando a produção ou a circulação de bens ou de serviços. Portanto, a atividade econômica é materializada pela produção e circulação de bens e serviços mediante organização de fatores de produção (capital, trabalho, matériaprima etc). · A formação de ambas as sociedades, empresária e simples, está adstrita ao ânimo do exercício de atividade econômica e se este não existir fica caracterizada a ausência de propósito societário, não originando, assim, a motivação para a própria celebração do contrato de sociedade. Subsidiariamente, neste caso, devese ponderar que não haveria nem mesmo quaisquer resultados a serem partilhados. · Neste contexto, perguntase qual é o papel da Korcula e qual atividade econômica ela exerceu durante o seu curto período de existência. Serviu apenas para transferência do ágio e do empréstimo para a fiscalizada. · Em estudos sobre planejamento tributário, são citadas situações que são perfeitamente aplicáveis ao caso sob exame. Uma delas é a que se chama de empresa veículo ou de passagem, que vem a ser uma pessoa jurídica criada apenas para servir de canal de passagem de um patrimônio ou de dinheiro, sem que tenha efetivamente outra função dentro do contexto. Tratase de uma operação que serve apenas para transmitir um patrimônio ou um determinado recurso. · Outro exemplo de sociedade é a denominada sociedade efêmera ou empresa de curta duração que nasce para morrer ou para ser extinta tão logo cumpra seu papel em determinada operação. · Assim, algumas vezes, no planejamento, uma sociedade é criada para participar de determinado negócio ou receber determinado patrimônio em trânsito para outra pessoa jurídica eventualmente ligada à figura do ágio. Feito isto, a empresa pode desaparecer. Foi o que ocorreu com a empresa Korcula, desapareceu. · Sobre esse tipo de operação, incorporação reversa e sem propósito negocial, com utilização de empresa veículo, citase julgado no Conselho de Contribuintes, atual Conselho Administrativo de Recursos Fiscais Carf, em que as empresas Brepa e Carrefour foram partes em operação semelhante. · A operação em análise parece ser um aprimoramento daquela operação citada no acórdão referido. Aqui, em vez de a Brepa apurar o ágio para depois transferilo para uma empresa veículo, a empresa veículo já nasceu recebendo o capital que lhe permitiria registrar o ágio. · Além do acórdão mencionado, citamse outros sobre esse tipo de operação, incorporação reversa e sem propósito negocial com a utilização de empresa veículo, resultados de julgamentos de processos no Conselho de Contribuintes, atual Carf. · O lucro real é o lucro contábil (apurado de acordo com as leis comerciais) ajustado por adições e exclusões, e se o lucro contábil está contaminado por uma despesa artificial, também o lucro real estará. · No tocante à CSLL, há de se analisar o que diz o art. 2º da Lei n° 7.689/88 (com as alterações promovidas pela Lei n° 8.034/90), que instituiu a CSLL e também o art. 57 da Lei n° 8.981/95, com redação dada pela Lei n° 9.065/95. Fl. 17283DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 16 · E, ao regulamentar as leis que disciplinaram a CSLL, a IN SRF n° 390/2004 consolidou a regra prevista no dispositivo mencionado. Seu artigo 75 tratou, exclusivamente, do investimento em sociedades coligadas ou controladas avaliado pelo valor de patrimônio líquido, nos casos de incorporação, fusão ou cisão. · Assim, a determinação da base de cálculo da CSLL iniciase no resultado apurado com base na legislação comercial, como já visto para o IRPJ. · Por todo o exposto, não cabe a redução da base de cálculo tributável pela despesa de amortização do ágio, visto que a utilização da via indireta (constituição de empresa veículo) teve como único objetivo contornar a restrição da legislação tributária para operacionalizar a amortização do ágio, buscando, assim, os benefícios de se pagar menos tributos. · Ademais, a suposta reestruturação societária não resultou em concentração das empresas envolvidas ou mesmo liquidação do investimento. Tudo continuou como o previsto e desejável e a empresa investidora (Carrefour BV) não deixou de existir, assim como a holding Brepa não deixou de existir, nem a empresa adquirida Atacadão. As operações realizadas em seqüência revelaramse meramente formais e desprovidas de finalidade econômica, tendo como objetivo a transferência do ágio da empresa veículo para dentro da própria adquirida com a finalidade de criar uma aparente absorção ou extinção do investimento (artigos 7º e 8º da Lei n° 9.532/1997), para na seqüência dar início à redução da carga tributária. Contratação de empréstimo com controladora estrangeira e despesa financeira · A aquisição do Atacadão foi efetuada com recursos provenientes da empresa Carrefour BV, situada na Holanda. A aquisição foi feita por R$ 2.233.440.000,00, repassados pela empresa holandesa à empresa Korcula de duas formas, mediante aumento de capital e através da concessão de empréstimo. Até a sua quitação não houve pagamento de principal nem de encargos para o Carrefour BV. · Em 18/01/2008, o empréstimo foi quitado pela Korcula, que tomou novo empréstimo para quitar a dívida original com a controladora holandesa Carrefour BV. A dívida migrou para a empresa adquirida Atacadão, no momento da incorporação reversa da Korcula. · Esse novo empréstimo está lastreado em um "Contrato de Agência para Pagamentos e Conversão", firmado entre a Korcula e o BNP Paribas Securities Services, em que a Korcula emitiu 400 títulos conversíveis em ações ou quotas no valor de 400 milhões de euros. Esses títulos são valores mobiliários que dão direito a subscrição de ações ou cotas do capital e são regidos pelo Código Comercial da França. Os documentos apresentados indicam apenas a instituição responsável pela guarda e controle dos títulos, o BNP Paribas Securities Services. · Com a incorporação reversa, em 30/01/2008, os 400 títulos de emissão Korcula foram substituídos por 400 títulos do Atacadão. O "Detentor dos Títulos", na denominação adotada nos "Termos e Condições dos Títulos", é uma empresa denominada FIDUPAR, sediada em Luxemburgo, conforme o Bond Certificate, e integrante do grupo BNP Paribas, de acordo com as informações da fiscalizada. · O primeiro questionamento que surge é se esses empréstimos (o original e o novo) eram realmente imprescindíveis para a condução das atividades da empresa Atacadão. Os valores para o empréstimo e para o aumento de capital foram disponibilizados pelo Carrefour BV praticamente na mesma data. Assim, não se pode dizer que o empréstimo era essencial para efetivação da aquisição do Atacadão, pois não houve outra fonte de recursos, ou seja, o adquirente do exterior possuía a totalidade dos recursos. A origem dos dois aportes foi a mesma: a controladora estrangeira Carrefour BV. · Da mesma forma que disponibilizou parte dos recursos por meio de aumento de capital poderia fazêlo para a totalidade dos recursos. No entanto, a opção foi pelo empréstimo a ser Fl. 17284DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.277 17 suportado pela adquirida. Notese que não houve pagamento algum, seja de principal seja de juros, enquanto o empréstimo estava nominalmente de responsabilidade da Korcula. Com a sua incorporação pelo Atacadão, os recursos foram ressarcidos ao Carrefour BV pela venda dos títulos citados anteriormente, e, então, o Atacadão passa a arcar com o pagamento de juros e do principal. · Esses encargos passaram a gerar despesas financeiras a serem deduzidas da base tributária pela fiscalizada desde a incorporação reversa da Korcula (além da dedução da despesa de amortização de ágio), reduzindo a base de cálculo do IRPJ e da CSLL mediante o endividamento realizado. · Frisese que a pessoa jurídica domiciliada no exterior, ao adquirir subsidiária no País Atacadão, subscreveu e integralizou apenas parte do capital social, visto que parte do capital foi substituída pelo empréstimo, que gera juros que reduzem os resultados da subsidiária brasileira. · O segundo questionamento que surge é se as despesas incorridas com o empréstimo (suportadas pelo Atacadão) são necessárias às atividades da empresa recém adquirida, visto que por liberalidade do controlador residente no exterior adotouse a forma de empréstimo em detrimento da conversão deste recurso em capital social. Liberalidade não se confunde com necessidade. · Se não fosse a controladora no exterior a detentora da Brepa (98,29% de participação), que por sua vez era detentora da Korcula (98,91% de participação), certamente não haveria tal empréstimo, pois não haveria a garantia de que a dívida seria honrada. Ou seja, em qualquer outra situação no mundo dos negócios este empréstimo seria cercado de diversas garantias, se é que viesse a ser concedido, visto que a Korcula era, naquela época, uma empresa recém constituída e desprovida de bens e com poucos reais registrado em seu capital social (R$100,00). · Considerase que a decisão entre contrair empréstimos ou capitalizar possa ser uma conveniência de contribuintes, mas não se pode afirmar que as despesas advindas do empréstimo em tela eram necessárias para que a fiscalizada operasse, pois o recurso foi utilizado integralmente para a aquisição da fiscalizada, ou seja, foi imediatamente repassado a terceiros (antigos donos do Atacadão). · Despesas operacionais dedutíveis na apuração do lucro real são aquelas que, pela previsão legal, enquadramse na observância de que os gastos efetuados sejam estritamente necessários à atividade da pessoa jurídica, além de usuais, normais e compatíveis com o tipo de transação, operação, ou atividade produtora e geradora de receita. Para as despesas financeiras serem consideradas dedutíveis, devem ser necessárias para a realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa. · O conceito de despesas necessárias foi trazido pelo artigo 47, da Lei n° 4.506/64, e foi consolidado no artigo 299 do RIR 1999. · O art. 374 do RIR 1999 traz as condições para que os juros pagos possam ser considerados como despesa. Nele os juros e encargos pagos pelo Atacadão pelo empréstimo com o BNP Paribas não se enquadram. · O Atacadão é uma empresa constituída por quotas de responsabilidade limitada, portanto regida pela Lei n° 3.708/1919, e tem como objeto social: a) distribuição, comércio, atacado, indústria, importação e exportação de artigos, materiais, produtos e/ou mercadorias em geral, primários e industrializados; b) exploração de supermercados e lojas de departamentos, Fl. 17285DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 18 restaurantes e lanchonetes; c) prestação de serviços fitossanitários, de auxiliares do comércio e de transporte; e d) participação em outras empresas, no País ou no exterior, quer como acionista, quer como sócia quotista. · Não há relação entre a motivação do empréstimo e as atividades desenvolvidas pelo Atacadão. A atividade que mais se aproxima é a de participação em outras empresas, que, por evidente, não se confunde com a participação na própria empresa, e muito menos o que aconteceu no presente caso, financiamento de sua própria aquisição. Para o Atacadão esse empréstimo não tem necessidade alguma, é um passivo que não representou a entrada de qualquer ativo em troca. · A empresa Atacadão não precisa dessa despesa financeira para continuar a gerar resultados. Pelo contrário, os seus resultados seriam melhores sem essa despesa. · Em agosto de 2009, em análise de caso semelhante a Câmara Superior de Recursos Fiscais do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais Carf considerou como desnecessárias as despesas de juros e variações cambiais relativas a empréstimo de sócia em detrimento à integralização de capital (Acórdão n° 910100.287, de 24 de agosto de 2009). · Portanto, os valores das despesas financeiras devem ser adicionados na apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL por ser o empréstimo que lhe deu origem e as despesas financeiras decorrentes desnecessárias às atividades da empresa, nos termos dos artigos 299 e 374, do RIR 1999. Pagamento de juros sobre o capital próprio · O pagamento de juros sobre o capital próprio foi feito em desacordo com a participação societária de cada um dos sócios e por um valor superior ao correto, em decorrência da aquisição do Atacadão ter passado por uma empresa veículo. · Os pagamentos deveriam ter sido efetuados a seus sócios de acordo com o capital próprio empregado por cada um deles. Os sócios do Atacadão a partir de 2008 são a Brepa Comércio e Participação Ltda., com 98,91% de participação, e o Carrefour Comércio e Indústria Ltda, com 1,09% de participação. O percentual de participação societária de cada um dos sócios se manteve o mesmo ao longo do período de 2008 a 2011, com a mesma quantidade de capital e de quotas. · Porém, o pagamento de juros sobre capital próprio foi efetuado em percentuais invertidos em relação à participação societária e, portanto, em relação ao reconhecimento da equivalência patrimonial. A Brepa, que detém 98,91% do capital, recebeu 1,09% dos juros sobre o capital próprio, e o Carrefour, que detém 1,09% do capital, recebeu 98,91% dos juros sobre o capital próprio. · O fato de as sócias pertencerem ao mesmo grupo econômico, longe de justificar essa inversão nos percentuais de pagamento, é o que confirma o motivo para que os JCP tenham sido pagos dessa forma. A motivação é clara quando se verificam os resultados das duas empresas sócias pelas suas DIPJ, na ficha 09A. Enquanto a Brepa teria um resultado tributável positivo com o recebimento de juros sobre o capital próprio no montante que lhe corresponde, o Carrefour pode absorver essa receita e permanecer com o resultado negativo. Vejase o Lucro Real declarado pelas sócias, considerando a receita de JCP: DIPJ / Anocalendário Lucro Real (R$) BREPA Lucro Real (R$) CARREFOUR 2010/2009 2011/2010 2012/2011 539.321.979,15 613.111,78 1.360.273,82 220.620,74 378.514.320,22 198.903.749,12 · Dessa forma, obtémse uma economia tributária correspondente aos valores dos tributos que a Brepa deveria pagar em função dessa receita de JCP. Fl. 17286DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.278 19 · Ocorre que o valor de juros sobre o capital próprio pago em excesso à participação societária não se enquadra no conceito de juros sobre o capital próprio. O art. 347 do RIR/99 disciplina a matéria. · A lei fala em juros pagos ou creditados individualizadamente a titular, sócios ou acionistas, a título de remuneração do capital próprio, ou seja, a limitação do pagamento de JCP à participação societária é intrínseca à definição do instituto. Se o que se paga aos sócios ou acionistas é a remuneração do capital por eles investido na empresa, é óbvio que a remuneração de cada um, a esse título, deve corresponder à aplicação da taxa sobre a sua respectiva parcela do capital, do contrário, haveria remuneração também pelo capital aplicado por terceiros. · Nada impede que a interessada, por força de convenção particular, lhes credite valor superior àquele que corresponderia à remuneração da sua parcela do capital. Porém, o excedente não pode ser caracterizado como juros sobre o capital próprio, nem aproveitar a dedutibilidade a eles concedida pela lei. · Esse é o entendimento também do Carf, expresso no Acórdão n° 130100.480, da 3ª Câmara, na sessão de 27 de janeiro de 2011. · Mas, ainda que os JCP tivessem sido pagos na proporção da participação societária, estariam sendo deduzidos em excesso, em virtude de a aquisição do Atacadão ter passado por uma empresa veículo. · Como conseqüência da incorporação da empresa veículo, o Atacadão teve um aumento do seu capital social, que passou a ser parte da base de cálculo para os juros sobre capital próprio. O aumento de capital social no Atacadão por ocasião da incorporação da Korcula foi de R$ 675.238.682,84, correspondente ao seu ativo líquido. · Se a operação tivesse ocorrido diretamente, sem o uso de empresa veículo, o ágio não poderia estar sendo amortizado pelo Atacadão, e o seu capital social também não teria sido aumentado em R$ 675.238.682,84. Calculandose os juros sobre o capital próprio sem o efeito da incorporação da Korcula, obtémse: 2009 2010 2011 Cálculo da fiscalizada Cálculo sem Incorporação da Veículo Cálculo da fiscalizada Cálculo sem Incorporação da Veículo Cálculo da fiscalizada Cálculo sem Incorporação da Veículo Capital Subscrito de Domiciliados e Residentes no País 1.149.846.178,84 474.607.496,00 1.149.846.178,84 474.607.496,00 1.149.846.178,84 474.607.496,00 Reservas de Lucros 27.459.713,23 27.459.713,23 27.459.713,23 27.459.713,23 27.459.713,23 27.459.713,23 Lucros Acum. e/ou Saldo à Dispos. Assembléia 152.281.149,06 152.281.149,06 245.364.862,77 245.364.862,77 562.611.845,44 562.611.845,44 PL 1.025.024.743,01 349.786.060,17 1.422.670.754,84 747.432.072,00 1.739.917.737,51 1.064.679.054,67 TJLP 6,124% 6,1249% 6,0000% 6,0000% 6,0000 % 6,0000% JCP 62.782.011,09 21.424.046,40 85.360.245,29 44.845.924,32 104.395.064,25 63.880.743,28 · Observase que, apesar dos valores calculados pela fiscalizada, o Atacadão teve, em 2009, despesas efetivas de R$ 30.186.796,18 a título de juros sobre o capital próprio, em 2010 as despesas efetivas de JCP foram de R$ 85.419.779,39 e, em 2011, foram de R$ 104.4677.725,99. · Assim, mesmo que o pagamento dos JCP tivesse sido efetuado na proporção das participações societário, haveria uma glosa de despesa indedutível nos seguintes valores: Anocalendário Valor JCP pago Valor JCP dedutível Valor que seria glosado 2009 30.186.796,18 21.424.046,40 8.762.749,78 Fl. 17287DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 20 2010 85.419.779,39 44.845.924,32 40.573.855,07 2011 104.467.725,99 63.880.743,28 40.586.982,71 · Porém, como o pagamento de juros sobre o capital próprio foi feito em desacordo com a participação societária de cada um dos sócios e, assim, o excedente não pode ser caracterizado como juros sobre o capital próprio, nem aproveitar a dedutibilidade a ele concedida pela lei, sua dedução será glosada. Lançamento do crédito tributário · Comprovada a falta de respaldo legal para a dedução das despesas de amortização do ágio na apuração do IRPJ e da CSLL, será efetuada a glosa dos valores da dedução das despesas de amortização no período de 2008 a 2011. · Comprovada a falta de necessidade das despesas financeiras (por não serem usuais, normais e compatíveis com o tipo de transação, operação ou atividade produtora e geradora de receita, nos termos do artigo 299 combinado com artigo 374 do RIR/99) decorrentes do empréstimo tomado pela controladora, já incorporada, para pagar pela aquisição da própria fiscalizada, será efetuada a adição na apuração do IRPJ e da CSLL dos valores respectivos. · Comprovado que o pagamento de juros sobre o capital próprio foi feito em desacordo com a participação societária de cada um dos sócios, e que o excedente não pode ser aproveitado como despesa para dedução do lucro real e da base de cálculo da CSLL, serão glosados nesta fiscalização os valores respectivos. · No 2º trimestre do ano calendário 2008, a contribuinte apurou prejuízo fiscal no valor de R$ 15.740.849,29 e base de cálculo negativa de CSLL no valor de R$ 15.740.849,29, valores compensados no próprio período pela fiscalização em vista do lançamento efetuado. · No 3º trimestre de 2008, a contribuinte apurou prejuízo fiscal no valor de R$ 7.198.811,89 e base de cálculo negativa de CSLL no valor de R$ 7.198.811,89, valores compensados no próprio período pela fiscalização em vista do lançamento efetuado. · Parte desses prejuízos fiscais, R$ 2.808.338,80, e das bases de cálculo negativas da CSLL, R$ 2.808.338,80, apurados pela contribuinte no 2o e 3o trimestre de 2008, foi utilizado pela contribuinte para compensar 30% dos resultados positivos obtidos no 4o trimestre do ano calendário de 2008. · No ano calendário 2009, a contribuinte apurou prejuízo fiscal no valor de R$119.068,40 e base de cálculo negativa de CSLL no valor de R$ 119.068,40. Os valores de prejuízo fiscal e base de cálculo negativa de CSLL foram compensados no próprio período pela fiscalização em vista do lançamento efetuado. · No anocalendário 2010, a contribuinte utilizou parte dos prejuízos fiscais, R$19.531.088,40, e das bases de cálculo negativas da CSLL, R$ 18.944.822,10, apurados no 2º e 3º trimestre de 2008, para compensar 30% dos resultados positivos obtidos. · Já no anocalendário 2011, a contribuinte utilizou o restante dos prejuízos fiscais, R$719.302,18, e das bases de cálculo negativas da CSLL, R$1.305.568,48, apurados no 2º e 3º trimestre de 2008, para compensar parcialmente os resultados positivos obtidos. · Em conseqüência das infrações apuradas pela fiscalização, os valores compensados pelo sujeito passivo no 4° trimestre do ano calendário de 2008 e nos anoscalendário de 2010 e 2011 são indevidos, por não existir saldo de prejuízo fiscal ou saldo negativo de base de cálculo de CSLL a compensar e, portanto, também serão lançados de ofício, de acordo com a Planilha de Compensação de Prejuízos Fiscais do IRPJ e a Planilha de Compensação de Base Negativa da CSLL. Multa isolada pela falta de recolhimento de estimativa Fl. 17288DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.279 21 · No período de 2009 a 2011, a fiscalizada apurou estimativa mensal de IRPJ e de CSLL com base em balanço ou balancete de suspensão ou redução. · A dedução de despesas de amortização de ágio e despesas financeiras relativas ao contrato com o BNP Paribas levou a fiscalizada a apurar uma receita mensal menor do que a real, calculando a estimativa de IRPJ e CSLL a menor em todo o período sob fiscalização. O mesmo efeito teve a dedução dos pagamentos de juros sobre o capital próprio no mês de dezembro dos anos de 2009 a 2011. · O art. 44 da Lei n° 9.430/95 dispõe claramente que deverá ser lançada multa de ofício isolada de 50% sobre o valor não recolhido da estimativa. · Nos cálculos das estimativas os valores apurados relativos à glosa das despesas deduzidas serão acrescidos às bases de cálculos mensais do IRPJ e da CSLL das respectivas DIPJ. Assim, serão apuradas nesta fiscalização as multas isoladas pelo não recolhimento das estimativas devidas. · Verificouse nos Lalur desses períodos exclusões indevidas na apuração da base de cálculo do IRPJ mensal, relativas às amortizações de ágio no valor mensal de R$28.368.609,52, além de deduções de despesas financeiras não necessárias e de despesas de juros sobre o capital próprio indedutíveis na apuração do lucro líquido, os quais foram adicionadas na apuração do lucro real. · Para o IRPJ, nos anoscalendário de 2009 a 2011, o contribuinte apurou a estimativa com base em balanço de suspensão ou redução, calculando o IR à alíquota de 15% e adicional. · Assim, procedeuse a apuração das estimativas devidas e apresentadas no Demonstrativo de Apuração de Estimativas de IRPJ. Serão lançadas multas isoladas pelo não recolhimento de estimativa de IRPJ em todo o período, nos meses de janeiro de 2009 a dezembro de 2011. · No caso da CSLL, nos anoscalendário de 2009 a 2011, o contribuinte apurou a estimativa com base em balanço de suspensão ou redução, calculando a CSLL à alíquota de 9%. Foram verificados os controles da contribuinte denominados Encadernação da Contribuição Social Real em 2009, Livro de Apuração da Contribuição Social Real, em 2010, e Cálculo da Contribuição Social sobre Lucro Líquido 2011 (Lucro Real Anual), e exclusões indevidas na apuração da base de cálculo da CSLL mensal, com respeito às amortizações de ágio no valor mensal de R$ 28.368.609,52, além das deduções de despesas financeiras não necessárias e as despesas com juros sobre o capital próprio não dedutíveis na apuração do lucro líquido. Procedeuse, então, a apuração das estimativas devidas e apresentadas no Demonstrativo de Apuração de Estimativas de CSLL. · Dessa forma, serão lançadas multas isoladas pelo não recolhimento de estimativa de CSLL nos meses de janeiro de 2009 a dezembro de 2011. Qualificação da multa de ofício decorrente da amortização indevida de ágio · O art. 72 da Lei n° 4.502/64 define fraude e é citado no artigo 44 da Lei nº 9.430, de 1996. Os procedimentos adotados pela fiscalizada estão compreendidos na hipótese prevista nessa norma. · Não cabe à empresa invocar desconhecimento ou prática de erro escusável. A reorganização societária não foi feita ao acaso. Toda a reestruturação societária promovida teve o objetivo de gerar despesas de amortização de ágio. Para isso, foram realizadas diversas operações que, analisadas isoladamente, não violavam nenhuma norma legal. Porém, o Fl. 17289DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 22 resultado da reorganização proporcionou ao sujeito passivo os melhores efeitos tributários que não seriam possíveis legalmente. · A Korcula foi inserida no grupo Carrefour com o objetivo certo de forçar uma situação formal para transferência do ágio ao Atacadão empresa objeto da negociação. Assim, o real adquirente Carrefour BV obteria vantagens fiscais pela dedução da amortização do ágio, reduzindo significativamente, então, a base de cálculo do IRPJ e da CSLL. · Se não houvesse toda a reorganização societária, o Carrefour BV seria a controladora do Atacadão, mas o ágio ficaria registrado na sua contabilidade, sem possibilidade de ser aproveitado na configuração atual das empresas. Não seria possível a dedução das despesas de amortização de ágio porque a lei não permite. · A situação permanece inalterada se o entendimento for pelo ágio no Brasil, visto que a Brepa seria e é, ainda, a controladora do Atacadão. E como o investimento não foi extinto pela simples reorganização societária (permanecendo na controladora Brepa), não se configura a situação prevista nos artigos 7º e 8º, da Lei 9.532/97. · A contribuinte estava perfeitamente consciente da falta de propósito negocial ou societário na incorporação realizada à luz do art. 966 do Código Civil, ficando caracterizada a utilização da incorporada como mera empresa veículo para transferência do ágio a incorporadora Atacadão (momento da incorporação reversa), apenas com o fim almejado de redução do valor tributável pela amortização do ágio. · A Korcula em seu curto período ativo não incorreu em custos, despesas ou receitas, apresentando apenas a movimentação decorrente do pretenso investimento no Atacadão e seu ágio e o empréstimo para aquisição do investimento. Ou seja, a sociedade formalizada produziu apenas documentos (atas, estatutos, livros contábeis, entre outros) utilizados para movimentar contabilmente recursos de outras empresas do grupo Carrefour. O planejamento tributário, a aparência de legalidade e a publicidade dessa aparente legalidade é um aspecto imprescindível de toda a operação. · Para buscar guarida e enquadramento na legislação que lhe permitisse obter a redução fiscal, com certeza não bastaria excluir um valor qualquer que lhe aprouvesse na apuração das bases de cálculo dos tributos, sem justificativa. É imprescindível mascarar a origem dessa exclusão com a aparência da legalidade e da normalidade. · Assim, através de um processo de reorganização societária, com várias etapas artificiais, apesar de formalmente legais, quando vistas isoladamente, procurouse esconder o objetivo de obter a redução dos tributos devidos, mesmo sabendose que essa redução era ilegal. Admitir essa situação como válida seria admitir que a lei permite a sua própria burla. · Por todo o exposto, fica patente a caracterização do intuito fraudulento, justificandose plenamente a aplicação da multa qualificada. · Em face do disposto na Portaria RFB n° 2.439, de 21 de dezembro de 2010, foi formalizada a representação fiscal para fins penais. · Haja vista o disposto na Instrução Normativa RFB n° 1.171, de 7 de julho de 2011, foi também formalizado o processo administrativo visando ao arrolamento de bens e direitos para acompanhamento do patrimônio do sujeito passivo. · O sujeito passivo foi intimado a efetuar as devidas retificações em seu Lalur e nos controles de bases de cálculo negativa da CSLL dos anoscalendário envolvidos. Impugnação do lançamento Fl. 17290DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.280 23 Conforme atesta assinatura aposta no corpo dos autos de infração, o sujeito passivo foi cientificado das exigências fiscais pessoalmente, em 11.06.2013. Em 03.07.2013 foi apresentada uma só impugnação de ambos os lançamentos, a qual foi juntada a folhas 15.659 a 15.771. Os enunciados seguintes resumem o seu conteúdo. Tempestividade · A ciência do auto de infração se deu em 11.6.2013 (doc. n° 4). A contagem do prazo teve início em 12.6.2013 (quartafeira) e terminou em 11.7.2013 (quintafeira). Portanto, fica demonstrada a tempestividade da impugnação. O auto de infração · A premissa adotada pela fiscalização é equivocada e comprometeu toda a sua análise dos fatos. · A primeira suposta infração cometida pela requerente está relacionada à dedução de despesas de amortização fiscal de ágio. O argumento central trazido pela fiscalização é a de que a Korcula, adquirente da requerente, configuraria o que se chama de empresa veículo, que teria como único propósito transportar o ágio pago para tornálo dedutível para fins fiscais. No equivocado entender da fiscalização, o ágio seria um ativo da Carrefour Nederland BV (Carrefour BV), sociedade holandesa controladora do grupo Carrefour no Brasil. · Por desconsiderar a Korcula como adquirente do investimento, a fiscalização considerou que o investimento (e o ágio) foi incorrido pela Carrefour BV, sociedade não residente no Brasil. Por conseqüência desse entendimento equivocado, as autoridades fiscais alegaram que o ágio não poderia ter sido amortizado após a incorporação da Korcula ao patrimônio da requerente, tendo em vista que, supostamente, o ágio pago por sociedade estrangeira não poderia ser amortizado no Brasil. · Tendo em vista que o ágio pago (registrado pela Korcula) e o investimento (a própria requerente) foram consolidados em uma única pessoa jurídica por meio da incorporação da investidora (a Korcula) na requerente (o investimento) denominada no auto de infração como incorporação invertida , a fiscalização considerou que a reorganização societária não resultou em concentração do ágio e do investimento em uma mesma pessoa jurídica ou mesmo na extinção do investimento adquirido pela compradora. · A fim de tentar fundamentar a sua alegação de que a Korcula teria servido como empresa veículo, sem propósito negocial, a fiscalização cita ainda jurisprudência antiga do extinto Primeiro Conselho de Contribuintes. Além de essa jurisprudência não ser aplicável aos fatos discutidos nesses autos, ela já foi completamente superada pela jurisprudência atual do Carf. · A segunda infração supostamente cometida pela requerente está relacionada à contratação de dívida pela Korcula, que, por sucessão, foi transferida à requerente após a incorporação das sociedades. · A fiscalização alega, com base em meras presunções, que a dívida contraída pela Korcula não era imprescindível para tornar possível a aquisição do investimento no capital da requerente. Isso porque, tanto o valor aportado via aumento de capital, quanto o valor aportado via empréstimo, tiveram a mesma origem: a controladora estrangeira do grupo Carrefour no Brasil, a Carrefour BV. No entendimento da fiscalização, o empréstimo teria servido apenas para gerar despesas financeiras na requerente, após a absorção do patrimônio da Korcula. Fl. 17291DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 24 · A fiscalização questiona a necessidade das despesas de juros para a atividade da requerente, pelo fato de que, além de considerar o empréstimo como um ato de liberalidade da Carrefour BV, considerou que a dívida foi tomada para financiar a sua própria aquisição. · As autoridades fiscais questionaram a dedutibilidade das despesas de JCP incorridas pela requerente pelo fato de que os JCP foram pagos ou creditados aos seus sócios de forma desproporcional à participação no seu capital social. Além disso, a fiscalização presumiu que a distribuição desproporcional de valores a título de JCP foi feita apenas para gerar economia tributária aos sócios da requerente. · A fiscalização equivocouse claramente em sua análise dos fatos e todas as suas alegações são improcedentes, de forma que essa exigência fiscal deve ser integralmente cancelada, juntamente com as indevidas e excessivas penalidades. Fatos · A requerente é rede brasileira de supermercados do atacado e do varejo, atuante no comércio de mercadorias em geral e foi fundada na década de 1960. No desempenho de suas atividades, a requerente atua com dois tipos de lojas: as lojas denominadas de autosserviço, destinadas a consumidores em geral e pequenos e médios comerciantes; e as lojas denominadas central de distribuição, destinadas a grandes empresas, comerciantes e grandes lojistas. · Em momento imediatamente anterior aos fatos objeto do presente processo administrativo, o capital da requerente era detido diretamente por duas pessoas jurídicas brasileiras e uma pessoa física residente no Brasil: a Primart II Participações Ltda, que detinha 45,5% do seu capital social; a Loly II Participações Ltda, que detinha 32,5% do seu capital social; e, finalmente Farid Curi, que detinha os 22% remanescentes. · Embora tenha se iniciado como uma empresa de origem familiar, a fórmula de sucesso aplicada pelos administradores da requerente passou a atrair o interesse de diversos agentes atuantes no setor varejista do mercado brasileiro. Esse interesse pode ser justificado pelo valor do faturamento da requerente à época: aproximadamente R$ 4 bilhões por ano. · Em 2007, o interesse dos concorrentes em adquirir a requerente estava em harmonia com o interesse dos seus sócios em aproveitar a oportunidade de negócio e, com isso, obter alta liquidez do investimento aportado nas atividades da sociedade durante anos. · Também naquele momento, o grupo Carrefour, de origem francesa, já tinha atingido consolidação de sua marca no mercado brasileiro. O grupo Carrefour atua em mais de 30 países nas Américas, na Europa e na Ásia, essencialmente no comércio varejista de supermercados e hipermercados e em atividades de apoio logístico às suas atividades principais. · A partir da década de 1990, parte da estratégia do grupo Carrefour passou a ser ampliar e incrementar as suas atividades no mercado brasileiro, apontado como uma de suas prioridades nos mercados emergentes. · A partir dos anos 2000, a disputa no mercado de supermercados do Brasil acirrouse. Na época, em termos de faturamento, o grupo Carrefour já se encontrava em segundo lugar (a primeira posição passou a ser ocupada pelo grupo Pão de Açúcar). Em 2006, a rede norte americana WalMart ultrapassou o grupo Carrefour e assumiu a segunda colocação. · Foi nesse contexto que o grupo Carrefour implementou um plano de reestruturação de suas atividades no País, o qual resultou na oportunidade de aquisição da requerente. Pelas particularidades dos serviços oferecidos pela requerente, o grupo Carrefour não tinha dúvidas de que o novo investimento complementaria o seu portifólio de serviços, agregando às suas operações lojas de diferentes formatos e localizadas em regiões em que o grupo ainda não atuava. Fl. 17292DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.281 25 · A aquisição da requerente, além de garantir ao grupo Carrefour no Brasil a liderança no setor, serviria para diversificar as atividades do grupo no País, na medida em que o desempenho das atividades da requerente sempre foi baseado em princípios diversos daqueles aplicados pelo grupo Carrefour no Brasil: baixo custo nas suas operações e foco nas classes de baixa renda. · A Korcula foi constituída em 2.2.2007 e tinha como objeto social a participação em outras sociedades, administração de bens próprios e representação de sociedade nacional ou estrangeira (doc. n° 5). Em 10.4.2007, a Korcula passou a fazer parte do grupo Carrefour no Brasil, tendo como quotistas a Brepa Comércio e Participações Ltda (Brepa), que detinha 99% do seu capital, e a Carrefour Comércio e Indústria Ltda (Carrefour Brasil), que detinha 1% do seu capital (doc. n° 6). · A Brepa é sociedade holding que centraliza os investimentos do grupo Carrefour no Brasil e é controlada pela sociedade holandesa do grupo Carrefour, a Carrefour BV (doc. n° 7). · A aquisição da requerente pela Korcula era a estrutura mais conveniente do ponto de vista administrativo, gerencial e econômico. Como as atividades da requerente eram, de certa forma, diversas da atividade desenvolvida pelo grupo Carrefour no Brasil, o grupo investidor entendeu ser mais seguro e eficiente ter o desenvolvimento do novo investimento em uma sociedade autônoma, desvinculada das empresas que já existiam e se dedicavam puramente ao mercado varejista. Em razão das diferenças de atuação e dos princípios adotados, era necessário um tempo razoável de adaptação do novo investimento ao grupo Carrefour. · Além disso, a aquisição do novo investimento pelo grupo Carrefour no Brasil dependia da tomada de empréstimo para pagamento do preço total exigido pelos vendedores. O desejo da administração dos investidores era que essa dívida fosse transferida às próprias atividades desenvolvidas pela atividade adquirida. · Com base nessas premissas, no dia 20.4.2007, foi assinado o contrato de Venda e Compra de Quotas do Atacadão. O objeto do contrato era a totalidade das quotas detidas pela família Lima no capital da Primart II, a totalidade das quotas detidas pela família Schmeil no capital da Loly II e a totalidade das quotas detidas pelo Sr. Farid Curi no capital da requerente. · Como a Korcula não detinha os recursos necessários para efetuar a aquisição do novo investimento, a Brepa, com o consentimento da Carrefour Brasil, contribuiu para o aumento de seu capital com a quantia de R$ 1.137.810.798,00. O valor aportado pela Brepa em aumento de capital da Korcula havia sido previamente aportado pela Carrefour BV, em aumento do seu capital. · Além disso, também em 30.4.2007, a Korcula tomou empréstimo do exterior, concedido pela Carrefour BV em seu favor, no valor de R$ 1.095.629.201,83. A Carrefour BV é sociedade controladora do grupo Carrefour, de forma que faz parte das suas atividades a tomada de dívidas no exterior para financiar as atividades do grupo como um todo. · A requerente era detida por grupo completamente distinto do grupo a que pertencia a Korcula (adquirente do novo investimento). Os quotistas do seu capital, diretos e indiretos, não possuíam qualquer relação com a Korcula ou seus sócios, de forma que as partes não poderiam, em hipótese alguma, serem consideradas partes relacionadas ou integrantes de um mesmo grupo econômico. · Em 30.4.2007, a Korcula adquiriu efetivamente as participações societárias discriminadas no contrato de aquisição, pagando o preço total de R$ 2.233.440.000. Para comprovar o efetivo Fl. 17293DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 26 pagamento do preço, juntase à impugnação as cópias de solicitação de transferência de valores (TED), assinadas pela Korcula e cópia de extrato bancário do dia 30.4.2007 (doc. n° 15). · Assim, o preço da aquisição do investimento foi efetivamente incorrido pela Korcula. Ao contrário do que alega a fiscalização, o preço não foi incorrido pela Carrefour BV, mas sim pela Korcula. A interpretação da fiscalização não pode ser aplicada, pois seria o mesmo que admitir que, quando uma pessoa jurídica toma um empréstimo bancário para adquirir determinado bem, o adquirente desse bem seria a instituição financeira que concedeu o empréstimo, e não o tomador dos recursos que efetivamente transferiu os recursos ao vendedor e passou a ter a propriedade do bem. · O preço efetivamente pago pela Korcula para adquirir, direta e indiretamente, a totalidade do capital da Requerente foi superior ao valor de patrimônio líquido das sociedades adquiridas. A Korcula passou a ser legalmente obrigada, nos termos do artigo 20 do Decretolei 1.598, de 1977, a avaliar seu investimento nas sociedades adquiridas segundo o método da equivalência patrimonial, isto é, desdobrando seu valor total em: valor de patrimônio líquido da Primart II, da Loly II e da Requerente; e ágio ou deságio. · Seguindo, portanto, a legislação fiscal e societária em vigor, a Korcula passou a registrar ágio no valor de R$ 1.780.738.273,26. O valor efetivo do ágio apurado na aquisição efetuada pela Korcula foi de R$ 1.702.116.571,36, após os ajustes decorrentes de compromissos existentes na requerente antes da data de fechamento e de responsabilidade dos vendedores (doc. n° 19). Esse ágio foi integralmente fundamentado na expectativa de rentabilidade futura da participação societária adquirida pela Korcula. · Como contrapartida do reconhecimento do ágio pela Korcula, o ganho de capital apurado pelos vendedores pessoas físicas residentes no Brasil foi submetido à tributação pelo imposto sobre a renda das pessoas físicas (IRPF), conforme comprovam os respectivos documentos de arrecadação (Darf) anexos (doc. n° 20). A operação ensejou também o recolhimento de outros tributos aplicáveis. · O ágio resultou de operação efetiva de compra e venda entre empresas brasileiras, praticada entre partes independentes, e somente foi apurado em razão de o valor de mercado estimado para essas participações societárias, com base em suas projeções de fluxo de caixa descontado, resultarem em valores significativamente superiores ao seu patrimônio líquido à época. Não houve nada de artificial, simulado ou fraudulento. · É anexado aos autos o laudo de avaliação econômica elaborado pela KPMG, empresa independente e notoriamente especializada nesse tipo de avaliação, em favor da Korcula (doc. n° 21). O laudo confirma expressamente o fundamento econômico do ágio, com base em estimativas de rentabilidade futura, apuradas segundo o método de fluxo de caixa descontado. · Esse laudo, bem como o fundamento econômico do ágio, não foram, em nenhum momento, questionados pela fiscalização. · A operação de aquisição da requerente pela Korcula foi analisada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Na ocasião, o Cade aprovou a operação, apenas com a ressalva de que a restrição geográfica da cláusula de não concorrência fosse ajustada (doc. n° 22). · No âmbito da análise da operação pelo CADE, a transação sempre foi descrita como aquisição de todas as cotas representativas do capital social do Atacadão pela Korcula, no setor de supermercados e hipermercados. Ou seja, ao contrário do que alega a fiscalização, em nenhum momento o Cade considerou que o real adquirente do investimento teria sido a Carrefour BV. Fl. 17294DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.282 27 · Muito pelo contrário, a adquirente do novo investimento sempre foi considerada a Korcula, de maneira a enquadrar a transação como uma operação puramente brasileira. Parecer emitido pela Secretaria de Acompanhamento Econômico chega a afirmar que se trata de uma operação nacional, tendo sido notificada apenas às autoridades antitruste brasileiras. · O grupo Carrefour não tinha nenhum interesse em manter as sociedades holding adquiridas (a Primart II e a Loly II). Essas holdings eram utilizadas apenas pelos antigos quotistas para centralizarem os investimentos de cada família na requerente. Assim, em 30.9.2007, ambas as sociedades foram incorporadas, a valor de livros, ao patrimônio da Korcula (doc. n° 23). Como conseqüência, o capital da requerente passou a ser detido única e exclusivamente pela Korcula. · Com este passo, o objetivo maior da operação aquisição da requerente pelo grupo Carrefour no Brasil estava concluído. Não obstante, ainda havia procedimentos a serem cumpridos, tendo em vista, principalmente, o fato de que grande parte do preço de aquisição pago pela Korcula havia sido financiada por meio da dívida tomada pela sociedade adquirente. · Ainda que a integralidade dos recursos tenha tido a mesma origem, ou seja, a Carrefour BV, no final da operação, a dívida tomada pela Korcula foi convertida em empréstimo com terceiro que não fazia parte do seu grupo econômico. Em 18.1.2008, o empréstimo tomado pela Korcula frente ao Carrefour BV foi quitado, mediante novo empréstimo tomado por meio de contrato firmado com o BNP Paribas Securities Services (doc. n° 24). A requerente anexa também o contrato de câmbio (doc. n° 25) e o registro da operação financeira relacionada a essa operação (doc. n° 26). · Portanto, ao contrário do que foi alegado pela fiscalização, ao final das operações, a dívida foi efetivamente contraída pela adquirente (a Korcula) perante uma sociedade independente (doc. n° 27). Essa dívida foi essencial para tornar possível a aquisição do novo investimento pelo grupo Carrefour no Brasil. · O fato de que parte dos recursos necessários à aquisição foi aportada na Korcula por via de aumento de capital e parte via dívida está relacionado à estratégia de financiamento do grupo Carrefour para adquirir o novo e relevante investimento. A parte aportada mediante empréstimo dizia respeito a investimento de curto prazo, que logo deveria ser devolvido pela sociedade brasileira à sociedade estrangeira (como de fato, foi). · Visando a cumprir os demais procedimentos necessários, em 30.1.2008, a requerente incorporou a sociedade Korcula, a valores contábeis, ocasionando a extinção da sociedade adquirente do investimento (doc. n° 28). Com a incorporação da Korcula, a requerente sucedeu essa sociedade em todos os seus direitos e obrigações, inclusive na obrigação de liquidar a dívida contraída frente ao BNP Paribas. · Na incorporação, as quotas representativas do capital social da Korcula foram extintas e substituídas por ações da requerente. Assim, em vez de participação direta na Korcula, a Brepa e o Carrefour Brasil passaram a deter participação societária direta na requerente, tudo conforme a legislação fiscal e societária em vigor à época dos fatos. · Com incorporação da Korcula, o ágio foi convertido em ativo diferido na requerente, amortizável para fins fiscais nos exatos termos do artigo 7º, inciso III, e artigo 8º da Lei 9.532, de 10.12.1997, tendo em vista que esse ágio tinha como justificativa econômica a expectativa de rentabilidade futura da sociedade adquirida. · Também com a incorporação da Korcula, a dívida assumida pela sociedade incorporada passou a ser amortizada pela requerente. Fl. 17295DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 28 · O pagamento da dívida pela requerente é mera conseqüência da sucessão societária decorrente da incorporação das sociedades. Com isso, as despesas financeiras incorridas pela requerente passaram a ser deduzidas da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, assim como tais despesas financeiras seriam deduzidas pela Korcula caso não tivesse havido sua extinção. · Esse último passo da operação ressalta a importância da Korcula para a estrutura de aquisição da requerente pelo grupo Carrefour no Brasil. A verdade é que a existência da Korcula, além de possibilitar a segregação do novo investimento feito pelo grupo Carrefour, permitiu que a parcela do endividamento tomado pelo grupo Carrefour pudesse ser transferida para a requerente, sociedade operacional. · É do conhecimento de todos que os investidores em geral captam recursos no mercado financeiro para investimento em empresas dos mais variados ramos. Além disso, a melhor prática contábil e financeira é a de que o financiamento obtido seja amortizado diretamente pelas atividades operacionais que justificaram o referido financiamento. · Além de ser a melhor prática financeira e contábil, esse tipo de operação é usual e normal no contexto de aquisições de empresas. Se determinado financiamento foi obtido para permitir a aquisição de uma linha de negócios específica, nada mais razoável do que fazer com que ele seja amortizado especificamente pelas atividades operacionais dela decorrentes. De fato, somente se a atividade operacional for capaz de amortizar o financiamento é que o investimento será rentável para o investidor. · Pelo exposto, são incabíveis as alegações fiscais de que a existência da Korcula teve como único propósito criar um ágio artificial na transação. · Ainda que se admita que a Korcula não teve outras razões empresariais, o que se admite apenas para argumentar, a verdade é que sua utilização na operação não gerou para as partes nenhum benefício fiscal artificial ou a que elas não tivessem o devido direito, até porque, repitase, o ágio foi efetivamente pago e incorrido pela adquirente (domiciliada no Brasil) do investimento, e se originou de efetiva operação de compra e venda celebrada entre partes não relacionadas. Este caso, portanto, jamais pode ser visto como qualquer forma de planejamento tributário abusivo, mas sim, e meramente, como a adoção de uma opção legalmente disponível no ordenamento jurídico para a estruturação da mesma operação, sem nenhum prejuízo para o fisco. · Na essência, é inegável que o propósito negocial da operação foi a aquisição de um novo investimento pelo grupo Carrefour no Brasil. Ilustrase a afirmação com a citação das razões declaradas pelas partes como "razões decisivas para a realização do ato ou contrato notificado", no âmbito do Ato de Concentração n° 08012.006940/200760 julgado pelo Cade. · Não há como admitir que a transação foi efetuada para gerar despesas de amortização fiscal de ágio. A transação teve como propósito econômico e principal a aquisição de um novo e importante investimento para o grupo Carrefour no Brasil. Não houve nenhum ato doloso, fraudulento ou simulado realizado pelo grupo Carrefour ou pela requerente nas operações. Cada uma de suas etapas está fartamente suportada em documentação hábil e idônea, devidamente registrada nos órgãos oficiais conforme a regulamentação em vigor. Apenas deu se instrumentalidade ao propósito econômico final e maior que era a compra da requerente pelo grupo Carrefour. · Não há qualquer indício ou comprovação de que os atos praticados foram realizados de forma a encobrir, enganar ou impedir o conhecimento pelas autoridades fiscais de qualquer dos atos envolvidos na operação ou até mesmo da intenção do grupo Carrefour de aproveitar fiscalmente o ágio pago na aquisição da Requerente, até porque, não haveria motivos para encobrir a utilização de benefício fiscal previsto expressamente na legislação tributária. Fl. 17296DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.283 29 · É também possível concluir que não se trata de planejamento tributário em que negócios simples são revestidos de características complexas, tal como alegado pela fiscalização. O que houve foi mera reestruturação societária para adquirir participação societária na requerente, a fim de expandir as atividades do grupo Carrefour no Brasil. · Quando do anúncio da transação ao mercado, o grupo Carrefour comunicou que a aquisição fazia parte da estratégia do Carrefour de reforçar sua presença em mercados de crescimento importante por melo de uma abordagem de formato diversificado (doc. n° 30). · Portanto, houve um claro excesso cometido nesta autuação, que deve ser prontamente corrigido pela autoridade julgadora, sob pena de frontal violação à legislação e jurisprudência aplicáveis. · Esse excesso também foi cometido pelas autoridades fiscais ao glosarem as despesas financeiras incorridas em decorrência da sucessão da dívida originariamente tomada pela Korcula, e ao glosarem as despesas de JCP. O direito relacionado à amortização fiscal do ágio · A aquisição, pela Korcula da totalidade do capital da Requerente apresentou as seguintes características: a transação de compra de participação societária foi realizada entre partes independentes, envolvendo grupos econômicos não relacionados; a fiscalização, em nenhum momento, alega que a operação teria sido realizada entre partes relacionadas; houve efetivo pagamento do preço (e do ágio) firmado entre as partes, preço este incorrido por sociedade brasileira para adquirir investimento em outra sociedade brasileira; o fundamento econômico do ágio pago a expectativa de rentabilidade futura estava embasado em laudo de avaliação preparado pela KPMG, que nem sequer foi questionado pela fiscalização; o preço pago pela adquirente, e o valor do ágio reconhecido, nem sequer foram questionados pela fiscalização; o ganho de capital apurado pelos vendedores (antigos quotistas da requerente) foi submetido à tributação pelo IRPF, ocasionando recolhimento de tributo aos cofres públicos em alto valor; e a aquisição foi seguida da incorporação da sociedade adquirente ao patrimônio da adquirida, de forma que o ágio pago e o seu fundamento econômico foram consolidados em uma única pessoa jurídica. · Essas características representam as premissas que devem ser adotadas para fins do julgamento da legitimidade da amortização fiscal do ágio. · Nos termos do artigo 248 da Lei n° 6.404, de 15.12.1976, os investimentos permanentes em sociedades coligadas ou controladas devem ser avaliados pelo método da equivalência patrimonial. A aquisição da requerente pela Korcula fez com que essa sociedade passasse a deter um investimento relevante em seu ativo, de modo que a aplicação do método de equivalência patrimonial tornouse obrigatória. · A pessoa jurídica que adquirir investimento sujeito ao método de equivalência patrimonial deve desdobrar o custo de aquisição desse investimento em: valor de patrimônio líquido na época da aquisição; e ágio (ou deságio) apurado na operação. · O ágio, para fins fiscais, poderá ter os seguintes fundamentos econômicos: valor de mercado dos bens do ativo da coligada ou controlada superior ao custo registrado na sua contabilidade; valor da coligada ou controlada, com base em previsão de resultados futuros; e fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. · A Korcula, ao adquirir o novo investimento, procedeu exatamente como determina o artigo 20 do Decretolei 1.598/77 e 385 do RIR/99, e desdobrou, em sua escrituração contábil e fiscal, Fl. 17297DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 30 o custo de aquisição do investimento que passou a deter na Primart II, Loly II e Requerente em: valor de patrimônio líquido desses investimentos; e ágio. · Esse ágio, conforme o laudo de avaliação preparado pela KPMG, estava fundamentado na expectativa de rentabilidade futura do novo investimento, calculado com base na projeção do seu fluxo de caixa descontado. Como conseqüência disso, é inquestionável que esse ágio enquadrase exatamente na hipótese do artigo 20, § 2º, letra "b" do Decretolei 1.598/77. · Da leitura do disposto no artigo 7º, inciso III, e artigo 8º da Lei 9.532/97, concluise que se uma pessoa jurídica que detenha participação societária registrada com ágio, com base na expectativa de rentabilidade futura da sociedade investida, for incorporada à sociedade investida, ou viceversa, esse ágio passará a ser tratado como um ativo amortizável para fins fiscais na sociedade sobrevivente à incorporação, em um prazo mínimo de cinco anos. · Com a incorporação da Korcula na requerente, o ágio antes registrado pela Korcula foi convertido para fins fiscais em ativo diferido na requerente, de forma que esses valores se tornaram amortizáveis à razão máxima de 1/60 por mês. · Portanto, o ágio em questão foi gerado de acordo com a correta e racional aplicação das regras contábeis e fiscais em vigor, nos exatos termos do artigo 20 do Decretolei 1.598/77, dos artigos 7º e 8º da Lei 9.532/97, e artigos 385 e 386 do RIR/99. Não cabe, portanto, à fiscalização pretender lançar quaisquer dúvidas sobre a sua legitimidade, sobretudo com base em premissas equivocadas como as que motivaram o auto de infração. · Embora tenham sido originalmente editados no contexto do Plano Nacional de Desestatização, esses dispositivos são igualmente aplicáveis e válidos para incentivar operações de compra e venda de empresas entre partes privadas. Em abono do argumento, cita se passagem atribuída a Ricardo Mariz de Oliveira. · A lógica que ainda fundamenta a aplicação desses dispositivos é a de incentivar operações de fusões e aquisições de empresas também entre partes privadas. · Logo, nas operações sujeitas aos artigos 7º e 8º da Lei 9.532/97, percebese que o ponto de preocupação do legislador não é a forma como o preço que gerou o ágio tenha sido pago, mas sim se esse preço foi acordado entre as partes independentes com base na expectativa de rentabilidade futura da sociedade adquirida. · Desde que essas condições sejam atendidas, a amortização fiscal de ágio ajustase perfeitamente à finalidade das normas que regem a matéria. Nesse cenário, não há motivos para se questionar a validade do ágio apenas pelo fato de que o seu pagamento foi feito por uma sociedade holding pura, tal como ocorreu no presente caso. · Na essência, a finalidade do benefício fiscal de amortização do ágio previsto na Lei 9.532/97 está intrinsecamente associada à busca pelo fortalecimento da economia nacional por meio de investimentos em outras empresas e reorganizações societárias. · Essa finalidade, tal como explicada de forma pormenorizada no voto do Acórdão n° 1301 000.711, julgado pelo Carf, foi plenamente atendida no caso concreto, na medida em que resultou na aquisição, pela Korcula, das quotas da requerente. Esse entendimento foi corroborado pelo Conselheiro Relator Antônio José Praga de Souza, também do Carf, quando do julgamento do Acórdão n° 140200.802. · Comprovado que a aquisição da requerente pela Korcula atende à finalidade prevista na Lei 9.532/97 para os fins de amortização fiscal do ágio, é evidente que o auto de infração não merece prosperar. · A utilização da Korcula como adquirente do investimento também estava revestida de efetivos propósitos negociais que ultrapassam a mera economia tributária da operação. Fl. 17298DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.284 31 · Em primeiro lugar, deve ser mencionado o propósito negocial primordial da operação. A causa jurídica da operação em exame foi a aquisição da totalidade do capital da requerente pela Korcula. A causa jurídica da operação não era a amortização fiscal do ágio incorrido pela adquirente. Esse benefício fiscal expressamente previsto na legislação tributária é mera conseqüência dessa causa jurídica verdadeira e legítima da operação: a expansão das atividades do grupo Carrefour no Brasil. · Conforme estabelece a própria jurisprudência atual do Carf, não há qualquer ilícito quando a motivação do negócio jurídico está relacionada à obtenção de vantagem fiscal. O ilícito ocorre quando a causa do negócio jurídico (a aquisição da participação societária) está apenas ligada à obtenção de um benefício fiscal. Definitivamente, não se está diante de caso em que a causa do negócio jurídico era a obtenção de benefício fiscal. · Em segundo lugar, o negócio adquirido pelo grupo Carrefour apresentava características específicas que, de certa forma, divergiam das atividades desempenhadas pela investidora até então. As atividades desempenhadas pela requerente tinham como princípios o foco nos consumidores de baixa renda, sem grande diversidade de produtos e o baixo custo nas suas atividades. Isso sem contar que a requerente também exercia atividades típicas do mercado atacadista. · A atividade desempenhada pela requerente era algo novo para o grupo Carrefour, grupo que sempre atuou no mercado varejista. Por essas razões, a opção da administração foi desenvolver esse novo negócio em sociedade autônoma, desvinculada das outras empresas integrantes do grupo Carrefour no Brasil. A utilização da Korcula na aquisição atendeu a essa necessidade do grupo investidor. · Ainda mais relevante, a utilização da Korcula tornou possível a aquisição em si do novo investimento pelo grupo Carrefour. Em razão do valor de mercado das quotas da requerente, os recursos disponíveis para investimento de longo prazo do grupo Carrefour não eram suficientes para que o grupo se tornasse detentor de tão disputado investimento. · A única maneira do grupo Carrefour no Brasil adquirir as quotas da requerente seria pela obtenção de empréstimo de recursos de terceiros. A obtenção do empréstimo, somado aos recursos próprios do grupo, representava medida imprescindível para a aquisição desejada. · E essa medida imprescindível só seria possível por meio da utilização da sociedade Korcula. Isso porque, conforme efetivamente ocorreu ao final da operação, o cenário idealizado pelos investidores seria a transferência da dívida tomada para as atividades da própria requerente, tendo em vista que essa é a melhor prática contábil e financeira adotada no mercado. Os investidores, na maioria das vezes, procuram fazer com que o financiamento obtido para aquisição de uma linha de negócios seja amortizado por essa própria linha de negócios. · A utilização da Korcula não só gerou economia tributária decorrente da amortização fiscal do ágio, mas, principalmente, tornou possível a própria operação de aquisição das quotas da requerente pelo grupo Carrefour no Brasil. · E nem se diga que, pelo fato do empréstimo tomado pela Korcula ter sido primeiramente concedido pela Carrefour BV, a dívida não era necessária para o investimento. Isso é mera presunção adotada pela fiscalização sem comprovação. Tanto é assim que, em menos de um ano, esse empréstimo intragrupo foi quitado, mediante a obtenção de novo empréstimo pela Korcula (frente ao BNP Paribas). Isso significa que, ao final, o empréstimo foi tomado com terceiro, tendo em vista que o grupo Carrefour não tinha disponibilidade de recursos financeiros para serem aplicados em investimentos de longo prazo. Fl. 17299DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 32 · Essas razões empresariais para a utilização da Korcula foram, inclusive, indicadas pela requerente durante o procedimento de fiscalização. · A própria fiscalização reconhece no termo de verificação fiscal que a transferência da dívida assumida para as atividades da requerente era um dos propósitos dos investidores. · A afirmação da fiscalização, no sentido de que essas razões empresariais apresentadas pela requerente poderiam ser atendidas perfeitamente se a requerente permanecesse como controlada direta da Brepa e do Carrefour Brasil (sem necessidade de utilizar a Korcula), não procede. Essas duas sociedades citadas pela fiscalização, por razões econômicas e gerenciais, não poderiam ser incorporadas na requerente (o que permitiria a transferência da dívida para as atividades da requerente). · O Carrefour Brasil é sociedade operacional, que desenvolve atividades distintas da requerente. Do ponto de vista empresarial, nem o mais imprudente dos administradores procederia à incorporação de uma sociedade pela outra. Tanto isso é verdade que, até os dias atuais, as duas sociedades continuam separadas. · Já a Brepa é sociedade holding do grupo Carrefour no Brasil, que centraliza praticamente todos os investimentos do grupo no País. Assim, também não seria eficiente, do ponto de vista empresarial e societário, incorporar a Brepa ao patrimônio da Requerente para o fim de transferir a dívida necessária à aquisição do novo investimento. · Portanto, a utilização da Korcula foi a melhor alternativa encontrada pela administração do grupo Carrefour. Não cabe à fiscalização fazer juízo sobre a administração da sociedade, muito menos quando as decisões tomadas pela administração provocam efeitos fiscais expressamente previstos na legislação tributária. A economia tributária decorrente dessa operação de aquisição foi mera conseqüência da transação e decorre da própria legislação fiscal em vigor. · E, ainda que não se admitissem as teses expostas, o que se afirma apenas a título de argumentação, a fiscalização não poderia pretender desconstituir uma operação realizada em absoluta conformidade com a legislação em vigor, unicamente por conta das suas motivações econômicas. A aplicação da chamada teoria da substância econômica passou a ser adotada pelas autoridades fiscais a partir da edição da Lei Complementar n° 104, de 10.01.2001, que alterou o artigo 116, parágrafo único, do CTN. No entanto, além de esse dispositivo não ter sido expressamente citado pela fiscalização no auto de infração, a parte final do dispositivo deixa expresso que ele não é autoaplicável, mas depende de regulamentação por lei ordinária, a qual não ocorreu até o presente momento. · Portanto, ainda que não se entenda que houve efetivo propósito negocial e verdadeira substância econômica na operação, não é dado à fiscalização desconsiderar negócios jurídicos existentes, válidos e eficazes apenas com base em uma suposta interpretação da substância econômica envolvendo a operação. · Não obstante, caso seja válida a exigência da fiscalização de que o negócio tenha outros objetivos além da simples economia tributária, a requerente demonstrou e comprovou as razões empresariais envolvidas na utilização da Korcula como adquirente do investimento. Desse modo, as alegações da fiscalização a esse respeito são completamente improcedentes, ainda que a exigência de propósitos negociais seja válida. · Só é possível falar em empresa veículo quando a sociedade não tem absolutamente nenhuma outra função na estrutura que não a de propiciar uma economia fiscal indevida, em um contexto que é necessariamente desprovido de qualquer propósito negocial ou societário efetivo. · Mesmo que não houvesse qualquer razão empresarial para a utilização da Korcula pelo grupo Carrefour no Brasil, o que se admite apenas para argumentar, a amortização fiscal do Fl. 17300DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.285 33 ágio reconhecido na transação seria legítima. Uma sociedade holding pura não é constituída para ter empregados ou quaisquer outros ativos além de unicamente participações societárias. Edmar Oliveira Andrade Filho discorre magistralmente sobre o assunto para esclarecer que uma sociedade holding pode ser constituída meramente para deter participação societária, já que o seu propósito negocial típico é justamente esse. · A possibilidade de existência de uma sociedade cujo objeto social seja a mera detenção de outra sociedade está expressamente prevista no artigo 2º, § 3º, da Lei das S. A. · O artigo 31 da Lei 11.727, de 23.07.2008 reconhece a holding pura como uma sociedade ao dispor que a holding pura poderá diferir o reconhecimento das despesas com juros de empréstimos contraídos para financiamentos de investimentos em sociedades controladas. · A existência de uma sociedade holding pura independe da existência de empregados, ou da geração de despesas ou receitas próprias. A possibilidade de uma sociedade ter por função eminentemente participar de outras sociedades está expressamente amparada por lei e é largamente reconhecida na doutrina. Ainda assim, ao contrário do que alega a fiscalização, a Korcula incorreu em despesas com prestadores de serviços (doc. n° 31). · Como a Korcula teve o propósito específico de efetuar a aquisição das quotas da requerente, não se descaracteriza a existência de tal empresa por falta de empregados ou de receitas ou despesas próprias, já que tudo isso não seria sequer condizente com sua função primordial, que era a de ser meramente uma sociedade holding. · Por fim, citase ainda a doutrina de Edmar Oliveira Andrade Filho para demonstrar que o prazo de duração de uma sociedade holding também não pode ser utilizado como requisito de sua validade, a teor do artigo 981, parágrafo único do Código Civil. · No entanto, ainda que não houvesse as razões empresariais mencionadas, o que se admite apenas para argumentar, a Korcula não poderia ser desconsiderada pela fiscalização. · A amortização fiscal do ágio é legítima pelo simples fato de que a operação de aquisição do novo investimento pelo grupo Carrefour no Brasil: representou operação de compra e venda de participação societária que teve como adquirente e vendedor empresas brasileiras, independentes e não relacionadas entre si; foi feita a valores justos de mercado, com o efetivo desembolso do preço pela adquirente; envolveu o pagamento de um ágio no valor de R$1.702.116.571,36, que teve como justificativa a expectativa de rentabilidade futura do investimento, baseada em laudo de avaliação que nem sequer foi questionado pela fiscalização; e teve como passo final a incorporação da Korcula ao patrimônio da requerente, preenchendo os requisitos estabelecidos pelos artigos 7º e 8° da Lei 9.532/97 para possibilitar a amortização fiscal do ágio. · O Carf , ao julgar casos com fatos e circunstâncias em que havia sociedades veículo (o que não ocorre no presente caso), reconheceu a legitimidade da amortização fiscal do ágio pago pelos contribuintes, desde que a transação que gerou o ágio tenha sido feita entre partes independentes, tenha havido efetivo pagamento do preço pelo comprador e que o fundamento econômico do ágio esteja baseado em avaliação (o que ocorreu no presente caso). · Os casos julgados pelo Carf e que são abordados em maiores detalhes na defesa da impugnante, com transcrição de trechos dos votos, são: Acórdão 140200.802; Acórdão 1301.000.711; Acórdão 140200.993; Acórdão 120100.689; Acórdão 1402001.310; e Acórdão 1102000.875 (doc. n° 32). · Todos esses casos envolvem elementos importantes e, em alguma medida, similares ao caso em análise: o pagamento efetivo de ágio pela adquirente do investimento; a participação Fl. 17301DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 34 de partes não relacionadas na transação original de compra e venda de participação societária; e a amortização fiscal de ágio após a incorporação da sociedade adquirente (nesses casos, chamadas de "empresaveículo") na sociedade alvo da aquisição. E todos esses casos foram julgados a favor do contribuinte, tendo o Carf afastado a infundada alegação das autoridades fiscais de que a utilização de sociedade veículo invalidaria a amortização fiscal de ágio. Note se que a requerente não está dizendo aqui que o presente caso tem uma sociedade veículo. O que se quer deixar claro é que mesmo se fosse aceita a absurda alegação de que haveria uma sociedade veículo, isto por si só, não seria suficiente para questionar ou afastar o direito da requerente de utilizar benefício fiscal expressamente estabelecido pela legislação tributária. · A impugnante, em abono de seus argumentos, transcreve as conclusões apresentadas pelo Relator Antônio José Praga de Souza, no julgamento do caso Santander, para os fins de reconhecer a legitimidade na amortização fiscal do ágio pelos contribuintes. · Também no caso Santander, o Conselheiro Moises Giacomelli, em sua declaração de voto concluiu que a utilização de "empresas veículos" não tem o condão de descaracterizar uma operação da qual se originaram parcelas de ágio, se esses valores foram válida e legitimamente apurados pelo adquirente do investimento. · No caso Santander, uma das principais alegações das autoridades fiscais era de que o ágio tinha sido pago por sociedade não residente no Brasil (domiciliada na Espanha). E de fato foi. Posteriormente, a participação societária adquirida com ágio foi contribuída em sociedade holding brasileira, que passou a registrar o ágio no Brasil. Tratase de questionamento muito semelhante ao do presente processo administrativo. Todavia, os fatos são muito diferentes. No caso aqui analisado a adquirente foi empresa brasileira. · O caso Santander foi julgado pelo Carf favoravelmente aos contribuintes, de forma unânime. No entanto, os fatos envolvidos no presente caso e no caso Santander possuem uma diferença relevante. No caso da requerente, o ágio e o preço foram pagos por sociedade domiciliada no Brasil, a Korcula. Portanto, ainda com mais razão, o questionamento fiscal deve ser afastado. Do contrário, haveria manifesta divergência com a atual jurisprudência do Carf. · E nem se diga que esses conceitos e conclusões só seriam aplicáveis para casos envolvendo privatizações. No Acórdão 1402001.310, o Carf adotou exatamente os mesmos fundamentos para julgar como legítima a amortização fiscal de ágio envolvendo apenas partes privadas, com o uso de empresa veículo. O Acórdão proferido deixa claro que, aos casos que não envolvam privatização, devem ser aplicados os mesmos conceitos e conclusões do caso Santander. · Por fim, o caso Columbian também julgado em favor do contribuinte também envolveu questionamento muito semelhante ao do presente processo administrativo, porque o contribuinte foi autuado por conta do uso de empresa veículo, que teria tido como único objetivo internalizar um ágio que foi pago por não residente. Aqui também prevaleceu o entendimento de que o uso de sociedade holding não vicia a dedutibilidade das despesas de amortização fiscal de ágio, desde que o ágio tenha sido efetivamente pago, em uma operação conduzida entre partes independentes, e com fundamento na rentabilidade futura da coligada ou controlada. · Quanto ao caso Columbian, é interessante notar também que um dos propósitos empresariais mencionados pelo contribuinte autuado é muito semelhante ao do presente processo administrativo: tornar possível o pagamento da dívida tomada pelo investidor pelas atividades operacionais da investida. · Todos esses casos mostram que o posicionamento atual do Carf é admitir a amortização fiscal de ágio na hipótese em que uma sociedade holding pura (investidora) é incorporada pela sociedade operacional, exatamente como no caso discutido nesses autos. Fl. 17302DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.286 35 · Esses recentes julgamentos do Carf estabeleceram conclusões importantes para a análise do presente caso: o ágio possui três premissas básicas para fins de amortização fiscal: (a) ter sido efetivamente incorrido pelo adquirente do investimento; (b) a transação ter sido realizada entre partes independentes; e (c) seja demonstrada a lisura na avaliação da empresa adquirida, bem como a expectativa de rentabilidade futura; a Lei 9.532/97 induz os contribuintes a implementarem reorganizações societárias que possibilitem a amortização fiscal do ágio gerado, desde que referido ágio seja resultante de operação entre partes não vinculadas na sua origem; não há ilícito quando a motivação do negócio jurídico está relacionada à obtenção de vantagem fiscal; o ilícito ocorre quando a causa do negócio jurídico (a aquisição da participação societária) está apenas ligada à obtenção de um benefício fiscal; só se poderia falar de ilícito na utilização de sociedade veículo se essa utilização resultar no aparecimento de novo ágio ou de ágio maior do que aquele que seria reconhecido sem a sua utilização. · A adoção de todas as conclusões mencionadas acima leva a que o questionamento da fiscalização seja declarado completamente improcedente, na medida em que: o ágio pago pela Korcula preenche as 3 premissas básicas mencionadas, na medida em que a Korcula efetivamente desembolsou o preço de aquisição das quotas; a transação foi realizada entre partes independentes; e a justificativa do fundamento econômico do ágio estava baseada em laudo de avaliação preparado por empresa especializada, que nem sequer foi questionado pela fiscalização; o ágio pago pela Korcula está sendo amortizado fiscalmente com base no benefício fiscal estabelecido pela Lei 9.532/97; a causa do negócio jurídico foi a aquisição da totalidade das quotas da requerente; a amortização fiscal decorrente desse negócio jurídico é mera conseqüência, mera motivação fiscal lícita, prevista expressamente na legislação em vigor; e a utilização da Korcula na operação não provocou o surgimento de novo ágio e não gerou o reconhecimento de ágio em maior valor do que seria reconhecido caso ela não existisse; caso a aquisição tivesse sido feita pela Brepa ou pelo Carrefour Brasil, o ágio teria sido exatamente o mesmo. · Por fim, na maioria dos casos julgados pelo Carf, todos decididos em favor do contribuinte, as sociedades holdings que também haviam sido tratadas pelo fisco como empresas veículo nem haviam sido as adquirentes originais dos investimentos, mas os receberam por meio de contribuições em aumento de capital. · A utilização da Korcula pelo grupo Carrefour não trouxe vantagens ou benefícios fiscais superiores àqueles a que a requerente teria direito. A aquisição da requerente pelo grupo Carrefour no Brasil, seguida da incorporação da adquirente na requerente, não gerou para as partes qualquer benefício fiscal artificial ou a que elas não tivessem o devido direito. · Este caso, portanto, jamais pode ser visto como qualquer forma de planejamento tributário abusivo, mas sim, e meramente, como a adoção de uma opção legalmente disponível no ordenamento jurídico para a estruturação da mesma operação, sem nenhum prejuízo para o fisco. · Diferentemente dos chamados planejamentos tributários, nas opções fiscais, o contribuinte não se aproveita de nenhuma lacuna da lei ou da construção de diversos dispositivos para se contornar uma regra proibitiva. Diante de regra legal expressa, e sem jamais alterar a essência econômica de seus atos, o contribuinte opta por um caminho plenamente regulado para estruturar suas operações conforme lhe pareça mais conveniente do ponto de vista negocial e empresarial, com possíveis conseqüências fiscais, como foi o caso destes autos. · Por tudo isso, está demonstrada a completa insubsistência das alegações fiscais em relação à suposta ocorrência de fraude, assim como o absoluto descabimento da acusação de a Korcula ser considerada como uma suposta empresa veículo ilegítima. Fl. 17303DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 36 · Nenhum dos precedentes mencionados pelos autuantes é aplicável ao caso em exame. · O Acórdão 10323.290, que até envolve sociedades do grupo Carrefour no Brasil, nem trata de questão de amortização fiscal de ágio. Nele, o que estava em discussão era a possibilidade de computar o ágio pela investidora em seu custo de aquisição, para fins de apuração de ganho de capital decorrente da alienação de estabelecimentos comerciais. Portanto, tratase de caso substancialmente diverso. · O Acórdão 10195.537 também não trata de amortização fiscal de ágio. Ele analisou uma operação que ficou conhecida no mercado como "casa e separa", em que, visando afastar a tributação sobre ganho de capital na alienação direta de investimento, é admitido novo sócio na empresa a ser adquirida (mediante subscrição de ações com pagamento de ágio), com a posterior retirada do sócio antigo, que leva os valores monetários envolvidos na transação (enquanto o novo sócio permanece com as ações que originalmente pretendia adquirir). É caso de apuração de ganho de capital e que, de forma alguma pode ser confundido com os fatos do presente processo administrativo. · O Acórdão 10196.724, embora envolva julgamento de amortização fiscal de ágio, apresenta premissas fáticas completamente diversas. Nele, o contribuinte passou a amortizar fiscalmente um ágio decorrente da contribuição em aumento de capital de uma sociedade holding pura. · Além disso, ainda que os precedentes trazidos pelos autuantes fossem aplicáveis, o que se admite apenas para argumentar, ficou claro que a atual jurisprudência do Carf é completamente favorável às operações efetuadas pelo grupo Carrefour. · É equivocada a premissa adotada pela fiscalização, segundo a qual a amortização de ágio teria sido indevida porque a incorporação teria sido realizada de forma invertida. A amortização fiscal do ágio é possível no presente caso devido à existência de expressa previsão legal, e constitui posição validada igualmente pela doutrina e pela jurisprudência administrativa. · O artigo 7º da Lei 9.532/97 determina que a pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, na qual detenha participação societária adquirida com ágio justificado com base na rentabilidade futura da empresa adquirida poderá amortizar o valor de referido ágio. · A Exposição de Motivos da Lei 9.532/97 deixa claro que se pretendeu eliminar benefício fiscal existente antes da publicação desta norma e não introduzir um novo benefício fiscal. Logo, não há qualquer restrição determinando que a incorporadora deveria deter participação societária na incorporada. Ao contrário, para dirimir eventuais dúvidas de interpretação é que o legislador introduziu o artigo 8° na mesma Lei. · O artigo 8º estabelece expressamente que o tratamento previsto no artigo 7° da Lei 9.532/97 também é aplicável quando a empresa incorporada for aquela que detinha a propriedade da participação societária, ou seja, que o mesmo tratamento é aplicável quando a controlada (adquirida) incorpora a controladora (adquirente). · O artigo 386, § 6º do RIR/99, que reproduz o artigo 8º da Lei 9.532/97, garante expressamente o direito à amortização do ágio para as situações em que a sociedade controlada incorpora a sociedade controladora, tal como ocorreu no presente caso. Ainda sobre o assunto, confirase a redação dos artigos 1º e 3º da Instrução Normativa SRF n° 11, de 10.2.1999. · Se há lei, decreto e instrução normativa estabelecendo expressamente que o ágio pago na aquisição de sociedade em decorrência da expectativa de rentabilidade futura da adquirida pode ser amortizado após a incorporação da adquirente pela adquirida, não há qualquer plausibilidade no argumento das autoridades fiscais. O fato de a requerente (a investida) não ter Fl. 17304DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.287 37 sido extinta não é relevante para fins da aplicação do benefício fiscal do ágio. O relevante é que o ágio e o seu fundamento econômico sejam consolidados em uma única pessoa jurídica. E isso ocorre, da mesma forma, nos casos em que a controlada incorpora a controladora. · A doutrina deixa claro que o importante é a unificação dos patrimônios das sociedades envolvidas na operação (a adquirente e a adquirida), não a ordem da incorporação. Em abono da afirmação, citase passagem atribuída a Ricardo Mariz de Oliveira. No texto citado, o autor sustenta a irrelevância da direção da incorporação, ou seja, de quem seja a incorporadora e de quem seja a incorporada, a controladora ou controlada, pois o que importa é que ocorra a união de seus patrimônios. · As regras relativas à amortização fiscal do ágio não têm a abrangência estrita que fiscalização tenta lhe emprestar. As operações em exame estão acolhidas pelas disposições dos artigos 7º e 8° da Lei 9.532/97 (reproduzidos nos artigos 385 e 386 do RIR/99). A premissa adotada pela fiscalização, no sentido de que a operação de incorporação de controladora pela controlada não possui o condão de autorizar a amortização do ágio, é manifestamente equivocada e não pode prosperar. A impugnante ilustra sua argumentação com a citação de precedentes atribuídos ao Carf. · A solução do caso da requerente é muito mais simples, uma vez que o artigo 8º da Lei n° 9.532/97 permite expressamente a amortização do ágio pela incorporadora inclusive na situação em que a incorporada é a investidora. · A própria jurisprudência administrativa de primeira instância também tem adotado o mesmo entendimento, conforme precedentes transcritos na impugnação. · Dessa forma, fica comprovado o entendimento exposto pela requerente, o que, mais uma vez, demonstra a flagrante improcedência das alegações trazidas pelo fisco. O direito relacionado à segunda infração · A estrutura de aquisição da totalidade do capital da requerente pelo grupo Carrefour, com a utilização da Korcula e a tomada de dívida relevante em relação ao preço total pago aos vendedores, é comum e normal no contexto de investimentos e aquisições de empresas. Essa prática ficou conhecida no mercado como "compra alavancada", ou, no inglês, "leveraged buyout" (LBO), e se tornou popular a partir da década de 1980. · A compra alavancada consiste em adquirir o controle societário de determinada empresa e financiar uma parcela significativa do preço incorrido por meio de dívida tomada pelo comprador. A estratégia da compra alavancada geralmente consiste na criação de empresa específica que, com determinada parcela de capital próprio, toma dívida em valor relevante para realizar o investimento e, após a aquisição, o veículo e a empresaalvo são fundidas em uma só empresa, de forma que a empresa adquirida acaba por assumir a dívida tomada pelo investidor. É prática conhecida no mercado, usual e normal no contexto de aquisição de empresas. · O autor Lawrence J. Gitman, em seu livro clássico de finanças corporativas esclarece o conceito de compra alavancada, indicando também as características principais que uma empresa deve ter para ser considerada como "candidata" nesse tipo de estrutura. Portanto, a estrutura de aquisição adotada pelo grupo Carrefour não consistiu em qualquer estrutura abusiva ou mesmo "estranha" ao tipo de negócio que se pretendia implementar. · A operação de tomada de dívida pela Korcula apresentou as seguintes características: a dívida tomada pela Korcula frente ao Carrefour BV existiu e foi devidamente comprovada pela requerente, de forma que a fiscalização, em nenhum momento, lança dúvidas quanto à sua Fl. 17305DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 38 existência e comprovação; a dívida tomada pela Korcula frente ao BNP Paribas, para quitar a dívida original e, posteriormente, assumida pela requerente também existiu e foi devidamente comprovada pela requerente; a fiscalização também não lançou devida em relação à existência e comprovação dessa dívida; ao contrário do que pretende fazer crer fiscalização, a dívida final assumida pela Korcula e assumida pela requerente não foi com o Carrefour BV, mas foi tomada com terceiro, parte não relacionada à Korcula ou à requerente; as despesas financeiras incorridas pela requerente também existiram e foram devidamente comprovadas, sem qualquer contestação das autoridades fiscais; a aquisição da totalidade do capital da requerente pela Korcula existiu e foi devidamente comprovada; ou seja, o motivo principal que justificou a tomada da dívida pela Korcula era verdadeiro, lícito e, na realidade dos fatos, foi efetivamente realizado; não há contestação da fiscalização quanto à existência e comprovação da aquisição do capital da requerente pela Korcula, de forma que o motivo apresentado para justificar a dívida tomada consiste em motivo real e verdadeiro; e o empréstimo tomado pela Korcula não foi, em nenhum momento, repassado a pessoas a ela ligada com cobrança de juros menores do que aqueles contratados quando da tomada da dívida; a dívida em questão, cujo credor é parte não relacionada (BNP Paribas), foi assumida pela requerente por decorrência de obrigação legal, tendo em vista a extinção da Korcula após a incorporação. · A Korcula precisou tomar a dívida para ter os recursos necessários para adquirir o novo investimento, sendo este endividamento necessário para a consecução do seu objetivo. · Essas despesas eram necessárias tanto à Korcula quanto à requerente. A dedução das despesas financeiras pela requerente não afrontou nenhum dos limites possivelmente aplicáveis ao caso sob análise. · Nos termos da legislação tributária, exceto em algumas situações específicas, toda a despesa incorrida pela pessoa jurídica ou toda a despesa assumida para aquisição de bens, serviços ou utilidades deve ser considerada como dedutível da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, desde que incorrida com o propósito de manter em funcionamento a fonte produtora dos rendimentos. · As regras gerais que condicionam a dedutibilidade de determinada despesa se encontram no artigo 47 da Lei 4.506, de 30.11.1964, base legal do artigo 299 do RIR 1999. Somente serão admitidas como dedutíveis as despesas consideradas necessárias, usuais e normais à manutenção da atividade econômica da pessoa jurídica. Adicionalmente, para serem admitidas como dedutíveis, as despesas devem estar efetivamente suportadas por documentação idônea e hábil a comprovar a natureza do desembolso realizado pela empresa e sua vinculação à fonte produtora dos rendimentos. · O Parecer Normativo CST n° 32, de 17.8.1981, esclarece que despesa necessária é aquela essencial às transações exigidas para a exploração das atividades, principais ou acessórias, da sociedade que estejam vinculadas à continuidade da fonte produtora dos rendimentos. Por sua vez, despesa normal seria aquela cujo valor se verifica comumente no tipo de operação ou transação efetuada e que, na realização do negócio, se apresenta de forma costumeira ou ordinária. Por fim, despesa usual seria aquela habitual para o tipo de negócio de que se trata. · O requisito da necessidade é mais importante para autorizar a dedutibilidade de determinada despesa. Como conseqüência disso, podese afirmar que despesa dedutível é toda aquela feita no interesse da pessoa jurídica, ou seja, toda a despesa que traz benefícios à sua atividade. · Também devem ser consideradas como necessárias as despesas pagas ou incorridas para a realização das transações e operações exigidas pela atividade da empresa, ainda que não tenham ligação direta com a fonte material de produção de suas receitas. Fl. 17306DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.288 39 · Os contribuintes têm liberdade de escolha sobre os bens e serviços que pretendem adquirir no desempenho de sua atividade econômica. O Carf, no Acórdão 10709.419, de 25.6.2008, levou em consideração a liberdade e discricionariedade dos administradores das empresas ao afastar a glosa fiscal de despesas. · Como se nota nos precedentes do Carf citados, em decorrência da garantia de liberdade de escolha, as autoridades fiscais não têm o direito de contestar as despesas incorridas pelas pessoas jurídicas com base em meros juízos de valor. Por isso, as autoridades fiscais podem glosar somente as despesas incorridas pelas pessoas jurídicas quando estas configuram meros atos de liberalidade do contribuinte. Ou seja, quando a pessoa jurídica incorre em despesas que não lhe trazem benefícios e foram tomadas por sua própria opção. Os atos de liberalidade são os atos efetuados pelos contribuintes de forma graciosa, por sua própria opção, sem resultar em qualquer benefício às pessoas jurídicas. · De uma forma geral, salvo disposição expressa em contrário, as despesas com juros e variação cambial derivadas de empréstimos tomados pelas pessoas jurídicas são consideradas como necessárias e, portanto, dedutíveis. As despesas de juros de empréstimos incorridas pelas pessoas jurídicas são dedutíveis sob o pressuposto de que são tomadas em seu benefício e estão vinculadas aos objetivos empresariais da pessoa jurídica. · Essa pressuposição está relacionada à premissa de que é atribuição do administrador da empresa a decisão de custear as operações da sociedade por meio de recursos próprios ou de terceiros, seara na qual não cabe ingerência das autoridades fiscais. · Por isso, o artigo 17, parágrafo único, do Decretolei 1.598/77, estabelece que os juros pagos ou incorridos pelo contribuinte serão dedutíveis como custo ou despesa operacional. A legislação estabelece que as despesas de juros são dedutíveis e impõe limites apenas quanto ao período em que tais despesas poderão ser apropriadas pelos contribuintes em casos específicos. · Ainda quanto a essa questão, e mais diretamente relacionado ao caso em análise, o artigo 31 da Lei 11.727/08 estabelece regime tributário específico para as despesas financeiras vinculadas à aquisição de investimentos por sociedades holdings. Essa norma reforça que as despesas de juros incorridas pelas sociedades holdings, em decorrência de empréstimos tomados para financiamento de investimentos em outras sociedades, serão dedutíveis para fins fiscais. Ainda, referido dispositivo estabelece a possibilidade de a sociedade holding diferir a dedução dessas despesas de juros para o momento em que ocorrer a eventual alienação ou liquidação de investimentos adquiridos, a fim de evitar a formação de prejuízos fiscais cuja compensação é limitada pela trava de 30% estabelecida pela legislação tributária. · Fica inequívoca a possibilidade de a requerente deduzir as despesas financeiras assumidas após a incorporação da Korcula. Além do artigo 17, parágrafo único, do Decretolei 1.598/77, também o artigo 31 da Lei 11.727/08 estabelece a possibilidade de dedução das despesas financeiras. · A dedução das despesas financeiras incorridas pela requerente também não afrontou os limites historicamente determinados pela jurisprudência do antigo Conselho de Contribuintes, atual Carf. Apesar de a legislação tributária presumir que as despesas de juros incorridas pelas sociedades são dedutíveis para fins fiscais, a jurisprudência administrativa, há muito tempo, estabelece dois limites a essa dedutibilidade: os juros dos empréstimos devem ser devidamente comprovados pelo contribuinte; e o empréstimo tomado pela empresa não pode ser repassado à pessoa a ela ligada com cobrança de juros menores do que aqueles incidentes na tomada do empréstimo original. Fl. 17307DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 40 · O primeiro desses limites é decorrência da própria obrigação de ter a dedução de despesas suportadas por documentação hábil e idônea. · O segundo limite diz respeito à hipótese em que a sociedade capta empréstimo e repassa esses valores a empresa ligada com encargos de juros menores do que aqueles incidentes na captação original do empréstimo. Nessa hipótese específica, a jurisprudência administrativa entende que a diferença da taxa de juros na captação e no repasse não seria dedutível para a pessoa jurídica repassadora dos valores, por considerar que o excesso das despesas financeiras não seria necessário à sua atividade. · Na operação em análise, a dívida e os juros incorridos foram comprovados pela requerente, sem qualquer questionamento da fiscalização; e os valores captados via empréstimo não foram transferidos a pessoas ligadas, muito menos com cobrança de juros menores, hipótese que também nem foi suscitada pela fiscalização. Portanto, a dedução dos juros incorridos está em completa consonância com o que estabelece a legislação tributária e atual jurisprudência do Carf. · A primeira alegação da fiscalização é que a totalidade dos recursos financeiros utilizados para a aquisição teria a mesma origem (a Carrefour BV). Com base nisso, a fiscalização alega que o empréstimo teria servido apenas para gerar despesas financeiras na requerente, o que não ocorreria caso a totalidade dos recursos financeiros tivesse sido aportado via aumento de capital da Korcula. · Ora, essa alegação não possui base legal. Ainda pior, essa alegação afronta as próprias regras válidas à época relativas à dedutibilidade de despesas financeiras incorridas frente a pessoas ligadas domiciliadas no exterior. · Em primeiro lugar, se equivoca a fiscalização. Ainda que a dívida original tenha sido contratada com parte relacionada no exterior (a Carrefour BV), no final da operação, a dívida foi tomada com terceiro (o BNP Paribas). Aliás, no momento da incorporação da Korcula, a dívida original já havia sido quitada, de forma que a requerente assumiu diretamente uma dívida com terceiro não relacionado (o BNP Paribas). · Enquanto o empréstimo entre Korcula e Carrefour BV não foi quitado, não houve nenhuma despesa de juros que pudesse reduzir efetivamente o lucro tributável. Essas despesas de juros foram reconhecidas pela Korcula por competência e formaram saldo de prejuízo fiscal da sociedade. No entanto, esse saldo de prejuízo fiscal foi perdido no momento da incorporação da sociedade ao patrimônio da requerente (por conta da vedação estabelecida pelo artigo 514 do IR 1999), sem produzir efeito fiscal. A dedução dos juros do empréstimo, com efetivos efeitos fiscais, só passou a ocorrer após a incorporação da Korcula, momento em que a dívida registrada consistia em dívida com terceiros (o BNP Paribas). · A alegação de que a parte aportada pelo Carrefour BV na Korcula como empréstimo poderia ter sido feita via aumento de capital não corresponde à realidade dos fatos. · Não obstante, caso a realidade dos fatos pudesse ser desconsiderada no presente caso, o que se admite apenas para argumentar, ainda assim, as alegações fiscais não seriam procedentes. A opção da controladora em financiar a aquisição da requerente por empréstimo, em vez de aumento de capital, é ato completamente normal à gestão de atividades empresariais. Foi opção que é induzida pelo próprio ordenamento jurídico brasileiro. · Á época dos fatos, a possibilidade de celebração de empréstimo entre controladora e controlada, além de não ser vedada pela legislação tributária (tal como ainda não é), era regulada de forma expressa pela Lei 9.430, de 1996. Quando da tomada da dívida pela Korcula, seu artigo 22 da Lei 9.430, de 1996 impunha expressamente limites à dedução de despesas com juros de empréstimos devidos a pessoas consideradas como vinculadas no exterior. Para os contratos que não se encontravam registrados no BACEN, as despesas com Fl. 17308DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.289 41 juros não podiam exceder à resultante da taxa libor para depósitos em dólares por 6 meses, acrescida de 3% a título de spread. · Caso fosse considerado que a dívida foi efetivamente tomada do Carrefour BV, a dedução das despesas de juros incorridas no caso em exame só estariam sujeitas aos limites impostos pelas regras de preços de transferência (Lei 9.430, de 1996). · Se a operação foi completamente efetuada de acordo com as regras que vigoravam à aquela época, não poderia a fiscalização exigir ou obrigar que a Korcula ou a requerente adotassem a prática que elas entendem que resultaria em maior pagamento de tributo. · O questionamento fiscal também não se sustenta se for considerado que, embora o empréstimo resulte em despesas dedutíveis para a pessoa jurídica tomadora dos recursos, os juros pagos em favor da sociedade mutuante estão sujeitos à incidência do imposto sobre a renda retido na fonte. No caso do aumento de capital, ainda que os dividendos não possam ser deduzidos pela investida, eles também não estão sujeitos a qualquer tributação no momento de pagamento aos sócios da empresa (artigo 10 da Lei 9.249, de 1995). · À época dos fatos, o Brasil não coibia a subcapitalização (ou thin capitalization), caracterizada quando o capital social de uma empresa é irrelevante se comparado com o passivo mantido frente aos seus sócios. Naquela época, muitos países já adotavam as regras de subcapitalização e estabeleciam os coeficientes acima dos quais o endividamento com os sócios seria considerado como capital para fins tributários. · No entanto, ao que tudo indica, o Brasil preferia apenas adotar formas de remunerar o capital próprio, equiparandoo ao de terceiros para fins tributários, em vez de coibir a subcapitalização. É exatamente por isso que foi instituída a figura dos JCP (vigente a partir do anocalendário de 1995) e o efeito que decorria da aplicação da correção monetária de balanço (vigente até o anocalendário de 1995). · Apenas a partir de 15.12.2009, com a edição da Medida Provisória n° 472, de 2009 é que o ordenamento jurídico brasileiro passou a prever regras para coibir a subcapitalização. A finalidade dessas normas, introduzidas apenas após os fatos analisados no presente processo administrativo, era justamente controlar o endividamento abusivo das empresas brasileiras e evitar a geração artificial de juros, conforme consta da Exposição de Motivos da MP 472, de 2009. · É evidente que, à época dos fatos envolvidos no presente processo administrativo, além das regras de preços de transferência, não havia norma que limitasse ou proibisse a contratação de empréstimo com pessoa ligada, tal como efetuado pela Korcula. · A dívida tomada pela Korcula foi feita de acordo com as regras de preços de transferência vigentes à época (o que nem é mencionado pela fiscalização) e não estavam sujeitas às recentes regras de subcapitalização. Ainda assim, caso as regras de subcapitalização hoje existentes estivessem em vigor, as partes também as teriam obedecido. · Portanto, ainda que se considerasse que a dívida tomada pela Korcula fosse dívida com parte ligada (o que, como já se demonstrou, não corresponde à realidade dos fatos), o único argumento utilizado pela fiscalização foi feito com base em mero juízo de valor acerca da decisão da sociedade controladora de efetuar empréstimo à sua controlada, em vez de realizar aumento de capital. Não houve desrespeito às regras de preços de transferência, e nem mesmo às recentes regras de subcapitalização (que nem eram vigentes à época dos fatos). · Não há dúvidas de que os recursos financeiros foram empregados na aquisição da totalidade do capital da requerente, negócio lícito e que trouxe efetivos benefícios econômicos Fl. 17309DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 42 ao grupo Carrefour no Brasil. A Korcula foi a efetiva beneficiária e empregou os recursos em transação real e comprovada, extremamente relevante para a estratégia do grupo Carrefour no Brasil. O objetivo maior de toda a operação foi efetivamente alcançado no presente caso: o grupo Carrefour no Brasil efetivamente adquiriu a totalidade do capital da requerente. · A fiscalização questiona a necessidade de tais despesas, pelo fato de que, além de considerar empréstimo como um ato de liberalidade da Carrefour BV (a sociedade holandesa), considerou que a dívida foi tomada para financiar a própria aquisição da requerente. · A opção por empréstimo, em vez de aumento de capital, é colocada à disposição pelo ordenamento jurídico brasileiro. Esta opção cabe única e exclusivamente aos administradores da sociedade, e não fica sujeita a juízo de valor das autoridades fiscais. Portanto, em nenhuma hipótese, a operação de empréstimo poderia ser considerada um ato de liberalidade da controladora estrangeira, até porque a Carrefour BV tinha motivos empresariais para financiar parte da aquisição por via de empréstimo. · A aquisição de participações societárias é, sem dúvida alguma, transação necessária ao desempenho da atividade empresarial. A aquisição da requerente fazia parte da estratégia de crescimento do grupo Carrefour no País, além de ter sido realizada em momento sensível do mercado brasileiro (naquele momento, o grupo Carrefour se encontrava em terceiro lugar no ranking de faturamento do setor). · É inegável que a aquisição trouxe benefícios econômicos efetivos ao grupo, e foi até noticiada em importantes meios de comunicação especializados no assunto (doc. n° 33). · É também inquestionável que as despesas financeiras decorrentes de empréstimos tomados para aquisição de participações societárias configuram despesas necessárias às atividades de todas as pessoas jurídicas. As aquisições de participações societárias, com o crescimento dos investimentos das empresas, visam à conservação e o crescimento da fonte produtora. A possibilidade de a Korcula deduzir as despesas de juros decorre do próprio artigo 31 da Lei 11.727/08. Com o mesmo entendimento é a doutrina de Edmar Oliveira Andrade Filho, um trecho da qual é transcrita na impugnação. · O objeto social da Korcula, a tomadora original da dívida, consistia em participação em outras sociedades como sócia, acionista ou quotista, e administração de bens próprios. · O Carf, por diversas vezes, já manifestou o entendimento de que as despesas financeiras relacionadas a empréstimos tomados para adquirir participações societárias configuram despesas necessárias aos contribuintes. Em abono da afirmação, transcrevese a ementa de dois acórdãos. · Se tais despesas financeiras seriam dedutíveis para a Korcula, não faz sentido que essas mesmas despesas financeiras sejam indedutíveis quando incorridas pela requerente. · As despesas foram incorridas pela requerente em simples decorrência da incorporação da Korcula. Dessa forma, essas despesas financeiras devem manter a mesma natureza jurídica que apresentavam antes da incorporação societária. Se tais despesas eram consideradas como despesas necessárias (e dedutíveis) à Korcula, não há dúvidas de que o requisito da necessidade continua inerente a esses dispêndios, ainda que incorridas pela sociedade incorporadora. · A requerente não incorreu nas despesas financeiras em questão por ato de liberalidade, mas em decorrência de obrigação legal. O artigo 1.116 do Código Civil de 2002, é expresso e mandatório ao estabelecer que a empresa que absorveu a outra, em uma incorporação societária, lhe sucede em todos os direitos e obrigações. Abonase a afirmação com passagem atribuída a Maria Helena Diniz. · A incorporação nada mais é que um processo de sucessão. Na sucessão havida por incorporação, a sucedida se torna proprietária de todos os bens e direitos, assim como devedora Fl. 17310DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.290 43 de todos os passivos, da sucessora. Na incorporação, por conta da extinção da pessoa jurídica sucedida, a sucessão é universal, de forma a abranger todos os direitos e obrigações da pessoa jurídica incorporada. A requerente não tinha qualquer opção. · Na medida em que essas despesas financeiras eram dedutíveis para a pessoa jurídica incorporada, não há dúvidas de que elas devem também ser dedutíveis para a incorporadora. · As despesas financeiras incorridas pela requerente também trouxeram benefícios a ela própria. Como a dívida foi imprescindível para a operação de compra da requerente pela Korcula, é conseqüência lógica que a essa mesma dívida foi necessária para a mudança do controle societário da requerente. Ou seja, a tomada da dívida fez com que o capital da requerente fosse transferido da família Lima, família Schmeil e do sr. Farid Curi ao grupo Carrefour. · Com a transferência das quotas do capital, a requerente passou a ser detida por grupo com sólida reputação não só no mercado brasileiro, mas também no mercado mundial. A requerente passou a ter gestão completamente profissionalizada, que geraram ganhos indispensáveis ao crescimento dos seus resultados financeiros. · É inegável que, a partir do momento em que a requerente passou a fazer parte do grupo Carrefour, as suas receitas tiveram crescimento constante, conforme se depreende do quadro constante da impugnação, elaborado com base nas demonstrações financeiras (doc. n° 34). · Ao fazer parte do grupo Carrefour, a marca da requerente também se tornou mais conhecida no Brasil e no mundo. Isso sem contar que, após a aquisição da Requerente, o grupo Carrefour passou a expandir a atividade da requerente, com inauguração de novas lojas, em novas localidades, até planejando levar as atividades exercidas pela requerente ao exterior. · A jurisprudência indicada para questionar a dedutibilidade das despesas financeiras não se aplica ao caso em exame. O caso tem como pano de fundo uma operação em que o contribuinte autuado recebeu apenas recursos de sua controladora no exterior e que, sem que tivesse passado por suas contas bancárias, foram repassados a uma sociedade controlada no exterior. Tais recursos foram utilizados pela sociedade controlada do contribuinte autuado para adquirir participação societária de empresa domiciliada no Brasil. · Embora a essa autuação tenha tido fundamento parecido com o do presente processo administrativo, os fatos envolvidos possuem diferenças sensíveis. No caso discutido no presente processo administrativo: não houve qualquer questionamento quanto à veracidade do empréstimo; o empréstimo tomado pela Korcula foi, ao final da operação, tomado com terceiro não relacionado; e os valores tomados pela Korcula não foram, em momento algum, repassados por ela a pessoas ligadas. · Diante de todo o exposto, demonstrouse a legitimidade da dedução das despesas financeiras. Portanto, o questionamento deve ser integralmente afastado. O direito relacionado à terceira infração · O questionamento fiscal não tem nenhum efeito prático. Mesmo que a distribuição de JCP tivesse sido feita de forma proporcional ao capital social, os valores que seriam dedutíveis pela sociedade seriam exatamente os mesmos. O fato não produz nenhum efeito fiscal adverso para fins de apuração de IRPJ e de CSLL. · O pagamento desproporcional de JCP só produziria efeitos fiscais prejudiciais ao fisco no nível dos sócios que deliberaram e auferiram a remuneração de JCP desproporcional. No entanto, a requerente configura mera distribuidora de JCP, e não beneficiária. Fl. 17311DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 44 · Portanto, preliminarmente, já fica demonstrada a completa improcedência da terceira infração imputada. · Os JCP são disciplinados pela Lei n° 9.249, de 26.12.1995 e pela Lei 9.430/96. De acordo com tais dispositivos legais, o JCP é calculado sobre as contas de patrimônio líquido, sendo limitado à variação pro rata dia da Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP). · O efetivo pagamento ou crédito do JCP está condicionado à existência de lucros, computados antes da dedução dos juros, ou de lucros acumulados e reserva de lucros, em montante igual ou superior ao valor de duas vezes os juros a serem pagos ou creditados. Adicionalmente, o valor do JCP pago ou creditado pela pessoa jurídica poderá ser imputado ao valor do dividendo obrigatório. O cálculo do montante dos JCP é efetuado mediante aplicação da TJLP sobre os valores das contas do patrimônio líquido, com os ajustes devidos. · Os aspectos societários do pagamento de JCP levam importante corrente da doutrina a considerar que a natureza jurídica dos JCP é equiparável à dos dividendos, hipótese em que o artigo 9º da Lei 9.249/95 teria meramente instituído tratamento fiscal específico para o pagamento de tais valores. Abonase o argumento com a citação de passagens atribuída a Modesto Carvalhosa e a Bulhões Pedreira, assim como precedente de decisão judicial atribuída ao Tribunal Regional Federal da 4ª Região. · Essa também é a posição da Comissão de Valores Mobiliários, contida na Deliberação n° 207, de 13.12.1996, segundo a qual, para fins societários e contábeis, os JCP têm natureza de dividendos. Nos termos dessa deliberação, a remuneração do capital próprio, paga ou creditada aos acionistas configura distribuição de resultado e não despesa, deve ser contabilizada diretamente à conta de lucros acumulados (sem afetar o resultado do exercício), deve ser detalhadamente descrita em notas explicativas às demonstrações financeiras e às informações trimestrais. · Tanto é assim que, para corroborar tal posicionamento, prevê a Deliberação CVM 207/96 que os JCP pagos aos acionistas devem ser imputados como dividendo mínimo obrigatório pelo valor líquido do IRF. Segundo a Comissão de Valores Mobiliários, ao considerar apenas o juro líquido recebido, a intenção é justamente evitar que o acionista receba menos do que o dividendo mínimo obrigatório assegurado pela lei societária. · Por essa razão, a equiparação dos JCP à distribuição de lucros não afronta qualquer dispositivo legal, e, conseqüentemente, as pessoas jurídicas têm a liberdade para destinar ao pagamento dos JCP o mesmo tratamento contábil e jurídico destinado à distribuição de dividendos a seus acionistas e atualmente previsto no Código Civil de 2002 e na Lei das S.A. · O artigo 1.007 do Código Civil de 2002 expressamente dispõe que os sócios podem optar pela distribuição desproporcional de lucros, tal como passou a prever, em dezembro de 2009 o artigo 9º do contrato social da requerente. Essa faculdade da requerente é ainda reforçada pelo fato de que ela possui a natureza de sociedade limitada, de forma que prevalece o princípio da autonomia da vontade dos seus sócios. · Aplicandose as regras das sociedades simples às sociedades limitadas, também se mostra plenamente possível a distribuição desproporcional de lucros em razão do que dispõem os artigos 997, inciso VIII, e artigo 1.054 do Código Civil de 2002. · À luz da natureza jurídica dos JCP (análoga à dos dividendos), é plenamente possível a sua distribuição de forma desproporcional com base no Código Civil de 2002 e com base na própria vontade dos seus sócios (manifestada por meio do seu contrato social). · Essa possibilidade fica ainda mais evidente quando se verifica que a distribuição desproporcional de JCP não ocasiona qualquer efeito fiscal adverso para a sociedade que distribui tais valores aos seus sócios. Não só o valor deduzido da base de cálculo do IRPJ e da Fl. 17312DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.291 45 CSLL apurados pela sociedade seria exatamente o mesmo, como também, da mesma forma, os valores de JCP distribuídos continuam sujeitos à incidência do IRF no mesmo montante, ainda que pagos de forma desproporcional. · A terceira infração também deve ser afastada tendo em vista que as autoridades fiscais se equivocaram em seus fundamentos. · Por fim, qualquer tentativa de invalidar o valor do patrimônio líquido da requerente (utilizado como base para distribuição de JCP) não merece prosperar, na medida em que a incorporação da Korcula ao seu patrimônio (bem como a geração do ágio pago e reconhecido pela Korcula no momento da aquisição) preencheu todos os requisitos estabelecidos na legislação societária e fiscal. O descabimento da multa qualificada · Ainda que fosse admitida a exigência do principal, não poderia ser aplicada a multa qualificada de 150%, pois não ocorreu nenhuma conduta simulada, dolosa ou fraudulenta. É pacífico o entendimento da doutrina, bem como da atual jurisprudência administrativa e judicial, de não cabe multa qualificada nesse caso. · Nos termos do artigo 44, §1° da Lei 9.430/96, com a redação dada pelo artigo 14 da Lei n° 11.488, de 2007, a aplicação de multa qualificada no valor de 150% da exigência principal somente pode ocorrer nas hipóteses descritas pelos artigos 71 a 73 da Lei 4.502/64. Além disso, as autoridades fiscais devem trazer provas inequívocas da ocorrência desses vícios. · A fiscalização argumenta, com base em alegações genéricas, que as operações teriam sido fraudulentas, tendo em vista que a reestruturação societária promovida teve o objetivo de gerar despesas de amortização de ágio. · É imprescindível ressaltar que a fraude tem uma definição precisa. Apenas se ocorrida e comprovada da forma expressamente prevista na legislação, o que somente se dá em casos extremos, estaria autorizada a imposição de multa agravada de 150%. O conceito de fraude se baseia essencialmente na prática de ato lesivo a interesses de terceiros. O sujeito que atua de forma fraudulenta é aquele que tem a clara intenção de frustrar regras e deveres legais. · A caracterização da fraude ainda depende da comprovação da intenção dolosa de mascarar ou disfarçar a ocorrência do fato gerador. Desse modo, a fraude à lei se constata nos casos em que o contribuinte se vale de meios muitas vezes ilícitos para evitar a tributação ou reduzir o montante devido, como ocorre nos casos de falsificação de documentos, declarações falsas, contabilização de notas fiscais em duplicidade etc. · No caso analisado, não se verifica a ocorrência de fraude à lei tributária, tampouco de abuso de direito ou simulação. Em momento algum a requerente pretendeu realizar atos societários para driblar as normas tributárias buscando a redução dos tributos devidos. · A jurisprudência administrativa é pacífica ao determinar que a fiscalização tem o ônus de comprovar, de forma inequívoca, o dolo na conduta do contribuinte para que seja aplicada a multa agravada. Tal é o entendimento já consolidado na Câmara Superior de Recursos Fiscais, conforme ementas transcritas na impugnação. · No presente caso, não existe qualquer espaço para a aplicação de multa qualificada. As operações praticadas pela Korcula, bem como as operações de incorporação da Korcula, foram reais, efetuadas com terceiros independentes, além de serem também devidamente registradas nos órgãos públicos competentes e contabilizadas nos livros fiscais e contábeis das sociedades Fl. 17313DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 46 envolvidas. Mais que tudo, tais operações tiveram razões empresariais e não tributárias legítimas para ocorrer. · Os elementos de prova aqui apresentados, analisados à luz das explicações anteriores, não permitem que se cogite de uma suspeita minimamente racional de fraude ou de qualquer tipo de conduta dolosa por parte da requerente. Então é lógico que não se pode falar em evidente intuito de fraude. O antigo Primeiro Conselho de Contribuintes chegou a editar a Súmula n° 14, segundo a qual a multa qualificada de 150% somente pode ser aplicada em caso de evidente intuito de fraude. · As alegações da fiscalização para tentar forçosamente caracterizar a conduta da requerente como artificial não se sustentam ao primeiro exame. Esse caso nem sequer pode ser chamado de planejamento tributário, uma vez que se tratou de uma simples aquisição de empresa entre partes independentes, feita a valor justo de mercado. A aquisição da requerente foi também motivada por razões empresariais verdadeiras e não tributárias. · E, ainda que assim não se entendesse, o que se admite apenas para argumentar, transcreve se trecho de decisão atribuída ao Carf que consignou que, mesmo na ocorrência de simulação, não caberia a aplicação de multa qualificada. · Além de registrar todos os seus atos nos estritos termos da legislação em vigor, a requerente portouse de forma exemplar durante a fase de fiscalização e disponibilizou todas as informações e documentos solicitados, sem jamais omitir ou ocultar qualquer coisa. · Ficou decidido no caso Santander, já citado, que se o contribuinte é transparente em seus atos e contribui com a fiscalização, apresentando também todos os lançamentos contábeis pertinentes, não se pode aplicar a multa de 150%. · Os julgamentos do caso Santander e também do caso Telemar foram unânimes em afastar a aplicação de multa agravada antes mesmo do exame de mérito, justamente por não ter havido qualquer tipo de conduta fraudulenta por parte desses contribuintes no sentido de ocultar ou tentar ludibriar a fiscalização, tal como no presente caso. · Em recentes julgamentos envolvendo a dedução de valores de ágio originados de transações entre partes relacionadas (o que não é o caso ora tratado), o Carf também afastou a aplicação da multa qualificada de 150%, conforme ementas transcritas ou referidas na impugnação. · Ora, se nos casos envolvendo amortização fiscal de ágio gerado entre partes relacionadas (o que, repitase, não é o caso em exame no presente processo administrativo) a multa qualificada de 150% foi afastada, ainda com mais razão a penalidade deve ser reduzida nos casos envolvendo ágios gerados entre partes não relacionadas (tal como no presente caso). · Ainda que as autoridades julgadoras não entendessem que houve excesso da fiscalização, o que se admite apenas para argumentar, o artigo 112 do CTN dispõe expressamente que a norma tributária que comine penalidades deverá ser interpretada e aplicada da maneira mais favorável ao contribuinte em casos de dúvida a respeito da capitulação legal do fato e da natureza ou das circunstâncias materiais do fato. · Na realidade, no pior cenário, o presente caso deveria ser tratado como um mero conflito entre interpretações dadas pela fiscalização e pela requerente a um mesmo conjunto fático, de forma que a multa qualificada deve ser integralmente cancelada, ou, no mínimo, reduzida para 75%, dadas as disposições contidas do artigo 112, incisos I e II do CTN. · Pela análise dos recentes casos julgados pelo Carf (Santander, Telemar, Cosern, Celpe, Biosintética e Columbian), as operações autuadas no presente processo estão sendo reconhecidas pela atual jurisprudência administrativa. Assim, não se pode argüir simulação, fraude ou dolo. Quando muito se poderia falar em erro de proibição, pois, se é que havia Fl. 17314DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.292 47 qualquer ilicitude nas operações examinadas, o que se admite para argumentar, não havia ao menos conhecimento por parte da requerente acerca dessa suposta ilicitude do negócio. É nesse sentido que tem decidido a jurisprudência administrativa, conforme exemplificam as ementas transcritas na impugnação. · O artigo 76, inciso II, alínea "a", da Lei 4.502/64 veda a aplicação de penalidades enquanto houver interpretação jurisprudencial administrativa irrecorrível dando determinada interpretação a uma situação jurídica, mesmo que o interessado não tenha sido parte no caso. · Ora, se as operações em exame, na forma como estruturadas, eram (e continuam a ser) acolhidas pela jurisprudência, fica patente que a requerente agiu de boafé, sendo incabível a aplicação de penalidades, nos termos do artigo 76, inciso II, alínea "a" da Lei 4.502/64. · Qualquer mudança posterior de interpretação sobre a matéria é uma afronta ao princípio da segurança jurídica e, em última instância, uma ameaça ao próprio sistema jurídico. · A aplicação de sanções deve sempre seguir o princípio da razoabilidade e proporcionalidade, conforme o artigo 2º, parágrafo único, inciso VI, da Lei 9.784, de 1999, que rege supletivamente o processo administrativo fiscal. · E o artigo 142 do CTN dispõe que no ato do lançamento, a autoridade administrativa, sendo o caso, poderá propor a aplicação da penalidade cabível. O termo deve ser entendido como a competência dada à autoridade fiscal para ponderar as situações objetivas e subjetivas da conduta praticada pelo contribuinte, de modo que possa ser feito um verdadeiro juízo de pertinência e de adequação da aplicação da penalidade, se for o caso. · Num recente julgamento, cuja ementa é transcrita na impugnação, o Supremo Tribunal Federal, por unanimidade de votos, confirmou a redução do percentual da multa originalmente fixada em 60% do valor principal em discussão para 30%, corroborando a aplicação da teoria da proporcionalidade ao caso concreto. · Por todas as razões expostas, está demonstrado o total descabimento da aplicação da multa qualificada de 150%, razão pela qual se pleiteia seu imediato cancelamento. A inaplicabilidade da multa isolada por falta de antecipação das estimativas mensais · Ainda que se entendesse que a requerente recolheu valores a menor em razão das infrações apontadas no auto de infração, o que se admite tão somente para argumentar, a multa isolada de 50% não tem qualquer cabimento, caracterizando um verdadeiro abuso. · É totalmente improcedente a exigência de multa, seja ela punitiva ou isolada, pois os tributos ora questionados não são devidos. Ainda assim, o auto de infração visa cobrar tanto valores a título de multa punitiva quanto de multa isolada. · Se fosse admitida a possibilidade de cobrança da multa, somente poderia ser exigida uma única vez e não duas. · Não há dúvidas de que a fiscalização extrapolou os limites previstos na Lei 9.430/96 ao exigir a dupla cobrança de multa, devendo ser imediatamente cancelada a exigência da multa isolada. Esse é o entendimento da Câmara Superior de Recursos Fiscais e do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, conforme ementas de decisões transcritas na impugnação. · Os pagamentos mensais antecipados pelo contribuinte não têm o condão de extinguir de imediato o crédito tributário, o que só ocorrerá quando encerrado o exercício fiscal, ou seja, no último dia de cada ano. É nessa data que ocorre o fato gerador do tributo e que é possível Fl. 17315DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 48 apurar o montante efetivamente devido, bem como se houve ou não pagamento a maior por meio das estimativas mensais antecipadas. · Desse modo, constatandose eventual insuficiência da estimativa do imposto, o fisco apenas poderia apurar o tributo devido após o encerramento dos períodosbase e constituir eventual diferença do crédito tributário. A jurisprudência rechaça a cobrança mediante lançamento de ofício após o término do anocalendário, tendo em vista que uma vez concretizado o aspecto temporal do fato gerador, não há razão para a autoridade fiscal demandar outra base de cálculo que não aquela estritamente definida pela norma que estabelece a hipótese de incidência. · Diante disso, não há falar em multa isolada ou falta de pagamento de IRPJ e CSLL por estimativa, após o encerramento do períodobase com a apuração da base de cálculo. Também é indevida a exigência de multa isolada em conjunto com a multa de ofício. A improcedência dos juros de mora · Após a lavratura dos autos de infração, as multas de ofício passam a ser mensalmente atualizadas com base na taxa de juros SELIC. · Essa atualização não é realizada com amparo na lei, mas com base no Parecer MF n° 28, de 02.04.1998, emitido pela Coordenação Geral do Sistema de Tributação (Cosit). Tal Parecer usa como base o artigo 61 da Lei 9.430/96. Contudo, tal dispositivo trata tão somente da incidência de juros sobre débitos decorrentes de tributos e contribuições, não havendo qualquer menção às multas de ofício aplicadas pela RFB. · A Câmara Superior de Recursos Fiscais, no julgamento do Recurso de Divergência nº 202 131351, reconheceu, no âmbito federal, a ilegalidade da incidência dos juros moratórios (seja a Taxa SELIC ou o percentual de 1% ao mês) sobre a multa de ofício. · No que tange aos juros de mora, não obstante a posição sumulada pelo antigo Primeiro Conselho de Contribuintes e tendo em vista a real possibilidade de a taxa SELIC vir a ser considerada inconstitucional para fins tributários pelo Poder Judiciário, contestase sua aplicação e requerse sua desconsideração no cômputo do crédito tributário principal, de modo que os juros de mora sejam calculados com base no artigo 161, § 1º, do CTN. CSLL · Á CSLL são aplicadas as mesmas normas de apuração e de pagamento estabelecidas para o IRPJ, observada a legislação específica quanto à alíquota e base de cálculo (artigo 57 da Lei n° 8.981/1995 e artigo 28 da Lei n° 9.430/1996). · Assim sendo, são válidos os argumentos de fato e de direito apresentados anteriormente, que justificam a legalidade do procedimento adotado pela requerente também para efeitos de recolhimento da CSLL. Dessa forma, tendo sido demonstrada a improcedência da autuação de IRPJ, tornase, também, improcedente a exigência relativa à CSLL. Necessidade de recomposição do prejuízo fiscal e da base negativa da CSLL · Uma vez demonstrada a total improcedência do auto de infração, deve ser determinada a recomposição dos prejuízos fiscais e bases negativas da CSLL indevidamente compensadas pela fiscalização. Conclusões e pedido · A impugnação é tempestiva e deve ser integralmente apreciada e acolhida em suas razões de fato e de direito, que demonstram a total improcedência da exigência fiscal. · Foi equivocada a premissa adotada pela fiscalização, tendo em vista que a utilização da Korcula pelo grupo Carrefour estava baseada em efetivos propósitos negociais que Fl. 17316DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.293 49 ultrapassam a mera economia tributária da operação. A utilização da Korcula tornou possível a própria operação de aquisição da requerente, principalmente pelo fato de que foi a sociedade que permitiu o pagamento do preço pelas quotas da requerente, já que proporcionou a amortização da dívida através dos negócios da requerente. · Mesmo que não se entenda que houve efetivo propósito negocial e verdadeira substância econômica na utilização da Korcula, foi demonstrado que o ordenamento jurídico brasileiro não permite à fiscalização desconsiderar negócios jurídicos existentes, válidos e eficazes apenas com base em uma suposta interpretação da sua substância econômica. · É infundada a alegação de empresa veículo, na medida em que o ordenamento jurídico prevê especificamente a possibilidade de utlização das chamadas sociedades holdings puras, ou seja, aquelas que existem não para terem empregados ou atividades próprias, mas apenas para deter participações societárias; não existe nenhuma exigência legal de que as sociedades holdings tenham empregados ou outros ativos próprios para serem consideradas legítimas. · Recentemente, o Carf julgou os casos Santander, Telemar, Cosern, Celpe, Biosintética e Columbian, todos envolvendo os mesmos elementos do caso discutido nesses autos. E todos esses casos foram julgados a favor do contribuinte, tendo sido afastada a alegação de que a utilização de sociedadeveículo invalidaria a amortização fiscal de ágio. · A adoção das conclusões de todos esses recentes julgamentos do Carf faz o questionamento da fiscalização ser declarado completamente improcedente, na medida em que: o ágio pago pela Korcula preenche as 3 premissas básicas mencionadas naqueles julgamentos; o ágio pago pela Korcula está sendo amortizado fiscalmente com base na Lei 9.532, de 1997; a causa do negócio jurídico discutido no presente processo foi a aquisição, pela Korcula, da totalidade do capital da requerente (sendo a amortização fiscal do ágio mera motivação fiscal da transação); e a utilização da Korcula na operação não fez surgir novo ágio e não gerou o reconhecimento de ágio em maior valor do que seria reconhecido caso ela não existisse. · Os casos Santander e Columbian envolvem questionamento específico ainda mais semelhante ao do presente processo, na medida em que, naqueles casos, o fisco também acusou o contribuinte de ter internalizado ágio pago do exterior. Em ambos os casos, o Carf julgou que a amortização do ágio foi legítima. No caso Santander, julgado de forma unânime em favor do contribuinte, o preço (e o ágio) foi pago diretamente por empresa sediada no exterior, o que torna ainda mais clara a improcedência do presente lançamento. O preço e o ágio, no presente caso, foram pagos diretamente por empresa domiciliada no Brasil. · Toda a estrutura de aquisição da requerente não consistiu em nenhum tipo de planejamento tributário, mas sim em uma mera opção legal, passível de adoção pelo grupo Carrefour entre as diversas opções legais possíveis para aquele mesmo negócio. A requerente não obteve benefício a que já não teria direito pela legislação em vigor; a discussão relativa à aquisição da requerente pela Brepa, ou pela Carrefour Brasil, dizia respeito tão somente às razões puramente empresariais e não tributárias da operação. · A requerente demonstrou, com base na legislação tributária (artigo 8º da Lei 9.532, de 1997), na doutrina e na jurisprudência aplicável, que é permitida a amortização fiscal de ágio nas situações em que a adquirida incorpora a adquirente, ou seja, nos casos em que a incorporação societária é realizada de forma invertida. · A estrutura adotada pelo grupo Carrefour para adquirir a totalidade do capital da requerente compra alavancada corresponde a prática conhecida no mercado, usual e normal no contexto de aquisições de empresas. Fl. 17317DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 50 · As despesas financeiras incorridas são consideradas como necessárias e, portanto, dedutíveis da base de cálculo do IRPJ e da CSLL. A possibilidade de deduzir essas despesas financeiras está prevista no artigo 17, parágrafo único, do Decretolei nº 1.598, de 1977, e também no artigo 31 da Lei 11.727, de 2008. · A dedução das despesas financeiras não afrontou nenhuma das hipóteses limitadoras estabelecidas historicamente pela jurisprudência administrativa. A dívida e os juros foram comprovados, sem questionamento da fiscalização nesse aspecto. Os valores captados por via de empréstimo não foram transferidos a pessoas ligadas, muito menos com cobrança de juros menores, hipótese que também nem foi suscitada pela fiscalização . · Foi demonstrado o equívoco cometido pela fiscalização na interpretação dos fatos, na medida em que, ainda que a dívida original tenha sido contratada pela Korcula com parte relacionada no exterior (a Carrefour BV), no final da operação, a dívida foi tomada com terceiro (o BNP Paribas). No momento da incorporação da Korcula, a dívida questionada pelo fisco já havia sido quitada, de forma que a requerente assumiu diretamente uma dívida com terceiro não relacionado (o BNP Paribas). O equívoco já demonstra, de imediato, a completa improcedência de suas alegações quanto à dedutibilidade das despesas financeiras. · Enquanto o empréstimo entre Korcula e Carrefour BV permaneceu em aberto, não houve pagamento de juros que pudesse reduzir efetivamente o lucro tributável da Korcula. A alegação de que a parte aportada pelo Carrefour BV na Korcula como empréstimo poderia ter sido feita por via de aumento de capital não corresponde à realidade dos fatos, pelo simples fato de que, ao final, a dívida foi tomada com terceiros. · Ainda que assim não tivesse ocorrido, a opção da controladora em financiar a aquisição por empréstimo é ato completamente normal na gestão de atividades empresariais. A opção do empréstimo foi feita justamente porque o grupo Carrefour não detinha recursos disponíveis para investimento de longo prazo. Foi opção tomada pela controladora, a qual é até induzida pelo próprio ordenamento jurídico. · Caso fosse considerado que a dívida foi efetivamente tomada do Carrefour BV, a dedução dos juros incorridas só estaria sujeita aos limites impostos pelas regras de preços de transferência (Lei 9.430/96), regras que foram plenamente observadas pela Korcula e pela requerente. É hipótese regulada de forma expressa pela legislação tributária em vigor. Assim, se a operação foi completamente efetuada de acordo com as regras que vigoravam à aquela época, não poderia a fiscalização exigir ou obrigar que a Korcula ou a requerente adotassem a prática que elas entendem que resultaria em maior pagamento de tributo. · À época dos fatos, o Brasil não coibia a subcapitalização. Portanto, a dívida tomada pela Korcula foi feita de acordo com as regras de preços de transferência vigentes à época (o que nem é mencionado pela fiscalização) e não estavam sujeitas às recentes regras de subcapitalização. Mesmo assim, caso as regras de subcapitalização hoje existentes (instituídas pela MP 472, de 2009) fossem aplicáveis ao caso, as partes também teriam obedecido aos limites impostos por tais regras. · Os recursos financeiros foram empregados na aquisição da requerente, negócio lícito e que trouxe efetivos benefícios econômicos ao grupo Carrefour no Brasil. A Korcula foi a efetiva beneficiária dos valores aportados e os empregou em transação real e comprovada, extremamente relevante para a estratégia do grupo Carrefour no Brasil. · As despesas financeiras só foram incorridas pela requerente por conta de uma obrigação legal expressa o artigo 1.116 do Código Civil de 2002 , que determina a assunção da dívida. A dívida não foi assumida por conta de uma opção livre e espontânea. Assim, por decorrência lógica e jurídica, se as despesas financeiras eram dedutíveis pela Korcula (por serem necessárias a essa sociedade no contexto de aquisição da requerente), não há dúvidas de que Fl. 17318DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.294 51 elas também devem ser consideradas como dedutíveis para a requerente, sociedade que sucedeu a Korcula em todos os seus direitos e obrigações. · Ao contrário da alegação da fiscalização, ainda que fosse necessário indagar a respeito de um efetivo benefício para a requerente, a fim de tornar as despesas financeiras dedutíveis também para ela, não há dúvidas de que a dívida também lhe trouxe benefícios. A mudança do seu controle societário fez suas receitas crescer, suas atividades expandirem e sua gestão passar de uma estrutura familiar para uma estrutura profissional típica dos grandes grupos empresariais. · O pagamento desproporcional de JCP não produziu efeito fiscal adverso que poderia ter favorecido a requerente, ou seja, mesmo que a distribuição de JCP às sócias da requerente tivesse sido feito de forma proporcional ao seu capital social, os valores que seriam dedutíveis pela sociedade seriam exatamente os mesmos. Eventualmente, o pagamento desproporcional de JCP só produziria efeitos fiscais prejudiciais ao fisco no nível dos sócios que deliberaram e auferiram a remuneração de JCP desproporcional. · A remuneração do acionista a título de JCP se caracteriza como uma efetiva distribuição de lucros, ou seja, como dividendo (com tratamento tributário especial). Se os JCP possuem a mesma natureza jurídica dos dividendos, a esse tipo de remuneração também é aplicável o artigo 1.007 do Código Civil de 2002, de forma que os JCP também podem ser distribuídos de forma desproporcional à participação dos sócios. A única condição para tornar possível o pagamento desproporcional de JCP é a disposição expressa no contrato social da sociedade pagadora (tal como passou a prever o artigo 9º do contrato social da requerente). · A severa multa de 150% também deve ser prontamente afastada, pois somente poderia ser imposta nos casos de evidente intuito de fraude, sonegação ou conluio, e quando ficar provada pelo fisco a inequívoca intenção do contribuinte de enganar, esconder ou iludir. Porém, é claro que este não é um caso de fraude, sonegação ou conluio. Ainda que se entenda que as operações praticadas pela requerente não lhe davam o direito de proceder como procedeu, não se pode falar em qualquer tipo de fraude. A requerente jamais falsificou documentos ou maquiou livros contábeis ou fiscais, ao contrário, sempre registrou, às claras, todas as operações em sua contabilidade. A requerente registrou todos os seus atos nas Juntas Comerciais e demais órgãos públicos cabíveis e sempre recebeu a fiscalização com total transparência e atendeu a todas as suas solicitações com clareza e prontidão. Na pior das hipóteses, portanto, a fiscalização pode alegar que discorda dos efeitos jurídicos e legais das operações praticadas, mas isso jamais poderia servir de base para se pressupor a falta de boafé da requerente e acusála de ter incorrido em fraude. · A multa isolada de 50% sobre os mesmos supostos fatos geradores é mais um excesso que deve ser imediatamente cancelado. A multa isolada aplicase somente aos casos em que, ao fim do períodobase, o contribuinte paga regularmente os valores de IRPJ e CSLL, mas deixa de fazer as antecipações mensais. Nesses casos, a multa pode ser aplicada isoladamente, sem a exigência do tributo, daí a sua denominação. Porém, quando o fisco entende que o contribuinte deixou de pagar valores de IRPJ e CSLL ao fim do períodobase e efetua o lançamento desses valores juntamente com uma penalidade aplicada de ofício, não há falar em multa isolada. Já está amplamente pacificado na jurisprudência que a multa isolada não pode ser exigida cumulativamente com a penalidade imposta de ofício, de modo que a multa isolada também deve ser integralmente cancelada. · A taxa Selic não pode ser aplicada aos créditos tributários e, se admitida a sua aplicação, só poderá incidir sobre o crédito tributário principal, e não pode recair sobre o valor da multa de ofício, que é penalidade e não tem natureza tributária. Fl. 17319DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 52 · Todos os argumentos de fato e de direito apresentados justificam a legalidade do procedimento adotado pela requerente também para efeitos de recolhimento da CSLL. · Tendo sido demonstrada a total improcedência do auto de infração, deve ser determinada a recomposição dos prejuízos fiscais e bases negativas da CSLL indevidamente compensadas pela fiscalização. · Pleiteiase o acolhimento integral da impugnação e o imediato cancelamento integral do auto de infração em tela (principal, multas e juros), com o conseqüente arquivamento do processo administrativo. · Protestase ainda pela juntada posterior de documentos que se fizerem necessários, nos termos do artigo 16, § 4º, alínea "a" do Decreto 70.235/72, bem como do princípio da verdade material que orienta o processo administrativo fiscal. A 2ª Turma da DRJ em Curitiba, em análise da impugnação apresentada, julgoua improcedente, tendo o julgado recebido a seguinte ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2008, 2009, 2010, 2011 ÁGIO FUNDAMENTADO EM EXPECTATIVA DE RESULTADOS FUTUROS DEDUTIBILIDADE DA AMORTIZAÇÃO A pessoa jurídica que absorver patrimônio de sua controladora, a qual tinha desdobrado o valor da participação em seu capital em valor patrimonial e em ágio, somente poderá deduzir a despesa com a amortização desse ágio se, além de cumprir as demais exigências legais, comprovar: que o ágio fora pago em virtude da expectativa de resultados futuros como exclusivo fundamento econômico do ágio; a existência de substância econômica e propósito negocial nas operações de reorganização societária; que houve a reunião numa só pessoa jurídica do patrimônio que tiver sofrido o encargo do ágio e o patrimônio que presumivelmente gerará os lucros que justificaram o seu pagamento, mediante efetiva incorporação, cisão ou fusão. FALTA DE PAGAMENTO DE ANTECIPAÇÃO MENSAL Verificada a falta de pagamento de antecipação mensal por estimativa cabe exigir a multa isolada, que incidirá sobre o valor não recolhido. DESPESA DESNECESSÁRIA ENCARGOS FINANCEIROS SOBRE EMPRÉSTIMO CONTRAÍDO PARA FINANCIAR A PRÓPRIA AQUISIÇÃO Em virtude de não ser necessário para a realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa, nem contribuir para a manutenção de sua fonte produtora, o empréstimo que tiver sido contraído pelos seus novos controladores para financiar sua própria aquisição, os encargos financeiros gerados por semelhante empréstimo não constituem despesa dedutível na determinação do resultado tributável. JUROS SOBRE O CAPITAL PRÓPRIO PAGAMENTO DESPROPORCIONAL À PARTICIPAÇÃO NO CAPITAL SOCIAL Os juros sobre capital próprio que são dedutíveis na apuração do resultado tributável são somente os que são pagos ou creditados individualizadamente a cada titular, sócio ou acionista a título de remuneração do capital. Não se enquadram como tal e são indedutíveis os juros pagos ou creditados que excederem ao que beneficiário teria direito de acordo com sua participação no capital social da empresa. COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZO FISCAL GLOSA FISCAL Fl. 17320DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.295 53 O prejuízo fiscal que tiver sido usado para compensar diferença tributária apurada em virtude de ação fiscal será, paralelamente, objeto de glosa fiscal caso tenha sido compensado em períodos de apuração subseqüente. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2008, 2009, 2010, 2011 ÁGIO FUNDAMENTADO EM EXPECTATIVA DE RESULTADOS FUTUROS DEDUTIBILIDADE DA AMORTIZAÇÃO A pessoa jurídica que absorver patrimônio de sua controladora, a qual tinha desdobrado o valor da participação em seu capital em valor patrimonial e em ágio, somente poderá deduzir a despesa com a amortização desse ágio se, além de cumprir as demais exigências legais, comprovar: que o ágio fora pago em virtude da expectativa de resultados futuros como exclusivo fundamento econômico do ágio; a existência de substância econômica e propósito negocial nas operações de reorganização societária; que houve a reunião numa só pessoa jurídica do patrimônio que tiver sofrido o encargo do ágio e o patrimônio que presumivelmente gerará os lucros que justificaram o seu pagamento, mediante efetiva incorporação, cisão ou fusão. FALTA DE PAGAMENTO DE ANTECIPAÇÃO MENSAL Verificada a falta de pagamento de antecipação mensal por estimativa cabe exigir a multa isolada, que incidirá sobre o valor não recolhido. DESPESA DESNECESSÁRIA ENCARGOS FINANCEIROS SOBRE EMPRÉSTIMO CONTRAÍDO PARA FINANCIAR A PRÓPRIA AQUISIÇÃO Em virtude de não ser necessário para a realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa, nem contribuir para a manutenção de sua fonte produtora, o empréstimo que tiver sido contraído pelos seus novos controladores para financiar sua própria aquisição, os encargos financeiros gerados por semelhante empréstimo não constituem despesa dedutível na determinação do resultado tributável. JUROS SOBRE O CAPITAL PRÓPRIO PAGAMENTO DESPROPORCIONAL À PARTICIPAÇÃO NO CAPITAL SOCIAL Os juros sobre capital próprio que são dedutíveis na apuração do resultado tributável são somente os que são pagos ou creditados individualizadamente a cada titular, sócio ou acionista a título de remuneração do capital. Não se enquadram como tal e são indedutíveis os juros pagos ou creditados que excederem ao que beneficiário teria direito de acordo com sua participação no capital social da empresa. COMPENSAÇÃO DE BASE DE CÁLCULO NEGATIVA GLOSA FISCAL A base de cálculo negativa da CSLL que tiver sido usada para compensar diferença tributária apurada em virtude de ação fiscal será, paralelamente, objeto de glosa fiscal caso tenha sido compensada em períodos de apuração subsequente. Conforme despacho de fl. 17.155, o contribuinte apresentou recurso voluntário em 28/02/2014 (fls. 1691717020) antes de ser intimado, suprindo assim necessidade de intimação formal do acórdão, nos termos do art. 26 da Lei nº 9.784/99. Em síntese, a recorrente repisa seus argumentos apresentados em impugnação, requerendo a reforma da decisão recorrida, e o consequente cancelamento do Fl. 17321DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 54 crédito em litígio. Alguns pontos específicos tratados em seu recurso merecem ser reforçado. Para tanto, reproduzo as conclusões e os pedidos constantes do recurso: (A) Conclusão quanto à Primeira Infração imputada contra a Recorrente (i) Foi equivocada a premissa adotada pela D. Fiscalização e pela r. Decisão recorrida, tendo em vista que a utilização da Korcula pelo Grupo Carrefour estava baseada em efetivos propósitos negociais que ultrapassam a mera economia tributária da operação. A utilização da Korcula tornou possível a própria operação de aquisição da Recorrente, principalmente pelo fato de que foi a sociedade que tornou possível o pagamento do preço pelas quotas da Recorrente, já que tornou possível a amortização da dívida através dos negócios da Recorrente; (ii) Mesmo que não se entenda que houve efetivo propósito negocial e verdadeira substância econômica na utilização da Korcula, o que se admite apenas para argumentar, foi demonstrado que o ordenamento jurídico brasileiro não permite à D. Fiscalização desconsiderar negócios jurídicos existentes, válidos e eficazes (como de fato foi a aquisição da Recorrente pela Korcula) apenas com base em uma suposta interpretação da "substância econômica" envolvendo a operação; (iii) No caso em análise, ao contrário do que dispõe a r. Decisão recorrida, houve cumprimento efetivo dos requisitos e do espírito dos artigos 7 0 e 8 0 da Lei 9.532/97. Isso porque, no caso em que o ágio pago_esteja fundamentado na expectativa de rentabilidade futura do investimento adquirido, a Lei 9.532/97 exige que as despesas geradas pela amortização do ágio sejam abatidas contras as receitas geradas pelo investimento que representa o fundamento econômico desse mesmo ágio, justamente para evitar que o ágio seja abatido contra receitas que não tem vinculação com o seu fundamento econômico. No presente caso, as despesas geradas pela amortização fiscal do ágio resultante da aquisição da Recorrente pela Korcula foram abatidas contras as receitas geradas pelas atividades econômicas da própria Recorrente, em completa consonância com os artigos 7º e 8° da Lei 9.532/97; (iv) É infundada a alegação de "empresaveículo", na medida em que o ordenamento jurídico brasileiro prevê especificamente a possibilidade de utilização das chamadas sociedades holdings puras, ou seja, aquelas que existem, não para terem empregados ou atividades próprias, mas apenas para deter participações societárias, não existindo qualquer exigência legal de que tais sociedades holdings tenham empregados ou outros ativos próprios para serem consideradas legítimas; (v) Recentemente, o CARF julgou o Caso Santander, Caso Telemar, Caso Cosem, Caso CELPE, Caso Biosintética, Caso Columbian, Caso Energisa, Caso Santa Tereza, Caso Geoplan, Caso Multiplan, Caso Dufry, Caso Usina Moema, Caso Scipione, Caso Johnson Controls etc., todos envolvendo os mesmos elementos do caso discutido nesses autos (pagamento efetivo de ágio pela adquirente do investimento, a utilização de "empresaveículo", a participação de partes não relacionadas na transação original de compra e venda de participação societária e a amortização fiscal de ágio após a incorporação da "empresa veículo" na sociedade alvo da aquisição). E todos esses casos foram julgados a favor do contribuinte, tendo o CARF afastado a alegação das autoridades fiscais de que a utilização de "empresa veículo" invalidaria a amortização fiscal de ágio; (vi) No presente caso, a adoção das conclusões de todos esses recentes julgamentos do CARF faz com que o atual questionamento da D. Fiscalização seja Fl. 17322DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.296 55 declarado completamente improcedente, na medida em que: (a) o ágio pago pela Korcula para adquirir a Recorrente preenche as 3 (três) premissas básicas mencionadas naqueles julgamentos; (b) o ágio pago pela Korcula está sendo amortizado fiscalmente com base na Lei 9.532/97, e está sendo abatido contra as receitas geradas na própria Recorrente; (c) a causa do negócio jurídico discutido no presente processo administrativo foi a aquisição, pela Korcula, da totalidade do capital da Recorrente (sendo a amortização fiscal do ágio mera motivação fiscal da transação); e (d) a utilização da Korcula na operação não fez com que surgisse novo ágio e não gerou o reconhecimento de ágio em maior valor do que seria reconhecido caso ela não existisse; (vii) O Caso Santander e o Caso Columbian envolvem questionamento específico ainda mais semelhante ao do presente processo administrativo, na medida em que, naqueles casos, o Fisco também acusou o contribuinte autuado de ter "internalizado" ágio pago do exterior. Em ambos os casos, o CARF julgou que a amortização fiscal do ágio foi legítima. Aliás, no Caso Santander, julgado de forma unânime em favor do contribuinte, o preço (e o ágio) foi pago diretamente por empresa sediada no exterior, o que torna ainda mais claro a improcedência do presente questionannento contra a Recorrente. Tal como demonstrado à exaustão, o preço e o ágio, no presente processo administrativo, foram pagos diretamente por empresa domiciliada no Brasil; (viii) Toda a estrutura de aquisição da Recorrente pela Korcula não consistiu em nenhum tipo de "planejamento tributário", mas sim em uma mera "opção legal", passível de adoção pelo Grupo Carrefour, dentre as diversas opções legais possíveis para aquele mesmo negócio. A Recorrente não obteve qualquer benefício a que já não teria direito pela legislação em vigor, sendo que a discussão relativa à aquisição da Recorrente pela Brepa, ou pela Carrefour Brasil, dizia respeito tão somente às razões puramente empresariais e não tributárias da operação; (ix) A Recorrente demonstrou, com base na legislação tributária (artigo 8º da Lei 9.532/97), na doutrina e na jurisprudência aplicável, que é permitida a amortização fiscal de ágio nas situações em que a Adquirida incorpora a Adquirente, ou seja, nos casos em que a incorporação societária é realizada de forma "invertida". (B) Conclusão quanto à Segunda Infração imputada contra a Recorrente (i) A estrutura adotada pelo Grupo Carrefour para adquirir a totalidade do capital da Recorrente compra alavancada corresponde a prática conhecida no mercado, usual e normal no contexto de aquisições de empresas; (ii) As despesas financeiras incorridas pela Recorrente, derivadas de empréstimo tomado para efetuar a transação em exame nesse processo administrativo, são consideradas como necessárias e, portanto, dedutíveis da base de cálculo do IRRJ/CSL. A possibilidade de a Recorrente deduzir essas despesas financeiras está prevista no artigo 17, parágrafo único, do Decretolei 1.598/77, e também o artigo 31 da Lei 11.727/08; (iii) A dedução das despesas financeiras incorridas pela Recorrente não afrontou nenhuma das hipóteses limitadoras estabelecidas historicamente pela Fl. 17323DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 56 jurisprudência administrativa. Na operação em análise no presente processo administrativo (a) a dívida e os juros incorridos foram devidamente comprovados pela Recorrente, sem qualquer questionamento da D. Fiscalização nesse ponto; e (b) os valores captados via empréstimo não foram transferidos a pessoas ligadas, muito menos com cobrança de juros menores, hipótese que também nem foi suscitada pela D. Fiscalização na lavratura do Auto de Infração que deu origem a esse processo administrativo; (iv) A Recorrente deixou muito claro o equívoco cometido pela D. Fiscalização na interpretação dos fatos envolvidos no presente processo administrativo, na medida em que, ainda que a dívida original tenha sido contratada pela Korcula com parte relacionada no exterior (a Carrefour BV), no final da operação, a dívida foi tomada com terceiro (o BNP Paribas). No momento da incorporação da Korcula ao patrimônio da Recorrente, a dívida questionada pela D. Fiscalização (Korcula x Carrefour BV) já havia sido quitada, de forma que a Recorrente assumiu diretamente uma dívida com terceiro não relacionado (o BNP Paribas); (v) Este equívoco cometido pela D. Fiscalização já demonstra, de imediato, a completa improcedência de suas alegações quanto à dedutibilidade das despesas financeiras incorridas pela Recorrente. A dívida foi tomada com terceiros, e não com parte relacionada. Enquanto o empréstimo entre Korcula e Carrefour BV permaneceu em aberto, não houve qualquer pagamento de juros que pudesse reduzir efetivamente o lucro tributável da Korcula. A alegação de que a parte aportada pelo Carrefour BV na Korcula como empréstimo poderia ter sido feita via aumento de capital não corresponde à realidade dos fatos, pelo simples fato de que, ao final, a dívida foi tomada com terceiros; (vi) Ainda que assim não tivesse ocorrido, a opção da controladora em financiar a aquisição da Recorrente por empréstimo, em vez de aumento de capital, é ato completamente normal à gestão de atividades empresariais. A opção do empréstimo foi feita justamente porque o Grupo Carrefour não detinha recursos disponíveis para investimento de longo prazo (capital). Foi opção tomada pela controladora, inclusive, opção esta induzida pelo próprio ordenamento jurídico brasileiro; (vii) Caso fosse considerado que a dívida foi efetivamente tomada face ao Carrefour BV, o que, repitase, não foi o que ocorreu no presente caso, a dedução das despesas de juros incorridas no caso em exame só estariam sujeitas aos limites impostos pelas regras de preços de transferência (Lei 9.430/96), regras que foram plenamente observadas pela Korcula e pela Recorrente. É hipótese regulada de forma expressa pela legislação tributária em vigor. Assim, se a operação foi completamente efetuada de acordo com as regras que vigoravam à aquela época, não poderia a D. Fiscalização exigir ou obrigar que a Korcula ou a Recorrente adotassem a prática que elas entendem que resultaria em maior pagamento de tributo; (viii) À época dos fatos envolvidos no presente processo administrativo, o Brasil não coibia a subcapitalização (ou thin capitalization), caracterizada quando o capital social de uma empresa é irrelevante se comparado com o passivo mantido frente aos seus sócios; (ix) Portanto, a dívida tomada pela Korcula foi feita de acordo com as regras de preços de transferência vigentes à época (o que nem é mencionado pela D. Fiscalização) e não estavam sujeitas às recentes regras de subcapitalização. Mesmo assim, caso as regras de subcapitalização hoje existentes (instituídas pela MP 472/09) fossem aplicáveis ao caso em análise, as partes também teriam obedecido aos limites impostos por tais regras; (x) Os recursos financeiros captados pela Korcula foram empregados na Fl. 17324DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.297 57 aquisição da Recorrente, negócio lícito e que trouxe efetivos benefícios econômicos ao Grupo Carrefour no Brasil. A Korcula foi a efetiva beneficiária dos valores aportados via dívida e empregou tais valores em transação real e comprovada, extremamente relevante para a estratégia do Grupo Carrefour no Brasil; (xi) As despesas financeiras em questão só foram incorridas pela Recorrente por conta de uma obripacão legal expressa o artigo 1.116 do Código Civil de 2002 , que determina a assunção da dívida pela Recorrente. A dívida não foi assumida pela Recorrente por conta de uma opção livre e espontânea. Assim, por decorrência lógica e jurídica, se as despesas financeiras eram dedutíveis na ótica da Korcula (por serem necessárias à essa sociedade no contexto de aquisição da Recorrente, como foi reconhecido pela própria r. Decisão recorrida) não há dúvidas de que elas também devem ser consideradas como dedutíveis para a Recorrente, sociedade que sucedeu a Korcula em todos os seus direitos e obrigações; e (xii) Por fim, ao contrário da alegação da D. Fiscalização e da r. Decisão recorrida, ainda que fosse necessário indagar a respeito de um efetivo benefício para a Recorrente, a fim de tornar as despesas financeiras dedutíveis também para ela, não há dúvidas de que a dívida tomada pela Korcula também trouxe benefícios à própria Recorrente. Isso porque, a mudança do seu controle societário fez com que suas receitas crescessem, suas atividades fossem expandidas e sua gestão passasse de uma estrutura familiar para uma estrutura profissional típica dos grandes grupos empresariais. (C) Conclusão quanto à Terceira Infração imputada contra a Recorrente (i) O pagamento desproporcional de 3CP não produziu qualquer efeito fiscal adverso que poderia ter favorecido a Recorrente, ou seja, mesmo que a distribuição de JCP às sócias da Recorrente tivesse sido feito de forma proporcional ao seu capital social, os valores que seriam dedutíveis pela sociedade seriam exatamente os mesmos. Eventualmente, o pagamento desproporcional de JCP só produziria efeitos fiscais prejudiciais ao Fisco no nível dos sócios que deliberaram e auferiram a remuneração de JCP desproporcional; (ii) A remuneração do acionista a título de JCP se caracteriza como uma efetiva distribuição de lucros, ou seja, como dividendo (com tratamento tributário especial). Se os JCP possuem a mesma natureza jurídica dos dividendos, a esse tipo de remuneração também é aplicável o artigo 1.007 do Código Civil de 2002, de forma que os JCP também podem ser distribuídos de forma desproporcional à participação dos sócios. A única condição para tornar possível o pagamento desproporcional de JCP é a disposição expressa no contrato social da sociedade pagadora (tal como passou a prever o artigo 9º do contrato social da Recorrente). (D) A inadequação das multas, dos juros de mora e outros esclarecimentos (i) A severa multa de 150% aplicada pela D. Fiscalização, indevidamente mantida pela r. Decisão recorrida, também deve ser prontamente afastada, pois, Fl. 17325DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 58 como se sabe, essa penalidade somente poderia ser imposta a casos de evidente intuito de fraude, sonegação ou conluio, quando restar provada pelo Fisco a inequívoca intenção do contribuinte de enganar, esconder ou iludir. Porém, é claro que este não é um caso de fraude, sonegação ou conluio. Ainda que se entenda que as operações praticadas pela Recorrente não lhe davam o direito de proceder como procedeu, o que se admite apenas para argumentar, não se pode falar em qualquer tipo de fraude. A Recorrente jamais falsificou documentos ou "maquiou" livros contábeis ou fiscais, ao contrário, sempre registrou, às claras, todas as operações em sua contabilidade. A Recorrente registrou todos os seus atos nas Juntas Comerciais e demais órgãos públicos cabíveis e sempre recebeu a D. Fiscalização com total transparência e atendeu a todas as suas solicitações com clareza e prontidão. Na pior das hipóteses, portanto, a D. Fiscalização pode alegar que discorda dos efeitos jurídicos e legais das operações praticadas pela Recorrente, mas isso jamais poderia servir de base para se pressupor a falta de boa fé da Recorrente e acusála de ter incorrido em fraude; (ii) a D. Fiscalização aplicou também uma multa isolada de 50% sobre os mesmos supostos fatos geradores que motivaram a lavratura deste Auto de Infração. Tratase de mais um excesso que deve ser imediatamente cancelado. A multa isolada aplicase somente aos casos em que, ao fim do períodobase, o contribuinte paga regularmente os valores de IRPJ/CSL, mas deixa de fazer as antecipações mensais. Nesses casos, a multa pode ser aplicada isoladamente, sem a exigência do tributo, daí a sua denominação. Porém, quando o fisco entende que o contribuinte deixou de pagar valores de IRPJ/CSL ao fim do períodobase e efetua o lançamento desses valores juntamente com uma penalidade aplicada de ofício, não há que se falar em multa isolada. Já está amplamente pacificado na jurisprudência que a multa isolada não pode ser exigida cumulativamente com a penalidade imposta de ofício, de modo que a multa isolada também deve ser integralmente cancelada. Constitui claro excesso a cobrança de dupla penalidade nessa situação, o que também afronta o princípio da consunção, conforme já pacificado pela CÂMARA SUPERIOR DE RECURSOS FISCAIS; (iii) A taxa SELIC não pode ser aplicada aos créditos tributários e, se admitida a sua aplicação, só poderá incidir sobre o crédito tributário principal, não podendo recair sobre o valor da multa de ofício, que é penalidade e não tem natureza tributária; (iv) Todos os argumentos de fato e de Direito apresentados neste Recurso Voluntário justificam a legalidade do procedimento adotado pela Recorrente também para efeitos de recolhimento da CSL; e (v) Tendo sido demonstrada a total improcedência do Auto de Infração objeto do presente processo administrativo, deve ser determinada a recomposição dos prejuízos fiscais e bases negativas da CSL indevidamente compensadas pela D. Fiscalização, quando da apuração do crédito tributário em discussão. (E) O Pedido 351. Pelo exposto, a Recorrente tem por comprovada a exatidão dos procedimentos adotados e a total improcedência do Auto de Infração, bem como o equívoco cometido pela r. Decisão recorrida, que manteve o lançamento tributário, ao interpretar os fatos e o Direito aplicáveis ao caso. 352. Dessa forma, requerse seja o presente Recurso Voluntário integralmente provido, com o objetivo de reformar a r. Decisão recorrida e cancelar integralmente o Auto de Infração, juntamente com as penalidades e juros aplicados, com o consequente arquivamento do processo administrativo. Fl. 17326DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.298 59 A Procuradoria Geral da Fazenda Nacional apresentou contrarrazões de fls. 11.45511.491, pugnando pela manutenção da exigência em sua integralidade. Às fls. 1721317266 encontrase ainda Parecer anexado pela Recoorente e elaborado pelo Ilustre doutrinador Dr. Ricardo Mariz de Oliveira. É o relatório. Fl. 17327DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 60 Voto Conselheiro FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Relator. 1 ADMISSIBILIDADE Conforme relatado, o contribuinte apresentou recurso voluntário antes mesmo de sua intimação formal. De toda forma, constatase que a decisão recorrida se deu em sessão realizada em 29/01/2014, uma quartafeira. A recorrente anexou print do "Histórico do Processo" retirado do sítio da RFB (eCAC), no qual consta que em 31/01/2014 (sextafeira) houve ordem da DRJ de Belo Horizonte (MG) para que a Recorrente fosse informada/intimada do julgamento. Nessa mesma data a Recorrente acessou o eCAC, tendo acesso ao inteiro teor de tal decisão. Ainda que se considere esta a data da ciência, o início da contagem do prazo se deu no primeiro dia útil subsequente, no caso, dia 03/02/2014 (segundafeira), o que implicaria como data fatal de apresentação do recurso o dia 04/03/2014 (terçafeira). Considerandose que o recurso voluntário foi interposto em 28/02/2014 (fl. 16918), o mesmo mostrase tempestivo. Preenchidos os demais pressupostos legais para sua admissibilidade, dele, portanto, tomo conhecimento. 2 MÉRITO 2.1 DA AMORTIZAÇÃO/EXCLUSÃO DO ÁGIO De acordo com o Termo de Verificação Fiscal, o ágio deduzido pela Recorrente seria indedutível das bases de cálculo de IRPJ e de CSLL em razão da utilização fraudulenta de uma “empresa veículo” (KORCULA) a fim de, artificialmente, gerar a extinção do investimento adquirido com ágio e possibilitar sua amortização/exclusão desse ágio das bases de cálculo desses tributos (arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/97). Para a Fiscalização, CARREFOUR BV, sediado nos Países Baixos, teria feito uma simples operação de aquisição de participação societária de ATACADÃO. Constatase que, inicialmente CARREFOUR BV era controladora de BREPA, sediada no Brasil. Essa, por sua vez, controlava CARREFOUR, também sediada no Brasil. O negócio entabulado para aquisição de ATACADÃO foi realizado tendo como adquirente KORCULA, empresa controlada por BREPA, constituída em fevereiro de 2007 e com capital de R$ 100,00. Dois meses após, os sócios de KORCULA cederam suas quotas à BREPA (99%) e CARREFOUR (1%). Em seguida, KORCULA passou a ocupar o Fl. 17328DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.299 61 mesmo prédio onde já se encontravam os novos sócios. O quadro elaborado pela autoridade fiscal (fl. 15477) ilustra bem o organograma do grupo em 30/04/2007: De acordo com o Termo de Verificação, outros atos foram realizados em sequência: Em 27/04/2007 sócio de BREPA (CARREFOUR BV) aumenta em R$ 1.137.810.798,17 o capital de KORCULA; Três dias depois (30/04/2007), BREPA utiliza praticamente o mesmo valor (R$ 1.137.810.898,00, diferença de R$ 10,00) para aumentar o capital em KORCULA, com a anuência do outro sócio (CARREFOUR); Quinze dias após o aumento de capital promovido pela BREPA, em 15/05/2007, CARREFOUR integralizou e aumentou o capital social da KORCULA em mais R$ 12.507.285,00; Aquisição de ATACADÃO iniciouse antes do aumento de capital de BREPA. PRIMART II e LOLY II detinham as ações de ATACADÃO. Em 20/04/2007 foi celebrado contrato tendo como vendedores as pessoas físicas sócias de PRIMART II (“família Lima”), as pessoas físicas sócias de LOLY II (“família Schmeil”) e Farid Curi, e, como compradora, KORCULA; Apesar de KORCULA figurar como compradora, o contrato previa que as notificações decorrentes das obrigações aí assumidas deveriam ser enviadas à BREPA, como garantidora e principal pagadora das obrigações da compradora. Fl. 17329DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 62 No momento da assinatura do Contrato de Venda e Compra de Quotas tanto KORCULA quanto BREPA não dispunham dos recursos necessários para efetivar a compra de ATACADÃO. Os recursos para a compra vieram do exterior, da empresa CARREFOUR BV, na véspera do efetivo pagamento aos vendedores; Naquela ocasião, o controle de ATACADÃO era assim composto (quadro à fl. 15475): Com os recursos obtidos, KORCULA adquiriu as quotas de PRIMART II, de LOLY II e de Farid Curi, passando a deter o controle total do ATACADÃO, direta ou indiretamente; O valor total da aquisição foi de R$ 2.233.440.000,00. KORCULA, contudo, no momento do fechamento do negócio (30/04/2007), somente dispunha de R$1.137.810.898,00 oriundos do aumento de capital promovido pela BREPA; O restante foi obtido mediante empréstimo direto do CARREFOUR BV a KORCULA, no montante de R$ 1.095.629.201,83. Constatase, assim, que os recursos para a compra de ATACADÃO tiveram origem em CARREFOUR BV, quer por meio de aumento de capital que somente transitou por BREPA, quer por meio de empréstimo direto para KORCULA, conforme elucida quadro à fl. 15480: Fl. 17330DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.300 63 A passagem desses recursos pela BREPA e pela KORCULA foi de apenas algumas horas, visto que foram recebidos em 30/04/2007 e transferidos para os vendedores no mesmo dia 30/04/2007; O ágio pago por KORCULA na aquisição de ATACADÃO chegou a R$ 1.780.738.273,26; A incorporação da KORCULA por ATACADÃO foi precedida pela incorporação da PRIMART II e LOLY II pela KORCULA; Assim, em dezembro de 2007, ATACADÃO passou a ser subsidiária integral de KORCULA; Os controladores de KORCULA (BREPA E CARREFOUR) aprovaram a incorporação de KORCULA por sua controlada ATACADÃO; Foi promovida alteração no Contrato Social da ATACADÃO, em 31/01/2008, finalizando a incorporação de KORCULA. O capital social passou de R$474.607.496,00 para R$1.149.846.178,84. Portanto, a empresa ATACADÃO passou a ser controlada direta da BREPA e do CARREFOUR; O ágio advindo da aquisição de KORCULA (R$ 1.780.738.273,26), após os ajustes no valor da aquisição decorrentes de compromissos existentes no ATACADÃO anteriores à data de fechamento e de responsabilidade dos vendedores , o valor efetivo do ágio apurado na operação atinge R$1.702.116.571,36; Fl. 17331DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 64 Após a incorporação reversa de KORCULA por ATACADÃO, iniciouse a amortização do ágio. Analisando o caso concreto, não tenho dúvidas de que estamos diante de uma operação artificial, com utilização de empresa veículo, cujo objetivo do desenho da operação foi permitir a amortização do ágio. Segundo a RECORRENTE, a utilização de empresas veículos, por si só, não é suficiente para determinar os efeitos fiscais de determinada operação. Aduz ainda que a utilização de KORCULA buscava manter separadas as atuações de CARREFOUR e ATACADÃO. Embora concorde que não se pode determinar a existência de patologia fiscal simplesmente pela utilização de empresas veículos, no caso concreto, não me resta qualquer sombra de dúvida que as operações, da forma como foram arquitetadas, visaram a driblar a legislação de regência, buscando posicionar a RECORRENTE artificialmente perante as normas que permitem a amortização do ágio em operações societárias. Não se pode confundir o direito a contabilização do ágio com as condições para amortização em termos fiscais. Vejamos, com base no Decreto nº 3.000, de 1999 (RIR/99), a legislação que rege a matéria: Amortização do Ágio ou Deságio Art.391. As contrapartidas da amortização do ágio ou deságio de que trata o art. 385 não serão computadas na determinação do lucro real, ressalvado o disposto no art. 426 (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 25, e DecretoLei nº1.730, de 1979, art. 1º, inciso III). Parágrafo único. Concomitantemente com a amortização, na escrituração comercial, do ágio ou deságio a que se refere este artigo, será mantido controle, no LALUR, para efeito de determinação do ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação do investimento (art. 426). [grifo nosso] Avaliado pelo Valor de Patrimônio Líquido Art.426. O valor contábil para efeito de determinar o ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação de investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor de patrimônio líquido (art. 384), será a soma algébrica dos seguintes valores (DecretoLei nº1.598, de 1977, art. 33, e DecretoLei nº1.730, de 1979, art. 1º, inciso V): Ivalor de patrimônio líquido pelo qual o investimento estiver registrado na contabilidade do contribuinte; IIágio ou deságio na aquisição do investimento, ainda que tenha sido amortizado na escrituração comercial do contribuinte, excluídos os computados nos exercícios financeiros de 1979 e 1980, na determinação do lucro real; IIIprovisão para perdas que tiver sido computada, como dedução, na determinação do lucro real, observado o disposto no parágrafo único do artigo anterior. [grifos nossos] Constatase, assim, que, em regra geral, o ágio deverá ser ativado e utilizado como custo somente no momento da alienação do investimento, obviamente se essa vier a ocorrer, o que, frisese, não há qualquer notícia de que tais alienações tenham ocorrido no caso concreto. Fl. 17332DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.301 65 Nesse sentido, compulsando os autos, percebese claramente que o investimento realizado (aquisição das ações da RECORRENTE), e adquirido com ágio, comporia o ativo da então adquirente, provavelmente, por tempo indeterminado, haja vista a continuidade das operações, em seu próprio nome, por parte da RECORRENTE. Assim, caso a aquisição fosse realizada pela holding que efetivamente atuava (BREPA), ou qualquer outra empresa operacional do grupo Carrefour no Brasil, não haveria qualquer extinção do investimento, haja vista a continuidade das operações da RECORRENTE. A artificialidade da operação foi justamente buscar o contorno de tais normas imperativas, que impunham a ativação do ágio, buscando posicionar a RECORRENTE diante de normas de contorno, quais sejam, o art. 386, III, e seu § 6º, II, do RIR/99, transcritas a seguir, mediante operações societárias meramente com fins fiscais: Art.386. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no artigo anterior (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, e Lei nº 9.718, de 1998, art. 10): [...] III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do §2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; [...] §6º O disposto neste artigo aplicase, inclusive, quando (Lei nº 9.532, de 1997, art. 8º): [...] II a empresa incorporada, fusionada ou cindida for aquela que detinha a propriedade da participação societária. [grifos nossos] Isso porque o fato de a formação do ágio ter cumprido os requisitos legais estabelecidos, em especial aqueles em que essa turma firmou entendimento necessários (o efetivo pagamento do custo total de aquisição, inclusive o ágio; a realização das operações originais entre partes não ligadas; seja demonstrada a lisura na avaliação da empresa adquirida, bem como a expectativa de rentabilidade futura), não possui o condão de permitir que a regra geral seja desrespeitada, qual seja, o ágio deverá compor o custo do investimento para fins de apuração de ganho de capital em eventual alienação (inteligência do art. 391 c/c art. 426, II, ambos do RIR/99). A meu ver, independentemente do desenho das operações e dos eventuais propósitos negociais na utilização de empresas veículo, não havendo extinção do investimento adquirido com ágio mediante confusão patrimonial entre investida e investidora, não há que se falar em dedutibilidade do ágio. Desde o julgamento do processo nº 16561.720026/201113 (“Caso Bunge” – acórdão nº 1402001.460), no qual fui designado redator do voto vencedor, esta turma, ainda que por voto de qualidade, passou a adotar tal posicionamento. Fixouse o entendimento que, em regra, o ágio efetivamente pago em operação entre empresas não ligadas e calcadas em laudo que comprove a expectativa de Fl. 17333DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 66 rentabilidade futura deve compor o custo do investimento, sendo dedutível somente no momento da alienação de tal investimento (inteligência do art. 426 do Decreto nº 3.000/99 Regulamento do Imposto de Renda – RIR/99). A amortização do ágio seria exceção. Por decorrência, incluiuse nova premissa para que a amortização do ágio por rentabilidade futura fosse possível, qual seja, a extinção do investimento em razão da absorção do patrimônio da investidora pela investida, ou viceversa, conforme prevê o art. 386, e seu inciso III, do RIR/99. Naquele caso, semelhante à operação ora em análise, a hipótese também tratava da utilização de empresa veículo cujo único objetivo foi possibilitar, mediante reestruturação societária meramente artificial e formal, a amortização do ágio. Nessa senda, para que o ágio com fundamento em rentabilidade futura possa compor o resultado do período, o regulamento do imposto de renda impõe ou a alienação do investimento – nesse caso, na forma de custo de aquisição , ou mediante amortização, desde que haja incorporação, fusão ou cisão entre investidora e investida (art. 386, caput e inciso III), ainda que de forma reversa (art. 386, § 6º, II), em outras palavras, a extinção do investimento em razão da confusão patrimonial entre investida e investidora. Não há dúvida que a pessoa jurídica que, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, absorver patrimônio de outra pessoa jurídica que dela detenha participação societária adquirida com ágio, cujo fundamento seja a rentabilidade futura, poderá amortizálo nos balanços correspondentes à apuração do lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração, pois assim possibilita o art. 386 do RIR/99. Contudo, o alcance do disposto no art. 386 do RIR/99, cuja base legal são os artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/97 não possui o alcance que a RECORRENTE entende possuir. Não há, por assim dizer, um direito natural à amortização do ágio, uma vez que a regra geral é que o ágio componha o custo de aquisição do investimento. Também não há que se falar que os artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/97 estabeleceram um benefício fiscal (à época, visando às operações de privatização), uma vez que, na realidade, tais dispositivos legais foram editados com viés antielisivo, uma vez que, na legislação então vigente, com a extinção do investimento, bastaria à pessoa jurídica avaliar o acervo líquido recebido a preços de mercado, e toda a diferença entre este acervo e o valor contabilmente registrado, relativo à participação societária extinta, era imediatamente deduzido como perda, para fins fiscais, qualquer que fosse o fundamento daquele ágio (art. 34 do DecretoLei nº 1.598/77). Após a Lei no 9.532/97, nos casos de incorporação, fusão ou cisão, o ágio fundamentado em rentabilidade futura não mais pode ser deduzido imediatamente como perda, senão de forma “parcelada” em, no mínimo, cinco anos; o ágio fundamentado na diferença entre o valor contábil e o valor de mercado de bens do ativo não mais pode ser deduzido imediatamente como perda, senão de forma também “parcelada”, acompanhando a depreciação, amortização, ou exaustão normal do bem; e o ágio baseado em outros fundamentos econômicos não apenas não mais pode ser deduzido imediatamente como perda, como ainda sequer pode ser amortizado ao longo do tempo. A nova lei, portanto, possui caráter manifestamente antielisivo. Não somente pelo seu próprio conteúdo normativo, já que a partir de sua edição foram sensivelmente Fl. 17334DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.302 67 restringidas as possibilidades de dedução do ágio, conforme acima exposto, como também pela própria manifestação do legislador, contida na exposição de motivos ao art. 8° da MP 1.602/97, posteriormente convertido no art. 7° da Lei no 9.532/97, verbis: “O art. 8º estabelece o tratamento tributário do ágio ou deságio decorrente da aquisição, por uma pessoa jurídica, de participação societária no capital de outra, avaliada pelo método da equivalência patrimonial. Atualmente, pela inexistência de regulamentação legal relativa a esse assunto, diversas empresas, utilizando dos já referidos "planejamentos tributários", vêm utilizando o expediente de adquirir empresas deficitárias, pagando ágio pela participação, com a finalidade única de gerar ganhos de natureza tributária mediante o expediente, nada ortodoxo, de incorporação da empresa lucrativa pela deficitária. Com as normas previstas no Projeto, esses procedimentos não deixarão de acontecer, mas, com certeza, ficarão restritos às hipóteses de casos reais, tendo em vista o desaparecimento de toda vantagem de natureza fiscal que possa incentivar a sua adoção exclusivamente por esse motivo.” Este ponto merece ser melhor explicitado, visto que há muitos juristas e doutrinadores — quiçá a maioria, até — que tratam os referidos artigos 7o e 8o como um incentivo fiscal às privatizações. Contudo, o entendimento aqui exposto não é isolado, e, neste sentido, transcrevo excerto de manifestação de Luís Eduardo Schoueri em recente livro1 a respeito do tema: Muitos acreditam que a referida lei constituiu incentivo fiscal às privatizações. Neste sentido é o entendimento de Roberto Quiroga Mosquera e Rodrigo de Freitas, quando estes assinalam que o tratamento fiscal conferido ao ágio pela Lei no 9.532/1997 ‘foi estabelecido no contexto de incentivo às privatizações, em que o Estado brasileiro tinha interesse em oferecer condições vantajosas aos adquirentes e, com isso, conseguir melhores preços’. O mesmo raciocínio pode ser visto em Marcel e Michel Gulin Melhem, segundo os quais uma (e talvez a principal) das razões para a criação das normas sobre dedutibilidade do ágio na incorporação teria sido o incentivo ao “então chamado Programa Nacional de Desestatização, tornando as empresas estatais mais atraentes aos investidores privados, uma vez que o ágio eventualmente pago nos leilões de privatização poderia ser deduzido fiscalmente”. É, ainda, o mesmo entendimento de João Dácio Rolim e de Frederico de Almeida Fonseca, para quem um dos motivos para o tratamento dado ao ágio pela Lei no 9.532/1997 “foi o de fomentar o chamado ‘Programa Nacional de Desestatização do Governo Federal’”. Tal posicionamento não deixa de ser curioso. Afinal, se anteriormente o ágio era deduzido integralmente, a imposição de restrições não poderia ser considerada um incentivo. A exposição de motivos da Medida Provisória no 1.602/1997 deixou hialino esse intuito de restrição da consideração do ágio como despesa dedutível, mediante a instituição de óbices à amortização de qualquer tipo de ágio nas operações de incorporação. Com isso, o legislador visou limitar a dedução do ágio às hipóteses em que fossem acarretados efeitos econômicotributários que os justificassem. 1 SCHOUERI, Luis Eduardo. Ágio em reorganizações societárias (aspectos tributários). São Paulo: Dialética, 2012, p. 6668. Fl. 17335DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 68 Segundo as palavras utilizadas à época pelo Poder Executivo para justificar a introdução de disciplina diferenciada para o ágio conforme sua fundamentação, houve a necessidade de se coibir planejamentos tributários consistentes na aquisição com ágio de empresas deficitárias e posterior incorporação que fizesse com que o ágio fosse deduzido na empresa lucrativa. Como antigamente não havia qualquer coerência e consistência para a dedução do ágio, a falta de regulamentação específica estava sendo utilizada para distorcer a lógica do sistema, o que gerou motivação suficiente para que o legislador barrasse esses artifícios prejudiciais à completude do ordenamento jurídico.” Ainda que possa não ser o entendimento dominante, também no CARF se encontram manifestações no mesmo sentido do quanto exposto no presente voto. Peço vênia para transcrever trecho do voto proferido pelo ilustre Conselheiro Mário Junqueira Franco Júnior, no acórdão no 10195.786, de 18 de outubro de 2006, à época acompanhado por unanimidade pela antiga Primeira Câmara do Primeiro Conselho de Contribuintes: Antigamente, o Decreto 1.598/77, em seu artigo 34, atual artigo 430 do RIR/99 [...] Não havia prazo mínimo para esta operação de registro da perda, certo que alguns contribuintes, fortes na avaliação apenas de bens tangíveis e ignorando a valorização de intangíveis, registravam perdas quase pela totalidade do ágio pago na aquisição. E isso em operações muitas das vezes instantâneas. [...] A motivação para a nova regra teve caráter antielisivo, conforme a exposição de motivos ao artigo 8° da MP 1.602/97, convertido no artigo 7° da Lei 9.532/97, verbis: [...] A única conclusão possível, portanto, é que a nova regulamentação, além de tomar despicienda qualquer avaliação de acerco líquido quando existente ágio ou deságio, criou prazo mínimo para a amortização, no caso 5 anos, como forma de evitar o ganho fiscal imediato que anteriormente se obtinha, pelo reconhecimento a um só tempo da diferença entre o valor contábil e o valor do acervo líquido. No entanto, não há na norma qualquer permissão para que tal efeito represente um ajuste ao lucro líquido, mediante exclusão no LALUR. O fato é contábil, representativo do controle na escrituração da amortização do ágio após a incorporação. Como bem observou a decisão recorrida, apenas se a amortização ultimarse em período anterior a cinco anos, haverá necessidade de ajustes por adição e exclusão, para respeito ao prazo mínimo definido na norma. Portanto, longe de veicular o benefício fiscal de amortização do ágio, os artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/97 vieram impor limites a tal dedução. Em relação ao desenho da operação realizada pela RECORRENTE, não se pode olvidar que o contribuinte tem o direito de estruturar o seu negócio de maneira que melhor lhe convém, com vistas à redução de custos e despesas, inclusive à redução dos tributos, sem que isso implique, necessariamente, qualquer ilegalidade. Entretanto, o que não se admite atualmente é que os atos e negócios praticados se baseiem numa aparente legalidade, sem qualquer finalidade empresarial ou negocial, para disfarçar o real objetivo da operação, quando unicamente almeje reduzir o pagamento de tributos. Fl. 17336DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.303 69 Nesse sentido, colacionamse a seguir os ensinamentos de Marco Aurélio Greco2: ... a pergunta que se põe é: admitida a existência do direito de o contribuinte organizar a sua vida, este direito pode ser utilizado sem quaisquer restrições? Ou seja, tal direito é ilimitado? Todo e qualquer “planejamento” é admissível? Minha resposta é negativa. (pág. 190) Ou seja, cumpre analisar o tema do planejamento tributário não apenas sob a ótica das formas jurídicas admissíveis, mas também sob o ângulo da sua utilização concreta, do seu funcionamento e dos resultados que geram à luz dos valores básicos de igualdade, solidariedade social e justiça. (pág. 202) [...] com o advento do Código Civil de 2002 a questão ficou solucionada, pois seu artigo 187 é expresso ao prever que o abuso de direito configura ato ilícito: Art. 187. Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercêlo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boafé ou pelos bons costumes. (pág. 206) No Brasil, entendo que esta possibilidade de recusa de tutela ao ato abusivo (mesmo antes do Código Civil de 2002) encontra base no ordenamento positivo, por decorrer dos princípios consagrados na Constituição de 1988 e da natureza da figura. Porém, a atitude do Fisco no sentido de desqualificar e requalificar os negócios privados somente poderá ocorrer se puder demonstrar de forma inequívoca que o ato foi abusivo porque sua única ou principal finalidade foi conduzir a um menor pagamento de imposto. Esta conclusão resulta da conjugação dos vários princípios acima expostos e de uma mudança de postura na concepção do fenômeno tributário que não deve mais ser visto como simples agressão ao patrimônio individual, mas como instrumento ligado ao princípio da solidariedade social. (pág. 208) Em suma, não há dúvida de que o contribuinte tem o direito, encartado na Constituição Federal, de organizar sua vida da maneira que melhor julgar. Porém, o exercício deste direito supõe a existência de causas reais que levem a tal atitude. A autoorganização com a finalidade predominante de pagar menos imposto configura abuso de direito, além de poder configurar algum outro tipo de patologia do negócio jurídico, como, por exemplo, a fraude à lei. (pág. 228) Notase, assim, que o direito ao planejamento tributário não pode ser absoluto, há que haver uma conformação entre a existência do direito e o modo como se exerceu esse direito, sob pena de incorrerse em abuso de direito. 2 GRECO, Marco Aurélio. Planejamento Tributário. São Paulo: Dialética, 2011, p. 198208. Fl. 17337DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 70 Ricardo Lobo Torres, a esse respeito, esclarece que “a proibição da elisão abusiva no campo tributário nada mais é que a especificação do princípio geral, jurídico e moral, da vedação do abuso de direito”.3 A tributação, historicamente, sempre contou com a rejeição do povo. Esse o motivo em função do qual foi fixada, em 1215, a limitação à tributação pela lei. Na Inglaterra de então, os barões e os religiosos procuraram conter o arbítrio do Rei, fixando que não haveria tributação sem lei que a estabelecesse. Mais adiante, a Constituição NorteAmericana de 1787 e a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789 reprisaram a limitação. Essa perspectiva, entretanto, sofreu alteração ao longo do tempo. Hoje, a tributação não é mais uma concessão da sociedade em favor do Estado, mas um instrumento da sociedade que tem por finalidade manter uma máquina pública estruturada em favor da própria sociedade. Esse é o sentido do dever fundamental do indivíduo de recolher os tributos devidos. Confirase, a respeito, o pensamento de Klaus Tipke (“Justiça Fiscal e Princípio da Capacidade Contributiva”, Douglas Yamashita, São Paulo, Malheiros, 2002, pág. 13): O dever de pagar impostos é um dever fundamental. O imposto não é meramente um sacrifício, mas sim uma contribuição necessária para que o Estado possa cumprir suas tarefas no interesse do proveitoso convívio de todos os cidadãos. O Direito tributário de um Estado de Direito não é Direito técnico de conteúdo qualquer, mas ramo jurídico orientado por valores. O direito Tributário afeta não só a relação cidadão/Estado, mas também a relação dos cidadãos uns com os outros. É um direito da coletividade. A Constituição Federal de 1988 caminhou no sentido defendido por Tipke, quando afirma no seu art. 1º que a República Federativa do Brasil constituise em Estado Democrático de Direito e estipula como seus fundamentos a soberania, a cidadania, a dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e o pluralismo político. A atividade produtiva deve cumprir o seu papel social de importância ao desenvolvimento do país e de fonte de manutenção dos membros da sociedade, mas sem que se sobreponha à cidadania e a dignidade humana. O art. 3º da Constituição estipula como objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil a construção de uma sociedade livre, justa e solidária, a garantia do desenvolvimento nacional, a erradicação da pobreza e a marginalização e a redução das desigualdades sociais e regionais e a promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Para o atingimento desses objetivos é de suma importância os recursos oriundos da tributação, daí que não se pode admitir o planejamento tributário lastreado exclusivamente na liberdade negocial e no respeito às formas, mas com mascaramento dos atos e negócios praticados para disfarçar o real objetivo da operação, unicamente para se esquivar do pagamento dos tributos. O pagamento de tributos é a contrapartida à proteção estatal que cada cidadão aspira. Ele tem muita importância para a coletividade e, por isso, pode ser exigido. Não se pode ter uma fixação por direitos, sob o aspecto individualista, esquecendose dos deveres, que também são importantes e que cada cidadão deve cumprir em função da posição que ocupa na sociedade. 3 LOBO TORRES, Ricardo. Planejamento Tributário. Elisão abusiva e evasão fiscal. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012, p. 20. Fl. 17338DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.304 71 Cabível assentar, também, que a orientação constitucional e jurisprudencial antes referida não representa novidade em termos internacionais. Nos Estados Unidos da América, meca do capitalismo e do liberalismo, a Suprema Corte, ao apreciar o caso Gregory v. Helvering, já em 1935, reconheceu o direito de planejamento do contribuinte, mas afastou a licitude de operações societárias nas quais presente choque entre a realidade e o artifício formal. Daquele julgado, que tratou de pretensa operação societária isenta do imposto de renda, colhese o seguinte excerto da decisão (“Interpretação Econômica do Direito Tributário: o caso Gregory v. Helvering e as doutrinas do propósito negocial (business purpose) e da substância sobre a forma (substance over form)”, Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy, Revista Fórum de Direito Tributário, Belo Horizonte, nº 43, págs. 55 a 62): Nessas circunstâncias, os fatos falam por eles mesmos e permitem apenas uma única interpretação. O único empreendimento, embora conduzido nos termos do item “b” da seção 112, fora de fato uma forma elaborada e errônea de transposição simulada como reorganização societária, e nada mais. A regra que exclui de consideração o motivo da elisão fiscal não guarda pertinência com a situação presente, porquanto a transação em sua essência não é alcançada pela intenção pura da lei. Sustentarse de outro modo seria uma exaltação do artifício em desfavor da realidade, bem como retirar da previsão legal em questão qualquer propósito sério. É mantido o julgamento de segunda instância. Marco Aurélio Greco assevera ainda que “nem tudo o que é lícito é o honesto” e que o “o ordenamento jurídico não se resume à legalidade; ele contempla também mecanismos em última análise de neutralização de esperteza”, fazendo parte daquilo que Tércio Sampaio Ferraz Júnior denomina de regras de calibração do ordenamento. Ou seja, os textos legais dão as peças do sistema jurídico, mas para que funcionem coordenadamente precisam ser calibradas, ajustadas. 4 (grifo nosso) Sobre o tema, Ricardo Lobo Torres conclui que No direito tributário o mais importante para a Administração é requalificar o ato abusivo, sem anulálo em suas consequências no plano das relações comerciais ou trabalhistas.[...] Na elisão, afinal de contas, ocorre um abuso na subsunção do fato à norma tributária; como lembra Paul Kirchhof, a elisão é sempre uma subsunção malograda [...] Cabe à Administração Tributária, conseguintemente, corrigir a subsunção malograda, requalificando o fato de acordo com a interpretação correta da regra de incidência. 5 Discorrendo sobre o tema planejamento tributário, Greco assim se manifesta: Recordando: na primeira fase, predomina a liberdade do contribuinte de agir antes do fato gerador e mediante atos 4 GRECO, Marco Aurélio. Planejamento Tributário. São Paulo: Dialética, 2011, p. 231. 5 LOBO TORRES, Ricardo. Planejamento Tributário. Elisão abusiva e evasão fiscal. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012, p. 25. Fl. 17339DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 72 lícitos, salvo simulação; na segunda fase do ainda predomina a liberdade de agir antes do fato gerador e mediante atos lícitos, porém nela o planejamento é contaminado não apenas pela simulação, mas também pelas outras patologias do negócio jurídico, como o abuso de direito e a fraude à lei. Na terceira fase, acrescentase um outro ingrediente que é o princípio da capacidade contributiva que – por ser um princípio constitucional tributário – acaba por eliminar o predomínio da liberdade, para temperála com a solidariedade social inerente à capacidade contributiva. 6 (grifo nosso) Salienta ainda o doutrinador que a capacidade contributiva é uma norma programática “possuindo caráter positivo em todos os momentos da atividade de concreção dos preceitos constitucionais: legislação, execução e jurisdição. É a afirmação de que a eficácia jurídica alcança os intérpretes e aplicadores do Direito e não apenas o legislador” 7. (grifo nosso) Acrescenta ainda que se trata de instrumentos de controle do abuso de direito, fraude à lei e outras patologias dos negócios jurídicos, uma vez que negariam a eficácia de regramentos constitucionais.8 O Supremo Tribunal Federal já vêm se manifestando nesse sentido, como é possível observar no voto do Ministro Carlos Velloso no julgamento do RE nº 227.8321 DJ de 28.06.2002), cujo excerto transcrevese a seguir: [...] a interpretação puramente literal e isolada do §3º do art. 155 da Constituição Federal levaria ao absurdo, conforme linhas atrás registramos, de ficarem excepcionadas do princípio inscrito no art. 195, caput, da mesma Carta – “a seguridade social será financiada por toda a sociedade, de forma direta e indireta, nos termos da lei...” – empresas de grande porte, as empresas de mineração, as distribuidoras de derivados de petróleo, as distribuidoras de eletricidade e as que executam serviços de telecomunicações – o que não se coaduna com o sistema da Constituição, e ofensiva, tal modo de interpretar isoladamente o § 3º do art. 155, a princípios constitucionais outros, como o da igualdade (C.F., artigo 5º e artigo 150, II) e da capacidade contributiva. A respeito da colisão entre liberdade de iniciativa e solidariedade, Greco, em excepcional análise sobre o tema, conclui: [...] quando se diz que é preciso tributar segundo a capacidade contributiva, também é preciso ponderar não ser adequado transformar a capacidade contributiva num valor absoluto que atropele a legalidade e a tipicidade. [...] Minha concepção ideológica é de que sempre haverá de ponderar os dois conjuntos de valores; ou seja, para mim o ponto de partida é o de que ambos devem estar sentados à mesa para dialogar. Vale dizer, não é a rigor um “ponto” de partida, mas uma “dualidade” de partida. Não há caso que não envolva dois tipos de valores. Isso está escrito com todas as letras no artigo 3º, I, da Constituição de 1988 – quando formula os 6 GRECO, Marco Aurélio. Planejamento Tributário. São Paulo: Dialética, 2011, p. 319. 7 GRECO, Marco Aurélio. Planejamento Tributário. São Paulo: Dialética, 2011, p. 343. 8 GRECO, Marco Aurélio. Planejamento Tributário. São Paulo: Dialética, 2011, p. 344. Fl. 17340DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.305 73 objetivos do Estado brasileiro – ao estabelecer que um deles é o de construir uma sociedade livre, justa e solidária. Formulação linguística muito feliz, pois coloca numa ponta a liberdade (típica do Estado de Direito) e, na outra ponta, a solidariedade (típica do Estado Social) e entre elas a justiça que resultará da ponderação das duas. Ou seja, só vamos ter justiça se e quando houver ponderação entre os valores liberdade e solidariedade. 9 (grifo nosso) Portanto, o procedimento adotado pela autoridade fiscal encontrase em total sintonia com os princípios da legalidade e da livre iniciativa, encontrando eco não só na doutrina, mas também na jurisprudência, inclusive do Pretório Excelso. Também não há que se falar em desconsideração da personalidade jurídica ou de atos jurídicos. O que houve, na prática, foi uma requalificação dos atos realizados pelo contribuinte, prática adotada como regra de calibração do sistema (conforme Tércio Sampaio Ferraz Júnior), ou de “neutralização de esperteza”, nas palavras de Marco Aurélio Greco. No caso concreto, ressaltam aos olhos o posicionamento artificial da RECORRENTE em face das leis de regência de cunhos societário e fiscal. A artificialidade da operação está, justamente, no passo intermediário utilizado pela RECORRENTE a fim de que o ágio, que deveria compor o custo do investimento, que talvez nunca seja alienado, pudesse ser amortizado: a criação de empresa veículo, a fim de que pudesse ser realizada uma operação de reestruturação com incorporação reversa permitindo, no entender da RECORRENTE, o início da amortização dos valores de ágio. Aduz a autoridade fiscal autuante que o real adquirente de ATACADÃO foi CARREFOUR BV, uma vez que todos os recursos utilizados na aquisição do novo investimento foram internalizados por CARREFOUR BV (parte via aumento de capital em BREPA, a qual, ato contínuo, utilizou para aumentar capital em KORCULA, parte via empréstimo diretamente a KORCULA). Ainda que imaginássemos que CARREFOUR BV pudesse capitalizar a holding no Brasil (BREPA), para que ela fizesse a aquisição direta de ATACADÃO, em nada seria alterado o panorama. Com efeito, mostrase falacioso o argumento de que o ágio seria amortizado de qualquer modo, pois, conforme já repisado, o investimento no ATACADÃO mantevese inerte em BREPA (ou, no entender da autoridade fiscal, em CARREFOUR BV), e, as operações a que diziam respeito o investimento, permaneceram segregadas na RECORRENTE, o que inviabilizaria por completo qualquer forma de amortização do ágio para o resultado fiscal. Poderia, por exemplo, haver a incorporação de BREPA por ATACADÃO, viabilizando, em tal hipótese, a amortização do ágio. Contudo, alega a RECORRENTE que tal operação não seria viável em razão de BREPA ser holding de outras empresas do grupo. Ora, se não há a possibilidade de extinção do investimento mediante confusão patrimonial entre investida e investidora, não há como se aceitar a interposição de uma outra pessoa jurídica, flagrantemente atuando como “empresa veículo”, a fim, de artificialmente, transferir o ágio da real adquirente para tal empresa veículo, que, ato contínuo, é incorporada pela investida a fim de viabilizar a amortização do ágio das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL. 9 GRECO, Marco Aurélio. Planejamento Tributário. São Paulo: Dialética, 2011, p. 5354. Fl. 17341DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 74 Da análise do Termo de Verificação Fiscal, da decisão recorrida e do recurso voluntário apresentado, são incontroversos: A respeito de KORCULA: o teve vida efêmera (menos de 1 ano, sendo extinta 8 meses após a aquisição de ATACADÃO); o a única operação relevante realizada foi a aquisição de ATACADÃO (RECORRENTE), tendo sido, ao final, por esta incorporada; o era 100% controlada por empresas do Grupo Carrefour; o foi capitalizada poucos dias antes da aquisição de ATACADÃO, parte via aumento de capital subscrito por BREPA (que dias antes teve seu capital aumentado com subscrição de CARREFOUR BV), parte via empréstimo concedido por CARREFOUR BV; o não possuiu empregados nem incorreu em despesas administrativas durante sua curta existência; o foi incorporada por ATACADÃO 8 meses após a aquisição de tal investimento; o as operações de ATACADÃO mantiveramse inertes, sem qualquer outra operação societária de incorporação/fusão/cisão com qualquer outra pessoa jurídica. Sem dúvida, esses são os fatos, frisase, incontroversos. A discussão posta gira em torno dos motivos e finalidades da criação de KORCULA. A Fiscalização é incisiva ao afirmar que o único propósito de KORCULA foi possibilitar que o ágio gerado na aquisição de ATACADÃO pudesse ser amortizado: KORCULA teria sido criada pelo Grupo Carrefour para adquirir ATACADÃO e ser por essa incorporada a fim de que, mantendo as operações de ATACADÃO intactas e isoladas das demais empresas do grupo, o ágio pudesse reduzir o seu próprio resultado tributável, e, por conseguinte, reduzir o montante de IRPJ e CSLL devido. Já a RECORRENTE rebate os argumentos da Fiscalização, afirmando e reafirmando que KORCULA era, de fato, uma sociedade empresária (holding não financeira). Pois bem. Cabe, agora, analisar quem se desincumbiu do ônus da prova. Conforme já salientado, entendo que o trabalho do Fisco não merece reparos. Em primeiro lugar, fazse necessário discorrer sobre a força probatória dos indícios. Sabese que os indícios e presunções constituem prova. Já no art. 136 do antigo Código Civil previase que os indícios são substratos fáticos que formam a presunção. Gilberto de Ulhôa Canto (Presunções no Direito Tributário, Resenha Tributária, São Paulo, 1991, p. 3/4) ensina: Na presunção tomase como sendo a verdade de todos os casos aquilo que é a verdade da generalidade dos casos iguais, em virtude de uma lei de freqüência ou de resultados conhecidos, ou em decorrência da previsão lógica do desfecho. Porque na grande maioria das hipóteses análogas, determinada situação se retrata ou define de um certo modo, passase a entender que desse mesmo modo serão retratadas e definidas todas as situações de igual natureza. Assim, o pressuposto lógico da Fl. 17342DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.306 75 formulação preventiva consiste na redução, a partir de um fato conhecido, da conseqüência já conhecida em situações verificadas no passado; dada a existência de elementos comuns, concluise que o resultado conhecido se repetirá. Ou, ainda, inferese o acontecimento a partir do nexo causal lógico que o liga aos dados antecedentes. Já Moacyr Amaral Santos (Primeiras Linhas de Direito Processual Civil, 2º volume, 3ª ed., São Paulo, Ed. Saraiva, 1977, p. 436/437), assim leciona: [...] prova é a soma dos fatos produtores da convicção, apurados no processo. A prova indireta é o resultado de um processo lógico. Na base desse processo está o fato conhecido. O fato conhecido, o indício, provoca uma atividade mental, por via da qual poderse á chegar ao fato desconhecido, como causa ou efeito daquele. O resultado positivo dessa operação será uma presunção [...] Um dos maiores especialistas sobre provas no Direito Processual Civil brasileiro – Darci Guimarães Ribeiro – assim se manifesta sobre os indícios: Nas presumptiones hominis, também conhecidas por simples, comuns ou de homem, e que, para os criminalistas, chamamse indícios e, para os ingleses, denominamse circunstâncias, o raciocínio dedutivo é feito pelo homem. Aqui, o legislador não quis legalmente presumir o fato desconhecido, deixando, em especial, ao juiz fazer o raciocínio necessário, a fim de chegar à descoberta do fato desconhecido, utilizando a experiência comum ou técnica, a fim de obter o convencimento necessário. [...] Enquanto as presunções legais servem para dar segurança a certas situações de ordem social, política, familiar e patrimonial, as presunções feitas pelo homemjuiz cumprem uma função exclusivamente processual, porque estão diretamente ligadas ao princípio da persuasão racional da prova, contido no art. 131 do CPC. [...] Seu campo de atuação é vastíssimo, tanto no processo civil quanto no processo penal, máxime para apreender os conceitos de simulação, dolo, fraude, máfé, boafé, intenção de doar, pessoa honesta, etc. 10 Corroborando essas teses, a jurisprudência administrativa segue a mesma direção: MEIOS DE PROVA A omissão de receitas, quando sua prova não estiver estabelecida na legislação fiscal, pode realizarse por todos os meios admitidos em Direito, inclusive presuntiva com base em indícios veementes, sendo livre a convicção do julgador. (Acórdão nº 1054.032/90, 1º Conselho de Contribuintes, Publicado em 14/09/90). Observese o que diz Paulo Celso B. Bonilha (Da prova no Processo Administrativo Tributário, Dialética, São Paulo, 1997, p. 92): 10 RIBEIRO, Darci Guimarães. Provas Atípicas. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 1998, p. 103. Fl. 17343DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 76 Sob o critério do objeto, nós vimos que as provas dividemse em diretas e indiretas. As primeiras fornecem ao julgador a idéia objetiva do fato probando. As indiretas ou críticas, como as denomina CARNELUTTI, referemse a outro fato que não o probando e que com este se relaciona, chegandose ao conhecimento do fato por provar através de trabalho de raciocínio que toma por base o fato conhecido. Tratase, assim, de conhecimento indireto, baseado no conhecimento objetivo do fato base, “factum probatum”, que leva à percepção do fato por provar (“factum probandum”), por obra do raciocínio e da experiência do julgador. Desse modo, podese afirmar que indício é o fato conhecido do qual se parte para o desconhecido e que assim é definido por Moacyr Amaral dos Santos (op.cit.): Assim, indício, sob o aspecto jurídico, consiste no fato conhecido que, por via do raciocínio, sugere o fato probando, do qual é causa ou efeito. Evidenciase, portanto, que o indício é a base objetiva do raciocínio ou atividade mental por via do qual poderseá chegar ao fato desconhecido. Se positivo o resultado, tratase de uma presunção. Sobre o tema, evocase o voto vencedor do acórdão nº CSRF/0102.743, da Câmara Superior de Recursos Fiscais, que toma por base a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal: Indícios de omissão de receitas é que não faltam. A propósito, como relembra o preclaro mestre Hely Lopes Meirelles, o Egrégio Supremo Tribunal Federal já decidiu que “indícios vários e concordantes são prova”, com o que, de plano, este relator poderia dar o assunto por encerrado. (STF, RTJ 52/140 apud Hely Lopes Meirelles in Direito Administrativo Brasileiro. São Paulo, Malheiros, 22ª ed., 1997, p. 97.) Como visto, os indícios, ou fatos conhecidos, são as bases para construção da prova. No caso concreto, a Fiscalização demonstrou de forma inequívoca uma série de fatos e apontou como única finalidade destes a exclusão de vultosos valores do lucro real e da base de cálculo da CSLL. Todos os indícios coligidos possuem consistência e vínculo com a infração apontada. Oportuna, neste ponto, a lição de Maria Rita Ferragut (Evasão fiscal: o parágrafo único do artigo 116 do CTN e os limites de sua aplicação, Revista Dialética de Direito Tributário nº 67 , Dialética, São Paulo, 2001, p. 119/120), ao tratar da força probatória das presunções e indícios, bem como da imperatividade de seu uso na esfera tributária: É a comprovação indireta que distingue a presunção dos demais meios de prova (exceção feita ao arbitramento, que também é meio de prova indireta), e não o conhecimento ou não do evento. Com isso, não se trata de considerar que a prova direta veicula um fato conhecido, ao passo que a presunção um fato meramente presumido. Só a manifestação do evento é atingida pelo direito e, portanto, o real não tem como ser alcançado de forma objetiva: independentemente da prova ser direta ou indireta, o fato que se quer provar será ao máximo jurídica certo e fenomenicamente provável. É a realidade impondo limites ao conhecimento. Fl. 17344DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.307 77 Com base nessas premissas, entendemos que as presunções nada ‘presumem’ juridicamente, mas prescrevem o reconhecimento jurídico de um fato provado de forma indireta. Faticamente, tanto elas quanto as provas diretas (perícias, documentos, depoimentos pessoais etc.) apenas “presumem”. O conjunto de indícios e presunções é chamado pela doutrina de prova indireta. Sobre o tema, Antônio da Silva Cabral (Processo Administrativo Fiscal, Ed. Saraiva, São Paulo, 1993, página 305) assim se pronunciou: Valor da prova indireta. Em direito fiscal conta muito a chamada prova indireta. Conforme consta do Ac. CSRF/01 0.004, de 26/10/79, ‘A prova indireta é feita a partir de indícios que se transformam em presunções. Constitui o resultado de um processo lógico, em cuja base está um fato conhecido (indício), prova que provoca atividade mental, em persecução do fato conhecido, o qual será causa ou efeito daquele. O resultado desse raciocínio, quando positivo, constitui a presunção. Sobre o tema, prossegue o mesmo autor (Op. cit., página 312): O julgador de uma causa não esteve em contato com os fatos, não conheceu as circunstâncias e as pessoas que atuaram. Tudo isso é dado no processo e ele procura, manipulando as provas, chegar ao verdadeiro conhecimento dos fatos para, depois, aplicar a norma. Como todo ser humano que se debruça sobre os fatos, tem ele de valerse por vezes, da experiência adquirida com o trato da coisa pública. As presunções e os indícios servem, pois, para o julgador chegar à verdade dos fatos. Alberto Xavier (Do Lançamento – Teoria Geral do Ato do Procedimento e do Processo Tributário, editora Forense, 1998, pág. 133), quando analisa o lançamento, assim se manifesta: Nos casos em que não existe ou é deficiente a prova direta pré constituída, a Administração fiscal deve também investigar livremente a verdade material. É certo que ela não dispõe agora de uma base probatória fornecida diretamente pelo contribuinte ou por terceiros; e por isso deverá ativamente recorrer a todos os elementos necessários à sua convicção. Tais elementos serão, via de regra, constituídos por provas indiretas, isto é, por fatos indiciantes, dos quais se procura extrair, com o auxílio de regras de experiência comum, da ciência ou da técnica, uma ilação quanto aos fatos indiciados. A conclusão ou prova não se obtém diretamente, mas indiretamente, através de um juízo de relacionação normal entre o indício e o tema prova. Objeto de prova em qualquer caso são os fatos abrangidos na base de cálculo (principal ou substitutiva) prevista na lei: só que no caso a verdade material se obtém de um modo direto e nos outros de um modo indireto fazendo intervir ilações, presunções, juízos de probabilidade ou de normalidade. Tais juízos devem ser, contudo, suficientemente sólidos para criar no órgão de aplicação do direito a convicção da verdade. Fl. 17345DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 78 Para concluir que o propósito da criação de KORCULA foi iminentemente fiscal, a autoridade fiscal afirmou que tal empresa não poderia ser considerada uma sociedade, a teor do disposto nos artigos 966 e 981 do Estatuto Civil. A RECORRENTE rechaça o entendimento do Fisco. Convém, nesse momento, discorrer sobre o conceito de empresa. A conceituação jurídica de empresa, parte da noção econômica, que se vincula à ideia central da organização dos fatores da produção (capital, trabalho, insumos e tecnologia para a realização de uma atividade econômica). Desse modo, podese afirmar que a empresa consiste na unidade produtora cuja tarefa é combinar fatores de produção com o fim de oferecer ao mercado bens ou serviços, não importando qual o estágio da produção.11 No Direito italiano – com forte influência para o Direito Comercial pátrio–, o Código Civil de 1942 adotou a Teoria da Empresa para definir o campo de aplicação do Direito Comercial. Todavia, a legislação italiana não formulou um conceito jurídico sobre o que seja empresa, restando à doutrina fazêlo. Nesse sentido, destacase a teoria dos perfis da empresa elaborada por Alberto Asquini.12 Ao analisar o Código Civil italiano, Asquini concluiu pela diversidade de perfis no conceito, de forma a compreender a empresa como “um fenômeno jurídico poliédrico, o qual tem sob o aspecto jurídico não um, mas diversos perfis em relação aos diversos elementos que ali concorrem”. Os perfis de empresa por ele identificados são os seguintes: subjetivo, funcional, objetivo ou patrimonial e corporativo. O perfil subjetivo identifica a empresa com a figura do empresário, cujo conceito é fornecido pelo artigo 2.084 do Código Civil Italiano (bastante semelhante ao artigo 966 de nosso Código Civil) como "aquele que exercita profissionalmente atividade econômica organizada com o fim da produção e da troca de bens ou serviços". O perfil funcional identifica empresa com atividade empresarial, ou seja, ela (empresa) seria compreendida como um conjunto de atos tendentes a organizar os fatores da produção para a distribuição ou produção de certos bens ou serviços. Por sua vez, o perfil objetivo ou patrimonial identificaria a empresa com o conjunto de bens destinado ao exercício da atividade empresarial, ao passo que, de acordo com o perfil corporativo, seria "aquela especial organização de pessoas que é formada pelo empresário e por seus prestadores de serviço, seus colaboradores (...) um núcleo social organizado em função de um fim econômico comum". Quanto a esse último perfil (corporativo), verificase que ele foi desconsiderado doutrinariamente, por lastrearse não com fundamento em dados objetivamente apreciáveis, mas tão somente na ideologia fascista, fortemente marcante na elaboração do Código Civil italiano de 1942. A utilidade dessa teoria reside no fato de que, à exceção do perfil corporativo – de natureza eminentemente políticoideológica –, os perfis restantes demonstram três realidades intimamente ligadas, e muito importantes na teoria da empresa: a empresa (perfil funcional), o empresário (perfil subjetivo) e o estabelecimento empresarial (perfil objetivo ou patrimonial). 11 NUSDEO, Fábio. Curso de Economia: Introdução ao Direito Econômico. 6ª ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2010. 12 ASQUINI, Alberto. Perfis de Empresa. Revista de Direito Mercantil, Industrial, Econômico e Financeiro n. 104. Trad. Fábio Konder Comparato. São Paulo: Revista dos Tribunais, out.dez. 1996, p. 109126. Fl. 17346DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.308 79 No ordenamento jurídico nacional, o Direito de Empresa encontrase atualmente previsto nos artigos 966 a 1.195 do Código Civil. Com base nos ensinamentos de Asquini podese afirmar, portanto, que empresa é a atividade econômica organizada de produção ou circulação de bens ou serviços, equivalendo ao perfil funcional da teoria do citado doutrinador italiano. Por atividade entendese o conjunto de atos destinados a uma finalidade comum, não bastando, portanto, a ocorrência de um ato isolado para a caracterização de empresa. Fazse necessária, para tanto, a realização de uma sequência de atos dirigidos a uma mesma finalidade, que, em razão do caráter econômico apresentado, exige que ela tenha o condão de criar novas utilidades, novas riquezas, afastandose, desse modo, as atividades de mero gozo. Essa criação de novas riquezas abrange a transformação de matériaprima (indústria), bem como também a atividade de intermediação na circulação de bens (comércio em sentido estrito). A economicidade da atividade empresarial impõe que ela deva ser dirigida ao mercado, o que significa dizer que ela deve destinarse à satisfação de necessidades alheias, de maneira que o titular da atividade deve ser diverso do destinatário último do produto ou do serviço. Nesse contexto, não caracteriza empresa a atividade daquele que cultiva ou fabrica para o próprio consumo. A finalidade perseguida pela atividade empresarial é o lucro (busca de excedente econômico para o fim de acumulação). Outro traço característico da empresa consiste na organização dos fatores da produção, pois o fim lucrativo de criação de novas riquezas pressupõe atos coordenados, interrelacionados e programados para a consecução de tal objetivo. Essa organização pode variar de acordo com as necessidades da atividade explorada, sendo que os fatores de produção tradicionalmente são divididos em: a) capital; b) trabalho ou mão de obra; c) tecnologia; e d) matériaprima. Fábio Ulhôa Coelho diz que na ausência de um desses fatores não se fala mais em organização. Isso significa que, faltando apenas um dos quatro fatores, não há organização e, consequentemente, não se pode falar em empresário. Por exemplo: um bar ou armazém cujo atendimento é feito apenas pelos proprietários, sem utilização de mão de obra, será uma sociedade simples. Isso implica que, faltando apenas um dos quatro fatores, não há organização e, consequentemente, não se pode falar em empresa. Contudo, a doutrina e a jurisprudência dominantes sustentam que, se a natureza da atividade realizada prescindir na sua organização de um desses quatro fatores (por exemplo, força de trabalho), não há que se falar em descaracterização da atividade de empresa, desde que presentes e organizados os fatores de produção imprescindíveis para a consecução da atividade especificamente considerada. No caso concreto, não há dúvidas que KORCULA não preenche tais requisitos. Os argumentos trazidos pela RECORRENTE não se mostram consistentes a ponto de alterar minha convicção sobre sua total inoperância. Os fatos são evidentes: a única operação relevante realizada por KORCULA foi a aquisição de ATACADÃO, sendo posteriormente por esta incorporada. Fl. 17347DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 80 Os valores aportados na constituição e posterior aumento de capital KORCULA foram justamente os necessários para a aquisição de ATACADÃO, e às vésperas da operação. A RECORRENTE limitase a afirmar que KORCULA era uma holding e não poderia ser considerada empresa veículo simplesmente por não ter empregados e por seu objeto social ser exclusivamente a detenção de participação em uma ou mais sociedades, visto que o artigo 2º, § 3º, da Lei 6.404, de 1976, expressamente admite a constituição de empresas com essa finalidade. Ela também em sua tese invoca o artigo 31 da Lei nº 11.727, de 2008. A esse respeito, perfeitas as considerações da decisão recorrida, as quais ora reproduzo: A objeção da impugnante, contudo, não pode ser acatada. Embora tenham mencionado, como mais um dos indícios de que se tratava de empresa sem fim negocial próprio, o fato de a Korcula não ter tido empregados e praticamente nenhuma despesa administrativa em sua curta existência, os autuantes nem enfatizaram esse aspecto. Em verdade, é inquestionável que a constituição e a existência de uma sociedade cujo objeto seja a participação em outras é expressamente admitida pelo ordenamento. Em tese, podese também conceber que tal empresa não conte com nenhuma estrutura administrativa, embora isso somente é possível se ela fizer parte de um grupo econômico maior que se encarregue de a manter e arcar com um mínimo de despesas administrativas que seriam de sua responsabilidade, tais como a remuneração de seus diretores e os encargos decorrentes de sua escrituração. Notese que a entidade prevista no § 3º do artigo 2º da Lei nº 6.404, de 1976, não tem de ser necessariamente a controladora das empresas cuja participação detenha. Assim, holdings sem um grupo econômico que as ampare e com apenas participações minoritárias necessariamente terão de ter gestão e encargos próprios. De qualquer forma, a sociedade prevista pelo § 3º do artigo 2º da Lei nº 6.404, de 1976, não será classificada de empresa veículo se, de fato, for constituída com o objeto social de ter participação societária, ou seja, se esse for o propósito de seus fundadores ou proprietários. Não será o caso, porém, de uma holding cujo propósito, verificado pelas circunstâncias concretamente observadas, for o de apenas ter existência temporária e meramente formal, com o intuito mal disfarçado de apenas forjar um quadro de aparente cumprimento de exigências legais para a obtenção de benefício fiscal. Esse último definitivamente é o caso da Korcula, porque, como visto, não havia a intenção de a tornar uma sociedade cujo objeto social permanente fosse a participação no capital de outras sociedades. Para esse fim, o grupo Carrefour já contava, no Brasil, com a Brepa, e no exterior com a Carrefour BV. A Korcula, desde que foi adquirida pelo grupo Carrefour apenas dois meses de depois de constituída com o capital subscrito de R$ 100,00, tinha o propósito específico de lhe ser atribuído o papel de adquirente aparente do Atacadão, e de contrair um empréstimo internacional, e em seguida ser incorporada pela empresa que havia supostamente adquirido. Portanto, o que lhe empresta o caráter de empresa veículo e sem propósito negocial não é o seu objeto social nem a sua parca estrutura administrativa, mas a sua existência efêmera, apenas formal, e para o cumprimento de uma única etapa numa cadeia de atos e negócios cujo objetivo é pura e simplesmente a obtenção de vantagens fiscais, sem que seja cumprida a essência das exigências legais para a obtenção dessas vantagens fiscais. Além disso, no caso da Korcula, o caráter artificial de sua participação na operação é evidenciado pela circunstância de que as suas funções na cadeia de operações poderiam ser satisfatoriamente realizadas por empresas que já faziam parte do grupo empresarial que estava por trás de todo o processo. Recordese ainda as cláusulas do contrato de aquisição do Atacadão que demonstravam a existência meramente protocolar da Korcula, pois estipulavam que Fl. 17348DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.309 81 toda comunicação relativa ao negócio devia ser enviada para a Brepa e que esta assumia a responsabilidade de honrar todas as obrigações assumidas pela Korcula. Ainda segundo a RECORRENTE, a constituição de KORCULA se justificaria porque as atividades da RECORRENTE eram, de certa forma, diversas da atividade desenvolvida pelo grupo Carrefour no Brasil. Por isso, o grupo entendeu ser mais seguro e eficiente ter o desenvolvimento do novo investimento em uma sociedade autônoma, desvinculada das empresas que já existiam e se dedicavam puramente ao mercado varejista. Tal arranjo proporcionaria um período de adaptação razoável do novo investimento às diferenças de atuação e aos princípios adotados pelo grupo Carrefour. A RECORRENTE indica ainda mais uma justificativa para a participação de KORCULA na operação: permitir que o ATACADÃO arcasse com o ônus do empréstimo tomado para em parte custear sua própria aquisição. Novamente, por concordar integralmente com a decisão recorrida a respeito do tema, lanço mão de suas conclusões: Ora, o Atacadão e o Carrefour Brasil são colossos no ramo de distribuição de alimentos e de outros produtos de consumo, no atacado e no varejo, conforme afirma a própria impugnante. Na ocasião da aquisição, em conjunto passaram a posição de maior rede de supermercados e hipermercados do país, contando com mais de uma centena de unidades espalhadas pelo país e com faturamento anual na casa de bilhões de reais. Se de fato havia consideráveis discrepâncias na cultura empresarial das duas empresas, elas não desapareceriam num período relativamente curto de convivência no mesmo grupo. No entanto, a Korcula, cuja alegada função seria propiciar essa adaptação do Atacadão ao seu novo controlador, foi extinta apenas oito meses depois de ter sido ela mesma integrada ao grupo Carrefour. Mais importante ainda é que, visto que a Korcula não contava com nenhuma estrutura administrativa e existia apenas formalmente, não podia ela desempenhar o papel de permitir a alegada adaptação do Atacadão às práticas do grupo Carrefour. Quem podia de fato se desincumbir da função de intermediário entre o Atacadão e o grupo era a Brepa, que era a controladora da Korcula. Logo, a Korcula se revela inteiramente desnecessária para essa função, e sua interposição entre a Brepa e o Atacadão definitivamente não tinha o objetivo alegado pela impugnante. Tanto era ela desnecessária para esse fim que, após a sua extinção, a Brepa assumiu ostensiva e formalmente a função que de fato já exercia. A outra função empresarial que, segundo a impugnante, tornaria necessária a participação da Korcula na operação seria permitir que o Atacadão arcasse com o ônus do empréstimo tomado para em parte custear sua própria aquisição. Contudo, mais uma vez, não se mostra indispensável a participação da empresa veículo com semelhante objetivo. O mesmo fim poderia ser atingido caso a Brepa assumisse o empréstimo e o fosse quitando com as transferências de dividendos que o Atacadão lhe viria a fazer. Afinal, somente seria alcançado o objetivo de comprar o Atacadão parcialmente com recursos tomados de empréstimo de terceiros e de liquidar esse empréstimo por meio da própria empresa adquirida, se essa empresa adquirida propiciasse lucros suficientes para quitar o empréstimo, do contrário, para quitar a dívida contraída o adquirente deveria desfazerse total ou parcialmente do investimento adquirido ou encontrar fonte diversa de recursos. É verdade que haveria um prejuízo tributário com o arranjo aventado no parágrafo anterior, pois os lucros seriam repassados à Brepa depois de Fl. 17349DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 82 terem sofrido a incidência do IRPJ e da CSLL. Outra solução, ainda mais simples e na qual a participação da Korcula seria igualmente dispensável, seria o empréstimo sem ônus da Carrefour BV ter sido concedido à Brepa, a exemplo do que fizera em favor da Korcula. Caso de fato a Carrefour BV necessitasse que esses recursos lhe fossem devolvidos num prazo relativamente curto (supostamente por ter ela própria tomado outro empréstimo para o custear), a Brepa poderia simplesmente determinar que o Atacadão (que já se encontrava inteiramente sob seu controle por já ter sido consumada a aquisição) obtivesse diretamente de terceiros um empréstimo oneroso e lhe repassasse a quantia mediante empréstimo com ônus mínimo estabelecido pelo artigo 22, § 2º, do Lei nº 9.430, de 1996. A Brepa então quitaria o empréstimo com a Carrefour BV e o Atacadão é que passaria a sofrer os ônus do empréstimo até que o liquidasse. Obviamente, esse segundo arranjo também implicaria que as despesas financeiras com o empréstimo seriam indedutíveis pelo Atacadão no montante que excedesse aos ônus repassados à Brepa, em virtude de o empréstimo não se caracterizar como útil e necessário a suas atividades e estar correlacionado a outro realizado sem ônus para uma parte relacionada. Mas essa desvantagem é inevitável em operações dessa natureza, qualquer que seja o arranjo societário posto em prática, [...] Entendo, assim, restar evidente que KORCULA era suma simples “empresa de prateleira”, sem qualquer atividade operacional. O objetivo de sua constituição, sem dúvida, foi permitir a amortização do ágio, e, para tanto foi utilizada para adquirir o investimento com ágio e, em seguida, ser incorporada pela investida a fim de possibilitar a redução dos resultados tributáveis da RECORRENTE. No que atine aos propósitos trazidos para a incorporação, além de serem inerentes a qualquer operação de incorporação, há de se perguntar o porquê da alteração de panorama: todos esses objetivos de simplificação da estrutura societária, consolidação e redução de gastos e despesas não seriam necessários se o real adquirente de ATACADÃO tivesse feito, meses antes, a aquisição direta de suas ações. Ora, não é crível que em poucos meses o mesmo grupo econômico justifique a criação de uma empresa para a aquisição de controle total de uma outra e, ao final, altere completamente o seu comportamento justificando que se faz necessária a simplificação da estrutura do grupo econômico por meio da incorporação empresa recém criada pela própria empresa investida. Tratase da máxima do venire contra factum proprium, ou seja, vedação ao comportamento contraditório. Ademais, em nenhum momento a RECORRENTE esclarece o porquê da criação KORCULA. A pseudo justificativa trazida aos autos pode ser considerada um argumento sem conteúdo. A RECORRENTE deveria demonstrar algo bem simples: por que não se fez a aquisição de ATACADÃO diretamente pelas empresas já existentes do grupo Carrefour, sem a criação de KORCULA? A alegação de que necessitava manter as operações segregadas em nada interfere em minha conclusão: bastaria adquirir ATACADÃO diretamente, sem contudo, incorporálo! Repisese: não há um só elemento objetivo trazido pela RECORRENTE que justifique o porquê da criação de KORCULA, empresa efêmera, que realizou um único negócio durante sua existência (a aquisição de ATACADÃO), servindo, sem sombra de dúvidas, para permitir a amortização de ágio. Outra finalidade deveria ser comprovada pela RECORRENTE, que não se desincumbiu de seu ônus probatório. Salientase que sem a utilização da denominada “empresas veículo” (KORCLA) não haveria amortização do ágio, pois tais valores deveriam compor o custo do investimento, conforme já abordado. Nesse contexto, é de pouco relevo se a “empresa veículo” efetivamente operava, ou se sua existência foi efêmera. O importante para a caracterização como conduit company foi a efemeridade de suas participações no negócio, em si. Em curto Fl. 17350DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.310 83 lapso, simplesmente por sua interposição em negócio jurídico, foi capaz de causar efeitos tributários, não em si mesma, mas na pessoa jurídica que efetivamente ocupava um dos polos da operação negocial perpetrada, no caso, a RECORRENTE. Merece aprofundamento, ainda, a questão das operações estruturadas em sequência. Greco13 trata o tema com a maestria peculiar: Operação Estruturadas em Sequência Sob esta denominação estão as step transactions, vale dizer, aquelas sequências de etapas em que cada uma corresponde a um tipo de ato ou deliberação societária ou negocial encadeado com o subsequente para obter determinado efeito fiscal mais vantajoso. Neste caso, cada etapa só tem sentido se existir a que lhe antecede e se for deflagrada a que lhe sucede. Uma operação estruturada indica a existência de um objetivo único, predeterminado à realização de todo o conjunto. E mais, indica a existência de uma causa jurídica única que informa todo o conjunto. Neste casos, cumpre examinar se há motivos autônomos, ou não, pois se estes inexistirem, o fato a ser enquadrado é o conjunto e não cada uma das etapas. (p. 462) Uso de Sociedades [...] o elemento relevante quando estamos perante uma pessoa jurídica não é apenas a sua existência formal (no registro competente etc.); tão importante ou até mais – em matéria tributária – é a identificação do empreendimento que justifica sua existência. A criação de uma pessoa jurídica tem sentido na medida em que corresponda à vestimenta jurídica de determinado empreendimento econômico ou profissional. A ideia de empresa é o núcleo a ser perquirido. (vide a importância que o Código Civil dá à noção de empresa – artigos 966 e segs.). (p. 468/469) Conduit companies A primeira situação a observar é das chamadas conduit companies (empresasveículos ou de passagem) em que uma pessoa jurídica é criadas apenas para servir como canal de passagem de um patrimônio ou de dinheiro sem que tenha efetivamente outra função dentro do contexto. (p. 470) Este é o ponto a considerar, pois – dependendo das circunstâncias do caso concreto – pode configurar fraude à lei tributária. (p. 475/476) (grifos nossos) Na mesma linha de raciocínio desenvolvida, tratase, aqui, do exame de operações realizadas em sequência, cujos fatos, de per si, não denotam qualquer infração, mas, em seu conjunto, demonstram inequivocamente que o único propósito negocial das operações foi antecipar a diminuição da carga tributária incidente sobre o negócio efetivamente realizado. 13 GRECO, Marco Aurélio. Planejamento Tributário. São Paulo: Dialética, 2011, p. 462476. Fl. 17351DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 84 Conforme se observa, os pontos destacados por Greco ressaltam aos olhos no caso concreto, pois as operações perpetradas pela RECORRENTE foram estruturadas em sequência (a constituição de nova empresa – KORCULA – com imediata capitalização; b– aquisição de ATACADÃO; c – incorporação de KORCULA por ATACADÃO (vida efêmera de KORCULA); d – amortização do ágio das bases de cálculo de IRPJ e CSLL). Ou seja, utilizouse de uma sociedade de passagem com único intuito de permitir a amortização do ágio criado na aquisição da própria RECORRENTE. Impendese repetir os ensinamentos de Marco Aurélio Greco: a motivação e a finalidade dos atos necessitam ser comprovadas pelo próprio contribuinte, desde que a Fiscalização tenha trazido elementos que demonstrem que a motivação e a finalidade mostrem se preponderantemente fiscais. A Fiscalização, sem sombra de dúvidas, cumpriu com sua parte. Caberia à RECORRENTE fazer a sua. Nesse contexto, concluise que competia ao contribuinte provar a veracidade do que afirmou, nos termos da Lei n° 9.784, de 29 de janeiro de 1999 (texto legal que regula o processo administrativo no âmbito da Administração Pública Federal), art. 36: Art. 36. Cabe ao interessado a prova dos fatos que tenha alegado, sem prejuízo do dever atribuído ao órgão competente para a instrução e do disposto no artigo 37 desta Lei. No mesmo sentido dispõe o art. 333 da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973 (CPC): Art. 333. O ônus da prova incumbe: [...] II ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor. Corroborando tal tese, convém transcrever jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça: Allegare nihil et allegatum non probare paria sunt — nada alegar e não provar o alegado, são coisas iguais. (Habeas Corpus n° 1.1710 — RJ, R. Sup. Trib. Just., Brasília, a. 4, (39): 211276, novembro 1992, p. 217) Alegar e não provar significa, juridicamente, não dizer nada.(Intervenção Federal N°83 — PR, R. Sup. Trib. Just., Brasília, a. 7, (66): 93116, fevereiro 1995. 99) RECURSO ORDINÁRIO EM MANDADO DE SEGURANÇA APOSENTADORIA NEGATIVA DE REGISTRO TRIBUNAL DE CONTAS ATOS ADMINISTRATIVOS NÃO COMPROVADOS ART. 333, INCISO II, DO CPC PAGAMENTO DOS PROVENTOS DE NOVEMBRO/96 E DÉCIMO TERCEIRO SALÁRIO DAQUELE MESMO ANO IMPOSSIBILIDADE SÚMULAS 269 E 271 DA SUPREMA CORTE 1. O ônus da prova incumbe ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor (art. 333, II, do Código de Processo Civil). Incumbe às Secretarias de Educação e da Fazenda a demonstração de que a professora havia sido notificada da suspensão de sua aposentadoria. (STJ ROMS 9685 RS – 6ª T. Rel. Min. Fernando Gonçalves DJU 20.08.2001 p. 00538) Fl. 17352DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.311 85 TRIBUTÁRIO E PROCESSUAL CIVIL IMPOSTO DE RENDA VERBAS INDENIZATÓRIAS FÉRIAS E LICENÇAPRÊMIO NÃO INCIDÊNCIA COMPENSAÇÃO AJUSTE ANUAL ÔNUS DA PROVA O ônus da prova incumbe ao autor quanto ao fato constitutivo de seu direito e ao réu quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor. Cabe ao contribuinte comprovar a ocorrência de retenção na fonte do imposto de renda incidente sobre verbas indenizatórias e à Fazenda Nacional incumbe a prova de eventual compensação do imposto de renda retido na fonte no ajuste anual da declaração de rendimentos. Recurso provido. (STJ REsp 229118 DF 1a T. Rel. Min. Garcia Vieira DJU 07.02.2000 p. 132) PROCESSO CIVIL E TRIBUTÁRIO EXECUÇÃO FISCAL EMBARGOS DO DEVEDOR NOTIFICAÇÃO DO LANÇAMENTO IMPRESCINDIBILIDADE ÔNUS DA PROVA 1. Imprescindível a notificação regular ao contribuinte do imposto devido. 2. Incumbe ao embargado, réu no processo incidente de embargos à execução, a prova do fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor (CPC, art. 333, II). 3. Recurso especial conhecido e provido. (STJ REsp 237.009 (1999/00996607) SP – 2ª T. Rel. Min. Francisco Peçanha Martins DJU 27.05.2002 p. 147) TRIBUTÁRIO E PROCESSUAL CIVIL IRPF REPETIÇÃO DE INDÉBITO VERBAS INDENIZATÓRIAS RETENÇÃO NA FONTE ÔNUS DA PROVA VIOLAÇÃO DE LEI FEDERAL CONFIGURADA DIVERGÊNCIA JURISPRUDENCIAL NÃO COMPROVADA SÚMULA 13/STJ PRECEDENTES Cabe ao autor provar que houve a retenção do imposto de renda na fonte, por isso que é fato constitutivo do seu direito; ao réu competia a prova de eventual compensação na declaração anual de rendimentos dos recorrentes, do imposto de renda retido na fonte, fato extintivo, impeditivo ou modificativo do direito do autor Incidência da Súmula 13 STJ Recurso especial conhecido pela letra a e provido. (STJ RESP 232729 DF 2a T. Rel. Min. Francisco Peçanha Martins DJU18.02.2002 p. 00294) Por fim, cabe ressaltar que as normas legais citadas pelo autuante não abrigam aqueles que se posicionam artificialmente diante dela. Nada impede que os contribuintes busquem formas de pagar menos tributos, mas o procedimento deve estar dentro daquilo que é autorizado pelo ordenamento jurídico, mas sem o mascaramento dos atos praticados para o atingimento desses objetivos, como é o caso dos autos. De igual forma, o princípio da livre iniciativa insculpido na Constituição Federal não possui o condão de transformar os fatos efetivamente ocorridos. Isso posto, peço vênia a Marco Aurélio Greco para tomar como minhas suas conclusões, já transcritas no corpo de meu voto, que muito se encaixam no fechamento do meu entendimento sobre o caso, em especial o conflito entre livre iniciativa e solidariedade: Minha concepção ideológica é de que sempre haverá de ponderar os dois conjuntos de valores; ou seja, para mim o Fl. 17353DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 86 ponto de partida é o de que ambos devem estar sentados à mesa para dialogar. Vale dizer, não é a rigor um “ponto” de partida, mas uma “dualidade” de partida. Não há caso que não envolva dois tipos de valores. Isso está escrito com todas as letras no artigo 3º, I, da Constituição de 1988 – quando formula os objetivos do Estado brasileiro – ao estabelecer que um deles é o de construir uma sociedade livre, justa e solidária. Formulação linguística muito feliz, pois coloca numa ponta a liberdade (típica do Estado de Direito) e, na outra ponta, a solidariedade (típica do Estado Social) e entre elas a justiça que resultará da ponderação das duas. Ou seja, só vamos ter justiça se e quando houver ponderação entre os valores liberdade e solidariedade. 14 Por fim, é imperioso esclarecer que a autuação baseiase exclusivamente no passo intermediário da reorganização societária e dos seus efeitos tributários. Não se contestam, pois, os objetivos negociais finais da reorganização. Destacase ainda, que o lançamento não se baseia no disposto no art. 116, § único do, Código Tributário Nacional, como bem demonstram o Termo de Verificação, a decisão recorrida e a fundamentação do presente voto. Assim sendo, entendo que o lançamento em questão, bem como a decisão recorrida, não estão em descompasso com a legislação vigente. Por esses motivos, nego provimento ao recurso quanto a amortização dos ágios mediante utilização de empresa veículo, aplicando as conclusões também à CSLL, dada a ausência de qualquer aspecto específico tratado em recurso. 2.2 MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA EM RELAÇÃO À AMORTIZAÇÃO/EXCLUSÃO DO ÁGIO A RECORRENTE contesta a qualificação da multa, asseverando que não ocorreu nenhuma conduta simulada, dolosa ou fraudulenta. Acrescenta ainda que cabe às autoridades fiscais trazer provas inequívocas da ocorrência desses vícios. Para a decisão recorrida, as circunstâncias caracterizadoras da fraude e da conduta dolosa da autuada e, por conseguinte, o cabimento da multa qualificada estão cabalmente comprovados pelo conjunto de provas reunido pela fiscalização. O fundamento do voto condutor do aresto pode ser sintetizado a partir do seguinte trecho da decisão recorrida: A utilização de uma empresa veículo, a exemplo do que fizeram a autuada e os seus sócios controladores, por intermédio da Korcula, com o propósito específico de forjar uma incorporação para fins meramente tributários, sem que haja absorção efetiva do patrimônio, quer de quem pagou pelo investimento, quer da empresa cujo patrimônio fora adquirido, caracteriza fraude e uma burla evidente tanto do texto legal como dos objetivos do legislador ao instituir o benefício fiscal. Divirjo de tal entendimento. À época em que os atos contestados foram praticados a jurisprudência do CARF agasalhava o procedimento adotado pela RECORRENTE. 14 GRECO, Marco Aurélio. Planejamento Tributário. São Paulo: Dialética, 2011, p. 5354. Fl. 17354DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.312 87 Esta própria turma julgadora, ainda que em composição bem distinta da atual, em situações idênticas ao presente caso, não só não mantinha a multa qualificada como considerava legitimas operações como as perpetradas pela RECORRENTE, cancelando integralmente os respectivos créditos tributários (por exemplo, Acórdão 140200.802 – Caso Santander). Conforme já abordado em meu voto, somente no julgamento do Caso Bunge – Acórdão 1402001.460, na sessão de 08/10/2013, esta turma passou a incluir nova premissa para amortização do ágio (necessidade de extinção do investimento), não aceitando a interposição de “empresa veículo” para aquisição do investimento e posterior incorporação reversa a fim, de que, de modo artificial, se pudesse deduzir das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL o ágio efetivamente pago em razão de rentabilidade futura. Saliento que não se trata da hipótese de ágio inexistente, como nos casos de “ágio interno”, mas sim de ágio efetivamente pago e de uma interpretação da legislação, ainda que equivocada, aceita, inclusive, por boa parte da doutrina, como bem demonstra o Parecer do Ilustre Dr. Ricardo Mariz de Oliveira. Nesse cenário, considero não restar caracterizada a ocorrência de fraude, sonegação ou conluio (arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/64) necessária à qualificação da multa de ofício, conforme determina o parágrafo 1º do art. 44 da Lei nº 9.430/96. Assim sendo, voto por reduzir a penalidade aplicada para 75%. 2.3 GLOSA DE DESPESAS FINANCEIRAS DECORRENTES DE EMPRÉSTIMO Para a Fiscalização, o empréstimo tomado por KORCULA perante terceiros não era necessário, tanto para a aquisição das quotas do ATACADÃO, como para a operação dessa última empresa. Já a RECORRENTE aduz que a dedutibilidade da referida despesa é evidente. Alega que o empréstimo tomado com terceiros foi imprescindível à aquisição das quotas do ATACADÃO por KORCULA. Nesse cenário, a despesa financeira em questão seria necessária à operação de KORCULA, e, tendo em vista a incorporação desta pela RECORRENTE, tal dedutibilidade permanece em seu patrimônio em face da sucessão empresarial levada a efeito. Alega ainda que a estrutura adotada para aquisição da totalidade do capital da RECORRENTE – compra alavancada – corresponderia a prática conhecida no mercado, usual e normal no contexto de aquisições de empresas. Não haveria dúvidas de que as despesas financeiras incorridas por ela incorridas, derivadas de empréstimo tomado para efetuar a transação em exame nesse processo administrativo, são consideradas como necessárias e, portanto, dedutíveis da base de cálculo do IRPJ/CSL. A possibilidade de a RECORRENTE deduzir essas despesas financeiras estaria prevista no artigo 17, parágrafo único, do Decretolei 1.598/77, e também o artigo 31 da Lei 11.727/08. Fl. 17355DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 88 Além disso, haveria erro na interpretação dos fatos por parte da Fiscalização, isso porque, ainda que a dívida original tenha sido contratada pela KORCULA com parte relacionada no exterior (CARREFOUR BV), no final da operação a dívida foi tomada com terceiro (o BNP Paribas). No momento da incorporação de KORCULA ao patrimônio da RECORRENTE, a dívida questionada pela autoridade fiscal (Korcula x Carrefour BV) já havia sido quitada, de forma que a RECORRENTE teria assumido diretamente uma dívida com terceiro não relacionado (o BNP Paribas). A opção pelo empréstimo, ainda segundo a RECORRENTE, se deu porque o Grupo Carrefour não deteria recursos disponíveis para investimento de longo prazo, tanto que, no período a que se refere o presente lançamento, o empréstimo já havia sido quitado, capitalizando novamente CARREFOUR BV, sendo que as despesas glosadas advieram justamente de novo empréstimo tomado junto a terceiros (e utilizados para quitação do empréstimo original alcançado por CARREFOUR BV). Alega ainda que caso fosse considerado que a dívida foi efetivamente tomada face ao Carrefour BV, o que, a seu ver, não foi o que teria ocorrido, a dedução das despesas de juros incorridas no caso em exame só estariam sujeitas aos limites impostos pelas regras de preços de transferência (Lei nº 9.430/96), regras que foram plenamente observadas por KORCULA e pela RECORRENTE. É hipótese regulada de forma expressa pela legislação tributária em vigor. Assim, se a operação foi completamente efetuada de acordo com as regras que vigoravam à aquela época, não poderia a D. Fiscalização exigir ou obrigar que a Korcula ou a Recorrente adotassem a prática que elas entendem que resultaria em maior pagamento de tributo. O primeiro ponto a ser observado é que, embora a autoridade fiscal aborde o empréstimo inicial de KORCULA junto à CARREFOUR BV, a glosa efetivamente realizada se deu em relação às despesas financeiras escrituras pela RECORRENTE e relativas ao empréstimo tomado junto a BNP Paribas. De toda forma, entendo assistir razão à RECORRENTE. Imaginemos que a operação de capitalização tivesse ocorrido integralmente em BREPA, e esta adquirido ATACADÃO, sendo BREPA posteriormente incorporada por ATACADÃO. As despesas em questão poderiam ser questionadas? A própria decisão recorrida entende que não, uma vez que afirma categoricamente que “Enquanto a dívida era responsabilidade da Korcula, cujo objeto social declarado era exclusivamente a participação em outras sociedades, os eventuais encargos eram dedutíveis”. Discordo da decisão recorrida justamente a partir daí: como poderia uma despesa ser dedutível para determinada pessoa jurídica e, após essa ser incorporada por outra, que lhe sucede em todos os direitos e obrigações, as mesmas despesas não mais serem dedutíveis? A meu ver, a teor do que dispõe o art. 374 do RIR/99, as despesas com juros pagos ou incorridos pelo contribuinte são dedutíveis como custo ou despesa operacional. Vejamos a redação de tal dispositivo: Fl. 17356DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.313 89 Art. 374. Os juros pagos ou incorridos pelo contribuinte são dedutíveis, como custo ou despesa operacional, observadas as seguintes normas (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 17, parágrafo único): I os juros pagos antecipadamente, os descontos de títulos de crédito, e o deságio concedido na colocação de debêntures ou títulos de crédito deverão ser apropriados, pro rata temporis, nos períodos de apuração a que competirem; II os juros de empréstimos contraídos para financiar a aquisição ou construção de bens do ativo permanente, incorridos durante as fases de construção e préoperacional, podem ser registrados no ativo diferido, para serem amortizados. [grifo nosso] Parágrafo único. Não serão dedutíveis na determinação do lucro real, os juros, pagos ou creditados a empresas controladas ou coligadas, domiciliadas no exterior, relativos a empréstimos contraídos, quando, no balanço da coligada ou controlada, constar a existência de lucros não disponibilizados para a controladora ou coligada no Brasil (Lei nº 9.532, de 1997, art. 1º, § 3º). Obviamente, não se pode esquecer que continua válida a norma geral de dedutibilidade contida no art. 299 do RIR/99 no sentido de que as despesas são necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora, quando pagas ou incorridas para a realização das transações exigidas pela atividade da empresa, e são usuais ou normais no tipo de transação, operações ou atividades da empresa. No Parecer anexo aos autos de lavra do Ilustre Dr. Ricardo Mariz de Oliveira, consta, explicitamente, esse mesmo entendimento: Dentre as normas especiais temos a contida no art. 17 do Decretolei n. 1598, que está reproduzida no art. 374 do RIR/99, significando, portanto, que, tais despesas estão submetidas à norma especial que lhes reconhece implicitamente a condição de necessárias, e as afasta da cláusula geral contida no art. 299 do atual regulamento em virtude do preceito normativo e de hermenêutica segundo o qual a norma especial afasta a geral. Destarte, a única situação na qual a despesa financeira pode se tornar indedutível é aquela em os recursos correspondentes ao principal da operação que lhes dá origem não sejam aplicados para a produção dos lucros, como, de resto, ocorre com qualquer despesa objeto de norma especial. Realmente, se a pessoa jurídica toma empréstimo e repassa o valor mutuado a outra pessoa, ao invés de utilizálo em seu empreendimento (sua empresa), não há Fl. 17357DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 90 como justificar a dedução dos respectivos juros contra o seu lucro, para o qual o empréstimo não contribuiu. [...] Nestes casos, há uma aproximação da situação com a norma geral do art. 299, porque esta também reflete a mesma essência da vinculação das despesas com a produção do lucro, por serem despesas “necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora”, “pagas ou incorridas para a realização das transações exigidas pela atividade da empresa”, e “usuais ou normais no tipo de transação, operações ou atividades da empresa”. Como diz a este respeito o Parecer Normativo CST n. 32/81, referindose ao art. 47 da lei e ao seu correspondente regulamentar: “4. Segundo o conceito legal transcrito, o gasto é necessário quando essencial a qualquer transação ou operação exigida pela exploração das atividades, principais ou acessórias, que estejam vinculadas com as fontes produtoras de rendimentos.” Nesta linha, a Câmara Superior de Recursos Fiscais, apreciando caso de despesas financeiras em que se discutia ter ou não havido repasse, preceituou que “a despesa financeira é, em regra, uma despesa operacional, salvo quando utilizado o recurso para fins estranhos à atividade fim” (Acórdão n. 910100589, de 18.5.2010). Retornando ao art. 374 do RIR/99, especificamente em seu inciso II, resta evidente que os juros pagos na aquisição de investimentos são dedutíveis. Ainda que tal dispositivo trate da necessidade de ativação de tais despesas financeiras durante a fase pré operacional da pessoa jurídica, fechase qualquer dúvida a respeito de sua dedutibilidade. Peço vênia para novamente destacar a redação de tal dispositivo: os juros de empréstimos contraídos para financiar a aquisição ou construção de bens do ativo permanente, incorridos durante as fases de construção e préoperacional, podem ser registrados no ativo diferido, para serem amortizados. Ora, caso a pessoa jurídica não se encontre em fase préoperacional, como no caso de KORCULA, ou ainda BREPA se não houvesse a interposição da empresa veículo, não há dúvidas que tais despesas são dedutíveis de imediato, exceto nas hipóteses em que a própria legislação impõe limites a tal dedutibilidade, como no caso de juros pagos a controlador no exterior (preço de transferência) ou subcapitalização, matérias sequer questionadas pela autoridade lançadora. Aliás, a própria Receita Federal reconhece tais despesas como operacionais ainda que relacionada a financiamentos de ativos, Pareceres Normativos CST nº 127/73 e nº 26/79, como bem observa o Parecer anexo aos autos. Corroborando a ideia de que tais despesas seriam dedutíveis pela holding (quer KORCULA, quer BREPA se assim fosse realizada a operação), o art. 31 da Lei nº 11.727/2008, assim dispõe: Art. 31 A pessoa jurídica que tenha por objeto exclusivamente a gestão de participações societárias (holding) poderá diferir o Fl. 17358DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.314 91 reconhecimento das despesas com juros e encargos financeiros pagos ou incorridos relativos a empréstimos contraídos para financiamento de investimentos em sociedades controladas. E, sendo a despesa dedutível pela holding, se esta vem a ser incorporada pela investida, como, aliás, permite explicitamente o art. 8º, alínea “b”, da Lei nº 9.532/97 para fins de amortização de ágio, a despesa antes dedutível assim permanecerá sendo na sucessora, por força do disposto no caput do art. 227 da Lei nº 6.404/76: Art. 227. A incorporação é a operação pela qual uma ou mais sociedades são absorvidas por outra, que lhes sucede em todos os direitos e obrigações. Importante salientar que o precedente da Câmara Superior citado pela autoridade autuante (Acórdão 910100.287) não se amolda perfeitamente ao caso concreto, uma vez que houve repasse dos recursos recebidos no mútuo. Nesse sentido, destaco passagem do voto condutor do aresto: Analisando, então, as operações sob o aspecto formal, é possível constatar que, em ato contínuo à contratação do empréstimo, a autuada repassou os recursos obtidos por meio de outro contrato à empresa Albala S.A. No entanto, se emprestou, como dizer que precisava dos recursos? O caso concreto mais se amolda ao decidido no Acórdão nº 1302001.293, cujo voto vencedor, na matéria, foi lavrado pelo E. Conselheiro Waldir Veiga Rocha, negando provimento ao recurso de ofício na matéria. Destaco o seguinte excerto do voto condutor: Acrescento que o conjunto de fatos questionados pelo Fisco se, por um lado, conduzem à indedutibilidade do ágio, pelos motivos já ventilados, devem também conduzir à conclusão de que os encargos financeiros decorrentes dos empréstimos eram necessários à atividade da empresa, visto que este foi o modo encontrado para honrar acordo firmado em momento anterior. Considero irrelevante que os empréstimos não tenham sido contraídos diretamente pela Itiquira e que, no caso concreto, tenham sido contraídos pela incorporada São Pedro, passando a seguir ao domínio da incorporadora Itiquira. Em qualquer caso, tenho que sua necessidade é incontestável. Quanto aos aspectos de normalidade e usualidade, se a empresa não dispunha de recursos próprios, nada mais normal do que recorrer ao mercado financeiro para obter os recursos para honrar o acordo de acionistas, tendo que arcar com os ônus daí decorrentes. Por fim, como o empréstimo tomado junto à BNP Paribas justamente serviu para quitação do mútuo original entre CARREFOUR BV e KORCULA, a meu ver, corrobora o Fl. 17359DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 92 argumento da RECORRENTE de que CARREFOUR BV não poderia ter utilizado tal parcela também para aumento de capital em BREPA, ou mesmo em KORCULA, em razão de não poder abrir de tais recursos financeiros a longo prazo. A quitação do empréstimo original, repito, fornece elementos mais concretos de que CARREFOUR BV poderia até fornecer recursos financeiros para sua holding no Brasil adquirir ATACADÃO, mas somente uma parte em caráter permanente (via aumento de capital), sendo o restante realizado por meio de mútuo em razão da necessidade de utilização de tais recursos em prazo mais curto, não se coadunando com aumento de capital para, logo em seguida, diminuílo para devolução à controladora no exterior. Saliento ainda que a novel legislação que trata da subcapitalização (thin capitalization), somente vem corroborar que, em princípio, as despesas de mútuo entre controladora situada no exterior e controlada no Brasil são dedutíveis, somente limitandose sua dedutibilidade a determinados patamares. No mesmo sentido, a legislação de preços de transferência também impõe limites a tal dedutibilidade, confirmando a tese de que, em regra, tais dispêndios são dedutíveis. Contudo, conforme já explanado, não foi esse o caminho seguido pela autoridade fiscal, que preferiu glosar integralmente tais despesas, a meu ver, de forma incorreta. Isso posto, voto por dar provimento ao recurso para cancelar a exigência referente a glosa de despesas financeiras. 2.4 COMPENSAÇÕES INDEVIDAS INSUFICIÊNCIA DE SALDOS DE PREJUÍZO FISCAL E DE BASE NEGATIVA DE CSLL Em razão das compensações de prejuízos fiscais e bases negativas de CSLL realizadas de ofício e em prol do contribuinte no momento do lançamento, houve apuração de insuficiência de saldos já compensados pela Recorrente em outros períodos. Em relação à insuficiência de saldo de prejuízos fiscais, essa foi a base de cálculo do lançamento: No tocante à base de cálculo da infração relativa à insuficiência de saldo de base negativa de CSLL, esses são os valores constantes no auto de infração: Ocorre que, com o restabelecimento da dedutibilidade das despesas financeiras a que se refere o item precedente deste voto (2.3), há de se restabelecer também os Fl. 17360DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.315 93 saldos de prejuízo fiscal e base negativa de CSLL que haviam sido compensados de ofício por ocasião do lançamento. O valor das despesas financeiras glosadas pela autoridade fiscal autuante e restabelecidas neste julgado são esses: Conforme se observa, os valores de despesas restabelecidas, em quaisquer dos períodos de apuração em questão, são substancialmente superiores aos que deram ensejo ao lançamento por insuficiência de saldos de prejuízo fiscal e base negativa de CSLL. Por conseguinte, como decorrência do restabelecimento da dedutibilidade de tais despesas financeiras, voto por cancelar também a infração referente à insuficiência de saldos de prejuízo fiscal e base negativa de CSLL (item XI.4 do Termo de Verificação Fiscal – fls. 1552815529). 2.5 DESPESAS COM O PAGAMENTO DE JUROS SOBRE O CAPITAL PRÓPRIO A autoridade lançadora constatou que o JCP pago a Brepa e Carrefour foram realizados em percentuais trocados: Brepa, que detinha 98,91% do capital, recebeu 1,09% dos juros sobre o capital próprio, e o Carrefour, que possuía 1,09% do capital, recebeu 98,91% dos juros sobre o capital próprio. Como os juros sobre capital próprios não despesas incorridas ao natural, entendo que, para sua dedutibilidade, fazse necessário o preenchimento de todos os requisitos legais exigidos para tanto. Por conseguinte, os valores pagos em descompasso com a legislação não podem ser considerados despesas com juros sobre capital próprio. Logo, tornamse despesas indedutíveis. Nesse cenário, perfeitas as considerações da decisão recorrida, cujos fundamentos adoto como razão de decidir: A terceira infração imputada pelos autuantes é descrita como efetuar o pagamento de juros sobre capital próprio em percentuais invertidos em relação à participação societária e por um valor superior ao correto, em decorrência da aquisição do Atacadão ter passado por uma empresa veículo. A Brepa, que detém 98,91% do capital, recebeu 1,09% dos juros sobre o capital próprio, e o Carrefour, que detém 1,09% do capital, recebeu 98,91% dos juros sobre o capital próprio. Fl. 17361DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 94 Segundo a impugnante, a irregularidade apontada pelo fisco não tem nenhum efeito prático, pois se o pagamento dos juros tivesse sido feito de forma proporcional ao capital social, os valores que seriam dedutíveis pela sociedade seriam exatamente os mesmos. No entanto, o argumento da impugnante contém um sofisma e por isso sua conclusão não pode ser aceita. Esse sofisma consiste em desprezar a forma como se dá a tributação dos juros pelas pessoas físicas ou jurídicas que forem as suas beneficiárias. Conforme já demonstrado alhures neste voto, juro sobre capital próprio é uma contradição terminológica, pois os sócios ou acionistas de uma sociedade na realidade não recebem juros pelo capital nela investido. A constituição de uma sociedade empresarial é uma iniciativa de risco, e a remuneração do montante investido dáse sob a forma de distribuição de lucros ou dividendos, quando o empreendimento é bem sucedido. Portanto, os juros sobre capital próprio são uma ficção legal, introduzida com o objetivo de incentivar as empresas a tomar capital de seus próprios acionistas ou sócios, especialmente quando esses forem pessoas físicas, em vez de se endividar perante terceiros. Paralelamente, também estimulase a ampliação do mercado de capitais de risco no Brasil, seja pelo ingresso de novos investidores, seja pela conversão em ações ou participações no capital de empresas de aplicações em ativos de renda fixa, pois os juros sobre o capital próprio, quando pagos a pessoas físicas, se sujeitam a carga tributária similar àquela que sofrem as demais aplicações financeiras de renda fixa de longo prazo. O incentivo fiscal operase pelo seguinte mecanismo: à pessoa jurídica que paga os juros, permitese deduzilos como despesas, de sorte que sobre seu montante deixa de incidir a tributação do IRPJ e da CSLL. Por outro lado, o beneficiário sofre a retenção na fonte à alíquota de 15%. Essa alíquota é menor do que a soma da incidência de conjunta do IRPJ e da CSLL, e o benefício fiscal resulta exatamente dessa diferença. Se, em vez dos juros sobre o capital próprio, o acionista ou sócio recebesse apenas participação nos lucros ou dividendos, o montante disponível para distribuição seria menor, pois o lucro distribuível é o que restar após a incidência do IRPJ e da CSLL.Se o beneficiário é pessoa física, a tributação é definitiva e o montante recebido não é computado na declaração de ajuste anual. Se o beneficiário é pessoa jurídica, o montante recebido deverá ser computado na determinação do resultado tributável, e o imposto retido poderá ser deduzido na declaração de ajuste anual. No entanto, a pessoa jurídica beneficiária, por sua vez, poderá também optar por distribuir juros sobre capital próprio, de modo que a redução da tributação também se observará no seu caso, desde que os seus sócios ou acionistas sejam pessoas físicas. Por conseguinte, o mecanismo do benefício fiscal implica a transferência da tributação sobre os lucros da pessoa jurídica que os gerou para a figura do investidor final pessoa física, em posse do qual sofre uma incidência menor que a que sofreria caso lhe fossem distribuídos esses lucros sob a forma de dividendos ou de participação nos resultados. Daí se segue também que, para que sejam aferidos todos os efeitos tributários do pagamento de juros sobre o capital próprio, é imprescindível levar em conta também sua forma de tributação nas pessoas físicas ou jurídicas que forem seus beneficiários, e não apenas suas conseqüências na pessoa jurídica que os distribuir. Fl. 17362DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.316 95 Pois bem, os autuantes desvendam as causas da proporção inusitada que a autuada adotou na distribuição dos juros, ao demonstrar que enquanto a Brepa teria um resultado tributável positivo com o recebimento de juros sobre o capital próprio no montante que lhe corresponde, o Carrefour pôde absorver essa receita e permanecer com o resultado negativo. Vejase o Lucro Real declarado pelas sócias, considerando a receita de JCP: DIPJ / Anocalendário Lucro Real (R$) BREPA Lucro Real (R$) CARREFOUR 2010/2009 2011/2010 2012/2011 539.321.979,15 613.111,78 1.360.273,82 220.620,74 378.514.320,22 198.903.749,12 Portanto, o procedimento da autuada teve o efeito de reduzir indevidamente a tributação total do lucro por ela gerado não na forma pretendida pelo legislador, mas simplesmente manipulando a proporção dos juros que é destinada a cada um de seus sócios. Se tivessem sido pagos de acordo com a participação de cada sócio no capital, a tributação nos beneficiários seria maior. Uma vez que a maior parte dos juros foi paga ao sócio deficitário, praticamente não houve transferência alguma da tributação, visto que quase todo o montante relativo aos juros deixou de ser tributado na pessoa jurídica que os pagou e tampouco o foi na que os recebeu. Com a manobra, a autuada e os seus sócios obtiveram ilicitamente uma vantagem fiscal superior àquela prevista na legislação. A impugnante argumenta ainda que o artigo 1.007 do Código Civil de 2002 dispõe que os sócios podem optar pela distribuição desproporcional de lucros, tal como passou a prever, desde dezembro de 2009, o artigo 9º do contrato social da autuada. Contudo, ainda que a distribuição desproporcional dos lucros seja facultada pela lei, ela não é a regra geral disposta no próprio artigo 1.007, do Código Civil, segundo o qual, salvo estipulação em contrário, o sócio participa dos lucros e das perdas, na proporção das respectivas quotas. Assim, somente por meio de uma convenção entre particulares é que se permite que seja derrogada a regra geral, legalmente estabelecida. Tem esse caráter a mudança efetuada no estatuto da autuada. Essa mudança, porém, não pode ter como conseqüência, no que concerne aos contribuintes, a alteração da incidência do IRRF sobre os juros pagos sobre o capital próprio, uma vez que o artigo 123 do CTN estabelece que as convenções particulares, relativas à responsabilidade pelo pagamento de tributos, não podem ser opostas à Fazenda Pública, para modificar a definição legal do sujeito passivo das obrigações tributárias correspondentes. Embora no presente caso a fonte pagadora tenha permanecido a mesma, isto é, a autuada, na incidência em causa ela atua apenas como responsável, enquanto os contribuintes de fato são os beneficiários do pagamento. Recordese que a definição de sujeito passivo da obrigação tributária dada pelo artigo 121 também do CTN compreende tanto o responsável como o contribuinte. Ao distribuir desproporcionalmente os lucros, sem levar em conta a participação efetiva de cada sócio no capital social, a autuada modificou indevidamente os sujeitos passivos legalmente definidos, já que atribuiu a um deles rendimento tributável superior a que lhe cabia e ao outro menos, e assim promoveu a inversão dos sujeitos passivos no concernente a quanto cada um poderia sofrer de incidência do tributo. Se os beneficiários fossem pessoas físicas, não haveria maiores conseqüências, visto que a incidência na fonte seria definitiva e homogênea, isto é, Fl. 17363DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 96 nada mais seria exigível além dos 15% já retidos, nem os contribuintes de fato poderiam futuramente, na declaração de ajuste anual, reivindicar qualquer redução ou restituição do total retido. No entanto, em se tratando de pessoa jurídica, a incidência na fonte é apenas antecipação e o montante do tributo efetivamente devido depende dos demais resultados tributáveis de cada beneficiário. Assim, em virtude dessa peculiaridade (a tributação na fonte não ser definitiva no caso de beneficiário pessoas jurídica), ainda com mais razão não se admite que convenções particulares alterem os sujeitos passivos legalmente definidos. Ainda que se entendesse que o artigo 123 do CTN não se aplique ao caso ora em discussão, nem assim o procedimento da autuada seria legítimo, em virtude de outra norma do CTN. É que, como se trata de benefício fiscal que implica exclusão parcial do crédito tributário, as regras relativas à tributação dos juros sobre o capital próprio devem ser interpretadas literalmente, nos termos do artigo 111 do CTN. Não se admite, pois, interpretação extensiva. Pois bem, o artigo 9º da Lei nº 9.249, de 1995, dispõe textualmente que a pessoa jurídica poderá deduzir, para efeitos da apuração do lucro real, os juros pagos ou creditados individualizadamente a titular, sócios ou acionistas, a título de remuneração do capital próprio, calculados sobre as contas do patrimônio líquido e limitados à variação, pro rata dia, da Taxa de Juros de Longo Prazo. Aplicandose a determinação do CTN ao disposto no artigo 9º da Lei nº 9.249, de 1995, concluise que a tributação favorecida dos juros sobre o capital próprio somente é conferida aos pagamentos ou créditos efetuados de acordo com a participação de cada sócio ou acionista no capital social, visto que a lei fala em pagamento individualizadamente a titular, sócios ou acionistas, a título de remuneração do capital próprio. Ora, se os juros são pagos ou creditados individualizadamente e a título de remuneração do capital próprio, é incontestável que deve ser levada em conta rigorosamente a participação de cada sócio ou acionista, do contrário, não se está remunerando individualmente cada sócio em virtude de sua contribuição específica na formação do capital da sociedade. Além disso, a prática adotada pela impugnante é incompatível com um dos objetivos almejados pelo legislador ao instituir o benefício fiscal, que é o de estimular as pessoas físicas a aumentar o investimento em ações ou em quotas de capital e assim, indiretamente, impulsionar o crescimento econômico. A intenção do legislador é que as empresas passem a contar com uma fonte de capital de custo inferior ao dos empréstimos e financiamentos, pois em vez de credores, ganham novos sócios ou acionistas (ou injeção de mais recursos, por parte dos sócios e acionistas antigos), dispostos a correr os riscos do empreendimento. Se os juros, porém, não são pagos individualmente a cada investidor na proporção de sua participação no capital, eles não se sentirão estimulados a investir novos recursos na empresa, e preferirão continuar com seus investimentos em ativos de renda fixa. Convém ressaltar que a impugnante não esclarece os motivos que levaram a autuada a inverter a proporção no pagamento dos juros sobre o capital próprio. Isto é, não se sabe a que título os pagamentos em causa foram realizados. Certamente, na forma realizada, não foram realizados a título de remuneração do capital próprio. Não sem razão, invocando a Deliberação CVM nº 207, de 1996, e fazendo citações doutrinárias, a impugnante argumenta que o pagamento de juros sobre o capital, em vez de configurar despesa ou custo, tem mais verdadeiramente o Fl. 17364DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.317 97 efeito de destinação do lucro, de sorte que se equipararia à distribuição de dividendos. Corrobora esse entendimento o disposto no § 7º do artigo 9º da Lei nº 9.249, de 1995, segundo o qual, os juros pagos ou creditados pela pessoa jurídica, a título de remuneração do capital próprio, poderão ser imputados ao valor dos dividendos de que trata o art. 202 da Lei nº 6.404, de 1976. Todavia, da classificação doutrinária da natureza dos juros sobre o capital próprio como destinação do lucro não se extraem as conseqüências tributárias pretendidas pela impugnante. Conforme explanado nos parágrafos precedentes, trata se de uma ficção legal, cujo objetivo é, por meio de um incentivo fiscal, promover a captação de recursos das empresas diretamente de investidores no seu empreendimento, em vez de contrair empréstimos com terceiros. Como também se trata de um benefício fiscal, só fazem jus a ele os contribuintes que cumprirem rigorosamente as disposições legais. Visto que a lei estabelece que o pagamento ou crédito dos juros se deve fazer individualizadamente e a título de remuneração do capital próprio, não se enquadram como tal nem se credenciam ao tratamento fiscal favorecido aqueles pagamentos que não se fazem de acordo com a participação efetiva de cada sócio ou acionista no capital social. Nos termos do artigo 9º da Lei nº 9.249, de 1995, o valor dos juros sobre o capital próprio é calculado tomandose como ponto de partida as contas do patrimônio líquido. Como conseqüência da incorporação da empresa veículo, o Atacadão teve um aumento do seu capital social, que passou a ser parte da base de cálculo para os juros sobre capital próprio. O aumento de capital social no Atacadão por ocasião da incorporação da Korcula foi de R$ 675.238.682,84, correspondentes ao seu ativo líquido. Conforme observa os autuantes, se a operação tivesse ocorrido diretamente, sem o uso de empresa veículo, o ágio não poderia estar sendo amortizado pelo Atacadão, e o seu capital social também não teria sido aumentado em R$ 675.238.682,84. Logo, o valor dos juros sobre o capital próprio que poderia ser pago ou creditado com o benefício fiscal em questão autuada seria significativamente menor. Já que consideraram inválidos os efeitos tributários da participação da Korcula na operação de aquisição do Atacadão pelo grupo Carrefour, os autuantes refizeram o cálculo dos juros passíveis de destinação para determinar o seu valor caso não tivesse havido a incorporação da Korcula e demonstraram que, mesmo que tivesse sido observada a real participação de cada sócio no capital, haveria montante a ser glosado. Esse montante é discriminado na tabela adiante. Anocalendário Valor JCP pago Valor JCP dedutível Valor que seria glosado 2009 30.186.796,18 21.424.046,40 8.762.749,78 2010 85.419.779,39 44.845.924,32 40.573.855,07 2011 104.467.725,99 63.880.743,28 40.586.982,71 A impugnante opõese à recomposição do valor do patrimônio líquido pela fiscalização, não questionando os números apurados pela fiscalização, mas sustentando que a incorporação da Korcula ao patrimônio da autuada, bem como a geração do ágio pago e reconhecido pela Korcula no momento da aquisição, teriam preenchido todos os requisitos estabelecidos na legislação societária e fiscal. Contudo, a objeção da impugnante não pode ser acatada. Conforme explanado na subseção deste voto em que se analisou a glosa da amortização do ágio, as exigências fiscais devem ser julgadas procedentes, visto que, em virtude de as partes Fl. 17365DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 98 envolvidas terem recorrido ao artifício de empregar na operação uma empresa veículo sem propósito negocial e sem substância econômica, não houve a efetiva junção numa só entidade do patrimônio que pagou pelo ágio e do patrimônio em função do qual o ágio foi pago, o que viola uma dos requisitos indispensáveis estabelecidos no artigo 7º da Lei nº 9.532, de 1997. Uma vez que tal incorporação foi forjada, todos os seus efeitos tributários devem ser rejeitados, e não apenas a dedução da amortização do ágio. Daí se segue que não merece reparo o recálculo feito pela fiscalização do patrimônio líquido da autuada e dos valores que ela poderia legitimamente distribuir a título de juros sobre o capital próprio. Ressalvese, não obstante, que esse recálculo é feito pelos autuantes apenas para se prevenir da eventualidade de que se viesse a entender que seria permitido adotar o critério empregado pela autuada na atribuição a cada sócio dos juros sobre o capital próprio. Quanto ao valor do crédito tributário efetivamente constituído mediante o lançamento de ofício, o recálculo não teve nele nenhum efeito concreto, pois a glosa efetuada em virtude da distribuição desproporcional é maior que a glosa que poderia ser efetuada em virtude da recomposição do valor do patrimônio líquido. Ocorre que a primeira glosa absorve inteiramente a primeira, visto que foi glosado o montante distribuído em excesso para o sócio de menor participação, ao passo que o montante distribuído ao sócio com maior participação, somado ao que legitimamente poderia ser distribuído ao outro sócio, não excede ao total que poderia ser distribuído levandose em conta o valor do patrimônio líquido reconstituído. Conseguintemente, cumpre rejeitar as arguições da impugnante e manter integralmente as exigências fiscais relativas à matéria discutida nesta subseção do voto. Há de ressaltar ainda que o argumento de que o JCP possui a mesma natureza que a distribuição de lucros não pode prevalecer. Primeiro, porque decorrem de efeitos distintos: enquanto o JCP remunera o capital dos sócios com base em índices financeiros, os lucros decorrem do resultado dos próprios negócios. Além disso, enquanto o JCP, em tese, é dedutível na apuração do lucro real, a distribuição de lucros não afeta o resultado tributável do período. 2.6 DA MULTA ISOLADA Em razão da glosa de despesas, a Recorrente deixou de recolher valores a título de estimativas de IRPJ e CSLL, ensejando a exigência de multas isoladas. Há de separar a exigência em dois períodos distintos em razão da nova redação dada ao art. 44 da Lei nº 9.430/1996: o primeiro até o advento da Medida Provisória nº 351/2007 (convertida na Lei nº 11.488/2007) e o segundo após a edição de tal ato. Em relação à aplicação da multa isolada de forma concomitante com a multa de ofício, em que pese meu entendimento pessoal sobre a matéria, recentemente foi aprovada súmula impedindo tal cobrança quando baseada no art. 44, §1º, inciso IV, da Lei nº 9.430/96, conforme se observa do enunciado nº 105 da Súmula CARF: "A multa isolada por falta de recolhimento de estimativas, lançada com fundamento no art. 44 § 1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996, não pode ser exigida ao mesmo tempo da multa de ofício por falta de pagamento de IRPJ e CSLL apurado no ajuste anual, devendo subsistir a multa de ofício." Considerandose que a Medida Provisória nº 351/2007 que em seu art. 14 deu nova redação ao art. 44 da lei nº 9.430/1996 – foi editada em 22 de janeiro de 2007 (e Fl. 17366DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.318 99 posteriormente convertida na Lei nº 11.488/2007), as multas isoladas cujos recolhimentos deveriam ter sido realizados antes de tal data devem ser exoneradas. Assim sendo, como o vencimento para pagamento da estimativa é o último dia útil do mês subsequente, devese exonerar as multas isoladas relativas às estimativas referentes ao período de janeiro a novembro de 2006, já que a estimativa referente ao mês de dezembro de 2007 deveria ter sido recolhida até o dia 31/01/2007, quando já vigia a nova redação do dispositivo legal em questão. No caso concreto, contudo, o lançamento diz respeito a fatos geradores ocorridos a partir de janeiro de 2008, quando já vigia a nova redação do dispositivo legal em questão. Com a edição da Medida Provisória nº 351/2007 em 22/01/2007, posteriormente convertida na Lei nº 11.488/2007, a multa isolada por falta de recolhimento de estimativas de IRPJ e CSLL passou a ter novo regramento, não se aplicando, portanto, a Súmula CARF nº 105. Confirase a nova redação do dispositivo em questão: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; II de 50% (cinqüenta por cento), exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: a) na forma do art. 8º da Lei nº 7.713, de 22 de dezembro de 1988, que deixar de ser efetuado, ainda que não tenha sido apurado imposto a pagar na declaração de ajuste, no caso de pessoa física; b) na forma do art. 2º desta Lei, que deixar de ser efetuado, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no anocalendário correspondente, no caso de pessoa jurídica. [....] As multas exigidas juntamente com o tributo ou isoladamente, como definidas no art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, vinculamse a infrações de natureza distinta. A Lei nº 9.430, de 1996, em seu art. 1º, estabeleceu como regra geral, a partir do mês de janeiro de 1997, a apuração do lucro real trimestral. Apenas por exceção a pessoa jurídica poderia optar pela apuração do lucro real anual, situação em que fica obrigada a efetuar os recolhimentos do IRPJ e da CSLL mensalmente, calculados por estimativa (artigo 2º). As bases de cálculo do IRPJ e da CSLL devidos mensalmente são determinadas por meio da aplicação, sobre a receita bruta do mês, de percentuais estabelecidos pelo artigo 15 da Lei nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995, de acordo com as atividades desenvolvidas pela pessoa jurídica. Consoante se verifica pela redação das normas transcritas, são essencialmente duas as penalidades previstas no art. 44 retrotranscrito (“serão aplicadas as seguintes multas”, “I...II”): uma, exigida juntamente com o tributo faltante, nas hipóteses de “de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata”. Essa penalidade está valorada em 75% “sobre a totalidade ou diferença de imposto ou Fl. 17367DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 100 contribuição”; outra, exigida de forma isolada, no percentual de 50%, na hipótese da falta recolhimento das estimativas mensais de IRPJ e da CSLL. É pertinente esclarecer que os recolhimentos efetuados mensalmente a título de estimativas (art. 2º, §§ 3º e 4º, da Lei nº 9.430, de 1996) não são definitivos, porquanto a apuração definitiva do tributo devido se dará somente ao final de cada anocalendário. Esse o motivo pelo qual a penalidade pelo inadimplemento dessa obrigação é denominada multa isolada, uma vez que pode ser exigida independentemente de haver ou não tributo devido ao final do período de apuração. E também não há qualquer correlação entre o valor do tributo devido ao final de apuração e a multa isolada: sua base de cálculo é o valor do pagamento mensal (estimativa) de IRPJ ou CSLL que deixar de ser recolhido. Diante dessas constatações, é imperioso concluir que as multas são distintas e autônomas. Isso decorre, acima de tudo, das evidentes diferenças que existem entre as hipóteses de incidência e os consequentes das normas punitivas. No IRPJ e na CSLL, observamos que os critérios material e temporal são completamente distintos. O tributo não pago, decorrente da existência de lucro apurado trimestralmente ou anualmente, submetese à multa do inciso I do art. 44 da Lei nº 9.430 de 1996, enquanto que a estimativa não recolhida, decorrente da existência de receita bruta mensal ou balanços de redução, submetese à multa do inciso II do dispositivo antes citado. No caso do inciso I do art. 44 da Lei nº 9.430 de 1996, a quantificação toma por base o tributo devido em função do lucro, fazendo incidir o percentual de 75% (regra geral passível de qualificação e agravamento §§ 1º e 2º do art. 44). No caso do inciso II, letra “b”, do dispositivo antes citado, a quantificação toma por base a estimativa apurada em função da receita bruta ou resultados mensais, fazendo incidir o percentual de 50% (regra geral não passível de qualificação ou agravamento). Como se pode observar, são duas normas distintas e autônomas, que punem, em diferentes graus, ilicitudes diversas. Alega a Recorrente que a aplicação da penalidade isolada, tal qual perpetrada no auto de infração, viola o princípio da legalidade. Aduz ainda que não se poderia aplicála após o encerramento do exercício, tampouco em concomitância com a multa de ofício de 75%. Cita diversos acórdãos do CARF que dariam guarida a sua tese. Não merecem prosperar os argumentos de defesa. Vejamos. Em primeiro lugar, conforme já transcrito, a penalidade isolada por ausência de recolhimento de estimativas mensais está prevista no art. 44, II, da Lei nº 9.430/96, não havendo que se falar em ofensa ao princípio da legalidade. Nesse sentido, também, não há ofensa ao art. 97, V, do CTN, uma vez que a multa em discussão foi instituída por lei. Em relação a não aplicabilidade das multas isoladas após o encerramento do exercício, implicaria ofensa à literalidade do art. 44, II, “b”, da Lei nº 9.430/96, dispositivo que prevê, de forma expressa, a aplicação da penalidade isolada “ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no anocalendário correspondente”. Ora, se a própria norma prevê sua aplicação ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base negativa de CSLL, pressupõese, por óbvio, que o exercício já tenha sido encerrado, sem o que não se poderia falar em apuração do resultado do exercício. Fl. 17368DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.319 101 Podese concluir que o ordenamento jurídico protege, com a multa isolada, o fluxo financeiro advindo do pagamento mensal das estimativas. Ora, inexistindo penalidade pelo seu não recolhimento não haveria como obrigar o contribuinte a antecipar o tributo, e o pagamento das estimativas acabaria por se tornar mera faculdade do contribuinte, retirando da norma a sua força cogente, o que não se mostra razoável. Em relação às decisões colacionadas pela Recorrente, frisese que se baseiam na redação anterior do art. 44 da Lei nº 9.430/96. Em que pese minha particular discordância com a interpretação do referido dispositivo dada pelos acórdãos em questão, não se pode olvidar que os argumentos utilizados não se amoldam a novel redação dada ao dispositivo pelo art. 14 da Lei nº 11.488/2007. Vejamos. Ao se comparar a alteração da redação do art. 44 da Lei nº 9.430/96, constatase que se buscou adequar o dispositivo à jurisprudência então dominante no CARF, mais precisamente a firmada em torno do entendimento do então Conselheiro e Presidente de Câmara José Clóvis Alves, que atacava a redação do caput do art. 44 da Lei nº 9.430/96 ("Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas, calculadas sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição..."), e também o fato da ocorrência de bis in idem, pois a "mesma" multa seria aplicada quando do lançamento de ofício do tributo (Acórdão CSRF 0105503 101134520). Na nova redação do citado artigo, o caput não mais faz referência à diferença de tributo (“Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas...”), sendo tal expressão utilizada somente no inciso I, que trata da multa de 75% aplicada sobre a diferença de tributo lançado de ofício. A referência à multa isolada agora é tratada em dispositivo específico (inciso II), com multa em percentual distinto da multa de ofício (esta é de 75%, e aquela de 50%). Vêse, assim, que a nova multa isolada é aplicada, em percentual próprio, sobre o valor do pagamento mensal que deixou de ser efetuado a título de estimativa, não mais se falando em diferença sobre tributo que deixou de ser recolhido. Assim sendo, concluo que as multas isoladas devem ser mantidas, ainda que aplicadas em concomitância com as multas de ofício pela ausência de recolhimento/pagamento de tributo apurado de forma definitiva. Tal conclusão decorre da constatação de se tratarem de penalidades distintas, com origem em fatos geradores e períodos de apuração diversos, e ainda aplicadas sobre bases de cálculos diferenciadas. A legislação, em nenhum momento, vedou a aplicação concomitante das penalidades em comento. Isso posto, voto por manter a exigência das multas isoladas. 2.7 DA INCIDÊNCIA DE JUROS DE MORA SOBRE A MULTA DE OFÍCIO Por fim, alegou o contribuinte que a cobrança de juros sobre a multa de ofício seria ilegal. Observase, inicialmente, que a questão tem sido objeto intenso debate pela Câmara Superior, haja vista que, num lapso de poucos meses, ocorreram votações em sentidos opostos, ambos decididos por maioria apertada de votos, como se verifica dos acórdãos n° 910100539, de 11/03/2010, e n° 910100.722, de 08/11/2010. Abstraindose de argumentos finalísticos, como o enriquecimento ilícito do Estado, os quais fogem à alçada deste tribunal administrativo, conforme determina a Súmula Fl. 17369DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 102 CARF n° 2, expõese os fundamentos considerados suficientes para justificar a cobrança nos presentes autos, com espelho no acórdão n° 910100539, de 11/03/2010, de lavra da Conselheira Viviane Vidal Wagner: O conceito de crédito tributário, nos termos do art. 139 do CTN, comporta tanto tributo quanto penalidade pecuniária. Uma interpretação literal e restritiva do caput do art. 61 da Lei n° 9.430/96, que regula os acréscimos moratórios sobre débitos decorrentes de tributos e contribuições, pode levar à equivocada conclusão de que estaria excluída desses débitos a multa de ofício. Contudo, uma norma não deve ser interpretada isoladamente, especialmente dentro do sistema tributário nacional. No dizer do jurista Juarez Freitas (2002, p.70), "interpretar uma norma é interpretar o sistema inteiro: qualquer exegese comete, direta ou obliquamente, uma aplicação da totalidade do direito". Merece transcrição a continuidade do seu raciocínio: "Não se deve considerar a interpretação sistemática como simples instrumento de interpretação jurídica. É a interpretação sistemática, quando entendida em profundidade, o processo hermenêutico por excelência, de tal maneira que ou se compreendem os enunciados prescritivos nos plexos dos demais enunciados ou não se alcançará compreendêlos sem perdas substanciais. Nesta medida, mister afirmar, com os devidos temperamentos, que a interpretação jurídica é sistemática ou não é interpretação." (A interpretação sistemática do direito, 3.ed. São Paulo: Malheiros, 2002, p. 74). Daí, por certo, decorrerá uma conclusão lógica, já que interpretar sistematicamente implica excluir qualquer solução interpretativa que resulte logicamente contraditória com alguma norma do sistema. O art. 161 do CTN não distingue a natureza do crédito tributário sobre o qual deve incidir os juros de mora, ao dispor que o crédito tributário não pago integralmente no seu vencimento é acrescido de juros de mora, independentemente dos motivos do inadimplemento. Nesse sentido, no sistema tributário nacional, a definição de crédito tributário há de ser uniforme. De acordo com a definição de Hugo de Brito Machado (2009, p.172), o crédito tributário "é o vínculo jurídico, de natureza obrigacional, por força do qual o Estado (sujeito ativo) pode exigir do particular, o contribuinte ou responsável (sujeito passivo), o pagamento do tributo ou da penalidade pecuniária (objeto da relação obrigacional)." A obrigação tributária principal referente à multa de ofício, a partir do lançamento, convertese em crédito tributário, consoante previsão do art. 113, §1°, do CTN: Fl. 17370DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.320 103 Art. 113 A obrigação tributária é principal ou acessória. § 1° A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extinguese juntamente com o crédito tributário dela decorrente. (destacouse) A obrigação principal surge, assim, com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto tanto o pagamento do tributo como a penalidade pecuniária decorrente do seu não pagamento, o que inclui a multa de ofício proporcional. A multa de ofício é prevista no art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996, e é exigida "juntamente com o imposto, quando não houver sido anteriormente pago''" (§1°). Assim, no momento do lançamento, ao tributo agregase a multa de ofício, tornandose ambos obrigação de natureza pecuniária, ou seja, principal. A penalidade pecuniária, representada no presente caso pela multa de ofício, tem natureza punitiva, incidindo sobre o montante não pago do tributo devido, constatado após ação fiscalizatória do Estado. Os juros moratórios, por sua vez, não se tratam de penalidade e têm natureza indenizatória, , compensarem o atraso na entrada dos recursos que seriam de direito da União. A própria lei em comento traz expressa regra sobre a incidência de juros sobre a multa isolada. Eventual alegação de incompatibilidade entre os institutos é de ser afastada pela previsão contida na própria Lei n° 9.430/96 quanto à incidência de juros de mora sobre a multa exigida isoladamente. O parágrafo único do art. 43 da Lei n° 9.430/96 estabeleceu expressamente que sobre o crédito tributário constituído na forma do caput incidem juros de mora a partir do primeiro dia do mês subsequente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. O art. 61 da Lei n° 9.430, de 1996, ao se referir a débitos decorrentes de tributos e contribuições, alcança os débitos em geral relacionados com esses tributos e contribuições e não apenas os relativos ao principal, entendimento, dizia então, reforçado pelo fato de o art. 43 da mesma lei prescrever expressamente a incidência de juros sobre a multa exigida isoladamente. Nesse sentido, o disposto no §3° do art. 950 do Regulamento do Imposto de Renda aprovado pelo Decreto n° 3.000, de 26 de março de 1999 (RIR/99) exclui a equivocada interpretação de que a multa de mora prevista no caput do art. 61 da Lei n° 9.430/96 poderia ser aplicada concomitantemente com a multa de ofício. Art.950. Os débitos não pagos nos prazos previstos na legislação específica serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa Fl. 17371DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 104 de trinta e três centésimos por cento por dia de atraso (Lei n° 9.430, de 1996, art. 61). §1°A multa de que trata este artigo será calculada a partir do primeiro dia subseqüente ao do vencimento do prazo previsto para o pagamento do imposto até o dia em que ocorrer o seu pagamento (Lei n° 9.430, de 1996, art. 61, §1°). §2°O percentual de multa a ser aplicado fica limitado a vinte por cento (Lei n°9.430, de 1996, art. 61, §2°). §3°A multa de mora prevista neste artigo não será aplicada quando o valor do imposto já tenha servido de base para a aplicação da multa decorrente de lançamento de ofício. A partir do trigésimo primeiro dia do lançamento, caso não pago, o montante do crédito tributário constituído pelo tributo mais a multa de ofício passa a ser acrescido dos juros de mora devidos em razão do atraso da entrada dos recursos nos cofres da União. No mesmo sentido já se manifestou a Câmara Superior de Recursos Fiscais quando do julgamento do Acórdão n° CSRF/0400.651, julgado em 18/09/2007, com a seguinte ementa: JUROS DE MORA MULTA DE OFÍCIO OBRIGAÇÃO PRINICIPAL A obrigação tributária principal surge com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto tanto o pagamento do tributo como a penalidade pecuniária decorrente do seu não pagamento, incluindo a multa de ofício proporcional. O crédito tributário corresponde a toda a obrigação tributária principal, incluindo a multa de oficio proporcional, sobre o qual, assim, devem incidir os juros de mora à taxa Selic. Cabe referir, ainda, a Súmula Carf n° 5: "São devidos juros de mora sobre o crédito tributário não integralmente pago no vencimento, ainda que suspensa sua exigibilidade, salvo quando existir depósito no montante integral." Diante da previsão contida no parágrafo único do art. 161 do CTN, buscase na legislação ordinária a norma complementar que preveja a correção dos débitos para com a União. Para esse fim, a partir de abril de 1995, temse a taxa Selic, instituída pela Lei n° 9.065, de 1995. No âmbito do Poder Judiciário, a jurisprudência é forte no sentido da aplicação da taxa de juros Selic na cobrança do crédito tributário, como se vê no exemplo abaixo: REsp 1098052 / SP RECURSO ESPECIAL2008/02395728 Relator(a) Ministro Fl. 17372DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.321 105 CASTRO MEIRA (1125) Órgão Julgador T2 SEGUNDA TURMA Data do Julgamento 04/12/2008 Data da Publicação/Fonte DJe 19/12/2008 Ementa PROCESSUAL CIVIL. OMISSÃO. NÃOOCORRÊNCIA. LANÇAMENTO. DÉBITO DECLARADO E NÃO PAGO. PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO. DESNECESSIDADE. TAXA SELIC. LEGALIDADE. 1. É infundada a alegação de nulidade por maltrato ao art. 535 do Código de Processo Civil, quanto o recorrente busca tãosomente rediscutir as razões do julgado. 2. Em se tratando de tributos lançados por homologação, ocorrendo a declaração do contribuinte e na falta de pagamento da exação no vencimento, a inscrição em dívida ativa independe de procedimento administrativo. 3. É legítima a utilização da taxa SELIC como índice de correção monetária e de juros de mora, na atualização dos créditos tributários (Precedentes: AgRg nos EREsp 579.565/SC, Primeira Seção, Rel. Min. Humberto Martins, DJU de 11.09.06 e AgRg nos EREsp 831.564/RS, Primeira Seção, Rel. Min. Eliana Calmon, DJU de 12.02.07). No âmbito administrativo, a incidência da taxa de juros Selic sobre os débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal foi pacificada com a edição da Súmula CARF n° 4, de observância obrigatória pelo colegiado, por força de norma regimental (art. 72 do RICARF), nos seguintes termos: Súmula CARF n° 4: A partir de 1° de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. No que se refere ao período de 01/01/1995 a 31/12/1996, sustentam alguns que o Parecer MF/SRF/Cosit nº 28/98 teria deixado claro não ser exigível a incidência de juros sobre a multa de ofício tendo em vista as disposições do inciso I, do art. 84, da Lei nº 8.981/95. O mencionado Parecer, ainda que conclua pela incidência dos juros sobre a multa de ofício para fatos geradores ocorridos a partir de 01/01/1997, de fato manifestase nos termos dessa tese. Entretanto, constatase que o referido Ato Administrativo não levou em consideração a alteração legislativa trazida pela MP nº 1.110, de 30/08/95, que acrescentou o § 8º ao art. 84, da Lei 8.981/95, e que estendeu os efeitos do disposto no caput aos demais Fl. 17373DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO 106 créditos da Fazenda Nacional cuja inscrição e cobrança como Dívida Ativa da União seja de competência da Procuradoria da Fazenda Nacional. Cumpre esclarecer ainda que as três turmas da Câmara Superior, em decisões recentes, vêm confirmando a incidência de juros moratórios sobre a multa de ofício (Acórdãos 9101001.863, 9202003.150 e 9303002.400). Por fim, corroborando o aqui exposto, o STJ vem firmando entendimento no mesmo sentido, entendendo que os juros moratórios incidem sobre a multa de ofício, conforme se observa na ementa a seguir reproduzida: DIREITO TRIBUTÁRIO. INCIDÊNCIA DE JUROS DE MORA SOBRE MULTA FISCAL PUNITIVA. É legítima a incidência de juros de mora sobre multa fiscal punitiva, a qual integra o crédito tributário. Precedentes citados: REsp 1.129.990 PR, DJe 14/9/2009, e REsp 834.681MG, DJe 2/6/2010. AgRg no REsp 1.335.688PR, Rel. Min. Benedito Gonçalves, julgado em 4/12/2012. Ressaltase ainda que, em recentes julgados o STJ decidiu que, no âmbito do parcelamento especial previsto na Lei nº 11.941/2009, as remissões previstas em tal dispositivo legal para as multas de mora e de ofício não autorizam aplicações de reduções superiores às fixadas na mesma lei (45%) para os juros de mora incidentes sobre tais penalidades, ou seja, visto sob outro enfoque, reafirmouse o entendimento de que incidem juros moratórios sobre as multas de mora e de ofício. Tal exegese pode ser observada no REsp 1.492.246/RS (Rel. Ministro Mauro Campbell Marques, segunda turma, julgado em 02/06/2015, DJe 10/06/2015) e no REsp 1.510.603–CE (Rel. Min. Humberto Martins, Segunda Turma, julgado em 20/08/2015), em relação ao qual transcrevese a seguir sua ementa: TRIBUTÁRIO. PARCELAMENTO. 11.941/2009. REMISSÃO DE MULTA EM 100%. DESINFLUÊNCIA NA APURAÇÃO DOS JUROS DE MORA. PARCELAS DISTINTAS. PRECEDENTE. 1. "Em se tratando de remissão, não há qualquer indicativo na Lei n. 11.941/2009 que permita concluir que a redução de 100% (cem por cento) das multas de mora e de ofício estabelecida no art. 1º, §3º, I, da referida lei implique uma redução superior à de 45% (quarenta e cinco por cento) dos juros de mora estabelecida nos mesmo inciso, para atingir uma remissão completa da rubrica de juros (remissão de 100% de juros de mora), como quer o contribuinte " (REsp 1.492.246/RS, Rel. Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, SEGUNDA TURMA, julgado em 02/06/2015, DJe 10/06/2015.). 2. Consequentemente, a Lei n. 11.941/2009 tratou cada parcela componente do crédito tributário (principal, multas, juros de mora e encargos) de forma distinta, de modo que a redução percentual dos juros moratórios incide sobre as multas tão somente após a apuração atualizada desta rubrica (multa). Recurso especial provido. REsp 1.510.603–CE, Rel. Min. Humberto Martins, Segunda Turma, julgado em 20/08/2015. Isso posto, voto por manter tal exigência. 2.8 DA TAXA SELIC No que tange ao questionamento da aplicação da taxa Selic, a matéria encontrase absolutamente pacificada no âmbito do CARF, tendo sido alvo, inclusive de súmula, cujo enunciado número 4 recebeu a seguinte redação: Fl. 17374DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720053/201358 Acórdão n.º 1402002.119 S1C4T2 Fl. 17.322 107 A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. Conforme determina o caput do art. 72 do Regimento Interno do CARF, os enunciado da súmula CARF são de observância obrigatória por parte de seus membros. Desse modo, correta a aplicação da taxa Selic sobre os tributos apurados. 3 CONCLUSÃO Isso posto, voto por dar provimento parcial ao recurso voluntário para: (i) cancelar a exigência referente à glosa de despesas financeiras e determinar a reconstituição do saldo de prejuízos fiscais e base de cálculo negativa da CSLL como decorrência desse entendimento, cancelando também a infração referente à insuficiência de saldos de prejuízo fiscal e base negativa de CSLL; e ii) reduzir a multa de ofício ao percentual de 75%. (assinado digitalmente) FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO – Relator Fl. 17375DF CARF MF Impresso em 13/04/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 08/04/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 12/04/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO
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