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8179472 #
Numero do processo: 13639.720485/2015-91
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jan 29 00:00:00 UTC 2020
Data da publicação: Tue Mar 31 00:00:00 UTC 2020
Ementa: ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Ano-calendário: 2010 AUTO DE INFRAÇÃO. GFIP. MULTA POR ATRASO. Constitui infração à legislação previdenciária deixar a empresa de apresentar GFIP dentro do prazo fixado para a sua entrega. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. AUSÊNCIA DE INTIMAÇÃO PRÉVIA. SÚMULA CARF Nº 46. O lançamento de ofício pode ser realizado sem prévia intimação ao sujeito passivo nos casos em que o Fisco dispuser de elementos suficientes à constituição do crédito tributário. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. ATRASO NA ENTREGA DE DECLARAÇÃO. SÚMULA CARF Nº 49. A denúncia espontânea não alcança a penalidade decorrente do atraso na entrega de declaração. INCONSTITUCIONALIDADE. SÚMULA CARF Nº 02. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária.
Numero da decisão: 2002-002.889
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. O julgamento deste processo seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, aplicando-se o decidido no julgamento do processo 13811.726461/2015-06, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (documento assinado digitalmente) Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez – Presidente e Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez, Mônica Renata Mello Ferreira Stoll, Thiago Duca Amoni e Virgílio Cansino Gil.
Nome do relator: CLAUDIA CRISTINA NOIRA PASSOS DA COSTA DEVELLY MONTEZ

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GFIP. MULTA POR ATRASO. Constitui infração à legislação previdenciária deixar a empresa de apresentar GFIP dentro do prazo fixado para a sua entrega. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. AUSÊNCIA DE INTIMAÇÃO PRÉVIA. SÚMULA CARF Nº 46. O lançamento de ofício pode ser realizado sem prévia intimação ao sujeito passivo nos casos em que o Fisco dispuser de elementos suficientes à constituição do crédito tributário. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. ATRASO NA ENTREGA DE DECLARAÇÃO. SÚMULA CARF Nº 49. A denúncia espontânea não alcança a penalidade decorrente do atraso na entrega de declaração. INCONSTITUCIONALIDADE. SÚMULA CARF Nº 02. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. O julgamento deste processo seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, aplicando-se o decidido no julgamento do processo 13811.726461/2015-06, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (documento assinado digitalmente) Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez – Presidente e Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez, Mônica Renata Mello Ferreira Stoll, Thiago Duca Amoni e Virgílio Cansino Gil. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 63 9. 72 04 85 /2 01 5- 91 Fl. 47DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 2 do Acórdão n.º 2002-002.889 - 2ª Sejul/2ª Turma Extraordinária Processo nº 13639.720485/2015-91 Relatório O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos, prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, Anexo II, do Regulamento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2015, e, dessa forma, adoto neste relatório o relatado no Acórdão nº 2002-002.426, de 29 de janeiro de 2020, que lhe serve de paradigma. Trata-se de Auto de Infração lavrado em nome do sujeito passivo acima identificado, onde se apurou a Multa por Atraso na Entrega de Guia de Recolhimento do FGTS e Informações à Previdência Social – GFIP. O contribuinte apresentou Impugnação, a qual foi julgada improcedente pelo Colegiado a quo. Cientificado do acórdão de primeira instância, o interessado ingressou com Recurso Voluntário com os argumentos a seguir sintetizados. - Alega a ocorrência de denúncia espontânea, conforme entendimento da Receita Federal constante da IN 971/09 e do Manual da GFIP/SEFIP. - Aduz que a multa em exame deveria observar os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade. - Sustenta que não houve intimação do contribuinte omisso, como determina expressamente o art. 32-A da Lei 8.212/91, nem tampouco a imposição da multa no momento do recebimento da GFIP em atraso ou nos anos seguintes, tendo o fisco efetuado o lançamento nos estertores da decadência tributária. - Entende que a suposta infração de natureza acessória alcançou seu objetivo de forma plena e eficaz ante o pagamento integral do tributo consignado na GFIP antes de qualquer iniciativa fiscal. - Expõe que, ainda que tenha obedecido à regra da competência legislativa e tenha respeitado o processo legislativo, a lei será inconstitucional se atentar contra o princípio da razoabilidade. - Suscita o caráter confiscatório da multa aplicada. - Afirma que houve violação ao art. 146 do CTN. - Ressalta que não houve prejuízo ao erário, considerando que os encargos foram devidamente recolhidos. - Assevera que as multas aplicadas contrariam a jurisprudência administrativa e judicial. Fl. 48DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 3 do Acórdão n.º 2002-002.889 - 2ª Sejul/2ª Turma Extraordinária Processo nº 13639.720485/2015-91 Voto Conselheira Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez - Relatora Das razões recursais Como já destacado, o presente julgamento segue a sistemática dos recursos repetitivos, nos termos do art. 47, §§ 1º e 2º, Anexo II, do RICARF, desta forma reproduzo o voto consignado no Acórdão nº 2002-002.426, de 29 de janeiro de 2020, paradigma desta decisão. O Recurso Voluntário é tempestivo e reúne os requisitos de admissibilidade, portanto, dele tomo conhecimento. No que concerne à ausência de intimação prévia ao lançamento, aplica-se o disposto na Súmula CARF nº 46, com efeito vinculante em relação à Administração Tributária Federal: O lançamento de ofício pode ser realizado sem prévia intimação ao sujeito passivo, nos casos em que o Fisco dispuser de elementos suficientes à constituição do crédito tributário. (Vinculante, conforme Portaria MF nº 277, de 07/06/2018, DOU de 08/06/2018). O previsto no art. 32-A da Lei nº 8.212/91 não contraria este entendimento. A intimação prévia somente será realizada quando for necessária, ou seja, quando a autoridade fiscal não dispuser de elementos suficientes para efetuar o lançamento, o que não se verifica no caso em tela, uma vez que se trata de multa pelo atraso na entrega de GFIP sem apuração de incorreções em seu conteúdo. Relativamente à alegação de denúncia espontânea, deixo de tecer maiores considerações haja vista o entendimento consolidado na Súmula CARF n° 49, também vinculante em relação à Administração Tributária Federal: A denúncia espontânea (art. 138 do Código Tributário Nacional) não alcança a penalidade decorrente do atraso na entrega de declaração. (Vinculante, conforme Portaria MF nº 277, de 07/06/2018, DOU de 08/06/2018). Quanto à infração apurada, equivoca-se o recorrente ao entender que a mesma poderia ser afastada em razão do pagamento integral do tributo consignado na GFIP. De acordo com o art. 32-A, II, da Lei 8.212/91, a multa incide sobre o montante das contribuições previdenciárias informadas no documento ainda que tenham sido integralmente pagas pelo contribuinte. A exigência da penalidade independe de sua capacidade financeira ou da existência de danos causados à Fazenda Pública. Também não há que se falar em alteração nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa e violação do art. 146 do Código Tributário Nacional - CTN. A alteração na sistemática de aplicação de multas vinculadas à GFIP ocorreu com a inclusão do art.32-A da Lei Fl. 49DF CARF MF Documento nato-digital https://carf.economia.gov.br/acesso-a-informacao/boletim-de-servicos-carf/portarias-do-mf-de-interesse-do-carf-2018/portarias-mf-277-sumulas-efeito-vinculantes.pdf https://carf.economia.gov.br/acesso-a-informacao/boletim-de-servicos-carf/portarias-do-mf-de-interesse-do-carf-2018/portarias-mf-277-sumulas-efeito-vinculantes.pdf Fl. 4 do Acórdão n.º 2002-002.889 - 2ª Sejul/2ª Turma Extraordinária Processo nº 13639.720485/2015-91 8.212/91 pela Lei 11.941/09, ou seja, anteriormente ao ano calendário que aqui se examina. Vale lembrar que, segundo o art. 142 do CTN, a atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, não cabendo discussão sobre a aplicação das determinações legais vigentes por parte das autoridades fiscais. Quanto aos questionamentos acerca da violação aos princípios constitucionais e do caráter confiscatório da multa, importa reproduzir o disposto na Súmula CARF n° 2, de observância obrigatória por seus Conselheiros no julgamento dos Recursos: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Cabe mencionar, por fim, que as decisões trazidas pelo recorrente somente vinculam as partes envolvidas naqueles litígios, não podendo ser estendidas genericamente a outros casos. Por todo o exposto, voto por conhecer do Recurso Voluntário e, no mérito, negar-lhe provimento. Conclusão Importa registrar que nos autos em exame a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada na decisão paradigma, de tal sorte que, as razões de decidir nela consignadas, são aqui adotadas. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do anexo II do RICARF, reproduzo o decidido no acórdão paradigma, no sentido de negar provimento ao Recurso Voluntário. (documento assinado digitalmente) Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez Fl. 50DF CARF MF Documento nato-digital

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Numero do processo: 13851.902315/2010-02
Turma: Terceira Turma Extraordinária da Terceira Seção
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Mar 11 00:00:00 UTC 2020
Data da publicação: Wed Apr 01 00:00:00 UTC 2020
Ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS (IPI) Período de apuração: 01/07/2007 a 30/09/2007 IPI. CRÉDITOS. FORNECEDORES OPTANTES PELO SIMPLES. IMPOSSIBILIDADE. A legislação em vigor não permite o creditamento do IPI calculado pelo contribuinte sobre aquisições de estabelecimentos optantes pelo SIMPLES.
Numero da decisão: 3003-000.957
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Marcos Antonio Borges - Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marcos Antonio Borges, Márcio Robson Costa e Muller Nonato Cavalcanti Silva.
Nome do relator: MARCOS ANTONIO BORGES

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CRÉDITOS. FORNECEDORES OPTANTES PELO SIMPLES. IMPOSSIBILIDADE. A legislação em vigor não permite o creditamento do IPI calculado pelo contribuinte sobre aquisições de estabelecimentos optantes pelo SIMPLES. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Marcos Antonio Borges - Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marcos Antonio Borges, Márcio Robson Costa e Muller Nonato Cavalcanti Silva. Relatório Adoto o relatório da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento, que narra bem os fatos: Em 05/10/2010, foi emitido o Despacho Decisório eletrônico à fl. 147 que, do montante do crédito solicitado/utilizado de R$ 100.394,22 referente ao 3º trimestrecalendário de 2007, reconheceu a parcela de R$ 100.374,22, e, conseqüentemente, homologou parcialmente a compensação declarada no PER/DCOMP nº 25572.61114.161007.1.3.01-0900, vinculado ao PER/DCOMP nº 09674.36771.161007.1.1.01-8565 com o direito creditório informado. Os detalhamentos da análise do crédito e da compensação e do saldo devedor, presentes no sítio da internet da Secretaria da Receita Federal do Brasil, se encontram às fls. 148/150. A requerente, inconformada com a decisão administrativa, apresentou, em 29/10/2010, após ciência em 13/10/2010 conforme “histórico da(s) comunicação(ões)” à fl. 159, a manifestação de inconformidade à fl. 151, subscrita pelo representante legal da empresa, em que, quanto ao motivo nº 7 (aquisições de empresas optantes pelo SIMPLES), sustenta que as aquisições são de empresas atacadistas não equiparadas a industrial, tendo direito ao crédito de 50% conforme a legislação; no preenchimento do AC ÓR Dà O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 85 1. 90 23 15 /2 01 0- 02 Fl. 181DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 2 do Acórdão n.º 3003-000.957 - 3ª Sejul/3ª Turma Extraordinária Processo nº 13851.902315/2010-02 PER/DCOMP o próprio programa sugere o valor do crédito pleiteado. Por fim, requer a homologação parcial do PER/DCOMP em questão. A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Ribeirão Preto (SP) julgou improcedente a manifestação de inconformidade nos termos da ementa abaixo: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS - IPI Período de apuração: 01/07/2007 a 30/09/2007 PER/DCOMP. DESPACHO DECISÓRIO ELETRÔNICO. GLOSA DE CRÉDITOS. NOTAS FISCAIS EMITIDAS POR EMPRESAS OPTANTES PELO SIMPLES. São insuscetíveis de aproveitamento na escrita fiscal os créditos concernentes a notas fiscais de aquisição de matérias primas, produtos intermediários e materiais de embalagens emitidas por empresas optantes pelo SIMPLES, nos termos de vedação legal expressa. Inconformada, a contribuinte recorre a este Conselho, através de Recurso Voluntário apresentado, no qual contesta a glosa dos créditos advindos de empresa optante pelo SIMPLES. É o Relatório. Fl. 182DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 3 do Acórdão n.º 3003-000.957 - 3ª Sejul/3ª Turma Extraordinária Processo nº 13851.902315/2010-02 Voto Conselheiro Marcos Antonio Borges, Relator. O recurso é tempestivo e atende aos demais pressupostos recursais, inclusive quanto à competência das Turmas Extraordinárias, portanto dele toma-se conhecimento. Conforme já relatado, o direito creditório pleiteado pela Recorrente relativo ao ressarcimento de credito de IPI do período de apuração acima foi parcialmente deferido e as compensações vinculadas homologadas em parte. A insuficiência do crédito decorre da glosa dos créditos advindos de empresa optante pelo SIMPLES. Conforme observado pela decisão recorrida, a recorrente não contesta que seus fornecedores recolhiam seus tributos pelo Sistema Integrado de Pagamentos de Impostos e Contribuições – Simples, que é forma beneficiada, de livre escolha e simplificada de tributação, mas, sim, que as aquisições são de empresas atacadistas não equiparadas a industrial, tendo direito ao crédito de 50% conforme a legislação. Vejamos o que dispõe o art. 5º e §§ da Lei nº 9.317/1996, que instituiu o Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte – SIMPLES, in verbis. Art. 5º O valor devido mensalmente pela microempresa e empresa de pequeno porte, inscritas no SIMPLES, será determinado mediante a aplicação, sobre a receita bruta mensal auferida, dos seguintes percentuais: (...) § 5º - A inscrição no SIMPLES veda, para a microempresa ou empresa de pequeno porte, a utilização ou destinação de qualquer valor a título de incentivo fiscal, bem assim a apropriação ou a transferência de créditos ao IPI e ao ICMS. § 6º - O disposto no parágrafo anterior não se aplica relativamente ao ICMS, caso a Unidade Federada em que esteja localizada a microempresa ou empresa de pequeno porte não tenha aderido ao SIMPLES, nos termos do art. 4º. Embora a Lei Complementar nº 123/2006 tenha revogado a Lei 9.317, ficou mantida a vedação ao crédito na aquisição de fornecedores optantes pelo SIMPLES, de acordo com o art. 23 da LC citada, verbis. Art.23. As microempresas e as empresas de pequeno porte optantes pelo Simples Nacional não farão jus à apropriação nem transferirão créditos relativos a impostos ou contribuições abrangidos pelo Simples Nacional. Verifica-se que as empresas optantes pelo SIMPLES tem a tributação do IPI diferenciada, não se seguindo as alíquotas dispostas na TIPI e sim, um acréscimo de percentual na alíquota aplicada sobre a receita bruta, sendo assim, a tributação já é favorecida e não há que se falar em sistemas de débitos e créditos, que só é aplicada na forma normal de tributação. A vedação ao crédito também estava inserida no art. 166 do Regulamento do IPI/2002 e reproduzida no art. 228 do RIPI/2010: DECRETO Nº 4.544, DE 26 DE DEZEMBRO DE 2002. Art. 166. As aquisições de produtos de estabelecimentos optantes pelo SIMPLES, de que trata o art. 117, não ensejarão aos adquirentes direito a fruição de crédito de MP, PI e ME (Lei nº 9.317, de 1996, art. 5º, § 5º). Fl. 183DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 4 do Acórdão n.º 3003-000.957 - 3ª Sejul/3ª Turma Extraordinária Processo nº 13851.902315/2010-02 DECRETO Nº 7.212, DE 15 DE JUNHO DE 2010. Art.228.As aquisições de produtos de estabelecimentos optantes pelo Simples Nacional, de que trata o art. 177, não ensejarão aos adquirentes direito a fruição de crédito do imposto relativo a matéria-prima, produto intermediário e material de embalagem(Lei Complementar n o 123, de 2006, art. 23,caput). Assim, no que concerne às aquisições de empresas optantes pelo SIMPLES, cabe reiterar que o direito a não cumulatividade do IPI não é absoluto, havendo a necessidade, para fruição do direito ao creditamento, de observância às demais normas legais e regulamentares citadas, que vedam expressamente o direito a fruição de crédito nas aquisições de MP, PI e ME de estabelecimentos optantes pelo Simples. Quanto a alegação de que as aquisições são de empresas atacadistas não equiparadas a industrial, o que lhe concederia algum benefício quanto ao crédito, não procede. Apesar do art. 227 do RIPI/2010 permitir o credito de IPI nas aquisições de fornecedores atacadistas não contribuinte, há de se observar o art. 228 do RIPI, citado acima, o qual, malgrado não vede a fruição do estímulo fiscal a pessoa jurídica alguma em razão da sua natureza, veda-a àquelas que adquirirem os insumos de estabelecimento optante pelo "Regime Especial Unificado de Arrecadação de Tributos e Contribuições" (Simples Nacional), em consonância com a Lei Complementar nº 123, de 2006, art. 23,caput: Art. 23. As microempresas e as empresas de pequeno porte optantes pelo Simples Nacional não farão jus à apropriação nem transferirão créditos relativos a impostos ou contribuições abrangidos pelo Simples Nacional. Ou seja, a vedação acima independe do fato do estabelecimento emitente da nota fiscal, optante do SIMPLES, ser estabelecimento industrial ou empresa atacadista não equiparada a industrial. A aquisição de insumos de empresas optantes do SIMPLES não gera direito a qualquer crédito de IPI, razão pela qual devem ser mantidas as glosas realizadas pela delegacia de origem. Neste sentido também o entendimento da Solução de Consulta nº 74 – Cosit, de 23 de janeiro de 2017: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS - IPI BENEFÍCIO FISCAL. CRÉDITO. INSUMOS. AQUISIÇÃO DE COMERCIANTE ATACADISTA NÃO-CONTRIBUINTE. PRODUTO INDUSTRIALIZADO ISENTO OU SUJEITO À ALÍQUOTA ZERO. A matéria-prima, o produto intermediário e o material de embalagem, adquiridos de comerciante atacadista não contribuinte que não seja optante pelo "regime especial unificado de arrecadação de tributos e contribuições" (simples nacional), empregados na industrialização de produto isento do imposto ou sujeito à sua incidência à alíquota de 0% (zero por cento) ensejam o direito de o estabelecimento industrial, e o que lhe é equiparado, creditar-se do respectivo imposto, calculado mediante a aplicação da alíquota a que estiver sujeito o produto, sobre 50% (cinquenta por cento) do valor indicado na respectiva nota fiscal. Dispositivos Legais: Decreto n° 7.212, de 2010, artigos 227, 228 e 251, caput e § 1°; Lei n° 9.779, de 1999, art. 11. Diante do exposto, voto no sentido de negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Marcos Antonio Borges Fl. 184DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 5 do Acórdão n.º 3003-000.957 - 3ª Sejul/3ª Turma Extraordinária Processo nº 13851.902315/2010-02 Fl. 185DF CARF MF Documento nato-digital

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Numero do processo: 10283.721202/2008-89
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Aug 24 00:00:00 UTC 2011
Ementa: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2006 AUTO DE INFRAÇÃO. NULIDADE. Não está inquinado de nulidade o auto de infração lavrado por autoridade competente e que não tenha causado preterição do direito de defesa, efetuado em consonância com o que preceitua o art. 142 do Código Tributário Nacional, especialmente se o sujeito passivo, em sua defesa, demonstra pleno conhecimento dos fatos que ensejaram a sua lavratura, exercendo, atentamente, o seu direito de defesa. ACRÉSCIMO PATRIMONIAL A DESCOBERTO. GASTOS E/OU APLICAÇÕES INCOMPATÍVEIS COM OS RECURSOS DECLARADOS. FORMA DE APURAÇÃO. FLUXO FINANCEIRO. BASE DE CÁLCULO. APURAÇÃO MENSAL. ÔNUS DA PROVA. Quando a autoridade lançadora promove o fluxo financeiro de origens e aplicações de recursos (apuração de acréscimo patrimonial a descoberto) este deve ser apurado mensalmente, considerando-se todos os ingressos de recursos (entradas) e todos os dispêndios (saídas) no mês. A lei somente autoriza a presunção de omissão de rendimentos nos casos em que a autoridade lançadora comprove gastos e/ou aplicações incompatível com os recursos disponíveis (tributados, isentos e não tributáveis ou tributados exclusivamente na fonte). Assim, quando for o caso, devem ser considerados, na apuração do acréscimo patrimonial a descoberto, todos os recursos auferidos pelo contribuinte (tributados, isentos e não tributáveis e os tributados exclusivamente na fonte), abrangendo os declarados e os lançados de ofício pela autoridade lançadora. ACRÉSCIMO PATRIMONIAL A DESCOBERTO. ÔNUS DA PROVA. Cabe à autoridade lançadora o ônus de provar o fato gerador do imposto de renda. A lei autoriza a presunção de omissão de rendimentos, desde que à autoridade lançadora comprove o aumento do patrimônio sem justificativa nos recursos declarados. Por outro lado, valores alegados, oriundos de saldos bancários, disponibilidades, resgates de aplicações, dívidas e ônus reais, como os demais recursos declarados, são objeto de prova por quem as invoca como justificativa de eventual aumento patrimonial. As operações declaradas, que importem em origem de recursos, devem ser comprovadas por documentos hábeis e idôneos que indiquem a natureza, o valor e a data de sua ocorrência. INFRAÇÃO FISCAL. MEIOS DE PROVA. A prova de infração fiscal pode realizar-se por todos os meios admitidos em Direito, inclusive a presuntiva com base em indícios veementes, sendo, outrossim, livre a convicção do julgador. MULTA DE LANÇAMENTO DE OFICIO. RESPONSABILIDADE OBJETIVA. A responsabilidade por infrações da legislação tributária independe da intenção do agente ou responsável. O fato de não haver má-fé do contribuinte não descaracteriza o poder dever da Administração de lançar com multa de oficio rendimentos omitidos na declaração de ajuste. MULTA DE LANÇAMENTO DE OFÍCIO. CARÁTER DE CONFISCO. INOCORRÊNCIA. A falta ou insuficiência de recolhimento do imposto dá causa ao lançamento de ofício, para exigi-lo com acréscimos e penalidades legais. A multa de lançamento de ofício é devida em face da infração às regras instituídas pelo Direito Fiscal e, por não constituir tributo, mas penalidade pecuniária prevista em lei é inaplicável o conceito de confisco previsto no inciso V, do art. 150 da Constituição Federal. INCONSTITUCIONALIDADE. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária (Súmula CARF nº 2). ACRÉSCIMOS LEGAIS. JUROS MORATÓRIOS. TAXA SELIC. A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais (Súmula CARF nº 4). Preliminar rejeitada. Recurso negado.
Numero da decisão: 2202-001.345
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, rejeitar a preliminar suscitada pelo Recorrente e, no mérito, negar provimento ao recurso, nos termos do voto do Relator.
Nome do relator: NELSON MALLMAN

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FAZENDA NACIONAL    ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA ­ IRPF  Exercício: 2006  AUTO DE INFRAÇÃO. NULIDADE.  Não  está  inquinado  de  nulidade  o  auto  de  infração  lavrado  por  autoridade  competente e que não tenha causado preterição do direito de defesa, efetuado  em  consonância  com  o  que  preceitua  o  art.  142  do  Código  Tributário  Nacional, especialmente se o sujeito passivo, em sua defesa, demonstra pleno  conhecimento  dos  fatos  que  ensejaram  a  sua  lavratura,  exercendo,  atentamente, o seu direito de defesa.  ACRÉSCIMO  PATRIMONIAL  A  DESCOBERTO.  GASTOS  E/OU  APLICAÇÕES INCOMPATÍVEIS COM OS RECURSOS DECLARADOS.  FORMA DE APURAÇÃO. FLUXO FINANCEIRO. BASE DE CÁLCULO.  APURAÇÃO MENSAL. ÔNUS DA PROVA.  Quando  a  autoridade  lançadora  promove  o  fluxo  financeiro  de  origens  e  aplicações de recursos (apuração de acréscimo patrimonial a descoberto) este  deve  ser  apurado  mensalmente,  considerando­se  todos  os  ingressos  de  recursos  (entradas)  e  todos  os  dispêndios  (saídas)  no  mês.  A  lei  somente  autoriza  a  presunção  de  omissão  de  rendimentos  nos  casos  em  que  a  autoridade  lançadora comprove gastos  e/ou aplicações  incompatível com os  recursos  disponíveis  (tributados,  isentos  e  não­tributáveis  ou  tributados  exclusivamente na fonte). Assim, quando for o caso, devem ser considerados,  na  apuração  do  acréscimo  patrimonial  a  descoberto,  todos  os  recursos  auferidos  pelo  contribuinte  (tributados,  isentos  e  não­tributáveis  e  os  tributados exclusivamente na fonte), abrangendo os declarados e os lançados  de ofício pela autoridade lançadora.  ACRÉSCIMO PATRIMONIAL A DESCOBERTO. ÔNUS DA PROVA.  Cabe à autoridade lançadora o ônus de provar o fato gerador do imposto de  renda.  A  lei  autoriza  a  presunção  de  omissão  de  rendimentos,  desde  que  à  autoridade  lançadora  comprove  o  aumento  do  patrimônio  sem  justificativa     Fl. 79DF CARF MF Emitido em 14/09/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN     2 nos recursos declarados. Por outro lado, valores alegados, oriundos de saldos  bancários,  disponibilidades,  resgates  de  aplicações,  dívidas  e  ônus  reais,  como os demais recursos declarados, são objeto de prova por quem as invoca  como justificativa de eventual aumento patrimonial. As operações declaradas,  que  importem  em  origem  de  recursos,  devem  ser  comprovadas  por  documentos hábeis e idôneos que indiquem a natureza, o valor e a data de sua  ocorrência.  INFRAÇÃO FISCAL. MEIOS DE PROVA.  A prova de infração fiscal pode realizar­se por todos os meios admitidos em  Direito,  inclusive  a  presuntiva  com  base  em  indícios  veementes,  sendo,  outrossim, livre a convicção do julgador.  MULTA  DE  LANÇAMENTO  DE  OFICIO.  RESPONSABILIDADE  OBJETIVA.  A  responsabilidade  por  infrações  da  legislação  tributária  independe  da  intenção do agente ou responsável. O fato de não haver má­fé do contribuinte  não descaracteriza o poder­dever da Administração de lançar com multa de  oficio rendimentos omitidos na declaração de ajuste.  MULTA  DE  LANÇAMENTO  DE  OFÍCIO.  CARÁTER  DE  CONFISCO.  INOCORRÊNCIA.   A falta ou insuficiência de recolhimento do imposto dá causa ao lançamento  de  ofício,  para  exigi­lo  com  acréscimos  e  penalidades  legais.  A  multa  de  lançamento de ofício é devida em face da infração às regras instituídas pelo  Direito Fiscal e, por não constituir tributo, mas penalidade pecuniária prevista  em lei é inaplicável o conceito de confisco previsto no inciso V, do art. 150  da Constituição Federal.   INCONSTITUCIONALIDADE.  O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade  de lei tributária (Súmula CARF nº 2).  ACRÉSCIMOS LEGAIS. JUROS MORATÓRIOS. TAXA SELIC.  A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos  tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no  período  de  inadimplência,  à  taxa  referencial  do  Sistema  Especial  de  Liquidação e Custódia ­ SELIC para títulos federais (Súmula CARF nº 4).  Preliminar rejeitada.  Recurso negado.      Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.  Acordam  os  membros  do  colegiado,  por  unanimidade  de  votos,  rejeitar  a  preliminar suscitada pelo Recorrente e, no mérito, negar provimento ao recurso, nos termos do  voto do Relator.   (Assinado digitalmente)   Nelson Mallmann – Presidente e Relator.  Fl. 80DF CARF MF Emitido em 14/09/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN Processo nº 10283.721202/2008­89  Acórdão n.º 2202­01.345  S2­C2T2  Fl. 2          3   Participaram do presente julgamento os Conselheiros Maria Lúcia Moniz de  Aragão Calomino Astorga, Odmir Fernandes, Antonio Lopo Martinez, Rafael Pandolfo, Pedro  Anan Júnior e Nelson Mallmann. Ausente  justificadamente, o Conselheiro Helenilson Cunha  Pontes.    Fl. 81DF CARF MF Emitido em 14/09/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN     4 Relatório  BELMIRO  GONÇALVES  VIANEZ  FILHO,  contribuinte  inscrito  no  CPF/MF 052.797.392­00, com domicílio fiscal na cidade de Manaus, Estado do Amazonas, à  Avenida 7 de Setembro, nº. 847 – Bairro Centro, jurisdicionada a Delegacia da Receita Federal  do Brasil em Manaus ­ AM, inconformado com a decisão de Primeira Instância de fls. 55/59,  prolatada pela 5ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Belém ­  PA recorre, a este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, pleiteando a sua reforma, nos  termos da petição de fls. 63/69.  Contra o contribuinte acima mencionado foi lavrado, em 27/11/2008, Auto de  Infração  de  Imposto  de  Renda  Pessoa  Física  (fls.  17/23),  com  ciência  através  de  AR,  em  03/12/2008  (fls.  27),  exigindo­se  o  recolhimento  do  crédito  tributário  no  valor  total  de  R$  359.116,03  (padrão  monetário  da  época  do  lançamento  do  crédito  tributário),  a  título  de  Imposto de Renda Pessoa Física, acrescidos da multa de lançamento de ofício normal de 75% e  dos juros de mora de, no mínimo, de 1% ao mês, calculados sobre o valor do imposto e renda,  relativo ao exercício de 2006, correspondente ao ano­calendário de 2005.   A exigência fiscal em exame teve origem em procedimentos de fiscalização  de  revisão  da Declaração  de Ajuste Anual  referente  ao  exercício  de  2006 onde  a  autoridade  lançadora  entendeu  haver  omissão  de  rendimentos  tendo  em  vista  a  ocorrência  de  variação  patrimonial  a  descoberto  haja  vista  a  constatação  de  excesso  de  aplicações/dispêndios  sobre  origens/recursos,  não  respaldados  por  rendimentos  tributáveis,  isentos  e  não­tributáveis,  tributáveis  exclusivamente  na  fonte  ou  objeto  de  tributação  definitiva  declarados,  conforme  "Demonstrativo  de  Variação  Patrimonial  Mensal  (fluxo  de  Caixa)”  do  exercício  de  2006,  correspondente  ao  ano­calendário  de  2005,  que  faz  parte  integrante  deste Auto  de  Infração.  Infração capitulada nos artigos 1º, 2º, 3º, e §§, da Lei n º 7.713, de 1988; artigos 1º e 2º, da Lei  n º 8.134, de 1990 e artigo 1º da Lei nº 11.119, de 2005.  O Auditor­Fiscal da Receita Federal do Brasil responsável pela constituição  do crédito tributário lançado esclarece, ainda, através do próprio Auto de Infração, entre outros,  os seguintes aspectos:  ­  que  o  referido  contribuinte  foi  cientificado  do  inicio  do  procedimento  de  fiscalização e intimado, em 13 de março de 2008, a apresentar os comprovantes de pagamento  das despesas com cartão de crédito referentes ao ano de 2005;  ­ que, em 31 de março de 2008,  solicitou prorrogação do prazo, no que foi  atendido em 20 dias, alegando tempo insuficiente para a reunião dos documentos solicitados;  ­ que, em 25 de julho de 2008, foi elaborado um Demonstrativo de Variação  Patrimonial  com  base  nos  elementos  a  disposição  dos  sistemas  informatizados  internos  da  Secretaria da Receita Federal do Brasil e das declarações de bens e rendimentos prestadas pelo  próprio contribuinte;  ­ que foi dada ciência por via postal e aviso de recebimento em 28 de julho de  2008,  com a  ressalva de  que vários  contatos  telefônicos  foram  feitos  para a apresentação da  documentação  pertinente  e  de  que  o  não  atendimento  do  Termo  de  Intimação  que  teve  o  referido  Demonstrativo  de  Variação  Patrimonial  como  anexo  ensejaria  no  lançamento  do  crédito tributário com os elementos que se dispusesse, uma vez que as instituições financeiras  Fl. 82DF CARF MF Emitido em 14/09/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN Processo nº 10283.721202/2008­89  Acórdão n.º 2202­01.345  S2­C2T2  Fl. 3          5 já  haviam  informado  em  Declarações  de  Operações  com  Cartão  de  Crédito  os  pagamentos  relativos a cartões da titularidade do contribuinte em analise;  ­ que, em 08 de agosto de 2008, nova solicitação de prorrogação de prazo foi  apresentada e atendida, dilatando­se o prazo em 20 dias;  ­  que  esgotado,  em  muito,  o  prazo,  sem  que  o  contribuinte  tenha  se  manifestado acerca do demonstrativo elaborado, consideramos não existir documentação que  se  contraponha  ao  apurado  pela  fiscalização  e  procedemos  o  lançamento  para  constituir  o  crédito  tributário  relativo  ao  excesso  de  aplicações  e  dispêndio  de  recursos  em  relação  às  origens.  Em sua peça  impugnatória de fls. 32/39,  instruída pelos documentos de fls.  40/53,  apresentada,  tempestivamente,  em  26/12/2008  o  contribuinte,  se  indispõe  contra  a  exigência fiscal, solicitando que seja acolhida à impugnação para declarar a  insubsistência do  Auto de Infração, com base, em síntese, nos seguintes argumentos;  ­ que é correto afirmar que a exigência da obrigação tributária, não pode ser  feita sem obediência aos contornos legais. Significa dizer que o tributo só é devido na forma  contida na verba legis e nisto se assenta, indisfarçavelmente, o que os doutos e estudiosos da  matéria tributária concordaram em chamar principio da legalidade;  ­ que a Lei n. 9.784, de 29.01.1999, que "regula o processo administrativo no  âmbito  da  Administração  Pública  Federal",  dispõe  em  seu  artigo  2°  que:  "Art.  20  A  Administração  Pública  obedecerá,  dentre  outros,  aos  princípios  da  legalidade,  finalidade,  motivação,  razoabilidade,  proporcionalidade,  moralidade,  ampla  defesa,  contraditório,  segurança jurídica, interesse público e eficiência.";  ­  que,  no  caso  vertente,  o  procedimento  fiscal  instaurado  contra  o  Impugnante,  afronta  de  forma  inequívoca  os  princípios  da moralidade,  da  ampla  defesa,  da  legalidade e da segurança jurídica do contribuinte;  ­  que  atropelando  todos  esses  princípios,  o  agente  do  fisco,  ampliando  o  campo de incidência do imposto de renda, cujos contornos precisos estão definidos pelo artigo  43  do  Código  Tributário,  fez  incidir  o  tributo  indiscriminadamente  sobre  os  valores  supostamente de origem não comprovada representados por pagamentos de cartões de crédito;  ­  que  o  auto  de  infração  entendeu  como  fato  gerador  do  imposto  de  renda  despesas com cartão de crédito, que não constitui, evidentemente, base imponível de tributação  do imposto de renda, nos precisos termos do art. 43 do Código Tributário Nacional;  ­  que  inadmitida  a  preliminar  argüida,  que  pugna  pela  improcedência  da  exigência fiscal, o que se concebe apenas para dizer que, quanto ao mérito, melhor sorte não é  reservada ao lançamento constante do auto de infração lavrado contra o Impugnante;  ­ que de largada deve ser dito ao culto julgador — veja a declaração de bens e  rendimentos acostado ao processo ­ que o montante cobrado (R$359.116,03) do Impugnante,  através do auto de infração, extrapola sua capacidade contributiva, constituindo­se em violação  ao principio inserto no art. 145, § 1° da Constituição Federal, configurando, também, verdadeiro  confisco, o que é vedado pelo texto constitucional;  Fl. 83DF CARF MF Emitido em 14/09/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN     6 ­  que,  cumpre  esclarecer,  ao  culto  julgador,  a  bem  da  verdade,  que  o  Impugnante é sócio cotista da empresa Importadora Belmiro's Ltda.;  ­  que  a  Importadora Belmiro's Ltda.  a partir  do  segundo semestre de 2003,  entrou  em  um  processo  de  dificuldades  financeiras,  enfrentando  a  partir  dai,  uma  série  de  protestos  de  títulos  de  crédito  de  sua  responsabilidade,  seguidos  de  execuções  de  credores  comerciais, trabalhistas e tributários;  ­  que  as  dificuldades  se  agravaram  nos  meses  seguintes,  recorrendo  a  Empresa como única saída, pedir a decretação de sua concordata preventiva, que se consumou  em  04/03/04,  através  da  sentença  do  Exmo.  Sr. Dr.  Juiz  da  3  a Vara Cível  da Comarca  de  Manaus. (doc. 03);  ­  que melhor explicando,  realizado o depósito bancário na conta corrente do  Impugnante,  as  compras  eram  feitas  através  de  cartões  de  crédito  e  o  valor  daquelas  eram  levadas a débito da conta corrente do lmpugnante;  ­ que assim procedia o  Impugnante, porque a empresa Importadora Belmiros,  encontrando­se  em  regime  de  concordata,  perdeu  integralmente  o  crédito  na  praça  e  os  fornecedores  negavam­lhe  fornecer  mercadorias  a  prazo.  O meio  de  sobrevivência  para  sua  empresa,  encontrado  pelo  Impugnante,  foi  passar  a  adquirir  as  mercadorias  necessárias  à  continuidade  das  atividades  comerciais,  utilizando­se  de  cartões  de  crédito  pessoais,  com  pagamento parcelado, das compras de mercadorias;  ­  que  como  explicitado,  os  valores  despendidos,  na  verdade,  pertenciam  a  Importadora  Belmiro's  Ltda.  e  foram  utilizados  no  pagamento  de  obrigações  da  referida  Empresa, não constituindo, portanto, rendimento do Impugnante;  ­  que  a  lógica  nos  leva  a  admitir  a  afirmativa, uma  vez  que  com  a  situação  patrimonial  que  ostenta  o  Impugnante  não  poderia  jamais  suportar  como  despesa  pessoal  o  montante apurado pelo Fisco, no ano calendário de 2005;  ­  que,  assim,  o  impugnante  protesta  por  apresentar  posteriormente  a  esta  Impugnação,  cópias  dos  cheques  (já  solicitadas  ao  Bradesco)  que  emitiu,  representativos  de  receita  da  Importadora  Belmiro's  Ltda.  e  utilizados  no  pagamento  de  obrigações  comerciais  desta.  Após  resumir  os  fatos  constantes  da  autuação  e  as  principais  razões  apresentadas pelo  impugnante a Quinta Turma da Delegacia da Receita Federal  do Brasil de  Julgamento  em  Belém  ­  PA  conclui  pela  procedência  da  ação  fiscal  e  pela manutenção  do  crédito tributário, com base nas seguintes considerações:   ­ que em sede de preliminar alega o impugnante "que não pode prosperar a  exigência contida no auto de  infração, vez que a  situação fática ali descrita — despesas com  cartão de crédito — não constitui  fato  gerador do  imposto  de  renda'',  no  entanto, não é essa  realidade  que  depreende  do  auto  de  infração.  A  tributação  incidiu  sobre  a  renda  omitida.  0  levantamento de acréscimo patrimonial não justificado, por meio do Demonstrativo Mensal de  Evolução Patrimonial é forma indireta de apuração de rendimentos omitidos, na qual os gastos  com cartão de crédito,  assim como outras  rubricas,  foram consideradas dispêndio/aplicações.  fl.  14,  que  diminuídos  dos  recursos/origens  resultou  na  presumida  omissão  de  rendimentos.  Desta forma,  indefere­se a presente preliminar, pois, diferente do alegado pelo  interessado, o  que  ensejou  o  lançamento  foi:  a  presunção  legal  da  omissão  de  rendimentos,  conforme  regulamento do Imposto sobre a Renda, art. 55, XIII;  Fl. 84DF CARF MF Emitido em 14/09/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN Processo nº 10283.721202/2008­89  Acórdão n.º 2202­01.345  S2­C2T2  Fl. 4          7 ­ que de acordo com os artigos transcritos, verifica­se que o levantamento de  acréscimo  patrimonial  não  justificado,  conforme  realizado  pela  fiscalização  por  meio  do  Demonstrativo  Mensal  de  Evolução  Patrimonial,  fl.  14,  é  forma  indireta  de  apuração  dos  rendimentos  omitidos,  considerando os  dispêndios/aplicações  superiores  aos  recursos/origens  declarados,  essa  diferença  demonstrada  na  evolução  patrimonial  evidencia  a  obtenção  de  recursos não conhecidos pelo Fisco;  ­  que,  neste  caso,  cabe  A.  autoridade  lançadora  comprovar  apenas  a  existência dos dispêndios/aplicações que originaram a variação patrimonial a descoberto e ao  contribuinte o ônus de provar a origem dos recursos utilizados, pois o §1° do artigo 3° da Lei  n° 7.713/88 estabelece uma presunção legal juris tantum, ou relativa e o 'principal efeito desta  presunção legal é a  inversão do ônus da prova. Assim, verificada a ocorrência de acréscimos  patrimoniais incompatíveis com a renda declarada, é certa também a ocorrência de omissão de  rendimentos sujeitos à  tributação, cabendo ao contribuinte o ônus de provar a  irrealidade das  imputações feitas. Ausentes esses elementos de prova, resulta procedente o feito fiscal;  ­  que  realmente  o  interessado  carreia  aos  autos  cópia  do Diário  Oficial  do  Estado do Amazonas,  de 29 de março de 2004, onde  foi publicada a  sentença que deferiu  o  pedido de concordata da empresa Importadora Belmiro's Ltda., fls. 50/52. Agora por ocasião da  impugnação  tenta  justificar  gastos  de  cartão  de  crédito  realizados  em  2005  ­  objeto  da  ação  fiscal ­ com operações realizadas "Antes que fosse decretada a concordata preventiva". Ora, se  a  concordata  "se  consumou  em  04/03/04"  e  as  operações  alegadas  ocorreram  antes  da  concordata então tais alegações não se referem ao ano­calendário litigioso, 2005;  ­  que,  ademais,  não  se  pode  olvidar  que  o  patrimônio  dos  sócios  não  se  confunde  com  o  patrimônio  da  pessoa  jurídica,  esse  comando  basilar  está  contido,  por  exemplo, na Resolução do Conselho Federal de Contabilidade n° 750/93 e atualizações quando  discorre sobre o principio da Entidade;  ­ que no que diz respeito ao "efeito de confisco" da multa, tem­se a esclarecer  que o debate sobre qual critério ou percentual seria seguro para que a multa de oficio não afete  o direito de propriedade, seja adequada, proporcional e não confiscatória, não será feita neste  voto,  pois  este  Órgão  Julgador  não  tem  competência  para  afastar  normas  presumidamente  constitucionais,  que  fundamentaram  o  Auto  de  Infração.  Ademais,  para  evitar  o  debate  acadêmico, estranho aos fins do Processo Administrativo Fiscal ­ PAF, não se pode olvidar que  as normas constitucionais que versam sobre essas matérias são dirigidas ao legislador, que ao  elaborar as leis deve observar, entre outros princípios, a capacidade contributiva e não pode dar  ao tributo a conotação de confisco;  ­ que nesta altura já é possível afirmar que o lançamento tributário não feriu  os  princípios  do  direito  citados  na  argumentação  do  contribuinte,  principalmente  o  da  legalidade, exaustivamente demonstrado ao se citar a legislação tributária em paralelo aos fatos  analisados e o da  segurança  jurídica,  pois além da  atividade da Administração Tributária  ter  sido pautada pelas regras do direito ­ anteriormente estabelecidas e de conhecimento de todos ­  a  própria  ação  fiscal  se  caracterizou  por  uma  sucessão  de  atos  comunicacionais  com  o  contribuinte,  demonstrada  pela  ciência  do  Termo  de  Inicio  de  Fiscalização  e  Solicitação  de  Documentos em 13 de março de 2008, fls. 09/10. No dia 31 de março de 2008 foi deferido o  pedido feito pelo contribuinte para "prorrogação de prazo para mais 20 dias", fl. 11.  As ementas que consubstanciam a presente decisão são as seguintes:  Fl. 85DF CARF MF Emitido em 14/09/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN     8 ASSUNTO:  IMPOSTO  SOBRE  A  RENDA DE  PESSOA  FÍSICA  ­  IRPF  Ano­calendário: 2005  IRPF.  ACRÉSCIMO PATRIMONIAL  A  DESCOBERTO.  ÔNUS  DA PROVA.  1.Constitui  rendimento  bruto  sujeito  ao  imposto  de  renda  a  quantia correspondente a acréscimo patrimonial quando esse não  for  justificado pelos  rendimentos  tributáveis,  não­tributáveis  ou  por rendimentos tributados exclusivamente na fonte, apurado por  meio  do  confronto  entre os  recursos e os  dispêndios  realizados  pelo  contribuinte.  2.  Em  razão  da  presunção  legal,  o  ônus'  da  prova  é  do  contribuinte,  cabe  a  ele  a  prova  da  origem  dos  recursos informados para acobertar seus dispêndios gerais.  MULTA  DE  OFÍCIO.  JUROS  DE  MORA.  EFEITO  CONFISCATORIO. PAF. JULGADOR ADMINISTRATIVO.  O Processo Administrativo Fiscal não é o palco apropriado para  discussão sobre qual critério ou percentual seria mais seguro para  que a multa de oficio e os juros de mora não afetem o direito de  propriedade.  A  norma  que  veda  a  instituição  de  tributo  com  caráter  confiscatório  é  dirigida  ao  legislador,  cabendo  aos  julgadores administrativos examinar a validade jurídica dos atos  praticados  pelos  agentes do Fisco,  sem perscrutar da  legalidade  ou  constitucionalidade  das  normas  que  fundamentam  aqueles  atos.  IRRF. AUSÊNCIA DE PROVAS.  Para desconstituir a pretensão do Fisco é imprescindível que as  alegações  contrárias  ao  lançamento  venham  acompanhada,  oportunamente, de provas consistentes, de forma a não deixarem  dúvidas da fidedignidade dos fatos alegados.  PROCEDIMENTO  FISCAL.  PRINCÍPIO  DA  SEGURANÇA  JURÍDICA.  Não há que se falar em afronta ao principio da segurança jurídica  se a atividade fiscal se manteve nos trilhos da legalidade e emitiu  sucessivos  atos  comunicacionais  com  o  contribuinte  antes  de  lavrar o lançamento tributário.  Impugnação Improcedente.  Cientificado  da  decisão  de  Primeira  Instância,  em  15/12/2010,  conforme  Termo  constante  às  fls.  60/61,  e,  com  ela  não  se  conformando,  o  contribuinte  interpôs,  em  tempo hábil  (05/01/2011), o  recurso voluntário de fls. 63/69, no qual demonstra  irresignação  contra  a  decisão  supra,  baseado,  em  síntese,  nas  mesmas  razões  expendidas  na  fase  impugnatória.  É o relatório.  Fl. 86DF CARF MF Emitido em 14/09/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN Processo nº 10283.721202/2008­89  Acórdão n.º 2202­01.345  S2­C2T2  Fl. 5          9 Voto              Conselheiro Nelson Mallmann, Relator  O  presente  recurso  voluntário  reúne  os  pressupostos  de  admissibilidade  previstos  na  legislação  que  rege  o  processo  administrativo  fiscal  e  deve,  portanto,  ser  conhecido por esta Turma de Julgamento.  Da  análise  preliminar  da  matéria,  verifica­se  que  a  autoridade  lançadora  entendeu  haver  omissão  de  rendimentos  diante  da  constatação  de  variação  patrimonial  a  descoberto,  apurado  através  de  “fluxo  financeiro”,  onde  se  verificou  excesso  de  aplicações  sobre  as  origens,  não  respaldados  por  recursos  com  origem  declarada  e/ou  comprovada  (tributados, não tributáveis ou tributados exclusivamente na fonte).  É de se ressaltar, que resta claro, nos demonstrativos contidos nos autos, que  o acréscimo patrimonial a descoberto tem origem, principalmente, nos gastos efetuados através  de cartões de crédito, conforme valores informados pelas instituições financeiras operadas pelo  recorrente  e  diante  do  fato  de  que  a  soma  dos  rendimentos  declarados  e  não  declarado  na  Declaração de Ajuste Anual do Imposto de Renda da Pessoa Física, do exercício de 2006, ano­ calendário  de  2005,  são  insuficientes  para  dar  suporte  aos  gastos/dispêndios  incorridos,  configurou­se a ocorrência de acréscimo patrimonial a descoberto durante o ano­calendário de  2005, conforme se verifica no Demonstrativo de Variação Patrimonial Mensal, caracterizando,  assim, omissão de rendimentos.   A  autoridade  julgadora  de  primeira  instância  resolveu  julgar  procedente  o  lançamento,  por  entender  que  o  contribuinte  não  logrou  comprovar  a  origem  dos  recursos  utilizados para satisfazer os dispêndios realizados no ano­calendário questionado.  Inconformado,  em  virtude  de  não  ter  logrado  êxito  na  instância  inicial,  o  contribuinte  apresenta  a  sua  peça  recursal  a  este  E.  Conselho  Administrativo  de  Recursos  Fiscais pleiteando a reforma da decisão prolatada na Primeira Instância onde se insurge contra  o  lançamento  mantido  pela  autoridade  julgadora,  argüindo  inicialmente  a  preliminar  de  nulidade do lançamento e, no mérito, tece considerações sobre a impossibilidade de se tributar  por  mera  presunção,  já  que  entende  que  as  variações  patrimoniais  a  descoberto  somente  surgiram  diante  do  fato  da  autoridade  lançadora  ter  computado,  para  este  fim,  os  valores  oriundos de gastos com cartão de crédito, que na verdade foram gastos pela empresa da qual é  sócio.   Desta  forma,  a  discussão  neste  colegiado  se  prende,  tão  somente,  sobre  acréscimo patrimonial a descoberto, previsto no § 1º do artigo 3º da Lei nº. 7.713, de 1988.  Quanto à preliminar de nulidade argüida, sob o entendimento de que de que  houve,  em  síntese,  ofensa  ao  princípio  constitucional  do  contraditório  e  ampla  defesa,  assegurado no art. 5º,  inciso LV, da Constituição Federal de 1988, por discordar, em síntese,  dos procedimentos adotados pela fiscalização para lavratura do presente Auto de infração, é de  se dizer que não tem razão o suplicante, pelos motivos que se seguem.  Fl. 87DF CARF MF Emitido em 14/09/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN     10 Entendo,  que  o  procedimento  fiscal  realizado  pelo  agente  do  fisco  foi  efetuado dentro da estrita legalidade, com total observância ao Decreto n° 70.235, de 1972, que  regula o Processo Administrativo Fiscal  (é o único que se  tem em matéria  tributária), não se  vislumbrando,  no  caso  sob  análise,  qualquer  ato  ou  procedimento  que  tenha  violado  ou  subvertido o princípio do devido processo legal.  Resta  claro,  no  desenvolvimento  do  procedimento  fiscal,  que  os  demonstrativos esclarecem de maneira convincente a origem dos valores que tomaram parte do  demonstrativo de apuração do acréscimo patrimonial a descoberto questionado.  Ora, é dever do contribuinte  informar e,  se  for o caso, comprovar os dados  nos  campos  próprios  das  correspondentes  declarações  de  rendimentos  e,  conseqüentemente,  calcular  e  pagar  o montante  do  imposto  apurado,  por  outro  lado,  cabe  a  autoridade  fiscal  o  dever  da  conferência  destes  dados.  Assim,  na  ausência  de  comprovação,  por  meio  de  documentação hábil e idônea, das deduções realizadas na base de cálculo do imposto de renda,  é  dever  de  a  autoridade  fiscal  efetuar  a  sua  glosa  e  constituir  o  lançamento  para  efetuar  a  cobrança deste crédito tributário apurado.   O princípio da verdade material  tem por escopo, como a própria expressão  indica, a busca da verdade real, verdadeira, e consagra, na realidade, a liberdade da prova, no  sentido  de  que  a Administração  possa  valer­se  de  qualquer meio  de  prova  que  a  autoridade  processante ou julgadora tome conhecimento, levando­as aos autos, naturalmente, e desde que,  obviamente  dela  dê  conhecimento  às  partes;  ao  mesmo  tempo  em  que  deva  reconhecer  ao  contribuinte  o  direito  de  juntar  provas  ao  processo  até  a  fase  de  interposição  do  recurso  voluntário.  O Decreto n.º 70.235, de 1972, em seu artigo 9º, define o auto de infração e a  notificação  de  lançamento  como  instrumentos  de  formalização  da  exigência  do  crédito  tributário, quando afirma:  A  exigência  do  crédito  tributário  será  formalizado  em  auto  de  infração ou notificação de lançamento distinto para cada tributo  Com nova redação dada pelo art. 1º da Lei n.º 8.748/93:  A exigência de crédito tributário, a retificação de prejuízo fiscal  e a aplicação de penalidade isolada serão formalizados em autos  de  infração ou  notificações  de  lançamento,  distintos para  cada  imposto,  contribuição  ou  penalidade,  os  quais  deverão  estar  instruídos  com  todos  os  termos,  depoimentos,  laudos  e  demais  elementos de prova indispensáveis à comprovação do ilícito.  O  auto  de  infração  e  a  notificação  de  lançamento  por  constituírem  peças  básicas na sistemática processual tributária, a lei estabeleceu requisitos específicos para a sua  lavratura e expedição, sendo que a sua lavratura tem por fim deixar consignado a ocorrência de  uma ou mais infrações à legislação tributária, seja para o fim de apuração de um crédito fiscal,  seja com o objetivo de neutralizar, no todo ou em parte, os efeitos da compensação de prejuízos  a que o contribuinte tenha direito, e a falta do cumprimento de forma estabelecida em lei torna  inexistente  o  ato,  sejam  os  atos  formais  ou  solenes.  Se  houver  vício  na  forma,  o  ato  pode  invalidar­se.  Ora, não procede à nulidade do lançamento suscitada sob o argumento de que  o auto de infração não foi  lavrado dentro dos parâmetros exigidos pelo art. 10 do Decreto nº.  Fl. 88DF CARF MF Emitido em 14/09/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN Processo nº 10283.721202/2008­89  Acórdão n.º 2202­01.345  S2­C2T2  Fl. 6          11 70.235, de 1972, ou seja, que a sua lavratura foi efetuada de forma a prejudicar a ampla defesa  e não define com exatidão o fato gerador do imposto de renda lançado..   Com a devida vênia, o Auto de Infração foi lavrado tendo por base os valores  constantes em documentos oficiais enviados pelas instituições financeiras envolvidas, bem com  a  própria  declaração  de  rendimentos  do  suplicante,  onde  consta  de  forma  clara  que  houve  omissão  de  rendimentos,  devidamente  individualizados  e  detalhados  nos  relatórios,  que  são  partes  integrantes  do  Auto  de  Infração,  sendo  que  o  mesmo,  identifica  por  nome  e  CPF  o  autuado,  esclarece  onde  foi  lavrado,  cuja  ciência  foi  por  AR  e  descreve  a  irregularidade  praticada  e  o  seu  enquadramento  legal  assinado  pelo  Auditor­Fiscal  da  Receita  Federal  do  Brasil,  cumprindo  o  disposto  no  art.  142  do  Código  Tributário  Nacional,  ou  seja,  o  ato  é  próprio do agente administrativo investido no cargo de Auditor­Fiscal.  Não  tenho  dúvidas,  que  o  excesso  de  formalismo,  a  vedação  à  atuação  de  ofício do julgador na produção de provas e a declaração de nulidades puramente formais são  exemplos possíveis de serem extraídos da prática forense e estranhos ao ambiente do processo  administrativo fiscal.  A etapa contenciosa caracteriza­se pelo aparecimento formalizado no conflito  de interesses, isto é, transmuda­se a atividade administrativa de procedimento para processo no  momento  em  que  o  contribuinte  registra  seu  inconformismo  com  o  ato  praticado  pela  administração,  seja ato de  lançamento de  tributo ou qualquer outro ato que, no seu entender,  causa­lhe  gravame  com  a  aplicação  de  multa  por  suposto  não­cumprimento  de  dever  instrumental.  Assim,  a  etapa  anterior  à  lavratura  do  auto  de  infração  e  ao  processo  administrativo fiscal, constitui efetivamente uma fase inquisitória, que apesar de estar regrada  em  leis  e  regulamentos,  faculta  à  Administração  a  mais  completa  liberdade  no  escopo  de  flagrar a ocorrência do fato gerador. Nessa fase não há contraditório, porque o fisco está apenas  coletando  dados  para  se  convencer  ou  não  da  ocorrência  do  fato  imponível  ensejador  da  tributação.  Não  há,  ainda,  exigência  de  crédito  tributário  formalizada,  inexistindo,  conseqüentemente, resistência a ser oposta pelo sujeito fiscalizado.  O  lançamento,  como  ato  administrativo  vinculado,  celebra­se  com  estrita  observância dos pressupostos estabelecidos pelo art. 142 do Código Tributário Nacional, cuja  motivação deve estar apoiada estritamente na lei, sem a possibilidade de realização de um juízo  de  oportunidade  e  conveniência  pela  autoridade  fiscal.  O  ato  administrativo  deve  estar  consubstanciado  por  instrumentos  capazes  de  demonstrar,  com  segurança  e  certeza,  os  legítimos  fundamentos  reveladores  da  ocorrência  do  fato  jurídico  tributário.  Isso  tudo  foi  observado  quando  da  determinação  do  tributo  devido,  através  do Auto  de  Infração  lavrado.  Assim, não há como pretender premissas de nulidade do auto de infração, nas formas propostas  pelo  recorrente,  neste  processo,  já  que  o  mesmo  preenche  todos  os  requisitos  legais  necessários.   Nunca  é demais  lembrar,  que  até a  interposição  da  peça  impugnatória pelo  contribuinte,  o  conflito  de  interesses  ainda  não  está  configurado.  Os  atos  anteriores  ao  lançamento  referem­se  à  investigação  fiscal  propriamente  dita,  constituindo­se  medidas  preparatórias  tendentes a definir a pretensão da Fazenda. Ou seja, são simples procedimentos  que tão­somente poderão conduzir a constituição do crédito tributário.  Fl. 89DF CARF MF Emitido em 14/09/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN     12 Na fase procedimental não há que se falar em contraditório ou ampla defesa,  pois  não  há  ainda, qualquer  espécie de pretensão  fiscal  sendo exigida  pela Fazenda Pública,  mas  tão­somente  o  exercício  da  faculdade  da  administração  tributária  em  verificar  o  fiel  cumprimento  da  legislação  tributária  por  parte  do  sujeito  passivo.  O  litígio  só  vem  a  ser  instaurado a partir da impugnação tempestiva da exigência, na chamada fase contenciosa, não  se podendo cogitar de preterição do direito de defesa antes de materializada a própria exigência  fiscal por intermédio de auto de infração ou notificação do lançamento.  Assim,  após  a  impugnação,  oportuniza­se  ao  contribuinte  a  contestação  da  exigência fiscal. A partir daí, instaura­se o processo, ou seja, configura­se o litígio.  Ora,  não  há  como  negar  que  a  irregularidade  apontada  pela  autoridade  lançadora  esta  devidamente  caracterizadas  e  compreendidas  pelo  suplicante,  tanto  é  verdade  que a mesma contestou o referido auto de  infração de forma a não deixar dúvidas quanto ao  perfeito  conhecimento  dos  fatos,  através  da  Impugnação.  Portanto,  o  fundamental  é  que  o  contribuinte  tenha  tomado  ciência  do  presente  auto  de  infração,  e  tenha  exercido  de  forma  plena,  dentro  do  prazo  legal,  o  seu  direito  de  defesa  e  oportunidade  para  apresentar  dos  documentos comprobatórios de suas alegações.   Enfim, no caso dos autos, a autoridade lançadora cumpriu todos os preceitos  estabelecidos  na  legislação  em  vigor  e  o  lançamento  foi  efetuado  com  base  em  dados  reais  sobre  o  suplicante,  conforme  se  constata  nos  autos,  com  perfeito  embasamento  legal  e  tipificação da infração cometida. Como se vê, não procede à situação conflitante alegada pelo  recorrente,  ou  seja,  não  se  verificam,  por  isso,  os  pressupostos  exigidos  que  permitam  a  declaração de nulidade do Auto de Infração.  Da análise do mérito se verifica que a autoridade lançadora constatou, através  do levantamento de entradas e saídas de recursos – fluxo financeiro (“fluxo de caixa”), que o  contribuinte  apresentou,  durante  o  ano­calendário  de  2005,  saldos  negativos,  representando  desta  forma  presunção  de  omissão  de  rendimentos,  já  que  consumia/aplicava  mais  do  que  possuía de recursos com origem justificada, através de rendimentos tributados, não tributáveis,  isentos, tributados exclusivamente na fonte, ou que provinham de empréstimos, etc.  Não  há  dúvidas,  nos  autos,  de  que  o  suplicante  foi  tributado  diante  da  constatação  de  omissão  de  rendimentos,  pelo  fato  do  fisco  ter  verificado,  através  do  levantamento  mensal  de  origens  e  aplicações  de  recursos,  que  o  mesmo  apresentava  “um  acréscimo patrimonial a descoberto”, “saldo negativo mensal”, ou seja, aplicava e/ou consumia  mais do que possuía de recursos com origem justificada.    Sobre este “acréscimo patrimonial a descoberto”, “saldo negativo” cabe tecer  algumas considerações.   Sempre  que  se  apura  de  forma  inequívoca  um  acréscimo  patrimonial  a  descoberto, na acepção do termo, é lícito à presunção de que tal acréscimo foi construído com  recursos não indicados na declaração de rendimentos do contribuinte.   A situação patrimonial do contribuinte é medida em dois momentos distintos.  No início do período considerado e no seu final, pela apropriação dos valores constantes de sua  declaração  de  bens. O  eventual  acréscimo na  situação  patrimonial  constatado  na  posição  do  final  do  período  em  comparação  da  mesma  situação  no  seu  início  é  considerado  como  acréscimo patrimonial. Para haver equilíbrio fiscal deve corresponder, tal acréscimo (que leva  em  consideração  os  bens,  direitos  e  obrigações  do  contribuinte)  deve  estar  respaldado  em  Fl. 90DF CARF MF Emitido em 14/09/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN Processo nº 10283.721202/2008­89  Acórdão n.º 2202­01.345  S2­C2T2  Fl. 7          13 rendimentos  auferidos  (tributadas,  não  tributáveis,  isentas  ou  tributadas  exclusivamente  na  fonte) e/ou empréstimos, etc.  No  caso  em  questão,  a  tributação  não  decorreu  do  comparativo  entre  as  situações  patrimoniais  do  contribuinte  ao  final  e  início  do  período,  ou  seja,  na  acepção  do  termo  “acréscimo  patrimonial”.  Portanto,  não  pode  ser  tratada  como  simples  acréscimo  patrimonial. Desta forma, não há que se falar de acréscimo patrimonial a descoberto apurado  na declaração anual de ajuste.  Vistos esses fatos, cabe mencionar a definição do fato gerador da obrigação  tributária  principal  que  é  a  situação  definida  em  lei  como  necessária  e  suficiente  à  sua  ocorrência (art. 114 do CTN).  Esta  situação  é  definida  no  art.  43  do  Código  Tributário  Nacional,  como  sendo  a  aquisição  de  disponibilidade  econômica  ou  jurídica  de  renda  ou  de  proventos  de  qualquer natureza, que no caso em pauta é a omissão de rendimentos.  Ocorrendo  o  fato  gerador,  compete  à  autoridade  administrativa  constituir  o  crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a  verificar  a  ocorrência  do  fato  gerador  da  obrigação  correspondente,  determinar  a  matéria  tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo o caso,  propor a aplicação da penalidade cabível (CTN, art. 142).  Ainda, segundo o parágrafo único, deste artigo, a atividade administrativa do  lançamento é vinculada, ou seja, constitui procedimento vinculado à norma legal. Os princípios  da legalidade estrita e da tipicidade são fundamentais para delinear que a exigência tributária se  dê exclusivamente de acordo com a lei e os preceitos constitucionais.  Assim, o imposto de renda somente pode ser exigido se efetivamente ocorrer  o fato gerador, ou o lançamento será constituído quando se constatar que concretamente houve  a disponibilidade econômica ou jurídica de renda ou de proventos de qualquer natureza.  Desta  forma,  podemos  concluir  que  o  lançamento  somente  poderá  ser  constituído  a  partir  de  fatos  comprovadamente  existentes,  ou  quando  os  esclarecimentos  prestados  forem  impugnados  pelos  lançadores  com  elemento  seguro  de  prova  ou  indício  veemente de falsidade ou inexatidão.  Ora, se o fisco faz prova, através de demonstrativos de origens e aplicações  de  recursos  ­  fluxo  financeiro,  que  a  recorrente  efetuou  gastos  além  da  disponibilidade  de  recursos declarados, é evidente que houve omissão de rendimentos e esta omissão deverá ser  apurada no mês em que ocorreu o fato.   Diz a norma legal que rege o assunto:  Lei n.º 7.713, de 1988:  Artigo  1º  ­  Os  rendimentos  e  ganhos  de  capital  percebidos  a  partir de 1º de janeiro de 1989, por pessoas físicas residentes ou  domiciliadas  no Brasil  serão  tributados  pelo  Imposto  de  renda  na  forma  da  legislação  vigente,  com  as  modificações  introduzidas por esta Lei.  Fl. 91DF CARF MF Emitido em 14/09/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN     14 Artigo 2º ­ O Imposto de Renda das pessoas físicas será devido,  mensalmente, à medida que os rendimentos e ganhos de capital  forem percebidos.  Artigo  3º  ­  O  Imposto  incidirá  sobre  o  rendimento  bruto,  sem  qualquer  dedução,  ressalvando  o  disposto  nos  artigos  9º  a  14  desta Lei.  § 1º. Constituem rendimento bruto todo o produto do capital, do  trabalho,  ou  da  combinação  de  ambos,  os  alimentos  e  pensões  percebidos  em  dinheiro,  e  ainda  os  proventos  de  qualquer  natureza,  assim  também entendidos  os  acréscimos  patrimoniais  correspondentes aos rendimentos declarados.  Lei n.º 8.134, de 1990:  Art. 1º ­ A partir do exercício­financeiro de 1991, os rendimentos  e ganhos de capital percebidos por pessoas físicas residentes ou  domiciliadas no Brasil  serão  tributados pelo  Imposto de Renda  na  forma  da  legislação  vigente,  com  as  modificações  introduzidas por esta Lei.  Art. 2º ­ O Imposto de Renda das pessoas  físicas será devido à  medida  que  os  rendimentos  e  ganhos  de  capital  forem  percebidos, sem prejuízo do ajuste estabelecido no artigo 11.  (...).  Art. 4º  ­ Em relação aos  rendimentos percebidos a partir de 1º  de janeiro de 1991, o imposto de que trata o artigo 8º da Lei n.º  7.713, de 1988:  I  ­  será  calculado  sobre os  rendimentos  efetivamente  recebidos  no mês.  Lei n.º 8.021, de 1990:  Art. 6º ­ O lançamento de ofício, além dos casos já especificados  em  lei,  far­se­á  arbitrando  os  rendimentos  com  base  na  renda  presumida, mediante utilização dos sinais exteriores de riqueza.  §  1º  ­  Considera­se  sinal  exterior  de  riqueza  a  realização  de  gastos incompatíveis com a renda disponível do contribuinte.  §  2º  ­  Constitui  renda  disponível  a  receita  auferida  pelo  contribuinte,  diminuída  dos  abatimentos  e  deduções  admitidos  pela  legislação do Imposto de Renda em vigor e do Imposto de  Renda pago pelo contribuinte.  Como  se depreende da  legislação, anteriormente mencionada,  o  imposto de  renda das pessoas físicas será apurado mensalmente, à medida que os rendimentos e ganhos de  capital  forem  percebidos,  já  que  com  a  edição  da  Lei  n.º  8.134,  de  1990,  que  introduziu  a  declaração  anual  de  ajuste  para  efeito  de  apuração  do  imposto  devido  pelas  pessoas  físicas,  tanto  o  imposto  devido  como  o  saldo  do  imposto  a  pagar  ou  a  restituir,  passaram  a  ser  determinados  anualmente,  donde  se  conclui  que  o  recolhimento  mensal  passou  a  ser  considerado como antecipação do devido e não como pagamento definitivo.  Nesta  altura  deve  ser  esclarecido,  que  os  fatos  geradores  das  obrigações  tributárias  são  classificados  como  instantâneos  ou  complexivos.  O  fato  gerador  instantâneo,  Fl. 92DF CARF MF Emitido em 14/09/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN Processo nº 10283.721202/2008­89  Acórdão n.º 2202­01.345  S2­C2T2  Fl. 8          15 como  o  próprio  nome  revela,  dá  nascimento  à  obrigação  tributária  pela  ocorrência  de  um  acontecimento, sendo este suficiente por si só (imposto de renda na fonte). Em contraposição,  os  fatos  geradores  complexivos  são  aqueles  que  se  completam  após  o  transcurso  de  um  determinado  período  de  tempo  e  abrangem  um  conjunto  de  fatos  e  circunstâncias  que,  isoladamente  considerados,  são  destituídos  de  capacidade  para  gerar  a  obrigação  tributária  exigível. Este conjunto de fatos se corporifica, depois de determinado lapso temporal, em um  fato imponível. Exemplo clássico de tributo que se enquadra nesta classificação de fato gerador  complexivo é o imposto de renda da pessoa física, apurado no ajuste anual.  Aliás, a despeito da inovação introduzida pelo artigo 2° da Lei n° 7.713, de  1988,  pelo  qual  se  estipulou  que  “o  imposto  de  renda  das  pessoas  físicas  será  devido,  mensalmente, à medida que os  rendimentos e ganhos de capital  forem recebidos”, há que se  ressaltar a relevância dos arts. 24 e 29 deste mesmo diploma legal e dos arts. 12 e 13 da Lei n°  8.383,  de  1991 mantiveram  o  regime de  tributação  anual  (fato  gerador  complexivo)  para  as  pessoas físicas.  É de se observar, que para as  infrações relativas à omissão de rendimentos,  tem­se que, embora as quantias sejam recebidas mensalmente, o valor apurado será acrescido  aos  rendimentos  tributáveis  na  Declaração  de  Ajuste Anual,  submetendo­se  à  aplicação  das  alíquotas constantes da tabela progressiva anual. Portanto, no presente caso, não há que se falar  de fato gerador mensal, haja vista que somente no dia 31/12 de cada ano se completa o  fato  gerador complexivo objeto da autuação em questão.   Em relação ao cômputo mensal do fato gerador, é de se observar que a Lei nº.  7.713,  de  1988,  instituiu,  com  relação  ao  imposto  de  renda  das  pessoas  físicas,  a  tributação  mensal à medida que os rendimentos forem auferidos. Contudo, embora devido mensalmente,  quando  o  sujeito  passivo  deve  apurar  e  recolher  o  imposto  de  renda,  o  seu  fato  gerador  continuou sendo anual. Durante o decorrer do ano­calendário o contribuinte antecipa, mediante  a retenção na fonte ou por meio de pagamentos espontâneos e obrigatórios, o imposto que será  apurado  em  definitivo  quando  da  apresentação  da Declaração  de Ajuste Anual,  nos  termos,  especialmente, dos artigos 9º e 11 da Lei nº. 8.134, de 1990. É nessa oportunidade, que o fato  gerador  do  imposto  de  renda  estará  concluído.  Por  ser  do  tipo  complexivo,  segundo  a  classificação doutrinária, o fato gerador do imposto de renda surge completo no último dia do  exercício  social.  Só  então  o  contribuinte  pode  realizar  os  devidos  ajustes  de  sua  situação  de  sujeito  passivo,  considerando  os  rendimentos  auferidos,  as  despesas  realizadas,  as  deduções  legais  por  dependentes  e  outras,  as  antecipações  feitas  e,  assim,  realizar  a  Declaração  de  Imposto de Renda a ser submetida à homologação do Fisco.  Ora,  a  base  de  cálculo  da  declaração  de  rendimentos  abrange  todos  os  rendimentos  tributáveis  recebidos  durante  o  ano­calendário.  Desta  forma,  o  fato  gerador  do  imposto  apurado  relativamente  aos  rendimentos  sujeitos  ao  ajuste  anual  se  perfaz  em  31  de  dezembro de cada ano.  Nesse  contexto,  deve­se  atentar  com  relação  ao  caso  em  concreto  que,  embora a autoridade lançadora tenha discriminado o mês do fato gerador, o que se considerou  para  efeito  de  tributação  foi  o  total  de  rendimentos  percebidos  pelo  interessado  no  ano­ calendário em questão sujeitos à tributação anual, conforme legislação vigente.  É  certo  que  a  Lei  n.º  7.713,  de  1988,  determinou  a  obrigatoriedade  da  apuração mensal do  imposto sobre a renda das pessoas físicas, não  importando a origem dos  Fl. 93DF CARF MF Emitido em 14/09/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN     16 rendimentos nem a natureza jurídica da fonte pagadora, se pessoa jurídica ou física. Como o  imposto era apurado mensalmente, as pessoas físicas tinham o dever de cumprir sua obrigação  com base nessa apuração, o que vale dizer, seu fato gerador era mensal, regra que teve vigência  plena, somente, no ano de 1989.   Entretanto, a partir do ano de 1990, não é possível  exigir do contribuinte o  pagamento  mensal  do  imposto  de  renda,  ainda  que  a  fonte  pagadora  não  tenha  cumprido  o  dever  legal de efetuar a retenção do  imposto por antecipação do da declaração. Sem dúvidas  que  o  imposto  de  renda  na  fonte  e  o  imposto  de  renda  recolhido  na  forma de  “carnê­leão”,  apesar da denominação de imposto devido mensalmente, representam simples antecipações do  imposto efetivamente apurado na declaração de ajuste anual.   Desse modo, o imposto devido, a partir do período base de 1990, passou a ser  determinado mediante a aplicação da tabela progressiva sobre a base de cálculo apurada com a  inclusão de todos os  rendimentos de que trata o art. 10 da Lei n.º 8.134, de 1990, e o saldo a  pagar ou a restituir, mediante a dedução do imposto retido na fonte ou pago pelo contribuinte  pessoa física, mensalmente, quando auferisse rendimentos de outras pessoas físicas.  Relevante  observar,  que  a  obrigatoriedade  do  recolhimento  mensal  nasceu  com o advento da Lei n.º 7.713, de 1988, que introduziu na legislação do imposto de renda das  pessoas  físicas  o  sistema  de  bases  correntes.  Assim,  entendo  que  os  rendimentos  omitidos  apurados,  mensalmente,  pela  fiscalização,  a  partir  de  01/01/90,  estão  sujeita  à  tabela  progressiva anual (IN SRF n.º 46/97).  É evidente que o arbitramento da renda presumida cabe quando existe o sinal  exterior  de  riqueza  caracterizado  pelos  gastos  excedentes  da  renda  disponível,  e  deve  ser  quantificada em função destes.  Não  comungo  com  a  corrente,  que  entende  que  os  saldos  positivos  (disponibilidades)  apurados  em  um  ano  possam  ser  utilizados  no  ano  seguinte,  pura  e  simplesmente, já que é pensamento pacífico nesta Câmara que o Imposto de Renda das pessoas  físicas, a partir de 01/01/90, será apurado, mensalmente, à medida que os rendimentos e ganhos  de  capital  forem  percebidos,  incluindo­se,  quando  comprovada  pelo  Fisco,  a  omissão  de  rendimentos  apurados  através  de  planilha  financeira  onde  são  considerados  os  ingressos  e  dispêndios realizados pelo contribuinte.   Entretanto,  por  inexistir  a  obrigatoriedade  de  apresentação  de  declaração  mensal  de  bens,  incluindo  dívidas  e  ônus  reais  e  pela  inexistência  de  previsão  legal  para  se  considerar  como  renda  consumida,  o  saldo  de  disponibilidade  pode  ser  aproveitado  no mês  subseqüente, desde que seja dentro do mesmo ano­calendário.   Assim,  somente  poderá  ser  aproveitado,  no  ano  subseqüente,  o  saldo  de  disponibilidade  que  constar  na  declaração  do  imposto  de  renda  ­  declaração  de  bens,  devidamente lastreado em documentação hábil e idônea.   No  presente  caso,  a  tributação  levada  a  efeito  baseou­se  em  levantamentos  mensais de origem e aplicações de recursos (fluxo financeiro ou de caixa), onde, a princípio,  constata­se  que  houve a  disponibilidade  econômica  de  renda maior  do  que  a  declarada  pelo  suplicante, caracterizando omissão de rendimentos passíveis de tributação.  É  entendimento  pacífico,  nesta  Turma  de  Julgamento,  que  quando  a  fiscalização  promove  o  fluxo  financeiro  (“fluxo  de  caixa”)  do  contribuinte,  através  de  demonstrativos de origens e aplicações de recursos devem ser considerados todos os ingressos  Fl. 94DF CARF MF Emitido em 14/09/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN Processo nº 10283.721202/2008­89  Acórdão n.º 2202­01.345  S2­C2T2  Fl. 9          17 (entradas)  e  todos  os  dispêndios  (saídas),  ou  seja,  devem  ser  considerados  todos  os  rendimentos, retornos de investimentos e empréstimos, (já tributados, não tributáveis, isentos e  os  tributados  exclusivamente  na  fonte),  bem  como  todos  os  dispêndios/aplicações/investimentos/aquisições possíveis de se apurar, a exemplo de: despesas  bancárias, aplicações financeiras, água, luz, telefone, empregada doméstica, cartões de crédito,  juros  pagos,  pagamentos  diversos,  aquisições  de  bens  e  direitos  (móveis  e  imóveis),  etc.,  apurados  mensalmente.  Assim  sendo,  não  há  controvérsia  que  o  lançamento  foi  realizado  dentro dos parâmetros legais.   Consta de forma clara, nos autos, que o suplicante foi tributado por presunção  legal de omissão de rendimentos, caracterizado através do  levantamento mensal de origens e  aplicações  de  recursos,  onde  se  constata  um  “acréscimo  patrimonial  a  descoberto”  ­  “saldo  negativo  mensal”,  ou  seja,  o  suplicante  aplicava  e/ou  consumia  mais  do  que  possuía  de  recursos com origem justificada, sendo que nestes casos a responsabilidade pela apresentação  das provas para elidir a presunção legal compete ao contribuinte que praticou a irregularidade  fiscal.  No âmbito da teoria geral da prova, não há dúvidas de que o ônus probante,  em  princípio,  cabe  a  quem alega  determinado  fato. Mas  algumas  aferições  complementares,  por vezes, devem ser feitas, a fim de que se tenha, em cada caso concreto, a correta atribuição  do ônus da prova.  Em não  raros casos  tal atribuição do ônus da prova  resulta na exigência de  produção de prova negativa, consistente na comprovação de que algo não ocorreu, coisa que, à  evidência, não é admitida tanto pelo direito quanto pelo bom senso. Afinal, como comprovar o  não  recebimento  de  um  rendimento?  Como  evidenciar  que  um  contrato  não  foi  firmado?  Enfim, como demonstrar que algo não ocorreu?  Não  se  pode  esquecer,  que  o Direito Tributário  é  dos  ramos  jurídicos mais  afeitos a concretude, à materialidade dos fatos, e menos à sua exteriorização formal (exemplo  disso é que mesmos os rendimentos oriundos de atividades ilícitas são tributáveis).   Nesse  sentido,  é  de  suma  importância  ressaltar  o  conceito  de  provas  no  âmbito  do  processo  administrativo  tributário.  Com  efeito,  entende­se  como  prova  todos  os  meios de demonstrar a existência (ou inexistência) de um fato jurídico ou, ainda, de fornecer ao  julgador o conhecimento da verdade dos fatos.  Não há, no processo administrativo tributário, disposições específicas quanto  aos meios de prova admitidos, sendo, portanto, razoável como emprego subsidiário o Código  de Processo Civil, que dispõe:   Art.  332.  Todos  os  meios  legais,  bem  como  os  moralmente  legítimos, ainda que não especificados neste Código, são hábeis  para  provar  a  verdade  dos  fatos,  em  que  se  funda  a  ação  ou  defesa  Da  mera  leitura  deste  dispositivo  legal,  depreende­se  que  no  curso  de  um  processo,  judicial  ou  administrativo,  todas  as  provas  legais  devem  ser  consideradas  pelo  julgador como elemento de formação de seu convencimento, visando à solução legal e justa da  divergência entre as partes.  Fl. 95DF CARF MF Emitido em 14/09/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN     18 Assim,  tendo  em  vista  a  mais  renomada  doutrina,  assim  como,  a  iterativa  jurisprudência, administrativa e judicial, a respeito da questão vê­se que o processo fiscal tem  por finalidade garantir a legalidade da apuração da ocorrência do fato gerador e a constituição  do  crédito  tributário,  devendo  o  julgador  pesquisar  exaustivamente  se,  de  fato,  ocorreu  à  hipótese  abstratamente  prevista  na  norma  e,  em  caso  de  recurso  do  contribuinte,  verificar  aquilo que é realmente verdade, independentemente até mesmo do que foi alegado.  Se  de  um  lado,  o  contribuinte  tem  o  dever  de  declarar,  cabe  a  este,  não  à  administração,  a  prova  do  declarado. De  outro  lado,  se  o  declarado  não existe,  cabe  a glosa  pelo fisco. O mesmo vale quanto à formação das demais provas, as mesmas devem ser claras,  não permitindo dúvidas na formação de juízo do julgador.  Como  se  sabe,  no  caso,  em  discussão,  os  valores  apurados  nos  demonstrativos pela fiscalização caracterizam presunção legal, do tipo condicional ou relativa  (júris  tantum)  que,  embora  estabelecida  em  lei,  não  tem  caráter  de  verdade  indiscutível,  valendo enquanto prova em contrário não a vier desfazer ou mostrar sua falsidade.  Observe­se,  que  as  presunções  júris  tantum,  embora  admitam  prova  em  contrário,  dispensam  do  ônus  da  prova  aquele  a  favor  de  quem  se  estabeleceu,  cabendo  ao  sujeito passivo, no caso, a produção de provas em contrário, no sentido de ilidi­las.  O  Código  Tributário Nacional  prevê  na  distribuição  do  ônus  da  prova  nos  lançamentos  de  ofício  que  sempre  recairá  sobre  o  Fisco  o  ônus  da  comprovação  dos  fatos  constitutivos do direito de efetuar o lançamento (artigo 149, inciso IV). É ao Fisco que cabe a  comprovação da falsidade, erro ou omissão quanto a qualquer elemento definido na legislação  tributária como sendo de declaração obrigatória. Deste modo, havendo esta comprovação, ou  seja,  em  face  das  provas  produzidas  e  das  planilhas  que  atestam  o  acréscimo  patrimonial,  a  autoridade fiscal não só tem o poder de efetuar de ofício o lançamento, como também o dever.  Uma vez efetuado o demonstrativo de evolução patrimonial do Contribuinte e  apurado o  acréscimo patrimonial a descoberto  pela autoridade  fiscal  lançadora, caracterizada  está  a  ocorrência  do  fato  gerador  do  Imposto  de Renda,  nos  termos  do  art.  43,  inciso  II  do  Código Tributário Nacional. Nessa hipótese, cabe ao Contribuinte a comprovação da existência  recursos suficientes para afastar o acréscimo patrimonial a descoberto apurado, uma vez que se  opera a inversão do ônus da prova, legalmente prevista.  Esclareça­se,  mais  uma  vez,  que  os  dados  constantes  da  Declaração  de  Rendimentos e de Bens do Contribuinte  são  informações  prestadas voluntariamente,  sob  sua  responsabilidade, e estão sujeitos à comprovação, se o Fisco entender necessário. O artigo 806  do Decreto n° 3.000, de 1999, assim determina:  Art.  806.  A  autoridade  fiscal  poderá  exigir  do  contribuinte  os  esclarecimentos  que  julgar  necessários  acerca  da  origem  dos  recursos e do destino dos dispêndios ou aplicações, sempre que  as alterações declaradas importarem em aumento ou diminuição  do patrimônio (Lei n° 4.069/1962, art 51, § 1°).  Ora,  resta  claro  nos  autos  de  que  foi  verificada  omissão  de  rendimentos  devido  à  ocorrência  de  variação  patrimonial  não  respaldado  por  rendimentos  tributáveis,  isentos e não­tributáveis, tributáveis exclusivamente na fonte ou objeto de tributação definitiva  declarados.   Se o contribuinte foi autuado por acréscimo patrimonial a descoberto, através  do  levantamento  do  fluxo  financeiro.  Ou  seja,  através  da  análise  das  entradas  e  saídas  de  Fl. 96DF CARF MF Emitido em 14/09/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN Processo nº 10283.721202/2008­89  Acórdão n.º 2202­01.345  S2­C2T2  Fl. 10          19 recursos à fiscalização apurou saldo negativo. Nesta situação o suplicante fica na obrigação de  apresentar elementos comprobatórios de recursos com origem justificada para fazer frente ao  acréscimo  patrimonial  a  descoberto  apurado  pela  fiscalização,  de  nada  adianta  a  simples  alegação  de  que  se  fosse  considerado  isso  ou  aquilo  à  acusação  fiscal  não  teria  fundamento  para sua aplicação, pois, estes supostos recursos, dariam causa ao dito “acréscimo patrimonial a  descoberto apurado”.   Por fim, é de se ressaltar, que o fluxo financeiro de origens e aplicações de  recursos será apurado, mensalmente, onde serão considerados todos os ingressos e dispêndios  realizados no mês,  pelo  contribuinte. A  lei  autoriza  a presunção de omissão de  rendimentos,  desde  que  à  autoridade  lançadora  comprove  gastos  e/ou  aplicações  incompatíveis  com  os  recursos  declarados  disponíveis  (tributados,  isentos,  não  tributáveis  ou  tributados  exclusivamente na fonte).   Todas  as  informações  registradas  pelo  contribuinte  em  sua  Declaração  de  Ajuste Anual, até prova em contrário, são consideradas expressão da verdade. Por outro lado,  se o contribuinte for  intimado a fazer a comprovação dos valores lançados,  tempestivamente,  em  sua  Declaração  de  Ajuste  Anual  e/ou  Declaração  de  Bens  e  Direitos  e  não  o  fizer  é  perfeitamente justificável a glosa destes valores.   No  que  diz  respeito  à  exclusão  ou  inclusão  de  recursos,  bem  como  à  consideração de dívidas e ônus  reais no  fluxo de caixa, seria ocioso mencionar que  todos os  valores constantes da declaração de ajuste anual são passíveis de comprovação. E, no tocante a  dinheiro em espécie, doações, empréstimos ou recebimento de créditos por empréstimos junto  a terceiros ou fornecedores, os quais, eventualmente, justifiquem acréscimos patrimoniais, sua  comprovação  se  processa  mediante  observação  de  uma  conjunção  de  procedimentos  que  permitam a livre formação de convicção do julgador.  Assim, verificada a ocorrência de acréscimos patrimoniais incompatíveis com  a  renda  declarada,  é  certa  também  a  ocorrência  de  omissão  de  rendimentos  sujeitos  à  tributação,  cabendo  ao  contribuinte  o  ônus  de  provar  a  irrealidade  das  imputações  feitas.  Ausentes esses elementos de prova, resulta procedente o feito fiscal.  Da mesma forma, não cabe razão ao recorrente no que tange às alegações de  ilegalidade  / ofensas a princípios constitucionais  (razoabilidade, capacidade contributiva, não  confisco  e  juros  abusivos),  o  exame  das  mesmas  escapa  à  competência  da  autoridade  administrativa julgadora.   Há que se destacar que à autoridade fiscal cabe verificar o fiel cumprimento  da  legislação em vigor,  independentemente  de  questões  de  discordância,  pelos  contribuintes,  acerca  de  alegadas  ilegalidades/inconstitucionalidades,  sendo  a  atividade  de  lançamento  vinculada  e  obrigatória,  sob  pena  de  responsabilidade  funcional,  como  previsto  no  art.  142,  parágrafo único, do Código Tributário Nacional.  Não  há  dúvidas  de  que  se  entende  como  procedimento  fiscal  à  ação  fiscal  para  apuração  de  infrações  e  que  se  concretize  com  a  lavratura  do  ato  cabível,  assim  considerado  o  termo  de  início  de  fiscalização,  termo  de  apreensão,  auto  de  infração,  notificação, representação fiscal ou qualquer ato escrito dos agentes do fisco, no exercício de  suas funções inerentes ao cargo. Tais atos excluirão a espontaneidade se o contribuinte deles  tomar conhecimento pela intimação.  Fl. 97DF CARF MF Emitido em 14/09/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN     20 Os  atos  que  formalizam  o  início  do  procedimento  fiscal  encontram­se  elencados no artigo 7º do Decreto n.º 70.235, de 1972. Em sintonia com o disposto no artigo  138,  parágrafo  único  do  Código  Tributário  Nacional,  esses  atos  têm  o  condão  de  excluir  a  espontaneidade do sujeito passivo e de todos os demais envolvidos nas infrações que vierem a  ser verificadas.  Em outras palavras, deflagrada a ação fiscal, qualquer providência do sujeito  passivo, ou de terceiros relacionados com o ato, no sentido de repararem a falta cometida não  exclui  suas  responsabilidades,  sujeitando­os  às  penalidades  próprias  dos  procedimentos  de  ofício. Além disso, o ato inaugural obsta qualquer retificação, por iniciativa do contribuinte e  torna ineficaz consulta formulada sobre a matéria alcançada pela fiscalização.  Ressalte­se, com efeito, que o emprego da alternativa “ou” na redação dada  pelo legislador ao artigo 138, do Código Tributário Nacional, denota que não apenas a medida  de fiscalização  tem o condão de constituir­se em marco  inicial da ação fiscal, mas,  também,  consoante  reza  o  mencionado  dispositivo  legal,  “qualquer  procedimento  administrativo”  relacionado  com  a  infração  é  fato  deflagrador  do  processo  administrativo  tributário  e  da  conseqüente exclusão de espontaneidade do sujeito passivo pelo prazo de 60 dias, prorrogável  sucessivamente com qualquer outro ato escrito que indique o prosseguimento dos trabalhos, na  forma do parágrafo 2°, do art. 7°, do Dec. n° 70.235, de 1972.  O  entendimento,  aqui  esposado,  é  doutrina  consagrada,  conforme  ensina  o  mestre FABIO FANUCCHI em “Prática de Direito Tributário”, pág. 220:  O processo  contencioso  administrativo  terá  início  por  uma  das  seguintes formas:  1.  pedido  de  esclarecimentos  sobre  situação  jurídico­tributária  do sujeito passivo, através de intimação a esse;  2.  representação  ou  denúncia  de  agente  fiscal  ou  terceiro,  a  respeito de circunstâncias capazes de conduzir o sujeito passivo  à assunção de responsabilidades tributárias;  3 ­ autodenúncia do sujeito passivo sobre sua situação irregular  perante a legislação tributária;  4.  inconformismo  expressamente  manifestado  pelo  sujeito  passivo, insurgindo­se ele contra lançamento efetuado.  (...).  A  representação e a denúncia produzirão os mesmos efeitos da  intimação  para  esclarecimentos,  sendo  peças  iniciais  do  processo que irá se estender até a solução final, através de uma  decisão  que  as  julguem  procedentes  ou  improcedentes,  com  os  efeitos naturais que possam produzir tais conclusões.  No  mesmo  sentido,  transcrevo  comentário  de  A.A.  CONTREIRAS  DE  CARVALHO em “Processo Administrativo Tributário”, 2ª Edição, págs. 88/89 e 90, tratando  de Atos e Termos Processuais:  Mas é dos atos processuais que cogitamos, nestes  comentários.  São atos processuais os que se realizam conforme as regras do  processo,  visando  dar  existência  à  relação  jurídico­processual.  Também participa dessa natureza o que se pratica à parte, mas  em  razão  de  outro  processo,  do  qual  depende.  No  processo  Fl. 98DF CARF MF Emitido em 14/09/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN Processo nº 10283.721202/2008­89  Acórdão n.º 2202­01.345  S2­C2T2  Fl. 11          21 administrativo tributário,  integram essa categoria, entre outros:  a) o auto de infração; b) a representação; c) a intimação e d) a  notificação  (...).  Mas,  retornando  a  nossa  referência  aos  atos  processuais,  é  de  assinalar que, se o auto de infração é peça que deve ser lavrada,  privativamente,  por  agentes  fiscais,  em  fiscalização  externa,  já  no  que  concerne  às  faltas  apuradas  em  serviço  interno  da  Repartição  fiscal,  a  peça  que  as  documenta  é  a  representação.  Note­se que esta, como aquele, é peça básica do processo fiscal  (...).  Portanto, o Auto de Infração deverá conter, entre outros requisitos formais, a  penalidade  aplicável,  a  sua  ausência  implicará  na  invalidade  do  lançamento.  A  falta  ou  insuficiência de recolhimento do imposto dá causa a  lançamento de ofício, para exigi­lo com  acréscimos e penalidades legais.   É de se esclarecer, que a infração fiscal independe da boa fé do contribuinte,  entretanto, a penalidade deve ser aplicada, sempre, levando­se em conta a ausência de má­fé,  de  dolo,  e  antecedentes  do  contribuinte. A multa  que  excede  o montante  do  próprio  crédito  tributário,  somente  pode  ser  admitida  se,  em  processo  regular,  nos  casos  de  minuciosa  comprovação,  em  contraditório  pleno  e  amplo,  nos  termos  do  artigo  5º,  inciso  LV,  da  Constituição  Federal,  restar  provado  um  prejuízo  para  fazenda  Pública,  decorrente  de  ato  praticado pelo contribuinte.  Por outro lado, a vedação de confisco estabelecida na Constituição Federal de  1988,  é  dirigida  ao  legislador.  Tal  princípio  orienta  a  feitura  da  lei,  que  deve  observar  a  capacidade contributiva e não pode dar ao tributo a conotação de confisco. Não observado esse  princípio,  a  lei  deixa  de  integrar  o mundo  jurídico  por  inconstitucional. Além disso,  é  de  se  ressaltar, mais uma vez, que a multa de ofício é devida em face da infração às regras instituídas  pelo Direito Fiscal e, por não constituir  tributo, mas penalidade pecuniária prevista em  lei,  é  inaplicável o conceito de confisco previsto no  inciso V, do art. 150 da Constituição Federal,  não cabendo às autoridades administrativas estendê­lo.  Assim, as multas são devidas, no lançamento de ofício, em face da infração  às  regras  instituídas  pela  legislação  fiscal  não  declarada  inconstitucional  pelo  Supremo  Tribunal Federal, cuja matéria não constitui tributo, e sim de penalidade pecuniária prevista em  lei, sendo inaplicável o conceito de confisco previsto no art. 150, IV da CF., não conflitando  com o estatuído  no  art.  5°, XXII da CF.,  que  se  refere  à garantia do direito de propriedade.  Desta forma, o percentual de multa aplicado está de acordo com a legislação de regência.   Ora, os mecanismos de controle de legalidade / constitucionalidade regulados  pela própria Constituição Federal passam, necessariamente, pelo Poder Judiciário que detém,  com  exclusividade,  tal  prerrogativa.  É  inócuo,  portanto,  suscitar  tais  alegações  na  esfera  administrativa.  De  qualquer  forma,  há  que  se  esclarecer  que  o  Imposto  Renda  da  Pessoa  Física é um tributo calculado sobre a renda tributável auferida. Ou seja, é calculado levando­se  em  consideração  aos  rendimentos  tributáveis  auferidos  e  em  razão  do  valor  é  enquadrada  Fl. 99DF CARF MF Emitido em 14/09/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN     22 dentro de uma alíquota, não estando o seu valor limitado à capacidade contributiva do sujeito  passivo da obrigação tributária.   Ademais, os princípios constitucionais têm como destinatário o legislador na  elaboração da norma, como é o caso, por exemplo, do principio da Vedação ao Confisco, que  orienta a feitura da lei, a qual deve observar a capacidade contributiva e não pode dar ao tributo  a conotação de confisco, cabendo à autoridade fiscal apenas executar as leis.  Da  mesma  forma,  não  vejo  como  se  poderia  acolher  o  argumento  de  inconstitucionalidade ou ilegalidade formal da multa de ofício e da taxa SELIC aplicada como  juros  de  mora  sobre  o  débito  exigido  no  presente  processo  com  base  na  Lei  n.º  9.065,  de  20/06/95,  que  instituiu  no  seu  bojo  a  taxa  referencial  do  Sistema  Especial  de  Liquidação  e  Custódia de Títulos Federais (SELIC).  É meu entendimento, acompanhado pelos pares desta Turma de Julgamento,  que  quanto  à  discussão  sobre  a  inconstitucionalidade  de  normas  legais,  os  órgãos  administrativos  judicantes  estão  impedidos  de  declarar  a  inconstitucionalidade  de  lei  ou  regulamento, face à inexistência de previsão constitucional.  No  sistema  jurídico  brasileiro,  somente  o  Poder  Judiciário  pode  declarar  a  inconstitucionalidade de lei ou ato normativo do Poder Público, através do chamado controle  incidental e do controle pela Ação Direta de Inconstitucionalidade.  No caso de  lei sancionada pelo Presidente da República é que dito controle  seria  mesmo  incabível,  por  ilógico,  pois  se  o  Chefe  Supremo  da  Administração  Federal  já  fizera o controle preventivo da constitucionalidade e da conveniência, para poder promulgar a  lei,  não  seria  razoável  que  subordinados,  na  escala  hierárquica  administrativa,  considerasse  inconstitucional lei ou dispositivo legal que aquele houvesse considerado constitucional.  Exercendo  a  jurisdição  no  limite  de  sua  competência,  o  julgador  administrativo  não  pode  nunca  ferir  o  princípio  de  ampla  defesa,  já  que  esta  só  pode  ser  apreciada no foro próprio.  Se verdade fosse, que o Poder Executivo deva deixar aplicar lei que entenda  inconstitucional, maior  insegurança  teriam  os  cidadãos,  por  ficarem  à mercê  do  alvedrio  do  Executivo.  O  poder  Executivo  haverá  de  cumprir  o  que  emana  da  lei,  ainda  que  materialmente possa ela ser  inconstitucional. A sanção da lei pelo Chefe do Poder Executivo  afasta ­ sob o ponto de vista formal ­ a possibilidade da argüição de inconstitucionalidade, no  seu âmbito interno. Se assim entendesse, o chefe de Governo vetá­la­ia, nos termos do artigo  66,  §  1º  da Constituição. Rejeitado  o  veto,  ao  teor  do  §  4º  do mesmo  artigo  constitucional,  promulgue­a ou não o Presidente da República, a lei haverá de ser executada na sua inteireza,  não podendo ficar exposta ao capricho ou à conveniência do Poder Executivo. Faculta­se­lhe,  tão­somente, a propositura da ação própria perante o órgão jurisdicional e, enquanto pendente a  decisão,  continuará  o  Poder  Executivo  a  lhe  dar  execução.  Imagine­se  se  assim  não  fosse,  facultando­se  ao  Poder  Executivo,  através  de  seus  diversos  departamentos,  desconhecer  a  norma  legislativa  ou  simplesmente  negar­lhe  executoriedade  por  entendê­la,  unilateralmente,  inconstitucional.  A evolução do direito, como quer o  suplicante, não deve pôr em  risco  toda  uma construção  sistêmica  baseada na  independência e na harmonia dos Poderes,  e  em cujos  princípios repousa o estado democrático.   Fl. 100DF CARF MF Emitido em 14/09/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN Processo nº 10283.721202/2008­89  Acórdão n.º 2202­01.345  S2­C2T2  Fl. 12          23 Não  se  deve  a  pretexto  de  negar  validade  a  uma  lei  pretensamente  inconstitucional, praticar­se inconstitucionalidade ainda maior consubstanciada no exercício de  competência de que este Colegiado não dispõe, pois que deferida a outro Poder.   Ademais, matéria  já pacificada no âmbito administrativo,  razão pela qual o  Presidente  do  Primeiro  Conselho  de  Contribuintes,  objetivando  a  condensação  da  jurisprudência predominante neste Conselho, conforme o que prescreve o art. 30 do Regimento  Interno dos Conselhos de Contribuintes  (RICC),  aprovado pela Portaria MF nº  55, de 16 de  março de 1998, providenciou a edição e aprovação de diversas súmulas, que foram publicadas  no DOU, Seção I, dos dias 26, 27 e 28 de junho de 2006, vigorando para as decisões proferidas  a partir de 28 de julho de 2006.  Atualmente estas súmulas foram convertidas para o Conselho Administrativo  de Recursos Fiscais  –  CARF,  pela  Portaria  CARF  nº  106,  de  2009  (publicadas  no DOU  de  22/12/2009),  assim  redigidas:  “O  CARF  não  é  competente  para  se  pronunciar  sobre  a  inconstitucionalidade de lei tributária (Súmula CARF nº 2)” e “A partir de 1º de abril de 1995,  os  juros  moratórios  incidentes  sobre  débitos  tributários  administrados  pela  Secretaria  da  Receita  Federal  são  devidos,  no  período  de  inadimplência,  à  taxa  referencial  do  Sistema  Especial de Liquidação e Custódia – SELIC para títulos federais (Súmula CARF nº 4).”  Diante do conteúdo dos autos e pela associação de entendimento sobre todas  as considerações expostas no exame da matéria e por ser de justiça voto no sentido de rejeitar a  preliminar suscitada pelo Recorrente e, no mérito, negar provimento ao recurso.  (Assinado digitalmente)   Nelson Mallmann                                                      Fl. 101DF CARF MF Emitido em 14/09/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/08/2011 por NELSON MALLMANN

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Numero do processo: 15771.724295/2012-00
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Jan 29 00:00:00 UTC 2020
Data da publicação: Fri Mar 20 00:00:00 UTC 2020
Numero da decisão: 3302-001.300
Decisão: Resolvem os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento em diligência, nos termos do voto do relator. O julgamento deste processo seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, aplicando-se o decidido no julgamento do processo 15771.720775/2013-74, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (documento assinado digitalmente) Gilson Macedo Rosenburg Filho – Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Gilson Macedo Rosenburg Filho (presidente substituto), Corintho Oliveira Machado, Jorge Lima Abud, Vinicius Guimarães, Raphael Madeira Abad, Walker Araujo, José Renato Pereira de Deus e Denise Madalena Green.
Nome do relator: GILSON MACEDO ROSENBURG FILHO

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O julgamento deste processo seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, aplicando-se o decidido no julgamento do processo 15771.720775/2013-74, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (documento assinado digitalmente) Gilson Macedo Rosenburg Filho – Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Gilson Macedo Rosenburg Filho (presidente substituto), Corintho Oliveira Machado, Jorge Lima Abud, Vinicius Guimarães, Raphael Madeira Abad, Walker Araujo, José Renato Pereira de Deus e Denise Madalena Green. Relatório O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos, prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, Anexo II, do Regulamento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2019, e, dessa forma, adoto neste relatório excertos do relatado na Resolução nº 3302-001.290, 29 de janeiro de 2020, que lhe serve de paradigma. Trata-se de auto de infração referente à multa pelo descumprimento da obrigação de prestar informação referente ao transporte internacional de carga, na forma e no prazo estabelecidos pela Receita Federal. O lançamento foi impugnado pelo sujeito passivo, dando origem ao litígio a ser apreciado no presente julgamento. O relatório da decisão de piso bem detalha os fatos, aqui sintetizados: a) Ilegitimidade passiva. A impugnante não é parte legítima para figurar no pólo passivo do lançamento, uma vez que atuou apenas como agência de navegação marítima, que não se equipara a transportador ou agente de carga, nem pode ser considerada como representante destes para fins de responsabilização por eventuais erros por eles cometidos. Para reforçar sua tese, a defesa cita doutrina e decisões dos RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 57 71 .7 24 29 5/ 20 12 -0 0 Fl. 269DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 2 da Resolução n.º 3302-001.300 - 3ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 15771.724295/2012-00 tribunais superiores (STF, ex-TFR, STJ), relativas às funções e à responsabilidade por indenização e tributária do agente marítimo. b) Denúncia espontânea. Conforme se depreende dos autos, a informação foi prestada pela própria impugnante, antes do início de qualquer procedimento fiscal. Assim não é cabível a multa exigida, pois se aplica ao caso o instituto da denúncia espontânea, consoante dispõe o art. 102, § 2º, do Decreto-Lei nº 37/1966, bem como o art. 138 do CTN, para fins de exclusão da penalidade. c) Cerceamento do direito de defesa devido a falha na descrição dos fatos. Não constam no corpo do Auto de Infração elementos importantes para a perfeita compreensão da acusação, tais como a identificação do(s) navio(s) envolvido(s) e a data em que as informações foram apresentadas e aquela em que deveriam ter sido prestadas. Tal omissão caracteriza a inobservância de requisito essencial na lavratura do referido ato e acarreta prejuízo ao pleno exercício do direito de defesa pelo sujeito passivo. d) Atipicidade da conduta apenada – retificação. O atraso apurado pela fiscalização foi baseado na retificação de dado que tinha sido informado dentro do prazo, conduta para qual não há previsão legal de pena, sendo que sua equiparação à prestação intempestiva de informação extrapola o poder regulamentar da Administração Púbica, pois configura violação aos princípios da legalidade e da hierarquia das normas. e) Ofensa aos princípios da razoabilidade e da proporcionalidade. A multa aplicada pela fiscalização deve ser afastada em atendimento aos princípios da razoabilidade e da proporcionalidade, que são de observância obrigatória no âmbito do processo administrativo federal, consoante art. 2º da Lei nº 9.784/1999, eis que a penalidade imposta é excessivamente gravosa em relação ao possível dano causado pela suposta infração. O acórdão proferido pelo colegiado do órgão julgador de primeira instância administrativa, resultou assim ementado: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL [...] PROCESSOS ADMINISTRATIVO E JUDICIAL. IDENTIDADE PARCIAL DE OBJETOS. RENÚNCIA PARCIAL À INSTÂNCIA ADMINISTRATIVA. Em razão do princípio da unidade de jurisdição, a propositura de ação na Justiça contra a Fazenda Pública implica renúncia à via administrativa, instância na qual o lançamento relativo à matéria sub judice se torna definitivo, sendo apreciado apenas eventual tema diferenciado, mas ficando o crédito constituído vinculado ao resultado do processo judicial. DESCRIÇÃO SINTÉTICA DOS FATOS. AUSÊNCIA DE PREJUÍZO AO DIREITO DE DEFESA. VALIDADE DO LANÇAMENTO. É válido o lançamento cuja descrição dos fatos não contemple todas as informações relacionadas com a infração apurada, mas apresente elementos suficientes para o perfeito entendimento da acusação, de forma a possibilitar o pleno exercício do direito de defesa pelo autuado. ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA [...] Fl. 270DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 3 da Resolução n.º 3302-001.300 - 3ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 15771.724295/2012-00 AGÊNCIA MARÍTIMA. IRREGULARIDADE NA PRESTAÇÃO DE INFORMAÇÃO. RESPONSABILIDADE. A agência de navegação marítima representante no País de transportador estrangeiro responde por eventual irregularidade na prestação de informações que estava legalmente obrigada a fornecer à Aduana nacional. Cientificada da decisão recorrida, a Recorrente interpôs recurso voluntário pleiteando a nulidade da decisão de primeira instância por inexistir a concomitância apontada na decisão combatida, posto que (i) não é parte da ação judicial; (ii) é apenas filiada do Centro Nacional de Navegação Transatlântica - CNNT (CENTRONAVE), contudo, não autorizou sua representação processual; (iii) a penalidade discutida na autuação esta fora do escopo do ação ordinária coletiva ajuizada pelo CENTRONAVE. Além disso, alegou impossibilidade de aplicação de penalidade a agente marítimo; cerceamento de defesa; violação aos princípios da legalidade e hierarquias da normas por inobservância aos preceitos da Solução de Consulta COSIT nº 02/2016; descabimento da multa pelo instituto da denúncia espontânea; e ofensa os princípios da razoabilidade e proporcionalidade. É o relatório. Voto Conselheiro Gilson Macedo Rosenburg Filho - Relator Como já destacado, o presente julgamento segue a sistemática dos recursos repetitivos, nos termos do art. 47, §§ 1º e 2º, Anexo II, do RICARF, desta forma reproduzo o voto consignado na Resolução nº 3302-001.290, 29 de janeiro de 2020, paradigma desta decisão: O recurso voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade. Conforme exposto anteriormente, a decisão recorrida aplicou a concomitância em relação a matéria concernente a denúncia espontânea, por entender que a Recorrente teria levado tal questão ao judiciário. Sobre isso, a Recorrente alegou que (i) não é parte da ação judicial; (ii) é apenas filiada do Centro Nacional de Navegação Transatlântica - CNNT (CENTRONAVE), contudo, não autorizou sua representação processual; (iii) a penalidade discutida na autuação esta fora do escopo do ação ordinária coletiva ajuizada pelo CENTRONAVE. Esse questão já foi alvo de análise por esta Turma, nos autos do PA 12689.721498/2013-69 (Resolução 3302-000.896), onde restou decidido, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência para que fosse sanadas as questões suscitadas pela Recorrente, a saber: Da Concomitância A DRJ analisando memorando enviado pela Procuradoria da Fazenda Nacional solicitando providências à COANA a respeito de decisão Fl. 271DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 4 da Resolução n.º 3302-001.300 - 3ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 15771.724295/2012-00 judicial que versava sobre a multa em discussão no presente processo, entendeu por bem ter havido a renuncia da instância administrativa da matéria. Vale ressaltar que a recorrente em sua peça impugnatória não informa a existência da ação noticiada pela PGFN. Verifica-se que o processo judicial tem como parte autora o Centro Nacional de Navegação Transatlântica CENTRONAVE, da qual a recorrente é associada, fato esse incontroverso, tendo em visa ter a própria recorrente afirmado tal situação. No entanto, a recorrente alega em sua defesa não ter expressamente autorizado a CENTRONAVE a contender em seu nome, no que se refere a possibilidade de se ter a aplicação da denúncia espontânea em seu favor, uma vez ter a recorrente trazido as informações imputadas como não feitas antes de qualquer inicio de procedimento fiscal por parte da Aduana. Pois bem. Em que pese a recorrente ser associada da CENTRONAVE, o que em tese permite à segunda representar a primeira judicialmente em assuntos de relevância para a categoria, não há nos autos documentos que comprovem a expressa autorização para tal representação, vale dizer, não há documentos que comprove a filiação da recorrente à entidade de classe e/ou que indique quais os poderes dispensados a CENTRONAVE na defesa de seus associados. Conforme se vê não restam dúvidas quanto ser a recorrente associada da CONTRONAVE, autora do processo judicial sobre o qual recai a alegação de concomitância, resta dúvida, no meu sentir, quanto a extensão de sua representatividade, tendo em vista a inexistência de documentos nos autos que indiquem referida informação. Desta feita, entendo ser necessária a realização de diligência para que seja oportunizado à requerente a juntada de documentos que demonstrem a extensão da representatividade garantida a CENTRONAVE na esfera judicial, fato este que pode interferir no resultado do presente julgamento. Assim, proponho a realização de diligência para que: a) a Autoridade Fiscal Aduaneira oficie a CENTRONAVE para que a mesma informe se a recorrente expressamente lhe autorizou a representa-la judicialmente junto ao processos noticiado pela PGFN à COANA, e em caso positivo, juntar ao processo documento que comprove a autorização; b) a Recorrente junte ao processo as cópias do processo judicial noticiado pela PGFN, notadamente peça inaugural da demanda, atos constitutivos da CENTRONAVE, lista de seus associados, outros documentos que comprovem a expressa autorização dos associados para a representação judicial, e particularmente, se houver, cópia de correspondência desautorizando a CENTRONAVE a representa-la. Diante do exposto, voto por converter o julgamento em diligência para determinar que: a) a Autoridade Fiscal Aduaneira oficie a CENTRONAVE para que a mesma informe se a recorrente expressamente lhe autorizou a Fl. 272DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 5 da Resolução n.º 3302-001.300 - 3ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 15771.724295/2012-00 representa-la judicialmente junto ao processos noticiado pela PGFN à COANA, e em caso positivo, juntar ao processo documento que comprove a autorização; b) a Recorrente junte ao processo as cópias do processo judicial noticiado pela PGFN, notadamente peça inaugural da demanda, atos constitutivos da CENTRONAVE, lista de seus associados, outros documentos que comprovem a expressa autorização dos associados para a representação judicial, e particularmente, se houver, cópia de correspondência desautorizando a CENTRONAVE a representa-la. É como voto. Conclusão Importa registrar que nos autos em exame a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada na decisão paradigma, de tal sorte que, as razões de decidir nela consignadas, são aqui adotadas. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do anexo II do RICARF, reproduzo o decidido na resolução paradigma, no sentido de converter o julgamento em diligência, nos termos do voto do relator. (documento assinado digitalmente) Gilson Macedo Rosenburg Filho Fl. 273DF CARF MF Documento nato-digital

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Numero do processo: 10435.722660/2015-83
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Feb 18 00:00:00 UTC 2020
Data da publicação: Thu Apr 02 00:00:00 UTC 2020
Ementa: ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Ano-calendário: 2010 DECADÊNCIA. MULTA POR ATRASO NA ENTREGA DA GFIP. APLICAÇÃO DO ART. 173, I, DO CTN. O dispositivo legal a ser aplicado na avaliação da decadência do direito de a Fazenda Pública lançar a multa por atraso na entrega da GFIP é o art. 173, I, do Código Tributário Nacional (Lei 5.172/66). INTIMAÇÃO PRÉVIA AO LANÇAMENTO. INEXISTÊNCIA DE EXIGÊNCIA LEGAL Por se tratar a ação fiscal de procedimento de natureza inquisitória, a intimação do contribuinte prévia ao lançamento não é exigência legal (Súmula CARF nº 46), e desta forma a sua falta não caracteriza cerceamento de defesa, a qual poderá ser exercida após a ciência do auto de infração. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. MULTA POR ATRASO NA ENTREGA DA GFIP. NÃO OCORRÊNCIA. Conforme já sumulado pelo CARF, a denúncia espontânea (art. 138 do Código Tributário Nacional) não alcança a penalidade decorrente do atraso na entrega de declaração (Súmula CARF nº 49).
Numero da decisão: 2001-001.730
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar suscitada no recurso e, no mérito, em negar provimento ao Recurso Voluntário. O julgamento deste processo seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, aplicando-se o decidido no julgamento do processo 10380.730319/2015-84, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (assinado digitalmente) Honório Albuquerque de Brito - Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Honório Albuquerque de Brito, Marcelo Rocha Paura, André Luis Ulrich Pinto e Fabiana Okchstein Kelbert.
Nome do relator: HONORIO ALBUQUERQUE DE BRITO

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MULTA POR ATRASO NA ENTREGA DA GFIP. APLICAÇÃO DO ART. 173, I, DO CTN. O dispositivo legal a ser aplicado na avaliação da decadência do direito de a Fazenda Pública lançar a multa por atraso na entrega da GFIP é o art. 173, I, do Código Tributário Nacional (Lei 5.172/66). INTIMAÇÃO PRÉVIA AO LANÇAMENTO. INEXISTÊNCIA DE EXIGÊNCIA LEGAL Por se tratar a ação fiscal de procedimento de natureza inquisitória, a intimação do contribuinte prévia ao lançamento não é exigência legal (Súmula CARF nº 46), e desta forma a sua falta não caracteriza cerceamento de defesa, a qual poderá ser exercida após a ciência do auto de infração. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. MULTA POR ATRASO NA ENTREGA DA GFIP. NÃO OCORRÊNCIA. Conforme já sumulado pelo CARF, a denúncia espontânea (art. 138 do Código Tributário Nacional) não alcança a penalidade decorrente do atraso na entrega de declaração (Súmula CARF nº 49). Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar suscitada no recurso e, no mérito, em negar provimento ao Recurso Voluntário. O julgamento deste processo seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, aplicando-se o decidido no julgamento do processo 10380.730319/2015-84, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (assinado digitalmente) Honório Albuquerque de Brito - Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Honório Albuquerque de Brito, Marcelo Rocha Paura, André Luis Ulrich Pinto e Fabiana Okchstein Kelbert. AC ÓR Dà O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 43 5. 72 26 60 /2 01 5- 83 Fl. 42DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 2 do Acórdão n.º 2001-001.730 - 2ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 10435.722660/2015-83 Relatório O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos, prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, Anexo II, do Regulamento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2015, e, dessa forma, adoto neste relatório o relatado no Acórdão nº 2001-001.705, de 18 de fevereiro de 2020, que lhe serve de paradigma. Trata-se de documento de lançamento emitido pela Receita Federal do Brasil no qual é exigido do contribuinte crédito tributário de multa por atraso na entrega de Guia de Recolhimento do FGTS e Informações à Previdência Social – GFIP. O enquadramento legal foi o art. 32-A da Lei 8.212, de 1991, com redação dada pela Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009. Conforme se extrai do acórdão da DRJ, o contribuinte apresentou impugnação na qual alegou, em síntese, falta de intimação prévia e a ocorrência de denúncia espontânea. A turma julgadora da primeira instância administrativa concluiu pela total improcedência da impugnação e consequente manutenção do crédito tributário lançado. Cientificado, o interessado apresentou recurso voluntário onde, em síntese, alega prescrição/decadência, ocorrência de denúncia espontânea e falta de intimação prévia ao lançamento, invoca princípios constitucionais, cita jurisprudência. Requer ao final o cancelamento do crédito tributário lançado. É o relatório. Voto Conselheiro Honório Albuquerque de Brito - Relator Como já destacado, o presente julgamento segue a sistemática dos recursos repetitivos, nos termos do art. 47, §§ 1º e 2º, Anexo II, do RICARF Desta forma reproduzo o voto consignado no Acórdão nº 2001-001.705, de 18 de fevereiro de 2020, paradigma desta decisão. O recurso é tempestivo e atende às demais condições de admissibilidade, portanto dele conheço e passo à sua análise. PRELIMINARES Informação incorreta no documento de lançamento O contribuinte alega que ou a Caixa Econômica Federal ou a Previdência Social teriam perdido os dados, e que por isso teria sido orientado pelo Fiscal Previdenciário a nova transmissão da GFIP, dando a entender que teria transmitido a declaração original no prazo legal, em data anterior à apontada no documento de lançamento, que é a data constante dos sistemas internos da Receita Federal. O recorrente entretanto não acosta Fl. 43DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 3 do Acórdão n.º 2001-001.730 - 2ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 10435.722660/2015-83 aos autos qualquer documento que comprove que teria havido uma transmissão em data anterior. Conforme prevê o art. 36 da Lei 9.784/99, que regula o processo administrativo no âmbito da administração publica federal, cabe ao interessado a prova dos fatos que tenha alegado. Assim sendo, a alegação feita, por não comprovada, não merece ser acatada. Prescrição/decadência Uma vez que não definitivamente constituído o crédito tributário em questão no âmbito administrativo, com relação à fluência dos prazos processuais o instituto a se avaliar a ocorrência é o da decadência do direito de a Fazenda Pública constituir o crédito por meio do lançamento. Trata-se de lançamento de ofício de multa por atraso na entrega da GFIP, e nesse caso o dispositivo legal a ser aplicado é o disposto no CTN, art. 173, I, verbis: Art. 173. O direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extingue- se após 5 (cinco) anos, contados: I – do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado; O lançamento só poderia ter sido efetuado, para cada competência lançada, a partir da data limite para entrega da declaração. Desta forma, o marco inicial para a contagem do prazo decadencial de 5 anos é o dia 1º de janeiro do ano seguinte ao da data limite para entrega no prazo da GFIP. Verifica-se no caso em questão, que a ciência pelo interessado do documento de lançamento se deu, de forma regular, para a competência mais antiga, antes da ocorrência da decadência do direito de a Fazenda Publica efetuar o lançamento do crédito. Se não ocorreu a decadência nem para a competência mais antiga, também não ocorreu para as demais. Intimação prévia ao lançamento A respeito da alegação do recorrente da inocorrência de intimação prévia ao lançamento, a mesma não procede e não tem o condão de afastar a multa aplicada. A ação fiscal é um procedimento de natureza inquisitória, onde o fiscal, ao entender que está em condições de identificar o fato gerador e demais elementos que lhe permitem formar sua convicção e constituir o lançamento, não necessita intimar o sujeito passivo para esclarecimentos ou prestação de informações. Não é a intimação prévia exigência legal para o lançamento do crédito. Nesse sentido a Súmula nº 46 deste CARF: Fl. 44DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 4 do Acórdão n.º 2001-001.730 - 2ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 10435.722660/2015-83 Súmula CARF nº 46: O lançamento de ofício pode ser realizado sem prévia intimação ao sujeito passivo, nos casos em que o Fisco dispuser de elementos suficientes à constituição do crédito tributário. O art. 32-A da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, determina a necessidade da intimação apenas nos casos de não apresentação da declaração e a apresentação com erros ou incorreções. Na situação em comento, a infração de entrega em atraso da GFIP é fato em tese verificável de plano pelo auditor fiscal, a partir dos sistemas internos da Receita Federal, ficando a seu critério a avaliação da necessidade ou não de informação adicional a ser prestada pelo contribuinte. Não há aqui que se falar em cerceamento do direito de defesa ou ofensa ao princípio do contraditório. O contencioso administrativo só se instaura com a apresentação da impugnação pelo sujeito passivo, ocasião em que ele exerce plenamente sua defesa, o que lhe é facultado após a ciência pelo interessado do documento de lançamento, tudo na observância do devido processo legal. Ante o exposto, REJEITO as preliminares suscitadas no recurso e passo à apreciação do mérito. MÉRITO Denúncia espontânea Da Instrução Normativa RFB nº 971 de 2009: Art. 472. Caso haja denúncia espontânea da infração, não cabe a lavratura de Auto de Infração para aplicação de penalidade pelo descumprimento de obrigação acessória. Parágrafo único. Considera-se denúncia espontânea o procedimento adotado pelo infrator que regularize a situação que tenha configurado a infração, antes do início de qualquer ação fiscal relacionada com a infração, dispensada a comunicação da correção da falta à RFB. O art. 472 da IN RFB nº 971/2009, estabelece, como regra geral, que não é aplicada multa por descumprimento de obrigação acessória, caso haja denúncia espontânea da infração. O parágrafo único do dispositivo esclarece o que se considera denúncia espontânea para tal fim: procedimento adotado pelo infrator, antes de qualquer ação do Fisco, que regularize a situação que tenha configurado a infração. No caso da multa por atraso, uma vez ocorrida a entrega da declaração fora do prazo, tem-se configurada a infração (entrega em atraso) em caráter irremediável. Já o art. 476 da mesma IN RFB nº 971/2009 trata especificamente da aplicação das multas por descumprimento da obrigação acessória prevista no inciso IV do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, relativas à GFIP e, em Fl. 45DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 5 do Acórdão n.º 2001-001.730 - 2ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 10435.722660/2015-83 seu inciso II, letra ‘b’, especificamente da multa aplicável, para a GFIP, no caso de “falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo”. Assim sendo, a aplicação da multa por atraso na entrega da GFIP é legal conforme especificamente regulada pelo art. 32-A da Lei nº 8.212, de 1991, e art. 476 da IN RFB nº 971, de 2009. A matéria já foi inclusive sumulada pelo CARF: Súmula CARF nº 49: A denúncia espontânea (art. 138 do Código Tributário Nacional) não alcança a penalidade decorrente do atraso na entrega de declaração. Desta forma, não procede a pretensão do recorrente de exclusão da multa com base na denúncia espontânea. Da multa aplicada A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional (art. 142 do CTN, parágrafo único). Logo, constatada a infração, no caso o atraso na entrega da GFIP, a autoridade fiscal não só está autorizada como obrigada a proceder ao lançamento de ofício da multa prevista na legislação que rege a matéria, sem emitir juízo de valor acerca da sua constitucionalidade ou de eventual afronta em tese a princípios do direto administrativo e constitucional ou de outros aspectos de sua validade. No caso em comento, a multa é exigida em função do não cumprimento no prazo da obrigação acessória, e sua aplicação independe do cumprimento da obrigação principal, da condição pessoal ou da capacidade financeira do autuado, da existência de danos causados à Fazenda Pública ou de contraprestação imediata do Estado. A multa é aplicada, por meio do mesmo documento de lançamento, por cada GFIP entregue em atraso no período fiscalizado, não havendo que se falar em infração continuada. Os valores são aplicados conforme definidos na lei, verificados os limites mínimos os quais independem do valor da contribuição devida. Também não cabe no caso invocar alteração de critério de atuação do Fisco para afastar a multa imposta. A correspondente alteração legislativa ocorreu já no início de 2009, com a inserção do art.32-A da Lei nº 8.212, de 1991, no arcabouço jurídico pela Medida Provisória nº 449, de 3 de dezembro de 2008, posteriormente convertida na Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, alterando a sistemática de aplicação de multas vinculadas à GFIP, em especial com a previsão de aplicação da multa por atraso na entrega de GFIP, até então inexistente. A alteração em critérios do Fisco é legal se respaldada por correspondente alteração na legislação correlata. Jurisprudência Fl. 46DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 6 do Acórdão n.º 2001-001.730 - 2ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 10435.722660/2015-83 No que se refere à jurisprudência citada, por falta de lei que lhe atribua eficácia normativa, não constitui norma geral de direito tributário decisão judicial ou administrativa que produz efeito apenas em relação às partes que integram o processo (art. 100 do CTN – Parecer Normativo CST nº 23, publicado no DOU de 9 de setembro de 2013). CONCLUSÃO: Por todo o exposto, voto por CONHECER do Recurso Voluntário, REJEITAR a preliminar suscitada e, no mérito, NEGAR-LHE PROVIMENTO, conforme acima descrito. Conclusão Importa registrar que nos autos em exame a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada na decisão paradigma, de tal sorte que as razões de decidir nela consignadas são aqui adotadas. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do anexo II do RICARF, reproduzo o decidido no acórdão paradigma, no sentido de rejeitar a preliminar suscitada no recurso e, no mérito, negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Honório Albuquerque de Brito Fl. 47DF CARF MF Documento nato-digital

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Numero do processo: 10980.721320/2013-97
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Nov 05 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Tue Mar 10 00:00:00 UTC 2020
Ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA (IRPF) Ano-calendário: 2008 DECADÊNCIA. INOCORRÊNCIA. Havendo efetiva antecipação de pagamento ao longo do ano-calendário, a extinção do crédito tributário relativo ao imposto sobre a renda da pessoa física, em caso de inércia do poder público, opera-se pela homologação tácita após o transcurso de 5(cinco) anos, a contar da ocorrência do fato gerador. Inexistindo antecipação, o direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário por meio do lançamento extingue-se após 5 (cinco) anos, contados do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. LANÇAMENTO. AUTO DE INFRAÇÃO. REGULARIDADE. A atribuição para constituir, mediante lançamento, o crédito tributário, no exercício da competência da Secretaria da Receita Federal do Brasil, em caráter privativo, é do Auditor-Fiscal da Receita Federal do Brasil. Quando as infrações à legislação tributária forem constatadas após análise das informações apresentadas pelo sujeito passivo, será lavrado auto de infração pelo Auditor-Fiscal da Receita Federal do Brasil que presidir e executar o procedimento. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. A decretação da nulidade do procedimento fiscal somente é admitida quando comprovadas as hipóteses previstas em lei relativas a cerceamento do direito de defesa e prática de atos por autoridade incompetente. DIREITO DE USO DE IMAGEM. SIMULAÇÃO DE NEGÓCIO JURÍDICO. NATUREZA SALARIAL. INCIDÊNCIA DE IRPF. Não havendo autonomia entre o contrato de cessão de uso de imagem e o contrato de trabalho, além de desproporção entre os valores contratados, fica evidente a simulação de negócio jurídico com a intenção mascarar a real remuneração do atleta, incidindo, no caso, o imposto de renda de pessoa física sobre tais rendimentos. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. REQUISITOS. INTENÇÃO DOLOSA DE SONEGAÇÃO, FRAUDE OU CONLUIO. CARACTERIZAÇÃO Aplicável a multa em percentual de 150% (cento e cinquenta por cento), caso caracterizada a intenção dolosa de sonegação, fraude ou conluio por parte do contribuinte. OMISSÃO DE RENDIMENTO DO TRABALHO SEM VÍNCULO EMPREGATÍCIO. A obrigação do sujeito passivo de declarar os rendimentos à Administração Tributária é autônoma e independente daquela da fonte pagadora de promover a retenção e o respectivo recolhimento. A forma de apuração anual do imposto sobre a renda da pessoa física não prescinde da informação de todos os rendimentos auferidos ao longo do ano-calendário, bem como dos respectivos valores dos tributos recolhidos na fonte, por meio do carnê-leão, ou eventual recolhimento complementar, os quais serão objeto de compensação com o imposto apurado na declaração de ajuste anual. RENDIMENTOS DO EXTERIOR. DECLARAÇÃO DE AJUSTE ANUAL. OBRIGATORIEDADE DE INFORMAÇÃO. CONVENÇÃO PARA EVITAR DUPLA TRIBUTAÇÃO CELEBRADA ENTRE O BRASIL E O JAPÃO. Quando um residente no Brasil receber rendimentos que, de acordo com a convenção para evitar dupla tributação, sejam tributáveis no Japão, o Brasil considerará como dedução do imposto de renda daquela pessoa um montante igual ao imposto de renda pago no Japão. A dedução não excederá a parte do imposto de renda calculado antes de feita a dedução e que seja apropriada a renda tributável no Japão. Os rendimentos recebidos de fontes situadas no exterior por residente no Brasil, transferidos ou não para o País, estão sujeitos à tributação sob a forma de recolhimento mensal obrigatório (carnê-leão), no mês do recebimento, e na Declaração de Ajuste Anual. A retenção pela fonte pagadora ou o pagamento do imposto no exterior não exime o contribuinte de informar os rendimentos tributáveis na declaração de ajuste anual. IMPOSTO PAGO NO EXTERIOR. A compensação ou redução do imposto devido no país com imposto pago no exterior, ampara-se na comprovação inequívoca que houve pagamento de imposto efetuado no exterior e que o mesmo não foi compensado ou restituído no país de origem. APLICAÇÃO DA MULTA DE OFÍCIO DE 75%. Em consonância com a legislação de regência, a apuração de omissão de rendimentos enseja a aplicação da multa de oficio de 75% (setenta e cinco por cento), lastreada na ocorrência de falta de declaração por parte do contribuinte. MULTA EXIGIDA ISOLADAMENTE. FALTA DE RECOLHIMENTO DO CARNÊ-LEÃO. É devida a multa isolada concomitantemente com a multa sobre o imposto suplementar apurado na declaração, no caso de pessoa física sujeita ao pagamento mensal do imposto (carnê-leão), que deixar de fazê-lo, por serem penalidades que têm por origem fatos distintos. MULTA DE OFÍCIO E MULTA ISOLADA PELA FALTA DE RECOLHIMENTO DO CARNE-LEÃO. CUMULATIVIDADE. PERÍODO ANTERIOR A MP 351/2007. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA CARF Nº 147 Nos termos da Súmula CARF nº 147, somente com a edição da Medida Provisória nº 351/2007, convertida na Lei nº 11.488/2007, que alterou a redação do art. 44 da Lei nº 9.430/1996, passou a existir a previsão específica de incidência da multa isolada na hipótese de falta de pagamento do carnê-leão (50%), sem prejuízo da penalidade simultânea pelo lançamento de ofício do respectivo rendimento no ajuste anual (75%). MULTA AGRAVADA. Quanto a estes rendimentos auferidos no exterior, o sujeito passivo, durante o procedimento de fiscalização, deixou de atender por diversas vezes às solicitações de documentos e informações, como demonstrado e comprovado pela Auditoria-Fiscal fato que exigiu da fiscalização a adoção de procedimentos especiais para solicitar informações diretamente ao clube esportivo no Japão, circunstâncias que ensejaram o agravamento da multa de ofício, nos termos da Lei nº 9.430/96, art. 44, § 2º. ALEGAÇÕES DE INCONSTITUCIONALIDADE. SÚMULA CARF Nº 2. Nos termos da Súmula CARF nº 2, o CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. JUROS. TAXA SELIC. SÚMULA CARF Nº 4. Conforme Súmula CARF nº 4, a partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC para títulos federais. HIPOSSUFICIÊNCIA DO SUJEITO PASSIVO. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. A responsabilidade tributária por infrações independe da intenção do agente ou do responsável e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato praticado. A eventual hipossuficiência verificada na relação de trabalho ou na celebração do contrato de cessão de uso de imagem é ineficaz para afastar o poder-dever da Administração de promover o lançamento de ofício, com as multas cabíveis, em estrita obediência ao princípio da legalidade. DO PEDIDO DE PRODUÇÃO DE PROVA. Devem ser indeferidos os pedidos de diligência, produção de provas e perícia, quando for prescindível para o deslinde da questão a ser apreciada ou se o processo contiver os elementos necessários para a formação da livre convicção do julgador.
Numero da decisão: 2202-005.709
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento parcial ao recurso, para fins de que sejam deduzidos do lançamento os tributos recolhidos pela pessoa jurídica Marco Aurélio Marketing Esportivo Ltda., antes dos acréscimos legais e relativos ao período objeto de autuação, vencidos o conselheiro Martin da Silva Gesto (relator), que deu provimento parcial ao recurso em maior extensão para afastar a omissão de rendimentos do trabalho com vínculo empregatício recebidos de pessoa jurídica recebidos pela fonte pagadora Santos Futebol Clube, e o conselheiro Marcelo de Sousa Sáteles, que negou provimento ao recurso. Designada para redigir o voto vencedor a conselheira Ludmila Mara Monteiro de Oliveira. (documento assinado digitalmente) Ronnie Soares Anderson – Presidente (documento assinado digitalmente) Martin da Silva Gesto – Relator (documento assinado digitalmente) Ludmila Mara Monteiro de Oliveira - Redatora designada Participaram do presente julgamento os Conselheiros Marcelo de Sousa Sateles, Martin da Silva Gesto, Marcelo Rocha Paura (suplente convocado), Ludmila Mara Monteiro de Oliveira, Leonam Rocha de Medeiros e Ronnie Soares Anderson (Presidente). Ausente o conselheiro Ricardo Chiavegatto de Lima.
Nome do relator: MARTIN DA SILVA GESTO

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Quando as infrações à legislação tributária forem constatadas após análise das informações apresentadas pelo sujeito passivo, será lavrado auto de infração pelo Auditor-Fiscal da Receita Federal do Brasil que presidir e executar o procedimento. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. A decretação da nulidade do procedimento fiscal somente é admitida quando comprovadas as hipóteses previstas em lei relativas a cerceamento do direito de defesa e prática de atos por autoridade incompetente. DIREITO DE USO DE IMAGEM. SIMULAÇÃO DE NEGÓCIO JURÍDICO. NATUREZA SALARIAL. INCIDÊNCIA DE IRPF. Não havendo autonomia entre o contrato de cessão de uso de imagem e o contrato de trabalho, além de desproporção entre os valores contratados, fica evidente a simulação de negócio jurídico com a intenção mascarar a real remuneração do atleta, incidindo, no caso, o imposto de renda de pessoa física sobre tais rendimentos. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. REQUISITOS. INTENÇÃO DOLOSA DE SONEGAÇÃO, FRAUDE OU CONLUIO. CARACTERIZAÇÃO Aplicável a multa em percentual de 150% (cento e cinquenta por cento), caso caracterizada a intenção dolosa de sonegação, fraude ou conluio por parte do contribuinte. OMISSÃO DE RENDIMENTO DO TRABALHO SEM VÍNCULO EMPREGATÍCIO. A obrigação do sujeito passivo de declarar os rendimentos à Administração Tributária é autônoma e independente daquela da fonte pagadora de promover a retenção e o respectivo recolhimento. A forma de apuração anual do imposto sobre a renda da pessoa física não prescinde da informação de todos os rendimentos auferidos ao longo do ano-calendário, bem como dos respectivos valores dos tributos recolhidos na fonte, por meio do carnê-leão, ou eventual recolhimento complementar, os quais serão objeto de compensação com o imposto apurado na declaração de ajuste anual. RENDIMENTOS DO EXTERIOR. DECLARAÇÃO DE AJUSTE ANUAL. OBRIGATORIEDADE DE INFORMAÇÃO. CONVENÇÃO PARA EVITAR DUPLA TRIBUTAÇÃO CELEBRADA ENTRE O BRASIL E O JAPÃO. Quando um residente no Brasil receber rendimentos que, de acordo com a convenção para evitar dupla tributação, sejam tributáveis no Japão, o Brasil considerará como dedução do imposto de renda daquela pessoa um montante igual ao imposto de renda pago no Japão. A dedução não excederá a parte do imposto de renda calculado antes de feita a dedução e que seja apropriada a renda tributável no Japão. Os rendimentos recebidos de fontes situadas no exterior por residente no Brasil, transferidos ou não para o País, estão sujeitos à tributação sob a forma de recolhimento mensal obrigatório (carnê-leão), no mês do recebimento, e na Declaração de Ajuste Anual. A retenção pela fonte pagadora ou o pagamento do imposto no exterior não exime o contribuinte de informar os rendimentos tributáveis na declaração de ajuste anual. IMPOSTO PAGO NO EXTERIOR. A compensação ou redução do imposto devido no país com imposto pago no exterior, ampara-se na comprovação inequívoca que houve pagamento de imposto efetuado no exterior e que o mesmo não foi compensado ou restituído no país de origem. APLICAÇÃO DA MULTA DE OFÍCIO DE 75%. Em consonância com a legislação de regência, a apuração de omissão de rendimentos enseja a aplicação da multa de oficio de 75% (setenta e cinco por cento), lastreada na ocorrência de falta de declaração por parte do contribuinte. MULTA EXIGIDA ISOLADAMENTE. FALTA DE RECOLHIMENTO DO CARNÊ-LEÃO. É devida a multa isolada concomitantemente com a multa sobre o imposto suplementar apurado na declaração, no caso de pessoa física sujeita ao pagamento mensal do imposto (carnê-leão), que deixar de fazê-lo, por serem penalidades que têm por origem fatos distintos. MULTA DE OFÍCIO E MULTA ISOLADA PELA FALTA DE RECOLHIMENTO DO CARNE-LEÃO. CUMULATIVIDADE. PERÍODO ANTERIOR A MP 351/2007. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA CARF Nº 147 Nos termos da Súmula CARF nº 147, somente com a edição da Medida Provisória nº 351/2007, convertida na Lei nº 11.488/2007, que alterou a redação do art. 44 da Lei nº 9.430/1996, passou a existir a previsão específica de incidência da multa isolada na hipótese de falta de pagamento do carnê-leão (50%), sem prejuízo da penalidade simultânea pelo lançamento de ofício do respectivo rendimento no ajuste anual (75%). MULTA AGRAVADA. Quanto a estes rendimentos auferidos no exterior, o sujeito passivo, durante o procedimento de fiscalização, deixou de atender por diversas vezes às solicitações de documentos e informações, como demonstrado e comprovado pela Auditoria-Fiscal fato que exigiu da fiscalização a adoção de procedimentos especiais para solicitar informações diretamente ao clube esportivo no Japão, circunstâncias que ensejaram o agravamento da multa de ofício, nos termos da Lei nº 9.430/96, art. 44, § 2º. ALEGAÇÕES DE INCONSTITUCIONALIDADE. SÚMULA CARF Nº 2. Nos termos da Súmula CARF nº 2, o CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. JUROS. TAXA SELIC. SÚMULA CARF Nº 4. Conforme Súmula CARF nº 4, a partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC para títulos federais. HIPOSSUFICIÊNCIA DO SUJEITO PASSIVO. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. A responsabilidade tributária por infrações independe da intenção do agente ou do responsável e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato praticado. A eventual hipossuficiência verificada na relação de trabalho ou na celebração do contrato de cessão de uso de imagem é ineficaz para afastar o poder-dever da Administração de promover o lançamento de ofício, com as multas cabíveis, em estrita obediência ao princípio da legalidade. DO PEDIDO DE PRODUÇÃO DE PROVA. Devem ser indeferidos os pedidos de diligência, produção de provas e perícia, quando for prescindível para o deslinde da questão a ser apreciada ou se o processo contiver os elementos necessários para a formação da livre convicção do julgador.

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INOCORRÊNCIA. Havendo efetiva antecipação de pagamento ao longo do ano-calendário, a extinção do crédito tributário relativo ao imposto sobre a renda da pessoa física, em caso de inércia do poder público, opera-se pela homologação tácita após o transcurso de 5(cinco) anos, a contar da ocorrência do fato gerador. Inexistindo antecipação, o direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário por meio do lançamento extingue-se após 5 (cinco) anos, contados do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. LANÇAMENTO. AUTO DE INFRAÇÃO. REGULARIDADE. A atribuição para constituir, mediante lançamento, o crédito tributário, no exercício da competência da Secretaria da Receita Federal do Brasil, em caráter privativo, é do Auditor-Fiscal da Receita Federal do Brasil. Quando as infrações à legislação tributária forem constatadas após análise das informações apresentadas pelo sujeito passivo, será lavrado auto de infração pelo Auditor-Fiscal da Receita Federal do Brasil que presidir e executar o procedimento. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. A decretação da nulidade do procedimento fiscal somente é admitida quando comprovadas as hipóteses previstas em lei relativas a cerceamento do direito de defesa e prática de atos por autoridade incompetente. DIREITO DE USO DE IMAGEM. SIMULAÇÃO DE NEGÓCIO JURÍDICO. NATUREZA SALARIAL. INCIDÊNCIA DE IRPF. Não havendo autonomia entre o contrato de cessão de uso de imagem e o contrato de trabalho, além de desproporção entre os valores contratados, fica evidente a simulação de negócio jurídico com a intenção mascarar a real remuneração do atleta, incidindo, no caso, o imposto de renda de pessoa física sobre tais rendimentos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 98 0. 72 13 20 /2 01 3- 97 Fl. 540DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 2 do Acórdão n.º 2202-005.709 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10980.721320/2013-97 MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. REQUISITOS. INTENÇÃO DOLOSA DE SONEGAÇÃO, FRAUDE OU CONLUIO. CARACTERIZAÇÃO Aplicável a multa em percentual de 150% (cento e cinquenta por cento), caso caracterizada a intenção dolosa de sonegação, fraude ou conluio por parte do contribuinte. OMISSÃO DE RENDIMENTO DO TRABALHO SEM VÍNCULO EMPREGATÍCIO. A obrigação do sujeito passivo de declarar os rendimentos à Administração Tributária é autônoma e independente daquela da fonte pagadora de promover a retenção e o respectivo recolhimento. A forma de apuração anual do imposto sobre a renda da pessoa física não prescinde da informação de todos os rendimentos auferidos ao longo do ano-calendário, bem como dos respectivos valores dos tributos recolhidos na fonte, por meio do carnê-leão, ou eventual recolhimento complementar, os quais serão objeto de compensação com o imposto apurado na declaração de ajuste anual. RENDIMENTOS DO EXTERIOR. DECLARAÇÃO DE AJUSTE ANUAL. OBRIGATORIEDADE DE INFORMAÇÃO. CONVENÇÃO PARA EVITAR DUPLA TRIBUTAÇÃO CELEBRADA ENTRE O BRASIL E O JAPÃO. Quando um residente no Brasil receber rendimentos que, de acordo com a convenção para evitar dupla tributação, sejam tributáveis no Japão, o Brasil considerará como dedução do imposto de renda daquela pessoa um montante igual ao imposto de renda pago no Japão. A dedução não excederá a parte do imposto de renda calculado antes de feita a dedução e que seja apropriada a renda tributável no Japão. Os rendimentos recebidos de fontes situadas no exterior por residente no Brasil, transferidos ou não para o País, estão sujeitos à tributação sob a forma de recolhimento mensal obrigatório (carnê-leão), no mês do recebimento, e na Declaração de Ajuste Anual. A retenção pela fonte pagadora ou o pagamento do imposto no exterior não exime o contribuinte de informar os rendimentos tributáveis na declaração de ajuste anual. IMPOSTO PAGO NO EXTERIOR. A compensação ou redução do imposto devido no país com imposto pago no exterior, ampara-se na comprovação inequívoca que houve pagamento de imposto efetuado no exterior e que o mesmo não foi compensado ou restituído no país de origem. APLICAÇÃO DA MULTA DE OFÍCIO DE 75%. Em consonância com a legislação de regência, a apuração de omissão de rendimentos enseja a aplicação da multa de oficio de 75% (setenta e cinco por cento), lastreada na ocorrência de falta de declaração por parte do contribuinte. MULTA EXIGIDA ISOLADAMENTE. FALTA DE RECOLHIMENTO DO CARNÊ-LEÃO. Fl. 541DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 3 do Acórdão n.º 2202-005.709 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10980.721320/2013-97 É devida a multa isolada concomitantemente com a multa sobre o imposto suplementar apurado na declaração, no caso de pessoa física sujeita ao pagamento mensal do imposto (carnê-leão), que deixar de fazê-lo, por serem penalidades que têm por origem fatos distintos. MULTA DE OFÍCIO E MULTA ISOLADA PELA FALTA DE RECOLHIMENTO DO CARNE-LEÃO. CUMULATIVIDADE. PERÍODO ANTERIOR A MP 351/2007. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA CARF Nº 147 Nos termos da Súmula CARF nº 147, somente com a edição da Medida Provisória nº 351/2007, convertida na Lei nº 11.488/2007, que alterou a redação do art. 44 da Lei nº 9.430/1996, passou a existir a previsão específica de incidência da multa isolada na hipótese de falta de pagamento do carnê-leão (50%), sem prejuízo da penalidade simultânea pelo lançamento de ofício do respectivo rendimento no ajuste anual (75%). MULTA AGRAVADA. Quanto a estes rendimentos auferidos no exterior, o sujeito passivo, durante o procedimento de fiscalização, deixou de atender por diversas vezes às solicitações de documentos e informações, como demonstrado e comprovado pela Auditoria-Fiscal fato que exigiu da fiscalização a adoção de procedimentos especiais para solicitar informações diretamente ao clube esportivo no Japão, circunstâncias que ensejaram o agravamento da multa de ofício, nos termos da Lei nº 9.430/96, art. 44, § 2º. ALEGAÇÕES DE INCONSTITUCIONALIDADE. SÚMULA CARF Nº 2. Nos termos da Súmula CARF nº 2, o CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. JUROS. TAXA SELIC. SÚMULA CARF Nº 4. Conforme Súmula CARF nº 4, a partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC para títulos federais. HIPOSSUFICIÊNCIA DO SUJEITO PASSIVO. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. A responsabilidade tributária por infrações independe da intenção do agente ou do responsável e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato praticado. A eventual hipossuficiência verificada na relação de trabalho ou na celebração do contrato de cessão de uso de imagem é ineficaz para afastar o poder-dever da Administração de promover o lançamento de ofício, com as multas cabíveis, em estrita obediência ao princípio da legalidade. DO PEDIDO DE PRODUÇÃO DE PROVA. Devem ser indeferidos os pedidos de diligência, produção de provas e perícia, quando for prescindível para o deslinde da questão a ser apreciada ou se o processo contiver os elementos necessários para a formação da livre convicção do julgador. Fl. 542DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 4 do Acórdão n.º 2202-005.709 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10980.721320/2013-97 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento parcial ao recurso, para fins de que sejam deduzidos do lançamento os tributos recolhidos pela pessoa jurídica Marco Aurélio Marketing Esportivo Ltda., antes dos acréscimos legais e relativos ao período objeto de autuação, vencidos o conselheiro Martin da Silva Gesto (relator), que deu provimento parcial ao recurso em maior extensão para afastar a omissão de rendimentos do trabalho com vínculo empregatício recebidos de pessoa jurídica recebidos pela fonte pagadora Santos Futebol Clube, e o conselheiro Marcelo de Sousa Sáteles, que negou provimento ao recurso. Designada para redigir o voto vencedor a conselheira Ludmila Mara Monteiro de Oliveira. (documento assinado digitalmente) Ronnie Soares Anderson – Presidente (documento assinado digitalmente) Martin da Silva Gesto – Relator (documento assinado digitalmente) Ludmila Mara Monteiro de Oliveira - Redatora designada Participaram do presente julgamento os Conselheiros Marcelo de Sousa Sateles, Martin da Silva Gesto, Marcelo Rocha Paura (suplente convocado), Ludmila Mara Monteiro de Oliveira, Leonam Rocha de Medeiros e Ronnie Soares Anderson (Presidente). Ausente o conselheiro Ricardo Chiavegatto de Lima. Relatório Trata-se de Recurso Voluntário interposto nos autos do processo nº 10980.721320/2013-97, em face do acórdão nº 15-33.260, julgado pela 5ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Salvador (DRJ/SDR), em sessão realizada em 29 de agosto de 2013, no qual os membros daquele colegiado entenderam por julgar improcedente a impugnação pelo contribuinte. Por bem descrever os fatos, adoto o relatório da DRJ de origem que assim os relatou: “Trata-se de Auto de Infração para constituição do crédito tributário correspondente ao Imposto sobre a Renda e Proventos de Qualquer Natureza da Pessoa Física (IRPF) relativo ao ano-calendário de 2008, no valor original de R$ 334.951,26, sobre o qual incidem a multa de ofício proporcional, no valor de R$ 382.595,69, os juros moratórios, calculados até o mês de março de 2013, no valor de R$ 122.089,73, a multa exigida isoladamente, no montante de R$ 156.231,26, perfazendo um montante consolidado no mês de março de 2013 de R$ 995.867,94. Conforme descrição dos fatos e enquadramento legal constantes no Auto de Infração (fls. 422 a 433) e no Termo de Verificação e de Encerramento da Ação Fiscal (fls. 373 a 421), o lançamento de ofício foi efetuado em razão de 4(quatro) infrações: Fl. 543DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 5 do Acórdão n.º 2202-005.709 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10980.721320/2013-97 a) Omissão de Rendimentos do Trabalho com Vínculo Empregatício Recebidos de Pessoa Jurídica. A Auditoria-Fiscal concluiu que o sujeito passivo, jogador profissional de futebol, utilizou-se indevidamente da pessoa jurídica Marcos Aurélio Marketing Esportivo Ltda (CNPJ nº 08.109.495/0001-01), constituída única e exclusivamente para tributar rendimentos próprios de sua pessoa física com o fim de irregularmente submetê-los a tributação menos onerosa. Constatou-se que a sociedade em questão (Marcos Aurélio Marketing Esportivo Ltda) configura-se como uma extensão da própria pessoa física, que figura no quadro societário como principal quotista, sendo o real beneficiário dos rendimentos auferidos por aquela, uma vez que a citada sociedade não efetuou nenhuma outra operação além da cessão de direitos de imagem da pessoa física de seu sócio-administrador, o sujeito passivo. Entendeu a Auditoria-Fiscal que as circunstâncias de fato verificadas revelaram a real natureza jurídica do contrato celebrado entre a Marcos Aurélio Marketing Esportivo Ltda (CNPJ nº 08.109.495/0001-01) e o Santos Futebol Clube (CNPJ 58.196.684/0001- 29), cujo objeto era, em essência, a cessão do uso de direito de imagem do sujeito passivo, tendo a empresa o único objetivo de atuar como emissora de notas fiscais, dissimulando a real natureza dos rendimentos auferidos pela pessoa física. Caracterizada a natureza personalíssima da exploração individual da atividade profissional de jogador e de sua imagem, ficou comprovada a existência implícita de uma verdadeira "relação de trabalho" entre o sujeito passivo e a sociedade desportiva contratante. Concluiu, então, a Auditoria-Fiscal que os rendimentos obtidos pelo sujeito passivo com a licença de uso de sua imagem, devem ser tributados na pessoa física, e não na pessoa jurídica Marcos Aurélio Marketing Esportivo Ltda. Os valores auferidos pela sociedade Marcos Aurélio Marketing Esportivo Ltda, no ano- calendário de 2008, oriundas da licença de uso de imagem do sujeito passivo, segundo o regime de caixa, onde foram computadas as notas fiscais efetivamente recebidas em cada mês, demonstradas nas planilhas em anexo (DOC. 18), foram tributados, por meio do lançamento, como rendimentos na pessoa física do contribuinte (DOC. 3, DOC. 12 e DOC. 18), sendo-lhe, ainda, imputada a multa de ofício qualificada, no percentual de 150,00%, e os juros moratórios, conforme resumido abaixo: Valor Apurado (R$): 81.863,64; Multa (%): 150,00; Juros: Taxa Selic. A imputação fiscal apresenta a seguinte fundamentação legal: art. 5º da Lei n° 4.154, de 1962; art. 43, incisos I e II da Lei n° 5.172, de 1966; arts. 1º ao 3ºe §§, da Lei n° 7.713, de 1988; arts. 1º ao 3º , da Lei n° 8.134, de 1990; art. 37, 38, 43, 620 e 725 do Decreto n° 3.000, de 1999 (RIR/1999); art. 20 da Instrução Normativa SRF n° 15/2001; art. 1º da Lei n° 11.482, de 2007; e art. 1º, inciso II e parágrafo único da Lei n° 11.482, de 31 de maio de 2007; A multa qualificada fundamenta-se no art. 44, inciso I, e § 1º, da Lei n° 9.430/96 com a redação dada pelo art. 14 da Lei n° 11.488/07; O juros de mora: a partir de janeiro de 1997 (para fatos geradores a partir de 01/01/1997), o percentual equivalente à taxa referencial Taxa do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - Selic para títulos federais, acumulada mensalmente (art. 61, § 3º, da Lei n° 9.430/96). b) Omissão de Rendimentos do Trabalho sem Vínculo Empregatício Recebidos de Pessoa Jurídica. Fl. 544DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 6 do Acórdão n.º 2202-005.709 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10980.721320/2013-97 A Auditoria-Fiscal constatou que o sujeito passivo foi beneficiário de rendimentos pagos pelo Sindicato de Atletas Profissionais do Estado de São Paulo (CNPJ 62.658.752/0001¬00), decorrentes de repasses de “Direito de Arena” aos atletas que atuaram por clubes do Estado de São Paulo sem, entretanto, oferecer tais rendimentos à tributação na Declaração de Ajuste Anual (DAA) referente ao ano-calendário de 2008. Os valores recebidos foram relacionados no demonstrativo anexo (DOC. 20) e na Tabela 3 – Demonstrativo Rendimentos Recebidos de Pessoas Jurídicas sem Vínculo Empregatício (fls. 411), sendo-lhe, ainda, imputada a multa de ofício e os juros moratórios, conforme resumido abaixo: Valor Apurado (R$): 50.554,02; Multa (%): 75,00; Juros: Taxa Selic. A imputação fiscal apresenta a seguinte fundamentação legal: art. 43, incisos I e II da Lei n° 5.172, de 1966; arts. 1º ao 3º e §§, da Lei n° 7.713, de 1988; arts. 1º ao 3º , da Lei n° 8.134, de 1990; art. 8º da Lei n° 9.250, de 1995; art. 37, 38, 45 e 83 do Decreto n° 3.000, de 1999 (RIR/1999); art. 1º da Lei n° 11.482/2007; art. 1º, inciso II e parágrafo único da Lei n° 11.482, de 31 de maio de 2007. A multa de ofício fundamenta-se no art. 44, inciso I, da Lei n° 9.430/96 com a redação dada pelo art. 14 da Lei n° 11.488/07; O juros de mora: a partir de janeiro de 1997 (para fatos geradores a partir de 01/01/1997), o percentual equivalente à taxa referencial Taxa do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - Selic para títulos federais, acumulada mensalmente (art. 61, § 3º, da Lei n° 9.430/96). c) Omissão de Rendimentos Recebidos de Fontes no Exterior. Em 31/01/2008, o sujeito passivo firmou contrato com o clube de futebol japonês Shimizu S-Pulse para atuar como jogador profissional, no período compreendido de 1º de fevereiro de 2008 até 1º de janeiro de 2009 (DOC. 17 - fls. 12 a 24). Contudo, em relação ao ano-calendário de 2008, o contribuinte não apresentou a Declaração de Saída Definitiva e nem informou na Declaração de Ajuste Anual (DAA) apresentada os rendimentos auferidos do referido clube de futebol estrangeiro. Os rendimentos auferidos do clube de futebol Shimizu S-Pulse e omitidos na declaração de ajuste anual (DAA) foram resumidos na tabela a seguir, bem como no demonstrativo anexo (DOC. 21) e na Tabela 4 – Demonstrativo Rendimentos Recebidos de Fontes no Exterior (fl. 416). Foi, ainda, imputada a multa de ofício agravada, no percentual de 112,50%, e os juros moratórios. A multa de ofício foi agravada em razão do não atendimento pelo sujeito passivo de diversas notificações apresentadas pela Auditoria- Fiscal no curso do procedimento de fiscalização. Fl. 545DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 7 do Acórdão n.º 2202-005.709 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10980.721320/2013-97 A imputação fiscal apresenta a seguinte fundamentação legal: arts. 1º a 3º e §§ e 8º da Lei n° 7.713, de 1988; arts. 1º a 4ºda Lei n° 8.134, de 1990; art. 6º da Lei n° 9.250, de 1995; arts. 37, 38, 55, inciso VII, 106, 108 e 995 do Decreto n° 3.000, de 1999 (RIR/1999); art. 43, incisos e §§ da Lei n° 5.172, de 1966; art. 1º da Lei n° 11.482, de 2007; art. 1º, inciso II e parágrafo único da Lei n° 11.482, de 31 de maio de 2007. A multa de ofício agravada fundamenta-se no art. 44, inciso I e §2º, da Lei n° 9.430/96 com a redação dada pelo art. 14 da Lei n° 11.488/07; O juros de mora: a partir de janeiro de 1997 (para fatos geradores a partir de 01/01/1997), o percentual equivalente à taxa referencial Taxa do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - Selic para títulos federais, acumulada mensalmente (art. 61, § 3º, da Lei n° 9.430/96). d) Falta de Recolhimento do Imposto de Renda Devido a Título de Carnê-Leão. Foi ainda aplicada a multa isolada, tendo em vista o descumprimento da obrigação de recolher os valores do Imposto sobre a Renda e Proventos de Qualquer Natureza da Pessoa Física devidos a título de carnê-leão, incidentes sobre os rendimentos recebidos de fontes situadas no exterior, conforme resumo na tabela abaixo e Tabela 5 – Demonstrativo de Multa Isolada (fls. 417): Fl. 546DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 8 do Acórdão n.º 2202-005.709 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10980.721320/2013-97 A imputação fiscal apresenta a seguinte fundamentação legal: art. 8º da Lei n° 7.713, de 1988 c/c arts. 43 e 44, inciso II, alínea "a", da Lei n° 9.430, de 1996, com redação dada pelo art. 14 da Lei n° 11.488, de 2007; art. 106, 108, 109, 111 e 957, parágrafo único, inciso III, do RIR/1999 (Decreto n° 3.000, de 1999). Os demonstrativos de apuração do imposto sobre a renda da pessoa física, dos juros de mora, das multas de ofício e das multas exigidas isoladamente, encontram-se às fls. 427 a 431. O contribuinte foi cientificado do Auto de Infração (fls. 422 a 433) do Termo de Verificação e de Encerramento da Ação Fiscal (fls. 373 a 421) e respectivos demonstrativos por via postal com aviso de recebimento em 22/03/2013 (fls. 439) e apresentou impugnação, em 18/04/2013 (fls. 442 a 463) manifestando-se, em síntese, nos termos a seguir. A) Preliminar. I – Decadência. Alega que a constituição do crédito tributário exigido nos autos ocorreu na data de 26/03/2013 e, com fundamento no arts. 142 e 173 da Lei nº 5.172, de 25/10/1966 – Código Tributário Nacional (CTN), entendendo que a decadência é uma das hipóteses de extinção do crédito tributário, postula a exclusão das verbas que supostamente teriam decaído 5(cinco) anos antes da notificação de lançamento, ou seja as verbas anteriores à data de 26/03/2008. Cita e transcreve doutrina de Maria Helena Diniz e Eurico Marcos Diniz de Santi sobre decadência e prescrição. II – Da Ação Fiscalizadora Alega que a Administração Pública deve pautar sua atuação pelo princípio da legalidade e que, no caso, deveria ter sido utilizada uma notificação de lançamento, nos termos no art. 11 do Decreto nº 70.235, de 1972, pois, segundo entende, a fiscalização pode notificar, mas não pode impor multa, uma vez que o auto de infração é meramente declaratório e na ato constitutivo. Cita e transcreve doutrina jurídica de Celso Bandeira de Mello, sobre direito administrativo, e precedente de decisão do Primeiro Conselho de Contribuintes. III – Nulidade por Erro de Fato. Alega ocorrência de erro de fato no preenchimento de sua declaração de ajuste anual quanto aos rendimentos recebidos da fonte pagadora Sindicato de Atletas Profissionais do Estado de São Paulo e que, portanto, deve ser decretada a nulidade do auto de infração, visto que a fonte pagadora promoveu a retenção do imposto respectivo e que, portanto, não teria havido omissão de rendimento, mas falha no preenchimento de sua declaração de ajuste anual. B) Mérito. I – Do Direito de Imagem. Alega que a Auditoria-Fiscal confundiu o contrato de trabalho firmado pelo Impugnante e o Santos Futebol Clube com o contrato de licença de uso da imagem firmado com a empresa Marcos Aurélio Marketing Esportivo Ltda e o mencionado clube. Afirma que o contrato de imagem tem natureza civil e, por isso, distingue-se do contrato de trabalho. Fl. 547DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 9 do Acórdão n.º 2202-005.709 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10980.721320/2013-97 Argumenta que o direito de imagem é direito personalíssimo, protegido tanto pela Constituição Federal, art. 5º, inciso XXVIII, “a” quanto pelo Código Civil, art. 20, e que seu titular tem plena liberdade para negociá-lo, assim como também pode negociá-lo uma empresa que detenha tais direitos em razão de permissão concedida pelo titular do direito, como no caso sob julgamento. Aduz que o direito de imagem tem conteúdo patrimonial passível de exploração econômica, sendo válida e lícita a cessão do direito de explorar comercialmente o uso da imagem e que a Marcos Aurélio Marketing Esportivo Ltda foi criada para gerir a imagem do impugnante, bem como de outros atletas. Fundamenta sua defesa na Lei nº 9.615, de art. 87-A, para reafirmar a natureza civil do contrato de uso de imagem. Cita e transcreve precedentes de jurisprudência da Justiça do Trabalho sobre a natureza civil do contrato de licença de uso de imagem e da natureza não salarial da verba recebida em razão de tal contratação. Defende-se alegando que não há comprovação de fraude na celebração do contrato de uso da imagem firmado entre a Marcos Aurélio Marketing Esportivo Ltda e o clube de futebol. O impugnante argumenta que já pagou os impostos devidos sobre os valores recebidos pela licença de uso de sua imagem por meio da sociedade Marcos Aurélio Marketing Esportivo Ltda e que o lançamento em questão caracteriza um bi-tributação sobre tais valores. II – Da Hipossuficiência do Impugnante. Alega que as penalidades impostas devem ser afastadas visto que a formalização do contato de cessão de uso da imagem por meio de pessoa jurídica foi imposição da entidade esportiva que o contratou, circunstância que revelaria a hipossuficiência do impugnante na relação jurídica em tela, materializada ainda pela subtração de sua livre vontade para celebrar o contrato. III – Dos Rendimentos Recebidos do Sindicato de Atletas Profissionais do Estado de São Paulo. Argumenta que o Sindicato de Atletas Profissionais do Estado de São Paulo promoveu a retenção do imposto respectivo e que, portanto, não teria havido omissão de rendimento, mas falha no preenchimento de sua declaração de ajuste anual. Assim, alega que tendo havido a retenção do montante de R$ 13.377,17 referentes aos rendimentos de R$ 50.554,02, não existe razão para a existência de notificação para pagamento do imposto já retido, tampouco em relação à multa e a juros. IV – Dos Rendimentos Recebidos no Exterior. Afirma que deixou de informar os rendimentos recebidos no exterior pois tais rendimentos já haviam sido tributados no país de origem (Japão) pela fonte pagadora. Aponta e transcreve trechos de documentos acostados pela Auditoria- Fiscal, decorrentes da procedimento de diligência realizado no Japão, procurando sustentar a sua tese de que os rendimentos recebidos do clube de futebol japonês Shimizu S-Pulse foram tributados no exterior sendo descabida a exigência pela Fazenda Nacional. Entende que a matéria se encontra normatizada pelo Decreto nº 61.899, de 14/12/1967, arts. 14, 15 e 22, que aprovou convenção em matéria tributária celebrada entre o Brasil e o Japão destinada a evitar a dupla tributação sobre rendimentos. Fl. 548DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 10 do Acórdão n.º 2202-005.709 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10980.721320/2013-97 Cita e transcreve precedente de jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça – STJ sobre rendimentos tributados por fonte situada no exterior. Alega, então, que deve ser aplicado ao caso o comando normativo do art. 22 do Decreto nº 61.899, de 1967, o qual disciplina o tratamento a ser conferido no Brasil ao tributo pago no exterior (Japão, no caso), determinando que este seja tratado como dedução do imposto de renda devido pelo residente no Brasil até o limite do imposto de renda calculado antes de feita a dedução e apropriada a renda tributável no exterior. V – Do Pagamento do Principal. Alega ocorrência de erro de fato no preenchimento de sua declaração de ajuste anual quanto aos rendimentos recebidos da fonte pagadora Sindicato de Atletas Profissionais do Estado de São Paulo e que, portanto, deve ser revisto o auto de infração, pois a fonte pagadora promoveu a retenção e o pagamento do imposto respectivo, não mais subsistindo relação jurídico-tributária entre o impugnante e a União, extinta no momento da retenção e pagamento. Cita e transcreve precedentes de decisões administrativas do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – CARF sobre erro de fato e erro na declaração de ajuste. VI – Dos Juros de Mora. Alega que não existe diferença de imposto apurável com a análise dos documentos anexos do auto de infração quando comparados à DIRPF do impugnante. VII – Da Multa Isolada. Argumenta que a multa de mora isolada se encontra prejudicada ante à comprovação da retenção dos tributos pela fonte pagadora, ainda que tenha havido a prestação de informação errada na DIRPF. Alega também que a multa de ofício é incabível em razão do recolhimento dos valores do IRPF. VIII – Da Multa com Efeito de Confisco. Alega que a multa de ofício no percentual de 75,00% e de 150,00% é extorsiva, configurando confisco ao patrimônio do contribuinte. Defende-se alegando ofensa à Constituição Federal, art. 150, inciso IV, que veda a cobrança de tributos com efeitos confiscatório, bem como que tal imputação fere o princípio da capacidade contributiva, previsto na matriz constitucional. IX – Da Compensação. Em pedido alternativo, requer a compensação dos valores pagos à Fazenda Nacional pela sociedade Marcos Aurélio Marketing Esportivo Ltda (CNPJ nº 08.109.495/0001- 01), alegando que a maior parte dos valores inseridos no auto de infração foram devidamente recolhidos pela citada pessoa jurídica. X – Conclusão. Finaliza sua peça de defesa entendendo comprovado o erro no preenchimento de sua declaração anual de ajuste e o efetivo pagamento dos valores a título de IRPF pelas fontes pagadoras, sendo indevido o imposto principal, bem como as multas e os juros, requerendo a acolhimento da impugnação e cancelamento do auto de infração.” A DRJ de origem entendeu pela improcedência da impugnação apresentada, mantendo a integralidade do lançamento. Fl. 549DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 11 do Acórdão n.º 2202-005.709 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10980.721320/2013-97 Inconformado, o contribuinte apresentou recurso voluntário, às fls. 510/536, reiterando as alegações expostas em impugnação. É o relatório. Voto Vencido Conselheiro Martin da Silva Gesto, Relator. O recurso voluntário foi apresentado dentro do prazo legal, reunindo, ainda, os demais requisitos de admissibilidade. Portanto, dele conheço. Decadência. O recorrente, em preliminar, objetiva à extinção do crédito tributário, com fundamento na ocorrência da decadência do direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário. Sem razão o recorrente. No entanto, o objeto deste lançamento é o ano-calendário 2008 (exercício 2009), não havendo, neste lançamento, fatos geradores abrangidos pela decadência, haja vista que o contribuinte tomou ciência do auto de infração em 22/03/2013. Ainda que fosse considerada a regra de contagem do prazo decadencial mais bem[efica, verificar-se-ia que o prazo decadencial em relação ao período objeto da lide (ano- calendário 2008) começaria a fluir a partir de 01/01/2009, tendo se encerrado em 31/12/2013. Como o lançamento foi notificado ao impugnante em 22/03/203, dentro do prazo definido, não há que se falar em decadência do direito de constituição do crédito decorrente pela Fazenda Pública. Rejeita-se a preliminar de decadência, portanto. Do instrumento adequada para proceder o lançamento O recorrente, partindo do pressuposto de que a medida fiscal é oriunda de revisão da sua declaração de ajuste anual, aduz que é incabível a utilização do auto de infração como instrumento de lançamento do crédito tributário, devendo ser implementado por meio da notificação de lançamento aludida no artigo 11 do Decreto 70.235, de 1972. No entanto, não se trata o presente procedimento de revisão da declaração de ajuste anual, mas de fiscalização da pessoa física, mediante emissão de Mandado de Procedimento Fiscal Fiscalização (MPF-F), como está explicitado no termo de início de procedimento fiscal, às fls. 28 a 30. Cumpre esclarecer, à luz dos artigos 10 e 11 do Decreto 70.235, de 1972, que o que diferencia a notificação de lançamento do auto de infração não é a matéria objeto do lançamento, mas somente o emissor do auto de infração: se for o órgão, notificação de lançamento; se for o servidor, auto de infração. Fl. 550DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 12 do Acórdão n.º 2202-005.709 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10980.721320/2013-97 No caso, a encarregada da fiscalização foi a servidora, detentora de competência para tal, de forma que não se vislumbra qualquer irregularidade no procedimento e no instrumento utilizado para o lançamento. Quanto à alegação de que não cabe à autoridade lançadora a aplicação de multa, é completamente incabível, à luz do que dispõe o artigo 142 do Código Tributário Nacional, que prevê, expressamente, a aplicação da penalidade cabível pela autoridade lançadora, a qual integra o crédito tributário lançado. Omissão de Rendimentos do Trabalho com Vínculo Empregatício Recebidos de Pessoa Jurídica recebido pela fonte pagadora Santos Futebol Clube (Cessão do Uso da Imagem) Parte da omissão de rendimentos apurada pela fiscalização é decorrente do fato de o contribuinte, jogador de futebol, ter feito uso de uma pessoa jurídica, Marcos Aurélio Marketing Esportivo Ltda, para a qual teriam sido pagos os rendimentos decorrentes da execução do contrato de cessão de uso de imagem celebrado entre a pessoa jurídica Marcos Aurélio Marketing Esportivo Ltda e a entidade esportiva Santo Futebol Clube. A autoridade fiscal considerou que tal conduta do contribuinte teve por objetivo deixar de recolher tributos, e desconsiderou, para fins fiscais, o alegado contrato de cessão de tais direitos para a pessoa jurídica. Com isso, os rendimentos, originalmente atribuídos à pessoa jurídica, passaram a ser da pessoa física, ou seja, do contribuinte, que não os havia declarado, configurando para a autoridade lançadora a infração imputada, de omissão de rendimentos tributáveis. A autoridade lançadora entendeu que houve simulação no procedimento adotado pelo contribuinte, quanto aos rendimentos oriundos dos seus direitos de imagem, pelos seguintes fundamentos (fls. 397/400 – item 3.1.1.5 do termo de verificação e de encerramento de ação fiscal): “Mesmo não restando dúvidas acerca da independência entre os contratos de trabalho e de licença de uso de imagem, na prática é bastante comum a vinculação dos pagamentos relativos a exploração da imagem do atleta aos que decorrem de trabalho, isto é, da prestação de serviços. Com a intenção de reduzir a base de incidência para a aplicação de tributos e contribuições sociais na relação de trabalho, segundo GRISARD, “não só os clubes, mas também os atletas – porque nada é feito sem a anuência destes – adotam a postura de justificar (grande) parte da remuneração como sendo relativa a licença de uso de imagem”. Normalmente o ardil utilizado resume-se na constituição de uma empresa (pessoa jurídica) com a finalidade específica de negociar a exploração da imagem do atleta e que, via de regra, contam com um único cliente, o clube empregador. (...) A obrigação de prestar trabalho tem natureza personalíssima, assim como a licença de uso de imagem, a cargo do trabalhador, pessoa física, o que impede a designação de pessoa jurídica para sua execução. Fl. 551DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 13 do Acórdão n.º 2202-005.709 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10980.721320/2013-97 No caso do atleta profissional, o objeto desses contratos é a execução de prestação de serviço por parte do atleta e a caracterização do real objeto contratado assume aspecto secundário, em razão da feição personalíssima de ambas as prestações. Assim sendo, não podem ser negociados por outra pessoa física ou jurídica além do titular da imagem e nome profissional ou prestador do trabalho. O artifício utilizado da criação ou utilização de uma pessoa jurídica que contrata a execução de obrigação personalíssima inexecutável por ela, mas sim por um de seus sócios provoca lesão aos cofres públicos, haja vista a menor carga tributária a que estão sujeitas as pessoas jurídicas, pelo menos no que diz respeito ao Imposto sobre a Renda. Acrescente-se que esta operação simulada tem como sujeitos de um lado a pessoa física do atleta e de outro a entidade desportiva empregadora, o que faz gerar a obrigação para a fonte pagadora de reter na fonte o Imposto sobre a Renda, utilizando-se a tabela progressiva aplicável aos pagamentos efetuados a pessoas físicas. A simulação aqui referida refere-se ao instituto previsto no artigo 167 do Código Civil Brasileiro (CCB – Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002). Por sua vez, nos termos do artigo 170 do referido CCB: “Se, porém, o negócio jurídico nulo contiver os requisitos de outro, subsistirá este quando o fim a que visavam as partes permitir supor que o teriam querido, se houvessem previsto a nulidade”. O que se depreende dos fatos é uma total desconformidade entre a realidade, uma vez que há a contratação com a pessoa física para a prestação de trabalho e cessão dos direitos de imagem e uso do nome profissional da mesma e, a manifestação de vontade declarada, com a contratação com a pessoa jurídica da cessão dos direitos de imagem e uso do nome profissional de um de seus sócios, configurando a perfeita subsunção dos fatos à hipótese legal prevista nos incisos I e II do artigo 167 do CCB, transcrito. No caso concreto existe evidentemente um terceiro prejudicado – a Fazenda Pública – o que acaba por completar o suporte fático do preceito legal. Na apreciação dos contratos de direito de imagem firmado entre a entidade desportiva e o sujeito passivo pode-se constatar que o sócio da pessoa jurídica com a qual o clube celebrou contrato de licença de uso de imagem é o próprio atleta. Assim sendo, depreende-se que a única finalidade da constituição da pessoa jurídica do atleta é a de servir de intermediária para o repasse por parte do empregador (entidade desportiva) da remuneração do atleta, ou seja, a interposta pessoa jurídica foi usada para mascarar a real remuneração paga ao atleta, com o objetivo de evasão fiscal. Tal prática beneficia ambos os contratantes, que se eximem de pagar os reais tributos devidos, razão pela qual tanto a doutrina como a jurisprudência tem-se inclinado no sentido de atribuir a esses contratos a natureza de remuneração. Diante das formas possíveis de se efetuar um negócio, a escolha do contribuinte, evidentemente, recai sobre aquela que lhe impõe um menor ônus tributário. É o que se chama “elisão fiscal”, permitida pela legislação, uma vez que ninguém é obrigado a escolher a alternativa mais onerosa. Não obstante, é preciso que as diferentes opções estejam de fato disponíveis, ou seja, sejam legítimas. No caso analisado, a forma utilizada não corresponde à realidade, é uma ficção. A situação jurídica deve corresponder à situação de fato. Em não correspondendo, o que ocorre é a “evasão fiscal”, não permitida pelo ordenamento jurídico, e é nesta situação que o caso em tela pode ser enquadrado.” Fl. 552DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 14 do Acórdão n.º 2202-005.709 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10980.721320/2013-97 A autoridade enumerou os fatos que caracterizaram a simulação, nos seguintes termos (fls. 400/401 – item 3.1.1.5.1 do termo de verificação e encerramento de ação fiscal): “Em relação ao caso concreto, a simulação pode ser caracterizada e apresentada de forma resumida, consistindo nos seguintes aspectos:  Nenhuma pessoa quer seja ela física ou jurídica pode formalizar ou dispor de direitos personalíssimos de outra, no caso, o direito de imagem, sem que disponha de autorização e poder de representação do detentor do direito. O que se observou foi simplesmente a utilização de uma pessoa jurídica sem qualquer autorização negociando a cessão de direitos de terceiros que não detinha, uma vez que não se pode confundir a figura do representante da pessoa jurídica com a do atleta representado.  A utilização de pessoa jurídica, constituída pelo atleta como sócio majoritário e com poderes de gestão, como intermediária no recebimento de valores a título de direitos de imagem, mas na verdade, quem está sendo remunerado é o atleta, pessoa física.  A pessoa jurídica não pode ceder algo que não dispõe, mas ao “ceder” aos clubes os direitos de imagem do jogador, seu sócio-administrador, é extensão da própria pessoa física do atleta, o qual consta no quadro societário como principal quotista e sócio- administrador, sendo o real beneficiário dos rendimentos, uma vez que a empresa não efetuou nenhuma outra operação além da própria cessão de direitos de imagem do seu sócio-administrador. O mérito da lide recai sobre a viabilidade ou não da exploração dos direitos patrimoniais, com a tributação dos respectivos rendimentos, por meio de pessoa jurídica. Como se observa do Relatório Fiscal, a fundamentação da autoridade lançadora focou exclusivamente na inviabilidade da cessão do direito de imagem para pessoa jurídica. Argumentou, em breve síntese, que, tratando-se de direito personalíssimo, não poderia ser transferido para terceiro para que este a explorasse economicamente; que, em verdade, a referida exploração econômica só poderia ser feita pelo próprio indivíduo, pessoa física, titular do direito personalíssimo. Nesse caminho, reclassificou os rendimentos pela pessoa jurídica Marcos Aurélio Marketing Esportivo Ltda, no ano-calendário 2008, retirando-os da pessoa jurídica e atribuindo-os à pessoa física do ora Recorrente. Em primeiro lugar, é importante registrar que os contratos de cessão de direito de imagem e de trabalho não se confundem. São, efetivamente, de natureza diversa, um civil e outro trabalhista e, no caso concreto, apenas uma das fontes pagadora cumulou o posto de empregadora do Contribuinte e de autorizada, pela pessoa jurídica, a explorar os direitos de imagem do atleta. O que é mais, o lançamento não toca no assunto, não havendo qualquer acusação de que se trataria de confusão negocial. Pelo contrário, fundamentou o lançamento exatamente no fato de que os rendimentos eram provenientes da exploração do direito de imagem e que este, por ser personalíssimo, era intransmissível. Contudo, necessário observar que Lei nº 11.196/2005, especificamente em seu art. 129, estabeleceu expressamente que: Art. 129. Para fins fiscais e previdenciários, a prestação de serviços intelectuais, inclusive os de natureza científica, artística ou cultural, em caráter personalíssimo ou não, com ou sem a designação de quaisquer obrigações a sócios ou empregados da Fl. 553DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 15 do Acórdão n.º 2202-005.709 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10980.721320/2013-97 sociedade prestadora de serviços, quando por esta realizada, se sujeita tão-somente à legislação aplicável às pessoas jurídicas, sem prejuízo da observância do disposto no art. 50 da Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002 - Código Civil. Ora, não restam dúvidas de que é possível a exploração dos benefícios econômicos dos direitos personalíssimos, inclusive o direito de imagem, por meio de pessoa jurídica. Entendo que o negócio jurídico foi simulado porquanto o Contribuinte era titular de 95% das cotas e que a única receita da pessoa jurídica provinha da exploração dos seus direitos de imagem. Salienta-se que, atualmente, a Lei nº 12.441/2011, que alterou o Código Civil de 2002, permite a constituição de empresa individual de responsabilidade limitada, insculpiu o art. 980-A no Código civil, que em seu caput e §5º, determina expressamente o seguinte: Art. 980-A. A empresa individual de responsabilidade limitada será constituída por uma única pessoa titular da totalidade do capital social, devidamente integralizado, que não será inferior a 100 (cem) vezes o maior salário-mínimo vigente no País. (...) § 5º Poderá ser atribuída à empresa individual de responsabilidade limitada constituída para a prestação de serviços de qualquer natureza a remuneração decorrente da cessão de direitos patrimoniais de autor ou de imagem, nome, marca ou voz de que seja detentor o titular da pessoa jurídica, vinculados à atividade profissional. Como bem referiu o Conselheiro Dilson Jatahy Fonseca Neto no acórdão nº 2202- 004.008 (julgado em 04.07.2017), desta Turma Ordinária, cujo voto acompanhei, embora seu tenha sido vencido, “Ora, quem pode o mais, pode o menos: se é expressamente permitida a criação de uma EIRELI com o objetivo de explorar os direitos patrimoniais da cessão do direito de imagem, certamente também será permitida essa atividade a uma sociedade limitada.” Portanto, compreendo que o simples fato de que a pessoa jurídica ter sido criada especificamente para explorar os direitos de imagem do recorrente, e não de outras pessoas cumulativamente, não implica em ilicitude nem abuso de poder. Logo, uma vez que é lícita a cessão dos direitos patrimoniais de imagem do atleta para uma pessoa jurídica, e que não se configurou simulação no ato, entendo que deve ser cancelada a infração por esta omissão de rendimentos. Nessa esteira, uma vez que entendo por dar provimento ao recurso neste tocante, deixo de me pronunciar sobre a questão da compensação dos tributos recolhidos pela empresa e da multa qualificada, suscitadas subsidiariamente pelo Contribuinte. Da Omissão de Rendimentos – SAPESP O lançamento constatou que o contribuinte não declarou no ajuste anual rendimentos obtidos do Sindicato de Atletas Profissionais de São Paulo – SAPESP. O contribuinte contesta a existência dessas omissões, argumentando que houve retenção do imposto pelas fontes pagadoras e a falha no preenchimento da declaração de ajuste anual não justifica a notificação pelo fisco. Fl. 554DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 16 do Acórdão n.º 2202-005.709 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10980.721320/2013-97 Sem razão o recorrente. A partir da edição da Lei nº 8.134, de 1990, além da incidência mensal, a título de antecipação, no caso por exemplo de rendimentos do trabalho, a legislação determina que a apuração definitiva do Imposto de Renda da Pessoa Física seja efetuada na declaração anual de ajuste. Estamos diante de um fato gerador complexivo, com duas modalidades de incidência no mesmo período de apuração, em momentos distintos. Em um primeiro momento, a retenção e/ou recolhimento do Imposto de Renda constitui mera antecipação do imposto efetivamente devido, sendo calculado mensalmente, à medida que os rendimentos forem percebidos. Em um segundo momento, é feito o acerto definitivo para cálculo do montante do imposto devido, sendo o IR apurado anualmente na declaração de ajuste. Assim, o fato gerador do imposto sobre os rendimentos sujeitos ao ajuste anual somente aperfeiçoa-se no momento em que se completa o período de apuração dos rendimentos e deduções: 31 de dezembro de cada ano-calendário, mesmo estando o contribuinte obrigado a sofrer retenção do imposto de renda na fonte pagadora ao longo do ano-calendário, à medida que recebe rendimentos tributáveis. É de se observar que, pela sistemática de cálculo do imposto de renda da pessoa física, somente no ajuste anual é possível se precisar o montante do imposto efetivamente devido, quando se faz o encontro de todos os rendimentos percebidos, em relação a todas as fontes pagadoras, quando há mais de uma. O imposto de renda retido na fonte normalmente não é igual ao devido no ajuste anual e, dependendo das circunstâncias próprias de cada contribuinte, pode ser maior, cabendo restituição, ou menor, cabendo o recolhimento da diferença. Tratando-se de rendimentos sujeitos ao ajuste anual, como são os percebidos da fonte pagadora Sindicato de Atletas Profissionais de São Paulo – SAPESP e o contribuinte não os leva ao ajuste anual, há, deste modo, omissão de rendimentos, salientando-se que o imposto retido na fonte sobre eles foram devidamente considerados nos cálculos. Correta, pois, a autuação fiscal. Dos rendimentos recebidos no exterior O contribuinte procura justificar a imputação fiscal de omissão dos rendimentos recebidos de fonte no exterior sob a alegação de que tais rendimentos já haviam sido tributados no país da fonte pagadora e que a sua conduta encontra-se amparada no Decreto nº 61.899, 14/12/1967, que aprovou a convenção em matéria tributária celebrada entre o Brasil e o Japão destinada a evitar a dupla tributação sobre rendimentos. A Auditoria-Fiscal comprovou que no ano-calendário 2008 o sujeito passivo firmou contrato com o clube de futebol japonês Shimizu S-Pulse para atuar como jogador profissional, no período compreendido de 1º de fevereiro de 2008 até 1º de janeiro de 2009 e auferiu rendimentos conforme documentos de fls. 301 a 363, 391 e 392. Encontra-se demonstrado, outrossim, que, em relação ao ano-calendário de 2008, o contribuinte não apresentou a Declaração de Saída Definitiva nem informou na Declaração de Fl. 555DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 17 do Acórdão n.º 2202-005.709 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10980.721320/2013-97 Ajuste Anual (DAA) apresentada os rendimentos auferidos do referido clube de futebol estrangeiro. Os rendimentos recebidos de fontes situadas no exterior por residente no Brasil, transferidos ou não para o País, estão sujeitos à tributação sob a forma de recolhimento mensal obrigatório (carnê-leão), no mês do recebimento, e na Declaração de Ajuste Anual (Decreto nº 3.000, de 26/3/1999, arts. 106, 108 e 109). Art.106. Está sujeita ao pagamento mensal do imposto a pessoa física que receber de outra pessoa física, ou de fontes situadas no exterior, rendimentos que não tenham sido tributados na fonte, no País, tais como (Lei nº 7.713, de 1988, art. 8º, e Lei nº 9.430, de 1996, art. 24, §2º, inciso IV): (...) Art.108. Os rendimentos recebidos de fontes situadas no exterior serão convertidos em Reais mediante utilização do valor do dólar dos Estados Unidos da América, informado para compra pelo Banco Central do Brasil para o último dia útil da primeira quinzena do mês anterior ao do recebimento do rendimento (Lei nº 9.250, de 1995, art. 6º). Art.109. Os rendimentos sujeitos a incidência mensal devem integrar a base de cálculo do imposto na declaração de rendimentos, e o imposto pago será compensado com o apurado nessa declaração (Lei nº 9.250, de 1995, arts. 8º, inciso I, e 12, inciso V ). Diferente do que sustenta o recorrente, a convenção para evitar dupla matéria tributária, celebrada entre o Brasil e o Japão, promulgada internamente por meio do Decreto nº 61.899, 14/12/1967, não autoriza o procedimento adotado pelo sujeito passivo. O art. 22 da citada convenção determina expressamente que quando um residente no Brasil receber rendimentos tributáveis no Japão, o Brasil considerará como dedução do imposto de renda aquela pessoa um montante igual ao imposto de renda pago no Japão. A dedução, entretanto, não excederá a parte do imposto de renda calculado antes de feita a dedução e que seja apropriada a renda tributável no Japão, textual: Decreto nº 61.899, de 14/12/1967. Convenção entre os Estados Unidos do Brasil e o Japão destinada a evitar a dupla tributação em matéria de impostos sôbre rendimentos 1) Quando um residente no Brasil receber rendimentos que, de acôrdo com o disposto nesta Convenção, sejam tributáveis no Japão, o Brasil considerará como dedução do impôsto de renda daquela pessoa, um montante igual ao impôsto de renda pago no Japão. A dedução, entretanto, não excederá a parte do impôsto de renda calculado antes de feita a dedução e que seja apropriada a renda tributável no Japão. Tal sistemática encontra-se também disciplinada no Decreto nº 3.000, de 26/3/1999, art. 103, e na Instrução Normativa SRF nº 208, de 27/9/2002. Art.103.As pessoas físicas que declararem rendimentos provenientes de fontes situadas no exterior poderão deduzir, do imposto apurado na forma do art. 86, o cobrado pela nação de origem daqueles rendimentos, desde que (Lei nº 4.862, de 1965, art. 5º, e Lei nº 5.172, de 1966, art. 98): Fl. 556DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 18 do Acórdão n.º 2202-005.709 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10980.721320/2013-97 I - em conformidade com o previsto em acordo ou convenção internacional firmado com o país de origem dos rendimentos, quando não houver sido restituído ou compensado naquele país; ou II - haja reciprocidade de tratamento em relação aos rendimentos produzidos no Brasil. §1ºA dedução não poderá exceder a diferença entre o imposto calculado com a inclusão daqueles rendimentos e o imposto devido sem a inclusão dos mesmos rendimentos. §2ºO imposto pago no exterior será convertido em Reais mediante utilização do valor do dólar dos Estados Unidos da América informado para compra pelo Banco Central do Brasil para o último dia útil da primeira quinzena do mês anterior ao do recebimento do rendimento (Lei nº 9.250, de 1995, art. 6º). Improcedente, portanto, pois a alegação do recorrente. Observe-se, ainda, que o contribuinte sequer comprovou os valores efetivamente recolhidos a título de imposto sobre a renda pela fonte pagadora situada no exterior, impossibilitando até mesmo a eventual compensação permitida na legislação. Desse modo, para que haja compensação ou redução do imposto devido no país com imposto pago no exterior, necessário haver comprovação inequívoca que houve pagamento de imposto efetuado no exterior e que o mesmo não foi compensado ou restituído no país de origem. Inexistindo tais provas nos autos, não há como acolher o pedido do contribuinte. Aliás, quanto a estes rendimentos auferidos no exterior, o sujeito passivo, durante o procedimento de fiscalização, deixou de atender por diversas vezes às solicitações de documentos e informações, como demonstrado e comprovado pela Auditoria-Fiscal (fls. 373 a 381), fato que exigiu da fiscalização a adoção de procedimentos especiais para solicitar informações diretamente ao clube esportivo no Japão (fls. 301 a 363, 391 e 392), circunstâncias que ensejaram o agravamento da multa de ofício, nos termos da Lei nº 9.430, de 27/12/1996, art. 44, § 2º. Isto posto, a imputação fiscal deve ser mantida, razão pela qual voto pela improcedência da alegação apresentada. Pagamentos realizados. A alegação de que a retenção e pagamento do imposto pela fonte pagadora seria suficiente para afastar as infrações que lhe foram impostas não se sustentam, pois deveria o contribuinte informar todos os rendimentos em sua Declaração de Ajuste Anual, Como se sabe, a obrigação do sujeito passivo de declarar os rendimentos à Administração Tributária é autônoma e independente daquela da fonte pagadora de promover a retenção e o respectivo recolhimento. E a forma de apuração anual do imposto sobre a renda da pessoa física não prescinde da informação de todos os rendimentos tributáveis auferidos ao longo do ano-calendário, bem como dos respectivos valores dos tributos recolhidos na fonte, por meio do carnê-leão, ou eventual recolhimento complementar, os quais serão objeto de compensação com o imposto apurado na declaração de ajuste anual (Lei nº 8.383, de 1991, art. 8º, Decreto nº 3.000, de 26/3/2009, art. 116). Fl. 557DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 19 do Acórdão n.º 2202-005.709 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10980.721320/2013-97 Assim, improcede a alegação do recorrente que os tributos exigidos neste processo já estariam pagos, pela fonte pagadora, por meio de retenções na fonte. Da multa isolada. Como visto no item anterior, os rendimentos recebidos de fontes situadas no exterior por residente no Brasil, transferidos ou não para o País, estão sujeitos à tributação sob a forma de recolhimento mensal obrigatório (carnê-leão), no mês do recebimento, e na Declaração de Ajuste Anual (Decreto nº 3.000, de 26/3/1999, arts. 106 e 108). Inexistindo o recolhimento, como comprovado, aplicável a penalidade prevista em lei, exigida isoladamente, no percentual de 50% (cinquenta por cento) sobre o valor do pagamento mensal, ainda que não tenha sido apurado imposto a pagar na declaração de ajuste, no caso de pessoa física (Lei nº 9.430, de 27/12/1996, art. 44, inciso II, com redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007). Não se trata, no caso, de multa de mora, cobrada isoladamente, como alegado pelo impugnante, mas penalidade administrativa autônoma e decorrente do descumprimento de obrigação prevista em lei materializada pelo não pagamento na forma de recolhimento mensal obrigatório (carnê-leão). Isto posto, a imputação fiscal deve ser mantida, razão pela qual voto pela improcedência da alegação apresentada. A respeito da impossibilidade de aplicação simultânea da multa de oficio e da multa isolada por falta de recolhimento de carnê-leão, importa referir que se trata de matéria sumulada neste Conselho, de observação obrigatória. Transcrevo, por oportuno, a Súmula CARF nº 147: Súmula CARF nº 147: “Somente com a edição da Medida Provisória nº 351/2007, convertida na Lei nº 11.488/2007, que alterou a redação do art. 44 da Lei nº 9.430/1996, passou a existir a previsão específica de incidência da multa isolada na hipótese de falta de pagamento do carnê-leão (50%), sem prejuízo da penalidade simultânea pelo lançamento de ofício do respectivo rendimento no ajuste anual (75%).” Tratando-se de multas isoladas aplicadas em relação a infrações nos anos- calendário 2008, portanto, após a Medida Provisória nº 351/2007, convertida na Lei nº 11.488/2007, devendo, portanto, ser mantida a multa isolada aplicada. Multa de ofício (75%). A multa de oficio foi aplicada no percentual de 75% (setenta e cinco por cento) aplicada no lançamento e objeto de contestação por parte do contribuinte possuía previsão legal na antiga redação do art. 44, inciso I, da Lei n° 9.430/196, que assim dispunha: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas, calculadas sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição: I - de setenta e cinco por cento, nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, pagamento ou recolhimento após o vencimento do prazo, sem o acréscimo de multa Fl. 558DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 20 do Acórdão n.º 2202-005.709 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10980.721320/2013-97 moratória, de falta de declaração e nos de declaração inexata, excetuada a hipótese do inciso seguinte; Assim sendo, nos casos de apuração de omissão de rendimentos, a aplicação da multa de 75% encontra plena ressonância na legislação, em virtude da constatação de falta de declaração por parte do contribuinte, devendo, destarte, ser mantida a multa de oficio em questão. Insurge-se o contribuinte contra a aplicação da multa de ofício de 75%, por ser inconstitucional, ter efeito confiscatório e ofender o princípio da capacidade contributiva, afrontando o disposto no art. 150, inciso IV, da Constituição Federal. A obrigação de pagar tributo decorre de uma norma jurídica e a não realização do comportamento devido (o não cumprimento de tal dever) implica prejuízo a toda a sociedade. Com efeito, nos casos de lançamento de ofício, a regra geral é aplicar a multa de 75%. Quanto as alegações de inconstitucionalidade, importa referir que nos termos da Súmula CARF nº 2, o CARF não possui competência para analisar e decidir sobre matéria constitucional. Assim, conforme súmula vigente, de utilização obrigatória, nos termos Regimento Interno deste Conselho. Por tais razões, rejeitam-se as alegações de inconstitucionalidade suscitadas pelo contribuinte. Mantém-se a multa de ofício de 75%, portanto. Multa Agravada (112,5%). A multa de ofício aplicada está prevista no art. 44, inciso I, § 2º, da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996. O dispositivo legal determina que será aplicada multa no percentual de 112,5%, quando do lançamento de ofício, sobre a totalidade ou a diferença do imposto devido, nos casos de não atendimento pelo sujeito passivo, no prazo marcado pela Auditoria- Fiscal, de intimação para prestar esclarecimentos. Ficou comprovado nos autos que, quanto aos rendimentos auferidos no exterior, o sujeito passivo, durante o procedimento de fiscalização, deixou de atender por diversas vezes às solicitações de documentos e informações, como demonstrado e comprovado pela Auditoria- Fiscal (fls. 373 a 381), fato que exigiu da fiscalização a adoção de procedimentos especiais para solicitar informações diretamente ao clube esportivo no Japão (fls. 301 a 363, 391 e 392), circunstância que corretamente ensejou o agravamento da multa de ofício, nos termos da Lei nº 9.430, de 27/12/1996, art. 44, § 2º. Quanto as alegações de inconstitucionalidade, importa referir que nos termos da Súmula CARF nº 2, o CARF não possui competência para analisar e decidir sobre matéria constitucional. Assim, conforme súmula vigente, de utilização obrigatória, nos termos Regimento Interno deste Conselho. Por tais razões, rejeitam-se as alegações de inconstitucionalidade suscitadas pelo contribuinte. Isto posto, entendo que a imputação fiscal relativa à aplicação da multa de ofício agravada (112,5%) também deve ser mantida integralmente. Juros de mora. Fl. 559DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 21 do Acórdão n.º 2202-005.709 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10980.721320/2013-97 Nos termos da Súmula CARF nº 4, de observância obrigatória neste Conselho, é legal a aplicação da taxa SELIC para correção do débito tributário, vejamos: Súmula CARF nº 4:“A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC para títulos federais.” Portanto, improcede o recurso quanto a esta alegação. Hipossuficiência do contribuinte. No que diz respeito à alegação de hipossuficiência do sujeito passivo na relação jurídica estabelecida entre este e a entidade esportiva na celebração do contrato de cessão de uso da imagem para afastar qualquer responsabilidade do recorrente e a aplicação de penalidades, ressalto que, em se tratando de matéria tributária, não importa se a pessoa física cometeu a infração à legislação por boa-fé, ou ainda, se tal fato aconteceu por puro descuido ou desconhecimento. A responsabilidade tributária por infrações independe da intenção do agente ou do responsável e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato praticado, na forma do art. 136 do CTN. Como bem referiu a DRJ de origem, a eventual hipossuficiência na relação de trabalho e celebração do mencionado contrato de cessão de uso de imagem, como alegado na impugnação, é ineficaz para afastar o poder-dever da Administração de, uma vez verificada a infração à legislação tributária, realizar o lançamento de ofício, com as multas cabíveis, em estrita obediência ao princípio da legalidade. Portanto, incabível, no caso, a apreciação de eventual hipossuficiência do sujeito passivo, razão pela qual entendo que improcede a alegação do contribuinte neste ponto. Produção de provas. Ao final do recurso, o recorrente protesta pela produção de provas. Contudo, perícia e diligências são indeferidas, com fundamento no art. 18 do Decreto n° 70.235/1972, com as alterações da Lei n° 8.748/1993, por se tratarem de medidas absolutamente prescindíveis já que constam dos autos todos os elementos necessários ao julgamento. Além disso, não foram cumpridas as determinações do art. 16, inciso IV, o que resulta na desconsideração do pedido eventualmente feito, conforme art. 16, § 1º do Decreto 70.235/72. Portanto, improcedente tal pedido. Por sua vez, a solicitação para produção de provas não encontra amparo legal, uma vez que, de modo diverso, o art. 16, inciso II do Decreto 70.235/72, com redação dada pelo art. 1º da Lei 8.748/93, determina que a impugnação deve mencionar as provas que o interessado possuir, de modo que o onus probandi seja suportado por aquele que alega. Portanto, improcedente tal pedido. Descabe, portanto, a inversão do ônus da prova suscitada pelo contribuinte. Deste modo, rejeito o pedido de produção de provas requerido pelo contribuinte. Fl. 560DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 22 do Acórdão n.º 2202-005.709 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10980.721320/2013-97 Multa de ofício qualificada (150%). Tendo sido vencido quanto ao afastamento da Omissão de Rendimentos do Trabalho com Vínculo Empregatício Recebidos de Pessoa Jurídica recebido pela fonte pagadora Santos Futebol Clube, passo a análise desta alegação. Caso mantido o lançamento quanto a Omissão de Rendimentos Cessão do Uso da Imagem, passo a apreciar as alegações quanto a multa aplicada. A autoridade fiscal efetuou o lançamento de ofício com multa qualificada (150%), por ter entendido que o contribuinte fiscalizado ter agido com a intenção de suprimir ou reduzir, deliberadamente, o tributo, caracterizando a conduta ilegal com evidente intuito de sonegação, fraude ou simulação, nos termos dos artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964. Todavia, entendo que não merece prosperar a tese de que ocorreu sonegação, fraude ou simulação, de modo a justificar a qualificação da multa em 150%. Nesse caso, compreendo que não restou suficientemente caracterizada a intenção dolosa de sonegação por parte da contribuinte. Em verdade, o contribuinte tão somente omitiu rendimentos, não tendo agido de forma dolosa. Não verifico que exista, no caso, o plus doloso capaz de ensejar a qualificação da multa. Cumpre referir que a base da argumentação da autoridade fiscal realmente é verdadeira, ou seja, os atos praticados ensejaram a diminuição irregular do recolhimento do tributo, no entanto, não entendo que este fato, por si só, enseja os elementos caracterizadores do dolo, fraude ou simulação. A norma legal que determina a aplicação da multa de ofício qualificada é o artigo 44, I, §1°, da Lei 9.430/96, abaixo transcrito: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I - de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; (Redação dada pela Lei no 11.488, 2007) [...] § 1º O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. (Redação dada pela Lei no 11.488, de 2007) Por sua vez, assim dispõe os artigos 71, 72 e 73 da Lei 4.502/64 supra referidos: Art. 71. Sonegação é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I - da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; Fl. 561DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 23 do Acórdão n.º 2202-005.709 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10980.721320/2013-97 II - das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Art. 72. Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido, ou a evitar ou diferir o seu pagamento. Art. 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos artigos 71 e 72. Consoante demonstrado, nos casos de lançamento de ofício, a regra é a aplicação da multa de 75%, estabelecida no inciso I do artigo acima transcrito. Excepciona a regra a comprovação do intuito fraudulento, a qual acarreta a aplicação da multa qualificada de 150%, prevista no § 1º do artigo 44, da Lei nº 9.430 de 1996, com a redação dada Lei nº 11.488, de 15/06/2007. A fraude fiscal pode se dar em razão de uma ação ou omissão, de uma simulação ou ocultação, e pressupõe sempre a intenção de causar dano à Fazenda Pública, um propósito deliberado de se subtrair, no todo ou em parte, a uma obrigação tributária. Nesses casos, deve sempre estar caracterizada a presença do dolo, um comportamento intencional, específico, de lesar o Fisco, quando, se utilizando de subterfúgios, escamoteiam a ocorrência do fato gerador ou retardam o seu conhecimento por parte da autoridade fiscal. É nesse ponto que não concordo com o posicionamento adotado pela autoridade autuante, pois não consigo identificar a intenção dolosa de ocultar, mesmo que considerássemos que a intenção final fosse a diminuição do tributo a ser pago. A qualificação da multa não pode atingir aqueles casos em que o sujeito passivo age de acordo com as suas convicções, deixando às claras o seu procedimento, posto que resta evidente a falta de intenção de iludir, em nada impedindo a Fiscalização de apurar os fatos e de firmar suas convicções. Nestes termos, foi editada a Súmula CARF nº 25: Súmula CARF nº 25: A presunção legal de omissão de receita ou de rendimentos, por si só, não autoriza a qualificação da multa de ofício, sendo necessária a comprovação de uma das hipóteses dos arts. 71, 72 e 73 da Lei n° 4.502/64. Em igual sentido, há também o acórdão CARF nº nº 2202-004.008 (julgado em 04.07.2017), desta Turma Ordinária, onde em caso similar ao presente, também foi desqualificada a multa de ofício. Dessa forma, entendo por necessário desqualificar a multa de ofício, reduzindo-a para o percentual de 75%. Compensação. Tendo sido vencido quanto ao afastamento da Omissão de Rendimentos do Trabalho com Vínculo Empregatício Recebidos de Pessoa Jurídica recebido pela fonte pagadora Santos Futebol Clube, passo a análise desta alegação. Fl. 562DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 24 do Acórdão n.º 2202-005.709 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10980.721320/2013-97 No que concerne ao pedido de compensação, entendo que assiste razão ao Recorrente, uma vez que não seria razoável reclassificar as receitas da empresa para rendimentos da pessoa física e obrigar que a empresa solicite uma restituição ou uma compensação posterior, sofrendo o ônus de eventual decadência do direito creditório e principalmente da exigência da multa de ofício lançada no presente processo, quando já se sabe que houve pagamento parcial dos tributos sobre tais rendimentos, ora reclassificados. Nesse sentido, temos as seguintes decisões deste Conselho: RECLASSIFICAÇÃO DE RECEITA TRIBUTADA NA PESSOA JURÍDICA PARA RENDIMENTOS DE PESSOA FÍSICA. COMPENSAÇÃO DE TRIBUTOS PAGOS NA PESSOA JURÍDICA. Devem ser compensados na apuração de crédito tributário os valores arrecadados sob o código de tributos exigidos da pessoa jurídica, cuja receita foi desclassificada e convertida em rendimentos de pessoa física, base de cálculo do lançamento de oficio. (Acórdão nº 2102-002.441, data de publicação: 11/03/2013, rel. Núbia Matos Moura). RECLASSIFICAÇÃO DA RECEITA TRIBUTADA NA PESSOA JURÍDICA PARA RENDIMENTOS DA PESSOA FÍSICA. COMPENSAÇÃO DOS TRIBUTOS PAGOS NA PESSOA JURÍDICA. Devem ser compensados na apuração do crédito tributário os valores arrecadados sob os códigos de tributos exigidos da pessoa jurídica, cuja receita foi desclassificada e convertida em rendimentos de pessoa física, base de cálculo do lançamento de ofício. (Acórdão nº 2801002.280, data de publicação: 21/10/2012, rel. Tânia Maria Paschoalin). IRPF RECLASSIFICAÇÃO DA RECEITA TRIBUTADA NA PESSOA JURÍDICA PARA RENDIMENTOS DA PESSOA FÍSICA. COMPENSAÇÃO DOS TRIBUTOS PAGOS NA PESSOA JURÍDICA Devem ser compensados na apuração do crédito tributário os valores arrecadados sob os códigos de tributos exigidos da pessoa jurídica, cuja receita foi desclassificada e convertida em rendimentos de pessoa física, base de cálculo do lançamento de oficio. (Acórdão nº 2202-00252, data de publicação: 23/09/2009, rel. Antonio Lopo Martinez). Saliente-se que, mais recentemente, esta Turma Ordinária, compreendeu por permitir a compensação, tal qual se verifica no acórdão CARF nº nº 2202-004.008 (julgado em 04.07.2017), cujo voto vencedor foi de lavra do Conselheiro Marco Aurélio de Oliveira Barbosa, conforme se verifica pelo trecho ementa abaixo: RECLASSIFICAÇÃO DE RECEITA TRIBUTADA NA PESSOA JURÍDICA PARA RENDIMENTOS DE PESSOA FÍSICA. COMPENSAÇÃO DE TRIBUTOS PAGOS NA PESSOA JURÍDICA. Devem ser compensados na apuração de crédito tributário os valores arrecadados sob o código de tributos exigidos da pessoa jurídica, cuja receita foi desclassificada e convertida em rendimentos de pessoa física, base de cálculo do lançamento de ofício. Sendo assim, deve ser feita a compensação dos tributos e contribuições efetivamente pagos pela empresa Marcos Aurélio Marketing Esportivo Ltda, relativos aos rendimentos reclassificados, com o imposto apurado no Auto de Infração, antes da aplicação da multa de ofício. Conclusão. Fl. 563DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 25 do Acórdão n.º 2202-005.709 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10980.721320/2013-97 Ante o exposto, voto por dar provimento parcial ao recurso em maior extensão para afastar a omissão de rendimentos do trabalho com vínculo empregatício recebidos de pessoa jurídica recebidos pela fonte pagadora Santos Futebol Clube. (documento assinado digitalmente) Martin da Silva Gesto - Relator Voto Vencedor Conselheira Ludmila Mara Monteiro de Oliveira, Redatora designada. Peço vênia ao em. Conselheiro Relator para apresentar respeitosa divergência no que tange à cessão de direitos de imagem. O direito de imagem detém caráter personalíssimo e goza de salvaguarda constitucional – “ex vi” da al. “a” do inc. XXVIII do art. 5º da CRFB/88. Quanto à tributação de tais direitos, calha transcrever o disposto no art. 129, da Lei nº 11.196/2005, que prevê que (...) a prestação de serviços intelectuais, inclusive os de natureza científica, artística ou cultural, em caráter personalíssimo ou não, com ou sem a designação de quaisquer obrigações a sócios ou empregados da sociedade prestadora de serviços, quando por esta realizada, se sujeita tão somente à legislação aplicável às pessoas jurídicas, sem prejuízo da observância do disposto no art. 50 da Lei no 10.406, de 10 de janeiro de 2002 - Código Civil. Dessa forma, inexiste proibição para a cessão à pessoa jurídica de direitos patrimoniais de imagem de pessoa física. Como acertadamente pontua o recorrente, os contratos de cessão de direito de imagem e de trabalho não se confundem: o primeiro tem natureza civil, ao possa que o outro é de cariz trabalhista. Malgrado permitida a exploração econômica dos direitos de imagem – com a consequente cessão de direito de imagem de pessoa física à pessoa jurídica – sua existência não pode se dar apenas no papel. O Termo de Verificação e de Encerramento de Ação Fiscal, às f. 400/401, esclarece como, na prática, teria sido ultimada a cessão do direito de imagem: - Nenhuma pessoa quer seja ela física ou jurídica pode formalizar ou dispor de direitos personalíssimos de outra, no caso, o direito de imagem, sem que disponha de autorização e poder de representação do detentor do direito. O que se observou foi simplesmente a utilização de uma pessoa jurídica sem qualquer autorização negociando a cessão de direitos de terceiros que não detinha, uma vez que não se pode confundir a figura do representante da pessoa jurídica com a do atleta representado. - A utilização de pessoa jurídica, constituída pelo atleta como sócio majoritário e com poderes de gestão, como intermediária no recebimento de valores a título de direitos de imagem, mas na verdade, quem está sendo remunerado é o atleta, pessoa física. - A pessoa jurídica não pode ceder algo que não dispõe, mas ao “ceder” aos clubes os direitos de imagem do jogador, seu sócio-administrador, é extensão da Fl. 564DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 26 do Acórdão n.º 2202-005.709 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10980.721320/2013-97 própria pessoa física do atleta, o qual consta no quadro societário como principal quotista e sócio-administrador, sendo o real beneficiário dos rendimentos, uma vez que a empresa não efetuou nenhuma outra operação além da própria cessão de direitos de imagem do seu sócio-administrador. (sublinhas deste voto) Chama atenção o fato que o faturamento da empresa é composto exclusivamente pelas receitas provenientes da cessão de uso de imagem do recorrente, todas desembolsadas pelo SANTOS FUTEBOL CLUBE – cf. Demonstração do Resultado do exercício objeto da autuação (f. 155), Livro de Registro de Serviços Prestados - ISS (f.182/193) e a Declaração de Imposto de Renda de Pessoa Jurídica do ano-calendário 2008 (f.11/26). Além disso, da análise do estatuto social, verifica-se ainda que o recorrente é detentor de 95% (noventa e cinco por cento) das quotas do capital social e é o sócio- administrador da empresa (f.30/37). Curiosamente, o estatuto social determina, em sua cláusula sétima que [a] sociedade será administrada pelo sócio MARCOS AURÉLIO DE OLIVEIRA LIMA, na qualidade de Administrador, competindo-lhe privativa e isoladamente o uso da firma, a prática de todos os atos de administração e gestão necessários ao funcionamento da sociedade com poderes e atribuições de representar a sociedade ativa e passivamente, judicial e extrajudicialmente, perante órgãos públicos, instituições financeiras, entidades privadas e terceiros em geral, movimentar contas correntes bancárias, podendo transigir, renunciar, desistir, firmar compromissos, confessar dívidas, fazer acordos, contrair obrigações, adquirir, vender e onerar bens móveis e imóveis, irrestritivamente, autorizado o uso do nome empresarial, inclusive nomear procuradores em nome da sociedade, quando a prática de qualquer ato assim exigir. Não vislumbro autonomia entre o contrato de trabalho e o contrato de cessão de uso de imagem, tendo o último sido firmado com a intenção camuflar a real remuneração do atleta e, consequentemente, minorar o recolhimento do imposto de renda. Não passa despercebida a cláusula quinta do contrato do Instrumento Particular de cessão do uso de imagem evidencia a vinculação entre ambos contratos, que determina que “ (...) contrato somente terá validade enquanto o atleta profissional de futebol Marcos Aurélio de Oliveira Lima estiver vinculado contratualmente para prestar seus serviços ao CESSIONÁRIO” (f. 231). Não menos alarmante é a abissal desproporção entre os valores pagos pelo SANTOS FUTEBOL CLUBE a título de salário – R$10.000,00 (dez mil) reais mensais, conforme contrato de trabalho às f. 268-269 – e aqueles desembolsados a título de cessão de direitos de imagem – a R$30.000,00 (trinta mil reais) por mês, segundo prova acostada às f. 231. A realização de pagamento em idêntico montante em periodicidade mensal comprova, ao meu sentir, que os montantes supostamente desembolsados em contraprestação à cessão de uso de imagem têm, em verdade, natureza salarial. Ausente ainda a juntada aos autos cópia do contrato firmado entre o recorrente e MARCOS AURÉLIO MARKETING ESPORTIVO LTDA, cujo objeto seria a cessão do direito de imagem. Para justificar a inexistência de tal contrato, limitou-se afirmar ser de Fl. 565DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 27 do Acórdão n.º 2202-005.709 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10980.721320/2013-97 (...) praxe nos contratos envolvendo clubes e atletas profissionais, a cessão da titularidade dos direitos de uso, gozo e exploração do nome, apelido, voz e imagem do atleta profissional de futebol Marcos Aurélio de Oliveira Lima é firmada juntamente com o contrato de cessão de direitos do atleta profissional. (f.76) Tampouco verifico a comprovação da efetiva exploração da imagem, ou seja, a contraprestação dada ao clube durante a execução do contrato, em que pese o recorrente alegar ter sido sua imagem exaustivamente utilizada pelo clube futebolístico, porquanto figurava como um dos maiores artilheiros da equipe. A alegação de que “(...) a utilização destes meios para o recebimento pelo uso da imagem foi imposta pelos clubes onde o impugnante atuou no período fiscalizado” (f. 523) demonstra não ter havido autonomia na vontade de contratar de uma das partes envolvidas, configurando, portanto, defeito no negócio jurídico. Por fim, despiciendo frisar ter sido a Lei nº 12.441/2011, que acrescentou o artigo 980-A ao Código Civil, para criar a empresa individual de responsabilidade limitada (EIRELI), e permitiu a exploração econômica do direito de imagem por pessoa jurídica, promulgada após a ocorrência dos fatos geradores objeto do lançamento impugnado. Do escorço de todos os documentos acostados, com a devida vênia aos que de forma contrária entendem, o montante percebido pela MARCOS AURÉLIO MARKETING ESPORTIVO LTDA, a título de direitos de imagem, constituem, na realidade, complementação do salário do atleta-recorrente, constituindo rendimento auferido por pessoa física. Mantenho, por essas razões, o lançamento. Com a manutenção da autuação remanesce a necessidade de analisar a (in)subsistência da penalidade aplicada. Por ter entendido a fiscalização que o recorrente agiu com a intenção de suprimir ou reduzir, deliberadamente, o tributo, caracterizando a conduta ilegal com evidente intuito de sonegação, fraude ou simulação, atraída a aplicação da multa prevista no art. 44, inc. I, §1°, da Lei nº 9.430/96, no percentual de 150%. O argumento da vedação constitucional da utilização de tributos com efeitos de confisco, ao seu turno, esbarra no verbete sumular de nº 2 deste Conselho. De toda sorte, apesar de ser cônscia de que o exc. Supremo Tribunal Federal estendeu a vedação prevista no inc. IV do art. 150 da CRFB/88 às multas de natureza tributária, registro que multas e tributos são ontológica e teleologicamente distintos. Isto porque, em primeiro lugar, a multa é sempre uma sanção de ato ilícito, ao passo que tributo jamais poderá sê-lo; em segundo lugar, os tributos são a fonte precípua – e imprescindível – para o financiamento do aparato estatal, enquanto as multas são receitas extraordinárias, auferidas em caráter excepcional, cuja função é desestimular comportamentos tidos como indesejáveis. Assim, ao meu aviso, considerando as peculiaridades fáticas do caso concreto já fartamente relatadas, a multa cominada no patamar de 150% (cento e cinquenta por cento) sequer poderia ser rotulada desarrazoada e/ou desproporcional, uma vez que evidente a presença do elemento dolo na espécie. Mantenho a multa qualificada aplicada, pois. Fl. 566DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 28 do Acórdão n.º 2202-005.709 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10980.721320/2013-97 Assim, renovadas as vênias, nego provimento ao recurso para manter a autuação referente à omissão de rendimentos do trabalho com vínculo empregatício recebidos de pessoa jurídica, bem como para não afastar a multa de 150% (cento e cinquenta por cento) aplicada. (documento assinado digitalmente) Ludmila Mara Monteiro de Oliveira - Redatora designada Fl. 567DF CARF MF Documento nato-digital

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Numero do processo: 16561.720098/2017-56
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Feb 11 00:00:00 UTC 2020
Data da publicação: Mon Mar 23 00:00:00 UTC 2020
Ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA (IRPJ) Ano-calendário: 2011, 2012, 2013, 2014 AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO RENTABILIDADE FUTURA APÓS EVENTO DE INCORPORAÇÃO. EFEITOS FISCAIS. DEPENDÊNCIA DAS REGRAS CONTÁBEIS. O Lucro Real tem no Lucro Líquido do Exercício, apurado conforme escrituração comercial regida pela Lei 6.404/1976 e princípios contábeis geralmente aceitos, o seu ponto de partida, do qual são feitas no LALUR as devidas adições, exclusões ou compensações - se, e somente se - expressamente prescritas ou autorizadas pela legislação tributária. Nesta linha, no caso de determinados registros serem condenados pelos princípios contábeis geralmente aceitos então vigentes - como ágio interno ou goodwill pelo valor global do ágio em vez de pelo residual -, tais restrições contábeis não podem ser interpretadas de modo a dar azo a exclusões adicionais da base de cálculo do IRPJ sob o argumento de que faltou à lei fiscal dispor sobre estes tipos de registro expressamente. NATUREZA JURÍDICA DO ÁGIO RENTABILIDADE FUTURA AMORTIZADO APÓS EVENTO DE INCORPORAÇÃO. O ágio rentabilidade futura amortizado após incorporação tem natureza jurídica de perda de capital, posto a Lei 9.532/97 ter promovido a sua identificação com o resíduo devedor apurado pelos lançamentos contábeis próprios desta espécie de evento, regulados antes pelo art. 34 do DL 1.598/77. ÁGIO INTERNO. IMPOSSIBILIDADE DE REGISTRO CONTÁBIL ANTES DA VIGÊNCIA DA LEI 12.973/2014. O ágio rentabilidade futura interno já não era passível de registro contábil no Brasil antes mesmo da adoção dos padrões IFRS, após 31/12/2007. Por conseguinte, não se admite a sua dedução para fins fiscais no curso dos anos objetos desta autuação fiscal. ASPECTO RESIDUAL DO ÁGIO RENTABILIDADE FUTURA. O ágio rentabilidade futura tem seu valor apurado de forma residual no momento do registro da participação societária adquirida, sendo tal diretriz já observada pelas normas e práticas contábeis no País antes da adoção dos padrões IFRS após 31/12/2007. MULTA QUALIFICADA. INAPLICABILIDADE. O não reconhecimento pelo Fisco do ágio gerado em operações realizadas dentro do mesmo grupo econômico, com a consequente glosa de sua amortização, não enseja, por si só, a aplicação da multa qualificada, quando os atos praticados revelam interpretação equivocada por parte do contribuinte quanto à legislação de regência. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA POR INTERESSE COMUM NA SITUAÇÃO CONSTITUTIVA DO FATO GERADOR. EMPRESA INTEGRANTE DO MESMO GRUPO ECONÔMICO. NÃO CARACTERIZAÇÃO. Afastadas as hipóteses de fraude e simulação, ser a empresa nomeada responsável integrante do mesmo grupo econômico da autuada, à míngua de outros elementos, é insuficiente para justificar a manutenção da responsabilidade solidária prevista no art. 124, inc. I, na medida em que tal fato, por si só, não caracteriza o interesse comum na situação constitutiva do fato gerador. REGRA ANTISSUBCAPITALIZAÇÃO. JUROS PAGOS OU CREDITADOS A PESSOA VINCULADA SITUADA EM REGIME FISCAL PRIVILEGIADO Os juros pagos ou creditados por fonte situada no Brasil à Pessoa Vinculada em Regime Fiscal Privilegiado condicionam-se ao limite estabelecido na regra antissubcapitalização prevista no art. 25 da Lei 12.249/2010. PESSOA VINCULADA CONSTITUÍDA SOB A FORMA DE HOLDING COMPANY NOS PAÍSES BAIXOS. COMPROVAÇÃO DE EXERCÍCIO DE ATIVIDADE ECONÔMICA SUBSTANTIVA. Reputam-se como beneficiárias de Regime Fiscal Privilegiado as empresas do tipo holding company com registro nos Países Baixos quando não comprovado, no ano objeto da fiscalização, que exerceram atividade econômica substantiva naquele país. JUROS PASSIVOS. DESPESA DESNECESSÁRIA. MERA LIBERALIDADE NA ALTERAÇÃO DA MOEDA DO CONTRATO. AUMENTO NO REPASSE ESPERADO A TÍTULO DE JUROS A priori, juros são dedutíveis na apuração do Lucro Real no valor e nas condições em que originalmente foi contratada a dívida. Para fins fiscais, contudo, devem ser glosados os juros contabilizados sobre a majoração da dívida provocada por alterações injustificadas da moeda do contrato sem qualquer contrapartida para o patrimônio da devedora, por caracterizar mera liberalidade de seu controlador e não despesa necessária à sua atividade. ESTIMATIVAS NÃO RECOLHIDAS. MULTA ISOLADA. CONCOMITÂNCIA COM A MULTA DE OFÍCIO. POSSIBILIDADE. Nos casos de falta de recolhimento de estimativas mensais de IRPJ posteriores à Lei nº 11.488/2007, quando não justificados em balanço de suspensão ou redução, é cabível a cobrança da multa isolada, que pode e deve ser exigida, de forma cumulativa, com a multa de ofício aplicável aos casos de falta de pagamento do mesmo tributo, apurado de forma incorreta, ao final do período-base de incidência. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. CABIMENTO. O crédito tributário não pago integralmente no vencimento é acrescido de juros de mora, qualquer que seja o motivo determinante. Por ser parte integrante do crédito tributário, a multa de ofício também se submete à incidência dos juros, em caso de inadimplência. Súmula CARF nº 108. APLICAÇÃO DA TAXA SELIC. CABIMENTO. A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC para títulos federais. Súmula CARF nº4. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano-calendário: 2012 LANÇAMENTO. NORMA TRIBUTÁRIA VIGENTE COM EFICÁCIA SUSPENSA. APLICAÇÃO. O lançamento reporta-se à data da ocorrência do fato gerador da obrigação e rege-se pela legislação tributária então vigente, ainda que a sua eficácia se tivesse encontrado provisoriamente suspensa por decisão administrativa.
Numero da decisão: 1201-003.582
Decisão: Vistos, discutidos e relatados os presentes autos. Acordam os membros do colegiado por unanimidade em conhecer do Recurso de Ofício para, no mérito, negar-lhe provimento. No Recurso Voluntário da UBI, em dele conhecer para, no mérito, dar-lhe parcial provimento, afastando apenas a qualificação da multa, reduzindo-a ao seu patamar ordinário de 75%, e reconhecendo a decadência relativa ao ano-calendário 2011. Vencido o Conselheiro Lizandro Rodrigues de Sousa, que mantinha a qualificadora e não reconhecia a decadência. Mantidas, por voto de qualidade, as glosas de dedução de ágio e a concomitância da multa isolada com a multa de ofício. Vencidos, neste quesito, os Conselheiros Luis Henrique Marotti Toselli, Alexandre Evaristo Pinto, Bárbara Melo Carneiro e André Severo Chaves (Suplente convocado). Mantidas, por unanimidade, a aplicação da taxa Selic e a incidência de juros sobre multa no caso de inadimplência. No Recurso Voluntário da UBR, em dele conhecer para, no mérito, dar-lhe parcial provimento, afastando a sua responsabilidade tributária. Vencidos os conselheiros Lizandro Rodrigues de Sousa e Neudson Cavalcante Albuquerque, que mantinham a responsabilidade tributária da UBR. Manifestaram intenção de apresentar declaração de voto os conselheiros Luis Henrique Marotti Toselli e Bárbara Melo Carneiro. Findo o prazo, o Conselheiro Luis Henrique Marotti Toselli deixou de apresentar declaração de voto, a qual deve ser tida por não formulada, nos termos do §7º do art. 63 do Anexo II, da Portaria MF nº 343/2015 (RICARF). (assinado digitalmente) Lizandro Rodrigues de Sousa – Presidente (assinado digitalmente) Allan Marcel Warwar Teixeira – Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Neudson Cavalcante Albuquerque, Luis Henrique Marotti Toselli, Allan Marcel Warwar Teixeira, Efigênio de Freitas Junior, André Severo Chaves (Suplente Convocado), Alexandre Evaristo Pinto, Bárbara Melo Carneiro e Lizandro Rodrigues de Sousa (Presidente). Ausente a Conselheira Gisele Barra Bossa.
Nome do relator: ALLAN MARCEL WARWAR TEIXEIRA

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decisao_txt : Vistos, discutidos e relatados os presentes autos. Acordam os membros do colegiado por unanimidade em conhecer do Recurso de Ofício para, no mérito, negar-lhe provimento. No Recurso Voluntário da UBI, em dele conhecer para, no mérito, dar-lhe parcial provimento, afastando apenas a qualificação da multa, reduzindo-a ao seu patamar ordinário de 75%, e reconhecendo a decadência relativa ao ano-calendário 2011. Vencido o Conselheiro Lizandro Rodrigues de Sousa, que mantinha a qualificadora e não reconhecia a decadência. Mantidas, por voto de qualidade, as glosas de dedução de ágio e a concomitância da multa isolada com a multa de ofício. Vencidos, neste quesito, os Conselheiros Luis Henrique Marotti Toselli, Alexandre Evaristo Pinto, Bárbara Melo Carneiro e André Severo Chaves (Suplente convocado). Mantidas, por unanimidade, a aplicação da taxa Selic e a incidência de juros sobre multa no caso de inadimplência. No Recurso Voluntário da UBR, em dele conhecer para, no mérito, dar-lhe parcial provimento, afastando a sua responsabilidade tributária. Vencidos os conselheiros Lizandro Rodrigues de Sousa e Neudson Cavalcante Albuquerque, que mantinham a responsabilidade tributária da UBR. Manifestaram intenção de apresentar declaração de voto os conselheiros Luis Henrique Marotti Toselli e Bárbara Melo Carneiro. Findo o prazo, o Conselheiro Luis Henrique Marotti Toselli deixou de apresentar declaração de voto, a qual deve ser tida por não formulada, nos termos do §7º do art. 63 do Anexo II, da Portaria MF nº 343/2015 (RICARF). (assinado digitalmente) Lizandro Rodrigues de Sousa – Presidente (assinado digitalmente) Allan Marcel Warwar Teixeira – Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Neudson Cavalcante Albuquerque, Luis Henrique Marotti Toselli, Allan Marcel Warwar Teixeira, Efigênio de Freitas Junior, André Severo Chaves (Suplente Convocado), Alexandre Evaristo Pinto, Bárbara Melo Carneiro e Lizandro Rodrigues de Sousa (Presidente). Ausente a Conselheira Gisele Barra Bossa.

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ementa_s : ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA (IRPJ) Ano-calendário: 2011, 2012, 2013, 2014 AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO RENTABILIDADE FUTURA APÓS EVENTO DE INCORPORAÇÃO. EFEITOS FISCAIS. DEPENDÊNCIA DAS REGRAS CONTÁBEIS. O Lucro Real tem no Lucro Líquido do Exercício, apurado conforme escrituração comercial regida pela Lei 6.404/1976 e princípios contábeis geralmente aceitos, o seu ponto de partida, do qual são feitas no LALUR as devidas adições, exclusões ou compensações - se, e somente se - expressamente prescritas ou autorizadas pela legislação tributária. Nesta linha, no caso de determinados registros serem condenados pelos princípios contábeis geralmente aceitos então vigentes - como ágio interno ou goodwill pelo valor global do ágio em vez de pelo residual -, tais restrições contábeis não podem ser interpretadas de modo a dar azo a exclusões adicionais da base de cálculo do IRPJ sob o argumento de que faltou à lei fiscal dispor sobre estes tipos de registro expressamente. NATUREZA JURÍDICA DO ÁGIO RENTABILIDADE FUTURA AMORTIZADO APÓS EVENTO DE INCORPORAÇÃO. O ágio rentabilidade futura amortizado após incorporação tem natureza jurídica de perda de capital, posto a Lei 9.532/97 ter promovido a sua identificação com o resíduo devedor apurado pelos lançamentos contábeis próprios desta espécie de evento, regulados antes pelo art. 34 do DL 1.598/77. ÁGIO INTERNO. IMPOSSIBILIDADE DE REGISTRO CONTÁBIL ANTES DA VIGÊNCIA DA LEI 12.973/2014. O ágio rentabilidade futura interno já não era passível de registro contábil no Brasil antes mesmo da adoção dos padrões IFRS, após 31/12/2007. Por conseguinte, não se admite a sua dedução para fins fiscais no curso dos anos objetos desta autuação fiscal. ASPECTO RESIDUAL DO ÁGIO RENTABILIDADE FUTURA. O ágio rentabilidade futura tem seu valor apurado de forma residual no momento do registro da participação societária adquirida, sendo tal diretriz já observada pelas normas e práticas contábeis no País antes da adoção dos padrões IFRS após 31/12/2007. MULTA QUALIFICADA. INAPLICABILIDADE. O não reconhecimento pelo Fisco do ágio gerado em operações realizadas dentro do mesmo grupo econômico, com a consequente glosa de sua amortização, não enseja, por si só, a aplicação da multa qualificada, quando os atos praticados revelam interpretação equivocada por parte do contribuinte quanto à legislação de regência. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA POR INTERESSE COMUM NA SITUAÇÃO CONSTITUTIVA DO FATO GERADOR. EMPRESA INTEGRANTE DO MESMO GRUPO ECONÔMICO. NÃO CARACTERIZAÇÃO. Afastadas as hipóteses de fraude e simulação, ser a empresa nomeada responsável integrante do mesmo grupo econômico da autuada, à míngua de outros elementos, é insuficiente para justificar a manutenção da responsabilidade solidária prevista no art. 124, inc. I, na medida em que tal fato, por si só, não caracteriza o interesse comum na situação constitutiva do fato gerador. REGRA ANTISSUBCAPITALIZAÇÃO. JUROS PAGOS OU CREDITADOS A PESSOA VINCULADA SITUADA EM REGIME FISCAL PRIVILEGIADO Os juros pagos ou creditados por fonte situada no Brasil à Pessoa Vinculada em Regime Fiscal Privilegiado condicionam-se ao limite estabelecido na regra antissubcapitalização prevista no art. 25 da Lei 12.249/2010. PESSOA VINCULADA CONSTITUÍDA SOB A FORMA DE HOLDING COMPANY NOS PAÍSES BAIXOS. COMPROVAÇÃO DE EXERCÍCIO DE ATIVIDADE ECONÔMICA SUBSTANTIVA. Reputam-se como beneficiárias de Regime Fiscal Privilegiado as empresas do tipo holding company com registro nos Países Baixos quando não comprovado, no ano objeto da fiscalização, que exerceram atividade econômica substantiva naquele país. JUROS PASSIVOS. DESPESA DESNECESSÁRIA. MERA LIBERALIDADE NA ALTERAÇÃO DA MOEDA DO CONTRATO. AUMENTO NO REPASSE ESPERADO A TÍTULO DE JUROS A priori, juros são dedutíveis na apuração do Lucro Real no valor e nas condições em que originalmente foi contratada a dívida. Para fins fiscais, contudo, devem ser glosados os juros contabilizados sobre a majoração da dívida provocada por alterações injustificadas da moeda do contrato sem qualquer contrapartida para o patrimônio da devedora, por caracterizar mera liberalidade de seu controlador e não despesa necessária à sua atividade. ESTIMATIVAS NÃO RECOLHIDAS. MULTA ISOLADA. CONCOMITÂNCIA COM A MULTA DE OFÍCIO. POSSIBILIDADE. Nos casos de falta de recolhimento de estimativas mensais de IRPJ posteriores à Lei nº 11.488/2007, quando não justificados em balanço de suspensão ou redução, é cabível a cobrança da multa isolada, que pode e deve ser exigida, de forma cumulativa, com a multa de ofício aplicável aos casos de falta de pagamento do mesmo tributo, apurado de forma incorreta, ao final do período-base de incidência. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. CABIMENTO. O crédito tributário não pago integralmente no vencimento é acrescido de juros de mora, qualquer que seja o motivo determinante. Por ser parte integrante do crédito tributário, a multa de ofício também se submete à incidência dos juros, em caso de inadimplência. Súmula CARF nº 108. APLICAÇÃO DA TAXA SELIC. CABIMENTO. A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC para títulos federais. Súmula CARF nº4. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano-calendário: 2012 LANÇAMENTO. NORMA TRIBUTÁRIA VIGENTE COM EFICÁCIA SUSPENSA. APLICAÇÃO. O lançamento reporta-se à data da ocorrência do fato gerador da obrigação e rege-se pela legislação tributária então vigente, ainda que a sua eficácia se tivesse encontrado provisoriamente suspensa por decisão administrativa.

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EFEITOS FISCAIS. DEPENDÊNCIA DAS REGRAS CONTÁBEIS. O Lucro Real tem no Lucro Líquido do Exercício, apurado conforme escrituração comercial regida pela Lei 6.404/1976 e princípios contábeis geralmente aceitos, o seu ponto de partida, do qual são feitas no LALUR as devidas adições, exclusões ou compensações - se, e somente se - expressamente prescritas ou autorizadas pela legislação tributária. Nesta linha, no caso de determinados registros serem condenados pelos princípios contábeis geralmente aceitos então vigentes - como ágio interno ou goodwill pelo valor global do ágio em vez de pelo residual -, tais restrições contábeis não podem ser interpretadas de modo a dar azo a exclusões adicionais da base de cálculo do IRPJ sob o argumento de que faltou à lei fiscal dispor sobre estes tipos de registro expressamente. NATUREZA JURÍDICA DO ÁGIO RENTABILIDADE FUTURA AMORTIZADO APÓS EVENTO DE INCORPORAÇÃO. O ágio rentabilidade futura amortizado após incorporação tem natureza jurídica de perda de capital, posto a Lei 9.532/97 ter promovido a sua identificação com o resíduo devedor apurado pelos lançamentos contábeis próprios desta espécie de evento, regulados antes pelo art. 34 do DL 1.598/77. ÁGIO INTERNO. IMPOSSIBILIDADE DE REGISTRO CONTÁBIL ANTES DA VIGÊNCIA DA LEI 12.973/2014. O ágio rentabilidade futura interno já não era passível de registro contábil no Brasil antes mesmo da adoção dos padrões IFRS, após 31/12/2007. Por conseguinte, não se admite a sua dedução para fins fiscais no curso dos anos objetos desta autuação fiscal. ASPECTO RESIDUAL DO ÁGIO RENTABILIDADE FUTURA. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 56 1. 72 00 98 /2 01 7- 56 Fl. 5127DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 2 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 O ágio rentabilidade futura tem seu valor apurado de forma residual no momento do registro da participação societária adquirida, sendo tal diretriz já observada pelas normas e práticas contábeis no País antes da adoção dos padrões IFRS após 31/12/2007. MULTA QUALIFICADA. INAPLICABILIDADE. O não reconhecimento pelo Fisco do ágio gerado em operações realizadas dentro do mesmo grupo econômico, com a consequente glosa de sua amortização, não enseja, por si só, a aplicação da multa qualificada, quando os atos praticados revelam interpretação equivocada por parte do contribuinte quanto à legislação de regência. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA POR INTERESSE COMUM NA SITUAÇÃO CONSTITUTIVA DO FATO GERADOR. EMPRESA INTEGRANTE DO MESMO GRUPO ECONÔMICO. NÃO CARACTERIZAÇÃO. Afastadas as hipóteses de fraude e simulação, ser a empresa nomeada responsável integrante do mesmo grupo econômico da autuada, à míngua de outros elementos, é insuficiente para justificar a manutenção da responsabilidade solidária prevista no art. 124, inc. I, na medida em que tal fato, por si só, não caracteriza o interesse comum na situação constitutiva do fato gerador. REGRA ANTISSUBCAPITALIZAÇÃO. JUROS PAGOS OU CREDITADOS A PESSOA VINCULADA SITUADA EM REGIME FISCAL PRIVILEGIADO Os juros pagos ou creditados por fonte situada no Brasil à Pessoa Vinculada em Regime Fiscal Privilegiado condicionam-se ao limite estabelecido na regra antissubcapitalização prevista no art. 25 da Lei 12.249/2010. PESSOA VINCULADA CONSTITUÍDA SOB A FORMA DE HOLDING COMPANY NOS PAÍSES BAIXOS. COMPROVAÇÃO DE EXERCÍCIO DE ATIVIDADE ECONÔMICA SUBSTANTIVA. Reputam-se como beneficiárias de Regime Fiscal Privilegiado as empresas do tipo holding company com registro nos Países Baixos quando não comprovado, no ano objeto da fiscalização, que exerceram atividade econômica substantiva naquele país. JUROS PASSIVOS. DESPESA DESNECESSÁRIA. MERA LIBERALIDADE NA ALTERAÇÃO DA MOEDA DO CONTRATO. AUMENTO NO REPASSE ESPERADO A TÍTULO DE JUROS A priori, juros são dedutíveis na apuração do Lucro Real no valor e nas condições em que originalmente foi contratada a dívida. Para fins fiscais, contudo, devem ser glosados os juros contabilizados sobre a majoração da dívida provocada por alterações injustificadas da moeda do contrato sem qualquer contrapartida para o patrimônio da devedora, por caracterizar mera liberalidade de seu controlador e não despesa necessária à sua atividade. Fl. 5128DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 3 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 ESTIMATIVAS NÃO RECOLHIDAS. MULTA ISOLADA. CONCOMITÂNCIA COM A MULTA DE OFÍCIO. POSSIBILIDADE. Nos casos de falta de recolhimento de estimativas mensais de IRPJ posteriores à Lei nº 11.488/2007, quando não justificados em balanço de suspensão ou redução, é cabível a cobrança da multa isolada, que pode e deve ser exigida, de forma cumulativa, com a multa de ofício aplicável aos casos de falta de pagamento do mesmo tributo, apurado de forma incorreta, ao final do período-base de incidência. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. CABIMENTO. O crédito tributário não pago integralmente no vencimento é acrescido de juros de mora, qualquer que seja o motivo determinante. Por ser parte integrante do crédito tributário, a multa de ofício também se submete à incidência dos juros, em caso de inadimplência. Súmula CARF nº 108. APLICAÇÃO DA TAXA SELIC. CABIMENTO. A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC para títulos federais. Súmula CARF nº4. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano-calendário: 2012 LANÇAMENTO. NORMA TRIBUTÁRIA VIGENTE COM EFICÁCIA SUSPENSA. APLICAÇÃO. O lançamento reporta-se à data da ocorrência do fato gerador da obrigação e rege-se pela legislação tributária então vigente, ainda que a sua eficácia se tivesse encontrado provisoriamente suspensa por decisão administrativa. Vistos, discutidos e relatados os presentes autos. Acordam os membros do colegiado por unanimidade em conhecer do Recurso de Ofício para, no mérito, negar-lhe provimento. No Recurso Voluntário da UBI, em dele conhecer para, no mérito, dar-lhe parcial provimento, afastando apenas a qualificação da multa, reduzindo-a ao seu patamar ordinário de 75%, e reconhecendo a decadência relativa ao ano- calendário 2011. Vencido o Conselheiro Lizandro Rodrigues de Sousa, que mantinha a qualificadora e não reconhecia a decadência. Mantidas, por voto de qualidade, as glosas de dedução de ágio e a concomitância da multa isolada com a multa de ofício. Vencidos, neste quesito, os Conselheiros Luis Henrique Marotti Toselli, Alexandre Evaristo Pinto, Bárbara Melo Carneiro e André Severo Chaves (Suplente convocado). Mantidas, por unanimidade, a aplicação da taxa Selic e a incidência de juros sobre multa no caso de inadimplência. No Recurso Voluntário da UBR, em dele conhecer para, no mérito, dar-lhe parcial provimento, afastando a sua responsabilidade tributária. Vencidos os conselheiros Lizandro Rodrigues de Sousa e Neudson Cavalcante Albuquerque, que mantinham a responsabilidade tributária da UBR. Manifestaram intenção de apresentar declaração de voto os conselheiros Luis Henrique Marotti Toselli e Bárbara Melo Carneiro. Findo o prazo, o Conselheiro Luis Henrique Marotti Fl. 5129DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 4 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 Toselli deixou de apresentar declaração de voto, a qual deve ser tida por não formulada, nos termos do §7º do art. 63 do Anexo II, da Portaria MF nº 343/2015 (RICARF). (assinado digitalmente) Lizandro Rodrigues de Sousa – Presidente (assinado digitalmente) Allan Marcel Warwar Teixeira – Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Neudson Cavalcante Albuquerque, Luis Henrique Marotti Toselli, Allan Marcel Warwar Teixeira, Efigênio de Freitas Junior, André Severo Chaves (Suplente Convocado), Alexandre Evaristo Pinto, Bárbara Melo Carneiro e Lizandro Rodrigues de Sousa (Presidente). Ausente a Conselheira Gisele Barra Bossa. Relatório Trata-se de autos de infração de IRPJ, CSLL, PIS e COFINS no valor global de R$ 1.055.155.976,91, referentes aos AC 2011 a 2015, lavrado em 07/12/2017, com multas qualificada e de ofício. As infrações registradas foram as seguintes: (i) Amortização indevida de ágio interno (IRPJ/CSLL), nos AC 2011 a 2014, por artificialidade da estrutura societária de geração do ágio, pelo emprego de empresa-veículo e pela impossibilidade de aproveitamento fiscal de ágio interno e impropriedade do laudo de avaliação que fundamentou o ágio, com aplicação de multa qualificada; (ii) Exclusão indevida de benefício fiscal do programa FOMENTAR (IRPJ/CSLL/PIS/COFINS), AC 2012, entendida pela fiscalização como subvenção para custeio e não para investimento; e (iii) Juros indedutíveis em empréstimo com parte vinculada que excedeu o limite da regra de antissubcapitalização e considerado parcialmente despesa não necessária em razão da troca da moeda do contrato. Além disto, foi atribuída responsabilidade solidária à Unilever Brasil Ltda. Fl. 5130DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 5 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 Feito este breve resumo, passo a detalhar melhor os fatos. 1. Das Infrações Registradas 1.1 – Glosa de amortização de ágio interno Informa o Termo de Verificação Fiscal que a operação consistira na incorporação da então Unilever Brasil Alimentos (UBA) pela Unilever Brasil (UBR), entre 01/11/2007 e 18/02/2008, gerando-se um ágio interno, o qual foi inteiramente registrado como rentabilidade futura. A amortização do ágio interno foi efetuada pela empresa UBR até 01/11/2009, quando esta sofreu cisão parcial, resultando na reversão do ativo cindido à empresa Unilever Brasil Industrial (UBI), ora Recorrente. O ágio interno então passou a ser amortizado na UBI a partir de 02/11/2009, sendo deduzido tributariamente a partir dessa data. Todas as empresas envolvidas na incorporação e cisão parcial pertenciam ao mesmo grupo econômico Unilever. A empresa adquirente (UBR), geradora do ágio, tinha seu capital social detido pelas empresas Brazinvestee BV, Brasinvest BV, BrazH1 BV, BrazH2 BV, todas com sede no mesmo endereço na cidade de Bruxelas. Já a Unilever Brasil Alimentos (UBA), empresa adquirida, era detida, à época da operação, por BrazH3 BV, BrazH4 BV e BrazH5 BV, estas três com sede no mesmo endereço na cidade de Roterdã. Informa ainda o TVF que as empresas BrazH3, BrazH4 e BrazH5 foram constituídas e dissolvidas em um período de aproximadamente 03 anos e em aproximadamente um ano e meio adquiriram e revenderam a Unilever Brasil Alimentos. Questionadas quanto à brevidade destas operações, tanto a UBR, quanto a UBI, informaram que tais reestruturações decorriam da implantação de um novo modelo global de negócios, em que dividiria a Unilever em um ramo manufatureiro e o outro distribuidor. Quanto à avaliação da Unilever Brasil Alimentos (UBA), a empresa de consultoria Delloite emitiu laudo estimando o valor de aquisição em R$ 1,379 bilhão, contra um Patrimônio Líquido de R$ 180 milhões. Todo o ágio referente a esta diferença foi registrado como Rentabilidade Futura. A fiscalização glosou o ágio amortizado pela Recorrente por reputá-lo artificial, seja por ter sido gerado internamente, seja pelo emprego de empresa veículo. Ainda, questionou o dimensionamento da rentabilidade futura, atribuída a todo o ágio em vez de apenas a seu valor residual. Por fim, aplicou a fiscalização a multa qualificada de 150% registrando a ocorrência de fraude e de simulação no ágio gerado. 1.2 – Exclusão indevida do desconto do FOMENTAR nas bases de cálculo do IRPJ e da CSLL Fl. 5131DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 6 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 O fundamento da autuação foi a descaracterização dos incentivos fiscais, concedidos no âmbito do Fundo de Participação e Fomento à Industrialização do Estado de Goiás (Fomentar) – criado pela Lei Estadual n° 9.489, de 31/07/1984, e regulamentado pelos Decretos n° 2.453, de 22/02/1985; n° 3.503, de 08/08/1990; e n° 3.822, de 10/07/1992 –, como subvenções para investimento (receita não tributável), tendo sido requalificados, pela fiscalização, como subvenções para custeio da atividade (receita tributável). 1.3 – Juros indedutíveis em empréstimo com vinculada no exterior Esta infração se subdivide em outras duas: excesso ao limite estabelecido na regra antissubcapitalização prevista no art. 25 da Lei 12.249/2010 e despesas desnecessárias decorrente de variação cambial ocasionada por mudança injustificada da moeda do contrato. O excesso ao limite estabelecido na regra antissubcapitalização deu-se em razão do enquadramento da vinculada credora UFI BV, holding company financeira, ter sido reputada como beneficiária de Regime Fiscal Privilegiado. Assim, foi aplicado o regime mais rigoroso, o mesmo previsto para empresas com domicílio registrado em paraísos fiscais, previsto no art. 25 da Lei 12.249/2010. Quanto às despesas desnecessárias decorrente de variação cambial, constatou- se que foram efetuadas mudanças na moeda do contrato que, no entender da fiscalização, foram injustificadas e serviram apenas para aumentar os repasses a título de juros para a vinculada UFI BV. 1.4 – Da Responsabilidade solidária da Unilever Brasil Ltda (UBR) Concluiu a fiscalização que a UBR tem responsabilidade solidária em relação aos valores cobrados da Recorrente (UBI) nesta autuação. Em síntese, porque, tanto na amortização fiscal do ágio, quanto na dedução excessiva de juros, teria restado caracterizado o interesse comum da UBR e da UBI na situação constitutiva do fato gerador, nos termos do art. 124, I, do CTN. 1.5 – Compensação Indevida de Prejuízo Fiscal e Bases Negativas de CSLL Após registradas as infrações que aumentaram os valores devidos de IRPJ e de CSLL no período, constatou a fiscalização o excesso de compensação pela Recorrente de prejuízos fiscais e bases negativas da CSLL, tendo sido glosado o excesso. 2.0 – Das Impugnações Fl. 5132DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 7 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 Contra a autuação fiscal, a ora Recorrente interpôs impugnação, alegando, em síntese, que: a) A amortização do ágio foi legítima; b) Que as subvenções para investimento do programa FOMENTAR foram de fato oferecidos à tributação em 2012, portanto, sua autuação devia ser cancelada; c) A possibilidade de dedução de juros na operação intercompany, dado a vinculada credora ser holding financeira com atividade econômica substantiva nos Países Baixos, bem como não ser aplicável a regra estabelecida pela RFB na IN 1.037/2010 por se encontrar com a sua eficácia suspensa. A UBR impugnou sua responsabilidade, em síntese, alegando não ter restado caracterizado o interesse comum a ensejar a responsabilização prevista no art. 124, I, do CTN. Às fls. 3880/3882, a DRJ Ribeirão Preto converteu o julgamento de primeira instância em diligência para a análise da alegação de extinção, previamente aos lançamentos, dos débitos exigidos sob a rubrica “Subvenções para Investimento – Fomentar”. Às fls. 4.609, a autoridade julgadora de primeira instância proferiu decisão dando parcial provimento à Impugnação da UBI para exonerar apenas a cobrança referente à infração de exclusão de valores do programa FOMENTAR, em acórdão assim ementado: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano- calendário: 2011, 2012, 2013, 2014, 2015 DECADÊNCIA. ÁGIO. AMORTIZAÇÃO. O início da contagem do prazo decadencial, para a constituição de ofício do crédito tributário, ocorre a partir do momento em que ocorrido o fato gerador do imposto ou contribuição. Ainda que o ágio tenha sido escriturado em período-base já atingido pela decadência, somente a partir do momento em que afetadas as bases de cálculo do IRPJ e da CSLL, mediante amortização contábil ou fiscal, é que se inicia a contagem do prazo decadencial para e exercício do poder/dever de constituir o crédito tributário pelo lançamento. DECADÊNCIA. DOLO, FRAUDE OU SIMULAÇÃO. “Caracterizada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, a contagem do prazo decadencial rege-se pelo art. 173, inciso I, do CTN”. (Súmula CARF nº 72) ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA - IRPJ Ano-calendário: 2011, 2012, 2013, 2014 LUCRO REAL. EXCLUSÃO INDEVIDA. AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. Nos termos da legislação de regência (arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997), para a regular amortização de ágio pago na aquisição de investimentos, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, quatro premissas revelam-se essenciais: (i) a realização das operações originais entre partes não ligadas; (ii) o efetivo pagamento do custo total de aquisição, inclusive o ágio; (iii) a comprovação do fundamento econômico do pagamento do ágio, como sendo a rentabilidade futura do investimento; e (iv) a extinção do investimento, mediante operações de incorporação, fusão ou cisão entre investidora e investida. ÁGIO INTERNO. AMORTIZAÇÃO. INDEDUTIBILIDADE. A dedução das despesas de ágio (artigo 386 do RIR/99) exige a participação de uma pessoa jurídica investidora Fl. 5133DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 8 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 originária, que efetivamente tenha acreditado na “mais valia” do investimento e feito sacrifícios patrimoniais para a sua aquisição, não se vislumbrando essa condição em razão de alienantes e adquirente integrarem o mesmo grupo econômico e estarem submetidos a controle comum. ÁGIO. FUNDAMENTO ECONÔMICO. VINCULAÇÃO. A força cogente e normativa dos preceitos legais que regem o diverso tratamento fiscal ao ágio pago na aquisição de investimentos, de acordo com o seu fundamento econômico, desautoriza a tese de que a pessoa jurídica estaria dispensada de atender ao tratamento previsto em lei para cada uma das hipóteses normativas: se o ágio for pago por mais-valia de ativos, deve ser agregado ao valor do bem após a incorporação, passível de depreciação, amortização etc.; se for pago por fundo de comércio, intangíveis ou outras razões econômicas, deve ser contabilizado no ativo permanente da incorporadora, não passível de amortização; e se for pago por rentabilidade futura da investida, deve ser amortizado contra os resultados da incorporadora dos períodos subseqüentes. ÁGIO INTERNO. SIMULAÇÃO DE COMPRA E VENDA ENTRE EMPRESAS DO MESMO GRUPO EMPRESARIAL. MULTA QUALIFICADA. SONEGAÇÃO. FRAUDE. Deve ser mantida a aplicação da multa qualificada, porque a dissimulação de uma operação de reavaliação de negócios dentro do mesmo grupo empresarial, mediante a simulação de uma operação de compra e venda a preço de mercado, para criar artificialmente um ágio, configura conduta dolosa tendente a impedir ou retardar o conhecimento da ocorrência do fato gerador, mediante a exclusão ou modificação de suas características essenciais, para reduzir o montante do tributo devido ou a evitar ou diferir o seu pagamento. CONSTITUCIONALIDADE. COMPETÊNCIA. MULTA QUALIFICADA. No âmbito do processo administrativo fiscal, é vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade, a menos que o ato tenha sido declarado inconstitucional pro decisão definitiva plenária do Supremo Tribunal Federal - STF. SUBVENÇÃO PARA INVESTIMENTO. LEI COMPLEMENTAR Nº 160, DE 2017. A Lei Complementar nº 160, de 2017, inseriu os §§ 4º e 5º no artigo 30, da Lei nº 12.973/2014, para vedar a exigência de outros requisitos ou condições, além daqueles estabelecidos pelo próprio artigo 30, §§ 1º a 3º, para a caracterização da subvenção de investimento, como receita não tributável, e determinar a aplicação deste novo preceito normativo aos processos pendentes. Com a publicação, registro e depósito do incentivo fiscal concedido pelo Estado de Goiás, perante o Conselho Nacional de Política Fazendária - Confaz, não podem ser exigidos outros requisitos para o reconhecimento da subvenção para investimento, como receita não tributável. A norma jurídica vigente à data de ocorrência dos fatos geradores, para a caracterização da subvenção de investimento, como receita não tributável, estava estabelecida no art. 18 da Lei nº 11.941, de 2009, em que os requisitos e condições guardam similitude com a previsão contida no art. 30 da Lei nº 12.973, de 2014. Como a desconsideração da subvenção para investimento se fez com base em requisitos e condições que não constam do art. 18 da Lei nº 11.941, de 2009, o lançamento é improcedente. INOVAÇÃO. MUDANÇA DE FUNDAMENTAÇÃO. O órgão administrativo de julgamento falece de competência para verificar questões de fato não litigiosas, como a observância dos requisitos para o reconhecimento da subvenção para investimento, contidas no art. 18 e seus §§ da Lei nº 11.941/2009. JUROS PAGOS OU CREDITADOS A BENEFICIÁRIO CONSTITUÍDO EM PAÍS COM REGIME FISCAL PRIVILEGIADO SOB A FORMA DE HOLDING COMPANY. COMPROVAÇÃO DE EXERCÍCIO DE ATIVIDADE ECONÔMICA SUBSTANTIVA. Os juros pagos ou creditados por fonte situada no Brasil à pessoa jurídica residente, domiciliada ou constituída no exterior, em país sob regime fiscal Fl. 5134DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 9 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 privilegiado, somente serão dedutíveis, para fins de determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL, quando se verifique constituírem despesa necessária à atividade, atendendo cumulativamente ao requisito de que o valor total do somatório dos endividamentos com todas as entidades situadas em país ou dependência com tributação favorecida ou sob regime fiscal privilegiado não seja superior a 30% (trinta por cento) do valor do patrimônio líquido da pessoa jurídica residente no Brasil. Configura regime fiscal privilegiado, o aplicável às pessoas jurídicas constituídas no Reino dos Países Baixos, sob a forma de holding company que não exerçam atividade econômica substantiva. Comprovada a ausência de empregados próprios qualificados em número suficiente para o exercício da gestão e a efetiva tomada de decisões relativas ao desenvolvimento das atividades empresariais, e ainda o compartilhamento de instalações físicas com mais de duas dezenas de outras empresas, resta comprometida a prova da capacidade operacional apropriada da pessoa jurídica para os seus fins. A mera descrição do objeto social no contrato social não configura instrumento hábil a comprovar que a pessoa jurídica, sediada no exterior, exercia atividade econômica substantiva. As planilhas designadas como Relatórios Gerenciais somente poderiam ser admitidos como provas hábeis de atividade econômica substantiva se pudessem ser documentalmente validados. O balanço e a demonstração de resultado do exercício não são admitidos como instrumentos hábeis à comprovação da atividade econômica substantiva devido: (i) à completa ausência de formalidades a atestar que se trata de demonstrações financeiras produzidas pela credora, para atender à legislação de seu país de domicílio; e (ii) à impossibilidade de verificação, tanto dos dados patrimoniais e de resultado, discriminados de DRJ/RPO Fls. 4 4 forma genérica e bastante resumida, como das indicações sobre percentuais representativos das operações com as empresas no Brasil. JUROS PASSIVOS. DESPESA DESNECESSÁRIA. ALTERAÇÃO CONTRATUAL EM PREJUÍZO DO PATRIMÔNIO DA DEVEDOR. Os juros incidentes sobre a dívida contratada, no valor e nas condições em que originalmente contratada, são dedutíveis, para fins de apuração das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL. Para fins fiscais, deve ser afastada a dedutibilidade dos juros contabilizados sobre a majoração da dívida, em função de alterações injustificadas da moeda do contrato, sem qualquer contrapartida para o patrimônio dos devedores, por caracterizar mera liberalidade destes para com o credor, e não despesa necessária à atividade da empresa. DA GLOSA DA COMPENSAÇÃO DOS PREJUÍZOS FISCAIS E BASES DE CÁLCULO NEGATIVAS UTILIZADOS NA COMPENSAÇÃO DAS BASES TRIBUTÁVEIS APURADAS NOS PERÍODOS ANTERIORES. Procedente a glosa da compensação de prejuízos fiscais e bases de cálculo negativas, por insuficiência de saldos disponíveis, na parte em que utilizados na compensação das bases tributáveis dos períodos anteriores. MULTA ISOLADA. FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS. AUSÊNCIA DE DUPLICIDADE DE INCIDÊNCIA COM A MULTA DE OFÍCIO. A falta de recolhimento mensal do IRPJ e da CSLL, calculados por estimativa, sujeita a pessoa jurídica à multa de ofício isolada. Como as hipóteses de incidência, as bases de cálculo e os fatos sobre os quais incidem são distintos e autônomos, não se caracteriza a duplicidade de penalidade sobre o mesmo fato. Improcedente a incidência da multa isolada sobre a parcela da autuação cancelada. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL. PIS. COFINS. Na medida em que a exigência reflexa têm por base os mesmos fatos que ensejaram o lançamento do imposto de renda, a decisão de mérito prolatada naquele constitui prejulgado na decisão do auto de infração decorrente. JUROS DE MORA. INCIDÊNCIA SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. A multa de ofício é débito para com a União, decorrente de tributos e contribuições administrados pela SRF, configurando-se regular a incidência dos juros de mora sobre a multa de Fl. 5135DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 10 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 ofício a partir de seu vencimento. JUROS DE MORA. TAXA SELIC. Já há decisão do Supremo Tribunal Federal - STF em Repercussão Geral a reconhecer a legitimidade de aplicação da taxa Selic na atualização de débitos tributários. CRÉDITO TRIBUTÁRIO. RESPONSABILIDADE DE TERCEIROS. Conforme pacificada jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, deve ser imputada a responsabilidade tributária de todos aqueles que participaram realização dos fatos geradores dos tributos. Constatada e provada a participação conjunta da contribuinte e da responsável na realização das infrações imputadas pelo Fisco, configurado esta o interesse comum, a redundar na responsabilização solidária das empresas, com fulcro no artigo 124, I, do CTN. Contra a decisão de primeira instância, as Recorrentes interpuseram Recursos Voluntários. Quanto a glosa do ágio, em síntese, alegam: 1. Preliminarmente, a decadência, tendo em vista que o termo inicial de contagem deve ser tomado no final de 2007 ou início de 2008 – quando ocorreu a reestruturação societária – e não de cada período de dedução das amortizações. Subsidiariamente, que seja considerado alcançado pela decadência o ano-calendário de 2011, nos termos do art. 150, §4º do CTN, dado ter sido a autuação fiscal lavrada em 07/12/2017; 2. Que as operações surgiram de uma necessidade constatada pelo grupo Unilever em nível global de segmentar suas atividades em um ramo industrial e outro comercial, não podendo a cisão da UBR no Brasil – de onde se originou o ágio amortizado na Recorrente UBI – ser considerada manobra com fins de reduzir artificialmente a tributação; 3. Que as transações questionadas pela fiscalização foram realizadas com pagamento do preço em dinheiro, tendo resultado em Imposto de Renda na Fonte sobre ganho de capital de cada uma das vendedoras (não residentes) num valor total de R$ 51.111.335,73; 4. Que o valor pago na operação – do qual resultou a apuração de tributos em R$ 51.111.335,73 – obedeceu ao método PIC das regras de Preço de Transferência, dado ter sido efetuado entre partes vinculadas; 5. Que o impedimento à dedução do ágio rentabilidade futura gerado internamente só adveio com a Lei 12.973/2014, não podendo tal vedação retroagir aos fatos de que trata este processo, havendo, inclusive, julgados do Poder Judiciário neste sentido; 6. As normas comerciais e contábeis instituídas a partir de 2007 também não podem ter efeitos fiscais para as empresas sujeitas ao Regime Tributário de Transição (RTT). Assim, deve ser revista a fundamentação da DRJ sustentada em tais atos normativos; 7. Que é infundada a acusação de emprego de empresa-veículo na geração do ágio, dado que, neste tipo de análise, importam apenas as características das empresas incorporadora e incorporada – no caso, UBA e UBR –, cujas substâncias são inquestionáveis. A constituição das empresas estrangeiras BrazH3, BrazH4 e BrazH5 – vendedoras da UBA e cujas substâncias foram questionadas pela fiscalização – em nada mudaram o resultado final da aquisição da participação societária da Fl. 5136DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 11 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 Recorrente, dado que a UBA já era detida por empresa vinculada antes da reestruturação, no caso, a Bestfoods EUA, adquirida pelo grupo Univeler; 8. Que a apuração residual do ágio rentabilidade futura só deve ser observada a partir da Lei 12.973/2014, devendo ser, por conseguinte, reputado válido para fins fiscais de amortização o valor cheio informado no laudo emitido pela empresa de consultoria Delloite; 9. Que não restou provada pela Fiscalização a existência de nenhum dos vícios previstos no art. 167 do Código Civil, devendo, portanto, ser afastada a acusação de simulação; 10. Que no Processo Administrativo nº 16561.720169/2014-78, o CARF, analisando os efeitos fiscais destas mesmas operações para o AC 2010, afastou a qualificação da multa; 11. Que deve o CARF observar o precedente contido no Agravo Regimental em Recurso Extraordinário nº 833.106/GO julgado pelo e. Supremo Tribunal Federal, no qual teria limitado as multas fiscais ao valor do tributo devido; Quanto à dedutibilidade dos juros em empréstimo com a parte vinculada UFI BV, holding company, as alegações são as que se seguem. 1. Quanto à aplicação pela autoridade autuante dos limites de dedução estabelecidos pela regra antissubcapitalização para empresas domiciliadas em paraísos fiscais ou em dependências sob Regime Fiscal privilegiado: 1.1. Que a IN RFB 1037/2010 teve seu inciso IV do §2º, referente a classificação das holding companies holandesas como em Regimes Fiscais Privilegiados, suspenso pelo ADE nº 10/2010. Logo, não pode ser aplicado ao AC 2012, sobretudo porque o ADE nº 03/2015, que revogou a suspensão, entrou em vigor apenas em 21/12/2015. Assim, só a partir desta data a restrição prevista na IN 1.037/2010 para as holding companies holandesas seria aplicável; 1.2. Que um Ato Administrativo suspenso pela autoridade que o emitiu é ineficaz e, por esta condição, não pode produzir efeitos contra os administrados. Assim, deve ser afastado o entendimento da DRJ no sentido de que a legislação a ser aplicada seria a vigente à época do fato gerador a despeito de esta se encontrar com seus efeitos suspensos naquele momento, mesmo que restabelecidos posteriormente dentro do prazo decadencial; 1.3. Quanto aos fatos, que a credora vinculada UFI BV se trataria de holding company financeira com atividade econômica substantiva nos Países Baixos no período em questão. Assim, não poderia ser classificada como empresa sob Regime Fiscal Privilegiado, nos termos da IN RFB 1037/2010; 1.4.Que a Holanda diferencia as holding companies puras das financeiras, não devendo uma ser considerada espécie do gênero da outra para fins de classificação como empresa em Regime Fiscal Privilegiado; Fl. 5137DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 12 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 1.5.Que a autoridade autuante presumiu indevidamente que a UFI não possuía capacidade operacional compatível para exercer seu objeto social como holding financeira; 1.6.Que as sociedades holandesas não podem ser consideradas sob Regime Fiscal Privilegiado porque vigora (ou vigorava) naquele país alíquota nominal superior a 20%; 2. Quanto às despesas consideradas desnecessárias por majoração artificial da dívida por meio da alteração da moeda do contrato, as Recorrentes apresentaram as seguintes justificativas: 2.1.Que as variações do câmbio não podem ser controladas, de modo que é infundada a acusação de que as oscilações resultassem de uma majoração artificial por parte do grupo Unilever; 2.2.Que, após a mudança da moeda do contrato para Real em 2004, este padrão monetário da dívida permaneceu por 7 anos, até 2011/2012 voltar a ser esta denominada em moeda estrangeira; 3. No mais, questionam a concomitância da multa isolada com a de ofício, dos juros Selic, seja em relação ao principal, seja em relação à multa de ofício A responsável tributária UBR, em seu Recurso Voluntário, efetuou os seguintes questionamentos específicos: 1. Que a solidariedade prevista no art. 124, I, do CTN não é forma de eleição de responsável tributável, não podendo resultar em inclusão de terceiros no relação jurídico-tributária, sobretudo porque sequer está inserido no Capítulo V do CTN, intitulado Responsabilidade Tributária. 2. Que o CARF, nos autos do Processo Administrativo nº 16561.720169/2014-78, já proferiu decisão relacionada aos mesmo fatos, excluindo a responsabilidade tributária da Recorrente; A d. Procuradoria da Fazenda Nacional não colacionou razões ao Recurso de Ofício, nem contrarrazões aos Voluntários. É o relatório. Voto Fl. 5138DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 13 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 Conselheiro Allan Marcel Warwar Teixeira, Relator. Recurso de Ofício Admissibilidade A decisão recorrida de ofício exonerou valor superior ao limite de alçada de R$ 2.500.000,00 previsto na Portaria MF nº 63 de fevereiro de 2017. Logo, conheço do Recurso de Ofício. Mérito A autoridade julgadora de primeira instância recorre de ofício de sua decisão que exonerou as Recorrentes das cobranças de IRPJ, CSLL, PIS e COFINS referentes a valores excluídos das bases destes tributos a título de subvenção para investimento referente ao programa FOMENTAR do Estado de Goiás. Na autuação fiscal, foram reclassificados tais benefícios fiscais como subvenção para custeio. A ratio decidendi, em síntese, repousa sobre a aplicação dos §§ 4º e 5º do art. 30 da Lei 12.973/2014, com redação dada pela Lei Complementar 160/2017, que classifica como subvenção para investimento os benefícios fiscais concedidos pelos estados relativos ao ICMS, devendo tal diretriz ser aplicada inclusive aos processos administrativos não definitivamente julgados. Nestes termos, dispôs a decisão recorrida: Diante desse quadro normativo, como os fundamentos da presente autuação foram a descaracterização da subvenção para investimento, no aspecto material e formal, por requisitos e condições diferentes daqueles previstos no art. 30 e seus §§ da Lei nº 12.973, de 2014, que praticamente reproduziram as normas já estabelecidas no art. 18 e seus §§ da Lei nº 11.941, de 2009, não há como manter os lançamentos. Por conta da impossibilidade de inovação na fundamentação da autuação, sequer caberia verificar o preenchimento dos requisitos e condições legais, à época em vigor, e que foram preservados pela alteração legislativa, mas que não foram questionados pela fiscalização, quais sejam: (i) o reconhecimento do valor da doação ou subvenção em conta de resultado pelo regime de competência; e (ii) a manutenção em reserva de lucros da parcela decorrente de doações ou subvenções governamentais, apurada até o limite do lucro líquido do exercício. A jurisprudência do CARF, inclusive da Câmara Superior de Recursos Fiscais – CSRF, já sinaliza para a aplicação retroativa da Lei Complementar nº 160, de 2017, conforme abaixo: Fl. 5139DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 14 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 Acórdão nº 9101-003.841 de 03 de outubro de 2018 – 1ª Turma da CSRF Matéria IRPJ Ano-calendário: 2002, 2003 SUBVENÇÃO PARA INVESTIMENTO. LEI COMPLEMENTAR 160, de 2017. LEI 12.973/2014, ART. 30, §4º E §5º. PUBLICAÇÃO, REGISTRO E DEPÓSITO DE BENEFÍCIO. DISTRITO FEDERAL. CONFAZ. ATIVO PERMANENTE. A Lei Complementar nº 160, de 2017, inseriu o §5º no artigo 30, da Lei nº 12.973/2014, determinando que seria aplicável aos processos pendentes. Ademais, esta Lei inseriu o §4º, no artigo 30, da Lei nº 12.973/2014, para impedir a exigência de outros requisitos ou condições, além daqueles estabelecidos pelo próprio artigo 30. Com a publicação, registro e depósito do incentivo do Distrito Federal em discussão nos autos, perante o CONFAZ, não são exigíveis outros requisitos para o reconhecimento da subvenção para investimento, além dos enumerados pelo artigo 30. O investimento em ativo permanente não consta do art. 30, da Lei nº 12.973/2014, sendo improcedente o lançamento fundado em tal exigência. (...) Acórdão nº 1302-003.230 de 22 de novembro de 2018 – 3ª Câmara / 2ª Turma Ordinária ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Ano- calendário: 2011 RECEITAS OPERACIONAIS NÃO DECLARADAS. SUBVENÇÃO PARA INVESTIMENTOS. PROGRAMA FOMENTAR. LEI ESTADUAL Nº 9.489/84. LEI COMPLEMENTAR 160/17. Nos termos da Lei Complementar 160/17, as subvenções relativas ao ICMS (inciso II do caput do art. 155 da Constituição Federal) serão consideradas como sendo de investimentos, desde que atendidos os requisitos previamente previstos no caput do artigo 30, da Lei nº 12.973/14. Estando presentes esses requisitos, não deve prevalecer o entendimento da fiscalização que considerou como sendo subvenção para custeio os benefícios dados aos contribuintes pelo Estado de Goiás, através do programa denominado FOMENTAR, afastando-se, assim, a tributação do IRPJ e da CSLL incidente sobre os valores recebidos como incentivo fiscal. Diante das alterações legislativas, impõe-se o cancelamento das autuações, por exclusão indevida das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL. No que se refere aos lançamentos de PIS e à Cofins, por falta de oferecimento à tributação das receitas de deságio/desconto das subvenções para investimento, tem- se no Parágrafo único do art. 21 da Lei nº 11.941, de 2009, verbis: Art. 21. As opções de que tratam os arts. 15 e 20 desta Lei, referentes ao IRPJ, implicam a adoção do RTT na apuração da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL, da Contribuição para o PIS/Pasep e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social – COFINS. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) Parágrafo único. Para fins de aplicação do RTT, poderão ser excluídos da base de cálculo da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, quando registrados em conta de resultado: I – o valor das subvenções e doações feitas pelo poder público, de que trata o art. 18 desta Lei; e (...) Diante desse quadro normativo, definida Fl. 5140DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 15 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 legalmente a natureza jurídica da subvenção, como sendo de investimento, e não tendo sido questionados os demais requisitos previstos no art. 18 da Lei nº 11.941, de 2009, impõe-se também o cancelamento dos lançamentos de PIS e Cofins. Diante desse quadro normativo, definida legalmente a natureza jurídica da subvenção, como sendo de investimento, e não tendo sido questionados os demais requisitos previstos no art. 18 da Lei nº 11.941, de 2009, impõe-se também o cancelamento dos lançamentos de PIS e Cofins. A decisão reexaminada não merece reparos, devendo ser mantida pelos seus próprios fundamentos. Recursos Voluntários Admissibilidade Os Recursos Voluntários cumprem os requisitos de admissibilidade. Assim, deles conheço. Recurso Voluntário da UBI I – Glosa das amortizações de ágio rentabilidade futura após evento de incorporação 1. Considerações gerais Antes de adentrar os fatos, peço vênia para discorrer em abstrato sobre as premissas que entendo aplicáveis ao tema. Em resumo, são as seguintes: 1.1. A amortização do ágio rentabilidade futura, prevista nos art. 7º e 8º da Lei 9.532/97, decorre de uma evolução do disposto no art. 34 do Decreto-lei 1.598/77, não se tratando, desta forma, de benefício fiscal concedido a empresas participantes de leilões de privatização. Trata-se de apuração de perda de capital decorrente da realização do investimento pela extinção da participação societária na empresa investida, apurado em balanço de incorporação. A Lei 9.532/97 apenas alterou os contornos da apuração da perda ou ganho de capital ao determinar expressamente mudanças nos lançamentos contábeis de incorporação de empresas nos casos em que uma delas possuísse investimento na outra com ágio. Fl. 5141DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 16 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 1.2. O Lucro Líquido Contábil – apurado conforme os princípios contábeis geralmente aceitos, no panorama anterior à introdução das regras de padrão IFRS no País – é o ponto de partida de apuração do Lucro Real e da base da CSLL. 1.3. Apenas as exclusões expressamente previstas em Lei ou em Ato Normativo autorizam, a princípio, deduções no LALUR ou no LACS. Não cabe às empresas interpretar extensivamente o disposto nas leis fiscais para criar novas hipóteses de exclusão do Lucro Real ou da Base de Cálculo da CSLL; 1.4. Não havia separação entre o regramento fiscal e o contábil até 31/12/2007, mas verdadeira sobreposição do primeiro em relação ao segundo; isto é, todas as regras contábeis eram também fiscais, salvo aquelas expressamente excepcionadas em lei; 1.5. Nunca existiu um ágio rentabilidade futura fiscal passível de comprovação por meio de um laudo “fiscal” distinto de um outro, contábil. Sempre existiu um só registro de ágio rentabilidade futura, sendo este apenas contábil e com dois tipos de amortização: uma antes de incorporação, e outra após este tipo de evento; 1.6. Os art. 7º e 8º da Lei 9.532/97 não tratam de uma amortização especificamente fiscal de ágio. Tal amortização é, a rigor, tanto fiscal, como também contábil, posto dever ser feita, por força de lei, por dentro da contabilidade no que tange ao saldo ainda nela registrado. Este saldo é transposto para o Ativo Diferido da empresa sucessora e é apropriado ao Resultado à proporção de no máximo 1/60 ao mês. A parte já amortizada antes da incorporação, adicionada no passado na parte A e controlada na parte B do LALUR para fins de apuração de ganho ou perda de capital, passa a ser amortizada simultaneamente de forma extracontábil obedecendo também o limite de 1/60; 1.7. O ágio rentabilidade futura sempre foi residual às demais parcelas do investimento segundo os princípios contábeis geralmente aceitos no Brasil até 31/12/2007, não tendo tal característica sido introduzida apenas com a Lei 12.973/2014. 1.8. Da mesma forma, o reconhecimento contábil de ágio rentabilidade futura gerado internamente num grupo econômico já era vedado no Brasil antes da Lei 12.973/2014 e mesmo antes da introdução das novas regras contábeis padrão IFRS. Feito este breve resumo sobre as premissas, passo a melhor discorrer sobre elas. 2. Origens da dedutibilidade fiscal do ágio em incorporações Fl. 5142DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 17 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 As origens da amortização do ágio rentabilidade futura prevista nos art. 7º e 8º da Lei 9.532/97 remontam, na verdade, ao art. 34 do DL. 1.598/77. Dispunha o art. 34 do mencionado Decreto-lei 1.598/77 que, quando uma empresa incorporasse outra, em havendo investimento entre elas, era prevista a apuração de um ganho ou perda de capital resultante do confronto entre o valor contábil das ações ou cotas sociais extintas e o acervo líquido a valor de mercado que o substituía, isto é, o da empresa investida. Deste confronto, feito dentro da contabilidade, se apurado saldo devedor, este resíduo seria registrado no resultado do exercício como perda de capital, diminuindo o Lucro Líquido contábil e, consequentemente, a base de cálculo do IRPJ. Se credor, seria registrado como ganho de capital e tributado. Alternativamente, no caso do saldo devedor, a lei facultava ainda a sua ativação no Diferido para amortização em até 10 anos. No caso de a investida ter sido criada pela própria investidora – situação na qual não há registro de ágio ou deságio –, a diferença a valor de mercado dos bens da investida acabava por responder pela apuração do ganho ou perda de capital: se positiva, deveria ser registrada em tese como ganho; se negativa, como perda. À parte as hipóteses em que a investida é criada pela própria investidora, quando participações societárias são adquiridas, a regra é que haja registro contábil de ágio ou deságio, dado inexistir, no mundo real, aquisições de ações pelo valor patrimonial exato de uma empresa. Tomando-se por base uma aquisição em que se registrassem as três espécies de ágio, o dito valor contábil, nos termos do art. 33 do Decreto-lei 1.598/77, era dado pelo valor patrimonial, mais as 3 espécies de ágio: (a), referente a diferença de valor de mercado; (c), por intangíveis identificáveis não reconhecidos no balanço da investida e (b), por rentabilidade futura. É possível demonstrar, algebricamente, que a diferença entre o valor contábil e o acervo líquido apurado a valor de mercado, prevista no art. 34 do Decreto-Lei 1.598/77, tende a retornar, no caso de investimentos adquiridos com deságio, uma constante aproximável ao deságio com fundamento da rentabilidade futura (b) e, no caso de ágio, outra, referente à soma dos ágios (b) e (c). Esta aproximação passa por assumir como igual a zero a variação nas mais ou menos valias dos ativos tangíveis da investida entre a data da aquisição do investimento e a do evento de incorporação. Tal aproximação a zero é razoável na medida em que o intervalo de tempo entre a aquisição do investimento e a data de incorporação costuma a ser de meses – bem como ainda, neste ínterim, os ativos tangíveis avaliados pelo custo de uma empresa investida não costumarem a apresentar variações sensíveis de valor. Mesmo nos casos em que esta diferença viesse a ser sensível, a troca da avaliação dos ativos tangíveis a mercado (acervo líquido a mercado) no momento da Fl. 5143DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 18 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 incorporação – como prescrita pelo art. 34 do DL 1.598/77 –, pelo valor efetivamente pago pelo contribuinte no momento da aquisição – e registrado como ágio (a) –, pode ser tida como mais acertada de um ponto de vista contábil por conta do então vigente Princípio do Registro com Base no Valor Original. Isto é, o Princípio do Registro com Base no valor Original obrigaria o registro dos bens da investida na empresa sucessora pelos seus valores de aquisição, o qual corresponderia, a rigor, ao seu valor patrimonial mais o ágio (a) pago pela investidora, exatamente como prescrito pelo art. 7º da Lei 9.532/97. Ou seja, a Lei 9.532/97 trocou o critério de avaliação a mercado do acervo líquido, deduzido do art. 34 do DL 1.598/77, pelo de registro com base no valor original. Sabendo-se, portanto, que o art. 34 do Decreto-Lei 1.598/77, no caso de incorporações envolvendo deságio, tendia a retornar como ganho de capital um valor constante igualável ao deságio com fundamento (b) e, se ágio, outra equivalente à soma dos ágios (b) e (c) – a Lei 9.532/97 determinou que a pessoa jurídica, ao absorver patrimônio de outra em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detivesse participação societária adquirida com ágio ou deságio, deveria, em síntese, tomar apenas o ágio ou deságio com fundamento (b) para ser debitado ou creditado contra o Resultado do Exercício em parcelas, num diferimento a que chamou amortização. Com isto, além de alterar a forma como os ativos tangíveis da investida deveriam ser avaliados no data de incorporação – não mais a valor de mercado na data do evento, mas apenas acrescido do valor correspondente não realizado no ágio (a) –, a Lei 9.532/97 excluiu do cálculo da perda de capital, no caso do ágio, os intangíveis identificáveis no patrimônio da investida porém não arrolados no seu acervo líquido. Ou seja, além de corrigir uma deficiência do art. 34, que permitia deduzir como perda um valor para o qual existiam bens intangíveis que poderiam ser alienados e, com isto, recuperar-se mais uma parte do ágio pago – e.g., marcas, fundo de comércio, direitos de exploração, etc –, a Lei 9.532/97 também corporificou a perda de capital no próprio ágio rentabilidade futura, buscando, assim, sinalizar a existência de possíveis simulações quando o valor pago por esta rentabilidade fosse inverossímil. Com isto, a Lei 9.532/97 corrigiu deficiências do art. 34 do DL 1.598/77 tanto contábeis – relativas a necessária evidenciação de bens e seus respectivos registros pelo valor original – quanto fiscais, por não mais permitir deduzir perdas inexistentes referentes a intangíveis identificáveis e por diluir também o produto desta operação em 60 parcelas ou mais, no caso do ágio, para minimizar os seus efeitos na apuração das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL. É de se ressaltar, portanto, que os intangíveis não identificados no patrimônio da investida não poderiam mais continuar ocultos após evento de incorporação com o advento da Lei 9.532/97, como antes se poderia eventualmente deduzir pelo art. 34 do DL 1.598/77. Deveriam ser evidenciados no patrimônio da sucessora, o que importaria lançamentos a Fl. 5144DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 19 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 crédito na contabilidade a serem feitos contra o antes contabilizado, na investidora, ágio de fundamento (c). A partir do evento de incorporação, o saldo do ágio rentabilidade futura continuaria a ser amortizado dentro da contabilidade da sucessora, mas não mais na proporção das projeções feitas para os lucros, conforme “demonstração a ser arquivada pelo contribuinte como comprovante da escrituração” 1, mas de forma a obedecer ao comando legal de no máximo 1/60 do valor global do ágio rentabilidade futura. Ainda, além das abundantes evidências extraídas da ratio legis acerca da natureza jurídica do ágio deduzido após incorporações como perda de capital, cumpre destacar que a exposição de motivos da Medida Provisória MP 1.602/97, depois convertida nos art. 7º e 8º da Lei 9.532/97, justifica tais alterações legais em termos radicalmente diferentes do que seria uma intentio legis de instituição de benefício fiscal: tratar-se-ia de uma regra antissimulação: “11. O art. 8º estabelece o tratamento tributário do ágio ou deságio decorrente da aquisição, por uma pessoa jurídica, de participação societária no capital de outra, avaliada pelo método de equivalência patrimonial. Atualmente, pela inexistência de regulamentação legal relativa a esse assunto, diversas empresas, utilizando dos já referidos ‘planejamentos tributários’, vêm utilizando o expediente de adquirir empresas deficitárias, pagando ágio pela participação, com a finalidade única de gerar ganhos de natureza tributária mediante o expediente, nada ortodoxo, de incorporação da empresa lucrativa pela deficitária. Com as normas previstas no Projeto, esses procedimentos não deixarão de acontecer, mas, com certeza, ficarão restritos às hipóteses de casos reais, tendo em vista o desaparecimento de toda vantagem de natureza fiscal que possa incentivar a sua adoção exclusivamente por esse motivo.” Deve-se acrescentar ainda que, se a participação tivesse sido adquirida com deságio, o resultado após a incorporação seria um aumento da base de cálculo ordinária do Imposto de Renda (e da CSLL). Se as alterações da Lei 9.532/97 de fato tratassem de um benefício fiscal de amortização de ágio, não poderia, de outra banda, ter instituído uma tributação do deságio, como o fez, sem não infringir o disposto sobre o acréscimo patrimonial, contido no art. 43 do CTN. 1 Art. 20 (...) (...) § 3º - O lançamento com os fundamentos de que tratam as letras a e b do § 2º deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração. (Decreto-lei 1.598/77) Fl. 5145DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 20 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 Ou seja, tanto pela ratio legis, quanto pela exposição de motivos, conclui-se inexistirem evidências de que os art. 7º e 8º pudessem tratar de alguma forma de benefício fiscal para grupos habilitados em leilões de licitação. O último ponto contrário à tese de benefício fiscal é o de ser difícil conceber uma regra com tal intenção sem que a lei não o restringisse para o grupo supostamente beneficiado, no caso, os grupos empresariais vencedores dos leilões de privatização. Isto é, não faz sentido conceber uma redução de base de cálculo de tributos apenas para incentivar maiores lances em leilões de privatizações porém a rigor dirigida a todo o universo de empresas, como acabou ocorrendo com a Lei 9.532/97. Isto porque Governos não abrem mão de arrecadação ampla e generosamente, mas apenas o bastante para atingir seus fins políticos. Por fim, forçoso é concluir que os art.7º e 8º da Lei 9.532/97 apenas corrigiram os lançamentos contábeis de incorporação de modo a (i) espancar dúvidas quanto à necessária evidenciação dos intangíveis identificáveis no patrimônio da sucessora; (ii) retificar a avaliação dos bens do acervo líquido da investida, de valor de marcado para valor original; (iii) melhor dimensionarem o tamanho da perda de capital; (iv) mitigar os efeitos deste tipo de apuração no resultado por meio de uma amortização obrigatória e (v) identificar a perda de capital com a própria rentabilidade futura, de modo a expor mais facilmente os casos de simulação. 3. Da não revogação da apuração da perda de capital prevista no art. 34 pelo art. 21 da Lei 9.249/95 Sobre o tema, algumas argumentações são observadas no sentido de que a apuração de ganho ou perda de capital prevista neste Decreto-lei teria sido revogada pela Lei 9.249/95, ao supostamente transferir tal apuração da sucessora para a empresa a ser absorvida. Dispunha o artigo em comento: Incorporação, Fusão e Cisão Art. 21. A pessoa jurídica que tiver parte ou todo o seu patrimônio absorvido em virtude de incorporação, fusão ou cisão deverá levantar balanço específico para esse fim, no qual os bens e direitos serão avaliados pelo valor contábil ou de mercado. (...) § 2º No caso de pessoa jurídica tributada com base no lucro presumido ou arbitrado, que optar pela avaliação a valor de mercado, a diferença entre este e o custo de aquisição, diminuído dos encargos de depreciação, amortização ou Fl. 5146DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 21 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 exaustão, será considerada ganho de capital, que deverá ser adicionado à base de cálculo do imposto de renda devido e da contribuição social sobre o lucro líquido. § 3º Para efeito do disposto no parágrafo anterior, os encargos serão considerados incorridos, ainda que não tenham sido registrados contabilmente. O dispositivo legal acima, como se observa, trata da última tributação a ser apurada na pessoa jurídica que fosse absorvida em incorporação, nada falando, contudo, da sucessora, cujo ganho ou perda de capital no evento era regulada pelo art. 34 do Decreto-lei 1.598/77. Contabilmente, pode-se ainda confirmar a interpretação literal deste dispositivo. No caso de a incorporação ser reversa – hipótese possivelmente a mais comum –, não haverá qualquer conflito entre estas regras; pelo contrário, elas se complementarão, porque, tanto investida, quanto investidora, terão seus itens patrimoniais ao final reavaliados: a investida-incorporadora terá seus bens acrescidos do ágio de fundamento (a) da investidora, enquanto a investidora-incorporada terá os seus avaliados a mercado, sendo que, para isto, deverá apurar seu último ganho de capital antes de transferir seu patrimônio para a sucessora. No caso de a incorporação ser direta, também não haverá conflito: se exercer a opção de transferir a mercado, já atenderá o comando do art. 34 do Decreto-lei, que prevê a diferença entre o valor contábil e o acervo liquido a mercado da investida. Se exercer a opção de transferir a valor patrimonial, não apurará ganho de capital. Em compensação, ao darem entrada por valor contábil na investidora-sucessora, estes bens deverão ser reavaliados em atendimento ao comando do art. 34, gerando uma contrapartida em Reservas de Reavaliação. Esta será tributada à medida em que os bens incorporados forem sendo realizados, nos termos do art. 35 do Decreto-Lei 1.598/77. Após a Lei 9.532/97, passa a haver certo o conflito entre as disposições do art. 21 da Lei 9.249/95, devendo, conforme o caso, considerar tacitamente revogado o disposto na norma anterior. Ou seja, no caso de incorporação direta, não fará mais sentido em transferir os bens a valor de mercado para a investidora-sucessora, conforme opção facultada antes, dado que estes já serão forçosamente acrescidos do ágio de fundamento (a). Apenas no caso da incorporação reversa é que a faculdade prevista no art. 21 continuaria plenamente aplicável. Assim, entendo que a apuração do ganho ou perda de capital prevista no art. 34 do Decreto-lei 1.598/77 não foi revogada nem pela Lei 9.249/95, nem por nenhum outro diploma legal até a entrada em vigor da Lei 9.532/97, a qual passou a regular diferentemente esta mesma matéria. Fl. 5147DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 22 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 4. O caráter residual do ágio rentabilidade futura antes da Lei 12.973/2014 e da própria adoção do IFRS no Brasil Discute-se se o ágio rentabilidade futura, antes da Lei 12.973/2014, tinha ou não valor residual, isto é, era atribuído a ele apenas a parte do investimento para o qual não se encontravam bens capazes de responder pelo valor pago na operação. Como é de se deduzir pelos tópicos ao norte já expostos, a residualidade do ágio rentabilidade futura é requisito essencial para se reconhecer a natureza jurídica da dedutibilidade prevista no art. 7º da Lei 9.532/97 de perda de capital. Sem tal característica, sobra readmitir a tese de que foi permitida a dedução de uma despesa antes indedutível a título de um benefício fiscal. A residualidade do ágio rentabilidade futura já era regra na contabilidade no Brasil antes da Lei 12.973/2014, sendo, inclusive, ínsita ao art. 14, §2º, da Instrução CVM nº 247/1996, com redação da 285/19982. De fato, do art. 20 do Decreto-lei nº 1.598/77 não se extrai textualmente a ordem de preferência no registro do ágio. Mas esta ordem já era informada pela contabilidade e, após a Lei 9.532/97, passou a poder ser extraída também do próprio texto desta, quando, em vez de seguir a ordem alfabética “(a), (b) e (c)” para os fundamentos do ágio, disse: “(a), (c) e (b)”. Confira-se: Art. 7º A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no art. 20 do Decreto-Lei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977: I - deverá registrar o valor do ágio ou deságio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "a" do § 2º do art. 20 do Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, em contrapartida à conta que registre o bem ou direito que lhe deu causa; 2 Art. 14 (...) (...) § 2º O ágio ou o deságio decorrente da diferença entre o valor pago na aquisição do investimento e o valor de mercado dos ativos e passivos da coligada ou controlada, referido no parágrafo anterior, deverá ser amortizado da seguinte forma: a) o ágio ou o deságio decorrente de expectativa de resultado futuro – no prazo, extensão e proporção dos resultados projetados, ou pela baixa por alienação ou perecimento do investimento, devendo os resultados projetados serem objeto de verificação anual, a fim de que sejam revisados os critérios utilizados para amortização ou registrada a baixa integral do ágio; b) o ágio decorrente da aquisição do direito de exploração, concessão ou permissão delegadas pelo Poder Público – no prazo estimado ou contratado de utilização, de vigência ou de perda de substância econômica, ou pela baixa por alienação ou perecimento do investimento. Fl. 5148DF CARF MF Documento nato-digital http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del1598.htm#art20 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del1598.htm#art20 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del1598.htm#art20%C2%A72a Fl. 23 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 II - deverá registrar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "c" do § 2º do art. 20 do Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, em contrapartida a conta de ativo permanente, não sujeita a amortização; III - poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "b" do § 2° do art. 20 do Decreto-lei n° 1.598, de 1977, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; (Redação dada pela Lei nº 9.718, de 1998). Ou seja, o que sobrasse após a alocação dos ágios (a) e (c) nos lançamentos de incorporação, poderia ser amortizado, como ágio (b), em parcelas máximas de 1/60. Por fim, tomo a liberdade de transcrever dos autos do processo nº 16561.720119/2017-33 texto de autoria do Auditor-fiscal Dr. Claudio Wasserman, o qual ilustra com referências importantes a constatação de que o ágio rentabilidade futura ou goodwill já possuía seu valor apurado de forma residual na contabilidade em relação às demais parcelas do investimento no Brasil muito antes da Lei 12.973/2014: Conceitualmente, o goodwill é plenamente definido há décadas (e mesmo há mais de 100 de anos) pela doutrina contábil. Fabio Besta, contador italiano nascido em 1845, deu uma definição de “aviamento”, em livro escrito no final do século 19, que se aproxima das mais modernas definições de goodwill: O valor do aviamento de um negócio singular ou de uma empresa no seu conjunto é essencialmente igual ao valor atual do excesso dos lucros que, na hipótese de uma administração normal, dirigida por energias físicas, de vontade e de inteligências normais, comuns, possam ser esperados ou presumidos de capitais investidos efetivamente no negócio ou empresa, sobre os lucros médios que costumam produzir capitais empregados com igual segurança em outros negócios ou empresas similares ou análogos, mas em condições comuns, não privilegiadas. 113. Hendriksen e Van Breda, considerados dois dos maiores doutrinadores contábeis de todos os tempos, em seu livro seminal Accounting Theory, de 1965, citam a definição de goodwill dada por William Andrew Paton em seu livro também chamado Accounting Theory, mas escrito em 1922, e fazem os seguintes comentários (pág. 348/349) sobre o goodwill visto como ativo residual: Goodwill as capitalized value of excess earnings may be thought of in the words of Paton as “…the value of all income-producing factors which are independent of and in addition to the ordinary purchased assets…” All assets obtain their value to the firm because of their expected contribution to the stream of future earnings and cash flows. Therefore, the entire value of the firm should be allocated to the specific assets giving rise to this income stream. If the expected income stream should increase (after making payment for superior management skills), the values of all assets or of specific assets to this increase are now worth more than before. Generally, however, it is not possible to allocate the total value of the firm over the specific assets. Receivables can be valued in terms of the discounted expected cash receipts, inventories can be valued in terms of net realizable value, but land, plant and equipment, and patent rights cannot be associated with specific expected money flows. The unallocated value is, therefore, recorded as goodwill – a master valuation account (“conta residual”, em tradução Fl. 5149DF CARF MF Documento nato-digital http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del1598.htm#art20%C2%A72c http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del1598.htm#art20%C2%A72b http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9718.htm#art10 Fl. 24 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 minha). […] Goodwill is not an adequate substitute for the careful determination of the cost of specific assets based as closely as possible on their value to the firm at the date of acquisition. 114. A citação em inglês acima não indica atitude presunçosa ou pretenciosa; a ideia foi mostrar que, em 1965, Hendriksen e Van Breda já se apoiavam claramente no sentido já então de décadas de que o goodwill era residual. Na 5ª edição (1992) do livro, traduzida para o português e aqui publicada em 1999, o livro dos dois autores contém passagem que se assemelha à acima retirada da primeira edição, com algumas complementações que não desvirtuam o sentido original, como abaixo se reproduz: Por outro lado, quando outra empresa é comprada, o preço pago pode ser alocado, de alguma forma, às contas da empresa compradora. A prática americana consiste em alocar o máximo possível do preço de compra a ativos específicos, indicando o resíduo como goodwill. O goodwill é reconhecido, portanto, por diferença. Às vezes, nenhuma tentativa é feita para alocar a ativos específicos a diferença positiva entre o valor de mercado da empresa e o valor contábil desses ativos. Muito embora esse resíduo possa ser chamado de goodwill, ele possui poucos dos atributos de um ativo intangível. Ao contrário, essa diferença simplesmente representa custos não alocados de ativos tangíveis e alguns intangíveis específicos. Esse tipo de goodwill não é um sucedâneo adequado para a determinação cuidadosa do custo de ativos específicos, baseada tanto quanto possível em seu valor para a empresa na data de aquisição. 115. Em sua tese de doutorado, depois de traçar a evolução conceitual e a natureza do goodwill, Massanori Monobe assim se pronuncia sobre como atualmente se alinha a maioria dos doutrinadores acerca do tema: A maioria dos autores, entretanto, concorda atualmente em que o goodwill é uma resultante do valor de empresa como um todo, em termos de sua capacidade de geração de lucros futuros, e do valor econômico dos seus ativos identificados e contabilizados. (pág. 56) [...] O goodwill, em sua natureza, é um valor decorrente da expectativa de lucros futuros e da contribuição atribuível aos ativos não identificados e/ou não contabilizados pela empresa, bem como a sub-avaliação dos ativos e até métodos de mensuração. É um valor residual atribuível, entre outros fatores, à existência de administração eficiente, processos industriais e patentes próprios, localização ótima, recursos humanos excelentes, efetividade de propaganda e condições financeiras privilegiadas e do grau de sinergia, fatores importantes para a empresa, mas não contemplados pela contabilidade, em função da dificuldade de sua mensuração. Acabam todos incorporados ao valor do goodwill quando a empresa é vendida. (referência) Assim, o goodwill difere dos demais ativos intangíveis e separáveis que podem ser transacionados individualmente, pois tem a sua existência vinculada a existência da firma, dela não podendo ser separada e vendida. (referência) 116. Cite-se ainda a 7ª edição do Manual de Contabilidade por Ações, de 2009, que trazia um suplemento que explicava, agora para um público mais abrangente, o que era goodwill: Em operações de combinações de negócios, sobretudo em operações de aquisição de controle acionário ou de participações acionárias significativas no capital de uma companhia, é comum o surgimento de “mais valia” sobre o valor de patrimônio líquido da ação da sociedade investida. Muitas vezes é possível identificar essa “mais valia” como resultado da diferença entre o valor de mercado de um imobilizado tangível e o seu valor contábil líquido. Por outro lado, por vezes Fl. 5150DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 25 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 essa identificação não é possível, remanescendo um ativo “residual” que recebe a denominação amplamente aceita de goodwill. Isso é possível considerando, obviamente, que todo o esforço tenha sido envidado para alocar o “sobrepreço” a ativos e passivos identificados que tenham dado causa ao surgimento na avaliação econômica realizada. Esse procedimento já é requerido no Brasil, no âmbito do mercado de capitais, por força do Decreto-lei no 1.598/77 e da Instrução CVM no 247/96, com nova redação dada pela Instrução CVM no 285/98. Nas demonstrações individuais e nas consolidadas ele é alocado diretamente aos ativos e passivos a que se refere. E o que representa o goodwill? Em verdade, nada mais é do que expectativa de rentabilidade; um agregado de benefícios econômicos futuros, ou, sintetizando, um conjunto de intangíveis não identificáveis no processo de aquisição (inclusive a sinergia de ativos e a capacidade de gestão de novos administradores), para os quais objetivamente não é possível proceder-se a uma contabilização em separado. Repetimos que os valores que possam ser vinculados a ativos individualizáveis, identificados e com vida própria, mesmo que intangíveis, devem ser segregados do goodwill. [...] Aqueles intangíveis que estiverem inseridos no preço de aquisição pago por um negócio, e puderem ser tecnicamente identificados, de modo confiável, devem ser contabilizados em separado do goodwill pelo seu valor justo [...] As práticas contábeis internacionais definidas pelo International Accounting Standard Board (IASB), mais especificamente o IAS 38 – “Intangible Assets”, também caminham nesse sentido. Em seu §34, o IAS 38 requer que um intangível, que seja passível de identificação, seja contabilizado separadamente. Assim orienta: “34. Portanto, de acordo com este pronunciamento e com o IFRS n˚ 3, o adquirente deve reconhecer, na data da aquisição, separadamente do goodwill, um intangível da empresa adquirida, se seu valor justo puder ser mensurado de modo confiável, independentemente de o intangível estar registrado na contabilidade da empresa adquirida, previamente à operação de combinação de negócios (business combination). (tradução livre e grifado pelos autores)” [...] Quando as normas falam em mensuração de modo confiável, contabilização em separado, é num contexto de aquisição de uma companhia como um todo (business combination). É para efeito de decomposição do custo total incorrido na operação, conforme gráfico sugerido anteriormente. 117. Ainda na linha do que dizem os doutrinadores brasileiros, apresentam- se abaixo alguns trechos de um artigo publicado na Revista de Contabilidade da UFBA: Há, aqui, um ponto relevante: contabilmente, goodwill é a diferença entre o valor de uma empresa como um todo, em marcha, e a soma algébrica de todos os ativos e passivos dessa empresa avaliados individualmente a valor justo (Pronunciamento Técnico CPC 15 – Combinação de Negócios); e há as definições atuais do que sejam ativos e passivos passíveis de registro individual, fundamentadas fortemente na possibilidade de sua existência em separado, na possibilidade de sua negociação segregadamente e na possibilidade de uma atribuição razoavelmente objetiva e aceita de valor. Como o goodwill é, pela sua definição, um valor residual, se reconhecido um ativo intangível qualquer, seu valor produz concomitantemente uma redução do valor atribuído a ele, goodwill. Assim, se não se consegue atribuir valor a uma marca, ou não se consegue caracterizá-la como ativo, isso significa que no goodwill está inserido o valor dessa marca. Porém, o que não se pode é, conceitualmente, confundir o valor de uma marca com o valor do goodwill da empresa; no fundo, a procura pela forma objetiva de mensuração do Fl. 5151DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 26 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 valor da marca teria como consequência a segregação desse valor do atualmente atribuído ao goodwill. 118. Para finalizar as citações sobre desde quanto o goodwill é estudado e compreendido, cito a evolução histórica do goodwill apresentada no livro de Paulo Schmidt e José Luiz dos Santos, “Avaliação de ativos intangíveis”, de 2002. Os dois autores catalogam (referências) uma extensa lista, que vai de 1897 a 1972, sobre a contribuição dos doutrinadores contábeis mundiais acerca do goodwill: [lista suprimida] 119. Como se vê, a doutrina contábil brasileira (e universal, tirando uma corrente minoritária que nem sequer admite o seu reconhecimento como ativo) sempre imaginou que o goodwill (ágio por rentabilidade futura), como ativo residual que é, só poderia ser contabilizado desde que “obviamente [..] todo o esforço tenha sido envidado para alocar o “sobrepreço” a ativos e passivos identificados que tenham dado causa ao surgimento na avaliação econômica realizada” (referência). Não há, nem nunca houve, um único doutrinador contábil que tenha pregado que o goodwill pudesse ser determinado de acordo com a livre vontade do contador ou de quem quer que seja. A doutrina contábil também entendia (e ainda entende), como dito acima, que “Esse procedimento já é requerido no Brasil, no âmbito do mercado de capitais, por força do Decreto- lei no 1.598/77 e da Instrução CVM no 247/96, com nova redação dada pela Instrução CVM n o 285/98. Nas demonstrações individuais e nas consolidadas ele é alocado diretamente aos ativos e passivos a que se refere” (referências). 120. O advérbio “obviamente”, logo atrás grifado, explicita como é manifesto que uma ordem de alocação é fator sine qua non para se chegar ao goodwill legítimo. A doutrina contábil, aqui, como em qualquer lugar e em qualquer campo, não é fruto de um postulado, mas de um conjunto coerente de ideias provenientes de fatos do mundo real. A doutrina contábil não poderia incluir no goodwill ativos que são identificáveis no momento da aquisição, sob pena de confundir lucro futuro com valores obteníveis no momento da aquisição da participação societária. 121. O que a doutrina contábil não previa era que uma “hermenêutica criativa”, baseada em leitura literal, isolada e desarmônica, pudesse ser adotada em relação ao Decreto-lei 1.598/77 e até com relação à Instrução CVM 247/96. Não deixa de ser surpreendente a ideia de que o contribuinte possa livremente escolher a fundamentação do ágio tributário, como se os aspectos fáticos pudessem ser desconsiderados na aquisição de um investimento. Seria como admitir que, a despeito de uma realidade objetiva, o contribuinte pudesse ignorá-la e, indo além, tivesse o livre arbítrio de modificá-la ao transpô-la, com outra roupagem, distorcidamente, para os livros contábeis e fiscais. (Termo de Verificação Fiscal, fls. 2.267 a 2.272, Processo nº 16561.720119/2017- 33) Por fim, admitir a tese de que o ágio rentabilidade futura a que se referem os art. 7º e 8º da Lei 9.532/97 seria de natureza fiscal e não contábil, passível ainda de ser determinado com base num simples laudo encomendado junto a consultorias especializadas acerca da expectativa de rentabilidade da empresa a ser adquirida, importaria numa radical contradição: autorizaria exclusões adicionais no LALUR e no LACS sem previsão normativa Fl. 5152DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 27 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 expressa baseadas numa interpretação, de um lado, extensiva dos art. 7º e 8º da Lei 9.532/97 e, de outro, literal do art. 20 do Decreto-lei 1.598/77 – diploma normativo este que apenas regula exceções reafirmando a sua dependência às normas contábeis –, respaldados ainda num laudo sequer previsto em normas de qualquer espécie. 5. A vedação ao reconhecimento do ágio interno ainda na vigência das regras contábeis antigas Além de prever a característica residual do ágio rentabilidade futura, as normas contábeis nacionais, antes de 2008, também condenavam o reconhecimento do ágio rentabilidade futura interno. Primeiramente, o Princípio do Registro pelo Valor Original, regulado pela Resolução do Conselho Federal de Contabilidade (CFC) nº 750/1993 (redação antiga) já previa que a avaliação dos componentes patrimoniais na entrada pressupunha a existência de agentes externos, com os quais se formaria um consenso sobre o valor: Art. 7º Os componentes do patrimônio devem ser registrados pelos valores originais das transações com o mundo exterior, expressos a valor presente na moeda do País, que serão mantidos na avaliação das variações patrimoniais posteriores, inclusive quando configurarem agregações ou decomposições no interior da Entidade. Parágrafo único. Do Princípio do Registro pelo Valor Original resulta: I – a avaliação dos componentes patrimoniais deve ser feita com base nos valores de entrada, considerando-se como tais os resultantes do consenso com os agentes externos ou da imposição destes; [...] Em segundo lugar, em 14/02/2007, a CVM expediu o Ofício Circular/CVM/SNC/SEP 01/07, condenando o reconhecimento de acréscimo de riqueza em decorrência de transação dos acionistas com eles próprios, já que as transações não se revestiriam de substância econômica e da indispensável independência entre as partes para autorizar registro, mensuração e evidenciação pela contabilidade: 20.1.7 “Ágio” gerado em operações internas. A CVM tem observado que determinadas operações de reestruturação societária de grupos econômicos (incorporação de empresas ou incorporação de ações) resultam na geração artificial de “ágio”. Uma das formas que essas operações vêm sendo realizadas, inicia-se com a avaliação econômica dos investimentos em controladas ou coligadas e, ato contínuo, utilizar-se do resultado constante do laudo oriundo desse processo como Fl. 5153DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 28 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 referência para subscrever o capital numa nova empresa. Essas operações podem, ainda, serem seguidas de uma incorporação. Outra forma observada de realizar tal operação é a incorporação de ações a valor de mercado de empresa pertencente ao mesmo grupo econômico. Em nosso entendimento, ainda que essas operações atendam integralmente os requisitos societários, do ponto de vista econômico- contábil é preciso esclarecer que o ágio surge, única e exclusivamente, quando o preço (custo) pago pela aquisição ou subscrição de um investimento a ser avaliado pelo método da equivalência patrimonial, supera o valor patrimonial desse investimento. E mais, preço ou custo de aquisição somente surge quando há o dispêndio para se obter algo de terceiros. Assim, não há, do ponto de vista econômico, geração de riqueza decorrente de transação consigo mesmo. Qualquer argumento que não se fundamente nessas assertivas econômicas configura sofisma formal e, portanto, inadmissível. Não é concebível, econômica e contabilmente, o reconhecimento de acréscimo de riqueza em decorrência de uma transação dos acionistas com eles próprios. Ainda que, do ponto de vista formal, os atos societários tenham atendido à legislação aplicável (não se questiona aqui esse aspecto), do ponto de vista econômico, o registro de ágio, em transações como essas, somente seria concebível se realizada entre partes independentes, conhecedoras do negócio, livres de pressões ou outros interesses que não a essência da transação, condições essas denominadas na literatura internacional como “arm’s length”. Portanto, é nosso entendimento que essas transações não se revestem de substância econômica e da indispensável independência entre as partes, para que seja passível de registro, mensuração e evidenciação pela contabilidade.” (Os destaques são nossos). Nos termos do Ofício-Circular CVM/SNC/SEP n° 01/2007, a CVM entende que as operações efetuadas por Companhia Aberta, com base no artigo 36 da Lei nº 10.637/02, não se revestem de substância econômica, elemento esse fundamental para que o ágio gerado fosse passível de registro no ativo das sociedades. Para a CVM somente as operações em que há troca de ativos (geração de riqueza) é que fazem surgir o ágio na aquisição de investimentos. Desta forma, o ágio gerado em operações realizadas sem esse embasamento e com base no artigo 36 da lei nº 10.637/02, não seriam passíveis de registro pelas Sociedades. Em 29/11/2007, o Conselho Federal de Contabilidade editou a Resolução CFC 1.110/07 para aprovar a NBC T 19.10 – Redução ao Valor Recuperável de Ativos, estabelecendo: 120. O reconhecimento de ágio decorrente de rentabilidade futura gerado internamente (goodwill interno) é vedado pelas normas nacionais e internacionais. Assim, qualquer ágio dessa natureza anteriormente registrado precisa ser baixado. Portanto, é de se concluir que, ainda na vigência das normas contábeis antigas, não era admissível registrar ágio rentabilidade futura internamente, em razão de tal registro ferir o então Princípio do Registro pelo Valor Original. Sendo o regramento contábil antigo, ressalvadas as exceções legais expressas, a base da apuração do IRPJ e da CSLL até final de 2007, conclui-se que, até esta data – ou mesmo depois dela, para os contribuintes sujeitos ao Regime Tributário de Transição (RTT) –, não era admissível para fins fiscais o registro de ágio rentabilidade futura gerado internamente. Fl. 5154DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 29 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 6. Da análise dos fatos 6.1. Da indedutibilidade do ágio amortizado No caso dos autos, o ágio amortizado pela Recorrente UBI teve origem em aquisição feita pela UBR na UBA. Posteriormente, a UBR sofreu cisão, tendo vertido parte de seu patrimônio para a Recorrente UBI, a qual passou a amortizar o ágio. É dado ainda que o ágio foi gerado internamente no âmbito do grupo Unilever, posto tanto a adquirente UBR, quanto as alienantes BrazH3, BrazH4 e BrazH5, integrarem este mesmo grupo econômico. Como ao norte já abordado, o ágio rentabilidade futura internamente gerado não era passível de registro contábil já na vigência ainda das regras contábeis antigas, aplicáveis até 31/12/2007 e mesmo depois, no curso do chamado Regime Tributário de Transição (RTT) – ao qual se encontrava submetida a Recorrente UBI. E se o ponto de partida de apuração do IRPJ e da CSLL é o Lucro Líquido contábil, e este não admite registros de amortização de ágio interno, não é possível, por conseguinte, admiti-lo igualmente para fins fiscais. Do contrário, necessário seria permitir exclusões adicionais no LALUR e no LACS sem previsão expressa na legislação tributária. Indo além, constata-se que a UBR, no momento do registro indevido do ágio rentabilidade futura, não observou seu caráter residual, registrando-o por valor maior, baseando-se em laudo solicitado a consultoria especializada (Delloite). Além de não haver previsão legal acerca deste laudo, tal expediente serviu para tentar respaldar exclusões do Lucro Líquido – e consequentemente, das bases do IRPJ e da CSLL – em desconformidade com as regras contábeis e fiscais vigentes. Assim, a glosa se justifica também pela inobservância do aspecto residual do ágio rentabilidade futura – como bem registrado no Relatório Fiscal. Quanto à aplicação de regras de Preço de Transferência para legitimar o registro de ágio rentabilidade futura interno, no caso de aquisição de participações societárias de parte vinculada, tem-se que esta não se presta a este propósito. Isto porque, da regra de Preço de Transferência, apenas se deduz um preço máximo (preço parâmetro) a ser pago o qual, se excedido pelo preço praticado, implica uma adição a título de ajuste ao Lucro Real e à base da CSLL. Não quer dizer que o contribuinte esteja autorizado, nem tampouco obrigado, a adotar o preço parâmetro máximo estimado pela regra de Preço de Transferência para a transação com parte vinculada. Neste caso, deve-se registrar para a operação, portanto, o valor mais conservador, o qual não reconhece o ágio rentabilidade futura interno e nenhuma consequência traz em termos de pagamento de ajuste de Preço de Transferência. Fl. 5155DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 30 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 6.2. Do não cabimento da multa qualificada O Termo de Verificação Fiscal qualificou a multa de ofício enquadrando a conduta da Recorrente e da cindida UBR em fraude e simulação. Não vejo que reestruturações societárias para amortizar ágio, em regra, sejam aptas a produzirem os efeitos previstos nos artigos 71, 72 ou 73 da Lei 4.502/643, isto é, impedir ou a retardar o conhecimento da real ocorrência do fato gerador. Isto porque amortizações de ágio possuem linhas próprias na DIPJ, as quais, se devidamente preenchidas pelo contribuinte, permitem, por si só, a detecção do indício de irregularidade pela autoridade fiscal. Mesmo porque também, são comuns os equívocos cometidos pelos contribuintes nas amortizações de ágio, sendo assim, a simples informação em DIPJ já é fator indiciante da irregularidade. Diferente de planejamentos tributários artificiais e de difícil detecção – que demandam cruzamento de informações diluídas em fontes de dados diversas, sendo necessária uma denúncia ou a inteligência humana na atividade fiscal para serem indiciados –, amortizações de ágio, quando sem elementos adicionais na conduta, não possuem o efeito de “esconder” a ocorrência do fato gerador – o que se consegue em regra por meio de falsidade material, ideológica ou por meio de comportamento malicioso. Ou seja, ainda que tivesse havido o dolo ou a má-fé na conduta dos Recorrentes, tal não seria apto a produzir o resultado “atraso ou dificuldade”, o qual é elementar do tipo infracional. Também não identifico a dita artificialidade no registro do ágio interno. A questão é, na verdade, de incerteza quanto à sua substância econômica, e não de certeza quanto a uma má-fé. Tal dúvida levava a Ciência Contábil a rejeitar o seu registro em conformação aos então vigentes princípios da Prudência e do Registo pelo Valor Original. 3 Art . 71. Sonegação é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I - da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; II - das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Art . 72. Fraude é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do impôsto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. Art . 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos arts. 71 e 72. Fl. 5156DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 31 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 No mérito, também não vejo ter havido má-fé ou dolo das Recorrentes na reestruturação que resultou na geração e na amortização do ágio. Isto porque o tema da dedutibilidade do ágio tem a sua controvérsia jurídica mais do que reconhecida na jurisprudência administrativa e na doutrina. Mesmo sendo o ágio interno, é de se observar ser este ainda objeto de dúvidas, com alguns julgados isolados no Poder Judiciário inclusive admitindo a sua possibilidade para fatos geradores anteriores à Lei 12.973/2014. Diante deste quadro, forçoso é reconhecer tratar o caso de erro nas apreciações jurídicas por parte das Recorrentes nos procedimentos que levaram à amortização do ágio, devendo-se, por conseguinte, afastar as acusações de fraude e simulação. A este respeito, a 2ª Turma da 3ª Câmara, no Acórdão de Recurso Voluntário nos autos do processo nº 16561.720169/2014-78 – no qual se analisou autuação fiscal referente ao AC 2010 envolvendo a mesma reestruturação societária e amortização de ágio pelas Recorrentes –, concluiu em sentido semelhante, afastando a multa qualificada: DA MULTA QUALIFICADA. INAPLICABILIDADE. O não reconhecimento pelo Fisco do ágio gerado em operações realizadas dentro do mesmo grupo econômico, com a consequente glosa de sua amortização, não enseja, por si só, a aplicação da multa qualificada, quando os atos praticados revelam interpretação equivocada por parte do contribuinte quanto à legislação de regência. Por todo o exposto, afasto a multa qualificada na infração de glosa de amortização de ágio. 7. Decadência Afastados os enquadramentos em fraude e simulação feitos no Relatório Fiscal, deve-se reconhecer a decadência para o AC 2011 nos lançamentos de IRPJ e de CSLL. II – Glosa por repasse excessivo de juros a credora vinculada 2.1. Regra Antissubcapitalização Fl. 5157DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 32 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 Por tratarem dos mesmos fatos, reproduzo trecho de voto por mim proferido no Recurso Voluntário interposto pela UBR nos autos do processo nº 16561.720100/2017-97, complementando-o ao final. Regra antissubcapitalização A regra antissubcapitalização foi introduzida no Brasil pela MP nº 472/2009, depois convertida na Lei 12.249/2010. Até então, apenas a regra de Preço de Transferência impunha limites à dedutibilidade com pagamento de juros a Pessoas Vinculadas, isto é, pessoas ligadas com domicílio no exterior. A regra de Preço de Transferência limita a dedutibilidade destes pagamentos em termos do preço da commodity juros que, no caso, vem a ser a taxa a ser aplicada. Já a regra de antissubcapitalização, prevista nos artigos 24 e 25 da Lei 12.249/2010, trouxe outro limite, referente não mais ao preço dos juros, mas à “quantidade” que pode ser deduzida do Lucro Real e da base da CSLL. Esta quantidade é dada por uma proporção de endividamento aceitável, nos termos da lei, acima da qual os juros derivados do contrato de empréstimo passam a ser reputados excessivos e, por conseguinte, despesa não necessária. Razões não faltam para se impor este limite. Isto porque uma investidora estrangeira que constitui uma controlada no Brasil pode escolher ser remunerada de duas formas: dividendos, se integralizar capital, ou juros, se preferir aportar os recursos na forma de empréstimo. Se integralizar capital, os dividendos serão recebidos após a tributação do IRPJ e da CSLL na controlada. Se aportar na forma de dívida, a remuneração, auferida na forma de juros, será deduzida antes como despesa financeira na controlada brasileira, não pagando assim tributos no País. Estes juros, recebidos pela investidora no exterior, em muitos casos não são tributados ou são subtributados no país onde ela declara ter seu domicílio fiscal. Por mais das vezes, tal benefício é concedido exatamente para incentivar o repatriamento dos frutos deste investimento. Eventualmente, cobra-se uma alíquota bem menor e com isso se promove ainda uma arrecadação que, pelo critério de tributação territorial adotado pela maioria dos países, acabaria por não ocorrer por ser condicionado à repatriação dos recursos. No caso dos autos, é incontroverso que a credora da Recorrente gozava de situação fiscal privilegiada nos Países Baixos no ano da fiscalização, 2012. Isto porque, formulada a acusação fiscal de que se encontrava sob Regime Fiscal Privilegiado, nos termos dos art. 24-A, parágrafo único, da Lei 9.430/96, e IN RFB nº 1.037/2010, art. 2º, IV, defendeu-se a Recorrente no sentido de a sua credora exercer atividade econômica substantiva, mas nada falando sobre o quanto de fato ela pagou de imposto nos Países Baixos sobre o seu lucro no exterior. Logo, é de se presumir que, como holding company, de fato gozava de benefício fiscal nos Países Baixos em relação aos juros auferidos de seu investimento no Brasil. A Lei 9.430/96, com redação dada pela MP 449/2008, assim conceitua Regime Fiscal Privilegiado: Art. 24-A . (...) Parágrafo único. Para os efeitos deste artigo, considera-se regime fiscal privilegiado aquele que apresentar uma ou mais das seguintes características: Fl. 5158DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 33 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 I – não tribute a renda ou a tribute à alíquota máxima inferior a 20% (vinte por cento); II – conceda vantagem de natureza fiscal a pessoa física ou jurídica não residente: a) sem exigência de realização de atividade econômica substantiva no país ou dependência; b) condicionada ao não exercício de atividade econômica substantiva no país ou dependência; III – não tribute, ou o faça em alíquota máxima inferior a 20% (vinte por cento), os rendimentos auferidos fora de seu território; IV – não permita o acesso a informações relativas à composição societária, titularidade de bens ou direitos ou às operações econômicas realizadas. Entre os regimes que possivelmente concedem vantagem de natureza fiscal a pessoa jurídica sem exigir realização de atividade econômica substantiva no país estaria o das holdings companies registradas nos Países Baixos. Em razão disto, a IN RFB 1.037/2010, em seu art. 2º, que define Regimes Fiscais Privilegiados, incluiu a princípio as holdings companies holandesas entre aquelas empresas que estariam sob tal condição. No mesmo ano de 2010, a IN RFB nº 1045 retificou este dispositivo de modo a nele incluir a ressalva legal de exercício de atividade econômica substantiva. Assim dispõe a IN RFB 1.037/2010: “Art. 2° São regimes fiscais privilegiados: (...) IV - com referência à legislação do Reino dos Países Baixos, o regime aplicável às pessoas jurídicas constituídas sob a forma de holding company; IV - com referência a legislação do Reino dos Países Baixos, o regime aplicável às pessoas jurídicas constituídas sob a forma de holding company que não exerçam atividade econômica substantiva; (redação da IN RFB n° 1.045, de 23/06/2010); (...) Parágrafo único. Para os fins de identificação de regimes fiscais privilegiados previstos nos incisos III e IV do art. 2°, entende-se que a pessoa jurídica que exerce a atividade de holding desempenha atividade econômica substantiva quando possui, no seu país de domicílio, capacidade operacional apropriada para os seus fins, evidenciada, entre outros fatores, pela existência de empregados próprios qualificados em número suficiente e de instalações físicas adequadas para o exercício da gestão e efetiva tomada de decisões relativas: I - ao desenvolvimento das atividades com o fim de obter rendas derivadas dos ativos de que dispõe, ou II - à administração de participações societárias com o fim de obter rendas decorrentes da distribuição de lucro e do ganho de capital, (parágrafo e incisos incluídos pela IN RFB n° 1.658/2016). (...)” Fl. 5159DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 34 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 Contudo, por provocação do governo holandês, o fisco brasileiro suspendeu, por meio do ADE nº 10/2010, a execução deste dispositivo da IN RFB 1.037/2010 até que fossem providos maiores esclarecimentos por parte daquele país acerca da sua legislação fiscal. Acerca da natureza jurídica do Ato Declaratório Executivo (ADE) nº 10/2010 emitido pela Receita Federal, observa-se que as Recorrentes, em suas razões, atribuem-lhe uma classificação equiparável a de ato negocial tendo por objeto uma discricionária inclusão das holding companies holandesas em rol de Regimes Fiscais Privilegiados. De fato, se o ADE nº 10/2010, que suspendeu o entendimento dado pela IN 1.037/2010, fosse classificável como um ato negocial e discricionário, os administrados não mais poderiam vir a sofrer os efeitos da referida Instrução Normativa, mesmo após o cancelamento da suspensão. Contudo, entendo que a melhor classificação para o ADE nº 10/2010 é de decisão em processo administrativo federal, regulado pela Lei 9.784/1999. Isto é, ao formalizar o governo holandês reclamação contra o dispositivo da IN RFB nº 1.037/2010, tal foi processada como recurso endereçado à própria autoridade que emitiu o ato, isto é, ao Sr. Secretário da Receita Federal. Com lastro no parágrafo único do art. 61 da Lei 9.784/1999, a autoridade recorrida, de ofício, suspendeu a execução do seu próprio ato, ao editar o ADE nº 10/2010: “Art. 1º Ficam suspensos os efeitos da inclusão dos Países Baixos na relação de países detentores de regime fiscal privilegiado, relativamente às pessoas jurídicas constituídas sob a forma de Holding Company, prevista na Instrução Normativa RFB Nº 1.037, de 4 de junho de 2010, tendo em vista o pedido de revisão, apresentado pelo Governo daquele país.” O fundamento desta suspensão pode ser encontrado no parágrafo único do art. 61 da Lei 9.784/1999: Lei 9.784/1999 Art. 61. (...) Parágrafo único. Havendo justo receio de prejuízo de difícil ou incerta reparação decorrente da execução, a autoridade recorrida ou a imediatamente superior poderá, de ofício ou a pedido, dar efeito suspensivo ao recurso. Assim, o dispositivo questionado permaneceu suspenso até a decisão de mérito no processo administrativo, o qual implicou conhecer do fato de se a legislação dos Países Baixos referentes às suas holding companies enquadraria ou não tais empresas na norma brasileira que conceitua Regime Fiscal Privilegiado. Fl. 5160DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 35 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 A decisão de mérito sobreveio em 2015, quando foi revogada a suspensão por meio do ADE nº 3 e confirmada a adequação do dispositivo da IN 1.043/2010 referente as holding companies holandesas à norma brasileira prevista no art. 24-A da Lei 9.430/96. Assim, dispôs o ADE nº 3/2015: “Art. 1º Fica revogado o Ato Declaratório Executivo RFB nº 10, de 24 de junho de 2010, tendo em vista a não comprovação, por parte do Governo do Reino dos Países Baixos, de teor e vigência da legislação tributária que justificasse a revisão do enquadramento desse país como detentor do regime fiscal privilegiado previsto no inciso IV do art. 2º da Instrução Normativa RFB nº 1.037, de 4 de junho de 2010. Art. 2º Este Ato Declaratório Executivo entra em vigor na data de sua publicação no Diário Oficial da União.” O art. 2º, o qual dispõe “este Ato Declaratório Executivo entra em vigor na data de sua publicação no Diário Oficial da União” quer dizer apenas que o ADE, como decisão administrativa, produz efeitos na data de sua publicação no Diário Oficial. Não se pode, a partir deste dispositivo, emprestar-lhe efeitos materiais de modo a concluir que os contribuintes estariam isentos no período em que a regra permaneceu com a sua eficácia suspensa. Nem se a autoridade emissora do ato normativo quisesse, por meio de um juízo de oportunidade, não poderia dispensar a cobrança da diferença de tributos no período em que o dispositivo da Instrução Normativo permaneceu suspenso. Uma vez reconhecido que a restrição contida na Instrução Normativa era de fato aplicável às holding companies holandesas, tal decisão vinculou toda a Administração Tributária – inclusive a própria autoridade que a proferiu –, dado agora se ter a certeza acerca da aplicação do dispositivo legal pertinente no caso em análise. Após a revogação da suspensão, ocorrida dentro do prazo decadencial, caberia à Recorrente UBI retificar as suas DIPJ e DCTF e pagar a diferença de imposto referente ao excesso de juros deduzidos. É de se ressaltar não haver qualquer violação à segurança jurídica no neste caso, posto desde o início a Recorrente saber que pendia decisão administrativa acerca desta suspensão. Situação semelhante se daria se estivesse pagando menos imposto por efeito de uma liminar judicial que, posteriormente, fosse cassada. Ao final, a diferença a menor deve ser paga, e não simplesmente esquecida, pois a norma tributária permanecia vigente, estando apenas com a sua eficácia suspensa 4 . Ou seja, ao final também, restou demonstrado que as holding companies registradas nos Países Baixos gozavam, no ano do fato gerador, de benefício fiscal naquele país e nunca ter sido demonstrado se a legislação fiscal de lá exigia, para o gozo de tal 4 Art. 144. O lançamento reporta-se à data da ocorrência do fato gerador da obrigação e rege-se pela lei então vigente, ainda que posteriormente modificada ou revogada. Fl. 5161DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 36 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 benefício, o exercício de atividade econômica substantiva. Só por estas razões, entendo que já se teria por justificado, nos termos do parágrafo único do art. 24-A da Lei 9.430/96, o enquadramento dado pela Fiscalização de Regime Fiscal Privilegiado à holding company UFI BV no ano do fato gerador. De mais, entendo também não ser possível distinguir a espécie holding companies financeiras do seu gênero holding companies, para fins de aplicação do disposto na IN RFB nº 1.045/2010. Contudo, a Fiscalização foi mais além e, no mérito, concluiu que a Recorrente UBI não comprovou que a UFI BV tivesse exercido de fato atividade econômica substantiva nos Países Baixos no AC 2012. Assim concluiu baseado em diligências nas quais analisou os registros de atividade da UFI BV no “CNAE” holandês, bem como que a credora em questão não possuía empregados registrados. Tratando-se de dedutibilidade de despesa, o ônus da prova compete ao contribuinte, tendo sido, portanto, correta a interpretação aplicada pela Fiscalização neste sentido. Assim, a princípio, deve-se ter por correta a aplicação, para o ano objeto da fiscalização, da norma antissubcapitalização do art. 25 da Lei 12.249/2010, por terem sido detectados pagamentos de juros a Pessoa Vinculada situada em Regime Fiscal Privilegiado. A condição de Regime Fiscal Privilegiado foi dada, no caso dos autos, em razão de não ter sido comprovado pela Recorrente que a UFI BV – beneficiária de tributação reduzida nos Países Baixos e destinatária do pagamento de juros – tenha exercido de fato atividade econômica substantiva naquele país no ano sob fiscalização. 2.2. Despesa desnecessária por mudança de moeda de contrato Parte das glosas de despesas com juros no auto de infração tiveram como fundamento o fato de terem sido desnecessárias em razão da troca injustificada da moeda do empréstimo em 2004 de dólar para real. A Recorrente alega que a troca teria sido feita em seu próprio favor, já que a dívida foi estabilizada em moeda nacional. Já a Fiscalização concluiu que não houvera outra razão senão aumentar o repasse a título de despesas com juros nos anos seguintes. A questão é fática e sobre ela é fácil concluir que o objetivo da troca de moeda de dólar para real em 2004 foi aumentar os juros pagos pela controlada brasileira à sua vinculada no exterior. Isto porque, diante das expectativas de valorização da moeda nacional em 2004, a credora da recorrente – cuja atividade empresarial é conceder empréstimos – preferiu aumentar sua exposição em reais brasileiros. Foi uma aposta acertada do ponto de vista econômico, mas que não pode ser considerada justificada como despesa necessária da Recorrente no Brasil posto não ter sido realizada em seus interesses, mas no de seu controlador no exterior, os quais assim decidiram por mera liberalidade. Assim, julgo improcedente o Recurso Voluntário contra a glosa da parcela de juros majorada por efeito da mudança da moeda do contrato. Fl. 5162DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 37 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 III - Concomitância de multa isolada com multa de ofício No que diz respeito à concomitância da multa isolada com a multa de ofício, igualmente reconheço não haver reparos há fazer na decisão da DRJ. Isto porque a jurisprudência do CARF tem reconhecido a legalidade deste tipo de autuação para fatos geradores a partir da Lei 11.488/2007, conforme se observa em julgados recentes da 1ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais: Numero do processo: 10680.724298/2010-79 Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS Câmara: 1ª SEÇÃO Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais Data da sessão: Tue Dec 04 00:00:00 BRST 2018 Data da publicação: Tue Jan 15 00:00:00 BRST 2019 Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano- calendário: 2007 ESTIMATIVAS NÃO RECOLHIDAS. MULTA ISOLADA. CONCOMITÂNCIA COM A MULTA DE OFÍCIO. POSSIBILIDADE. Nos casos de falta de recolhimento de estimativas mensais de IRPJ posteriores à Lei nº 11.488/2007, quando não justificados em balanço de suspensão ou redução, é cabível a cobrança da multa isolada, que pode e deve ser exigida, de forma cumulativa, com a multa de ofício aplicável aos casos de falta de pagamento do mesmo tributo, apurado de forma incorreta, ao final do período-base de incidência. Numero do processo: 10882.723979/2012-13 Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS Câmara: 1ª SEÇÃO Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais Data da sessão: Tue Oct 02 00:00:00 BRT 2018 Data da publicação: Tue Nov 20 00:00:00 BRST 2018 Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano- calendário: 2009 CONCOMITÂNCIA. MULTA ISOLADA. A multa isolada pune o contribuinte que não observa a obrigação legal de antecipar o tributo sobre a base estimada ou levantar o balanço de suspensão, logo, conduta diferente daquela punível com a multa de ofício proporcional, a qual é devida pela ofensa ao direito subjetivo de crédito da Fazenda Nacional. Numero do processo: 16327.721184/2014-14 Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS Fl. 5163DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 38 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 Câmara: 1ª SEÇÃO Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais Data da sessão: Tue Oct 02 00:00:00 BRT 2018 Data da publicação: Tue Nov 20 00:00:00 BRST 2018 Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano- calendário:2009, 2010 CONCOMITÂNCIA. MULTA ISOLADA. A multa isolada pune o contribuinte que não observa a obrigação legal de antecipar o tributo sobre a base estimada ou levantar o balanço de suspensão, logo, conduta diferente daquela punível com a multa de ofício proporcional, a qual é devida pela ofensa ao direito subjetivo de crédito da Fazenda Nacional. Apenas acrescento, como razões de decidir, que a multa isolada concomitante com a multa de ofício só vem a ocorrer nos casos de opção do contribuinte pelo Lucro Real Anual. Tal opção deveria ser, a rigor, evitada pelos contribuintes, pois a lei prescreve efetivamente como regra o Lucro Real Trimestral. IV - Taxa Selic e juros sobre multa Questiona a Recorrente a aplicação da Taxa Selic sobre a atualização dos tributos devidos bem como a sua aplicação sobre o valor da multa aplicada após o vencimento. Estas duas questões, contudo, foram sumuladas pelo CARF em sentido oposto ao sustentado pela Recorrente, nas Súmulas nº 4 e 108: Súmula CARF nº 4 A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC para títulos federais. Súmula CARF nº 108 Incidem juros moratórios, calculados à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC, sobre o valor correspondente à multa de ofício. Assim, julgo improcedente o Recurso Voluntário também quanto a estas questões. Recurso Voluntário da UBR Fl. 5164DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 39 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 A Unilever Brasil Ltda (UBR) recorre da corresponsabilidade que lhe foi atribuída na autuação de glosa de amortização de ágio, dado ter sido ela que inicialmente registrou o ágio, depois transmitido por cisão à UBI. Inexiste, a meu ver, interesse comum entre as empresas na situação que constituiu o fato gerador, dado que o interesse da UBR cessou com a transmissão do saldo de ágio a ser amortizado à UBI pelo evento de cisão. Afastadas a fraude e a simulação, e não tendo sido narrados nos relatório fiscal outros fatos que configurassem alguma das espécies de abuso, entendo que deve ser afastada a responsabilidade tributária atribuída à Recorrente UBR. CONCLUSÃO Por todo o exposto, voto por conhecer do Recurso de Ofício para, no mérito, negar-lhe provimento. No Recurso Voluntário da UBI, por dele conhecer para, no mérito, dar- lhe parcial provimento no sentido de afastar a multa qualificada e, por conseguinte, reconhecer a decadência relativa ao AC 2011. No Recurso Voluntário da UBR, por dele conhecer para, no mérito, dar-lhe parcial provimento, excluindo a sua responsabilidade tributária no lançamento. É como voto. (assinado digitalmente) Allan Marcel Warwar Teixeira - Relator Declaração de Voto Conselheira Bárbara Melo Carneiro Com a devida vênia ao voto do ilustre relator, apresento as razões pelas quais discordo da posição adotada pela maioria, no que diz respeito à glosa das despesas com ágio no presente caso. Apesar de ter votado no sentido de dar integral provimento ao Recurso Voluntário, a presente declaração será limitada ao tópico da amortização do ágio. Fl. 5165DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 40 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 Inicialmente, cabe destacar que à época dos fatos geradores não estava vigente no ordenamento jurídico norma específica que vedasse a dedução do ágio gerado em operações com partes relacionadas. Não obstante tal fato, os fundamentos pelos quais entendo que, nesse caso, o ágio deve ser reconhecido para fins tributários não se restringem à inexistência dessa vedação na legislação tributária, conforme será esclarecido. Ainda que de forma sintética, em virtude da escassez do tempo para elaboração das declarações de voto, procurarei tecer algumas considerações que evidenciem os motivos pelos quais discordo das premissas traçadas no voto condutor da tese vencedora. Com relação aos argumentos adotados pela Autoridade Administrativa para fundamentar o lançamento nessa parte são extraídos do próprio TVF, a seguir transcrito: Depreende-se do TVF A propósito, o reconhecimento de um ágio gerado dentro de um mesmo grupo econômico não encontra respaldo na Contabilidade, ou seja, não é possível reconhecer contabilmente quando originado de uma transação entre partes relacionadas. O Conselho Federal de Contabilidade, ao editar a Resolução CFC n° 1.157/2009, reprovou no § 50 - integrante do capítulo relativo ao Ágio por Expectativa de Rentabilidade Futura, a contabilização do próprio ágio, por falta de fundamento econômico, conforme se pode ver na transcrição abaixo: Agio por expectativa de rentabilidade futura (...)50. E importante lembrar que só pode ser reconhecido o ativo intangível do ágio por expectativa de rentabilidade futura se adquirido de terceiros, nunca o gerado pela própria entidade (ou mesmo conjunto de empresas sob controle comum). E o adquirido de terceiros só pode ser reconhecido, no Brasil, pelo custo, vedada completamente sua reavaliação. (grifo nosso) O Conselho Federal de Contabilidade já havia se pronunciado anteriormente sobre o tema na Resolução CFC nº 1.110/2007 que, em seu item 120, assim determina: O reconhecimento de ágio decorrente de rentabilidade futura gerado internamente (goodwill interno) é vedado pelas normas nacionais e internacionais. Assim, qualquer ágio dessa natureza anteriormente registrado precisa ser baixado. (grifo nosso) A teoria contábil dá respaldo apenas ao ágio pago numa negociação entre comprador e vendedor não relacionados entre si. O ágio gerado internamente não decorre de uma operação com propósito negocial. O ágio por expectativa de rentabilidade futura só pode ser reconhecido contabilmente se adquirido de terceiros e nunca pode ser reconhecido aquele gerado pela própria empresa ou dentro do conjunto de empresas sob o controle comum. No presente caso não houve alteração no controle das empresas; todas as envolvidas permaneceram sob o comando do grupo econômico da Unilever. É tão pacífico o entendimento de que o ágio gerado internamente, fundamentado em rentabilidade futura, não se qualifica como ativo que o Comitê de Pronunciamentos Contábeis, no seu Pronunciamento Técnico CPC-04, item 47, asseverou, categoricamente, mesmo após o avanço experimentado pela Contabilidade com a edição da Lei n. 11.638/2007, que alterou a Lei das S.A., que “o ágio derivado da expectativa de rentabilidade futura (goodwill) gerado internamente não deve ser reconhecido como ativo”. Para reforçar o entendimento de que o ágio gerado internamente é artificial e inadmissível contabilmente, traz-se a opinião do Prof. Eliseu Martins em artigo apresentado e publicado em congresso realizado em 2004 na USP: Em termos de Teoria da Contabilidade, a rigor, em uma transação admite-se tão-só a figura do ágio, que vem a ser um resultado econômico obtido em um processo de compra e venda de ativos líquidos (net assets), quando estiverem envolvidas partes independentes não relacionadas. Enfim, quando o ágio for resultado de um processo de barganha negocial não viciado, que concorra para a formação de um preço justo dos ativos líquidos em apreço. Fl. 5166DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 41 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 (...)Resta justificado, dessa forma, pelo exposto, que definitivamente, à luz da Teoria da Contabilidade, é inadmissível o surgimento de ágio em uma operação realizada dentro de um mesmo grupo econômico. Não é permitido contabilmente o reconhecimento de ágio gerado internamente, tampouco o lucro resultante. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), autarquia federal responsável pela fiscalização e regulação do mercado de valores mobiliários, também condena o reconhecimento de ágio em operações realizadas dentro mesmo grupo econômico, e expressou seu entendimento por meio do Ofício-Circular/CVM/SNC/SEP nº 01/2007, de 14 de fevereiro de 2007: “Ágio” gerado em operações internas A CVM tem observado que determinadas operações de reestruturação societária de grupos econômicos (incorporação de empresas ou incorporações de ações) resultam na geração artificial de ágio. Uma das formas por que essas operações vêm sendo realizadas, inicia-se com a avaliação econômica dos investimentos em controladas ou coligadas e, ato contínuo, utilizar-se do resultado constante do laudo oriundo desse processo como referência para subscrever capital numa nova empresa. Essas operações podem, ainda, ser seguidas de uma incorporação. Outra forma observada de realizar tal operação é a incorporação de ações a valor de mercado de empresa pertencente ao mesmo grupo econômico. Em nosso entendimento, ainda que essas operações atendam integralmente os requisitos societários, do ponto de vista econômico-contábil é preciso esclarecer que o ágio surge, única e exclusivamente, quando o preço (custo) pago pela aquisição de um investimento a ser avaliado pelo método da equivalência patrimonial supera o valor patrimonial desse investimento. E mais, preço ou custo de aquisição somente surge quando há dispêndio para se obter algo de terceiros. Assim, não há, do ponto de vista econômico, geração de riqueza decorrente de transação consigo mesmo. Qualquer argumento que não se fundamente nessas assertivas econômicas configura sofisma formal e, portanto, inadmissível. Não é concebível, econômica e contabilmente, o reconhecimento de acréscimo de riqueza em decorrência de uma transação dos acionistas com eles próprios. Ainda que, do ponto de vista formal, os atos societários tenham atendido à legislação aplicável (não se questiona aqui esse aspecto), do ponto de vista econômico, o registro do ágio, em transações como essas, somente seria concebível se realizada entre partes independentes, conhecedoras do negócio, livres de pressões ou outros interesses que não a essência da transação, condições essas denominadas na literatura internacional como “arm's length”. Portanto, é nosso entendimento que essas transações não se revestem de substância econômica e da indispensável independência entre as partes, para que seja passível de registro, mensuração e evidenciação pela contabilidade. (grifo nosso) A CVM ressalva que essas operações podem até ter sido efetuadas de acordo com o procedimento previsto na lei societária, isto é, precedidas de protocolo e justificação de incorporação, avaliação e assembleias das companhias envolvidas, formalidades que, todavia, não alteram o fato de que elas não se revestem de substância econômica passível de registro pela Contabilidade, consoante o excerto do mesmo Ofício-Circular acima. A CVM observa que a mera observância das formalidades previstas na lei societária não é condição suficiente para reconhecer o ágio surgido em uma determinada operação, sendo necessário observar, também, requisitos materiais, como a independência das partes, pagamento e um efetivo ambiente concorrencial. Para o caso em tela, tanto na aquisição da UBI pelas BRAZH3, BRAZH4 e BRAZH5, como na incorporação da UBI pela UBR, não se verifica a existência de negociação entre as partes, nem de compra ou venda, nem de mercado livre e aberto. A explanação apresentada pela Unilever foi simplesmente o ingresso a um projeto global que visava a simplificação da estrutura societária do Grupo Unilever. Fl. 5167DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 42 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 (...) De imediato, vê-se que, apenas pelo artigo 247 do RIR/99, o reconhecimento do ágio gerado internamente não pode gerar reflexos tributários, haja vista que, se o próprio ágio não é aceitável segundo as leis comerciais, tampouco pode sê-lo a sua amortização. Inicialmente, é importante tecer considerações sobre a tese de que as exclusões ao lucro líquido (para se apurar o lucro real e a base de cálculo da CSLL) devem estar ancoradas em autorizações normativas (tese em que o voto vencedor se funda). Para defender essa tese, afirma- se que não haveria previsão “normativa” que autorizasse tal procedimento e que esse seria realizado com base em uma “interpretação”. Para dar guarida à tese fazendária, constrói-se o seguinte raciocínio: o lucro contábil é o ponto de partida da apuração do lucro real (IRPJ) e da base de cálculo da CSLL. Sendo assim, todo montante que impactar o lucro contábil afetará a base de cálculo dos tributos, a não ser que haja previsão “normativa” que autorize a neutralidade fiscal desses valores. Caso contrário, o procedimento de exclusão estaria viciado juridicamente em razão de ter sido realizado com base em “mera interpretação”. Pois bem. Antes de adentrar no cerne dessa discussão, vale relembrar as lições de Ricardo Guastini 5 sobre o fenômeno interpretativo no Direito, assim como o próprio sentido da norma jurídica, in verbis: [a] norma é um enunciado que constitui o produto do resultado da interpretação. Nesse sentido, as normas são – por definição – variáveis dependentes da interpretação. Sendo assim, é somente a partir da atividade interpretativa que se torna possível a atribuição de sentido ao dispositivo, de modo que a norma decorre necessariamente de uma interpretação. Portanto, resta superada a premissa segundo a qual não seria possível realizar exclusões à base de cálculo do IRPJ e da CSLL com base em “interpretação” sem que haja uma “norma” que a suportasse. Repita-se: a norma sempre será fruto de uma interpretação. Nesse sentido, o disposto no art. 6º do Decreto Lei nº 1.598/77 evidencia o conceito de lucro real como sendo o lucro líquido do exercício ajustado pelas adições, exclusões ou compensações prescritas ou autorizadas pela legislação tributária. Cabe destacar que a prescrição ou autorização na legislação tributária não podem ser entendidas como se fosse indispensável que o seu conteúdo estivesse expresso em um dispositivo legal, já que os valores a serem excluídos assim o são porque caracterizam uma determinada grandeza que integra o lucro contábil, mas não integra a renda tributável. 6 Significa dizer que se a Contabilidade captura uma grandeza incompatível com o sistema jurídico-tributário, esse valor deverá ser excluído da base de cálculo do tributo. Isso, porque o sistema jurídico-tributário possui regras jurídicas próprias, sendo que a materialidade da renda está condicionada ao cumprimento dos requisitos para se considerar acréscimo patrimonial disponível, cujo conteúdo de significação é estabelecido no interior do sistema jurídico. 5 Guastini, Riccardo. Das fontes às normas. Trad. Edson Bini - Apresentação: Heleno Taveira Tôrres - São Paulo: Quartier Latin, 2005. 6 Em regra, desconsiderando os casos de benefício fiscal, em que a grandeza contábil é excluída para fins fiscais, apesar de se amoldar na materialidade do tributo. Fl. 5168DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 43 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 Entender que seria imprescindível um dispositivo expresso que expurgasse as impurezas jurídicas do lucro contábil seria subverter a própria lógica do sistema tributário. Em outras palavras, a exigência de um dispositivo de lei que autorizasse expressamente a exclusão de determinando montante que impactou o lucro líquido (mas que deveria ser neutro para fins tributários), acarreta a incorporação acrítica dos conceitos contábeis, a não ser que um dispositivo expresso autorizasse sua “depuração” 7 , de modo que o próprio conceito de renda seria determinado pela lei ordinária. Assim, superando a discussão doutrinária sobre o conceito de renda estar evidenciado na constituição ou na lei complementar, não é possível admitir raciocínio que conduza à conclusão que a lei ordinária seria a responsável por formular o conceito de renda. Admitir, portanto, que a ausência de dispositivo legal expresso implicaria a assunção automática do conceito contábil seria desconsiderar a autonomia conceitual jurídica e entender que a lei ordinária seria a responsável por formular os conceitos sobre a materialidade dos tributos. Nesse ponto, é fundamental evidenciar que conceitos contábeis podem ser incompatíveis com os conceitos jurídicos, mesmo que o vocábulo utilizado por ambas as disciplinas seja o mesmo. Como destaca Aarnio (1986) 8 , as palavras fazem sentido apenas quando relacionadas a outras expressões e, finalmente, quando elas são lidas como parte de um todo, o que o autor chama de círculo hermenêutico. A Contabilidade estabelece um método próprio para interpretação dos fenômenos patrimoniais, com a finalidade de viabilizar a comunicação entre entidade e os diversos usuários externos. Assim, o seu viés hermenêutico (de qualificação dos fatos patrimoniais) é de fundamental importância 9 . Essa característica traz consigo a necessidade de se estruturar argumentos que sejam capazes de sistematizar e classificar fenômenos patrimoniais em determinadas categorias previamente definidas, em conformidade com o objetivo contábil. Esse conjunto representa a realidade institucional da Contabilidade (Carruthers e Espeland, 1991 10 ). Dessa forma, os conceitos elaborados no interior de cada sistema devem guardar correspondência com sua respectiva função, de modo a evitar influências externas que não tenham sido previstas com base em suas próprias regras. O conceito atribuído a cada vocábulo deve ser construído internamente em cada sistema, para que a partir dele possa ser feita a análise de adequação da abertura ao ambiente externo. Em razão dessa possibilidade de atribuir sentidos distintos aos mesmos vocábulos em sistemas diferentes, é imprescindível que o usuário conheça a fundo as regras do sistema em que se está inserido, sob pena de não estar apto a identificar quando conceitos provenientes de 7 No sentido utilizado por Ricardo Mariz de Oliveira em seu artigo "Depurações do Lucro Contábil para Determinação do Lucro Tributável", publicado em MOSQUERA, Roberto Quiroga; LOPES, Alexsandro Broedel. Controvérsias jurídico-contábeis: (aproximações e distanciamentos). São Paulo: Dialética, 2014. 8 Aarnio, A.. The rational as reasonable: a treatise on legal justification. Dordrecht, Holland: D. Reidel Publishing Company. Law and Philosophy Library, 1986. 9 A esse respeito, vide: Power, M. Accounting and science: natural inquiry and commercial reason. Cambridge: Cambridge University Press, 1996 10 Carruthers, B. G., & Espeland, W. N. (1991). Accounting for Rationality: Double-Entry Bookkeeping and the Rhetoric of Economic Rationality. The American Journal of Sociology, 97(1), 31-69. Fl. 5169DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 44 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 outros sistemas estarão produzindo uma influência não permitida pelo seu sistema de origem (Derzi, 2009 11 ). Feitos esses esclarecimentos, é importante destacar que a Contabilidade não é uma descoberta da ciência, mas o resultado de esforços contínuos para atender às necessidades advindas do desenvolvimento das atividades econômicas. Cada etapa avançada no aperfeiçoamento das técnicas contábeis propiciou a estruturação de um sistema homogêneo capaz de identificar e qualificar os fatos patrimoniais (Brown, 1905). 12 Em vista disso, é importante lembrar que a Contabilidade sempre teve como norte a alocação temporal, na perspectiva da entidade, do seu histórico financeiro (tanto nos tempos de Pacioli, em que a função era dar ao comerciante sem atraso informações de seus ativos e passivos, quanto nos tempos modernos, em que a função da Contabilidade é antever ativos e passivos). A esse respeito, é importante conferir os objetivos das demonstrações contábeis, de acordo com a Estrutura Conceitual Para Relatório Financeiro (Pronunciamento Técnico CPC 00 - R2): O objetivo do relatório financeiro para fins gerais é fornecer informações financeiras sobre a entidade que reporta que sejam úteis para investidores, credores por empréstimos e outros credores, existentes e potenciais, na tomada de decisões referente à oferta de recursos à entidade. Essas decisões envolvem decisões sobre: (a) comprar, vender ou manter instrumento de patrimônio e de dívida; (b) conceder ou liquidar empréstimos ou outras formas de crédito; ou (c) exercer direitos de votar ou de outro modo influenciar os atos da administração que afetam o uso dos recursos econômicos da entidade. 1.3 As decisões descritas no item 1.2 dependem dos retornos que os existentes e potenciais investidores, credores por empréstimos e outros credores esperam, por exemplo, dividendos, pagamentos de principal e juros ou aumentos no preço de mercado. As expectativas dos investidores, credores por empréstimos e outros credores quanto aos retornos dependem de sua avaliação do valor, da época e da incerteza (perspectivas) de futuros fluxos de entrada de caixa líquidos para a entidade e de sua avaliação da gestão de recursos da administração sobre os recursos econômicos da entidade. Investidores, credores por empréstimos e outros credores, existentes e potenciais, precisam de informações para ajudá-los a fazer essas avaliações. As atuais normas contábeis, portanto, estão direcionadas aos investidores e credores, que estão interessados nos fluxos futuros de entrada de caixa líquidos para a entidade. Estando o objetivo das normas contábeis direcionado a aspectos preditivos, elas podem, por 11 Derzi, Misabel Abreu Machado. Modificações da Jurisprudência no Direito Tributário: proteção da confiança, boa-fé objetiva e irretroatividade como limitações constitucionais do poder judicial de tributar. São Paulo: Noeses, 2009. 12 Book-keeping, rightly regarded, is simply a specialized form of the art of keeping accounts. It is neither a discovery of science, nor the inspiration of a happy moment, but the outcome of continued efforts to meet the necessities of trade as they gradually develop. One by one the successive steps in the Evolution of account-books were achieved till finally it was realized that the transactions of a business in their entirety form a homogeneous whole which is capable of being marshalled in the framework of a system. When this was discovered there originated what is know as “double-entry”, which may be said to form the basis of all systems of book-keeping worthy of the name.” (Brown, R. A History of Accounting and Accountants. Washington, D.C: BeardBooks, 1905, p. 93). Fl. 5170DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 45 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 óbvio, estruturar conceitos que colidam com os conceitos delineados no interior do sistema jurídico-tributário. É nesse sentido que não se pode admitir uma incorporação automática dos conceitos elaborados no interior dos sistemas contábeis ao Direito Tributário. A esse respeito, evidenciam-se alguns exemplos de incompatibilidade conceitual para que as ideias postas acima fiquem mais claras. Veja-se, como exemplo, a evolução do conceito de ativo no interior do sistema contábil. De acordo com Eliseu Martins 13 , a concepção tradicionalista poderia ser compreendida pelo conceito adotado por Anthony (1973, p. 36 citado por Martins, 1972, p. 26) “[A]ssets are valuable resources owned by a business which were acquired at a measurable money cost”. Esse conceito dominou a classe contábil por muito tempo. Nesse ponto, Martins evidencia que a menção à propriedade foi proposital, sendo que o próprio Anthony alega que a posse ou o controle, sem substância de propriedade, não seriam suficientes para qualificar um item como um ativo. Em outras palavras, de acordo com o chamado “conceito tradicional”, seria condição da inserção do patrimônio no sistema contábil a propriedade jurídica. Verifica-se, nesse caso, que a concepção tradicionalista evidenciava uma abertura cognitiva do sistema contábil ao Direito, em detrimento da Economia. O preenchimento da condição satisfatória para o conceito de ativo estava relacionado a um conceito extraído de outro subsistema social: o Direito (propriedade). A capacidade de aquele recurso gerar expectativa futura à entidade sempre foi a condição de se tornar ativo contábil, mas o momento de reconhecimento daquele ativo se daria no ato em que a propriedade jurídica fosse configurada. Obviamente, as relações sociais evoluem, e, em decorrência das aberturas cognitivas inerentes aos subsistemas sociais, são inseridos no interior do sistema contábil fatos que outrora nele não estavam inseridos. A alteração do paradigma contábil e a aproximação da Economia culminou na modificação do conceito contábil de ativo. Em razão de a utilidade das informações contábeis estarem direcionadas à captura de eventos que desencadearão expectativas de geração ou consumo de caixa, a propriedade jurídica passou a não cumprir com tanta eficiência a finalidade da classificação contábil. Em razão desse obstáculo, a abertura cognitiva volta-se à Economia, por ser capaz de dar substância ao conceito mais próximo da finalidade contábil. Se há a possibilidade de capturar a expectativa, independentemente da propriedade jurídica, esta passa a ser irrelevante, e outros critérios de filtro patrimonial são estabelecidos. 14 Atualmente, o conceito de ativo contábil está evidenciado no Pronunciamento CPC 00, item 4.4, e corresponde a “um recurso controlado pela entidade como resultado de eventos passados e do qual se espera que fluam futuros benefícios econômicos para a entidade”. É dizer, para um fato social integrar o sistema contábil, não mais deve estar relacionado à propriedade jurídica, mas ao controle daqueles benefícios econômicos. Evidencia-se a abertura cognitiva direcionada à Economia e não ao Direito. 13 Martins, E. (1972). Contribuição a Avaliação do Ativo Intangível. (Tese de Doutorado). Departamento de Contabilidade e Atuária, Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade, Universidade de São Paulo. 14 “The accounting process is not neutral in this regard, however, and what counts as an accounting representation changes over time (Burchell, Hopwood, & Clubb, 1985; Davis, Menon, & Morgan, 1982; Hines, 1988; Miller, 1998).” (Barker, & Schulte, 2017). Fl. 5171DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 46 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 Percebe-se que se trata de uma questão temporal, tendo em vista o caráter preditivo da Contabilidade, que tem por função a alocação no tempo das expectativas relacionadas à geração ou consumo de benefícios econômicos. Não houve alteração relativa à função da Contabilidade, como sistema social, mas a abertura cognitiva alterou: a teoria tradicional enxergava a abertura cognitiva relacionada ao Direito; já a teoria moderna desloca a abertura cognitiva à Economia, tentando capturar os fatos independentemente de estarem relacionados a atos ou negócios jurídicos firmados. Sendo assim, o conceito de propriedade, elaborado no interior do sistema jurídico, passa a ter menos relevância no sistema contábil. Caso o bem seja controlado pela entidade e dele seja esperada geração de caixa futura, o fato de o Direito não o reconhecer como patrimônio da entidade não interfere na leitura do evento pelo sistema contábil. Nesse ponto, é interessante entender a Contabilidade como um sistema comunicacional e, em consequência disso, sua objetividade não será semântica, mas discursiva. A “verdade” que a Contabilidade busca atingir ao demonstrar o patrimônio de determinada entidade não está relacionada à “essência” do objeto “patrimônio”, mas ao processo de construção do objeto no interior do sistema contábil. É natural, portanto, que na objetividade discursiva do Direito as normas que tomem por base conceitos estruturados pela (e para a) Contabilidade sejam total ou parcialmente incompatíveis. Isso, porque o discurso coerente de um sistema se torna incoerente ao tomar de empréstimo conceitos estruturados no interior de um discurso com finalidade distinta. Trata-se do fechamento operacional dos sistemas comunicacionais na teoria proposta por Luhman. 15 Apesar de os sistemas serem cognitivamente abertos (o que permite a percepção de eventos ocorridos no interior de outros sistemas), eles são, contudo, operacionalmente fechados, na medida em que deve haver o acoplamento estrutural para a inserção no sistema de uma informação advinda de outro sistema. Em outras palavras, o sistema faz a sua leitura da informação e não simplesmente incorpora a leitura realizada por outro sistema. Ou seja, o negócio jurídico firmado pode não ensejar a transmissão da propriedade de determinado bem, mas a Contabilidade, enxergando o negócio jurídico ocorrido, faz a sua leitura e pode classificar aquele bem como ativo, visto que outros requisitos (que não os necessários para se configurar a propriedade jurídica) foram cumpridos. Como exemplo do movimento inverso, o Direito pode tomar de empréstimo o resultado calculado no interior do sistema contábil, com base em suas premissas. Não se tratará, porém, de conceito contábil, mas de conceito jurídico, na medida em que aquele sistema permitiu a leitura do evento jurídico utilizando-se de empréstimo as premissas contábeis. Veja-se que, nesse caso, para a classificação contábil produzir efeitos no sistema jurídico, o Direito deve juridicizá-lo. 15 Para mais informações sobre o tema, vide a versão original do trabalho disponível em www.teses.usp.br: CARNEIRO, Bárbara Melo. Conceitos contábeis no atual contexto científico: uma tentativa de retirá-los da cama de Procusto. 2019. Dissertação (Mestrado em Controladoria e Contabilidade: Contabilidade) - Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2019. A versão adaptada e corrigida não está publicada. Fl. 5172DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 47 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 Nesse sentido, confira-se o raciocínio desenvolvido pela Ministra Rosa Weber no julgamento do RE 606.107/RS, em que se evidenciou que não há equivalência absoluta entre os conceitos contábil e tributário: Pois bem, o conceito constitucional de receita, acolhido pelo art. 195, I, “b”, da CF, não se confunde com o conceito contábil. Isso, aliás, está claramente expresso nas Leis 10.637/02 (art. 1º) e Lei 10.833/03 (art. 1º), xque determinam a incidência da contribuição ao PIS/PASEP e da COFINS não cumulativas sobre o total das receitas, “independentemente de sua denominação ou classificação contábil”. Não há, assim, que buscar equivalência absoluta entre os conceitos contábil e tributário. Ainda que a contabilidade elaborada para fins de informação ao mercado, gestão e planejamento das empresas possa ser tomada pela lei como ponto de partida para a determinação das bases de cálculo de diversos tributos, de modo algum subordina a tributação. Trata-se, apenas, de um ponto de partida. Basta ver os ajustes (adições, deduções e compensações) determinados pela legislação tributária. A contabilidade constitui ferramenta utilizada também para fins tributários, mas moldada nesta seara pelos princípios e regras próprios do Direito Tributário. Conforme adverte José Antônio Minatel: “há equívoco nessa tentativa generalizada de tomar o registro contábil como o elemento definidor da natureza dos eventos registrados. O conteúdo dos fatos revela a natureza pela qual espera- se sejam retratados, não o contrário”. Nessa linha de raciocínio, o fato de determinada grandeza alterar o resultado contábil não implica a alteração automática do fato gerador do imposto sobre a renda. É necessário que os conceitos sejam sistematicamente compatíveis, sob pena de não ser possível o Direito “enxergar” o evento contábil, que será, portanto, desconsiderado para fins fiscais. Um bom exemplo desse recorte fático que cada subsistema faz na realidade social é a própria morte. Trata-se de um evento natural, que é capturado pelos subsistemas em momentos distintos: para a Medicina, quando há completa e irreversível parada das funções cerebrais, mas para o Direito apenas quando a morte é juridicamente qualificada. Daí a célebre frase de Pontes de Miranda: “A própria morte não é fato que entre nu, em sua rudeza, em sua definitividade no mundo jurídico”. 16 Em vista do raciocínio conduzido nas linhas acima, entendo que as exclusões à base de cálculo dos tributos que tomem por base o lucro líquido advindo da Contabilidade são necessárias para compatibilizar os conceitos do sistema contábil ao sistema jurídico. Ademais, tais procedimentos estão respaldados nas normas tributárias, assim entendidas como resultado do processo interpretativo. Superada essa premissa, passa-se a refutar a utilização das normas contábeis como fundamento para impor determinado tratamento jurídico. Esse ponto diz respeito à suposta vedação ao reconhecimento do “ágio interno” nas normas contábeis. É dizer, mesmo que se desconsidere a autonomia conceitual para se determinar a renda tributável e sua não subordinação às regras contábeis, a conclusão não deve ser pela insubsistência do ágio interno. Passa-se, então, a refutar a premissa segundo a qual as regras contábeis vedariam o reconhecimento do ágio deduzido pela Recorrente. Para fundamentar o não reconhecimento do ágio ora discutido, a tese vencedora se firma na premissa segundo a qual as regras contábeis vedariam o seu reconhecimento. Para tanto, 16 Miranda, P. citado por Vilanova, L. (1997). As estruturas lógicas e o sistema do direito positivo. São Paulo: Max Limonad. Fl. 5173DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 48 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 são colacionados o art. 7º da Resolução do Conselho Federal de Contabilidade (CFC) nº 750/1993, bem como o item 120 Resolução CFC 1.110/07 para aprovar a NBC T 19.10 – Redução ao Valor Recuperável de Ativos. Entretanto, tais normas não conduzem à conclusão almejada, conforme será exposto. Antes de adentrar em cada norma de forma específica, cumpre ressaltar que as normas contábeis são elaboradas, como exposto acima, de acordo com postulados e objetivos que nem sempre são compatíveis com o Direito. É necessário, portanto, testar a adequação das normas contábeis ao sistema jurídico antes de incorporá-las de forma acrítica. Nesse ponto, é importante salientar que, conforme as lições de Iudícibus (2015), 17 a Entidade Contábil é um postulado contábil 18 e, ainda, “um postulado pode ser definido como uma proposição ou observação de certa realidade que pode ser considerada não sujeita a verificação, ou axiomática”. O racional de se qualificar essa diretriz contábil como postulado é tratá-la como axioma da disciplina contábil. Explica-se. O citado autor recorre à taxonomia da Matemática Pura (“postulado”) no intuito de evidenciar que, em um sistema lógico-dedutivo, determinadas premissas devem ser tomadas como axiomáticas, dado que a partir de então é possível desenvolver um sistema cognoscível com pretensões e propósitos claramente estabelecidos. As conclusões que se chegam por meio de um conhecimento dedutivo devem estar calcadas na validade da premissa estabelecida. Quando se determina que a Entidade é um axioma, evidencia-se que o conjunto de regras proposto pela disciplina contábil somente valerá se esse axioma for válido. Em outras palavras, o conjunto de normas contábeis partem da validade do postulado da Entidade. Segundo as lições de Moonitz, em seu Accounting Research Study nº 1 (citado por Iudícibus), a entidade contábil representa a unidade econômica que tem controle sobre recursos, aceita a responsabilidade por tarefas e conduz a atividade econômica. Portanto, a escolha da entidade está vinculada à própria utilidade da informação contábil, no intuito de construir uma realidade institucional almejada, isto é, convergir para um estado ideal a ser atingido por meio do processo contábil, vinculada às premissas adotadas no interior dessa disciplina. Nesse sentido, Iudícibus (2015) arremata: Entidade contábil é o ente, juridicamente delimitado ou não divisão ou grupo de entidades ou empresas para os quais devemos realizar relatórios distintos de receitas e despesas, de investimentos e retornos, de metas e realizações, independentemente dos relatórios que fizermos para as pessoas físicas ou jurídicas que têm interesse em cada uma das entidades definidas em cada oportunidade. Hendriksen e Breda 19 também adotam conceito similar, no sentido de “o conceito da entidade contábil pode incluir a empresa como pessoa jurídica, uma divisão da empresa, ou uma ‘superempresa’, como a consolidação de diversas empresas coligadas. O próprio art. 4º 20 da já revogada Resolução do Conselho Federal de Contabilidade (CFC) nº 750/1993 evidenciava a distinção entre a pessoa jurídica e a entidade 17 IUDÍCIBUS, Sérgio de. Teoria da Contabilidade. São Paulo: Atlas, 11ª ed. 2015, p. 33. 18 Em conjunto com o Postulado da Continuidade. 19 HENDRIKSEN, Eldon S. e BREDA, Michael Fl. Van. Teoria da Contabilidade. Tradução da 5ª Edição Americana por Antonio Zoratto Sanvicente. São Paulo: Atlas. 2018. p. 104 20 Art. 4º. O Princípio da ENTIDADE reconhece o Patrimônio como objeto da Contabilidade e afirma a autonomia patrimonial, a necessidade da diferenciação de um Patrimônio particular no universo dos patrimônios existentes, independentemente de pertencer a uma pessoa, um conjunto de pessoas, uma sociedade ou instituição de qualquer Fl. 5174DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 49 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 contábil. Elas podem se confundir algumas vezes, mas a entidade contábil não é sinônimo de pessoa jurídica. A dificuldade de definição é evidenciada pelo fato de a Estrutura Conceitual constante do Pronunciamento Técnico CPC 00 não ter entrado nessa celeuma. Assim, apesar de a norma sempre se referir à “Entidade que Reporta” não a definiu de maneira completa. No cenário brasileiro, o problema oriundo da ausência de definição de entidade torna-se ainda mais complicado, uma vez que o Brasil adota as normas internacionais de contabilidade para os seus balanços individuais 21 , elaborados separadamente para cada pessoa jurídica, independentemente da existência ou não de uma entidade econômica da qual ela faça parte. Entretanto, o racional das normas internacionais considera a entidade econômica como seu alvo, apesar de o Brasil ter adotado as normas elaboradas para as entidades econômicas nas demonstrações contábeis das pessoas jurídicas (entidade jurídica). Não obstante essa dissociação brasileira entre o racional das normas internacionais de contabilidade e a sua aplicação mandatória, as legislações societária e tributária adotam as demonstrações financeiras individuas (pessoa jurídica) para apuração e pagamento dos dividendos, assim como para cálculo dos tributos devidos. Assim, deve-se ter em mente esse contexto para interpretar a aplicabilidade dos efeitos das normas contábeis na apuração das bases de cálculo dos tributos. O art. 7º da Resolução do Conselho Federal de Contabilidade (CFC) nº 750/1993 determinava o Princípio do Registro pelo Valor Original, segundo o qual “a avaliação dos componentes patrimoniais deve ser feita com base nos valores de entrada, considerando-se como tais os resultantes do consenso com os agentes externos ou da imposição destes”. Para os que acreditam ser essa uma norma que vedaria o cômputo do ágio nas transações entre partes relacionadas, é importante destinar algum tempo questionando o conceito de “agentes externos”. Caso “agentes externos” tenha por significado entidades que estejam sob controle econômico distinto, como quer defender o posicionamento adotado pela RFB, há de se reconhecer a incompatibilidade dessa norma para fins tributários. Essa conclusão decorre do fato de que a tributação desconsidera a entidade econômica e analisa o fato tributário sob a perspectiva da entidade jurídica. Como prova disso, é importante analisar a revogação do art. 2º do Decreto Lei nº 1.598/77, que previa a tributação da “entidade econômica”: SEÇÃO I Contribuintes Tributados em Conjunto Requisitos Art 2º - Duas ou mais sociedades com sede no País podem optar pela tributação em conjunto, desde que satisfaçam aos seguintes requisitos: (Revogado pelo Decreto-lei nº 1.648, de 1978). natureza ou finalidade, com ou sem fins lucrativos. Por conseqüência, nesta acepção, o Patrimônio não se confunde com aqueles dos seus sócios ou proprietários, no caso de sociedade ou instituição. Parágrafo único – O PATRIMÔNIO pertence à ENTIDADE, mas a recíproca não é verdadeira. A soma ou agregação contábil de patrimônios autônomos não resulta em nova ENTIDADE, mas numa unidade de natureza econômico-contábil. 21 MARTINS, Eliseu; GELBCKE, Ernesto Rubens; SANTOS, Ariovaldo dos; IUDÍCIBUS, Sérgio. Manual de Contabilidade Societária aplicável a todas as Sociedades, de acordo com as Normas Internacionais e do CPC – FIPECAFI.3. ed. São Paulo: Atlas. 2018. p 33. Fl. 5175DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 50 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 I - sejam a sociedade de comando e uma ou mais afiliadas de grupo de sociedades constituído nos termos do Capítulo XXI da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976; ou (Revogado pelo Decreto-lei nº 1.648, de 1978). II - uma controle a outra, ou outras, e a controladora seja titular, direta ou indiretamente, de 80% ou mais do capital com direito a voto da sociedade ou sociedades controladas. (Revogado pelo Decreto-lei nº 1.648, de 1978). § 1º - Somente podem optar pela tributação em conjunto as sociedades cujos exercícios sociais terminem na mesma data, que estejam sujeitas à alíquota geral de 30% e que satisfaçam aos requisitos deste artigo no término do período-base da incidência do imposto anual e no início do exercício financeiro em que o imposto for devido. (Revogado pelo Decreto-lei nº 1.648, de 1978). § 2º - Não serão computadas, para efeito de determinar a porcentagem de que trata o item II, as ações com direito a voto em tesouraria, as quotas liberadas de sociedade por quotas de responsabilidade limitada, e, no caso de participação recíproca entre controladas, as ações com direito a voto ou quotas do capital de uma controlada possuídas pela outra. (Revogado pelo Decreto-lei nº 1.648, de 1978). O dispositivo acima foi revogado no ano seguinte (pelo Decreto-lei nº 1.648/78) em razão de a tributação da entidade econômica evidenciar dificuldades intransponíveis, que inviabilizariam a tributação dessa forma. Confira-se a exposição de motivos: Exposição de Motivos do Decreto-lei nº1.648/78 11. O art. 5º revoga a possibilidade de tributação conjunta de diferentes sociedades. Durante os trabalhos de regulamentação evidenciaram-se dificuldades intransponíveis que fatalmente e tumultuariam o sistema fiscal e inviabilizariam, na prática, a tributação pela unidade econômica – em oposição à jurídica – recomendando-se, por conseguinte, a revogação dos dispositivos que a autorizavam. (Diário do Congresso Nacional. 10 de março de 1979. p. 141) Caso esse dispositivo não tivesse sido revogado e ainda houvesse a possibilidade de tributar a entidade econômica, poder-se-ia defender a adequação dos resultados contábeis - apurado com base em normas elaboradas com esse viés - ao resultado tributável. Entretanto, essa não foi a opção brasileira: adotou-se as normas contábeis elaboradas sob o postulado da entidade econômica, mas a tributação se manteve direcionada à entidade jurídica. Sendo assim, não é possível interpretar que, para fins tributários, “agentes externos” signifique agente sob controle econômico distinto. Caso contrário, todas as transações ocorridas entre pessoas jurídicas sob controle econômico comum não teriam efeitos tributários, já que essas transações não alterariam o patrimônio da entidade econômica. É dizer: adotando-se a premissa no sentido de que “agentes externos” deveria significar entidade que esteja sob controle econômico distinto, se uma pessoa jurídica alienasse seu estoque (ou qualquer outro ativo) para pessoa jurídica sob mesmo controle econômico, não haveria qualquer tributação, eis que tal transação deveria ser mantida “pelo valor original” (custo de aquisição da entidade vendedora). Não parece ter sido essa a opção do legislador tributário. Como se não bastasse o fato de que o sistema jurídico brasileiro adota a entidade jurídica como pressuposto à tributação, é importante notar que as normas societárias também assim o fazem. A esse respeito, é importante verificar na Lei nº 6.404/76 o tratamento societário dado aos chamados “resultados não realizados”. Evidencia-se nas normas sobre consolidação a necessidade de se expurgar do resultado consolidado (entidade econômica) os resultados decorrentes de negócios com a companhia, ou com outras sociedades coligadas à companhia, ou Fl. 5176DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 51 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 por ela controladas. Ou seja, se há a necessidade de expurgar os resultados decorrentes de transações realizadas entre pessoas jurídicas sob controle econômico comum, é porque tais resultados devem ser reconhecidos. Não se poderia excluir algo que não pudesse ser reconhecido contabilmente. Sendo assim, o art. 7º da Resolução do Conselho Federal de Contabilidade (CFC) nº 750/1993 não se presta a fundamentar a impossibilidade jurídica de registrar o investimento em participação societária adquirido no interior do mesmo conglomerado econômico, mas de entidade jurídica distinta, pelo preço efetivamente praticado entre as partes. Passa-se a analisar, portanto, o outro dispositivo contábil que fundamentaria a impossibilidade do ágio ora discutido. Para tanto, foi citado o item 120 da Resolução CFC 1.110/07 que aprovou a NBC T 19.10 – Redução ao Valor Recuperável de Ativos (Pronunciamento Técnico-contábil CPC nº 01), que estabelecia: 120. O reconhecimento de ágio decorrente de rentabilidade futura gerado internamente (goodwill interno) é vedado pelas normas nacionais e internacionais. Assim, qualquer ágio dessa natureza anteriormente registrado precisa ser baixado. Em uma análise superficial, o dispositivo parece ser claro e corroborar o entendimento da RFB (evidenciado no voto vencedor) no sentido de não ser possível o reconhecimento, pela Recorrente, do ágio que se pretendeu. Entretanto, é preciso entender o contexto de sua aplicação e a qual “ágio interno” ele se refere. O dispositivo citado está no item destinado ao tratamento contábil relativo à reversão de uma perda por Desvalorização do Ágio Pago por Expectativa de Resultado Futuro (goodwill), conforme se verifica abaixo: Reversão de uma Perda por Desvalorização do Ágio Pago por Expectativa de Resultado Futuro (goodwill) 119. A desvalorização reconhecida para esse ágio (goodwill) não deve ser revertida em período subseqüente. 120. O reconhecimento de ágio decorrente de rentabilidade futura gerado internamente (goodwill interno) é vedado pelas normas nacionais e internacionais. Assim, qualquer ágio dessa natureza anteriormente registrado precisa ser baixado. Para compreender o alcance da expressão “ goodwill interno”, deve ser entendido que se trata de expressão sinônima do goodwill subjetivo. Conforme evidenciam Edwards e Bell (1973), 22 o goodwill pode ser subjetivo (quando se calcula o excesso de rentabilidade dissociado de uma transação) ou objetivo (quando o excesso de rentabilidade é chancelado por terceiros por meio de uma transação 23 ). Para fins contábeis apenas o goodwill objetivo, que decorre do reconhecimento por terceiros da anormalidade do retorno dos ativos, é passível de registro. Ademais, registra-se que nem mesmo do ponto de vista da Teoria da Contabilidade o assunto está pacificado e ainda gera bastante discussão entre os estudiosos da matéria. A grande discussão que permeia a Contabilidade não é acerca da existência do goodwill. Não há negativa da sua existência. Trata-se de uma discussão acerca de preenchimento dos 22 EDUARDS, E. O; BELL, P. W. The Theory and Measurement of Business Income. Los Angeles: University of California Press, 1973. 23 Vale esclarecer que, segundo as normas contábeis, considera-se transação aquela não forçada e entre duas partes não relacionadas, ou “com genuínos terceiros” (SCOTT, 2009, p. 249 e 252. In: MARTINS, Eliseu. Goodwill: uma análise dos conceitos utilizados em trabalhos científicos. Artigo apresentado no 9º Congresso USP de Controladoria e Contabilidade, São Paulo-SP, 2009. p. 6). Fl. 5177DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 52 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 requisitos mínimos para ser classificado como um ativo contábil e, consequentemente, quando deve ser levado ao resultado. Para alguns autores, o goodwill (mesmo o objetivo) não deveria ser classificado como um ativo, em razão de não preencher os requisitos para tal classificação, bem como não ser função da contabilidade estabelecer o valor da entidade na continuidade como um todo (vide Chambers 24 ). Ademais, em razão da classificação bipartida entre goodwill objetivo e subjetivo, bem como pelo fato de este último não ser “contabilizável”, alguns autores alegam que classificar como ativo apenas o goodwill objetivo violaria a comparabilidade entre as demonstrações financeiras. Isso decorreria do fato de apenas as entidades que tivessem passado por um processo de transação e que possuíssem o goodwill objetivo retratariam tal ativo; já as entidades que também possuíssem o goodwill mas não tivessem passado por transação com terceiros (portanto, subjetivo) não reconheceriam esse ativo (vide Canning 25 ). Independentemente da controvérsia existente no contexto acadêmico, a opção posta nos dispositivos contábeis foi a de não admitir o reconhecimento do chamado goodwill subjetivo. É nesse sentido que o Pronunciamento Técnico CPC 01 (R1) (Resolução CFC 1.110/07 para aprovar a NBC T 19.10 – Redução ao Valor Recuperável de Ativos) disciplina a impossibilidade de reconhecimento do goodwill interno. Veja-se, ademais, que o item 120 está inserido na seção que disciplina o tratamento a ser dado na “Reversão de uma Perda por Desvalorização do Ágio Pago por Expectativa de Resultado Futuro (goodwill)”. É dizer: nesse contexto, o goodwill já teria sido registrado, mas, por algum motivo, o valor relativo ao goodwill, já registrado, foi baixado como perda. Assim, a norma visa evidenciar que, caso haja alteração na expectativa de resultado futuro, a “desvalorização reconhecida para esse ágio (goodwill) não deve ser revertida em período subsequente” (item 119). Sendo assim, o dispositivo citado não evidencia o que se pretendeu defender. A norma contábil determina que, caso seja contabilizada uma perda de goodwill já registrado, se houver hipótese de reversão da perda, ela deve ser tratada como se decorresse de operações internas e, portanto, não passíveis de registro, eis que seriam equiparáveis ao goodwill subjetivo. Não se pode interpretar o item 120 dissociado do seu contexto. Essa interpretação fica evidente quanto se analisa a alteração, ocorrida em 2010, do próprio dispositivo citado (NBC TG 01 (R3) e Pronunciamento Técnico CPC nº 01 (R1)): Reversão de perda por desvalorização do ágio por expectativa de rentabilidade futura (goodwill) 124. A perda por desvalorização reconhecida para o ágio por expectativa de rentabilidade futura (goodwill) não deve ser revertida em período subsequente. 125.O Pronunciamento Técnico CPC 04–Ativo Intangível proíbe o reconhecimento de ágio por expectativa de rentabilidade futura (goodwill) gerado internamente. Qualquer aumento no valor recuperável do ágio pago por expectativa de rentabilidade futura (goodwill) nos períodos subsequentes ao reconhecimento de perda por desvalorização para esse ativo é equivalente ao reconhecimento de ágio por expectativa de 24 CHAMBERS, R, J. Accounting , Evaluation and Economic Behavior. Sydney Classics in Accounting. The University of Sydney, 1966, p. 241. 25 CANNING, J. B. The Economies of Accountancy. The Ronald Press Company – NY, 1929, p.43 Fl. 5178DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 53 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 rentabilidade futura gerado internamente (goodwill gerado internamente) e não reversão de perda por desvalorização reconhecida para o ágio pago por expectativa de rentabilidade futura (goodwill). Resta evidente que o dispositivo equipara a reversão da perda por desvalorização do goodwill anteriormente reconhecido ao goodwill gerado internamente. Ou seja, a reversão da perda equivaleria ao registro do goodwill subjetivo, o que é vedado pelo Pronunciamento Técnico CPC 04. Não se trata, portanto, de vedação ao reconhecimento de ágio em combinação de negócio sob controle comum. Além dos dispositivos normativos citados acima (Resolução do Conselho Federal de Contabilidade -CFC nº 750/1993 e Resolução CFC 1.110/07 – Redução ao Valor Recuperável de Ativos), o voto vencedor também se fundamenta no Ofício Circular/CVM/SNC/SEP 01/07 para condenar o registro do ágio pela Recorrente. A esse respeito, cumpre ressaltar que os Ofícios Circulares são emitidos pelas áreas técnicas da CVM e não representam a posição definitiva da própria CVM sobre o tema. Observa-se, no que concerne à discussão sobre ágio, que o Colegiado da CVM (órgão formado pelo presidente e quatro diretores da CVM) nem sempre adota o posicionamento exarado pelos Ofícios Circulares (que representam a posição das áreas técnicas). A esse respeito, cita-se o Processo RJ2010/16665, decidido na Reunião do Colegiado nº 11 de 22.03.2011, no qual autorizou o reconhecimento do ágio decorrente de incorporação entre partes relacionadas. Os fundamentos utilizados pelos diretores para autorizar o reconhecimento do ágio, naquele caso, foram direcionados exatamente ao fato de que o Pronunciamento Técnico CPC 15 foi concebido no âmbito das demonstrações consolidadas. Sendo assim, não seria possível extrair a mesma conclusão quando se analisa a demonstração individual. Confira-se o voto do Diretor Otavio Yazbek: 2. Aqui se está, fundamentalmente, lidando com a questão da aplicabilidade do Pronunciamento Técnico CPC 15. Isto porque, se, por um lado, é correto afirmar que aquele regime não vigora em caso de negócios sob controle comum, também se deve reconhecer que isso vale apenas para os negócios realizados no âmbito de demonstrações financeiras consolidadas. Como este não é o contexto da presente consulta, entendo que, para dar uma resposta adequada, deve-se por conseqüência verificar se nela estão presentes as características que, em operações realizadas intragrupo, usualmente impedem o reconhecimento de ágio. 3. Em uma simplificação, pode-se afirmar que não se reconhece o ágio decorrente daquelas operações justamente porque delas não advém nenhuma verdadeira alteração patrimonial no âmbito das demonstrações consolidadas. Assim, se aqui se estivesse discutindo o reconhecimento de ágio na sociedade controladora da Recorrente, onde se consolidam as demonstrações financeiras do grupo, muito provavelmente se reconheceria a impossibilidade de tal pleito. 4. O que se está discutindo, porém, é o reconhecimento de ágio nas demonstrações financeiras da própria Recorrente. E para esta, entendo inequívoco que há ganho patrimonial decorrente da operação. A Recorrente, com a operação realizada, recebeu em troca um ativo que ela não possuía antes. Ela não detinha os ativos e passivos da Mahle Par, e nem eram dela os direitos relativos aos lucros futuros dessa empresa. Agora são dela seus ativos, seus passivos e todo o potencial de lucros futuros. Logo, ela está tendo permutações patrimoniais. Mais do que isso, a descrição das relações econômicas previamente existentes entre a Recorrente e a Mahle Motores leva à conclusão de que são evidentes os ganhos para a sociedade incorporadora. (Sem destaques no original) Fl. 5179DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 54 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 O voto do Diretor Alexsandro Broedel Lopes também vai na mesma direção e evidencia que as normas contábeis brasileiras não tratam especificamente desse tema (reconhecimento do ágio no caso de combinação de negócios sob controle comum), alertando que as normas foram elaboradas sob o paradigma das demonstrações financeiras consolidadas. Veja-se o seguinte trecho do voto: Ademais, as normas internacionais de contabilidade (IFRS) adotadas no Brasil por meio de pronunciamentos do Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC) e aprovados por esta Comissão não tratam diretamente do tema aqui em análise. Eles somente tratam das transações realizadas no âmbito das demonstrações financeiras consolidadas. No caso concreto, tal ágio deveria ser eliminado nas demonstrações de Mahle Industriebeteiligungen, o que, repita-se, não é objeto da discussão deste caso. Em outras palavras, quando uma companhia adquire outra (DFs individuais) por valor superior ao valor dos ativos (tangíveis e intangíveis) identificados temos o reconhecimento do ágio por expectativa de rentabilidade futura. Não reconhecer tal montante implicaria redução patrimonial da empresa adquirente o que naturalmente não faz sentido. Isto equivaleria a entender a operação como uma redução de capital da adquirente. O referido ágio correspondente à operação de aquisição refere-se ao montante relativo ao valor material e imaterial dos ativos adquiridos, os quais não eram possuídos anteriormente pela empresa adquirente. Naturalmente, se verificada a transação entre partes relacionadas, este valor deve ser eliminado das demonstrações financeiras consolidadas. (Sem destaques no original) Em síntese, a posição exarada pelo Colegiado evidencia ser necessário analisar o caso concreto para se concluir sobre a existência ou não de ágio gerado em transações entre partes relacionadas. Ademais, não se pode recorrer aos dispositivos contábeis emitidos pelo CPC desconsiderando o paradigma adotado na elaboração das normas internacionais de contabilidade: a entidade econômica (demonstrações consolidadas). Sendo assim, ao aplicar as normas para determinado caso, deve-se ter em mente o contexto de sua elaboração. Naquela decisão, portanto, restou evidenciado que era possível o reconhecimento do ágio, tendo em vista se tratar o caso de demonstrações contábeis individuais. Veja-se, por conseguinte, que a posição da CVM nem sempre corresponde às posições evidenciadas nos Ofícios elaborados pelas áreas técnicas. Assim, o Ofício Circular citado no voto vencedor não tem o condão de evidenciar a posição daquele órgão. Ademais, mesmo que houvesse posição definitiva da CVM sobre o tema, não se poderia incorporá-la ao direito, atribuindo-lhe efeitos fiscais, já que as conclusões obtidas no interior do sistema contábil nem sempre são replicáveis ao sistema jurídico-tributário. Uma vez expostos os motivos pelos quais discordo dos fundamentos utilizados no voto vencedor para concluir por uma suposta vedação contábil ao reconhecimento do ágio no presente caso, passo a evidenciar a inexistência de dispositivo normativo específico sobre o tema no Brasil. O negócio jurídico vivenciado pela Recorrente foi uma Combinação de Negócios sob Controle Comum e, portanto, deveria ser analisado sob essa ótica. Todavia, não há dispositivos contábeis que disciplinem essa transação no Brasil, já que ela foi excluída do âmbito de aplicação do Pronunciamento Técnico CPC 15 (que diz respeito às combinações de negócio com alteração de controle econômico). Não havendo troca de controle econômico, portanto, não há regramento específico que enderece o tema. Sendo assim, como técnica de integração hermenêutica, recorre-se ao disposto no item 10 do Pronunciamento Técnico nº 23 – Políticas Contábeis, Mudança de Estimativa e Fl. 5180DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 55 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 Retificação de Erro, que dispõe caber à administração da entidade exercer seu julgamento e desenvolver e aplicar política contábil, seguindo a ordem estipulada pelo item 11, no intuito de determinar o dispositivo normativa a ser seguido: 10. Na ausência de Pronunciamento, Interpretação ou Orientação que se aplique especificamente a uma transação, outro evento ou condição, a administração exercerá seu julgamento no desenvolvimento e na aplicação de política contábil que resulte em informação que seja: (a) relevante para a tomada de decisão econômica por parte dos usuários; e (b) confiável, de tal modo que as demonstrações contábeis: (i) representem adequadamente a posição patrimonial e financeira, o desempenho financeiro e os fluxos de caixa da entidade; (ii) reflitam a essência econômica de transações, outros eventos e condições e, não, meramente a forma legal; (iii) sejam neutras, isto é, que estejam isentas de viés; (iv) sejam prudentes; e (v) sejam completas em todos os aspectos materiais. 11. Ao exercer os julgamentos descritos no item 10, a Administração deve consultar e considerar a aplicabilidade das seguintes fontes por ordem decrescente: (a) os requisitos e a orientação dos Pronunciamentos, Interpretações e Orientações que tratem de assuntos semelhantes e relacionados; e (b) as definições, os critérios de reconhecimento e os conceitos de mensuração para ativos, passivos, receitas e despesas contidos na Estrutura Conceitual. 12. Ao exercer os julgamentos descritos no item 10, a administração pode também considerar as mais recentes posições técnicas assumidas por outros órgãos normatizadores contábeis que usem uma estrutura conceitual semelhante à do CPC para desenvolver pronunciamentos de contabilidade, ou ainda, outra literatura contábil e práticas geralmente aceitas do setor, até o ponto em que estas não entrem em conflito com as fontes enunciadas no item 11. (Negritos adicionados). Nesses casos, é comum que as entidades recorram ao padrão contábil geralmente aceito nos Estados Unidos da América (US GAAP), em que há uma norma técnica emitida pelo Financial Accounting Standards Board (Fasb), intitulado Accounting Standard Codification Fl. 5181DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 56 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 (ASC) 805 – Business Combination. A norma americana, comumente utilizada para suprir a lacuna deixada nos dispositivos emitidos pelo IFRS, determina que, nas transações de combinações de negócios sobre controle comum, a entidade recebedora dos ativos líquidos deve mensurar o investimento pelo saldo histórico da entidade que detinha a participação alienada (valor precedente). Diante do que foi exposto, evidencia-se a ausência de norma que discipline as combinações de negócios sob controle comum no contexto do IFRS, adotado no Brasil, sendo incorreto afirmar que há norma contábil que vede o reconhecimento do goodwill objetivo decorrente de transação entre partes sob mesmo controle econômico. Portanto, (i) a necessidade do desenvolvimento de uma política contábil; (ii) aliada a existência de norma americana específica que determina a mensuração do ativo pelo valor precedente; (iii) os registros contábeis terem como postulado a entidade econômica; culminam na opção de as entidades manterem o saldo precedente do ativo, quando diante de uma combinação de negócios sob controle comum. Entretanto, é incorreto afirmar que há norma contábil brasileira que determine esse procedimento. Volta-se a questão, portanto, à análise tributária. Verifica-se que a alienação das participações societárias ocorreu entre partes economicamente dependentes, mas juridicamente distintas. Ademais, nesse caso, a operação praticada resultou na transferência de um ativo detido por não residente para uma parte vinculada no Brasil, o que acarretou a aplicação das regras de preço de transferência. Sendo assim, havia norma jurídica expressa que determinava o tratamento tributário da operação como se fossem partes independentes. É dizer: o direcionamento jurídico era no sentido oposto ao das normas contábeis. Para fins fiscais, era obrigatório que a operação fosse realizada levando em consideração a independência entre as partes, sendo necessária a aferição do preço parâmetro por meio de uma entre duas formas distintas: (a) através de laudos de avaliação elaborados por auditores independentes; ou (b) através de operações realizadas com as mesmas ações entre partes independentes. Corroborando esse entendimento, a RFB evidencia em seu Perguntas e Respostas a necessidade de se sujeitar as operações de alienação de participação societárias às regras de preço de transferência. Confira-se o trecho do documento elaborado para as Pessoas Jurídicas, na parte que trata especificadamente sobre a aplicação das regras de preço de transferência : Portanto, para fins jurídico-tributário, o preço que se consideraria praticado nessa transação seria o valor determinado com base na obediência ao princípio do princípio arm’s Fl. 5182DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 57 do Acórdão n.º 1201-003.582 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16561.720098/2017-56 length, cujo racional é diametralmente oposto ao postulado da entidade econômica (ausência de reconhecimento de ganho ou perda em transações entre partes sob controle econômico comum). Se para fins fiscais a própria legislação tributária determina que seja desconsiderada a “entidade econômica”, não se pode basear nela para afastar o efeito do custo de aquisição majorado, quando a própria legislação tributária determina que seja observada a independência entre as partes que transacionaram. Em outras palavras, o ágio observado no presente caso decorre do cumprimento das normas jurídico-tributárias que impõem a prática de preços de mercado entre as partes economicamente dependentes. Se o valor de alienação para fins de incidência tributária deve ser o mais próximo do mercado, e a alienante deve reconhecer as consequências fiscais sobre o valor dessa alienação (reconhecimento do ganho de capital), não é concebível que, na perspectiva da adquirente, o custo não seja o valor equivalente. Caso contrário, ter-se-ia uma operação em que o valor de alienação deveria ter sido X (em razão da obrigatoriedade das normas fiscais) e o custo deveria ser X-Y (em razão de obediência a uma suposta norma contábil). A interpretação dos dispositivos legais deve seguir uma coerência sistemática, não podendo ser desconsiderada a sincronia necessária entre as normas. Sendo assim, não é possível, para fins tributários, reconhecer e impor a independência das entidades jurídicas (tributando o ganho nas transações entre partes relacionadas) e ignorar essa independência quando se tratar do reconhecimento do custo de aquisição, que decorre da mesma operação. Nesse contexto, entendo que a norma autorizativa do reconhecimento do ágio (custo de aquisição do investimento adquirido) no presente caso, é deduzida de outra norma expressa (a que determina a atribuição do preço de transferência na alienação realizada). Esse entendimento decorre, portanto, da análise conjunta do ordenamento jurídico. Do exposto, reitero minha posição no sentido de conhecer do recurso interposto e, no mérito, dar-lhe provimento. É como voto. (documento assinado digitalmente) Bárbara Melo Carneiro Fl. 5183DF CARF MF Documento nato-digital

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Numero do processo: 10880.727375/2015-09
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Feb 18 00:00:00 UTC 2020
Data da publicação: Thu Apr 02 00:00:00 UTC 2020
Ementa: ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Ano-calendário: 2010 DECADÊNCIA. MULTA POR ATRASO NA ENTREGA DA GFIP. APLICAÇÃO DO ART. 173, I, DO CTN. O dispositivo legal a ser aplicado na avaliação da decadência do direito de a Fazenda Pública lançar a multa por atraso na entrega da GFIP é o art. 173, I, do Código Tributário Nacional (Lei 5.172/66). INTIMAÇÃO PRÉVIA AO LANÇAMENTO. INEXISTÊNCIA DE EXIGÊNCIA LEGAL Por se tratar a ação fiscal de procedimento de natureza inquisitória, a intimação do contribuinte prévia ao lançamento não é exigência legal (Súmula CARF nº 46), e desta forma a sua falta não caracteriza cerceamento de defesa, a qual poderá ser exercida após a ciência do auto de infração. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. MULTA POR ATRASO NA ENTREGA DA GFIP. NÃO OCORRÊNCIA. Conforme já sumulado pelo CARF, a denúncia espontânea (art. 138 do Código Tributário Nacional) não alcança a penalidade decorrente do atraso na entrega de declaração (Súmula CARF nº 49).
Numero da decisão: 2001-001.793
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar suscitada no recurso e, no mérito, em negar provimento ao Recurso Voluntário. O julgamento deste processo seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, aplicando-se o decidido no julgamento do processo 10380.730319/2015-84, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (assinado digitalmente) Honório Albuquerque de Brito - Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Honório Albuquerque de Brito, Marcelo Rocha Paura, André Luis Ulrich Pinto e Fabiana Okchstein Kelbert.
Nome do relator: HONORIO ALBUQUERQUE DE BRITO

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MULTA POR ATRASO NA ENTREGA DA GFIP. APLICAÇÃO DO ART. 173, I, DO CTN. O dispositivo legal a ser aplicado na avaliação da decadência do direito de a Fazenda Pública lançar a multa por atraso na entrega da GFIP é o art. 173, I, do Código Tributário Nacional (Lei 5.172/66). INTIMAÇÃO PRÉVIA AO LANÇAMENTO. INEXISTÊNCIA DE EXIGÊNCIA LEGAL Por se tratar a ação fiscal de procedimento de natureza inquisitória, a intimação do contribuinte prévia ao lançamento não é exigência legal (Súmula CARF nº 46), e desta forma a sua falta não caracteriza cerceamento de defesa, a qual poderá ser exercida após a ciência do auto de infração. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. MULTA POR ATRASO NA ENTREGA DA GFIP. NÃO OCORRÊNCIA. Conforme já sumulado pelo CARF, a denúncia espontânea (art. 138 do Código Tributário Nacional) não alcança a penalidade decorrente do atraso na entrega de declaração (Súmula CARF nº 49). Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar suscitada no recurso e, no mérito, em negar provimento ao Recurso Voluntário. O julgamento deste processo seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, aplicando-se o decidido no julgamento do processo 10380.730319/2015-84, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (assinado digitalmente) Honório Albuquerque de Brito - Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Honório Albuquerque de Brito, Marcelo Rocha Paura, André Luis Ulrich Pinto e Fabiana Okchstein Kelbert. AC ÓR Dà O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 72 73 75 /2 01 5- 09 Fl. 72DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 2 do Acórdão n.º 2001-001.793 - 2ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 10880.727375/2015-09 Relatório O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos, prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, Anexo II, do Regulamento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2015, e, dessa forma, adoto neste relatório o relatado no Acórdão nº 2001-001.705, de 18 de fevereiro de 2020, que lhe serve de paradigma. Trata-se de documento de lançamento emitido pela Receita Federal do Brasil no qual é exigido do contribuinte crédito tributário de multa por atraso na entrega de Guia de Recolhimento do FGTS e Informações à Previdência Social – GFIP. O enquadramento legal foi o art. 32-A da Lei 8.212, de 1991, com redação dada pela Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009. Conforme se extrai do acórdão da DRJ, o contribuinte apresentou impugnação na qual alegou, em síntese, falta de intimação prévia e a ocorrência de denúncia espontânea. A turma julgadora da primeira instância administrativa concluiu pela total improcedência da impugnação e consequente manutenção do crédito tributário lançado. Cientificado, o interessado apresentou recurso voluntário onde, em síntese, alega prescrição/decadência, ocorrência de denúncia espontânea e falta de intimação prévia ao lançamento, invoca princípios constitucionais, cita jurisprudência. Requer ao final o cancelamento do crédito tributário lançado. É o relatório. Voto Conselheiro Honório Albuquerque de Brito - Relator Como já destacado, o presente julgamento segue a sistemática dos recursos repetitivos, nos termos do art. 47, §§ 1º e 2º, Anexo II, do RICARF Desta forma reproduzo o voto consignado no Acórdão nº 2001-001.705, de 18 de fevereiro de 2020, paradigma desta decisão. O recurso é tempestivo e atende às demais condições de admissibilidade, portanto dele conheço e passo à sua análise. PRELIMINARES Informação incorreta no documento de lançamento O contribuinte alega que ou a Caixa Econômica Federal ou a Previdência Social teriam perdido os dados, e que por isso teria sido orientado pelo Fiscal Previdenciário a nova transmissão da GFIP, dando a entender que teria transmitido a declaração original no prazo legal, em data anterior à apontada no documento de lançamento, que é a data constante dos sistemas internos da Receita Federal. O recorrente entretanto não acosta Fl. 73DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 3 do Acórdão n.º 2001-001.793 - 2ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 10880.727375/2015-09 aos autos qualquer documento que comprove que teria havido uma transmissão em data anterior. Conforme prevê o art. 36 da Lei 9.784/99, que regula o processo administrativo no âmbito da administração publica federal, cabe ao interessado a prova dos fatos que tenha alegado. Assim sendo, a alegação feita, por não comprovada, não merece ser acatada. Prescrição/decadência Uma vez que não definitivamente constituído o crédito tributário em questão no âmbito administrativo, com relação à fluência dos prazos processuais o instituto a se avaliar a ocorrência é o da decadência do direito de a Fazenda Pública constituir o crédito por meio do lançamento. Trata-se de lançamento de ofício de multa por atraso na entrega da GFIP, e nesse caso o dispositivo legal a ser aplicado é o disposto no CTN, art. 173, I, verbis: Art. 173. O direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extingue- se após 5 (cinco) anos, contados: I – do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado; O lançamento só poderia ter sido efetuado, para cada competência lançada, a partir da data limite para entrega da declaração. Desta forma, o marco inicial para a contagem do prazo decadencial de 5 anos é o dia 1º de janeiro do ano seguinte ao da data limite para entrega no prazo da GFIP. Verifica-se no caso em questão, que a ciência pelo interessado do documento de lançamento se deu, de forma regular, para a competência mais antiga, antes da ocorrência da decadência do direito de a Fazenda Publica efetuar o lançamento do crédito. Se não ocorreu a decadência nem para a competência mais antiga, também não ocorreu para as demais. Intimação prévia ao lançamento A respeito da alegação do recorrente da inocorrência de intimação prévia ao lançamento, a mesma não procede e não tem o condão de afastar a multa aplicada. A ação fiscal é um procedimento de natureza inquisitória, onde o fiscal, ao entender que está em condições de identificar o fato gerador e demais elementos que lhe permitem formar sua convicção e constituir o lançamento, não necessita intimar o sujeito passivo para esclarecimentos ou prestação de informações. Não é a intimação prévia exigência legal para o lançamento do crédito. Nesse sentido a Súmula nº 46 deste CARF: Fl. 74DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 4 do Acórdão n.º 2001-001.793 - 2ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 10880.727375/2015-09 Súmula CARF nº 46: O lançamento de ofício pode ser realizado sem prévia intimação ao sujeito passivo, nos casos em que o Fisco dispuser de elementos suficientes à constituição do crédito tributário. O art. 32-A da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, determina a necessidade da intimação apenas nos casos de não apresentação da declaração e a apresentação com erros ou incorreções. Na situação em comento, a infração de entrega em atraso da GFIP é fato em tese verificável de plano pelo auditor fiscal, a partir dos sistemas internos da Receita Federal, ficando a seu critério a avaliação da necessidade ou não de informação adicional a ser prestada pelo contribuinte. Não há aqui que se falar em cerceamento do direito de defesa ou ofensa ao princípio do contraditório. O contencioso administrativo só se instaura com a apresentação da impugnação pelo sujeito passivo, ocasião em que ele exerce plenamente sua defesa, o que lhe é facultado após a ciência pelo interessado do documento de lançamento, tudo na observância do devido processo legal. Ante o exposto, REJEITO as preliminares suscitadas no recurso e passo à apreciação do mérito. MÉRITO Denúncia espontânea Da Instrução Normativa RFB nº 971 de 2009: Art. 472. Caso haja denúncia espontânea da infração, não cabe a lavratura de Auto de Infração para aplicação de penalidade pelo descumprimento de obrigação acessória. Parágrafo único. Considera-se denúncia espontânea o procedimento adotado pelo infrator que regularize a situação que tenha configurado a infração, antes do início de qualquer ação fiscal relacionada com a infração, dispensada a comunicação da correção da falta à RFB. O art. 472 da IN RFB nº 971/2009, estabelece, como regra geral, que não é aplicada multa por descumprimento de obrigação acessória, caso haja denúncia espontânea da infração. O parágrafo único do dispositivo esclarece o que se considera denúncia espontânea para tal fim: procedimento adotado pelo infrator, antes de qualquer ação do Fisco, que regularize a situação que tenha configurado a infração. No caso da multa por atraso, uma vez ocorrida a entrega da declaração fora do prazo, tem-se configurada a infração (entrega em atraso) em caráter irremediável. Já o art. 476 da mesma IN RFB nº 971/2009 trata especificamente da aplicação das multas por descumprimento da obrigação acessória prevista no inciso IV do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, relativas à GFIP e, em Fl. 75DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 5 do Acórdão n.º 2001-001.793 - 2ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 10880.727375/2015-09 seu inciso II, letra ‘b’, especificamente da multa aplicável, para a GFIP, no caso de “falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo”. Assim sendo, a aplicação da multa por atraso na entrega da GFIP é legal conforme especificamente regulada pelo art. 32-A da Lei nº 8.212, de 1991, e art. 476 da IN RFB nº 971, de 2009. A matéria já foi inclusive sumulada pelo CARF: Súmula CARF nº 49: A denúncia espontânea (art. 138 do Código Tributário Nacional) não alcança a penalidade decorrente do atraso na entrega de declaração. Desta forma, não procede a pretensão do recorrente de exclusão da multa com base na denúncia espontânea. Da multa aplicada A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional (art. 142 do CTN, parágrafo único). Logo, constatada a infração, no caso o atraso na entrega da GFIP, a autoridade fiscal não só está autorizada como obrigada a proceder ao lançamento de ofício da multa prevista na legislação que rege a matéria, sem emitir juízo de valor acerca da sua constitucionalidade ou de eventual afronta em tese a princípios do direto administrativo e constitucional ou de outros aspectos de sua validade. No caso em comento, a multa é exigida em função do não cumprimento no prazo da obrigação acessória, e sua aplicação independe do cumprimento da obrigação principal, da condição pessoal ou da capacidade financeira do autuado, da existência de danos causados à Fazenda Pública ou de contraprestação imediata do Estado. A multa é aplicada, por meio do mesmo documento de lançamento, por cada GFIP entregue em atraso no período fiscalizado, não havendo que se falar em infração continuada. Os valores são aplicados conforme definidos na lei, verificados os limites mínimos os quais independem do valor da contribuição devida. Também não cabe no caso invocar alteração de critério de atuação do Fisco para afastar a multa imposta. A correspondente alteração legislativa ocorreu já no início de 2009, com a inserção do art.32-A da Lei nº 8.212, de 1991, no arcabouço jurídico pela Medida Provisória nº 449, de 3 de dezembro de 2008, posteriormente convertida na Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, alterando a sistemática de aplicação de multas vinculadas à GFIP, em especial com a previsão de aplicação da multa por atraso na entrega de GFIP, até então inexistente. A alteração em critérios do Fisco é legal se respaldada por correspondente alteração na legislação correlata. Jurisprudência Fl. 76DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 6 do Acórdão n.º 2001-001.793 - 2ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 10880.727375/2015-09 No que se refere à jurisprudência citada, por falta de lei que lhe atribua eficácia normativa, não constitui norma geral de direito tributário decisão judicial ou administrativa que produz efeito apenas em relação às partes que integram o processo (art. 100 do CTN – Parecer Normativo CST nº 23, publicado no DOU de 9 de setembro de 2013). CONCLUSÃO: Por todo o exposto, voto por CONHECER do Recurso Voluntário, REJEITAR a preliminar suscitada e, no mérito, NEGAR-LHE PROVIMENTO, conforme acima descrito. Conclusão Importa registrar que nos autos em exame a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada na decisão paradigma, de tal sorte que as razões de decidir nela consignadas são aqui adotadas. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do anexo II do RICARF, reproduzo o decidido no acórdão paradigma, no sentido de rejeitar a preliminar suscitada no recurso e, no mérito, negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Honório Albuquerque de Brito Fl. 77DF CARF MF Documento nato-digital

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Numero do processo: 10166.729145/2015-41
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jan 29 00:00:00 UTC 2020
Data da publicação: Mon Mar 16 00:00:00 UTC 2020
Numero da decisão: 2002-003.108
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. O julgamento deste processo seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, aplicando-se o decidido no julgamento do processo 13931.720042/2014-13, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (documento assinado digitalmente) Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez – Presidente e Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez, Mônica Renata Mello Ferreira Stoll, Thiago Duca Amoni e Virgílio Cansino Gil.
Nome do relator: CLAUDIA CRISTINA NOIRA PASSOS DA COSTA DEVELLY MONTEZ

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GFIP. MULTA POR ATRASO. Constitui infração à legislação previdenciária deixar a empresa de apresentar GFIP dentro do prazo fixado para a sua entrega. AUSÊNCIA DE INTIMAÇÃO. SÚMULA CARF Nº 46. O lançamento de ofício pode ser realizado sem prévia intimação ao sujeito passivo, nos casos em que o Fisco dispuser de elementos suficientes à constituição do crédito tributário. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. ATRASO NA ENTREGA DE DECLARAÇÃO. SÚMULA CARF Nº 49. A denúncia espontânea não alcança a penalidade decorrente do atraso na entrega de declaração. INCONSTITUCIONALIDADE. SÚMULA CARF Nº 02. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. O julgamento deste processo seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, aplicando-se o decidido no julgamento do processo 13931.720042/2014-13, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (documento assinado digitalmente) Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez – Presidente e Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez, Mônica Renata Mello Ferreira Stoll, Thiago Duca Amoni e Virgílio Cansino Gil. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 16 6. 72 91 45 /2 01 5- 41 Fl. 72DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 2 do Acórdão n.º 2002-003.108 - 2ª Sejul/2ª Turma Extraordinária Processo nº 10166.729145/2015-41 Relatório O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos, prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, Anexo II, do Regulamento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2019, e, dessa forma, adoto neste relatório o relatado no Acórdão nº 2002-003.107, de 29 de janeiro de 2020, que lhe serve de paradigma. Trata-se de Auto de Infração lavrado em nome do sujeito passivo acima identificado, onde se apurou a Multa por Atraso na Entrega de Guia de Recolhimento do FGTS e Informações à Previdência Social – GFIP. A contribuinte apresentou Impugnação, a qual foi julgada improcedente pelo Colegiado a quo. Cientificada do acórdão de primeira instância, a interessada ingressou com Recurso Voluntário reapresentando o texto de sua Impugnação acrescido dos argumentos a seguir sintetizados. - Alega a ocorrência de denúncia espontânea, conforme entendimento da Receita Federal constante da IN 971/09 e do Manual da GFIP/SEFIP. - Afirma que as GFIP foram entregues antes de qualquer intimação fiscal para prestar esclarecimentos pelo atraso. - Sustenta que não houve intimação do contribuinte omisso, como determina expressamente o art. 32-A da Lei 8.212/91, nem tampouco a imposição da multa no momento do recebimento da GFIP em atraso ou nos anos seguintes, tendo o fisco efetuado o lançamento nos estertores da decadência tributária. - Assevera que as multas contrariam a jurisprudência administrativa e judicial. - Entende que a suposta infração de natureza acessória alcançou seu objetivo de forma plena e eficaz ante o pagamento integral do tributo consignado na GFIP antes de qualquer iniciativa fiscal. - Aduz que a multa aplicada fere os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade. Voto Conselheira Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez, Relatora Das razões recursais Como já destacado, o presente julgamento segue a sistemática dos recursos repetitivos, nos termos do art. 47, §§ 1º e 2º, Anexo II, do RICARF, desta forma reproduzo o voto consignado no Acórdão nº 2002-003.107, de 29 de janeiro de 2020, paradigma desta decisão. O Recurso Voluntário é tempestivo e reúne os requisitos de admissibilidade, portanto, dele tomo conhecimento. Fl. 73DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 3 do Acórdão n.º 2002-003.108 - 2ª Sejul/2ª Turma Extraordinária Processo nº 10166.729145/2015-41 No que concerne à ausência de intimação prévia, aplica-se o disposto na Súmula CARF nº 46, com efeito vinculante em relação à Administração Tributária Federal: O lançamento de ofício pode ser realizado sem prévia intimação ao sujeito passivo, nos casos em que o Fisco dispuser de elementos suficientes à constituição do crédito tributário. (Vinculante, conforme Portaria MF nº 277, de 07/06/2018, DOU de 08/06/2018). O previsto no art. 32-A da Lei nº 8.212/91 não contraria este entendimento. A intimação prévia somente será realizada quando for necessária, ou seja, quando a autoridade fiscal não dispuser de elementos suficientes para efetuar o lançamento, o que não se verifica no caso em tela, uma vez que se trata de multa pelo atraso na entrega de GFIP sem apuração de incorreções em seu conteúdo. Relativamente à denúncia espontânea, deixo de tecer maiores considerações tendo em vista o entendimento consolidado na Súmula CARF n° 49, também vinculante em relação à Administração Tributária Federal: A denúncia espontânea (art. 138 do Código Tributário Nacional) não alcança a penalidade decorrente do atraso na entrega de declaração. (Vinculante, conforme Portaria MF nº 277, de 07/06/2018, DOU de 08/06/2018). Sobre a infração apurada, equivoca-se a recorrente ao entender que esta poderia ser afastada em razão do pagamento integral do tributo consignado na GFIP. De acordo com o art. 32-A, II, da Lei 8.212/91, a multa incide sobre o montante das contribuições previdenciárias informadas no documento ainda que tenham sido integralmente pagas pelo contribuinte. Vale lembrar que, segundo o art. 142 do Código Tributário Nacional - CTN, a atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, não cabendo discussão sobre a aplicação das determinações legais vigentes por parte das autoridades fiscais. Também não há que se falar em alteração nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa e violação do art. 146 do CTN. A alteração na sistemática de aplicação de multas vinculadas à GFIP ocorreu com a inclusão do art.32-A da Lei 8.212/91 pela Lei 11.941/09, ou seja, anteriormente ao ano calendário que aqui se examina. Quanto às alegações acerca da violação aos princípios constitucionais, aplica-se o disposto na Súmula CARF n° 2, de observância obrigatória por seus Conselheiros no julgamento dos Recursos: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Cabe mencionar, por fim, que as decisões trazidas pela recorrente somente vinculam as partes envolvidas naqueles litígios, não podendo ser estendidas genericamente a outros casos. Pelo exposto, voto por conhecer do Recurso Voluntário e, no mérito, negar-lhe provimento. Fl. 74DF CARF MF Documento nato-digital https://carf.economia.gov.br/acesso-a-informacao/boletim-de-servicos-carf/portarias-do-mf-de-interesse-do-carf-2018/portarias-mf-277-sumulas-efeito-vinculantes.pdf https://carf.economia.gov.br/acesso-a-informacao/boletim-de-servicos-carf/portarias-do-mf-de-interesse-do-carf-2018/portarias-mf-277-sumulas-efeito-vinculantes.pdf Fl. 4 do Acórdão n.º 2002-003.108 - 2ª Sejul/2ª Turma Extraordinária Processo nº 10166.729145/2015-41 Conclusão Importa registrar que nos autos em exame a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada na decisão paradigma, de tal sorte que, as razões de decidir nela consignadas, são aqui adotadas. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do anexo II do RICARF, reproduzo o decidido no acórdão paradigma, no sentido de negar provimento ao Recurso Voluntário. (documento assinado digitalmente) Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez Fl. 75DF CARF MF Documento nato-digital

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Numero do processo: 13811.726732/2015-15
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Feb 19 00:00:00 UTC 2020
Data da publicação: Sun Mar 29 00:00:00 UTC 2020
Ementa: ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Ano-calendário: 2010 AUTO DE INFRAÇÃO. GFIP. MULTA POR ATRASO. Constitui infração à legislação previdenciária deixar a empresa de apresentar GFIP dentro do prazo fixado para a sua entrega. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. AUSÊNCIA DE INTIMAÇÃO PRÉVIA. SÚMULA CARF Nº 46. O lançamento de ofício pode ser realizado sem prévia intimação ao sujeito passivo nos casos em que o Fisco dispuser de elementos suficientes à constituição do crédito tributário. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. ATRASO NA ENTREGA DE DECLARAÇÃO. SÚMULA CARF Nº 49. A denúncia espontânea não alcança a penalidade decorrente do atraso na entrega de declaração. INCONSTITUCIONALIDADE. SÚMULA CARF Nº 02. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária.
Numero da decisão: 2002-003.926
Decisão: Acordam os membros do colegiado, Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. O julgamento deste processo seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, aplicando-se o decidido no julgamento do processo 13686.720154/2015-96, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (documento assinado digitalmente) Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez – Presidente e Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez, Mônica Renata Mello Ferreira Stoll, Thiago Duca Amoni e Virgílio Cansino Gil.
Nome do relator: CLAUDIA CRISTINA NOIRA PASSOS DA COSTA DEVELLY MONTEZ

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ementa_s : ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Ano-calendário: 2010 AUTO DE INFRAÇÃO. GFIP. MULTA POR ATRASO. Constitui infração à legislação previdenciária deixar a empresa de apresentar GFIP dentro do prazo fixado para a sua entrega. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. AUSÊNCIA DE INTIMAÇÃO PRÉVIA. SÚMULA CARF Nº 46. O lançamento de ofício pode ser realizado sem prévia intimação ao sujeito passivo nos casos em que o Fisco dispuser de elementos suficientes à constituição do crédito tributário. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. ATRASO NA ENTREGA DE DECLARAÇÃO. SÚMULA CARF Nº 49. A denúncia espontânea não alcança a penalidade decorrente do atraso na entrega de declaração. INCONSTITUCIONALIDADE. SÚMULA CARF Nº 02. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária.

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conteudo_txt : Metadados => date: 2020-03-27T18:09:59Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.5; xmp:CreatorTool: Microsoft® Word 2010; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; language: pt-BR; dcterms:created: 2020-03-27T18:09:59Z; Last-Modified: 2020-03-27T18:09:59Z; dcterms:modified: 2020-03-27T18:09:59Z; dc:format: application/pdf; version=1.5; Last-Save-Date: 2020-03-27T18:09:59Z; pdf:docinfo:creator_tool: Microsoft® Word 2010; access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:modified: 2020-03-27T18:09:59Z; meta:save-date: 2020-03-27T18:09:59Z; pdf:encrypted: true; modified: 2020-03-27T18:09:59Z; Content-Type: application/pdf; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; dc:language: pt-BR; meta:creation-date: 2020-03-27T18:09:59Z; created: 2020-03-27T18:09:59Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 4; Creation-Date: 2020-03-27T18:09:59Z; pdf:charsPerPage: 1856; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; pdf:docinfo:created: 2020-03-27T18:09:59Z | Conteúdo => S2-TE02 MINISTÉRIO DA ECONOMIA Conselho Administrativo de Recursos Fiscais Processo nº 13811.726732/2015-15 Recurso Voluntário Acórdão nº 2002-003.926 – 2ª Seção de Julgamento / 2ª Turma Extraordinária Sessão de 19 de fevereiro de 2020 Recorrente ARQUIMOVEIS COMERCIO E SERVICOS DE ARQUIVOS E MOBILIARIOS LTDA Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Ano-calendário: 2010 AUTO DE INFRAÇÃO. GFIP. MULTA POR ATRASO. Constitui infração à legislação previdenciária deixar a empresa de apresentar GFIP dentro do prazo fixado para a sua entrega. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. AUSÊNCIA DE INTIMAÇÃO PRÉVIA. SÚMULA CARF Nº 46. O lançamento de ofício pode ser realizado sem prévia intimação ao sujeito passivo nos casos em que o Fisco dispuser de elementos suficientes à constituição do crédito tributário. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. ATRASO NA ENTREGA DE DECLARAÇÃO. SÚMULA CARF Nº 49. A denúncia espontânea não alcança a penalidade decorrente do atraso na entrega de declaração. INCONSTITUCIONALIDADE. SÚMULA CARF Nº 02. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Acordam os membros do colegiado, Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. O julgamento deste processo seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, aplicando-se o decidido no julgamento do processo 13686.720154/2015-96, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (documento assinado digitalmente) Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez – Presidente e Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez, Mônica Renata Mello Ferreira Stoll, Thiago Duca Amoni e Virgílio Cansino Gil. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 81 1. 72 67 32 /2 01 5- 15 Fl. 42DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 2 do Acórdão n.º 2002-003.926 - 2ª Sejul/2ª Turma Extraordinária Processo nº 13811.726732/2015-15 Relatório O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos, prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, Anexo II, do Regulamento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2019, e, dessa forma, adoto neste relatório o relatado no Acórdão nº 2002-003.873, de 19 de fevereiro de 2020, que lhe serve de paradigma. Trata-se de Auto de Infração lavrado em nome do sujeito passivo acima identificado, onde se apurou a Multa por Atraso na Entrega de Guia de Recolhimento do FGTS e Informações à Previdência Social – GFIP. O contribuinte apresentou Impugnação, a qual foi julgada improcedente pelo Colegiado a quo. Cientificado do acórdão de primeira instância, o interessado ingressou com Recurso Voluntário contendo os argumentos a seguir sintetizados. - Defende que, para a aplicação das multas elencadas no art. 32-A da Lei nº 8.212/91, faz-se necessária intimação do contribuinte para prestar esclarecimentos ou apresentar a declaração. - Aduz que, se a GFIP foi entregue espontaneamente e o tributo confessado foi pago, a própria obrigação principal está extinta. - Aponta a ocorrência de denúncia espontânea prevista no art. 138 do CTN, conforme entendimento da Receita Federal constante da IN 971/09 e do Manual da GFIP/SEFIP. - Alega que a motivação do Auto de Infração é inadequada, uma vez que contrária à lei que prevê a necessidade de intimação do contribuinte antes da aplicação das penalidades. - Afirma que a autuada é uma microempresa e que faz jus aos benefícios previstos no art. 55 da Lei Complementar nº 123/06. - Discorre sobre o caráter confiscatório da multa aplicada. - Indica a existência do Projeto de Lei nº 7.512/14, que propõe a anistia da cobrança de multas geradas pela falta ou atraso na entrega da GFIP. Voto Conselheira Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez - Relatora Das razões recursais Como já destacado, o presente julgamento segue a sistemática dos recursos repetitivos, nos termos do art. 47, §§ 1º e 2º, Anexo II, do RICARF, desta forma reproduzo o voto consignado no Acórdão nº 2002-003.873, de 19 de fevereiro de 2020, paradigma desta decisão. O Recurso Voluntário é tempestivo e reúne os requisitos de admissibilidade, portanto, dele tomo conhecimento. Fl. 43DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 3 do Acórdão n.º 2002-003.926 - 2ª Sejul/2ª Turma Extraordinária Processo nº 13811.726732/2015-15 No que concerne à ausência de intimação prévia ao lançamento, impõe-se observar o disposto na Súmula CARF nº 46, com efeito vinculante em relação à Administração Tributária Federal: O lançamento de ofício pode ser realizado sem prévia intimação ao sujeito passivo, nos casos em que o Fisco dispuser de elementos suficientes à constituição do crédito tributário. (Vinculante, conforme Portaria MF nº 277, de 07/06/2018, DOU de 08/06/2018). O previsto no art. 32-A da Lei nº 8.212/91 não contraria este entendimento. A intimação somente será realizada se for necessária, ou seja, se a autoridade fiscal não dispuser de elementos suficientes para efetuar o lançamento, o que não se verifica no caso em tela, uma vez que se trata de multa pelo atraso na entrega de GFIP sem apuração de incorreções em seu conteúdo. Sobre a ocorrência de denúncia espontânea, deixo de tecer maiores considerações tendo em vista o que estabelece a Súmula CARF n° 49, também vinculante em relação à Administração Tributária Federal: A denúncia espontânea (art. 138 do Código Tributário Nacional) não alcança a penalidade decorrente do atraso na entrega de declaração. (Vinculante, conforme Portaria MF nº 277, de 07/06/2018, DOU de 08/06/2018). Quanto à infração apurada, equivoca-se o recorrente ao entender que esta poderia ser afastada em razão do pagamento do tributo consignado na GFIP. De acordo com o art. 32-A, II, da Lei nº 8.212/91, a multa incide sobre o montante das contribuições previdenciárias informadas no documento, ainda que tenham sido integralmente pagas pelo contribuinte. Também não pode ser acolhida a alegação de que faz jus ao tratamento diferenciado previsto no art. 55 da Lei Complementar nº 123/2006, haja vista que este dispositivo refere-se “aos aspectos trabalhista, metrológico, sanitário, ambiental, de segurança, de relações de consumo e de uso e ocupação do solo das microempresas e das empresas de pequeno porte”, como disposto em seu caput, e não se aplica ao processo administrativo fiscal relativo a tributos, conforme explicitado em seu §4º. Vale lembrar que a responsabilidade por infrações da legislação tributária é objetiva, não dependendo da intenção do agente e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato, nos termos do art. 136 do Código Tributário Nacional - CTN. Além disso, segundo o art. 142 do mesmo diploma legal, a atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, não cabendo discussão sobre a aplicabilidade ou não das determinações legais vigentes por parte das autoridades fiscais. Importa registrar nesse ponto que o Projeto de Lei nº 7.512/14 mencionado no Recurso permanece em tramitação no Congresso Nacional, não se tratando, portanto, de norma vigente. Quanto à alegação de que a multa aplicada teria caráter confiscatório, cabe reproduzir o entendimento consolidado na Súmula CARF n° 2, de observância obrigatória no julgamento dos Recursos: Fl. 44DF CARF MF Documento nato-digital https://carf.economia.gov.br/acesso-a-informacao/boletim-de-servicos-carf/portarias-do-mf-de-interesse-do-carf-2018/portarias-mf-277-sumulas-efeito-vinculantes.pdf https://carf.economia.gov.br/acesso-a-informacao/boletim-de-servicos-carf/portarias-do-mf-de-interesse-do-carf-2018/portarias-mf-277-sumulas-efeito-vinculantes.pdf Fl. 4 do Acórdão n.º 2002-003.926 - 2ª Sejul/2ª Turma Extraordinária Processo nº 13811.726732/2015-15 O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Pelo exposto, voto por conhecer do Recurso Voluntário e, no mérito, negar-lhe provimento. Conclusão Importa registrar que nos autos em exame a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada na decisão paradigma, de tal sorte que, as razões de decidir nela consignadas, são aqui adotadas. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do anexo II do RICARF, reproduzo o decidido no acórdão paradigma, no sentido de negar provimento ao Recurso Voluntário. (documento assinado digitalmente) Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez Fl. 45DF CARF MF Documento nato-digital

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