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Numero do processo: 13839.005666/2007-28
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Oct 20 00:00:00 UTC 2011
Data da publicação: Thu Oct 20 00:00:00 UTC 2011
Ementa: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ
Ano-calendário: 2003, 2004
LUCRO REAL. APURAÇÃO ANUAL.
Constatada a falta de pagamento das estimativas de IRPJ, a exigência fiscal deve recair, além da multa isolada, sobre o imposto devido ao final do período.
Numero da decisão: 1201-000.596
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, NEGAR
provimento ao apelo oficial.
Matéria: IRPJ - AF - lucro real (exceto.omissão receitas pres.legal)
Nome do relator: Marcelo Cuba Netto
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ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2003, 2004 LUCRO REAL. APURAÇÃO ANUAL. Constatada a falta de pagamento das estimativas de IRPJ, a exigência fiscal deve recair, além da multa isolada, sobre o imposto devido ao final do período. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, NEGAR provimento ao apelo oficial. (documento assinado digitalmente) Claudemir Rodrigues Malaquias Presidente (documento assinado digitalmente) Marcelo Cuba Netto Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Claudemir Rodrigues Malaquias (Presidente), Rafael Correia Fuso, André Almeida Blanco (Suplente convocado), Viviane Vidal Wagner (Conselheira substituta), Marcelo Cuba Netto e Antonio Carlos Guidoni Filho. Relatório Tratase de recurso de ofício interposto nos termos do art. 34, I, do Decreto nº 70.235/72. Fl. 215DF CARF MF Impresso em 16/11/2011 por ANDREA FERNANDES GARCIA CÓ PI A Autenticado digitalmente em 05/11/2011 por MARCELO CUBA NETTO, Assinado digitalmente em 16/11/2011 p or CLAUDEMIR RODRIGUES MALAQUIAS, Assinado digitalmente em 05/11/2011 por MARCELO CUBA NETTO Processo nº 13839.005666/200728 Acórdão n.º 120100.596 S1C2T1 Fl. 191 2 Conforme descrito no termo conclusivo de ação fiscal de fls. 42/43, a contribuinte, após cientificada do termo início do procedimento, pagou, sem acréscimo de multa de ofício, débitos de IRPJ informados em DCTF nos anos de 2003 e 2004, débitos esses cuja exigibilidade, segundo o sujeito passivo, encontravase suspensa por força de decisão judicial exarada nos autos do processo nº 9700478505. Constatado que os débitos efetivamente não se encontravam com sua exigibilidade suspensa, já que a referida decisão judicial ainda não havia transitado em julgado, e uma vez que o pagamento fora realizado após o início da ação fiscal, a autoridade lavrou o auto de infração para exigência do IRPJ, multa de ofício e juros de mora (fls. 44/49). Impugnada a exigência (fls. 53/71), a DRJ de origem decidiu pela improcedência do lançamento (fls. 179/185). Entendeu o órgão a quo que o lançamento fora realizado incorretamente uma vez que, enquanto os débitos confessados em DCTF referemse a estimativas de IRPJ dos meses de janeiro, fevereiro, março e abril de 2003, e dos meses de fevereiro, março, abril e maio de 2004, o auto de infração indicou fatos geradores do IRPJ ocorridos nos meses de dezembro de 2003 e dezembro de 2004. No entanto, tendo em vista a exoneração de tributo e encargos de multa em montante superior a R$ 1.000.000,00, o órgão de primeiro grau submeteu sua decisão ao duplo grau de jurisdição administrativa. Voto Conselheiro Marcelo Cuba Netto, Relator. 1) Da Admissibilidade do Recurso O recurso atende aos pressupostos processuais de admissibilidade estabelecidos no Decreto nº 70.235/72 e, portanto, dele devese tomar conhecimento. 2) Do Recurso de Ofício Não há reparos a fazer na decisão recorrida. De fato, confirmado que os débitos de estimativas de IRPJ confessados em DCTF não estavam com sua exigibilidade efetivamente suspensa, caberia à autoridade realizar, por um lado, o lançamento da multa isolada prevista no art. 44, § 1º, IV, da Lei nº 9.430/96 e, por outro, o lançamento do IRPJ anual, conforme demonstrativos de fls. 184/185. A ausência do lançamento da multa isolada em nada prejudica o lançamento do IRPJ anual. No entanto, como a autoridade exigiu o IRPJ anual sem realizar os necessários ajustes à sua base de cálculo, não há como se manter o lançamento, ainda que parcialmente, sem cercear o direito de defesa da contribuinte. 3) Conclusão Tendo em vista todo o exposto, voto por negar provimento ao recurso de ofício. Fl. 216DF CARF MF Impresso em 16/11/2011 por ANDREA FERNANDES GARCIA CÓ PI A Autenticado digitalmente em 05/11/2011 por MARCELO CUBA NETTO, Assinado digitalmente em 16/11/2011 p or CLAUDEMIR RODRIGUES MALAQUIAS, Assinado digitalmente em 05/11/2011 por MARCELO CUBA NETTO Processo nº 13839.005666/200728 Acórdão n.º 120100.596 S1C2T1 Fl. 192 3 (documento assinado digitalmente) Marcelo Cuba Netto Fl. 217DF CARF MF Impresso em 16/11/2011 por ANDREA FERNANDES GARCIA CÓ PI A Autenticado digitalmente em 05/11/2011 por MARCELO CUBA NETTO, Assinado digitalmente em 16/11/2011 p or CLAUDEMIR RODRIGUES MALAQUIAS, Assinado digitalmente em 05/11/2011 por MARCELO CUBA NETTO
score : 1.0
Numero do processo: 10860.002458/2008-92
Turma: Segunda Turma Ordinária da Primeira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Nov 28 00:00:00 UTC 2011
Data da publicação: Mon Nov 28 00:00:00 UTC 2011
Ementa: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF
Exercício: 2005
DESPESAS MÉDICAS. FALTA DE COMPROVAÇÃO DO PAGAMENTO E DA EFETIVA PRESTAÇÃO DOS SERVIÇOS CONSIGNADOS NOS RECIBOS.
Justifica-se a glosa de despesas médicas quando existem nos autos indícios veementes de que os serviços consignados nos recibos apresentados não foram de fato executados e o contribuinte deixa de carrear aos autos a prova do pagamento e da efetividade dos serviços.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 2102-001.650
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em NEGAR
provimento ao recurso.
Nome do relator: NUBIA MATOS MOURA
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FALTA DE COMPROVAÇÃO DO PAGAMENTO E DA EFETIVA PRESTAÇÃO DOS SERVIÇOS CONSIGNADOS NOS RECIBOS. Justificase a glosa de despesas médicas quando existem nos autos indícios veementes de que os serviços consignados nos recibos apresentados não foram de fato executados e o contribuinte deixa de carrear aos autos a prova do pagamento e da efetividade dos serviços. Recurso Voluntário Negado Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em NEGAR provimento ao recurso. Assinado digitalmente Giovanni Christian Nunes Campos – Presidente Assinado digitalmente Núbia Matos Moura – Relatora EDITADO EM: 12/12/2011 Fl. 70DF CARF MF Impresso em 28/02/2012 por VILMA PINHEIRO TORRES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 12/12/2011 por NUBIA MATOS MOURA, Assinado digitalmente em 12/12/2011 po r NUBIA MATOS MOURA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por GIOVANNI CHRISTIAN NUNES CAMPO Processo nº 10860.002458/200892 Acórdão n.º 210201.650 S2C1T2 Fl. 67 2 Participaram do presente julgamento os Conselheiros Acácia Sayuri Wakasugi, Atilio Pitarelli, Francisco Marconi de Oliveira, Giovanni Christian Nunes Campos, Núbia Matos Moura e Roberta de Azeredo Ferreira Pagetti. Relatório Contra LORIZA BRANDÃO DOS REIS MARTINS foi lavrada Notificação de Lançamento, fls. 06/10, para formalização de exigência de Imposto sobre a Renda de Pessoa Física (IRPF), relativa ao anocalendário 2004, exercício 2005, no valor total de R$ 7.361,64, incluindo multa de ofício e juros de mora, estes últimos calculados até 28/11/2008. A infração apurada pela autoridade fiscal foi dedução indevida de despesas médicas, no valor total de R$ 12.000,00, conforme abaixo discriminado, em razão de irregularidades verificadas nos recibos apresentados e por falta de comprovação do efetivo pagamento e da efetiva prestação dos serviços. José Marcondes Moura Neto dentista R$ 2.000,00 Maria Angélica Botossi psicóloga R$ 4.000,00 Francisco de Melo Júnior – fisioterapeuta R$ 6.000,00 Inconformada com a exigência, a contribuinte apresentou impugnação, fls. 01/04, e a autoridade julgadora de primeira instância julgou, por unanimidade de votos, procedente o lançamento, conforme Acórdão DRJ/SP2 nº 1742.986, de 02/08/2010, fls. 47/54. Cientificada da decisão de primeira instância, por via postal, em 16/08/2010, Aviso de Recebimento (AR), fls. 58, a contribuinte apresentou, em 03/09/2010, recurso voluntário, fls. 59/61, no qual traz as alegações a seguir resumidamente transcritas: (...) Data vênia, não podem ser tachadas de indevidas as Despesas Médicas, deduzidas pelo impugnante em sua declaração de rendimentos/IRPF. A dedução pleiteada pelo impugnante obedeceu ao disposto no artigo 80, inciso 1°., III do Regulamento do Imposto de Renda (RIR/99), que assim dispõe: (...) O que se questiona é o Fato de a Fiscalização considerar como inidôneos os comprovantes. Ora, embora irrelevante para a impugnante, visto que pagou efetivamente pelos serviços médicos contratados, um fato que seria de suma importância e que não consta que procedeu à Notificação de Lançamento se o prestador do serviço, emitente dos recibos, declarou ou omitiu o respectivo rendimento para se apurar eventual falsidade material. Fl. 71DF CARF MF Impresso em 28/02/2012 por VILMA PINHEIRO TORRES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 12/12/2011 por NUBIA MATOS MOURA, Assinado digitalmente em 12/12/2011 po r NUBIA MATOS MOURA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por GIOVANNI CHRISTIAN NUNES CAMPO Processo nº 10860.002458/200892 Acórdão n.º 210201.650 S2C1T2 Fl. 68 3 Com efeito, não é justo nem licito penalizar o contribuinte com a glosa de despesas e imputálo penalidade de multa, independentemente de qualquer procedimento de averiguação ou de diligencia fiscal. Assim vem disposto pela Constituição e pela lei, o serviços público competente, antes de proceder ao lançamento, ou o julgados administrativo competente, antes de decidir, ou, ainda antes de propor a Ação de Execução Fiscal, deve examinar a legalidade do ato, buscar a verdade dos fatos, formal e substancial, mesmo que o fato, ou o direito favoreça o sujeito passivo. Diante disso, quer nos parecer, data vênia, que a Notificação de Lançamento em questão padece de legalidade, haja vista que não se efetuou a correta verificação do fato gerador, para assim propor a aplicação da penalidade cabível, como determina o disposto no artigo 142 do CTN, verbis: É o Relatório. Fl. 72DF CARF MF Impresso em 28/02/2012 por VILMA PINHEIRO TORRES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 12/12/2011 por NUBIA MATOS MOURA, Assinado digitalmente em 12/12/2011 po r NUBIA MATOS MOURA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por GIOVANNI CHRISTIAN NUNES CAMPO Processo nº 10860.002458/200892 Acórdão n.º 210201.650 S2C1T2 Fl. 69 4 Voto Conselheira Núbia Matos Moura, relatora O recurso é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade. Dele conheço. Cuidase de glosa de despesas médicas e no recurso a contribuinte afirma, em suma, que a dedução pleiteada atende ao disposto no art. 80, § 1º, III, do Decreto nº 3.000, de 26 de março de 1999 – Regulamento do Imposto de Renda (RIR/1999) e que cabia à autoridade fiscal promover diligências junto aos prestadores de serviços para considerar inidôneos os comprovantes das deduções pleiteadas. De pronto, cumpre observar que a autoridade fiscal glosou as despesas médicas em razão da falta de comprovação do efetivo pagamento e da efetiva prestação dos serviços consignados nos recibos. Não prevalece, portanto, a afirmação da defesa de que os recibos foram considerados inidôneos. O que de fato ocorreu é que a autoridade fiscal entendeu que os recibos, por si só, não eram suficientes para comprovar as deduções de despesas médicas pleiteadas pela contribuinte. E mais, ao contrário do que afirma a defesa, temse que a contribuinte não comprovou, nos termos do art. 80, § 1º, III, do RIR/1999, as despesas médicas glosadas pela autoridade fiscal, conforme inferese pelas razões exaustivamente exaradas no Auto de Infração: Considerando são dedutíveis na Declaração de IRPF a título de despesas médicas os PAGAMENTOS efetuados pelo contribuinte, relativos ao próprio tratamento e ao de seus dependentes; de acordo com artigo 80 do Decreto acima citado, glosamos as despesas médicas pleiteadas pela contribuinte, uma vez que, intimada a declarante não comprova os pagamentos, a efetividade da prestação dos serviços médicos nem presta os esclarecimentos solicitados em intimação a respeito dos pacientes que se submeteram aos tratamentos. A contribuinte primeiramente apresentou os recibos médicos, sendo que contendo indícios de irregularidades foram insuficientes para a comprovação das despesas médicas: 1. 01 recibo, emitido por José Marcondes Moura Neto, no valor de R$ 2.000,00. Esse recibo parece ter sido preenchido por duas pessoas diferentes, uma delas pode ter preenchido o valor numérico, valor por extenso, tipo de tratamento, local e data de emissão e outra pessoa o campo pagante : Recebi de.... Tal preenchimento em momentos diferentes denota uma irregularidade, uma vez que qualquer pessoa de posse de um Fl. 73DF CARF MF Impresso em 28/02/2012 por VILMA PINHEIRO TORRES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 12/12/2011 por NUBIA MATOS MOURA, Assinado digitalmente em 12/12/2011 po r NUBIA MATOS MOURA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por GIOVANNI CHRISTIAN NUNES CAMPO Processo nº 10860.002458/200892 Acórdão n.º 210201.650 S2C1T2 Fl. 70 5 recibo preenchido e assinado poderia preencher com o seu nome e utilizar. o recibo como próprio. Por outro lado, perguntase: foi um único pagamento de R$ 2.000,00 ou foram vários pagamentos e a emissão do recibo foi indevidamente preenchida em um único dia? Se foram vários pagamentos, o contribuinte deveria ter exigido recibos a cada desembolso; se foi um único pagamento, a contribuinte não deveria ter dificuldade em apresentar comprovante de pagamento de quantia expressiva, mediante saques em banco, compensação de cheque, transferências bancárias, ou outra forma de pagamento. O profissional por sua vez, com este único recebimento, estaria sujeito ao recolhimento de carnê leão. Atentese ainda, que o recibo não contém endereço, conforme previsto no artigo 80 do Regulamento do Imposto de Renda; 2. 10 recibos de R$ 400,00 cada, no valor total de R$ 4.000,00, emitidos pela psicóloga Maria Angélica Botossi. Esses recibos são do mesmo talonário; possuem o mesmo padrão de preenchimento; sem endereço do emitente; descritos genericamente como atendimento psicológico; não indicam quem foi o paciente; parecem terem sido preenchidos pela mesma pessoa, uma vez que a letra guarda semelhança nos traços; parecem terem sido preenchidos no mesmo dia, o que denota irregularidade. Novamente os recibos apresentados possuem duas caligrafias, uma no preenchimento do campo pagante e outra para os demais campos. Nenhum dos recibos foi preenchido o dia do pagamento; 3. 06 recibos no valor total de R$ 6.000,00, emitidos pelo fisioterapeuta Francisco de Melo Júnior. Esses recibos são do mesmo talonário; possuem o mesmo padrão de preenchimento; sem endereço do emitente; descritos genericamente como tratamento fisioterápico; não indicam quem foi o paciente; parecem terem sido preenchidos pela mesma pessoa, uma vez que a letra guarda semelhança nos traços; parecem terem sido preenchidos no mesmo dia; novamente os recibos apresentados possuem duas caligrafias, uma no preenchimento do campo pagante e outra para os demais campos; Devido à série de irregularidades no preenchimento dos recibos médicos, intimamos a interessada a comprovar os pagamentos e a efetividade dos serviços, esclarecer quem foram os pacientes. A contribuinte não apresenta qualquer comprovação e/ou esclarecimentos solicitados. Limitase a informar que apresentou os recibos médicos solicitados na intimação inicial; que os pagamentos foram feitos em moeda corrente do País e, que, a Receita Federal do Brasil, em caso de dúvida quanto à veracidade dos recibos e tratamento feitos, solicite aos emitentes a comprovação dos mesmos. Fl. 74DF CARF MF Impresso em 28/02/2012 por VILMA PINHEIRO TORRES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 12/12/2011 por NUBIA MATOS MOURA, Assinado digitalmente em 12/12/2011 po r NUBIA MATOS MOURA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por GIOVANNI CHRISTIAN NUNES CAMPO Processo nº 10860.002458/200892 Acórdão n.º 210201.650 S2C1T2 Fl. 71 6 Também não pode prevalecer a tese da contribuinte de que cabia à autoridade fiscal proceder diligência junto aos prestadores de serviços para não acatar as deduções de despesas médicas pleiteadas. Como bem assinalou a decisão recorrida, o artigo 73 do RIR/1999, cuja matriz legal é o § 3° do art. 11 do Decretolei n° 5.844, de 1943, estabelece expressamente que o contribuinte pode ser instado a comprovar ou justificar as despesas. Daí resulta que o ônus da prova deslocase para o contribuinte, que instado a comprovar e justificar as deduções e em não o fazendo, sujeitase à glosa das despesas. Este é o caso dos autos. Por fim, cumpre observar que justificase, no caso, a exigência da comprovação do efetivo pagamento, no fato de a contribuinte pleitear dedução de despesas médicas, no valor de R$ 12.000,00, quando o rendimento tributável declarado foi de R$ 49.966,16. Se deste valor forem diminuídos a contribuição previdenciária oficial e privada (R$ 6.074,77) e o imposto de renda retido na fonte (R$ 2.162,50), o rendimento líquido da contribuinte passa a ser de R$ 41.728,89, o que implica dizer que os gastos com despesas médicas alcançou quase 30% do rendimento líquido auferido. Destaquese que a soma dos rendimentos isentos e não tributáveis e dos rendimentos sujeitos a tributação exclusiva no referido anocalendário foi de apenas R$ 4.075,18. (Declaração de Ajuste Anual (DAA), exercício 2005, fls. 16/19). Nesses termos, na falta da comprovação efetiva dos pagamentos, não há como se acatar a dedução de despesas médicas, pleiteada pela contribuinte, devendose manter o lançamento, na forma como consubstanciado no Auto de Infração. Ante o exposto, voto por NEGAR provimento ao recurso. Assinado digitalmente Núbia Matos Moura Relatora Fl. 75DF CARF MF Impresso em 28/02/2012 por VILMA PINHEIRO TORRES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 12/12/2011 por NUBIA MATOS MOURA, Assinado digitalmente em 12/12/2011 po r NUBIA MATOS MOURA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por GIOVANNI CHRISTIAN NUNES CAMPO
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Numero do processo: 11543.003911/2003-29
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed May 11 00:00:00 UTC 2011
Data da publicação: Wed May 11 00:00:00 UTC 2011
Ementa: IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE TERRITORIAL RURAL ITR
Exercício: 1999
ITR. ÁREA DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE. ATO DECLARATÓRIO AMBIENTAL-ADA. EXERCÍCIO ANTERIOR A 2001. DESNECESSIDADE. SÚMULA.
De conformidade com os dispositivos legais que regulamentam a matéria, vigentes à época da ocorrência do fato gerador, notadamente a Lei nº 9.393/1996, c/c Súmula no 41 do CARF, inexiste previsão legal exigindo a apresentação do Ato Declaratório Ambiental ADA para fruição da isenção
do ITR relativamente às áreas de preservação permanente até o exercício 2000, inclusive.
NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO. INSTRUÇÕES NORMATIVAS. LIMITAÇÃO LEGAL.
Às Instruções Normativas é defeso inovar, suplantar e/ou coarctar os ditames da lei regulamentada, sob pena de malferir o disposto no artigo 100, inciso I, do CTN, mormente tratando-se as IN’s de atos secundários e estritamente vinculados à lei decorrente.
Recurso especial negado.
Numero da decisão: 9202-001.622
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. Declarou se impedido o Conselheiro Alexandre Naoki Nishioka.
Matéria: ITR - notific./auto de infração eletrônico - outros assuntos
Nome do relator: Rycardo Henrique Magalháes de Oliveira
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ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE TERRITORIAL RURAL ITR Exercício: 1999 ITR. ÁREA DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE. ATO DECLARATÓRIO AMBIENTALADA. EXERCÍCIO ANTERIOR A 2001. DESNECESSIDADE. SÚMULA. De conformidade com os dispositivos legais que regulamentam a matéria, vigentes à época da ocorrência do fato gerador, notadamente a Lei nº 9.393/1996, c/c Súmula no 41 do CARF, inexiste previsão legal exigindo a apresentação do Ato Declaratório Ambiental ADA para fruição da isenção do ITR relativamente às áreas de preservação permanente até o exercício 2000, inclusive. NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO. INSTRUÇÕES NORMATIVAS. LIMITAÇÃO LEGAL. Às Instruções Normativas é defeso inovar, suplantar e/ou coarctar os ditames da lei regulamentada, sob pena de malferir o disposto no artigo 100, inciso I, do CTN, mormente tratandose as IN’s de atos secundários e estritamente vinculados à lei decorrente. Recurso especial negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. Declarouse impedido o Conselheiro Alexandre Naoki Nishioka. Fl. 1DF CARF MF Emitido em 20/05/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 18/05/2011 por RYCARDO HENRIQUE MAGALHAES DE Assinado digitalmente em 18/05/2011 por RYCARDO HENRIQUE MAGALHAES DE , 19/05/2011 por HENRIQUE PINH EIRO TORRES 2 Henrique Pinheiro Torres – PresidenteSubstituto (Assinado digitalmente) Rycardo Henrique Magalhães de Oliveira – Relator (Assinado digitalmente) EDITADO EM: 13/05/2011 Participaram, do presente julgamento, os Conselheiros Henrique Pinheiro Torres (Presidente – Substituto), Gonçalo Bonet Allage (VicePresidente Substituto), Elias Sampaio Freire, Giovanni Christian Nunes Campos, Manoel Coelho Arruda Junior, Gustavo Lian Haddad, Francisco Assis de Oliveira Junior, Rycardo Henrique Magalhães de Oliveira e Marcelo Oliveira. Relatório ARACRUZ CELULOSE S.A., contribuinte, pessoa jurídica de direito privado, já devidamente qualificada nos autos do processo administrativo em epígrafe, teve contra si lavrado Auto de Infração, em 31/10/2003, exigindolhe crédito tributário concernente ao Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural ITR, em relação ao exercício de 1999, incidente sobre o imóvel rural denominado “Bloco 13 AR”, localizado no município de Aracruz/ES, cadastrado na RFB sob o nº 56837968, conforme peça inaugural do feito, às fls. 28/33, e demais documentos que instruem o processo. Após regular processamento, interposto recurso voluntário ao então Terceiro Conselho de Contribuintes contra Decisão da 1a Turma da DRJ em Recife/PE, Acórdão nº 11 15.820/2006, às fls. 83/92, que julgou procedente o lançamento fiscal em referência, a Egrégia 3ª Câmara, em 08/07/2008, por unanimidade de votos, achou por bem DAR PROVIMENTO PARCIAL AO RECURSO VOLUNTÁRIO DA CONTRIBUINTE, o fazendo sob a égide dos fundamentos inseridos no Acórdão nº 30335.509, sintetizados na seguinte ementa: “Assunto: Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural ITR Exercício: 1999 PRESERVAÇÃO PERMANENTE/ ÁREA DE RESERVA LEGAL. ATO DECLARATÓRIO AMBIENTAL. No exercício de 1999, a exclusão das áreas declaradas como preservação permanente e de utilização limitada da área tributável do imóvel rural, para efeito de apuração do ITR, não estavam condicionadas ao reconhecimento delas pelo IBAMA ou por órgão estadual competente, mediante Ato Declaratório Ambiental (ADA), e/ ou comprovação de protocolo de requerimento desse ato àqueles órgãos, no prazo de seis meses, contado da data da entrega da declaração, por falta de previsão legal. ÁREA DE UTILIZAÇÃO LIMITADA RESERVA LEGAL. AVERBAÇÃO À MARGEM DA MATRÍCULA. Fl. 2DF CARF MF Emitido em 20/05/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 18/05/2011 por RYCARDO HENRIQUE MAGALHAES DE Assinado digitalmente em 18/05/2011 por RYCARDO HENRIQUE MAGALHAES DE , 19/05/2011 por HENRIQUE PINH EIRO TORRES Processo nº 11543.003911/200329 Acórdão n.º 920201.622 CSRFT2 Fl. 2 3 A área de reserva legal, para fins de exclusão do ITR, deve estar averbada à margem da inscrição da matrícula do imóvel no cartório de registro de imóveis competente, à época do respectivo fato gerador, nos termos da legislação de regência. RECURSO VOLUNTÁRIO PROVIDO EM PARTE.” Irresignada, a Procuradoria da Fazenda Nacional interpôs Recurso Especial, às fls. 138/146, com arrimo no artigo 7º, inciso II, do então Regimento Interno da Câmara Superior de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF nº 147/2007, procurando demonstrar a insubsistência do Acórdão recorrido, desenvolvendo em síntese as seguintes razões: Após breve relato das fases ocorridas no decorrer do processo administrativo fiscal, insurgese contra o Acórdão atacado, por entender ter contrariado entendimento levado a efeito por outras Câmaras dos Conselhos a respeito da mesma matéria, conforme se extrai do Acórdão nº 30236.278, impondo seja conhecido o recurso especial da recorrente, porquanto comprovada a divergência argüida. Sustenta que o Acórdão encimado, ora adotado como paradigma, diverge do decisum guerreado, uma vez impor que a comprovação da existência das áreas de preservação permanente, para fins de não incidência do ITR, depende de protocolo do requerimento de ato declaratório junto ao IBAMA no prazo legal, ao contrário do que restou decidido pela Câmara recorrida. Em defesa de sua pretensão, tece comentários a propósito do conceito e finalidade da “Preservação Permanente”, traçando histórico da legislação que regulamenta a matéria, defendendo que para comprovação das referidas áreas, não se pode prescindir do Ato Declaratório Ambiental (ADA), protocolado junto ao IBAMA, no prazo estipulado na legislação. Infere que a Receita Federal do Brasil já se manifestou por diversas oportunidades a propósito do assunto, firmando o entendimento de que a não incidência de ITR sobre as áreas de preservação permanente está condicionada ao reconhecimento como tal por parte do Poder Público, por intermédio do ADA, devendo existir em cada imóvel informação específica da parte preservada, como estabelecem as normatizações internas da SRF, notadamente o artigo 10, § 4º, inciso I, da IN SRF nº 43/1997, que disciplinou a Lei nº 9.393/1996, com redação do artigo 1º, inciso II, da Instrução Normativa SRF nº 67/1997. Assim, inexistindo na hipótese dos autos provas de que a contribuinte procedeu tempestivamente a protocolização do requerimento do ADA, impõese à manutenção da glosa realizada pela fiscalização. Por fim, requer o conhecimento e provimento do Recurso Especial, impondo a reforma do decisum ora atacado, nos termos encimados. Submetido a exame de admissibilidade, a ilustre Presidente da então 3ª Câmara do Terceiro Conselho, entendeu por bem admitir o Recurso Especial da Fazenda Nacional, sob o argumento de que a recorrente logrou comprovar que o Acórdão guerreado divergiu de outras decisões exaradas pelas demais Câmaras dos Conselhos de Contribuintes a propósito da mesma matéria, qual seja, necessidade do requerimento atempado do ADA relativamente às áreas de preservação permanente, para fins de não incidência do tributo (ITR), conforme Despacho nº 366/2008, às fls. 163/165. Fl. 3DF CARF MF Emitido em 20/05/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 18/05/2011 por RYCARDO HENRIQUE MAGALHAES DE Assinado digitalmente em 18/05/2011 por RYCARDO HENRIQUE MAGALHAES DE , 19/05/2011 por HENRIQUE PINH EIRO TORRES 4 Instada se manifestar a propósito do Recurso Especial da Fazenda Nacional, a contribuinte apresentou suas contrarrazões, às fls. 173/188, corroborando as razões de decidir do Acórdão recorrido, em defesa de sua manutenção. É o Relatório. Voto Conselheiro Rycardo Henrique Magalhães de Oliveira, Relator Presentes os pressupostos de admissibilidade, sendo tempestivo e acatada pela ilustre Presidente da 3ª Câmara do então Terceiro Conselho de Contribuintes a divergência suscitada pela Fazenda Nacional, conheço do Recurso Especial e passo ao exame das razões recursais. Conforme se depreende da análise do Recurso Especial, pretende a recorrente a reforma do Acórdão em vergasta, alegando, em síntese, que as razões de decidir ali esposadas contrariaram outras decisões das demais Câmaras do Terceiro Conselho a respeito da mesma matéria. A fazer prevalecer sua pretensão, infere que o entendimento consubstanciado no Acórdão nº 30236.278, ora adotado como paradigma, impõe que a comprovação da existência das áreas de preservação permanente, para fins de não incidência do ITR, depende de prévio protocolo do requerimento do Ato Declaratório Ambiental – ADA, dentro dos seis meses subseqüentes à entrega da DITR, ao contrário do que restou decidido pela Câmara recorrida. Sustenta, ainda, a PFN que ao desconsiderar a exigência do requerimento tempestivo do ADA para efeito da benesse isentiva a Câmara recorrida contrariou as normas insertas no Código Florestal Nacional (Lei nº 4.771/65 e atualizações), bem como as normatizações internas da SRF, notadamente o artigo 10, § 4º, inciso I, da IN SRF nº 43/1997, que disciplinou a Lei nº 9.393/1996, com redação do artigo 1º, inciso II, da Instrução Normativa SRF nº 67/1997. Como se observa, resumidamente, o cerne da questão posta nos autos é a discussão a respeito da exigência do requerimento atempado do Ato Declaratório Ambiental – ADA relativamente às áreas de preservação permanente, dentro do prazo legal, para fruição da não incidência do Imposto Territorial Rural ITR. Consoante se infere dos autos, concluise que a pretensão da Fazenda Nacional não merece acolhimento, por não espelhar a melhor interpretação a respeito do tema, contrariando a farta e mansa jurisprudência administrativa. Do exame dos elementos que instruem o processo, constatase que o Acórdão recorrido apresentase incensurável, devendo ser mantido em sua plenitude, como passaremos a demonstrar. Antes mesmo de se adentrar ao mérito, cumpre trazer à baila a legislação tributária específica que regulamenta a matéria, mais precisamente artigo 10, § 1º, inciso II, e parágrafo 7º, da Lei nº 9.393/1996, na redação dada pelo artigo 3º da Medida Provisória nº 2.166/2001, nos seguintes termos: “Art. 10. A apuração e o pagamento do ITR serão efetuados pelo contribuinte, independentemente de prévio procedimento da administração tributária, nos prazos e condições Fl. 4DF CARF MF Emitido em 20/05/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 18/05/2011 por RYCARDO HENRIQUE MAGALHAES DE Assinado digitalmente em 18/05/2011 por RYCARDO HENRIQUE MAGALHAES DE , 19/05/2011 por HENRIQUE PINH EIRO TORRES Processo nº 11543.003911/200329 Acórdão n.º 920201.622 CSRFT2 Fl. 3 5 estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal, sujeitandose a homologação posterior. § 1º Para os efeitos de apuração do ITR, considerarseá: I VTN, o valor do imóvel, excluídos os valores relativos a: a) construções, instalações e benfeitorias; b) culturas permanentes e temporárias; c) pastagens cultivadas e melhoradas; d) florestas plantadas; II área tributável, a área total do imóvel, menos as áreas: a) de preservação permanente e de reserva legal, previstas na Lei nº 4.771, de 15 de setembro de 1965, com a redação dada pela Lei nº 7.803, de 18 de julho de 1989; b) de interesse ecológico para a proteção dos ecossistemas, assim declaradas mediante ato do órgão competente, federal ou estadual, e que ampliem as restrições de uso previstas na alínea anterior; [...] § 7o A declaração para fim de isenção do ITR relativa às áreas de que tratam as alíneas "a" e "d" do inciso II, § 1o, deste artigo, não está sujeita à prévia comprovação por parte do declarante, ficando o mesmo responsável pelo pagamento do imposto correspondente, com juros e multa previstos nesta Lei, caso fique comprovado que a sua declaração não é verdadeira, sem prejuízo de outras sanções aplicáveis. (Incluído pela Medida Provisória nº 2.16667, de 2001)” (grifamos) Conforme se extrai dos dispositivos legais encimados, a questão remonta a um só ponto, qual seja: a exigência de requerimento tempestivo do Ato Declaratório Ambiental junto ao IBAMA, não é, em si, condição eleita pela Lei para que o proprietário rural goze do direito de isenção do ITR relativo às glebas de terra destinadas à preservação permanente. Somente a título elucidativo, não sendo a requisição atempada do ADA, anteriormente ao exercício 2000, condição legal para obtenção do beneficio isentivo que ora cuidamos, e na linha do que fora exposto no julgado recorrido, nos parece coerente reconhecer que a ausência de tais elementos apenas confere a auditoria fiscal à possibilidade de presumir a inexistência da parcela de proteção ambiental e assim considerála como sendo área passível de aproveitamento, e, portanto, tributável. Contudo, ainda que a legislação estabeleça, para os exercícios posteriores a 2000, em face da intempestividade e/ou ausência do ADA, o reconhecimento da inexistência das áreas de preservação permanente decorrente de um raciocínio presuntivo, não torna essa condição absoluta, sendo perfeitamente possível que outros elementos probatórios demonstrem a efetiva destinação de gleba de terra para fins de proteção ambiental. Em outras palavras, o Fl. 5DF CARF MF Emitido em 20/05/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 18/05/2011 por RYCARDO HENRIQUE MAGALHAES DE Assinado digitalmente em 18/05/2011 por RYCARDO HENRIQUE MAGALHAES DE , 19/05/2011 por HENRIQUE PINH EIRO TORRES 6 mero requerimento do ADA, não se perfaz no único meio de se comprovar a existência ou não daquelas áreas. Assim, realizado o lançamento de ITR com base em glosa de áreas de preservação permanente, a partir de um enfoque meramente formal, ou seja, pela não requisição tempestiva do ADA, e demonstrada, por outros meios de prova, a existência da destinação de área para fins de proteção ambiental, deverá ser restabelecida a declaração do contribuinte, e lhe ser assegurado o direito de excluir do cálculo do ITR à parte da sua propriedade rural correspondente à aludidas áreas, como aqui se vislumbra. Mais a mais, com arrimo no princípio da verdade material, o formalismo não deve sobrepor à verdade real, notadamente quando a lei disciplinadora da isenção assim não estabelece. Entrementes, afora entendimento pessoal a propósito da matéria, impende esclarecer que este Egrégio Colegiado já sedimentou o entendimento de que inexiste previsão legal, anteriormente à vigência da Lei no 10.165, de 28/12/2000, contemplando a exigência do ADA para efeito de não incidência de ITR sobre as áreas de preservação permanente e reserva legal, o que se vislumbra na hipótese dos autos (exercício 1999). Aliás, o Pleno da CSRF, em 08/12/2009, aprovou a Súmula n° 41, contemplando o tema e rechaçando de uma vez por todas a pretensão da Fazenda nos presentes autos, senão vejamos: “A não apresentação do Ato Declaratório Ambiental (ADA) emitido pelo IBAMA, ou órgão conveniado, não pode motivar o lançamento de ofício relativo a fatos geradores ocorridos até o exercício de 2000.” Por derradeiro, no que tange às determinações inseridas nas Instruções Normativas nºs 43 e 67, de 1997, esteios do entendimento da Fazenda Nacional, uma vez demonstrado que a legislação tributária específica, vigente à época, não condiciona a isenção em comento à protocolização tempestiva do ADA, não podem aludidas normas complementares/secundárias, por sua própria natureza, inovar, suplantar e/ou cingir os ditames contidos nas leis regulamentadas. Perfunctória leitura do artigo 100, inciso I, do Códex Tributário, fulmina de uma vez por todas a pretensão fiscal, senão vejamos: “Art. 100. São normas complementares das leis, dos tratados e das convenções internacionais e dos decretos: I – os atos normativos expedidos pelas autoridades administrativas;[...] Na esteira desse entendimento, cabe invocar os ensinamentos do renomado doutrinador Antonio Carlos Rodrigues do Amaral, na obra “Comentários ao Código Tributário Nacional”, volume 2, coord. Ives Gandra da Silva Martins, Editora Saraiva, 1998, págs. 40/41, que ao tratar do artigo 100 do Código Tributário Nacional, assim preleciona: “ Atos normativos expedidos pelas autoridades administrativas. São as instruções ministeriais, as portarias ministeriais e atos expedidos pelos chefes de órgãos ou repartições; as instruções normativas expedidas pelo Secretário da Receita Federal; as circulares e demais atos normativos internos da Administração Pública, que são vinculantes para os agentes públicos, mas não podem criar obrigações para os contribuintes que já não estejam Fl. 6DF CARF MF Emitido em 20/05/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 18/05/2011 por RYCARDO HENRIQUE MAGALHAES DE Assinado digitalmente em 18/05/2011 por RYCARDO HENRIQUE MAGALHAES DE , 19/05/2011 por HENRIQUE PINH EIRO TORRES Processo nº 11543.003911/200329 Acórdão n.º 920201.622 CSRFT2 Fl. 4 7 previstas na lei ou no decreto dela decorrente. Também não vinculam o Poder Judiciário, que não está obrigado a acatar a interpretação dada pelas autoridades públicas através de tais atos normativos.” Outro não é o entendimento do eminente jurista Leandro Paulsen, ao comentar o Código Tributário Nacional, adotando posicionamento do Supremo Tribunal Federal, nos seguintes termos: “Vinculação absoluta dos atos normativos à lei. “... As instruções normativas editadas por órgão competente da administração tributária, constituem espécies jurídicas de caráter secundário, cuja validade e eficácia resultam, imediatamente, de sua estrita observância dos limites impostos pelas leis, tratados, convenções internacionais, ou decretos presidenciais, de que devem constituir normas complementares. Essas instruções nada mais são, em sua configuração jurídico formal, do que provimentos executivos cuja normatividade está diretamente subordinada aos atos de natureza primária, como as leis e as medidas provisórias a que se vinculam por um claro nexo de acessoriedade e de dependência. Se a instrução normativa, editada com fundamento no art. 100, I, do Código Tributário Nacional, vem a positivar em seu texto, em decorrência de má interpretação de lei ou medida provisória, uma exegese que possa romper a hierarquia normativa que deve manter com estes atos primários, viciarseá de ilegalidade...” (STF, Plenário, AGRADI 365/DF, rel. Min. Celso de Mello, nov/1990)” (DIREITO TRIBUTÁRIO – Constituição e Código Tributário Nacional à luz da Doutrina e da Jurisprudência” – 5ª edição, Porto Alegre: Livraria do Advogado:ESMAFE, 2003, pág. 740) Dessa forma, escorreito o Acórdão recorrido devendo, nesse sentido, ser mantido o provimento parcial ao recurso voluntário da contribuinte, na forma decidida pela então 3ª Câmara do 3º Conselho de Contribuintes, uma vez que a recorrente não logrou infirmar os elementos que serviram de base ao decisório atacado. Por todo o exposto, estando o Acórdão guerreado em consonância com os dispositivos legais que regulam a matéria, VOTO NO SENTIDO DE NEGAR PROVIMENTO AO RECURSO ESPECIAL DA PROCURADORIA, pelas razões de fato e de direito acima esposadas. Rycardo Henrique Magalhães de Oliveira (Assinado digitalmente) Fl. 7DF CARF MF Emitido em 20/05/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 18/05/2011 por RYCARDO HENRIQUE MAGALHAES DE Assinado digitalmente em 18/05/2011 por RYCARDO HENRIQUE MAGALHAES DE , 19/05/2011 por HENRIQUE PINH EIRO TORRES 8 Fl. 8DF CARF MF Emitido em 20/05/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 18/05/2011 por RYCARDO HENRIQUE MAGALHAES DE Assinado digitalmente em 18/05/2011 por RYCARDO HENRIQUE MAGALHAES DE , 19/05/2011 por HENRIQUE PINH EIRO TORRES
score : 1.0
Numero do processo: 11020.007753/2008-90
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Fri Sep 30 00:00:00 UTC 2011
Data da publicação: Fri Sep 30 00:00:00 UTC 2011
Ementa: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ
Ano calendário:2003
NULIDADE DO AUTO DE INFRAÇÃO. Não ocorre a nulidade do auto de
infração quando forem observadas as disposições do art. 142 do Código Tributário Nacional e do art. 10 do Decreto nº 70.235, de 1972, e não ocorrerem as hipóteses previstas no art. 59 do mesmo Decreto.
MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. INAPLICABILIDADE. INOCORRÊNCIA DE FRAUDE. Nos lançamentos de ofício para constituição de diferenças de tributos devidos, não pagos ou não declarados, via de regra,
é aplicada a multa proporcional de 75%, nos termos do art. 44, inciso I, da Lei 9.430/1996. A qualificação da multa para aplicação do percentual de 150%, depende não só da intenção do agente, como também da prova fiscal da ocorrência da fraude ou do evidente intuito desta, caracterizada pela prática de ação ou omissão dolosa com esse fim. Na situação versada nos
autos não restou cabalmente comprovado o dolo por parte do contribuinte para fins tributário, logo incabível a aplicação da multa qualificada.
IMPOSTO DE RENDA RETIDO NA FONTE PAGAMENTO SEM CAUSA – Quando os recursos tidos como provenientes de omissão de receitas resultam de pagamentos feitos no exterior pelos destinatários finais
dos produtos às controladas da contribuinte, não há que se falar em incidência de imposto de renda retido na fonte em razão de pagamento sem causa, posto que inexistente pagamento de valores por parte da autuada que ensejariam a retenção em fonte.
IRPJ E CSLL. SUBFATURAMENTO EM OPERAÇÕES COM SUBSIDIARIA NO EXTERIOR. FORMA DE TRIBUTAÇÃO. Inexistindo valores omitidos, haja vista que, em princípio, os valores das operações foram regularmente contabilizados, incabível tratar o subfaturamento em
vendas a subsidiárias no exterior como receita omitidas.
Preliminares Rejeitadas. Recurso Voluntário Provido
Numero da decisão: 1402-000.753
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, 1) rejeitar as preliminares; 2) afastar a aplicação da multa de ofício qualificada, reduzindo-a ao percentual básico de 75%; 3) cancelar a tributação do IR-Fonte, pagamento sem causa, pela inocorrência
do fato gerador; o Conselheiro Moises Giacomelli Nunes da Silva votou pelas conclusões; 4) cancelar a tributação do IRPJ e da CSLL por erro na forma de constituição do crédito tributário. Tudo nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado.
Matéria: IRPJ - AF- omissão receitas - demais presunções legais
Nome do relator: Antonio José Praga de Souza
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AÇÃO FISCAL Recorrente MARCOPOLO S/A Recorrida 1A TURMA DRJ EM PORTO ALEGRE RS ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2003 NULIDADE DO AUTO DE INFRAÇÃO. Não ocorre a nulidade do auto de infração quando forem observadas as disposições do art. 142 do Código Tributário Nacional e do art. 10 do Decreto nº 70.235, de 1972, e não ocorrerem as hipóteses previstas no art. 59 do mesmo Decreto. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. INAPLICABILIDADE. INOCORRÊNCIA DE FRAUDE. Nos lançamentos de ofício para constituição de diferenças de tributos devidos, não pagos ou não declarados, via de regra, é aplicada a multa proporcional de 75%, nos termos do art. 44, inciso I, da Lei 9.430/1996. A qualificação da multa para aplicação do percentual de 150%, depende não só da intenção do agente, como também da prova fiscal da ocorrência da fraude ou do evidente intuito desta, caracterizada pela prática de ação ou omissão dolosa com esse fim. Na situação versada nos autos não restou cabalmente comprovado o dolo por parte do contribuinte para fins tributário, logo incabível a aplicação da multa qualificada. IMPOSTO DE RENDA RETIDO NA FONTE PAGAMENTO SEM CAUSA – Quando os recursos tidos como provenientes de omissão de receitas resultam de pagamentos feitos no exterior pelos destinatários finais dos produtos às controladas da contribuinte, não há que se falar em incidência de imposto de renda retido na fonte em razão de pagamento sem causa, posto que inexistente pagamento de valores por parte da autuada que ensejariam a retenção em fonte. IRPJ E CSLL. SUBFATURAMENTO EM OPERAÇÕES COM SUBSIDIARIA NO EXTERIOR. FORMA DE TRIBUTAÇÃO. Inexistindo valores omitidos, haja vista que, em princípio, os valores das operações foram regularmente contabilizados, incabível tratar o subfaturamento em vendas a subsidiárias no exterior como receita omitidas. Preliminares Rejeitadas. Recurso Voluntário Provido. Fl. 30DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 2 2 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, 1) rejeitar as preliminares; 2) afastar a aplicação da multa de ofício qualificada, reduzindoa ao percentual básico de 75%; 3) cancelar a tributação do IRFonte, pagamento sem causa, pela inocorrência do fato gerador; o Conselheiro Moises Giacomelli Nunes da Silva votou pelas conclusões; 4) cancelar a tributação do IRPJ e da CSLL por erro na forma de constituição do crédito tributário. Tudo nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. (assinado digitalmente) Albertina Silva Santos de Lima Presidente (assinado digitalmente) Antônio José Praga de Souza – Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Antônio José Praga de Souza, Ana Clarissa Masuko dos Santos Araújo, Frederico Augusto Gomes de Alencar, Moisés Giacomelli Nunes da Silva, Leonardo Henrique Magalhães de Oliveira e Albertina Silva Santos de Lima. Relatório MARCOPOLO S/A recorre a este Conselho contra a decisão proferida pela 1a. Turma de Julgamento da DRJ/Porto AlegreRS em primeira instância, que julgou procedente a exigência, pleiteando sua reforma, com fulcro no artigo 33 do Decreto nº 70.235 de 1972 (PAF). Consta da decisão recorrida o seguinte relato: Tratase dos autos de infração lavrados contra a interessada, em 05/12/2008, para exigirlhe o crédito tributário de R$ 119.153.346,33, referente a Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ), Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) e Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF) (fls. 02/53). A sociedade empresarial é tributada pelo regime do lucro real, conforme art. 246, I e III, do RIR/99. No anocalendário de 2003, período de apuração do auto, realizou pagamentos de estimativas mensais de IRPJ e CSLL. Os lançamentos estariam fundados em omissões de receitas, caracterizadas por subfaturamento decorrente de simulação e pela falta de recolhimento de Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF), em razão de pagamentos a beneficiários não identificados ou sem causa. A ação fiscal tem raízes em representação fiscal, oriunda do processo administrativo 11051.000143/200211, no qual foram detectados indícios de irregularidades em exportações praticadas pela contribuinte. A partir de então, foram lavrados autos de Fl. 31DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 3 3 infração relacionados aos anoscalendários 1999 (11020.003966/200508, 11020.003967/200544), 2000 (11020.004103/200621), 2001 e 2002 (11020.004863/200719, incluindo os dois anos). Este processo – que trata de fatos geradores ocorridos em 1993 – decorre das constatações levantadas nos anos anteriores, sobre as quais foi solicitado ao sujeito passivo que fizesse considerações, acrescidas de outros elementos apurados na ação fiscal. O relatório fiscal (fls. 95/172) pretende demonstrar que a interessada utilizava as sociedades vinculadas Marcopolo International Corporation (MIC), com sede nas Ilhas Virgens Britânicas (paraíso fiscal), e Ilmot International Corporation, no Uruguai, como centrais de refaturamento para intermediar formalmente negócios que, na essência, corresponderiam a operações diretas entre a Marcopolo S/A e seus importadores finais. Nesse intento, aponta indícios que evidenciariam a ausência de participação daquelas empresas na exportações da Marcopolo e desvendariam os artifícios utilizados para conferir aparência de legalidade a operações destinadas a subfaturar receitas e manter irregularmente em contas bancárias estrangeiras numerário que deveria ter sido internalizado no País. A expressão centrais de refaturamento teria origem no termo inglês reinvoincing centers e foi assim explicada no relato da fiscalização: ... são entidades ligadas direta ou indiretamente a uma “empresamãe” que busca reduzir sua carga tributária, estando quase invariavelmente localizadas em paraísos fiscais. O termo “refaturamento” decorre da sistemática inerente a esse forma de planejamento tributário. As Centrais de Refaturamento são introduzidas formalmente (embora raramente exerçam, de fato, qualquer operação) em transações de comércio internacional (importação ou exportação) e seu papel primordial é promover a emissão de uma segunda fatura por valor superior à original. [...] Há algumas características comuns às Centrais de Refaturamento. Normalmente, essas empresas são constituídas de direito, mas inexistentes de fato, e não apresentam qualquer corpo operacional efetivo (ou têm um corpo bastante reduzido para o volume de operações). Pela ausência de estrutura e em virtude de seu papel, as mercadorias por ela intermediadas são sempre remetidas diretamente para o país de destino final. Ainda, essas empresas não intermedeiam operações cujo país de destino (ou origem) seja o mesmo no qual estão localizadas, já que habitualmente esses casos seriam tributados, mesmo em alguns paraísos fiscais. Também consta a tradução de texto explicativo, com grifos dos autuantes (fl. 150): O que é Refaturamento? Refaturamento é o uso de uma corporação offshore para agir como uma intermediária entre uma empresa nacional e seus clientes no exterior. Os lucros dessa corporação intermediária e a operacionalização dos negócios no país permitem a transferência de parte ou de todo o lucro nas transações para a corporação offshore. Estruturas similares podem ser usadas pelo importador. Uso de refaturamento – exemplo Uma corporação em uma jurisdição com alta carga tributária vende $500.000 em produtos ou serviços para a Alemanha a cada ano. Digamos que o custo de produtos e despesas operacionais seja de $300.000. Assim, a empresa lucra $200.000 antes da tributação. Digamos que essa empresa estabeleça uma offshore para agir como intermediária. A empresa nacional vende seus produtos e serviços para a empresa offshore por, suponhamos, $320.000. A offshore imediatamente revende os produtos Fl. 32DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 4 4 e serviços para o cliente na Alemanha por $500.000, tendo um lucro de $180.000. Como offshore não paga tributos, os $180.000 são lucro líquido. A empresa exportadora, em jurisdição com alta carga tributária, apresenta lucro mínimo ($20.000). Os $180.000 de lucro, livres de tributação, podem ser depositados em uma conta bancária ou em outro investimento, de acordo com os interesses da empresa nacional. Como é o transporte da mercadoria? A mercadoria pode ser enviada diretamente para o cliente do exportador. O relatório assim apresentou, de forma didática, o fluxograma das operações simuladas: 1. Negociação com o importador final, e posterior venda (valor hipotético de R$ 115 mil); 2. Simulação da participação de uma das empresas controladas (MIC/ILMOT), escolhida de acordo com o interesse da Marcopolo. Entre os vários procedimentos que objetivam conferir uma aparência de legalidade à operação, podese citar a emissão de faturas pelo sujeito passivo para MIC/ILMOT (valor hipotético de R$ 100 mil) e concomitante emissão de faturas da MIC/ILMOT para o importador final (R$ 115 mil), embora, de fato, todas essas faturas tenham sido emitidas pela própria Marcopolo; e 3. Envio das mercadorias diretamente para o importador final, com a simulação de pedido de remessa por conta e ordem da empresa intermediária escolhida. Vários indícios levantados pelos autuantes objetam a existência fática das empresas intermediárias, mesmo que elas estivessem formalmente constituídas: Ø Relativamente à MIC: a) situada nas Ilhas Virgens Britânicas – paraíso fiscal onde é prometido sigilo e não há cobrança de impostos sobre a renda de empresas estrangeiras; onde estariam registradas mais de 700.000 empresas, em país com área de 153 Km2 e população de 23 mil habitantes em 2007 (a título de comparação, a Receita Federal registraria, no mesmo ano, em Caxias do Sul a existência de 35.600 empresas ativas regulares, sejam matrizes ou filiais, em município de 400 mil habitantes e área de 1.644 Km2); e onde há grande quantidade de firmas que oferecem serviços de criação de offshores, tais como a sucursal de empresa panamenha, Sucre & Sucre Trust Ltd.; b) documentos de desembaraço aduaneiro uruguaios relativos a exportações da Marcopolo em 1999 registram o domicílio da MIC com o mesmo endereço da Marcopolo S/A, em Caxias do Sul; c) para o propósito de comprovar a existência fática da MIC, a fiscalizada apresentou fatura de energia elétrica e recibo de pagamento de serviços telefônicos de 2006, nas quais constava a empresa Sucre & Sucre como usuária do serviço – no recibo telefônico, além do valor pago, não constava dados relevantes, como o tipo de serviço prestado, o número do telefone, o endereço da linha telefônica, a discriminação das ligações etc.; d) as explicações da contribuinte para a divergência entre o endereço da fatura de energia elétrica e o das faturas comerciais foram inconsistentes e apresentaram erros primários, demonstrando o desconhecimento pela contribuinte da estrutura postal da localidade; Fl. 33DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 5 5 e) há vaguidade na informação do endereço normalmente utilizado para localizar a MIC (faturas comerciais), não havendo citação de nome de logradouro, código postal ou número de edificação; f) não foi apresentada documentação que comprovasse e explicasse efetivamente a ligação entre as empresas MIC e Sucre & Sucre, relativamente ao fornecimento de bens de infraestrutura para atendimento de suas necessidades; g) segundo o sítio da internet, a Sucre & Sucre presta serviços de domicílio, linhas de telefone e fax, endereço eletrônico e emissão de faturas – outras empresas são até mais explícitas na internet, oferecendo a criação de companhias offshores para fazer refaturamento, providenciando serviços de caixa postal, telex, telefone e fax para uso da companhia offshore; h) inexiste sítio da MIC na internet – investimento justificado para o porte dos negócios formalizados; e i) embora o faturamento anual da MIC em 2000 tenha sido de aproximadamente US$ 13,7 milhões, por vendas para Trinidad e Tobago, África do Sul, Barbados, Uruguai, Moçambique e Costa Rica, entre outros países, os únicos salários pagos foram os de quatro sóciosgerentes da Marcopolo S.A. Ø Relativamente à Ilmot: a) foi criada no Uruguai, onde as sociedades anônimas financeiras de investimentos (Safi) gozam de tratamento fiscal privilegiado; b) as faturas de energia elétrica e de serviços telefônicos de 2006 apresentadas para justificar a existência da empresa registravam a empresa KPMG Uruguay como usuária dos serviços, esta que, segundo a autuada, seria locadora o espaço para Consadi Asociados Asesoramiento Empresarial; c) nenhum documento apresentado pela fiscalizada – inclusive o recibo de pagamento de uma fatura paga em 2000, referente a serviços administrativo contábeis prestados em 1999 – foi hábil para comprovar e explicar a efetiva ligação entre as empresas Ilmot e Consadi Asociados, relativamente ao fornecimento de bens de infraestrutura para atendimento de suas necessidades; d) a análise de fatura telefônica apresentada, mesmo que de um período em que a contribuinte já estava sob fiscalização, estabelece forte indício de que o serviço de telefonia não era utilizado para o atendimento das necessidades da Ilmot, já que não há registro de contato com a Marcopolo no Brasil ou com importadores finais; e e) haveria incongruência entre o faturamento da Ilmot e a estrutura da empresa, segundo a documentação apresentada, como exemplificado por ausência de sítio na internet da Ilmot e Consadi Asociados, reduzida quantidade de ligações internacionais na fatura de telefonia apresentada e ausência de comprovação de contatos com os compradores finais. Relativamente a ambas empresas externas: a) as controladas não tinham estrutura adequada para promover vendas no exterior, estabelecer contato com compradores finais, supervisionar ou fornecer assistência técnica, entre outros, para os quais de se comprometeram contratualmente a fornecer; b) a justificativa da vantagem geográfica das empresas é desmentida pelo fato de somente a MIC haver vendido para o Uruguai, onde está instalada a Ilmot – o contrassenso poderia ser justificado apenas pela manutenção do ganho fiscal; Fl. 34DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 6 6 c) o único contrato apresentado para comprovar a formalização de vendas a compradores finais (exportação de carrocerias para Bidayah Intertrade FZE, dos Emirados Árabes Unidos, outro paraíso fiscal) não guarda relação direta com as operações investigadas e é pouco para firmar a tese da contribuinte relativamente à atuação das empresas estrangeiras, considerandose as elevadas cifras de vendas formais das duas empresas; d) a pequena amostra e a simplicidade dos pedidos eletrônicos apresentados para comprovar as compras das intermediárias junto à Marcopolo (fls. 474/477) pouco valor tiveram como prova em favor da contribuinte diante dos indícios apontando para a simulação – os pedidos poderiam ter sido formalizados até mesmo após o início do procedimento fiscal; e) as cartas de crédito dos importadores finais em favor de MIC/Ilmot e as transferências de numerário também não servem de prova para estabelecer a efetiva participação dessas empresas nas operações, e ainda constituem parte da mecânica da simulação; f) os financiamentos obtidos pelas intermediárias apresentam a Marcopolo na figura de garantidora; g) o volume significativo de cópias de pedidos de importação originários da Polomex S.A., empresa mexicana controlada pela Marcopolo, não é suficiente para comprovar a efetiva ligação entre as intermediárias e os importadores finais, nem afastar a simulação, já que não foram apresentados documentos relativos a outras empresas, apesar de solicitados; h) os contratos firmados entre Marcopolo e MIC/Ilmot agregamse aos diversos mecanismos direcionados a conferir aparência de legalidade a operações inexistentes; i) todos os documentos da MIC e Ilmot são emitidos em Caxias do Sul e assinados por funcionários da Marcopolo, mandatários de suas centrais de refaturamento que não recebem remuneração destas, mas somente da autuada; j) há imensa semelhança entre as faturas comerciais emitidas pela Marcopolo e pela MIC e Ilmot; k) o argumento de que MIC e Ilmot seriam fundamentais para a manutenção e conquista do mercado externo não condiz com os documentos apresentados pela autuada para comprovar as vendas das intermediárias pois existem vínculos societários entre a Marcopolo e os supostos adquirentes (Polomex, Marcopolo South Africa e Brasa); e l) o fato de o gestor comercial das empresas externas, Rafael Adauto da Costa, ser empregado da Marcopolo evidencia a estreita relação de independência operacional e gerencial das intermediárias com a autuada. O relatório fiscal destaca também o conteúdo dos contratos de prestação de serviços formalizados entre a Marcopolo e suas controladas MIC e Ilmot, segundo os quais estas seriam responsáveis, no exterior, pela distribuição oficial (compra e revenda de produtos de fabricação da Marcopolo) e representação comercial (agenciamento de vendas), além de: manutenção própria ou por subcontratados de escritórios equipados com telefone, telex, máquinas, móveis, funcionários qualificados, etc.; remessa de informações detalhadas sobre os negócios, clientes visitados e situação de mercado; manutenção de técnico ou preposto para desempenharem os serviços de pósvenda; dentre outros deveres. Fl. 35DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 7 7 A omissão de receita apurada em cada operação de exportação (vinculada a uma DDE) foi obtida pela diferença entre o valor da fatura emitida pela empresa intermediária no exterior para o importador final e o valor da fatura emitida pela Marcopolo para a MIC/Ilmot, excluída parcela de drawback, se houvesse. Os resultados, apurados em dólares, foram convertidos para reais pela taxa de compra fixada pelo boletim de abertura do Banco Central do Brasil, vigente na data da averbação dos produtos (confirmação da saída da mercadoria do país). No caso de operações amparadas no Protocolo ICMS 10/94, que permite a exportação de chassis de ônibus com trânsito pela indústria de carroceria, observouse que o valor da fatura da MIC/Ilmot, informado pela Marcopolo, já expurgava o valor do chassis. A diferença de preço omitido ao fisco federal, além de ser considerada receita operacional omitida – evadida do País e empregada a terceira pessoa, sem registro contábil ou fiscal na Marcopolo –, foi considerada como pagamento sem causa, razão pela foi lançado IRRF exclusivamente na fonte sobre base de cálculo reajustada. A fiscalização entendeu não adequarse o mecanismo dos preços de transferência alegando porque ele teria por pressuposto a ocorrência efetiva das operações de exportação ou importação, o que não teria ocorrido no caso. Os resultados auferidos pela MIC e Ilmot não vêm sendo tributados. Uma das razões para a esquiva tributação, segundo a fiscalização, é a inexistência de órgão que assegure as informações originárias das duas empresas externas. Até a quando era prevista a tributação dos lucros distribuídos, os estatutos da MIC agregavam, por exemplo, a possibilidade de criação de fundo de reserva, antes mesmo da apuração dos dividendos – o que poderia afastar parcela de lucro tributável – com a faculdade de reincorporação de dividendos não solicitados por 3 anos. Com a vigência da Medida Provisória nº 215835, de 24/08/2001, quando a tributação dos lucros independeria da distribuição efetiva, coincidentemente, em 2001 houve um vultoso prejuízo, fato que se repetiu em 2002, com total de prejuízos acumulados que até 2004 não haviam sido revertidos. Foi aplicada a multa qualificada de 150%, então prevista no art. 44, II, da Lei nº 9.460/96, por identificação de fraude nas operações. A intimação dos autos de infração ocorreu em 12/12/2008 (fl. 173) e as impugnações foram apresentadas em 09/01/2009 (fls. 902/1000, 2075/2174 e 2198/2294), sendolhes agregados diversos documentos para fazer prova e para respaldar suas alegações. Dentre os registros informativos, destacamse: (...) Finalmente, a impugnante ainda protesta pela posterior juntada de documentos, em especial de parecer elaborado por empresa de auditoria independente, comprobatório das despesas incorridas e suportadas pelas empresas no exterior. Aproveita para disponibilizar ao fisco toda a apuração de resultados das empresas controladas no exterior, a fim de que este ateste a legitimidade dos prejuízos lá auferidos. A decisão recorrida está assim ementada: DECADÊNCIA. O direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extinguese após cinco anos, contados do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. SIMULAÇÃO. Comprovada a simulação, cabe à fazenda pública desconsiderar os efeitos dos atos viciados, para que se operem consequências no plano da eficácia Fl. 36DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 8 8 tributária, independentemente de prévia manifestação judicial a respeito da validade do ato viciado ou de as operações estarem sujeitas a outras regras legais de controle tributário, por envolver empresas sediadas em países com regimes tributários favorecidos. OMISSÃO DE RECEITAS. BASE DE CÁLCULO. Verificada a omissão de receita, a autoridade tributária determinará o valor do imposto a ser lançado de acordo com o regime de tributação a que estiver submetida a pessoa jurídica. A fiscalização não está obrigada a perseguir despesas não contabilizadas para considerálas na formação da base de cálculo do IRPJ e CSLL, mormente se o contribuinte foi o artífice da omissão de receitas. OMISSÃO DE RECEITAS. CONSIDERAÇÃO DAS DESPESAS DE TERCEIROS. Além de ofender o princípio contábil da entidade, a consideração das despesas efetuadas por terceiros participantes da simulação não encontra abrigo quando os valores e respectivos comprovantes estão indisponíveis à apreciação do agente fiscal. INCENTIVOS FISCAIS. A omissão de receitas pode demandar o recálculo dos incentivos fiscais desde que atendidos requisitos específicos da legislação, admissibilidade do recálculo, obediência aos limites e comprovação das despesas. IMPOSTO DE RENDA NA FONTE. OPERAÇÃO OU SUA CAUSA NÃO COMPROVADA. Todo pagamento efetuado pelas pessoas jurídicas cuja operação ou sua causa não for comprovada está sujeito à incidência de IRRF, exclusivamente na fonte, à alíquota de 35%, cabendo reajustamento do respectivo rendimento bruto. MULTA QUALIFICADA. EXIGIBILIDADE. Mantémse a multa qualificada de 150%, estando configurado o intuito de fraude na simulação, utilizada para redução de tributos devidos. REFLEXOS: CSLL e IRRF. As considerações deduzidas para o IRPJ estendemse aos demais tributos quanto à coincidência de causas. Lançamento Procedente. Cientificada da aludida decisão, a contribuinte apresentou recurso voluntário, no qual contesta as conclusões do acórdão recorrido, repisa as alegações da peça impugnatória e, ao final, requer o provimento. A síntese das alegações recursais encontrase no memorial apresentado pela contribuinte a seguir transcrito: (...) Entendeu a fiscalização tratarse de simulação, sob o argumento de que as vendas dos produtos da Recorrente no exterior, realizadas por suas empresas controladas Marcopolo International Corporation MIC e Ilmot International Corporation S.A Ilmot , teriam ocorrido apenas no plano formal, de forma que teria havido em realidade vendas diretas da Recorrente para clientes situados no exterior. Devidamente impugnados, os Autos de Infração lavrados foram julgados pela Delegacia de Julgamento de Fl. 37DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 9 9 Porto Alegre, que julgou procedente o lançamento, mantendo o crédito tributário exigido Contudo, conforme passará a demonstrar, os Autos de Infração mantidos não podem prosperar uma vez que: o processo de fiscalização não buscou a verificação da efetiva ocorrência no ano de 2003 da alegada simulação supostamente perpetrada pela Recorrente, pautando suas conclusões em indícios e documentos referentes aos fatos ocorridos nos anos de 1999 e 2000 (processos 11020.003966/200508, 11020.003967/200544, 11020.004103/200621). não houve simulação, uma vez que todas as operações efetivamente ocorreram da forma como declaradas, produzindo os efeitos jurídicos a elas inerentes, estando devidamente comprovadas, conforme documentos acostado aos autos; está comprovado nos autos a execução material das operações de revenda praticadas pelas empresas MIC e Ilmot; ainda que se admitisse a desconsideração das operações, tal desconsideração não poderia ser parcial, sem considerar os custos e despesas relacionados às operações, sob pena de nulidade do lançamento; a Recorrente observou as regras de preço de transferência e tributação de lucros de controladas situadas no exterior, o que, pela natureza antielisiva dessa legislação, afasta qualquer acusação de manipulação dos preços nessas operações; não houve omissão de receitas, visto que todas as receitas estão devidamente registradas e declaradas; nesse mesmo sentido, ainda que fosse possível admitir a desconsideração no presente caso, imprescindível o afastamento da multa qualificada de 150%, visto que ausente o comportamento doloso por parte da Recorrente. Da mesma forma, nos termos do art. 100 do CTN, a convivência por anos das autoridades com as operações em tela, também corrobora a necessidade de afastamento de penalidades contra a Recorrente; nos termos do art. 146 do CTN, a mudança nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa no exercício do lançamento tributário somente pode alcançar fatos geradores futuros, jamais podendo retroagir à situações pretéritas, ainda mais para a aplicação de multa qualificada de 150%; por fim, igualmente absurdo o lançamento de IRRF, uma vez que não verificada a ocorrência do seu critério material de incidência, já que a Recorrente não realizou qualquer pagamento para suas controladas. Vejamos. I DA NÃO OCORRÊNCIA DE FISCALIZAÇÃO PARA O ANO DE 2003 É de crucial importância deixar claro que, novamente, o processo de fiscalização que culminou na lavratura dos autos de infração ora combatidos, não buscou a verificação da efetiva ocorrência no ano de 2003 da alegada simulação imputada à Recorrente, violando a tipicidade cerrada, valendose do que chamou de indícios de simulação em outros anos, em patente afronta ao artigo 142 do CTN. Isso porque, equivocadamente, entendeu a fiscalização que as operações de exportação da Recorrente para suas empresas controladas no exterior MIC e Ilmot e a revenda destas para seus clientes teriam ocorrido nos exatos termos daquelas originalmente fiscalizadas, relativas aos anos 1999 e 2000. Fl. 38DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 10 10 Assim, tendo sido constatadas supostas irregularidades nas exportações e revendas nos anos de 1999 e 2000, concluiu que no ano de 2003, também teriam ocorrido as mesmas irregularidades. Por esta razão, para o ano de 2003, à exceção das planilhas preenchidas pela própria Recorrente, as faturas e DDE's entregues, nenhum outro documento foi analisado relativo à execução material das operações do ano autuado. Todo o conjunto indiciário apontado pela fiscalização como indicativo da suposta simulação ocorrida nas operações de 2003 referese aos originalmente fiscalizados, ou seja, não há provas ou indícios de que haveria irregularidades nas exportações e revendas que motivaram a lavratura dos autos de infração em debate. Neste sentido, por oportuno, vale lembrar que este egrégio Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, em outras ocasiões, como a colacionada abaixo, por unanimidade, já concluiu que a prova por presunção é tida como precária quando apenas se apóia na experiência dos casos anteriores: "Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Exercício: 1998, 1999 PREÇO, DE TRANSFERÊNCIA. MÉTODO DE CÁLCULO MAIS FAVORÁVEL. Não h prioridade de aplicação dos três métodos de preços de transferência que servem d parâmetro para o estabelecimento de custos de importação. Recai sobre contribuinte o ônus de evidenciar, por um ou por mais de um desses métodos, a su regularidade fiscal. Já o Fisco pode apurar o valor base do arbitramento do cust parâmetro por apenas um dos métodos existentes e, nessa hipótese, não há falar n adoção do método mais favorável ao contribuinte. APLICAÇÃO RETROATIVA D PREÇOS PRATICADOS POR PESSOAS NÃO VINCULADAS PARA FINS D COMPARAÇÃO. A legislação de preços de transferência autoriza a aplicação de um* presunção relativa (juris tantum) para fins de arbitramento do custo da importação desde que se comprove o excesso de custo pela comparação com preços praticado por pessoas independentes ou apurados por meio da utilização de margens fixas d lucro. Essa regra antielisiva pode ser infirmada por ocorrências específicas representadas por fatos que fujam ao padrão estabelecido pela experiência, tanto qu a legislação autoriza a desconsideração da margem fixa se evidenciada regularidade da operação pela comparação com outras similares realizadas po terceiros independentes (método PIC). Por ser uma presunção legal, a comprovação do excesso de custo pelo Fisco deve ser cercada de maior rigor. Não é possível t comprovação do fato indiciário pelo emprego de dupla presunção. Inválida i autuação que se baseia em importações realizadas em 2001 para comparaçãi com operações de 1997 e 1998. A adoção da taxa de câmbio como única variáve importante nesse cálculo não empresta segurança necessária a comparação de preço de importação em anos anteriores. Recurso especial negado. ". (Número do Processo 16327.003124/200274. CSRF/0106.014, Rel. Cons. Marco Vinicius Neder, Pres. Antonio Praga). Veja que o presente caso é ainda mais grave, visto tratarse de acusação de ilícito fiscal, em que a irregularidade há que ser demonstrada veementemente pela autoridade fiscal. Contudo, todo o processo fiscalizatório que culminou na presente autuação resumiuse na análise de faturas comerciais, DDEs e uma planilha preenchida pela própria Recorrente. Não houve a preocupação fiscal de fundamentar suas conclusões com um único documento ou elemento indiciário relativo ao ano de 2003, limitandose a copiar os fundamentos e supostos elementos de prova amealhados nos primeiros anos de Fl. 39DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 11 11 fiscalização, sem sequer darse ao trabalho de verificar se seriam válidos para o ano fiscalizado. Tratase, pois, de uma presunção de irregularidade totalmente contrária a todo e qualquer princípio ou regra que deve nortear a atividade administrativa de lançamento tributário, especialmente envolvendo uma acusação de tamanha gravidade como a existência de um ilícito tributário, o que, em situações muito menos gravosas, tal como acima transcrito, já foi rechaçada por esse E. Conselho. Ademais, conforme veremos a seguir, a Recorrente trouxe aos autos provas contundentes da regularidade das operações praticadas nos anos de 2003, que, também, ao arrepio da legislação pátria, foram solenemente ignoradas pela decisão de primeiro grau. II DA AUSÊNCIA DE SIMULAÇÃO De acordo com a decisão de primeiro grau, o "esquema geral da simulação" (fls. 3142) identificado pela autoridade fiscal consistiria nas seguintes etapas: a) Clientes entrariam em contato com a Recorrente em Caxias do Sul BR; b) Após negociações comerciais com a Recorrente, introduziase uma de suas controladas offshore MIC ou Ilmot; c) Por meio de uma série de operações, simulavase a participação das empresas controladas no exterior nas revendas para clientes; d) A documentação correspondente às operações era expedida e assinada pela Recorrente; e) Os clientes pagariam às empresas controladas, que repassariam apenas parte dos valores para a Recorrente; Por sua vez, os seguintes indícios foram apontados na decisão como determinantes para a conclusão acerca da existência de simulação: a) As empresas controladas no exterior estariam localizadas em paraísos fiscais BVI e Uruguai; b) Não haveria evidências da participação das controladas nas operações de revenda; c) As empresas controladas não possuiriam estabelecimentos e empregados condizentes com o volume de operações praticadas; d) Os documentos correspondentes às revendas realizadas pelas controladas seriam expedidos e assinados por empregados da Recorrente em Caxias do Sul BR. Vejamos, pois, as razões pelas quais a Recorrente reafirma que a acusação de simulação apontada no ano de 2003 é absolutamente destituída de comprovação e, por outro lado, as provas trazidas aos autos, porém, ignoradas pela decisão de primeiro grau, que demonstram a correção das vendas realizadas pela Recorrente e suas controladas. III DA COMPROVAÇÃO DAS OPERAÇÕES PRATICADAS Conforme mencionado, a primeira etapa da suposta simulação praticada consistiria no contato de clientes localizados no exterior com a Recorrente (Marcopolo S.A.), com a conseqüente negociação comercial sobre as condições de venda das carrocerias de ônibus. Fl. 40DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 12 12 Importante notar que, desde já, nenhuma prova ou indício é apontado pela fiscalização ou pela decisão de primeiro grau como motivador da conclusão de que os clientes situados no exterior entravam em contato e negociavam diretamente com a Recorrente a venda das carrocerias. Repitase, ao longo dos cinco anos em que a Recorrente vem sendo fiscalizada acerca da presente operação, em nenhum momento qualquer indício documentos, evidência de ligações telefônicas, correspondências, mensagens eletrônicas, etc... foi trazido pela fiscalização para demonstrar a primeira etapa da simulação por ela apontada, qual seja, o contato com clientes situados no exterior com a Recorrente. E não há indícios ou provas desse contato, por mais óbvio que pareça, porque, simplesmente, os clientes situados no exterior NÃO ENTRAM EM CONTATO OU NEGOCIAM DIRETAMENTE COM A RECORRENTE, mas sim com representantes comerciais situados em países diversos, contratados (doc. 01 fls. 1262 a 1285 dos autos), geridos e comissionados (doc. 02 fls. 1516 a 1519 dos autos) pelas empresas MIC e Ilmot. Notem que as atividades exercidas pelas empresas MIC e Ilmot consistiam basicamente na gestão dessa rede de representantes comerciais situados em diversos países, responsáveis pela prospecção e o contato direto com os clientes, gestão financeira para a captação de financiamentos no exterior e gestão da assistência técnica e garantia dos produtos fabricados pela Recorrente. Essas atividades de gestão, obviamente, não demandam o uso intensivo de mãode obra ou o uso de uma estrutura operacional complexa, mas apenas e tão somente a capacidade laboral de um gestor e um escritório com funcionalidades básicas (linha telefônica, fax, email, computador e secretária). Nesse sentido, restou comprovado pela Recorrente que, no ano de 2003, tal atividade de gestão era exercida pelo Sr. Rafael Adauto, que possuía à sua disposição a estrutura operacional necessária para o exercício de suas atividades. Acerca da comprovação da atividade de gestão comercial da rede de representantes comerciais das empresas MIC e Ilmot, gestão financeira, assistência técnica e garantia dos produtos fabricados pela Recorrente, ou seja, da execução material das operações de revenda praticadas, foram trazidos aos autos os seguintes documentos: Contas telefônicas com o detalhamento das ligações realizadas e recebidas para diversos clientes, representantes comerciais e para a Recorrente, bem como emails (doc. 03 fls. 1081 a 1084; 1153 a 1156; 1328 a 1341); Comprovantes de despesas de viagens para visitas comerciais a clientes e representantes comerciais (doc. 04 fls. 1157 a 1175); Comprovantes de despesas de assistência técnica e garantia dos produtos Marcopolo (doc. 05 fls. 1571 e seguintes); Vale mencionar que a decisão de primeiro grau, apesar de reconhecer a participação do Sr. Rafael Adauto como gestor das empresas MIC e Ilmot3 (fls. 2361v), afasta a pertinência da documentação trazida sob o argumento de que não teria restado demonstrada a relação direta entre as despesas e as exportações fiscalizadas, além do fato de que referido gestor possuía vínculo empregatício com a Marcopolo no período e, assim, entendeu a r. decisão recorrida que Rafael Adauto era, na verdade, empregado da Marcopolo e não de suas controladas. Vejam, contudo, que essas singelas justificativas não são suficientes para afastar a robustez das provas de execução material das atividades de negociação comercial e Fl. 41DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 13 13 revenda exercidas pelas empresas MIC e Ilmot por meio de seu gestor Rafael Adauto. Isso porque os comprovantes de despesas com viagens comerciais, contatos e correspondências com clientes e representantes resultaram sim nas vendas realizadas pelas empresas MIC e Ilmot e, por conseqüência, nas exportações realizadas pela Recorrente. A esse respeito, impende mencionar apenas como exemplo, os comprovantes de ligações e viagens para os representantes e clientes, que resultaram na venda e exportação das carrocerias nos anos fiscalizados. Veja que a partir das fls. 1912 encontramse juntados os comprovantes das despesas da viagem do Sr. Rafael Adauto à Costa Rica, com atenção especial para as instalações da ZUZU, bem como os emails para os representantes da Zuzu tratando dos próximos passos após a visita (doc. 06). Registrese que no documento ora anexado, a representante comercial enviou, em 19.09.2003, após receber solicitação formal do cliente, uma cotação para a venda de uma carroceria modelo Torino, montada sob chassi Mercedes Benz, que acabou sendo faturada em 2003. Assim, como se vê pela leitura dos emails acima citados, bem como por todas as demais correspondências comerciais constantes nos autos, há efetiva participação da MIC e seu gestor comercial na negociação e efetivação das vendas realizadas com os clientes finais, tratando sobre preços, prazos de entrega, defeitos e falhas nas carrocerias, etc. Da mesma forma, quanto à assertiva de que o gestor comercial da MIC e da ILMOT possuía vínculo empregatício com a Marcopolo no período também é importante tecer algumas considerações: Com efeito, através do contrato de trabalho firmado entre Rafael Adauto e MIC e ILMOT (Contrato de Locación de Servicios doc. 07), firmado em fevereiro de 2002, resta claro que o Sr. Rafael foi contratado por essas empresas para realizar a gestão comercial dessas no exterior em relação aos bens comprados da Marcopolo e que seriam revendidos no mercado externo, e em especial para a execução dos serviços de supervisão dos representantes comerciais, consoante se verifica da cláusula 2 do dito contrato: Servicios de gestión comercial a las contratantes em mercados de ómnibus y carrocerias para ómnibus, representados por el desarrollo y captación de nuevos mercados y mantenimiento de la cartera de clientes. De forma adicional, se incluyen los servicios de asesoramiento y supervisión de los representantes comerciais y actos complementarios de gestión a los mercados em los cuales las Contratantes actúan, como, por ejemplo, de análisis de mercado, asistencia a negocios de postventas, seguimiento de procesos licitatorios, etc. Pois bem, como se pode ver da documentação anexa (doc. 07), o Sr. Rafael Adauto era contratado pela MIC e ILMOT, sendo que delas recebeu remuneração no período em que exerceu suas funções de gestor das empresas no exterior. Nesse tocante, importante abrir parênteses para explicar a forma de remuneração, para que não haja dúvidas de que havia uma contraprestação arcada pelas empresas localizadas no exterior pelos serviços prestados. Explicase: o Sr. Rafael Adauto foi expatriado para atuar como gestor comercial da MIC e ILMOT. Por questões logísticas, decidiuse que seria mais interessante que o mesmo residisse nos EUA, mais especificamente na Flórida, e, assim, para facilitar a Fl. 42DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 14 14 obtenção do visto de trabalho junto ao governo americano, optouse por criar uma subsidiária integral da MIC com sede no solo americano (Marcopolo of America Inc.) que seria a contratante direta do referido senhor, que, como visto, foi expatriado para a prestação de serviços à MIC e ILMOT. Dessa forma, mensalmente, MIC ou ILMOT remetiam valores à conta da Marcopolo of America, valores estes correspondentes às despesas de manutenção do escritório e remuneração do Sr. Rafael Adauto. Assim, verificase que mensalmente o Sr. Rafael Adauto recebia seu salário (aproximadamente US$ 6.000,00) transferido da conta da Marcopolo of America, que tinha como origem transferência anteriormente recebida de MIC e ILMOT que eram quem efetivamente respondiam pelo salário de seu gestor. Tudo isso fica comprovado se analisarmos, por exemplo, os extratos bancários da Marcopolo of America do ano de 2003, combinados com os contracheques (payroll by paycheck) do Sr. Rafael Adauto naquele período. Assim, não resta dúvida que, mensalmente, MIC e ILMOT transferiam à conta da Marcopolo of America a quantia suficiente para o pagamento de seu salário, além de outros valores que diziam respeito à manutenção do escritório americano. Como se pode ver, o contrato de trabalho assinado entre o Sr. Rafael Adauto e MIC e ILMOT, aliado com os comprovantes de pagamento de sua remuneração pelas empresas localizadas em BVI e no Uruguai, não deixam margem a qualquer dúvida de que este senhor era contratado das empresas offshore, mesmo que ainda mantivesse seu vínculo empregatício com a Marcopolo. Ademais, a manutenção do vínculo fez parte do acordo de transferência do Sr. Rafael Adauto para os Estados Unidos da América, tendo sido acertado que a Recorrente teria de dar continuidade ao pagamento das contribuições previdenciárias do gestor comercial ao Instituto Nacional da Seguridade Social (INSS). Salientese que tais razões são completamente irrelevantes para a caracterização da efetiva execução material das operações de exportação em comento. Veja que o Sr. Rafael Adauto, não só representava do ponto de vista legal as empresas MIC e ILMOT, agindo em nome dessas no pagamento de comissões à representantes comerciais, na obtenção de financiamentos bancários e outras atividades, mas principalmente para o que interessa à presente discussão, apresentavase e relacionavase com clientes e representantes comerciais no exterior em nome das empresas MIC e ILMOT. Assim, independentemente da manutenção do vínculo empregatício no Brasil com a Recorrente, no período em que esteve no exterior, representou e agiu em nome das empresas MIC e ILMOT, relacionandose comercialmente com clientes e representantes em nome delas e não em nome da Recorrente, conforme demonstram os inúmeros documentos trazidos aos autos. IV DEMAIS INDÍCIOS APONTADOS PELA FISCALIZAÇÃO Como mencionado, além da suposta falta de comprovação da execução material das operações de revenda pelas empresas MIC e Ilmot, cujas provas já foram tratadas no tópico anterior, a decisão recorrida ainda arrola alguns indícios de simulação que motivaram a manutenção dos Autos de Infração, quais sejam, as empresas controladas no exterior estariam localizadas em paraísos fiscais BVI e Uruguai; as empresas controladas não possuiriam estabelecimentos e funcionários condizentes com o volume de operações praticadas; os documentos correspondentes às revendas Fl. 43DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 15 15 realizadas pelas controladas seriam expedidos e assinados por funcionários da Recorrente em Caxias do Sul Br. Acerca do fato das empresas MIC e Ilmot estarem situadas em países com tributação favorecida BVI e Uruguai a Recorrente, apoiandose em seu direito de escolha, elegeu as localidades que lhe melhor convinha para a consecução de seus objetivos4. Veja que a localização dessas empresas, em países com tributação favorecida, no máximo, poderia indicar uma motivação de economia fiscal pela Recorrente, o que não é, contudo, indicativo de irregularidade ou simulação de operações de revenda, especialmente quando tais operações e a participação dessas empresas restaram cabalmente evidenciadas. Da mesma forma, o fato estrutura física dos estabelecimentos das empresas MIC e Ilmot resumiremse a uma sala locada com equipamento básicos de escritório e funcionários administrativos terceirizados (cuja existência, além de não contestada, restou comprovada por meio de certidões notariais fls. 2009 e seguintes), tampouco representa um indicativo de que tais empresas não executaram as atividades pelas quais são responsáveis. Com efeito, tal como mencionado, as atividades exercidas por tais empresas fundamentalmente referemse à atividades de gestão comercial de seus representantes comerciais, gestão financeira e gestão da assistência técnica e garantia. Essas atividades fim, como já ressaltado, prescindem da utilização intensiva de mão deobra ou de complexa estrutura física, bastando para sua execução uma estrutura operacional mínima que possibilite o contato com clientes, representantes comerciais, oficinas mecânicas e agentes financeiros, especialmente quando, como no presente caso, parte das atividades meio administrativas e de suporte eram realizadas por outras empresas do grupo. Aliás, se considerado o total dos representantes comerciais e oficinas credenciadas que são contratados pelas empresas MIC e Ilmot, o número de pessoas e recursos envolvidos nas operações praticadas por essas empresas multiplicase exponencialmente, chegando a aproximadamente trezentos funcionários. Assim, não é espantoso, como quer fazer crer a decisão recorrida, a disparidade entre essa estrutura e o volume de operações realizadas, visto que foi exatamente ela que levou à expansão internacional do grupo Marcopolo. Por fim, em relação ao fato dos documentos de venda das empresas MIC e Ilmot para clientes serem expedidos e assinados por funcionários da Recorrente localizados em Caxias do Sul RS, importa dizer que, dentro de um contexto de grupo empresarial, não havia outra forma de operacionalizar a entrega das mercadorias revendidas sem que tais documentos acompanhassem as mercadorias desde sua fabricação do Brasil. Vejam que o que é trazido pela decisão como um grande indício da simulação é a existência de funcionários da Recorrente que, mediante procuração e sem receber remuneração das empresas MIC e ILMOT, tinham poderes para atuar perante portos, aeroportos nas atividades de desembaraço aduaneiro, obtenção de documentação de exportação e transporte e embarque de mercadorias. Ora, a Recorrente sempre afirmou que determinado documentos aduaneiros, por exigência da própria legislação aduaneira e comercial, eram impressos e assinados por procuradores das empresas MIC e ILMOT no Brasil, o que, aliás, encontravase devidamente previsto nos contratos de agenciamento e distribuição firmados, muito Fl. 44DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 16 16 antes de qualquer procedimento de fiscalização, entre a Impugnante e a MIC e a ILMOT. Não há qualquer vedação legal ou indício de simulação nisso, pelo contrário, visto que sem tais documentos não seria possível se realizar as remessas por conta e ordem de terceiros, tal como ocorrido no presente caso. Vale ressaltar, inclusive, que terceiros, escritórios contratados, despachantes aduaneiros, poderiam imprimir e assinar (mediante procuração) os mesmos documentos em nome das empresas no exterior, o que, por obviedade e economia de custos, não foi realizado. Dessa forma, a Recorrente demonstra que não há qualquer irregularidade nas exportações e revendas objeto dos Autos de Infração ora discutidos, estando comprovado nos autos a execução material e participação das empresas MIC e Ilmot, de forma que deve ser afastado qualquer acusação de simulação nas operações em tela. V DO CRITÉRIO ERRÔNEO DO CÁLCULO É preciso mencionar, ainda, que, mesmo que superado todos os argumentos acima expostos, e admitida a acusação de planejamento fiscal irregular, ainda sim, os Autos de Infrações lavrados não merecem prosperar visto que o suposto crédito tributário foi calculado sem qualquer critério estabelecido em lei e sem considerar os custos incorridos e as despesas efetuadas pela MIC e Ilmot nas operações "desconsideradas". Com efeito, se entende a fiscalização que as receitas supostamente omitidas são em realidade auferidas pela Recorrente, da mesma forma deveria considerar que todos os custos e despesas relacionadas também são da Recorrente, ou seja, se é para se desconsiderar as operações, imprescindível que se faça por inteiro, realizando o cálculo do crédito tributário com base na real materialidade do tributo em tela, isto é, apurando o eventual lucro dessa "operação", nos termos em que apontado nos laudos emitidos pela KPMG Assurance Services Ltda. acerca das despesas relacionadas com transações de compra e venda de carrocerias e chassis de ônibus no mercado internacional (doc. 08). Aliás, de crucial importância é a menção de julgado proferido pelo E. Conselho de Contribuintes, o qual, muito embora tratando de tradings interposta no país, determinou, além da descaracterização da simulação, a imputação dos custos no cálculo fiscal relativamente às receitas omitidas . Nesse mesmo sentido, na sessão de abril de 2008, a 1a Turma da CSRF confirmou decisão da 1a Câmara (sessão de 15.06.2005) relativamente à empresa MLSP Comércio e Participações Ltda. (processo 11080.007081/200212), justamente para reafirmar que no caso de desconsideração de operação, em razão de planejamento fiscal irregular, há que se desconsiderar completamente os efeitos da operação irregular, tributandose a operação subjacente, sob pena de nulidade do auto de infração. VI DA MULTA AGRAVADA Por fim, não se pode deixar de repisar que o intuito doloso é prérequisito para a aplicação da multa de 150%. Entretanto, no caso em análise não há dolo e não houve sequer tentativa de impedir o conhecimento dos atos praticados, dada a evidência como eles se externaram publicamente e na contabilidade, bem como foram dados ao direto Fl. 45DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 17 17 conhecimento da fiscalização, razão pela qual não há como se aplicar a multa agravada. Ora, no presente caso, se sequer a hipótese de simulação pode ser alegada, como demonstrado à exaustão nas linhas acima, com muito maior razão, a hipótese de evidente intuito de fraude deve ser afastada, com o conseqüente afastamento da multa agravada de 150%. Ademais, não se pode deixar de mencionar que o evidente intuito de fraude resta inexoravelmente descaracterizado quando a conduta do contribuinte, à época dos fatos, afiguravase para ele sob o manto da licitude e amparo do direito. Isto é, num esforço de imaginação, caso desconsiderado tudo o quanto demonstrado pela Recorrente, é certo que se tratando de erro de proibição não tem cabimento a multa agravada. Esse entendimento vem sendo seguido pelos mais recentes julgados deste E. CARF . Até como forma de corroborar a completa ausência de intuito doloso em burlar qualquer norma tributária por parte da Recorrente, cumpre trazer à colocação a disposição da novel Instrução Normativa n° 1.154/2011 (artigo 11, §4°, II), editada para regulamentar as disposições da também recente Lei n. 12.249/10, que trouxe pela primeira vez em nosso ordenamento os conceitos de "capacidade operacional" e "efetivo beneficiário" como requisitos para a validação de operações realizadas com pessoas jurídicas situadas em países com tributação favorecida. Notese que, além de apenas a partir do ano de 2010 ter sido introduzido dispositivo legal que demande a comprovação de requisitos reclamados pela fiscalização no ano de 2003 para a validação das operações de empresas situadas em países com tributação favorecida, a própria IN 1.154/11 dispensa da comprovação desses novos requisitos operações realizadas com empresas coligadas e controladas sujeitas à disponibilização automática dos lucros nos termos do artigo 74 da MP n° 2.158/2001. Veja que, se somente agora, a partir do ano de 2010, há previsão legal acerca da exigibilidade de requisitos empresariais tais como "capacidade operacional" para a validade de operações realizadas por empresas situadas em países com tributação favorecida, é certo que no ano de 2003 a discussão sobre a necessidade de uma estrutura operacional robusta era deveras incipiente. Assim, ainda que se considere que a Recorrente teria planejado irregularmente suas operações, não se pode atribuir a ela qualquer intuito doloso de evadir receitas tributárias, especialmente porque, como já mencionado, todas as operações questionadas sempre foram levadas à conhecimento fiscal, por meio de declarações fiscais, demonstrações financeiras, registros aduaneiros, dentre outros documentos, e que por anos e anos jamais foram questionadas pelas autoridades fiscais. VII DA OMISSÃO DE RECEITAS Ademais, importante mencionar que a capitulação legal da autuação foi omissão de receitas, no entanto, no caso da Recorrente, não há que se falar em omissão de receitas, visto que os valores constantes das notas fiscais emitidas nas operações de exportação para as empresas intermediárias correspondem aos preços efetivamente praticados pelas partes. Em outras palavras, não foi recebido qualquer valor "por fora", não houve diferença de preço recebida e nãocontabilizada. As autoridades fiscais não levaram em conta, na autuação, o fato de que as variações patrimoniais verificadas nos investimentos na MIC e na Ilmot foram registradas na contabilidade da Recorrente pelo método da equivalência patrimonial. Fl. 46DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 18 18 Não há dúvidas de que a Recorrente contabilizou todas as operações praticadas em seus Livros Diário e Razão, mantendo planilhas com fluxo de operações, bem como reconheceu os lucros auferidos por suas controladas no exterior, assim, além da presente situação não se conformar à nenhuma das hipóteses de omissão de receita previstas no art. 283 do RIR/99, tais registros têm o condão de afastar a ocorrência de omissão de receitas na autuação em questão. VIII DO IRRF Por derradeiro, cabe frisar que no caso em comento, não cabe a exigência do imposto na fonte, porquanto não se verifica a ocorrência da regramatriz de incidência tributária, visto que: (i) não houve pagamento e propriamente também não houve entrega de recursos; (ii) "in casu" há prova da operação e da causa da entrega que teria havido, que é exatamente a realização das exportações; (iii) no passado já houve a previsão legal de incidência de imposto na fonte sobre omissão de receitas, mas tal norma está revogada, sendo certo que a aplicação do IRRF em questão assume norma de caráter muito mais sancionatório, do que de norma que tipificaria verdadeira incidência tributária. Com efeito, verificase que a pretensão fiscal acaba por tributar duplamente a mesma renda (ao considerar hipóteses excludentes: rendimento no Brasil e cobrar IRPJ, CSLL e, ao mesmo tempo, aplicar regramento afirmando que referido rendimento foi remetido ao exterior), cujo resultado não é outro que não utilizar a exigência tributária, mediante a cobrança de IRFonte, como espécie de "sanção", ao arrepio da característica essencial de tributo: prestação pecuniária de característica não sancionatória. Por fim, vale colacionar jurisprudência deste CARF materializada no acórdão n° 105.17.084 da 5a Turma que afastou o IRRF no mérito e não pela decadência. Vejamos: "IMPOSTO DE RENDA RETIDO NA FONTE. PAGAMENTO SEM CAUSA. Se, na hipótese retratada nos autos, os recursos tidos como provenientes de omissão de receitas resultam de pagamentos feitos no exterior pelos destinatários finais dos produtos às controladas da contribuinte, não há que se falar em incidência de imposto de renda retido na fonte em razão de pagamento sem causa, vez que inexistente movimentação física de valores por parte da autuada. ". Desta feita, não pairam dúvidas acerca da impossibilidade de exigência do IRRF no presente caso. IX DA APLICAÇÃO DO ARTIGO 100 DO CTN AO PRESENTE CASO Outro ponto que merece destaque é o fato de que as operações que hoje são contestadas pela Administração não são novidade na prática do comércio exterior na Recorrente e há longa data são de conhecimento das autoridades fiscais. Como se verifica dos documentos acostados, pelo menos desde 1994 o mesmo modelo negocial já era adotado. Como se percebe das demonstrações financeiras (balanço) publicadas no Diário Oficial, em 1994, houve venda de produtos da Recorrente para sua controlada MIC na ordem de R$ 445.000,00, sendo que nos na os subseqüentes o fluxo dessas operações aumentou consideravelmente, sendo, já em 1995 da ordem de R$ 3.339.000,00 (balanço do anocalendário 1995, também devidamente publicado no Diário Oficial, o mesmo ocorrendo nos anos posteriores (doc. 09) Fl. 47DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 19 19 É o que se percebe quando se analisa as linhas correspondentes à "partes relacionadas" no balanço, mais especificamente o "contas a receber por produtos e serviços" vendidos à partes relacionadas, no caso a MIC. Tal fato é corroborado com a existência de Notas Fiscais de venda de produtos, faturas comerciais e telas do Siscomex que claramente indicam as operações realizadas entre Marcopolo e suas controladas MIC e ILMOT em períodos anteriores aos autuados (doc. 10). Assim, o que se verifica é que já naquela época produtos exportados pela Marcopolo o eram feito com intermediação das empresas no exterior. Não custa lembrar, ainda, que operações dessa estirpe são de amplo conhecimento das autoridades fazendárias, já que contemplam uma série de obrigações acessórias, como registro no SISCOMEX, questões de câmbio junto ao BACEN, etc. Poderseia, então dizer que a aceitação dessas operações por quase uma década sem qualquer questionamento por parte do Fisco, seria uma prática reiterada observada pelas autoridades administrativas, invocando, dessa forma, a incidência do artigo 100 do CTN ao caso: Ora, a Fiscalização sabia da ocorrência dessa espécie de operação e, por longos anos, as aceitou sem qualquer ressalva, não sendo razoável que, de uma hora para outra, passe a questionálas de forma tão veemente, como se fosse a prática de um enorme ilícito tributário. Vejase, que se aplicando o preceito acima ao caso concreto, a autuação deve ser reduzida sensivelmente, já que, caso houvesse algo a se exigir, apenas se poderia exigir o principal histórico eis que o parágrafo único do artigo 100 do CTN é claro no sentido de que a incidência da norma ali exposta exclui a imposição de penalidades, a cobrança de juros de mora e a atualização do valor monetário da base de cálculo do tributo. X DA NECESSIDADE DE APLICAÇÃO DO ARTIGO 146 DO CTN AO PRESENTE CASO Como se viu, a administração tributária conviveu por muitos anos desde a criação das empresas MIC e ILMOT no início dos anos 1990 até 2005, ano da lavratura do primeiro auto de infração com as operações praticadas entre a Recorrente e suas empresas controladas, sempre tendo o conhecimento integral da sua realização. Por óbvio que tal convivência tinha como pressuposto a jurisprudência então dominante no Conselho de Contribuintes e a própria doutrina majoritária que entendiam pela desnecessidade de cumprimento dos requisitos hoje reclamados para a validade de planejamentos tributários. Nesse sentido, é certo que a repentina mudança de tratamento por parte das autoridades fiscais representa e reflete a total mudança nos critérios jurídicos que regem a atual doutrina e jurisprudência acerca do tema planejamento fiscal. De fato, a consideração de operações reiteradamente praticadas pelo contribuinte sob outros critérios jurídicos é gerador de notória insegurança jurídica, tanto que coibida pelo artigo 146 do Código Tributário Nacional, que assim dispõe: Nos termos do artigo acima transcrito, parece claro que a mudança de entendimento fiscal acerca dos elementos caracterizadores da figura da simulação, tal como na acusação ora discutida, a exemplo da necessidade de comprovação da capacidade operacional das empresas MIC e ILMOT, execução material das operações, dentre Fl. 48DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 20 20 outros, somente poderia atingir fatos geradores ocorridos após essa mudança de entendimento, isto é, posteriormente ao ano de 2005. Isso porque o mesmo fato as vendas realizadas pelas empresas MIC e ILMOT passou a ser considerado simulado em razão da alteração nos critérios jurídicos para a validação de operações que de alguma forma envolvam economia tributária. Ora, por amor à segurança jurídica, princípio esse resguardado pelo artigo 146 do Código Tributário Nacional, evidentemente que essa alteração de entendimento não pode ser aplicada retroativamente para fatos ocorridos antes da manifestação desse novo entendimento pelas autoridades fiscais. Dessa forma, também por essa razão improcedente o Auto de Infração lavrado contra a Recorrente. XI EXIGÊNCIA DA RECEITA DA MIC EM DUPLICIDADE NECESSIDADE DE RESTABELECIMENTO DE PREJUÍZOS Ainda, no que se refere à constituição do crédito tributário, na remota hipótese de ser mantida a exigência fiscal, é certo que o auto de infração deverá ser revisto, a fim de que a autoridade fiscal recomponha o saldo dos prejuízos das empresas MIC e ILMOT, uma vez que a suposta "receita omitida" atribuída pela fiscalização, foi devidamente considerada na apuração do resultado da Recorrente. Assim, caso venham as autoridades julgadoras entender que tais resultados, em verdade, foram auferidos pela Marcopolo, então que essas receitas sejam estornadas dos resultados das empresas MIC e ILMOT, recompondose os prejuízos acumulados por essas empresas. De todo o exposto, fica claro que as decisões proferidas pela Delegacia de Julgamento de Porto Alegre, que mantiveram integralmente quanto ao mérito os Autos de Infração lavrados contra a Recorrente, merecem integral reforma por esse E. Conselho, uma vez que não só as operações praticadas pela Recorrente e suas empresas controladas no exterior são legítimas e não configuram qualquer espécie de planejamento fiscal irregular, como também as próprias autuações possuem vícios insanáveis que justificam seu cancelamento por este E. Conselho de Contribuintes. Instada a manifestarse nos termos do Regimento Interno do CARF, a douta PGFN apresentou contrarazões, aduzindo que (verbis): (...) II. DO DIREITO PRELIMINAR Em sede de preliminar, a recorrente reclama suposta nulidade fundada no fato de que a fiscalização considerou elementos colhidos em procedimentos relativos a exercícios anteriores. Sua irresignação não merece prevalecer. Todos os elementos indispensáveis à verificação e mensuração do crédito tributário relativo ao ano de 2003 foram devidamente trazidos aos autos. Os elementos Fl. 49DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 21 21 relativos a exercícios anteriores visam apenas demonstrar o modus operandi da autuada, sendo que ela própria admite diversas vezes que tal proceder provinha de "legítima opção de modelo negocial, que vem sendo utilizado consistentemente desde o início da década de 90" (fl. 2436). A autuada, nesta preliminar, se limita a afirmar que os documentos relativos ao ano de 2003 não foram analisados, mas em nenhum momento afirma ou demonstra que mudou a estrutura de suas operações, nem trouxe novos elementos, diversos dos já apresentados em autuações anteriores, capazes de justificar a suposta intermediação das empresas offshore. Não foi por falta de oportunidade: consta do Auto de Infração (fls. 98) que o sujeito passivo foi intimado de que, se possuísse elementos que justificassem as operações de 2003, estes poderiam ser apresentados, conforme Termo de intimação n° 1, fls. 177/179. Todos os documentos apresentados, tanto durante a fiscalização quanto com a impugnação, foram apreciados e considerados. Logo, não procede a alegação de nulidade, uma vez que o Auto de Infração se encontra suficientemente instruído, bem como foi dada ao contribuinte oportunidade plena de apresentar todos os documentos que lhe aprouvessem, documentos estes que não foram ignorados pelas autoridades lançadora e julgadora de 1a instância. MÉRITO No mérito, não há como vingar a tentativa da recorrente de convencer o douto julgador da efetiva intervenção das controladas MIC e Ilmot nas exportações das carrocerias que fabrica. A defesa busca demonstrar a efetiva execução material das exportações por parte de suas subsidiárias mediante a juntada de diversos documentos em sua grande maioria de emissão das próprias empresas envolvidas (Marcopolo, MIC/Ilmot, compradores finais) que comprovariam a existência de duas vendas distintas e independentes em cada operação, atestando a execução material das exportações por parte das controladas. Não voltaremos aqui a discorrer sobre toda a base teórica acerca do instituto da simulação, questão suficientemente tratada na peça de acusação e na decisão de primeira instância. Cumprenos apenas destacar que é ínsito à simulação que os aspectos formais (documentais) da operação simulada estejam, tanto quanto possível, de acordo com a realidade que se deseja fazer transparecer. Logo, é de se esperar que a fiscalizada apresente documentos que, formalmente, atestem a venda às suas controladas, e a intermediação destas para atingir os compradores finais das mercadorias. Não obstante, quando se busca em circunstâncias ou fatos marginais mais dificilmente manipuláveis pelas partes razões ou evidências que justifiquem ou que se coadunem com aquelas declarações de vontade manifestas, não se encontra neles a ressonância que tais vontades normalmente encontrariam, se correspondessem à verdadeira intenção subjacente que se procurava instrumentalizar. Nesta toada, se as empresas offshore MIC e Ilmot efetivamente adquiriam as mercadorias da Marcopolo e atuavam como grandes e notórias revendedoras globais destes produtos atuação esta supostamente motivada pela necessidade de impulsionar as vendas externas, diminuir burocracias e turbulências cambiais, facilitar captação de financiamentos , como quer fazer crer a recorrente, tais fatos e circunstâncias deveriam ser facilmente confirmados por meios outros que não apenas documentos firmados pelas próprias partes envolvidas. Fl. 50DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 22 22 Todavia, não é o que acontece. Na busca para confirmar, por meio de fatos, circunstâncias ou mais documentos, a execução material das exportações pelas controladas, a fiscalização se deparou com toda ordem de inconsistências e incongruências. INEXISTÊNCIA DE PARTICIPAÇÃO EFETIVA DAS CONTROLADAS NAS OPERAÇÕES DE EXPORTAÇÃO Para começar, se imagina que empresas que se ocupam da revenda de bens complexos e personalizados , como carrocerias para ônibus e caminhões, com faturamentos anuais que, por vezes, se aproximam a cem milhões de reais, apresentem estrutura física e corpo funcional compatível ou que, de alguma forma, busquem se apresentar a seus potenciais clientes como as empresas bem sucedidas que são. Não é o que ocorre com MIC e Ilmot. Estas empresas parecem preferir a discrição, não só no que diz respeito à visibilidade como também quanto à estrutura física. Instada a comprovar que suas controladas mantinham estrutura operacional capaz de realizar o mister para o qual foram criadas, mediante apresentação de faturas de energia elétrica ou telefonia destas, a recorrente alegou que não as possuía, pois se valiam de empresas especializadas em fornecer infraestrutura a terceiros. Não obstante essa alegação, não apresentou contratos firmados para a prestação desses serviços4. Mesmo os poucos documentos relativos a telefonia obtidos (uma fatura emitida contra KPMG, que supostamente se referia à Ilmot, e um recibo em nome de Sucre&Sucre, que se referiria a operações da MIC), não foram esclarecedores: o recibo atribuído à MIC não apresentava qualquer dado relevante, como discriminação das ligações ou endereço da linha telefônica; a fatura atribuída à Ilmot não apresenta, entre as escassas ligações internacionais que dela constam, nenhuma ligação para o Brasil (sede da controladora). Já as ligações feitas para países nos quais a empresa efetivou vendas não somam 10 minutos, sendo que para o Chile, destino principal das exportações naquele ano, não há uma ligação sequer. Logo, é de se duvidar que tais escritórios efetivamente se prestassem a suprir as necessidades de infraestrutura de MIC e Ilmot. A MIC, vale mencionar, sequer demonstra preocupação em declinar seu endereço de forma completa e precisa em suas faturas, vez que falta o bairro, o número em que está localizado o edifício, o andar e a sala do escritório. Entretanto, nem teria porque se preocupar com isso, já que, conforme se vê nos contratos, toda comunicação a eles relativa deveria ser remetida com cópia para a Marcopolo no Brasil (fls. 1449, 1478), em mais um indício que seria ela, na realidade, a responsável pela execução destes contratos. No que diz respeito ao corpo funcional, as empresas também são bastante discretas. Em ambas, os únicos salários pagos eram os de quatro diretores. Todos sócios gerentes ou diretores também da Marcopolo S/A. Em 2003, um outro funcionário da Marcopolo, Rafael Adauto, foi designado gestor comercial de MIC e Ilmot. Não obstante, sua remuneração continuou sendo paga majoritariamente pela Marcopolo. Segundo a recorrente, tamanha singeleza de staff e estrutura é plenamente justificável, diante da simplicidade das operações empreendidas pelas suas controladas. Segundo o contrato assinado entre elas e a Marcopolo, essas modestas operações consistiriam em: comprar os produtos da controladora, revender e distribuílos no mercado externo, prestar serviços pós venda (garantias, assistência técnica), manter escritórios equipados com funcionários qualificados, remeter Fl. 51DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 23 23 informações detalhadas sobre os negócios, clientes visitados e situação de mercado, dentre outros. Ocorre que não é apenas a suposta simplicidade das operações que possibilita esta diminuta estrutura. A fiscalização apurou que todos os documentos das empresas MIC e Ilmot eram emitidos em Caxias do Sul, e assinados por funcionários da Marcopolo, que recebiam procuração de seus diretores (que são os mesmos das controladas) para tanto (fl. 117). Toda a documentação necessária às exportações (faturas comerciais, certificados de origem, documento único aduaneiro), fosse em nome da Marcopolo, fosse das offshore, era emitida pela estrutura da recorrente. Inclusive, o Documento Único Aduaneiro de fl. 463, relativo a desembaraços aduaneiros no Uruguai, em 19995, embora se refira à MIC, declina o endereço da Marcopolo no campo domicílio, indicando clara confusão entre os papéis de uma e outra nas exportações. É relevante observar que os funcionários que emitiam e assinavam os documentos em nome das intermediárias não recebiam delas qualquer remuneração, tão somente da Marcopolo. Ora, um dos poucos indícios de que essas empresas realizaram as exportações que alegam são justamente os documentos de exportação formalizados em seu nome, já que os bens sequer transitam pelos territórios em que elas se situam vão direto do fabricante ao comprador final. O fato de tais documentos terem sido emitidos e assinados por pessoas que a própria recorrente afirma não terem vínculo financeiro com a suposta exportadora (fl. 118, in fine), mas apenas com a Marcopolo, fortalece a tese de que tais serviços foram prestados no interesse da Marcopolo, indicando ser esta a real exportadora dos bens aos compradores finais. Foram trazidos à colação, ainda no intuito de demonstrar a execução material das exportações pelas controladas, contratos entre as empresas offshore e compradores finais (fls. 1425 e ss.), bem como comprovantes das tratativas entre o gestor comercial Rafael Adauto e representantes comerciais responsáveis pelas vendas. Quanto aos contratos, tais documentos em nada podem favorecer a contribuinte, eis que não estão traduzidos para o vernáculo, como manda a legislação pertinente, a saber: artigos 22 § 1° da Lei 9.784/99, 156 e 157 do Código de Processo Civil, e artigo 224 do Código Civil. De qualquer forma, como já afirmado anteriormente, diante da própria natureza da simulação, seria de se esperar que, sob os aspectos formais, a operação se apresentasse, tanto quanto possível, da maneira como as partes pretendem fazêla parecer. Deste modo, a mera existência de tais contratos não gera a presunção absoluta da verdade dos interesses neles explicitados. Já quanto os emails que objetivam comprovar as tratativas entre MIC/Ilmot e seus representantes comerciais, cumpre lembrar que a pessoa que personifica as controladas na condição de gestor comercial, o Sr. Rafael Adauto, é também empregado da Marcopolo S/A e ainda é Administrador da Marcopolo of America, outra empresa do grupo, controlada pela MIC. Aliás, é como gerente comercial da Marcopolo of America que ele assina as correspondências eletrônicas que a recorrente usa como exemplo em sua peça recursal (fls. 3410/3411). É impossível precisar no interesse de quem, na verdade, ele atua. Tais tratativas podem perfeitamente ilustrar como a Marcopolo, por intermédio de seu funcionário Rafael Adauto, participa ativamente das vendas destinadas aos seus compradores finais. Fl. 52DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 24 24 Registrese, também, o fato de que os preços a serem praticados pela MIC perante seus clientes devem obedecer a parâmetros determinados pela Marcopolo, conforme cláusula 1.4, a) do Termo de alteração e consolidação do contrato de distribuição e agenciamento firmado entre as duas empresas (fls. 589 a 608). Eis aí mais um indício da diminuta autonomia da controlada no exercício de seu mister de revender os produtos da controladora, evidenciando sua atuação como mera extensão da controladora no paraíso fiscal. De tudo, se vê que os fatos efetivamente verificados não condizem com a participação positiva das empresas controladas no processo de exportação das mercadorias da Marcopolo até os clientes finais. A interposição da MIC e da Ilmot mais parece um percalço a ser superado com vistas a atingir os compradores finais do que um instrumento catalisador das vendas da recorrente. PROPÓSITO NEGOCIAL Da mesma forma como os fatos adjacentes às exportações indicam que as operações, na realidade, não ocorreram da forma como consta nos papéis, tampouco os motivos declinados pela recorrente sustentam a existência de um legítimo propósito negocial nas transações entre a autuada e suas subsidiárias. A recorrente afirma que estruturou suas exportações com a figura intermediária de centros offshore como forma de contornar a instabilidade econômica e cambial brasileira, fatores como o risco país e a burocracia, bem como garantir condições favoráveis de logística e mecanismos financeiros ágeis, tanto para obter financiamentos quanto para realizar pagamentos. Contudo, não esclarece como, efetivamente, a interposição das empresas MIC e Ilmot, no que tange às operações de exportação questionadas, proporciona ao grupo econômico os benefícios mencionados em maior grau do que se as exportações ocorressem de forma direta pela Marcopolo. De logo, se vê que manter uma maior proximidade com os mercados consumidores não pode ser a justificativa para a intermediação das referidas empresas. Elas são estabelecidas em paraísos fiscais, sendo que um deles (BVI) não foi destino final de qualquer mercadoria. O outro (Uruguai) até o foi, porém quem forneceu a mercadoria nesse caso foi a empresa sediada nas ilhas virgens, já que a forma como a Ilmot fora constituída não lhe permitia ter negócios no mercado interno uruguaio. Outrossim, as mercadorias saíam do Brasil diretamente para o destinatário final, sendo irrelevante, sob esta perspectiva, onde se situam as intermediárias ou mesmo sua existência. Desta forma, os benefícios de logística mencionados certamente não se referem a um modelo mais eficiente de distribuição das mercadorias. Quanto à necessidade de se contornar a instabilidade econômica e cambial brasileira, em que pese a densidade teórica dos argumentos trazidos nos pareceres, não restou claro, em nenhum momento, como essa instabilidade afetava as operações da recorrente, nem como a estrutura de exportações indiretas na qual as mercadorias passavam, apenas formalmente, por empresas offshore encarregadas de refaturálas a um preço superior permitia a ela minimizar essa instabilidade. A fim de contornar oscilações cambiais excessivas, entendese que a empresa domiciliada no exterior poderia, por exemplo, formar estoques adquiridos com o real desvalorizado (gastando menos dólares, portanto), para se prevenir para uma Fl. 53DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 25 25 encomenda do importador final realizada em época na qual a moeda nacional esteja em alta (quando ela gastaria mais dólares para fazer a mesma compra). Nesta situação, meramente ilustrativa, se vislumbra claramente que tal proceder redunda em proteção contra oscilações cambiais inesperadas. Entretanto, como admitido pela própria recorrente, suas subsidiárias encomendavamlhe as mercadorias depois de têlas supostamente negociado com o cliente externo (Anexo I fl. 974). Nesta hipótese, não se vislumbra como o fato de a exportação ocorrer com sua intermediação poderia proteger controlada ou controladora da volatilidade cambial da moeda brasileira. Tampouco se preocupou a recorrente em demonstrálo de forma suficientemente clara, como feito no exemplo acima. Limitase a alegar, teórica e genericamente, que a estabilidade política, institucional e monetária dos paraísos fiscais propicia benefícios que convergem para uma maior competitividade internacional das companhias. Ocorre que não é isso que se questiona nos autos. Não se está a refutar que o uso de um centro offshore possa trazer vantagens competitivas às empresas que atuam no comércio internacional, como um instrumento de logística financeira. É legítimo a qualquer empresa, principalmente a uma multinacional como a Marcopolo, estabelecer filial ou subsidiária nessas jurisdições para usufruir das facilidades que elas oferecem. O que não se vê é uma razão pela qual, nas operações de exportação da Marcopolo, as mercadorias tenham que se submeter ao refaturamento por suas controladas no exterior para alcançar essas vantagens, já que, como se viu, essas empresas não possuem nenhum outro papel efetivo nas exportações. O mesmo se pode dizer quanto à alegada redução de custos que a estrutura das exportações questionadas proporcionaria. Neste particular, vale transcrever trecho do acórdão 10517.084, que analisou caso idêntico, relativo ao mesmo contribuinte: 9. não se discute, também, que a conjuntura econômica brasileira em especial no ano submetido à auditoria fiscal, é passível de acarretar custos mais elevados para as empresas nacionais que operam no exterior, tanto em relação a competidores de países desenvolvidos, como em relação a competidores de outros países emergentes. O que se questiona é que, especificamente na situação que ora se examina, em absolutamente nenhum momento a Recorrente materializou tais custos, demonstrando documentalmente, a título de exemplo, que, em uma determinada operação de exportação, se a transação fosse efetuada de forma direta o custo seria X, o lucro seria Y e o imposto pago seria Z, enquanto que, em razão da forma adotada, o custo seria X — n, o lucro seria Y+m e o imposto pago representou Z + p. Não, o que a Recorrente procurou demonstrar é que, considerada uma série histórica de suas exportações, houve significativo aumento de suas receitas e, por decorrência, dos tributos pagos. Como já se disse, admitida uma significativa capitalização de recursos por meio de métodos evasivos, outro resultado não se poderia esperar. Da mesma forma, não se especifica as burocracias que se pretende minimizar através da operação por meio de controladas offshore, sendo provável que as operações de comércio exterior entre controladora e controlada enfrentam burocracias da mesma ordem das que seriam enfrentadas numa operação direta entre a recorrente e o importador final, senão maiores. Também não parece verdadeiro que a facilidade para obter financiamentos ou a necessidade de efetuar pagamentos em moeda estrangeira de forma expedita justifiquem a intermediação das offshore. Fl. 54DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 26 26 Não se pode crer que uma sociedade constituída em um paraíso fiscal, sem a mínima estrutura e sem funcionários possa gozar de maior confiabilidade, prestígio e mais fácil acesso a financiamentos do que uma empresa com o porte, tradição e know how da Marcopolo. Antes, são as empresas offshore que adquirem tais predicados pelo justo fato de pertencerem ao mesmo grupo econômico da Marcopolo! Isso tanto é verdade que os financiamentos contratados por elas apresentam a Marcopolo como garantidora. Ainda que a recorrente demonstre que foram as empresas tomadoras do empréstimo que arcaram com os custos financeiros (o que não está sob questionamento na autuação), isto não afasta a conclusão de que a suposta agilidade para obter financiamentos não justifica a intermediação de MIC e Ilmot, eis que tais financiamentos seriam obtidos pela Marcopolo com a mesma facilidade6. Quanto à agilidade para se efetuar pagamentos em moeda estrangeira à sua rede de representantes comerciais e de prestadores de assistência técnica, não parece que seja necessário fazer com que as exportações passem por empresas sediadas em paraísos fiscais para que a recorrente possa ter no exterior um centro financeiro que possibilite a celeridade desejada. Assim, não é consistente o argumento de que a exportação mediante interposição de empresas offshore seria essencial para obtenção de financiamentos externos ou para agilizar pagamentos a terceiros. Outro fato completamente injustificável é o de que as empresas MIC e Ilmot foram utilizadas até mesmo na intermediação de exportações para empresas do mesmo grupo econômico (Polomex e Marcopolo South África) e ainda para outra empresa cujo quadro societário apresenta pessoa intimamente ligada a sócios da Marcopolo (Brasa ltda vide relatório fiscal, fls. 111/113). A recorrente argumenta que este fato, aparentemente incongruente, decorre do modelo negocial adotado, dando a entender que suas exportações sempre se fazem por intermédio de controladas, mediante a atuação de representantes comerciais, seja quem for o comprador final da mercadoria (fls. 2435/2436). Entretanto, a fiscalização constatou, em 2001 e 2002, exportações da Marcopolo feitas diretamente com importadores estrangeiros, não sendo de todo verdadeira a afirmação acima (fl. 112 dos autos). Desta forma, não se compreende porque empresas tão intimamente ligadas optariam negociar por intermédio de terceiros, inclusive se sujeitando ao pagamento de comissões a representantes comerciais. Enfim, todos os motivos indicados pela recorrente para explicar o porquê de suas exportações fazerem uma "escala formal" em suas controladas no exterior antes de seguirem para os seus reais destinatários, conhecidos desde o início da operação, são inconsistentes, sendo certo que os mesmos resultados poderiam ser obtidos caso as exportações fossem feitas diretamente dela para aqueles. Todos, exceto a redução das receitas de exportação submetidas à tributação no país. A inexistência de motivos que justifiquem a primeira etapa das operações auditadas, qual seja, a exportação da Marcopolo para suas controladas, traz à tona uma das características principais das operações que, mediante simulação, visam à finalidade de pagar menos tributos que o devido: a ausência de propósito negocial legítimo. Propósito negocial é o conjunto de razões de caráter econômico, comercial, societário ou financeiro que justifica a adoção dos atos e negócios jurídicos, não sendo lícito aos contribuintes praticar atos desprovidos de qualquer utilidade a não Fl. 55DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 27 27 ser proporcionar a esquiva ao recolhimento de tributos que, sem sua prática, seriam devidos. A ausência de propósito negocial é própria dos atos simulados, que são praticados apenas para esconder uma realidade subjacente que acarretaria maior ônus tributário às partes. No caso, conforme demonstrado nos parágrafos acima, os motivos declinados para justificar a interveniência das controladas MIC e Ilmot nas exportações de Marcopolo S/A não se sustentam, e os fatos apurados mostram que sua participação no processo que leva as carrocerias da recorrente até seus destinatários finais é meramente artificial. A intermediação dessas empresas foi simulada para dissimular a operação que, na realidade, acontecia: a exportação se dava entre a Marcopolo S/A e os chamados importadores finais. Neste cenário, as controladas offshore funcionavam como meras centrais de refaturamento, possibilitando que a Marcopolo contabilizasse receita inferior ao valor efetivamente pago pelas suas exportações, mantendo parte desse valor nos paraísos fiscais referidos, imune à tributação. Tal conclusão, de que a intervenção as controladas nas exportações da controladora visava à manutenção de parte das receitas de exportação no exterior, imune à tributação brasileira, é corroborada pelos artifícios usados a fim de se esquivar dessa tributação. Originalmente, os estatutos da MIC possibilitavam que seus diretores constituíssem fundo de reserva com qualquer parcela do lucro, e que os dividendos não reclamados após 3 anos fossem reincorporados em benefício da empresa, evitando sua distribuição e tributação pelas leis brasileiras, até o advento da MP 215835/2001. A partir de 2001, quando os lucros apurados passaram a ser tributados independentemente de distribuição, a MIC, coincidentemente, passou a apresentar prejuízos acumulados , não revertidos até o ano em que se concluiu a fiscalização. Os resultados da Ilmot eram reconhecidos pela MIC (fl. 123). Desta forma, o lucro das referidas empresas permaneceu incólume à tributação no Brasil, pelo menos até 2004, conforme o relatório fiscal. De tudo isto, se vê que o modelo de exportações da recorrente, mediante a interveniência de controladas sediadas em paraísos fiscais, não tinha qualquer propósito negocial que efetivamente o justificasse, a não ser a economia de tributos proporcionada pelo refaturamento que essas controladas promoviam. Tanto assim é, que as evidências mostram que a participação dessas empresas no processo de exportação era meramente formal. A inexistência de propósito negocial, além da inexistência de execução material das exportações por parte das controladas, tornam evidente que a participação formal dessas empresas nas exportações não passou de simulação. PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA Diante da ocorrência da simulação, isto é, diante do fato de que as vendas da Marcopolo às controladas MIC e Ilmot não ocorreram no mundo dos fatos, mas apenas no papel, não é necessariamente aplicável a legislação referente a preços de transferência (arts. 18 a 24 da Lei 9.430/96). As regras de preços de transferência estabelecem parâmetros que, por presunção legal, são os mínimos a serem observados nas exportações entre coligadas. Todavia não proíbem a constatação de que, mesmo observados estes parâmetros, ainda assim Fl. 56DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 28 28 persistiu o subfaturamento. Nada impede a realização de investigações que possam levar à constatação fática daquilo que, por meio de presunções, a lei busca reprimir. Ademais, a legislação supõe a efetiva existência da operação entre pessoas vinculadas. No caso em apreço, há que se considerar que não se trata simplesmente de reconhecer o subfaturamento em operações de exportação entre empresas vinculadas. O que a autoridade fiscal demonstrou é que as operações entre a Marcopolo e MIC/Ilmot não existiram na realidade, se revestindo de mera aparência, para encobrir exportações realizadas diretamente da Marcopolo para os importadores finais, que nem sempre eram empresas do mesmo grupo econômico. Desta forma, não há nenhuma mácula no procedimento adotado, nem procede a alegação de que as regras de preços de transferência excluem a possibilidade de qualquer outro tipo de controle pelas autoridades tributárias em operações entre pessoas jurídicas vinculadas. Principalmente se estas operações foram simuladas. IRRF Como se viu, as estruturas montadas pela recorrente no exterior se assemelham em tudo às centrais de refaturamento, conforme exposto no anexo II ao relatório fiscal, cujo objetivo é manter parte das receitas de exportação no exterior, sem submetêlas à tributação no país. O uso das centrais de refaturamento possibilitou às beneficiárias uma dupla vantagem indevida. Ao tempo em que diminui as receitas de exportação da controladora, diminuindo a base imponível dos principais tributos federais, enseja efeito equivalente à remessa de capital para as subsidiárias no exterior, sem causa que o justifique e sem a retenção na fonte do imposto de renda devido. Vejase que, conforme todo o exposto até aqui, a operação subjacente, camuflada pela simulação, é uma exportação diretamente da Marcopolo para os importadores finais por preço superior ao preço consignado na venda da Marcopolo para suas controladas. A diferença entre os preços não ingressa no país, mas apenas no caixa das controladas no exterior. Ou seja, um valor que deveria ter sido pago à Marcopolo foi creditado diretamente à sua subsidiária no exterior. Do ponto de vista financeiro, é como se a Marcopolo tivesse recebido todo o valor pago pelo comprador final e remetido parte desse valor para suas coligadas estrangeiras (valor remetido = preço pago pelo comprador final preço pago pela controlada). Essa remessa de divisas às avessas permitiu o suprimento financeiro das controladas no exterior sem causa que o justifique, já que estas empresas nunca participaram de fato das exportações. Esta situação amoldase à hipótese de incidência prevista no artigo 674 do RIR/99 (art. 61,§1, da Lei 8981/95). É de se reconhecer que não se verificou, "fisicamente", a transferência de numerário da controladora para as controladas. Entretanto, como fruto da simulação praticada, obtevese fluxo financeiro equivalente, que sem ela não teria sido possível. Como observaram as autoridades que lavraram o Auto de Infração: "Se, hipoteticamente, a Marcopolo não tivesse se valido dos artifícios decorrentes da interposição simulada das centrais de refaturamento, ela teria recebido integralmente o verdadeiro valor das mercadorias exportadas. Caso, ainda assim, desejasse remeter parcela de sua receita às suas controladas no exterior, sem que para isso houvesse justificativas, teria que efetuar a retenção de IR na fonte, de acordo com a legislação aplicável. " Fl. 57DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 29 29 Por ser decorrente de comprovada simulação, a situação deve ser tratada de acordo com os efeitos jurídicos que efetivamente produziu, e não simplesmente da forma como consta no papel, sendo devido o IRRF sobre o valor destinado às controladas no exterior. Não se observa, no lançamento de IRRF, a alegada duplicidade com o lançamento das receitas de exportação omitidas: enquanto este lançamento se refere a tributos incidentes sobre fatos que revelam capacidade econômica da Marcopolo, o lançamento do IRRF é reflexo da capacidade econômica atribuída às suas controladas, muito embora seja cobrado exclusivamente da fonte pagadora. Não obstante a responsabilidade pelo recolhimento recaia, em ambos os casos, sobre a Marcopolo, cada lançamento se refere à renda de um contribuinte distinto, não havendo que se falar em duas tributações sobre a mesma renda. Quanto às objeções sobre o reajustamento da base de cálculo, fundadas na ilegalidade da IN 15/01, cumpre observar que a jurisprudência administrativa é firme no sentido de ser devido tal reajuste. Exemplificativamente: IRF PAGAMENTOS SEM COMPROVAÇÃO DA OPERAÇÃO OU DE SUA CAUSA INCIDÊNCIA Sujeitase à incidência do imposto de renda exclusivamente na fonte, à alíquota de 35%, todo pagamento efetuado pela pessoa jurídica quando não for comprovada a operação ou a sua causa (Lei n° 8.981, de 20/01/1995, art. 61, § 1°). REAJUSTAMENTO DA BASE DE CÁLCULO Os pagamentos efetuados pela pessoa jurídica, cuja operação ou causa não forem comprovadas, serão considerados líquidos, devendo ser reajustado o respectivo valor para fins de incidência do imposto de renda na fonte (Lei n° 8.981, de 20/01/1995, art. 61, § 3°). Recurso negado. [2a Câmara do 1° Conselho de Contribuintes, Recurso 131.618, Processo 10283.010318/200112, Relator José Oleskovicz, data da sessão 15/05/2003] Ademais, está correta a DRJ quando afirma ser fixa a alíquota prevista na Lei, não cabendo a dedução da classe de rendimentos. MULTA QUALIFICADA Demonstrado que houve simulação com vistas ao não pagamento de tributos devidos, a qualificação da multa é conseqüência lógica, nos termos do artigo 44, II, da Lei n° 9.430/94 (correspondente ao § 1° do mesmo artigo, na redação conferida a partir da Lei n° 11.488/07). O ilícito não decorreu, como quer a impugnante, de mero erro de proibição. A elaboração de documentos oficiais visando dar concretude formal a operações que nunca ocorreram na prática, que não correspondem à realidade, não pode ser considerada um erro, mas apenas uma confirmação do intuito doloso de ludibriar àqueles que a eles tenham acesso. DEDUÇÃO DE CUSTOS E DESPESAS INCORRIDOS PELAS EMPRESAS MIC E ILMOT Em que pese a juntada, ao recurso voluntário, de uma série de comprovantes de despesas incorridas por MIC e Ilmot, tais elementos, assim como eventuais custos, não constam da contabilidade da autuada. Como bem observado pela decisão recorrida, "a consideração dos custos e despesas efetuadas por MIC e Ilmot agride um dos princípios basilares da contabilidade: o princípio da entidade. O alvo da Fl. 58DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 30 30 fiscalização não foi a desconsideração da personalidade jurídica das empresas externas (a existência delas sequer foi questionada) com o intuito de repassar à autuada todos os direitos e obrigações". De fato, o auto de infração tem fundamento na constatação de que as controladas estrangeiras não tiveram participação nas operações de exportação auditadas. A acusação é no sentido de que as exportações eram feitas diretamente pela autuada, sendo a participação daquelas empresas nessas operações constituída de mera aparência. Neste diapasão, os custos e despesas efetivamente vinculados às exportações promovidas pela Marcopolo são aqueles que constam da sua própria contabilidade, já considerados no lançamento. DEMAIS QUESTÕES A recorrente ainda postula pela recomposição dos saldos dos prejuízos das controladas estrangeiras, pelo recálculo de incentivos fiscais e pela consideração do reflexo do aumento das receitas de exportação no cálculo do crédito presumido de IPI para fins de ressarcimento de PIS/COFINS. O pedido de consideração dos prejuízos fiscais das coligadas estrangeiras encontra óbice na regra do artigo 7°, §2°, da IN SRF 213/2002, além da concomitância decorrente da postulação, perante o Poder Judiciário, de idêntica pretensão, no sentido de se permitir a compensação dos prejuízos apurados por suas controladas no exterior (fls. 372/415 e 2336/2338). As diferenças no crédito presumido de IPI, decorrentes do aumento das receitas de exportação, constituem objeto alheio aos autos de infração, que tratam da determinação e da exigência dos créditos tributários lançados de IRPJ, CSLL e IRRF, devendo seu reconhecimento ser objeto de pedido e procedimento próprios. Quanto aos impactos do presente lançamento em incentivos fiscais, cumpre remeter às precisas considerações da autoridade julgadora de primeira instância (fls. 2364, verso e 2365), não merecendo prevalecer a pretensão da recorrente. As diferenças no crédito presumido de IPI, decorrentes do aumento das receitas de exportação, constituem objeto alheio aos autos de infração, que tratam da determinação e da exigência dos créditos tributários lançados de IRPJ, CSLL e IRRF, devendo seu reconhecimento ser objeto de pedido e procedimento próprios. Quanto aos impactos do presente lançamento em incentivos fiscais, cumpre remeter às precisas considerações da autoridade julgadora de primeira instância (fls. 2364, verso e 2365), não merecendo prevalecer a pretensão da recorrente. III. CONCLUSÃO Os elementos trazidos aos autos mostram, de maneira contundente, a inexistência de participação efetiva das empresas estrangeiras MIC e Ilmot nas exportações efetuadas pela Marcopolo S/A. De suas precárias sedes se é que possuíam sedes de fato saíram raras ligações internacionais, fato improvável para tradings exportadoras. Todos os seus documentos eram emitidos por funcionários da autuada e certos documentos de sua responsabilidade até mesmo indicavam o endereço da Marcopolo, em Caxias do Sul. Ao longo da fiscalização, a autuada não logrou sequer demonstrar o relacionamento entre tais empresas e seus clientes. A prova mais contundente da participação material de MIC e Ilmot eram comunicações entre seu gerente comercial e representantes comerciais que seriam responsáveis por promover as vendas no Fl. 59DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 31 31 exterior. Entretanto, este mesmo gerente era também funcionário da autuada, não se podendo precisar em nome de quem ele efetivamente atuava. Os contratos firmados pela MIC com compradores finais indicavam a necessidade de que as correspondências fossem remetidas com cópia à Marcopolo, o que, somado às demais provas, reforça a convicção de ser ela a real responsável por sua execução. Corroborando os indícios sobre a inexistência da participação material dessas empresas nas exportações, está a falta de justificava dessa intermediação sob o prisma negocial. A autuada se submetia a essa intermediação até mesmo em exportações destinadas a empresas do seu próprio grupo econômico, o que não faz sentido. A exação fiscal não está a refutar, peremptoriamente, a possibilidade de que empresas multinacionais, como a autuada, se valham de centros financeiros offshore, como um instrumento de logística financeira. O que se põe em questão é a forma como esses centros foram utilizados no caso concreto, simulando uma intermediação cuja existência empírica não se verifica. No caso, a única finalidade da intervenção dos centros financeiros era realizar o refaturamento de negócios jurídicos que, de fato, eram realizados entre a autuada e os compradores finais. O anexo II do auto de infração (fl. 149), explicita de forma minuciosa o funcionamento das chamadas centrais de refaturamento e como sua proliferação tem efeitos nocivos às nações com tributação regular. O relatório de fiscalização e as provas coligidas demonstram com notável clareza que, nas exportações em apreço, MIC e Ilmot assumem função idêntica às das centrais de refaturamento, não tendo sido sequer constatada sua participação material nessas exportações. Dois casos idênticos, relativos ao mesmo contribuinte, já foram objeto de julgamento pela Quinta Câmara do Primeiro Conselho de Contribuintes, consubstanciado nos acórdãos 10517.083 e 10517.084. Transcrevemos a ementa do último: (...) Como se vê, naquela ocasião o sodalício acatou a tese da fiscalização, no sentido de rechaçar exportações feitas através das centrais de refaturamento em questão, impondo a tributação sobre as receitas omitidas pela real exportadora. Não obstante, optou por afastar a incidência do IRRF por não ter havido "movimentação física de valores por parte da autuada". Neste particular, divergimos da conclusão do eminente relator, pelas razões já expostas nesta peça. Diante dessas considerações, a Fazenda Nacional requer o não provimento do recurso voluntário e a manutenção do acórdão proferido pela e. Delegacia de Julgamento. É o relatório. Fl. 60DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 32 32 Voto Conselheiro Antonio Jose Praga de Souza, Relator. O recurso é tempestivo e preenche os demais requisitos legais e regimentais para sua admissibilidade, dele conheço. No presente caso foi aplicado apenas a multa qualificada de 150%. Tendo o contribuinte optado pelo lucro real anual em 2003, consideramse ocorrido os fatos geradores do IRPJ e CSLL, complexivos, no dia 31/12 de cada ano. Assim, ainda que seja aplicada a contagem de prazo na forma do art. 150 parágrafo 4o. do CTN para o IRPJ e CSLL, considerando que a ciência dos autos de infração ocorreu em 18/12/2008, não há que se falar em decadência, pois o inicio da contagem se deu em 01/01/2004. Registrese que nesta mesma data iniciou a contagem do prazo de decadência do IRFonte, contandose na forma do art. 173, inciso I, pois, não há que se falar em antecipação de pagamento. I – DO MÉRITO Quanto ao mérito, aplicase neste processo a mesma decisão do acórdão 140200.752, processo 11020.004863/200719, proferido nesta data. Isso porque a situação fática é praticamente idêntica, excetuandose a inexistência de agravamento da multa e inocorrência de decadência. Transcrevo os fundamentos do aludido acórdão. I.1 Multa de Ofício Qualificada (percentual de 150%) Inicio pela aplicação da multa qualificada, haja vista sua implicação na forma de contagem do prazo decadencial do anocalendário de 2001, alem de seus pressupostos implicarem em outros aspectos da lide, que adiante tratarei. Vejamos a transcrição do inteiro teor da acusação fiscal nessa parte: RELATÓRIO DE AUDITORIA FISCAL – TVF (Fls. 81 e seguintes do processo) (...) 191. O art. 72 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, define fraude como sendo toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido ou a evitar ou diferir o seu pagamento. Fl. 61DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 33 33 192. Diante do até então exposto, resta claro que a multa a ser aplicada de ofício é de 150% (cento e cinqüenta por cento) prevista no artigo 44, inciso II, da Lei nº 9.430/96, in verbis: “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas, calculadas sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição: ... II cento e cinqüenta por cento, nos casos de evidente intuito de fraude, definido nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis.” 193. Transcrevemos, também, os artigos pertinentes da Lei nº 4.502/1964: “Art. 71. Sonegação é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; II das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Art. 72. Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido, ou a evitar ou diferir o seu pagamento.: Art. 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos art. 7l e 72.” (...) Em síntese a Fiscalização concluiu que os procedimentos da contribuinte amoldamse á prática de “fraude tributária” e conluio, de que tratam o art. 72 e 73 da Lei 4.502/1964, respectivamente. De plano, afasto a possibilidade de conluio, isso porque a Fiscalização nada trouxe aos autos para provar que os adquirentes finais dos produtos vendidos pela contribuinte obtiveram vantagens ilícitas ou, no mínimo foram coniventes. Todas as ações descritas foram unilaterais, ou seja, realizadas pela própria autuada, seus diretores ou funcionários. Logo, não restou caracterizado o conluio entre as pessoas jurídicas que participaram diretamente dos fatos que ensejaram a tributação. Quanto a fraude, nos termos do art. 72 da Lei 4.502/64, já transcrito neste voto, a prática de fraude pressupõe o dolo. Entendese por dolo a consciência e a vontade de realização dos elementos objetivos (materiais) da conduta que se adjetiva como dolosa. Nas palavras do ilustre Fl. 62DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 34 34 conselheiro Claudemir Malaquias, o dolo é “saber e querer a realização da conduta e não exige a consciência da ilicitude” 1. Observase que nos recentes julgamentos deste Conselho tem prevalecido considerarse a ocorrência de fraude em procedimentos que envolvam adulteração de documentos comprobatórios (notas fiscais, contratos, escrituras públicas, dentre outros), notas fiscais calçadas, notas fiscais frias, notas fiscais paralelas, notas fiscais fornecidas a título gracioso, contabilidade paralela (Caixa 2), conta bancária fictícia, falsidade ideológica, declarações falsas ou errôneas(quanto apresentadas reiteradamente). No caso presente, não há registros de documentos inidôneos ou fraudes em registros contábeis ou de qualquer natureza. Noutro diapasão todos os atos societários foram registrados nos órgãos competentes, assim como na escrituração contábil e fiscal da Contribuinte. Inexiste vedação expressa aos procedimentos adotados pelo contribuinte, logo, não há que se falar em fraude à lei, que aliás não pode ser confundido com erro de interpretação da lei. Na fraude a lei, o ato em si é ilícito tendo em vista que o ordenamento jurídico proíbe sua prática. Ora, não há dúvidas quanto a intenção da contribuinte em obter ganhos e economia de diversas ordens, tendo praticado todos os atos que entendeu válidos e amparados na lei. Há que ser analisado se incorreu em indevida redução dos tributos devidos , mas daí a se afirmar que estaria presente o dolo e configurada a fraude, data vênia, não comungo desse entendimento. A Marcopolo contabilizou regularmente todas as operações. Foi na contabilidade da contribuinte que a Fiscalização apurou todas as irregularidades que imputa à empresa. Desde o primeiro atendimento à Fiscalização, durante a auditória, o contribuinte foi transparente e coerente em seus esclarecimentos, sobretudo no que diz respeito a seu entendimento quanto ao amparo legal para seus procedimentos. Logo, ainda que a contribuinte possa ter realizado algum procedimento que se considere doloso, certamente não pode ser considerado “ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária”. Repito: foi a partir dos registros e operações da empresa que a fiscalização tomou conhecimento dos fatos e realizou as glosas. Nos últimos cinco anos participei de centenas de julgamentos neste Conselho em que foi apreciada a aplicação da multa qualificada. Formei critérios para estabelecer minha convicção nesses casos, os quais sempre observo, visando manter coerência em meus votos. Cabe aqui reportar alguns desses julgamentos: i) Acórdão 140200.337 de 14/12/2010 Ementa: MULTA DE OFÍCIO. QUALIFICAÇÃO. A redução sistemática de vultosas receitas na transposição de valores escriturados para as declarações entregues, sem qualquer justificativa plausível, evidencia o intuito de fraude. A 1 "Multa Qualificada nos casos de Planejamento Tributário" http://www.ibdt.com.br/material/arquivos/Atas/IBDT_ABRIL_2011.pdf Fl. 63DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 35 35 apresentação de livros e documentos fiscais, durante a fiscalização, não elide a prática dolosa anterior. Naquele processo, verificouse que as receitas auferidas e escrituradas pelo contribuinte, que inclusive eram declaradas ao Fisco Estadual pela totalidade, eram reduzidas em 99% para fins de apuração dos tributos federais. Para acobertar o conhecimento da Receita Federal, o contribuinte apresentava regularmente suas DIPJ e DCTF, bem como efetuava os recolhimentos dos tributos, porém, sobre esse 1%, e durante pelo menos 3(três) anos consecutivos. A prova do dolo, no caso Sonegação (art. 71 da Lei 4.502/64) foi justamente as Declarações de Pessoa Jurídica (DIPJ e DCTF), sistemática e reiteradamente, grafando valores a menor. No citado julgamento, a multa de 150% foi mantida por 5 votos a 1. ii) Acórdão 140200.494 de 31/03/2011 Ementa: GLOSA DE DESPESAS INIDÔNEAS. AMORTIZAÇÕES DE ÁGIO SUPOSTAMENTE PAGO NA AQUISIÇÃO DE DEBÊNTURES. Correta a glosa de despesas contabilizadas a titulo de pagamento de prêmio na aquisição de debêntures entre pessoas ligadas, amparados em contratos eivados de fraude, cujo objetivo, a toda evidência, foi reduzir o IRPJ e CSLL pelo contribuinte, devendo ser restabelecida a multa qualificada, no percentual de 150%. (Grifei). A autuada teria adquirido por R$300milhoes de Reais, debêntures cujo valor de face era de R$1mil (ágio de 299 milhões), sendo que o pagamento teria sido feito mediante TBills (Títulos do Governo dos Estados Unidos da America do Norte), cuja existência não foi comprovada. Na situação versada, a decisão de 1a. instância afastou a aplicação de multa qualificada “por não ter sido suficientemente comprovado, nos autos, o dolo nesta operação mesmo que se reconheça nela todo o artificialismo argüido pela Fiscalização”. Porem, este conselheiro entendeu que eram robustas as provas trazidas aos autos da artificialidade das operações. A começar pelo fato de a empresa, que teria emitido as debêntures possuir apenas existência formal. Nas palavras da Fiscalização: “a sociedade formalizada "produz" apenas documentos (atas, estatuto, livros contábeis, entre outros) utilizados para movimentar contabilmente recursos de outras empresas do grupo (...)”. No aludido acórdão, pelo voto de qualidade, a multa qualificada foi restabelecida. iii) Acórdão 10248.633 de 14/07/2007 Ementa: MULTA DE OFICIO QUALIFICADA RENDIMENTOS APURADOS COM BASE EM DEPÓSITOS BANCÁRIOS, OMITIDOS NA DECLARAÇÃO DE IRPF EVIDENTE INTUITO DE FRAUDE O fato de a fiscalização apurar omissão de rendimentos em face de depósitos bancários sem origem ou acréscimo patrimonial a descoberto, não configura, por si só, a prática de dolo, fraude ou simulação, nos termos dos art. 71 a 73 da Lei 4.502 de 1964.). Fl. 64DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 36 36 Aqui, o contribuinte omitiu na declaração de IRPF a conta bancária de sua titularidade. Além disso os valores movimentados eram elevadíssimos em relação aos rendimentos tributados. Todavia, a Fiscalização deixou de demonstrar a conduta dolosa, considerandose ainda que o lançamento de oficio se deu calcado na presunção legal (fraude não se presume). Mais a mais, “ao informar rendimentos ínfimos em sua declaração, ao invés de elidir a ação fiscal, o efeito foi justamente o contrário, o procedimento chamou a atenção do fisco.” A multa foi desqualificada à unanimidade. Situação semelhante foi observada em diversos outros acórdãos da relatoria deste conselheiro, cujo lançamento se deu exclusivamente com base em depósitos bancários, cuja contacorrente era de titularidade do próprio contribuinte. Voltando a situação versada no presente processo, constatase pela DIPJ/2002, regularmente apresentada dentro prazo e posteriormente retificada, a Marcopolo auferiu receitas tributáveis da ordem de 728 Milhões de Reais em 2001 (vide DIPJ). Por seu turno, a base de cálculo do IRPJ e CSLL foi de aproximadamente 82 Milhões de Reais, ou seja, em pouco mais de 12% da receita total.. Ora, uma empresa com esses números certamente estava sujeita ao acompanhamento especial de que trata a de que trata a Portaria SRF nº 448 de 2002. Definitivamente não é crível que a dedução pudesse ser ocultada do Fisco na contabilidade ou na DIPJ da recorrente, o que em verdade não ocorreu. Registrese, ainda, que no anocalendário de 2002 a fiscalização arbitrou a receita considerada omitida, ou seja, aplicou presunção para apurar a base de calculo, logo, este seria um motivo para desqualificar a multa de oficio, pois: a fraude não se presume. Tanto é assim que o parágrafo 3o. do artigo 24 da lei 9.249/1995, que em sua redação original estabelecia a aplicação de multa qualificada sempre que apurada omissão de receitas2, foi revogado no ano seguinte pelo art. 88 da Lei 9.430/1996. Em face do exposto, até mesmo diante do detalhamento e clareza do Termo de Verificação Fiscal, formei convencimento de que a qualificação da multa de ofício foi exacerbada, devendo ser reduzida a 75%, sem prejuízo do agravamento em 50%, que tratarei a seguir. (...) I.3 – Preliminares de nulidade Enfrento essa linha argumentativa também como preliminares haja vista que, se acatada, implicaria no cancelamento, de plano, dos autos de infração. 2 "§ 3º Na hipótese deste artigo, a multa de lançamento de ofício será de trezentos por cento sobre a totalidade ou diferença dos tributos e contribuições devidos, observado o disposto no § 1º do art. 4º, da Lei nº 8.218, de 29 de agosto de 1991" Fl. 65DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 37 37 Aduz a Recorrente que: o processo de fiscalização. que culminou na lavratura dos autos de infração. não buscou a verificação da efetiva ocorrência nos anos de 2001 e 2002 da infração atribuídas à empresa. os AuditoresFiscais entenderam, equivocadamente, que as controladas no exterior MIC e Ilmot e a revenda destas para seus clientes teriam ocorrido nos exatos termos daquelas realizadas nos anos de 1999 e 2000. a partir das supostas irregularidades nas exportações e revendas nos anos de 1999 e 2000, concluiu que nos anos de 2001 e 2002, também teriam ocorrido as mesmas irregularidades. logo, não há provas ou indícios de que haveria irregularidades nas exportações e revendas que motivaram a lavratura dos autos de infração dos anos de 2001 e 2002. Correto o entendimento sedimentado na decisão recorrida no sentido de que não há qualquer irregularidade no procedimento fiscal, muito menos cerceamento do direito de defesa do contribuinte. Nunca é demais reiterar que o artigo 59 do Decreto nº 70.235/72 (PAF) estabelece as hipóteses de nulidade, ab initio, no processo administrativo fiscal: Art. 59. São nulos; I – os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II – os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Portanto não merece reparos a decisão recorrida ao afirmar que “..não há nulidade dos autos de infração se os atos e termos forem lavrados por pessoa competente, dentro da estrita legalidade, e se for garantido o mais absoluto direito de defesa... a impugnação da exigência instaura a fase litigiosa do processo administrativo (art. 14 do PAF). O procedimento de fiscalização é precedente, tendo caráter inquisitorial.” No presente caso, verificase que, tal qual asseverado na decisão recorrida, “a atuação da fiscalização foi conduzida dentro dos limites da legalidade. Não há evidências de impessoalidade, tendenciosidade ou cometimento vícios no curso da ação fiscal (tal como a “coação moral”), como alegado pela impugnante. A partir da legítima interpretação dos fatos e documentos, a fiscalização viuse obrigada a lavrar os autos de infração (art. 142, parágrafo único, do CTN)....”, sendo que certo que “... a apresentação de defesa evidencia a plena compreensão e entendimento pela impugnante acerca das infrações apontadas e possibilitou o rebate de cada uma das acusações. Isso pressupõe inexistência de prejuízo ao direito de defesa.” O arbitramento das receitas consideradas omitidas nos anos de 2001 e 2002, procedida pela Fiscalização, tem amparo no artigo 148 do CTN, que estabelece: Art. 148. Quando o cálculo do tributo tenha por base, ou tome em consideração, o valor ou o preço de bens, direitos, serviços ou atos jurídicos, a autoridade lançadora, mediante processo regular, arbitrará aquele valor ou preço, sempre que sejam omissos ou não mereçam fé as declarações ou os esclarecimentos prestados, ou os documentos expedidos pelo sujeito passivo ou pelo terceiro legalmente obrigado, ressalvada, em caso de contestação, avaliação contraditória, administrativa ou judicial. Fl. 66DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 38 38 Segundo Misabel Abreu Machado Derzi, “ o art. 148 do CTN somente pode ser invocado para estabelecimento de bases de cálculo, que levam ao cálculo do tributo devido, quando a ocorrência dos fatos geradores é comprovada, mas o valor ou preço de bens, direitos, serviços ou atos jurídicos registrados pelo contribuinte não mereçam fé, ficando a Fazenda Pública autorizada a arbitrar o preço, dentro de processo regular. A invocação desse dispositivo somente é cabível, como magistralmente comenta Aliomar Baleeiro, quando o sujeito passivo for omisso, reticente ou mendaz em relação a valor ou preço de bens, direitos, serviços: ‘.... Do mesmo modo, ao prestar informações, o terceiro, por displicência, comodismo, conluio, desejo de não desgostar o contribuinte etc., às vezes deserta da verdade ou da exatidão. Nesses casos, a autoridade está autorizada legitimamente a abandonar os dados da declaração, sejam do primeiro, sejam do segundo e arbitrar o valor ou preço, louvandose em elementos idôneos de que dispuser, dentro do razoável” (Misabel Abreu Machado Derzi, in Comentários ao Código Tributário Nacional, Ed. Forense, 3ª ed., 1988). ....” Frise que o procedimento fiscal também é amparado pelo Regulamento do Imposto de Renda (RIR/99) nos seguintes dispositivos: Art. 841. O lançamento será efetuado de ofício quando o sujeito passivo (Decreto Lei nº 5.844, de 1943, art. 77, Lei nº 2.862, de 1956, art. 28, Lei nº 5.172, de 1966, art. 149, Lei nº 8.541, de 1992, art. 40, Lei nº 9.249, de 1995, art. 24, Lei nº 9.317, de 1996, art. 18, e Lei nº 9.430, de 1996, art. 42): (...) II deixar de atender ao pedido de esclarecimentos que lhe for dirigido, recusarse a prestálos ou não os prestar satisfatoriamente; (...) VI omitir receitas ou rendimentos. (...) Art. 845. Farseá o lançamento de ofício, inclusive (DecretoLei nº 5.844, de 1943, art. 79): I arbitrandose os rendimentos mediante os elementos de que se dispuser, nos casos de falta de declaração; II abandonandose as parcelas que não tiverem sido esclarecidas e fixando os rendimentos tributáveis de acordo com as informações de que se dispuser, quando os esclarecimentos deixarem de ser prestados, forem recusados ou não forem satisfatórios; III computandose as importâncias não declaradas, ou arbitrando o rendimento tributável de acordo com os elementos de que se dispuser, nos casos de declaração inexata. § 1º Os esclarecimentos prestados só poderão ser impugnados pelos lançadores com elemento seguro de prova ou indício veemente de falsidade ou inexatidão (DecretoLei nº 5.844, de 1943, art. 79, § 1º). (...) Art. 846. O lançamento de ofício, além dos casos especificados neste Capítulo, far seá arbitrandose os rendimentos com base na renda presumida, mediante utilização dos sinais exteriores de riqueza (Lei nº 8.021, de 1990, art. 6º). § 1º Considerase sinal exterior de riqueza a realização de gastos incompatíveis com a renda disponível do contribuinte (Lei nº 8.021, de 1990, art. 6º, § 1º). Fl. 67DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 39 39 § 2º Constitui renda disponível, para os efeitos de que trata o parágrafo anterior, a receita auferida pelo contribuinte, diminuída das deduções admitidas neste Decreto, e do imposto de renda pago pelo contribuinte (Lei nº 8.021, de 1990, art. 6º, § 2º). § 3º Ocorrendo a hipótese prevista neste artigo, o contribuinte será notificado para o devido procedimento fiscal de arbitramento (Lei nº 8.021, de 1990, art. 6º, § 3º). § 4º No arbitramento tomarseão como base os preços de mercado vigentes à época da ocorrência dos fatos ou eventos, podendo, para tanto, ser adotados índices ou indicadores econômicos oficiais ou publicações técnicas especializadas (Lei nº 8.021, de 1990, art. 6º, § 4º). (Grifei) Vejase que todos as disposições do RIR/99 supra transcritas tem matriz legal. Portanto, o arbitramento de receitas e rendimentos, diante de indícios veementes de sua ocorrência e concomitante recusa do contribuinte em apresentar os valores, tem amparo legal e pode ser levado a efeito em procedimento regular, sem que isso implique necessariamente no arbitramento de lucros de que trata o art. 43 do CTN e 541 do RIR/99. Nesse sentido há, inclusive decisões judiciais, a exemplo do seguinte julgado: I. À falta de apresentação pelo sujeito passivo de demonstrações contábeis idôneas à base de cálculo do Imposto de Renda, remanesce à Fiscalização o recurso de proceder ao arbitramento para chegar aos valores que deveriam ter sido declarados. ....” (TRF3ª Região. AC 96.03.0663158/MS. Rel.: Des. Federal Baptista Pereira. 3ª Turma. Decisão: 03/10/01. DJ de 13/11/02, p. 763.) Ora, no presente caso é inegável que as vendas ocorreram e que a fiscalizada recusouse a apresentar os documentos comprobatórios dos valores efetivos das operações. É certo que a Receita Federal poderia utilizarse de seus adidos tributários, bem como dos convênios e acordos com outros países para obter a documentação, porém o procedimento seria dispendioso e demorado, tempo que o Fisco não dispunha em razão da eminência do transcurso do prazo decadencial. Uma vez que há amparo na legislação para o arbitramento do valor das operações, rejeito também essa preliminar. Mais a mais, caso algum valor tomado pelo Fisco esteja incorreto, bastaria a contribuinte apresentar documentos idôneos do valor correto da operação, pois, tratarse ia de mero ajuste na base de cálculo. Frisese, outrossim, que a legalidade do arbitramento do preço de venda, ou receita, não implica na procedência da exigência fiscal, pois, ainda resta verificar se realmente a contribuinte deixou de reconhecer o resultado obtido nessas operações e, principalmente, se o procedimento adotado Fisco na determinação dos tributos devidos está correto. Tais questões serão abordadas adiante neste voto. I.5 – Exigência do IRFonte sobre pagamentos sem causa e/ou beneficiários não identificados A justificativa para exigência do Imposto de Renda na Fonte, está assim descrita no relatório fiscal: Fl. 68DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 40 40 225. Sobre a diferença de preço omitido ao Fisco Federal, incide também IRRF com devidos acréscimos legais. A receita omitida que serviu para a determinação da Base de Cálculo Reajustada, assim como a multa de ofício aplicada, seguiu os padrões 1, 2 e 3 explicados anteriormente (parágrafos 199 a 221). 226. Em regra, o planejamento tributário irregular executado pela Marcopolo foi amparado por, no mínimo, 2 (dois) fechamentos de câmbio: o primeiro vinculado à “exportação” da carroceria da Marcopolo para uma de suas Centrais de Refaturamento (MIC/ILMOT), envolvendo valores inferiores aos realmente praticados; o segundo vinculado à “exportação” da mesma carroceria por essa Central de Refaturamento, consignando valores superiores aos da primeira “transação”. 227. Tal diferença de preços foi evadida do Brasil, visto essas duas empresas estarem sediadas no exterior (Ilhas Virgens Britânicas e Uruguai), sem passar por qualquer registro contábil ou fiscal na Marcopolo S.A 228. Essa diferença de preços, como foi empregada a terceira pessoa (física ou jurídica) no exterior, além de ser parcela de receita operacional omitida, caracteriza “pagamento sem causa”, razão pela qual incide indubitavelmente o imposto retido exclusivamente na fonte à alíquota de 35% sobre base de cálculo reajustada, nos termos dos artigos 674 e parágrafos e 725 do Regulamento do Imposto de Renda aprovado pelo Decreto nº 3.000, de 26 de março de 1999 e artigo 61, parágrafo terceiro, da Lei 8981/95 (...). Por seu turno, a recorrente afirma que “não cabe a exigência do imposto na fonte, porquanto não se verifica a ocorrência da regramatriz de incidência tributária, visto que: (i) não houve pagamento e propriamente também não houve entrega de recursos; (ii) "in casu" há prova da operação e da causa da entrega que teria havido, que é exatamente a realização das exportações; (iii) no passado já houve a previsão legal de incidência de imposto na fonte sobre omissão de receitas, mas tal norma está revogada, sendo certo que a aplicação do IRRF em questão assume norma de caráter muito mais sancionatório, do que de norma que tipificaria verdadeira incidência tributária.... Com efeito, verificase que a pretensão fiscal acaba por tributar duplamente a mesma renda (ao considerar hipóteses excludentes: rendimento no Brasil e cobrar IRPJ, CSLL e, ao mesmo tempo, aplicar regramento afirmando que referido rendimento foi remetido ao exterior), cujo resultado não é outro que não utilizar a exigência tributária, mediante a cobrança de IRFonte, como espécie de "sanção", ao arrepio da característica essencial de tributo: prestação pecuniária de característica não sancionatória.” (grifos do original). Pois bem, a meu ver, quanto ao IRFonte, o ilustre Conselheiro Wilson Fernandes Guimarães no acórdão 10517084 de 25/06/2008 apontou, precisamente, o equívoco do entendimento fiscal, senão vejamos: “Aditese ainda que mesmo que se ultrapasse a questão da caducidade do direito, o lançamento relativo ao imposto de renda retido na fonte não poderia subsistir, eis que, aqui, a meu ver, não se vislumbra a própria ocorrência do fato gerador. Com efeito, a tributação do imposto de renda pessoa jurídica foi formalizada pela autoridade fiscal sob a alegação de ter havido omissão de receitas derivada do subfaturamento de exportações. Tal omissão encontrase materializada pela diferença entre os valores pagos pelos importadores finais às intermediárias no exterior (MIC e ILMOT) e os remetidos por estas à Recorrente, sendo certo que tal diferença permaneceu no exterior. Ante a inexistência de movimentação física de Fl. 69DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 41 41 valores por parte da Recorrente, não há que se falar em incidência de imposto de renda retido na fonte em razão de pagamento sem causa.” (grifei) Em verdade, a exigência do IRFonte chega a ser contraditória com as conclusões da própria fiscalização, pois, mesmo que se considere que os pagamentos foram realizados pelos terceiros por conta Marcopolo, os pagamentos à MIC/ILMOT não só tiveram causa nos produtos vendidos, como também os beneficiários são identificados. Não há acusação nos autos de que os pagamentos são de outra natureza ou que tiveram outros destinatários;, pelo contrário, afirmase que os recurso são da Marcopolo e que teriam sido entregues à MIC/ILMOT no exterior para evadir da tributação do IRPJ e CSLL no Brasil. Portanto, não cabe mesmo a incidência do IRFonte, pois, a Marcopolo não fez qualquer pagamento a esses beneficiários, ainda que se considere que se tratam de receitas diretas da autuada. Noutro giro: se os valores tributados são mesmo receitas direta da Marcopolo, então MIC/ILMOT apenas receberam essas diferenças por conta desta, logo, não se sustenta a acusação de que a Marcopolo realizou “pagamentos sem causa” às suas controladas no exteriores consubstanciado nos recursos entregues pelas empresas adquirentes. Nesse sentido já decidiu este colegiado no acórdão 140200.155, de 6/4/2010, cujas ementas elucidam: PAGAMENTO SEM CAUSA CARACTERIZAÇÃO DO ATO ÔNUS DA PROVA. A caracterização pela fiscalização, mediante provas, de que ocorreu pagamento é pressuposto material para o lançamento do Imposto de Renda Retido na Fonte incidente sobre pagamento sem causa ou a beneficiário não identificado, de que trata o caput do art. 61 da Lei 8.981/95. Cumpre, então, o cancelamento da exigência do IRFonte. I.6 – Exigência do IRPJ e da CSLL A Fiscalização concluiu que a contribuinte simulou as vendas às empresas MIC e ILMOT, suas controladas no exterior (situadas em paises considerados paraísos fiscais), praticando valores consideravelmente inferiores ao que eram revendidos por essas a seus clientes no exterior. Isso sem qualquer justificativa material, caracterizando a prática de subfaturamento de preços. Vejamos o cerne da acusação fiscal (verbis): 177. Após a extensiva análise de todos os documentos e explicações disponíveis, restounos certo que as empresas Marcopolo International Corp. (MIC) e Ilmot International Corporation S.A. (ILMOT) são, de fato, Centrais de Refaturamento. As alegadas intermediações foram simulações visando a acobertar, por um elaborado mas ilícito planejamento fiscal, a prática de subfaturamento dos preços de produtos exportados pela Marcopolo. Concluímos que as participações dessas Centrais de Refaturamento nas operações analisadas não passaram de atos ou negócios jurídicos aparentes, que dissimularam a natureza dos elementos constitutivos da obrigação tributária, ocultando a ocorrência do fato gerador de tributos federais (IRPJ, CSLL e IRRF) e a evasão de divisas para o exterior. Assim, resta ao Fisco apenas o devido lançamento dos autos referentes a essas irregularidades. Fl. 70DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 42 42 178. Ressaltamos que não cabem, para a determinação desse ilícito, tanto a análise de preços de transferência quanto a descaracterização da existência das empresas MIC e ILMOT. Esta, pela insuficiência de indícios que assegurem tal interpretação; aquela, pela inegável inexistência das intermediações dessas Centrais de Refaturamento. É do conjunto de simulações e refaturamentos, e não dos valores praticados (pela aplicação do mecanismo de Preços de Transferência), em suma, que resultou o indevido subfaturamento alvo dessa Fiscalização. A primeira assertiva relevante que se extrai do entendimento fiscal é que em momento algum foi desconsiderada a personalidade jurídica das empresas MIC e ILMOT, tampouco a existência formal e material de ambas, e principalmente, a efetividade dos negócios. Afirmam os Auditores que essa intermediação não ocorreu, que as vendas foram diretas, logo, as operações entre Marcopolo/MIC/Clientes e Marcopolo/Ilmot/Clientes teriam sido simuladas. Vejamos o exemplo ilustrativo das operações extraído do Relatório Fiscal: Pois bem, os AuditoresFiscais encarregados da fiscalização da empresa Marcopolo S/A executaram, por mais de 5(cinco) anos um minucioso trabalho, envolvendo os anos calendário de 1999 a 2007, cujas verificações, provas e conclusões encontramse compiladas em detalhados TVF, integrantes dos respectivos autos de infração; no presente caso são mais de 100 (cem) páginas contendo exposição dos fatos, remissões legais, gráficos, memórias de cálculo, etc. É de se enaltecer a qualidade do trabalho fiscal no que concerne a clareza e transparência, possibilitando o pleno conhecimento das infrações imputadas à contribuinte. A Fiscalização apurou, ao fim e ao cabo, que nas operações intermediadas pela ILMOT, a média ponderada da diferença entre o preço pago pelos compradores finais e o MARCOPOLO S.A COMPRADOR NO EXTERIOR CONTROLADA NO EXTERIOR OPERAÇÃO 1: A MARCOPOLO S.A. EMITE UMA FATURA DE VENDA DE ÔNIBUS PARA UMA DAS SUAS CONTROLADAS NO EXTERIOR, MIC ou ILMOT, LOCALIZADAS, RESPECTIVAMENTE, NAS ILHAS VIRGENS BRITÂNICAS E NO URUGUAI – VALOR HIPOTÉTICO DE R$ 100.000,00 ‑ OPERAÇÃO 2: COM BASE NA OPERAÇÃO 1, A MARCOPOLO S.A. FAZ REMESSA FÍSICA DIRETA DO ÔNIBUS PARA O COMPRADOR FINAL NO EXTERIOR, SEM PASSAR PELA EMPRESA INTERMEDIÁRIA (MIC ou ILMOT), – VALOR HIPOTÉTICO DE R$ 100.000,00 ‑ OPERAÇÃO 3: NESTE MOMENTO A EMPRESA INTERMEDIÁRIA DA OPERAÇÃO EMITE UMA FATURA DE VENDA DE ÔNIBUS PARA O COMPRADOR FINAL NO EXTERIOR – VALOR HIPOTÉTICO DE R$ 115.000,00 – É EM RELAÇÃO A ESSE MOMENTO QUE PROVAREMOS, INDICIARIAMENTE, A NÃO EXISTÊNCIA FÁTICA DA INTERMEDIAÇÃO, HAVENDO SUBFATURAMENTO DE R$ 15.000,00. Fl. 71DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 43 43 valor de venda da MARCOPOLO foi de 14,08%, em relação à MIC esse percentual foi de 18,94% (fl. 87 do TVF). Nos exatos termos do art. 29 do Decreto 70.235/1972, “Na apreciação da prova, a autoridade julgadora formará livremente sua convicção”. A meu ver, a Marcopolo, logrou provar a existência formal e material de MIC e ILMOT, bem como que intermediaram as operações, ainda que de forma incipiente, conforme asseverado pela recorrente nos seguintes termos (verbis) “(...)ao longo dos cinco anos em que a Recorrente vem sendo fiscalizada acerca da presente operação, em nenhum momento qualquer indício documentos, evidência de ligações telefônicas, correspondências, mensagens eletrônicas, etc... foi trazido pela fiscalização para demonstrar a primeira etapa da simulação por ela apontada, qual seja, o contato com clientes situados no exterior com a Recorrente. E não há indícios ou provas desse contato, por mais óbvio que pareça, porque, simplesmente, os clientes situados no exterior NÃO ENTRAM EM CONTATO OU NEGOCIAM DIRETAMENTE COM A RECORRENTE, mas sim com representantes comerciais situados em países diversos, contratados (doe. 01 fls. 1289/1424) e geridos e comissionados (doe. 02 fls. 1188/1197 e fls. 2636/2660 dos autos) pelas empresas MIC e Ilmot. Notem que as atividades exercidas pelas empresas MIC e Ilmot consistiam basicamente na gestão dessa rede de representantes comerciais situados em diversos países, responsáveis pela prospecção e o contato direto com os clientes, gestão financeira para a captação de financiamentos no exterior e gestão da assistência técnica e garantia dos produtos fabricados pela Recorrente. Essas atividades de gestão, parece evidente, não demandam o uso intensivo de mão deobra ou o uso de uma estrutura operacional complexa, mas apenas e tão somente a capacidade laborai de um gestor e um escritório com funcionalidades básicas (linha telefônica, fax, email, computador e secretária). Nesse sentido, restou comprovado pela Recorrente que, nos anos de 2001 e 2002, tal atividade de gestão era exercida pelo Sr. Rafael Adauto, que possuía a sua disposição a estrutura operacional necessária para o exercício de suas atividades. Acerca da comprovação da atividade de gestão comercial da rede de representantes comerciais das empresas MIC e Ilmot, gestão financeira e da assistência técnica e garantia dos produtos fabricados pela Recorrente, foram trazidos aos autos os seguintes documentos: • Contas telefônicas com o detalhamento das ligações realizadas e recebidas para diversos clientes, representantes comerciais e para a Recorrente, bem como emails (docs. 03); • Comprovantes de despesas de viagens para visitas comerciais à clientes e representantes comerciais (doe. 04); • Comprovantes de despesas de assistência técnica e garantia dos produtos Marcopolo (does. 05 fls. 669 e seguintes); Vale mencionar que a decisão de primeiro grau, apesar de reconhecer a participação do Sr. Rafael Adauto como gestor das empresas MIC e Ilmot3, afasta a pertinência da documentação trazida sob o argumento de que não teria restado demonstrada a relação direta entre as despesas e as exportações fiscalizadas, além do referido gestor possuir vínculo empregatício com a Marcopolo no período. Fl. 72DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 44 44 (A propósito da participação do Sr. Rafael Adauto da Costa como gestor da MIC e ILMOT, cuja atuação foi reconhecida pela própria fiscalização, há que se registrar que não há vinculação formal dessa participação com as vendas consideradas simuladas, além do fato de o gestor possuir vínculo empregatício com a Marcopolo no período. ) Vejam, contudo, que essas singelas justificativas não são suficientes para afastar a robustez das provas de execução material das atividades de negociação comercial e revenda exercidas pelas empresas MIC e Ilmot por meio de seu gestor Rafael Adauto. Isso porque os comprovantes de despesas com viagens comerciais, contatos e correspondências com clientes e representantes resultaram sim nas vendas realizadas pelas empresas MIC e Ilmot e, por conseqüência, nas exportações realizadas pela Recorrente. A esse respeito, impende mencionar apenas como exemplo, os comprovantes de ligações e viagens para os representantes e clientes, que resultaram na venda e exportação das carrocerias nos anos fiscalizados. Veja que nas fls. 24412442 dos autos, encontrase juntada a conta telefônica da Marcopolo of America dos meses de abril e maio de 2002 (doe. 03). Esta conta registra uma ligação feita em 21/05/2002 para o número 0115065513119. Este número pertence à empresa Importaciones Zuzu, S.A., representante comercial da MIC na Costa Rica (contrato de representação comercial juntado às fls. 13261338), conforme se comprova pelo documento anexo (doc. 03). Registrese que no documento ora anexado, a representante comercial enviou, em 08.05.2002, após receber solicitação formal do cliente, uma cotação para a venda de uma carroceria modelo Torino, montada sob chassi Volvo. Esta carroceria de n° 3562002 acabou sendo faturada em 20.09.2002 e consta da planilha do fisco, juntada à fl. 434. Não se argumente que se trata de uma operação isolada, vez que desde 2001, a empresa Importaciones Zuzu, S.A. já realizava a venda de carrocerias para sua representada MIC, conforme se infere pelo documento ora anexado (doe. 03), no qual fica evidenciada a venda da carroceria de n° 128925, constante da planilha do fisco às fls. 433. Da mesma forma, quanto à assertiva de que o gestor comercial da MIC e da ILMOT possuía vínculo empregatício com a Marcopolo no período, é inegável o reconhecimento da Recorrente de que as empresas MIC e ILMOT compõem o grupo Marcopolo. Assim, é óbvio que os serviços prestados pelos trabalhadores das controladas (MIC e ILMOT) impactam toda a atividade do grupo.. (...)” Aliás, em pese colocar em dúvida a existência efetiva de MIC e ILMOT, a própria Fiscalização deixa claro que isso não é tão relevante. Aduz o fisco: “(...)Mesmo considerando que os indícios coletados sobre a inexistência de fato das empresas MIC e ILMOT não se limitam aos anteriormente citados, o conjunto de provas indiciárias não se mostrou sólido o suficiente para que formássemos a convicção de que a MIC e ILMOT não existiam. Por outro lado, a contribuinte tampouco conseguiu, com os argumentos e documentos apresentados, convencernos de que existiam ... Ressaltamos, entretanto, que as conclusões a que chegamos, de acordo com o corpo do Relatório de Auditoria Fiscal, independem da existência ou não da MIC/ILMOT, uma vez que Fl. 73DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 45 45 é da ausência de intermediação nas operações fiscalizadas que resulta o lançamento do crédito tributário.” (fl. 102 do TVF). Pois, pela análise dos autos formei pleno convencimento de que a contribuinte realizou um minucioso planejamento fiscal, daí a certeza pessoal da existência fática de MIC e ILMOT, bem como da participação de ambas nas operações, ainda que dispensável. Um ponto pacífico: mantendose o preço de venda ao adquirente final, se ao invés de 15%, a diferença entre esse valor e o preço de repasse da Marcopolo para MIC e ILMOT fosse em média de 0,15% (1/100), certamente inexistiria subfaturamento, mesmo mantendo todas as demais características das operações. Essa conclusão é facilmente sustentável, a começar pela própria decisão de 1a. instância que afastou a tributação sobre as operações que importaram em margem de apenas 0,12% para a MIC. ‘A medida que a Marcopolo detém o integral controle e quase 100% de participação em MIC e IMOLT, na prática, a empresa não tem lucro ou prejuízo nessas operações. Explico: elevandose o preço de venda MIC e ILMOT, aumenta o lucro de Marcopolo; reduzindose o preço de venda, aumenta o lucro de MIC e ILMOT. Ora, se o resultado de MIC e ILMOT são da Marcopolo, salvo outros aspectos secundários, relativos a movimentação de recursos no exterior, a empresa Marcopolo pode gerenciar esses preços a seu critério. Logo, se havia necessidade da Marcopolo utilizarse de MIC e ILMOT, nada impediria que o preço do repasse você próximo do de venda ao adquirente final. A contribuinte apresentou diversos documentos no intuito de comprovar as despesas da MIC/ILMOT que justificariam a diferença de preço e, consequentemente afastariam a acusação fiscal. Todavia, somandose todos esses valores não chega nem próximo da diferença de preços praticada. Repito: é evidente que Marcopolo poderia praticar o preço que entendesse adequado nas vendas à MIC e ILMOT, visando preservar seus interesses e propósitos negociais, pois, o que importaria mesmo para o resultado da empresa é o valor de venda ao adquirente final praticado pelas subsidiárias. Interessante observar que, caso a intermediação fosse realizada por terceiros independentes, ainda que o trabalho desses fosse apenas conseguir os clientes e intermediar as vendas, a exemplo de “representantes comerciais” que atuam dentro do território Brasileiro, a comissão de 10% a 15% até poderia ser considerada razoável e, provavelmente, não seria objeto de autuação. Cumpre observar também que, para regular situações semelhantes à que está sendo debatida nestes autos, quais sejam, transações jurídicas com empresas constituídas no exterior e submetidas a um tratamento de país ou dependência com tributação favorecida ou sob regime fiscal privilegiado3, em 2009, foi editada a Medida Provisória 472, convertida na Lei 12.249, de 2010, que passou a exigir a comprovação da capacidade operacional da pessoa física ou entidade no exterior de realizar a operação. Todavia, à luz do art. 104 do CTN, tal 3 Arts. 24 e 24A da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996. Fl. 74DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 46 46 norma não é aplicável ao caso presente em face do principio da irretroatividade (A lei vigente após o fato gerador, para a imposição do tributo, não pode incidir sobre o mesmo, sob pena de malferir os princípios da anterioridade e irretroatividade. ....” STJ. REsp 179966/RS. Rel.: Min. Milton Luiz Pereira. 1ª Turma.). Chegase assim aos pontos terminais da lide, quais sejam: a redução das bases de cálculo do IRPJ e CSLL da Marcopolo, à medida que a contribuinte teria praticado o subfaturamento, bem como a forma de tributação desses diferenças. Admitindose, em tese, a prática do subfaturamento, verificase que a fiscalização tratou tais valores como omissão de receitas, procedimento que entendo inadequado ao caso. Isso porque não há que se falar em omissão de receitas à medida que não se questiona o preço de venda praticado por MIC e ILMOT, sendo que a Marcopolo é i) obrigada a reconhecer e tributar os resultados positivos apurados pelas suas controladas, pelo método da equivalência patrimonial, tendo em vista a tributação bases mundiais, ii) bem como observar a legislação de preços de transferência. Em relação ao primeiro ponto, tributação dos resultados de controladas no exterior, o artigo 1o. da Lei 9.532/1997, dispõe: Art. 1º Os lucros auferidos no exterior, por intermédio de filiais, sucursais, controladas ou coligadas serão adicionados ao lucro líquido, para determinação do lucro real correspondente ao balanço levantado no dia 31 de dezembro do ano calendário em que tiverem sido disponibilizados para a pessoa jurídica domiciliada no Brasil. Por sua vez, a Medida Provisória nº 2.15835/2001, Art. 74, estabeleceu que os lucros auferidos por controlada ou coligada no exterior serão considerados disponibilizados para a controladora ou coligada no Brasil na data do balanço no qual tiverem sido apurados. O artigo 394 do Regulamento do Imposto de Renda (RIR/99) cuja matriz legal está no art. 25 da lei 9.249/1995, estabelece: Atividades Exercidas no Exterior Lucros, Rendimentos e Ganhos de Capital Art. 394. Os lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior serão computados na determinação do lucro real das pessoas jurídicas correspondente ao balanço levantado em 31 de dezembro de cada ano (Lei nº 9.249, de 1995, art. 25); (...) § 5º Os lucros auferidos por filiais, sucursais ou controladas, no exterior, de pessoas jurídicas domiciliadas no Brasil serão computados na apuração do lucro real com observância do seguinte (Lei nº 9.249, de 1995, art. 25, § 2º): I as filiais, sucursais e controladas deverão demonstrar a apuração dos lucros que auferirem em cada um de seus exercícios fiscais, segundo as normas da legislação brasileira; Fl. 75DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 47 47 II os lucros a que se refere o inciso I serão adicionados ao lucro líquido da matriz ou controladora, na proporção de sua participação acionária para apuração do lucro real; III se a pessoa jurídica se extinguir no curso do exercício, deverá adicionar ao lucro líquido os lucros auferidos por filiais, sucursais ou controladas, até a data do balanço de encerramento; IV as demonstrações financeiras das filiais, sucursais e controladas que embasarem as demonstrações em Reais deverão ser mantidas no Brasil pelo prazo previsto no art. 173 da Lei nº 5.172, de 1966. § 6º Os lucros auferidos no exterior por coligadas de pessoas jurídicas domiciliadas no Brasil serão computados na apuração do lucro real com observância do seguinte (Lei nº 9.249, de 1995, art. 25, § 3º): I os lucros realizados pela coligada serão adicionados ao lucro líquido, na proporção da participação da pessoa jurídica no capital da coligada; II os lucros a serem computados na apuração do lucro real são os apurados no balanço ou balanços levantados pela coligada no curso do período base de apuração da pessoa jurídica; III se a pessoa jurídica se extinguir no curso do exercício, deverá adicionar ao seu lucro líquido, para apuração do lucro real, sua participação nos lucros da coligada apurados por esta em balanços levantados até a data do balanço de encerramento da pessoa jurídica; IV a pessoa jurídica deverá conservar em seu poder cópia das demonstrações financeiras da coligada. § 7º Os lucros a que se referem os §§ 5º e 6º serão convertidos em Reais pela taxa de câmbio, para venda, do dia das demonstrações financeiras em que tenham sido apurados os lucros da filial, sucursal, controlada e coligada (Lei nº 9.249, de 1995, art. 25, § 4º). § 8º Os prejuízos e perdas decorrentes das operações referidas neste artigo não serão compensados com lucros auferidos no Brasil (Lei nº 9.249, de 1995, art. 25, § 5º). § 9º Os resultados da avaliação dos investimentos no exterior, pelo método da equivalência patrimonial, continuarão a ter o tratamento previsto na legislação vigente, sem prejuízo do disposto nos §§ 1º, 5º e 6º (Lei nº 9.249, de 1995, art. 25, § 6º). Grifei Portanto, os lucros de controladas serão apurados segundo a legislação brasileira, isto é, com base em demonstrativos contemporâneos ao encerramento do período base da empresa nacional e com as adições, inclusões e compensações reguladas na lei nacional. Dispõe o art. 7º da Instrução Normativa SRF nº 213/2002 que o resultado positivo da equivalência patrimonial deverá compor o lucro real e a base de cálculo da CSLL apurados em 31 de dezembro e que o resultado negativo deverá ser adicionado ao lucro real e à base de cálculo da CSLL, inclusive por ocasião do levantamento de balanços ou balancetes de suspensão ou redução de pagamentos mensais. Essa disposição é corroborada pelo Fl. 76DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 48 48 entendimento desde Conselho, manifestado em diversos julgados a exemplo do acórdão 101 96.318 em 13.09.2007, cuja ementa elucida: EQUIVALÊNCIA PATRIMONIAL INVESTIMENTOS NO EXTERIOR Os resultados positivos da avaliação dos investimentos pelo método de equivalência patrimonial, segundo a legislação do Imposto de Renda, não se enquadram na categoria de lucros auferidos pela controladora sujeitos à incidência desse Imposto. Entretanto, com o comando fixado pelo artigo 74 da Medida Provisória n. 2.158 35/2001, o resultado positivo dessa equivalência decorrente de investimentos no exterior, integram a base de cálculo do lucro real e da CSLL. Logo, considerando a existência formal e fática de MIC e Ilmot, bem como a participação dessas nas operações, ainda que incipiente, ao constatar irregularidades na apuração dos resultados das controladas no exterior, o procedimento correto do Fisco seria ajustar o valor para fins de tributação na Marcopolo, observando o art. 394 do RIR/99. Quanto a não observância desse procedimento consta o seguinte no Termo de Verificação Fiscal: NÃO TRIBUTAÇÃO DOS RESULTADOS AUFERIDOS PELA MIC E ILMOT 117. Um dos principais argumentos utilizados pelas empresas estadunidenses que se valem de empresas subsidiárias como Centrais de Refaturamento para subfaturar preços é que, por legislação local, os lucros auferidos por empresas no exterior são tributados. De forma semelhante, alegou a contribuinte em Impugnação: “56. Ademais, o fato da autoridade fiscal estar totalmente apegada à falsa idéia de conspirações fantasiosas, não permitiu que se ativesse ao fato de que o investimento da Impugnante nas duas empresas que entende a fiscalização não existirem de fato (argumento que será demonstrado e comprovado que não possui qualquer fundamento), foi trazido à tributação por decorrência dos arts. 25 a 27 da Lei nº 9.249/95.” 118. Uma análise mais criteriosa, entretanto, revela outra situação. Partindo do “Demonstrativo dos Lucros/Prejuízos Acumulados” (folha nº 1741) apresentado pela contribuinte com relação à empresa MIC, extraímos os dados constantes na tabela seguinte, que serviram de base para a análise do Fisco a respeito dos lucros das empresas “intermediárias”. Lucros e Prejuízos da MIC Ano Base Lucros/Prejuízos Lucros/Prejuízos Acumulados 1998 4.320.471,00 4.291.040,00 1999 5.062.802,00 9.353.842,00 2000 (871.609,00) 8.482.233,00 2001 (30.060.574,12) (21.578.341,12) 2002 (12.824.870,89) (34.403.212,01) 2003 15.511.821,74 (18.891.390,27) 2004 17.054.509,31 (1.836.880,96) Fl. 77DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 49 49 119. No documento “Articles of Association of Marcopolo International Corp” (folhas nº 1900 a 1927), firmado em abril de 1998 (razão pela qual o quadro acima indica apenas os anos de 1998 em diante), a cláusula 16.2 permitia que, antes de serem estipulados os dividendos, os diretores da empresa constituíssem um Fundo de Reserva com a parcela do lucro que lhes parecesse necessária. Ainda, na cláusula 16.3, estava previsto que dividendos não solicitados por três anos seriam, após resolução dos diretores, reincorporados para benefício da MIC. 120. À época, a legislação vigente só obrigava a tributação de lucros e dividendos quando do pagamento ou crédito em conta representativa da empresa no exterior. Esse fato aliado às duas cláusulas citadas no parágrafo anterior explicam o porquê de os lucros auferidos pela MIC em 1998 e 1999 não terem sido disponibilizados para a Marcopolo (que, à época, já detinha 100% do capital social da MIC): eles somente seriam efetivamente distribuídos se a Marcopolo assim o quisesse. Assim, os lucros da MIC, ao invés de serem tributados no Brasil, ficaram integralmente nas Ilhas Virgens Britânicas, onde não há cobrança de imposto sobre a renda para empresas que, como a MIC, foram estabelecidas em conformidade com o BVI International Business Companies Act (No. 8 of 1984) (art. 111, folhas nº 1776 a 1805). 121. A partir da Medida Provisória nº 215835, de 24 de agosto de 2001, entretanto, os lucros apurados por empresas controladas ou coligadas no exterior passaram a ser, independente de sua efetiva distribuição, considerados disponibilizados, para a controladora ou coligada no País, na data do balanço em que fossem apurados. Percebese que, coincidentemente, em 2001 houve um vultuoso prejuízo, fato que se repetiu em 2002. Criouse, assim, um total de prejuízos acumulados que, em 2004, ainda não havia sido revertido. 122. Lembremos que, no Brasil, a Marcopolo está sob a supervisão da CVM. Não há, porém, qualquer órgão que assegure as informações prestadas em relação à MIC e ILMOT. Não se pode descartar, assim, que despesas e até prejuízos pudessem ser estabelecidos de acordo com os interesses da contribuinte, diminuindo a eventual necessidade de tributação decorrente de equivalência patrimonial. 123. Em relação aos anos 2001 e 2002, tendo em vista o prejuízo apresentado na MIC, não houve qualquer reflexo tributário para a Marcopolo. Em relação aos resultados da ILMOT, a contribuinte informou que eles eram reconhecidos pela MIC (folha nº 1752, item 6). CONTRATOS, HONORÁRIOS DE ADVOGADOS, DESPESAS DE PATROCÍNIO Parte da documentação apresentada pela contribuinte poderia comprovar a efetiva participação da MIC e da ILMOT em atividades diversas, comprovando, dessa forma, sua existência. Entre esses documentos, foram disponibilizados: contratos diversos de distribuição e agenciamento comercial, assim como de outros prestadores de serviços (folhas nº 1289 a 1424), comprovantes de pagamentos de honorários a advogados (folhas nº 1278 a 1283), recibo de despesas de patrocínio (folhas nº 1284 a 1285). Entretanto, como não estamos descaracterizando as empresas, e sim a sua intermediação nas operações fiscalizadas, esses dados não são relevantes. (Grifei) O trecho do TVF acima transcrito, especialmente nas partes grifadas, evidenciam que a Fiscalização verificou a possibilidade da tributação dos resultados obtidos pela Marcopolo com a MIC e ILMOT na forma da legislação de regência. Mas, nada fizeram Fl. 78DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 50 50 diante da constatação de que “em 2001 houve um vultuoso prejuízo, fato que se repetiu em 2002. Criouse, assim, um total de prejuízos acumulados que, em 2004, ainda não havia sido revertido.” Entendo que nesse ponto residiu o maior equívoco da Fiscalização: o correto seria, sob amparo da legislação vigente, fiscalizar esse prejuízo e glosar eventuais valores deduzidos indevidamente nos resultados. Repito: se a participação de MIC e ILMOT nas operações era mesmo incipiente, sendo que a intermediação foi uma forma da Marcopolo “viabilizar os negócios” ou manter recursos no exterior, então os lucros dessas empresas deveriam ser altos. A partir da MP 215835/2001 não há que se falar em fugir da tributação dos resultados no Brasil via controladas no exterior, a menos que existam outras irregularidades. No tocante ao segundo ponto, verificação dos Preços de Transferência, constatadas operações comerciais com empresas subsidiárias localizadas no exterior, ou empresas situadas em países com tributação favorecida, inexistindo circunstância que caracterize prática de omissão receitas na venda ao adquirente final, deve a Fiscalização apurar eventuais valores tributáveis na forma dos artigos 18, 19 e 24 da Lei nº 9.430/1996, que dispõe: Art. 18. Os custos, despesas e encargos relativos a bens, serviços e direitos, constantes dos documentos de importação ou de aquisição, nas operações efetuadas com pessoa vinculada, somente serão dedutíveis na determinação do lucro real até o valor que não exceda ao preço determinado por um dos seguintes métodos: I Método dos Preços Independentes Comparados PIC: definido como a média aritmética dos preços de bens, serviços ou direitos, idênticos ou similares, apurados no mercado brasileiro ou de outros países, em operações de compra e venda, em condições de pagamento semelhantes; II Método do Preço de Revenda menos Lucro PRL: definido como a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, diminuídos: a) dos descontos incondicionais concedidos; b) dos impostos e contribuições incidentes sobre as vendas; c) das comissões e corretagens pagas; d) da margem de lucro de: 1. sessenta por cento, calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e do valor agregado no País, na hipótese de bens importados aplicados à produção; 2. vinte por cento, calculada sobre o preço de revenda, nas demais hipóteses. (NR) (Redação dada à alínea pela Lei nº 9.959, de 27.01.2000, DOU 28.01.2000) III Método do Custo de Produção mais Lucro CPL: definido como o custo médio de produção de bens, serviços ou direitos, idênticos ou similares, no país onde tiverem sido originariamente produzidos, acrescidos dos impostos e taxas cobrados pelo referido país na exportação, e de margem de lucro de vinte por cento, calculada sobre o custo apurado. Fl. 79DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 51 51 § 4º. Na hipótese de utilização de mais de um método, será considerado dedutível o maior valor apurado, observado o disposto no parágrafo subseqüente. § 5º. Se os valores apurados segundo os métodos mencionados neste artigo forem superiores ao de aquisição, constante dos respectivos documentos, a dedutibilidade fica limitada ao montante deste último. § 7º. A parcela dos custos que exceder ao valor determinado de conformidade com este artigo deverá ser adicionada ao lucro líquido, para determinação do lucro real. Art. 19. As receitas auferidas nas operações efetuadas com pessoa vinculada ficam sujeitas a arbitramento quando o preço médio de venda dos bens, serviços ou direitos, nas exportações efetuadas durante o respectivo período de apuração da base de cálculo do imposto de renda, for inferior a noventa por cento do preço médio praticado na venda dos mesmos bens, serviços ou direitos, no mercado brasileiro, durante o mesmo período, em condições de pagamento semelhantes. § 7º. A parcela das receitas, apurada segundo o disposto neste artigo, que exceder ao valor já apropriado na escrituração da empresa deverá ser adicionada ao lucro líquido, para determinação do lucro real, bem como ser computada na determinação do lucro presumido e do lucro arbitrado. Art. 20. Em circunstâncias especiais, o Ministro de Estado da Fazenda poderá alterar os percentuais de que tratam os artigos 18 e 19, caput, e incisos II, III e IV de seu § 3º. Art. 24. As disposições relativas a preços, custo e taxas de juros, constantes dos artigos 18 a 22, aplicamse, também às operações efetuadas por pessoa física ou jurídica residente ou domiciliada no Brasil, com qualquer pessoa física ou jurídica, ainda que não vinculada, residente ou domiciliada em país que não tribute a renda ou que a tribute a alíquota máxima inferior a vinte por cento. (grifei) Assim, alem da possibilidade de ajustar o valor tributado dos resultados no exterior, a fiscalização também poderia/deveria verificar o valor dos Preços de Transferência. Procedimento que foi feito, conforme descrito no TVF (verbis): PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO: PREÇOS PRATICADOS x PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA 111. Em análise preliminar (parágrafo Error! Reference source not found.), constatouse que os preços praticados nas exportações para a MIC/ILMOT pareciam estar em conformidade com o Método de Preços de Transferência. Entretanto, ao confrontarmos essa adequação com o extenso conjunto de indícios levantados sobre a simulação da intermediação da MIC/ILMOT, nova interpretação emerge. 112. Como já observado (parágrafo Error! Reference source not found.), em casos de simulação, o ilícito é praticado de forma a dificultar a produção de provas diretas. Mais que isso, medidas são tomadas para mascarálo com a aparência de legalidade. A emissão de faturas, a contratação de empresas para emprestar domicílio em outros países, contratos e pedidos eletrônicos são apenas alguns dos meios para proteger o planejamento tributário irregular. 113. Nesse sentido, nada seria mais seguro para coibir análises do Fisco do que se adequar a um mecanismo de fiscalização. Com o devido planejamento tributário, é possível estar em conformidade com os Preços de Transferência, muito embora o importador “intermediário” sequer exista. Fl. 80DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 52 52 114. Ao longo das fiscalizações de 2005 e 2006 e, perceptivelmente, na Impugnação ao auto de 2005, a contribuinte alegou reiteradamente a sua adequação a esse mecanismo, desconsiderando o fato óbvio de que não era essa a constatação do Fisco. Guardadas as devidas proporções, é como se, após a verificação de uma exportação fictícia, o exportador invocasse o Método de Preços de Transferência para alegar a conformidade da operação. 115. Essa demasiada insistência, por si só, caracterizouse como mais um indício de que houve um planejamento tributário ilícito: ao invés de, desde o princípio, a contribuinte buscar comprovar a intermediação da MIC/ILMOT, buscou desviar, nos anos anteriores, a atenção para a sua adequação aos Preços de Transferência e para a impossibilidade de provar a inexistência fática dessas empresas. Constatase, pois, que o planejamento tributário elaborado e executado pelo contribuinte foram respeitados os limites dos preços de transferência na forma da legislação em vigor. O conselheiro Alexandre Antonio Alkmim Teixeira abordou ambas as questões em sua declaração de voto (vencido) no processo 11020.004103/200621, acordão 10 17.084, de 25/06/2008. Transcrevo seus fundamentos (verbis). Trata o presente feito de auto de infração lavrado pela Delegacia da Receita Federal no Chuí, em desconsideração dos negócios praticados pela Recorrente com suas empresas controladas MIC e ILMOT, localizadas, respectivamente, nas Ilhas Virgens Britânicas – BVI e no Uruguai (na forma de sociedade anônima financeira de investimento SAFI), ambas sujeitas ao regime de tributação favorecida. Antes de se adentrar no cerne dos negócios praticados pela Recorrente e que foram detalhadamente expostos no voto relator vejo como indispensáveis algumas considerações conceituais de forma a poder enquadrar referidos negócios ao direito pertinente. Isso se faz necessário na medida em que a norma é a descrição hipotética de um fato; sendo que, somente após a correta delimitação do instrumento normativo é que se poderá investigar a correta subsunção do fato. E, no presente caso, por se tratar de negócios realizados com empresas localizadas em Países com Regime de Tributação Favorecida, é necessário, inicialmente, conhecer o regime jurídico adotado pelo Brasil em referidas operações, para, somente depois, buscar o devido enquadramento dos fatos praticados no caso concreto. A comunidade internacional, desde a fundação da Organização para Cooperação do Desenvolvimento Econômico – OCDE, vem se ocupando das questões relacionadas à tributação no plano mundial, seja para evitar a dupla pretensão tributária sobre o mesmo fato, seja para restringir os negócios comerciais realizados com países que concedam regimes preferenciais de tributação. Em 1998, referido órgão publicou o relatório “Harmful Tax Competition – An Emerging Global Issue”, em que procura “reconhecer a distinção entre os regimes preferenciais de tributação aceitáveis e os danosos”4, bem como os impactos e as medidas de contenção para os países exportadores e importadores de capital. Essa posição da OCDE foi bastante importante: apesar de a organização ser composta pelas maiores economias de mercado do mundo – e, por conseqüência, 4 P. 8 relatório Fl. 81DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 53 53 majoritariamente, países exportadores de capital – a OCDE também recomenda aos países nãomembros – em sua maioria, importadores de capital – a adotarem as recomendações traçadas pela organização. No entanto, muitas vezes, as recomendações traçadas para os países majoritariamente exportadores de capital não interessa aos países majoritariamente importadores de capital. Dessa forma, tratase de uma questão de política fiscal, a ser implementada por cada país, segundo sua soberania e seus interesses comerciais. Embora o Brasil não seja membro da OCDE, não se sujeitando, assim, diretamente às suas diretivas, adotou e tem adotado várias das medidas recomendadas pela organização para controle de seu comércio exterior, sobretudo no que tange ao tratamento tributário deferido a sociedades empresárias que atuam no cenário internacional. A título de ilustração, podemos citar a implementação, em 1996, de normas de controle de preços de transferência e de negócios realizados com Países com Regime de Tributação Favorecida. Conceitualmente, Países com Regime de Tributação Favorecida podem ser entendidos como aqueles que concedem regime de tributação global das pessoas e investimentos nele realizados em patamares inferiores àqueles observados no cenário internacional. No entanto, Hermes Marcelo Huck adverte que: “O conceito de um paraíso fiscal pode variar radicalmente, conforme seja a fonte do qual emana. O Secretário da Receita Federal, um fiscal de impostos, um contribuinte envolvido em negócios internacionais, um jurista, um advogado descreverão o paraíso fiscal ora como a face negra do capitalismo, ora como o algoz das economias dos demais países, ora como uma alternativa para fugir à opressão dos impostos que impedem o livre fluxo de capitais, ou ainda como um poderoso catalisador da economia capitalista mundial. Tão diversas as formas como se apresentam os paraísos fiscais que uma conceituação consensual do fenômeno dependerá muito mais do grau de facilidades ou isenções fiscais que cada um ofereça do que de qualquer outro fator. Não seria exagero afirmar que até os Estados Unidos, cujo empenho de suas autoridades fiscais contra os paraísos de impostos é notório e intenso, podem ser considerados como um deles, se o enfoque da análise se concentrar no tipo de tratamento tributário favorável que a legislação americana concede aos investidores estrangeiros que mantêm recursos depositados em bancos daquele país”5. Diante deste contexto, cabe a cada país, mediante normalização própria, a definição específica de quais critérios irá tomar para que um país seja classificado como de Regime Tributário Favorecido. No Brasil, a questão veio a ser tratada por meio do art. 24A da Lei nº. 9.430, de 27 de dezembro de 1996, que considerou de tributação favorecida o país “que não tribute a renda ou que tribute à alíquota máxima inferior a 20% (vinte por cento)”. Assim, a legislação brasileira adotou um critério objetivo, delimitando os países com Regime de Tributação Favorecida com base na alíquota máxima de tributação da renda. Cumpre esclarecer, ainda, que a Lei nº. 9.430/96 sofreu recente alteração, restringindo ainda mais o conceito, por meio da Lei nº. 11.727, de 23 de junho de 2008, que a acrescentou o art. 24A e seu parágrafo único, que dispõe o seguinte: Parágrafo único. Para efeitos deste artigo, considerase regime fiscal privilegiado aquele que: 5 HUCK, Hermes Marcelo. Elisão e Evasão: Rotas Nacionais e Internacionais do Planejamento Tributário. Saraiva, São Paulo, 1997. p. 257/258. Fl. 82DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 54 54 I – não tribute a renda ou a tribute à alíquota máxima inferior a 20% (vinte por cento); II – conceda vantagem de natureza fiscal a pessoa física ou jurídica não residente: a) sem exigência de realização de atividade econômica substantiva no país ou dependência; b) condicionada ao não exercício de atividade econômica substantiva no país ou dependência; III – não tribute, ou o faça em alíquota máxima inferior a 20% (vinte por cento), os rendimentos auferidos fora de seu território; IV – não permita o acesso a informações relativas à composição societária, titularidade de bens ou direitos ou às operações econômicas realizadas.” Cabe ressaltar que são inúmeras as formas de utilização dos Países com Regime de Tributação Favorecida que permitem a redução de carga impositiva, valendose de mecanismos e procedimentos lícitos, dentro da chamada elisão fiscal6. Desta forma, cada país, identificado o planejamento empresarial ou negocial com o objetivo de redução de carga tributária, poderá adotar medidas antielisivas para atribuição de efeitos tributários próprios – e diversos – daquele que originalmente seriam aplicáveis. No caso em apreço, interessa a utilização das empresas estrangeiras no formato de trading companies, ou empresa de comercialização. Heleno Torres explica que “estas espécies de empresasbase offshore são constituídas para realizar operações comerciais fora dos países com tributação favorecida, concentrando os lucros decorrentes da suas operações comerciais no exterior com empresas vinculadas), bem como com royalties, patentes e honorários por serviços. Este tipo de empresa encontrase, portanto, representada por filiais intermediárias em operações de compra e venda, que têm como objetivo derivar os ganhos das companhias produtoras e distribuidoras de bens, situadas em território de alta tributação para países de baixa tributação”7. Para lidar com os negócios realizados com referida espécie de empresa, a Lei nº. 9.430/96 definiu o seguinte regime de tributação: Art. 24. As disposições relativas a preços, custos e taxas de juros, constantes dos arts. 18 a 22, aplicamse, também, às operações efetuadas por pessoa física ou jurídica residente ou domiciliada no Brasil, com qualquer pessoa física ou jurídica, ainda que não vinculada, residente ou domiciliada em país que não tribute a renda ou que a tribute a alíquota máxima inferior a vinte por cento. E, com a redação dada pela Lei nº. 11.727/08, renovouse o regime aplicável: 6 “Se o indivíduo busca evitar a incidência do tributo sobre determinadas situações jurídicas de forma preventiva, evitando a própria ocorrência do fato gerador, deve ser admitida sua faculdade de agir dentro das diversas condutas lícitas possíveis para que se livre da tributação, desde que as circunstâncias não exijam a observância de forma expressa em lei, garantia que decorre dos princípios gerais da atividade econômica estabelecidos na Constituição Federal (art. 170 e seguintes). É quando ocorre a elisão ou evasão lícita”. (AC 1997.01.00.061057 6/MG, 8ª Turma do TRF da 1ª região, Rel. Des. Maria do Carmo Cardoso, pub. DJ de 10/11/2006). 7 TORRES, Heleno. Direito Tributário Internacional. Planejamento Tributário e Operações Transnacionais. Revista dos Tribunais, São Paulo, 2001. p. 118. Fl. 83DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 55 55 Art. 24A. Aplicamse às operações realizadas em regime fiscal privilegiado as disposições relativas a preços, custos e taxas de juros constantes dos arts. 18 a 22 desta Lei, nas transações entre pessoas físicas ou jurídicas residentes e domiciliadas no País com qualquer pessoa física ou jurídica, ainda que não vinculada, residente ou domiciliada no exterior. Verifico que, na realização de negócios com empresas ou pessoas localizadas em Países com Regime de Tributação Favorecida, a legislação adotou parâmetros mínimos de valores a serem considerados na exportação; e máximos em valores a serem considerados em pagamentos realizados ao exterior, nos mesmos critérios adotados para os preços de transferência. Aqui, importa ressaltar que a legislação não igualou os conceitos de negócios realizados com pessoas localizadas em Países com Regime de Tributação Favorecida e preços de transferência. O que a lei fez foi igualar os critérios para controle de ambos, mas para operações conceitualmente distintas. Assim, partindo do pressuposto de que o direito brasileiro trata especificamente na legislação, por meio de norma antielisiva específica, de negócios realizados com empresas em Países com Regime de Tributação Favorecida, não vejo como pretender a desconsideração dos negócios praticados pela empresa nacional com as suas subsidiárias no exterior, a partir da descaracterização destas por serem empresas offshore nos respectivos países onde estão constituídas. Na verdade, todo País com Regime de Tributação Favorecida tem, como pressuposto, a existência de empresas offshore, em que as atividades são limitadas aos negócios voltados para o exterior. No caso dos autos, temos duas empresas subsidiárias integrais da Recorrente, quais sejam, MIC – Marcopolo International Corporation, localizada nas Ilhas Virgens Britânicas e ILMOT International Corporation S.A., constituída sob a forma de sociedade anônima financeira de investimentos – SAFI, no Uruguai. Do que se extrai dos autos, os negócios realizados pela Recorrente com os adquirentes finais dos produtos eram intermediados por ambas as empresas, sendo que o auto de infração imputou, como rendimento da Recorrente, os valores finais dos negócios realizados por estas empresas intermediárias com os adquirentes no exterior. No entanto, não foi este o tratamento legal dado pelo direito brasileiro para os negócios realizados com empresas offshore estabelecidas em Países com Regime de Tributação Favorecida. A Lei nº. 9.430/96 limitouse à verificar se o preço praticado encontra respaldo nos critérios definidos pelos seus artigos 18 a 22; sendo que, alcançados estes parâmetros mínimos, há de ser respeitado o planejamento negocial8 realizado pelo contribuinte. Portanto, no caso, entendo que não poderia a Fiscalização desconsiderar os negócios realizados pela Recorrente com as suas subsidiárias integrais para além daquilo que a Lei nº. 9.430/96 prevê para a hipótese de empresas localizadas em Países com Regime de Tributação Favorecida. Aliás, também não vejo a possibilidade de a Fiscalização buscar, nas empresas MIC e ILMOT, indícios, por exemplo, da existência de funcionários e estrutura operacional compatível com o montante dos negócios realizados, ou até perquirir, de forma oficiosa, a efetiva existência do seu endereço no país estrangeiro. Ora, estas 8 A ação da contribuinte de procurar reduzir a carga tributária, por meio de procedimentos lícitos, legítimos e admitidos por lei revela o planejamento tributário. (Acórdão 10247181, do 1º Conselho de Contribuintes) Fl. 84DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 56 56 são empresas trading comerciais constituídas no formato offshore em Países com Regime de Tributação Favorecida. Por óbvio que elas não possuem o formato estrutural e organizacional de uma empresa comercial ordinária. Ressaltese, ainda, que a forma que o direito brasileiro definiu para lidar com esta categoria de empresas não foi a desconsideração dos negócios por elas realizadas com as empresas residentes, mas sim o controle dos preços praticados nas operações realizadas com estas empresas. Não fosse este argumento suficiente ao reconhecimento de improcedência do lançamento, verifico, ainda, que as empresas MIC e ILMOT tiveram, ainda que parcialmente, seu lucro tributado no Brasil por força da residência da empresa controladora, ora Recorrente. De fato, sendo estas empresas subsidiárias integrais da empresa brasileira, a tributação de seus rendimentos se faz quando da disponibilização do lucro ou por meio da equivalência patrimonial. Assim, não pode a fiscalização, ao promover a desconsideração dos negócios realizados pelo contribuinte, deixar de considerar o reflexo que referidos rendimentos provocaram na contabilidade da empresa no curso dos anos. Isso porque essa desconsideração acaba provocando a dupla incidência do imposto de renda sobre o mesmo rendimento, situação absolutamente contrária à lei e à sistemática de funcionamento do tributo em questão. O mesmo se diga com relação à consideração das despesas das empresas MIC e ILMOT na formação do lucro tributável. Na verdade, o auto de infração desconsiderou parcialmente os negócios da Recorrente com as suas subsidiárias: se por um lado, imputou como rendimento da empresa residente o resultado das vendas das subsidiárias estrangeiras; por outro não levou em consideração as despesas dedutíveis que estas empresas registravam em sua contabilidade. Conforme satisfatoriamente demonstrado pela Recorrente, as subsidiárias MIC e ILMOT, além da intermediação dos negócios na condição de trading companies, também prestavam serviços auxiliares e de pósvenda dos produtos da Recorrente, como, por exemplo, fornecimento de garantia, pagamento de comissão a vendedores finais, etc. Se a Fiscalização pretendia integrar as receitas das subsidiárias na formação do lucro tributável da Recorrente, os referidos custos também deveriam, necessariamente, ser considerados, sob pena de se tributar “receita” como se fosse “renda” da pessoa jurídica. Por estas razões, peço vênia do nobre Conselheiro Relator e dou provimento ao recurso para julgar improcedente o lançamento. (Grifei). Verificase, pois, que o ilustre conselheiro embora vencido, já havia adotado a mesma linha de entendimento que ora manifesto, pelo que peço vênia par adotar seus fundamentos como razões adicionais de decidir. Outrossim, caso o entendimento fosse pela manutenção do lançamento, todos os custos e despesas devidamente comprovados deveriam ser reduzidos da base de cálculo, haja vista que as vendas foram efetivamente realizadas, seja considerando a participação de MIC e ILMOT ou não. Uma vez que a exigência está sendo cancelada em face do erro na forma de tributação, as demais alegações do contribuinte ficam prejudicadas, especialmente quanto a consideração dos custos suportados nas vendas por MIC e ILMOT. Fl. 85DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 57 57 II CONCLUSÃO Por todo o exposto, voto no sentido de: i) rejeitar as preliminares, ii) afastar a aplicação da multa de oficio qualificada, reduzindo ao percentual básico de 75%; iii) cancelar a tributação do IRFonte, pagamento sem causa, pela inocorrência do fato gerador; iv) cancelar a tributação do IRPJ e CSLL por erro na forma de constituição do crédito tributário. É este o voto condutor do presente Acórdão. (assinado digitalmente) Antônio José Praga de Souza Relator Fl. 86DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 58 58 Declaração de Voto Conselheiro Leonardo Henrique Magalhães de Oliveira. I. DOS FATOS Tratase de autos de infração lavrados contra a interessada para exigirlhe o crédito tributário referente ao Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ), Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) e Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF), relativos ao ano calendário de 2001/2002, 2003 e 2007. Os lançamentos estão fundados em omissões de receitas, caracterizadas por subfaturamento decorrente de simulação e pela falta de recolhimento de Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF), em razão de pagamentos a beneficiários não identificados ou sem causa. As operações de exportação auditadas apresentavam como exportadora a Marcopolo, e compradoras suas controladas nas Ilhas Virgens Britânicas (MIC) e no Uruguai (Ilmot/Kilvert/Kemplive) – empresas que gozam de tratamento fiscal privilegiado nos países onde estão estabelecidas. Estas empresas, por sua vez, revendiam os produtos adquiridos da Marcopolo a clientes seus, localizados em países diversos. Elas se responsabilizavam, também, pelos serviços de pósvenda (garantia, assistência técnica, etc.). A Marcopolo, por conta e ordem das suas controladas (que, em tese, adquiriram os produtos), os remetia diretamente aos clientes destas, mediante exportação por conta e ordem. É dizer, a mercadoria não chegava a ser fisicamente transferida às controladas. Aprofundando as investigações, a fiscalização formou entendimento de que as vendas de mercadorias da Marcopolo às suas controladas eram simuladas, visando encobrir o verdadeiro negócio jurídico, entabulado entre a Marcopolo e o destinatário final da mercadoria no estrangeiro, e omitir receitas ao Fisco brasileiro. Segundo a fiscalização, o que se observou foi que as “intermediárias” (MIC, Ilmot, Kilvert e Kemplive) foram indevidamente utilizadas para simular a existência de um intermediário entre a Marcopolo e o importador final. Essas empresas funcionavam, na verdade, como centrais de refaturamento. Diante conjunto de indícios levantados, o Fisco concluiuse que a Marcopolo exportava diretamente para os compradores finais (supostos clientes de MIC, Ilmot, Kilvert e Kemplive), operação dissimulada através da simulação de duas operações de compra e venda: uma entre a autuada e suas controladas e outra entre as controladas e os compradores finais. Fl. 87DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 59 59 Afirma o Fisco que ao mesmo tempo em que reduzia as receitas de exportação para a formação da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, obtinha efeito equivalente à remessa de divisas ao exterior, sem justa causa e não submetida ao pagamento de IRFonte). A Fiscalização concluiu ainda que configurouse a fraude a ensejar a aplicação de multa de 150% prevista no art. 44, §1º da Lei 9.430/96 (nova redação do art. 44, inciso II). II. DA APLICAÇÃO DA MULTA QUALIFICADA (EVIDENTE INTUITO DE FRAUDE) No julgamento dos processos anteriores da mesma ação fiscal, relativas aos anoscalendário de 1999 e 2000, realizados na antiga 5a. Camara do Primeiro Conselho de Conribuintes, autuações, dos quais praticipei, votei no sentido de manter a qualificação da multa de oficio, por ter sido configurado o evidente intuito de fraude. Todavia, equivoquei ao não observar um aspecto crucial: não basta que seja provado que o contribuinte incorreu em dolo. À luz do artigo 72 da Lei 4.502/1964, é necessário que o procedimento doloso implique em impedir a ocorrência ou modificar as caracteristicas do fato gerador. Não foi o que ocorreu no presente caso. Isso porque todas as operações estavam devidamente contabilizadas, e a conclusão fiscal decorreu da formação de juízo de valor por parte do Fisco. Este Conselho já decidiu que irregularidades tendentes a obter vantagens cambiais ou financeiras não podem, por si só, ensejar a aplicação de multa qualificada. Inclua se aqui, dentre outros as remessas ilegais de recursos ao exterior, a utilização de interpostas pessoas para movimentação de contas bancárias, dentre outras impropriedades, desde que não implique em redução indevida de tributos. Para a caracterização da fraude, há que estar presente a figura do dolo específico caracterizado pela intenção manifesta do agente de omitir dados, informações ou procedimentos que resultam na diminuição ou retardamento da obrigação tributária. Com efeito, quem age com intuito de fraude realiza operações proibidas, não as escritura em seus registros comerciais e fiscais, não declara essas operações nos formulários de entrega obrigatória e, quando fiscalizado, não entrega a documentação solicitada, procurando sob todas as formas ocultar essas operações. E mais, adultera documentos, utiliza se de documentos calçados e paralelos, pessoas inexistentes ou “laranjas” e de documentos falsos e inidôneos. Mais a mais, certo é que os resultados obtidos com as subsidiarias no exterior foram oferecidos à tributacao pela controladora no Brasil (Marcopolo). Uma vez que já estavam em vigor as normas de tributação em bases mundiais o procedimento do contribuinte, tratase de verdadeiro o erro na interpretação de lei que não se confunde com fraude à lei, como já decidiu a Câmara Superior de Recursos Fiscais: Fl. 88DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 60 60 "PENALIDADE QUALIFICADA INOCORRÊNCIA DE VERDADEIRO INTUITO DE FRAUDE ERRO DE PROIBIÇÃO ARTIGO 112 DO CTN. Em se tratando de matéria controvertida, temse que o resultado final é apenas pela ocorrência de erro na interpretação da lei, mas não de fraude à lei. Recurso negado" Acórdão CSRF n° 0202896. Cabe aqui transcrever o trecho do voto proferido pela I. Conselheira Relatora do acórdão em comento, Maria Teresa Martinez López, que reconheceu a inexistência de fraude nesse caso, tendo em vista que a matéria controvertida decorre, exclusivamente, de erro na interpretação de lei: "Por certo, tenho comigo quando nos referimos a dolo, devemos partir do conceito extraído do direito penal. Assim, presente na definição de fraude como sendo a vontade ou a intenção do agente de praticar o ato definido como crime. É, no meu sentir, ter a plena consciência de que o ato praticado irá ocasionar o resultado delituoso. No conceito material, crime é uma ação ou omissão que se proíbe e se procura evitar, ameaçandoa com pena, porque constitui ofensa (dano ou perigo) a um bem jurídico individual ou coletivo. Não nos olvidemos estar a fraude fiscal caracterizada pela prática de uma ação ou omissão, intencionalmente criminosa, tendente a impedir a ocorrência do fato gerador do tributo. Exemplos desse tipo se mostram quando nos deparamos, por exemplo, com uma falsificação de documentos ou de livros fiscais/contábeis. Ou, diante da comprovação da existência de notas fiscais calçadas. Não é realmente a hipótese descrita nos autos, em que se discutiu, primeiramente se houve ou não incidência da CPMF, com manifestações não unânimes sobre a polêmica matéria, e a dois, a de se as normas do Banco Central, a qual está a interessada obrigada a cumprir, poderiam justificar, não a forma de proceder da interessada, mas sim a não incidência da CPMF pretendida pela fiscalização. Ora, se a forma de proceder da interessada não encontra obstáculos perante a fiscalização do Banco Central, não há em princípio, de se falar consequentemente em fraude, no sentido definido na lei n° 4.502, de 1964. Não nos olvidemos que a interessada efetuou operações com base na liberdade de contratar, na liberdade de iniciativa econômica, na livre concorrência, e essencialmente, sem a objeção do Banco Central, à época dos fatos. Vale dizer, o ponto de partida da análise é uma liberdade de escolha, de uma ou outra opção, e até mesmo, por que não, na possível escolha de poder pagar menos tributo, se permitido for a opção lícita de escolha. (...) Cabe lembrar que o chamado direito de se autoorganizar, para pagar menos impostos, é sobretudo emanação de uma liberdade individual. Não há e nem pode haver crime nisso. Ora, se a matéria mostrouse controvertida, temse que o resultado final revela apenas erro na interpretação da lei, mas não de fraude à lei. Como suporte das conclusões aqui expostas dispõe o art. 112 do Código Tributário Nacional que: "A lei tributária que define infrações, ou lhe comina penalidades, interpretase da maneira mais favorável ao acusado, em caso de dúvida quanto: (...) IV à natureza da penalidade aplicável, ou à sua gradação". É o assim chamado princípio ‘in dúbio pro reo’, consagrado no art. 112 do CTN." Fl. 89DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 61 61 Pelo exposto, peço venia para retificar meu entendimento anteriormente manifestado e afastar a aplicação da multa qualificada e, por conseguinte, acolher a preliminar de decadência do anocalendário de 2001. III. DO MÉRITO O conselheiro Relator e o conselheiro Moises Giacomelli em seus votos abordaram incisivamente um ponto que não me recordo ter sido tratado com a devida profundidade nos julgamentos anteriores, qual seja: Independentemente de estar ou não configurado o subfaturamento, a eventual diferença apurada não pode ser tributada na forma de omissão de receitas. Seja porque existem regras de preço de transferencia a serem observadas, seja pelo fato de os resultados com as subsidiárias no exterior estão sujeitas a tributação na controlada pela sistemática da equivalencia patrimonial. As operações comerciais com empresas subsidiárias localizadas no exterior, mormente em países com tributação favorecida estão sujeitas ao controle de preços de transferência consoante artigos 18, 19 e 24 da Lei nº 9.430/1996, que dispõe: Art. 18. Os custos, despesas e encargos relativos a bens, serviços e direitos, constantes dos documentos de importação ou de aquisição, nas operações efetuadas com pessoa vinculada, somente serão dedutíveis na determinação do lucro real até o valor que não exceda ao preço determinado por um dos seguintes métodos: I Método dos Preços Independentes Comparados PIC: definido como a média aritmética dos preços de bens, serviços ou direitos, idênticos ou similares, apurados no mercado brasileiro ou de outros países, em operações de compra e venda, em condições de pagamento semelhantes; II Método do Preço de Revenda menos Lucro PRL: definido como a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, diminuídos: a) dos descontos incondicionais concedidos; b) dos impostos e contribuições incidentes sobre as vendas; c) das comissões e corretagens pagas; d) da margem de lucro de: 1. sessenta por cento, calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e do valor agregado no País, na hipótese de bens importados aplicados à produção; 2. vinte por cento, calculada sobre o preço de revenda, nas demais hipóteses. (NR) (Redação dada à alínea pela Lei nº 9.959, de 27.01.2000, DOU 28.01.2000) III Método do Custo de Produção mais Lucro CPL: definido como o custo médio de produção de bens, serviços ou direitos, idênticos ou similares, no país onde tiverem sido originariamente produzidos, acrescidos dos impostos e taxas cobrados pelo referido país na exportação, e de margem de lucro de vinte por cento, calculada sobre o custo apurado. Fl. 90DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 62 62 § 4º. Na hipótese de utilização de mais de um método, será considerado dedutível o maior valor apurado, observado o disposto no parágrafo subseqüente. § 5º. Se os valores apurados segundo os métodos mencionados neste artigo forem superiores ao de aquisição, constante dos respectivos documentos, a dedutibilidade fica limitada ao montante deste último. § 7º. A parcela dos custos que exceder ao valor determinado de conformidade com este artigo deverá ser adicionada ao lucro líquido, para determinação do lucro real. Art. 19. As receitas auferidas nas operações efetuadas com pessoa vinculada ficam sujeitas a arbitramento quando o preço médio de venda dos bens, serviços ou direitos, nas exportações efetuadas durante o respectivo período de apuração da base de cálculo do imposto de renda, for inferior a noventa por cento do preço médio praticado na venda dos mesmos bens, serviços ou direitos, no mercado brasileiro, durante o mesmo período, em condições de pagamento semelhantes. § 7º. A parcela das receitas, apurada segundo o disposto neste artigo, que exceder ao valor já apropriado na escrituração da empresa deverá ser adicionada ao lucro líquido, para determinação do lucro real, bem como ser computada na determinação do lucro presumido e do lucro arbitrado. Art. 20. Em circunstâncias especiais, o Ministro de Estado da Fazenda poderá alterar os percentuais de que tratam os artigos 18 e 19, caput, e incisos II, III e IV de seu § 3º. Art. 24. As disposições relativas a preços, custo e taxas de juros, constantes dos artigos 18 a 22, aplicamse, também às operações efetuadas por pessoa física ou jurídica residente ou domiciliada no Brasil, com qualquer pessoa física ou jurídica, ainda que não vinculada, residente ou domiciliada em país que não tribute a renda ou que a tribute a alíquota máxima inferior a vinte por cento. Portanto, uma vez afastada a tributação na forma de omissão de receitas, no qual acompanho o relator, o correto seria apurar eventuais diferenças tributáveis em face da pratica abusiva de preços de transferencias. Diante do erro no critério material dos lançamentos, toda a exigência está prejudicada, pelo que reformulo meu entendimento e passo a dar provimento ao recurso. IV. CONCLUSÃO Diante do exposto, voto no sendito de afastar a aplicação da multa qualificada e, no mérito, dar provimento aos recursos para cancelar integralmente as exigências. (assinado digitalmente) Leonardo Henrique Magalhães de Oliveira Fl. 91DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 63 63 Declaração de Voto Conselheiro Moisés Giacomelli Nunes da Silva Os documentos a que farei referência em meu voto foram entregues com os memoriais. Pelo que pude verificar, por amostragem, são cópias fiéis dos que existem nos autos. Em sendo três processos semelhantes, o de nº 11020.004863/200719, que tem por objeto fatos geradores dos anoscalendário de 2000 e 2001; o de nº 11020.007753/200890 correspondente ao anocalendário de 2003 e o de nº 11020.003681/200992, que diz respeito aos anoscalendário de 2004 a 2007, originários de uma mesma situação fática, por evidente que desnecessário entregar memoriais com documentos repetidos, só para corresponderem ao número das folhas indicadas em cada feito. Assim, quando faço referência, em meu voto, ao número da folha nos autos estarei fazendo apenas em relação a um dos processos. Todavia, como os conteúdos dos documentos são idênticos, os fundamentos aplicamse em relação a todos os processos antes mencionados, ressalvada, evidentemente, a questão da decadência e da multa agravada que são questões pertinentes somente ao processo nº 11020.004863/200719. O contrato de fls. 549 a 572 demonstra que em 02 de janeiro de 1995, a empresa Marcopolo S.A. com sede no Brasil e a empresa Marcopolo International Corp, subsidiária integral da primeira, doravante identificada pela sigla MIC, constituída em 19 de agosto de 1992, com sede nas Ilhas Virgens Britânicas, firmaram termo de pareceria comercial por meio da qual cabia à segunda distribuir e comercializar os produtos na Marcopolo no mercado externo, bem como prestar os serviços de pósvendas. Pelo contrato de fls. 549 e seguintes, em termos formais, se pode afirmar que a MIC guarda alguma semelhança com as concessionárias que revendem veículos no Brasil, destacandose, todavia, que estas, em nosso território, não são subsidiárias das montadoras. Além do contrato firmado com a MIC, o documento de fls. 580 e seguintes, que compõe os memoriais que foram entregues, dá conta de que a Marcopolo, ora recorrente, em 14 de janeiro de 2000, firmou contrato semelhante com a empresa Ilmot International Corporation S.A. Prosseguindo na análise dos documentos, verifico que no ano de 1997, com a anuência da Marcopolo, a empresa MIC e a empresa Importaciones Zuzu Sociedad Anonima, com sede na Província de Cartago, na Costa Rica, constituída em 25 de setembro de 1997, doravante identificada pelo nome de ZUZU, firmaram contrato de subcontratação de agenciamento comercial e outras avenças tendo por objeto a venda de produtos da Marcopolo no território da Costa Rica e do Panamá (fl. 1327). Segundo informações contidas nos memoriais, as empresas Tredings MIC e ILMOT adquiriam os ônibus da Marcopolo e vendiam aos seus clientes ou outras controladas no exterior, sendo que a remessa dos veículos era feita diretamente pela Marcopolo, por conta e ordem das Tredings antes nominadas. Os custos de venda e de assistência técnica, segundo a recorrente, eram suportados pelas Tradings. No caso de vendas financiadas, diz a recorrente, ocorrida Fl. 92DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 64 64 inadimplência, a legitimidade para fazer a cobrança era da MIC e da Ilmot, conforme quadro que segue: Em oposição ao que sustenta a recorrente, do que extraio do relatório do acórdão recorrido e dos memoriais entregues pela Procuradoria da Fazenda Nacional, o interessado na aquisição das carrocerias e dos ônibus mantinha contato direto com a Marcopolo e somente após a negociação era introduzida uma das Centrais de Refaturamento, MIC ou Ilmot, acima identificadas. Entendeu a autoridade fiscal que a recorrente apenas utilizava as sociedades MIC e Ilmot para intermediar formalmente negócios que, na essência, correspondiam a operações diretas entre a Marcopolo S.A. e seus importadores finais. Tal modo de agir, segundo a autoridade autuante, implicou em omissão de receita a partir da dissimulação da natureza dos elementos constitutivos da obrigação tributária, ocultando a ocorrência dos fatos geradores do IRPJ, CSLL e IRRF. Além do IRPJ e da CSSL, sobre a mesma base de cálculo, foi exigido IRRF a partir da construção teórica de que o valor correspondente ao percentual que a empresa Marcopolo deixou de receber dos adquirentes finais de seus produtos equivale a pagamento sem causa feito pela Marcopolo em favor da MIC e da Ilmot, justificando assim a incidência do IRRF, com base de cálculo reajustada e multa qualificada de 150%. Fl. 93DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 65 65 A multa foi qualificada por conta da alegada dissimulação dos elementos constitutivos da obrigação tributária e agravada sob o entendimento de que a Marcopolo deixou de fornecer, nos prazos fixados, os elementos necessários ao esclarecimento dos fatos. Na defesa, além das questões inerentes à legalidade das operações e decadência, de forma subsidiária, sustenta a recorrente que, em permanecendo o entendimento de que a integralidade dos valores pagos pelos consumidores finais se constituem em receita da Marcopolo, as despesas suportadas pelas intermediárias MIC e Ilmot devem ser subtraídos da base de cálculo. Não seria razoável, segundo a fiscalizada, presumir que as empresas MIC e Ilmot seriam uma extensão da própria fiscalizada sem subtrair da base de cálculo as despesas arcadas por estas para concretizarem as operações comerciais. Por oportuno, destaco que a exigência do crédito tributário teve como base material o valor correspondente à diferença do preço pago pelo adquirente final e o valor faturado pela Marcopolo às subsidiárias MIC e Ilmot. Assim, tendo como parâmetro os números citados no exemplo acima, em termos de unidades de valores, temse o seguinte demonstrativo: Preço compra MIC e Ilmot nas aquisições da Marcopolo Preço de venda Base de cálculo da exigência (receita contabilizada nas empresas MIC e Ilmot 1.000 1.100 100 Embora o fundamento legal da exigência, em relação ao IRPJ e a CSLL, faça referência à omissão de receitas, o quadro acima demonstra que a exigência do crédito fiscal não se refere a operações omitidas, mas sim ao quantum da receita contabilizada nas empresas MIC e Ilmot. Enquanto a Fiscalização entende que os valores acima ilustrados, com o algarismo de número 100 (cem), devem compor o lucro da Marcopolo esta defende a tese de que tais valores integram a receita de suas subsidiárias, motivo pelo qual deve contabilizar apenas o lucro no exterior obtido por estas, procedimento este que sempre realizou, sem nunca omitir uma única operação e nem os lucros obtidos por aquelas empresas. Argumenta a recorrente que, ao considerar a receita obtida pelas empresas antes nominadas, a autoridade fiscal não está tributando o lucro, mas sim exigindo imposto de renda e contribuição social sobre a receita, o que é incabível. Mais, diz a recorrente que, por já ter tributado o lucro das empresas MIC e Ilmot, ao se fazer nova exigência sobre o faturamento da MIC e da Ilmot, se está tributando duplamente e, pior, tributandose a receita e não o lucro. Junto com os memoriais da recorrente foram entregues quatro pareceres, a saber: (i) o primeiro autoria de Ricardo Mariz de Oliveira; (ii) o segundo de autoria de Luiz Eduardo Schouerri; (iii) o terceiro de Fábio Ulhoa Coelho e o; (iv) quatro de autoria de Heleno Taveira Torres. Além dos Pareceres Jurídicos aqui referidos e analisados por mim, compõem os memoriais Parecer Econômico sobre as práticas operacionais e comerciais de exportação adotadas pela Marcopolo. Fl. 94DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 66 66 Em síntese, os pareceres sustentam que: a) não houve omissão de receita; b) a recorrente observou as normas legais de controle de preços nas exportações (preços de transferências); c) o Fisco, ao afirmar que houve omissão de receitas desconsiderou o fato de que os lucros das atividades das empresas MIC e Ilmot, no exterior, foram contabilizados no Brasil, pela recorrente; d) Que não houve simulação, pois na simulação temse a “desconformidade entre a intenção e a prática, coisa que não ocorreu no caso da recorrente”, cuja intenção era operar por meio de suas subsidiárias e assim o fez, não sendo lícito ao Fisco fazer ingerência na forma de atuação das empresas. É por esta razão que existe norma especial que disciplina os efeitos tributários nas transações entre empresas subsidiárias ou situadas em países com tributação favorecida (preços de transferência). e) Que no caso concreto não houve subfaturamento; nem omissão de receita caracterizada por meio de pagamento “por fora”, e tampouco a recorrente realizou pagamentos a terceiros (MIC, Ilmot, Kilvert S.A e Kenplive Corporation S.A) que pudessem materializar a exigência de pagamento sem causa. Igualmente, a Procuradoria da Fazenda Nacional entregou memoriais destacando os seguintes pontos: a) Inexistência de participação efetiva das empresas controladas nas operações de exportação; b) Que as empresas subsidiárias eram carecedoras de estrutura, pois os únicos salários pagos eram de quatro diretores que também eram sóciosgerentes ou diretores da Marcopolo; c) Que a fiscalização apurou que todos os documentos das empresas MIC e Ilmot eram emitidos em Caxias do Sul e assinados por funcionários da Marcopolo que recebiam procuração de seus diretores. d) Que as operações não ocorreram da forma como consta nos papéis e tampouco os motivos declinados pela recorrente sustentam a existência de um legítimo propósito negocial. e) Que as empresas subsidiárias estão estabelecidas em paraísos fiscais, motivo pelo qual não é possível justificar as operações comerciais por meio desta com base no argumento de “maior proximidade com os mercados consumidores”. f) Ainda que recorrente demonstre que foram as empresas tomadoras do empréstimo que arcaram com os custos financeiros (o que não está sob questionamento na autuação), isto não afasta a conclusão de que a suposta Fl. 95DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 67 67 agilidade para obter financiamentos justifica a intermediação da MIC e Ilmot, eis que tais financiamentos seriam obtidos pela Marcopolo com a mesma facilidade. g) Quanto à multa qualificada, sustenta a Procuradoria de que o ilícito não ocorreu de mero erro de proibição. i) No que tange à multa agravada, ela foi aplicada pelo não fornecimento de faturas comerciais de vendas da MIC e Ilmot aos compradores finais. É o relatório com breve relato dos fatos, passo ao voto. Inicio meu voto reconhecendo o profícuo trabalho de todos os que atuaram neste processo. Dos valiosos memoriais entregues pelo Representante da Fazenda Nacional aos pareceres dos juristas contratados pela contribuinte. Quem analisar as razões constantes do Termo de Verificação Fiscal, aos fundamentos articulados nas sustentações orais, chegando ao voto do ilustre relator, concordando ou não com as conclusões de cada um, em cada peça irá encontrar elementos para reflexões. A nós, Conselheiros, cabe a obrigação de examinar a matéria, circunstância esta que não está relacionada ao poder/dever de manter ou afastar a exigência contida no lançamento, mas sim verificar se a obrigação tributária existe e se o crédito foi constituído conforme as normas que regem a matéria. Registro, inicialmente, que para regular situações semelhantes a que está sendo debatida nestes autos, isto é, transações jurídicas com empresas constituídas no exterior e submetidas a um tratamento de país ou dependência com tributação favorecida ou sob regime fiscal privilegiado9, em 2009, foi editada a Medida Provisória 472, convertida na Lei 12.249, de 2010, que passou a exigir a comprovação da capacidade operacional da pessoa física ou entidade no exterior de realizar a operação. Dado o princípio da legalidade e da irretroatividade das leis, desnecessário dizer que as normas contidas no artigo 26 da Lei nº 12.249, de 2010, resultante da conversão da Medida Provisória nº 472, de 2009, não se aplicam a fatos ocorridos antes de sua vigência. Quanto às questões fáticas, tem razão a recorrente quando diz que o caso dos autos revela situação, até recentemente, tida como prática normal de mercado e adotada por incontável número de empresas, contando com a chancela da própria Administração que, por meio do Conselho de Contribuintes, hoje Conselho Administrativo de Recursos Fiscais Carf, sempre teve este tipo de operações comerciais, por vezes nominadas como planejamentos tributários, como regulares. No caso dos autos não estamos diante dos conhecidos “contratos relâmpagos” que se esvaem dias após a celebração, divorciadose do negócio efetivamente praticado pelas partes. A situação está a revelar comportamento de contribuinte que ingressa no mercado externo optando por uma empresa, subsidiária ou não, para por meio desta, atingir o consumidor final. 9 Arts. 24 e 24A da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996. Fl. 96DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 68 68 Antes de analisar se as empresas situadas em países com tributação favorecida tinham ou não estrutura operacional para desempenharem o papel proposto, diante das inúmeras vezes repetidas nestes autos de que as empresas MIC e Ilmot estavam localizadas em paraísos fiscais, destaco que à luz do direito vigente não há nada de errado nisto, desde que se observem as regras que disciplinam a apuração dos tributos em transações realizadas com empresas situadas em países com tributação favorecida, denominados pela Fiscalização de “paraísos fiscais”. O Direito, como ciência do razoável, não pode se prestar a interpretações ingênuas ou inconcebíveis. Uma empresa, cujo objetivo final é o lucro, se tiver condições de, por meio de subsidiárias ou não, operar a partir de país cuja tributação seja favorecida, ganhando maior competitividade e, consequentemente, maiores lucros, por evidente que não irá operar por meio de estabelecimento situado em local de maior tributação. Isso seria atentar contra a própria finalidade da empresa, qual seja, o lucro. Tão verdadeiro quanto a constatação de que o Estado não consegue sobreviver sem cobrar tributos é a afirmação de que a localização de estabelecimento industrial ou comercial em local de elevada carga tributária diminui a competitividade e o lucro das empresas, requisitos vitais à existência destas. Em relação a este tema não é necessário ultrapassar as fronteiras dos nossos Estados para constatarmos que os contribuintes prestadores de serviços procuram fixar suas sedes em locais cuja alíquota do Imposto Sobre Serviços, de competência dos Municípios, seja menor. O mesmo raciocínio se aplica ao ICMS e ao IRPJ, só que em relação a este último estamos falando em bases universais da tributação. Das questões relacionadas à alegação de omissão de receita Adentrando ao mérito propriamente dito, a acusação imputada à recorrente é a de omissão de receita decorrente de exportações realizadas e faturadas às empresas MIC e , Ilmot. Assim, imprescindível responder aos seguintes pontos: A empresa recorrente realizou exportações? Em tendo realizado exportações, quem pagou o respectivo valor? Os valores recebidos pela recorrente foram os que constaram dos documentos fiscais ou além destes valores a recorrente recebeu importância “por fora”? A recorrente realizou transações com empresas subsidiárias situadas em “paraísos fiscais”? Qual a forma que o Direito Brasileiro estabelece quando uma empresa realiza transações com subsidiária localizada no exterior ou empresa situada em “paraíso fiscal”, ou melhor, em países com tributação favorecida? No que diz respeito às perguntas acima, não há dúvidas de que a empresa recorrente realizou exportações e que recebeu o valor correspondente a partir de pagamentos Fl. 97DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 69 69 realizados pelas empresas MIC, Ilmot, que o termo de verificação fiscal faz referência como “centrais de refaturamento”, circunstância que analisarei mais adiante. Antes de responder a indagação para esclarecer se os valores recebidos pela recorrente foram os que constaram dos documentos fiscais ou se além destes valores a recorrente recebeu importância “por fora”, tratandose de exigência fiscal fundamentada na alegação de omissão de receita, a principal questão a ser enfrentada é: O que é omissão de receita? Quando se caracteriza? Omissão de receita é conceito subjetivo ou tem definição legal? Omissão de receita não é algo subjetivo e, dado o princípio da legalidade que fundamenta o direito tributário, não possibilita que o intérprete, ou a autoridade fiscal, caracterize omissão de receita a partir de deduções subjetivas. O conceito legal de omissão de receita encontrase no artigo 2º da Lei nº 8.846, de 1992, repetido no artigo 283 do Regulamento do Imposto de Renda de 1999, a seguir transcrito: “Art. 2º. Caracteriza omissão de receita ou de rendimentos, inclusive ganhos de capital para efeito do imposto sobre a renda e proventos de qualquer natureza e das contribuições sociais, incidentes sobre o lucro e o faturamento, a falta de emissão da nota fiscal, recibo ou documento equivalente, no momento da efetivação das operações a que se refere o artigo anterior, bem como a sua emissão com valor inferior ao da operação.” Da norma acima transcrita, conforme anotado no parecer de lavra do professor Luis Eduardo Schoueri, extraise os seguintes elementos cuja prova concomitante é necessária para que se caracterize a omissão de receita: (i) recebimento de um valor; (ii) não emissão de nota fiscal referente a este valor, ou a sua emissão por um valor inferior; (iii) não escrituração deste valor; (iv) não tributação deste valor. Conforme enfoque destacado no parecer citado, “merece ênfase, neste ponto, o primeiro item, qual seja, a necessidade de recebimento do valor. Tratase da parcela ‘por fora’, que é recebida e nãoescriturada pelo contribuinte, atitude que enseja a incidência da regra de omissão de receitas.” No caso dos autos, está demonstrado que os valores constantes das notas fiscais emitidas nas operações de exportação para as empresas MIC e Ilmot, correspondem aos preços efetivamente praticados pelas partes envolvidas. Não houve pagamento “por fora”. Assim, inexistindo diferença de preço recebida e nãocontabilizada, não há o que se falar em omissão de receita. Fl. 98DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 70 70 Das situações que exigem tributação com base em preços de transferência A autoridade fiscal, para caracterizar omissão de receita, desenvolve linha de raciocínio a partir da premissa de que as empresas MIC e Ilmot, estavam situadas em paraísos fiscais e que não tinham estrutura operacional para desenvolverem as operações com os adquirentes finais dos produtos exportados. Quanto a este ponto a matéria comporta os seguintes desdobramentos: a) Primeiro, a forma correta de tributação com empresas subsidiárias ou localizadas em países de tributação favorecida; b) Segundo, a avaliação da existência, da estrutura e da capacidade operacional das empresas MIC e Ilmot como elemento determinante para caracterizar ou não a infração de omissão de receita. No tocante ao primeiro ponto, constatado a existência de operações comerciais entre empresas subsidiárias localizadas no exterior ou empresas situadas em países com tributação favorecida, inexistindo circunstância que caracterize a incidência do artigo 2º da Lei nº 8.846, de 1992, isto é, o recebimento de um valor “por fora”, nãocontabilizado, a situação não caracteriza omissão de receita, mais sim tributação nos termos dos artigos 18, 19 e 24 da Lei nº 9.430, de 1996, a seguir transcritos e grifados por mim. Lei 9.430, de 1996, de 27 de dezembro de 1996. SEÇÃO V PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA Art. 18. Os custos, despesas e encargos relativos a bens, serviços e direitos, constantes dos documentos de importação ou de aquisição, nas operações efetuadas com pessoa vinculada, somente serão dedutíveis na determinação do lucro real até o valor que não exceda ao preço determinado por um dos seguintes métodos: I Método dos Preços Independentes Comparados PIC: definido como a média aritmética dos preços de bens, serviços ou direitos, idênticos ou similares, apurados no mercado brasileiro ou de outros países, em operações de compra e venda, em condições de pagamento semelhantes; II Método do Preço de Revenda menos Lucro PRL: definido como a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, diminuídos: a) dos descontos incondicionais concedidos; b) dos impostos e contribuições incidentes sobre as vendas; c) das comissões e corretagens pagas; Fl. 99DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 71 71 d) da margem de lucro de: 1. sessenta por cento, calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e do valor agregado no País, na hipótese de bens importados aplicados à produção; 2. vinte por cento, calculada sobre o preço de revenda, nas demais hipóteses. (NR) (Redação dada à alínea pela Lei nº 9.959, de 27.01.2000, DOU 28.01.2000) III Método do Custo de Produção mais Lucro CPL: definido como o custo médio de produção de bens, serviços ou direitos, idênticos ou similares, no país onde tiverem sido originariamente produzidos, acrescidos dos impostos e taxas cobrados pelo referido país na exportação, e de margem de lucro de vinte por cento, calculada sobre o custo apurado. .... § 4º. Na hipótese de utilização de mais de um método, será considerado dedutível o maior valor apurado, observado o disposto no parágrafo subseqüente. § 5º. Se os valores apurados segundo os métodos mencionados neste artigo forem superiores ao de aquisição, constante dos respectivos documentos, a dedutibilidade fica limitada ao montante deste último. ... § 7º. A parcela dos custos que exceder ao valor determinado de conformidade com este artigo deverá ser adicionada ao lucro líquido, para determinação do lucro real. .. Art. 19. As receitas auferidas nas operações efetuadas com pessoa vinculada ficam sujeitas a arbitramento quando o preço médio de venda dos bens, serviços ou direitos, nas exportações efetuadas durante o respectivo período de apuração da base de cálculo do imposto de renda, for inferior a noventa por cento do preço médio praticado na venda dos mesmos bens, serviços ou direitos, no mercado brasileiro, durante o mesmo período, em condições de pagamento semelhantes. …. § 7º. A parcela das receitas, apurada segundo o disposto neste artigo, que exceder ao valor já apropriado na escrituração da empresa deverá ser adicionada ao lucro líquido, para determinação do lucro real, bem como ser computada na determinação do lucro presumido e do lucro arbitrado. Art. 20. Em circunstâncias especiais, o Ministro de Estado da Fazenda poderá alterar os percentuais de que tratam os artigos 18 e 19, caput, e incisos II, III e IV de seu § 3º10. …. 10 Nota: Ver Portaria MF nº 222, de 24.09.2008, DOU 26.09.2008, que dispõe sobre os percentuais e margens de lucros a serem aplicados na determinação de preços a serem utilizados como parâmetro nas operações de compra e venda de bens, serviços e direitos, efetuadas por pessoa física ou jurídica, residente ou domiciliada no Brasil, com pessoa física ou jurídica vinculada, domiciliada no exterior. Fl. 100DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 72 72 Art. 24. As disposições relativas a preços, custo e taxas de juros, constantes dos artigos 18 a 22, aplicamse, também às operações efetuadas por pessoa física ou jurídica residente ou domiciliada no Brasil, com qualquer pessoa física ou jurídica, ainda que não vinculada, residente ou domiciliada em país que não tribute a renda ou que a tribute a alíquota máxima inferior a vinte por cento. … Dos dispositivos acima transcritos depreendese de que uma vez estabelecido o preço mínimo para transações entre empresas coligadas, ou situadas em países com tributação favorecida, a quantia que ficar aquém deste limite deve ser tributada como se fosse parcela do lucro auferido no Brasil compondo, desta forma, a base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Conforme destacou o professor Luis Eduardo Schoueri, às páginas 25 e 26 de seu parecer: “O Exportador pode simplesmente diminuir seu preço, de modo que se aproxime de seu custo, fazendo com que nenhum lucro seja apurado no Brasil. O intermediário ligado, a seu turno, cobraria o preço de mercado ao consumidor. Com isto, todo o lucro seria alocado na jurisdição do intermediário (jurisdição de baixa tributação), inclusive aquele lucro que, em condições normais de mercado, teria se manifestado no Brasil.” “As regras de preços de transferência vêm justamente para corrigir esta distorção, dando, para fins tributários, a cada jurisdição que efetivamente lhe pertence e evitando, assim, que se concretizem planejamentos abusivos com o escopo de alocar lucros de grupos econômicos em jurisdições de tributação favorecida.” … As regras de preços de transferência, na medida em que sejam capazes de concretizar o princípio arm´s length11, fariam com que o Preço A correspondente ao preço de mercado da transação, permitindo que o Brasil fosse capaz de tributar, nada mais nada menos, que a renda aqui apurada. … Não importa se a parte com a qual a empresa brasileira realizou a transação era uma pessoa ligada, uma empresa constituída em paraíso fiscal com o único escopo de alocar lucros (leiase simulação), ou qualquer outro tipo de situação. Uma vez que o preço praticado pela empresa brasileira foi ajustado pelas regras de preços de transferência, temse que, para fins tributários, o preço é considerado at arm´s length, ou seja, aquele preço que seria praticado em uma operação que contasse com todos os elementos de uma real situação de mercado. 11 "Por este princípio buscase o preço, ou faixa de preços, que partes independentes fixariam, em transações celebradas em condições equivalentes em tudo às da transação concreta, exceto pela circunstância de esta ter sidoi celevbrada entre partes relacionadas". Fl. 101DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 73 73 A produção das mercadorias, a saída destas do país, as guias de exportações, os contratos de câmbio, o ingresso de divisas no Brasil e os respectivos registros das receitas na contabilidade da recorrente não deixam dúvidas de que houve transações comerciais entre esta e as empresas MIC e Ilmot, subsidiárias da primeira e situadas em países de tributação favorecida. Se houve vendas por preço inferior ao praticado no mercado a regra a ser aplicada é a que disciplina a tributação entre empresas situadas no Brasil e empresas localizadas em paraísos fiscais. Inexistindo infração a estas normas, não cabe falar em exigência de IRPJ e CSLL, baseado em argumento de omissão de receita, pois esta exige, obrigatoriamente, o recebimento de um valor nãocontabilizado, “por fora”, circunstância inexistente nos autos. Quanto ao segundo ponto, isto é, a avaliação feita pela autoridade fiscal de que as empresas MIC e Ilmot, não passavam de centrais de refaturamento, com estrutura reduzida, a serviço da recorrente, razão pela qual foi considerado omissão de receita, digo, foi considerado lucro, a diferença do preço praticado por estas e os consumidores finais, tenho que a tese não se sustenta pelas seguintes razões: a) Se as empresas MIC, Ilmot tivessem estrutura ampla e a recorrente negociado com elas praticando os mesmos preços verificados nestes autos, não haveria omissão de receita? A partir do momento em que o lançamento caracteriza omissão de receita utilizandose do argumento de falta de estrutura operacional das empresas MIC e Ilmot temse uma situação que não se sustenta, pois bastaria que as empresas aqui nominadas aumentarem sua estrutura administrativa e realizarem os contatos pretendidos pela autoridade fiscal que estaria afastada a regra de incidência tributária. Tal raciocínio está a demonstrar que por esta linha o auto de infração não se sustenta. Não é a estrutura das empresas que caracteriza omissão de receita, mas sim uma receita nãocontabilizada, recebida à margem dos documentos fiscais e contábeis. b) Se as empresas MIC e Ilmot tivessem estrutura ampla, com farta prova de contatos com consumidores finais, funcionários no Brasil e no exterior, negociando com a recorrente por preços inferiores aos praticados no mercado, haveria omissão de receita, nos termos do artigo 283 do Regulamento do Importo de Renda, ou situação que exigia tributação com base nas normas que disciplinam os preços de transferências e as relações comerciais com empresas situadas em países de tributação favorecida? Por evidente que, em tais circunstâncias, não teríamos dúvidas em afirmar que deveriam ser aplicadas as normas relacionadas aos preços de transferência. No entanto, se assim entendemos, não podemos considerar omissão de receita tendo por elemento que fundamenta nossa decisão o fato das empresas MIC e Ilmot não terem a estrutura administrativa pretendida pela autoridade fiscal e nem realizado os atos que esta entendia necessários. Ocorrida a incidência da norma tributária, a autoridade fiscal tem o poder/dever de efetuar o lançamento. No entanto, não lhe é lícito fazer interpretações subjetivas, não previstas em lei para, antes da vigência do artigo 26 da Lei nº 12.249, de 2010, definir a estrutura administrativa mínima que uma empresa deve possuir para não caracterizar a incidência desta ou daquela norma tributária. A incidência da norma tributária, na época dos fatos aqui discutidos, não se dá pela estrutura das empresas, mas sim pela ocorrência de situação concreta que a norma tributária caracteriza como necessária. Fl. 102DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 74 74 Se o artigo 2º da Lei nº 8.846, de 1992 e o artigo 283 do Decreto nº 3000, de 1999, definem as situações que caracterizam omissão de receita, ou estas existem, de forma concreta no mundo real ou estamos diante de outra figura jurídica, que no caso dos autos, se existente, reclamaria tributação com base nas normas denominadas “preços de transferência”. c) Ademais, como já foi dito anteriormente, a comprovação da capacidade operacional da pessoa física ou entidade no exterior de realizar a operação só passou a existir a partir da Medida Provisória nº 472, de 2009, convertida na Lei nº 12.249, de 2010, normas estas que não podem ser aplicadas de forma retroativa para abrangerem os fatos de que trata este processo. O que me impressiona, neste processo, é que mesmo não descrevendo situação definida no artigo 283 do Regulamento do Imposto de Renda a autoridade fiscal contabilizou as seguintes infrações: (i) omissão de receita; (ii) pagamento sem causa; (iii) multa qualificada com base na alegação de simulação; A impressão que tenho é que em determinadas épocas ou regiões têm gerado manchetes autuações fiscais de valor elevado, como se isto, independentemente de sua procedência ou não, colocasse em evidência a eficiência do sistema da fiscalização.12 Atento ao meio social, pois não se pode julgar sem conhecer a realidade em que as normas são aplicadas, a percepção que tenho é que as autoridades constituídas, não raras vezes, extrapolam os limites legais trazendo consequências irreparáveis a quem é atingido por determinados atos. Pior, a impressão não é só minha, a propósito, por exemplo, faço referência à Conferência do Ministro Gilmar Mendes, do STF, proferida no dia 20/08/2010, sob o Título O ativismo judicial nas decisões do Supremo Tribunal Federal. Estado Democrático de Direito e Sistema Tributário no XIV Congresso Internacional de Direito Tributário, que ocorreu em Belo Horizonte. Para ele presenciamos ações de um Estado policial, e a expressão não é minha, onde se verificavam acusações, prisões e denúncias genéricas, sem fundamentos, pelo simples fato destas causarem impacto na mídia. A situação, em determinado momento, chegou a tal ponto de levar o Supremo Tribunal a estabelecer limites até mesmo para o uso de algemas. Se tais procedimentos, num primeiro momento, encontram o aparente apoio da população, no decorrer do tempo corroem o Estado de Direito. 12 Como exemplo, para não citar matéria em relação a qual eu tenha que decidir, lembro situação amplamente noticiada nos dias 28 e 29 de dezembro de 1999 em que a fiscalização do ICMS no Rio Grande do Sul aplicou multa milionária a uma grande rede de loja. Esta, de forma imediata, encerrou as atividades nos 19 (dezenove) Municípios do Rio Grande do Sul. A fiscalização, por sua chefia, apressouse em informar que analisaria equívocos da autuação. Apesar desta iniciativa da fiscalização, a pecha de sonegador já tinha sido divulgada, entendendo a empresa que não tinha mais clima para permanecer no Estado. A população, que no primeiro momento aplaudiu a ação “policialesca”, não levou muito tempo para perceber que nem tudo o que pode parecer corresponde a realidade dos fatos, mas uma vez divulgados não há como reparar os prejuízos. Fl. 103DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 75 75 Trouxe a preocupação acima em face do aparente desacerto da fiscalização em relação à situação concreta. Pelas razões acima, não consegui ver situação que caracterize a hipótese descrita no artigo 283 do Regulamento do Imposto de Renda, de 1999. Mas, ainda que houvesse omissão de receita, conforme demonstro no item a seguir, não caberia a multa isolada pelo não recolhimento de estimativas. Do pagamento sem causa Em relação à exigência caracterizada como pagamento sem causa, a regra de incidência tributária (art. 61 da Lei nº 8.981, de 1995) exige materialidade, qual seja, a prova que demonstre que alguém entregou a outrem determinada quantia. No caso dos autos, para que fosse possível caracterizar a materialidade dos alegados pagamentos haveria necessidade de se demonstrar a saída destes recursos do caixa da recorrente e entrega às empresas MIC e Ilmot. Mais, por se tratar de se tratar de supostos pagamentos feitos a nãoresidentes, teria que ser demonstrado a saída destes recursos, fato que inexistiu. Não há nos autos prova material da realização de pagamento da recorrente em favor das empresas MIC e Ilmot. No entanto, a autoridade fiscal, à semelhança da dedução feita em relação à omissão de receita de que trata o artigo ao 283 do Regulamento do Imposto de Renda, criou silogismo desprovido de premissa correta para chegar à conclusão de suposto pagamento sem causa. A propósito de pagamento sem causa, o artigo 61 da Lei nº 8.981, de 1995, dispõe: Art. 61. Fica sujeito à incidência do imposto de renda exclusivamente na fonte, à alíquota de 35%, todo pagamento efetuado pelas pessoas jurídicas a beneficiário não identificado, ressalvado o disposto em normas especiais. § 1º. A incidência prevista no caput aplicase, também, aos pagamentos efetuados ou aos recursos entregues a terceiros ou sócios, acionistas ou titular, contabilizados ou não, quando não for comprovada a operação ou a sua causa, bem como à hipótese de que trata o § 2º, do artigo 74 da Lei nº 8.383, de 1991. Do exposto na norma anterior temse dois tipos de infração, a saber: a) Pagamento a beneficiário não identificado; b) Pagamento em que não for comprovada a operação ou a causa. Em qualquer das hipóteses acima elencadas é necessário prova do pagamento, elemento que inexiste nos autos. Não havendo omissão de receita nos termos do artigo 283 do Regulamento do Imposto de Renda; inexistindo situação que justifique a exigência, no caso concreto, de recolhimento de estimativas mensais; inexistindo prova material do alegado pagamento sem causa; inexistindo acusação de prática de preço menor daqueles praticados no mercado com as empresas situadas em países de tributação favorecida e tratandose de fatos ocorridos antes do Fl. 104DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 76 76 disposto no artigo 26 da Lei nº 12.249, de 2010, não subsiste a autuação contida no auto de infração, razão pela qual voto no sentido de cancelar integralmente, sob pena de chancelar lançamento feito com base em fato que não caracteriza a incidência das normas tributárias invocadas pela autoridade autuante. Para os conselheiros que seguem a linha trilhada pela autoridade fiscal imagino que devam contemplar, em seus votos, análise dos seguintes pontos: (i) o fato de que os lucros das atividades da MIC e Ilmot no exterior foram contabilizados no Brasil pela Marcopolo. (ii) Desconsiderando as operações com as empresas subsidiárias MIC e Ilmot, atribuindo tais receitas integralmente à Marcopolo, o que fazer com os lucros que estas empresas geraram no exterior, contabilizados e tributados pela Marcopolo? (iii) É razoável o argumento contido no acórdão recorrido de que “os custos e despesas dedutíveis são aqueles vinculados à fonte produtora das receitas, não havendo que se falar em dedutibilidade quando os referidos dispêndios foram efetuados por terceiros? (iv) Mas se estes dispêndios, inerentes à comercialização (em especial custos de financiamento, cobrança, transporte, pessoal etc), efetivamente foram realizados por terceiros, como sustentar a tese de que não havia participação necessária destes para venda ao consumidor? (v) Partindo da premissa que na simulação há conluio entre o vendedor e o adquirente e se os adquirentes, no caso concreto, foram os consumidores finais, sem intervenção das empresas intermediárias, haveria conluio entre os milhares de consumidores e a Marcopolo? Qual a prova do suposto conluio? (vi) Seria possível simulação sem participação dos consumidores finais? Se os consumidores finais efetivamente negociaram diretamente com a Marcopolo e quem faturou os respectivos preços foram as empresas MIC e Ilmot, é razoável imaginar que todos deliberadamente se uniram em grande conluio para lesar o Fisco Brasileiro? (vii) Ao se desconsiderar os custos suportados pelas empresas MIC e Ilmot, estarseia tributando o lucro ou a receita? Ao meu sentir seria a receita e, se assim é, não existe IRPJ e CSLL sobre receita. Das multas Afastada a exigência principal, não cabe falar em multa qualificada. Todavia, em atenção aos que possam divergir, caso não prevaleça a tese que consta deste voto, para, ou para que não se afirme que a Câmara deixou de analisar esta matéria, vou tratála em separado. Da multa qualificada Em conversa informal com o ilustre Conselheiro Antônio Praga, cujo tema era circunstâncias caracterizadoras da multa qualificada nos casos de simulação, com a Fl. 105DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 77 77 inteligência que lhe é peculiar, mediante exemplo simples, ele traz elementos relevantes para compreensão da matéria. Diz ele, com outras palavras: Se a norma, de forma expressa, proíbe que A use camisa branca e A, desafiando a lei, coloca uma camisa branca e a encobre com uma camisa azul, usada por cima, A está simulando uma situação, qual seja, não uso de camisa branca quando na realidade está usando, só que de forma oculta. Nestas condições, caracterizada está a situação que tipifica a infração qualificada. Por outro lado, se norma não contém comando expresso proibindo o uso de camisa branca e A, sem consciência de que está violando a norma, usa camisa branca sem se preocupar em ocultála, não se pode dizer que está praticando ato simulado. Na realidade, usa a camisa branca de forma explícita, sem imaginar que isto caracteriza infração à lei. No caso dos autos, como se demonstrará nos parágrafos que seguem, em momento algum a recorrente procurou ocultar sua conduta. Assim, dados os fundamentos acima expostos, fica descaracterizada a multa qualificada. Na linha dos argumentos que fundamentam a autuação, ratificados e explicitados nos memoriais entregues pelo ilustre representante da Fazenda Nacional, a recorrente apenas utilizava as sociedades referidas no auto de infração para intermediar formalmente negócios que, na essência, correspondiam a operações diretas entre a Marcopolo S.A. e seus consumidores finais. Tal modo de agir, segundo a autoridade autuante, implica em dissimulação da natureza dos elementos constitutivos da obrigação tributária, ocultando a ocorrência dos fatos geradores. Para a autuada, por sua vez, para levar adiante processo de internacionalização, em especial no pósvenda e para viabilizar, com menores custos, que os adquirentes de seus veículos pudessem obter financiamentos, constituiu duas empresas subsidiárias, no exterior, em território de menor carga tributária. Também, em outros períodos, fez negócios tendo no circuito fábricaconsumidor, com as empresas Kilvert S.A e Kenplive. Inicialmente, volto a repetir, que há que se desfazer a falsa impressão de que constituir empresa em país de tributação favorecida, ou paraíso fiscal, como popularmente são identificados estes países, constituise em irregularidade. Nenhum estabelecimento, com fins lucrativos, que possa optar em se estabelecer numa região de maior ou menor tributação, em condições semelhantes, deixará de optar pela que lhe trouxer mais vantagem. O processo revela que o caso em questão não se trata de situação para concretizar esta ou aquela operação. O Diário Oficial de 1995, com cópia entregue com os memoriais, revela que os lucros das atividades da MIC no exterior foram contabilizados no Brasil, pela Marcopolo. Tal fato se repetiu nos anos seguintes incluindo a MIC e a Ilmot. Isto está a demonstrar que não existia nenhuma conduta préconcebida para ocultar ou dissimular os negócios realizados pela recorrente. O que se tinha, à toda evidência, era um conjunto de operações lícitas realizadas com empresas situadas em países de tributação favorecida, com o intuito de diminuir a carga tributária. As operações comerciais realizadas eram devidamente contabilizadas. Por sua vez, os lucros obtidos pelas empresas subsidiárias que participavam das transações eram devidamente informados e tributados aqui no Brasil. Para que resultasse caracterizada a simulação para efeitos tributários seria necessário: Fl. 106DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 78 78 a) a intenção dolosa da recorrente em ocultar as verdadeiras operações comerciais; b) a participação das centenas ou milhares de consumidores que mesmo tendo negociado, em tese, diretamente com a Marcopolo, pagaram às empresas MIC e Ilmot. Em relação ao primeiro ponto, qual seja, a intenção determinada da recorrente em ocultar as verdadeiras operações, tenho que não existiu. Não é crível que alguém que queira esconder determinada situação o faça de forma aberta a todos, registrando regularmente em sua contabilidade, contabilizando, inclusive, os lucros decorrentes de suas empresas subsidiárias. Quanto ao segundo aspecto, partindo da premissa de que na simulação há conluio entre o vendedor e o adquirente e se os adquirentes, no caso concreto, foram os consumidores finais, sem intervenção das empresas intermediárias, para se reconhecer a simulação seria necessário prova de conluio entre as centenas ou milhares de consumidores e a Marcopolo. Tal prova, nem de forma indiciária, existe nos autos. Isto, por si só, para mim, é elemento suficiente para afastar a alegação de conluio. Destacase, ainda, que em 1995 e anos subsequentes, época em que a recorrente adotou o procedimento em análise, sem omitir uma única operação, a autoridade administrativa, com a última palavra dada pelo Conselho de Contribuintes, admitia tais operações como normais. Por força do artigo 100, II e III, do CTN, as decisões dos órgãos singulares ou coletivos de jurisdição administrativa e as práticas, reiteradamente observadas pelas autoridades administrativas, se constituem em normas complementares das leis tributárias. Quando se diz que as decisões dos órgãos coletivos são normas complementares do CTN, a conduta do contribuinte que seguir esta jurisprudência não pode ser considerada ilícita e tem sua razão de ser em face do preceito estabelecido no artigo 140 do CTN, que determina que o lançamento deve reportarse à data da ocorrência do fato gerador da obrigação e regese pela lei então vigente, ainda que posteriormente modificada ou revogada. Assim, ainda que a jurisprudência desta casa se modificou com o passar do tempo, no caso concreto, há que se aplicar o entendimento vigente quando da prática dos atos e não o existente nos dias de hoje. Aplicar a jurisprudência vigente na atualidade seria induzir o contribuinte a adotar a jurisprudência administrativa sem lhe conferir a garantia de que mais tarde não seria autuado. O órgão que tem a competência, na esfera dos julgamentos administrativos, para dizer a última palavra na interpretação da lei tributária não pode conduzir seus julgamentos de forma que não confira segurança jurídica a quem seguir sua jurisprudência. No Brasil, situação marcante de que o órgão julgador que tem a prerrogativa de dizer a palavra final em relação à interpretação de uma norma não pode deixar de amparar o direito de quem seguiu sua jurisprudência está no julgamento do mandado de segurança nº 26.603/DF, pelo Supremo Tribunal Federal. A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal seguia o entendimento de que a troca injustificada de Partido Político não importaria em perda do mandato. Ocorre que o Tribunal Superior Eleitoral, em 27 de março de 2007, ao responder a Consulta n° 1.398/DF, Fl. 107DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 79 79 nela assentou que a troca de partido, de forma injustificada, resultava em perda do mandato, eis que este pertence ao partido e não ao candidato eleito. Tivemos uma mudança histórica na jurisprudência da Corte. A lei era a mesma, o que mudou foi a sua interpretação. Inúmeras controvérsias surgiram em relação aos Deputados que meses antes haviam trocado de partido. Seria jurídico impor perda do mandato aos Deputados que, seguindo a jurisprudência do Supremo, haviam torçado de partido? É evidente que não e foi isto que decidiu o Supremo Tribunal Federal quando do julgamento do Mandado de Segurança n° 26.603/DF. Os Deputados que haviam trocado de partido, antes da data aqui referida, o fizeram baseado em um contexto objetivo de expectativa de plena validade de seus atos. Não pode a mudança de jurisprudência do órgão que tem a prerrogativa de decisão final, seja na esfera administrativa ou judicial, atingir direitos daqueles que conduziram seus atos seguindo a orientação da Corte. No Direito Tributário este fundamento jurídico está alicerçado nos artigos 100, II, III13, 140 e 146 do CTN. Não vou me estender na transcrição de jurisprudência que, na época dos fatos, chancelava como válidos os planejamentos tributários praticados por meio de atos lícitos, devidamente registrados, com a finalidade de reduzir a carga tributária. A título exemplificativo e sem me ater se são os melhores exemplos, já que inúmeros outros acórdãos, seguem os precedentes abaixo: GANHO DE CAPITAL – SIMULAÇÃO – PROVA. A opção do contribuinte de procurar reduzir a carga tributária por meio de procedimentos lícitos, legítimos e admitidos por lei revela o planejamento tributário. Para a invalidação dos atos ou negócios jurídicos realizados, cabe à autoridade fiscal a ocorrência do fato gerador ou que o contribuinte tenha usado estratagema para revestilo de outra forma. Não havendo impedimento legal para a realização das doações, ainda que delas tenha resultado a redução do ganho de capital produzido pela alienação das ações recebidas, não há como qualificar a operação de simulada. A reduzida permanência das ações no patrimônio dos donatários/doadores e doadores/donatários, por si só, não autoriza a conclusão de que os atos e negócios jurídicos foram simulados. No anocalendário de 1997 hão havia a incidência de ganho de imposto sobre o ganho de capital produzido pela diferença entre o custo de aquisição pelo qual o bem foi doado e o valor de mercado atribuído no retorno do mesmo bem,” (Acórdão 106 13.483). Na mesma linha do acórdão acima referido, atendose especificamente à qualificação da multa, verificase o julgamento do recurso nº n° 145.171, com a seguinte ementa: PENALIDADE QUALIFICADA – INOCORRÊNCIA DE VERDADEIRO INTUITO DE FRAUDE – ERRO DE PROIBIÇÃO – ARTIGO 112 DO CTN – SIMULAÇÃO RELATIVA FRAUDE À LEI – Independentemente da patologia presente no negócio jurídico analisado em um planejamento tributário, se simulação relativa ou fraude à lei, a existência de conflitantes e respeitáveis 13 Art. 100. São normas complementares das leis, dos tratados e das convenções internacionais e dos decretos: ... II as decisões dos órgãos singulares ou coletivos de jurisdição administrativa, a que a lei atribua eficácia normativa; III as práticas, reiteradamente observadas pelas autoridades administrativas; Fl. 108DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 80 80 correntes doutrinárias, bem como de precedentes jurisprudências contrários à nova interpretação dos fatos pelo seu verdadeiro conteúdo, e não pelo aspecto meramente formal, implica em escusável desconhecimento da ilicitude do conjunto de atos praticados, ocorrendo na espécie o erro de proibição. Pelo mesmo motivo, bem como por ter o contribuinte registrado todos os atos formais em sua escrituração, cumprindo todas as obrigações acessórias cabíveis, inclusive a entrega de declarações quando da cisão, e assim permitindo ao fisco plena possibilidade de fiscalização e qualificação dos fatos, aplicáveis as determinações do artigo 112 do CTN. Fraude à lei não se confunde com fraude criminal.(Ac. 101 95.537, Rel. Mário Junqueira Franco Júnior)14. Em síntese, para evitar a insegurança jurídica, tenho sustentado que a mudança de entendimento das Cortes Superiores, administrativas ou judiciais, responsáveis por dizer a última palavra em relação à interpretação da lei, só pode ser aplicada para os casos futuros. Esse entendimento, conforme registra o Ministro Celso de Mello, em acórdão referente ao Mandado de Segurança n° 26.6031/DF, não é estranho à experiência jurisprudencial do Supremo Tribunal Federal, que já fez incidir o postulado da segurança jurídica em questões várias, inclusive naquelas envolvendo relações de direito público (MS 24.268/MG, Rel. p/ o acórdão Min. GILMAR MENDES MS 24.927/RO, Rel. Min. CEZAR PELUSO, v.g.) e de caráter político (RE 197.917/SP, Rel. Min. MAURÍCIO CORRÊA), cabendo mencionar a decisão do Plenário que se acha consubstanciada, no ponto, em acórdão assim ementado: “(...) 5. Obrigatoriedade da observância do princípio da segurança jurídica enquanto subprincípio do Estado de Direito. Necessidade de estabilidade das situações criadas administrativamente. 6. Princípio da confiança como elemento do princípio da segurança jurídica. Presença de um componente de ética jurídica e sua aplicação nas relações jurídicas de direito público. (...).” (MS 22.357/DF, Rel. Min. GILMAR MENDES – grifei) Dos fundamentos do acórdão acima referido, como razões de decidir, colho a seguinte passagem: (...) “Vale mencionar, por oportuno, que também a prática jurisprudencial da Suprema Corte dos EUA tem observado esse critério, fazendoo incidir naquelas hipóteses em que sobrevém alteração substancial de diretrizes que, até então, vinham sendo observadas na formação das relações jurídicas, inclusive em matéria penal.” “Refirome, não só ao conhecido caso “Linkletter” – Linkletter v. Walker, 381 U.S. 618, 629, 1965 –, como, ainda, a muitas outras decisões daquele Alto Tribunal, nas quais se proclamou, a partir de certos marcos temporais, considerandose determinadas premissas e com apoio na técnica do ‘prospective overruling”, a inaplicabilidade do novo precedente a situações já consolidadas no passado, cabendo relembrar, dentre vários julgados, os seguintes: Chevron Oil Co. v. Huson, 404 U.S. 97, 1971; Hanover Shoe v. United Shoe Mach. Corp., 392 U.S. 481, 1968; Simpson v.Union Oil Co., 377 U.S. 13, 1964; England v. State Bd. of Medical 14 Por maioria de votos, DAR provimento PARCIAL ao recurso, para reduzir o percentual da multa de ofício para 75%. Vencidos os Conselheiros Sandra Maria Faroni (Relatora), Caio Marcos Cândido e Manoel Antonio Gadelha Dias que negaram provimento ao recurso. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Mário Junqueira Franco Júnior. Fl. 109DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL Processo nº 11020.007753/200890 Acórdão n.º 140200.753 S1C4T2 Fl. 81 81 Examiners, 375 U.S. 411, 1964; City of Phoenix v. Kolodziejski, 399 U.S. 204, 1970; Cipriano v. City of Houma, 395 U.S. 701, 1969; Allen v. State Bd. of Educ., 393 U.S. 544, 1969, v.g.”. (Fonte: Voto do Ministro Celso de Mello, no Mandado de Segurança n° 26.6031, conhecido nacionalmente como o caso da infidelidade partidária dos Deputados Federais). Com tais fundamentos, ainda que vencido em relação à exigência do crédito, afasto a multa qualificada. ISSO POSTO, voto no sentido de DAR provimento ao recurso voluntário para cancelar integralmente a exigência do crédito tributário. Caso vencido em relação à inexigibilidade do crédito tributário, afasto a multa qualificada, reduzindo esta ao percentual de 75%. (assinado digitalmente) Moisés Giacomelli Nunes da Silva Fl. 110DF CARF MF Emitido em 23/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 12/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por ANTONIO JOSE PRA GA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/12/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE, Assinado digita lmente em 23/12/2011 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL
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Numero do processo: 10283.005710/2004-92
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Feb 08 00:00:00 UTC 2011
Data da publicação: Tue Feb 08 00:00:00 UTC 2011
Ementa: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICAIRPF.
Exercício: 2000.
ACRÉSCIMO PATRIMONIAL A DESCOBERTO. OPERAÇÕES BANCÁRIAS NO EXTERIOR. INCIDÊNCIA DA SÚMULA N° 67 DO CARF.
No caso de acréscimo patrimonial a descoberto, sem que tenha sido
efetivamente comprovada a identificação do sujeito passivo, deve incidir a súmula n° 67 do CARF: “Em apuração de acréscimo patrimonial a descoberto a partir de fluxo de caixa que confronta origens e aplicações de recursos, os saques ou transferências bancárias, quando não comprovada a destinação, efetividade da despesa, aplicação ou consumo, não podem
lastrear lançamento fiscal”.
Numero da decisão: 9202-001.317
Decisão: ACORDAM os membros da 2ª Turma da Câmara Superior de Recursos
FISCAIS, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos termos do voto do(a) Relator.
Matéria: IRPF- ação fiscal - Ac.Patrim.Descoberto/Sinais Ext.Riqueza
Nome do relator: Susy Gomes Hoffmann
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Exercício: 2000. ACRÉSCIMO PATRIMONIAL A DESCOBERTO. OPERAÇÕES BANCÁRIAS NO EXTERIOR. INCIDÊNCIA DA SÚMULA N° 67 DO CARF. No caso de acréscimo patrimonial a descoberto, sem que tenha sido efetivamente comprovada a identificação do sujeito passivo, deve incidir a súmula n° 67 do CARF: “Em apuração de acréscimo patrimonial a descoberto a partir de fluxo de caixa que confronta origens e aplicações de recursos, os saques ou transferências bancárias, quando não comprovada a destinação, efetividade da despesa, aplicação ou consumo, não podem lastrear lançamento fiscal”. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. ACORDAM os membros da 2ª Turma da Câmara Superior de Recursos FFIISSCCAAIISS, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos termos do voto do(a) Relator(a). (assinado digitalmente) Caio Marcos Cândido Fl. 1DF CARF MF Emitido em 14/03/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 09/03/2011 por SUSY GOMES HOFFMANN Assinado digitalmente em 09/03/2011 por SUSY GOMES HOFFMANN, 11/03/2011 por CAIO MARCOS CANDIDO Processo nº 10283.005710/200492 Acórdão n.º 9202001.317 CSRFT2 Fl. 2 2 Presidente (assinado digitalmente) Susy Gomes Hoffmann Relatora Participaram do julgamento os Conselheiros Caio Marcos Candido, Giovanni Christian Nunes Campos, Gonçalo Bonet Allage, Marcelo Oliveira, Manoel Coelho Arruda Junior, Gustavo Lian Haddad, Francisco Assis de oliveira Júnior, Rycardo Henrique Magalhães de Oliveira, Elias Sampaio Freire, e Susy Gomes Hoffmann. Relatório Tratase de recurso especial interposto pela Procuradoria da Fazenda Nacional, com base em contrariedade à evidência da prova dos autos. Apurouse, na autuação, a ocorrência de “acréscimo patrimonial a descoberto”. O contribuinte foi chamado a comprovar a origem dos recursos utilizados em transações financeiras realizadas através do Banco Chase de Nova York por BHSC Beacon Hill Service Corporation, em que figura como ordenante de valores no total de US$ 94.000,00. Conforme a descrição dos fatos, presente às fls. 78/84 dos autos: “Apesar de negar a prática da operação que culminou com a movimentação de divisas descrita, os documentos enviados pela COFIS, oriundos da Justiça Federal, 2° Vara Criminal de Curitiba, atestam ser o Sr. Luiz Afonso Braga de Souza, ordenante de importância que totalizam US$ 94.000,00, cujas operações financeiras foram realizadas através do Banco Chase de Nova York, por meio da conta/ subconta Beacon Hill Service Corporation BHSC. Os recursos utilizados na aquisição do quantitativo de US$ 94.000,00 (noventa e quatro mil dólares americanos), nas datas e valores anteriormente mencionados, por não lograr comprovar o contribuinte, que tais dispêndios, à vista da declaração de rendimentos e bens do exercício de 2000, anocalendário de 1999, são provenientes de rendimentos tributáveis, não tributáveis, tributados exclusivamente na fonte ou objeto de tributação definitiva, são caracterizados como acréscimo patrimonial a descoberto (...)”. O contribuinte apresentou impugnação às fls. 95/119 dos autos. Alegou, em síntese, que não integrou a ação em trâmite na 2° Vara Federal Criminal de Curitiba, em que se deu a quebra do sigilo fiscal, revelandose ilegal tal prova, não podendo ser utilizada pelo Fisco. Reputou ilegal a prova, também, oriunda de CPI, na qual não Fl. 2DF CARF MF Emitido em 14/03/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 09/03/2011 por SUSY GOMES HOFFMANN Assinado digitalmente em 09/03/2011 por SUSY GOMES HOFFMANN, 11/03/2011 por CAIO MARCOS CANDIDO Processo nº 10283.005710/200492 Acórdão n.º 9202001.317 CSRFT2 Fl. 3 3 teve direito ao contraditório e à ampla defesa. Argumentou que nunca operou em transações envolvendo remessas de divisas ao exterior. A Delegacia da Receita Federal de Julgamento (fls. 124/128) julgou procedente o lançamento, nos termos da seguinte ementa: Assunto: Obrigações Acessórias. Anocalendário: 1999. Ementa: Considerase omissão de rendimentos evidenciada pelos sinais exteriores de riqueza caracterizados pelos dispêndios relativos a remessas de valores a terceiros, em valores incompatíveis com a renda disponível do contribuinte. Lançamento Procedente. O contribuinte interpôs recurso voluntário às fls. 134/138 dos autos. A antiga Quarta Câmara do Primeiro Conselho de Contribuintes, às fls. 157/167 dos autos, deu provimento ao recurso do contribuinte. Eis a ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF. Exercício: 2000. ACRÉSCIMO PATRIMONIAL A DESCOBERTO. OPERAÇÕES BANCÁRIAS NO EXTERIOR ILEGITIMIDADE PASSIVA PROVA INDICIÁRIA. A prova indiciária para referendar a identificação do sujeito passivo deve ser constituída de indícios que sejam veementes, graves, precisos e convergentes, que examinados em conjunto levem ao convencimento do julgador. Recurso Provido. Observouse, em primeiro lugar, que não há menção, em nenhum dos elementos probatórios trazidos aos autos, ao nome do contribuinte. O nome do contribuinte aparece unicamente no relatório de operações da conta BCF, presente às fls. 62/63 dos autos. Salientouse, de outro lado, que o contribuinte, em todas as suas manifestações nos autos, sempre negou veementemente a prática das operações que lhe são imputadas, “comprovando, a partir de sua declaração de ajuste anual e de certidões de cartórios de registros de imóveis que não dispõe de capacidade econômica e financeira para ter realizado essas remessas. Aliás, remessas de recursos do exterior, para o exterior, não se podendo presumir, em 1999, que se trataria de recursos oriundos do país, por falta de previsão legal (uma vez que a legislação que poderia vir a amparar incidências sobre fatos dessa natureza no exterior somente foi introduzida no mundo jurídico em janeiro de 2001, com a Lei Complementar n° 104)”. Reputouse, desta forma, que a autuação baseouse em conjunto probatório frágil, tendo em vista que “nem mesmo uma assinatura sequer consta, nem mesmo um nome que vincule concretamente tais elementos ao recorrente. Vale dizer, está fundamentada Fl. 3DF CARF MF Emitido em 14/03/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 09/03/2011 por SUSY GOMES HOFFMANN Assinado digitalmente em 09/03/2011 por SUSY GOMES HOFFMANN, 11/03/2011 por CAIO MARCOS CANDIDO Processo nº 10283.005710/200492 Acórdão n.º 9202001.317 CSRFT2 Fl. 4 4 exclusivamente em presunção fiscal, ou em prova indiciária, sem que tenha havido o mínimo aprofundamento da fiscalização para a comprovação dos indícios verificados”. Assim, e fundamentandose no fato de não existir um conjunto de indícios veementes, mas apenas uma presunção advinda de menção, em um laudo pericial, do nome do contribuinte como remetente de recursos para o exterior, fato esse que também não se encontra, conforme destacouse, comprovado nos autos, deuse provimento ao recurso do contribuinte. A Procuradoria da Fazenda Nacional, então, interpôs o presente recurso especial, com base na contrariedade à evidência da prova dos autos (fls. 171/180). Sustentou que a prova indiciária presente nos autos revelase suficiente para transpor o “umbral da dúvida razoável”, e que a sua veemência e solidez devem conduzir necessariamente à procedência do lançamento. A recorrente narrou que, segundo se depreende dos documentos presentes nos autos (fls. 09/74), se constatou, no bojo do processo judicial n° 2003.70000303334, sob a presidência do juiz federal Sérgio Fernando Moro, a remessa de quantias milionárias para o exterior, por intermédio de contas CC5, mantidas em instituições financeiras localizadas em Foz do Iguaçu. Diante disso, o referido juiz federal remeteu à Secretaria da Receita Federal os dados da movimentação financeira, e determinando ao Banestado, Coordenação de Controles Especiais, que imprimisse todo o conteúdo do arquivo eletrônico da mídia na qual foram eliminadas as inconsistências, certificandose de que as operações correspondem ao registro eletrônico das movimentações bancárias realizadas na agência daquele banco. O Banestado, então, apresentou, dentre outros documentos, comprovante de remessa bancária em favor do contribuinte no valor de US$ 94.000,00. Tendo sido constatada a ocorrência de transações financeiras através do Banco Chase de New York por BHSC Beacon Hill Service Corporation, em que o contribuinte figura como ordenante de valores que redundam naquele montante, foi intimado a apresentar documentação comprobatória da origem dos recursos utilizados em referidas transações. Salientou, neste passo, que o contribuinte sempre negou ter utilizado conta do banco Chase de New York, bem como ter transacionado com outra instituição internacional. E que afirmou não estar obrigado a mencionar as fontes pagadoras dos rendimentos recebidos durante o anocalendário de 1999, por ter utilizado o modelo simplificado de declaração de ajuste anual. Segundo a recorrente: “Ocorre que apesar de negar a prática da operação que culminou com a movimentação de divisas descritas, os documentos enviados pela COFIS, oriundos da Justiça Federal, 2° Vara Criminal de Curitiba PR, atestam ser o senhor Luiz Afonso Braga de Souza, ordenante de importância que totalizam US$ 94.000,00, cujas operações financeiras foram realizadas através do Banco Chase de New York, por meio da conta/sub conta Beacon Hill Service Corporation BHSC”. Diante disso, contrapõese à dúvida citada no acórdão recorrido, sobretudo tendo em vista a postura do contribuinte no sentido de se negar a informar a fonte pagadora dos Fl. 4DF CARF MF Emitido em 14/03/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 09/03/2011 por SUSY GOMES HOFFMANN Assinado digitalmente em 09/03/2011 por SUSY GOMES HOFFMANN, 11/03/2011 por CAIO MARCOS CANDIDO Processo nº 10283.005710/200492 Acórdão n.º 9202001.317 CSRFT2 Fl. 5 5 seus rendimentos, mesmo sendo encontrada grande movimentação em sua contacorrente, conforme atestado pela fiscalização. O contribuinte, às fls. 190/194 dos autos, apresentou suas contrarazões. Voto Conselheira Susy Gomes Hoffmann, Relatora O presente recurso especial é tempestivo. Preenche, também, os demais requisitos de admissibilidade, tendo em vista que a recorrente baseouse na contrariedade, por parte da decisão recorrida, à evidência da prova dos autos. Há, sobre o tema discutido, enunciado de súmula pacificando o posicionamento do CARF. Tendo sido essa súmula, contudo, editada posteriormente à decisão ora recorrida, é de se conhecer do recurso especial, para resolvêlo no seu mérito. Com efeito, o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais editou recentemente o enunciado n° 67 da sua súmula jurisprudencial, com a seguinte redação: “Em apuração de acréscimo patrimonial a descoberto a partir de fluxo de caixa que confronta origens e aplicações de recursos, os saques ou transferências bancárias, quando não comprovada a destinação, efetividade da despesa, aplicação ou consumo, não podem lastrear lançamento fiscal”. A edição da súmula originouse justamente da reiteração de julgamentos sobre casos idênticos ao dos presentes autos, como na hipótese do seguinte acórdão proferido pela antiga Sexta Câmara do Primeiro Conselho de Contribuintes: “Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física IRPF. Anocalendário: 2001, 2002. Ementa: ACRÉSCIMO PATRIMONIAL A DESCOBERTO AUSÊNCIA DE CONFRONTAÇÃO DAS FONTES COM AS APLICAÇÕES DE RECURSOS TRANSFERÊNCIAS BANCÁRIAS AUSÊNCIA DE VINCULAÇÃO DAS TRANSFERÊNCIAS BANCÁRIAS COM RENDA CONSUMIDA OU AUMENTO PATRIMONIAL SEM LASTRO EM RENDIMENTOS DECLARADOS Para se imputar a infração decorrente de acréscimo patrimonial a descoberto a contribuinte, mister confrontar todas as fontes de recursos, com as respectivas aplicações, em cada mês do anocalendário. Transferências bancárias, por si só, não podem ser utilizadas como aplicação de recursos, devendo a fiscalização perscrutar Fl. 5DF CARF MF Emitido em 14/03/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 09/03/2011 por SUSY GOMES HOFFMANN Assinado digitalmente em 09/03/2011 por SUSY GOMES HOFFMANN, 11/03/2011 por CAIO MARCOS CANDIDO Processo nº 10283.005710/200492 Acórdão n.º 9202001.317 CSRFT2 Fl. 6 6 os beneficiários das transferência bancárias, buscando comprovar o consumo ou aumento patrimonial que tenha beneficiado o contribuinte fiscalizado. Recurso voluntário provido” Nesse acórdão, a questão fática foi substancialmente a mesma ensejadora da autuação no presente caso. Nela, a ação fiscal foi embasada por documentação repassada pelo Juízo da Segunda Vara Criminal da Seção Judiciária do Paraná, no desdobramento do caso Banestado. Diante disso, não resta dúvida acerca da necessária incidência da súmula em questão. Citese, também, somente a título de reforço, outro acórdão que levou à edição da súmula 67 do CARF: “ACRÉSCIMO PATRIMONIAL MENSAL. FLUXO DE REFLUXOS E APLICAÇÃO. SAQUES BANCÁRIOS Incabível o lançamento fiscal formalizado em mera presunção de que saques bancários constituemse em aplicação de recursos quando não vinculados efetivamente a uma despesa, ou seja, quando não comprovada sua destinação, aplicação ou consumo. MULTA AGRAVADA. SITUAÇÃO FÁTICA NÃO CONFIGURADA Incabível a imposição de multa agravada quando não restar configurado de forma clara e evidente e o não atendimento pelo sujeito passivo às solicitações que lhe foram efetuadas. PROVA ILÍCITA Os documentos obtidos por meio de ação judicial, disponibilizados à administração tributária para fins de investigação de ilícito criminal, constituem provas a instruir o processo administrativo fiscal de pessoas ligadas ou de possível vinculação. CERCEAMENTO AO DIREITO DE DEFESA A quebra de sigilo bancário, via judicial, não pode constituir motivo ao cerceamento à defesa na esfera administrativa, uma vez que integra ação distinta. IRPF. ACRÉSCIMO PATRIMONIAL A DESCOBERTO Sujeita se à tributação a variação patrimonial apurada, não justificada por rendimentos declarados/comprovados, por caracterizar omissão de rendimentos. Somente a apresentação de provas inequívocas é capaz de elidir uma presunção legal de omissão de rendimentos invocada pela autoridade lançadora. SALDO DE RECURSOS. TRANSFERÊNCIA PARA JANEIRO Admitese a transferência do saldo de recursos, relativo a dezembro do anocalendário para janeiro do ano seguinte, desde que devidamente apurado em fluxo financeiro e patrimonial elaborado pelo auditorfiscal. Recurso de ofício negado. Fl. 6DF CARF MF Emitido em 14/03/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 09/03/2011 por SUSY GOMES HOFFMANN Assinado digitalmente em 09/03/2011 por SUSY GOMES HOFFMANN, 11/03/2011 por CAIO MARCOS CANDIDO Processo nº 10283.005710/200492 Acórdão n.º 9202001.317 CSRFT2 Fl. 7 7 Recurso voluntário parcialmente provido”. Ressaltese que, em face da existência da súmula a respeito do tema, o deslinde do caso demanda tãosomente a apuração acerca da sua aplicação ou não ao caso concreto. E isto encontrase fora de qualquer dúvida. Diante do exposto, nego provimento ao recurso especial da Fazenda Nacional, mantendose a decisão recorrida em todos os seus termos. Sala das Sessões, em 08 de fevereiro de 2011 (assinado digitalmente) Susy Gomes Hoffmann Fl. 7DF CARF MF Emitido em 14/03/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 09/03/2011 por SUSY GOMES HOFFMANN Assinado digitalmente em 09/03/2011 por SUSY GOMES HOFFMANN, 11/03/2011 por CAIO MARCOS CANDIDO
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Numero do processo: 11040.001116/2002-86
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Mon Apr 04 00:00:00 UTC 2011
Data da publicação: Mon Apr 04 00:00:00 UTC 2011
Ementa: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP
Período de apuração: 01/06/2001 a 30/06/2002
Base de Cálculo Alargamento - Aplicação de Decisão Inequívoca do STF Possibilidade.
Nos termos regimentais, pode-se afastar aplicação de dispositivo de lei tenha sido declarado inconstitucional por decisão plenária do Supremo Tribunal Federal.
Afastado o disposto no § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98 por sentença proferida pelo plenário do Supremo Tribunal Federal, com trânsito em julgado, a base de cálculo da contribuição para o PIS/Pasep, até a vigência da Lei 10.637/2002, voltou a ser o faturamento, assim compreendido a receita bruta da venda de mercadorias, de serviços e de mercadorias e de serviços.
Recurso negado.
Numero da decisão: 9303-001.360
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar
provimento ao recurso. ausente, momentaneamente, a conselheira Susy Gomes Hoffmann.
Matéria: PIS - ação fiscal (todas)
Nome do relator: Henrique Pinheiro Torres
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Nos termos regimentais, podese afastar aplicação de dispositivo de lei que tenha sido declarado inconstitucional por decisão plenária do Supremo Tribunal Federal. Afastado o disposto no § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98 por sentença proferida pelo plenário do Supremo Tribunal Federal, com trânsito em julgado, a base de cálculo da contribuição para o PIS/Pasep, até a vigência da Lei 10.637/2002, voltou a ser o faturamento, assim compreendido a receita bruta da venda de mercadorias, de serviços e de mercadorias e de serviços. Recurso negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. ausente, momentaneamente, a conselheira Susy Gomes Hoffmann. Henrique Pinheiro Torres – Presidente Substituto e Relator. Participaram do presente julgamento os Conselheiros, Antonio Carlos Atulim Nanci Gama, Judith do Amaral Marcondes Armando, Rodrigo Cardozo Miranda, Gilson Fl. 138DF CARF MF Emitido em 01/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 20/07/2011 por HENRIQUE PINHEIRO TORRES, Assinado digitalmente em 20/07/ 2011 por HENRIQUE PINHEIRO TORRES 2 Macedo Rosenburg Filho, Gileno Gurjão Barreto, Rodrigo da Costa Pôssas, Maria Teresa Martínez López, e Henrique Pinheiro Torres. Relatório A decisão a quo assim descreveu os fatos: Trata o presente processo de Auto de Infração relativo ao PIS (fls.39/43), lavrado em decorrência de diferenças apuradas na base de cálculo da contribuição, relativas a outras receitas, ao crédito presumido de IPI e a vendas para o mercado interno, indevidamente escrituradas como receitas de exportação. O período abrangido pela autuação compreende os fatos geradores de junho de 2001 a junho de 2002. Em sua impugnação, a autuada informa que parte da diferença encontrada no período de apuração janeiro/2002 referese a uma venda para o mercado externo (ON LINE TRADING S/A), Nota Fiscal nº 018129 (cópia à fl. 66), ocorrida em outubro de 2001 e erroneamente escriturada como venda para o mercado interno. Ao tomar conhecimento do equívoco, a empresa deduziu o valor da referida nota fiscal da base de cálculo da contribuição no período de apuração janeiro/2002. As vendas escrituradas como receitas de exportação foram efetuadas para o Frigorífico Extremo Sul S/A, tendo ocorrido a troca do código 5.11, constante das notas fiscais, para o código 7.11 no Livro Registro de Saídas. A empresa afirma que todas estas vendas tiveram como destino final o mercado externo, alegando que a mera ausência da figura típica da empresa comercial exportadora não seria motivo para a glosa fiscal. Afirma que não houve prejuízo para o Fisco nas operações efetuadas, as quais teriam fortalecido as exportações, abrindo caminho para os seus produtos no mercado internacional. No tocante à inclusão do crédito presumido de IPI na base de cálculo do PIS, insurgese contra o entendimento de que a base de cálculo da contribuição seja a totalidade das receitas da empresa, independente da classificação contábil adotada, questionando a constitucionalidade da Lei nº 9.718/98. Afirma, ainda, que a Emenda Constitucional nº 20 não teria o condão de convalidar a mudança no conceito de faturamento, mencionando decisão proferida pela 3ª Turma do Tribunal Regional Federal da 3ª Região, que lhe ampararia nessa argumentação. Por fim, acrescenta que, sendo o crédito presumido de IPI um ressarcimento, jamais poderia sofrer qualquer oneração tributária, visto não se tratar de receita mas de uma despesa ou recuperação de custo, nos termos do Parecer PGFN nº 3092, de 27/09/2002. A Segunda Turma da DRJ em Porto Alegre RS manteve a exigência em sua integralidade, em Acórdão assim ementado: Fl. 139DF CARF MF Emitido em 01/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 20/07/2011 por HENRIQUE PINHEIRO TORRES, Assinado digitalmente em 20/07/ 2011 por HENRIQUE PINHEIRO TORRES Processo nº 11040.001116/200286 Acórdão n.º 930301.360 CSRFT3 Fl. 132 3 “Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/06/2001 a 30/06/2002 Ementa: PIS – ISENÇÃO – Indispensável a comprovação de que as vendas efetuadas com o fim específico de exportação sejam implementadas para empresas exportadoras registadas na Secretaria de Comércio Exterior do Ministério da Indústria, do Comércio e do Turismo, ou para empresas que sejam constituídas nos termos do Decretolei 1.248/1972. PIS BASE DE CÁLCULO – Com a edição da Lei 9.718/1998 a base de cálculo do PIS passou a ser a totalidade das receitas auferidas pela empresa sendo irrelevantes o tipo de atividade por ela exercida e a classificação contábil adotada para as receitas. Lançamento Procedente”. Especificamente em relação à exclusão da base de cálculo do PIS, efetuada pela empresa no mês de janeiro de 2002, do valor referente a uma venda realizada para comercial exportadora no mês de outubro de 2001, a turma julgadora achou por bem manter a tributação, asseverando que o procedimento adotado não encontra amparo legal. Segundo o relator da DRJ, a empresa deveria ter corrigido a base de cálculo do PIS no mês de outubro/2001, compensando o recolhimento a maior nos pagamentos futuros. Rechaça os argumentos da empresa, também porque o valor da nota fiscal apresentada (R$107.787,00 – fl. 66) não coincide com a diferença encontrada pela fiscalização no referido mês, no valor de R$108.394,24 (fl. 05). Em seu recurso, a empresa reprisa os argumentos trazidos na impugnação, pugnando pelo seu provimento integral. Julgando o feito, a câmara recorrida deu provimento ao recurso voluntário apresentado pelo sujeito passivo, em acórdão assim ementado. NORMAS PROCESSUAIS. INCONSTITUCIONALIDADE. É vedado à autoridade administrativa manifestarse sobre a constitucionalidade de dispositivos da legislação tributária, cabendolhe apenas dar fiel cumprimento à legislação vigente. PIS. BASE DE CÁLCULO. RECEITA DE EXPORTAÇÃO. A exclusão da base de cálculo do PIS do valor das vendas realizadas para comercial exportadora deve ser feita no mês correspondente à realização da operação, podendo o contribuinte pleitear a restituição/compensação de importância porventura recolhida a maior. BASE DE CÁLCULO. CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI. Apropriando do conceito de receita estabelecido na legislação do Imposto de Renda, como determina o parágrafo único do art. Fl. 140DF CARF MF Emitido em 01/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 20/07/2011 por HENRIQUE PINHEIRO TORRES, Assinado digitalmente em 20/07/ 2011 por HENRIQUE PINHEIRO TORRES 4 3º da Lei nº 9.363/96, descabe considerar como receita parcela relativa a indenização, uma vez que a referida legislação não considera como receita valores que tenham a natureza jurídica indenizatória. JUROS DE MORA. TAXA SELIC. É cabível a exigência, no lançamento de ofício, de juros de mora calculados com base na variação acumulada da Selic. Recurso provido em parte. Irresignada, a Fazenda Nacional apresentou recurso especial no qual se insurge contra a exclusão da base de cálculo do PIS dos valores relativos ao crédito presumido de IPI. O presidente da Câmara recorrida, por meio do despacho de fls. 112 a113, admitiu o especial admitiu o apelo fazendário. Regularmente intimada, a contribuinte não apresentou contrarrazões. É o relatório. Voto Conselheiro Henrique Pinheiro Torres O recurso é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade. Dele conheço. A questão posta em debate cingese a decidir se os valores recebidos pelo sujeito passivo a título de crédito presumido de IPI integrava, até a entrada em vigor da Lei 10.637/2002, a base de cálculo da PIS/Pasep. Primeiramente, fazse necessário definir a natureza desses ingressos. Se configuram ou não receita. Receita, do latim "recepta", é o vocábulo que designa recebimento, valores recebidos. Assim, em sentido amplo, é o vocábulo que designa o conjunto ou a soma de valores que ingressam no patrimônio de determinada pessoa. O mestre Geraldo Ataliba1, em trabalho publicado sobre o ISS, conceituou receita, e a diferenciou de meros ingressos, nos termos seguintes “O conceito de receita referese a uma espécie de entrada. Entrada é todo dinheiro que ingressa nos cofres de determinada entidade. Nem toda entrada é receita. Receita é entrada que passa a pertencer à entidade.Assim, só se considera receita o ingresso de dinheiro que venha integrar o patrimônio da 1 ATALIBA, Geraldo. ISS – Base Imponível. Estudos e pareceres de Direito Tributário, v. 1. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1978, p. 88. Fl. 141DF CARF MF Emitido em 01/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 20/07/2011 por HENRIQUE PINHEIRO TORRES, Assinado digitalmente em 20/07/ 2011 por HENRIQUE PINHEIRO TORRES Processo nº 11040.001116/200286 Acórdão n.º 930301.360 CSRFT3 Fl. 133 5 entidade que a recebe. As receitas devem ser escrituradas separadamente das meras entradas. É que estas não pertencem à entidade que as recebe. Têm caráter eminentemente transitório.Ingressam a título provisório, para saírem, com destinação certa, em breve lapso de tempo.” Das palavras do mestre, podemos concluir que todos os ingressos que sejam incorporados ao patrimônio de determinada pessoa, jurídica ou física, são considerados como receita, já os valores que são recebidos, a título transitório, que não pertencem ao recebedor, e, em breve lapso tempo, devem sair, com destinação certa, não são receitas, mas meros ingressos. ALIOMAR BALEEIRO, ao analisar o que se deve entender por receitas, assim concluiu: Receita pública é a entrada que, integrandose no patrimônio público sem quaisquer reservas, condições ou correspondência no passivo,vem acrescer o seu vulto, como elemento novo e positivo. Adaptando o conceito dado pelo mestre baiano, ao Direito Tributário, temse que receita não é, a priori, todo e qualquer ingresso, mas tãosomente aquele que, efetivamente, se incorpora ao patrimônio do sujeito passivo, sem contrapartida, reserva, condições ou correspondência no passivo da pessoa. Nessa linha de raciocínio, vêse que o crédito presumido de IPI representa um ingresso que se incorpora ao patrimônio do exportador, sem implicar em contrapartida, reserva, ou condições ou correspondência em seu passivo. Assim, podese afirmar que, os valores recebidos a título de crédito presumido constituem receita da pessoa jurídica, mais precisamente, receita não operacional, posto não ser fruto direto da alienação de um bem ou serviço relacionado à atividade fim da sociedade empresária, mas de um incentivo fiscal, vinculado à exportação. Vejase que créditos dessa natureza são, legalmente, considerados receita, a teor do exposto no inciso VII2 do § 3º do art. 1º da Lei 10.637/2002, com a redação dada pelo art. 16 da Lei 11.945, de 4 de junho de 2009, que determinou a exclusão da base de cálculo do PIS/Pasep das receitas decorrentes de transferência onerosa a outros contribuintes do Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias e sobre Prestações de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação ICMS de créditos de ICMS originados de operações de exportação. No caso das receitas de créditos de ICMS a lei mandou excluir da base de cálculo a partir de 2009, o que significa dizer, que, anteriormente, era tributado. No caso do crédito presumido de IPI, não houve autorização legal para se proceder à exclusão, portanto, devese tributar normalmente. De qualquer sorte, o que se torna relevante ao caso em discussão é que o legislador tratou expressamente créditos de ICMS que tem a mesma natureza dos presumidos de IPI como receita, o que, de per si, para efeitos de incidência dessa contribuição, afasta entendimento contrário de que tais ingressos não seriam considerados como receita da pessoa jurídica. 2 VII. decorrentes de transferência onerosa a outros contribuintes do Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias e sobre Prestações de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação ICMS de créditos de ICMS originados de operações de exportação, conforme o disposto no inciso II do § 1o do art. 25 da Lei Complementar no 87, de 13 de setembro de 1996.” (NR) Fl. 142DF CARF MF Emitido em 01/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 20/07/2011 por HENRIQUE PINHEIRO TORRES, Assinado digitalmente em 20/07/ 2011 por HENRIQUE PINHEIRO TORRES 6 Resta então determinar se tal receita pode ser alcançada pela incidência do PIS/Pasep. Vejamos: Até o advento da Lei 9.718/1998, a base de cálculo dessa contribuição era a receita bruta decorrente da venda de bens, de serviços ou de bens e serviços (conceito de faturamento). Todavia, o §3 1º do art. 3º dessa Lei alterou o campo de incidência do PIS/Pasep e da Cofins, alargandoo, de modo a alcançar toda e qualquer receita auferida pela pessoa jurídica, independentemente do tipo de atividade por ela exercida e da classificação contábil das receitas. Desta forma, sob a égide desse dispositivo legal, dúvida não havia de que as receitas oriundas do ressarcimento de crédito presumido de IPI, comporiam a base de cálculo dessa contribuição. Correto, portanto, o lançamento fiscal. Acontece porém, que o STF, em controle difuso, julgou inconstitucional esse dispositivo legal. Cabe então verificar os efeitos dessa decisão pretoriana sobre a tributação ora em exame. Entendese que o controle concreto de constitucionalidade tem efeito interpartes, não beneficiando nem prejudicando terceiros alheios à lide. Para que produza efeitos erga ominis, é preciso que o Senado Federal edite resolução suspendendo a execução do dispositivo de lei declarado inconstitucional pelo STF. Não desconheço que o Ministro Gilmar Mendes, há muito vem defendendo a desnecessidade do ato senatorial para dar efeitos gerais às decisões da Corte Maior, mas essa posição ainda não foi positivada no ordenamento jurídico brasileiro, muito embora alguns passos importantes já foram dados, como é o caso da súmula vinculante. De qualquer sorte, a resolução senatorial ainda se faz necessária, para estender o alcance de decisões interpartes a terceiros alheios à demanda. De outro lado, o regimento interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais trouxe a possibilidade de se estender as decisões do STF, em controle difuso, aos julgados administrativos, conforme preceitua a Portaria nº 256/2009, Anexo II, art. 69. Este dispositivo reproduz a mesma redação prevista no regimento anterior (art. 49, na redação dada pela Portaria nº 147/2007): É vedado afastar a aplicação de lei, exceto ... “I que já tenha sido declarado inconstitucional por decisão plenária definitiva do Supremo Tribunal Federal. Notese que tal dispositivo cria uma exceção à regra que veda este Colegiado afastar a aplicação de dispositivo legal, mas exige que a inconstitucionalidade desse dispositivo já tenha sido declarada por decisão definitiva do plenário do STF. Não basta qualquer decisão da Corte Maior, tem de ser de seu plenário, e, devese entender como definitiva a decisão que passa a nortear a jurisprudência desse tribunal nessa matéria. Em outras palavras, decisão definitiva, na acepção do art. 69 do RICARF é aquela reiterada, assentada na Corte. O caso dos autos, a meu sentir, amoldase, perfeitamente, à norma inserta no artigo 69 suso transcrito, posto que a questão da inconstitucionalidade do § 1º do art. 3º da Lei 9.718/1998 encontrase apascentada no Supremo Tribunal Federal, inclusive, fez parte de minuta de súmula vinculante, que não foi adiante por causa de outra decisão desse Tribunal, referindose à base de cálculo das contribuições devidas pelas seguradoras. Neste caso, houve certa confusão sobre o conceito de faturamento e de receita, o que levou o STF a não sumular a matéria sobre o alargamento da base de cálculo das contribuições, mas, de qualquer sorte, continua valendo a decisão no tocante à base de cálculo das contribuições incidentes sobre sociedades não financeiras ou seguradoras. Em outro giro, temse notícia de que a própria PGFN já emitiu parecer no sentido de autorizar seus procuradores a não mais recorrerem das decisões judiciais que 3 Art. 3º O faturamento a que se refere o artigo anterior corresponde à receita bruta da pessoa jurídica. § 1º Entendese por receita bruta a totalidade das receitas auferidas pela pessoa jurídica, sendo irrelevantes o tipo de atividade por ela exercida e a classificação contábil adotada para as receitas. Fl. 143DF CARF MF Emitido em 01/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 20/07/2011 por HENRIQUE PINHEIRO TORRES, Assinado digitalmente em 20/07/ 2011 por HENRIQUE PINHEIRO TORRES Processo nº 11040.001116/200286 Acórdão n.º 930301.360 CSRFT3 Fl. 134 7 reconheçam a inconstitucionalidade do denominado alargamento da base de cálculo das contribuições sociais, fato esse que corrobora o entendimento de se aplicar ao caso em exame a decisão plenária do SRF sobre o indigitado alargamento da base de cálculo do PIS/Pasep. A jurisprudência do CARF caminha no sentido de estender a decisão do STF sobre o alargamento da base de cálculo das contribuições aos julgamentos administrativos. Aplicandose, pois ao caso ora em exame, a decisão do STF que julgou inconstitucional o alargamento da base de cálculo das contribuições sociais, até a vigência da Lei 10.637/2002, a base de cálculo do PIS/Pasep voltou a ser a receita bruta correspondente a faturamento, assim entendido como o produto da venda de bens, serviços ou de bens e de serviços relacionados à atividade operacional da pessoa jurídica. Todavia, a partir de 1º de dezembro de 2002, por força do disposto no inciso II, do art. 68 da Lei 10.637/2002, passou a viger os artigos 1º a 6º e 8º a 11 dessa lei, sendo que, justamente, o artigo primeiro desse diploma legal restabelece a base alargada do PIS/Pasep, nos termos seguintes: Art. 1o A contribuição para o PIS/Pasep tem como fato gerador o faturamento mensal, assim entendido o total das receitas auferidas pela pessoa jurídica, independentemente de sua denominação ou classificação contábil. § 1o Para efeito do disposto neste artigo, o total das receitas compreende a receita bruta da venda de bens e serviços nas operações em conta própria ou alheia e todas as demais receitas auferidas pela pessoa jurídica. § 2o A base de cálculo da contribuição para o PIS/Pasep é o valor do faturamento, conforme definido no caput. De todo o exposto, podese concluir que, anteriormente a 1º de dezembro de 2002, data de vigência dos arts. 1º a 6 e 8º a 11 da Lei nº 10.637/2002, a base de cálculo do PIS/Pasep era o faturamento, assim entendido a receita bruta correspondente ao produto da venda de bens, serviços ou de bens e de serviços relacionados à atividade operacional da pessoa jurídica. Neste período as receitas oriundas de crédito presumido de IPI não eram alcançadas pela incidência dessa contribuição. A partir dessa data, por força do art. 1º desse diploma legal, as sociedades empresárias sujeitas à incidência nãocumulativa do PIS/Pasep estavam sujeitas ao pagamento da contribuição em comento sobre o total das receitas auferidas (receita bruta da venda de bens e serviços nas operações em conta própria ou alheia e todas as demais receitas auferidas pela pessoa jurídica), independentemente de sua denominação ou classificação contábil. Aí incluídas as oriundas do crédito presumido de IPI. Todavia, como caso dos autos os valores correspondentes ao crédito presumido referemse aos períodos de apuração compreendidos entre junho de 2001 e junho de 2002, é lícita a exclusão de tais valores da base de cálculo da PIS/Pasep. Com essas considerações, voto no sentido de negar provimento ao recurso apresentado pela Fazenda Nacional. Henrique Pinheiro Torres Relator Fl. 144DF CARF MF Emitido em 01/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 20/07/2011 por HENRIQUE PINHEIRO TORRES, Assinado digitalmente em 20/07/ 2011 por HENRIQUE PINHEIRO TORRES 8 Fl. 145DF CARF MF Emitido em 01/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 20/07/2011 por HENRIQUE PINHEIRO TORRES, Assinado digitalmente em 20/07/ 2011 por HENRIQUE PINHEIRO TORRES
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Numero do processo: 14041.000368/2007-81
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Sep 29 00:00:00 UTC 2011
Data da publicação: Thu Sep 29 00:00:00 UTC 2011
Ementa: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS
Período de apuração: 01/10/2004 a 28/02/2005
NULIDADE DA DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. INOCORRÊNCIA QUANDO TODOS OS ARGUMENTOS RELEVANTES SÃO APRECIADOS.
A nulidade da decisão de primeira instância é declarada naqueles casos nos quais o decisório a quo deixa de apreciar argumento relevante da recorrente, em obediência ao disposto nos arts. 31 e 59, inciso II do Decreto 70.235/72.
PREMIAÇÃO DE INCENTIVO. NATUREZA REMUNERATÓRIA. INCIDÊNCIA DA CONTRIBUIÇÃO.
As premiações de produtividade devem ser compreendidas no conceito de remuneração de empregados e contribuintes individuais, integrando, fazendo parte do campo de incidência da contribuição previdenciária.
MULTA POR DEIXAR DE DESCONTAR AS CONTRIBUIÇÕES DOS EMPREGADOS.
Tendo sido apuradas divergências na base de cálculo do tributo, correta a aplicação da multa por descumprimento da obrigação acessória de descontar dos empregados a contribuição em seu valor legalmente correto.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 2301-002.370
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos: a) em negar provimento ao Recurso, nos termos do voto do Relator.
Matéria: Outros imposto e contrib federais adm p/ SRF - ação fiscal
Nome do relator: Mauro Jose Silva
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INOCORRÊNCIA QUANDO TODOS OS ARGUMENTOS RELEVANTES SÃO APRECIADOS. A nulidade da decisão de primeira instância é declarada naqueles casos nos quais o decisório a quo deixa de apreciar argumento relevante da recorrente, em obediência ao disposto nos arts. 31 e 59, inciso II do Decreto 70.235/72. PREMIAÇÃO DE INCENTIVO. NATUREZA REMUNERATÓRIA. INCIDÊNCIA DA CONTRIBUIÇÃO. As premiações de produtividade devem ser compreendidas no conceito de remuneração de empregados e contribuintes individuais, integrando, fazendo parte do campo de incidência da contribuição previdenciária. MULTA POR DEIXAR DE DESCONTAR AS CONTRIBUIÇÕES DOS EMPREGADOS. Tendo sido apuradas divergências na base de cálculo do tributo, correta a aplicação da multa por descumprimento da obrigação acessória de descontar dos empregados a contribuição em seu valor legalmente correto. Recurso Voluntário Negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos: a) em negar provimento ao Recurso, nos termos do voto do Relator. Fl. 64DF CARF MF Impresso em 28/02/2012 por APARECIDA DA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 04/11/2011 por MAURO JOSE SILVA, Assinado digitalmente em 14/01/2012 por MARCELO OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 04/11/2011 por MAURO JOSE SILVA 2 (assinado digitalmente) Marcelo Oliveira Presidente. (assinado digitalmente) Mauro José Silva Relator. Participaram do presente julgamento a Conselheira Bernadete de Oliveira Barros, bem como os Conselheiros Leonardo Henrique Pires Lopes, Damião Cordeiro de Moraes, Adriano González Silvério, Mauro José Silva e Marcelo Oliveira. Fl. 65DF CARF MF Impresso em 28/02/2012 por APARECIDA DA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 04/11/2011 por MAURO JOSE SILVA, Assinado digitalmente em 14/01/2012 por MARCELO OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 04/11/2011 por MAURO JOSE SILVA Processo nº 14041.000368/200781 Acórdão n.º 230102.370 S2C3T1 Fl. 63 3 Relatório Tratase de Auto Infração, lavrado em 27/06/2007, que constituiu crédito tributário relativo a multa por descumprimento da obrigação acessória de descontar as contribuições dos empregados incidentes sobre a remuneração sob a denominação prêmios pagos pela empresa Incentive House, no período de 10/2004 a 02/2005, tendo resultado na constituição do crédito tributário de R$ 1.195,13, fls. 01. Após tomar ciência pessoal da autuação em 27/06/2007, fls. 01, a recorrente apresentou impugnação, fls. 24/32, na qual apresentou argumentos similares aos constantes do recurso voluntário. A 6ª Turma da DRJ/Brasília, no Acórdão de fls. 42/46, julgou o lançamento procedente, tendo a recorrente sido cientificada do decisório em 25/06/2008, fls. 49. O recurso voluntário, apresentado em 24/07/2008, fls. 50/60, apresentou argumentos conforme a seguir resumimos. De início, argumenta alguns de seus argumentos não foram enfrentados pela autoridade julgadora a quo, bem como estariam ausentes os pressupostos de fato e de direito que determinaram a decisão. Não reconhece os pagamentos de prêmios como remuneratórios, posto que todos os empregados recebem valores de mercado. Não existiria nos autos base material fática para dar amparo ao lançamento. É o relatório. Fl. 66DF CARF MF Impresso em 28/02/2012 por APARECIDA DA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 04/11/2011 por MAURO JOSE SILVA, Assinado digitalmente em 14/01/2012 por MARCELO OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 04/11/2011 por MAURO JOSE SILVA 4 Voto Conselheiro Mauro José Silva, Relator Reconhecemos a tempestividade do recurso apresentado e dele tomamos conhecimento. Nulidade da decisão de primeira instância. Inocorrência. A nulidade da decisão de primeira instância é declarada naqueles casos nos quais o decisório a quo deixa de apreciar argumento relevante da recorrente, em obediência ao disposto nos arts. 31 e 59, inciso II do Decreto 70.235/72. Destacamos que se faz necessário que a omissão esteja relacionada com questão que tenha relevância, ou seja, tenha o poder de modificar algum item do decisório. O não enfrentamento de alegação sem nenhuma importância para lide ou o acréscimo de algum esclarecimento que não altera o deslinde desta, não torna, necessariamente, nula a decisão recorrida. Na peça recursal, a recorrente pretende a nulidade da decisão a quo por entender ter faltado motivação. No entanto, não vislumbramos ter ocorrido qualquer omissão no decisório que enseje a nulidade, tendo este analisado e fundamentado todos os aspectos jurídicos relevantes da defesa apresentada. Afastamos, portanto, a nulidade suscitada. Prêmios. Incentive House. Com relação às premiações pagas pela empresa Incentive House, adotamos a argumentação do Conselheiro Leonardo Henrique Pires Lopes que extraímos do voto no Recurso 253.133: “quando a Recorrente realizava um pagamento a empresa Incentive House, e esta repassava tais valores aos segurados daquela, mostrado está que a Incentive House atuou como mera intermediária entre a Recorrente e seus segurados. Assim, tal procedimento possuía o único fim de burlar o Fisco, com intuito descaracterizar a ocorrência de fato gerador de contribuição social, ou seja, retirar o caráter remuneratório das verbas pagas pela Incentive House aos segurados da Recorrente. Objetivando a desconstituição do crédito previdenciário, a Recorrente alega que os valores pagos através da empresa Fl. 67DF CARF MF Impresso em 28/02/2012 por APARECIDA DA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 04/11/2011 por MAURO JOSE SILVA, Assinado digitalmente em 14/01/2012 por MARCELO OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 04/11/2011 por MAURO JOSE SILVA Processo nº 14041.000368/200781 Acórdão n.º 230102.370 S2C3T1 Fl. 64 5 Incentive House S/A não dizem respeito a salários, mas sim a “premiação de incentivo”, razão pela qual não poderia incluí los em folha de pagamento, tampouco recolher o valor destinado à Seguridade Social. (...) Desta feita, caso houvesse a adequada utilização do suposto benefício “Flexcard”, corretamente regularizado e atendendo aos requisitos de público alvo, condição, termo e premiação, bastaria a empresa comprovar tais premissas, em atendimento a intimação, que tal NFLD não seria sequer emitida. Ademais, o pagamento de recompensa não pode ser estendido indiscriminadamente a todos os funcionários e colaboradores da empresa promovedora da campanha de marketing, devendo ser reservado somente àqueles participantes que obtiverem os desempenhos mais destacados. Em sendo assim, as premiações de incentivo somente se afastam da fisionomia salarial quando administradas de acordo com um regulamento detalhado, de publicação obrigatória, segundo o qual apenas um seleto grupo de funcionários ou colaboradores fará jus a uma bonificação excepcional após o alcance de uma determinada meta de produtividade. (...) Resta indubitável, portanto, que as verbas pagas aos segurados empregados e empresários, a título de “premiação”, possuem natureza salarial, e, conseqüentemente, integram o salário de contribuição, base de incidência das contribuições previdenciárias.” Assim, concluímos que tais pagamentos de prêmios por meio da empresa Incentive House tem natureza remuneratória e devem compor a base de cálculo da contribuição previdenciária. Tendo sido apuradas divergências na base de cálculo do tributo, correta a aplicação da multa por descumprimento da obrigação acessória de descontar dos empregados a contribuição em seu valor legalmente correto. Por todo o exposto, voto no sentido de CONHECER e NEGAR PROVIMENTO ao RECURSO VOLUNTÁRIO. (assinado digitalmente) Mauro José Silva Relator Fl. 68DF CARF MF Impresso em 28/02/2012 por APARECIDA DA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 04/11/2011 por MAURO JOSE SILVA, Assinado digitalmente em 14/01/2012 por MARCELO OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 04/11/2011 por MAURO JOSE SILVA 6 Fl. 69DF CARF MF Impresso em 28/02/2012 por APARECIDA DA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 04/11/2011 por MAURO JOSE SILVA, Assinado digitalmente em 14/01/2012 por MARCELO OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 04/11/2011 por MAURO JOSE SILVA
score : 1.0
Numero do processo: 17546.000724/2007-73
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Sep 29 00:00:00 UTC 2011
Data da publicação: Thu Sep 29 00:00:00 UTC 2011
Ementa: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS
Período de apuração: 01/01/1996 a 31/08/2006
GRUPO ECONÔMICO. CARACTERIZAÇÃO.
Na presença de conjunto indiciário que aponta para a existência de direção, controle ou administração de uma empresa sobre outra ou outras, conforme exigido pela legislação, resta configurado a existência de grupo econômico, o que enseja a responsabilização solidária.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 2301-002.336
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos: a) em negar provimento ao Recurso, nos termos do voto do Relator.
Matéria: Outras penalidades (ex.MULTAS DOI, etc)
Nome do relator: Mauro Jose Silva
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ementa_s : CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/1996 a 31/08/2006 GRUPO ECONÔMICO. CARACTERIZAÇÃO. Na presença de conjunto indiciário que aponta para a existência de direção, controle ou administração de uma empresa sobre outra ou outras, conforme exigido pela legislação, resta configurado a existência de grupo econômico, o que enseja a responsabilização solidária. Recurso Voluntário Negado.
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OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS GRUPO ECONÔMICO Recorrente MONALISA PEREIRA LOPES NOGUEIRA ME Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/1996 a 31/08/2006 GRUPO ECONÔMICO. CARACTERIZAÇÃO. Na presença de conjunto indiciário que aponta para a existência de direção, controle ou administração de uma empresa sobre outra ou outras, conforme exigido pela legislação, resta configurado a existência de grupo econômico , o que enseja a responsabilização solidária. Recurso Voluntário Negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos: a) em negar provimento ao Recurso, nos termos do voto do Relator. (assinado digitalmente) Marcelo Oliveira Presidente. (assinado digitalmente) Mauro José Silva Relator. Participaram do presente julgamento a Conselheira Bernadete de Oliveira Barros, bem como os Conselheiros Leonardo Henrique Pires Lopes, Damião Cordeiro de Moraes, Adriano González Silvério, Mauro José Silva e Marcelo Oliveira. Fl. 281DF CARF MF Impresso em 15/03/2012 por APARECIDA DA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 02/11/2011 por MAURO JOSE SILVA, Assinado digitalmente em 14/01/2012 por MARCELO OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 02/11/2011 por MAURO JOSE SILVA 2 Relatório Tratase de Auto de Infração, lavrado em 10/10/2006, por ter a empresa acima identificada, segundo Relatório Fiscal da Infração, fls. 06/14, relativamente às competências 01/1996 a 08/2006, deixado de prestar informações cadastrais, financeiras e contábeis de interesse da fiscalização, tendo resultado na aplicação de multa de R$ 11.569,42. A autoridade fiscal constatou a existência de grupo econômico de fato entre as empresas: Frigovalpa Com. e Ind. de Carnes Ltda (Frigovalpa), Frigosef Frigorífico SEF de São José dos Campos Ltda (Frigosef), Frigorífico Mantiqueira, Frigorífico Campos de São José Ltda sucessor de Frigorífico Mantiqueira Ltda (Frigorífico Campos), André Luiz Nogueira Junior – ME (André ME), Tânia Pereira Lopes – ME (Tânia ME), Monalisa Pereira Lopes Nogueira – ME(Monalisa ME), fls. 09/13. Diante disso, foi atribuído responsabilidade solidária para tais empresas, tendo todas sido cientificadas do lançamento e apresentado impugnação tempestiva. A 4ª Turma da DRJ/Campinas, no Acórdão de fls. 141/162, julgou o lançamento procedente, tendo as recorrentes sido cientificadas do decisório conforme fls. 170/181. Na mesma decisão foi excluída a responsabilidade solidária da Frigovalpa. Recorreram da decisão de primeira instância as empresas Monalisa ME, fls. 225/233; André ME, fls. 235/238; Frigorífico Campos , fls. 240/243; Frigosef, fls. 245/248, com argumentos que resumimos a seguir. A recorrente Monalisa ME apresenta argumentos para afastar a existência de grupo econômico. Não vê relevância no fato do pai da sócia ter feito o contrato de locação, pois era a Monalisa que pagava o aluguel. Entende ter ocorrido cerceamento de defesa na medida em que alguns de seus argumentos não foram apreciados. Não foi apreciado seu argumento de que a entrega dos produtos adquiridos era de responsabilidade do fornecedor, de que o Sr. André Luiz Nogueira não efetivava verificações em seu estabelecimento, de que era irrelevante que o mesmo escritório contábil prestasse serviços para as várias recorrentes. A inexistência de contrato para uso do nome fantasia é uma alternativa permitida pela lei e nada indica em relação è existência ou não de grupo econômico. A utilização de um único fornecedor não pode ensejar a conclusão de que havia grupo econômico. Protesta pela aplicação da Lei das S/A ao caso. Argumenta que o empresário individual jamais poderia integrar grupo econômico. Para existir grupo econômico deveriam a s envolvidas serem sociedade anônimas. As empresas envolvidas não exerceram atividades em período concomitante, o que torna impossível pertencerem a mesmo grupo econômico. Fl. 282DF CARF MF Impresso em 15/03/2012 por APARECIDA DA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 02/11/2011 por MAURO JOSE SILVA, Assinado digitalmente em 14/01/2012 por MARCELO OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 02/11/2011 por MAURO JOSE SILVA Processo nº 17546.000724/200773 Acórdão n.º 230102.336 S2C3T1 Fl. 255 3 Em suma, as empresas não possuem dependência econômica entre si e não formam grupo econômico. Quanto à sucessão por incorporação, argumenta que Rosa Maria Maciel – ME continuou suas atividades em no ano em que ocorreu a venda dos equipamentos(2004). Somente em 2005 e 2006 declarouse inativa A Monalisa adquiriu apenas os equipamentos daquela empresa em 2004, não tendo aquisição de estabelecimento comercial. A suposta sucedida não está inadimplente e possui bens para quitar seus débitos. No tocante aos documentos não apresentados, após a decisão de primeira instância, apenas o Livro de inspeção do Trabalho e o Contrato de Aluguel do Estabelecimento foram mantidos como não apresentados. Este último a recorrente insiste ter apresentado. A recorrente André ME alega que a decisão a quo não justificou sua permanência no pólo passivo. Não há nos fundamentos do julgador um item específico para a André ME como ocorre com as outras recorrentes. Salienta que o único administrador da empresa era o Sr. André Nogueira. Entende que não foram apresentados elementos probatórios da existência de grupo econômico. Protesta pela aplicação da Lei das S/A ao caso. Argumenta que o empresário individual jamais poderia integrar grupo econômico. Para existir grupo econômico deveriam a s envolvidas serem sociedade anônimas. Alega não ter qualquer interesse comum com as empresas relacionadas, o que impediria sua responsabilização segundo ao art. 124 do CTN. Conclui que possui negócio jurídico válido que cumpre todas a s determinações legais. A recorrente Frigorífico Campos insiste que não ocorreu qualquer atuação concomitante entre as empresas. Se houve sucessão, como alegado na decisão de primeira instância, então não pode existir atuação concomitante. O uso do nome fantasia “Mantiqueira” foi feito sem instrumento de contrato pois existe tal possibilidade. Se houve sucessão, como alegado na decisão de primeira instância, então não pode existir atuação concomitante. Sustenta que o fato de um empregado (o filhos do representante da recorrente) laborar em uma empresa e ser proprietário de outra no mesmo ramo não pode ensejar a conclusão de que existe grupo econômico. Alega não ter qualquer interesse comum com as empresas relacionadas, o que impediria sua responsabilização segundo ao art. 124 do CTN. Não houve a designação de responsáveis pela lei, posto que a fiscalização baseouse em instrução normativa. Fl. 283DF CARF MF Impresso em 15/03/2012 por APARECIDA DA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 02/11/2011 por MAURO JOSE SILVA, Assinado digitalmente em 14/01/2012 por MARCELO OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 02/11/2011 por MAURO JOSE SILVA 4 O art. 30, inciso IX trataria de arrecadação e recolhimento penas e não de solidariedade. Pretende o afastamento da aplicação da IN 03/2005 com alterações feitas em 2007, uma vez que os fatos geradores são anteriores à edição de tal norma infralegal. Entende que a deve ser acatada a lei que trata de grupo econômico e não uma instrução normativa. Não aceita a aplicação da CLT ao caso, pois esta só é aplicável às relações de emprego. A recorrente Frigosef pretende o afastamento da aplicação da IN 03/2005 com alterações feitas em 2007, uma vez que os fatos geradores são anteriores à edição de tal norma infralegal. Aponta que o art. 124 do CTN trata de solidariedade e não de formação de grupo econômico. Deveriam ser aplicadas ao caso as determinações da Lei 6.404/76. Insiste que estava inativa em 2003 e 2004 e que jamais teve relação comercial com as demais recorrentes. Não teria ocorrido funcionamento concomitante, o que impede a caracterização de grupo econômico. É o relatório. Fl. 284DF CARF MF Impresso em 15/03/2012 por APARECIDA DA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 02/11/2011 por MAURO JOSE SILVA, Assinado digitalmente em 14/01/2012 por MARCELO OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 02/11/2011 por MAURO JOSE SILVA Processo nº 17546.000724/200773 Acórdão n.º 230102.336 S2C3T1 Fl. 256 5 Voto Conselheiro Mauro José Silva, Relator Reconhecemos a tempestividade dos recursos apresentados e deles tomamos conhecimento. Quanto às alegações de que a decisão a quo foi omissa ao analisar os argumentos das recorrentes, deve ser esclarecido que de acordo com o entendimento pacificado nos tribunais superiores, STF e STJ, o julgador não é obrigado a se manifestar expressamente sobre todos os pontos levantados pelas partes. Nesse sentido segue acórdão proferido pela 1ª Turma do STJ no Recurso Especial n ° 667603, publicado no DJ em 01/08/2005, nestas palavras: MANDADO DE SEGURANÇA. AUTO DE INFRAÇÃO. DIREITO DE AMPLA DEFESA. 1. A violação do art. 535 do CPC ocorre quando há omissão, obscuridade ou contrariedade no acórdão recorrido. Inocorre a violação posto não estar o juiz obrigado a tecer comentários exaustivos sobre todos os pontos alegados pela parte, mas antes, a analisar as questões relevantes para o deslinde da controvérsia. 2. São princípios basilares do processo administrativo e judicial a ampla defesa e o contraditório, insculpidos no artigo 5º, LV, do Texto Constitucional, o qual estabelece que: "aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e a ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes". 3. A ampla defesa, constitucionalmente reconhecida, traduz a exigência de que o exercício do poder jurídicopúblico se realize de maneira justa, implicando para o Administrado o direito de conhecer os fatos e fundamentos invocados pela Autoridade, o direito de ser ouvido e de contraporse às alegações do adversário. 4. Deveras, esse postulado da ampla defesa, ou do direito de audiência, configura direito à participação procedimental, assegurando ao administrado, na maior extensão possível, a oportunidade do seu exercício pleno, com produção de provas e apresentação de alegações que lhe favoreçam. 5. Atestando a instância a quo a inexistência da intimação da decisão, a verificação que a Fazenda pretende em seu recurso esbarra em matéria fática, mercê de o cumprimento do due process of law não exonerar o contribuinte do pagamento, apenas diferindoo até o cumprimento da exigência legal. 6. Recurso especial desprovido. Assim, afasto os argumentos de nulidade da decisão de primeira instância por omissão em relação a alguns argumentos das recorrentes. Fl. 285DF CARF MF Impresso em 15/03/2012 por APARECIDA DA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 02/11/2011 por MAURO JOSE SILVA, Assinado digitalmente em 14/01/2012 por MARCELO OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 02/11/2011 por MAURO JOSE SILVA 6 Existência de responsabilidade por sucessão A recorrente Monalisa insurgiuse contra a caracterização de responsabilidade por sucessão. No entanto, os elementos que constam dos autos apontam que o caso se amolda às exigências do art. 133 do CTN. Constam provas dos autos, fls. 128/134, dando conta que o Sr. André Luiz Nogueira locou o imóvel onde funcionava a Rosa Maria ME e viabilizou a instalação da Monalisa ME no endereço, bem como existem provas de que o Sr. André adquiriu os equipamentos que pertenciam à Rosa Maria ME. À toda evidência estamos diante de uma aquisição de estabelecimento comercial, uma vez que o espaço físico de funcionamento do comércio e os maquinários necessários para a atividade foram transmitidos para o Sr. André Nogueira pela titular da Rosa Maria ME, tendo o Sr. André repassado o local e os bens adquiridos para a Monalisa ME. Diferentemente do que alegou a Monalisa ME, a venda ocorreu no início de 2005 e não em 2004. Assim, tendo a Rosa Maria ME declarado estar inativa em 2005 e 2006, temos configurada uma situação que se amolda ao inciso I do art. 133 do CTN. Ou seja, Monalisa ME responde integralmente pelos tributos devidos por Rosa Maria ME. No entanto, tal responsabilização não pode se estender às penalidades pecuniárias. Assim, somente podemos considerar no presente caso as infrações que ocorrem após a existência jurídica de Monalisa ME e o evento sucessório: 17/01/2005. As intimações feitas à Monalisa ME para apresentar documentos referentes a período anterior à sua existência revelam impossibilidade material de cumprimento do solicitado, uma vez que a Monalisa ME é sucessora de Rosa Maria ME não por evento formal, mas por um conjunto de elementos fáticos. Como não houve sucessão formal, a Monalisa não poderia ser obrigada a deter documentos e informações que cabiam à Rosa Maria ME. Portanto, os documentos solicitados pela fiscalização só podiam abranger o período posterior a 17/01/2005. Como a própria Monalisa ME admite que deixou de apresentar, pelo menos, o Livro de inspeção do Trabalho referente ao período fiscalizado, temos justificada, de per si, a aplicação da penalidade conforme lançado pela autoridade fiscal. Da prova indiciária no direito tributário No caso foram utilizadas provas indiciárias, o que nos induz a alguns considerações sobre tal tipo de elemento probatório. Fabiana Del Padre Tomé, autora com obra relativamente recente e que é freqüentemente citada no estudo das provas, é enfática ao afirmar que “toda prova é indireta, pois nunca se tem acesso aos fatos, que são sempre passados. Daí por que toda prova é uma conjectura, levando à presunção acerca da ocorrência ou não de certo fato”(A prova no direito tributário. São Paulo: Noeses, 2005, p. 94) e acrescente aque “ toda prova é indiciária, visto que jamais toca o objeto a que se refere”(op.cit., p. 94). Em outro trecho de sua obra, a autora destaca que “o indício em nada difere da prova”(op. cit., p. 138). Fl. 286DF CARF MF Impresso em 15/03/2012 por APARECIDA DA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 02/11/2011 por MAURO JOSE SILVA, Assinado digitalmente em 14/01/2012 por MARCELO OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 02/11/2011 por MAURO JOSE SILVA Processo nº 17546.000724/200773 Acórdão n.º 230102.336 S2C3T1 Fl. 257 7 A respeitável autora reconhece a existência de uma distinção tradicional entre indício e prova em função do grau de convicção que o fato provado acarrete no julgador, de modo que seria prova quando levar à certeza, e indício se dele decorrer mera possibilidade. Porém, sua lição é de que a verdade jurídica decorre da decisão do julgador após a análise do conjunto probatório. Este, o conjunto probatório, pode ser composto por indícios que podem ser de duas espécies: indícios necessários e indícios contingentes. Os indícios necessários revelam, com alto grau de probabilidade, determinada situação. Os indícios contingentes indicam de forma mais ou menos provável a ocorrência de certo acontecimento. Além de necessários ou contingentes. Os indícios podem ser homogêneos ou heterogêneos. São homogêneos os indícios que tem conteúdo convergente, todos conduzindo ao mesmo resultado, ao passo que são heterogêneos os indícios que indicam fatos diversos. A autora conclui que “a força probatória de qualquer indício(...) deve ser avaliada no caso concreto, de modo que, havendo um único indício necessário(prova no sentido comumente empregado) ou vários indícios contingentes e convergentes, terseá por provado o fato”. (op. cit., p. 1389). É de ser observado que as lições de Fabiana Del Padre Tomé que adotamos divergem da doutrina de Marcus Vinicius Neder e Maria Teresa Martinez López(Processo administrativo fiscal federal comentado. 2. ed. São Paulo, Dialética, 2004, p. 173). O autor, em certo trecho de sua doutrina, exige que os indícios no direito tributário sejam graves, ou seja, sejam aceitos somente se tiverem como conseqüência apenas um único fato. Essa exigência, no entanto, é qualidade dos indícios chamados necessários e que se equiparam ao que comumente se denomina de prova. Deixam de ser indícios, portanto. Exigir tal qualidade dos indícios é o mesmo que negar a utilidade deles para o direito tributário, mesmo quando convergentes. Em outro trecho de sua obra, entretanto, Marcus Vinicius admite a prova indiciária. Vejamos: “O trabalho investigatório realizado pelo agente fiscal é muito parecido com o desenvolvido pelo paleontólogo que aproveita diversas peças análogas de um animal. Completandoas uma com outras para formar o esqueleto do animal. Nesse trabalho de reconstrução, Le não precisa obter todos os ossos do esqueleto para ter uma idéia clara e precisa do animal e a a certeza da espécie que foi descoberta. Basta que o conjunto de vestígios lhe dê segurança de suas conclusões. O julgador, de maneira análoga, vai reunindo indícios que permitem inferências sobre determinados fatos. Utilizase da combinação desse indícios que permitem inferências sobre determinados fatos. Utilizase da combinação desses indícios, sua comparação e a exclusão das hipóteses contraditórias, de modo a reconstruir o passado de forma segura.”(p. 173) Fácil notar, portanto, que mesmo Marcus Vinicius e Maria Teresa admitem a prova indiciária no direito tributário. Fl. 287DF CARF MF Impresso em 15/03/2012 por APARECIDA DA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 02/11/2011 por MAURO JOSE SILVA, Assinado digitalmente em 14/01/2012 por MARCELO OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 02/11/2011 por MAURO JOSE SILVA 8 Sobre o assunto, não poderíamos deixar de fazer referência ao mestre Alberto Xavier (Do Lançamento: Teoria Geral do Ato, do Procedimento e do Processo Tributário. Rio de Janeiro: Forense, 1997, p. 133), que assim expressa seu entendimento: “Nos casos em que não existe ou é deficiente a prova direta pré constituída, a Administração fiscal deve também investigar livremente a verdade material. É certo que ela não dispõe agora de uma base probatória fornecida diretamente pelo contribuinte ou por terceiros; e por isso deverá ativamente recorrer a todos os elementos necessários à sua convicção. Tais elementos serão, via de regra, constituídos por provas indiretas, isto é, por fatos indiciantes, dos quais se procura extrair, com o auxílio de regras da experiência comum, da ciência ou da técnica, uma ilação quanto aos fatos indiciados. A conclusão ou prova não se obtém diretamente, mas indiretamente, através de um juízo de relacionação normal entre o indício e o tema da prova. Objeto de prova em qualquer caso são os fatos abrangidos na base de cálculo (principal ou substitutiva) prevista na lei: só que num caso a verdade material se obtém de um modo direto e nos outros de um modo indireto, fazendo intervir ilações, presunções, juízos de probabilidade ou de normalidade. Tais juízos devem ser, contudo, suficientemente sólidos para criar no órgão de aplicação do direito a convicção da verdade.” O que queremos destacar de tais abalizadas lições é que não somente as provas ou indícios necessários é que conduzem à certeza jurídica construída pelo julgador, mas também um conjunto de indícios contingentes e convergentes. Cada um dos indícios contingentes nunca se equipara, isoladamente, a um indício necessário (prova no sentido tradicional) e não pode ser excluído do conjunto probatório por tal razão. A análise de um conjunto de indícios contingentes deve ser feita em duas etapas. Na primeira, analisamos a existência em si de cada indício. Na segunda etapa, analisamos o conjunto de indícios para qualificarmos se tratamos de um conjunto de indícios contingentes e convergentes. Se forem contingentes e convergentes, os indícios que compõem o conjunto terão alto valor probatório, habilitandose a fundamentar o convencimento do julgador que emitirá sua decisão conformadora da verdade jurídica aplicável ao caso. Por óbvio, não podemos olvidar da possibilidade da utilização da análise do conjunto probatório baseado em indícios para o direito tributário. Que qualidade superior ao direito penal teria o direito tributário para negarmos a utilização de conjuntos indiciários, tendo em vista que no direito penal tal metodologia probatória é amplamente aceita? Se aqui lidamos com o patrimônio do contribuinte, no direito penal tratamos da liberdade do cidadão. Teria o patrimônio um valor mais nobre que a liberdade individual em nosso Estado Democrático Direito de tal sorte que na análise das provas no direito que pode afetar o patrimônio devemos ser mais restritivos do que no direito que afeta a liberdade? Teria a legalidade tributária uma força jurídicoaxiológica maior que a legalidade no direito penal? Com todo respeito aos que pensam diferente, nossa resposta é não! Se para o direito penal é assente a utilização da análise do conjunto indiciário, o direito tributário há de admitila. Talvez a busca por uma verdade material como corolário do princípio da legalidade seja o argumento dos que querem afastar do direito tributário a análise do conjunto Fl. 288DF CARF MF Impresso em 15/03/2012 por APARECIDA DA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 02/11/2011 por MAURO JOSE SILVA, Assinado digitalmente em 14/01/2012 por MARCELO OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 02/11/2011 por MAURO JOSE SILVA Processo nº 17546.000724/200773 Acórdão n.º 230102.336 S2C3T1 Fl. 258 9 indiciário. Mas voltandonos para as lições de Fabiana Del padre Tomé, é certo que “a verdade que se busca no curso do processo de positivação do direito, seja ele administrativo ou judicial, é a verdade lógica, quer dizer, a verdade em nome da qual se fala, alcançada mediante a constituição de fatos jurídicos, nos exatos termos prescritos pelo ordenamento: a verdade jurídica”. O que comumente é denominado princípio da verdade material se conforma na possibilidade de a administração pública carrear aos autos outras provas de modo a possibilitar que sua decisão se aproxime da realidade. Não se relaciona, portanto, com a vedação à análise do conjunto indiciário. Registramos que no CARF, inclusive na Câmara Superior de Recursos Fiscais, há várias decisões que acatam a utilização da prova indiciária: Acórdão 10708326 PAF PROVA INDICIÁRIA A prova indiciária é meio idôneo para referendar uma autuação, quando a sua formação está apoiada num encadeamento lógico de fatos e indícios convergentes que levam ao convencimento do julgador. Acórdão 10707083 PAF – PROVA INDICIÁRIA A prova indiciária é aceita em matéria tributária, quando formada a partir de um juízo instrumental que leve em conta a existência de vários indício convergentes. Acórdão CSRF/0105.132 PAF – PROVA INDICIÁRIA A prova indiciária é meio idôneo para referendar uma autuação, desde que ela resulte da soma de indícios convergentes. O que não se aceita no Processo Administrativo Fiscal é a autuação sustentada em indício isolado, o que não é o caso desses autos que está apoiado num encadeamento lógico de fatos e indícios convergentes que levaram ao convencimento do julgador. Tomando tais considerações jurídicas gerais sobre os indícios, passamos a outras questões de relevo para o caso. Grupo econômico O art. 30, inciso IX da Lei8.212/91 prevê a responsabilidade solidária de empresas que componham “grupo econômico de qualquer natureza” com relação a todas as obrigações constantes na referida lei. Assim, havendo a constatação de grupo econômico de qualquer natureza, formal ou de fato, portanto , os componentes do grupo respondem Fl. 289DF CARF MF Impresso em 15/03/2012 por APARECIDA DA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 02/11/2011 por MAURO JOSE SILVA, Assinado digitalmente em 14/01/2012 por MARCELO OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 02/11/2011 por MAURO JOSE SILVA 10 solidariamente tanto pelo crédito tributário advindo das obrigações principais (pagar tributo) quanto advindo do descumprimento das obrigações acessórias. A definição de grupo econômico na legislação tributária adveio com a IN 3/2005, no entanto, o ordenamento jurídico pátrio já havia delineado tal conceito por meio da CLT. O que podemos observar é eu a IN 3/2005 apenas repetiu os termos da definição da CLT. Vejamos o termo da CLT: Art. 2º Considerase empregador a empresa, individual ou coletiva, que, assumindo os riscos da atividade econômica, admite, assalaria e dirige a prestação pessoal de serviço. (...) § 2º Sempre que uma ou mais empresas, tendo, embora, cada uma delas, personalidade jurídica própria, estiverem sob a direção, controle ou administração de outra, constituindo grupo industrial, comercial ou de qualquer outra atividade econômica, serão, para os efeitos da relação de emprego, solidariamente responsáveis a empresa principal e cada uma das subordinadas. A definição de grupo econômico, portanto, exige direção, controle ou administração de uma empresa sobre outra ou outras. Tal influência de uma empresa sobre as demais pode ser baseada em instrumentos formais – contrato ou estatuto social (grupo econômico formal) ou advinda de situações fáticas (grupo econômico de fato). Em adição, é oportuno tecermos algumas considerações acerca do conceito de grupo econômico. Segundo a moderna doutrina trabalhista, para configuração de grupo econômico não se exige a demonstração de controle ostensivo de uma empresa sobre as demais e tampouco identidade de objeto social. Nesse sentido é a lição esclarecedora de Paulo Emílio Ribeiro de Vilhena: ”há grupo desde o instante em que, através de um continuado e recíproco tráfico de poderes, uma empresa interfira, direta ou indiretamente, na atividade de outra, seja em decorrência da titularidade (propriedade de ações de uma sobre outra), seja pela coincidência de domínio ou comunicação acionária de portadores de capital. Não se exclui da possibilidade jurídica o empreendedor individual, a pessoa física, que nada obsta mantenha em atividade empresas diferentes e as controle, ainda que por vias oblíquas ou transversas” (Relação de emprego: estrutura legal e pressupostos, 2ª ed., São Paulo: LTr, 1999, p. 231 – grifos nossos) Vejamos a situação fática dos autos. No caso em análise, a fiscalização trouxe elementos indiciários para os autos de modo a caracterizar a existência de grupo econômico de fato. O primeiro argumento comum a todas as recorrentes que enfrentamos é quanto ao não funcionamento concomitante. Adotamos integralmente as considerações da decisão a quo sobre o assunto, destacando o quadro a seguir: Fl. 290DF CARF MF Impresso em 15/03/2012 por APARECIDA DA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 02/11/2011 por MAURO JOSE SILVA, Assinado digitalmente em 14/01/2012 por MARCELO OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 02/11/2011 por MAURO JOSE SILVA Processo nº 17546.000724/200773 Acórdão n.º 230102.336 S2C3T1 Fl. 259 11 • Frigosef: entregou declarações para os anos de 1994 a 1997. Deixou de entregar as declarações relativas ao período de 1998 a 2002 (não consta que estivesse "inativa"). Entregou declarações como "inativa" 2003 e 2004 e de "lucro real" em 2005. Não consta a entrega da declaração de 2006. • Frigorifico Mantiqueira: desde 1998 (ano que consta ter sido constituída) vem entregando suas declarações de imposto de renda (até a relativa a 2006). • Frigorifico Campos de São José: desde 2003 (ano que consta ter sido constituída) vem entregando suas declarações de imposto de renda (até a relativa a 2006). • André Luis Nogueira Junior — ME: desde 2003 (ano que consta ter sido constituída) vem entregando suas declarações de imposto de renda (até a relativa a 2006). • Tânia Pereira Lopes — ME: desde 2004 (ano que consta ter sido constituída) vem entregando suas declarações de imposto de renda (até a relativa a 2006). • Monalisa Pereira Lopes Nogueira — ME: desde 2004 (ano que consta ter sido constituída) vem entregando suas declarações de imposto de renda (até a relativa a 2006). • Rosa Maria Maciel Rodrigues — ME: pelo menos desde 1995 vem entregando suas declarações de imposto de renda (até a relativa a 2006), sendo inativas as relativas aos anos de 2000, 2001, 2005 e 2006. Para avaliarmos a legalidade da caracterização do grupo econômico, conforme nossas considerações retro, devemos analisar se estamos diante de um conjunto de indícios contingentes e convergentes que se habilitam a formar a convicção do julgador quanto à existência do grupo econômico. Dada a existência de várias recorrentes, faremos a análise do conjunto indiciário que diz respeito a cada uma das empresas para a qual houve atribuição de responsabilidade solidária e que entendemos ter atuado concomitantemente às demais. Frigosef A Frigosef apresentou declaração de imposto de renda pessoa jurídica informando que esteve submetida ao lucro real em 2005, o que demonstra que operou em período que interessa para a formação do grupo econômico. Em adição, o Sr, André Luiz Nogueira foi sóciogerente da empresa. Monalisa ME Destacamos alguns indícios contingentes e convergentes que formam nossa convicção de que a recorrente Monalisa ME fez parte de um grupo econômico com as demais recorrentes: Fl. 291DF CARF MF Impresso em 15/03/2012 por APARECIDA DA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 02/11/2011 por MAURO JOSE SILVA, Assinado digitalmente em 14/01/2012 por MARCELO OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 02/11/2011 por MAURO JOSE SILVA 12 • A Monalisa ME operava sob o nome fantasia “Distribuidora de Carnes Mantiqueira III” e “Distribuidora de Carnes Mantiqueira IV”; • A proprietária da Monalisa ME é filha do articulador das operações entre as recorrentes, Sr. André Luiz Nogueira; • Monalisa Pereira Lopes Nogueira é ou teria sido empregada de Frigorífico Campos; • Monalisa ME utiliza o mesmo fornecedor das demais recorrentes. • O articulador do grupo econômico, Sr. André Luiz Nogueira locou o imóvel onde funcionava a Monalisa ME e adquiriu os equipamentos que a e,presa passou a utilizar; • O Sr. André Luiz Nogueira assina termos de recsisões de contratos de trabalho de empregados da Monalisa ME • Tal conjunto indiciário aponta para a existência de direção, controle ou administração de uma empresa sobre outra ou outras, conforme exigido pela legislação, especialmente o primeiro deles. André ME Destacamos alguns indícios contingentes e convergentes que formam nossa convicção de que a recorrente Andre ME fez parte de um grupo econômico com as demais recorrentes: • A André ME operava sob o nome fantasia “Distribuidora de Carnes Mantiqueira I”(matriz) e “Distribuidora de Carnes Mantiqueira IV”(filial 2); • O proprietário da André ME é filho do articulador das operações entre as recorrentes, Sr. André Luiz Nogueira; • André Luiz Nogueira Júnior é ou teria sido empregado de Frigorífico Campos; • André ME utiliza o mesmo fornecedor das demais recorrentes. • O Sr. André Luiz Nogueira fez pagamento de verbas para empregado da Andre ME; • Fl. 292DF CARF MF Impresso em 15/03/2012 por APARECIDA DA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 02/11/2011 por MAURO JOSE SILVA, Assinado digitalmente em 14/01/2012 por MARCELO OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 02/11/2011 por MAURO JOSE SILVA Processo nº 17546.000724/200773 Acórdão n.º 230102.336 S2C3T1 Fl. 260 13 Tal conjunto indiciário aponta para a existência de direção, controle ou administração de uma empresa sobre outra ou outras, conforme exigido pela legislação, especialmente o primeiro deles. A recorrente André ME alegou que a decisão a quo não tratou de seu caso. No entanto, em vários trechos do Acórdão recorrido há referências à André Nogueira ME como controladora do grupo econômico, o que contraria suas alegações. Frigorífico Campos Destacamos alguns indícios contingentes e convergentes que formam nossa convicção de que a recorrente Frigorífico Campos fez parte de um grupo econômico com as demais recorrentes: • A Frigorífico Campos é a única fornecedora das demais recorrentes que atuam sob o nome fantasia “Distribuidora Mantiqueira”; • A Frigorífico Campos adota o nome fantasia “Frigorífico Mantiqueira”; • Em maio de 2005, conforme operações constatadas no Livro de Registro de Empregados — LRE, os empregados, até então registrados no Frigorifico; • A ficha do SIF — Serviço de Inspeção Federal de n° 222 (fl. 122) informa que aquele órgão público limitouse a cadastrar sucessivamente, no mesmo endereço (e na mesma ficha), o Frigovalpa, o Frigosef, o Frigorifico Mantiqueira e o Frigorifico Campos de S. José, no ramo "matadouro frigorifico"; Tal conjunto indiciário aponta para a existência de direção, controle ou administração de uma empresa sobre outra ou outras, conforme exigido pela legislação, especialmente o primeiro deles. Por todo o exposto, voto no sentido de CONHECER e NEGAR PROVIMENTO ao RECURSO VOLUNTÁRIO. (assinado digitalmente) Mauro José Silva Relator Fl. 293DF CARF MF Impresso em 15/03/2012 por APARECIDA DA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 02/11/2011 por MAURO JOSE SILVA, Assinado digitalmente em 14/01/2012 por MARCELO OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 02/11/2011 por MAURO JOSE SILVA 14 Fl. 294DF CARF MF Impresso em 15/03/2012 por APARECIDA DA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 02/11/2011 por MAURO JOSE SILVA, Assinado digitalmente em 14/01/2012 por MARCELO OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 02/11/2011 por MAURO JOSE SILVA
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Numero do processo: 10315.001092/2007-30
Turma: Segunda Turma Ordinária da Primeira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Jan 19 00:00:00 UTC 2012
Data da publicação: Thu Jan 19 00:00:00 UTC 2012
Ementa: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF
Ano calendário: 2001
DESPESAS EXCLUDENTES DA BASE DE CÁLCULO DO IMPOSTO NÃO IMPUGNADAS. PRECLUSÃO
As despesas médicas, com instrução, dependentes e previdência privada não refutadas na peça de impugnação, e desprovidas no recurso de qualquer documento ou alegação que as legitimem, não são convalidadas e nem mesmo consideradas refutadas, face à argumentação genérica de que foram decorrentes de retificação na DIRPF não autorizada pelo contribuinte/autuado.
JUROS SELIC. PROCEDÊNCIA DA INCIDÊNCIA A PARTIR DA DATA DO VENCIMENTO DO IMPOSTO
É devida a incidência dos juros com base na variação da Taxa SELIC, a contar da data em que o imposto apurado deveria ter sido recolhido aos cofres da União, no caso, coincidente com a data para a entrega da DIRPF.
MULTA QUALIFICADA.
É devida a multa de ofício qualificada de 150%, quando restar comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, conforme definido em lei.
Numero da decisão: 2102-001.732
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em NEGAR
provimento ao recurso. Vencido o Conselheiro Atilio Pitarelli (relator) que dava parcial provimento para reduzir a multa de ofício do percentual de 150% para 75%. Designada para
redigir o voto vencedor a Conselheira Núbia Matos Moura.
Matéria: IRPF- ação fiscal - outros assuntos (ex.: glosas diversas)
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PRECLUSÃO As despesas médicas, com instrução, dependentes e previdência privada não refutadas na peça de impugnação, e desprovidas no recurso de qualquer documento ou alegação que as legitimem, não são convalidadas e nem mesmo consideradas refutadas, face à argumentação genérica de que foram decorrentes de retificação na DIRPF não autorizada pelo contribuinte/autuado. JUROS SELIC. PROCEDÊNCIA DA INCIDÊNCIA A PARTIR DA DATA DO VENCIMENTO DO IMPOSTO É devida a incidência dos juros com base na variação da Taxa SELIC, a contar da data em que o imposto apurado deveria ter sido recolhido aos cofres da União, no caso, coincidente com a data para a entrega da DIRPF. MULTA QUALIFICADA. É devida a multa de ofício qualificada de 150%, quando restar comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, conforme definido em lei. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em NEGAR provimento ao recurso. Vencido o Conselheiro Atilio Pitarelli (relator) que dava parcial Fl. 110DF CARF MF Impresso em 13/04/2012 por VILMA PINHEIRO TORRES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 25/02/2012 por ATILIO PITARELLI, Assinado digitalmente em 25/02/2012 por ATILIO PITARELLI, Assinado digitalmente em 27/02/2012 por NUBIA MATOS MOURA, Assinado digitalmente em 27/02/2012 por GIOVANNI CHRISTIAN NUNES CAMPOS 2 provimento para reduzir a multa de ofício do percentual de 150% para 75%. Designada para redigir o voto vencedor a Conselheira Núbia Matos Moura. Assinado digitalmente GIOVANNI CHRISTIAN NUNES CAMPOS Presidente Assinado digitalmente ATILIO PITARELLI Relator Assinado digitalmente NÚBIA MATOS MOURA Redatora designada Participaram do presente julgamento os Conselheiros Atilio Pitarelli, Carlos André Rodrigues Pereira Lima, Giovanni Christian Nunes Campos, Núbia Matos Moura, Roberta de Azeredo Ferreira Pagetti e Rubens Maurício Carvalho. Relatório O presente Recurso Voluntário é proposto face a decisão proferia em 07 de março de 2008, pela 1a Turma da DRJ/FOR (fls. 69/80), que por unanimidade de votos manteve parcialmente a exigência objeto do Auto de Infração lavrado em 27/09/2007 (fls. 04/10), onde constam como infrações à legislação fiscal os seguintes fatos: A) dedução indevida de previdência oficial no valor de R$ 7.812,05, por falta de comprovação, apesar de regularmente intimado para esta finalidade; B) dedução indevida de dependentes no valor de R$ 6.480,00, sem comprovar a relação de dependência; C) dedução indevida de despesas médicas no valor de R$ 2.411,00, por falta de comprovação da ocorrência destas despesas; Fl. 111DF CARF MF Impresso em 13/04/2012 por VILMA PINHEIRO TORRES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 25/02/2012 por ATILIO PITARELLI, Assinado digitalmente em 25/02/2012 por ATILIO PITARELLI, Assinado digitalmente em 27/02/2012 por NUBIA MATOS MOURA, Assinado digitalmente em 27/02/2012 por GIOVANNI CHRISTIAN NUNES CAMPOS Processo nº 10315.001092200730 Acórdão n.º 2102001.732 S2C1T2 Fl. 111 3 D) dedução indevida de despesa com instrução no valor de R$ 7.772,00, também por falta de comprovação, e E) dedução indevida de previdência privada/FAPI, no valor de R$ 2.847,00, sem comprovação do valor integral, sendo glosado o valor ora mencionado. O valor total do crédito original é de R$ 15.716,53 (quinze mil, setecentos e dezesseis reais e cinqüenta e três centavos), sendo R$ 4.651,79 a título de imposto, R$ 4.087,06 de juros de mora calculado até 31/08/2007, e R$ 6.977,68 de multa. O percentual da multa aplicada foi de 150% sobre o valor atribuído ao imposto, uma vez que a fiscalização tomou conhecimento que inúmeros contribuintes de uma mesma repartição pública, Fundação Nacional da Saúde – Funasa, da qual o autuado integra, solicitaram cópias das declarações entregues regularmente, para retificálas e com isto, apurar valor maior de restituição do imposto de renda, razão pela qual, foram solicitadas as confirmações das deduções levadas a efeito com as alterações introduzidas. No Relatório Fiscal de fl. 11, este fato está assim descrito: Chamou a atenção deste Fisco o fato de estas Declarações Retificadoras apresentarem diversas coincidências: i) Os contribuintes são todos servidores públicos federais, em exercício em uma mesma Repartição: a FUNASA — Fundação Nacional de Saúde; ii) Todos eles solicitaram à Receita Federal, aproximadamente à mesma época, cópias de suas Declarações de Ajuste Anual daquele exercício de 2002; anocalendário 2001; iii) As retificações, em sua totalidade, seguiram um padrão semelhante; qual seja; o de alterar apenas os valores informados a título de deduções da base de cálculo do IRPF, como Despesas com a Previdência Oficial e. Previdência Privada, Despesas com Dependentes, Despesas de Instrução e Despesas Medidas. iv) Todas as DIRPF Retificadores ensejaram um mesmo resultado: a redução do Imposto de Renda calculado, e conseqüente aumento da restituição devida v) v) O objeto destas retificações foi sempre a DIRPF de um mesmo exercício (2002), anocalendário de 2001. Na falta de apresentação de comprovantes que legitimassem as deduções, foi lavrado o auto de infração. Quando da impugnação, às fls. 27/31, o contribuinte/autuado alegou que procurou a Receita Federal em Iguatu para obter informações sobre possível restituição referente ao ano base 2001, conforme noticiaram colegas de trabalho, sendo atendido pelo Sr. Fl. 112DF CARF MF Impresso em 13/04/2012 por VILMA PINHEIRO TORRES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 25/02/2012 por ATILIO PITARELLI, Assinado digitalmente em 25/02/2012 por ATILIO PITARELLI, Assinado digitalmente em 27/02/2012 por NUBIA MATOS MOURA, Assinado digitalmente em 27/02/2012 por GIOVANNI CHRISTIAN NUNES CAMPOS 4 Itaécio Anunciato, que confirmou a notícia e solicitou a declaração do Recorrente para análise, e com ela, sem autorização, efetuou a retificação, alterando os dados da original. Alegou ainda que muitos colegas pagaram ao Sr. Itaécio 30% do valor recebido. Passados alguns dias, ficou sabendo que o mesmo estava sendo convocado por edital, para se defender em processo administrativo disciplinar, ficando ainda mais surpreso quando ele, impugnante, foi intimado para comparecer e prestar esclarecimentos, momento que ficou ciente que fora vítima de artifício ardil perpetrado pelo referido Sr. Itaécio Anunciato. Impugnou o percentual da multa de 150%, reproduzindo texto de lei que definem fraude e nega a existência do elemento dolo, destacando que agiu de boa fé e este elemento da sua conduta está demonstrada nos autos, citando ainda, precedentes do STJ. Também foi objeto da impugnação a incidência dos juros aplicados, que deveriam incidir somente a partir da data da retificação da declaração, entregue em 30/04/2002. A decisão de primeira instancia administrativa considerou como não impugnadas as despesas médicas, com instrução e previdência privada. No tocante à dedução a título de previdência oficial, foi restabelecido o valor de R$ 1.920,40 que incidiu sobre os valores recebidos do Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Público Federal no Estado do Ceará. Quanto às despesas com dependentes, por haver documentalmente provado a relação de dependência da esposa e três filhos, a dedução foi restabelecida com relação a eles, mantida a glosa dos valores pertinentes às Sras. Maria de Oliveira e de Beatriz Teles da Silva. A multa qualificada também foi mantida, no percentual de 150%, não aceitando a decisão recorrida como justificativa o alegado pelo impugnante, que confiou a retificação ao Sr. Itaécio, funcionário da Receita Federal, que informou haver um “resíduo” que por ele poderia ser recebido, mediante o pagamento de um percentual de 30% deste valor. Dentre outros argumentos, a decisão recorrida destacou o fato do autuado ser funcionário público, de quem seria exigível conhecimento sobre o sistema de arrecadação dos tributos, não sendo crível confiar em terceiros para o recebimento de possível restituição, assim como a responsabilidade objetiva sobre atos praticados a quem depositou confiança. Os juros também foram mantidos, tal como exigidos, pois em consonância com a legislação, notadamente, o par. 3o do art. 61 da lei n.o 9.430/96 e par. 1o inciso II do art. 4o da IN SRF 679/2006, que estabelecem como marco inicial a data da entrega da declaração de rendimentos. Assim, foi considerado devido o valor do imposto em R$ 2.935,68 (fl.80), sobre o qual entenderam incidir a multa qualificada no percentual de 150% e juros de mora. Em grau de Recurso Voluntário, resumidamente, o Recorrente alega que: a) preliminarmente, a ocorrência da prescrição da cobrança sobre a previdência oficial e privada, de dependentes e da multa de ofício e juros SELIC; b) o autuado foi mais uma vítima do Sr. Itaécio Anunciado, servidor da Receita Federal em IguatuCE, que induziu várias pessoas a lhe confiarem a retificação da DIRPF para receber “resíduos” de valores que lhes seriam devidos, mediante o pagamento de um percentual de 30% sobre eles, quando Fl. 113DF CARF MF Impresso em 13/04/2012 por VILMA PINHEIRO TORRES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 25/02/2012 por ATILIO PITARELLI, Assinado digitalmente em 25/02/2012 por ATILIO PITARELLI, Assinado digitalmente em 27/02/2012 por NUBIA MATOS MOURA, Assinado digitalmente em 27/02/2012 por GIOVANNI CHRISTIAN NUNES CAMPOS Processo nº 10315.001092200730 Acórdão n.º 2102001.732 S2C1T2 Fl. 112 5 recebidos, portanto, agindo de boa fé, juntamente com outros colegas da repartição, que até mesmo chegara a receber valores a título de restituição, o que não ocorreu no presente caso; c) as deduções de previdência oficial, previdência privada e dependentes também foram impugnadas, uma vez decorrentes da atitude ardil perpetrada pelo servidor da Receita Federal, constante na peça de defesa; d) insurge contra a aplicação da multa de ofício, citando legislação que tipificam e definem conduta dolosa e precedentes do STJ, que afastam aplicação de penalidade desta natureza e) os juros, na hipótese de subsistência deste auto de infração, somente seriam aplicáveis a partir da data da suposta retificação da declaração do imposto de renda. É o relatório. Voto Vencido Conselheiro Atilio Pitarelli, Relator. O recurso é tempestivo, em conformidade com o prazo estabelecido pelo artigo 33 do Decreto n.o 70.235/72, foi interposto por parte legítima e está devidamente fundamentado, dele conhecendo. Inicialmente cabe apreciar a liminar argüida pelo Recorrente de que o débito exigido estaria alcançado pela prescrição, talvez, querendo se referir à decadência. O que se constata, é que efetivamente este fenômeno não ocorreu, não obstante referirse à DIRF que teve por base os rendimentos do ano de 2.001, o lançamento decorre de retificação levada a efeito pelo Recorrente em 10/08/2006 (fl. 17). Portanto, dentro do qüinqüênio legalmente previsto para a constituição do crédito tributário. Relativamente à glosa das despesas, nenhuma delas remanesce para apreciação nesta instância, pois sequer foram objetivamente refutadas pelo Recorrente, com documentos ou argumentos que justificasse qualquer reparo na decisão recorrida, não podendo ser considerada a alegação de que estaria incluída na abordagem genericamente feita em função dos fatos e circunstancias que alega ter originado este processo, atribuindo a terceiro, e ao final, reconhecendo que este“plantou em sua declaração de ajuste informações não condizentes com a verdade, isso é fato.” Se os fatos ou circunstâncias que originaram a retificação da declaração apresentada não são suficientes para afastar a pretensão fiscal, e certamente não os são, pois o Recorrente no mínimo demonstrou interesse e dela teria se beneficiado, mesmo que efetuada por terceiro, por derradeiro, também não se aplicam a ponto de considerar refutadas as glosas de despesas cuja comprovação são indispensáveis, por envolverem exclusões da base de cálculo do imposto. Fl. 114DF CARF MF Impresso em 13/04/2012 por VILMA PINHEIRO TORRES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 25/02/2012 por ATILIO PITARELLI, Assinado digitalmente em 25/02/2012 por ATILIO PITARELLI, Assinado digitalmente em 27/02/2012 por NUBIA MATOS MOURA, Assinado digitalmente em 27/02/2012 por GIOVANNI CHRISTIAN NUNES CAMPOS 6 Nenhuma das glosas mencionadas, objetivamente, constou da peça recursal. Não obstante, entendo que o percentual da multa qualificada, de 150% sobre o valor do imposto, por estes fatos e circunstancias, pormenorizadamente descritas pela autoridade fiscal autuante às fls. 11/12, quando noticia que nos meses de julho a agosto de 2.006 a Secretaria da Receita Federal verificou que mais de 80 (oitenta) contribuintes servidores da Fundação Nacional de Saúde efetuaram retificações objetivando aumentar o valor das restituições, e vários deles, quando intimados, informaram que orientados por um colega de repartição, para procurar um servidor da Receita Federal, para que este providenciasse as retificações que redundariam no recebimento de “resíduos” do imposto de renda, justificaria apenas a redução do percentual para 75% do valor devido a título de imposto, pela falta do seu pagamento. Com efeito, diante dos fatos narrados pela própria fiscalização, não vislumbro na conduta do Recorrente, que pode sim ter deixado se influenciar por colegas da repartição ou até mesmo por terceiros, a buscar alegado “resíduo” de imposto de renda em declaração já entregue, não necessariamente, com isto, agindo com dolo que justificasse a qualificação da multa para 150% do valor do débito, mesmo porque, no meu sentir, não está evidente o intuito de fraude, indispensável para as definições previstas nos arts. 71, 72 e 73 da lei n.o 4.502/64. Também justificável e corriqueiro, confiar a terceiros para o cumprimento da obrigação de apurar e preencher a DIRPF, que por óbvio, não afasta a responsabilidade do declarante, pelas informações nela prestadas. No caso, mesmo constando que não foi autorizada a retificação, mas evidenciado interesse pela sua realização, que dela, conforme mencionado acima, lhe traria o benefício da restituição. Não obstante, entendo que o percentual da multa deva ser reduzido para 75% (setenta e cinco por cento) do valor do débito. Por fim, sobre a aplicação da taxa SELIC, a questão se encontra pacificada neste colegiado, sendo inclusive objeto da Súmula CARF 4, que assim está redigida: “A partir de 1o de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia – SELIC para títulos federais”. Sobre a data inicial para a sua incidência, fundamentou a decisão recorrida, citando o par. 1o do inciso II do art. 4o da IN SRF n.o 579/2006 e par. 3.o do art. 61 da lei n.o 9.430/96, não merecendo assim, qualquer reparo. Por todo o exposto, voto no sentido de DAR PROVIMENTO PARCIAL ao Recurso, apenas para reduzir o percentual da multa para 75% do valor do débito apurado pela decisão recorrida. Assinado digitalmente ATILIO PITARELLI Voto Vencedor Conselheira Núbia Matos Moura, Redatoradesignada Fl. 115DF CARF MF Impresso em 13/04/2012 por VILMA PINHEIRO TORRES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 25/02/2012 por ATILIO PITARELLI, Assinado digitalmente em 25/02/2012 por ATILIO PITARELLI, Assinado digitalmente em 27/02/2012 por NUBIA MATOS MOURA, Assinado digitalmente em 27/02/2012 por GIOVANNI CHRISTIAN NUNES CAMPOS Processo nº 10315.001092200730 Acórdão n.º 2102001.732 S2C1T2 Fl. 113 7 Discordo do ilustre relator somente no que se refere às suas conclusões acerca da qualificação da multa de ofício. No recurso, o contribuinte afirma que agiu de boafé e que foi vítima da conduta do servidor da Secretaria da Receita Federal do Brasil, o qual teria alterado os dados de sua DAA, sem o seu conhecimento. Tais alegações não podem prosperar. Nesse aspecto, adoto integralmente as razões exaradas na decisão recorrida, que manteve a qualificação da multa de ofício, sob a fundamentação abaixo parcialmente transcrita: Com o intuito de receber o citado "resíduo", o autuado afirmou, agora, em seu arrazoado, que entregou ao Sr. Itaécio sua declaração original, contudo, não dera autorização para que o mencionado servidor da Secretaria da Receita Federal do Brasil alterasse qualquer informação a seu respeito constante nos registros internos desse órgão, considerandose vítima do citado servidor. De pronto, registrase, que causa bastante estranheza que o impugnante, servidor público, sabedor que tributos/contribuições/tarifas que são cobrados pelo serviço público, somente ingressam nos cofres do Tesouro, mediante documento de arrecadação próprio a ser pago na rede bancária por contribuinte ou seu preposto, repentinamente, ache natural, normal e lícito, que um servidor público, no caso, funcionário da Secretaria da Receita Federal do Brasil, lhe exija um percentual sobre restituição que, em princípio, teria direito. Observase das pesquisas efetuadas nos Sistemas internos da Secretaria da Receita Federal do Brasil, que o contribuinte, nos últimos nove anos, apresentou regularmente Declaração de Ajuste Anual, apurando restituição. Até onde se tem notícia, o contribuinte resgatou as restituições pleiteadas em suas declarações de rendimentos sem que lhe fosse cobrado qualquer percentual a ser pago a servidores da Secretaria da Receita Federal do Brasil — RFB. Da mesma forma, também jamais se ouviu dizer na mídia que a RFB ao disponibilizar restituição de imposto de renda de contribuintes estivesse exigindo algum percentual sobre as mesmas. Ademais, mesmo que o contribuinte alegue que não autorizou expressamente que terceiros modificassem, perante a Secretaria da Receita Federal do Brasil, informações constantes nos sistemas internos desse Órgão, resta claro nos autos que o contribuinte, objetivando conseguir receber "resíduo" de restituição, permitiu sim que terceiros tivessem acesso à sua declaração de rendimentos do anocalendário de 2001 e dela fizessem uso, não importando em se cientificar quais os meios que seriam utilizados para conseguir tal intento e se, de fato, teria direito a receber restituição maior que aquela pleiteada em sua declaração de rendimentos originalmente apresentada. A conduta do contribuinte de permitir que terceiros tivessem acesso à sua declaração de rendimentos, como foi o caso, é ato de seu livre arbítrio, sendo relevante salientar que, perante a Fl. 116DF CARF MF Impresso em 13/04/2012 por VILMA PINHEIRO TORRES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 25/02/2012 por ATILIO PITARELLI, Assinado digitalmente em 25/02/2012 por ATILIO PITARELLI, Assinado digitalmente em 27/02/2012 por NUBIA MATOS MOURA, Assinado digitalmente em 27/02/2012 por GIOVANNI CHRISTIAN NUNES CAMPOS 8 Secretaria da Receita Federal do Brasil, o contribuinte é o responsável pelo preenchimento da sua declaração, mesmo que entregue a outrem o encargo de fazêlo. Acrescentese que, embora o contribuinte afirme que comprovou todas as deduções pleiteadas em sua DAA original, temse que na verdade parte de tais deduções permaneceram não comprovadas durante o procedimento fiscal e depois da decisão de primeira instância. Para melhor ilustrar a questão observese o quadro a seguir: Valores em Reais Exercício 2002 DAA original(fls.63/65) DAA retificadora(fls.17/19) Decisão DRJ Rendimentos 49.603,83 49.603,83 49.603,83 Previdência Oficial 5.412,05 7.812,05 1.920,00 Previdência Privada 0,00 6.480,00 0,00 Dependentes 6.480,00 6.480,00 4.320,00 Despesas com instrução 3.488,00 7.772,00 0,00 Despesas médicas 1.535,55 2.411,00 0,00 Imposto devido 4.669,26 1.807,48 7.604,94 Imposto Retido na Fonte 7.155,48 7.155,48 4.669,26 Saldo de Imposto a Pagar 2.935,68 Saldo de Imposto a Restituir 2.486,22 5.348,00 Vêse, portanto, que já na DAA original, o contribuinte, no intuito de ser favorecido com o recebimento de restituição indevida de imposto de renda retido na fonte, adotou a conduta de inserir deduções sabidamente inexistentes, sendo certo que depois de receber a restituição pleiteada na DAA original, retificoua para alterar os valores das deduções e aumentar o valor da restituição indevida. A conclusão que se impõe é que o contribuinte incorreu na conduta descrita no art. 71 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964. Logo, VOTO no sentido de manter a qualificação da multa de ofício. Assinado digitalmente Núbia Matos Moura Fl. 117DF CARF MF Impresso em 13/04/2012 por VILMA PINHEIRO TORRES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 25/02/2012 por ATILIO PITARELLI, Assinado digitalmente em 25/02/2012 por ATILIO PITARELLI, Assinado digitalmente em 27/02/2012 por NUBIA MATOS MOURA, Assinado digitalmente em 27/02/2012 por GIOVANNI CHRISTIAN NUNES CAMPOS
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Numero do processo: 10935.002623/2007-12
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Nov 09 00:00:00 UTC 2011
Data da publicação: Wed Nov 09 00:00:00 UTC 2011
Ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP
Período de apuração: 01/04/1997 a 31/01/1998
RESTITUIÇÃO DE TRIBUTOS. PRESCRIÇÃO.
Para pedidos protocolados a partir de 09/06/2005, o prazo prescricional para
a repetição de pagamentos indevidos ou a maior é de cinco anos a contar do
recolhimento. Nos termos da decisão do Supremo Tribunal Federal a Lei
Complementar 118/2005 possui natureza interpretativa.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 3302-001.308
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar
provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto do Relator.
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PRESCRIÇÃO. Para pedidos protocolados a partir de 09/06/2005, o prazo prescricional para a repetição de pagamentos indevidos ou a maior é de cinco anos a contar do recolhimento. Nos termos da decisão do Supremo Tribunal Federal a Lei Complementar 118/2005 possui natureza interpretativa. Recurso Voluntário Negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto do Relator. Walber José da Silva Presidente. Alexandre Gomes Relator. EDITADO EM: 05/12/2011 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Walber José da Silva (Presidente), José Antonio Francisco, Fabiola Cassiano Keramidas, Francisco de Sales Ribeiro de Queiroz, Alexandre Gomes (Relator) e Gileno Gurjão Barreto. Fl. 79DF CARF MF Impresso em 23/02/2012 por LEVI ANTONIO DA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2011 por LEVI ANTONIO DA SILVA, Assinado digitalmente em 13/02/201 2 por ALEXANDRE GOMES, Assinado digitalmente em 22/02/2012 por WALBER JOSE DA SILVA 2 Relatório Por bem retratar a matéria tratada no presente processo, transcrevese o relatório produzido pela DRJ de Curitiba: Trata o processo de pedido de restituição (apresentado por meio de formulário) de contribuição para o PIS/Pasep, fl. 01, protocolizado em 15/06/2007, o qual, consoante planilhas e demonstrativos de fls. 06/16, corresponde a retenções ou pagamentos efetuados nos meses de junho de 1997 a fevereiro de 1998, no montante atualizado de R$ 74.615,15. À fl. 01, no quadro destinado à descrição do motivo do pedido constam os seguintes esclarecimentos: "Restituição do Pasep recolhido e retido sobre arrecadação própria e sobre o FTM Fundo de Participação dos Municípios no período de junho/1997 a fevereiro/1998, em face de sua inexigibilidade em razão da não conversão em lei da Medida Provisória 1212/95 e suas reedições. Pedido de restituição está sendo leito em processo administrativo pois o programa pedido eletrônico de ressarcimento ou restituição e declaração de compensação (Per/Dcomp versão 3.2) impossibilita sua utilização não aceitando a data do fato gerador do crédito passados de cinco anos." Às fls. 02/04, procuração e documentos pessoais do representante do Município. Em 03/09/2007, após análise, o pedido foi indeferido pela Delegacia da Receita Federal do Brasil em Cascavel/PR, despacho decisório às fls. 19/20, em face da decadência do direito, a teor dos arts. 165 e 168 do CTN. Inconformada com a decisão proferida, da qual foi cientificada em 18/09/2007 (fl. 21), a interessada, por intermédio de .procurador, interpôs, em 17/10/2007, a manifestação de inconformidade de fls. 22/34, instruída com os documentos de fls. 35/39 (procurações e cópias de documentos pessoais de mandatários), cujo teor é sintetizado a seguir. Primeiramente, após relato sucinto dos fatos, discorre sobre a ineficácia das medidas provisórias não convertidas em lei e conclui que a MP n° 1.212, de 1995, "não revela os predicamentos da urgência e relevância." Disserta sobre a ilegalidade da MP n" 1.212, de 1995, e suas reedições, e diz que "no período compreendido entre outubro de 1995 até ,fevereiro de 1999, pode ser recuperada a totalidade dos recolhimentos feitos a título de PASEP, haja vista que não havia norma legal a exigir a exação, muito menos através da LC 8/70, em respeito à vedação da repristinação em nosso ordenamento jurídico." Fala sobre o posicionamento do Supremo Tribunal Federal em relação à legislação tributária e às medidas provisórias e, após análise das medidas editadas, conclui que a Lei n° 9.715, de Fl. 80DF CARF MF Impresso em 23/02/2012 por LEVI ANTONIO DA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2011 por LEVI ANTONIO DA SILVA, Assinado digitalmente em 13/02/201 2 por ALEXANDRE GOMES, Assinado digitalmente em 22/02/2012 por WALBER JOSE DA SILVA Processo nº 10935.002623/200712 Acórdão n.º 330201.308 S3C3T2 Fl. 2 3 1998, deve operar como lei primitiva, cuja entrada em vigor, respeitandose a anterioridade nonagesimal, teria ocorrido somente em 24/02/1999. A seguir, discorre sobre o prazo decadencial. Defende a tese dos "5 + 5 anos", transcreve posicionamento da jurisprudência e conclui que em relação aos pagamentos efetuados anteriormente a 09/06/2005 o prazo de restituição seria de dez anos contados da data do pagamento ou até 09/06/2010, "valendo o prazo que vier antes." Ao final, requer a reforma do despacho decisório e, consequentemente, o deferimento da restituição. A par dos argumentos lançados na manifestação de inconformidade apresentada, a DRJ entendeu por bem indeferir a solicitação em decisão que assim ficou ementada: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/04/1997 a 31/01/1998 PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. P1S/PASEP. DECADÊNCIA. A decadência do direito de pleitear a restituição ocorre em cinco anos contados da extinção do crédito pelo pagamento. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Contra esta decisão foi apresentado Recurso onde são reprisados os argumentos lançados na manifestação de inconformidade apresentada. É o relatório Voto Conselheiro Alexandre Gomes, Relator Conforme se depreende do relatório acima transcrito, tratase de pedido de restituição protocolado em 15/06/2007 relacionado a supostos pagamentos indevidos de PIS no período de 01/06/1997 a 28/02/1998, alegando se tratar de "Restituição do Pasep retido sobre o FPM — Fundo de Participação dos Municípios no período de junho/1997 a fevereiro/1998, em face de sua inexigibilidade em razão da não conversão em lei da Medida Provisória 1212/95 e suas reedições. Pedido de restituição está sendo feito em processo administrativo pois o programa pedido eletrônico de ressarcimento ou restituição e declaração de compensação (Per/Dcomp — versão 3.2) impossibilita sula utilização não aceitando a data do fato gerador do crédito passados de cinco anos." Tanto a DRF quanto a DRJ indeferiram o pedido de restituição, e por conseqüência os pedidos de compensação anexados, por entenderem que o prazo para a restituição de tributos pagos a maior era de 5 anos, a contar do recolhimento indevido ou a Fl. 81DF CARF MF Impresso em 23/02/2012 por LEVI ANTONIO DA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2011 por LEVI ANTONIO DA SILVA, Assinado digitalmente em 13/02/201 2 por ALEXANDRE GOMES, Assinado digitalmente em 22/02/2012 por WALBER JOSE DA SILVA 4 maior. Não houve análise por parte das autoridades administrativas em relação ao mérito do pedido de restituição, ou seja, em relação a existência ou não de pagamentos a maior ou indevidos. Como já me manifestei em outras oportunidades, coaduno com o entendimento de que o prazo de restituição dos tributos recolhidos indevidamente iniciase decorridos cinco anos, contados a partir do fato gerador, acrescidos de mais um qüinqüênio, computados a partir do termo final do prazo atribuído à Fazenda Pública para aferir o valor devido referente à exação. Ou seja, considero que somente após a homologação é que se inicia o curso do prazo prescricional qüinqüenal, de modo que, na prática, o prazo total fixado para restituição é de dez anos após o recolhimento indevido. Neste sentido, o E. STJ, após inúmeras reviravoltas pacificou seu entendimento, senão vejamos: TRIBUTÁRIO. CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS. DECRETOS LEIS 2.445/88 E 2.449/88. PRESCRIÇÃO. CINCO ANOS DO FATO GERADOR MAIS CINCO ANOS DA HOMOLOGAÇÃO TÁCITA. INAPLICABILIDADE DO ART. 3º DA LC N. 118/2005. INÍCIO DA VIGÊNCIA SOMENTE APÓS 120 DIAS CONTADOS DA PUBLICAÇÃO. INTELIGÊNCIA DO ART. 4º DA MESMA LEI. Está uniforme na 1ª Seção do STJ que, no caso de lançamento tributário por homologação e havendo silêncio do Fisco, o prazo decadencial só se inicia após decorridos 5 (cinco) anos da ocorrência do fato gerador, acrescidos de mais um qüinqüênio, a partir da homologação tácita do lançamento. Estando o tributo em tela sujeito a lançamento por homologação, aplicamse a decadência e a prescrição nos moldes acima delineados. O disposto no artigo 3º da Lei Complementar n. 118, de 09 de fevereiro de 2005 é inaplicável, uma vez que ainda não iniciada a sua vigência, a qual somente terá início após 120 dias contados da publicação, a teor do artigo 4º da mesma lei. Agravo regimental não conhecido.1 Ocorre que, com o advento da Lei Complementar 118/05, a questão da prescrição do direito a repetição do indébito ganhou nova conotação, senão vejamos: Art. 3o Para efeito de interpretação do inciso I do art. 168 da Lei no 5.172, de 25 de outubro de 1966 – Código Tributário Nacional, a extinção do crédito tributário ocorre, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, no momento do pagamento antecipado de que trata o § 1o do art. 150 da referida Lei. Art. 4o Esta Lei entra em vigor 120 (cento e vinte) dias após sua publicação, observado, quanto ao art. 3o, o disposto no art. 106, 1 AgRg no AGRAVO DE INSTRUMENTO Nº 653.771 SP (2005/00095396). RELATOR : MINISTRO Francisco Peçanha Martins. Segunda Turma. 05/05/2005. Fl. 82DF CARF MF Impresso em 23/02/2012 por LEVI ANTONIO DA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2011 por LEVI ANTONIO DA SILVA, Assinado digitalmente em 13/02/201 2 por ALEXANDRE GOMES, Assinado digitalmente em 22/02/2012 por WALBER JOSE DA SILVA Processo nº 10935.002623/200712 Acórdão n.º 330201.308 S3C3T2 Fl. 3 5 inciso I, da Lei no 5.172, de 25 de outubro de 1966 – Código Tributário Nacional Não obstante afastar a interpretação que vinha sendo consagrada pela doutrina e pelo judiciário, a nova lei ainda determinou sua aplicação retroativa, uma vez que determinou a observância do disposto do art. 106, inciso I do CTN, que assim prescreve: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; É bom destacar que a respeito da legalidade do disposto no art. 4º da Lei Complementar 118/05, o STJ já manifestou sua posição, entendendo pela manifesta inconstitucionalidade dos dispositivos, conforme se depreende da decisão proferida no Resp nº 644.736/PE, cuja ementa segue abaixo transcrita: CONSTITUCIONAL. TRIBUTÁRIO. REPETIÇÃO DE INDÉBITO. TRIBUTOS SUJEITOS A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. PRAZO PRESCRICIONAL. LC 118/2005. INCONSTITUCIONALIDADE DA APLICAÇÃO RETROATIVA. 1. Sobre a prescrição da ação de repetição de indébito tributário de tributos sujeitos a lançamento por homologação, a jurisprudência do STJ (1ª Seção) assentou o entendimento de que, no regime anterior ao do art. 3º da LC 118/05, o prazo de cinco anos, previsto no art. 168 do CTN, tem início, não na data do recolhimento do tributo indevido, e sim na data da homologação – expressa ou tácita do lançamento. Assim, não havendo homologação expressa, o prazo para a repetição do indébito acaba sendo de dez anos a contar do fato gerador. 2. A norma do art. 3º da LC 118/05, que estabelece como termo inicial do prazo prescricional, nesses casos, a data do pagamento indevido, não tem eficácia retroativa. É que a Corte Especial, em sessão de 06/06/2007, DJ 27.08.2007, declarou inconstitucional a expressão "observado, quanto ao art. 3º, o disposto no art. 106, I, da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 – Código Tributário Nacional", constante do art. 4º, segunda parte, da referida Lei Complementar. 3. Embargos de divergência a que se nega provimento. Como é de conhecimento geral ao julgador administrativo é vedado declarar a inconstitucionalidade de norma tributária vigente, como é o caso do art. 4º da Lei Complementar 118/05, até que haja manifestação plenária do Supremo Tribunal Federal. É o que se extrai do disposto no art. 62 do Regimento Interno do CARF: Art. 62. Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. Fl. 83DF CARF MF Impresso em 23/02/2012 por LEVI ANTONIO DA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2011 por LEVI ANTONIO DA SILVA, Assinado digitalmente em 13/02/201 2 por ALEXANDRE GOMES, Assinado digitalmente em 22/02/2012 por WALBER JOSE DA SILVA 6 Parágrafo único. O disposto no caput não se aplica aos casos de tratado, acordo internacional, lei ou ato normativo: I que já tenha sido declarado inconstitucional por decisão plenária definitiva do Supremo Tribunal Federal; ou II que fundamente crédito tributário objeto de: a) dispensa legal de constituição ou de ato declaratório do ProcuradorGeral da Fazenda Nacional, na forma dos arts. 18 e 19 da Lei n° 10.522, de 19 de julho de 2002; b) súmula da AdvocaciaGeral da União, na forma do art. 43 da Lei Complementar n° 73, de 1993; ou c) parecer do AdvogadoGeral da União aprovado pelo Presidente da República, na forma do art. 40 da Lei Complementar n° 73, de 1993. Contudo, o Pleno do Supremo Tribunal Federal, nos autos do RE 566.621 de relatoria da Ministra Ellen Greice, analisou a natureza e as determinações contidas na Lei Complementar 118/2005 e decidiu que esta possui natureza interpretativa, o que implicou no reconhecimento da legalidade da redução do prazo para a restituição dos tributos (10 anos para 5 anos) recolhidos a maior ou indevidamente, para os pedidos protocolados a partir de 09/06/2005, como vemos de sua ementa que segue transcrita: DIREITO TRIBUTÁRIO – LEI INTERPRETATIVA – APLICAÇÃO RETROATIVA DA LEI COMPLEMENTAR Nº 118/2005 – DESCABIMENTO – VIOLAÇÃO À SEGURANÇA JURÍDICA – NECESSIDADE DE OBSERVÂNCIA DA VACACIO LEGIS – APLICAÇÃO DO PRAZO REDUZIDO PARA REPETIÇÃO OU COMPENSAÇÃO DE INDÉBITOS AOS PROCESSOS AJUIZADOS A PARTIR DE 9 DE JUNHO DE 2005. Quando do advento da LC 118/05, estava consolidada a orientação da Primeira Seção do STJ no sentido de que, para os tributos sujeitos a lançamento por homologação, o prazo para repetição ou compensação de indébito era de 10 anos contados do seu fato gerador, tendo em conta a aplicação combinada dos arts. 150, § 4º, 156, VII, e 168, I, do CTN. A LC 118/05, embora tenha se autoproclamado interpretativa, implicou inovação normativa, tendo reduzido o prazo de 10 anos contados do fato gerador para 5 anos contados do pagamento indevido. Lei supostamente interpretativa que, em verdade, inova no mundo jurídico deve ser considerada como lei nova. Inocorrência de violação à autonomia e independência dos Poderes, porquanto a lei expressamente interpretativa também se submete, como qualquer outra, ao controle judicial quanto à sua natureza, validade e aplicação. A aplicação retroativa de novo e reduzido prazo para a repetição ou compensação de indébito tributário estipulado por lei nova, fulminando, de imediato, pretensões deduzidas tempestivamente à luz do prazo então aplicável, bem como a aplicação imediata às pretensões pendentes de ajuizamento quando da publicação da lei, sem resguardo de nenhuma regra de transição, implicam ofensa ao princípio da segurança jurídica em seus conteúdos de proteção da confiança e de garantia do acesso à Justiça. Afastandose as aplicações Fl. 84DF CARF MF Impresso em 23/02/2012 por LEVI ANTONIO DA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2011 por LEVI ANTONIO DA SILVA, Assinado digitalmente em 13/02/201 2 por ALEXANDRE GOMES, Assinado digitalmente em 22/02/2012 por WALBER JOSE DA SILVA Processo nº 10935.002623/200712 Acórdão n.º 330201.308 S3C3T2 Fl. 4 7 inconstitucionais e resguardandose, no mais, a eficácia da norma, permitese a aplicação do prazo reduzido relativamente às ações ajuizadas após a vacatio legis, conforme entendimento consolidado por esta Corte no enunciado 445 da Súmula do Tribunal. O prazo de vacatio legis de 120 dias permitiu aos contribuintes não apenas que tomassem ciência do novo prazo, mas também que ajuizassem as ações necessárias à tutela dos seus direitos. Inaplicabilidade do art. 2.028 do Código Civil, pois, não havendo lacuna na LC 118/08, que pretendeu a aplicação do novo prazo na maior extensão possível, descabida sua aplicação por analogia. Além disso, não se trata de lei geral, tampouco impede iniciativa legislativa em contrário. Reconhecida a inconstitucionalidade art. 4º, segunda parte, da LC 118/05, considerandose válida a aplicação do novo prazo de 5 anos tãosomente às ações ajuizadas após o decurso da vacatio legis de 120 dias, ou seja, a partir de 9 de junho de 2005. Aplicação do art. 543B, § 3º, do CPC aos recursos sobrestados. Recurso extraordinário desprovido. Ou seja, para pedidos de restituição protocolados até 09/06/2005 teremos o prazo de 10 anos, e para os pedidos protocolados em datas posteriores teremos o prazo de 5 anos. No presente caso o pedido foi protocolado em 15/06/2007, estando assim submetido ao prazo de 5 anos conforme interpretação conferida pela Lei Complementar 118/2005. Como o período relacionado aos alegados pagamentos indevidos compreende as competências 06/1997 a 02/1998, estão todos atingidos pela prescrição. Por fim, vale registrar que o Regimento Interno do CARF determina a obrigatoriedade da aplicação das decisões proferidas pelo Supremo Tribunal, com aplicação do rito estabelecido no art. 543 B do CPC, senão vejamos: Art. 62A. As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática prevista pelos artigos 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973, Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. Em relação aos argumentos de omissão da decisão recorrida em relação ao mérito e por conseqüência a validade dos créditos pleiteados, entendo que, tendo em vista o reconhecimento da prescrição da totalidade dos créditos pleiteados, esta não se faz necessária pois a prescrição é matéria preliminar que prejudica o pedido e a analise de seu mérito. Por todo o exposto, voto por NEGAR PROVIMENTO ao Recurso Voluntário. Alexandre Gomes Fl. 85DF CARF MF Impresso em 23/02/2012 por LEVI ANTONIO DA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2011 por LEVI ANTONIO DA SILVA, Assinado digitalmente em 13/02/201 2 por ALEXANDRE GOMES, Assinado digitalmente em 22/02/2012 por WALBER JOSE DA SILVA 8 Fl. 86DF CARF MF Impresso em 23/02/2012 por LEVI ANTONIO DA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2011 por LEVI ANTONIO DA SILVA, Assinado digitalmente em 13/02/201 2 por ALEXANDRE GOMES, Assinado digitalmente em 22/02/2012 por WALBER JOSE DA SILVA
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