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9991159 #
Numero do processo: 10730.910411/2009-61
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Jun 15 00:00:00 UTC 2023
Data da publicação: Wed Jul 19 00:00:00 UTC 2023
Ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA (IRPF) Ano-calendário: 2006 OMISSÃO DE RENDIMENTOS TRIBUTÁVEIS. ISENÇÃO. MOLÉSTIA GRAVE. ENUNCIADO 63 DA SÚMULA DO CARF. Para gozo da isenção do imposto de renda da pessoa física pelos portadores de moléstia grave, os rendimentos devem ser provenientes de aposentadoria, reforma, reserva remunerada ou pensão e a moléstia deve ser devidamente comprovada por laudo pericial emitido por serviço médico oficial da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios - Súmula CARF nº 63.
Numero da decisão: 2402-011.689
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso voluntário interposto. (documento assinado digitalmente) Francisco Ibiapino Luz - Presidente (documento assinado digitalmente) Ana Claudia Borges de Oliveira – Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Ana Claudia Borges de Oliveira (Relatora), Francisco Ibiapino Luz (Presidente), Diogo Cristian Denny, Gregório Rechmann Junior, José Marcio Bittes, Rodrigo Duarte Firmino, Rodrigo Rigo Pinheiro e Wilderson Botto (suplente convocado).
Nome do relator: ANA CLAUDIA BORGES DE OLIVEIRA

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ISENÇÃO. MOLÉSTIA GRAVE. ENUNCIADO 63 DA SÚMULA DO CARF. Para gozo da isenção do imposto de renda da pessoa física pelos portadores de moléstia grave, os rendimentos devem ser provenientes de aposentadoria, reforma, reserva remunerada ou pensão e a moléstia deve ser devidamente comprovada por laudo pericial emitido por serviço médico oficial da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios - Súmula CARF nº 63. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso voluntário interposto. (documento assinado digitalmente) Francisco Ibiapino Luz - Presidente (documento assinado digitalmente) Ana Claudia Borges de Oliveira – Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Ana Claudia Borges de Oliveira (Relatora), Francisco Ibiapino Luz (Presidente), Diogo Cristian Denny, Gregório Rechmann Junior, José Marcio Bittes, Rodrigo Duarte Firmino, Rodrigo Rigo Pinheiro e Wilderson Botto (suplente convocado). Relatório Trata-se de recurso voluntário interposto da Decisão (fls. 25 e 26) que julgou improcedente a impugnação apresentada contra notificação de lançamento de IRPF, ano- calendário 2006, exercício 2007, na qual a recorrente sustentou o reconhecimento do seu direito à isenção, em face da existência de moléstia grave. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 73 0. 91 04 11 /2 00 9- 61 Fl. 97DF CARF MF Original Fl. 2 do Acórdão n.º 2402-011.689 - 2ª Sejul/4ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10730.910411/2009-61 A DRJ concluiu que a isenção somente se aplica aos valores recebidos a título de aposentadoria ou reforma e desde que existente uma das moléstias tipificadas no texto legal; além disso, há ausência de competência da Delegacia de Julgamento para rever de ofício a declaração de ajuste do contribuinte. A recorrente foi intimada em 17/10/2011 (fl. 38 do PDF) e interpôs recurso voluntário em 16/11/2011 alegando que é portadora de cardiopatia grave, o que já fora reconhecido pela DRJ, e que deve ser conhecido o seu direito. Na sessão de 02/10/2018, esta Turma converteu o julgamento em diligência (Resolução 2402-000.691 – fls. 55) para que a unidade de origem juntasse ao presente processo os laudos acostados às fls. 3 e 7/8 do Processo nº 13736.003074/200819, onde foi verificada a efetiva existência da moléstia grave. Em resposta, vieram os documentos de fls. 62 a 71. ela Voto Conselheira Ana Claudia Borges de Oliveira, Relatora. Da admissibilidade O recurso voluntário é tempestivo e preenche os demais requisitos de admissibilidade. Assim, dele conheço e passo à análise da matéria. Das alegações recursais Nos termos relatados, sessão de 02/10/2018, esta Turma converteu o julgamento em diligência (Resolução 2402-000.691 – fls. 55) para que a unidade de origem juntasse ao presente processo os laudos acostados às fls. 3 e 7/8 do Processo nº 13736.003074/200819, onde foi verificada a efetiva existência da moléstia grave. Conforme muito bem redigido pelo relator da Resolução, muito embora a recorrente não tenha anexado o laudo médico a este PAF, impedindo que se possa verificar a efetiva existência de moléstia grave arrolada no Regulamento do Imposto de Renda, observa-se que a DRJ, no PAF 13736.003074/200819, julgou procedente a manifestação de inconformidade ali apresentada, reconhecendo o direito creditório relativo ao imposto de renda na fonte sobre o 13º salário (neste PAF se trata do IRPF devido no ajuste), ao argumento de que os laudos exarados pelo Município de Cabo Frio demonstrariam a existência de cardiopatia grave nos anos-calendário 2003 a 2007. (...)Diante do princípio da verdade real, e para evitar decisões eventualmente conflitantes, entendo que o presente julgamento deve ser convertido em diligência, para que a unidade de origem junte aos presentes autos os laudos acostados às fls. 03 e 07/08 do PAF 13736.003074/200819. De fato, o processo administrativo fiscal é regido por diversos princípios, dentre eles o da verdade material, que impõe a perseguição pela realidade dos fatos (prática do fato gerador) praticados pelo contribuinte, podendo o julgador, inclusive de ofício, independentemente de requerimento expresso, realizar diligências para aferir os eventos ocorridos. O Decreto 70.237, de 6 de março 1972, que rege o processo administrativo fiscal, dispõe que na apreciação da prova, a autoridade julgadora formará livremente sua convicção, Fl. 98DF CARF MF Original Fl. 3 do Acórdão n.º 2402-011.689 - 2ª Sejul/4ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10730.910411/2009-61 podendo determinar as diligências que entender necessárias (art. 29) e permite, inclusive de ofício, que a autoridade julgadora, na apreciação da prova, determine a realização de diligência, quando entender necessária para formação da sua livre convicção (art. 18); é o princípio do formalismo moderado. Por força do princípio da verdade material, se o julgador verifica que a prova, ainda que apresentada fora do prazo, milita a favor do contribuinte, deve analisá-la, não devendo sua análise e conclusão observar os aspectos exclusivamente aspectos formais do processo administrativo fiscal. Assim, a exigência da verdade material corresponde à busca pela aproximação entre a realidade factual e sua representação formal; aproximação entre os eventos ocorridos na dinâmica econômica e o registro formal de sua existência; entre a materialidade do evento econômico (fato imponível) e sua formalização através do lançamento tributário. A busca pela verdade material é princípio de observância indeclinável da Administração tributária no âmbito de suas atividades procedimentais e processuais 1 . A Le n˚ 7 713, de 22 de dezemb de 1988, prevê que as pessoas portadoras de neoplasia maligna ou outras doenças graves e que estejam na inatividade não pagarão imposto de renda sobre os rendimentos recebidos a título de aposentadoria, pensão ou reforma – art. 6º, XIV. O art. 30 da Lei n 9.250, de 26 de dezembro de 1995 2 , por sua vez, afirma que a moléstia deve ser comprovada mediante laudo pericial emitido por serviço médico oficial, da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. No mesmo sentido, o art. 39, incisos XXXI e XXXIII, e §§ 4º e 5º, do Regulamento do Imposto de Renda (RIR/99), veiculado pelo Decreto nº 3.000, de 26 de março de 1999, vigente à época dos fatos, dispõe que são isentos os proventos de aposentadoria recebidos por portador de moléstia grave atestada por laudo pericial emitido por serviço médico oficial. Consolidando as disposições do ordenamento jurídico, assim dispõe o Enunciado nº 63 da Súmula do CARF: Súmula CARF nº 63: Para gozo da isenção do imposto de renda da pessoa física pelos portadores de moléstia grave, os rendimentos devem ser provenientes de aposentadoria, reforma, reserva remunerada ou pensão e a moléstia deve ser devidamente comprovada por laudo pericial emitido por serviço médico oficial da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios. Importa salientar que a isenção aplica-se aos rendimentos recebidos a partir da data em que a doença foi contraída, quando identificada no laudo médico. Pois bem. No tocante ao laudo médico comprobatório da moléstia grave, o Superior Tribunal de Justiça sumulou o entendimento de ser prescindível a sua emissão por serviço médico oficial, da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, em privilégio ao livre convencimento motivado do julgador. 1 MARINS, James. Direito processual tributário brasileiro. 4. ed. São Paulo, Dialética, 2005, p. 178 - 179. 2 Art. 30. A partir de 1º de janeiro de 1996, para efeito do reconhecimento de novas isenções de que tratam os incisos XIV e XXI do art. 6º da Lei nº 7.713, de 22 de dezembro de 1988, com a redação dada pelo art. 47 da Lei nº 8.541, de 23 de dezembro de 1992, a moléstia deverá ser comprovada mediante laudo pericial emitido por serviço médico oficial, da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. Fl. 99DF CARF MF Original Fl. 4 do Acórdão n.º 2402-011.689 - 2ª Sejul/4ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10730.910411/2009-61 Confira-se: Súmula 598-STJ: É desnecessária a apresentação de laudo médico oficial para o reconhecimento judicial da isenção do Imposto de Renda, desde que o magistrado entenda suficientemente demonstrada a doença grave por outros meios de prova. (STJ. 1ª Seção. Aprovada em 08/10/2017). Da análise dos documentos anexados, observa-se que os laudos exarados pelo Município de Cabo Frio demonstram a existência de cardiopatia grave nos anos-calendário 2003 a 2007. Nesse sentido é o entendimento do CARF: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA (IRPF) Exercício: 2018 NORMAS PROCESSUAIS. APRESENTAÇÃO DE DOCUMENTOS APÓS A IMPUGNAÇÃO. Salvo nas hipóteses contempladas no seu parágrafo quarto, dispõe o artigo 16 do Decreto 70.235/72 que a prova documental deve ser apresentada por ocasião da impugnação. No entanto, naqueles casos em que tal documento tenha a capacidade, por si só, de desconstituir o lançamento, essa regra pode ser flexibilizada em respeito ao princípio da verdade material. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. ISENÇÃO POR MOLÉSTIA GRAVE. Para o gozo da regra isentiva devem ser comprovados, cumulativamente (i) que os rendimentos sejam oriundos de aposentadoria, pensão ou reforma, (ii) que o contribuinte seja portador de moléstia grave prevista em lei e (iii) que a moléstia grave esteja comprovada por laudo médico oficial. (Acórdão 2201-010.808, Relator Conselheiro Marco Aurélio de Oliveira Barbosa, Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção, sessão 15/06/2023, publicado 30/06/2023) ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Ano-calendário: 2004 PROVAS DOCUMENTAIS COMPLEMENTARES APRESENTADAS NO RECURSO VOLUNTÁRIO RELACIONADAS COM A FUNDAMENTAÇÃO DO OBJETO LITIGIOSO TEMPESTIVAMENTE INSTAURADO. APRECIAÇÃO. PRINCÍPIOS DO FORMALISMO MODERADO E DA BUSCA PELA VERDADE MATERIAL. NECESSIDADE DE SE CONTRAPOR FATOS E FUNDAMENTOS DA DECISÃO RECORRIDA. INOCORRÊNCIA DE PRECLUSÃO. Em homenagem ao princípio da verdade material e do formalismo moderado, que devem viger no âmbito do processo administrativo fiscal, deve-se conhecer a prova documental complementar apresentada no recurso voluntário que guarda relação com a matéria litigiosa controvertida desde a manifestação de inconformidade, especialmente para que se obtenha, em tempo razoável, decisão de mérito justa e efetiva. O documento novo, colacionado com o recurso voluntário, pode ser apreciado quando se destinar a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos, sendo certo que os fundamentos da decisão de primeira instância constituem nova linguagem jurídica a ser contraposta pelo administrado, de modo a se invocar a normatividade da alínea "c" do § 4.º do art. 16 do Decreto n.º 70.235, não se cogitando de preclusão. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA (IRPF) Ano- calendário: 2004 PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. ISENÇÃO. DOENÇA GRAVE. PROVENTOS DE APOSENTADORIA, REFORMA OU PENSÃO. LAUDO MÉDICO PERICIAL. CONTEMPORANEIDADE DOS SINTOMAS OU DA RECIDIVA DA ENFERMIDADE. Para fazer jus à isenção do IRPF, o contribuinte deve demonstrar, cumulativamente, que os proventos são oriundos de aposentadoria, Fl. 100DF CARF MF Original Fl. 5 do Acórdão n.º 2402-011.689 - 2ª Sejul/4ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10730.910411/2009-61 reforma, reserva remunerada ou pensão e que é portador ou foi diagnosticado com uma das moléstias graves arroladas no inciso XIV do art. 6.º da Lei 7.713, de conformidade com laudo pericial emitido por serviço médico oficial da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios. É inexigível a demonstração da contemporaneidade dos sintomas, a indicação de validade do laudo pericial ou a comprovação da recidiva da moléstia grave. Precedente do STJ, Súmula 627/STJ. Nota PGFN/CRJ/N.º 863/2015, item 1.22, alínea v” , da lista de dispensa de contestar e recorrer da PGFN. Parecer PGFN/CRJ/N.º 701/2016, aprovado pelo Ministro de Estado da Fazenda, conforme despacho publicado no DOU de 17 de novembro de 2016. Ato Declaratório PGFN n.º 5, de 3 de maio de 2016, e Solução de Consulta n.º 220 COSIT, de 2017. Direito Creditório Reconhecido (Acórdão nº 2202-009.759, Relator Conselheiro Leonam Rocha de Medeiros, Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção, sessão 04/04/2023, publicado 15/05/2023) Portanto, entendo que a recorrente comprovou ser portadora de moléstia grave no ano-calendário de 2006 e faz jus à isenção do imposto de renda. Conclusão Diante do exposto, voto por conhecer e dar provimento ao recurso voluntário. (documento assinado digitalmente) Ana Claudia Borges de Oliveira Fl. 101DF CARF MF Original

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9995113 #
Numero do processo: 18470.736053/2019-18
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Jul 13 00:00:00 UTC 2023
Data da publicação: Fri Jul 21 00:00:00 UTC 2023
Ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA (IRPF) Ano-calendário: 2017 RECLAMAÇÃO TRABALHISTA. JUROS DE MORA RELACIONADOS AOS PAGAMENTOS DOS DIREITOS E VANTAGENS DECORRENTES DA RECLAMATÓRIA. PARCELA INDENIZATÓRIA. NÃO INCIDÊNCIA. Não incide imposto de renda sobre os juros de mora legais vinculados a verbas trabalhistas reconhecidas em decisão judicial, isto é, devidos pelo atraso no pagamento de remuneração por exercício de emprego, cargo ou função. Tema 808 da Repercussão Geral do STF. Tema Repetitivo 470 do STJ. OMISSÃO DE RENDIMENTOS DECORRENTE DE AÇÃO JUDICIAL. RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE (RRA). O imposto de renda incidente sobre verbas pagas em atraso e acumuladamente (rendimentos recebidos acumuladamente), em virtude de condenação judicial da fonte pagadora, deve observar as tabelas e alíquotas do imposto vigentes a cada mês de referência (regime de competência), conforme decisão do STF no RE 614.406, vedando-se a utilização do montante global como parâmetro (regime de caixa). Exercida a opção de tributação exclusiva na fonte essa deve ser observada.
Numero da decisão: 2202-010.122
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso para cancelar do lançamento a parcela que se refira aos juros de mora legais vinculados a verbas trabalhistas reconhecidas em decisão judicial. (documento assinado digitalmente) Sonia de Queiroz Accioly - Presidente (documento assinado digitalmente) Leonam Rocha de Medeiros - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Sara Maria de Almeida Carneiro Silva, Ludmila Mara Monteiro de Oliveira, Christiano Rocha Pinheiro, Leonam Rocha de Medeiros, Gleison Pimenta Sousa, Eduardo Augusto Marcondes de Freitas, Martin da Silva Gesto e Sonia de Queiroz Accioly (Presidente).
Nome do relator: LEONAM ROCHA DE MEDEIROS

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conteudo_txt : Metadados => date: 2023-07-19T22:46:00Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.5; xmp:CreatorTool: Microsoft® Word 2010; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; language: pt-BR; dcterms:created: 2023-07-19T22:46:00Z; Last-Modified: 2023-07-19T22:46:00Z; dcterms:modified: 2023-07-19T22:46:00Z; dc:format: application/pdf; version=1.5; Last-Save-Date: 2023-07-19T22:46:00Z; pdf:docinfo:creator_tool: Microsoft® Word 2010; access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:modified: 2023-07-19T22:46:00Z; meta:save-date: 2023-07-19T22:46:00Z; pdf:encrypted: true; modified: 2023-07-19T22:46:00Z; Content-Type: application/pdf; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; dc:language: pt-BR; meta:creation-date: 2023-07-19T22:46:00Z; created: 2023-07-19T22:46:00Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 6; Creation-Date: 2023-07-19T22:46:00Z; pdf:charsPerPage: 2105; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; pdf:docinfo:created: 2023-07-19T22:46:00Z | Conteúdo => S2-C 2T2 Ministério da Economia Conselho Administrativo de Recursos Fiscais Processo nº 18470.736053/2019-18 Recurso Voluntário Acórdão nº 2202-010.122 – 2ª Seção de Julgamento / 2ª Câmara / 2ª Turma Ordinária Sessão de 12 de julho de 2023 Recorrente WESLEY STUMPF BELLEGARDE MARIZ DE MARACAJA Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA (IRPF) Ano-calendário: 2017 RECLAMAÇÃO TRABALHISTA. JUROS DE MORA RELACIONADOS AOS PAGAMENTOS DOS DIREITOS E VANTAGENS DECORRENTES DA RECLAMATÓRIA. PARCELA INDENIZATÓRIA. NÃO INCIDÊNCIA. Não incide imposto de renda sobre os juros de mora legais vinculados a verbas trabalhistas reconhecidas em decisão judicial, isto é, devidos pelo atraso no pagamento de remuneração por exercício de emprego, cargo ou função. Tema 808 da Repercussão Geral do STF. Tema Repetitivo 470 do STJ. OMISSÃO DE RENDIMENTOS DECORRENTE DE AÇÃO JUDICIAL. RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE (RRA). O imposto de renda incidente sobre verbas pagas em atraso e acumuladamente (rendimentos recebidos acumuladamente), em virtude de condenação judicial da fonte pagadora, deve observar as tabelas e alíquotas do imposto vigentes a cada mês de referência (regime de competência), conforme decisão do STF no RE 614.406, vedando-se a utilização do montante global como parâmetro (regime de caixa). Exercida a opção de tributação exclusiva na fonte essa deve ser observada. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso para cancelar do lançamento a parcela que se refira aos juros de mora legais vinculados a verbas trabalhistas reconhecidas em decisão judicial. (documento assinado digitalmente) Sonia de Queiroz Accioly - Presidente (documento assinado digitalmente) Leonam Rocha de Medeiros - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Sara Maria de Almeida Carneiro Silva, Ludmila Mara Monteiro de Oliveira, Christiano Rocha Pinheiro, Leonam Rocha AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 18 47 0. 73 60 53 /2 01 9- 18 Fl. 159DF CARF MF Original Fl. 2 do Acórdão n.º 2202-010.122 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 18470.736053/2019-18 de Medeiros, Gleison Pimenta Sousa, Eduardo Augusto Marcondes de Freitas, Martin da Silva Gesto e Sonia de Queiroz Accioly (Presidente). Relatório Cuida-se, o caso versando, de Recurso Voluntário (e-fls. 131/138), com efeito suspensivo e devolutivo ― autorizado nos termos do art. 33 do Decreto n.º 70.235, de 6 de março de 1972, que dispõe sobre o processo administrativo fiscal ―, interposto pelo recorrente, devidamente qualificado nos fólios processuais, relativo ao seu inconformismo com a decisão de primeira instância (e-fls. 117/123), proferida em sessão de 11/03/2021, consubstanciada no Acórdão n.º 102-001.275, da 4.ª Turma da Delegacia de Julgamento da Receita Federal do Brasil 02 (DRJ/02), que, por unanimidade de votos, julgou improcedente o pedido deduzido na impugnação, cujo acórdão restou assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA – IRPF Exercício: 2018 OMISSÃO DE RENDIMENTOS. AJUSTE ANUAL. Os valores dos rendimentos recebidos no ano-calendário, que não se revestirem da isenção pleiteada pelo contribuinte na declaração de ajuste anual, são considerados omitidos no lançamento de ofício. RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE. TRIBUTAÇÃO EXCLUSIVA NA FONTE. Os rendimentos recebidos acumuladamente, após a edição da Lei nº 12.350, de 20/12/2010 (DOU de 21/12/2010), são tributados exclusivamente na fonte, no mês do recebimento ou crédito, e em separado dos demais rendimentos recebidos no mês, devendo ser informados em campo próprio da Declaração de Ajuste Anual, ou mediante opção irretratável do contribuinte poderá integrar a base de cálculo do imposto de renda na Declaração de Ajuste Anual do ano-calendário do recebimento. Na ausência de opção pelo contribuinte, aplica-se a regra geral de tributação exclusiva na fonte. Na situação em exame, o contribuinte não atendeu aos requisitos previstos na legislação para exercer a opção de tributar valor a título de RRA como se fora de tributação exclusiva na fonte. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Do lançamento fiscal O lançamento, em sua essência e circunstância, para o período de apuração em referência, com auto de infração juntamente com as peças integrativas e respectivo Relatório Fiscal juntado aos autos, foi bem delineado e sumariado no relatório do acórdão objeto da irresignação, pelo que passo a adotá-lo: O presente processo, trata de autuação contra a contribuinte acima qualificado, conforme Notificação de Lançamento de fls. 94/105, para cobrança do Imposto de Renda Pessoa Física, exercício de 2018, ano-calendário de 2017, no valor de R$ 103.994,92 (cento e três mil, novecentos e noventa e quatro reais e noventa e dois centavos), valor a ser acrescido dos multa de ofício de 75% e juros de mora à taxa SELIC, calculados de acordo com a legislação de regência. O lançamento de ofício decorreu de procedimento de verificação do cumprimento das obrigações tributárias pelo contribuinte, tendo sido constatado Omissão de Rendimentos Recebidos Acumuladamente – Tributação Exclusiva, fls. 98/105, descrição dos fatos e enquadramento legal da Notificação de Lançamento ora guerreada. Fl. 160DF CARF MF Original Fl. 3 do Acórdão n.º 2202-010.122 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 18470.736053/2019-18 Da Impugnação ao lançamento A impugnação, que instaurou o contencioso administrativo fiscal, dando início e delimitando os contornos da lide, foi apresentada pelo recorrente. Em suma, controverteu-se na forma apresentada nas razões de inconformismo, conforme bem relatado na decisão vergastada, pelo que peço vênia para reproduzir: Em 11/12/2019, o contribuinte foi cientificado da exigência tributária (AR de fls. 93) e, inconformado, no dia 30/12/2019, o sujeito passivo acostou aos autos a impugnação de fls. 02/92, onde alega o que segue: Infração: OMISSÃO DE RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE – TRIBUTAÇÃO EXCLUSIVA Fonte Pagadora: (...). CPF Beneficiário: (...). Nome Beneficiário: (...). Valor da Infração: R$ 683.563,12. Não concordo com essa infração. - Outras alegações: O rendimento contestado é isento por possuir natureza indenizatória, pois refere-se a “Juros de Mora” de Processo Trabalhista. Do Acórdão de Impugnação A tese de defesa não foi acolhida pela DRJ, primeira instância do contencioso tributário. Na decisão a quo foram refutadas cada uma das insurgências do contribuinte, conforme bem sintetizado na ementa alhures transcrita que fixou as teses decididas. Do Recurso Voluntário e encaminhamento ao CARF No recurso voluntário o sujeito passivo, reiterando termos da impugnação, postula a reforma da decisão de primeira instância, a fim de cancelar o lançamento. Nesse contexto, os autos foram encaminhados para este Egrégio Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), sendo, posteriormente, distribuído por sorteio público para este relator. É o que importa relatar. Passo a devida fundamentação analisando, primeiramente, o juízo de admissibilidade e, se superado este, o juízo de mérito para, posteriormente, finalizar com o dispositivo. Voto Conselheiro Leonam Rocha de Medeiros, Relator. Admissibilidade O Recurso Voluntário atende a todos os pressupostos de admissibilidade intrínsecos, relativos ao direito de recorrer, e extrínsecos, relativos ao exercício deste direito, sendo caso de conhecê-lo. Fl. 161DF CARF MF Original Fl. 4 do Acórdão n.º 2202-010.122 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 18470.736053/2019-18 Especialmente, quanto aos pressupostos extrínsecos, observo que o recurso se apresenta tempestivo (notificação em 10/08/2021, e-fl. 128, protocolo recursal em 06/09/2021, e-fl. 131, e despacho de encaminhamento, e-fl. 149), tendo respeitado o trintídio legal, na forma exigida no art. 33 do Decreto n.º 70.235, de 1972, que dispõe sobre o Processo Administrativo Fiscal, bem como resta adequada a representação processual, inclusive contando com advogado regularmente habilitado, de toda sorte, anoto que, conforme a Súmula CARF n.º 110, no processo administrativo fiscal, é incabível a intimação dirigida ao endereço de advogado do sujeito passivo, sendo a intimação destinada ao contribuinte. Por conseguinte, conheço do recurso voluntário. Mérito Quanto ao juízo de mérito, passo a apreciá-lo. De início, analisando a decisão da DRJ, basicamente, é possível dizer que a controvérsia se limita ao RRA e aos juros de mora em reclamatória trabalhista. A primeira instância entendeu que para o RRA se aplica o regime de competência. Noutro norte, entendeu que, em relação aos juros de mora, “somente são alcançados pela isenção os juros e correção monetária referentes ao FGTS, creditados em conta vinculada”, de modo que os juros de mora recebidos em reclamatória trabalhista seriam tributáveis. O recorrente não se conforma com a tributação e, também, juntou petição (e-fl. 155 e seguintes), já no curso do recurso voluntário, alegando aplicação do Tema 808 da Repercussão Geral do Supremo Tribunal Federal. - Juros de mora não incidência do IRPF sobre parcelas advindas de relação trabalhista conforme reconhecimento em reclamatória trabalhista Compulsando os autos observo que o processo está relacionado ao Tema n.º 808, RE 855.091 (“Incidência de imposto de renda sobre juros de mora recebidos por pessoa física”), de Repercussão Geral do Supremo Tribunal Federal (STF). Neste sentido, importante dizer que em decisão final do Tema n.º 808, RE 855.091, de Repercussão Geral do STF, foi firmada a Tese segundo a qual: “Não incide imposto de renda sobre os juros de mora devidos pelo atraso no pagamento de remuneração por exercício de emprego, cargo ou função.” Ademais, em sede de Recurso Repetitivo, o STJ, no Tema Repetitivo 470, REsp 1.227.133, debatendo a tributação pelo Imposto de Renda dos juros de mora recebidos como consectários de sentença condenatória em reclamatória trabalhista, igualmente firmou a Tese segundo a qual: “Não incide Imposto de Renda sobre os juros moratórios legais vinculados a verbas trabalhistas reconhecidas em decisão judicial.” Na ocasião do julgamento do STF a Excelsa Corte fez uma distinção entre as possíveis naturezas dos juros de mora. Explanou o STF que os juros de mora quando têm a natureza de indenização pelos danos emergentes, vale dizer, quando se destinam a compensar aquilo que efetivamente se perdeu, não se amoldam ao conteúdo da materialidade do imposto sobre a renda prevista no art. 153, inciso III, da Constituição Federal. Todavia, quando tivessem Fl. 162DF CARF MF Original Fl. 5 do Acórdão n.º 2202-010.122 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 18470.736053/2019-18 natureza de lucros cessantes, e desde que caracterizado o acréscimo patrimonial (materialidade necessária para a incidência tributária), poderiam, em tese, sofrer a incidência tributária, no entanto, não é a hipótese dos juros de mora sobre as verbas recebidas na Reclamação Trabalhista. Entendeu o STF que os juros de mora pagos em razão do atraso no pagamento de remuneração por exercício de emprego, cargo ou função têm por finalidade a recomposição das efetivas perdas (danos emergentes), de modo que não pode ser tributado pelo IRPF. Portanto, o STF reconheceu o caráter indenizatório dos juros de mora sobre as verbas de reclamatória trabalhista e a sua natureza jurídica autônoma. De certo modo, o STF deixou espaço para a tributação de verba de caráter indenizatório com viés de lucros cessantes, mas, não, dos valores auferidos como danos emergentes, que apenas recompõem o patrimônio desfalcado, sem acrescê-lo, entendendo que essa é a hipótese dos juros de mora sobre verbas decorrente de reclamatória trabalhista. Compreendeu o STF que a demora no adimplemento da remuneração devida ao empregado gera danos emergentes, considerando que seria com o rendimento do seu salário que ele organizaria as próprias finanças e não os recebendo estaria sujeito a todo tipo de intempere se submetendo, por exemplo, a captação do mercado pagando juros ao tomador. Logo, por se tratar de danos emergentes, os juros de mora para a espécie em discussão não podem ser submetidos à tributação do imposto sobre a renda, razão pela qual a Excelsa Corte considerou como não recepcionada pela Constituição Federal a parte do parágrafo único do art. 16 da Lei n.º 4.506, de 1964, e deu ao § 1º do art. 3º da Lei n.º 7.713, de 1988, e ao art. 43, inciso II e § 1º, do CTN interpretação conforme à Constituição da República, excluindo do âmbito de aplicação desses dispositivos a incidência do IRPF sobre os juros de mora legais vinculados a verbas trabalhistas reconhecidas em decisão judicial. Sendo assim, com razão o recorrente neste capítulo para decotar do lançamento a parcela que se refira aos “juros de mora” legais vinculados a verbas trabalhistas reconhecidas em decisão judicial. - Momento da incidência e definição das alíquotas e deduções. Tributação dos Rendimentos Recebidos Acumuladamente (RRA). Regime Competência. Consta dos autos que o recorrente ajuizou e foi vitorioso vindo a receber verbas por força de reclamatória trabalhista contra o Banco do Brasil. A declaração do imposto sobre a renda informa parte dos valores recebidos em RRA, com opção de tributação exclusiva na fonte (e-fls. 108). Houve o procedimento de malha fiscal para apurar a diferença não declarada. O recorrente, em outras palavras, não se conforma com a notificação fiscal de lançamento. Foram inclusos os juros de mora (matéria já abordada anteriormente). Lado outro, aplicou-se o cálculo com base em regime de competência e a DRJ, assim, entendeu correto o procedimento. Sobre o regime de competência o Supremo Tribunal Federal (STF), no RE n.º 614.406 (transitado em julgado em 09/12/2014), estabeleceu: “O Imposto de Renda incidente sobre verbas recebidas acumuladamente deve observar o regime de competência, aplicável a Fl. 163DF CARF MF Original Fl. 6 do Acórdão n.º 2202-010.122 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 18470.736053/2019-18 alíquota correspondente ao valor recebido mês a mês, e não a relativa ao total satisfeito de uma única vez.” Deste modo, inexiste equívoco na aplicação do regime de competência. Sendo assim, sem razão o recorrente contra o RRA. Conclusão quanto ao Recurso Voluntário Em apreciação racional da lide, motivado pelas normas aplicáveis à espécie, relatado, analisado e por mais o que dos autos constam, em resumo, conheço do recurso e, no mérito, dou-lhe provimento parcial para decotar do lançamento a parcela que se refira aos juros de mora legais vinculados a verbas trabalhistas reconhecidas em decisão judicial. A liquidação deste julgado deverá apurar os valores a partir de consulta ao processo judicial e elementos destes autos, compreendendo a composição de principal, competências (indica-se no RRA 198 meses) e juros de mora sobre verbas reconhecidas em reclamatória trabalhista. Alfim, finalizo em sintético dispositivo. Dispositivo Ante o exposto, DOU PARCIAL PROVIMENTO ao recurso para decotar do lançamento a parcela que se refira aos juros de mora legais vinculados a verbas trabalhistas reconhecidas em decisão judicial. É como Voto. (documento assinado digitalmente) Leonam Rocha de Medeiros Fl. 164DF CARF MF Original

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Numero do processo: 13875.720244/2014-79
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Apr 25 00:00:00 UTC 2023
Data da publicação: Wed Jul 19 00:00:00 UTC 2023
Ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA (IRPF) Exercício: 2012 IMPUGNAÇÃO INTEMPESTIVA. RECURSO VOLUNTÁRIO. AUSÊNCIA DE PRELIMINAR DE TEMPESTIVIDADE. NÃO CONHECIMENTO. A impugnação intempestiva não instaura a fase litigiosa do procedimento, exceto se a preliminar de tempestividade for suscitada em Recurso Voluntário, situação em que será cabível o julgamento dessa matéria. Não sendo assim, o recurso não é conhecido no CARF.
Numero da decisão: 2001-005.834
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Voluntário. (documento assinado digitalmente) Honorio Albuquerque de Brito – Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Marcelo Rocha Paura, Thiago Buschinelli Sorrentino, Honorio Albuquerque de Brito (Presidente).
Nome do relator: HONORIO ALBUQUERQUE DE BRITO

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RECURSO VOLUNTÁRIO. AUSÊNCIA DE PRELIMINAR DE TEMPESTIVIDADE. NÃO CONHECIMENTO. A impugnação intempestiva não instaura a fase litigiosa do procedimento, exceto se a preliminar de tempestividade for suscitada em Recurso Voluntário, situação em que será cabível o julgamento dessa matéria. Não sendo assim, o recurso não é conhecido no CARF. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Voluntário. (documento assinado digitalmente) Honorio Albuquerque de Brito – Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Marcelo Rocha Paura, Thiago Buschinelli Sorrentino, Honorio Albuquerque de Brito (Presidente). Relatório A seguir transcreve-se o relatório do acórdão nº 04-51.227 da 1ª Turma da DRJ em Campo Grande/MS (fls. 43 e segs.). Da exigência tributária Exige-se do(a) interessado(a) o crédito tributário abaixo: AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 87 5. 72 02 44 /2 01 4- 79 Fl. 68DF CARF MF Original Fl. 2 do Acórdão n.º 2001-005.834 - 2ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 13875.720244/2014-79 Tal alteração decorre de procedimento fiscal de verificação do cumprimento das obrigações tributárias, por informação inexata na Declaração do IRPF conforme Notificação de Lançamento de fls. 24 e seguintes. Do procedimento fiscal – Descrição dos fatos No item “descrição dos fatos e enquadramento legal” da Notificação original, foram apuradas as seguintes infrações: Da impugnação O(a) contribuinte apresenta a impugnação (fls. 2 e seguintes) alegando, em síntese, que: Fl. 69DF CARF MF Original Fl. 3 do Acórdão n.º 2001-005.834 - 2ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 13875.720244/2014-79 A DRJ não conheceu da impugnação por intempestividade. Do voto do acórdão recorrido: Da Preliminar de Tempestividade Considerando as datas da ciência da Notificação de Lançamento e da apresentação da defesa da contribuinte, cabe analisar, se a impugnação foi, ou não, apresentada dentro do prazo legal, previsto no art. 15, do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, que estabeleceu: “Art. 15. A impugnação, formalizada por escrito e instruída com os documentos em que se fundamentar, será apresentada ao órgão preparador no prazo de 30 (trinta) dias, contados da data em que for feita a intimação da exigência.” (grifei) O art. 23 do Decreto nº 70.235, de 1972, com alterações posteriores, prevê as formas de intimação admitidas no processo administrativo fiscal, entre as quais figura a efetuada por via postal, com prova de recebimento no domicílio tributário eleito pelo sujeito passivo, que retrata a hipótese dos autos. A seguir, transcrição do artigo: “Art. 23. Far-se-á a intimação: Fl. 70DF CARF MF Original Fl. 4 do Acórdão n.º 2001-005.834 - 2ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 13875.720244/2014-79 I – pessoal, pelo autor do procedimento ou por agente do órgão preparador, na repartição ou fora dela, provada com a assinatura do sujeito passivo, seu mandatário ou preposto, ou, no caso de recusa, com declaração escrita de quem o intimar; (Redação dada pelo art. 67 da Lei n.º 9.532/1997) II - por via postal, telegráfica ou por qualquer outro meio ou via, com prova de recebimento no domicílio tributário eleito pelo sujeito passivo; (Redação dada pelo art. 67 da Lei n.º 9.532/1997) III - por meio eletrônico, com prova de recebimento, mediante: a) envio ao domicílio tributário do sujeito passivo; ou b) registro em meio magnético ou equivalente utilizado pelo sujeito passivo. (Redação do inc. III dada pelo art. 113 da Lei n.º 11.196/2005) § 1º. Quando resultar improfícuo um dos meios previstos no caput deste artigo, a intimação poderá ser feita por edital publicado: I - no endereço da administração tributária na internet; II - em dependência, franqueada ao público, do órgão encarregado da intimação; ou III - uma única vez, em órgão da imprensa oficial local. (Redação do par. 1º dada pelo art. 113 da Lei nº 11.196/2005) § 2º. Considera-se feita a intimação: I - Na data da ciência do intimado ou da declaração de quem fizer a intimação, se pessoal; II - no caso do inciso II do caput deste artigo, na data do recebimento ou, se omitida, quinze dias após a data da expedição da intimação; (Redação dada pelo art. 67 da Lei n.º 9.532/1997) III - se por meio eletrônico, 15 (quinze) dias contados da data registrada: a) no comprovante de entrega no domicílio tributário do sujeito passivo; ou b) no meio magnético ou equivalente utilizado pelo sujeito passivo; (Redação do inc. III dada pelo art. 113 da Lei n.º 11.196/2005). IV - 15 (quinze) dias após a publicação do edital, se este for o meio utilizado. (Acrescido pelo art. 113 da Lei n.º 11.196/2005) § 3º Os meios de intimação previstos nos incisos do caput deste artigo não estão sujeitos a ordem de preferência. (Redação dada pelo art. 113 da Lei n.º 11.196/2005) (...) (grifei)” Como se vê, o supra transcrito inciso II do art. 23, autoriza a intimação por via postal e prescreve como condição para a efetivação da intimação que haja prova de seu recebimento no domicílio tributário eleito pelo sujeito passivo. Com a atualização legislativa referida, tornou-se cristalina a regra que suscitava dúvidas ao intérprete. A nova redação do §1º do artigo 23 do decreto 70.235/72 tornou claro que quando resultar improfícuo um dos meios previstos no caput, consolidando o entendimento jurisprudencial de que a intimação poderá ser feita por edital. Existindo a tentativa de intimação via postal, prevista no inciso II do artigo 23, não é necessária a tentativa de intimação pessoal para que seja afixado o edital. Portanto, tendo restado infrutífera a tentativa de intimação via postal, a intimação por edital é válida, nos termos do Decreto nº 70.235/72. No caso concreto, a tentativa de intimar a contribuinte do lançamento foi realizada pela via postal em detrimento da ciência pessoal, cabendo observar que esta escolha é válida e possível conforme se depreende da leitura do § 3º do dispositivo legal antes transcrito. Conforme se pode verificar pelo extrato abaixo, o instrumento de autuação foi enviado por via postal para o endereço eleito pela contribuinte. Fl. 71DF CARF MF Original Fl. 5 do Acórdão n.º 2001-005.834 - 2ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 13875.720244/2014-79 Assim sendo, a presente Notificação de Lançamento que foi emitida em 09/09/2013, foi enviada automaticamente para o endereço eleito pela contribuinte, tendo sido devolvida em virtude de ausência da contribuinte ou terceiros que pudessem recepcionar e assinar o Aviso de Recebimento. Por fim, a contribuinte foi devidamente cientificado da Notificação de Lançamento, através de Edital Malha Fiscal IRPF nº 0001/2014, cuja ciência deu-se em 06/06/2014 (fls. 31 e seguintes), sendo-lhe concedido o prazo de trinta dias para impugnação, exatamente conforme previsto no artigo 15 do Decreto 70.235/72. Portanto, não se vislumbra, no presente processo, qualquer irregularidade que permita acolher para fins de adotar outra data para o início da contagem do prazo para impugnar, que não à constante do Edital Malha Fiscal nº 001/2014, qual seja, 06/06/2014. Desta forma e consideradas as regras de contagem de prazo estabelecidas no já referido Decreto nº 70.235, de 1972, em especial o art. 5º, caput e seu parágrafo único, tem-se que, cientificada a contribuinte em 06/06/2014. Pois bem, considerando que a defesa da autuada foi apresentada somente em 26/09/2014, como se observa da data constante no processo aposto na folha 02, portanto, após o término do prazo para fazê-lo, razão pela qual considero intempestiva a impugnação. A oportunidade de a contribuinte discutir administrativamente o crédito tributário regularmente constituído está condicionada, nesta instância de julgamento, à apresentação de impugnação tempestiva, pois somente ela instaura a fase litigiosa do procedimento fiscal. Quando a petição for apresentada fora do prazo legal, conforme é o caso, cabe observar o disposto no Ato Declaratório Normativo COSIT nº 15, de 12 de julho de 1996, abaixo reproduzido: “O COORDENADOR-GERAL DO SISTEMA DE TRIBUTAÇÃO, no uso de suas atribuições, e tendo em vista o disposto no art. 151, inciso III do Código Tributário Nacional – Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 e nos arts. 15 e 21 do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972, com a redação do art. 1º da Lei nº 8.748, de 9 de dezembro de 1993, Declara, em caráter normativo, às Superintendências Regionais da Receita Federal, às Delegacias da Receita Federal de Julgamento e aos demais interessados que, expirado o prazo para impugnação da exigência, deve ser declarada a revelia e iniciada cobrança amigável, sendo que eventual petição, apresentada fora do prazo, não caracteriza impugnação, não instaura a fase litigiosa do procedimento, não suspende a exigibilidade do crédito tributário nem comporta julgamento de primeira instância, salvo se caracterizada ou suscitada a tempestividade, como preliminar.” Desta forma, demonstrada a intempestividade da petição, protocolizada em 26/09/2014, não cabe qualquer exame de mérito, pois não foi instaurada a fase litigiosa do procedimento, nos termos da legislação de regência. Fl. 72DF CARF MF Original Fl. 6 do Acórdão n.º 2001-005.834 - 2ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 13875.720244/2014-79 Do exposto, VOTO no sentido de não acolher a preliminar de tempestividade suscitada e não conhecer as alegações de mérito da impugnação, por intempestiva. Eventual alteração do lançamento só poderá ser efetuada pela Delegacia da Receita Federal do Brasil – DRF de origem, nos termos do art. 145, inciso III, c/c o art. 149, inciso VIII, ambos do Código Tributário Nacional, se for o caso e a seu prudente critério. Cientificado da decisão de primeira instância em 21/01/2020, o sujeito passivo interpôs, em 27/01/2020, Recurso Voluntário, fl. 59, sustentando, em apertada síntese, que: a) os documentos apresentados cumprem com os requisitos legais e são hábeis a comprovar as despesas médicas - prestação dos serviços e efetivo pagamento b) ocorrência de prescrição intercorrente É o relatório. Voto Conselheiro Honório Albuquerque de Brito, Relator O recurso é tempestivo. Do acima relatado tem-se que a turma julgadora de primeira instância não conheceu da impugnação por intempestividade. A impugnação intempestiva não instaura a fase litigiosa do procedimento, exceto se a preliminar de tempestividade for suscitada em Recurso Voluntário, situação em que será cabível o julgamento dessa matéria, não sendo conhecidas demais alegações eventualmente formuladas pelo recorrente, caso contrário tal análise e julgamento importaria em supressão de instância, ferindo o princípio do duplo grau de jurisdição a que está submetido o processo administrativo tributário. Da leitura do recurso interposto, verifica-se que o recorrente nele não se insurge contra a decisão que declarou a intempestividade da impugnação. Assim sendo, não deve ser conhecido o Recurso Voluntário submetido a esta Turma do CARF. CONCLUSÃO: Por todo o exposto, voto por NÃO CONHECER do Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Honório Albuquerque de Brito Fl. 73DF CARF MF Original Fl. 7 do Acórdão n.º 2001-005.834 - 2ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 13875.720244/2014-79 Fl. 74DF CARF MF Original

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Numero do processo: 10825.722328/2013-63
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jun 20 00:00:00 UTC 2023
Data da publicação: Mon Jul 17 00:00:00 UTC 2023
Ementa: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Ano-calendário: 2008, 2009 PESSOA JURÍDICA. INTIMAÇÃO. POSSIBILIDADE. AUSÊNCIA DE NULIDADE As intimações devem ser endereçadas à pessoa jurídica, no seu endereço cadastrado nos sistemas da Receita Federal, e não ao seu representante legal. Na hipótese de a intimação postal restar improfícua, deve ser realizada por meio de edital, nos termos do art. 23, §1º do Decreto nº 70.235/72. RESPONSÁVEL TRIBUTÁRIO. FALECIMENTO. NECESSIDADE DE INTIMAÇÃO DO INVENTARIANTE OU HERDEIROS. NULIDADE DO LANÇAMENTO. Somente é escusável o erro de intimação na pessoa do de cujus, não acarretando a nulidade do procedimento, quando a Autoridade Fiscal não tem conhecimento do falecimento do sujeito passivo. A contrario sensu, é nulo o lançamento lavrado contra o de cujus, quando a Autoridade Fiscal tem conhecimento do seu falecimento; ou em nome do inventariante, quando sabia já estar concluído o inventário e homologada a partilha. ARROLAMENTO DE BENS E DIREITOS. INCOMPETÊNCIA Não tem o julgador administrativo competência para analisar as controvérsias relativas ao arrolamento de bens. Súmula CARF nº 109. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA (IRPJ) Ano-calendário: 2008, 2009 DEPÓSITOS BANCÁRIOS. PRESUNÇÃO DE OMISSÃO DE RECEITA. POSSIBILIDADE. Verificados os requisitos do artigo 42 da Lei 9.430/1996, está caracterizada a omissão de receita com base em depósitos bancários. É do titular da conta bancária o ônus de comprovar, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos creditados em sua conta de depósito ou investimento e, quando for o caso, a sua tributação. Na hipótese de o titular da conta, regularmente intimado, deixar de fazê-lo, estará materializada a omissão de receita. Não se trata de confundir a movimentação bancária com o “faturamento real” da empresa, mas sim de aplicar artigo 42 da Lei 9.430/1996 para presumir omissão e receita com base em depósitos bancários de origem não comprovada. SIMPLES NACIONAL. EXCLUSÃO. LIVRO-CAIXA DEFICIENTE. ARBITRAMENTO. POSSIBILIDADE. As pessoas jurídicas optantes pelo Simples Nacional são obrigadas a manter livro-caixa, contendo a escrituração de toda sua movimentação financeira e bancária. E, quando a escrituração a que o contribuinte está obrigado contém vícios, erros ou deficiências que a tornem imprestável para identificar a efetiva movimentação financeira, inclusive bancária, a consequência é a apuração do imposto de renda com base no lucro arbitrado, como determina o art. 603 do RIR/2018. BASE DE CÁLCULO. ALEGAÇÕES GENÉRICAS. AUSÊNCIA DE ELEMENTO NOVO. MANUTENÇÃO DA APURAÇÃO REALIZADA DURANTE A FISCALIZAÇÃO. Não tendo os Recorrentes trazido elementos novos ou indicado, forma analítica, eventuais erros cometidos pela Autoridade Fiscal, deve ser mantida a base de cálculo apurada a partir dos créditos bancários cuja origem não foi comprovada. SIMPLES NACIONAL. EXCLUSÃO. CONFIGURAÇÃO DAS HIPÓTESES DOS INCISOS IV E VIII DO ART. 29 DA LEI COMPLEMENTAR N. 123/06. POSSIBILIDADE. Comprovada a configuração das hipóteses de exclusão do Simples Nacional, previstas nos incisos IV e VIII do art. 29 da Lei Complementar n. 123/06, correto está o procedimento adotado pela Autoridade Fiscal. MULTA QUALIFICADA. OUTORGA DE PROCURAÇÃO COM AMPLOS PODERES DE ADMINISTRAÇÃO. INTERPOSIÇÃO DE PESSOAS. CONFIGURAÇÃO. A outorga de amplos poderes de administração a terceiro, que não figura como sócio de acordo com o contrato social ou o estatuto, configura interposição de terceiros. E, quando da interposição de terceiros resultar o não recolhimento do tributo, caracterizada está a ação em conluio, entre os sócios “de direito” e os sócios “de fato”, para modificar as características da obrigação tributária e reduzir, evitar ou diferir o pagamento do imposto devido. ART. 124 DO CTN. HIPÓTESE DE SOLIDARIEDADE. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. IMPOSSIBILIDADE O art. 124 do CTN contempla hipóteses de solidariedade entre pessoas que já figuram no polo passivo da relação jurídico-tributária, seja na condição de contribuinte, seja de responsável, não autorizando, por si só, a atribuição de responsabilidade tributária a terceiros. ART. 135 DO CTN . RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. PROCURAÇÃO OUTORGANDO AMPLOS PODERES A TERCEIRO. CONFIGURAÇÃO. A outorga de amplos poderes de administração a terceiro por procuração e a prática de tais atos por quem não figurava como sócio ou administrador no contrato social da empresa configura violação à lei e ao contrato social, autorizando a responsabilização com base no art. 135, III, do CTN. ART. 135 DO CTN . RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. SÓCIO OU ADMINISTRADOR “DE FATO”. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO POR MEIO DE DOCUMENTOS SÓLIDOS E ROBUSTOS. A responsabilidade tributária de quem não figura como sócio ou administrador “de direito” não se presume, devendo ser provada por meio de documentação sólida e robusta. ART. 135 DO CTN . RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. PROCURAÇÃO OUTORGANDO AMPLOS PODERES A TERCEIRO. INFRAÇÃO INCORRIDA POR TODOS OS SÓCIOS DA EMPRESA. CONFIGURAÇÃO. A outorga de amplos poderes de administração a terceiro por procuração e a prática de tais atos por quem não figurava como sócio ou administrador no contrato social da empresa configura violação à lei e ao contrato social, autorização a responsabilização com base no art. 135, III, do CTN, de todos os sócios da empresa. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO (CSLL) Ano-calendário: 2008, 2009 CSLL. LANÇAMENTO REFLEXO. Tendo vista que o lançamento de CSLL decorreu dos mesmos fatos e das mesmas provas, as conclusões com relação ao IRPJ são igualmente aplicáveis. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Ano-calendário: 2008, 2009 CONTRIBUIÇÃO AO PIS. LANÇAMENTO REFLEXO. Tendo vista que o lançamento de Contribuição ao PIS decorreu dos mesmos fatos e das mesmas provas, as conclusões com relação ao IRPJ são igualmente aplicáveis. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL (COFINS) Ano-calendário: 2008, 2009 COFINS. LANÇAMENTO REFLEXO. Tendo vista que o lançamento de Cofins decorreu dos mesmos fatos e das mesmas provas, as conclusões com relação ao IRPJ são igualmente aplicáveis.
Numero da decisão: 1301-006.368
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, (i) acolher a preliminar de nulidade, relativa à intimação de JAIR NATAL GRIZZO, afastando sua responsabilidade tributária, em face do empate no julgamento, por determinação do art. 19-E da Lei nº 10.522, de 2002, acrescido pelo art. 28 da Lei nº 13.988/2020, vencidos os conselheiros Iágaro Jung Martins, Lizandro Rodrigues de Sousa, Fernando Beltcher da Silva e Rafael Taranto Malheiros, que davam como perfeita sua intimação; (ii) quanto ao mérito, (ii.1) por unanimidade de votos, em negar provimento aos recursos de INDUSTRIA E COMERCIO DE CALCADOS DONNA DONNA SHOES LTDA – EPP, Luciano Grizzo e Luiz Filipe Cassaro de Tulio e (ii.2) por maioria de votos, dar provimento ao recurso de Francisco Luiz Cassaro para afastar sua responsabilidade tributária, vencido o Conselheiro Lizandro Rodrigues de Sousa, que a mantinha. (documento assinado digitalmente) Rafael Taranto Malheiros - Presidente (documento assinado digitalmente) Maria Carolina Maldonado Mendonça Kraljevic - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Iagaro Jung Martins, Jose Eduardo Dornelas Souza, Lizandro Rodrigues de Sousa, Marcelo Jose Luz de Macedo, Fernando Beltcher da Silva (suplente convocado), Maria Carolina Maldonado Mendonca Kraljevic, Eduardo Monteiro Cardoso, Rafael Taranto Malheiros
Nome do relator: MARIA CAROLINA MALDONADO MENDONCA KRALJEVIC

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ementa_s : ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Ano-calendário: 2008, 2009 PESSOA JURÍDICA. INTIMAÇÃO. POSSIBILIDADE. AUSÊNCIA DE NULIDADE As intimações devem ser endereçadas à pessoa jurídica, no seu endereço cadastrado nos sistemas da Receita Federal, e não ao seu representante legal. Na hipótese de a intimação postal restar improfícua, deve ser realizada por meio de edital, nos termos do art. 23, §1º do Decreto nº 70.235/72. RESPONSÁVEL TRIBUTÁRIO. FALECIMENTO. NECESSIDADE DE INTIMAÇÃO DO INVENTARIANTE OU HERDEIROS. NULIDADE DO LANÇAMENTO. Somente é escusável o erro de intimação na pessoa do de cujus, não acarretando a nulidade do procedimento, quando a Autoridade Fiscal não tem conhecimento do falecimento do sujeito passivo. A contrario sensu, é nulo o lançamento lavrado contra o de cujus, quando a Autoridade Fiscal tem conhecimento do seu falecimento; ou em nome do inventariante, quando sabia já estar concluído o inventário e homologada a partilha. ARROLAMENTO DE BENS E DIREITOS. INCOMPETÊNCIA Não tem o julgador administrativo competência para analisar as controvérsias relativas ao arrolamento de bens. Súmula CARF nº 109. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA (IRPJ) Ano-calendário: 2008, 2009 DEPÓSITOS BANCÁRIOS. PRESUNÇÃO DE OMISSÃO DE RECEITA. POSSIBILIDADE. Verificados os requisitos do artigo 42 da Lei 9.430/1996, está caracterizada a omissão de receita com base em depósitos bancários. É do titular da conta bancária o ônus de comprovar, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos creditados em sua conta de depósito ou investimento e, quando for o caso, a sua tributação. Na hipótese de o titular da conta, regularmente intimado, deixar de fazê-lo, estará materializada a omissão de receita. Não se trata de confundir a movimentação bancária com o “faturamento real” da empresa, mas sim de aplicar artigo 42 da Lei 9.430/1996 para presumir omissão e receita com base em depósitos bancários de origem não comprovada. SIMPLES NACIONAL. EXCLUSÃO. LIVRO-CAIXA DEFICIENTE. ARBITRAMENTO. POSSIBILIDADE. As pessoas jurídicas optantes pelo Simples Nacional são obrigadas a manter livro-caixa, contendo a escrituração de toda sua movimentação financeira e bancária. E, quando a escrituração a que o contribuinte está obrigado contém vícios, erros ou deficiências que a tornem imprestável para identificar a efetiva movimentação financeira, inclusive bancária, a consequência é a apuração do imposto de renda com base no lucro arbitrado, como determina o art. 603 do RIR/2018. BASE DE CÁLCULO. ALEGAÇÕES GENÉRICAS. AUSÊNCIA DE ELEMENTO NOVO. MANUTENÇÃO DA APURAÇÃO REALIZADA DURANTE A FISCALIZAÇÃO. Não tendo os Recorrentes trazido elementos novos ou indicado, forma analítica, eventuais erros cometidos pela Autoridade Fiscal, deve ser mantida a base de cálculo apurada a partir dos créditos bancários cuja origem não foi comprovada. SIMPLES NACIONAL. EXCLUSÃO. CONFIGURAÇÃO DAS HIPÓTESES DOS INCISOS IV E VIII DO ART. 29 DA LEI COMPLEMENTAR N. 123/06. POSSIBILIDADE. Comprovada a configuração das hipóteses de exclusão do Simples Nacional, previstas nos incisos IV e VIII do art. 29 da Lei Complementar n. 123/06, correto está o procedimento adotado pela Autoridade Fiscal. MULTA QUALIFICADA. OUTORGA DE PROCURAÇÃO COM AMPLOS PODERES DE ADMINISTRAÇÃO. INTERPOSIÇÃO DE PESSOAS. CONFIGURAÇÃO. A outorga de amplos poderes de administração a terceiro, que não figura como sócio de acordo com o contrato social ou o estatuto, configura interposição de terceiros. E, quando da interposição de terceiros resultar o não recolhimento do tributo, caracterizada está a ação em conluio, entre os sócios “de direito” e os sócios “de fato”, para modificar as características da obrigação tributária e reduzir, evitar ou diferir o pagamento do imposto devido. ART. 124 DO CTN. HIPÓTESE DE SOLIDARIEDADE. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. IMPOSSIBILIDADE O art. 124 do CTN contempla hipóteses de solidariedade entre pessoas que já figuram no polo passivo da relação jurídico-tributária, seja na condição de contribuinte, seja de responsável, não autorizando, por si só, a atribuição de responsabilidade tributária a terceiros. ART. 135 DO CTN . RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. PROCURAÇÃO OUTORGANDO AMPLOS PODERES A TERCEIRO. CONFIGURAÇÃO. A outorga de amplos poderes de administração a terceiro por procuração e a prática de tais atos por quem não figurava como sócio ou administrador no contrato social da empresa configura violação à lei e ao contrato social, autorizando a responsabilização com base no art. 135, III, do CTN. ART. 135 DO CTN . RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. SÓCIO OU ADMINISTRADOR “DE FATO”. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO POR MEIO DE DOCUMENTOS SÓLIDOS E ROBUSTOS. A responsabilidade tributária de quem não figura como sócio ou administrador “de direito” não se presume, devendo ser provada por meio de documentação sólida e robusta. ART. 135 DO CTN . RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. PROCURAÇÃO OUTORGANDO AMPLOS PODERES A TERCEIRO. INFRAÇÃO INCORRIDA POR TODOS OS SÓCIOS DA EMPRESA. CONFIGURAÇÃO. A outorga de amplos poderes de administração a terceiro por procuração e a prática de tais atos por quem não figurava como sócio ou administrador no contrato social da empresa configura violação à lei e ao contrato social, autorização a responsabilização com base no art. 135, III, do CTN, de todos os sócios da empresa. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO (CSLL) Ano-calendário: 2008, 2009 CSLL. LANÇAMENTO REFLEXO. Tendo vista que o lançamento de CSLL decorreu dos mesmos fatos e das mesmas provas, as conclusões com relação ao IRPJ são igualmente aplicáveis. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Ano-calendário: 2008, 2009 CONTRIBUIÇÃO AO PIS. LANÇAMENTO REFLEXO. Tendo vista que o lançamento de Contribuição ao PIS decorreu dos mesmos fatos e das mesmas provas, as conclusões com relação ao IRPJ são igualmente aplicáveis. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL (COFINS) Ano-calendário: 2008, 2009 COFINS. LANÇAMENTO REFLEXO. Tendo vista que o lançamento de Cofins decorreu dos mesmos fatos e das mesmas provas, as conclusões com relação ao IRPJ são igualmente aplicáveis.

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conteudo_txt : Metadados => date: 2023-07-12T20:12:29Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.5; xmp:CreatorTool: Microsoft® Word 2010; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; language: pt-BR; dcterms:created: 2023-07-12T20:12:29Z; Last-Modified: 2023-07-12T20:12:29Z; dcterms:modified: 2023-07-12T20:12:29Z; dc:format: application/pdf; version=1.5; Last-Save-Date: 2023-07-12T20:12:29Z; pdf:docinfo:creator_tool: Microsoft® Word 2010; access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:modified: 2023-07-12T20:12:29Z; meta:save-date: 2023-07-12T20:12:29Z; pdf:encrypted: true; modified: 2023-07-12T20:12:29Z; Content-Type: application/pdf; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; dc:language: pt-BR; meta:creation-date: 2023-07-12T20:12:29Z; created: 2023-07-12T20:12:29Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 29; Creation-Date: 2023-07-12T20:12:29Z; pdf:charsPerPage: 2314; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; pdf:docinfo:created: 2023-07-12T20:12:29Z | Conteúdo => S1-C 3T1 MINISTÉRIO DA ECONOMIA Conselho Administrativo de Recursos Fiscais Processo nº 10825.722328/2013-63 Recurso Voluntário Acórdão nº 1301-006.368 – 1ª Seção de Julgamento / 3ª Câmara / 1ª Turma Ordinária Sessão de 20 de junho de 2023 Recorrente INDUSTRIA E COMERCIO DE CALCADOS DONNA DONNA SHOES LTDA Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Ano-calendário: 2008, 2009 PESSOA JURÍDICA. INTIMAÇÃO. POSSIBILIDADE. AUSÊNCIA DE NULIDADE As intimações devem ser endereçadas à pessoa jurídica, no seu endereço cadastrado nos sistemas da Receita Federal, e não ao seu representante legal. Na hipótese de a intimação postal restar improfícua, deve ser realizada por meio de edital, nos termos do art. 23, §1º do Decreto nº 70.235/72. RESPONSÁVEL TRIBUTÁRIO. FALECIMENTO. NECESSIDADE DE INTIMAÇÃO DO INVENTARIANTE OU HERDEIROS. NULIDADE DO LANÇAMENTO. Somente é escusável o erro de intimação na pessoa do de cujus, não acarretando a nulidade do procedimento, quando a Autoridade Fiscal não tem conhecimento do falecimento do sujeito passivo. A contrario sensu, é nulo o lançamento lavrado contra o de cujus, quando a Autoridade Fiscal tem conhecimento do seu falecimento; ou em nome do inventariante, quando sabia já estar concluído o inventário e homologada a partilha. ARROLAMENTO DE BENS E DIREITOS. INCOMPETÊNCIA Não tem o julgador administrativo competência para analisar as controvérsias relativas ao arrolamento de bens. Súmula CARF nº 109. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA (IRPJ) Ano-calendário: 2008, 2009 DEPÓSITOS BANCÁRIOS. PRESUNÇÃO DE OMISSÃO DE RECEITA. POSSIBILIDADE. Verificados os requisitos do artigo 42 da Lei 9.430/1996, está caracterizada a omissão de receita com base em depósitos bancários. É do titular da conta bancária o ônus de comprovar, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos creditados em sua conta de depósito ou investimento e, quando for o caso, a sua tributação. Na hipótese de o titular da conta, regularmente intimado, deixar de fazê-lo, estará materializada a omissão de receita. Não se trata de confundir a movimentação bancária com o “faturamento real” da empresa, mas sim de aplicar artigo 42 da Lei 9.430/1996 AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 82 5. 72 23 28 /2 01 3- 63 Fl. 6741DF CARF MF Original Fl. 2 do Acórdão n.º 1301-006.368 - 1ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10825.722328/2013-63 para presumir omissão e receita com base em depósitos bancários de origem não comprovada. SIMPLES NACIONAL. EXCLUSÃO. LIVRO-CAIXA DEFICIENTE. ARBITRAMENTO. POSSIBILIDADE. As pessoas jurídicas optantes pelo Simples Nacional são obrigadas a manter livro-caixa, contendo a escrituração de toda sua movimentação financeira e bancária. E, quando a escrituração a que o contribuinte está obrigado contém vícios, erros ou deficiências que a tornem imprestável para identificar a efetiva movimentação financeira, inclusive bancária, a consequência é a apuração do imposto de renda com base no lucro arbitrado, como determina o art. 603 do RIR/2018. BASE DE CÁLCULO. ALEGAÇÕES GENÉRICAS. AUSÊNCIA DE ELEMENTO NOVO. MANUTENÇÃO DA APURAÇÃO REALIZADA DURANTE A FISCALIZAÇÃO. Não tendo os Recorrentes trazido elementos novos ou indicado, forma analítica, eventuais erros cometidos pela Autoridade Fiscal, deve ser mantida a base de cálculo apurada a partir dos créditos bancários cuja origem não foi comprovada. SIMPLES NACIONAL. EXCLUSÃO. CONFIGURAÇÃO DAS HIPÓTESES DOS INCISOS IV E VIII DO ART. 29 DA LEI COMPLEMENTAR N. 123/06. POSSIBILIDADE. Comprovada a configuração das hipóteses de exclusão do Simples Nacional, previstas nos incisos IV e VIII do art. 29 da Lei Complementar n. 123/06, correto está o procedimento adotado pela Autoridade Fiscal. MULTA QUALIFICADA. OUTORGA DE PROCURAÇÃO COM AMPLOS PODERES DE ADMINISTRAÇÃO. INTERPOSIÇÃO DE PESSOAS. CONFIGURAÇÃO. A outorga de amplos poderes de administração a terceiro, que não figura como sócio de acordo com o contrato social ou o estatuto, configura interposição de terceiros. E, quando da interposição de terceiros resultar o não recolhimento do tributo, caracterizada está a ação em conluio, entre os sócios “de direito” e os sócios “de fato”, para modificar as características da obrigação tributária e reduzir, evitar ou diferir o pagamento do imposto devido. ART. 124 DO CTN. HIPÓTESE DE SOLIDARIEDADE. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. IMPOSSIBILIDADE O art. 124 do CTN contempla hipóteses de solidariedade entre pessoas que já figuram no polo passivo da relação jurídico-tributária, seja na condição de contribuinte, seja de responsável, não autorizando, por si só, a atribuição de responsabilidade tributária a terceiros. ART. 135 DO CTN . RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. PROCURAÇÃO OUTORGANDO AMPLOS PODERES A TERCEIRO. CONFIGURAÇÃO. Fl. 6742DF CARF MF Original Fl. 3 do Acórdão n.º 1301-006.368 - 1ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10825.722328/2013-63 A outorga de amplos poderes de administração a terceiro por procuração e a prática de tais atos por quem não figurava como sócio ou administrador no contrato social da empresa configura violação à lei e ao contrato social, autorizando a responsabilização com base no art. 135, III, do CTN. ART. 135 DO CTN . RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. SÓCIO OU ADMINISTRADOR “DE FATO”. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO POR MEIO DE DOCUMENTOS SÓLIDOS E ROBUSTOS. A responsabilidade tributária de quem não figura como sócio ou administrador “de direito” não se presume, devendo ser provada por meio de documentação sólida e robusta. ART. 135 DO CTN . RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. PROCURAÇÃO OUTORGANDO AMPLOS PODERES A TERCEIRO. INFRAÇÃO INCORRIDA POR TODOS OS SÓCIOS DA EMPRESA. CONFIGURAÇÃO. A outorga de amplos poderes de administração a terceiro por procuração e a prática de tais atos por quem não figurava como sócio ou administrador no contrato social da empresa configura violação à lei e ao contrato social, autorização a responsabilização com base no art. 135, III, do CTN, de todos os sócios da empresa. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO (CSLL) Ano-calendário: 2008, 2009 CSLL. LANÇAMENTO REFLEXO. Tendo vista que o lançamento de CSLL decorreu dos mesmos fatos e das mesmas provas, as conclusões com relação ao IRPJ são igualmente aplicáveis. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Ano-calendário: 2008, 2009 CONTRIBUIÇÃO AO PIS. LANÇAMENTO REFLEXO. Tendo vista que o lançamento de Contribuição ao PIS decorreu dos mesmos fatos e das mesmas provas, as conclusões com relação ao IRPJ são igualmente aplicáveis. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL (COFINS) Ano-calendário: 2008, 2009 COFINS. LANÇAMENTO REFLEXO. Tendo vista que o lançamento de Cofins decorreu dos mesmos fatos e das mesmas provas, as conclusões com relação ao IRPJ são igualmente aplicáveis. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Fl. 6743DF CARF MF Original Fl. 4 do Acórdão n.º 1301-006.368 - 1ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10825.722328/2013-63 Acordam os membros do colegiado, (i) acolher a preliminar de nulidade, relativa à intimação de JAIR NATAL GRIZZO, afastando sua responsabilidade tributária, em face do empate no julgamento, por determinação do art. 19-E da Lei nº 10.522, de 2002, acrescido pelo art. 28 da Lei nº 13.988/2020, vencidos os conselheiros Iágaro Jung Martins, Lizandro Rodrigues de Sousa, Fernando Beltcher da Silva e Rafael Taranto Malheiros, que davam como perfeita sua intimação; (ii) quanto ao mérito, (ii.1) por unanimidade de votos, em negar provimento aos recursos de INDUSTRIA E COMERCIO DE CALCADOS DONNA DONNA SHOES LTDA – EPP, Luciano Grizzo e Luiz Filipe Cassaro de Tulio e (ii.2) por maioria de votos, dar provimento ao recurso de Francisco Luiz Cassaro para afastar sua responsabilidade tributária, vencido o Conselheiro Lizandro Rodrigues de Sousa, que a mantinha. (documento assinado digitalmente) Rafael Taranto Malheiros - Presidente (documento assinado digitalmente) Maria Carolina Maldonado Mendonça Kraljevic - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Iagaro Jung Martins, Jose Eduardo Dornelas Souza, Lizandro Rodrigues de Sousa, Marcelo Jose Luz de Macedo, Fernando Beltcher da Silva (suplente convocado), Maria Carolina Maldonado Mendonca Kraljevic, Eduardo Monteiro Cardoso, Rafael Taranto Malheiros Relatório Discute-se nos autos a exigência de IRPJ, apurado na sistemática do lucro arbitrado, e dos tributos reflexos, CSLL, Contribuição ao PIS e Cofins, acrescidos de juros de mora e multa ofício de 150%, referentes ao período de janeiro de 2008 a dezembro de 2009, em razão da verificação de não tributação de parte das receitas declaradas em Declaração Anual do Simples Nacional (“DASN”), omissão de receitas operacionais e presunção de omissão de receita com base em depósitos bancários de origem não identificada, bem como da consequente exclusão da INDUSTRIA E COMERCIO DE CALCADOS DONNA DONNA SHOES LTDA - EPP (“empresa”) do Simples Nacional. Conforme se extrai do Termo de Verificação Fiscal (fl. 586-5905), em 19.12.2011, em diligência ao endereço da empresa para intimação acerca do Termo de Início de Procedimento Fiscal, constatou-se que a empresa não exercia suas atividades naquele local. Em razão disso, o referido documento foi encaminhado ao endereço residencial dos sócios JAIR NATAL GRIZZO, LUIZ FILIPE CASSARO DE TULIO, PAULO CESAR SALMAZO e VALDIR PASCHOAL. Em seguida, o sócio JAIR NATAL GRIZZO, após diversos pedidos de prorrogação de prazos, entregou grande parte dos documentos solicitados pela Autoridade Fiscal nos diversos termos de intimação fiscal. No entanto, em razão da entrega parcial dos documentos solicitados, da impossibilidade de vinculação de parte dos documentos aos depósitos bancários cujos extratos foram fornecidos por JAIR NATAL GRIZZO, da constatação de que o Livro Caixa não permitia a integral identificação da movimentação financeira, inclusive bancária, bem Fl. 6744DF CARF MF Original Fl. 5 do Acórdão n.º 1301-006.368 - 1ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10825.722328/2013-63 como da verificação de indícios de caracterização de interposta pessoa, a Autoridade Fiscal, com base em relatório circunstanciado, emitiu Requisição de Informação sobre Movimentação Financeira (“RMF”), nos termos do art. 3º do Decreto nº 3.724/2001. Com arrimo nos extratos bancários fornecidos pelas instituições financeiras, a Autoridade Fiscal relacionou os valores creditados na conta bancária da empresa cuja origem deveria ser comprovada. Após a prestação de diversos esclarecimentos por JAIR NATAL GRIZZO e análise dos documentos apresentados, a Autoridade Fiscal excluiu da relação os “créditos apurados que contemplavam cheques depositados e devolvidos, estornos de débitos e outros históricos que não representavam ingressos de recursos” (fl. 5883), tais como garantias e empréstimos. Por outro lado, a Autoridade Fiscal manteve na relação de depósitos bancários de origem não comprovada aqueles (i) para os quais não foram apresentados documentos ou (ii) cujos documentos apresentados “não possibilitaram identificar a origem dos recursos em razão de divergirem em data, valor ou data e valor” (fl. 5886). Nesse contexto, foi expedido o Ato Declaratório Executivo - ADE DRF/BAU n° 027, de 12 de setembro de 2013, excluindo a empresa do Simples Nacional e, posteriormente, lavrado auto de infração, para a exigência de IRPJ e da tributação reflexa (CSLL, Contribuição ao PIS e Cofins), apurados na sistemática do lucro arbitrado, sobre (i) a receita operacional declarada em DASN referente à venda de produtos de fabricação própria; (ii) receita operacional não declarada DASN, apurada a partir do confronto entre as receitas evidenciadas em documentos fiscais e a receita bruta declarada em DASN; e (iii) receita omitida verificada por meio dos depósitos bancários de origem não comprovada. Ademais, a Fiscalização aplicou à empresa multa de 150% sobre a receita operacional não declarada DASN, apurada a partir do confronto entre as receitas evidenciadas em documentos fiscais e a receita bruta declarada em DASN (item “ii” supra), bem como sobre a receita omitida verificada por meio dos depósitos bancários de origem não comprovada (item “iii” supra), sob a seguinte justificativa: “77. Repise-se, não foi somente a prática reiterada dos procedimentos adotados pelo contribuinte, mas também os artifícios fraudulentos, os fatos que se mostraram suficientes para caracterizar a intenção proposital e, portanto, o dolo típico, necessário para qualificar a infração. 77.1. Todos os elementos citados (inexistência da empresa no local, não localização dos sócios em seus endereços cadastrais, procrastinação no atendimento das intimações, interposição de pessoas e disparidade entre faturamento real e valores informados no Simples Nacional) corroboram a constatação de que o contribuinte valeu-se de artifícios fraudulentos com o fim de elidir-se à obrigação tributária, conforme descrevem os artigos 71, 72 e 73 da Lei 4502/64”. Foram considerados solidariamente responsáveis, com base nos artigos 124, I e 135, III, do CTN, JAIR NATAL GRIZZO, LUIZ FILIPE CASSARO DE TULIO, PAULO CESAR SALMAZO e VALDIR PASCHOAL, sócios da empresa em 2008 e 2009, e LUCIANO GRIZZO e FRANCISCO LUIZ CASSARO, considerados, respectivamente, “sócio- administrador de fato” e “sócio-investidor” à época dos fatos. De acordo com o Termo de Verificação Fiscal, LUCIANO GRIZZO foi considerado “sócio-administrador de fato” em razão (i) da localização, em Tabelião de Notas, de procuração delegando poderes amplos, gerais e ilimitados para movimentação de contas Fl. 6745DF CARF MF Original Fl. 6 do Acórdão n.º 1301-006.368 - 1ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10825.722328/2013-63 correntes em instituições financeiras e para administração geral da empresa; (ii) de figurar como “devedor solidário” da empresa e/ou seu representante legal em contratos de empréstimo/financiamento; e (iii) do depoimento pessoal do sócio PAULO CESAR SALMAZO, afirmando que LUCIANO GRIZZO era gerente financeiro da empresa à época dos fatos e apresentando cópia do “1º Aditamento ao Estatuto Social", no qual LUCIANO GRIZZO é qualificado como sócio da empresa (fls. 5886-5887; e 5902-5905). FRANCISCO LUIZ CASSARO, por sua vez, foi considerado “sócio-investidor” em razão do depoimento pessoal do sócio PAULO CESAR SALMAZO, afirmando que era sócio de fato da empresa e da apresentação do referido aditamento, no qual FRANCISCO LUIZ CASSARO é qualificado como sócio investidor (fls. 5886-5887; e 5902-5905). Por fim, foram lavrados Termo de Arrolamento de Bens em nome do sujeito passivo e dos responsáveis tributários. Cientificados acerca da lavratura do auto de infração, apresentaram impugnação LUIZ FILIPE CASSARO DE TULIO (fls. 6185-626), FRANCISCO LUIZ CASSARO (fls. 6231-6246), LUCIANO GRIZZO (fls. 6269-6291) e INDUSTRIA E COMERCIO DE CALCADOS DONNA DONNA SHOES LTDA – EPP (fls. 6335-6351), que foram julgadas improcedentes nos termos da ementa abaixo: “ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA - IRPJ Ano-calendário: 2009 DEPÓSITOS BANCÁRIOS. FALTA DE COMPROVAÇÃO DA ORIGEM DOS RECURSOS. OMISSÃO DE RECEITAS. PRESUNÇÃO LEGAL. Tributa-se como omissão de receita os depósitos efetuados em conta bancária, cuja origem dos recursos depositados não tenha sido comprovada pelo contribuinte mediante apresentação de documentação hábil e idônea, os termos do art. 42 da Lei n° 9.430, de 27/12/1996. Se o ônus da prova, por presunção legal, é do contribuinte, cabe a ele a prova da origem dos recursos utilizados para acobertar seus depósitos bancários, que não pode ser substituída por meras alegações. SIMPLES NACIONAL. EXCLUSÃO. INTERPOSTAS PESSOAS. LIVRO CAIXA. IDENTIFICAÇÃO DA MOVIMENTAÇÃO FINANCEIRA. IMPOSSIBILIDADE. A pessoa jurídica que é constituída por interpostas pessoas, encobrindo quem são os verdadeiros sócios, não tem o direito de permanecer inscrita no regime do Simples Nacional, conforme expressa previsão legal. Também cabe a exclusão quando houver falta de escrituração do livro caixa ou não permitir a identificação da movimentação financeira, inclusive bancária. ARBITRAMENTO DE LUCRO. FALTA DE APRESENTAÇÃO DE LIVROS E DOCUMENTOS. É cabível o arbitramento do lucro, quando não apresentados os livros e documentos da escrituração comercial e fiscal solicitados durante a fase procedimental e o contribuinte não dispõe do LALUR ou de outros meios pelos quais a autoridade fiscal possa verificar a apuração do lucro real. MULTA QUALIFICADA. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. PRESUNÇÃO. CABIMENTO. Fl. 6746DF CARF MF Original Fl. 7 do Acórdão n.º 1301-006.368 - 1ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10825.722328/2013-63 A presunção legal de omissão de receitas, por si só, não exclui a possibilidade de se constituir a multa qualificada, em especial, quando não for o único elemento formador da convicção de ter o infrator agido ou se omitido intencionalmente. Vários fatos apontam para a circunstância de o sujeito passivo ter ocultado dolosamente a ocorrência da hipótese de incidência em valores superiores aos declarados. Se, por um lado, a presunção serviu para o propósito de quantificar tal omissão, por outro, não foi o único expediente probatório empregado pela autoridade para caracterizar a omissão em termos qualitativos, principalmente, no que se refere ao seu aspecto volitivo. CRÉDITO TRIBUTÁRIO. SÓCIOS DE FATO. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. Os administradores, gerentes ou representantes da pessoa jurídica, prepostos e empregados são solidariamente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos, bem assim as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal, incluindo aqueles que sejam identificados como sócios de fato da sociedade. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. A decisão proferida relativamente à exigência principal repercute nos mesmos termos à atuação reflexa. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido”. Contra o referido acórdão, a empresa (fls. 6613 – 6636), FRANCISCO LUIZ CASSARO (fls. 6644-6668), LUCIANO GRIZZO (fls. 6672-6696) e LUIZ FILIPE CASSARO DE TULIO (fls. 6700-6712) interpuseram os correspondentes recursos voluntários, sustentando, em síntese: (i) nulidade do auto de infração em razão da ausência de intimação dos sucessores do sócio JAIR NATAL GRIZZO, único que tinha poderes de representação de INDUSTRIA E COMERCIO DE CALCADOS DONNA DONNA SHOES LTDA – EPP; (ii) que o levantamento realizado pela Autoridade Fiscal com base na movimentação bancária jamais poderia ser confundido com o “faturamento real” da empresa; (iii) que o prazo concedido para entrega da escrituração contábil foi exíguo, tornando o arbitramento, que deveria ser exceção, em regra; (iv) que é desarrazoada a desconsideração da escrituração da empresa para se proceder ao arbitramento de lucros; (v) que muitos dos apontamentos que foram lançados como "não justificados" sob a anotação genérica de "valor e data divergem, não há borderô" devem ser excluídos da base de cálculo do lançamento; (vi) necessidade de exclusão da base de cálculo também dos valores correspondentes a “desconto de título”, “desconto de duplicatas”, “liberação de garantia”, captação de créditos perante instituições financeiras, movimentações em duplicidade, que se verificam tanto na “conta garantida”, como na “conta corrente”; (vii) que as justificativas apontadas pela Autoridade Fiscal para exclusão da empresa do Simples Nacional não procedem; (viii) que LUCIANO GRIZZO era filho de JAIR NATAL GRIZZO e, por essa razão, os poderes conferidos na procuração eram amplos e LUCIANO GRIZZO figurava como avalista, não havendo outros elementos – além do depoimento de PAULO CEZAR SALMAZO – para caracterizar LUCIANO GRIZZO como “sócio-administrador de fato”; (ix) que o Aditamento ao Estatuto Social nunca foi levado à registro, tratando-se de uma mera “carta de intenção”, não servindo para caracterizar LUCIANO GRIZZO e FRANCISCO LUIZ CASSARO como “interpostas pessoas”, mormente porque o “aporte” nele noticiado não ficou comprovado; (x) ausência de descrição da infração supostamente praticada por LUIZ FELIPE CASSARO DE TULIO a ensejar a sua responsabilização; (xi) impossibilidade de qualificação da multa de Fl. 6747DF CARF MF Original Fl. 8 do Acórdão n.º 1301-006.368 - 1ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10825.722328/2013-63 ofício, tendo em vista que a simples omissão de receita não enseja a qualificação da multa, bem como a não verificação no caso concreto das hipóteses previstas nos artigos 71, 72 ou 73 da Lei nº 4.502/64; e (xii) que o arrolamento viola o direito de propriedade, sem o devido processo legal, além de, no caso de FRANCISCO LUIZ CASSARO e LUCIANO GRIZZO, recair sobre bem de família, o que é vedado. Além dos pedidos relacionados ao provimento do recurso voluntário, FRANCISCO LUIZ CASSARO e LUCIANO GRIZZO requerem seja reconhecido que o arrolamento efetuado viola a garantia da proteção ao bem de família conferida pela Lei n. 8.009/90 e, em consequência, que se determine seu imediato desfazimento. Posteriormente, em 29.08.2015, TEREZINHA BRANCAGLION GRIZZO e DANIELA GRIZZO, herdeiras de JAIR NATAL GRIZZO peticionaram nos autos sustentando a nulidade das intimações realizadas em nome do de cujus, tendo em vista que o falecimento de JAIR NATAL GRIZZO se deu em 18.05.2013, antes do encerramento da fiscalização, havia nos autos a informação de seus falecimento e nenhuma medida foi adotada para promover a citação das herdeiras de JAIR NATAL GRIZZO para que apresentassem defesa nos presentes autos (fls. 6721-6722). Não apresentaram impugnação ou recurso voluntário JAIR NATAL GRIZZO ou suas herdeiras TEREZINHA BRANCAGLION GRIZZO e DANIELA GRIZZO, PAULO CESAR SALMAZO e VALDIR PASCHOAL. É relatório. Voto Conselheiro Maria Carolina Maldonado Mendonça Kraljevic , Relator. I – Admissibilidade INDUSTRIA E COMERCIO DE CALCADOS DONNA DONNA SHOES LTDA – EP foi intimada do Acórdão nº 16-67.732 por edital, publicado na dependência da Receita Federal em 14.07.2015. Nos termos do art. 23, §2º, IV, do Decreto nº 70.235/1972, no caso de edital, considera-se ocorrida a intimação 15 dias após a sua publicação, ou seja, em 29.07.2015. O recurso voluntário ora analisado foi interposto em 30.07.2015. Portanto, tendo em vista o prazo de 30 dias previsto no art. 33 do Decreto nº 70.235/1972, é tempestivo o recuso voluntário de INDUSTRIA E COMERCIO DE CALCADOS DONNA DONNA SHOES LTDA – EPP. FRANCISCO LUIZ CASSARO foi intimado do acórdão recorrido por carta em 01.07.2015 e interpôs o recurso voluntário ora analisado em 30.07.2015. Portanto, tendo em vista o prazo de 30 dias previsto no art. 33 do Decreto nº 70.235/1972, é tempestivo o recuso voluntário de FRANCISCO LUIZ CASSARO. LUCIANO GRIZZO foi intimado do acórdão recorrido por carta em 01.07.2015 e interpôs o recurso voluntário ora analisado em 30.07.2015. Portanto, tendo em vista o prazo de Fl. 6748DF CARF MF Original Fl. 9 do Acórdão n.º 1301-006.368 - 1ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10825.722328/2013-63 30 dias previsto no art. 33 do Decreto nº 70.235/1972, é tempestivo o recuso voluntário de LUCIANO GRIZZO. Por fim, com relação a LUIZ FILIPE CASSARO DE TULIO, houveram 3 tentativas de intimação por carta, sendo a última em 03.07.2015. Tendo em vista que o recurso voluntário ora analisado foi interposto em 31.07.2015, portanto dentro do prazo de 30 dias previsto no art. 33 do Decreto nº 70.235/1972, é igualmente tempestivo o recuso voluntário de LUIZ FILIPE CASSARO DE TULIO. Os recursos voluntários cumprem com os demais pressupostos de admissibilidade, razão pela qual devem ser conhecidos. II - Preliminares a) Nulidade com relação à intimação dos herdeiros de JAIR NATAL GRIZZO INDUSTRIA E COMERCIO DE CALCADOS DONNA DONNA SHOES LTDA – EPP sustenta, em seu recurso voluntário, nulidade do auto de infração, tendo que vista que a notificação de encerramento da fiscalização não foi enviada aos sucessores de JAIR NATAL GRIZZO, único que tinha poderes de representação da empresa. Posteriormente, TEREZINHA BRANCAGLION GRIZZO e DANIELA GRIZZO peticionaram nos autos sustentando a nulidade das intimações realizadas em nome do de cujus, tendo em vista que o falecimento de JAIR NATAL GRIZZO se deu em 18.05.2013, antes do encerramento da fiscalização, havia nos autos a informação de seu falecimento e nenhuma medida foi adotada para promover a citação das herdeiras de para que apresentassem defesa nos presentes autos (fls. 6721-6722). Nesse ponto, é preciso distinguir a necessidade de intimação da pessoa jurídica, INDUSTRIA E COMERCIO DE CALCADOS DONNA DONNA SHOES LTDA – EPP, contribuinte dos tributos aqui discutidos, da intimação das pessoas físicas consideradas responsáveis tributárias, dentre eles, JAIR NATAL GRIZZO. INDUSTRIA E COMERCIO DE CALCADOS DONNA DONNA SHOES LTDA – EPP, como pessoa jurídica de direito privado, é dotada de personalidade jurídica própria e autonomia patrimonial com relação aos seus sócios (artigos 49-A e 52 do Código Civil). Assim, as intimações devem ser endereçadas à pessoa jurídica, no seu endereço cadastrado nos sistemas da Receita Federal e, na hipótese de a intimação postal restar improfícua, como ocorreu no presente caso, deve ser realizada por meio de edital, nos termos do art. 23, §1º do Decreto nº 70.235/72. Tanto é assim que a Súmula CARF nº 9 estabelece que “É válida a ciência da notificação por via postal realizada no domicílio eleito pelo contribuinte, confirmada com a assinatura do recebedor da correspondência, ainda que este não seja o representante legal do destinatário” (Vinculante, conforme Portaria MF nº 277, de 07/06/2018, DOU de 08/06/2018). No presente caso, corrobora a validade e suficiência da intimação de INDUSTRIA E COMERCIO DE CALCADOS DONNA DONNA SHOES LTDA – EPP, o fato de a empresa, Fl. 6749DF CARF MF Original http://idg.carf.fazenda.gov.br/acesso-a-informacao/boletim-de-servicos-carf/portarias-do-mf-de-interesse-do-carf-2018/portarias-mf-277-sumulas-efeito-vinculantes.pdf Fl. 10 do Acórdão n.º 1301-006.368 - 1ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10825.722328/2013-63 representada por seu procurador, ter vindo aos autos apresentar impugnação e, posteriormente, recurso voluntário. Diante disso, não há que se falar em nulidade do auto de infração com relação à INDUSTRIA E COMERCIO DE CALCADOS DONNA DONNA SHOES LTDA – EPP em razão da suposta ausência de intimação dos herdeiros de seu representante legal JAIR NATAL GRIZZO. Por outro lado, a intimação de JAIR NATAL GRIZZO decorre da atribuição de responsabilidade pessoal pelo crédito tributário e independe da intimação do contribuinte, INDUSTRIA E COMERCIO DE CALCADOS DONNA DONNA SHOES LTDA. De fato, JAIR NATAL GRIZZO faleceu em 18.05.2013, como demonstra a Escritura de Inventário (fls. 6602-6605) e, portanto, antes da lavratura do auto de infração, em 07.11.2013. Assim, a Autoridade Fiscal, possivelmente, não tinha conhecimento do óbito de JAIR NATAL GRIZZO quando da lavratura do auto de infração, tendo em vista que a declaração final de espólio somente foi entregue em 29.04.2014 – em atendimento ao que preconizam os artigos 3º e 6º da Instrução Normativa SRF nº 81/2001. No entanto, em 27.11.2013, a intimação de JAIR NATAL GRIZZO acerca do Termo de Sujeição Passiva Solidária retornou com a informação expressa do seu falecimento (fls. 6129-6130). Em 20.05.2014, novamente, a Autoridade Fiscal constatou o falecimento de JAIR NATAL GRIZZO por meio da análise da impugnação apresentada por INDUSTRIA E COMERCIO DE CALCADOS DONNA DONNA SHOES LTDA – EPP, e tentou intimar a empresa, por carta, a apresentar, dentre outros, certidão de óbito de JAIR NATAL GRIZZO. Tendo se mostrado infrutífera a tentativa de intimação da empresa no seu endereço (fl. 6406), em 26.06.2014, foi afixado edital nas dependências da Receita Federal (fl. 6407). Em 16.04.2015 foi proferido o Acórdão nº 16-67.732 e, em 25.06.2015, já de posse das declarações prestadas pela inventariante TEREZINHA BRANCAGLION GRIZZO na Declaração Final de Espólio (fl. 6549-6553), a Autoridade Fiscal intimou o Tabelionato de Notas e Protestos de Ribeirão Bonito a apresentar a escritura pública do inventário de JAIR NATAL GRIZZO (fl. 6537). E, em 22.07.2015, foram expedidas intimações, acerca do Acórdão nº 16- 67.732, a TEREZINHA BRANCAGLION GRIZZO (fl. 6555), LUIS AUGUSTO GRIZZO (fl. 6557), DANIELA GRIZZO (fl. 6563). No entanto, as correspondências, apesar de enviadas aos endereços dos referidos herdeiros, foram endereçadas a JAIR NATAL GRIZZO (fl. 6637-6642). Portanto, desde a tentativa de intimação de JAIR NATAL GRIZZO acerca do Termo de Sujeição Passiva Solidária, a Autoridade Fiscal tinha conhecimento de seu falecimento, tendo plenas condições de intimar o espólio, na pessoa da inventariante e, posteriormente, os herdeiros – frise-se, por meio de correspondência endereçada corretamente -, tanto da lavratura do auto de infração, como da prolação do Acórdão nº 16-67.732. Cumpre ressaltar que, nos termos da jurisprudência desse Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, somente é escusável o erro de intimação na pessoa do de cujus, não acarretando a nulidade do procedimento, quando a Autoridade Fiscal não tem conhecimento do falecimento do sujeito passivo. A contrario sensu, é nulo o lançamento lavrado contra o de cujus, quando a Autoridade Fiscal tinha conhecimento do seu falecimento; ou em Fl. 6750DF CARF MF Original Fl. 11 do Acórdão n.º 1301-006.368 - 1ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10825.722328/2013-63 nome do inventariante, quando sabia já estar concluído o inventário e homologada a partilha Nesse sentido: “REVISÃO DA DECLARAÇÃO. ESPÓLIO. INVENTARIANTE. FALTA DE COMUNICAÇÃO DO FALECIMENTO. VALIDADE DO LANÇAMENTO É válido o lançamento formalizado em nome do de cujus, nos casos em que o falecimento, após a ocorrência do fato gerador, não foi comunicado ao Fisco até o término do procedimento fiscal” (Acórdão nº 2401-008-982, de 11.01.2021). “REVISÃO DA DECLARAÇÃO. FALECIMENTO. ESPÓLIO. INTIMAÇÕES. LANÇAMENTO EM FACE DA PESSOA FÍSICA. ERRO NA IDENTIFICAÇÃO DO SUJEITO PASSIVO. No procedimento fiscal de revisão da declaração de ITR, a intimação para apresentação de documentos e/ou esclarecimentos deverá ser dirigida ao espólio do contribuinte, quando comunicado o falecimento por meio da informação dos dados do inventariante no campo próprio da declaração do exercício. É nulo, por erro na identificação do sujeito passivo, o lançamento formalizado em nome da pessoa falecida, cujas intimações foram direcionadas ao “de cujus”. (Acórdão nº 2401-007.931, j. em 03.08.2020). “RECURSO DE OFÍCIO. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. ESPÓLIO. INVENTÁRIO JÁ CONCLUÍDO COM A PARTILHA HOMOLOGADA POR SENTENÇA TRANSITADA EM JULGADO. Deve ser anulado o auto de infração e o termo de sujeição passiva, por vício formal, se verificada a intimação do inventariante para responder aos termos da autuação quando já concluído o inventário e homologada a partilha por sentença transitada em julgado, hipótese em que as respectivas intimações deveriam ser encaminhadas aos sucessores, herdeiros, para responder pela cota parte que lhe cabe, conforme o quinhão percebido por cada um” (Acórdão nº 1302-004.330, j. em 11.01.2020). Diante disso, para que não haja cerceamento de direito de defesa, o correto, no presente caso, seria a conversão do julgamento em diligência, para intimação dos herdeiros de JAIR NATAL GRIZZO, para apresentar impugnação ao auto de infração. No entanto, tendo em vista que os fatos-geradores dos créditos aqui em discussão ocorreram nos anos-calendários de 2008 e 2009, contra os herdeiros de JAIR NATAL GRIZZO não mais pode ser constituído o crédito tributário ora em discussão por força do art. 173 do CTN. Assim, por questões de economia processual, e com base no disposto no art. art. 59, §3º do Decreto nº 70.235/72, voto por AFASTAR A RESPONSABILIDADE dos herdeiros pelos débitos inicialmente constituídos em face de JAIR NATAL GRIZZO. III – Mérito a) Do arrolamento Fl. 6751DF CARF MF Original Fl. 12 do Acórdão n.º 1301-006.368 - 1ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10825.722328/2013-63 Sustentam os Recorrentes que o arrolamento viola o direito de propriedade, sem o devido processo legal, além de, no caso de FRANCISCO LUIZ CASSARO e LUCIANO GRIZZO, recair sobre bem de família, o que é vedado. O arrolamento de bens e direitos é o procedimento, previsto nos artigos 64 e 64-A da Lei nº 9.532/97, mediante o qual a Autoridade Fiscal, nos casos em que o crédito tributário supera R$ 2.000.000,00 e 30% do patrimônio conhecido do sujeito passivo, identifica bens e direitos em montante suficiente para a satisfação do crédito tributário e efetua o registro no registro imobiliário ou órgão competente. O procedimento de arrolamento de bens e direitos, entretanto, não é regido pelo Decreto nº 70.235/72, não tendo o julgador administrativo competência para analisar as controvérsias correlatas. Nesse sentido é a Súmula CARF nº 109, aprovada em 03.09.2018: “O órgão julgador administrativo não é competente para se pronunciar sobre controvérsias referentes a arrolamento de bens”. Assim, não procede o argumento dos Recorrentes de inconstitucionalidade do arrolamento de bens, por violação ao direito de propriedade e à proteção ao bem de família. b) Possibilidade de presunção de omissão de receita O art. 42 da Lei nº 9.430/96 prevê a caracterização de omissão de receita quando o contribuinte, devidamente intimado, não comprovar a origem dos recursos creditados em sua conta bancária. Confira-se: “Art. 42. Caracterizam-se também omissão de receita ou de rendimento os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. (...) § 3º Para efeito de determinação da receita omitida, os créditos serão analisados individualizadamente, observado que não serão considerados: I - os decorrentes de transferências de outras contas da própria pessoa física ou jurídica; II - no caso de pessoa física, sem prejuízo do disposto no inciso anterior, os de valor individual igual ou inferior a R$ 1.000,00 (mil reais), desde que o seu somatório, dentro do ano-calendário, não ultrapasse o valor de R$ 12.000,00 (doze mil reais)”. A constitucionalidade do art. 42 da Lei nº 9.430/96 foi submetida ao STF que, em acórdão julgado sob a sistemática da repercussão geral, nos autos do Recurso Extraordinário nº 855.649, concluiu que “O artigo 42 da Lei 9.430/1996 é constitucional”. Diante disso, para a caracterização de omissão de receita com base em depósitos bancários, é preciso a verificação dos seguintes requisitos: (i) existência de créditos em conta de depósito ou investimento; (ii) regular intimação do titular da conta para comprovar a origem dos recursos creditados; (iii) ausência de comprovação, mediante documentação hábil e idônea, da origem e, consequente, tributação dos recursos, quando for o caso; e (iv) individualização dos Fl. 6752DF CARF MF Original Fl. 13 do Acórdão n.º 1301-006.368 - 1ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10825.722328/2013-63 depósitos pela Autoridade Fiscal, com a exclusão daqueles decorrentes de transferências entre contas da própria pessoa física ou jurídica ou, no caso de pessoas físicas, cujo valor individual não ultrapasse R$ 1.000,00, desde a soma no ano-calendário não supere R$ 12.000,00. Cumpre ressaltar que a presunção de omissão de receita com base em depósitos bancários é relativa, cabendo ao titular da conta o ônus de comprovar, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos creditados em sua conta de depósito ou investimento e, quando for o caso, a sua tributação. Ou seja, a Autoridade Fiscal tem o dever, apenas, de verificar a ocorrência dos depósitos bancários e individualiza-los, para que o contribuinte, regularmente intimado, possa comprovar que os depósitos não se subsomem à hipótese de incidência do imposto de renda, prevista no art. 43 do CTN. Quando o titular da conta bancária, devidamente intimado, deixa de comprovar, ainda que parcialmente, a origem e a correspondente tributação dos valores creditados em sua conta, o art. 42 da Lei nº 9.430/96 autoriza a Autoridade Fiscal a considerar tais valores como se receita fossem, imputando ao sujeito passivo todas as consequências da omissão de receitas. Assim, ao contrário do que sustentam os Recorrentes, não se trata de confundir a movimentação bancária com o “faturamento real” da empresa, mas sim de, observados todos os requisitos previstos na legislação, presumir omissão de receita a partir dos depósitos bancários cuja origem e tributação não foi comprovada pelo titular da conta bancária. Nesse contexto, afasto o argumento dos Recorrentes de impossibilidade de confundir movimentação bancária com faturamento. c) Possibilidade de arbitramento Nos termos do art. 32 da Lei Complementar nº 123/2006, as empresas excluídas do Simples Nacional ficarão sujeitas às regras de tributação aplicáveis às demais pessoas jurídicas a partir do período em que a exclusão produzir efeitos. Assim, considerando que a base de cálculo do imposto de renda é o montante, real, arbitrado ou presumido de renda ou proventos de qualquer natureza, nos termos do art. 44 do CTN, o §2º do referido dispositivo autoriza que o contribuinte excluído do Simples Nacional opte pelo seu recolhimento na forma do lucro presumido, real trimestral ou real anual. No entanto, para que possa optar pelo lucro presumido, a empresa não pode estar obrigada à tributação pela sistemática do lucro real e deve cumprir com as obrigações acessórias correlatas, quais sejam: escrituração contábil nos termos da legislação comercial ou livro-caixa com toda a movimentação financeira, inclusive bancária, escriturada; Livro Registro de Inventário; livros de escrituração obrigatórios por legislação fiscal específica; e documentos e os demais papéis que serviram de base para escrituração comercial e fiscal (art. 600 do Regulamento do Imposto de Renda, aprovado pelo Decreto nº 9.580/2018 – “RIR/2018”). Por sua vez, para que possa optar pelo lucro real, a empresa deve manter escrituração de todas as suas operações observância às leis comerciais e fiscais, dispondo de, no mínimo, (i) livro diário, a ser entregue em meio digital ao SPED; (ii) livro-razão para resumir e totalizar, por conta ou subconta, os lançamentos efetuados no livro diário; (iii) livro de registro Fl. 6753DF CARF MF Original Fl. 14 do Acórdão n.º 1301-006.368 - 1ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10825.722328/2013-63 de inventário; (iv) livro de registro de entradas (compras); (v) Livro de Apuração do Lucro Real (“Lalur”); (vi) e livro de registro permanente de estoque (art. 262 e seguintes do RIR/2018). Caso a pessoa jurídica excluída do Simples Nacional não disponha dos documentos necessários a sua tributação pelo lucro real ou presumido, o imposto de renda será apurado pela sistemática do lucro arbitrado. Não se trata, pois, de tornar regra o arbitramento, que deveria ser exceção. Mas, sim, de aplicar a regra segundo a qual o contribuinte excluído do Simples Nacional, desde que disponha das obrigações acessórias necessárias à apuração, poderá optar pelo lucro real ou presumido. Cumpre ressaltar que a falta de escrituração do livro caixa ou sua escrituração deficiente não é a única hipótese de exclusão do Simples Nacional. Por essa razão é que o art. 32 da Lei Complementar nº 123/2006 permite que, desde que cumpridos os requisitos, inclusive com relação às obrigações acessórias, as empresas excluídas optem pela apuração do imposto de renda pelo lucro real ou presumido. Tal dispositivo, no entanto, não significa que se deva aguardar para que a empresa elabore nova escrituração fiscal e contábil – o que poderia resultar até na decadência do crédito tributário -, mas, apenas, que se deve outorgar a opção pelo lucro real ou presumido àqueles que atendam aos requisitos para tanto. Por essa razão não procede o argumento dos Recorrentes de exiguidade do prazo concedido pela Autoridade Fiscal para que a empresa elaborasse “toda a escrituração contábil exigível das demais pessoas jurídicas”. Ademais, as pessoas jurídicas optantes pelo Simples Nacional são obrigadas a manter livro-caixa, contendo a escrituração de toda sua movimentação financeira e bancária (art. 26, §2º). E, quando a escrituração a que o contribuinte está obrigado contém vícios, erros ou deficiências que a tornem imprestável para identificar a efetiva movimentação financeira, inclusive bancária, a consequência é a apuração do imposto de renda com base no lucro arbitrado, como determina o art. 603 do RIR/2018. Portanto, mais uma vez, ao contrário do que alegam os Recorrentes, o lucro arbitrado, apesar de ser uma medida excepcional, torna-se a regra sempre que a escrituração do contribuinte for imprestável para apuração do imposto pela sistemática que o contribuinte optou, no caso do lucro presumido, ou do lucro real. No presente caso, os Livros Caixa referentes aos anos-calendários 2008 e 2009, apresentados em fase de fiscalização, contêm entradas de caixa que somam, respectivamente R$ 9.523.068,89 (fl. 77-158) e R$ 3.443.965,68 (fl. 1382-1413), totalizando R$ 12.967.034,57. Por outro lado, a partir da análise dos extratos bancários da empresa, a Autoridade Fiscal identificou R$ 13.522.092,50 em depósitos bancários de origem identificada e R$ 10.403.499,32 em depósitos bancários de origem não identificada, totalizando R$ 23.925.591,82. Cumpre ressaltar que a apuração desses montantes pela Autoridade Fiscal se deu após a exclusão das movimentações financeiras correspondentes a “cheques depositados e devolvidos, estornos de débitos e outros históricos que não representavam ingressos de recursos”, como expressamente afirma o Termo de Verificação Fiscal (fls. 5883). Nota-se que há uma diferença de mais de 10 milhões, entre as entradas declaradas nos Livros Caixa referentes aos anos-calendários 2008 e 2009 e os depósitos bancários presuntivos de omissão de receitas, o que é suficiente para corroborar a conclusão da Autoridade Fiscal de que a escrituração a qual a empresa estava obrigada contém vícios, erros ou deficiências que a tornam imprestável para identificar a efetiva movimentação financeira, inclusive bancária, atraindo a aplicação do art. 603 do RIR/2018. Diante disso, ao contrário do Fl. 6754DF CARF MF Original Fl. 15 do Acórdão n.º 1301-006.368 - 1ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10825.722328/2013-63 que afirmam os Recorrentes, não é desarrazoada a desconsideração da escrituração da empresa para se proceder ao arbitramento de lucros. Diante do exposto, afasto os argumentos dos Recorrentes com relação à impossibilidade de arbitramento de lucros no presente caso. d) Base de cálculo apurada pela Autoridade Fiscal Sustentam os Recorrentes que muitos dos apontamentos que foram lançados como "não justificados" sob a anotação genérica de "valor e data divergem, não há borderô" devem ser excluídos da base de cálculo do lançamento. Isso porque, em realidade, esses valores correspondem a “desconto de título”, “desconto de duplicatas”, “liberação de garantia”, captação de créditos perante instituições financeiras e movimentações em duplicidade, que não implicam em acréscimo patrimonial para a empresa. Nesse ponto, cumpre destacar o extenso trabalho realizado pelas Autoridades Fiscais na análise dos documentos e justificativas apresentados no curso da fiscalização, que culminou na exclusão da base de cálculo dos tributos aqui discutidos dos “créditos apurados que contemplavam cheques depositados e devolvidos, estornos de débitos e outros históricos que não representavam ingressos de recurso”. Além disso, foram considerados justificados os créditos relativos a operações de garantia ou empréstimo ou, ainda, aqueles que apenas transitavam pela conta bancária da empresa (fl. 5883-5885). Some-se a isso o fato de os Recorrentes não trazerem nas impugnações ou recursos voluntários elementos adicionais para comprovar a origem e tributação dos créditos considerados não justificados. Isto é, os Recorrentes não foram capazes de indicar, de forma analítica, eventuais erros cometidos pela Autoridade Fiscal, se limitando a afirmar, de forma genérica, que diversos valores deveriam ser excluídos da base de cálculo dos tributos em exigência. Essa mesma situação foi constatada pela decisão recorrida: “Vale ainda observar que a fiscalização, durante toda a ação fiscal, demonstra ter tomado todo o cuidado possível para excluir os créditos caracterizados como transferências de recursos entre contas do mesmo titular (§ 3º, art. 287 do RIR/99), os estornos e os referentes a cheques devolvidos, os créditos correspondentes a empréstimos ou adiantamentos bancários e demais créditos que não representavam efetivos ingressos de recursos. Também merece anotação o fato de o contribuinte repetir, por diversas vezes e de forma genérica, que diversos lançamentos contidos nos extratos bancários referiam-se a operações financeiras ou movimentações de títulos em cobrança e/ou descontados e deveriam ser excluídos do levantamento fiscal (v. fls. 1784/1786, 1788/1790, 1798/1799, 2432/2433 e 2993/2994), argumentos também repisados nas impugnações (fls. 6189/6190, 6234/6235, 6272/6273 e 6338/6339). Muito embora a fiscalização já tivesse devolvido ao contribuinte, em 09/10/2012, os extratos bancários anteriormente apresentados (Termo de Devolução de documentos nº 13 – fls. 410) e também lhe houvesse fornecido, em 08/07/2013, cópias de todos os extratos bancários obtidos junto às instituições financeiras mediante RMF (Recibo de Entrega de Arquivos Digitais – fls. 2991/2992), nem o contribuinte e tampouco os responsáveis solidários identificam individualizadamente quais seriam estes créditos a Fl. 6755DF CARF MF Original Fl. 16 do Acórdão n.º 1301-006.368 - 1ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10825.722328/2013-63 serem desconsiderados, além daqueles já criteriosamente excluídos pela fiscalização. Não prospera, portanto, esta argumentação. Sendo assim, não havendo outras alegações específicas dos impugnantes no tocante à comprovação da origem dos recursos creditados em conta do contribuinte e estando devidamente demonstrado que a fiscalização seguiu os estritos ditames do art. 42 da Lei nº 9.430/96, afigura-se irretocável o procedimento levado a efeito pelo autuante relativamente à omissão de receitas apurada” (fl. 6449). Alegam, ainda, os Recorrentes, que excluídos os créditos relativos a “desconto de título”, “desconto de duplicatas”, “liberação de garantia”, captação de créditos perante instituições financeiras e movimentações em duplicidade da relação elaborada pela Autoridade Fiscal, o montante escriturado no livro caixa coincide com a real movimentação nas contas da empresa. Tal afirmação, entretanto, pode ser facilmente refutada pelo simples confronto entre a soma das entradas escrituradas nos Livros Caixa referentes aos anos-calendários 2008 e 2009 (R$ 12.967.034,57) e a soma dos depósitos bancários cuja origem foi considerada identificada pela Autoridade Fiscal (R$ 13.522.092,50). Por fim, a empresa cita, em seu recurso voluntário, a título exemplificativo, três lançamentos considerados não justificados e que constam, igualmente, de seu livro caixa. Ora, o fato dos lançamentos considerados não justificados constarem do livro caixa, por si só, não é suficiente para comprovar a origem e consequente tributação dos referidos valores – mormente diante da constatação pela Autoridade Fiscal, ora confirmada, de que o livro caixa não refletia com exatidão a movimentação financeira da empresa, inclusive a bancária. Nesse ponto, cumpre destacar que nos termos dos artigos 923 e 924 do RIR/99, a escrituração mantida com observância das disposições legais faz prova a favor do contribuinte dos fatos nela registrados, cabendo à autoridade administrativa a prova da inveracidade de tais fatos. No entanto, o referido art. 923 também é expresso no sentido de que os fatos escriturados na contabilidade do contribuinte devem ser comprovados por documentos hábeis, o que não ocorreu no presente caso. Diante do exposto, afasto os argumentos dos Recorrentes relacionados às incorreções na apuração da base de cálculo dos tributos ora em exigência. e) Exclusão do Simples Nacional Sustentam os Recorrentes que que as justificativas apontadas pela Autoridade Fiscal para exclusão da empresa do Simples Nacional não procedem, tendo em vista que não houve interposição de pessoas ou falta de escrituração do Livro Caixa. De acordo com o Ato Declaratório Executivo nº 027/2013, a INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE CALÇADOS DONNA DONNA SHOES LTDA. – EPP foi excluída do Simples Nacional “tendo em vista os incisos IV e VIII do art. 29 da Lei Complementar n° 123/2006, c/c disposições do inciso IV, alíneas ‘c’ e ‘g’ e § 2° do art. 76 da Resolução CGSN n° 94/2011”. Estabelecem tais dispositivos: Lei Complementar n° 123/2006: Fl. 6756DF CARF MF Original Fl. 17 do Acórdão n.º 1301-006.368 - 1ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10825.722328/2013-63 “Art. 29. A exclusão de ofício das empresas optantes pelo Simples Nacional dar-se-á quando: (...) IV - a sua constituição ocorrer por interpostas pessoas; (...) VIII - houver falta de escrituração do livro-caixa ou não permitir a identificação da movimentação financeira, inclusive bancária”. Resolução CGSN n° 94/2011: “Art. 76. A exclusão de ofício da ME ou da EPP do Simples Nacional produzirá efeitos: (...) IV - a partir do próprio mês em que incorridas, impedindo nova opção pelo Simples Nacional pelos 3 (três) anos-calendário subsequentes, nas seguintes hipóteses: (Lei Complementar nº 123, de 2006, art. 29, incisos II a XII e § 1º) (...) c) a sua constituição ocorrer por interpostas pessoas; (...) g) houver falta de escrituração do livro-caixa ou não permitir a identificação da movimentação financeira, inclusive bancária; (...) § 2º O prazo de que trata o inciso IV do caput será elevado para 10 (dez) anos caso seja constatada a utilização de artifício, ardil ou qualquer outro meio fraudulento que induza ou mantenha a fiscalização em erro, com o fim de suprimir ou reduzir o pagamento de tributo apurável na forma do Simples Nacional”. Ficou comprovado nos presentes autos a imprestabilidade do Livro Caixa da empresa relativo aos anos de 2008 e 2009 para permitir a identificação da sua movimentação financeira, inclusive bancária, como tratado no item “c” supra, bem como a interposição de LUCIANO GRIZZO, que, como se verá adiante, figurou como sócio e administrador “de fato” da empresa INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE CALÇADOS DONNA DONNA SHOES LTDA. – EPP no período autuado. Isso porque, na procuração de fls. 4632/4633 a empresa, INDUSTRIA E COMERCIO DE CALCADOS DONNA DONNA SHOES LTDA – EP, por meio de seus sócios LUIZ FILIPE CASSARO DE TULIO, JAIR NATAL GRIZZO, PAULO CESAR SALMAZO e VALDIR PASCHOAL, outorgaram a LUCIANO GRIZZO “amplos, gerais e ilimitadas poderes para: “gerir e administrar o estabelecimento Outorgante, podendo nesta e nas demais praças do pais, pagar e receber contas; comprar e vender mercadorias relativas ao seu comércio, promover cobranças amigáveis e judiciais, assinando recibos e quitações; representá-la perante quaisquer bancos, particulares ou públicos e instituições financeiras; abrir, movimentar e encerrar contas; emitir e endossar cheques, requerer talonários, depositar e retirar quantias, verificar extratos, fazer aplicações financeiras, contrair e renovar empréstimos e financiamentos, passar recibos e dar quitações; assinar notas promissórias, duplicatas e todos os demais documentos necessários às operações bancárias da empresa; assinar registros e desligamentos de funcionários, dando baixas em carteiras de trabalho, guias de seguro desemprego, fichas de registro, declarações cadastrais, RAIS, documentos referentes a Fundo de Garantia de Tempo de/Serviço e PIS; representar a empresa junto ao Ministério do Trabalho, Posto de Fiscalização Estadual, Instituto Nacional do Seguro Social, Receita Federal, Empresa de Fl. 6757DF CARF MF Original Fl. 18 do Acórdão n.º 1301-006.368 - 1ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10825.722328/2013-63 Correios e Telégrafos, inclusive perante as empresas concessionárias de serviços públicos; receber notificações, avisos, citações, intimações, assinar inscrições, guias e outros papéis, interpor e assinar recursos e reclamações junto a qualquer instância ou órgão administrativo, acampando-os; requerer a emissão de notas fiscais, abertura e encerramento da matriz ou das filiais; admitir e demitir empregados, fixando-lhes ordenados e comissões; representá-la em quaisquer repartições publicas, federais, estaduais, municipais e autárquicas; representar a empresa perante a Justiça Estadual e Federal, comum ou especializada, contratando advogados com poderes "ad-judicia e os especiais para confessar, desistir, transigir, firmar compromissos ou acordos, receber e dar quitação; propor e contestar contra quem de direito as ações competentes e defendê-la nas contrarias, seguindo umas e outras até final decisão, usando os recursos legais e acompanhando-os; nomear, prepostos e procuradores, praticar todo e qualquer ato para o cabal e fiel desempenho deste mandato, inclusive substabelecer” (grifos nossos). Portanto, não se trata de uma procuração outorgada de pai para filho – que, segundo os Recorrentes, seria algo ordinário e decorrente de uma relação familiar -, mas, sim, de uma procuração outorgada pela empresa, neste ato representada por todos os seus sócios, conferindo amplos e ilimitados poderes de administração a LUCIANO GRIZZO. Ademais, os poderes outorgados não se limitam àqueles relacionados ao exercício da advocacia, como afirmam os Recorrentes, já que vão muito além da “representação da sociedade perante devedores, credores, bancos, órgãos e repartições públicas em geral”, autorizando, expressamente, a compra e venda de mercadorias, a plena movimentação das contas bancárias da empresa, a contratação e demissão de empregados, a abertura e encerramento de filiais, dentre outros. O fato de LUCIANO GRIZZO figurar como avalista da empresa em alguns contratos – ainda que não em todos - , o depoimento de PAULO CEZAR SALMAZO e o Aditamento ao Estatuto Social, que não foi levado à registro, ainda que, isoladamente, não comprovem a interposição de pessoas, quando analisados em conjunto com a procuração, são suficientes para se concluir que LUCIANO GRIZZO era sócio de fato e administrador de INDUSTRIA E COMERCIO DE CALCADOS DONNA DONNA SHOES LTDA – EP. Assim, não seria necessário que a “carta de intenção” consubstanciada no Aditamento ao Estatuto Social fosse levada à registro ou que a Autoridade Fiscal comprovasse o aporte noticiada no documento. Já que, isoladamente, tal documento não comprova a interposição de pessoas, mas, quando analisado em conjunto com os demais elementos probatórios, resta inconteste a atuação de LUCIANO GRIZZO como sócio de fato e administrador da empresa. Cumpre ressaltar que a outorga da administração de uma sociedade, não só não é comum e ordinária, como é vedada pelo art. 1.018 do Código Civil. Confira-se: Art. 1.018. Ao administrador é vedado fazer-se substituir no exercício de suas funções, sendo-lhe facultado, nos limites de seus poderes, constituir mandatários da sociedade, especificados no instrumento os atos e operações que poderão praticar. Portanto, comprovada a configuração de duas das hipóteses de exclusão do Simples Nacional previstas na legislação, correto está o procedimento adotado pela Autoridade Fiscal nos presentes autos. Diante disso, igualmente afasto o argumento dos Recorrentes de ausência de ofensa aos incisos IV e VIII do art. 29 da Lei Complementar n. 123/06. Fl. 6758DF CARF MF Original Fl. 19 do Acórdão n.º 1301-006.368 - 1ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10825.722328/2013-63 f) Multa qualificada Sustentam os Recorrentes a impossibilidade de qualificação da multa de ofício, tendo em vista que a simples omissão de receita não enseja a qualificação da multa, bem como a não verificação no caso concreto das hipóteses previstas nos artigos 71, 72 ou 73 da Lei nº 4.502/64. Nos termos do art. 44, inciso I, e § 1°, da Lei n° 9.430/96, ao sujeito passivo será aplicada multa de ofício de 150% sobre a totalidade ou diferença de tributo sempre que a falta de pagamento, recolhimento ou declaração vier acompanhada de sonegação, fraude ou conluio. Entende-se por sonegação a ação ou omissão dolosa capaz de impedir ou retardar o conhecimento (i) da ocorrência do fato gerador, sua natureza ou circunstâncias; ou (ii) das condições pessoais do contribuinte capazes de afetar a obrigação ou crédito tributário (art. 71 da Lei nº 4.502/64). Fraude, por sua vez, é a ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária ou a excluir ou modificar suas características, de modo a reduzir, evitar ou diferir o pagamento do imposto devido. (art. 72 da Lei nº 4.502/64). Por fim, conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas físicas ou jurídicas, visando à sonegação ou à fraude (art. 73 da Lei nº 4.502/64). Portanto, para que haja a aplicação da multa de ofício qualificada, é preciso que a Fiscalização demonstre a subsunção da conduta praticada pelo sujeito passivo a uma das hipóteses dos artigos 71, 72 ou 73 da Lei nº 4.502/64. Isto é, não basta que haja a imputação genérica de sonegação, fraude ou conluio, é preciso que haja a individualização da conduta do agente e a comprovação inequívoca da existência de dolo. Nesse sentido: “ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA (IRPJ) Ano- calendário: 1996 MULTA QUALIFICADA. JUSTIFICATIVA PARA APLICAÇÃO. NECESSIDADE DA CARACTERIZAÇÃO DO EVIDENTE INTUITO DE DOLOSO FRAUDULENTO. A evidência da intenção dolosa exigida na lei para a qualificação da penalidade aplicada há que aflorar na instrução processual, devendo ser inconteste e demonstrada de forma cabal. Assim, o lançamento da multa qualificada de 150% deve ser minuciosamente justificado e comprovado nos autos. Além disso, exige-se que o contribuinte tenha procedido com evidente intuito de fraude, nos casos definidos nos arts. 71, 72 e 73, da Lei n° 4.502, de 1964” (Acórdão nº . 9101-005.686, de 13.08.21) No presente caso, a multa qualificada foi exigida sobre a receita operacional não declarada DASN, apurada a partir do confronto entre as receitas evidenciadas em documentos fiscais e a receita bruta declarada em DASN, bem como sobre a receita omitida, verificada por meio dos depósitos bancários de origem não comprovada. No entanto, ao contrário do que afirmam os Recorrentes, a qualificação da multa decorreu, não apenas da omissão de receitas, mas também da inexistência da empresa no local, da não localização dos sócios em seus endereços cadastrais, da procrastinação no atendimento das intimações e da interposição de pessoas. Confira-se: Fl. 6759DF CARF MF Original Fl. 20 do Acórdão n.º 1301-006.368 - 1ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10825.722328/2013-63 “77.1. Todos os elementos citados (inexistência da empresa no local, não localização dos sócios em seus endereços cadastrais, procrastinação no atendimento das intimações, interposição de pessoas e disparidade entre faturamento real e valores informados no Simples Nacional) corroboram a constatação de que o contribuinte valeu-se de artifícios fraudulentos com o fim de elidir-se à obrigação tributária, conforme descrevem os artigos 71, 72 e 73 da Lei 4502/64. 78. Verificado assim, que os fatos relatados se subsumem perfeitamente às hipóteses previstas nos antecedentes das normas que definem as condutas criminosas, deve o contribuinte, portanto, sujeitar-se à aplicação da multa de oficio no percentual de 150%, conforme disposto no art. 44, da Lei n° 9.430, de 1996” (fl. 5902). Conforme tratado acima, ficou comprovada nos presentes autos a interposição LUCIANO GRIZZO, e a procuração que lhe deu amplos poderes de administração foi firmada por todos os sócios da empresa, INDUSTRIA E COMERCIO DE CALCADOS DONNA DONNA SHOES LTDA – EP (fls. 4632/4633). A outorga de amplos poderes de administração a terceiro, que não figura como sócio de acordo com o contrato social ou o estatuto, configura interposição de terceiros. E, quando da interposição de terceiros resultar o não recolhimento do tributo, caracterizada está a ação em conluio, entre os sócios “de direito” e os sócios “de fato”, para modificar as características da obrigação tributária e reduzir, evitar ou diferir o pagamento do imposto devido. Diante do exposto, configuradas as hipóteses dos hipóteses dos artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/64, voto por manter a multa qualificada. g) Responsabilidade tributária de LUCIANO GRIZZO A responsabilidade tributária, matéria de lei complementar por força do art. 146, III, “a” da Constituição Federal, é espécie de sujeição passiva tributária, disciplinada nos arts. 128 a 138 do CTN, que é lei formalmente ordinária, recepcionada pelo texto constitucional com força de lei complementar. O responsável tributário, assim como o contribuinte, é sujeito passivo da obrigação tributária, seja ela principal ou acessória. No entanto, nos termos do art. 121, parágrafo único, do CTN, o contribuinte mantém “relação pessoal e direta com a situação que constitua o respectivo fato gerador”, enquanto o responsável tributário é aquele que “sem revestir a condição de contribuinte [tenha] obrigação [que] decorra de disposição expressa de lei”. Isto é, o contribuinte é aquele que tem o dever de realizar o comportamento objeto da obrigação tributária, em detrimento do próprio patrimônio. Como explica Geraldo Ataliba, “é a pessoa que terá diminuição patrimonial, com a arrecadação do tributo [...] [estando] em conexão íntima (relação de fato) com o núcleo (aspecto material) da hipótese de incidência” 1 . O responsável, por sua vez, é aquele que “não realizando o fato gerador da obrigação, a lei lhe imputa o dever de satisfazer o crédito tributário em prol do sujeito ativo” 2 . 1 ATALIBA, Geraldo. Hipótese de incidência tributária. 6. ed. São Paulo: Malheiros, 2016, p. 86. 2 COÊLHO, Sacha Calmon Navarro. Curso de direito tributário brasileiro. 16. ed. Rio de Janeiro: Forense, p. 507- 508. Fl. 6760DF CARF MF Original Fl. 21 do Acórdão n.º 1301-006.368 - 1ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10825.722328/2013-63 Ao responsável é atribuída essa condição (i) em substituição daquele que naturalmente seria o contribuinte, pelas razões previstas na legislação; ou (ii) por transferência do dever de satisfazer a obrigação, outrora atribuída ao contribuinte. A responsabilidade por transferência pode ocorrer de forma que o contribuinte permaneça no polo passivo (como no art. 134 do CTN) ou que o terceiro responda pessoal e exclusivamente pela obrigação tributária (como no art. 135 do CTN). No presente caso, a responsabilidade de LUCIANO GRIZZO foi embasada nos artigos 124 e 135, III do CTN. Diante disso, resta perquirir se as condutas por ele praticadas se subsomem às hipóteses previstas nos referidos artigos. (i) Art. 124 do CTN No termos do art. 124 do CTN, são solidariamente responsáveis pelo crédito tributário, sem benefício de ordem, as pessoas com interesse comum na situação que constitua fato gerador da obrigação principal (inciso I) e as pessoas expressamente designadas por lei (inciso II). As pessoas “designadas por lei” são aquelas cuja responsabilidade é expressamente atribuída pela legislação, não suscitando grandes dúvidas. O “interesse comum”, por sua vez, apesar da subjetividade, não deve ser objeto de alargamento conceitual imoderado apenas para fins de cobrança do crédito tributário. Isso porque “[a] solidariedade não é espécie de sujeição passiva por responsabilidade indireta, como querem alguns. [...] É que a solidariedade é simples forma de garantia, a mais ampla das fidejussórias” 3 . Assim, o art. 124 do CTN contempla hipóteses de solidariedade entre pessoas que já figuram no polo passivo da relação tributária, seja na condição de contribuinte, seja de responsável, não autorizando, por si só, a atribuição de responsabilidade tributária a terceiros. Nesse sentido, ensina Regina Helena Costa 4 : “A solidariedade tributária, que é sempre passiva, somente pode existir entre sujeitos que figurem nesse polo da relação obrigacional. (...) Por intermédio desse expediente, não se inclui terceira pessoa no polo passivo da obrigação tributária, representando apenas ‘forma de graduar a responsabilidade daqueles sujeitos que já compõem o polo passivo’”. Diante disso, cronologicamente, primeiro, um terceiro deve ser responsabilizado pelo crédito tributário, passando a figurar no polo passivo da relação jurídica, ao lado do contribuinte ou em substituição a ele, para, então, incidir o comando do art. 124 do CTN, que determina a solidariedade entre aqueles que já são sujeitos passivos da obrigação tributária; A interpretação sistemática do Código Tributário Nacional confirma o entendimento de que o referido dispositivo não se presta a atribuir responsabilidade a terceiros, mas apenas a graduar a responsabilidade entre os sujeitos passivos da obrigação tributária. Isso porque o art. 124 do CTN está dentro do “Capítulo IV – Sujeito Passivo” e não do “Capítulo V – Responsabilidade Tributária”. 3 BALEEIRO, Aliomar. Direito tributário brasileiro; atualização de Misabel Abreu Derzi. 14. ed. Rio de Janeiro: Editora Forense, 2018, p. 1.118. 4 COSTA, Regina Helena. Código Tributário Nacional Comentado: em sua moldura constitucional. 2.ed., Rio de Janeiro: Forense, 2002, p. 276. Fl. 6761DF CARF MF Original Fl. 22 do Acórdão n.º 1301-006.368 - 1ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10825.722328/2013-63 Portanto, por se tratar de uma norma de solidariedade – e não de responsabilidade – o art. 124 não é suficiente para atribuir responsabilidade a LUCIANO GRIZZO, dependendo, a sua aplicação, da caracterização da condição de responsável tributário nos termos do art. 135, III, do CTN, como se verá adiante. (ii) Art. 135 do CTN Para se determinar o alcance do art. 135 do CTN é preciso analisa-lo em conjunto com o art. 134 do CTN. Apesar de ambos contemplarem hipóteses de responsabilização de terceiros, o art. 134 determina a responsabilidade solidária entre contribuinte e terceiro, pelos atos e omissões praticados, na hipótese de impossibilidade de exigência da obrigação principal do contribuinte; enquanto o art. 135 trata da responsabilidade pessoal do terceiro, quando a obrigação tributária decorrer de atos por ele praticados com excesso de poderes ou infração à lei, contrato social ou estatuto. Como ensina Aliomar Baleeiro, na responsabilidade regida pelo art. 134 do CTN, o contribuinte e o responsável permanecem no polo passivo da relação, “o primeiro, em caráter preferencial, o segundo, subsidiariamente, bastando para isso o descumprimento do dever de pagar tributo devido pelo contribuinte ou a negligência na fiscalização do pagamento” 5. Já no art. 135, tendo em vista que o terceiro age intencionalmente de má fé contra aquele que representa, a responsabilidade é inteiramente transferida, respondendo o terceiro pessoalmente, de forma plena e exclusiva, pela obrigação tributária. Especificamente no que se refere à responsabilização dos sócios, o art. 134 do CTN exige (i) a impossibilidade de exigência da obrigação do contribuinte; (ii) a prática de ato ou omissão pelo terceiro, no caso, o sócio; e (iii) a liquidação da sociedade de pessoas. Já o art. 135 do CTN exige, para a responsabilização pessoal dos sócios ou administradores, (i) a prática de atos com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatuto; (ii) a existência de nexo-causal entre o ato praticado e a obrigação tributária surgida. A interpretação sistemática dos referidos dispositivos faz com que a mera falta de recolhimento de tributos se subsuma ao art. 134 do CTN, enquanto o art. 135 do CTN abarque as hipóteses de infração a leis diversas daquelas que instituem obrigações tributárias principais. Nesse sentido, o STJ, em recurso submetido à sistemática dos recursos repetitivos, firmou a seguinte tese: “A simples falta de pagamento do tributo não configura, por si só, nem em tese, circunstância que acarreta a responsabilidade subsidiária do sócio, prevista no art. 135 do CTN. É indispensável, para tanto, que tenha agido com excesso de poderes ou infração à lei, ao contrato social ou ao estatuto da empresa” (REsp nº 1101728/SP, j. em 11.03.2009). Corrobora desse entendimento Luis Eduardo Schoueri 6 : 5 BALEEIRO, Aliomar. Direito tributário brasileiro; atualização de Misabel Abreu Derzi. 14. ed. Rio de Janeiro: Editora Forense, 2018, p. 1.152. 6 SCHOUERI, Luis Eduardo. Direito Tributário, 8. ed., São Paulo: Saraiva, 2018, p. 614. Fl. 6762DF CARF MF Original Fl. 23 do Acórdão n.º 1301-006.368 - 1ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10825.722328/2013-63 “Nota-se que a infração de que cogita o dispositivo não há de ser a mera falta de recolhimento do tributo. Claro que não recolher um tributo no prazo é uma infração a lei. Entretanto, fosse esse o alcance do artigo 135, então não teria sentido o artigo 134, que já versa sobre responsabilização por não recolhimento do tributo. Para que o último dispositivo tenha algum alcance, há de se entender que o artigo 135 compreende as infrações a leis não tributárias; e, no que se refere às leis tributárias, excetua-se o mero inadimplemento”. Aplicando tais lições ao caso concreto, tem-se que LUCIANO GRIZZO foi responsabilizado com base no art. 135, III, do CTN em razão de suposta infração à lei e ao contrato social, por atuar como sócio administrador da empresa, sem constar formalmente do contrato social. Confira-se: “9. Ao longo dos trabalhos de auditoria, conforme detalhado no Tópico "Da Exclusão do Simples Nacional" dos Termos de Verificação Fiscal e dos Relatórios Fiscais de cada Auto de Infração, a fiscalização apurou que nos anos-calendário 2008 e 2009, a fiscalizada era administrada financeiramente pelo Sr. Luciano Grizzo, quem, por meio de procurações, detinha poderes amplos, gerais e ilimitados para movimentação de contas correntes em instituições financeiras e para administração geral da empresa. 9.1. A fortalecer este fato, a existência de vários "Contratos de Empréstimo e Financiamento" firmados com instituições financeiras, onde o Sr. Luciano Grizzo consta como "Devedor Solidário" e atua como representante legal da empresa. 9.2. Frise-se também que o sócio Paulo Cesar Salmazo, por meio de Termo de Depoimento, declarou que o Sr. Luciano Grizzo exercia a gerência financeira do contribuinte na época dos fatos (2008 e 2009), e que Francisco Luiz Cassaro era sócio de fato da interessada, tendo financiado a constituição da empresa em questão. 9.2.1. Apresentou também documento denominado "1° Aditamento ao Estatuto Social", onde constam Luciano Grizzo, qualificado como sócio e Francisco Luiz Cassaro, qualificado como sócio investidor, sendo que este último aplicou recursos para constituição da empresa e que os demais sócios o ressarciriam na proporção de suas cotas sociais, pormenorizado no citado Tópico "Da Exclusão do Simples Nacional". 9.3. De fato, o Sr. Luciano Grizzo, apesar de não constar oficialmente como sócio e/ou administrador da autuada no Contrato Social, no período fiscalizado era, efetivamente, pelas provas obtidas pela fiscalização, também responsável pela administração das atividades financeiras da pessoa jurídica autuada. 10.A responsabilidade do administrador ocorre somente se houver abuso de direito, excesso de poder, infração da lei, fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou contrato social e desde que reste cabalmente demonstrada a fraude e o dolo do administrador na sua consecução. (...) 12.2. Nesse contexto, um documento especificamente pode servir como ilustração, concomitantemente, das participações do "sócio-gerente" Luciano Grizzo e do "sócioinvestidor" Francisco Luiz Cassaro. É o caso do "1° Aditamento ao Estatuto Social", já citado anteriormente neste Termo. Como visto, esse "1° Aditamento" materializa a própria interposição que iniciou a cadeia de pseudo operações engendradas para permitir a maquiagem da verdadeira constituição social. 13. Tais evidências se mostram bastantes e suficientes para caracterizar infração de lei e contrato social por parte dos Srs. Jair Natal Grizzo, Luiz Filipe Cassaro de Tulio, Paulo Fl. 6763DF CARF MF Original Fl. 24 do Acórdão n.º 1301-006.368 - 1ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10825.722328/2013-63 Cesar Salmazo, Valdir Paschoal, Luciano Grizzo e Francisco Luiz Cassaro na qualidade de sócios e/ou administradores da pessoa jurídica, à época dos fatos, permitindo a subsunção dos fatos à norma de responsabilidade tributária prevista no art. 135, III, do CTN” (fls. 6074-6075). De fato, como detalhadamente tratado no item “e” supra, as provas juntadas aos autos, quando analisadas em conjunto, corroboram com a conclusão de que LUCIANO GRIZZO atuava como sócio administrador de INDUSTRIA E COMERCIO DE CALCADOS DONNA DONNA SHOES LTDA – EP no período autuado, apesar de não constar no contrato social da empresa. Isso porque, na procuração de fls. 4632/4633 a empresa, INDUSTRIA E COMERCIO DE CALCADOS DONNA DONNA SHOES LTDA – EP, por meio de seus sócios LUIZ FILIPE CASSARO DE TULIO, JAIR NATAL GRIZZO, PAULO CESAR SALMAZO e VALDIR PASCHOAL, outorgaram a LUCIANO GRIZZO “amplos, gerais e ilimitadas poderes” para exercer a administração da empresa, contemplando, inclusive, a compra e venda de mercadorias, a plena movimentação das contas bancárias da empresa, a contratação e demissão de empregados, a abertura e encerramento de filiais. Note-se que não é preciso “presumir” poderes além dos outorgados, para que se conclua que LUCIANO GRIZZO exercia a plena administração da sociedade, como se sócio de direito fosse, já que os poderes listados expressamente são suficientes para essa conclusão. Diante disso, não procede o argumento dos Recorrentes de que a procuração não outorgava poderes para prática de atos de compra e venda, por exemplo, e outros que, por lei, exigem poderes especiais. Isso porque, frise-se, o instrumento outorga expressamente diversos poderes especiais, inclusive, para compra e venda de mercadorias. Tendo em vista que a outorga da administração de sociedade é vedada pelo art. 1.018 do Código Civil, pode-se concluir que, no presente caso, houve violação à lei e ao contrato social, em razão da outorga de poderes de administração por procuração e da prática de tais atos por quem não detinha poderes para tanto de acordo com o contrato social da empresa. Dentre os atos praticados pelo administrador LUCIANO GRIZZO nos anos calendários de 2008 e 2009, está a omissão de receitas, configurada a partir dos depósitos bancários de origem não identificada. Portanto, evidenciada a (i) a prática de atos com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatuto e (ii) a existência de nexo-causal entre o ato praticado e a obrigação tributária surgida, configurada está a responsabilidade tributária prevista no art. 135, III, do CTN. Diante disso, mantenho a responsabilidade tributária solidária de LUCIANO GRIZZO, nos termos dos artigos 124 e 135, III, do CTN. h) Responsabilidade tributária de FRANCISCO LUIZ CASSARO FRANCISCO LUIZ CASSARO foi considerado responsável tributário pelos débitos em exigência, com base nos artigos 124, I e 135, III, do CTN, em razão da prática dos seguintes atos descritos no Termo de Sujeição Passiva Solidária: Fl. 6764DF CARF MF Original Fl. 25 do Acórdão n.º 1301-006.368 - 1ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10825.722328/2013-63 “7. Destarte, considerando o princípio que no Direito Tributário a solidariedade é regra e não exceção e que o art. 124, I do CTN diz serem solidariamente obrigadas as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador, é imperativo concluir que os sócios de uma empresa obrigada que, obviamente têm interesse comum na ocorrência do fato gerador, não possam restar à margem do vínculo, já que dele (Fato Gerador) tiraram o mesmo ou semelhante proveito econômico, solidariamente com aquela que o ‘produziu’. 8. A responsabilidade solidária é, in casu, objetiva. A mera vinculação da pessoa ao fato gerador no qual tinha interesse econômico produz, desde logo, a sujeição passiva por solidariedade. Assim, os sócios têm interesse comum no faturamento da empresa que passa a dever à Fazenda Nacional em razão dele. A lucratividade da empresa derivará do referido faturamento e, naturalmente, os sócios haverão de participar dela e, não quer dizer que, em não havendo lucros, deixe de existir o interesse comum. Basta a expectativa de lucratividade (razão maior de um empreendimento) com o faturamento referido para que se faça presente o requisito estabelecedor da solidariedade. (...) 9.2. Frise-se também que o sócio Paulo Cesar Salmazo, por meio de Termo de Depoimento, declarou que o Sr. Luciano Grizzo exercia a gerência financeira do contribuinte na época dos fatos (2008 e 2009), e que Francisco Luiz Cassaro era sócio de fato da interessada, tendo financiado a constituição da empresa em questão. 9.2.1. Apresentou também documento denominado "1° Aditamento ao Estatuto Social", onde constam Luciano Grizzo, qualificado como sócio e Francisco Luiz Cassaro, qualificado como sócio investidor, sendo que este último aplicou recursos para constituição da empresa e que os demais sócios o ressarciriam na proporção de suas cotas sociais, pormenorizado no citado Tópico "Da Exclusão do Simples Nacional". (...) 12.2. Nesse contexto, um documento especificamente pode servir como ilustração, concomitantemente, das participações do "sócio-gerente" Luciano Grizzo e do "sócio investidor" Francisco Luiz Cassaro. É o caso do "1° Aditamento ao Estatuto Social", já citado anteriormente neste Termo. Como visto, esse "1° Aditamento" materializa a própria interposição que iniciou a cadeia de pseudo operações engendradas para permitir a maquiagem da verdadeira constituição social. 13. Tais evidências se mostram bastantes e suficientes para caracterizar infração de lei e contrato social por parte dos Srs. Jair Natal Grizzo, Luiz Filipe Cassaro de Tulio, Paulo Cesar Salmazo, Valdir Paschoal, Luciano Grizzo e Francisco Luiz Cassaro na qualidade de sócios e/ou administradores da pessoa jurídica, à época dos fatos, permitindo a subsunção dos fatos à norma de responsabilidade tributária prevista no art. 135, III, do CTN” (fls.6062-6063 ). Diante disso, sustentam os Recorrentes que o Aditamento ao Estatuto Social nunca foi levado à registro, tratando-se de uma mera “carta de intenção”, não servindo para caracterizar FRANCISCO LUIZ CASSARO como “sócio-administrador de fato”, mormente porque o “aporte” nele noticiado não ficou comprovado. Como tratado acima, o art. 124, I, do CTN não se presta a atribuir responsabilidade a terceiros, mas apenas a graduar a responsabilidade entre os sujeitos passivos da obrigação tributária. O art. 135 do CTN, por sua vez, exige, para a responsabilização pessoal dos sócios ou administradores, (i) a prática de atos com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatuto; (ii) a existência de nexo-causal entre o ato praticado e a obrigação Fl. 6765DF CARF MF Original Fl. 26 do Acórdão n.º 1301-006.368 - 1ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10825.722328/2013-63 tributária surgida. Para isso, entretanto, é preciso que haja comprovação de que o pretenso responsável tributário figurou como sócio ou administrador da empresa, o que se dá pelo texto do contrato ou estatuto social, no caso dos sócios ou administradores “de direito” ou das provas acostadas aos autos que eventualmente demonstre que, mesmo sem poderes expressos, a pessoa física agia como sócio ou administrador “de fato”. No presente caso, foram juntados aos autos para comprovar a responsabilidade tributária de FRANCISCO LUIZ CASSARO (i) Aditamento ao Estatuto Social, assinado por FRANCISCO LUIZ CASSARO, LUCIANO GRIZZO e pelos sócios PAULO CESAR SALMAZO e VALDIR PASCHOAL, no qual consta a informação de que o “sócio” FRANCISCO LUIZ CASSARO investiu capital na sociedade e seria ressarcido posteriormente por LUCIANO GRIZZO, PAULO CESAR SALMAZO e VALDIR PASCHOAL (fl. 4640). Cumpre ressaltar que o referido aditamento não foi assinado por todos os sócios da empresa, não tem reconhecimento de firma, não tem assinatura de testemunhas e não há nos autos informação de que tenha sido levado a registro. E o depoimento de PAULO CESAR SALMAZO, por si só, não é suficiente para se conclua, de forma inconteste, que FRANCISCO LUIZ CASSARO era sócio de fato da empresa. A responsabilidade tributária de quem não figura como sócio ou administrador “de direito” não se presume, devendo ser provada por meio de documentação sólida e robusta. Diante disso, tendo em vista a insuficiência das provas juntadas aos autos para caracterizar a responsabilidade tributária, afasto a exigência do crédito tributário com relação ao Recorrente FRANCISCO LUIZ CASSARO. i) Responsabilidade tributária de LUIZ FILIPE CASSARO DE TULIO LUIZ FELIPE CASSARO DE TULIO foi considerado responsável tributário pelos débitos em exigência, com base nos artigos 124, I e 135, III, do CTN, em razão da prática dos seguintes atos: “7. Destarte, considerando o princípio que no Direito Tributário a solidariedade é regra e não exceção e que o art. 124, I do CTN diz serem solidariamente obrigadas as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador, é imperativo concluir que os sócios de uma empresa obrigada que, obviamente têm interesse comum na ocorrência do fato gerador, não possam restar à margem do vínculo, já que dele (Fato Gerador) tiraram o mesmo ou semelhante proveito econômico, solidariamente com aquela que o ‘produziu’. 8. A responsabilidade solidária é, in casu, objetiva. A mera vinculação da pessoa ao fato gerador no qual tinha interesse econômico produz, desde logo, a sujeição passiva por solidariedade. Assim, os sócios têm interesse comum no faturamento da empresa que passa a dever à Fazenda Nacional em razão dele. A lucratividade da empresa derivará do referido faturamento e, naturalmente, os sócios haverão de participar dela e, não quer dizer que, em não havendo lucros, deixe de existir o interesse comum. Basta a expectativa de lucratividade (razão maior de um empreendimento) com o faturamento referido para que se faça presente o requisito estabelecedor da solidariedade. (...) Fl. 6766DF CARF MF Original Fl. 27 do Acórdão n.º 1301-006.368 - 1ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10825.722328/2013-63 9. Ao longo dos trabalhos de auditoria, conforme detalhado no Tópico "Da Exclusão do Simples Nacional" dos Termos de Verificação Fiscal e dos Relatórios Fiscais de cada Auto de Infração, a fiscalização apurou que nos anos-calendário 2008 e 2009, a fiscalizada era administrada financeiramente pelo Sr. Luciano Grizzo, quem, por meio de procurações, detinha poderes amplos, gerais e ilimitados para movimentação de contas correntes em instituições financeiras e para administração geral da empresa. (...) 9.2. Frise-se também que o sócio Paulo Cesar Salmazo, por meio de Termo de Depoimento, declarou que o Sr. Luciano Grizzo exercia a gerência financeira do contribuinte na época dos fatos (2008 e 2009), e que Francisco Luiz Cassaro era sócio de fato da interessada, tendo financiado a constituição da empresa em questão. 9.2.1. Apresentou também documento denominado "1° Aditamento ao Estatuto Social", onde constam Luciano Grizzo, qualificado como sócio e Francisco Luiz Cassaro, qualificado como sócio investidor, sendo que este último aplicou recursos para constituição da empresa e que os demais sócios o ressarciriam na proporção de suas cotas sociais, pormenorizado no citado Tópico "Da Exclusão do Simples Nacional". (...) 12.2. Nesse contexto, um documento especificamente pode servir como ilustração, concomitantemente, das participações do "sócio-gerente" Luciano Grizzo e do "sócio investidor" Francisco Luiz Cassaro. É o caso do "1° Aditamento ao Estatuto Social", já citado anteriormente neste Termo. Como visto, esse "1° Aditamento" materializa a própria interposição que iniciou a cadeia de pseudo operações engendradas para permitir a maquiagem da verdadeira constituição social. 13. Tais evidências se mostram bastantes e suficientes para caracterizar infração de lei e contrato social por parte dos Srs. Jair Natal Grizzo, Luiz Filipe Cassaro de Tulio, Paulo Cesar Salmazo, Valdir Paschoal, Luciano Grizzo e Francisco Luiz Cassaro na qualidade de sócios e/ou administradores da pessoa jurídica, à época dos fatos, permitindo a subsunção dos fatos à norma de responsabilidade tributária prevista no art. 135, III, do CTN” (fls.6079-6081). Isto é, a responsabilidade de LUIZ FELIPE CASSARO DE TULIO, com base no art. 124, I, do CTN, decorreu do suposto interesse comum no não recolhimento de tributos pela empresa, e, com arrimo no art. 135, III, do CTN, em razão da atuação de LUCIANO GRIZZO e FRANCISCO LUIZ CASSARO como “sócio-gerente” e “sócio investidor” da empresa, respectivamente. Os Recorrentes, por sua vez, sustentam que não houve descrição da infração supostamente praticada por LUIZ FELIPE CASSARO DE TULIO a ensejar a sua responsabilização. Como abordado acima, o art. 124, I, do CTN não se presta a atribuir responsabilidade a terceiros, mas apenas a graduar a responsabilidade entre os sujeitos passivos da obrigação tributária. O art. 135 do CTN, por sua vez, exige, para a responsabilização pessoal dos sócios ou administradores, (i) a prática de atos com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatuto; (ii) a existência de nexo-causal entre o ato praticado e a obrigação tributária surgida. Nos presentes autos, ficou comprovado que LUCIANO GRIZZO atuava como sócio administrador de INDUSTRIA E COMERCIO DE CALCADOS DONNA DONNA SHOES LTDA – EP no período autuado, apesar de não constar no contrato social da empresa. Diante disso, houve violação à lei e ao contrato social, por todos os sócios efetivos as empresa, Fl. 6767DF CARF MF Original Fl. 28 do Acórdão n.º 1301-006.368 - 1ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10825.722328/2013-63 em razão da outorga de poderes de administração por procuração, firmada inclusive por LUIZ FILIPE CASSARO DE TULIO (fls. 4632/4633), sócio de direito à época, que permitiu a LUCIANO GRIZZO praticar atos de gestão da sociedade sem ter poderes para tanto de acordo com o contrato social da empresa. Ademais, ficou comprovado que, dentre os atos praticados pelo administrador LUCIANO GRIZZO nos anos calendários de 2008 e 2009, está a omissão de receitas, configurada a partir dos depósitos bancários de origem não identificada. Nesse contexto, resta evidenciado que LUIZ FILIPE CASSARO DE TULIO praticou atos com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatuto, ao outorgar procuração com amplos poderes de administração a LUCIANO GRIZZO. E, ainda, que dos poderes outorgados a LUCIANO GRIZZO resultou a falta de recolhimento dos tributos ora em exigência, configurando, assim, a existência de nexo-causal entre o ato praticado e a obrigação tributária surgida. Diante disso, mantenho a responsabilidade tributária de LUIZ FILIPE CASSARO DE TULIO com base nos artigos 124 e 135, III, do CTN. Conclusão Diante do exposto, conheço dos recursos voluntários e afasto a preliminar de nulidade do auto de infração invocada por INDUSTRIA E COMERCIO DE CALCADOS DONNA DONNA SHOES LTDA – EPP em razão da suposta ausência de intimação dos herdeiros de seu representante legal JAIR NATAL GRIZZO. No mérito, voto por NEGAR PROVIMENTO aos RECURSOS VOLUNTÁRIOS de INDUSTRIA E COMERCIO DE CALCADOS DONNA DONNA SHOES LTDA – EPP, LUCIANO GRIZZO e LUIZ FILIPE CASSARO DE TULIO; e DAR PROVIMENTO AO RECURSO VOLUNTÁRIO de FRANCISCO LUIZ CASSARO, para afastar a sua responsabilidade tributária. Por fim, acolho o pedido de nulidade do auto de infração com relação a JAIR NATAL GRIZZO, formulado por TEREZINHA BRANCAGLION GRIZZO e DANIELA GRIZZO, herdeiras de JAIR NATAL GRIZZO, tendo em vista a ausência de intimação dos herdeiros para apresentar impugnação ao auto de infração. No entanto, com arrimo no art. 59, §3º do Decreto nº 70.235/72, voto por extinguir o crédito tributário com relação aos referidos herdeiros de JAIR NATAL GRIZZO, tendo em vista o transcurso do prazo previsto no art. 173 do CTN. (documento assinado digitalmente) Maria Carolina Maldonado Mendonça Kraljevic Fl. 6768DF CARF MF Original Fl. 29 do Acórdão n.º 1301-006.368 - 1ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10825.722328/2013-63 Fl. 6769DF CARF MF Original

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Numero do processo: 11080.903811/2010-18
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Jul 10 00:00:00 UTC 2023
Data da publicação: Fri Jul 21 00:00:00 UTC 2023
Ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA (IRPJ) Período de apuração: 01/04/2004 a 30/06/2004 LUCRO REAL. REGIME DE COMPETÊNCIA. RECEITAS TRIBUTADAS. RETENÇÕES NA FONTE COMPROVADAS. DEDUÇÃO DO IMPOSTO DEVIDO. ADMISSIBILIDADE Na apuração do IRPJ, a pessoa jurídica poderá deduzir do imposto devido o valor do imposto de renda retido na fonte, desde que comprovada a retenção e o cômputo das receitas correspondentes na base de cálculo do imposto (Súmula CARF n° 80).
Numero da decisão: 1001-003.011
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, para reconhecer à Recorrente direito creditório adicional de R$ 32.903,97 (trinta e dois mil, novecentos e três reais e noventa e sete centavos), a título de saldo negativo do Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica do 2º trimestre de 2004, homologando-se a compensação declarada até o limite do crédito reconhecido e disponível. (documento assinado digitalmente) Fernando Beltcher da Silva – Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: José Roberto Adelino da Silva, Rycardo Henrique Magalhães de Oliveira e Fernando Beltcher da Silva.
Nome do relator: FERNANDO BELTCHER DA SILVA

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REGIME DE COMPETÊNCIA. RECEITAS TRIBUTADAS. RETENÇÕES NA FONTE COMPROVADAS. DEDUÇÃO DO IMPOSTO DEVIDO. ADMISSIBILIDADE Na apuração do IRPJ, a pessoa jurídica poderá deduzir do imposto devido o valor do imposto de renda retido na fonte, desde que comprovada a retenção e o cômputo das receitas correspondentes na base de cálculo do imposto (Súmula CARF n° 80). Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, para reconhecer à Recorrente direito creditório adicional de R$ 32.903,97 (trinta e dois mil, novecentos e três reais e noventa e sete centavos), a título de saldo negativo do Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica do 2º trimestre de 2004, homologando-se a compensação declarada até o limite do crédito reconhecido e disponível. (documento assinado digitalmente) Fernando Beltcher da Silva – Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: José Roberto Adelino da Silva, Rycardo Henrique Magalhães de Oliveira e Fernando Beltcher da Silva. Relatório Cuida-se de Recurso Voluntário do contribuinte em epígrafe contra o Acórdão n° 14-88.534, da 6ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Ribeirão Preto/SP (“DRJ”). Na origem, a ora Recorrente apresentara Declaração de Compensação (“DComp”) objetivando liquidar débito próprio lançando mão de crédito alusivo a saldo negativo do Imposto AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 08 0. 90 38 11 /2 01 0- 18 Fl. 384DF CARF MF Original Fl. 2 do Acórdão n.º 1001-003.011 - 1ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 11080.903811/2010-18 sobre a Renda da Pessoa Jurídica do 2º trimestre de 2004, este levantado no montante de R$ 100.313,10. A autoridade fiscal, da unidade da Secretaria Especial da Receita Federal do Brasil de circunscrição do sujeito passivo, proferiu despacho reconhecendo parcialmente o direito creditório postulado, no valor de R$ 67.409,13, ao argumento de que algumas retenções do imposto tidas por sofridas na fonte não se confirmaram, a saber 1 : Fonte Pagadora Código da Receita Valor PER/DCOMP Valor confirmado Valor não confirmado Justificativa 05.971.880/0001-67 CESS INFORMÁTICA 3426 32.107.33 7.361,79 24.745,54 Retenção na fonte comprovada parcialmente 33.479.023/0001-80 CITY BANK 3426 17.239.687,92 0,00 17.239.687,92 Retenção na fonte não comprovada 60.394.079/0001-04 BANK BOSTON 3426 433.621.89 60.047,34 373.574,55 Retenção na fonte comprovada parcialmente Sobreveio Manifestação de Inconformidade da pessoa jurídica. Por bem resumir as alegações trazidas naquela peça, reproduzo os correspondentes excertos do relatório da decisão recorrida: Cientificada do despacho decisório em 15/06/2010 (AR à fls. 155), a interessada apresentou em 13/07/2010 a manifestação de inconformidade de fls. 02 a 08, acompanhada dos documentos de fls. 09 a 154, onde alega, em síntese, preliminarmente, que o despacho decisório seria nulo por ausência de fundamentação, violando os princípios de motivação e da ampla defesa, pois não demonstrou as razões de fato e de direito para motivar o seu entendimento. No mérito, requer a produção de provas a fim de comprovar seu direito creditório, consoante os arts. 36 e seguintes da Lei nº 9.784/99. Entende que o direito creditório independe dos valores informados nas declarações, de modo que o direito de juntar documentos e comprovar as questões relativas à matéria objeto do processo lhe é assegurado por lei. Ao final requer: a suspensão da exigibilidade do crédito tributário; seja reconhecida a nulidade do despacho decisório, sob pena de afronta aos princípios da motivação, do contraditório e da ampla defesa; a produção de provas do direito creditório nos termos assegurados pela Lei 9.784/99. O colegiado a quo julgou aquele primeiro apelo improcedente, rejeitando a preliminar de nulidade suscitada e, no mérito, afirmando que o contribuinte não trouxera ao processo informe de rendimento algum e que, assim, não comprovara as retenções inadmitidas na composição do saldo negativo pela autoridade fiscal. Irresignado, recorre o contribuinte a este Conselho, defendendo seu direito de valer-se das retenções em testada, já que as comprova, mediante documentos que apresenta, e que as receitas de aplicações financeiras e os correspondentes impostos retidos na fonte foram lançados na respectiva Declaração de Informações Econômico-Fiscais da Pessoa Jurídica, não podendo, portanto, ser a Recorrente prejudicada por eventual descumprimento de obrigação acessória por terceiros. Junta aos autos, em sede do presente recurso, 2 (dois) comprovantes de rendimentos, uma planilha e a referida DIPJ, os quais requer que sejam conhecidos, haja vista o processo administrativo fiscal ser orientado pelo princípio da verdade material. Cita precedentes do CARF. Peticiona, em conclusão, pelo provimento do recurso, para que seja reconhecida a 1 Dados reproduzidos do Recurso Voluntário. Fl. 385DF CARF MF Original Fl. 3 do Acórdão n.º 1001-003.011 - 1ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 11080.903811/2010-18 integralidade do direito creditório, com a consequente homologação integral da compensação declarada. É o Relatório. Voto Conselheiro Fernando Beltcher da Silva, Relator. O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, pelo que dele conheço. Deve-se destacar, de início, que os presentes autos versam sobre direito creditório postulado pela Recorrente, para fins de compensação. Assim, nos termos do artigo 170 do Código Tributário Nacional, o crédito ofertado deve ser líquido e certo, cujos atributos devem ser comprovados pelo autor do feito, o contribuinte. Nos termos do § 11 do art. 74 da Lei n.º 9.430, de 27 de dezembro de 1996, aplica-se às manifestações de inconformidade e aos recursos voluntários referentes às declarações de compensação o rito estabelecido no Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, o qual estabelece, em seu art. 16, que a impugnação mencionará os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir (grifou-se). Nessa mesma linha, de que o ônus de provar os fatos alegados, constitutivos do direito pleiteado, é do autor do feito, faço, adicionalmente, referência ao art. 36 da Lei n.º 9.784, de 29 de janeiro de 1999, e ao inciso I do art. 373 do Código de Processo Civil. Entretanto, haja vista o esforço derradeiro da Recorrente de buscar provar haver sofrido as retenções informadas na DComp, admito e conheço os elementos trazidos em sede de Recurso Voluntário, para que ao fim e ao cabo prevaleça a verdade material, já que estão no contexto da discussão de matéria em litígio, sem trazer inovação, e dentro do prazo de trinta dias, a contar da data da ciência da decisão recorrida. É o que tem sido decidido na 1ª Câmara Superior de Recursos Fiscais, conforme se verifica no seguinte julgado: PROVAS. RECURSO VOLUNTÁRIO. APRESENTAÇÃO. POSSIBILIDADE. SEM INOVAÇÃO E DENTRO DO PRAZO LEGAL. Da interpretação sistêmica da legislação relativa ao contencioso administrativo tributário, art. 5º, inciso LV da Lei Maior, art. 2º da Lei nº 9.784, de 1999, que regula o processo administrativo federal, e arts. 15 e 16 do PAF, evidencia-se que não há óbice para apresentação de provas em sede de recurso voluntário, desde que sejam documentos probatórios que estejam no contexto da discussão de matéria em litígio, sem trazer inovação, e dentro do prazo temporal de trinta dias a contar da data da ciência da decisão recorrida. (Processo: 10880.004637/9929. Rel. ANDRE MENDES DE MOURA. Data da Sessão: 14/09/2017) Feitas essas considerações iniciais, digo que as Declarações do Imposto sobre a Renda Retido na Fonte (Dirf) são, via de regra, as principais fontes de informação de que dispõe o Fisco para, em rotinas internas de processamento e de cruzamento de dados, aferir se Fl. 386DF CARF MF Original Fl. 4 do Acórdão n.º 1001-003.011 - 1ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 11080.903811/2010-18 determinado beneficiário dos respectivos rendimentos de fato sofrera as retenções deduzidas na apuração do tributo por este devido. À fonte pagadora incumbe, ainda, emitir e fornecer comprovante de retenção em nome do beneficiário, sendo esse o documento tradicionalmente probante em procedimentos e processos administrativos fiscais de interesse do beneficiário. Contudo, em atenção, especialmente, ao princípio da verdade material referido pela Recorrente, a compreensão solidificada no CARF é de que a prova da retenção não se dá exclusivamente pela apresentação de comprovante emitido em nome do beneficiário pela fonte pagadora: Súmula CARF n° 143: A prova do imposto de renda retido na fonte deduzido pelo beneficiário na apuração do imposto de renda devido não se faz exclusivamente por meio do comprovante de retenção emitido em seu nome pela fonte pagadora dos rendimentos. Por outro lado, o IRRF pode ser deduzido do IRPJ na apuração do saldo a pagar ou a ser compensado, desde que a retenção tenha incidido sobre receitas computadas na determinação do lucro real. A matéria é de longa data sedimentada neste Conselho, a ponto de estar sumulada, cujo enunciado é de observância obrigatória pelos Conselheiros (artigo 72 do Anexo II da Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2015, que aprova o Regimento Interno do CARF): Súmula CARF nº 80: Na apuração do IRPJ, a pessoa jurídica poderá deduzir do imposto devido o valor do imposto de renda retido na fonte, desde que comprovada a retenção e o cômputo das receitas correspondentes na base de cálculo do imposto. No presente caso, percebe-se do comprovante emitido pelo CITIBANK que os rendimentos foram auferidos pela Recorrente em janeiro de 2004, momento em que ocorreu a retenção de R$ 17.239.687,92. Levando-se em consideração que as receitas de aplicação financeira (“swap”) tenham sido levadas à tributação pelo regime de competência, de adoção obrigatória pelos contribuintes que apuram o IRPJ a partir do lucro real, a retenção sofrida no 1º trimestre de 2004 não pode ser deduzida do imposto devido no 2º trimestre de 2004, período ao qual se refere o direito creditório postulado. Poderia a Recorrente, observado o prazo decadencial, refazer o cálculo do imposto a pagar, ou a restituir/compensar (saldo negativo) do 1º trimestre de 2004 e repetir eventuais indébitos remanescentes. A esse respeito, dentre diversos precedentes, trago à colação trecho de ementa do Acórdão n° 1003-002.636, da 3ª Turma Extraordinária/1ª Seção de Julgamento, de relatoria da Conselheira Mauritânia Elvira de Sousa Mendonça: IRRF. LUCRO REAL. OFERECIMENTO À TRIBUTAÇÃO. REGIME DE COMPETÊNCIA. As parcelas de IRRF devem compor o eventual saldo negativo no próprio período em que houver a retenção, uma vez que as correspondentes receitas também devem compor o correspondente resultado tributável, respeitando-se o regime de competência. A título meramente ilustrativo, reproduzo ementas de outros julgados do CARF: DIREITO CREDITÓRIO RELATIVO A COMPOSIÇÃO D E SALDO NEGATIVO. CRÉDITO DECORRENTE DE IRRF DE PERÍODOS ANTERIORES. Fl. 387DF CARF MF Original Fl. 5 do Acórdão n.º 1001-003.011 - 1ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 11080.903811/2010-18 IMPOSSIBILIDADE. Na apuração do lucro real e em razão do regime de competência, é facultado à pessoa jurídica a dedução do valor de IRRF incidente sobre as respectivas receitas oferecidas à tributação, desde que ambos - receita e IRRF - pertençam ao mesmo período de apuração. (Acórdão CARF nº 1002-991, de 16/01/2020) DEDUÇÃO DE IRRF DE PERÍODOS ANTERIORES AO DA APURAÇÃO DO IRPJ. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA CARF Nº 80. Em decorrência da sistemática de tributação adotada, o imposto de renda retido na fonte (quando comprovado) incidente sobre as receitas que integram o lucro tributável e constitui antecipação do IRPJ é passível de dedução na apuração do valor a pagar ou para compor o saldo negativo do IRPJ do período de apuração em que houve a retenção. (Acórdão CARF nº 1201- 003.669, de 11/03/2020) Algo similar ocorre com o informe emitido pelo BANK BOSTON, já que dos R$ 433,6 mil informados na Dcomp, valor total do ano-calendário 2004, apenas R$ 92.951,31 foram retidos no período de apuração do crédito postulado: abril maio junho 32.903,97 33.079,22 26.968,12 Tendo-se em mente que a autoridade fiscal confirmara, da referida fonte pagadora, R$ 60.047,34, resta admitirmos que a diferença (equivalente ao exato montante da retenção de abril/2004) possa compor o saldo negativo pleiteado pela Recorrente. No que se refere à planilha, na qual são reunidos dados de supostas retenções efetuadas por CESS INFORMÁTICA, tal documento não reúne a força probante necessária, não se prestando, portanto, ao fim almejado pela Recorrente. Ademais, dos R$ 32.107,33 (que seria a soma do imposto supostamente retido pela fonte pagadora no ano-calendário 2004), apenas R$ 7.361,79 se refeririam a supostas retenções sofridas no 2º trimestre daquele ano. Ocorre que este segundo montante foi confirmado pela autoridade fiscal, razão pela qual o pleito do contribuinte, nesse peculiar, já fora alcançado, nada havendo a ser aqui acrescentado. Por fim, cito que a Recorrente declarou, na DIPJ, ter auferido outras receitas financeiras no 2º trimestre de 2004 no valor de R$ 5.278.726,59, montante que em muito supera os rendimentos (R$ 501.565,49) atrelados ao IRRF admitido na composição do saldo negativo. Em resumo, a parcela do direito creditório passível de reconhecimento nesta fase (R$ 32.903,97), acrescida da referendada pela autoridade fiscal (R$ 67.409,13), perfaz a totalidade do crédito informado na DComp (R$ 100.313,10), razão pela qual meu pronunciamento é pelo provimento parcial tão somente em razão da discussão envolvendo retenções do imposto sofridas na fonte em períodos diversos e da precariedade probatória no que toca à planilha referida. Pelo exposto, voto por dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, para reconhecer à Recorrente direito creditório adicional de R$ 32.903,97 (trinta e dois mil, novecentos e três reais e noventa e sete centavos), a título de saldo negativo do Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica do 2º trimestre de 2004, homologando-se a compensação declarada até o limite do crédito reconhecido e disponível. É como voto. (documento assinado digitalmente) Fl. 388DF CARF MF Original Fl. 6 do Acórdão n.º 1001-003.011 - 1ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 11080.903811/2010-18 Fernando Beltcher da Silva Fl. 389DF CARF MF Original

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Numero do processo: 11052.000355/2010-90
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jun 21 00:00:00 UTC 2023
Data da publicação: Mon Jul 17 00:00:00 UTC 2023
Numero da decisão: 1301-001.138
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento em diligência, para retornar à Unidade de origem, nos termos do voto da Relatora. (documento assinado digitalmente) Rafael Taranto Malheiros - Presidente (documento assinado digitalmente) Maria Carolina Maldonado Mendonça Kraljevic - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Iagaro Jung Martins, Jose Eduardo Dornelas Souza, Lizandro Rodrigues de Sousa, Marcelo Jose Luz de Macedo, Fernando Beltcher da Silva (suplente convocado), Maria Carolina Maldonado Mendonca Kraljevic, Eduardo Monteiro Cardoso, Rafael Taranto Malheiros (Presidente).
Nome do relator: MARIA CAROLINA MALDONADO MENDONCA KRALJEVIC

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Interessado FAZENDA NACIONAL Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento em diligência, para retornar à Unidade de origem, nos termos do voto da Relatora. (documento assinado digitalmente) Rafael Taranto Malheiros - Presidente (documento assinado digitalmente) Maria Carolina Maldonado Mendonça Kraljevic - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Iagaro Jung Martins, Jose Eduardo Dornelas Souza, Lizandro Rodrigues de Sousa, Marcelo Jose Luz de Macedo, Fernando Beltcher da Silva (suplente convocado), Maria Carolina Maldonado Mendonca Kraljevic, Eduardo Monteiro Cardoso, Rafael Taranto Malheiros (Presidente). Relatório Trata-se de autos de infração para ajuste na base de cálculo do IRPJ e da CSLL, referente ao ano-calendário de 2006, bem como para exigência de IRRF, relativo ao mesmo período, acrescido de juros de mora e multa de 75%, em razão da suposta prática das seguintes irregularidades: (i) não comprovação de despesas escrituradas, discriminadas na planilha de fls. 168 a 171; (ii) não comprovação da dedutibilidade das despesas com passagens; (iii) pagamento de remuneração indireta por meio de (a) gastos com veículos; (b) arrendamento mercantil de veículo; (c) IPVA; (d) manutenção e reparos; (e) seguros; (f) manutenção de veículos; (g) locação de veículos; e (h) aluguel de garagens; (iv) gastos com alimentação de sócios, administradores e terceiros; (v) gastos por meio de cartão empresarial ou debitados na conta Caixa; (vi) pagamentos a beneficiários não identificados; (vii) não comprovação do direito à dedução ou da adição ao lucro líquido do exercício do valor referente às perdas no recebimento de créditos de liquidação duvidosa; (viii) não adição ao lucro líquido dos valores referentes ao ajuste de preço de transferência. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 10 52 .0 00 35 5/ 20 10 -9 0 Fl. 889DF CARF MF Original Fl. 2 da Resolução n.º 1301-001.138 - 1ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11052.000355/2010-90 Intimado, o Recorrente apresentou impugnação, sustentando, em síntese que: (i) em 2006, inaugurou uma fábrica, o que exigiu a vinda de funcionários e diretores de sua controladora francesa; (ii) seus diretores e empregados precisam fazer deslocamentos frequentes para visitar clientes, fornecedores, plantas fabris, etc., o que justifica os gastos com veículos, manutenção e reparo, IPVA, seguros e aluguel de garagem; (iii) os veículos Pólo Classic, Parati 16v, Celta, Ford Escort, Renault Clio, Toyota Hilux, Passat e Clio Hatch, esse último objeto de arrendamento mercantil, fazem parte do seu ativo imobilizado, donde a necessidade das despesas com manutenção, reparos, seguro e garagem correlatos; (iv) a locação de veículos é necessária para que possa atender seus clientes em diversas localidades; (v) os gastos com alimentação e cartão empresarial decorrem da necessidade de seus diretores e gerentes - dentre eles, o Sr. Jacky Bober, funcionário da Onduline Internacional S/A, controladora na França – se relacionarem com clientes e prestadores de serviços, bem como participarem de festas, seminários, congressos e palestras; (vi) o Sr. Jacky Bober veio ao Brasil para orientar os funcionários da empresa, de forma que suas despesas durante o período foram manifestamente necessárias; (vii) a impossibilidade de tributação em razão do “pagamento a beneficiário não identificado”, sob pena de instituição de nova hipótese de substituição tributaria; (viii) o art. 6º da Lei nº 7.713/88 isenta de IRRF as diárias destinadas ao pagamento de alimentação e pousada; (ix) o Parecer Normativo nº 322/71 disciplina a dedutibilidade das despesas com relações públicas em geral, tais como almoços, festas e recepções; e (x) a exigência de tributo em conjunto com multa de ofício configura bis in idem. Sobreveio a decisão da DRJ, que julgou improcedente a impugnação e manteve o crédito tributário, nos termos da ementa abaixo transcrita: “ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Ano-calendário: 2006 MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. DESPESAS NÃO COMPROVADAS. PERDAS NO RECEBIMENTO DE CRÉDITOS. PREÇOS DE TRANSFERÊNCIAS. As matérias não expressamente impugnadas se consolidam na esfera administrativa. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Ano-calendário: 2006 AJUSTE DA BASE DE CÁLCULO. DESPESAS DE VIAGENS. DESPESAS NÃO NECESSÁRIAS. Mantém-se a glosa de despesas com viagem cuja necessidade não foi comprovada. AJUSTE DA BASE DE CÁLCULO. REMUNERAÇÃO INDIRETA. GASTOS COM VEÍCULOS. BENS NÃO INTRINSECAMENTE RELACIONADOS À PRODUÇÃO OU COMERCIALIZAÇÃO. São indedutíveis as despesas com veículos não intrinsecamente relacionados à produção e à comercialização. AJUSTE DA BASE DE CÁLCULO. REMUNERAÇÃO INDIRETA. GASTOS COM ARRENDAMENTO MERCANTIL. LOCAÇÃO DE VEÍCULOS. BENS NÃO INTRINSECAMENTE RELACIONADOS À PRODUÇÃO OU COMERCIALIZAÇÃO. Fl. 890DF CARF MF Original Fl. 3 da Resolução n.º 1301-001.138 - 1ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11052.000355/2010-90 São indedutíveis as despesas de arrendamento mercantil e de aluguel de veículos não intrinsecamente relacionados à produção e à comercialização. AJUSTE DA BASE DE CÁLCULO. REMUNERAÇÃO INDIRETA. DESPESAS COM REFEIÇÕES. INDEDUTIBILIDADE. São indedutíveis as despesas com alimentação de sócios, gerentes, administradores e assessores. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Ano-calendário: 2006 AJUSTE DA BASE DE CÁLCULO. LANÇAMENTO REFLEXO. Aplica-se ao lançamento reflexo o decidido no lançamento matriz. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA RETIDO NA FONTE IRRF Ano-calendário: 2006 REMUNERAÇÃO INDIRETA. BENEFÍCIOS E VANTAGENS. Sujeitam-se à tributação exclusiva na fonte, à alíquota de 35%, as despesas com vantagens e benefícios que integram a remuneração indireta. PAGAMENTO A BENEFICIÁRIO NÃO IDENTIFICADO. Sujeita-se ao IRRF, à alíquota de 35%, o pagamento sem causa ou efetuado a beneficiário não identificado. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido” Intimado, o Recorrente interpôs recurso voluntário, alegando, em síntese que: (i) a matéria não impugnada, ainda que não tenha sido apreciada pela DRJ, deve ser objeto de conhecimento e julgamento em sede de recurso voluntário em homenagem ao princípio da ampla defesa; (ii) impugnou o auto de infração na sua totalidade e apresentou os documentos para comprovação das despesas e os registros contábeis; (iii) os veículos foram disponibilizados aos seus funcionários para os deslocamentos necessários ao desenvolvimento da sua atividade, principalmente no âmbito comercial, o que justifica os gastos com arrendamento mercantil, locação, IPVA, reparos, seguros, combustível e aluguel de garagem; (iv) as despesas com manutenção, reparos, seguro e garagem de veículos escriturados no ativo imobilizado da empresa, por presunção legal, são necessários à sua atividade; (v) incumbe à Receita Federal o ônus de comprovar que os gastos relacionados aos veículos não têm relação com a atividade da empresa, nos termos de acórdãos proferidos pelo CARF; (vi) a necessidade das despesas com viagens e passagens, tendo em vista que, em 2006, a empresa incorporou outras sociedades e inaugurou sua primeira fábrica no Brasil, o que exigiu a vinda de diversos diretores e funcionários de sua controladora no exterior para verificar as novas instalações e orientar funcionários brasileiros; (vii) os gastos com alimentação e cartão empresarial têm relação intrínseca com suas atividades empresariais, em especial com a comercialização de seus produtos, tendo em vista a necessidade de os diretores, gerentes e funcionários da empresa participarem de seminários, congressos e palestras; (viii) o Sr. Jacky Bober, funcionário da controladora no exterior, realizou diversas viagens às plantas da empresa para acompanhamento dos negócios e orientação aos funcionários do Recorrente, donde decorre a necessidade dos Fl. 891DF CARF MF Original Fl. 4 da Resolução n.º 1301-001.138 - 1ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11052.000355/2010-90 gastos com sua alimentação e viagens; (ix) os gastos dos diretores com cartão corporativo para pagamento de almoços, recepções, festas e congraçamentos tinham por propósito divulgar a inauguração da fábrica de Juiz de Fora, sendo, pois, dedutíveis, nos termos da jurisprudência do CARF; (x) com relação às adições referentes a perdas no recebimento de créditos e a preços de transferência, os eventos contábeis foram devidamente registrados e apresentados à Fiscalização; (xi) todos os gastos incorridos têm ligação com o desenvolvimento regular de suas atividades, não havendo que se falar em benefício indireto; (xii) pagamento não é fato gerador do imposto de renda e a tributação em razão da não identificação do beneficiário cria nova hipótese de substituição tributária; e (xiii) confiscatoriedade da multa de ofício imposta. É relatório. Voto Conselheiro Maria Carolina Maldonado Mendonça Kraljevic , Relator. I – ADMISSIBILIDADE ONDULINE DO BRASIL LTDA foi intimado do acórdão recorrido por meio do Centro Virtual de Atendimento ao Contribuinte (“Portal e-CAC”) em 28.08.2014 e interpôs o recurso voluntário ora analisado em 29.09.2014. Portanto, tendo em vista o prazo de 30 dias previsto no art. 33 do Decreto nº 70.235/1972, é tempestivo o recuso voluntário ora em análise. O recurso voluntário cumpre com os demais pressupostos de admissibilidade, razão pela qual deve ser conhecido. II – MÉRITO II.1 – Dedutibilidade das despesas relacionadas ao fornecimento de veículos a funcionários A terceira infração apontada no auto de infração de IRPJ, “003 - REMUNERAÇÃO INDIRETA - REMUNERAÇÃO INDIRETA A BENEFICIÁRIO NÃO IDENTIFICADO” refere-se ao suposto pagamento de IPVA (R$ 13.042,77), manutenção e reparos (R$ 16.365,61), refeições (R$ 227.221,614), seguros (R$ 13.170,95), manutenção de veículos (R$ 2.187,36), locação de veículos (R$ 18.527,55), arrendamento mercantil (R$ 15.372,36) e demais despesas gerais (R$ 262,59) (fls. 211-216). A mesma infração levou à exigência de CSLL no correspondente auto de infração (fls. 223-228). Exceto com relação às despesas com refeições, que não são objeto da presente resolução, o Recorrente sustenta em impugnação que (i) seus diretores e empregados precisam fazer deslocamentos frequentes para visitar clientes, fornecedores, plantas fabris, etc., o que justifica os gastos com veículos, manutenção e reparo, IPVA, seguros e aluguel de garagem; (ii) os veículos Pólo Classic, Parati 16v, Celta, Ford Escort, Renault Clio, Toyota Hilux, Passat e Clio Hatch, esse último objeto de arrendamento mercantil, fazem parte do seu ativo imobilizado, donde a necessidade das despesas com manutenção, reparos, seguro e garagem correlatos; e (iii) a locação de veículos é necessária para que possa atender seus clientes em diversas localidades. Fl. 892DF CARF MF Original Fl. 5 da Resolução n.º 1301-001.138 - 1ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11052.000355/2010-90 Para comprovar o alegado com relação às despesas com veículos próprios, o Recorrente apresentou cópia do Livro Razão e planilhas de suporte, balancetes, cópias de cheques e recibos de despachantes, documento de veículos com a quitação do DPVAT, contrato de arrendamento mercantil, propostas, apólices, contratos e boletos bancários de seguros e guias de recolhimento de IPVA (fls. 500-583). No que se refere à locação de veículos, o Recorrente juntou aos autos cópia do Livro Razão, contendo a escrituração das despesas com locação de veículos dentro das contas relativas a custos e despesas comerciais, bem como cópia de faturas comerciais, boletos bancário, notas fiscal e contratos, todos relacionados a locações de veículos na cidade de Juiz de Fora/MG (fls. 317-381). A DRJ, por sua vez, afirma que, exceto com relação à amortização de bens do ativo imobilizado, que não é objeto de discussão nos autos, as despesas com veículos somente são dedutíveis se “intrinsicamente relacionadas com a produção ou comercialização dos bens e serviços”, nos termos do art. 13 da Lei nº 9.249/1995. E acrescenta que, nos termos da IN nº 11/1996, consideram-se intrinsicamente relacionados com a comercialização ou produção os veículos utilizados (i) no transporte de mercadorias e produtos adquiridos para revenda, de matéria-prima, produtos intermediários e de embalagem aplicados na produção; (ii) pelos cobradores, compradores e vendedores nas atividades de cobrança, compra e venda; (iii) nas entregas de mercadorias e produtos vendidos; e (iv) no transporte coletivo de empregados. Diante disso, conclui que os veículos do Recorrente não são considerados como intrinsicamente relacionadas com a produção ou comercialização dos bens e serviços”, razão pela qual as despesas relacionadas não são dedutíveis. Por sua vez, o Recorrente sustenta em recurso voluntário que (i) os veículos foram disponibilizados aos seus funcionários para os deslocamentos necessários ao desenvolvimento da sua atividade, principalmente no âmbito comercial, o que justifica os gastos com arrendamento mercantil, locação, IPVA, reparos, seguros, combustível e aluguel de garagem; (ii) as despesas com manutenção, reparos, seguro e garagem de veículos escriturados no ativo imobilizado da empresa, por presunção legal, são necessários à sua atividade; (iii) incumbe à Receita Federal o ônus de comprovar que os gastos relacionados aos veículos não têm relação com a atividade da empresa, nos termos de acórdãos proferidos pelo CARF. Inicialmente, cumpre destacar que as despesas com o fornecimento de veículos a funcionários, em regra, são dedutíveis. Isso porque, caso o veículo seja utilizado como instrumento de trabalho, a dedutibilidade decorre da sua necessidade à atividade da empresa, nos termos do art. 311 do RIR/2018. Por outro lado, caso o veículo seja concedido como benefício indireto, integrará a remuneração do administrador, diretor ou empregado e, igualmente, será dedutível como salário indireto, conforme expressamente autorizado pelo art. 369, §3º, I, do RIR/2018. As despesas com o fornecimento de veículos a funcionários somente serão indedutíveis quando os veículos forem concedidos a título de remuneração indireta, sem a incorporação dos valores correspondentes ao salário e sem identificação do seu beneficiário (nos termos do art. 731 do RIR/2018). O fornecimento de veículo é considerado remuneração indireta, por exemplo, quando a utilização de veículos não é necessária às atividades desempenhadas pela empresa, o porte ou preço do veículo é incompatível com as necessidades Fl. 893DF CARF MF Original Fl. 6 da Resolução n.º 1301-001.138 - 1ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11052.000355/2010-90 da empresa; ou a apólice de seguro indica que o veículo se presta unicamente para fins particulares. No presente caso, alega o Recorrente que os veículos eram utilizados por seus funcionários como instrumento de trabalho, “para (...) intereção (sic.) com seus clientes, fornecedores e demais filiais da empresa espalhadas pelo país”, bem como nas “diversas diligências para concluir as vendas de produtos, prestação de serviços de assistência técnica”. De fato, a utilização de veículos por funcionários é compatível com a atividade comercial e de prestação de serviços descrita no objeto social da Recorrente à época 1 . Além disso, os valores deduzidos pelo Recorrente a título de despesas relacionadas a veículos próprios e locação de veículos de terceiros são razoáveis e compatíveis com o porte da empresa e sua atividade. O valor dos veículos próprios, por exemplo, representa menos de 0,5% do total do ativo da empresa (fl. 644). Os gastos do Recorrente com veículos próprios representa, aproximadamente, 13% do valor do referido ativo no período (fl. 644). E a locação de veículos ocorreu na cidade de Juiz de Fora, na qual o Recorrente inaugurou uma fábrica em 2006, como comprovam os contratos de aluguel e demais documentos acostados aos autos (fls. 318-381). Ademais, a Autoridade Fiscal não trouxe aos autos qualquer elemento que corroborasse a tese de que os veículos eram concedidos aos funcionários do Recorrente como benefício ou vantagem, de forma a tornar a despesa indedutível nos termos do art. 731 do RIR/2018. Pelo contrário, a Autoridade Fiscal glosou as despesas com veículos próprios e locação de veículos escrituradas na contabilidade do Recorrente, por entender que não estão intrinsicamente relacionados com as atividades da empresa, e, por consequência e sem base em qualquer elemento adicional, atribuiu natureza de remuneração indireta a tais pagamentos. Por fim, cumpre ressaltar que, apesar do art. 25 da IN SRF nº 11/96, estabelecer que se consideram intrinsicamente relacionados com a produção ou comercialização os veículos do tipo caminhão, caminhoneta de cabine simples ou utilitário, bicicletas e motocicletas, o fato de o Recorrente se utilizar de veículo de passeio para as atividades de cobrança, compra e venda não afasta sua dedutibilidade 2 . Reconhecida a necessidade da utilização de veículos, pelos funcionários do Recorrente, como instrumento de trabalho, igualmente necessárias serão as despesas correlatas, razão pela qual os gastos com IPVA e licenciamento, manutenção e reparos, seguros, locação, arrendamento mercantil e aluguel de garagem podem ser deduzidos da base de cálculo do IRPJ e CSLL, desde que devidamente comprovados. Diante disso, proponho a conversão do presente julgamento em diligência, para encaminhamento dos presentes autos à unidade administrativa de origem, a fim de: 1 CLÁUSULA SEGUNDA – OBJETO SOCIAL “A sociedade tem por objeto a fabricação, a compra e venda, a importação e exportação e a representação comercial, a prestação de serviços de projeto, colocação ou de instalação de materiais de construção, particularmente telhados e divisórias, bem como desenvolvimento de atividades correlatas” (fl. 587). 2 Nesse sentido é o voto do Conselheiro Paulo Roberto Cortez, no Acórdão nº 148.079 (j. em 08.11.2006): “Entendo que qualquer tipo de veículo de propriedade da pessoa jurídica pode ser utilizado para a realização de atividades que estejam intrinsecamente relacionadas à atividade da mesma. Apesar de não constar da IN SRF n° 11/96, a espécie de veículo "automóvel de passeio", isso não significa que uma empresa, como é o caso da recorrente, corretora de imóveis, seja obrigada a se utilizar de caminhões, camionetas ou motocicletas para realizar visitas aos seus clientes, para que sejam reconhecidos como veículos intrinsecamente relacionados com a atividade da mesma”. Fl. 894DF CARF MF Original Fl. 7 da Resolução n.º 1301-001.138 - 1ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11052.000355/2010-90 (i) verificar se os documentos apresentados pelo Recorrente nos presentes autos, especialmente aqueles de fls. 317 a 381. e 500 a 583 comprovam a integralidade das despesas deduzidas no ano-calendário de 2006 a título de IPVA (R$ 13.042,77), manutenção e reparos (R$ 16.365,61), seguros (R$ 13.170,95), manutenção de veículos (R$ 2.187,36), locação de veículos (R$ 18.527,55), arrendamento mercantil (R$ 15.372,36) e aluguel de garagem (R$ 262,59) e, em caso positivo, apontar a parcela devidamente comprovada; (ii) verificar se os documentos apresentados pelo Recorrente nos presentes autos se referem a despesas com veículos escriturados no ativo da empresa no período e, em caso positivo, apontar a parcela das despesas comprovadas referentes a tais veículos; (iii) elaborar relatório fiscal contendo as conclusões acerca dos valores que se referem a despesas, devidamente comprovadas e relacionadas a veículos escriturados na ativo imobilizado do Recorrente, relativas a IPVA, manutenção e reparos, seguros, manutenção de veículos, arrendamento mercantil e aluguel de garagem, bem como àquelas relativas à locação de veículos; e (iv) intimar o contribuinte para, se houver interesse, se manifestar sobre o resultado da diligência, com posterior retorno dos autos ao CARF para prosseguimento do julgamento, nos termos do voto do relator. III – CONCLUSÕES Diante do exposto, conheço do RECURSO VOLUNTÁRIO e, no mérito, voto por converter o julgamento em diligência, nos termos acima. (documento assinado digitalmente) Maria Carolina Maldonado Mendonça Kraljevic Fl. 895DF CARF MF Original

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Numero do processo: 35464.000167/2007-82
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Jun 27 00:00:00 UTC 2023
Data da publicação: Thu Jul 20 00:00:00 UTC 2023
Ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/1999 a 31/12/2003 RECURSO ESPECIAL. DEMONSTRAÇÃO DE SIMILITUDE FÁTICO-JURÍDICA ENTRE OS JULGADOS. CONHECIMENTO. Atendidos os demais pressupostos recursais, a demonstração de similitude fático-jurídica entre os julgados implica o conhecimento do recurso especial, por evidenciação da divergência interpretativa. CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. AUXÍLIO-ALIMENTAÇÃO. AÇÃO JUDICIAL POSTERIOR AO LANÇAMENTO. IDENTIDADE DE OBJETO. CONCOMITÂNCIA. SÚMULA CARF Nº 1. PARCELAMENTO. DESISTÊNCIA E RENÚNCIA. DEFINITIVIDADE DO CRÉDITO LANÇADO. Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial. O art. 78 do Anexo II do Regimento Interno do CARF preleciona que o contribuinte poderá desistir da controvérsia em qualquer fase processual, sendo que a desistência e o parcelamento importam renúncia ao direito sobre o qual se funda a sua pretensão. DESCUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL E ACESSÓRIA. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. NOTA SEI Nº 27/2019/CRJ/PGACET/PGFN-ME. Conforme a Nota SEI nº 27/2019/CRJ/PGACET/PGFN-ME, é cabível a retroatividade benéfica da multa moratória prevista no art. 35 da Lei 8212/91, com a redação da Lei 11941/09, no tocante aos lançamentos de ofício relativos a fatos geradores anteriores ao advento do art. 35-A da Lei nº 8212/91. OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS. DECADÊNCIA. REGRA DO ART. 173, I, DO CTN. SÚMULA CARF 148. Em se tratando de obrigações acessórias, o direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extingue-se após cinco anos, contados do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado (art. 173, inc. I, do CTN). Súmula CARF nº 148: No caso de multa por descumprimento de obrigação acessória previdenciária, a aferição da decadência tem sempre como base o art. 173, I, do CTN, ainda que se verifique pagamento antecipado da obrigação principal correlata ou esta tenha sido fulminada pela decadência com base no art. 150, § 4º, do CTN.
Numero da decisão: 9202-010.760
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional, e no mérito, dar-lhe parcial provimento para declarar a definitividade do crédito relativo ao auxílio alimentação. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte, e no mérito, negar-lhe provimento. (assinado digitalmente) Regis Xavier Holanda – Presidente em Exercício (assinado digitalmente) João Victor Ribeiro Aldinucci – Relator Participaram do presente julgamento os conselheiros: Maurício Nogueira Righetti, João Victor Ribeiro Aldinucci, Sheila Aires Cartaxo Gomes, Ana Cecília Lustosa da Cruz, Mário Hermes Soares Campos, Marcelo Milton da Silva Risso, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Regis Xavier Holanda (Presidente em Exercício).
Nome do relator: JOAO VICTOR RIBEIRO ALDINUCCI

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DEMONSTRAÇÃO DE SIMILITUDE FÁTICO- JURÍDICA ENTRE OS JULGADOS. CONHECIMENTO. Atendidos os demais pressupostos recursais, a demonstração de similitude fático-jurídica entre os julgados implica o conhecimento do recurso especial, por evidenciação da divergência interpretativa. CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. AUXÍLIO-ALIMENTAÇÃO. AÇÃO JUDICIAL POSTERIOR AO LANÇAMENTO. IDENTIDADE DE OBJETO. CONCOMITÂNCIA. SÚMULA CARF Nº 1. PARCELAMENTO. DESISTÊNCIA E RENÚNCIA. DEFINITIVIDADE DO CRÉDITO LANÇADO. Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial. O art. 78 do Anexo II do Regimento Interno do CARF preleciona que o contribuinte poderá desistir da controvérsia em qualquer fase processual, sendo que a desistência e o parcelamento importam renúncia ao direito sobre o qual se funda a sua pretensão. DESCUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL E ACESSÓRIA. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. NOTA SEI Nº 27/2019/CRJ/PGACET/PGFN-ME. Conforme a Nota SEI nº 27/2019/CRJ/PGACET/PGFN-ME, é cabível a retroatividade benéfica da multa moratória prevista no art. 35 da Lei 8212/91, com a redação da Lei 11941/09, no tocante aos lançamentos de ofício relativos a fatos geradores anteriores ao advento do art. 35-A da Lei nº 8212/91. OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS. DECADÊNCIA. REGRA DO ART. 173, I, DO CTN. SÚMULA CARF 148. Em se tratando de obrigações acessórias, o direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extingue-se após cinco anos, contados do AC ÓR Dà O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 35 46 4. 00 01 67 /2 00 7- 82 Fl. 931DF CARF MF Original Fl. 2 do Acórdão n.º 9202-010.760 - CSRF/2ª Turma Processo nº 35464.000167/2007-82 primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado (art. 173, inc. I, do CTN). Súmula CARF nº 148: No caso de multa por descumprimento de obrigação acessória previdenciária, a aferição da decadência tem sempre como base o art. 173, I, do CTN, ainda que se verifique pagamento antecipado da obrigação principal correlata ou esta tenha sido fulminada pela decadência com base no art. 150, § 4º, do CTN. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional, e no mérito, dar-lhe parcial provimento para declarar a definitividade do crédito relativo ao auxílio alimentação. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte, e no mérito, negar-lhe provimento. (assinado digitalmente) Regis Xavier Holanda – Presidente em Exercício (assinado digitalmente) João Victor Ribeiro Aldinucci – Relator Participaram do presente julgamento os conselheiros: Maurício Nogueira Righetti, João Victor Ribeiro Aldinucci, Sheila Aires Cartaxo Gomes, Ana Cecília Lustosa da Cruz, Mário Hermes Soares Campos, Marcelo Milton da Silva Risso, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Regis Xavier Holanda (Presidente em Exercício). Relatório Trata-se de recursos especiais interpostos pela Fazenda Nacional e pelo sujeito passivo em face do acórdão 2302-00.544, de recurso voluntário, e que foram totalmente admitidos pela Presidência da 3ª Câmara da 2ª Seção, para que sejam rediscutidas as seguintes matérias: (a) não incidência de contribuições previdenciárias sobre o auxílio-alimentação e (b) retroatividade benigna - recurso da Fazenda Nacional; e (c) decadência - recurso da contribuinte. Segue a ementa da decisão, nos pontos que interessam ao presente julgamento: Ementa do acórdão de Recurso Voluntário [...] GFIP. DADOS NÃO CORRESPONDENTES A TODOS OS FATOS GERADORES. Constitui infração a apresentação de GFIP com dados não correspondentes a todos os fatos geradores de contribuições previdenciárias, conforme artigo 32, Inciso IV e §5°, da Lei n° 8.212/91. RETROATIVIDADE BENIGNA. GFIP. MEDIDA PROVISÓRIA N.º 449. REDUÇÃO DA MULTA. As multas em GFIP foram alteradas pela Medida Provisória n ° 449 de 2008, que beneficiam o infrator. Foi acrescentado o art. 32-A à Lei n ° 8.212. Conforme previsto no art . 106, inciso II do CTN, a lei aplica-se a ato ou fato pretérito; tratando-se de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de defini-lo como infração; b) quando deixe de tratá-lo corno contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de Fl. 932DF CARF MF Original Fl. 3 do Acórdão n.º 9202-010.760 - CSRF/2ª Turma Processo nº 35464.000167/2007-82 pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. DECADÊNCIA O Supremo Tribunal Federal, através da Súmula Vinculante n° 08, declarou inconstitucionais os artigos 45 e 46 da Lei n° 8.212, de 24/07/91, devendo, portanto, ser aplicadas as regras do Código Tributário Nacional. A decisão foi assim registrada: ACORDAM os membros da 3ª Câmara/2ª Turma Ordinária da Segunda Seção de Julgamento, por unanimidade de votos dos presentes, em dar provimento parcial ao recurso, nos termos do voto da relatora. A conclusão do voto vencedor foi a seguinte: Pelo exposto, voto pelo provimento parcial do recurso para acatar o prazo decadencial do artigo 173, I, do CTN, excluindo as competências até 11/1999, para excluir o lançamento relativo ao Programa de Alimentação do Trabalhador — PAT, e, devendo a multa ser calculada considerando as disposições do artigo 32-A , inciso I, da Lei n° 11.941/2009. Neste tocante, em seu recurso especial, a Fazenda Nacional basicamente alega que: - os valores fornecidos em forma de vale-refeição e ticket aos empregados a título de auxílio-alimentação integram o salário-de-contribuição, já que não se enquadram como prestação in natura; - o cálculo da multa mais benéfica deve ser mediante a comparação entre a soma dos valores das multas aplicadas nos lançamentos por descumprimento de obrigação principal, conforme o art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e de obrigações acessórias, conforme §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e da multa de ofício calculada na forma do art. 35-A da Lei nº 8.212, de 1991, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009. O sujeito passivo foi intimado do acórdão de recurso voluntário e do recurso especial da Fazenda Nacional, e apresentou contrarrazões e interpôs recurso especial. Nas contrarrazões, o sujeito passivo pede o não conhecimento do recurso especial fazendário, ou, sucessivamente, o seu desprovimento. Em seu recurso especial, a contribuinte alega que: - não se pode presumir que não tenha havido antecipação de pagamento e, não tendo havido dolo, fraude ou simulação, o prazo decadencial deve ser contado na forma do art. 150, § 4º, do CTN. A Fazenda Nacional apresentou contrarrazões, nas quais requereu seja negado provimento ao recurso da contribuinte. Em 20 de setembro de 2021, foi determinado o saneamento dos autos, visto que o presente processo trata de auto de infração por descumprimento de obrigação acessória (CFL 68 – apresentação da GFIP com dados não correspondentes aos fatos geradores de todas contribuições previdenciárias) vinculada ao descumprimento de obrigações principais, as quais foram lançadas por intermédio das seguintes NFLDs: NFLD 358527651, NFLD 358527660 e NFLD 358527678. Logo, o processo foi encaminhado à Dipro/Cojul, para saneamento e consequente prestação de informações relativas ao julgamento dos processos de obrigações principais (AIOP). Fl. 933DF CARF MF Original Fl. 4 do Acórdão n.º 9202-010.760 - CSRF/2ª Turma Processo nº 35464.000167/2007-82 A própria unidade de origem prestou a seguinte informação: Em resposta ao Despacho de Saneamento constante às fls. 919, cumpre-me informar: 1) Debcad 35.852.765-1: o crédito encontra-se suspenso por ação judicial tendo em vista o MS 2006.61.00.021795- 8. Está sendo controlado pelo E-processo 18184.000077/2008- 08 conforme observa-se pelas fls. 924 a 925 juntadas ao presente processo; 2) Debcads 35.582.766-0 e 35.852.767-8, foram incluídos em parcelamento, os débitos encontram- se baixado por liquidação, conforme se observa às fls. 926 a 927. Assim sendo, após cumpridas as informações, solicito a devolução deste ao Relator, Conselheiro João Victor Ribeiro Aldinucci para análise. É o relatório. Voto Conselheiro João Victor Ribeiro Aldinucci – Relator 1 Recurso Especial da Fazenda Nacional 1.1 CONHECIMENTO O recurso especial da Fazenda Nacional é tempestivo, visto que interposto dentro do prazo legal de quinze dias (art. 68, caput, do Regimento Interno do CARF), e foi demonstrada a existência de divergência na interpretação da legislação tributária (art. 67, § 1º, do Regimento), de forma que deve ser conhecido. Nesse sentido, veja-se que o paradigma 2401-02.335 entendeu expressamente que o fornecimento de tickets aos segurados é considerado pagamento em espécie e, portanto, sujeito ao pagamento de contribuições previdenciárias, de modo que foi comprovada a divergência neste particular. Quanto à multa, o paradigma 2401-00-127 trata do comparativo da multa mais benéfica ao contribuinte na hipótese do descumprimento de obrigações principal e acessória. Neste caso concreto, igualmente, houve o descumprimento de ambas as obrigações (principais e acessórias), de modo que o apelo deve ser conhecido também neste ponto. 1.2 AUXÍLIO-ALIMENTAÇÃO Conforme as informações prestadas pela unidade de origem, o sujeito passivo ajuizou mandado de segurança no qual questionou a incidência de contribuição previdenciária incidente sobre o fornecimento de alimentação. Ou seja, a ação judicial tem o mesmo objeto do processo administrativo, sendo que, em qualquer hipótese, e diante do princípio da inafastabilidade da jurisdição, deverá prevalecer o que for decidido pelo Judiciário, de modo que a propositura da ação judicial com o mesmo objeto implica renúncia ao contencioso administrativo. Neste particular, é aplicável ao caso o disposto no enunciado da Súmula CARF 1, abaixo transcrita: Súmula CARF nº 1: Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial. (Vinculante, conforme Portaria MF nº 277, de 07/06/2018, DOU de 08/06/2018). Fl. 934DF CARF MF Original Fl. 5 do Acórdão n.º 9202-010.760 - CSRF/2ª Turma Processo nº 35464.000167/2007-82 Na medida em que houve renúncia superveniente ao contencioso administrativo, já não compete mais ao CARF manifestar-se sobre o mérito da controvérsia e nem mesmo dar cumprimento à decisão judicial, mas sim declarar a definitividade do crédito constituído e negar provimento ao recurso, de modo que a execução administrativa da decisão judicial competirá à Delegacia da Receita Federal de origem. Vale lembrar que este lançamento decorre do descumprimento de obrigação acessória vinculada ao descumprimento de obrigação tributária principal, inclusive o valor lançado corresponde, em parte, ao valor das contribuições devidas à seguridade social. Expressando-se de outra forma, caso fossem insubsistentes as contribuições lançadas, seria igualmente insubsistente a multa aplicada neste Auto de Infração, tanto porque não haveria fatos geradores a serem informados em GFIP, quanto porque não haveria base de cálculo para a aplicação da sanção pecuniária, a qual incide sobre o valor relativo à contribuição. E a fim de evitar decisões conflitantes e de propiciar a celeridade dos julgamentos, o RICARF preleciona que os processos podem ser vinculados por conexão, decorrência ou reflexo. Entre os processos reflexos incluem-se os lançamentos de contribuições previdenciárias realizados em um mesmo procedimento fiscal, com incidências tributárias de diferentes espécies (vide § 8º do art. 6º do Regimento), como é o caso sob apreço. Dentro desse espírito condutor, deve ser replicado ao presente julgamento, relativo ao descumprimento de obrigação acessória, o resultado do PAF principal, no qual houve o lançamento das contribuições. Como houve discussão judicial relativa ao processo principal, com renúncia ao contencioso, essa mesma renúncia deve ser replicada ao presente processo. No mais, e conforme as informações prestadas pela unidade de origem, o sujeito passivo parcelou os outros dois DEBCADs, parcelamento que igualmente implica renúncia. Com efeito, o art. 78 do Anexo II do Regimento Interno deste Conselho preleciona que o contribuinte poderá desistir da controvérsia em qualquer fase processual, sendo que a desistência e o parcelamento importam renúncia ao direito sobre o qual se funda a pretensão do contribuinte: Art. 78. Em qualquer fase processual o recorrente poderá desistir do recurso em tramitação. § 1º A desistência será manifestada em petição ou a termo nos autos do processo. [...] § 3º No caso de desistência, pedido de parcelamento, confissão irretratável de dívida e de extinção sem ressalva de débito, estará configurada renúncia ao direito sobre o qual se funda o recurso interposto pelo sujeito passivo, inclusive na hipótese de já ter ocorrido decisão favorável ao recorrente. Isto é, a desistência e o parcelamento implicam a definitividade do crédito tributário. Logo, reconheço a definitividade do crédito lançado e dou provimento ao recurso da Fazenda Nacional neste ponto. A autoridade executora do julgado poderá, caso entenda cabível, aplicar aos autos o Parecer Vinculante AGU nº BBL - 04, de 16 de fevereiro de 2022, DOU de 23/2/2022, que trata do auxílio-alimentação, não cabendo ao CARF pronunciar-se sobre tal matéria, tendo em vista o que foi exposto acima acerca da renúncia ao contencioso administrativo. Fl. 935DF CARF MF Original Fl. 6 do Acórdão n.º 9202-010.760 - CSRF/2ª Turma Processo nº 35464.000167/2007-82 1.3 RETROATIVIDADE BENIGNA A pretensão da Fazenda Nacional tinha amparo na Súmula CARF 119, a qual, todavia, foi revogada em 06/08/2021. O enunciado sumular tinha a seguinte redação: Súmula CARF nº 119: No caso de multas por descumprimento de obrigação principal e por descumprimento de obrigação acessória pela falta de declaração em GFIP, associadas e exigidas em lançamentos de ofício referentes a fatos geradores anteriores à vigência da Medida Provisória n° 449, de 2008, convertida na Lei n° 11.941, de 2009, a retroatividade benigna deve ser aferida mediante a comparação entre a soma das penalidades pelo descumprimento das obrigações principal e acessória, aplicáveis à época dos fatos geradores, com a multa de ofício de 75%, prevista no art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996. Diante da revogação do aludido enunciado, o qual era de observância obrigatória por parte dos Conselheiros do CARF, penso que o tema em discussão deve ser decidido nos limites da Nota SEI nº 27/2019/CRJ/PGACET/PGFN-ME e do item 1.26, “b”, da Lista de Dispensa de Contestar e Recorrer da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional. Após a consolidação da jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça no sentido de admitir a retroatividade benigna do art. 35 da Lei 8212/91, com a redação dada pela Lei 11941/09, que fixa o percentual máximo de multa moratória em 20%, inclusive nas hipóteses de lançamento de ofício, a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional incluiu essa matéria na lista e elaborou a nota retro referida, cujos principais trechos destaco pela pertinência com a presente lide: A controvérsia em enfoque gravita em torno do percentual de multa aplicável às contribuições previdenciárias objeto de lançamento de ofício, em razão do advento das disposições da Lei nº 11.941, de 2009. Discute-se, nessa toada, se deveriam incidir os percentuais previstos no art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, na redação anterior àquela alteração legislativa; se o índice aplicável seria o do atual art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação da Lei 11.941, de 2009; ou, por fim, se caberia aplicar o art. 35-A da Lei nº 8.212, de 1991, incluído pela nova Lei já mencionada. [...] Sucede que, analisando a jurisprudência do Egrégio Superior Tribunal de Justiça - STJ, é possível constatar a orientação pacífica de ambas as Turmas de Direito Público no sentido de admitir a retroatividade benigna do art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, que fixa o percentual máximo de multa moratória em 20%, inclusive nas hipóteses de lançamento de ofício. É o que bem revelam as ementas dos arestos adiante transcritos, in verbis: [...] Vê-se que a Fazenda Nacional buscou diferenciar o regime jurídico das multas de mora e de ofício para, a partir disso, evidenciar a possibilidade ou não de retroação benigna (CTN, art. 106. II, “c”) conforme as regras incidentes a cada espécie de penalidade. Contudo, o STJ vem entendendo que, anteriormente à inclusão do art. 35-A pela Lei nº 11.941, de 2009, não havia previsão de multa de ofício no art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991 (apenas de multa de mora), nem na redação primeva, nem na decorrente da Lei nº 11.941, de 2009 (fruto da conversão da Medida Provisória nº 449, de 2008). Consequentemente, a Corte tem afirmado a incidência da redação do art. 35 da Lei 8.212/1991, conferida pela Lei 11.941, de 2009, que fixa o percentual máximo de 20% para a multa moratória, por caracterizar-se como norma superveniente mais benéfica em matéria de penalidades na seara tributária, a teor do art. 106, II, "c", do CTN. [...] Fl. 936DF CARF MF Original Fl. 7 do Acórdão n.º 9202-010.760 - CSRF/2ª Turma Processo nº 35464.000167/2007-82 Tendo em vista a pacificação da jurisprudência no âmbito do STJ e a consequente inviabilidade de reversão do entendimento desfavorável à União, o tema ora apreciado enquadra-se na previsão do art. 2º, inciso VII, da Portaria PGFN nº 502, de 2016, que dispensa a apresentação de contestação, o oferecimento de contrarrazões, a interposição de recursos, bem como a desistência dos já interpostos, em temas sobre os quais exista jurisprudência consolidada do STF em matéria constitucional ou de Tribunais Superiores em matéria infraconstitucional, em sentido desfavorável à Fazenda Nacional. [...] 1.26. Multas c) Retroatividade benéfica da multa moratória prevista no art. 35 da Lei nº 8.212/1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941/2009, no tocante aos lançamentos de ofício relativos a fatos geradores anteriores ao advento do art. 35- A, da Lei nº 8.212/1991. Resumo: A jurisprudência do STJ acolhe, de forma pacífica, a retroatividade benigna da regra do art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, que fixa o percentual máximo de multa moratória em 20%, em relação aos lançamentos de ofício. Nessas hipóteses, a Corte afasta a aplicação do art. 35-A da Lei nº 8.212, de 1991, que prevê a multa de 75% para os casos de lançamento de ofício das contribuições previdenciárias, por considerá-la mais gravosa ao contribuinte. O art. 35- A da Lei 8.212, de 1991, incide apenas em relação aos lançamentos de ofício (rectius: fatos geradores) realizados após a vigência da referida Lei nº 11.941, de 2009, sob pena de afronta ao disposto no art. 144 do CTN. Precedentes: AgInt no REsp 1341738/SC; REsp 1585929/SP, AgInt no AREsp 941.577/SP, AgInt no REsp 1234071/PR, AgRg no REsp 1319947/SC, EDcl no AgRg no REsp 1275297/SC, REsp 1696975/SP, REsp 1648280/SP, AgRg no REsp 576.696/PR, AgRg no REsp 1216186/RS. Recentemente, a Procuradoria editou o PARECER SEI Nº 11315/2020/ME, no qual reitera a aplicabilidade da NOTA SEI, mesmo diante das considerações em contrário apresentadas pela Secretaria da Receita Federal do Brasil. Quanto a este ponto, veja-se o item 10 do Parecer: 10. Nesse contexto, em que pese a força das argumentações tecidas pela RFB, a tese de mérito explicitada já fora submetida ao Poder Judiciário, sendo por ele reiteradamente rechaçada, de modo que manter a impugnação em casos tais expõe a Fazenda Nacional aos riscos da litigância contra jurisprudência firmada, sobretudo à condenação ao pagamento de multa. É importante ressaltar que as decisões do Superior Tribunal de Justiça a respeito dessa matéria têm inclusive força normativa, vez que atendem aos critérios heurísticos de vinculatividade e pretensão de permanência; finalidade orientadora; inserção em uma cadeia de entendimento uniforme e capacidade de generalização 1 . Segundo o Professor Humberto Ávila: A força normativa material decorre do conteúdo ou do órgão prolator da decisão. Sua força não advém da possibilidade de executoriedade que lhe é inerente, mas da sua pretensão de definitividade e de permanência. Assim, há decisões sem força vinculante formal, mas que indicam a pretensão de permanência ou a pouca verossimilhança de futura modificação. Decisões do Supremo Tribunal Federal, proferidas pelo seu Órgão Plenário, do Superior Tribunal de Justiça, prolatadas pelo seu Órgão Especial ou pela Seção Competente sobre a matéria, ou objeto de súmula manifestam elevado grau de pretensão terminativa, na medida em que permitem a ilação de que dificilmente serão 1 ÁVILA, Humberto. Teoria da segurança jurídica. 5. ed., rev., atual. e ampl. São Paulo : Malheiros, 2019, p. 513. Fl. 937DF CARF MF Original Fl. 8 do Acórdão n.º 9202-010.760 - CSRF/2ª Turma Processo nº 35464.000167/2007-82 modificadas, bem como uma presunção formal de correção, em virtude da composição do órgão prolator, que cria uma espécie de “base qualificada de confiança” 2 . Isto é, embora inexista decisão do Superior Tribunal de Justiça em sede de recurso repetitivo, o que implicaria força normativa formal nos termos do Regimento Interno deste Conselho (art. 62, § 1º, II, "b"), a jurisprudência reiterada e orientadora da 1ª Seção daquele Tribunal tem força normativa material, tanto que culminou com a edição da Nota SEI nº 27/2019/CRJ/PGACET/PGFN-ME (vide art. 62, § 1º, II, "c", do Regimento), impondo-se a sua observância até como forma de preservar o sobreprincípio da segurança jurídica e o consequente princípio da proteção da confiança. Deste modo, voto por negar provimento ao nobre apelo da Fazenda Nacional nesta matéria. 2 Recurso Especial do sujeito passivo 2.1 CONHECIMENTO O recurso especial do sujeito passivo é tempestivo, visto que interposto dentro do prazo legal de quinze dias (art. 68, caput, do Regimento Interno do CARF), e foi demonstrada a existência de legislação tributária interpretada de forma divergente (art. 67, § 1º, do Regimento), de forma que deve ser conhecido. Relativamente à petição do sujeito passivo, de efls. 914/918, sobre o levantamento do depósito de 30% e sobre a inconstitucionalidade do inc. IV do art. 22 da Lei 8212/91, trata-se de matérias que não foram objeto de recurso e que deverão ser eventualmente dirimidas pela Unidade de Origem quando da execução do presente julgado. É sabido que o recurso especial tem cognição restrita às matérias previamente admitidas em sede de exame prévio de admissibilidade, sendo incabível o conhecimento e julgamento de matérias que não tiveram seguimento por despacho do presidente de câmara. 2.2 DECADÊNCIA O recurso da contribuinte deve ser desprovido, pois é incabível a aplicação do prazo decadencial previsto no art. 150, § 4º, do CTN, para o lançamento de obrigações acessórias. Em se tratando de obrigações acessórias (ou instrumentais), não há que se cogitar de pagamento prévio, que pudesse atrair a aplicação do art. 150, § 4º. Na dicção do § 2º do art. 113 do Código, a obrigação acessória decorre da legislação tributária (compreendendo as leis, os tratados, as convenções internacionais, os decretos e as normas complementares) e tem por objeto as prestações positivas (fazer) ou negativas (não fazer), que não necessariamente decorrem da existência da obrigação principal, mas sim existem no interesse de eventual arrecadação ou fiscalização. A doutrina do professor Luciano Amaro 3 assim ensina: A acessoriedade da obrigação dita "acessória" não significa (como se poderia supor, à vista do princípio geral de que o acessório segue o principal) que a obrigação tributária assim qualificada dependa da existência de uma obrigação principal à qual necessariamente se subordine. 2 Obra citada, p. 514. 3 AMARO, Luciano. Direito tributário brasileiro. 14. ed. rev. São Paulo: Saraiva, 2008, p. 249. Fl. 938DF CARF MF Original Fl. 9 do Acórdão n.º 9202-010.760 - CSRF/2ª Turma Processo nº 35464.000167/2007-82 Apenas as obrigações principais, que têm por objeto o pagamento de tributo, estão sujeitas ao recolhimento antecipado e, consequentemente, à norma do art. 150, § 4º. Ou seja, a contagem do prazo para constituição de multa por descumprimento da obrigação instrumental segue uma regra distinta da contagem do tempo para constituição da obrigação principal. Em se tratando de obrigações acessórias, não há pagamento a ser homologado pelo Fisco, sendo aplicável o art. 173, inc. I, do CTN. Essa questão foi recentemente sumulada neste Conselho, conforme se vê na Súmula CARF 148, de observância obrigatória pelos Conselheiros, ex vi do art. 45, inc. VI, do RICARF: Súmula CARF nº 148: No caso de multa por descumprimento de obrigação acessória previdenciária, a aferição da decadência tem sempre como base o art. 173, I, do CTN, ainda que se verifique pagamento antecipado da obrigação principal correlata ou esta tenha sido fulminada pela decadência com base no art. 150, § 4º, do CTN. 3 Conclusão Diante do exposto, voto por conhecer e dar parcial provimento ao recurso especial da Fazenda Nacional. Voto, ainda, por conhecer e negar provimento ao recurso especial do sujeito passivo. (assinado digitalmente) João Victor Ribeiro Aldinucci Fl. 939DF CARF MF Original

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Numero do processo: 16004.720284/2017-19
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Jun 15 00:00:00 UTC 2023
Data da publicação: Wed Jul 19 00:00:00 UTC 2023
Ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA (IRPF) Ano-calendário: 2011, 2012 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. OMISSÃO. Nos termos do art. 65 do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2015, cabem embargos de declaração quando o acórdão contiver obscuridade, omissão ou contradição entre a decisão e os seus fundamentos, ou for omitido ponto sobre o qual deveria pronunciar-se a turma. Constatada a omissão apontada, impõe-se o acolhimento dos Embargos de Declaração para saneamento do vício apontando, com ou sem efeitos infringentes, conforme o caso concreto.
Numero da decisão: 2402-011.682
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, acolher os embargos de declaração opostos pelo Contribuinte, sem efeitos infringentes, integrando-os à decisão recorrida, para sanear as omissões neles apontadas. (assinado digitalmente) Francisco Ibiapino Luz - Presidente (assinado digitalmente) Gregório Rechmann Junior – Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Ana Cláudia Borges de Oliveira, Diogo Cristian Denny, Francisco Ibiapino Luz, Gregório Rechmann Junior, José Márcio Bittes, Rodrigo Duarte Firmino, Rodrigo Rigo Pinheiro e Wilderson Botto (suplente convocado).
Nome do relator: GREGORIO RECHMANN JUNIOR

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OMISSÃO. Nos termos do art. 65 do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2015, cabem embargos de declaração quando o acórdão contiver obscuridade, omissão ou contradição entre a decisão e os seus fundamentos, ou for omitido ponto sobre o qual deveria pronunciar-se a turma. Constatada a omissão apontada, impõe-se o acolhimento dos Embargos de Declaração para saneamento do vício apontando, com ou sem efeitos infringentes, conforme o caso concreto. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, acolher os embargos de declaração opostos pelo Contribuinte, sem efeitos infringentes, integrando-os à decisão recorrida, para sanear as omissões neles apontadas. (assinado digitalmente) Francisco Ibiapino Luz - Presidente (assinado digitalmente) Gregório Rechmann Junior – Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Ana Cláudia Borges de Oliveira, Diogo Cristian Denny, Francisco Ibiapino Luz, Gregório Rechmann Junior, José Márcio Bittes, Rodrigo Duarte Firmino, Rodrigo Rigo Pinheiro e Wilderson Botto (suplente convocado). Relatório Tratam-se de embargos de declaração (p. 25.359) opostos pelo Contribuinte em face do Acórdão n. 2402-007.988 (p. 25.336) deste Colegiado, proferido na sessão plenária de 05 de dezembro de 2019, assim ementado: AC ÓR Dà O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 00 4. 72 02 84 /2 01 7- 19 Fl. 25394DF CARF MF Original Fl. 2 do Acórdão n.º 2402-011.682 - 2ª Sejul/4ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16004.720284/2017-19 ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Ano-calendário: 2011, 2012 PRAZO DECADENCIAL. EXISTÊNCIA DE FRAUDE E SIMULAÇÃO. APLICAÇÃO DA REGRA CONTIDA NO ARTIGO 173, I, DO CTN. ENTENDIMENTO DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. REPRODUÇÃO NOS JULGAMENTOS DO CARF, CONFORME ART. 62A, DO ANEXO II, DO RICARF. Conforme decidido pelo STJ quando do julgamento do Recurso Especial nº 973.733/SC, que teve o acórdão submetido ao regime do art. 543C do antigo CPC e da Resolução STJ 08/2008 (regime dos recursos repetitivos), sempre que o contribuinte efetue o pagamento antecipado, ainda que parcial, o prazo decadencial se encerra depois de transcorridos 5 (cinco) anos do fato gerador, conforme regra do art. 150, § 4º, CTN. Na ausência de pagamento antecipado ou nas hipóteses de dolo, fraude ou simulação, o lustro decadencial para constituir o crédito tributário é contado do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, nos termos do art. 173, I, CTN. NULIDADE DO AUTO DE INFRAÇÃO. EXISTÊNCIA DE MOTIVAÇÃO. AUSÊNCIA DE NULIDADE. O Auto de Infração apresentou todos os fundamentos necessários para a caracterização do lançamento, não havendo que se falar em nulidade. NULIDADE. AUTORIZAÇÃO PARA REEXAME DO PERÍODO. Inexiste nulidade do lançamento tributário baseado em procedimento fiscal que reexaminou o período anteriormente fiscalizado, quando esse novo exame foi autorizado pelo Delegado da Receita Federal do Brasil. PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS. OFENSA. Arguições de ofensa a princípios constitucionais refogem à competência da instância administrativa, não podendo a autoridade administrativa negar a aplicação de lei ou ato normativo sob este fundamento. Súmula CARF 02. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. FRAUDE. SIMULAÇÃO. CONTRATOS DE MÚTUO. Ausentes os requisitos para a validade dos contratos de mútuo e evidenciada a fraude e a simulação por parte do Contribuinte e de sua empresa, os valores podem ser considerados como rendimentos definitivos e estão sujeitos à tributação, sob pena de omissão de rendimentos. MULTA QUALIFICADA. SONEGAÇÃO. FRAUDE. SIMULAÇÃO. É aplicável a multa de 150% do valor devido a título de imposto quando devidamente comprovada a existência de fraude e simulação de negócios jurídicos com o evidente intuito de burlar o fisco Nos termos do Despacho de Admissibilidade de p. 25.379, referidos Embargos foram admitidos para saneamento do vício apontado (omissão). À p. 25.387 e seguintes, foi acostada aos autos decisão judicial exarada no âmbito do Mandado de Segurança nº 1039677-39.2020.4.01.3400 impetrado pelo Contribuinte, concedendo a segurança para determinar que o Impetrado não aplique o conteúdo da Portaria ME no 260/2020 ao Processo Administrativo no 16004.720284/2017-19, no que ela diga respeito ao voto de qualidade. É o relatório. Fl. 25395DF CARF MF Original Fl. 3 do Acórdão n.º 2402-011.682 - 2ª Sejul/4ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16004.720284/2017-19 Voto Conselheiro Gregório Rechmann Junior - Relator. Nos termos do art. 65 do Anexo II do Regimento Interno do CARF, tem-se que cabem embargos de declaração quando o acórdão contiver obscuridade, omissão ou contradição entre a decisão e os seus fundamentos, ou for omitido ponto sobre o qual deveria pronunciar-se a turma. De acordo com o susodito Despacho de Admissibilidade (p. 25.379), os Embargos em análise restaram admitidos nos seguintes termos: - (i) Da alegada omissão em face da preliminar de decadência do crédito – autuação exercícios 2012 e 2013: intimação postal da autuação em 06/01/2018. Quanto à matéria, traz o Embargante, como razões recursais nos aclaratórios, o abaixo transcrito (fls. 25.363 a 25.367): Em breve síntese, a citada decisão apenas replicou o acórdão nº 2401-005.916, proferido nos autos do Processo nº 16004.720215/2015-35, porém, sequer rebateu os diferentes argumentos do Embargante acerca da decadência do crédito tributário exigido, considerando a efetiva ciência do contribuinte quanto à notificação do lançamento. [...] In casu, fica claro que, caso fosse aplicado corretamente o prazo contido no § 4º, do art. 150, do CTN, os lançamentos de IRPF relativos aos anos-calendário de 2011 (exercício de 2012) e 2012 (exercício de 2013), estariam integralmente decaídos. Tal como consta na peça impugnatória e na recursal, o Embargante apresentou as Declarações de Ajuste Anual dos dois exercícios, bem como comprovou diversos recolhimentos feitos em DARF nos anos-calendário de 2011 e 2012 a título de IRPF (como é o caso, por exemplo, dos recolhimentos feitos no código de receita 0211 – “IRPF – Quotas de Declaração”). Veja, destarte, que o Embargante estava em dia com suas obrigações tributárias, inclusive declarando e recolhendo o IRPF no período autuado. Nesse caso, vale apontar o entendimento do STJ, em sede de recurso repetitivo, no sentido de que o recolhimento do tributo devido, ainda que parcial, enseja a aplicação integral do prazo decadencial do art. 150, §4º, do CTN (REsp 973.733/SC, Rel. Ministro Luiz Fux, Primeira Seção). No caso em tela, o Embargante acessou eletronicamente o teor dos documentos relacionados ao Auto de Infração no dia 02/01/2018 – vide Termo de fl. 22623. Além disso, tendo em vista os erros no sistema de intimação do e-CAC [relatado pela própria RFB na fl. 22626 e seguintes], o ora Embargante foi intimado por via postal no dia 06/01/2018 – vide Rastreamento de fl. 22629. Nesse sentido, o E. CARF possui tranquila jurisprudência no sentido de que o termo final da contagem do prazo decadencial se dá com a efetiva ciência do contribuinte quanto à notificação do lançamento, senão vejamos: [...] Destarte, caso esta ilma. Turma acolha os argumentos trazidos na peça recursal e determine a aplicação do prazo decadencial do art. 150, § 4º, do CTN, a decadência abrangerá sem sombra de dúvidas os dois períodos autuados. Isto pois, contando-se o prazo a partir dos dias 01/01/2012 [para o ano-calendário 2011] e 01/01/2013 [para o ano-calendário 2012], o lapso decadencial dar-se-ia nos Fl. 25396DF CARF MF Original Fl. 4 do Acórdão n.º 2402-011.682 - 2ª Sejul/4ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16004.720284/2017-19 dias 01/01/2017 e 01/01/2018, respectivamente, enquanto a ciência do contribuinte ocorreu apenas no dia 06/01/2018. Por outro lado, caso a ilma. Turma opte por manter a aplicação do prazo do art. 173, I, do CTN, a autuação relativa ao ano-calendário 2011 estaria decaída. Nesse caso, o prazo decadencial seria contado a partir de 01/01/2013 e se encerraria em 01/01/2018, dias antes da efetiva ciência do Embargante, que, como já dito, ocorreu em 06/01/2018. Nota-se que na decisão embargada houve evidente omissão quanto ao ponto central da discussão supra acerca do termo final do prazo decadencial. Reafirme-se, na peça recursal a ora Embargante não discute apenas o prazo decadencial aplicável (se o do art. 150, § 4º, do CTN ou se o do art. 173, I, do CTN), mas sim a data em que o ora Embargante foi efetiva e validamente cientificado da lavratura do Auto de Infração. No entender do Embargante, a efetiva ciência dos lançamentos se deu em 06/01/2018, momento em que os lançamentos já estavam inteiramente decaídos, se considerarmos a regra do art. 150, § 4º, do CTN, ou, ao menos, parcialmente decaídos, se considerarmos a regra do art. 173, I, do CTN. Pede-se, portanto, diante da ciência ocorrida em 06/01/2018, o reconhecimento da decadência de todo o lançamento, com fulcro no art. 150, §4º, do CTN. Não sendo este o entendimento da ilma. Turma, pede-se subsidiariamente o reconhecimento da decadência do lançamento relativo ao ano-calendário de 2011 (exercício 2012). De fato, compulsando-se o voto condutor do acórdão embargado, percebe-se que a Relatora não adotou como razão de decidir a decisão de primeira instância, proferida no presente processo, segundo prevê o art. 57, § 3º, Anexo II, do RICARF, mas sim a decisão proferido no Acórdão nº 2401-005.916, deste Conselho, que segue no processo 16004.720215/2015-35. Vide o seguinte excerto do acórdão embargado: A respeito das teses de defesa trazidas pelo recorrente sem eu recurso, adoto, como razões de decidir, o voto proferido no acórdão de nº 2401005.916, da 1ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da 2ª Seção de Julgamento deste tribunal administrativo, em tudo e por tudo aplicável ao presente caso, dado que diz respeito a lançamento originário do mesmo procedimento fiscalizatório, porém, relativo ao ano-calendário de 2010, e que tem por objeto os mesmos fatos e fundamentos (autos do processo nº 16004.720215/201535): [...] Pois bem, em que pese tratar do mesmo tributo e do mesmo Contribuinte, o Acórdão nº 2401-005.916 abarca ano-calendário distinto, ou seja, o ano-calendário de 2010, e data de ciência do lançamento distinta, ou seja, 14/12/15. Portanto, o conteúdo desse acórdão não serve como razão de decidir em face das alegações recursais apresentadas no presente processo, tendo a decisão embargada, realmente, se omitido quanto à apreciação da alegação de decadência em relação aos anos-calendário de 2011 e 2012, em especial quanto à alegada data de ciência do lançamento (6/1/18). Desse modo, tal omissão deverá ser apreciada e sanada pela Turma. (ii) Da alegada omissão quanto à nulidade do MPF – reexame de período autuado sem observância do art. 149 do Código Tributário Nacional. Reproduzem-se trechos representativos do alegado vício extraídos dos aclaratórios (fls. 25.367 e 25.368): Conforme demonstrado na peça recursal, o MPF nº 08.1.07.00-2015.00759-9, objeto do presente processo administrativo, surgiu a partir do reexame dos exercícios de 2010 a 2012, nos termos do art. 906 do RIR/99 (atual art. 951 do RIR/18), conforme consta do documento assinado pelo Delegado da DRF de São José do Rio Preto [fls.4-5]. Ocorre que o ano-calendário 2011 (exercício 2012) já havia sido objeto de fiscalização, a qual resultou na lavratura em 06/06/2016 de auto de infração nos Fl. 25397DF CARF MF Original Fl. 5 do Acórdão n.º 2402-011.682 - 2ª Sejul/4ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16004.720284/2017-19 autos do processo nº 10850.722.116/2016-11. Neste auto de infração aplicou-se apenas uma multa por ausência de recolhimento do carnê-leão. Com efeito, o atual art. 951 do RIR/18 determina que: Em relação ao mesmo exercício, somente é possível o segundo exame de período fiscalizado por meio de ordem escrita do Coordenador de Fiscalização, do Superintendente, do Delegado ou do Inspetor da Secretaria da Receita Federal do Brasil do Ministério da Fazenda. O dispositivo em questão não é um fim em si mesmo, isto é, o pedido de reexame de exercício anterior deve sim ser formalizado em documento assinado pela chefia da Receita Federal, mas só isso não basta. O Termo assinado deve estar amparado em uma das hipóteses previstas nos incisos do art. 149 do Código Tributário Nacional, sobretudo quando o período a ser reexaminado já foi objeto de lançamento. Nesse sentido, vejamos a recente decisão proferida por este E. CARF que reconhece expressamente a necessidade de que o art. 906 do RIR/99 (art. 951 do RIR/18) seja aplicado conjuntamente com o art. 149 do CTN, in verbis: COMPENSAÇÃO INDEVIDA DE IMPOSTO DE RENDA RETIDO NA FONTE - RELANÇAMENTO - ERRO DE DIREITO - NECESSIDADE DE CONJUGAÇÃO DO ARTIGO 906 DO RIR/99 COM OS ARTIGOS 145 E 199 DO CTN – NULIDADE. Não basta a mera autorização formal prevista no artigo 906 do RIR para que se abra a possibilidade de uma nova fiscalização sobre os mesmos fatos objetos de lançamento pretérito, devendo ser observados os limites do artigo 149 do CTN”. (g.n.) (Acórdão nº 2002-000.151, relator Conselheiro Thiago Duca Amoni, publicado em 03/07/2018) No caso em tela, como se verifica do Termo assinado pelo Delegado da DRF de São José do Rio Preto [fls.4-5], não há a demonstração da ocorrência de qualquer uma das hipóteses previstas no art. 149 do CTN. Não há nem a demonstração de situação não conhecida ou não provada por ocasião de lançamento anterior (vide inciso VIII do art. 149). Há apenas alegações genéricas, sem qualquer comprovação de que o Fiscal desconhecia anteriormente as situações por ele descritas. Nota-se que na decisão embargada houve evidente omissão quanto à nulidade do procedimento fiscalizatório. Diante do exposto, em razão da inobservância do art. 149, é de se reconhecer a nulidade de todo o lançamento tributário tratado neste processo administrativo, já que não ficou demonstrada de forma cabal a necessidade de reexame de exercícios que, inclusive, já haviam sido objeto de lançamento. Deveras, a alegação de reexame de período já fiscalizado, constante do recurso voluntário, não chegou a ser tratada no acórdão embargado, e isso decorreu também do fato de a Relatora ter adotado como razão de decidir a decisão proferida no Acórdão nº 2401-005.916 (processo 16004.720215/2015-35), que não chegou a abordar essa questão. Portanto, resta patente a omissão quanto à alegação de reexame de período já fiscalizado, devendo, pois, ser apreciada e sanada essa omissão pela Turma. Conclusão Diante do exposto, admitem-se os embargos de declaração para saneamento das omissões apontadas. Como se vê, e em resumo, por meio dos Embargos em análise, sustenta o Embargante a existência de omissão no Acórdão nº 2402-007.988 (p. 25.336) em face da ausência de manifestação deste Colegiado em relação às seguintes matérias: (i) data da ciência do Contribuinte acerca do lançamento fiscal e seu reflexo na contagem do lustro decadencial; e Fl. 25398DF CARF MF Original Fl. 6 do Acórdão n.º 2402-011.682 - 2ª Sejul/4ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16004.720284/2017-19 (ii) nulidade do MPF, especificamente em relação ao ano-calendário 2011, em face da impossibilidade de reexame de período anteriormente fiscalizado / autuado. Pois bem! Considerando que, em relação às matérias objeto dos Embargos de Declaração em análise, o Contribuinte, em sua peça recursal, limitou-se a reiterar as razões de defesa deduzidas em sede de impugnação, estando as conclusões alcançadas pelo órgão julgador de primeira instância em consonância com o entendimento perfilhado por este Relator, em vista do disposto no § 3º do art. 57 do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF nº 343/2015 – RICARF, não tendo sido apresentadas novas razões de defesa perante a segunda instância administrativa, adoto os fundamentos da decisão recorrida no que tange às matérias objeto dos aclaratórios, mediante transcrição do voto condutor daquele decisium neste particular, in verbis: Da admissibilidade, data da ciência da autuação fiscal e da tempestividade (...) 10.1. Nesse contexto, deve ser esclarecido que não procede a afirmação do Impugnante de que a ciência da autuação fiscal se deu em 06/01/2018, por conta de erro no sistema E-Processo. 10.2. Na verdade, o documento emitido pela autoridade fiscal (fls. 22.626 a 22.628), denominado "Termos de Constatação, Cancelamento e Ciência por decurso de prazo - Procedimento Administrativo nº 16004.720284/2017-19", demonstra que os documentos da autuação fiscal foram disponibilizados na Caixa Postal do Impugnante em 14/12/2017, às 18:19:13 horas, e, por consequência, a ciência da autuação fiscal por decurso de prazo se deu em 29/12/2017. 10.3. Nesse documento foi devidamente esclarecida a situação nos seguinte termos: "O Sistema E-Processo (Procedimentos administrativos em formato digital/eletrônico) gerou com erro os termos: Termo de ciência por abertura de mensagem (fls. 22.624); e Termo de ciência por abertura de mensagem (fls. 22.625), com inobservância à alínea 'a' do inciso III, parágrafo 2º do art. 23 [do Decreto nº 70.235, de 1972 (PAF)], em vista de que o décimo quinto dia ocorreu anteriormente a abertura de mensagem pelo contribuinte destinatário, especificamente no dia 29/12/2017. Em vista do exposto, efetuaremos os cancelamentos dos termos indevidamente gerados e a consequente emissão dos termos necessários". 10.4. O fato de o Sistema e-Processo ter gerado os termos com erro não invalida a ciência da autuação por decurso de prazo. Além do mais, a data de 29/12/2017 foi um dia de expediente normal, sem qualquer ocorrência que pudesse invalidar a ciência da autuação fiscal pela via eletrônica. 10.5. Ademais, a autoridade fiscal tomou o cuidado de enviar a documentação pela via postal, de forma adicional, como um procedimento de cautela, enviando pelos Correios os documentos da autuação fiscal, fato que não invalida a ciência pela via eletrônica. 10.6. Portanto, constata-se que a ciência da autuação fiscal se deu em 29/12/2017, por meio eletrônico (decurso de prazo), conforme estabelece o Decreto nº 70.235, de 1972, art. 23, § 2º, inciso III, alínea "a". (...) Acerca da matéria em análise, acrescente-se, pela sua importância, que: (i) o Contribuinte, em sua peça recursal (p. 25.160), reconhece que a ciência do lançamento fiscal ocorreu em 29/12/2007 por decurso do prazo de 15 (quinze) dias para a abertura da intimação disponibilizada no domicílio tributário eletrônico mesmo. É o que se infere, pois, do excerto abaixo reproduzido daquele apelo recursal: Fl. 25399DF CARF MF Original Fl. 7 do Acórdão n.º 2402-011.682 - 2ª Sejul/4ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16004.720284/2017-19 Todavia, o Recorrente não realizou a abertura das mensagens de intimação da caixa postal do sistema E-CAC dentro do prazo de 15 [quinze] dias previsto artigo 23, § 2º, alínea “a”, do Decreto 70.235/72; o que tornou-se automática a intimação em 29/12/2017, considerando-se que o Auto de Infração foi incluso em 14/12/2017. (ii) no acórdão embargado, apesar de não ter sido enfrentada, de forma expressa, a questão suscitada pelo Contribuinte referente à data da ciência do lançamento fiscal – razão pela qual, inclusive, está se acolhendo os presentes embargos para o saneamento desta omissão – o mesmo, acompanhando a conclusão alcançada pela DRJ, concluiu que a ciência da autuação fiscal ocorreu em 29/12/2017, não sendo o caso, dessa forma, de se falar em decadência no caso concreto. Confira-se: Portanto, neste ponto, como bem asseverado na decisão recorrida, caracterizada a conduta dolosa (simulação) por parte do recorrente e tendo sido ele regularmente cientificado do lançamento tributário aos 29/12/2017, constata-se que não procede o argumento da defesa, pois a decadência somente ocorreria após o dia 31/12/2017 para o ano-calendário 2011 e após o dia 31/12/2018, para o ano-calendário 2012. Feito esse registro, prossegue-se no saneamento da omissão da matéria referente à alegação de nulidade do MPF, em face da impossibilidade de reexame de período anteriormente fiscalizado / autuado, seguindo, para tanto, conforme fundamentado linhas acima, as conclusões alcançadas pelo órgão julgador de primeira instância, in verbis: Do reexame de período já fiscalizado 13. A defesa, também, alega nulidade em decorrência das "[...] irregularidades apresentadas no pedido de reexame dos períodos em que o Contribuinte já foi fiscalizado". Nessa linha argumentativa, afirma que "o presente Auto de Infração refere- se ao ano calendário de 2011 e 2012, na qual houve autuação em período que já havia ocorrido fiscalização, inclusive com encerramento e a lavratura do processo n.º 10850.722.116/2016-11, devidamente quitado. No caso, o fundamento para a anulação do auto é o fato de que não há motivo novo ou fato novo para a fiscalização na forma do art. 149 do CTN. Isto porque, todos os documentos já estavam anexados aos autos anteriormente, quando da intimação em 08/12/2015, podendo ter formalizado a autuação de todas as irregularidades. No entanto, foi lavrado auto [Processo n.º 10850.722116/2016- 11], sem levar em consideração a alegação da presente autuação". 13.1. Contudo, não assiste razão à defesa, pois houve autorização expressa do Delegado da Receita Federal de São José do Rio Preto para o reexame do período já fiscalizado (fls. 4 e 5), conforme prevê o art 906 do RIR/1999 (Decreto nº 3.000, de 26 de março de 1999), transcrito a seguir: Art.906. Em relação ao mesmo exercício, só é possível um segundo exame, mediante ordem escrita do Superintendente, do Delegado ou do Inspetor da Receita Federal (Lei nº 2.354, de 1954, art. 7º, §2º, e Lei nº 3.470, de 1958, art. 34). 13.2. Para estes casos, a legislação prevê a possibilidade de a Fiscalização reexaminar período já anteriormente fiscalizado, conforme autorização contida no artigo 906 do Regulamento do Imposto de Renda (Decreto nº 3.000, de 1999). Esta norma traz, como única exigência para o início de nova ação fiscal, a autorização escrita do Superintendente, do Delegado ou do Inspetor da Receita Federal. 13.3. Destaque-se, ainda, que, ao contrário do que alega o Impugnante, o documento de folhas 4 e 5 demonstra claramente a motivação para o reexame da fiscalização nos anos- calendário 2011 e 2012, não tendo qualquer fundamento a afirmação de que o reexame devidamente autorizado contrariou as hipóteses definidas no artigo 149 do CTN. 13.4. Portanto, inicia-se nova ação fiscal junto ao contribuinte independentemente do curso que tenha seguido o anterior lançamento, quer tenha sido o crédito decorrente extinto por pagamento (presente caso), quer ainda esteja suspenso por apresentação de impugnação ou mesmo anulado. Fl. 25400DF CARF MF Original Fl. 8 do Acórdão n.º 2402-011.682 - 2ª Sejul/4ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16004.720284/2017-19 13.5. O curso do processo administrativo original não pode ser alterado por ato da autoridade lançadora que, entendendo ser cabível nova fiscalização, resolva refazer o lançamento primitivo. Uma vez efetuado o lançamento e apresentada impugnação pelo contribuinte no prazo regulamentar, a autoridade lançadora não tem mais qualquer participação ou influência no curso do processo, a menos que seja determinada diligência ou perícia, nos termos do artigo 18, § 3°, c/c artigo 15, § único, todos do Decreto nº 70.235, de 1972. 13.6. Por outro lado, é de se observar que o dispositivo legal em questão encontra-se inserido em seção do Regulamento intitulada “Reexame de Período já Fiscalizado”. 13.7. Ademais, houve a emissão do Termo de Distribuição de Procedimento Fiscal (TDPF) nº 08.1.07.00-2015.00759-9, emitido em 07/12/2015, com a indicação do código de acesso nº 93780928 para acesso ao seu conteúdo no sítio da Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB) na Internet, obedecendo ao disposto no artigo 7º do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972; artigos 910, 911, 913 e 927 do RIR/99, aprovado pelo Decreto n.º 3.000, de 26/03/1999. 13.8. Demonstra-se, assim, que é descabida a alegação de nulidade em decorrência das supostas "[...] irregularidades apresentadas no pedido de reexame dos períodos em que o Contribuinte já foi fiscalizado". Conclusão Ante o exposto, voto no sentido de acolher os embargos de declaração, sem efeitos infringentes, para, saneando as omissões apontadas, integrar as razões de decidir objeto do presente Acórdão de Embargos ao Acórdão de Recurso Voluntário embargado. (assinado digitalmente) Gregório Rechmann Junior Fl. 25401DF CARF MF Original

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Numero do processo: 12448.732965/2014-07
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Jun 15 00:00:00 UTC 2023
Data da publicação: Wed Jul 19 00:00:00 UTC 2023
Ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Ano-calendário: 2010, 2011, 2012 ENQUADRAMENTO FPAS. ATIVIDADE PREPONDERANTE. Para o enquadramento no código de FPAS deve-se verificar a atividade econômica preponderante. AVALIAÇÃO E PROCESSO SELETIVO. ENQUADRAMENTO COMO INSTITUIÇÃO DE ENSINO. FPAS. As atividades de avaliação e de processos seletivos se enquadram no conceito de instituição de ensino para fins de enquadramento no FPAS.
Numero da decisão: 2201-010.792
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, dar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os Conselheiros Débora Fófano dos Santos e Marco Aurélio de Oliveira Barbosa, Relator, que negaram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Douglas Kakazu Kushiyama. (documento assinado digitalmente) Carlos Alberto do Amaral Azeredo - Presidente (documento assinado digitalmente) Marco Aurélio de Oliveira Barbosa – Relator (documento assinado digitalmente) Douglas Kakazu Kushiyama – Redator designado Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Debora Fófano dos Santos, Douglas Kakazu Kushiyama, Fernando Gomes Favacho, Rodrigo Alexandre Lazaro Pinto (suplente convocado), Marco Aurélio de Oliveira Barbosa, Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim e Carlos Alberto do Amaral Azeredo (Presidente). Ausente momentaneamente Francisco Nogueira Guarita.
Nome do relator: MARCO AURELIO DE OLIVEIRA BARBOSA

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ATIVIDADE PREPONDERANTE. Para o enquadramento no código de FPAS deve-se verificar a atividade econômica preponderante. AVALIAÇÃO E PROCESSO SELETIVO. ENQUADRAMENTO COMO INSTITUIÇÃO DE ENSINO. FPAS. As atividades de avaliação e de processos seletivos se enquadram no conceito de instituição de ensino para fins de enquadramento no FPAS. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, dar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os Conselheiros Débora Fófano dos Santos e Marco Aurélio de Oliveira Barbosa, Relator, que negaram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Douglas Kakazu Kushiyama. (documento assinado digitalmente) Carlos Alberto do Amaral Azeredo - Presidente (documento assinado digitalmente) Marco Aurélio de Oliveira Barbosa – Relator (documento assinado digitalmente) Douglas Kakazu Kushiyama – Redator designado Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Debora Fófano dos Santos, Douglas Kakazu Kushiyama, Fernando Gomes Favacho, Rodrigo Alexandre Lazaro Pinto (suplente convocado), Marco Aurélio de Oliveira Barbosa, Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim e Carlos Alberto do Amaral Azeredo (Presidente). Ausente momentaneamente Francisco Nogueira Guarita. Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 12 44 8. 73 29 65 /2 01 4- 07 Fl. 519DF CARF MF Original Fl. 2 do Acórdão n.º 2201-010.792 - 2ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 12448.732965/2014-07 Trata-se de Recurso Voluntário em face da decisão da Sétima Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Curitiba (PR), consubstanciada no Acórdão nº 06-61.027 (fls. 295/314), o qual julgou improcedente a impugnação apresentada pelo sujeito passivo. Reproduzo a seguir o relatório do Acórdão de Impugnação, o qual descreve os fatos ocorridos até a decisão de primeira instância. Trata o presente processo do seguinte Auto de Infração: AI - Debcad n° 51.061.524-4: Lavrado para apuração das contribuições devidas pela empresa aos chamados Terceiros (Salário Educação, INCRA, SENAC, SESC e SEBRAE) incidentes sobre a remuneração de seus empregados. O débito totaliza a importância de R$1.610.868,01, consolidado em 12/12/2014. Consta no Relatório Fiscal que a Fundação Cesgranrio é de fato uma prestadora de serviços às empresas e não um estabelecimento de ensino como vinha se declarando em GFIP. Assim, houve o enquadramento da fundação no FPAS 515 e foi cobrada a diferença de contribuição devida aos Terceiros. Cientificada da Autuação, a Fundação Cesgranrio apresentou impugnação tempestiva alegando, em síntese, que: Conforme art.2º de seu ato constitutivo, a Fundação Cesgranrio possui nítido caráter educacional. Aduz que seu reconhecimento como instituição de ensino decorre de declaração do Ministro de Estado da Educação, Sr. JOSÉ HENRIQUE PAEM FERNANDES, expedida em 19 de Setembro de 2014, com fundamento no Parecer n° 903/2014/CONJUR-MEC/CGU/AGU. Relata, então, a origem e histórico da Fundação e alega que sempre teve finalidade educacional. Cita seus títulos e certificados e afirma que a correta observância dos seus fins sociais, bem como a exatidão das contas dos administradores da CESGRANRIO, é aferida periodicamente pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, através de sua Promotoria de Justiça de Fundações, que expediu as Portarias PF-SC ns. 30/2013, 55/2013, 12/2014, aprovando as contas da FUNDAÇÃO CESGRANRIO, inclusive as referentes aos exercícios de 2010, 2011 e 2012. Argumenta que as manifestações do Ministério Público Estadual confirmam, à saciedade, que a Cesgranrio está cumprindo as disposições estatutárias que a impedem de distribuir qualquer parcela do seu patrimônio e das suas receitas e que a obrigam a aplicar integralmente no Brasil os seus recursos na manutenção dos seus objetivos institucionais, bem como a manter a escrituração das receitas e despesas em livros revestidos de formalidades capazes de assegurar a sua exatidão, requisitos do art. 14 do CTN para imunidade de impostos prevista no art. 150, VI, "c" da CF/88. Reafirma que as finalidades institucionais da fundação estão ligadas, efetivamente, à educação em sentido amplo, atividade de interesse público, que ao Estado cumpre prover, estimular e desenvolver, como resta evidente pela simples leitura do texto constitucional. Complementa com doutrina sobre o tema. Aduz que avalia a qualidade da educação para garantir sua melhoria e universalização, nos termos dos incisos II e III do art.214 da CF/88. Cita o art.1º da Lei 9.394/96 e conclui que não se pode tirar da educação seu sentido de manifestação global em termos espaciais e materiais. Argumenta que "educação" não tem o mesmo conceito que "ensino". Uma representa o gênero; o outro, a espécie. Por "educação" se devem entender todos os processos pedagógicos que acontecem no conjunto das relações sociais; já o ensino é a relação sistematizada de reproduzir o conhecimento socialmente produzido. Fl. 520DF CARF MF Original Fl. 3 do Acórdão n.º 2201-010.792 - 2ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 12448.732965/2014-07 Afirma que, longe de se circunscrever à convencional transmissão de conhecimentos, mediante aulas expositivas, inclusive em cursos de pós-graduação (stricto e lato sensu), a educação abrange toda e qualquer forma de acesso à cultura e à ciência, como, de resto, literalmente estipula o artigo 23, V da CF. Com efeito, a Cesgranrio vem atuando como uma Entidade Educacional dedicada ao campo da avaliação, desde a sua origem. Esclarece que tem entre seus serviços a elaboração do ENEM, ENADE, SARESP, SAEB, ANRESC, ENCCEJA e do PROVÃO conforme demonstram alguns dos atestados de capacidade técnica juntados em anexo, dentre outros. Com relação à atividade de avaliação, esclarece que tem promovido, ao longo dos anos, inúmeros cursos de especialização para professores, visando ao seu aperfeiçoamento e divulgando novas e modernas técnicas de avaliação da aprendizagem. Por suas atividades, afirma que tornou-se importante órgão de pesquisa educacional. Afirma que se encontra em processo final de credenciamento para a Faculdade CESGRANRIO, com dois cursos de Graduação Tecnológica, Gestão da Avaliação e Gestão em Recursos Humanos, já autorizados pelo MEC. Esclarece que ao longo de sua trajetória, sempre marcada pelo viés da educação, foi ampliando progressivamente sua atuação na área da avaliação, sendo hoje, considerada um Centro de Referência nessa área. Afirma que possui, ainda, o reconhecimento dos programas do seu curso de mestrado em avaliação pelo MEC, segundo a Portaria 73, de 17 de Janeiro de 2007, publicada no Diário Oficial da União, Seção 1, páginas 22/26. Nessa Portaria, o Ministro de Estado da Educação, em conformidade com a Resolução CNE/CES n° 1, de 03 de abril de 2001, juntamente com o Parecer CNE/CES n° 267/2006, da Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Educação, proferidos nos autos do Processo n° 23001.000127/2006-18, do Ministério da Educação, resolveu reconhecer os Programas de Mestrado e Doutorado, aprovados pelo Conselho Técnico Científico CTC, da Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior CAPES. Assim, ressalta que o curso de Mestrado em Avaliação mantido pela entidade possui reconhecimento no site da CAPES - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - que é uma fundação pública instituída pelo Poder Executivo e autorizada pela Lei n° 8405/92, cuja finalidade é subsidiar o Ministério da Educação na formulação de políticas para a área de pós-graduação. Cita novamente seu Estatuto e afirma que, além das inúmeras atividades na área educacional que vem realizando, a Instituição tem seu nome inserido entre aquelas que promovem e disseminam a cultura, por entender ser ela um dos alicerces da educação. Alega que os projetos culturais desenvolvidos encontram-se detalhados nos autos do Processo Administrativo n° 12448.729885/2014-66, decorrente do MPF n° 07.1.08.00- 2014-00369, ao qual a Impugnante se reporta neste ato. Diante de todo o exposto, conclui que resta mais do que comprovado que, ao contrário do que consta da motivação da autuação fiscal, a Cesgranrio preenche todos os requisitos para ser considerada uma instituição de educação e de cultura. Esclarece que faz jus à desoneração estabelecida no art.150, VI, "c" da CF e que preenche os requisitos do art.14 do CTN e do art.12 da Lei 9532/97. Cita o Recurso Extraordinário n° 566.622/RS - Relator Ministro Marco Aurélio de Mello - e alega que falece à União competência para suspender-lhe o gozo da imunidade de impostos. Ainda que assim fosse, sendo a Impugnante entidade de finalidade não lucrativa que desempenha atividades educacionais, não necessitaria provar ter também escopo assistencial, o que só seria exigido para a imunidade do art. 195, §7° da CF, e não para o art. 150, VI "c" da CF. Segue defendendo a tese de que teria direito à imunidade por desenvolver diversas atividades de assistência social. Com relação ao FNDE - Salário Educação, cita todo o histórico da contribuição e alega que, desde a edição da Constituição de 1988 até a presente data, inexiste lei que autorize Fl. 521DF CARF MF Original Fl. 4 do Acórdão n.º 2201-010.792 - 2ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 12448.732965/2014-07 a cobrança dessa contribuição, por não ter sido regularmente instituída nos termos do art. 97 do CTN. Isso porque, a MP 1565 de 09/01/97 (DOU 10/01/97) que revogou expressamente a MP 1518-3 de 12/12/96, delineou o aspecto temporal do fato gerador e o contribuinte, sem, contudo, definir a materialidade da hipótese de incidência. Quanto ao INCRA, aduz que é uma instituição civil sem fins lucrativos, e não uma empresa agro-industrial, cuja atividade está sujeita ao recolhimento da contribuição em tela. Conclui, então, que é manifestamente ilegítima a exigência consignada no auto de infração ora impugnado, seja porque a Recorrente não exerce atividade que se sujeita ao recolhimento da contribuição ao INCRA, seja porque cessou a causa jurídica que legitimava a cobrança dessa exação com a criação do SENAR em 1994. Já com ralação ao SESC, SENAC e SEBRAE, afirma que essas contribuições devem ser cobradas exclusivamente das empresas comerciais, conforme, inclusive, dispõe as legislações que as instituiram, tendo em vista que a ação do Estado que as justifica é voltada à categoria dos comerciários. Como não é empresa comercial, mas entidade de assistência social sem fins lucrativos, não está sujeita às contribuições. Aduz que a exigência dessas contribuições de entidade que, notoriamente, não exerce qualquer atividade econômica, além de manifestamente descabida, atenta contra os princípios da legalidade, da verdade material e, principalmente, contra o princípio da moralidade, a que esta adstrita a Administração Pública, por força do art. 37, "caput" da CF/88. Contesta ainda a aplicação da taxa Selic sobre o débito afirmando que esta expressa o resultado das negociações com títulos públicos e a variação dos seus valores de mercado e, por essa razão, não se confunde com juros moratórios. É que juros moratórios visam, tão somente, indenizar o credor pelo atraso do devedor e não remunerar os valores que o credor deixou de receber, tempestivamente. Conclui que a taxa SELIC, por refletir a variação do custo do dinheiro, tem, na verdade, natureza remuneratória, que desborda da simples recomposição do patrimônio do devedor. Informa que a Lei 9430/96, ao prever que sobre os débitos tributários para com a União, administrados pela Secretaria da Receita Federal, incidiriam "juros de mora" equivalentes à taxa SELIC, não estabeleceu nova forma de cálculo para a fixação desses juros, apenas previu a utilização de uma taxa preexistente, que veicula juros remuneratórios. Assim, entende que o legislador ordinário não procedeu de acordo com os ditames do Código Tributário Nacional e, no lugar de instituir uma nova taxa de juros moratórios, pretendeu utilizar juros remuneratórios, inaplicáveis na situação de mora, tendo em vista sua formação híbrida que ultrapassa a mera recomposição do valor aquisitivo da moeda. Por fim, requer: "Por todo o exposto, requer seja acolhida a presente impugnação, afastado qualquer ato tendente a exigir as contribuições de terceiros (SESC, SEBRAE, SENAC, INCRA, FNDE) relativas ao período de 01/2010 a 13/2012, afastando, in totum, o auto de infração, com o conseqüente arquivamento dos autos." É o relatório. A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Curitiba (PR), por unanimidade de votos, julgou improcedente a impugnação, cuja decisão foi assim ementada: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Ano-calendário: 2010, 2011, 2012 ENQUADRAMENTO FPAS. ATIVIDADE PREPONDERANTE. Para o enquadramento no código de FPAS deve-se verificar a atividade econômica preponderante. AVALIAÇÃO E PROCESSO SELETIVO. NÃO ENQUADRAMENTO COMO INSTITUIÇÃO DE ENSINO. Fl. 522DF CARF MF Original Fl. 5 do Acórdão n.º 2201-010.792 - 2ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 12448.732965/2014-07 A atividade de avaliação e de processos seletivos não se enquadram no conceito de instituição de ensido (sic) para fins de enquadramento no FPAS. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Cientificada dessa decisão em 19/12/2017, por via postal (A.R. de fl. 329), a Contribuinte apresentou, em 18/01/2018, por meio de procurador legalmente habilitado, o Recurso Voluntário de fls. 359/378, com os seguintes argumentos: 1. Em síntese, a questão jurídica resume-se em definir se a Fundação Cesgranrio deve ser classificada no código do Fundo de Previdência e Assistência Social - FPAS 515, cujo somatório das alíquotas das Contribuições para Terceiros (FNDE + INCRA + SENAC + SESC + SEBRAE) é 5,8%, tal como pretende o Fisco, ou se deve ser classificada no código FPAS 574, cujo somatório das mencionadas alíquotas é 4,5%, tal como ela entende correto e, por isso, recolheu as mencionadas Contribuições de Terceiros neste último percentual. 2. Segundo o Acórdão recorrido, somente poderiam ser enquadradas no código 574 as pessoas jurídicas com estabelecimentos de ensino. Esse equivocado entendimento decorreu da leitura isolada do Anexo I — Tabela 1 — Códigos do Fundo de Previdência e Assistência Social (FPAS), da Instrução Normativa RFB — 971/2009, com a redação dada pela IN-RFB-1.027/2010. Entretanto, a classificação de uma pessoa jurídica no FPAS é feita também com a observância de outras disposições da IN-RFB 971/2009. 3. O art. 109-C da IN-RFB-971/2009 dispõe sobre as normas a serem observadas para a classificação de pessoa jurídica no FPAS, especificando que a classificação será feita com base na principal atividade desenvolvida pela pessoa jurídica. 4. O § 2º do art. 109-C dispõe que "1...1 Classificada a atividade na forma deste artigo, ser-lhe-ão atribuídos o código FPAS e as alíquotas de contribuição correspondentes, de acordo com as seguintes tabelas (Quadros 1 a 6), considerando o grupo econômico como indicativo das diversas atividades em que se decompõe: [...]” 5. Os Quadros 1 a 6 referem-se aos diversos grupos econômicos, sendo o Quadro n" 6 pertinente à Confederação Nacional de Educação e Cultura, o qual contém o grupo de atividade "10 - Estabelecimentos de ensino", código FPAS 574. 6. Portanto, o código FPAS 574 refere-se às atividades pertinentes à educação, referidas a "estabelecimentos de ensino", abrangendo as diversas atividades em que se decompõe o ensino. 7. Dentre as atividades pertinentes ao ensino estão as avaliações educacionais (CNAS 8550-3/02), atividade preponderante da Fundação Cesgranrio. 8. O Acórdão recorrido errou ao afirmar que apenas estabelecimentos de ensino poderiam ser enquadrados no código FPAS 574, pois consoante os artigos 109-C e 109-E da IN-RFB-971/2009, naquele código são também enquadradas as pessoas jurídicas do mesmo grupo econômico, as da educação, no caso, pertinente ao grupo de atividades "1º - Estabelecimentos de ensino", Fl. 523DF CARF MF Original Fl. 6 do Acórdão n.º 2201-010.792 - 2ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 12448.732965/2014-07 que exerçam atividades intrinsicamente vinculadas ao ensino ou que façam parte do ensino. 9. O Acórdão recorrido pretende o enquadramento da ora recorrente no Código Nacional de Atividade Econômica – CNAE 82.99-7-99, que se refere especificamente a "OUTRAS ATIVIDADES E SERVIÇOS PRESTADOS PRINCIPALMENTE ÀS EMPRESAS NÃO ESPECIFICADAS ANTERIORMENTE", conforme pode ser constatado pela leitura da redação atual do Anexo I, Tabela 1, da IN-RFB 971/2009, cujo código FPAS é 515. 10. Consoante o § 2°, art. 109-C, da IN-RFB 971/2009, o código FPAS 515 pertence ao grupo econômico da "Confederação Nacional do Comércio". 11. A Fundação Cesgranrio tem como atividade preponderante a Avaliação Educacional, que nenhuma pertinência tem com o comércio atacadista, comércio varejista, agentes autônomos de comércio, comércio armazenador, turismo e hospitalidade, e serviços de saúde, que são as atividades do código FPAS 515. 12. A Recorrente não presta serviços de Avaliação Educacional para pessoas jurídicas cuja atividades enquadrem-se no código FPAS 515. Por consequência, fácil constatar, a impossibilidade de enquadramento da Fundação Cesgranrio no código CNAE 8999-7/99 e no código FPAS 515; 13. O art. 205 da Carta Magna definiu o conceito de educação e o art. 206 evidenciou que a educação não é sinônimo de ensino. A leitura dos preceitos constitucionais permite a constatação de que a educação, longe de se limitar à convencional transmissão de conhecimentos, mediante aulas expositivas, abrange toda e qualquer contribuição "[..] ao desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho." 14. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei n° 9.394/1996, explicitou o conceito constitucional de educação (art. 1°), além de disciplinar por completo a educação escolar, que é implementada por meio dos estabelecimentos de ensino (§ 1º do art. 11). 15. A educação é o gênero e o ensino a espécie. Ou seja, o ensino é apenas uma das atividades pelas quais a educação se manifesta, sendo também educacionais todas as atividades desenvolvidas para o pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho." 16. A educação escolar somente ocorre nos estabelecimentos de ensino, enquanto as demais atividades educacionais, que abrangem todos os processos formativos, podem se desenvolver na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de pesquisa, nos movimentos sociais, nas manifestações culturais, nas organizações da sociedade civil e até mesmo nas instituições de ensino. A Fundação Cesgranrio é uma dessas organizações da sociedade civil, de fins educacionais, culturais, assistenciais e de saúde, sem finalidade lucrativa (Estatuto Social, art. 10 - fls.381). 17. Dentre as várias atividades educacionais desenvolvidas, a Fundação Cesgranrio dedica-se prioritariamente às Avaliações Educacionais, que não se Fl. 524DF CARF MF Original Fl. 7 do Acórdão n.º 2201-010.792 - 2ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 12448.732965/2014-07 confundem com o ensino, mas estão intrinsicamente vinculadas ao ensino, porquanto são os instrumentos indispensáveis para possibilitar seja assegurada a qualidade do ensino exigida pela Constituição Federal. 18. A Lei n° 9.394/1996 — Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional tornou obrigatória a Avaliação Educacional dos estabelecimentos de ensino, situando-a no Título IV - "DA ORGANIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO NACIONAL". 19. Embora não seja atividade de ensino, a Avaliação Educacional é atividade integrante e indissociável do ensino, pois foi exigida do Poder Público pela Constituição Federal e pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. 20. Em 2014, o Excelentíssimo Ministro de Estado da Educação José Henrique Paim Fernandes expediu declaração formal, originária do Processo Administrativo n° 23123.003652/2010-95, reconhecendo ser a Fundação Cesgranrio instituição de educação. 21. O Acórdão recorrido não atribuiu qualquer valor à referida declaração ministerial, sob o equivocado e simplório argumento de que, tendo sido expedida em setembro de 2014, a mencionada declaração não seria aplicável ao caso dos autos, relativo ao período de 01/2010 a 13/2012. 22. No caso dos autos, a referida declaração ministerial foi expedida em face "[...] do que consta no Processo n° 23123.0036521/2010-95." (fls.178), no qual a Fundação Cesgranrio apresentou as provas das atividades educacionais realizadas desde sua criação em 1973 e pleiteou a emissão da referida declaração. 23. Tais provas foram analisadas à luz da legislação de regência pelo Parecer n° 903/2014/CONJUR-MEC/CGU (fls. 168/176), o qual concluiu ser a Fundação Cesgranrio uma instituição de educação desde a sua criação em 1973. 24. Tendo sido a referida declaração ministerial emitida com base no que consta no Processo n" 23123.003652/2010-95, é certo que aderiu e referendou o disposto no Parecer n° 903/2014/CONJURMEC/CGU/AGU, quanto a ser a Fundação Cesgranrio uma instituição de educação, desde a sua criação em 1973. 25. Desde 2007, a Fundação Cesgranrio ministra o Curso de Mestrado em Avaliação, autorizado por meio da Portaria do Ministro de Estado da Educação n" 73, de 17.01.2007, publicada no DOU, Seção I, págs. 22/24, de 19.01.2007 (fls. 252/254), que funciona até hoje. 26. O Acórdão recorrido ignorou a existência do Curso de Mestrado em Avaliação, que também caracteriza a Fundação Cesgranrio como instituição de educação e especificamente como estabelecimento de ensino. 27. É irrefutável a qualidade de instituição de educação da Fundação Cesgranrio, seja por dedicar-se à Avaliação Educacional, seja por ministrar o Curso de Mestrado, que também a caracteriza como instituição de ensino. 28. Sendo a Fundação Cesgranrio uma instituição de educação especializada em Avaliação Educacional, enquadra-se no grupo econômico pertinente à Fl. 525DF CARF MF Original Fl. 8 do Acórdão n.º 2201-010.792 - 2ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 12448.732965/2014-07 Confederação Nacional de Educação e Cultura (Quadro 6 do § 2° do art. 109- C da IN-RFB-971/2009). 29. Nesse grupo econômico, dentre os grupos de atividade elencados, há o de “Estabelecimentos de ensino", cujo código FPAS é 574 e a alíquota total das Contribuições de Terceiros é 4,5%. 30. Levando-se em conta que o grupo econômico é considerado "[...] como indicativo das diversas atividades em que se decompõe:" ( 2° do art. 109-C), no grupo de atividades pertinente a "Estabelecimentos de ensino" são classificadas todas as demais atividades inerentes ao ensino ou que façam parte do ensino. 31. A atividade preponderante da Fundação Cesgranrio é a Avaliação Educacional, conforme reconhecido no Acórdão recorrido. A teor do art. 109- C, I, III e § 1º, da IN-RFB nº 971/2009, a classificação das pessoas jurídicas no FPAS tem por base a sua atividade principal, também chamada de "atividade preponderante", para a qual convergem as demais atividades realizadas em regime de conexão funcional (demais atividades que interagem para a finalidade comum da pessoa jurídica, sem descaracterizar sua atividade preponderante). 32. A classificação de pessoa jurídica no FPAS é feita de acordo com o Quadro de Atividades e Profissões a que se refere o art. 577 da CLT. Lá existe o código CNAE 8550-03/02 para "ATIVIDADES DE APOIO À EDUCAÇÃO, EXCETO CAIXAS ESCOLARES". Essa classe compreende os "serviços de avaliação educacional" (doc.02), além de outros. 33. Sendo a Avaliação Educacional atividade integrante e indissociável do ensino, deve ser a Fundação Cesgranrio classificada no grupo de atividades pertinentes aos "Estabelecimentos de ensino", cujo código FPAS é 574 e a alíquota total das Contribuições de Terceiros é 4,5%. 34. O caput e inciso IX do art.109-E da IN RFB-971/2009 deixam claro que no código FPAS/574 são classificadas não exclusivamente as instituições de ensino. Combinado este preceito com o disposto no art. 109-C ("[...] considerado o grupo econômico como indicativo das diversas atividades em que se decompõe:"), resta claro que a atividade de Avaliação Educacional, por integrar e fazer parte do ensino, deve também ser classificada no FPAS 574. 35. Quanto à inscrição da Fundação Cesgranrio no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas — CNPJ, em 2010 constou, por equívoco, como atividade econômica principal "OUTRAS ATIVIDADES DE SERVIÇOS PRESTADOS PRINCIPALMENTE ÀS EMPRESAS NÃO ESPECIFICADAS ANTERIORMENTE", código 82.99-7-99 9. (doc.03). Isto foi corrigido no final de 2010. 36. Assim, a partir de 2011 consta do CNPJ da ora recorrente, como atividade econômica principal, "Atividade de apoio à educação, exceto caixas escolares", código .85.50.3-02. (doc.04), coerente com o código FPAS 574. Ao final, requer a desconstituição do Auto de Infração, julgando-se improcedente a exigência fiscal. Fl. 526DF CARF MF Original Fl. 9 do Acórdão n.º 2201-010.792 - 2ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 12448.732965/2014-07 Em 24/01/2023, a Recorrente apresentou petição (fls. 426/515), na qual repisa, em suma, os argumentos do Recurso Voluntário e anexa 2 (dois) Acórdãos do CARF (nºs 1201- 003.192 e nº 1302-003.421), com o objetivo de reforçar sua tese de defesa. É o relatório. Voto Vencido Conselheiro Marco Aurélio de Oliveira Barbosa, Relator. O recurso é tempestivo e atende às demais condições de admissibilidade. Portanto, merece ser conhecido. DECISÕES ADMINISTRATIVAS E JUDICIAIS A Recorrente cita diversas decisões administrativas e judiciais. Quanto ao entendimento que consta das decisões proferidas pela Administração Tributária ou pelo Poder Judiciário, embora possam ser utilizadas como reforço a esta ou aquela tese, elas não se constituem entre as normas complementares contidas no art. 100 do CTN e, portanto, não vinculam as decisões desta instância julgadora, restringindo-se aos casos julgados e às partes inseridas no processo de que resultou a decisão. São inaplicáveis, portanto, tais decisões à presente lide. MÉRITO A controvérsia reside no correto enquadramento do FPAS (Fundo da Previdência e Assistência Social). Enquanto a Contribuinte informou em GFIP o código 574, a Fiscalização entendeu que o correto seria o código 515. Assim, o lançamento cobra a diferença resultante dessa mudança de enquadramento, pois o recolhimento para os Terceiros foi efetuado à alíquota de 4,5% (FPAS 574) e o estabelecido pela fiscalização foi de 5,8% (FPAS 515). Conforme Relatório Fiscal, a autoridade autuante concluiu o seguinte (fls, 18/20): Cumpre observar, preliminarmente, que a Fundação Cesgranrio não é estabelecimento de ensino. É certo, que a Fundação Cesgranrio não possui estabelecimento educacional. A Fundação Cesgranrio também não é uma Instituição de Educação de Ensino Fundamental ou Médio, pois toda escola, seja estadual, municipal ou privada deve ser autorizada. A Fundação Cesgranrio não está vinculada a nenhum Sindicato da Área Educacional, mas sim à Federação Nacional de Cultura — FENAC, com delegacia no Rio de Janeiro, localizada na Rua Araújo Porto Alegre 70/901 a 905, Centro. A Fundação Cesgranrio atua, principalmente, na área de avaliação: que é verificar o aproveitamento dos estudantes no processo de ensino e aprendizagem. De um modo geral esse processo é feito, avaliando: alunos para ingresso no ensino superior, candidatos a empregos nos concursos públicos, alunos no ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio), entre outros. Convém ressaltar que todo processo de avaliação é feito, sempre, com contratação terceirizada de bancas elaboradoras de questões de provas, constituídas de pessoas Fl. 527DF CARF MF Original Fl. 10 do Acórdão n.º 2201-010.792 - 2ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 12448.732965/2014-07 físicas e jurídicas, para elaboração dos itens das provas e também correção de redações e outras provas discursivas. Registre-se ainda que a Fundação Cesgranrio realiza a atividade de avaliação em Vestibulares, Concursos Públicos, ENEM, ENAD, entre outros, todos realizados através de contratos de prestação de serviços, onerosos, celebrados com Órgãos Públicos Federais, Estaduais, Municipais, Empresas de Economia Mista, Empresas Privadas, as quais assumem inteiramente os custos do contrato. Cumpre assinalar que a Fundação Cesgranrio não educa, não ensina, ela tão somente avalia quem educou e ensinou, através de contratação de mão de obra terceirizada. Oportuno se torna dizer que as receitas da Fundação Cesgranrio têm caráter contra- prestacional direto, pois são oriundas de Serviços Prestados de Avaliações em Vestibulares e Concursos Públicos, e não são decorrentes de contribuições, doações, anuidades ou mensalidades, assembléias ou estatuto, recebidas de associados ou mantenedores, sem caráter contra-prestacional direto, destinadas ao seu custeio e ao desenvolvimento dos seus objetivos sociais. As Receitas Operacionais da Fundação Cesgranrio, conforme sua contabilidade, estão nas contas 4.1.1.1.01.01- Taxa de Inscrição em Vestibular, 4.1.1.1.01.04- Contratos e Serviços, que engloba os Serviços Prestados a Terceiros relativos a Avaliações e diversos Concursos, tais como PETROBRAS, BNDES, EPE, ELETROBRAS, TRANSPETRO, entre outros, além de Contratos relativos a Avaliações referentes ao ENEM, ENAD e SAEB. Em virtude dessas considerações e de acordo com a Documentação Examinada, podemos constatar que a Fundação Cesgranrio não pode enquadrar-se no código FPAS 574, nos anos de 2010 a 2012, que é exclusivo para estabelecimento de ensino. Conforme seu Cadastro no CNPJ, no qual consta enquadramento no código de Atividade Econômica Principal 82.99-7-99, que é relativo a OUTRAS ATIVIDADES DE SERVIÇOS PRESTADOS PRINCIPALMENTE ÀS EMPRESAS NÃO ESPECIFICADAS ANTERIORMENTE, a Fundação Cesgranrio é de Fato uma PRESTADORA DE SERVIÇOS AS EMPRESAS e não um Estabelecimento de Ensino, devendo-se enquadrar, portanto, no código FPAS 515, cuja contribuição para Terceiros é 5,8%, e não 4,5% como vem recolhendo, por ter se enquadrado erroneamente no código FPAS 574. A DRJ de Curitiba concluiu pela não caracterização da interessada como instituição de ensino, mantendo o enquadramento efetuado pela Fiscalização (FPAS 515), considerando a atividade preponderante da fiscalizada, nos termos dos artigos 109-B e 109-C da IN RFB 971/2009. A Recorrente afirma ser instituição de ensino, deduzindo que educação é gênero do qual o ensino é espécie. Confirma que realiza avaliações e diz que tal atividade está contida no escopo do ensino. Aduz que seu reconhecimento como instituição de ensino decorre de declaração do Ministro de Estado da Educação, expedida em 19 de Setembro de 2014, com fundamento no Parecer n° 903/2014/CONJUR-MEC/CGU/AGU. Sustenta que o código FPAS 574 refere-se às atividades pertinentes à educação, referidas a "estabelecimentos de ensino", abrangendo as diversas atividades em que se decompõe o ensino. Argui que, dentre as atividades pertinentes ao ensino, estão as avaliações educacionais (CNAS 8550-3/02), atividade preponderante da Fundação Cesgranrio. Alega que o Acórdão recorrido errou ao afirmar que apenas estabelecimentos de ensino poderiam ser enquadrados no código FPAS 574, pois consoante os artigos 109-C e 109-E da IN-RFB-971/2009, naquele código são também enquadradas as pessoas jurídicas do mesmo grupo econômico, as da educação, no caso, pertinente ao grupo de atividades "1º - Fl. 528DF CARF MF Original Fl. 11 do Acórdão n.º 2201-010.792 - 2ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 12448.732965/2014-07 Estabelecimentos de ensino", que exerçam atividades intrinsicamente vinculadas ao ensino ou que façam parte do ensino. Assevera que a Fundação Cesgranrio tem como atividade preponderante a avaliação educacional, que nenhuma pertinência tem com o comércio atacadista, comércio varejista, agentes autônomos de comércio, comércio armazenador, turismo e hospitalidade, e serviços de saúde, que são as atividades do código FPAS 515. Informa que, desde 2007, a Fundação Cesgranrio ministra o Curso de Mestrado em Avaliação, autorizado por meio da Portaria do Ministro de Estado da Educação n" 73, de 17.01.2007. Defende que, sendo a avaliação educacional atividade integrante e indissociável do ensino, deve ser a Fundação Cesgranrio classificada no grupo de atividades pertinentes aos "Estabelecimentos de ensino", cujo código FPAS é 574 e a alíquota total das Contribuições de Terceiros é 4,5%. Entendo que não assiste razão à Recorrente. Cabe aqui trazer os dispositivos da Lei nº 9.394/1996, que estabelece as diretrizes e base da educação nacional: TÍTULO V Dos Níveis e das Modalidades de Educação e Ensino CAPÍTULO I Da Composição dos Níveis Escolares Art. 21. A educação escolar compõe-se de: I - educação básica, formada pela educação infantil, ensino fundamental e ensino médio; II - educação superior. CAPÍTULO II DA EDUCAÇÃO BÁSICA Seção I Das Disposições Gerais Art. 22. A educação básica tem por finalidades desenvolver o educando, assegurar-lhe a formação comum indispensável para o exercício da cidadania e fornecer-lhe meios para progredir no trabalho e em estudos posteriores. Parágrafo único. São objetivos precípuos da educação básica a alfabetização plena e a formação de leitores, como requisitos essenciais para o cumprimento das finalidades constantes do caput deste artigo. (Incluído pela Lei nº 14.407, de 2022) [...] Seção II Da Educação Infantil Art. 29. A educação infantil, primeira etapa da educação básica, tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança de até 5 (cinco) anos, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade. (Redação dada pela Lei n° 12.796, de 2013) Art. 30. A educação infantil será oferecida em: I ­ creches, ou entidades equivalentes, para crianças de até três anos de idade; II - pré-escolas, para as crianças de 4 (quatro) a 5 (cinco) anos de idade. (Redação dada pela Lei n° 12.796, de 2013) Fl. 529DF CARF MF Original Fl. 12 do Acórdão n.º 2201-010.792 - 2ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 12448.732965/2014-07 [...] Seção III Do Ensino Fundamental Art. 32. O ensino fundamental obrigatório, com duração de 9 (nove) anos, gratuito na escola pública, iniciando-se aos 6 (seis) anos de idade, terá por objetivo a formação básica do cidadão, mediante: (Redação dada pela Lei n° 11.274, de 2006) I - o desenvolvimento da capacidade de aprender, tendo como meios básicos o pleno domínio da leitura, da escrita e do cálculo; II - a compreensão do ambiente natural e social, do sistema político, da tecnologia, das artes e dos valores em que se fundamenta a sociedade; III - o desenvolvimento da capacidade de aprendizagem, tendo em vista a aquisição de conhecimentos e habilidades e a formação de atitudes e valores; IV - o fortalecimento dos vínculos de família, dos laços de solidariedade humana e de tolerância recíproca em que se assenta a vida social. [...] Seção IV Do Ensino Médio Art. 35. O ensino médio, etapa final da educação básica, com duração mínima de três anos, terá como finalidades: I - a consolidação e o aprofundamento dos conhecimentos adquiridos no ensino fundamental, possibilitando o prosseguimento de estudos; II - a preparação básica para o trabalho e a cidadania do educando, para continuar aprendendo, de modo a ser capaz de se adaptar com flexibilidade a novas condições de ocupação ou aperfeiçoamento posteriores; III - o aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico; IV - a compreensão dos fundamentos científico-tecnológicos dos processos produtivos, relacionando a teoria com a prática, no ensino de cada disciplina. [...] Seção IV-A Da Educação Profissional Técnica de Nível Médio (Incluído pela Lei n° 11.741, de 2008) Art. 36-A. Sem prejuízo do disposto na Seção IV deste Capítulo, o ensino médio, atendida a formação geral do educando, poderá prepará-lo para o exercício de profissões técnicas. (Incluído pela Lei n° 11.741, de 2008) Parágrafo único. A preparação geral para o trabalho e, facultativamente, a habilitação profissional poderão ser desenvolvidas nos próprios estabelecimentos de ensino médio ou em cooperação com instituições especializadas em educação profissional. (Incluído pela Lei n° 11.741, de 2008) Art. 36-B. A educação profissional técnica de nível médio será desenvolvida nas seguintes formas: (Incluído pela Lei n° 11.741, de 2008) I ­ articulada com o ensino médio; (Incluído pela Lei n° 11.741, de 2008) II - subseqüente, em cursos destinados a quem já tenha concluído o ensino médio. (Incluído pela Lei n° 11.741, de 2008) [...] Seção V Fl. 530DF CARF MF Original Fl. 13 do Acórdão n.º 2201-010.792 - 2ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 12448.732965/2014-07 Da Educação de Jovens e Adultos Art. 37. A educação de jovens e adultos será destinada àqueles que não tiveram acesso ou continuidade de estudos no ensino fundamental e médio na idade própria. § 1º Os sistemas de ensino assegurarão gratuitamente aos jovens e aos adultos, que não puderam efetuar os estudos na idade regular, oportunidades educacionais apropriadas, consideradas as características do alunado, seus interesses, condições de vida e de trabalho, mediante cursos e exames. [...] CAPÍTULO III DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL Da Educação Profissional e Tecnológica (Redação dada pela Lei n° 11.741, de 2008) Art. 39. A educação profissional e tecnológica, no cumprimento dos objetivos da educação nacional, integra-se aos diferentes níveis e modalidades de educação e às dimensões do trabalho, da ciência e da tecnologia. (Redação dada pela Lei n° 11.741, de 2008) § 1° Os cursos de educação profissional e tecnológica poderão ser organizados por eixos tecnológicos, possibilitando a construção de diferentes itinerários formativos, observadas as normas do respectivo sistema e nível de ensino. (Incluído pela Lei n° 11.741, de 2008) § 2° A educação profissional e tecnológica abrangerá os seguintes cursos: (Incluído pela Lei n° 11.741, de 2008) I - de formação inicial e continuada ou qualificação profissional; (Incluído pela Lei n° 11.741, de 2008) II ­ de educação profissional técnica de nível médio; (Incluído pela Lei n° 11.741, de 2008) III - de educação profissional tecnológica de graduação e pós-graduação. (Incluído pela Lei n° 11.741, de 2008) § 3º Os cursos de educação profissional tecnológica de graduação e pós-graduação organizar-se-ão, no que concerne a objetivos, características e duração, de acordo com as diretrizes curriculares nacionais estabelecidas pelo Conselho Nacional de Educação. (Incluído pela Lei nº 11.741, de 2008) [...] CAPÍTULO IV DA EDUCAÇÃO SUPERIOR Art. 43. A educação superior tem por finalidade: I - estimular a criação cultural e o desenvolvimento do espírito científico e do pensamento reflexivo; II - formar diplomados nas diferentes áreas de conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formação contínua; III - incentivar o trabalho de pesquisa e investigação científica, visando o desenvolvimento da ciência e da tecnologia e da criação e difusão da cultura, e, desse modo, desenvolver o entendimento do homem e do meio em que vive; IV - promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o saber através do ensino, de publicações ou de outras formas de comunicação; Fl. 531DF CARF MF Original Fl. 14 do Acórdão n.º 2201-010.792 - 2ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 12448.732965/2014-07 V - suscitar o desejo permanente de aperfeiçoamento cultural e profissional e possibilitar a correspondente concretização, integrando os conhecimentos que vão sendo adquiridos numa estrutura intelectual sistematizadora do conhecimento de cada geração; VI - estimular o conhecimento dos problemas do mundo presente, em particular os nacionais e regionais, prestar serviços especializados à comunidade e estabelecer com esta uma relação de reciprocidade; VII - promover a extensão, aberta à participação da população, visando à difusão das conquistas e benefícios resultantes da criação cultural e da pesquisa científica e tecnológica geradas na instituição. VIII - atuar em favor da universalização e do aprimoramento da educação básica, mediante a formação e a capacitação de profissionais, a realização de pesquisas pedagógicas e o desenvolvimento de atividades de extensão que aproximem os dois níveis escolares. (Incluído pela Lei nº 13.174, de 2015) Art. 44. A educação superior abrangerá os seguintes cursos e programas: (Regulamento) I - cursos seqüenciais por campo de saber, de diferentes níveis de abrangência, abertos a candidatos que atendam aos requisitos estabelecidos pelas instituições de ensino, desde que tenham concluído o ensino médio ou equivalente; (Redação dada pela Lei n° 11.632, de 2007). II - de graduação, abertos a candidatos que tenham concluído o ensino médio ou equivalente e tenham sido classificados em processo seletivo; III - de pós-graduação, compreendendo programas de mestrado e doutorado, cursos de especialização, aperfeiçoamento e outros, abertos a candidatos diplomados em cursos de graduação e que atendam às exigências das instituições de ensino; IV - de extensão, abertos a candidatos que atendam aos requisitos estabelecidos em cada caso pelas instituições de ensino. [...] CAPÍTULO V DA EDUCAÇÃO ESPECIAL Art. 58. Entende-se por educação especial, para os efeitos desta Lei, a modalidade de educação escolar oferecida preferencialmente na rede regular de ensino, para educandos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação. (Redação dada pela Lei n° 12.796, de 2013) [...] Considerando os dispositivos da Lei n° 9.394/1996, acima transcritos, apesar de a Recorrente citar diversos conceitos em relação à educação e também diversas atividades as quais ela considera como educacionais, penso que não é possível enquadrá-la como uma entidade educacional, consoante foi apurado pela Fiscalização. Observa-se que, exceto o "Mestrado em Avaliação", nenhuma das outras atividades desempenhadas pela Fiscalizada encontram-se no rol descrito pela Lei n° 9.394/1996, ou seja, ela não pratica atividades na área de educação básica (educação infantil, ensino fundamental e ensino médio) ou de educação profissional ou de ensino superior. Conforme constatado pela autoridade fiscal, as principais atividades realizadas pela Recorrente são de avaliação em processos seletivos, sempre com contratação terceirizada de bancas elaboradoras de questões de provas, constituídas de pessoas físicas e jurídicas, para elaboração dos itens das provas e também correção de redações e outras provas discursivas. Realiza, ainda, avaliação em vestibulares, concursos públicos, ENEM, ENAD, mediante contratos de prestação de serviços, onerosos, celebrados com órgãos públicos federais, estaduais, Fl. 532DF CARF MF Original Fl. 15 do Acórdão n.º 2201-010.792 - 2ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 12448.732965/2014-07 municipais, empresas de economia mista e empresas privadas, os quais assumem inteiramente os custos do contrato. Ainda, segundo a Fiscalização, as Receitas Operacionais da Fiscalizada, conforme sua contabilidade, estão nas contas 4.1.1.1.01.01- Taxa de Inscrição em Vestibular, 4.1.1.1.01.04- Contratos e Serviços, que engloba os Serviços Prestados a Terceiros relativos a Avaliações e diversos Concursos, tais como PETROBRAS, BNDES, EPE, ELETROBRAS, TRANSPETRO, entre outros, além de Contratos relativos a Avaliações referentes ao ENEM, ENAD e SAEB. A única atividade da Fiscalizada na área de educação é relativa ao curso de Mestrado em Avaliação, o qual representa receitas insignificantes nos anos objeto da autuação, como constatou a autoridade fiscal. Nesse sentido, temos as seguintes decisões deste Conselho, relativas ao mesmo Contribuinte, as quais, embora sejam referentes à suspensão de isenção/imunidade, trataram da mesma questão, ou seja, se a Fiscalizada é instituição de ensino, uma vez que a utilizaram como razões de decidir. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano-calendário: 2005, 2006, 2007 IMUNIDADE. INSTITUIÇÃO DE EDUCAÇÃO NÃO CARACTERIZADA. Se a entidade, pela sua natureza e atividade, sequer pode ser definida como instituição de educação nos termos da alínea “c” do inciso VI, do art. 150 da Constituição Federal; descabe falar em imunidade tributária. (Acórdão nº 1402-002.273, de 10/08/2016, Rel. Leonardo de Andrade Couto). ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Exercício: 2005 Ementa: AVALIAÇÃO EM PROCESSOS SELETIVO. NATUREZA DA ATIVIDADE. IMUNIDADE. IMPOSSIBILIDADE. A atividade de avaliação em processos seletivos não se confunde com ensino, de modo que a entidade que tem por objeto a sua exploração não pode buscar abrigo nas disposições da alínea “c”, do inciso VI, do art. 150, da Carta Constitucional, para impedir a incidência tributária. (Acórdão nº 1301-001.364, de 04/12/2013, Redator designado: Wilson Fernandes Guimarães). Peço vênia para transcrever excerto do voto condutor do Acórdão nº 1402- 002.273, cuja ementa acima transcrevi, da lavra do ilustre relator Leonardo Couto, com os quais concordo e adoto também como razões adicionais de decidir: Sob esse prisma, pela natureza da principal atividade exercida pela recorrente, difícil enquadrá-la como instituição, muito menos como de educação. Nesse último aspecto, mesmo na visão de que a atividade educacional não esteja limitada apenas àquelas de caráter estritamente didático, como afirma Aliomar Baleeiro, não vislumbro de que maneira a amplitude conceitual poderia envolver a prestação de serviços de consultoria, inclusive a empresa privadas, na área de avaliação de aprendizagem ou elaboração de processos seletivos, sem vínculo direto com a prática educacional. Fl. 533DF CARF MF Original Fl. 16 do Acórdão n.º 2201-010.792 - 2ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 12448.732965/2014-07 Não se discute a importância da atividade exercida pela Fundação Cesgranrio. Potencialmente, trata-se de uma organização com altíssimo nível de expertise a ser direcionado ao aprimoramento educacional na sua área de atuação. Por outro lado, é inegável que atividade por ela exercida tem natureza econômica e mercantilista, regida por normas aplicáveis a empreendimentos privados. Afinal, nada impede que outras pessoas jurídicas de fins lucrativos, ofereçam esses mesmos serviços nos moldes da recorrente. Portanto, a Fundação Cesgranrio não supre uma omissão estatal, não age complementarmente ao Estado e, pode-se dizer, não tem função social na literalidade desse termo. O Parecer 903/2014/CONJURMEC/CGU/AGU não afeta meu posicionamento. As ressalvas do texto são didáticas. A primeira delas quanto aos limites da definição (destaques acrescidos): [...] Posto isso, o presente parecer é no sentido da possibilidade de reconhecimento da Fundação Cesgranrio como instituição de educação, desde 1973, à luz dos elementos probatórios contidos nos autos dos processos 23123.003652/2010-95 e 045525.2014-88, ressalvados os efeitos dessa declaração aos limites do Direito Educacional e às competências atribuídas ao Ministro de Estado da Educação por força do art. 27, inciso X, da Lei nº 10.683, de 28 de maio de 2003. A outra ressalva diz respeito à questão tributária propriamente dita: [...] Observe-se que ser uma instituição de educação não implica em dizer que tem direito à imunidade prevista nos arts. 150, VI, “c”, e 195, § 7º, da Constituição da República ou que automaticamente tenha direito à qualificação como organização social... [...] A peça recursal apresenta transcrição do que seria pronunciamento do STJ no Resp 1.129.178/DF reconhecendo a interessada como instituição de educação e portanto imune à incidência de impostos. Na verdade a decisão em questão foi proferida pelo TJDF referente ao ISSQ e o DF interpôs recurso especial que foi rejeitado no STJ. (destaquei em negrito) Dessa forma, não há como acolher a pretensão recursal de enquadramento no FPAS 574, o qual é exclusivo para estabelecimentos de ensino, conforme tabela abaixo. Tabela do FPAS 574: CNAE FPAS Descrição 8513-9/00 574 Ensino fundamental 8520-1/00 574 Ensino médio 8531-7/00 574 Educação superior - graduação 8532-5/00 574 Educação superior - graduação e pós-graduação 8533-3/00 574 Educação superior - pós-graduação e extensão 8541-4/00 574 Educação profissional de nível técnico 8542-2/00 574 Educação profissional de nível tecnológico Deve a entidade ser enquadrada no FPAS 515, por ser de fato uma prestadora de serviços, conforme concluiu a Fiscalização. Fl. 534DF CARF MF Original Fl. 17 do Acórdão n.º 2201-010.792 - 2ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 12448.732965/2014-07 De acordo com o Anexo I, Tabela 1, da IN-RFB 971/2009, o CNAE 82.99-7/99, que se refere especificamente a "OUTRAS ATIVIDADES E SERVIÇOS PRESTADOS PRINCIPALMENTE ÀS EMPRESAS NÃO ESPECIFICADAS ANTERIORMENTE”, enquadra-se no FPAS 515. A Instrução Normativa RFB nº 971/2009, vigente à época dos fatos geradores, assim disciplina sobre o enquadramento do FPAS (Fundo da Previdência e Assistência Social): Art. 109-B. Cabe à pessoa jurídica, para fins de recolhimento da contribuição devida a terceiros, classificar a atividade por ela desenvolvida e atribuir-lhe o código FPAS correspondente, sem prejuízo da atuação, de ofício, da autoridade administrativa. § 1º Na hipótese de reclassificação de ofício, a autoridade administrativa constituirá o crédito tributário, se existente a respectiva obrigação, e comunicará ao sujeito passivo e às entidades e fundos interessados as alterações realizadas. § 2º Em caso de discordância, o sujeito passivo poderá, em 30 (trinta) dias, impugnar o ato de reclassificação da atividade ou o lançamento dele decorrente, observado, quanto a este, o rito estabelecido pelo Decreto nº 70.235, de 1972." "Art. 109-C. A classificação de que trata o art. 109-B terá por base a principal atividade desenvolvida pela empresa, assim considerada a que constitui seu objeto social, conforme declarado nos atos constitutivos e no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica - CNPJ, observadas as regras abaixo, na ordem em que apresentadas: I - a classificação será feita de acordo com o Quadro de Atividades e Profissões a que se refere o art. 577 do Decreto-Lei nº 5.452, de 1943 (CLT), ressalvado o disposto nos arts. 109-D e 109-E e as atividades em relação às quais a lei estabeleça forma diversa de contribuição; II - a atividade declarada como principal no CNPJ deverá corresponder à classificação feita na forma do inciso I, prevalecendo esta em caso de divergência; III - na hipótese de a pessoa jurídica desenvolver mais de uma atividade, prevalecerá, para fins de classificação, a atividade preponderante, assim considerada a que representa o objeto social da empresa, ou a unidade de produto, para a qual convergem as demais em regime de conexão funcional (CLT, art. 581, § 2º); IV - se nenhuma das atividades desenvolvidas pela pessoa jurídica se caracterizar como preponderante, classificar-se-á cada uma delas de acordo com o inciso I. § 1º Considera-se regime de conexão funcional, para fins de definição da atividade preponderante, a finalidade comum em função da qual duas ou mais atividades se interagem, sem descaracterizar sua natureza individual, a fim de realizar o objeto social da pessoa jurídica. § 2º Classificada a atividade na forma deste artigo, ser-lhe-ão atribuídos o código FPAS e as alíquotas de contribuição correspondentes, de acordo com as seguintes tabelas (Quadros 1 a 6), considerado o grupo econômico como indicativo das diversas atividades em que se decompõe: [...] QUADRO 6: CONFEDERAÇÃO NACIONAL DE EDUCAÇÃO E CULTURA Grupo de atividade Código FPAS Alíquota total -terceiros 1º - Estabelecimentos de ensino; 574 4,5% 2º - Empresas de difusão cultural e artística; 566 4,5% 3º - Estabelecimentos de cultura física 566 4,5% Fl. 535DF CARF MF Original Fl. 18 do Acórdão n.º 2201-010.792 - 2ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 12448.732965/2014-07 4º - Estabelecimentos hípicos. 566 4,5% (destaquei) Vê-se, portanto que a classificação no código FPAS 574 é exclusivo dos estabelecimentos de ensino. Desse modo, não merece reparo a decisão de primeira instância que manteve o lançamento fiscal, tendo em vista a constatação de diferenças resultantes da mudança de enquadramento do FPAS 574 (alíquota de 4,5%) para FPAS 515 (alíquota de 5,8%). CONCLUSÃO Diante do exposto, voto por negar provimento ao Recurso Voluntário. (documento assinado digitalmente) Marco Aurélio de Oliveira Barbosa Voto Vencedor Conselheiro Douglas Kakazu Kushiyama, Redator designado. Por economia processual e para evitar redundâncias desnecessárias, adoto o relatório produzido pelo Conselheiro Relator Marco Aurélio de Oliveira Barbosa, a quem rendo minhas homenagens. Apesar do seu costumeiro acerto, ouso dele discordar. Merece destaque o fato de que a 1ª Seção deste Egrégio CARF já decidiu com relação ao Imposto de Renda da Pessoa Jurídica - IRPJ e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL, quanto aos mesmos períodos fiscalizados nestes autos, cujas ementas transcrevo: Numero do processo: 12448.725726/2016-54 Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção Câmara: Terceira Câmara Seção: Primeira Seção de Julgamento Data da sessão: Tue Mar 19 00:00:00 UTC 2019 Data da publicação: Tue May 07 00:00:00 UTC 2019 Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2011, 2012 Ementa: SERVIÇOS EDUCACIONAIS, ENTIDADE SEM FINS LUCRATIVOS. IMUNIDADE PREVISTA NO ARTIGO 150, VI, C) DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988. O conceito de educação, para fins de fruição da imunidade prevista no artigo 150, VI, “c” da Constituição Federal de 1988, deve ser considerado de forma ampla, abrangendo, inclusive, toda e qualquer forma de acesso à cultura e à ciência, como preconiza o artigo 23, V do Texto Constitucional. Numero da decisão: 1302-003.421 Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em dar provimento ao recurso voluntário para cancelar a exigência de IRPJ por reconhecimento do direito à imunidade constitucional como entidade de educação; e em relação à CSLL em face de não estar sujeito a sua incidência, vencidos os conselheiros Rogério Aparecido Gil (relator), Paulo Henrique Silva Figueiredo, Ricardo Marozzi Gregório e Maria Lúcia Miceli. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Flávio Machado Vilhena Dias. Solicitaram a Fl. 536DF CARF MF Original Fl. 19 do Acórdão n.º 2201-010.792 - 2ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 12448.732965/2014-07 apresentação de declaração de voto os conselheiros Gustavo Guimarães da Fonseca e Luiz Tadeu Matosinho Machado. (assinado digitalmente) Luiz Tadeu Matosinho Machado - Presidente (assinado digitalmente) Rogério Aparecido Gil - Relator (assinado digitalmente) Flávio Machado Vilhena Dias- Redator designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Henrique Silva Figueiredo, Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa, Ricardo Marozzi Gregório, Rogério Aparecido Gil, Maria Lúcia Miceli, Gustavo Guimarães da Fonseca, Flávio Machado Vilhena Dias e Luiz Tadeu Matosinho Machado (Presidente). Nome do relator: ROGERIO APARECIDO GIL Numero do processo: 12448.728123/2015-23 Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção Câmara: Segunda Câmara Seção: Primeira Seção de Julgamento Data da sessão: Tue Oct 15 00:00:00 UTC 2019 Data da publicação: Fri Nov 22 00:00:00 UTC 2019 Ementa: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Ano-calendário: 2010 CERCEAMENTO DE DEFESA. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. Somente ensejam a nulidade os atos e termos lavrados por pessoa incompetente e os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa, nos termos dos artigos 10 e 59, ambos do Decreto nº 70.235/72. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL (COFINS) Ano-calendário: 2010 SERVIÇOS EDUCACIONAIS, ENTIDADE SEM FINS LUCRATIVOS. IMUNIDADE PREVISTA NO ARTIGO 150, VI, C) DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988. O conceito de educação para fins de fruição da imunidade prevista no artigo 150, VI, “c” da Constituição Federal de 1988, deve ser interpretado de forma ampla. Embora as avaliações educacionais não sejam atividades de ensino propriamente, estão intrinsicamente vinculadas à ele, porquanto são instrumentos indispensáveis para possibilitar seja assegurado o padrão de qualidade educacional brasileiro. O fisco não logrou êxito em identificar quais teriam sido os dispêndios realizados fora dos seus objetivos institucionais. E, portanto, não há que se falar em inobservância do requisito do art. 14, II, do CTN e nem de qualquer outro requisito deste dispositivo, indispensáveis para a fruição da imunidade de imposto e, por consequência, da isenção da COFINS. O artigo 47, § 2º, da Instrução Normativa SRF nº247/2002 não pode criar diretrizes hábeis a limitar a extensão da isenção aqui em análise e em contraposição à própria determinação do Chefe do Poder Executivo, externada mediante a edição da MP nº2.158-35/2001. A ilegalidade do o artigo 47, § 2º, da Instrução Normativa SRF nº247/2002, além de ter sido reconhecida pelo Superior Tribunal de Justiça, no acórdão do Recurso Especial nº1.353.111-RS, julgado em 23/09/2015, acabou por ser reconhecida pela própria inteligência da Súmula CARF nº107. Numero da decisão: 1201-003.191 Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, em dar provimento ao recurso, por maioria. Vencido o conselheiro Lizandro Rodrigues de Sousa. (documento assinado digitalmente) Lizandro Rodrigues de Sousa - Presidente (documento assinado digitalmente) Gisele Barra Bossa - Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Neudson Cavalcante Albuquerque, Luis Henrique Marotti Toselli, Allan Marcel Warwar Teixeira, Gisele Barra Bossa, Efigênio de Freitas Junior, Alexandre Evaristo Pinto, Bárbara Melo Carneiro e Lizandro Rodrigues de Sousa (Presidente). Nome do relator: Gisele Barra Bossa Fl. 537DF CARF MF Original Fl. 20 do Acórdão n.º 2201-010.792 - 2ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 12448.732965/2014-07 Peço vênia para transcrever trechos da decisão proferida nos autos do Processo n° 12448.728123/2015-23, acórdão n° 1201-003.191, proferido na sessão do dia 15 de outubro de 2019, relatado pela Conselheira Gisele Barra Bossa, com a qual concordo e me utilizo como fundamento e razão de decidir: (...) A Fundação Cesgranrio enquanto Instituição de Educação e a Imunidade de Impostos (...) 28. Relevante, portanto, compreendermos o racional técnico atrelado à concessão da imunidade constitucional. É preciso avaliar se a atividade de educação deve ser entendida de forma mais abrangente ou mediante interpretação restrita do conceito de educação à luz das disposições contidas na Lei nº 9.394/96 (LDB), utilizada como base legal para fundamentar o r. acórdão recorrido. 29. O conceito de educação está descrito no art. 205 da Constituição Federal de 1988: "Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho." (grifos nossos) 30. No mais, já antecipo minha posição de que, as avaliações educacionais são sim atividades educacionais. Embora não sejam atividades de ensino propriamente, estão intrinsicamente vinculadas à ele, porquanto são instrumentos indispensáveis para possibilitar seja assegurado o padrão de qualidade educacional brasileiro, exigido pela própria Constituição Federal. De fato, “a educação é gênero e o ensino é a espécie”. E, nesse sentido, vale conferir os seguintes dispositivos constitucionais: "Art. 206. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: [...] VII - garantia de padrão, de qualidade; "Art. 209. O ensino é livre à iniciativa privada, atendidas as seguintes condições: [...] II - autorização e avaliação de qualidade pelo Poder Público " [...] "Art. 214. A lei estabelecerá o plano nacional de educação, de duração decenal," com o objetivo de articular o sistema nacional de educação em regime de colaboração e definir diretrizes, objetivos, metas e estratégias de implementação para assegurar a manutenção e desenvolvimento do ensino em seus diversos níveis, etapas e modalidades por meio de ações integradas dos poderes públicos das diferentes esferas federativas que conduzam a: [...] III - melhoria da qualidade do ensino; [...]" (grifos nossos) 31. Em plena conformação com essas diretrizes constitucionais - e como não poderia deixar de ser -, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996), além de explicitar o conceito de educação em seu artigo 1º, cuida de expressamente consignar a obrigatoriedade de realização das avaliações educacionais dos estudantes e dos estabelecimentos de ensino, incluindo-as dentro "Da Organização da Educação Nacional”. Fl. 538DF CARF MF Original Fl. 21 do Acórdão n.º 2201-010.792 - 2ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 12448.732965/2014-07 32. Ademais, vejam que, as seleções de candidatos para ingresso ao ensino superior (concursos vestibulares), são procedimentos obrigatórios de Avaliação Educacional. Confira-se o teor dos dispositivos: "Art. 1º A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais. § 1º Esta Lei disciplinada educação escolar, que se desenvolve, predominantemente, por meio do ensino, em instituições próprias." - negritamos - "Da Organização da Educação Nacional: [...] Art. 9° A União incumbir-se-á de: [...] VI - assegurar processo nacional de avaliação do rendimento escolar no ensino fundamental, médio e superior, em colaboração com os sistemas de ensino, objetivando a definição de prioridades e a melhoria da qualidade do ensino; [...] VIII - assegurar processo nacional de avaliação das instituições de educação superior, com a cooperação dos sistemas que tiverem responsabilidade sobre este nível de ensino: IX - autorizar, reconhecer, credenciar, supervisionar e avaliar, respectivamente, os cursos das instituições de educação superior e os estabelecimentos do seu sistema de ensino. [...] Art. 41. O conhecimento adquirido na educação profissional e tecnológica, inclusive no trabalho, poderá ser objeto de avaliação, reconhecimento e certificação para prosseguimento ou conclusão de estudos. [...] Art. 44. A educação superior abrangerá os seguintes cursos e programas: [...] II - de graduação, abertos a candidatos que tenham concluído o ensino médio ou equivalente e tenham sido classificados em processo seletivo; [...] - negritamos - "Art. 206. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: [...] VII - garantia de padrão, de qualidade; "Art. 209. O ensino é livre à iniciativa privada, atendidas as seguintes condições: [...] II - autorização e avaliação de qualidade pelo Poder Público " [...] "Art. 214. A lei estabelecerá o plano nacional de educação, de duração decenal," com o objetivo de articular o sistema nacional de educação em regime de colaboração e definir diretrizes, objetivos, metas e estratégias de implementação para assegurar a manutenção e desenvolvimento do ensino em seus diversos níveis, etapas e modalidades por meio de ações integradas dos poderes públicos das diferentes esferas federativas que conduzam a: Fl. 539DF CARF MF Original Fl. 22 do Acórdão n.º 2201-010.792 - 2ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 12448.732965/2014-07 [...] III - melhoria da qualidade do ensino; [...]". 33. Em análise das disposições supra, não há quaisquer dúvidas de que a atividade preponderante da Fundação Cesgranrio, alicerçada nas Avaliações Educacionais, é atividade educacional e, como tal, a Recorrente tem o direito de se beneficiar da imunidade constitucional de relativa à exigência de impostos. 34. Data máxima vênia, discordo por completo da posição externada pelas doutas autoridades fiscal e julgadoras ao motivarem os autos de infração calcados na premissa de que instituições de educação são apenas os estabelecimentos de ensino. 35. O ensino é uma das atividades que compõe a educação. Repita-se, a educação abrange todas as atividades que visam ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho (CF, art. 205). E, além dos estabelecimentos de ensino, a educação pode ser desenvolvida em instituições de pesquisa, em movimentos sociais, em manifestações culturais e em organizações da sociedade civil (Lei n° 9.394/1996, art. 1º), tal como a Fundação Cesgranrio que é uma fundação de direito privado sem fins lucrativos. 36. Inclusive, em essa é a linha de entendimento predominante na doutrina, ainda que escassa, a respeito da abrangência do conceito de educação: “A educação deve ser entendida não somente como a instrução recebida em estabelecimentos de ensino ou no lar, mas como todos os processos de transmissão de conhecimentos e saberes que conduzem à formação física, intelectual e emocional do indivíduo. A educação escolar é apenas uma face, ainda que de grande importância, nesse processo. [...] No contexto do amplo sentido que se deve atribuir ao termo educação, os constituintes não limitaram a sua promoção ao Estado e à família, mas também à sociedade de um modo geral, o que inclui todos os seus setores cujas ações afetem o desenvolvimento da formação dos indivíduos. [...]1".(CASTRO. Marcelo Lúcio Ottoni de. A Educação na Constituição de 1988 e a LDB - Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília: André Quicé, 1998, p. 19-21.) "A educação para fins de enquadramento da instituição no conceito de imunidade previsto no artigo 150, VI, "c",da Constituição Federal, deve ser considerada de forma ampla, em sua plena acepção. [...] Como instituição de educação, portanto, deve ser considerada toda aquela jque volte suas atividades à promoção dos valores que engloba o conceito pleno de educação, nos termos aqui expostos. Não há, em nossa Constituição, qualquer dispositivo limitador deste conceito; ao contrário, o espírito constitucional propugna por uma acepção ampla de educação, a permitir o enquadramento de inúmeras categorias de instituições no albergue imunizante. [...] Desde as instituições particulares de ensino fundamental, ensino médio ou ensino superior, passando pelas instituições de ensino profissional, de difusão da cultura e do esporte, de educação ambiental, museus, teatros, entre outras, todas podem ser abarcadas pelo instituto da imunidade tributária aos impostos destinada às instituições de educação, previsto no artigo 150, VI, "c" da Constituição Federal2". (SOUZA, Leandro Marins de. Tributação do terceiro setor no Brasil. São Paulo: Dialética, 2004, p. 163-164.) “entende-se que a imunidade assegurada pela Constituição às instituições de educação e de assistência social, sem fins lucrativos, tem em vista um amplo escopo de fins sociais. Parece-me, pois, que a Constituição inclui no âmbito da promoção da educação não apenas o ensino formal curricular, mas um' amplo leque de atividades, a serem desenvolvidas com a colaboração da sociedade, que visam ao desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e a qualificação para o trabalho. Fl. 540DF CARF MF Original Fl. 23 do Acórdão n.º 2201-010.792 - 2ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 12448.732965/2014-07 Logo, não se pode restringir a expressão "instituições de educação", constante do artigo 145 [sic; leia-se 150], inciso VI, c, da Constituição Federal, à "instituições ¡de ensino formal", ou que promovam a educação strictu sensu - por não ser esse o sentido oferecido pelo próprio texto constitucional. [...] Entendo desse modo que as instituições privadas sem fins lucrativos, dedicadas à promoção da cultura, à formação para a cidadania, ao ambientalismo - para dar alguns exemplos -, são alcançadas pela imunidade a impostos estabelecida no artigo 150, inciso VI, c, da Constituição Federal, posto que tais finalidades se destinam à promoção da educação. 3” (BARBOSA. Maria Nazaré Lins. As "instituições de educação" e a imunidade a impostos. In: SZAZI, Eduardo (org.). Terceiro setor: temas polêmicos. N. 1. São Paulo: Peirópolis, 2004, p.109-126.) 37. No mesmo sentido e reforçando a citada conformação (e não antinomia) entre os ditames constitucionais e a LDB, é a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, tal como segue: “[...] Noutra banda, o conceito de educação da LDB é ainda mais amplo do que aquele do art. 205 da Constituição. No entanto, qualquer intento de ir além disso e buscar na lei 9.394/1996 uma conceituação expressa de "instituição de educação" é fadado ao fracasso, por uma razão muito simples: a LDB limita-se a disciplinar a "educação escolar" e não toda a educação, conforme expressamente estabelecido no § 1o de seu art. 1o. Coerentemente, ela apenas trata das "instituições de ensino" (arts. 19-20), espécie do gênero mais amplo das "instituições de educação". Algum intérprete mais apressado poderia continuar essa busca na legislação infralegal (decretos, portarias, instruções normativas etc.). No entanto, mesmo os que admitem que lei ordinária possa criar requisitos para o exercício da imunidade constitucional não chegam ao ponto de admitir que isso possa ser feito, legitimamente, por atos normativos daquela espécie. O próprio STF censura esse 'tipo de prática, como revela trecho de acórdão que, embora trate da imunidade às contribuições à seguridade social (art. 195, § 7o), e não da imunidade a impostos, é inteiramente pertinente para as considerações em Curso: [...] a garantia constitucional da imunidade pertinente à contribuição para a seguridade social só pode validamente sofrer limitações normativas, quando definidas estas em sede legal, como requisitos necessários ao gozo da especial prerrogativa de caráter jurídico-financeiro em questão." [STF,1a Turma, RMS 22.192-9, rei. Min. Celso de Mello, decisão de 28/11/1995] 38. Concordo com o ilustre Cons. Flávio Machado Vilhena, redator designado do voto vencedor no Acórdão nº 1302-003.421, quando diz que: “Esse entendimento (que o Legislador teria deixado para o Poder Executivo regulamentar a expressão constitucional “instituições de educação”), entretanto, contraria a jurisprudência consolidada do STF no sentido de que, por se tratar de limitação constitucional ao poder de tributar, a demarcação do objeto material da imunidade das instituições de educação é matéria afeita à lei complementar. Sobre o tema: ADI 1.802MC, rel. Min. Sepúlveda Pertence, DJ de 13.02.2004. Não compete, portanto, ao Poder Executivo traçar critérios a fim de definir quais entidades estão abrangidas pelo conceito de “entidade educacional” constante na alínea c do inciso VI do art. 150 da Constituição Federal. [STF, 2ª Turma, RE 354.988AgR, rel. Min. Ellen Gracie, decisão de 21/3/2006, destaques acrescidos] Não é lícito ao Executivo e a nenhum de seus órgãos ou entidades – aí incluída, naturalmente, a Secretaria da Receita Federal – pretender definir, autonomamente, o conceito de “instituição de educação” para fins da imunidade a impostos. É o que se encontra estampado na decisão acima referida. Fl. 541DF CARF MF Original Fl. 24 do Acórdão n.º 2201-010.792 - 2ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 12448.732965/2014-07 Não é lícito ao Executivo e a nenhum de seus órgãos ou entidades – aí incluída, naturalmente, a Secretaria da Receita Federal – pretender definir, autonomamente, o conceito de “instituição de educação” para fins da imunidade a impostos. É o que se encontra estampado na decisão acima referida.” 39. Em vista das questões de fato e de direito aqui em pauta, considero que, ao realizar Avaliações Educacionais e os concursos vestibulares, a Fundação Cesgranrio está atuando em benefício do país, vez que cuida do aprimoramento do ensino ministrado no Brasil de forma complementar às atividades educacionais do Estado, tal como o exige o caput do art. 12 da Lei n° 9.532/1997, in verbis: "Art. 12. Para efeito do disposto no art. 150, inciso VI, alínea "c”, da Constituição, considera-se imune a instituição de educação ou de assistência social que preste os serviços para os quais houver sido instituída e os coloque à disposição da população em geral, em caráter complementar às atividades do Estado, sem fins lucrativos." 40. Sob esse aspecto foram cirúrgicas as colocações do Cons. Luiz Tadeu Matosinho Machado, no Acórdão nº 1302-003.421, ao ressaltar que: “[...] a educação é um dos principais atributos e deveres do Estado que se desincumbe de seu mister de forma direta, por meio das instituições públicas, e de forma indireta, através das instituições de educação privadas. Estas últimas, quando desempenham suas atividades sem cunho lucrativo encontram abrigo na imunidade constitucional referida. O legislador constituinte tratou tais instituições como realizadoras, por extensão, de parte da atividade precípua do Estado brasileiro de prover a educação dos seus cidadãos, em todos os seus níveis, de forma que vedou a instituição de impostos sobe o patrimônio, a renda e os serviços por elas prestados, tal como se dá entre os próprios entes federativos. No presente caso, restou comprovado que a recorrente, além de oferecer Cursos de Mestrado em Avaliação, exerce, entre outras atividades, a promoção de pesquisas no campo da avaliação educacional, e realiza Avaliações Educacionais desenvolvidas junto às instituições de ensino e em larga escala, tais como ENEN, ENADE, ProvaBrasilANRESC, dentre outros. O processo de avaliação do ensino, seja o dos alunos para fins de acesso às universidades, seja das instituições de ensino propriamente, é um dos instrumentos mediante os quais o Estado proporciona aos cidadãos a educação e permite o seu aperfeiçoamento contínuo. Não obstante estas últimas atividades, que são a principal fonte de receitas da recorrente, não sejam atividades de ensino propriamente ditos, estão sem sombra de dúvidas completamente inseridas no conjunto de ações que compõem o sistema de educação e dele são indissociáveis, a meu ver. Ao transferir a uma instituição particular, sem fins lucrativos, a realização periódica dos processos avaliativos referidos, o Estado está, sem margem a dúvida, delegando a este agente um parte das suas obrigações dentro do sistema de educação concebido. Ou seja, uma atribuição relevante do processo de educação é realizada pelo Estado por meio de uma instituição privada, sem fins lucrativos. Nesse sentido a ementa do julgado colacionado pelo i. relator do voto vencedor, que tratou da não incidência do ISS sobre as receitas da Fundação Cesgranrio, verbis: [...] 5. As atividades desenvolvidas pela Fundação Cesgranrio para a realização do ENADE estão direcionadas à concretização do direito fundamental à educação, pois objetivam avaliar a qualidade do ensino superior no país, possibilitar o acesso às informações sobre o desempenho das instituições de ensino e a Fl. 542DF CARF MF Original Fl. 25 do Acórdão n.º 2201-010.792 - 2ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 12448.732965/2014-07 definição de metas e estratégias pelo Poder Público para garantir padrões de qualidade conforme as diretrizes e os princípios dos arts. 206 e 214 da Constituição Federal. 6. Apelação do Distrito Federal desprovida e apelação da Fundação Cesgranrio provida. (Acórdão n.1011327, 20160110600446APC, Relator: CESAR LOYOLA 2ª TURMA CÍVEL, Data de Julgamento: 19/04/2017, Publicado no DJE: 26/04/2017. Pág.: 281/315) (destacou-se)” 41. Diante das razões acima expostas, resta claro ser equivocada a linha interpretativa adotada pelo fisco segundo a qual a LDB limita o conceito de instituições de educação aos estabelecimentos de ensino e, por conseguinte, acaba por excluir indevidamente do seu escopo as atividades de avaliação. 42. Mas não é só, a douta autoridade fiscal e o r. acórdão recorrido admitiram ser o Curso de Mestrado em Avaliação atividade educacional, especificamente de ensino. Ainda assim, tentaram desqualificá-lo com a afirmação de tratar-se de atividade não prevista no Estatuto da Fundação Cesgranrio. 43. Constato que, o Curso de Mestrado em Avaliação está previsto dentre os objetivos sociais da Fundação Cesgranrio, conforme artigo 2o, inciso III, do seu Estatuto. Confira-se: "Art. 2o. As finalidades da FUNDAÇÃO CESGRANRIO são as seguintes: [...] III - formação, especialização e aperfeiçoamento do pessoal para o trabalho de seleção de recursos humanos, e pesquisa nas diversas áreas das ciências do comportamento, da cultura e da saúde em todas as suas manifestações;" 44. Outra alegação claramente equivocada constante do r. Acórdão da DRJ refere-se ao fato de que “os únicos professores empregados da Fundação Cesgranrio seriam aqueles alocados ao programa de pós-graduação” (e- fls. 1534). 45. Contudo, debruçando-me na relação dos empregados da Fundação Cesgranrio (e-fls. 616/617), evidencio que há 17 (dezessete) titulares de diplomas de Cursos de Mestrado e 20 titulares de diplomas de Doutorado, aptos a desenvolver as atividades educacionais prestadas pela ora Recorrente. 46. Outra afirmação digna de reparos (e-fls. 1535 e 838) diz respeito ao fato de que 99,62% das receitas auferidas pela ora Recorrente em 2010 seriam provenientes de atividades não educacionais e apenas 0,29% de atividade educacional (curso de Mestrado em Avaliação). A douta autoridade autuante apresentou o seguinte quadro resumo: 47. Por sua vez, a ora Recorrente bem observou que “o quadro supra apresenta o somatório dos valores lançados nas colunas de créditos das Contas de Receitas, e não os saldos das referidas contas”. No mais, evidencio que a origem das receitas em 2010, Fl. 543DF CARF MF Original Fl. 26 do Acórdão n.º 2201-010.792 - 2ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 12448.732965/2014-07 considerando os saldos das Contas de Receitas do Balancete de dezembro de 2010 e do Livro Razão, foram as seguintes: 48. Considerando que são também atividades educacionais, para além do Curso de Mestrado em Avaliação (0,27%), as avaliações educacionais (64,57%), as seleções de candidatos ao ingresso no Ensino Superior (0,99%), bem como os Convênio e Projetos referente a "Boas Práticas no Ensino da Matemática" (0,03%) - um total de 65,86% das receitas totais da Fundação Cesgranrio, correspondente a R$ 102.455.783,27, relativas ao ano-calendário de 2010 -, as atividades não educacionais resumiram-se às seleções de pessoal para habilitação a empregos e cargos públicos e privados (34,05%) e mais Outras Receitas (0,09%), somaram 34,14% das receitas totais auferidas, correspondente a R$ 53.110.513,00. 49. Portanto, sob a ótica restrita das receitas auferidas, a Fundação Cesgranrio é, sem sobre de dúvida (65,86%), instituição dedicada prioritariamente as atividades educacionais. 50. Sem entrar no mérito se seriam atividades educacionais também a seleção de pessoal para habilitação a empregos e cargos públicos e privados (34,05%), vez que nesse aspecto temos a questão concorrencial em pauta, a Fundação Cesgranrio é, sem dúvida (65,86%) e utilizando a própria métrica adotada pela fiscalização (ótica restrita das receitas auferidas), instituição dedicada prioritariamente as atividades educacionais. 51. Ademais, conforme comprovado nos autos, a Fundação Cesgranrio realizou, em 2010, outras atividades educacionais, as quais foram custeadas com os recursos advindos dos superávits obtidos por meio das prestações de serviços (vide documentos não pagináveis anexo à e-fls.1662), são elas: (i) Trabalhos desenvolvidos por seus pesquisadores publicados em artigos de periódicos, livros e capítulos de livros, divulgados em Congressos, além do desenvolvimento de material didático e institucional; (ii) Publicação trimestral da “Revista Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas de Educação”, editada e distribuída gratuitamente, e da “Revista Meta: Avaliação”, eletrônica, veiculada na internet, cujo acesso aos leitores é gratuito, de periodicidade quadrimestral; (iii) Seminário Internacional "Avaliação de Professores da Educação Básica - Uma Agenda em Discussão"; (iv) Realização do "Projeto de Formação Pedagógica de Professores" de 97 cursos de Pré-vestibulares Comunitários (CPVCs); (v) Apoio ao "Projeto Cantareiros", com 40 integrantes entre cantores e atores, que visitaram hospitais, asilos e creches nas festas de fim de ano. 52. Além dessas, realizou atividades assistenciais de cunho educacional: Fl. 544DF CARF MF Original Fl. 27 do Acórdão n.º 2201-010.792 - 2ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 12448.732965/2014-07 jas atividades são voltadas principalmente para assistência a crianças e jovens carentes: (i) Fundação Assistencial Santa Bárbara, com R$ 180.000,00, em 2010 (e-fls. 657/658); (ii) Projeto Brasileirinho – Rio Voluntário, com R$ 48.000,00, em 2010 (e-fls. 658); (iii) Associação Nossa Senhora de Fátima e Projeto Futuro e Vida, com R$ 84.0000,00, em 2010 (e-fls. 660); (iv) Sociedade Providência, com R$ 132.000,00, em 2010 (fls. 658); (v) REFAZER Grupo de Apoio à Criança, com R$ 12.000,00, em 2010 (e-fls. 650 e 658). - Projeto "Apostando no Futuro", implantado e desenvolvido diretamente pela Fundação Cesgranrio, cujo objetivo é assistir mais de 500 famílias de baixa renda da comunidade do bairro do Rio Comprido, onde estava localizada a sede da Fundação Cesgranrio. Para tanto, foram implementadas ações hábeis a: prover os moradores de documentação civil, atendimento a crianças de até 5 anos, atenção preventiva a crianças e adolescentes de 6 a 14 anos, capacitação profissional de jovens e adultos, oferta de atividades esportivas, culturais e de lazer para pessoas de todas as idades, e divulgação de informações de interesse das comunidades (e-fls. 651/657). Em 2010 a Fundação Cesgranrio despendeu R$ 623.809,20 com o "Apostando no Futuro" (e-fls. 657). 53. Foram também realizadas doações, três de natureza educacional e duas de natureza assistencial: 54. Adicionalmente, a Fundação Cesgranrio distribuiu Bolsas de Estudo, parciais ou totais, no montante de R$ 2.481.820,38, em 2010 (e-fls. 662). 55. Diante do conjunto probatório supra e em vista das razões de direito aqui trabalhadas, não há como negar que a Fundação Censgranrio exerce atividade educacional e, por consequência, a motivação central para suspensação da imunidade e manutenção das exigências de IRPJ e da CSLL “caem por terra”. 56. Vejam que, as doutas autoridades fiscais não lograram êxito em identificar quais teriam sido os dispêndios realizados fora dos seus objetivos institucionais. E, portanto, não há que se falar em inobservância do requisito do art. 14, II, do CTN4, indispensável para a fruição da imunidade de imposto, e nem de qualquer outro requisito deste dispositivo. 57. Se a Fiscalização e o r. Acórdão DRJ-CTA negaram o direito de a Fundação Cesgranrio fruir a imunidade de impostos apenas e tão somente sob o fundamento de não ser ela instituição de educação e de não ter aplicado recursos em suas atividades educacionais, de modo indireto atestaram que a ora Recorrente atendeu a todos os demais requisitos indispensáveis para a fruição da imunidade de impostos, no ano- calendário de 2010. 58. Alias, esse também foi o entendimento do Cons. Luiz Tadeu Matosinho Machado, no Acórdão nº 1302-003.421 (Declaração de Voto), consignar expressamente que: “não se questiona nos autos o desatendimento por parte da recorrente de quaisquer das Fl. 545DF CARF MF Original Fl. 28 do Acórdão n.º 2201-010.792 - 2ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 12448.732965/2014-07 condições estabelecidas no art. 14 do CTN, de sorte que não vislumbro neste caso fundamento para o afastamento da imunidade tributária conferida às instituições de educação.” 59. Por fim, a própria autoridade autuante reconheceu expressamente, ter a Fundação Cesgranrio aplicado os superávits obtidos com as prestações de serviços nos seus objetivos sociais (e-fls. 838). Confira-se: "Embora conste de seu Estatuto, não foi constatada na escrita contábil/fiscal, a existência de contas destinadas ao recebimento de doações, anuidades ou mensalidades de mantenedores. A Fundação Cesgranrio vem custeando e desenvolvendo seus objetivos sociais às custas de RECEBIMENTOS por SERVIÇOS PRESTADOS A TERCEIROS, por meio de CONTRATOS DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS firmados entre a parte interessada (tomador de serviços) e a Fundação Cesgranrio (prestador de serviços)." 60. Como se não bastassem todo esse racional, a ora Recorrente cuidou de juntar aos autos a Declaração formal do Ministro de Estado da Educação (e-fls. 756), prova de ser a Fundação Cesgranrio uma instituição de educação: "DECLARAÇÃO Nos termos do que consta do Processo n° 23123.003652/2010-95, declaro, para os devidos fins e em fase de requerimento expresso, que a Fundação CESGRANRIO é uma instituição de educação, consoante arts. 1o e 2o da Lei n° 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Brasilia-DF, 19 de setembro de 2014. JOSÉ HENRIQUE PAIM FERNANDES Ministro de Estado da Educação" 61. A Declaração supra está respaldada no Parecer n° 903/2014/CONJUR- MEC/CGU/AGU (e-fls. 746/754), cuja conclusão é a seguinte: "34. Posto isso, o presente parecer é no sentido da possibilidade de reconhecimento da Fundação CESGRANRIO como instituição de educação, desde 1973, à luz dos elementos probatórios contidos nos autos dos Processos no. 23123.003652/2010-95 e 045525.2014-88, ressalvados os efeitos dessa declaração aos limites do Direito Educacional e às competências atribuídas ao Ministro da Educação por força do art. 27, inciso X, da Lei no. 10.683, de 29 de maio de 2003." 62. Diante desse documento, como podem as autoridades autuante e julgadoras contrariar decisão emitida pelo próprio Ministro de Estado da Educação? Não podem. E, nesse sentido, tenho que concordar com as incisivas ponderações trazidas pelo Cons. Gustavo Guimarães da Fonseca, em sua Declaração de Voto (Acórdão nº 1302- 003.421): “Neste particular, ignorar a opinião emitida nos autos pela Autoridade Máxima em educação no Brasil, é pretender ser "mais realista que o rei". É, para além de dúvidas razoáveis, inquinar-se a Receita, a DRJ e o próprio CARF, de uma onisciência que não reflete a própria expertise destes órgãos. Se o Ministério da Educação afirma, certifica e atesta que o recorrente se reveste de características suficientes para classifica-lo como entidade participante do sistema educacional pátrio mais que isso, o ME diz, textualmente, se tratar de uma entidade educacional, qualquer tentativa de se desconstruir esta mesma assertiva ecoa no mais absoluto vazio... É o Ministério da Educação, mais que qualquer outro órgão componente do Poder Executivo, quem tem o conhecimento, e para não dizer, a competência, para afirmar se "A" ou "B" é, de fato, uma entidade educacional. A certificação juntada ao feito, da lavra do ME, é, desnecessária qualquer ilação adicional, a prova definitiva e irrefutável de que o recorrente desenvolve atividades abarcadas pela regra contida no art. 150, § 4º, "b", da CRFB; qualquer Fl. 546DF CARF MF Original Fl. 29 do Acórdão n.º 2201-010.792 - 2ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 12448.732965/2014-07 outro tipo de argumento aportado no caso será tido e havido como mero "obter dictum". 63. De todo o exposto, deve ser afastada a exigência do IRPJ e reconhecido o caráter educacional das atividades da Recorrente, para fins de enquadramento à regra de imunidade prevista no 150, VI, c) da Constituição Federal de 1988. Da Não Incidência da CSLL 64. De acordo com a douta autoridade fiscal e o r. acórdão recorrido, a Fundação Cesgranrio seria devedora da CSLL pelo fato de não ser instituição de assistência social e não ter sido detentora do Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social - CEBAS no exercício de 2010. 65. Entretanto, para qualquer pessoa jurídica ser devedora da CSLL é indispensável a ocorrência do fato gerador, que, no caso dessa contribuição, é a pessoa jurídica ter auferido lucros, sendo a base de cálculo o valor do resultado do exercício, consoante a Lei n° 7.689/1988, verbis: "Art. 1º Fica instituída contribuição social sobre o lucro das pessoas jurídicas, destinada ao financiamento da seguridade social. Art. 2° A base de cálculo da contribuição é o valor do resultado do exercício, antes da provisão para o imposto de renda." 66. No caso dos autos, a Fundação Cesgranrio é instituição de educação sem fins lucrativos, que não apura lucros, mas apenas eventuais superávits. E, em decorrência, a ora Recorrente está fora do campo de incidência da CSLL, não figurando como contribuinte e devedora dessa contribuição. 67. No mais, como vimos o termo de verificação fiscal parte da premissa de que a Recorrente não seria uma instituição de educação e, por essa razão, não poderia se beneficiar da regra de imunidade prevista no 150, VI, c) da CF/88 (argumento este já superado pelas razões acima exposta). Assim sendo e considerando que em nenhum momento a fiscalização e/ou as doutas autoridades julgadoras acusaram a Fundação Cesgranrio de ter distribuído seu patrimônio, suas rendas e seus recursos, fica evidenciado, ainda que indiretamente, ser a ora Recorrente instituição sem fins lucrativos. A meu ver, tal questão fática mostra-se incontroversa. 68. De outra parte, restou de demonstrado no Recurso Voluntário que, sendo a Cesgranrio fundação com sede no Estado do Rio de Janeiro, necessariamente não pode ter fins lucrativos, sob pena de não serem constituídas pelos órgãos daquele Estado, notadamente o Ministério Público Estadual, que tem a função, dentre outras, de fiscalizar este tipo de sociedade. 69. No mais, há muito a Receita Federal reconheceu não ser devida a CSLL pelas pessoas jurídicas que desenvolvem suas atividades sem fins lucrativos, conforme Ato Declaratorio Normativo CST n° 17, de 30/11/1990, in verbis: "O COORDENADOR DO SISTEMA DE TRIBUTAÇÃO, no uso das atribuições que lhe confere o item II da Instrução Normativa do SRF n° 034, de 18 de setembro de 1974 e tendo em vista as normas de incidência da contribuição social, instituída pela Lei n° 7.689, de 15 de dezembro de 1988, declara: em caráter normativo, às Superintendências Regionais da Receita Federal e demais interessados que a contribuição social não !será devida pelas pessoas jurídicas que desenvolvam atividades sem fins lucrativos tais como as fundações e sindicatos." (grifos nossos) 70. Como se não bastasse, o tema também está pacificado nesse E. CARF e na Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF): “Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL Ano-calendário: 2005, 2006 Fl. 547DF CARF MF Original Fl. 30 do Acórdão n.º 2201-010.792 - 2ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 12448.732965/2014-07 CSLL. NÃO INCIDÊNCIA, SOCIEDADE SEM FINS LUCRATIVOS. A CSLL tem como fato gerador a existência de lucro no período correspondente. Tendo em vista que as sociedades sem fins lucrativos auferem superávits e não lucro, não podem se sujeitar à incidência da CSLL. (Acórdão nº 9101001.978, sessão de 19/08/2014, Processo nº 19740.720171/2009-60) 71. Assim sendo, deve ser afastada a exigência dos créditos de CSLL constituídos no auto de infração aqui combatido. Conclusão 72. Diante do exposto, VOTO no sentido de CONHECER do RECURSO interposto e, no mérito, DAR-LHE PROVIMENTO. Apenas para trazer elementos referentes aos presentes autos, verificamos, que a contribuinte tem parecer que a reconheceu como instituição de educação (fls. 168/180); certidão atestando a manutenção do Título de Utilidade Pública Federal (fl. 203); Certificado de Entidade de Fins Filantrópicos (fls. 204/205), entre outros. Portanto, acolho a pretensão do contribuinte. CONCLUSÃO Diante do exposto, voto por dar provimento ao Recurso Voluntário. (documento assinado digitalmente) Douglas Kakazu Kushiyama Fl. 548DF CARF MF Original

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Numero do processo: 13888.003966/2008-78
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Apr 25 00:00:00 UTC 2023
Data da publicação: Thu Jul 20 00:00:00 UTC 2023
Ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2004 a 31/12/2007 CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA E DE TERCEIROS. AUXÍLIO EDUCAÇÃO. DEPENDENTES. INCIDÊNCIA. À época dos fatos geradores objeto do lançamento, não havia previsão legal para a isenção de contribuições previdenciárias em relação valores pagos a título de auxílio educação a dependentes de empregados e dirigentes vinculados a empresa.
Numero da decisão: 9202-010.651
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional. No mérito, por voto de qualidade, acordam em dar-lhe provimento. Vencidos os conselheiros Ana Cecília Lustosa da Cruz (relatora), Joao Victor Ribeiro Aldinucci, Marcelo Milton da Silva Risso e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri que negavam provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Mauricio Nogueira Righetti. (documento assinado digitalmente) Regis Xavier Holanda – Presidente em Exercício (documento assinado digitalmente) Ana Cecília Lustosa da Cruz – Relatora (documento assinado digitalmente) Mauricio Nogueira Righetti – Redator Designado Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Mauricio Nogueira Righetti, Joao Victor Ribeiro Aldinucci, Sheila Aires Cartaxo Gomes, Ana Cecilia Lustosa da Cruz, Mario Hermes Soares Campos, Marcelo Milton da Silva Risso, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Regis Xavier Holanda (Presidente).
Nome do relator: ANA CECILIA LUSTOSA DA CRUZ

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ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2004 a 31/12/2007 CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA E DE TERCEIROS. AUXÍLIO EDUCAÇÃO. DEPENDENTES. INCIDÊNCIA. À época dos fatos geradores objeto do lançamento, não havia previsão legal para a isenção de contribuições previdenciárias em relação valores pagos a título de auxílio educação a dependentes de empregados e dirigentes vinculados a empresa. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional. No mérito, por voto de qualidade, acordam em dar-lhe provimento. Vencidos os conselheiros Ana Cecília Lustosa da Cruz (relatora), Joao Victor Ribeiro Aldinucci, Marcelo Milton da Silva Risso e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri que negavam provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Mauricio Nogueira Righetti. (documento assinado digitalmente) Regis Xavier Holanda – Presidente em Exercício (documento assinado digitalmente) Ana Cecília Lustosa da Cruz – Relatora (documento assinado digitalmente) Mauricio Nogueira Righetti – Redator Designado Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Mauricio Nogueira Righetti, Joao Victor Ribeiro Aldinucci, Sheila Aires Cartaxo Gomes, Ana Cecilia Lustosa da Cruz, Mario Hermes Soares Campos, Marcelo Milton da Silva Risso, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Regis Xavier Holanda (Presidente). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 88 8. 00 39 66 /2 00 8- 78 Fl. 193DF CARF MF Original Fl. 2 do Acórdão n.º 9202-010.651 - CSRF/2ª Turma Processo nº 13888.003966/2008-78 Relatório Trata-se de Recurso Especial interposto pela Procuradoria da Fazenda Nacional contra o Acórdão n.º 2403-009.813, proferido pela 2ªTurma Ordinária da 4ª Câmara da 2ª Seção de Julgamento do CARF, em 9 de abril de 2021, no qual restou consignado o seguinte trecho da ementa, fls. 144: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2004 a 31/12/2007 EDUCAÇÃO. BOLSAS DE ESTUDOS A DEPENDENTES. NÃO INCIDÊNCIA. HIPÓTESE DE ISENÇÃO. Os valores pagos a título de bolsa de estudos, com a finalidade de custear a educação dos empregados e dependentes dos em nível básico, fundamental, médio e superior, não se sujeitam à incidência de contribuição previdenciária, pois não têm caráter salarial, seja porque não retribuem o trabalho efetivo, seja porque não têm a característica da habitualidade ou, ainda, porque assim se estabelece em convenção coletiva. No que se refere ao Recurso Especial, fls. 153 e seguintes, houve sua admissão, por meio do Despacho de fls. 176 e seguintes, para rediscutir a incidência das contribuições sociais previdenciárias sobre bolsas de estudos pagas a dependentes de empregados, antes da edição da Lei nº12.513/2011. Em seu recurso, a Fazenda Nacional sustenta, em síntese, que: a) para excluir do lançamento os valores relativos à bolsa de estudos concedida a dependentes do segurado, o acórdão recorrido baseou-se na tese de que o dispositivo legal vigente no momento do fato gerador (alínea “t”, do § 9º do artigo 28 da Lei 8.212/91, na redação dada pela Lei 9.711/98) não traz qualquer restrição; b) verifica-se que a verba relativa aos dependentes dos empregados não está fora do campo de incidência das contribuições previdenciárias, prevista no art. 28, § 9º, “t” da Lei n ° 8.212/91, senão vejamos; c) a leitura literal do dispositivo legal em questão deixa evidente que a isenção atinge apenas os valores pagos a título de bolsa de estudos que vise a educação básica ou cursos de capacitação e qualificação profissionais vinculados às atividades desenvolvidas pela empresa. Portanto, logicamente deve se tratar de empregados ou dirigentes da empresa, não sendo extensível à bolsa de estudo referentes aos dependentes, uma vez que não possuem vínculo direto com a empresa; d) não estando contemplada pela norma de isenção, a bolsa de estudos concedida aos filhos e dependentes dos empregados devem integrar o salário-de-contribuição, por se constituírem em ganhos habituais fornecidos sob a forma de utilidades. Consoante o Despacho anexo, o Contribuinte foi cientificado, mas não apresentou contrarrazões. É o relatório. Voto Vencido Conselheira Ana Cecília Lustosa da Cruz, Relatora. Conheço do Recurso, pois se encontra tempestivo e presentes os demais pressupostos de admissibilidade. Fl. 194DF CARF MF Original Fl. 3 do Acórdão n.º 9202-010.651 - CSRF/2ª Turma Processo nº 13888.003966/2008-78 Trata-se de crédito tributário constituído em 15/09/2008 mediante o Auto de Infração (AI) – DEBCAD 37.144.410-1 – período de apuração 01/01/2004 a 31/12/2004 e 01/01/2007 a 31/12/2007 – valor R$ 36.529,06 – com fulcro em contribuições previdenciárias incidentes sobre a remuneração de empregados, destinadas à Seguridade Social, devidas pelos segurados e a serem descontadas dos pagamentos e recolhidas pela empresa (art. 20 e art. 30, inciso l, alínea a, da Lei n. 8.212/91), verificadas no(s) estabelecimento(s) 01.740.720/0001-56 e 01.740.720/0002-37 desse contribuinte, lançado em 12/09/2008. Em face da decisão do Colegiado a quo, que apreciou o lançamento em comento, foi interposto Recurso Especial para rediscutir a incidência das contribuições sociais previdenciárias sobre bolsas de estudos pagas a dependentes de empregados, antes da edição da Lei nº12.513/2011. A decisão recorrida assim tratou do tema: A questão tratada versa sobre a interpretação ao art. 28, § 9º, “t”, com a redação vigente à época dos fatos geradores: Art. 28 (...) t) o valor relativo a plano educacional que vise à educação básica, nos termos do Art. 21 da Lei n° 9.394 de 20 de dezembro de 1996, e a cursos de capacitação e qualificação profissionais vinculados às atividades desenvolvidas pela empresa, desde que não seja utilizado em substituição de parcela salarial e que todos os empregados e dirigentes tenham acesso ao mesmo; (Redação dada pela Lei n° 9. 711, de 20/11/98). A Lei nº 12.513/2011 alterou o dispositivo legal, que passou a ter a seguinte redação: t) o valor relativo a plano educacional, ou bolsa de estudo, que vise à educação básica de empregados e seus dependentes e, desde que vinculada às atividades desenvolvidas pela empresa, à educação profissional e tecnológica de empregados, nos termos da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, e: (Redação dada pela Lei nº 12.513, de 2011). Não obstante à lei se reportar a ocorrência do fato gerador, a alteração do mencionado dispositivo legal pela Lei nº 12.513/2011 foi de grande importância para a compreensão do alcance e correta interpretação da norma revogada. Os requisitos para aplicação eram: i) o valor não poderia ser utilizado em substituição de parcela salarial; ii) o plano educacional deveria ser disponibilizado a todos os empregados e dirigentes. Posteriormente, a Lei n° 12.513/2011, modificou os requisitos para a obtenção da isenção, não exigindo mais o requisito de que o acesso ao plano educacional deveria ser extensivo a todos os empregados (requisito ii), e incluiu, no âmbito da isenção, a concessão de bolsa de estudos aos dependentes dos empregados. Ressalto que o art. 111 do Código Tributário Nacional, manda interpretar literalmente a legislação tributária que disponha sobre isenção. Contudo, como muito bem delineado pelo Ilustre Conselheiro Cleberson Alex Friess no Acórdão n° 2401-004.745, o legislador não quis impedir o hermeneuta de utilizar dos demais critérios de interpretação, senão vejamos: 46.1 Contudo, ao afirmar a exegese literal, não quis dizer o legislador impedir o hermeneuta de utilizar dos demais critérios de interpretação, tais como o teleológico, histórico e sistemático. 46.2 Não obstante a terminologia adotada pelo Código, pretendeu o legislador que a interpretação dos dispositivos legais, quanto aos efeitos, opere resultados declaratórios, isto é, é vedada a ampliação do seu alcance normativo, assim como não cabe ao intérprete restringir o seu conteúdo. Fl. 195DF CARF MF Original Fl. 4 do Acórdão n.º 9202-010.651 - CSRF/2ª Turma Processo nº 13888.003966/2008-78 46.3 Por esse motivo, a ideia que as normas de exceção que conferem isenção tributária devem ser interpretadas com viés eminentemente restritivo configura uma nítida distorção da aplicação do conteúdo jurídico preconizado pelo art. 111 do CTN. Assim, considerando o grau de retroatividade média da norma previsto pelo art. 106, II, alíneas ‘a’ e ‘b’, do Código tributário Nacional, há que se verificar a situação mais favorável ao sujeito passivo face as alterações trazidas, que é a inserção dos dependentes dos segurados empregados dentro da regra de isenção. Dessa forma, merece guarida a pretensão da contribuinte, consoante restou muito bem explicitado no voto vencido do Acórdão n° 9202-006.502, o qual me filio, da lavra da Conselheira Rita Eliza Reis Bacchieri, exarado pela 2ª Turma CSRF nos autos do processo n° 15582.000114/2007-16, de onde peça vênia para transcrever excerto e adotar como razões de decidir, in verbis: Quanto ao mérito do recurso do contribuinte que discute a incidência de contribuição previdenciária sobre bolsas de estudo ofertadas aos dependentes dos empregados, me posiciono do sentido de não estarmos diante de fato gerador do tributo. Isso porque tais vantagens não assumem caráter de remuneração sendo impossível classificá-las como salário utilidade. Segundo afirma o jurista mineiro e Ministro do Tribunal Superior do Trabalho, Mauricio Godinho Delgado, na obra "Curso de Direito do Trabalho", 2ª ed., para caracterizar salário utilidade devem ser analisados três requisitos. O primeiro deles é o da "habitualidade do fornecimento", deve o fornecimento do bem ou serviço ser reiterado ao longo do contrato de trabalho, deve estar presente a idéia de ser uma prestação de repetição uniforme em certo contexto temporal. O segundo requisito é a presença do "caráter contraprestativo do fornecimento", defende que é necessário que a causa e objetivos envolvidos no fornecimento da utilidade sejam essencialmente contraprestativo, é preciso que a utilidade seja fornecida preponderantemente com o intuito retributivo, como um acréscimo de vantagens contraprestativas ofertadas ao empregado. Pela pertinência vale citar (p. 712): Nesse quadro, não terá caráter retributivo o fornecimento de bens ou serviços feito como instrumento para viabilização ou aperfeiçoamento da prestação laboral. É claro que não se trata, restritivamente, de essencialidade do fornecimento para que o serviço possa ocorrer; o que é importante, para ordem jurídica, é o aspecto funcional, prático, instrumental, da utilidade ofertada para o melhor funcionamento do serviço. A esse respeito, já existe clássica fórmula exposta pela doutrina com suporte no texto do velho art. 458, §2º da CLT: somente terá natureza salarial a utilidade fornecida pelo trabalho e não para o trabalho. E quanto ao fornecimento e provimento da educação referido Ministro ainda destaca que trata-se de dever imposto à empresa pela própria Constituição Federal, e por tal razão o bem ou serviço ofertado não pode ser classificado como salário utilidade, vale citar (p. 715): (...). Está-se, desse modo, perante um dever jurídico geral e não mera obrigação contratual. Quanto ao terceiro requisito "onerosidade unilateral", embora reconheça trata-se de conduta técnico-juridico extremamente controvertida, o Ministro Delgado admite sua aplicação em casos específicos (p. 718): É claro que ocorrem, na prática jus-laborativa, algumas poucas situações em que fica nítido o interesse real do obreiro em ingressar em certos programas ou atividades subsidiados pela empresa. Trata-se de atividades ou programas cuja fruição é indubitavelmente vantajosa ao trabalhador e sua família, e cujo custo econômico para o empregado é claramente favorável, em decorrência do subsídio empresarial existente. Nestas situações, que afastam de modo patente a idéia de mera simulação trabalhista, não há por que negar-lhe relevância ao terceiro requisito ora examinado. Aliás, a quase singularidade de tais situações é que certamente conduz a jurisprudência a valorizar o presente requisito apenas em alguns poucos casos concretos efetivamente convincentes. Fl. 196DF CARF MF Original Fl. 5 do Acórdão n.º 9202-010.651 - CSRF/2ª Turma Processo nº 13888.003966/2008-78 Observamos que no caso concreto sob qualquer prisma de análise não é possível classificar as bolsas de estudo concedidas aos dependentes dos empregados como prestação de caráter remuneratório. (...) Vale citar que a Recorrente é uma associação de caráter educativo que tem por finalidade exatamente o desenvolvimento de atividades relacionadas ao ensino em seus vários graus, especialmente o ensino superior. Assim, as bolsas em questão são ofertadas em cumprimento a exata finalidade da instituição educacional. Embora decorram do contrato de trabalho as mesmas não existem com a finalidade de remunerar o empregado pelo serviço efetivamente ou potencialmente prestado, trata-se de prestação ofertada em cumprimento do dever constitucional de promover a educação e ainda, no caso, é obrigação decorrente de convenções coletivas de trabalho firmadas com as respectivas entidades de classe representantes das categorias o qual também possui força normativa por expressa disposição do art. 611 da Consolidação das Leis do Trabalho CLT. Por força do art. 110 do CTN a lei tributária não pode alterar a definição, o conteúdo e o alcance de institutos, conceitos e formas de direito privado, utilizados, expressa ou implicitamente, pela Constituição Federal e com base nessa premissa o art. 195, I, alínea a da Constituição Federal deve ser interpretado utilizando-se os conceitos construídos pelo Direito do Trabalho o qual, no entender desta Relatora, seria o ramo do direito competente para se manifestar sobre as relações e reflexos dos contratos de trabalho. (...). Diante deste contexto, entende-se que os valores relativos às bolsas de estudos concedidas aos dependentes de seus funcionários não se sujeitam à incidência de contribuições previdenciárias. (...). A Recorrente aduz, como fundamento central do pleito, que, a partir da interpretação literal do dispositivo legal regente do tema, resta evidente que a isenção atinge apenas os valores pagos a título de bolsa de estudos que vise a educação básica ou cursos de capacitação e qualificação profissionais vinculados às atividades desenvolvidas pela empresa. Assim, não há extensão às bolsas de estudos referentes aos dependentes, uma vez que não possuem vínculo direto com a empresa. Foram indicados como paradigmas os acórdãos n.º 9202-003.013 e n.º 9202-005.506, oriundos dessa 2ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais. O primeiro acórdão, n.º 9202- 003.01, foi proferido em 11 de fevereiro de 2014, por unanimidade. Já o acórdão mais recente, 9202- 005.506, de 25 de maio de 2017, foi exarado, por voto de qualidade, vencidos os conselheiros Ana Paula Fernandes, Patrícia da Silva, João Victor Ribeiro Aldinucci e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, que lhe deram provimento. Designada para redigir o voto vencedor a conselheira Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira. Ocorre que, com a alteração do colegiado, houve alteração da jurisprudência, que passou ser no mesmo sentido da decisão recorrida, conforme de observa do Acórdão n.º 9202- 010.533, ementa abaixo transcrita: CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. AUXÍLIO EDUCAÇÃO. DEPENDENTES. NÃO INCIDÊNCIA. À época dos fatos geradores objeto do lançamento, não havia previsão legal para a incidência de contribuições previdenciárias em relação valores pagos a título de auxílio educação a dependentes de empregados, uma vez que o conceito de remuneração do segurado empregado não abarcava tal verba. Naquela ocasião, acompanhei o entendimento prolatado no voto vencedor, diante da convergência com a posição que venho adotando acerca do tema. Seguem trechos da fundamentação adotada pelo voto vencedor: Fl. 197DF CARF MF Original Fl. 6 do Acórdão n.º 9202-010.651 - CSRF/2ª Turma Processo nº 13888.003966/2008-78 Não cabe razão à Recorrente. Não há incidência sobre o auxílio-educação no período da autuação, tampouco após o advento da Lei nº 12.513/11. Explico. Como bem apontado pela Autoridade Lançadora, a Lei nº 8.212/91, com a redação dada pela Lei nº 9.711/98, explicita: "Art. 28. Entende-se por salário-de-contribuição: I - para o empregado e trabalhador avulso: a remuneração auferida em uma ou mais empresas, assim entendida a totalidade dos rendimentos pagos, devidos ou creditados a qualquer título, durante o mês, destinados a retribuir o trabalho, qualquer que seja a sua forma, inclusive as gorjetas, os ganhos habituais sob a forma de utilidades e os adiantamentos decorrentes de reajuste salarial, quer pelos serviços efetivamente prestados, quer pelo tempo à disposição do empregador ou tomador de serviços nos termos da lei ou do contrato ou, ainda, de convenção ou acordo coletivo de trabalho ou sentença normativa; (...) § 9º Não integram o salário-de-contribuição para os fins desta Lei, exclusivamente: (...) t) o valor relativo a plano educacional que vise à educação básica, nos termos do art. 21 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, e a cursos de capacitação e qualificação profissionais vinculados às atividades desenvolvidas pela empresa, desde que não seja utilizado em substituição de parcela salarial e que todos os empregados e dirigentes tenham acesso ao mesmo; (...)" (destaques não constam do texto da lei) Como visto, trata-se de expressa disposição de lei tributária sobre a incidência tributária. Nesse sentido, a redação da Lei nº 8.212/91, trazida pela lei de 1998, é clara em asseverar que:  i) a incidência tributária se dá sobre os valores da remuneração paga ao empregado, assim entendido toda verba de natureza contraprestacional, utilidades habituais, valores percebidos pelo tempo à disposição e também aqueles constantes do contrato de trabalho.  ii) não há incidência quando os valores pagos a título de auxílio educacional não seja substitutivos de parcela salarial e respeitem os limites impostos pelo legislador. Não obstante o exposto, em 2001, o legislador ordinário, com acerto em minha opinião, alterou a Consolidação das Leis do Trabalho, afastando - peremptoriamente - a natureza salarial de qualquer parcela paga sob esse título. Recordemos o texto da lei trabalhista: "Art. 458 - Além do pagamento em dinheiro, compreende-se no salário, para todos os efeitos legais, a alimentação, habitação, vestuário ou outras prestações "in natura" que a empresa, por fôrça do contrato ou do costume, fornecer habitualmente ao empregado. Em caso algum será permitido o pagamento com bebidas alcoólicas ou drogas nocivas. (...) § 2o Para os efeitos previstos neste artigo, não serão consideradas como salário as seguintes utilidades concedidas pelo empregador: I – vestuários, equipamentos e outros acessórios fornecidos aos empregados e utilizados no local de trabalho, para a prestação do serviço; II – educação, em estabelecimento de ensino próprio ou de terceiros, compreendendo os valores relativos a matrícula, mensalidade, anuidade, livros e material didático;(Incluído pela Lei nº 10.243, de 19.6.2001) (destaquei) Cristalina a alteração da lei trabalhista. Não há natureza salarial nas verbas pagas a título de bolsa educacional, qualquer que seja a sua forma, qualquer que seja sua destinação no tocante à formação do trabalhador, ao seu desenvolvimento físico, intelectual, ou moral, consoante nos recorda o dicionário Houaiss quanto à definição do vocábulo educação. Importante ressaltar que a lei tributária, buscando seus limites na Carta Fundamental, escolhe a incidência dentro da competência que lhe foi Fl. 198DF CARF MF Original Fl. 7 do Acórdão n.º 9202-010.651 - CSRF/2ª Turma Processo nº 13888.003966/2008-78 outorgada. Nesse sentido, ao definir o salário de contribuição do segurado empregado, a lei de Custeio da Previdência optou pela remuneração. Tal conceito, embora constante da lei tributária, não pode, nos termos do CTN, transbordar os limites do ramo do direito que o instituiu. Outro não é comando emanado dos artigos 109 e 110: "Art. 109. Os princípios gerais de direito privado utilizam-se para pesquisa da definição, do conteúdo e do alcance de seus institutos, conceitos e formas, mas não para definição dos respectivos efeitos tributários. Art. 110. A lei tributária não pode alterar a definição, o conteúdo e o alcance de institutos, conceitos e formas de direito privado, utilizados, expressa ou implicitamente, pela Constituição Federal, pelas Constituições dos Estados, ou pelas Leis Orgânicas do Distrito Federal ou dos Municípios, para definir ou limitar competências tributárias." (grifamos) Nesse sentido, não se pode admitir que, para o período de lançamento, se observe incidência tributária sobre verba de natureza remuneratória, que por expressa determinação legislativa, posterior à dicção da lei tributária, teve o caráter remuneratório explicitamente afastado. Não há incidência tributária sobre os valores, pagos pelo empregador ao empregado, à título de auxílio-educação, no período do lançamento e nem, como dito acima, após a alteração da Lei de Custeio pela Lei nº 12.513/11. Quanto a essa alteração, só para que reste claro, é mister apontar que o legislador - ao contrário do que entende o ínclito Relator, embasado em voto da Conselheira Elaine Silva Vieira – restringe a fruição da não incidência da contribuição previdenciária sobre verbas pagas a título de fomento à educação após 2011. Tal afirmação merece maiores considerações, senão vejamos. Como dito acima, a leitura conjunta das disposições dos artigos 109 e 110 do CTN determina que a lei tributária “não pode alterar a definição, o conteúdo e o alcance de institutos, conceitos e formas de direito privado”, mas pode dar-lhe tratamento tributário específico, ou seja, a lei tributária ao assumir conceitos, formas e definições do direito privado pode – sem desvirtuá-los – emprestar-lhes os efeitos tributários que entender cabíveis. Nesse sentido, e somente nesse, recordemos o que ensina a doutrina hermenêutica: lei especial (tributária) prevalece sobre lei geral (CLT). E é exatamente isso o que a alteração da Lei nº 8.212/91 pela Lei 12.513/11 fez ao impor limites e condições para a não incidência das contribuições previdenciárias sobre valores pagos a título de promoção da educação de segurados empregados e trabalhadores avulsos, uma vez que delimitou a vantagem tributária aos valores despendidos com educação básica e educação profissional e tecnológica quando vinculadas a atuação empresarial. E mais, estabeleceu limites de valores para tal isenção. Observe-se que, aqui, pode-se chamar de isenção, uma vez que a regra matriz de incidência das contribuições previdenciárias é limitada pela própria lei tributária. Ao reverso, no período de 2001 a 2011, trata-se de verdadeira não incidência, uma vez que a lei específica aplicável ao caso (CLT por tratar do conceito de remuneração do empregado) derrogou tacitamente, lei tributária anterior, que usava conceito do direito privado alterado pela lei trabalhista. Por todo o exposto, no período em apreço, podemos asseverar que verbas inequivocamente destinadas à educação dos segurados empregados, por expressa determinação da CLT, não integram a remuneração. As contribuições previdenciárias incidem sobre o salário de contribuição e este, para os empregados, é composto pela remuneração auferida. Logo, não há incidência. Fl. 199DF CARF MF Original Fl. 8 do Acórdão n.º 9202-010.651 - CSRF/2ª Turma Processo nº 13888.003966/2008-78 Portanto, utilizando-me dos fundamentos expostos, mantenho a decisão recorrida, razão pela qual entendo que não assiste razão à recorrente. Diante do exposto, voto em conhecer do recurso e, no mérito, em negar-lhe provimento. (assinado digitalmente) Ana Cecília Lustosa da Cruz. Voto Vencedor Conselheiro Mauricio Nogueira Righetti – Redator Designado. Em que pesem as robustas razões da relatora, peço-lhe licença para divergir no que toca a incidência das contribuições sobre as bolsas de estudos pagas a dependentes de empregados, antes da edição da Lei nº12.513/2011. Pois bem. O tema é há muito conhecido deste colegiado, que vinha entendendo pela tributação desses valores. Nesse sentido, o acórdão de nº 9202-008.052, da sessão de 24/7/19. Confira-se excerto de seu voto condutor: [...] Primeiramente, cumpre ressaltar que a tributação pelas contribuições previdenciárias tem regramento próprio, estabelecido pela Lei nº 8.212/1991. Assim, o art. 12 da Lei n° 11.096/05 que, diga-se de passagem, não faz nenhuma referência a isenção de contribuições previdenciária, não serve de amparo ao Sujeito Passivo. Além disso, o Direito Previdenciário encontra baliza na própria Constituição Federal e, com relação ao custeio do sistema de previdência, o art. 195 da CF/1988 é que estabelece as bases sobre as quais podem incidir as contribuições: Art. 195. A seguridade social será financiada por toda a sociedade, de forma direta e indireta, nos termos da lei, mediante recursos provenientes dos orçamentos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, e das seguintes contribuições sociais:(Vide Emenda Constitucional nº 20, de 1998) I – do empregador, da empresa e da entidade a ela equiparada na forma da lei, incidentes sobre:(Redação dada pela Emenda Constitucional nº 20, de 1998) a) a folha de salários e demais rendimentos do trabalho pagos ou creditados, a qualquer título, à pessoa física que lhe preste serviço, mesmo sem vínculo empregatício;(Incluído pela Emenda Constitucional nº 20, de 1998) [...] II – do trabalhador e dos demais segurados da previdência social, não incidindo contribuição sobre aposentadoria e pensão concedidas pelo regime geral de previdência social de que trata o art. 201;(Redação dada pela Emenda Constitucional nº 20, de 1998) [...] (Grifou-se) Outro dispositivo constitucional de fundamental importância à matéria em debate é o § 11 do art. 201 da Constituição que estabelece: Art. 201. [...] § 11. Os ganhos habituais do empregado, a qualquer título, serão incorporados ao salário para efeito de contribuição previdenciária e conseqüente repercussão em benefícios, nos casos e na forma da lei. Fl. 200DF CARF MF Original Fl. 9 do Acórdão n.º 9202-010.651 - CSRF/2ª Turma Processo nº 13888.003966/2008-78 [...] Na esteira do texto constitucional os arts. 22 e 28 da Lei nº 8.212/1991 estabeleceram as bases sobre as quais incidem as contribuições previdenciárias a cargo de empregados e empregadores. Confira-se: Art. 22. A contribuição a cargo da empresa, destinada à Seguridade Social, além do disposto no art. 23, é de: I – vinte por cento sobre o total das remunerações pagas, devidas ou creditadas a qualquer título, durante o mês, aos segurados empregados e trabalhadores avulsos que lhe prestem serviços, destinadas a retribuir o trabalho, qualquer que seja a sua forma, inclusive as gorjetas, os ganhos habituais sob a forma de utilidades e os adiantamentos decorrentes de reajuste salarial, quer pelos serviços efetivamente prestados, quer pelo tempo à disposição do empregador ou tomador de serviços, nos termos da lei ou do contrato ou, ainda, de convenção ou acordo coletivo de trabalho ou sentença normativa. (Redação dada pela Lei nº 9.876, de 1999). II – para o financiamento do benefício previsto nos arts. 57e58 da Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991, e daqueles concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientais do trabalho, sobre o total das remunerações pagas ou creditadas, no decorrer do mês, aos segurados empregados e trabalhadores avulsos: (Redação dada pela Lei nº 9.732, de 1998). a) 1% (um por cento) para as empresas em cuja atividade preponderante o risco de acidentes do trabalho seja considerado leve; b) 2% (dois por cento) para as empresas em cuja atividade preponderante esse risco seja considerado médio; c) 3% (três por cento) para as empresas em cuja atividade preponderante esse risco seja considerado grave. [...] Art. 28. Entende-se por salário de contribuição: I – para o empregado e trabalhador avulso: a remuneração auferida em uma ou mais empresas, assim entendida a totalidade dos rendimentos pagos, devidos ou creditados a qualquer título, durante o mês, destinados a retribuir o trabalho, qualquer que seja a sua forma, inclusive as gorjetas, os ganhos habituais sob a forma de utilidades e os adiantamentos decorrentes de reajuste salarial, quer pelos serviços efetivamente prestados, quer pelo tempo à disposição do empregador ou tomador de serviços nos termos da lei ou do contrato ou, ainda, de convenção ou acordo coletivo de trabalho ou sentença normativa; [...] Repare-se que a base de cálculo das contribuições abrange a totalidade dos rendimentos pagos, devidos ou creditados a qualquer título aos empregados, incluindo-se nessa relação os ganhos habituais percebidos sob a forma de utilidades, o que inclui, por óbvio, o auxílio educação. Donde se depreende que, em se tratando de utilidades disponibilizadas pela empresa aos obreiros que lhe prestam serviços, sua inclusão na base de cálculo da contribuição previdenciária dependerá da verificação dos seguintes requisitos: a) onerosidade; b) retributividade; e c) habitualidade. Inexistem dúvidas quanto ao caráter oneroso do benefício concedido pelo Sujeito Passivo, sendo desnecessário tecer maiores comentários a esse respeito. Do mesmo modo, tendo a vantagem sido atribuída regularmente aos empregados da empresa em benefícios de seus dependentes, resta nítido seu caráter habitual. Com relação à retribuitividade, tem-se benesse oferecida no contexto da relação laboral, restando Fl. 201DF CARF MF Original Fl. 10 do Acórdão n.º 9202-010.651 - CSRF/2ª Turma Processo nº 13888.003966/2008-78 caracterizada sua índole contraprestativa, pois o que motivou sua concessão foi justamente o fato de os beneficiários prestarem serviço ao Sujeito Passivo. De outra parte, como as bolsas de estudos aqui referidas ostentam natureza nitidamente remuneratória, sua exclusão da base de cálculo das contribuições previdenciárias vai depender de previsão expressa em norma de caráter tributário, mormente no § 9º do art. 28 da Lei nº 8.212/1991, que, no que se refere a isenção, relaciona exaustivamente as parcelas ao abrigo desse favor legal no âmbito da Lei de Custeio Previdenciário. Especificamente com relação a educação, à época da ocorrência dos fatos geradores das contribuições objeto do presente lançamento, a alínea “t” do referido § 9º, na assim dispunha: Art. 28. [...] § 9º Não integram o salário de contribuição para os fins desta Lei, exclusivamente: [...] t) o valor relativo a plano educacional que vise à educação básica, nos termos do art. 21 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, e a cursos de capacitação e qualificação profissionais vinculados às atividades desenvolvidas pela empresa, desde que não seja utilizado em substituição de parcela salarial e que todos os empregados e dirigentes tenham acesso ao mesmo;(Redação dada pela Lei nº 9.711, de 1998). Note-se que a isenção referida nos dispositivo acima abrangia: planos educacionais que visassem à educação básica, nos termos do art. 21 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996; e cursos de capacitação e qualificação profissionais vinculados às atividades desenvolvidas pela empresa. Referido plano: não poderia ser utilizado em substituição de parcela salarial; e deveria ser extensivo a todos os empregados e dirigentes da empresa. Desse modo, para que a contribuinte pudesse se valer da isenção, fazia-se necessária a estrita observância dos critérios estabelecidos em lei. Contudo, conforme destacado no Relatório Fiscal, as bolsas de estudo objeto da autuação foram ofertadas a dependentes dos empregados do Sujeito Passivo e a norma isentiva, na redação vigente à época dos fatos geradores, não contemplava a isenção para esse tipo de benefício. Não se pode olvidar que, sendo a isenção uma modalidade de exclusão do crédito tributário, a legislação relativa a esse favor legal deve ser interpretada literalmente, a teor do que estatui o art. 111 do Código Tributário Nacional. Portanto, não há como considerar satisfeitos os critérios estabelecidos para a isenção quando se está diante, como visto acima, de flagrante desrespeito à norma de regência. Diante da obrigatoriedade de interpretação literal da norma isentiva, não vejo como razoável suscitar a isenção concedida às parcelas pagas a título de auxílio creche a pretexto de estender o benefício fiscal ao auxílio educação destinado a dependentes de empregados, pois tratam-se de rubricas absolutamente diversas. Do mesmo modo, não há como acolher o argumento de que o fato de a educação básica ser cursada, na maioria das hipóteses por crianças, tenha o condão de estender a isenção aqui referida às bolsas de estudo destinada a dependentes, posto que a norma legal, vigente à época dos fatos geradores objeto do lançamento, não conduz a esse entendimento. Quisesse o legislador estender a isenção a planos educacionais destinados a dependentes de segurados empregados, teria feito referência expressa nesse sentido no texto legal. Aliás, a Lei nº 12.513/2011 até estendeu a isenção de contribuições previdenciárias e terceiros tanto a plano educacional quanto bolsa que vise à educação básica de dependentes de empregados. Porém, essa norma não acode o Sujeito Passivo, em virtude ser posterior aos fatos geradores que suscitaram o lançamento ora examinado. É que o art. 144 do CTN preconiza que “lançamento reporta-se à data da ocorrência do fato gerador da obrigação e rege-se pela lei então vigente, ainda que posteriormente modificada ou revogada”. Fl. 202DF CARF MF Original Fl. 11 do Acórdão n.º 9202-010.651 - CSRF/2ª Turma Processo nº 13888.003966/2008-78 Aperceba-se que o lançamento foi efetuado em observância ao que dispõe o Código Tributário Nacional e a Lei nº 8.212/1991, não havendo que se falar em desobediência a princípios como o da legalidade, da tipicidade estrita do ou de qualquer outro. Forte no exposto, VOTO no sentido de DAR provimento ao recurso da União. (assinado digitalmente) Mauricio Nogueira Righetti Fl. 203DF CARF MF Original

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