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4610388 #
Numero do processo: 36100.001781/2006-72
Turma: Sexta Turma Especial
Câmara: Sexta Câmara
Seção: Segundo Conselho de Contribuintes
Data da sessão: Thu Oct 30 00:00:00 UTC 2008
Data da publicação: Thu Oct 30 00:00:00 UTC 2008
Ementa: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Ano-calendário: 2001 EMENTA - PREVIDENCIÁRIO - PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. Somente poderá ser restituída ou compensada contribuição para a Seguridade Social arrecadada pelo Instituto Nacional do Seguro Social INSS, na hipótese de pagamento ou recolhimento indevido - ART. 89 DA LEI Nº 8.212/91. Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 296-00.027
Decisão: Acordam os Membros da Sexta Turma Especial do Segundo Conselho de Contribuintes, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso
Nome do relator: MARCELO FREITAS DE SOUZA COSTA

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Brasilia. c, v) I Og MINISTÉRIO DA FAZENDA Slip:nape a4Za SEGUNDO CONSELHO DE CONTRIBUINTES SEXTA TURMA ESPECIAL 36100.001781/2006-72 143.229 Voluntário PEDIDO DE RESTITUIÇÃO 296-00.027 30 de outubro de 2008 ANGELO GIUSEPPE FAGUNDES DE LIMA SRP - SECRETARIA DA RECEITA PREVIDENCIARIA CCO2/T96 Fls. 56 ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIARIAS Ano-calendário: 2001 EMENTA - PREVIDENCIARIO - PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. Somente poderá ser restituída ou compensada contribuição para a Seguridade Social arrecadada pelo Instituto Nacional do Seguro Social INSS, na hipótese de pagamento ou recolhimento indevido - ART. 89 DA LEI N° 8.212/91. Recurso Voluntário Negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Processo n°36100.001781/2006-72 Acórdão n.° 296-00.027 MF - SEGUNDO CONSELHO DE CONTRIBUINTES CONFERE COM 0 ORIGINAL Brasilia. 3 / A9- „ CCO2/1-96 Fls. 57 Sims (Avoca Mat: Siape 877882 Acordam os Membros da Sexta Turma Especial do Segundo Conselho de Contribuintes, por unanimid de de votos, em negar provimento ao recurso. ELIAS SAMPAIO FREIRE Presidente MARCELO4REITAS DE:SOUZA COSTA / &-* Relator Participaram, ainda, do presente julgamento, os Conselheiros Kleber Peneira de Araújo e Cristiane Leme Ferreira (Suplente convocado). 2 Processo n° 36100.001781/2006-72 Acórdão 0. ° 296-00.027 Irar—TEGUNT.)0 CONSELHO DE CONTRIBUINTES CONFERE COM 0 ORIGINAL ' e)• I 0 g 0;0 , CCO2/T96 Fls. 58 ' urasiiia, Relatório Slim& AéWÕ Otiveira Mat: Shape 877862 Trata-se de pedido de restituição formulado pelo contribuinte acima qualificado, sob o argumento de que teria sido acometido por doença grave e teria havido descontos indevidos do INSS em reclamatória trabalhista. Após o indeferimento do pedido o contribuinte apresentou recurso As fls. 46 onde solicita melhor análise do que deve ser restituído alegando ainda que não foi citada aLei que p ampare ou desampare da solicitação da restituição. A SRP manifestou-se pelo indeferimento do pleito. o relatório. Voto Conselheiro MARCELO FREITAS DE SOUZA COSTA, Relator O recurso é tempestivo e estão presentes os pressupostos de admissibilidade. Em que pese os argumentos do recorrente, pelo que consta dos presentes autos sua pretensão não merece prosperar. De acordo corn a documentação anexada, o recorrente entende serem indevidas as contribuições previdencidrias recolhidas em reclamatória trabalhista contra a empresa NORMATEL. Segundo consta na cópia da petição inicial, a demanda versava sobre direitos do recorrente em virtude do pacto laboral no período de 01/2001 a 06/2001. Ocorre que os atestados medicos comprovam que a doença acometida no recorrente deu-se a partir de 10/2001, logo, que os valores a que se refere o segurado, tenham sido recolhidos em 2004, estes são relativos a período anterior à doença. Ademais, tais valores não foram descontados do segurado, mas sim cobrados da empresa que perdeu a demanda e de acordo corn o que determina o art. 43 da Lei n° 8.212/91, in verbis: "Art. 43. Nas ações trabalhistas de que resultar o pagamento de direitos sujeitos à incidência de contribuição previdenciária, o juiz, sob pena de responsabilidade, determinará o imediato recolhimento das importâncias devidas à Seguridade Social." Desta forma, não resta comprovado nos autos que o recorrente sofreu descontos previdencidrios no período posterior a doença, o que fulmina o pleito ora debatido ou ainda que tenha sido realizado recolhimento indevido, conforme art. 89 da Lei n° 8.212/91. Vejamos: "Art. 89. Somente poderá ser restituida ou compensada contribuição para a Seguridade Social arrecadada pelo Instituto Nacional do 3 Processo n° 36100.001781/2006-72 Acórdão n. ° 296-00.027 MF - SEGUNDO CONSELHO DE CONTRIBUINTES CONFERE COM 0 ORIGINAL Brasilia, O S Silms Ai Oliveira Mat.: Siape 877862 CCO2/T96 Fls. 59 Seguro Social INSS, na hipótese de pagamento ou recolhimento indevido." Ante ao exposto, VOTO no sentido de CONHECER DO RECURSO e no mérito NEGAR-LHE PROVIMENTO. Sala das Sessões, em 30 de outubro de 2008 22— MARCELO FREITAS DE SOTJZA COSTA 4

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4613489 #
Numero do processo: 10875.004271/2004-31
Data da sessão: Tue Nov 17 00:00:00 UTC 2009
Data da publicação: Tue Nov 17 00:00:00 UTC 2009
Ementa: CONTRIBUIÇÃO PARA 0 PIS/PASEP Período de apuração: 01/03/1996 a 30/01/1999 NORMAS PROCESSUAIS REPETIÇÃO DE INDÉBITO PRESCRIÇÃO. O dies a quo para contagem do prazo prescricional de repetição de indébito é o da data de extinção do crédito tributário pelo pagamento antecipado e o termo final é o dia em que se completa o qüinqüênio legal, contado a partir daquela data. Recurso Negado.
Numero da decisão: 3402-000.376
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado.
Matéria: PIS - proc. que não versem s/exigências de cred. Tributario
Nome do relator: NAYRA BASTOS MANATTA

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ementa_s : CONTRIBUIÇÃO PARA 0 PIS/PASEP Período de apuração: 01/03/1996 a 30/01/1999 NORMAS PROCESSUAIS REPETIÇÃO DE INDÉBITO PRESCRIÇÃO. O dies a quo para contagem do prazo prescricional de repetição de indébito é o da data de extinção do crédito tributário pelo pagamento antecipado e o termo final é o dia em que se completa o qüinqüênio legal, contado a partir daquela data. Recurso Negado.

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10940981 #
Numero do processo: 10830.727458/2013-13
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed May 14 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Tue Jun 10 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2009 OMISSÃO DE RENDIMENTOS. RRA. REGIME DE COMPETÊNCIA. São tributáveis os rendimentos informados em DIRF pelas fontes pagadoras, como pagos ao contribuinte e por ele omitidos na declaração de ajuste anual. Deve-se instruir os autos com elementos de prova que fundamentem os argumentos de defesa de maneira a não deixar dúvida sobre o que se pretende demonstrar. O cálculo do IRRF sobre os rendimentos recebidos acumuladamente deve ser feito com base nas tabelas e alíquotas das épocas próprias a que se refiram os rendimentos tributáveis, observando a renda auferida mês a mês pelo contribuinte (regime de competência). RRA. JUROS DE MORA SOBRE VERBAS PAGAS A DESTEMPO. NÃO INCIDÊNCIA. SÚMULA CARF Nº 198. Não incide imposto de renda sobre os juros de mora devidos pelo atraso no pagamento de remuneração por exercício de emprego, cargo ou função, devendo ser excluído da base de cálculo os valores correspondentes sobre as parcelas de natureza remuneratória pagas a destempo.
Numero da decisão: 2001-007.807
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário para determinar o recálculo do imposto devido sobre os valores recebidos do INSS, oriundos do processo judicial nº 2004.61.86.000027-3, que tramitou perante o JEF Cível de Campinas/SP, excluindo-se da base de cálculo eventual parcela correspondente aos juros moratórios sobre os rendimentos tributáveis apurados, bem como aplicando-se as tabelas e alíquotas vigentes à época em que os rendimentos deveriam ter sido pagos (regime de competência). (documento assinado digitalmente) Ricardo Chiavegatto de Lima - Presidente (documento assinado digitalmente) Wilderson Botto - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Ricardo Chiavegatto de Lima (Presidente), Raimundo Cassio Goncalves Lima, Lilian Claudia de Souza e Wilderson Botto.
Nome do relator: WILDERSON BOTTO

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RRA. REGIME DE COMPETÊNCIA. São tributáveis os rendimentos informados em DIRF pelas fontes pagadoras, como pagos ao contribuinte e por ele omitidos na declaração de ajuste anual. Deve-se instruir os autos com elementos de prova que fundamentem os argumentos de defesa de maneira a não deixar dúvida sobre o que se pretende demonstrar. O cálculo do IRRF sobre os rendimentos recebidos acumuladamente deve ser feito com base nas tabelas e alíquotas das épocas próprias a que se refiram os rendimentos tributáveis, observando a renda auferida mês a mês pelo contribuinte (regime de competência). RRA. JUROS DE MORA SOBRE VERBAS PAGAS A DESTEMPO. NÃO INCIDÊNCIA. SÚMULA CARF Nº 198. Não incide imposto de renda sobre os juros de mora devidos pelo atraso no pagamento de remuneração por exercício de emprego, cargo ou função, devendo ser excluído da base de cálculo os valores correspondentes sobre as parcelas de natureza remuneratória pagas a destempo. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário para determinar o recálculo do imposto devido sobre os valores recebidos do INSS, oriundos do processo judicial nº 2004.61.86.000027-3, que tramitou perante o Fl. 89DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.807 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10830.727458/2013-13 2 JEF Cível de Campinas/SP, excluindo-se da base de cálculo eventual parcela correspondente aos juros moratórios sobre os rendimentos tributáveis apurados, bem como aplicando-se as tabelas e alíquotas vigentes à época em que os rendimentos deveriam ter sido pagos (regime de competência). (documento assinado digitalmente) Ricardo Chiavegatto de Lima - Presidente (documento assinado digitalmente) Wilderson Botto - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Ricardo Chiavegatto de Lima (Presidente), Raimundo Cassio Goncalves Lima, Lilian Claudia de Souza e Wilderson Botto. RELATÓRIO Por bem retratar os fatos ocorridos desde a constituição do crédito tributário por meio do lançamento até sua impugnação, adoto e reproduzo o relatório da decisão ora recorrida (fls. 60/65): Contra o contribuinte acima identificado, foi lavrada a notificação de lançamento de fl. 19, em 18/11/2013, relativa ao imposto sobre a renda das pessoas físicas do ano-calendário 2009, onde foi constatada a omissão de rendimentos pagos pelo Instituto Nacional do Seguro Social - INSS, no valor de R$ 133.147,75. Cientificado do lançamento, o contribuinte apresentou, em 16/12/2013, a impugnação de fls. 02 a 13, alegando, em suma, que: 1 - os rendimentos referem-se a valores recebidos de forma acumulada e são decorrentes de ação judicial contra a Previdência Social; 2 - referem-se ao período de 82 meses e deveriam ter sido tributados nos seus respectivos exercícios; 3 - o cálculo do IR sobre tais rendimentos deveria levar em consideração sua percepção mês a mês, quando, por certo, teria o contribuinte incidido na faixa de isenção; 4 - a MP 497/2010, convertida na Lei 12.350/2010, positivou o entendimento da jurisprudência pátria quanto à inconstitucionalidade da cobrança do imposto de renda no caso sob análise. A RFB publicou a IN nº 1.1272011 regulamentando a apuração do IR sobre os rendimentos recebidos acumuladamente; 5 - cita jurisprudência no TRF e no STJ que esposa a tese de que os rendimentos não poderiam ser tributados todos de uma só vez; 6 - seja retificada sua DIRPF 2010 para que, por analogia, lhe sejam tributados os rendimentos auferidos pela mesma sistemática prevista para o ano-calendário de 2010, ou que os mesmos sejam considerados isentos; Fl. 90DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.807 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10830.727458/2013-13 3 7 - requer à RFB que intime o INSS a fim de se levantar e informar os reais valores dos benefícios, suas competências e valores originais, de forma individual, que remontam a quantia auferida. A decisão de primeira instância, por unanimidade, manteve parcialmente o lançamento do crédito tributário exigido, encontrando-se assim ementada: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA – IRPF Ano-calendário: 2009 OMISSÃO DE RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE. AÇÃO JUDICIAL. Os rendimentos recebidos acumuladamente no ano-calendário 2009, em decorrência de ação judicial, são tributados na fonte no mês de seu recebimento, sujeitando-se ao ajuste anual. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS. No caso de rendimentos recebidos em função de ação judicial, poderá ser excluído, para efeito de tributação na declaração de ajuste anual, o valor das respectivas despesas judiciais necessárias ao seu recebimento, inclusive de advogados, se tiverem sido pagas pelo contribuinte, sem indenização. Cientificado da decisão, em 23/09/2015 (fls. 69/70), o contribuinte, em 14/10/2015, interpôs recurso voluntário (fls. 72/81), insurgindo-se contra a manutenção da autuação, repisando as alegações da peça impugnatória e trazendo outros argumentos, no sentido de que deverá ser observado o regime de competência na apuração imposto devido sobre os rendimentos recebidos acumuladamente do INSS, referente ao período de 27/07/1999 a 30/04/2006, decorrentes da ação da justiça federal, onde se buscou a revisão de seu benefício previdenciário, e não pelo montante integral pago extemporaneamente (regime de caixa), ao teor da legislação de regência. Pugna pela intimação do INSS para que proceda as correções das informações sobre os aludidos rendimentos recebidos acumuladamente, com a retificação da DIRF apresentada. Cita jurisprudência judicial e administrativa para motivar as pretensões recursais. Requer, ao final, a reforma da decisão recorrida, com o cancelamento do débito fiscal reclamado e a restituição do imposto de renda a que faz jus. Instrui a peça recursal com os documentos de fls. 82/83. Em 29/12/2023, em face da extinção do mandato do conselheiro relator, Marcelo Rocha Paura, ocorrida em 28/09/2023, o processo foi enviado para novo sorteio (fls. 88), sendo- me distribuído em 23/01/2025, para prosseguimento do julgamento. É o relatório. VOTO Conselheiro Wilderson Botto, Relator. Admissibilidade Fl. 91DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.807 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10830.727458/2013-13 4 O recurso é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, razões por que dele conheço e passo à sua análise. Preliminares Não foram alegadas questões preliminares no presente recurso. Mérito Dos rendimentos recebidos acumuladamente decorrentes de ação judicial federal - do regime de tributação a ser aplicado: O litígio recai sobre a omissão de rendimentos do trabalho com ou sem vínculo empregatício recebidos de pessoa jurídica, decorrentes de ação da justiça federal, no valor de R$ 97.147,75, constatada em sede de revisão da DAA/2010 apresentada, cuja tributação ocorreu pelo regime de caixa, buscando, por oportuno, nessa seara recursal, obter nova análise do processado, no sentido do afastamento da omissão apurada, com especial destaque para a aplicação do regime de competência na apuração do imposto de renda devido sobre os aludidos rendimentos recebidos acumuladamente. Assim, passo ao cotejo dos documentos carreados, em relação aos fundamentos motivadores da manutenção parcial da autuação traçados na decisão recorrida (fls. 62/63): No ano-calendário 2009, a forma de tributação dos rendimentos recebidos acumuladamente era disciplinada pelo art. 12 da Lei nº 7.713, de 1988: Art. 12. No caso de rendimentos recebidos acumuladamente, o imposto incidirá, no mês do recebimento ou crédito, sobre o total dos rendimentos, diminuídos do valor das despesas com ação judicial necessárias ao seu recebimento, inclusive de advogados, se tiverem sido pagas pelo contribuinte, sem indenização. Por força, contudo, da jurisprudência pacífica do Superior Tribunal de Justiça, a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN), no uso da competência que lhe é fixada pelo art. 19 da Lei nº 10.522, de 19/07/2002, emitiu o Parecer PGFN/CRJ nº 287, de 12/02/2009, aprovado por despacho do Sr. Ministro da Fazenda, publicado no DOU de 13/05/2009, que recomendou que “sejam autorizadas pelo Senhor Procurador-Geral da Fazenda Nacional a não apresentação de contestação, a não interposição de recursos e a desistência dos já interpostos, desde que inexista outro fundamento relevante, nas ações judiciais que visem obter a declaração de que, no cálculo do imposto de renda incidente sobre rendimentos pagos acumuladamente, devem ser levadas em consideração as tabelas e alíquotas das épocas próprias a que se referem tais rendimentos, devendo o cálculo ser mensal e não global”. Essa recomendação foi adotada pelo Ato Declaratório (AD) PGFN nº 1, de 27/03/2009, que autorizou a dispensa de interposição de recursos e a desistência dos já interpostos, desde que inexista outro fundamento relevante, nas ações judiciais mencionadas. No ano seguinte, no entanto, esse ato declaratório foi suspenso pelo Parecer PGFN/CRJ nº 2.331, de 27/10/2010, que assim dispõe nos itens 7 e 8: 7.Tendo em vista que o Ato Declaratório n° 01/2009, lastreado no Parecer PGFN/CRJ 287/2009, foi editado em razão de jurisprudência pacífica do Superior Fl. 92DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.807 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10830.727458/2013-13 5 Tribunal de Justiça em sede recursal, e por existirem reiteradas decisões do Supremo Tribunal Federal que não admitiam os recursos extraordinários por ausência de violação direta à Constituição, observa-se a abertura de nova ótica para análise do tema, ultrapassando os fundamentos do ato declaratório. 8.Desta feita, verificada a existência de ótica constitucional sobre o tema, que possibilita um ambiente favorável para mudança da jurisprudência, até então pacífica, sugere-se, até o deslinde final da questão pelo Supremo Tribunal Federal, com uma nova pacificação, a suspensão dos efeitos do Ato Declaratório n° 1, de 27 de março de 2009. (...) É importante também observar que a nova sistemática de tributação dos rendimentos dessa natureza, relativos a anos-calendário anteriores ao do recebimento, pagos acumuladamente, que passou a ser muito mais favorável ao contribuinte, por prever a tributação exclusiva na fonte e o ajuste dos valores da tabela mensal, mediante a multiplicação destes pelo número de meses a que se refiram os rendimentos, somente foi introduzida em nosso ordenamento jurídico em 28/07/2010, com a publicação da Medida Provisória n° 497, de 27/07/2010, convertida na Lei nº 12.350, de 20/12/2010 (DOU de 21/12/2010), que acrescentou o art.12-A à Lei n° 7.713/1988. O §7° do art.12-A dispõe, ainda, que esses rendimentos, quando, recebidos entre 1º de janeiro de 2010 e o dia anterior ao de publicação da Lei resultante da conversão da Medida Provisória n° 497/2010, poderão ser tributados na forma desse artigo, devendo ser informados na Declaração de Ajuste Anual referente ao ano-calendário de 2010. Como se vê, não há nenhuma previsão de aplicação dessa nova sistemática aos rendimentos recebidos antes de 1° de janeiro de 2010. (...) Desta forma, e não estando presente no caso nenhuma das hipóteses previstas no art. 106 do mesmo CTN para a retroatividade da lei, não há a possibilidade, em relação aos rendimentos acumulados recebidos no ano-calendário 2009, de aplicação da nova sistemática introduzida pela Medida Provisória n° 497/2010. Pois bem. Feito o registro acima e após detida análise, entendo que a pretensão recursal merece parcialmente prosperar, porquanto o Recorrente, ainda em sede de impugnação, se desincumbiu do ônus que lhe competia. Emerge dos autos, que os rendimentos recebidos acumuladamente pelo Recorrente, decorreram da revisão de seu benefício previdenciário, lhe sendo restituídas as parcelas pagas em atraso, apuradas no processo judicial nº 2004.61.86.000027-3, que tramitou no JEF Cível de Campinas/SP, alusivas ao período de 27/07/1999 a 30/04/2006 (fls. 25/28). Neste contexto, calha na espécie a aplicação do regime de competência para o cálculo mensal do imposto devido, mediante utilização das tabelas progressivas e alíquotas vigentes à época em que os valores deveriam ter sido adimplidos, ao teor da decisão proferida no RE nº 614.406/RS – que declarou a inconstitucionalidade do art. 12 da Lei nº 7.713/88, que determinava, para a cobrança do imposto incidente sobre rendimentos recebidos de forma acumulada, a aplicação da alíquota vigente no momento do pagamento sobre o total recebido – Fl. 93DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.807 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10830.727458/2013-13 6 cuja decisão definitiva do STF no aludido feito, recebido na sistemática da repercussão geral, é de observância obrigatória pelo CARF, ao teor do art. 98, II, “b” do Novo RICARF. Portanto, indene de dúvida que a tributação incidente sobre o RRA recebido no ano de 2009 – tendo por base os rendimentos omitidos decorrentes de ação judicial movida contra o INSS – deverá ser apurada mensalmente com base nas tabelas dos meses que se referem os rendimentos recebidos, ao teor do entendimento editado pelo STF, e não pelo montante global pago extemporaneamente, razão pela qual torno insubsistente o crédito tributário exigido. Não obstante, destaco ainda que, evidenciada a aplicação de juros moratórios na atualização dos valores apurados na demanda judicial federal, também deverá ser excluído da base de cálculo a parcela a ele correspondente sobre os rendimentos auferidos – haja vista a recente decisão proferida no RE nº 855.091/RS, julgado na sistemática da repercussão geral (Tema: 808), portanto e observância obrigatória ao CARF, ao teor do art. 98, II, “b” do Novo RICARF – cabendo aqui, dada a relevância, transcrever excertos do Parecer PGFN SEI nº 10167/2021/ME, acerca dos fundamentos lançados no julgado proferido, despiciendo pois maiores digressões: – III – Dos fundamentos constitucionais e legais adotados na análise do mérito 21. No mérito do julgado, para fundamentar a não incidência do tributo sobre os juros moratórios, o STF adotou o seguinte raciocínio: a) o art. 153, III, da Constituição Federal define a competência da União para instituir imposto sobre a renda e proventos de qualquer natureza; b) o art. 43 do CTN estabelece o fato gerador do referido imposto e o inciso II do dispositivo prevê a incidência sobre proventos de qualquer natureza. Já o § 1º esclarece que a incidência do tributo independe da denominação dada à receita ou ao rendimento; c) o parágrafo único do art. 16 da Lei nº 4.506/1964 classifica os juros de mora e quaisquer outras indenizações como rendimentos do trabalho para fins de incidência do IR; d) já o § 1º do art. 3º da Lei nº 7.713/1993 define como rendimento bruto para fins de incidência do tributo o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos, os alimentos e pensões percebidos em dinheiro, e ainda os proventos de qualquer natureza, assim também entendidos os acréscimos patrimoniais não correspondentes aos rendimentos declarados; e) a “expressão juros moratórios, que é própria do Direito Civil, designa a indenização pelo atraso no pagamento da dívida em dinheiro. Para o legislador, o não recebimento nas datas correspondentes dos valores em dinheiro aos quais tem direito o credor implica prejuízo para ele”; f) o prejuízo adviria do ato ilícito de não pagar a verba na data correspondente a qual tem direito o credor; Fl. 94DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.807 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10830.727458/2013-13 7 g) portanto, os juros de mora são uma recomposição de perdas decorrentes do prejuízo do recebimento de verbas em atraso, que não implicam no aumento do patrimônio do credor, portanto, excluídos da incidência do Imposto de Renda. 22. Sob tais fundamentos, foi declarada a não recepção do art. 16 da Lei nº 4.506/1964 e a interpretação conforme a Constituição de 1988 do art. 3º, § 1º, da Lei nº 7.713/88 e ao art. 43, II e § 1º, do CTN, para excluir do âmbito de suas aplicações a incidência do imposto de renda sobre os juros de mora. 23. A exclusão abrangente do tributo sobre os juros devidos em quaisquer pagamentos em atraso, faz, portanto, com que seja indiferente a natureza da verba que está sendo paga. Uma vez que seja reconhecida como devida a verba pleiteada, seja em reclamatória trabalhista ou não, exclui-se a incidência do imposto sobre os juros de mora devidos pelo atraso no seu pagamento. Diferentemente da jurisprudência anteriormente consolidada, pouco importa a natureza da verba principal ou se o reconhecimento de seu pagamento se dá no contexto de decisões proferidas em reclamatórias trabalhistas. 24. E, mais, a formação da tese em termos amplos e descolados do pedido inicial da demanda, mostra que sequer faz-se necessário que o reconhecimento do pagamento em atraso decorra de decisão judicial. 25. Em suma, a tese firmada é de que “não incide imposto de renda sobre os juros de mora devidos pelo atraso no pagamento de remuneração por exercício de emprego, cargo ou função” e tem sua aplicação ampla e irrestrita. Neste sentido, vale também registrar que a matéria foi recentemente pacificada neste CARF, culminando com a edição da Súmula nº 198: Súmula nº 198: Aprovada pela 2 Turma da CSRF em sessão de 21/06/2024 – vigência em 27/06/2024 Não incide imposto de renda sobre os juros de mora devidos pelo atraso no pagamento de remuneração por exercício de emprego, cargo ou função. Conclusão Ante o exposto, voto por DAR PARCIAL PROVIMENTO ao presente recurso, para determinar o recálculo do imposto devido sobre os valores recebidos do INSS, oriundos do processo judicial nº 2004.61.86.000027-3, que tramitou perante o JEF Cível de Campinas/SP, excluindo-se da base de cálculo eventual parcela correspondente aos juros moratórios sobre os rendimentos tributáveis apurados, bem como aplicando-se as tabelas e alíquotas vigentes à época em que os rendimentos deveriam ter sido pagos (regime de competência). É como voto. (documento assinado digitalmente) Wilderson Botto Fl. 95DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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Numero do processo: 18050.720139/2021-86
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Fri Apr 11 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Thu Jun 12 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2016 RECURSO ESPECIAL DO SUJEITO PASSIVO. REQUISITOS DE ADMISSIBILIDADE. SIMILITUDE FÁTICA. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. COMPROVAÇÃO DA ORIGEM. ÔNUS DA PROVA. LEI Nº 9.430/96. DEPÓSITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA. Merece ser conhecido o recurso especial interposto contra acórdão que, em situação fática similar, conferir à legislação tributária interpretação divergente da que lhe tenha dado outra Câmara, Turma de Câmara, Turma Especial, Turma Extraordinária ou a própria Câmara Superior de Recursos Fiscais, observados os demais requisitos previstos nos arts. 118 e 119 do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. COMPROVAÇÃO DA ORIGEM. ÔNUS DA PROVA. LEI Nº 9.430/96. SÚMULA CARF Nº 26. A partir da vigência da Lei nº 9.430/96, a existência de depósitos de origens não comprovadas tornou-se uma nova hipótese legal de presunção de omissão de rendimentos, sendo ônus do contribuinte a apresentação de justificativas válidas para os ingressos ocorridos em suas contas correntes. Nos termos do verbete sumular de nº 26 deste Conselho, [a] presunção estabelecida no art. 42 da Lei nº 9.430/96 dispensa o Fisco de comprovar o consumo da renda representada pelos depósitos bancários sem origem comprovada. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. MÚTUO. ÔNUS DA PROVA. A alegação da realização de empréstimos, na tentativa de elidir a autuação por omissão de rendimentos, deve vir acompanhada de provas inequívocas da efetiva ocorrência da operação, mediante a sua informação tempestiva na Declaração de Ajuste Anual, contrato de mútuo registrado no registro público, além da comprovação da transferência de numerário avençado.
Numero da decisão: 9202-011.771
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Contribuinte e no mérito, negar-lhe provimento. Votou pelas conclusões o conselheiro Leonam Rocha de Medeiros. Assinado Digitalmente Ludmila Mara Monteiro de Oliveira – Relatora Assinado Digitalmente Liziane Angelotti Meira – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Franciso Ibiapino Luz, Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim, Sheila Aires Cartaxo Gomes, Leonam Rocha de Medeiros, José Luis Hentsch Benjamin Pinheiro (Substituto), Fernanda Melo Leal, Ludmila Mara Monteiro de Oliveira e Liziane Angelotti Meira (Presidente). Ausente o Conselheiro Maurício Nogueira Righetti, substituído pelo Conselheiro José Luis Hentsch Benjamin Pinheiro.
Nome do relator: LUDMILA MARA MONTEIRO DE OLIVEIRA

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REQUISITOS DE ADMISSIBILIDADE. SIMILITUDE FÁTICA. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. COMPROVAÇÃO DA ORIGEM. ÔNUS DA PROVA. LEI Nº 9.430/96. DEPÓSITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA. Merece ser conhecido o recurso especial interposto contra acórdão que, em situação fática similar, conferir à legislação tributária interpretação divergente da que lhe tenha dado outra Câmara, Turma de Câmara, Turma Especial, Turma Extraordinária ou a própria Câmara Superior de Recursos Fiscais, observados os demais requisitos previstos nos arts. 118 e 119 do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. COMPROVAÇÃO DA ORIGEM. ÔNUS DA PROVA. LEI Nº 9.430/96. SÚMULA CARF Nº 26. A partir da vigência da Lei nº 9.430/96, a existência de depósitos de origens não comprovadas tornou-se uma nova hipótese legal de presunção de omissão de rendimentos, sendo ônus do contribuinte a apresentação de justificativas válidas para os ingressos ocorridos em suas contas correntes. Nos termos do verbete sumular de nº 26 deste Conselho, [a] presunção estabelecida no art. 42 da Lei nº 9.430/96 dispensa o Fisco de comprovar o consumo da renda representada pelos depósitos bancários sem origem comprovada. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. MÚTUO. ÔNUS DA PROVA. A alegação da realização de empréstimos, na tentativa de elidir a autuação por omissão de rendimentos, deve vir acompanhada de provas inequívocas Fl. 559DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9202-011.771 – CSRF/2ª TURMA PROCESSO 18050.720139/2021-86 2 da efetiva ocorrência da operação, mediante a sua informação tempestiva na Declaração de Ajuste Anual, contrato de mútuo registrado no registro público, além da comprovação da transferência de numerário avençado. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Contribuinte e no mérito, negar-lhe provimento. Votou pelas conclusões o conselheiro Leonam Rocha de Medeiros. Assinado Digitalmente Ludmila Mara Monteiro de Oliveira – Relatora Assinado Digitalmente Liziane Angelotti Meira – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Franciso Ibiapino Luz, Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim, Sheila Aires Cartaxo Gomes, Leonam Rocha de Medeiros, José Luis Hentsch Benjamin Pinheiro (Substituto), Fernanda Melo Leal, Ludmila Mara Monteiro de Oliveira e Liziane Angelotti Meira (Presidente). Ausente o Conselheiro Maurício Nogueira Righetti, substituído pelo Conselheiro José Luis Hentsch Benjamin Pinheiro. RELATÓRIO Trata-se de recurso especial interposto por ROSA FICHMAN FINGERGUT em face do acórdão nº 2201-010.640, proferido pela Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara desta Segunda Seção de julgamento que, por maioria de votos, deu provimento parcial ao seu recurso voluntário para excluir da base de cálculo do tributo lançado o valor de R$ 1.622.877,00 (um milhão, seiscentos e vinte e dois mil, oitocentos e setenta e sete reais). Colaciono, por oportuno, a ementa e o respectivo dispositivo do objurgado acórdão: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Ano-calendário: 2016 DECISÕES ADMINISTRATIVAS E JUDICIAIS. APLICAÇÃO SOMENTE ÀS PARTES LITIGANTES. Fl. 560DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9202-011.771 – CSRF/2ª TURMA PROCESSO 18050.720139/2021-86 3 As decisões administrativas e as judiciais não se constituem em normas gerais, razão pela qual seus julgados não se aproveitam em relação a qualquer outra ocorrência, senão àquela, objeto da decisão. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA (IRPF) Ano-calendário: 2016 OMISSÃO DE RENDIMENTOS. LANÇAMENTO COM BASE EM DEPÓSITOS BANCÁRIOS. ARTIGO 42 DA LEI Nº 9.430, DE 1996. A presunção legal de omissão de rendimentos, prevista no art. 42, da Lei nº 9.430, de 1996, autoriza o lançamento com base em depósitos bancários para os quais o titular, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. Tal presunção dispensa o Fisco de comprovar o consumo da renda representada pelos depósitos bancários sem origem comprovada. (Súmula CARF nº 26, vinculante, conforme Portaria MF nº 277, de 07/06/2018, DOU de 08/06/2018). MÚTUO. COMPROVAÇÃO. Para a comprovação do mútuo, é necessário, além da indicação na declaração de rendimentos, da capacidade financeira do mutuante e da comprovação da efetiva entrega do numerário, a existência de contrato de mútuo que, por ser instrumento particular, para que possa valer como elemento de prova oponível a terceiros, é imperativo que esteja registrado no Registro de Títulos e Documentos. OMISSÃO RENDIMENTOS. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. ORIGEM DA CONTA DE CÔNJUGE FALECIDO. COMUNHÃO UNIVERSAL DE BENS. DIFICULDADE DE COMPROVAÇÃO DA NATUREZA. Não se exige de cônjuge sobrevivente a comprovação da natureza de depósito que, incontestavelmente, teve origem de conta do seu cônjuge com quem era casado sob o regime da comunhão universal de bens, pois a situação patrimonial de ambos revela que a conta bancária de origem era bem comum do casal, ou seja, representava uma parte do bem pertencente à própria contribuinte. Outrossim, resta obscuro como a contribuinte conseguiria comprovar natureza, se tributável ou não, de transferência bancária advinda de seu cônjuge, sobretudo quando este já se encontrava falecido quando do início da fiscalização. (f. 423/424) Dispositivo: Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, dar provimento parcial ao recurso voluntário para excluir da base de cálculo do tributo lançado o valor de R$ 1.622.877,00, por corresponder a montante movimentado de conta bancária de titularidade do cônjuge, com o qual a fiscalizada mantém regime de comunhão de bens. Vencidos os Conselheiros Marco Aurélio de Oliveira Barbosa, Relator, e Débora Fófano dos Santos, que Fl. 561DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9202-011.771 – CSRF/2ª TURMA PROCESSO 18050.720139/2021-86 4 negaram provimento ao recurso. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim. (f. 424) Aclaratórios foram interpostos (f. 451/457) suscitando padecer a decisão recorrida das máculas da obscuridade, da contradição e da omissão. O despacho de admissibilidade (f. 466/471) negou seguimento aos embargos de declaração, eis que não vislumbrados os vícios arguidos. Cientificada, apresentou o recurso especial (f. 480/490), na tentativa de ver uniformizada a interpretação da legislação tributária com relação às seguintes matérias: (a) omissão de receitas caracterizada por depósitos bancários de origem não comprovada – critério de comprovação da origem dos depósitos [acórdão paradigma nº 104-20.448] (b) omissão de receitas caracterizada por depósitos bancários de origem não comprovada – momento da comprovação da origem e demonstração da natureza da operação que resultou o depósito [acórdão paradigma nº 2401- 005.560] No despacho de admissibilidade, acostado às f. 531/539, consignado que [n]a matéria “a”, foi indicado como paradigma o Acórdão 104-20.448, o qual não foi reformado, na questão sujeita ao recurso especial, até a data de sua interposição (Ricarf, art. 118, §12, II); portanto, tal acórdão pode ser utilizado, para fins de recurso especial, sendo possível, em decorrência, prosseguir na análise da admissibilidade do recurso. (...) Como visto, no acórdão recorrido – que julga caso de lançamento de ofício de imposto sobre a renda da pessoa física (IRPF), cuja infração é omissão de receitas caracterizada por depósitos bancários de origem não comprovada, sendo que o contribuinte, no intento de comprovar a origem dos recursos, qual seja, mútuo entre familiares, apresentou cópias de cheques – considerou-se que “para que o contrato de mútuo sirva como prova da origem dos valores recebidos pelo contribuinte, deve estar ele acompanhado de provas hábeis e robustas que permitam estabelecer uma relação biunívoca entre cada recebimento e a origem que se deseja comprovar”; “(...) a informação nos anversos dos cheques, por si só, não é suficiente para comprovar o empréstimo realizado, tendo em vista que não foi apresentado nenhum contrato da operação realizada, bem como não foi informado nas respectivas Declarações de Ajuste Anual”. Ou seja, o acórdão recorrido entende que o mútuo se prova com contrato e informação das declaração de ajuste anual (DAA), além da cópia dos respectivos cheques. Fl. 562DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9202-011.771 – CSRF/2ª TURMA PROCESSO 18050.720139/2021-86 5 Por sua vez, o primeiro paradigma – também julgando caso de lançamento de ofício de IRPF. cuja infração é omissão de receitas caracterizada por depósitos bancários de origem não comprovada, na qual o contribuinte, no intento de comprovar o mútuo como a origem dos recursos, apresentou cópias de cheques – considerou tais cheques “suficientes para comprovar a origem dos recursos creditados/depositados”. Desse modo, se o acórdão recorrido fosse julgado com os critérios do primeiro paradigma, o resultado seria diverso, ou seja, a prova apresentada seria considerada hábil para a comprovação da divergência, pelo que resta caracterizada a divergência jurisprudencial apta ao seguimento do recurso especial. (...) Na matéria “(b) omissão de receitas caracterizada por depósitos bancários de origem não comprovada – momento da comprovação da origem e demonstração da natureza da operação que resultou o depósito”, foi indicado como paradigma o Acórdão 2401-005.560; porém, tal paradigma foi reformado, na questão sujeita ao recurso especial, pelo Acórdão 9202-008.467, o qual afastou a nulidade proclamada no paradigma e determinou o retorno dos autos à origem para prosseguimento do julgamento, com decisão de mérito. (...) Com fundamento nos artigos 59, inciso III, 118 e 119 do Ricarf, aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 2023, DOU PARCIAL SEGUIMENTO ao recurso especial interposto pelo sujeito passivo, admitindo a rediscussão da matéria (a) “omissão de receitas caracterizada por depósitos bancários de origem não comprovada – critério de comprovação da origem dos depósitos”. (sublinhas deste voto) Em sede de contrarrazões (f. 549/556) a Fazenda Nacional pediu, preliminarmente, o não conhecimento do recurso por ser vedado o revolvimento do acervo fático- probatório; e, no mérito, apresentou motivos para a manutenção da decisão recorrida. É o relatório. VOTO Conselheira Ludmila Mara Monteiro de Oliveira, Relatora. I – DO CONHECIMENTO Passo a aferir o preenchimento dos requisitos intrínsecos e extrínsecos do recurso especial de divergência com relação à única matéria devolvida a esta instância especial: Fl. 563DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9202-011.771 – CSRF/2ª TURMA PROCESSO 18050.720139/2021-86 6 omissão de receitas caracterizada por depósitos bancários de origem não comprovada – critério de comprovação da origem dos depósitos. Na tentativa de obstar o seguimento do apelo especial afirma, em sede de contrarrazões, que o acórdão recorrido aduziu que o contribuinte não demonstrou de forma convincente a existência do mútuo. Reverter essa conclusão da instância de origem demandaria, necessariamente, analisar novamente as provas apresentadas pelo contribuinte, o que não se admite em sede de recurso especial. Transcrevo os motivos ensejadores da negativa de provimento declinados pelo Colegiado a quo quanto ao tema devolvido a esta eg. Instância Especial: Afirma a Recorrente que os depósitos bancários, nos valores de R$ 200.000,00 e R$ 50.000,00, decorrem de devolução de empréstimo realizado pelo seu filho Milton Fingergut, conforme operação de endosso de cheque originariamente recebida de pessoa jurídica, Jaime Fingergut Comércio Ltda (CNPJ ...) e descrita no verso do cheque. Observa-se que os referidos cheques, emitidos pela Jaime Fingergut Comércio Ltda, nos dias 23/11/2016 e 25/11/2016, nos valores de R$ 200.000,00 e R$ 50.000,00, respectivamente, do Banco Bradesco S/A, agência (...), conta corrente nº (...), foram nominais a Milton Fingergut e endossados para depositar na conta corrente nº (...), ag. (...), Banco Bradesco S/A, tendo sido descritos nos anversos dos cheques que a finalidade seria amortizar parte do empréstimo concedido. No entanto, a informação nos anversos dos cheques, por si só, não é suficiente para comprovar o empréstimo realizado, tendo em vista que não foi apresentado nenhum contrato da operação realizada, bem como não foi informado nas respectivas Declarações de Ajuste Anual. (...) Para que o contrato de mútuo sirva como prova da origem dos valores recebidos pelo contribuinte, deve estar ele acompanhado de provas hábeis e robustas que permitam estabelecer uma relação biunívoca entre cada recebimento e a origem que se deseja comprovar. (...) Portanto, não há o que reparar no lançamento fiscal desses valores. (sublinhas deste voto) Já no único paradigma suscitado, o acórdão nº as razões de decidir foram assim apresentadas: Fl. 564DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9202-011.771 – CSRF/2ª TURMA PROCESSO 18050.720139/2021-86 7 Quanto à infração Omissão de Rendimentos Caracterizada por Depósitos Bancários de Origem não Comprovada, verifica-se que a base de cálculo refere- se a apenas a um único depósito, no montante R$ 13.000,00, em 04/09/1997. O Recorrente afirma que se trata de recursos provenientes de empréstimo e traz aos autos cópia do cheque que foi depositado em sua conta, de n° (...), do Banestes, de emissão de Celso Melro (fls. 612) e declaração deste afirmando que tal cheque foi dado ao Recorrente em empréstimo. A DRJ/R10 DE JANEIRO/RJ II, não acolheu a alegação da defesa sob o fundamento de que os documentos apresentados pelo contribuinte comprovam apenas quem foi o depositante, mas não a natureza da operação que ensejou o depósito, requisito que considera essencial para caracterizar a comprovação da origem dos recursos, nos termos do art. 42 da Lei n°9.430, de 1996. (...) Penso que a leitura conjunta do caput do art. 42 com o seu § 2° conduz à interpretação de que, para afastar a presunção legal de omissão de rendimentos basta a comprovação da procedência dos recursos. Conhecida esta, cumpre ao Fisco examinar a hipótese de eventual incidência tributária em face de legislação outra que não o próprio art. 42 da Lei n° 9.430, de 1996. (...) Os documentos trazidos aos autos, cópia de cheque coincidente em data e valor com o depósito bancário, por exemplo, não deixam dúvida quanto ao fato de que os recursos depositados na Conta do Recorrente são procedentes da conta do sr. Celso Melro, que declara lhe ter emprestado essa quantia. Esses dados são suficientes para comprovar a origem dos recursos creditados/depositados, nos termos apontados acima, embora a simples declaração do sr. Celso Melro seja frágil como comprovação de que houve o alegado empréstimo. (...) Com esses fundamentos, afasto a exigência quanto à infração Omissão de Rendimentos Caracterizada por Depósitos Bancários de Origem não Comprovada. Dada a abrangência da exegese conferida ao disposto no art. 42 da Lei n° 9.430/1996 pela decisão paradigmática, ainda que existam notas de dessemelhança nas situações fáticas postas em confronto, é possível asseverar que teria aquela Turma ofertado solução diferente da prolatora de decisão recorrida, razão pela qual conheço do recurso. II – DO MÉRITO Fl. 565DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9202-011.771 – CSRF/2ª TURMA PROCESSO 18050.720139/2021-86 8 Pretende ver prevalecer o entendimento estampado na decisão paradigmática, no sentido de que a leitura conjunta do caput do art. 42 com o seu § 2° conduz à interpretação de que, para afastar a presunção legal de omissão de rendimentos basta a comprovação da procedência dos recursos. Conhecida esta, cumpre ao Fisco examinar a hipótese de eventual incidência tributária em face de legislação outra que não o próprio art. 42 da Lei n° 9.430, de 1996. (...) Os documentos trazidos aos autos, cópia de cheque coincidente em data e valor com o depósito bancário, por exemplo, não deixam dúvida quanto ao fato de que os recursos depositados na Conta do Recorrente são procedentes da conta do sr. Celso Melro, que declara lhe ter emprestado essa quantia. Esses dados são suficientes para comprovar a origem dos recursos creditados/depositados, nos termos apontados acima, embora a simples declaração do sr. Celso Melro seja frágil como comprovação de que houve o alegado empréstimo. Entretanto, como escorreitamente entendeu o colegiado prolator da decisão recorrida, a informação nos anversos dos cheques, por si só, não é suficiente para comprovar o empréstimo realizado, tendo em vista que não foi apresentado nenhum contrato da operação realizada, bem como não foi informado nas respectivas Declarações de Ajuste Anual. O Código Civil assim disciplina sobre o contrato de mútuo: Art. 586. O mútuo é o empréstimo de coisas fungíveis. O mutuário é obrigado a restituir ao mutuante o que dele recebeu em coisa do mesmo gênero, qualidade e quantidade. Sobre a prova do instrumento particular em relação a terceiros, assim estipula o Código Civil. Art. 221. O instrumento particular, feito e assinado, ou somente assinado por quem esteja na livre disposição e administração de seus bens, prova as obrigações convencionais de qualquer valor, mas os seus efeitos, bem como os da cessão, não se operam, a respeito de terceiros, antes de registrado no registro público. [...] Art. 288. É ineficaz, em relação a terceiros, a transmissão de um crédito, se não celebrar-se mediante instrumento público, ou instrumento particular revestido das solenidades do § 1º do art. 654. Fl. 566DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9202-011.771 – CSRF/2ª TURMA PROCESSO 18050.720139/2021-86 9 A Lei dos Registros Públicos (Lei nº 6.015/73) dispõe: Art. 127. No Registro de Títulos e Documentos será feita a transcrição: I – dos instrumentos particulares, para a prova das obrigações convencionais de qualquer valor; Para que o contrato de mútuo sirva como prova da origem dos valores recebidos pelo contribuinte, deve estar ele acompanhado de provas hábeis e robustas que permitam estabelecer uma relação biunívoca entre cada recebimento e a origem que se deseja comprovar. Acresço que, de acordo com o art. 42 da Lei n° 9.430/96, para os fatos geradores ocorridos a partir de 01/01/1997, autorizada a presunção de omissão de rendimentos com base nos valores depositados em conta bancária para os quais o titular, regularmente intimado, não consiga comprovar, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. Como determina o verbete sumular de nº 26 deste eg. Conselho, “[a] presunção estabelecida no art. 42 da Lei nº 9.430/96 dispensa o Fisco de comprovar o consumo da renda representada pelos depósitos bancários sem origem comprovada.” Assim, no ano de 1996, com a entrada em vigor da Lei nº 9.430, restou autorizada a presunção de omissão de rendimentos com base nos valores depositados em conta bancária para os quais o titular, regularmente intimado, não comprovasse, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações – ex vi do art. 42. O recebimento de valores relativos aos contratos de mútuos, para ser aceitos como comprovação dos depósitos bancários, deve estar não apenas consignada nas respectivas declarações de ajuste anual, mas ser comprovada por meio de documentação hábil e idônea. O pagamento do empréstimo deve vir acompanhado da transferência dos recursos, por meio de documento bancário, no qual fique caracterizado quem está realizando o depósito na conta da recorrente. Neste sentido, meras anotações em anversos de cheques, por si só não são suficientes para provar o recebimento de valores de contrato de mútuo, mormente quando mutuante e mutuário ostentam vínculo de consanguinidade. Nego provimento ao recurso. II – DO DISPOSITIVO Ante o exposto, conheço do recurso especial e nego-lhe provimento. Assinado Digitalmente Ludmila Mara Monteiro de Oliveira – Relatora Fl. 567DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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10940923 #
Numero do processo: 10925.721846/2014-12
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed May 14 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Tue Jun 10 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2009, 2010 OMISSÃO DE RENDIMENTOS DA ATIVIDADE RURAL. O resultado da exploração da atividade rural pelas pessoas físicas será apurado mediante escrituração do livro-caixa, contendo as receitas, as despesas de custeio, investimentos e demais valores que integram a atividade, devidamente comprovados, mediante documentação hábil e idônea. Mantém-se a autuação quanto restar comprovado que o contribuinte obteve rendimentos tributáveis decorrentes da exploração de atividade rural e não os submeteu à tributação, em estrita conformidade com a legislação de regência. ATIVIDADE RURAL. DEPÓSITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA. ART. 42 DA LEI Nº 9.430/96. PRESUNÇÃO LEGAL. Caracteriza omissão de rendimentos a constatação de valores creditados em contas bancárias, cuja origem o contribuinte não restar comprovada por suporte probatório consistente. Receitas declaradas da atividade rural somente podem ser excluídos da base de cálculo do lançamento mediante comprovação de que tais valores transitaram pelas contas bancárias. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. EMPRÉSTIMOS. FAMILIARES. AMIGOS. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO. Mesmo o empréstimo em dinheiro entre familiares ou amigos próximos, em que prepondera a informalidade na relação entre as partes, os fatos não estão livres de comprovação da natureza dos créditos bancários, por documentação hábil e idônea. PAF. DILAÇÃO PROBATÓRIA. PEDIDO DE DILIGÊNCIA, PERÍCIA OU PRODUÇÃO DE NOVAS PROVAS. Deve-se instruir os autos com elementos de prova que fundamentem os argumentos de defesa de maneira a não deixar dúvida sobre o que se pretende demonstrar. Presentes os elementos de convicção necessários à solução da lide, despiciendo o pedido de dilação probatória formulado.
Numero da decisão: 2001-007.812
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. (documento assinado digitalmente) Ricardo Chiavegatto de Lima - Presidente (documento assinado digitalmente) Wilderson Botto - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Ricardo Chiavegatto de Lima (Presidente), Raimundo Cassio Goncalves Lima, Lilian Claudia de Souza e Wilderson Botto.
Nome do relator: WILDERSON BOTTO

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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2009, 2010 OMISSÃO DE RENDIMENTOS DA ATIVIDADE RURAL. O resultado da exploração da atividade rural pelas pessoas físicas será apurado mediante escrituração do livro-caixa, contendo as receitas, as despesas de custeio, investimentos e demais valores que integram a atividade, devidamente comprovados, mediante documentação hábil e idônea. Mantém-se a autuação quanto restar comprovado que o contribuinte obteve rendimentos tributáveis decorrentes da exploração de atividade rural e não os submeteu à tributação, em estrita conformidade com a legislação de regência. ATIVIDADE RURAL. DEPÓSITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA. ART. 42 DA LEI Nº 9.430/96. PRESUNÇÃO LEGAL. Caracteriza omissão de rendimentos a constatação de valores creditados em contas bancárias, cuja origem o contribuinte não restar comprovada por suporte probatório consistente. Receitas declaradas da atividade rural somente podem ser excluídos da base de cálculo do lançamento mediante comprovação de que tais valores transitaram pelas contas bancárias. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. EMPRÉSTIMOS. FAMILIARES. AMIGOS. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO. Mesmo o empréstimo em dinheiro entre familiares ou amigos próximos, em que prepondera a informalidade na relação entre as partes, os fatos não estão livres de comprovação da natureza dos créditos bancários, por documentação hábil e idônea. PAF. DILAÇÃO PROBATÓRIA. PEDIDO DE DILIGÊNCIA, PERÍCIA OU PRODUÇÃO DE NOVAS PROVAS. Deve-se instruir os autos com elementos de prova que fundamentem os argumentos de defesa de maneira a não deixar dúvida sobre o que se pretende demonstrar. Presentes os elementos de convicção necessários à solução da lide, despiciendo o pedido de dilação probatória formulado.

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O resultado da exploração da atividade rural pelas pessoas físicas será apurado mediante escrituração do livro-caixa, contendo as receitas, as despesas de custeio, investimentos e demais valores que integram a atividade, devidamente comprovados, mediante documentação hábil e idônea. Mantém-se a autuação quanto restar comprovado que o contribuinte obteve rendimentos tributáveis decorrentes da exploração de atividade rural e não os submeteu à tributação, em estrita conformidade com a legislação de regência. ATIVIDADE RURAL. DEPÓSITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA. ART. 42 DA LEI Nº 9.430/96. PRESUNÇÃO LEGAL. Caracteriza omissão de rendimentos a constatação de valores creditados em contas bancárias, cuja origem o contribuinte não restar comprovada por suporte probatório consistente. Receitas declaradas da atividade rural somente podem ser excluídos da base de cálculo do lançamento mediante comprovação de que tais valores transitaram pelas contas bancárias. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. EMPRÉSTIMOS. FAMILIARES. AMIGOS. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO. Mesmo o empréstimo em dinheiro entre familiares ou amigos próximos, em que prepondera a informalidade na relação entre as partes, os fatos não estão livres de comprovação da natureza dos créditos bancários, por documentação hábil e idônea. Fl. 701DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.812 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10925.721846/2014-12 2 PAF. DILAÇÃO PROBATÓRIA. PEDIDO DE DILIGÊNCIA, PERÍCIA OU PRODUÇÃO DE NOVAS PROVAS. Deve-se instruir os autos com elementos de prova que fundamentem os argumentos de defesa de maneira a não deixar dúvida sobre o que se pretende demonstrar. Presentes os elementos de convicção necessários à solução da lide, despiciendo o pedido de dilação probatória formulado. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. (documento assinado digitalmente) Ricardo Chiavegatto de Lima - Presidente (documento assinado digitalmente) Wilderson Botto - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Ricardo Chiavegatto de Lima (Presidente), Raimundo Cassio Goncalves Lima, Lilian Claudia de Souza e Wilderson Botto. RELATÓRIO Por bem retratar os fatos ocorridos desde a constituição do crédito tributário por meio do lançamento até sua impugnação, adoto e reproduzo o relatório da decisão ora recorrida (fls. 602/614): Em procedimento de fiscalização, relativo aos anos-calendário 2009 e 2010 no contribuinte acima identificado, procedeu-se ao lançamento de ofício de IRPF, originário da apuração da(s) infração(ões) abaixo descrita(s), por meio do Auto de Infração de fls. 04 e 05 (demonstrativos anexos ao Auto de Infração às fls. 03 e 06 a 11). Segundo consta na Descrição dos Fatos e Enquadramento Legal à fl. 05, combinado com o Relatório Fiscal de fls. 15 a 35, foi constatada omissão de rendimentos tributáveis da Atividade Rural em 2009 no valor de R$ 127.638,93 e em 2010 no valor de R$ 80.026,24. Conforme explica a fiscalização no citado Relatório Fiscal, o contribuinte neste processo interessado manteve a propriedade rural denominada “Fazenda Celso Dal Piva” em condomínio com outras três pessoas físicas, cada uma participando com 25%. O primeiro a ser fiscalizado foi Jorge Armando Dal Piva, CPF 047.967.099-40 (processo administrativo fiscal 10925.722526/2013-07). Naquele procedimento fiscal, o Sr. Jorge informou que toda a movimentação financeira do condomínio foi realizada em seu Fl. 702DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.812 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10925.721846/2014-12 3 nome em contas correntes de sua titularidade e que o Livro Caixa utilizado na atividade rural era comum para todos os condôminos (receitas e despesas pertencendo aos quatro condôminos na proporção de 25% para cada um). Naquele procedimento foi constatada omissão de receita tributável da atividade rural do condomínio no montante total, relativo aos anos-calendário 2009 e 2010, de R$ 830.660,67, tendo sido atribuída a Jorge Armando Dal Piva a proporção de 25% deste montante. Diante disto, a fiscalização intimou o contribuinte neste processo interessado, a apresentar, relativamente aos anos 2009 e 2010, cópia do Livro Caixa da atividade rural e a comprovar, através de documentação hábil e idônea, a origem dos créditos relacionados na tabela anexa ao Termo de Início de Fiscalização (fls. 37 a 41), cientificado em 09/05/2014 (Aviso de Recebimento à fl. 42). Após dois pedidos de prorrogação de prazo para atendimento da intimação que foram deferidos por meio de Termos de Reintimação Fiscal (documentos de fls. 43 a 52), em 01/08/2014, o fiscalizado apresentou a resposta de fls. 53 a 67, na qual afirma que o Livro Caixa apresentado no procedimento que fiscalizou Jorge Armando Dal Piva é o mesmo a si aplicável e que a argumentação e documentação de defesa produzida naquele procedimento fiscal também é válida para si, ao que passou a reproduzir resposta dada por aquele contribuinte naquela fiscalização. Desta forma, a autoridade fiscal juntou no presente processo cópia dos seguintes documentos que foram colhidos naquela fiscalização: Livro Caixa da Atividade Rural de 2009 (fls. 68 a 84), Livro Caixa da Atividade Rural de 2010 (fls. 85 a 100), Declarações de Ajuste Anual dos quatro condôminos (fls. 101 a 160), Termo de Intimação Fiscal 63/2013 emitido naquela fiscalização (fls. 161 a 167), Notas Fiscais de Produtor Rural em nome dos condôminos (fls. 168 a 260), resposta ao Termo de Intimação Fiscal nº 063/2013 (fls. 261 a 275), documentos diversos (principalmente extratos bancários e notas fiscais – fls. 276 a 477), Termo de Intimação Fiscal 147/2013 emitido naquela fiscalização e respectiva resposta (fls. 478 a 558), Notas Fiscais eletrônicas (fls. 559 a 568) e comprovante de inscrição estadual do condomínio rural (fl. 570). A constatação da omissão de rendimentos da atividade rural se deu por três formas. A primeira por meio de créditos bancários em contas do condomínio rural cuja origem não foi comprovada pelas explicações e documentos apresentados por Jorge Armando Dal Piva, que foram endossados pelo interessado no presente processo como escrito acima, conforme detalhadamente exposto pela autoridade lançadora no Relatório Fiscal (item 2.1.2.1 Créditos de Origem Não Comprovada - fls. 21 a 25), com sustentação legal no artigo 42 da Lei nº 9.430/1996. A segunda por meio de créditos bancários identificados como Receita da Atividade Rural, mas não Escriturados no Livro Caixa, também explicados minuciosamente no Relatório Fiscal (item 2.1.2.2 Créditos Identificados mas não Escriturados no Livro Caixa – fls. 25 e 26). A terceira com base em Notas Fiscais Eletrônicas não escrituradas no Livro Caixa (item 2.1.3 do Relatório Fiscal - fl. 27). A fiscalização apontou como base normativa para tributação da atividade rural diversos dispositivos dos artigos 58 a 63, 67 e 68 do Decreto 3.000/1999 (Regulamento do Imposto de Renda – RIR/1999 – item 2.1.4 - fls. 27 a 29). Fl. 703DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.812 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10925.721846/2014-12 4 Das receitas omitidas foi atribuída ao interessado no presente processo 25%, que é sua participação no condomínio rural (item 2.1.5 do Relatório Fiscal – fls. 29 a 32), tendo sido respeitadas as opções de tributação do contribuinte: receita bruta anual menos despesas de custeio e investimentos totais (2009) e 20% da receita bruta (2010). A fiscalização ainda qualificou a multa de ofício (150%) com fulcro no § 1º do artigo 44 da Lei nº 9.430/1996 e no artigo 71 da Lei nº 4.502/1964 (sonegação) porque o contribuinte omitiu documentos e a escrituração de valores no Livro Caixa que modificaram a apuração do fato gerador do imposto, o que retardou o conhecimento por parte da Fazenda Nacional das circunstâncias materiais da obrigação tributária principal e que, segundo a autoridade fiscal, não pode ser considerado mero erro ou esquecimento, já que a omissão representa 67% do total de rendimentos declarados nos dois anos- calendário. Também foi elaborada Representação Fiscal para Fins Penais formalizada no processo 10925.721876/2014-29. O total do crédito tributário apurado, com juros de mora com base na taxa Selic calculados até setembro de 2014, montou a R$ 82.915,20. Impugnação Cientificado do lançamento em 11/09/2014 (Aviso de Recebimento à fl. 36), o contribuinte apresentou em 10/10/2014 (fl. 573), representado por mandatário (fls. 588 a 590), a impugnação de fls. 573 a 588, acompanhada dos documentos que comprovam a representação (fls. 589 e 590), complementados posteriormente pelos documentos de identificação do autuado (fls. 592 a 598), na qual alega, em síntese, que: - requer que toda a documentação produzida no procedimento fiscal realizado contra o outro participante do condomínio rural, Sr. Jorge Armando Dal Piva, em nome de quem praticamente toda a movimentação bancária foi feita, seja juntada e aproveitada como prova emprestada na análise do presente procedimento fiscal; - o Sr. Jorge Armando Dal Piva, que cuida de todo o condomínio rural de sua família (irmãs e mãe), não mediu esforços naquele procedimento fiscal para explicar cada crédito nas contas bancárias durante dois anos, mas é praticamente impossível lembrar de tudo, mostrando-se a fiscalização em sua análise demasiadamente rigorosa e sem bom senso ao considerar sem comprovação depósitos de R$ 1.000,00 a R$ 3.000,00 em uma movimentação que passou de dois milhões de reais; - quanto aos créditos com origem não comprovada (item 2.1.2.1 do Relatório Fiscal), o valor de R$ 100.000,00, por exemplo, se originou em empréstimo tomado do ex-cunhado do contribuinte Jorge e que foi devidamente pago em momento posterior; - “da mesma forma foi o empréstimo de R$ 20.000,00 feito pelo contribuinte ao ex- advogado do Jorge Armando Dal Piva”; - em ambas as situações a fiscalização poderia intimar as pessoas envolvidas para confirmar os fatos alegados e constatar que não houve renda, intimações estas que agora requer que sejam realizadas; Fl. 704DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.812 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10925.721846/2014-12 5 - os demais créditos constantes dos itens 2.1.2.1.1 e 2.1.3.1.2 são créditos pequenos “que foram devidamente explicados pelos contribuintes em suas manifestações”; - o contribuinte pode ter dinheiro em caixa, informado na Declaração de Ajuste Anual, que serve para cobrir estes créditos bancários tidos como não lançados; - já houve pagamento de imposto de renda, relativo a estes mesmos créditos levantados pela fiscalização, quando do ajuste na declaração anual; - a autoridade fiscal nem ao menos intimou, o que agora requer, a Cooperalfa a confirmar a existência da prática comum e legal de um simples acerto de contas entre débito e crédito mantido sob a forma de um crediário pré-aprovado e a venda de produtos do produtor para a cooperativa, o que explica a diferença entre os depósitos e os valores constantes das notas fiscais; - a fiscalização baseou seu trabalho em lançamentos contidos ou ausentes do Livro Caixa, documento que nenhum contribuinte tem a obrigação legal de manter e que serve apenas para conferência quando da realização da declaração de ajuste anual; - lançou todas suas receitas, inclusive as contidas nas Notas Fiscais, na declaração de ajuste anual, inclusive também aquelas que não estavam escrituradas no Livro Caixa, sendo isto o que importa, não podendo prosperar o trabalho fiscal que não averiguou se as receitas não escrituradas no Livro Caixa foram lançadas na Declaração de Ajuste Anual; - os condôminos agiram no máximo com descuido ou negligência, mas não com má-fé que justificasse a aplicação da multa qualificada (150%), pelo contrário, o Sr. Jorge não mediu esforços para atender todas as requisições feitas pela fiscalização, ainda que extremamente difíceis de serem localizadas e explicadas; - segundo as decisões das Delegacias de Julgamento da Receita Federal e jurisprudência judicial reproduzida, é necessária prova concreta e indubitável que não permita dúvida quanto à ação dolosa do contribuinte com a clara intenção de fraudar para que se incida a multa qualificada de 150%; e - como não há prova que demonstre o elemento subjetivo de dolo do contribuinte, há que se aplicar o artigo 112 do CTN, seja quanto à capitulação legal do fato (inciso I), seja quanto à punibilidade do agente (inciso III), mas principalmente quanto à natureza da penalidade aplicável e sua graduação (inciso IV). A decisão de primeira instância, por maioria, manteve parcialmente o lançamento do crédito tributário exigido, encontrando-se assim ementada: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Ano-calendário: 2009, 2010 PROVA DOCUMENTAL. MOMENTO DE APRESENTAÇÃO. PRECLUSÃO. A prova documental deve ser apresentada juntamente com a impugnação, não podendo o impugnante apresentá-la em outro momento a menos que demonstre motivo de força Fl. 705DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.812 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10925.721846/2014-12 6 maior, refira-se a fato ou direito superveniente, ou destine-se a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidos aos autos. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA - IRPF Ano-calendário: 2009, 2010 ATIVIDADE RURAL. ESCRITURAÇÃO. DESPESAS E RECEITAS. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO. O resultado da exploração da atividade rural pelas pessoas físicas será apurado mediante escrituração do Livro Caixa, que deverá abranger as receitas, as despesas de custeio, os investimentos e demais valores que integram a atividade, devidamente comprovados, mediante documentação hábil e idônea. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano-calendário: 2009, 2010 DOLO. AUSÊNCIA DE PROVA. QUALIFICAÇÃO DA MULTA. DESCABIMENTO. A simples apuração de omissão de receita ou rendimentos, por si só, não autoriza a qualificação da multa de ofício, sendo necessária a comprovação da presença de dolo na ação ou omissão do sujeito passivo. Cientificada pessoalmente da decisão, em 10/05/2017 (fls. 663), a contribuinte, por procurador habilitado interpôs, em 08/06/2017, recurso voluntário (fls. 680/693), insurgindo contra a manutenção parcial da autuação, reportando-se e repisando as mesmas alegações da peça impugnatória, a seguir sintetizadas por meio dos seguintes tópicos: I – PREAMBURLAMENTE; II – MÉRITO: 1 – Dos créditos com “origem não comprovada” nos Bancos. Item 2.1.2.1 do Relatório Fiscal. BOM SENSO; 2 – Dos créditos não escriturados no Livro Caixa. Item 2.1.2.1. Requer, ao final, a) o recebimento do presente recurso voluntário, com efeito suspensivo; b) seja realizado o seu preparo e consequente remessa ao CARF; c) seja intimada a Cooperalfa para que comprovar a existência da prática de débito e crédito no momento do depósito quanto à venda de produtos; d) seja intimado o Sr. Juarez Ceccon, para comprovar que houve um empréstimo no valor de R$ 20.000,00 da contribuinte ao mesmo, tendo sido realizada a devolução da quantia, não havendo que se falar em renda; e) seja intimado o Sr. Valdecir José Pinheiro (na época cunhado da contribuinte) para comprovar que houve um empréstimo no valor de R$ 100.000,00 da contribuinte ao mesmo, tendo sido realizada a devolução da quantia, não havendo que se falar em renda; f) no mérito, seja provido o presente recurso com a anulação total ou parcial do auto de infração; g) a juntada de toda a documentação e manifestações realizadas ao longo de todo o procedimento fiscal. Instrui a peça recursal com os documentos de fls. 694/695. É o relatório. VOTO Fl. 706DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.812 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10925.721846/2014-12 7 Conselheiro Wilderson Botto, Relator. Admissibilidade O recurso é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, razões por que dele conheço e passo à sua análise. Preliminares Não foram alegadas questões preliminares no presente recurso. Mérito Das omissões de rendimentos apuradas: O litígio recai sobre as omissões de rendimentos da atividade rural, nos valores de R$ 127.638,93 (AC/2009) e R$ 80.026,24 (AC/2010), constatadas em sede de verificação das obrigações tributárias dos anos-calendário de 2009 e 2010, importando na apuração do imposto suplementar de R$ 28.526,44, a ser acrescidos dos encargos legais, buscando, por oportuno, nessa seara recursal, obter nova análise do processado, no sentido do afastamento das infrações apuradas. Pois bem. Em que pese as alegações trazidas, do cotejo dos documentos carreados, aliado aos fundamentos traçados no voto condutor da decisão recorrida (fls. 602/614) e atendo-se às informações contidas no auto de infração e no relatório fiscal elaborado (fls. 2/35), não há como prosperar a pretensão recursal. Assim, considerando que a Recorrente, nesta fase recursal, não trouxe novas alegações contundentes a modificar o julgado – limitando-se basicamente em repisar as alegações da peça impugnatória, cujas razões, ora novamente apresentadas, já foram detidamente apreciados pela DRJ/SPO, contudo sem demonstrar por documentação hábil a incorreção da autuação lastreada na omissão de rendimentos da atividade rural, proveniente da exploração de propriedade rural mantida em condomínio com outros três membros familiares, com a participação de 25% para cada um pelo exercício da atividade rural, cuja movimentação financeira total e escrituração do livro-caixa competia ao irmão/condômino, Jorge Armando Dal Piva, conforme descrito no relatório fiscal da autuação (fls. 14/35) – me convenço do acerto da decisão, pelo que adoto como razão de decidir os fundamentos lançados no voto condutor (fls. 606/611), mediante transcrição dos excertos abaixo, à luz do art. 114, § 12, I da Portaria MF nº 1.634, de 21/12/2023 (Novo RICARF): Preliminarmente, o contribuinte requer a juntada de toda documentação, manifestações, defesas e impugnação feitas pelo contribuinte Jorge Armando Dal Piva no procedimento fiscal que resultou no auto de infração formalizado no processo 10925.722526/2013-07 e que sejam intimados a Cooperativa Agroindustrial Alfa - Cooperalfa, o Sr. Juarez Ceccon, CPF n° 469.264.029-49 e o Sr. Valdecir José Pinheiro para comprovar os fatos alegados. (...) Fl. 707DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.812 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10925.721846/2014-12 8 Da análise dos autos, constata-se que foi oferecida oportunidade ao contribuinte apresentar documentos, inclusive no prazo de 30 dias da impugnação, tendo sido esta apresentada tempestivamente, de sorte que não se verifica a ocorrência de qualquer das citadas hipóteses, pois o contribuinte não demonstrou ter havido motivo de força maior, não foi apresentado nenhum fato ou direito superveniente e nem fatos ou razões posteriormente trazidos aos autos para os quais houvesse a necessidade de apresentar contraposição, de modo que é indeferido o pedido de juntada de eventuais documentos tem tenham sido apresentados no processo que trata da fiscalização efetuada na pessoa do Sr. Jorge Armando Dal Piva, condômino em nome de quem as movimentações bancárias do condomínio rural foram feitas. Pelas mesmas razões cabe indeferir as solicitações de diligência e perícia nas duas pessoas físicas citadas como autoras de empréstimos que justificariam os depósitos bancários e na pessoa jurídica com a qual o condomínio rural possuiria uma espécie de conta corrente que justificaria a diferença entre os créditos bancários recebidos e as notas emitidas, já que o impugnante não demonstrou que tentou obter estas alegadas provas junto a estas pessoas com as quais afirma ter contratado e que não conseguiu por motivos alheios a sua vontade. Dito isto, cabe ressaltar que a exploração da atividade rural em questão era feita juntamente com outros três condôminos rurais em proporções iguais e, portanto, responsáveis cada um deles pela quarta parte do crédito tributário devido. O resultado da atividade rural é produto do referido condomínio e os riscos foram divididos igualmente entre os parceiros. O artigo 2º da Lei nº 8.023/1990 e o artigo 9º da Lei nº 9.250/1995 prevêem que o resultado positivo da atividade rural exercida por pessoas físicas é tributável: Lei nº 8.023/1990: Art. 2º Considera-se atividade rural: I - a agricultura; II - a pecuária; III - a extração e a exploração vegetal e animal; IV - a exploração da apicultura, avicultura, cunicultura, suinocultura, sericicultura, piscicultura e outras culturas animais; V - a transformação de produtos decorrentes da atividade rural, sem que sejam alteradas a composição e as características do produto in natura, feita pelo próprio agricultor ou criador, com equipamentos e utensílios usualmente empregados nas atividades rurais, utilizando exclusivamente matéria-prima produzida na área rural explorada, tais como a pasteurização e o acondicionamento do leite, assim como o mel e o suco de laranja, acondicionados em embalagem de apresentação. Parágrafo único. O disposto neste artigo não se aplica à mera intermediação de animais e de produtos agrícolas. Lei nº 9.250/1995: Art. 9º O resultado da atividade rural, apurado na forma da Lei nº 8.023, de 12 de abril de 1990, com as alterações posteriores, quando positivo, integrará a base de cálculo do imposto definida no artigo anterior. Fl. 708DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.812 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10925.721846/2014-12 9 Por sua vez, o artigo 13 da Lei nº 8.023/1990 normatiza a relação dos arrendatários, condôminos e parceiros com o Fisco à medida que atribui a cada um a responsabilidade pelo recolhimento do Imposto de Renda relativo a parte que lhe couber: Art. 13. Os arrendatários, os condôminos e os parceiros na exploração da atividade rural, comprovada a situação documentalmente, pagarão o imposto de conformidade com o disposto nesta lei, separadamente, na proporção dos rendimentos que couber a cada um. O impugnante afirma que não existe base legal para exigir do contribuinte, pessoa física que explora atividade rural, a manutenção de Livro Caixa. O autuado está equivocado, já que assim determina o artigo 18 da Lei nº 9.250/1995: Art. 18. O resultado da exploração da atividade rural apurado pelas pessoas físicas, a partir do ano-calendário de 1996, será apurado mediante escrituração do Livro Caixa, que deverá abranger as receitas, as despesas de custeio, os investimentos e demais valores que integram a atividade. § 1º O contribuinte deverá comprovar a veracidade das receitas e das despesas escrituradas no Livro Caixa, mediante documentação idônea que identifique o adquirente ou beneficiário, o valor e a data da operação, a qual será mantida em seu poder à disposição da fiscalização, enquanto não ocorrer a decadência ou prescrição. § 2º A falta da escrituração prevista neste artigo implicará arbitramento da base de cálculo à razão de vinte por cento da receita bruta do ano-calendário. § 3º Aos contribuintes que tenham auferido receitas anuais até o valor de R$ 56.000,00 (cinquenta e seis mil reais) faculta-se apurar o resultado da exploração da atividade rural, mediante prova documental, dispensado o registro do Livro Caixa. Como se vê, o resultado da exploração da atividade rural exercida pelas pessoas físicas é apurado mediante escrituração do Livro Caixa, abrangendo as receitas, as despesas de custeio, os investimentos e demais valores que integram a atividade, inclusive eventual dinheiro em caixa como alegado pelo impugnante. O contribuinte deve comprovar a veracidade das receitas e das despesas escrituradas no Livro Caixa mediante documentação idônea que identifique o adquirente ou o beneficiário, o valor e a data da operação. Alega o contribuinte, sem apresentar qualquer prova, que lançou todas as receitas em sua declaração de imposto de renda, mesmo algumas que não estão escrituradas em seu Livro Caixa, e que já houve pagamento de imposto quando do ajuste anual. O contribuinte é responsável pela veracidade das informações na declaração de ajuste anual dos rendimentos tributáveis percebidos no ano-calendário. Deixando de declarar ou declarando a menor, o sujeito passivo incorre na infração caracterizada como omissão de rendimentos. Com efeito, sem apresentar provas que os rendimentos omitidos já foram oferecidos à tributação em sua declaração de rendimentos, não há como prosperar a argumentação do autuado. Ressalte-se que o ônus desta prova é do contribuinte que tem a obrigação legal de manter o Livro Caixa da Atividade Rural completo e em ordem e não da fiscalização. Fl. 709DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.812 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10925.721846/2014-12 10 Em relação aos alegados empréstimos nos valores de R$100.000,00 e R$20.000,00 que comprovariam a origem de créditos bancários considerados não comprovados, há que se ressaltar que a autoridade fiscal nas letras “a” e “b” do item 2.1.2.1.1 do Relatório Fiscal (fls. 21 e 22) explica detalhadamente que estas alegações, que já haviam sido apresentadas durante a fiscalização, não podem ser aceitas, pois estão desacompanhadas de contratos de mútuo ou qualquer outro documento hábil e os alegados mútuos não foram informados no quadro “Dívidas e ônus reais” das Declarações de Ajuste Anual do Sr. Jorge Armando Dal Piva, responsável pela movimentação bancária e financeira do condomínio, nem no quadro “Bens e Direitos” das Declarações de Ajuste Anual das pessoas físicas que teriam concedido referidos empréstimos. É imperativo ainda enfatizar que nos casos de empréstimos existem dois pilares que sustentariam a materialidade do mútuo: o contrato entre as partes e a prova da efetiva transferência do numerário entre o mutuante e o mutuário. Entretanto, o contribuinte em nenhum momento satisfez as duas condições de prova, não sendo possível abraçar a tese exposta na impugnação. Além disso, é curial ressaltar que a informalidade dos negócios entre particulares como os hipotéticos empréstimos entre o contribuinte e ex-cunhado no valor de R$ 100.000,00 e ex-advogado no valor de R$ 20.000,00 diz respeito a garantias mútuas que não são exigidas em razão da confiança entre as partes. Todavia esta informalidade não se aplica à relação fisco-contribuinte que é formal e vinculada à lei. Frise-se que o artigo 123 do Código Tributário Nacional (CTN) dispõe que salvo disposições de lei em contrário, as convenções particulares, relativas à responsabilidade pelo pagamento de tributos, não podem ser opostas à Fazenda Pública, para modificar a definição legal do sujeito passivo das obrigações tributárias correspondentes. Portanto, ainda que o contribuinte tenha feito um acordo para que não houvesse nenhum contrato escrito de mútuo entre as partes ou qualquer outro elemento de prova legal para justificar o mencionado empréstimo, isto não muda o fato de que perante o Fisco caberia ao interessado apresentar provas robustas da materialidade da transação, o que não ocorreu. Quanto às alegações de que a fiscalização foi rigorosa demais ao exigir a comprovação de depósitos bancários de R$1.000,00 ou R$3.000,00 numa movimentação bancária que ultrapassou dois milhões de reais, que é impossível lembrar da origem de cada crédito bancário e que os demais créditos já foram devidamente explicados, cabe observar o que dispõe o artigo 42 da Lei nº 9.430/1996: Art. 42. Caracterizam-se também omissão de receita ou de rendimento os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. § 1º O valor das receitas ou dos rendimentos omitido será considerado auferido ou recebido no mês do crédito efetuado pela instituição financeira. § 2º Os valores cuja origem houver sido comprovada, que não houverem sido computados na base de cálculo dos impostos e contribuições a que estiverem Fl. 710DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.812 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10925.721846/2014-12 11 sujeitos, submeter-se-ão às normas de tributação específicas, previstas na legislação vigente à época em que auferidos ou recebidos. § 3º Para efeito de determinação da receita omitida, os créditos serão analisados individualizadamente, observado que não serão considerados: I - os decorrentes de transferências de outras contas da própria pessoa física ou jurídica; II - no caso de pessoa física, sem prejuízo do disposto no inciso anterior, os de valor individual igual ou inferior a R$ 1.000,00 (mil reais), desde que o seu somatório, dentro do ano-calendário, não ultrapasse o valor de R$ 12.000,00 (doze mil reais). § 4º Tratando-se de pessoa física, os rendimentos omitidos serão tributados no mês em que considerados recebidos, com base na tabela progressiva vigente à época em que tenha sido efetuado o crédito pela instituição financeira. § 5º Quando provado que os valores creditados na conta de depósito ou de investimento pertencem a terceiro, evidenciando interposição de pessoa, a determinação dos rendimentos ou receitas será efetuada em relação ao terceiro, na condição de efetivo titular da conta de depósito ou de investimento. § 6º Na hipótese de contas de depósito ou de investimento mantidas em conjunto, cuja declaração de rendimentos ou de informações dos titulares tenham sido apresentadas em separado, e não havendo comprovação da origem dos recursos nos termos deste artigo, o valor dos rendimentos ou receitas será imputado a cada titular mediante divisão entre o total dos rendimentos ou receitas pela quantidade de titulares. Como se vê, a lei não dispensa o contribuinte de comprovar a origem de depósitos bancários recebidos anos atrás ou que sejam de valores pequenos, exceto se menores de R$ 1.000,01 e cujo valor total anual não ultrapasse R$ 12.000,00, hipótese que não ocorre no presente caso. Diante destas normas e do fato de o contribuinte ter sido regularmente intimado a comprovar a origem dos créditos bancários, conforme relatado, mas não o ter feito com documentação comprobatória hábil e idônea, inclusive agora na impugnação, cabe a manutenção desta parcela do lançamento. No tocante à alegada diferença entre o valor da nota fiscal de venda de produtos do contribuinte e os depósitos feitos pela Cooperalfa, cabe ressaltar que a fiscalização no item 2.1.2.1.3 do Relatório Fiscal (fls. 23 e 24) registra que a alegação do contribuinte, no sentido de que não há o que se falar em renda no que concerne à diferença entre o valor da nota fiscal de venda de produtos do contribuinte e os depósitos feitos pela Cooperalfa, não pode ser aceita, já que não foi apresentado nenhum documento emitido pela Cooperalfa que fundamentasse e detalhasse esta afirmação de defesa. Assim, este suposto acerto de contas, confrontando-se os débitos e créditos entre contribuinte e Cooperalfa, não pode ser considerado pela mesma razão expendida quando da análise dos tópicos anteriores deste acórdão, ou seja, requisitado ao autuado que identificasse as origens de vários créditos efetuados na conta corrente do condomínio junto ao SICOOB Maxicrédito, o mesmo não apresentou provas convincentes que comprovassem a existência da prática entre cooperativa e contribuinte de débito e crédito no momento do depósito quanto à venda de produtos deste. Se essas provas Fl. 711DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.812 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10925.721846/2014-12 12 existem, o autuado teria a obrigação legal de tê-las e apresentá-las na fase inquisitória. Por qual razão o próprio autuado não o fez na fase inquisitória? Solicitar na fase impugnatória que se intime a SICOOB Maxicrédito para comprovar tais fatos, tem caráter meramente protelatório. (...) Não havendo tais provas, mister declarar a improcedência da impugnação também nesse aspecto. Portanto, restando constatada a omissão de rendimentos decorrentes da exploração de propriedade rural do condomínio, no percentual de 25%, relativa a parte que lhe coube, e à mingua de comprovação das receitas oriundas da aludida atividade, por documentação hábil e idônea, aliado à mingua de suporte probatório contundente a demonstrar a incorreção da autuação, conforme aliás bem fundamentado na decisão recorrida, correta é manutenção do lançamento, razão pela qual reconheço a subsistência do crédito tributário exigido. Vale relembrar, por oportuno, que a autuação rege-se por expressa determinação legal, sendo portanto, a atividade fiscal, vinculada e obrigatória, nos termos do art. 142 do CTN, competindo ao Fisco revisar a declaração de ajuste anual, calcular a exigência e constituir o crédito tributário, sob pena de responsabilidade funcional. No que tange ao pedido de dilação probatória, com especial destaque para realização das diligências solicitadas, não vislumbro a necessidade de sua realização, visto que o presente processo se encontra suficientemente instruído e é contundente a demonstrar a sujeição passiva em relação às matérias autuadas. Ademais, no processo fiscal a produção probatória somente se justifica se necessária à formação de convicção do julgador (art. 18 do Decreto nº 70.235/72), o que se torna despiciendo no presente feito. Por fim, quanto ao pedido de suspensão da cobrança do crédito tributário em litígio, cabe salientar que, durante o curso processual, o crédito tributário ficará com a exigibilidade suspensa, na exata dicção do art. 151, III do CTN, sendo despiciendo o pedido formulado nesse sentido, sobretudo levando-se em conta que a suspensão requerida já foi aplicada por força de lei. Conclusão Ante o exposto, voto por NEGAR PROVIMENTO ao presente recurso, para manter a autuação remanescente. É como voto. (documento assinado digitalmente) Wilderson Botto Fl. 712DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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10940226 #
Numero do processo: 11040.721163/2011-31
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu May 22 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Mon Jun 09 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2007, 2008, 2009 APLICAÇÃO DO ART. 114, §12, I DO REGIMENTO INTERNO DO CARF. FACULDADE DO JULGADOR. Plenamente cabível a aplicação do respectivo dispositivo regimental uma vez que a Recorrente não inova nas suas razões já apresentadas em sede de impugnação, as quais foram claramente analisadas pela decisão recorrida. OMISSÃO DE RECEITA. DEPÓSITO BANCÁRIO. PRESUNÇÃO LEGAL. A Lei n.º 9.430/1996 autoriza a presunção de omissão de receitas a partir da existência de créditos em instituições financeiras cuja origem não seja devidamente comprovada pelo contribuinte regularmente intimado para tal. OMISSÃO DE RECEITA. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. ORIGEM DOS RECURSOS. NÃO COMPROVAÇÃO. Caracterizam-se como omissão de receita os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida em instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. Recurso conhecido e improvido. Assunto: Outros Tributos ou Contribuições Ano-calendário: 2007, 2008, 2009 TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL. PIS. COFINS. Tratando-se da mesma matéria de fato e de direito relativa ao lançamento do IRPJ, devem ser aplicados ao lançamento reflexos os mesmos fundamentos e razões de decidir quanto ao lançamento principal, em razão da relação de causa e efeito que os vincula. Recurso conhecido e improvido.
Numero da decisão: 1401-007.433
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Sala de Sessões, em 22 de maio de 2025. Assinado Digitalmente Andressa Paula Senna Lísias – Relatora Assinado Digitalmente Luiz Augusto de Souza Goncalves – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Conselheiros Cláudio de Andrade Camerano, Daniel Ribeiro Silva, Fernando Augusto Carvalho de Souza, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Andressa Paula Senna Lísias e Luiz Augusto de Souza Goncalves (Presidente).
Nome do relator: ANDRESSA PAULA SENNA LISIAS

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FACULDADE DO JULGADOR. Plenamente cabível a aplicação do respectivo dispositivo regimental uma vez que a Recorrente não inova nas suas razões já apresentadas em sede de impugnação, as quais foram claramente analisadas pela decisão recorrida. OMISSÃO DE RECEITA. DEPÓSITO BANCÁRIO. PRESUNÇÃO LEGAL. A Lei n.º 9.430/1996 autoriza a presunção de omissão de receitas a partir da existência de créditos em instituições financeiras cuja origem não seja devidamente comprovada pelo contribuinte regularmente intimado para tal. OMISSÃO DE RECEITA. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. ORIGEM DOS RECURSOS. NÃO COMPROVAÇÃO. Caracterizam-se como omissão de receita os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida em instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. Recurso conhecido e improvido. Assunto: Outros Tributos ou Contribuições Ano-calendário: 2007, 2008, 2009 TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL. PIS. COFINS. Tratando-se da mesma matéria de fato e de direito relativa ao lançamento do IRPJ, devem ser aplicados ao lançamento reflexos os mesmos Fl. 944DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.433 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11040.721163/2011-31 2 fundamentos e razões de decidir quanto ao lançamento principal, em razão da relação de causa e efeito que os vincula. Recurso conhecido e improvido. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Sala de Sessões, em 22 de maio de 2025. Assinado Digitalmente Andressa Paula Senna Lísias – Relatora Assinado Digitalmente Luiz Augusto de Souza Goncalves – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Conselheiros Cláudio de Andrade Camerano, Daniel Ribeiro Silva, Fernando Augusto Carvalho de Souza, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Andressa Paula Senna Lísias e Luiz Augusto de Souza Goncalves (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de autos de infração de IRPJ, e reflexos de CSLL, PIS, COFINS, relativamente aos anos-calendário de 2007, 2008, 2009, com imposição de multa de ofício de 75% lavrado contra o sujeito passivo, ora Recorrente, para a exigência dos tributos devidos, por entender a D. Fiscalização que teria havido omissão de receita operacional caracterizada pela identificação de (i) depósitos bancários cuja origem não foi comprovada; (ii) revenda de mercadorias omitidas. O Relatório Fiscal, colacionado às e-fls. 49 e seguintes, assim contextualiza as acusações contra o contribuinte: Fl. 945DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.433 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11040.721163/2011-31 3 “DESCRIÇÃO DOS FATOS DA INTIMAÇÃO 1 - INTIMAÇÃO FISCAL Demos início ao procedimento fiscal no contribuinte intimando-o, com a expedição do Termo de Início do Procedimento Fiscal, do qual tomou ciência em 14/01/2011, a apresentar, no prazo de cinco (5) dias úteis, os extratos bancários de toda a sua movimentação financeira efetuada junto às instituições financeiras, contrato social e alterações, livros fiscais, livros contábeis e comprovantes de vendas anuais efetuadas através de cartão de credito. Em face de solicitação efetuada, o contribuinte solicitou prorrogação em 18/01/2011, tendo sido atendido e prorrogado o prazo para apresentação de todos os documentos até 11/03/2011 (60 dias da intimação inicial). Em resposta, a fiscalizada apresentou em 08/02/2011 o livro registro de entradas e saídas, o livro de apuração do ICMS, o contrato social e alterações e extratos bancários. Destacamos que em diligência realizada 01/09/2010, havíamos solicitado Livros fiscais e Livros contábeis do ano calendário de 2007, e caso a empresa não mantivesse a escrituração contábil para o registro de suas operações, deveria apresentar o Livro Caixa contendo toda a movimentação financeira, inclusive bancária. Em resposta, apresentou Livro Registro do ICMS, Livros de Saídas e Entradas, Livro Registro de Apuração do ICMS e Livro Registro EPP. Informou que em face da impossibilidade de confecção do Livro Caixa, deixou de apresentá-lo. 2 – DO ARBITRAMENTO DO LUCRO TRIBUTÁVEL Verificamos através do sistema da Secretaria do Receita Federal, que a Agropewi Comércio de produtos Agrícolas optou pela tributação com base nas regras dispostas para o lucro presumido nos anos-calendário integrante da presente fiscalização. Posto isto, e, considerando-se as observações constantes item 1, concernentes às obrigações acessórias a serem observadas pelas empresas optantes pela tributação com base no lucro presumido, no tocante à manutenção de Livro- Caixa, observando-se ainda, a resposta explícita do contribuinte no sentido da não apresentação do Livro-Caixa, concluímos pela necessidade do arbitramento de seu lucro tributável, conforme determina o art.530, inciso III, combinado com o art.527, parágrafo único do regulamento do imposto de renda, aprovado pelo decreto nº 3000 de 26/03/99. 3 – DA SOLICITAÇÃO DE COMPROVAÇÃO DA ORIGEM DOS RECURSOS DEPOSITADOS . Os extratos bancários retidos, e que revelam expressiva movimentação financeira da fiscalizada, não escriturada nem contabilizada, originaram a lavratura do Termo de Intimação datado de 14/06/2011, sendo solicitada a comprovação, mediante a apresentação de documentação hábil e idônea e Fl. 946DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.433 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11040.721163/2011-31 4 coincidente em datas e valores, da origem dos recursos utilizados em cada uma das operações de crédito/depósito em conta bancária de titularidade da empresa, conforme discriminação contida na planilha encaminhada em anexo. Salientamos à fiscalizada, que visando facilitar a comprovação solicitada, foram considerados apenas os créditos de valor igual ou superior a R$ 1.000,00(mil reais). Para possibilitar o atendimento foi disponibilizada à empresa, no momento da ciência do termo, cópia dos extratos bancários das contas mantidas junto ao Banco do Brasil, Banrisul, Santander e Banco Sicredi. 4 – DA CARTA –RESPOSTA FIRMADA EM 05/07/2011 E 27/07/2011 Em atendimento, a fiscalizada encaminhou a Carta-Resposta, alegando que o depósito do dia 30/03/2007, no valor de R$ 6.500,00 refere-se a contratação de empréstimos, afirmação que foi aceita pela fiscalização tendo em vista o histórico que consta no próprio extrato da conta. A empresa alega também que o depósito apresentado nas planilhas com base nos extratos trata-se de captação de recursos junto ao banco, utilizando nomes de terceiros. Não houve apresentação de documentos afirmando que os recursos não pertencem à empresa fiscalizada. Os documentos para justificativa apresentados confirmam que na verdade os depósitos são cobranças efetuadas pelo banco, de clientes da empresa Agropewi, que são depositados diretamente na conta corrente da própria empresa Agropewi. Deste modo as justificativas ratificam o entendimento que os depósitos representam pagamentos de clientes a empresa fiscalizada, caracterizando recursos não declarados. A empresa justificou os depósitos “Doc Créd”, “depósitos” e “Visanet” como sendo de intermediações de negocio com a empresa Bunge fertilizantes S/A, contudo a empresa mais uma vez não apresentou os documentos da referida operação. Em relação às operações com o Cartão Visanet, novamente a empresa alega captação de terceiros com envolvimento de “terceiros conhecidos da empresa”. Em vários momentos a empresa alega “emissão de títulos em nome de pessoas conhecidas”. Em outro momento, a empresa argumenta também serem depósitos de “valores originários do desconto de cheques emprestados de pessoas conhecidas, sem a devida venda de produtos”, sem apresentar documentação. Por último a empresa afirma não poder justificar todos os depósitos devido a dificuldades de cunho financeiro, “enchente” natural ocorrida na cidade e também o pouco tempo para responder as intimações. Tendo em vista a total falta de comprovação dos depósitos, efetuamos o procedimento de lançamentos conforme relatado abaixo. 5 - DAS IRREGULARIDADES CONSTATADAS Fl. 947DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.433 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11040.721163/2011-31 5 Após procedermos ao trabalho de auditoria fiscal na documentação apresentada, relatamos o seguinte: nos sistemas informatizados da RFB é possível verificar que a fiscalizada apresentou para os anos-calendário 2007, 2008 e 2009 DIPJ (Declaração de Informações Econômicas –Fiscais da Pessoa Jurídica), sendo que a fiscalizada efetuou os recolhimentos a menor, pois utilizou as alíquotas do lucro presumido e não do lucro arbitrado. Além disto, a fiscalizada não justificou de maneira inequívoca as origens dos créditos constantes nos extratos bancários das contas correntes mantidas junto ao Banco Sicredi, Banco Santander, Banco do Brasil, com exceção dos empréstimos junto ao Banrisul devidamente excluído pela fiscalização. Lembrando que o lucro arbitrado é forma excepcional de apuração da base de cálculo do Imposto de Renda das pessoas jurídicas, alternativa ao lucro real ou ao lucro presumido. O arbitramento será utilizado em virtude da empresa não possuir escrituração na forma das leis comerciais e fiscais. Assim o arbitramento do lucro decorre de expressa previsão legal, consoante a qual a autoridade tributária, impossibilitada de aferir a exatidão do lucro declarado em virtude da nãoapresentação – total ou parcial - de livros e documentos pela pessoa jurídica regularmente intimada, está legitimada a adotá- lo como meio de apuração da base de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal.” O sujeito passivo, ora Recorrente, apresentou impugnação em face dos lançamentos. Peço licença para valer-me do sumário das alegações feito pela DRJ: “Da Impugnação Em 26/10/2011, portanto, tempestivamente, a empresa apresentou impugnação ao lançamento fiscal, às fls. 550/564, alegando em síntese que: - Há uma série de valores que transitaram na conta da impugnante e que não se constituem em receita, não devendo ser objeto de tributação. Tais quantias têm origem em três situações distintas: - 1º ) Transferências bancárias entre contas de mesma titularidade, da própria impugnante: a) Duas operações de transferência bancária (TED), cada uma no valor de RS 45.000,00, que ingressaram na conta da Impugnante junto ao Banco Sicredi Zona Sul, nos dias 17/07 e 20/07. Confrontando-se os extratos da movimentação bancária da Impugnante constata-se que estes valores são provenientes de uma transferência bancária entre contas correntes do mesmo titular. Analisando-se o extrato bancário da conta da impugnante, junto ao Banco do Brasil, cujo extrato segue em anexo, observa-se que estes valores foram transferidos da conta deste Fl. 948DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.433 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11040.721163/2011-31 6 banco para a conta SICREDI em duas operações, uma no dia 17/07 no valor de R$ 45.000,00 e outra no dia 20/07, também no valor de R$ 45.000,00. b) Uma transferência bancária, no valor de R$ 1.000,00, creditada na conta de titularidade da Impugnada junto ao banco Santander no dia 25.01.2007. Confrontando-se os extratos da movimentação bancária da Impugnante constata- se que estes valores são provenientes de uma transferência bancária entre contas correntes do mesmo titular. Basta verificar que na mesma data esse valor foi transferido da conta existente junto ao Banco do Brasil. c) Uma transferência bancária, no valor de R$ 1.000,00, creditada na conta de titularidade da Impugnada junto ao banco Santander no dia 26.07.2007. Confrontando-se os extratos da movimentação bancária da Impugnante constata- se que estes valores são provenientes de uma transferência bancária entre contas correntes do mesmo titular. Basta verificar que na mesma data esse valor foi transferido da conta existente junto ao Banco do Brasil. d) O valor de R$ 8.000,00, registrado no relatório dos Senhores Auditores fiscais como um crédito com histórico TEDDEVOL, no dia 02.10.2009. Verificando o extrato bancário da conta Banco do Brasil, constata-se que tal valor corresponde a uma transferência bancária que não se efetivou. Houve o registro a débito da Impugnante quando da realização da transferência e, em virtude, da sua devolução, o novo registro a crédito. - 2º ) Recursos pertencentes a Bunge Fertilizantes S.A. A Impugnante foi representante comercial da empresa Bunge Fertilizantes S.A. até 23.12.2010 ( vide distrato em anexo). Como é da natureza jurídica desta atividade, inclusive por disposição da lei n° 4.886/65, a Impugnante intermediava a venda de produtos da empresa mediante comissão. Os valores pagos pelos clientes eram depositados na conta bancária da Impugnante. Posteriormente, eram transferidos para a empresa Bunge Fertilizantes. Paralelamente, a Impugnante recebia uma comissão pela venda. Em que pese a Impugnante não ter mantido em seu poder todos os comprovantes de depósitos à Bunge, efetuados com recursos de sua conta bancária, seguintes depósitos podem ser comprovados conforme documentos em anexo: Fl. 949DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.433 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11040.721163/2011-31 7 As parcelas transferidas à Bungue Fertilizantes ingressaram na conta bancária da Impugnante como pagamento de mercadorias negociadas pela Agropewi, na qualidade de representante comercial da Bungue. No entanto, estes recursos não pertenciam à impugnante, não se caracterizando como receitas auferidas pela mesma, devendo ser excluídos do montante que constitui a base de cálculo da autuação. - 3º ) Antecipações mediante cheques de terceiros descontados antecipadamente em operações bancárias e adimplidos pela impugnante mediante depósito na conta do emitente na data de vencimento do cheque. Necessitando de capital de giro, a Impugnante recorria a terceiros que lhe emprestavam cheques para desconto em data futura, cheques "pré-datados". Estes títulos eram descontados antecipadamente pela agência bancária, mediante o pagamento de juros. Na data aprazada para o desconto do cheque, a Impugnante depositava na conta bancária do titular do cheque a quantia correspondente ao seu valor. Aduz que essa operação pode ser comprovada mediante o extrato de movimentações bancárias, junto ao Banco do Brasil, em cotejo com os relatórios de cheques descontados fornecido pelo mesmo banco. Assim, por exemplo: Na relação dos Auditores-fiscais consta, para o dia 24.01.2007, um depósito no valor de R$ 6.565,04, tendo como histórico a expressão "cheque". No entanto, ao se examinar os relatórios de desconto de cheques fornecidos pelo Banco do Brasil (anexo 3), para essa data consta o desconto de dois cheques, um no valor de R$ Fl. 950DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.433 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11040.721163/2011-31 8 3.000,00 e outro no valor de R$ 4.100,00. O juro bancário cobrado pelo desconto antecipado foi de R$ 510,62 e o IOF pela operação foi de R$ 24,34. Logo, em 24.01.2007, a Impugnante teve depositado em seu favor a quantia de RS 6.565,04, conforme consta em extrato bancário e na relação dos senhores agentes fiscais. Ao se examinar o anexo 3, constata-se que os cheques foram descontados no dia 20 e 24.04.2007. Em cotejo com extrato de movimentações bancárias da Impugnante, observa-se que nesta data fora feitos saques de R$ 3.000,00 e R$ 4.100,00, valores que correspondem ao exato valor de face dos cheques emprestados e que foram depositados na conta dos titulares para permitir a correspondente compensação. - O próximo valor mencionado na relação dos Auditores Fiscais é de R$ 4.154,34, com mesmo histórico "cheque", que ingressou na conta da Impugnante em 07/02. Ao se examinar os relatórios de desconto de cheques fornecidos pelo Banco do Brasil (anexo 3), constata-se que para essa data houve uma operação de desconto de um cheque no valor de R$ 4.500,00, que depois de descontados os juros e o IOF sobre a operação, resultaram em R$ 4.154,34. Segundo o mesmo relatório, o cheque foi descontado em 10.05.2007. Novamente, analisando o extrato de movimentações bancárias, observa-se que em 10.05.2007 foi emitido um DOC bancário no valor de R$ 4.500,00 para permitir a respectiva compensação do cheque na conta do seu titular. - Apresenta uma tabela intitulada “Demonstrativo de Depósitos a Justificar” às fls. 557/561, contendo “data”, “histórico”, “lote” e “valor”, na qual aduz tratarem-se de operação semelhante as descritas. Do direito – Discorre sobre o princípio da legalidade estrita, mencionando os arts. 3° e 142 do CTN. Alega que, como ato administrativo que é, o lançamento reveste-se de presunção de liquidez e certeza, tratando-se de presunção relativa ou "iures tantum". Por se tratar de presunção relativa, a lei exige que o ato administrativo seja bem fundamentado para que o contribuinte saiba os fatos que lhe estão sendo imputados e para que tenha a efetiva possibilidade de defender-se se assim desejar. - Se o auto de infração não alberga de modo expresso, suficiente e claro os fundamentos em que a administração Fazendária se apoiou ao lavrá-lo, inexiste a possibilidade real de defesa por parte do contribuinte, violando o principio da legalidade. Além do mais, referido auto deve sustentar-se em dados, documentos e provas idôneos de modo a permitir que o contribuinte exercite plenamente o acesso ao contraditório e, com ele, ao devido processo legal. - Constatada a existência de erros, era dever do agente fiscal depurá-los para só então concluir pela existência de fatos que levam a presunção de omissão de receitas. Cita jurisprudência administrativa. Fl. 951DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.433 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11040.721163/2011-31 9 - A presunção de omissão de receita baseada em depósitos bancários não comprovados têm a finalidade de inverter o ônus da prova. Porém, isto não significa que os agentes da fazenda pública estão dispensados da análise individualizada dos depósitos. Ora, no caso da presente autuação, não obstante o contribuinte tenha sido intimado para esclarecer a origem dos valores glosados, muitas das quantias registradas em sua conta bancária não lhe pertenciam. E isto é perfeitamente constatável pelo simples exame dos documentos bancários gerados pela própria instituição financeira. - Assim, o Auto de Infração deve ser reformado, excluindo-se da base de calculo para a apuração do IRPJ, CSLL, PIS e COFINS, os valores que não constituem receita da empresa, conforme demonstram os documentos em anexo.” (destaques desta Relatora) Em primeira instância, foi proferido o acórdão n. 14-88.476 pela C. 3ª Turma da DRJ/RPO, julgando parcialmente procedente a impugnação apresentada: “ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA - IRPJ Ano-calendário: 2007, 2008, 2009 DEPÓSITO BANCÁRIO. OMISSÃO DE RECEITA. Evidencia omissão de receita a existência de valores creditados em conta de depósito mantida em instituição financeira, em relação aos quais a contribuinte, regularmente intimada, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. PRESUNÇÃO LEGAL. ÔNUS DA PROVA. A presunção legal tem o condão de inverter o ônus da prova, transferindoo para o contribuinte, que pode refutá-la mediante oferta de provas hábeis e idôneas. TRANSFERÊNCIAS. CONTAS DE MESMA TITULARIDADE. Não se considera como omissão de receitas a transferência de valores entre contas bancárias de mesma titularidade. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Ano-calendário: 2007, 2008, 2009 TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL. PIS. COFINS. Aplica-se à tributação reflexa idêntica solução dada ao lançamento principal em face da estreita relação de causa e efeito. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte” Fl. 952DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.433 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11040.721163/2011-31 10 A DRJ, em síntese: - determinou a exclusão na base tributável dos valores comprovadamente decorrentes de transferências entre contas de mesma titularidade; - em relação aos valores que supostamente pertenceriam à empresa Bunge Fertilizantes S.A, entendeu a DRJ que não foram juntados documentos hábeis e idôneos a comprovar que de fato os créditos que entraram na conta corrente da Autuada pertenciam à empresa Bunge, não sendo carreado aos autos o contrato de representação comercial, as notas fiscais de venda de mercadorias, os respectivos comprovantes de recebimento dos valores dos produtos vendidos e o repasse dos mesmos à Bunge; - quanto à antecipação de cheques pré-datados, entendeu a DRJ que a autuada anexou em sua peça de defesa somente os extratos bancários sem nenhum apontamento mais específico, e relatórios do banco de cheques descontados, não anexando demais elementos que pudessem comprovar de forma inequívoca que se tratava de empréstimos de terceiros mediante cheques, como por exemplo, a cópia dos cheques e comprovantes dos valores devolvidos ao emitente. Sem tais provas, entendeu-se que não há como acatar tais alegações. Não houve a interposição de ofício, tendo a parte exonerada do crédito tributário se tornado definitiva. No próprio acórdão, constou expressamente: “Decisão dispensada de Recurso de Ofício.” Ato seguinte, foi interposto Recurso Voluntário pelo Recorrente reiterando os argumentos da defesa, além de ter acrescentado uma preliminar de nulidade do lançamento. Nenhum documento adicional foi trazido para complementar o conjunto probatório produzido. Por fim, os autos vieram a esta Conselheira Relatora. Não foram apresentadas Contrarrazões pela PFN. É o relatório do essencial. VOTO Conselheira Andressa Paula Senna Lísias, Relatora. O Recurso Voluntário é tempestivo, e atende aos requisitos de admissibilidade previstos no Decreto nº 70.235/72. Fl. 953DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.433 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11040.721163/2011-31 11 Primeiramente, quanto à nulidade do auto de infração, entende o Recorrente que, em se tratando de omissão de receitas em face de depósitos de origem não identificada, caberia à D. Autoridade realizar a análise individualizada de cada um dos depósitos identificados na conta, e não ao contribuinte. E assim teria havido violação ao art. 142 do CTN. No entanto, a presunção fiscal adotada pela Fiscalização foi prevista pelo art. 42 da Lei nº 9.430/96, tendo-se a D. Autoridade agido procedimentalmente de acordo com tal norma, dentro da legalidade que rege a atividade administrativa fazendária, não havendo, portanto, qualquer violação às condições de validade e existência do lançamento nos termos do art. 142 do CTN. Ademais, entendo que a matéria alegada se confunde com a análise de mérito e esse exame individualizado das situações que envolvem os depósitos será feito a seguir na segunda parte do voto, verificando-se se o contribuinte logrou êxito em ilidir a presunção fiscal de omissão de receitas tributáveis. Assim, rejeito a preliminar quanto à nulidade do lançamento alegada pelo Recorrente. Passo a analisar as outras razões recursais. Prosseguindo na análise, observo que o recurso interposto se cinge a reproduzir e repisar literalmente o que já havia sido aduzido na defesa, sem nada acrescentar. Em relação aos fundamentos em discussão, a decisão da DRJ tangenciou vários aspectos fático-probatórios, apontando de forma muito clara as deficiências do conjunto de evidências produzido pelo contribuinte no que diz respeito às discussões (i) quanto à representação comercial com a Bunge Fertilizantes e (ii) quanto aos cheques pré-datados que eram descontados antecipadamente com terceiros. Esperava-se que, com a decisão de primeira instância, pudesse haver alguma evolução na construção das provas, mas o contribuinte simplesmente repetiu o que já havia apresentado no processo, inclusive assumindo ele mesmo, ainda que com sutileza, a precariedade dos documentos anexados que, além de incompletos e escassos, chegam também a ser ilegíveis. No mais, é possível que o contribuinte estivesse correto no que alegou. Por exemplo, a prática comercial relatada pelo contribuinte quanto à antecipação dos cheques pré- datados é factível e poderia ser uma prática comercial há alguns anos atrás, quando o cheque ainda era um meio de pagamento mais usado do que o cartão de crédito. Contudo, para demonstrar a incidência dessa prática no caso concreto, deveria haver, no mínimo, a cópia de todos os cheques e os respectivos comprovantes dos valores devolvidos aos terceiros nos exercícios de 2007, 2008 e 2009. E, por sinal, não eram provas impossíveis de se produzir. Se a empresa conseguiu uma relação dos cheques, era possível ter diligenciado, desde a ciência da autuação em 2011, perante as instituições financeiras e ter obtido as microfilmagens dos cheques e as provas dos valores que foram devolvidos, o que foi pago a título de juros etc. Fl. 954DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.433 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11040.721163/2011-31 12 Da mesma forma em relação à representação comercial contratada pela Bunge. Nem mesmo foi juntado o contrato que prova essa relação jurídica contratual, o que é o básico elementar. Ademais, se os valores apenas transitavam pela conta da Agropewi e no fundo eram de titularidade da Bunge, era realmente imperioso trazer à tona as notas fiscais de venda das mercadorias, além dos comprovantes demonstrando o tráfego, o fluxo bancário desses montantes. Ou seja, conectar a NF de venda, com a entrada bancária do numerário na Agropewi e, por fim, o envio do numerário à Bunge, demonstrando o desconto das comissões de representação comercial. Mas nada disso seu deu no contexto probatório em questão. Em resumo, só argumentos não bastam para demonstrar a materialidade do direito. O contribuinte pecou ao menosprezar seu dever se apresentar toda a documentação hábil e idônea que corroboraria o direito por ele sustentado. A legislação do imposto de renda autoriza ao fisco presumir a omissão de receitas diante da existência de depósitos bancários sem comprovação de origem, como prevê o art. 42 da Lei nº 9.430/96: “Art. 42. Caracterizam-se também omissão de receita ou de rendimento os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. § 1º O valor das receitas ou dos rendimentos omitido será considerado auferido ou recebido no mês do crédito efetuado pela instituição financeira. § 2º Os valores cuja origem houver sido comprovada, que não houverem sido computados na base de cálculo dos impostos e contribuições a que estiverem sujeitos, submeter-se-ão às normas de tributação específicas, previstas na legislação vigente à época em que auferidos ou recebidos. § 3º Para efeito de determinação da receita omitida, os créditos serão analisados individualizadamente, observado que não serão considerados: I – os decorrentes de transferências de outras contas da própria pessoa física ou jurídica; (...)” Ante essa premissa, para ilidir a presunção fiscal, que é relativa e não absoluta, o contribuinte deve se esforçar para trazer aos autos as justificativas e provas cabais quanto à origem e a natureza dos valores de lançamentos a crédito/depósitos em conta bancária. No entanto, isso só aconteceu em algumas situações neste presente caso e a DRJ corretamente já excluiu e expurgou os valores comprovadamente indevidos. Nestes termos, cumpre ressaltar a faculdade garantida ao julgador pelo inc. I, § 12º do Art. 114 do novo Regimento Interno do CARF (aprovado pela Portaria n. 1.634 de 21 de dezembro de 2023): Fl. 955DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.433 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11040.721163/2011-31 13 “Art. 114. As decisões dos colegiados, em forma de acórdão ou resolução, serão assinadas pelo presidente, pelo relator, pelo redator designado ou por conselheiro que fizer declaração de voto, devendo constar, ainda, o nome dos conselheiros presentes, ausentes e impedidos ou sob suspeição, especificando-se, se houver, os conselheiros vencidos, a matéria em que o relator restou vencido e o voto vencedor. § 1º O relator deverá formalizar o acórdão no prazo de quinze dias, contado da movimentação dos autos para essa atividade. (...) §12. A fundamentação da decisão pode ser atendida mediante: I - declaração de concordância com os fundamentos da decisão recorrida; e II - referência a súmula do CARF, devendo identificar seu número e os fundamentos determinantes e demonstrar que o caso sob julgamento a eles se ajusta.” Da análise do presente processo, entendo ser plenamente cabível a aplicação do respectivo dispositivo regimental uma vez que não inova nas suas razões já apresentadas em sede de Impugnação, as quais foram claramente analisadas pela decisão recorrida. Assim, desde já proponho a manutenção da decisão recorrida pelos seus próprios fundamentos em relação às matérias ora controversas, considerando-se como se aqui transcrito integralmente o voto da decisão recorrida: “A infração apurada decorre de omissão de receita, caracterizada por valores creditados em contas de depósito mantidas junto à instituições financeira, em relação aos quais a titular, regularmente intimada, não comprovou, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações, tampouco justificou a ausência de escrituração dos mesmos. Temos, assim, que a apuração baseou-se na Lei nº 9.430, de 1996, art. 42, que estabelece: Art. 42. Caracterizam-se também omissão de receita ou de rendimento os valores creditados em conta de depósito ou investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. Em que pese a argumentação contrária da Impugnante, trata-se de uma presunção legal de que os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, não comprovados com documentação hábil e idônea, constituem receita omitida. Em relação às presunções de omissão de receita, destaca-se que essas são classificadas pela doutrina como espécies de provas indiretas. A doutrina do Direito Tributário identifica duas espécies distintas: as legais e as simples Fl. 956DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.433 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11040.721163/2011-31 14 (comuns). As presunções legais se subdividem em absolutas (juris et de jure) e relativas (juris tantum). As presunções absolutas não admitem prova em contrário ao fato presumido, já as relativas admitem prova contrária, reputando-se verdadeiro o fato presumido até que a parte interessada prove o contrário. As presunções legais relativas provocam a chamada “inversão do ônus da prova”, cabendo ao contribuinte provar que o Fisco está equivocado. A falta de adequada comprovação impede o acolhimento do pleito, este é o entendimento expresso pelo novo Código de Processo Civil (Lei 13.105/2015, art. 373, II). A comprovação da origem dos valores depositados em conta-corrente bancária deve ser clara e detalhada, coincidente em origens, datas e valores. Deve ficar claro que o numerário teve origem em valores já tributados pela empresa ou em valores não tributáveis ou tributáveis exclusivamente na fonte. Assim, passa-se a análise dos fatos e documentos trazidos aos autos pela impugnante: I) “Transferências bancárias entre contas da própria impugnante”: [...] II) “Recursos pertencentes a Bunge Fertilizantes S.A.” A empresa aduz que foi representante comercial da Bunge Fertilizantes S.A. até 23.12.2010, intermediando a venda de produtos dessa empresa mediante comissão. Os valores pagos pelos clientes eram depositados na conta bancária da Impugnante e, posteriormente, transferidos para a Bunge. No entanto, a impugnante apenas apresenta em sua peça impugnatória uma planilha denominada “Valores repassados para Terceiros”, anexando aos autos somente um Distrato do Contrato de Representação Comercial com a empresa Bunge, datado de 23/12/2010, às fls. 741, e alguns comprovantes de depósitos tendo como cliente a empresa Bunge, às fls. 742/751, nos quais não é possível identificar o depositante. Portanto, não foram juntados documentos hábeis e idôneos a comprovar que de fato os créditos que entraram na conta corrente da Autuada pertenciam à empresa Bunge, não sendo carreado aos autos o contrato de representação comercial, as notas fiscais de venda de mercadorias, os respectivos comprovantes de recebimento dos valores dos produtos vendidos e o repasse dos mesmos à Bunge. III) “Antecipações mediante cheques de terceiros e adimplidos pela impugnante mediante depósito na conta do emitente” A impugnante alega que, necessitando de capital de giro, recorria a terceiros que lhe emprestavam cheques para desconto em data futura e esses títulos eram descontados antecipadamente pela agência bancária, mediante o pagamento de juros. Na data aprazada para o desconto do cheque, depositava na conta bancária do emitente a quantia correspondente ao seu valor. Cita alguns exemplos e Fl. 957DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.433 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11040.721163/2011-31 15 confecciona planilha denominada “Demonstrativo de depósitos a justificar”, aduzindo que tais valores devem ser excluídos da base de cálculo da autuação e podem ser comprovados mediante o cotejo entre os extratos bancários e os relatórios de cheques descontados (às fls. 752/882). No entanto, a autuada anexou em sua peça de defesa somente os extratos bancários sem nenhum apontamento (destaques por exemplo) e relatórios do banco de cheques descontados, não anexando demais elementos que pudessem comprovar de forma inequívoca que se tratavam de empréstimos de terceiros mediante cheques, como por exemplo, a cópia dos cheques e comprovantes dos valores devolvidos ao emitente. Sem tais provas, não há como acatar tais alegações. Provar não é juntar documentos; é articulá-los; e isso não foi realizado em sua totalidade pela defendente. Assim, em face da presunção legal, de nada vale simples alegações genéricas de que os depósitos bancários não constituiriam receita tributável, quando destituídas de provas inequívocas nesse sentido, as quais incumbe à fiscalizada apresentar. Nos termos da legislação em vigor, se não comprovada a origem dos recursos depositados e a não ocorrência do fato gerador, caracterizada está a presunção legal de omissão de receitas. Acrescente-se que não estão sendo tributados os depósitos em si, mas a renda que eles representam. Os depósitos são, na verdade, apenas a forma, o sinal de exteriorização pelo qual se manifesta a omissão de receita, quando não comprovada a origem financeira dos recursos utilizados. [...]” Logo, entendo ser correta a presunção de omissão de rendimentos nos termos do art. 42 da lei nº 9.430/1996, pelo que mantendo o acórdão da DRJ, por seus próprios fundamentos, negando provimento ao Recurso Voluntário. É como voto. Auto de Infração reflexos Como regra, o decidido para o lançamento de IRPJ estende-se aos lançamentos que com ele compartilham o mesmo fundamento, salvo quando houver razão de ordem jurídica que lhes recomende tratamento diverso. Desse modo, a decisão relativa ao auto de infração do IRPJ deve ser igualmente aplicada no julgamento dos autos de infração reflexos e decorrentes de CSLL, PIS, COFINS, uma vez que os lançamentos estão apoiados nos mesmos elementos de convicção, sendo clara a relação de causa-efeito entre eles. Fl. 958DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.433 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11040.721163/2011-31 16 Conclusão: Ante o exposto, voto por conhecer o recurso voluntário e negar-lhe provimento para manter o acórdão da DRJ por seus próprios fundamentos. Assinado Digitalmente Andressa Paula Senna Lísias Fl. 959DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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Numero do processo: 10830.720322/2011-11
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed May 14 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Tue Jun 10 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2007 PAF. PROCEDIMENTO FISCAL. FASE OFICIOSA. AUDIÊNCIA PREVIA DO CONTRIBUINTE. DESNECESSIDADE. SÚMULA CARF Nº 46. Não incorre em nulidade ou eventual cerceamento ao direito de defesa a lavratura da autuação sem a ciência prévia do sujeito passivo, que poderá se manifestar da exigência em sede de impugnação, momento em que se instaurará a fase do contenciosa do processo administrativo fiscal, ao teor da legislação de regência (art. 14 do Decreto nº 70.235/72). PAF. NULIDADE DO LANÇAMENTO. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. NÃO OCORRÊNCIA. Somente ensejam a nulidade os atos e termos lavrados por pessoa incompetente e os despachos e decisões proferidas por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Estando devidamente circunstanciadas na decisão recorrida as razões de fato e de direito que a fundamentam, e não ocorrendo cerceamento de defesa, não há motivos para decretação de sua nulidade. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. GANHO DE CAPITAL. MERCADO DE RENDA VARIÁVEL. MEIOS DE PROVA. CONJUNTO PROBATÓRIO INSUFICIENTE. Constituem rendimento bruto sujeito à incidência tributária todo o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos, os alimentos e pensões percebidos em dinheiro, os proventos de qualquer natureza, assim também entendidos os acréscimos patrimoniais não correspondentes aos rendimentos declarados, bastando para a incidência do imposto o benefício do contribuinte por qualquer forma e a qualquer título. Deve-se instruir os autos com elementos de prova que fundamentem os argumentos de defesa de maneira a não deixar dúvida sobre o que se pretende demonstrar. Constatada a obtenção de rendimentos tributáveis e não levados integralmente ao ajuste anual, deverá ser mantida a omissão apurada. DEPÓSITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA. QUEBRA DO SIGILO BANCÁRIO. NULIDADE. NÃO OCORRÊNCIA. A utilização de informações de movimentação financeira obtidas regularmente não caracteriza violação de sigilo bancário. A Receita Federal, por meio de seus agentes fiscais, pode solicitar diretamente às instituições financeiras extratos bancários independentemente de autorização judicial, sem que isso caracterize quebra do sigilo bancário, ao teor da LC nº 105/2001. A Lei nº 10.174/2001, não atrai a aplicação do princípio da irretroatividade das leis tributárias, tendo em vista o caráter instrumental da norma, na exata dicção do art. 144, § 1º do CTN. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. DEPÓSITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA. SÚMULA CARF Nº 26. A presunção legal de omissão de rendimentos tributáveis, prevista no art. 42 da Lei nº 9.430/96, autoriza o lançamento com base em depósitos bancários para os quais o titular, regularmente intimado, não comprove a origem dos recursos utilizados nessas operações mediante documentação hábil e idônea. Ausente a demonstração da origem dos recursos depositados em instituições financeiras, correta é a presunção de omissão de rendimentos, restando lícita a caracterização dos depósitos bancários não comprovados como rendimentos. PAF. CARF. COMPETÊNCIA INSTITUCIONAL. O CARF não é competente para apreciar pedidos de restituição, parcelamento e remissão de débitos, cuja competência é exclusiva da unidade da Receita Federal que jurisdiciona o contribuinte. PAF. ALEGAÇÕES DE INCONSTITUCIONALIDADE E ILEGALIDADE. SÚMULA CARF Nº 2. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade ou ilegalidade de lei tributária. Enquanto vigentes, os dispositivos legais devem ser cumpridos, principalmente em se tratando da administração pública, cuja atividade está atrelada ao princípio da estrita legalidade. PAF. DECISÕES ADMINISTRATIVAS E JUDICIAIS. DOUTRINA. EFEITOS. As decisões administrativas, mesmo as proferidas pelo CARF e as judiciais, não se constituem em normas gerais, razão pela qual seus julgados não se aproveitam em relação a qualquer outra ocorrência senão aquele objeto da decisão, à exceção das decisões do STF deliberando sobre a inconstitucionalidade da legislação. A doutrina não é oponível ao texto explícito do direito positivo, mormente em se tratando do direito tributário, dada sua estrita subordinação à legalidade. Inteligência do art. 150, I, da CF/88. PROVENTOS DE APOSENTADORIA. MOLÉSTIA GRAVE. ISENÇÃO. CONJUNTO PROBATÓRIO INSUFICIENTE. Para ser beneficiado com o instituto da Isenção, a moléstia grave deve estar comprovada por laudo médico oficial e os rendimentos devem corresponder a proventos de aposentadoria ou a esta estar relacionadas. Não restando comprovado o atendimento às exigências cumulativas legais, impõe-se o não reconhecimento do direito à isenção do imposto sobre a renda no caso concreto.
Numero da decisão: 2001-007.801
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares de nulidade e cerceamento de defesa suscitadas e, no mérito, em negar provimento ao Recurso Voluntário, para manter o lançamento e as alterações decorrentes realizadas na base de cálculo do imposto de renda. (documento assinado digitalmente) Ricardo Chiavegatto de Lima - Presidente (documento assinado digitalmente) Wilderson Botto - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Ricardo Chiavegatto de Lima (Presidente), Raimundo Cassio Goncalves Lima, Lilian Claudia de Souza e Wilderson Botto.
Nome do relator: WILDERSON BOTTO

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PROCEDIMENTO FISCAL. FASE OFICIOSA. AUDIÊNCIA PREVIA DO CONTRIBUINTE. DESNECESSIDADE. SÚMULA CARF Nº 46. Não incorre em nulidade ou eventual cerceamento ao direito de defesa a lavratura da autuação sem a ciência prévia do sujeito passivo, que poderá se manifestar da exigência em sede de impugnação, momento em que se instaurará a fase do contenciosa do processo administrativo fiscal, ao teor da legislação de regência (art. 14 do Decreto nº 70.235/72). PAF. NULIDADE DO LANÇAMENTO. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. NÃO OCORRÊNCIA. Somente ensejam a nulidade os atos e termos lavrados por pessoa incompetente e os despachos e decisões proferidas por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Estando devidamente circunstanciadas na decisão recorrida as razões de fato e de direito que a fundamentam, e não ocorrendo cerceamento de defesa, não há motivos para decretação de sua nulidade. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. GANHO DE CAPITAL. MERCADO DE RENDA VARIÁVEL. MEIOS DE PROVA. CONJUNTO PROBATÓRIO INSUFICIENTE. Constituem rendimento bruto sujeito à incidência tributária todo o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos, os alimentos e pensões percebidos em dinheiro, os proventos de qualquer natureza, assim também entendidos os acréscimos patrimoniais não correspondentes aos rendimentos declarados, bastando para a incidência do imposto o benefício do contribuinte por qualquer forma e a qualquer título. Fl. 1072DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.801 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10830.720322/2011-11 2 Deve-se instruir os autos com elementos de prova que fundamentem os argumentos de defesa de maneira a não deixar dúvida sobre o que se pretende demonstrar. Constatada a obtenção de rendimentos tributáveis e não levados integralmente ao ajuste anual, deverá ser mantida a omissão apurada. DEPÓSITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA. QUEBRA DO SIGILO BANCÁRIO. NULIDADE. NÃO OCORRÊNCIA. A utilização de informações de movimentação financeira obtidas regularmente não caracteriza violação de sigilo bancário. A Receita Federal, por meio de seus agentes fiscais, pode solicitar diretamente às instituições financeiras extratos bancários independentemente de autorização judicial, sem que isso caracterize quebra do sigilo bancário, ao teor da LC nº 105/2001. A Lei nº 10.174/2001, não atrai a aplicação do princípio da irretroatividade das leis tributárias, tendo em vista o caráter instrumental da norma, na exata dicção do art. 144, § 1º do CTN. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. DEPÓSITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA. SÚMULA CARF Nº 26. A presunção legal de omissão de rendimentos tributáveis, prevista no art. 42 da Lei nº 9.430/96, autoriza o lançamento com base em depósitos bancários para os quais o titular, regularmente intimado, não comprove a origem dos recursos utilizados nessas operações mediante documentação hábil e idônea. Ausente a demonstração da origem dos recursos depositados em instituições financeiras, correta é a presunção de omissão de rendimentos, restando lícita a caracterização dos depósitos bancários não comprovados como rendimentos. PAF. CARF. COMPETÊNCIA INSTITUCIONAL. O CARF não é competente para apreciar pedidos de restituição, parcelamento e remissão de débitos, cuja competência é exclusiva da unidade da Receita Federal que jurisdiciona o contribuinte. PAF. ALEGAÇÕES DE INCONSTITUCIONALIDADE E ILEGALIDADE. SÚMULA CARF Nº 2. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade ou ilegalidade de lei tributária. Enquanto vigentes, os dispositivos legais Fl. 1073DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.801 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10830.720322/2011-11 3 devem ser cumpridos, principalmente em se tratando da administração pública, cuja atividade está atrelada ao princípio da estrita legalidade. PAF. DECISÕES ADMINISTRATIVAS E JUDICIAIS. DOUTRINA. EFEITOS. As decisões administrativas, mesmo as proferidas pelo CARF e as judiciais, não se constituem em normas gerais, razão pela qual seus julgados não se aproveitam em relação a qualquer outra ocorrência senão aquele objeto da decisão, à exceção das decisões do STF deliberando sobre a inconstitucionalidade da legislação. A doutrina não é oponível ao texto explícito do direito positivo, mormente em se tratando do direito tributário, dada sua estrita subordinação à legalidade. Inteligência do art. 150, I, da CF/88. PROVENTOS DE APOSENTADORIA. MOLÉSTIA GRAVE. ISENÇÃO. CONJUNTO PROBATÓRIO INSUFICIENTE. Para ser beneficiado com o instituto da Isenção, a moléstia grave deve estar comprovada por laudo médico oficial e os rendimentos devem corresponder a proventos de aposentadoria ou a esta estar relacionadas. Não restando comprovado o atendimento às exigências cumulativas legais, impõe-se o não reconhecimento do direito à isenção do imposto sobre a renda no caso concreto. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares de nulidade e cerceamento de defesa suscitadas e, no mérito, em negar provimento ao Recurso Voluntário, para manter o lançamento e as alterações decorrentes realizadas na base de cálculo do imposto de renda. (documento assinado digitalmente) Ricardo Chiavegatto de Lima - Presidente (documento assinado digitalmente) Wilderson Botto - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Ricardo Chiavegatto de Lima (Presidente), Raimundo Cassio Goncalves Lima, Lilian Claudia de Souza e Wilderson Botto. RELATÓRIO Fl. 1074DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.801 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10830.720322/2011-11 4 Por bem retratar os fatos ocorridos desde a constituição do crédito tributário por meio do lançamento até sua impugnação, adoto e reproduzo o relatório da decisão ora recorrida (fls. 1002/1016): Trata-se de Auto de Infração (fls. 04/09) em nome do sujeito passivo em epígrafe, decorrente de procedimento de revisão de sua Declaração de Imposto de Renda Pessoa Física (DIRPF) do exercício 2008 (fls. 721/724). A autoridade lançadora apurou as seguintes infrações: I) falta de recolhimento do imposto sobre ganhos líquidos no mercado de renda variável, sendo R$ 197,32 para o mês de julho de 2007 (valor tributável de R$ 1.342,70) e R$ 243,47 para setembro de 2007 (valor tributável de R$ 1.656,04); e II) omissão de rendimentos caracterizada por depósitos bancários com origem não comprovada, no valor total de R$ 92.900,00, em relação aos quais a Interessada, regularmente intimada, não comprovou mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. No Termo de Verificação Fiscal de fls. 13/19, a autoridade lançadora narrou, em síntese, os seguintes fatos: a) por meio do Ofício nº 1848/PRM/CAMP, de 16 de junho de 2008, a Delegacia da Receita Federal do Brasil em Campinas recebeu cópia de decisão judicial, exarada em 6 de março de 2008, que decretou a quebra do sigilo fiscal e bancário, bem como cópias dos extratos bancários, em meio magnético, das contas mantidas pela contribuinte no ano de 2007 nas instituições financeiras Caixa Econômica Federal (CEF) e Banco Bradesco; b) a ação fiscal tem como foco a análise da movimentação financeira da Interessada, incompatível com a receita declarada na DIRPF/2008; c) não houve atendimento à intimação para apresentar cópias de extratos bancários de contas mantidas no Banco Itaú; d) em 03/06/2009 a Interessada foi intimada para comprovar com documentação hábil e idônea a origem dos valores creditados e depositados em sua conta corrente no Banco Bradesco; e) em resposta, foi apresentado laudo pericial realizado por Audioesp - Auditoria e Consultoria S/S; f) tendo em vista a quebra judicial do sigilo bancário, foi enviado ofício ao Banco Bradesco solicitando a documentação bancária faltante para o andamento dos trabalhos de fiscalização (extratos em papel, fichas cadastrais, notas de corretagem, etc.); g) ao longo do procedimento fiscal foram enviados termos de continuidade da ação fiscal; h) foram oficiados o Banco Bradesco e a CEF para que fossem enviadas cópias dos documentos contendo as identificações de depositantes, mas estas instituições informaram que muitos dos comprovantes de depósitos não foram localizados; Fl. 1075DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.801 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10830.720322/2011-11 5 i) a Interessada foi novamente intimada em 24/05/2010 a apresentar comprovação de origem de depósitos e créditos em suas contas correntes na CEF e no Banco Bradesco; j) a Interessada alegou que todos os depósitos efetuados em dinheiro na conta corrente da CEF, em um total de 27 depósitos no montante de R$ 153.691,66, tiveram sua origem em moeda detida pelo seu marido, titular da conta, no final do ano de 2006 (R$ 268.000,00 na DIRPF/2008), entretanto, conforme cópias de alguns comprovantes de depósitos enviados pela CEF, foram identificados os depositantes de seis depósitos em 18/10/2007, conforme Tabela I abaixo (fl. 15): k) estes depósitos comprovadamente feitos por terceiras pessoas vão de encontro à alegação da Interessada de que estes depósitos se originaram de valores mantidos em espécie por seu marido, o que levou à presunção de tratarem-se de rendimentos omitidos; l) apenas para os depósitos que não puderam ter seus depositantes identificados, optou-se por aceitar a argumentação de que foram efetuados pelo marido da Interessada; m) foi aceita a alegação de que depósitos de um valor total de R$ 126.000,00 seriam referentes a débitos em sua conta bancária na CEF, com exceção ao cheque depositado em 27/11/2007 no valor de R$ 31.000,00, que não ficou comprovado, pois este não guarda correspondência de valor com o débito em conta da CEF efetuado na mesma data (vide Tabela II abaixo - fl. 16); n) quanto à alegação de origem de depósitos de R$ 441.620,00 no Banco Bradesco como sendo doação em dinheiro de sua mãe e créditos efetuados pela própria, restaram sem explicação de origem os depósitos de R$ 40.000,00 efetuado em 14/12/2007 e de R$ 90.000,00 em 28/12/2007 (vide Tabela III abaixo - fl. 16); o) o marido da Interessada, Otávio Ceccato, foi, da mesma forma, intimado a comprovar as origens dos créditos em contas bancárias, uma vez que estas são contas conjuntas dos dois cônjuges, sendo atribuídos 50% dos valores a cada um no lançamento; p) durante o procedimento fiscal, a Interessada foi intimada e reintimada a apresentar notas de corretagem, Darfs referentes às operações de renda variável e resumo de apuração de ganhos de renda variável da DIRPF/2008; Fl. 1076DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.801 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10830.720322/2011-11 6 q) após ser questionada sobre divergências encontradas no resumo de apuração de ganhos de renda variável da DIRPF/2008, a Interessada se manifestou alegando já haver dado as explicações necessárias; e r) com base em cálculos no aplicativo Contágil, conforme "Demonstrativos de Ganho de Capital em Operações na Bolsa de Valores" de fls. 20/58, apurou-se valores de Imposto de Renda não pagos (R$ 197,32 em julho de 2007 e R$ 243,47 em setembro de 2007 - vide Tabela IV de fl. 17), pois não foram localizados recolhimentos no código 6015 (IRPF - GANHOS LÍQUIDOS EM OPERAÇÕES EM BOLSA) referentes a estes períodos. Em virtude deste lançamento, apurou-se IRPF suplementar de R$ 20.780,00, multa de ofício de R$ 15.584,99, além de juros de mora de R$ 6.035,68 (calculados até fevereiro de 2011). Com a ciência do Auto de Infração feita por via postal em 31/03/2011 (fl. 59), a Interessada apresentou impugnação (fls. 968/996) em 02/05/2011 (vide despacho de fl. 956), alegando, em síntese, que: a) prestou todos os esclarecimentos, informações, juntada de documentos, entre outros, solicitados; b) a quebra de sigilo fiscal e bancário objeto do Ofício nº 1848/PRM/CAMP, de 16 de junho de 2008, não foi a ela comunicada; c) a quebra de sigilo, prévia e preventiva, a privou de sua liberdade sem o devido processo legal e suas ramificações, dentre as quais, o contraditório e ampla defesa; d) ao não intimá-la da ação judicial que decretou a quebra de seu sigilo bancário, a autoridade fiscal acabou por impedir o exercício do direito ao devido processo legal e à ampla defesa; e) a Lei Complementar nº 105, de 10 de janeiro de 2001, somente permite a quebra do sigilo bancário com a existência de processo administrativo instaurado ou procedimento fiscal em curso, o que não existia no presente caso, pois a autoridade administrativa tributária iniciou a análise do fluxo financeiro sem a existência prévia de procedimento fiscal; f) requer, nos termos do art. 16, inciso IV do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, que seja diligenciada informações precisas, atualizadas e individualizadas do procedimento judicial ao qual se refere o indicado Ofício nº 1848/PRM/CAMP, de 16 de junho de 2008; g) ela e seu marido sofreram procedimentos de fiscalização nos anos noventa que se caracterizaram pela arbitrariedade, fato este que agora se repete, revestindo-se de caráter persecutório no uso da máquina fiscalizatória, sendo, assim, desrespeitados os princípios da administração pública de moralidade, impessoalidade e da motivação (falta de motivação necessária para a abertura do procedimento fiscal); h) não obstante a autoridade lançadora conhecer a identificação dos depositantes dos créditos reputados como omitidos, não foi comunicada desta informação durante o procedimento fiscal, tendo acesso aos nomes dos depositantes apenas ao tomar ciência do lançamento, o que acabou por prejudicar o exercício da ampla defesa e do contraditório; Fl. 1077DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.801 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10830.720322/2011-11 7 i) a fiscalização extrapolou o prazo máximo para conclusão dos trabalhos, pois o procedimento se iniciou em 24/03/2009 e se encerrou com a atuação em 24/03/2011, não tendo sido determinada a prorrogação do prazo nos termos da Portaria RFB nº 4.066, de 2 de maio de 2007; j) os depósitos bancários, se não acompanhados de outros indícios, não podem ensejar a presunção válida de omissão de rendimentos, segundo entendimento da doutrina e da jurisprudência; k) quanto aos depósitos em dinheiro com identificação dos depositantes (Tabela I), a própria autoridade lançadora aceitou a argumentação de que os créditos em conta corrente realizados em dinheiro decorrem da disponibilidade financeira do seu marido declarada na DIRPF/2008, devendo ser observado que ela própria declarou possuir R$ 119.000,00 em dinheiro em sua declaração de rendimentos; l) os depositantes, somente agora identificados pelo Fisco, prestavam à época serviços eventuais à sua família, tendo eles promovido os depósitos em moeda corrente a fim de prover de fundos a conta bancária em questão, não estando caracterizada a disponibilidade de rendimentos, mas sim uma mera transferência de recursos financeiros pela própria e seu marido; m) o depósito em dinheiro realizado pela Magazine Torra Torra é referente a uma devolução do preço pago por mercadorias deterioradas, resultado de composição extrajudicial entre ela e o fornecedor de serviços, não sendo passível de incidência de Imposto de Renda; n) o depósito de R$ 40.000,00 de 14/12/2007 (Tabela III) também se origina dos valores mantidos por ela e seu marido em moeda corrente no final de 2006, não sendo incompatível com a receita declarada; o) o crédito de R$ 90.000,00 de 28/12/2007 (Tabela III) se justifica em razão da evolução patrimonial líquida no ano de 2007, devidamente declarada nas DIRPF/2008 do casal; p) não foi intimada a esclarecer o crédito arrolado na Tabela II do Termo de Verificação Fiscal, sendo este mera transferência de recursos entre contas de mesma titularidade (R$ 20.000,00 em 27/11/2007); e q) em relação à infração de falta de recolhimento do imposto sobre ganhos líquidos no mercado de renda variável, ao contrário do alegado pela autoridade lançadora, acabou recolhendo um pequeno valor a maior que o devido no ano-calendário 2007, estando assegurado o seu direito à restituição. A decisão de primeira instância, por unanimidade, manteve o lançamento do crédito tributário exigido, encontrando-se assim ementada: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA – IRPF Exercício: 2008 CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. INEXISTÊNCIA. O contribuinte foi regularmente cientificado do Auto de Infração e exerceu plenamente seu direito de defesa por meio de impugnação, demonstrando entendimento da infração apurada, inexistindo, portanto, cerceamento do direito de defesa. Fl. 1078DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.801 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10830.720322/2011-11 8 SIGILO BANCÁRIO. A utilização de informações de movimentação financeira obtidas regularmente não caracteriza violação de sigilo bancário. MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL. O MPF constitui-se em instrumento de controle da administração tributária, não podendo eventual inobservância das normas que o disciplinam gerar nulidades no âmbito do processo administrativo fiscal. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. FALTA DE COMPROVAÇÃO. PRESUNÇÃO LEGAL DE OMISSÃO DE RENDIMENTOS. Para os fatos geradores ocorridos a partir do ano-calendário 1997, a Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, em seu art. 42, autoriza a presunção de omissão de rendimentos com base nos valores depositados em conta bancária para os quais o titular, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. NECESSIDADE DE PROVAR AS ORIGENS DOS RECURSOS. Por força de presunção legal, cabe ao contribuinte o ônus de provar as origens dos valores que lhe forem creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto à instituição financeira. IMPUGNAÇÃO. PROVAS. A impugnação deve ser instruída com os elementos de prova que fundamentem os argumentos de defesa. Simples alegações desacompanhadas dos meios de prova que as justifiquem revelam-se insuficientes para comprovar os fatos alegados. Cientificada da decisão, em 16/10/2015 - sexta-feira (fls. 1020/1021), a contribuinte, por procuradores habilitados interpôs, em 16/11/2015, recurso voluntário (fls. 1023/1051), insurgindo-se contra a manutenção da autuação, repisando as alegações da peça impugnatória e trazendo outros argumentos, a seguir brevemente sintetizados por meio dos seguintes tópicos: I – Os Fatos; II – O Direito: II.1 – Preliminarmente: A) Do sigilo bancário – Breves Considerações; B) Da quebra de sigilo e do cerceamento ao direito do contraditório no caso concreto; C) Da questão de fato e de direito superveniente à impugnação – Decisão Judicial proferida nos autos da Apelação Cível nº 0004726-98.2009.4.03.6105/SP, de relatoria da Desembargadora Federal Regina Costa do E. TRF da 3ª Região; D) Da não observância dos princípios da moralidade e impessoalidade da presente autuação; E) Ainda quanto a não observância do direito de defesa e do contraditório; F) Extrapolado o prazo máximo para a conclusão dos trabalhos; G) Conclusão quanto as preliminares; II.2 – Mérito: A) Da inexistência de omissão de receitas provenientes de depósitos bancários: A.1) Dos depósitos em dinheiro – Tabela I do Termo de Verificação Fiscal; A.2) Dos depósitos inscritos na Tabela III; A.3) Dos depósitos inscritos na Tabela II; A.4) Dos rendimentos de aplicações financeiras de renda variável; III – Da interpretação da Lei 7.713/88 e demais disposições - O diagnóstico de câncer, o caráter recidivo da doença e a isenção do imposto de renda. Cita escólio doutrinário e jurisprudência judicial e Fl. 1079DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.801 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10830.720322/2011-11 9 administrativa para motivas as pretensões recursais. Requer, ao final, a nulidade da exigência em razão das preliminares arguidas, e no mérito, o cancelamento do débito fiscal reclamado. Instrui a peça recursal com os documentos de fls. 1052/1059. Em 26/02/2016, peticionou noticiando o recebimento de comunicado de cobrança do débito em litígio, sob pena de sua inclusão no CADIN, pugnando pela suspensão da exigibilidade do crédito tributário até o deslinde do presente feito (fls. 1064/1070). É o relatório. VOTO Conselheiro Wilderson Botto, Relator. Admissibilidade O recurso é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, razão por que dele conheço e passo à sua análise. Preliminares As alegações trazidas em sede preliminar, a bem da verdade se confundem com as razões de mérito, e com ele serão apreciadas. Mérito Dos ganhos líquidos no merca de renda variável e da omissão de rendimentos caracterizada por depósitos bancários com origem não comprovada: O litígio recai sobre a falta de recolhimento do imposto sobre ganhos líquidos no mercado de renda variável, no valor de R$ 2.998,74, e a omissão de rendimentos caracterizada por depósitos bancários de origem não comprovada, no valor de R$ 92.900,00, apuradas em sede de verificação das obrigações tributárias do ano-calendário de 2007, importando na apuração do imposto suplementar, no valor de R$ 20.780,00, a ser acrescido dos encargos legais, buscando, por oportuno, nessa seara recursal, obter nova análise do processado, no sentido do afastamento das infrações apuradas. Pois bem. Em que pese as alegações trazidas, do cotejo dos documentos carreados, aliado aos fundamentos traçados no voto condutor da decisão recorrida (fls. 1002/1016) e atendo- se às informações contidas na autuação e no termo de verificação fiscal (fls. 2/19), não há como prosperar a pretensão recursal. Assim, considerando que a Recorrente, nesta fase recursal, não trouxe novas alegações hábeis contundentes a modificar o julgado – limitando-se basicamente em repisar as alegações preliminares e meritórias suscitadas na peça impugnatória, as quais foram detidamente apreciadas pela DRJ/RJ1 – me convenço do acerto da decisão recorrida, pelo que adoto como Fl. 1080DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.801 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10830.720322/2011-11 10 razão de decidir os fundamentos do voto condutor (fls. 1007/1016), mediante transcrição dos excertos abaixo, à luz do disposto no art. 114, § 12, I da Portaria MF nº 1.634, de 21/12/2023 (Novo RICARF): Do Cerceamento de Defesa Alega a Interessada que a quebra de sigilo fiscal e bancário objeto do Ofício nº 1848/PRM/CAMP, de 16 de junho de 2008, não foi a ela comunicada, o que teria suprimido seu direito ao contraditório e ampla defesa. Posteriormente, ela afirma que não obstante a autoridade lançadora conhecer a identificação dos depositantes dos créditos reputados como omitidos, não foi comunicada desta informação durante o procedimento fiscal, tendo acesso aos nomes dos depositantes apenas ao tomar ciência do lançamento. Nesse aspecto, há de se esclarecer que a condução das investigações por parte da autoridade lançadora é de exclusiva competência desta. Antônio da Silva Cabral (Processo Administrativo Fiscal, Ed. Saraiva - São Paulo, 1993) diferencia, com propriedade, dois momentos dentro do procedimento fiscal, o oficioso e o contencioso: “O procedimento fiscal pode ser encarado sob duplo ângulo: como procedimento oficioso e como procedimento contencioso. O procedimento oficioso é específico da Administração. Uma vez ocorrido o fato gerador, a autoridade lançadora procede ao lançamento de ofício, isto é, procede oficiosamente. (...). O procedimento contencioso se inicia mediante a impugnação do sujeito passivo. Enquanto a fase oficiosa é de iniciativa da autoridade administrativa, o contencioso é de iniciativa do contribuinte.” (p. 194). O Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, diploma com força de lei que dispõe sobre o processo administrativo fiscal, estabelece em seu art. 14 que "a impugnação da exigência instaura a fase litigiosa do procedimento". Antes da impugnação não há litígio, não há contraditório e o procedimento é levado a efeito, de ofício, pelo Fisco. O ato do lançamento é privativo da Autoridade Tributária, e não uma atividade compartilhada com o sujeito passivo (CTN, art.142). Na fase oficiosa, a fiscalização atua com poderes amplos de investigação, tendo liberdade para interpretar os elementos de que dispõe para efetuar o lançamento. O princípio do contraditório é garantido pela fase litigiosa do processo administrativo (fase contenciosa), a qual se inicia com o oferecimento da impugnação. A impugnação de um lançamento durante o processo administrativo fiscal é o momento que o contribuinte pode exercer o seu direito constitucional do contraditório e ampla defesa, pois todos os atos anteriores ao lançamento praticados pela fiscalização possuem uma natureza inquisitória. A peça fiscal foi lavrada por servidor competente nos termos definidos no art. 10 do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, descreveu em detalhes a infração apurada, apontando os devidos enquadramentos legais, e atendeu a todos os demais requisitos formais necessários à sua validade. A Interessada foi devidamente cientificada do lançamento por via postal e apresentou sua impugnação dentro do prazo que a legislação lhe assegura. Dessa forma, exerceu Fl. 1081DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.801 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10830.720322/2011-11 11 plenamente seu direito de defesa e do contraditório, nos termos da impugnação de fls. 968/996, restando, também, devidamente atendido o princípio do devido processo legal. Não se configurou, portanto, qualquer vício procedimental capaz de invalidar o lançamento, tampouco ofensa a princípios constitucionais como o do contraditório, da ampla defesa ou mesmo ao da legalidade. Assim, deve ser rejeitada a preliminar de nulidade do feito fiscal arguida pela Interessada. Do Sigilo Bancário A Interessada alega que a Lei Complementar nº 105, de 10 de janeiro de 2001, somente permite a quebra do sigilo bancário com a existência de processo administrativo instaurado ou procedimento fiscal em curso, mas a autoridade administrativa tributária teria iniciado a análise do fluxo financeiro sem a existência prévia de procedimento fiscal. Deve ser ressaltado que a Lei Complementar nº 105, de 10 de janeiro de 2001, exige um procedimento de fiscalização em andamento quando disciplina a quebra do sigilo bancário pela autoridade administrativa fiscal. No presente caso, a quebra do sigilo bancário da Interessada e de seu marido em relação a suas contas na CEF e no Banco Bradesco se deu por ordem judicial, e não por iniciativa da fiscalização. Conforme descrito no Termo de Verificação Fiscal, por meio do Ofício nº 1848/PRM/CAMP, de 16 de junho de 2008, a Delegacia da Receita Federal do Brasil em Campinas recebeu cópia de decisão judicial, exarada em 6 de março de 2008, que decretou a quebra do sigilo fiscal e bancário. Conclui-se, assim, que o acesso prévio da fiscalização aos extratos bancários em questão não se deu com base no procedimento administrativo estabelecido pela Lei Complementar nº 105, de 10 de janeiro de 2001, mas sim por quebra de sigilo determinado judicialmente e comunicado à Receita Federal pelo Ministério Público Federal. Desta forma, é improcedente esta alegação da Interessada. Em relação aos pedidos de informações complementares efetuados pela autoridade fiscal às instituições financeiras durante o curso do procedimento fiscal, os atos legais e regulamentares vigentes (art. 145, parágrafo 1º da Constituição Federal, art. 197 do Código Tributário Nacional, Lei nº 8.021, de 12 de abril de 1990, Lei Complementar nº 105, de 10 de janeiro de 2001, Lei nº 10.174, de 9 de janeiro de 2001, e o Decreto nº 3.724, de 10 de janeiro de 2001) disciplinaram as hipóteses específicas nas quais o acesso é permitido e, ao circunscrever-se a este âmbito, a prova obtida é plenamente válida, não havendo o que se falar em quebra de sigilo bancário ou em origem ilícita das provas. Dos Princípios da Administração Pública A Interessada alega em sua impugnação que ela e seu marido sofreram procedimentos de fiscalização nos anos noventa que se caracterizaram pela arbitrariedade, fato este que agora estaria se repetindo, revestindo-se de caráter persecutório no uso da máquina fiscalizatória, sendo, assim, desrespeitados os princípios da administração pública de moralidade, impessoalidade e da motivação. O lançamento ora em julgamento teve descrita em detalhes a infração apurada, apontando os devidos enquadramentos legais, e atendeu a todos os demais requisitos formais necessários a sua validade. Os autos não apresentam qualquer desrespeito aos princípios da moralidade e da impessoalidade, uma vez que o procedimento fiscal se caracterizou pela normalidade. Fl. 1082DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.801 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10830.720322/2011-11 12 Quanto à abertura do procedimento fiscal, este foi motivado pelo já citado ofício do Ministério Público Federal e pela necessidade de análise da movimentação financeira da Interessada, que parecia ser incompatível com a receita declarada na DIRPF/2008, motivos estes relevantes para o início de uma fiscalização. Deve ser ressaltado que a Administração Tributária possui autonomia e competência para determinar a abertura de procedimentos fiscais segundo seus próprios critérios. Do MPF Segundo a Interessada, a fiscalização teria extrapolado o prazo máximo para conclusão dos trabalhos, pois o procedimento se iniciou em 24/03/2009 e se encerrou com a atuação em 24/03/2011, sem que tivesse sido determinada a prorrogação do prazo nos termos da Portaria RFB nº 4.066, de 2 de maio de 2007. O advento do Mandado de Procedimento Fiscal (MPF) deu-se com o objetivo de regular a execução dos procedimentos fiscais relativos aos tributos e contribuições administrados pela Receita Federal, sendo instrumento de controle administrativo. Eventual inobservância das normas que o disciplinam não podem gerar nulidades no âmbito do processo administrativo fiscal. Ao dar conhecimento ao fiscalizado do tributo objeto de investigação, dos períodos a serem examinados, do prazo para a realização do procedimento fiscal e do AFRFB que procederá à fiscalização, o MPF permite ao sujeito passivo assegurar-se da autenticidade da ação fiscal contra si instaurada. Deve ser ressaltado, ainda, que a autoridade fiscal lavrou uma série de termos de intimação e de continuidade do procedimento fiscal ao longo de todo o período de dois anos. Assim, o procedimento fiscal em momento algum ficou interrompido por inércia da autoridade lançadora. Desse modo, não se vislumbra a existência de qualquer irregularidade na condução da ação fiscal. Dos Depósitos Bancários de Origem Não Comprovada Com a edição da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, a tributação com base em depósitos bancários passou a ter um regramento diferente daquele previsto na Lei nº 8.021, de 12 de abril de 1990. Por oportuno, transcreve-se a legislação atualmente vigente: “Depósitos Bancários Art. 42. Caracterizam-se também omissão de receita ou de rendimento os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. § 1º O valor das receitas ou dos rendimentos omitido será considerado auferido ou recebido no mês do crédito efetuado pela instituição financeira. § 2º Os valores cuja origem houver sido comprovada, que não houverem sido computados na base de cálculo dos impostos e contribuições a que estiverem sujeitos, submeter-se-ão às normas de tributação específicas, previstas na legislação vigente à época em que auferidos ou recebidos. Fl. 1083DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.801 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10830.720322/2011-11 13 § 3º Para efeito de determinação da receita omitida, os créditos serão analisados individualizadamente, observado que não serão considerados: I - os decorrentes de transferências de outras contas da própria pessoa física ou jurídica; II - no caso de pessoa física, sem prejuízo do disposto no inciso anterior, os de valor individual igual ou inferior a R$ 1.000,00 (mil reais), desde que o seu somatório, dentro do ano-calendário, não ultrapasse o valor de R$ 12.000,00 (doze mil reais). [limites alterados pela Lei n.º 9.481, de 13 de agosto de 1997, para, respectivamente, R$ 12.000,00 e R$ 80.000,00] § 4º Tratando-se de pessoa física, os rendimentos omitidos serão tributados no mês em que considerados recebidos, com base na tabela progressiva vigente à época em que tenha sido efetuado o crédito pela instituição financeira. § 5º Quando provado que os valores creditados na conta de depósito ou de investimento pertencem a terceiro, evidenciando interposição de pessoa, a determinação dos rendimentos ou receitas será efetuada em relação ao terceiro, na condição de efetivo titular da conta de depósito ou de investimento (redação dada pela Lei nº 10.637, de 30 de dezembro de 2002). § 6o Na hipótese de contas de depósito ou de investimento mantidas em conjunto, cuja declaração de rendimentos ou de informações dos titulares tenham sido apresentadas em separado, e não havendo comprovação da origem dos recursos nos termos deste artigo, o valor dos rendimentos ou receitas será imputado a cada titular mediante divisão entre o total dos rendimentos ou receitas pela quantidade de titulares (redação dada pela Lei nº 10.637, de 30 de dezembro de 2002)." Com efeito, o legislador estabeleceu, a partir da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996, uma presunção legal de omissão de rendimentos com base em depósitos bancários, condicionada, apenas, à falta de comprovação da origem dos recursos que transitaram, em nome do contribuinte, em instituições financeiras. Ou seja, permitiu que fosse considerada ocorrida omissão de receitas quando o contribuinte não comprovar a origem dos créditos efetuados em sua conta bancária. Desta forma, ao contrário do defendido pela Interessada em sua impugnação, não mais é necessário que a fiscalização comprove os sinais exteriores de riqueza ou a renda consumida conforme exigido anteriormente pelo revogado art. 6º, § 5º da Lei nº 8.021, de 12 de abril de 1990. A citada Súmula nº 182 do extinto TRF se aplicava a esta legislação já revogada, e não à atualmente vigente, no caso, a Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996. Já os acórdãos apresentados pela Interessada em sua impugnação se referem a fatos geradores anteriores à edição da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, não sendo referência, assim, ao presente julgamento em virtude da mudança na legislação. Depreendem-se, pois, os seguintes elementos essenciais à configuração do fato gerador do Imposto de Renda, nos termos da legislação vigente. Primeiro, o contribuinte deve ter sido previamente intimado a comprovar a origem dos créditos bancários, discriminados individualmente, o que ocorreu no presente caso (fls. 70/72 e 456/459). Segundo, os recursos devem ter transitado em conta corrente de titularidade do sujeito passivo, ou de titularidade de terceiro, desde que, neste caso, esteja comprovado tratar-se de interposta pessoa do sujeito passivo. Fl. 1084DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.801 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10830.720322/2011-11 14 Ressalte-se que o co-titular das contas correntes, Otávio Ceccato, também foi intimado a comprovar a origem dos depósitos bancários, sendo objeto de lançamento no processo nº 10830.720276/2011-50. Não comprovada a origem dos recursos, tem a autoridade fiscal o poder/dever de considerar os valores depositados como rendimentos tributáveis omitidos na declaração de ajuste anual, efetuando o lançamento do imposto correspondente. Nem poderia ser de outro modo, ante a vinculação legal decorrente do Princípio da Legalidade que rege a Administração Pública, cabendo ao agente tão-somente a inquestionável observância do diploma legal. A presunção legal favorável ao Fisco transfere para o contribuinte o ônus de rechaçar a imputação, mediante comprovação da origem dos recursos. Trata-se, pois, de uma presunção relativa, passível de prova em contrário. A seguir, a doutrina de José Luiz Bulhões Pedreira (Imposto sobre a Renda - Pessoas Jurídicas - JUSTEC - RJ - 1979 - pág. 806) a respeito do tema: “O efeito prático da presunção legal é inverter o ônus da prova: invocando-a, a autoridade lançadora fica dispensada de provar, no caso concreto, que ao negócio jurídico com as características descritas na lei corresponde, efetivamente, o fato econômico que a lei presume - cabendo ao contribuinte, para afastar a presunção (se é relativa) provar que o fato presumido não existe no caso.” Assim sendo, resta claro que, em virtude da presunção legal existente, o ônus de comprovar a origem dos depósitos recai sobre o contribuinte. (...) Da Análise Individualizada dos Depósitos Em relação aos seis depósitos listados pela autoridade lançadora na Tabela I de fl. 15, a Interessada alega que os seus depositantes prestavam à época serviços eventuais à sua família e promoveram os créditos seguindo sua orientação. Quanto ao depósito em dinheiro realizado pela Magazine Torra Torra, este seria referente a uma devolução do preço pago por mercadorias deterioradas. Já os dois depósitos listados pela autoridade lançadora na Tabela III de fl. 16 seriam, segundo a Interessada, também originados dos valores mantidos por ela e seu marido em moeda corrente, estando justificados em razão da evolução patrimonial líquida no ano de 2007, devidamente declarada nas DIRPF/2008 do casal. Entretanto, a Interessada não apresenta documentação comprobatória alguma que embase as suas alegações de defesa em relação aos depósitos listados pela autoridade lançadora nas Tabelas I e III. Conforme afirmado anteriormente, cabia à Interessada o ônus de comprovar individualizadamente a origem de cada um dos depósitos listados pela fiscalização. (...) As alegações desprovidas de meios de prova que as justifiquem não podem prosperar, visto que é assente em Direito que alegar e não provar é o mesmo que não alegar. (...) Fl. 1085DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.801 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10830.720322/2011-11 15 Deve ser ressaltado, ainda, que não deve prosperar o argumento de que os valores de depósitos tidos como de origem não comprovada estariam justificados em razão da evolução patrimonial líquida no ano de 2007 e não seriam incompatíveis com a receita declarada. Conforme exposto no tópico anterior, com a edição da Lei n° 9.430, de 27 de dezembro de 1996, não mais é necessário ao Fisco a comprovação de sinais exteriores de riqueza ou a renda consumida conforme exigido anteriormente pelo revogado art. 6º, § 5º da Lei nº 8.021, de 12 de abril de 1990. Com a nova norma, permitiu-se, com base em presunção legal, que fosse considerada ocorrida omissão de receitas quando o contribuinte não comprovar a origem individualizada dos créditos efetuados em sua conta bancária. Finalmente, quanto ao depósito listado pela autoridade lançadora na Tabela II do Termo de Verificação Fiscal (fl. 16), a Interessada alega que não foi intimada a esclarecer este crédito e que seria este mera transferência de recursos entre contas de mesma titularidade (R$ 20.000,00 em 27/11/2007). Deve ser esclarecido que foi lançado pela autoridade lançadora o depósito de R$ 31.000,00 de 27/11/2007 (fl. 16), e não o alegado de R$ 20.000,00 da mesma data. Acrescente-se o fato que não consta débito nesta data de R$ 31.000,00 no extrato da conta corrente da Interessada na CEF (fl. 474). Ao contrário do alegado, ela foi sim intimada a comprovar a origem especificamente deste depósito, conforme intimação de fls. 456 e 458. Diante do acima exposto, deve ser mantida a omissão de rendimentos caracterizada por depósitos bancários com origem não comprovada no valor total de R$ 92.900,00, em relação aos quais a Interessada, regularmente intimada, não comprovou mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações (art. 42 da Lei n° 9.430, de 27 de dezembro de 1996). Os nove depósitos de origem não comprovada, que totalizam R$ 185.800,00, foram divididos entre a Interessada e seu cônjuge conforme regra prevista no art. 42, § 6º da Lei n° 9.430, de 27 de dezembro de 1996. (...) Da Falta de Recolhimento do Imposto sobre Ganhos Líquidos no Mercado de Renda Variável A autoridade fiscal lançou a infração de falta de recolhimento do imposto sobre ganhos líquidos no mercado de renda variável, apurando o imposto de R$ 201,40 para o mês de julho de 2007 e de R$ 248,40 para setembro de 2007 antes da compensação da retenção na fonte (fl. 08). Em sua impugnação, a Interessada admite os seguintes impostos devidos por mês e indica, ainda, os recolhimentos de Darfs de código 6015 abaixo descritos: Fl. 1086DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.801 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10830.720322/2011-11 16 A tabela acima revela que a Interessada reconhece valores ligeiramente superiores aos apurados pela autoridade lançadora para os meses de julho e setembro como imposto devido sobre ganhos líquidos no mercado de renda variável, bem como admite que não houve recolhimento de Darf para estes períodos. Desta forma, deve ser mantida a infração de falta de recolhimento do imposto sobre ganhos líquidos no mercado de renda variável, sendo R$ 197,32 para o mês de julho de 2007 e R$ 243,47 para setembro de 2007. A alegação de defesa da Interessada em relação a esta infração seria o fato de que teria recolhido ao longo dos outros meses de 2007 um pequeno valor a maior do que o que seria realmente devido, o que asseguraria o seu direito à restituição. Não cabe às Delegacias da Receita Federal de Julgamento a manifestação inicial em processos relativos a recolhimentos de impostos e eventuais apurações de restituições ou compensações, pois se trata de uma competência originária das unidades de origem, no caso, a DRF/Campinas. O presente julgamento tem por escopo simplesmente viabilizar a constituição definitiva do crédito tributário decorrente dos períodos em questão, cabendo a unidade de origem analisar a questão de seu pagamento. A unidade de origem deverá analisar a alegação da Interessada de recolhimento a maior de imposto relativo ao código de receita 6015 em meses do ano-calendário 2007 distintos daqueles objeto de lançamento (julho e setembro). De fato, e corroborando o acerto da decisão recorrida, cabe salientar que a primeira fase do procedimento, a fase inquisitiva, é de atuação exclusiva da autoridade tributária, que busca obter elementos visando demonstrar a ocorrência do fato gerador e as demais circunstâncias relativas à exigência, independentemente da participação da contribuinte, sendo certo que lastreada nas informações enviadas por meio do Ofício nº 1848/2008/PRM/CAMP, de 11/06/2008, que culminou com o MPF nº 08.1.04.00-2009-00590-1, com a operação de movimentação financeira incompatível com os rendimentos declarados na DAA/2008. Logo, a validade do procedimento fiscal prescinde de intimação prévia, podendo a apuração de eventuais irregularidades, quando conhecidas, abster-se dessa formalidade, caso em que a exigência fiscal será formalizada, sendo este o entendimento já assentado e sumulado neste CARF: Súmula nº 46: O lançamento de ofício pode ser realizado sem prévia intimação ao sujeito passivo, nos casos em que o Fisco dispuser de elementos suficientes à constituição do crédito tributário. (Portaria CARF nº 49, de 1/12/2010, publicada no DOU de 7/12/2010, p.42). Ademais, da leitura da autuação pode-se apurar que o lançamento está amparado nos fatos descritos que, no entender da autoridade fiscal, ensejaram a apuração detalhada do imposto devido e dos encargos aplicados, com a indicação dos dispositivos legais atinentes, além de oportunizar ao contribuinte o exercício do direito de defesa. Do ponto de vista procedimental, a conduta fiscal transcorreu dentro da restrita legalidade sem qualquer prejuízo ou inobservância ao contraditório que, em detrimento das alegações recursais, foi exercido com regularidade e plenitude, inexistindo eventual vício na fundamentação ou mesmo cerceamento de defesa como aventado na peça recursal. Fl. 1087DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.801 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10830.720322/2011-11 17 Quanto ao sigilo bancário, onde se pretende ver nulificada a autuação, porquanto os informes bancários foram obtidos sem prévia ordem judicial, nada a prover, uma vez que tal matéria foi pacificada no STF com o julgamento do RE nº 601.314/SP, recebido na sistemática da repercussão geral – cuja observância é obrigatória pelo CARF, ao teor do art. 98, II, “b” do Novo RICARF – onde restou decidido ser legítima a prestação de informações bancárias com base na LC nº 105/2001, tratando-se de transferência do dever de sigilo da instituição financeira para o Fisco, que poderá ser realizada sem prévia ordem judicial, restando fixada a seguinte tese: “TEMA 225: Tese: I - O art. 6º da Lei Complementar 105/01 não ofende o direito ao sigilo bancário, pois realiza a igualdade em relação aos cidadãos, por meio do princípio da capacidade contributiva, bem como estabelece requisitos objetivos e o translado do dever de sigilo da esfera bancária para a fiscal. II – A lei 10.174/01 não atrai a aplicação do princípio da irretroatividade das leis tributárias, tendo em vista o caráter instrumental da norma, nos termos do artigo 144, § 1º, do CTN.” Logo, inexiste óbice ao Fisco, no exercício de sua missão institucional, solicitar e obter informações bancárias das instituições financeiras, em complemento ao procedimento fiscal em curso, cuja transferência de dados a partir daí não caracteriza eventual quebra de sigilo a importar em violação à decisão judicial obtida posteriormente pela Recorrente, aliando-se ao fato de que, do início dos trabalhos fiscais até a lavratura do auto de infração com ciência regular da contribuinte, ocorrida em 31/03/2011 (fls. 59/60) estava vigente a decisão judicial que determinou a quebra do sigilo, cuja ação fiscal aberta pelo MPF nº 08.1.04.00-2009.00590-1 foi instruída com os extratos das contas bancárias da Recorrente mantidas na CEF e Banco Bradesco, constantes do Ofício nº 1848/2008/PRM/CAMP, além de novas requisições enviadas às aludidas instituições financeiras para complemento da documentação bancária faltante. Destarte, considerando que não foram levados ao ajuste anual a totalidade dos rendimentos recebidos no ano-calendário de 2007, relativos aos ganhos líquidos no mercado de renda variável, e constatada a omissão de rendimentos caraterizada por depósitos bancários sem que se tenha havido a efetiva comprovação da origem dos valores recebidos, no mesmo período, com a apresentação de documentação hábil demonstrando de forma inequívoca a proveniência dos depósitos realizados nas contas de depósitos mantidas em instituições financeiras – não obstante, diga-se de passagem, tenha sido intimada não desincumbiu do ônus que lhe competia, conforme aliás bem relatado na decisão recorrida – urge a manutenção da exigência revisada, ao teor da legislação de regência (art. 42 da Lei nº 9.430/96, e 37/38, 45 e 849 do RIR/99), razão pela qual mantenho subsistente o crédito tributário exigido. Ademais, em relação aos depósitos bancários sem a devida comprovação de sua origem, tal matéria já se encontra sumulada neste CARF, culminando com a edição da súmula vinculante nº 26: Súmula nº 26: A presunção estabelecida no art. 42 da Lei nº 9.430/96 dispensa o Fisco de comprovar o consumo da renda representada pelos depósitos bancários sem origem comprovada. (Vinculante, conforme Portaria MF nº 277, de 07/06/2018, DOU de 08/06/2018) Fl. 1088DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.801 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10830.720322/2011-11 18 Vale relembrar que o lançamento rege-se por expressa determinação legal, sendo portanto a atividade fiscal vinculada e obrigatória, nos termos do art. 142 do CTN, competindo ao Fisco revisar a declaração de ajuste apresentada, calcular a exigência e constituir o crédito tributário, sob pena de responsabilidade funcional. Quanto às supostas violações aos princípios constitucionais aventados, com destaque para princípios da moralidade e impessoalidade, aliado à suposta inobservância do direito de defesa e do contraditório também nada a prover. Como é sabido, e reforçando o acerto da decisão recorrida, este CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade e ilegalidade de lei tributária, cuja matéria aliás também está pacificada por meio da Súmula nº 2: Sumula nº 2 O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. No que tange ao entendimento jurisprudencial trazido para justificar as pretensões recursais, o mesmo nesta seara é improfícuo, porquanto as decisões, mesmo que colegiadas, sem um normativo legal que lhe atribua eficácia, não se traduzem em normas complementares do Direito Tributário, e somente vinculam as partes envolvidas nos litígios por elas resolvidos. Na mesma toada, tem-se que a doutrina também não é oponível ao texto explícito do direito positivo, mormente em se tratando do direito tributário brasileiro, por sua estrita subordinação à legalidade, tudo à inteligência do art. 150, I, da CF/88. Quanto ao pedido de restituição formulado sobre o imposto recolhido a maior sobre ganhos líquidos no mercado de renda variável, nada a prover. Vale registrar que o presente caminho recursal não é via própria para se perquirir tal desiderato. Na exata dicção do art. 64 da Lei nº 9.784/99, a competência deste CARF se restringe em promover o julgamento de recursos contra decisões proferidas pelas Delegacias da Receita Federal de Julgamento/DRJ, sendo competente para tanto a unidade da Receita Federal que jurisdiciona o contribuinte, aliás, como bem fundamentado na decisão recorrida (fls. 1016). Em relação à isenção por moléstia grave, também nada a prover, uma vez que tal matéria somente foi ventilada neste momento processual, constituindo-se em inovação recursal, o que impede a apreciação por este Colegiado, sob pena de supressão de instância e usurpação de competência. Não obstante e ainda que assim não fosse, adianto que não restou demonstrado o cumprimento dos requisitos legais cumulativos à concessão do benefício fiscal pleiteado – com especial destaque para a apresentação do laudo médico pericial oficial, aliado ao fato de que os rendimentos tidos por omitidos não se tratam de proventos ou complementação de aposentadoria, a justificar o pedido formulado – conforme preconiza a legislação tributária, cuja matéria já se encontra pacificada neste CARF, culminando com a edição das Súmulas nº 43 e 63: Súmula nº 43 Os proventos de aposentadoria, reforma ou reserva remunerada, motivadas por acidente em serviço e os percebidos por portador de moléstia profissional ou grave, ainda que Fl. 1089DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.801 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10830.720322/2011-11 19 contraída após a aposentadoria, reforma ou reserva remunerada, são isentos do imposto de renda. Súmula nº 63 Para gozo da isenção do imposto de renda da pessoa física pelos portadores de moléstia grave, os rendimentos devem ser provenientes de aposentadoria, reforma, reserva remunerada ou pensão e a moléstia deve ser devidamente comprovada por laudo pericial emitido por serviço médico oficial da União, Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios. Por fim, quanto ao pedido de suspensão da cobrança do crédito tributário, com especial destaque para o comunicado de cobrança recebido, cabe salientar que, durante o curso processual, o crédito tributário ficará com a exigibilidade suspensa, na exata dicção do art. 151, III do CTN, sendo despiciendo o pedido formulado nesse sentido, sobretudo levando-se em conta que a suspensão requerida já foi aplicada por força de lei, tornando sem efeito a cobrança recebida até o deslinde do presente feito. Conclusão Ante o exposto, voto por rejeitar as preliminares de nulidade e cerceamento de defesa suscitadas, e no mérito em NEGAR PROVIMENTO ao presente recurso, para manter o lançamento e as alterações decorrentes realizadas na base de cálculo do imposto de renda. É como voto. (documento assinado digitalmente) Wilderson Botto Fl. 1090DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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Numero do processo: 13005.721624/2014-70
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu May 08 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Wed Jun 11 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2011 a 31/12/2012 TRABALHADORES VINCULADOS À EMPRESA PRESTADORA DE SERVIÇO OPTANTE PELO SIMPLES. DESCONSIDERAÇÃO DO VÍNCULO EXISTENTE. CARACTERIZAÇÃO DIRETAMENTE COM A EMPRESA PRINCIPAL. PRIMAZIA DA REALIDADE SOBRE A FORMA. Pelo Princípio da Verdade Material, uma vez configurado que a relação jurídica formal apresentada não se coaduna com a relação fática verificada, subsistirá a última. De acordo com o art. 118, inciso I do Código Tributário Nacional, a definição legal do fato gerador é interpretada abstraindo-se da validade jurídica dos atos efetivamente praticados pelos contribuintes, responsáveis, ou terceiros, bem como da natureza do seu objeto ou dos seus efeitos. Constatado que o vínculo empregatício formalmente estabelecido dissocia-se do verdadeiro sujeito passivo, é legítima a atuação fiscal que restabelece a realidade dos fatos, com o consequente lançamento tributário no correto contribuinte, com fulcro no artigo 229, § 2º, do Regulamento da Previdência Social - RPS, aprovado pelo Decreto nº 3.048/99, c/c Pareceres/CJ nºs 330/1995 e 1652/1999. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. COMPROVAÇÃO SIMULAÇÃO. FRAUDE. CABIMENTO. Cabível a imposição da multa qualificada de 150%, quando demonstrado que o procedimento adotado pelo sujeito passivo se enquadra nas hipóteses tipificadas nos artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/64. RETROATIVIDADE BENIGNA. ART. 106, II, C DO CTN. REDUÇÃO DA MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA PARA 100%. O instituto da retroatividade benigna permite a aplicação de lei a fato gerador de penalidade pelo descumprimento de obrigação tributária ocorrido antes da sua vigência, desde que mais benéfica ao contribuinte e o correspondente crédito ainda não esteja definitivamente constituído, exatamente como diz o CTN, art. 106, inciso II, alínea “c. A Lei nº 14.689, de 20 de setembro de 2023, deu nova conformação ao art. 44 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 996, refletindo diretamente na penalidade apurada por meio do correspondente procedimento fiscal. Com efeito, a multa de ofício qualificada teve seu percentual reduzido de 150% (cento e cinquenta por cento) para 100% (cem por cento). REQUERIMENTO DE DILIGÊNCIA PRESCINDÍVEL. INDEFERIMENTO. O requerimento de diligência que trata de questão totalmente inócua para fins de solução do litígio deve ser indeferido por força do disposto no caput do artigo 18 do Decreto nº 70.235/1972.
Numero da decisão: 2301-011.572
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, conhecer parcialmente do recurso voluntário, não conhecendo das alegações de inconstitucionalidade, e, no mérito, dar parcial provimento para reduzir a multa de ofício para 100%. Assinado Digitalmente Marcelle Rezende Cota – Relatora Assinado Digitalmente Diogo Cristian Denny – Presidente Participaram da reunião assíncrona os Conselheiros Carlos Eduardo Avila Cabral (substituto[a] integral), Flavia Lilian Selmer Dias, Marcelle Rezende Cota, Monica Renata Mello Ferreira Stoll, Rodrigo Rigo Pinheiro, Diogo Cristian Denny (Presidente).
Nome do relator: MARCELLE REZENDE COTA

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conteudo_txt : Metadados => date: 2025-06-10T18:20:27Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.5; xmp:CreatorTool: Microsoft® Word 2010; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; language: pt-BR; dcterms:created: 2025-06-10T18:20:27Z; Last-Modified: 2025-06-10T18:20:27Z; dcterms:modified: 2025-06-10T18:20:27Z; dc:format: application/pdf; version=1.5; Last-Save-Date: 2025-06-10T18:20:27Z; pdf:docinfo:creator_tool: Microsoft® Word 2010; access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:modified: 2025-06-10T18:20:27Z; meta:save-date: 2025-06-10T18:20:27Z; pdf:encrypted: false; modified: 2025-06-10T18:20:27Z; Content-Type: application/pdf; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; dc:language: pt-BR; meta:creation-date: 2025-06-10T18:20:27Z; created: 2025-06-10T18:20:27Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 23; Creation-Date: 2025-06-10T18:20:27Z; pdf:charsPerPage: 1836; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; pdf:docinfo:created: 2025-06-10T18:20:27Z | Conteúdo => D O C U M E N T O V A L ID A D O MINISTÉRIO DA FAZENDA Conselho Administrativo de Recursos Fiscais PROCESSO 13005.721624/2014-70 ACÓRDÃO 2301-011.572 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA SESSÃO DE 9 de maio de 2025 RECURSO VOLUNTÁRIO RECORRENTE GIOAVANE F. PICK & CIA LTDA INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2011 a 31/12/2012 TRABALHADORES VINCULADOS À EMPRESA PRESTADORA DE SERVIÇO OPTANTE PELO SIMPLES. DESCONSIDERAÇÃO DO VÍNCULO EXISTENTE. CARACTERIZAÇÃO DIRETAMENTE COM A EMPRESA PRINCIPAL. PRIMAZIA DA REALIDADE SOBRE A FORMA. Pelo Princípio da Verdade Material, uma vez configurado que a relação jurídica formal apresentada não se coaduna com a relação fática verificada, subsistirá a última. De acordo com o art. 118, inciso I do Código Tributário Nacional, a definição legal do fato gerador é interpretada abstraindo-se da validade jurídica dos atos efetivamente praticados pelos contribuintes, responsáveis, ou terceiros, bem como da natureza do seu objeto ou dos seus efeitos. Constatado que o vínculo empregatício formalmente estabelecido dissocia- se do verdadeiro sujeito passivo, é legítima a atuação fiscal que restabelece a realidade dos fatos, com o consequente lançamento tributário no correto contribuinte, com fulcro no artigo 229, § 2º, do Regulamento da Previdência Social - RPS, aprovado pelo Decreto nº 3.048/99, c/c Pareceres/CJ nºs 330/1995 e 1652/1999. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. COMPROVAÇÃO SIMULAÇÃO. FRAUDE. CABIMENTO. Cabível a imposição da multa qualificada de 150%, quando demonstrado que o procedimento adotado pelo sujeito passivo se enquadra nas hipóteses tipificadas nos artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/64. RETROATIVIDADE BENIGNA. ART. 106, II, C DO CTN. REDUÇÃO DA MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA PARA 100%. Fl. 845DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.572 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.721624/2014-70 2 O instituto da retroatividade benigna permite a aplicação de lei a fato gerador de penalidade pelo descumprimento de obrigação tributária ocorrido antes da sua vigência, desde que mais benéfica ao contribuinte e o correspondente crédito ainda não esteja definitivamente constituído, exatamente como diz o CTN, art. 106, inciso II, alínea “c. A Lei nº 14.689, de 20 de setembro de 2023, deu nova conformação ao art. 44 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 996, refletindo diretamente na penalidade apurada por meio do correspondente procedimento fiscal. Com efeito, a multa de ofício qualificada teve seu percentual reduzido de 150% (cento e cinquenta por cento) para 100% (cem por cento). REQUERIMENTO DE DILIGÊNCIA PRESCINDÍVEL. INDEFERIMENTO. O requerimento de diligência que trata de questão totalmente inócua para fins de solução do litígio deve ser indeferido por força do disposto no caput do artigo 18 do Decreto nº 70.235/1972. ACÓRDÃO Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, conhecer parcialmente do recurso voluntário, não conhecendo das alegações de inconstitucionalidade, e, no mérito, dar parcial provimento para reduzir a multa de ofício para 100%. Assinado Digitalmente Marcelle Rezende Cota – Relatora Assinado Digitalmente Diogo Cristian Denny – Presidente Participaram da reunião assíncrona os Conselheiros Carlos Eduardo Avila Cabral (substituto[a] integral), Flavia Lilian Selmer Dias, Marcelle Rezende Cota, Monica Renata Mello Ferreira Stoll, Rodrigo Rigo Pinheiro, Diogo Cristian Denny (Presidente). RELATÓRIO Fl. 846DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.572 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.721624/2014-70 3 Trata-se de Auto de Infração lavrado contra o contribuinte acima identificado, relativo às contribuições previdenciárias correspondentes a parte da empresa e as destinadas a outras entidades (TERCEIROS), em relação as remunerações pagas aos segurados empregados, além da aplicação da multa qualificada, no período de 01/01/2011 a 31/12/2012. O auto de infração de DEBCAD nº 51.052.331-5, conforme se infere dos autos, é composto de 2 levantamentos: “RE – REMUNERACAO EMPREGADOS” e “RS – REMUNERACAO SOCIOS”. No levantamento “RE – REMUNERACAO EMPREGADOS” do auto de infração de DEBCAD nº 51.052.331-5 foram lançadas contribuições sociais previdenciárias da empresa sobre remunerações pagas, devidas ou creditadas, a segurados empregados, inclusive para o financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientais do trabalho – RAT, relativas às competências 01/2011 a 13/2012, acrescidas de multa de ofício de 150% e juros. No levantamento “RS – REMUNERACAO SOCIOS” do auto de infração de DEBCAD nº 51.052.331-5 foram lançadas contribuições sociais previdenciárias da empresa sobre remunerações pagas ou creditadas, a segurados contribuintes individuais, relativas às competências 01/2011 a 12/2011 e 01/2012 a 12/2012, acrescidas de multa de ofício de 150% e juros. Já no auto de infração de DEBCAD nº 51.052.332-3, que é composto somente pelo levantamento “RE – REMUNERACAO EMPREGADOS” foram lançadas contribuições para outras entidades e fundos (Salário Educação, INCRA, SENAC, SESC, SEBRAE) relativas às competências 01/2011 a 13/2012, acrescidas de multa de ofício de 150% e juros. De acordo com o Relatório Fiscal (e-fls. 45/78), extrai-se: Apurou-se, por meio dos procedimentos de auditoria fiscal e com supedâneo nas provas e constatações relacionadas no relatório, que a Autuada (Giovane F. Pick & Cia Ltda), visando usufruir indevidamente do tratamento tributário favorecido oportunizado pelo Simples Nacional, utilizou-se da mão-de-obra de trabalhadores que eram formalmente registrados como empregados e sócios de empresa existente apenas no plano formal (Transpick Transportes Ltda). O fato gerador das contribuições lançadas no levantamento “RE – REMUNERACAO EMPREGADOS” dos autos de infração de DEBCAD nº 51.052.331-5 e nº 51.052.332-3, foi o trabalho remunerado prestado por segurados que, embora formalmente vinculados como empregados à sociedade empresária Transpick Transportes Ltda, mantinham, de acordo com a autoridade fiscal, vínculo empregatício de fato com a Autuada (Giovane F. Pick & Cia Ltda). Já o fato gerador das contribuições lançadas no levantamento RS – REMUNERACAO SÓCIOS” do auto de infração de DEBCAD nº 51.052.331-5 foi o trabalho remunerado prestado por segurados que, embora formalmente vinculados como sócios à sociedade empresária Transpick Fl. 847DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.572 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.721624/2014-70 4 Transportes Ltda, prestavam trabalho de fato, de acordo com a autoridade fiscal, à Autuada (Giovane F. Pick & Cia Ltda). A apuração das remunerações pagas, devidas ou creditadas, aos segurados empregados e aos segurados contribuintes individuais contratados pela Autuada (Giovane F. Pick & Cia Ltda) por intermédio de interposta pessoa jurídica existente apenas no plano formal, foi efetuada com supedâneo nas GFIP’s desta (Transpick Transportes Ltda). De acordo com a autoridade lançadora, parte dos pagamentos feitos ao Simples Nacional pela Transpick Transportes Ltda foi utilizada para abater os créditos apurados como devidos na fiscalização. O percentual da multa de ofício aplicada nos autos de infração de DEBCAD nº 51.052.331-5 e nº 51.052.332-3 foi de 150%, conforme previsto no §1º do artigo 44 da Lei nº 9.430/1996, porque, segundo a autoridade fiscal, restou caracterizada a prática de “sonegação e fraude tributária em evidente conluio das pessoas partícipes beneficiadas”. Diante das alegações colacionadas, a 5ª TURMA da DRJ em Florianópolis/SC, por unanimidade de votos, julgou improcedente a Impugnação e manteve a integralidade do crédito tributário constituído, conforme Ementa abaixo transcrita (e-fls. 697/731): ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2011 a 31/12/2012 LANÇAMENTO DE CRÉDITO PREVIDENCIÁRIO. Constatado o não recolhimento total ou parcial de contribuições sociais previdenciárias, não declaradas em GFIP, o auditor-fiscal da Receita Federal do Brasil efetuará o lançamento do crédito previdenciário. RECONHECIMENTO DO VÍNCULO EMPREGATÍCIO REAL PARA FINS PREVIDENCIÁRIOS. RECONHECIMENTO DO VÍNCULO REAL DO TRABALHADOR PARA FINS PREVIDENCIÁRIOS. SIMULAÇÃO. PRIMAZIA DA REALIDADE. CONTRATAÇÃO DE TRABALHADORES POR INTERMÉDIO DE INTERPOSTA PESSOA JURÍDICA EXISTENTE APENAS NO PLANO FORMAL. USUFRUTO INDEVIDO DO SIMPLES. Constatado pela autoridade fiscal que a empresa, para usufruir indevidamente do Simples Nacional, contrata empregados por intermédio de interposta pessoa jurídica existente apenas no plano formal, correto o enquadramento dos trabalhadores como segurados empregados da real empregadora para fins de cobrança de contribuições sociais previdenciárias. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA DE 150%. Fl. 848DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.572 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.721624/2014-70 5 Sempre que restar configurado pelo menos um dos casos previstos nos artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, o percentual da multa de que trata o inciso I do artigo 44 da Lei nº 9.430/1996 deverá ser duplicado. (...) ARGUIÇÃO DE ILEGALIDADE E INCONSTITUCIONALIDADE. INCOMPETÊNCIA DAS INSTÂNCIAS ADMINISTRATIVAS PARA APRECIAÇÃO. As autoridades administrativas estão obrigadas à observância da legislação tributária vigente no País, sendo incompetentes para a apreciação de arguições de inconstitucionalidade e ilegalidade de atos legais regularmente editados. REQUERIMENTO DE DILIGÊNCIA PRESCINDÍVEL. INDEFERIMENTO. O requerimento de diligência que trata de questão totalmente inócua para fins de dirimição do litígio deve ser indeferido por força do disposto no caput do artigo 18 do Decreto nº 70.235/1972. Inconformado com referida decisão, o contribuinte interpôs Recurso Voluntário (e- fls. 751/792), repisando as alegações da defesa inaugural, motivo pelo qual adoto o relatório da decisão recorrida: Alega que não é parte legítima para figurar como sujeito passivo do crédito tributário lançado nos autos de infração de DEBCAD nº 51.052.331-5 e nº 51.052.332-3, “posto que os fatos geradores que o originaram foram praticados pelas empresas Transpick Transportes Ltda – EPP e Transpick Transportes SP Ltda”. Diz que a constituição da empresa Transpick Transportes SP Ltda ocorreu porque, no final do ano de 2010, a maior tomadora de serviços de transporte de cargas da empresa Transpick Transportes Ltda – EPP, a Avon, “exigiu para renovação do contrato que fosse criada uma empresa em São Paulo para atendimento exclusivo”. Afirma que o administrador da empresa Transpick Transportes Ltda – EPP, que também é sócio da Transpick Transportes SP Ltda, considerou que esta deveria utilizar a estrutura (caminhões e pessoal já ex istente) daquela “porque se assim não o fizesse seria insustentável, no aspecto financeiro e econômico, a situação da empresa de transporte de cargas”. Aduz que a constituição da empresa Transpick Transportes SP Ltda não foi efetuada com a intenção de fraudar, simular, sonegar ou criar planejamento tributário ilegal, mas sim devido a imposição negocial do tomador dos serviços. Diz que embora a expectativa de receitas da empresa Transpick Transportes SP Ltda não ultrapassasse R$ 2.400.000,00, a mesma não se enquadrou no Simples Nacional. Fl. 849DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.572 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.721624/2014-70 6 Assevera que nenhuma despesa das empresas Transpick Transportes Ltda - EPP e Transpick Transportes SP Ltda resultou em diminuição do lucro da Autuada (Giovane F. Pick & Cia. Ltda.). Frisa que, por força do princípio da autonomia da vontade, “é permitido ao particular a adoção das mais variadas estruturas negociais”. Ressalta que o particular, “para atingir o resultado econômico pretendido, está habilitado a escolher livremente o arcabouço negocial que melhor lhe aprouver, de forma que os custos sejam reduzidos e os lucros otimizados”. Afirma que “são lícitas as atitudes dos contribuintes que objetivem à reestruturação e reorganização de seus negócios, estando asseguradas pelo Texto Constitucional, que, em seu art. 5º, XXII, prestigia o direito de propriedade, depreendendo-se também, do art. 5º, IV, IX, XIII, XV e XVII, e art. 170 e seus incisos, o pleno direito ao exercício da autonomia da vontade”. Assevera que o fato de a Autuada ter o mesmo administrador e os mesmos sócios das empresas de transporte de cargas não era impeditivo a constituição destas (empresas de transporte de cargas). Aduz que a regularidade da constituição das empresas de transporte de cargas é atestada pela autonomia operacional das mesmas (empresas de transporte de cargas). Diz que os fatos geradores praticados pela Autuada e as empresas de transporte de cargas são completamente distintos e sem nenhuma correlação, visto que estas atuam no ramo de prestação de serviços de transportes de cargas enquanto aquela no ramo de revenda de combustível. Assevera que, “em nenhum momento da ação fiscal, o Fisco comprovou que a autuada não tinha autonomia operacional, vez que era administrada por seu sócio, que se incumbia pessoalmente das tarefas administrativas e pelos funcionários devidamente registrados e alocados em seus postos de combustíveis”. Alega que é lícita “a segregação em pessoas jurídicas constituídas com os mesmos sócios, pois suas personalidades e capacidades são independentes das pessoas físicas que lhes dão vida”. Afirma que “a eleição da autuada pelo Fisco como sujeito passivo é decorrente de mera presunção, contrariamente à verdade material, vez que não foi comprovado que em sua contabilidade tenha sido usada despesa das empresas de transportes como forma de diminuição do seu lucro tributável”. Aduz que os sujeitos passivos reais do crédito tributário lançado nos autos de infração de DEBCAD nº 51.052.331-5 e nº 51.052.332-3 são as empresas Transpick Transportes Ltda - EPP e Transpick Transportes SP Ltda. Assevera que o crédito tributário exigido nos autos de infração de DEBCAD nº 51.052.331-5 e nº 51.052.332-3 não é exigível em sua integralidade, “vez que Fl. 850DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.572 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.721624/2014-70 7 houve exigência de contribuição previdenciária sobre verbas indenizatórias, de forma ilegal e inconstitucional”. Frisa que, por força do disposto no artigo 195, inciso I, da Constituição Federal, e nos artigos 22, inciso I, e 28, inciso I, da Lei nº 8.212/1991, o campo de incidência das contribuições sociais previdenciárias e contribuições para outras entidades e fundos restringem-se às verbas que visam retribuir o trabalho. Aduz que a referência da norma a rendimentos do trabalho afasta a possibilidade de incidir contribuições sociais previdenciárias e contribuições para terceiros sobre verbas não remuneratórias, como as de natureza indenizatória ou previdenciária. Alega que as bases de cálculo utilizadas pela autoridade lançadora não foram apuradas de forma correta, já que englobam várias verbas de natureza indenizatória ou previdenciária. Afirma que, entre essas verbas de natureza indenizatória ou previdenciária, podem ser citadas: “aviso prévio indenizado”, “férias gozadas”, “terço constitucional de férias gozadas”, os valores pagos nos 15 (quinze) primeiros dias de afastamento do empregado doente ou acidentado e os valores pagos nos dias de afastamento por atestado médico. (...) Afirma que “a multa aplicada pela Fiscalização, de 75% e 150%, além de ser totalmente descabida, contraria frontalmente a jurisprudência das nossas Cortes Superiores, seja do STF, quanto do STJ”. Frisa que, no caso em concreto, “todas as informações foram declaradas e transmitidas a Receita Federal, via GFIP”. Diz que “a jurisprudência do STJ é firme em afirmar que quando não há omissão nas informações prestadas pelos contribuintes, como é o caso em concreto, em que foram declaradas e transmitidas, o limite dos 20% deve ser observado, ainda que se trate de multa fiscal resultante do inadimplemento, pelo contribuinte, de suas obrigações tributárias. (...) Requer, por fim, sucessivamente: a declaração de nulidade dos autos de infração hostilizados, devido a ilegitimidade passiva; e “a realização de diligência para apuração dos valores de verbas indenizatórias” com o posterior cancelamento da parte dos lançamentos que foi efetuada sobre tais valores. Ademais, requer que o percentual das multas aplicadas seja reduzido para 20% ou, alternativamente, para 75%. Ao fim, o recorrente pugna que seja julgado totalmente improcedente os presentes Autos de Infração, com o cancelamento da integralidade do crédito tributário. Fl. 851DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.572 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.721624/2014-70 8 É o relatório. VOTO Conselheira Marcelle Rezende Cota, Relatora Conheço do Recurso Voluntário, uma vez tempestivo e preenchidos os demais requisitos de admissibilidade. MÉRITO Desconsideração do Negócio – Caracterização – Primazia da Realidade Trata-se de créditos tributários referentes a contribuições sociais previdenciárias e devidas aos Terceiros, incidentes sobre a remuneração de trabalhadores que formalmente foram registrados como segurados da empresa TRANSPICK TRANSPORTES LTDA (optante pelo SIMPLES), mas que diante da situação fática verificada pela fiscalização, foram vinculados à sociedade empresarial GIOVANE F. PICK & CIA LTDA, ora Autuado. A autoridade fiscal concluiu que houve uma “simulação” na contratação, pelo autuado, dos serviços que lhes foram prestados pela empresa TRANSPICK, a fim de dissimular os fatos geradores das contribuições lançadas. Em apertada síntese, o Recorrente aduz que os fatos apurados não evidenciaram a existência de planejamento tributário ilícito ou de abuso de forma, e que as relações comerciais existentes entre ele e a empresa Transpick apenas buscaram a eficiência do seu negócio. Argumenta, ainda, que inexiste nos autos qualquer elemento indicador do vínculo empregatício, o qual foi meramente presumido pela fiscalização, com base em indícios. Pois bem, a questão central na solução do presente litígio repousa na verificação da existência ou não de elementos fáticos e jurídicos suficientes para caracterizar a contratação de empregados registrados na pessoa jurídica optante pelo Simples para com o autuado. Inobstante os argumentos do recorrente contra referido procedimento levado a efeito na constituição do crédito tributário ora exigido, a legislação previdenciária, por meio do artigo 229, § 2º, do Regulamento da Previdência Social – RPS, aprovado pelo Decreto nº 3.048/1999, impôs ao Auditor Fiscal a obrigação de considerar os contribuintes individuais (autônomos), prestadores de serviços pessoas jurídicas ou outros prestadores de serviços como segurados empregados, quando verificados os requisitos legais, in verbis: Art. 229. [...] Fl. 852DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.572 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.721624/2014-70 9 § 2º Se o Auditor Fiscal da Previdência Social, constatar que o segurado contratado como contribuinte individual, trabalhador avulso, ou sob qualquer outra denominação, preenche as condições referidas no inc. I «caput» do art.9º, deverá desconsiderar o vínculo pactuado e efetuar o enquadramento como segurado empregado Verifica-se do artigo supracitado, que o legislador ao mencionar “ [...] ou sob qualquer outra denominação [...]”, deu margem a desconsideração da personalidade jurídica de empresas ou dos negócios jurídicos, quando constatados os pressupostos para tanto, tal como procedeu o Auditor Fiscal na presente demanda. Mais a mais, esse procedimento também encontra respaldo no Parecer/MPAS/CJ nº 1652/99 c/c Parecer/MPAS/CJ nº 299/95, os quais apesar de não vincularem este Colegiado, tratam da matéria com muita propriedade, com as seguintes ementas: EMENTA PREVIDENCIÁRIO – CUSTEIO – VÍNCULO EMPREGATÍCIO– DESCARACTERIZAÇÃO DE MICROEMPRESÁRIOS. 1. A descaracterização de microempresários, pessoas físicas, em empregados é perfeitamente possível se verificada a existência dos elementos constituintes da relação empregatícia entre o suposto “tomador de serviços” e o tido “microempresário. EMENTA Débito previdenciário. Avocatória. Segurados empregados indevidamente caracterizados como autônomos. Procedente a NFLD emitida pela fiscalização do INSS. Revogação do Acórdão nº 671/94 da 2ª Câmara de Julgamento do Conselho de Recursos da Previdência Social, que decidiu contrariamente a esse entendimento. Ainda a respeito do tema, cumpre transcrever o artigo 12, inciso I, alínea “a”, da Lei nº 8.212/91, e o artigo 3º da CLT, que assim estabelecem: Art. 12. São segurados obrigatórios da Previdência Social as seguintes pessoas físicas? I – como empregado: a) aquele que presta serviço de natureza urbana ou rural à empresa, em caráter não eventual, sob sua subordinação e mediante remuneração, inclusive como diretor empregado;” Art. 3º. Considera-se empregado toda pessoa física que prestar serviços de natureza não eventual a empregador, sob a dependência deste e mediante salário. Fl. 853DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.572 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.721624/2014-70 10 Assim, constatados todos os requisitos necessários à caracterização da relação laboral, a autoridade administrativa, de conformidade com os dispositivos legais encimados, tem a obrigação de caracterizar como segurado empregado qualquer trabalhador que preste serviço ao contribuinte nestas condições, fazendo incidir, consequentemente, as contribuições previdenciárias sobre as remunerações pagas ou creditadas em favor daqueles. Contudo, não basta que a autoridade lançadora presuma tal situação. Deve, em verdade, deixar explicitamente comprovada a existência dos pressupostos legais da relação empregatícia, sob pena de improcedência do lançamento por ausência de comprovação do fato gerador do tributo, e cerceamento do direito de defesa do contribuinte. É o que determina o artigo 37 da Lei nº 8.212/91, nos seguintes termos: Art. 37. Constatado o atraso total ou parcial no recolhimento de contribuições tratadas nesta Lei, ou em caso de falta de pagamento de benefício reembolsado, a fiscalização lavrará notificação de débito, com discriminação clara e precisa dos fatos geradores, das contribuições devidas e dos períodos a que se referem, conforme dispuser o regulamento. (g.n.) No mesmo sentido, o artigo 142 do Código Tributário Nacional, ao atribuir a competência privativa do lançamento à autoridade administrativa, igualmente, exige que nessa atividade o fiscal autuante descreva e comprove a ocorrência do fato gerador do tributo lançado, como segue: Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Ultrapassada a questão atinente à fundamentação legal, passa-se à análise dos fundamentos de fato que embasam os procedimentos adotados pela fiscalização. Na hipótese dos autos, a ilustre autoridade lançadora, ao proceder a caracterização dos empregados da pessoa jurídica como sendo, na realidade, funcionários do autuado, foi muito feliz em sua empreitada, demonstrando e comprovando, no entendimento deste Conselheiro, os requisitos legais necessários à configuração do vínculo, como passaremos a demonstrar. Nesse particular o Relatório Fiscal, ao qual ora se reporta, traz um extenso rol de elementos que levaram à conclusão encimada. Pode-se resumi-lo nos termos seguintes: Fl. 854DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.572 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.721624/2014-70 11 A) Administração e controle. No decorrer da fiscalização foi constatado que a administração das empresas tem a sede no escritório da matriz da empresa Giovane F. Pick & Cia Ltda (EMPRESA POSSUI 5 FILIAIS), doravante denominada Posto Central, localizado na rua Cláudio Manoel, 325 – Vera Cruz/RS e está centralizada no Sr. Giovane F. Pick, responsável geral pelo grupo e na Sra. Alessandra Tews, responsável pela parte financeira. O Sr. Giovane F. Pick possui procuração na qual lhe são outorgados amplos poderes para administrar de fato a empresa Transpick Transportes Ltda, optante do SIMPLES NACIONAL, nos seguintes termos: “...“movimentar contas bancárias emitindo e endossando cheques, abrir e encerrar contas bancárias, requerer falência, concordar e embargar concordatas... enfim TUDO PRATICAR PARA O BOM E FIEL DESEMPENHO DESTE MANDATO, PODENDO TUDO ASSINAR E DECIDIR, E PRATICAR EMBORA AQUI NÃO ESTANDO EXPRESSO”. (...) b) da distribuição das receitas e da folha de pagamento. Durante a diligência efetuada na sede da empresa TransPick Transportes Ltda constatamos tratar-se de um galpão onde funciona a garagem, a oficina mecânica e a borracharia. Não possui instalações para atividades administrativas. No entanto, a empresa possui funcionários registrados nas atividades de gerentes, gerente de recursos humanos, gerente de marketing, supervisor, secretário(a), auxiliar administrativo e motoristas, conforme demonstrativo GFIP em anexo. Esses funcionários administrativos exercem suas atividades no escritório da matriz do Posto Central, localizado na rua Cláudio Manoel, 325 – Vera Cruz/RS. Observou-se também que houve migração de gerente da empresa Giovane F. Pick para a TransPick Transportes Ltda (Magno Luiz Ferreira Broqua e Dagoberto José Bayan de Menezes). O quadro de funcionários da matriz do Posto Central girou em torno de 10 funcionários mensais nos AC 2010 e 2011 e de 15 funcionários mensais no AC de 2012, sendo predominante a atividade classificada no CBO – Classificação Brasileira de Ocupações – sob o código 5211 – Operador de comércio em lojas e mercados conforme demonstrativo em anexo. Por outro lado, o quadro de pessoal da TransPick Transportes Ltda, optante do SIMPLES NACIONAL, foi gradativamente aumentando partindo de uma média mensal de 27 funcionários no AC de 2010, passando para 34 funcionários mensais AC 2011, 41 funcionários no AC de 2012 e 43 funcionários no AC 2013, sendo as atividades predominantes classificada no CBO – Classificação Brasileira de Ocupações – sob os códigos 7825 e 7823 – Motoristas. As médias mensais de motoristas ficaram em 13 no AC 2010, 21 no AC 2011 e 25 nos AC 2012 e 2013: (...) Fl. 855DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.572 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.721624/2014-70 12 Como mencionado anteriormente, a sede da empresa TransPick Transportes Ltda possui instalações de garagem, borracharia e oficina, logo, os demais funcionários (NÃO MOTORISTA) exercem suas atividades na sede administrativa do grupo, ou seja, o Posto Central localizado na rua Cláudio Manoel, 325. Importante ressaltar que a Sra. Alessandra Tews, sócia do Posto Central e da Transpick Transportes SP Ltda consta como funcionária da empresa TransPick Transportes Ltda em todo o período fiscalizado. Diferente do número de funcionários que aumentaram com o decorrer do tempo, as receitas declaradas pela empresa TransPick Transportes Ltda, optante do SIMPLES NACIONAL, foram reduzidas drasticamente nos AC 2011, 2012 e 2013, de tal forma que NOS AC 2012 E 2013 NÃO SÃO SUFICIENTES PARA COBRIR OS GASTOS COM A FOLHA DE PAGAMENTO: (...) c) Dos caminhões De acordo com o item 02 do Termo de Início de Diligência Fiscal a empresa Transpick Transportes SP Ltda - ME foi solicitada a apresentar demonstrativo com a discriminação dos bens integrantes do ativo imobilizado. (...) Importante salientar que nos AC de 2011 e 2012 a Transpick Transportes Ltda - EPP possui uma média mensal de 21 a 25 motoristas, quadro esse que demonstra que parte dos motoristas exercem suas atividades com os veículos de propriedade do Posto Central. Fica evidente que os caminhões das duas empresas: Posto Central e Transpick Transportes Ltda -EPP são utilizados nas atividades da empresa Transpick Transportes SP Ltda – ME, fato esse também observado nos Conhecimentos de Transporte Rodoviários -CTR apresentados pela empresa com sede em São Paulo. Por fim, esse fato foi comprovado pela resposta ao item 07 do Termo de Intimação Fiscal 02. (...) d) Do contrato de prestação de serviço com a AVON COSMÉTICOS LTDA. Em resposta aos questionamentos sobre o contrato de prestação de serviços com a empresa AVON COSMÉTICOS LTDA, as empresas Transportes Transpick Ltda e Transportes Transpick SP Ltda -ME informaram que não possuem contrato assinado, embora tenham prestado os serviços. Observa-se nos documentos e livros contábeis apresentados que as receitas escrituradas nas empresas são provenientes da prestação de serviços para a mesma empresa e que migraram entre as empresas do grupo no decorrer dos AC 2011, 2012 e 2013. e) dos extratos bancários Fl. 856DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.572 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.721624/2014-70 13 A Transpick Transportes Ltda -ME (optante do Simples Nacional) declarou em DASN nos AC 2012 e 2013 receitas totais de R$ 49.060,00 e 134.025,59. Nas GFIP's dos AC 2012 e 2013 as despesas com o quadro de funcionários totalizaram R$ 576.082,76 e 752.301,61. (...) Fica mais uma vez evidente a utilização da empresa optante do Simples Nacional apenas para usufruir dos benefícios tributários previdenciários, sendo o suprimento de caixa necessário para quitação das despesas com o quadro de funcionários, aquisição de veículos e manutenção efetuado pelas demais empresas do grupo econômico. Assim sendo, temos que o conjunto probatório juntado pelo Fisco é robusto, consistente e convergente o suficiente para vincular diretamente os segurados empregados da PJ optante pelo SIMPLES ao recorrente, atestando a sua condição de verdadeiro tomador dos serviços prestados pelos segurados. Pautado nas provas articuladas por ambas as partes, o convencimento quanto à vinculação decorre não só do conjunto fático-probatório carreado pela fiscalização, mas também pela linha argumentativa utilizada para contrapor a acusação fiscal, pela qual a recorrente faz considerações genéricas e demasiadamente teóricas, sem refutar concreta e efetivamente os fatos, os nomes, os números e os documentos colhidos pela fiscalização ao longo do procedimento de auditoria. Portanto, a análise conjunta dos elementos probatórios leva à conclusão da efetiva prestação dos serviços pelos trabalhadores para a pessoa jurídica notificada, não optante pelo Simples. Neste aspecto, tendo o contribuinte repisado as alegações da defesa inaugural sem juntar nenhum novo elemento de prova, peço vênia para transcrever excertos da decisão recorrida e adotá-los como razões de decidir, por muito bem analisar as alegações suscitadas pelo autuado e documentos acostados aos autos , in verbis: Dentre as constatações e elementos de prova discriminados pela autoridade fiscal que não deixam dúvidas de que a Autuada se utilizou, no período a que s e referem as presentes autuações (01/2011 a 12/2012), de empresa criada apenas no plano formal para registrar formalmente segurados empregados e segurados contribuintes individuais e, assim, usufruir indevidamente dos benefícios do Simples Nacional, podemos citar: I) a constatação de que a administração da Autuada (Giovane F. Pick & Cia Ltda) e das empresas Transpick Transportes Ltda e Transpick Transportes SP Ltda tem Fl. 857DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.572 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.721624/2014-70 14 sede no escritório da matriz da Autuada, localizado na Rua Cláudio Manoel, 325, Vera Cruz/RS; II) a constatação de que a administração gerencial e operacional da Autuada (Giovane F. Pick & Cia Ltda) e das empresas Transpick Transportes Ltda e Transpick Transportes SP Ltda é centralizada de fato no Sr. Giovane Fernando Pick, responsável geral pelo grupo e na Sra. Alessandra Tews, responsável pela parte financeira; III) o fato de existir procuração outorgada pela Transpick Transportes Ltda, optante do Simples Nacional, conferindo amplos poderes para o Sr. Giovane Fernando Pick administrar de fato a empresa, nos seguintes termos: “...movimentar contas bancárias emitindo e endossando cheques, abrir e encerrar contas bancárias, requerer falência, concordar e embargar concordatas... enfim TUDO PRATICAR PARA O BOM E FIEL DESEMPENHO DESTE MANDATO, PODENDO TUDO ASSINAR E DECIDIR, E PRATICAR EMBORA AQUI NÃO ESTANDO EXPRESSO”; IV) o fato de o Sr. Giovane Fernando Pick ser o sócio responsável pela empresa Transpick Transportes SP Ltda – ME; V) a constatação de que, embora a sede da empresa Transpick Transportes Ltda seja um galpão onde funciona garagem, oficina mecânica e borracharia, sem instalações para atividades administrativas, esta possui, conforme as suas GFIP’s, funcionários registrados nas atividades de gerente, gerente de recursos humanos, gerente de marketing, supervisor, secretário(a), auxiliar administrativo e motoristas; VI) a constatação de que os empregados administrativos (não motoristas) registrados na Transpick Transportes Ltda exercem suas atividades no escritório da matriz da Autuada (Giovane F. Pick & Cia Ltda), localizado na Rua Cláudio Manoel, 325, Vera Cruz/RS; VII) a constatação de que ocorreu migração do vínculo formal de gerentes da Autuada (Giovane F. Pick & Cia Ltda) para a Transpick Transportes Ltda (Magno Luiz Ferreira Broqua e Dagoberto José Bayan de Menezes); VIII) o fato da Sra. Alessandra Tews, sócia da Autuada (Giovane F. Pick & Cia Ltda) e da Transpick Transportes SP Ltda constar como funcionária da empresa Transpick Transportes Ltda em todo o período fiscalizado; IX) a constatação de que, embora o número de empregados da empresa Transpick Transportes Ltda (optante do Simples Nacional), assim com as despesas com a remuneração deles (empregados), tenham aumentado com o decorrer do tempo, as suas receitas declaradas foram reduzidas drasticamente nos anos-calendário 2011, 2012 e 2013, de tal forma que nos anos-calendário 2012 e 2013 não foram suficientes para cobrir os gastos com a folha de pagamento; Fl. 858DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.572 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.721624/2014-70 15 X) o fato dos sócios da sociedade empresária Transpick Transportes SP Ltda, inscrita no CNPJ sob o nº 13.295.059/0001-04, Sr. Giovane Fernando Pick e Sra. Alessandra Tews, serem proprietários da Autuada (Giovane F. Pick & Cia Ltda); XI) o fato de ter sido registrado que o endereço de filial da empresa Transpick Transportes SP Ltda é o mesmo onde funciona uma filial do Posto Candelária (Rua Roberto Gruendling, 81, sala 01, Centro, Vera Cruz – RS), que também é de propriedade do Sr. Giovane Fernando Pick; XII) o fato da empresa Transpick Transportes SP Ltda, embora tenha registrado em GFIP apenas um funcionário no período de fevereiro a dezembro de 2011 e não possua bens, ter declarado receitas em DIPJ, referentes aos anos-calendário 2011, 2012 e 2013, no montante respectivo de R$ 4.046.235,41, R$ 5.031.691,14 e R$ 3.208.862,65; XIII) a constatação de que a soma das receitas declaradas pela empresa Transpick Transportes Ltda - EPP (optante do Simples Nacional) e pela Transpick Transportes SP Ltda ultrapassa os limites do Simples Nacional; XIV) a constatação de que, exatamente na época em que ocorreu uma queda das receitas declaradas da empresa Transpick Transportes SP Ltda (segundo semestre de 2013), foi criada uma outra empresa do grupo familiar, Transpick-SP Transportes Ltda, inscrita no CNPJ sob o nº 15.840.405/0001-05, com sede na rua Lourival Rodrigues da Silva, 314, Vila Itaim - SP, tendo como sócios o Srs. Cláudio Francisco Pick (CPF 448.322.490-53), sócio da empresa Transpick Transportes Ltda (optante do Simples Nacional), e Edemar Pompmacher (CPF 682.106.710-49), funcionário da Transpick Transportes Ltda (optante do Simples Nacional); XV) a constatação de que a empresa Transpick-SP Transportes Ltda – ME (CNPJ 15.840.405/0001-05) declarou em DIPJ um faturamento de R$ 2.004.372,07 no ano- calendário 2013, e que a soma deste valor com os declarados em DIPJ pela Transpick Transportes Ltda e pela Transpick Transportes SP Ltda para o ano- calendário 2013 totalizou montante (R$ 5.347.260,31) muito próximo a soma dos valores de faturamento declarados para os anos-calendário 2011 e 2012 pelas empresas do grupo da Autuada (Giovane F. Pick & Cia Ltda) como receitas de serviços prestados para a empresa AVON COSMÉTICOS, conforme demonstrado pela quadro abaixo: (...) XVI) a constatação de que o saldo crescente de lucros passível de ser distribuído aos sócios com isenção do IR declarado pela Transpick Transportes SP Ltda – ME nas suas DIPJ relativas aos anos-calendário 2011, 2012 e 2013 (ficha 38 – Demonstração dos Lucros e Prejuízos Acumulados) são obtidos graças a utilização da empresa Transpick Transportes Ltda EPP (optante do Simples Nacional), que declara os custos de pessoal (embora não possua receita declarada para cobrir os custos) e fornece parte dos caminhões utilizados no transporte, e da Autuada (Giovane F. Pick & Cia Ltda), que também fornece veículos usados na prestação de Fl. 859DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.572 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.721624/2014-70 16 serviços e assume custos que não são computados na empresa Transpick Transportes SP Ltda; XVII) a declaração dada pela empresa Transpick Transportes SP Ltda, ao responder questionamento contido em Termo de Intimação Fiscal (nº 01) acerca da ausência de lançamento contábil de despesas nos anos-calendário 2011 e 2012, de que não existe lançamento contábil porque as despesas não foram pagas pela empresa nesse período; XVIII) as declarações dadas pela empresa Transpick Transportes SP Ltda, ao responder questionamento contido em Termo de Intimação Fiscal (nº 01), de que a ausência de despesas de aluguel de veículos, assim como a falta de contratos de cessão de veículos, se justifica pelo fato de que os veículos utilizados, bem como os motoristas que os conduziram, foram cedidos; XIX) a constatação, conforme demonstrado pela foto reproduzida à fl. 52 dos autos, que foi extraída no site https://maps.google.com.br/, de que o imóvel localizado no endereço da matriz da empresa Transpick Transportes SP Ltda (Rua Caldas Novas, 355, Bairro Vila Barros, Guarulhos/SP) não aparenta ser sede de uma empresa; XX) a declaração prestada pela empresa Transpick Transportes SP Ltda, ao responder intimação fiscal para que informasse quais empresas efetuaram o pagamento das suas despesas e a apresentar os comprovantes de todas as despesas que foram pagas por terceiros, de que “as despesas foram misturadas entre as empresas, sendo que não tem como recuperar os documentos e tão pouco relacionar as despesas que foram pagas por qual empresa”; XXI) a constatação de que os custos da empresa Transpick Transportes SP Ltda foram absorvidos na escrituração contábil das demais empresas do grupo da Autuada (Giovane Fernando Pick & Cia Ltda); XXII) a constatação de que a empresa Transpick Transportes SP Ltda não tem capacidade operacional para desenvolver suas atividades, já que, além de não possuir patrimônio, não possui funcionários e não registra despesas inerentes a sua atividade, pois não as paga; XXIII) a constatação, efetuada com base nos Conhecimentos de Transporte Rodoviários – CTR apresentados pela empresa Transpick Transportes SP Ltda, de que esta utilizava caminhões da Autuada (Giovane F. Pick & Cia Ltda) e da empresa Transpick Transportes Ltda – EPP; XXIV) a constatação de que a Autuada (Giovane F. Pick & Cia Ltda), embora possua vários caminhões, não os utiliza nas atividades que formalmente fazem parte do seu objeto; XXV) a constatação de que a Autuada (Giovane F. Pick & Cia Ltda), embora arcasse com os custos de peças e de manutenção de seus caminhões, não obtinha renda com a cessão dos mesmos para outras empresas; Fl. 860DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.572 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.721624/2014-70 17 XXVI) a constatação de que a empresa Transpick Transportes Ltda – EPP também utilizava caminhões da Autuada (Giovane F. Pick & Cia Ltda), visto que, nos anos de 2011 e 2012, embora tivesse apenas 11 (onze) caminhões, teve uma média mensal de 21 a 25 motoristas registrados; XXVII) a constatação de que as empresas Transportes Transpick Ltda e Transportes Transpick SP Ltda – ME prestaram serviços para a empresa Avon Cosméticos Ltda mesmo sem ter nenhum contrato assinado com esta (Avon); XXVIII) a constatação, efetuada com base nos documentos e livros contábeis apresentados, de que as receitas escrituradas nas empresas Transpick Transportes Ltda - EPP, Transpick Transportes SP Ltda – ME e Transpick – SP Transportes Ltda – ME, relativas aos anos de 2011, 2012 e 2013, são provenientes da prestação de serviços para a mesma empresa (Avon); XXIX) a constatação de que a empresa Transpick Transportes Ltda (optante do Simples Nacional), embora tenha declarado em DASN (Declaração Anual do Simples Nacional) referentes aos anos-calendário 2012 e 2013, receitas totais de R$ 49.060,00 e 134.025,59, declarou nas GFIP das competências dos anos de 2012 e 2013 despesas com o quadro de funcionários que totalizaram R$ 576.082,76 e 752.301,61, e teve uma movimentação financeira, nos anos-calendário de 2012 e 2013, conforme demonstram os extratos bancários apresentados, com créditos nos valores de R$ 2.742.924,12 e R$ 2.187.933,43; XXX) a constatação de que a Autuada (Giovane F. Pick & Cia Ltda), além de ser a centralizadora de todas as operações gerenciais ocorridas nas empresas interpostas (Transpick Transportes Ltda - EPP, Transpick Transportes SP Ltda – ME e Transpick – SP Transportes Ltda – ME), fornece parte dos veículos utilizados pelas mesmas (empresas interpostas) e assume despesas inerentes a atividade de transporte; XXXI) a constatação de que a empresa Transpick Transportes SP Ltda - ME, em decorrência da ausência de escrituração das despesas decorrentes da sua atividade, acumulou um lucro líquido, nos anos-calendário de 2011 e 2012, passível de ser distribuído aos sócios com a isenção de IRPF, no valor de R$ 6.470.911,74; XXXII) a constatação de que as empresas Giovane F. Pick & Cia Ltda, Transpick Transportes Ltda - EPP e Transpick Transportes SP Ltda – ME, compreendem um único empreendimento econômico que realiza a atividade de transporte . (grifo nosso) Deve ser destacado que neste caso a verdade material, como restou amplamente demonstrado acima, difere das formalidades dos atos e negócios praticados e sobre estas prevalece. Fl. 861DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.572 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.721624/2014-70 18 Como já mencionado, cabe observar que alguns desses elementos de prova e constatações, se forem analisados individualmente, podem até conferir um aparente caráter de normalidade ao arcabouço formal criado pela Autuada (Giovane F. Pick & Cia Ltda) para dissimular o vínculo real existente com os trabalhadores formalmente vinculados como segurados empregados e segurados contribuintes individuais à empresa Transpick Transportes Ltda - EPP, no entanto, quando apreciados todos em conjunto, comprovam que foi correta a análise da autoridade fiscal, uma vez que demonstram que a Autuada, visando usufruir indevidamente do tratamento tributário favorecido oportunizado pelo Simples Nacional (Regime Especial Unificado de Arrecadação de Tributos e Contribuições devidos pelas Microempresas e Empresas de Pequeno Porte), utilizou-se, no período a que se referem as autuações hostilizadas (01/2011 a 12/2012), da mão-de-obra de trabalhadores vinculados formalmente a empresa existente apenas no plano formal (Transpick Transportes Ltda - EPP). Como se observa das constatações acima, a autoridade lançadora se desincumbiu do ônus de comprovar os requisitos da relação laboral entre os funcionários com o ora autuado, na forma que a legislação de regência exige, mais precisamente o artigo 229, § 2°, do Decreto n° 3.048/99 –Regulamento da Previdência Social, além de toda legislação citada neste voto, possibilitando, assim, a desconsideração da personalidade jurídica daquela empresa optante pelo SIMPLES com o fito reclassificar o vínculo entre tais funcionários com o recorrente. Constata-se, assim, que o fiscal autuante, ao promover o lançamento, agiu da melhor forma, com estrita observância à legislação que regula o tema, demonstrando circunstanciadamente os fatos que ensejaram a constituição do crédito previdenciário, impondo a manutenção da autuação em sua integralidade. Parcelas Indenizatórias – Alegação Genérica O Recorrente alega que as bases de cálculo utilizadas no lançamento foram apuradas de forma incorreta pela autoridade fiscal, visto que, segunda ele, englobam verbas que, por serem indenizatórias ou previdenciárias, não integram o campo de incidência das contribuições sociais previdenciária. Diz que se enquadram em tal situação, por exemplo, os valores pagos nos 15 (quinze) primeiros dias de afastamento do empregado doente ou acidentado, os valores pagos nos dias de afastamento por atestado médico e os valores pagos a título de aviso prévio indenizado, adicional noturno, adicional de insalubridade e adicional de periculosidade, entre outras. Quanto à incidência sobre verbas indenizatórias, conforme já analisado, parte-se do ponto de que o que foi informado pela empresa optante pelo SIMPLES em sua GFIP como base de cálculo de contribuições sociais previdenciárias. Sucede que, da análise dos autos, observa-se que o Recorrente sequer apresentou provas de que as referidas bases de cálculo efetivamente englobam as verbas que aduz estarem fora do campo de incidência das contribuições sociais previdenciárias . Fl. 862DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.572 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.721624/2014-70 19 Destaca-se, ainda, que a defesa deve mencionar os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância, não sendo admitida impugnação ou manifestação de inconformidade genérica, por negação geral ou em abstrato, situação em que o lançamento o indeferimento pedido será considerado não realizado, haja vista o que dispõe o art. 17 do mesmo Decreto: “Considerar-se-á não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo impugnante.” Diante do exposto, verifica-se que deve ser considerada improcedente de pronto a alegação do recorrente. Da multa qualificada Contrapõem-se, o Recorrente, contra a qualificação da multa aplicada afirmando a inocorrência de qualquer das situações previstas nos artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/64 e a ausência de atuação dolosa. A qualificação da multa aplicada foi fundamentada pelo auditor fiscal na disposição contida nos artigos 71 a 72 da Lei nº 4.502/64, entendendo pela ocorrência de sonegação e fraude, com vistas à redução ou supressão do tributo devido. Em que pese esta Conselheira ter o entendimento de que a simples caracterização como segurados empregados, por si só, não tem o condão de ensejar a qualificação da multa, devendo haver a devida comprovação das condutas, os fatos constantes no relatório fiscal são aptos a justificar a tipificação prevista no artigo mencionado, uma vez que o sujeito passivo, de fato, simulou situação inexistente, ao qual sabidamente não fazia jus. A autoridade autuante justifica a qualificação da multa no final do seu relatório, ou seja, impondo toda a fundamentação como ensejadora de uma das hipóteses doas artigos 71 a 73, vejamos: A fiscalização apurou que a GIOVANE F PICK & CIA LTDA utilizou-se da interposta pessoa Transpick Transportes Ltda - EPP, canalizando os fatos geradores de contribuição previdenciária para a interposta como optantes do Simples Nacional com fins de lograr benefício tributário ilícito através de uma tributação mais favorecida, ocultando que havia uma relação entre as empresas. A fiscalização apurou provas demonstrando que a relação trabalhista que a GIOVANE F PICK & CIA LTDA mantinha com os empregados formalizados na interposta era direta, sendo supervisionados operacionalmente pelo Sr. Giovane F Pick. Inclusive o gerenciamento de recursos humanos e de logística das empresas é totalmente integrado, sendo controlado a partir de um único ponto: o POSTO CENTRAL. Fl. 863DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.572 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.721624/2014-70 20 Também é clara a conduta ilícita das partes com fins de manutenção da interposta dentro dos limites do SIMPLES, utilizando-se de outra empresa, a Transpick Transportes SP Ltda - ME para interposta nunca ultrapassasse (como nunca ultrapassou) os limites do SIMPLES, sendo que os recursos para a satisfação das despesas de pessoal apenas transitavam pela conta bancária da empresa Transpick Transportes Ltda – EPP. Demonstrou a fiscalização que a Giovane F Pick & Cia Ltda é a base operacional, centralizando todos os setores de atividades das empresas envolvidas. É clara a conduta demonstrada no relatório de atividade fiscal revelando o uso das interpostas como meio sonegatório com fins de impedir o conhecimento por parte da autoridade fazendária da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária na relação jurídico-tributária, ocultada sob a cortina da atividade de prestação de serviços de transporte por empresa do grupo que exerce suas atividades com veículos cedidos e sem documento de cedência, ou seja, sem custo algum; em imóvel cedido sem documento de cedência; não possui patrimônio; não possui funcionários e não registra despesas inerentes a sua atividade pois não foram pagas por ela, conforme afirmado: “as despesas foram misturadas entre as empresas, sendo que não tem como recuperar os documentos e tão pouco relacionar as despesas que foram pagas por qual empresa”. Ou seja, a empresa Transpick Transportes SP Ltda - ME não possui patrimônio e nem capacidade operacional para desenvolver suas atividades. Existe apenas documentalmente. Tal procedimento caracteriza a circunstância agravante disposta no inciso I do art. 71 da Lei nº 4502/64, acarretando a qualificação da multa. Ficou claro que a escrituração dos livros caixas das empresas envolvidas não refletem a verdade dos fatos. Aliás, a empresa Transpick Transportes Ltda – EPP não chegou nem a apresentar o Livro Caixa, sendo constatado nos extratos bancários apresentados valores de entrada incompatíveis com os registros de receitas declarados em DASN. Afirmamos que as condutas identificadas pela fiscalização ao longo do presente relatório somente poderiam ser realizadas se entre as partes houvesse um ajuste fraudulento e doloso para que em evidente acerto os benefícios trabalhistas usufruídos pela terceirizada refletissem em benefícios tributários ilícitos na Giovane F Pick & Cia Ltda. Não se vislumbra que tenha havido uma conduta esporádica ou acidental, ou de mera interpretação da legislação. É uma postura recorrente ao longo de vários períodos, objetivando a manipulação dos custos e receitas para fins fraudulentos e sonegatórios. (...) Fl. 864DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.572 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.721624/2014-70 21 Tem-se, portanto, que o dolo ficou evidenciado a partir da orquestração da tentativa, precípua, de economia tributária, a qual não se pode afirmar que não foi consciente, pois foi fruto de um planejamento, que envolveu, inclusive, uma sequência temporal e um padrão comportamental, especialmente, reafirmando que a existência da pessoa jurídica TRANSPICK TRANSPORTES LTDA poderia subsistir somente no plano meramente formal, com evidente escopo de proporcionar indevidamente ao sujeito passivo o benefício instituído pelo Simples Nacional. Tal fato reduziu, em muito, a base de cálculo das Contribuições Previdenciárias para o custeio do Regime Geral de Previdência Social e consequentemente as próprias Contribuições Previdenciárias e as destinadas a outras entidades e fundos. Sem espaço, no caso concreto, para aplicação do art. 112 do CTN. No caso sob análise não se identifica planejamento tributário, mas sim a simulação de uma situação com o objetivo único de reduzir encargos tributários ilegalmente. O contribuinte não está aplicando a legislação à situação fática, mas simulando uma estrutura organizacional para obter benefícios fiscais. No caso retratado, a aparência de licitude não se coaduna a realidade, encoberta no plano formal, típica da simulação. Considerando os fatos expostos e todos os elementos trazidos aos autos e já apreciados nos tópicos anteriores, considera-se demonstrada a ocorrência da conduta descrita nos artigos 71 e 72 da Lei nº 4.502/1964 a justificar a qualificação da multa, prevista no §1° do artigo 44 da Lei nº 9.430/96, considerando-se improcedentes as alegações da defesa sobre o tema. Da Retroatividade Benigna O instituto da retroatividade benigna permite a aplicação de lei a fato gerador de penalidade pelo descumprimento de obrigação tributária ocorrido antes da sua vigência, desde que mais benéfica ao contribuinte e o correspondente crédito ainda não esteja definitivamente constituído, exatamente como diz o CTN, art. 106, inciso II, alínea “c”: Art. 106. A lei aplica-se a ato ou fato pretérito: [...] II - tratando-se de ato não definitivamente julgado: [...] c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na l ei vigente ao tempo da sua prática. Nesse pressuposto, a Lei nº 14.689, de 20 de setembro de 2023, deu nova conformação ao art. 44 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 996, refletindo diretamente na Fl. 865DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.572 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.721624/2014-70 22 penalidade apurada por meio do correspondente procedimento fiscal. Com efeito, a multa de ofício qualificada ora em litígio teve seu percentual reduzido de 150% (cento e cinquenta por cento) para 100% (cem por cento): Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I - de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; [...] § 1º O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será majorado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis, e passará a ser de: VI – 100% (cem por cento) sobre a totalidade ou a diferença de imposto ou de contribuição objeto do lançamento de ofício;[...] Sendo assim, referida penalidade deverá ser recalculada para o patamar vigente de 100% (cem por cento). Da Diligência O Recorrente requer a realização de diligência para que seja apurado o montante englobado nas bases de cálculo utilizadas no lançamento das exigências contidas nos autos de infração de DEBCAD nº 51.052.331-5 e nº 51.052.332-3 que supostamente se refere a valores indenizatórios (fora da base de cálculo). Ocorre que a realização de diligência é, antes de qualquer outra coisa, providência a ser demandada pela autoridade julgadora, devendo ser adotada nos casos em que tal se mostre necessário à solução do litígio. O artigo 18 do Decreto n.º 70.235/72, que prevê a possibilidade da autoridade julgadora de primeira instância determinar a realização de diligência, assim dispõe: Art. 18. A autoridade julgadora de primeira instância determinará, de ofício ou a requerimento do impugnante, a realização de diligências ou perícias, quando entendê-las necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis, observado o disposto no art. 28, in fine. (Redação dada pelo art. 1.º da Lei n.º 8.748/93) No caso vertente, verifica-se que a diligência solicitada não trata de questão que possa alterar o convencimento dos julgadores administrativos, já que 99% das parcelas indicadas Fl. 866DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.572 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.721624/2014-70 23 pelo Recorrente, para não dizer todas, fazem parte do campo de incidência das contribuições sociais previdenciárias e das contribuições para terceiros. Desta forma, tendo em vista que a diligência solicitada é totalmente prescindível, já que não aborda questão capaz de interferir na dirimição do presente litígio, deve ser indeferido o pedido de diligência por força do disposto no caput do artigo 18 do Decreto nº 70.235/1972. Cabe ressaltar, por fim, que mesmo que se entendesse que alguma(s) ou todas as verbas e parcelas indicadas pelo contribuinte não fazem parte do campo de incidência das contribuições sociais previdenciárias e das contribuições para terceiros, o pedido de diligência também deveria ser indeferido, já que a realização de diligência não se presta a suprir a omissão de contribuinte na produção de provas cujo ônus é dele. CONCLUSÃO Por todo o exposto, voto por conhecer parcialmente do Recurso Voluntário, não conhecendo das alegações de inconstitucionalidade, e, no mérito, dar parcial provimento para reduzir a multa de ofício para o patamar de 100%. Assinado Digitalmente Marcelle Rezende Cota Fl. 867DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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Numero do processo: 10920.721732/2015-01
Turma: Quarta Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu May 15 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Thu Jun 12 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/07/2010 a 30/06/2011 SIMPLES NACIONAL. EXCLUSÃO POR ATO DECLARATÓRIO EXECUTIVO. EFEITOS DA DECISÃO TERMINATIVA DO CONTENCIOSO FISCAL SOBRE A EXCLUSÃO DO REGIME SIMPLIFICADO. NECESSIDADE DE APLICAÇÃO REFLEXA. O julgamento terminativo de processo administrativo fiscal que discutia e mantém a exclusão do contribuinte do Simples Nacional deve ser refletido no processo que trata do lançamento de ofício dos tributos lançados para tributação do sujeito passivo na forma das empresas em geral não optantes pelo regime simplificado. SIMPLES NACIONAL. EFEITOS RETROATIVOS DA EXCLUSÃO. Nas hipóteses de exclusão de ofício das empresas optantes pelo Simples Nacional, a exclusão produzirá efeitos a partir do próprio mês em que ocorreu a situação excludente. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. CONSTATAÇÃO DE DOLO. APLICABILIDADE DA QUALIFICADORA. A observação de conduta dolosa, incluindo o conluio entre empresas integrantes de grupo econômico de fato, com intuito de sonegar tributos devidos à Seguridade Social, autoriza a aplicação da multa de ofício qualificada. CONTAGEM DE PRAZO DE DECADÊNCIA DO LANÇAMENTO DE OFÍCIO. REGRAMENTO PELO ART. 173, I, DO CTN, NOS CASOS DE LANÇAMENTO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL COM COMPROVADO DOLO, FRAUDE OU SIMULAÇÃO. DECADÊNCIA. INOCORRÊNCIA. SÚMULA CARF Nº 72. REGRAMENTO PELO ART. 173, I, DO CTN, NOS CASOS DE LANÇAMENTO DE OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. DECADÊNCIA. INOCORRÊNCIA. SÚMULA CARF Nº 148. Em caso de restar comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, o prazo decadencial para o lançamento de ofício de obrigação principal é de cinco anos fluindo do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o Fisco poderia efetuar o lançamento. Inteligência da parte final do §4º do art. 150 do CTN que remete ao art. 173, I, do codex tributário. Súmula CARF nº 72. Caracterizada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, a contagem do prazo decadencial rege-se pelo art. 173, inciso I, do CTN. (Vinculante, conforme Portaria MF nº 277, de 07/06/2018, DOU de 08/06/2018). Em caso de lançamento de ofício de obrigação instrumental, o prazo decadencial para o lançamento é de cinco anos fluindo do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o Fisco poderia efetuar o lançamento. Súmula CARF nº 148. No caso de multa por descumprimento de obrigação acessória previdenciária, a aferição da decadência tem sempre como base o art. 173, I, do CTN, ainda que se verifique pagamento antecipado da obrigação principal correlata ou esta tenha sido fulminada pela decadência com base no art. 150, § 4º, do CTN. Tendo o lançamento sido efetivado no quinquídio legal não ocorre a decadência. LANÇAMENTO DE OFÍCIO PARA EXIGÊNCIA DE TRIBUTOS RECOLHIDOS PELAS EMPRESAS EM GERAL APÓS EXCLUSÃO DO SIMPLES NACIONAL. PEDIDO DE APROVEITAMENTO DOS VALORES RECOLHIDOS PELO PRÓPRIO AUTUADO NA SISTEMÁTICA DO REGIME SIMPLIFICADO DIFERENCIADO. POSSIBILIDADE. SÚMULA CARF Nº 76. Súmula CARF nº 76. Na determinação dos valores a serem lançados de ofício para cada tributo, após a exclusão do Simples, devem ser deduzidos eventuais recolhimentos da mesma natureza efetuados nessa sistemática, observando-se os percentuais previstos em lei sobre o montante pago de forma unificada. (Vinculante, conforme Portaria MF nº 277, de 07/06/2018, DOU de 08/06/2018) DESCUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA DO CFL 38. APRESENTAR DOCUMENTAÇÃO CONTÁBIL-FISCAL COM DEFICIÊNCIA. Constitui infração à legislação tributária apresentar documentação contábil-fiscal deficiente contendo informação diversa da realidade, passível de aplicação de penalidade. DESCUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA DO CFL 38. APRESENTAR DOCUMENTAÇÃO CONTÁBIL-FISCAL COM DEFICIÊNCIA. PEDIDO DE RELEVAÇÃO DA MULTA POR ALEGAÇÃO DE INEXISTÊNCIA DE DOLO. Por regra, a responsabilidade por infrações da legislação tributária independe da intenção do agente ou do responsável e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato, de modo que não cabe relevar a multa aplicada por alegação de inexistência de dolo, ainda mais quando o dolo resta caracterizado e a sanção é objetiva.
Numero da decisão: 2004-000.208
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário para que sejam aproveitados os valores recolhidos no Simples Nacional pela recorrente na forma da Súmula CARF nº 76. Assinado Digitalmente Leonam Rocha de Medeiros – Relator Assinado Digitalmente Liziane Angelotti Meira – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Jose Luis Hentsch Benjamin Pinheiro (Substituto integral), Leonam Rocha de Medeiros, Ludmila Mara Monteiro de Oliveira, Liziane Angelotti Meira (Presidente). Ausente o Conselheiro Mauricio Nogueira Righetti, substituído pelo Conselheiro Jose Luis Hentsch Benjamin Pinheiro.
Nome do relator: LEONAM ROCHA DE MEDEIROS

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EXCLUSÃO POR ATO DECLARATÓRIO EXECUTIVO. EFEITOS DA DECISÃO TERMINATIVA DO CONTENCIOSO FISCAL SOBRE A EXCLUSÃO DO REGIME SIMPLIFICADO. NECESSIDADE DE APLICAÇÃO REFLEXA. O julgamento terminativo de processo administrativo fiscal que discutia e mantém a exclusão do contribuinte do Simples Nacional deve ser refletido no processo que trata do lançamento de ofício dos tributos lançados para tributação do sujeito passivo na forma das empresas em geral não optantes pelo regime simplificado. SIMPLES NACIONAL. EFEITOS RETROATIVOS DA EXCLUSÃO. Nas hipóteses de exclusão de ofício das empresas optantes pelo Simples Nacional, a exclusão produzirá efeitos a partir do próprio mês em que ocorreu a situação excludente. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. CONSTATAÇÃO DE DOLO. APLICABILIDADE DA QUALIFICADORA. A observação de conduta dolosa, incluindo o conluio entre empresas integrantes de grupo econômico de fato, com intuito de sonegar tributos devidos à Seguridade Social, autoriza a aplicação da multa de ofício qualificada. CONTAGEM DE PRAZO DE DECADÊNCIA DO LANÇAMENTO DE OFÍCIO. REGRAMENTO PELO ART. 173, I, DO CTN, NOS CASOS DE LANÇAMENTO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL COM COMPROVADO DOLO, FRAUDE OU SIMULAÇÃO. DECADÊNCIA. INOCORRÊNCIA. SÚMULA CARF Nº 72. REGRAMENTO PELO ART. 173, I, DO CTN, NOS CASOS DE LANÇAMENTO DE Fl. 550DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.208 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10920.721732/2015-01 2 OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. DECADÊNCIA. INOCORRÊNCIA. SÚMULA CARF Nº 148. Em caso de restar comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, o prazo decadencial para o lançamento de ofício de obrigação principal é de cinco anos fluindo do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o Fisco poderia efetuar o lançamento. Inteligência da parte final do §4º do art. 150 do CTN que remete ao art. 173, I, do codex tributário. Súmula CARF nº 72. Caracterizada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, a contagem do prazo decadencial rege-se pelo art. 173, inciso I, do CTN. (Vinculante, conforme Portaria MF nº 277, de 07/06/2018, DOU de 08/06/2018). Em caso de lançamento de ofício de obrigação instrumental, o prazo decadencial para o lançamento é de cinco anos fluindo do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o Fisco poderia efetuar o lançamento. Súmula CARF nº 148. No caso de multa por descumprimento de obrigação acessória previdenciária, a aferição da decadência tem sempre como base o art. 173, I, do CTN, ainda que se verifique pagamento antecipado da obrigação principal correlata ou esta tenha sido fulminada pela decadência com base no art. 150, § 4º, do CTN. Tendo o lançamento sido efetivado no quinquídio legal não ocorre a decadência. LANÇAMENTO DE OFÍCIO PARA EXIGÊNCIA DE TRIBUTOS RECOLHIDOS PELAS EMPRESAS EM GERAL APÓS EXCLUSÃO DO SIMPLES NACIONAL. PEDIDO DE APROVEITAMENTO DOS VALORES RECOLHIDOS PELO PRÓPRIO AUTUADO NA SISTEMÁTICA DO REGIME SIMPLIFICADO DIFERENCIADO. POSSIBILIDADE. SÚMULA CARF Nº 76. Súmula CARF nº 76. Na determinação dos valores a serem lançados de ofício para cada tributo, após a exclusão do Simples, devem ser deduzidos eventuais recolhimentos da mesma natureza efetuados nessa sistemática, observando-se os percentuais previstos em lei sobre o montante pago de forma unificada. (Vinculante, conforme Portaria MF nº 277, de 07/06/2018, DOU de 08/06/2018) DESCUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA DO CFL 38. APRESENTAR DOCUMENTAÇÃO CONTÁBIL-FISCAL COM DEFICIÊNCIA. Constitui infração à legislação tributária apresentar documentação contábil-fiscal deficiente contendo informação diversa da realidade, passível de aplicação de penalidade. Fl. 551DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.208 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10920.721732/2015-01 3 DESCUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA DO CFL 38. APRESENTAR DOCUMENTAÇÃO CONTÁBIL-FISCAL COM DEFICIÊNCIA. PEDIDO DE RELEVAÇÃO DA MULTA POR ALEGAÇÃO DE INEXISTÊNCIA DE DOLO. Por regra, a responsabilidade por infrações da legislação tributária independe da intenção do agente ou do responsável e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato, de modo que não cabe relevar a multa aplicada por alegação de inexistência de dolo, ainda mais quando o dolo resta caracterizado e a sanção é objetiva. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário para que sejam aproveitados os valores recolhidos no Simples Nacional pela recorrente na forma da Súmula CARF nº 76. Assinado Digitalmente Leonam Rocha de Medeiros – Relator Assinado Digitalmente Liziane Angelotti Meira – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Jose Luis Hentsch Benjamin Pinheiro (Substituto integral), Leonam Rocha de Medeiros, Ludmila Mara Monteiro de Oliveira, Liziane Angelotti Meira (Presidente). Ausente o Conselheiro Mauricio Nogueira Righetti, substituído pelo Conselheiro Jose Luis Hentsch Benjamin Pinheiro. RELATÓRIO Cuida-se, o caso versando, de Recurso Voluntário (e-fls. 519/547), com efeito suspensivo e devolutivo ― autorizado nos termos do art. 33 do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, que dispõe sobre o processo administrativo fiscal ―, interposto pelo recorrente, devidamente qualificado nos fólios processuais, relativo ao seu inconformismo com a decisão da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento (DRJ) de primeira instância (e-fls. 499/511), consubstanciada no Acórdão nº 11-55.688 - 7ª Turma da DRJ/REC, de 20/04/2017, que, por Fl. 552DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.208 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10920.721732/2015-01 4 unanimidade de votos, julgou improcedente o pedido deduzido na impugnação, mas suspendeu a exigibilidade do crédito, cujo acórdão restou assim ementado: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/07/2010 a 30/06/2011 SIMPLES. EXCLUSÃO. PREJUDICIAL. EFEITOS. O julgamento do crédito tributário, regularmente constituído, independe do esgotamento da via administrativa do processo de exclusão do SIMPLES NACIONAL. Apenas, sua exigibilidade permanecerá suspensa até decisão final no referido processo. ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS PERÍODO DE APURAÇÃO: 01/07/2010 a 30/06/2011 OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. DESCUMPRIMENTO. INFRAÇÃO. Exibir livro contábil, que contém informação diversa da realidade, constitui infração à legislação previdenciária, passível de aplicação de penalidade. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2010 a 31/12/2011 MULTAS. AGRAVANTE. APLICABILIDADE. O conluio entre as empresas, integrantes de grupo econômico de fato, com intuito de sonegar tributos devidos à Seguridade Social, autorizam o agravamento de multas aplicadas. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido Do lançamento fiscal O lançamento, em sua essência e circunstância, para fatos geradores ocorridos nas competências destacadas na ementa do acórdão recorrido, com auto de infração (Debcads 51.064.613-1 – CFL 38; e 51.064.612-3 – Contribuintes individuais) juntamente com as peças integrativas e Relatório Fiscal (e-fls. 5/32, com retificação e-fls. 496/497) devidamente colacionados, tendo o contribuinte sido notificado em 03/08/2015 (e-fls. 33, 34 e 281), foi bem sumariado no relatório do acórdão objeto da irresignação, pelo que passo a adotá-lo com breves adaptações quando necessárias: Trata-se de lançamento do CFL 38 (Debcad 51.064.613-1) e a contribuições sociais patronais incidentes sobre remunerações de segurados contribuintes individuais (Debcad 51.064.612-3). Consoante relatório fiscal, a empresa se declarou nas Guias do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social – GFIP, das competências 07/2010 a 06/2011, como optante pelo sistema simplificado de tributação (SIMPLES NACIONAL). No entanto, verificou-se que não dispunha do direito ao gozo do citado benefício, tendo sido excluída do mesmo, de ofício, com efeitos retroativos a Fl. 553DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.208 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10920.721732/2015-01 5 1º/1/2010 (Ato Declaratório Executivo DRF/JOI Nº 36 de 9/6/2015, com ciência à empresa em 3/8/2015, cf. fl. 314 do Processo nº 10920.721197/2015-81), ensejando, em consequência a lavratura do AI 51.064.612-3, incluso no presente processo, para a cobrança das contribuições sociais patronais, não recolhidas, incidentes sobre as remunerações pagas a segurados contribuintes individuais que prestaram serviços à empresa supracitada. O fisco, ainda, identificou a formação de grupo econômico de fato, entre a autuada e as empresas Real Equipamentos Industriais EIRELLI - EPP e Real Máquinas Ltda, em virtude de: a) mesma sede – segundo a contabilidade das empresas Real Máquinas e Real Equipamentos, ambas compartilharam o mesmo Galpão 9, em Guaramirim/SC, dividindo os gastos com o referido aluguel. Já a empresa M & S, apesar de constar no contrato social com endereço distinto, não comprovou nele haver funcionado, não mais existindo, na ocasião da inspeção, tampouco registrando em sua contabilidade gastos com aluguel ou ser proprietária de imóveis, concluindo o fisco que a mesma funcionava, na realidade, no mesmo endereço das empresas supracitadas, já que tinham sócios ligados por laços familiares e negociais; b) grupo familiar – os sócios administradores da Real Equipamentos, Mauro Luiz Salvador e Jacqueline Rúbia Salvador, são filhos de Alice Rodrigues Salvador, sócia administradora da Real Máquinas e da M & S; c) laços negociais: I - a outra sócia administradora das empresas M & S e Real Máquinas, Simone Mueller, foi preposta em ação trabalhista movida contra a Real Equipamentos. Também, contraiu empréstimos de Mauro Luiz Salvador, em valores vultosos, sem comprovar lastro financeiro ou patrimonial, em suas declarações de renda, para garantir sua quitação. Mencionados valores foram repassados à Real Máquinas, consoante livro Caixa nº 6, que registra, também, parte do pagamento dos mesmos à Real Equipamentos; II - ainda, a empresa M & S somente emitiu, no período, três Notas Fiscais, todas em favor da Real Máquinas, evidenciando que prestava serviços exclusivos para esta; III - há registros contábeis de vendas de máquinas pela Real Equipamentos à Real Máquinas, que perfazem montante superior a 1 milhão de reais, sem comprovação de pagamento, configurando, consoante o fisco, simples transferência patrimonial de uma empresa para outra. d) centralização de contabilidade – as empresas utilizam o mesmo escritório contábil para registros e emissão de seus documentos/livros; e) mão-de-obra compartilhada: comparando os faturamentos e folhas de pagamento das referidas empresas, identificou-se que: Fl. 554DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.208 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10920.721732/2015-01 6 > a M & S, que possuía menor faturamento, detinha maior quantidade de segurados, dado que era optante pelo SIMPLES NACIONAL; > a redução do número de segurados na Real Máquinas coincidiu com a sua exclusão do SIMPLES NACIONAL, que se deu a partir de 31/7/2011, havendo seus empregados sido transferidos, em 06/2011, para a M & S, sem formalização de rescisões de contratos de trabalho. Na GFIP da Real Máquinas, mencionada movimentação está registrada sob o código N1 (transferência de empregado para outro estabelecimento da mesma empresa). O fisco ressalta que a M & S foi criada em 5/2011, para absorver a mão-de-obra do grupo e fornecer segurados às demais; > os faturamentos expressivos da Real Equipamentos e Real Máquinas são desproporcionais aos números de segurados em suas folhas de pagamento, consoante quadros abaixo, que evidenciam ser, em essência, a M & S a fornecedora de mão-de-obra às outras empresas: A fiscalização, também, incluiu a empresa Esquadrias Irmãos DAHKE Ltda, como integrante do mesmo grupo econômico de fato, por: > haver sido adquirida, em 9/2011, pelas sócias administradoras da M & S; > passar a figurar como sócia pessoa jurídica da Real Máquinas; > sua aquisição se deu com base nos empréstimos feitos junto à Real Equipamentos. Por entender caracterizado o conluio e a simulação entre as empresas do grupo econômico, com o intuito de fraudar as contribuições sociais a serem vertidas à Seguridade Social, beneficiando-se, indevidamente, pela opção do Fl. 555DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.208 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10920.721732/2015-01 7 SIMPLES, o fisco imputou multa qualificada, nos moldes do § 1º, do art. 44, da Lei 9.430/96. O referido AI 51.064.612-3 totalizou o montante de R$ 57.773,49, na ocasião da consolidação dele. Ainda, no mesmo processo, foi, também, autuada (AI 51.064.613-1), com fulcro no art. 33, §§ 2º e 3º, da Lei nº 8.212/91, por apresentar escrituração contábil deficiente, em virtude de seus livros contábeis, não registrar a real situação patrimonial da empresa (CFL 38), dado que: I - no exercício 2010, foram identificadas as seguintes Notas Fiscais - NF não contabilizadas: II - No mesmo ano de 2010, também foram identificadas diferenças entre rendimentos constantes da Declaração Anual do Simples Nacional – DASN e valores contabilizados, consoante abaixo demonstrado: III - no período 2010/2011, os livros contábeis não registraram os faturamentos reais, porque os valores contabilizados neste sentido sequer cobrem os gastos com folhas de pagamento, só sustentável em virtude do esquema montado pelo grupo econômico de fato. A penalidade aplicada, pela infração supra, teve o fundamento nos arts. 92 e 102, da Lei nº 8.212/91 c/c art. 283, II, "j", do Regulamento da Previdência Social – RPS, aprovado pelo Decreto nº 3.048/99 foi de R$ 57.773,49, já computado o agravamento, em três vezes, previsto no art. 292, II, do mesmo RPS, por dolo, fraude e má-fé, consubstanciados, consoante atesta o fisco, no conluio de que participou a empresa em testilha, com o intuito de simular situação aparentemente legal para sonegar contribuições sociais. A despeito dos fatos relatados, não houve nestes autos imputação de responsabilidade solidária. Da Impugnação ao lançamento Fl. 556DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.208 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10920.721732/2015-01 8 A impugnação do contribuinte Real Máquinas Ltda (e-fls. 291/299), que instaurou o contencioso administrativo fiscal, dando início e delimitando os contornos da lide, foi apresentada pelo recorrente. Em suma, controverteu-se na forma apresentada nas razões de inconformismo, conforme consta sumariado no relatório da decisão vergastada, pelo que peço vênia para, igualmente, reproduzir com breves adaptações quando necessárias: A ciência dos Autos de Infração se processou em 3/8/2015, havendo a autuada ingressado, em 02/09/2015, com impugnação: A – contra o AI 51.064.612-3, arguindo, em síntese: I - como prejudicial, a impossibilidade do seguimento do lançamento, que depende, exclusivamente, da decisão de validade de exclusão do SIMPLES NACIONAL, em discussão no processo administrativo 10920.721197/2015-81, desta mesma Receita Federal do Brasil, requerendo, assim, a suspensão do crédito até decisão final sobre a matéria. II - No mérito: 1 - cancelamento do AI por indevida exclusão do SIMPLES NACIONAL, dado que não se trata de grupo econômico de fato, porque: a) as empresas Real Máquinas e Real Equipamentos funcionaram no mesmo condomínio. Mas, lá também funcionam outras empresas; b) a empresa M & S está inativa e, portanto, sem endereço; c) o simples fato de sócios de diferentes empresas serem parentes não autoriza a conclusão de que se trate de grupo econômico; d) cada empresa tem quadro de funcionários e parque fabril próprios; e) inexistência de dependência financeira entre as referidas empresas; f) o uso do mesmo escritório contábil pelas empresas não caracteriza grupo econômico; g) inexiste administração centralizada; h) o fato isolado de Simone Mueller representar, como preposta, em audiência trabalhista, a Real Equipamentos Ltda, não permite concluir que se trate de grupo econômico; i) a opção de uma empresa em segregar suas atividades e ter mesmo quadro societário, caso da M & S (serviços) e Real Máquinas Ltda (indústria), é viável e legal, bem como decidir, quando não mais economicamente viável a manutenção das duas empresas, manter somente a última e paralisar a atividade da outra M & S; j) os empréstimos feitos pela Real Equipamentos à sócia das empresas Real Máquinas e M & S, devidamente registrados na contabilidade e declarações de rendimentos, são possíveis, dado o excelente fluxo de caixa da primeira. Ademais, eles foram integralmente revertidos em favor da Real Máquinas; Fl. 557DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.208 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10920.721732/2015-01 9 k) o fato de a Real Equipamentos ter poucos empregados não significa que seu rendimento deva ser igualmente baixo. - impossibilidade de retroatividade da exigência: a exclusão do SIMPLES NACIONAL não pode retroagir ao mês em que ocorreu a situação excludente, por ser inconstitucional, ferindo o princípio disposto no art. 150, III, CF/88. Também, não pode ser onerada pela inércia do fisco em verificar, a tempo, a regularidade da empresa em sua opção pelo sistema simplificado de tributação. - decadência da competência julho de 2010, dado que o lançamento se fez em agosto/2015; - direito à compensação, no presente crédito, dos valores recolhidos ao SIMPLES NACIONAL; - multa agravada indevidamente, por: a) não haver incorrido em sonegação, fraude ou conluio; b) não se tratar de grupo econômico, mas de mera reorganização societária; c) não ter, com seu planejamento, fim de supressão de tributos. B – impugnação do AI 51.064.613-1, requerendo a relevação da multa aplicada por falta de base legal e ausência de prejuízo ao fisco, argumentando ainda: I - os fundamentos legais utilizados tratam da falta de apresentação de documentos e isto nunca ocorreu, pois, sempre que intimada, exibiu toda a documentação solicitada pela fiscalização; II - não há que se falar em omissão ou falsidade, pois nenhuma irregularidade, relativa aos recolhimentos realizados, foi apontada e as diferenças lançadas decorreram da exclusão do SIMPLES, que ainda não foi julgada; III - como optante pelo SIMPLES, está desobrigada a manter escrituração contábil, consoante art. 225, § 16, IIII, do RPS; IV - não houve dolo no agir da impugnante, não havendo razão para lhe aplicar multa agravada, devendo a fiscalização, quando muito, orientar o contribuinte, já que é primário; V - multa com contornos confiscatórios. Juntou ao feito: > conta telefônica (2015) da Real Máquinas; > conta energia elétrica (2015) da Real Equipamentos; > IPTU: Athenas Adm. de Imóveis; > foto do condomínio Athenas (ilegível) e ficha cadastral/ CNPJ de outras empresas do mesmo condomínio; Fl. 558DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.208 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10920.721732/2015-01 10 > demonstrativos de faturamento Real Equip./Real Máq.; > DIRPF (exercícios 2011/2015) de Mauro Luiz Salvador / Simone Mueller / Alice Rodrigues Salvador; > contrato social e alterações da M & S; > doc. identificação de Simone Mueller. Do Acórdão de Impugnação Na DRJ, primeira instância do contencioso tributário, lavrou-se a decisão a quo cujos fundamentos são pela improcedência dos pedidos deduzidos na impugnação, conforme teses sintetizadas na ementa alhures transcrita, todavia se manteve a exigibilidade suspensa. Não houve impugnações de outras pessoas jurídicas, exceto do contribuinte, não tendo havido nestes autos imputação de responsabilidade solidária. Do Recurso Voluntário e encaminhamento ao CARF No recurso voluntário o contribuinte, reiterando termos da impugnação, postula a reforma da decisão de primeira instância, a fim de cancelar o lançamento de ofício lavrado pela autoridade fiscal. Nesse contexto, os autos foram encaminhados para este Egrégio Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), sendo, posteriormente, distribuído por sorteio para este relator. Os presentes autos constam do mesmo lote do Processo nº 10920.721731/2015-59, a fim de que sejam julgados em conjunto. Consta que no processo eletrônico nº 10920.721197/2015-81 (processo atualmente arquivado), que trata da exclusão do Simples, o contribuinte não obteve sucesso no contencioso administrativo fiscal, sendo a exclusão fato definitivo, conforme Acórdão terminativo do CARF nº 1002-001.002, na qual se assentou tese segundo a qual: “Na falta de apresentação às Autoridades Fiscais, do Livro Caixa ou, quando este não permitir a identificação da movimentação financeira bancária, exclui-se de ofício empresa optante pelo Regime Tributário do Simples Nacional”. É o que importa relatar. Passo para a fundamentação do voto analisando, primeiramente, o juízo de admissibilidade e, se superado este, o juízo de mérito para, ao final, consignar o encaminhamento com o registro do dispositivo. Fl. 559DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.208 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10920.721732/2015-01 11 VOTO Conselheiro Leonam Rocha de Medeiros, Relator. Admissibilidade O Recurso Voluntário atende a todos os pressupostos de admissibilidade intrínsecos, relativos ao direito de recorrer, e extrínsecos, relativos ao exercício deste direito, sendo caso de conhecê-lo. Quanto aos pressupostos extrínsecos, observo que o recurso se apresenta tempestivo (notificação em 02/06/2017, e-fl. 516, protocolo recursal em 03/07/2017, e-fl. 518), tendo respeitado o trintídio legal, na forma exigida no art. 33 do Decreto nº 70.235, de 1972, que dispõe sobre o Processo Administrativo Fiscal, bem como resta adequada a representação processual. Por conseguinte, conheço do recurso voluntário. Mérito Quanto ao juízo de mérito, passo a apreciá-lo. Em tese, a temática envolvendo a decadência, por ser uma prejudicial de mérito, deveria ser a primeira a ser apreciada, entretanto como a contagem do lustro se deu pelo art. 173, I, do CTN, em razão da multa de ofício qualificada na obrigação principal, sendo a correta ou errônea aplicação da qualificação da multa de ofício enfrentada neste voto, então a decadência seguirá uma abordagem posterior a esse enfrentamento. Passo para as análises. Como informado em linhas pretéritas, a controvérsia é relativa ao lançamento de ofício e se refere a exigência de contribuições previdenciárias exigidas de forma comum para as empresas em geral quando não optante pelo Simples Nacional, considerando que o contribuinte foi excluído da sistemática simplificada por situações relevantes enquadradas nos incisos VIII e XI do art. 29 da Lei Complementar nº 123, conforme tratado no Processo Administrativo Fiscal nº 10920.721197/2015-81. Também, há lançamento de ofício por descumprimento de obrigação acessória. Particularmente, estes autos contém a exigência de contribuições previdenciárias patronais sobre remunerações pagas para contribuintes individuais, bem como a aplicação de multa por descumprimento de obrigação instrumental relativo ao CFL 38 em razão de apresentação de livro contábil contendo informação diversa da realidade. - Exclusão do SIMPLES NACIONAL e o contexto de grupo econômico Fl. 560DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.208 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10920.721732/2015-01 12 Sustenta o recorrente que não deve ser excluída do Simples Nacional, além disso não haveria motivos suficientes para sustentar a acusação de grupo econômico agindo de forma dolosa. Pois bem. Não lhe assiste razão. Veja-se. O Processo Administrativo Fiscal nº 10920.721197/2015-81 já tratou sobre o acerto, ou não, em relação a exclusão do Simples Nacional, tendo a decisão terminativa concluído pela exclusão como medida correta e essa deliberação precisa ser refletida neste processo. Ora, consta no Processo nº 10920.721197/2015-81 (processo atualmente arquivado), que o sujeito passivo não obteve sucesso no contencioso administrativo fiscal, sendo a exclusão fato definitivamente julgado, conforme Acórdão CARF nº 1002-001.002, no qual se assenta tese segundo a qual: “Na falta de apresentação às Autoridades Fiscais, do Livro Caixa ou, quando este não permitir a identificação da movimentação financeira bancária, exclui-se de ofício empresa optante pelo Regime Tributário do Simples Nacional”. Restou delimitado que o contribuinte incorreu em situações relevantes enquadradas nos incisos VIII e XI do art. 29 da Lei Complementar nº 123, conforme tratado no Processo Administrativo Fiscal nº 10920.721197/2015-81. Ficou assentado pela fiscalização que o contribuinte agiu de forma a camuflar Faturamento/Receita mensal através da não emissão e/ou emissão subfaturada de Notas Fiscais. Ademais, conforme prova dos autos, para atingir o objetivo de não recolher e/ou reduzir a tributação foram utilizados condutas, práticas e subterfúgios pelo grupo econômico e este também estava plenamente caracterizado. Especialmente, a optante pelo Simples Nacional absorvia, praticamente, conforme período, quase toda a folha de pagamentos nas atividades realizadas pelo grupo econômico, de modo a reduzir artificialmente a tributação de contribuições previdenciárias. O relatório destes autos, sem que tenha sido desconstruído pelo recorrente, bem anota que: O fisco, ainda, identificou a formação de grupo econômico de fato, entre a autuada e as empresas Real Equipamentos Industriais EIRELLI - EPP e Real Máquinas Ltda, em virtude de: a) mesma sede – segundo a contabilidade das empresas Real Máquinas e Real Equipamentos, ambas compartilharam o mesmo Galpão 9, em Guaramirim/SC, dividindo os gastos com o referido aluguel. Já a empresa M & S, apesar de constar no contrato social com endereço distinto, não comprovou nele haver funcionado, não mais existindo, na ocasião da inspeção, tampouco registrando em sua contabilidade gastos com aluguel ou ser proprietária de imóveis, concluindo o fisco que a mesma funcionava, na realidade, no mesmo endereço das empresas supracitadas, já que tinham sócios ligados por laços familiares e negociais; Fl. 561DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.208 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10920.721732/2015-01 13 b) grupo familiar – os sócios administradores da Real Equipamentos, Mauro Luiz Salvador e Jacqueline Rúbia Salvador, são filhos de Alice Rodrigues Salvador, sócia administradora da Real Máquinas e da M & S; c) laços negociais: I - a outra sócia administradora das empresas M & S e Real Máquinas, Simone Mueller, foi preposta em ação trabalhista movida contra a Real Equipamentos. Também, contraiu empréstimos de Mauro Luiz Salvador, em valores vultosos, sem comprovar lastro financeiro ou patrimonial, em suas declarações de renda, para garantir sua quitação. Mencionados valores foram repassados à Real Máquinas, consoante livro Caixa nº 6, que registra, também, parte do pagamento dos mesmos à Real Equipamentos; II - ainda, a empresa M & S somente emitiu, no período, três Notas Fiscais, todas em favor da Real Máquinas, evidenciando que prestava serviços exclusivos para esta; III - há registros contábeis de vendas de máquinas pela Real Equipamentos à Real Máquinas, que perfazem montante superior a 1 milhão de reais, sem comprovação de pagamento, configurando, consoante o fisco, simples transferência patrimonial de uma empresa para outra. d) centralização de contabilidade – as empresas utilizam o mesmo escritório contábil para registros e emissão de seus documentos/livros; e) mão-de-obra compartilhada: comparando os faturamentos e folhas de pagamento das referidas empresas, identificou-se que: > a M & S, que possuía menor faturamento, detinha maior quantidade de segurados, dado que era optante pelo SIMPLES NACIONAL; > a redução do número de segurados na Real Máquinas coincidiu com a sua exclusão do SIMPLES NACIONAL, que se deu a partir de 31/7/2011, havendo seus empregados sido transferidos, em 06/2011, para a M & S, sem formalização de rescisões de contratos de trabalho. Na GFIP da Real Máquinas, mencionada movimentação está registrada sob o código N1 (transferência de empregado para outro estabelecimento da mesma empresa). O fisco ressalta que a M & S foi criada em 5/2011, para absorver a mão-de-obra do grupo e fornecer segurados às demais; > os faturamentos expressivos da Real Equipamentos e Real Máquinas são desproporcionais aos números de segurados em suas folhas de pagamento, consoante quadros abaixo, que evidenciam ser, em essência, a M & S a fornecedora de mão-de-obra às outras empresas: Fl. 562DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.208 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10920.721732/2015-01 14 A fiscalização, também, incluiu a empresa Esquadrias Irmãos DAHKE Ltda, como integrante do mesmo grupo econômico de fato, por: > haver sido adquirida, em 9/2011, pelas sócias administradoras da M & S; > passar a figurar como sócia pessoa jurídica da Real Máquinas; > sua aquisição se deu com base nos empréstimos feitos junto à Real Equipamentos. O contribuinte alega regularidade e direito de se auto-organizar, porém os elementos probatórios não atestam suas ponderações, havendo flagrante conluio entre as empresas e artificialismo com escopo de reduzir a tributação das contribuições previdenciárias, deixando para empresa do Simples assumir a folha de pagamento das empresas do grupo econômico, sendo adotado, inclusive, subfaturamento dentro do contexto que se pretendeu encobrir. Sendo assim, sem razão o recorrente neste capítulo. - Alegação de indevido efeito retroativo na exclusão do SIMPLES NACIONAL Sustenta o recorrente que a exclusão do Simples Nacional não pode ter efeitos retroativos. Pois bem. Também, não lhe assiste razão. Tendo sido constatado a infração à legislação tributário-previdenciária e a impossibilidade de se manter no Simples Nacional em razão de subfaturamento e outras condutas dolosas, inclusive por força dos incisos VIII e XI do art. 29 da Lei Complementar nº 123, conforme tratado no Processo Administrativo Fiscal nº 10920.721197/2015-81, a exclusão deve imperar Fl. 563DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.208 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10920.721732/2015-01 15 desde o momento em que se observa inexistir direito de se manter ou de optar pelo regime simplificado. Observe-se, ainda, que o princípio constitucional plasmado no art. 150, III, da Carta Magna diz respeito à impossibilidade de lei, que crie ou majore tributos, ter efeitos retroativos à data de sua edição. Todavia, os tributos lançados nestes autos calculados sobre remunerações de segurados a serviço da empresa autuada já, há muito, foram instituídos no ordenamento jurídico, não se tratando de exigência por lei nova, editada posteriormente à exclusão do sujeito passivo do Simples Nacional. Tampouco se trata de majoração de tributo a exigir a aplicação do regramento constitucional apontado. A própria Lei Complementar nº 123, que instituiu o regime simplificado de tributação (Simples Nacional), dispôs em seu § 1º do art. 29 a retroação dos efeitos da exclusão do referido sistema ao mês em que ocorreu a situação excludente. A retroação cuida, portanto, de aplicação da lei e do real efeito a que se submete a autuada. Sobremais, não houve inércia da Administração Tributária na exigência, já que o Fisco poderia verificar, a qualquer tempo, as condições de atendimento pelo contribuinte da opção pelo Simples Nacional, não havendo qualquer óbice à feitura da ação fiscal no período em questão. Sendo assim, sem razão o recorrente neste capítulo. - Alegação de multa de ofício qualificada de forma errônea Sustenta o recorrente que não haver fraude, sonegação ou conluio, não sendo caso de qualificação da multa do lançamento de ofício. Pois bem. Outrossim, não lhe assiste razão. Veja-se. O contribuinte adotou medidas de subfaturar e outros subterfúgios criados em conjunto, com empresas do mesmo grupo econômico, para reduzir artificialmente a tributação, de modo que se justifica a aplicação da multa qualificada. Observa-se nos autos que a Real Máquinas tinha estreita vinculação e dependência com a M & S, não só pelo fato de pertencerem às mesmas sócias, como também por movimentarem entre si empregados, sem rescisões de contrato de trabalho. Em sua GFIP, por exemplo, consta que referida movimentação traduziu transferência de empregados para outro estabelecimento da mesma empresa. O que se observa é a criação da empresa M & S para drástica redução artificial da mão de obra dos núcleos comercial e industrial do grupo econômico (Real Máquinas e Real Equipamentos) e, paradoxalmente, aumento de seus faturamentos. O argumento de que o faturamento não é proporcional ao número de segurados não se sustenta, pois não é razoável que, mesmo sem trabalhadores, em meses sucessivos, uma indústria, que depende de obreiros para a fabricação de máquinas e sua instalação nos compradores, possa apresentar faturamentos, ainda mais nos níveis assinalados nos autos. O fato só tem explicação quando se considera que, inicialmente, a Real Máquinas e, posteriormente, a M & S, cada uma a seu tempo, na qualidade de optantes pelo Simples Nacional e, portanto, com benefício em relação Fl. 564DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.208 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10920.721732/2015-01 16 a contribuições sociais patronais sobre sua folha de pagamento. Vê-se que nos respectivos períodos do usufruto da benesse tributária, informalmente, a empresa do Simples Nacional sendo a fornecedora da mão de obra do grupo econômico, que, assim, pelo conluio de interesses, acaba por beneficiar a todas as empresas integrantes do núcleo empresarial. A confusão patrimonial, financeira e administrativa do grupo econômico se torna mais evidente quando se considera que: a) as contabilidades da Real Máquinas e Real Equipamento registram divisão de gastos com aluguel de mesmo espaço físico (Galpão 9), o que contradiz a tese da defesa de que apenas funcionavam no mesmo condomínio e eram totalmente desvinculadas; b) não há prova, nos autos, de funcionamento da M&S no endereço do cadastro fiscal à época dos fatos geradores; c) a M&S só emitiu Notas Fiscais em favor de empresa do grupo; d) os registros contábeis de vendas de máquinas, feitos pela Real Equipamentos à Real Máquinas, perfazendo expressivo montante, não têm comprovação, nos autos, de efetivo pagamento, corroborando a tese do Fisco de que houve, de fato, transferência patrimonial de uma empresa para outra; e) a feitura de empréstimos entre sócios de empresas diferentes é, como diz o recorrente, possível e legal. No entanto, extrapola a razoabilidade quando feito, em valores vultosos, sem que o beneficiário comprove rendimento e patrimônio garantidor da dívida. A reversão de referidos recursos a favor da empresa Real Máquinas cristaliza, na verdade, repasse indireto entre empresas do grupo. Logo, não foi o simples fato de haver parentesco entre os sócios envolvidos ou de compartilharem mesmo escritório contábil ou de, formalmente, apresentarem endereços distintos, que caracterizou o artificialismo em prol do grupo econômico de fato e as condutas dolosas, mas a conjugação das práticas a caracterizar o dolo com conluio e simulação, observando sonegação e fraude. Por conseguinte, a multa qualificada se mantém. Sendo assim, sem razão o recorrente neste capítulo. - Decadência do lançamento de ofício Sustenta o recorrente não haver fraude, sonegação ou conluio, não sendo caso de qualificação da multa do lançamento de ofício e, por isso, o reconhecimento do período atingido por decadência deveria ser declarado. Pois bem. Mais uma vez, não lhe assiste razão. Ora, no capítulo anterior se observou e se decidiu que houve condutas de simulação e sonegação, de modo que a contagem do prazo decadencial obedece a regra do art. 173, I, do CTN, pois a parte final do §4º do art. 150 do CTN estabelece que em caso de “comprovada a Fl. 565DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.208 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10920.721732/2015-01 17 ocorrência de dolo, fraude ou simulação”, como o caso dos autos, observa-se a contagem pela regra tradicional do art. 173, I, do CTN. Dessarte, não há decadência no lançamento de obrigação principal. Aliás, é consequência da Súmula CARF nº 72, nestes termos: Caracterizada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, a contagem do prazo decadencial rege-se pelo art. 173, inciso I, do CTN. (Vinculante, conforme Portaria MF nº 277, de 07/06/2018, DOU de 08/06/2018). Veja-se. O lançamento se concretizou em 03/08/2015, de modo que a competência mais remota, passível em tese de lançamento de ofício seria 01/2010, pois, para ela, a fluência decadencial somente começaria em 1º/01/2011, findando em 31/12/2015. Logo, como os fatos geradores lançados são do período de 1º/07/2010 a 30/06/2011 não ocorre qualquer decadência do lançamento de ofício da obrigação principal. Em relação ao lançamento de ofício da obrigação acessória, pode-se dizer que é aplicável a Súmula CARF nº 148, nestes termos: No caso de multa por descumprimento de obrigação acessória previdenciária, a aferição da decadência tem sempre como base o art. 173, I, do CTN, ainda que se verifique pagamento antecipado da obrigação principal correlata ou esta tenha sido fulminada pela decadência com base no art. 150, § 4º, do CTN. Sendo assim, sem razão o recorrente neste capítulo. - Pedido subsidiário de aproveitamento dos valores recolhidos Sustenta o recorrente, subsidiariamente, que, se mantido o lançamento, devem ser aproveitados os valores recolhidos sob a rubrica do Simples Nacional. A autoridade lançadora não aproveitou o que foi recolhido pela própria recorrente e a DRJ assentou que não era possível o aproveitamento em razão do disposto no § 6º do art. 56 da IN RFB nº 1.300/2012. Pois bem. Assiste razão ao recorrente neste capítulo. Ora, se o próprio contribuinte recolheu contribuições sociais previdenciárias, ainda que na sistemática do Simples Nacional, em caso de exclusão devem ser aproveitados os valores recolhidos de mesma natureza. Aliás, é a conclusão da Súmula CARF nº 76, que dispõe: Na determinação dos valores a serem lançados de ofício para cada tributo, após a exclusão do Simples, devem ser deduzidos eventuais recolhimentos da mesma natureza efetuados nessa sistemática, observando-se os percentuais previstos em lei sobre o montante pago de forma unificada. (Vinculante, conforme Portaria MF nº 277, de 07/06/2018, DOU de 08/06/2018). Importa anotar apenas que nos recolhimentos do Simples Nacional não há recolhimento para Terceiros. Fl. 566DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.208 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10920.721732/2015-01 18 Especialmente, fica explicitado que a dedução de eventuais recolhimentos ao Simples deve observar a natureza e os percentuais previstos em lei sobre o montante pago de forma unificada, que é a conclusão dada pelo enunciado sumular. Sendo assim, com razão o recorrente neste capítulo. - Alegação de não comprovação de violação de obrigação acessória ou, subsidiariamente, dever de relevar a multa aplicada por ausência de dolo Sustenta o recorrente que não violou obrigação acessória e se for mantido o lançamento, então, subsidiariamente, que seja relevada a multa por ausência de dolo. Sustenta, inclusive, que era empresa do Simples Nacional não estando obrigada a todos os registros como as empresas em geral. Muito bem. Não lhe assiste razão. Ora, o descumprimento de obrigação instrumental foi baseado no § 3º do art. 33 da Lei nº 8.212 por ter apresentado documentação contábil-fiscal de forma deficiente. Isto porque, houve (i) notas fiscais não contabilizadas; (ii) divergências de informações de receitas declaradas à RFB (DASN) em relação às contabilizadas; (iii) gastos com os obreiros, assinalados nas folhas de pagamento, sem registros contábeis das respectivas fontes financeiras para seu custeio, reforçando a tese de omissão de faturamentos reais da Real Máquinas no período, só sustentável em virtude do esquema montado pelo grupo econômico de fato. Caracterizou-se, assim, omissões nos registros contábeis-fiscais disponibilizados. Lado outro, a arguição de que, sendo optante pelo Simples Nacional estaria dispensada da escrituração contábil, não lhe socorre: a um, porque, como evidenciado, não tinha direito ao referido sistema simplificado de tributação, sendo dele excluído; a dois, mesmo que assim não fosse, o fato de haver optado por escriturar contabilidade e exibi-la ao Fisco, não a exime de observar todos os regramentos para a sua feitura, de sorte a refletir a realidade patrimonial da entidade, sob pena de, se escriturados com vícios, fazerem prova contra o titular dos registros, como restou observado nos autos. Em relação ao pedido de relevação da multa por ausência de dolo, foi observado em capítulo pretérito com bastante evidência que o dolo restou caracterizado e a multa lançada observou a norma legal, sendo, portanto, mantida. O art. 136 do CTN bem anota que a regra é que a responsabilidade por infrações da legislação tributária independe da intenção do agente ou do responsável e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato. A sanção imputada no caso é objetiva e dever de a autoridade fiscal aplicá-la. Sendo assim, sem razão o recorrente neste capítulo. Conclusão quanto ao Recurso Voluntário Em apreciação racional com base na legislação tributária e processual, relatado, analisado e por mais o que dos autos constam, em resumo, conheço do recurso e, no mérito, dou- Fl. 567DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.208 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10920.721732/2015-01 19 lhe provimento parcial para que os valores recolhidos na sistemática do SIMPLES NACIONAL pela recorrente sejam aproveitados na forma da Súmula CARF nº 76, reformando a decisão recorrida exclusivamente neste particular. Alfim, finalizo em sintético dispositivo. Dispositivo Ante o exposto, DOU PROVIMENTO PARCIAL ao recurso para que sejam aproveitados os valores recolhidos no Simples Nacional pela recorrente na forma da Súmula CARF nº 76. É como Voto. Assinado Digitalmente Leonam Rocha de Medeiros Fl. 568DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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Numero do processo: 15444.720086/2021-81
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Sep 18 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Fri Oct 10 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 04/11/2016 a 24/04/2019 IMPORTAÇÃO PELA FILIAL. LANÇAMENTO NA MATRIZ. AUTONOMIA DOS ESTABELECIMENTOS. ILEGITIMIDADE PASSIVA NÃO CARACTERIZADA. Sendo a matriz e a filial uma única pessoa jurídica para fins de responsabilidade frente a um crédito público exigido, inclusive o tributário, não há qualquer ilegitimidade no lançamento realizado em desfavor da matriz relativo a infrações apuradas em operações de importação realizadas pela filial. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 04/11/2016 a 24/04/2019 ALEGAÇÕES DAS PARTES. NÃO APRECIAÇÃO. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. A autoridade julgadora não está obrigada a responder a todas as questões suscitadas pelas partes, bastando que enfrente aquelas capazes de infirmar a conclusão adotada NULIDADE DO LANÇAMENTO. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Não há que se falar em nulidade de Auto de Infração fundamentado com as razões de fato e de direito que ensejaram o lançamento do crédito, especialmente quando não identificado qualquer cerceamento ao direito de defesa da parte autuada. PEDIDO DE PERÍCIA E DILIGÊNCIA. DESNECESSIDADE. INDEFERIMENTO. ART. 18 DO DECRETO N. 70.235/72. Nos termos do art. 18 do Decreto nº 70.235, de 1972, a autoridade julgadora poderá, de forma fundamentada, indeferir o pedido de realização de diligência e perícia sempre que entendê-la desnecessária para o julgamento do processo. Assunto: Regimes Aduaneiros Período de apuração: 04/11/2016 a 24/04/2019 CESSÃO DE NOME PARA A REALIZAÇÃO DE OPERAÇÕES DE COMÉRCIO EXTERIOR DE TERCEIROS. ACOBERTAMENTO DOS REAIS BENEFICIÁRIOS. PENALIDADE. A pessoa jurídica que ceder seu nome, inclusive mediante documentos próprios, para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas ao acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários, fica sujeita a multa de 10% (dez por cento) do valor da operação acobertada, não podendo ser inferior a R$ 5.000,00 (cinco mil reais), sem prejuízo da aplicação da pena de perdimento das mercadorias ou da multa equivalente ao valor aduaneiro, caso os bens não sejam localizados ou tenham sido consumidos ou revendidos.
Numero da decisão: 3402-012.766
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares de nulidade do Auto de Infração e do Acórdão recorrido, suscitadas pela Recorrente, por indeferir os pedidos para produção de provas e para conversão do julgamento em diligência para a elaboração de perícia contábil e, no mérito, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário para afastar a multa prevista no art. 33 da Lei nº 11.488, de 2007, em relação às importações feitas da AGRISTO NV a partir do mês de março de 2019, nos limites dos volumes expressos, por mês, na tabela de e-fl. 2096. A conselheira Cynthia Elena de Campos acompanhou pelas conclusões. (documento assinado digitalmente) Arnaldo Diefenthaeler Dornelles – Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: José de Assis Ferraz Neto, Adriano Monte Pessoa (substituto integral), Cynthia Elena de Campos e Arnaldo Diefenthaeler Dornelles (Presidente). Ausentes a Conselheira Anna Dolores Barros de Oliveira Sá Malta, a Conselheira Mariel Orsi Gameiro, substituída pelo Conselheiro Adriano Monte Pessoa, e o Conselheiro Anselmo Messias Ferraz Alves.
Nome do relator: ARNALDO DIEFENTHAELER DORNELLES

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LANÇAMENTO NA MATRIZ. AUTONOMIA DOS ESTABELECIMENTOS. ILEGITIMIDADE PASSIVA NÃO CARACTERIZADA. Sendo a matriz e a filial uma única pessoa jurídica para fins de responsabilidade frente a um crédito público exigido, inclusive o tributário, não há qualquer ilegitimidade no lançamento realizado em desfavor da matriz relativo a infrações apuradas em operações de importação realizadas pela filial. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 04/11/2016 a 24/04/2019 ALEGAÇÕES DAS PARTES. NÃO APRECIAÇÃO. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. A autoridade julgadora não está obrigada a responder a todas as questões suscitadas pelas partes, bastando que enfrente aquelas capazes de infirmar a conclusão adotada NULIDADE DO LANÇAMENTO. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Não há que se falar em nulidade de Auto de Infração fundamentado com as razões de fato e de direito que ensejaram o lançamento do crédito, especialmente quando não identificado qualquer cerceamento ao direito de defesa da parte autuada. PEDIDO DE PERÍCIA E DILIGÊNCIA. DESNECESSIDADE. INDEFERIMENTO. ART. 18 DO DECRETO N. 70.235/72. Nos termos do art. 18 do Decreto nº 70.235, de 1972, a autoridade julgadora poderá, de forma fundamentada, indeferir o pedido de Fl. 2106DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 2 realização de diligência e perícia sempre que entendê-la desnecessária para o julgamento do processo. Assunto: Regimes Aduaneiros Período de apuração: 04/11/2016 a 24/04/2019 CESSÃO DE NOME PARA A REALIZAÇÃO DE OPERAÇÕES DE COMÉRCIO EXTERIOR DE TERCEIROS. ACOBERTAMENTO DOS REAIS BENEFICIÁRIOS. PENALIDADE. A pessoa jurídica que ceder seu nome, inclusive mediante documentos próprios, para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas ao acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários, fica sujeita a multa de 10% (dez por cento) do valor da operação acobertada, não podendo ser inferior a R$ 5.000,00 (cinco mil reais), sem prejuízo da aplicação da pena de perdimento das mercadorias ou da multa equivalente ao valor aduaneiro, caso os bens não sejam localizados ou tenham sido consumidos ou revendidos. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares de nulidade do Auto de Infração e do Acórdão recorrido, suscitadas pela Recorrente, por indeferir os pedidos para produção de provas e para conversão do julgamento em diligência para a elaboração de perícia contábil e, no mérito, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário para afastar a multa prevista no art. 33 da Lei nº 11.488, de 2007, em relação às importações feitas da AGRISTO NV a partir do mês de março de 2019, nos limites dos volumes expressos, por mês, na tabela de e-fl. 2096. A conselheira Cynthia Elena de Campos acompanhou pelas conclusões. (documento assinado digitalmente) Arnaldo Diefenthaeler Dornelles – Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: José de Assis Ferraz Neto, Adriano Monte Pessoa (substituto integral), Cynthia Elena de Campos e Arnaldo Diefenthaeler Dornelles (Presidente). Ausentes a Conselheira Anna Dolores Barros de Oliveira Sá Malta, a Conselheira Mariel Orsi Gameiro, substituída pelo Conselheiro Adriano Monte Pessoa, e o Conselheiro Anselmo Messias Ferraz Alves. Fl. 2107DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 3 RELATÓRIO O presente processo trata, na origem, de Auto de Infração para lavratura da multa de 10% do valor da operação por cessão de nome para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas no acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários, prevista no art. 33 da Lei n.º 11.488, de 2007. Por bem descrever os fatos iniciais, reproduzo o relatório do Acórdão de Impugnação 103-009.821 – 7ª Turma/DRJ03, extraído das e-fls. 1740 a 1763, que assim relatou o caso: Trata o presente processo de auto de infração lavrado para exigência de crédito tributário relativo a multa por cessão do nome para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas ao acobertamento dos reais beneficiários, prevista no artigo 33 da Lei nº 11.488/2007, totalizando um crédito tributário no valor de R$ 5.529.092,75. No RELATÓRIO FISCAL, às fl. 1.352-1.422, consta: “[...] 1-INTRODUÇÃO O presente relatório tem por finalidade demonstrar que, em procedimento de fiscalização no contribuinte GOLDEN BR IMPORTADORA E EXPORTADORA LTDA., CNPJ: 13.597.129/0001-70, doravante denominado simplesmente GOLDEN BR, foram apurados fatos que indicaram que o mesmo efetuou operações de comércio exterior em nome próprio, sendo ocultados, ao Fisco Federal, os reais interessados pelas mesmas, caracterizando-se a interposição fraudulenta de pessoas. Desta forma, foi lavrado Auto de Infração para aplicação de multa de 10% do valor da operação, não podendo ser inferior a R$5.000,00, por cessão de nome para a realização de negócios de comércio exterior, com acobertamento dos reais intervenientes ou beneficiários, conforme consta do art. 33 da Lei n.º 11.488/2007. 2- DA ORIGEM DA AÇÃO FISCAL Pesquisas internas indicaram que, embora a fiscalizada tenha promovido importações de mercadorias em nome próprio, efetivamente registrando as declarações de importação e dando uma aparência de legalidade às operações, na realidade, estas transações eram feitas sem observar os requisitos e condições legais para o exercício regular desse tipo de operação, ocultando do Fisco os verdadeiros beneficiários, em especial as empresas: HAVITA IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO LTDA., CNPJ 11.861.307/0001-01 (e filiais), BROKERS ALIMENTOS LTDA., CNPJ 22.250.503/0001-58 e DUBAI 10 EMPRESA DE ALIMENTOS LTDA., CNPJ Fl. 2108DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 4 11.276.823/0001-60, que, conforme se verá adiante, compõem Grupo Econômico e elaboram “operações comerciais” entre si. Foram selecionadas 157 (cento e cinquenta e sete) DIs com indícios de ocultação, cujas mercadorias foram revendidas/repassadas diretamente a sete empresas. Emitiu-se, desta forma, o MPF nº 0719500-2020-00016-3, que compreende o período de agosto/2016 a abril/2019 e visa à aplicação de operação de Combate à fraude, Interposição Fraudulenta e Ocultação do Sujeito Passivo, conforme Portaria RFB/Suari nº 2.906/2009, art. 4º, inciso I. [...] 4- DO PROCEDIMENTO FISCAL 4.1- DAS INTIMAÇÕES À FISCALIZADA Em 06/05/2020 foi lavrado o Termo de Início de Ação Fiscal e Intimação 148/2020, cuja ciência eletrônica (DTE) se deu, por decurso de prazo, em 21/05/2020 (ANEXO A). [...] O prazo para atendimento a esta Intimação expirou em 10/06/2020, sem que houvesse pedido de prorrogação do mesmo ou qualquer outra manifestação por parte do contribuinte. [...] Neste procedimento de fiscalização foram lavrados três Termos de Intimação, cujas ciências eletrônicas se deram, por decurso de prazo, demonstrando desinteresse do contribuinte em relação ao procedimento instaurado. As informações e esclarecimentos mais relevantes não foram prestados pela fiscalizada, que, até o presente momento, não aduziu nenhum elemento que pudesse comprovar sua capacidade operacional e financeira para realizar as operações de comércio exterior auditadas, bem como a condição de real adquirente das mercadorias importadas, o que vem sendo solicitado desde maio/2020. Note-se que, mesmo com a suspensão dos prazos instituída no âmbito da Receita Federal pela Portaria RFB nº 543/2020 e alterações subsequentes, devido à Pandemia do COVID-19, o que foi encerrado em 31.08.2020, a interessada poderia apresentar, ainda que parte da documentação e esclarecimentos solicitados, buscando demonstrar a regularidade de suas operações, que é o procedimento esperado de uma empresa idônea que quer provar que atua dentro da Legislação e das Normas que regem a atividade de comércio exterior. Cabe deixar bem claro que o estado de emergência decretado em razão da pandemia decorrente da COVID-19 poderá ser alegado como óbice para o atendimento das intimações, mas todos os questionamentos e documentos solicitados poderiam ser obtidos e Fl. 2109DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 5 apresentados por meios digitais, tendo sido aberto, para tal fim, um dossiê de atendimento no sistema E-Processo. [...] 5- DA ANÁLISE FISCAL 5.1- DA EMPRESA FISCALIZADA E SEUS SÓCIOS A empresa GOLDEN BR IMPORTADORA E EXPORTADORA LTDA., CNPJ 13.597.129/0001-70, foi constituída em 25/04/2011, com capital social de R$ 400.000,00. Apresenta situação cadastral ativa, com atividade principal no CNAE: 4639-7-01 “comércio atacadista de produtos alimentícios em geral” e quadro societário formado pelas pessoas físicas discriminadas abaixo: [...] Em consulta ao Extrato do IRPF da sócia Lidiane Mendonça Monteiro Catramby, a mesma declara como sua ocupação principal “GERENTE OU SUPERVISOR DE EMPRESA INDUSTRIAL, COMERCIAL OU PRESTADORA DE SERVIÇOS” e os rendimentos tributáveis declarados são visualizados no quadro abaixo: Observa-se que a fonte pagadora declarada no Ano-Calendário 2016 foi HAVITA IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO LTDA., CNPJ 11.861.307/0001-01, empresa da qual foi sócia-administradora entre jul/2015 e abr/2017, com 1% de participação na sociedade. [...] Em consulta ao Extrato do IRPF do sócio Gustavo Barthel Catrambry, o mesmo declara como sua ocupação principal “DIRIGENTE, PRESIDENTE E DIRETOR DE EMPRESA INDUSTRIAL, COMERCIAL OU PRESTADORA DE SERVIÇOS” e os rendimentos tributáveis declarados são visualizados no quadro abaixo: Observa-se que a fonte pagadora declarada a partir do Ano-Calendário 2018 foi GT REPRESENTAÇÕES COMERCIAIS LTDA., CNPJ 29.300.590/0001- 50, empresa da qual é sócio-administrador desde dez/2017, com 90% de participação na sociedade. [...] Os rendimentos declarados dos sócios não são compatíveis com o porte das operações da empresa fiscalizada, como se verá a seguir. Tal cenário, em Fl. 2110DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 6 conjunto com outros dados, aponta para a presença de recursos de terceiros nas transações. 5.2- DO VOLUME OPERADO NO COMÉRCIO EXTERIOR ENTRE 2016 - 2019 GOLDEN BR obteve habilitação para operar no comércio exterior em 2013, na modalidade PJ – submodalidade ilimitada, nos termos do art. 2º, inciso I, “b”, da IN RFB nº 1.288/2012, então vigente e sua 1ª importação direta se deu em 09/08/2013. Em consulta ao sistema DW Aduaneiro, obteve-se o volume de importações do tipo consumo, realizadas pela fiscalizada entre 2016 e 2019 (ANEXO H), que foi da ordem de 169 milhões de reais em valores CIF, conforme quadro- resumo abaixo: Não se consegue vislumbrar como esta sociedade conseguiu operar em tais volumes, por conta própria, com um capital social de R$ 400.000,00. Observa-se que, no período de um ano, de 2017 para 2018, seu volume de importações aumentou 47%, passando de 29,3 milhões para 55,7 milhões de reais e, em 2019 aumentaram 31%, passando de 55,7 milhões para quase 81 milhões de reais. Tal disparidade apontou fortemente para a probabilidade de a sociedade não operar por conta própria, como declarado ao Fisco. Indício corroborado pelos números verificados na movimentação financeira da empresa, que tem cifras também altíssimas, inclusive, em comparação aos volumes operados no comércio exterior. Em 2017, por exemplo, as importações foram da ordem dos 29 milhões e a movimentação financeira total das contas-correntes chegou a quase 78 milhões de reais. Em 2018, com importações na cifra dos 55,7 milhões, a movimentação financeira foi superior a 205 milhões de reais. [...] 5.3- DA DILIGÊNCIA REALIZADA NA FILIAL EM ITAJAÍ/SC Em Termo de Constatação relacionado ao TDPF-D nº 0917900-2021-00044- 8, lavrado em 02/02/2021, por Auditores-Fiscais da ALF Curitiba, revelou-se, em procedimento de diligência ao endereço da filial em nome da qual são registradas as importações, que não havia a presença de funcionários no local (ANEXO K1), trechos transcritos abaixo: Fl. 2111DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 7 [...] Em depoimento tomado no curso do procedimento de diligência, de funcionária que trabalha há dez anos em outra sala no mesmo edifício e corroborado pela proprietária de todas as salas comerciais, foi informado que um Sr. Fábio comparecia diariamente à sala 12, mas, que a partir da pandemia do Covid-19 (março/2020), nem ele, nem mais ninguém foi visto neste local e que, desde então, as correspondências são colocadas debaixo da porta (ANEXO K2). Ou seja, uma simples sala comercial sem funcionários em nada se coaduna com o porte de uma empresa que operou um volume da ordem de 170 milhões de reais no comércio exterior. O quadro é típico de empresas que simulam se estabelecer em um Estado ou Município apenas para usufruir de algum benefício, normalmente tributário. São empresas constituídas por interpostas pessoas para fraudar a fiscalização tributária e reduzir o ICMS devido. As Fazendas Estaduais costumam oferecer tais benefícios para que empresas se instalem em suas jurisdições com o objetivo de gerar empregos e riquezas aos seus Estados. Porém, o que se vê, são empresas que apenas alugam uma sala comercial a fim de simular que estão regularmente estabelecidas no local. 5.4- DOS EMPREGADOS DA EMPRESA 5.4.1- DA FILIAL CNPJ 13.597.129/0002-51 Com relação ao seu quadro funcional, consulta à GFIP - Guia de Recolhimento do FGTS e de Informações à Previdência Social (ANEXO J) revelou que a filial que, supostamente, realizou todas as operações de importação nos anos de 2016 a 2019 (ANEXOS H e I), em valores CIF da ordem de 170 milhões de reais, não contava com nenhum funcionário até março de 2018: [...] Há registro de apenas um funcionário e, note-se que, pela remuneração auferida (R$728,00), o mesmo não deve ocupar um cargo que denote a suposta atividade comercial de venda de mercadorias importadas, como vendedor, representante comercial ou um cargo de nível mais especializado, como supervisor ou gerente. 5.4.2- DA MATRIZ CNPJ 13.597.129/0001-70 Quanto à matriz, em 2016 o extrato GFIP demonstrou existência de 13 trabalhadores, entre eles Gustavo Barthel Catrambry, CPF 072.132.327-89 (sócio de GOLDEN BR), Gilberto Sebastião Monteiro, CPF 534.852.117-53 (ex-sogro de Gustavo) e Maria Eliza Mendonça Monteiro, CPF 547.709.207- 68 (esposa de Gilberto). Fl. 2112DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 8 A empresa foi intimada a esclarecer sobre sua logística de vendas e sobre sua atividade(que tipo de produtos importa, seu modo de operação e principais clientes) (Item 4.1 deste relatório, itens 3.9 e 3.11 dos Termos de Intimação) e permaneceu silente quanto ao demandado. Em 2017, ano em que a empresa operou importações da ordem de 30 milhões de reais, também havia 13 trabalhadores, sendo que Gustavo não se encontrava mais na lista, observando-se a entrada de Lidiane Mendonça Monteiro Catramby, CPF 086.329.207-07 (sócia de GOLDEN BR a partir de jun/2017, ex-esposa de Gustavo e filha de Gilberto e Maria Eliza). Em 2018 e até abril de 2019, período em que a empresa operou mais de 90 milhões em importações, o número de trabalhadores foi reduzido para 12. O que se observa é uma mão de obra reduzida para o volume operado pela empresa. E, pela remuneração auferida (ver extratos GFIP – ANEXO J), não há compatibilidade com cargo que denote a suposta atividade comercial de venda de mercadorias importadas, como vendedores, representantes comerciais ou outros de nível mais especializado, como supervisores ou gerentes. Ou seja, o quadro funcional não reflete a realidade de uma empresa que operou 170 milhões de reais no comércio exterior. 5.5- DO REGULAR FUNCIONAMENTO DA EMPRESA Ao ser intimado a apresentar documentação referente à constituição e regular funcionamento da empresa, o contribuinte se limitou a apresentar contratos sociais e alterações, identidade dos sócios e do administrador, contrato de serviço de armazenagem com VILOG ARMAZENS GERAIS FRIGORÍFICOS LTDA., CNPJ 20.938.268/0001-86, doravante denominada VILOG e contrato de locação firmado com FRIOPART ARMAZENS FRIGORÍFICOS LTDA., empresa com sede em Jandira/SP, CNPJ 14.605.065/0001-75, de duas salas comerciais localizadas nos municípios de Simões Filho/BA e Colombo/PR (ANEXO C). Chama atenção o fato de VILOG estar localizada no mesmo endereço informado pela fiscalizada como sendo o seu próprio. [...] GOLDEN BR não foi capaz de comprovar o regular funcionamento da empresa no endereço informado nos cadastros da RFB. Não foram apresentadas contas de consumo, alvará de licença, documento de arrecadação de IPTU, conforme solicitado nos itens 1.3, 1.4 e 1.7 dos Termos de Intimação expedidos. [...] Apesar de se tratar de solicitações muito básicas, das quais se espera pronto atendimento, o contribuinte não atendeu ao demandado, enviando boletos de pagamento de despesas à empresa GL Events. Fl. 2113DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 9 [...] Ora, se não há contas recentes de despesas como luz e telefone, alvará de licença e documento de arrecadação de IPTU referentes ao imóvel onde está estabelecida, se foi apresentado contrato de serviço de armazenagem com a empresa VILOG, se “na sede da matriz é o local onde as mercadorias são armazenadas” e se a cobrança do IPTU em questão é direcionada à empresa VILOG, conclui-se que GOLDEN BR não está regularmente estabelecida no endereço informado como sendo de sua matriz (Av. Rio de Janeiro, 1782 - quadra 09 lote 10 – Distrito Industrial – Queimados/RJ), mas sim a empresa VILOG ARMAZENS GERAIS FRIGORÍFICOS LTDA., CNPJ 20.938.268/0001-86, que lá tem seu funcionamento. O armazém funciona como centro logístico do Grupo Econômico. Foi apresentado um contrato de cessão de área firmado com GL EVENTS CENTRO DE CONVENÇÕES LTDA., CNPJ 05.495.076/0001-59, doravante GL EVENTS, correspondente ao endereço da filial 04 de GOLDEN BR, conforme 12ª alteração do seu contrato social (ANEXO L). Trata-se de uma área de apenas 16m2, pela qual se paga R$ 610,27 por mês! Não faz sentido uma empresa com operações de importação na casa dos milhões/ano economizar tanto em seu escritório de apoio administrativo. [...] 5.5.1- DA DILIGÊNCIA REALIZADA EM VILOG Diante dos fatos narrados acima, procedeu-se a abertura do TDPF-D nº 0719500-2021-00030-2 em VILOG ARMAZENS GERAIS FRIGORÍFICOS LTDA., CNPJ 20.938.268/0001-86, para apuração das seguintes informações: [...] 7) Esclarecer, detalhadamente, os serviços prestados à empresa GOLDEN BR acima identificada; 8) Apresentar as Notas Fiscais de serviço emitidas pelos serviços prestados à empresa GOLDEN BR , no período de agosto de 2016 a abril de 2019; 9) Fazer prova do efetivo recebimento por esses serviços prestados, apresentando comprovante de pagamento por meio do qual seja possível identificar a conta de origem e a pessoa (física ou jurídica) que arcou com os custos, e a conta de destino com a identificação do beneficiário. Somente após reintimada, a diligenciada apresentou contas de luz e carnês de IPTU em seu nome, referentes ao endereço onde está estabelecida, contrato de prestação de serviços firmado com GOLDEN BR e notas fiscais de serviço eletrônicas emitidas pelos serviços prestados à mesma. Alegando ter encerrado conta bancária correspondente, solicitou prazo de 120 dias Fl. 2114DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 10 para atendimento ao item 9 do termo de reintimação (ANEXO G1), ou seja, não foi possível identificar a conta de origem e a pessoa (física ou jurídica) que arcou com os custos desses serviços, e a conta de destino com a identificação do beneficiário. [...] 5.7- DAS EMPRESAS RELACIONADAS E DAS RELAÇÕES INTERSÓCIOS Pesquisas realizadas nos sistemas da RFB revelaram que os maiores valores de NFe de Venda emitidas pela fiscalizada se destinaram aos seguintes estabelecimentos: [...] 5.7.1- HAVITA HAVITA IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO LTDA., CNPJ 11.861.307/0001-01 (matriz), doravante denominada apenas HAVITA, é uma empresa que atua no mesmo ramo de GOLDEN BR e adquiriu 97,10% das mercadorias importadas por GOLDEN BR. Foi constituída em 04/2010, com capital social de R$ 2.000.000,00 e quadro societário formado pelas pessoas físicas identificadas abaixo: Fl. 2115DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 11 Thiago Mendonça Monteiro é irmão de Lidiane Mendonça Monteiro (ex- sócia de HAVITA e atual sócia de GOLDEN BR) e filho de Gilberto Sebastião Monteiro e Maria Eliza Mendonça Monteiro, já citados. Rogério Girardi Medeiros da Silva é sócio-administrador de HAVITA e foi sócio-administrador de GOLDEN BR em 2011. Ivan Marques Correia é administrador de GOLDEN BR e faz parte da administração de HAVITA, uma vez que, em consulta ao CNPJ da mesma, é seu nome que aparece como contato de correio eletrônico da empresa. [...] Observa-se que o endereço cadastrado é o mesmo de GOLDEN BR e de VILOG. Ao que tudo indica, GOLDEN BR e HAVITA são, de fato, uma empresa só. Em consulta ao histórico das alterações cadastrais, observa-se que GOLDEN BR e HAVITA compartilharam não apenas o mesmo endereço na Av. Rio de Janeiro – Queimados/RJ, como também o endereço na Av. das Américas – Barra da Tijuca/RJ: [...] Em sede de procedimento especial realizado em Itajaí/SC, constatou-se que mercadorias importadas em nome de GOLDEN BR continham marcas de titularidade de HAVITA, que, somado aos dados coincidentes quanto à localização e quadro societário dessas empresas, levantou suspeita de ocultação de terceiros. [...] Em consulta ao DW Aduaneiro, obteve-se o volume de importações realizadas por HAVITA entre 2016 e 2019, que foi da ordem de 205 milhões de reais em valores CIF, conforme quadro-resumo abaixo: Fl. 2116DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 12 Ou seja, somente essas 2 empresas do grupo movimentaram, entre 2016 e 2019, quase 375 milhões de reais. Curioso que se observa na conta “Bancos c/m” no Balancete de 2019 de GOLDEN BR contas-correntes em nome de HAVITA (ANEXO R): [...] 5.7.2- BROKERS BROKERS ALIMENTOS LTDA., CNPJ 22.250.503/0001-58, doravante denominada apenas BROKERS, é uma empresa com CNPJ baixado, constituída em fev/2015, com sede em Curitiba/PR com atuação na área de comércio atacadista de mercadorias em geral e quadro societário formado pelas pessoas físicas identificadas abaixo, ambas residentes na cidade do Rio de Janeiro: Renan Siderig Araújo de Melo é filho de Sandra Aparecida Siderig de Melo e chama atenção a grande quantidade de empresas das quais os dois são ou já foram sócios, em muitas delas sócios em comum. São empresas que atuam nos mais diversos ramos de atividade (alimentos, empreendimentos imobiliários, farmácias, consultoria contábil, fornecimento e gestão de recursos humanos) e, em sua maioria, encontram-se baixadas ou inaptas. São 20 participações societárias elencadas em nome de Renan e 23 em nome de Sandra. [...] Pesquisa ao site do Google Maps não revelou existência do número 504 na Rua Visconde de Abaeté (suposto endereço residencial de Renan), enquanto que o endereço fornecido por Sandra como de sua residência (Rua Teodoro Fl. 2117DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 13 da Silva, 363), em pesquisa ao mesmo site, corresponde a uma loja de pneus: [...] Para ambos não há registro de entrega de Declaração de Imposto de Renda nos anos-calendário de 2018 a 2020 e há fichas de registro de alertas de suspeita de interposição. Os fatos explanados levam a crer que se tratam, na verdade, de interpostas pessoas (“laranjas”). [...] Necessário ainda mencionar, que os extratos GFIP da sociedade empresária BROKERS (desde fev/2015) demonstraram inexistência de trabalhadores (ANEXO J2). 5.7.3- DUBAI 10 DUBAI 10 EMPRESA DE ALIMENTOS EIRELI, CNPJ 11.276.823/0001-60, doravante denominada apenas DUBAI 10, é uma empresa com CNPJ baixado, constituída em out/2009, com atuação na área de comércio atacadista de produtos alimentícios e quadro societário formado pelas pessoas físicas identificadas a seguir: Observa-se que um dos sócios-fundadores foi Gilberto Sebastião Monteiro, casado com Maria Eliza Mendonça Monteiro (ambos figuram como trabalhadores nos extratos GFIP de GOLDEN BR) (ANEXO J), pais de Lidiane Mendonça Monteiro (ex-sócia de HAVITA e atual sócia de GOLDEN BR) e de Thiago Mendonça Monteiro (sócio de HAVITA). Está estabelecida na Rua Gov. Leonel de Moura Brizola, em Duque de Caxias, mesma rua onde está estabelecida a empresa SOMAR 9 DISTRIBUIDORA DE ALIMENTOS LTDA., CNPJ 08.258.056/0001-52, que também atua na área de comércio atacadista de alimentos, encontra-se na situação de inapta e foi constituída em jul/2006, tendo como sócia- fundadora Maria Eliza Mendonça Monteiro. [...] Fl. 2118DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 14 Não obstante, ambas as empresas estiveram estabelecidas no mesmo endereço em 2010 e 2011, na Rua Nabor do Rego, em Ramos/RJ: [...] Observa-se no extrato GFIP WEB de SOMAR 9, que Gilberto Sebastião Monteiro, sua esposa Maria Eliza Mendonça Monteiro e o filho Thiago Mendonça Monteiro foram informados como trabalhadores da empresa SOMAR 9. [...] DUBAI 10 também compartilhou o mesmo endereço comercial com as empresas GOLDEN BR e HAVITA (Av. das Américas 3500) e com a empresa ANGUS BRASIL DISTRIBUIDORA DE PRODUTOS ALIMENTÍCIOS LTDA., CNPJ 13.398.405/0001-71, que também atua na área de comércio atacadista de alimentos, à Rua Capitão Félix 110, em Benfica. [...] Observa-se que o endereço R Roma 310 em Bonsucesso também já foi endereço de GOLDEN BR e de ALIMIX LOGÍSTICA DISTRIBUIDORA, CNPJ 15.283.446/0001-48, empresa baixada, que atuou na área de comércio atacadista de carnes. [...] Assim como descrito para os sócios de BROKERS, as sócias de ALIMIX (Ana Paula Bezerra de Carvalho e Amanda Oliveira da Silva) são, ou já foram sócias, de grande quantidade de empresas (cerca de 10 cada uma) que atuam em diferentes ramos de atividade e, em sua maioria, encontram-se baixadas ou inaptas. [...] Os endereços residenciais informados por ambas não aparentam corresponder a pessoas empresárias, sócias de várias empresas, conforme pesquisa realizada no site Google Maps. [...] O endereço residencial informado por Amanda é o mesmo informado no cadastro de Ademilson Pereira da Silva, sócio da empresa DUBAI 10, mencionada no subitem 5.6.3. [...] Para Ana Paula e Amanda não há registro de entrega de Declaração de Imposto de Renda (DIRPF) nos anos-calendário de 2018 a 2020 e há ficha de registro de alerta de suspeita de interposição. [...] Para Ademilson tampouco há registro de entrega de Declaração de Imposto de Renda (DIRPF) nos anos-calendário de 2018 a 2020. Os fatos explanados levam a crer que se tratam, na verdade, de “laranjas”. Fl. 2119DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 15 [...] Nesta mesma rua da empresa ALIMIX está estabelecida PACÍFICOS CENTRAL DISTRIBUIDORA E LOGÍSTICA, CNPJ 19.453.822/0001-56, empresa baixada, com atuação na área de comércio atacadista de produtos alimentícios e que tem como sócia Sandra Aparecida Siderig de Melo, também sócia da empresa BROKERS, descrita no subitem 5.7.2. [...] A empresa ASTROS DISTRIBUIDORA DE PRODUTOS ALIMENTÍCIOS, CNPJ 25.451.385/0001-34, tem como sócio Gilberto Sebastião Monteiro, mencionado nos subitens 5.4.2, 5.7.1 e 5.7.3 deste relatório. Apresentou o mesmo endereço à Rua do Arroz nº 90, na Penha Circular, comum às empresas WINNERS DISTRIBUIDOR DE ALIMENTOS, CNPJ 29.170.730/0001- 12 e HARAGANO DISTRIBUIDORA DE ALIMENTOS, CNPJ 28.397.059/0001- 84. Todas encontram-se baixadas e atuaram no ramo de comércio atacadista de produtos alimentícios. [...] Gilberto Sebastião Monteiro, também sócio de DUBAI 10, encontra-se com participação societária em 9 empresas, a maioria em situação de inapta ou baixada e atuantes no ramo de comércio e distribuição de produtos alimentícios. Nas empresas SUCCES, PREMIUM e NEW GELTHI, realçadas em vermelho na relação a seguir, também figura como sócia sua esposa Maria Eliza Mendonça Monteiro. [...] 5.8– DOS TELEFONES COMERCIAIS Consultas ao sistema CNPJ da RFB revelaram que as seguintes empresas citadas no item 5.7 compartilham os mesmos números de telefones comerciais (ANEXO M): A tabela demonstra que várias empresas que compõem o Grupo Econômico possuem o mesmo número de telefone comercial. Não se trata de dado irrelevante, pois o mesmo influencia na estrutura logística, administrativa e de vendas de uma entidade, podendo, às vezes, ser considerado um ativo intangível e parte da identidade da empresa, enfim, a marca registrada de uma empresa profissional. Trata-se de um número utilizado pelos clientes para contato pessoal e imediato, destinado a vendas, esclarecimento de dúvidas, especialmente as mais complexas, e, por vezes, é mais efetivo que Fl. 2120DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 16 uma eventual troca de e-mails ou mensagens, como através do watsapp, por exemplo. Além disso, indica a localização da empresa. Portanto, não é minimamente crível que uma empresa ceda ou compartilhe com concorrentes seu número de telefone comercial. O que se vislumbra é a caracterização de que GOLDEN BR e as demais empresas do grupo, constituem-se em uma única entidade de fato, geridas e administradas em prol de um objetivo comum, utilizando-se, portanto, de uma estrutura única destinada ao atendimento comercial por telefone. [...] Consulta à web (site destacado a seguir em amarelo) revela o número de contato 21 3550-0760 como sendo de GOLDEN BR: [...] 5.9– DA UTILIZAÇÃO DO MESMO IP PELAS EMPRESAS IMPORTADORAS Pesquisas nos sistemas da RFB revelaram que as empresas GOLDEN BR IMPORTADORA E EXPORTADORA LTDA., CNPJ base 13.597.129, HAVITA IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO LTDA., CNPJ base 11.861.307 e ASTROS DISTRIBUIDORES DE PRODUTOS ALIMENTÍCIOS, CNPJ base 25.451.385 utilizaram o mesmo endereço de IP (internet protocol nº 189.113.132.38) para emitir Notas Fiscais Eletrônicas: [...] 5.10– DAS PESQUISAS NO SITE DA JUCERJA Relatório contendo informações das empresas constituintes do Grupo Econômico e seus sócios, extraídas do site da Junta Comercial do Estado do Rio de Janeiro, demonstra que estas empresas se encontram, em sua maior parte, com status de impedimento judicial (ANEXO N). [...] 5.11– DO GRUPO ECONÔMICO As pesquisas demonstraram que os quadros societários das empresas descritas vão se interligando temporalmente, com entrada e saída das mesmas pessoas físicas, que vão se alternando, aparentando uma atuação combinada. Diante de todo o exposto, pode-se constatar que estamos diante de um Grupo Econômico constituído, pelo menos, pelas seguintes empresas: Fl. 2121DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 17 6- DAS OPERAÇÕES REALIZADAS Foram selecionadas 157 (cento e cinquenta e sete) Declarações de Importação com indícios de ocultação, cujas mercadorias foram revendidas/repassadas diretamente a sete empresas. O período fiscalizado compreende o intervalo de 08/2016 a 04/2019; os extratos das DIs encontram-se no ANEXO I e as Notas Fiscais que supostamente amparam as operações comerciais estão no ANEXO O. No ANEXO P encontra-se planilha demonstrativa, que permite melhor visualização das informações, como, por exemplo, o número de todas as DI autuadas, a data de registro e de desembaraço das mesmas (o desembaraço é o momento a partir do qual a fiscalizada pôde, efetivamente, fazer a entrega dos bens, então nacionalizados, aos encomendantes), a discriminação e quantidades dos itens importados através de cada uma delas, o número da nota fiscal de venda emitida pela fiscalizada com a totalidade dos itens importados em cada DI, a chave da NF eletrônica, a data de emissão dessa nota fiscal (para que possa ser comparada com a data de desembaraço), o destinatário da nota fiscal (participante) e o valor aduaneiro da operação (CIF real imp), já que é sobre este que se calcula a penalidade a se lançar. Da análise dos dados dessa planilha, DIs e NF, constatou-se que: 1- As datas de desembaraço das importações frequentemente são muito próximas das datas de emissão das notas fiscais de venda, se constatando, inclusive, repasse imediato, sem dar entrada em depósito. 2- As mercadorias deram saída, em grandes lotes, em sua grande maioria, a um participante. 3- Mesmo quando o intervalo temporal entre o desembaraço e a emissão da NF é um pouco maior, são observados outros indícios de ocultação, Fl. 2122DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 18 como o descrito no item 2 acima, além de relação continuada entre as partes e relação intersócios (ver item 5.7). 4- Nas notas fiscais de entrada há referência do cliente para o qual a mercadoria está destinada no campo “informações complementares” e, no mesmo campo, nas notas fiscais de venda, há informações sobre as declarações de importação, disponibilizadas pelo importador para o cliente da nota (indicativos da existência de cliente predeterminado). 5- A baixa margem de lucro praticada pela fiscalizada não é compatível com as operações de comércio exterior que a mesma declara ao Fisco. A empresa atua no ramo de comércio de alimentos congelados e importa grande quantidade de carga, a qual é inteiramente repassada a uma mesma empresa imediatamente após (ou poucos dias após) o desembaraço aduaneiro. Todas as operações de importação foram realizadas em nome da filial em SC, CNPJ 13.597.129/0002-51. Pesquisas nos sistemas da RFB não revelaram registros de importação por conta e ordem ou por encomenda por parte de GOLDEN BR. Em suas Declarações de Importação estas operações ocorrem em seu nome, tendo a própria empresa como beneficiária das mercadorias. O total de itens abrangidos em uma única declaração é integralmente repassado para clientes predeterminados. Tal cenário demonstra que GOLDEN BR opera sem assumir o risco da importação de mercadorias para posterior revenda no mercado interno. A caracterização da ocultação do real adquirente/encomendante se dá através de diversos elementos, tais como a destinação integral e imediata das mercadorias importadas; conhecimento prévio ao registro da DI do destinatário das mercadorias importadas; ausência de identificação deste no campo próprio da DI; emissão rotineira de NFe de Saída contendo rol de mercadorias qualitativa e quantitativamente idêntico à relação de mercadorias recentemente nacionalizada por uma única DI, indicando a prévia definição do destinatário antes mesmo de sua importação; relação continuada entre as partes; muitas vezes vínculo societário entre elas; rotulagem das mercadorias com sinais de identificação do adquirente (logotipo, marcas etc.); ausência de estrutura operacional da empresa importadora (depósitos, empregados). A Aduana Brasileira vem fazendo nos últimos anos o rastreamento, via sistemas eletrônicos, das operações declaradas como importações diretas, mas onde há repasse integral e imediato de mercadorias imediatamente após desembaraço. Trata-se da conhecida conduta de desembaraçar uma DI, emitir nota fiscal de entrada em estoque e nota fiscal de saída, tudo no mesmo dia ou em um intervalo mínimo entre nacionalização e "venda", período no qual seria Fl. 2123DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 19 temporalmente impossível que as mercadorias tivessem entrado em estoque, sido oferecidas no mercado interno e vendidas. Não haveria tempo hábil para isto, o que evidencia claramente que a importação foi feita para um cliente predeterminado, para o qual seguiram as mercadorias imediatamente após desembaraço. Exemplos: DI 1617441653: desembaraçada dia 04/11/2016 às 17:41:20 (ver planilha extraída do DW aduaneiro – ANEXO Q), GOLDEN BR repassou para HAVITA, no mesmo dia, às 17:52:38, através da NF nº 93, 24.010 kg de filé de merluza congelado. [...] Interessante notar que a NF (nº 92) de suposta entrada da mercadoria em GOLDEN BR foi emitida às 17:15:10, antes de finalizado o desembaraço da carga! Esta operação demonstra que não ocorreu efetivamente entrada da mesma no estoque de GOLDEN BR, a entrada foi ficta. A mercadoria seguiu imediatamente para o destinatário (HAVITA), ficando evidente que este era previamente conhecido. [...] A integralidade da carga e a temporalidade denotam claramente a natureza de encomenda efetivada anteriormente ao despacho aduaneiro. Outro dado que chama atenção é a pequena margem de lucro na operação. Aqui, temos, grosseiramente, sem considerar outras despesas, uma diferença de cerca de 15 mil reais (210.567, 70 – 195.495,80) entre o valor de compra e de venda da mercadoria. [...] Analisando as demais operações, o quadro geral é sempre o mesmo. Repasse integral de mercadorias com diminuto intervalo entre desembaraço e venda. Na planilha demonstrativa (ANEXO P) onde constam todas as operações ora em auditoria, é possível visualizar essa situação, lembrando que os documentos que comprovam cada uma dessas operações encontram-se nos ANEXOS I e O. Todos os fatos relatados demonstram que o destinatário da NF foi ocultado por GOLDEN BR, que não o indicou em campo próprio da DI. Ao contrário de uma operação comum de importação, onde o importador nacionaliza mercadorias para oferecer no mercado interno, por sua conta e risco, as operações representadas pelas DI ora autuadas foram feitas para destinatários predeterminados, os reais beneficiários das mercadorias importadas. No que pese ser flagrante essa questão da transferência integral feita logo após o desembaraço, chama atenção a questão da margem de lucro Fl. 2124DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 20 praticada pela fiscalizada em suas supostas vendas, que mais ainda reforça que há fraude de ocultação do verdadeiro sujeito passivo das operações. Através do Receitanetbx e SPED - ECF foram obtidas as Demonstrações de Resultado do Exercício (DRE) da fiscalizada (ANEXO R), cujos dados foram resumidos na tabela abaixo: [...] O Custo das Mercadorias Vendidas (CMV) é muito elevado em relação à receita líquida, gerando lucro muito baixo. Em 2017 o CMV correspondeu a cerca de 77% da receita líquida, gerando lucro líquido de cerca de 3,5% e, em 2018 o CMV correspondeu a 90% da receita líquida, gerando lucro líquido de apenas 1%. Que empresa faturaria milhões e teria de lucro apenas 1 a 1,7 milhões? Esses números não são compatíveis com a atividade comercial que a fiscalizada declara ao Fisco, ou seja, seria inviável operar no comércio exterior, adquirindo mercadorias estrangeiras para comercialização no mercado interno, por sua conta e risco, com custos com essas ordens de grandeza em relação às receitas auferidas. No segmento do comércio internacional a carga tributária é alta, a operação está sujeita a variações cambiais, além de haver diversos custos inerentes à atividade, como armazenagem, seguros, frete interno, adicional de frete (AFRMM/ATAERO), despesas com despachante aduaneiro, desconsolidação de cargas (BL/AWB), desova, demurrage, etc. Ou seja, as empresas que atuam com importações próprias e posterior revenda das mercadorias no mercado interno precisam auferir lucros numa grandeza que garantam a renovação dos estoques, a manutenção da empresa e a remuneração aos sócios. Do ponto de vista do comércio exterior, os dados só tendem a reforçar que a fiscalizada é apenas uma intermediária nas operações de importação que participa. Essas margens levariam a sociedade à total inviabilidade comercial, caso a atuação dela fosse realmente a compra de mercadorias no exterior para venda no mercado interno. 6.1– DA ANÁLISE DA ORIGEM DOS RECURSOS UTILIZADOS PARA FECHAMENTO DE CÂMBIO E PAGAMENTO DE TRIBUTOS A apuração da origem dos recursos utilizados nas operações de comércio exterior, embasa-se na verificação dos pagamentos dos tributos incidentes nas mesmas, cobrados no registro das declarações de importação e dos fechamentos de câmbio, com análise pautada nos extratos das contas bancárias utilizadas nessas transações e na escrituração contábil realizada pelo contribuinte. Fl. 2125DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 21 Embora regularmente intimada e reintimada (ANEXOS A a E), a fiscalizada ignorou o questionado no item 3 dos Termos enviados (reproduzido abaixo) e não apresentou os elementos solicitados: [...] Desta forma, restou prejudicada a análise da origem dos recursos que perfizeram os saldos necessários à efetivação das remessas aos fornecedores estrangeiros e ao pagamento dos tributos incidentes nas operações auditadas. 6.2- DA CIRCULARIZAÇÃO DAS OPERAÇÕES Consta, no item 5.7, tabela contendo lista dos maiores compradores de GOLDEN BR, a partir das Notas Fiscais de saída emitidas por esta empresa no período fiscalizado. Como a mesma, quando intimada, não apresentou elementos de comprovação de como se deram suas negociações com seus clientes, essa fiscalização partiu para a tentativa de circularização das operações, ou seja, a busca de documentação comprobatória nos seus clientes. Foram emitidos TDPF-D (Termo de Distribuição de Procedimento Fiscal de Diligência) para HAVITA IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO LTDA. (matriz e filiais), BROKERS ALIMENTOS LTDA. e DUBAI 10 EMPRESA DE ALIMENTOS LTDA., através dos quais as mesmas foram intimadas a informar como tomaram conhecimento da oferta de mercadorias adquiridas da fiscalizada e apresentar os pedidos de compra das mesmas e comprovação de pagamento pelas notas fiscais emitidas por GOLDEN BR, nos termos abaixo (Termos de Intimação no ANEXO F): [...] Nenhuma das seis empresas diligenciadas respondeu às intimações e reintimações, fato que aponta para a atuação conjunta entre as partes envolvidas. 7- DA AUTUAÇÃO Com base no artigo 33 da Lei nº 11.488/2007, aplica-se multa de 10% (dez por cento) do valor da operação acobertada, na pessoa jurídica que cedeu seu nome para a realização de operações de comércio exterior de terceiros, in verbis: [...] 8- CONCLUSÃO Diante do que foi apresentado no presente trabalho de fiscalização, restou evidente que a empresa fiscalizada ocultou os reais beneficiários das importações autuadas, realizadas em seu nome. Fl. 2126DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 22 Não foram obedecidas as regras das importações por encomenda de terceiros (disciplinada pelo artigo 11 da Lei 11.281/2006 e regulamentada pela Instrução Normativa SRF nº 634/2006 e sua substitutiva IN, Instrução Normativa RFB nº 1.861/2018) ou por importação por “conta e ordem” (disciplinada pelo artigo 27 da Lei 10.637/2002 e regulamentada pela Instrução Normativa SRF nº 225/2002 e sua substitutiva IN, Instrução Normativa RFB nº 1.861/2018). Fica autuada a pessoa jurídica GOLDEN BR IMPORTADORA E EXPORTADORA LTDA., CNPJ: 13.597.129/0001-70, em conformidade com o artigo 33 da Lei nº 11.488/2007 integrado com os demais dispositivos legais citados no corpo do presente relatório e no Auto de Infração que o acompanha, aplicando-se a multa de 10% do valor das operações de importação representadas pelas Declarações de Importação listadas na planilha demonstrativa do ANEXO P, lembrando que, segundo o artigo citado, tal multa não pode ser inferior a R$ 5.000,00 em cada operação. [...]” A empresa GOLDEN BR IMPORTADORA E EXPORTADORA LTDA. (GOLDEN) foi cientificada do auto de infração em 14/06/2021, (ciência eletrônica por abertura de mensagem – fl. 1.438), e apresentou, em 14/07/2021 (fl. 1.446), a impugnação de fls. 1.449-1.485, na qual, após discorrer sobre os fatos, em resumo, alegou: PRELIMINARMENTE -há nulidade do lançamento por ilegitimidade da matriz como sujeito passivo da autuação fiscal; -isso ocorre tendo em vista que todas as operações de importação ora autuadas, registradas nos anos de 2016 a 2019, foram realizadas pelo estabelecimento filial – CNPJ 13.597.129/0002-51; -não há dúvidas de que houve erro na identificação do sujeito passivo, sendo nulo o auto de infração, por não cumprimento dos requisitos legais dispostos no art. art. 142 do CTN e art. 26 da Lei 9.784/99; -além disso, há ainda uma barreira de ordem lógica que impede a subsistência da pena de multa em face da MATRIZ, já que esta nunca deteve qualquer relação com as cargas importadas, evidenciando verdadeiro erro na identificação do sujeito passivo; -não se pode olvidar que a Matriz e Filial têm CNPJs diferentes e, para fins fiscais, também são tratadas como pessoas autônomas. Desse modo, não se pode impor à matriz um débito tributário de responsabilidade da filial ou vice-versa; -há nulidade do lançamento por ausência de conteúdo probatório e violação pela busca da verdade material; -ainda que tenha a Autoridade Fiscal elaborado relatório descrevendo as supostas irregularidades praticadas pela empresa Impugnante, é incapaz de demonstrar Fl. 2127DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 23 eventual adiantamento de recursos para pagamento das operações de importação e/ou negociação das mercadorias por essas terceiras empresas, além de tentar vincular a similaridade da empresa Impugnante e a empresa HAVITA; da empresa Impugnante e outras empresas, sem indicar, contudo, os elementos que demonstram de forma inequívoca a existência de tal “grupo econômico”; -a Autoridade Fiscal imputa a ocultação “comprovada”, que demanda a presença de provas inequívocas da prática ilícita. Assim, não pode o Fisco olvidar-se de produzir elementos probatórios nesses casos. Desse modo, torna-se imprescindível a comprovação da ocorrência de fraude ou simulação, sendo esta também a orientação do CARF (ementas transcritas); -não houve fraude/dolo/simulação, cuja caracterização é indispensável para a configuração da cessão do nome; a fiscalização não comprovou a existência desses elementos; -a GOLDEN BR não teria qualquer motivo para praticar qualquer ocultação; -não há que se falar em dano ao Erário, ainda mais quando o autuado sequer praticou simulação ou supressão de tributos; -não tendo sido provada a má-fé ou dolo, ou mesmo o dano ao erário, não é cabível a aplicação da pena máxima no âmbito aduaneiro, de usurpação da legítima propriedade do bem, ou implicação criminal decorrente do fato discutido. MÉRITO -não houve comprovação da prática de interposição fraudulenta de terceiros e ocultação do real adquirente; -a GOLDEN BR comprovou sua capacidade operacional; -caso se tratasse de uma empresa “que apenas aluga uma sala comercial a fim de simular que está regularmente estabelecidas no local”, certamente não haveria sequer um único funcionário registrado na empresa; o que não é verdade, pois a empresa possui funcionário que sempre esteve presente exercendo suas funções diariamente; só deixou de comparecer na sede da empresa em vista da pandemia do Covid-19, sendo que atualmente está executando suas funções em home office; -além disso, a empresa conta com a estrutura de serviços de representação comercial conforme instrumentos contratuais anexos (Doc. 03). Assim, diferentemente do que faz crer a autoridade fiscal, o Sr. Fábio não laborava “sozinho” na empresa, mas também contava com representantes comerciais que realizavam as vendas no mercado nacional e prospectava novos clientes. E, além disso, a empresa filial conta com a funcionária que auxilia a logística da filial, a Sra. Aline Beninca Koning; -é pouco crível a alegação da autoridade fiscal de que 12 (doze) funcionários é considerado uma “mão de obra reduzida” (Doc. 05); pelo contrário, é mais do que Fl. 2128DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 24 suficiente para a consecução das atividades de uma empresa e inclusive compatível com uma empresa que operou mais de 90 milhões em importações; -em relação ao cadastro na RFB, a Matriz está estabelecida na Avenida Rio de Janeiro, n°. 1782, Distrito Industrial, Parte A, Quadra 09, Lote 10, Queimados/RJ, CEP 26.373-270; enquanto a Filial está estabelecida na Rua Indaial, n°. 1004, Sala 12, São Judas, Itajaí/SC, CEP 88.302-302; -no que diz respeito ao endereço da Matriz, a empresa alugou espaço na VILOG; porém, isso não quer dizer que ambas estão localizadas na mesma sala comercial; apesar de estarem nº mesmo endereço, estão situadas em espaços diversos, estando a Impugnante na Parte A; -se a autoridade fiscal tinha dúvidas quanto ao endereço da Matriz poderia e deveria ter diligenciado neste sentido. Contudo, a fiscalização nunca foi nos locais que aponta para efetivar diligências e corroborar suas ilações, preferindo, por comodidade, levantar suspeitas a respeito da sede da Impugnante, sendo notável o intuito parcial da fiscalização para deflagrar uma situação que não existe; -não há nenhuma irregularidade no fato das contas de luz e IPTU estarem em nome do Locador, eis que se trata de uma prestação de serviço de espaço, sendo que o referido instrumento foi devidamente apresentado à autoridade fiscal; -ainda falando sobre a capacidade operacional da empresa GOLDEN BR, é importante salientar que as operações autuadas foram perfectibilizadas pelo estabelecimento filial, que detém espaço próprio para o armazenamento das mercadorias que importa; -portanto, sem qualquer cabimento a atribuição de tais suspeitas de ausência de capacidade operacional, destituída de qualquer liame fático e jurídico; -quanto à capacidade financeira, a empresa Impugnante foi regularmente constituída em 25/04/2011, mediante a integralização do Capital Social na quantia de R$400.000,00 (Quatrocentos mil reais) pelos sócios e apresenta os documentos dos sócios (Doc. 06). Sobre esse ponto, é importante destacar que o capital social pode ser constituído inicialmente com um valor mínimo necessário para a empresa funcionar pagando custos iniciais; -a alegação da autoridade fiscal, no sentido de que, ainda que fosse considerado o capital, seria esse um valor insuficiente para a magnitude das operações de comércio exterior da sociedade, não merece prosperar, tendo em vista que não há no arcabouço jurídico brasileiro nenhuma norma vigente ou legislação específica fixando a IMPORTÂNCIA DO CAPITAL INTEGRALIZADO que deva ter uma empresa para atuar no Comércio Exterior; -a capacidade econômica e financeira de uma empresa não está diretamente relacionada com o seu CAPITAL SOCIAL. O inciso II do art. 80 da MP 2.158-35 exigiu, como condição para as empresas que atuem no Comércio Exterior, a compatibilidade entre o seu capital social e seu movimento comercial. Todavia, Fl. 2129DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 25 não há regras definindo ‘os limites dentro dos quais exigirá a “NECESSÁRIA COMPATIBILIDADE” entre os valores transacionados e aqueles que compõe o capital social da importadora’; -quer dizer, a Autoridade Fiscal não pode, por medida genérica ou abstrata, impedir o cidadão de adquirir e dispor livremente de bens, cujo acesso é garantido pela Lei Maior. A respeito do artigo 170, § único da Constituição, deve ser indagado sobre a ilicitude da restrição administrativa para o livre exercício da atividade econômica; -as normas impeditivas ou restritivas à atividade empresarial da Impugnante, pelo que consta da legislação vigente, não deve estar vinculada somente à sua capacidade econômica ou ao valor declarado em seu capital social, razão pela qual não se justifica este argumento para descaracterizar as operações da Impugnante; -ademais, cumpre esclarecer que para as suas atividades a empresa utilizou do seu patrimônio empresarial, pois Patrimônio ou fundo social é essencialmente variável, modificando-se todos os dias, segundo a oscilação dos valores correntes e aplicação dos recursos da sociedade; -esse fundo é composto da liquidação de títulos dos seus clientes; de empréstimos bancários e créditos com fabricas no exterior, entre outros. Além disso, utilizou dos empréstimos bancários de giro rápido (“Hot Money”), devidamente registrados nos documentos contábeis (Balanço Patrimonial e Livros Fiscais etc.), já devidamente entregues via SPED; -outrossim, empresa informa que possui empréstimos de capital de giro junto a instituições financeiras, os quais deram suporte às atividades da empresa, para importação e aquisição de produtos no mercado externo. A título de exemplos são eles: Banco Itaú Unibanco, no valor de R$ 1.020.220,74; Banco Itaú Unibanco, no valor de R$ 1.020.229,88; Banco Itaú Unibanco, no valor de R$ 100.000,00; Banco Bradesco, no valor de R$ 500.000,00 (Doc. 07); -além disso, a Impugnante obteve lucros por meio do benefício fiscal concedido pelo TTD – Tratamento Tributário Diferenciado de Santa Catarina 409, o qual foi concedido pela Secretaria da Fazenda do Governo do Estado de Santa Catarina (Doc. 08); -outro ponto levantado pela Autoridade Fiscal foi o de que há “suspeitas da prática da interposição fraudulenta de terceiros” e de quem seria o real interessado econômico das operações. Nesse aspecto, são apresentados, ainda que por amostragem, CONTRATOS DE CÂMBIOS E SWIFT (Doc. 09), que demonstram a regularidade das operações de importação efetivados pela empresa GOLDEN BR: Fl. 2130DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 26 -vale esclarecer que essa prova é irrefutável da comprovação da origem dos recursos, que por sua vez atestam sua capacidade financeira, conforme determina o art. 45 da IN/SRF 1.863/2018; -por fim, ainda se registra que a empresa Impugnante possui a comprovação das negociações junto aos exportadores, demonstrando a existência de relações comerciais, as quais são instrumentalizados mediante os contratos de venda internacional (Sales Contract) - Doc. 10; -inconteste, portanto, a efetiva existência e capacidade operacional da empresa, compatíveis para a realização do objeto social, possuindo capital de giro e sendo portadora de numerário para a operacionalização de suas atividades. Portanto, é claro que as alegações fiscais são presuntivas, já que a Impugnante possui capital suficiente para custear as importações que promove, restando devidamente demonstrados a origem, disponibilidade e transferência dos recursos, não sendo crível desconstituí-los sem comprovação fiscal de que houve qualquer elemento doloso; -inexiste a configuração de grupo econômico - confusão societária/administrativa entre as empresas sugerida pela fiscalização; -a fiscalização tenta imputar a suposta existência de grupo econômico entre as empresas citadas, no entanto, não há nos autos comprovação da formação de tal grupo, apenas suposições, em total menosprezo ao princípio constitucional da preservação da empresa perante fatos totalmente questionáveis; -importante destacar que, como resultado das interpretações doutrinárias e jurisprudencial, editou-se a MP nº 881/2019, que instituiu a chamada “Declaração de Direitos de Liberdade Econômica”, sendo que tal MP alterou a redação de diversos artigos do Código Civil e outras leis específicas. A MP foi editada com o objetivo de desburocratizar o exercício da livre-iniciativa e trouxe em seu bojo questões relativas à desconsideração da personalidade jurídica, alterou a redação do caput do art. 50 do Código Civil; -ainda que restasse comprovada a existência do grupo econômico, o que, frise-se, não é o caso, o novo texto do parágrafo 4º do artigo 50 do Código Civil adverte que a mera existência de grupo econômico sem a presença dos requisitos de que trata o caput não autoriza a desconsideração da personalidade da pessoa jurídica. -assim, ao contrário do entendimento proferido no relatório fiscal, não há que se falar nas empresas listadas como pertencentes ao suposto grupo econômico, já que não restou comprovada pelo Fisco Federal a estrutura que teria sido formada com o objetivo de fraudar o Fisco, conforme decisão judicial (ementa transcrita); Fl. 2131DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 27 -em nenhum momento a autoridade fiscal comprova a existência de grupo econômico, uma vez que ausente o corpo diretivo único e a confusão patrimonial entre a autuada e as diversas pessoas e empresas arroladas pelo agente fiscal; -para a configuração do grupo econômico, seria requisito essencial a ausência de autonomia das empresas, conforme entendimento do CARF (ementa transcrita); -o único fato demonstrado é que determinadas pessoas já fizeram parte do quadro societário da autuada ou que são, em alguns casos, parte da mesma família, assim como que determinadas empresas já se utilizaram do mesmo endereço, fatos estes que não levam à existência de grupo econômico; -inexiste grupo econômico entre as empresas HAVITA, BROKERS e DUBAI 10; -quanto à empresa HAVITA, cumpre esclarecer que as atividades da GOLDEN BR, ora Impugnante, não se resumem exclusivamente ao atacado de produtos alimentício. Ademais, a semelhança entre o quadro societário não representa qualquer indício de infração; -quanto aos endereços das empresas, cumpre aclarar que ambas se encontram em salas diferentes; -quanto ao fato de as mercadorias importadas em nome da GOLDEN BR conterem marcas de titularidade da empresa HAVITA, a Impugnante possui firmado com a empresa HAVITA contrato particular de licença para uso e divulgação das marcas estampadas nas caixas, conforme contratos de Licença de Uso de Marcas, todos em anexo (Doc. 06); -quanto a relação comercial entre as empresas, no qual a empresa HAVITA adquire produtos no mercado interno da Impugnante, cumpre esclarecer que as empresas claramente possuem clientes distintos, estrutura negocial feita por pessoal próprio e capilaridade comercial diversas, tal como qualquer empresa; -quanto à empresa BROKERS, não há no processo nenhuma prova que demonstre que a empresa BROKERS e a Impugnante componham um “Grupo Econômico”; o mesmo ocorre em relação a DUBAI 10 e demais empresas mencionadas pela fiscalização; -as mercadorias foram adquiridas legalmente entre HAVITA e GOLDEN BR, sem quaisquer irregularidades; -o fato de utilizarem o mesmo armazém para armazenamento de mercadorias (VILOG) não é elemento indiciário para caraterização de interposição fraudulenta, e está devidamente estabelecido em um condomínio empresarial; -comprovados todos os pagamentos das operações realizadas, e ainda a regularidade fiscal da empresa GOLDEN BR e da própria empresa HAVITA, não há que se falar em inidoneidade dos documentos fiscais, pois não há dúvidas da boa- fé da Impugnante e muito menos da empresa HAVITA, que adquiriu mercadorias de empresa idônea, efetuou os pagamentos conforme combinado e não pode ser punida por meras suposições do fisco; Fl. 2132DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 28 -em relação ao fato de ter havido venda da integralidade das mercadorias em diminuto intervalo de tempo desde o desembaraço, isso não indica que a empresa está praticando alguma conduta ilícita; -não há quaisquer impedimentos a que se revendam as mercadorias após a importadora comprá-las, principalmente porque revendê-las o quanto antes favorece a continuidade das atividades comerciais, promovendo um fluxo de caixa contínuo, que movimenta as operações da empresa; -os fatos não se subsomem à norma legal aplicada (artigo 33 da Lei nª 11.488/2007); -da análise da citada prescrição legal, conclui-se que a interposição fraudulenta representa uma simulação que consiste em ocultar, voluntariamente, o verdadeiro interessado na operação, ocorrendo todas as vezes em que uma pessoa, física ou jurídica, apresenta-se como responsável por uma transação que não realizou, se interpondo entre uma parte e outra; -constitui elemento essencial do tipo a ocultação do real interessado na importação, que seja perpetrada MEDIANTE FRAUDE OU SIMULAÇÃO; -no presente caso, porém, nada foi feito às escuras, NÃO HOUVE FRAUDE OU SIMULAÇÃO, tanto é verdade que a empresa Impugnante apresentou à Receita Federal, todas as informações e documentos solicitados. Sobre esse ponto, impende destacar que estar-se-ia, a bem da realidade, exigindo da Impugnante provar algo sobre um (suposto) fato que nunca ocorreu; -para a perfeita subsunção da conduta à norma punitiva e a consequente pena de perdimento, deve-se provar que a suposta terceira pessoa teria figurado realmente como verdadeira importadora e efetivamente praticado os atos do negócio em conjunto com o exportador, o que não ficou esclarecido e de fato não ocorreu. Portanto, deverá ser desconstituído o auto de infração combatido, e por via de consequência afastada a penalidade aplicada, eis que sem qualquer comprovação documental ou fática; “H). CONCLUSÃO Ante todo o exposto, requer digne-se Vossa Senhoria a receber a presente Impugnação, na forma do artigo 3 da Lei 9784/99 c/c art. 15 e ss do Decreto 70.235/72, pelo órgão competente, para: a.1) Reconhecer a absoluta nulidade face à ausência de provas hábeis a embasar o auto de infração guerreado, impondo-se a desconstituição da exação administrativa aplicada, na medida em que não restou comprovada a ocorrência dos fatos jurídicos imputados, assim como ante a má-condução das investigações realizadas, em confronto com o princípio da verdade real, nos termos do art. 5º, incisos XLV, LIV, LV da Constituição Federal e arts. 2º c/c 51 da Lei 9.784/99 e demais dispositivos legais devidamente epigrafados na peça impugnatória. Fl. 2133DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 29 b) No caso de Vossa Senhoria não conhecer da preliminar arguida, o que não se espera e apenas por amor ao debate, requer meritoriamente: b.1) Reconhecer a inexistência de amparo legal que sustente a aplicação da multa, em razão de ausência de subsunção dos fatos à norma que culmina a sanção da interposição fraudulenta de terceiros, eis que consoante exaustivamente comprovado a importação ocorreu na modalidade por conta própria da Impugnante, onde demonstrou a origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados para as operações de comércio exterior realizadas – não havendo que se falar na existência de um suposto real adquirente das mercadorias mediante cessão de nome –; B.2) Requer, ainda, com fulcro no art. 2º, inciso X e art. 3, inciso III ambos da Lei 9.784/99 o prazo de 30 (trinta) dias para apresentação de documentos para corroborar a veracidade das alegações aqui apresentadas, em sem endo possível a apresentação de parecer contábil para comprovação dos dispêndios dos valores realizados pela Impugnante para os recursos empregados na operação de importação em debate, sob pena de declaração de nulidade pelo ofensa ao devido processo legal, nos termos do art. 2, caput da Lei 9784/99; c) Julgar INSUBSISTENTE o Auto de Infração impugnado, bem como determinada a sua ANULAÇÃO e CANCELAMENTO, com o subsequente ARQUIVAMENTO E REGISTRO, para que seja afastada a sanção de perdimento sugerida. [...]” É o relatório. O julgamento em primeira instância, realizado em 27/09/2022 e formalizado no Acórdão 103-009.821 - 7ª Turma/DRJ03 (e-fls. 1738 a 1798), resultou em uma decisão, por unanimidade de votos, que rejeitou as arguições de nulidade suscitadas e, no mérito, julgou procedente em parte a Impugnação para: a) MANTER o crédito da União em litígio em relação às DIs direcionadas às empresas HAVITA IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO LTDA (FILIAL 0004), BROKERS ALIMENTOS LTDA e DUBAI 10 EMPRESA DE ALIMENTOS LTDA, no valor total de R$ 5.475.094,65; e b) EXONERAR o crédito da União em litígio em relação às DIs direcionadas às empresas JBS S/A, COPAL ALIMENTOS LTDA, M.B COMÉRCIO DE PRODUTOS ALIMENTÍCIOS LTDA, FRINSCAL DISTRIBUIDORA DE ALIMENTOS LTDA, UNIK ALIMENTOS LTDA, FV DISTRIBUIDORA DE CARNES E PESCADOS LTDA e BEM MAIS ALIMENTOS LTDA ME, no valor total de R$ 53.998,10. O Acórdão da DRJ contou com a seguinte ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 04/11/2016 a 24/04/2019 AUTO DE INFRAÇÃO. INSTRUÇÃO PROBATÓRIA. Fl. 2134DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 30 Estando o Auto de Infração instruído com os elementos de prova em que se baseia a exação, não cabe falar em nulidade por vício material. DECISÕES ADMINISTRATIVAS E JUDICIAIS. EFEITOS. As decisões proferidas pelo CARF, STF e STJ somente vinculam o entendimento das autoridades julgadoras de primeira instância, quando lhes forem atribuídas efeito vinculante, na forma da legislação aplicável. PRODUÇÃO DE PROVA. PROTESTO GENÉRICO. APRESENTAÇÃO “A POSTERIORI”. INADMISSIBILIDADE. O protesto genérico pela produção de todos os meios de prova em direito admitidos não produz efeitos no processo administrativo fiscal. A prova documental deve ser apresentada juntamente com a impugnação, salvo nos casos expressamente admitidos em lei. Em caso de obtenção de provas por meio de diligências ou perícias, estas devem ser expressamente solicitadas, especificando o seu objeto e atendendo-se os requisitos previstos em lei, sob pena de considerar-se não formulado o pedido. Assunto: Normas de Administração Tributária Período de apuração: 04/11/2016 a 24/04/2019 CESSÃO DE NOME PARA A REALIZAÇÃO DE OPERAÇÕES DE COMÉRCIO EXTERIOR DE TERCEIROS. ACOBERTAMENTO DOS REAIS BENEFICIÁRIOS. PENALIDADE. A pessoa jurídica que ceder seu nome, inclusive mediante documentos próprios, para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas ao acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários, fica sujeita a multa de 10% (dez por cento) do valor da operação acobertada, não podendo ser inferior a R$ 5.000,00 (cinco mil reais), sem prejuízo da aplicação da pena de perdimento das mercadorias ou da multa equivalente ao valor aduaneiro, caso os bens não sejam localizados ou tenham sido consumidos. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte Cientificada da decisão da DRJ em 20/10/2022 (ver Avido de Recebimento dos Correios na e-fl. 1823), a GOLDEN BR interpôs Recurso Voluntário (e-fls. 1827 a 1871) em 21/11/2022 (ver Termo de Solicitação de Juntada na e-fl. 1824), onde traz, basicamente, os seguintes argumentos: (a) que o Recurso Voluntário é tempestivo; (b) que há nulidade no Auto de Infração em razão da ilegitimidade da matriz como sujeito passivo da autuação fiscal; (c) que há nulidade no Acórdão recorrido em razão da omissão quanto às razões de defesa da Recorrente; Fl. 2135DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 31 (d) que a Lei nº 9.784, de 1999, acolhe o pleito para a posterior produção de provas; (e) que o lançamento tributário é nulo frente à fragilidade dos indícios apontados pela Fiscalização, havendo ausência de conteúdo probatório e violação da busca pela verdade material; (f) que não há comprovação da prática de interposição fraudulenta de terceiros e ocultação do real adquirente; (g) que não há subsunção dos fatos à norma legal aplicada; (h) que não existe fraude, dolo ou simulação, comprovação indispensável para a caracterização da cessão de nome; (i) que a empresa GOLDEN BR possui capacidade operacional; (j) que a empresa GOLDEN BR possui capacidade financeira; (k) que há ausência de configuração de grupo econômico ou confusão societária/administrativa entre as empresas; (l) que não há um grupo econômico formado pelas empresas HAVITA Importação, BROKERS Alimentos e DUBAI 10; (m) que não há irregularidades no condomínio empresarial formado pelas empresas GOLDEN BR e HAVITA; (n) que a revenda das mercadorias perecíveis e de grande procura no mercado interno ao consumidor final atacadista em um curto período não pode ser utilizada para presumir a interposição fraudulenta; (o) que não há qualquer prova de ausência de lucro nas operações realizadas pela Recorrente; e (p) que a multa por cessão de nome, a penalidade de perdimento e a inaptidão do CNPJ não podem ser aplicadas de forma cumulativa. É o relatório. VOTO Conselheiro Arnaldo Diefenthaeler Dornelles, Relator. O Recurso Voluntário é tempestivo e preenche os demais requisitos formais de admissibilidade, razão pela qual dele se toma conhecimento. Da nulidade do Auto de Infração – ilegitimidade da matriz Fl. 2136DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 32 A Recorrente sustenta que o Auto de Infração é nulo em razão do fato de o lançamento ter sido feito em desfavor do estabelecimento matriz, enquanto todas as operações de importação autuadas, registradas nos anos de 2016 a 2019, foram realizadas pelo estabelecimento filial – CNPJ 13.597.129/0002-51. Para a Recorrente, “o sujeito passivo é aquele que estiver obrigado ao pagamento do tributo ou da penalidade, no caso, a multa por cessão irregular de nome, de modo que não é possível promover o lançamento contra pessoa jurídica diversa, em evidente contrariedade aos termos do art. 121 e 126 do Código Tributário Nacional”. Destaca ela que o estabelecimento filial foi o responsável pela operacionalização das operações de importação autuadas, de tal sorte que “não há dúvidas de que houve erro na identificação do sujeito passivo, sendo nulo o auto de infração, por não cumprimento dos requisitos legais dispostos no art. art. 142 do CTN e art. 26 da Lei 9.784/99”. Lembra a Recorrente “que a Matriz e Filial têm CNPJs diferentes e, para fins fiscais, também são tratadas como pessoas autônomas”, e, a partir disso, defende que “não se pode impor à matriz um débito tributário de responsabilidade da filial ou vice-versa”. Sem razão a Recorrente. O STJ decidiu, no REsp 1.355.812/RS (Tema Repetitivo 614), que a filial e a matriz fazem parte do acervo patrimonial de uma única pessoa jurídica, consistindo em uma universalidade de fato. A filial não ostenta uma personalidade jurídica própria, distinta da sociedade empresária, não sendo, portanto, sujeito de direitos. Para o STJ, “a discriminação do patrimônio da empresa, mediante a criação de filiais, não afasta a unidade patrimonial da pessoa jurídica, que, na condição de devedora, deve responder com todo o ativo do patrimônio social por suas dívidas”. Quanto ao argumento da Recorrente de que a matriz e a filial têm CNPJ diferentes e, por isso, devem ser tratadas como pessoas autônomas para fins fiscais, explica o STJ que esse princípio tributário da autonomia dos estabelecimentos “é um instituto de direito material, ligado à questão do nascimento da obrigação tributária de cada imposto especificamente considerado e não tem relação com a responsabilidade patrimonial dos devedores prevista em um regramento de direito processual, ou com os limites da responsabilidade dos bens da empresa e dos sócios definidos no direito empresarial”. Isso, em absoluto, não tem o condão de afastar a unidade patrimonial da empresa. Por isso o STJ decidiu não ser possível “limitar a satisfação do crédito público, notadamente do crédito tributário, a somente o patrimônio do estabelecimento que participou da situação caracterizada como fato gerador”. Eis a ementa do REsp 1.355.812/RS: PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. EXECUÇÃO FISCAL. DÍVIDAS TRIBUTÁRIAS DA MATRIZ. PENHORA, PELO SISTEMA BACEN-JUD, DE VALORES DEPOSITADOS EM Fl. 2137DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 33 NOME DAS FILIAIS. POSSIBILIDADE. ESTABELECIMENTO EMPRESARIAL COMO OBJETO DE DIREITOS E NÃO COMO SUJEITO DE DIREITOS. CNPJ PRÓPRIO DAS FILIAIS. IRRELEVÂNCIA NO QUE DIZ RESPEITO À UNIDADE PATRIMONIAL DA DEVEDORA. 1. No âmbito do direito privado, cujos princípios gerais, à luz do art. 109 do CTN, são informadores para a definição dos institutos de direito tributário, a filial é uma espécie de estabelecimento empresarial, fazendo parte do acervo patrimonial de uma única pessoa jurídica, partilhando dos mesmos sócios, contrato social e firma ou denominação da matriz. Nessa condição, consiste, conforme doutrina majoritária, em uma universalidade de fato, não ostentando personalidade jurídica própria, não sendo sujeito de direitos, tampouco uma pessoa distinta da sociedade empresária. Cuida-se de um instrumento de que se utiliza o empresário ou sócio para exercer suas atividades. 2. A discriminação do patrimônio da empresa, mediante a criação de filiais, não afasta a unidade patrimonial da pessoa jurídica, que, na condição de devedora, deve responder com todo o ativo do patrimônio social por suas dívidas, à luz de regra de direito processual prevista no art. 591 do Código de Processo Civil, segundo a qual "o devedor responde, para o cumprimento de suas obrigações, com todos os seus bens presentes e futuros, salvo as restrições estabelecidas em lei". 3. O princípio tributário da autonomia dos estabelecimentos, cujo conteúdo normativo preceitua que estes devem ser considerados, na forma da legislação específica de cada tributo, unidades autônomas e independentes nas relações jurídico-tributárias travadas com a Administração Fiscal, é um instituto de direito material, ligado à questão do nascimento da obrigação tributária de cada imposto especificamente considerado e não tem relação com a responsabilidade patrimonial dos devedores prevista em um regramento de direito processual, ou com os limites da responsabilidade dos bens da empresa e dos sócios definidos no direito empresarial. 4. A obrigação de que cada estabelecimento se inscreva com número próprio no CNPJ tem especial relevância para a atividade fiscalizatória da administração tributária, não afastando a unidade patrimonial da empresa, cabendo ressaltar que a inscrição da filial no CNPJ é derivada do CNPJ da matriz. 5. Nessa toada, limitar a satisfação do crédito público, notadamente do crédito tributário, a somente o patrimônio do estabelecimento que participou da situação caracterizada como fato gerador é adotar interpretação absurda e odiosa. Absurda porque não se concilia, por exemplo, com a cobrança dos créditos em uma situação de falência, onde todos os bens da pessoa jurídica (todos os estabelecimentos) são arrecadados para pagamento de todos os credores, ou com a possibilidade de responsabilidade contratual subsidiária dos sócios pelas obrigações da sociedade como um todo (v.g. arts. 1.023, 1.024, 1.039, 1.045, 1.052, 1.088 do CC/2002), ou com a administração de todos os estabelecimentos Fl. 2138DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 34 da sociedade pelos mesmos órgãos de deliberação, direção, gerência e fiscalização. Odiosa porque, por princípio, o credor privado não pode ter mais privilégios que o credor público, salvo exceções legalmente expressas e justificáveis. 6. Recurso especial conhecido e provido. Acórdão submetido ao regime do art. 543-C do CPC e da Resolução STJ n. 8/08. Assim, pelo fato de a matriz e a filial consistirem uma única pessoa jurídica para fins de responsabilidade frente a um crédito público exigido, inclusive o tributário, não há qualquer ilegitimidade no lançamento realizado em desfavor da matriz relativo a infrações apuradas em operações de importação realizadas pelas filiais. Nego provimento na matéria. Nulidade do Acórdão recorrido – omissão quanto às razões de defesa A Recorrente clama pela nulidade da decisão recorrida, argumentando, para tanto, que a DRJ teria deixado de analisar diversas razões de defesa apresentadas na peça impugnatória. Acusa a Recorrente que “em nenhum momento os argumentos e comprovações trazidas em Impugnação Administrativa foram analisados, reiterando tão somente todas as acusações levantadas em relatório Fiscal”, o que torna a decisão recorrida carente de motivação. Lista uma série de conclusões assumidas na decisão recorrida cujos contrapontos, trazidos em sede de impugnação, não foram considerados, a saber:  Rendimentos declarados dos dois sócios da GOLDEN não são compatíveis com o porte das operações realizadas, o que aponta para a presença de recursos de terceiros nas transações; Contraposição da Recorrente: A Recorrente comprovou a origem dos recursos, demonstrando inclusive a existência de contratos com clientes e financiamentos bancários, bem como contratos de câmbio e Swift;  Capital social, que apesar de não ser determinante por si só, é de apenas R$ 400.000,00, não sendo condizente com o montante operado pela empresa. Contraposição da Recorrente: Quanto ao capital social e a suposta inexistência de comprovação da capacidade econômica diante do capital social de R$ 400.000,00 (quatrocentos mil reais), a Recorrente informou que não há em nosso arcabouço jurídico, nenhuma norma vigente ou legislação específica, fixando a IMPORTÂNCIA DO CAPITAL INTEGRALIZADO que deva ter uma empresa para atuar no Comércio Exterior. Deixou de mencionar a Autoridade Fiscal, qual legislação está delimitando esta relação entre o capital social e o montante de valor das operações de importação da Recorrente. Sequer foi apreciado, neste contexto, se o prazo para o fechamento de câmbio e pagamento do exportador seria após a Fl. 2139DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 35 nacionalização das mercadorias ou antes, já que atesta com tanta veemência essa suposta “ausência de capacidade”. Somente com este argumento, é suficiente para afastar a possibilidade da infração por incompatibilidade entre o capital social e os valores empregados nas importações;  Movimentação financeira da empresa é altíssima comparando-se com a as importações. Em 2017, as importações foram de R$ 29 milhões, e a movimentação financeira de R$ 78 milhões. Em 2018, as importações foram de R$ 55,7 milhões, e a movimentação financeira de R$ 205 milhões. As importações foram realizadas pela filial da GOLDEN (de 2016 a 2019 = R$ 170 milhões), mas conforme diligência realizada, verificou-se que não havia presença de funcionários no local; Quanto à matriz da GOLDEN, afirma que o número de funcionários foi reduzido para 12 no período de 2018 até abril de 2019, tratando-se mão de obra reduzida para o volume operado. Contraposição da Recorrente: A Recorrente demonstrou que a empresa possui funcionário que sempre esteve presente exercendo suas funções diariamente, só assim deixou de comparecer na sede da empresa em vista da pandemia do Covid-19, executando suas funções em home office. Além disso, a empresa conta com a estrutura de serviços de representação comercial conforme instrumentos contratuais acostados, e ainda, que a empresa possui representantes comerciais que fazem a prospecção de clientes no mercado interno, vendendo as mercadorias importadas. Não há necessidade de os representantes comerciais terem vínculo empregatício, eis que não é demais lembrar que de acordo com a Lei n°.4.885/65 os representantes comerciais são autônomos. A Recorrente apresentou documentos e explicações que comprovam a capacidade operacional da empresa, trazendo todo o contexto fático quanto a forma de atuação da empresa, quanto a locação da sala, a motivação da conta de energia estar em nome do locador, o fato de seus empregados estarem trabalhando em home office; A Recorrente comprovou que possui plena capacidade para operar. A respeito da capacidade operacional, comprovou que tem condições de prestar um serviço, com a participação de funcionários, ativo mobilizado, local de distribuição e armazenamento de produtos, dentre outros aspectos. Ademais disso, a Recorrente ao longo de vários procedimentos fiscais em que fora investigada apresentou respostas com documentos que comprovam a sua existência e capacidade operacional como contrato de locação, de financiamento, de câmbio, alvará de funcionamento e contas de energia elétrica da filial, o que afasta o argumento de que não teria Fl. 2140DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 36 capacidade operacional de que “depende” financeiramente da empresa HAVITA;  Não comprovou o regular funcionamento no endereço informado, mediante apresentação das contas de consumo, alvará de licença, IPTU; No endereço informado como sendo matriz, localiza-se, a empresa VILOG ARMAZÉNS GERAIS FRIGORÍFICOS LTDA. O endereço cadastrado da HAVITA é o mesmo da GOLDEN BR e de VILOG. Contraposição da Recorrente: A Recorrente demonstrou que quanto ao endereço da Matriz, que alugou espaço na VILOG ARMAZÉNS GERAIS FRIGORÍFICOS LTDA, porém isso não quer dizer que ambas estão localizadas na mesma sala comercial, apesar de estarem no mesmo endereço, estão situadas em espaços diversos, estando a Recorrente na Parte A. Se a autoridade fiscal tinha dúvidas quanto o endereço da Matriz poderia e deveria ter diligenciado neste sentido. Contudo, a fiscalização nunca foi nos locais que aponta para efetivar diligências e corroborar suas ilações, preferindo, por comodidade, levantar suspeitas a respeito da sede da Recorrente, sendo notável o intuito parcial da fiscalização para deflagrar uma situação que não existe.  A HAVITA, que atua no mesmo ramo da GOLDEN BR, adquiriu 97,10% das mercadorias importadas pela GOLDEN BR. Contraposição da Recorrente: A Recorrente comprovou que por se tratar de um produto perecível e de alto giro, a maior parte dos clientes compradores de batata frita que são apresentam um perfil de compra conhecido como “carga direta”, ou seja, a entrega do produto é feita de uma só vez de modo a não gerar maiores custas com logística e armazenagem, tornando assim a operação menos custosa.  Ligação entre os sócios, bem como coincidência de endereços, indiciam no sentido de que GOLDEN BR e HAVITA são uma empresa só.  As operações realizadas pela GOLDEN BR eram integralmente repassadas à HAVITA, em curto espaço de tempo, caracterizando natureza de encomenda. Em determinados casos, sequer adentravam no estoque da GOLDEN BR; Baixa margem de lucro praticada pela GOLDEN BR não é compatível com as operações de comércio exterior. Contraposição da Recorrente: O fato de as mercadorias serem revendidas em um curto espaço de tempo não significa que a empresa está praticando alguma conduta ilícita. Ao alegá-lo a autoridade está determinando a para a prática comercial da Recorrente e ditando parâmetros de como gerir o seu próprio negócio. Por se tratar de um produto perecível e de alto giro, a Fl. 2141DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 37 maior parte dos clientes compradores de batata frita que são apresentam um perfil de compra conhecido como “carga direta”, ou seja, a entrega do produto é feita de uma só vez de modo a não gerar maiores custas com logística e armazenagem, tornando assim a operação menos custosa. Ademais, sabemos que o ICMS integra o custo da operação, e que em razão da Recorrente ser beneficiária do benefício do TTD do estado de Santa Catarina, este benefício aumenta sua margem de lucro.  A nota fiscal de entrada, nas informações complementares, indica a referência do cliente para qual a mercadoria está destinada. Enquanto nas notas fiscais de venda, há informações sobre as declarações de importação. Contraposição da Recorrente: Por fim, no que tange a alegação de haver lançamento da Recorrente na empresa HAVITA IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO LTDA. fica claro que em virtude das transações corriqueiras entre as empresas trata de um equívoco que fora prontamente corrigindo, mas por cuidar-se de um lançamento o sistema não o apaga, mas cria o lançamento inverso no valor inexistente, ou seja, zero. Além disso, a Recorrente defende a nulidade do Acórdão recorrido por ter supostamente inovado nos motivos que levariam à conclusão de que houve uma ocultação do sujeito passivo, qual seja, a constatação de que houve uma gerência planejada da Recorrente, o que, no entender da Recorrente, se deu sem a existência de provas documentais, mas tão somente com base em alegações de “fatos”. Muito embora o acórdão recorrido tenha feito um árduo trabalho de identificar os motivos que, no entender do então relator, levariam à conclusão de que houve uma ocultação do sujeito passivo, não se pode negar que tais motivos não constam do auto de infração, mas apenas da decisão recorrida, quando inova e aperfeiçoa que houve uma gerência planejada – sem provas documentais e apenas alegações de “fatos” – da Recorrente. Ocorre que sem provas não há fatos, e sem fatos não há como atribuir uma sanção. Além disso, e apenas para reforçar, sequer analisou os fundamentos documentos da Recorrente, buscando apenas em fatos argumenta evidências. Mas também aqui a razão não socorre a Recorrente. Em primeiro lugar, é preciso que se diga que a autoridade julgadora não é obrigada a responder a todas as questões suscitadas pelas partes, bastando que enfrente aquelas capazes de infirmar a conclusão adotada. É dessa forma que o STJ vem decidindo, a exemplo do que vemos nos EDcl no MS 21.315-DF: PROCESSUAL CIVIL. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO EM MANDADO DE SEGURANÇA ORIGINÁRIO. INDEFERIMENTO DA INICIAL. OMISSÃO, CONTRADIÇÃO, OBSCURIDADE, ERRO MATERIAL. AUSÊNCIA. Fl. 2142DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 38 1. Os embargos de declaração, conforme dispõe o art. 1.022 do CPC, destinam-se a suprir omissão, afastar obscuridade, eliminar contradição ou corrigir erro material existente no julgado, o que não ocorre na hipótese em apreço. 2. O julgador não está obrigado a responder a todas as questões suscitadas pelas partes, quando já tenha encontrado motivo suficiente para proferir a decisão. A prescrição trazida pelo art. 489 do CPC/2015 veio confirmar a jurisprudência já sedimentada pelo Colendo Superior Tribunal de Justiça, sendo dever do julgador apenas enfrentar as questões capazes de infirmar a conclusão adotada na decisão recorrida. 3. No caso, entendeu-se pela ocorrência de litispendência entre o presente mandamus e a ação ordinária n. 0027812-80.2013.4.01.3400, com base em jurisprudência desta Corte Superior acerca da possibilidade de litispendência entre Mandado de Segurança e Ação Ordinária, na ocasião em que as ações intentadas objetivam, ao final, o mesmo resultado, ainda que o polo passivo seja constituído de pessoas distintas. 4. Percebe-se, pois, que o embargante maneja os presentes aclaratórios em virtude, tão somente, de seu inconformismo com a decisão ora atacada, não se divisando, na hipótese, quaisquer dos vícios previstos no art. 1.022 do Código de Processo Civil, a inquinar tal decisum. 5. Embargos de declaração rejeitados. (EDcl no MS 21.315/DF, Rel. Ministra DIVA MALERBI (DESEMBARGADORA CONVOCADA TRF 3ª REGIÃO), PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 08/06/2016, DJe 15/06/2016) No caso dos autos, o Acórdão recorrido não se furtou de analisar os principais argumentos trazidos pela ora recorrente em sede de impugnação, tendo construído sua decisão com observância do disposto no art. 31 do Decreto nº 70.235, de 1972 (que deve ser interpretado de acordo com o entendimento do STJ): Art. 31. A decisão conterá relatório resumido do processo, fundamentos legais, conclusão e ordem de intimação, devendo referir-se, expressamente, a todos os autos de infração e notificações de lançamento objeto do processo, bem como às razões de defesa suscitadas pelo impugnante contra todas as exigências. Observe-se que o relator do Acórdão recorrido construiu sua livre convicção, e deixou isso muito claro em seu voto, a partir de um conjunto de provas indiciárias que, em sua visão, trouxeram a certeza necessária para a conclusão alcançada: Nessa etapa de apreciação, cabe esclarecimento acerca da prova indiciária e da presunção. Como premissa conceitual, tem-se que, segundo a doutrina, os meios de prova são as técnicas desenvolvidas para se extrair prova de onde ela jorra (ou seja, da fonte). ... Fl. 2143DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 39 A conclusão acerca da existência de interposição ilegítima, nas operações de importação em análise, está assentada em elementos convergentes, relativos à falta de comprovação de capacidade operacional da GOLDEN BR, pela importação de produtos com marcas pertencentes à empresa HAVITA, pelas referências a esta empresa nas DIs e nas notas fiscais de entrada, pela falta de apresentação de diversos documentos solicitados, tanto por parte da GOLDEN BR, quanto por parte da HAVITA, da BROKERS e da DUBAI 10, pelo repasse integral dos produtos importados em curto prazo de tempo, pelo compartilhamento de números de telefones e de endereços (GOLDEN BR e HAVITA). ... O processo administrativo, assim como o judicial, admite todos os meios de prova em direito permitidos, inclusive o uso de presunções simples, desde que assentados em raciocínio lógico e fundamentado, capaz de demonstrar o fato que se quer provar, o que se coaduna com o princípio da verdade material. Tal meio de prova não deve ser confundido com mera conjectura ou suposição, porquanto calcado em sólida base jurídica. Nesse passo, cumpre recordar o magistral entendimento de Aliomar Baleeiro, manifestado quando Ministro da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, o qual assentara, em induvidosa lição de sua relatoria, com vigentes efeitos interpretativos, que “Indícios vários e concordantes são prova” (Recurso Extraordinário nº 68006/MG, DJ 14/11/1969, Primeira Turma do STF). Impende, então, atentar para o sistema de apreciação das provas adotado no diploma que rege o processo administrativo fiscal, consubstanciado no art. 29 do Decreto nº 70.235/1972: “Art. 29 – Na apreciação da prova, a autoridade julgadora formará livremente a sua convicção, podendo determinar as diligências que entender necessárias.” Assim, vigora no nosso ordenamento jurídico, o sistema da persuasão racional na apreciação das provas, segundo o qual o julgador: “É livre porque, como investigador da verdade, não está sujeito de forma absoluta a seguir regras que atribuam valor qualitativo aos meios de prova, mas, ao contrário, tem a faculdade de atribuir-lhes a eficácia que resultar da influência que exercem em sua consciência.” (SANTOS, Moacyr Amaral, obra citada, pág. 381) Assim, não se pode assentir que o libelo fiscal esteja desguarnecido de comprovação como alegam as Impugnantes. Pelo contrário, a autuação oferece elementos vários que convergem para a conclusão acerca da ocultação e da prestação de informações inverídicas nas DIs, não retratando a realidade das operações de importação relacionadas neste processo, não cabendo falar em suposições. Fl. 2144DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 40 Além disso, a Fiscalização não deixou de sopesar as contrarrazões apresentadas em sede de impugnação, apenas as descartou por considerá-las incapazes de infirmar as conclusões alcançadas: Esse conjunto probatório, é óbvio, deve ser cotejado com elementos contrários eventualmente trazidos pela impugnante e, dessa contraposição, no presente caso, resulta que a prova produzida pela fiscalização se inclina favoravelmente ao direito reclamado pelo Fisco devendo, assim, prevalecer, uma vez que nenhuma outra prova a veio ilidir. Com efeito, os documentos trazidos pela Impugnante em nada alteram as conclusões sobre o quadro probatório produzido pela Fiscalização. A verdade é que os diversos indícios acima levam realmente a crer que as conclusões da Fiscalização, no sentido de que a GOLDEN BR ocultou as empresas HAVITA, BROKERS e DUBAI 10, figurando como pessoa interposta irregularmente, mediante simulação, são corretas. ... Assim, não obstante a fiscalização faça considerações acerca das razões que poderiam ter norteado o procedimento adotado pelas partes – e a impugnante tenha razão em questionar a lógica de algumas dessas ponderações –, é de se esclarecer que tal perquirição é irrelevante para a definição da aplicação da multa substitutiva da pena de perdimento. Havendo, como houve, ocultação do real adquirente das mercadorias, mediante fraude ou simulação, presentes os pressupostos legais para a aplicação da penalidade. Cabe destacar que, apesar de a GOLDEN BR alegar o contrário, a mera apresentação dos contratos de venda internacional, sem apresentação dos responsáveis pela negociação, não comprova que a GOLDEN BR realizou as tratativas. Apesar de GOLDEN BR afirmar que detinha capacidade financeira e ter apresentado documentos referentes a empréstimos de capital de giro, ter citado benefício fiscal no estado de Santa Catarina, e ter apresentado contratos de câmbio, não apresentou extratos bancários ou outros documentos que comprovassem ter arcado com as importações e despesas aduaneiras, que não são comprovadas pelos documentos apresentados. Embora a GOLDEN BR tenha afirmado possuir, firmado com a empresa HAVITA, contrato particular de licença para uso e divulgação das marcas estampadas nas caixas, conforme contratos de Licença de Uso de Marcas, todos em anexo, conforme Doc. 06, estes não foram localizados, nem nº Doc. 06, nem em qualquer outro documento apresentado pela empresa. Assim, nada foi apresentado de concreto de modo a desconstituir a infração. Independentemente da comprovação ou não de grupo econômico, ou do capital integralizado pelas empresas, os indícios convergentes acima apontados são, no meu entender, suficientes para caracterizar a ocultação. Os dados trazidos pela Fl. 2145DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 41 impugnante não têm o condão de desconstituir a convicção acerca da simulação e da interposição, propiciada pelos elementos já destacados anteriormente. Em verdade, a defesa não logrou apresentar nenhuma contraprova que conseguisse atestar a veracidade das informações prestadas nas DIs objeto de autuação e desconstituísse a conclusão da "Descrição dos Fatos" acerca da existência de ocultação. Assim, subsiste o vigor das provas, acima citadas, trazidas aos autos pela Fiscalização, que não cedeu diante dos argumentos aduzidos pela Impugnante. A Recorrente também não tem razão quanto à alegada inovação da decisão recorrida em relação ao que havia sido apontado pela Fiscalização, no sentido de dizer que houve uma gerência planejada da Recorrente, o que, no entender da Recorrente, se deu sem a existência de provas documentais, mas tão somente com base em alegações de “fatos”. Friso, novamente, que a convicção do julgador a quo foi formada a partir de um vasto conjunto indiciário, tendo ele concluído que houve ocultação do sujeito passivo nas importações declaradas pela GOLDEN BR, de tal sorte que restou caracterizada a cessão de nome para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas no acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários. Não há, portanto, os vícios suscitados pela Recorrente que demandem a declaração de nulidade do Acórdão recorrido. Nada a prover na matéria. Nulidade do Auto de Infração – ausência de fundamentação Ao final do tópico que pede a nulidade do Acórdão recorrido, a Recorrente faz uma breve referência a uma possível nulidade do Auto de Infração por ausência de fundamentação. Aparentemente, a Recorrente entende que a Fiscalização não teria levado para o Auto de Infração os motivos (provas documentais) que levariam à conclusão de que houve uma ocultação do sujeito passivo, mas tão somente alegações de “fatos”: Muito embora o acórdão recorrido tenha feito um árduo trabalho de identificar os motivos que, no entender do então relator, levariam à conclusão de que houve uma ocultação do sujeito passivo, não se pode negar que tais motivos não constam do auto de infração, mas apenas da decisão recorrida, quando inova e aperfeiçoa que houve uma gerência planejada – sem provas documentais e apenas alegações de “fatos” – da Recorrente. Ocorre que sem provas não há fatos, e sem fatos não há como atribuir uma sanção. Além disso, e apenas para reforçar, sequer analisou os fundamentos documentos da Recorrente, buscando apenas em fatos argumenta evidências. O curioso é que a Recorrente, em outra passagem de seu Recurso Voluntário, reclamou que a decisão recorrida deixou de analisar as contrarrazões trazidas em sede de impugnação e se concentrou em reiterar os pontos argumentados no relatório fiscal: Fl. 2146DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 42 Todos estes pontos aqui expostos de contraposição, não foram em nenhum momento analisados pela DRJ. Sendo evidente que somente houve a reiteração dos pontos argumentados no relatório fiscal, de tal forma que há flagrantes omissões e equívocos no Acordão recorrido do qual merece senão sua correção, sua evidente nulidade, nos termos do art. 31 do Decreto 70.235/72, bem como o art. 65 do Decreto nº 7.574/2011. E, de fato, a convicção alcançada pelo julgador a quo teve como base o conjunto probatório montado pela Fiscalização, o que, por si só, já revela a fragilidade do argumento trazido pela Recorrente. Em um tópico adiante (3.4. NULIDADE DO LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO DA FRAGILIDADE DOS INDÍCIOS APONTADOS PELA FISCALIZAÇÃO: AUSÊNCIA DE CONTEÚDO PROBATÓRIO E VIOLAÇÃO DA BUSCA PELA VERDADE MATERIAL), a Recorrente volta a atacar o Auto de Infração, objetivando, com isso, ver a sua nulidade declarada. Mas os argumentos trazidos pela Recorrente são todos eles direcionados para a qualidade das provas carreadas pela Fiscalização aos autos, que não dizem respeito à validade do Auto de Infração, mas sim se confundem com o mérito, que será analisado adiante. Nesse sentido, é preciso deixar consignado que este relator tem o entendimento que a nulidade do Auto de Infração só pode ser declarada nas hipóteses previstas no art. 59 do Decreto nº 70.235, de 1972: Art. 59. São nulos: I - os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II - os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. § 1º A nulidade de qualquer ato só prejudica os posteriores que dele diretamente dependam ou sejam conseqüência. § 2º Na declaração de nulidade, a autoridade dirá os atos alcançados, e determinará as providências necessárias ao prosseguimento ou solução do processo. § 3º Quando puder decidir do mérito a favor do sujeito passivo a quem aproveitaria a declaração de nulidade, a autoridade julgadora não a pronunciará nem mandará repetir o ato ou suprir-lhe a falta. Assim, tendo sido lavrado por autoridade competente, e não tendo sido identificado qualquer cerceamento ao direito de defesa da Recorrente, não há que se falar em nulidade do Auto de Infração. Pelo exposto, também aqui rejeito a preliminar de nulidade suscitada. Da possibilidade de produção de provas Fl. 2147DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 43 A Recorrente, com base no art. 2º, inciso X, e no art. 3º, inciso III, ambos da Lei nº 9.784, de 1999, requer que seja deferida a produção de provas, “bem como seja o processo convertido em diligência para que a Recorrente forneça perícia contábil sobre a origem dos recursos, posto que a fiscalização deixou de comprovar os fatos narrados e uma perícia poderá demonstrar a sua efetiva capacidade econômica, financeira e operacional”. Sobre a produção de provas, a Recorrente, ao invocar dispositivos da Lei nº 9.784, de 1999, parece desconhecer o fato de que o processo administrativo fiscal é regido pelo Decreto nº 70.235, de 1972, que, no § 4º de seu art. 16, disciplina o momento de apresentação da prova documental: § 4º A prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazê-lo em outro momento processual, a menos que: (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) a) fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior; (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) b) refira-se a fato ou a direito superveniente; (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) c) destine-se a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) Não obstante o disposto no Decreto nº 70.235, de 1999, não é incomum que conselheiros que compõem este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, em nome do princípio da verdade material, recebam (e analisem) provas documentais em momentos posteriores ao estabelecidos no § 4º do art. 16 do Decreto nº 70.235, de 1972. Não obstante, é de se notar que, passados quase três anos da apresentação do Recurso Voluntário, a Recorrente não trouxe aos autos quaisquer outros elementos de prova adicionais aos que já havia apresentado. Indefiro, portanto, o requerimento para produção de provas. No que diz respeito ao pedido de conversão do julgamento em diligência para a elaboração de perícia contábil sobre a origem dos recursos, não há, no presente caso, a necessidade de produção de novas provas. Os elementos contidos nos autos são mais do que suficientes para que este Colegiado forme plena convicção sobre a matéria de mérito. Assim, nos termos do art. 18 do Decreto nº 70.235/1972, indefiro o pedido de realização de diligência para a elaboração perícia contábil, formulado pela Recorrente, por julgar tal providência prescindível. Do mérito No que diz respeito ao mérito da discussão posta no presente processo, antes de analisarmos as contrarrazões trazidas pela Recorrente em voluntário, é preciso que entendamos Fl. 2148DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 44 exatamente qual é a acusação feita pela Fiscalização, que foi ratificada pela DRJ, e quais são as provas que corroboram essa acusação. Conforme já relatado, o presente Auto de Infração foi lavrado pela Fiscalização para constituição da multa de 10% do valor da operação, prevista no art. 33 da Lei nº 11.488, de 2007, pela cessão de nome para a realização de operações de comércio exterior de terceiros. Art. 33. A pessoa jurídica que ceder seu nome, inclusive mediante a disponibilização de documentos próprios, para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas no acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários fica sujeita a multa de 10% (dez por cento) do valor da operação acobertada, não podendo ser inferior a R$ 5.000,00 (cinco mil reais). Parágrafo único. À hipótese prevista no caput deste artigo não se aplica o disposto no art. 81 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996. Não é difícil perceber, a partir da leitura do texto legal, que essa multa visa punir uma conduta, não se lhe aplicando à pessoa ocultada, mas sim à pessoa que, assumindo um papel que não lhe pertence, se presta a ocultar alguém. No caso dos autos, a Recorrente registrou diversas importações, tendo indicado, em todas elas, que as mercadorias ali declaradas teriam sido adquiridas no exterior por ela mesma. É esse o único significado que se pode extrair de uma declaração de importação registrada na modalidade por conta própria, em que não há qualquer indicação no campo adquirente. E é aí que entra a acusação feita pela Fiscalização. Para a autoridade aduaneira, as mercadorias relacionadas nas declarações de importação que se encontram em disputa no presente processo não foram importadas por conta da própria Recorrente, mas haveria sim terceiras pessoas que teriam sido ocultadas nas operações, não tendo sido elas declaradas no campo próprio de cada uma das declarações de importação registradas. Diante disso, o que devemos averiguar para fins de alcançarmos uma convicção a respeito da matéria que se encontra sob a lide é se a Recorrente efetivamente adquiriu as mercadorias no exterior por conta própria, o que poderia validar as informações prestadas nas declarações de importação. Por outro lado, caso a conclusão seja no sentido de que as mercadorias não foram adquiridas no exterior pela própria Recorrente, estaremos diante de uma situação que indicaria a ocultação do real adquirente das mercadorias no exterior (que também é sujeito passivo da obrigação tributária), o que, por via lógica de conclusão, também indicaria que a Recorrente teria cedido seu nome para a realização de operações de comércio exterior de terceiros. Como se percebe, a chave para a decisão da questão posta no presente processo diz respeito ao papel desempenhado pela Recorrente nas operações de importação que se encontram sob a lide, se de real adquirente das mercadorias no exterior ou se de mero intermediário nas operações (prestador de serviço para registro das declarações de importação). Fl. 2149DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 45 Antes de entrarmos na análise das provas propriamente ditas, é preciso que façamos duas observações. A primeira diz respeito ao fato de que a DRJ afastou o lançamento da multa por cessão de nome em relação às mercadorias repassadas pela GOLDEN BR para a JBS S/A, para a COPAL ALIMENTOS LTDA, para a M.B COMÉRCIO DE PRODUTOS ALIMENTÍCIOS LTDA, para a FRINSCAL DISTRIBUIDORA DE ALIMENTOS LTDA, para a UNIK ALIMENTOS LTDA, para a FV DISTRIBUIDORA DE CARNES E PESCADOS LTDA e para a BEM MAIS ALIMENTOS LTDA ME, persistindo para análise deste Colegiado tão somente as importações relativas às mercadorias repassadas pela GOLDEN BR para a HAVITA IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO LTDA (FILIAL 0004), para a BROKERS ALIMENTOS LTDA e para a DUBAI 10 EMPRESA DE ALIMENTOS LTDA. A segunda observação é para esclarecer que as ponderações feitas até o presente momento em nada inovam ao que foi dito nos autos, sendo apenas uma conclusão lógica das acusações feitas pela Fiscalização, e que foram corroboradas pela DRJ, de que a Recorrente cedeu seu nome para a realização de operações de comércio exterior de terceiros. Quanto ao conjunto probatório trazido pela Fiscalização para os autos, não encontramos ali qualquer prova direta que permita afirmar que a Recorrente não importou as mercadorias por conta própria, mas também não encontramos qualquer prova direta que permita afirmar que a Recorrente importou as mercadorias por conta própria. Na verdade, a Fiscalização trabalhou com um vasto conjunto de provas indiretas (indiciárias) que, quando reunidas e analisadas em conjunto, revelam a plenitude de sua força probante. Sobre a validade dessas provas, reproduzo excerto do Acórdão recorrido, o qual, por concordar com o seu teor, adoto como se minhas fossem as razões de decidir: Nessa etapa de apreciação, cabe esclarecimento acerca da prova indiciária e da presunção. Como premissa conceitual, tem-se que, segundo a doutrina, os meios de prova são as técnicas desenvolvidas para se extrair prova de onde ela jorra (ou seja, da fonte). São fontes de prova as coisas, as pessoas e os fenômenos. Os meios de prova são pontes através dos quais os fatos passam para chegar, primeiro, aos sentidos, depois à mente do julgador. Doutrinariamente, com base na teoria geral da prova, pode-se classificar a prova, quanto ao objeto, em direta e indireta. Prova direta consiste na demonstração do próprio fato que se quer provar (factum probandum). Prova indireta, por sua vez, não tem por objeto o fato probando, mas outros fatos a ele relacionados, de modo que, pelo raciocínio, chega-se ao fato que se quer provar. A presunção, assim, é o resultado do processo lógico (raciocínio) mediante o qual, da existência de um fato reconhecido como certo (provas indiciárias), infere-se outro fato cuja existência é provável (fato desconhecido). Fl. 2150DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 46 Assim, quando não chegar a ser obtida prova capaz de demonstrar de modo direto um fato (prova direta), pode-se eventualmente demonstrá-lo a partir de elementos indiciários, cuja força probante não reside em cada um deles de per si, mas na convergência resultante da consideração conjunta e da sua subsistência diante das contra-razões oferecidas pela defesa. Advém, a força probante, enfim, da consistência e da coerência da unidade lógica que aponta para o fato que se quer provar. Trata-se da prova indireta, plenamente admitida no direito brasileiro. ... Tem-se por persuasiva a prova indireta quando esta é reforçada por elementos convergentes de convicção que apontam para o fato probando, por meio de raciocínio fundado em informações demonstráveis de outros fatos capazes, por sua vez, de convencer acerca da existência daquele que se quer provar. Esse processo cognitivo representa um liame lógico, fundado na presunção hominis, o qual conduz à ilação de que as informações apresentadas nas DIs não correspondem à verdade, tendo havido ocultação, corroborada pelas declarações prestadas pelos envolvidos nas operações. As presunções podem ser classificadas em legais e simples (hominis). As presunções legais decorrem do raciocínio do legislador que as expressa na lei, podendo ainda ser divididas em presunções absolutas (iuris et de iure), que não admitem prova em contrário, e relativas (iuris tantum), nas quais o fato presumido é tido por verdadeiro até que se prove em contrário. O efeito prático da presunção legal relativa é inverter o ônus da prova. Configurando-se os requisitos indicados na lei, tem-se como provado o fato nela previsto, cabendo à parte interessada, para afastar a presunção, provar que tal fato não existe. Nesse sentido preceitua o art. 374 do CPC, a que se recorre por analogia. O caso em exame não se enquadra no conceito de presunções legais. As presunções simples, por sua vez, resultam do raciocínio do juiz que as estabelece, extraindo-as dos fatos da causa, nas quais assenta o seu convencimento. MOACYR AMARAL SANTOS reconhece que vastíssimo é o campo de aplicação das presunções simples, asseverando que: “Por meio delas se provam fatos das mais variadas espécies, não só como prova subsidiária ou complementar mas também como prova principal e única. Mas, onde se manifesta, em toda a sua plenitude, a importância das presunções simples, é quando se cura de provar estados de espírito – a ciência ou ignorância de certo fato, a boa-fé, a má-fé etc. – e, especialmente, de provar as intenções, nem sempre claras e não raramente suspeitas, ocultas nos negócios jurídicos. Tratando-se de intenções suspeitas, ou melhor, nos casos de dolo, fraude, simulação e atos de má-fé em geral, as presunções assumem papel de prova privilegiada, ou, sem que nisso vá qualquer exagero, de prova específica.” (Primeiras Linhas de Fl. 2151DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 47 Direito Processual Civil, 2º volume, 19ª edição, Ed. Saraiva, São Paulo, 1998, p. 501-502) (destaquei) O processo administrativo, assim como o judicial, admite todos os meios de prova em direito permitidos, inclusive o uso de presunções simples, desde que assentados em raciocínio lógico e fundamentado, capaz de demonstrar o fato que se quer provar, o que se coaduna com o princípio da verdade material. Tal meio de prova não deve ser confundido com mera conjectura ou suposição, porquanto calcado em sólida base jurídica. Nesse passo, cumpre recordar o magistral entendimento de Aliomar Baleeiro, manifestado quando Ministro da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, o qual assentara, em induvidosa lição de sua relatoria, com vigentes efeitos interpretativos, que “Indícios vários e concordantes são prova” (Recurso Extraordinário nº 68006/MG, DJ 14/11/1969, Primeira Turma do STF). Impende, então, atentar para o sistema de apreciação das provas adotado no diploma que rege o processo administrativo fiscal, consubstanciado no art. 29 do Decreto nº 70.235/1972: “Art. 29 – Na apreciação da prova, a autoridade julgadora formará livremente a sua convicção, podendo determinar as diligências que entender necessárias.” Assim, vigora no nosso ordenamento jurídico, o sistema da persuasão racional na apreciação das provas, segundo o qual o julgador: “É livre porque, como investigador da verdade, não está sujeito de forma absoluta a seguir regras que atribuam valor qualitativo aos meios de prova, mas, ao contrário, tem a faculdade de atribuir-lhes a eficácia que resultar da influência que exercem em sua consciência.” (SANTOS, Moacyr Amaral, obra citada, pág. 381) Partindo para a análise das provas propriamente ditas, ainda sem olharmos para as contrarrazões trazidas em voluntário, é preciso reconhecer a existência de diversos indícios que põem em xeque a narrativa da Recorrente de que as importações teriam sido realizadas por sua própria conta. Vejamos um resumo do que podemos extrair de relevante das provas apresentadas pela Fiscalização:  A Recorrente (GOLDEN BR), intimada e reintimada, deixou de prestar a maioria das informações e esclarecimentos solicitados, não tendo apresentado nada de relevante que pudesse comprovar sua capacidade operacional e financeira para a realização das operações de importação auditadas, assim como a condição de real adquirente das mercadorias no exterior. A GOLDEN BR não respondeu, por exemplo, como era sua logística de vendas e nem apresentou esclarecimentos sobre que tipos de produtos Fl. 2152DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 48 importava, como era seu modo de operação e quais eram seus principais clientes);  Os rendimentos declarados para a RFB pelos sócios da GOLDEN BR não são compatíveis com o porte das operações de importação realizadas;  Há uma incompatibilidade entre os valores das importações realizadas pela GOLDEN BR (R$ 3.218.365,77 entre agosto e dezembro de 2016, R$ 29.322.578,59 em 2017, R$ 55.784.298,42 em 2018 e R$ 80.930.608,09 em 2019), os valores das movimentações financeiras (R$ 29.492.592,56 em 2016, R$ 77.832.953,77 em 2017 e R$ 205.317.980,02 em 2018) e o seu capital social (R$ 400.000,00);  A diligência realizada em 02/02/2021 na sede da filial da GOLDEN BR responsável pelas operações de importação constatou que não havia a presença de funcionários no local;  Consulta à GFIP – Guia de Recolhimento do FGTS e de Informações à Previdência Social revelou que a filial responsável pelas operações de importação não possuía qualquer funcionário até março de 2018;  O funcionário contratado no ano de 2018 pela filial responsável pelas operações de importação possuía baixa remuneração (R$ 728,00);  A matriz da GOLDEN BR contava com 13 funcionários no ano de 2017, incluído os sócios, e com 12 funcionários nos anos de 2018 e 2019, não havendo entre eles, aparentemente, funcionários atuando na atividade comercial de vendas, como vendedores, representantes comerciais, supervisores ou gerentes;  Ao ser intimada a apresentar documentação referente à constituição e regular funcionamento da empresa, a GOLDEN BR se limitou a apresentar contratos sociais e alterações, identidade dos sócios e do administrador, contrato de serviço de armazenagem com a VILOG ARMAZENS GERAIS FRIGORÍFICOS LTDA. e contrato de locação firmado com a FRIOPART ARMAZENS FRIGORÍFICOS LTDA., referente a duas salas comerciais localizadas nos municípios de Simões Filho/BA e Colombo/PR, não tendo sido apresentados contas de consumo (água, luz ou telefone), alvará de licença para funcionamento ou documento de arrecadação do IPTU em nome da GOLDEN BR;  A sede da matriz da GOLDEN BR, segundo a própria Recorrente, seria o local onde as mercadorias são armazenadas, que tem como endereço aquele mesmo onde está localizada a VILOG, de tal sorte que GOLDEN BR e VILOG estão localizadas no mesmo endereço; Fl. 2153DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 49  O escritório de apoio administrativo da GOLDEN BR estaria localizado em uma espécie de condomínio empresarial administrado pela GL Events Centro de Convenções Ltda., onde ocuparia uma área de 16 m² (escritório) mais 11,75 m² (copa anexa) (segundo contrato de cessão de área apresentado), sendo que todas as despesas com luz e telefone seriam rateadas entre os condôminos e pagas à GL Events Centro de Convenções Ltda.;  A GOLDEN BR não possuía alvará de funcionamento emitido pela Prefeitura do Rio de Janeiro (apenas teria dado entrada no requerimento para obtenção do alvará);  Sobre o ITPU, a GOLDEN BR justifica a não apresentação do documento em razão do fato de que a área onde está localizado o escritório não sofre a incidência desse imposto por pertencer ao Exército Brasileiro, tratando-se de uma concessão, e a área onde a mercadoria está armazenada tem o IPTU pago pela VILOG;]  A empresa HAVITA, que tem como nome fantasia a denominação GOLDEN FOODS, “adquiriu” 97,1 % das mercadorias importadas pela GOLDEN BR;  A sócia da GOLDEN BR, Lidiane Mendonça Monteiro, foi sócia da HAVITA até 20/04/2017;  Um dos sócios da HAVITA, Thiago Mendonça Monteiro, é irmão da sócia da GOLDEN BR;  O outro sócio da HAVITA, Rogério Girardi Medeiros da Silva, foi sócio da GOLDEN BR no ano de 2011;  O administrador da GOLDEN BR, Ivan Marques Correia, também faz parte da administração da HAVITA;  GOLDEN BR e HAVITA compartilham o mesmo endereço na Av. Rio de Janeiro – Queimados/RJ (mesmo endereça da VILOG) e na Av. das Américas – Barra da Tijuca/RJ;  Foi constatado em procedimento especial de fiscalização que mercadorias importadas pela GOLDEN BR continham marcas de titularidade da HAVITA;  No balancete de 2019 da GOLDEN BR podem ser observadas contas correntes que fazem referência à HAVITA;  A empresa BROKERS, que já se encontra com o CNPJ baixado, tem todas as características de ser uma empresa laranja (aparentemente o endereço da empresa não existia), ou, ao menos, de ser formada por sócios laranjas; Fl. 2154DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 50  A empresa DUBAI 10 já teve como sócio, até 10/11/2015, o pai de Lidiane Mendonça Monteiro (sócia da GOLDEN BR) e de Thiago Mendonça Monteiro (sócio da HAVITA), Gilberto Sebastião Monteiro, que figura como trabalhador da GOLDEN BR nos extratos da GFIP;  A DUBAI 10 já compartilhou o mesmo endereço comercial da GOLDEN BR e das HAVITA na Av. das Américas 3500;  Há números de telefones compartilhados pela GOLDEN BR e pela HAVITA e pela GOLDEN BR e pela DUBAI 10;  A GOLDEN BR e a HAVITA utilizaram o mesmo endereço de IP para a emissão de notas fiscais eletrônicas;  As empresas GOLDEN BR, HAVITA e BROKERS se encontram com status de “impedimento judicial”, segundo pesquisa realizada no site da Junta Comercial do Estado do Rio de Janeiro;  As datas de liberação (desembaraço) das mercadorias frequentemente são muito próximas das datas de emissão das notas fiscais de venda (às vezes ocorre em questão de minutos e até mesmo antes de a carga ter sido liberada – desembaraçada), sendo constatado, inclusive, repasse imediato, sem ingresso em depósito;  A maior parte das vendas ocorre para um único comprador;  Nas notas fiscais de entrada há referência, no campo “informações complementares”, do cliente para o qual a mercadoria está destinada;  Nas notas fiscais de venda há informações, no campo “informações complementares”, sobre as declarações de importação;  Há baixa margem de lucro praticada pela GOLDEN BR nas “vendas” realizadas (R$ 14,00, por exemplo, pela venda das mercadorias importadas por meio da DI 1715287357);  O baixo lucro líquido do exercício é muito abaixo do que o esperado para esse tipo de operação (3,5% no ano de 2017 e 1% no ano de 2018); e  A HAVITA, a BROKERS e a DUBAI 10 não responderam as intimações e as reintimações emitidas pela Fiscalização que procuravam entender como essas empresas negociavam as mercadorias com a GOLDEN BR. Como se percebe, há vários indícios que corroboram a acusação da Fiscalização de que a GOLDEN BR cedeu seu nome para a operação de comércio exterior de terceiras pessoas, com ocultação dos reais intervenientes. E não há nada, dentre os elementos trazidos pela Fiscalização, que minimamente aponte no sentido de que a GOLDEN BR tenha adquirido as mercadorias no exterior, e nem que as tenha efetivamente vendido no mercado interno. Fl. 2155DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 51 Contraponto esse cenário construído pela Fiscalização, a Recorrente traz uma série de contrarrazões em seu Recurso Voluntário, as quais passamos a analisar na sequência. Do mérito – ausência de comprovação de ocultação A Recorrente, neste tópico, inicia sustentando que “a questão de mérito consiste em identificar se em relação às operações de importação relacionadas no auto de infração teria restado demonstrada a ocorrência de ilícito tipificado no inciso V do Art. 23 do Decreto-lei nº 1.455/1975, qual seja, a ocultação do sujeito passivo, mediante fraude ou simulação”. Defende que “a Autoridade Fiscal não logrou êxito no processo administrativo que aqui se impugna em comprovar a existência da prática do acobertamento do efetivo responsável pela operação de importação em análise”. Diz que “o ilícito aduaneiro definido como “interposição fraudulenta de terceiros”, na forma comprovada, atribuído à Recorrente é decorrente do art. 23, inciso V e §1º do DL 1.455/76”. Brada que “não há elementos nestes autos capazes de confirmar o quadro fraudulento apontado pela fiscalização”, e questiona: “Onde está a prova de que tais empresas adiantaram os recursos para pagamento dos tributos federais e fechamento de câmbio? Onde está a prova de que tais empresas negociaram as mercadorias com o exportador? Onde está a prova do prévio acordo doloso entre a Recorrente e estas empresas para a vinda dessas mercadorias?”. Assevera que “a demonstração da ocorrência da infração de interposição fraudulenta depende da prova (imediata) da ocultação dolosa da pessoa interveniente na operação de importação, mediante (i) a identificação do real interveniente ou beneficiário oculto na operação de importação; e (ii) a comprovação de que a ocultação do real interveniente ou beneficiário foi efetivada mediante fraude ou simulação” e sustente que “a fiscalização deve reunir provas diretas ou indiretas que apontam, sem sombra de dúvida, tratar-se dessa incompatibilidade entre o negócio declarado e aquele de fato revelado na operação”. Mas há alguns esclarecimentos a serem feitos a respeito desses argumentos trazidos pela Recorrente. Em primeiro lugar, a questão de mérito posta no presente processo não diz exatamente respeito ao ilícito previsto no inciso V do art. 23 do Decreto-Lei nº 1.455, de 1976, mas sim ao ilícito previsto no art. 33 da Lei nº 11.488, de 2007. Ou seja, não estamos aqui investigando, propriamente, a ocorrência de ocultação do sujeito passivo, mediante fraude ou simulação, prevista no inciso V do art. 23 do Decreto-Lei nº 1.455, de 1976, mas sim uma possível cessão de nome para a realização de operações de comércio exterior de terceiros. Fl. 2156DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 52 Em que pese a estreita relação existente entre esses dois ilícitos, de tal sorte que a comprovação da ocultação do sujeito passivo pode também ensejar a aplicação da multa por cessão de nome, eles são tipos próprios que merecem análises independentes. Na concepção deste julgador, a comprovação da cessão de nome em relação a uma operação de importação pode se dar de forma indiciária a partir de elementos de prova que demonstrem com segurança que aquele que se apresenta como importador não realizou, ou não tinha capacidade de realizar, a aquisição das mercadorias no exterior e não realizou, ou não tinha capacidade de realizar, a venda das mercadorias importadas no mercado interno. Esse último parágrafo serve de gancho para um segundo ponto trazido pela Recorrente, que diz respeito à (in)suficiência do conjunto probatório trazido pela Fiscalização para fins de comprovação do ilícito discutido nos autos. A esse respeito, convém lembrar dos ensinamentos do Ministro Flávio Dino no recentíssimo julgamento realizado na 1ª Turma do STF a respeito da ação penal que tratava dos crimes de golpe de Estado. Ao interromper o voto do Ministro Cristiano Zanin para explorar um pouco daquilo que chamou de hermenêutica exótica, o Ministro Flávio Dino lembrou a metáfora do boi fatiado, que é uma “espécie de falácia segundo a qual você divide o boi em bifes e pergunta a cada pedaço: você é um boi? E claro que o boi nada diz. Você diz: pede lá para o pedaço do boi mugir, e o pedaço não muge. E aí a conclusão falseada é de que nunca existiu boi”. Aplicando a metáfora do boi fatiado ao presente processo, se olharmos individualmente para cada um dos elementos (indiciários) de prova trazidos pela Fiscalização (os “bifes”), não seremos capazes de concluir que a GOLDEN BR cedeu seu nome para a operação de comércio exterior de terceiras pessoas, mas, se olharmos para o conjunto probatório como um todo (o “boi”), não teremos dúvidas de que a GOLDEN BR não adquiriu as mercadorias no exterior e não as vendeu no mercado interno, mas sim cedeu seu nome para atender a interesse de terceiros. Observe-se que a Recorrente conduz suas contrarrazões na tentativa de desqualificar as provar reunidas pela Fiscalização, mas não faz qualquer esforço para demonstrar que a aquisição das mercadorias no exterior e a venda no mercado interno foram feitas por ela própria, o que poderia ser feito com a apresentação das negociações entabuladas com os vendedores e com os compradores. Por essas razões, nego provimento na matéria. Do mérito – ausência de subsunção A Recorrente afirma que “a fiscalização aduaneira subsumiu os fatos acima relatados ao art. 33 da Lei 11.488/07, ou seja, cessão de nome para a realização de negócios de comércio exterior, com acobertamento dos reais intervenientes ou beneficiários”, e que esse enquadramento “se aplica no caso de ter havido a interposição fraudulenta, que representa uma Fl. 2157DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 53 simulação que consiste em ocultar, voluntariamente, o verdadeiro interessado na operação, ocorrendo todas as vezes em que uma pessoa, física ou jurídica, apresenta-se como responsável por uma transação que não realizou, se interpondo entre uma parte e outra”. Diante disso, sustenta que o enquadramento no tipo só poderá ser feito quando comprovada a ocultação do real comprador e a fraude e simulação para tanto. Diz que, no presente caso, não houve fraude ou simulação, e mais, que teria apresentado à Receita Federal todas as informações e documentos solicitados. Além disso, a Recorrente afirma que eventual prova de inexistência de ocultação do real adquirente na operação de importação “equivale a prescrever a produção de uma prova diabólica, de dificílima produção, pois a Recorrente teria o ônus de provar um fato negativo”. Acrescenta que não seria possível a ela “provar algo que sequer foi determinado e comprovado pela Autoridade Fiscal por ocasião da lavratura do auto de infração”. Assevera possuir “capacidade econômica para atuar no comércio exterior e, com seus próprios recursos, adquire mercadoria para importação assumindo todos os riscos do negócio”. Mas esses argumentos também não ajudam a Recorrente. Primeiro porque, conforme já vimos no tópico anterior, o enquadramento no tipo não deve ser visto a partir do que dispõe o inciso V do art. 23 do Decreto-Lei nº 1.455, de 1976, como fez a Recorrente, mas sim a partir do que dispõe o art. 33 da Lei nº 11.488, de 2007, que trata da cessão de nome para a realização de operações de comércio exterior de terceiros. E, conforme já referido, a comprovação da cessão de nome em relação a uma operação de importação pode se dar de forma indiciária a partir de elementos de prova que demonstrem com segurança que aquele que se apresenta como importador não realizou, ou não tinha capacidade de realizar, a aquisição das mercadorias no exterior e não realizou, ou não tinha capacidade de realizar, a venda das mercadorias importadas no mercado interno, o que foi feito pela Fiscalização. Observe-se, ainda, que a Recorrente não foi capaz de desfazer a validade do conjunto probatório trazido pela Fiscalização, e não porque ensejaria “a produção de uma prova diabólica, de dificílima produção, pois a Recorrente teria o ônus de provar um fato negativo”. A prova que se esperava da Recorrente não é que ela não ocultou o sujeito passivo, mas sim que ela é efetivamente o sujeito passivo, o que poderia facilmente ser comprovado se a Recorrente tivesse apresentado, por exemplo, a negociação de compra das mercadorias no exterior. Nada disso foi feito e nada disso foi comprovado. Também não são verdadeiras as afirmações feitas pela Recorrente de que ela teria apresentado à Fiscalização todas as informações e documentos solicitados, ou que estaria sendo Fl. 2158DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 54 exigida dela a prova de “algo que sequer foi determinado e comprovado pela Autoridade Fiscal por ocasião da lavratura do auto de infração” (referindo-se à prova de que não houve ocultação). Conforme já vimos, a Recorrente foi intimada e reintimada a prestar uma série de informações e de esclarecimentos, tendo ela preferido se omitir e não apresentar nada de relevante que pudesse comprovar sua capacidade operacional e financeira para a realização das operações de importação auditadas, assim como a condição de real adquirente das mercadorias no exterior Quanto ao argumento trazido pela Recorrente em voluntário de que teria “capacidade econômica para atuar no comércio exterior e, com seus próprios recursos, adquire mercadoria para importação assumindo todos os riscos do negócio”, não há nada nos autos que demonstre isso. Esse é um argumento que, frente aos indícios apontados pela Fiscalização, mostra- se vazio quando não acompanhado de elementos de prova que o sustente. Nada a prover na matéria. Do mérito – inexistência de fraude/dolo/simulação Insistindo na tese de que a caracterização da interposição fraudulenta está associada à comprovação de fraude, dolo ou simulação, a Recorrente pede o cancelamento do Auto de Infração por ausência de comprovação desses elementos. Na sequência, a Recorrente passa a discorrer sobre dano ao Erário e a aplicação da penalidade de perdimento, e aborda algumas razões que poderiam levar à ocultação do real adquirente das mercadorias no exterior (quebra da cadeia do IPI, sonegação de outros tributos, lavagem de dinheiro, falta de habilitação no RADAR, acobertamento dos reais interessados em operações fraudulentas e subfaturamento das importações), justificando sua não aplicação ao caso. Mais uma vez a Recorrente conduz a discussão para o inciso V do art. 23 do Decreto-Lei nº 1.455, de 1976, punível com a penalidade de perdimento da mercadoria, esquecendo que a matéria discutida nos autos diz respeito à cessão de nome para a realização de operações de comércio exterior de terceiros, prevista no art. 33 da Lei nº 11.488, de 2007. Assim, por ser inaplicável ao caso, nego provimento na matéria. Do mérito – capacidade operacional da GOLDEN BR A Recorrente defende que as informações trazidas pela Fiscalização a respeito do capital social (R$ 400.000,00) e do IRPF dos sócios da GOLDEN BR (Lidiane e Gustavo) nada atestam, “na medida em que o referido auto de infração somente apurou fatos entre 16/08/2017 a 24/04/2019, portanto qualquer fato anterior a esta data é completamente insubsistente e em nada inova ao ponto de caracterizar interposição fraudulenta por ocultação do sujeito passivo”. Fl. 2159DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 55 Reclama que os sócios “em nenhum momento foram intimados para apresentar esclarecimentos, demonstrarem sua renda ou qualquer outro saneamento às autoridades, razão pela qual esta justificativa também se torna inviável e nada comprova à suposta infração”. Afirma ser “possível extrair do extrato da Sócia Lidiane, consta em fls. 469 que os rendimentos isentos e não tributáveis o valor de R$ 597.491,31 (quinhentos e noventa e sete mil, quatrocentos e noventa e um reais e trinta e um centavos), fato este omitido pela Fiscalização”. Referindo a sede da filial, que, quando diligenciada pela Fiscalização revelou-se apenas como uma sala comercial, além de se encontrar fechada, a Recorrente defende “a capacidade operacional deve englobar a capacidade de toda a empresa e não somente de uma filial”. Diz ter “plena estrutura física, operacional e financeira para atender às suas necessidades, não se tratando de uma empresa de fachada, tampouco desprovida de patrimônio”. Tenta desqualificar a diligência feita pela Fiscalização na filial de Itajaí afirmando a inexistência de TDPF nos autos e a ausência de intimação prévia, conforme dispõe o art. 41 da Lei nº 9.784, de 1999. Busca demonstrar, por meio de fotos da sala, a existência de estrutura física da filial para realizar seu objeto social, além e apresentar o contrato e locação, alvará de funcionamento e contas de energia do estabelecimento filial. Junta ao processo, nas e-fls. 1881 a 1926, sete contratos de representação comercial, nenhum deles registrado em cartório e todos eles com data de 22/04/2019 (dois dias antes da última DI autuada – 24/04/2019. Quanto à matriz, a recorrente informa ter alugado espaço na VILOG, mas que “isso não quer dizer que ambas estão localizadas na mesma sala comercial, apesar de estarem no mesmo endereço, estão situadas em espaços diversos, estando a Recorrente na Parte A”. Também afirma que “há nenhuma irregularidade no fato das contas de luz e IPTU estarem em nome do Locador, eis que se trata de uma prestação de serviço de espaço, sendo que o referido instrumento foi devidamente apresentado à autoridade fiscal”. Há muitas coisas estranhas neste processo e poucas respostas conclusivas. Quanto à situação financeira dos sócios, aquela que efetivamente destoa do esperado é a do sócio Gustavo, que teria entrado na sociedade em 25/04/2011 com 49,5% de participação societária e apresentou os seguintes rendimentos tributáveis entre os anos de 2016 e 2019: E os argumentos trazidos pela recorrente em voluntário não desfazem a nuvem que paira sobre essas informações trazidas pela Fiscalização. Observe-se que a Recorrente reclama que Fl. 2160DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 56 os sócios não foram intimados para apresentar esclarecimentos, mas ela também não busca trazer esses esclarecimentos em voluntário, Quanto aos demais argumentos trazidos pela Recorrente neste tópico, embora eles coloquem algumas dúvidas nas conclusões a que chegou a Fiscalização em relação à falta de capacidade operacional da GOLDEN BR, eles não esclarecem por completo a situação da empresa. Se a GOLDEN BR efetivamente importou milhões por meio de sua filial em Itajaí, como isso seria possível de ser feito com apenas um ou dois funcionários? Quem comprou essas mercadorias e em que condições? Quanto à venda dessas mercadorias importadas, a Recorrente justifica sua capacidade operacional com base nos sete contratos de representação juntados às e-fls. 1881 a 1926. As perguntas que surgem são: Por que os contratos não foram reconhecidos em cartório e por que todos eles foram assinados no dia 22/04/2019? Além disso, por que a Recorrente não juntou ao processo os comprovantes de pagamentos feitos aos seus representantes, documentos que certamente trariam muito mais força aos contratos de representação juntados? Aliás, por que a Recorrente não apresentou qualquer informação quando foi intimada pela Fiscalização? Não obstante as dúvidas que ainda possam pairar sobre a capacidade operacional da GOLDEN BR, fato é que esse é apenas mais um elemento indiciário que se apresenta no presente processo. Individualmente não é possível concluirmos nada a partir desse indício. E mesmo que retirássemos esse indício do conjunto probatório montado pela Fiscalização, ainda assim manteríamos a convicção de que a GOLDEN BR não realizou a aquisição das mercadorias no exterior e nem as vendeu no mercado interno, o que justifica a aplicação da multa por cessão de nome prevista no art. 33 da Lei nº 11.488, de 2007. Dessarte, também aqui nego provimento na matéria. Do mérito – capacidade financeira da GOLDEN BR Nesse tópico, a Recorrente traz uma série de argumentos a fim de demonstrar o equívoco da Fiscalização ao afirmar que ela não teria capacidade financeira para realizar as operações de importação por ela registradas. Nesse aspecto, tendo a concordar com a Recorrente, uma vez que não há elementos nos autos que permitam concluir que a Recorrente não possuía capacidade financeira para realizar as operações de importação por ela registradas. Mas isso não significa dizer que as operações de importação foram efetivamente realizadas pela própria Recorrente. Os demais indícios que ainda subsistem no presente processo são robustos o suficiente para trazer a certeza necessária de que a GOLDEN BR não realizou a aquisição das mercadorias no exterior e nem as vendeu no mercado interno. Fl. 2161DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 57 Chama a atenção, por exemplo, o dado trazido pela Fiscalização de que a empresa obteve um lucro líquido de 3,5% no ano de 2017 e de apenas 1% no ano de 2018. Isso pode ser explicado pela pequena diferença de valores encontrada entre as notas fiscais de entrada e de saída das mercadorias, conforme abaixo demonstrado a título de exemplo, que não parecem revelar uma operação de compra e venda entre duas empresas independentes: Quanto aos contratos de câmbio e swift trazidos aos autos, de forma amostral, pela Recorrente, eles em absoluto demonstram a regularidade das operações de importação, e muito menos comprovam a origem dos recursos utilizados nas importações, mas tão somente indicam quem foi a pessoa responsável por fazer a remessa do dinheiro ao exterior. Por fim, merecem destaque os dois contratos de venda internacional trazidos pela Recorrente às e-fls. 2095 a 2100. Esses documentos não garantem que GOLDEN BR tenha sido a pessoa que efetivamente comprou as mercadorias no exterior, mas exigiriam um esforço probatório para que pudessem ser afastadas. O problema é que o contrato firmado com a Ozgorkey Otomotiv Turizm Gida San. Ve Tic. A.S. foi datado em 14/01/2020, após, portanto, a última declaração de importação autuada no presente processo. Isso significa dizer que esse contrato não tem a força de afastar do lançamento qualquer uma das operações de importação autuadas. No que diz respeito ao contrato firmado com a AGRISTO NV, observamos que ele foi datado em 19/02/2019, com efeitos a partir do mês de março de 2019, de tal sorte que é preciso reconhecer que, em relação às importações desse fornecedor estrangeiro realizadas a partir do mês de março de 2019, nos limites apresentados na tabela a seguir reproduzida, extraída da e-fl. 2096, não é possível afirmar que a GOLDEN BR tenha cedido seu nome para a operação de importação de terceiras pessoas. DI NF Entrada NF Saída Diferença % 1617441653 R$ 195.495,80 R$ 210.567,70 R$ 15.071,90 7,71% 1619135053 R$ 211.944,06 R$ 218.673,42 R$ 6.729,36 3,18% 1713828105 R$ 635.076,23 R$ 639.935,92 R$ 4.859,69 0,77% 1715287357 R$ 422.588,47 R$ 422.602,50 R$ 14,03 0,00% 1901203052 R$ 634.884,96 R$ 640.134,72 R$ 5.249,76 0,83% Fl. 2162DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 58 Dessarte, acato parcialmente o argumento da Recorrente neste tópico e dou parcial provimento ao Recurso Voluntário para afastar a multa por cessão de nome em relação às importações feitas da AGRISTO NV a partir do mês de março de 2019, nos limites dos volumes expressos, por mês, na tabela de e-fl. 2096. Do mérito – grupo econômico A Recorrente reclama que não há nos autos qualquer comprovação da formação de um grupo econômico, mas tão somente suposições, “em total menosprezo ao princípio constitucional da preservação da empresa perante fatos totalmente questionáveis, imputando uma exação de mais de R$ 5.000.000,00 milhões de reais”. Sustenta que, ainda que restasse comprovada a existência de grupo econômico, a legislação vigente não autorizaria a desconsideração da personalidade da pessoa jurídica. Esse tópico não merece maiores digressões, uma vez que, apesar de ter efetivamente mencionado a existência de um grupo econômico, a Fiscalização não buscou a desconsideração da personalidade jurídica. O que fez a Fiscalização foi mostrar a relação existente entre as empresas a fim de reforçar a sua tese de que não teria sido a GLDEN BR a real adquirente das mercadorias no exterior. E é inegável, pelos elementos de prova trazidos aos autos, que as empresas são relacionadas. Fl. 2163DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 59 Do mérito – vendas em curto período Neste tópico a Recorrente contrapõe o argumento da Fiscalização de que as mercadorias teriam sido repassadas para terceiras empresas em um curto intervalo de tempo ponderando que “ trabalha com o método de gestão “JUST IN TIME”, que influencia no controle de estoque”, sendo esse “um tipo de metodologia lean, projetada para aumentar a eficiência, cortar custos e diminuir o desperdício, no qual todas as ações dentro da empresa são realizadas na hora certa, ou seja, as atividades como compra, transporte e produção ocorreram de acordo com a demanda”. É preciso relembrar, mais uma vez, que esse aspecto da operação da GOLDEN BR é apenas mais um dos elementos de convicção dentro de um vasto acervo probatório. Individualmente ele não nos diz nada, mas, quando junto aos outros elementos, diz muito. Quanto ao argumento da Recorrente, embora ele pudesse ser válido, não há nada nos autos que nos indique que o seja (válido). A Recorrente não traz em voluntário qualquer elemento que comprove uma efetiva compra e venda entre a GOLDEN BR e a HAVITA, a BROKERS ou a DUBAI10. Dessa forma, nada a prover na matéria. Do mérito – ausência de lucro e destinação específica A Recorrente sustenta que não há qualquer prova de ausência de lucro nas operações realizadas e acusa a Fiscalização de não ter se atentado “que o valor que compõe uma nota fiscal é justamente a soma do valor dos produtos mais os impostos que representaram o custo total. O lucro está dentro do valor total dos produtos e não fica aparente na nota fiscal, ou seja, o fato de os dois campos destacados pela autoridade fiscal serem iguais não quer em momento nenhum dizer que não há margem de lucro na operação”. Mas não tem razão a Recorrente nesse ponto. Repetimos aqui o dado trazido pela Fiscalização, e apontado alguns tópicos acima, que revela o baixo lucro líquido apurado pela empresa (3,5% no ano de 2017 e 1% no ano de 2018). A isso acrescentamos a análise de algumas operações que revelam uma pequena diferença de valores entre as notas fiscais de entrada e de saída das mercadorias, que não parecem revelar um lucro esperado nesse tipo de operação de compra e venda: DI NF Entrada NF Saída Diferença % 1617441653 R$ 195.495,80 R$ 210.567,70 R$ 15.071,90 7,71% 1619135053 R$ 211.944,06 R$ 218.673,42 R$ 6.729,36 3,18% 1713828105 R$ 635.076,23 R$ 639.935,92 R$ 4.859,69 0,77% 1715287357 R$ 422.588,47 R$ 422.602,50 R$ 14,03 0,00% 1901203052 R$ 634.884,96 R$ 640.134,72 R$ 5.249,76 0,83% Fl. 2164DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 60 Ainda nesse tópico, a Recorrente combate a afirmação feita pela Fiscalização de que as mercadorias teriam destinação específica no momento da importação. Sem trazer para os autos qualquer elemento de prova adicional, a Recorrente reclama que a afirmação da Fiscalização estaria determinando a prática comercial da empresa e ditando parâmetros de como gerir o seu próprio negócio, e justifica o que foi observado pela Fiscalização dizendo que, “por se tratar de produto perecível e de alto giro, a maior parte dos clientes compradores apresentam um perfil de compra conhecido como “carga direta”, ou seja, a entrega do produto é feita de uma só vez de modo a não gerar maiores custas com logística e armazenagem, tornando assim a operação menos custosa”. A Recorrente nega saber “no momento da importação ainda quem será o destinatário das mercadorias, pois nesse cenário muitas coisas podem ocorrer, clientes podem desistir da compra, pode haver um aumento no preço que faça a mercadorias ficar presa em estoque, atraso no navio e no desembaraço, ou seja, mudanças de destinatário são regulares nesse modelo de negócio, ao passo que não faz nenhum sentido o que foi alegado pela autoridade fiscal”. O que nem ao menos tenta explicar a Recorrente é porque consta nas notas fiscais de entrada das mercadorias importadas, no campo informações complementares, referência ao cliente para o qual a mercadoria será “vendida” e nas notas fiscais de venda, também no campo informações complementares, referência às declarações de importação. Diante disso, nada a prover a matéria. Da cumulação de penalidades A Recorrente afirma que foi triplamente penalizada, tendo sido aplicada a ela a penalidade de perdimento no processo 15444.7202302021-80, a multa de 10% pela cessão de nome no presente processo e a declaração de inaptidão do seu CNPJ no processo 15444.720149/2021-08. Sustenta ela que “o Artigo 33 da Lei 11.488, de 2007, estabelece que não se aplica a multa por cessão de nome quando o importador for apenado com a declaração de inaptidão do seu CNPJ, tal como previsto no Art. 81 da Lei 9.430, de 1996”. Por isso “requer a reforma da decisão recorrida, com o objetivo de afastar a cumulação da pena de perdimento, inaptidão de CNPJ e multa de 10% por cessão de nome, bem como afastar especificamente a penalidade de multa de 10% por cessão de nome, haja vista ter sido declarada a inaptidão do CNPJ da Recorrente, sendo esta penalidade não cumulada com a infração ora combatida”. A Recorrente tem razão quando diz que a multa de 10% do valor da operação, prevista no art. 33 da Lei nº 11.488, de 2007, não pode ser cumulada com a declaração de inaptidão do CNPJ, prevista no art. 81 da Lei nº 9.430, de 1996, mas se equivoca quando diz que a Fl. 2165DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.766 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720086/2021-81 61 lei “estabelece que não se aplica a multa por cessão de nome quando o importador for apenado com a declaração de inaptidão do seu CNPJ”. A simples leitura do que dispõe o parágrafo único do art. 33 da Lei nº 11.488, de 2007, nos revela que a hipótese de cessão de nome é punida com a multa de 10% do valor da operação acobertada, não podendo ser declarada, nesse caso, a inaptidão do CNPJ da empresa: Art. 33. A pessoa jurídica que ceder seu nome, inclusive mediante a disponibilização de documentos próprios, para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas no acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários fica sujeita a multa de 10% (dez por cento) do valor da operação acobertada, não podendo ser inferior a R$ 5.000,00 (cinco mil reais). Parágrafo único. À hipótese prevista no caput deste artigo não se aplica o disposto no art. 81 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996. Em outras palavras, se algo há a ser demandado pela Recorrente é em relação à declaração de inaptidão do CNPJ, e não em relação à multa prevista no art. 33 da Lei nº 11.488, de 2007. Sendo assim, não há nada referente à matéria a ser provido no presente processo. Conclusão Diante do exposto, voto por rejeitar as preliminares de nulidade do Auto de Infração e do Acórdão recorrido, suscitadas pela Recorrente, por indeferir os pedidos para produção de provas e para conversão do julgamento em diligência para a elaboração de perícia contábil e, no mérito, por dar parcial provimento ao Recurso Voluntário para afastar a multa prevista no art. 33 da Lei nº 11.488, de 2007, em relação às importações feitas da AGRISTO NV a partir do mês de março de 2019, nos limites dos volumes expressos, por mês, na tabela de e-fl. 2096. (documento assinado digitalmente) Arnaldo Diefenthaeler Dornelles Fl. 2166DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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