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Numero do processo: 13819.001547/2003-19
Turma: Primeira Turma Ordinária da Primeira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Jun 21 00:00:00 UTC 2007
Numero da decisão: 203-00.824
Decisão: RESOLVEM os Membros da Terceira Câmara do Segundo Conselho de
Contribuintes, por unanimidade de votos, converter o julgamento do Recurso em diligencia, nos termos do voto do Relator.
Nome do relator: ANTONIO BEZERRA NETO
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(ATUAL DENOMINAÇÃO DE RESARBRAS INDÚSTRIA E COMÉRCIO I.,17.1)A.) RESOLVEM os Membros da Terceira Câmara do Segundo Conselho de Contribuintes, por unanimidade de votos, ceuvcx ter o julgamento do Recurso ern diligencia, nos termos do voto do Relator. Sala das Sessões, ent 21 de jur,ho u' ntOnin 19Zerr; Ne to Presidente e Relator Participaram, ainda, da presente resolução os Conselheiros Emanuel Carlos Dantas de Assis, Eric- Moraes dr...s Castro e Silva, Silvia de Brito Oliveira, Luciano Pontes de Maya Gomes, Odassi Guerzoni Filho, Dory Edson Marianelli e Dal; on '.7csar Cordeiro de Miranda. Eaallinp - Fiver.Fi'0:)A — 2. 0 CC CONFEY':: • . Or.f5iNAL. I / 09_ _Lo 3 Ministério da Fazenda Segundo Conselho de Contribuintes CC-NIF Fl. Processo n° : 13819.001547/2003-19 Recurso n° : 130.644 Recorrente : RESARLUX INDÚSTRIA E COMÉRCIO LTDA. (ATUAL DENOMINAÇÃO DE RESARBRAS INDÚSTRIA E COMÉRCIO LTDA.) RELATÓRIO Contra a empresa em ebitr.rafe foi lavrado o Auto de Infraçbo de fls. 67/69, no montante de R$ 357.889,77, inclusos juros de mora e mult a . de oficio, cni razão da falta de recolliimento do imposto decorrente de compensações indevidas, .sob a eapitulvção legal de fls. 66 e (5Q. Segundo consta dos autos, o contribuinte compensou os débitos do IPI, ali iebeionados, com supostos créditos do PIS cuja restituição foi solicitada no processo n° 3..3816.000382/00-10 e negada, conforme Despacho Decisório de fls. 38/39, que considerou decaído o direito a restituição pleiteada. Como, apesar de intimado para tanto, o contribuinte deixOti de !ccolher tais débitos, a 11:zcalização efetuou o presente lançamento, com base no art. 90 da MP 2.1f)8-3512001. Regularmente cientificado, o sujeito passivo apresentou a tcuiptztiva impugnação de Ms.. 97/110, alegando, em síntese, que o crídito tributário exigido já estaria mtlato pelo instituto da compensagdo, pois, teria direito à restituigao pleiteada, conforme os argumenios elencados as fls. 99fl 00 e que não teria caducado seu direito, de acordo coin que aduz as fls. 102/107. Reiterando seu direito à compensação, as fls. 107/109, encurou requerendo que seja decretada a insubsistência do auto impugnado, reconhecendo-se o crédito apresentado a compensação pelo contribuinte. 0 presente processo foi desmembrado e os créditos relativos ao PIS e a Cofins foram it ;?..nLferidos para o Processo n° 13819.003882/2003-43, que foi encaminhado para a DRJ/Campinas. Em decisão de tls. 184 a 194, a DRJ em Ribeirão Preto c_;P, por unanimidade de manteve o lançamento, nos termos da ementa que se transcreve: "Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI Período de apuração: 31/05/2000 a 20/10/2001 Ementa: FALTA DE RECO LRIME NriT). A não-homologação das compensaçães efetuadas pelo sujeito passivo autoriza a exigência do imposto não recolhido por meio de lançamento de oficio com os consectdrios a ele inerentes." , • CONFEr OR:1 3 iN 0.3 .09. VISTO Ministério da Fazenda Segundo Conselho de Contribuintes 2° CC-N1F Fl. Processo n" : 13819.001547/2003-19 Recurso no : 130.64'4 Inconformada com a decisão de primeira instancia, a interessada; •as fls. 136/146, interpls recurso voluntário tempestivo a este Segundo Conselho de Contribuintes, onde aduziu, em síntese, as seguintes razões de deft': - que a referida miusczdo depende do julgamento d.o recurso que está sendo julgado no Processo n° 13816.000382P)C1- 1 G. Contra decisão proferida pela DRJ/Campinas, a recorrente apresentou recurso voluntário Conselho de Contribuintes. A Camara apreciou o recurso apresentado pela recorrente, tc..conhecendo o direito a restituição dos valores indevidamente recolhidos; - que a lavratura 1 -c.ferido Auto de Infração, alem de se distanciar da razoabilidade - que se espera do Puder Público, rtrç o princípio da legalidade, tend:, cm -vista que desrespeitou suspensão da exigibilidade do or.f.Jito tributário ptevista no art. 151,. III do CTN e o efeito suspensivo do recurso administ; .- ), preceituado no art. 33, caput, do Decreto n° 70.235/72 - Rediscute a (1,...c;:.:::.C:=.ncia do direito de repetir o indébito alvo do processo n° 4 13816.000382/00-10, reiterando , t. gumentos la expendidos. o relatório. . . „ .Ministério da Fazenda* Segundo Conselho de Contribuintes 2:2 CC-MF FL Processo u° : 13819.001547/2003-19 Recurso n° : 130.644 VOTO DO CONSELHEIRO-RELATOR ANTONIO BEZERRA NETO O recurso preenche as condições de admissibi'idade e dele tomo conhecimento. Pelo exame dos autos, constata-se que o priocipal fato que serviu de base para a não homologação dos pedidos de compensação fo o indeferimento no pedido de restituição/compensação, o que implicou na inexistência 6.: crédito passível de compensação. Fica claro, portanto, que a decisã final em relação ao pedido de restituição/compensação formalizado nos autos do processo 1816.000382/00-10 tem fundamental importância no deslinde da presente questão. Analisando-se a posição atual do recurso n" 124398 (13816.000382/00-10), verifica- se que o contribuinte logrou êxito tanto por , afastar a dcaOncia quanto na matéria de mérito: 'semestralidade do PIS'. Acontece que ainda não existe tiecis) administrativa definitiva, uma vez que foi dado seguimento a Recurso Especial, enContrando-se a matéria atualmente sob o crivo da CSRF, conforme abaixo: Número do Recurso:124398 • - Tipo do Recurso:VOLUNTARIb Data de Entrada:1010912003 Número do Processo:13816.000382/00-10 Nome do Contribuinte:RESARBRAS INDÚSTRIAS E COVIERCIO LTDA Matéria:RESTITUIÇÃO/COMP PIS Andamentos: 10/09/2003 - Aguardando Distribuição 10/05/2004 - Distribuído para Câmara: TERCEIRA CAMARA 19/10/2004 - Sorteado para Relator: Maria Teresa Martinez Lopez 11/01/2005 - Colocado em Pauta, Data Sessão: 26/01/2005 - 10!00, Tipo Pauta: NORMAL, ORDINÁRIA 26/01/2005 - Decisão/Ementa/Inteiro Teor do Acórdão. ACORDÃO NI= 203-09934 - DPM 26/01/2005 - Decisão/Ementa/Inteiro Teor do Acórdão, ACORDÃO N .-2 203-09934 - DPM 04/02/2005 - Em Formalização Para Edição Da Decisão, Seção: SETEX 30/03/2005- Em Formalização Aguardando Assinatura, Camara: TERCEIRA CAMARA 26/04/2005 - Formalizado Aguardando Ciência Do Procurador, Camara: TERCEIRA CAMARA 18/08/2005 - Formalizado Aguardando Ciência Do Procurador, Procurador: José de Ribamar Alves Soares 30/08/2005 - Retorno Com Recurso Do Procurador, Camara: TE.ROFIRA CAMARA 11/10/2005 - Para Exame De Admissibilidade De Re, Seção: ASSES;;;ORIA 04/11/2005 - Expedido, brgao: DRF-SÃO BERNARDO DO CAMPO?SP 15/05/2006 - Retorno Com Contra-razões, Camara: TERCEIRA CAMARA 17/05/2006 - Encaminhado À C.S.R.F., Órgão: CÂMARA SUPERIOR DE RECURSOS FISCAIS Não há, então, como proferir uma decisão ern segunda e última instância num pleito envolvendo direito creditório quando a liquidez e certeza do crédito são discutidas em outro processo, que ainda não tem decisão definitiva. ; N„r:-. ;•;2,) - 2. CC ' • • 0-* / ........ v;:3-ro Ministério da Fazendd Segundo Conselho de' .COntribuin.tes ?..== CC-NIF FL Processo n° : 13819.001547/2003-19 Recurso n° : 130.644 Tal circunstância foi reconhecida há pouco tempo através da Portaria SRF n° 6.129. de 2 de dezembro de 2005. Nesse Ato, o Secretário da Receita Federal estabelece . diversr,s situações nas quais mat( i ias relacionadas serão objetos de um único processo. Ea medida busca facilitar o vinculo entre decisões nas situações que s .).cs distintas na formalização, nvls mostram-se interdependentes no conteúdo. Dentre elas são twricionados os Pedidos de Ru.likição ou de Ressarcimento e as Declarações de Compensação que teql.Larn por base o mesmo ciWilto, ainda que apresentados em datas distintas. 1):, exposto, proponho a conversão do julgamento em diligência para que os autos sejam encamhaliados à Delegacia da Receita Federal em São Bernardo do Campos-SP a qua!, após a decisdo a-no processo - 13816.000382/00- lb; deverá promover a - anexacdo uaquviea este nos - termos da Poit;-ria SRF n° 6.129/05, com posterior re-encaminhamento à apreciação do Conselho de Contribuintes. Sala das Sessões, em 21 de junho de 2007 ANTONIO/ B EZERRA NETO
score : 1.0
Numero do processo: 10980.905628/2009-15
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Mar 17 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Fri May 08 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2004
PER/DCOMP. NÃO HOMOLOGAÇÃO. AUSÊNCIA DE IMPUGNAÇÃO. PRECLUSÃO. CANCELAMENTO. INADEQUAÇÃO DA VIA.
A ausência de impugnação ao fundamento da não homologação da compensação implica preclusão da matéria, o que limita o conhecimento do recurso à parte efetivamente devolvida. O pedido de cancelamento da PER/DCOMP não pode ser originariamente apreciado por órgão julgador, por competir à autoridade administrativa da RFB. Informação posterior quanto à inexistência do débito deve ser considerada pela Administração em procedimento próprio, sem alterar os limites do processo.
Numero da decisão: 1302-007.878
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em conhecer parcialmente do recurso e, nessa extensão, negar-lhe provimento, vencidas as Conselheiras Natália Uchôa Brandão e Miriam Costa Faccin, bem como o Conselheiro Henrique Nimer Chamas, que votaram pelo conhecimento integral do recurso para dar-lhe provimento. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 1302-007.876, de 17 de março de 2026, prolatado no julgamento do processo 10980.905627/2009-62, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
Assinado Digitalmente
Sérgio Magalhães Lima – Presidente Redator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Marcelo Izaguirre da Silva, Henrique Nimer Chamas, Ricardo Pezzuto Rufino (substituto integral), Miriam Costa Faccin, Natália Uchôa Brandão, Sérgio Magalhães Lima (Presidente).
Nome do relator: SERGIO MAGALHAES LIMA
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ementa_s : Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2004 PER/DCOMP. NÃO HOMOLOGAÇÃO. AUSÊNCIA DE IMPUGNAÇÃO. PRECLUSÃO. CANCELAMENTO. INADEQUAÇÃO DA VIA. A ausência de impugnação ao fundamento da não homologação da compensação implica preclusão da matéria, o que limita o conhecimento do recurso à parte efetivamente devolvida. O pedido de cancelamento da PER/DCOMP não pode ser originariamente apreciado por órgão julgador, por competir à autoridade administrativa da RFB. Informação posterior quanto à inexistência do débito deve ser considerada pela Administração em procedimento próprio, sem alterar os limites do processo.
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decisao_txt : Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em conhecer parcialmente do recurso e, nessa extensão, negar-lhe provimento, vencidas as Conselheiras Natália Uchôa Brandão e Miriam Costa Faccin, bem como o Conselheiro Henrique Nimer Chamas, que votaram pelo conhecimento integral do recurso para dar-lhe provimento. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 1302-007.876, de 17 de março de 2026, prolatado no julgamento do processo 10980.905627/2009-62, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Sérgio Magalhães Lima – Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Marcelo Izaguirre da Silva, Henrique Nimer Chamas, Ricardo Pezzuto Rufino (substituto integral), Miriam Costa Faccin, Natália Uchôa Brandão, Sérgio Magalhães Lima (Presidente).
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NÃO HOMOLOGAÇÃO. AUSÊNCIA DE IMPUGNAÇÃO. PRECLUSÃO. CANCELAMENTO. INADEQUAÇÃO DA VIA. A ausência de impugnação ao fundamento da não homologação da compensação implica preclusão da matéria, o que limita o conhecimento do recurso à parte efetivamente devolvida. O pedido de cancelamento da PER/DCOMP não pode ser originariamente apreciado por órgão julgador, por competir à autoridade administrativa da RFB. Informação posterior quanto à inexistência do débito deve ser considerada pela Administração em procedimento próprio, sem alterar os limites do processo. ACÓRDÃO Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em conhecer parcialmente do recurso e, nessa extensão, negar-lhe provimento, vencidas as Conselheiras Natália Uchôa Brandão e Miriam Costa Faccin, bem como o Conselheiro Henrique Nimer Chamas, que votaram pelo conhecimento integral do recurso para dar-lhe provimento. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 1302- 007.876, de 17 de março de 2026, prolatado no julgamento do processo 10980.905627/2009-62, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Sérgio Magalhães Lima – Presidente Redator Fl. 151DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1302-007.878 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.905628/2009-15 2 Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Marcelo Izaguirre da Silva, Henrique Nimer Chamas, Ricardo Pezzuto Rufino (substituto integral), Miriam Costa Faccin, Natália Uchôa Brandão, Sérgio Magalhães Lima (Presidente). RELATÓRIO O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos prevista no art. 87, §§ 1º, 2º e 3º, do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023. Dessa forma, adota-se neste relatório substancialmente o relatado no acórdão paradigma. Trata-se de recurso voluntário interposto contra decisão da Delegacia da Receita Federal de Julgamento (DRJ) que manteve despacho decisório de não homologação de compensação declarada em Declaração de Compensação (DCOMP) apresentada pelo contribuinte. Consta dos autos que o contribuinte declarou crédito decorrente de suposto pagamento a maior, o qual teria sido utilizado para compensação com débito identificado pelo código de receita de IRRF incidente sobre juros sobre capital próprio. Ao analisar a declaração de compensação, a autoridade administrativa concluiu pela inexistência do crédito informado, sob o fundamento de que o pagamento indicado pelo contribuinte (como realizado a maior) se encontrava integralmente alocado ao próprio débito declarado, de forma que não haveria saldo credor passível de restituição ou compensação. Em razão disso, foi proferido despacho decisório de não homologação da compensação. Irresignado, o contribuinte apresentou manifestação de inconformidade. Contudo, em vez de impugnar o fundamento da decisão administrativa quanto à inexistência do crédito utilizado na compensação, passou a sustentar que o débito informado na DCOMP seria inexistente (teria sido indicado sob código de receita equivocado), razão pela qual requereu o cancelamento da própria declaração de compensação. Ao apreciar a manifestação de inconformidade, a DRJ manteve o despacho decisório de não homologação e consignou que não seria possível, no âmbito daquela Delegacia de Julgamento, determinar o cancelamento da declaração de compensação pleiteado pelo contribuinte, por se tratar de providência estranha ao objeto do processo administrativo instaurado. Irresignado, o contribuinte interpôs recurso voluntário, no qual reiterou as alegações anteriormente apresentadas. Em julgamento anterior, a Turma, por maioria, deliberou pela conversão do feito em diligência, por entender necessária a verificação, pela unidade de origem, à luz dos documentos constantes dos autos e de outros que reputasse pertinentes, da existência ou não do débito indicado no pedido de compensação, inclusive diante da alegação de que não teria sido declarado em DCTF. Fl. 152DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1302-007.878 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.905628/2009-15 3 Em cumprimento à diligência a autoridade fiscal consignou que, após exame das DCTFs, dos livros fiscais apresentados pelo contribuinte e dos sistemas de controle da Receita Federal, constatou-se que “realmente é inexistente o débito informado na DCOMP (...)”. A contribuinte foi cientificada do resultado da diligência e, em petição interposta a este Conselho, requereu o retorno dos autos ao CARF para julgamento do recurso, com o acolhimento da pretensão recursal, diante da confirmação, pela própria fiscalização, da inexistência do débito informado na declaração de compensação. Após o cumprimento da diligência e devolução dos autos a este Conselho, o processo retornou para prosseguimento do julgamento, tendo sido redistribuído em razão de não mais integrarem os colegiados da Seção o relator originário e o redator designado. É o relatório. VOTO Tratando-se de julgamento submetido à sistemática de recursos repetitivos na forma do Regimento Interno deste Conselho, reproduz-se o voto condutor consignado no acórdão paradigma como razões de decidir. Deixa-se de transcrever o voto vencido, que pode ser consultado no acórdão paradigma e deverá ser considerado, para todos os fins regimentais, inclusive de pré-questionamento, como parte integrante desta decisão, transcrevendo-se o entendimento majoritário da turma, expresso no voto vencedor do redator designado. O recurso é tempestivo. Todavia, seu conhecimento deve ser parcial, em razão da delimitação da matéria efetivamente devolvida à apreciação deste Conselho. Importante destacar, preliminarmente, que não obstante a manifestação pretérita deste Colegiado, constante da resolução que converteu o julgamento em diligência para confirmação se o débito declarado em Dcomp existe ou não, tal ato não opera integral admissibilidade recursal. Conforme estabelece o art. 114, § 5º, do RICARF (Anexo da Portaria MF nº 1.634/2023), a conversão do feito em diligência prejudica a apreciação de qualquer outra matéria constante do recurso. Por força desse dispositivo, a resolução possui natureza estritamente instrutória, impondo-se ao Colegiado o dever de reapreciar todas as questões examinadas no retorno dos autos, inclusive os pressupostos de admissibilidade. Delimitação da lide e alcance do recurso O despacho decisório que originou o presente processo administrativo fundamentou a não homologação da compensação na inexistência do crédito utilizado, tendo em vista que o pagamento apontado pelo Fl. 153DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1302-007.878 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.905628/2009-15 4 contribuinte como efetuado a maior “foi integralmente utilizado para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para compensação dos débitos informados no PER/DCOMP” (relatório do acórdão da DRJ). Para que se configurasse efetiva insurgência contra tal decisão administrativa, incumbia ao contribuinte impugnar o fundamento adotado pela autoridade fiscal, demonstrando a existência do alegado pagamento indevido ou a disponibilidade de crédito passível de compensação. Entretanto, ao apresentar manifestação de inconformidade, o contribuinte não contestou o fundamento do despacho decisório, qual seja, a inexistência do crédito utilizado na compensação. Limitou-se a sustentar que o débito indicado na DCOMP seria inexistente, ou teria sido informado sob código de receita incorreto, razão pela qual requereu o cancelamento da própria declaração de compensação. Verifica-se, assim, que a conclusão administrativa quanto à inexistência do crédito utilizado na compensação não foi objeto de impugnação específica, circunstância que conduz à preclusão da matéria no âmbito do processo administrativo fiscal. Com efeito, nos termos da sistemática estabelecida pelo Decreto nº 70.235/1972, cabe ao sujeito passivo delimitar, por meio de sua manifestação de inconformidade, a extensão da controvérsia submetida ao julgamento administrativo. A ausência de impugnação ao fundamento da decisão recorrida impede a rediscussão da matéria nas instâncias subsequentes. Desse modo, a questão relativa à não homologação da compensação não foi devolvida à apreciação deste Conselho, encontrando-se estabilizada no presente processo. Todavia, verifica-se que o contribuinte se insurgiu especificamente contra trecho da decisão da DRJ que consignou não ser possível implementar, no âmbito daquela Delegacia de Julgamento, o cancelamento das declarações de compensação pleiteado pela interessada. Nesse ponto específico há efetiva insurgência recursal, razão pela qual o recurso deve ser conhecido apenas nessa parte. Do pedido de cancelamento da DCOMP No mérito da parte conhecida do recurso, não assiste razão ao recorrente. A declaração de compensação constitui ato declaratório praticado unilateralmente pelo contribuinte, mediante o qual este informa à Fl. 154DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1302-007.878 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.905628/2009-15 5 Administração Tributária a utilização de crédito próprio para fins de quitação de débitos perante a Fazenda Nacional, nos termos do art. 74 da Lei nº 9.430/1996. Recebida a declaração, compete à autoridade administrativa responsável pela análise da compensação verificar a regularidade da operação declarada, podendo homologá-la ou não a homologar, conforme constatada a existência e liquidez do crédito informado. O procedimento administrativo instaurado a partir da manifestação de inconformidade contra despacho decisório de não homologação possui, portanto, objeto delimitado, consistente na verificação da correção da decisão administrativa que apreciou a compensação declarada. No caso concreto, entretanto, o contribuinte não se limitou a impugnar o despacho decisório, tendo formulado diretamente perante a Delegacia da Receita Federal de Julgamento pedido de cancelamento da própria declaração de compensação. Tal circunstância revela inadequação processual, especialmente porque o referido pedido não foi formulado perante a autoridade administrativa com competência para sua apreciação, mas diretamente perante órgão investido de função julgadora. Com efeito, a DRJ exerce função revisora no âmbito do processo administrativo fiscal, na qual lhe cabe apreciar manifestações de inconformidade dirigidas contra atos previamente praticados pela autoridade administrativa competente. Não lhe compete atuar como instância administrativa originária para apreciação de pedidos administrativos formulados pelo contribuinte. No caso dos autos, verifica-se que o contribuinte não apresentou pedido de cancelamento da DCOMP perante a autoridade administrativa responsável pela gestão e análise das declarações de compensação, tendo dirigido tal pretensão diretamente ao órgão julgador de primeira instância. Admitir o exame de tal pretensão no âmbito do presente processo implicaria submeter pedido administrativo originário diretamente à apreciação de órgão julgador, em evidente supressão de instância administrativa, em desconformidade com a estrutura do processo administrativo fiscal estabelecida pelo Decreto nº 70.235/1972. Assim, correta a decisão da DRJ ao reconhecer que não há como implementar, no âmbito daquela Delegacia de Julgamento, o cancelamento da declaração de compensação pretendido pelo contribuinte. Fl. 155DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1302-007.878 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.905628/2009-15 6 Nesse sentido, eventuais questionamentos acerca da existência ou correção do débito indicado na declaração de compensação, em determinados casos tal como o aqui analisado, devem ser examinados no processo administrativo próprio relativo à sua cobrança, no qual a autoridade administrativa competente detém atribuição para revisar o crédito tributário eventualmente constituído, à luz dos princípios da legalidade e da autotutela administrativa. Cumpre registrar, todavia, que, em momento anterior, esta Turma deliberou pela conversão do julgamento em diligência, com a finalidade de que a Unidade de Origem se manifestasse acerca da existência do débito indicado na declaração de compensação. Em atendimento à diligência, a autoridade administrativa competente informou que o débito em questão não subsiste, reconhecendo, assim, a sua inexistência. Tal circunstância, embora não altere os limites objetivos do presente processo — que não comporta a apreciação do pedido de cancelamento da PER/DCOMP nem a revisão originária do débito declarado nas circunstâncias aqui relatadas —, constitui elemento relevante que deve ser considerado pela Administração Tributária no âmbito do procedimento próprio de cobrança. Nesse sentido, impõe-se consignar que a informação prestada pela Unidade de Origem em cumprimento à diligência deve ser observada para fins de adequação da atuação administrativa, de modo a evitar a manutenção ou o prosseguimento de cobrança de crédito tributário reconhecidamente inexistente, em observância aos princípios da legalidade, da autotutela administrativa e da eficiência. Diante do exposto, voto por conhecer em parte do recurso voluntário e, na parte conhecida, negar-lhe provimento, mantendo-se a decisão recorrida quanto à impossibilidade de cancelamento da declaração de compensação no âmbito do presente processo administrativo. Tal conclusão, contudo, não impede que a administração tributária reconheça a inexistência do débito declarado em DCOMP conforme informação prestada pela Unidade de Origem em cumprimento à diligência. Conclusão Fl. 156DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1302-007.878 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.905628/2009-15 7 Importa registrar que as situações fática e jurídica destes autos se assemelham às verificadas na decisão paradigma, de sorte que as razões de decidir nela consignadas são aqui adotadas, não obstante os dados específicos do processo paradigma eventualmente citados neste voto. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do RICARF, reproduz-se o decidido no acórdão paradigma, no sentido de conhecer parcialmente do recurso e, nessa extensão, negar-lhe provimento. Assinado Digitalmente Sérgio Magalhães Lima – Presidente Redator Fl. 157DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 19613.731743/2022-69
Turma: Segunda Turma Ordinária da Primeira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Feb 11 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Thu May 07 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Data do fato gerador: 07/05/2021
PRELIMINAR DE NULIDADE. AUTO DE INFRAÇÃO. COMPETÊNCIA DA AUTORIDADE AUTUANTE. OBSERVÂNCIA DOS REQUISITOS LEGAIS. DECRETO Nº 70.235/1972. ART. 142 DO CTN. INEXISTÊNCIA DE VÍCIO FORMAL OU ILEGALIDADE. REJEIÇÃO.
Não prospera a arguição de nulidade do lançamento quando o auto de infração é lavrado por autoridade competente e em estrita observância aos requisitos legais previstos no art. 142 do CTN e no art. 10 do Decreto nº 70.235/1972. Inexistindo demonstração de vício formal, ilegalidade ou preterição do direito de defesa, afasta-se a nulidade prevista no art. 59 do referido decreto.
Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Data do fato gerador: 07/05/2021
COMPENSAÇÃO TRIBUTÁRIA. PER/DCOMP. CRÉDITO DE TERCEIROS CONSIDERADO INEXISTENTE. COMPENSAÇÃO NÃO DECLARADA. DISCUSSÃO DO CRÉDITO EM PROCESSO PRÓPRIO. IMPOSSIBILIDADE DE REDISCUSSÃO NO PAF. FRAUDE CARACTERIZADA. LEI Nº 4.502/1964. MULTA ISOLADA QUALIFICADA DE 150%. MANUTENÇÃO. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA SOLIDÁRIA. MANDATÁRIO E ADMINISTRADORES. ART. 135, II E III, DO CTN.
Comprovada a inserção de informações falsas em PER/DCOMP, mediante indicação de indébito inexistente e tentativa reiterada de extinção de débitos próprios com créditos sabidamente indevidos, resta caracterizada fraude nos termos da Lei nº 4.502/1964, legitimando a aplicação da multa isolada qualificada, nos termos do art. 18 da Lei nº 10.833/2003, c/c art. 44, § 1º, da Lei nº 9.430/1996.
Mantém-se a imputação de responsabilidade tributária solidária ao mandatário que atuou como responsável de fato pela transmissão das declarações fraudulentas, bem como aos administradores que tinham ciência e anuíram com os procedimentos adotados, nos termos do art. 135, II e III, do CTN.
Numero da decisão: 3102-003.430
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar de nulidade e, no mérito, negar provimento aos Recursos Voluntários.
Assinado Digitalmente
Sabrina Coutinho Barbosa – Relatora
Assinado Digitalmente
Pedro Sousa Bispo – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Jorge Luís Cabral, Joana Maria de Oliveira Guimaraes, Wilson Antônio de Souza Correa, Fabio Kirzner Ejchel, Sabrina Coutinho Barbosa, Pedro Sousa Bispo (Presidente).
Nome do relator: SABRINA COUTINHO BARBOSA
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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Data do fato gerador: 07/05/2021 PRELIMINAR DE NULIDADE. AUTO DE INFRAÇÃO. COMPETÊNCIA DA AUTORIDADE AUTUANTE. OBSERVÂNCIA DOS REQUISITOS LEGAIS. DECRETO Nº 70.235/1972. ART. 142 DO CTN. INEXISTÊNCIA DE VÍCIO FORMAL OU ILEGALIDADE. REJEIÇÃO. Não prospera a arguição de nulidade do lançamento quando o auto de infração é lavrado por autoridade competente e em estrita observância aos requisitos legais previstos no art. 142 do CTN e no art. 10 do Decreto nº 70.235/1972. Inexistindo demonstração de vício formal, ilegalidade ou preterição do direito de defesa, afasta-se a nulidade prevista no art. 59 do referido decreto. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Data do fato gerador: 07/05/2021 COMPENSAÇÃO TRIBUTÁRIA. PER/DCOMP. CRÉDITO DE TERCEIROS CONSIDERADO INEXISTENTE. COMPENSAÇÃO NÃO DECLARADA. DISCUSSÃO DO CRÉDITO EM PROCESSO PRÓPRIO. IMPOSSIBILIDADE DE REDISCUSSÃO NO PAF. FRAUDE CARACTERIZADA. LEI Nº 4.502/1964. MULTA ISOLADA QUALIFICADA DE 150%. MANUTENÇÃO. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA SOLIDÁRIA. MANDATÁRIO E ADMINISTRADORES. ART. 135, II E III, DO CTN. Comprovada a inserção de informações falsas em PER/DCOMP, mediante indicação de indébito inexistente e tentativa reiterada de extinção de débitos próprios com créditos sabidamente indevidos, resta caracterizada fraude nos termos da Lei nº 4.502/1964, legitimando a aplicação da multa isolada qualificada, nos termos do art. 18 da Lei nº 10.833/2003, c/c art. 44, § 1º, da Lei nº 9.430/1996. Mantém-se a imputação de responsabilidade tributária solidária ao mandatário que atuou como responsável de fato pela transmissão das declarações fraudulentas, bem como aos administradores que tinham ciência e anuíram com os procedimentos adotados, nos termos do art. 135, II e III, do CTN.
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INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Processo Administrativo Fiscal Data do fato gerador: 07/05/2021 PRELIMINAR DE NULIDADE. AUTO DE INFRAÇÃO. COMPETÊNCIA DA AUTORIDADE AUTUANTE. OBSERVÂNCIA DOS REQUISITOS LEGAIS. DECRETO Nº 70.235/1972. ART. 142 DO CTN. INEXISTÊNCIA DE VÍCIO FORMAL OU ILEGALIDADE. REJEIÇÃO. Não prospera a arguição de nulidade do lançamento quando o auto de infração é lavrado por autoridade competente e em estrita observância aos requisitos legais previstos no art. 142 do CTN e no art. 10 do Decreto nº 70.235/1972. Inexistindo demonstração de vício formal, ilegalidade ou preterição do direito de defesa, afasta-se a nulidade prevista no art. 59 do referido decreto. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Data do fato gerador: 07/05/2021 COMPENSAÇÃO TRIBUTÁRIA. PER/DCOMP. CRÉDITO DE TERCEIROS CONSIDERADO INEXISTENTE. COMPENSAÇÃO NÃO DECLARADA. DISCUSSÃO DO CRÉDITO EM PROCESSO PRÓPRIO. IMPOSSIBILIDADE DE REDISCUSSÃO NO PAF. FRAUDE CARACTERIZADA. LEI Nº 4.502/1964. MULTA ISOLADA QUALIFICADA DE 150%. MANUTENÇÃO. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA SOLIDÁRIA. MANDATÁRIO E ADMINISTRADORES. ART. 135, II E III, DO CTN. Comprovada a inserção de informações falsas em PER/DCOMP, mediante indicação de indébito inexistente e tentativa reiterada de extinção de débitos próprios com créditos sabidamente indevidos, resta caracterizada fraude nos termos da Lei nº 4.502/1964, legitimando a aplicação da multa isolada qualificada, nos termos do art. 18 da Lei nº 10.833/2003, c/c art. 44, § 1º, da Lei nº 9.430/1996. Fl. 631DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.430 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19613.731743/2022-69 2 Mantém-se a imputação de responsabilidade tributária solidária ao mandatário que atuou como responsável de fato pela transmissão das declarações fraudulentas, bem como aos administradores que tinham ciência e anuíram com os procedimentos adotados, nos termos do art. 135, II e III, do CTN. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar de nulidade e, no mérito, negar provimento aos Recursos Voluntários. Assinado Digitalmente Sabrina Coutinho Barbosa – Relatora Assinado Digitalmente Pedro Sousa Bispo – Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Jorge Luís Cabral, Joana Maria de Oliveira Guimaraes, Wilson Antônio de Souza Correa, Fabio Kirzner Ejchel, Sabrina Coutinho Barbosa, Pedro Sousa Bispo (Presidente). RELATÓRIO Tomo por bem reproduzido o relatório do acórdão recorrido, por retratar adequadamente os fatos: 1. Trata-se de auto de infração lavrado contra a DISTILLERIE STOCK DO BRASIL LTDA, no valor de R$ 3.796.978,68, relativo à multa isolada no percentual de 150% sobre o valor total de débito indevidamente compensado, nos termos do inciso II do § 12 do art. 74 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, c/c inciso I do caput do art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996. 2. Fl. 632DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.430 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19613.731743/2022-69 3 Conforme demonstrativo de responsáveis tributários do auto de infração, foram também arrolados como sujeitos passivos as pessoas físicas JOÃO RODRIGUES RIBEIRO FILHO, CPF 145.005.548-66, JEAN PIERRE EUGENE VINSON, CPF 091.199.698-21 e VALERIA CRISTINA NATAL, CPF 130.296.118-76, incluídos como responsáveis solidários por ação com excesso de poderes, infração à lei, contrato social ou estatuto. 3. O despacho decisório de fls. 24/52 tratou, dentre outras matérias, de análise do pedido de ressarcimento e das compensações consideradas como não declaradas (formalizado no Processo nº 10880-904.163/2022-72), da revisão de ofício, da multa isolada objeto do presente auto de infração e da inclusão, como responsáveis tributários do crédito, das pessoas físicas acima citadas. Do início do despacho decisório consta o seguinte: Processos: 10880.904163/2022-72 (Análise PER 31923.63348.070521.1.1.19-4641) 10880-907309/2022-94 e 10880-907.510/2022-19 (Revisão de Ofício dos Créditos Tributários Indevidamente Extintos por Compensação considerada como Não Homologada) 10880-732.342/2022-00 (Cobrança dos Créditos Tributários Confessados em DCTF) 19613-731.743/2022-69 (Auto de Infração de Multa por Fraude em Compensação) 10880-732.046/2022-09 (Representação Fiscal para Fins Penais por Crime Contra a Ordem Tributária) (...) DESPACHO DECISÓRIO MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. IMPOSSIBILIDADE DE SEGUIMENTO DA MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE. ENVIADO PEDIDO DE RESSARCIMENTO DE COFINS, MAS APÓS A PROLAÇÃO DO DESPACHO DECISÓRIO, EM SEDE DE PRETENSA MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE, FOI SUSCITADO MATÉRIA DIVERSA. ASSUNTO NÃO DEBATIDO NOS AUTOS. A pretensão compensatória do contribuinte não foi rejeitada pelo não reconhecimento de pretensos créditos oriundos de terceiros, mas pela inexistência de indébito de Ressarcimento de COFINS no período informado no PER/DCOMP. Forçoso reconhecer que a matéria dos autos não foi impugnada, pois o recurso do contribuinte versa sobre assunto completamente estranho aos autos. No ponto, deve se fazer incidir o art. 17 do Decreto n° 70.235/72 (Considerar-se-á não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo impugnante). Fl. 633DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.430 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19613.731743/2022-69 4 INCISO VIII DO "CAPUT" DO ART. 149 DO CÓDIGO TRIBUTÁRIO NACIONAL O LANÇAMENTO É REVISTO DE OFÍCIO PELA AUTORIDADE ADMINISTRATIVA QUANDO DEVA SER APRECIADO FATO NÃO CONHECIDO POR OCASIÃO DO LANÇAMENTO ANTERIOR. O contribuinte e o mandatário vêm reiteradamente abusando do instituto da compensação tributária e do contencioso tributário. A utilização de créditos de terceiros (ainda mais inexistentes!) é o ilícito mais grave no tema das compensações tributárias, de modo que o ordenamento sequer considera que a extinção do tributo ocorreu pela compensação. Ao tomar conhecimento de possível enquadramento ainda mais gravoso, deve a administração tributária exercer seu poder de Autotutela e emitir novo ato com o devido enquadramento. CRÉDITO DE TERCEIROS. COMPENSAÇÃO CONSIDERADA COMO NÃO DECLARADA. FRAUDE GROSSEIRA. O caso ganha contornos ainda mais contundentes, pois os pretensos créditos do Processo 94.0049369-0 foram sentenciados por duas vezes improcedentes no Processo de liquidação de sentença n° 0008740- 65.2006.4.02.5101, em trâmite na 24° Vara Federal do Rio de Janeiro, da SERVPORT SERVIÇOS PORTUÁRIOS E MARÍTIMO, CNPJ 42.361.972/0001-51, e já foram objeto de outros indeferimentos por parte da administração tributária e até mesmo de Representação Fiscal para Fins Penais e Representação para Fins Penais, dada a sua completa ilicitude. Em remate, frise-se que o juízo indeferiu o todos os autodenominados requerimentos de "Cessão-Habilitação" em 10/11/2021, aí incluído o requerimento protocolado pela STOCK em 15/10/2021. MULTA ISOLADA EM DOBRO. COMPENSAÇÃO NÃO DECLARADA. CABIMENTO. Será exigida multa isolada no percentual de 150% sobre o valor total do débito indevidamente compensado quando a compensação for considerada não declarada nas hipóteses do inciso II do § 12 do art. 74 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996, aplicando-se o percentual previsto no inciso I do caput do art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996, duplicado tendo em vista a comprovação de falsidade da declaração apresentada pelo sujeito passivo. SUJEICÃO PASSIVA. CONDUTA COM INFRAÇÃO A LEI. ADMINISTRADORES E MANDATÁRIO. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. SOLIDARIEDADE. É correta a inclusão como responsável tributário a pessoa física que, agindo na condição de mandatário ou administrador de pessoa jurídica, pratique Fl. 634DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.430 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19613.731743/2022-69 5 condutas que caracterizem infração à lei ou excesso de poderes, como sonegação fiscal e fraude. A existência da responsabilidade pessoal das pessoas referidas no art. 135 do CTN, resultante de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatuto, não afasta a sujeição passiva da pessoa jurídica na condição de contribuinte, permanecendo todos igualmente responsáveis pelo crédito tributário. 3.1. A autoridade fiscal então passa a detalhar o caso e os fundamentos da decisão exarada, da qual se extraem os seguintes trechos: MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. IMPOSSIBILIDADE DE SEGUIMENTO DA MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE. 1. Ao transmitir o PER/DCOMP n° 31923.63348.070521.1.1.19-4641, o contribuinte pugnou pelo reconhecimento de um indébito de RESSARCIMENTO DE COFINS, pretensamente existente no período de apuração do 2º trimestre de 2017. 2. O direito creditório suscitado foi integralmente denegado, com as compensações vinculadas não homologadas em decorrência da inexistência de indébito já que informações das próprias Escriturações Fiscais Digitais do PIS/Pasep, da Cofins e da Contribuição Previdenciária sobre a Receita - EFD- Contribuições em seu campo "TIPO DE CRÉDITO: 199 - Crédito vinculado à receita tributada no mercado interno - Outros" estava zerado. 3. Não obstante, ainda havia PIS/COFINS a pagar no período. 4. Na oportunidade da interposição do que seria a manifestação de inconformidade, o mandatário do contribuinte suscitou que (recortes abaixo): (...) 8. Nesta senda, cabe à autoridade não encaminhar à respectiva Delegacia da Receita Federal de Julgamento o presente processo. INCISO VIII DO "CAPUT" DO ART. 149 DO CÓDIGO TRIBUTÁRIO NACIONAL: O LANÇAMENTO É REVISTO DE OFÍCIO PELA AUTORIDADE ADMINISTRATIVA QUANDO DEVA SER APRECIADO FATO NÃO CONHECIDO POR OCASIÃO DO LANÇAMENTO ANTERIOR. 9. O presente não se trata de caso isolado. 10. O contribuinte e o mandatário vêm reiteradamente abusando do instituto da compensação tributária e do contencioso tributário. 11. A utilização de créditos de terceiros (e ainda inexistentes!) é o ilícito mais grave no tema das compensações tributárias, de modo que o ordenamento sequer considera que a extinção do tributo ocorreu pela compensação. Fl. 635DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.430 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19613.731743/2022-69 6 12. Ao tomar conhecimento de que a operação se deu de forma ainda mais grave do que a anteriormente enquadrada, deve a administração tributária exercer seu poder de Autotutela e emitir novo ato com o devido enquadramento. 13. Há dispositivo do Código Tributário Nacional plenamente enquadrável para o caso, conforme se verifica abaixo: (...) CRÉDITO DE TERCEIROS. COMPENSAÇÃO CONSIDERADA COMO NÃO DECLARADA. FRAUDE GROSSEIRA. 14. Os pretensos créditos da ação de repetição de indébito n.° 94.0049369- 0, da SERVPORT SERVIÇOS PORTUÁRIOS LTDA, ainda que legítimos fossem, não poderiam servir de lastro para declarações de compensação por expressa determinação legal: alínea "a", inciso II, do § 12 do art. 74 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996. 15. A legislação impõe à Autoridade Tributária o dever de reputar a compensação como NÃO DECLARADA. 16. Outrossim, conforme sentenciado DUAS VEZES em 29/05/2014 e 30/04/2021 no Processo de Execução n° 0008740-65.2006.4.025101/RJ, foi julgada IMPROCEDENTE a liquidação em face da ausência de prova quanto à existência de valores a serem executados. 17. Na sentença lavrada em 30/04/2021, a magistrada consignou a deslealdade processual da SERVPORT, conforme se verifica no trecho abaixo: "Por fim, insta mencionar que a parte Autora, ora liquidante, em verdade, busca obstaculizar a ultimação do processo, haja vista que, ainda hoje, vale- se de um crédito ilíquido e conforme comprovado nesta seara, inexistente para, continuamente, cedê-lo a outras empresas, valendo-se desta indefinição, o que, em tese, poderia implicar em ilícitos civis e penais." 18. Conforme suspeitado pela magistrada, esses pretensos créditos da SERVPORT fazem, sim, parte de um esquema de fraudes tributarias grosseiras e foi objeto até mesmo da Representação para Fins Penais n° 10880.748582/2020-56. 19. Em pesquisas sumárias na internet foi encontrado uma série de problemas legais envolvendo esses créditos, conforme se verifica em notícias, já antigas: (...) 20. Também é importante consignar que sobre a "Servport Serviços Portuários e Marítimos Ltda" pesam ainda outras celeumas tal como a existência de pedidos de falência, com a existência da reversão de um deles por falsidade comprovada no ato alteração contratual: (...) Fl. 636DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.430 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19613.731743/2022-69 7 21. Quando dos trabalhos de auditoria de Ressarcimento de PIS/COFINS e Declarações de Compensações nos autos do processo administrativo n° 10880.980099/2019-21, em face da mesma DISTILLERIE STOCK DO BRASIL, o mandatário da empresa, JOÃO RODRIGUES RIBEIRO FILHO, CPF n° 145.005.548-66, chegou ao absurdo de apresentar uma escritura pública falsa de Cessão de Crédito de Terceiros. Tal fato foi relatado (em sede de Representação para Fins Penais) ao parquet federal (protocolo PRM-UDI- MG-00002771/2020). 22. Assim sendo, é de pleno conhecimento tanto da SERVPORT quanto da STOCK e representantes de que esse crédito é inexistente tendo, inclusive, a Secretaria Especial da Receita Federal agido de forma contundente em fiscalização anterior. 23. O mandatário ainda juntou cópia de uma escritura pública (fls. ...), o qual houve pretensamente uma cessão de crédito da FL GESTORA DE RECURSO LTDA para a STOCK, a qual será tratada a posteriori, em uma Representação Para Fins Penais tendo em vista os indícios de inserção de informações falsas neste documento. 24. Em remate, também há um peticionamento efetuado no processo 0049369 041994.4.02.5101/RJ (fls. ...), onde a STOCK, em 15/10/2021, ainda insiste em pleitear crédito já sentenciado como inexistente em 30/04/2021, em claro descumprimento à decisão judicial. Evidentemente, tal pleito foi indeferido pelo juízo em 10/11/2021, que é antes da pretensa manifestação de inconformidade que se deu em 12/02/2022: (...) 25. Nesta petição também foi juntada novamente cópia da escritura mencionada na Representação para Fins Penais n° 10880.748582/2020-56, a qual também possui indícios de nela ter sido inseridas informações falsas. 26. Face ao exposto, INDEFIRO o direito creditório pretendido e considero como NÃO DECLARADAS as compensações que utilizaram como lastro esse inexistente direito creditório de terceiros. MULTA ISOLADA EM DOBRO. COMPENSAÇÃO NÃO DECLARADA. FRAUDE. CABIMENTO. 27. Será exigida multa isolada no percentual de 150% sobre o valor total do débito indevidamente compensado quando a compensação for considerada não declarada nas hipóteses do inciso II do § 12 do art. 74 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996, aplicando-se o percentual previsto no inciso I do caput do art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996, duplicado, tendo em vista a comprovação de falsidade da declaração apresentada pelo sujeito passivo. 28. Houve claro abuso do instituto da Declaração de Compensação, visto que o contribuinte se aproveitou da extinção do CT, próprio do instituto, e Fl. 637DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.430 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19613.731743/2022-69 8 quis forçar a existência de um indevido contencioso administrativo de modo a atrasar a cobrança desse haver pela fazenda pública. (...) SUJEIÇÃO PASSIVA. CONDUTA COM INFRAÇÃO À LEI. ADMINISTRADORES E MANDATÁRIO. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. SOLIDARIEDADE 32. É necessária a inclusão como responsável tributário a pessoa física que, agindo na condição de mandatário ou administrador de pessoa jurídica de direito privado, pratique condutas que caracterizem infração à lei ou excesso de poderes, como sonegação fiscal e fraude. 33. A existência da responsabilidade pessoal das pessoas referidas no art. 135 do CTN, resultante de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatuto, não afasta a sujeição passiva da pessoa jurídica na condição de contribuinte, permanecendo todos igualmente responsáveis pelo crédito tributário. Do Mandatário de Fato 34. Repetindo a tônica de fraudes perpetradas pelo contribuinte e pelo mandatário de fato, verifiquei que o assinante formal da família de PER/DCOMP abaixo é uma interposta pessoa, como ficará evidente a seguir. 35. O assinante CH CONSULTORIA EMPRESARIAL LTDA, CNPJ 45.636.826/0001-80, anteriormente denominado LANCHONETE E ROTISERIE BOM SABOR LTDA e DISTRIBUIDORA DE PRODUTOS COSMOCEUTICOS LTDA foi criado em 24/03/1981 e recentemente teve alterações contratuais atípicas a fim de fazer parecer que se trata de uma consultoria tributária legítima, conforme verificamos a seguir: (...) 47. Desta forma, entendo que as abruptas mudanças ocorridas nas últimas três alterações contratuais não possuem substância patrimonial nem mesmo propósito negocial. 48. Trata-se, como se verifica abaixo, de outra origem de declarações de compensação fraudulentas, que são efetuadas desde junho de 2013: Fl. 638DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.430 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19613.731743/2022-69 9 49. Dos pretensos sócios, Carlos Alberto de Camargo, CPF 006.327.998-38 recebeu auxílio emergencial da COVID-19 e está com o CPF suspenso e Maurício Goncalves de Oliveira, CPF 065.127.938-03, faleceu em 26/04/2021. 50. De todos os assinantes de PER/DCOMP da STOCK, o único com qualificação profissional é JOÃO RODRIGUES RIBEIRO FILHO, que é CONTADOR registrado. 51. Antes da CH CONSULTORIA EMPRESARIAL LTDA, o certificado digital utilizado foi o de LUCAS SILVA SOUSA, o qual já diligenciamos e certificamos que era interposta pessoa em outras fiscalizações, como, por exemplo o que consta no processo n° 19613.721364/2020-07. 52. Os vínculos entre CH CONSULTORIA EMPRESARIAL LTDA e JOÃO RODRIGUES RIBEIRO FILHO não param por aí, conforme veremos adiante. 53. Os gráficos abaixo demonstram que a CH é utilizada pelo entorno de JOÃO RODRIGUES RIBEIRO FILHO e que se usa os mesmos computadores para o envio de Declarações de Compensações fraudulentas e com identidade de contribuintes que fraudam compensações. (...) 54. Nesse processo, JOÃO RODRIGUES RIBEIRO FILHO apenas se revela na documentação da pretensa Manifestação de Inconformidade, por ele assinada digitalmente, a qual foi juntada ao processo mediante solicitação de juntada efetuada pelo pretenso sócio da CH CONSULTORIA: CARLOS ALBERTO DE CAMARGO, CPF 006.327.998-38. 55. Ora, além das provas já mencionadas anteriormente, a documentação da pretensa manifestação de conformidade por si só já determina quem de fato é o mandatário da STOCK e quem está empreendendo a fraude tributária com o fim de enganar a administração tributária, evadindo-se da obrigação de pagar o tributo: Temos a procuração: (...) Fl. 639DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.430 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19613.731743/2022-69 10 Documento de identidade (...) Assinatura digital da Pretensa Manifestação de Inconformidade: (...) 56. Por último, reitere-se que a natureza fraudulenta desses pretensos direitos creditórios da SERVPORT é de conhecimento do mandatário, o qual, por exemplo foi autuado em 10/03/2020 no bojo do processo 10880.980099/2019-21, já definitivamente constituído. 57. Assim sendo, por estar empreendendo fraude nos termos do art. 72 da Lei n° 4.502/1964, JOÃO RODRIGUES RIBEIRO FILHO, CPF 145.005.548-66 está incurso nas disposições do Inciso II do "caput" do art. 135 do Código Tributário Nacional e fica solidariamente responsável tanto pelo crédito tributário indevidamente extinto por abuso do instituto da declaração de compensação e tanto pela multa regulamentar, em conformidade com o inciso II do art. 135 do CTN. Responsabilidades dos Administradores da Pessoa Jurídica 58. Desde 2004 a administração da STOCK decidiu não mais cumprir com suas obrigações tributárias e utiliza como método o abuso do Instituto da Declaração de Compensação. 59. É importante consignar que a Secretaria Especial da Receita Federal do Brasil de forma nenhuma ficou inerte nesse período, ao contrário, promoveu a glosa de quase R$ 173 milhões das declarações de compensações com autuações contundentes. 60. Já foram lavrados 3 Autos de Infração e 4 Representações Fiscais Para Fins Penais e 1 Representação para Fins Penais (Organização Criminosa e Lavagem de Dinheiro). 61. Em relação a este caso, se nota a ação direta dos administradores JEAN PIERRE EUGENE VINSON, CPF 091.199.698-21 e VALERIA CRISTINA NATAL, CPF 130.296.118 76; que constituíram JOÃO RODRIGUES RIBEIRO FILHO como procurador, e assim deram poder para que este continuasse tentando induzir a Secretaria Especial da Receita Federal do Brasil em erro ao apresentar Direito Creditório fraudulento para a extinção de tributos. 62. Adiante, constam a procuração e os documentos de identificação dos administradores, o que demonstram o ato consciente de empoderar JOÃO RODRIGUES RIBEIRO FILHO como procurador e fazer com que ele, também através de certificado de interpostas pessoas, inclusive, continue a perpetrar fraudes. (...) 63. Assim sendo, por serem mandantes da fraude nos termos do art. 72 da Lei n° 4.502/1964, JEAN PIERRE EUGENE VINSON, CPF 091.199.698-21 e VALERIA CRISTINA NATAL, CPF 130.296.118-76 estão incursos nas disposições do Inciso III do art. 135 do Código Tributário Nacional e ficam solidariamente responsáveis tanto pelo crédito tributário indevidamente Fl. 640DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.430 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19613.731743/2022-69 11 extinto por abuso do instituto da declaração de compensação e tanto pela multa regulamentar. 4. A pessoa jurídica tomou ciência do lançamento em 26/05/2022 (fl. 363) e interpôs a impugnação de fls. 371/381 em 14/06/2022 (fl. 368), na qual alega, em síntese, que: caracterizada como não declarada por suposta fraude, decorrente dos Processos Administrativos de nº 10880.907509/2022-94 e nº 10880.907510/2022-19, cujos pedidos de compensações foram formalizados pelas PER/DCOMP de n° 12295.43795.070521.1.3.19-0379 e n° 19611.33356.1.13.19 7530, respectivamente, sob a justificativa de não ter sido possível aferir a existência de indébito em favor da pessoa jurídica; 10880.732342/2022-00, aberto em substituição aos processos nº 10880.907.509/2022-94 e nº 10880.907510/2022-19, sendo também por este motivo indevida a aplicação da multa; -se pela observância ao cumprimento de suas obrigações fiscais, seja de natureza principal ou acessória, e utiliza-se do direito de quitar obrigações tributárias por meio do instituto da compensação; tar débitos próprios com a utilização de créditos de indébito de COFINS para o período de apuração do 2º trimestre de 2017; 9430/1996 e os art. 71, 72 e 73 da Lei n º 4502/1964. Ocorre que estão pendentes de apreciação as compensações, do citado processo nº 10880.732342/2022-00, e o recurso hierárquico apresentado no processo administrativo nº 10880.904163/2022-72, no qual se discute a não homologação de pedido de restituição/ressarcimento; seja, a realização de compensação com indícios de fraude por decorrência da inexistência de indébito em favor da empresa, ainda segue pendente de utilizou-se de créditos existentes e próprios. Não há motivos para não reconhecer o direito de crédito indicado em pedidos de compensações, não havendo a possibilidade de aplicação de multa isolada, que só poderia ser aplicada no caso em que houvesse patente existência de objetivo de fraude nos referidos pedidos; manifestação de inconformidade apresentada anteriormente, teria se apresentado matéria totalmente diversa do que seria o objeto de discussão, Fl. 641DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.430 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19613.731743/2022-69 12 o que não justifica a citada revisão e tampouco a cobrança de multa isolada em dobro; argumentos no sentido de que, referido direito de crédito decorria de créditos tributários adquiridos da Empresa Servport Serviços Marítimos e Portuários LTDA, com expressa autorização judicial para tanto, nos autos do processo judicial de nº 0049369-04.1994.4.02.5101 (antigo nº 94.0049369- 0), que tramitou na 24ª Vara Federal da Subseção Judiciária do Rio de Janeiro – RJ. Ademais, informou também expressamente que, como não existia campo específico na PER/DCOMP para informação de crédito judicial adquiro de terceiros, foi obrigada a informar a origem e existência do crédito da forma que foi apresentada; válidos para utilização em procedimentos de compensações. O fato de não haver no sistema da PER/DCOMP campo específico para inserir crédito judicial de terceiro transferido com expressa autorização judicial jamais poderia servir de argumento para invalidar a sua existência, muito menos para fundamentar autuação por indicar que supostamente teria agido de forma dolosa visando fraudar o sistema tributário; argumentos da pessoa jurídica não são efetivamente analisados, e a conduta desproporcional adotada pela fiscalização fica evidente ao se verificar que realiza verdadeiro "copia e cola" em todos os procedimentos administrativos vinculados aos pedidos de restituição/ressarcimentos e compensações formalizados pela interessada; 04.1994.4.02.5101 (antigo n° 94.0049369-0), que tramitou na 24ª Vara Federal da Subseção Judiciária do Rio de Janeiro - RJ, tendo como Autora, naquela ação, a empresa Servport Serviços Marítimos e Portuários LTDA e como réu o Instituto Nacional do Seguro Social - INSS, cujo objeto foi sobre a não incidência de contribuições previdenciárias na remuneração de trabalhado crédito já foi objeto de análise em processo judicial, com decisão favorável à Servport transitada em julgado, autorizando-se a negociação livre dos toridade administrativa deve limitar-se a analisar a suficiência dos créditos utilizados nos procedimentos de compensações, ao passo que a sua origem já se encontra devidamente chancelada pelo Poder Judiciário, não havendo que se falar na aplicação da rest conforme se depreende da análise da Escritura Pública lavrada pelo 15º Cartório de Notas de São Paulo, resta de fácil verificação a lisura na conduta adotada pelas partes na aquisição dos créditos fiscais. O documento é original, válido para tal finalidade, não havendo espaço para se cogitar Fl. 642DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.430 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19613.731743/2022-69 13 análise dos documentos correlatos ao assunto é suficiente para chegar à conclusão no sentido de que a transferência dos créditos fiscais da Empresa Servport Serviços Marítimos e Portuários LTDA à pessoa jurídica é regular e de vantagens, não sendo possível enquadrar os eventos narrados ao que indica expressamente o art. 72, da Lei Ordinária Federal nº 4.502/1964. 4.1. A impugnante então requer: cancelamento da cobrança por meio de auto de infração, em razão da inexistência de demonstração de realização de pedidos de restituição/ressarcimento e compensações, com características de fraude, por não ter ocorrido a demonstração dos eventos narrados pela norma legal utilizada para justificar a aplicação da multa isolada em dobro. 5. Os sujeitos passivos por responsabilidade tributária, JEAN PIERRE EUGENE VINSON e VALÉRIA CRISTINA NATAL tomaram ciência do lançamento em 02/06/2022 (fl. 365) e 11/06/2022 (fl. 367), respectivamente, e em 28/06/2022 (fls. 451 e 435) interpuseram impugnações (fls. 453/465 e 437/449) na qual alegam, em síntese, o seguinte: caracterizada como não declarada por suposta fraude, decorrente dos Processos Administrativos de nº 10880.907509/2022-94 e nº 10880.907510/2022-19, cujos pedidos de compensações foram formalizados pelas PER/DCOMP de nº 12295.43795.070521.1.3.19-0379 e nº 19611.33356.1.13.19 7530, respectivamente, sob a justificativa de não ter sido possível aferir a existência de indébito em favor da pessoa jurídica; 10880.732342/2022-00, aberto em substituição aos processos nº 10880.907.509/2022-94 e nº 10880.907510/2022-19, sendo também por polo passivo é indevida, pois não houve demonstração irrefutável de administrador(a) de empresas, que exerce como atividade profissional o cargo de diretor(a) da Empresa Distillerie Stock do Brasil Ltda e pauta se pela observância da legislação vigente aplicável, em especial para o indevidamente efeitos de responsabilidade tributária à impugnante tão somente pelo fato de ser diretor da pessoa jurídica que supostamente é a devedora principal das obrigações tributárias listadas. Tenta-se construir Fl. 643DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.430 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19613.731743/2022-69 14 narrativa totalmente forçada e fantasiosa, simplesmente pelo fato da Empresa Distillerie Stock do Brasil LTDA., ter realizado procedimentos de compensações para o pagamento de débitos tributários próprios, deixando de apresentar argumentos robustos, que estejam devidamente comprovados, sobre a possibilidade de indicação da Impugnante como regras previstas no Código Tributário Nacional e sua aplicação pela fiscalização não pode ocorrer de forma discricionária, mas de maneira amplamente fundamentada, lastreada em fatos e argumentos cabalmente daquela pessoa indicada, com os supostos débitos que justificariam o procedimento, em estrita observância ao que está previsto na norma de a possibilidade é aceita desde que devidamente fundamentada, comprovada e demonstrada. Contudo, no presente caso, não ocorreu a apresentação de nenhuma informação neste sentido, que justifique a fiscalização apenas indica a outorga de procurações para prestador de serviços poder apresentar pedidos administrativos junto à Receita Federal do Brasil. A outorga de procurações por si só para prestadores de serviços jamais poderá ser considerada como ato praticado com excesso de poderes, infração à lei, contrato social ou estatutos. Aceitar referida premissa totalmente equivocada seria o mesmo que admitir a atribuição de responsabilidade pessoal ao administrador tão somente pelo fato de exercer a sua função de administrador. Cita jurisprudência; próprios com a utilização de créditos de indébito de COFINS para o período fundamento legal da multa aplicada é o art. 44, I, §1º da Lei nº 9430/1996 e os art. 71, 72 e 73 da Lei n º 4502/1964. Ocorre que estão pendentes de apreciação as compensações do processo nº 10880.732342/2022-00 e o recurso hierárquico apresentado no processo administrativo nº 10880.904163/2022-72, no qual se discute a não homologação de pedido de restituição/ressarcimento do PER/DCOMP de nº 31923.63348.07521.1.1.19- -se de créditos existentes e próprios, não havendo a possibilidade de aplicação de multa isolada, que só poderia ser aplicada no caso em que houvesse patente existência de objetivo de fraude nos referidos pedidos d Receita Federal justifica a revisão do lançamento pelo fato de que, em manifestação de inconformidade apresentada anteriormente, teria se apresentado matéria totalmente diversa do que seria o objeto de discussão, o que não justifica a citada revisão e tampouco a cobrança de multa isolada (...) Fl. 644DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.430 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19613.731743/2022-69 15 apresentou argumentos no sentido de que, referido direito de crédito decorria de créditos tributários adquiridos da Empresa Servport Serviços Marítimos e Portuários LTDA, com expressa autorização judicial para tanto, nos autos do processo judicial de nº 0049369-04.1994.4.02.5101 (antigo nº 94.0049369-0), que tramitou na 24ª Vara Federal da Subseção Judiciária do Rio de Janeiro – RJ. Ademais, informou também expressamente que, como não existia campo específico na PER/DCOMP para informação de crédito judicial adquiro de terceiros, foi obrigada a informar a origem e existência do crédito da forma créditos indicados pela pessoa jurídica são verdadeiros e válidos para utilização em procedimentos de compensações. O fato de não haver no sistema da PER/DCOMP campo específico para inserir crédito judicial de terceiro transferido com expressa autorização judicial jamais poderia servir de argumento para invalidar a sua existência, muito menos para fundamentar autuação por indicar que a pessoa jurídica supostamente teria agido de forma dolosa visando fraudar o rídica não são efetivamente analisados, e a conduta desproporcional adotada pela fiscalização fica evidente ao se verificar que realiza verdadeiro "copia e cola" em todos os procedimentos administrativos vinculados aos pedidos de restituição/ressarcimentos e compensações formalizados pela lavrada pelo 15º Cartório de Notas de São Paulo, resta de fácil verificação a lisura na conduta adotada pelas partes na aquisição dos créditos fiscais. O documento é original, válido para tal finalidade, não havendo espaço para se cogitar sobre documento com característica de fraude ou falsidade; chegar à conclusão no sentido de que a transferência dos créditos fiscais da Empresa Servport Serviços Marítimos e Portuários LTDA à pessoa jurídica é obtenção de vantagens, não sendo possível enquadrar os eventos narrados ao que indica expressamente o art. 72, da Lei Ordinária Federal nº 4.502/1964. 5.1. A impugnante então requer: imediata exclusão da impugnante do polo passivo, tendo em vista que não foi demonstrada a responsabilidade tributária pessoal nos termos do art. auto de infração, em razão da inexistência de demonstração de realização de pedidos de restituição/ressarcimento e compensações, com características de fraude, por não ter ocorrido a demonstração dos eventos Fl. 645DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.430 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19613.731743/2022-69 16 narrados pela norma legal utilizada para justificar a aplicação da multa isolada em dobro. 6. O sujeito passivo por responsabilidade tributária JOÃO RODRIGUES RIBEIRO FILHO tomou ciência do lançamento em 02/06/2022 (fl. 366) e interpôs impugnação em 01/07/2022 (fl. 467) na qual alega, em síntese, que: caracterizada como não declarada por suposta fraude, decorrente dos Processos Administrativos de nº 10880.907509/2022-94 e nº 10880.907510/2022-19, cujos pedidos de compensações foram formalizados pelas PER/DCOMP de nº 12295.43795.070521.1.3.19-0379 e nº 19611.33356.1.13.19 7530, respectivamente, sob a justificativa de não ter sido possível aferir a existência de indébito em favor da pessoa jurídica; 10880.732342/2022-00, aberto em substituição aos processos nº 10880.907.509/2022-94 e nº 10880.907510/2022-19, sendo também por polo passivo é indevida, pois não houve demonstração irrefutável de física, contador que presta serviços contábeis e fiscais para a empresa Distillerie Stock do Brasil Ltda e pauta-se pela observância da legislação vigente fiscalização tenta estender indevidamente efeitos de responsabilidade tributária à impugnante com fundamento no art. 135, II, do CTN, que exige a comprovação do dolo e de que o ato tenha sido praticado com excesso enquadra em nenhuma dessas hipóteses, pois recebeu instrumento de mandato da pessoa jurídica com poderes limitados para representá-la junto à RFB e à PGFN e “jamais para tomar decisões respectiva a tomada de créditos e de pagamentos dos impostos da mesma, bem como jamais foi contratual entre a empresa STOCK, como contratante, e a impugnante, subcontratada no sentido de executar os procedimentos dos créditos tributários de origem judicial da empresa SERVPORT adquiridos pela tratada nas compensações em questão, sempre houve interação entre os prestadores de serviços e o próprio cliente final, que sempre esteve ciente de todos estratégia fraudulenta alguma, o Impugnante é consultor e sempre prestou seus serviços de maneira transparente e com interação técnica para explicação legal sobre os procedimentos que a empresa STOCK poderia controle e coordenação sobre antecedentes de funcionários de terceiros Fl. 646DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.430 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19613.731743/2022-69 17 que fizeram parte da prestação de serviços contábeis e que isso não macula em nada os serviços que foram prestados. 6.1. A impugnante então reproduz doutrina e jurisprudência relativa à responsabilidade tributária de terceiros e, ao final, requer: para excluir qualquer tipo de responsabilidade pessoal da impugnante em auto de infração, tendo em vista a inobservância de forma e a ilegalidade da autuação. 7. É o relatório. Ato contínuo, entendeu o juízo a quo que o auto foi lavrado por agente competente e que atende aos requisitos legais do CTN e do Decreto nº 70.235/1972, inexistindo vício formal ou ilegalidade, razão pela qual rejeitou as preliminares de nulidade suscitadas. No mérito, manteve o lançamento, porquanto foram inseridas informações falsas em PER/DCOMP, com indicação de indébito inexistente e tentativa reiterada de extinção de débitos próprios mediante a utilização de créditos que sabia não possuir. Restou caracterizada a fraude, nos termos da Lei nº 4.502/1964, o que justificou a aplicação da multa agravada de 150%, mantida integralmente. Quanto à responsabilidade solidária, esta foi atribuída a João Rodrigues Ribeiro Filho e aos administradores Jean Pierre Eugene Vinson e Valeria Cristina Natal, com fundamento no art. 135 do CTN, diante da prática de atos com infração à lei e excesso de poderes. No caso de João Rodrigues Ribeiro Filho, restou comprovado que foi o responsável de fato pela transmissão dos PER/DCOMP fraudulentos, valendo-se de empresa interposta (CH Consultoria Empresarial Ltda.) para dissimular sua atuação. Em relação aos administradores, concluiu-se que tinham ciência e participaram das condutas reiteradas de inserção de informações falsas, não se tratando de mera outorga de procuração, mas de atuação dolosa ou culposa na infração à lei tributária. A decisão restou assim ementada: Assunto: Normas de Administração Tributária Data do fato gerador: 07/05/2021 COMPENSAÇÃO NÃO DECLARADA. MULTA. QUALIFICAÇÃO. FRAUDE. Comprovado que as compensações classificadas como não declaradas tiveram por base procedimento da contribuinte com objetivo de fraudar a Administração Tributária, correta a qualificação da multa. Fl. 647DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.430 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19613.731743/2022-69 18 SOLIDARIEDADE PASSIVA. MANDATÁRIO. ADMINISTRADORES DA PESSOA JURÍDICA. ART. 135, II E III, DO CTN. Atribui-se a responsabilidade tributária, nos termos do art. 135, incisos II e III do CTN, ao mandatário e aos administradores da pessoa jurídica, uma vez comprovada a prática de atos com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Todos os interessados foram devidamente intimados, tendo sido interposto recurso voluntário pelo responsável principal e pelos responsáveis solidários Jean Pierre Eugene Vinson, Valéria Cristina Natal e João Rodrigues Ribeiro Filho. É o relatório. VOTO Conselheira Sabrina Coutinho Barbosa, Relatora. Exame de Admissibilidade. A empresa, na condição de devedora principal, foi intimada do acórdão recorrido por meio do domicílio tributário eletrônico, tendo interposto recurso voluntário. Os corresponsáveis Jean Pierre Eugene Vinson, Valéria Cristina Natal e João Rodrigues Ribeiro Filho foram intimados por via postal, com aviso de recebimento. Presentes os pressupostos de admissibilidade, notadamente a tempestividade, conheço dos recursos voluntários interpostos. Resumo dos fatos. Trata-se de exigência de multa decorrente da comprovação de compensação não declarada, aplicada em dobro em razão da caracterização de fraude. A sanção tem origem em procedimento administrativo que não homologou a compensação e a considerou não declarada, em virtude da utilização de créditos de terceiros, insuscetíveis de compensação, decisão esta que já transitou em julgado na esfera administrativa. A Delegacia de Julgamento manteve a sanção objeto dos recursos voluntários, ao restar comprovada, no processo supracitado, a inserção de informações falsas em PER/DCOMP, com indicação de indébito inexistente e tentativa reiterada de extinção de débitos próprios mediante a utilização de créditos que o sujeito passivo sabia não possuir, ficando caracterizada a Fl. 648DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.430 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19613.731743/2022-69 19 fraude nos termos da Lei nº 4.502/1964, o que justifica a aplicação da multa qualificada no percentual de 150%. Manteve-se, igualmente, a imputação de responsabilidade tributária solidária a João Rodrigues Ribeiro Filho e aos administradores Jean Pierre Eugene Vinson e Valeria Cristina Natal, com fundamento no art. 135 do CTN, uma vez demonstrado que João Rodrigues Ribeiro Filho foi o responsável de fato pela transmissão dos PER/DCOMP fraudulentos, inclusive mediante o uso de empresa interposta, bem como que os administradores tinham ciência e anuíram com os procedimentos adotados, inclusive por meio de outorga de procuração, configurando a prática de atos com infração à lei, de forma dolosa ou culposa. Feito o relatório, passa-se à análise das razões recursais. Recursos - DISTILLERIE STOCK DO BRASIL LTDA., Jean Pierre Eugene Vinson e Valeria Cristina Natal. A meu ver, a matéria de fundo suscitada pelos recorrentes limita-se à reprodução das alegações já deduzidas nas impugnações e devidamente apreciadas pela DRJ. Com efeito, (i) não há que se falar em nulidade do lançamento, uma vez que restaram observados os requisitos de validade previstos nos arts. 9º e 10 do Decreto nº 70.235/1972 e no art. 142 do CTN, especialmente no que se refere à adequada instrução probatória levada a efeito pela fiscalização; e (ii) no mérito, eventual discussão acerca da higidez do crédito é matéria estranha ao presente feito, porquanto já apreciada no processo próprio relativo ao PER/DCOMP. Da decisão recorrida, não se extraem novos fatos ou provas aptos a infirmar as razões de decidir adotadas pela DRJ; ao revés, as razões recursais limitam-se a reiterar argumentos já examinados e afastados de forma fundamentada. Reconhecida a validade do lançamento, somente a demonstração de fatos novos ou de prova inequívoca poderia, em tese, conduzir à reforma da decisão e ao afastamento das imputações realizadas, o que não se verifica nos autos. No que concerne aos diretores, ao conferirem plenos poderes a João Rodrigues Ribeiro Filho, competia-lhes o dever de acompanhamento e fiscalização dos atos por ele praticados, sendo certo que a anuência às condutas adotadas, posteriormente reconhecidas como infratoras da legislação tributária, atrai a responsabilização nos termos já delineados na decisão recorrida, sobretudo porque os fatos concretizados ensejariam vantagem ilícita aos referidos administradores. Assim, por concordar com as razões de decidir expendidas pela DRJ, adoto-as como fundamento do presente voto. PRELIMINAR DE NULIDADE Fl. 649DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.430 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19613.731743/2022-69 20 9. O impugnante JOÃO RODRIGUES RIBEIRO FILHO arguiu a nulidade do lançamento, sob a genérica alegação de inobservância de forma e ilegalidade da autuação. 10. A nulidade do auto de infração só poderia ocorrer se os atos fossem praticados por agente incompetente, conforme dispõe o art. 59, inciso I, do Decreto nº 70.235/1972, que regula o Processo Administrativo Fiscal: Art. 59. São nulos: I - os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II - os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. 11. No caso em tela, o auto de infração foi lavrado por pessoa competente. 12. Quanto à formalização do crédito tributário pelo lançamento, o art. 142 do CTN assim determina: Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Parágrafo único. A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional. 13. Os requisitos legais para a lavratura do auto de infração estão previstos no art. 10 do Decreto nº 70.235/1972, que regula o processo administrativo fiscal: Art. 10. O auto de infração será lavrado por servidor competente, no local da verificação da falta, e conterá obrigatoriamente: I - a qualificação do autuado; II - o local, a data e a hora da lavratura; III - a descrição do fato; IV - a disposição legal infringida e a penalidade aplicável; V - a determinação da exigência e a intimação para cumpri-la ou impugná-la no prazo de trinta dias; VI - a assinatura do autuante e a indicação de seu cargo ou função e o número de matrícula. 14. No presente caso, o auto de infração e seus anexos contêm todos os requisitos legais descritos acima. 15. Portanto, a arguição de nulidade não merece prosperar. DIREITO CREDITÓRIO 16. O presente processo trata de auto de infração relativo ao lançamento de multa isolada no percentual de 150% por compensações consideradas não declaradas. 17. Alegações acerca da existência do crédito, da revisão de ofício e da caracterização das compensações como não declaradas não serão abordadas no presente processo, visto que tal discussão deve ocorrer no âmbito do Processo nº 10880.995243/2021-48, relativo ao pedido de ressarcimento ao qual a Fl. 650DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.430 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19613.731743/2022-69 21 contribuinte vinculou as declarações de compensação consideradas não declaradas. 18. Conforme relatado, no despacho decisório de fls. 24/52 a fiscalização abordou, dentre outras matérias, a análise do crédito indicado no pedido de ressarcimento e as compensações consideradas como não declaradas, além da aplicação da multa isolada sob exame. Esse despacho foi também juntado ao referido Processo nº 10880-904.163/2022-72 e, quanto ao indébito indicado no pedido de ressarcimento e as compensações a ele vinculadas, apurou-se e decidiu-se, em síntese, o seguinte: Processos: 10880.904163/2022-72 (Análise PER 31923.63348.070521.1.1.19-4641) (...)A utilização de créditos de terceiros (ainda mais inexistentes!) é o ilícito mais grave no tema das compensações tributárias, de modo que o ordenamento sequer considera que a extinção do tributo ocorreu pela compensação. (...)CRÉDITO DE TERCEIROS. COMPENSAÇÃO CONSIDERADA COMO NÃO DECLARADA. FRAUDE GROSSEIRA. O caso ganha contornos ainda mais contundentes, pois os pretensos créditos do Processo 94.0049369-0, Sentenciados por duas vezes improcedentes no Processo de liquidação de sentença n° 0008740-65.2006.4.02.5101, em trâmite na 24° Vara Federal do Rio de Janeiro, da SERVPORT SERVIÇOS PORTUÁRIOS E MARÍTIMO, CNPJ 42.361.972/0001-51, já foram objeto de outros indeferimentos por parte da administração tributária e até mesmo de Representação Fiscal para Fins Penais e Representação para Fins Penais, dada a sua completa ilicitude. 19. Da decisão que indeferiu o crédito indicado no pedido de ressarcimento e considerou não declaradas as compensações a ele vinculadas, proferida no Processo nº 10880 904.163/2022-72, não cabe recurso a esta Delegacia de Julgamento. 20. De fato, o art. 74 da Lei nº 9430, de 1996, em seus parágrafos prevê que a instauração de litígios, trazendo a discussão para o rito do Processo Administrativo Fiscal - PAF, ficou restrita aos casos de não homologação da compensação declarada. No caso dos autos, em que os requerimentos da interessada não se enquadraram no conceito de declaração de compensação, por se tratar de pretensos créditos de terceiros, o § 13 do artigo veda a possibilidade de discussão do mérito relativo à compensação no bojo do PAF. 21. Assim, quanto ao mérito das compensações pretendidas, restaria à defesa a apresentação do recurso regulado pelo art. 56 da Lei nº 9.784, de 1999, no prazo de dez dias previsto no art. 59 da mesma lei. 22. E, analisando-se nos sistemas RFB o Processo nº 10880-904.163/2022-72, verifica-se que a interessada exerceu seu direito e interpôs recurso hierárquico contra a decisão, que foi considerado intempestivo pela autoridade administrativa, uma vez que a ciência se deu em 26/05/2022 e o recurso foi Fl. 651DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.430 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19613.731743/2022-69 22 apresentado em 08/06/2022. A decisão acerca da matéria então tornou se definitiva na esfera administrativa, não cabendo sua reanálise neste autos. 23. Oportuno registrar que no Processo nº 10880.732342/2022-00, mencionado pela defesa, não se discute o direito de crédito da contribuinte, diversamente do que foi afirmado. Tendo em vista que houve confissão em DCTF dos débitos que a contribuinte pretendeu compensar, a autoridade administrativa procedeu à transferência desses valores para o referido Processo n° 10880-732.342/2022-00, formalizado pelo Fisco para que se procedesse à cobrança. Em consulta aos sistemas da RFB, verifica-se que esses débitos já foram inscritos em dívida ativa. 24. Em suma, a discussão da matéria relativa ao crédito, à revisão de ofício e à caracterização das compensações como não declaradas não deve ser feita no âmbito do presente processo. MULTA ISOLADA DE 150% 25. A multa isolada exigida deve ser aplicada quando constatada a ocorrência das hipóteses previstas no art. 18 da Lei n.º 10.833, de 2003: Art. 18. O lançamento de ofício de que trata o art. 90 da Medida Provisória no 2.158 35, de 24 de agosto de 2001, limitar-se-á à imposição de multa isolada em razão de não-homologação da compensação quando se comprove falsidade da declaração apresentada pelo sujeito passivo. (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007)... § 4º Será também exigida multa isolada sobre o valor total do débito indevidamente compensado quando a compensação for considerada não declarada nas hipóteses do inciso II do § 12 do art. 74 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, aplicando-se o percentual previsto no inciso I do caput do art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996, duplicado na forma de seu § 1º, quando for o caso. (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) 26. O §12 do art. 74 da Lei nº 9.430, de 1996 prevê: Art. 74. O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizá-lo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão. (...)§ 12. Será considerada não declarada a compensação nas hipóteses: (...)II - em que o crédito: a) seja de terceiros; 27. E o art. 44, inciso I, §1º, da Lei 9.430/1996, determina o seguinte: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I - de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; § 1º O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e Fl. 652DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.430 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19613.731743/2022-69 23 73 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. 28. A fim de contestar o entendimento da autoridade fiscal pela aplicação da multa isolada de 150%, a defesa apresenta argumentos defendendo a existência dos créditos por ela informados e de autorização judicial expressa. Também afirma que a fiscalização não “analisa” de fato os documentos e alegações que comprovariam a existência do crédito, concluindo que não foi demonstrado o objetivo de fraude em sua conduta. 29. Reitera-se que as alegações acerca da validade do crédito não podem aqui ser rediscutidas, devendo este órgão de julgamento ater-se às razões de defesa dirigidas à aplicação da penalidade exigida no auto de infração constante do presente processo. 30. Ainda que os alegados créditos da ação de repetição de indébito interposta pela SERVPORT SERVIÇOS PORTUÁRIOS LTDA, Processo nº 94.0049369-0, existissem, a legislação é clara ao vedar a utilização do instituto da compensação com a utilização de créditos de terceiros (alínea "a", inciso II, do § 12 do art. 74 da Lei nº 9.430, de 1996), em nada socorrendo a defesa afirmar que não havia campo específico no PER/DCOMP para que informasse os pretensos créditos dessa natureza. 31. A fiscalização demonstrou que a interessada transmitiu pedido de ressarcimento com informação sabidamente falsa, indicando inexistente indébito de Cofins do período de apuração do 2º trimestre de 2017 (período em que a pessoa jurídica apurou tributo a pagar) para que os sistemas da Receita Federal do Brasil permitissem a transmissão do documento PER/DCOMP e que reiteradamente vem tentando utilizar créditos de terceiros também inexistentes para extinguir por compensação seus débitos tributários. 32. Diversamente do que afirma a defesa, a fiscalização analisou os argumentos, documentos e o referido processo judicial indicados no curso do procedimento fiscal e reiterados na impugnação. Refutou todas as alegações e então concluiu que os alegados créditos de terceiros eram inexistentes, que a pessoa jurídica não possui decisão judicial favorável e que tais fatos eram de conhecimento do sujeito passivo. Veja-se trecho do que a fiscalização consignou: 1. Ao transmitir o PER/DCOMP n° 31923.63348.070521.1.1.19-4641, o contribuinte pugnou pelo reconhecimento de um indébito de RESSARCIMENTO DE COFINS, pretensamente existente no período de apuração do 2º trimestre de 2017. 2. O direito creditório suscitado foi integralmente denegado, com as compensações vinculadas não homologadas em decorrência da inexistência de indébito já que informações das próprias Escriturações Fiscais Digitais do PIS/Pasep, da Cofins e da Contribuição Previdenciária sobre a Receita - EFD- Fl. 653DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.430 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19613.731743/2022-69 24 Contribuições em seu campo "TIPO DE CRÉDITO: 199 - Crédito vinculado à receita tributada no mercado interno - Outros" estava zerado. 3. Abaixo segue a tabela com todas as apurações de créditos de Cofins declaradas pelo próprio contribuinte em EFD. Note-se que não há nenhum tipo de crédito disponível, ao contrário, há um excesso de desconto no mês de fevereiro de 2017. (...)3. Não obstante, ainda havia PIS/COFINS a pagar no período. (...) 10. O contribuinte e o mandatário vêm reiteradamente abusando do instituto da compensação tributária e do contencioso tributário. 11. A utilização de créditos de terceiros (e ainda inexistentes!) é o ilícito mais grave no tema das compensações tributárias, de modo que o ordenamento sequer considera que a extinção do tributo ocorreu pela compensação. (...)14. Os pretensos créditos da ação de repetição de indébito n.° 94.0049369-0, da SERVPORT SERVIÇOS PORTUÁRIOS LTDA, ainda que legítimos fossem, não poderiam servir de lastro para declarações de compensação por expressa determinação legal: alínea "a", inciso II, do § 12 do art. 74 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996. 15. A legislação impõe à Autoridade Tributária o dever de reputar a compensação como NÃO DECLARADA. 16. Outrossim, conforme sentenciado DUAS VEZES em 29/05/2014 e 30/04/2021 no Processo de Execução n° 0008740-65.2006.4.025101/RJ, foi julgada IMPROCEDENTE a liquidação em face da ausência de prova quanto à existência de valores a serem executados. 17. Na sentença lavrada em 30/04/2021, a magistrada consignou a deslealdade processual da SERVPORT, conforme se verifica no trecho abaixo: "Por fim, insta mencionar que a parte Autora, ora liquidante, em verdade, busca obstaculizar a ultimação do processo, haja vista que, ainda hoje, vale-se de um crédito ilíquido e conforme comprovado nesta seara, inexistente para, continuamente, cedê-lo a outras empresas, valendo-se desta indefinição, o que, em tese, poderia implicar em ilícitos civis e penais." 18. Conforme suspeitado pela magistrada, esses pretensos créditos da SERVPORT fazem, sim, parte de um esquema de fraudes tributarias grosseiras e foi objeto até mesmo da Representação para Fins Penais n° 10880.748582/2020-56. 19. Em pesquisas sumárias na internet foi encontrado uma série de problemas legais envolvendo esses créditos, conforme se verifica em notícias, já antigas: Fl. 654DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.430 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19613.731743/2022-69 25 20. Também é importante consignar que sobre a "Servport Serviços Portuários e Marítimos Ltda" pesam ainda outras celeumas tal como a existência de pedidos de falência, com a existência da reversão de um deles por falsidade comprovada no ato alteração contratual: (...) 21. Quando dos trabalhos de auditoria de Ressarcimento de PIS/COFINS e Declarações de Compensações nos autos do processo administrativo n° 10880.980099/2019-21, em face da mesma DISTILLERIE STOCK DO BRASIL, o mandatário da empresa, JOÃO RODRIGUES RIBEIRO FILHO, CPF n° 145.005.548- 66, chegou ao absurdo de apresentar uma escritura pública falsa de Cessão de Crédito de Terceiros. Tal fato foi relatado (em sede de Representação para Fins Penais) ao parquet federal (protocolo PRM-UDI-MG-00002771/2020). 22. Assim sendo, é de pleno conhecimento tanto da SERVPORT quanto da STOCK e representantes de que esse crédito é inexistente tendo, inclusive, a Secretaria Especial da Receita Federal agido de forma contundente em fiscalização anterior. 23. O mandatário ainda juntou cópia de uma escritura pública (fls. ...), o qual houve pretensamente uma cessão de crédito da FL GESTORA DE RECURSO LTDA para a STOCK, a qual será tratada a posteriori, em uma Representação Para Fins Penais tendo em vista os indícios de inserção de informações falsas neste documento. 24. Em remate, também há um peticionamento efetuado no processo 0049369 041994.4.02.5101/RJ (fls. ...), onde a STOCK, em 15/10/2021, ainda insiste em pleitear crédito já sentenciado como inexistente em 30/04/2021, em claro descumprimento à decisão judicial. Evidentemente, tal pleito foi indeferido pelo juízo em 10/11/2021, que é antes da pretensa manifestação de inconformidade que se deu em 12/02/2022: (...)25. Nesta petição também foi juntada novamente cópia da escritura mencionada na Representação para Fins Penais n° 10880.748582/2020-56, a qual também possui indícios de nela ter sido inseridas informações falsas. 33. Em suma, está comprovado nos autos que a contribuinte insere informações fraudulentas em PER/DCOMP visando burlar os sistemas da Receita Federal e Fl. 655DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.430 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19613.731743/2022-69 26 aproveitar-se do instituto da declaração da compensação, pretendendo indevidamente extinguir seus débitos. Ainda, com os elementos apresentados pela auditoria, comprova-se que a impugnante vem agindo dessa maneira, de forma reiterada e intencional, objetivando lesar a Fazenda Nacional, ignorando os atos normativos e legais que impedem a compensação nos termos em que efetuada. 34. Do exposto conclui-se que restou configurado que o comportamento da contribuinte se amolda ao conceito de fraude previsto no art. 42 da Lei nº 4.502, de 1964, estando caracterizada a intenção premeditada da interessada em efetuar compensação vedada pela legislação, com a inserção de informações falsas e a utilização de créditos que sabidamente não possuía para extinguir tributos e contribuições federais. 35. Mantém-se, portanto, a multa aplicada à razão de 150%. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA 36. A autoridade fiscal atribuiu responsabilidade solidária ao mandatário da pessoa jurídica, JOÃO RODRIGUES RIBEIRO FILHO, e aos administradores empresa, JEAN PIERRE EUGENE VINSON e VALERIA CRISTINA NATAL, pela prática de atos com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatuto, nos termos do art. 135, do CTN: Art. 135. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos: (...)II - os mandatários, prepostos e empregados; III - os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. 37. Constam das impugnações apresentadas por JOÃO RODRIGUES RIBEIRO FILHO, JEAN PIERRE EUGENE VINSON e VALERIA CRISTINA NATAL alegações relativas ao entendimento de que a exigência fiscal não pode prosperar, similares àquelas presentes na impugnação da pessoa jurídica e já abordadas neste voto. 38. Sendo assim, considera-se aqui transcrito todo o voto referente à impugnação da pessoa jurídica, no qual é mantida a multa aplicada à razão de 150%. 39. Quanto à responsabilidade tributária, a regra geral é a de que o patrimônio da sociedade responde integralmente pelas dívidas por ela contraídas, mas podem aqueles indicados no art. 135, do CTN, atrair a responsabilidade ali prevista pela prática de ato com excesso de poder ou infração à lei, contrato social ou estatutos, que tenha implicado, como no caso em análise, no inadimplemento de obrigações tributárias. 40. Conforme analisado no item precedente, concluiu-se pela correção da multa de ofício aplicada no percentual de 150%, sendo incontroversa a fraude praticada. (...)Responsabilidade tributária - JEAN PIERRE EUGENE VINSON e VALERIA CRISTINA NATAL 47. Constam das impugnações apresentadas por JEAN PIERRE EUGENE VINSON e VALERIA CRISTINA NATAL, ambos administradores da pessoa Fl. 656DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.430 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19613.731743/2022-69 27 jurídica, as mesmas alegações também no que se refere à imputação de responsabilidade de solidária. 48. Sendo assim, as impugnações serão analisadas em conjunto. 49. Os interessados alegam que exercem o cargo de diretor da pessoa jurídica e que não houve demonstração irrefutável de eventos que justifiquem sua inclusão no polo passivo. Defendem que o art. 135, III, do CTN, exige a expressa demonstração da responsabilidade da pessoa indicada e a fiscalização apenas indicou a outorga de procurações, o que não pode, por si só, caracterizar ato praticado com excesso de poderes, infração à lei, contrato social ou estatutos. 50. Ocorre que não é apenas pelo ato de mera outorga de procurações que os diretores foram incluídos no polo passivo da obrigação tributária. Esse é um dos elementos de prova a caracterizar e corroborar que os administradores da pessoa jurídica vêm praticando atos com excesso de poderes, infração à lei, contrato social ou estatutos. 51. Neste ponto, cumpre citar trechos do Parecer PGFN/CRJ/CAT nº 55/2009, acerca do entendimento de que basta o denominado “dolo gênero”, englobando tanto o dolo quanto a culpa, e que tem como fundamento a jurisprudência dominante do STJ, e trata da matéria referente à responsabilidade tributária derivada da aplicação do art. 135, III, do CTN. “A respeito da necessidade de presença de ato doloso por parte do administrador ou da suficiência da presença de culpa, deve-se observar que, ao contrário do que defende parte da doutrina, a jurisprudência maciça do STJ exige tão-só a presença de “infração de lei” (= ato ilícito), a qual, pela teoria geral do Direito, pode ser tanto decorrente de ato culposo como de ato doloso (não obstante alguns poucos acórdãos referirem expressamente à necessidade de prova do dolo, em contraposição à imensa maioria que exige somente a culpa). Logo, se a lei e a jurisprudência não separaram as hipóteses de culpa em sentido estrito e dolo, tanto um quanto outro elemento subjetivo satisfaz a hipótese do art. 135 do CTN. Em verdade, o Direito Tributário preocupa-se com a externalização de atos e fatos, não possuindo espaço para a persecução do dolo; basta a culpa.” 52. No caso concreto, é incontroversa a ocorrência de infração à lei na inserção deliberada de falsas informações em PER/DCOMP, subsumindo-se tal situação às hipóteses de responsabilidade tributária arroladas no art. 135 do CTN, vez que a pessoa jurídica não tem como infringir a lei senão por meio da prática de atos por terceiros. 53. De fato, conforme já abordado, foi comprovado que a pessoa jurídica insere informações fraudulentas em PER/DCOMP visando burlar os sistemas da Receita Federal e aproveitar-se do instituto da declaração da compensação, pretendendo indevidamente extinguir seus débitos com a utilização de créditos que sabidamente não possui. Fl. 657DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.430 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19613.731743/2022-69 28 54. Demonstrou-se também que a empresa vem agindo dessa maneira de forma reiterada e intencional. A fiscalização aponta que desde 2004 a administração da pessoa jurídica abusa do instituto da declaração de compensação para evitar o recolhimento de tributos, tendo a Receita Federal do Brasil glosado cerca de R$ 173 milhões relativos a essas declarações de compensações. 55. O que a autoridade fiscal fez foi também apontar que existe um ato formal - a mencionada procuração concedida pelos administradores a JOÃO RODRIGUES RIBEIRO FILHO – outorgada à pessoa responsável pela apresentação da família de PER/DCOMP ora analisadas. Demonstrou-se que JOÃO RODRIGUES RIBEIRO FILHO valeu-se da CH CONSULTORIA EMPRESARIAL LTDA, interposta pessoa a ele vinculada, para formalizar esses documentos fraudulentos. A fiscalização coligiu elementos hábeis a comprovar, dentre outros fatos, que a CH CONSULTORIA EMPRESARIAL LTDA sofreu alterações contratuais atípicas recentemente, comprovadamente efetuadas por JOÃO RODRIGUES RIBEIRO FILHO, para parecer tratar-se de consultoria tributária legítima, bem como para dissimular a atuação de fato do impugnante na transmissão dos PER/DCOMP e nas condutas que sabia fraudulentas. 56. Oportuno consignar que JOÃO RODRIGUES RIBEIRO FILHO afirma em sua impugnação que assessorava a pessoa jurídica e interagia com os contratantes “no sentido de executar os procedimentos dos créditos tributários de origem judicial da empresa SERVPORT adquiridos pela contratante”. 57. Neste contexto, é evidente que os diretores estão cientes das indevidas vantagens das condutas reiteradamente adotadas a fim de evitar o recolhimento ao Fisco de vultosas quantias, afrontando o bom senso cogitar-se que estariam meramente exercendo suas funções de administradores ao valer-se dos “serviços” de JOÃO RODRIGUES RIBEIRO FILHO. 58. Assim, correta a inclusão de JEAN PIERRE EUGENE VINSON e VALERIA CRISTINA NATAL como responsáveis solidários com fundamento no art. 135, III, do CTN. Mantem-se, nesse sentido, o lançamento em sua integralidade. Recurso João Rodrigues Ribeiro Filho. Assim como no caso de Jean Pierre Eugene Vinson e Valeria Cristina Natal, o coobrigado João Rodrigues Ribeiro Filho limita-se a reproduzir, em suas razões recursais, as matérias de defesa já deduzidas na impugnação, sem enfrentar, de forma específica, as razões de decidir adotadas pela DRJ. As provas constantes dos autos mostram-se robustas e suficientes para demonstrar sua atuação como responsável direto pelas condutas fraudulentas, tendo ele participado da Fl. 658DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.430 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19613.731743/2022-69 29 orquestração das operações que deram ensejo à utilização de créditos de terceiros, os quais foram considerados inexistentes no processo próprio de PER/DCOMP. Dessa forma, o lançamento revela-se válido e regular, porquanto efetuado nos termos do art. 142 do CTN e em observância aos requisitos previstos nos arts. 9º e 10 do Decreto nº 70.235/1972, estando igualmente caracterizada a infração à legislação tributária, com os consectários legais já reconhecidos na decisão recorrida, inclusive quanto à responsabilização nos termos do art. 135 do CTN. Ausentes fatos novos ou provas capazes de infirmar as conclusões alcançadas pela autoridade julgadora de primeira instância, adoto integralmente a decisão recorrida como fundamento do presente voto: 41. No que se refere à imputação de responsabilidade solidária a JOÃO RODRIGUES RIBEIRO FILHO, o interessado alega que presta serviços contábeis e fiscais para a pessoa jurídica e que não houve demonstração irrefutável de eventos que justifiquem tal indicação. Afirma que o art. 135, II, do CTN, exige a comprovação do dolo e de que o ato tenha sido praticado com excesso de poderes ou infração à lei, contrato social ou estatutos, e que não se enquadra nessa hipótese. 42. Afirma que apenas recebeu instrumento de mandato da pessoa jurídica com poderes limitados para representá-la junto à RFB e à PGFN, mas não para tomar decisões relativas à “tomada de créditos e de pagamentos dos impostos”. Depois, passa a alegar que existia uma relação contratual entre a pessoa jurídica, como contratante, e ele, subcontratado “no sentido de executar os procedimentos dos créditos tributários de origem judicial da empresa SERVPORT adquiridos pela contratante”; que “pela própria complexidade da matéria legal tratada nas compensações em questão, sempre houve interação entre os prestadores de serviços e o próprio cliente final, que sempre esteve ciente de todos os procedimentos legais adotados” e que “é consultor e sempre prestou seus serviços de maneira transparente e com interação técnica para explicação legal sobre os procedimentos que a empresa STOCK poderia realizar”. 43. Conforme já abordado, foi comprovado que a pessoa jurídica insere informações fraudulentas em PER/DCOMP visando burlar os sistemas da Receita Federal e aproveitar-se do instituto da declaração da compensação, pretendendo indevidamente extinguir seus débitos com a utilização de créditos que sabidamente não possui. Demonstrou-se também que vem agindo dessa maneira de forma reiterada e intencional. 44. No presente caso, a fiscalização logra também demonstrar que a fraude tributária foi empreendida por JOÃO RODRIGUES RIBEIRO FILHO. Veja-se: Fl. 659DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.430 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19613.731743/2022-69 30 33. Repetindo a tônica de fraudes perpetradas pelo contribuinte e pelo mandatário de fato, verifiquei que o assinante formal da família de PER/DCOMP abaixo é uma interposta pessoa, como ficará evidente a seguir: 34. O assinante CH CONSULTORIA EMPRESARIAL LTDA, CNPJ 45.636.826/0001-80, anteriormente denominado LANCHONETE E ROTISERIE BOM SABOR LTDA e DISTRIBUIDORA DE PRODUTOS COSMOCEUTICOS LTDA foi criado em 24/03/1981 e recentemente teve alterações contratuais atípicas a fim de fazer parecer que se trata de uma consultoria tributária legítima, conforme verificamos a seguir: 35. Em 12/08/2019, houve as seguintes alterações: a) Capital da sede alterado para R$ 3.000.000,00 (três milhões de reais); b) Admitido Maurício Goncalves de Oliveira, CPF 065.127.938-03, RG: 14990883 - SP, residente à av. Eng. Jose barros saraiva, 800, casa 1, Nova Itanhaém, Itanhaém - SP, cep 11740-000, na situação de sócio, com valor de participação na sociedade de R$ 1.500.000,00; c) Admitido Carlos Alberto de Camargo, CPF 006.327.998-38, RG 9238248-4 - SP, residente à rua prof. Fernando de Azevedo, 200, pq. Continental, Osasco - SP, cep 05236-000, na Situação de administrador e sócio, assinando pela empresa, com valor de participação na sociedade de R$ 1.500.000,00. d) Retira-se da sociedade Luísa Takayama, CPF 036.015.598-70; e) Retira-se da sociedade Marcelo Rodrigo dos Santos, CPF 179.222.098-78; f) Alteração da atividade econômica / objeto social da sede para comissária de despachos, comércio Varejista de artigos do vestuário e acessórios, comércio varejista de cosméticos, produtos de Perfumaria e de higiene pessoal., datada de 06/08/2019. 37. Conforme figura abaixo, a solicitação de alteração foi efetuada diretamente por JOÃO RODRIGUES RIBEIRO FILHO, conforme pode ser verificado no campo "e- mail" do formulário: joao@fiscalconsult.com.br, que conforme pesquisa no registro de Domínios na internet, a "fiscalconsult.com.br" pertence ao CNPJ 14.574.789/0001-07, que atualmente é de propriedade de KESIA SAMELA DOS SANTOS COSTA, CPF 367.431.628-50 (enteada) e EDUARDA DOS SANTOS RODRIGUES RIBEIRO, CPF 440.518.618-99 (filha), mas que esteve formalmente no nome de JOÃO RODRIGUES RIBEIRO FILHO até 14/01/2020: (...)38. A Fiscalconsult Auditoria & Consultoria Empresarial Eireli, inscrita no CNPJ com o n° 13.217.870/0001-69, tem como responsável o sr. JOÃO RODRIGUES RIBEIRO FILHO. Fl. 660DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.430 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19613.731743/2022-69 31 39. O telefone de contato também é o mesmo do site da FISCALCONSULT, conforme abaixo: (...)40. As "testemunhas" desse ato foram CLEIDE SOARES DE JESUS, CPF 185.569.918-40 e EDUARDA DOS SANTOS RODRIGUES RIBEIRO, CPF 440.518.618-99 (filha). (...)41. Em 02/12/2019, houve as seguintes alterações: a) Alteração da atividade econômica/objeto social da sede para comissária de despachos, comércio Varejista de artigos do vestuário e acessórios, comércio varejista de cosméticos, produtos de Perfumaria e de higiene pessoal, gestão de ativos intangíveis não-financeiros. 42. Essa alteração foi solicitada por KESIA SAMELA DOS SANTOS COSTA e constam como testemunhas KESIA SAMELA DOS SANTOS COSTA, CPF 367.431.628-50 (enteada) e EDUARDA DOS SANTOS RODRIGUES RIBEIRO, CPF 440.518.618-99 (filha). (...) 43. Em 24/08/2020, houve as seguintes alterações: a) Alteração do nome empresarial para CH CONSULTORIA EMPRESARIAL LTDA; b) Alteração da atividade econômica/objeto social da sede para atividades de consultoria em gestão empresarial, exceto consultoria técnica específica. 45. Além disso, o telefone de contato do contribuinte e e-mail também são vinculados à Fiscalconsult, o que demonstra a inexistência de fato desse contribuinte: (...)46. Em contraste, a CH CONSULTORIA EMPRESARIAL LTDA, sequer possui site na internet, o que não seria esperado para uma suposta consultoria que possui R$ 3 milhões de capital social. 47. Desta forma, entendo que as abruptas mudanças ocorridas nas últimas três alterações contratuais não possuem substância patrimonial nem mesmo propósito negocial. 48. Trata-se, como se verifica abaixo, de outra origem de declarações de compensação fraudulentas, que são efetuadas desde junho de 2013: 49. Dos pretensos sócios, Carlos Alberto de Camargo, CPF 006.327.998-38 recebeu auxílio emergencial da COVID-19 e está com o CPF suspenso e Maurício Goncalves de Oliveira, CPF 065.127.938-03, faleceu em 26/04/2021. Fl. 661DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.430 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19613.731743/2022-69 32 50. De todos os assinantes de PER/DCOMP da STOCK, o único com qualificação profissional é JOÃO RODRIGUES RIBEIRO FILHO, que é CONTADOR registrado. 51. Antes da CH CONSULTORIA EMPRESARIAL LTDA, o certificado digital utilizado foi o de LUCAS SILVA SOUSA, o qual já diligenciamos e certificamos que era interposta pessoa em outras fiscalizações, como, por exemplo o que consta no processo n° 19613.721364/2020-07. 52. Os vínculos entre CH CONSULTORIA EMPRESARIAL LTDA e JOÃO RODRIGUES RIBEIRO FILHO não param por aí, conforme veremos adiante. 53. Os gráficos abaixo demonstram que a CH é utilizada pelo entorno de JOÃO RODRIGUES RIBEIRO FILHO e que se usa os mesmos computadores para o envio de Declarações de Compensações fraudulentas e com identidade de contribuintes que fraudam compensações. (...) 54. Nesse processo, JOÃO RODRIGUES RIBEIRO FILHO apenas se revela na documentação da pretensa Manifestação de Inconformidade, por ele assinada digitalmente, a qual foi juntada ao processo mediante solicitação de juntada efetuada pelo pretenso sócio da CH CONSULTORIA: CARLOS ALBERTO DE CAMARGO, CPF 006.327.998-38. 55. Ora, além das provas já mencionadas anteriormente, a documentação da pretensa manifestação de conformidade por si só já determina quem de fato é o mandatário da STOCK e quem está empreendendo a fraude tributária com o fim de enganar a administração tributária, evadindo-se da obrigação de pagar o tributo: Temos a procuração: (...) 56. Por último, reitere-se que a natureza fraudulenta desses pretensos direitos creditórios da SERVPORT é de conhecimento do mandatário, o qual, por exemplo foi autuado em 10/03/2020 no bojo do processo 10880.980099/2019-21, já definitivamente constituído. 57. Assim sendo, por estar empreendendo fraude nos termos do art. 72 da Lei n° 4.502/1964, JOÃO RODRIGUES RIBEIRO FILHO, CPF 145.005.548-66 está incurso nas disposições do Inciso II do "caput" do art. 135 do Código Tributário Nacional e fica solidariamente responsável tanto pelo crédito tributário indevidamente extinto por abuso do instituto da declaração de compensação e tanto pela multa regulamentar, em conformidade com o inciso II do art. 135 do CTN. 45. Restou comprovado que JOÃO RODRIGUES RIBEIRO FILHO é o responsável de fato pela apresentação da família de PER/DCOMP ora analisadas e valeu-se da CH CONSULTORIA EMPRESARIAL LTDA, interposta pessoa a ele vinculada, para formalizar esses documentos. A fiscalização coligiu elementos hábeis a comprovar, dentre outros fatos, que a CH CONSULTORIA EMPRESARIAL LTDA, criada em 1981, sofreu alterações contratuais atípicas recentemente, comprovadamente efetuadas por JOÃO RODRIGUES RIBEIRO FILHO, para parecer Fl. 662DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.430 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19613.731743/2022-69 33 tratar-se de consultoria tributária legítima, bem como para dissimular a atuação de fato do impugnante na transmissão dos PER/DCOMP e nas condutas que sabia fraudulentas. 46. Portanto, mantém-se JOÃO RODRIGUES RIBEIRO FILHO como responsável solidário. Resta, pois, mantida a responsabilidade solidária de João Rodrigues Ribeiro Filho. Conclusão. Ante o exposto, rejeito a preliminar de nulidade e no mérito, nego provimento aos Recursos Voluntários. É como voto. Assinado Digitalmente Sabrina Coutinho Barbosa Fl. 663DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
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Numero do processo: 16327.721047/2021-09
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Apr 07 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2017
ÁGIO. INCORPORAÇÃO DE AÇÕES. POSSIBILIDADE DE GERAÇÃO E AMORTIZAÇÃO FISCAL. CUSTO DE AQUISIÇÃO. CARACTERIZAÇÃO.
A incorporação de ações prevista no artigo 252 da Lei nº 6.404, de 1976, constitui operação societária capaz de gerar ágio fiscalmente amortizável. O custo de aquisição manifesta-se pelo valor atribuído às ações incorporadas, representado pelo preço de emissão das novas ações da incorporadora transferidas aos antigos titulares das ações incorporadas, configurando efetivo sacrifício patrimonial. O fato de o custo não corresponder a desembolso de numerário, mas sim à emissão de ações pela incorporadora, não desnatura sua natureza jurídica de aquisição onerosa de participação societária.
REFORMA QUANTO À POSIBILIDADE JURÍDICA ABSTRATA DE A INCORPORAÇÃO DE AÇÕES GERAR ÁGIO. RETORNO. FUNDAMENTOS PARA A GLOSA APRECIADOS.
Revertido o único fundamento adotado para manutenção da exigência, impõe-se o retorno dos autos ao Colegiado a quo para apreciação dos demais fundamentos da acusação fiscal afastados na decisão de 1ª instância, inclusive quanto ao fato de a contrapartida do ágio ter sido registrada em conta de “Reserva de Capital”.
Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
Ano-calendário: 2017
GLOSA DE AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO NO ÂMBITO DA APURAÇÃO DA CSLL.
Inexiste qualquer especificidade a ensejar resultado diferenciado na apuração da base de cálculo da CSLL decorrente da glosa de amortização do ágio que reduziu indevidamente as bases tributáveis da Contribuinte.Assim, a CSLL será também exigível se, no retorno ao Colegiado a quo, for confirmada a indedutibilidade das amortizações de ágio aqui glosadas.
Numero da decisão: 9101-007.551
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial, vencidos os Conselheiros Edeli Pereira Bessa, Lizandro Rodrigues de Sousa e Carlos Higino Ribeiro de Alencar que votaram pelo conhecimento parcial do recurso, apenas em relação à matéria “inexistência de previsão legal para a adição à base de cálculo da CSLL da despesa com a amortização de ágio considerada indedutível” e com base em apenas um dos paradigmas. No mérito, acordam em: (i) relativamente à matéria “possibilidade de geração e amortização do ágio na incorporação de ações – efetivo custo de aquisição – 1ᄎ requisito”, por maioria de votos, dar provimento parcial ao recurso, com retorno dos autos ao colegiado a quo, para o fim de reformar a premissa da decisão recorrida quanto à impossibilidade jurídica de a incorporação de ações gerar ágio amortizável, proferindo nova decisão com exame dos demais requisitos para dedutibilidade do ágio, vencido o Conselheiro Luis Henrique Marotti Toselli que votou por dar provimento ao recurso. Votaram pelas conclusões os Conselheiros Edeli Pereira Bessa, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Heldo Jorge dos Santos Pereira Junior, Lizandro Rodrigues de Sousa, Semíramis de Oliveira Duro e Carlos Higino Ribeiro de Alencar para inserir entre as matérias submetidas a nova apreciação pelo colegiado a quo o fato de a contrapartida do ágio ter sido registrada em conta de “Reserva de Capital”; (ii) quanto à matéria “inexistência de previsão legal para a adição à base de cálculo da CSLL da despesa com a amortização de ágio considerada indedutível”, por maioria de votos, negar provimento ao recurso, vencidos os Conselheiros Luis Henrique Marotti Toselli, Maria Carolina Maldonado Mendonça Kraljevic e Heldo Jorge dos Santos Pereira Junior que votaram por dar provimento. Votaram pelas conclusões os Conselheiros Edeli Pereira Bessa, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Lizandro Rodrigues de Sousa, Semíramis de Oliveira Duro e Carlos Higino Ribeiro de Alencar. Designada para redigir os fundamentos do voto vencedor a Conselheira Edeli Pereira Bessa, que manifestou intenção de apresentar declaração de voto
Nome do relator: JANDIR JOSE DALLE LUCCA
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INCORPORAÇÃO DE AÇÕES. POSSIBILIDADE DE GERAÇÃO E AMORTIZAÇÃO FISCAL. CUSTO DE AQUISIÇÃO. CARACTERIZAÇÃO. A incorporação de ações prevista no artigo 252 da Lei nº 6.404, de 1976, constitui operação societária capaz de gerar ágio fiscalmente amortizável. O custo de aquisição manifesta-se pelo valor atribuído às ações incorporadas, representado pelo preço de emissão das novas ações da incorporadora transferidas aos antigos titulares das ações incorporadas, configurando efetivo sacrifício patrimonial. O fato de o custo não corresponder a desembolso de numerário, mas sim à emissão de ações pela incorporadora, não desnatura sua natureza jurídica de aquisição onerosa de participação societária. REFORMA QUANTO À POSIBILIDADE JURÍDICA ABSTRATA DE A INCORPORAÇÃO DE AÇÕES GERAR ÁGIO. RETORNO. FUNDAMENTOS PARA A GLOSA APRECIADOS. Revertido o único fundamento adotado para manutenção da exigência, impõe-se o retorno dos autos ao Colegiado a quo para apreciação dos demais fundamentos da acusação fiscal afastados na decisão de 1ª instância, inclusive quanto ao fato de a contrapartida do ágio ter sido registrada em conta de “Reserva de Capital”. Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL Ano-calendário: 2017 GLOSA DE AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO NO ÂMBITO DA APURAÇÃO DA CSLL. Inexiste qualquer especificidade a ensejar resultado diferenciado na apuração da base de cálculo da CSLL decorrente da glosa de amortização do ágio que reduziu indevidamente as bases tributáveis da Contribuinte. Fl. 2918DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 2 Assim, a CSLL será também exigível se, no retorno ao Colegiado a quo, for confirmada a indedutibilidade das amortizações de ágio aqui glosadas. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial, vencidos os Conselheiros Edeli Pereira Bessa, Lizandro Rodrigues de Sousa e Carlos Higino Ribeiro de Alencar que votaram pelo conhecimento parcial do recurso, apenas em relação à matéria “inexistência de previsão legal para a adição à base de cálculo da CSLL da despesa com a amortização de ágio considerada indedutível” e com base em apenas um dos paradigmas. No mérito, acordam em: (i) relativamente à matéria “possibilidade de geração e amortização do ágio na incorporação de ações – efetivo custo de aquisição – 1º requisito”, por maioria de votos, dar provimento parcial ao recurso, com retorno dos autos ao colegiado a quo, para o fim de reformar a premissa da decisão recorrida quanto à impossibilidade jurídica de a incorporação de ações gerar ágio amortizável, proferindo nova decisão com exame dos demais requisitos para dedutibilidade do ágio, vencido o Conselheiro Luis Henrique Marotti Toselli que votou por dar provimento ao recurso. Votaram pelas conclusões os Conselheiros Edeli Pereira Bessa, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Heldo Jorge dos Santos Pereira Junior, Lizandro Rodrigues de Sousa, Semíramis de Oliveira Duro e Carlos Higino Ribeiro de Alencar para inserir entre as matérias submetidas a nova apreciação pelo colegiado a quo o fato de a contrapartida do ágio ter sido registrada em conta de “Reserva de Capital”; (ii) quanto à matéria “inexistência de previsão legal para a adição à base de cálculo da CSLL da despesa com a amortização de ágio considerada indedutível”, por maioria de votos, negar provimento ao recurso, vencidos os Conselheiros Luis Henrique Marotti Toselli, Maria Carolina Maldonado Mendonça Kraljevic e Heldo Jorge dos Santos Pereira Junior que votaram por dar provimento. Votaram pelas conclusões os Conselheiros Edeli Pereira Bessa, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Lizandro Rodrigues de Sousa, Semíramis de Oliveira Duro e Carlos Higino Ribeiro de Alencar. Designada para redigir os fundamentos do voto vencedor a Conselheira Edeli Pereira Bessa, que manifestou intenção de apresentar declaração de voto. Assinado Digitalmente Jandir Jose Dalle Lucca – Relator Assinado Digitalmente Edeli Pereira Bessa – Redatora designada Fl. 2919DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 3 Assinado Digitalmente Carlos Higino Ribeiro de Alencar – Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Edeli Pereira Bessa, Luis Henrique Marotti Toselli, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Maria Carolina Maldonado Mendonca Kraljevic, Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Heldo Jorge dos Santos Pereira Junior, Lizandro Rodrigues de Sousa (substituto integral), Jandir Jose Dalle Lucca, Semiramis de Oliveira Duro e Carlos Higino Ribeiro de Alencar (Presidente). RELATÓRIO 1.Trata-se de Recurso Especial interposto por B3 S/A – BRASIL, BOLSA, BALCÃO em face do Acórdão nº 1202-001.407, de 11.09.2024, via do qual se decidiu, por unanimidade de votos, negar provimento ao Recurso de Ofício e rejeitar a preliminar de nulidade do lançamento e, no mérito, por voto de qualidade, dar provimento parcial ao Recurso Voluntário para cancelar a exigência das multas isoladas referentes ao período de 02.01.2017 a 03.07.2017. 2.O litígio versa sobre autos de infração de IRPJ e CSLL referentes ao ano-calendário de 2017, decorrentes de glosas de despesas com amortização de ágio no montante de R$ 1.565.335.720,56. As infrações apuradas se relacionam com ágio oriundo da reorganização societária ocorrida em 2008, que resultou na formação da BM&FBOVESPA S.A. (atual B3 S.A.), envolvendo as companhias BM&F S.A., Bovespa Holding S.A. e Nova Bolsa S.A. 3.Na operação questionada, a Nova Bolsa S.A. (atual B3) incorporou o patrimônio da BM&F S.A. pelo valor contábil e, em seguida, incorporou as ações da Bovespa Holding S.A. pelo valor de mercado de R$ 17.942.090.162,46. A fiscalização entendeu que o ágio registrado não atenderia aos requisitos legais para amortização fiscal, particularmente porque não haveria custo de aquisição efetivo na operação de incorporação de ações, já que não houve transferência de recursos para terceiros ou geração de passivo, de modo que todo o valor correspondente às ações recebidas, mesmo com mais-valia, permaneceu no Patrimônio Líquido, caracterizando mera forma de aumento de capital. 4.Adicionalmente, foram aplicadas multas isoladas previstas no art. 44, inciso II, alínea "b", da Lei nº 9.430, de 1996, pela falta de recolhimento de IRPJ e CSLL em base de cálculo estimada, nos valores de R$ 155.168.993,74 para IRPJ e R$ 49.173.271,83 para CSLL. 5.O colegiado de 1ª instância houve por bem, por maioria de votos, dar provimento parcial à impugnação da contribuinte, reduzindo os valores exigidos e anulando parcialmente o lançamento. Reconheceu erro na identificação da data do fato gerador, uma vez que o auto de infração considerou 31.12.2017 como data única de apuração, quando na verdade houve dois períodos distintos devido à incorporação da CETIP em 03.07.2017. Foi declarada nula a parcela do Fl. 2920DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 4 lançamento referente ao período de 01.01.2017 a 03.07.2017. Foi mantida parcialmente a glosa da amortização do ágio, reduzindo o valor glosado de R$ 1.565.335.720,56 para R$ 782.667.860,28 (referente apenas ao período de 04.07.2017 a 31.12.2017), tanto para IRPJ quanto para CSLL. As multas isoladas foram recalculadas. Para os meses de fevereiro e março de 2017, foram corrigidos os valores para considerar adequadamente as estimativas recolhidas. Para o período de julho a dezembro de 2017, as multas foram canceladas porque a fiscalização acumulou indevidamente resultados de dois períodos de apuração distintos (antes e depois da incorporação da CETIP). 6.Já o aresto recorrido se encontra assim ementado: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2017 NULIDADE. ERRO NA DATA DO FATO GERADOR. CANCELAMENTO PARCIAL DA EXIGÊNCIA. INOCORRÊNCIA. Não há que se falar em nulidade total do lançamento por erro na data do fato gerador, quando devidamente cancelada pela autoridade julgadora a parcela da autuação incorretamente apurada como decorrência do erro cometido. Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica – IRPJ Ano-calendário: 2017 INCORPORAÇÃO DE AÇÕES. PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA. CUSTO DE AQUISIÇÃO. Na incorporação de ações não há um custo de aquisição das ações que são entregues pelos acionistas para a empresa que tem seu capital aumentado com o patrimônio da subsidiária integral. Nesta operação não há transferência de recursos para terceiros ou geração de um passivo. Todo o valor correspondente às ações recebidas, mesmo com mais-valia, encontra-se no Patrimônio Líquido, pois se trata de uma forma de aumento de capital. Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL Ano-calendário: 2017 CSLL. ADIÇÃO DE DESPESAS COM AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. EXISTÊNCIA DE PREVISÃO NORMATIVA. A adição, à base de cálculo da CSLL, de despesas com amortização de ágio deduzidas indevidamente pela contribuinte encontra amparo nas normas que regem a exigência da referida contribuição. Assunto: Normas de Administração Tributária Ano-calendário: 2017 MULTA ISOLADA POR FALTA OU INSUFICIÊNCIA DE ESTIMATIVAS. CANCELAMENTO DA EXIGÊNCIA DO TRIBUTO. INEXIGIBILIDADE. Não deve prevalecer a exigência da multa isolada quando cancelada a autuação que gerou os valores devidos a título de estimativas, base de cálculo dessa penalidade. 7.Cientificada da decisão, a empresa contribuinte apresentou Recurso Especial em relação às matérias “1- Possibilidade de geração e amortização do ágio na incorporação de ações – efetivo custo de aquisição – 1º requisito” (paradigmas 1201-003.202 e 1402-002.323, integrado pelo Acórdão de Embargos 1402-003.576); e “2- Inexistência de previsão legal para a adição à base de cálculo da CSLL da despesa com a amortização de ágio considerada indedutível” (paradigmas 9101-005.773 e 9101-005.894), tendo o apelo sido admitido nos termos do despacho de fls. 2873/2883), do qual se destacam os seguintes excertos: Fl. 2921DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 5 1- POSSIBILIDADE DE GERAÇÃO E AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO NA INCORPORAÇÃO DE AÇÕES – EFETIVO CUSTO DE AQUISIÇÃO – 1º REQUISITO. (...) Vê-se que os paradigmas apresentados, Acórdãos nºs 1201-003.202 e 1402- 002.323 (integrado pelo Acórdão de Embargos nº 1402-003.576), constam do sítio do CARF, e que eles não foram reformados na matéria que poderia aproveitar à recorrente. Além disso, essas decisões servem para demonstrar a alegada divergência jurisprudencial em relação ao acórdão recorrido. Realmente, há similitude fática entre os casos cotejados, e as decisões foram divergentes. Tanto no recorrido quanto nos paradigmas, os julgadores examinaram dedução fiscal de ágio no contexto de operações societárias envolvendo incorporação de ações. Para o acórdão recorrido, “na incorporação de ações não há um custo de aquisição das ações que são entregues pelos acionistas para a empresa que tem seu capital aumentado com o patrimônio da subsidiária integral. Nesta operação não há transferência de recursos para terceiros ou geração de um passivo. Todo o valor correspondente às ações recebidas, mesmo com mais-valia, encontra-se no Patrimônio Líquido, pois se trata de uma forma de aumento de capital”. Já os paradigmas manifestaram entendimento no sentido de que na incorporação de ações há efetiva existência de custo de aquisição de participação societária, com a possibilidade de geração de ágio amortizável. A divergência está caracterizada. Desse modo, proponho que seja DADO SEGUIMENTO ao recurso especial da contribuinte para a matéria tratada neste primeiro tópico. 2- INEXISTÊNCIA DE PREVISÃO LEGAL PARA A ADIÇÃO À BASE DE CÁLCULO DA CSLL DA DESPESA COM A AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO CONSIDERADA INDEDUTÍVEL. (...) Vê-se que os paradigmas apresentados, Acórdãos nºs 9101-005.773 e 9101- 005.894, constam do sítio do CARF, e que eles não foram reformados na matéria que poderia aproveitar à recorrente. Além disso, essas decisões servem para demonstrar a alegada divergência jurisprudencial em relação ao acórdão recorrido. Realmente, há similitude fática entre os casos cotejados, e as decisões foram divergentes. Tanto no recorrido quanto nos paradigmas, os julgadores examinaram a questão da dedutibilidade do ágio no contexto específico da legislação da CSLL. O acórdão recorrido manteve a glosa da amortização do ágio também para a CSLL, entendendo que “a adição, à base de cálculo da CSLL, de despesas com amortização de ágio deduzidas indevidamente pela contribuinte encontra amparo nas normas que regem a exigência da referida contribuição”. Já os paradigmas manifestaram entendimento no sentido de que a base de cálculo da CSLL é autônoma e legalmente delimitada por normas próprias, inexistindo no ordenamento jurídico previsão legal para que se exija a adição à base de cálculo da CSLL da amortização do ágio considerada indedutível na apuração do lucro real. A divergência, portanto, está caracterizada. 8.A PGFN apresentou contrarrazões às fls. 2885/2910, combatendo exclusivamente o mérito do Recurso Especial. 9.É o relatório. Fl. 2922DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 6 VOTO VENCIDO Conselheiro Jandir José Dalle Lucca, Relator CONHECIMENTO 10.O Recurso Especial é tempestivo, conforme já atestado pelo despacho de admissibilidade de fls. 2873/2883, tendo sido admitido em relação às seguintes matérias: 1- “Possibilidade de geração e amortização do ágio na incorporação de ações – efetivo custo de aquisição – 1º requisito”, em face dos paradigmas nºs 1201-003.202 e 1402-002.323, integrado pelo Acórdão de Embargos nº 1402-003.576; e 2- “Inexistência de previsão legal para a adição à base de cálculo da CSLL da despesa com a amortização de ágio considerada indedutível”, em face dos paradigmas nºs 9101-005.773 e 9101-005.894. AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO NA INCORPORAÇÃO DE AÇÕES 11.O ágio em apreço teve origem na reorganização societária entre BM&F S.A., Bovespa Holding S.A. e Nova Bolsa S.A. (atual B3 S.A.), realizada em 2008 em duas etapas sucessivas: 1ª etapa: A Nova Bolsa S.A. incorporou a BM&F S.A. pelo valor patrimonial contábil de R$ 2.615.517.000,00, emitindo ações ordinárias na proporção de 1:1 para os acionistas da BM&F, resultando na extinção desta última. 2ª etapa: Na mesma data, em deliberação subsequente, a Nova Bolsa S.A. incorporou as ações da Bovespa Holding S.A. (operação de incorporação de ações prevista no artigo 252 da Lei 6.404/76). Nesta operação, a Bovespa Holding foi avaliada pelo valor de mercado de R$ 17.942.090.162,46, baseado na média ponderada das cotações de suas ações nos 30 dias anteriores a 19/02/2008. 12.A fiscalização identificou que o contribuinte registrou contabilmente o investimento na Bovespa Holding em R$ 1.543.798.507,93 (valor do patrimônio líquido) e classificou R$ 16.398.291.564,53 como ágio. Deste total, R$ 1.526.236.963,88 foram destinados ao capital social e R$ 16.415.853.198,58 à reserva de capital. A partir de 2008, a B3 passou a amortizar mensalmente este ágio, excluindo os valores das bases de cálculo do IRPJ e CSLL. No ano-calendário de 2017, objeto da autuação, foram excluídos R$ 1.565.335.720,56 a título de amortização deste ágio originado na reorganização de 2008. 13.O Acórdão recorrido (1202-001.407), negou a dedutibilidade do ágio, diante da compreensão de que, na incorporação de ações mediante troca por ações da incorporadora, não Fl. 2923DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 7 há custo de aquisição em seu conceito econômico. Segundo a decisão, ausente a transferência de recursos para terceiros ou geração de passivo, inexiste o sacrifício patrimonial necessário para caracterizar o custo, todo o valor correspondente às ações recebidas, mesmo com mais-valia, encontra-se no patrimônio líquido da incorporadora, tratando-se de mera forma de aumento de capital. O voto condutor afirma que receber um patrimônio e imediatamente devolver parcela deste na forma de ações não pode ser considerado custo em sentido econômico. A própria ementa cristaliza o entendimento do colegiado a quo, nos seguintes termos: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica – IRPJ Ano-calendário: 2017 INCORPORAÇÃO DE AÇÕES. PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA. CUSTO DE AQUISIÇÃO. Na incorporação de ações não há um custo de aquisição das ações que são entregues pelos acionistas para a empresa que tem seu capital aumentado com o patrimônio da subsidiária integral. Nesta operação não há transferência de recursos para terceiros ou geração de um passivo. Todo o valor correspondente às ações recebidas, mesmo com mais-valia, encontra-se no Patrimônio Líquido, pois se trata de uma forma de aumento de capital. 14.Em sentido oposto, o primeiro paradigma (1201-003.202), que examinou o mesmo conjunto de operações societárias envolvendo a criação da B3 S.A. (anteriormente Nova Bolsa S.A.), por decisão majoritária, reconheceu integralmente a dedutibilidade do ágio. O Conselheiro Relator Allan Marcel Warwar Teixeira desenvolveu extensa fundamentação histórica e sistemática, concluindo que a amortização fiscal do ágio possui natureza jurídica de perda de capital diferida, não se tratando de benefício fiscal. Segundo este entendimento, a Lei 9.532, de 1997, apenas aperfeiçoou o cálculo do ganho ou perda de capital anteriormente previsto no artigo 34 do Decreto-Lei 1.598, de 1977. A incorporação de ações a valor de mercado constitui opção legítima que gera tributação do ganho de capital na ponta dos acionistas alienantes, compensando a futura dedução na incorporadora. Há, portanto, esforço econômico comprovado pela tributação efetivamente suportada pelos acionistas da Bovespa Holding. 15.Destaque-se que as declarações de voto apresentadas pelos Conselheiros que acompanharam o Relator pelas suas conclusões revelam aspectos importantes sobre os fundamentos que sustentaram a decisão favorável ao contribuinte. O Conselheiro Neudson Cavalcante Albuquerque, embora tenha votado pelo cancelamento da exigência fiscal, expressamente declarou que seus fundamentos não coincidiam integralmente com os do Relator. Sua abordagem foi metodologicamente distinta, optando por examinar individualmente cada um dos seis requisitos elencados pela fiscalização para a dedutibilidade do ágio. Quanto à incorporação de ações especificamente, o Conselheiro Neudson não divergiu frontalmente do relator, mas adotou caminho argumentativo próprio ao analisar a demonstração do fundamento econômico. Para ele, a valoração de uma empresa de capital aberto pode legitimamente basear-se na curva de valores históricos de suas ações no mercado financeiro, constituindo critério de natureza econômica válido para mensurar expectativa de rentabilidade. Segundo este entendimento, o fato de o valor das ações no pregão da bolsa refletir expectativas do mercado quanto ao desempenho futuro da companhia torna legítima a utilização deste parâmetro para Fl. 2924DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 8 fundamentar o ágio por rentabilidade futura. Ademais, o Conselheiro Neudson rejeitou a tese da fiscalização quanto à necessidade de o contribuinte reavaliar previamente os ativos da adquirida, argumentando que as participações societárias deveriam ser avaliadas por equivalência patrimonial, não por valor de mercado das ações das controladas. 16.Já o Conselheiro Alexandre Evaristo Pinto, embora tenha acompanhado integralmente as conclusões do Relator quanto à validade da incorporação de ações para fins de geração de ágio dedutível, discordou expressamente no tocante ao caráter residual do ágio por rentabilidade futura. Enquanto o Relator sustentou que tal ágio sempre foi residual em relação às demais parcelas do investimento mesmo antes da Lei 12.973, de 2014, o Conselheiro Alexandre defendeu que a residualidade somente foi introduzida por aquela lei, quando estabeleceu ordem expressa de alocação dos valores justos aos ativos líquidos da entidade adquirida. 17.Nenhum dos declarantes, contudo, questionou o cerne da tese do Relator quanto à legitimidade da incorporação de ações como operação apta a gerar ágio fiscalmente amortizável. As divergências concentraram-se em aspectos periféricos, como a classificação do fundamento econômico do ágio específico em análise e a existência ou não de residualidade obrigatória na legislação anterior à reforma de 2014. Todos os votos favoráveis ao contribuinte reconheceram que a operação de incorporação de ações a valor de mercado constitui opção legítima que, quando não simulada, pode validamente gerar ágio dedutível, especialmente considerando a tributação correlata do ganho de capital na ponta dos acionistas alienantes. 18.Portanto, a discrepância jurídica entre o Acórdão recorrido e o paradigma 1201- 003.202 é evidente. Enquanto o primeiro exige desembolso patrimonial direto pela incorporadora para reconhecer o custo de aquisição, o segundo privilegia a análise sistêmica da tributação global da operação. Ambos reconhecem se tratar de reorganização societária legítima envolvendo companhias abertas sem simulação, divergindo exclusivamente quanto à interpretação dos requisitos legais para caracterização do custo fiscal do investimento adquirido mediante incorporação de ações. 19.Já o segundo paradigma (1402-002.323, integrado pelo Acórdão de Embargos 1402-003.576), cuidou de apreciar a reorganização societária complexa entre os grupos Satélite e Ale, com as seguintes características essenciais: A Cia SAT Participações foi criada especificamente como veículo para viabilizar a associação entre dois grupos empresariais independentes (Satélite e Ale). Em julho de 2006, essa companhia procedeu à incorporação da totalidade das ações da Ale Combustíveis, mediante emissão de 55.209.117 novas ações sem valor nominal. O preço de emissão foi fixado em R$ 241.273.000,00, sendo R$ 55.209.117,00 registrados como capital social e R$ 186.063.883,00 como reserva de capital. O ágio foi apurado pela diferença entre o preço de emissão (R$ 241.273.000,00) e o valor patrimonial das ações incorporadas (R$ 6.080.551,34), resultando em Fl. 2925DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 9 R$ 235.192.448,66. Posteriormente, a Ale Combustíveis, agora subsidiária integral da Cia SAT Participações, incorporou sua controladora (incorporação reversa), passando a amortizar o ágio anteriormente registrado. A operação envolveu partes independentes, sem vinculação prévia entre os grupos econômicos, tendo sido formalizado um acordo de associação que estabelecia a paridade de 50% para cada grupo na estrutura societária resultante. 20.A operação da Alesat apresenta estrutura praticamente idêntica à da B3. A Cia SAT Participações foi criada como veículo para viabilizar associação entre os grupos Satélite e Ale. Em julho de 2006, essa companhia incorporou a totalidade das ações da Ale Combustíveis, emitindo 55.209.117 novas ações sem valor nominal. O preço de emissão foi fixado em R$ 241.273.000,00, com R$ 55.209.117,00 registrados como capital social e R$ 186.063.883,00 como reserva de capital. O ágio apurado foi de R$ 235.192.448,66, pela diferença entre o preço de emissão e o valor patrimonial das ações incorporadas (R$ 6.080.551,34). Posteriormente, a Ale Combustíveis incorporou sua controladora (incorporação reversa) e passou a amortizar o ágio. 21.O voto do Conselheiro Relator Demetrius Nichele Macei, condutor no ponto em questão, foi explícito ao estabelecer que “a incorporação de ações é operação societária por intermédio da qual a totalidade das ações de emissão de uma sociedade anônima é incorporada ao patrimônio de outra companhia, convertendo aquela em subsidiária integral desta” e que “Entendo correto o entendimento da decisão de piso no que se refere a natureza jurídica da incorporação de ações, e portanto, houve efetiva aquisição pela incorporadora (Cia Sat Participações) das ações da incorporada (Ale Combustíveis)”. Aqui também a ementa é suficientemente elucidativa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA - IRPJ Ano-calendário: 2008, 2009 INCORPORAÇÃO DE AÇÕES. NATUREZA JURÍDICA. POSSIBILIDADE DE DEDUÇÃO DA AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO PARA FINS DE APURAÇÃO DO LUCRO REAL. A incorporação de ações é operação societária por intermédio da qual a totalidade das ações de emissão de uma sociedade anônima é incorporada ao patrimônio de outra companhia, convertendo aquela em subsidiária integral desta. O ágio absorvido pela controlada quando da incorporação da controladora considerar-se-á adquirido e, portanto, passível de amortização dedutível para fins do imposto de renda, desde que tal ágio esteja justificado por laudo de avaliação expedido por empresa especializada independente com base em rentabilidade futura. 22.Para a decisão paradigmática, a incorporação de ações constitui forma de alienação em sentido amplo, havendo efetiva transferência de titularidade das ações. O preço de emissão das ações pela incorporadora representa o custo de aquisição para fins fiscais. A decisão considerou que o custo suportado pela incorporadora se manifesta pela diluição da participação dos acionistas originais, que passam a compartilhar o controle e os resultados futuros da companhia com os novos acionistas ingressantes. O Acórdão validou a utilização do preço de mercado das ações incorporadas como base para fixação do preço de emissão das novas ações, Fl. 2926DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 10 desde que fundamentado em laudo de avaliação. O Acórdão de Embargos 1402-003.576 foi ainda mais explícito ao acolher o laudo de avaliação apresentado, que atribuiu às ações da Cia SAT Participações valor de R$ 241.266.856,03, considerando-o suficiente para comprovar o custo de aquisição. 23.Em síntese, o Acórdão 1402-002.323 equiparou a incorporação de ações a operações de aquisição onerosa, reconhecendo haver efetiva alienação das ações incorporadas e correspondente aquisição pela incorporadora. Fundamentou-se na transmissão de titularidade prevista no artigo 9º da Lei 6.404 de 1976 e em precedente da própria Câmara Superior de Recursos Fiscais (Acórdão 9202-00.662) que reconheceu a incorporação de ações como forma de alienação para fins de tributação de ganho de capital. Quanto ao conceito de custo de aquisição, adotou conceito mais amplo, entendendo que o custo pode manifestar-se de diversas formas, não apenas por desembolso financeiro. Considerou que o preço de emissão das ações representa o custo suportado, na medida em que os acionistas originais da incorporadora sofrem diluição de sua participação e passam a dividir o patrimônio e os resultados futuros com os novos sócios. Esse "sacrifício" pela diluição seria suficiente para caracterizar o custo de aquisição. 24.Infere-se, pois, que os acórdãos analisados apresentam fundamentos completamente discrepantes sobre a possibilidade de geração e amortização de ágio em operações de incorporação de ações, não obstante as operações examinadas sejam essencialmente similares em estrutura, valores proporcionais e mecanismo jurídico utilizado. O Acórdão recorrido 1202-001.407 nega a possibilidade de dedução do ágio por entender que não há custo de aquisição na incorporação de ações, tratando-se de mero aumento de capital sem transferência de recursos para terceiros. O Acórdão 1402-002.323 (Alesat), ao contrário, reconhece a incorporação de ações como forma de aquisição onerosa e admite a dedutibilidade do ágio, considerando o preço de emissão das ações como custo de aquisição válido. 25.Por derradeiro, registre-se que esses mesmos paradigmas (1201-003.202 e 1402- 002.323/1402-003.576) foram admitidos por esta Turma por decisão unânime no Acórdão nº 9101-007.299, sob a relatoria da Conselheira Maria Carolina Maldonado Mendonça Kraljevic, referente a processo envolvendo as mesmas partes e operações (anos-calendário de 2014 a 2016)1. 26.Por conseguinte, evidencia-se a dissidência interpretativa, autorizando o trânsito do Recurso Especial em relação à primeira matéria. DA DEDUTIBILIDADE DO ÁGIO NA BASE DE CÁLCULO DA CSLL 27.A decisão a quo negou provimento ao Recurso Voluntário quanto à dedução do ágio na base de cálculo da CSLL, apoiando-se em jurisprudência consolidada da CSRF, 1 J. 12.03.2025. Participaram da sessão de julgamento os julgadores Edeli Pereira Bessa, Luis Henrique Marotti Toselli, Luiz Tadeu Matosinho Machado, Maria Carolina Maldonado Mendonça Kraljevic, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Heldo Jorge dos Santos Pereira Júnior, Jandir José Dalle Lucca e Fernando Brasil de Oliveira Pinto (Presidente em exercício). Fl. 2927DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 11 especialmente nos fundamentos do voto proferido pela Conselheira Adriana Gomes Rego no Acórdão nº 9101-002.310. 28.Ressalta a aplicação do princípio da neutralidade tributária da avaliação de investimentos pelo método da equivalência patrimonial (MEP), conforme estabelecido no Decreto-Lei nº 1.598, de 1977. Este diploma legal determina que os efeitos da avaliação de investimentos pelo MEP devem ser neutros para fins tributários, incluindo especificamente a amortização do ágio ou deságio, conforme disposto no artigo 25. 29.Esclarece-se que o referido Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, embora anterior à criação da CSLL (instituída pela Lei 7.689, de 1988), cumpre função estruturante no regramento da avaliação de investimentos pelo MEP, estabelecendo regras de contabilização que asseguram a neutralidade de seus efeitos na determinação do lucro tributável. Esta neutralidade não se restringe ao IRPJ, aplicando-se igualmente à apuração da CSLL. 30.Indica que a neutralidade da amortização do ágio constitui consequência lógica da neutralidade do MEP em si, uma vez que o ágio representa desdobramento do investimento, e sua amortização tem o condão de reduzi-lo. Admitir a dedutibilidade da despesa com amortização do ágio conduziria, por raciocínio inverso, à tributação da receita decorrente da amortização do deságio, o que não seria razoável nem vem sendo exigido pela fiscalização. 31.Respalda-se no artigo 2º da Lei nº 7.689, de1988, cujos itens 1 e 4 da alínea "c" do §1º determinam a adição do resultado negativo e a exclusão do resultado positivo decorrentes da avaliação de investimentos pelo MEP, plasmando a neutralidade dessa avaliação em relação à CSLL. 32.Por fim, faz citação à Instrução Normativa SRF nº 390, de 2004, que expressamente estabelece em seu artigo 44 a aplicação à CSLL das normas relativas à amortização previstas na legislação do IRPJ, exceto quanto à depreciação acelerada incentivada, reforçando a indedutibilidade da amortização do ágio na base de cálculo da contribuição social. 33.Pois bem, a possibilidade da dedução do ágio na base de cálculo da CSLL também foi objeto de recente apreciação por essa Turma no Acórdão nº 9101-007.299, em que os mesmos paradigmas ora invocados (9101-005.773 e 9101-005.894) foram admitidos como representativos de dissonância jurisprudencial. 34.Tendo isso em vista e por concordar com o juízo prévio de admissibilidade, constato a divergência jurisprudencial e conheço do recurso também quanto à segunda matéria. MÉRITO AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO NA INCORPORAÇÃO DE AÇÕES 35.Cuida-se de litígio envolvendo a determinação da natureza jurídica e dos efeitos fiscais da operação de incorporação de ações realizada pela Recorrente, especificamente se tal modalidade societária pode gerar ágio fiscalmente amortizável. Fl. 2928DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 12 36.A fiscalização, com a chancela do Acórdão recorrido, sustenta, essencialmente, que a incorporação de ações não gerou um custo de aquisição efetivo para a incorporadora (Recorrente). Segundo essa linha de entendimento, a operação configuraria apenas uma relação de troca de ações ou uma mera exteriorização contábil de mais-valia, sem transferência de recursos para terceiros ou sacrifício patrimonial por parte da adquirente, culminando em um "ágio artificial" ou escritural. Consequentemente, o valor que o contribuinte almeja amortizar não corresponderia ao custo exigido pelo artigo 20 do Decreto-Lei nº 1.598, de 1977. 37.Sucede, todavia, que contrariamente a esta interpretação, os fundamentos que respaldam a dedutibilidade do ágio em casos de incorporação de ações são vastos e demonstram a ocorrência de um sacrifício patrimonial real e coerente com a legislação tributária. 38.A incorporação de ações é um instituto jurídico típico do direito societário (previsto no art. 252 da Lei nº 6.404, de 19762) cuja finalidade é transformar a incorporada em subsidiária integral da incorporadora. Em termos práticos, tal operação implica a aquisição de participação societária pela incorporadora. 39.O argumento de que inexiste "efetivo pagamento" ou "desembolso de caixa" é refutado pela natureza da transação. O custo de aquisição não está limitado à contraprestação em dinheiro (numerário). Neste tipo de operação, o pagamento do ágio é representado, precisamente, pelo preço de emissão das novas ações da incorporadora e sua subsequente transferência aos antigos titulares das ações incorporadas. 40.O sacrifício econômico para fins fiscais, que comprova a efetividade da transação e afasta a alegação de ágio artificial, reside na tributação do ganho de capital que recai sobre os sócios da empresa incorporada (alienantes). A incorporação de ações a valor de mercado, portanto, é considerada uma forma de alienação em sentido amplo, sujeita à apuração de ganho de capital na ponta dos sócios. A mesma base que serviu para a tributação dos antigos sócios é que se torna a base de dedução na empresa que amortizará o ágio. Efetivamente, nos termos do artigo 7º da mencionada Lei nº 6.404, de 1976, “o capital social poderá ser formado com contribuições em dinheiro ou em qualquer espécie de bens suscetíveis de avaliação em dinheiro”, ou seja, não há necessidade de que a aquisição de participações somente ocorra em dinheiro, podendo também se dar por meio de bens suscetíveis de avaliação em dinheiro, como é o caso. 41.Permitir a amortização fiscal do ágio decorrente da incorporação de ações, quando estas são avaliadas a valor de mercado, não gera incoerências do ponto de vista pragmático. Ao contrário, esta opção legal provoca um deslocamento da tributação: a empresa incorporadora obtém um benefício fiscal diferido (amortização em 60 meses ou mais), enquanto os sócios arcam com o pagamento imediato do ganho de capital. Essa realização da perda de capital pela incorporadora, diferida pela Lei nº 9.532, de 1997, é o que justifica a amortização. 2 L. 6.404/76: “Art. 252. A incorporação de todas as ações do capital social ao patrimônio de outra companhia brasileira, para convertê-la em subsidiária integral, será submetida à deliberação da assembléia- geral das duas companhias mediante protocolo e justificação, nos termos dos artigos 224 e 225. (...)” Fl. 2929DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 13 42.Deste modo, a operação em análise cumpriu o requisito do custo de aquisição, sendo este o valor atribuído às ações incorporadas, inclusive se for o de mercado, que passará a constituir o seu valor contábil e fiscal. 43.Neste sentido, a orientação jurisprudencial deste Sodalício consolidou-se no sentido de que a operação de incorporação de ações é capaz de gerar acréscimo patrimonial para a vendedora e, consequentemente, ágio para a adquirente, como exemplifica a ementa do Acórdão nº 9101-007.299, que apreciou litígio entre as mesmas partes e confrontou as mesmas operações: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica – IRPJ Ano-calendário: 2014, 2015, 2016 ÁGIO. AMORTIZAÇÃO FISCAL. OPERAÇÃO DE INCORPORAÇÃO DE AÇÕES. POSSIBILIDADE. O fato de o ágio ter surgido em uma operação de incorporação de ações, por si só, não afasta a possibilidade de sua amortização fiscal. Na incorporação de ações, o “desembolso” ou “sacrifício econômico” corresponde ao valor atribuído às ações incorporadas, substituídas pelas ações da incorporadora. Assim, o custo de aquisição do investimento, para a incorporadora, é o valor das ações da incorporadas e, caso esse custo seja superior ao valor patrimonial da empresa incorporada, a diferença será ágio, que poderá ter por fundamentação a expectativa de rentabilidade futura da empresa incorporada. (...) 44.Entretanto, verifica-se que a decisão recorrida teve um escopo bastante específico. O Relator, reportando-se à decisão de 1ª instância, expressamente consignou que "foi desconsiderada a motivação do procedimento fiscal num suposto incorreto registro do fundamento econômico do ágio com desobediência a uma suposta ordem na aplicação dos dispositivos que estabelecem esses fundamentos, na imprestabilidade do laudo e também na suposta ausência de fundamentação econômica". Isso porque, dentre os diversos requisitos alegadamente descumpridos pela fiscalização, a DRJ manteve a autuação, no ponto que interessa para a presente análise, fundamentada essencialmente na questão da ausência de custo de aquisição na incorporação de ações, afastando os demais vícios que haviam sido invocados no Termo de Verificação Fiscal. 45.O voto condutor então afirma, categoricamente: "Quanto ao requisito descumprido, tem origem no entendimento de que a incorporação das ações da Bovespa Holding pela recorrente, nos moldes efetuados, não poderia gerar ágio dedutível tendo em vista que não houve ônus financeiro pela adquirente". 46.Portanto, a segunda instância deliberadamente limitou sua análise a um único fundamento, deixando de examinar os demais requisitos para dedutibilidade do ágio que constavam da autuação original. O Termo de Verificação Fiscal havia apontado diversos requisitos supostamente descumpridos pela contribuinte, conforme relatado no acórdão: Primeiro, que o ágio deveria ser apurado segundo o artigo 20 do Decreto-Lei 1.598, de 1977, o que a fiscalização entendeu não ter ocorrido por ausência de custo de aquisição. Fl. 2930DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 14 Segundo, que na absorção do patrimônio deveria ser registrado, prioritariamente, o valor do ágio correspondente aos ativos das alíneas "a" e "c" do §2º do artigo 20 do Decreto-Lei 1.598, de 1977, questão relativa à ordem de aplicação dos fundamentos econômicos. Terceiro, a demonstração cabal da classificação contábil dos valores do ágio segundo seu fundamento econômico, com a fiscalização questionando se os valores de negociação das ações em pregões de bolsa apresentavam a tecnicidade exigida para classificação dos fundamentos econômicos. Quarto, que o ágio deveria ter fundamento na expectativa de rentabilidade com previsão de lucros futuros, tendo a fiscalização questionado a prestabilidade do laudo apresentado e sua relação com o valor efetivamente utilizado para registro contábil. 47.Reformando-se a decisão exclusivamente quanto à impossibilidade jurídica de a incorporação de ações gerar ágio amortizável, restará afastado apenas o fundamento único utilizado pela segunda instância para manter a autuação. Nesse cenário, os demais requisitos originalmente apontados pela fiscalização permanecem sem apreciação pela segunda instância. 48.Desse modo, considerando-se que a reforma quanto à impossibilidade jurídica abstrata de a incorporação de ações gerar ágio não resolve automaticamente todas as questões de fato e de direito envolvidas na dedutibilidade específica do ágio registrado pela Recorrente, é imperioso o retorno dos autos à instância a quo para julgamento completo dos demais requisitos para dedutibilidade do ágio. Caberá à segunda instância examinar se, no caso concreto, foram atendidos os demais requisitos legais para o aproveitamento fiscal dessa despesa, nos limites da matéria trazidos no Recurso Voluntário e nas respectivas contrarrazões, respeitando-se assim o duplo grau de jurisdição administrativa e o direito da contribuinte à ampla apreciação de todos os fundamentos jurídicos aplicáveis à controvérsia. DA DEDUTIBILIDADE DO ÁGIO NA BASE DE CÁLCULO DA CSLL 49.Trata-se da análise da exigência de Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) decorrente da adição de despesas com amortização de ágio, considerada indedutível para fins de Imposto sobre a Renda das Pessoas Jurídicas (IRPJ). 50.O cerne da discussão levantada pela Recorrente reside na alegada ausência de previsão legal específica na legislação da CSLL para a adição da despesa de amortização de ágio considerada indedutível para o IRPJ. Sustenta que, não havendo reprodução literal na legislação da CSLL dos dispositivos que regulam a amortização de ágio para o IRPJ, a glosa efetuada pela fiscalização carece de fundamento legal. 51.O Acórdão recorrido (1202-001.407), no entanto, manteve a glosa, afirmando que a adição à base de cálculo da CSLL encontra amparo nas normas que regem a exigência da referida contribuição. Fl. 2931DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 15 52.O artigo 57 da Lei nº 8.981, de 1995, constitui o alicerce normativo da relação entre a apuração do IRPJ e da CSLL. O dispositivo estabelece, em sua redação vigente, que: Art. 57. Aplicam-se à Contribuição Social sobre o Lucro (Lei nº 7.689, de 1988) as mesmas normas de apuração e de pagamento estabelecidas para o imposto de renda das pessoas jurídicas, inclusive no que se refere ao disposto no art. 38, mantidas a base de cálculo e as alíquotas previstas na legislação em vigor, com as alterações introduzidas por esta Lei. (Redação dada pela Lei nº 9.065, de 1995) § 1º Para efeito de pagamento mensal, a base de cálculo da contribuição social será o valor correspondente a dez por cento do somatório: a) da receita bruta mensal; b) das demais receitas e ganhos de capital; c) dos ganhos líquidos obtidos em operações realizadas nos mercados de renda variável; d) dos rendimentos produzidos por aplicações financeiras de renda fixa. § 2º No caso das pessoas jurídicas de que trata o inciso III do art. 36, a base de cálculo da contribuição social corresponderá ao valor decorrente da aplicação do percentual de nove por cento sobre a receita bruta ajustada, quando for o caso, pelo valor das deduções previstas no art. 29. (Redação dada pela Lei nº 9.065, de 1995) § 3º A pessoa jurídica que determinar o Imposto de Renda a ser pago em cada mês com base no lucro real (art. 35), deverá efetuar o pagamento da contribuição social sobre o lucro, calculando-a com base no lucro líquido ajustado apurado em cada mês. § 4º No caso de pessoa jurídica submetida ao regime de tributação com base no lucro real, a contribuição determinada na forma dos §§ 1º a 3º será deduzida da contribuição apurada no encerramento do período de apuração. 53.A interpretação deste dispositivo exige rigor técnico e deve ser realizada mediante o emprego dos métodos hermenêuticos reconhecidos pela ciência jurídica. Uma leitura açodada poderia sugerir que a expressão "mantidas a base de cálculo e as alíquotas" estabeleceria total independência entre as bases de cálculo dos dois tributos. Contudo, essa interpretação literal e isolada conduziria a conclusões incompatíveis com o sistema tributário nacional e com a própria ratio legis do dispositivo. 54.A expressão "mantidas a base de cálculo e as alíquotas" refere-se à preservação dos percentuais e dos pontos de partida específicos de cada tributo (o lucro líquido contábil antes da provisão para o IRPJ, no caso da CSLL, e o lucro líquido contábil ajustado, no caso do IRPJ), bem como das alíquotas estabelecidas em suas respectivas legislações. Não se trata, portanto, de estabelecer total independência quanto às regras de ajuste e apuração dessas bases. 55.Pelo contrário, quando o legislador determina que se aplicam à CSLL "as mesmas normas de apuração" estabelecidas para o IRPJ, está inequivocamente estabelecendo uma convergência metodológica. O termo "normas de apuração" abrange todo o conjunto de regras, critérios e procedimentos que governam o processo de determinação da base de cálculo tributável, incluindo as regras sobre adições, exclusões, compensações e dedutibilidade de despesas. 56.Essa interpretação sistemática encontra respaldo na própria estrutura da legislação tributária. Ambos os tributos incidem sobre grandezas econômicas similares (o lucro empresarial), possuem fatos geradores conexos e integram o mesmo regime de apuração Fl. 2932DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 16 tributária. Seria ilógico que o legislador, ao determinar a aplicação das mesmas normas de apuração, pretendesse criar sistemas totalmente estanques e desconexos. 57.A convergência metodológica entre IRPJ e CSLL foi ulteriormente reforçada pelo artigo 28 da Lei nº 9.430, de 1996, que dispõe: Art. 28. Aplicam-se à apuração da base de cálculo e ao pagamento da contribuição social sobre o lucro líquido as normas da legislação vigente e as correspondentes aos arts. 1º a 3º, 5º a 14, 17 a 24-B, 26, 55 e 71. (Redação dada pela Lei nº 12.715, de 2012) 58.Este dispositivo representa uma confirmação legislativa expressa de que as normas de apuração do IRPJ previstas na Lei nº 9.430, de 1996, aplicam-se também à apuração da base de cálculo da CSLL. O legislador, ao editar este diploma legal, teve a oportunidade de estabelecer tratamento diferenciado, mas optou deliberadamente por manter e reforçar a convergência metodológica. 59.Observe-se que o artigo se refere expressamente à "apuração da base de cálculo", não deixando margem para dúvidas quanto à aplicabilidade das normas de apuração do IRPJ à CSLL. Trata-se de comando normativo claro, direto e imperativo, que vincula os dois tributos em termos de metodologia de apuração. 60.Os artigos da Lei nº 9.430, de 1996, expressamente elencados no art. 28 tratam de matérias relacionadas aos períodos de apuração, pagamento mensal, base de cálculo estimada, lucro real, compensação de prejuízos e outras questões procedimentais essenciais. A remissão a esses dispositivos demonstra inequivocamente que o legislador pretendeu estabelecer um sistema integrado de apuração. 61.A interpretação sistemática dos artigos 57 da Lei nº 8.981, de 1995, e 28 da Lei nº 9.430, de 1996, conduz à conclusão de que o legislador estabeleceu, como regra geral, a convergência metodológica entre IRPJ e CSLL. Essa opção legislativa possui fundamentos lógicos e práticos que merecem ser explicitados. 62.Em primeiro lugar, a convergência metodológica promove racionalidade e eficiência na administração tributária. Permitir que as empresas adotassem critérios completamente distintos para apuração de tributos que incidem sobre a mesma manifestação de riqueza (o lucro empresarial) criaria complexidade desnecessária, multiplicaria os custos de conformidade tributária e dificultaria a fiscalização. 63.Em segundo lugar, a convergência reduz as oportunidades de arbitrariedade tributária e de planejamento fiscal abusivo. Se as regras de dedutibilidade fossem completamente independentes, os contribuintes poderiam estruturar suas operações de modo a maximizar deduções em um tributo sem correspondente impacto no outro, distorcendo a tributação efetiva sobre o lucro. 64.Em terceiro lugar, a convergência reflete a identidade material entre os dois tributos. Embora a CSLL possua fundamento constitucional próprio (art. 195, I, "c", da CF/88) e destinação específica (financiamento da seguridade social), sua base econômica é, Fl. 2933DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 17 essencialmente, o lucro empresarial, tal como no IRPJ. Essa identidade material justifica a adoção de critérios harmonizados de apuração. 65.É importante registrar que a convergência metodológica estabelecida pelos artigos 57 da Lei nº 8.981, de 1995, e 28 da Lei nº 9.430, de 1996, constitui a regra geral do sistema. Exceções a essa regra somente podem ser admitidas quando houver previsão legal expressa estabelecendo tratamento diferenciado para a CSLL. 66.O ágio na aquisição de investimentos em sociedades coligadas ou controladas constitui elemento patrimonial que recebe tratamento específico na legislação tributária. Os artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, em conjunto com os artigos 385 e 386 do RIR/99 (artigos 421 e 433 do RIR/18), estabelecem as condições e requisitos para a dedutibilidade fiscal da amortização do ágio. 67.De acordo com essa legislação, a amortização do ágio somente pode ser deduzida da base de cálculo do IRPJ quando ocorre evento de confusão patrimonial (incorporação, fusão ou cisão) e desde que preenchidos determinados requisitos, entre os quais: a) aquisição efetiva de participação societária em sociedade coligada ou controlada, b) fundamentação econômica do ágio (rentabilidade futura, valor de mercado de ativos, intangíveis, etc.), c) laudo de avaliação elaborado por perito independente ou entidade especializada, d) observância dos limites temporais e percentuais de amortização estabelecidos em lei. 68.Quando esses requisitos não são atendidos, a despesa de amortização de ágio é considerada indedutível para fins de IRPJ, devendo ser adicionada ao lucro líquido contábil para determinação do lucro real. Essa é a hipótese dos presentes autos, conforme defendido pela fiscalização e confirmado pela instância a quo. 69.A Recorrente sustenta que a ausência de dispositivo na legislação da CSLL reproduzindo os artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997 (que estabelecem as condições para amortização do ágio no IRPJ), implicaria a impossibilidade de glosar a amortização de ágio na apuração da CSLL. 70.Essa argumentação não se sustenta diante do arcabouço normativo da convergência metodológica anteriormente exposto. Os artigos 57 da Lei nº 8.981, de 1995, e 28 da Lei nº 9.430, de 1996, estabelecem que as normas de apuração do IRPJ aplicam-se à CSLL. Não há necessidade de reprodução literal de cada dispositivo na legislação da CSLL, pois a própria lei determina a aplicação conjunta das normas. 71.As regras sobre amortização de ágio constituem inequivocamente "normas de apuração" no sentido empregado pelos indigitados artigos 57 e 28. Elas definem critérios para reconhecimento de despesas dedutíveis, estabelecem requisitos para dedutibilidade e determinam procedimentos de controle fiscal. Portanto, enquadram-se perfeitamente no conceito de normas de apuração aplicáveis tanto ao IRPJ quanto à CSLL. Fl. 2934DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 18 72.Pelo exposto, reitera-se que o princípio da dedutibilidade ou indedutibilidade da despesa de amortização de ágio deve seguir a mesma regra para IRPJ e CSLL, por força dos artigos 57 da Lei nº 8.981, de 1995, e 28 da Lei nº 9.430, de 1996. 73.Por via de consequência, nego provimento ao recurso quanto à matéria “inexistência de previsão legal para a adição à base de cálculo da CSLL da despesa com a amortização de ágio considerada indedutível”. CONCLUSÃO 74.Ante o exposto, conheço do Recurso Especial e, no mérito, dou parcial provimento quanto à matéria “possibilidade de geração e amortização do ágio na incorporação de ações – efetivo custo de aquisição – 1º requisito”, com retorno dos autos ao colegiado a quo para o fim de reformar a premissa da decisão recorrida quanto à impossibilidade jurídica de a incorporação de ações gerar ágio amortizável, proferindo nova decisão com exame dos demais requisitos para dedutibilidade do ágio. Assinado Digitalmente Jandir José Dalle Lucca VOTO VENCEDOR Conselheira Edeli Pereira Bessa, redatora designada O I. Relator restou vencido quanto aos fundamentos de seu voto de mérito. A maioria do Colegiado compreendeu: i) que o provimento parcial do recurso especial da Contribuinte, com retorno, na matéria “possibilidade de geração e amortização do ágio na incorporação de ações – efetivo custo de aquisição – 1º requisito”, também demandaria nova apreciação pelo Colegiado a quo do fato de a contrapartida do ágio ter sido registrada em conta de “Reserva de Capital”, bem como ii) que a negativa de provimento ao recurso especial da Contribuinte na matéria “inexistência de previsão legal para a adição à base de cálculo da CSLL da despesa com a amortização de ágio considerada indedutível” não estaria pautada no art. 57 da Lei nº 8.981/95. Como bem exposto pelo I. Relator, no âmbito da matéria “possibilidade de geração e amortização do ágio na incorporação de ações – efetivo custo de aquisição – 1º requisito”, a maioria deste Colegiado entendeu ser necessário apreciar se operação de incorporação de ações poderia gerar ágio fiscalmente amortizável e, neste âmbito, reformou a premissa do Colegiado a quo de que, nas palavras do I. Relator, não haveria, em tais operações, custo de aquisição em seu conceito econômico. Fl. 2935DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 19 Contudo, o conhecimento do recurso especial, neste ponto, se deu com a rejeição da compreensão expressa no voto declarado por esta Conselheira, de que o Colegiado a quo teria concluído pela inexistência de ônus financeiro pela adquirente por concordar com a acusação fiscal de que o valor contabilizado pela Contribuinte como ágio teria contrapartida em Reserva de Capital e não em Capital Social. Significa dizer que o dissídio jurisprudencial foi admitido e solucionado em premissa anterior: nas palavras do I. Relator, apenas quanto à possibilidade jurídica abstrata de a incorporação de ações gerar ágio. Assim sendo, uma vez superada a premissa de que não seria possível a geração de ágio fiscalmente amortizado no âmbito de operação de incorporação de ações, o retorno dos autos ao Colegiado a quo se impõe, também, para apreciação dos demais argumentos da acusação fiscal que se opõem à formação de ágio amortizado diante dos contornos específicos da incorporação de ações aqui promovida. Tais argumentos, como exposto no voto declarado por esta Conselheira, foram refutados na decisão de 1ª instância – em trecho não reproduzido no voto condutor do acórdão recorrido – e estão confrontados em recurso voluntário, nos termos aqui também transcritos: 138. Na presente situação, a aquisição se deu, reitere-se, por meio de uma incorporação de ações. O custo de aquisição (custo histórico) desse ativo é o valor das ações incorporadas, registrado como investimento no ativo da sociedade incorporadora, e tendo como contrapartida em seu passivo a importância de R$ 1,526 bilhões, registrada na conta de capital social, e R$ 16,415 bilhões, registrados na conta de reserva de capital (lembrando-se que capital social e reserva de capital representam a assunção de dívida da pessoa jurídica para com os sócios). 139. Frise-se, por oportuno, que o fundamento do valor atribuído à operação decorreu da expectativa de rentabilidade futura do investimento, consoante abordado no Laudo de Rentabilidade Futura aprovado pelas assembleias gerais da incorporadora e da incorporada, mencionado acima. Ou seja, não se trata de uma reavaliação de ativos, como aduzido no TVF (equivocadamente, mais uma vez), mas do preço do negócio acordado entre as partes, segundo o critério definido pelos acionistas da incorporadora, que acreditavam na rentabilidade futura das ações incorporadas, e devidamente suportado por laudo de avaliação elaborado por auditoria independente. 140. Nesse ponto, convém esclarecer que a Fiscalização se equivoca ao negar à Recorrente a possibilidade de registrar parte do custo de aquisição das ações da Bovespa Holding em conta de reserva de capital3. Com efeito, a contrapartida do pagamento do preço na incorporação de ações será o aumento do patrimônio líquido, que poderá ser (i) por aumento de capital ou (ii) pela constituição de 3 Nesse sentido, veja-se: “O artigo 252 da Lei nº 6.404/76 nas incorporações de Ações, determina que ocorra o aumento de capital da companhia incorporadora e não o aumento das Reservas de Capital.” (fl. 8 do TVF) Fl. 2936DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 20 reserva de capital. Trata-se de uma opção societária prevista no artigo 182 da Lei das S/A4. 141. Especificamente sobre o intento fiscal de impossibilitar o registro de parte do custo de aquisição das ações da Bovespa Holding em conta de reserva de capital, nota-se que a pretensão da Autoridade Fiscal e da Turma Julgadora não só carece de fundamentação legal, como também defronta com o entendimento do E. CARF: Assim, nos termos do art. 14, da Lei 6.404/76, para o caso de ações sem valor nominal, o preço de emissão de ações é fixado em assembleia geral, a qual decide se parte de seu valor será destinado à formação de reserva de capital, não havendo, na legislação, o estabelecimento de montante mínimo ou máximo a ser direcionada à referida reserva, cabendo à assembleia geral a decisão nesta parte. (Acórdão n° 1402-003.576 – g.n.) 142. Destaque-se, ainda, que a legislação tributária não traz qualquer restrição quanto aos critérios de precificação para fins de realização de operações de incorporação de ações. Também não traz qualquer restrição quanto à possibilidade de avaliação dessas ações ser feita com fundamento na expectativa de rentabilidade futura, suportado por laudo de avaliação de empresa especializada5. 143. Portanto, verifica-se que a Recorrente, ao adquirir as ações da Bovespa Holding por meio de incorporação de ações, efetuou o registro contábil pelo custo de aquisição/custo original (R$ 17,94 bilhões), correspondente ao valor pago na aquisição (custo histórico). A manutenção do custo de aquisição na contabilidade da Recorrente, nos exercícios subsequentes, demonstra a adoção do critério do custo histórico. (destaques do original) Assim, para além dos demais fundamentos da acusação fiscal para glosa do ágio amortizado, afastados em 1ª instância de julgamento sem que o Colegiado a quo se manifestasse acerca deste afastamento no acórdão recorrido, e que são motivo para retorno destes autos na forma exposta pelo I. Relator, necessário se faz que o Colegiado a quo se manifeste, também, acerca do fato de a contrapartida do ágio ter sido registrada em conta de “Reserva de Capital”. Estes os fundamentos, portanto, para DAR PROVIMENTO PARCIAL ao recurso especial da Contribuinte, com retorno ao Colegiado a quo. Com respeito à “inexistência de previsão legal para a adição à base de cálculo da CSLL da despesa com a amortização de ágio considerada indedutível”, cabe inicialmente esclarecer 4 “Art. 182. A conta do capital social discriminará o montante subscrito e, por dedução, a parcela ainda não realizada. § 1º Serão classificadas como reservas de capital as contas que registrarem: a) a contribuição do subscritor de ações que ultrapassar o valor nominal e a parte do preço de emissão das ações sem valor nominal que ultrapassar a importância destinada à formação do capital social (...);” (g.n.) 5 É importante mencionar, a título ilustrativo, que a previsão de conferência de bens, a valor de mercado, para fins de integralização de capital, é expressamente permitida às pessoas físicas, nos termos do artigo 23 da Lei nº 9.249/1995: “Art. 23. As pessoas físicas poderão transferir a pessoas jurídicas, a título de integralização de capital, bens e direitos pelo valor constante da respectiva declaração de bens ou pelo valor de mercado.” (g.n.) Fl. 2937DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 21 que a divergência jurisprudencial suscitada pela Contribuinte pretendia a declaração de inexigibilidade da CSLL ainda que considerada indedutível a amortização do ágio em discussão na apuração do lucro real. Por esta razão, este Colegiado compreendeu que a matéria era dotada de autonomia suficiente para ser solucionada, apesar de, na matéria principal, ter sido determinado o retorno dos autos ao Colegiado a quo para apreciação dos demais fundamentos contrários à dedutibilidade do ágio escriturado. Com base nos fundamentos que serão a seguir expostos, restou firmado que a CSLL aqui lançada deverá subsistir caso a despesa com amortização de ágio, no retorno ao Colegiado a quo, seja considerada indedutível. Ou seja, a exigência de CSLL foi validada, apenas, sob a ótica de que a legislação tributária impõe que a mesma solução dada à dedutibilidade das amortizações de ágio no lucro real seja estendida à dedutibilidade de tais parcelas na base de cálculo da CSLL. A CSLL lançada, portanto, somente será exigível se, na apreciação dos demais fundamentos para glosa das amortizações do ágio escriturado, for confirmada sua indedutibilidade na apuração do lucro tributável. Quanto aos fundamentos da negativa de provimento ao recurso especial, a maioria do Colegiado discorda do I. Relator especialmente em face do relevo conferido ao art. 57 da Lei nº 8.981/95 para equivalência entre as bases de cálculo do IRPJ e da CSLL. A glosa da amortização de ágio na apuração da base de cálculo da CSLL decorreu, aqui, da inobservância dos requisitos expressos nos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997 – refletidos no art. 386 do RIR/99 –, e neste contexto cabe reiterar o entendimento desta Conselheira contrário à existência de qualquer especificidade a ensejar resultado diferenciado na apuração da base de cálculo da CSLL decorrente da glosa de amortização de ágio que reduza indevidamente o lucro tributável do sujeito passivo, expresso no voto vencedor do Acórdão nº 9101-006.1646. Isto porque a figura do ágio surge, em regra, no momento da aquisição do investimento, quando seu custo de aquisição é confrontado com a correspondente parcela do patrimônio líquido da investida e mostra-se superior a ela. Assim, sua formação decorre, necessariamente, da adoção do método de equivalência patrimonial para avaliação de investimentos. E, neste ponto, nota-se que a legislação, ao disciplinar a forma como seriam registrados os investimentos permanentes em coligadas ou controladas, não tratou especificamente daquela figura. Originalmente, o Decreto-lei nº 2.627, de 1940, adotava apenas o custo de aquisição como regra para valoração de investimentos: 6 Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Edeli Pereira Bessa, Livia De Carli Germano, Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Luis Henrique Marotti Toselli, Luiz Tadeu Matosinho Machado, Alexandre Evaristo Pinto, Gustavo Guimaraes da Fonseca, Carlos Henrique de Oliveira (Presidente) e divergiram na matéria os Conselheiros Lívia De Carli Germano (relatora), Luis Henrique Marotti Toselli e Alexandre Evaristo Pinto. Fl. 2938DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 22 Art. 129. No fim de cada ano ou exercício social, proceder-se-á a balanço geral, para a verificação dos lucros ou prejuízos. Parágrafo único. Feito o inventário do ativo e passivo, a estimação do ativo obedecerá às seguintes regras: a) os bens, destinados à exploração do objeto social, avaliar-se-ão pelo custo de aquisição. Na avaliação dos que se desgastam ou depreciam com o uso ou pela ação ao tempo ou de outros fatores, atender-se-á à desvalorização respectiva, devendo ser criados fundos de amortização para assegurar-lhes a substituição ou a conservação do valor; b) os valores mobiliários, matéria prima, bens destinados à alienação, ou que constituem produtos ou artigos da indústria ou comércio da sociedade, podem ser estimados pelo custo de aquisição ou de fabricação, ou pelo preço corrente no mercado ou Bolsa. Prevalecerá o critério da estimação pelo preço corrente, sempre que este for inferior ao preço do custo. Quando o preço corrente ou venal estiver acima do valor do custo de aquisição ou fabricação, se avaliados os bens pelo preço corrente, a diferença entre este e o preço do custo não será levada em conta para a distribuição de dividendos, nem para as percentagens referentes aos fundos de reserva; [...] (negrejou-se) A Lei nº 6.404, de 1976, alterou significativamente este contexto, ao instituir a avaliação de investimentos com base no patrimônio líquido da investida. O tema foi assim abordado em sua Exposição de Motivos: Na avaliação, no balanço patrimonial, de investimento considerado relevante, o princípio geral do custo de aquisição, atualizado monetariamente, não é critério adequado, porque não reflete as mutações ocorridas no patrimônio da sociedade coligada ou controlada. Daí as normas do artigo 249 que impõem, nos casos que especifica, a avaliação com base no patrimônio líquido. Quando esses investimentos correspondem a parcela apreciável dos recursos próprios da companhia, nem mesmo o critério de avaliação com base no patrimônio líquido é suficiente para informar acionistas e credores sobre a sua situação financeira: somente a elaboração de demonstrações financeiras consolidadas, segundo as normas constantes do artigo 251, poderá proporcionar esse conhecimento. [...] Os critérios de avaliação do ativo (art. 184) são os da lei atual, com as seguintes inovações: [...]; b) o custo de aquisição dos investimentos em outras sociedades deverá ser deduzido das perdas prováveis na realização do seu valor e não será modificado Fl. 2939DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 23 pelo recebimento de ações ou quotas bonificadas; mas os investimentos relevantes em coligadas e controladas deverão ser avaliados pelo valor de patrimônio líquido (nº II); (negrejou-se) A Lei nº 6.404, de 1976, por sua vez, estava assim redigida, em seu texto original: Art. 183. No balanço, os elementos do ativo serão avaliados segundo os seguintes critérios: [...] III - os investimentos em participação no capital social de outras sociedades, ressalvado o disposto nos artigos 248 a 250, pelo custo de aquisição, deduzido de provisão para perdas prováveis na realização do seu valor, quando essa perda estiver comprovada como permanente, e que não será modificado em razão do recebimento, sem custo para a companhia, de ações ou quotas bonificadas; [...] § 2º A diminuição de valor dos elementos do ativo imobilizado será registrada periodicamente nas contas de: [...] b) amortização, quando corresponder à perda do valor do capital aplicado na aquisição de direitos da propriedade industrial ou comercial e quaisquer outros com existência ou exercício de duração limitada, ou cujo objeto sejam bens de utilização por prazo legal ou contratualmente limitado; [...] Art. 248. No balanço patrimonial da companhia, os investimentos relevantes (artigo 247, parágrafo único) em sociedades coligadas sobre cuja administração tenha influência, ou de que participe com 20% (vinte por cento) ou mais do capital social, e em sociedades controladas, serão avaliados pelo valor de patrimônio líquido, de acordo com as seguintes normas: I - o valor do patrimônio líquido da coligada ou da controlada será determinado com base em balanço patrimonial ou balancete de verificação levantado, com observância das normas desta Lei, na mesma data, ou até 60 (sessenta) dias, no máximo, antes da data do balanço da companhia; no valor de patrimônio líquido não serão computados os resultados não realizados decorrentes de negócios com a companhia, ou com outras sociedades coligadas à companhia, ou por ela controladas; II - o valor do investimento será determinado mediante a aplicação, sobre o valor de patrimônio líquido referido no número anterior, da porcentagem de participação no capital da coligada ou controlada; Fl. 2940DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 24 III - a diferença entre o valor do investimento, de acordo com o número II, e o custo de aquisição corrigido monetariamente; somente será registrada como resultado do exercício: a) se decorrer de lucro ou prejuízo apurado na coligada ou controlada; b) se corresponder, comprovadamente, a ganhos ou perdas efetivos; c) no caso de companhia aberta, com observância das normas expedidas pela Comissão de Valores Mobiliários. § 1º Para efeito de determinar a relevância do investimento, nos casos deste artigo, serão computados como parte do custo de aquisição os saldos de créditos da companhia contra as coligadas e controladas. § 2º A sociedade coligada, sempre que solicitada pela companhia, deverá elaborar e fornecer o balanço ou balancete de verificação previsto no número I. (negrejou- se) [...] Art. 250. Das demonstrações financeiras consolidadas serão excluídas: I - as participações de uma sociedade em outra; II - os saldos de quaisquer contas entre as sociedades; III - as parcelas dos resultados do exercício, dos lucros ou prejuízos acumulados e do custo de estoques ou do ativo permanente que corresponderem a resultados, ainda não realizados, de negócios entre as sociedades. [...] § 2º A parcela do custo de aquisição do investimento em controlada, que não for absorvida na consolidação, deverá ser mantida no ativo permanente, com dedução da provisão adequada para perdas já comprovadas, e será objeto de nota explicativa. § 3º O valor da participação que exceder do custo de aquisição constituirá parcela destacada dos resultados de exercícios futuros até que fique comprovada a existência de ganho efetivo. [...] (negrejou-se) Nestes termos, os investimentos avaliados pelo custo de aquisição, em determinadas circunstâncias, poderiam ser ajustados por provisão de perdas prováveis em sua realização, mas o regramento da avaliação de investimentos por equivalência patrimonial não cogitava de destaque semelhante, mas equivalente ao ágio pago na aquisição do investimento. Por sua vez, a amortização prevista em razão da diminuição de valor dos elementos do ativo Fl. 2941DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 25 imobilizado ficou restrita a direitos de propriedade industrial ou comercial ou outros bens e direitos com duração ou utilização contratual limitadas, distintos, portanto, dos investimentos permanentes em outras sociedades. Significa dizer que o investimento avaliado por equivalência patrimonial deveria ser registrado pelo custo de aquisição e, no momento do balanço patrimonial da investidora, seria confrontado com o equivalente patrimônio líquido da investida, sendo a diferença registrada como resultado do exercício, mas somente se decorrente de resultados da investida e ganhos ou perdas efetivos, ou em razão de determinações da Comissão de Valores Mobiliários. Evidência de que o ágio permanecia integrando o custo de aquisição do investimento em tais circunstâncias são as determinações do art. 250, §§2o e 3o da Lei nº 6.404, de 1976, que revelam o tratamento a ser dado às diferenças positivas e negativas entre o custo do investimento avaliado por equivalência patrimonial e o correspondente patrimônio da investida em caso de consolidação de balanços. Na mesma linha é a abordagem contida em edição antiga do Manual de Contabilidade das Sociedades por Ações (IUDÍCIBUS, Sérgio; MARTINS, Eliseu; GELBCKE, Ernesto Rubens. 3ª edição. Editora Atlas. São Paulo, 1991: pág. 248): Ao comprar ações de uma empresa que serão avaliadas pelo método da equivalência patrimonial, deve-se, já na ocasião da compra, segregar na contabilidade o preço total de custo em duas subcontas distintas, ou seja, o valor da equivalência patrimonial numa subconta e o valor do ágio (ou deságio) em outra subconta. A lei das S.A., na verdade, não abordou esse tratamento contábil especificamente; todavia, ele está de acordo com adequada técnica contábil e expresso ainda na legislação fiscal, através do art. 259 do RIR (Decreto nº 85.450, de 04-12-80) e na Instrução CVM nº 01, itens XX e XXV. A subconta relativa ao ágio ou deságio deve figurar no próprio grupo de investimentos, sendo que a instrução CVM nº 01 estabelece que, para fins do Balanço Patrimonial, os saldos de ambas as contas devem estar agrupados no Ativo Permanente. Somente com a edição do Decreto-lei nº 1.598, de 1977 surge a primeira determinação legal para que as pessoas jurídicas submetidas à tributação pelo lucro real, sociedades anônimas ou não, promovam o desdobramento do custo de aquisição do investimento avaliado por equivalência patrimonial, destacando o ágio ou deságio correspondente e apresentando seu fundamento econômico. Neste sentido são as disposições de seu art. 20: Art. 20 - O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em: I - valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo 21; e Fl. 2942DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 26 II - ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o número I. § 1º - O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento. § 2º - O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico: a) valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; b) valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; c) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º - O lançamento com os fundamentos de que tratam as letras a e b do § 2º deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração. § 4º - As normas deste Decreto-lei sobre investimentos em coligada ou controlada avaliados pelo valor de patrimônio líquido aplicam-se às sociedades que, de acordo com a Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976, tenham o dever legal de adotar esse critério de avaliação, inclusive as sociedades de que a coligada ou controlada participe, direta ou indiretamente, com investimento relevante, cuja avaliação segundo o mesmo critério seja necessária para determinar o valor de patrimônio líquido da coligada ou controlada. (negrejou-se) A amortização contábil do ágio, por sua vez, é implicitamente admitida no art. 25 do Decreto-lei nº 1.598, de 1977, mas sua dedução no lucro real é postergada para o momento da alienação do investimento, nos termos do seu art. 33: Art. 25 - O ágio ou deságio na aquisição da participação, cujo fundamento tenha sido a diferença entre o valor de mercado e o valor contábil dos bens do ativo da coligada ou controlada (art. 20, § 2º, letra a), deverá ser amortizado no exercício social em que os bens que o justificaram forem baixados por alienação ou perecimento, ou nos exercícios sociais em que seu valor for realizado por depreciação, amortização ou exaustão. § 1º - A contrapartida da amortização do ágio ou deságio nos termos deste artigo somente será computada na determinação do lucro real pela diferença entre o montante da amortização e o da participação do contribuinte: a) no resultado realizado pela coligada ou controlada na alienação ou baixa dos bens do ativo cujo valor tenha constituído o fundamento econômico do ágio ou deságio; ou Fl. 2943DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 27 b) no valor realizado pela coligada ou controlada na depreciação, amortização ou exaustão desses bens. § 2º - As contrapartidas da amortização de ágio ou deságio com os fundamentos das letras b e c de § 2º de artigo 20 não serão computadas na determinação do lucro real, ressalvado o disposto no artigo 33. [...] Art. 33 - O valor contábil, para efeito de determinar o ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação do investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor de patrimônio líquido (art. 20), será a soma algébrica dos seguintes valores: I - valor de patrimônio líquido pelo qual o investimento estiver registrado na contabilidade do contribuinte; II - saldo não amortizado de ágios ou deságios na aquisição da participação com fundamento na letra a do § 2º do artigo 20; III - ágio ou deságio na aquisição do investimento com fundamento nas letras b e c do § 2º do artigo 20, ainda que tenha sido amortizado na escrituração comercial do contribuinte; IV - provisão para perdas (art. 32) que tiver sido computada na determinação do lucro real. § 1º - Os valores de que tratam os itens II a IV serão corrigidos monetariamente. § 2º - Serão computados na determinação do lucro real: a) como ganho de capital, o acréscimo do valor de patrimônio líquido decorrente de aumento na porcentagem de participação do contribuinte no capital social da coligada ou controlada, resultante de modificação do capital social desta com diluição da participação dos demais sócios; b) como perda de capital, a diminuição do valor de patrimônio líquido decorrente de redução na porcentagem da participação do contribuinte no capital social da coligada ou controlada, em virtude de modificação no capital social desta com diluição da participação do contribuinte. (negrejou-se) Será, assim, a Instrução CVM nº 01, editada posteriormente, em 27/04/1978, que primeiro determinará o registro desta amortização: Desdobramento do custo de aquisição de investimento XX - Para efeito de contabilização, o custo de aquisição de investimento em coligada ou em controlada deverá ser desdobrado e os valores resultantes desse desdobramento contabilizados em sub-contas separadas: Fl. 2944DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 28 a) equivalência patrimonial baseada em balanço patrimonial ou em balancete de verificação levantado até, no máximo, sessenta dias antes da data da aquisição pela investidora ou pela controladora, consoante o disposto no Inciso XI b) ágio ou deságio na aquisição, representado pela diferença para mais ou para menos, respectivamente, entre o custo de aquisição do investimento e a equivalência patrimonial. XXI - o ágio ou deságio computado na ocasião da aquisição do investimento deverá ser contabilizado com indicação do fundamento econômico que o determinou: a) diferença para mais ou para menos entre o valor de mercado de bens do ativo e o valor contábil desses mesmos bens na coligada ou na controlada; b) diferença para mais ou para menos na expectativa de rentabilidade baseada em projeção do resultado de exercícios, futuros; c) fundo de comércio, intangíveis ou outras razões econômicas. XXII - O ágio ou o deságio decorrente da diferença entre o valor de mercado de bens do ativo e o valor contábil na coligada ou na controlada desses mesmos bens deverá ser amortizado na proporção em que for sendo realizado na coligada ou na controlada por depreciação, por amortização ou por exaustão dos bens, ou por baixa em decorrência de alienação ou de perecimento desses mesmos bens. XXIII - O ágio ou o deságio decorrente da expectativa de rentabilidade deverá ser amortizado no prazo e na extensão das projeções que o determinaram ou quando houver baixa em decorrência de alienação ou de perecimento do investimento antes de haver terminado o prazo estabelecido para amortização. XXIV - O ágio decorrente de fundo de comércio, de intangíveis ou de outras razões econômicas, deverá ser amortizado no prazo estimado de utilização, de vigência ou de perda de substância ou quando houver baixa em decorrência de alienação ou de perecimento do investimento antes de haver terminado o prazo estabelecido para amortização. XXV - Na elaboração do balanço patrimonial da investidora ou da controladora, o saldo não amortizado do ágio ou do deságio deverá ser apresentado no ativo permanente, adicionado ou deduzido, respectivamente, da equivalência patrimonial do investimento a que se referir. A provisão para perdas deverá também ser apresentada no ativo permanente por dedução da equivalência patrimonial do investimento a que se referir. (negrejou-se) Resta evidente, portanto, que a amortização contábil do ágio pago na aquisição de investimentos era apenas uma possibilidade no momento da edição do Decreto-lei nº 1.598, de Fl. 2945DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 29 1977, e não estava cogitada na Lei nº 6.404, de 1976. A determinação de que ela fosse apropriada contabilmente surge, apenas, com a manifestação da Comissão de Valores Mobiliários. Dessa forma, é válido concluir que a Lei nº 7.689, de 1988 não cogitava dos efeitos desta amortização quando fixou o resultado do exercício como base de cálculo da CSLL, e determinou os ajustes pertinentes, estes evidentemente expressos em razão do que estabelecido pela Lei nº 6.404, de 1976: Art. 1º Fica instituída contribuição social sobre o lucro das pessoas jurídicas, destinada ao financiamento da seguridade social. Art. 2º A base de cálculo da contribuição é o valor do resultado do exercício, antes da provisão para o imposto de renda. § 1º Para efeito do disposto neste artigo: a) será considerado o resultado do período-base encerrado em 31 de dezembro de cada ano; b) no caso de incorporação, fusão, cisão ou encerramento de atividades, a base de cálculo é o resultado apurado no respectivo balanço; c ) o resultado do período-base, apurado com observância da legislação comercial, será ajustado pela: (Redação dada pela Lei nº 8.034, de 1990) 1 - adição do resultado negativo da avaliação de investimentos pelo valor de patrimônio líquido; (Redação dada pela Lei nº 8.034, de 1990) 2 - adição do valor de reserva de reavaliação, baixada durante o período-base, cuja contrapartida não tenha sido computada no resultado do período-base; (Redação dada pela Lei nº 8.034, de 1990) 3 - adição do valor das provisões não dedutíveis da determinação do lucro real, exceto a provisão para o Imposto de Renda; (Redação dada pela Lei nº 8.034, de 1990) 4 - exclusão do resultado positivo da avaliação de investimentos pelo valor de patrimônio líquido; (Redação dada pela Lei nº 8.034, de 1990) 5 - exclusão dos lucros e dividendos derivados de investimentos avaliados pelo custo de aquisição, que tenham sido computados como receita; (Incluído pela Lei nº 8.034, de 1990) 6 - exclusão do valor, corrigido monetariamente, das provisões adicionadas na forma do item 3, que tenham sido baixadas no curso de período-base. (Incluído pela Lei nº 8.034, de 1990) (negrejou-se) Assim não fosse e o ato normativo da CVM estaria determinando incidência tributária, ou afastando-a. Decorre daí ser desnecessário que a Lei nº 7.689, de 1988 determinasse Fl. 2946DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 30 a adição da amortização de ágio à base de cálculo da CSLL, porque esta dedução não estaria computada no lucro contábil apurado na forma da Lei nº 6.404, de 1976. Para além disso, embora a Lei nº 7.689, de 1988, ao instituir a CSLL, não tenha cogitado especificamente da adição, à sua base de cálculo, de amortizações de ágio que tivessem reduzido o lucro contábil, ou da exclusão de acréscimos decorrentes da amortização de deságio, referida lei, em seu art. 2º, apontou a neutralidade dos resultados de equivalência patrimonial, método do qual decorre o destaque de ágio e deságio em investimentos. Já no âmbito da apuração do lucro real, o Decreto-lei nº 1.598, de 1977, disciplinou os efeitos das amortizações de ágio e deságio, mas em razão do disposto em seu art. 34, a Lei nº 9.532, de 1997 impôs limites à amortização do ágio naqueles casos, alinhando os efeitos fiscais aos contábeis, como a seguir demonstrado. De fato, os efeitos das amortizações de ágio e deságio, à época em que as operações foram realizadas, estavam assim disciplinados no Decreto-lei nº 1.598, de 1977: Art. 23. [...] Parágrafo único - Não serão computadas na determinação do lucro real as contrapartidas de ajuste do valor do investimento ou da amortização do ágio ou deságio na aquisição, nem os ganhos ou perdas de capital derivados de investimentos em sociedades estrangeiras coligadas ou controladas que não funcionem no País. (Incluído pelo Decreto-lei nº 1.648, de 1978). [...] Art. 33 - O valor contábil, para efeito de determinar o ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação do investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor de patrimônio líquido (art. 20), será a soma algébrica dos seguintes valores: I - valor de patrimônio líquido pelo qual o investimento estiver registrado na contabilidade do contribuinte; II - ágio ou deságio na aquisição do investimento, ainda que tenha sido amortizado na escrituração comercial do contribuinte, excluídos os computados, nos exercícios financeiros de 1979 e 1980, na determinação do lucro real. (Redação dada pelo Decreto-lei nº 1.730, 1979) IV - provisão para perdas (art. 32) que tiver sido computada na determinação do lucro real. § 1º - Os valores de que tratam os itens II a IV serão corrigidos monetariamente. § 2º - Não será computado na determinação do lucro real o acréscimo ou a diminuição do valor de patrimônio líquido de investimento, decorrente de ganho ou perda de capital por variação na porcentagem de participação do contribuinte Fl. 2947DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 31 no capital social da coligada ou controlada. (Redação dada pelo Decreto-lei nº 1.648, de 1978). (negrejou-se) Dessa forma, as amortizações de ágio e deságio deveriam ser adicionadas ou excluídas na apuração do lucro real, e controladas na parte B do Livro de Apuração do Lucro Real – LALUR, para posteriormente compor a apuração do ganho de capital na alienação ou liquidação do investimento. Mas, segundo a Lei nº 6.404, de 1976: Art. 219. Extingue-se a companhia: I - pelo encerramento da liquidação; II - pela incorporação ou fusão, e pela cisão com versão de todo o patrimônio em outras sociedades. Nestes termos, por vislumbrar distinção entre a hipótese do inciso II do art. 219 da Lei nº 6.404, de 1976, e de encerramento prevista no inciso I do mesmo dispositivo, esta hábil a ensejar a aplicação do disposto no art. 33 do Decreto-lei nº 1.598, de 1977, o legislador assim fixou na seqüência deste dispositivo: Participação Extinta em Fusão, Incorporação ou Cisão Art 34 - Na fusão, incorporação ou cisão de sociedades com extinção de ações ou quotas de capital de uma possuída por outra, a diferença entre o valor contábil das ações ou quotas extintas e o valor de acervo líquido que as substituir será computado na determinação do lucro real de acordo com as seguintes normas: I - somente será dedutível como perda de capital a diferença entre o valor contábil e o valor de acervo líquido avaliado a preços de mercado, e o contribuinte poderá, para efeito de determinar o lucro real, optar pelo tratamento da diferença como ativo diferido, amortizável no prazo máximo de 10 anos; II - será computado como ganho de capital o valor pelo qual tiver sido recebido o acervo líquido que exceder o valor contábil das ações ou quotas extintas, mas o contribuinte poderá, observado o disposto nos §§ 1º e 2º, diferir a tributação sobre a parte do ganho de capital em bens do ativo permanente, até que esse seja realizado. § 1º O contribuinte somente poderá diferir a tributação da parte do ganho de capital correspondente a bens do ativo permanente se: a) discriminar os bens do acervo líquido recebido a que corresponder o ganho de capital diferido, de modo a permitir a determinação do valor realizado em cada período-base; e b) mantiver, no livro de que trata o item I do artigo 8º, conta de controle do ganho de capital ainda não tributado, cujo saldo ficará sujeito a correção monetária Fl. 2948DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 32 anual, por ocasião do balanço, aos mesmos coeficientes aplicados na correção do ativo permanente. § 2º - O contribuinte deve computar no lucro real de cada período-base a parte do ganho de capital realizada mediante alienação ou liquidação, ou através de quotas de depreciação, amortização ou exaustão deduzidas como custo ou despesa operacional. Nos casos em que a incorporação, fusão ou cisão ocorre em momento próximo à aquisição do investimento com ágio, o valor contábil do investimento é sempre superior ao acervo líquido contábil que substitui as quotas/ações extintas em razão da incorporação, fusão ou cisão, ensejando perda de capital. Para que esta perda fosse dedutível, em interpretação literal do texto, necessário seria que o acervo líquido vertido em razão da incorporação, fusão ou cisão fosse avaliado a preços de mercado. De outro lado, caso atendido este requisito, qualquer ágio apurado na aquisição de investimentos, quando esta fosse seguida de incorporação da investida, ensejaria perda dedutível. A exposição de motivos da Lei nº 9.532, de 1997, expressa preocupação com circunstâncias semelhantes a esta, como a seguir transcrito: O art. 8o estabelece o tratamento tributário do ágio ou deságio decorrente da aquisição, por uma pessoa jurídica, de participação societária no capital de outra, avaliada pelo método da equivalência patrimonial. Atualmente, pela inexistência de regulamentação legal relativa a esse assunto, diversas empresas utilizando dos já referidos “planejamentos tributários”, vêm utilizando o expediente de adquirir empresas deficitárias, pagando ágio pela participação, com a finalidade única de gerar ganhos de natureza tributária mediante o expediente, nada ortodoxo, de incorporação da empresa lucrativa pela deficitária. Com as normas previstas no Projeto, esses procedimentos não deixarão de acontecer, mas, com certeza, ficarão restritos às hipóteses de casos reais, tendo em visto o desaparecimento de toda vantagem de natureza fiscal que possa incentivar a sua adoção exclusivamente por esse motivo. Neste contexto, as disposições da Lei nº 9.532, de 1997, podem ser interpretadas como um instrumento para evitar a dedução do ágio apurado sem fundamento econômico, o qual deveria ser mantido em conta do ativo permanente, não sujeita a amortização, bem como uma forma de parcelar os efeitos tributários do ágio pago sob outros fundamentos: Art. 7º A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no art. 20 do Decreto-Lei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977: (Vide Medida Provisória nº 135, de 30.10.2003) Fl. 2949DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 33 I - deverá registrar o valor do ágio ou deságio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "a" do § 2º do art. 20 do Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, em contrapartida à conta que registre o bem ou direito que lhe deu causa; II - deverá registrar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "c" do § 2º do art. 20 do Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, em contrapartida a conta de ativo permanente, não sujeita a amortização; III - poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "b" do §2° do art. 20 do Decreto-lei n° 1.598, de 1977, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; (Redação dada pela Lei nº 9.718, de 1998) IV - deverá amortizar o valor do deságio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "b" do § 2º do art. 20 do Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados durante os cinco anos- calendários subseqüentes à incorporação, fusão ou cisão, à razão de 1/60 (um sessenta avos), no mínimo, para cada mês do período de apuração. § 1º O valor registrado na forma do inciso I integrará o custo do bem ou direito para efeito de apuração de ganho ou perda de capital e de depreciação, amortização ou exaustão. § 2º Se o bem que deu causa ao ágio ou deságio não houver sido transferido, na hipótese de cisão, para o patrimônio da sucessora, esta deverá registrar: a) o ágio, em conta de ativo diferido, para amortização na forma prevista no inciso III; b) o deságio, em conta de receita diferida, para amortização na forma prevista no inciso IV. § 3º O valor registrado na forma do inciso II do caput: a) será considerado custo de aquisição, para efeito de apuração de ganho ou perda de capital na alienação do direito que lhe deu causa ou na sua transferência para sócio ou acionista, na hipótese de devolução de capital; b) poderá ser deduzido como perda, no encerramento das atividades da empresa, se comprovada, nessa data, a inexistência do fundo de comércio ou do intangível que lhe deu causa. § 4º Na hipótese da alínea "b" do parágrafo anterior, a posterior utilização econômica do fundo de comércio ou intangível sujeitará a pessoa física ou jurídica usuária ao pagamento dos tributos e contribuições que deixaram de ser pagos, acrescidos de juros de mora e multa, calculados de conformidade com a legislação vigente. Fl. 2950DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 34 § 5º O valor que servir de base de cálculo dos tributos e contribuições a que se refere o parágrafo anterior poderá ser registrado em conta do ativo, como custo do direito. No mesmo sentido manifesta-se Luís Eduardo Schoueri, na obra Ágio em Reorganizações Societárias (Aspectos Tributários), Dialética: São Paulo, 2012. Depois de reportar- se à doutrina que se posiciona em sentido contrário, diz o referido autor (p. 67): Tal posicionamento não deixa de ser curioso. Afinal, se anteriormente o ágio era deduzido integralmente, a imposição de restrições não poderia ser considerada um incentivo. A exposição de motivos da Medida Provisória no 1.602/1997 deixou hialino esse instituto de restrição da consideração do ágio como despesa dedutível, mediante a instituição de óbices à amortização de qualquer tipo de ágio nas operações de incorporação. Com isso, o legislador visou limitar a dedução do ágio às hipóteses em que forem acarretados efeitos econômico-tributários que o justificassem. Realizada a incorporação, na escrituração comercial, o acervo líquido recebido pelo valor contábil anula o investimento correspondente, avaliado pela equivalência patrimonial, e remanesce no patrimônio da sociedade resultante apenas o ágio/deságio, classificado em Ativo Diferido, quando fundamentado em rentabilidade futura, para amortização no período pelo qual ela foi projetada. Com a edição da Lei nº 9.532, de 1997, a amortização do ágio com este fundamento passa a ser dedutível, na apuração do lucro tributável, no mesmo momento em que registrada contabilmente, desde que observado o prazo mínimo de 5 (cinco) anos para amortização. Quanto ao ágio fundamentado em ativos ou em outras razões econômicas, a doutrina contábil orienta em sentido semelhante ao da lei, pois no primeiro caso vincula seus efeitos no resultado à realização do ativo incorporado, e no segundo caso determina sua baixa imediata, por não ser possível associar seu pagamento a algum critério que permita dimensionar sua amortização. Neste contexto, embora à primeira vista a Lei nº 9.532, de 1997 aparente surtir efeitos apenas nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, na medida em que esta aproximou-se, no caso de ágio pago por expectativa de rentabilidade futura, da apuração do lucro contábil como antes mencionado, é possível interpretar que a lei, ao valer-se daqueles termos, e não meramente firmar a dedutibilidade da amortização na apuração do lucro real, repercutiria, também, na apuração da base de cálculo da CSLL, inclusive como expresso na Instrução Normativa SRF nº 390, de 2004: Subseção III Do Investimento em Sociedades Coligadas ou Controladas Avaliado pelo Valor de Patrimônio Líquido Da incorporação, fusão ou cisão Fl. 2951DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 35 Art. 75. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no art. 20 do Decreto-lei nº 1.598, de 1977, deverá registrar o valor do ágio ou deságio cujo fundamento econômico seja: I - valor de mercado de bens ou direitos do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade, em contrapartida à conta que registre o bem ou direito que lhe deu causa; II - valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos períodos de apuração futuros, em contrapartida a conta do ativo diferido, se ágio, ou do passivo, como receita diferida, se deságio; III - fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas, em contrapartida a conta do ativo diferido, se ágio, ou do passivo, como receita diferida, se deságio. § 1º Alternativamente, a pessoa jurídica poderá registrar o ágio ou deságio a que se referem os incisos II e III do caput em conta do patrimônio líquido. § 2º A opção a que se refere o § 1º aplica-se, também, à pessoa jurídica que tiver absorvido patrimônio de empresa cindida, na qual tinha participação societária adquirida com ágio ou deságio, com o fundamento de que trata o inciso I do caput, quando não tiver adquirido o bem a que corresponder o referido ágio ou deságio. § 3º O valor registrado com base no fundamento de que trata: I - o inciso I do caput integrará o custo do respectivo bem ou direito para efeito de apuração de ganho ou perda de capital e para determinação das quotas de depreciação, amortização ou exaustão; II - o inciso II do caput: a) poderá ser amortizado nos balanços correspondentes à apuração do resultado ajustado levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de 1/60 (um sessenta avos), no máximo, para cada mês do período a que corresponder o balanço, no caso de ágio; b) deverá ser amortizado nos balanços correspondentes à apuração do resultado ajustado levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de 1/60 (um sessenta avos), no mínimo, para cada mês do período a que corresponder o balanço, no caso de deságio; III - o inciso III do caput não será amortizado, devendo, no entanto, ser: Fl. 2952DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 36 a) computado na determinação do custo de aquisição na apuração de ganho ou perda de capital, no caso de alienação do direito que lhe deu causa ou de sua transferência para sócio ou acionista na hipótese de devolução de capital; b) deduzido como perda, se ágio, no encerramento das atividades da empresa, se comprovada, nessa data, a inexistência do fundo de comércio ou do intangível que lhe deu causa; c) computado como receita, se deságio, no encerramento das atividades da empresa. § 4º As quotas de depreciação, amortização ou exaustão de que trata o inciso I do § 3º serão determinadas em função do prazo restante de vida útil do bem ou de utilização do direito, ou do saldo da possança, na data em que o bem ou direito tiver sido incorporado ao patrimônio da empresa sucessora. § 5º A amortização a que se refere a alínea "a" do inciso II do § 3º, observado o máximo de 1/60 (um sessenta avos) por mês, poderá ser efetuada em período maior do que sessenta meses, inclusive pelo prazo de duração da empresa, se determinado, ou da permissão ou concessão, no caso de empresa permissionária ou concessionária de serviço público. § 6º Na hipótese da alínea "b" do inciso III do § 3º, a posterior utilização econômica do fundo de comércio ou intangível sujeitará a pessoa jurídica usuária ao pagamento da CSLL que deixou de ser recolhida, acrescida de juros de mora e multa, de mora ou de ofício, calculados de conformidade com a legislação vigente. § 7º O valor que servir de base de cálculo da CSLL a que se refere o § 6º poderá ser registrado em conta do ativo, como custo do direito. § 8º O disposto neste artigo aplica-se, também, quando: I - o investimento não for, obrigatoriamente, avaliado pelo valor de patrimônio líquido; II - a empresa incorporada, fusionada ou cindida for aquela que detinha a propriedade da participação societária. § 9º O controle e as baixas, por qualquer motivo, dos valores de ágio ou deságio, na hipótese deste artigo, serão efetuados exclusivamente na escrituração contábil da pessoa jurídica. (negrejou-se) Assim, para além de a Lei nº 7.689, de 1988, ter por referência a Lei nº 6.404, de 1976, que não cogitava de amortização de ágio, e apontar para a neutralidade dos resultados de equivalência patrimonial, método do qual decorre o destaque de ágio e deságio em investimentos, quer em razão do disposto na Instrução Normativa SRF nº 390, de 2004, quer por interpretação dos termos da Lei nº 9.532, de 1997 no contexto em que foi editada, e mesmo em conseqüência Fl. 2953DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 37 da apuração contábil, a base de cálculo da CSLL necessariamente resta indevidamente afetada pela amortização do ágio aqui em comento. Não se vislumbra, dessa forma, qualquer especificidade que possa ensejar um resultado diferenciado para a apuração da base de cálculo da CSLL decorrente da glosa de amortização do ágio que passou a reduzir indevidamente as bases tributáveis da autuada. Estas as razões para NEGAR PROVIMENTO ao recurso especial da Contribuinte, e confirmar que a CSLL será também exigível se, no retorno ao Colegiado a quo, for confirmada a indedutibilidade das amortizações de ágio aqui glosadas. Assinado Digitalmente Edeli Pereira Bessa DECLARAÇÃO DE VOTO Conselheira Edeli Pereira Bessa A exigência veiculada nestes autos decorre da glosa, no ano-calendário 2017, de amortizações de ágio apurado na operação societária realizada em 2008 para constituição de BM&F Bovespa S/A (antiga denominação social da Contribuinte). A autoridade lançadora assim relata as exigências anteriores: 6. Importante ressaltar que a amortização empreendida pelos fatos geradores dos anos-calendário de 2008 e 2009 foi objeto de autuação mantida pelo CSRF, por decisão definitiva, no processo administrativo nº 16327.001536/2010-80. 7. Também houve autuação em relação aos fatos geradores 2010 e 2011 no processo administrativo 16327720387/2015-66, sem decisão definitiva, sendo que a última decisão foi o julgamento de Recurso Especial que manteve a autuação em razão da ausência de apresentação de demonstrativo suficiente para confirmar os fundamentos econômicos do ágio. O Acórdão nº 9101-004.398 da CSRF/1ª Turma, retornou os autos ao colegiado de origem para apreciação das demais questões do recurso voluntário que não foram apreciadas, uma vez a as matérias foram consideradas prejudicadas. 8. Em relação aos fatos geradores de 2012 e 2013 ocorreu autuação por meio do processo administrativo 16327.720307/2017-34, sem decisão definitiva sendo que a última decisão foi o Acórdão nº 1201-003.202 que deu provimento integral ao Recurso Voluntário. No momento, o processo está pendente de julgamento do Recurso Especial da Procuradoria da Fazenda Nacional. Fl. 2954DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 38 9. Por fim, em relação aos fatos geradores de 2014, 2015 e 2016 houve autuação por meio do processo administrativo 16327.720963/2019-07, sem decisão definitiva, sendo que a última decisão foi o Acórdão nº 12-116.979 da 12ª Turma da DRJ/RJO que julgou a impugnação como improcedente e manteve o crédito tributário. 10. No período de 2017, objeto desta fiscalização, a B3 S.A. excluiu R$ 1,565 bilhões da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, relativo a valores registrados no ano de 2008 como resultados de exercícios futuros, os quais integraram uma mais valia registrada contabilmente, mas não tributada pela aquisição da Companhia Bovespa Holding no ano de 2008. Na sequência, o fiscal autuante expõe sua interpretação da legislação tributária de regência, discordando do reconhecimento contábil de ágio em aquisição de investimento decorrente de incorporação de ações: 12. Ao adquirir a Companhia Bovespa Holding S.A. no ano de 2008 o contribuinte registrou contabilmente o valor relativo à mais-valia correspondente aos lucros futuros das atividades que seriam realizadas nos 10 anos seguintes pela Bovespa Holding S.A, além do ativo correspondente ao Patrimônio Líquido registrado nos livros da Companhia adquirida. Na ocasião não tributou a mais valia registrada por tratar-se, naquele momento, de mero reconhecimento contábil antecipado de resultados futuros (que ocorreriam no período ora fiscalizado). 13. Nos 10 anos seguintes, quando os “resultados futuros” passaram a ser efetivamente auferidos, o contribuinte também não realizou a tributação por tratar-se então, sob sua ótica, dos valores que já haviam sido registrados contabilmente em 2008 (não podemos nos esquecer de que não foram tributados na época). 14. O vislumbrado “benefício fiscal” foi utilizado pelo contribuinte por meio da amortização da mais-valia registrada no ativo, excluída das bases de cálculo de IRPJ e CSLL apuradas mensalmente, e classificada contabilmente como amortização de ágio, que teria sua dedutibilidade fiscal supostamente embasada nas normas dispostas no artigo 7º da Lei nº 9.532/97. [...] 18. Em 2008, a combinação de negócios entre as empresas BM&F SA e Bovespa Holding S.A. realizou-se de forma a unificar as atividades das duas companhias em uma única, por meio da utilização de uma empresa veículo, a companhia Nova Bolsa S.A. (atual B3). Foi deliberado e aprovado em 08/05/2008, pela Assembleia Geral Extraordinária (AGE), que a Nova Bolsa (atual B3) realizaria as seguintes operações com vistas a unificar as duas bolsas: 1º) Incorporaria a BM&F S.A, por seu valor patrimonial e, em seguida; 2º) Incorporaria as ações da Bovespa Holding S.A, por seu valor de mercado atribuído. Fl. 2955DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 39 [...] 21. Na “Incorporação de Patrimônio” o patrimônio da sociedade incorporada é vertido para a incorporadora e a incorporada deixa de existir (no presente caso: a BM&F S.A.). Já na “Incorporação de Ações” a sociedade que tem suas ações incorporadas continua a existir, seu patrimônio não é vertido e a companhia passa a ser uma subsidiária integral da incorporadora (no presente caso: a Bovespa Holding S.A.). [...] 26. O grande desequilíbrio encontra-se no propósito da operação quando ocorre em empresas de alta concentração de poder econômico, pois estas utilizam-se deste tipo de reorganização societária visando vantagens indevidas; vantagens estas que fogem do propósito inicial (lucros sustentáveis, resultados continuados e responsabilidade social) de uma companhia. Estas empresas utilizam-se do subterfúgio legal das incorporações por ações com o objetivo de lograr vantagens tributárias. A operação realizada deve estar alinhada com o interesse da companhia, o qual não é pagar menos tributos e sim exercer as atividades empresariais de modo eficiente. 27. Na época dos fatos, a BM&F S.A. possuía um valor de mercado de cerca de R$17 bilhões e a Bovespa Holding S.A. um valor de mercado de cerca de R$ 20 bilhões, quando avaliadas pelos preços das ações em 08 de maio de 2008, estando listadas na Bolsa de Valores de São Paulo sob os códigos de, respectivamente, “BMEF3” e “BOVH3”. 28. Todavia, ao realizarem a operação de integração das duas companhias, as partes optaram por registrar a BM&F S.A. pelo valor contábil de R$2.615.517.000,00 e registrar e exteriorizar contabilmente a Bovespa Holding S.A. pelo valor de mercado de R$17.942.090.162,46, como descreve o item 5.5 do “Protocolo e Justificação de Incorporação de Ações de Emissão da Bovespa Holding S.A pela Nova Bolsa S.A.” - doravante “Protocolo”: [...] 33. Assim, não se pode confundir custo de aquisição com valor de registro contábil. Aquele é apenas uma das alternativas de base para realização deste. No caso da aquisição da Bovespa Holding S.A. pela Nova Bolsa S.A., o acréscimo patrimonial contábil verificado se deu pela mensuração do valor do ativo adquirido pelo critério contábil de avaliação a valor de mercado (termo utilizado pelo contribuinte, no Protocolo): [...] 34. Na operação de aquisição da Bovespa Holding S.A. o contribuinte realizou os seguintes registros contábeis: ATIVO Investimentos Fl. 2956DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 40 Participações Permanentes em Outras Sociedades Bovespa Holding S.A. R$ 1.543.798.507,93 (pelo valor do PL) Ágio R$ 16.398.291.564,53 PASSIVO Patrimônio Líquido Capital R$ 1.526.236.963,88 Reserva de Capital R$ 16.415.853.198,58 35. Como pode ser observado, os registros e demonstrações contábeis da Nova Bolsa S.A. refletem o valor do bem recebido (as ações da Bovespa Holding S.A.) e não o valor daquilo que foi transferido (seu sacrifício) aos sócios daquela companhia, ou seja, as ações da Nova Bolsa S.A., cujo valor fora definido pelo valor do patrimônio da BM&F adquirido minutos antes. [...] 40. O contribuinte apresenta justificativa para os registros contábeis completamente distinta dos fatos verificados, visto que a aquisição da Bovespa Holding foi feita por meio da Incorporação de Ações, prevista no artigo 252 da Lei 6.404/76 e não por meio da Subscrição de Ações, tratada nos artigos 14 e 170, §2º. 41. No balanço o registro contábil expressou o conteúdo econômico dos ativos recebidos, principalmente a mais-valia da Bovespa Holding S.A. (avaliada a valor de mercado), e não o conteúdo econômico daquilo que foi entregue pela Nova Bolsa S.A., ou seja, as novas ações emitidas, representativas de seu patrimônio: 1.030.012.191 ações ordinárias e 72.288.840 ações preferenciais, como expresso no Protocolo. 42. Na Incorporação de Ações, que tem como essência uma relação de troca, deve-se observar a relação entre a companhia incorporadora e os sócios da companhia incorporada, que realizam a troca de ações de uma companhia pelas ações da outra e, nessa relação jurídica, o custo econômico para as partes é mensurável pelo valor das ações entregues e nunca pelo valor das ações recebidas. 43. Mesmo que a contabilidade determine a exteriorização das mais-valias correspondentes aos elementos patrimoniais negociados, estas mais-valias não correspondem ao custo de aquisição econômico de que trata o artigo 20 do Decreto-Lei 1.598/77, o qual define o ágio que pode ser utilizado para os fins tributários do artigo 7º da Lei nº 9.532/97. 44. O escopo do presente Termo é demonstrar que as normas tributárias determinam que os resultados das atividades operacionais das companhias devem ser tributados nos períodos em que efetivamente acontecerem, quando Fl. 2957DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 41 ocorre o efetivo acréscimo patrimonial, mesmo que as mais-valias já tenham sido reconhecidas e contabilizadas anteriormente. [...] 52. Nas Incorporações de Ações ocorre o acréscimo patrimonial pelo registro do ativo adquirido, como avaliado pelos nomeados peritos, o qual considera o valor intrínseco das mais-valias dos elementos avaliados, inclusive quanto às perspectivas de rentabilidade futura. Entretanto, o procedimento contábil cuida de registrar o ativo que se está recebendo, o qual contém a mais-valia. Assim, se o contribuinte quer chamar esta mais-valia de “ágio”, este corresponde a um ágio recebido e não ao ágio derivado do sacrifício econômico da entidade. 53. Observa-se que ao adquirir as ações da Bovespa Holding, com ágio, não houve emissão de ações em valor equivalente na B3. De um lado a B3 aceita pagar ágio na aquisição dos investimentos, mas em contrapartida, exige prêmio de subscrição em montante equivalente. Em resumo, pode ocorrer a figura do ágio por rentabilidade futura em casos de incorporação de ações, ocorre que, no caso em concreto não houve a emissão de ações em valores equivalente ao ágio. Ágio pago significa efetiva modificação patrimonial das partes contratantes, o que não ocorreu, no caso em análise. [...] 58. Na Incorporação de Ações não há que se falar em sub-rogação real para a incorporadora, pois esta não substitui um bem por outro; a incorporadora recebe um bem – participação societária – fato que caracteriza um acréscimo patrimonial. O patrimônio da Nova Bolsa S.A., de R$2.615.517.500,00, era representado por 1.030.012.191 ações ordinárias. Assim, ao emitir a mesma quantidade de novas ações ordinárias, a Nova Bolsa S.A. entrega 50% de seu patrimônio aos seus novos sócios. Em contrapartida recebeu todas as 722.888.403 ações ordinárias da Bovespa Holding S.A. (dos sócios desta). 59. A mensuração do sacrifício só pode ser feita avaliando-se o patrimônio da Nova Bolsa antes da aquisição da participação na Bovespa Holding S.A., na proporção do seu patrimônio diluído com os novos sócios, pela emissão de novas ações. Numa relação de troca, cada parte só pode oferecer ou sacrificar o que possui. Não se pode considerar, como custo despendido, o valor da devolução da parte do bem recebido na própria operação. Receber um patrimônio e imediatamente devolver indiretamente parcela deste patrimônio recebido, como ocorre na Incorporação de Ações, não pode ser considerado um custo em seu sentido e conceito econômicos. (destaques do original) Confrontando os contornos da operação com as disposições do art. 20 do Decreto- lei nº 1.598/77, a autoridade lançadora enuncia que: 60. O primeiro requisito para a amortização do ágio é que o ágio seja apurado segundo o disposto no artigo 20 do Decreto-Lei nº 1.598/77 (artigo 7º, caput, Lei 9.532/97). Como já exposto, o valor que o contribuinte pretende amortizar não Fl. 2958DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 42 corresponde ao seu custo, mas ao valor da mera exteriorização contábil da mais- valia registrada em seu ativo. 61. O segundo requisito é que na absorção do patrimônio seja registrada, em primeiro lugar, o valor do ágio dos ativos correspondentes às alíneas “a” e “c” do § 2º do artigo 20 do Decreto-lei 1.598: [...] 63. Independentemente do valor de registro contábil (normalmente o custo histórico), a norma legal insculpida na letra “a” do §2º artigo 20 do Decreto-Lei nº 1.598/77 determina que os bens da companhia adquirida sejam avaliados pelo seu valor de mercado. 64. Por ser uma holding (Bovespa Holding S.A.) seus principais ativos eram suas subsidiárias: as companhias BVSP e CBLC. Verificando o balanço da companhia controlada (Bovespa Holding S.A.), víamos a seguinte situação em 2008: [...] 65. É inconteste que a mais-valia, atribuída à Companhia Bovespa Holding S.A., refere-se ao valor de mercado das subsidiárias (bens do ativo daquela). Por serem as Companhias BVSP e CBLC os principais ativos da Bovespa Holding S.A., o valor de mercado desta nos pregões da Bolsa de Valores (cerca de R$ 17 bilhões na época) refletia o valor de mercado do somatório das subsidiárias, que eram as empresas operacionais, inclusive quanto à sinergia. Tanto que o próprio laudo de avaliação da Bovespa Holding S.A., elaborado pela Delloite, tem por base a avaliação daquelas duas companhias e não os resultados futuros da Bovespa Holding S.A. propriamente dita, que receberia os dividendos daquelas. [...] 67. Pelo simples fato de não ter avaliado os ativos de sua nova controlada pelos seus valores de mercado, como determinado pela norma legal, não pode a Nova Bolsa S.A. atribuir-lhes o valor do custo registrado na contabilidade para que o valor do ágio registrado seja classificado sob a denominação de “Ágio por Rentabilidade Futura”, com intenção exclusiva de aproveitar-se de uma vantagem fiscal. Permitir tal procedimento seria conceder um benefício fiscal pelo descumprimento de uma determinação legal. 68. O terceiro requisito é a demonstração cabal da classificação contábil dos valores do ágio, segundo seu fundamento econômico. O parágrafo 3º do artigo 20 do DL 1.598/77 determinava mais do que a classificação dos fundamentos econômicos do custo despendido na aquisição de participação societária. Não bastava somente classificar o custo, a norma exigia a demonstração dos fundamentos econômicos considerados, “que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração”: [...] Fl. 2959DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 43 72. A demonstração do valor das ações BOVH3 (Bovespa Holding S.A.) nos 30 dias que antecederam a 19/02/08 não é difícil de ser apresentada como comprovante de escrituração. Todavia, os valores de negociação das ações em pregões de bolsa de valores não apresentam a tecnicidade exigida pela Lei para classificação dos fundamentos econômicos que possam ser atribuíveis ao ágio, conforme previsto no Decreto-lei 1.598/77, artigo 20, § 2º, letras “a”, “b” ou “c”. 73. Embora o contribuinte tenha apresentado laudo de avaliação das Companhias BVSP e CBLC (subsidiárias da Bovespa Holding S.A.), com previsão em resultados futuros, tal avaliação não guarda relação com o valor utilizado para registro contábil da aquisição (foi utilizado o valor de mercado das ações da Bovespa Holding). [...] 75. Como pode ser observado na decisão acima, o laudo da DELLOITE, TOUCHE TOHMATSU CONSULTORES LTDA – DTT apresentado pelo contribuinte não se presta a comprovar a escrituração contábil, no que se refere à classificação dos fundamentos econômicos do ágio. 76. O 4º requisito é que para a amortização do ágio, este deve ter fundamento na expectativa de rentabilidade, com previsão dos resultados de lucros futuros. [...] 78. O exposto acima leva ao 3º requisito, pois não basta classificar contabilmente, é obrigatória a demonstração e comprovação do fundamento econômico registrado. (destaques do original) A acusação fiscal, portanto, afirma descumpridos os requisitos legais para dedução da amortização de ágio porque: i) o sacrifício da Contribuinte para aquisição da participação na Bovespa Holding S.A. é expresso na proporção do seu patrimônio diluído com os novos sócios, pela emissão de novas ações, não podendo ser considerado, como custo despendido, o valor da devolução da parte do bem recebido na própria operação, de modo que o valor que o contribuinte pretende amortizar não corresponde ao seu custo, mas ao valor da mera exteriorização contábil da mais-valia registrada em seu ativo; ii) os bens da companhia adquirida (Bovespa Holding S.A) foram avaliados a valor de mercado com base no valor de suas investidas nos pregões da Bolsa de Valores, o que impede a classificação do ágio como decorrente de “rentabilidade futura”; e iii) o registro contábil da aquisição foi baseado nos valores de negociação das ações em pregões de bolsa de valores, apesar da apresentação de laudo de avaliação das subsidiárias da Bovespa Holding S.A. com previsão em resultados futuros. A autoridade lançadora adicionou referências à impossibilidade de dedução das amortizações do ágio por inexistência de comprovação de seu fundamento econômico, na forma consignada no Acórdão nº 1301-001.360, que manteve as glosas promovidas nos anos-calendário 2008 e 2009. Note-se que a autoridade lançadora expressamente admite que pode ocorrer a figura do ágio por rentabilidade futura em casos de incorporação de ações. Contudo, no caso em Fl. 2960DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 44 concreto não houve a emissão de ações em valores equivalente ao ágio. O sacrifício concebido para aquisição das ações da Bovespa Holding, portanto, está expresso na proporção do seu patrimônio diluído com os novos sócios, pela emissão de novas ações. No caso, como o valor das ações emitidas foi inferior ao valor patrimonial da Bovespa Holding, a contrapartida do valor de mercado desta em Reserva de Capital (R$ 16.415.853.198,58) foi superior ao ágio cuja amortização aqui se discute (R$ 16.398.291.564,53). Ou seja, nas palavras do fiscal autuante, ao adquirir as ações da Bovespa Holding, com ágio, não houve emissão de ações em valor equivalente na B3. O julgamento de 1ª instância foi convertido em diligência para esclarecimentos acerca de aparentes divergências entre o que consta na ECF relativa ao período compreendido entre 04/07/2017 a 31/12/2017 com o informado nos Demonstrativos do cálculo da multa isolada por estimativas não pagas referentes ao IRPJ e CSLL, bem como acrescentar quaisquer explicações que entender pertinentes relativamente ao cálculo efetuado. Ao final, a Turma Julgadora de 1ª instância assim decidiu: Acordam os membros da 15ª TURMA/DRJ07 de Julgamento, por maioria de votos, em DAR PROVIMENTO PARCIAL à impugnação da Interessada, para: 1) ACOLHER, EM PARTE, a arguição de nulidade, relativamente à parcela do lançamento pertinente ao período de apuração de 01/01/2017 a 03/07/2017; 2) JULGAR PROCEDENTE EM PARTE o Auto de Infração de IRPJ, no que concerne à amortização indevida do ágio da base de cálculo do imposto, REDUZINDO o valor da glosa de R$ 1.565.335.720,56 para R$ 782.667.860,28; 3) JULGAR PROCEDENTE EM PARTE o Auto de Infração de CSLL, no que concerne à amortização indevida do ágio da base de cálculo da contribuição, REDUZINDO o valor da glosa de R$ 1.565.335.720,56 para R$ 782.667.860,28; 4) JULGAR PROCEDENTE EM PARTE o lançamento das multas isoladas sobre as estimativas de IRPJ e CSLL que deixaram de ser recolhidas, para considerar devidos apenas os valores abaixo discriminados: [...] Sobre os valores das multas acima mantidas incidirão juros moratórios com base na variação da taxa SELIC conforme legislação de regência. Vencido o julgador Allan Marcel Warwar Teixeira, que votou pela improcedência total do lançamento. O julgador Marcelo Franco de Matos acompanhou o voto do Relator pelas conclusões. Os referidos julgadores apresentarão declaração de voto. O Presidente da Turma, desde já, RECORRE DE OFÍCIO da presente decisão, com fundamento no art. 34, inciso I, do Decreto nº 70.235, de 1972 (com redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997), tendo em vista que crédito tributário exonerado excede o limite de R$ 15.000.000,00, estabelecido pela Portaria MF nº 2, de 17/01/2023. Fl. 2961DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 45 Intime-se o sujeito passivo para recolher o crédito tributário mantido, no prazo de 30 (trinta) dias a contar da ciência deste acórdão, ressalvada a interposição de recurso voluntário ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais À Delegacia da Receita Federal que jurisdiciona o domicílio da contribuinte, para que lhe dê ciência do presente acórdão e adote as demais providências necessárias ao cumprimento do que ficou aqui decidido. O Colegiado a quo, por sua vez, assim decidiu: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso de ofício e rejeitar a preliminar de nulidade do lançamento. No mérito, por voto de qualidade, dar provimento parcial ao recurso voluntário para cancelar a exigência das multas isoladas referentes ao período de 02/01/2017 a 03/07/2017. Vencidos os Conselheiros André Ulrich Pinto, Roney Sandro Freire Correa e Fellipe Honório Rodrigues da Costa que votaram por dar provimento integralmente ao recurso. A negativa de provimento ao recurso de ofício confirmou a exoneração dos créditos tributários correspondentes às glosas de amortização de ágio apropriadas até 03/07/2017, quando ocorrida a situação especial de incorporação da CETIP S/A. E o provimento parcial do recurso voluntário se prestou a exonerar as multas isoladas por falta de recolhimento de estimativas de 02/01/2017 a 03/07/2017, porque confirmada a reversão das glosas na apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL. Para manter as glosas de amortização de ágio apropriadas a partir de 04/07/2017, situadas no fato gerador de 31/12/2017, o voto condutor do acórdão recorrido afasta a arguição de nulidade, e assim argumenta no mérito da exigência principal: Dentre os requisitos que teriam sido descumpridos pelo sujeito passivo, a decisão recorrida manteve a autuação com base em apenas um deles: a correta forma de aproveitamento da amortização fiscal do ágio. Foi desconsiderada a motivação do procedimento fiscal num suposto incorreto registro do fundamento econômico do ágio com desobediência a uma suposta ordem na aplicação dos dispositivos que estabelecem esses fundamentos, na imprestabilidade do laudo e também na suposta ausência de fundamentação econômica. Quanto ao requisito descumprido, tem origem no entendimento de que a incorporação das ações da Bovespa Holding pela recorrente, nos moldes efetuados, não poderia gerar ágio dedutível tendo em vista que não houve ônus financeiro pela adquirente. A natureza jurídica da incorporação de ações para geração de ágio amortizável é matéria polêmica e não totalmente consolidada no âmbito deste colegiado. Considero que a incorporação de ações pode sim gerar ágio amortizável. Entretanto, como ocorre via de regra nas reorganizações societárias com geração de ágio, cada caso deve ser analisado dentro de suas características e particularidades. Fl. 2962DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 46 Aqui, no entendimento da decisão recorrida, admite-se a existência do ágio, não havendo que se falar, conforme sustentado pela autoridade lançadora, em “ágio inexistente”. A impossibilidade de amortização teria origem no fato de o ágio [não] ter sido suportado pelos acionistas da Bovespa Holding que tiveram ganho de capital sobre a diferença entre o valor das ações que detinham em comparação ao atribuído para aumento de capital na Nova Bolsa S/A. O acórdão hostilizado bem estabeleceu a diferenciação entre uma alienação de investimento comum com ágio, onde os alienantes também apuram ganho de capital e o encargo é assumido pela sociedade adquirente com a situação aqui sob exame: (...) Porque a própria contabilização da operação demonstra que não houve saída de recursos da adquirente NOVA BOLSA S.A. Houve um aumento de capital de ações com outras ações da BOVESPA HOLDING S.A que contém, conforme entendimento da contribuinte, um ágio por expectativa de rentabilidade futura. Muito diferente é a aquisição de participação societária quando há transferência de recursos ou obrigações para terceiros. Neste caso há o registro no Ativo do Investimento segregado do ágio e, no crédito, o registro de um sacrifício de outro ativo e/ou criação de um Passivo. No Patrimônio Líquido, como a própria expressão indica, são registrados os valores que já pertencem aos sócios ou acionistas, sendo a diferença entre o patrimônio total da sociedade (ATIVO) e suas obrigações (PASSIVO CIRCULANTE e NÃO- CIRCULANTE). O custo nestas operações de incorporação de ações está ligado à perda de influência e diluição no percentual de participação societária pelos sócios da NOVA BOLSA SA quando emitem ações para ingresso dos sócios da BOVESPA HOLDING S.A. Obviamente está se admitindo que é uma negociação entre partes independentes, sem acionistas controladores em comum, ou seja, uma operação que atende ao princípio arm´s length. Caso contrário nem este custo haveria! De todo modo esse “custo” que seria representado por eventuais perdas como a diluição do percentual de participação societária por parte dos sócios da NOVA BOLSA S.A, e pela menor participação relativa nos futuros lucros, é questão que afeta sócios e não mudam o fato de que, patrimonialmente, para a incorporadora, não há transferência de recursos para terceiros. Não se pode considerar terceiros aqueles que se tornaram sócios da NOVA BOLSA S.A com o ingresso das mesmas ações que em seu valor intrínseco contém ágio. No acórdão 9101-002.758, a 1ª Turma da CSRF analisou o mesmo caso referente a fatos geradores anteriores e decidiu no sentido de mesmo revestido de formalidades previstas em lei, tais como a elaboração de laudo, a avaliação pela cotação de mercado e a aprovação em assembleia de acionistas, o valor das ações assim determinado não poderia ser considerado como custo de aquisição pois não estaria evidenciada a ocorrência de efetivo negócio com base nesse valor. A mencionada decisão sustenta que a subsequente avaliação das ações incorporadas, a preços de mercado, não revela propósito negocial no contexto da transação, mormente porque inexistiu desembolso financeiro com supedâneo no Fl. 2963DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 47 valor encontrado, não implicou em criação ou extinção de direitos ou obrigações entre as partes e não repercutiu na participação societária dos alienantes das ações. Sendo assim, por entender pertinentes as restrições supra elencadas, voto por negar provimento ao recurso quanto à amortização do ágio na base de cálculo do IRPJ. De fato, a decisão de 1ª instância manteve a autuação com base em apenas um dos fundamentos apresentados na acusação fiscal. A autoridade julgadora de 1ª instância afastou o “segundo requisito” referido pela Fiscalização por compreender que somente com a edição da Lei nº 12.973/2014 o ágio por rentabilidade futura passou a ter caráter residual, bem como o “terceiro requisito”, por admitir o ágio fundamentado em rentabilidade futura nos termos do Laudo elaborado pela Deloitte em 17/04/2008, com data base em 31/12/2007, vez que o intervalo de valor fornecido pelo Laudo corresponde ao preço possível de se obter pelas ações da Bovespa Holding em um mercado aberto, de modo que mesmo com o expurgo de valor atribuído a um ativo ou passivo que não representasse expectativa de rentabilidade futura, restaria o valor mínimo de R$ 19.341 milhões, superior ao valor da operação. Registre-se que o relator da DRJ foi acompanhado integralmente por outro julgador da Turma, e que o Presidente da Turma o acompanhou em suas conclusões, por entender que houve ágio na operação em questão, mas validando as glosas em razão de o ágio estar fundamentado em valor de mercado dos bens do ativo, conforme declaração de voto juntada à decisão de 1ª instância. O quarto julgador da Turma divergiu do relator, mas confirma-se, nestas circunstâncias, que o voto do relator é o condutor da decisão de 1ª instância. A PGFN, em razões ao recurso de ofício e contrarrazões ao recurso voluntário, ponderou que: Em relação ao mérito, atinente aos requisitos de dedutibilidade do ágio originado das operações de 2008, deve ser esclarecido que, embora a DRJ tenha mantido o entendimento quanto à indedutibilidade do ágio, entendeu que apenas um dos requisitos não foi cumprido (1º requisito: ágio apurado segundo o disposto no art. 20 do CL nº 1.598/77 – art. 7º, caput, da Lei nº 9.532/97), reconhecendo o cumprimento dos demais: 2º requisito (na absorção do patrimônio seja registrada, em primeiro lugar, o valor do ágio dos ativos correspondentes às alíneas “a” e “c” do § 2º do artigo 20 do Decreto-lei 1.598), 3º requisito (demonstração cabal da classificação contábil dos valores do ágio, segundo seu fundamento econômico) e 4º requisito (para a amortização do ágio, este deve ter fundamento na expectativa de rentabilidade, com previsão dos resultados de lucros futuros). Apesar do acórdão de origem concordar com o preenchimento de alguns dos requisitos, reitere-se que quanto ao mérito da dedutibilidade do ágio a referida decisão manteve os lançamentos, pois o não preenchimento de um dos requisitos é o bastante para a manutenção da glosa. Desse modo, afora a questão da Fl. 2964DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 48 nulidade reconhecida, a matéria de mérito da glosa quanto à não dedutibilidade não é objeto do recurso de ofício, devendo ser abordado em contrarrazões ao recurso voluntário. Assim, não merece prosperar a pretensão da recorrente, tendo em vista que o ágio amortizado não observa nenhuma das condições e dos requisitos impostos pela legislação, notadamente, os arts. 385 e 386 do RIR/99 – os quais repetem os artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997. Desse modo, além dos argumentos da recorrente, as contrarrazões ilidirão também os fundamentos do acórdão da DRJ quanto ao seu entendimento acerca dos requisitos 2º ao 4º. (destaques do original) Todavia, o Colegiado a quo não se contrapôs ao afastamento dos demais fundamentos da acusação fiscal, e validou a exigência, apenas, com base no “primeiro requisito”. Assim pode ter procedido por ter adotado fundamento suficiente para solucionar o litígio ou por compreender que o afastamento dos demais fundamentos da acusação fiscal não estavam contemplados no recurso de ofício pendente. Nesta segunda hipótese, poder-se-ia discutir se cabia à PGFN ter oposto embargos de declaração para suscitar a necessidade de apreciação do afastamento daqueles fundamentos pela autoridade julgadora de 1ª instância. De toda a sorte, fato é que neste momento processual resta, apenas, avaliar a divergência jurisprudencial suscitada acerca do fundamento subsistente no acórdão recorrido, inclusive porque a PGFN assim se orientou, também, nas contrarrazões ao recurso especial: A autuação decorreu, de acordo com o Termo de Verificação Fiscal da infração à legislação tributária quando a empresa excluiu indevidamente da base de cálculo do IRPJ e da CSLL despesas com amortização de um ágio inexistente. Em sua defesa, o contribuinte suscita, resumidamente, que houve equívoco do lançamento na apuração da base de cálculo dos tributos apurados, pois, correto o registro do fundamento econômico do ágio. De pronto, em que pese as razões apresentadas pela recorrente, a conclusão fiscal se mostra irretocável. Compulsando os documentos constantes do presente processo, verificam-se, tal como reconheceu o lançamento, dois aspectos que impedem a dedutibilidade da despesa com a amortização do ágio registrado pela contribuinte, quais sejam: o ágio não existe, pois, o valor pelo qual foi registrado não corresponde ao efetivo custo de aquisição do investimento; e, mesmo que existisse, o fundamento econômico dessa “mais valia” não autoriza o seu aproveitamento fiscal. Aqui vamos nos ater tão somente ao primeiro aspecto, matéria admitida para rediscussão. E, com respeito ao “primeiro requisito”, o voto condutor do acórdão recorrido ressalva que a incorporação de ações pode sim gerar ágio amortizável. Porém, no caso presente, não haveria geração de ágio dedutível tendo em vista que não houve ônus financeiro pela Fl. 2965DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 49 adquirente. Mais à frente está consignado que inexistiu desembolso financeiro com supedâneo no valor encontrado, não implicou em criação ou extinção de direitos ou obrigações entre as partes e não repercutiu na participação societária dos alienantes das ações. Esclareça-se que o voto condutor da decisão de 1ª instância, ao validar a acusação fiscal quanto ao “primeiro requisito”, apresentava mais extensa argumentação que a transcrita no voto condutor do acórdão recorrido. Já com respeito à referência feita no acórdão recorrido ao Acórdão nº 9101-002.758, trata-se de reprodução de partes da ementa da decisão de 1ª instância proferida naquele caso, com a qual concordara o relator do voto condutor daquele julgado. A seguir são destacados os trechos da ementa referidos no voto condutor do acórdão recorrido: INCORPORAÇÃO DE AÇÕES. PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA. CUSTO DE AQUISIÇÃO. DESDOBRAMENTO. ÁGIO. AVALIAÇÃO DAS AÇÕES PELO PREÇO DE MERCADO. EFETIVO NEGÓCIO COM BASE NO VALOR. INOCORRÊNCIA. Prevê a lei fiscal que o ágio deve ser calculado pela diferença entre o custo de aquisição da participação societária e o valor do investimento obtido pelo método da equivalência patrimonial (MEP). Contudo, ainda que revestido de formalidades previstas em lei, tais como a elaboração de laudo, a avaliação pela cotação de mercado e a aprovação em assembleia de acionistas, o valor das ações assim determinado não poderá ser considerado como custo de aquisição quando restar evidenciada a inocorrência de efetivo negócio com base nesse valor. In casu, a incorporação de ações, em essência, foi quitada mediante a entrega de ações ordinárias e ações preferenciais resgatáveis. Por sua vez, a subsequente avaliação das ações incorporadas, a preços de mercado, não revela propósito negocial no contexto da transação, mormente porque inexistiu desembolso financeiro com supedâneo no valor encontrado, não implicou em criação ou extinção de direitos ou obrigações entre as partes e não repercutiu na participação societária dos alienantes das ações. O ágio calculado a partir desse valor, por conseguinte, reputase inexistente para fins fiscais e indedutível na apuração do lucro real tributado pelo imposto de renda. Os valores considerados para fins fiscais devem decorrer de atos reais e efetivamente existentes, e não apenas artificial e formalmente revelados em documentação ou na escrituração mercantil. Oportuno anotar que tal expressão consta no trecho do voto condutor do Acórdão nº 9101-002.758 ao apreciar a matéria “Desnecessidade de apresentação de documentação de suporte do fundamento econômico do ágio”, no âmbito de recurso especial da Contribuinte que teve seguimento nas seguintes matérias: 2. desnecessidade de indicação do montante preciso do ágio a ser aproveitado fiscalmente; 3. desnecessidade de apresentação de documentação de suporte do fundamento econômico do ágio; Fl. 2966DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 50 6. inexistência de previsão legal para a adição, à base de cálculo da CSLL, da despesa com a amortização de ágio considerada indedutível pela fiscalização; 7. inaplicabilidade da multa isolada em razão do encerramento do ano-base de 2009; 8. impossibilidade de cumulação da multa isolada com a multa de ofício; e 9. ilegalidade da cobrança de juros sobre a multa. Assim, embora o relator do acórdão recorrido tenha vislumbrado naqueles termos expressões que guardavam correspondência com o fundamento que subsistiu para manutenção das glosas das amortizações de ágio apropriadas a partir de 04/07/2017, não é possível afirmar que nesta instância especial houve, naquela oportunidade, discussão da legislação tributária de regência da matéria que subsiste sustentando parcialmente o lançamento formalizado nestes autos. Em seu recurso especial, a Contribuinte assim circunstancia a questão principal que subsiste neste caso: 32. Em resumo, o entendimento fiscal foi o de que o custo de aquisição prescrito nº artigo 20 do Decreto-Lei nº 1.598/77 somente poderia ser interpretado em seu significado econômico, não havendo que se falar em registro de ágio na aquisição da Bovespa Holding pela Recorrente, porquanto não teria havido ônus financeiro suportado pela adquirente. 33. No caso concreto, contudo, o ágio amortizado pela Recorrente não corresponderia à parcela do custo de aquisição das ações da Bovespa Holding, mas sim à mais-valia contabilmente apropriada pela Recorrente em razão da mensuração das ações a valor de mercado quando da sua incorporação, razão pela qual não poderia ser aproveitado nos termos do artigo 7º da Lei nº 9.532/1997. 34. Veja, nesse sentido, o que constou do acórdão recorrido: [...] 35. Em seu Recurso Voluntário, a Recorrente demonstrou a improcedência da glosa das despesas com amortização do ágio decorrente da incorporação das ações da Bovespa Holding, uma vez que o custo de aquisição das ações incorporadas (Bovespa Holding), do qual deve ser desmembrado o ágio contabilizado, seria exatamente o valor negociado entre as partes e registrado no ativo da incorporadora (Recorrente). 36. Tal montante do custo de aquisição, por sua vez, estaria suportado no Laudo de Rentabilidade Futura elaborado pela Deloitte em 17/04/2008 (com data-base de 31/12/2007), conforme determinado pelos parágrafos 1º e 3º do artigo 252 da Lei nº 6.404/1976 (“Lei das S.A.”), bem como pelo parágrafo 3º do artigo 20 do Decreto-Lei nº 1.598/1977. Fl. 2967DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 51 37. Ainda, a Recorrente apresentou nesses autos Parecer elaborado pelo Il. Professor Eliseu Martins (fls. 1.667-1.729 dos autos). O ilustre Professor, ao ratificar as razões aduzidas pela Recorrente, concluiu pela insubsistência do lançamento fiscal, uma vez que a Recorrente teria, efetivamente, reconhecido em sua contabilidade as ações da Bovespa Holding pelo custo dessas ações, qual seja o valor negociado com os alienantes (antigos titulares das ações): A investidora reconheceu seu investimento pelo valor negociado com os alienantes das ações da Bovespa Holding, ou seja, pelo custo, critério esse mantido no balanço da investida. (Investimento total esse a ser modificado pela continuação da aplicação da equivalência patrimonial em momentos posteriores, é claro, mas conforme as regras legais e normativas vigentes.) (fl. 8 do Parecer Técnico Contábil do Professor Eliseu Martins – fl. 705 dos autos) No caso em questão da aquisição das ações da Bovespa Holding pela Nova Bolsa, houve, sim, custo de aquisição do ponto de vista contábil, houve a segregação devida entre valores contábeis e valores de mercado dos ativos tangíveis, segregação também entre valores de mercado e valores de ativos intangíveis, e houve, sim, ágio por expectativa de rentabilidade futura na operação. Tal ágio, naturalmente, foi fundamento por estudos apropriados realizados pela companhia. Daí a legitimidade de seu registro contábil e sua utilização fiscal. E tudo não só dentro da legislação e normatização contábeis brasileiras, como também dentro da doutrina e teoria contábeis. E mais, dentro da normatização hoje reconhecida internacionalmente, bem como na doutrina e teoria internacionais também. (fl. 48 do Parecer Técnico Contábil do Professor Eliseu Martins – fl. 1.714 dos autos) O exame de admissibilidade do recurso especial deu-lhe seguimento nas matérias: Possibilidade de geração e amortização do ágio na incorporação de ações – efetivo custo de aquisição – 1º requisito, com base nos paradigmas nº 1201- 003.202 e 1402-002.323 (integrado pelo acórdão de embargos nº 1402- 003.576); e Inexistência de previsão legal para a adição à base de cálculo da CSLL da despesa com a amortização de ágio considerada indedutível, com base nos paradigmas nº 9101-005.773 e 9101-005.894. Com respeito ao paradigma nº 1201-003.202, admitido na matéria Possibilidade de geração e amortização do ágio na incorporação de ações – efetivo custo de aquisição – 1º requisito, diz a Contribuinte que ali foi analisada a mesmíssima operação de incorporação de ações da Bovespa Holding pela Recorrente (em relação a períodos anteriores), bem como esses mesmos dispositivos legais, firmando-se o entendimento pela efetiva existência do custo de aquisição e possibilidade da amortização do ágio na incorporação de ações. Depois de transcrever trechos de seu voto condutor, a Contribuinte adiciona que: 40. Conforme já exposto, exatamente como ocorreu no presente caso, no referido acórdão paradigma analisou-se a suposta impossibilidade de geração de Fl. 2968DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 52 ágio fundamentado em expectativa de rentabilidade futura na incorporação das ações da Bovespa Holding pela Recorrente, bem como qual seria o valor do custo de aquisição dessas ações. 41. O acórdão recorrido manteve a presente autuação fiscal com base na suposta impossibilidade de amortização de ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura(artigo 7º da Lei nº 9.532/1997) na incorporação das ações da Bovespa Holding, uma vez que o custo de aquisição considerado não poderia ter sido o valor negociado entre as partes e registrado no ativo da incorporadora (tratando- se de mera reavaliação patrimonial, ou de “mera exteriorização contábil da mais valia registrada em seu ativo”). 42. Por sua vez, o acórdão paradigma reconheceu, de forma expressa, que, na incorporação de ações - apta a gerar ágio com expectativa de rentabilidade futura -, o custo de aquisição das ações incorporadas seria o valor de mercado pelo qual as ações da Bovespa Holding foram registradas no ativo da Recorrente. O paradigma nº 1201-003.202 teve em conta lançamento formalizado para glosa das amortizações do mesmo ágio aqui em discussão, relativamente aos anos-calendário 2012 e 2013. Contudo, de seu relatório fiscal é possível extrair, apenas, a seguinte acusação associada ao “primeiro requisito” que justificou a manutenção da exigência aqui formalizada: 1. “Que exista ágio, em seu conceito fiscal” – neste item, preleciona a autoridade autuante que o conceito fiscal de ágio deriva do art. 7º da Lei 9.532/97 em consonância com o disposto no art. 20 do Decreto-lei 1.598/77. No caso, este conceito importa numa noção de custo fiscal do bem, assim entendido como um esforço econômico efetivamente dispendido na sua aquisição, e não de meras reavaliações a mercado para atender pressupostos contábeis – como teria sido o promovido pela Recorrente, no entender da Fiscalização. Em consequência, os argumentos de defesa deduzidos em impugnação contra esta acusação foram os seguintes: 6. Que uma integralização de capital social em bens assume como valor aquele atribuído ao bem dado, valor este que pode ser estabelecido negocialmente entre partes independentes; 7. Que adotou o Princípio Contábil do Registro pela Valor Original ao adotar o valor de R$ 17,94 bilhões para o custo de aquisição das ações da Bovespa Holding, não procedendo, por consequência, a assertiva da Fiscalização de que tal valor não representaria um custo econômico real e dele não poderia ser extraído um ágio com efeitos fiscais; 8. De que se tem notícia de que a mesma Receita Federal do Brasil – que nesta autuação negou considerar como custo da operação para a Recorrente os mencionados 17,94 bilhões –, em outros procedimentos fiscais, tomou este Fl. 2969DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 53 mesmo valor como referência para cobrar o ganho de capital dos sócios da antiga Bovespa Holding por esta mesma transação; O voto condutor do paradigma, por sua vez, decide a questão traçando paralelo com a alegada tributação do ganho de capital auferido pelo titular das ações incorporadas e tendo em conta o valor contábil atribuído às ações incorporadas. Na transcrição a seguir são destacados os trechos também destacados pela Contribuinte em seu recurso especial: 1.6. Do fundamento econômico da incorporação de ações a valor de mercado A legislação fiscal expressamente faculta que a integralização de ações com bens seja feita, ou a valor contábil, ou a de mercado, com a condição de que este mesmo valor seja tomado de base para a apuração do ganho de capital no sócio. Se incorporado a valor de mercado, o bem assumirá este valor como base para a sua realização. Isto é, se ato contínuo for alienado, o custo base para fins fiscais e apuração do respectivo ganho ou perda de capital será, a princípio, aquele pelo qual foi dado entrada na contabilidade da empresa incorporadora, ou seja, o de mercado. No caso de o sócio ser pessoa física, há uma norma facultativa expressa neste sentido, qual seja, o art. 23 da Lei 9.249/95, que prevê que o bem pode ser transferido pelo valor da declaração de bens ou o de mercado. Neste segundo caso, é prevista a tributação sobre o ganho de capital: [...] No caso de sócios pessoas jurídicas, em apertada síntese, a lei fiscal também prevê a possibilidade de que os bens utilizados na integralização de ações sejam entregues pelo seu valor patrimonial ou de mercado. Se os bens entregues para integralização forem a totalidade de ações de uma companhia, tem-se estar diante de do que a Lei das SA chama de incorporação de ações. Se transferido a valor de mercado, no caso de se tratar de incorporação de ações, será devida a tributação sobre o ganho de capital, mesmo se tratando de sócios pessoas físicas. Neste sentido, aponta a jurisprudência do CARF: É pacífico que, nestes casos, as ações incorporadas serão registradas na incorporadora, para fins contábeis e fiscais, pelo valor atribuído a estas na operação, mesmo se este for o de mercado, tornando-se, ao final, o seu valor contábil. Acaso a incorporadora decida, ato contínuo, alienar as ações incorporadas, o ganho de capital será apurado com base no valor registrado na contabilidade (valor contábil). A questão que cumpre esclarecer é se, em vez de alienar o investimento, a empresa incorporadora das ações decidisse incorporar, desta vez, a própria investida (ou vice-versa). O ágio rentabilidade futura deste investimento poderia ser fiscalmente amortizado? Fl. 2970DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 54 Pelo art. 34 do Decreto-lei 1.598/77 a resposta seria positiva, pois a sua redação fazia expressa menção ao valor contábil do bem: Art. 34 - Na fusão, incorporação ou cisão de sociedades com extinção de ações ou quotas de capital de uma possuída por outra, a diferença entre o valor contábil das ações ou quotas extintas e o valor de acervo líquido que as substituir será computado na determinação do lucro real de acordo com as seguintes normas: (...) Se for considerada ainda que a extinção da participação societária por eventos de incorporação em tese realiza o investimento, tem-se que, de um ponto de vista semântico e sintático, o texto legal aponta no sentido de não se dever alterar o custo fiscal da participação societária incorporada em caráter excepcional só pelo fato de envolver amortização fiscal do ágio. De um ponto de vista pragmático, isto é, dos efeitos que estas normas produzem, o que se deduz é que também não há incoerências em se permitir a amortização fiscal do ágio rentabilidade futura quando derivado de incorporação de ações, pois estas produzem perda de capital em proporção legalmente equiparável ao ganho produzido na ponta dos sócios que entregaram suas ações a valor de mercado para integralizar capital da empresa investidora. Por legalmente equiparável refiro-me a que, no caso de sócios pessoas físicas, haverá diminuição de arrecadação por meio de redução da carga percentual de 34% (25% de IRPJ + 9% de CSLL) para 15%. Contudo, tal redução é expressamente facultada e pode ser justificada pelo fato de a lei ter feito uma opção por conceder uma redução de tributos no futuro em troca de um pagamento a vista. No caso de sócios pessoas jurídicas, há troca de uma tributação na incorporadora de 34% por outra em tese de igual carga na sócia. É de se ressaltar ainda que, ao optar por incorporar ações a preço de mercado como estágio intermediário num processo de incorporação de sociedade, o que as partes envolvidas estão de fato a fazer é deslocando, com respaldo na lei, parte da tributação da empresa incorporadora para os novos sócios desta, sendo que a redução da tributação promovida na empresa terá de ser ainda diluída em pelo menos 60 meses, ao passo que a tributação do ganho produzido na ponta dos sócios será devida à vista. Por este aspecto, portanto, a troca é favorável, ao menos em tese, para o fisco. Assim, por haver indicações no texto no sentido da faculdade em questão e por não haver incoerências quanto aos seus efeitos teóricos, entendo que incorporação de ações a mercado são aptas, em tese, a gerarem ágio fiscalmente amortizável. A jurisprudência do CARF tem, contudo, interpretado restritivamente as formas de aquisição de um investimento quando diz respeito à possibilidade de amortização fiscal do ágio pago. Fl. 2971DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 55 A interpretação restritiva dada ao art. 7º assume que incorporação de ações a valor de mercado não pode ser considerado esforço econômico em sentido estrito para fins de se reputar dedutível a amortização fiscal do ágio. Contra tal entendimento, contudo, tem-se que a incorporação de ações em nada difere, do ponto de vista da tributação sobre o ganho de capital, da modalidade pagamento em dinheiro. A mesma base que será objeto de tributação do lado dos antigos sócios será de dedução na empresa que amortizará o ágio. Se o pagamento em dinheiro é o que pode gerar ágio amortizável, mais ainda seria a incorporação de ações, dado ser este passo uma mera opção do ponto de vista fiscal a qual, se não exercida, nenhum efeito terá para a tributação dos dois lados da operação. Apenas se exercida, a ponta dos sócios tributará o ganho de capital referente ao valor que, depois, será amortizado a título de ágio rentabilidade futura na empresa sucessora do evento de incorporação. Por outro lado, se o pagamento deu-se em dinheiro, infere-se que a geração do ágio foi inevitável, abrindo-se, a partir daí, espaço para questionar se de fato poderia ser amortizado ou se não deveria ter permanecido ativado. A ressalva que deve ser feita nestes casos de incorporação de ações é de esta vir a ser parte de um conjunto de atos simulados que visem a produzir um ágio fictício. Neste caso, contudo, uma simples verificação da efetiva quitação do ganho de capital na ponta dos sócios pode indicar se o esforço econômico despendido na operação foi real ou se não pode ter sido simulado. [...] Estas, portanto, são as premissas que assumo para enfrentar os fatos neste julgamento: [...] h. Incorporações de ações, desde que não simuladas, são potencialmente aptas a gerarem ágio fiscalmente amortizável, posto consistirem numa mera opção feita em detrimento de uma incorporação direta e pelo valor patrimonial. Ao ser exercida esta opção, o resultado será a tributação do ganho de capital sobre a mais-valia correspondente na ponta dos sócios. [...] 2. Análise dos fatos [...] A incorporação da BM&F foi direta e não gerou ágio amortizável, dado ter sido feita pelo seu valor patrimonial; já a incorporação da Bovespa Holding foi precedida de uma incorporação de ações, da qual foi gerado a ágio amortizado. Como se observa, o passo da incorporação de ações da Bovespa Holding, dentro do projeto de fusão das companhias, tratou-se de uma mera opção adotada pelos acionistas, posto que haveria a possibilidade, ao menos em tese, de a Bovespa Fl. 2972DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 56 Holding ter sido incorporada a valor patrimonial da mesma forma como fora a BM&F. Esta opção, que gerou o ágio, contudo, não foi gratuita. Facultada por lei, este tipo de escolha, uma vez exercida, gerou tributação da mais-valia correspondente na ponta dos sócios, antigos titulares das ações incorporadas. A própria fiscalização reconheceu ainda não ter havido simulação nesta incorporação de ações – o que, aliás, foi fato notório, dado ter envolvido empresa muito conhecida e com ações listadas em bolsa de valores. Assim, sendo certo não ter havido simulação na incorporação de ações, tem-se que o valor de mercado pelo qual as ações da Bovespa Holding foram registradas no patrimônio da Recorrente constitui, segundo o Decreto-lei 1.598/77, o valor contábil, isto é, o custo fiscal inicial do bem para fins de sua realização. Ao ter a Recorrente incorporado efetivamente a Bovespa Holding, as ações desta foram realizadas pela sua extinção, dando ensejo à apuração de um ganho ou perda de capital, nos termos dos artigos 34 do Decreto-lei 1.598/77 e do art. 7º da Lei 9.532/97. Nestes casos, o art. 7º da Lei 9.532/97 adotou o ágio rentabilidade futura como a medida a ser reconhecida como perda de capital em eventos desta natureza. Esta perda de capital passou a ser diluída em pelo menos sessenta parcelas mensais, num diferimento a que a lei chamou amortização. Como já expus mais detalhadamente no item 1.1 deste meu voto, entendo que a Lei 9.532/97 apenas aperfeiçoou o cálculo do ganho ou perda de capital antes prevista no art. 34 do Decreto-lei 1.598/77, ao tomar o ágio rentabilidade futura como medida legal a ser adicionada ou excluída, em 60 ou mais parcelas mensais, do Lucro Líquido em razão de eventos de incorporação. Quanto ao questionamento feito pela fiscalização, de inobservância ao valor de mercado no procedimento de incorporação de ações, tem-se que a Recorrente baseou-se em dois critérios distintos: o primeiro consistiu em tirar uma média do preço das ações no pregão da bolsa ponderada pelo seu volume nos trinta últimos dias antes da divulgação do fato relevante que noticiou a operação em 19/02/2008; o segundo, por contratar a empresa de consultoria Delloite para emitir o laudo de avaliação correspondente. O valor encontrado pela média ponderada das cotações no pregão da bolsa foi de R$ 17,4 bilhões, enquanto o laudo emitido pela consultoria Delloite apontou uma faixa de valor entre R$ 20,72 a R$ 22,32 bilhões. Como se vê, o laudo de avaliação suportava as projeções feitas a partir da cotação em bolsa, tendo sido extraído, contudo, para registro da operação, o valor mais conservador, de R$ 17,4 bilhões. Há de se ressaltar, integralização de capital em bens não requer preço fixo em laudo de avaliação, dado que Fl. 2973DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 57 marginais diferenças serão a princípio compensadas por uma tributação maior ou menor na ponta vendedora. Portanto, entendo que o requisito legal valor de mercado, para as operações de incorporação de ações da Bovespa Holding, foi atendido. Ainda sobre este tema, a avaliação da Bovespa Holding a mercado neste processo envolve dois questionamentos distintos: o primeiro, relativo à própria incorporação de ações, no sentido de saber se o exercício desta opção pela Recorrente importou em se poder ter o novo valor como custo fiscal da participação societária para fins de sua realização. Tanto em tese, quanto por ter restado comprovado que o requisito valor de mercado foi atendido, pronunciei-me positivamente. Além deste questionamento, resta saber se o laudo utilizado na incorporação de ações procedida pela Recorrente atendeu a dita comprovação do fundamento econômico do ágio. Entendo que o fundamento econômico do ágio rentabilidade futura não cabe ser questionado pela fiscalização salvo se no contexto de uma acusação de simulação, o que não foi o caso. Assim, afasto a acusação de não comprovação do fundamento econômico do ágio, por não ser cabível. Por conseguinte, dou por prejudicado o questionamento de que o laudo de avaliação não teria demonstrado o fundamento econômico do ágio. Quanto a sucessão dos eventos societários em si, não há inconsistência, ao contrário do alegado pela fiscalização, em uma empresa ter sido incorporada a valor de mercado (a Bovespa Holding) enquanto a outra (BM&F) o foi a valor patrimonial, dado que a diferença será apenas de geração de ganho de capital na ponta dos sócios nº primeiro caso e não no segundo. Ou seja, trata-se de mera opção para atender fins societários. Como já dito, acaso esta opção não tivesse sido exercida, a consequência seria a não tributação do ganho de capital na ponta dos sócios. Relevante notar que o relator do paradigma nº 1201-003.202, ex-Conselheiro Allan Marcel Warwar Teixeira, participou do julgamento de 1ª instância proferido nestes autos, e votou pela improcedência total do lançamento, declarando voto no qual reiterou parte das conclusões acima expostas: 6.2. A possibilidade de incorporações de ações avaliadas a mercado poderem gerar ágio amortizável Incorporação de ações a preços de mercado, em vez de pelo valor de custo registrados pelos sócios, pode gerar ágio posteriormente amortizável porque tal operação gera tributação imediata de ganho de capital nos sócios em troca de uma amortização de ágio na outra ponta, cuja dedução só ocorrerá ainda em prestações. Fl. 2974DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 58 6.3. Da existência de perda de capital ou despesa dedutível em razão da extinção das participações societárias nas empresas investidas para concluir a reestruturação. Como explicitei nos itens (e) e (f), entendo que, para se afastar as artificialidades nas deduções de Ágio Rentabilidade Futura, deve-se abandonar a suposta necessidade de se comprovar o seu fundamento para perquirir se o contribuinte de fato experimentou a perda com as operações. Ao que me parece, a perda de capital foi evidente. Primeiro, porque o ágio gerado por avaliações a mercado gerou tributação de ganho de capital na ponta oposta. Segundo, porque, no contexto das operações, foram extintas participações societárias que, de forma inequívoca, valiam a mercado cerca de R$ 17,94 bi (Bovespa Holding). A dedução do ágio se prestará, a meu ver, a compensar esta perda de capital experimentada. Por fim, cabe ressaltar que esta reestruturação não possui indícios de artificialidade, eis que envolveu a perfeita confusão patrimonial entre as empresas extintas no processo. Ocorre que nenhuma dessas passagens enfrenta a inovação trazida pela acusação fiscal nestes autos, com respeito ao fato de o capital social não ter sido aumentado pelo mesmo valor atribuído às ações incorporadas. Como demonstrado ao norte, na transcrição da acusação fiscal presente no paradigma, a objeção teve em vista, apenas, a determinação do valor contabilizado no Ativo, como custo do bem adquirido, que caracterizada “mera reavaliação a mercado para atender a pressupostos contábeis”, sem questionar o fato de parcela superior ao ágio escriturado no Ativo ter sido registrada, no Patrimônio Líquido, em conta de Reserva de Capital, e não de Capital Social. Ausentes tais questionamentos, a indicar que os antigos titulares das ações da Bovespa Holding S/A receberam ações pelo valor expresso no aumento do Capital Social e não do Patrimônio Líquido da Contribuinte, o voto condutor do paradigma concebe que houve tributação de ganho de capital equivalente pelos antigos sócios, inclusive observando que tal incidência se verificou no momento da troca de ações, ao passo que a Contribuinte diluiria esse custo majorado em, pelo menos, 60 meses a partir da extinção do investimento. Frise-se: o voto condutor do acórdão recorrido é expresso no sentido de que a incorporação de ações pode sim gerar ágio amortizável, e assim converge com a compreensão do voto condutor do paradigma de que as operações de incorporação de ações a mercado são aptas, em tese, a gerarem ágio fiscalmente amortizável7. As decisões, porém, divergem porque o voto condutor do acórdão recorrido, sob a ótica de que cada caso deve ser analisado dentro de suas 7 Em outro plano foi trazida a esta 1ª Turma a discussão estabelecida no processo administrativo nº 16327.720963/2019-07, mediante recurso especial interposto pela Contribuinte contra o Acórdão nº 1401-006.911. Apresentando os mesmos paradigmas aqui indicados, a Contribuinte logrou demonstrar a divergência jurisprudencial quanto à possibilidade de geração de ágio em operação de incorporação de ações, vez que o acórdão recorrido negou tal possibilidade. Fl. 2975DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 59 características e particularidades, não se prende apenas à forma como as ações incorporadas foram registradas no Ativo da incorporadora, e concorda com a acusação fiscal de que o presente caso é distinto de uma alienação de investimento comum com ágio, onde os alienantes também apuram ganho de capital e o encargo é assumido pela sociedade adquirente. Assim, somente se vislumbraria alguma divergência de interpretação da legislação tributária se, abstraindo o acréscimo trazido pela acusação fiscal nestes autos, os casos fossem analisados sob a ótica de se prender a decisão, apenas, à possibilidade de registro, no Ativo, de ações incorporadas a valor de mercado. Ainda que se cogite que o lançamento analisado no paradigma trazia os mesmos argumentos acusatórios, mas foram eles suprimidos no relatório da decisão, fato é que o paradigma valida a operação apenas sob a ótica de ser possível o registro das ações incorporadas a valor de mercado no Ativo, enquanto o recorrido não limita a análise a este aspecto, e concorda com a acusação fiscal de que o custo de aquisição das ações incorporadas é representado pelo valor das ações emitidas pela Contribuinte, ou seja, pelo aumento verificado em seu Capital Social. Assim, não se extrai do paradigma nº 1201-003.202 interpretação da legislação tributária que reforme este segundo aspecto invocado como razão de decidir no recorrido. Confirma-se, portanto, a dessemelhança entre os casos. A acusação fiscal, aqui, pode ter sido aperfeiçoada, ou apenas aqui os argumentos ora destacados tiveram relevo. Consequência de ambas as cogitações, porém, é que o paradigma nº 1201-003.202 não traz argumentos que confrontem estes novos aspectos. A confirmar tal distinção, veja-se que em recurso voluntário a Contribuinte trouxe argumentos contra a limitação do preço da operação ao valor das ações emitidas pela incorporadora: 138. Na presente situação, a aquisição se deu, reitere-se, por meio de uma incorporação de ações. O custo de aquisição (custo histórico) desse ativo é o valor das ações incorporadas, registrado como investimento no ativo da sociedade incorporadora, e tendo como contrapartida em seu passivo a importância de R$ 1,526 bilhões, registrada na conta de capital social, e R$ 16,415 bilhões, registrados na conta de reserva de capital (lembrando-se que capital social e reserva de capital representam a assunção de dívida da pessoa jurídica para com os sócios). 139. Frise-se, por oportuno, que o fundamento do valor atribuído à operação decorreu da expectativa de rentabilidade futura do investimento, consoante abordado no Laudo de Rentabilidade Futura aprovado pelas assembleias gerais da incorporadora e da incorporada, mencionado acima. Ou seja, não se trata de uma reavaliação de ativos, como aduzido no TVF (equivocadamente, mais uma vez), mas do preço do negócio acordado entre as partes, segundo o critério definido pelos acionistas da incorporadora, que acreditavam na rentabilidade futura das ações incorporadas, e devidamente suportado por laudo de avaliação elaborado por auditoria independente. Fl. 2976DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 60 140. Nesse ponto, convém esclarecer que a Fiscalização se equivoca ao negar à Recorrente a possibilidade de registrar parte do custo de aquisição das ações da Bovespa Holding em conta de reserva de capital8. Com efeito, a contrapartida do pagamento do preço na incorporação de ações será o aumento do patrimônio líquido, que poderá ser (i) por aumento de capital ou (ii) pela constituição de reserva de capital. Trata-se de uma opção societária prevista no artigo 182 da Lei das S/A9. 141. Especificamente sobre o intento fiscal de impossibilitar o registro de parte do custo de aquisição das ações da Bovespa Holding em conta de reserva de capital, nota-se que a pretensão da Autoridade Fiscal e da Turma Julgadora não só carece de fundamentação legal, como também defronta com o entendimento do E. CARF: Assim, nos termos do art. 14, da Lei 6.404/76, para o caso de ações sem valor nominal, o preço de emissão de ações é fixado em assembleia geral, a qual decide se parte de seu valor será destinado à formação de reserva de capital, não havendo, na legislação, o estabelecimento de montante mínimo ou máximo a ser direcionada à referida reserva, cabendo à assembleia geral a decisão nesta parte. (Acórdão n° 1402-003.576 – g.n.) 142. Destaque-se, ainda, que a legislação tributária não traz qualquer restrição quanto aos critérios de precificação para fins de realização de operações de incorporação de ações. Também não traz qualquer restrição quanto à possibilidade de avaliação dessas ações ser feita com fundamento na expectativa de rentabilidade futura, suportado por laudo de avaliação de empresa especializada10. 143. Portanto, verifica-se que a Recorrente, ao adquirir as ações da Bovespa Holding por meio de incorporação de ações, efetuou o registro contábil pelo custo de aquisição/custo original (R$ 17,94 bilhões), correspondente ao valor pago na aquisição (custo histórico). A manutenção do custo de aquisição na contabilidade da Recorrente, nos exercícios subsequentes, demonstra a adoção do critério do custo histórico. (destaques do original) Isto porque a autoridade julgadora de 1ª instância havia confrontado estas alegações, nos seguintes termos: 8 Nesse sentido, veja-se: “O artigo 252 da Lei nº 6.404/76 nas incorporações de Ações, determina que ocorra o aumento de capital da companhia incorporadora e não o aumento das Reservas de Capital.” (fl. 8 do TVF) 9 “Art. 182. A conta do capital social discriminará o montante subscrito e, por dedução, a parcela ainda não realizada. § 1º Serão classificadas como reservas de capital as contas que registrarem: a) a contribuição do subscritor de ações que ultrapassar o valor nominal e a parte do preço de emissão das ações sem valor nominal que ultrapassar a importância destinada à formação do capital social (...);” (g.n.) 10 É importante mencionar, a título ilustrativo, que a previsão de conferência de bens, a valor de mercado, para fins de integralização de capital, é expressamente permitida às pessoas físicas, nos termos do artigo 23 da Lei nº 9.249/1995: “Art. 23. As pessoas físicas poderão transferir a pessoas jurídicas, a título de integralização de capital, bens e direitos pelo valor constante da respectiva declaração de bens ou pelo valor de mercado.” (g.n.) Fl. 2977DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 61 Neste sentido é inócuo o argumento da contribuinte de que os valores registrados no PL correspondem a uma obrigação da empresa para com os sócios. Afinal esta “obrigação” da empresa que se registra no Patrimônio Líquido é no sentido de que são recursos pertencentes aos sócios. Mas é uma obrigação sem prazo definido para ser “quitada”. Ou seja, podemos dizer que “credor” e “devedor” neste caso são partes dependentes, ligadas, e de forma convergente, interessadas na maior parte das vezes no aumento da “dívida”. Pode-se dizer que é o único caso em que o aumento da “obrigação” agrega valor para a empresa devedora e seus sócios credores. Assim, é por deliberação dos sócios (“credores”), que há aumento de capital (“obrigação”). E da mesma forma a redução da “obrigação” da empresa para com os credores sócios pode se dar por distribuição de lucros, restituição de capital etc. Ou seja, trata-se de uma “obrigação” da empresa que não tem prazo para quitação, não sofre encargos (salvo, eventualmente, juros sobre o capital próprio, o que também depende da vontade do credor). Um autor que bem espelha a natureza da incorporação de ações é Jeferson Roberto Nonato, em artigo produzido em 08/2010 e publicado no Fiscosoft impresso, transcrito parcialmente pela relatora do julgamento referente ao processo 16327.720963/2019-07, que trata do mesmo ágio. Naquele processo não foi dado provimento à impugnação da contribuinte. Segue a transcrição com acréscimos de trechos que entendi relevantes: c. Agora os Acionistas da "Holding" decidem exigir um Prêmio de Subscrição dos cotistas da limitada de R$ 39.000.000,00 e aprovam a avaliação dos investimentos entregues em R$ 40.000.000,00, de tal forma que o registro contábil da operação na "Holding" seja o seguinte: DÉBITO: INVESTIMENTO RELEVANTE (MEP) R$ 21.000.000,00 DÉBITO: ÁGIO NA AQUISIÇÃO R$ 19.000.000,00 (*) VALOR CONTÁBIL DO INVESTIMENTO R$ 40.000.000,00 CRÉDITO: CAPITAL SOCIAL R$ 1.000.000,00 RESERVA DE CAPITAL/ PRÊMIO DE SUBSCRIÇÃO: R$ 39.000.000,00 (*) ÁGIO FUNDAMENTADO NA RENTABILIDADE FÚTURA DA SOCIEDADE INVESTIDA d. Nota-se que a conta Reserva de Capital não representa efetiva contribuição à formação do capital social; ela foi inserida no Balanço Patrimonial apenas para equilibrar contabilmente a valoração espontânea levada a efeito pelos Acionistas da "Holding". e. Este fenômeno não ocorre por acaso e se caracteriza como fase antecedente, ou preparatória, para fruição dos benefícios fiscais constantes do inciso III do art. 7º da Lei nº 9.532/97 (inciso modificado em sua redação pela LEI Nº 9.718/98) em que se empresta dedutibilidade à amortização de ágio fundado em rentabilidade futura em casos de incorporação, fusão, ou cisão de empresas. Fl. 2978DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 62 Surge então a indagação maior: Podemos dizer que o preço da operação, no segundo, exemplo foi de R$ 40.000.000,00, porque este foi o valor da avaliação aceito pelos Acionistas da "Holding"? Queremos crer que não. Não é a expressão numérica que define o efetivo preço de uma operação e sim a extinção de direitos e obrigações entre as partes. De outro lado os Acionistas da "Holding" aceitaram pagar ágio na aquisição dos investimentos, mas, em contrapartida, exigiram prêmio de subscrição em igual montante - valores que se anulam por compensação entre as partes. Nem mesmo o argumento de que a Lei permite que este tipo de negócio seja feito a preço de mercado socorre aqueles que defendem o preço da operação em R$ 40.000.000,00. Tal preço seria juridicamente válido caso a operação fosse líquida por Instrumentos Patrimoniais (emissão de capital) no mesmo montante de R$ 40.000.000,00. Deve-se ainda frisar que as contas do grupo "Reservas de Capital" têm a mesma natureza jurídica do capital social integralizado, vale dizer, estas contas devem indicar substância patrimonial efetiva, não se prestando a registros de contrapartidas de avaliações contábeis. De outro lado, já se consolida toda uma doutrina jurídica-contábil em torno dos pagamentos baseados em ações. Na moderna definição de Instrumentos Financeiros está consagrada a classe dos Instrumentos Patrimoniais como sendo aqueles instrumentos de capital social utilizados para adquirir ativos financeiros ou mesmo pagar passivos financeiros de uma entidade. Assim não se pode conceber que a conta Prêmio Recebido em Subscrição de Ações seja fonte de emissão de Instrumentos Patrimoniais para comprar ativos ou pagar passivos. Por si só a movimentação desta conta já indica o ingresso de valores no Patrimônio como ganhos ou vantagens auferidas em decorrência do capital social - efeito patrimonial similar a lucro auferido. Vê-se que há uma verdadeira falácia gráfica contábil no segundo exemplo. A parte e a contraparte superestimaram os signos da transação sem impacto patrimonial correspondente para os contratantes. Ninguém paga e ninguém recebe, porque os valores se compensam. Por tudo exposto, devemos concluir que caso a investida venha a incorporar a investidora (Incorporação Reversa), o benefício fiscal pretendido - dedutibilidade da amortização do ágio - poderá ser glosado pelo Fisco tendo em vista que não há prova da existência do ágio pago, não se prestando para tal mero registro contábil falacioso. Ágio pago significa efetiva modificação patrimonial das partes contratantes. Evidentemente o caso aqui examinado não é o de uma incorporação reversa, mas o raciocínio não muda, vez que o valor atribuído ao ágio encontra-se no investimento e, igualmente, no PL. Daí entendo correto o pronunciamento do autuante no parágrafo 52 do TVF (fls. 669) quando afirma que: 52. Nas Incorporações de Ações ocorre o acréscimo patrimonial pelo registro do ativo adquirido, como avaliado pelos nomeados peritos, o qual considera o valor intrínseco das mais-valias dos elementos avaliados, inclusive quanto às perspectivas Fl. 2979DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 63 de rentabilidade futura. Entretanto, o procedimento contábil cuida de registrar o ativo que se está recebendo, o qual contém a mais-valia. Assim, se o contribuinte quer chamar esta mais-valia de “ágio”, este corresponde a um ágio recebido e não ao ágio derivado do sacrifício econômico da entidade. Assim, não se cumpriu o primeiro requisito indicado pelo TVF, no parágrafo 60, para dedução da amortização do ágio das bases de cálculo de IRPJ e CSLL, qual seja, que seja apurado segundo o disposto no artigo 20 do DL nº 1.598/77, considerando que se trata de um valor recebido de novos sócios para integralização do aumento de capital e não um valor desembolsado pela NOVA BOLSA S.A. (destaques do original) Assim, cumpria à Contribuinte ter embargado o acórdão recorrido para ver apreciados estes argumentos de defesa e, eventualmente, alcançar sua neutralização como elemento distintivo para fins de caracterização de dissídio jurisprudencial. Sem tais providências, o paradigma nº 1201-003.202 não se presta à demonstração da primeira divergência suscitada. Esclareça-se, por oportuno, que a matéria assim trazida nestes autos tem contornos diferentes daquela submetida a este Colegiado em razão de recurso especial interposto contra o Acórdão nº 1401-006.911, conhecida à unanimidade11 nos termos do voto da Conselheira Maria Carolina Maldonado Mendonça Kraljevic, condutor do Acórdão nº 9101-007.299: Em suma, de acordo com o acórdão recorrido, o custo de aquisição que autoriza o registro do ágio e sua dedutibilidade para fins fiscais não pode ser definido por vontade das partes, por convenções da ciência contábil ou por qualquer outro critério, mas, sim, pelo sacrifício despendido pelo contribuinte que realiza a aquisição da participação societária (“caráter e fundamento econômicos”). E, no caso em exame, o contribuinte teria avaliado o ativo a valor de mercado (“valor da mera exteriorização contábil da mais valia registrada em seu ativo”) – e não pelo custo que foi sacrificado. A matéria “custo de aquisição na operação de incorporação de ações” foi, pois, devidamente prequestionada. No que se refere à divergência interpretativa, o contribuinte indicou como paradigma o mesmo Acórdão n. 1201-003.202, que, como visto no item anterior, tratou da possibilidade de amortização fiscal de ágio gerado em operação de incorporação de ações, com relação aos mesmos fatos aqui descritos, e foi objeto de recurso especial pela PGFN, ao qual negou-se provimento em julgamento realizado em 07.02.2024, consubstanciado no Acórdão n. 9101-006.837. No Acórdão paradigma n. 1201-003.202 o custo de aquisição na operação de incorporação de ações é abordado da seguinte forma: É pacífico que, nestes casos, as ações incorporadas serão registradas na incorporadora, para fins contábeis e fiscais, pelo valor atribuído a estas na 11 Participaram da sessão de julgamento os julgadores Edeli Pereira Bessa, Luis Henrique Marotti Toselli, Luiz Tadeu Matosinho Machado, Maria Carolina Maldonado Mendonça Kraljevic, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Heldo Jorge dos Santos Pereira Júnior, Jandir José Dalle Lucca e Fernando Brasil de Oliveira Pinto (Presidente em exercício). Fl. 2980DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 64 operação, mesmo se este for o de mercado, tornando-se, ao final, o seu valor contábil. (...) Se for considerada ainda que a extinção da participação societária por eventos de incorporação em tese realiza o investimento, tem-se que, de um ponto de vista semântico e sintático, o texto legal aponta no sentido de não se dever alterar o custo fiscal da participação societária incorporada em caráter excepcional só pelo fato de envolver amortização fiscal do ágio. De um ponto de vista pragmático, isto é, dos efeitos que estas normas produzem, o que se deduz é que também não há incoerências em se permitir a amortização fiscal do ágio rentabilidade futura quando derivado de incorporação de ações, pois estas produzem perda de capital em proporção legalmente equiparável ao ganho produzido na ponta dos sócios que entregaram suas ações a valor de mercado para integralizar capital da empresa investidora. (...) É de se ressaltar ainda que, ao optar por incorporar ações a preço de mercado como estágio intermediário num processo de incorporação de sociedade, o que as partes envolvidas estão de fato a fazer é deslocando, com respaldo na lei, parte da tributação da empresa incorporadora para os novos sócios desta, sendo que a redução da tributação promovida na empresa terá de ser ainda diluída em pelo menos 60 meses, ao passo que a tributação do ganho produzido na ponta dos sócios será devida à vista. Por este aspecto, portanto, a troca é favorável, ao menos em tese, para o fisco. Assim, por haver indicações no texto no sentido da faculdade em questão e por não haver incoerências quanto aos seus efeitos teóricos, entendo que incorporação de ações a mercado são aptas, em tese, a gerarem ágio fiscalmente amortizável. Assim, em sentido diverso, concluiu o Acórdão paradigma n. 1201-003.202 que, na operação ora em questão, o custo de aquisição na incorporação de ações, para fins contábeis e fiscais, é o valor atribuído às ações incorporadas, mesmo que este seja o valor de mercado. Disso, concluo que, igualmente, está caracterizada a divergência interpretativa com relação à matéria ora em análise. Nem se alegue, mais uma vez, que a motivação fiscal do Processo Administrativo n. 16327.720307/2017-34, no qual foi proferido o Acórdão paradigma n. 1201- 003.202, seria diversa daquela objeto dos presentes autos, como afirmado pelo Relator do acórdão recorrido. Isso porque, como se extrai dos próprios trechos transcritos no referido voto, a discussão lá era exatamente a mesma, qual seja, o fato de o contribuinte ter atribuído ao custo de aquisição da participação societária o valor de mercado das ações. Nesse contexto, deve ser conhecido o recurso especial também com relação à matéria “custo de aquisição na operação de incorporação de ações”. A distinção fica evidente quando, no mérito, a Conselheira Maria Carolina Maldonado Mendonça Kraljevic reforma o acórdão lá recorrido por discordar da acusação fiscal de que o custo, precificado de acordo com a média de 30 dias dos preços das ações no pregão da bolsa de valores, acordado entre partes independentes, teria sido definido por convenções da ciência contábil ou por qualquer outro critério arbitrário. Em momento algum foi lá enfrentado o Fl. 2981DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 65 questionamento de o valor atribuído às ações incorporadas não ter integral contrapartida em aumento de Capital Social. A decisão de tal precedente teve em conta, apenas, o quadro fático assim sintetizado no voto da Conselheira: Às ações da Bovespa Holding SA incorporadas pela Nova Bolsa SA foi atribuído o valor de R$ 17.942.090.162,46. Esse montante equivale à “média ponderada pelo volume financeiro transacionado das cotações médias, ajustadas pelos proventos distribuídos, observadas nos pregões da Bolsa de Valores de São Paulo S.A. BVSP nos últimos 30 dias que antecederam 19.02.08, correspondente a R$ 24,82 por ação, valor este respaldado pelo Laudo de Avaliação” (fl. 1789 do acórdão recorrido). E, em razão da incorporação das ações da Bovespa Holding SA a valor de mercado, é que a Nova Bolsa SA contabilizou o ágio ora em discussão, que decorre da diferença entre o preço das ações da Bovespa Holding SA incorporadas pela Nova Bolsa AS (R$ 17,9 bi) e o seu valor patrimonial (R$ 1,5bi). O paradigma nº 1402-003.576, também não socorre a recorrente. Note-se na transcrição do recurso voluntário ao norte, que tal decisão já havia sido referida como contrária ao intento fiscal de impossibilitar o registro de parte do custo de aquisição das ações da Bovespa Holding em conta de reserva de capital. Os embargos de declaração lá opostos pelo sujeito passivo, porém, apontavam omissão em relação a laudo de avaliação juntado à véspera do julgamento do recurso voluntário, circunstância, inclusive, que levou esta Conselheira a integrar a minoria vencida daquele Colegiado, contrária à apreciação de tal documento, por não vislumbrar justificativa para tal juntada tardia, nos termos da declaração de voto lá apresentada. O voto condutor do paradigma, todavia, apreciou o conteúdo do documento e, sob a premissa de que o valor do ágio fora limitado, no acórdão lá embargado, ao efetivo aumento de capital da pessoa jurídica incorporadora das ações, por ausência de demonstração do valor atribuído às ações dadas em troca das ações incorporadas, compreendeu que a apresentação do laudo expressando o valor de mercado da Cia Sat Participações evidenciaria ágio dedutível compatível com o escriturado e amortizado. Veja-se: A omissão de fato se faz presente no acórdão lavrado na medida em que se ignorou o laudo de avaliação anexado pela Recorrente aos autos às p. 28656/28709 que deveria ter sido analisado ainda que juntado de véspera do julgamento do recurso voluntário interposto. Já restou decidido, através do v. acórdão embargado, que a incorporação de ações, no caso concreto, foi uma operação societária na qual a totalidade das ações de uma sociedade por ações foi incorporada ao patrimônio de outra, convertendo aquela em subsidiária integral desta e o ágio absorvido pela controlada, quando da incorporação da controladora, foi considerado adquirido e, portanto, passível de amortização como despesa dedutível para fins do imposto de renda, com a ressalva de que tal ágio estivesse justificado em laudo de avaliação expedido por empresa especializada e independente, com base em rentabilidade futura. Fl. 2982DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 66 De igual modo decidiu-se que o preço de emissão das ações da incorporadora e sua transferência aos titulares das ações incorporadas representa o pagamento do ágio na incorporação de ações. O preço de emissão deve estar fundamentado em valor patrimonial, de mercado ou de rentabilidade futura. A comprovação do pagamento somente é possível mediante apresentação de laudo de avaliação destas ações, elaborado por empresa especializada e independente. A partir dessas premissas enunciadas no v. acórdão embargado, deve-se rememorar que a operação societária que ensejou ágio dedutível na incorporação de ações foi realizada entre dois grupos independentes, que fizeram um acordo prévio de associação antes de realizarem a operação de incorporação de ações para se chegar ao resultado pretendido, qual seja, que cada grupo passasse a deter 50% de participação ao final da combinação de negócios. Questão outra já decidida é que a transferência de ações representa transmissão de título de propriedade, nos termos do art. 9º da Lei 6.404/76. E que incorporação de ações é um instituto jurídico típico do Direito Societário com especificidades próprias tratadas no art. 252 da mesma Lei. Este CARF, através de sua CSRF, se posiciona no sentido de que a incorporação de ações constitui forma de alienação em sentido amplo (Acórdão nº 9202-00.662). Desta forma, no caso concreto, restou incontroversa a efetiva aquisição pela incorporadora (Cia Sat Participações) das ações da incorporada (Ale Combustíveis) e, posteriormente, a citada incorporadora, na condição de controladora, foi incorporada pela controlada, sua subsidiária integral, a qual passou a fazer jus à dedutibilidade do ágio verificado quando da aquisição desta empresa por aquela, na forma dos arts. 385 e 386 do RIR/99. Assim, a controvérsia tinha se resumido, por ocasião do julgamento do recurso voluntário da ora Embargante, ao montante efetivo do ágio escriturado pela Cia Sat Participações em decorrência da aquisição de participação na Ale Combustíveis por intermédio de incorporação de ações. O laudo de avaliação de p. 691 a 753, que o valor de mercado das ações da Ale Combustíveis, no momento da incorporação, era de R$ 241.723.000,00 e não foi desqualificado pela autoridade fiscal. Mas a diferença para o valor patrimonial, que era de R$ 6.080.551,34, no importe de R$ 235.192.448,86, não foi considerado como ágio pago. Essa dúvida decorreu do fato que a fiscalização não teve, na ocasião, acesso a laudo de avaliação das novas ações emitidas pela Cia Sat a valor de mercado e, por essa razão, não aceitou o valor considerado na Ata da AGE da Cia Sat, de 03.07.2006. Ou seja, sem um laudo para amparar a entrega pela Ale Participações das ações da Ale Combustíveis em troca das ações da Companhia Sat, não permitiria aferir o efetivo ágio pago na operação. Fl. 2983DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 67 Para a fiscalização, o ágio apontado de R$ 235.192.448,86 teve origem quando do lançamento das novas ações da Cia Sat Participações, quando esta adquiriu as ações da Ale Combustíveis. Neste momento, a Ale Participações entregou todas as ações da Ale Combustíveis, avaliadas em R$ 241.273.000,00 em troca de ações da Cia Sat Par, no valor de R$ 55.209.117,00, que foi o efetivo aumento de Capital Social da Cia Sat Participações. Assim, nos termos do art. 14, da Lei 6.404/76, para o caso de ações sem valor nominal, o preço de emissão das ações é fixado em assembléia geral, a qual decide se parte de seu valor será destinado à formação de reserva de capital, não havendo, na legislação, o estabelecimento de montante mínimo ou máximo a ser direcionada à referida reserva, cabendo à assembléia geral a decisão nesta parte. Para aferir o valor efetivamente pago, uma vez que não efetuado em numerário, mas em ações, a comprovação do pagamento demanda necessariamente torna-se um pouco mais complexa e sujeita a uma maior subjetividade, fato considerado no acórdão embargado. Desta forma, o valor patrimonial das ações existentes na Cia Sat Participações, antes do aumento de capital para a aquisição das ações da Ale Combustíveis era de R$ 1,00 para cada ação e esta foi a relação feita, na decisão embargada, que justificou a avaliação pelos sócios da Cia Sat Participações e, por conseguinte, pela assembléia geral, para o lastro econômico-financeiro da operação. Nesse ponto há omissão a ser dirimida. O laudo de avaliação da Cia Sat Participações foi anexado ao feito pela Recorrente às p. 28656/28709, e, especificamente na p. 28706, foi apontado o valor de R$ 241.266.856,03 para a Cia Sat. Nessa perspectiva a questão posta em julgamento adquire novos subsídios elucidativos na medida em que a fiscalização entendeu que o valor fixado em assembléia geral estava amparado exclusivamente na vontade dos acionistas e, desta forma, não poderia ser levado em consideração; e a DRJ, por sua vez, entendeu que o valor do ágio seria a diferença entre os valores patrimoniais das ações “trocadas” –R$ 55.209.117,00 e R$ 6.080.551,34, ou seja, R$ 49.128.565,66, fato corroborado na decisão embargada, mas que, com a apresentação do laudo, passa-se a ter novos valores, quais sejam R$ 241.266.856,03 e R$ 6.080.551,34, o que redunda no reconhecimento de um ágio dedutível de R$ 235.186.304,69, o que praticamente zera os créditos tributários constituídos, na medida que em 120 meses o valor dedutível mensal seria de R$ 1.959.885,87, muito próximo ao utilizado pela Recorrente, ora Embargante, de R$ 1.959.937,07. Diante do exposto voto por julgar procedentes os presentes embargos conferindo-lhe, assim, efeitos infringentes para reformar a decisão antes proferida que ignorou o laudo constante dos autos. O voto condutor do Acórdão nº 1402-002.323, lá embargado, abordou as consequências da falta de apresentação do laudo de avaliação do valor de mercado atribuído às Fl. 2984DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 68 ações emitidas pela sociedade que incorporou as ações da investida, e concluiu que estas ações deveriam ser tomadas por seu valor patrimonial, não sendo possível aceitar como valor da operação o montante de R$ 241.273.000,00, vez que não houve emissão de ações neste montante, mas sim de R$ 55.209.117,00, o que reduziu o ágio amortizável a R$ 49.128.565,66: A controvérsia se resume em saber o montante efetivo do ágio escriturado pela Cia Sat Participações em decorrência da aquisição de participação na Ale Combustíveis por intermédio de incorporação de ações. O valor patrimonial das ações da Ale Combustíveis no momento da incorporação era de R$ 6.080.551,34, sendo que houve uma avaliação por empresa especializada com base em critério de rentabilidade futura (critério econômico) que valorou tais ações em R$ 241.723.000,00. Este laudo está às fl. 691 a 753, e não foi desqualificado pela autoridade fiscal. Ocorre que a autoridade fiscal entendeu que o ágio pago não foi efetivamente esta diferença de R$ 235.192.448,86. Neste momento é interessante transcrever considerações feitas pela autoridade fiscal que tem relação direta com a questão: 58. Acrescente-se o fato de que as novas ações emitidas pela Cia Sat não possuem qualquer avaliação que ateste (respalde) o seu valor de mercado, o qual serviu de base para a constituição da Reserva de Capital denominada de Ágio na Emissão de Ações. Há, na verdade, uma referência a essa avaliação conforme tratado na Ata da AGE da Cia Sat, de 03/07/2006, porém a fiscalizada esclareceu que tal documento não existe. 59. Ou seja, não existe um laudo a amparar a entrega pela Ale Participações das ações da Ale Combustíveis, avaliadas por 241.273.000,00, em troca de ações da Companhia Sat nº valor de R$ 55.209.117,00. 60. Mas, a sucessão dos fatos transcorreu com Cia Sat aumentando seu Capital Social, o qual era de R$ 55.209.117,00, em igual montante, passando esse a totalizar R$ 110.418.234,00, com subscrição pela Ale Participações Societárias, com integralização mediante entrega das ações da Ale Combustíveis (Ale), da qual era titular. 61. Com isso, a Cia Sat passou a ter em seu Ativo Permanente um investimento em "Ale Combustíveis" de R$ 6.080.551,34 e em "Agio em Ale Combustíveis" de R$ 235.192.448,66, assim como um aumento em "Capital Social" de R$ 55.209.117,00 e em "Reserva de Capital Agio na Emissão de Ações" de R$ 186.063.883,00. (...) 81. O ágio ora tratado de R$ 235.192.448,86 é aquele originado quando do lançamento das novas ações da Cia Sat Participações no momento em que esta adquiriu as ações da Ale Combustíveis. Nesse momento a Ale Participações entregou todas as ações da Ale Combustíveis, avaliadas em R$ 241.273.000,00, em troca de ações da Cia Sat Participações, no valor de R$ 55.209.117,00. Como já anteriormente relatado não há laudo de avaliação das ações da Cia Sat Part. Subscritas pela Ale Participações. Fl. 2985DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 69 82. Consta para a empresa Ale Combustíveis (futura Alesat) o laudo avaliando-a em R$ 241.273.000,00, mas o valor integralizado pela Ale Participações no aumento do Capital Social da Cia Sat foi de R$ 55.209.117,00. 83. Dessa maneira, não tem a AGE de 03/07/2006 da Cia Sat base para atribuir o valor de R$ 241.273.000,00 às ações emitidas para aumento do seu capital no valor de R$ 55.209.1170,00. 84. Nesse ponto identificamos equívoco nos lançamentos contábeis efetuados pela Cia Sat por ocasião da operação de incorporações de ações. 85. O capital da Cia Sat foi aumentado em R$ 55.209.117,00, integralizado por ações da Ale Combustíveis correspondentes ao patrimônio líquido dessa empresa no valor de R$ 6.080.551,34. O fato contábil que surge da operação é um aumento do patrimônio líquido(capital) e um aumento do ativo imobilizado (investimentos) no valor de R$ 55.209.117,00. 86. Considerando que as ações recebidas correspondem ao patrimônio líquido da Ale Combustíveis no valor de R$ 6.080.551,34, há um ágio no valor de R$ 49.138.565,68. Não há fato contábil que justifique o registro de ágio no valor de R$ 235.192.448,86. 87. A ações da Ale Combustíveis foram avaliadas ao valor de mercado por R$ 241.273.000,00, entretanto, essas ações foram entregues à Cia Sat em troca de ações dessa última pelo valor de R$ 55.209.117,00 e não de 241.273.000,00. 88. Para uma amortização em 120 meses, o ágio de R$ 49.138.565,68 resulta em R$ 409.488,05 por mês e em R$ 4.913.856,57 por ano, portanto, diferente dos R$ 1.959.937,07 por mês e de R$ 23.519.244,87 por ano, registrados pelo contribuinte. Em relação a estas colocações, o sujeito passivo carreou os argumentos sintetizados a seguir: 1. como a emissão de ações sem valor nominal não guarda correspondência com o capital social, o art. 182, §1°, alínea "a" da Lei n° 6.404, de 1976, estabelece que a parte do preço excedente deve ser registrada em reserva de capital. Ou seja, o ágio apurado deve ser registrado como reserva de capital; 2. porém, a lei fiscal não condiciona a apuração do custo a qualquer laudo ou trabalho técnico, estando o custo apenas sujeito à comprovação de sua efetividade, o que se dá por todos os meios de prova admitidos em direito, no caso: a) acordo de associação firmado em 30 de junho de 2006; b) ata da assembleia geral extraordinária da Cia SAT datada de 03 de julho de 2006, em que consta o preço de emissão das novas ações em virtude da incorporação de ações; c) boletim de subscrição das novas ações da Cia SAT, de 03 de julho de 2006, evidenciando a segregação do preço de emissão em capital e reserva; d) ata da assembleia geral extraordinário da Ale Combustíveis, de 03 de julho de 2006, com aprovação da incorporação de ações daquela empresa e o desdobramento das ações da Cia SAT recebidas, com registro de R$ 55.209.117,00 como capital, e R$ 186.063.883,00 em reserva, perfazendo R$ 241.273.000,00; e) protocolo e Fl. 2986DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 70 justificação de incorporação de ações assinado pelos representantes de Cia SAT e Ale combustíveis, datado de 19 de junho de 2006; 3 o art. 252 da Lei n° 6.404, de 1976, exige expressamente apenas a avaliação das ações da empresa incorporada, e não da empresa incorporadora. Esse laudo existe e foi apresentado ao Fisco durante a fiscalização, atribuindo às ações da Ale Combustíveis o valor de R$ 241.273.000,00. Na espécie, conforme alegado pelo sujeito passivo: a) as ações emitidas em função de aumento de capital não possuíam valor nominal; b) o preço de emissão foi fixado com base em laudo de avaliação das ações que seriam incorporadas, o qual consta dos autos consoante já mencionado; c) a assembleia da Cia Sat Participações de 03 de julho de 2006 autorizou o preço de emissão de R$ 241.273.000,00; d) parte do preço de emissão, R$ 186.063.883,00, foi registrada em reserva de capital a fim de obter um equilíbrio societário entre os dois grupos empresariais. Segundo o disposto no art. 14 da lei acima referenciada, para o caso de ações sem valor nominal, como acontece aqui, o preço de emissão de ações é fixado em assembleia geral, a qual decide se parte de seu valor será destinado à formação de reserva de capital. Não há na legislação estabelecimento de montante mínimo ou máximo a ser direcionado à referida reserva, cabendo à assembleia geral a decisão nesta parte Além disso, no art. 252 da Lei das S.A. não há exigência para a elaboração de laudo de avaliação das ações emitidas para aumento de capital a fim de se determinar seu preço, diferentemente do que ocorre quanto à valoração das ações a serem incorporadas, conforme disposto em seu §1°. De fato, não se discute a ausência na legislação tributária de exigência expressa de elaboração de laudo de avaliação das ações emitidas para aumento de capital que defina seu preço emissão, ou seja, o preço pago na aquisição das ações da empresa "incorporada", como condição para que o contribuinte possa considerar a parcela correspondente à registrada em reserva de capital como ágio na aquisição do investimento. Todavia, a lei fiscal exige a comprovação documental suficiente de todas as transações escrituradas; o que, no presente caso, corresponde à obrigatoriedade de comprovação da efetividade do pagamento do valor escriturado a título de investimento, abrangendo o custo de aquisição e o ágio. Como na operação realizada o pagamento não foi efetuado em numerário, mas em ações, a comprovação deste torna-se um pouco mais complexa e sujeita a uma maior subjetividade na apreciação dos documentos colacionados. De acordo com o art. 170, §1° da Lei das S.A., quando do aumento de capital, o preço de emissão deve ser fixado tendo em vista a cotação das ações no mercado, o valor do patrimônio líquido e as perspectivas de rentabilidade da companhia. Fl. 2987DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 71 O valor patrimonial das ações existentes na Cia Sat Participações antes do aumento de capital para a aquisição das ações da Ale Combustíveis, era de R$ 1,00 cada, vez que existiam 55.209.117 ações correspondendo a uma patrimônio líquido de R$ 55.209.117,00, exatamente o montante do capital social (vez que a Cia Sat Participações foi uma empresa veículo criada tão somente para viabilizar a reorganização societária na forma pretendida e com os efeitos pretendidos). Tal avaliação patrimonial seria a única possível de ser realizada pelos sócios da Cia Sat Participações, e, por conseguinte, pela assembleia geral, haja vista o acesso ao balanço patrimonial. Qualquer outra avaliação prevista no dispositivo acima mencionado, seja de mercado ou de rentabilidade futura, representaria um exercício de adivinhação sem qualquer lastro econômico-financeiro se não realizada por uma empresa especializada. Tanto é assim que, conforme destaca a fiscalização e reitera a decisão da DRJ, na Ata da Assembleia Geral Extraordinária de 03 de julho de 2006 da Cia Sat Participações (fl. 638 a 641) houve referência à existência de um laudo de avaliação de suas ações, cuja existência foi negada pelo sujeito passivo durante a fiscalização. É óbvio que assembleia entendia imprescindível o laudo para uma correta e embasada fixação de preço: 6. DELIBERAÇÕES: Todas tomadas por unanimidade de votos dos acionistas: (i) foi ratificada a nomeação da empresa especializada AVALIAR AVALIAÇÕES E ASSESSORIA LTDA., devidamente qualificada no referido Documento I, que procedeu à elaboração dos Laudos de Avaliação das Ações de emissão da ALE e das 55.209.117 (cinqüenta e cinco milhões, duzentas e nove mil, cento e dezessete) ações nominativas sem valor nominal de emissão da Companhia, com Data-Base de 30 de junho de 2006, para fins de incorporação das Ações pela Companhia (Documento I); (ii) Prestados os esclarecimentos necessários, foi aprovado o referido Documento I, tendo os acionistas concordado integralmente com os termos nele contidos e os valores nele indicados. Os referidos Laudos de Avaliação, rubricados pela mesa, encontram-se arquivados na sede da Companhia, para todos os fins de direito; (iii)(...)(grifei) Não há nenhuma irregularidade aparente nesse procedimento sob o ponto de vista da norma societária, vez que o preço foi fixado em assembleia geral. Porém, este preço, segundo a fiscalização, simplesmente está amparado pela vontade dos acionistas em implementar a operação na forma como foi feita com o objetivo único e claro de gerar um ágio fictício. É exatamente o preço de emissão das ações da incorporadora e sua transferência aos titulares das ações incorporadas que representa o pagamento. O único valor comprovado documentalmente foi o valor patrimonial das ações da Cia Sat Participações à época da incorporação das ações, que, conforme dito, era de R$ 1,00 cada. Fl. 2988DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 72 Assim, como foram emitidas 55.209.117 ações, o preço total de emissão foi de R$ 55.209.117,00, integralmente registrado no capital social. Este é que pode ser considerado o valor efetivamente pago na aquisição das ações da Ale Combustíveis, ou, de outra forma, o valor da transação para fins tributários. Este foi o impacto efetivo sentido pelo sócio anterior da Cia Sat Participações, mediante a redução de sua influência nesta companhia pela metade. Caso a Cia Sat Participações tivesse emitido 241.273.000 de ações faria jus, segundo a interpretação da DRJ, ao registro do ágio de investimento de R$ 235.192.448,86, conforme por si escriturado. Contudo, se assim tivesse procedido os grupos Satélite e Ale não alcançariam a almejada paridade de poder na administração da Ale Combustíveis ao final da reorganização societária. Assim, como foram pagos de fato R$ 55.209.117,00 na aquisição das ações e o valor patrimonial destas na Ale Combustíveis era de R$ 6.080.551,34, houve um ágio efetivo no valor de R$ 49.128.565,66. Considerando uma amortização em 120 meses, correto o entendimento de que a parcela mensal passível de dedução para fins de apuração da base de cálculo do imposto de renda seria de R$ 409.404,71, e com base nesse entendimento, é que a DRJ reduziu a glosa efetuada no auto de infração de R$ 1.959.937,07 mensais para R$ 1.550.532,36. (destaques do original) Aqui, porém, a Contribuinte em momento algum arguiu a avaliação a mercado de suas ações como justificativa para atribuição de parte do aumento escriturado em seu Ativo em contrapartida a Reserva de Capital. O único laudo de avaliação a valor de mercado de ações diz respeito à pessoa jurídica cujas ações foram incorporadas: Bovespa Holding S/A. Todo o empenho da Contribuinte ao longo do processo administrativo, inclusive corroborado por parecer de Eliseu Martins apresentado em sua defesa, está calcado no regular reconhecimento do custo das ações da Bovespa Holding a valor de mercado que, superior ao valor patrimonial, evidenciaria o ágio amortizado. Em momento algum alegou-se a existência de laudo que permitisse atribuir às 1.030.012.191 ações ordinárias e 72.288.840 ações preferenciais, emitidas pela Nova Bolsa S/A, valor superior ao incremento registrado no Capital Social, de R$ 1.526.236.963,88. Por esta razão, a autoridade fiscal conclui que a reserva de capital de R$ 16.415.853.198,58 apenas espelha a mais-valia vislumbrada nas ações incorporadas, e não ágio integrante do custo de aquisição. A Contribuinte entende demonstrada a divergência em relação ao paradigma nº 1402-002.323, integrado pelo Acórdão de embargos nº 1402-003.576 porque: 49. É patente, pois, a divergência jurisprudencial entre os acórdãos recorrido e paradigma, na medida em que, ao analisar situações fáticas similares, o primeiro compreendeu que na incorporação de ações não haveria um “custo de aquisição” e, portanto, não haveria um ágio conforme o artigo 7º da Lei nº 9.532/1997, enquanto o último reconheceu a possibilidade de o ágio baseado na rentabilidade futura ser gerado em incorporações de ações e, posteriormente, amortizado do ponto de vista fiscal, destacando que: “É exatamente o preço de Fl. 2989DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 73 emissão das ações da incorporadora e sua transferência aos titulares das ações incorporadas que representa o pagamento do ágio na incorporação de ações.” (destaques do original) Todavia, como antes demonstrado, no paradigma o preço de emissão das ações da incorporadora foi admitido como superior ao correspondente aumento de capital social por existir laudo de avaliação daquelas ações a valor de mercado. Anote-se, por fim, não ser possível, nesta fase processual, questionar o direcionamento do acórdão recorrido ao concordar com a acusação fiscal sem demandar laudo de avaliação das ações emitidas pela Contribuinte, para, assim, suscitar dissídio jurisprudencial com o segundo paradigma que validou a formação do ágio lá amortizado diante de tal comprovação. Cumpriria à Contribuinte, minimamente, ter embargado o acórdão recorrido frente à provocação, presente ao menos desde o recurso voluntário, acerca do que decidido neste paradigma. Assim, evidenciadas as circunstâncias fáticas diferenciadas que ensejam as distintas soluções adotadas nos acórdãos comparados, impõe-se concluir que não resta demonstrada divergência jurisprudencial acerca da legislação tributária aplicada aos casos concretos. Por tais razões, deve ser NEGADO CONHECIMENTO ao recurso especial na primeira matéria. Com respeito à matéria Inexistência de previsão legal para a adição à base de cálculo da CSLL da despesa com a amortização de ágio considerada indedutível, o seguimento do recurso especial se deu com base nos paradigmas nº 9101-005.773 e 9101-005.894. Esta Conselheira tem restado vencida na rejeição do paradigma nº 9101-005.773, mas reafirma aqui a divergência manifestada no Acórdão nº 9101-006.864, discordando da maioria do Colegiado12, vez que, participando do julgamento do paradigma, nele declarou voto esclarecendo que a parcela especificamente glosada naqueles autos correspondia às amortizações deduzidas antes da extinção do investimento, possivelmente adicionadas espontaneamente pelo sujeito passivo ao lucro real, mas não à base de cálculo da CSLL, motivo pelo qual o lançamento se restringira a esta contribuição. Veja-se: O litígio submetido a este Colegiado tem em conta amortizações de ágio que afetaram a base de cálculo da CSLL antes do evento de cisão ocorrido em 01/11/2009. Estando fora de discussão a natureza do ágio, a questão subsistente é definir se seriam aplicáveis à CSLL as vedações, indiscutíveis no âmbito do IRPJ, às amortizações de ágio enquanto o investimento é mantido no patrimônio da investidora. 12 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Edeli Pereira Bessa, Luis Henrique Marotti Toselli, Luiz Tadeu Matosinho Machado, Jose Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado), Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Heldo Jorge dos Santos Pereira Junior, Jeferson Teodorovicz (suplente convocado) e Fernando Brasil de Oliveira Pinto (Presidente em exercício) Fl. 2990DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 74 A maioria deste Colegiado já manifestou entendimento divergente daquele adotado pelo I. Relator, como bem espelha o voto do ex-Conselheiro André Mendes de Moura, condutor do Acórdão nº 9101-003.00513: A discussão é se deveria ou não ter sido realizada a adição na Base de Cálculo da CSLL de ágio contabilizado na aquisição de investimento, vez que a participação societária que deu causa ao ágio não foi objeto de alienação, e tampouco esteve envolvida em eventos de absorção de patrimônio (cisão, fusão ou incorporação). Assim, a regra da adição ao Lucro Real, visando a neutralidade do lançamento contábil de amortização de ágio, também teria repercussão na Base de Cálculo da CSLL? Há que se buscar a interpretação sistêmica da legislação tributária, sob pena de incorrer em contradições. Toda a construção empreendida pelo Decreto-lei nº 1.598, de 1977, encontra-se em consonância com a edição no ano anterior (1976) da Lei nº 6.404 ("lei das S/A"), no qual se buscou modernizar os conceitos de contabilização de investimentos decorrentes de participações societárias, inclusive com a adoção do método de equivalência patrimonial (MEP). Foram tratados três momentos cruciais para o investidor, nascimento, desenvolvimento e fim do investimento, respectivamente delineados: (1) o da aquisição do investimento, normatizando-se a figura do "ágio", que consiste no sobrepreço pago na aquisição, e (2) o momento em que o investimento gera frutos para o investidor, ou seja, a empresa adquirida gera lucros; e (3) e desfazimento do investimento. Em relação ao segundo momento (desenvolvimento do investimento), a interpretação integrada dos dois diplomas normativos consolidou a construção de sistema no qual os resultados de investimentos em participações societárias pudessem ser devidamente refletidos no investidor, por meio do MEP, e ao mesmo tempo, não fossem objeto de bitributação. Isso porque, em se considerando estritamente os lançamentos contábeis, os resultados da investida seriam refletidos no investidor, fazendo com que tanto na investida quando no investidor fossem apuradas receitas operacionais que, em tese, integrariam o lucro líquido e a base de cálculo tributável. Por isso, determinou-se que o investidor poderia efetuar ajuste, no sentido de excluir da base de cálculo tributável os resultados positivos auferidos pela investida. 13 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Carlos Alberto Freitas Barreto, Adriana Gomes Rêgo, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Luis Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Lívia de Carli Germano (em substituição à conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio) e Gerson Macedo Guerra, e divergiram na matéria os Conselheiros Luis Flávio Neto (relator), Cristiane Silva Costa e Gerson Macedo Guerra. Fl. 2991DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 75 É o que prescreve o art. 22 do Decreto-lei nº 1.598, de 1977, quando determina o procedimento a ser adotado pelo investidor ao final de cada exercício: o valor do investimento na data do balanço (...), deverá ser ajustado ao valor de patrimônio líquido, mediante lançamento da diferença a débito ou a crédito da conta de investimento. Caso tenha apurado resultado positivo, lançamento a débito na conta de investimento e a crédito em conta de resultado (receitas de equivalência patrimonial), com repercussão na base tributável. Tal repercussão é neutralizada logo no artigo seguinte (art. 23), ao predicar que a contrapartida do ajuste por aumento do valor de patrimônio líquido do investimento não será computada no lucro real (...). Assim, o crédito em conta de resultado seria excluído na apuração do lucro real. Com a criação da CSLL, a Lei nº 7.689, de 1988, discorreu sobre ajuste na base de cálculo para fins fiscais, e determinou pela exclusão do resultado positivo da avaliação de investimentos pelo valor de patrimônio líquido (art. 2º, § 1º, alínea "c", item 1). Restou, nesse momento, nítida, clara e transparente, a convergência entre as bases de cálculo do IRPJ e CSLL, no que concerne às operações decorrentes de participações societárias e os correspondentes resultados auferidos. A preocupação do legislador em compatibilizar a apuração das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL, mediante a operacionalização de ajustes no lucro líquido, é evidente. Portanto, não há nenhum sentido entender que, para as operações societárias relativas ao primeiro momento (aquisição do investimento) e o terceiro momento (desfazimento do investimento), poder-se-ia aplicar um entendimento diferente daquele relativo ao segundo momento (desenvolvimento do investimento). Em relação ao terceiro momento (desfazimento do investimento), predica a norma que na alienação do investimento, o valor do ágio deverá ser considerado, na apuração da base de cálculo tributável (art. 25 e 33 do Decreto-lei nº 1.598, de 1977). E, em conexão indissociável com o segundo momento (desenvolvimento do investimento) e o terceiro momento (desfazimento do investimento), o primeiro momento (nascimento do investimento) trata da aquisição do investimento que, se for realizada com sobrepreço, implica na contabilização desse valor a maior em conta específica. É o que diz o art. 20 do Decreto-lei nº 1.598, de 1977, ao determinar nos incisos I e II que o custo de aquisição deveria ser desdobrado em (I) valor do patrimônio líquido na época da aquisição e (II) ágio ou deságio na aquisição. Por isso que, apesar da disposição no art. 25 do Decreto-lei nº 1.598, de 1977, ser no sentido de que as contrapartidas da amortização do ágio não seriam computadas na determinação do lucro real, não há nenhum sentido em se Fl. 2992DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 76 considerar que tal ajuste não se aplica para fins de apuração da Base de Cálculo da CSLL. Vale destacar que abraçar a tese da Contribuinte de que para a CSLL a amortização contábil, realizada a qualquer momento, sem nenhum critério, poderia ser realizada, e sem nenhum ajuste na base de cálculo da contribuição social, carrega insustentáveis incoerências. Primeiro: ora, se o Decreto-lei nº 1.598, de 1977, foi editado em época em que não existia a CSLL, só poderia ser aplicado para o imposto de renda. Então, a contabilização do ágio, na aquisição do investimento, só poderia surtir efeitos para fins de apuração do IRPJ. Para a CSLL, sequer existiria ágio na aquisição do investimento. Por consequência, não haveria de se falar na amortização do sobrepreço pago. Segundo, admitindo-se que a redação do art. 25 do Decreto-lei nº 1.598, de 1977, teria deixado grande margem de discricionariedade, e que a amortização poderia ser efetuada sem nenhum critério, é fato incontestável que tal cenário alterou-se completamente com a edição da edição Lei nº 9.532, de 1997. Com o novel diploma, restou claro que a amortização do ágio não se daria sem qualquer critério. Os arts. 7º e 8º discorrem, não por acaso, que a pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no art. 20 do Decreto-Lei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977, poderá amortizar o valor do ágio no prazo mínimo de sessenta meses. E no que concerne ao deságio a determinação é ainda mais incisiva, vez que o comando é que a empresa deverá amortizar o valor do deságio. Ora, a partir do momento em que o legislador determina que a amortização do ágio poderá ser realizada sob determinada condição, fica claro que a amortização do ágio a critério exclusivo da pessoa jurídica não pode ser realizada. Não há que se falar em amortização do ágio sem motivação. Ou seja, se contabilmente o Contribuinte decidir amortizar o ágio, tal medida não terá efeito para fins fiscais, porque a legislação fiscal expressamente estipulou condição no qual o ágio poderia ser amortizado: eventos societários previstos nos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, incorporação, fusão e cisão envolvendo investidora e investida. Assim, se a Contribuinte resolveu amortizar o ágio contabilmente, sem a ocorrência dos eventos expressos nos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, trata-se de ato de liberalidade não oponível ao Fisco, cuja contabilização não terá repercussão no Lucro Real ou na Base de Cálculo da CSLL. E a discussão sobre compatibilidade entre as bases de cálculo do IRPJ e CSLL tem ainda outros contornos. Fl. 2993DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 77 Isso porque o ágio é despesa, submetida a amortização. Logo, encontra-se a despesa do ágio submetida ao regramento geral das despesas disposto no art. 47, da Lei nº 4.506, de 1964, base legal para o art. 299 do RIR/99: Art. 299. São operacionais as despesas não computadas nos custos, necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47). § 1º São necessárias as despesas pagas ou incorridas para a realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, § 1º). § 2º As despesas operacionais admitidas são as usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, § 2º). § 3º O disposto neste artigo aplica-se também às gratificações pagas aos empregados, seja qual for a designação que tiverem. Por sua vez, o art. 13 da Lei nº 9.249, de 1995, dispõe: Art. 13. Para efeito de apuração do lucro real e da base de cálculo da contribuição social sobre o lucro líquido, são vedadas as seguintes deduções, independentemente do disposto no art. 47 da Lei nº 4.506, de 30 de novembro de 1964: (Grifei) (...) A interpretação dada ao dispositivo pelo Conselheiro Marcos Pereira Valadão, no Acórdão nº 9101-002.396, é didática e esclarecedora: Assim, o texto legal acima transcrito evidencia claramente o vínculo entre a apuração da base cálculo da CSLL e os referidos requisitos para a dedutibilidade de despesas, do contrário não faria nenhum sentido a ressalva contida no texto. Com efeito, se o texto diz que para uma determinada situação deve se aplicar "A" independentemente de "B", é porque "B" também é aplicável àquela mesma situação. Nessa perspectiva, as regras de dedutibilidade de despesas previstas no art. 47 da Lei nº 4.506, de 1964, aplicam-se tanto ao IRPJ quanto à CSLL. A redação do art. 13 da Lei nº 9.249, de 1995, dispõe claramente sobre hipóteses de despesas indedutíveis tanto para o IRPJ quanto para a CSLL, incluindo expressamente as situações previstas no art. 47 da Lei nº 4.506, de 1964. Sendo a despesa de amortização de ágio submetida ao regramento geral das despesas operacionais, não há que se falar em ausência de previsão normativa para a sua adição à Base de Cálculo da CSLL. Fl. 2994DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 78 No mesmo contexto, encontra-se a redação do art. 57 da Lei nº 8.981, de 1995, mencionada pela autoridade fiscal: Art. 57. Aplicam-se à Contribuição Social sobre o Lucro (Lei nº 7.689, de 1988) as mesmas normas de apuração e de pagamento estabelecidas para o imposto de renda das pessoas jurídicas, inclusive no que se refere ao disposto no art. 38, mantidas a base de cálculo e as alíquotas previstas na legislação em vigor, com as alterações introduzidas por esta Lei. Pela expressão normas de apuração entende-se o cômputo do quantum tributável, o procedimento consistente em determinar a base de cálculo do tributo, mediante operações de soma e diminuição de valores. Ou seja, precisamente a discussão dos presentes autos. Pelo dispositivo, resta mais evidente que repercussão dos ajustes efetuados para apuração da base de cálculo do IRPJ para a CSLL. Portanto, não há que se amparar o procedimento adotado pela Contribuinte, efetuado sem base legal e em completa dissonância com o sistema tributário. (destaques do original) Excluída a referência ao art. 57 da Lei nº 8.981/95, tais fundamentos são aqui adotados como razões de decidir. Pertinente adicionar, ainda, outra abordagem em desfavor da pretensão da Contribuinte, erigida por esta Conselheira no voto condutor do Acórdão nº 1302- 001.895: [...] Assim, em verdade, inexistiria possibilidade de amortização do ágio na apuração do lucro líquido contábil, tornando desnecessária a previsão de sua exclusão no âmbito das normas de determinação da base de cálculo da CSLL. Estas as razões, portanto, para NEGAR PROVIMENTO ao recurso especial da Contribuinte. (destaques do original) Ainda que a questão aqui posta possa ser solucionada com base nos fundamentos expressos por esta Conselheira no citado paradigma, mormente na segunda parte que refere a decisão do Acórdão nº 1302-001.895, a primeira parte do voto acima transcrito bem evidencia que a discussão presente no paradigma nº 9101-005.773, acerca da possibilidade de dedução, na base de cálculo da CSLL, de amortização de ágio na hipótese em que a participação societária que deu causa ao ágio não foi objeto de alienação, e tampouco esteve envolvida em eventos de absorção de patrimônio (cisão, fusão ou incorporação), envolve regramento legal distinto. Já com respeito ao paradigma nº 9101-005.894, tratava-se ali de glosas de amortização de ágio que, depois da confusão patrimonial entre investidora e investida, foi considerada indedutível nas bases de cálculo do IRPJ e da CSLL porque não provada a fundamentação em rentabilidade futura, de modo a atender os requisitos do art. 7º da Lei nº Fl. 2995DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.551 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.721047/2021-09 79 9.532/97. E, no julgamento de recurso voluntário, apesar de mantida a glosa no âmbito do IRPJ, o Colegiado do CARF afastou a exigência de CSLL por entender que não se aplica de forma reflexa o lançamento à CSLL, ante a ausência de previsão de adição das despesas com a amortização do ágio na base de cálculo da CSLL, sob pena de ferir o princípio da legalidade. O recurso especial fazendário contra esta decisão restou improvido, vencido o relator Conselheiro Fernando Brasil de Olivera Pinto, e sendo designado para redigir o voto vencedor o ex-Conselheiro Caio Cesar Nader Quintella que, sob a mesmo direcionamento adotado no precedente nº 9101-005.773, firmou que a base de cálculo da CSLL é autônoma e legalmente delimitada por normas próprias, somente se verificando identidades com a apuração do Lucro Real quando, expressamente, assim for determinado pela legislação, inexistindo, no caso, vedação ao cômputo do ágio na base de cálculo da CSLL ou determinação de sua adição. Assim, a segunda matéria deve ser CONHECIDA, mas apenas com base no paradigma nº 9101-005.894. Assinado Digitalmente Edeli Pereira Bessa Fl. 2996DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto Vencido Voto Vencedor Declaração de Voto
score : 1.0
Numero do processo: 13907.000186/99-67
Data da sessão: Tue May 09 00:00:00 UTC 2000
Numero da decisão: 203-00.841
Decisão: RESOLVEM os Membros da Terceira Câmara do Segundo Conselho de Contribuintes, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso em diligência, nos termos do voto do Relator.
Nome do relator: RENATO SCALCO ISQUIERDO
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Numero do processo: 10530.002433/2003-16
Turma: Segunda Turma Ordinária da Primeira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jan 24 00:00:00 UTC 2012
Numero da decisão: 3102-000.192
Decisão: Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o recurso em diligência, nos termos do voto do relator.
Matéria: Cofins - ação fiscal (todas)
Nome do relator: WINDERLEY MORAIS PEREIRA
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Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o recurso em diligência, nos termos do voto do relator. Luis Marcelo Guerra de Castro Presidente. Winderley Morais Pereira Relator. Participaram do presente julgamento, os Conselheiros: Luis Marcelo Guerra de Castro, Ricardo Paulo Rosa, Luciano Pontes de Maya Gomes, Winderley Morais Pereira, Álvaro Arthur Lopes de Almeida Filho e Nanci Gama. Relatório Em procedimento de auditoria de pedido de compensação, a Fiscalização concluiu pelo lançamento de COFINS. Os valores lançados correspondem a débitos compensados com base em ações judiciais, que não foram comprovadas e diferença entre o valor declarado em DCTF e aquele constante da DIPJ. Fl. 699DF CARF MF Impresso em 18/06/2012 por EUNICE AUGUSTO MARIANO - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 04/06/2012 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA, Assinado digitalmente em 06/06/ 2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 04/06/2012 por WINDERLEY MORAIS PER EIRA Processo nº 10530.002433/200316 Resolução n.º 3102000.192 S3C4T3 Fl. 2 2 Inconformada, a empresa impugnou o lançamento, alegando preliminarmente a sua nulidade, em razão de não constar do Mandado de Procedimento Fiscal – MPF, o período objeto do lançamento e fiscalização da COFINS. Quanto ao mérito alega que as ações judiciais utilizadas para compensação dos débitos da COFINS estariam corretas, tendo ocorrido o seu trânsito em julgado. Alega ainda, a existência de recolhimento de parte dos débitos lançados e compensação com créditos oriundos de saldo credor do IPI. A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento, ao analisar a impugnação, confirmou que as ações judiciais, utilizadas para compensar os débitos da COFINS, tiveram o seu trânsito em julgado, conforme alegado na manifestação de inconformidade. Quanto ao restante da impugnação, a autoridade a quo entendeu não assistir razão a Recorrente, decidindo manter parcialmente o lançamento quanto às diferenças apuradas entre a COFINS declarada em DCTF e aquela constante da DIPJ, para os períodos 01/2003, 02/2003, 03/2003, 07/2003, 08/2003 e 09/2003. A decisão da DRJ foi assim ementada: “Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/01/2003 d 31/12/2004 Ementa: LANÇAMENTO – FUNDAMENTAÇÃO FÁTICA – AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO – Não se confirmando os fundamentos de fato que deram origem à autuação, elemento obrigatório do auto de infração, nos termos do artigo 10III do Decreto nº 70.235/72, é incabível a manutenção do lançamento. PIS – COMPENSAÇÃO – PROVIMENTO JUDICIAL – É incabível a constituição de ofício de valores informados em DCTF, apresentada tempestivamente, vinculados à compensação autorizada por decisão judicial, ainda que não tenha havido o trânsito em julgado. PIS – VALORES DECLARADOS EM DCTF – LANÇAMENTO – Não cabe a constituição de ofício de valores declarados em DCTF pelo sujeito passivo, em data anterior ao início da ação fiscal, nos termos do art. 18 da Lei nº 10.833/2003, com redação que lhe foi dada pela Lei nº 11.051/2004. PIS – VALORES INFORMADOS EM DIPJ – CONSTITUIÇÃO É correta a constituição pelo lançamento, de valores informados apenas em DIPJ, após o anocalendário de 1999, considerando o caráter meramente informativo da referida declaração. PIS – MATÉRIA NÃO IMPUGNADA Considerase não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo impugnante, nos termos do art. 17 do Decreto nº 70.235/72. MPF – NULIDADE DO LANÇAMENTO – Não há que se falar em nulidade do lançamento em decorrência de alegada inobservância dos termos do MPF, visto tratarse este de mero instrumento de controle administrativo, sendo suficiente, para sua validade, que seja assinado por servidor competente. Fl. 700DF CARF MF Impresso em 18/06/2012 por EUNICE AUGUSTO MARIANO - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 04/06/2012 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA, Assinado digitalmente em 06/06/ 2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 04/06/2012 por WINDERLEY MORAIS PER EIRA Processo nº 10530.002433/200316 Resolução n.º 3102000.192 S3C4T3 Fl. 3 3 Lançamento Procedente em Parte” Ao concluir o julgamento a DRJ, considerando que o valor exonerado superou o limite de alçada, fez constar no acórdão, a necessidade de submeter a decisão ao CARF, em sede de recurso de ofício, determinando o retorno dos autos a Unidade de origem para ciência do interessado. A Delegacia da Receita Federal de VitóriaES recebeu os autos e ao proceder à separação dos valores submetidos ao rito do recurso de ofício e os valores a serem cobrados do Recorrente, aparentemente, cometeu um equívoco, invertendo os débitos constantes da decisão de primeira instância, fazendo constar no Sistema, os valores exonerados como se fossem mantidos pela decisão e os valores mantidos no julgamento da DRJ como se estivessem submetidos a recurso de ofício, conforme se depreende da análise dos documentos às fls. 571 a 574. A autuada ao tomar ciência da decisão da DRJ e dos documentos de cobrança, veio aos autos apresentado Recurso Voluntário, alegando que existiu um erro fático nos procedimentos realizados pela DRF VitóriaES, pedindo a reparação do erro para espelhar corretamente à decisão da primeira instância. Quanto aos valores efetivamente mantidos, quais sejam, aqueles referentes às diferenças entre o valor declarado na DCTF e o constante da DIPJ, referente aos períodos de 01/2003, 02/2003, 03/2003, 07/2003, 08/2003 e 09/2003, também apresentou Recurso Voluntário, alegando que os valores não seriam devidos, em razão das ilegalidades no MPF, da existência de pagamentos de parte dos débitos lançados e da compensação com saldo credor de IPI, nos mesmos moldes já apresentados na impugnação. Em 28/06/2009 a Recorrente veio novamente aos autos e por meio dos documentos às fls. 666 a 681 requereu a desistência parcial do Recurso Voluntário, quanto aos períodos de apuração 01/2003, 02/2003, 03/2003, 07/2003, 08/2003 e 09/2003. É o Relatório. Voto Conselheiro Winderley Morais Pereira, Relator. Fl. 701DF CARF MF Impresso em 18/06/2012 por EUNICE AUGUSTO MARIANO - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 04/06/2012 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA, Assinado digitalmente em 06/06/ 2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 04/06/2012 por WINDERLEY MORAIS PER EIRA Processo nº 10530.002433/200316 Resolução n.º 3102000.192 S3C4T3 Fl. 4 4 A Recorrente alega que estariam sendo exigidos débitos exonerados pela decisão da primeira instância. Verificando os autos, aparentemente, assiste razão a Recorrente. Ao compararmos os documentos de cobrança e o detalhamento do recurso de ofício às fls. 571 a 574, existiria um equivoco da Unidade de Origem, ao fazer cumprir a decisão de primeira instância. Portanto, os valores que foram objeto de recurso de ofício nos termos constantes do processo, não estariam de acordo com os documentos de cobrança emitidos pela Unidade de Origem. Buscando evitar discussões futuras e o esclarecimento quanto aos valores exonerados e aqueles mantidos na decisão da primeira instância. Entendo ser necessário a baixa dos autos em diligência, para que a Unidade de Origem verifique a correta aplicação da decisão da DRJ. Diante do exposto, voto no sentido de converter o recurso em diligência para que a DRF VitóriaES confirme valores que estão sendo exigidos da Recorrente e àqueles que seriam objeto de Recurso de Ofício. Winderley Morais Pereira Fl. 702DF CARF MF Impresso em 18/06/2012 por EUNICE AUGUSTO MARIANO - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 04/06/2012 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA, Assinado digitalmente em 06/06/ 2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 04/06/2012 por WINDERLEY MORAIS PER EIRA
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Numero do processo: 13074.722359/2020-71
Turma: Segunda Turma Ordinária da Primeira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Fri Mar 27 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Thu May 07 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2016
PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. CRÉDITO. DOCUMENTAÇÃO COMPROBATÓRIA. CONHECIMENTO. PRONUNCIAMENTO. AUTORIDADE FISCAL. GARANTIA DO DUPLO GRAU DE JURISDIÇÃO ADMINISTRATIVA.
Compete à Autoridade Fiscal, da unidade da Secretaria Especial da Receita Federal do Brasil de circunscrição do sujeito passivo, a apreciação e a decisão completa acerca das matérias e das provas relevantes até então por ela desconhecidas, reiniciando-se, dadas as especificidades do caso concreto, o processo administrativo fiscal, evitando-se, assim, supressão de instâncias e garantindo-se, em decorrência, o duplo grau de jurisdição administrativa.
Numero da decisão: 1102-001.971
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar de nulidade suscitada e, no mérito, em dar parcial provimento ao recurso voluntário, para determinar o retorno dos autos à unidade de origem e a expedição de Despacho Decisório complementar, precedida da análise dos elementos reunidos nos autos e de outras providências que a Autoridade Fiscal entender pertinentes à completa elucidação dos fatos, reiniciando-se, a partir de então, o processo administrativo fiscal, inclusive com recebimento e conhecimento de eventual nova manifestação de inconformidade. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 1102-001.964, de 27 de março de 2026, prolatado no julgamento do processo 13074.722429/2020-91, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
Assinado Digitalmente
Fernando Beltcher da Silva – Presidente Redator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Lizandro Rodrigues de Sousa, Cristiane Pires McNaughton, Cassiano Romulo Soares, Gustavo Schneider Fossati, Gabriel Campelo de Carvalho e Fernando Beltcher da Silva.
Nome do relator: FERNANDO BELTCHER DA SILVA
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CRÉDITO. DOCUMENTAÇÃO COMPROBATÓRIA. CONHECIMENTO. PRONUNCIAMENTO. AUTORIDADE FISCAL. GARANTIA DO DUPLO GRAU DE JURISDIÇÃO ADMINISTRATIVA. Compete à Autoridade Fiscal, da unidade da Secretaria Especial da Receita Federal do Brasil de circunscrição do sujeito passivo, a apreciação e a decisão completa acerca das matérias e das provas relevantes até então por ela desconhecidas, reiniciando-se, dadas as especificidades do caso concreto, o processo administrativo fiscal, evitando-se, assim, supressão de instâncias e garantindo-se, em decorrência, o duplo grau de jurisdição administrativa. ACÓRDÃO Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar de nulidade suscitada e, no mérito, em dar parcial provimento ao recurso voluntário, para determinar o retorno dos autos à unidade de origem e a expedição de Despacho Decisório complementar, precedida da análise dos elementos reunidos nos autos e de outras providências que a Autoridade Fiscal entender pertinentes à completa elucidação dos fatos, reiniciando-se, a partir de então, o processo administrativo fiscal, inclusive com recebimento e conhecimento de eventual nova manifestação de inconformidade. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 1102-001.964, de 27 de março de 2026, prolatado no julgamento do processo 13074.722429/2020-91, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Fernando Beltcher da Silva – Presidente Redator Fl. 399DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.971 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13074.722359/2020-71 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Lizandro Rodrigues de Sousa, Cristiane Pires McNaughton, Cassiano Romulo Soares, Gustavo Schneider Fossati, Gabriel Campelo de Carvalho e Fernando Beltcher da Silva. RELATÓRIO O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023. Dessa forma, adota-se neste relatório substancialmente o relatado no acórdão paradigma. Trata-se de Recurso Voluntário, interposto em face de acórdão de primeira instância que julgou improcedente Manifestação de Inconformidade, cujo objeto era a reforma do Despacho Decisório exarado pela Unidade de Origem, que julgou o Pedido de Restituição apresentado pelo Contribuinte. O pedido é referente ao suposto crédito de IRPJ. Os fundamentos do Despacho Decisório da Unidade de Origem e os argumentos da Manifestação de Inconformidade estão resumidos no relatório do acórdão recorrido. Na sua ementa, em síntese abaixo, estão sumariados os fundamentos da decisão, detalhados no voto: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2016 LUCRO PRESUMIDO. VENDA DE SOFTWARE. COEFICIENTES APLICÁVEIS. A venda (desenvolvimento e edição) de softwares prontos para o uso (standard ou de prateleira) classifica-se como venda de mercadoria e o percentual para a determinação da base de cálculo do imposto sobre o Lucro presumido é de 8% sobre a receita bruta. A venda (desenvolvimento) de softwares por encomenda classifica-se como prestação de serviço e o percentual para determinação da base de cálculo do imposto é de 32% sobre a receita bruta. A venda (desenvolvimento) de softwares nos quais as adaptações feitas no produto pronto para cada cliente representam meros ajustes no programa, permitindo que o software (que já existia antes da relação jurídica) possa atender às necessidades daquele cliente, igualmente não geram receita de prestação de serviços, mas também de “venda de mercadorias”, onde aplicável o coeficiente de presunção do lucro de 8%. Caso se verifique que essas adaptações representem, em verdade, o próprio desenvolvimento de um programa aderente às necessidades do cliente e impliquem nova versão do produto ou sejam significativas ao ponto de não se enquadrarem como os meros ajustes mencionados, configurada estará a Fl. 400DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.971 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13074.722359/2020-71 3 prestação de um serviço, o que sujeita a receita decorrente ao percentual de presunção de 32% (trinta e dois por cento). Caso o contribuinte desempenhe concomitantemente mais de uma atividade, o percentual de presunção correspondente deve ser aplicado sobre o valor da receita bruta auferida em cada atividade. Dispositivos Legais: Decreto n.º 3.000, de 1999 - Regulamento do Imposto de Renda, artigos 518 e 519. LUCRO PRESUMIDO. NATUREZA DA ATIVIDADE. PRODUTO OU SERVIÇO. A natureza jurídica das atividades exercidas pelo contribuinte em cada contrato ou relação comercial deve ser explicitada para que a situação fática seja confrontada com a hipótese de incidência tributária delimitada pela legislação, considerando que as obrigações de dar (venda) e de fazer (serviços) são tributadas de maneira distinta. O exame pormenorizado dos contratos firmados entre as partes e documentação fiscal de suporte, devidamente associados aos registros contábeis, permite aferir a natureza do produto ou serviço contratado, donde advém o devido tratamento tributário das receitas para apuração do lucro presumido. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2016 ESCRITURAÇÃO FISCAL. PROVA CONTRA O CONTRIBUINTE. DESCONSTITUIÇÃO. Os livros empresariais provam contra seu autor, sendo lícito ao contribuinte, todavia, demonstrar, por todos os meios permitidos em direito, que os lançamentos não correspondem à verdade dos fatos. ÔNUS DA PROVA. DIREITO CREDITÓRIO. Compete ao autor do pedido de crédito o ônus da prova do fato constitutivo do seu direito alegado, mediante apresentação de elementos de prova hábeis e idôneos da existência do crédito contra a Fazenda Nacional, para que seja aferida sua liquidez e certeza, nos termos do artigo 170 do Código Tributário Nacional. A retificação da DCTF e da ECF, por si só, não são elementos de prova suficientes à configuração do indébito tributário. Cientificado do acórdão recorrido, o Sujeito Passivo interpôs Recurso Voluntário solicitando, em síntese: Reconhecer a juntada superveniente da prova emprestada uma vez que a Decisão do STJ que reconheceu a atividade da TAPPS é de desenvolvimento de Software de Prateleira para definição de tributação estadual ou municipal, transitou em Fl. 401DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.971 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13074.722359/2020-71 4 julgado no ano de 2021, isto, momento posterior a manifestação de inconformidade; Requerer a reforma da decisão da DJR para que haja o reconhecimento do direito de crédito do contribuinte em razão do pedido de restituição formulado no valor total; Caso assim não entenda, requer a conversão do julgamento do feito convertido em diligência para juntada daqueles documentos que os Ínclitos Julgadores entendam necessário para demonstração inequívoca de que o faturamento decorre de comercialização de software não customizável, conforme documentação em anexo; Por fim, caso não entendam pelo provimento dos pedidos acima, que a Colenda Câmara exerça o controle de legalidade e por consequência anule o julgamento proferido pela DJR em razão de flagrante violação ao Princípio do Devido Processo Legal, do Contraditório e da Ampla-Defesa para que outro julgamento seja proferido com base na matéria de fato e direito discutida nos autos. É o Relatório. VOTO Tratando-se de julgamento submetido à sistemática de recursos repetitivos na forma do Regimento Interno deste Conselho, reproduz-se o voto consignado no acórdão paradigma como razões de decidir: O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, pelo que dele se conhece. A preliminar de nulidade suscitada não merece acolhida. Isso porque o colegiado de primeira instância, a par do que reunido nos autos, julgou improcedente a inconformidade manifestada. Deve-se destacar que este processo cuida de direito creditório postulado pelo contribuinte. É ônus do autor do feito provar o fato alegado, do qual redunde o direito creditório que detenha contra a Fazenda Nacional (art. 36 da Lei n.º 9.784, de 29 de janeiro de 1999, e inciso I do art. 373 do Código de Processo Civil). O julgador administrativo deve lançar-se tão somente sobre a situação colocada nos autos, não lhe competindo, na tentativa de suprir deficiências causadas pela parte, substituí-la na obrigação de produção de provas do fato por esta alegado, preponderando, ao fim e ao cabo, o princípio do livre convencimento (art. 29 do Decreto n° 70.235, de 1972). Não há que se falar, portanto, em nulidade, pelo que rejeito a preliminar arguida. Fl. 402DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.971 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13074.722359/2020-71 5 De outra banda, o processo administrativo fiscal é espaço para salutar diálogo. Diante das razões invocadas pelo julgador em decisão recorrida, nada mais natural que a parte as contradiga e traga as correspondentes provas (alínea “c” do § 4º do art. 16 do Decreto n° 70.235, de 1972), o que me leva, no caso concreto, ao conhecimento integral do acervo trazido em sede de Recurso Voluntário. No mérito, a solução aplicável ao caso é pelo afastamento dos óbices indicados no Despacho Decisório, pois há “fumaça do bom direito”. A decisão administrativa em outro processo, de CPRB, diria respeito, a princípio, às atividades desenvolvidas pelo contribuinte no correspondente período de apuração, não sendo possível aduzir que a conclusão lá lançada se espraie indiscriminadamente para antes, ou para depois. Nesse aspecto, a precaução se justifica, também, pelo vasto objeto social da entidade, como destacado na decisão recorrida. Por sua vez, no MS n° 1035543-24.2019.8.26.0053 buscou-se a concessão da ordem, para que se determinasse à autoridade coatora (Secretário Municipal de Finanças e Desenvolvimento Econômico da Prefeitura do Município de São Paulo) que se abstivesse de exigir o ISS sobre a comercialização de programas não customizáveis (softwares de prateleira). A liminar foi deferida. Em sentença, foi concedida a ordem, com ressalva (in verbis): Posto isso, ratifico a liminar e concedo a ordem para determinar à autoridade coatora que se abstenha exigir da impetrante o pagamento de ISSQN em decorrência da comercialização ou licenciamento, mediante transferência eletrônica de dados, de softwares não customizáveis, ficando aqui também consignado que a ordem ora concedida não obsta a atividade fiscalizatória da Fazenda Pública Municipal, que poderá verificar se a impetrante está ou não a recolher o imposto sobre os softwares customizáveis ou sob encomenda. O Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo negou provimento à apelação do Município de São Paulo, dando destaque à ressalva anotada na sentença prolatada em primeiro grau: Por derradeiro, cumpre frisar que não há negativa de vigência à lei federal ou municipal, na medida em que, como bem apontado pelo juízo a quo, o ISSQN não abarca todo tipo de licenciamento ou cessão de direito de uso de programas de computação, mas apenas aqueles em que há customização. Pelo que consta, negou-se seguimento ao recurso especial pelo TJ/SP, com confirmação pelo STJ em sede de agravo, redundando no seu não conhecimento: Fl. 403DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.971 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13074.722359/2020-71 6 Da análise dos autos, percebe-se que há fundamento constitucional autônomo no acórdão recorrido e que não houve apresentação do devido recurso ao Supremo Tribunal Federal. Aplicável, portanto, o óbice da Súmula n. 126/STJ, uma vez que é imprescindível a interposição de recurso extraordinário quando o acórdão recorrido possui, além de fundamento infraconstitucional, fundamento de natureza constitucional suficiente por si só para a manutenção do julgado. [...] Ante o exposto, com base no art. 21-E, V, do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça, conheço do agravo para não conhecer do recurso especial. Este relator verificou, em 4 de março de 2026, que diversos jogos estão disponíveis na plataforma Play Store, de desenvolvimento atribuído à TAPPS GAMES, com milhões de usuários. Não é minimamente razoável crer que aplicativos disponibilizados indistintamente a incontáveis consumidores possam ter sido, pela Recorrente, customizados, desenvolvidos para atendimento às necessidades e desejos de cada cliente. Mas é possível que a totalidade das receitas da atividade-fim da Recorrente não se resuma ao desenvolvimento e licenciamento de softwares padronizados. É possível, ainda, que haja erros na apuração da base de cálculo do tributo, inclusive em razão de não adição integral, por exemplo e hipoteticamente, de receitas financeiras ou de ganho de capital, como se viu no processo paradigma (13074.722429/2020-91). De qualquer modo, não serão a classificação contábil da receita auferida, a dedução do ISS, a não dedução do ICMS (a Recorrente afirma que sequer incidira o imposto, por se tratar de exportação), a não demonstração do CMV, nem mesmo o objeto social que resolverão a celeuma, mas a demonstração cabal das atividades efetivamente exercidas pelo contribuinte em cada um dos diversos períodos de apuração, tratados no processo paradigma e em outros que compõem lote de repetitivos. Se para todas as receitas reconhecidas houver as correspondentes notas de comercialização de aplicativos para celulares e afins, decorrentes de transações entabuladas mediante as plataformas referidas (ou mesmo em outras), se para todas elas houver os respectivos contratos de câmbio, se o contribuinte instruiu, ou vier a instruir, o pleito com os relativos contratos de licenciamento/distribuição, se a totalidade dos produtos ofertados nas tais plataformas, desenvolvidos pela Recorrente, foram de prateleira, se a totalidade das receitas operacionais auferidas se referirem ao desenvolvimento/licenciamento de programas padronizados e se a apuração do tributo na modalidade do lucro presumido, aplicando-se percentual de presunção Fl. 404DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.971 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13074.722359/2020-71 7 menos gravoso, estiver correta, não haveria, dadas as reiteradas manifestações do Fisco, por que denegar o direito creditório reclamado. Tais aspectos e provas não foram avaliados até então. Ao inaugurarmos a apreciação desses fatores, supriríamos instância, cerceando o direito de defesa e inobservando o duplo grau de jurisdição administrativa. Tudo deve retornar ao início, com aperfeiçoamento/completude da análise pela Autoridade Fiscal e irrestrita colaboração do contribuinte. Ante o exposto, rejeito a preliminar de nulidade suscitada e, no mérito, dou parcial provimento ao recurso voluntário, para determinar, nos termos da fundamentação retro, o retorno dos autos à unidade de origem e a expedição de Despacho Decisório complementar, precedida da análise dos elementos reunidos nos autos e de outras providências que a Autoridade Fiscal entender pertinentes à completa e cabal elucidação dos fatos, reiniciando-se, a partir de então, o processo administrativo fiscal, inclusive com recebimento e conhecimento de eventual nova manifestação de inconformidade. Conclusão Importa registrar que as situações fática e jurídica destes autos se assemelham às verificadas na decisão paradigma, de sorte que as razões de decidir nela consignadas são aqui adotadas, não obstante os dados específicos do processo paradigma eventualmente citados neste voto. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do RICARF, reproduz-se o decidido no acórdão paradigma, no sentido de rejeitar a preliminar de nulidade suscitada e, no mérito, em dar parcial provimento ao recurso voluntário, para determinar o retorno dos autos à unidade de origem e a expedição de Despacho Decisório complementar, precedida da análise dos elementos reunidos nos autos e de outras providências que a Autoridade Fiscal entender pertinentes à completa elucidação dos fatos, reiniciando-se, a partir de então, o processo administrativo fiscal, inclusive com recebimento e conhecimento de eventual nova manifestação de inconformidade. Assinado Digitalmente Fernando Beltcher da Silva – Presidente Redator Fl. 405DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 13888.902850/2021-91
Turma: Segunda Turma Ordinária da Primeira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Jan 26 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Thu May 07 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Ano-calendário: 2018
AQUISIÇÃO DE INSUMOS NÃO TRIBUTADOS. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE.
A aquisição de insumos não tributados não gera direito ao crédito das contribuições não cumulativas para o adquirente.
TRANSPORTE DE PESSOAL. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE.
Não podem ser considerados insumos para fins de apuração de créditos da não cumulatividade os dispêndios com itens destinados a viabilizar a atividade da mão de obra empregada no processo de produção de bens ou de prestação de serviços, tais como alimentação, vestimenta, transporte, educação, saúde e seguro de vida, vedação esta que alcança qualquer área da pessoa jurídica - produção, administração, contabilidade, jurídica, etc.
SERVIÇOS DE FRETE RELATIVOS A PRODUTOS ACABADOS. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE
Os gastos com fretes relativos ao transporte de produtos acabados entre estabelecimentos da empresa não geram créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e de Cofins não cumulativas (Súmula Carf nº 217).
SERVIÇOS DE FRETE RELATIVOS A INSUMOS NÃO ONERADOS PELO PIS E COFINS. CREDITAMENTO. POSSIBILIDADE.
As despesas de fretes relativas às compras de insumos não onerados pelo PIS e Cofins geram direito ao crédito no regime não cumulativo, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições (Súmula Carf nº 188).
PEDÁGIO. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE.
Não é possível o desconto de crédito sobre despesas com pedágio, já que tais despesas não estão elencadas no art. 3º das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003 e não se enquadram no conceito de insumos dado pelo STJ no REsp nº 1.221.170/PR.
Numero da decisão: 3102-003.319
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário para reverter as glosas de créditos relativos a notas fiscais emitidas sem a identificação das chaves de acesso e de créditos relativos a frete de insumos não onerados pelo PIS e Cofins. A conselheira Sabrina Coutinho Barbosa acompanhou o relator pelas conclusões e apresentou declaração de voto. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3102-003.318, de 30 de janeiro de 2026, prolatado no julgamento do processo 13888.902849/2021-66, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
Assinado Digitalmente
Pedro Sousa Bispo – Presidente Redator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Fabio Kirzner Ejchel, Joana Maria de Oliveira Guimaraes, Jorge Luis Cabral, Sabrina Coutinho Barbosa, Wilson Antonio de Souza Correa, Pedro Sousa Bispo (Presidente).
Nome do relator: PEDRO SOUSA BISPO
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Ano-calendário: 2018 AQUISIÇÃO DE INSUMOS NÃO TRIBUTADOS. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. A aquisição de insumos não tributados não gera direito ao crédito das contribuições não cumulativas para o adquirente. TRANSPORTE DE PESSOAL. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. Não podem ser considerados insumos para fins de apuração de créditos da não cumulatividade os dispêndios com itens destinados a viabilizar a atividade da mão de obra empregada no processo de produção de bens ou de prestação de serviços, tais como alimentação, vestimenta, transporte, educação, saúde e seguro de vida, vedação esta que alcança qualquer área da pessoa jurídica - produção, administração, contabilidade, jurídica, etc. SERVIÇOS DE FRETE RELATIVOS A PRODUTOS ACABADOS. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE Os gastos com fretes relativos ao transporte de produtos acabados entre estabelecimentos da empresa não geram créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e de Cofins não cumulativas (Súmula Carf nº 217). SERVIÇOS DE FRETE RELATIVOS A INSUMOS NÃO ONERADOS PELO PIS E COFINS. CREDITAMENTO. POSSIBILIDADE. As despesas de fretes relativas às compras de insumos não onerados pelo PIS e Cofins geram direito ao crédito no regime não cumulativo, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições (Súmula Carf nº 188). PEDÁGIO. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. Não é possível o desconto de crédito sobre despesas com pedágio, já que tais despesas não estão elencadas no art. 3º das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003 e não se enquadram no conceito de insumos dado pelo STJ no REsp nº 1.221.170/PR.
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CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. A aquisição de insumos não tributados não gera direito ao crédito das contribuições não cumulativas para o adquirente. TRANSPORTE DE PESSOAL. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. Não podem ser considerados insumos para fins de apuração de créditos da não cumulatividade os dispêndios com itens destinados a viabilizar a atividade da mão de obra empregada no processo de produção de bens ou de prestação de serviços, tais como alimentação, vestimenta, transporte, educação, saúde e seguro de vida, vedação esta que alcança qualquer área da pessoa jurídica - produção, administração, contabilidade, jurídica, etc. SERVIÇOS DE FRETE RELATIVOS A PRODUTOS ACABADOS. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE Os gastos com fretes relativos ao transporte de produtos acabados entre estabelecimentos da empresa não geram créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e de Cofins não cumulativas (Súmula Carf nº 217). SERVIÇOS DE FRETE RELATIVOS A INSUMOS NÃO ONERADOS PELO PIS E COFINS. CREDITAMENTO. POSSIBILIDADE. As despesas de fretes relativas às compras de insumos não onerados pelo PIS e Cofins geram direito ao crédito no regime não cumulativo, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições (Súmula Carf nº 188). PEDÁGIO. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. Fl. 497DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.319 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13888.902850/2021-91 2 Não é possível o desconto de crédito sobre despesas com pedágio, já que tais despesas não estão elencadas no art. 3º das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003 e não se enquadram no conceito de insumos dado pelo STJ no REsp nº 1.221.170/PR. ACÓRDÃO Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário para reverter as glosas de créditos relativos a notas fiscais emitidas sem a identificação das chaves de acesso e de créditos relativos a frete de insumos não onerados pelo PIS e Cofins. A conselheira Sabrina Coutinho Barbosa acompanhou o relator pelas conclusões e apresentou declaração de voto. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3102-003.318, de 30 de janeiro de 2026, prolatado no julgamento do processo 13888.902849/2021-66, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Pedro Sousa Bispo – Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Fabio Kirzner Ejchel, Joana Maria de Oliveira Guimaraes, Jorge Luis Cabral, Sabrina Coutinho Barbosa, Wilson Antonio de Souza Correa, Pedro Sousa Bispo (Presidente). RELATÓRIO O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023. Dessa forma, adota-se neste relatório substancialmente o relatado no acórdão paradigma. Trata-se de Recurso Voluntário, interposto em face de acórdão de primeira instância que julgou procedente em parte Manifestação de Inconformidade, cujo objeto era a reforma do Despacho Decisório exarado pela Unidade de Origem, que julgou o Pedido de Ressarcimento apresentado pelo Contribuinte. O pedido é referente ao suposto crédito de COFINS. Os fundamentos do Despacho Decisório da Unidade de Origem e os argumentos da Manifestação de Inconformidade estão resumidos no relatório do acórdão recorrido. Na sua ementa, em síntese abaixo, estão sumariados os fundamentos da decisão, detalhados no voto: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Ano-calendário: 2018 Fl. 498DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.319 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13888.902850/2021-91 3 PIS/PASEP. COFINS. INSUMOS. A análise da apropriação de créditos de PIS/Pasep e Cofins não-cumulativos, deve ser feita com base no julgamento do Recurso Especial (Resp) nº 1221170/PR pela Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça. FRETE PAGO NA COMPRA DE INSUMOS. CRÉDITOS. NATUREZA DOS INSUMOS TRANSPORTADOS. As despesas com fretes, vinculadas a compras dos insumos utilizados no processo produtivo, integram o custo de aquisição e, por conseguinte, os créditos originados dessas despesas têm a mesma natureza e seguem a mesma sistemática de cálculo dos créditos originados das mercadorias adquiridas. DESPESAS DE FRETES DE TRANSFERÊNCIAS DE PRODUTOS ACABADOS Despesas com fretes de transferências de produtos acabados não se enquadram como frete na operação de venda e também não podem ser consideradas como insumo, visto que elas se dão depois de terminado o processo produtivo. O contribuinte foi cientificado da decisão de primeira instância e apresentou recurso voluntário em que solicita: Ante o exposto, requer-se o recebimento, conhecimento e provimento do presente Recurso Voluntário para se seja reformado o v. acórdão e reconhecida a integralidade do crédito pleiteado, homologando-se a compensação realizada. É o relatório. VOTO Tratando-se de julgamento submetido à sistemática de recursos repetitivos na forma do Regimento Interno deste Conselho, reproduz-se o voto consignado no acórdão paradigma como razões de decidir: O Recurso Voluntário é tempestivo e atende os demais requisitos de admissibilidade, devendo, então, ser conhecido. Conforme relatado, trata-se de pedido de ressarcimento de PIS cujo crédito foi reconhecido apenas parcialmente. O recurso voluntário solicita a análise conjunta do presente processo com outros 15 processos, todos de 2021, já que se originam do mesmo procedimento fiscalizatório. Em seguida, traz questões sobre a glosa de notas fiscais sem a indicação da chave de acesso; glosa de notas fiscais relativas a aquisição de insumos não tributados; glosa de créditos referentes a insumos de Abatedouro de Fl. 499DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.319 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13888.902850/2021-91 4 Aves Ideal Ltda.; glosa de créditos relativos a frete – transporte de pessoas; glosa de créditos relativos a fretes de produtos acabados entre estabelecimentos da mesma titularidade; glosa de créditos de frete de compra de insumos não onerados pelo PIS e Cofins e glosa de créditos referentes a despesas com pedágios. Todos esses assuntos passam a ser tratados em seguida. Análise conjunta de processos Neste tópico a recorrente solicita a análise conjunta de 16 processos, relativos ao mesmo procedimento fiscalizatório: 9. Inicialmente, a Recorrente informa que o v. acórdão ora combatido decorre do procedimento fiscalizatório consubstanciado no e-Dossiê nº 13032.4929072021-09 que analisou os PER que abrangem o PIS e a COFINS referente aos períodos de 2018 e 2019. 10. Nessa esteira, foram proferidos 16 (dezesseis) despachos decisórios provenientes do mesmo contexto fático e legal, de modo que se faz necessária a sua distribuição e julgamento em conjunto a fim de evitar decisões conflitantes entre si. Veja abaixo o quadro que consolida todos os processos provenientes da mesma fiscalização: A análise da conveniência e oportunidade da distribuição conjunta é do setor do CARF responsável pelo sorteio e distribuição de processos para julgamento. que avalia todas as regras e variáveis envolvidas na distribuição de processos para as Turmas de Julgamento e para os conselheiros. Importante notar que os processos podem ser considerados repetitivos – ou seja, uma vez julgado o processo paradigma, os repetitivos seguem automaticamente a mesma decisão. Não deverão ocorrer, assim, nesses casos, decisões conflitantes, como temia a recorrente. O processo administrativo fiscal é disciplinado pelo Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, e alterações posteriores, não existindo, na norma, obrigatoriedade de análise conjunta para esse caso. Pelo contrário, o processo administrativo fiscal é regido por regras e princípios, estes sim de observância obrigatória, sendo que, dentre eles, está o da oficialidade, quando da Fl. 500DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.319 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13888.902850/2021-91 5 determinação de “impulsão, de ofício, do processo administrativo, sem prejuízo da atuação dos interessados”, conforme dispõe o art. 2º, parágrafo único, XII da Lei nº. 9.784/99. Por fim, o conselheiro está vinculado às normas que regem o órgão julgador, no caso, o RICARF. Não há qualquer orientação no regimento desse Conselho para que não ocorra a análise imediata do processo em tela, independentemente da análise dos demais processos conexos. Assim, segue-se para a análise das questões de mérito. Glosa de créditos relativos a notas fiscais emitidas sem a indicação da chave de acesso Após considerações sobre a não cumulatividade do PIS e da Cofins e sobre o definido pelo STJ no REsp 1.221.170/PR, a recorrente alega que as glosas relativas a duas notas fiscais específicas (números 100 e 129) devem ser revertidas: 13. Inicialmente, importante destacar que, em que pese o caso em exame verse apenas sobre uma das contribuições, parte da fundamentação a ser apresentada pela Recorrente abrangerá o PIS e a COFINS em razão da similaridade das referidas contribuições. 14. A sistemática do regime da não cumulatividade foi inserida em nosso ordenamento jurídico, para fins de PIS e COFINS, pela Emenda Constitucional nº 42. O ordenamento constitucional encontra repercussão nas Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/2003, que indicaram em seus artigos 3º uma listagem enumerativa das despesas que dariam direito a crédito para fins de apuração da base de cálculo de ambas as contribuições. (...) 32. No entanto, para que não pairem dúvidas quanto ao conceito de insumo que deve ser adotado ao presente caso, passa-se a analisar essa questão para fins de aplicabilidade da não-cumulatividade prevista nas Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/2003, à luz do que foi decidido pelo E. STJ no REsp nº 1.221.170/PR, julgado sob a sistemática de recursos repetitivos. (...) 68. A primeira glosa indicada pela d. Fiscalização se refere a duas Notas Fiscais, para as quais a apropriação de crédito não seria possível em razão da falta de indicação da chave de acesso correspondente às aquisições. Ato contínuo, o v. Acórdão manteve a glosa dessas notas, nos seguintes termos: “A interessada informa que as “Notas Fiscais (nº 100 e 129) formalizam operações reais com o fornecedor CALOR ELIAS NIELSEN JUNIOR (CNPJ nº 19.155.664/0001-58)”, informações essas que já constam da planilha “02 - Bens Insumos.xlsx”, aba “item 02” acostada pela fiscalização no processo (edossiê) nº 13032.661439/2021-11. Fl. 501DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.319 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13888.902850/2021-91 6 No entanto, ela não apresenta as cópias das citadas NFs para que possam ser avaliadas nesta fase de julgamento.” 69. Diante desse contexto, a Recorrente reitera que as apontadas Notas Fiscais (nº 100 e 129) formalizam operações efetivamente realizadas com o fornecedor CALOR ELIAS NIELSEN JUNIOR (CNPJ nº 19.155.664/0001-58), sendo que tais documentos fiscais não possuem chave de acesso, pois foram emitidos de forma avulsa, no Modelo 1B, conforme demonstrado pelas notas anexas (DocComprobatorio01). (...) 71. No caso, foram adquiridos pela Recorrente bens de reposição de suas máquinas e equipamentos utilizados em seu processo produtivo. 73. Tem-se, portanto, demonstrado que (i) a ausência de chave de acesso não é óbice para a apropriação do crédito em razão da emissão de documentos fiscal em modelo específico e regular e (ii) o bem adquirido pela Recorrente é utilizado na manutenção de máquinas e equipamentos inseridas em seu processo produtivo, conclui-se válido o crédito apropriado pela Recorrente, devendo ser revertida a glosa das Notas Fiscais nº 100 e 129. Assiste razão à recorrente. O Termo de Verificação Fiscal explicitou que os 02 itens foram glosados em função da falta de chaves de acesso às notas fiscais: 37. Foram glosados inicialmente dois itens para os quais não foram informadas as chaves de acesso à sua nota fiscais eletrônica (NF-e). Frisa-se, que mesmo na planilha “Item 2” supracitada, o contribuinte não corrigiu a informação ausente no Registro C100 da EFD-Contribuições, deixando de informar novamente a chave de acesso para estes dois itens, os quais não puderam, portanto, ser validados. Na manifestação de inconformidade, a empresa apresentou as informações sobre os documentos, explicando que foram emitidos de forma avulsa: Ocorre, contudo, que as apontadas Notas Fiscais (nº 100 e 129) formalizam operações reais com o fornecedor CALOR ELIAS NIELSEN JUNIOR (CNPJ nº 19.155.664/0001-58), sendo que tais documentos fiscais não possuem chave de acesso pois foram emitidos de forma avulsa, no Modelo 1B, conforme escriturado pela Requerente. E se o documento fiscal foi devidamente emitido, ainda que sem a Chave de Acesso, há de ser analisado o bem adquirido a fim de que se confirme o direito ao crédito. No caso, foram adquiridos pela Requerente bens de reposição de suas máquinas e equipamentos utilizados em seu processo produtivo (carcaça de filtro de ar e bucha para rolamento). Importante frisar que, no mesmo período, em aquisições de itens semelhantes, porém contendo o número da Chave de Acesso, a d. fiscalização confirmou o crédito apropriado pela Requerente, sem qualquer questionamento. Fl. 502DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.319 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13888.902850/2021-91 7 A glosa foi mantida por falta de apresentação das notas fiscais: A interessada informa que as “Notas Fiscais (nº 100 e 129) formalizam operações reais com o fornecedor CALOR ELIAS NIELSEN JUNIOR (CNPJ nº 19.155.664/0001- 58)”, informações essas que já constam da planilha “02 - Bens Insumos.xlsx”, aba “item 02” acostada pela fiscalização no processo (e-dossiê) nº 13032.661439/2021- 11. No entanto, ela não apresenta as cópias das citadas NFs para que possam ser avaliadas nesta fase de julgamento. Com o recurso voluntário, a empresa, além de apresentar novamente os argumentos colocados na manifestação de inconformidade, apresenta as duas notas fiscais, nos valores de R$1.523,50 e R$950,00. Efetivamente trata-se de documentos emitidos de forma manual, porém regular. Não existe nenhum elemento, tanto no Termo de Verificação Fiscal como no acórdão recorrido, que possa sugerir alguma irregularidade nas operações. No âmbito da análise feita neste voto, também não vislumbro nenhum motivo para a glosa dos créditos. Os materiais adquiridos geram direito ao crédito e sua aquisição está comprovada, mesmo sem a identificação da chave de acesso das notas fiscais. A glosa de créditos relativos a notas fiscais emitidas sem a identificação das chaves de acesso deve, assim, ser revertida. Glosa de notas fiscais relativas a aquisição de insumos não tributados Neste tópico, a recorrente discorre sobre créditos glosados por tratarem de aquisições não tributadas. Abaixo, excertos do recurso voluntário: 74. Glosou também a d. Fiscalização, diversos itens que, de acordo com o seu entendimento, não dariam direito a apropriação de crédito pois as notas fiscais emitidas pelos fornecedores contêm “informação de operação não sujeita ao pagamento das contribuições. Para esses itens, o Código de Situação Tributária (CST) de PIS e COFINS informado pelo emitente da NF-e é igual a 06 (alíquota zero), 07 (isenta), 08 (sem incidência) ou 99 (outras operações), e suas aquisições não dão direito a crédito, em razão da vedação contida no inciso II do §2º do art. 3º das Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/2003.” 75. Inicialmente, cumpre ressaltar que muito embora a d. fiscalização, no Termo de Informação Fiscal, mencione que a referida glosa abrange 5.150 itens, a planilha correspondente ao levantamento constante deste item (fl. 574) aponta somente 472 itens. 76. Dos 472 itens apontados, a Recorrente anexou planilha na Manifestação de Inconformidade (Doc. 04 da Manifestação de Inconformidade), na qual indica 51 itens para os quais concorda com a glosa do crédito e 421 itens que são Fl. 503DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.319 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13888.902850/2021-91 8 regularmente tributados pelo PIS/COFINS e, portanto, não se enquadram nas alegações feitas pela d. Fiscalização. (...) 81. Com efeito, o fato de os insumos adquiridos serem classificados pelo CST 53 nos Registros C170 da EFD-Contribuições demonstra que a Recorrente tomou créditos de valores de PIS e COFINS que foram efetivamente tributados pelos respectivos fornecedores. 82. Como dito, é cediço que a legislação que rege as contribuições não autoriza o creditamento nos casos de aquisições de insumos que não tenham sido tributados nas operações anteriores, exceto nos casos de aquisição de insumos isentos. Mas, autoriza o crédito quando as operações anteriores forem tributadas, razão pela qual a análise deve ater-se à sujeição do insumo à tributação nas etapas anteriores da cadeia, o que ocorreu no presente caso. (...) 90. Nesse sentido, conforme indicado na planilha acostada aos autos, todos os bens ali indicados possuem tributação regular do PIS/COFINS, de tal forma que geram direito ao crédito àqueles que, como a Recorrente, os adquirem. 91. Em outras palavras, trata-se de mero erro na identificação da verdade material dos fatos, uma vez que tais operações de aquisição são, na verdade, regularmente tributadas. 92. Assim, caracterizado o mero erro na identificação dos fatos e o equívoco no preenchimento das obrigações acessórias, restando devidamente comprovada a existência do direito creditório pleiteado, o crédito em questão deve ser reconhecido. Não assiste razão à recorrente. Conforme descrito no Termo de Informação Fiscal, foram glosados os insumos referentes a notas fiscais emitidas pelos fornecedores com a informação e que não houve pagamento das contribuições: 40. Os demais insumos glosados (5.150 itens) se referem a aquisições que não dão direito a crédito, em razão de as NF-e emitidas pelos fornecedores conter informação de operação não sujeita ao pagamento das contribuições. Para esses itens, o Código de Situação Tributária (CST) de PIS e COFINS informado pelo emitente da NF-e é igual a 06 (alíquota zero), 07 (isenta), 08 (sem incidência) ou 99 (outras operações), e suas aquisições não dão direito a crédito, em razão da vedação contida no inciso II do §2º do art. 3º das Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/2003, de mesma redação, a saber: O inciso II do parágrafo 2º do art. 3º das Leis 10.637/2002 e 10.833/2004 dispõe que não dará direito a crédito o valor da aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição: Fl. 504DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.319 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13888.902850/2021-91 9 § 2º Não dará direito a crédito o valor: (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) I - de mão de obra paga a pessoa física; (Redação dada pela Lei nº 14.592, de 2023) II - da aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição, inclusive no caso de isenção, esse último quando revendidos ou utilizados como insumo em produtos ou serviços sujeitos à alíquota 0 (zero), isentos ou não alcançados pela contribuição No recurso voluntário, a recorrente alega “o fato de os insumos adquiridos serem classificados pelo CST 53 nos Registros C170 da EFD-Contribuições demonstra que a Recorrente tomou créditos de valores de PIS e COFINS que foram efetivamente tributados pelos respectivos fornecedores”. Ou seja: a alegação é de que como ela (recorrente) lançou os valores no registro C170 da EFD, os seus fornecedores teriam sido efetivamente tributados. Porém não é o fato do adquirente ter feito determinado lançamento contábil que obrigaria o fornecedor a recolher ou não os tributos. A definição sobre o recolhimento ou não de tributos se dá em conformidade com a legislação vigente, e não com a contabilização do destinatário dos produtos. É inegável que as notas fiscais explicitam que não houve recolhimento dos tributos, por tratarem-se de operações sem incidência de tributação, isentas ou com alíquota zero. Como descrito no acórdão recorrido, “A afirmação genérica de que que houve apenas um equívoco no preenchimento da NFe visto que, diferentemente do informado na NFe, as operações são tributadas, não pode prosperar. A verdade material deve ser objeto de busca, inicialmente, pela própria empresa interessada. Significa dizer que cabe a ela providenciar a correção das notas fiscais emitidas com erro por seus fornecedores.” A recorrente reconhece que a legislação não autoriza o creditamento no caso de aquisições de insumos que não tenham sido tributados nas operações anteriores, mas afirma ter direito ao creditamento mesmo sem nenhuma comprovação de que os insumos teriam sido tributados, ainda que em desacordo com o previsto na legislação, em etapa anterior. O pleito não tem fundamento. As glossas devem, então, ser mantidas. Glosa de créditos referentes a insumos de Abatedouro de Aves Ideal Ltda. Neste tópico, a empresa discorre sobre glosas de aquisições de energia elétrica, embalagens, filmes, graxeiras e tarugas de Abatedouro de Aves Ideal Ltda: 103. Por conseguinte, o v. acórdão manteve a glosa dos créditos de PIS e COFINS apropriados relativamente às notas fiscais da aquisição de energia elétrica, embalagens, filmes, graxeiras e tarugas, sob a justificativa que se tratava de aquisições de produtos por outra empresa: (...) Fl. 505DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.319 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13888.902850/2021-91 10 106. Assim, no instituto do sistema de integração, criou-se uma ficção legal aproximando-se o integrador dos produtores integrados, como se ele fosse o produtor legal, de modo que as atividades desempenhadas pelo produtor integrado são consideradas como se houvessem sido realizadas pelo integrador, que, por via de consequência, preserva o direito à manutenção dos créditos referentes a todos os insumos consumidos no processo de engorda. (...) 114. Nessa esteira, percebe-se que a jurisprudência consagra o entendimento de que o sistema de parceria agrícola na modalidade integração fosse uma extensão do estabelecimento da empresa integradora contratante, para fins de direito ao crédito, razão pela qual ficam assegurados os créditos relativos à totalidade dos insumos adquiridos pelo integrador, bem como pelo integrado, os quais foram glosados no presente caso. Não assiste razão à recorrente. A recorrente pretende utilizar créditos sobre aquisições efetuadas por terceiros, o que não está previsto na legislação, que permite o crédito em relação bens e serviços adquiridos pela própria empresa e que sejam utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda. A empresa argumenta tratar-se de “uma extensão do estabelecimento da empresa integradora contratante”. Porém, conforme relatado pela recorrente e exposto no próprio documento apresentado pela empresa no recurso, tratam-se de notas fiscais relativas a retorno de industrialização/industrialização efetuada por outra empresa: Ademais, tais operações também têm sua alíquota reduzida a zero, conforme disposto no parágrafo 4º do art. 1º da Lei nº 10.925, tratando-se, assim, do mesmo caso discutido no tópico anterior: Fl. 506DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.319 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13888.902850/2021-91 11 Art. 1º Ficam reduzidas a 0 (zero) as alíquotas da contribuição para o PIS/PASEP e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - COFINS incidentes na importação e sobre a receita bruta de venda no mercado interno de: (...) § 4º Aplica-se a redução de alíquotas de que trata o caput também à receita bruta decorrente das saídas do estabelecimento industrial, na industrialização por conta e ordem de terceiros dos bens e produtos classificados nas posições 01.03, 01.05, 02.03, 02.06.30.00, 0206.4, 02.07 e 0210.1 da Tipi. A decisão de piso deve, então, ser mantida neste tópico. Glosa de créditos relativos a frete – transporte de pessoas Neste tópico, a recorrente sustenta que o transporte de pessoas gera crédito para o PIS e Cofins: 116. Conforme adiantado, o referido serviço de frete foi apropriado pela Recorrente como insumo do seu processo produtivo (inciso II do art. 3º das Leis nº 10.833/2003 e 10.637/2002) e não como frete na operação de venda (inciso IX do art. 3º das Leis nº 10.833/2003 e 10.637/2002). 117. Nesse sentido, o referido serviço de frete deve ser analisado nos termos da já mencionada decisão proferida pelo STJ no julgamento do REsp nº 1.221.170/PR, na qual pacificou-se o entendimento de que o conceito de insumos para fins de créditos de PIS/COFINS deve estar atrelado à essencialidade e/ou a relevância da despesa para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte, conforme demonstrado pela Recorrente no tópico “III.1.2 – CONCEITO DE INSUMOS PARA FINS DE CREDITAMENTO DE PIS E COFINS DEFINIDO PELO STJ NO RESP Nº 1.221.170/PR, NA SISTEMÁTICA DE RECURSOS REPETITIVOS”. (...) 120. Importante frisar que a Recorrente não pretende o enquadramento dos referidos créditos na autorização contida no inciso X das apontadas leis, uma vez que este dispositivo deve ser aplicado exclusivamente às atividades nele especificadas, quais sejam, prestação de serviços de limpeza, conservação e manutenção. 121. Contudo, em que pese a Recorrente não atue com os referidos serviços, é certo que arca com os gastos de transporte de seus funcionários, como é possível verificar pelo fato de a apropriação de crédito ser mensal, ou seja, não se tratou de contratação esporádica e eventual. (...) 130. Como se pode perceber, os gastos vinculados ao transporte de funcionários com a contratação do transporte a ser efetuado por terceiros, possui reconhecida essencialidade na produção das indústrias e, portanto, podem ser considerados como insumos para fins do PIS/COFINS. Fl. 507DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.319 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13888.902850/2021-91 12 Não assiste razão à recorrente. A Cãmara Superior de Recursos Fiscais tratou desse assunto em acórdão recente, de 08/10/24, cuja ementa está parcialmente transcrita abaixo: PROCESSO 10410.721494/2010-71 ACÓRDÃO 9303-016.042 – CSRF/3ª TURMA SESSÃO DE 8 de outubro de 2024 RECURSO ESPECIAL DO CONTRIBUINTE RECORRENTE S A USINA CORURIPE ACUCAR E ALCOOL INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/01/2008 a 31/03/2008 TRANSPORTE DE PESSOAL. ÁREA AGRÍCOLA. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. Não podem ser considerados insumos para fins de apuração de créditos da não cumulatividade os dispêndios com itens destinados a viabilizar a atividade da mão de obra empregada no processo de produção de bens ou de prestação de serviços, tais como alimentação, vestimenta, transporte, educação, saúde e seguro de vida, vedação esta que alcança qualquer área da pessoa jurídica - produção, administração, contabilidade, jurídica, etc. (Parecer Normativo Cosit/RFB nº 05/2018, Itens 133 e 134). Adoto, como razões de decidir, trechos do voto preferido naquele processo: Alega a Recorrente que “o serviço de transporte de pessoal é indispensável à produção”, consistindo este serviço no transporte de trabalhadores rurais para o local da extração da cana-de-açúcar, bem como dos trabalhadores industriais para a fábrica. Em julgamento realizado em 26 de agosto de 2023 acerca da mesma matéria, este Colegiado, por maioria, rechaçou o direito ao crédito sobre os gastos com o transporte de pessoas na fase agrícola, conforme Acórdão n.º 9303-014.273, da relatoria da i. Conselheira Liziane Angelotti Meira, cuja ementa dispõe: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL(COFINS) Período de apuração: 01/07/2004 a 30/09/2004 (...) TRANSPORTE DE PESSOAL. ÁREA AGRÍCOLA. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. Não podem ser considerados insumos para fins de apuração de créditos da não cumulatividade os dispêndios com itens destinados a viabilizar a atividade da mão de obra empregada no processo de produção de bens ou Fl. 508DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.319 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13888.902850/2021-91 13 de prestação de serviços, tais como alimentação, vestimenta, transporte, educação, saúde e seguro de vida, vedação esta que alcança qualquer área da pessoa jurídica -produção, administração, contabilidade, jurídica, etc. (Parecer Normativo Cosit/RFB nº 05/2018, Itens 133 e 134). Do voto da Relatora colho as seguintes razões de decidir, que adoto como se minhas fossem: Portanto, está em discussão o conceito de insumo do Inciso II das Lei nºs 10.637/2002 e 10.833/2003. No mesmo Acórdão nº 9303-012.061, de 20/10/2021, já aqui citado, julgando Recurso Especial em Processo da COSAN, não se reconheceu o direito ao crédito, por maioria, tendo sido designado para redigir o Voto Vencedor, nesta matéria, o ilustre Conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos: SERVIÇO DE TRANSPORTE DE EMPREGADOS. CONCEITO DE INSUMOS À LUZ DOS CRITÉRIOS DA ESSENCIALIDADE OU RELEVÂNCIA. NÃO UTILIZAÇÃO NO PROCESSO PRODUTIVO. Despesas com serviços de transporte de empregados por não serem utilizados no processo produtivo da Contribuinte não geram créditos de PIS e COFINS no regime não cumulativo. Corresponde à despesa administrativa relacionada ao corpo funcional da empresa. Na decisão mencionada, o contribuinte também era um produtor de açúcar e álcool e se discutia precisamente o direito ao crédito sobre os gastos com o transporte de trabalhadores para a colheita da cana-de-açúcar. O Parecer Normativo Cosit/RFB nº 05/2018, que interpretou a decisão vinculante do STJ no REsp nº 1.221.170/PR, admite o creditamento relativo aos gastos para a fabricação do “insumo do insumo”, contemplando, assim, as despesas da fase agrícola da produção (própria) da cana-de-açúcar. Mas, o mesmo Parecer Normativo afasta, explicitamente, o direito ao crédito sobre os gastos com o transporte de funcionários, qualquer que seja a atividade a ser por eles desempenhada: 9.2. DISPÊNDIOS PARA VIABILIZAÇÃO DA ATIVIDADE DA MÃO DE OBRA(...)133. Diante disso, resta evidente que não podem ser considerados insumos para fins de apuração de créditos da não cumulatividade da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins os dispêndios da pessoa jurídica com itens destinados a viabilizar a atividade da mão de obra empregada em seu processo de produção de bens ou de prestação de serviços, tais como alimentação, vestimenta, transporte, educação, saúde, seguro de vida, etc. (sem prejuízo da modalidade específica de creditamento instituída no inciso X do art. 3º da Lei nº 10.637, de 2002, e da Lei nº 10.833, de 2003). 134. Certamente, essa vedação alcança os itens destinados a viabilizar a atividade da mão de obra utilizada em qualquer área da pessoa jurídica (produção, administração, contabilidade, jurídica, etc.). Fl. 509DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.319 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13888.902850/2021-91 14 Desta forma, voto por negar provimento ao Recurso Especial da Contribuinte nesta matéria, não reconhecendo o direito ao crédito sobre os gastos com o transporte de pessoal na fase agrícola. A decisão de piso deve ser mantida. Glosa de créditos relativos a frete de produtos acabados entre estabelecimentos da mesma titularidade O presente tópico trata de frete de produtos acabados entre estabelecimentos da mesma titularidade: 132. Além das glosas mencionadas acima, a d. Autoridade Fiscal também glosou as despesas com fretes de produtos acabados entre estabelecimentos da empresa Recorrente. Em síntese, afirma que não há previsão legal para apuração de créditos sobre o dispêndio de transporte de produtos acabados entre estabelecimentos da empresa e que tão somente deve ser apurado crédito nas operações nas quais se transporta o produto do estabelecimento da empresa vendedora até o adquirente. No entanto, conforme se passa a expor, as referidas glosas não merecem prevalecer pelas razões expostas a seguir. (...) 134. Não somente, vale reiterar que os produtos transportados são produtos acabados relacionados à atividade operacional da empresa, tais quais: embalagens de pedaços das aves, filmes para embrulhar pedaços de aves, dentre outros, conforme é possível observar por uma amostragem de DANFE’s apresentada pela Recorrente (DocComprobatorio04): (...) 140. Caso não se entenda pelo direito ao crédito decorrente das despesas com o frete da transferência de bens entre estabelecimentos da Recorrente estarem abrangidas pelo artigo 3º, IX, da Lei nº 10.833/2003, o custo com o frete dessas transferências caracteriza-se como insumo no processo produtivo da Recorrente. (...) 147. Portanto, também sob esse prisma, não restam dúvidas de que as despesas com o frete nas operações de remessa e retorno pela Recorrente podem ser consideradas como essenciais para a consecução de sua atividade, motivo pelo qual a glosa deve ser integralmente revertida. Não assiste razão à recorrente. O assunto já foi objeto de Súmula de aplicação obrigatória por este CARF, não cabendo mais qualquer discussão sobre o tema: Súmula CARF nº 217 Fl. 510DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.319 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13888.902850/2021-91 15 Aprovada pelo Pleno da 3ª Turma da CSRF em sessão de 26/09/2024 – vigência em 04/10/2024 Os gastos com fretes relativos ao transporte de produtos acabados entre estabelecimentos da empresa não geram créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e de Cofins não cumulativas. Acórdãos Precedentes: 9303-014.190; 9303-014.428; 9303-015.015. A glosa deve então, ser mantida. Glosa de créditos relativos a frete de insumos não onerados pelo PIS e Cofins Nesse tópico, a recorrente alega que os fretes de insumos não sujeitos à tributação: 148. Segundo a o v. acórdão, as despesas com fretes na aquisição de insumos “o valor do frete incorporado ao custo de aquisição acompanha o do bem adquirido, ou seja, se esse bem for passível de creditamento, o creditamento será calculado sobre o custo total (preço do bem + frete); em caso contrário nenhum valor será passível do crédito”. (...) 152. Assim, em linha com o quanto já exposto na presente defesa e que vem sendo reiteradamente decidido tanto pelo CARF quanto pelo STJ, no sentido de que insumo para fins de creditamento de PIS e COFINS é um conceito que abarca “tudo o que for entendido como ´essencial ou relevante´ para o desenvolvimento da atividade da empresa”, a Recorrente sustenta seu direito ao creditamento de PIS e COFINS sobre despesas com o frete na aquisição de insumos, na medida em que essa despesa representa um custo essencial à produção. (...) 154. Nesse sentido, confira-se o posicionamento do E. CARF que possui entendimento majoritário pela possibilidade de utilizar créditos de PIS/COFINS provenientes das despesas com frete contratado para o transporte de insumos, independentemente se os bens transportados são tributados pelas contribuições ou não. Confira-se: (...) 157. Sendo assim, conclui-se que as despesas com o frete de insumos adquiridos pela Recorrente são essenciais para o seu processo produtivo, de maneira que não prospera o argumento de que a não tributação pelo PIS e COFINS da receita auferida com venda do bem transportado também afetaria o creditamento da prestação de serviço de transporte contratado, cuja receita está sujeita ao PIS e COFINS, nos termos da jurisprudência do CARF. Assiste razão à recorrente. Fl. 511DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.319 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13888.902850/2021-91 16 Ainda que o insumo adquirido não tenha sido onerado pelas contribuições, ou onerado com alíquota zero, os serviços de transporte de um insumo para a empresa, desde que se trate de despesa comprovadamente onerada pela contribuição e arcada por ela, é um serviço essencial à atividade produtiva, a ser tratado de modo independente. Ou seja, tratando-se de um serviço utilizado como insumo deve ser-lhe garantido o crédito integral de PIS ou Cofins com fulcro nos arts. 3º, II, das Leis nºs 10.637/2002 e 10.833/2003. A restrição ao crédito na legislação é apenas para o bem ou serviço não tributado, mas não alcança o serviço de frete a ele relacionado. O assunto já foi objeto de Súmula de aplicação obrigatória por este CARF, não cabendo mais qualquer discussão sobre o tema: Súmula CARF nº 188 Aprovada pela 3ª Turma da CSRF em sessão de 20/06/2024 – vigência em 27/06/2024 É permitido o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Contribuição para o PIS/Pasep e pela Cofins não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições. Acórdãos Precedentes: 9303-014.478; 9303-014.428; 9303-014.348 A glosa de créditos relativos a frete de insumos não onerados pelo PIS e Cofins deve, então, ser revertida. Glosa de créditos relativos a despesas com pedágios Por fim, este tópico trata de despesas com pedágio: 158. Em sua EFD-Contribuições, no registro F100, correspondente à natureza 07, a Recorrente lançou suas despesas tidas do período com o pagamento de pedágios decorrentes do transporte de seus produtos em estágio de industrialização. (...) 160. Os pedágios são, como se sabe, insumos essenciais à produção da Recorrente e, portanto, deveriam ter sido lançados no registro específico de créditos dessa natureza, nos exatos termos do conceito de insumo evidenciado no tópico “III.1.2 – CONCEITO DE INSUMOS PARA FINS DE CREDITAMENTO DE PIS E COFINS DEFINIDO PELO STJ NO RESP Nº 1.221.170/PR, NA SISTEMÁTICA DE RECURSOS REPETITIVOS” (...) 183. Como se vê, independente de com qual etapa esteja vinculada a despesa com pedágio, o aproveitamento de crédito de PIS e COFINS é autorizado, a título de insumo do processo produtivo. Fl. 512DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.319 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13888.902850/2021-91 17 184. Sendo assim, devem ser revertidas as glosas dessa natureza constantes do Termo de Informação Fiscal, sendo o que desde já se requer. Não assiste razão à recorrente. O desconto de créditos sobre essas despesas não tem amparo legal. Primeiro, pelo fato de não estarem elencadas no art. 3º das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003 dentre aquelas que dão direito ao desconto de créditos; e, segundo por não estarem vinculadas ao processo de produção dos bens destinados à venda, não sendo possível enquadrá-las no conceito de insumos dado pelo STJ no julgamento do REsp nº 1.221.170/PR. Adicionalmente, em relação às despesas com pedágio, a Lei nº 10.209/2001 que criou o vale pedágio, assim dispõe: Art. 2º O valor do Vale-Pedágio não integra o valor do frete, não será considerado receita operacional ou rendimento tributável, nem constituirá base de incidência de contribuições sociais ou previdenciárias. (...) Assim, levando-se em consideração que as despesas com pedágio não foram tributadas pelas contribuições para o PIS e Cofins, não dão direito ao desconto de créditos, nos termos do inciso II do § 2º do art. 3º das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003. Abaixo, algumas dentre inúmeras decisões do CARF nesse sentido: Processo nº 10980.905536/2018-18 Recurso Voluntário Acórdão nº 3301-013.501 – 3ª Seção de Julgamento / 3ª Câmara / 1ª Turma Ordinária Sessão de 24 de outubro de 2023 Recorrente POSITIVO TECNOLOGIA S.A. Interessado FAZENDA NACIONAL PEDÁGIO. SEGURO. ESCOLTA. DESPESAS. CRÉDITO. DESCONTO. IMPOSSIBILIDADE. O desconto de crédito sobre despesas com pedágio é vedado expressamente em lei e as despesas com seguro e escolta não se enquadram no inciso II art. 3º das Leis nºs 10.637/2002 e 10.833/2003 nem no conceito de insumos dado pelo STJ no REsp nº 1.221.170/PR. Processo nº 10930.908087/2016-93 Recurso Voluntário Acórdão nº 3402-009.394 – 3ª Seção de Julgamento / 4ª Câmara / 2ª Turma Ordinária Fl. 513DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.319 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13888.902850/2021-91 18 Sessão de 27 de outubro de 2021 Recorrente INTEGRADA COOPERATIVA AGROINDUSTRIAL Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL (COFINS) Período de apuração: 01/04/2014 a 30/06/2014 PEDIDO DE RESSARCIMENTO. CRÉDITOS SOBRE VALE-PEDÁGIO. Não havendo incidência das contribuições sociais não-cumulativas sobre o valor do vale-pedágio, conforme determina o art. 2º da Lei nº 10.209, de 2001, não há autorização para a tomada de crédito sobre os dispêndios relacionados, a teor do inc. II do § 2° do art. 3° das leis nº 10.637/2002, e nº 10.833/2003. A glosas sobre despesas de pedágio devem, então, ser mantidas. Por todo o exposto, voto por conhecer do recurso voluntário para, no mérito, dar- lhe parcial provimento para reverter as glosas de créditos relativos a notas fiscais emitidas sem a identificação das chaves de acesso e de créditos relativos a frete de insumos não onerados pelo PIS e Cofins. Conclusão Importa registrar que as situações fática e jurídica destes autos se assemelham às verificadas na decisão paradigma, de sorte que as razões de decidir nela consignadas são aqui adotadas, não obstante os dados específicos do processo paradigma eventualmente citados neste voto. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do RICARF, reproduz-se o decidido no acórdão paradigma, no sentido de dar provimento parcial ao Recurso Voluntário para reverter as glosas de créditos relativos a notas fiscais emitidas sem a identificação das chaves de acesso e de créditos relativos a frete de insumos não onerados pelo PIS e Cofins. Assinado Digitalmente Pedro Sousa Bispo – Presidente Redator DECLARAÇÃO DE VOTO Deixa-se de transcrever a declaração de voto apresentada, que pode ser consultada no acórdão paradigma desta decisão. Fl. 514DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto Declaração de Voto
score : 1.0
Numero do processo: 10580.725855/2012-69
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Mar 04 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Mon May 04 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2009, 01/01/2010 a 31/01/2010, 01/03/2010 a 31/03/2010
NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. NULIDADES AFASTADAS. COMPENSAÇÃO. DECISÃO JUDICIAL NÃO TRANSITADA EM JULGADO. APLICAÇÃO DO ART. 170-A DO CTN. CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS. VERBAS PAGAS A TÍTULO DE QUINZE DIAS DE AFASTAMENTO, SALÁRIO-MATERNIDADE, FÉRIAS E ADICIONAL DE 1/3. MULTA ISOLADA EM DOBRO. ART. 89, § 10, DA LEI Nº 8.212/1991. SÚMULA CARF Nº 02. SÚMULA CARF Nº 110. SÚMULA CARF Nº 206. RECURSO VOLUNTÁRIO DESPROVIDO.
I. CASO EM EXAME1.1. Recurso voluntário interposto pela parte-recorrente contra acórdão da 14ª Turma da DRJ/SP1 que julgou improcedente a impugnação e manteve Autos de Infração relativos aos DEBCAD nº 51.019.721-3, 51.019.718-3 e 51.019.717-5, lavrados em razão de glosa de compensações informadas em GFIP, aplicação de multa isolada em dobro e exigência de acréscimos moratórios.1.2. As compensações foram realizadas com fundamento em créditos decorrentes do Mandado de Segurança nº 2007.33.00.019202-6, antes do trânsito em julgado da decisão judicial. A fiscalização entendeu configurada compensação indevida e inserção de créditos inexistentes, com fundamento no art. 170-A do CTN e no art. 89, § 10, da Lei nº 8.212/1991.1.3. A decisão recorrida afastou preliminares de nulidade, rejeitou alegações de inconstitucionalidade e manteve integralmente as exigências.
II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO2.1. Há as seguintes questões em discussão: (i) saber se os Autos de Infração padecem de nulidade por vício de enquadramento legal, ausência de intimação ao patrono, indeferimento de sustentação oral e suposta ofensa ao art. 142 do CTN; (ii) saber se é legítima a glosa de compensações efetuadas com base em decisão judicial não transitada em julgado, à luz do art. 170-A do CTN; (iii) saber se subsiste a multa isolada em dobro prevista no art. 89, § 10, da Lei nº 8.212/1991; e (iv) saber se são devidos os acréscimos moratórios decorrentes da glosa.
III. RAZÕES DE DECIDIR3.1. Os Autos de Infração contêm identificação do sujeito passivo, descrição dos fatos geradores, discriminação das competências e indicação dos fundamentos legais. Não se demonstrou vício formal apto a comprometer o exercício do contraditório e da ampla defesa.3.2. No processo administrativo fiscal, é vedado afastar a aplicação de lei sob fundamento de inconstitucionalidade, conforme entendimento consolidado na Súmula CARF nº 02: “O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária.”3.3. É incabível a intimação dirigida ao endereço profissional do advogado, conforme dispõe a Súmula CARF nº 110: “No processo administrativo fiscal, é incabível a intimação dirigida ao endereço de advogado do sujeito passivo.”3.4. A legislação aplicável à primeira instância administrativa não prevê a realização de sustentação oral. O indeferimento do pedido não configura nulidade.3.5. O art. 170-A do CTN veda a compensação de tributo objeto de contestação judicial antes do trânsito em julgado da decisão respectiva. No caso, restou consignado que as compensações foram realizadas antes do trânsito em julgado do Mandado de Segurança que lhes deu origem.3.6. A vedação do art. 170-A do CTN incide independentemente do instrumento utilizado para formalização da compensação. A ausência de trânsito em julgado impede o exercício do direito material de compensar crédito decorrente de decisão judicial.3.7. A discussão sobre a natureza das verbas relativas aos quinze dias de afastamento, salário-maternidade, férias gozadas e adicional constitucional de 1/3 não afasta a incidência do art. 170-A do CTN, uma vez que os créditos invocados estavam submetidos a discussão judicial sem trânsito em julgado.3.8. A compensação realizada em inobservância ao art. 170-A do CTN enseja a aplicação da multa isolada em dobro prevista no art. 89, § 10, da Lei nº 8.212/1991, conforme entendimento consolidado na Súmula CARF nº 206: “A compensação de valores discutidos em ações judiciais antes do trânsito em julgado, efetuada em inobservância a decisão judicial e ao art. 170-A do CTN, configura hipótese de aplicação da multa isolada em dobro, prevista no § 10 do art. 89 da Lei nº 8.212/1991.”3.9. Reconhecida a indevida compensação, subsiste o crédito tributário correspondente às contribuições não recolhidas, com incidência de juros e multa de mora, nos termos da legislação aplicável.3.10. Não se verificou vício na constituição do crédito tributário. A divergência da parte-recorrente limita-se à interpretação jurídica dos fatos, não havendo ofensa ao art. 142 do CTN.
Numero da decisão: 2202-011.852
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso.
Assinado Digitalmente
Thiago Buschinelli Sorrentino – Relator
Assinado Digitalmente
Ronnie Soares Anderson – Presidente
Participaram da reunião de julgamento os conselheiros Marcelo Valverde Ferreira da Silva, Thiago Buschinelli Sorrentino, Andressa Pegoraro Tomazela, Luciana Costa Loureiro Solar (substituto[a] integral), Henrique Perlatto Moura, Ronnie Soares Anderson (Presidente).
Nome do relator: THIAGO BUSCHINELLI SORRENTINO
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PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. NULIDADES AFASTADAS. COMPENSAÇÃO. DECISÃO JUDICIAL NÃO TRANSITADA EM JULGADO. APLICAÇÃO DO ART. 170-A DO CTN. CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS. VERBAS PAGAS A TÍTULO DE QUINZE DIAS DE AFASTAMENTO, SALÁRIO-MATERNIDADE, FÉRIAS E ADICIONAL DE 1/3. MULTA ISOLADA EM DOBRO. ART. 89, § 10, DA LEI Nº 8.212/1991. SÚMULA CARF Nº 02. SÚMULA CARF Nº 110. SÚMULA CARF Nº 206. RECURSO VOLUNTÁRIO DESPROVIDO. I. CASO EM EXAME 1.1. Recurso voluntário interposto pela parte-recorrente contra acórdão da 14ª Turma da DRJ/SP1 que julgou improcedente a impugnação e manteve Autos de Infração relativos aos DEBCAD nº 51.019.721-3, 51.019.718-3 e 51.019.717-5, lavrados em razão de glosa de compensações informadas em GFIP, aplicação de multa isolada em dobro e exigência de acréscimos moratórios. 1.2. As compensações foram realizadas com fundamento em créditos decorrentes do Mandado de Segurança nº 2007.33.00.019202-6, antes do trânsito em julgado da decisão judicial. A fiscalização entendeu configurada compensação indevida e inserção de créditos inexistentes, com fundamento no art. 170-A do CTN e no art. 89, § 10, da Lei nº 8.212/1991. 1.3. A decisão recorrida afastou preliminares de nulidade, rejeitou alegações de inconstitucionalidade e manteve integralmente as exigências. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO 2.1. Há as seguintes questões em discussão: (i) saber se os Autos de Infração padecem de nulidade por vício de enquadramento legal, ausência de intimação ao patrono, indeferimento de sustentação oral e suposta Fl. 987DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.852 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10580.725855/2012-69 2 ofensa ao art. 142 do CTN; (ii) saber se é legítima a glosa de compensações efetuadas com base em decisão judicial não transitada em julgado, à luz do art. 170-A do CTN; (iii) saber se subsiste a multa isolada em dobro prevista no art. 89, § 10, da Lei nº 8.212/1991; e (iv) saber se são devidos os acréscimos moratórios decorrentes da glosa. III. RAZÕES DE DECIDIR 3.1. Os Autos de Infração contêm identificação do sujeito passivo, descrição dos fatos geradores, discriminação das competências e indicação dos fundamentos legais. Não se demonstrou vício formal apto a comprometer o exercício do contraditório e da ampla defesa. 3.2. No processo administrativo fiscal, é vedado afastar a aplicação de lei sob fundamento de inconstitucionalidade, conforme entendimento consolidado na Súmula CARF nº 02: “O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária.” 3.3. É incabível a intimação dirigida ao endereço profissional do advogado, conforme dispõe a Súmula CARF nº 110: “No processo administrativo fiscal, é incabível a intimação dirigida ao endereço de advogado do sujeito passivo.” 3.4. A legislação aplicável à primeira instância administrativa não prevê a realização de sustentação oral. O indeferimento do pedido não configura nulidade. 3.5. O art. 170-A do CTN veda a compensação de tributo objeto de contestação judicial antes do trânsito em julgado da decisão respectiva. No caso, restou consignado que as compensações foram realizadas antes do trânsito em julgado do Mandado de Segurança que lhes deu origem. 3.6. A vedação do art. 170-A do CTN incide independentemente do instrumento utilizado para formalização da compensação. A ausência de trânsito em julgado impede o exercício do direito material de compensar crédito decorrente de decisão judicial. 3.7. A discussão sobre a natureza das verbas relativas aos quinze dias de afastamento, salário-maternidade, férias gozadas e adicional constitucional de 1/3 não afasta a incidência do art. 170-A do CTN, uma vez que os créditos invocados estavam submetidos a discussão judicial sem trânsito em julgado. 3.8. A compensação realizada em inobservância ao art. 170-A do CTN enseja a aplicação da multa isolada em dobro prevista no art. 89, § 10, da Lei nº 8.212/1991, conforme entendimento consolidado na Súmula CARF nº 206: “A compensação de valores discutidos em ações judiciais antes do trânsito em julgado, efetuada em inobservância a decisão judicial e ao art. 170-A do CTN, configura hipótese de aplicação da multa isolada em dobro, Fl. 988DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.852 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10580.725855/2012-69 3 prevista no § 10 do art. 89 da Lei nº 8.212/1991.” 3.9. Reconhecida a indevida compensação, subsiste o crédito tributário correspondente às contribuições não recolhidas, com incidência de juros e multa de mora, nos termos da legislação aplicável. 3.10. Não se verificou vício na constituição do crédito tributário. A divergência da parte-recorrente limita-se à interpretação jurídica dos fatos, não havendo ofensa ao art. 142 do CTN. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. Assinado Digitalmente Thiago Buschinelli Sorrentino – Relator Assinado Digitalmente Ronnie Soares Anderson – Presidente Participaram da reunião de julgamento os conselheiros Marcelo Valverde Ferreira da Silva, Thiago Buschinelli Sorrentino, Andressa Pegoraro Tomazela, Luciana Costa Loureiro Solar (substituto[a] integral), Henrique Perlatto Moura, Ronnie Soares Anderson (Presidente). RELATÓRIO Por brevidade, transcrevo o relatório elaborado pelo órgão julgador de origem, 14ª TURMA DA DRJ/SP1, de lavra da Auditor(a)-Fiscal que relatou o acórdão-recorrido (Acórdão 16- 54.517): “Trata-se de impugnação apresentada por FUNDAÇÃO DOM AVELAR BRANDÃO VILELA, CNPJ 16.406.522/0001-28, em face dos Autos de Infração lavrados no processo nº 10580.725855/2012-69, referentes aos DEBCAD nº 51.019.721-3, 51.019.718-3 e 51.019.717-5. Os lançamentos dizem respeito a: Fl. 989DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.852 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10580.725855/2012-69 4 a) DEBCAD nº 51.019.721-3, relativo à glosa de compensações efetuadas nas competências de 01/2009 a 12/2009, 01/2010 e 03/2010, com exigência de contribuição previdenciária, juros e multa de mora; b) DEBCAD nº 51.019.718-3, referente à multa isolada de 150% aplicada sobre valores indevidamente compensados, com fundamento no art. 89, § 10, da Lei nº 8.212/1991; c) DEBCAD nº 51.019.717-5, referente ao descumprimento de obrigação acessória. A fiscalização entendeu que a interessada efetuou compensações indevidas, tendo em vista que os créditos utilizados decorreriam de decisão judicial não transitada em julgado, além de abrangerem verbas que constituem base de cálculo de contribuições previdenciárias. A interessada sustenta, em síntese, nulidade dos autos por vício de enquadramento legal, a legalidade das compensações realizadas com fundamento no art. 66 da Lei nº 8.383/1991, a inaplicabilidade do art. 170-A do CTN, bem como a inexistência de incidência de contribuição previdenciária sobre valores pagos a título de quinze dias de afastamento por doença ou acidente, salário- maternidade, férias e adicional constitucional de 1/3. Requer, ao final, o cancelamento integral dos autos de infração.” (fls. 257-258) Referido acórdão foi assim ementado: “ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO PERÍODO DE APURAÇÃO: 01/01/2009 a 31/12/2009, 01/01/2010 a 31/01/2010, 01/03/2010 a 31/03/2010 AUTOS DE INFRAÇÃO (AI). FORMALIDADES LEGAIS. Os Autos de Infração (AIs) encontram-se revestidos das formalidades legais, tendo sido lavrados de acordo com os dispositivos legais e normativos que disciplinam o assunto, apresentando adequada motivação jurídica e fática, bem como os pressupostos de liquidez e certeza, podendo ser exigidos nos termos da lei. INTIMAÇÃO DIRIGIDA AO PATRONO DA EMPRESA. IMPOSSIBILIDADE. É descabida a pretensão de intimações dirigidas ao patrono da impugnante em endereço diverso do domicílio fiscal do contribuinte, nos termos do art. 10 do Decreto nº 7.574/2011. SUSTENTAÇÃO ORAL. INDEFERIMENTO. Inexistindo previsão legal no processo administrativo fiscal, é indevido o pedido de sustentação oral na primeira instância administrativa. ARGUIÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE E ILEGALIDADE. INSTÂNCIA ADMINISTRATIVA. Fl. 990DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.852 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10580.725855/2012-69 5 É vedado aos órgãos de julgamento administrativo afastar a aplicação de lei ou decreto sob fundamento de inconstitucionalidade. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS PERÍODO DE APURAÇÃO: 01/01/2009 a 31/12/2009, 01/01/2010 a 31/01/2010, 01/03/2010 a 31/03/2010 COMPENSAÇÃO. DECISÃO JUDICIAL NÃO TRANSITADA EM JULGADO. GLOSA. É vedada a compensação de contribuição devida com créditos não comprovados e oriundos de verbas que constituem base de cálculo de contribuições previdenciárias, mormente quando a exigibilidade encontra-se sendo discutida judicialmente e não houve trânsito em julgado.” (fls. 257-258) Cientificado do resultado do julgamento em 23/02/2015, uma segunda-feira (fls. 279), a parte-recorrente interpôs o presente recurso voluntário em 06/03/2015, uma sexta-feira (fls. 390), no qual se sustenta, sinteticamente: a) O enquadramento da compensação como “falsidade” viola o art. 89, § 10, da Lei nº 8.212/1991, na medida em que não houve inserção de créditos inexistentes, mas compensação fundada em decisão judicial e devidamente informada em GFIP, inexistindo declaração falsa (fls. 205-207). b) A aplicação do art. 170-A do CTN contraria o regime do art. 66 da Lei nº 8.383/1991, dado que a compensação realizada no âmbito de tributo sujeito a lançamento por homologação independe de trânsito em julgado, cabendo à fiscalização apenas homologar ou não o procedimento (fls. 207-227). c) A incidência de contribuição previdenciária sobre valores pagos nos quinze primeiros dias de afastamento por doença ou acidente fere o art. 22, I, da Lei nº 8.212/1991, pois não há prestação de serviço nem tempo à disposição do empregador, inexistindo fato gerador (fls. 216-219). d) A incidência sobre salário-maternidade viola o art. 22 da Lei nº 8.212/1991 e o art. 195, I, “a”, da Constituição Federal, uma vez que tal verba não configura remuneração por trabalho prestado, mas benefício previdenciário custeado pela Previdência Social (fls. 219-221). e) A incidência sobre férias gozadas e respectivo adicional de 1/3 ofende o art. 22, I, da Lei nº 8.212/1991, na medida em que tais valores não retribuem trabalho efetivo ou potencial, inexistindo hipótese de incidência (fls. 221-224). f) A constituição do crédito tributário sem adequada análise dos documentos apresentados contraria o art. 142 do CTN, pois caberia à autoridade administrativa proceder ao lançamento com observância dos pressupostos de liquidez e certeza (fls. 227-230). Fl. 991DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.852 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10580.725855/2012-69 6 g) A multa isolada de 150% e as demais penalidades aplicadas ofendem os princípios do não confisco (art. 150, IV, da Constituição Federal), da razoabilidade e da proporcionalidade, por configurarem sanção excessiva e desarrazoada (fls. 230-236). Diante do exposto, pede-se, textualmente: “[...] seja a presente IMPUGNAÇÃO conhecida e regularmente processada suspendendo-se, nos termos do artigo 151, inciso III, do CTN, a exigibilidade do crédito tributário, dando-se à esta completo PROVIMENTO, julgando-se TOTALMENTE IMPROCEDENTES os Autos de Infração, para que a Impugnante não seja compelida ao recolhimento indevido dos supostos débitos de Contribuições Previdenciárias, DEBCAD: 51.019.721-3 [...], DEBCAD: 51.019.718-3 [...] e DEBCAD: 51.019.717-5 [...], compensações estas originárias de créditos dos autos do Mandado de Segurança n° 2007.33.00.019202-6, devendo o presente auto de infração ser considerado nulo.” (fls. 237) É o relatório. VOTO Conselheiro Thiago Buschinelli Sorrentino, Relator 1 CONHECIMENTO Conheço do recurso voluntário, porquanto tempestivo e aderente aos demais requisitos para exame e julgamento da matéria. Parece-me que o termo de perempção constante destes foi lavrado equivocadamente, diante da ausência, naquele momento, de documento comprobatório da interposição do recurso voluntário. Com a diligência efetuada ainda pela própria origem, a elipse foi colmatada. 2 PRELIMINARES 2.1 VÍCIO DO AUTO DE INFRAÇÃO. NULIDADE (ENQUADRAMENTO COMO “FALSIDADE”) O acórdão-recorrido afastou a preliminar de nulidade ao consignar que os Autos de Infração (DEBCADs 51.019.718-3 e 51.019.721-3) possuem motivo legal, com fundamentação Fl. 992DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.852 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10580.725855/2012-69 7 apresentada no Relatório Fiscal e nos anexos “FLD – Fundamentos Legais do Débito”, por rubrica e competência, e motivo de fato, por haver discriminação clara dos fatos geradores, contribuições e acréscimos, com suporte também nos anexos DD, RL e Tabelas de Crédito; concluiu, assim, inexistir erro de enquadramento legal ou nulidade, por estarem os procedimentos em consonância com a normativa aplicável. Em sentido diverso, a parte-recorrente sustenta que a fiscalização teria utilizado o art. 170-A do CTN como “limitador” para enquadrar a compensação como “declaração falsa” e, com isso, aplicar a multa isolada de 150%, quando tal discussão deveria se restringir, no máximo, à não homologação da compensação; afirma que observou os requisitos formais (art. 44 da IN 900 c/c art. 66 da Lei 8.383/1991) e que não houve “inserção de créditos inexistentes” nem falsidade, porquanto as justificativas e documentos teriam sido apresentados durante a ação fiscal, havendo menção, no próprio relatório, de que os valores glosados foram apurados em GFIP. Como parâmetro geral, a validade do lançamento e dos autos dele integrantes, no processo administrativo fiscal, é aferida pela observância das formalidades essenciais de identificação do sujeito passivo, descrição objetiva dos fatos e indicação dos fundamentos jurídicos, de modo a permitir a compreensão da exigência e o exercício do contraditório e da ampla defesa; a nulidade pressupõe vício relevante na constituição/individualização da exigência, com prejuízo efetivo à defesa. No caso concreto, o acórdão-recorrido apontou, de forma circunstanciada, que a fundamentação legal consta do Relatório Fiscal e dos FLDs (por rubrica e competência) e que a materialidade e a individualização da exigência decorrem da discriminação dos fatos e períodos, complementada por DD, RL e tabelas de crédito, o que permitiria compreender a origem das exigências e impugná-las de modo específico. Além disso, o próprio relatório do acórdão-recorrido registra que (i) as contribuições exigidas correspondem à glosa de compensação indevida “sem que o devido crédito tenha transitado em julgado”, informadas em GFIP, e que (ii) a multa isolada de 150% foi aplicada “tendo em vista a inserção de créditos inexistentes na GFIP”, sob o artigo 89, § 10, da Lei 8.212/1991. Nessas condições, a alegação de “enquadramento legal incorreto”, tal como formulada, confunde-se com discussão de mérito (se houve, ou não, os pressupostos materiais da glosa e da multa isolada) e não evidencia, por si, defeito formal invalidante dos autos, uma vez que a exigência foi descrita com suporte documental e com indicação dos fundamentos legais, inclusive com individualização dos DEBCADs e da origem (GFIP/compensações) segundo a instância de origem. Assim, a preliminar de nulidade deve ser rejeitada, prosseguindo-se ao exame do mérito (inclusive quanto ao alcance do art. 170-A do CTN e aos pressupostos da multa do art. 89, § 10, da Lei 8.212/1991, que serão enfrentados em tópico próprio). Diante do exposto, rejeito o argumento. Fl. 993DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.852 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10580.725855/2012-69 8 2.2 ARGUIÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE E ILEGALIDADE NA INSTÂNCIA ADMINISTRATIVA O acórdão-recorrido consignou que, no âmbito do processo administrativo fiscal, é vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar lei ou decreto sob fundamento de inconstitucionalidade, por se tratar de matéria reservada à competência do Poder Judiciário, razão pela qual não conheceu das alegações de inconstitucionalidade suscitadas pela impugnante (fls. 257-258). A parte-recorrente sustenta, em diversos trechos de sua peça, que a exigência de contribuição previdenciária sobre determinadas verbas e, especialmente, a aplicação da multa isolada de 150% afrontariam princípios constitucionais, notadamente o princípio do não confisco (art. 150, IV, da Constituição Federal), bem como os princípios da proporcionalidade, razoabilidade, capacidade contributiva e moralidade, defendendo a inconstitucionalidade da penalidade aplicada (fls. 230-236). Além disso, também sustenta a ilegalidade da exigência, por entender que a interpretação conferida pela fiscalização aos dispositivos da Lei nº 8.212/1991 e ao art. 170-A do CTN seria equivocada (fls. 205-207; 216-224). Como parâmetro geral, no processo administrativo fiscal federal, os órgãos de julgamento estão vinculados à legislação vigente, sendo-lhes vedado afastar a aplicação de lei ou decreto sob fundamento de inconstitucionalidade. A instância administrativa pode interpretar a legislação infraconstitucional, mas não pode declarar a sua inconstitucionalidade, competência esta reservada ao Poder Judiciário. No caso concreto, verifica-se que parte relevante das razões recursais dirige-se à alegação de inconstitucionalidade material da multa isolada de 150% e da própria exigência contributiva, com fundamento em princípios constitucionais (fls. 230-236). Tais alegações não se limitam à interpretação da legislação ordinária, mas postulam a invalidação da norma sob fundamento constitucional. Assim, à luz do parâmetro indicado pelo próprio acórdão-recorrido (fls. 257-258), não compete à instância administrativa afastar a aplicação dos dispositivos legais que fundamentam o lançamento com base em juízo de inconstitucionalidade (Súmula CARF 02). Desse modo, rejeita-se a preliminar de inconstitucionalidade, limitando-se o controle desta instância à legalidade do lançamento. Diante do exposto, rejeito o argumento. Fl. 994DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.852 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10580.725855/2012-69 9 2.3 NULIDADE. PEDIDO DE SUSTENTAÇÃO ORAL NA PRIMEIRA INSTÂNCIA ADMINISTRATIVA NÃO ATENDIDO O acórdão-recorrido consignou que deve ser indeferido o pedido de sustentação oral em sessão de julgamento na primeira instância administrativa, por ausência de previsão na legislação que rege o processo administrativo fiscal, em especial o Decreto nº 7.574/2011 (fls. 257- 258). A parte-recorrente requereu, expressamente, a intimação de seu patrono da data de julgamento da impugnação, com a finalidade de realizar sustentação oral (fls. 237). Não há, contudo, desenvolvimento argumentativo específico quanto à existência de previsão legal para tal ato na primeira instância administrativa, limitando-se o pedido à formulação expressa de requerimento. Como parâmetro geral, o processo administrativo fiscal federal rege-se pelo Decreto nº 70.235/1972 e, no âmbito da Secretaria da Receita Federal do Brasil, também pelo Decreto nº 7.574/2011. A prática de atos processuais, inclusive a realização de sustentação oral, depende de previsão normativa expressa. Na primeira instância de julgamento (Delegacias da Receita Federal de Julgamento), a legislação aplicável não prevê a realização de sustentação oral por parte do sujeito passivo ou de seu patrono. Trata-se de procedimento predominantemente escrito, assegurado o contraditório e a ampla defesa por meio de impugnação e recursos. No caso concreto, a parte-recorrente formulou pedido de sustentação oral (fls. 237), mas não havia previsão legal que ampare tal pretensão na fase de julgamento em primeira instância administrativa. Assim, à luz do regime normativo aplicável e conforme já consignado no acórdão- recorrido (fls. 257-258), o indeferimento do pedido de sustentação oral não configura nulidade, devendo ser mantido. Diante do exposto, rejeito o argumento. 2.4 NULIDADE POR AUSÊNCIA DE INTIMAÇÃO DIRIGIDA AO PATRONO DA EMPRESA EM ENDEREÇO DIVERSO DO DOMICÍLIO FISCAL O acórdão-recorrido consignou ser descabida a pretensão de intimações, publicações ou notificações dirigidas ao patrono da impugnante em endereço diverso do domicílio fiscal do contribuinte, com fundamento no art. 10 do Decreto nº 7.574/2011 (fls. 257-258). A parte-recorrente requereu que as publicações ou intimações referentes ao feito fossem realizadas em nome de seu patrono, em endereço profissional específico, sob pena de nulidade (fls. 237). Fl. 995DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.852 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10580.725855/2012-69 10 Não há, todavia, demonstração de que tenha ocorrido prejuízo concreto decorrente de eventual forma de intimação adotada, limitando-se o pedido à pretensão de direcionamento exclusivo das comunicações ao advogado. Como parâmetro geral, no processo administrativo fiscal federal, as intimações são dirigidas ao sujeito passivo, no domicílio tributário por ele indicado, nos termos da legislação de regência. Não há previsão de intimação obrigatória diretamente ao advogado em endereço profissional diverso do domicílio fiscal. A orientação administrativa consolidada sobre o tema encontra-se expressa na Súmula CARF nº 110, cujo teor é o seguinte: “Súmula CARF nº 110 Aprovada pelo Pleno em 03/09/2018 No processo administrativo fiscal, é incabível a intimação dirigida ao endereço de advogado do sujeito passivo. (Vinculante, conforme Portaria ME nº 129 de 01/04/2019, DOU de 02/04/2019).” No caso concreto, a parte-recorrente formulou pedido para que as intimações fossem realizadas exclusivamente em nome de seu patrono, em endereço profissional específico (fls. 237). Todavia, à luz do regime normativo aplicável e da orientação sumulada, não há obrigatoriedade de que as intimações sejam dirigidas ao endereço do advogado. Não demonstrado prejuízo concreto e sendo a sistemática legal clara quanto ao direcionamento das comunicações ao sujeito passivo, deve ser mantido o entendimento da instância de origem, rejeitando-se a preliminar. Diante do exposto, rejeito o argumento. Superadas as preliminares processuais, passo ao exame do mérito, iniciando pela controvérsia central relativa à glosa das compensações com fundamento em decisão judicial não transitada em julgado e na aplicação do art. 170-A do CTN. 3 MÉRITO 3.1 GLOSA DE COMPENSAÇÃO. DECISÃO JUDICIAL NÃO TRANSITADA EM JULGADO. APLICAÇÃO DO ART. 170-A DO CTN. O acórdão-recorrido consignou que é vedada a compensação de contribuição devida com créditos não comprovados (ilíquidos e incertos) e aqueles oriundos de verbas que constituem base de cálculo de contribuições previdenciárias, mormente quando sua exigibilidade Fl. 996DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.852 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10580.725855/2012-69 11 está sendo questionada judicialmente e ainda não houve trânsito em julgado da decisão (fls. 257- 258). Do relatório da decisão de origem consta que as contribuições exigidas correspondem à glosa de compensação indevida informada em GFIP, “sem que o devido crédito tenha transitado em julgado”, tendo sido aplicada, quanto à multa isolada, a penalidade prevista no art. 89, § 10, da Lei nº 8.212/1991 (fls. 257-258). A parte-recorrente sustenta que a compensação realizada tem fundamento no art. 66 da Lei nº 8.383/1991, por se tratar de tributo sujeito a lançamento por homologação, e que tal modalidade de compensação independe de trânsito em julgado, cabendo à fiscalização apenas homologar ou não o procedimento (fls. 224-227). Alega, ainda, que a aplicação do art. 170-A do CTN a hipóteses de compensação realizada no âmbito da GFIP seria inadequada, defendendo que o referido dispositivo não alcançaria a sistemática de compensação adotada (fls. 205-207; 224-227). Como parâmetro geral, o art. 170-A do CTN estabelece que é vedada a compensação mediante o aproveitamento de tributo objeto de contestação judicial antes do trânsito em julgado da respectiva decisão. Trata-se de regra específica que condiciona o exercício do direito de compensar, quando o crédito decorre de discussão judicial, ao trânsito em julgado. De outro lado, o art. 66 da Lei nº 8.383/1991 disciplina modalidade de compensação no âmbito dos tributos federais, especialmente no regime de lançamento por homologação, permitindo ao contribuinte compensar valores pagos indevidamente com débitos vincendos, sujeita à posterior homologação pela autoridade fiscal. No caso concreto, os autos indicam que as compensações efetuadas pela parte- recorrente tiveram origem em créditos decorrentes de Mandado de Segurança nº 2007.33.00.019202-6 (fls. 208-209), tendo a fiscalização consignado expressamente que as compensações foram realizadas “sem que o devido crédito tenha transitado em julgado” (fls. 257- 258). Assim, não se trata de compensação fundada apenas em apuração administrativa de pagamento indevido, mas de compensação lastreada em decisão judicial cuja definitividade foi considerada ausente pela fiscalização e pela instância de origem (fls. 257-258). À luz do art. 170-A do CTN, a compensação de tributo cuja exigibilidade foi discutida judicialmente fica condicionada ao trânsito em julgado da decisão favorável ao contribuinte. O dispositivo não distingue a modalidade procedimental adotada (se via PER/DCOMP, GFIP ou outro instrumento), mas alcança o próprio direito material de compensar crédito derivado de decisão judicial. Desse modo, estando demonstrado nos autos que as compensações decorreram de decisão judicial ainda não transitada em julgado, conforme consignado na decisão recorrida (fls. 257-258), a aplicação do art. 170-A do CTN revela-se adequada como fundamento para a glosa. Fl. 997DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.852 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10580.725855/2012-69 12 A controvérsia quanto à natureza das verbas utilizadas como crédito, e, portanto, quanto à própria existência material do direito creditório, será examinada em tópico próprio. Neste ponto específico, contudo, deve ser mantida a glosa das compensações realizadas antes do trânsito em julgado, nos termos do art. 170-A do CTN. Diante do exposto, rejeito o argumento. 3.2 INCIDÊNCIA DE CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA SOBRE OS VALORES UTILIZADOS COMO BASE DO CRÉDITO (15 DIAS DE AFASTAMENTO, SALÁRIO-MATERNIDADE, FÉRIAS E ADICIONAL DE 1/3). PREJUDICIAL EXTERNA. DISCUSSÃO JUDICIAL. O acórdão-recorrido consignou que é vedada a compensação com créditos oriundos de verbas que constituem, perante a legislação, base de cálculo das contribuições previdenciárias, especialmente quando sua exigibilidade está sendo questionada judicialmente e não houve trânsito em julgado (fls. 257-258). Assim, a instância de origem partiu do pressuposto de que as verbas utilizadas como fundamento do crédito, i.e., valores pagos nos primeiros quinze dias de afastamento por doença ou acidente, salário-maternidade, férias gozadas e adicional de 1/3, integram a base de cálculo das contribuições sociais previdenciárias. A parte-recorrente sustenta que tais verbas não se enquadram na hipótese de incidência do art. 22, I, da Lei nº 8.212/1991, por não representarem remuneração por trabalho efetivamente prestado nem tempo à disposição do empregador (fls. 212-216; 216-224). Quanto aos quinze primeiros dias de afastamento por doença ou acidente, afirma que não há prestação de serviço, inexistindo fato gerador (fls. 216-219). Em relação ao salário-maternidade, argumenta tratar-se de benefício previdenciário custeado pela Previdência Social, não configurando base de cálculo da contribuição patronal (fls. 219-221). No tocante às férias gozadas e ao adicional constitucional de 1/3, sustenta que, durante o período de gozo, não há prestação de serviços, razão pela qual tais valores não poderiam ser considerados remuneração para fins previdenciários (fls. 221-224). Como parâmetro geral, o art. 195, I, “a”, da Constituição Federal estabelece que a contribuição do empregador incide sobre a folha de salários e demais rendimentos do trabalho pagos ou creditados à pessoa física que lhe preste serviços. No plano infraconstitucional, o art. 22, I, da Lei nº 8.212/1991 dispõe que a contribuição a cargo da empresa incide sobre o total das remunerações pagas, devidas ou creditadas aos segurados empregados e trabalhadores avulsos, destinadas a retribuir o trabalho, quer pelos serviços efetivamente prestados, quer pelo tempo à disposição do empregador (fls. 212-213). Fl. 998DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.852 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10580.725855/2012-69 13 No caso concreto, verifica-se que os créditos utilizados para compensação derivam de ação judicial na qual se discutiu a incidência de contribuição previdenciária sobre as seguintes verbas: (i) valores pagos nos primeiros quinze dias de afastamento por doença ou acidente; (ii) salário-maternidade; (iii) férias gozadas; (iv) adicional constitucional de 1/3 (fls. 208-209; 216-224). Entretanto, conforme já consignado, a compensação foi realizada antes do trânsito em julgado da decisão judicial respectiva (fls. 257-258), circunstância que, por si só, atrai a incidência do art. 170-A do CTN e impede o aproveitamento do crédito naquele momento. Ainda que se ingressasse na análise material da natureza das verbas, a controvérsia acerca de sua qualificação como base de cálculo da contribuição previdenciária não poderia ser solucionada nesta instância administrativa por meio de juízo de inconstitucionalidade ou afastamento de norma legal, conforme já decidido nas preliminares (fls. 257-258). Assim, independentemente da discussão doutrinária e jurisprudencial acerca da natureza jurídica dessas parcelas, o ponto determinante para a manutenção da glosa, no presente caso, reside no fato de que os créditos invocados estavam sendo discutidos judicialmente e não haviam transitado em julgado quando da compensação (fls. 257-258). Desse modo, à luz do art. 170-A do CTN e do fundamento adotado pela instância de origem, deve ser mantida a glosa das compensações efetuadas com base nessas verbas. Diante do exposto, rejeito o argumento. 3.3 MULTA ISOLADA DE 150% (ART. 89, § 10, DA LEI Nº 8.212/1991). COMPENSAÇÃO ANTES DO TRÂNSITO EM JULGADO. O acórdão-recorrido manteve a aplicação da multa isolada de 150%, prevista no § 10 do art. 89 da Lei nº 8.212/1991, sob o fundamento de que houve inserção de créditos inexistentes na GFIP e compensação indevida, uma vez que os créditos utilizados decorriam de discussão judicial ainda não transitada em julgado (fls. 257-258). A parte-recorrente sustenta que não houve falsidade nem inserção de créditos inexistentes, mas apenas compensação fundada em decisão judicial, devidamente informada em GFIP, defendendo que, no máximo, caberia a não homologação do procedimento, e não a aplicação da multa isolada em percentual majorado (fls. 205-207; 230-236). Fl. 999DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.852 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10580.725855/2012-69 14 Argumenta, ainda, que a penalidade aplicada seria desproporcional e configuraria confisco, invocando princípios constitucionais (fls. 230-236). Como parâmetro geral, o § 10 do art. 89 da Lei nº 8.212/1991 prevê que, na hipótese de compensação indevida, quando comprovada falsidade da declaração apresentada pelo sujeito passivo, aplica-se multa isolada no percentual previsto no inciso I do caput do art. 44 da Lei nº 9.430/1996, em dobro, tendo como base de cálculo o valor total do débito indevidamente compensado. No plano sistemático, o art. 170-A do CTN veda a compensação de tributo objeto de contestação judicial antes do trânsito em julgado da decisão respectiva. A jurisprudência administrativa recente consolidou orientação específica sobre o tema por meio da Súmula CARF nº 206, cujo teor é o seguinte: “Súmula CARF nº 206 Aprovada pela 2ª Turma da CSRF em sessão de 26/09/2024 – vigência em 04/10/2024 A compensação de valores discutidos em ações judiciais antes do trânsito em julgado, efetuada em inobservância a decisão judicial e ao art. 170-A do CTN, configura hipótese de aplicação da multa isolada em dobro, prevista no § 10 do art. 89 da Lei nº 8.212/1991.” No caso concreto, restou consignado nos autos que as compensações foram realizadas com base em créditos oriundos de Mandado de Segurança e que tais compensações ocorreram antes do trânsito em julgado da decisão judicial (fls. 208-209; 257-258). Portanto, a compensação foi efetuada em inobservância ao art. 170-A do CTN, circunstância que, segundo a orientação sumulada, caracteriza hipótese de aplicação da multa isolada em dobro prevista no § 10 do art. 89 da Lei nº 8.212/1991. A alegação de inexistência de “falsidade” não afasta a incidência da penalidade quando configurada compensação indevida de crédito judicial ainda não definitivamente constituído, pois a própria súmula qualifica tal conduta como apta a ensejar a multa isolada em dobro. Quanto às alegações de caráter confiscatório e desproporcional da multa (fls. 230- 236), conforme já decidido nas preliminares, a instância administrativa não pode afastar a aplicação de dispositivo legal sob fundamento de inconstitucionalidade (fls. 257-258). Desse modo, à luz do art. 170-A do CTN, do § 10 do art. 89 da Lei nº 8.212/1991 e da Súmula CARF nº 206, deve ser mantida a multa isolada aplicada no DEBCAD nº 51.019.718-3. Diante do exposto, rejeito o argumento. Fl. 1000DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.852 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10580.725855/2012-69 15 3.4 MULTA DE MORA E JUROS (DEBCAD Nº 51.019.721-3) O acórdão-recorrido manteve o lançamento referente ao DEBCAD nº 51.019.721-3, relativo à glosa de compensações realizadas nas competências de 01/2009 a 12/2009, 01/2010 e 03/2010, com exigência do valor principal, acrescido de juros e multa de mora, entendendo que, sendo indevida a compensação efetuada, subsiste o débito com os acréscimos legais correspondentes (fls. 257-258). A parte-recorrente sustenta, em síntese, que a compensação foi realizada de forma legítima, com fundamento em decisão judicial e no art. 66 da Lei nº 8.383/1991 (fls. 224-227), razão pela qual não haveria débito remanescente. Argumenta, ainda, que a aplicação de multa seria indevida e excessiva, invocando princípios constitucionais (fls. 230-236). Não há impugnação específica quanto à forma de cálculo dos juros ou da multa de mora, mas sim quanto à própria subsistência do débito principal. Como parâmetro geral, a compensação indevida não extingue o crédito tributário, nos termos do art. 156 do CTN, subsistindo o débito originalmente devido. O art. 89 da Lei nº 8.212/1991 dispõe que os valores compensados indevidamente serão exigidos com os acréscimos moratórios de que trata o art. 35 da mesma lei, o qual prevê incidência de juros e multa de mora. No caso concreto, restou consignado que as compensações realizadas pela parte- recorrente foram glosadas por inobservância ao art. 170-A do CTN, uma vez que efetuadas antes do trânsito em julgado da decisão judicial (fls. 257-258). Reconhecida a indevida compensação, subsiste o débito correspondente às contribuições que deixaram de ser recolhidas nas competências indicadas, sendo legítima a exigência do principal, acrescido de juros e multa de mora, nos termos da legislação aplicável. Não tendo sido demonstrado erro material no cálculo dos acréscimos legais nem fundamento jurídico apto a afastá-los, e estando sua exigência vinculada à manutenção da glosa, deve ser mantido o lançamento do DEBCAD nº 51.019.721-3 também quanto aos juros e à multa de mora. Diante do exposto, rejeito o argumento. 3.5 CONSTITUIÇÃO DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO. ALEGAÇÃO DE VÍCIO (ART. 142 DO CTN) O acórdão-recorrido entendeu que os Autos de Infração se encontram revestidos das formalidades legais, com adequada motivação jurídica e fática, individualização dos fatos Fl. 1001DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.852 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10580.725855/2012-69 16 geradores, indicação das competências e dos fundamentos legais, afastando a alegação de nulidade ou vício na constituição do crédito tributário (fls. 257-258). A parte-recorrente sustenta que a constituição do crédito tributário teria ocorrido sem adequada análise dos documentos apresentados no curso da fiscalização, defendendo que caberia à autoridade administrativa, nos termos do art. 142 do CTN, proceder à correta verificação da ocorrência do fato gerador e da matéria tributável antes de formalizar o lançamento (fls. 227- 230). Alega, ainda, que a informação prestada em GFIP não constitui, por si, crédito tributário, sendo necessária a atuação regular da autoridade fiscal para sua formalização (fls. 227- 229). Como parâmetro geral, o art. 142 do CTN estabelece que compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, entendido como o procedimento tendente a verificar a ocorrência do fato gerador, determinar a matéria tributável, calcular o montante devido, identificar o sujeito passivo e propor a aplicação da penalidade cabível. Nos tributos sujeitos a lançamento por homologação, como as contribuições previdenciárias incidentes sobre a folha de salários, a autoridade fiscal pode efetuar lançamento de ofício quando constatar insuficiência de recolhimento ou compensação indevida. No caso concreto, os autos indicam que houve lavratura formal de Autos de Infração, com individualização dos DEBCADs, discriminação das competências, identificação do sujeito passivo e indicação dos fundamentos legais (fls. 257-258). A controvérsia trazida pela parte-recorrente não aponta ausência de elementos essenciais do lançamento, mas discorda do enquadramento jurídico conferido aos fatos e da conclusão quanto à indevida compensação. Não há nos autos demonstração de omissão formal relevante, ausência de fundamentação ou indeterminação do crédito que impeça o exercício do contraditório. Ao contrário, a própria extensão e detalhamento das razões recursais evidenciam que a exigência foi compreendida e especificamente impugnada. Assim, à luz do art. 142 do CTN, não se verifica vício na constituição do crédito tributário, mas mera divergência quanto à interpretação e aplicação da legislação ao caso concreto, matéria já enfrentada nos tópicos anteriores. Desse modo, também deve ser rejeitada a alegação de nulidade por vício na constituição do crédito tributário. Diante do exposto, rejeito o argumento. Fl. 1002DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.852 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10580.725855/2012-69 17 4 DISPOSITIVO Ante o exposto, CONHEÇO o recurso voluntário, REJEITO as preliminares, e NEGO- LHE PROVIMENTO. É como voto. Assinado Digitalmente Thiago Buschinelli Sorrentino Fl. 1003DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto 1 CONHECIMENTO 2 PRELIMINARES 2.1 Vício do Auto de Infração. Nulidade (enquadramento como “falsidade”) 2.2 Arguição de inconstitucionalidade e ilegalidade na instância administrativa 2.3 NULIDADE. Pedido de sustentação oral na primeira instância administrativa NÃO ATENDIDO 2.4 NULIDADE POR AUSÊNCIA DE Intimação dirigida ao patrono da empresa em endereço diverso do domicílio fiscal 3 MÉRITO 3.1 Glosa de compensação. Decisão judicial não transitada em julgado. Aplicação do art. 170-A do CTN. 3.2 Incidência de contribuição previdenciária sobre os valores utilizados como base do crédito (15 dias de afastamento, salário-maternidade, férias e adicional de 1/3). PREJUDICIAL EXTERNA. DISCUSSÃO JUDICIAL. 3.3 Multa isolada de 150% (art. 89, § 10, da Lei nº 8.212/1991). Compensação antes do trânsito em julgado. 3.4 Multa de mora e juros (DEBCAD nº 51.019.721-3) 3.5 Constituição do crédito tributário. Alegação de vício (art. 142 do CTN) 4 DISPOSITIVO
score : 1.0
Numero do processo: 10315.720106/2013-66
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Mar 09 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Wed May 06 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2008
ALEGAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE. NÃO CONHECIMENTO. SÚMULA CARF Nº 2.
Não se conhece de alegações de nível constitucional na jurisdição administrativa em respeito à Sumula CARF nº 2.
COOPERATIVAS DE CRÉDITO. JUROS DISTRIBUÍDOS ÀS QUOTAS-PARTES DO CAPITAL INTEGRALIZADO. ACRÉSCIMO PATRIMONIAL. CONFIGURAÇÃO. IRRF. INCIDÊNCIA.
Os juros distribuídos às quotas-partes do capital integralizado pelos cooperados, previstos no art. 24, § 3º, da Lei nº 5.764/1971, limitados a 12% ao ano sobre a parte integralizada, incorporam-se definitivamente ao patrimônio do cooperado no momento de sua distribuição ou capitalização, configurando acréscimo patrimonial nos termos do art. 43 do CTN. Inexistindo regime específico de tributação, aplica-se a regra residual do art. 65, § 4º, alínea c, da Lei nº 8.981/1995, sujeitando-os ao IRRF à alíquota de 20%, nos termos do art. 35 da Lei nº 9.532/1997. Não se confundem com os juros sobre o capital próprio das sociedades empresariais, aos quais se aplica regime jurídico distinto.
COOPERATIVAS DE CRÉDITO. SOBRAS LÍQUIDAS. DISTRIBUIÇÃO AOS COOPERADOS. ACRÉSCIMO PATRIMONIAL. AUSÊNCIA. FATO GERADOR. NÃO OCORRÊNCIA. IRRF. NÃO INCIDÊNCIA.
As sobras líquidas distribuídas pelas cooperativas de crédito aos seus cooperados ao final do exercício não configuram acréscimo patrimonial e, por conseguinte, não constituem fato gerador do imposto de renda, nos termos do art. 43 do CTN.
Numero da decisão: 1002-004.235
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário para (i) manter a exigência de IRRF sobre os juros distribuídos às quotas-partes do capital integralizado, à alíquota de 20%, ressalvada a exclusão dos juros de mora e da multa de ofício sobre o montante depositado judicialmente, em conformidade com a Súmula CARF nº 5 e o Parecer COSIT nº 02/1999; e (ii) cancelar integralmente a exigência de IRRF sobre as sobras líquidas distribuídas aos cooperados, por ausência de fato gerador, nos termos do art. 43 do CTN e em consonância com a jurisprudência deste Conselho e do Superior Tribunal de Justiça.
Assinado Digitalmente
Maria Angélica Echer Ferreira Feijó – Relator
Assinado Digitalmente
Ailton Neves da Silva – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Andrea Viana Arrais Egypto, Luis Angelo Carneiro Baptista (substituto[a] integral), Maria Angelica Echer Ferreira Feijo, Ricardo Pezzuto Rufino, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Ailton Neves da Silva (Presidente).
Nome do relator: MARIA ANGELICA ECHER FERREIRA FEIJO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2008 ALEGAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE. NÃO CONHECIMENTO. SÚMULA CARF Nº 2. Não se conhece de alegações de nível constitucional na jurisdição administrativa em respeito à Sumula CARF nº 2. COOPERATIVAS DE CRÉDITO. JUROS DISTRIBUÍDOS ÀS QUOTAS-PARTES DO CAPITAL INTEGRALIZADO. ACRÉSCIMO PATRIMONIAL. CONFIGURAÇÃO. IRRF. INCIDÊNCIA. Os juros distribuídos às quotas-partes do capital integralizado pelos cooperados, previstos no art. 24, § 3º, da Lei nº 5.764/1971, limitados a 12% ao ano sobre a parte integralizada, incorporam-se definitivamente ao patrimônio do cooperado no momento de sua distribuição ou capitalização, configurando acréscimo patrimonial nos termos do art. 43 do CTN. Inexistindo regime específico de tributação, aplica-se a regra residual do art. 65, § 4º, alínea c, da Lei nº 8.981/1995, sujeitando-os ao IRRF à alíquota de 20%, nos termos do art. 35 da Lei nº 9.532/1997. Não se confundem com os juros sobre o capital próprio das sociedades empresariais, aos quais se aplica regime jurídico distinto. COOPERATIVAS DE CRÉDITO. SOBRAS LÍQUIDAS. DISTRIBUIÇÃO AOS COOPERADOS. ACRÉSCIMO PATRIMONIAL. AUSÊNCIA. FATO GERADOR. NÃO OCORRÊNCIA. IRRF. NÃO INCIDÊNCIA. As sobras líquidas distribuídas pelas cooperativas de crédito aos seus cooperados ao final do exercício não configuram acréscimo patrimonial e, por conseguinte, não constituem fato gerador do imposto de renda, nos termos do art. 43 do CTN.
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NÃO CONHECIMENTO. SÚMULA CARF Nº 2. Não se conhece de alegações de nível constitucional na jurisdição administrativa em respeito à Sumula CARF nº 2. COOPERATIVAS DE CRÉDITO. JUROS DISTRIBUÍDOS ÀS QUOTAS-PARTES DO CAPITAL INTEGRALIZADO. ACRÉSCIMO PATRIMONIAL. CONFIGURAÇÃO. IRRF. INCIDÊNCIA. Os juros distribuídos às quotas-partes do capital integralizado pelos cooperados, previstos no art. 24, § 3º, da Lei nº 5.764/1971, limitados a 12% ao ano sobre a parte integralizada, incorporam-se definitivamente ao patrimônio do cooperado no momento de sua distribuição ou capitalização, configurando acréscimo patrimonial nos termos do art. 43 do CTN. Inexistindo regime específico de tributação, aplica-se a regra residual do art. 65, § 4º, alínea "c", da Lei nº 8.981/1995, sujeitando-os ao IRRF à alíquota de 20%, nos termos do art. 35 da Lei nº 9.532/1997. Não se confundem com os juros sobre o capital próprio das sociedades empresariais, aos quais se aplica regime jurídico distinto. COOPERATIVAS DE CRÉDITO. SOBRAS LÍQUIDAS. DISTRIBUIÇÃO AOS COOPERADOS. ACRÉSCIMO PATRIMONIAL. AUSÊNCIA. FATO GERADOR. NÃO OCORRÊNCIA. IRRF. NÃO INCIDÊNCIA. As sobras líquidas distribuídas pelas cooperativas de crédito aos seus cooperados ao final do exercício não configuram acréscimo patrimonial e, por conseguinte, não constituem fato gerador do imposto de renda, nos termos do art. 43 do CTN. Fl. 1716DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.235 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10315.720106/2013-66 2 ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário para (i) manter a exigência de IRRF sobre os juros distribuídos às quotas-partes do capital integralizado, à alíquota de 20%, ressalvada a exclusão dos juros de mora e da multa de ofício sobre o montante depositado judicialmente, em conformidade com a Súmula CARF nº 5 e o Parecer COSIT nº 02/1999; e (ii) cancelar integralmente a exigência de IRRF sobre as sobras líquidas distribuídas aos cooperados, por ausência de fato gerador, nos termos do art. 43 do CTN e em consonância com a jurisprudência deste Conselho e do Superior Tribunal de Justiça. Assinado Digitalmente Maria Angélica Echer Ferreira Feijó – Relator Assinado Digitalmente Ailton Neves da Silva – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Andrea Viana Arrais Egypto, Luis Angelo Carneiro Baptista (substituto[a] integral), Maria Angelica Echer Ferreira Feijo, Ricardo Pezzuto Rufino, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Ailton Neves da Silva (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de processo decorrente de Auto de Infração, relativo a IRRF, com exigência de multa de ofício de 75% e juros de mora, formalizando crédito tributário no montante de R$ 482.264,84, referente ao ano-calendário 2008. O lançamento decorre, em síntese, de duas imputações centrais: (i) ausência de retenção de IRRF sobre valores distribuídos aos cooperados, a título de “sobras líquidas”; e (ii) recolhimento a menor do IRRF incidente sobre juros distribuídos ao capital integralizado dos cooperados. O fundamento da autuação reside na distribuição dos juros ao capital integralizado, por força de decisão judicial, o sujeito passivo depositou em juízo o IRRF incidente, porém calculou a retenção à alíquota de 15% quando, segundo a fiscalização, deveria ter aplicado 20%; para prevenir a decadência, o Fisco lançou também o montante depositado, sem multa, e lançou a diferença de alíquotas com multa. A fiscalização sustentou que tais rendimentos se enquadrariam Fl. 1717DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.235 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10315.720106/2013-66 3 na regra do art. 65, §4º, da Lei nº 8.981/1995 (aplicações de renda fixa por “entrega de recursos”), com alíquota de 20% a partir do art. 35 da Lei nº 9.532/1997. No tocante às sobras, apurou-se distribuição a cooperados sem retenção, e a fiscalização considerou-as tributáveis, com fundamento na alínea “c” do §4º do art. 65 da Lei nº 8.981/1995 e no art. 18 da IN SRF nº 25/2001. Quanto à distribuição de sobras a pessoas físicas, constituiu-se IRRF; quanto à distribuição a pessoas jurídicas, exigiu-se multa isolada (por se tratar de antecipação), com base no art. 9º da Lei nº 10.426/2002 c/c art. 44 da Lei nº 9.430/1996, à razão de 75%. Em impugnação, foi alegado: quanto aos juros ao capital integralizado, defendeu-se aplicação do regime e da alíquota dos juros sobre capital próprio (15%), com base no art. 347 do RIR/1999 e art. 668 do mesmo regulamento, afastando a equiparação a aplicação financeira; e requereu-se ao menos o expurgo do montante depositado judicialmente. quanto às sobras líquidas, alegou-se ausência de previsão legal para tributação na fonte, caracterização como “retorno” proporcional às operações, vedação de tributação por analogia, e invocou-se, dentre outros, o Parecer Normativo CST nº 522/1970 (não incidência). Após, sobreveio a decisão recorrida, julgando a impugnação procedente em parte, para manter a exigência de IRRF e cancelar integralmente os juros de mora relativos ao valor depositado judicialmente. Constou na fundamentação: Juros ao capital integralizado – alíquota aplicável e diferença: A decisão assentou que juros sobre capital próprio não se confundem com juros sobre quota-parte integralizada, os quais são limitados a 12% ao ano e têm regramento próprio. Reconheceu a incidência do imposto de renda sobre tais juros por caracterizarem acréscimo patrimonial ao cooperado, e aplicou a regra residual do art. 65, §4º, “c”, da Lei nº 8.981/1995 (entrega de recursos), com alíquota de 20% (Lei nº 9.532/1997). Depósito judicial – multa e juros: Consignou-se que, sobre o valor depositado judicialmente, não incide multa de ofício (Parecer Cosit nº 02/1999), mas incide multa sobre a diferença de alíquotas. Quanto aos juros de mora, aplicou-se o entendimento de que, havendo depósito judicial integral, não devem integrar o lançamento, determinando- se o cancelamento dos juros sobre o montante depositado. Sobras líquidas – incidência de IRRF: A decisão concluiu que as sobras, distribuídas ou capitalizadas, configuram acréscimo patrimonial ao cooperado, sujeitando-se ao imposto de renda (CTN, art. 43), e, inexistindo regime específico, aplicou-se igualmente a regra residual do art. 65, §4º, “c”, da Lei nº 8.981/1995. Quanto ao Parecer CST nº 522/1970, entendeu-se que o conteúdo teria perdido eficácia em face da legislação posterior e Fl. 1718DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.235 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10315.720106/2013-66 4 normativos que afirmam a tributação independentemente da denominação do rendimento, reputando-o superado. Ao apresentar Recurso Voluntário, a recorrente se insurge: 1. Preliminar: sustenta a inconstitucionalidade da exigência de depósito/arrolamento prévio como condição para recorrer, invocando entendimento do STF (tese de violação ao direito de petição e ao contraditório). 2. Mérito – juros ao capital: defende que a retenção correta seria de 15% (equiparação a juros sobre capital próprio, com base na Lei nº 9.249/1995 e RIR/1999), e que a equiparação a aplicação financeira (20%) seria indevida; requer, ainda, o expurgo/adequação do tratamento do depósito judicial e encargos. 3. Mérito – sobras líquidas: sustenta, em essência, a natureza de “retorno/sobra” ligada ao ato cooperativo, com ausência de incidência nos termos defendidos pela recorrente, além de reforçar argumentos de legalidade estrita e precedentes judiciais/administrativos. 4. Pedidos: reforma do acórdão para afastar as exigências (ou readequá-las), com menção subsidiária à prescrição/limitações temporais em caso de não provimento. É o relatório. VOTO Conselheiro Maria Angélica Echer Ferreira Feijó, Relator I – Admissibilidade Conheço do recurso, em razão do preenchimento dos requisitos legais. II – Preliminar: condicionamento do recurso a depósito/arrolamento prévio – arguição de inconstitucionalidade A recorrente suscita matéria de índole constitucional, ao sustentar a inconstitucionalidade de exigência de depósito/arrolamento prévio como condição para o exercício do direito de recorrer. Não conheço da alegação, por se tratar de controle de constitucionalidade de lei, providência que escapa à competência deste Conselho, nos termos da Súmula CARF nº 2 (“O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária.”). Superada a preliminar, passa-se ao exame do mérito nos limites da legislação infraconstitucional aplicável. Fl. 1719DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.235 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10315.720106/2013-66 5 III – Mérito A controvérsia meritória nos presentes autos cinge-se a duas questões distintas, que merecem tratamento apartado: (i) a incidência de IRRF sobre os juros distribuídos às quotas- partes do capital integralizado pelos cooperados; e (ii) a incidência de IRRF sobre as sobras líquidas distribuídas aos cooperados no ano-calendário de 2008. Passo a analisa-las. III.a - Dos juros distribuídos às quotas-partes do capital integralizado Neste ponto, razão assiste à autoridade autuante, e o acórdão recorrido merece ser mantido. Como bem fundamentou a DRJ, os juros distribuídos às quotas-partes do capital integralizado não se confundem com os juros sobre o capital próprio disciplinados para as sociedades empresariais. Trata-se de remuneração expressamente prevista no art. 24, § 3º, da Lei nº 5.764/1971, limitada a 12% ao ano sobre a parte integralizada, e que, uma vez distribuída ou capitalizada, incorpora-se definitivamente ao patrimônio do cooperado, configurando acréscimo patrimonial nos termos do art. 43 do CTN. Inexistindo norma específica de tributação para esses rendimentos, aplica-se a regra residual do art. 65, § 4º, alínea "c", da Lei nº 8.981/1995, que sujeita ao IRRF os rendimentos auferidos pela entrega de recursos a pessoa jurídica, sob qualquer forma e a qualquer título. A alíquota aplicável é a de 20%, nos termos do art. 35 da Lei nº 9.532/1997, e não a de 15% utilizada pela Recorrente no depósito judicial. Nesse ponto, portanto, voto por manter a exigência, ressalvando, nos termos da Súmula CARF nº 5 e do Parecer COSIT nº 02/1999, a exclusão dos juros de mora e da multa de ofício sobre o montante depositado judicialmente, conforme já reconhecido pela decisão recorrida. III.b - Das sobras líquidas distribuídas aos cooperados Neste ponto, divirjo integralmente do acórdão recorrido, e entendo que a exigência deve ser cancelada. A questão central é saber se as sobras líquidas distribuídas pela cooperativa de crédito a seus cooperados configuram acréscimo patrimonial sujeito ao imposto de renda, ou se constituem mera devolução de valores que já integravam o patrimônio dos próprios cooperados. A resposta, a meu ver, é inequívoca: as sobras líquidas não consubstanciam acréscimo patrimonial e, por consequência, não configuram fato gerador do imposto de renda, nos termos do art. 43 do CTN. Fl. 1720DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.235 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10315.720106/2013-66 6 Da natureza jurídica das sobras O art. 80, inciso II, da Lei nº 5.764/1971 é explícito ao estabelecer que as sobras líquidas correspondem ao rateio, em razão diretamente proporcional, entre os associados que tenham usufruído dos serviços durante o ano, dos excedentes verificados no balanço do exercício. Trata-se, portanto, do excesso de contingenciamento aplicado em cada operação — em outras palavras, do valor que os próprios cooperados aportaram além do estritamente necessário para cobrir os custos da cooperativa no período. Esse excesso nunca deixou de integrar o patrimônio do cooperado. A cooperativa o detinha temporariamente, na condição de gestora dos recursos comuns, e ao devolvê-lo ao final do exercício não está transferindo riqueza nova ao associado: está restituindo o que já era dele. Por isso, as sobras são classificadas pela própria Lei Cooperativista não como lucro ou rendimento, mas como retorno — expressão que o legislador escolheu deliberadamente para distinguir essa figura dos dividendos e demais distribuições de resultado típicos das sociedades empresariais. É exatamente essa a ratio do Parecer Normativo CST nº 522/1970, que afastou a tributação sobre as importâncias devolvidas pelas cooperativas aos seus associados como retorno ou sobra, ao reconhecer que tais valores "não são considerados como rendimentos, mas sim como ressarcimento de capital correspondente ao reajustamento de preços anteriormente pagos ou recebidos." Da revogação tácita do PN 522/1970 A DRJ concluiu que o PN 522/1970 teria sido tacitamente revogado pela superveniência de normas que determinam a tributação independentemente da denominação dos rendimentos — notadamente a Lei nº 7.713/1988 e as Instruções Normativas que a regulamentaram. Esse raciocínio, contudo, incorre em equívoco metodológico fundamental: confunde a amplitude da hipótese de incidência com a ocorrência do fato gerador. É verdade que o ordenamento jurídico tributário veda que o contribuinte, por meio de uma denominação artificiosa, transforme renda tributável em algo que não o é. O art. 43, § 1º, do CTN e o art. 3º, § 4º, da Lei nº 7.713/1988 vedam exatamente isso. Mas essas normas pressupõem que haja renda — que haja, em última análise, acréscimo patrimonial. Elas apenas impedem que tal acréscimo escape à tributação por subterfúgio nominal. No caso das sobras, a questão não é de denominação: é de substância. As sobras não são renda disfarçada de devolução; são genuinamente uma devolução. O cooperado que recebe a sobra não fica mais rico do que era antes: recebe de volta o que havia aportado em excesso. Não há, portanto, o substrato econômico que a regra de tributação independente de denominação pressupõe. Essas normas posteriores ao PN 522/1970 jamais tiveram por objeto as sobras cooperativas, e por isso não são com ele incompatíveis no ponto relevante. Fl. 1721DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.235 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10315.720106/2013-66 7 Nesse sentido, o PN 522/1970 permanece vigente e aplicável, como expressamente reconhecido pela jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça. Da jurisprudência do STJ e do CARF O Superior Tribunal de Justiça consolidou entendimento de que não incide o imposto de renda sobre as sobras líquidas distribuídas aos cooperados ao final de cada exercício, pois tais rubricas não consubstanciam incremento patrimonial, tratando-se de simples devoluções feitas pelas cooperativas aos seus cooperados, ato cooperativo típico — conforme assentado, entre outros, no AgInt no REsp 1.836.270/PB (Rel. Min. Og Fernandes, Segunda Turma, DJe 18/06/2021) e no REsp 1.741.047/SP (Rel. Min. Herman Benjamin, Segunda Turma, DJe 28/11/2018). Este Conselho, na mesma linha, proferiu o Acórdão nº 1401-007.619 (1ª Seção/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária, sessão de 29/09/2025), cujo enunciado é preciso: "Não incide o imposto de renda sobre as sobras líquidas distribuídas aos cooperados ao final de cada exercício, pois tais rubricas não consubstanciam incremento patrimonial, tratando-se de simples devoluções feitas pelas cooperativas aos seus cooperados, ato cooperativo típico." O caso julgado naquele precedente é factualmente idêntico ao presente: cooperativa de crédito, distribuição de sobras líquidas a cooperados, autuação de IRRF com fundamento na equiparação das sobras a aplicações financeiras de renda fixa. O argumento da fiscalização de que as sobras seriam comparáveis a rendimentos de renda fixa tampouco prospera. Como apontado naquele precedente, essa equiparação distorce a natureza das sobras ao desconsiderar o componente de incerteza que lhes é inerente: ao contrário das aplicações de renda fixa, em que o rendimento é predeterminado ou ao menos previsível, a sobra cooperativa é contingente — pode não existir, pode ser inferior à expectativa, e seu valor só se apura ao encerramento do exercício. Falta, portanto, o elemento essencial que caracteriza a renda fixa. Logo, a distribuição das sobras líquidas pela Recorrente a seus cooperados não configura fato gerador do imposto de renda, por ausência do elemento constitutivo indispensável: o acréscimo patrimonial. Tratando-se de ato cooperativo típico — devolução do excesso de recursos aportados pelos cooperados para custeio das atividades da cooperativa —, a exigência de IRRF sobre tais valores carece de amparo legal e deve ser cancelada. IV – Conclusão Ante o exposto, voto por dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, para: (i) manter a exigência de IRRF sobre os juros distribuídos às quotas-partes do capital integralizado, à alíquota de 20%, ressalvada a exclusão dos juros de mora e da multa de ofício sobre o montante depositado judicialmente, em conformidade com a Súmula CARF nº 5 e o Parecer COSIT nº 02/1999; e Fl. 1722DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.235 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10315.720106/2013-66 8 (ii) cancelar integralmente a exigência de IRRF sobre as sobras líquidas distribuídas aos cooperados, por ausência de fato gerador, nos termos do art. 43 do CTN e em consonância com o jurisprudência deste Conselho e do Superior Tribunal de Justiça. Assinado Digitalmente Maria Angélica Echer Ferreira Feijó Fl. 1723DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
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