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11285032 #
Numero do processo: 10730.723446/2015-18
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Mar 18 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Tue Mar 31 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2013 IRPF. DEDUÇÃO. LIVRO-CAIXA. COMPROVAÇÃO DOS RENDIMENTOS DECLARADOS A TÍTULO DE RECEITA. O contribuinte que perceber rendimentos do trabalho não assalariado poderá deduzir da receita decorrente do exercício da atividade as despesas de custeio escrituradas em livro-caixa, necessárias à percepção da receita e à manutenção da fonte produtora, desde que devidamente comprovadas. Comprovada a correlação entre os gastos incorridos e os rendimentos da atividade correspondente, deverão ser acatadas as deduções pleiteadas. MATÉRIA DE PROVA. PRINCÍPIO DA VERDADE MATERIAL. DOCUMENTO IDÔNEO APRESENTADO EM FASE RECURSAL. Sendo interesse substancial do Estado a justiça, é dever da autoridade utilizar-se de todas as provas e circunstâncias que tenha conhecimento, na busca da verdade material, admitindo-se documentação que pretenda comprovar direito subjetivo de que são titulares os contribuintes, ainda que apresentada a destempo, desde que reúnam condições para demonstrar a verdade real dos fatos.
Numero da decisão: 2001-008.266
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário. (documento assinado digitalmente) Raimundo Cassio Goncalves Lima - Presidente (documento assinado digitalmente) Wilderson Botto - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Raimundo Cassio Goncalves Lima (Presidente), Lilian Claudia de Souza, Christianne Kandyce Gomes Ferreira de Mendonca, Maria Auxiliadora de Sousa Ramalho Fonseca, Flavia Lilian Selmer Dias (substituta integral) e Wilderson Botto. Ausente a conselheira Rosimery Brandao Barbosa, substituída pela conselheira Flavia Lilian Selmer Dias.
Nome do relator: WILDERSON BOTTO

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DEDUÇÃO. LIVRO-CAIXA. COMPROVAÇÃO DOS RENDIMENTOS DECLARADOS A TÍTULO DE RECEITA. O contribuinte que perceber rendimentos do trabalho não assalariado poderá deduzir da receita decorrente do exercício da atividade as despesas de custeio escrituradas em livro-caixa, necessárias à percepção da receita e à manutenção da fonte produtora, desde que devidamente comprovadas. Comprovada a correlação entre os gastos incorridos e os rendimentos da atividade correspondente, deverão ser acatadas as deduções pleiteadas. MATÉRIA DE PROVA. PRINCÍPIO DA VERDADE MATERIAL. DOCUMENTO IDÔNEO APRESENTADO EM FASE RECURSAL. Sendo interesse substancial do Estado a justiça, é dever da autoridade utilizar-se de todas as provas e circunstâncias que tenha conhecimento, na busca da verdade material, admitindo-se documentação que pretenda comprovar direito subjetivo de que são titulares os contribuintes, ainda que apresentada a destempo, desde que reúnam condições para demonstrar a verdade real dos fatos. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário. (documento assinado digitalmente) Raimundo Cassio Goncalves Lima - Presidente Fl. 426DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.266 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10730.723446/2015-18 2 (documento assinado digitalmente) Wilderson Botto - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Raimundo Cassio Goncalves Lima (Presidente), Lilian Claudia de Souza, Christianne Kandyce Gomes Ferreira de Mendonca, Maria Auxiliadora de Sousa Ramalho Fonseca, Flavia Lilian Selmer Dias (substituta integral) e Wilderson Botto. Ausente a conselheira Rosimery Brandao Barbosa, substituída pela conselheira Flavia Lilian Selmer Dias. RELATÓRIO Por bem retratar os fatos ocorridos desde a constituição do crédito tributário por meio do lançamento até sua impugnação, adoto e reproduzo o relatório da decisão ora recorrida (fls. 343/346): O interessado acima qualificado recebeu a notificação de lançamento com imposto suplementar de R$ 8.299,94, relativo ao ano-calendário de 2013, em virtude da apuração da dedução indevida de Livro-Caixa. A descrição dos fatos e o enquadramento legal se encontram na notificação de lançamento. Na impugnação (fl. 15) o contribuinte alega que o valor de R$ 30.181,61 relativo a glosas do Livro-Caixa correspondem a despesas de custeio indispensáveis à execução dos serviços prestados, bem como à manutenção da fonte produtora dos rendimentos. Junta cópia do Livro-Caixa e a documentação que embasou os registros nele contidos. Tendo em vista o disposto na Portaria RFB nº 453, de 11 de abril de 2013 (DOU 17/04/2013) e no art. 2º da Portaria RFB nº 1.006, de 24 de julho de 2013 (DOU 25/07/2013) e conforme definição da Coordenação-Geral de contencioso Administrativo e judicial da RFB, o presente e-processo foi encaminhado para essa DRJ/POA/RS para julgamento. A decisão de primeira instância, por unanimidade, manteve parcialmente o lançamento do crédito tributário exigido, encontrando-se assim ementada: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA - IRPF Exercício: 2014 Ementa: LIVRO CAIXA. O contribuinte que percebe rendimentos do trabalho não assalariado pode deduzir da receita de sua atividade as despesas de custeio necessárias à percepção da receita e à manutenção da fonte produtora, até o limite das receitas escrituradas no Livro-Caixa. Cientificada da decisão, em 06/07/2016 (fls. 349/350), a contribuinte, em 03/08/2016, interpôs recurso voluntário (fls. 352/3574), insurgindo-se contra a manutenção parcial da autuação, alegando, em apertada síntese, que em relação a dedução de livro-caixa, além das receitas recebidas de pessoas físicas, também recebeu rendimentos de pessoas jurídicas, ao teor dos informes de rendimentos e demonstrativos de pagamentos mensais anexados, Fl. 427DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.266 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10730.723446/2015-18 3 comprovando assim a receita recebida proveniente do trabalho sem vínculo empregatício no decorrer do ano-calendário autuado, como suficiente para lastrear as despesas de custeio declaradas. Requer, ao final, a reforma e insubsistência da decisão recorrida, com o cancelamento do débito fiscal reclamado. Instrui a peça recursal com os documentos de fls. 358/419. Em 08/05/2025, em face da extinção do mandato do conselheiro relator, Honório Albuquerque de Brito, ocorrido em 05/05/2025, o processo foi enviado para novo sorteio (fls. 425), sendo-me distribuído para prosseguimento do julgamento. É o relatório. VOTO Conselheiro Wilderson Botto, Relator. Admissibilidade O recurso é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, razões por que dele conheço e passo à sua análise. Preliminares Não foram alegadas questões preliminares no presente recurso. Mérito Da dedução indevida de despesas de livro-caixa: O litígio recai sobre a glosa das despesas com livro-caixa, no valor de R$ 24.086,61, buscando, por oportuno, nessa seara recursal, obter nova análise do processado, no sentido do acatamento das aludidas despesas declaradas na DAA/2014. Visando suprir o ônus que lhe competia, instrui a peça recursal, dentre outros e em especial, com informes/extratos de pagamentos mensais atestando o recebimento de rendimentos pelo trabalho sem vínculo empregatício, no decorrer do ano-calendário de 2013 (fls. 367/388). Inicialmente, vale salientar que a autoridade fiscal requereu as justificativas sobre as despesas declaradas. Vale salientar, que o art. 73, caput e § 1º do RIR/99, por si só, autoriza expressamente ao Fisco, para formar sua convicção, solicitar documentos subsidiários aos recibos e comprovantes apresentados, para efeito de confirmá-los. A própria lei estabelece a quem cabe provar determinado fato. É o que ocorre no caso das deduções. O art. 11, § 3º do Decreto-lei nº 5.844/43, por seu turno, reza que o sujeito passivo pode ser intimado a promover a devida justificação ou comprovação, imputando-lhe o ônus probatório. Mesmo que a norma possa parecer, ao menos em tese, discricionária, deixando Fl. 428DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.266 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10730.723446/2015-18 4 ao sabor do Fisco a iniciativa, e este assim procede quando está albergado em indícios razoáveis de ocorrência de irregularidades nas deduções, mesmo porque o ônus probatório implica trazer elementos que afastem eventuais dúvidas sobre o fato imputado. Nesse ponto o art. 149 do CTN, determina ao julgador administrativo realizar, de ofício, o julgamento que entender necessário, privilegiando o princípio da eficiência (art. 37, caput, CF), cujo objetivo é efetuar o controle de legalidade do lançamento fiscal, harmonizando-o com os dispositivos legais, de cunho material e processual, aplicáveis ao caso, calhando aqui, nessa ótica, por pertinente e indispensável, a análise dos documentos trazidos à colação pela Recorrente. Assim, passo ao cotejo dos documentos carreados, em relação aos fundamentos motivadores da manutenção da glosa em litígio traçados na decisão recorrida (fls. 344/346): Dedução - Livro Caixa O contribuinte que percebe rendimentos do trabalho não assalariado pode deduzir da receita de sua atividade as despesas de custeio necessárias à percepção da receita e à manutenção da fonte produtora, tais como, aluguel, água, luz, telefone, material de expediente ou de consumo. Conforme consta da descrição dos fatos e enquadramento legal, a glosa se deu pelo seguinte motivo: “Glosado o valor de R$ 30.181,61, uma vez que a dedução de despesas registradas em livro caixa em valor superior as receitas obtidas de trabalho sem vínculo”. Os artigos 75 e 76 do Regulamento do Imposto de Renda - RIR/1999 (Decreto nº 3.000/1999) estabelecem: Art. 75. O contribuinte que perceber rendimentos do trabalho não-assalariado, inclusive os titulares dos serviços notariais e de registro, a que se refere o art. 236 da Constituição, e os leiloeiros, poderão deduzir, da receita decorrente do exercício da respectiva atividade (Lei 8.134, de 1990, art. 6º, e Lei 9.250, artigo 4º, inciso I): I - a remuneração paga a terceiros, desde que com vínculo empregatício, e os encargos trabalhistas e previdenciários; II - os emolumentos pagos a terceiros; III - as despesas de custeio pagas, necessárias à percepção da receita e à manutenção da fonte produtora. (...) Art. 76.(...) (...) § 2º - O contribuinte deverá comprovar a veracidade das receitas e das despesas, mediante documentação idônea, escrituradas em Livro Caixa, que serão mantidos em seu poder, à disposição da fiscalização, enquanto não ocorrer a prescrição ou decadência (Lei 8.134, de 1990, art. 6º, § 2º). § 3º - O Livro Caixa de que trata o parágrafo anterior independe de registro. Da leitura do referido texto legal deve-se ter presente, preliminarmente, os três requisitos cumulativos para a dedutibilidade das despesas: a) devem ser necessárias à percepção da receita e à manutenção da fonte produtora; Fl. 429DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.266 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10730.723446/2015-18 5 b) devem estar escrituradas em livro caixa; c) devem ser comprovadas mediante documentação idônea. Para serem dedutíveis, as despesas devem estar escrituradas no livro caixa e devidamente discriminadas e identificadas em documentos hábeis e idôneos, para que possam ser comprovados os desembolsos e analisada a pertinência da despesa. Para se verificar se as despesas são realmente necessárias, ou seja, se elas efetivamente têm alguma relação com a atividade desenvolvida pelo contribuinte, devem ser observados os critérios de normalidade, usualidade, necessidade e pertinência. São consideradas despesas passíveis de escrituração no Livro Caixa, para efeitos de dedução, apenas aquelas indispensáveis e inevitáveis à percepção da receita e à manutenção da fonte produtora, assim compreendida aquela que, em não se realizando, impediria o beneficiário de auferir a receita, ou a afetaria significativamente, e, em consequência, afetaria a manutenção da fonte produtora. Quanto à dedutibilidade de despesas do livro caixa, há que se observar o art. 6º da Lei nº 8.134, de 27 de dezembro de 1990, que estabelece: “Art. 6° O contribuinte que perceber rendimentos do trabalho não assalariado, inclusive os titulares dos serviços notariais e de registro, a que se refere o art. 236 da Constituição, e os leiloeiros, poderão deduzir, da receita decorrente do exercício da respectiva atividade: I - a remuneração paga a terceiros, desde que com vínculo empregatício, e os encargos trabalhistas e previdenciários; II - os emolumentos pagos a terceiros; III - as despesas de custeio pagas, necessárias à percepção da receita e à manutenção da fonte produtora. § 1° O disposto neste artigo não se aplica: a) a quotas de depreciação de instalações, máquinas e equipamentos, bem como a despesas de arrendamento; (Redação dada pela Lei nº 9.250, de 1995) b) a despesas de locomoção e transporte, salvo no caso de representante comercial autônomo. (Redação dada pela Lei nº 9.250, de 1995) c) em relação aos rendimentos a que se referem os arts. 9° e 10 da Lei n° 7.713, de 1988. § 2° O contribuinte deverá comprovar a veracidade das receitas e das despesas, mediante documentação idônea, escrituradas em livro-caixa, que serão mantidos em seu poder, a disposição da fiscalização, enquanto não ocorrer a prescrição ou decadência. § 3° As deduções de que trata este artigo não poderão exceder à receita mensal da respectiva atividade, permitido o cômputo do excesso de deduções nos meses seguintes, até dezembro, mas o excedente de deduções, porventura existente no final do ano-base, não será transposto para o ano seguinte. (…)” (Grifou-se) Ao exame da Declaração de ajuste Anual do exercício de 2014, verifica-se que a contribuinte auferiu rendimentos sem vínculo empregatício de pessoas físicas no total de R$ 6.095,00 e pleiteou despesas no Livro-Caixa de R$ 30.181,61. No livro-Caixa (fls. 22 a 49) verifica-se que foram escrituradas somente as receitas mensais auferidas de pessoas físicas, nos valores mensais registrados pela contribuinte na declaração de ajuste anual, do ano-calendário de 2013, totalizando R$ 6.095,00. Fl. 430DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.266 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10730.723446/2015-18 6 Dessa forma, somente faz jus as despesas no livro-caixa até o limite das receitas por ela declaradas e escrituradas no Livro-Caixa, ou seja, R$ 6.095,00 com base na determinação expressa retro transcrito § 3º, inciso III, do art. 6º da Lei nº 8.134/99. Para o total R$ 6.095,00 aceito de como dedução de despesas do Livro Caixa, deve ser cancelado o imposto no valor de R$ 1.676,12. Pois bem. Feito o registro acima e após detida análise dos autos, entendo que a pretensão recursal merece prosperar, porquanto a Recorrente se desincumbiu do ônus que lhe competia. No que tange às despesas com livro-caixa, melhor sorte também lhe socorre. Vale registrar, por oportuno, que na decisão recorrida, não há qualquer menção acerca da não comprovação das despesas declaradas no livro-caixa, limitando-se a fiscalização em lastrear o lançamento pela ausência de comprovação integral de rendimentos, fazendo jus tão somente a dedução das despesas no limite das receitas recebidas de pessoas físicas lançadas no ajuste anual, que totalizaram R$ 6.095,00. Não obstante, em relação ao lançamento propriamente dito, a Recorrente, ao meu sentir, logrou êxito em demonstrar a origem dos rendimentos recebidos de pessoa jurídica sem vínculo empregatício, das fontes pagadoras Amil Assistência Médica Internacional Ltda. (R$ 18.538,19), Eletros - Fundação de Seguridade Social (R$ 215,13), Golden Cross Assistência Internacional de Saúde Ltda. (R$ 2.622,78) e Odontoprev S.A. (R$ 3.855,89), totalizando R$ 25.231,99 (fls. 367/368, 370 e 379), rendimentos estes que se enquadram nas disposições contidas no art. 6º, caput, da Lei nº 8.134/90. Assim, quanto aos rendimentos declarados como recebidos de pessoas jurídicas decorrentes do trabalho não assalariado (fls. 367/388) resta definitivamente comprovada a correlação de valores e sua origem, posto que oriundos do exercício da atividade liberal e autônoma (odontóloga), devendo tais rendimentos ser acatados, restando assim suportada a dedução das despesas registradas no livro-caixa. Destarte, quanto aos rendimentos do trabalho não assalariado declarados, tem-se por comprovada a correlação de valores recebidos – originados do exercício da atividade profissional como certificado inclusive pela entidade de classe (fls. 358/359) – devendo tais rendimentos ser acatados, restando assim margem para suportar a dedução das despesas registradas no livro-caixa (sobre as quais, diga-se, não houve qualquer insurgência por parte da fiscalização), razão pela qual torno insubsistente o crédito tributário remanescente em litígio. Conclusão Ante o exposto, voto por DAR PROVIMENTO ao presente recurso para afastar o lançamento remanescente e as alterações decorrentes realizadas na base de cálculo do imposto de renda. É como voto. (documento assinado digitalmente) Fl. 431DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.266 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10730.723446/2015-18 7 Wilderson Botto Fl. 432DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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11285074 #
Numero do processo: 15563.720185/2012-16
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Mar 16 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Tue Mar 31 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2008, 2009 OMISSÃO DE RENDIMENTOS. DEPÓSITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA. SÚMULAS CARF Nº 26 E 239. A presunção legal de omissão de rendimentos tributáveis, prevista no art. 42 da Lei nº 9.430/96, autoriza o lançamento com base em depósitos e créditos bancários para os quais o titular, regularmente intimado, não comprove a origem dos recursos utilizados nessas operações mediante documentação hábil e idônea. Não basta a identificação do depositante, ainda que na fase de autuação, sendo imprescindível em qualquer momento processual, a comprovação da natureza da operação que envolveu os recursos depositados na conta bancária. Não restando demonstrado os repasses dos aluguéis aos proprietários, após deduzido o valor da intermediação dos contratos de locação, mantém-se a presunção de omissão de rendimentos caracterizada por depósitos bancários não comprovados. DE DILIGÊNCIA, PERÍCIA OU PRODUÇÃO DE NOVAS PROVAS. SÚMULA CARF Nº 163. Deve-se instruir os autos com elementos de prova que fundamentem os argumentos de defesa de maneira a não deixar dúvida sobre o que se pretende demonstrar. Presentes os elementos de convicção necessários à solução da lide, despiciendo o pedido de dilação probatória formulado.
Numero da decisão: 2001-008.241
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. (documento assinado digitalmente) Raimundo Cassio Goncalves Lima - Presidente (documento assinado digitalmente) Wilderson Botto - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Raimundo Cassio Goncalves Lima (Presidente), Lilian Claudia de Souza, Christianne Kandyce Gomes Ferreira de Mendonca, Maria Auxiliadora de Sousa Ramalho Fonseca, Flavia Lilian Selmer Dias (substituta integral) e Wilderson Botto. Ausente a conselheira Rosimery Brandao Barbosa, substituída pela conselheira Flavia Lilian Selmer Dias.
Nome do relator: WILDERSON BOTTO

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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. (documento assinado digitalmente) Raimundo Cassio Goncalves Lima - Presidente (documento assinado digitalmente) Wilderson Botto - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Raimundo Cassio Goncalves Lima (Presidente), Lilian Claudia de Souza, Christianne Kandyce Gomes Ferreira de Mendonca, Maria Auxiliadora de Sousa Ramalho Fonseca, Flavia Lilian Selmer Dias (substituta integral) e Wilderson Botto. Ausente a conselheira Rosimery Brandao Barbosa, substituída pela conselheira Flavia Lilian Selmer Dias.

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DEPÓSITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA. SÚMULAS CARF Nº 26 E 239. A presunção legal de omissão de rendimentos tributáveis, prevista no art. 42 da Lei nº 9.430/96, autoriza o lançamento com base em depósitos e créditos bancários para os quais o titular, regularmente intimado, não comprove a origem dos recursos utilizados nessas operações mediante documentação hábil e idônea. Não basta a identificação do depositante, ainda que na fase de autuação, sendo imprescindível em qualquer momento processual, a comprovação da natureza da operação que envolveu os recursos depositados na conta bancária. Não restando demonstrado os repasses dos aluguéis aos proprietários, após deduzido o valor da intermediação dos contratos de locação, mantém-se a presunção de omissão de rendimentos caracterizada por depósitos bancários não comprovados. DE DILIGÊNCIA, PERÍCIA OU PRODUÇÃO DE NOVAS PROVAS. SÚMULA CARF Nº 163. Deve-se instruir os autos com elementos de prova que fundamentem os argumentos de defesa de maneira a não deixar dúvida sobre o que se pretende demonstrar. Presentes os elementos de convicção necessários à solução da lide, despiciendo o pedido de dilação probatória formulado. ACÓRDÃO Fl. 1359DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.241 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15563.720185/2012-16 2 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. (documento assinado digitalmente) Raimundo Cassio Goncalves Lima - Presidente (documento assinado digitalmente) Wilderson Botto - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Raimundo Cassio Goncalves Lima (Presidente), Lilian Claudia de Souza, Christianne Kandyce Gomes Ferreira de Mendonca, Maria Auxiliadora de Sousa Ramalho Fonseca, Flavia Lilian Selmer Dias (substituta integral) e Wilderson Botto. Ausente a conselheira Rosimery Brandao Barbosa, substituída pela conselheira Flavia Lilian Selmer Dias. RELATÓRIO Por bem retratar os fatos ocorridos desde a constituição do crédito tributário por meio do lançamento até sua impugnação, adoto e reproduzo excertos do relatório da decisão ora recorrida (fls. 1146/1163): O contribuinte acima identificado insurge-se contra Auto de Infração de fls. 228/233 (numeração digital), acompanhado dos Demonstrativos de fls. 225/227 e do Termo de Verificação Fiscal de fls. 221/224, relativo ao Imposto de Renda Pessoa Física, anos calendário 2008 e 2009, por meio do qual foi apurado crédito tributário conforme demonstrativo abaixo (em Reais): Imposto de Renda Pessoa Física Suplementar 340.488,04 Multa de Ofício (passível de redução) 255.366,02 Juros de Mora (cálculo válido até 31/10/2012) 96.069,22 Valor do Crédito Tributário Apurado 691.923,28 1.1. Conforme a Descrição dos Fatos e Enquadramento Legal (fls. 230/232), a exigência decorreu das seguintes infrações à legislação tributária: INFRAÇÃO 0001. Depósitos Bancários de Origem Não Comprovada/Omissão de Rendimentos Caracterizada por Depósitos Bancários com Origem Não Comprovada. (...) Enquadramento legal: art. 1º da Lei nº 11.482/07; Art. 849 do RIR/99. 1.2. Durante realização do procedimento fiscalizatório, restou constatado, de acordo com o supracitado Termo de Verificação Fiscal, que: 1.2.1. O contribuinte foi selecionado para fiscalização em virtude de movimentação financeira incompatível com os rendimentos declarados nos exercícios de 2009 e 2010 e, Fl. 1360DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.241 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15563.720185/2012-16 3 após Intimação e prorrogação de prazos para prestar informações acerca de sua movimentação financeira, o contribuinte apresentou parte da documentação requisitada (cópias de extratos bancário de parte do período requisitado), com o intuito de demonstrar que a origem dos créditos bancários seriam decorrentes de recebimentos de aluguéis de imóveis por ele administrados, por ser essa a sua atividade profissional e que estaria providenciando outros elementos para corroborar as informações. 1.2.2. Tendo em vista a insuficiência dos extratos bancários apresentados, solicitou-se Requisição de Informações sobre Movimentação Financeira (RMF), nos termos do art. 6º da Lei Complementar nº 105/2001, para o Banco Santander S/A, e com base nos extratos apresentados realizou-se a conciliação bancária das contas, tendo sido emitidos os Termos de Intimação Sefis nº 139/12 e Sefis nº 667/12, para que o contribuinte comprovasse a origem dos valores ali discriminados. 1.2.3. Embora regularmente intimado e reintimado, o fiscalizado deixou de comprovar, por meio de documentação hábil e idônea, coincidente em datas e valores, a origem de cada um dos recursos creditados/depositados nas contas de depósito que manteve nas instituições financeiras relacionadas nas planilhas integrantes dos Termos de Intimação 139 e 667, nos anos-calendário de 2008 e 2009, concretizando-se a presunção legal prevista no art. 42 da Lei nº 9.430/96, de forma que os recursos creditados serão tomados como rendimentos omitidos. 2. Cientificado por via postal da exigência tributária, na data de 13/11/2012, conforme Aviso de Recebimento AR 313551800JL de fls. 235, o contribuinte apresentou sua impugnação de fls. 238/254, juntamente com os documentos de fls. 255/1.086, onde, em resumo, alega o seguinte: 2.1. Inicialmente, pretende justificar a aparentemente injustificável ausência de comprovação dos documentos solicitados dentro do prazo estabelecido, bem como da ausência de defesa prévia que demonstrasse a origem lícita, comprovada e justificável de todos os créditos juntos ás contas do contribuinte. Desde a primeira intimação recebida, o contribuinte vem sofrendo imensa carga emocional, seja pela enorme dificuldade em comprovar sob forma de planilhas históricos com mais de 3 anos, seja pelo significativo despreparo contábil e financeiro do mesmo, que atua profissionalmente como advogado, seja pelos eventuais desencontros de informações entre administradoras, proprietários de imóveis, com sérios comprometimentos à relação profissional do impugnante junto a seus clientes. Ainda, pela própria estrutura profissional do impugnante que, sozinho, sem um funcionário sequer, teria que reunir documentos de aproximadamente 60 imóveis por ele administrados (títulos de pagamentos, boletos bancários, contratos, carnês de IPTU, cotas condominiais, despesas de manutenção, etc.). Somente com a contratação de um contabilista é que pode agora, na fase de impugnação, apresentar os elementos de sua defesa. 2.2. O contribuinte tem como atividade principal administração de imóveis, que envolve o recebimento de alugueres, encargos e outros, podendo se estender à assessoria jurídica inerente à relação contratual locatícia, na qualidade de advogado que o é, atuando também no segmento de reformas, reparos e manutenção dos respectivos imóveis, isso tudo sob a face contábil da pessoa física, dispondo para tanto da conta corrente 0215- Fl. 1361DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.241 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15563.720185/2012-16 4 1004753 0 e da conta poupança 0215-600073880, objetos do auto de infração em epígrafe. Alega que 99% dos valores creditados nas respectivas contas são pertinentes às administrações dos referidos imóveis, à exceção da conta 0215-10047530, que é conjunta com a companheira do contribuinte, mantida apenas em razão da restituição do Imposto de Renda, em relação ao imóvel locado à Nextel do Brasil (cf. doc. Anexo). Em relação aos extratos bancários de fls. 203/216, para melhor visualizar a que se refere cada valor creditado, organizou planilhas que anexa, onde se demonstra que a maior parte dos valores os são titularizados como CR COBRANÇA DISPONÍVEL AGRUP, DOC’s ou DEPÓSITOS PRÁTICOS ATM, todos identificáveis. Afirma que no demonstrativo referente ao ano de 2008 é possível verificar que há uma diferença de R$ 3.949,90 a maior, apresentada pela Auditora-Fiscal às fls. 223, e o mesmo ocorre no resumo dos extratos do ano de 2009, a exceção de que a diferença encontrada a maior é surpreendentemente alta, de R$ 152.906,63, perfazendo as duas diferenças o total de R$ 156.856.53 e, uma vez apurado erro material de lançamento, deverá o presente Auto de Infração, antes mesmo da apreciação de qualquer prova carreada aos autos de processo, ser objeto de correção e ou retificação dos referidos valores antes de qualquer julgamento ou decisão administrativa. 2.3. Apresenta em fls. 246 os demonstrativos da Movimentação Bancária dos anos 2008 e 2009, com as discriminações e explicações que entende que demonstram a origem dos créditos bancários relacionados, e observa que mais de 90% dos históricos lançados na referida conta corrente são titularizados como CR COBRANÇA DISPONÍVEL AGRUP, cujo número do documento é sempre 000000, mormente por tratar-se de títulos inicialmente não identificados, dúvida esta, inclusive, objeto de pré-questionamento de ofício de fls. 201, notadamente quanto à divergência constante no extrato em papel e aquele fornecido pelo banco em meio magnético, sendo que o referido banco não possui cópia do inteiro teor desses títulos ou qualquer controle entre seu pagamento/recebimento a ao que se referem. Informa que está anexando aos títulos, quando assim possível, cópias dos contratos de locação, documento pessoais dos locatários, declarações, etc., para comprovar que se referem à administração de imóveis. Ressalta que os históricos lançados na referida conta corrente, titularizados como CR COBRANÇA DISPONÍVEL AGRUPAD, correspondem exatamente ao pagamento de alugueres e encargos outros, de imóveis administrados pelo contribuinte, cuja importância não lhe pertence e é repassada, de toda sorte, aos respectivos proprietários. 2.4. Os valores creditados em contas correntes ou são resultados de administrações de imóveis para pagamento de alugueres e encargos, ou raras vezes, podem também ser proveniente de recebimentos de indenizações de clientes na área jurídica, decorrente de ações judiciais favoráveis na área do direito do consumidor, onde o contribuinte é atuante. Pode ser verificado pelo exame das DIRPF’s do contribuinte que o patrimônio mesmo não sofreu qualquer variação com a incorporação dos referidos valores depositados/creditados, cujas movimentações sempre forma de caráter transitório com entradas e saídas de valores recebidos por conta dos locadores dos imóveis. Fl. 1362DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.241 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15563.720185/2012-16 5 DA CONVERSÃO DO JULGAMENTO EM DILIGÊNCIA 3. Tendo em vista que as alegações trazidas pelo impugnante, escoradas nos documentos acostados, mereciam um exame mais acurado antes do julgamento do litígio, uma vez que, no caso em pauta, embora na fase procedimental tenha sido alegado que a origem dos créditos bancários seriam decorrentes de recebimentos de aluguéis de imóveis por ele administrados, por ser essa a sua atividade profissional e que estaria providenciando outros elementos para corroborar as informações, mas nada foi demonstrado, agora há farta documentação juntada (boletos bancários, contratos de aluguéis, planilhas, etc.), com documentos que não foram ainda examinados pela fiscalização, que poderiam levar ao afastamento parcial da imputação de omissão de rendimentos, foi convertido o julgamento em diligência, conforme Despacho de fls. 1.089/1.090, nos termos do artigo 29 do Decreto nº 70.235/72, para que a fiscalização: I - Examine a documentação acostada referente à comprovação da natureza dos depósitos bancários em questão, especialmente confrontando as planilhas que o contribuinte elaborou em meio eletrônico, com as planilhas da própria fiscalização, emitindo parecer conclusivo (Informação Fiscal) sobre a existência ou não da omissão de rendimentos. Da Informação Fiscal 3.1. Em atendimento ao solicitado por esta Delegacia de Julgamento, o Auditor Fiscal diligenciante (o próprio autuante) elaborou a Informação Fiscal de fls. 1.123/1.125, informando, em síntese que: 2 - Após analisarmos e confrontarmos 680 depósitos efetuados em suas contas correntes com 21 contratos de locação e aproximadamente 350 boletos bancários, intimamos o contribuinte, através do Termo de Constatação e Intimação Fiscal nº 1587-3/0110/2017 e seu Anexo, já incorporados a este PAF a, apresentar manifestação referente aos depósitos bancários em suas contas correntes, provenientes de pagamentos mensais, via boletos, que guardavam relação com contratos apresentados pelo contribuinte. Concluiu a autoridade diligenciante que o contribuinte comprovou a origem dos depósitos em suas contas correntes, nos seguintes casos: a) em consequência da atividade de intermediação, através de contratos de locações firmados entre locadores e locatários, devidamente identificados, de acordo com os itens 1 a 18 do ano de 2008 e itens 21 a 41 do ano de 2009, descritos no anexo do Termo de Constatação e Intimação Fiscal nº 1587- 3/0110/2017 (fls. 1.111/1.113), e resumidos nas tabelas 1 e 2, fls. 1.123; b) oriundos de contrato de locação firmado entre o contribuinte em foco, na qualidade de locador e Thiago Marques Alves, CPF 082.403.197-00, na qualidade de locatário, conforme item 19 do ano de 2008 e item 42 do ano de 2009, descritos no anexo do Termo de Constatação e Intimação Fiscal nº 1587-3/0110/2017, e resumidos nas tabelas 3 e 4, fls. 1.124; c) oriundos de contrato de locação firmado entre o cônjuge do contribuinte em tela, Virgínia Vieira de Oliveira, CPF 765.808.576-68, na qualidade de locadora e Nextel Telecomunicações Ltda., CNPJ 66.970.229/0001-67, na qualidade de locatária, conforme item 20 do ano de 2008 e item 43 do ano de 2009, descritos no Fl. 1363DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.241 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15563.720185/2012-16 6 anexo do Termo de Constatação e Intimação Fiscal nº 1587-3/0110/2017, e resumidos nas tabelas 5 e 6, fls. 1.124/1.125. Da Manifestação do Contribuinte 3.2. Intimado a se manifestar sobre o Termo de Constatação e Intimação Fiscal nº 1587- 3/0110/2017, resultante da diligência, conforme AR de fls. 1.115, o contribuinte o fez pelo instrumento de fls. 1.116/1.121, expondo, em síntese, o que se segue: - alega dificuldades para acessar as peças dos autos; - não cabe manifestar-se sobre os locadores já identificados, e sim sobre aqueles não identificados pelo fiscal; - há pagamentos agrupados que não forma identificados pelo fiscal; - requer o prazo de noventa dias para se reorganizar administrativamente e esclarecer as dúvidas remanescentes. É o relatório. A decisão de primeira instância, por maioria, manteve parcialmente o crédito tributário exigido, encontrando-se assim ementada: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Exercício: 2009, 2010 OMISSÃO DE RENDIMENTOS - CRÉDITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA. Com a entrada em vigor da Lei 9.430 de 1996, consideram-se rendimentos omitidos, autorizando o lançamento do imposto correspondente, os depósitos junto a instituições financeiras, somente quando o contribuinte, regularmente intimado, não logra comprovar, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados. No caso, tendo ocorrido a comprovação da origem de parte dos depósitos considerados no lançamento, a base de cálculo do imposto deve ser alterada para retirar de seu cômputo estes rendimentos. Cientificado da decisão, em 09/04/2019 (fls. 1169), o contribuinte, em 07/05/019, interpôs recurso voluntário (fls. 1172/1186), insurgindo-se contra a manutenção parcial da autuação, repisando as alegações da peça impugnatória e trazendo outros argumentos, pugnando por dilação de prazo para apresentação de eventuais complementos probatórios. No mérito, reapresenta documentação já anexada, agora mais alinhada, reorganizada e complementar, estabelecendo a relação biunívoca ente cada crédito em conta e a origem que se deseja comprovar, com a coincidência de data e valor, a importar na procedência recursal, com o reconhecimento dos depósitos relacionado nas planilhas constantes do relatório fiscal de fls. 1123/1125, estendendo-se ao intitulados “CR COBRANÇA DISPONÍVEL AGRUPADA” que correspondem a 90% dos históricos lançados em conta bancária, os quais tratam-se de títulos agrupados provenientes da atividade de administração imobiliária exercida, excetuando-se apenas os “DEPÓSITOS EM CHEQUE NO CAIXA”, uma vez que não obteve a listagem e/ou microfilmes dos referidos títulos. Alega ainda que, quanto aos demais valores, cujo montante é pequeno comprado a movimentação dos alugueres/encargos, muitas vezes eram transferidos pelos locatários para sua Fl. 1364DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.241 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15563.720185/2012-16 7 conta bancária, visando o cumprimento das obrigações locatícias. Requer, ao final, diante da improcedência e insubsistência da ação fiscal, o cancelamento do débito fiscal reclamado. Instrui a peça recursal com os documentos de fls. 1187/1237. Em 14/05/2019, requereu a juntada de novo suporte probatório (fls. 1240/1353). É o relatório. VOTO Conselheiro Wilderson Botto, Relator. Admissibilidade O recurso é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, razão por que dele conheço e passo à sua análise. Preliminares Não foram alegadas questões preliminares no presente recurso. Mérito Da omissão de rendimentos apurada - dos depósitos bancários de origem não comprovada: O litígio recai sobre a omissão de rendimentos caracterizada por depósitos bancários de origem não comprovada, nos valores de R$ 473.866,86 (AC/2008) e R$ 714.142,724 (AC/2009), apurada em sede de verificação das obrigações tributárias dos exercícios de 2009 e 2010, importando na apuração do imposto suplementar revisada de R$ 321.016,34, a ser acrescido dos encargos legais, buscando, por oportuno, nessa seara recursal, obter nova análise do processado, no sentido do afastamento da infração apurada. Assim, passo ao cotejo dos documentos carreados, em relação aos fundamentos motivadores da manutenção da autuação em litígio, traçados no voto vencedor da decisão recorrida (fls. 1160/1163): Em que pese o fundamentado voto do relator, com a devida vênia, entendo não ser cabível a conclusão de que os depósitos relacionados nas planilhas constantes do relatório fiscal de fls. 1123/1125 devam ser todos excluídos da base de cálculo do imposto. Como já tratado no voto acima, a presunção contida no artigo 42, da Lei 9.430 de 1996, autoriza o lançamento do imposto de renda, sempre que o titular da conta bancária, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos creditados em sua conta de depósito ou de investimento. Por ser uma presunção legal, é necessária a comprovação, por parte da autoridade autuante, dos fatos-base indicados pela norma como requisitos para se concluir pela existência do fato presumido. Trata-se de uma construção lógica do legislador Fl. 1365DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.241 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15563.720185/2012-16 8 fundamentada em um juízo de verossimilhança, na medida em que, ocorridos os pressupostos indiciários, há uma grande probabilidade de que o fato presumido seja real. Contrariamente a uma presunção simples (que leva apenas em conta o juízo da autoridade julgadora em relação aos indícios apresentados e a conclusão lógico dedutiva que deles se extrai, ou seja, um juízo pessoal e subjetivo do juiz); há necessidade de, na presunção legal, se refazer todo o caminho construído pelo legislador no processo presuntivo. Trata-se de processo objetivo que não comporta juízos de verossimilhança, uma vez esta apreciação já ter sido feita pelo legislador. É, portanto, função do Fisco, comprovar o crédito dos valores em contas de depósito ou de investimento, examinar a correspondente declaração de rendimentos e intimar o titular da conta bancária a apresentar os documentos, informações, esclarecimentos, com vista à verificação da ocorrência de omissão de rendimentos. Por outro lado, a comprovação da origem dos recursos utilizados nessas operações cabe exclusivamente ao contribuinte. Essa comprovação, nos termos do dispositivo legal examinado, deve ser efetuada com a apresentação de documentação hábil e idônea que permita identificar a fonte do crédito, o valor, a data e, principalmente, que deixe clara a natureza dos depósitos. Há necessidade de se estabelecer uma relação biunívoca entre cada crédito em conta e a origem que se deseja comprovar, com coincidências de data e valor, não cabendo a “comprovação” feita de forma genérica com indicação de uma receita ou rendimento em um determinado documento a comprovar vários créditos em conta. É de se ressaltar que o ônus desta prova recai exclusivamente sobre o contribuinte, não bastando a simples apresentação de justificativas trazidas na peça impugnatória, mas, também, que estas sejam amparadas por provas hábeis, idôneas e robustas. No caso concreto, uma vez o contribuinte ter alegado em sua impugnação que possui como atividade principal "administração de imóveis, que envolve o recebimento de alugueres, encargos e outros, podendo se estender à assessoria jurídica inerente à relação contratual locatícia, na qualidade de advogado (...) atuando também no segmento de reformas, reparos e manutenção dos respectivos imóveis", é indispensável trazer os autos um conjunto probatório compatível com a alegação que apresenta. Nesse sentido, necessário juntar documentação hábil que tenha o condão de vincular cada depósito ao aluguel correspondente, com a apresentação de contratos locatícios que identifique os valores dos alugueis e as datas compatíveis dos pagamentos. O Relatório Fiscal de fls. 1123/1125 conclui a diligência requisitada identificando três conjuntos de depósitos cuja origem foi possível identificar. O primeiro conjunto compreende os depósitos identificados como pagamentos decorrentes de contratos locatícios assinados por terceiros. O segundo grupo refere-se a recebimentos de alugueis de imóvel do próprio contribuinte. O terceiro, a rendimentos de alugueis de imóvel em nome de seu cônjuge. (...) Por último, o terceiro conjunto refere-se à intermediação de imóveis pelo contribuinte, como a autoridade fiscal salientou em seu relatório. É de se ressaltar, inicialmente, que o contribuinte não juntou aos autos contratos assinados com os proprietários dos imóveis (locadores) estabelecendo critérios para a prestação dos serviços de administração dos alugueis. Os contratos apresentados são todos locatícios. Sabe-se, entretanto, que os administradores recebem mensalmente dos locatários os pagamentos dos alugueis, descontam um percentual previamente ajustado a título de taxa de administração, e o saldo é transferido ao locador. Fl. 1366DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.241 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15563.720185/2012-16 9 No presente caso, com base nos documentos juntados, foi possível relacionar alguns depósitos com contratos de aluguéis, como a autoridade fiscal indicou no relatório fiscal. No entanto, não basta para fins de elidir a tributação em tela, correlacionar os depósitos à pagamentos de locação de imóveis. É imprescindível que o contribuinte comprove também o repasse do valor depositado a título de aluguel ao locador, após descontada a taxa de administração. Sem essa comprovação, não há como saber o valor do rendimento recebido pelo contribuinte pela prestação do serviço de administração de imóveis. Trata-se de rendimento tributável que, pelo exame de sua declaração de ajuste, não foi oferecido a tributação. Uma vez não comprovado o repasse do pagamento do aluguel recebido ao respectivo proprietário do imóvel locado, após a dedução do valor cobrado pelo serviço de intermediação, a omissão de rendimentos deve ser mantida integralmente. Excluindo os depósitos correspondentes aos alugueis decorrentes de imóvel do cônjuge do contribuinte, tem-se que a apuração do imposto deve ser alterada, como segue: Dessa forma, em face de todo exposto, voto pela procedência em parte da impugnação, alterando o crédito tributário, conforme demonstrativo abaixo: Pois bem. Feito o registro acima, e após detida análise, malgrado o inconformismo manifestado, entendo que não há como prosperar a insurgência recursal. Quanto aos depósitos titulados “CR COBRANÇA DISPONÍVEL AGRUPADA”, “DOC’S” e “DEPÓSITOS PRÁTICOS ATM”, suscitados na peça recursal, nada a prover, à mingua de comprovação efetiva, ao teor da legislação de regência (art. 42 da Lei nº 9.430/96 e 849 do RIR/99). Logo, restando constatada a omissão de rendimentos caraterizada por depósitos bancários sem que se tenha havido a efetiva comprovação, por documentação hábil e idônea, da origem individualizada, discriminada e completa das quantias autuadas, capaz de demonstrar de forma inequívoca a proveniência dos depósitos e/ou créditos realizados nas contas bancárias – sobre os quais não houve a comprovação de sua origem, cujo indício autoriza a presunção de obtenção de renda, conforme bem relatado na decisão recorrida – mantenho a exigência tributária neste ponto. Ademais, tal matéria já se encontra pacificada neste CARF, culminando com a edição da súmula vinculante nº 26: Fl. 1367DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.241 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15563.720185/2012-16 10 Súmula nº 26: A presunção estabelecida no art. 42 da Lei nº 9.430/96 dispensa o Fisco de comprovar o consumo da renda representada pelos depósitos bancários sem origem comprovada. (Vinculante, conforme Portaria MF nº 277, de 07/06/2018, DOU de 08/06/2018). Em relação os depósitos decorrentes de intermediação de contratos imobiliários, recebidos na qualidade de administrador de locação de imóveis de terceiros, também melhor sorte não lhe socorre. De fato, e corroborando o certo do voto vencedor condutor da decisão recorrida, embora tais valores tenham sido indicados pela DRF, quando da elaboração e ratificação do termo de constatação e intimação fiscal emitido (fls. 1107/113), em cumprimento à diligência requestada pela DRJ/SPO (fls. 1189/1190), por outro giro, não restou comprovado que as quantias identificadas nos itens 1 a 18 (AC/2008) e 21 a 41 (AC/2009) do termo de constatação e intimação fiscal foram efetivamente repassados após o eventual desconto da taxa de administração ajustada, cuja comprovação mostra-se indispensável para a apuração dos rendimentos recebidos pelo Recorrente pela intermediação imobiliária, cujos valores, diga-se de passagem, não foram de foram submetidos à tributação pelo ajuste anual, cuja matéria, aliás, foi recentemente assentada neste CARF, ao teor da súmula nº 239: Súmula nº 239: Aprovada pelo Pleno da CSRF em sessão de 04/11/2025 - vigência em 10/11/2025 Para elidir a presunção contida no art. 42 da Lei nº 9.430/1996, não é suficiente a identificação do depositante. No que tange ao pedido de dilação probatória, com especial destaque para realização de diligência junto à instituição financeira visando a obtenção de documentos, cujo ônus lhe compete, não vislumbro a necessidade de sua realização, visto que o processo está suficientemente instruído e é contundente em demonstrar a sujeição passiva parcial em relação a matéria recorrida. Ademais, no processo fiscal a produção probatória somente se justifica se necessária à formação da convicção do julgador (art. 18 do Decreto nº 70.235/72), o que se torna despiciendo no presente feito, cuja matéria, neste mesmo sentido, já se encontra assentada neste CARF: Súmula nº 163: Aprovada pelo Pleno em sessão de 06/08/2021 – vigência em 16/08/2021 O indeferimento fundamentado de requerimento de diligência ou perícia não configura cerceamento do direito de defesa, sendo facultado ao órgão julgador indeferir aquelas que considerar prescindíveis ou impraticáveis. (Vinculante, conforme Portaria ME nº 12.975, de 10/11/2021, DOU de 11/11/2021). Conclusão Ante o exposto, voto por NEGAR PROVIMENTO ao presente recurso, para manter o lançamento remanescente revisado, e as alterações decorrentes realizadas nas bases de cálculo dos nos anos-calendários de 2008 e 2009. Fl. 1368DF CARF MF Original http://idg.carf.fazenda.gov.br/noticias/2021/arquivos-e-imagens/portaria-me-no-12975-sumulas-carf-atribui-efeito-vinculante.pdf http://idg.carf.fazenda.gov.br/noticias/2021/arquivos-e-imagens/portaria-me-no-12975-sumulas-carf-atribui-efeito-vinculante.pdf D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.241 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 15563.720185/2012-16 11 É como voto. (documento assinado digitalmente) Wilderson Botto Fl. 1369DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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Numero do processo: 19515.720562/2016-77
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Feb 10 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Wed Apr 01 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/01/2012 a 31/12/2012 AUSÊNCIA DE RECURSO VOLUNTÁRIO. LEGITIMIDADE DAS PARTES. MATÉRIA DE ORDEM PÚBLICA. Nos termos da jurisprudência do STJ, enquanto não decididas, as questões de ordem pública, como a legitimidade das partes, podem ser conhecidas, inclusive de ofício, em qualquer grau de jurisdição ordinária, até o trânsito em julgado, pois não sujeitas à preclusão temporal, mas à coisa julgada e sua eficácia preclusiva. RECURSO DE OFÍCIO. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. SUJEITO PASSIVO SOLIDÁRIO. DIREITO CREDITÓRIO. O sócio-administrador é pessoalmente responsável pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos, nos termos do art. 135, III, do CTN. Age com infração de lei, contrato social ou estatutos o administrador que pratica fraude tributária, pois a sonegação dos tributos devidos pela pessoa jurídica não pode ser considerada como atuação dentro dos limites previstos, muito menos pode ser considerada mera falta ou atraso no pagamento dos tributos. Caracteriza-se como fraude e sonegação tributárias o envio de pedido de ressarcimento ou de declaração de compensação baseado em créditos sabidamente inexistentes, aqueles que, pelas suas características, não possam ser justificados como mero equívoco de preenchimento.
Numero da decisão: 3302-015.613
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por voto de qualidade, em dar provimento parcial ao Recurso de Ofício para restabelecer a responsabilidade tributária do sujeito passivo solidário Milton Kazuyoshi Sato Junior, inclusive em relação à multa de ofício qualificada, reduzindo-a, porém, ao percentual de 100%, tendo em vista a decisão do STF no RE nº 736.0909 (Tema 863 da repercussão geral), vencidas as Conselheiras Francisca das Chagas Lemos, Louise Lerina Fialho e Marina Righi Rodrigues Lara, que negavam provimento ao Recurso de Ofício. Assinado Digitalmente Lázaro Antônio Souza Soares – Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Mário Sérgio Martinez Piccini, Francisca das Chagas Lemos, Marco Unaian Neves de Miranda (substituto integral), Louise Lerina Fialho, Marina Righi Rodrigues Lara e Lázaro Antônio Souza Soares (Presidente).
Nome do relator: LAZARO ANTONIO SOUZA SOARES

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LEGITIMIDADE DAS PARTES. MATÉRIA DE ORDEM PÚBLICA. Nos termos da jurisprudência do STJ, enquanto não decididas, as questões de ordem pública, como a legitimidade das partes, podem ser conhecidas, inclusive de ofício, em qualquer grau de jurisdição ordinária, até o trânsito em julgado, pois não sujeitas à preclusão temporal, mas à coisa julgada e sua eficácia preclusiva. RECURSO DE OFÍCIO. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. SUJEITO PASSIVO SOLIDÁRIO. DIREITO CREDITÓRIO. O sócio-administrador é pessoalmente responsável pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos, nos termos do art. 135, III, do CTN. Age com infração de lei, contrato social ou estatutos o administrador que pratica fraude tributária, pois a sonegação dos tributos devidos pela pessoa jurídica não pode ser considerada como atuação dentro dos limites previstos, muito menos pode ser considerada mera falta ou atraso no pagamento dos tributos. Caracteriza-se como fraude e sonegação tributárias o envio de pedido de ressarcimento ou de declaração de compensação baseado em créditos sabidamente inexistentes, aqueles que, pelas suas características, não possam ser justificados como mero equívoco de preenchimento. Fl. 4795DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.613 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720562/2016-77 2 ACÓRDÃO Acordam os membros do Colegiado, por voto de qualidade, em dar provimento parcial ao Recurso de Ofício para restabelecer a responsabilidade tributária do sujeito passivo solidário Milton Kazuyoshi Sato Junior, inclusive em relação à multa de ofício qualificada, reduzindo-a, porém, ao percentual de 100%, tendo em vista a decisão do STF no RE nº 736.0909 (Tema 863 da repercussão geral), vencidas as Conselheiras Francisca das Chagas Lemos, Louise Lerina Fialho e Marina Righi Rodrigues Lara, que negavam provimento ao Recurso de Ofício. Assinado Digitalmente Lázaro Antônio Souza Soares – Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Mário Sérgio Martinez Piccini, Francisca das Chagas Lemos, Marco Unaian Neves de Miranda (substituto integral), Louise Lerina Fialho, Marina Righi Rodrigues Lara e Lázaro Antônio Souza Soares (Presidente). RELATÓRIO Trata o presente processo de Auto de Infração lavrado contra o contribuinte acima identificado, para exigência da Cofins incidência não-cumulativa, relativa aos períodos de apuração 01 a 12/2012 (fls. 4.620 a 4.629), com multa de ofício de 150% e juros de mora calculados até 10/2016, totalizando R$13.974.626,68, sendo R$4.753.325,52 correspondentes à contribuição. Também foi lavrado auto relativo ao PIS incidência não-cumulativa para os períodos mesmos de apuração, com os mesmos acréscimos legais (fls. 4.630 a 4.639), totalizando R$3.033.964,91, sendo R$1.031.971,98 correspondentes à contribuição. Regularmente cientificada da autuação, a empresa apresentou a Impugnação de fls. 4665/4708. Em julgamento datado de 14/06/2017, a DRJ-Rio de Janeiro (DRJ–RJO) exarou o Acórdão nº 12-88.225, às fls. 4718/4739, através do qual julgou a Impugnação parcialmente procedente, por unanimidade de votos, com a seguinte Ementa: MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA - APLICAÇÃO - REQUISITOS Para a imposição da multa de ofício qualificada são ônus da Administração Tributária a imputação expressa às condutas tipificadas nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/1964, bem como a comprovação da atuação dolosa do sujeito passivo. VÍNCULO DE SOLIDARIEDADE - IMPUTAÇÃO AO SÓCIO Fl. 4796DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.613 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720562/2016-77 3 Somente são solidariamente responsáveis pelo crédito tributário apurado aqueles que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal, sendo, ainda, pessoalmente responsáveis por ele os diretores, gerentes ou representantes de pessoa jurídica de direito privado, quando seja demonstrada e comprovada pela Administração Tributária a prática de ato com infração da lei. LANÇAMENTO - NULIDADE - CERCEAMENTO AO DIREITO DE DEFESA - NÃO OCORRÊNCIA Não há que se falar em nulidade do lançamento por cerceamento ao direito de defesa do contribuinte, quando o ato contenha todos os elementos obrigatórios e a ciência tenha obedecido ao disposto nas normas aplicáveis. PIS - APURAÇÃO NÃO CUMULATIVA - CRÉDITOS - BENS ADQUIRIDOS PARA REVENDA - COMPROVAÇÃO DA DESPESA E DA AQUISIÇÃO DOS BENS No regime não cumulativo de apuração do PIS devido, a utilização de créditos decorrentes da aquisição de bens para revenda está condicionada à comprovação da despesa correspondente, assim como do efetivo recebimento dos bens. COFINS - APURAÇÃO NÃO CUMULATIVA - CRÉDITOS - BENS ADQUIRIDOS PARA REVENDA - COMPROVAÇÃO DA DESPESA E DA AQUISIÇÃO DOS BENS No regime não cumulativo de apuração da Cofins devida, a utilização de créditos decorrentes da aquisição de bens para revenda está condicionada à comprovação da despesa correspondente, assim como do efetivo recebimento dos bens. O contribuinte COMERCIAL DE MODAS E TEXTIL TENDER FASHION LTDA tomou ciência da decisão da DRJ através do Edital nº 002089744 (fl. 4776), publicado em 21/11/2017, com ciência em 06/12/2017. O sujeito passivo solidário MILTON KAZUYOSHI SATO JUNIOR tomou ciência da decisão da DRJ através do Edital nº 002029255 (fl. 4755), publicado em 07/07/2017, com ciência em 24/07/2017. O sujeito passivo solidário BIBIANA MIN KYUNG CHANG tomou ciência da decisão da DRJ através do Edital nº 002029257 (fl. 4756), publicado em 07/07/2017, com ciência em 24/07/2017. O contribuinte COMERCIAL DE MODAS E TEXTIL TENDER FASHION LTDA não apresentou Recurso Voluntário. Os sujeitos passivos solidários MILTON KAZUYOSHI SATO JUNIOR e BIBIANA MIN KYUNG CHANG tiveram suas impugnações providas, porém, em razão do valor exonerado, houve Recurso de Ofício para este Conselho. É o relatório. Fl. 4797DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.613 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720562/2016-77 4 VOTO Conselheiro Lázaro Antônio Souza Soares, Relator. I - ADMISSIBILIDADE A decisão de piso julgou a Impugnação parcialmente procedente, excluindo a imputação de responsabilidade aos sócios MILTON KAZUYOSHI SATO JUNIOR e BIBIANA MIN KYUNG CHANG e, portanto, exonerando ambos do lançamento de crédito tributário no valor de R$17.008.591,59. Em razão do montante exonerado, o Colegiado a quo recorreu de ofício a este Conselho. O limite de alçada para a admissibilidade de Recurso de Ofício está estabelecido na Portaria/MF nº 02, de 17/01/2023: Art. 1º O Presidente de Turma de Julgamento de Delegacia de Julgamento da Receita Federal do Brasil (DRJ) recorrerá de ofício sempre que a decisão exonerar sujeito passivo do pagamento de tributo e encargos de multa, em valor total superior a R$15.000.000,00 (quinze milhões de reais). § 1º O valor da exoneração deverá ser verificado por processo. § 2º Aplica-se o disposto no caput quando a decisão excluir sujeito passivo da lide, ainda que mantida a totalidade da exigência do crédito tributário. Art. 2º Fica revogada a Portaria MF nº 63, de 9 de fevereiro de 2017. Art. 3º Esta Portaria entrará em vigor em 1º de fevereiro de 2023. Assim, conheço do Recurso de Ofício, em razão do valor exonerado ser superior ao limite de alçada de R$15.000.000,00, estabelecido no artigo 1º da Portaria/MF nº 02/2023. II – FUNDAMENTAÇÃO O Colegiado de 1ª instância proferiu sua decisão com base nos seguintes fundamentos: DA RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA SOLIDÁRIA A autoridade fiscal, em razão dos fatos descritos no termo de verificação, entendeu restar caracterizada a sujeição passiva solidária dos sócios administradores, MILTON KAZUYOSHI SATO JUNIOR e BIBIANA MIN KYUNG CHANG, entendendo por sua responsabilidade pessoal pelo crédito tributário apurado, resultante de atos praticados com infração de lei, cometidos na direção da empresa autuada, nos termos dos artigos 124 e 135 do CTN. O contribuinte contesta a responsabilização dos sócios pelo crédito devido pela empresa, alegando que a autoridade fiscal não indicou em qual dispositivo legal Fl. 4798DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.613 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720562/2016-77 5 a responsabilidade foi tipificada: se no inciso I ou no inciso II do artigo 124 do CTN. Por esta razão o ato encontra-se desprovido de motivação suficiente para conferir validade à imposição, dele decorrendo cerceamento ao direito de defesa do contribuinte, em ofensa ao artigo 50 da Lei nº 9.784/99. Também alega que a sócia BIBIANA MIN KYUNG CHANG deve ser excluída da responsabilização, por não ter sido intimada acerca de tal imposição, conforme prevê o artigo 26 da Lei nº 9.784/99. Os artigos 124 e 135 do CTN, citados na autuação como fundamento para a responsabilização dos sócios, dispõem que: (...) No caso em tela, a autoridade fiscal aponta como fundamento para a responsabilização pessoal dos sócios os “fatos descritos no termo de verificação”, em razão de “atos praticados com infração de lei”. No entanto, não aponta expressamente quais seriam os fatos relacionados no termo os quais caracterizariam a responsabilidade pessoal dos sócios, ou seja, quais seriam os atos praticados pelos gestores, dos quais decorreria a alegada infração de lei, nem tampouco informa se a infração seria meramente a infração tributária apurada (não comprovação da despesa), ou se seria infração a lei diversa. A Nota GT Responsabilidade Tributária nº 1/2010, assinada conjuntamente pela PGFN e pela RFB, traz diversas orientações e entendimentos acerca da responsabilidade tributária, cabendo trazer aos autos os seguintes trechos deste documento: (...) A respeito da necessidade de presença de ato doloso por parte do administrador ou da suficiência da presença de culpa, deve-se observar que a jurisprudência maciça do STJ exige apenas a presença de “infração de lei” (= ato ilícito), a qual, pela teoria geral do Direito, pode ser tanto decorrente de ato culposo, como de ato doloso. Logo, se a lei e a jurisprudência não separaram as hipóteses de culpa em sentido estrito e dolo, tanto um quanto outro elemento subjetivo satisfazem a hipótese do artigo 135 do CTN. Em verdade, o Direito Tributário preocupa-se com a externalização de atos e fatos, não possuindo espaço para a persecução do dolo, bastando a culpa. Mesmo assim, não se está diante de caso de responsabilidade objetiva, de modo que ainda cabe à Administração Tributária a prova da prática do ato ilícito, bem como do dolo, ou, ao menos, da culpa do agente a que se imputa a responsabilidade. Nesse sentido, como já dito, não consta nos autos o apontamento de quais condutas concretamente praticadas pelos administradores da autuada, MILTON KAZUYOSHI SATO JUNIOR e BIBIANA MIN KYUNG CHANG, incorrem em infração Fl. 4799DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.613 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720562/2016-77 6 de lei a ensejar a sua responsabilização. A não apresentação de documentos contábeis e fiscais capazes de comprovar o pagamento e o recebimento das mercadorias declaradas como adquiridas para revenda caracteriza a ocorrência de infração à lei tributária, suficiente para a exigência dos tributos devidos pela empresa, conforme já analisado acima. Porém, tais fatos não fazem prova do dolo dos administradores, e nem mesmo de sua culpa. Observe-se, ainda, que, apesar de a autoridade fiscal não mencionar expressamente em quais incisos dos artigos 124 e 135 acima transcritos a situação dos autos estaria inserida, conforme alega o contribuinte, pode-se concluir que estaria se referindo aos incisos I do artigo 124 e III do 135, considerando os fatos em análise. No entanto, procede a alegação de ausência de motivação para a imputação da responsabilidade aos sócios, considerando que não há no termo de verificação fiscal especificação dos atos que teriam sido praticados pelos administradores que ensejaram infração de lei, além da ausência de informação se haveria outra lei infringida, além da própria legislação citada nos lançamentos. Da mesma forma como ocorreu em relação à multa qualificada imposta nestes autos, também em relação à responsabilização dos sócios a autoridade fiscal não especifica os atos praticados que teriam ensejado tal imputação, não relacionando qualquer dos fatos apurados no termo de verificação à atuação dos administradores. Cabe observar que a infração apurada nos lançamentos - falta de recolhimento decorrente da glosa de créditos não comprovados – não enseja, por si só, a imputação de responsabilidade aos sócios. Para tanto, faz-se necessária a constatação de atos por eles praticados dos quais decorresse a infração da lei, a qual também deve ser especificada na imputação feita pela Fiscalização, visto que, conforme entendimento da PFN e da RFB manifestado no parecer acima transcrito, a infração a ser demonstrada pode ser tanto em relação a lei tributária, como a não tributária, sendo necessário nesse caso, porém, haver consequências tributárias. No presente caso tais condições não foram atendidas, limitando-se a autoridade fiscal a citar a legislação de forma genérica. Não há como estender a responsabilidade do crédito devido pelo contribuinte ao seu sócio-administrador, de forma pessoal, sem que sejam trazidos e comprovados nos autos os fatos e situações específicos que autorizam tal extensão, da mesma forma que a imposição da multa qualificada necessita da comprovação da ocorrência de uma (ou mais de uma) das hipóteses previstas nos artigos 71 a 73 da Lei nº 4.502/64. Quanto à imputação de responsabilidade à sócia BIBIANA MIN KYUNG CHANG, não procede a alegação do contribuinte, considerando que a unidade local tentou efetuar a ciência por via postal, sendo informado, no entanto, que a referida sócia havia mudado de endereço, conforme aviso de recebimento à fl. 4.662. Em consequência, foi realizado edital, publicado em 27/10/2016, Fl. 4800DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.613 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720562/2016-77 7 considerando-se dada a ciência em 11/11/2016, nos termos do artigo 23, § 1º, inciso I, e § 2º, inciso IV, do Decreto nº 70.235/72 (fl. 4.657). No entanto, a autoridade fiscal apurou que a referida administradora ingressou na sociedade em 15/05/2013, posteriormente, portanto, à ocorrência dos fatos geradores que ensejaram os presentes lançamentos (2012). Assim, também por essa razão, não há como imputar à sócia BIBIANA MIN KYUNG CHANG a responsabilidade por eventuais infrações apuradas. Pelo exposto, considero que não há nos presentes autos elementos que autorizem a imposição aos sócios da empresa autuada, MILTON KAZUYOSHI SATO JUNIOR e BIBIANA MIN KYUNG CHANG, da responsabilidade prevista nos artigos 124 e 135 do CTN, sendo que, em relação à segunda, constatou-se, além disso, que seu ingresso na sociedade se deu após a ocorrência dos fatos geradores objeto do procedimento fiscal. Inicialmente, constata-se que os sujeitos passivos solidários não apresentaram defesa. Foi apresentado apenas o Recurso Voluntário do contribuinte, pessoa jurídica (fls. 4665/4708), no qual se tratou da questão da responsabilidade tributária dos sócios, nos seguintes termos: COMERCIAL DE MODAS E TEXTIL TENDER FASHION LTDA, pessoa jurídica de direito privado, com CNPJ baixado de ofício por inexistente de fato, inscrita no CNPJ sob n° 13.588.377/0001-55, neste ato representada pelo sócio MILTON KAZUYOSHI SATO JUNIOR, brasileiro, casado, empresário, devidamente inscrito no CPF sob n° 302.070.238-08, residente a Av. Guapira n° 2.259, apto 02, bairro do Jaçanã, nesta capital, CEP n° 02265-002 (Doc. 01 e 02), tendo sido INJUSTAMENTE autuada pela fiscalização da Receita Federal do Brasil, através dos Autos de Infração de PIS/Pasep e COFINS, vem mui respeitosamente à presença de V.Sa., tempestivamente, apresentar a IMPUGNAÇÃO aos mesmos, o que faz de acordo com os motivos a seguir expostos. (...) 3) DO NÃO CABIMENTO DA RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA AOS SÓCIOS O ilustre Auditor Fiscal, de forma arbitrária e ilegal, considerou RESPONSÁVEL TRIBUTÁRIO, os sócios BIBIANA MIN KYUNG CHANG — CPF n° 348.900.498-19 e MINTON KAZUYOSHI SATO JUNIOR — CPF n° 302.070.238-08, que fizeram, licitamente, operações de compra e venda de mercadorias. Ora ilustres Julgadores, a tese do Fisco acima transcrita, revela-se absurda e precipitada. Vejamos os motivos. Em primeiro lugar, não se sabe ao certo em qual preceptivo legal a responsabilidade foi tipificada; se por meio do inciso I do art. 124 do CTN (de forma subjetiva) ou por meio do inciso II do mesmo art. 124 (de forma objetiva). O Fisco, ao não ter demonstrado de maneira clara em qual situação legal os sócios da empresa se enquadrariam dentro dos comandos dos incisos do art. 124 do Fl. 4801DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.613 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720562/2016-77 8 CTN, acabou por emanar um ato administrativo desprovido de motivação suficiente para se conferir validade à regra da responsabilidade solidária imposta aos sócios. Esse fato gerou uma situação de insegurança jurídica e cerceamento de defesa à contribuinte, na medida em que não se pode, dentro das regras jurídicas vigentes, aferir, de forma clara, objetiva e congruente, qual teria sido a motivação legal capaz de autorizar a incidência de uma regra de direito público, cuja aplicação não pode ser feita de qualquer modo. No caso em exame, o Ilmo. Sr. Fiscal autuante, como se disse, não fez a indicação exata dos fatos e fundamentos jurídicos que deveriam ter como norte as normas contidas nos incisos I e II do art. 124 do CTN. Ao não definir de maneira clara em qual dispositivo a responsabilidade solidária estaria amoldada, acabou por ferir a Lei Federal n° 9.784/99, que trata dos processos administrativos no âmbito da Administração Pública Federal. Vejamos: (...) Nesse contexto, percebe-se que a discussão sobre a imposição da responsabilidade solidária fica extremamente difícil, pois, devido à falta de motivação escorreita, não se tem com clareza e certeza qual o objeto da responsabilidade solidária que o Fiscal autuante quis alcançar. Em razão deste fato, acabou por entregar à contribuinte a difícil tarefa dos sócios se defenderem de uma abstração, a qual é originada de uma imposição legal imotivada, por falta de referência específica à norma aplicável. Assim, por não existir motivação clara, objetiva e congruente sobre o enquadramento legal exato que o Fisco quis se utilizar para imputar responsabilidade solidária aos sócios da ora impugnante, ou seja, não existe nos autos nenhuma indicação se a motivação da responsabilidade solidária se baseou nos incisos I ou II do art. 124 do CTN, conclui-se que o ato administrativo de imposição de responsabilidade solidária em análise está eivado de vício insanável, devendo ser cancelado. De outra forma, a sócia BIBIANA MIN KYUNG CHANG — CPF n° 348.900.498-19, por não ter sido intimada da SUJEIÇÃO PASSIVA, deve ser excluída da mesma, nos termos do art. 26 da Lei 9.784/99. Verbis: (...) Assim, em razão dos argumentos acima esposados, espera a ora impugnante que os Nobres Julgadores afastem a responsabilidade solidária aplicada aos sócios da empresa, em razão dos vícios apontados. Fl. 4802DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.613 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720562/2016-77 9 Contudo, nos termos do ARESP nº 2.227.995/GO, Relator Ministro RAUL ARAÚJO, publicação em 19/12/2025 verifico que a legitimidade das partes é matéria de ordem pública, cognoscível de ofício em qualquer instância: DIREITO PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. EXECUÇÃO DE TÍTULO EXTRAJUDICIAL. EXCEÇÃO DE PRÉ-EXECUTIVIDADE. ILEGITIMIDADE PASSIVA. PRESCRIÇÃO INTERCORRENTE. AGRAVO CONHECIDO. RECURSO ESPECIAL CONHECIDO EM PARTE E, NESSA EXTENSÃO, DESPROVIDO. 1. O acórdão recorrido enfrentou expressamente os temas indicados como omissos, delimitando a estreita via da objeção de pré-executividade e rejeitando o exame da ilegitimidade passiva por demandar dilação probatória e por já ter sido apreciada, com coisa julgada, além de registrar comportamento contraditório vedado pelo princípio da boa-fé objetiva e da cooperação. 2. Nos termos da jurisprudência desta Corte, enquanto não decididas, as questões de ordem pública, como a legitimidade das partes, podem ser conhecidas, inclusive de ofício, em qualquer grau de jurisdição ordinária, até o trânsito em julgado, pois não sujeitas à preclusão temporal, mas à coisa julgada e sua eficácia preclusiva. Após o trânsito em julgado, no entanto, deverá ser suscitada por meio de impugnação autônoma (querela nullitatis) e ação rescisória. Precedentes. 3. A ilegitimidade passiva e os vícios do título executivo arguidos em sede de objeção de pré-executividade foram considerados preclusos, em razão do trânsito em julgado dos embargos à execução, sendo vedada sua rediscussão em sede de exceção de pré-executividade. Conclusão diversa implicaria eternizar as discussões alusivas ao feito executivo, o que milita em desfavor da boa-fé processual, da efetividade e da razoável duração do processo. 4. A prescrição intercorrente foi afastada pelo Tribunal de origem, que verificou a movimentação constante do processo e a ausência de desídia do exequente, concluindo que não se configurou a paralisação superior ao prazo prescricional. 5. O posicionamento adotado pelo Tribunal de origem está em consonância com a jurisprudência do STJ, atraindo a incidência da Súmula 83 do STJ. 6. Agravo conhecido para conhecer em parte do recurso especial e, nessa extensão, negar-lhe provimento. Estabelecida essa premissa, a análise do Recurso de ofício deve se iniciar pelo que consta do Termo de Verificação Fiscal sobre a questão da responsabilidade solidária dos sócios: 5. DA SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA 5.1 Conforme acima relatado a empresa não foi localizada no seu endereço cadastral. O sócio da empresa MILTON KAZUYOSHI SATO JUNIOR, localizado em seu domiciliar, tomou ciência, em 05/01/2015, do Termo de Início do Procedimento Fiscal, lavrado em 22/12/2014. Para o atendimento do procedimento fiscal outorgou o instrumento particular de procuração, datada de Fl. 4803DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.613 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720562/2016-77 10 07/01/2015, para Kenji Kyohara, CPF 066.715.438-87 e Evaldo Shigueo Yoshimura, CPF 759.947.128-68. 5.2 Nos termos do art. 124 (Sujeito Passivo) c/c o arts. 135 (Responsabilidades de Terceiros) do Código Tributário Nacional, Lei nº. 5.172/66 e, ante aos fatos descritos neste Termo de Verificação Fiscal – PIS/COFINS restou caracterizada a sujeição passiva solidária dos sócios administradores, abaixo identificados, pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com infração da lei cometidos na direção da empresa: COMERCIAL DE MODAS E TEXTIL TENDER FASHION LTDA, CNPJ 13.588.377/0001-55. 5.3 Os sócios da empresa, principalmente no período fiscalizado do ano- calendário de 2012, conforme dados contratuais registrados na JUCESP são os seguintes: 5.4 Os sujeitos passivos solidários MILTON KAZUYOSHI SATO JUNIOR e BIBIANA MIN KYUNG CHANG (sócios administradores), supramencionados, serão cientificados pelo “Termo de Encerramento Consolidado para Responsabilidade Tributária - TECR” da exigência tributária decorrente desse procedimento fiscal relativamente aos tributos: IRPJ e reflexo CSLL, PIS, COFINS e IRRF, contra o sujeito passivo supra referido. Como se verifica, a DRJ entendeu que a infração tributária efetivamente ocorreu, pois o contribuinte não conseguiu comprovar que houve o efetivo pagamento das compras que originaram os créditos pleiteados, bem como não comprovou que recebeu tais mercadorias, indicando que estas aquisições foram simuladas com o objetivo de gerar créditos fictícios. Nesse ponto, manteve a autuação em relação à COMERCIAL DE MODAS E TEXTIL TENDER FASHION LTDA. Por outro lado, entendeu o Colegiado de piso que não houve comprovação dos atos efetivamente praticados pelos sujeitos passivos solidários, nem qual seria a infração à lei que poderia gerar a responsabilização de ambos com base no art. 135, III, do CTN. Assim, cancelou a autuação em relação a ambos, o que originou o presente Recurso de Ofício. Para a correta análise deste recurso, vejamos o que consta do Termo de Verificação Fiscal sobre os fatos que ensejaram a responsabilização solidária: Fl. 4804DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.613 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720562/2016-77 11 2.4.1 Por força da Intimação nº 01, lavrada em 19/03/2015, a fiscalizada disponibilizou em 09/04/2015, cópias das DANFE – Documento Auxiliar da Nota Fiscal Eletrônica de Saídas, de emissão do principal fornecedor SEAVIEW TEXTIL COMERCIAL LTDA, CNPJ 12.135.960/0001-48, bem como os comprovantes de quitação desses documentos, relativos ao ano calendário de 2012. Consoante citação nessa Intimação, foram extraídos do sistema SPED Contábil da fiscalizada, da conta contábil: 21201001 – Fornecedores Nacionais, as informações desse fornecedor SEAVIEW, assim como foram consultados no sistema SPED Nota Fiscal Eletrônica, os dados também desse fornecedor. (...) 2.4.2 Os comprovantes de quitação desses documentos fiscais (DANFE) se trata de Duplicata de Venda Mercantil, ambos com a mesma numeração, com vencimento, em regra, de trinta dias da data da emissão da Nota Fiscal, e a prova do pagamento se dá pelo carimbo do antigo CGC, atual CNPJ, e do carimbo “Recebemos”, com a data do recebimento, coincidente com a data do vencimento, manuscrita e assinada (nome ilegível). Esse procedimento se repete com todas as Nfe dessa amostragem da ordem de 31,2187% do total contabilizado do fornecedor SEAVIEW no ano calendário de 2012, valendo afirmar que seria esse um procedimento padrão para todas essas operações conforme se verifica do demonstrativo abaixo. (...) 2.4.3 Como se verifica do SPED Contábil a contabilização desses pagamentos se dá mensalmente em um único lançamento contábil a débito da conta: 201020101 Fornecedores Nacionais e a crédito da conta: 101010101 Caixa Geral, sem a identificação do fornecedor beneficiário desse pagamento, conforme extrato desses lançamentos abaixo demonstrado. (...) 2.5 Com o objetivo de obter elementos para a confirmação dos dados disponibilizados pela fiscalizada em face das intimações lavradas, em relação ao batimento das informações sobre os clientes da empresa, foram essas empresas clientes intimadas do procedimento de diligência fiscal, pelo Termo de Diligência, lavrado em 30/11/2015. Nessa Intimação foi solicitada a apresentação de cópias autenticadas pela própria empresa de todas as notas fiscais de compras da empresa Comercial de Modas e Têxtil Tender Fashion Ltda, matriz e filiais, inclusive dos comprovantes de quitação dessas compras, e as informações sobre a forma e data do efetivo pagamento, e dados do transportador das mercadorias adquiridas. Em face do atendimento dessas diligenciadas, produzimos o resumo, a saber: (...) 2.5.1 É de se registrar que a maioria das quitações foram efetuadas via bancária e o meio de transporte das mercadorias foram informadas como “transporte Fl. 4805DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.613 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720562/2016-77 12 próprio” conforme constaria da própria nota fiscal emitida. Outras informações colhidas dessas cópias de notas fiscais disponibilizadas pelas diligenciadas dizem respeito aos produtos adquiridos que podem ser assim resumidos: (...) 2.6 Verifica-se dos extratos da conta contábil: 21201001 – Fornecedores Nacionais, extraído do SPED Contábil, pelos lançamentos contábeis a débito que a empresa registra os pagamentos, a crédito da conta contábil: 11101001 – Caixa Geral, no último dia de cada mês praticamente cobrindo o saldo do mês anterior até o mês de novembro/2012. No mês de dezembro/2012 o contribuinte alterou esse procedimento registrando a baixa da conta contábil Fornecedores, no montante aproximado de 75% do saldo anterior, pela movimentação da conta contábil 11102001 – Bradesco durante esse mês de dezembro/2012. Essa movimentação, conforme apurado dos registros do SPED Contábil, se trata, na maioria dos casos, de emissão de cheques de valores diversos não coincidente com os valores de notas fiscais de fornecedores e sem a identificação do beneficiário. (...) 2.6.3 Entretanto, verifica-se dos elementos disponibilizados pelas empresas clientes diligenciadas que a fiscalizada vendeu 143 produtos, conforme abaixo listados, e somente 12 produtos (8,39%) fazem parte da listagem dos produtos que teriam sido adquiridos da fornecedora SEAVIEW, acima demonstrado. (...) 2.6.4 Dessa forma é de se concluir que os produtos que teriam sido adquiridos da fornecedora SEAVIEW não foram realmente vendidos por essa fornecedora e/ou não foram efetivamente comprados de fato pela empresa fiscalizada, não obstante terem sido inventariados “proforma” no Livro Registro de Inventário da empresa fiscalizada. 2.6.5 De todo o exposto verifica-se que a fiscalizada não logrou comprovar que os produtos que teriam adquiridos da fornecedora SEAVIEW TEXTIL COMERCIAL LTDA, foram efetivamente entregues na empresa pela ausência de informações na DANFE sobre o meio de transporte utilizado, não obstante intimado, prestar esclarecimentos inconclusivo (subitem 2.3.3 acima) sobre o transporte desses produtos e, ainda, se esses produtos foram efetivamente vendidos, não obstante ser o maior fornecedor da empresa em termos de valores (71,1045%), conforme demonstrativo abaixo da conta contábil: 3.03.02.01.02 – Compras de Mercadorias Revenda. Não comprovou a efetivação dos pagamentos das duplicatas desse fornecedor SEAVIEW, conforme se verifica do relato do subitem 2.3.2 acima. E, ainda, a empresa SEAVIEW não possui empregados desde a sua constituição conforme se verifica da pesquisa no sistema “GFIP”. (...) Fl. 4806DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.613 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720562/2016-77 13 2.6.6 Assim, os valores declarados na Ficha 06 A – Apuração dos Créditos de PIS/PASEP – Aquisições no Mercado Interno e na Ficha 16 A – Apuração dos Créditos da COFINS – Aquisições no Mercado Interno, linha 01 – Bens para Revenda, do DACON – Demonstrativo de Apuração das Contribuições Sociais, ano calendário de 2012, relativos a esse fornecedor SEAVIEW Têxtil Comercial Ltda., serão objeto de glosa considerando esses “Bens para Revenda” com comprovação inidônea, sujeitando-se à empresa ao lançamento de ofício nas áreas das contribuições ao PIS e a COFINS, e considerando o evidente intuito de fraude, sujeitará a empresa fiscalizada à multa de lançamento de ofício qualificada nos termos do item II do art. 44 da Lei nº 9.430/96. (...) 2.7 Verifica-se da Ficha Cadastral Simplificada da JUCESP que a fornecedora SEAVIEW foi constituída em 24/06/2010 pelos sócios: JANG HO PARK, CPF 231.898.488-31, (sócio administrador c/ 95,8333% de participação) e ANISIO DA SILVA MIRANDA, CPF 643.745.568-34, (sócio c/ 4,1667% de participação) e, em 03/07/2012 retira-se da sociedade JANG HO PARK pela admissão de SANG DOO PARK, CPF 223.348.388-02, remanescendo o sócio ANISIO DA SILVA MIRANDA, e dissolvida em 31/05/2013. Por outro lado, a empresa fiscalizada foi constituída em 29/04/2011 pelos sócios: MILTON KAZUYOSHI SATO JUNIOR, CPF 302.070.238- 08, (sócio administrador c/ 99,17% de participação) e ALTAIR DIAS MIRANDA, CPF 104.495.148-62, (sócia c/ 0,83% de participação) e em 15/05/2013 foi alterada a composição dessa sociedade com a saída da sócia ALTAIR DIAS MIRANDA, cedendo e transferindo suas cotas para BIBIANA MIN KYUNG CHANG, CPF 348.90.498-19, e a cessão e transferência de parte das cotas de MILTON KAZUYOSHI SATO JUNIOR para BIBIANA MIN KYUNG CHANG que passa a ser a sócia administradora com 99% de participação e MILTON KAZUYOSHI SATO JUNIOR o sócio com 1% de participação. 3. DOS FUNDAMENTOS LEGAIS a. BASE TRIBUTÁVEL: Foi apurado o montante da base de cálculo de R$62.543.756,80, cujos créditos impugnados referentes aos valores de Bens para Revenda com comprovação inidônea na área das contribuições ao PIS correspondem a R$1.031.971,99 e a COFINS a R$4.753.325,52, conforme demonstrado no subitem 2.6.6, acima; b. INFRAÇÃO: Créditos descontados indevidamente na apuração das contribuições ao PIS e a COFINS. c. ENQUADRAMENTO LEGAL: O enquadramento legal de cada Auto de Infração encontra-se na “Descrição dos Fatos e Enquadramento Legal” que faz parte integrante desses autos de infração. 4. DO LANÇAMENTO DE OFÍCIO 4.1 Em face do exposto, a empresa, acima identificada, utilizou-se de créditos descontados indevidamente oriundos de Bens para Revenda com comprovação Fl. 4807DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.613 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720562/2016-77 14 inidônea com intuito de reduzir as contribuições ao PIS e a COFINS, ano- calendário de 2012, consoante demonstração no subitem 2.6.6, acima sujeitando- se, portanto, ao lançamento de ofício nos termos dos artigos 841, inciso III, 904, 926, c/c 845, inciso III e 944 do Regulamento do Imposto de Renda, aprovado pelo Decreto nº 3.000, de 26/03/1999, c/c art. 93 do Decreto nº 4.524/2002, por infração à legislação das Contribuições Sociais, mencionada no item 3, letra “c”, acima, e, considerando o evidente intuito de fraude, sujeitará a empresa fiscalizada à multa de lançamento de ofício qualificada nos termos do item II do art. 44 da Lei nº 9.430/96 (art. 957, inciso II do RIR/99). Passo a decidir. Em relação à exclusão de BIBIANA MIN KYUNG CHANG do polo passivo da relação jurídico-tributária, o próprio Auditor-Fiscal apresenta no Termo de Verificação Fiscal uma planilha na qual consta que essa pessoa física somente passou a constar do Contrato Social como sócia- administradora a partir de 15/05/2013, posteriormente, portanto, à ocorrência dos fatos geradores que ensejaram os presentes lançamentos (2012). Não havendo qualquer evidência de que tenha atuado na gerência do recorrente, mesmo que na condição de sócia oculta, voto por negar provimento ao Recurso de Ofício nesse ponto. Com relação a MILTON KAZUYOSHI SATO JUNIOR, vejamos, ponto a ponto, as razões da DRJ para o cancelamento da autuação em relação ao referido sócio-administrador: FUNDAMENTO 01 No caso em tela, a autoridade fiscal aponta como fundamento para a responsabilização pessoal dos sócios os “fatos descritos no termo de verificação”, em razão de “atos praticados com infração de lei”. No entanto, não aponta expressamente quais seriam os fatos relacionados no termo os quais caracterizariam a responsabilidade pessoal dos sócios, ou seja, quais seriam os atos praticados pelos gestores, dos quais decorreria a alegada infração de lei, nem tampouco informa se a infração seria meramente a infração tributária apurada (não comprovação da despesa), ou se seria infração a lei diversa: Ora, a acusação fiscal expressamente afirma que se trata de uma fraude cometida pelo contribuinte que se utilizou de notas fiscais de compras inexistentes para gerar créditos em seu favor. Demonstrou que a empresa fornecedora nunca teve um empregado sequer, funcionou apenas por 3 anos, mas emitiu notas fiscais em valores elevadíssimos, sem que o adquirente (fiscalizado) conseguisse comprovar o efetivo pagamento destas compras e nem o seu recebimento. A conclusão óbvia é que tais créditos eram inexistentes, e que o contribuinte praticou diversas condutas para ludibriar a fiscalização, como a emissão de duplicatas que jamais foram pagas, o registro de entrada de mercadorias que nunca foram adquiridas e o registro de créditos sobre essas mesmas aquisições, que jamais foram realizadas. Fl. 4808DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.613 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720562/2016-77 15 Tal conduta não pode ser entendida como mera falta de pagamento de tributo, a ensejar a simples multa de 75%. A utilização de documentos ideologicamente falsos para simular a aquisição de mercadorias e, assim, registrar créditos inexistentes, é conduta que se caracteriza como fraude, segundo o conceito positivado pela Lei nº 4.502/64: Art. 72. Fraude é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do impôsto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. Tal conduta também se subsume a diversas hipóteses descritas como crimes contra a ordem tributária, conforme art. 1º, incisos I, II e IV, da Lei nº 8.137/90: Art. 1° Constitui crime contra a ordem tributária suprimir ou reduzir tributo, ou contribuição social e qualquer acessório, mediante as seguintes condutas: I - omitir informação, ou prestar declaração falsa às autoridades fazendárias; II - fraudar a fiscalização tributária, inserindo elementos inexatos, ou omitindo operação de qualquer natureza, em documento ou livro exigido pela lei fiscal; III - falsificar ou alterar nota fiscal, fatura, duplicata, nota de venda, ou qualquer outro documento relativo à operação tributável; IV - elaborar, distribuir, fornecer, emitir ou utilizar documento que saiba ou deva saber falso ou inexato; V - negar ou deixar de fornecer, quando obrigatório, nota fiscal ou documento equivalente, relativa a venda de mercadoria ou prestação de serviço, efetivamente realizada, ou fornecê-la em desacordo com a legislação. Pena - reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa. Os fatos descritos caracterizam a responsabilidade pessoal dos sócios administradores, pois é óbvio que seria impossível a sua ocorrência sem que eles tivessem organizado todo o esquema fraudulento. Uma pessoa jurídica não pensa e nem toma decisões, são os seus administradores que o fazem, inclusive porque eles são os beneficiados com o enriquecimento ilícito proveniente da diminuição do pagamento dos tributos por meio de sonegação fiscal. Se o esquema de fraude foi elaborado e colocado em prática por funcionários, sem o conhecimento dos administradores, em ação que visava a lesar a empresa, isso deveria ser provado nos autos. Os sócios-administradores não podem simplesmente alegar que não sabiam de nada e que jamais deram ordens para que tais atos fraudulentos fossem executados. Isso deve ser comprovado de forma inequívoca. Destaco que, à época dos fatos geradores, MILTON KAZUYOSHI SATO JUNIOR era o único sócio-administrador, gerindo a empresa sozinho. Fl. 4809DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.613 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720562/2016-77 16 O Auditor-fiscal fundamentou a sujeição passiva solidária de forma correta com base no art. 135 do CTN: Art. 135. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de podêres ou infração de lei, contrato social ou estatutos: I - as pessoas referidas no artigo anterior; II - os mandatários, prepostos e empregados; III - os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. Sobre este dispositivo legal, trago a lição do professor Leandro Paulsen, em sua obra Direito tributário: Constituição e Código Tributário à luz da doutrina e da jurisprudência. 14. ed. – Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora; ESMAFE, 2012: Pressupostos de responsabilidade. A responsabilidade pessoal, no caso, decorre de ato praticado com ilicitude, por conta e risco do gestor. Como é o pressuposto de fato da responsabilidade, tem de ser devidamente apurado. – “O art. 135 do CTN estabelece a responsabilidade dos diretores, gerentes e representantes de pessoas jurídicas... Como se vê, estamos em face de uma regra matriz de responsabilidade tributária que não se confunde, de modo algum, com a regra matriz de incidência de qualquer tributo. (...) O pressuposto de fato ou hipótese de incidência da norma de responsabilidade, no art. 135, III, do CTN, é a prática de atos, por quem esteja na gestão ou representação da sociedade, com excesso de poder ou a infração à lei, contrato social ou estatutos e que tenham implicado, se não o surgimento, ao menos o inadimplemento de obrigações tributárias. A contrario sensu, extrai-se o dever formal implícito cujo descumprimento implica a responsabilidade, qual seja o dever de, na direção, gerência ou representação das pessoas jurídicas de direito privado, agir com zelo, cumprindo a lei e atuando sem extrapolação dos poderes legais e contratuais de gestão, de modo a não cometer ilícitos que acarretem o inadimplemento de obrigações tributárias. A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça há muito vem destacando que tais ilícitos, passíveis de serem praticados pelos sócios com poderes de gestão, não se confundem com o simples inadimplemento de tributos por força do risco do negócio, ou seja, com o atraso no pagamento dos tributos, incapaz de fazer com que os diretores, gerentes ou representantes respondam, com seu próprio patrimônio, por dívida da sociedade (Primeira Seção, EAg 494.887 e EREsp 374.139). Exige, isto sim, um ilícito qualificado, do qual decorra a obrigação ou seu inadimplemento, como no caso da apropriação indébita (REsp 1.010.399 e REsp 989.724). (...) – Infração a lei não tributária. “... o ilícito é, assim, prévio ou concomitante ao surgimento da obrigação tributária (mas exterior à norma tributária) e não posterior, como seria o caso do não pagamento do tributo. A lei que se infringe é Fl. 4810DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.613 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720562/2016-77 17 a lei comercial ou civil, não a lei tributária, agindo o terceiro contra os interesses do contribuinte. Daí se explica que, no polo passivo, se mantenha apenas a figura do responsável, não mais a do contribuinte, que viu, em seu nome, surgir dívida não autorizada, quer pela lei, quer pelo contrato social ou estatuto.” (DERZI, Misabel Abreu Machado. Nota de atualização à obra de Aliomar Baleeiro, Direito Tributário Brasileiro, 11ª ed., Forense, 1999, p. 756) (...) – Culpa dos diretores no desempenho de suas funções. “5. O CTN, art. 135, III, estabelece que os sócios só respondem por dívidas tributárias quando exercerem gerência da sociedade ou qualquer outro ato de gestão vinculado ao fato gerador. O art. 13 da Lei n° 8.620/93, portanto, só pode ser aplicado quando presentes as condições do art. 135, III, do CTN, não podendo ser interpretado, exclusivamente, em combinação com o art. 124, II, do CTN. 6. O teor do art. 1.016 do Código Civil de 2002 é extensivo às Sociedades Limitadas por força do prescrito no art. 1.053, expressando hipótese em que os administradores respondem solidariamente somente por culpa quando no desempenho de suas funções, o que reforça o consignado no art. 135, III, do CTN. (...) – Responsabilidade em face de crimes. “6. Em decorrência da ausência de conduta ilícita voluntária ou intencional, o não-recolhimento do tributo, por parte da sociedade, salvo nos casos previstos na legislação como crimes contra a ordem tributária (a exemplo da Lei nº 8.137/90), não se caracteriza como uma infração à lei, não podendo via de regra, à luz do inciso III e do caput do art. 135 do CTN, gerar a responsabilização pessoal dos dirigentes de qualquer pessoa jurídica.” (CANAZARO, Fábio. A Responsabilidade Tributária dos Sócios e dos Dirigentes em Relação ao passivo Tributário da Sociedade Cooperativa. RDDT nº 145, out/07, p. 23) – Apropriação indébita de contribuições retidas e não recolhidas. É o caso mais claro de ilícito caracterizador da responsabilidade pessoal de que trata o art. 135 do CTN. Não há dúvidas de que o gestor que pratica atos para simular a compra de mercadorias com o objetivo de gerar créditos de PIS/Cofins está agindo com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos, pois é antijurídico que algum desses instrumentos possa prever a possibilidade de sonegar tributos para aumentar o lucro dos sócios. Nesse sentido, trago precedente da Turma 1102 deste Conselho no Acórdão nº 1102-001.375, Sessão de 13/06/2024, decisão tomada por unanimidade: SIMULAÇÃO DE OPERAÇÕES FICTÍCIAS PARA APROVEITAMENTO INDEVIDO DE CRÉDITOS DE PIS E COFINS E DEDUÇÃO DE DESPESAS INEXISTENTES NA APURAÇÃO DO LUCRO REAL. GLOSA DOS VALORES ARTIFICIALMENTE ESCRITURADOS. Fl. 4811DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.613 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720562/2016-77 18 A simulação de transações fictícias com empresas “noteiras”, mediante escrituração fraudulenta de notas fiscais inidôneas, autoriza a glosar os créditos fiscais indevidamente aproveitados dos tributos não cumulativos, bem como justifica a glosa das respectivas despesas fictícias na apuração do lucro real. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA DE DIRETORES E ADMINISTRADORES. COMPROVAÇÃO DA REALIZAÇÃO DE ATOS COM COMPROVAM A GESTÃO DA PESSOA JURÍDICA NO PERÍODO EM QUE LHE FOI IMPUTADA CONDUTA SIMULADA TENDENTE À REDUÇÃO DE TRIBUTOS. APLICAÇÃO DO ART. 135, III, DO CÓDIGO TRIBUTÁRIO NACIONAL. Mantém-se a responsabilidade de diretores e administradores de pessoa jurídica contra quem foi lançado o crédito tributário, quando restar demonstrada e individualizada a prática consciente de atos tendentes a reduzir ou suprimir tributo ou obter proveito fiscal em favor da companhia. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA DE TERCEIROS QUE NÃO ATUAM COMO SÓCIOS, DIRETORES OU ADMINISTRADORES DE CONTRIBUINTE. IMPOSSIBILIDADE DE ATRAÇÃO DA RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA POR APLICAÇÃO DO ART. 135, III, DO CTN, UMA VEZ QUE NÃO PARTICIPAM DA GESTÃO DA SOCIEDADE. A atração da responsabilidade tributária de terceiros que não realizam atos em nome da contribuinte e não estão se vinculam a ela diretamente, mas praticam atos em nome de terceiros que concorram com o nascimento da obrigação tributária ou do fato infracional, impõe a atribuição de responsabilidade tributária pela existência de interesse comum na situação que constitua o fato gerador, demandando a aplicação do art. 124, I, do CTN, sendo inadequada aplicação do art. 135, III, do CTN para tal finalidade. Em outro precedente, desta vez da Turma 1301, no Acórdão nº 1301-003.665, Sessão de 23/01/2019, também com decisão tomada por unanimidade, a solução foi a mesma: (...) MULTA QUALIFICADA. CABIMENTO. CONDUTA DOLOSA. EVIDENTE INTUITO DE FRAUDE. A utilização de notas fiscais frias emitidas por empresas consideradas "noteiras", bem como a prática reiterada em não efetuar a entrega da Declarações de Débitos e Créditos Tributários Federais DCTF, caracteriza a conduta dolosa da recorrente e o evidente intuito de fraude, ensejam, portanto, a aplicação da multa qualificada de 150%. MULTA AGRAVADA. CABIMENTO. FALTA DE ATENDIMENTO ÀS INTIMAÇÕES. Cabível o agravamento previsto no § 2º, do art. 44, da Lei nº 9.430/96, com a redação dada pela Lei nº 11.488/08, face à falta de atendimento à maioria das intimações encaminhadas pela fiscalização à recorrente. (...) Fl. 4812DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.613 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720562/2016-77 19 RESPONSABILIZAÇÃO TRIBUTÁRIA. ART. 135, III DO CTN. A expressão "infração de lei" prevista no art. 135 do CTN refere-se a situações nas quais o administrador atue fora das suas atribuições funcionais, extrapolando o que esteja previsto na lei societária ou no estatuto social da empresa, muitas vezes em prejuízo da própria empresa. No caso, os agentes fiscais comprovaram infração funcional praticada pelos administradores do grupo, por violação da lei ou do estatuto social. RESPONSABILIZAÇÃO TRIBUTÁRIA. GRUPO ECONÔMICO DE FATO. ART. 124, I DO CTN. Demonstrada a existência de um grupo econômico de fato, integrado por diversas pessoas jurídicas formalmente independentes, porém com administração única, estrutura e atuação operacional comum e confusão patrimonial, procedente a atribuição de responsabilidade solidária prevista no art. 124, I do CTN. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA POR MULTA DE OFÍCIO AGRAVADA. LEGITIMIDADE. É legitima a atribuição de responsabilidade solidária por multa de ofício agravada, posto que a pessoa física ou jurídica que tenha interesse comum na situação que constitui o fato gerador responde solidariamente pela obrigação principal, que abrange não apenas o pagamento do tributo, mas também das penalidades pecuniárias. O STJ também possui o mesmo entendimento da instância administrativa, conforme o seguinte precedente: i) Habeas Corpus 816.576-SP, Relator Ministro JOEL ILAN PACIORNIK, publicação em 20/12/2023: Como visto, ao contrário do que sustenta a defesa dos pacientes, inexiste a alegada ausência de correlação entre os fatos apontados na denúncia e a sentença condenatória. Constou expressamente da inicial acusatória que "os denunciados, com a inequívoca intenção de sonegar o tributo estadual em favor de suas pessoas jurídicas, inseriram em suas escriturações elementos inexatos em créditos indevidos de ICMS no valor de R$ 2.662.713,46 originários de operações acobertadas por notas fiscais de emissão atribuída à empresa Friverde" destacando, ainda, que "os denunciados, ocupando os cargos acima descritos, detinham o domínio do fato e da atividade empresarial. Eram responsáveis pelo recolhimento dos tributos e pelas informações prestadas ao fisco e os beneficiários pelo produto da sonegação" (fl. 42). A sentença condenatória entendeu procedente a condenação asseverando que "a finalidade principal da organização que orbita em torno do réu Alfeu Crozato Mozaquatro (Núcleo Mozaquatro) é sonegar tributos e frustrar direitos trabalhistas em benefício próprio, mediante a criação de empresas colocadas em nome de sócios 'laranjas' (no caso destes autos as empresas Friverde e Coferfrigo), Fl. 4813DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.613 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720562/2016-77 20 as quais são utilizadas tanto para movimentar parte do faturamento do grupo sem recolher os tributos, quanto para servir de anteparo entre o Grupo Mozaquatro e as ações fiscais e trabalhistas movidas contra suas empresas, protegendo o patrimônio do grupo e de seus verdadeiros sócios" (fl. 52). Concluiu explicitando que "a redução ou supressão dos ICMS foi atingida, mediante a utilização de artifícios fraudulentos, seja por omissão de informações falsas à autoridade fazendária. E, ainda, houve creditamento de ICMS com base em notas fiscais inverídicas, emitidas por entidades fantasmas" (fl. 61). O acórdão atacado, por sua vez, ratificou o entendimento anterior afirmando "haver elementos suficientes demonstrando a utilização de inúmeros estabelecimentos, ativos e inativos, nas fraudes apuradas neste processo, salientando que as empresas COFERFRIGO e FRIVERDE foram registradas em nomes de sócios "laranjas"; os tributos eram declarados, mas não eram pagos, desencadeando ações fiscais, constatando-se, posteriormente, que nem empresas, tampouco os sócios, tinham patrimônio para honrar as dívidas" (fl. 21). É de se destacar que a condenação dos pacientes na presente ação penal não decorreu exclusivamente do fato da sentença os ter reconhecido como os verdadeiros proprietários e gestores da empresa FRIVERDE – com sede e atividades em Campina Verde / MG –, mas em decorrência de, na condição de sócios e administradores das empresas com sede tributária no estado de São Paulo, terem inserido em escriturações elementos inexatos em créditos indevidos de ICMS no valor de R$ 2.662.731,46. Com efeito, os pacientes foram condenados em razão de fraudes fiscais, as quais acarretaram sonegação tributária aos cofres do fisco paulista mediante o lançamento de notas fiscais falsas apresentadas para gerar creditamento indevido de ICMS. O fato de as instâncias ordinárias terem concluído ser os pacientes os responsáveis, ou não, pela gestão da Empresa FRIVERDE – cuja sede tributária é nº Estado de Minas Gerais – mostra-se irrelevante para a consumação do delito, não afetando ou afastando a sonegação realizada perante o fisco paulista, que foi objeto do Auto de Infração n. 3.104.591-1. Dessa forma, não prosperam as irresignações contidas na presente impetração, razão pela qual, com base no art. 34, XX, do Regimento interno do Superior Tribunal de Justiça, não conheço da presente impetração. FUNDAMENTO 02 Nesse sentido, como já dito, não consta nos autos o apontamento de quais condutas concretamente praticadas pelos administradores da autuada, MILTON KAZUYOSHI SATO JUNIOR e BIBIANA MIN KYUNG CHANG, incorrem em infração de lei a ensejar a sua responsabilização. A não apresentação de documentos contábeis e fiscais capazes de comprovar o pagamento e o recebimento das mercadorias declaradas como adquiridas para revenda caracteriza a ocorrência de infração à lei tributária, suficiente para a exigência dos tributos devidos pela empresa, Fl. 4814DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.613 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720562/2016-77 21 conforme já analisado acima. Porém, tais fatos não fazem prova do dolo dos administradores, e nem mesmo de sua culpa. Conforme já discutido na análise do FUNDAMENTO 01, a conduta infracional foi perfeitamente descrita, sendo inverossímil creditar a terceiros a organização e o consentimento para que a fraude narrada ocorresse. Sendo MILTON KAZUYOSHI SATO JUNIOR o único sócio- administrador, e beneficiário exclusivo do enriquecimento ilícito proveniente da redução/supressão indevida dos tributos, resta óbvio que a conduta concretamente praticada por ele foi a de determinar e consentir com todas as ações fraudulentas praticadas, não havendo qualquer prova ou sequer indício de que a fraude ocorreu à sua revelia. Segundo o Termo de Verificação Fiscal, foi apurado o montante da base de cálculo de R$62.543.756,80, cujos créditos impugnados referentes aos valores de Bens para Revenda com comprovação inidônea na área das contribuições ao PIS correspondem a R$1.031.971,99 e a COFINS a R$4.753.325,52. Não se mostra minimamente sustentável arguir que o sócio- administrador não percebesse uma diferença desta monta do seu pagamento de tributos. Além disso, a definição dos fornecedores de uma empresa, ainda mais quando se trata de aquisições de mercadorias de tão elevado valor, não pode deixar de passar pelo crivo de sua administração. São os gestores que realizam a prospecção dos fornecedores, acordam preços, prazos de pagamento e todas as demais avenças necessárias à boa efetivação do negócio. No presente caso, estas negociações foram efetivadas com uma empresa sem qualquer estrutura física, que não possui um único empregado registrado em GFIP, conforme muito bem identificado pela Fiscalização. Não parece razoável que o sócio-administrador não soubesse que se tratava de uma fraude. Por fim, conforme descrito no Termo de Verificação Fiscal, para a consecução da fraude, foi necessária a emissão de notas fiscais de entrada, registros contábeis, pagamentos descasados das faturas e sem identificação do destinatário e emissão de duplicatas referentes a compras inexistentes. Vários funcionários da recorrente sabiam que aquelas compras eram inexistentes. Não há como realizar todos estes atos sem uma coordenação, sem alguém que faça o planejamento, identifique quem serão os executores e dê as ordens a funcionários de diversos setores diferentes da empresa. Todas estas etapas se constituem em atos de gestão, e somente MILTON KAZUYOSHI SATO JUNIOR poderia realizá-los, pois é quem possui os poderes de administração. Logo, mostra-se evidente que é considerado como mentor intelectual do crime contra a ordem tributária e que atuou diretamente na coordenação dos esforços de diversos funcionários para a conclusão da fraude. Destaco que, ao final, a recorrente teve seu CNPJ cancelado por inexistência de fato, a indicar que a empresa não praticava operações de forma lícita, podendo, por exemplo, ser mero artificio para “lavagem de dinheiro”. Destaco o conceito de dolo, segundo a lição do professor Luiz Régis Prado: Fl. 4815DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.613 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720562/2016-77 22 Conceito de dolo. “Entende-se por dolo a consciência e a vontade de realização dos elementos objetivos do tipo de injusto doloso (tipo objetivo). Dolo, como resolução delitiva, é ‘saber e querer a realização do tipo objetivo de um delito’. Age dolosamente o agente que conhece e quer a realização dos elementos da situação fática ou objetiva, sejam descritivos, sejam normativos, que integram o tipo legal de delito. O dolo é, de certo modo, a ‘imagem reflexa subjetiva do tipo objetivo’ da situação fática representada normativamente. A conduta dolosa é mais perigosa – e deve ser punida mais gravemente – do que a culposa. O juízo de periculosidade objetiva da conduta...exige necessariamente a aferição do dolo.” (PRADO, Luiz Regis. Curso de Direito Penal Brasileiro. 6.ed. Rio de Janeiro: Revista dos Tribunais, 2006. p. 113) O dolo, ou seja, a vontade livre e consciente de cometer o crime tributário, não pode ser extraída da mente do autor, por certo. Tampouco é razoável que só possam ser condenados os autores quando eles confessem o crime, ou quando seja encontrado um documento em que alguém escreve, de próprio punho, uma ordem para que se cometa algum crime. Ou, ainda, esperar que em todos os procedimentos tributários exista um pedido para quebra do sigilo telefônico, na tentativa de se descobrir alguma ligação entre os autores intelectuais e executores combinando o crime, o que seria materialmente inexequível. Tal conclusão somente poderá ser alcançada através da análise das circunstâncias do caso concreto, sopesando os fatos trazidos aos autos, verificando a razoabilidade e a lógica da recorrente em realizar suas operações nos moldes descritos, comparando com o que é normal e usualmente esperado em tais situações, constatando se os benefícios que se alega obter realmente ocorreram. No Direito, restou consagrada a Teoria do Domínio do Fato, bem definida por Guilherme de Souza Nucci, em sua obra Manual de direito penal – 10. ed. rev., atual. e ampl. – Rio de Janeiro: Forense, 2014: 3. DISTINÇÃO ENTRE COAUTORIA E PARTICIPAÇÃO O Código Penal de 1940 equiparou os vários agentes do crime, não fazendo distinção entre o coautor e o partícipe, podendo o juiz aplicar, igualmente, a pena para todos (é a denominada teoria subjetiva, ou seja, conceito extensivo de autor). Coube à doutrina fazer a separação entre coautoria e participação, além do que a Reforma Penal de 1984 terminou por reconhecer que essa distinção é correta, acolhendo-a (Exposição de Motivos, item 25: “Sem completo retorno à experiência passada, curva-se, contudo, o Projeto aos críticos dessa teoria, ao optar, na parte final do art. 29, e em seus dois parágrafos, por regras precisas que distinguem a autoria da participação. Distinção, aliás, reclamada com eloquência pela doutrina, em face de decisões reconhecidamente injustas”). Prevaleceu, pois, o conceito restrito de autor, embora, dentro dessa teoria, que é objetiva, existam dois posicionamentos: Fl. 4816DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.613 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720562/2016-77 23 a) teoria formal: autor é quem realiza a figura típica e partícipe é aquele que comete ações fora do tipo, ficando praticamente impune, não fosse a regra de extensão que o torna responsável. Atualmente, é a concepção majoritariamente adotada (Aníbal Bruno, Salgado Martins, Frederico Marques, Mirabete, René Ariel Dotti, Beatriz Vargas Ramos, Fragoso, citados por Nilo Batista, Concurso de agentes, p. 61). Exemplo: quem aponta o revólver, exercendo a grave ameaça, e quem subtrai os bens da vítima são coautores de roubo, enquanto o motorista do carro que aguarda para dar fuga aos agentes é o partícipe (os dois primeiros praticaram o tipo do art. 157; o último apenas auxiliou); b) teoria normativa (teoria do domínio do fato): autor é quem realiza a figura típica, mas também quem tem o controle da ação típica dos demais, dividindo-se entre “autor executor”, “autor intelectual” e “autor mediato”. O partícipe é aquele que contribui para o delito alheio, sem realizar a figura típica, nem tampouco comandar a ação. Assim, exemplificando, por essa teoria, o chefe de um grupo de justiceiros, que ordenou uma execução, bem como o agente que diretamente matou a vítima são coautores Sobre a matéria, trago o seguinte precedente do STJ: i) REsp 2.062.530/SP, Relator Ministro JOEL ILAN PACIORNIK, publicação em 18/11/2024: Quanto às demais violações apontadas, aos arts. 156, 315, § 2º, IV, 383 e 564, V, todos do CPP, e 489, § 1º, IV, do CPC, o TRF3 manteve a condenação nos seguintes termos do julgamento dos embargos infringentes: "No mérito dos embargos infringentes, a defesa de J Z S A M requer o acolhimento do voto vencido, que entendeu pela absolvição do acusado, dado que não demonstrada sua autoria delitiva, considerando que não integrava o quadro societário da empresa Recol no momento da apresentação da Declaração de Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica, o que obsta sua responsabilidade pelas declarações inverídicas prestadas à Receita Federal, não sendo penalmente relevante que os fatos objeto da declaração tenham ocorrido durante a sua gestão, tendo em vista, outrossim, que o ato delitivo delimitado na denúncia é apenas a referida declaração. (...) Não assiste razão ao embargante. No julgamento da apelação criminal prevaleceu o voto do Eminente Des. Fed. Relator Hélio Nogueira, o qual, no concernente à autoria delitiva de [J M], manifestou-se nos seguintes termos: (...) Dessa forma, apesar de o acusado J Z não figurar no quadro societário da RECOL quando da apresentação da declaração de imposto de renda, foi durante sua Fl. 4817DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.613 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720562/2016-77 24 gestão que foi efetuada a apuração mensal relativo ao período de janeiro a dezembro de 1996. (...) Nesse contexto, pondero que, nessa espécie de crime, consoante a teoria do domínio do fato, autor é aquele que possui o domínio final da conduta, independentemente de ter este realizado o mero ato material de apresentar informações falsas ao Fisco com o fito de reduzir o pagamento de tributos. Por isso, nas infrações penais praticadas por meio de pessoa jurídica, o autor é o sócio-gerente, diretor ou administrador, porquanto é aquele que decide se o fato vai ou não ocorrer. Nesse sentido: (...) In casu, o conjunto de indícios acima explicitados, aliados ao fato de que o início da execução da conduta delitiva deu-se durante sua gestão, apontam a sua responsabilidade penal (Id n. 170735242, p. 246/249). (...) Sendo assim, deve prevalecer o voto condutor, que manteve a condenação do réu [J], por entender suficientemente demonstrada a autoria delitiva." (fls. 2677/2683). Tem-se no trecho acima que a condenação do recorrente foi mantida em observância à imputação contida na denúncia, pois ele foi responsável pela informação falsa repassada ao Fisco, pelo corréu e pelo contador, embora não estivesse formalmente no quadro societário da empresa em 1997, pois se retirou em 26/12/1996. Tal conclusão decorre do fato do recorrente ser o gestor da empresa responsável pelo inadimplemento tributário ocorrido no ano de 1996, objeto da declaração de 1997. Além disso, o recorrente e um sobrinho se revezam no quadro societário entre 1995 e 1996, sendo certo que o recorrente cedeu suas cotas em favor do corréu que era casado com sua sobrinha num acordo de R$500.000,00 com o seu sobrinho, sem qualquer comprovação da transferência onerosa para fins de demonstração do desinteresse do recorrente na empresa. (...) Ante o exposto, conheço, em parte, do recurso especial e, com fundamento na Súmula n. 568 do STJ, nego-lhe provimento. Portanto, estando claramente caracterizado o dolo na conduta do sócio- administrador, de rigor sua manutenção no polo passivo, bem como a manutenção da multa qualificada. Deve ser ressalvado, porém, que em razão da decisão do STF no RE nº 736.090 (Tema 863 da repercussão geral), com julgamento em 03/10/2024, essa multa deve ser reduzida para o percentual de 100%: Fl. 4818DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.613 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720562/2016-77 25 O Tribunal, por unanimidade, apreciando o tema 863 da repercussão geral, deu parcial provimento ao recurso extraordinário para reduzir a multa qualificada em razão de sonegação, fraude ou conluio para 100% (cem por cento) do débito tributário, ficando restabelecidos os ônus sucumbenciais fixados na sentença. Em seguida, foi fixada a seguinte tese: "Até que seja editada lei complementar federal sobre a matéria, a multa tributária qualificada em razão de sonegação, fraude ou conluio limita-se a 100% (cem por cento) do débito tributário, podendo ser de até 150% (cento e cinquenta por cento) do débito tributário caso se verifique a reincidência definida no art. 44, § 1º-A, da Lei nº 9.430/96, incluído pela Lei nº 14.689/23, observando-se, ainda, o disposto no § 1º-C do citado artigo". Por fim, modulou os efeitos da decisão para estabelecer que ela passe a produzir efeitos a partir da edição da Lei nº 14.689/23, mantidos os patamares atualmente fixados pelos entes da federação até os limites da tese, ficando ressalvados desses efeitos (i) as ações judiciais e os processos administrativos pendentes de conclusão até a referida data; e (ii) os fatos geradores ocorridos até a referida data em relação aos quais não tenha havido o pagamento de multa abrangida pelo presente tema de repercussão geral. Destaco que, na inexistência de Recurso Voluntário do contribuinte COMERCIAL DE MODAS E TEXTIL TENDER FASHION LTDA, a questão referente à ocorrência da fraude restou decidida em definitivo na instância administrativa. III - DISPOSITIVO Pelo exposto, voto por dar provimento parcial ao Recurso de Ofício, para restabelecer a responsabilidade solidária do sujeito passivo MILTON KAZUYOSHI SATO JUNIOR, inclusive em relação à multa de ofício qualificada, reduzindo-a, porém, ao percentual de 100%, tendo em vista a decisão do STF no RE nº 736.0909 (Tema 863 da repercussão geral). Assinado Digitalmente Lázaro Antônio Souza Soares Fl. 4819DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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Numero do processo: 10183.909899/2020-32
Turma: Primeira Turma Ordinária da Primeira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Feb 09 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Mon Mar 30 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/10/2019 a 31/12/2019 NULIDADE. DESPACHO DECISÓRIO E ACÓRDÃO RECORRIDO. AUSÊNCIA DE MOTIVAÇÃO. CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. MERO INCONFORMISMO. O mero inconformismo do contribuinte com o entendimento exarado no Despacho Decisório e/ou no v. acórdão recorrido não gera por si só a sua nulidade, quando houve a devida motivação e fundamentação das glosas efetuadas e mantidas. Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/10/2019 a 31/12/2019 REGIME NÃO CUMULATIVO. CONCEITO DE INSUMO. CRITÉRIO DA ESSENCIALIDADE E RELEVÂNCIA. O Superior Tribunal de Justiça (STJ), no julgamento do REsp nº 1.221.170 - PR, pelo rito dos Recursos Repetitivos, decidiu que o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou relevância, considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item - bem ou serviço - para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte. NÃO CUMULATIVIDADE. CADEIAS DA INDÚSTRIA AGROPECUÁRIA. VENDAS COM SUSPENSÃO. BOVINOS. CAROÇO DE ALGODÃO. MILHO EM GRÃOS. GIRASSOL. ARROZ COM CASCA. CRÉDITOS. ESTORNO. LEI Nº 10.925/2004. LEI Nº 12.058/2009. LEI Nº 12.350/2010. As vendas com suspensão de insumos feitas à indústria agropecuária, nos termos dos arts. 8º e 9º da Lei nº 10.925, de 2004 (caroço de algodão e girassol), 32 e 33 da Lei nº 12.058, de 2009, e 54 e 55 da Lei nº 12.350, de 2010, impedem, aos fornecedores, o aproveitamento dos créditos básicos ou presumidos correspondentes, que devem ser estornados. NÃO-CUMULATIVIDADE. CULTIVO DE GRÃOS (SOJA, MILHO, ALGODÃO). LICENCIAMENTO E CESSÃO DE DIREITO DE USO DE PATENTES. SEMENTES CERTIFICADAS. PAGAMENTO DE ROYALTIES. APROVEITAMENTO DE CRÉDITOS. POSSIBILIDADE. Os direitos de uso de patentes para produção e comercialização de sementes certificadas (uso da tecnologia) adquiridos, por meio de licenciamento ou cessão, se enquadram, por expressa disposição legal, na condição de bens móveis, e são inquestionavelmente utilizados no processo produtivo da empresa (cultivo de grãos), razão pela qual geram o direito ao aproveitamento de créditos da não-cumulatividade das contribuições ao PIS e da COFINS, nos termos do artigo 3º, inciso II, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. AQUISIÇÃO DE BENS E SERVIÇOS NÃO SUJEITOS AO PAGAMENTO DA CONTRIBUIÇÃO. VEDAÇÕES DE CREDITAMENTO. É vedada a apropriação de créditos da(e) PIS/PASEP em relação a bens e serviços adquiridos em operações não sujeitas à incidência ou sujeitas à incidência com alíquota zero ou com suspensão dessa contribuição, independentemente da destinação dada aos bens ou serviços adquiridos. NÃO-CUMULATIVIDADE. FRETE NA AQUISIÇÃO DE INSUMO NÃO ONERADO. APROVEITAMENTO DE CRÉDITO. POSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N. 188. É permitido o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Contribuição para o PIS/Pasep e pela Cofins não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições, nos termos da Súmula CARF nº 188. CREDITAMENTO. COMERCIAL EXPORTADORA. DESPESAS INDIRETAS. FIM ESPECÍFICO DE EXPORTAÇÃO. POSSIBILIDADE. A vedação do § 4º, do art. 6º, da Lei nº 10.833/03, deve cingir-se às despesas diretamente empregadas com a aquisição das mercadorias destinadas à exportação, não abarcando os custos indiretos, como as despesas com frete na venda, que são suportados pelo vendedor/exportador, cujos créditos poderão ser apropriados nos termos do art. 3º, das Leis nº 10.833/03 e 10.637/02. NÃO-CUMULATIVIDADE. FRETE DE PRODUTO ACABADO. ESTABELECIMENTOS DA MESMA EMPRESA. SÚMULA CARF N. 217. Os gastos com fretes relativos ao transporte de produtos acabados entre estabelecimentos da empresa não geram créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e de Cofins não cumulativas, nos termos da Súmula CARF nº 217. NÃO CUMULATIVIDADE. FRETE. REMESSA DE MERCADORIAS EM BONIFICAÇÃO. CRÉDITO. POSSIBILIDADE. Bonificações são desdobramentos da venda de mercadorias, promovidas pelo vendedor a fim de tornar seu produto competitivo no mercado e atrair a fidelização de clientes. Portanto, o frete relacionado ao transporte dessas mercadorias gera créditos de PIS e COFINS, nos termos do artigo 3º, inciso IX, e artigo 15, da Lei nº 10.833/2003. NÃO-CUMULATIVIDADE. BENS DE REPOSIÇÃO E SERVIÇOS. MANUTENÇÃO DE BENS DO ATIVO IMOBILIZADO. UTILIZADOS NO PROCESSO PRODUTIVO. APROPRIAÇÃO. POSSIBILIDADE. São considerados insumos para fins de aproveitamento de créditos da não-cumulatividade das contribuições ao PIS e da COFINS, os bens de reposição e serviços utilizados na manutenção de bens do ativo imobilizado utilizados em qualquer etapa do processo de produção de bens destinados à venda ou de prestação de serviços cuja utilização implique aumento de vida útil do bem do ativo imobilizado de até um ano, nos termos do artigo 176, §1º, inciso VII, da Instrução Normativa RFB nº 2.121/22. NÃO-CUMULATIVIDADE. EXPORTAÇÃO. DESPESAS PORTUÁRIAS E DESPACHANTE ADUANEIRO. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N. 232. As despesas portuárias na exportação de produtos acabados não se qualificam como insumos do processo produtivo do exportador para efeito de créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e de COFINS não cumulativas. NÃO-CUMULATIVIDADE. LOCAÇÃO DE VEÍCULOS DE TRANSPORTE DE CARGA OU PASSAGEIROS. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N. 190. Para fins do disposto no art. 3º, IV, da Lei nº 10.637/2002 e no art. 3º, IV, da Lei nº 10.833/2003, os dispêndios com locação de veículos de transporte de carga ou de passageiros não geram créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins não cumulativas, nos termos da Súmula CARF nº 190. NÃO-CUMULATIVIDADE. ICMS-ST INCIDENTE NA AQUISIÇÃO. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. TEMA DE RECURSO REPETITIVO 1231. STJ. Os valores pagos pelo contribuinte substituto a título de ICMS-ST não geram, no regime não cumulativo, créditos para fins de incidência das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS devidas pelo contribuinte substituído, nos termos da tese fixada pelo STJ no julgamento do Tema Repetitivo nº 1231. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. ALUGUEL. ARRENDAMENTO DE IMÓVEL RURAL. A contraprestação pelo contrato de arrendamento de imóvel rural gera direito ao creditamento no regime da não cumulatividade. No entanto, não se configura arrendamento quando o contrato fixa o preço em quantidade de frutos compartilhando, com o proprietário rural, os riscos da flutuação de preço do produto agropecuário. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. EDIFICAÇÕES E BENFEITORIAS. CREDITAMENTO ACELERADO. UTILIZAÇÃO NO PROCESSO PRODUTIVO. POSSIBILIDADE. Para apropriação de créditos da não-cumulatividade na forma acelerada, nos termos do artigo 6º da Lei nº 11.488/07, não basta que as edificações e benfeitorias sejam utilizadas nas atividades da empresa em geral, deve se tratar de edificações adquiridas ou construídas para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços. Para as edificações e benfeitorias utilizadas nas atividades da empresa é autorizada a apropriação de créditos regular, nos termos do artigo 3º, inciso VII, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03. CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. AUSÊNCIA DE RETIFICAÇÃO PRÉVIA. APROVEITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N. 231. O aproveitamento de créditos extemporâneos da contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS exige a apresentação de DCTF e DACON retificadores, comprovando os créditos e os saldos credores dos trimestres correspondentes, nos termos da Súmula CARF nº 231.
Numero da decisão: 3101-004.493
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em afastar as preliminares de nulidade. No mérito, em dar provimento parcial ao recurso nos seguintes termos: a) Por unanimidade de votos, reverter as glosas relativas ao pagamento de royalties aos licenciantes pelo direito de uso de patentes para produção e comercialização de sementes certificadas (uso da tecnologia); b) Por unanimidade de votos, reverter as glosas sobre fretes na aquisição de bens e insumos sujeitos à alíquota zero, suspensão ou não incidência; c) Por unanimidade de votos, reverter as glosas sobre fretes no transporte de mercadorias recebidas ou adquiridas de terceiros com o fim específico de exportação; d) Por maioria de votos, reverter as glosas sobre fretes de remessas das bonificações; e) Por unanimidade de votos, reverter as glosas sobre bens adquiridos e utilizados para manutenção dos bens do ativo imobilizado da pessoa jurídica responsáveis pelo processo produtivo; f) Por unanimidade de votos, reverter as glosas sobre os serviços relativos à NF nº 9, de 21/06/2019, emitida por GUAXE CONSTRUTORA LTDA, às Notas Fiscais emitidas pela empresa G2 CONSTRUTORA que tratam dos serviços de manutenção civil em “Fossa”, e à Pintura de Algodoeira; g) Por maioria de votos, manter as glosas referentes aos fretes de remessas de amostra grátis, da doação, dos brindes, da demonstração e sobre os custos com serviços de rastreamento de veículos. Vencidos Conselheiro Matheus Schwertner Ziccarelli Rodrigues e Conselheira Neiva Aparecida Baylon que reverteram as glosas referentes aos fretes de remessas de amostra grátis, da doação, dos brindes, da demonstração e sobre os custos com rastreamento de veículos e o Conselheiro Ramon Silva Cunha que manteve as glosas referentes aos fretes de remessas das bonificações. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3101-004.465, de 9 de fevereiro de 2026, prolatado no julgamento do processo 10183.909896/2020-07, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Gilson Macedo Rosenburg Filho – Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Renan Gomes Rego, Matheus Schwertner Ziccarelli Rodrigues, Ramon Silva Cunha, Neiva Aparecida Baylon (substituto[a] integral), Luciana Ferreira Braga, Gilson Macedo Rosenburg Filho (Presidente).
Nome do relator: GILSON MACEDO ROSENBURG FILHO

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O Superior Tribunal de Justiça (STJ), no julgamento do REsp nº 1.221.170 - PR, pelo rito dos Recursos Repetitivos, decidiu que o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou relevância, considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item - bem ou serviço - para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte. NÃO CUMULATIVIDADE. CADEIAS DA INDÚSTRIA AGROPECUÁRIA. VENDAS COM SUSPENSÃO. BOVINOS. CAROÇO DE ALGODÃO. MILHO EM GRÃOS. GIRASSOL. ARROZ COM CASCA. CRÉDITOS. ESTORNO. LEI Nº 10.925/2004. LEI Nº 12.058/2009. LEI Nº 12.350/2010. As vendas com suspensão de insumos feitas à indústria agropecuária, nos termos dos arts. 8º e 9º da Lei nº 10.925, de 2004 (caroço de algodão e girassol), 32 e 33 da Lei nº 12.058, de 2009, e 54 e 55 da Lei nº 12.350, de 2010, impedem, aos fornecedores, o aproveitamento dos créditos básicos ou presumidos correspondentes, que devem ser estornados. NÃO-CUMULATIVIDADE. CULTIVO DE GRÃOS (SOJA, MILHO, ALGODÃO). LICENCIAMENTO E CESSÃO DE DIREITO DE USO DE PATENTES. SEMENTES CERTIFICADAS. PAGAMENTO DE ROYALTIES. APROVEITAMENTO DE CRÉDITOS. POSSIBILIDADE. Os direitos de uso de patentes para produção e comercialização de sementes certificadas (uso da tecnologia) adquiridos, por meio de licenciamento ou cessão, se enquadram, por expressa disposição legal, na condição de bens móveis, e são inquestionavelmente utilizados no processo produtivo da empresa (cultivo de grãos), razão pela qual geram o direito ao aproveitamento de créditos da não-cumulatividade das contribuições ao PIS e da COFINS, nos termos do artigo 3º, inciso II, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. AQUISIÇÃO DE BENS E SERVIÇOS NÃO SUJEITOS AO PAGAMENTO DA CONTRIBUIÇÃO. VEDAÇÕES DE CREDITAMENTO. É vedada a apropriação de créditos da(e) PIS/PASEP em relação a bens e serviços adquiridos em operações não sujeitas à incidência ou sujeitas à incidência com alíquota zero ou com suspensão dessa contribuição, independentemente da destinação dada aos bens ou serviços adquiridos. NÃO-CUMULATIVIDADE. FRETE NA AQUISIÇÃO DE INSUMO NÃO ONERADO. APROVEITAMENTO DE CRÉDITO. POSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N. 188. É permitido o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Contribuição para o PIS/Pasep e pela Cofins não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições, nos termos da Súmula CARF nº 188. CREDITAMENTO. COMERCIAL EXPORTADORA. DESPESAS INDIRETAS. FIM ESPECÍFICO DE EXPORTAÇÃO. POSSIBILIDADE. A vedação do § 4º, do art. 6º, da Lei nº 10.833/03, deve cingir-se às despesas diretamente empregadas com a aquisição das mercadorias destinadas à exportação, não abarcando os custos indiretos, como as despesas com frete na venda, que são suportados pelo vendedor/exportador, cujos créditos poderão ser apropriados nos termos do art. 3º, das Leis nº 10.833/03 e 10.637/02. NÃO-CUMULATIVIDADE. FRETE DE PRODUTO ACABADO. ESTABELECIMENTOS DA MESMA EMPRESA. SÚMULA CARF N. 217. Os gastos com fretes relativos ao transporte de produtos acabados entre estabelecimentos da empresa não geram créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e de Cofins não cumulativas, nos termos da Súmula CARF nº 217. NÃO CUMULATIVIDADE. FRETE. REMESSA DE MERCADORIAS EM BONIFICAÇÃO. CRÉDITO. POSSIBILIDADE. Bonificações são desdobramentos da venda de mercadorias, promovidas pelo vendedor a fim de tornar seu produto competitivo no mercado e atrair a fidelização de clientes. Portanto, o frete relacionado ao transporte dessas mercadorias gera créditos de PIS e COFINS, nos termos do artigo 3º, inciso IX, e artigo 15, da Lei nº 10.833/2003. NÃO-CUMULATIVIDADE. BENS DE REPOSIÇÃO E SERVIÇOS. MANUTENÇÃO DE BENS DO ATIVO IMOBILIZADO. UTILIZADOS NO PROCESSO PRODUTIVO. APROPRIAÇÃO. POSSIBILIDADE. São considerados insumos para fins de aproveitamento de créditos da não-cumulatividade das contribuições ao PIS e da COFINS, os bens de reposição e serviços utilizados na manutenção de bens do ativo imobilizado utilizados em qualquer etapa do processo de produção de bens destinados à venda ou de prestação de serviços cuja utilização implique aumento de vida útil do bem do ativo imobilizado de até um ano, nos termos do artigo 176, §1º, inciso VII, da Instrução Normativa RFB nº 2.121/22. NÃO-CUMULATIVIDADE. EXPORTAÇÃO. DESPESAS PORTUÁRIAS E DESPACHANTE ADUANEIRO. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N. 232. As despesas portuárias na exportação de produtos acabados não se qualificam como insumos do processo produtivo do exportador para efeito de créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e de COFINS não cumulativas. NÃO-CUMULATIVIDADE. LOCAÇÃO DE VEÍCULOS DE TRANSPORTE DE CARGA OU PASSAGEIROS. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N. 190. Para fins do disposto no art. 3º, IV, da Lei nº 10.637/2002 e no art. 3º, IV, da Lei nº 10.833/2003, os dispêndios com locação de veículos de transporte de carga ou de passageiros não geram créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins não cumulativas, nos termos da Súmula CARF nº 190. NÃO-CUMULATIVIDADE. ICMS-ST INCIDENTE NA AQUISIÇÃO. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. TEMA DE RECURSO REPETITIVO 1231. STJ. Os valores pagos pelo contribuinte substituto a título de ICMS-ST não geram, no regime não cumulativo, créditos para fins de incidência das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS devidas pelo contribuinte substituído, nos termos da tese fixada pelo STJ no julgamento do Tema Repetitivo nº 1231. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. ALUGUEL. ARRENDAMENTO DE IMÓVEL RURAL. A contraprestação pelo contrato de arrendamento de imóvel rural gera direito ao creditamento no regime da não cumulatividade. No entanto, não se configura arrendamento quando o contrato fixa o preço em quantidade de frutos compartilhando, com o proprietário rural, os riscos da flutuação de preço do produto agropecuário. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. EDIFICAÇÕES E BENFEITORIAS. CREDITAMENTO ACELERADO. UTILIZAÇÃO NO PROCESSO PRODUTIVO. POSSIBILIDADE. Para apropriação de créditos da não-cumulatividade na forma acelerada, nos termos do artigo 6º da Lei nº 11.488/07, não basta que as edificações e benfeitorias sejam utilizadas nas atividades da empresa em geral, deve se tratar de edificações adquiridas ou construídas para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços. Para as edificações e benfeitorias utilizadas nas atividades da empresa é autorizada a apropriação de créditos regular, nos termos do artigo 3º, inciso VII, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03. CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. AUSÊNCIA DE RETIFICAÇÃO PRÉVIA. APROVEITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N. 231. O aproveitamento de créditos extemporâneos da contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS exige a apresentação de DCTF e DACON retificadores, comprovando os créditos e os saldos credores dos trimestres correspondentes, nos termos da Súmula CARF nº 231.

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DESPACHO DECISÓRIO E ACÓRDÃO RECORRIDO. AUSÊNCIA DE MOTIVAÇÃO. CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. MERO INCONFORMISMO. O mero inconformismo do contribuinte com o entendimento exarado no Despacho Decisório e/ou no v. acórdão recorrido não gera por si só a sua nulidade, quando houve a devida motivação e fundamentação das glosas efetuadas e mantidas. Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/10/2019 a 31/12/2019 REGIME NÃO CUMULATIVO. CONCEITO DE INSUMO. CRITÉRIO DA ESSENCIALIDADE E RELEVÂNCIA. O Superior Tribunal de Justiça (STJ), no julgamento do REsp nº 1.221.170 - PR, pelo rito dos Recursos Repetitivos, decidiu que o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou relevância, considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item - bem ou serviço - para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte. NÃO CUMULATIVIDADE. CADEIAS DA INDÚSTRIA AGROPECUÁRIA. VENDAS COM SUSPENSÃO. BOVINOS. CAROÇO DE ALGODÃO. MILHO EM GRÃOS. GIRASSOL. ARROZ COM CASCA. CRÉDITOS. ESTORNO. LEI Nº 10.925/2004. LEI Nº 12.058/2009. LEI Nº 12.350/2010. As vendas com suspensão de insumos feitas à indústria agropecuária, nos termos dos arts. 8º e 9º da Lei nº 10.925, de 2004 (caroço de algodão e girassol), 32 e 33 da Lei nº 12.058, de 2009, e 54 e 55 da Lei nº 12.350, de Fl. 1227DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 2 2010, impedem, aos fornecedores, o aproveitamento dos créditos básicos ou presumidos correspondentes, que devem ser estornados. NÃO-CUMULATIVIDADE. CULTIVO DE GRÃOS (SOJA, MILHO, ALGODÃO). LICENCIAMENTO E CESSÃO DE DIREITO DE USO DE PATENTES. SEMENTES CERTIFICADAS. PAGAMENTO DE ROYALTIES. APROVEITAMENTO DE CRÉDITOS. POSSIBILIDADE. Os direitos de uso de patentes para produção e comercialização de sementes certificadas (uso da tecnologia) adquiridos, por meio de licenciamento ou cessão, se enquadram, por expressa disposição legal, na condição de bens móveis, e são inquestionavelmente utilizados no processo produtivo da empresa (cultivo de grãos), razão pela qual geram o direito ao aproveitamento de créditos da não-cumulatividade das contribuições ao PIS e da COFINS, nos termos do artigo 3º, inciso II, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. AQUISIÇÃO DE BENS E SERVIÇOS NÃO SUJEITOS AO PAGAMENTO DA CONTRIBUIÇÃO. VEDAÇÕES DE CREDITAMENTO. É vedada a apropriação de créditos da(e) PIS/PASEP em relação a bens e serviços adquiridos em operações não sujeitas à incidência ou s ujeitas à incidência com alíquota zero ou com suspensão dessa contribuição, independentemente da destinação dada aos bens ou serviços adquiridos. NÃO-CUMULATIVIDADE. FRETE NA AQUISIÇÃO DE INSUMO NÃO ONERADO. APROVEITAMENTO DE CRÉDITO. POSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N. 188. É permitido o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Contribuição para o PIS/Pasep e pela Cofins não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições, nos termos da Súmula CARF nº 188. CREDITAMENTO. COMERCIAL EXPORTADORA. DESPESAS INDIRETAS. FIM ESPECÍFICO DE EXPORTAÇÃO. POSSIBILIDADE. A vedação do § 4º, do art. 6º, da Lei nº 10.833/03, deve cingir-se às despesas diretamente empregadas com a aquisição das mercadorias destinadas à exportação, não abarcando os custos indiretos, como as despesas com frete na venda, que são suportados pelo Fl. 1228DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 3 vendedor/exportador, cujos créditos poderão ser apropriados nos termos do art. 3º, das Leis nº 10.833/03 e 10.637/02. NÃO-CUMULATIVIDADE. FRETE DE PRODUTO ACABADO. ESTABELECIMENTOS DA MESMA EMPRESA. SÚMULA CARF N. 217. Os gastos com fretes relativos ao transporte de produtos acabados entre estabelecimentos da empresa não geram créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e de Cofins não cumulativas, nos termos da Súmula CARF nº 217. NÃO CUMULATIVIDADE. FRETE. REMESSA DE MERCADORIAS EM BONIFICAÇÃO. CRÉDITO. POSSIBILIDADE. Bonificações são desdobramentos da venda de mercadorias, promovidas pelo vendedor a fim de tornar seu produto competitivo no mercado e atrair a fidelização de clientes. Portanto, o frete relacionado ao transporte dessas mercadorias gera créditos de PIS e COFINS, nos termos do artigo 3º, inciso IX, e artigo 15, da Lei nº 10.833/2003. NÃO-CUMULATIVIDADE. BENS DE REPOSIÇÃO E SERVIÇOS. MANUTENÇÃO DE BENS DO ATIVO IMOBILIZADO. UTILIZADOS NO PROCESSO PRODUTIVO. APROPRIAÇÃO. POSSIBILIDADE. São considerados insumos para fins de aproveitamento de créditos da não- cumulatividade das contribuições ao PIS e da COFINS, os bens de reposição e serviços utilizados na manutenção de bens do ativo imobilizado utilizados em qualquer etapa do processo de produção de bens destinados à venda ou de prestação de serviços cuja utilização implique aumento de vida útil do bem do ativo imobilizado de até um ano, nos termos do artigo 176, §1º, inciso VII, da Instrução Normativa RFB nº 2.121/22. NÃO-CUMULATIVIDADE. EXPORTAÇÃO. DESPESAS PORTUÁRIAS E DESPACHANTE ADUANEIRO. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N. 232. As despesas portuárias na exportação de produtos acabados não se qualificam como insumos do processo produtivo do exportador para efeito de créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e de COFINS não cumulativas. NÃO-CUMULATIVIDADE. LOCAÇÃO DE VEÍCULOS DE TRANSPORTE DE CARGA OU PASSAGEIROS. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N. 190. Para fins do disposto no art. 3º, IV, da Lei nº 10.637/2002 e no art. 3º, IV, da Lei nº 10.833/2003, os dispêndios com locação de veículos de transporte de carga ou de passageiros não geram créditos de Contribuição Fl. 1229DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 4 para o PIS/Pasep e da Cofins não cumulativas, nos termos da Súmula CARF nº 190. NÃO-CUMULATIVIDADE. ICMS-ST INCIDENTE NA AQUISIÇÃO. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. TEMA DE RECURSO REPETITIVO 1231. STJ. Os valores pagos pelo contribuinte substituto a título de ICMS-ST não geram, no regime não cumulativo, créditos para fins de incidência das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS devidas pelo contribuinte substituído, nos termos da tese fixada pelo STJ no julgamento do Tema Repetitivo nº 1231. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. ALUGUEL. ARRENDAMENTO DE IMÓVEL RURAL. A contraprestação pelo contrato de arrendamento de imóvel rural gera direito ao creditamento no regime da não cumulatividade. No entanto, não se configura arrendamento quando o contrato fixa o preço em quantidade de frutos compartilhando, com o proprietário rural, os riscos da flutuação de preço do produto agropecuário. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. EDIFICAÇÕES E BENFEITORIAS. CREDITAMENTO ACELERADO. UTILIZAÇÃO NO PROCESSO PRODUTIVO. POSSIBILIDADE. Para apropriação de créditos da não-cumulatividade na forma acelerada, nos termos do artigo 6º da Lei nº 11.488/07, não basta que as edificações e benfeitorias sejam utilizadas nas atividades da empresa em geral, deve se tratar de edificações adquiridas ou construídas para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços. Para as edificações e benfeitorias utilizadas nas atividades da empresa é autorizada a apropriação de créditos regular, nos termos do artigo 3º, inciso VII, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03. CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. AUSÊNCIA DE RETIFICAÇÃO PRÉVIA. APROVEITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N. 231. O aproveitamento de créditos extemporâneos da contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS exige a apresentação de DCTF e DACON retificadores, comprovando os créditos e os saldos credores dos trimestres correspondentes, nos termos da Súmula CARF nº 231. ACÓRDÃO Fl. 1230DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 5 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em afastar as preliminares de nulidade. No mérito, em dar provimento parcial ao recurso nos seguintes termos: a) Por unanimidade de votos, reverter as glosas relativas ao pagamento de royalties aos licenciantes pelo direito de uso de patentes para produção e comercialização de sementes certificadas (uso da tecnologia); b) Por unanimidade de votos, reverter as glosas sobre fretes na aquisição de bens e insumos sujeitos à alíquota zero, suspensão ou não incidência; c) Por unanimidade de votos, reverter as glosas sobre fretes no transporte de mercadorias recebidas ou adquiridas de terceiros com o fim específico de exportação; d) Por maioria de votos, reverter as glosas sobre fretes de remessas das bonificações; e) Por unanimidade de votos, reverter as glosas sobre bens adquiridos e utilizados para manutenção dos bens do ativo imobilizado da pessoa jurídica responsáveis pelo processo produtivo; f) Por unanimidade de votos, reverter as glosas sobre os serviços relativos à NF nº 9, de 21/06/2019, emitida por GUAXE CONSTRUTORA LTDA, às Notas Fiscais emitidas pela empresa G2 CONSTRUTORA que tratam dos serviços de manutenção civil em “Fossa”, e à Pintura de Algodoeira; g) Por maioria de votos, manter as glosas referentes aos fretes de remessas de amostra grátis, da doação, dos brindes, da demonstração e sobre os custos com serviços de rastreamento de veículos. Vencidos Conselheiro Matheus Schwertner Ziccarelli Rodrigues e Conselheira Neiva Aparecida Baylon que reverteram as glosas referentes aos fretes de remessas de amostra grátis, da doação, dos brindes, da demonstração e sobre os custos com rastreamento de veículos e o Conselheiro Ramon Silva Cunha que manteve as glosas referentes aos fretes de remessas das bonificações. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3101-004.465, de 9 de fevereiro de 2026, prolatado no julgamento do processo 10183.909896/2020-07, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Gilson Macedo Rosenburg Filho – Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Renan Gomes Rego, Matheus Schwertner Ziccarelli Rodrigues, Ramon Silva Cunha, Neiva Aparecida Baylon (substituto[a] integral), Luciana Ferreira Braga, Gilson Macedo Rosenburg Filho (Presidente). RELATÓRIO O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023. Dessa forma, adota-se neste relatório substancialmente o relatado no acórdão paradigma. Trata-se de Recurso Voluntário, interposto em face de acórdão de primeira instância que julgou procedente em parte Manifestação de Inconformidade, cujo objeto era a reforma do Despacho Decisório exarado pela Unidade de Origem, que julgou o Pedido de Fl. 1231DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 6 Ressarcimento apresentado pelo Contribuinte. O pedido é referente ao suposto crédito de PIS/PASEP. Os fundamentos do Despacho Decisório da Unidade de Origem e os argumentos da Manifestação de Inconformidade estão resumidos no relatório do acórdão recorrido. Na sua ementa, em síntese abaixo, estão sumariados os fundamentos da decisão, detalhados no voto: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/10/2019 a 31/12/2019 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. NULIDADE. DESPACHO DECISÓRIO. HIPÓTESES. NÃO OCORRÊNCIA. Não é nulo o despacho decisório quando não se verifica a ocorrência das hipóteses previstas no art. 59 do Decreto nº 70.235, de 1972. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. PRINCÍPIOS. BUSCA DA VERDADE MATERIAL. OBSERVÂNCIA. Considera-se respeitado o princípio processual da busca pela verdade material quando a autoridade fiscal se empenha no exame da documentação probatória, inclusive intimando a contribuinte a prestar esclarecimentos no caso de inconsistências. PROCESSO ADMINSTRATIVO FISCAL. PEDIDO DE RESSARCIMENTO. CERTEZA E LIQUIDEZ. ÔNUS DA PROVA. O ônus da comprovação da certeza e liquidez do direito creditório oposto contra a Fazenda Pública objeto de pedido de ressarcimento recai sobre a contribuinte que o invoca. A não comprovação do direito compromete o deferimento integral do pleito. NÃO CUMULATIVIDADE INSUMOS. CONCEITO. PROCESSO PRODUTIVO. ESSENCIALIDADE. RELEVÂNCIA. GLOSA. Conforme estabelecido pela Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça no Recurso Especial 1.221.170/PR, o conceito de insumo para fins de apuração de créditos da não cumulatividade da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou da relevância do bem ou serviço para a produção de bens destinados à venda ou para a prestação de serviços pela pessoa jurídica. Somente podem ser considerados insumos os bens ou serviços que sejam essenciais ou relevantes ao processo de fabricação ou à prestação de serviços. Não se enquadram nessa hipótese as despesas não vinculadas ao processo produtivo ou à prestação de serviços ou aquelas inerentes às etapas de comercialização do produto pronto. NÃO CUMULATIVIDADE. CADEIAS DA INDÚSTRIA AGROPECUÁRIA. VENDAS COM SUSPENSÃO. BOVINOS. CAROÇO DE ALGODÃO. MILHO EM GRÃOS. GIRASSOL. Fl. 1232DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 7 ARROZ COM CASCA. CRÉDITOS. ESTORNO. LEI Nº 10.925/2004. LEI Nº 12.058/2009. LEI Nº 12.350/2010. As vendas com suspensão de insumos feitas à indústria agropecuária, nos termos dos arts. 8º e 9º da Lei nº 10.925, de 2004 (caroço de algodão e girassol), 32 e 33 da Lei nº 12.058, de 2009, e 54 e 55 da Lei nº 12.350, de 2010, impedem, aos fornecedores, o aproveitamento dos créditos básicos ou presumidos correspondentes, que devem ser estornados. NÃO CUMULATIVIDADE. GLOSA DE CRÉDITOS. PROPORCIONALIZAÇÃO. No regime da não cumulatividade, o rateio proporcional fundamentado em critérios racionais é recurso legítimo para a discriminação dos créditos relativos a bem ou serviços em função da natureza, origem e vinculação. A proporção entre a receita bruta e a receita de referência é a forma legítima para o cálculo do crédito vinculado à receita de referência (de mercado externo, interno não tributado, interno tributado, submetida a regime cumulativo, com suspensão, etc). NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. ROYALTIES. VEDAÇÃO. Os gastos com royalties não podem ser aproveitados como crédito no regime de incidência não-cumulativa do PIS/Pasep e da Cofins. REGIME DA NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. BENS E SERVIÇOS NÃO SUJEITOS AO PAGAMENTO DA CONTRIBUIÇÃO. VEDAÇÃO. É vedada a apropriação de créditos em relação a bens e serviços adquiridos em operações não sujeitas à incidência ou sujeitas à incidência com alíquota zero ou com suspensão dessa contribuição, independentemente da destinação dada aos bens ou serviços adquiridos. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. FRETE. POSSIBILIDADE. Somente dão direito a crédito no regime de incidência não-cumulativa os gastos com frete na operação de venda suportados pelo vendedor, aqueles que compõem o custo de insumo adquirido que também gere crédito e os relativos à movimentação interna de matéria-prima e produtos em elaboração, vedados os créditos referentes à movimentação de produtos acabados e fretes não relacionados à venda ou à produção. REGIME DA NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. FRETES NA AQUISIÇÃO DE INSUMOS. Os fretes incorridos na aquisição de insumos não estão abrangidos no conceito de insumos de forma autônoma. A possibilidade de creditamento deve ser analisada em relação aos bens adquiridos, e não em relação ao serviço de transporte considerado isoladamente. Não é permitido o creditamento sobre os fretes pagos na aquisição de bens sujeitos à alíquota zero, não incidência ou isentos. FRETES. INCONSISTÊNCIA DOCUMENTAL. COMPROVAÇÃO. GLOSA REVERSÃO. Fl. 1233DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 8 Revertem-se as glosas de créditos tomados sobre dispêndios com fretes por inconsistência de informações documentais uma vez apresentada documentação comprobatória em sede de manifestação de inconformidade que atestam que os fretes foram incorridos em operações hábeis ao creditamento (frete no território nacional quando da importação de insumos e máquinas e equipamento incorporados ao ativo imobilizado utilizados na produção de bem destinado à venda ou na prestação de serviço). NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. FRETE. BENS RECEBIDOS OU ADQUIRIDOS COM FIM ESPECÍFICO DE EXPORTAÇÃO. COMERCIAL EXPORTADORA. A empresa comercial exportadora não pode calcular créditos sobre despesas com frete relacionados a produtos recebidos ou adquiridos com fim específico de exportação. NÃO CUMULATIVIDADE. AQUISIÇÃO DE BENS. INSUMOS. MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO E OBRA CIVIL. Não são considerados insumos os materiais de construção quando a dimensão dos gastos e a característica dos bens denotam que não se vincularam a manutenção regular, mas a emprego em reformas e construções que impõem a ativação dos gastos por aumentarem a vida útil do bem em mais de um ano. NÃO CUMULATIVIDADE. SERVIÇOS. MANUTENÇÃO CIVIL. Não são considerados insumos dispêndios com serviços quando suas características extrapolam a mera manutenção predial e quando a dimensão dos gastos e a identidade dos prestadores, construtoras, impõem a ativação dos gastos. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. SERVIÇOS NÃO RELACIONADOS AO PROCESSO PRODUTIVO. Não se qualificam no conceito de insumos os serviços que não sejam relevantes ou essenciais ao processo produtivo, a exemplo de serviços portuários e de despachante aduaneiro, alocados em etapa posterior à produção. NÃO CUMULATIVIDADE. LOCAÇÃO DE VEÍCULOS. CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE. A despesa com locação de veículo não gera direito a desconto de créditos no regime não cumulativo. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. DESPESAS PARA VIABILIZAÇÃO DA MÃO DE OBRA. CLÍNICA MÉDICA. VALE-ALIMENTAÇÃO. Não são considerados insumos as despesas destinadas a viabilizar a atividade da mão de obra empregada no processo de produção ou fabricação de bens ou de prestação de serviços, tais como alimentação, vestimenta, transporte, cursos, plano de saúde e seguro de vida. REGIME DA NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. TRATAMENTO. Fl. 1234DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 9 O aproveitamento de créditos não informados à época própria deve ser precedido da retificação da documentação fiscal relativa ao período de competência do crédito até o período em que o crédito está sendo utilizado ou passa a ser objeto de pedido de ressarcimento. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. INSUMOS. BENS E SERVIÇOS NÃO RELACIONADOS AO PROCESSO PRODUTIVO. Não se qualificam no conceito de insumos os bens e serviços que não sejam relevantes ou essenciais ao processo produtivo, a exemplo de vigilância e segurança e serviços portuários NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. ICMS-ST. IMPOSSIBILIDADE. O ICMS-Substituição Tributária que consta na nota fiscal emitida pelo vendedor- substituto da mercadoria não compõe a base de cálculo das contribuições devidas por ele vendedor. Não havendo incidência de contribuição sobre o valor do ICMS- ST na etapa anterior, a parcela não gera crédito em consonância com o princípio do regime não cumulativo. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. ALUGUEL. ARRENDAMENTO DE IMÓVEL RURAL. A contraprestação pelo contrato de arrendamento de imóvel rural gera direito ao creditamento no regime da não cumulatividade. No entanto, não se configura arrendamento quando o contrato fixa o preço em quantidade de frutos compartilhando, com o proprietário rural, os riscos da flutuação de preço do produto agropecuário. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. EDIFICAÇÕES E BENFEITORIAS. Comprovada a vinculação de edificações e benfeitorias às atividades de produção, admite-se a tomada de créditos. A recorrente BOM FUTURO AGRICOLA LTDA, interpôs Recurso Voluntário, reiterando os argumentos expostos em sede de manifestação de inconformidade e pleiteando, em breve síntese, o seguinte: A Recorrente pleiteia, inicialmente, a reunião dos Processos Administrativos mencionados no item III do presente recurso, devendo ser regularmente processados e julgados os recursos voluntários em conjunto. Ademais, diante de todo o exposto e, com base nos fundamentos de fato e de direito acima narrados, devidamente suportados pelos documentos comprobatórios de seu direito, bem como pela jurisprudência colacionada, a Recorrente pleiteia que se DÊ PROVIMENTO a este Recurso Voluntário, para que, preliminarmente, seja reconhecida a nulidade do despacho decisório e do acórdão recorrido, por violação à verdade material. Fl. 1235DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 10 Caso assim não entendam Vossas Senhorias, o que se admite a título meramente argumentativo, a Recorrente requer, no mérito, seja DADO PROVIMENTO ao presente Recurso Voluntário, para que seja reformado o Acórdão recorrido, reconhecendo-se a nulidade do despacho decisório que veiculou glosas em desacordo com atos normativos da SRFB e/ou, caso sejam superadas as nulidades, sejam acolhidos os argumentos de fato e de direito para que seja reconhecido o direito aos créditos pleiteados, com o ressarcimento integral dos valores, devidamente atualizados, pois comprovadamente os bens e serviços adquiridos são essenciais para as atividades da Recorrente. Por fim, caso Vossas Senhorias entendam que sejam necessários novos elementos, em respeito ao princípio da verdade real e, principalmente, pelas inovações aos critérios jurídicos das glosas no acórdão recorrido, a Recorrente pleiteia que o presente processo seja baixado em diligência e/ou que lhe seja assegurada a produção de provas por todos os meios em direito admitidos, em especial pela posterior juntada de novos documentos. É o relatório. VOTO Tratando-se de julgamento submetido à sistemática de recursos repetitivos na forma do Regimento Interno deste Conselho, reproduz-se o voto condutor consignado no acórdão paradigma como razões de decidir. Deixa-se de transcrever a parte vencida do voto do relator, que pode ser consultada no acórdão paradigma e deverá ser considerada, para todos os fins regimentais, inclusive de pré-questionamento, como parte integrante desta decisão, transcrevendo-se o entendimento majoritário da turma, expresso no voto vencedor do redator designado. Quanto à tempestividade, conhecimento e ao mérito, ressalvado quanto em manter as glosas referentes aos fretes de remessas de amostra grátis, da doação, dos brindes, da demonstração e sobre os custos com serviços de rastreamento de veículos , transcreve-se o entendimento majoritário da turma, expresso no voto do relator do acórdão paradigma: O Recurso Voluntário é tempestivo e cumpre com os requisitos formais de admissibilidade, devendo, por conseguinte, ser conhecido. No que se refere ao pedido de julgamento, em conjunto, dos Recursos Voluntários interpostos nos processos administrativos decorrentes do mesmo procedimento de fiscalização, cumpre informar que o presente processo é paradigma dos demais, que estão contemplados no lote de repetitivo, devendo ser aplicada a mesma decisão a todos os casos. Fl. 1236DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 11 DA PRELIMINAR DE AUSÊNCIA DE MOTIVAÇÃO DO R. DESPACHO DECISÓRIO E DO V. ACÓRDÃO RECORRIDO. VIOLAÇÃO AO PRINCÍPIO DA VERDADE MATERIAL Em seu Recurso Voluntário, a recorrente sustenta que “[...] o indeferimento parcial do crédito se fundou em presunções sobre a atividade econômica desenvolvida e a forma de tributação eleita, diante das inúmeras especificidades das operações empreendidas pela Recorrente. Tais vícios foram ratificados pelo v. acórdão recorrido, que praticamente repisou os fundamentos da instância de origem, desconsiderando todas as provas e razões de direito exploradas pela Recorrente em sua Manifestação de Inconformidade, inclusive assumindo premissas com base em meras presunções”. Alegando não ter havido a adequada análise do seu processo produtivo, das provas colacionadas aos autos e da legislação que disciplina a matéria, ressalta que a fiscalização teria se apegado “[...] a questões formais e em presunções de hipotéticas irregularidades que afastariam os créditos postulados” e que o v. acórdão recorrido “[...] simplesmente desconsiderou o conjunto probatório então apresentado, assim como todos os fundamentos de direito e explicações detalhadas a respeito do processo produtivo da Recorrente, basicamente ratificando o teor do despacho decisório”. Por tais razões, defende que “[...] haja vista a afronta aos princípios da motivação, ampla defesa, contraditório e segurança jurídica, faz-se necessária a declaração de nulidade do v. acórdão recorrido (e do despacho decisório), na parcela glosada dos créditos postulados”. Ao apreciar tais alegações, em sede de manifestação de inconformidade, assim se manifestou o v. acórdão recorrido: [...] não procede a alegação da requerente de que não haveria motivação para as glosas e de que a auditoria, desconhecendo o processo produtivo desenvolvido pela empresa, não teria se empenhado em cumprir com o princípio da busca pela verdade material. Toda a motivação para as glosas, sem que ainda se avalie sua legitimidade concordando-se ou não com elas, está clara no Relatório Fiscal que integra o Despacho Decisório. Tanto foi clara a fundamentação que o contribuinte exerceu plenamente sua defesa, construindo manifestação de inconformidade em que demonstra ter conhecido das motivações da fiscalização. A questão quanto a eventual desrespeito na procura pela verdade material é referida pela contribuinte de forma genérica para todo o trabalho de auditoria e mais especificamente em relação a duas matérias de glosa de créditos: aquisição de bovinos e aquisição de materiais de construção civil, cujas implicações serão examinadas mais adiante neste voto. Antes de que se inicie a avaliação do mérito, importante realçar que o trabalho fiscal está bem organizado, contendo relatório fiscal que se refere aos documentos analisados, às planilhas de cálculo elaboradas e à legislação acionada pela auditoria no exame da legitimidade do crédito demandado, documentação toda essa reunida no e-dossiê nº 10265.004190/2021-10, não havendo até aqui como Fl. 1237DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 12 acolher a alegação de inobservância do princípio da busca pela verdade material, uso de presunções não previstas em lei ou falta de motivação. É o que passo a apreciar. Sem adentrar no mérito da controvérsia, cumpre destacar que todas as glosas foram devidamente motivadas no Relatório de Auditoria do Crédito do Pis e da Cofins, colacionado ao e-Dossiê 10265.004190/2021-10 (fls. 2044/2116), em que a fiscalização expõe individualizadamente as razões para indeferimento dos créditos pleiteados. Ressalta-se que tais informações foram suficientemente completas a ponto de permitir à Recorrente, tanto em sua manifestação de inconformidade, quanto no próprio Recurso Voluntário, suscitar uma ampla discussão acerca do mérito, o que não se coaduna com a hipótese de falta de motivação, e vai de encontro com a tese de cerceamento do direito de defesa. Da mesma forma, o v. acórdão recorrido apreciou todas as alegações suscitadas pela recorrente na manifestação de inconformidade, observando o princípio da livre convicção fundamentada, sendo certo que o mero inconformismo da recorrente com o entendimento exarado não gera por si só a nulidade do Despacho Decisório e/ou do v. acórdão recorrido, devendo as suas razões de insurgência serem apreciadas quando do julgamento do mérito do presente recurso. Diante do exposto, voto por rejeitar a preliminar de nulidade do Despacho Decisório e do v. acórdão recorrido. DA PRELIMINAR DE IMPOSSIBILIDADE DE GLOSA DE CRÉDITOS EM DESACORDO COM ATOS NORMATIVOS DA SRF – SOLUÇÕES DE CONSULTA E INSTRUÇÕES NORMATIVAS Neste tópico, a recorrente sustenta que, ao fundamentar as glosas combatidas, “[...] a Autoridade Fiscal deixou de observar o que dispõem os atos normativos da própria Receita Federal do Brasil, notadamente: (i) Parecer Normativo Cosit nº 5/2018; e (ii) Instrução Normativa RFB nº 1.911/2019; (iii) Soluções de Consulta — Disit nº 6.026/2021 e 6.027/2021, às quais vinculam a administração tributária, nos termos do disposto no art. 9º, da IN RFB nº 1.396, de 16/09/2013”, razão pela qual pleiteia a nulidade do Despacho Decisório. Não assiste razão à recorrente. Conforme já nos manifestamos, não se vislumbra nulidade no Despacho Decisório que motivou cada uma das glosas efetuadas, existindo mero inconformismo da recorrente com o entendimento exarado. Fl. 1238DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 13 Da mesma forma, não houve inobservância do Despacho Decisório aos atos normativos mencionados, existindo apenas divergência interpretativa acerca da aplicação das normas ao caso concreto. Diante disto, voto por rejeitar a preliminar de inobservância aos entendimentos vinculantes proferidos no âmbito da Secretaria da Receita Federal do Brasil. DOS CRÉDITOS DA NÃO-CUMULATIVIDADE E DA ATIVIDADE DESENVOLVIDA PELA RECORRENTE No julgamento do REsp nº 1.221.170, em sede de Recurso Repetitivo, o Superior Tribunal de Justiça, além de reconhecer a ilegalidade da disciplina de creditamento prevista pelas Instruções Normativas da RFB n° 247/2002 e 404/2004, fixou o entendimento de que “[...] o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou relevância, ou seja, considerando- se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item – bem ou serviço – para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pela contribuinte”. Em breve síntese, a essencialidade consiste na imprescindibilidade do item do qual o produto ou serviço dependa, intrínseca ou fundamentalmente, de forma a configurar elemento estrutural e inseparável para o desenvolvimento da atividade econômica, ou, quando menos, que a sua falta lhes prive de qualidade, quantidade e/ou suficiência. Por sua vez, com base no critério da relevância, o item pode ser considerado como insumo quando, embora não indispensável ao processo produtivo ou à prestação do serviço, integre o seu processo produtivo, seja pelas singularidades de cada cadeia produtiva, seja por imposição legal. Ainda, questão bastante relevante fixada no referido julgamento, mas nem sempre observada, se refere à dimensão temporal dentro da qual devem ser reconhecidos os bens e serviços utilizados como insumos. Pela clareza e didática, cumpre reproduzir a doutrina de Marco Aurélio Greco expressamente citada no julgamento do REsp nº1.221.170: De fato, serão as circunstâncias de cada atividade, de cada empreendimento e, mais, até mesmo de cada produto a ser vendido que determinarão a dimensão temporal dentro da qual reconhecer os bens e serviços util izados como respectivos insumos. [...] Cumpre, pois, afastar a idéia preconcebida de que só é insumo aquilo direta e imediatamente utilizado no momento final da obtenção do bem ou produto a ser vendido, como se não existisse o empreendimento nem a atividade econômica como um todo, desempenhada pelo contribuinte. (...) Fl. 1239DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 14 O critério a ser aplicado, portanto, apóia-se na inerência do bem ou serviço à atividade econômica desenvolvida pelo contribuinte (por decisão sua e/ou por delineamento legal) e o grau de relevância que apresenta para ela. Se o bem adquirido integra o desempenho da atividade, ainda que em fase anterior à obtenção do produto final a ser vendido, e assume a importância de algo necessário à sua existência ou útil para que possua determinada qualidade, então o bem estará sendo utilizado como insumo daquela atividade (de produção, fabricação), pois desde o momento de sua aquisição já se encontra em andamento a atividade econômica que – vista global e unitariamente – desembocará num produto final a ser vendido. 1 (Grifamos) Assim, não configura insumo apenas aquilo que é utili zado direta e imediatamente na prestação de serviços e/ou na produção de produtos, mas tudo aquilo que é essencial e relevante para o desempenho da atividade econômica que desembocará numa prestação de serviço ou na venda de um produto. Tal compreensão é imprescindível para análise de qualquer caso envolvendo direito creditório. Além disto, para fins de análise do direito ao creditamento, não podemos analisar a atividade exercida pela empresa de forma teórica, focando exclusivamente naqueles itens imprescindíveis para uma atividade genericamente considerada. Pelo contrário, devemos estar atentos às peculiaridades de cada atividade específica, analisando em cada situação aquilo que cumpre com os critérios de essencialidade e relevância no caso concreto. Por fim, cumpre ressaltar que, no voto vencedor, o Ministro Relator Napoleão Nunes Maia Filho ainda afasta expressamente a aplicação do artigo 111 do CTN aos casos envolvendo direito creditório, ressaltando que o creditamento não consiste em benefício fiscal, de modo que não há de ser interpretado de forma literal ou restritiva. Para afastar de vez a compreensão equivocada de que o direito creditório decorrente da não-cumulatividade configuraria benefício fiscal, cumpre reproduzir as diversas funções da não-cumulatividade, elencadas por André Mendes Moreira em seu “A não-cumulatividade dos tributos”2, que demonstram que tal princípio, e a correspondente sistemática de apuração, não busca um benefício individual, pelo contrário, persegue diversos objetivos coletiv os da sociedade, entre eles: (a) a translação jurídica do ônus tributário ao contribuinte de facto, não onerando os agentes produtivos; (b) a neutralidade fiscal, de modo que o número de etapas de circulação da mercadoria não influa na tributação sobre ela incidente; 1 Conceito de insumo à luz da legislação de PIS/COFINS, in Revista Fórum de Direito Tributário - RFDT, Belo Horizonte, n. 34, jul./ago. 2008, p. 6 2 MOREIRA, André Mendes. A não-cumulatividade dos tributos. 4ªed., rev. e atual., São Paulo: Noeses, 2020, pg. 120. Fl. 1240DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 15 (c) o desenvolvimento da sociedade, pois a experiência mundial denota que a tributação cumulativa sobre o consumo gera pobreza, pois encarece a circulação de riquezas; (d) a conquista de mercados internacionais, permitindo-se a efetiva desoneração tributária dos bens e serviços exportados (impraticável no regime cumulativo de tributação); (e) a isonomia entre produtos nacionais e estrangeiros, pois a não-cumulatividade possibil ita a cobrança, na importação, de tributo em montante idêntico ao suportado pelo produtor nacional. Com base em tais premissas e considerando que a adoção dos critérios fixados pelo STJ demanda a análise da essencialidade e relevância do insumo ao desenvolvimento da atividade empresarial do contribuinte, pertinente trazer considerações acerca da atividade exercida pela recorrente. Por bem descrever o objeto social da recorrente, merece transcrição o artigo 3º do seu Contrato Social: CLÁUSULA TERCEIRA: A Sociedade tem por objeto social a exploração das atividades de agricultura, produção de sementes e mudas, vinicultura, fruticultura, olericultura, pecuária, suinocultura e avicultura; a fabricação de rações balanceadas, concentrados, sais minerais e produtos de suplementação mineral e proteica, comercialização no mercado interno e externo mediante importação e exportação dos produtos retro mencionados; a comercialização no mercado interno mediante compra e venda dos produtos e subprodutos oriundos das atividades de agricultura, produção de sementes e mudas, vinicultura, frutic ultura, olericultura, pecuária, suinocultura e avicultura; a comercialização no mercado externo mediante importação e exportação dos produtos e subprodutos oriundos das atividades de agricultura, produção de sementes e mudas, vinicultura, fruticultura, olericultura, pecuária, suinocultura e avicultura; o comércio e representação de adubos e fertil izantes, fungicidas, herbicidas, inseticidas, medicamentos, vacinas, produtos agrícolas, pecuários e veterinários em geral; o comércio atacadista e varejista de cereais, sementes, corretivos para o solo, algodão em pluma e em fardos e outros produtos agrícolas; transporte rodoviário de cargas, agenciamento de cargas; a locação de veículos, equipamentos e máquinas; a fabricação de óleos vegetais em bruto, a extração de óleo de caroço de algodão; extração, tratamento, beneficiamento e comércio de madeiras nativas e de reflorestamento; beneficiamento de algodão, caroço de algodão, sementes de algodão, sementes de soja, sementes de milho; secagem, l impeza, expurga de sementes e cereais em estado natural, ensacados ou a granel; armazenamento de sementes, cereais, fertil izantes, corretivos para o solo, algodão em pluma e em fardos e outros produtos agrícolas; piscicultura, criação, comercialização e exportação de peixes de água doce, in natura, frescos e congelados; e a participação como quotista ou acionista em outras empresas, comercio, armazenagem, manipulação, formulação, produção, fabricação, importação, controle de qualidade, transportes, pesquisa e desenvolvimento experimental de: agrotóxicos e seus componentes e afins (incluindo produtos de origem biológica), Fl. 1241DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 16 adubos, fertil izantes e inoculantes, importação, exportação, comercialização, fabricação, formulação, produção, manipulação, armazenagem, controle de qualidade, transporte, pesquisa e desenvolvimento de: inoculantes, fertil izantes, agrotóxicos seus componentes e afins (incluindo produtos de origem bioquímica e biológica para agricultura convencional e orgânica), reembalador de sementes, atividades após colheita. Por pertinente, transcrevo também excerto do Recurso Voluntário - corroborado por Laudo técnico elaborado internamente (juntado aos autos com a manifestação de inconformidade) e Parecer Técnico elaborado pela Pedrosa Consultores Associados (juntado aos autos com o Recurso Voluntário) - no qual a recorrente sintetiza o seu processo produtivo: [...] a Recorrente desenvolve, há mais de 40 anos, atividade econômica nas áreas da agricultura, pecuária, sementes e piscicultura, conforme se constata do seu contrato social. Eis uma fotografia de uma de suas unidades produtivas (extraída da página 13 do Parecer Técnico): Vale destacar que, conforme demonstrado no Parecer Técnico, há uma interligação entre tais atividades, “que reflete na apuração de créditos de PIS/COFINS. Uma atividade econômica pode resultar em produção de bens e serviços para mercado ou insumos para outra atividade desenvolvida” (página 10). Considerando os temas ora envolvidos, a seguir serão detalhadas as três primeiras atividades (agricultura, pecuária e sementes). A) AGRICULTURA Atualmente, a Recorrente é o maior produtor individual de soja no mundo e o maior na cultura do algodão no Brasil, possuindo uma área total aproximada de 583 mil hectares cultivados no Estado do Mato Grosso, na qual são produzidas cerca de 1,3 milhão de toneladas de soja e 300 mil toneladas de pluma de algodão por safra. Antes de prosseguir, é importante fazer uma contextualização. Considerando que pode ser difícil para quem não está familiarizado com o meio rural compreender o significado de 583 mil hectares, vale uma explicação. Para efeito de comparação, a cidade de São Paulo tem uma área de 1.521 km², o que corresponde a 152.100 hectares. Assim, a área cultivada pela Recorrente, somando a safra principal e a safrinha, é quase quatro vezes maior que a área da cidade de São Paulo. Essa comparação é feita para não apenas destacar as vastas dimensões da operação da Recorrente, mas também ressaltar a importância de se analisar Fl. 1242DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 17 cuidadosamente a essencialidade dos produtos utilizados nessa imensa indústria ao ar livre. Continuando. Conforme consta da página 24 do Parecer Técnico, a atividade operacional é dividida entre 38 unidades centralizadoras de produção; 21 unidades de beneficiamento e armazenamento de grãos; 09 unidades de beneficiamento de algodão; e 03 unidades de beneficiamento de sementes, distribuídas em diversos municípios do Estado de Mato Grosso. Registre-se que as referidas culturas levam, em média, 130 dias entre o plantio e o fruto pronto e disponível para a comercialização. O ciclo se inicia no preparo da terra, com a análise da boa qualidade física e estrutural e dos nutrientes presentes no solo e a implementação de medidas, se necessárias, para suprir as demandas nutricionais do local. E uma vez constatada a viabilidade do solo, segue-se para o plantio de sementes que, por sua vez, são previamente selecionadas e sujeitas a um processo de beneficiamento realizado com a utilização de avançada tecnologia genética de alta complexidade e relevância. Nesse contexto, insta salientar que, na atividade agrícola da Recorrente, a semente é o seu principal insumo. Isso pois, para um bom plantio, é imprescindível que as sementes utilizadas possuam boa qualidade física, fisiológica, sanitária e genética, de modo que todos os custos que são empreendidos para a sua aquisição e/ou beneficiamento, torna-se indispensável para a perfeita eficiência e realização da atividade agrária. Em outras palavras, sementes de baixa qualidade ou que não possuem traços genéticos adequados a possibilitar um bom plantio podem ser fontes de desenvolvimento de doenças, contribuindo para a inserção de pragas e doenças na lavoura, assim como representam um aumento significativo de mão de obra e recursos financeiros. A esse respeito, eis excerto do Parecer Técnico ora apresentado: “Diante das informações acima dispostas sobre o processo produtivo da BOM FUTURO, é possível constatar que para o desenvolvimento da atividade de agricultura, a empresa depende da aquisição de itens indispensáveis (a indispensabilidade desses itens está relacionada à ligação direta com a sua eficiência e capacidade produtiva), sendo eles: a) Sementes: Sementes de qualidade propiciam melhores características para culturas agrícolas plantadas. Semente tratadas possuem reguladores de crescimento, micronutriente e inoculantes, que contribuem para o desenvolvimento das plantas, deixando-as mais sadias e resistentes. Considerando que o grupo BOM FUTURO é um dos três maiores produtores agrícolas do Brasil, a utilização de sementes tratadas é fundamental para a realização de suas atividades agrícolas; b) Instalações diversas: As instalações possibilitam racionalizar a produção agrícola, ou seja, trazem eficiência e eficácia ao processo produtivo , protegendo os cultivos das intempéries. Essas instalações necessitam de Fl. 1243DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 18 manutenção constante. Portanto, materiais de construção são elementos imprescindíveis no dia a dia da empresa; c) Fertilizantes e Defensivos: A utilização de fertilizantes e defensivos tem como finalidade o aumento da produtividade e o controle de pragas que possam prejudicar o cultivo; d) Peças para manutenção de aeronaves: A utilização de aeronaves na agricultura tem como finalidade a pulverização de defensivos em propriedades de grande extensão (como a BOM FUTURO, que possui cerca de 583 mil hectares), além disso, pode ser utilizada no combate de possíveis incêndios.” (página 28 do Parecer Técnico – destacamos) Registre-se que, após alguns dias de vida da planta, ocorre o manejo com adubagem e pulverizações para o controle de insetos, fungos e ervas daninhas. E com aproximadamente 110 dias de extremos cuidados, a cultura passa à fase da maturação e, por conseguinte, da colheita, que só pode ocorrer quando a cultura atingir a maturação fisiológica e a umidade ideal para tanto, sob o risco de perda de produtividade. Com a finalização da colheita, os frutos são transportados para os armazéns ou para as unidades de beneficiamento da Recorrente para as etapas de limpeza, secagem, padronização e, por fim, armazenagem. Somente a partir de então é que os produtos estarão prontos para serem comercializados ou utilizados para a produção de rações especiais que serão destinadas para o uso interno da Recorrente (que, como visto, atua também no setor pecuário). B) SEMENTES Conforme acima mencionado, a semente utilizada pela Recorrente possui um processo produtivo próprio (anterior, portanto, ao processo agrícola), já que é responsável em boa parte pelo resultado da colheita. A cadeia produtiva da semente se inicia com as pesquisas de cruzamentos varietais e inserção genética de genes que podem proporcionar resistência a pragas e doenças, definição de ciclos e grupo de maturação, arquitetura de planta, produtividade entre outros inúmeros atributos. Acerca desse tema, foi apresentado com a Manifestação de Inconformidade um Laudo Técnico formulado pela equipe técnica da Recorrente, com a integralidade da descrição dos processos empreendidos nas sementes (doc. 01 da Manifestação de Inconformidade). De acordo com o referido trabalho, a Recorrente, enquanto produtora devidamente cadastrada junto das entidades reguladoras (MAPA e INDEA) e atenta às necessidades de plantio sustentável e eficaz, adquire sementes com melhoramento genético das obtentoras de tecnologia, mediante contratos de licenciamentos remunerados por royalties, dando início à produção segundo o fluxo abaixo: Fl. 1244DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 19 Note-se que, para a produção de sementes, é exigido o credenciamento junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), ao Instituto de Defesa Agropecuária do Estado de Mato Grosso (INDEA) e, ainda, ter inscrição no Registro Nacional de Sementes E Mudas (RENASEM), com a indicação de um responsável técnico habilitado. Quanto ao credenciamento, somente é deferido quando comprovado o atendimento dos seguintes requisitos: ▪ Preenchimento de formulário padrão de inscrição de campos; ▪ Comprovante da taxa de recolhimento referente a área; ▪ Anotação de responsabilidade técnica com projeto técnico de execução; ▪ Croqui de localização dos campos seguidos de coordenadas georreferenciadas; ▪ Apresentação das Notas Fiscais (NFs) de origem das sementes com seus respectivos documentos (termos de conformidades para S1 e S2 ou certificado de sementes para C1, C2 e básica e o boletim de análise de semente); e ▪ A autorização do obtentor da cultivar e da tecnologia empregada nas sementes com direitos de patentes. Essa autorização de multiplicação é fornecida por meio de contratos de licenciamentos para fins de recolhimentos de royalties. Nesse cenário, a Recorrente adquire sementes com melhoramento genético (cultivares), destinando-as como matéria-prima para uma das unidades de beneficiamentos, processamento e armazenamento. UNIDADE DE BENEFICIAMENTO DE SEMENTES (FAZENDA FARTURA - CAMPO VERDE/MT) Já na unidade de beneficiamento processam-se as seguintes etapas: pesagem nas moegas recebedoras; separação de acordo com a cultivar presente em cada Fl. 1245DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 20 semente (traço genético obtido com a aplicação de tecnologia do germoplasma); recepção; classificação; avaliação de dano mecânico; e a descarga da massa de grãos. Na etapa seguinte, realiza-se a limpeza dos grãos, onde são retiradas as impureza e fragmentos de grãos que serão descartados do processo de produção de sementes. A limpeza dos grãos também é realizada de forma segregada por cada cultivar, sendo que as máquinas de secagem são previamente preparadas e configuradas para receber um tipo específico por vez. MÁQUINA DE PRÉ-LIMPEZA UNIDADE DE BENEFICIAMENTO DE SEMENTES Quando do processo de secagem, é feita retirada do excesso de água, sendo o grão encaminhado para a etapa seguinte, de classificação por forma – realizado por um conjunto de espiral, selecionando os grãos redondos perfeitos; por diâmetro – realizado por um conjunto de peneiras, onde utiliza-se a circunferência em medida de milímetros para a seleção; e por peso, em que somente são os grãos pesado, descartando-se os leves. CONJUNTO DE ESPIRAL (ESQ.) E CONJUNTO DE PADRONIZADORES POR PENEIRAS (DIR.) PARA CLASSIFICAÇÃO DE GRÃOS – UNIDADE DE BENEFICIAMENTO DE SEMENTES Fl. 1246DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 21 VISTA GERAL DO EQUIPAMENTO – UNIDADE DE BENEFICIAMENTO DE SEMENTES Após a classificação, os grãos são envazados em bags ou sacos, devidamente identificados por peso, informações da cultivar, peneira, categoria produzida, safra e validade dos documentos oficiais de qualidade; sendo enviados na sequência para a armazenagem e controle de qualidade da produção. BAG DE ENVASAMENTO DAS SEMENTES, COM AS INFORMAÇÕES DA FORMAÇÃO DO LOTE ARMAZÉM DE SEMENTES BENEFICIADAS Por sua vez, na etapa de avaliação técnica são realizadas as averiguações da qualidade fisiologia (germinação e vigor) e da qualidade física por meio de testes específicos em laboratório próprio. Após a finalização das análises são emitidos documentos oficiais através do boletim de análises que geram os termos de conformidade e certificados conforme as categorias das sementes produzidas. Fl. 1247DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 22 LABORATÓRIO DE ANÁLISES DAS SEMENTES Cumpre registrar que a saída do armazém se dá mediante a emissão de Notas Fiscais, com a remessa das sementes aos campos produtivos para operação de plantio gerando grãos comerciais, ou podendo gerar uma nova geração de sementes, reiniciando a cadeia de produção de sementes descrita acima. EVOLUÇÃO DO GRÃO DESTINADO A PRODUÇÃO DE SEMENTE Após a emissão das NFs, comprova-se o uso das sementes e, consequentemente, do benefício das cultivares inseridas por melhoramento genético nesse insumo, gerando as quantidades (em toneladas ou quilos) de utilização da semente de cada cultivar e procedendo-se, assim, ao pagamento dos royalties pertinentes ao contrato de licenciamento junto ao detentor da tecnologia. C) PECUÁRIA De acordo com o Parecer Técnico ora anexado, “a BOM FUTURO atua dentro do seguimento da pecuária, com um rebanho bovino circulante de aproximadamente 130 mil cabeças de gados das raças Nelore e cruzamento industrial em sistemas de semiconfinamento e confinamento. A vasta experiência e o auxílio da tecnologia, permitiram a BOM FUTURO construir e implementar o maior projeto de integração lavoura-pecuária (ILP) do mundo, com uma área de 31 mil hectares para essa modalidade” (página 29) Assim, unindo uma vasta experiência no ramo e o auxílio de tecnologia, a Recorrente desenvolve um perfeito sistema de integração lavoura-pecuária (ILP), consistente na recuperação de áreas de pastagens degradadas, explorando no mesmo local, em rotação ou sucessão, diferentes sistemas de plantio, como o sistema de grãos, destinado a produção de alimentação para o próprio rebanho. Fl. 1248DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 23 Ou seja, na mesma área e em épocas diferentes, a Recorrente promove a exploração de atividades agrícolas e pecuárias, de forma a otimizar e intensificar o uso dos recursos naturais, causando menor impacto ao meio ambiente. Dito de outro modo, o processo produtivo empreendido pela Recorrente, em relação aos bovinos, engloba (i) a aquisição de novilhos; (ii) a realização de pesquisas e produção de ração de alta qualidade genética e nutricional, que é utilizada na recria e engorda (beneficiamento) do rebanho; e (iii) a venda do gado para abate. Ainda a respeito da pecuária, merece destaque o seguinte excerto do mencionado Parecer Técnico: “Para o desenvolvimento da pecuária em tamanha escala é indispensável itens tais como: a) Aquisição de bovinos: Atividade comum a todo e qualquer pecuarista de corte, devido à alta rotatividade do “estoque”. A aquisição de novos animais para engorda e reposição é essencial a prática pecuarista, sendo um dos principais insumos da atividade de engorda para venda do gado vivo. b) Instalações diversas: As instalações possibilitam o bom manejo do rebanho que, consequentemente, reduz possíveis custos veterinários, promovendo maior rentabilidade ao pecuarista. Essas instalações, necessitam de manutenção constante. Portanto, os materiais de construção são elementos imprescindíveis no dia a dia da empresa; c) Milho: Considerado o principal grão para a produção de rações destinadas à pecuária, o milho, além do cultivo “fácil”, dispõe de nutrientes e é livre de substâncias tóxicas aos rebanhos, o que o torna elemento indispensável na alimentação de criações (bovinos, suínos e aves).” (página 31 – destacamos) Cumpre esclarecer ainda que os novilhos adquiridos são submetidos ao Sistema Oficial de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos - SISBOV, por meio do qual são implantados chips e brincos nos animais, que possibilitam o monitoramento da evolução dos processos de recria e engorda, garantindo a procedência e a rastreabilidade bovina. Portanto, dentro do processo produtivo da Recorrente, destacam-se 03 (três) atividades básicas: (1) a recria; (2) a engorda; e (3) a fabricação da ração especial própria, para propiciar o beneficiamento do bovino, enquanto atividade industrial de transformação da matéria-prima. Atividade de Recria Conforme página 31 do Parecer Técnico, a fase de recria inicia-se no momento da aquisição, pela Recorrente, dos bezerros desmamados ou de animais com até 16 meses, com peso estimado entre 180 e 220 kg, encerrando-se na fase de engorda dos bovinos. Logo na entrada, os animais são submetidos com a uma triagem inicial em curral para pesagem, brincagem, inclusão no sistema SISBOV, conferência física, vacinação e tratos sanitários. Fl. 1249DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 24 Após a triagem, os animais são separados em lotes respeitando a idade, sexo, peso individual e raça, sendo destinados a estruturas de recria semi-intensiva, onde podem permanecer por até 05 meses, em processo de adaptação ao manejo alimentar, com o fornecimento de ração a pasto. Na fase de recria os animais recebem sal mineral e rações fabricadas pela própria Recorrente, garantindo o balanceamento energético proteico adequado ao crescimento e desenvolvimento da carcaça do animal. O principal objetivo nesse momento, assim, é o desenvolvimento do novilho, para que ele possa expressar ao máximo o seu potencial genético, ganhando estrutura e o peso ideal para a raça, no menor tempo possível. Nessa etapa do processo produtivo, são ofertados de 02 a 04 kg de ração por dia confeccionada pela própria Recorrente, permitindo a alta taxa de lotação das pastagens, chegando a 15 unidades animal por hectare, onde há o pastejo para oferta de volumoso e a oferta do concentrado energético / proteico em estrutura de cochos cobertos. Observe-se as ilustrações abaixo: CURRAL DE TRIAGEM DOS NOVILHOS BRINCAGEM PARA INCLUSÃO NO SISTEMA SISBOV E MONITORAMENTO DAS ETAPAS DE RECRIA E ENGORDA FASE DE RECRIA – NOVILHO EM ESTRUTURA SEMI-INTENSIVA, COM O FORNECIMENTO DE RAÇÃO CONFECCIONADA PELA BOM FUTURO EM ESTRUTURA DE COCHOS COBERTOS Fl. 1250DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 25 Ainda na recria, impõe-se a utilização de estruturas de dessedentação para fornecimento de água limpa, estruturas de cercas e divisões, bem como a manutenção de vias de acesso para fazer a suplementação diária dos animais. Vale mencionar também que as estruturas de cochos compõem parte da infraestrutura, ao passo que os currais de manejo são ferramentas de trabalho para embarque e desembarque, além da realização dos tratos sanitários e de rastreabilidade. Nesta fase o principal propósito é a obtenção de um animal saudável, com grande desenvolvimento da carcaça, saindo de cerca de 180/220kg para 300/320kg. A partir disso, o animal segue para a etapa de engorda, com grande performance e adaptação ao sistema de suplementação. Atividade de Engorda De acordo com o exposto na página 32 do Parecer Técnico, na fase de engorda os animais podem possuir duas origens: a remessa da etapa de recria, onde o animal já está inserido e adaptado ao manejo tecnológico da Recorrente; ou via aquisição de garrotes (animais de 18 a 24 meses), que entrarão direto no processo de engorda. Durante a fase de engorda, os bovinos recebem uma alimentação específica para aumento de peso e deposição de gordura, com o objetivo de produzir mais carne e de melhor qualidade, agregando o máximo de valor possível. Trata-se de etapa que demanda um maior tempo de pastagens e o oferecimento de suplementação com elevado custo nutricional, o que implica em dispêndios de maiores investimentos. Outrossim, sua consecução pode se dar mediante o fornecimento de alimentação/suplementação nas modalidades de semiconfinamento ou confinamento: ▪ Semiconfinamento: constituída por 215 pontos estruturais para oferta de ração e suplementação, denominadas “praças de alimentação”, referidas áreas podem ser utilizadas para implementação do sistema (ILP), ora ocupadas com agricultura ora para pastagens. Os animais são integrados a partir da finalização da atividade de recria, ao atingirem o peso intermediário de 300 a 320 kg, e podem permanecer nesta fase pelo período de 90 a 120 dias, sendo submetidos ao manejo e fornecimento de ração de 08 a 12kg diários. Para a dessedentação são utilizados grandes reservatórios destinados a distribuição de água. A oferta de volumoso é feita através do pastejo da gramínea cultivada. O ganho médio diário de peso nesta modalidade fica em torno de 1.200 a 1.400 gramas ao dia, possibilitando assim um melhor controle temporal da oferta do animal acabado ao frigorífico. Fl. 1251DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 26 VISÃO GERAL SEMICONFINAMENTO (ESQ.) E PRAÇAS DE ALIMENTAÇÃO (DIR.) – FASE ENGORDA CAMINHÃO REALIZANDO A DISTRIBUIÇÃO DA RAÇÃO NOS COCHOS – FASE ENGORDA/SEMICONFINAMENTO BOVINOS COMENDO A RAÇÃO OFERTADA EM COCHO – FASE ENGORDA/SEMICONFINAMENTO ▪ Confinamento: é constituído por 34 boxes destinados a engorda, com capacidade estática de cerca de 5.000 animais. As atividades se concentram no período de abril a novembro, tendo as condições climáticas de chuvas como limitação da atividade. Nesta modalidade os animais permanecem de 60 a 90 dias recebendo a dieta alimentar integral no cocho, sendo ofertado 10 kg de ração própria adequada e balanceada, e de 10 a 12 kg de volumoso (silagem de milho, de capim e/ou resíduos de algodoeiras) para complementar a dieta. Há um ganho médio de peso diário de 1.750 gramas por dia, sendo que o sucesso do processo de engorda está condicionado (i) à qualidade da ração; (ii) na quantidade de ração ofertada; e (iii) na ambiência e bem-estar proporcionado ao animal durante sua estadia nos boxes de confinamento de engorda. Por conta disto, tal modalidade demanda para além dos cuidados diários com a alimentação e nutrição, o dispêndio de custos com irrigação, limpeza, oferta de água renovável nos bebedouros e pela implantação de sombras artificias para conforto térmico. Sendo, portanto, uma modalidade muito mais onerosa para a Recorrente. Fl. 1252DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 27 Ao atingir a terminação (finalização da engorda), o animal é vendido para os frigoríficos, com finalidade de abate, com preceitos de acabamento de gordura e marmorização de carne desejada para atender o mercado consumidor. [...] VISÃO GERAL SISTEMA DE CONFINAMENTO – FASE ENGORDA [...] VOLUMOSO (SILAGEM DE MILHO, CAPIM E RESÍDUOS DE ALGODOEIRAS) PARA COMPLEMENTAR A DIETA Fabricação de Ração e Suplemento Mineral A Recorrente dispõe de 08 unidades de fabricação de ração para uso próprio, que compreende desde a elaboração dos núcleos e sais minerais a serem empregados nestas rações, até as fases de mistura, envase, armazenamento e efetiva oferta ao rebanho nas etapas de recria e engorda. Referida produção atinge a capacidade diária de 1.500 toneladas/dia, utilizando tanto elementos de produção própria, quanto de mercadoria adquiridas de terceiros, levando em conta a demanda da área de produção junto a recria e engorda e a quantidade de animais. A produção do suplemento mineral (aditivo minerais e aminoácidos) e formulação de núcleos utilizados na composição das rações são produzidos exclusivamente na planta fabril de Campo Verde, e deste local é realizada a remessa às demais fábricas e estabelecimentos da Recorrente, para uso como suplementos minerais e núcleos aditivos de rações. Dentre os insumos utilizados para a fabricação da ração especial bovina, destacam- se os itens de produção própria de origem vegetal, milho, sorgo e derivados de algodão (torta, caroço e briquete formado a partir da prensa de capulhos de algodão). Podem, ainda, serem agregados alguns produtos adquiridos de terceiros, como farelos e base de soja. Todos esses insumos são submetidos ao processo de transformação por meio de moagem e/ou esmagamento, oportunidade na qual passam a ser compatíveis com a formulação e os preceitos técnicos desejados de teores de proteína e energia para cada tipo de ração. [...] UNIDADE DE PRODUÇÃO DE SUPLEMENTOS MINERAIS E NÚCLEOS UTILIZADOS NA FORMULAÇÃO DE RAÇÕES [...] ESTOQUE DE SUPLEMENTOS MINERAIS E NÚCLEOS ACABADOS PARA INTEGRAÇÃO ÀS RAÇÕES [...] PROCESSO DE FABRICAÇÃO DE RAÇÃO – INTEGRAÇÃO DOS INSUMOS AO MILHO MIX PÓS MOAGEM Fl. 1253DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 28 Após o processamento das matérias-primas, pesagem, e mistura, a produção segue para ser armazenada nos estoques de ração e/ou utilização nas etapas de recria e engorda dos animais (já abordadas anteriormente). [...] ARMAZÉM DE ESTOQUE DE RAÇÃO [...] REBANHO EM FASE DE TERMINAÇÃO, ONDE A CARCAÇA JÁ OBTEVE A TRANSFORMAÇÃO NECESSÁRIA ATRAVÉS DA ALIMENTAÇÃO OFERTADA DURANTE O CONFINAMENTO Com essas explicações, corroboradas com os demonstrativos fotográficos e pelo Parecer Técnico, chega-se à conclusão de que a pecuária intensiva explorada pela Recorrente demanda a edificação e a manutenção de estruturas civis expressivas, além de investimento em maquinários específicos, que demandam manutenção e por vezes substituição, a fim de que, desde o início do ciclo produtivo da cadeia de pecuária desenvolvido pela Recorrente, até a entrega ao frigorífico, que abaterá um animal que se converterá em alimento de qualidade. Ademais, a partir do detalhamento das etapas que compõem o complexo processo produtivo da Recorrente, tratadas, repita-se, de forma minuciosa pelo Parecer Técnico ora anexado, resta inquestionável a existência de um processo de industrialização, versado nos esforços e investimentos empregados para a transformação do novilho em um bovino que atenda a condições de peso, estrutura e variação genética requeridas pelo mercado. É importante destacar também que a comercialização dos bovinos se destina à continuação de outro processo industrial, o abate pelos frigoríficos. Sobre esse tema, revela-se imprescindível relembrar que, por industrialização, nos termos do art. 4º do RIPI/2010, entende-se qualquer operação que modifique a natureza, o funcionamento, o acabamento, a apresentação ou a finalidade do produto, ou o aperfeiçoe para consumo. Há, assim, nítida subsunção do conceito legal de industrialização ao caso concreto, haja vista que a produção da Recorrente representa, sem sombra de dúvidas, uma transformação e aperfeiçoamento da mercadoria (bovino). Ora, o produto bovino final em condições de abate só surgirá após a implementação de um processo de industrialização sobre todos os insumos adquiridos, unindo esforços, tecnologia e conhecimento para que a mercadoria final esteja modificada e aperfeiçoada para o abate. Com isso em vista, passamos a analisar as glosas combatidas no Recurso Voluntário. DO ESTORNO DO CRÉDITO RELATIVO ÀS RECEITAS DE VENDAS COM SUSPENSÃO Conforme supra relatado, a fiscalização identificou vendas realizadas pela recorrente em operações submetidas à suspensão da incidência das contribuições Fl. 1254DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 29 relativas a bovinos (NCM 0122990), caroço de algodão (NCM 52010090), milho (NCM 10059010), girassol (NCM 12060090) e arroz com casca (NCM 10061092). Mencionando os artigos 8º e 9º da Lei nº 10.925, de 2004 (caroço de algodão e girassol), artigos 32 e 33 da Lei nº 12.058, de 2009 (bovinos vivos), art. 54 e 55 da Lei nº 12.350, de 2010 (milho em grãos e arroz com casca), a fiscalização destaca que a venda desses produtos com suspensão da incidência das contribuições impede o aproveitamento dos créditos regulares ou presumidos associados às receitas correspondentes. Assim, não havendo verificado, nos ajustes de redução de crédito, os estornos de créditos básicos relativos às mencionadas vendas com suspensão, a autoridade reduziu os créditos básicos com base na proporção entre as receitas de vendas com suspensão dos citados produtos e a receita bruta total. Por sua vez, a recorrente defende que os dispositivos mencionados pela fiscalização tratam da concessão de crédito presumido a contribuintes que praticam negócio diverso da atividade por ela desenvolvida, não sendo aplicáveis ao caso concreto. Para fundamentar suas alegações, sustenta que ao vedarem o aproveitamento “de crédito em relação às receitas de vendas efetuadas com suspensão às pessoas jurídicas de que trata o caput deste artigo”, tais normas não se dirigem aos créditos básicos das contribuições, mas aos próprios créditos presumidos de que tratam os caputs dos dispositivos legais, não se podendo pretender interpretar o parágrafo de modo separado do caput, haja vista a relação necessária de sentido que deve existir entre esses elementos do texto legal, como, de resto, é exigido pela Lei Complementar nº 95/98. Desta forma, sustenta que as aquisições (entradas) que deram origem aos créditos glosados pela Autoridade Fiscal foram realizadas junto a pessoas jurídicas, e foram devidamente tributadas, não se lhes aplicando, de resto, a suspensão prevista nos dispositivos mencionados pela fiscalização e pelo v. acórdão recorrido, em razão da não observância dos requisitos ali previstos (a adquirente, no caso a Recorrente, não promove a venda dos produtos então relacionados). Assim, por se tratar justamente de um insumo, essencial ao processo produtivo da Recorrente, haveria direito ao crédito BÁSICO das contribuições ao PIS e da COFINS, que é autorizado na forma do artigo 3º da Lei nº 10.637/2002 e da Lei nº 10.833/2003, e não é vedado por qualquer disposição atinente ao regime geral de apuração dos créditos das contribuições. O mesmo ocorreria em relação aos demais insumos adquiridos, sem suspensão, pela Recorrente (milho, caroço de algodão, girassol e arroz com casca). Ademais, ainda que se pudesse estender a regra em questão aos créditos básicos, o que se admite apenas para argumentar, a vedação ao desconto dos créditos estaria condicionada à realização de operações com suspensão “às pessoas jurídicas de que trata o caput deste artigo”. Vale dizer, não basta que as vendas sejam realizadas com suspensão das contribuições; é necessário que as vendas Fl. 1255DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 30 sejam realizadas às pessoas jurídicas que produzem as mercadorias classificadas nos códigos NCM citados no caput e que as destinem para as exportações – o que sequer teria sido objeto de análise pela Autoridade Fiscal. Por fim, ainda que se entenda pela procedência do estorno realizado pela fiscalização, a recorrente sustenta existir equívoco na metodologia de cálculo aplicada, uma que vez “[...] ao se utilizar da composição da receita da pecuária para amparar os estornos dos créditos, sem qualquer fundamento legal, a Autoridade Fiscal onerou as atividades da Recorrente, na medida que considerou o arquivo EFD Contribuição em sua integralidade, sem distinguir quais movimentações seriam de fato passíveis de tributação”. Entendo que não assiste razão à recorrente. Por entender que todas as alegações e matérias controvertidas foram devidamente dirimidas no v. acórdão recorrido, transcrevo os fundamentos expostos no r. decisum, adotando-os como razões para decidir, conforme autorizado pelo artigo 50, §1º, da Lei nº 9.784/99: Neste ponto, importa transcrever os comandos em discussão. Trazem os arts. 8º e 9º da Lei nº 10.925, de 2004, primeiro diploma a conferir a possibilidade de geração de créditos presumidos relativos à atividade agropecuária, a seguinte redação: Lei nº 10.925, de 2004: Art. 8º As pessoas jurídicas, inclusive cooperativas, que produzam mercadorias de origem animal ou vegetal, classificadas nos capítulos 2, 3, exceto os produtos vivos desse capítulo, e 4, 8 a 12, 15, 16 e 23, e nos códigos 03.02, 03.03, 03.04, 03.05, 0504.00, 0701.90.00, 0702.00.00, 0706.10.00, 07.08, 0709.90, 07.10, 07.12 a 07.14, exceto os códigos 0713.33.19, 0713.33.29 e 0713.33.99, 1701.11.00, 1701.99.00, 1702.90.00, 18.01, 18.03, 1804.00.00, 1805.00.00, 20.09, 2101.11.10 e 2209.00.0 0, todos da NCM, destinadas à alimentação humana ou animal, poderão deduzir da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, devidas em cada período de apuração, crédito presumido, calculado sobre o valor dos bens referidos no inciso II do caput do art. 3º das Leis nºs 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e 10.833, de 29 de dezembro de 2003, adquiridos de pessoa física ou recebidos de cooperado pessoa física. (Redação dada pela Lei nº 11.051, de 2004) § 1º O disposto no caput deste artigo aplica-se também às aquisições efetuadas de: I - cerealista que exerça cumulativamente as atividades de limpar, padronizar, armazenar e comercializar os produtos in natura de origem vegetal classificados nos códigos 09.01, 10.01 a 10.08, exceto os dos códigos 1006.20 e 1006.30, e 18.01, todos da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM); (Redação dada pela Lei nº 12.865, de 2013) II - pessoa jurídica que exerça cumulativamente as atividades de transporte, resfriamento e venda a granel de leite in natura; e Fl. 1256DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 31 III - pessoa jurídica que exerça atividade agropecuária e cooperativa de produção agropecuária. (Redação dada pela Lei nº 11.051, de 2004) ………. § 4º É vedado às pessoas jurídicas de que tratam os incisos I a III do § 1º deste artigo o aproveitamento: I - do crédito presumido de que trata o caput deste artigo; II - de crédito em relação às receitas de vendas efetuadas com suspensão às pessoas jurídicas de que trata o caput deste artigo. ………. Art. 9º A incidência da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins fica suspensa no caso de venda: (Redação dada pela Lei nº 11.051, de 2004) I - de produtos de que trata o inciso I do § 1º do art. 8º desta Lei, quando efetuada por pessoas jurídicas referidas no mencionado inciso; (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) II - de leite in natura, quando efetuada por pessoa jurídica mencionada no inciso II do § 1º do art. 8º desta Lei; e (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) III - de insumos destinados à produção das mercadorias referidas no caput do art. 8º desta Lei, quando efetuada por pessoa jurídica ou cooperativa referidas no inciso III do § 1º do mencionado artigo. (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) § 1º O disposto neste artigo: (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) I - aplica-se somente na hipótese de vendas efetuadas à pessoa jurídica tributada com base no lucro real; e (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) ………. § 2º A suspensão de que trata este artigo aplicar-se-á nos termos e condições estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal - SRF. (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) A contribuinte tem razão quando afirma que o caput do comando, autorizando a apuração de créditos presumidos não se dirige precipuamente a sua atividade econômica. No entanto, isso não significa que a contribuinte está imune aos efeitos do dispositivo. De fato, a interessada aloca-se no inciso III do parágrafo 1º do artigo transcrito na condição de pessoa jurídica que exerce atividade agropecuária. Nesse contexto, quando vende insumos que serão destinados a outra pessoa jurídica que os transformará nos produtos relacionados no caput, a operação deve ser feita com a suspensão da incidência das contribuições para o PIS/Pasep e para a Cofins, nos termos do art. 9º e ao adquirente é conferido do direito de apropriar-se de crédito presumido, conforme o art. 8º da Lei nº 10.925, de 2004. Note-se, porém, que ao polo vendedor da operação é interditado aproveitamento de créditos, sejam eles presumidos ou regulares. O §4º do art. 9º acima reproduzido Fl. 1257DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 32 é bastante claro ao qualificar o crédito como presumido na redação do inciso I e ao retirar essa qualificação no inciso II, de forma que a restrição ao aproveitamento de créditos pela pessoa jurídica vendedora de produtos agropecuários para o destino referido no caput do art. 8º se estende para toda a sorte de créditos, presumidos ou regulares, como acerta a interpretação da autoridade fiscal. Nessa medida, quando a contribuinte vende caroço de algodão e girassol com a suspensão tratada no art. 9º da Lei nº 10.925, de 2004, é de rigor que os créditos de quaisquer naturezas relativos às respectivas receitas sejam estornados. O mesmo raciocínio vale para as vendas com suspensão de bovinos, milho e arroz com casca. No que se refere às operações de venda de bovinos vivos, dizem os art. 32 e 33 da Lei nº 12.058, de 2009: Lei nº 12.058/2009 (DOU 14/10/2009) Art. 32. Fica suspenso o pagamento da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins incidente sobre a receita bruta da venda, no mercado interno, de: I - animais vivos classificados nas posições 01.02 e 01.04 da Nomenclatura Comum do Mercosul - NCM, quando efetuada por pessoa jurídica, inclusive cooperativa, vendidos para pessoas jurídicas que produzam mercadorias classificadas nos códigos 02.01, 02.02, 02.04, 0206.10.00, 0206.20, 0206.21, 0206.29, 0206.80.00, 0210.20.00, 0506.90.00, 0510.00.10 e 1502.00.1 da NCM; (Redação dada pela Lei nº 12.839, de 2013) Parágrafo único. A suspensão de que trata este artigo: I - não alcança a receita bruta auferida nas vendas a varejo; (Redação dada pela Lei nº 12.431, de 2011). II - aplicar-se-á nos termos e condições estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal do Brasil. Art. 33. As pessoas jurídicas sujeitas ao regime de apuração não cumulativa da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, inclusive cooperativas, que produzam mercadorias classificadas nos códigos 02.01, 02.02, 02.04, 0206.10.00, 0206.20, 0206.21, 0206.29, 0206.80.00, 0210.20.00, 0506.90.00, 0510.00.10 e 1502.00.1 da NCM, destinadas a exportação, poderão descontar da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins devidas em cada período de apuração crédito presumido, calculado sobre o valor dos bens classificados nas posições 01.02 e 01.04 da NCM, adquiridos de pessoa física ou recebidos de cooperado pessoa física. (Redação dada pela Lei nº 12.839, de 2013) § 1º O disposto no caput deste artigo aplica-se também às aquisições de pessoa jurídica que exercer atividade agropecuária ou cooperativa de produção agropecuária. ………. § 4º É vedado às pessoas jurídicas de que trata o § 1º deste artigo o aproveitamento: I - do crédito presumido de que trata o caput deste artigo; Fl. 1258DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 33 II - de crédito em relação às receitas de vendas efetuadas com suspensão às pessoas jurídicas de que trata o caput deste artigo. Assim, quando a contribuinte vende a exportadores de produtos de origem bovina os animais vivos de sua atividade agropecuária, a operação se dá com a suspensão da incidência das contribuições, nos termos do art. 32 transcrito, com a faculdade de apuração de crédito presumido pelo exportador, nos termos do art. 33, e o crédito relacionado às correspondentes receitas de venda dos animais deve ser estornado por conta do que diz o §4º do art. 33 do diploma que, da mesma forma que fez o §4º do art. 9º da Lei nº 10.925, de 2004, pretendeu interditar indistintamente tanto o aproveitamento dos créditos presumidos quanto dos créditos regulares às pessoas jurídicas que exercem atividade agropecuária quando vendem insumos para certos setores da agroindústria. O entendimento se estende também para as vendas com suspensão de arroz com casca e milho, conforme dita a Lei nº 12.350, de 2010: Lei nº 12.350/2010 (DOU 21.12.2010): Art. 54. Fica suspenso o pagamento da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins incidente sobre a receita bruta da venda, no mercado interno, de: I – insumos de origem vegetal, classificados nas posições 10.01 a 10.08, exceto os dos códigos 1006.20 e 1006.30, e nas posições 12.01*, 23.04* e 23.06 da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM), quando efetuada por pessoa jurídica, inclusive cooperativa, vendidos: (Vide Lei nº 12.865, de 2013) (Vigência)*retirados pelo art. 34 da Lei nº 12.865, de 09/10/2013, com efeitos a partir de 01/02/2014 a) para pessoas jurídicas que produzam mercadorias classificadas nos códigos 02.03, 0206.30.00, 0206.4, 02.07 e 0210.1 da NCM; b) para pessoas jurídicas que produzam preparações dos tipos utilizados na alimentação de animais vivos classificados nas posições 01.03 e 01.05, classificadas no código 2309.90 da NCM; e c) para pessoas físicas; II – preparações dos tipos utilizados na alimentação de animais vivos classificados nas posições 01.03 e 01.05, classificadas no código 2309.90 da NCM; III – animais vivos classificados nas posições 01.03 e 01.05 da NCM, quando efetuada por pessoa jurídica, inclusive cooperativa, vendidos para pessoas jurídicas que produzam mercadorias classificadas nos códigos 02.03, 0206.30.00, 0206.4, 02.07 e 0210.1 da NCM; Parágrafo único. A suspensão de que trata este artigo: I – não alcança a receita bruta auferida nas vendas a varejo; II – aplicar-se-á nos termos e condições estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal do Brasil. Art. 55. As pessoas jurídicas sujeitas ao regime de apuração não cumulativa da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, inclusive cooperativas, que produzam mercadorias classificadas nos códigos 02.03, 0206.30.00, 0206.4, Fl. 1259DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 34 02.07 e 0210.1 da NCM, destinadas a exportação, poderão descontar da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins devidas em cada período de apuração crédito presumido, calculado sobre: I – o valor dos bens classificados nas posições 10.01 a 10.08, exceto os dos códigos 1006.20 e 1006.30, e nas posições 12.01*, 23.04* e 23.06 da NCM, adquiridos de pessoa física ou recebidos de cooperado pessoa física; (Vide Lei nº 12.865, de 2013) (Vigência)*retirados pelo art. 34 da Lei nº 12.865, de 09/10/2013, com efeitos a partir de 01/02/2014 II – o valor das preparações dos tipos utilizados na alimentação de animais vivos classificados nas posições 01.03 e 01.05, classificadas no código 2309.90 da NCM, adquiridos de pessoa física ou recebidos de cooperado pessoa física; III – o valor dos bens classificados nas posições 01.03 e 01.05 da NCM, adquiridos de pessoa física ou recebidos de cooperado pessoa física. § 1º O disposto nos incisos I a III do caput deste artigo aplica-se também às aquisições de pessoa jurídica. ………. § 5º É vedado às pessoas jurídicas de que trata o § 1º deste artigo o aproveitamento: I – do crédito presumido de que trata o caput deste ar6go; II - de crédito em relação às receitas de vendas efetuadas com suspensão às pessoas jurídicas de que trata o caput deste artigo, exceto em relação às receitas auferidas com vendas dos produtos classificados nas posições 23.04 e 23.06 da NCM. (Redação dada pela Lei nº 12.431, de 2011). Na situação em que há venda de insumos à cadeia do frango e de suínos, fica suspensa a incidência do PIS/Pasep e da Cofins, nos termos do art. 54 da Lei nº 12.350, de 2010. Por sua vez, aos exportadores de produtos classificados nos códigos 02.03, 0206.30.00, 0206.4, 02.07 e 0210.1 da NCM, a lei confere a possibilidade de apuração do crédito presumido calculado com base nos insumos adquiridos, nos termos do art. 55 da lei em foco. Em consonância com a sistemática dos demais insumos acima destacados, bovinos, caroço de algodão e girassol, também fica interditado o aproveitamento dos créditos relacionados às correspondentes vendas de milho e arroz com casca efetuadas com suspensão, de acordo com o transcrito §5º do artigo 55 da Lei nº 12.350, de 2010, aplicável à contribuinte que é a pessoa jurídica de quem os exportadores adquirem os insumos referidos no §1º do art. 55. Diante desse quadro, está correta a interpretação que a fiscalização deu aos dispositivos legais que, de fato, alcançam a atividade econômica da contribuinte e se referem a vedação ao aproveitamento de todo o crédito, presumido ou regular, relacionado às receitas de vendas feitas com suspensão da incidência das contribuições para o destino identificados no caput dos art. 8º da Lei nº 10.925, de 2004, art. 33 da Lei nº 12.058, de 2009 e art. 55 da Lei nº 12.350, de 2010. Alega a contribuinte que, mesmo que as interdições ao creditamento também se estendessem aos créditos regulares – o que, como se viu acima, é o que ocorre – Fl. 1260DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 35 não seriam todas as vendas com suspensão que motivariam o estorno. Isto porque a obrigatoriedade dos estornos estaria vinculada apenas nas vendas com suspensão às pessoas jurídicas que produzam as mercadorias tratadas no caput do art. 55 da Lei nº 12.350, de 2010, que as destinem à exportação, o que não teria sido objeto de análise pela autoridade fiscal que teria efetuado o estorno referente a todas as operações de vendas dos mencionados produtos em que houve a suspensão das contribuições. Examinando-se a aba <NFe de Vendas Suspensão (EFD-C)> da planilha <% Estorno do Crédito relativo às Receitas de Vendas efetuadas com Suspensão.xlsx> incluído no arquivo não-paginável anexo ao relatório fiscal, observa-se que a quase totalidade das vendas cujos créditos foram estornados são destinadas a empresas reconhecidamente exportadoras (BRF SA, Marfrig Global Foods SA, JBS SA, Minerva SA) o que aponta que, de fato, as vendas se destinaram a empresas que empregaram os insumos vendidos pela interessada na produção de bens destinados a exportação. Por outro lado, a contribuinte não traz aos autos nenhuma comprovação de que eventualmente algumas das vendas tenham se destinado a empresas cujos produtos foram direcionados ao mercado interno. Importante salientar que o ônus de comprovar direito de crédito oposto contra a Fazenda Pública recai sobre aquele que se diz dele detentor. Nesse passo, corretas as glosas praticadas pela fiscalização. METODOLOGIA DE CÁLCULO A contribuinte diz que, ainda que seja vencida na discussão sobre a legitimidade do estorno de créditos, teria havido erro na determinação do montante estornado, partindo da proporcionalização a que procedeu a fiscalização com base na relação entre as receitas de vendas com suspensão e a receita bruta total. Constrói a contribuinte argumento em que, ao final, conclui que os estornos fiscais recaíram sobre produtos creditados que seriam da atividade pecuária, não havendo que se falar em invalidação de crédito relativo a venda de bovinos para frigoríficos. Ao contrário do que afirma a interessada a proporcionalização efetuada pela fiscalização não se restringiu aos créditos relativos à atividade pecuária. Como anotado nos itens 255 e 256 do Relatório Fiscal, o ajuste de redução do crédito foi feito mês a mês com base na proporção entre a Receita de Vendas com Suspensão dos produtos na tabela 9 abaixo e a Receita Bruta Total. [...] Como se viu acima, também as receitas sujeitas à suspensão da incidência das contribuições relativas a vendas de bovinos a frigoríficos exportadores devem ter os créditos estornados. Por sua vez, a proporcionalização com base na relação entre parte e todo efetuada pela auditoria é procedimento chancelado pela legislação e jurisprudrudência nas situações em que não é possível determinar a contribuição de cada item específico na composição de determinada grandeza, sejam créditos decorrentes de insumos comuns a diferentes regimes de tributação (cumulativo e não cumulativo), receitas vinculadas (exportação, mercado interno), etc. Sobre o método de rateio de créditos, assim dispuseram os §8º dos art. 3º das Lei nº 10.637, de 2002 e nº 10.833, de 2003, com igual redação, exceto quando referenciam a contribuição que regulam: Fl. 1261DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 36 Lei nº 10.833, de 2003: Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: (...) § 7º Na hipótese de a pessoa jurídica sujeitar-se à incidência não-cumulativa [...], em relação apenas à parte de suas receitas, o crédito será apurado, exclusivamente, em relação aos custos, despesas e encargos vinculados a essas receitas. § 8º Observadas as normas a serem editadas pela Secretaria da Receita Federal, no caso de custos, despesas e encargos vinculados às receitas referidas no § 7º e àquelas submetidas ao regime de incidência cumulativa dessa contribuição, o crédito será determinado, a critério da pessoa jurídica, pelo método de: I - apropriação direta, inclusive em relação aos custos, por meio de sistema de contabilidade de custos integrada e coordenada com a escrituração; ou II - rateio proporcional, aplicando-se aos custos, despesas e encargos comuns a relação percentual existente entre a receita bruta sujeita à incidência não-cumulativa e a receita bruta total, auferidas em cada mês. § 9º O método eleito pela pessoa jurídica para determinação do crédito, na forma do § 8º, será aplicado consistentemente por todo o ano-calendário e, igualmente, adotado na apuração do crédito relativo à contribuição [...] não - cumulativa, observadas as normas a serem editadas pela Secretaria da Receita Federal. Observe-se que a regra está posta com relação à forma de rateio aplicável à pessoa jurídica submetida aos dois regimes de tributação, cumulativo e não cumulativo. Os dispositivos em comento, vale dizer, assim como a interpretação que deles se faz estendem-se ao necessário rateio dos custos, despesas e encargos comuns às receitas de exportação e aquelas vinculadas ao mercado interno. Isso porque a legislação dá tratamento diferenciado no que respeita à forma de aproveitamento entre os créditos vinculados às receitas do mercado interno e as de exportação. Apenas o saldo de créditos referente a estas últimas podem ser compensados ou pleiteados em dinheiro. A necessidade do rateio é decorrência dessa diferenciação. Confira-se o art. 6º da Lei nº 10.833, de 2003 (também aplicável ao PIS nos termos do art. 15 do mesmo diploma), especialmente o que vem escrito no §3º: Lei nº 10.833, de 2003: Art. 6º A COFINS não incidirá sobre as receitas decorrentes das operações de: I - exportação de mercadorias para o exterior; [...] Fl. 1262DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 37 § 1ºNa hipótese deste artigo, a pessoa jurídica vendedora poderá utilizar o crédito apurado na forma do art. 3º, para fins de: I - dedução do valor da contribuição a recolher, decorrente das demais operações no mercado interno; II - compensação com débitos próprios, vencidos ou vincendos, relativos a tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, observada a legislação específica aplicável à matéria. § 2ºA pessoa jurídica que, até o final de cada trimestre do ano civil, não conseguir utilizar o crédito por qualquer das formas previstas no § 1ºpoderá solicitar o seu ressarcimento em dinheiro, observada a legislação específica aplicável à matéria. § 3ºO disposto nos §§ 1ºe 2º aplica-se somente aos créditos apurados em relação a custos, despesas e encargos vinculados à receita de exportação, observado o disposto nos §§ 8ºe 9ºdo art. 3º. [...] Nova hipótese de repartição veio integrar a legislação tendo em vista o disposto nos art. 17, da Lei nº 11.033, de 2004, sobre a possibilidade de manutenção dos créditos sobre vendas não tributadas, e art. 16 da Lei nº 11.116, de 2005, que franqueou o ressarcimento e a compensação dos saldos de créditos acumulados em virtude do disposto no citado art. 17 da Lei nº 11.033, de 2004. A atual IN RFB nº 2.121, de 2022, reflete, em seu art. 244, §7º, a hipótese de proporcionalidade que viabiliza o disposto nos citados art. 17 da Lei nº 11.033, de 2004, e 16 da Lei nº 11.116, de 2005: IN RFB nº 2.121, de 2022: Art. 244. Na hipótese de a pessoa jurídica sujeitar-se ao regime de apuração não cumulativa da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, em relação a apenas parte de suas receitas, o crédito deve ser calculado, exclusivamente, em relação aos custos, despesas e encargos vinculados a essas receitas (Lei nº 10.637, de 2002, art. 3º, § 7º; Lei nº 10.833, de 2003, art. 3º, § 7º; e Lei nº 10.865, de 2004, art. 15, § 5º). [...] § 2º Para efeito do disposto neste artigo, o valor a ser registrado deve ser determinado, a critério da pessoa jurídica, pelo método de (Lei nº 10.637, de 2002, art. 3º, § 8º, incisos I e II; e Lei nº 10.833, de 2003, art. 3º, § 8º, incisos I e II): I - apropriação direta, inclusive em relação aos custos, por meio de sistema de contabilidade de custos integrada e coordenada com a escrituração; ou II – rateio proporcional, aplicando-se aos custos, despesas e encargos comuns, a relação percentual existente entre a receita bruta sujeita ao regime de apuração não cumulativa e a receita bruta total, auferidas em cada mês. Fl. 1263DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 38 § 3º Para apuração do crédito decorrente de encargos comuns, na hipótese prevista no inciso I do § 2º, devem ser aplicados sobre o valor de aquisição de insumos, dos custos e das despesas referentes ao mês de apuração, critérios de apropriação por rateio que confiram adequada distribuição entre os encargos vinculados às receitas submetidas ao regime de apuração não cumulativa e os encargos vinculados às receitas submetidas ao regime de apuração cumulativa. [...] § 5º O método eleito pela pessoa jurídica referido no § 2º deve ser aplicado consistentemente por todo o ano-calendário e igualmente adotado para a Contribuição para o PIS/Pasep e para a Cofins (Lei nº 10.637, de 2002, art. 3º, § 9º; e Lei nº 10.833, de 2003, art. 3º, § 9º). § 6º As disposições deste artigo aplicam-se independentemente de os créditos serem decorrentes de operações relativas ao mercado interno ou do pagamento das contribuições incidentes na importação (Lei nº 10.865, de 2004, art. 15, § 5º). § 7º O disposto neste artigo aplica-se à apuração dos créditos vinculados às receitas de exportação e às receitas sujeitas a suspensão, isenção, alíquota de 0% (zero por cento) ou não incidência da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins (Lei nº 10.637, de 2002, art. 3º, § 8º; Lei nº 10.833, de 2003, art. 3º, § 8º, e art. 6º, § 3º; e Lei nº 11.033, de 2004, art. 17). Como visto, a forma de rateio proporcional é recurso amplamente empregado pela legislação na regulação da forma de repartição dos créditos da não cumulatividade, o que orientou os trabalhos fiscais ao proporcionalizar os estornos dos créditos tomados sobre os produtos relacionados na tabela 9 do Relatório Fiscal segundo a relação entre as vendas com suspensão daqueles produtos e a receita bruta total. Cumpre destacar que, no Recurso Voluntário, a recorrente se limita a repetir as razões expostas em sede de Manifestação de Inconformidade, sem apresentar qualquer argumento capaz de infirmar a conclusão adotada pelo v. acórdão recorrido, seja em relação à subsunção dos fatos às normas supramencionadas, seja em relação à metologia de cálculo aplicada. Pelo exposto, voto por negar provimento ao recurso neste tópico. DESPESAS COM ROYALTIES Conforme supra relatado, a autoridade fiscal glosou créditos apropriados pela recorrente sobre o pagamento de royalties aos licenciantes pelo direito de uso de patentes para produção e comercialização de sementes certificadas (uso da tecnologia), com base no entendimento de que tais dispêndios “[...] não são considerados aquisições de bens ou de serviços e, por conseguinte, não podem ser tratados como insumos para efeitos da apuração dos créditos de PIS/Cofins”. Para Fl. 1264DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 39 corroborar seu entendimento, menciona as Soluções de Consulta COSIT nº 116/21- Cosit e 71/15. Destaca, ainda, que, “[...] os royalties são calculados na etapa da colheita, conforme relata a contribuinte em sua resposta. Ou seja, ainda que fossem um serviço – e não o são -, não poderiam ser considerado insumo, posto que corresponderiam a um gasto incorrido após o encerramento das etapas produtivas (gastos após a produção)”. Da mesma forma, o v. acórdão recorrido manifestou o entendimento de que “os pagamentos feitos como contrapartida pela utilização dos direitos de propriedade sobre um bem, uma técnica, uma fórmula, não constituem remuneração por prestação de serviço ou se referem a aquisição de um bem, pelo que, a orientação da SC Cosit nº 116, de 2021, se aplica ao caso corrente”, de modo que “[...] não constituindo pagamentos correspondentes a prestação de serviços ou a aquisição de bens, aos dispêndios com royalties não se aplica a possibilidade de apuração de créditos da não cumulatividade nos termos dos art. 3º das Leis nº 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003”. Por sua vez, a recorrente sustenta que tais dispêndios representam uma contrapartida a um direito de propriedade intelectual, que, para efeitos jurídicos, é tratado como bem móvel, à luz do art. 83, III, do Código Civil, destacando, ainda, que, o caso específico de sementes, inclusive, é protegido pela Lei nº 9.456/1997 (Lei de Proteção de Cultivares), que também confere a natureza jurídica de bem móvel ao direito de propriedade da tecnologia usada no desenvolvimento do produto, conforme prescrito em seu art. 2º. Assim, por se tratar de um instituto inerente ao direito privado, ressalta que a administração tributária se encontra impedida de promover distorções à definição e alcance, nos termos do artigo 110 do Código Tributário Nacional. Desta forma, mencionando jurisprudência deste e. CARF, defende que, ao contrário do que “sustentou a fiscalização (e o v. acórdão recorrido), os custos com royalties correspondem a aquisição de bens móveis como insumos da atividade produtiva, o que legitima o aproveitamento do crédito nos termos do art. 3º, II, das Leis nº 10.833/2003 e nº 10.637/2002”. No que se refere à essencialidade de tais custos ao seu processo produtivo, a recorrente tece os seguintes argumentos de fato e de direito: [...] a Recorrente celebrou contratos com terceiros para viabilizar a utilização de tecnologias relacionadas à produção de sementes (contratos de royalties) que, como visto, estão relacionadas ao seu principal processo produtivo – cultivo de grãos como a soja, milho e algodão. Tais tecnologias – TRAITS e germoplasma – foram exploradas no laudo técnico que instruiu a Manifestação de Inconformidade apresentada e são responsáveis por significativa melhora na qualidade genética das sementes. De acordo com o laudo, os atributos genéticos envolvem: Fl. 1265DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 40 • pureza varietal; • potencial de produtividade; • resistência a pragas e doenças; • precocidade; • qualidade do grão; • resistência a condições adversas de solo e clima; • resistência a nematoides; • tolerância a menor textura de solo e fertilidade; • melhor arquitetura de planta; e • seletividade a herbicidas Disso decorre um impacto direto no resultado da produção agrícola da Recorrente, com aumento de produtividade, melhora na qualidade do produto, maior adaptação a questões ambientais e redução na utilização de defensivos agrícolas (beneficiando a saúde da população e reduzindo os impactos ambientais). Nesse sentido, a tecnologia na produção de sementes, ainda de acordo com o laudo técnico apresentado no presente processo, é indispensável à atividade da Recorrente, à medida que, na agricultura sustentável, a biotecnologia permite produzir maior quantidade de alimentos, a um custo menor e sem necessidade de aumentar a área de cultivo. Na mesma linha é o Parecer Técnico ora anexado: “d) Para aquisição das sementes para plantio para multiplicar as sementes ou colher os grãos, a empresa é obrigada legalmente a pagar uma despesa intitulada royalties, ou seja, o item SEMENTES, por consistir em elemento “estrutural e inseparável do processo produtivo ou da execução do serviço” (COSIT 05/2018), é essencial; e) Ademais, por questões relacionadas ao fato que as sementes certificadas adquiridas possuem inúmeras vantagens, como proteção a insetos ou produtividade superior, a privação deste item SEMENTES no processo produtivo, priva o produto final de “qualidade, quantidade e/ou suficiência” (COSIT 05/2018); f) Por fim, entendendo como relevante o item SEMENTE, devido a características de b.1) “pelas singularidades de cada cadeia produtiva” e b.2) “por imposição legal”. (Parecer Cosit 5 de 17/12/2018), temos que esse item é relevante.” (páginas 102 e 103 – grifamos e destacamos) Aumenta-se, portanto, a produção agrícola, por meio da otimização do espaço e com plantas adaptadas às peculiaridades regionais. Também há significativa redução no uso de defensivos agrícolas, o que, além de aumentar a produtividade, traz benefícios à saúde da população. Tudo isso reflete, ainda, na redução do preço do produto, aumentando o acesso das pessoas aos alimentos. Fl. 1266DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 41 Pode-se concluir, assim, que os custos incorridos com a Recorrente relativamente aos royalties em comento são essenciais ao seu processo produtivo, dando-lhe contornos de sustentabilidade e tornando o seu produto competitivo no mercado. Tamanha é a importância do tema que se discute no presente item, que essa tecnologia integra o Sistema Nacional de Sementes e Mudas (SNSM), instituído pela Lei nº 10.711/03 e regulamentado, atualmente, pelo Decreto 10.586/20. Referidas normas, em apertada síntese, determinam que novos cultivares deverão ser previamente habilitados pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), sendo agrupados no Cadastro Nacional de Cultivares Registrada (CNCR). Merece destaque, ainda, que as sementes em questão são obtidas a partir da adoção de tecnologias desenvolvidas pelas referidas empresas. Essas, por sua vez, estão sujeitas a rígido controle de qualidade, fiscalização e auditoria, como evidenciam os contratos trazidos ao feito e mencionados pela fiscalização (fls. 1365 a 1848 dos autos do e-dossiê). É dizer, trata-se de atividade regulamentada e rigorosamente fiscalizada por órgão regulatório. Mais que isso, a adoção de tecnologias na produção de cultivares visa atender a especificações profundamente técnicas, que à luz da interpretação sedimentada pelo egrégio Superior Tribunal de Justiça – nos Temas nº 799 e 780, aqui já referendados –, são indispensáveis ao alcance da qualidade esperada dos produtos, motivo pelo qual é inquestionável a essencialidade da despesa. Nesse sentido, a essencialidade da tecnologia envolvida nas sementes é expressamente reconhecida pelo MAPA em seu site, como se pode verificar do trecho abaixo reproduzido: “O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento - MAPA estabeleceu mecanismos para a organização, sistematização e controle da produção e comercialização de sementes e mudas, e instituiu, por meio da Portaria n° 527, de 30 de dezembro de 1997, o Registro Nacional de Cultivares - RNC. Atualmente, o RNC é regido pela Lei n° 10.711, de 05 de agosto de 2003, e regulamentado pelo Decreto n° 5.153, de 23 de julho de 2004, tendo como preceito fundamental que a geração de novas cultivares se traduz em altas tecnologias transferidas para o agronegócio, indispensáveis ao sucesso deste, pelo aumento da produtividade agrícola e da qualidade dos insumos e dos produtos deles derivados. As cultivares são disponibilizadas ao agricultor com os mais recentes avanços da pesquisa em genética e melhoramento vegetal, transformadas em insumos, sob a forma de material de propagação. O RNC tem por finalidade habilitar previamente cultivares e espécies para a produção e a comercialização de sementes e mudas no País, independente do grupo a que pertencem - florestais, forrageiras, frutíferas, grandes culturas, olerícolas, ornamentais e outros. O RNC é de responsabilidade da Coordenação de Sementes e Mudas - CSM, do Departamento de Fiscalização de Insumos Agrícolas - DFIA, da Secretaria de Defesa Agropecuária – DAS.” Como se vê, o próprio Ministério, que possui técnicos com conhecimento do setor agropecuário, e que é responsável pela regulamentação e cadastro das tecnologias Fl. 1267DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 42 envolvidas nas sementes, trata as cultivares como insumos essenciais à produção. Nesse sentido, inclusive, merece destaque o trecho abaixo, extraído do laudo ora apresentado: “As sementes são insumos com essencialidade dentro do processo agrícola. A agricultura inicia-se com o plantio, sem as sementes não há implantação da cultura, geração de plantas e sua produção. A representatividade dos insumos semente que carregam tecnologia do melhoramento genético estão presentes em 92 % da soja cultivada do Brasil, em 90% do milho e tem um crescimento grande na cultura do algodoeiro, tendo a estimativa de cerca de 47% de utilização de sementes transgênicas na cultura conforme dados de 2020. É observada a quantidade de TRAITs devidamente patenteadas e liberadas para uso no brasil para as culturas de soja, milho e algodão. Os eventos de transgenia são fundamentais para a agricultura. Estão incorporados dentro do insumo sementes através das técnicas de melhoramento genético. Ao utilizar o insumo que contêm essa genética, usufruímos dos benefícios essenciais que colocam o Brasil como celeiro da produção mundial. A tecnologia empregada no melhoramento traz benéficos diretos como resistência a pragas, doenças e seletividade a determinados herbicidas proporcionando uma agricultura sustentável, mais econômica e produtiva. As tecnologias inseridas no insumo sementes são pagas / comercializadas através de contratos de licenciamentos que estipulam a cobrança dos royalties. Os contratos de licenciamentos permitem o recolhimento as instituições que fazem os melhoramentos e as instituições que são as proprietárias da patente de TRAITs, permitindo que através do recurso que elas recebem possam dar continuidade ao desenvolvimento de novas cultivares e tecnologias de TRAITs, trazendo inovação, tecnologia, soluções e sustentabilidade ao processo produtivo agrícola brasileiro e mundial. Através do insumo sementes, gera-se e fundamenta-se a prática agrícola responsável em gerar alimentos saudáveis e que qualidade a população. Através dessa agricultura temos o reconhecimento do Brasil no cenário mundial como grande produtor. Fato esse que não seria possível essa produção sem o uso de tecnologias presentes no insumo sementes que foram melhorados e desenvolvidos através da transgenia e do melhoramento. Para a continuidade do processo é necessária realizar a remuneração, através dos royalties, para que não sessem as pesquisas, a produção de novas cultivares e tecnologias que trazem a inovação a agricultura brasileira.” (destacamos) Claro, portanto, que se trata de despesa que integra o custo das sementes e que é essencial ao processo produtivo da Recorrente, contrariando a fundamentação da glosa dos créditos a elas relacionadas. Veja-se o organograma abaixo, extraído da página 96 do Parecer Técnico que acompanha o presente: [...] Fl. 1268DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 43 Por fim, deve ser esclarecida a impropriedade cometida pela Autoridade Fiscal ao alegar que, mesmo que os royalties fossem pagamentos decorrentes de prestação de serviços, não seria possível o aproveitamento dos créditos, pois o gasto teria ocorrido após o encerramento das etapas produtivas: [...] Para elucidar esse ponto, é importante retomar o esclarecimento prestado durante a fiscalização: 51 “1º - Processo de licenciamento – etapa onde se firma contrato entre LICENCIANTE e LICENCIADO, autorização para produção, beneficiamento, multiplicação e comercialização das sementes; 2º - Aquisição das sementes melhoradas (algodão e soja) junto as LICENCIANTES (detentoras das tecnologias); 3º - Plantio - Inscrição de campo junto ao MAPA (ministério da Agricultura); 4º - Colheita – análise da semente, poderá ser utilizada para consumo/transferência BOM FUTURO ou venda para produtores. Nesta etapa calcula-se o Royalties pago a LICENCIANTE, este incidirá sobre o volume de sementes produzidas.” (p. 49, do Relatório de Auditoria) Como se pode perceber, o mercado em que a Recorrente atua exige, na grande maioria das vezes, a utilização de sementes melhoradas por germoplasmas e / ou tecnologias. O débito dos royalties nasce quando a Recorrente realiza a multiplicação das sementes, ou seja, quando envia/transfere as sementes já multiplicadas para nova multiplicação em campos registrados pelas unidades produtoras, podendo ser pago na vigência do ano safra. Acerca dessa questão, merece destaque o seguinte trecho das páginas 96 e 97 do Parecer Técnico que instrui o recurso: Sendo assim, o momento de pagamento dos royalties é questão contratual e está dentro da liberdade de contratar, podendo ser pago desde a aquisição da semente ou transferência dos já multiplicados para nova multiplicação, até ao momento da Fl. 1269DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 44 colheita das sementes. Não se trata, desta forma, de gastos após a produção, como foi alegado pela Autoridade Fiscal. Entendo que assiste razão à recorrente. Inicialmente, verificamos que, para glosar os créditos ora combatidos, a autoridade fiscal se baseou em três fundamentos: (i) a cessão de direito e/ou licença de propriedade (ou direito) não seria um bem; (ii) ainda que se tratasse de bens, não haveria propriamente a aquisição do bem, mas apenas o seu uso mediante pagamento acordado entre as partes (uma espécie de aluguel), o que não estaria contemplado pela legislação que prevê o direito ao creditamento; (iii) por fim, a cessão ou licenciamento de direitos relativos à propriedade intelectual também não poderia ser enquadrada como prestação de serviços, pois lhe faltaria o elemento essencial, qual seja, a efetiva prestação do serviço. A nosso ver, a questão se resume à análise dos dois primeiros fundamentos, afinal, como será demonstrado, os direitos relativos à propriedade intelectual realmente não se enquadram na condição de serviços, mas, por expressa disposição legal, são considerados bens móveis. Conforme previsto pelo artigo 2° da Lei n° 9.456/97, “[a] proteção dos direitos relativos à propriedade intelectual referente a cultivar se efetua mediante a concessão de Certificado de Proteção de Cultivar, considerado bem móvel para todos os efeitos legais e única forma de proteção de cultivares e de direito que poderá obstar a livre utilização de plantas ou de suas partes de reprodução ou de multiplicação vegetativa, no País”. No mesmo sentido, o artigo 83, inciso III, do Código Civil, estabelece que “[c]onsideram-se móveis para os efeitos legais: III - os direitos pessoais de caráter patrimonial e respectivas ações”. Sem precisar tecer maiores considerações acerca da interpretação sistemática do ordenamento jurídico e da necessária correspondência entre a legislação civil e a legislação tributária, expressamente consagrada no artigo 110 do Código Tributário Nacional, é certo que tal dispositivo legal afasta qualquer tentativa de se desconsiderar o caráter de bem dos direitos relativos à propriedade intelectual. No que se refere à suposta inexistência de aquisição dos direitos relativos à propriedade intelectual, com a devida vênia, também não assiste razão à autoridade fiscal. Apesar de inexistir regramento específico na lei que trata da proteção de cultivares, as relações contratuais em análise observam disciplina idêntica àquela prevista para os direitos autorais. E, neste sentido, o artigo 49 da Lei n° 9.610/98 estabelece que “[o]s direitos de autor poderão ser total ou parcialmente transferidos a terceiros, por ele ou por seus sucessores, a título universal ou singular, pessoalmente ou por meio de representantes com poderes especiais, por meio de licenciamento, concessão, cessão ou por outros meios admitidos em Direito, [...]". Fl. 1270DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 45 Vejam que a legislação trata da transferência total ou parcial dos direitos, a título universal ou singular, de modo que se o cedente transfere o direito de um lado, a operação reversa é justamente a aquisição do direito pelo licenciado ou cessionário. Afinal, como incontroversamente demonstrado, o l icenciado ou cessionário adquire o direito de uso de patentes para produção e comercialização de sementes certificadas (uso da tecnologia). Assim, com a devida vênia, não há como se falar em mero “uso mediante pagamento acordado entre as partes (uma espécie de aluguel)”, uma vez que as contratações firmadas pela recorrente não envolvem apenas o direito de uso do direito autoral, mas efetivas autorizações para exploração econômica daqueles direitos. Ademais, ainda que se afastasse a ocorrência de uma efetiva aquisição do direito relativo à propriedade intelectual – o que se discorda – é certo que o §3°, do artigo 3°, das Leis n° 10.637/02 e 10.833/03 e o artigo 15, inciso II, da lei nº 10.865/2004 não podem ser interpretados da forma restritiva pretendida pel a autoridade fiscal. Ora, os referidos dispositivos legais visam apenas assegurar que o aproveitamento de créditos – dentro da sistemática não-cumulativa – se dê em relação à bens e serviços que estejam sujeitos ao pagamento das contribuições ao PIS e da COFINS. Isto porque, ainda que sejam utilizados na condição de insumos, caso os bens e serviços não estejam sujeitos ao pagamento das contribuições ao PIS e da COFINS, no regime legal previsto em nosso ordenamento jurídico, não há que se falar em não-cumulatividade. No que se refere à subsunção de tais gastos ao conceito de insumo, restou devidamente demonstrado que tais contratações são essenciais para viabilizar a utilização de tecnologia na produção de sementes, o que está diretamente relacionado ao principal processo produtivo da recorrente – cultivo de grãos como a soja, milho e algodão. Ressalte-se que, conforme corroborado pelos laudos técnicos colacionados aos autos, a referida tecnologia é essencial para a melhora da qualidade genética das sementes, impactando diretamente no aumento de produtividade, melhora na qualidade do produto, maior adaptação a questões ambientais e redução na utilização de defensivos agrícolas. Ainda, restou devidamente demonstrado o equívoco incorrido pela fiscalização ao considerar tais gastos como posteriores ao processo produtivo, uma vez que analisou o momento do pagamento dos royalties e não da utilização da tecnologia no processo produtivo. Assim, os direitos relativos à propriedade intelectual em análise cumprem todos os requisitos exigidos pelo artigo 3°, inciso II, das Leis n° 10.637/02 e 10.833/03, para aproveitamento dos créditos da não-cumulatividade, uma vez que, como Fl. 1271DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 46 vimos, se enquadram, por expressa disposição legal, na condição de bens, e são utilizados como insumo na prestação de serviços da recorrente. Neste sentido, cita-se os seguintes julgados do E. Tribunal Regional Federal da 4ª Região: TRIBUTÁRIO. MANDADO DE SEGURANÇA. TEMA STJ 779. PIS E COFINS. CONCEITO DE INSUMO. 1. O conceito de insumo, para fins de creditamento no regime não cumulativo das contribuições PIS e COFINS, consoante entendimento firmado pelo STJ, no julgamento do REsp nº 1.221.170/PR, sob a sistemática dos recursos repetitivos, deve ser aferido à luz dos critérios de essencialidade ou relevância, considerando- se a imprescindibil idade ou a importância de determinado item, bem ou serviço para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte. 2. O contribuinte que exerce a atividade de produção de sementes certificadas tem o direito de deduzir crédito de contribuição ao PIS e de COFINS, no âmbito do regime não-cumulativo, dos valores que paga a título de royalties, à pessoa jurídica domiciliada no Brasil (pelo uso de patentes genéticas das sementes agrícolas), por constituírem insumo, nos termos do art. 3º, II, das Leis nºs 10.637, de 2002, e 10.833, de 2003, e da orientação firmada pelo Superior Tribunal de Justiça no julgamento, submetido ao regime de recursos repetitivos, do REsp nº 1.221.170/PR. (TRF4, AC 5010231-22.2019.4.04.7005, 1ª Turma, Relator LUCIANE A. CORRÊA MÜNCH, julgado em 18/09/2024) TRIBUTÁRIO. PIS/COFINS. NÃO-CUMULATIVIDADE. CREDITAMENTO. CONCEITO DE INSUMOS. ESSENCIALIDADE E RELEV NCIA. TEMA 779 DO STJ. 1. A sistemática de tributação não-cumulativa do PIS e da COFINS, prevista nas Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003, confere ao sujeito passivo do tributo o aproveitamento de determinados créditos previstos na legislação, excluídos os contribuintes sujeitos à tributação pelo lucro presumido. 2. A aplicação do princípio da não-cumulatividade do PIS e da COFINS em relação aos insumos util izados na fabricação de bens e serviços não implica estender sua interpretação, de modo a permitir que sejam deduzidos, sem restrição, todos e quaisquer custos da empresa despendidos no processo de industrialização e comercialização do produto fabricado. 3. O Superior Tribunal de Justiça, em 22/02/2018, no julgamento do REsp nº 1.221.170/PR (Temas 779 e 780), sob a sistemática de recursos repetitivos, declarou, por maioria de votos, a i legalidade das Instruções Normativas 247/2002 e 404/2004 da Receita e concluiu que o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios de essencialidade ou relevância, considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item, bem ou serviço para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte. 4. Hipótese em que, diante do Tema 779/STJ e da atividade-fim da requerente (empresa agroindustrial de produção de soja, milho, trigo, entre outras culturas, comércio de insumos agrícolas, adubos e fertilizantes), se reconhece o direito ao creditamento de PIS e COFINS sobre as despesas com royalties relativamente ao uso de sementes geneticamente modificadas, não se reconhecendo em relação às despesas com Fl. 1272DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 47 corretagem na venda de soja e despesas financeiras. 5. Apelação provida parcialmente. (TRF4, AC 5005849-69.2022.4.04.7105, 2ª Turma, Relatora MARIA DE FÁTIMA FREITAS LABARRÈRE, julgado em 17/10/2023) (Grifamos) Em sentido análogo, merece referência excerto do v. acórdão nº 9303-008.742, de relatoria da i. ex-conselheira Vanessa Marini Cecconello: [...] o know-how que é fornecido à Recorrente nada mais é do que a transferência de toda a tecnologia, suporte, experiência e conhecimento necessários à produção dos pistões. É evidente que o know-how para produção é necessário e diretamente aplicado ao processo produtivo, constituindo, sem sombra de dúvidas, em insumo para a produção. Há de se acrescentar que os royalties tratados neste processo (transferência de tecnologia) devem ser considerados como bens móveis nos termos do artigo 83 do Código Civil e, consequentemente, enquadrados como "bens" nos termos do artigo 3º da Lei nº 10.833/2003. O know-how que é fornecido à Recorrente é a transferência de toda a tecnologia, suporte, experiência e conhecimento necessários à produção dos pistões, sendo essencial ao processo produtivo, constituindo-se em insumo para a produção. E também os seguintes julgados deste e. CARF: COFINS NÃO CUMULATIVA. CONCEITO DE INSUMO. APROPRIAÇÃO DE CRÉDITOS. INDÚSTRIA FONOGRÁFICA. DIREITOS AUTORAIS. Os critérios de essencialidade ou de relevância (REsp nº 1.221.170/PR) devem ser avaliados em relação ao processo produtivo em si, do qual origina o produto final ou atinente à execução do serviço prestado a terceiros. Os incisos II dos arts. 3º das Leis nos 10.833/2003 e 10.637/2002 contemplam o creditamento sobre bens ou de serviços util izados na atividade de prestação de serviços ou na produção ou fabricação de bens. Pela peculiaridade da atividade econômica que exerce, é imprescindível à indústria fonográfica a aquisição de direitos autorais para a produção de suas obras, razão pela qual devem ser reconhecidos como insumos. (Processo nº 19515.721042/2017-62; Acórdão nº 3402-006.830; Relator Conselheiro Pedro Sousa Bispo; sessão de 21/08/2019) INDÚSTRIA FONOGRÁFICA. INSUMOS. DIREITOS AUTORAIS. Pela peculiaridade da atividade econômica que exerce, são imprescindíveis à indústria fonográfica a aquisição de direitos autorais para a produção d e suas obras, razão pela qual devem ser reconhecidos como insumos. (Processo nº 19515.722673/2013-75; Acórdão nº 9303-006.604; Relatora Conselheira Vanessa Marini Cecconello; sessão de 11/04/2018) NÃO-CUMULATIVIDADE. INDÚSTRIA FONOGRÁFICA. DIREITOS AUTORAIS. Fl. 1273DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 48 Os direitos autorais pagos pela indústria fonográfica só dão direito a crédito da Cofins e da Contribuição para o PIS/Pasep não cumulativas se tiverem se sujeitado ao pagamento da Cofins-importação e da Contribuição para o PIS/Pasep importação. (Processo nº 15374.970011/2009-24; Acórdão nº 3801-003.639; Relator Conselheiro Paulo Antonio Caliendo Velloso Da Silveira; sessão de 22/07/2014) Diante do exposto, voto por dar provimento ao Recurso Voluntário neste tópico, para o fim de reverter as glosas relativas ao pagamento de royalties aos licenciantes pelo direito de uso de patentes para produção e comercialização de sementes certificadas (uso da tecnologia). DAS AQUISIÇÕES E FRETES DE BENS SUJEITOS À ALIQUOTA ZERO, SUSPENSÃO OU NÃO INCIDÊNCIA Conforme supra relatado, a fiscalização glosou créditos sobre a aquisição de bovinos, nos seguintes termos: A aquisição de bovinos, por parte da contribuinte, só teria sentido para incorporar - se ao ativo imobilizado (animais reprodutores), ou para revenda. No caso, a descrição constante nas notas fiscais não indica se tratar de animais reprodutores. Acrescente-se que as saídas dos fornecedores foram registradas sem a apuração de pagamento de PIS/Cofins (CSTs 06, 07 e 49). Dessa forma, não sendo insumo do processo produtivo e tampouco sofrido pagamento das contribuições (art. 3º, caput e § 2º, II, das Leis nºs 10.637/2002 e 10.833/2003, reproduzido no tópico seguinte), não há previsão legal para o crédito dessas entradas. Ainda, a fiscalização manifestou o entendimento de que “em se tratando de aquisição de insumo não sujeito ao pagamento das contribuições (alíquota zero/suspensão/não incidência de PIS/Cofins), não há que se falar em crédito do frete de compra associado”, uma vez que o frete integra o custo de aquisição dos bens transportados, sendo admitido o seu creditamento apenas quando o bem adquirido for passível de gerar crédito, o que foi mantido pelo v. acórdão recorrido. Em seu Recurso Voluntário, a recorrente sustenta que “não apenas é legítimo o direito ao crédito relacionado às aquisições dos bens sujeitos à alíquota zero, suspensão ou não incidência, como também do respectivo frete”. Neste sentido, alega que “a interpretação da norma deve ser feita com base na integralidade do texto legal e dando o correto uso da conjunção alternativa “OU”. Ao assim proceder, não há outra interpretação possível senão a de que o inciso II do §2º do art. 3º das Leis nºs 10.637/02 e 10.833/03 veda o desconto de crédito Fl. 1274DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 49 sobre a aquisição de bens não sujeitos ao pagamento das contribuições ao PIS e à COFINS quando a operação subsequente se sujeitar à alíquota zero, isenção ou não incidência das contribuições, o que não ocorre no caso da Recorrente”. Ainda, traz considerações acerca da sistemática não-cumulativa, para defender que “[...] da combinação dos arts. 3°, § 2°, inc. II, das Leis n° 10.637/02 e 10.833/03, com o art. 17, da Lei n° 11.033/04, sob a égide do princípio da não- cumulatividade, depreende-se que, quando a etapa anterior é desonerada e a subsequente também, não seria possível o creditamento, a contrário sensu, quando uma das etapas for tributada o crédito será possível”. No que se refere aos fretes, sustenta que se trata de relações jurídicas distintas, sendo que “[...] ainda que a mercadoria em si, por qualquer motivo, não esteja sujeita à incidência do PIS/COFINS, a empresa designada para o transporte se sujeita ao recolhimento das contribuições sobre sua receita, o que justifica o aproveitamento de crédito por quem pagou por esse serviço – no caso, a Recorrente – à luz do princípio da não-cumulatividade”, o que se aplica também ao frete de insumos. É o que passo a apreciar. Com a devida vênia, em relação ao presente tema, a legislação é clara ao estabelecer que as aquisições de produtos não sujeitos ao pagamento das contribuições ao PIS e da COFINS não permitem a apropriação de créditos pelo adquirente, nos termos do artigo 3º, §2º, inciso II, da Lei nº 10.833/03: Art. 3 o Do valor apurado na forma do art. 2 o a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: (...) § 2 o Não dará direito a crédito o valor: (...) II - da aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição, inclusive no caso de isenção, esse último quando revendidos ou util izados como insumo em produtos ou serviços sujeitos à alíquota 0 (zero), isentos ou não alcançados pela contribuição; (Grifamos) Neste sentido, a sujeição do produto à alíquota zero ou suspensão (ou, até mesmo, a não incidência) implica o não pagamento das contribuições, de modo que a subsunção das aquisições à norma que veda a apropriação de créditos pelo adquirente é inegável, sendo a jurisprudência deste e. Conselho pacífica sobre o tema. Nos mesmos termos, merece transcrição a ementa da Solução de Consulta COSIT nº 227/17: Fl. 1275DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 50 CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL – COFINS EMENTA: NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. AQUISIÇÃO DE BENS E SERVIÇOS NÃO SUJEITOS AO PAGAMENTO DA CONTRIBUIÇÃO. VEDAÇÕES DE CREDITAMENTO. É vedada a apropriação de créditos da Cofins em relação a bens e serviços adquiridos em operações não sujeitas à incidência ou sujeitas à incidência com alíquota zero ou com suspensão dessa contribuição, independentemente da destinação dada aos bens ou serviços adquiridos. É vedada a apropriação de créditos da Cofins em relação a bens e serviços adquiridos em operações beneficiadas com isenção e posteriormente: a) revendidos; ou b) util izados como insumo na elaboração de produtos ou na prestação de serviços que sejam vendidos ou prestados em operações não sujei tas ao pagamento dessa contribuição. DISPOSITIVOS LEGAIS: Lei nº10.833/2003, arts. 3º, § 2º, II, e 6º, III. (Grifamos) Por outro lado, no que se refere aos fretes, tal matéria já foi amplamente analisada perante este e. Tribunal, tendo sido editada a Súmula CARF nº 188, cuja observância é obrigatória pelos Conselheiros do CARF, ex vi do art. 123, §4º do Regimento Interno do CARF (RICARF), que assim dispõe: Súmula CARF nº 188. É permitido o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Contribuição para o PIS/Pasep e pela Cofins não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições. Desta forma, este e. CARF reconhece o direito de apropriação de créditos da não- cumulatividade das contribuições ao PIS e da COFINS sobre as despesas com serviços de frete, de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, o que alcança tanto bens adquiridos para revenda quanto insumos não onerados pelas contribuições (alíquota zero). Por tais razões, voto por dar parcial provimento ao recurso neste tópico, no sentido de reverter as glosas sobre fretes na aquisição de bens e insumos sujeitos à alíquota zero, suspensão ou não incidência. FRETE DE MERCADORIA RECEBIDA COM FIM ESPECÍFICO DE EXPORTAÇÃO Conforme supra relatado, a fiscalização glosou os créditos apropriados pela recorrente, na condição de comercial exportadora, sobre fretes no transporte de mercadorias recebidas ou adquiridas de terceiros com o fim específico de exportação, com base no §4º, inciso III, do artigo 6º da Lei nº 10.833/03, abaixo transcrito: Art. 6º A COFINS não incidirá sobre as receitas decorrentes das operações de : [...] III - vendas a empresa comercial exportadora com o fim específico de exportação. Fl. 1276DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 51 § 1º Na hipótese deste artigo, a pessoa jurídica vendedora poderá utilizar o crédito apurado na forma do art. 3º, para fins de: I - dedução do valor da contribuição a recolher, decorrente das demais operações no mercado interno; II - compensação com débitos próprios, vencidos ou vincendos, relativos a tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, observada a legislação específica aplicável à matéria. [...] § 3º O disposto nos §§ 1º e 2º aplica-se somente aos créditos apurados em relação a custos, despesas e encargos vinculados à receita de exportação, observado o disposto nos §§ 8º e 9º do art. 3º. § 4º O direito de utilizar o crédito de acordo com o § 1º não beneficia a empresa comercial exportadora que tenha adquirido mercadorias com o fim previsto no inciso III do caput, ficando vedada, nesta hipótese, a apuração de créditos vinculados à receita de exportação. (Grifamos) No mesmo sentido, o v. acórdão recorrido manteve as glosas, por entender que “[...] está vedada a apuração de créditos correspondentes às aquisições das mercadorias exportadas e, também, aos demais créditos acaso vinculados a tais operações, tais como custos, despesas e encargos incorridos até a colocação desta mercadoria no exterior”. Em seu Recurso Voluntário, a recorrente sustenta que o dispositivo supratranscrito atingiria “[...] apenas o crédito decorrente das mercadorias adquiridas para fins de exportação, e não aos serviços (frete), contratados para o desempenho de suas atividades, uma vez que tais custos não estão abarcados pela isenção do tributo. Os prestadores do serviço de transporte das mercadorias são contribuintes do PIS/COFINS, motivo pelo qual é assegurado o direito de tomada de crédito relativo a estas despesas, em atendimento ao princípio da não cumulatividade dessas contribuições”. Ainda, destaca que “[...] o frete em questão, como foi mencionado pela própria fiscalização, é relacionado à operação de venda, sendo hipótese expressamente permitida pelo art. 3º, inciso IX c/c art. 15 da Lei 10.833/03, desde que o ônus seja suportado pelo vendedor, como ocorreu no presente caso”. Entendo que assiste razão à recorrente. Trata-se de matéria que vem sendo debatida perante este e. CARF, sendo que, por concordar com os seus argumentos, transcrevo os fundamentos do v. acórdão nº 3402-009.133, de lavra da i. ex- Conselheira Renata da Silveira Bilhim, que bem analisaram a controvérsia, os quais adoto como razões para decidir, conforme autorizado pelo artigo 50, §1º, da Lei nº 9.784/99: Antes de tudo, parece-me que a intenção do legislador infraconstitucional é desonerar as exportações e gerar um superávit na balança comercial, assim como a Fl. 1277DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 52 do legislador constitucional que, por meio da Emenda Constitucional nº 33/2001, incluiu o parágrafo segundo ao art. 149, da CF, assegurando a não incidência (imunidade) das contribuições sociais (PIS e COFINS) sobre as receitas decorrentes de exportação, ex vi do art. 149, § 2º, da CF, verbis: At. 149. (...) § 2º As contribuições sociais e de intervenção no domínio econômico de que trata o caput deste artigo: (Incluído pela Emenda Constitucional nº 33, de 2001) I - não incidirão sobre as receitas decorrentes de exportação; (Incluído pela Emenda Constitucional nº 33, de 2001) (grifou-se) Sendo certo que tal imunidade alcança também as exportações indiretas, por comerciais exportadoras e trading company, conforme já definiu o STF no julgamento do RE 759.244/SP, em 25/03/2020, ao qual se atribuiu os efeitos de repercussão geral (tema 674), resultando na fixação da seguinte tese: “A norma imunizante contida no inciso I do §2º do art. 149 da Constituição da República alcança as receitas decorrentes de operações indiretas de exportação caracterizadas por haver participação de sociedade exportadora intermediária”. O art. 6º, incisos I e III, da Lei nº 10.833/03, repetiu o comando constitucional e reiterou que a COFINS e o PIS não incidem sobre as receitas decorrente de exportação e aquelas derivadas de a empresa comercial exportadora com o fim específico de exportação. Apesar da impossibilidade da incidência das aludidas contribuições sobre as receitas de exportação, o legislador ordinário permitiu, em nome do princípio da não cumulatividade, a apropriação de créditos relativos aos custos, despesas e encargos vinculados à receita de exportação (§ 3º, do art. 6º, da Lei nº10.833/03), o que poderia ser realizado por meio de dedução de valores devidos de tais contribuições, decorrente das demais operações no mercado interno; compensações com débitos próprios, ou, na sua impossibilidade, mediante pedido de ressarcimento (§ 1º e 2º, do art. 6º, da Lei nº10.833/03). Ocorre que, no tocante às exportações por comerciais exportadoras que adquirem mercadorias com o fim específico de exportação, a legislação vedou a apropriação de créditos vinculados à receita de exportação: Art. 6º. § 4º O direito de utilizar o crédito de acordo com o § 1º não beneficia a empresa comercial exportadora que tenha adquirido mercadorias com o fim previsto no inciso III do caput, ficando vedada, nesta hipótese, a apuração de créditos vinculados à receita de exportação. Veja-se, da leitura do dispositivo acima, não me parece que existe outra interpretação senão a de que a vedação nele contida diz respeito aos custos derivados da aquisição das mercadorias que serão exportadas com fim específico de exportação. Fl. 1278DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 53 Noutras palavras, o legislador ordinário quando previu o benefício em questão tratou de ressalvar, expressamente, a hipótese em que a empresa comercial exportadora adquire mercadoria com o fim exclusivo de exportação, vedando, nesta hipótese, a apuração de créditos vinculados à receita de exportação (art. 6º, §4º) - entenda-se decorrentes da venda da mercadoria. Não vejo, desta forma, como dar o alcance pretendido pela autoridade fazendária e pela DRJ ao § 4º, do art. 6ª, da Lei n. 10.833/2003. O que o legislador fez foi reafirmar didaticamente a regra dos art. 3º, § 2º, inciso II, das Leis nºs. 10.833/03 e 10.637/02, inviabilizando o crédito decorrente de aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição, como é o caso da aquisição de mercadorias com fim específico de exportação. Melhor explicando: como os produtos adquiridos pela comercial exportadora para fins de exportação não foram onerados pelas contribuições ao PIS e à COFINS quando da saída da empresa produtora, consequentemente não irão gerar créditos em favor da comercial exportadora. Isso porque a empresa produtora representa o final do ciclo produtivo e, como tal, deve se beneficiar dos créditos das etapas anteriores tendo em vista que a saída do produto para exportação não será tributada. O que gera nenhum prejuízo à comercial exportadora, uma vez que sobre a saída destas mercadorias para a exportação não incidirão as referidas contribuições. É exatamente por esse motivo que o § 4º do art. 6º da Lei n. 10.833/2003 veda a apuração de crédito pela comercial exportadora referentemente aquisição de mercadorias destinadas à exportação. Se assim não o fosse, a comercial exportadora se beneficiaria de um crédito já utilizado pela empresa produtora no final do ciclo produtivo. Ou seja, o crédito seria utilizado em duplicidade. Essa duplicidade que a lei visa a proibir, não ocorre com relação aos custos e despesas indiretas que são suportados pela comercial exportadora, as quais geram o direito ao crédito ao exportador, conforme art. 3º, da Lei nº 10.833/03 e 10.637/02. Entendimento diverso, ou seja, o impedimento ao creditamento de despesas e custos indiretos vinculados à exportação e suportados pelo exportador, resultaria em onerar reflexamente as operações de exportação. Além de gerar violação direta ao princípio constitucional da não cumulatividade, cujo objetivo é desonerar a carga tributária, buscando evitar a cumulação da incidência dos tributos ao longo da cadeia econômica. Por exemplo, os custos com fretes na venda e armazenagem não são desonerados pelas contribuições ao PIS e à COFINS, portanto são suportados pela Recorrente (art. 3º, inciso IX), e, em obediência ao regime da não-cumulatividade, ela poderá aproveitar os créditos das etapas anteriores, pois, caso contrário, teria que arcar com o ônus da tributação de toda cadeia. Com efeito, entendo que o § 4º, do art. 6º, da Lei 10.833/2004, não tem aplicaçã o no caso concreto ora analisado, já que apenas proíbe que a exportadora se aproveite de créditos que pertenciam à produtora. Já os créditos decorrentes da contratação de fretes na venda, de armazenamento, insumos, entre outros, Fl. 1279DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 54 ocorridos por conta da exportadora, por essa podem ser aproveitados, conforme fundamentado acima. Ademais, não se pode olvidar que quanto as normas tributárias restritivas de direitos, como o caso em testilha, o Código Tributário Nacional, em seu art. 111, determina que se deve emprestar à norma interpretação restrita e literal. Ao meu sentir, se o legislador quisesse limitar o direito de crédito das comerciais exportadoras que adquirem mercadorias com fim específico de exportação a todos os custos e despesas a ela vinculados (diretos e indiretos), e não apenas àqueles atinentes diretamente à sua aquisição, o deveria ter realizado de forma expressa, não deixando margem à interpretação. Desta forma, fazendo um interpretação sistemática das normas legais, com atenção à vontade do legislador, associada à obediência ao princípio da não cumulatividade, entendo que a restrição do § 4º, do art. 6º, da Lei nº 10.833/03, deve cingir-se às despesas diretamente empregadas com a aquisição das mercadorias destinadas à exportação, não abarcando os custos indiretos, como as despesas com frete na venda, armazenagem, aquisição de insumos, aluguel, energia elétrica, dentre outros, que são suportados pelo vendedor/exportador, cujos créditos poderão ser apropriados na forma dos art. 3º, das Leis nº 10.833/03 e 10.637/02. No mesmo sentido, cita-se o seguinte julgado do e. Tribunal Regional Federal da 4ª Região: TRIBUTÁRIO. PIS. COFINS. EXPORTADORA. DESPESAS DE FRETES NACIONAIS E INTERNACIONAIS E DESPESAS DE ARMAZENAMENTO. CREDITAMENTO. Hipótese em que a Impetrante, exportadora, adquire da produtora produtos para o fim exclusivo de exportação, nos termos do artigo 6º, III, da Lei 10.833/2003. O art. 6º da Lei n. 10.833/2003 prevê que não incidirá COFINS sobre as receitas decorrentes das operações de (I) exportação de mercadorias para o exterior e (III) vendas a empresa comercial exportadora com o fim específico de exportação. Assim, A empresa produtora aproveita os créditos do PIS e da COFINS referentes às etapas anteriores e sobre a saída dos produtos para a comercial exportadora também não há incidência das contribuições, conforme lhe autoriza o parágrafo 1º do artigo 6º da Lei 10.833. Nesse caso, a Exportadora (ora Impetrante) não se credita de PIS e COFINS sobre o preço da mercadoria, eis que já estava desonerada de tais contribuições sociais a mercadoria na saída do estabelecimento produtor. Contudo, à Exportadora existe o direito de aproveitar créditos referentes às despesas com fretes contratados e despesas de armazenagem, nos termos do artigo 3º, IX, da Lei n. 10.833/2003. Não se aplica a estas circunstâncias a restrição prevista no §4º do art. 6º da Lei n. 10.833/2003, que se refere tão somente ao crédito decorrente das mercadorias adquiridas para fins de exportação, o que não é o caso. Isso porque a exportadora (Impetrante) pretende usufruir de créditos referentes às despesas de frete e armazenagem, constituídos após ter adquirido as mercadorias da produtora. (TRF4 5003026-48.2010.4.04.7201, 1ª Turma, Relator para Acórdão JOEL ILAN PACIORNIK, julgado em 21/05/2014) (Grifamos) Fl. 1280DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 55 Assim, voto por dar provimento ao recurso neste tópico, para o fim de reverter as glosas sobre fretes no transporte de mercadorias recebidas ou adquiridas de terceiros com o fim específico de exportação, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições. FRETES DIVERSOS Neste tópico, a recorrente contesta a glosa sobre (i) fretes de produtos acabados entre estabelecimentos da pessoa jurídica, defendendo a possibilidade de aproveitamento de créditos da não-cumulatividade com base nos incisos II e IX do artigo 3º das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03, e (ii) de devoluções de vasilhame ou sacaria ou de compra, bem como de compra ou transferência de imobilizado; sustentando se tratar de insumos relacionados à divulgação de seus produtos e despesas com a venda de bens. É o que passo a apreciar. No que se refere aos fretes de produtos acabados, este e. CARF editou a Súmula CARF nº 217, cuja observância é obrigatória pelos Conselheiros do CARF, ex vi do art. 123, §4º do Regimento Interno do CARF (RICARF): Súmula CARF nº 217. Os gastos com fretes relativos ao transporte de produtos acabados entre estabelecimentos da empresa não geram créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e de Cofins não cumulativas. Assim, independentemente do entendimento pessoal deste julgador, deve ser observado o entendimento sumulado, no sentido de manter a glosa sobre os gastos com fretes relativos ao transporte de produtos acabados entre estabelecimentos. Por fim, considerando que a recorrente não traz argumentos ou provas com o fim de relacionar as remessas de devoluções de vasilhame ou sacaria ou de compra, bem como, de compra ou transferência de imobilizado, com as operações de venda, de modo a corroborar o suposto direito creditório pretendido, voto por manter a glosa sobre tais dispêndios. DAS AQUISIÇÕES DE BENS UTILIZADOS COMO INSUMO MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO E OBRA CIVIL Conforme supra relatado, a fiscalização efetuou a glosa de itens vinculados às contas contábeis analíticas de nº 1010522002 (‘Material de construção) e 5010306005 (‘Material de obra civil), como cimento, arame ovalado, chapas, areia, brita, tijolos, telhas, materiais elétricos como fios, lâmpadas, etc, sob o Fl. 1281DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 56 fundamento de que “os materiais aqui tratados, diferentemente de peças empregadas em máquinas e equipamentos do processo produtivo, não se subsomem no conceito de insumo para fins de apuração de créditos da não cumulatividade das contribuições. Falta-lhes preencher os critérios de essencialidade ou da relevância para a produção dos bens ou prestação do serviço”. Ressaltou, ainda, que o legislador reservou, para edificações e benfeitorias, o creditamento com base no valor de depreciação (art. 3º, caput e §1º, III, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03), de modo que os gastos com materiais de construção e obras devem, portanto, primeiramente ser imobilizados para então usufruir do crédito com base no valor da depreciação do bem. No que se refere às alegações da recorrente (em sede de fiscalização) de que os materiais foram utilizados para manutenção nas estruturas operacionais, a autoridade fiscal manifestou o seguinte entendimento: As alegações de que os materiais foram utilizados para manutenção nas estruturas operacionais não justificam o alegado direito ao crédito. A uma, porque a estrutura de contas contábeis informada não permite distinguir se os materiais foram empregados em estruturas do processo produtivo ou em obras de finalidade administrativa. Pelo contrário, aponta-se para “GASTOS GERAIS”, conforme estrutura hierárquica de contas abaixo: [...] A duas, porque além de produtos de fabricação própria, a empresa comercializa produtos de terceiros, e não há apuração de créditos de insumo na atividade comercial (igualmente há contabilização de “Gastos Gerais”, sem distinção). A três, porque há uma série de bens ou grupo de bens que superam em muito, às vezes na casa de dezenas ou centenas de milhares de reais, o limite para bens de pequeno valor previsto no art. 15 do Decreto-lei nº 1.598, de 1977, bem como afiguram ter vida útil superior a um ano (chapas, vigas, estruturas metálicas, painéis, etc.): Art. 15. O custo de aquisição de bens do ativo não circulante imobilizado e intangível não poderá ser deduzido como despesa operacional, salvo se o bem adquirido tiver valor unitário não superior a R$ 1.200,00 (mil e duzentos reais) ou prazo de vida útil não superior a 1 (um) ano. Não há, portanto, previsão legal de crédito com base inciso II do caput do art. 3º das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003, como pretende a fiscalizada, devendo ser glosadas as aquisições de material de construção [...] Por sua vez, com base no Parecer Normativo Cosit nº 5, de 2018, o v. acórdão recorrido manifestou o entendimento de que “diversamente do que dispôs a autoridade fiscal, é de se entender que, ainda que aplicados em edificações e Fl. 1282DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 57 benfeitorias, os dispêndios com a manutenção regular são geradores de créditos não cumulativos, desde que os ativos mantidos sejam empregados em qualquer etapa do processo produtivo e desde que os reparos e não confiram extensão à vida útil do bem superior a um ano” [sic]. Ressalta, ainda, que “[o] Parecer, citando legislação originária da tributação do imposto sobre a renda, acrescenta mais um elemento na caracterização do dispêndio como sendo de manutenção regular e, portanto, apto à geração de créditos não cumulativos diretamente, sem passar pelo ritmo dos encargos de depreciação. Cuida-se do pequeno valor do gasto, no caso, até R$ 1.200,00”. Entretanto, a D. DRJ entendeu pela manutenção das glosas ora combatidas, com base nos seguintes fundamentos: Voltando-se à situação dos autos, aponta a fiscalização para a ocorrência de gastos com materiais que, efetivamente, não configuram mera manutenção ordinária das instalações. Inspecionando-se a relação de itens glosados presente na planilha anexa ao Relatório Fiscal, verifica-se a recusa de créditos sobre a aquisição de transformadores, caixa de água, pias de mármore, portas de alumínio, coluna pré- moldada de concreto, janelas, pisos cerâmicos, telhas, tijolos entre outros itens que, além de superarem o valor de R$ 1.200,00, adotado como definição de gasto de pequeno valor, autorizam, de fato, o entendimento que não se trata de aquisição de bens vinculados à manutenção periódica de instalações, mas mais propriamente ao emprego em edificações novas ou em reformas que conferem aumento de vida útil superior a um ano. Adicionalmente, como anotou a autoridade fiscal, não se pode afastar o emprego dos materiais em edificações administrativas ou comerciais, não vinculadas à atividade produtiva e, portanto, fora do âmbito do creditamento no regime não cumulativo. Para se caracterizarem como geradores de créditos, os gastos com manutenção, devem estar comprovadamente atrelados a ativos responsáveis por qualquer etapa do processo de produção de bens destinados à venda. Como essa comprovação não veio aos autos, não se pode afastar a hipótese de terem sido os itens alvo da glosa empregados em instalações administrativas. Ademais, tratando-se de materiais de construção e de manutenção predial, a apropriação do crédito correspondente diretamente sobre o custo de aquisição dependeria, uma vez confirmada a hipótese de manutenção de ativos relacionados a alguma etapa da produção, da comprovação de que o ganho com a conservação não estenderia por mais de um ano a vida útil das instalações, prova também não produzida pela interessada. Em seu Recurso Voluntário, a recorrente contesta a conclusão adotada, pleiteando o reconhecimento do direito creditório pleiteado, com base nos seguintes argumentos de fato e de direito: In casu, conforme se extrai da descrição do processo produtivo constante do tópico “IV.1”, a Recorrente possui uma área total de aproximadamente 583 mil hectares Fl. 1283DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 58 cultivados, nas quais existem inúmeras edificações operacionais, voltadas a produção, beneficiamento e armazenamento de grãos, sementes, algodão e rebanho bovino. Ademais, proporcionalmente, as dependências destinadas às atividades administrativas são ínfimas, frente às dimensões da área produtiva. Nesse sentido, as dimensões dos empreendimentos da Recorrente, bem como a proporção entre áreas administrativas e operacionais fica evidente das imagens abaixo: • Sede da Fazenda Colorado (Diamantino/MT): [...] • Fazenda Fartura (Campo Verde-MT) [...] (pp. 49/50, do parecer técnico) A reduzida dimensão das áreas administrativas frente às produtivas foi, inclusive, observada pelo perito responsável pela elaboração do parecer técnico anexado ao presente recurso: [...] Isso fica ainda mais claro, se considerado o apontamento feito pelo parecerista, de que “não há estruturas administrativas relevantes que possam impactar, ou mesmo compor, as compras no mercado interno de material de construção e de obra civil, tampouco a empresa possui atividade comercial de revenda de produtos relevante.” (p. 52 do parecer técnico). Dito de outro modo, a Recorrente não opera como vendedora. Assim, não reflete a realidade dos fatos o fundamento utilizado pela DRJ, no sentido de que o crédito pleiteado careceria de liquidez e certeza, por falta de demonstração da Recorrente de que os materiais de construção foram utilizados na manutenção de bens relacionados à produção. [...] Ademais, para a perfectibilização da atividade econômica da Recorrente, todas as etapas devem ser realizadas com a máxima eficiência, uso de material de qualidade e um ambiente que atenda às condições de segurança dos recursos humanos e financeiros empregados nas operações. A título exemplificativo, na atividade desenvolvida no setor agrícola, é de rigor que todos os galpões destinados a estocagem dos insumos, produtos em elaboração e acabados, bem como os prédios utilizados nas etapas operacionais, estejam com suas manutenções em dia, visto que se referem a mercadorias frágeis e que não suportam a exposição a temperaturas extremas ou condições de umidade fora dos padrões exigidos. De igual sorte, os estabelecimentos destinados a atividade pecuária, os cochos das praças de alimentação, as unidades de fabricação e galpões de armazenagem das rações, devem permanecer íntegros, sem apresentar qualquer risco à saúde do rebanho e a qualidade da alimentação. Fl. 1284DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 59 Portanto, todas as infraestruturas físicas utilizadas pela Recorrente necessitam de constantes reparos e manutenções, para possibilitar a fabricação e comercialização do produto final. Logo, os gastos incorridos na aquisição dos materiais de construção e obra civil, tais como cimento, arame ovalado, chapas, vigas, estruturas metálicas, areia, brita, tijolos, telhas, materiais elétricos, fios e lâmpadas, entre outros, destinados à manutenção das referidas estruturas são essenciais e necessários, garantindo à Recorrente o direito ao aproveitamento dos créditos decorrentes. Para elucidar a questão, seguem algumas fotos das unidades da Recorrente que necessitam de reparo ou foram submetidas a manutenção recente: [...] PRAÇAS DE ALIMENTAÇÃO – ESSENCIAIS À PRODUÇÃO – QUE NECESSITAM DE REPARO [...] ARMAZÉM DE RAÇÃO DE BOVINO (ESQ.) E DEPÓSITO DE GRÃO (DIR.) QUE NECESSITAM DE REPAROS [...] UNIDADE FABRIL DE FABRICAÇÃO DAS RAÇÕES, RECÉM SUBMETIDA À MANUTENÇÃO, COM EMPREGO DE MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO, PARA REPARO ESTRUTURAL Adicionalmente a isso, o parecer técnico trouxe diversas evidências de que o material que deu origem ao direito creditório pleiteado pela Recorrente foi destinado à manutenção das áreas produtivas (páginas 52/55 do parecer técnico): Veja-se o produto “CHAPA GALVANIZADA”, que é um material cujos créditos de PIS/COFINS das aquisições foram glosados pelo Fisco, conforme planilha “Glosa Materiais de Construção”, parte integrante do RELATÓRIO DE AUDITORIA e-Dossiê 10265.004190/2021- 10. Foram R$ 919.693,65 adquiridos, e, notadamente, o seu uso é operacional, na manutenção de Silos, telhas de armazéns e calhas, com ou sem isolamento térmico (necessidade de se manter a temperatura controlada em ambientes de armazenamento de sementes). Observe-se algumas imagens de Chapas Galvanizadas: [...] Essas chapas são utilizadas em telhados ou paredes de Silos, Galpões etc. [...] Com efeito, é inequívoco que todo edifício sofre degradação ao longo do tempo, precisando de cuidados técnicos para preservar o seu bom desempenho, manutenção de condições compatíveis com as exigidas pelos órgãos regulamentadores, as boas condições técnicas e de segurança das construções. Para tanto, para a manutenção do ambiente em condições tais que possibilitem a efetivação da produção, livre de fatores de contaminação que colocariam em risco a segurança dos recursos envolvidos, a Recorrente se vê obrigada a arcar com os Fl. 1285DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 60 custos da aquisição dos materiais de construção e obras civis, sendo imperioso o reconhecimento do alcance do conceito de insumo para fins do aproveitamento dos créditos oriundos das contribuições. Nesse sentido, a Recorrente apropriou-se regular e legalmente dos créditos oriundos dos serviços destacados, em razão de sua essencialidade para a garantia da efetivação da produção da empresa, restando inequívoca a irregularidade das glosas ora combatidas. Por outro lado, também não procede o argumento da DRJ de que os materiais utilizados na manutenção das áreas produtivas superariam o valor individual de R$ 1.200,00 e/ou incrementariam a vida útil do bem em período superior a um ano (conforme entendimento extraído do PN Cosit nº 5, de 2018): [...] Nesse ponto, são valiosos os elementos trazidos pelo parecer técnico, o qual analisou cada um dos itens utilizados na manutenção das áreas produtivas e constatou que o limite individual de R$ 1.200,00 não foi extrapolado (pp. 59/61 do parecer técnico), contrariando a conclusão veiculada pelo acórdão recorrido. A título de exemplo, podemos destacar os trechos abaixo, extraídos do parecer em questão: Em relação ao limite de R$ 1.200,00, que permite a classificação como despesa operacional, o qual não foi ultrapassado (artigo 313 do RIR/2018). Para demonstrar esse ponto, utiliza-se os 10 maiores dispêndios, os quais, de antemão, não correspondem a dezenas ou milhares de reais, como consta do relatório da fiscalização. [...] Analisando as Notas Fiscais, obtidas em consulta ao site da Nota Fiscal eletrônica, https://www.nfe.fazenda.gov.br/portal/consultaRecaptcha.aspx?tipoConsul ta=resumo&tipoConteudo=7PhJ%20gAVw2g=, extrai-se a informação de que nenhum dos materiais acima, unitariamente, ultrapassou o limite de R$ 1.200,00, vejamos: [...] Resta claro, portanto, que também não procede a acusação da Fiscalização, referendada pela DRJ, de que teria sido desrespeitado o limite individual de R$ 1.200,00, estabelecido no Parecer COSIT 05/2018. De outra parte, ponderou o Fisco que “a estrutura de contas contábeis informada não permite distinguir se os materiais foram empregados em estruturas do processo produtivo ou em obras de finalidade administrativa”. Contudo, a glosa também não se sustenta sob tal argumento. Explica-se. Os gastos com essas reformas não são reconhecidos contabilmente como ativo imobilizado pelo fato de não refletir, para o bem objeto de manutenção, em acréscimo de vida útil superior a um ano, conforme determina o CPC 27 (comitê de pronunciamento contábil). Fl. 1286DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 61 O Pronunciamento Técnico, em seus itens 12 e 13, traz um tratamento próprio para os casos em apreço: “12. Segundo o princípio de reconhecimento do item 7 do CPC 27, a entidade não reconhece no valor contábil de um item do ativo imobilizado os custos da manutenção periódica do item. Pelo contrário, esses custos são reconhecidos no resultado quando incorridos. Os custos da manutenção periódica são principalmente os custos de mão-de-obra e de produtos consumíveis, e podem incluir o custo de pequenas peças. A finalidade desses gastos é muitas vezes descrita como sendo para “reparo e manutenção” de item do ativo imobilizado. 13. Partes de alguns itens do ativo imobilizado podem requerer substituição em intervalos regulares. Por exemplo, um forno pode requerer novo revestimento após um número específico de horas de uso; ou o interior dos aviões, como bancos e equipamentos internos, pode exigir substituição diversas vezes durante a vida da estrutura. Itens do ativo imobilizado também podem ser adquiridos para efetuar substituição recorrente menos frequente, tal como a substituição das paredes interiores de edifício, ou para efetuar substituição não recorrente. Segundo o princípio de reconhecimento do item 7, a entidade reconhece no valor contábil de um item do ativo imobilizado o custo da peça reposta desse item quando o custo é incorrido se os critérios de reconhecimento forem atendidos.” Logo, de acordo com o pronunciamento enunciado acima, a Receita Federal apenas reconhece o valor contábil das pequenas reformas como item do ativo imobilizado, quando a manutenção não tem finalidade de manutenção periódica, que se repete exercício após exercício. Nesse contexto, é importante mencionar novamente a conclusão contida no parecer técnico de que os créditos pleiteados pela Recorrente são relacionados a despesas com manutenção de prédios diretamente relacionados aos setores produtivos da Recorrente. Tal entendimento foi possível a partir do exame de toda a estrutura operacional, bem como dos assentamentos contábeis da Contribuinte, os quais realizam a segregação entre os materiais e serviços empregados na área operacional, daqueles aplicados na manutenção administrativa: “Ainda assim, a contabilidade da BOM FUTURO promove a segregação de apontamento das manutenções realizadas em unidade operacional (lançadas em conta contábil com o código 5 - formação de custo) daquelas relacionadas a manutenção administrativa (lançadas em conta contábil com o código 3). A partir de tudo isso, extrai-se a conclusão de que os materiais em questão foram empregados nas estruturas do processo produtivo da empresa.” (p. 51 do parecer técnico) Assim, resta incontroverso que a Recorrente cumpriu todas as regras tributárias e contábeis quanto ao enquadramento do dispêndio em referência como custo corrente. E, portanto, inquestionável que os gastos incorridos estão intrinsicamente vinculados ao seu complexo produtivo agropecuário, sendo-lhe essenciais, o que justifica o aproveitamento do crédito postulado. Fl. 1287DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 62 Destarte, fica evidente que os gastos com os reparos dos galpões, dos armazéns, e os materiais e serviços de manutenções inerentes, estão ligados diretamente à produção, ainda que não ativados em cumprimento ao CPC 27, devendo ser procedida a reforma do v. acórdão recorrido, com o consequente cancelamento das glosas e deferimento da integralidade do crédito. É o que passo a apreciar. Inicialmente, cumpre destacar que a Receita Federal já reconheceu, no âmbito do Parecer Normativo Cosit nº 5/18, que “[...] são considerados insumos geradores de créditos das contribuições os bens e serviços adquiridos e utilizados na manutenção de bens do ativo imobilizado da pessoa jurídica responsáveis por qualquer etapa do processo de produção de bens destinados à venda e de prestação de serviço”. Neste sentido, merece menção também o artigo 176, § 1º inciso VII, da Instrução Normativa RFB nº 2121/22: Art. 176. Para efeito do disposto nesta Subseção, consideram-se insumos, os bens ou serviços considerados essenciais ou relevantes para o processo de produção ou fabricação de bens destinados à venda ou de prestação de serviços (Lei nº 10.637, de 2002, art. 3º, caput, inciso II, com redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004, art. 37; e Lei nº 10.833, de 2003, art. 3º, caput, inciso II, com redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004, art. 21). § 1º Consideram-se insumos, inclusive: [...] VII - bens de reposição e serviços utilizados na manutenção de bens do ativo imobilizado utilizados em qualquer etapa do processo de produção de bens destinados à venda ou de prestação de serviços cuja utilização implique aumento de vida útil do bem do ativo imobilizado de até um ano; Ademais, os fundamentos indicados pelo v. acórdão recorrido para manutenção da glosa, quais sejam, (i) tratar-se de gasto de pequeno valor (até R$ 1.200,00); (ii) ausência de emprego dos materiais em edificações administrativas ou comerciais, (iii) materiais atrelados ao ativo responsável pelo processo produtivo, e (iv) comprovação de que o ganho com a conservação não estenderia por mais de um ano a vida útil das instalações, foram todos refutados pela recorrente, com suporte no Parecer Técnico colacionado aos autos às fls. 1080/1193. Conforme supra reproduzido, o referido Parecer Técnico demonstrou que, nas propriedades da recorrente, a proporção das instalações operacionais corresponde à quase totalidade da estrutura, e há uma pequena sede administrativa, irrelevante em termos de construção. Ainda assim, ressaltou-se que “[...] a contabilidade da BOM FUTURO promove a segregação de apontamento das manutenções realizadas em unidade operacional (lançadas em Fl. 1288DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 63 conta contábil com o código 5 - formação de custo) daquelas relacionadas a manutenção administrativa (lançadas em conta contábil com o código 3). Ademais, analisando contabilmente os insumos adquiridos e utilizados na manutenção de estruturas operacionais, constatou-se “que os custos unitários não ultrapassam o valor de R$ 1.200,00 e possuem vida útil inferior a 1 ano, permitindo sua classificação como despesa operacional, na forma do artigo 313 do RIR/2018”, sendo destacado que, em relação à vida útil, o fator determinante é a utilização e não a descrição do bem. Por fim, demonstrou-se que os itens glosados são essenciais para manutenção das instalações produtivas da empresa, especialmente, na manutenção de Silos, telhas de armazéns e calhas, com ou sem isolamento térmico. Pelo exposto, voto por dar provimento ao recurso neste tópico, para o fim de reverter as glosas sobre bens adquiridos e utilizados para manutenção dos bens do ativo imobilizado da pessoa jurídica responsáveis pelo processo produtivo. DAS AQUISIÇÕES DE SERVIÇOS UTILIZADOS COMO INSUMO SERVIÇOS DE MANUTENÇÃO CIVIL DE PRÉDIOS Conforme se verifica do Relatório Fiscal, a fiscalização manifestou o entendimento de que “[a]ssim como os Materiais de Construção e de Obra Civil foram glosados (v. Item II.2.1.1), o “SERVICO DE MANUTENCAO CIVIL - PREDIOS OPERACIONAIS” também não se amolda ao conceito de insumo para fins de apuração de créditos da não cumulatividade das contribuições”. Ressaltou, ainda, que “[b]asta verificar as notas apresentadas que se constata, inclusive, que os serviços extrapolam em muito a mera manutenção de prédios, tratando-se em alguns casos de obras de construção civil, a exemplo de “...EXECUÇÃO DE SERVIÇOS DE TERRAPLENAGEM, PAVIMENTAÇÃO DE DRENAGEM REALIZADOS NA FAZENDA 3 IRMÃOS” (NF nº 9, de 21/06/2019, emitida por GUAXE CONSTRUTORA LTDA, CNPJ 02.837.996/0001-10, no valor de R$ 658.030,42, fls. 365); “...CONSTRUÇÃO DO BARRACÃO…” e “SERVIÇO DE CONSTRUÇÃO PONTE…” (NFs nºs 60 e 65, de 20/04/2018 14/06/2018, emi7das por DAMIAO FIGUEIREDO EIRELI, CNPJ 25.191.377/0001-04, nos valores de R$ 39.300,00 e R$ 50.000,00, fls. 270 e 313); “FABRICACAO E MONTAGEM DE OFICINA E LANTERNIN TROCAR TELHA, FECHAMENTO FRONTAL, JANELAS BASCULANTE, COBERTURA DE CHIQUEI….” (NF 118, de 20/04/2018, emi7da por JC METALURGICA LTDA, CNPJ 24.538.950/0001-32, no valor de R$ 58.710,00, fls. 274), etc.. Não à toa, os participantes são, via de regra, construtoras: SANTOS CONSTRUTORA (fls. 246 e 349), VOIGT CONSTRUÇÕES (fls. 306 e 341), G2 CONSTRUTORA (fls. 311 e 321)”. Segundo a fiscalização, tais serviços, se preenchidos os critérios previstos no art. 3º, caput e §1º, III, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03, poderiam gerar crédito Fl. 1289DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 64 com base no valor mensal de depreciação, mas não com base na aquisição de insumos. No mesmo sentido, o v. acórdão recorrido entendeu por manter a glosa, reforçando “[...] a afirmativa da fiscalização de que os prestadores de serviços são empresas de construção indicando obras que ultrapassam os limites das despesas com manutenção regular de edificações”. Em seu Recurso Voluntário, a recorrente reitera o exposto no tópico anterior, defendendo o direito ao aproveitamento de créditos, com base no entendimento de que “[...] é de rigor que todos os galpões destinados a estocagem dos insumos, produtos em elaboração e acabados, bem como os prédios operacionais utilizados pela Recorrente, estejam com suas manutenções em dia”. Ainda, destaca que a análise contida no parecer técnico anexado ao processo, em que foram examinados cada um dos serviços glosados pela fiscalização, concluiu que “[...] ao contrário do que foi alegado pelo Sr. Agente Fiscal e confirmado pela DRJ, os serviços são i) essenciais para que a estrutura operacional permaneça em funcionamento; e ii) caracterizam-se como de manutenção periódica dos ativos, prescindindo de ativação, por serem custos de manutenção e reparo do ativo imobilizado”: Perante o exposto nesse tópico, os serviços de manutenção civil de prédios referem- se à manutenção periódica dos ativos que, conforme o item 12, do CPC 27, não devem ser reconhecidos como parte integrante do ativo, visto serem considerados como custos de manutenção e reparo do ativo imobilizado. Vale reafirmar que toda a manutenção realizada foi essencial para manter a estrutura operacional em funcionamento; sem a devida conservação tornar-se-ia inviável a manutenção da cadeia produtiva. (fls. 76 do parecer técnico) Por tais razões, a recorrente sustenta que “[...] os gastos incorridos na aquisição dos serviços de manutenção das referidas estruturas são essenciais e necessários, devendo ser reformado o acórdão DRJ e revertidas as glosas ora combatidas, com o consequente deferimento integral do ressarcimento pleiteado”. É o que passo a apreciar. Inicialmente, reporta-se ao que foi decidido no tópico anterior, no que se refere à possibilidade de aproveitamento de serviços utilizados na manutenção de bens do ativo imobilizado utilizados em qualquer etapa do processo produtivo, cuja utilização implique aumento de vida útil do bem do ativo imobilizado de até um ano, nos termos do Parecer Normativo Cosit nº 5/18 e artigo 176, § 1º inciso VII, da Instrução Normativa RFB nº 2121/22. No que se refere ao enquadramento de tais itens aos requisitos normativos exigidos para apropriação dos créditos da não-cumulatividade, cumpre transcrever excerto do Parecer Técnico colacionado aos autos, no qual é analisada a natureza e o objeto de tais contratações: Fl. 1290DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 65 Iniciando-se pela análise do documento fiscal “NF nº 9, de 21/06/2019, emitida por GUAXE CONSTRUTORA LTDA, CNPJ 02.837.996/0001-10, no valor de R$ 658.030,42, fls. 365”: [...] Constata-se que, dos R$ 658.030,42 do valor total da Nota Fiscal, o montante de R$ 394.818,25 refere-se a materiais e R$ 263.212,67 a prestação de serviços, como consta do rodapé e também do campo “Base de Cálculo do ISS”: [...] Primeiramente, destaca-se que, nos serviços de manutenção, há os materiais utilizados, ou seja, a análise deve ser restrita ao serviço, devido à natureza distinta entre a efetiva prestação de serviços e os materiais utilizados. O valor total de R$ 658.030,42 contempla serviços de manutenção de pavimentação, utilizados pela BOM FUTURO para o desenvolvimento de suas atividades, visto que apenas uma estrada particular da empresa localizada em Campo Verde/MT possui 8.2km asfaltados para se chegar à sede operacional da Fazenda (vide introdução deste Parecer). O valor envolvido é condizente com a natureza de insumo, de manutenção, visto que o valor não é suficiente nem para asfaltar 1 quilometro de rodovia 3 . Nesse contexto, o valor da nota fiscal, insuficiente para se pavimentar 1 km de estrada em relação à BOM FUTURO, que possui centenas de quilômetros pavimentados, permite concluir não se tratar de obra viária, mas sim de manutenção das estradas existentes. Prosseguindo na análise, algumas Notas Fiscais são da empresa G 2 CONSTRUTORA, que presta serviços de manutenção civil em “Fossa”. Vide, a seguir, o documento fiscal: [...] No campo “Serviços Prestados”, consta expressamente “Serviços de Manutenção Civil” em “Fossa”: [...] Trata-se de manutenção em fossa, que deve ser considerando com uma obra civil, contabilizada no ativo imobilizado. Além disso, não está sujeita à depreciação mensal, nos termos do CPC 27 (Comitê de Pronunciamento Técnico), o qual disciplina que não se deve reconhecer no ativo imobilizado os custos de manutenção periódica. Conforme Pronunciamento Técnico CPC 27, item 12: “Segundo o princípio de reconhecimento do item 7, a entidade não reconhece no valor contábil de um item do ativo imobilizado os custos da manutenção periódica do item. Pelo contrário, esses custos são reconhecidos no resultado quando incorridos. Os custos da manutenção periódica são 3 Vide no site da Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística – SINFRA, do Governo do Estado do Mato Grosso, a notícia que, para se construir 56,2 quilômetros de rodovia o estado do Mato Grosso está investindo R$ 65 milhões de reais Fl. 1291DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 66 principalmente os custos de mão-de-obra e de produtos consumíveis, e podem incluir o custo de pequenas peças. A finalidade desses gastos é muitas vezes descrita como sendo para “reparo e manutenção” de item do ativo imobilizado.” Ademais, manutenção (especificamente em fossas), é de essencial importância, visto estar diretamente relacionada a: - Prevenção da contaminação do solo; - Impedir o surgimento de ratos, baratas, moscas etc; - Destinação correta da rede de esgoto; Seguindo as análises, veja-se outra Nota Fiscal, referente a serviços de pintura de maquinários da Algodoeira. [...] Em relação a Pintura de Algodoeira, constata-se que: - Não é um serviço passível de contabilização como ativo imobilizado, logo, não é depreciável; - Não é obra civil. A pintura de máquinas e implementos agrícolas é um serviço essencial de manutenção para o desenvolvimento das atividades da BOM FUTURO, visto que, com o desgaste natural da pintura, partes dos equipamentos ficam expostas a intempéries e agentes de corrosão. Observe-se ainda a Nota Fiscal 65, de 14/06/2018, emitida por DAMIAO FIGUEIREDO E/RELI, CNPJ 25.191.377/0001-04: [...] Constata-se que a descrição do serviço é “PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS MANUTENÇÃO CIVIL – PREDIOS OPERACIONAIS – SERVIÇO DE CONSTRUÇÃO DE PONTE – CONFORME PEDIDO DE COMPRA”. A descrição inicia-se com os dizeres “Manutenção Civil”, logo, entende-se que manutenção é a essência do serviço. A obra civil relacionada à construção de ponte corresponde a uma atividade mais aderente à manutenção: [...] Por fim, a descrição dos serviços na NF 679, é expressa: “SERVIÇO DE MANUTENÇÃO CIVIL PREDIOS OPERACIONAIS – PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS CONFORME CONTRATO”: [...] O documento fiscal em questão envolve a contratação de serviços de manutenção predial, e não obra civil, sujeita à depreciação. Para a manutenção da operação, é fundamental que se tenham plenas condições das instalações do processo produtivo; é essencial que toda a estrutura esteja apta para realização da produção e armazenagem. Fl. 1292DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 67 Perante o exposto nesse tópico, os serviços de manutenção civil de prédios referem- se à manutenção periódica dos ativos que, conforme o item 12, do CPC 27, não devem ser reconhecidos como parte integrante do ativo, visto serem considerados como custos de manutenção e reparo do ativo imobilizado. Vale reafirmar que toda a manutenção realizada foi essencial para manter a estrutura operacional em funcionamento; sem a devida conservação tornar-se-ia inviável a manutenção da cadeia produtiva. Com base no referido Parecer Técnico, que analisa os serviços glosados pela fiscalização, entendo que, na maior parte dos casos, restou demonstrado se tratar de serviços utilizados na manutenção de bens do ativo imobili zado utilizados no processo produtivo. No que se refere à NF nº 9, de 21/06/2019, emitida por GUAXE CONSTRUTORA LTDA, demonstrou-se que se trata de serviço de manutenção de pavimentação e terraplanagem (o valor da nota fiscal é insuficiente para pavimentar uma estrada, sendo adequado se admitir que é utilizado exclusivamente na manutenção de estradas existentes), o que está envolvido no processo produtivo da empresa, que exige o transporte de máquinas, insumos e produtos ao longo das áreas rurais da empresa de vasta extensão. Da mesma forma, as Notas Fiscais da empresa G2 CONSTRUTORA, tratam dos serviços de manutenção civil em “Fossa”, sendo de essencial importância ao processo produtivo da empresa que envolve requisitos sanitários rígidos, ao prevenir a contaminação do solo, impedir o surgimento de ratos, baratas, moscas etc, e dar a destinação correta da rede de esgoto. No mesmo sentido, os serviços de Pintura de Algodoeira são essenciais para manutenção das atividades produtivas da empresa, uma vez que com o desgaste natural da pintura, partes dos equipamentos ficam expostas a intempéries e agentes de corrosão. Ademais, o Parecer Técnico bem aponta que, por se tratar de custos de manutenção periódica do ativo imobilizado, não são passíveis de contabilização como ativo imobilizado (e, por conseguinte, não são depreciáveis), o que reforça a possibilidade de aproveitamento dos créditos na condição de insumos. Por outro lado, a Nota Fiscal 65, de 14/05/2018, emitida por Damião Figueiredo, se refere expressamente a “Serviço de Construção de Ponte”, o que configura construção e não manutenção, além de não ser possível, com base nas provas juntadas, a individualização dos serviços para alcançar apenas aqueles de manutenção. Ainda, no que se refere à NF 679, que trata de “SERVIÇO DE MANUTENÇÃO CIVIL PREDIOS OPERACIONAIS – PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS CONFORME CONTRATO”, não há qualquer prova – como o contrato citado na descrição – que permita avaliar a natureza da contratação, o que impede o reconhecimento do crédito pleiteado. Por tais razões, voto por dar parcial provimento ao recurso neste tópico, para o fim de reverter as glosas sobre os serviços relativos à NF nº 9, de 21/06/2019, Fl. 1293DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 68 emitida por GUAXE CONSTRUTORA LTDA, às Notas Fiscais emitidas pela empresa G2 CONSTRUTORA que tratam dos serviços de manutenção civil em “Fossa”, e à Pintura de Algodoeira. SERVIÇOS PORTUÁRIOS E DESPACHO ADUANEIRO Conforme se extrai do Relatório Fiscal, a recorrente “[...] escriturou em suas EFD Contribuições, nas rubricas de crédito “Aquisição de serviços utilizados como insumo” (01/2016 a 06/2017) e “Armazenagem de mercadoria e frete na operação de venda” (10/2017 a 10/2018), Serviços Portuários em Geral, a título de “SERVIÇO DE ARMAZENAGEM DE GRÃOS (GRÃOS/ALGODAO)” e “SERVIÇO FRETE SOB VENDAS””. Para justificar a glosa dos referidos itens, assim se manifestou a autoridade fiscal: 94. Verificando-se as notas apresentadas, temos as seguintes descrições para os serviços prestados: a) COMPANHIA BANDEIRANTES DE ARMAZENS GERAIS: “ESTUFAGEM ALGODAO” (v. NFs 10567, 11907 e 14034 às fls. 203, 205 e 245); b) LIBRA TERMINAL VALONGO S/A: “ADICIONAL DE SEGURO-CONS, REMOCAO DE CHEIOS MD – CNTR…...-CONSREMOCAO DE VAZIOS MD – CNTR….,-CONS,OCTE CONSOLID S/TRAN” e “REMOCAO DE CHEIOS MD – CNTR …, -CONS, ADICIONAL DE SEGURO-CONS,REMOCAO DE VAZIO MD – CNTR…, -CONS, PCTE CONSOLID S/ TRAN” (v. NFs 9601, 13190, 13290 às fls. 231, 240/241); c) SANTOS BRASIL LOGISTICA S.A.: “SERVIÇO DE POSICIONAMENTO EXPORTAÇÃO...ARMAZENAGEM APOS PERIODO...STUFFING MECANIZADO…”, “NAVIO CAPE SOUNIO VAGEM … STUFFING MECANIZADO CNTR 40 SERVICO DE POSICIONAMENTO EXPORTACAO ARMAZENAGEM APOS PERIODO CNTR 40” e “NAVIO KOTA LUKIS VIAGEM …. ARMAZENAGEM APOS PERIODO CONTR 40 STUFFING MECANIZADO CNTR 40” (v. NFs 93098, 100267 e 99902, fls. 268, 271 e 320); d) TCP - TERMINAL DE CONTEINERES DE PARANAGUA SA: “...FATURA: XX SERIE: YY NAVIO: VIAGEM: OBS; OVA EXPORTACAO TENDA HH ….BOOKING ….” (v. NFs 59218 e 82263 às fls. 226 e 229); e) EMBRAPORT EMPRESA BRASILEIRA DE TERMINAIS PORTUARIOS: “SERVIÇOS PORTUARIOS – ARMAZENAGEM DE QUALQUER NATUREZA E SERVICOS ACESSORIOS/ Draft: … / NAVIO: XX…..” (NFs 137461 e 140208, fls. 243/244); f) BRASIL TERMINAL PORTUARIO S.A.: “MAERSK LONDRINA …. ROLAGEM 40 CH EXPORT…….”, e “MAERSK LONDRINA …. POSIC. P/ VITORIA 40 – EXP QTDE: XX Preço: YY …..” (v. NFs 104018 e 90420, fls. 201 e 230); g) TRANSMODAL LOGISTICA EIRELI: “SERVIÇOS RETROPORTUÁRIOS / RETIRADA DE CNTR VAZIO ESTUFAGEM E ENTREGA DO CNTR CHEIO NO TERMINAL DE EMBARQUE” (v. NF 12864 às fls. 238); Fl. 1294DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 69 h) CONCORDIA LOGISTICA S.A.: “SERVIÇO DE ESTUFAGEM E TRANSPORTE….BOOKING:…../ NAVIO: XX…..” (v. NFs 25085 e 25192 às fls. 219/220). 95. Da amostragem realizada, consta-se que são serviços portuários diversos, como movimentação de contêineres, posicionamento, rolagem, amarração, fixação e inspeção de cargas, etc. [...] 97. Os serviços portuários aqui tratados são gastos posteriores à finalização do processo de produção dos bens destinados a exportação, de forma que não se caracterizam como serviços utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda (art. 3º, inc. II, das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003). 98. Em se tratando de produtos acabados, só é possível o creditamento na hipótese do inciso IX do art. 3° da Lei nº 10.833/03, ou seja, sobre armazenagem de mercadoria e frete na operação de venda, quando o ônus for suportado pelo vendedor. 99. O conceito de armazenagem e frete, contudo, não alcança despesas de natureza completamente diversa, como são os serviços logísticos e de operação portuária (de movimentação, posicionamento e rolagem de contêineres, inspeção de carga, contratação de agenciadoras marítimas, etc). 100. Ainda que em algumas das notas fiscais apresentadas possa haver também serviço de armazenagem, este sim possível de creditamento, não há como distingui- lo dos demais serviços portuários praticados. 101. Não há, portanto, previsão legal de crédito para esses dispêndios, [...] Também foram glosados créditos tomados sobre serviços de Despachante Aduaneiro, nos seguintes termos: 103. De acordo com as EFD-C apresentadas, a contribuinte creditou-se de serviços de “ATIVIDADES DE DESPACHANTES ADUANEIRO”, sendo a empresa MEDITERRANEAN LOGISTICA ADUANEIRA, CNPJ 07.250.092/0001-07, que tem como atividade: “33.01 / 5250801 - Comissaria de despachos”, responsável por 95% do valor dos serviços prestados. 104. Verificando-se as notas apresentadas, a discriminação dos serviços é “Processo….” (NF 4484, fls. 263) e “...INSPEÇÃO NÃO INVASIVA…” (NF 301053, fls. 252). 105. Tais gastos são posteriores à finalização do processo produtivo, de modo que não podem ser considerados insumos, e tampouco se relacionam com operações de armazenagem e frete na operação de venda. 106. Não há, portanto, previsão legal de crédito para esses dispêndios, [...] Fl. 1295DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 70 Considerando que a glosa foi mantida pelo v. acórdão recorrido, a recorrente interpôs Recurso Voluntário, contestando a conclusão adotada, com base nos seguintes argumentos de fato e de direito: De acordo com o parecer técnico anexado ao presente recurso, os serviços portuários consistem na armazenagem, fretes e stuffing (serviço técnico de organização dos produtos no container para exportação): “Basicamente, nota-se que, majoritariamente, além de Armazenagem e Fretes, trata-se de Estufagem ou Stuffing, que é o procedimento técnico de organização dos produtos no container para exportação, com planejamento rigoroso e respeito a normas técnicas, visto que uma estufagem mal realizada pode prejudicar a qualidade do produto final devido a diversos fatores, tais como: • Deve respeitar os limites de capacidade, pois uma simples prensagem maior do algodão pode prejudicar a qualidade da fibra; • O material que acondiciona o algodão não pode ser danificado ou perfurado, pois a exposição do algodão ao ambiente pode danificar a fibra; • O algodão é altamente inflamável, pelo que seu acondicionamento deve respeitar normas rígidas para se evitar incêndio;” (fls. 77 do parecer técnico) Já com relação aos serviços prestados pelo despachante aduaneiro, as conclusões expostas no parecer técnico já mencionado deixam claro que se trata de despesa necessária à atividade da Recorrente, a qual, naturalmente, permite o creditamento das contribuições ao PIS/COFINS: “O serviço de comissária de despacho é realizado por profissional responsável pela vistoria e desembaraço aduaneiro, ou seja, é um dos profissionais que garante a qualidade da armazenagem do produto. Em linha com o abordado no capítulo anterior, em se tratando de cargas que, em seu transporte, são exigidos procedimentos técnicos para garantia da qualidade do produto, são essenciais ao processo produtivo da empresa.” (fls. 78 do parecer técnico) [...] Com efeito, não são necessárias maiores considerações para demonstrar a essencialidade dos serviços portuários e o desembaraço aduaneiro, afinal, para que os bens exportados cheguem ao seu destino, os produtos devem ser movimentados nas instalações alfandegárias, ser conferidos, carregados e descarregados, liberados, eventualmente armazenados e, por fim, transportados para o seu adquirente. Até porque os prestadores dos serviços em comento são contribuintes do PIS/COFINS, motivo pelo qual é assegurado o direito de tomada de crédito relativo a essas despesas, em atendimento ao princípio da não cumulatividade dessas contribuições. Trata-se, portanto, de serviços imprescindíveis para a perfectibilização da venda que irá gerar receita à Recorrente, motivo pelo qual deve ser reformado o acórdão recorrido e revertidas as glosas efetuadas pela fiscalização. Fl. 1296DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 71 Independentemente do entendimento pessoal deste julgador, este e. CARF editou a Súmula CARF nº 232, cuja observância é obrigatória pelos Conselheiros do CARF, ex vi do art. 123, §4º do Regimento Interno do CARF (RICARF): As despesas portuárias na exportação de produtos acabados não se qualificam como insumos do processo produtivo do exportador para efeito de créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e de COFINS não cumulativas. Assim, deve ser observado o entendimento sumulado, razão pela qual voto no sentido de manter a glosa sobre despesas portuárias e despachante aduaneiro. DEMAIS SERVIÇOS (ESTACIONAMENTO, ALUGUEL DE VEÍCULO, VALE- ALIMENTAÇÃO, RASTREAMENTO, EXPURGO DE CARGAS, CLÍNICA MÉDICA E SERVIÇOS DIVERSOS) No que se refere aos demais serviços glosados (Estacionamento, aluguel de veículo, vale-alimentação, expurgo de cargas, clínica médica e serviços diversos), a recorrente sustenta que “[...] é imperioso o reconhecimento do alcance do conceito de insumo para todos os gastos gerais que a pessoa jurídica precisa incorrer na produção de bens ou serviços, ainda que tais elementos não entrem em contato direto com os bens produzidos”. Especificamente com relação ao aluguel de veículos e estacionamento, destaca que o parecer técnico anexo aos autos ressalta que são despesas essenciais às atividades da recorrente, pois envolvem a movimentação de funcionários para a consecução das suas atividades: “Estacionamento e aluguel de veículos ➔ A empresa exerce atividades pulverizadas por toda a dimensão do estado do Mato Grosso, com fazendas se estendendo por milhares de hectares. Nesse contexto, o deslocamento de seus profissionais só é possível através de automóveis. Assim, impossível garanti r o bom funcionamento da operação, se seus agrônomos, por exemplo, não possam se deslocar entre as terras, o que está, intrínseca e fundamentalmente, relacionado ao processo produtivo, além da qualidade do produto final. O estacionamento destes veículos são consectários naturais.” (página 78 do parecer técnico) No que se refere às despesas com vale alimentação e despesas médicas glosadas pela fiscalização, sustenta que a IN RFB nº 1.911/2019 é expressa ao consignar que é possível o creditamento com vale-transporte, vale-refeição ou vale- alimentação, fardamento ou uniforme fornecidos aos empregados por pessoa jurídica (artigo 172, §2º, VI). Ressalta, ainda, que as despesas com vale - alimentação decorrem de acordo coletivo, sendo que “[o]s instrumentos de negociação coletiva correspondem a imposições normativas que têm força de lei para as partes nela representadas, conforme decidiu o STF, no Recurso Extraordinário com Agravo (ARE) nº 1.121.63/GO”. Fl. 1297DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 72 É o que passo a apreciar. Inicialmente, cumpre destacar que este e. CARF editou a Súmula CARF nº 190, cuja observância é obrigatória pelos Conselheiros do CARF, ex vi do art. 123, §4º do Regimento Interno do CARF (RICARF): Para fins do disposto no art. 3º, IV, da Lei nº 10.637/2002 e no art. 3º, IV, da Lei nº 10.833/2003, os dispêndios com locação de veículos de transporte de carga ou de passageiros não geram créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins não cumulativas. Assim, independentemente do entendimento pessoal deste julgador, deve ser observado o entendimento sumulado, no sentido de manter a glosa sobre os gastos com locação de veículos. Quanto aos gastos com estacionamento, entendo não se tratar de despesa essencial ou relevante para o processo produtivo da empresa, em razão da ausência de comprovação da sua imprescindibilidade para o desenvolvimento da atividade econômica. No que se refere às despesas com vale-alimentação e despesas médicas, merece destaque que o artigo 172, §2º, inciso VI, da IN RFB nº 1.911/2019 mencionado pela recorrente, vai no sentido contrário ao pleiteado, ao expressamente consignar que “[n]ão são considerados insumos, entre outros: VI - despesas destinadas a viabilizar a atividade da mão-de-obra empregada no processo de produção ou fabricação de bens ou de prestação de serviços, tais como alimentação, vestimenta, transporte, cursos, plano de seguro e seguro de vida, ressalvado o disposto no inciso VI do art. 181”. Tal dispositivo é repetido pelo artigo 176, §2º, inciso VI, da atual IN RFB nº 2.121/22, ex vi: Art. 176. Para efeito do disposto nesta Subseção, consideram-se insumos, os bens ou serviços considerados essenciais ou relevantes para o processo de produção ou fabricação de bens destinados à venda ou de prestação de serviços (Lei nº 10.637, de 2002, art. 3º, caput, inciso II, com redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004, art. 37; e Lei nº 10.833, de 2003, art. 3º, caput, inciso II, com redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004, art. 21). [...] § 2º Não são considerados insumos, entre outros: [...] VI - despesas destinadas a viabilizar a atividade da mão de obra empregada no processo de produção ou fabricação de bens ou de prestação de serviços, tais como alimentação, vestimenta, transporte, cursos, plano de saúde e seguro de vida; Fl. 1298DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 73 Quanto à alegação da recorrente de que os gastos com vale-transporte decorrem de acordo coletivo, ressalto que, com base no artigo 177 da IN RFB nº 2121/22, a Receita Federal reconhece que “[t]ambém se consideram insumos, os bens ou os serviços especificamente exigidos por norma legal ou infralegal para viabilizar as atividades de produção de bens ou de prestação de serviços por parte da mão de obra empregada nessas atividades”. Por sua vez, no §1º, estabelece que “[o] disposto no caput não se aplica nas hipóteses em que a exigência dos bens ou dos serviços decorrem de celebração de acordos ou convenções coletivas de trabalho”. Com a devida vênia, entendo que, ao exercer sua competência de interpretar e aplicar a legislação tributária, editando instruções normativas necessárias à sua execução, a Receita Federal andou bem ao reconhecer que os bens e serviços exigidos, por norma legal ou infralegal, para viabilizar a mão-de-obra empregada nas atividades, devem ser considerados insumos, por outro lado, ultrapassou os limites estabelecidos em lei, inovando o ordenamento jurídico, ao excetuar as hipóteses em que a exigência decorre da celebração de acordos ou convenções coletivas de trabalho. Ora, a partir do momento em que se reconhece o caráter de insumo aos bens e serviços exigidos, por norma legal ou infralegal, para viabilizar a mão-de-obra empregada nas atividades de produção de bens ou de prestação de serviços, não vislumbro qualquer fundamento legal que permita a exclusão das exigências decorrentes de acordos e convenções coletivas de trabalho. Nos termos do artigo 611 da Consolidação das Leis do Trabalho – CLT, a Convenção Coletiva de Trabalho configura acordo de caráter normativo, sendo que, conforme estabelece o artigo 611-A do mesmo diploma legal, a convenção coletiva e o acordo coletivo de trabalho têm prevalência sobre a lei quando, entre outros, dispuserem sobre diversas questões atinentes à relação de trabalho. Neste sentido, assim leciona o professor Maurício Godinho Delgado: As convenções coletivas, embora de origem privada, criam regras jurídicas (normas autônomas), isto é, preceitos gerais, abstratos e impessoais, dirigidos a normatizar situações ad futurum. Correspondem, consequentemente, à noção de lei em sentido material, traduzindo ato-regra (Duguit) ou comando abstrato. São, desse modo, do ponto de vista substantivo (ou seja, de seu conteúdo), diplomas desveladores de inquestionáveis regras jurídicas (embora existam também no seu interior cláusulas contratuais. Somado a isto, a Constituição Federal elenca, em seu artigo 7º, inciso XXVI, o reconhecimento das convenções e acordos coletivos de trabalho como direito dos trabalhadores urbanos e rurais. Ressalte-se que a relevância está na imposição da exigência – que deve ser observada no exercício da atividade do contribuinte – e não propriamente no instrumento jurídico que a impõe, até porque, a própria instrução normativa Fl. 1299DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 74 compreende que o conceito de insumo alcança exigências impostas tanto por norma legal quanto infralegal. Por tais razões, entendo que os bens ou serviços especificame nte exigidos por convenções e acordos coletivos de trabalho, para viabilizar as atividades de produção de bens ou de prestação de serviços por parte da mão de obra empregada nessas atividades, também revestem o caráter de insumo. Ocorre que, no presente caso, a recorrente se limita a alegar que a obrigação decorre de acordo coletivo, sem trazer qualquer documento que permita a comprovação do alegado, o que impossibilita o reconhecimento do direito creditório pleiteado. DA GLOSA PARCIAL DE BASE DE CÁLCULO SUPOSTAMENTE INFORMADA A MAIOR – INTEGRAÇÃO DO ICMS-ST NO VALOR DOS INSUMOS ADQUIRIDOS Conforme se extrai do Relatório Fiscal, a fiscalização verificou que “[a] contribuinte, ao informar a Base de Cálculo (BC) do crédito de PIS/Cofins decorrente da aquisição de alguns insumos, por vezes integrou o ICMS sobre substituição tributária (ICMS-ST) ao seu valor, conforme se depreende do cotejo das NFe emitidas pelos respectivos fornecedores”. Mencionando a Solução de Consulta Cosit nº 99.041/17, o entendimento firmado pelo STJ no julgamento do Recurso Especial nº 1.456.648/RS e os artigos 26 e 167 da IN RFB nº 1.911/19, a autoridade fiscal efetuou a glosa da base de créditos informada a maior, ressaltando que o ICMS-ST “que consta na nota fiscal emitida pelo vendedor-substituto da mercadoria à fiscalizada não compõe a base de cálculo das contribuições devidas por ele vendedor, ou seja, não há incidência de PIS/Cofins sobre o valor do ICMS-ST na etapa anterior”, sendo indevido, portanto, o crédito calculo sobre o ICMS-ST destacado nas notas fiscais de aquisição. Ao manter a glosa efetuada, assim se manifestou o v. acórdão recorrido: [...] evitando-se distorções na aplicação do regime da não cumulatividade, o valor do crédito passível de apuração pelos contribuintes substituídos deve ser calculado excluindo-se dos custos de aquisição a parcela do ICMS cobrado pelo vendedor dos bens ou prestador dos serviços na condição de substituto tributário, na medida em esta parcela é sacada da base de cálculo deste último. A situação não é alterada pelo julgamento, no STJ, do Tema Repetitivo nº 1.125 que entendeu que o valor correspondente ao ICMS-ST recolhido antecipadamente pelo substituto tributário não compõe a base de cálculo da Contribuição ao PIS/Pasep e da Cofins, devidas pelo contribuinte substituído. Note-se que o julgamento do STJ voltou-se para a formação da base de cálculo do PIS/Pasep e da Cofins devidos pelos adquirentes, contribuintes substituídos do ICMS, concluindo que nela não se inclui a parcela referente ao ICMS cobrado pelo vendedor na condição de substituto do ICMS. Fl. 1300DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 75 Esse entendimento só vem reforçar o acerto da fiscalização em glosar a tomada de créditos sobre o valor do ICMS-substituição tributária pela adquirente substituído. Em seu Recurso Voluntário, a recorrente ressalta que “[...] o ICMS que é retido pelo substituto não entra no mecanismo de compensação entre débitos e créditos, inerente ao princípio da não cumulatividade, de tal sorte que todo o encargo é arcado, em última instância, pelo substituído tributário, reforçando o caráter de irrecuperabilidade do referido tributo”. Sustenta, ainda, ser inadequada a IN RFB nº 1.911/19 na parte em que pretende disciplinar a matéria, “[...] visto que o tema ainda se encontra pendente de julgamento pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). Esse Tribunal, sob o rito de recursos repetitivos, afetou os Recursos Especiais nº 1.896.678 e nº 1.958.265 (tema nº 1.125), no qual será oportunamente decidida a possibilidade ou não de exclusão do valor correspondente ao ICMS-ST da base de cálculo da contribuição ao PIS e da COFINS”. Por tais razões, defende que “[...] não há que se falar em redução ou glosa de créditos pautados na pretensa exclusão, devendo ser reformado o v. acórdão recorrido para determinar o ressarcimento integral com a inclusão do montante atinente ao ICMS-ST integrante da base de cálculo das contribuições”. É o que passo a apreciar. Trata-se tema decidido pelo Superior Tribunal de Justiça, no julgamento do Tema Repetitivo nº 1231, no qual foram fixadas as seguintes teses: 1ª) Os tributos recolhidos em substituição tributária não integram o conceito de custo de aquisição previsto no art. 13, do Decreto-Lei n. 1.598/77; 2ª) Os valores pagos pelo contribuinte substituto a título de ICMS-ST não geram, no regime não cumulativo, créditos para fins de incidência das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS devidas pelo contribuinte substituído. O acórdão do referido julgamento restou assim ementado: RECURSO REPETITIVO. EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA EM RECURSO ESPECIAL. TRIBUTÁRIO. CONTRIBUIÇÕES AO PIS/PASEP E COFINS NÃO CUMULATIVAS. CREDITAMENTO. VALORES REFERENTES AO ICMS-SUBSTITUIÇÃO (ICMS- ST). IMPOSSIBILIDADE. TRIBUTO RECOLHIDO EM SUBSTITUIÇÃO TRIBUTÁRIA. DESCARACTERIZAÇÃO COMO CUSTO DE AQUISIÇÃO PREVISTO NO ART. 13, DO DECRETO-LEI N. 1.598/77. 1. Indeferidos os os pedidos de ingresso no feito na condição de amicus curiae. Isto porque, em se tratando de processo que foi adiado de pauta anterior, os pedidos são extemporâneos, além do que realizados somente às vésperas do j ulgamento do recurso (Precedentes: EDcl nos EDcl no REsp. n. 1.143.677 / RS, Corte Especial, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, julgado em 21.11.2012; EDcl no REsp. n. 1.143.677 / RS, Corte Especial, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 29.06.2010). Fl. 1301DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 76 2. Não sendo receita bruta do substituto tributário, o ICMS-ST não está na base de cálculo das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS não cumulativas por si (pelo substituto) devidas e definida nos arts. 1º e §2º, das Leis ns. 10.637/2002 e 10.833/2003. 3. Como o princípio da não cumulatividade preconiza que o valor do tributo incidente sobre o bem na saída do vendedor é que irá gerar o valor do crédito na entrada do bem para o adquirente, se não houver tributação na saída do vendedor (substituto), não haverá creditamento na entrada para o adquirente (substituído) e qualquer crédito concedido nessa situação ou para além do valor do tributo pago na etapa anterior é crédito presumido ou fictício, carecedor de lei específica, na forma do art. 150, §6º, da CF/88. Precedentes : Súmula Vinculante n. 58/STF; Repercussão Geral Tema n. 844/STF; recurso repetitivo REsp. n. 1.894.741/RS, Primeira Seção, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 27.04.2022. 4. No caso concreto, as contribuições ao PIS/PASEP e COFINS não incidem sobre o ICMS-ST na etapa anterior (substituto), portanto, na ausência de lei expressa criadora do crédito presumido, não podem gerar crédito para ser util izado na etapa posterior (substituído). 5. Com o julgamento do TEMA n. 1125/STJ ("O ICMS-ST não compõe a base de cálculo da Contribuição ao PIS e da COFINS devidas pelo contribuinte substituído no regime de substituição tributária progressiva"), este Superior Tribunal de Justiça equiparou a situação econômica dos contribuintes de direito do ICMS normal àquela dos contribuintes de fato do ICMS-ST, em razão do princípio da isonomia, tornando a escolha do Estado em tributar determinada mercadoria via ICMS ou ICMS-ST economicamente neutra para as contribuições ao PIS/PASEP e COFINS e, por consequência, para as empresas. 6. Acaso fosse concedido na atualidade o creditamento pleiteado, a distorção existente entre o contribuinte de fato do ICMS-ST e o contribuinte de direito do ICMS normal voltaria, agora em prejuízo deste último, pois o primeiro, além de excluir o ICMS-ST da base de cálculo das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS por si devidas, também ganharia o direito ao crédito dos valores correspondentes ao ICMS-ST, caracterizando odioso duplo benefício (ganharia de volta o crédito sem ter o débito correspondente), sendo que o segundo nenhum benefício mais tem depois do advento dos os artigos 6º e 7º, da Lei n. 14.592/2023 (não tem crédito e não tem débito). 7. Os tributos recolhidos em substituição tributária não integram o conceito de custo de aquisição previ sto no art. 13, do Decreto-Lei n. 1.598/77, isto porque: 7.1. A lei foi publicada em período onde não havia substituição tributária progressiva (substituição tributária "para frente") no Brasil, não podendo dar efeitos a algo que não existia, desta forma, sequer é possível instrução normativa que assim trate a matéria, sob pena de extrapolar a lei de regência; 7.2. Os tributos recolhidos em substituição tributária "para frente" são mera antecipação de um tributo que incidiria na venda (não na aquisição) a s er feita pelo substituído, ou seja, não são juridicamente uma oneração na aquisição, mas uma oneração antecipada da venda a ser futuramente feita; e 7.3. A classificação de Fl. 1302DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 77 "tributo recuperável" e "tributo não recuperável" não é aplicável aos casos de substituição tributária, porque monofásicos. 8. Ainda que o ICMS-ST integrasse o conceito de custo de aquisição, esta Corte tem posicionamento pacificado no sentido de que nem todo o custo de aquisição gera direito ao creditamento na sistemática não cumulativa das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS. Precedentes em recursos repetitivos: REsp. n. 1.221.170/PR, Primeira Seção, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, julgado em 22.02.2018 e REsp. n. 1.894.741/RS, Primeira Seção, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 27.04.2022. 9. Desta forma, seja em razão dos l imites impostos pelo princípio da não cumulatividade, seja em razão da impossibil idade de tratamento anti -isonômico entre os contribuintes, seja porque não configuram custo de aquisição e seja porque nem todo o custo de aquisição gera direito ao creditamento na sistemática não cumulativa das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS, os valores despendidos pelo contribuinte substituído, a título de reembolso ao contribuinte substituto pelo recolhimento do ICMS-ST, não geram créditos das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS não cumulativas. 10. Teses propostas para efeito de repetitivo: 10.1. Os tributos recolhidos em substituição tributária não integram o conceito de custo de aquisição previsto no art. 13, do Decreto-Lei n. 1.598/77; e 10.2. Os valores pagos pelo contribuinte substituto a título de ICMS-ST não geram, no regime não cumulativo, créditos para fins de incidência das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS devidas pelo contribuinte substituído. 11. Embargos de divergência em recurso especial providos. (EREsp n. 1.959.571/RS, relator Ministro Mauro Campbell Marques, Primeira Seção, julgado em 20/6/2024, DJe de 25/6/2024.) Desta forma, considerando que, nos termos do artigo 99 do Regimento Interno do CARF, “[a]s decisões de mérito transitadas em julgado, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal, ou pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática da repercussão geral ou dos recursos repetitivos, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF.”, voto por negar provimento ao recurso neste tópico, para o fim de manter as glosas efetuadas pela fiscalização. DA GLOSA DE DESPESAS COM ALUGUEL (ARRENDAMENTO MERCANTIL) Conforme se verifica do Relatório Fiscal, a recorrente apresenta contratos de arrendamento rural com valores mensais líquidos e certos, cujo crédito é apropriado de acordo com a competência do arrendamento, e contratos indexados, prefixados em quantidade de sacas de soja. Esses úl timos foram objeto de glosa. Fl. 1303DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 78 Apesar de reconhecer que o aproveitamento de créditos sobre arrendamento rural está autorizado pelo artigo 3º, inciso IV, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03, por estar compreendido nos conceitos de “aluguel” e de “prédio”, a fiscalização entendeu que tais contratos não se caracterizam como contratos de arrendamento rural, por terem seus preços predefinidos em quantidade fixa de produtos (sacas de soja), o que violaria condição obrigatória em lei, descaracterizando a natureza da contratação. Ressaltou, ainda, que “ao estabelecer a remuneração em quantidades fixas de produto, no caso, sacas de soja (ou o equivalente em dinheiro no pagamento), o arrendador está submetido ao risco da variação do preço da soja, não existindo, quando da contratação, a certeza do valor a receber, que poderá oscilar para mais ou para menos conforme o valor de mercado do produto à época do pagamento ”, situação que se amolda aos contratos de parceria rural, em que o proprietário concorre apenas com a terra nua, e que a variação do preço, por si só, é o risco partilhado pelas partes contratantes. Para fundamentar o seu entendimento, mencionou os seguintes dispositivos da Lei nº 4.504/64 (Estatuto da Terra) e do Decreto nº 59.566/66, que regulamentou a referida lei: Lei nº 4.504/64 (Estatuto da Terra) Art. 95. Quanto ao arrendamento rural, observar-se-ão os seguintes princípios : [...] XI - na regulamentação desta Lei, serão complementadas as seguintes condições que, obrigatoriamente, constarão dos contratos de arrendamento: a) limites da remuneração e formas de pagamento em dinheiro ou no seu equivalente em produtos; (Redação dada pela Lei nº 11.443, de 2007). [...] Art. 96. Na parceria agrícola, pecuária, agro-industrial e extrativa, observar-se-ão os seguintes princípios: [...] VI - na participação dos frutos da parceria, a quota do proprietário não poderá ser superior a: a) 20% (vinte por cento), quando concorrer apenas com a terra nua; [...] § 1 o Parceria rural é o contrato agrário pelo qual uma pessoa se obriga a ceder à outra, por tempo determinado ou não, o uso específico de imóvel rural, de parte ou partes dele, incluindo, ou não, benfeitorias, outros bens e/ou facilidades, com o objetivo de nele ser exercida atividade de exploração agrícola, pecuária, agroindustrial, extrativa vegetal ou mista; e/ou lhe entrega animais para cria, recria, invernagem, engorda ou extração de matérias -primas de origem animal, mediante partilha, isolada ou cumulativamente, dos seguintes riscos: Fl. 1304DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 79 I - caso fortuito e de força maior do empreendimento rural; (Incluído pela Lei nº 11.443, de 2007). II - dos frutos, produtos ou lucros havidos nas proporções que estipularem, observados os l imites percentuais estabelecidos no inciso VI do caput deste artigo; (Incluído pela Lei nº 11.443, de 2007). III - variações de preço dos frutos obtidos na exploração do empreendimento rural. Decreto nº 59.566/66 Art 3º Arrendamento rural é o contrato agrário pelo qual uma pessoa se obriga a ceder à outra, por tempo determinado ou não, o uso e gozo de imóvel rural, parte ou partes do mesmo, incluindo, ou não, outros bens, benfeitorias e ou facil idades, com o objetivo de nêle ser exercida atividade de exploração agrícola, pecuária, agro-industrial, extrativa ou mista, mediante, certa retri buição ou aluguel, observados os l imites percentuais da Lei. [...] Art 18. O preço do arrendamento só pode ser ajustado em quantia fixa de dinheiro, mas o seu pagamento pode ser ajustado que se faça em dinheiro ou em quantidade de frutos cujo preço corrente no mercado local, nunca inferior ao preço mínimo oficial, equivalha ao do aluguel, à época da liquidação. Parágrafo único. É vedado ajustar como preço de arrendamento quantidade fixa de frutos ou produtos, ou seu equivalente em dinheiro. (Grifamos) Diante disto, a fiscalização entendeu por glosar os referidos créditos, por ausência de previsão legal para o seu aproveitamento. Por fim, ainda ressaltou que cerca de 80% dos créditos oriundos de contratos indexados foram escriturados de forma extemporânea, o que também impediria o seu aproveitamento. Em seu Recurso Voluntário, a recorrente defende que a celebração de contratos com previsão de pagamento em sacas de soja é comum no agronegócio e que o art. 18 do Decreto nº 59.566, de 1966, tem sua aplicabilidade restrita a quem explore a terra pessoal e diretamente, sendo conferido, aos demais, a liberdade de contratar. Não estaria, assim, descaracterizado o contrato, mas tão somente configurada a abdicação de uma proteção por parte da empresa rural. Menciona que o STJ já decidiu que “o contrato de arrendamento rural que estabelece pagamento em quantidade de produtos pode ser usado como prova escrita para aparelhar ação monitória com a finalidade de determinar a entrega de coisa fungível, porquanto é indício da relação jurídica material subjacente” (Recurso Especial nº 1.266.975, Rel. Min. Ricardo Villas Boas Cueva, J: 10/03/2016), e colaciona excerto do Parecer Técnico no sentido de que, em tais Fl. 1305DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 80 contratações, os valores estabelecidos em moeda nacional podem ser convertidos em comodities como a seja, no momento do pagamento. Cita, ainda, decisões deste e. CARF que supostamente corroborariam a sua pretensão, além de defender que, superada a questão relativa à legitimidade do crédito (materialidade), inexistiria vedação legal ao aproveitamento de créditos em períodos posteriores ao do registro das operações, mencionando especialmente o artigo 3º, §4º, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03, hipótese que estaria contemplada, inclusive, nas linhas de preenchimento do DACON. É o que passo a apreciar. No que se refere à legitimidade do crédito, entendo que a controvérsia foi adequadamente dirimida pelo v. acórdão recorrido, razão pela qual transcrevo os fundamentos expostos no r. decisum, adotando-os como razões para decidir, conforme autorizado pelo artigo 50, §1º, da Lei nº 9.784/99: [...] no caso de arrendamento rural, o arrendatário pode calcular créditos no regime da não cumulatividade sobre os valores pagos com contraprestação pelo aluguel do prédio rústico ou imóvel rural. Até esse ponto, não há dissenso entre contribuinte e auditoria. A disputa se instala no entendimento fiscal de que contratos alvo da glosa, chamados de arrendamento rural, não teriam essa natureza por conta da fixação do valor em quantidade de frutos, no caso, a sacas de soja. O núcleo da discussão gira em torno da forma como os riscos são partilhados entre o proprietário do imóvel rural e aquele que o explora, dele extraindo os produtos agropecuários. Observem-se os dispositivos do Estatuto da Terra, instituído pela Lei nº 4.504, de 1964, e do Decreto nº 59.566, de 1966, que o regulamentou em parte: [...] Vê-se que os conceitos se assemelham quanto à cessão de uso de imóvel rural. Entretanto, a diferença de base entre eles é que, na parceria rural, a remuneração do proprietário da terra está necessariamente atrelada à partilha do risco da atividade, enquanto, no arredamento rural, a remuneração do proprietário é certa. No âmbito tributário, prevê o art. 59 do Regulamento do Imposto sobre a Renda (RIR/99), aprovado pelo Decreto nº 3.000, de 1999, na seção que trata de rendimentos da atividade rural: RIR, de 1999: Art. 59. Os arrendatários, os condôminos e os parceiros na exploração da atividade rural, comprovada a situação documentalmente, pagarão o imposto, separadamente, na proporção dos rendimentos que couberem a cada um (Lei nº 8.023, de 1990, art. 13) Parágrafo único. Na hipótese de parceria rural, o disposto neste artigo aplica-se somente em relação aos rendimentos para cuja obtenção o parceiro houver assumido os riscos inerentes à exploração da respectiva atividade. [destaque acrescido] Fl. 1306DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 81 Portanto, a questão que importa examinar no presente caso, para avaliar a natureza do contrato firmado entre o proprietário rural e a interessada é a da existência de risco na exploração. Na inexistência de risco, configura-se arrendamento rural, sendo tributado pelas contribuições o rendimento de aluguel recebido pelo proprietário fazendo jus, na mesma medida, o arrendatário, ao crédito não cumulativo referente à contraprestação. Não desmente a contribuinte que, nos contratos que firmou e cujas contraprestações foram alvo da glosa, o valor foi combinado em quantidade de sacas de soja. Ora, sendo assim, o proprietário rural acaba partilhando com o produtor o risco das variações de preço do fruto resultado da exploração rural, o que afasta do acordo a natureza de arrendamento rural. Veja-se não se está aqui impedindo que os particulares exerçam a pactuação de suas livres vontades. O que ocorre é que o pacto tem repercussões tributárias que não se submetem à nomeação que lhes deu os pactuantes, mas à natureza jurídica do contrato. A partilha do risco da variação dos preços do fruto, as sacas de soja, desnatura o caráter de aluguel do imóvel relativamente aos valores pagos pelo uso do imóvel rural. Não cabendo cogitar de pagamento de aluguel, não há a atração do disposto no inciso IV, art. 3º das Leis nº 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003. Correta a glosa efetuada pela fiscalização, portanto. Para finalizar a discussão, é necessário assinalar que a auditoria atuou apenas aplicando à situação de fato as repercussões tributárias da legislação do PIS/Pasep e da Cofins no regime da não cumulatividade que apenas admitem, no caso, a tomada de créditos sobre aluguel de prédios em conformidade com o disposto no art. 3º das Leis nº 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003. Na situação examinada, os valores não correspondem a aluguéis como contraprestação pelo uso do prédio rural, o que afasta possibilidade de creditamento. Não houve a desconsideração do negócio praticado pela contribuinte, não havendo que invocar o disposto no art. 116, do CTN. No que se refere ao aproveitamento extemporâneo de créditos da não- cumulatividade das contribuições ao PIS e da COFINS, resta prejudicada a alegação em razão do não reconhecimento da legitimidade do crédito. Por tais razões, voto por negar provimento ao recurso neste tópico. DOS BENS DO ATIVO IMOBILIZADO Conforme se verifica do Relatório Fiscal, a autoridade fiscal glosou créditos apropriados sobre bens do ativo imobilizado, por falta de comprovação de que estariam relacionados com a atividade da contribuinte. Segundo a fiscalização, as glosas tiveram como alvo serviços e obras de construção civil, associados às contas 1030202100 (CONSTRUCOES EM TERCEIROS), 1030202200 (BENFEITORIAS EM TERCEIROS) e 1030201013 Fl. 1307DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 82 (BENFEITORIAS), cujos valores de aquisição foram, em sua maioria, aproveitados em 24 meses. Conforme narra a autoridade fiscal, a fiscalizada não ofereceu, na resposta à intimação, justificativa para ter apropriado o crédito de imobilizado de forma acelerada, não sendo possível aferir se as edificações são novas ou se trata de reformas, ou mesmo se todas se destinam à produção de bens, havendo entre elas ampliações, oficinas, casa de máquinas, banheiros, depósitos, almoxarifados, armazéns, etc. Tampouco, foi possível, nestes casos, estabelecer-se uma correlação precisa entre os itens/valores/meses das planilhas “Doc_Comprobatorios01” (resposta à intimação) e “Imobilizado -Valor de Aquisição” (dados EFD-C), de modo que, o direito ao crédito acelerado (integral ou em 24 meses) sobre tais edificações não restou comprovado. Ao apreciar a manifestação de inconformidade, o v. acórdão recorrido entendeu por reconhecer parcialmente o direito creditório pleiteado, nos seguintes termos: A despeito da informação presente no relatório, esta relatoria entende que alguns itens objeto da glosa relacionada a edificações e benfeitorias, estão sim vinculados a atividades produtivas. Ademais, a própria planilha que serviu para orientar a glosa fiscal (arquivo não paginável anexo ao relatório fiscal – Glosa Imobilizado (Edificações e Benfeitorias) – Aba -> Edificações e Benfeitoria EFD-C traz informações sobre a Descrição do Item, o nome da conta analítica e a descrição do Centro de Custos em que o gasto foi alocado. Os Centros de Custo são identificados como, entre outros, Apoio Produção, Unid. Benef. Algodão, Unid. Benf. E Armaz. De Graos, Psicultura Producao, Uni. Benef. Sementes. Tais nomenclaturas vistas em conjunto com os descritores complementares dos bens, permitem concluir que parte deles efetivamente se relaciona à atividade de produção. Trata-se de bens como poço artesiano (Centro de Custo: Apoio Producao), ampliação fabrica racao (Centro de Custo: Apoio Producao), cobertura da câmara fria, base civil para prensa de fibrilha (Centro de Custo: Unid. Benef. De Algodao). Em sua defesa a contribuinte junta ainda planilha com a identificação dos itens no imobilizado. Portanto, entende-se que parte das glosas deve ser revertida. Planilha juntada aos autos por este relator em arquivo indica em colorido as glosas mantidas por não se relacionarem a centro de custos relacionados a atividades produtivas (Transportadora) e/ou porque o item descrito não se vincula a atividades produtivas (banheiros, alojamentos, casas, instalações das sedes, escritórios). Nessa medida, os valores dos créditos trimestrais deverão levar em conta as glosas revertidas nesse item, conforme planilha <DRJ Revisão Glosa Imobilizado (Edificações e Benfeitorias).xlsx>. Em seu Recurso Voluntário, a recorrente reitera as razões expostas na manifestação de inconformidade, mencionando a possibilidade de apropriação de créditos sobre aquisição de bens destinados ao ativo imobilizado, na forma acelerada, nos termos do artigo 6º da Lei nº 11.488/07, e, na forma regular, nos termos do artigo 3º, inciso VI e VII, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03. Fl. 1308DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 83 Ressalta, ainda, que o artigo 3º, inciso VII, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03 alcançaria, no conceito de edificação, “[...] todos os bens incorporados à obra civil, bem como obras preliminares e complementares, a exemplo do canteiro de obras, alojamento para operários, banheiros, almoxarifados, entre outros”. Por fim, defende que “[...] ainda que sejam refutados os argumentos até aqui expostos, que levam à reversão das glosas em questão, o que se admite apenas a título de argumentação, o fato é que o procedimento adotado pela Recorrente, relativamente à tomada de crédito de bens do ativo imobilizado (máquinas, equipamentos e edificações), não causou qualquer prejuízo ao fisco, como se pode verificar do demonstrativo elaborado pela Recorrente (vide doc. 10 da Manifestação de Inconformidade). Ou seja, também por esse motivo, não merece prosperar a glosa realizada pela fiscalização”. É o que passo a apreciar. Inicialmente, cumpre destacar que, mesmo diante da reversão parcial das glosas pelo v. acórdão recorrido, a recorrente reitera integralmente as razões expostas na manifestação de inconformidade, sem trazer argumentos específicos para contestar as glosas mantidas. Conforme supra relatado, o v. acórdão recorrido reverteu as glosas sobre itens que considerou relacionados ao processo produtivo da empresa, mantendo as glosas exclusivamente sobre itens que, no seu entendimento, não se referem “a centro de custos relacionados a atividades produtivas (Transportadora) e/ou porque o item descrito não se vincula a atividades produtivas (banheiros, alojamentos, casas, instalações das sedes, escritórios)”. Quanto à controvérsia remanescente, merecem transcrição o artigo 3º, inciso VII, c/c §1º, inciso III, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03 e o artigo 6º da Lei nº 11.488/07: Lei nº 10.833/03 Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: [...] VII - edificações e benfeitorias em imóveis próprios ou de terceiros, util izados nas atividades da empresa; [...] § 1º Observado o disposto no § 15 deste artigo, o crédito será determinado mediante a aplicação da alíquota prevista no caput do art. 2º desta Lei sobre o valor: [...] III - dos encargos de depreciação e amortização dos bens mencionados nos incisos VI, VII e XI do caput, incorridos no mês; Lei nº 11.488/07 Fl. 1309DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 84 Art. 6 o As pessoas jurídicas poderão optar pelo desconto, no prazo de 24 (vinte e quatro) meses, dos créditos da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins de que tratam o inciso VII do caput do art. 3 o da Lei n o 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e o inciso VII do caput do art. 3 o da Lei n o 10.833, de 29 de dezembro de 2003, na hipótese de edificações incorporadas ao ativo imobilizado, adquiridas ou construídas para util ização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços. Conforme se verifica da leitura dos referidos dispositivos, o contribuinte pode se apropriar de créditos da não-cumulatividade das contribuições ao PIS e da COFINS sobre “edificações e benfeitorias em imóveis próprios ou de terceiros, utilizados nas atividades da empresa”, com base nos encargos de depreciação incorridos no mês. Por sua vez, “na hipótese de edificações incorporadas ao ativo imobilizado, adquiridas ou construídas para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços”, o contribuinte poderá optar pelo desconto de tais créditos, no prazo de 24 (vinte quatro meses). Desta forma, para apropriação de créditos na forma acelerada, não basta que as edificações e benfeitorias sejam utilizadas nas atividades da empresa em geral, deve se tratar de edificações adquiridas ou construídas para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços. Foi justamente este o fundamento da glosa. Assim, considerando que a glosa remanescente alcança edificações e benfeitorias que não são utilizadas no processo produtivo da empresa, entendo correta a manutenção parcial da glosa, em razão da inexistência de permissão legal para apropriação de créditos na forma acelerada sobre tais itens, o que, obviamente, não impede a apropriação dos créditos nos termos do artigo 3º, inciso VII, c/c §1º, inciso III, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03. Pelo exposto, voto por negar provimento ao recurso neste tópico. Quanto às glosas referentes aos fretes de remessas de amostra grátis, da doação, dos brindes, da demonstração e sobre os custos com serviços de rastreamento de veículos, transcreve-se o entendimento majoritário da turma, expresso no voto vencedor do redator designado do acórdão paradigma: Não obstante as consistentes e bem fundamentadas razões apresentadas pelo eminente Relator, permito-me divergir exclusivamente quanto à conclusão por ele adotado no tocante ao creditamento sobre fretes de remessas de amostra grátis, de doações, de brindes ou de demonstrações e sobre serviços de monitoramento de veículos. No que tange aos fretes relacionados a remessas de amostras grátis, doações, brindes ou materiais destinados à demonstração, entendo que tais envios não se Fl. 1310DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 85 caracterizam como operação de venda, por não envolverem negócio jurídico translativo com circulação onerosa de bens. Ademais, no âmbito do PIS e da COFINS, a venda corresponde ao ingresso de receita decorrente da atividade econômica da pessoa jurídica, constituindo a materialidade das contribuições — o que evidentemente não se verifica nas remessas de amostras, brindes ou materiais destinados exclusivamente à demonstração. Nessa medida, tais dispêndios não se inserem no escopo das hipóteses que autorizam a apropriação de créditos da não-cumulatividade, em particular no inciso IX do artigo 3º da Lei nº 10.833/03. Pelo exposto, voto por negar provimento ao recurso voluntário, para manter as glosas sobre fretes de remessas de amostra grátis, doação ou brinde, ou para demonstração. Por outro lado, acompanho o entendimento do Relator para afastar as glosas relativas aos fretes incidentes sobre bonificações em mercadorias. Isso porque tais bonificações guardam vínculo direto com a operação de venda, consistindo na entrega adicional de produtos ao adquirente como extensão da própria operação comercial — seja por incentivos, fidelização ou política promocional. Cuida-se, portanto, de prática inserida em negócio jurídico translativo com circulação onerosa de bens (venda), razão pela qual o respectivo frete integra os custos da operação de venda e permite o aproveitamento dos créditos. Sobre serviços de monitoramento (rastreamento) de veículos, nota-se que a parte Recorrente não exerce a atividade de serviço de transporte, alegando apenas que o serviço de rastreamento serve para bom funcionamento dos veículos utilizados pelos funcionários para descolar dentro de sua propriedade rural. Senão, vejamos: “Estacionamento, aluguel de veículos e rastreamento ➔ A empresa exerce atividades pulverizadas por toda a dimensão do estado do Mato Grosso, com fazendas se estendendo por milhares de hectares. Nesse contexto, o deslocamento de seus profissionais só é possível através de automóveis. Assim, impossível garantir o bom funcionamento da operação, se seus agrônomos, por exemplo, não possam se deslocar entre as terras, o que está, intrínseca e fundamentalmente, relacionado ao processo produtivo, além da qualidade do produto final. O estacionamento e rastreamento destes veículos são consectários naturais.” (página 78 do parecer técnico) Pois bem. O conceito de insumo para fins de creditamento no regime não cumulativo do PIS e da COFINS deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade e da relevância. Sob tal ótica, somente se qualificam como insumos os bens e serviços cuja ausência comprometa, de forma significativa, a realização Fl. 1311DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 86 da atividade econômica ou a qualidade do produto ou serviço oferecido pela pessoa jurídica. A essencialidade revela-se quando o dispêndio se mostra necessário ao desenvolvimento da atividade fim, de modo que sua supressão inviabilizaria ou prejudicaria substancialmente o processo produtivo. A relevância, por sua vez, manifesta-se quando o item, ainda que não estritamente indispensável, interfere diretamente na qualidade ou adequação do produto ou serviço, constituindo elemento relevante para o resultado econômico da atividade. Tal compreensão decorre da aplicação do chamado teste de subtração, utilizado pelo STJ no referido julgamento, mediante o qual se examina se a retirada do item compromete a execução, o resultado ou a qualidade do processo produtivo. Nessa linha, verifico que os gastos com serviços de rastreamento apontados pela recorrente não se enquadram nos critérios estabelecidos pelo STJ. Tais dispêndios não se destinam à produção agrícola nem guardam relação direta com a obtenção ou melhoria do produto. Sua supressão não inviabiliza a atividade produtiva, tampouco interfere em sua qualidade. Assim, não atendidos os critérios de essencialidade ou relevância, os valores despendidos com rastreamento, no caso concreto, não se qualificam como insumos para fins do art. 3º, II, das Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/2003, devendo ser mantida a impossibilidade de creditamento. Conclusão Importa registrar que as situações fática e jurídica destes autos se assemelham às verificadas na decisão paradigma, de sorte que as razões de decidir nela consignadas são aqui adotadas, não obstante os dados específicos do processo paradigma eventualmente ci tados neste voto. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do RICARF, reproduz-se o decidido no acórdão paradigma, no sentido de afastar as preliminares de nulidade e no mérito, em dar provimento parcial ao recurso em (a) reverter as glosas relativas ao pagamento de royalties aos licenciantes pelo direito de uso de patentes para produção e comercialização de sementes certificadas (uso da tecnologia); (b) reverter as glosas sobre fretes na aquisição de bens e insumos sujeitos à alíquota zero, suspensão ou não incidência; (c) reverter as glosas sobre fretes no transporte de mercadorias recebidas ou adquiridas de terceiros com o fim específico de exportação; (d) reverter as glosas sobre fretes de remessas das bonificações; (e ) reverter as glosas sobre bens adquiridos e utilizados para manutenção dos bens do ativo imobilizado da pessoa jurídica responsáveis pelo processo produtivo e (f) reverter as glosas sobre os serviços relativos à NF nº 9, de 21/06/2019, emitida por GUAXE CONSTRUTORA LTDA, às Notas Fiscais emitidas pela empresa G2 CONSTRUTORA que tratam dos serviços de manutenção civil em “Fossa”, e à Pintura de Algodoeira. Assinado Digitalmente Fl. 1312DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.493 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.909899/2020-32 87 Gilson Macedo Rosenburg Filho – Presidente Redator Fl. 1313DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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Numero do processo: 10980.910079/2015-31
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Feb 12 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Tue Mar 31 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/04/2012 a 30/06/2012 PEDIDO DE RESSARCIMENTO. DIREITO CREDITÓRIO. EMBALAGENS. Os BIG BAGs são necessários para a atividade fim de empresas cerealistas que as utilizam como embalagem primária para efetuar a venda e o devido transporte dos grãos, que devem ser colocados em sacos que suportam grande peso e volume e também garantem a conservação e proteção do produto durante o transporte contra agentes externos indesejáveis. Sem a utilização dos BIG BAGs, a recorrente não conseguiria realizar o transporte e a venda da sua produção. Aplicação da Súmula CARF nº 235. PEDIDO DE DILIGÊNCIA FISCAL. PRINCÍPIO DA VERDADE MATERIAL. CARÊNCIA PROBATÓRIA. Não pode ser deferido pedido de diligência fiscal para produção de provas que já haviam sido solicitadas ao contribuinte desde a fiscalização. O contribuinte que teve créditos glosados em razão de carência probatória deve providenciar, mesmo que em sede de Recurso Voluntário, a apresentação dos documentos solicitados pela Fiscalização ou pela primeira instância de julgamento, e não solicitar a concessão de prazo hábil para, passados quase 10 anos, nada apresentar. DIREITO CREDITÓRIO. FRETES NA AQUISIÇÃO DE INSUMOS. Nos termos da Súmula CARF nº 188, deve ser revertida a glosa de créditos vinculados às despesas com frete de insumos adquiridos de pessoa física. DIREITO CREDITÓRIO. ENCARGOS DE DEPRECIAÇÃO. SÚMULA CARF Nº 234. O contribuinte pode ter, em seu objeto social, atividade comercial e também de prestação de serviços. Os bens incorporados ao ativo imobilizado que fazem jus ao creditamento sobre encargos de depreciação são aqueles utilizados na prestação de serviços.
Numero da decisão: 3302-015.550
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do Recurso Voluntário, não conhecendo do pedido de reversão da glosa de créditos com serviços prestados em janeiro de 2012 e junho de 2014; e, na parte conhecida, rejeitar a preliminar de diligência e, no mérito, dar provimento parcial para determinar a suspensão da incidência do PIS/Cofins de que trata o art. 9º da Lei nº 10.925/2004 sobre as vendas que cumprem os requisitos previstos na legislação; para reverter a glosa de créditos vinculados (i) às aquisições de embalagens tipo “BIG BAGs”, (ii) às despesas com frete de insumos adquiridos de pessoa física e (iii) aos encargos de depreciação de caminhões e carretas, tudo nos termos da diligência fiscal determinada por este Conselho; e para determinar a correção de eventual saldo credor pela taxa SELIC a partir do primeiro dia seguinte ao escoamento do prazo de 360 dias para análise do pedido administrativo pelo Fisco, nos termos do REsp nº 1.767.945/PR. Assinado Digitalmente Lázaro Antônio Souza Soares – Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Mário Sérgio Martinez Piccini, Francisca das Chagas Lemos, Renata Casorla Mascareñas (substituta integral), Louise Lerina Fialho, Marina Righi Rodrigues Lara e Lázaro Antônio Souza Soares (Presidente).
Nome do relator: LAZARO ANTONIO SOUZA SOARES

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DIREITO CREDITÓRIO. EMBALAGENS. Os BIG BAGs são necessários para a atividade fim de empresas cerealistas que as utilizam como embalagem primária para efetuar a venda e o devido transporte dos grãos, que devem ser colocados em sacos que suportam grande peso e volume e também garantem a conservação e proteção do produto durante o transporte contra agentes externos indesejáveis. Sem a utilização dos BIG BAGs, a recorrente não conseguiria realizar o transporte e a venda da sua produção. Aplicação da Súmula CARF nº 235. PEDIDO DE DILIGÊNCIA FISCAL. PRINCÍPIO DA VERDADE MATERIAL. CARÊNCIA PROBATÓRIA. Não pode ser deferido pedido de diligência fiscal para produção de provas que já haviam sido solicitadas ao contribuinte desde a fiscalização. O contribuinte que teve créditos glosados em razão de carência probatória deve providenciar, mesmo que em sede de Recurso Voluntário, a apresentação dos documentos solicitados pela Fiscalização ou pela primeira instância de julgamento, e não solicitar a concessão de prazo hábil para, passados quase 10 anos, nada apresentar. DIREITO CREDITÓRIO. FRETES NA AQUISIÇÃO DE INSUMOS. Nos termos da Súmula CARF nº 188, deve ser revertida a glosa de créditos vinculados às despesas com frete de insumos adquiridos de pessoa física. DIREITO CREDITÓRIO. ENCARGOS DE DEPRECIAÇÃO. SÚMULA CARF Nº 234. O contribuinte pode ter, em seu objeto social, atividade comercial e também de prestação de serviços. Os bens incorporados ao ativo imobilizado que fazem jus ao creditamento sobre encargos de depreciação são aqueles utilizados na prestação de serviços. Fl. 3210DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.550 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.910079/2015-31 2 ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do Recurso Voluntário, não conhecendo do pedido de reversão da glosa de créditos com serviços prestados em janeiro de 2012 e junho de 2014; e, na parte conhecida, rejeitar a preliminar de diligência e, no mérito, dar provimento parcial para determinar a suspensão da incidência do PIS/Cofins de que trata o art. 9º da Lei nº 10.925/2004 sobre as vendas que cumprem os requisitos previstos na legislação; para reverter a glosa de créditos vinculados (i) às aquisições de embalagens tipo “BIG BAGs”, (ii) às despesas com frete de insumos adquiridos de pessoa física e (iii) aos encargos de depreciação de caminhões e carretas, tudo nos termos da diligência fiscal determinada por este Conselho; e para determinar a correção de eventual saldo credor pela taxa SELIC a partir do primeiro dia seguinte ao escoamento do prazo de 360 dias para análise do pedido administrativo pelo Fisco, nos termos do REsp nº 1.767.945/PR. Assinado Digitalmente Lázaro Antônio Souza Soares – Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Mário Sérgio Martinez Piccini, Francisca das Chagas Lemos, Renata Casorla Mascareñas (substituta integral), Louise Lerina Fialho, Marina Righi Rodrigues Lara e Lázaro Antônio Souza Soares (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de Pedido Eletrônico de Ressarcimento (PER), de n° 41267.07153.180914.1.1.09-1103, apresentado pela contribuinte acima identificada, pleiteando crédito de Cofins não cumulativo - exportação, relativo ao 2ºtrim/2012, no montante de R$123.047,33. Ressalte-se que a contribuinte impetrou Mandado de Segurança, de nº 5052794- 85.2015.4.04.7000/PR, objetivando a análise de seu direito creditório em caráter prioritário. No documento, a pessoa jurídica reivindica crédito que entende possuir com origem na legislação do(a) Cofins-Exportação, com fundamento no § 1º do art. 6º da Lei n 10.833/2003. Foi proferido Despacho Decisório por meio do qual foi indeferido o direito creditório. Cientificado em 14/07/2016, pela via eletrônica, o sujeito passivo apresentou Manifestação de Inconformidade (MI). As razões da defesa apresentadas foram devidamente expostas e tratadas quando da análise da Impugnação ao Auto de Infração presente no Processo n° 10980.722878/2016-32. Em resumo, a contribuinte contestou: Fl. 3211DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.550 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.910079/2015-31 3 - a desconsideração das receitas classificadas inicialmente como exportação, e que foram reclassificadas para mercado interno, bem como a apreciação de suas operações sob a égide da Lei nº. 12.350/2010, que a descaracterizou como cerealista; - as glosas fiscais que recaíram sobre créditos apurados sobre determinados bens e serviços entendidos pela fiscalização como fora do conceito de insumo; - a desconsideração de créditos oriundos de devoluções de mercadorias vendidas; - reparo à apuração de créditos sobre os aluguéis de prédios, máquinas e equipamentos; - a glosa de fretes de transferências de insumos, produtos acabados ou já vendidos entre filiais; - a glosa de créditos apurados sobre o custo de aquisição de bens do ativo imobilizado. Ao fim, a interessada requereu que seja considerada procedente a Manifestação de Inconformidade, com o consequente reconhecimento do crédito, aplicação da taxa SELIC sobre o valor ressarcível e ressarcimento em dinheiro do saldo credor. Postulou pela juntada de documentos em momento posterior. Os Autos foram remetidos para a Delegacia de julgamento, que determinou a devolução destes à Unidade de origem, para a realização de diligência, a fim de se averiguar o real valor das receitas de exportação da contribuinte, verificando-se o impacto disso no total de receitas auferidas e na apuração dos créditos da não-cumulatividade. Como vários processos do contribuinte estavam sendo julgados simultaneamente, a diligência abrangeu todos esses processos. Da diligência realizada, foi elaborado Relatório Fiscal de Diligência, em que ficou demonstrada, após a análise documental, juntada quando da apresentação da MI, a existência de mais receitas de exportação. Disso resultou a alteração nos totais das receitas de mercado externo e interno, tributadas e não-tributadas, com consequente modificação no percentual do rateio proporcional entre citadas receitas e no montante dos créditos calculados em função de cada tipo de receita. Ao final dos trabalhos, alguns meses sofreram alterações nos valores ressarcíveis de PIS e Cofins, conforme se infere da Informação Fiscal de Diligência. Como se verifica da planilha elaborada pela diligência, para este processo, que trata dos créditos de Cofins do 2º trim/2012, não houve alteração no valor calculado. A contribuinte foi cientificada do resultado dos trabalhos, não se manifestando a respeito disso. O processo foi então enviado novamente à DRJ, para pronunciamento acerca das conclusões a que chegou à autoridade fiscal. Fl. 3212DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.550 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.910079/2015-31 4 A Manifestação de Inconformidade foi julgada improcedente, por unanimidade de votos, pela DRJ - Ribeirão Preto (DRJ-RPO), em sessão datada de 13/06/2018, tendo sido exarado o acórdão nº 14-86.401 (fls. 866/873) com a seguinte ementa: PEDIDO DE RESSARCIMENTO. INEXISTÊNCIA DE CRÉDITO. Não comprovada a existência de direito creditório líquido e certo do contribuinte contra a Fazenda Pública passível de ressarcimento, deve ser mantida a decisão dada pela autoridade administrativa, que não reconheceu o montante pleiteado por meio de Pedido de Ressarcimento. TAXA SELIC. RESSARCIMENTO. É incabível a incidência de juros compensatórios com base na Taxa Selic sobre valores recebidos a título de ressarcimento de créditos relativos ao PIS/Cofins por falta de previsão legal. Inconformada, a recorrente interpôs, tempestivamente, Recurso Voluntário (fls. 880/916). Esta Turma, embora com composição distinta, em julgamento datado de 27/04/2021, resolveu converter o julgamento em diligência por meio da Resolução nº 3302-001.678 (fls. 1063/1076), nos seguintes termos: CONDIÇÃO DE CEREALISTA A recorrente pugna pelo conhecimento do decidido no Mandado de Segurança 5030790.20.2016.4.04.7000, arguindo que no Judiciário restou decidido que possui a condição de cerealista e que, portanto, tem direito à suspensão da incidência de PIS e Cofins. (...) No acórdão proferido pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região, restou decidido que o cerealista definido nos termos do inciso I do §1º do artigo 8º da Lei nº 10.925/2004, nas operações de compra e revenda de grão a granel. Assim, nestas operações, a atividade da recorrente foi considerada de cerealista. (...) Porém, é necessário analisar se a condição de ser cerealista é suficiente para se aplicar a suspensão, como alega a recorrente. O Auto de Infração reclassificou as vendas para tributadas no mercado interno em razão de que parte das pessoas jurídicas adquirentes não se enquadra na condição de produtoras das mercadorias especificadas nas alíneas “a” e “b” do incido I do artigo 54 da Lei nº 12.350/2010, conforme excerto abaixo: (...) Percebe-se que a condição de ser cerealista, em momento algum, foi questionada pela fiscalização, sendo o argumento completamente estranho aos motivos expostos pela autoridade fiscal para reclassificação das receitas de vendas com suspensão para receitas tributadas no mercado interno. Contudo, é necessário Fl. 3213DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.550 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.910079/2015-31 5 verificar se a suspensão prevista no artigo 9º, inciso I da Lei nº 10.925/2004 é aplicável ao presente caso. A autoridade fiscal efetuou a reclassificação das receitas de vendas dos insumos milho (NCM 1005.90.10) e trigo (NCM 1001.19.00) durante todo o período e para soja (NCM 1201.00.90) e farelo de soja (NCM 2304.00.90) até 09/10/2013, sob a égide do artigo 54 da Lei nº 12.350/2010, uma vez que era o estava escrito no campo DADOS ADICIONAIS como informações complementares das notas fiscais. (...) A recorrente alega a hipótese prevista no inciso I do §1º do artigo 8º: (...) De plano, constata-se que o farelo de soja (NCM 2304.00.90) não consta do inciso I do §1º do artigo 8º não se lhe aplicando, portanto, a suspensão prevista no inciso I do artigo 9º da Lei nº 10.925/2004. (...) No caso, a suspensão prevista no artigo 9º da Lei nº 10.925/2004 foi regulamentada pela IN SRF nº 660/2006, que dispôs sobre os requisitos para fruição da suspensão nos seguintes temos: (...) Conforme a regulamentação, há requisitos cumulativos a serem observados em relação ao vendedor e em relação ao adquirente. O vendedor deve: 1. Se enquadrar na condição de cerealista (argumento da recorrente); 2. Proceder à venda de produtos in natura de origem vegetal; 3. Inserir a informação: “Venda efetuada com suspensão da Contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS", com especificação do dispositivo legal correspondente; 4. Exigir do adquirente a declaração que apura o imposto sobre a renda com base no lucro real; Por sua vez, o adquirente deve: 1. Apurar o imposto de renda com base no lucro real; 2. Exercer atividade agroindustrial, entendida como a atividade econômica de produção das mercadorias relacionadas no caput do art. 8º da Lei nº 10.925/2004, excetuadas as atividades relacionadas no art. 2º 1 da Lei nº 8.023, de 1990 (atividade rural); 3. Utilizar o produto adquirido com suspensão como insumo na fabricação de produtos de que trata o caput do artigo 8º da Lei nº 10.925/2004. Observa-se, então, que a condição de ser cerealista não é suficiente à aplicação da suspensão, embora sua ausência seja suficiente para afastar a suspensão. No caso, a recorrente não inseriu em suas notas fiscais que a suspensão ocorria com Fl. 3214DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.550 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.910079/2015-31 6 base no artigo 9º, inciso I, o que levou a fiscalização a apurar os requisitos com base no artigo 54 da Lei nº 12.350/2010. (...) Destarte, a recorrente chegou a noticiar durante a fiscalização que a suspensão ocorreria com base no artigo 9º, inciso I, apesar de nas notas fiscais constarem o artigo 54 da Lei nº 12.350/2010. Verifica-se, ainda, por amostragem, que alguns dos adquirentes constantes da planilha de glosa da fiscalização possuem CNAE indicativo do exercício da atividade agroindustrial e outros que não possuem como CNAE, atividade de produção ou fabricação de produtos referidos no caput do artigo 8º. Exemplificando: (...) Assim, entendo possível a ocorrência da suspensão com base no artigo 9º, inciso I da Lei nº 10.925/2004. Contudo, a verificação da aplicação da suspensão prevista no artigo 9º, inciso I da Lei nº 10.925/2005 depende da confirmação dos requisitos acima delineados, razão pela qual proponho a conversão do julgamento em diligência para que a autoridade fiscal confirme: 1. Se as operações correspondem à venda de produtos in natura na condição de cerealista; 2. Se os adquirentes constantes da planilha de e-fls. 469/507 apuram o imposto de renda com base no lucro real; 3. Se os adquirentes utilizaram as mercadorias adquiridas com suspensão na produção das mercadorias relacionadas no caput do art. 8º da Lei nº 10.925/2004, Além disso, deve a autoridade fiscal proceder ao ajuste do novo rateio para efeito de segregar os créditos passíveis de ressarcimento dos créditos não passíveis de ressarcimento, de acordo com o resultado obtido na diligência, nos moldes do que fora realizada por ocasião da diligência deferida pela DRJ. DESPESAS COM MÁQUINAS, EQUIPAMENTOS E BENS INCORPORADOS AO ATIVO IMOBILIZADO Neste capítulo, a recorrente aduz o direito ao crédito de caminhões e carretas, sob o argumento de que uma de suas filiais, denominada Lavoura Transportes (CNPJ 79.851.192/0001-08) executa a atividade principal de realização de transportes, sendo, portanto, os caminhões fundamentais para a realização das atividades operacionais das filiais, de modo que sua depreciação gera direito ao crédito. A Informação Fiscal destaca que a glosa ocorreu em razão do entendimento de que os bens não eram utilizados no processo produtivo. O fundamento deste crédito é o inciso VI e §1º, III do artigo 3º das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003: (...) Fl. 3215DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.550 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.910079/2015-31 7 A legislação permite o crédito de bens incorporados ao ativo imobilizado e utilizados na prestação de serviços, o que, em princípio, daria direito ao crédito à depreciação de caminhões e carretas, no caso de prestação de serviços de transporte de cargas, conforme disposto no artigo 4º do Contrato Social, juntado em manifestação de inconformidade. Contudo, a utilização de imobilizado na prestação de serviços pressupõe o auferimento de receitas de prestação de serviços. Não se trata, simplesmente, de haver transporte interno de mercadoria em caminhões próprios, mas prestação de serviços de transporte a terceiros, uma vez que os bens devem ser efetivamente na condição de custos de prestação de serviços e não como mera despesa operacional em transporte realizado internamente à pessoa jurídica. Destarte, proponho a realização de diligência para que a autoridade fiscal verifique se houve auferimento de receitas de prestação de serviços a terceiros e se os caminhões e carretas objeto da glosa estão vinculados a esta prestação de serviço. Concluindo, proponho a realização de diligência para que a autoridade fiscal verifique: 1. Se as operações de suspensão reclassificadas para tributadas no mercado interno correspondem à venda de produtos in natura na condição de cerealista, nos termos do artigo 9º, inciso I da Lei nº 10.925/2004; 2. Se os adquirentes constantes da planilha de e-fls. 452/490 apuram o imposto de renda com base no lucro real; 3. Se os adquirentes utilizaram as mercadorias adquiridas com suspensão na produção das mercadorias relacionadas no caput do art. 8º da Lei nº 10.925/2004; 4. Se houve auferimento de receitas de prestação de serviços de transporte a terceiros e se os caminhões e carretas objeto da glosa “Despesas com máquinas, equipamentos e bens incorporados ao ativo imobilizado” estão vinculados a esta prestação de serviço. Em 27/03/2024 foi lavrado Relatório de Diligência Fiscal, juntado às fls. 3169/3204, com os resultados obtidos. O contribuinte se manifestou sobre este documento nos seguintes termos (fl. 3209): LAVOURA INDÚSTRIA E COMÉRCIO OESTE S/A, pessoa jurídica de direito privado, devidamente inscrita no CNPJ/MF sob o nº 79.851.192/0001-08, vem, respeitosamente, à honrosa presença de Vossa Senhoria, em relação ao procedimento fiscal realizado que constatou os vícios relatados no Recurso Voluntário, reiterar seus termos e fundamentos, para anular o auto de infração e demais consectários. É o relatório. Fl. 3216DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.550 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.910079/2015-31 8 VOTO Conselheiro Lázaro Antônio Souza Soares, Relator. I – ADMISSIBILIDADE O Recurso Voluntário é tempestivo e preenche parcialmente as demais condições de admissibilidade, por isso dele tomo conhecimento apenas em parte. II – DO TÓPICO “DECISÃO JUDICIAL - CEREALISTA - SUSPENSÃO PIS E COFINS” Neste tópico, o contribuinte pede que sejam afastadas as glosas indevidamente realizadas, anulando-se o impugnado acordão e despacho decisório, nos seguintes termos: Pois bem, já está comprovado no presente processo, que o D. Fiscal incorreu em erro ao enquadrar a operação da Recorrente nos termos da Lei n.º 12.350/10, descaracterizando, pois, a efetiva operação de cerealista que, segundo a Lei n.º 10.925/04, concede o direito da suspensão das contribuições de PIS e de COFINS na saída das mercadorias que são por ela comercializadas. Nestes termos, trazemos a decisão proferida nos autos do Mandado de Segurança nº 5030790.20.2016.4.04.7000, pelo Tribunal Regional Federal da Quarta Região, em acórdão já transitado em julgado, onde restou reconhecido e declarado que a Recorrente é CEREALISTA, e que apesar de não fazer "jus" ao crédito presumido do PIS e da COFINS, uma vez que não realiza qualquer processo industrial, não está obrigada ao seu recolhimento, em decorrência da suspensão legal que lhe favorece, vejamos. (...) Assim, restou reconhecido em decisão judicial já transitada em julgado em 17/09/2018, que a atividade da Recorrente é puramente CERELISTA, portanto, a mesma encontra-se amparada e fazendo jus, para vendas no mercado interno de soja e milho, à suspensão da exigibilidade do recolhimento do PIS e da COFINS, nos termos do inciso 9º da Lei 10925/2004. Portanto, em decisão judicial, transitada em julgado, "Data Máxima Vênia", que, por óbvio, suplanta qualquer decisão administrativa, restou afastada as disposições do artigo 54 da Lei nº 12.350/10, para reconhecer que a atividade da Recorrente é puramente CEREALISTA, não havendo em sua atividade qualquer processo industrial, estando desobrigada do recolhimento do PIS e da COFINS, nos termos do art. 9º da Lei nº 10.925/04. Diante de todo o exposto, estando demonstrada cabalmente a atividade de cerealista desenvolvida pela Recorrente, estando sob o abrigo da Lei n.º 10.925/04 c/c IN RFB n.º 660/06 para suspender o PIS e a COFINS no mercado Fl. 3217DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.550 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.910079/2015-31 9 interno em face das atividades por ela desenvolvidas inerentes à cerealista, não restam dúvidas que devem ser afastadas as glosas indevidamente realizadas, anulando-se o impugnado acordão e despacho decisório. Como visto no Relatório deste voto, esse tópico do Recurso Voluntário ensejou a necessidade de realização de uma diligência fiscal. As conclusões deste procedimento se encontram no documento acostado às fls. 3169/3204, nos seguintes termos: 1. Trata-se do cumprimento de Resoluções proferidas nos julgamentos dos Recursos Voluntários interpostos pela contribuinte nos processos administrativos de análise do direito creditório de Pis e Cofins não cumulativos dos Pedidos de Ressarcimento relacionados abaixo: (...) 2. As Resoluções dos Recursos Voluntários interpostos em face dos Acórdãos da DRJ, que deram provimento parcial às Impugnações, converteram os julgamentos em diligências, consignando os seguintes dispositivos: (...) ITEM 1 – DILIGÊNCIA (...) 5. Os requisitos a se verificar no item 1 da Diligência são basicamente: confirmar se as vendas são de produtos in natura de origem vegetal e se a contribuinte realiza essas vendas na condição de cerealista. 6. A condição de cerealista não mais se discutirá na via administrativa, já que foi decidida judicialmente, conforme exposto na Resolução do Recurso Voluntário: (...) 8. A expressão in natura é utilizada para descrever produtos de origem vegetal quando em seu estado natural ou sem processamento. As Notas 1a) e 1b) do Capítulo 10 na Tabela NCM, que engloba as posições 1005.90.10 e 1001.19.99, de milho e trigo respectivamente, especificam: “Os produtos mencionados nos textos das posições do presente Capítulo só se incluem nessas posições quando se apresentem em grãos, mesmo nas espigas ou caules” e “O presente Capítulo não compreende os grãos descascados (com ou sem película) ou trabalhados de outro modo.” Já nas Considerações Gerais das Notas Explicativas do Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias, do Capítulo 12, que inclui a posição 1201.90.00, da soja, esclarece que: “As sementes e os frutos destas posições podem apresentar-se inteiros, partidos, descascados. Podem, além disso, ter sido submetidos a um tratamento térmico, (...), esse tratamento é permitido apenas se não modificar a característica das sementes e frutas como produtos naturais. (IN RFB nº 1.072, de 2010)”. Desta forma, pelos atos normativos acima expostos, verificamos que os produtos classificados nas NCMs 1001.19.99 (trigo), 1005.90.10 (milho) e 1201.90.00 (soja) se referem a produtos Fl. 3218DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.550 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.910079/2015-31 10 in natura de origem vegetal, pois de acordo com o texto os produtos abrangidos nestas posições não podem sofrer processos que os modifiquem; ou não podem estar moídos, ou não podem estar descascados, ou trabalhados de outro modo, ou podem sofrer algum processo mas desde que não os descaracterize de sua forma natural. 9. Assim sendo, temos confirmado o item 1 da Diligência determinada pela Resolução CARF, ou seja, as operações de suspensão reclassificadas para tributadas no mercado interno correspondem à venda de produtos in natura na condição de cerealista, nos termos do artigo 9º, inciso I, da Lei nº 10.925/2004. ITEM 2 - DILIGÊNCIA 10. O item 2 da Diligência requer a verificação do regime de apuração do Imposto de Renda Pessoa Jurídica dos adquirentes destas operações de venda que originaram as receitas suspensas reclassificadas para receitas tributadas na análise inicial do direito creditório de Pis e Cofins não cumulativos. 11. Esta verificação é necessária em função do disposto na Instrução Normativa da Receita Federal do Brasil nº 660/2006, que dispõe sobre a suspensão da exigibilidade da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins incidentes sobre a venda de produtos agropecuários e sobre o crédito presumido decorrente da aquisição desses produtos, na forma dos arts. 8º, 9º e 15 da Lei nº 10.925, de 2004. (...) 14. Estes são os adquirentes relacionados nas folhas citadas nas Resoluções referidas, participantes das operações de vendas com suspensão que foram reclassificadas na análise inicial e os respectivos regimes em que apuram o imposto de renda pessoa jurídica: (...) 15. Vemos que as vendas, ora em análise, realizadas para os adquirentes com CNPJ 01.758.596/0001-56, 02.779.914/0001-28, 18.334.928/0001-78 e 82.675.133/0001-22, que não apuram o imposto de renda pessoa jurídica pelo regime do lucro real, não cumprem com um dos requisitos, dispostos na IN RFB nº 660/2006, necessários para que a operação incorra na suspensão do Pis e da Cofins não cumulativos do inciso I, do art. 9º, da Lei nº 10.925 de 2004. E a seguir temos os valores das correspondentes operações de venda mensais por adquirente: (...) ITEM 3 - DILIGÊNCIA 16. O item 3 da Resolução CARF que converte o julgamento em Diligência determina que se “Verifique se os adquirentes utilizaram as mercadorias adquiridas com suspensão na produção das mercadorias relacionadas no caput do art. 8º da Lei nº 10.925/2004”. Fl. 3219DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.550 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.910079/2015-31 11 17. Relacionamos a seguir as mercadorias do caput do artigo 8º da Lei nº 10.925/2004: (...) 18. Para verificar se os adquirentes utilizaram os bens adquiridos com suspensão; milho, soja ou trigo; na produção das mercadorias relacionadas acima, baixamos as Escriturações Fiscais Digitais da Contribuição para o PIS/Pasep e Cofins de todos os adquirentes que apuram o imposto de renda da pessoa jurídica pelo regime do lucro real. Destas EFDs Contribuição, extraímos os documentos fiscais das operações de vendas de mercadorias relacionadas no caput do artigo 8º da Lei nº 10.925/2004, produzidas com os insumos (milho, soja ou trigo). (...) CONCLUSÃO 92. Em conformidade com o exposto neste Relatório de Diligência Fiscal sobre o averiguado nesta Diligência, refizemos os cálculos das contribuições apuradas, dos créditos de PIS/Pasep e Cofins não cumulativos, verificamos os descontos de créditos a serem realizados das contribuições apuradas, respeitando os valores informados nos Controles de Créditos Fiscais das EFDs Contribuições declaradas pela contribuinte, e assim chegamos aos valores dos créditos ressarcíveis a serem deferidos e aos valores das contribuições a serem pagas, que restaram em parte modificados. 93. Esclarecemos que, ao reconhecer judicialmente a atividade da recorrente como cerealista, e assim aplicando a suspensão da receita em conformidade com o artigo 8º da Lei nº 10.925/2004, consequentemente, o crédito presumido deste artigo fica vedado ao cerealista de acordo com o inciso I do § 4º do art. 8º desta Lei: (...) 94. Os cálculos estão demonstrados em planilhas anexadas aos processos, em Excel. E a seguir relacionamos os valores dos Pedidos de Ressarcimento, objeto da análise, e os respectivos valores a serem deferidos, comparando-os com os resultados de análises anteriores (DRFB – Delegacia da Receita Federal do Brasil e DRJ – Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento/Diligência): (...) 95. Dê-se ciência deste Relatório de Diligência Fiscal ao contribuinte, para que, caso queira, manifeste-se no prazo de 30 (trinta) dias nos termos do artigo 35 do Decreto nº 7.574/2011, ressaltando-se que, com ou sem manifestação da interessada, o presente processo será devolvido ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, para prosseguimento do julgamento do Recurso Voluntário. Fl. 3220DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.550 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.910079/2015-31 12 Apesar da decisão judicial obtida pelo recorrente, no qual lhe resta assegurada a condição de “cerealista”, não há como acolher o pedido para afastamento das glosas e anulação do acórdão da DRJ e do Despacho Decisório. Conforme consta do Despacho Decisório, nem todos os créditos do contribuinte são ressarcíveis/compensáveis. Existem créditos vinculados a receitas tributadas no mercado interno, os quais somente podem ser objeto de dedução do imposto devido na escrita fiscal; e créditos vinculados a (i) receitas não tributadas no mercado interno e (ii) receitas de exportação, os quais podem ser objeto de ressarcimento/compensação. O contribuinte fez a opção de segregar os créditos pelo método do rateio, considerando a proporção do tipo de receita em relação à receita total, e a fiscalização da Receita Federal assim procedeu para apurar os montantes corretos, conforme itens 32/37 da Informação Fiscal: Etapa 5 - Cálculo do Rateio Proporcional entre as Receitas Tributadas, Receitas Não tributadas no Mercado Interno e Receitas de Exportação 32. Tendo em vista a alteração dos valores totais das receitas de exportação, de mercado interno não tributadas e tributadas tivemos alterado o cálculo do rateio proporcional entre Receitas do Mercado Interno Tributadas, Receitas do Mercado Interno Não tributadas e Receitas de Exportação. 33. De acordo com a opção da empresa, SPED Contribuições, a vinculação dos créditos às receitas será feita por rateio proporcional, aplicando-se aos custos, despesas e encargos comuns a essas receitas a relação percentual existente entre as mesmas e a receita bruta total. 34. As receitas financeiras tributadas à alíquota zero, por não terem qualquer relação com os custos, despesas e encargos comuns que compõem a base de cálculo dos créditos, não devem integrar o montante da receita bruta sujeita à incidência não-cumulativa (receitas de mercado interno) e nem o da receita bruta total, auferida em cada mês, sob pena de distorcer o percentual a ser utilizado para fins de apuração de créditos vinculados à exportação e às vendas de mercado interno. 35. Da mesma forma, igual tratamento deve ser dado às receitas decorrentes das vendas de bens do ativo imobilizado as quais não sofrem incidência das contribuições e também não possuem nenhuma relação com as despesas de composição da base de cálculo do crédito e, portanto, não integram o total da receita de mercado interno não tributado para fins de rateio. 36. O mesmo também ocorre com as exportações decorrentes das saídas de bens adquiridos com fim específico de exportação (notas fiscais de venda com CFOP 7.501 – Exportação de mercadorias recebidas com fim específico de exportação), ocasião em que a empresa atua exclusivamente como comercial exportadora. Portanto, tais receitas não devem integrar o montante das receitas de exportação nem da receita bruta total da empresa. Fl. 3221DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.550 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.910079/2015-31 13 37. Para demonstração do resultado anexamos aos processos planilha com o cálculo do rateio proporcional entre receitas do mercado interno tributado, mercado interno não tributado e das receitas de exportação, de acordo com o parâmetro definido no art. 3º, § 8º, inciso II, da Lei nº 10.637/2002 (rateio proporcional), in verbis: II - rateio proporcional, aplicando-se aos custos, despesas e encargos comuns a relação percentual existente entre a receita bruta sujeita à incidência não- cumulativa e a receita bruta total, auferidas em cada mês. Nesse contexto, verifica-se que, mesmo que confirmada a possibilidade de suspensão dos tributos pleiteada pelo contribuinte (objeto de diligência fiscal), não haverá influência no cálculo do rateio, pois este processo trata exclusivamente do ressarcimento de créditos vinculados a receitas de exportação. Essa suspensão teria reflexos sobre o rateio no que tange exclusivamente aos créditos vinculados a receitas não tributadas no mercado interno, objeto de pedido de ressarcimento em outros processos. Pelo exposto, voto por dar provimento parcial a este pedido, para determinar a suspensão da incidência do PIS/Cofins de que trata o art. 9º da Lei nº10.925/2004 sobre as vendas que cumprem os requisitos previstos na legislação, conforme apurado e quantificado na diligência fiscal determinada por este Conselho. III – DO TÓPICO “RECLASSIFICAÇÃO INDEVIDA” Neste tópico, o contribuinte pede que seja revertida a reclassificação das receitas com exportação indireta para receitas tributadas no mercado interno, nos seguintes termos: Nesse passo, confirmada a questão da atividade primordial exercida pela Recorrente, qual seja, cerealista, mister adentrar na outra suposta inconsistência aventada pela autoridade fiscal, que reclassificou os valores oriundos de exportação indireta para mercado interno tributado sob a justificativa de que não houve a confirmação do envio dos grãos para o mercado externo. Segundo consta, os fundamentos da fiscalização que levaram à desconsideração das receitas como exportação e foram reclassificadas como tributadas no mercado interno são: “9. Também, na relação de notas fiscais de exportação indireta encaminhada pela empresa, para algumas notas não foram preenchidos os campos relativos aos números da Declaração de Despacho de Exportação – DDE, do Registro de Exportação – RE e do respectivo Memorando de Exportação. Na exportação indireta é fundamental a demonstração do fim específico de exportação, ou seja, é necessário que fique identificado os números da DDE, do RE e do Memorando de Exportação o que comprova esta operação. Portanto, para estas notas fiscais efetuamos glosa por falta de comprovação – Glosa 2.” (...) Fl. 3222DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.550 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.910079/2015-31 14 Segundo amplamente exposto no item acima, a recorrente possui seu caráter de exportador de grãos. Portanto, incorreu em erro a autoridade fiscal ao não reconhecer as operações de exportação da Recorrente sob a justificativa de que não apresentou as notas fiscais e documentos de exportação que demonstrassem a efetiva remessa dos produtos ao exterior. Posto isso, com o objetivo de comprovar o efetivo envio dos grãos ao exterior, quer seja pela via direta, quer seja pela via indireta, e nos moldes do princípio da verdade material, foi apresentado todos os documentos referentes às exportações durante o período de janeiro de 2012 a junho de 2014. Portanto os documentos constantes do processo comprovam cabalmente a existência da exportação de grãos durante o período fiscalizado, eis que não pode subsistir os argumentos apresentados pela fiscal. Portanto, uma vez demonstrada a existência das exportações diretas e indiretas que foram desconsideradas pela fiscalização e alvo da lavratura do despacho decisório, conclui-se que efetivamente ocorreram as exportações, razão pela qual deve ser julgando procedente este Recurso Voluntário para ao final, anular o acórdão recorrido e as glosas realizadas e deferir os créditos na sua integralidade. Tais argumentos são uma reprodução integral de pedido já formulado na Manifestação de Inconformidade; a DRJ, para conferir a veracidade dessas alegações, determinou a realização de uma diligência, cujas conclusões constam do relatório juntado aos presentes autos. Apesar de cientificado deste documento e intimado a se manifestar, o contribuinte permaneceu silente. Transcorrido in albis o prazo para manifestação, o processo foi remetido para a DRJ, cujo decisão foi a seguinte: Contra a decisão que indeferiu o direito creditório pleiteado no PER nº 24109.12415.180914.1.1.08-4823, foi apresentada defesa, devidamente apreciada quando do julgamento do Auto de Infração presente no Processo n° 10980.722878/2016-32. Isso porque referida manifestação reportou-se a glosas de créditos que influenciaram na classificação das receitas da contribuinte, em exportação, mercado interno tributado e mercado interno não tributado, bem como na apuração dos créditos de PIS e Cofins. Após os procedimentos fiscalizatórios, sobrou saldo de imposto a pagar para diversos períodos de apuração, devidamente lançado no AI já citado. Foi realizada também diligência fiscal, cujo resultado encontra-se informado às fls. 896/902, para que se apurasse o real montante das exportações e sua influência nas receitas da contribuinte, tanto quanto a alteração no percentual de rateio, no que tange às receitas no mercado externo e interno (tributadas e não tributadas), para fins de cálculo dos créditos da não cumulatividade do PIS e da Cofins. E, ainda, verificação da existência de saldo credor passível de ressarcimento. Fl. 3223DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.550 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.910079/2015-31 15 Com a conclusão de todos os trabalhos da fiscalização, não houve novamente apuração de crédito de Cofins não cumulativo - exportação, para o período de 4º trim 2012. Assim, não comprovada a existência de direito creditório líquido e certo do contribuinte contra a Fazenda Pública passível de ressarcimento, deve ser mantida a decisão dada pela autoridade administrativa, que não reconheceu o montante pleiteado por meio do PER n° 24109.12415.180914.1.1.08-4823. Tendo em vista que o contribuinte nada acrescentou em seu Recurso Voluntário, não há como modificar a decisão de piso. Pelo exposto, voto por negar provimento a este pedido. IV – DO TÓPICO “DO RATEIO PROPORCIONAL ENTRE AS RECEITAS TRIBUTADAS, RECEITAS NÃO TRIBUTADAS NO MERCADO INTERNO E RECEITAS DE EXPORTAÇÃO – DESCONSIDERAÇÃO DO NOVO RATEIO EM RAZÃO DAS PROVAS TRAZIDAS AOS AUTOS” Neste tópico, o contribuinte pede novamente que seja revertida a reclassificação das receitas com exportação indireta para receitas tributadas no mercado interno, dessa vez nos seguintes termos: A autoridade fiscal, em face das glosas provenientes das receitas de exportação e do mercado interno não tributado (suspensão), viu-se obrigada a refazer o rateio proporcional entre as receitas tributadas, receitas não tributadas no mercado interno e receitas de exportação. Assim, os documentos que foram trazidos com a manifestação de inconformidade, levam a crer a veracidade das informações fiscais e tributárias levadas ao conhecimento da fiscalização no momento da formalização dos pedidos de ressarcimento. Exemplificando, as exportações efetivamente ocorreram, quer seja pela via direta, quer seja pela via indireta, segundo memorandos de exportações, DEE’s e RE’s; assim como restou amplamente demonstrado que a atividade da Recorrente é cerealista, razão pela qual aplica-se ao caso a suspensão prevista no art. 9º, da Lei n.º 10.925/04 c/c arts. 2º e 3º da IN RFB 660/06. Neste sentido, uma vez demonstrada as efetivas operações pela Recorrente para reconhecer os créditos que lhe são de direito, consequentemente os rateios informados à fiscalização no pedido de ressarcimento são os corretos, razão pela qual não assiste razão à fiscal alterá-los. Portanto, não restam dúvidas das operações efetivadas pela Recorrente, razão pela qual deve ser julgado procedente o presente recurso para anular o acórdão e despacho decisório, para ao final desfazer o rateio realizado pela fiscalização para manter incólume o rateio proporcional realizado pela Recorrente junto aos seus documentos fiscais que deram origem ao pedido de ressarcimento. Em pedido Fl. 3224DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.550 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.910079/2015-31 16 sucessivo, que seja refeito o rateio na proporção do que for deferido nos pedidos de exportação e das receitas não tributadas no mercado interno (suspensão). Como o contribuinte se limita a repetir o mesmo pedido do item anterior, novamente sem demonstrar porque as conclusões da diligência fiscal estariam equivocadas, deve ser mantida a negativa de provimento ao pedido. V – DO TÓPICO “DOS BENS ADQUIRIDOS PARA REVENDA” Neste tópico, o contribuinte pede a reversão das glosas de créditos, nos seguintes termos: Pois bem, a sistemática da não-cumulatividade das contribuições destinadas ao PIS e à COFINS consiste em permissão para descontos da base de cálculo da pessoa jurídica – apurada sobre a receita bruta – relativos a certas operações de entrada de bens, encargos, custos e despesas. Tem-se expressamente previsto, na Lei nº 10.637/2002 e na Lei nº 10.833/2003, as situações que ensejam crédito de PIS e COFINS, dentre as quais destacam-se os bens adquiridos para a revenda, que segue: “Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: I - bens adquiridos para revenda, exceto em relação às mercadorias e aos produtos referidos: (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) a) no inciso III do § 3º do art. 1º desta Lei; e b) nos §§ 1º e 1º-A do art. 2º desta Lei;” Sendo assim, não poderão ser glosados os bens adquiridos, uma vez que devidamente comprovadas, através de documentos que seguiram com a manifestação de inconformidade, que as mercadorias foram destinadas ao mercado interno não tributado (suspensão) ou, ainda, para o externo, de modo que deverão ser deferidos em sua integralidade, razão pela qual deve ser anulado o acordão e despacho de decisório. O contribuinte apenas cita a legislação que permite a tomada de créditos, sem rebater os fundamentos do Despacho Decisório e do acórdão da DRJ. Nesse contexto, não há como dar provimento ao pedido. VI – DO TÓPICO “DOS BENS E SERVIÇOS UTILIZADOS COMO INSUMOS” Neste tópico, o contribuinte pede a reversão das glosas de créditos de insumos, nos seguintes termos: Fl. 3225DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.550 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.910079/2015-31 17 No item denominado “etapa 7”, a agente fiscal destaca a glosa dos créditos referentes a bens utilizados como insumos. Dentre os principais itens glosados, estão os créditos oriundos de exportação, que já fora amplamente demonstrado através de documentos no item “IV.A” da manifestação de inconformidade. Salienta-se, outrossim, a glosa referida pela fiscalização que consiste nas aquisições de BIG BAG para ensacar os grãos destinados à venda. Em linhas gerais, foi mencionado que o referido insumo não compunha o caráter de insumo uma vez que era embalagem utilizada no transporte e não na fabricação dos produtos, segundo previsão legal contida no despacho decisório. Como devido respeito que mereça a fiscal que exarou o despacho decisório ora contestado, mas não merece prosperar sua interpretação. A fiscal entende que o sistema não cumulativo trazido pelo legislador seria idêntico ao sistema constitucional da não cumulatividade estabelecido para o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), expedida através das Instruções Normativas nºs 247/2002 e 404/2004, nas quais determina que somente poderão ser considerados insumos, para fins de creditamento para desconto do tributo devido no caso das contribuições para o PIS e para a COFINS, as matérias primas, os produtos intermediários, o material de embalagem e quaisquer outros bens que sofram alterações, tais como o desgaste, o dano ou a perda de propriedades físicas ou químicas, em função da ação diretamente exercida sobre o produto em fabricação, desde que não estejam incluídas no ativo imobilizado, vindo de encontro ao que foi estabelecido tanto pela Carta Magna (os contornos presentes na não cumulatividade prevista), bem como pela legislação infraconstitucional. (...) Em síntese, veja-se que a base de cálculo para apuração do PIS e da COFINS é o faturamento, pressupõe-se que para atingir tal objetivo (faturamento) deva-se produzir e comercializar bens os quais a Recorrente está incumbida de vender. Assim, para chegar a tal fim, necessário o dispêndio de algumas despesas e insumos que atinjam o seu objetivo final. Logo, entende-se que todas as despesas e insumos necessários para o objetivo final da Autora, qual seja o faturamento, deva ser passível de creditamento para PIS/COFINS. Corolário lógico, pois, que os BIG BAGs são necessários para a atividade fim da empresa pois, para efetuar a venda, com o devido transporte dos grãos, deve-se colocá-los em sacos que suportam grande peso e volume, a conservação e proteção do produto durante o transporte contra agentes externos indesejáveis, como é o caso exposto. Se não houvesse a utilização dos BIG BAGs, a Recorrente não conseguiria atender a demanda dos clientes e, consequentemente, não os venderia e, não geraria faturamento. (...) Fl. 3226DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.550 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.910079/2015-31 18 Quanto aos serviços utilizados como insumos, foram pleiteados os meses de janeiro de 2012 e junho de 2014. Veja-se que o serviço prestado no mês de janeiro de 2014, embora devidamente comprovado por meio de nota fiscal, foi glosado com base no argumento de que o serviço de mecânica não se enquadra como insumo aplicado ao produto. Todavia, com base em toda a explanação retro acerca da definição de insumos, tem-se superado qualquer questionamento acerca do enquadramento como insumo, visto que essencial para o processo produtivo. Por outro lado, observa-se que a Autoridade Fiscal apenas glosou os valores de janeiro de 2012 por ausência de comprovação da efetiva aquisição de serviço. Desta forma, oportunamente, juntou-se aos autos as notas fiscais relativas aos serviços prestados no período de janeiro de 2012, razão pela qual tem-se superada qualquer discussão acerca do direito ao crédito. Nesses termos, considerando-se que a Recorrente tomou créditos relativos a bens e serviços utilizados como insumo decorrentes dos custos incorridos pelos bens adquiridos e em razão deles serem necessários para a sua atividade-fim, entende que merece ser afastada a glosa, visto que aferidos nos termos estabelecidos pela legislação em vigor. Em relação aos BIG BAGs, verifica-se que são necessários para a atividade fim da empresa pois, para efetuar a venda, com o devido transporte dos grãos, deve-se colocá-los em sacos que suportam grande peso e volume e também garantem a conservação e proteção do produto durante o transporte contra agentes externos indesejáveis. Se não houvesse a utilização dos BIG BAGs, a Recorrente não conseguiria atender a demanda dos clientes e, consequentemente, não os venderia. Sobre o tema há, inclusive, a Súmula CARF nº 235: As despesas incorridas com embalagens para transporte de produto, quando destinadas à sua manutenção, preservação e qualidade, enquadram-se na definição de insumos fixada pelo STJ, no julgamento do REsp nº 1.221.170/PR. Quanto aos serviços utilizados como insumos, o contribuinte informa que se referem aos meses de janeiro de 2012 e junho de 2014. Essa informação confere com o que consta da Informação Fiscal que embasa o Despacho Decisório: 55. A empresa declarou no SPED Contribuições valores componentes da base de cálculo dos créditos pleiteados como serviços utilizados como insumos somente nos meses de janeiro de 2012 e junho de 2014. 56. Na relação de notas fiscais encaminhada pela empresa em resposta à Intimação Fiscal nº 01/2016 somente há uma nota de junho de 2014 que confere com o valor declarado no SPED neste mês. Portanto, glosamos o valor de janeiro de 2012 por falta de comprovação da efetiva aquisição do serviço. Fl. 3227DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.550 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.910079/2015-31 19 O presente processo trata dos créditos referentes ao 2º trimestre de 2012, logo a matéria não deve ser conhecida. VII – DO TÓPICO “DESPESAS COM ALUGUÉIS DE PRÉDIOS, MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS” Neste tópico, o contribuinte pede a conversão do julgamento em diligência para apresentação da documentação que comprova as despesas com aluguéis de prédios, máquinas e equipamentos, nos seguintes termos: DESPESAS COM ALUGUÉIS DE PRÉDIOS, MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS O Acórdão, negou o direito da Recorrente em produzir tais provas, portanto, merece reparo nesse sentido, uma vez que o direito ao crédito com despesas de aluguéis de prédios, máquinas e equipamentos, também vem amparado pelo texto legal: (...) Posto isso, conforme requerido na impugnação do processo principal nº 10980.722878/2016-32, requer seja o feito baixado em diligência para apresentação da documentação que comprova as despesas com aluguéis de prédios, máquinas e equipamentos, sob pena de cerceamento de defesa. Este Conselho privilegia o Princípio da Verdade Material, buscando sempre a verdade dos fatos no mundo real, em contraposição à “verdade dos autos”, atenuando os rigores do formalismo processual e admitindo a produção de provas após a apresentação da Impugnação, desde que atendidas determinadas condições, sendo a principal delas a apresentação, pelo contribuinte, de provas indiciárias que ao menos demonstrem a plausibilidade dos seus pedidos. Vejamos, portanto, os fundamentos da Informação Fiscal que glosou esses créditos: Etapa 10 – Análise dos Créditos referentes a Aluguéis de prédios, máquinas e equipamentos 61. No SPED Contribuições, a contribuinte declarou como componente da base de cálculo dos créditos de PIS e Cofins não cumulativos do período desta análise, janeiro de 2012 a junho de 2014, despesas com aluguéis de prédios, máquinas e equipamentos. 62. Para comprovar a declaração e atestar as referidas despesas, intimamos a empresa, através do Termo de Intimação Fiscal nº 01/2016, a apresentar cópia dos contratos de aluguel e respectivos comprovantes de pagamento que compuseram esta rubrica. (...) 64. Entretanto, dos contratos inicialmente apresentados pela empresa, um trata- se de subcomodato cujo período de comodato é de 22/01/2015 a 22/01/2015, Fl. 3228DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.550 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.910079/2015-31 20 outro é locado de pessoa física com prazo inicial em 11/01/2016, outro de locação de 1 contêiner cujo prazo inicial é de 19/08/2015, outro de locação de 1 barracão com prazo inicial em 18/08/2014 e o último documento apresentado não é cópia de contrato e sim documento judicial datado de 25/06/2011. Como demonstramos, os documentos não são do período desta análise, além de outras inconsistências, como locação de pessoa física e documento não é contrato de aluguel. 65. Porém, posteriormente, a contribuinte apresentou outro Contrato de Arrendamento Mercantil de Unidade Armazenadora de Cereais com período de arrendamento de 10 anos, com início em 25/09/2007 e fim em 24/09/2017, com valor da contraprestação de R$ 7.000,00 mensais. Também apresentou notas fiscais de aluguel de máquina com datas dentro do período de análise. 66. Tendo em vista estes últimos documentos, deferimos a totalidade das despesas neles contidas e glosamos do montante declarado no SPED Contribuições a diferença não comprovada pela contribuinte. Para demonstração anexamos aos processos os documentos apresentados pela empresa, juntamente com planilha de resultado desta rubrica. Para se contrapor a estes argumentos, o contribuinte apresentou as seguintes alegações em sua Manifestação de Inconformidade: Nesses termos, considerando-se que a Manifestante tomou créditos relativos a bens e serviços utilizados como insumo decorrentes dos custos incorridos pelos bens adquiridos e em razão deles serem necessários para a sua atividade-fim, entende que merece ser afastada a glosa, visto que aferidos nos termos estabelecidos pela legislação em vigor. IV.F – DESPESAS COM ALUGUÉIS DE PRÉDIOS, MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS O mesmo ocorre com relação às despesas com aluguéis de prédios, máquinas e equipamentos. Veja-se que o direito ao crédito com despesas de aluguéis de prédios, máquinas e equipamentos, também vem amparado pelo texto legal: (...) Ocorre que, diante de um equívoco da ora manifestante, foram indevidamente juntados contratos de aluguéis e comprovantes de pagamentos relativos a período distinto ao pleiteado. Conduta esta que acarreta apenas em vício formal, não sendo capaz de derruir um direito expressamente previsto na legislação. Neste diapasão, é imperioso oportunizar prazo hábil à ora manifestante para a juntada de toda a documentação probatória, tais como contratos de aluguéis e arrendamentos mercantis, referentes ao período de janeiro de 2012 a junho de 2014, visto que, apenas assim, tem-se a possibilidade da reforma do despacho decisório ora impugnado e, por conseguinte, a viabilização do deferimento integral dos pedidos de ressarcimentos. Fl. 3229DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.550 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.910079/2015-31 21 Tal defesa foi apresentada em 28/07/2016. Passados quase 10 anos, o contribuinte não apresentou um único documento sequer, dentre aqueles para os quais solicitou prazo hábil para apresentação. Nesse contexto, mostra-se inadmissível a realização de uma diligência para produção de provas que já poderiam ter sido apresentadas pelo contribuinte, junto com o Recurso Voluntário ou até mesmo depois deste. Pelo exposto, rejeito o pedido de diligência. VIII – DO TÓPICO “DAS DESPESAS COM FRETES NA OPERAÇÃO DE VENDA” Neste tópico, o contribuinte pede a reversão da glosa de créditos vinculados a fretes de produtos acabados entre filiais, nos seguintes termos: Quanto ao frete pago pela adquirente na compra de mercadorias, este poderá gerar crédito desde que a esta seja destinada a revenda ou utilizada como insumo, de forma que o custo com o frete estará integrado no custo para aquisição dos bens. O mesmo se aplica para os fretes nas operações em que o fornecedor é pessoa jurídica, conforme se verifica: (...) Afirma a fiscal que há uma destoante diferença entre os valores declarados no SPED Contribuições e o informado na planilha encaminhada pela empresa em resposta à intimação 26/2016. E que em relação aos períodos de janeiro de 2012 e agosto de 2012, no momento em que fora intimada para prestar os esclarecimentos, sequer houve a declaração de novos valores pela recorrente. Ainda, afirmou-se no despacho decisório que diversas operações não foram especificadas, tais como, a identificação e diferenciação do frete de compra e do frete de venda, bem como da mercadoria transportada pelo contribuinte nas operações de compra, sendo estes alguns dos fatores que ensejaram na glosa dos valores. Por outro lado, quanto aos fretes realizados entre filiais, contrário ao alegado pela Autoridade Fiscal, não há qualquer óbice para o creditamento, tanto que o próprio dispositivo legal (inciso IX, do artigo 3º da Lei nº 10.833/03), ao mencionar "(...) frete na operação de venda, nos casos dos incisos I e II, quando o ônus for suportado pelo vendedor" está admitindo o crédito do frete para o transporte de insumos, produtos acabados ou produtos já vendidos. Assim, o crédito não estaria limitado às operações de venda. (...) Observa-se que, em um primeiro momento, o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) se pronunciou no sentido reconhecer o dispêndio do frete entre os estabelecimentos industriais da pessoa jurídica, desde oriundos Fl. 3230DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.550 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.910079/2015-31 22 destinados as transferências de matérias-primas e produtos intermediários, consoante se observa: (...) Todavia, também é possível atribuir ao frete entre estabelecimentos de produtos acabados a natureza jurídica do crédito de insumo. Atualmente, o CARF tem estendido sua interpretação quanto aos bens e mercadorias relacionados aos fretes entres as filiais, admitido não apenas a possibilidade de direito ao crédito sobre o transporte de insumos e produtos intermediários, mas, também, sobre os produtos acabados, consoante se observa: (...) Outrossim, consoante deprede-se do Acórdão nº 3403-00.485, tem se ainda a possibilidade de crédito nas transferências realizadas entre os estabelecimentos da mesma pessoa jurídica de produtos destinados à exportação, de modo que os fretes entre filiais equipar-se-ão aos fretes de venda. Desse modo, tendo em vista que a Recorrente tem a exportação como uma de suas principais atividades, faz-se necessário, também, as comprovações destas operações. Vejamos, portanto, os fundamentos da Informação Fiscal que glosou esses créditos: Etapa 11 - Análise dos Créditos referentes a Fretes na Operação de Venda 67. Para demonstração do valor declarado como Fretes na Operação de Venda, a empresa apresentou Relação dos Conhecimentos de Transporte – CTe e desta relação selecionamos alguns documentos por amostragem para checagem de informações. Visualizamos estes Conhecimentos através do programa disponibilizado no endereço www.cte.fazenda.gov.br, com a respectiva chave informada na relação encaminhada. 68. Desta amostra, verificamos que constava nesta Relação não somente fretes sobre operações de venda, mas também fretes sobre operações de compra. Importante salientar que para analisarmos os fretes sobre compras é necessária a identificação da mercadoria transportada, pois, neste caso, o frete compõe o custo da mercadoria vendida. Também identificamos inconsistências como fretes que não se enquadram na legislação de regência, inciso IX, do art. 3º, c/c inciso II do art. 15, da Lei nº 10.833/2003, como exemplo: fretes de bens do ativo imobilizado, de amostras, brindes, material de construção, etc. Outra inconsistência encontrada na amostra foram fretes de transferência de mercadoria. 69. Em função do identificado na amostragem reintimamos a empresa, Reintimação Fiscal nº 26/2016, a reencaminhar a relação de Conhecimentos de Transporte informando qual o tipo de frete; compra, venda ou formação de lote; Fl. 3231DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.550 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.910079/2015-31 23 e também identificar a mercadoria transportada, além do fornecedor e do adquirente desta mercadoria. 70. Da análise desta segunda planilha, inicialmente, verificamos que o valor total de frete informado é menor que o valor total declarado no Sped Contribuições. Com isso, efetuamos glosa excluindo do montante declarado no SPED Contribuições esta diferença – Glosa 8. Lembrando que sempre o valor deferido está limitado ao valor declarado no SPED. 71. Em relação ao frete pago pelo adquirente na COMPRA de mercadorias destinadas à revenda ou utilizadas como insumos, este serviço integra o custo de aquisição desses bens, podendo gerar direito a créditos desde que o custo tenha sido suportado pelo adquirente. Caso a mercadoria transportada não gere crédito por não ser bem para revenda ou utilizado como insumo, o respectivo frete também não gerará crédito. Portanto, os fretes: de documentos administrativos, de aquisição de bem para o ativo imobilizada (CFOP 2.551), de transferência de mercadoria entre unidades do contribuinte (CFOP 5.152 e 1.152), de aquisição de bem adquirido para uso ou consumo (CFOP 1.556), de transporte de amostra grátis (CFOP 6.911), além de despesas com guinchos; foram excluídos do total declarado no SPED Contribuições – Glosa 1. 72. O mesmo ocorre em relação ao frete nas operações de compra de mercadoria adquirida de Pessoa Física, já que neste caso o direito ao crédito aplica-se, exclusivamente, em relação aos bens e serviços adquiridos de pessoa jurídica domiciliada no País, conforme dispõe o inciso I do § 3º do art. 3º das Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/2003, e o valor incorrido de frete nas operações de compra compõe o custo de aquisição dos referidos bens. Por isso a totalidade declarada de frete nas operações de Compra de Pessoa Física também foi excluída da base de cálculo dos créditos de PIS e Cofins – Glosa 2. Importante informar que desta glosa alguns fretes apesar de estarem identificados, na relação encaminhada pela contribuinte, como sendo Pessoa Jurídica o fornecedor da mercadoria transportada, na visualização do CTe verificamos que de fato o fornecedor da mercadoria é Pessoa Física e por isso também excluímos estes fretes do total declarado pela empresa no SPED. 73. Como já informamos acima, o frete sobre operações de COMPRA compõe o custo da mercadoria adquirida, ou seja, para a nossa análise é fundamental a identificação da mercadoria transportada, pois é ela quem define o direito ou não ao crédito. Em função disto é que reintimamos a empresa a reencaminhar a relação inicial contendo esta informação. Entretanto, para alguns CTe a empresa continuou a não identificar a mercadoria e, portanto, devido à impossibilidade de análise conclusiva efetuamos glosa destes valores – Glosa 3. 74. Também excluímos valores de fretes onde a empresa não informou o tipo do frete, se venda, compra ou formação de lote, assim como também não informou a descrição da mercadoria transportada, e o fornecedor e/ou adquirente desta. A Fl. 3232DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.550 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.910079/2015-31 24 glosa se deve pela impossibilidade de formação de juízo quanto ao direito a crédito destes serviços – Glosa 4. 75. Outra exclusão do montante declarado como fretes sobre operações de venda foi devido a Conhecimentos de Transporte eletrônicos cancelados pelos respectivos emitentes - Glosa 5. Identificamos os cancelamentos através de visualização do CTe no site da Fazenda Nacional, informado acima. Anexamos aos processos cópia de parte dos Conhecimentos de Transporte cancelados, não a totalidade deles devido à grande quantidade e a possibilidade de visualização destes, caso necessário, no site da Fazenda Nacional anteriormente identificado. 76. Ainda na análise da segunda relação de CTe, identificamos alguns Conhecimentos de Transporte declarados em duplicidade e, portanto, excluímos o respectivo montante da base de cálculo do crédito de Pis e Cofins referente a esta rubrica – Glosa 6. 77. Para demonstração dos valores glosados anexamos aos processos planilha de Resultado da análise desta rubrica, relativa a “Frete nas Operações de Venda e de Compra”, e Relação dos Conhecimentos de Transporte Eletrônicos excluídos da base de cálculo dos créditos, separados por motivo da glosa, assim como também, os documentos necessários à comprovação do relatado. Ressaltamos que, entre estas planilhas, há uma denominada “Relação das Notas Fiscais Glosadas – Glosa 7” onde relacionamos Conhecimentos de Transporte inclusos na segunda planilha encaminha pela contribuinte, mas que não foram considerados nesta análise por não comporem o período de análise, em função da data de entrada informada. 78. Os demais valores declarados como despesas de fretes, nas Operações de venda e de compra, foram confirmados pelos documentos apresentados pela contribuinte em resposta às Intimações e, portanto, deferidos nesta análise. Apesar das glosas de fretes terem sido realizadas sob diversos fundamentos, o contribuinte se limitou a contestar a glosa de créditos vinculados ao frete de produtos acabados. Contudo, tal matéria já se encontra pacificada neste Conselho por meio da Súmula CARF nº 217: Os gastos com fretes relativos ao transporte de produtos acabados entre estabelecimentos da empresa não geram créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e de Cofins não cumulativas. Apesar de não ter sido objeto de contestação específica, a Glosa 2 se refere a frete nas operações de compra de mercadoria adquirida de pessoa física, matéria que deve ser conhecida de ofício pelo julgador, por estar sumulada neste Conselho, nos termos da Súmula CARF nº 188: É permitido o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Contribuição para o PIS/Pasep e pela Cofins não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições. Fl. 3233DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.550 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.910079/2015-31 25 Nesse contexto, decido, de ofício, pela reversão da Glosa 2, referente a créditos vinculados a frete de insumos adquiridos de pessoa física. IX – DO TÓPICO “DAS DESPESAS COM MÁQUINAS, EQUIPAMENTOS E BENS INCORPORADOS AO ATIVO IMOBILIZADO” Neste tópico, o contribuinte pede a reversão da glosa de créditos vinculados às despesas com máquinas, equipamentos e bens incorporados ao ativo imobilizado, nos seguintes termos: Conforme legislação vigente, é permitida a tomada de créditos do PIS/Cofins sobre as aquisições de máquinas, equipamentos e outros bens incorporados ao ativo imobilizado, desde que estes sejam utilizados no processo produtivo da empresa. (...) Observa-se que, com a máxima vênia, a Autoridade Fiscal erroneamente glosou os créditos relativos aos bens incorporados ao ativo imobilizado – caminhões e carretas –, sob o argumento de que estes bens não seriam utilizados no processo produtivo, tendo em vista que a empresa teria o beneficiamento de grãos como o seu processo produtivo. Em que pese este seja uma de suas principais funções, ocorre que, em uma de suas filiais, denominada de Lavoura Transportes (inscrita no CNPJ/MF sob o nº 79.851.192/0001-08), executa-se como atividade principal a realização de transportes, consoante pode-se observar no objeto do estatuto social: “(vii) transporte rodoviário de cargas, exceto produtos perigosos e mudança, intermunicipal, interestadual e internacional.” Portanto, os caminhões apontados pela Recorrente são evidentemente fundamentais para que esta exerça suas atividades operacionais e integram o seu ativo imobilizado, fazendo, pois, jus ao direito creditório sobre a depreciação ocorrida sobre referidos bens. Deste modo, tendo em vista que os bens do ativo imobilizado apontados pela Recorrente são essenciais ao processo produtivo da referida transportadora, é ilegal e abusiva a vedação ao aproveitamento, pelo que impõe- se o afastamento das glosas e o deferimento dos créditos lançados na sua integralidade. Na diligência fiscal determinada pelo CARF foi solicitada também uma análise dessa matéria. O Relatório de Diligência Fiscal traz as seguintes conclusões: 74. As Resoluções que converteram os julgamentos nesta Diligência, determinaram no item 4 que verifiquemos: “Se houve auferimento de receitas de prestação de serviços de transporte a terceiros e se os caminhões e carretas Fl. 3234DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.550 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.910079/2015-31 26 objeto da glosa “Despesas com máquinas, equipamentos e bens incorporados ao ativo imobilizado” estão vinculados a esta prestação de serviço.” (...) 76. Quanto à verificação exigida, informamos que em parte a resposta é sim, resta comprovado que a contribuinte Lavoura Indústria Comércio Oeste SA, de acordo com o declarado em Escriturações Fiscais Digitais das Contribuições PIS/Pasep e Cofins – EFD do período, realizou prestações de serviços de transporte a terceiros. A seguir tabela referente aos correspondentes valores e períodos dos serviços prestados: (...) 80. A glosa em análise inicial do seu direito creditório se deu pelo fato de que no geral os bens destacados não eram utilizados no processo produtivo da empresa o “beneficiamento de grãos”. Nesse primeiro momento foi desconsiderada a prestação de serviço de transporte a terceiros como atividade da contribuinte, entretanto, nesta diligência constatamos que estas operações são realizadas pela contribuinte e compõem o cálculo dos créditos de pis e cofins não cumulativos, fazendo jus portanto de créditos apurados sobre caminhões e carretas, incorporados ao ativo imobilizado, utilizados nos serviços de transporte prestados a terceiros. 81. Destacamos que os demais bens glosados, que não caminhões e carretas, serão mantidos como itens excluídos da base de cálculo dos créditos de Pis/Pasep e cofins não cumulativos, no cálculo final desta diligência. 82. Para identificar quais caminhões e carretas eram utilizados nas prestações de serviços de transporte a terceiros, a fim de comprovar o direito ao crédito, intimamos a empresa (Termo de Intimação Fiscal nº 15.178- 2023/EQAUD3/DRFBLU/SRRF09/RFB) a apresentar planilha com relação de documentos fiscais de prestações de serviços de transporte vinculados aos caminhões e/ou carretas, as respectivas cópias destes documentos, planilha com a relação dos referidos caminhões e carretas vinculando-os à descrição utilizada na EFD Contribuições no registro do crédito de “máquinas, equipamentos e outros bens incorporados ao ativo imobilizado” e respectivas documentações probatórias. 83. Da resposta à Intimação verificamos as placas indicadas nos Conhecimentos de Transporte e checamos, com ajuda das planilhas e documentos comprobatórios encaminhados, quais foram os caminhões e carretas que correspondiam àquelas placas informadas nos documentos fiscais do serviço de transporte prestado a terceiros. Relação dos bens comprovados e deferidos nesta diligência a seguir: (...) Fl. 3235DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.550 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.910079/2015-31 27 84. Os caminhões e carretas que não tiveram a comprovação de utilização em prestação de serviços de transporte a terceiros, através dos documentos encaminhados pela contribuinte, e por isso continuam excluídos da base de cálculo dos créditos sob análise, estão relacionados a seguir: (...) 85. Durante a Diligência verificamos que a contribuinte declarou em duplicidade alguns caminhões e carretas, informando o bem tanto na rubrica de “Máquinas, equipamentos e outros bens incorporados ao ativo imobilizado (crédito sobre encargos de depreciação)” quanto na rubrica de “Máquinas, equipamentos e outros bens incorporados ao ativo imobilizado (crédito com base no valor de aquisição)”. Por terem sua comprovação na utilização em prestação de serviços de transporte, deferimos o crédito de Pis e Cofins sobre os bens, mas somente na rubrica com a forma do cálculo do “crédito sobre encargos de depreciação” e mantivemos a glosa na rubrica do “crédito com base no valor de aquisição”. Relacionamos a seguir os respectivos bens: (...) 86. O cálculo do crédito de Pis/Pasep e Cofins não cumulativos sobre as despesas com máquinas, equipamentos e bens incorporados ao ativo imobilizado após esta diligência está demonstrado em planilhas anexadas aos processos. Com base no resultado da diligência, voto para dar provimento parcial a este pedido, no limite do crédito reconhecido em diligência. X – DO TÓPICO “DA INCIDÊNCIA DA TAXA SELIC” Neste tópico, o contribuinte pede que o valor pedido em ressarcimento seja corrigido pela Taxa SELIC. Contudo, não houve qualquer resistência por parte da Receita Federal neste ponto, ou qualquer utilização de outra taxa. Logo, há evidente falta de interesse e utilidade processuais nessa matéria (pressupostos de admissibilidade), razão pela qual voto pelo seu não conhecimento. XI – DISPOSITIVO Pelo exposto, voto por conhecer parcialmente do Recurso Voluntário, não conhecendo do pedido de reversão da glosa de créditos com serviços prestados em janeiro de 2012 e junho de 2014; e, na parte conhecida, rejeitar a preliminar de diligência e, no mérito, dar provimento parcial para determinar a suspensão da incidência do PIS/Cofins de que trata o art. 9º da Lei nº 10.925/2004 sobre as vendas que cumprem os requisitos previstos na legislação; para reverter a glosa de créditos vinculados (i) às aquisições de embalagens tipo “BIG BAGs”, (ii) às despesas com frete de insumos adquiridos de pessoa física e (iii) aos encargos de depreciação de caminhões e carretas, tudo nos termos da diligência fiscal determinada por este Conselho; e para Fl. 3236DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.550 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.910079/2015-31 28 determinar a correção de eventual saldo credor pela taxa SELIC a partir do primeiro dia seguinte ao escoamento do prazo de 360 dias para análise do pedido administrativo pelo Fisco, nos termos do REsp nº 1.767.945/PR. Assinado Digitalmente Lázaro Antônio Souza Soares Fl. 3237DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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11285493 #
Numero do processo: 11282.720042/2021-09
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Feb 05 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Wed Apr 01 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Exercício: 2018 APLICAÇÃO DO ART. 114, §12, I DO REGIMENTO INTERNO DO CARF. FACULDADE DO JULGADOR. Plenamente cabível a aplicação do respectivo dispositivo regimental uma vez que a Recorrente não inova nas suas razões já apresentadas em sede de impugnação, as quais foram claramente analisadas pela decisão recorrida PROCEDIMENTO FISCAL. NULIDADE. Não há se falar em nulidade do lançamento por cerceamento do direito de defesa, quando o auto de infração é lavrado por autoridade competente e regularmente cientificado ao sujeito passivo, sendo-lhe concedido prazo para manifestação em relação ao próprio auto e seus anexos, sobretudo quando os elementos constantes dos autos oferecem as condições necessárias ao pleno exercício da defesa, com discriminação da situação fática constatada e os dispositivos legais que amparam as autuações. OMISSÃO DE RENDIMENTOS RECEBIDOS DE PESSOA JURÍDICA. MÚTUO FINANCEIRO. TRANSFERÊNCIA DE RECURSOS. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO. Cabe ao sujeito passivo além da comprovação da existência do contrato, a prova tanto da operação de concessão quanto de quitação do empréstimo, mediante a apresentação dos comprovantes de efetiva transferência dos recursos. CONTRATOS DE MÚTUO. REQUISITOS DE VALIDADE. Para fins de comprovação das operações perante o Fisco é imprescindível: (i) a apresentação do contrato assinado pelas partes e levado a registro público; (ii) a informação tempestiva do empréstimo nas declarações de ajuste; (iii) a existência de disponibilidade financeira do mutuante (iv) a comprovação da efetiva transferência do numerário entre credor e devedor (na tomada do empréstimo), com indicação de valor e data coincidentes como previsto no contrato firmado; e (v) a comprovação da quitação de parcelas. ALEGAÇÃO DE MÚTUO FINANCEIRO. AFASTAMENTO DE LUCROS EXCEDENTES. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO. Para afastar a imputação fiscal de omissão de rendimentos com base em lucros distribuídos em valor excedente, a alegação de existência de contrato de mútuo a acobertar a operação deve ser acompanhada de elementos de prova robustos, contemporâneos ao fato gerador e não produzidos ao tempo da apresentação da impugnação.
Numero da decisão: 2402-013.423
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, rejeitar a preliminar suscitada para, no mérito, negar provimento ao recurso voluntário interposto. Assinado Digitalmente Marcus Gaudenzi de Faria – Relator Assinado Digitalmente Rodrigo Duarte Firmino – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Alexandre Correa Lisboa, Joao Ricardo Fahrion Nuske, Luciana Vilardi Vieira de Souza Mifano, Marcus Gaudenzi de Faria, Wilderson Botto, Rodrigo Duarte Firmino (Presidente). Ausente, justificadamente, o conselheiro Suez Roberto Colabardini Filho
Nome do relator: MARCUS GAUDENZI DE FARIA

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FACULDADE DO JULGADOR. Plenamente cabível a aplicação do respectivo dispositivo regimental uma vez que a Recorrente não inova nas suas razões já apresentadas em sede de impugnação, as quais foram claramente analisadas pela decisão recorrida PROCEDIMENTO FISCAL. NULIDADE. Não há se falar em nulidade do lançamento por cerceamento do direito de defesa, quando o auto de infração é lavrado por autoridade competente e regularmente cientificado ao sujeito passivo, sendo-lhe concedido prazo para manifestação em relação ao próprio auto e seus anexos, sobretudo quando os elementos constantes dos autos oferecem as condições necessárias ao pleno exercício da defesa, com discriminação da situação fática constatada e os dispositivos legais que amparam as autuações. OMISSÃO DE RENDIMENTOS RECEBIDOS DE PESSOA JURÍDICA. MÚTUO FINANCEIRO. TRANSFERÊNCIA DE RECURSOS. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO. Cabe ao sujeito passivo além da comprovação da existência do contrato, a prova tanto da operação de concessão quanto de quitação do empréstimo, mediante a apresentação dos comprovantes de efetiva transferência dos recursos. CONTRATOS DE MÚTUO. REQUISITOS DE VALIDADE. Fl. 765DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.423 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11282.720042/2021-09 2 Para fins de comprovação das operações perante o Fisco é imprescindível: (i) a apresentação do contrato assinado pelas partes e levado a registro público; (ii) a informação tempestiva do empréstimo nas declarações de ajuste; (iii) a existência de disponibilidade financeira do mutuante (iv) a comprovação da efetiva transferência do numerário entre credor e devedor (na tomada do empréstimo), com indicação de valor e data coincidentes como previsto no contrato firmado; e (v) a comprovação da quitação de parcelas. ALEGAÇÃO DE MÚTUO FINANCEIRO. AFASTAMENTO DE LUCROS EXCEDENTES. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO. Para afastar a imputação fiscal de omissão de rendimentos com base em lucros distribuídos em valor excedente, a alegação de existência de contrato de mútuo a acobertar a operação deve ser acompanhada de elementos de prova robustos, contemporâneos ao fato gerador e não produzidos ao tempo da apresentação da impugnação. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, rejeitar a preliminar suscitada para, no mérito, negar provimento ao recurso voluntário interposto. Assinado Digitalmente Marcus Gaudenzi de Faria – Relator Assinado Digitalmente Rodrigo Duarte Firmino – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Alexandre Correa Lisboa, Joao Ricardo Fahrion Nuske, Luciana Vilardi Vieira de Souza Mifano, Marcus Gaudenzi de Faria, Wilderson Botto, Rodrigo Duarte Firmino (Presidente). Ausente, justificadamente, o conselheiro Suez Roberto Colabardini Filho Fl. 766DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.423 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11282.720042/2021-09 3 RELATÓRIO Tratam os presentes autos de recurso voluntário interposto contra o acórdão 106.034.619, da 9ª TURMA/DRJ06 que, por unanimidade de votos julgou improcedente a impugnação apresentada pelo sujeito passivo. Por bem narrar os fatos, aproveito de parte do relatório do acórdão recorrido. Autuação Auto de Infração, fls. 2 a 15, relativo ao Imposto de Renda de Pessoa Física, exercício 2018, ano-calendário 2017, que formalizou a exigência do crédito tributário, em razão da constatação das infrações de omissão de rendimentos recebidos de pessoa jurídica em valor acima dos lucros distribuídos e em decorrência de contratos de mútuo. Imposto (2904) R$4.283.716, 69 Juros de Mora (até 5/2021) R$625.851,00 Multa Proporcional R$3.212.787, 51 Valor do Crédito Tributário R$8.122.355, 20 Segundo o Relatório Fiscal de fls. 11 a 52, em procedimento junto à Sr. Lília Maria Pereira dos Santos, esposa do contribuinte, houve atendimento à intimação para apresentação de justificativas acerca da origem de depósitos em contas bancárias. Como as contas n.º 10043-9 e 65269-5 mantidas no Banco Bradesco eram de titularidade do casal, o Sr. José Bernardino foi intimado e apresentou justificativas a respeito das origens dos recursos. Nessas justificativas enviadas por meio eletrônico (e-mail) foram apresentadas as origens dos recursos concentradas em recebimento de pró-labore, lucros recebidos e depósitos provenientes de contratos de mútuo celebrados com empresas das quais o autuado participa ou ocupa cargo na administração. Fl. 767DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.423 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11282.720042/2021-09 4 Ao examinar a documentação a fiscalização detectou que o contribuinte integrava o quadro societário da Pedra Branca Imobiliária Ltda com participação de 92,67% do capital social. Em respostas à intimação, tanto o fiscalizado quanto a esposa justificaram alguns depósitos como oriundos de lucros distribuídos por essa empresa e para examinar o registro contábil dos valores, a pessoa jurídica foi comunicada que seria realizado acesso aos arquivos digitais correspondentes. Adotada essa providência verificou-se que a Escrituração Contábil Digital (ECD) registrou lucros distribuídos aos sócios nos seguintes valores: José Bernardino – R$2.150.000,00; Lília Maria – R$520.000,00. O casal apresentou 4 cheques relativos ao efetivo pagamento de lucros. Os cheques, todos nominais a José Bernardino, possuem endosso e os recursos foram depositados em outras contas bancárias ou sacados em espécie. O Relatório Fiscal demonstra a relação de cheques nominais ao contribuinte, depósitos bancários relativos ao recebimento de lucros pela esposa e transcrição de registros contábeis extraídos da ECD. Da análise dos lançamentos contábeis concluiu a fiscalização que houve transferência de recursos da pessoa jurídica para o sócio em valores superiores aos lucros distribuídos Em outra direção, para comprovar a origem de depósitos bancários da ordem de R$14.721.583,72 o contribuinte apresentou contratos de mútuo firmados com as empresas da qual ele possuía relação: Itaipava S/A (Diretor até 12/3/2014); Itajubara S/A Açúcar e Álcool (Presidente); Itaimbé Agropecuária Ltda (Sócio Administrador) e Companhia Industrial de Goiana – CAIG (Presidente). Segundo o relato fiscal os contratos possuem as mesmas características: nenhum deles foi registrado; não há previsão de garantias ao mutuante; os valores são disponibilizados com prazo de carência de 36 meses e juros de 1% ao mês; facultam ao mutuário amortizar a dívida, no todo ou em parte mediante a cessão de bens do mutuário. Intimadas as pessoas jurídicas mencionadas informaram que os pagamentos ainda não se iniciaram. Por meio de acesso à escrituração de cada uma das empresas e com base na documentação examinada a autoridade autuante constatou: Fl. 768DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.423 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11282.720042/2021-09 5 (i) ausência de quitação das prestações; (ii) ausência de registro público dos contratos; (iii) ausência de transmissão de escrituração ao SPED pela Itaipava; (iv) escrituração das empresas Itajubara e Itaimbé sem o registro das operações; (v) escrituração parcial dos contratos pela empresa Companhia Agroindustrial de Goiana; (vi) redução significativa do patrimônio de José Bernardino de 2017 a 2020 sem que houvesse quitação de parcelas; (vii) ausência de garantias nos contratos. (viii) Em anexo ao Relatório Fiscal foram juntadas planilhas com histórico, valores e justificativas apresentadas pelo fiscalizado. Da impugnação Regularmente cientificado do teor do lançamento fiscal, o impugnante aviou a peça de defesa acostada às fls. 629 a 654 na qual alega, em síntese: A respeito dos R$855.567,87 tratados como recebimento em valor superior aos lucros distribuídos a fiscalização não teria observado a natureza da operação consistente em cheque em valor idêntico. Tratar-se-ia de mútuo realizado junto à empresa Pedra Branca, consoante contrato acostado e registro contábil reproduzido pela própria autoridade autuante (pag. 30 do PAF). No registro contábil, exceto essa operação, todas as demais foram registradas como lucros e dividendos. Esclarece que não houve pretensão de buscar indevidamente a isenção do IR. Tal valor é controlado por conta contábil (120104001) diversa da que emanaram as distribuições de lucros (210601001), fato que passou ao largo da fiscalização. Quanto ao registro do mútuo, apresenta o Razão Analítico (doc. 02), que contemplaria objetivamente a operação. Relata que o livro atesta a existência de créditos e débitos nessa conta, o que contraria eventual argumento (invocado pela fiscalização em relação aos mútuos realizados com outras empresas), no sentido de que mútuo não pago é renda. A fiscalização não teria investigado a natureza da operação, partindo de falha premissa, consistente em acreditar que o termo “retirada” seria distribuição de lucros. O termo Fl. 769DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.423 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11282.720042/2021-09 6 “retirada de sócio” pode ser entendido genericamente como lucros distribuídos ou tomada de mútuo. Identificada e delimitada a acusação, conclui que sua improcedência depende somente da prova de que o valor recebido consistiu em mútuo passivo. O estabelecimento dessas balizas teria o objetivo de afastar eventuais alegações estranhas à acusação, como por exemplo, negar a natureza de mútuo sob outros argumentos alheios à tese fiscal, consoante determina o artigo 146 do Código Tributário Nacional. Entende que a autoridade julgadora tem como objeto dos fundamentos de decidir, os fatos e a legalidade, mas deve se ater ao limite do quanto tenha sido apurado pela autoridade lançadora. As motivações e provas apuradas no procedimento fiscal não podem sofrer mutações pelos julgadores. Para provar a origem de depósitos no valor de aproximadamente R$14.000.000,00 que integram a segunda infração, foram apresentados diversos contratos de mútuo firmados com as empresas já mencionadas. Refuta a necessidade de garantia nos contratos e o argumento de que houve diminuição do seu patrimônio pessoal sem amortização da dívida como elementos capazes de descaracterizar a natureza do mútuo atribuída às operações. Entende que a posição fiscal não está amparada por suporte legal, doutrinário ou jurisprudencial. Cita o artigo 10, III, do Decreto 70.235/72 e artigo 2º e 50, § 1º da Lei 9.784/99 para afirmar que a imputação fiscal é nula por vício material, posto que não há clareza na indicação dos fundamentos de fato e de direito e a relação entre ambos. Assevera que além de não haver norma que imponha a prestação de garantias ao contrato de mútuo, como condição de validade não há precedente do CARF nesse sentido. O argumento da diminuição patrimonial como desqualificação do mútuo seria ilógico, dado ser natural inadimplir obrigações diante de um cenário de perda de capacidade de pagamento. Prossegue na sua irresignação contestando a necessidade de registro dos contratos, como se a Fazenda Pública pudesse figurar na condição de terceiro interessado numa relação privada que em nada lhe diz respeito. Alega que a fiscalização não negou o instrumento como documento nem contesta a operação de disponibilização dos valores, limitando-se somente a negar a natureza jurídica do mútuo. O único argumento para a requalificação jurídica seria a ausência de quitação de prestações dos contratos de mútuo. Entretanto, não há, no auto de infração ou no relatório fiscal a indicação da fundamentação legal para tal medida o que fere o disposto no artigo 10, IV, do Decreto 70.2352. Fl. 770DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.423 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11282.720042/2021-09 7 Argumenta que no relatório não há o fundamento legal do direito no qual a fiscalização se arvorou em presumir que a inadimplência do mútuo o transforma em renda. Na prática, considera que o lançamento prega que mútuo vencido é renda, mas esse pensamento acaba por ferir o princípio da legalidade que determina que somente a lei pode criar direitos e obrigações e, portanto, presunções. Defende que segundo o artigo 42 da Lei 9.430/96 a presunção tratada no comando normativo invocado pelo fisco ocorre apenas quando não comprovada a origem dos recursos. Sendo incontroversa a origem, o dispositivo perde seu objeto e cabe à fiscalização, analisar as operações e não presumir fatos geradores. Jamais seria possível desconsiderar os negócios entabulados sem prova de que as consequências deles decorrentes divergiam daquilo formalmente previsto. A acusação fiscal seria abstrata e desprovida de lastro fático, doutrinário e jurisprudencial. Indaga quais foram os critérios adotados para a conversão do mútuo em renda. Questiona se bastaria a obrigação estar vencida, ainda que registrada nas DIRPF do mutuário. Questiona o modo como se processou a intimação da empresa ITAIPAVA, visto que a autoridade lançadora apesar de ter constatado a não entrega da ECD pela pessoa jurídica quis saber apenas se houvera amortizações do mútuo e se fora recolhido o IOF sobre a operação. Invoca o princípio da verdade material e propõe ao julgador buscar a realidade dos fatos e valorar as provas. Roga seja determinada a intimação da ITAIPAVA para que apresente seus livros fiscais, em especial o razão, sintético e analítico que confirmará a natureza de mútuo dos valores disponibilizados. A respeito de três dos cinco contratos firmados com a empresa ITAJUBARA terem sido datados em 2018, presumivelmente teria havido mero equívoco na confecção dos instrumentos, elaborados tardiamente, no início de 2018, visto referirem-se a mútuos realizados ao final do ano de 2017. O procedimento seria razoável no caso de partes ligadas os instrumentos serem feitos após a realização da operação, justamente no intuito de formalizar evento já ocorrido. Quanto à escrituração da ITAJUBARA reclama que a fiscalização identificou o registro dos mútuos nos valores de R$1.275.000,00 e R$2.015.000,00, apesar dos depósitos terem totalizado a importância de R$6.877.962,48. Há no item 1.4.2 do relatório fiscal, mera constatação de escrituração parcial dos mútuos. Fl. 771DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.423 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11282.720042/2021-09 8 Nota que quando tratou da ITAIPAVA a fiscalização concluiu que a empresa não entregou ECD e a ECF, não sendo possível averiguar qualquer informação na contabilidade sobre mútuos celebrados. Com todas as palavras afirma que a contabilidade é meio capaz de averiguar mútuos, mas no caso da ITAJUBARA, ao constatar que a empresa informou parte dos mútuos, quedou-se silente. Deduz que esse fato confirma que o único argumento da fiscalização para requalificar a natureza do mútuo é a inadimplência. Do contrário caberia acolher como mútuo aqueles efetivamente registrados na contabilidade. Prossegue afirmando que a má condução da fiscalização é mais emblemática quando se analisa o mútuo firmado com a ITAIMBÉ. No item 1.4.3 do relatório fiscal a informação é de que a ECD registra a totalidade dos mútuos, todavia, por conta da divergência de datas no lançamento contábil, concluiu que no dia 5/6/2017 não houve qualquer movimentação nos extratos bancários do impugnante e que o valor de R$500.000,00 não teria relação com o depósito de mesmo valor ocorrido em 23/3/2017. Adverte que a linha de raciocínio é incongruente porque se a operação registrada contabilmente não se refere ao depósito, era dever da fiscalização considerar ambas como renda. No que diz respeito à empresa CAIG o total de valores depositados/mútuo foi de R$690.895,54 (doc. 3), visto que o valor de R$109.000,00 referiu-se a amortização, o que se verifica pelo extrato bancário e pelo registro contábil que informa um crédito e não um débito. Daquele total R$493.895,54 foram efetivamente registrados na contabilidade da CAIG, mas todos estariam formalizados mediante contratos não apresentados anteriormente porque não foram alvo de questionamento. A exemplo do que foi observado na operação da ITAJUBARA a fiscalização não teria concluído a análise da contabilidade da CAIG, atestando novamente que o lançamento não se sustenta na ausência de registro contábil dos mútuos, mas na inadimplência do mutuário. Ao final pugna: a) pela nulidade do auto de infração por ausência de motivação quanto à desqualificação do contrato de mútuo em virtude das alegações sobre diminuição de patrimônio sem amortização de dívida e ausência de garantia nos contratos (item 1.3 do relatório fiscal); Fl. 772DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.423 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11282.720042/2021-09 9 b) pela improcedência da acusação contida no item 1.2 do relatório fiscal, posto que a operação possui evidente e inquestionável natureza de mútuo; c) pela improcedência quanto aos argumentos de ausência de quitação das prestações e ausência de registro público dos contratos, assim como artigo 42 da Lei 9.430/96 porque a fiscalização não se desincumbiu do ônus de provar a natureza diversa da operação de mútuo. Do acórdão recorrido O acórdão recorrido afastou a preliminar de nulidade e, por unanimidade, julgou a impugnação apresentada improcedente O acórdão fora assim ementado: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Exercício: 2018 PROCEDIMENTO FISCAL. NULIDADE. Não há se falar em nulidade do lançamento por cerceamento do direito de defesa, quando o auto de infração é lavrado por autoridade competente e regularmente cientificado ao sujeito passivo, sendo-lhe concedido prazo para manifestação em relação ao próprio auto e seus anexos, sobretudo quando os elementos constantes dos autos oferecem as condições necessárias ao pleno exercício da defesa, com discriminação da situação fática constatada e os dispositivos legais que amparam as autuações. OMISSÃO DE RENDIMENTOS RECEBIDOS DE PESSOA JURÍDICA. MÚTUO FINANCEIRO. TRANSFERÊNCIA DE RECURSOS. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO. Cabe ao sujeito passivo além da comprovação da existência do contrato, a prova tanto da operação de concessão quanto de quitação do empréstimo, mediante a apresentação dos comprovantes de efetiva transferência dos recursos. Fl. 773DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.423 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11282.720042/2021-09 10 CONTRATOS DE MÚTUO. REQUISITOS DE VALIDADE. Para fins de comprovação das operações perante o Fisco é imprescindível: (i) a apresentação do contrato assinado pelas partes e levado a registro público; (ii) a informação tempestiva do empréstimo nas declarações de ajuste; (iii) a existência de disponibilidade financeira do mutuante (iv) a comprovação da efetiva transferência do numerário entre credor e devedor (na tomada do empréstimo), com indicação de valor e data coincidentes como previsto no contrato firmado; e (v) a comprovação da quitação de parcelas. DISTRIBUIÇÃO DE LUCROS EXCEDENTES AO ESCRITURADO. São tributáveis os lucros distribuídos a sócio de pessoa jurídica, quando tais valores excederem o lucro apurado com base na escrituração contábil e não existam lucros acumulados ou reservas de lucros de exercícios anteriores em montante suficiente. ALEGAÇÃO DE MÚTUO FINANCEIRO. AFASTAMENTO DE LUCROS EXCEDENTES. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO. Para afastar a imputação fiscal de omissão de rendimentos com base em lucros distribuídos em valor excedente, a alegação de existência de contrato de mútuo a acobertar a operação deve ser acompanhada de elementos de prova robustos, contemporâneos ao fato gerador e não produzidos ao tempo da apresentação da impugnação. PEDIDO DE REALIZAÇÃO DE DILIGÊNCIA. INDEFERIMENTO. A realização de diligência não se presta à produção de provas que o sujeito passivo tinha o dever de trazer à colação junto com a peça impugnatória. Deve ser indeferido o pedido de diligência quando for prescindível ao deslinde da questão a ser apreciada ou se o processo contiver os elementos necessários para a formação da livre convicção do julgador. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido A ciência do acórdão ocorrem em 11/05/2023. Fl. 774DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.423 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11282.720042/2021-09 11 Irresignado, o ora recorrente apresentou, em 24/05/2023 seu recurso voluntário onde, em resumo Alega tempestividade do Recurso Traz novamente preliminar de nulidade do lançamento Aponta, novamente, o argumento de falta de motivação do lançamento no que atine à conclusão de ineficácia dos contratos de mútuo com base nas alegações de que (i) houve redução do patrimônio do Recorrente sem amortização da dívida mutuada; (ii) os instrumentos não previam garantias em favor das empresas mutuantes No que tange ao mútuo com a empresa Pedra Branca, repisa seus argumentos, nos seguintes termos Quanto ao item 1.2 do Relatório Fiscal (valor disponibilizado pela empresa Pedra Branca), demonstrou-se a inconteste natureza de mútuo, devidamente registrado na contabilidade de ambas as partes, que informavam se tratar de empréstimo, corroborado tanto pelo instrumento particular como pelos créditos e débitos informados no Razão Analítico do período. Quanto ao item 1.3 (acerca da reclassificação de mútuos como renda) No que atine à acusação fiscal contida no item 1.3 (requalificação jurídica dos mútuos como renda), evidenciou-se a nulidade do auto de infração por ausência de motivação quanto à desqualificação do contrato de mútuo em virtude das alegações contidas nas alíneas “f” (diminuição de patrimônio sem amortização da dívida) e “g” (ausência de garantia nos contratos) do item 1.5 do Relatório Fiscal. Ainda em relação à imprópria requalificação dos contratos de mútuo, atestou-se a improcedência dos argumentos contidos nas alíneas “a” e “b”, eis que inaplicáveis ao caso dos autos o art. 221 do Código Civil e art. 42 da Lei n° 9.430/96, não tendo a fiscalização se desincumbido do ônus natural de comprovar a natureza diversa da operação de mútuo. Argumenta, adicionalmente em relação ao trazido em sede de impugnação Fl. 775DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.423 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11282.720042/2021-09 12 A) em que pese elencar essas razões, na prática, o lançamento, e sobretudo o acórdão recorrido, tem sustentação única na ausência de quitação/amortização. B) Quanto à necessidade de registro público dos instrumentos, restou claro que o acórdão optou por deliberadamente afastar a jurisprudência desse egrégio Conselho, de sentido diametralmente oposto, ao argumento frágil e voluntarioso de que “tais decisões limitam-se especificamente ao caso julgado e às partes inseridas no processo de que resultou a decisão”. C) Repisa a eficácia dos documentos de mútuo e a questão acerca da não incidência de imposto sobre os valores, refutando os argumentos do acórdão recorrido, nos seguintes termos D) Em relação a operação com a empresa Pedra Branca, destaca que a operação está Identificada e delimitada a acusação, conclui-se que sua improcedência depende, apenas e tão somente, da prova de que a operação no valor R$ 855.567,87 consistiu em mútuo passivo, não ostentando a condição de distribuição de lucros, como erroneamente concluiu a fiscalização partindo da equivocada premissa de que o termo genérico “retirada de sócio” equivaleria a dividendos, ignorando os registros contábeis tão prestigiados ao longo do relatório fiscal. São por essas razões que se deve refutar com a veemência necessária a tese contida no acórdão no sentido de que o caso dos autos se amolda ao parágrafo 2º do art. 42. Ora, preclaro Relator, como dito, o dispositivo em tela trata apenas da omissão de receita de origem comprovada (não havendo discussão sobre a natureza desse ingresso), situação imensamente diversa da tratada nos autos, em que a origem dos valores foi comprovada, mas o fisco requalificou sua natureza para receita, desconsiderando instrumento formal válido que cuidava de mútuo. No acórdão, a DRJ afirmou não se tratar de presunção, sem se ater ao ônus que essa posição traz consigo Fl. 776DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.423 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11282.720042/2021-09 13 Alega ainda que, De fato, dado que o Recorrente reconheceu em suas declarações as dívidas contraídas, somente seria possível reconhecer tais valores como receita se, e somente se, esse passivo fosse baixado sem a contrapartida da quitação/amortização. Ao informar os mútuos na DIRPF, o Recorrente submete ao controle a Receita Federal as posteriores movimentação. Se baixada mediante pagamento, tem-se mútuo. Se baixada sem contrapartida, receita. Traz jurisprudências e cita manifestação da Ministra Relatora, Cármem Lúcia, onde alega que esta sustentou, de maneira absolutamente favorável aos contribuintes, o direito constitucional à adoção de comportamentos lícitos pelos contribuintes que visem à economia tributária. Discorre sobre a natureza dos contratos de mútuo, que, notadamente, são o cerne do litígio. Nos pedidos, reitera o petitório da impugnação, para que seja reconhecida e improcedência do fato gerador que é componente da autuação. Sem contrarrazões É o relatório VOTO Conselheiro Marcus Gaudenzi de Faria, relator O Recurso Voluntário interposto é tempestivo e, atendidos aos demais requisitos de admissibilidade previstos no Decreto nº. 70.235/72, deve portanto ser conhecido. Da análise do recurso voluntário e dos demais documentos que compõem o presente processo verifica-se que a lide está centrada na discussão acerca da validade da celebração de mútuos entre o recorrente e empresas a ele relacionadas. Fl. 777DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.423 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11282.720042/2021-09 14 Importa aqui, antes de adentrarmos à análise do recurso propriamente dita, revisitar conceitualmente a natureza da operação em debate O contrato de mútuo é um instrumento jurídico (Art. 586, Código Civil) para empréstimo de bens fungíveis — consumíveis e substituíveis, como dinheiro, títulos ou mercadorias — onde o mutuário (quem recebe) assume a propriedade do bem e a obrigação de devolver, ao final, outro equivalente em gênero, qualidade e quantidade. Ora, importa destacar, da natureza da operação, que a exigência de garantia (real ou fidejussória) da devolução desse dinheiro é componente essencial das operações de mútuo. Importa destacar que o mútuo não se presta a ser um instrumento para distribuição disfarçada de lucros ou para corrosão patrimonial. Deve ser entendido como uma ferramenta para que os propósitos negociais das partes envolvidas sejam observados e materializados. Tratando-se de evento entre partes relacionadas, além de requisitos formais, impõe-se a observância de que, conceitualmente, o mútuo é uma via de mão dupla. Os recursos transferidos devem retornar ao mutuante. Dito isso, passemos à análise do caso concreto. Existe preliminar de nulidade, sob o argumento de que inexiste motivação para o lançamento: A nulidade, repita-se, refere-se unicamente à ausência de motivação quanto ao argumento fazendário de que os valores disponibilizados a título de mútuo deveriam ser qualificados como receita porque o patrimônio do Recorrente reduziu sem que houvesse amortização da dívida e os instrumentos formalizados não estipulavam garantias em fazer da parte credora. Revisitando o acórdão recorrido, Preliminar - Nulidade A defesa entende que teria havido descumprimento do disposto nos incisos III e IV do artigo 10 do mencionado decreto. E isso se dá porque considera ausente a motivação quanto à desqualificação do contrato de mútuo em virtude das alegações sobre diminuição de patrimônio sem amortização de dívida e ausência de garantia nos contratos (item 1.3 do relatório fiscal). Os lançamentos fiscais passíveis de nulidade de acordo com o artigo 59, I e II, do Decreto 70.235, são os realizados por autoridade incompetente ou com cerceamento do direito de defesa. Na espécie, tem-se que o auto de infração foi lavrado por autoridade fiscal competente, nos termos do artigo 6º, I, “a” da Lei 10.593/2002. Fl. 778DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.423 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11282.720042/2021-09 15 O pedido de decretação da nulidade assenta-se em verdade no suposto cerceamento do direito de defesa, ainda que não dito com essas palavras. E essa segunda hipótese de vício insanável que leva à nulidade está prevista no inciso II do artigo 59. Os requisitos do auto de infração estão encartados no art. 10 do Decreto nº 70.235, mas o impugnante demonstra seu inconformismo com base no suposto não atendimento de dois deles previstos nos incisos III e IV. Art. 10. O auto de infração será lavrado por servidor competente, no local da verificação da falta, e conterá obrigatoriamente: I – A qualificação do autuado; II – O local, a data e a hora da lavratura; III – A descrição do fato; IV – A disposição legal infringida e a penalidade aplicável; V – A determinação da exigência e a intimação para cumpri-la ou impugná-la no prazo de trinta dias. Como visto no Relatório Fiscal a autoridade lançadora concluiu pela inexistência das operações estampadas nos contratos de mútuo com base na análise da documentação apresentada, da escrituração das empresas mutuantes, da DIPRF do contribuinte, dentre outros. O impugnante espera a indicação, na fundamentação legal, dos dispositivos que autorizam a desconsideração dos valores recebidos por meio de contratos de mútuo. Entretanto, é da natureza do lançamento de ofício proceder à revisão dos dados inseridos na declaração de ajuste dos contribuintes fiscalizados. Via de regra, valores originados de contratos de mútuo não estão sujeitos à tributação do imposto de renda na pessoa física, desde é claro que a operação esteja cabalmente demonstrada e documentada. Com base na ausência dessa demonstração é que a fiscalização afastou a natureza das operações e atribuiu ao contribuinte a percepção de rendimentos tributáveis vindos das pessoas jurídicas com as quais possui ligação. Esse afastamento dos contratos e a repercussão tributária serão analisados detidamente quando do exame das razões de mérito, inclusive com enfretamento dos argumentos que atribuem à fiscalização a presunção de que mútuo não quitado converte-se em rendimento tributável. Não há fundamentação legal pela desqualificação da operação, mas sim pela identificação dos valores originados das pessoas jurídicas como tributáveis, em razão da disponibilidade econômica, nos termos do artigo 43 do Código Tributário Nacional – CTN. O contribuinte pode até não concordar com o procedimento adotado na ação fiscal, mas não há se falar em dispositivo legal que autorize o fisco a não considerar determinadas operações que poderiam excluir do campo da tributação valores percebidos por ele. Fl. 779DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.423 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11282.720042/2021-09 16 Além da falta de garantia nos contratos e da diminuição patrimonial ante a ausência de quitação das parcelas, a autoridade autuante ainda elencou outras situações vinculadas aos mútuos que serviram de base para asseverar que os valores transferidos pelas pessoas jurídicas referem-se verdadeiramente a rendimentos tributáveis. Diferentemente do alegado, os fatos foram descritos corretamente, de forma minuciosa no Relatório Fiscal, assim como foram mencionadas as disposições legais infringidas, como se observa no auto de infração à fl. 5. O interessado teve conhecimento dos fundamentos fáticos e jurídicos do lançamento e em sua impugnação, demonstrou ter compreendido a matéria, tanto que contestou pontualmente todos os aspectos da autuação. Tendo o artigo 59, I e II do Decreto 70.235 em mira pode-se afirmar que não houve incidência de qualquer da duas hipóteses a configurar a nulidade do lançamento. Diante desse quadro, afasto as preliminares suscitadas. Retornando ao Relatório do Lançamento Fiscal, verifica-se, conforme apontado pelo julgador de piso, às folhas 46 a 49, no item Das Infrações Apuradas, que a fundamentação legal da autuação está discriminada e correlacionada aos fatos que deram origem aos lançamentos efetuados. Assim, não merece reparo a decisão recorrida, de sorte que afasto a preliminar suscitada. Importa ainda, a título de esclarecimento, rebater argumento trazido pelo recorrente, acerca da alusão em relação à omissão de receitas. Tal argumento já fora devidamente combatido pelo acórdão recorrido, nos seguintes termos: Pois bem. De acordo com o relato fiscal tanto o contribuinte quanto a esposa foram intimados a apresentar a origem de créditos mantidos em contas bancárias comuns. E isso se deu em obediência ao que prevê o mencionado artigo 42. Art. 42. Caracterizam-se também omissão de receita ou de rendimento os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. Fl. 780DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.423 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11282.720042/2021-09 17 (...) § 2º Os valores cuja origem houver sido comprovada, que não houverem sido computados na base de cálculo dos impostos e contribuições a que estiverem sujeitos, submeter- se-ão às normas de tributação específicas, previstas na legislação vigente à época em que auferidos ou recebidos. § 3º Para efeito de determinação da receita omitida, os créditos serão analisados individualizadamente, observado que não serão considerados: I - os decorrentes de transferências de outras contas da própria pessoa física ou jurídica; II - no caso de pessoa física, sem prejuízo do disposto no inciso anterior, os de valor individual igual ou inferior a R$ 1.000,00 (mil reais), desde que o seu somatório, dentro do ano-calendário, não ultrapasse o valor de R$ 12.000,00 (doze mil reais). (Vide Medida Provisória nº 1.563-7, de 1997) (Vide Lei nº 9.481, de 1997) (...) § 6º Na hipótese de contas de depósito ou de investimento mantidas em conjunto, cuja declaração de rendimentos ou de informações dos titulares tenham sido apresentadas em separado, e não havendo comprovação da origem dos recursos nos termos deste artigo, o valor dos rendimentos ou receitas será imputado a cada titular mediante divisão entre o total dos rendimentos ou receitas pela quantidade de titulares. (Redação dada pela Lei nº 10.637, de 2002) No curso da ação fiscal, diante dos documentos apresentados o autuante entendeu que diversos créditos tiveram a origem comprovada e a partir daí debruçou-se sobre eles, solicitou mais informações do contribuinte e das empresas ligadas. A autoridade lançadora de posse das justificativas que confirmaram a origem dos créditos constantes das planilhas anexas passou a examinar a consistência das operações de mútuo e diante da inexistência de elementos consistentes a comprovar a sua higidez, concluiu que os valores originados das pessoas jurídicas ligadas são tributáveis. Fl. 781DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.423 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11282.720042/2021-09 18 Com base no conjunto de elementos colhidos o entendimento foi que o impugnante recebeu rendimentos tributáveis das pessoas jurídicas e que as operações de mútuo não podem ser assim entendidas diante do contexto probatório. Ao contrário do que menciona a defesa não houve lançamento com base em depósitos bancários de origem não comprovada. Reconhecida a origem, todas as operações foram examinadas no contexto de uma tributação específica como prevê o § 2º transcrito. Sem qualquer reparo a decisão recorrida No mérito, observo que o lançamento é composto por duas análises distintas, sendo assim enfrentado em sede de Recurso, de sorte que manteremos o mesmo modelo, dado ser didaticamente de melhor compreensão, em que pese a discussão estar concentrada na temática de mútuos. a) Acusação fiscal de retirada de lucro em excesso, combatida com o argumento de tratar-se de mútuo entre a empresa Pedra Branca e o recorrente Assim o tema foi enfrentado pelo acórdão recorrido: Ao contestar essa infração o defendente relata que há um cheque contabilizado em valor igual ao atribuído como omissão de rendimentos de R$855.567,87 e que a operação refere-se na verdade a um mútuo estabelecido com a empresa PEDRA BRANCA. A alegação não procede. Primeiro porque na DIPRF do exercício 2018, o contribuinte informou uma dívida de R$ 7.328.929,05 ao final do ano de 2016 e em 2017, R$ 7.638.162,75, o que sinaliza um aumento de R$ 309.233,70, valor muito diferente daquele atribuído como omissão de rendimentos e que não foi declarado. Segundo que durante o procedimento fiscal nada disso foi cogitado nas respostas dadas à autoridade autuante. O contrato de mútuo sem registro público, apresentado de maneira casuística, não atua em favor do impugnante pelas razões já expostas, visto que não é possível verificar se a sua confecção ocorreu em época própria ou somente depois da ciência ao lançamento fiscal. (grifei) Fl. 782DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.423 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11282.720042/2021-09 19 A indicação de retiradas na contabilidade não guarda qualquer relação com a suposta tomada de empréstimo junto à PEDRA BRANCA. Não é pelo fato de o valor ser controlado por conta contábil diversa daquela de onde se originam os lucros que a alegação de mútuo irá prosperar. Considerada apenas a falta de inclusão em DIRPF e a formatação de contrato somente ao tempo da impugnação, tal argumento já não possui consistência, mas se analisados os termos do Relatório Fiscal não há margem para alegação de que o valor decorre senão da retirada de lucros, justificados pelo próprio contribuinte e sua esposa quando intimados a comprovar a origem de alguns créditos em contas bancárias. A confecção do contrato de mútuo surgiu para dar suporte às alegações de defesa, sobretudo quanto à existência de créditos e débitos na conta contábil que serviu de parâmetro para o exame fiscal, como se a discriminação genérica de seus termos pudesse significar a existência de empréstimo originado da PEDRA BRANCA. O sujeito passivo ainda discorreu sobre o termo “retirada” afirmando que ele poderia se referir a retirada de lucros ou tomada de mútuo. É novo esse conceito. A prática contábil demonstra que as retiradas dos sócios constituem basicamente de pró-labore e lucros distribuídos. Valores atribuídos efetivamente como mútuo na contabilidade decorrem de transferência de numerário da empresa para o sócio, inicialmente, sem caráter de remuneração. Não é de se estranhar essa teoria, visto que sem ela a defesa estaria despida de argumentos para contestar a imputação de omissão de rendimentos e encaixar um contrato de mútuo sem registro público e a escrita contábil sem a identificação da suposta operação, além é claro de não comprovar a sua efetividade com a devolução do numerário. Ao querer equiparar recebimento de lucros com valores decorrentes de contratos de mútuo, a defesa não observou a própria justificativa apresentada à fiscalização. Fl. 783DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.423 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11282.720042/2021-09 20 À fl. 148 há o registro de justificativas para dois valores parciais que integraram o total estampado nos cheques nº 1.375 e 1.378. Referidos cheques correspondem a lucros distribuídos ao sócio, ao passo que na justificativa o contribuinte informou tratar-se de “retirada de sócio”. Por outro lado, na mesma fl. 148 quando quis se referir ao recebimento de valores originados de contrato de mútuo, a justificativa foi de “depósito” de parte do contrato e não de retirada. Confira-se: Diante da falta de solidez na argumentação e por conseguinte da comprovação do alegado mútuo, não há dúvidas que o lançamento fiscal operou-se de forma adequada ao tratar o valor aqui discutido com lucros distribuídos em valor excedente. Ao final do tópico da peça impugnatória que refutou a infração o contribuinte entendeu que os R$855.567,87 tendo origem comprovada em mútuo passivo a autoridade julgadora não poderia afastar eventuais alegações, como por exemplo negar a sua natureza. Conforme demonstrado não foi esse o entendimento. Todos os argumentos utilizados até aqui são no sentido de afastar a existência de mútuo e obviamente manter a imputação fiscal. Apenas por respeito às ponderações de defesa, em um exercício de imaginação, admitindo-se que a operação estivesse comprovada, a omissão de rendimentos permaneceria a mesma porque não haveria mudança de critério jurídico previsto no artigo 146 do Código Tributário Nacional. Fl. 784DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.423 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11282.720042/2021-09 21 Art. 146. A modificação introduzida, de ofício ou em consequência de decisão administrativa ou judicial, nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa no exercício do lançamento somente pode ser efetivada, em relação a um mesmo sujeito passivo, quanto a fato gerador ocorrido posteriormente à sua introdução. O núcleo da duas infrações é apenas um, omissão de rendimentos. Uma decorre do recebimento de valores das pessoas jurídicas por meio de contratos de mútuo cuja finalidade não se comprovou e a outra é o recebimento de lucros em valores excedentes (hipoteticamente considerados como decorrentes de mútuo para poder responder às alegações da defesa). A mudança de critério jurídico, vedada pelo artigo 146 do Código Tributário Nacional, pressupõe a existência de dois ou mais lançamentos fundados em premissas distintas. A inexistência de lançamento anterior não gera conflito positivo e em nada ofende o dispositivo legal, sendo de rigor a autuação, sempre que presentes os requisitos vinculantes do artigo 142 do referido diploma legal. Feitos esses registros é de se esclarecer que as ponderações veiculadas na peça impugnatória não são capazes de desconstituir o lançamento fiscal Argumenta aqui o recorrente sobre a natureza da operação: Por fim, quanto aos valores recebidos da Pedra Branca, o lançamento afirma que no ano- calendário de 2017 a empresa disponibilizou ao seu sócio José Bernardino Pereira dos Santos, ora Recorrente, o valor de R$ 3.005.567,87, tendo, todavia, informado distribuição de lucros no período de R$ 2.150.000,00, concluindo pela natureza de renda do saldo remanescente, nos seguintes termos: No citado tópico 2, o Relatório Fiscal afirma, sucintamente, que todo e qualquer valor entregue ao sócio que ultrapasse os lucros distribuídos configura fato gerador do imposto sobre a renda. Em que pese ter aparente coerência, a acusação fiscal não se ateve à natureza da operação consistente em cheque no valor exato do “saldo remanescente”, no montante de R$ 855.567,87. Fl. 785DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.423 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11282.720042/2021-09 22 Trata-se de mútuo realizado entre a empresa Pedra Branca e o Recorrente, consoante contrato e registro contábil reproduzido pela própria fiscalização no Relatório Fiscal (pg. 30 do PAF): Note-se que, com exceção da operação sob apreço, todas as outras informam a natureza de distribuição de dividendos. Não houve, portanto, pretensão de dar à transferência tal caráter, buscando indevidamente a isenção de IR ou camuflar a natureza de renda. Registre-se, também, que o valor questionado pelo fisco (R$ 855.567,87) é controlado por conta contábil (120104001) diversa da qual emanaram as distribuições de dividendos (210601001), divergência que passou ao largo da fiscalização e que o acórdão preferiu tergiversar. Quanto à conta contábil em que foi registrada o mútuo, o Recorrente apresentou o Razão Analítico, que contempla objetivamente a operação: O Razão atesta também a existência de créditos e débitos nessa conta, o que contraria e invalida eventual argumento (invocado pela fiscalização em relação aos mútuos realizados com outras empresas) no sentido de que “mútuo não pago é renda”. Fl. 786DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.423 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11282.720042/2021-09 23 Infantilmente, o acórdão contesta os registros afirmando que o aumento da dívida entre 2016 e 2017 não é idêntico ao valor mutuado, ignorando que a conta é dinâmica e retrata diversas operações. Tem-se, então, que fiscalização sequer investigou a natureza da operação, partindo de falha premissa, consistente em acreditar que o termo “retirada” seria distribuição de lucros, como se pode notar do seguinte trecho: Das informações prestadas à fiscalização, pode-se concluir que o termo “retirada de sócio” é utilizado de forma genérica, não se vinculando a qualquer natureza, podendo ser distribuição de lucros ou tomada de mútuo. Se tivesse verificado o razão analítico ou o sintético da conta, a fiscalização constataria a relação de “conta corrente” (créditos e débitos) entre o Recorrente e a empresa Pedra Branca, que impediria concluir pela distribuição de lucros. Todavia, focado em enxergar todo ingresso como renda, o ilustre auditor incorreu em franco atropelo, reprovavelmente apoiado pelo acórdão. Neste sentido, importa resgatar a informação do relatório fiscal: Segundo já explicado no tópico 1.2, o Sr. José Bernardino recebeu da Pedra Branca Imobiliária Ltda o valor de R$855.567,87 (oitocentos e cinquenta e cinco mil quinhentos e sessenta e sete reais e oitenta e sete centavos) acima do valor apurado pela empresa de lucros distribuídos. Fl. 787DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.423 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11282.720042/2021-09 24 Trata se de um recebimento que não é oriundo do lucro apurado (que seria isento). Neste contexto, independente da natureza, a transferência deveria ser justificada ou apresentada ao fisco para tributação. Percebe-se aqui que em momento algum durante a realização da fiscalização o recorrente tratara tais valores como oriundos de mútuo. Apenas após o lançamento, com documento de formalidade limitada traz este argumento para defender-se da autuação. Não por outra razão (e isso se observa nas diversas diligências realizadas em relação às empresas intervenientes que o questionamento à empresa Pedra Branca (fls 612 a 621) era para que justificasse o pagamento (enquanto nos demais casos se buscou informações específicas de u mútuo). Vejamos como o termo de intimação fora apresentado: Ocorre que na ECD consta registrado que no ano de 2017 foram distribuídos a título de lucros ao sócio José Bernardino o valor total de R$2.150.000,00 (dois milhões cento e cinquenta mil reais). A diferença entre o valor registrado de lucros distribuídos e o valor dos pagamentos efetivamente realizados ao sócio é de R$855.567,87 (oitocentos e cinquenta e cinco mil quinhentos e sessenta e sete reais e oitenta e sete centavos). Ou seja, a Pedra Branca Imobiliária efetuou pagamentos ao sócio em valor superior aos lucros distribuídos. Este valor foi pago ao sócio no dia 20/01/2017, conforme cheque nª 1370, vinculado à conta corrente nº 97100 mantida na Ag. Bradesco 3209 (cópia em anexo). 0 cheque é nominal ao sócio. ' 0 lançamento contábil referente ao pagamento por meio do cheque nº 1370 encontra-se registrado na ECD de forma genérica, sem indicação no seu histórico da motivação do pagamento. Ao final deste Termo são transcritos os lançamentos contábeis citados que constam na ECD (Razão). Diante do exposto, apresentar justificativa para o pagamento do valor de R$ R$855.567,87 ao sócio José Bernardino Pereira dos Santos realizado no dia 20/01/2017. A justificativa apresentada deve ser acompanhada de documentos que a comprovem. Observo que houve uma clara distinção entre pagamentos e, nesta constatação, o recorrente fez a juntada de mais um termo de mútuo. Todavia, na escrituração, verifica-se, não existe qualquer menção a se tratar esta transferência de operação de mútuo. Fl. 788DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.423 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11282.720042/2021-09 25 Revisitando os documentos trazidos e apontados pelo recorrente, constata-se, que, a operação de mútuo apontada foi registrado em duas contas do ativo sendo uma do ativo circulante e outra do ativo não circulante. Entretanto, diferente de outros casos em que se discute a validade dos mútuos desde o lançamento, observa-se para o presente que inexiste registro por parte do recorrente de obrigação para com a Pedra Branca em sua declaração. Deste modo, considerando que os documentos trazidos à baila e ora rediscutidos foram devidamente enfrentados pelo julgador de piso, não veja qualquer reparo à decisão recorrida b) No que diz respeito aos demais casos de mútuo, a recorrente repisa os argumentos trazidos em sede de impugnação, colacionando ainda jurisprudências deste Conselho que entende favoráveis e representam situações que são similares ao caso ora em litígio. Pois neste caso, ao revisar o acórdão recorrido, entendo que seus fundamentos não merecem reparo, de sorte que os adoto como razão de decidir: Entendeu a defesa que a autoridade lançadora teria presumidamente decidido que a inadimplência do mútuo seria elemento suficiente para convertê-lo em rendimento tributável, o que não estaria previsto no artigo 42 da Lei 9.430, de 27 de dezembro de 1996. Pois bem. De acordo com o relato fiscal tanto o contribuinte quanto a esposa foram intimados a apresentar a origem de créditos mantidos em contas bancárias comuns. E isso se deu em obediência ao que prevê o mencionado artigo 42. Art. 42. Caracterizam-se também omissão de receita ou de rendimento os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. (...) § 2º Os valores cuja origem houver sido comprovada, que não houverem sido computados na base de cálculo dos impostos e contribuições a que estiverem sujeitos, submeter-se-ão às normas de tributação específicas, previstas na legislação vigente à época em que auferidos ou recebidos. § 3º Para efeito de determinação da receita omitida, os créditos serão analisados individualizadamente, observado que não serão considerados: I - os decorrentes de transferências de outras contas da própria pessoa física ou jurídica; II - no caso de pessoa física, sem prejuízo do disposto no inciso anterior, os de valor individual igual ou inferior a R$ 1.000,00 (mil reais), desde que o seu somatório, dentro do ano-calendário, não ultrapasse o valor de R$ 12.000,00 (doze mil reais). (Vide Fl. 789DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.423 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11282.720042/2021-09 26 Medida Provisória nº 1.563-7, de 1997) (Vide Lei nº 9.481, de 1997) (...) § 6º Na hipótese de contas de depósito ou de investimento mantidas em conjunto, cuja declaração de rendimentos ou de informações dos titulares tenham sido apresentadas em separado, e não havendo comprovação da origem dos recursos nos termos deste artigo, o valor dos rendimentos ou receitas será imputado a cada titular mediante divisão entre o total dos rendimentos ou receitas pela quantidade de titulares. (Redação dada pela Lei nº 10.637, de 2002) No curso da ação fiscal, diante dos documentos apresentados o autuante entendeu que diversos créditos tiveram a origem comprovada e a partir daí debruçou-se sobre eles, solicitou mais informações do contribuinte e das empresas ligadas. A autoridade lançadora de posse das justificativas que confirmaram a origem dos créditos constantes das planilhas anexas passou a examinar a consistência das operações de mútuo e diante da inexistência de elementos consistentes a comprovar a sua higidez, concluiu que os valores originados das pessoas jurídicas ligadas são tributáveis. Com base no conjunto de elementos colhidos o entendimento foi que o impugnante recebeu rendimentos tributáveis das pessoas jurídicas e que as operações de mútuo não podem ser assim entendidas diante do contexto probatório. Ao contrário do que menciona a defesa não houve lançamento com base em depósitos bancários de origem não comprovada. Reconhecida a origem, todas as operações foram examinadas no contexto de uma tributação específica como prevê o § 2º transcrito. É bem verdade que na fundamentação legal do documento lavrado de ofício constou apenas o “caput” do artigo 42, mas no Relatório Fiscal, parte indissociável do auto de infração a imputação foi devidamente fundamentada no § 2º, como demonstra o item 2.2 à fl. 48. O outro ponto a ser tratado é que em momento algum a fiscalização presumiu que valores decorrentes de contratos de mútuo não quitados devem ser considerados renda. O exame detido do Relatório Fiscal não permite a essa conclusão. A tributação se dá nos termos do artigo 43 do Código Tributário Nacional que assim dispõe acerca do fato gerador do imposto de renda. "Art. 43. O imposto, de competência da União, sobre a renda e proventos de qualquer natureza tem como fato gerador a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica: I - de renda, assim entendido o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos; II - de proventos de qualquer natureza, assim entendidos os acréscimos patrimoniais não compreendidos no inciso anterior. § 1º A incidência do imposto independe da denominação da receita ou do rendimento, da localização, condição jurídica ou nacionalidade da fonte, da origem e da forma de percepção". (grifou-se) Em complemento, a Lei 7.713, de 1988, determina: Fl. 790DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.423 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11282.720042/2021-09 27 “Art. 3º O imposto incidirá sobre o rendimento bruto, sem qualquer dedução, ressalvado o disposto nos arts. 9º a 14 desta Lei. (Vide Lei 8.023, de 12.4.90) § 1º Constituem rendimento bruto todo o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos, os alimentos e pensões percebidos em dinheiro, e ainda os proventos de qualquer natureza, assim também entendidos os acréscimos patrimoniais não correspondentes aos rendimentos declarados. ................................................................................................................................... ...... § 4º A tributação independe da denominação dos rendimentos, títulos ou direitos, da localização, condição jurídica ou nacionalidade da fonte, da origem dos bens produtores da renda, e da forma de percepção das rendas ou proventos, bastando, para a incidência do imposto, o benefício do contribuinte por qualquer forma e a qualquer título.” Convém discorrer sobre cada um dos elementos apontados pela autoridade lançadora para não admitir a eficácia dos contratos e que foram devidamente rebatidos pela defesa. O contribuinte apresentou contratos firmados com algumas pessoas jurídicas ligadas e em que pesem as alegações contrárias à necessidade de registro público dos instrumentos para serem opostos ao Fisco, não se pode imaginar que documentos sem qualquer comprovação quanto à contemporaneidade de sua confecção possam ser admitidos como elementos razoáveis de prova. Os negócios jurídicos para serem oponíveis a terceiros, mormente quando este é a Fazenda Pública e a finalidade é a comprovação de operação sobre a qual não incide tributos, devem, no mínimo, estar devidamente registrados, nos termos do artigo 221 do Código Civil Brasileiro: Art. 221. O instrumento particular, feito e assinado, ou somente assinado por quem esteja na livre disposição e administração de seus bens, prova as obrigações convencionais de qualquer valor; mas os seus efeitos, bem como os da cessão, não se operam, a respeito de terceiros, antes de registrado no registro público. Como estatui o artigo 219 do referido diploma, a presunção de veracidade opera-se em relação às pessoas envolvidas, mas não alcança terceiros, entre os quais o sujeito ativo da obrigação tributária, que mantém, em relação aos signatários, uma posição jurídica distinta e completamente independente. Art. 219. As declarações constantes de documentos assinados presumem- se verdadeiras em relação aos signatários. Ainda que tais contratos pudessem ser opostos ao Fisco, outros elementos de prova necessariamente deveriam demonstrar inequivocamente a eficácia das operações neles retratadas e conforme será demonstrado o contribuinte não apresentou essa comprovação. Dados os elevados valores dos empréstimos, razoável a indagação a respeito de garantias oferecidas. Exceção feita à empresa ITAIPAVA, com todas as outras o Sr. José Bernardino possuía vínculo societário no ano-calendário 2017. No caso daquela empresa na qual o impugnante figurou como Diretor até 12/3/2014 o histórico do quadro societário não demonstra vinculação Fl. 791DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.423 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11282.720042/2021-09 28 após essa data o que é de se estranhar, pois os valores emprestados giram em torno de R$ 6,5 milhões reais isento de garantias em caso de descumprimento no pagamento das parcelas. Também é imperioso destacar que de fato, ao se examinar as DIRPF do contribuinte, exercícios 2018 em diante, observa-se que seu patrimônio sofreu significativa redução sem que houvesse a quitação ainda que parcial das parcelas. Ora, esses elementos colhidos pela fiscalização fazem parte de um conjunto e não podem ser interpretados isoladamente. O autuante balizou o procedimento com ênfase em diversas situações. Umas intimamente ligadas à conexão dos valores informados na DIRPF da pessoa física com a contabilidade das empresas e respectivos pagamentos não devolvidos em relação ao que foi tomado emprestado. Outras, como é o caso das garantias e da redução do patrimônio, como itens de reforço à conclusão de que os contratos de mútuo não se satisfizeram por ausência de pagamento. No exame da preliminar a nulidade do lançamento foi afastada por não haver dispositivo legal específico que autorize a fiscalização a desconsiderar as operações de mútuo pela ausência de fundamentação legal e motivação quanto à necessidade de garantias/vinculação da redução de patrimônio e inexistentes quitações, no mérito, a ausência desses itens nos contratos, nas DIPRF, na contabilidade das mutuantes e nas contas bancárias reforçam a imputação fiscal. A respeito da contabilização dos valores pelas pessoas jurídicas mutuantes, em linhas gerais a fiscalização apontou ausência de entrega da ECD e da ECF por uma das empresas diligenciadas; a contabilização parcial do valores por outra; em duas delas os registros foram realizados de forma genérica na conta valores a receber sem nenhuma referência a contratos de mútuo; em outra houve divergência de datas assim considerados o dia de assinatura dos empréstimos e do respectivo depósito na conta bancária do mutuário e dissonância com o registro contábil; e por fim, em uma das empresas apesar de constar a contabilização parcial do mútuo, não foi apresentado o contrato. Em alegações específicas a defesa menciona as diligências e refuta a conclusão fiscal. No caso da ITAIPAVA, ante a ausência de entrega da ECD e da ECF a fiscalização não teria ido a fundo na investigação, distanciando-se da verdade material e por isso mesmo roga seja determinada a intimação da empresa para apresentar os livros fiscais. Curioso o argumento. Não se está diante da ocorrência comprovada de evento adverso que tenha impossibilitado a pessoa jurídica transmitir a escrita contábil em época própria. Segundo a defesa a fiscalização teria que aprofundar na questão, mas ausente a contabilidade caberia ao interessado ao menos apresentar os documentos suporte que comprovariam as operações dada a estreita relação com a pessoa jurídica. Na busca pela verdade material são consideradas todas as provas e fatos novos, mesmo que desfavoráveis ao Fisco, desde que lícitos. Ocorre que a intimação para que a ITAIPAVA apresente a contabilidade digital a essa altura em nada modifica o fato de que ainda que devidamente contabilizados extemporaneamente os mútuos, a devida comprovação da devolução, isto é, da quitação dos valores não encontra comprovação nos autos. Esse ponto em específico será tratado quando do exame dos requisitos do mútuo para que os valores nele entabulados sejam afastados da tributação. Fl. 792DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.423 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11282.720042/2021-09 29 Com fundamento nos artigos 18 e 29 do Decreto 70.235, indefiro o pleito para que seja a intimada a empresa mutuante a apresentar a escrita contábil. Art. 18. A autoridade julgadora de primeira instância determinará, de ofício ou a requerimento do impugnante, a realização de diligências ou perícias, quando entendê-las necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis, observando o disposto no art. 28, in fine. (Redação dada pela Lei nº 8.748, de 1993) (...) Art. 29. Na apreciação da prova, a autoridade julgadora formará livremente sua convicção, podendo determinar as diligências que entender necessárias. Assevera a peça impugnatória que o fato de três dos cinco contratos firmados com a empresa ITAJUBARA possuírem data de 2018, decorre de mero equívoco na elaboração tardia dos instrumentos e que diante de negócio entre partes ligadas, razoável que a confecção seja feita logo após a realização da operação. A construção não faz sentido. Os depósitos correspondem em sua totalidade ao ano de 2017 e ao contrário do que justifica a defesa não há razoabilidade quando se argumenta que os instrumentos de mútuo sejam confeccionados posteriormente às transações bancárias. O natural é que os contratos sejam contemporâneos às transferências. De toda sorte nada afasta a ausência de contabilização do total emprestado no ano de 2017. A constatação fiscal não poderia ser outra além da identificada contabilização parcial dos empréstimos, porque de fato essa é a ocorrência a ser considerada. Realmente, quando seguidos os padrões normais a contabilidade é meio eficaz a demonstrar que os valores emprestados coincidem com a vontade expressa nos contratos, mas a comparação entre os procedimentos adotados pela fiscalização no caso da ITAIPAVA e da ITAJUBARA não conduz a qualquer erro no procedimento adotado pelo autuante. A autoridade fiscal ao detectar que a ITAIPAVA não apresentou a contabilidade considerou como deveria ser que não houve comprovação do registro das operações, ao passo que no caso da ITAJUBARA essa comprovação existiu, mas de forma parcial. Não se pode perder de vista que a existência de contratos de mútuo ainda que registrados e informados corretamente na contabilidade, não configura elemento suficiente a comprovar a regularidade da operação se não acompanhados da prova da efetiva quitação ou justificativas razoáveis a respeito de eventual inadimplência. A tentativa de desqualificação do trabalho fiscal quanto aos pontos apurados em relação à contabilização dos mútuos segue no caso da ITAIMBÉ. Ao criticar a conclusão fiscal acerca da contabilização do mútuo de R$500.000,00 no dia 5/6/2017 sem relação com o depósito de mesmo valor ocorrido em 23/3/2017 a defesa entende que o autuante deveria considerar ambos os valores como rendimento. O que se verifica em verdade é que frente à divergência entre as datas de contabilização e da transferência do numerário, esta última foi considerada porque coincidente com a data do contrato. Fl. 793DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.423 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11282.720042/2021-09 30 Na comparação proposta a aparente incongruência em relação a duas situações idênticas não pode ser interpretada como um reconhecimento tácito de validade. Primeiro porque a fiscalização adotou o critério da coincidência de datas e segundo porque se um dos valores não foi considerado, em última análise o próprio contribuinte é quem foi beneficiado. No exame das ponderações frente à contabilização dos valores dos mútuos surge a empresa CAIG. A defesa confessa que parte dos valores integrantes do contrato de mútuo não foi registada contabilmente e que a formalização dos contratos ocorreu posteriormente porque não teriam sido alvo da fiscalização. A confissão é esclarecedora, pois ao mesmo tempo que reconhece a ausência de contabilização dos mútuos em sua integralidade, admite que os contratos não foram formalizados tempestivamente, como se essa formalização necessitasse da visita fiscal para se efetivar. O que se verifica é uma tentativa de desconstrução do trabalho fiscal, mas a análise dos fatos registrados depõe contra o próprio interessado, visto que são diversos os valores não contabilizados, seja por ausência de escrituração contábil, seja por escrituração parcial, além é claro de divergências significativas nas datas dos contratos e das transferências de recursos quando comparadas com a contabilização. A esse respeito não só há contratos formalizados a posteriori como também está evidenciado nos autos e reconhecido pela defesa inconsistência em relação à correta data de contabilização de parte das importâncias recebidas a título de mútuo. Ainda que o elemento “escrituração dos mútuos”, quando isoladamente considerado, não seja essencial para o deslinde da controvérsia, diante da existência de outras provas robustas, o requisito da tempestividade é de suma importância para que se possa aferir a confiabilidade da escrituração. Os princípios de contabilidade norteiam qualquer forma de escrituração contábil, em especial o princípio da oportunidade, de que trata o art. 6º da Resolução nº 750, de 1993, do Conselho Federal de Contabilidade, a seguir: Art. 6º O Princípio da Oportunidade refere-se ao processo de mensuração e apresentação dos componentes patrimoniais para produzir informações íntegras e tempestivas. Parágrafo único. A falta de integridade e tempestividade na produção e na divulgação da informação contábil pode ocasionar a perda de sua relevância, por isso é necessário ponderar a relação entre a oportunidade e a confiabilidade da informação. A defesa a todo momento deu ares de normalidade tanto aos contratos não levados a registro público, quanto às divergências apontadas em relação aos eventos extemporâneos relativos aos fatos contábeis. Por fim, o último questionamento a respeito dos pontos trazidos pelo Relatório Fiscal refere-se à necessidade ou não da quitação dos empréstimos como condição de validade da operação, e essa análise é mais abrangente, visto que para o encadeamento das ideias é preciso adentrar na concepção dos contratos de mútuo previsto na lei civil. Fl. 794DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.423 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11282.720042/2021-09 31 De acordo com os arts. 586 e 587 do Código Civil o mútuo é o empréstimo de coisas fungíveis que transfere o domínio da coisa emprestada ao mutuário. Segundo Nelson Rosenvald 1 , o mútuo é um contrato real que tem como pressuposto de existência a tradição da coisa mutuada: "Assim como o comodato, o mútuo é um contrato real, pois a entrega da coisa mutuada não consiste em obrigação do mutuante, mas em pressuposto da existência do negócio jurídico. Enquanto não se verifica a tradição, não se fala nesse contrato, mas apenas em uma promessa de mutuar, como espécie de contrato preliminar (art. 462 do CC). “De sua natureza real decorre a unilateralidade do contrato, haja vista que apenas o mutuário assume obrigação, qual seja a de restituir o bem ao término do prazo estabelecido no contrato ou em lei." A comprovação de empréstimo exige provas específicas, não bastando apenas a juntada de contratos particulares. Para essa comprovação é imprescindível que: (1) seja apresentado o contrato de mútuo assinado pelas partes e registrado em cartório; (2) o empréstimo tenha sido informado tempestivamente na declaração de ajuste; (3) o mutuante tenha disponibilidade financeira; e (4) esteja evidenciada a transferência do numerário entre credor e devedor (na tomada do empréstimo), com indicação de valor e data coincidentes como previsto no contrato firmado e; (5) o pagamento do mutuário para mutuante no vencimento do contrato. Tratando-se de empréstimo concedido por pessoa jurídica como é o caso dos autos, necessário a indicação das operações na contabilidade, mas mesmo que o contrato seja registrado e os fatos contábeis estejam corretos não se pode perder de vista que a prova da efetiva quitação do empréstimo é essencial para configurar a operação como um legítimo contrato de mútuo. No caso dos autos a disponibilidade financeira das pessoas jurídicas não está à prova e houve a comprovação da transferência de recursos do mutuante para o mutuário. Importante observar então a informação dos mútuos nas declarações de ajuste e todas as consequências até eventuais quitações, assim entendidas as baixas pelo cumprimento do que consta nas Cláusulas Terceira e Quarta comuns a todos os contratos, exceto em relação à ITAIPAVA na Cláusula Quarta. As tabelas abaixo demonstram a situação dos empréstimos ao final de cada ano, reportados nas DIRPF dos exercícios de 2018 a 2022, disponíveis no Portal do IRPF. 2018 Situação em 2016 2017 ITAIPAVA 6.175.000,00 12.698.725,80 ITAJUBARA 623.036,39 623.036,39 ITAIMBÉ 0,00 500.00,00 CAIG 937.751.36 1.469.646,90 2019 Situação em 2017 2018 ITAIPAVA 12.698.725,80 12.698.725,80 ITAJUBARA 623.036,39 7.716.805,02 ITAIMBÉ 500.000,00 500.00,00 CAIG 1.469.646,90 1.993.857,060 1 ROSENVALD, Nelson. "Código Civil Comentado: doutrina e jurisprudência". Coord. Cezar Peluso. Barueri, SP: Manole, 2013, p. 611. 14 Fl. 795DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.423 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11282.720042/2021-09 32 2020 Situação em 2018 2019 ITAIPAVA 12.698.725,80 12.698.725,80 ITAJUBARA 7.716.805,02 7.716.805,02 ITAIMBÉ 500.000,00 500.00,00 CAIG 1.469.646,90 3.554.857,60 2021 Situação em 2019 2020 ITAIPAVA 12.698.725,80 12.698.725,80 ITAJUBARA 7.716.805,02 12.844.117,99 ITAIMBÉ 500.00,00 500.00,00 CAIG 3.554.857,60 3.794.857,60 2022 Situação em 2020 2021 ITAIPAVA 12.698.725,80 12.698.725,80 ITAJUBARA 12.844.117,99 13.994.766,18 ITAIMBÉ 500.00,00 500.00,00 CAIG 3.794.857,60 4.564.857,60 Ao final do ano de 2016 a DIRPF registrava uma dívida com a empresa ITAIPAVA no valor de R$ 6.175.000,00 e no ano de 2017 houve um incremento, o que totalizou R$12.698.725,80, nesse mesmo ano. Esse montante segue intacto nas demais DIRPF não havendo qualquer demonstração de baixa ainda que parcial. Nos contratos que registram uma infinidade de transferências da pessoa jurídica ao Sr. José Bernardino foi estipulada uma carência de 36 meses a partir das datas das assinaturas. Tomando-se como exemplo o instrumento de fls. 529 e 530 no valor de R$ 1.520.000,00 assinado em 22/6/2017, considerando o período de carência os pagamentos deveriam ocorrer a partir de 23/6/2020 em 48 prestações iguais e sucessivas. Na data de elaboração desta decisão o esperado é que pelo menos 33 parcelas tivessem sido quitadas. As próprias declarações de ajuste constituem elementos de prova robustos de que o contribuinte não quitou nenhuma parcela desse e dos demais contratos firmados com essa empresa. Como os acordos realizados com as demais empresas são idênticos nas cláusulas, o exemplo passa a ser o mútuo de fls. 553 a 555 de 1/9/2017 no valor de R$ 1.275.000,00, cuja mutuante é a empresa ITAJUBARA. Após a carência nenhum valor foi reduzido e a exemplo do que ocorreu com a CAIG novos empréstimos foram declarados em anos posteriores, conforme demonstra a evolução constante das tabelas acima. Se a partir do prazo de carência não houve qualquer quitação desses empréstimos, outros, formalizados com pelo menos três das quatro empresas em anos anteriores a 2017 também não Fl. 796DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.423 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11282.720042/2021-09 33 constam como baixados, mesmo que parcialmente. O que realmente se nota é um constante incremento de valores recebidos das pessoas jurídicas sem qualquer prova de quitação. Nem mesmo o valor de R$ 109.000,00 informado na defesa como quitação de parte de contrato de mútuo com a CAIG possui comprovação, visto que o contrato somente surgiu na fase impugnatória, sem registro ou demonstração da efetiva data de sua produção. E mais. Há evidente contradição quando comparados o argumento da defesa e a justificativa da CAIG em resposta a uma intimação. A empresa, a exemplo das outras pessoas jurídicas intimadas, negou ter recebido qualquer valor a título de quitação de parcelas dos contratos firmados com o contribuinte e sobre isso ele não se manifestou, até porque a linha de raciocínio utilizada foi a de que eventual inadimplência não configuraria a percepção de rendimentos recebidos das mencionadas empresas. Sobre esse assunto, o interessado sempre se defendeu afirmando que a fiscalização entende que contrato não quitado é renda e que existem casos em que a inadimplência está presente. Linhas atrás já foi rebatido o argumento quanto à não quitação se transformar em renda quando na verdade os elementos levantados pela autoridade autuante demonstram em profundidade que as operações de mútuo nunca ocorreram na concepção da palavra. Houve verdadeira transferência de recursos das pessoas jurídicas para o contribuinte sem a qualificação contratual pretendida. Estendendo um pouco mais sobre esse tema é importante demonstrar que apesar da irresignação da defesa, a fiscalização asseverou com propriedade que a redução do patrimônio do contribuinte não serviu para quitar as dívidas com as pessoas jurídicas ligadas. Exame acurado das declarações de bens e direitos em conjunto com a evolução das dívidas e ônus reais, bem como as doações efetuadas demonstra de maneira inequívoca que houve intensa utilização dos recursos advindos das empresas para a concessão de empréstimos a pessoas físicas do círculo familiar do sujeito passivo com posterior perdão dessas dívidas via doação dos valores emprestados. É o caso da DIRPF do exercício 2020 na qual se constata que o patrimônio sofreu redução de R$ 35.709.288,93 de 2018 para 2019, ao mesmo tempo que as dívidas tiveram um incremento de R$ 8.706.153,57, sendo R$5.190.342,97 com a CAIG e a ITAJUBARA. A redução de patrimônio se explica em muito pela baixa de créditos de empréstimos concedidos pelo impugnante a membros do grupo familiar. Na declaração de bens e direitos consta a baixa de R$35.682.985,44 relativamente a sete pessoas. No ano 2019 o contribuinte declarou doações no montante de R$39.243.485,70, aí incluídas as dívidas daquelas sete pessoas que foram verdadeiramente perdoadas. Fl. 797DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.423 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11282.720042/2021-09 34 A redução do patrimônio do contribuinte de fato não significou a quitação dos empréstimos com as pessoas jurídicas, nem mesmo de forma parcial e quanto à eventual inadimplência não foi juntado um aditivo contratual sequer ou correspondências trocadas entre mutuário e mutuantes com as ponderações a respeito da necessidade de novos prazos ou da repactuação dos contratos. O que se percebe, por óbvio, é que tais documentos não existem. Nesse momento, importante abrir um parêntese para discorrer sobre a necessidade de recolhimento do Imposto sobre operações financeiras – IOF quando da formalização de contrato de mútuo com pessoa jurídica. Na peça impugnatória houve críticas ao trabalho fiscal quando em sede de diligência, intimada a empresa ITAIPAVA foi indagada se confirmava eventuais amortizações e se houve recolhimento do IOF. Esses questionamentos foram feitos à todas as empresas diligenciadas. Sobre as amortizações dúvidas não há acerca da sua inexistência e a ausência de recolhimento e contabilização do pagamento de IOF somente reforça a lógica apontada no Relatório Fiscal de qualificar como rendimentos, as operações que direcionavam créditos das pessoas jurídicas em favor do impugnante. É indiscutível que deveriam incidir impostos sobre essas operações. A título de ilustração, convém citar trecho do Decreto nº 6.306, de 14 de dezembro de 2007, que regulamenta o IOF: Art. 2º O IOF incide sobre: I - operações de crédito realizadas: (...) c) entre pessoas jurídicas ou entre pessoa jurídica e pessoa física (Lei nº 9.779, de 19 de janeiro de 1999, art. 13); Como as respostas das pessoas jurídicas são todas padronizadas, não era de se esperar que a justificativa para indagações referentes ao recolhimento de IOF sobre as operações fosse outra senão a alegação uníssona de que não havia fato gerador do referido imposto. Dito isso, vale destacar que a informalidade dos negócios realizados entre o contribuinte e as empresas com as quais mantém algum tipo de vínculo não o exime de apresentar prova da efetividade das transações. Tal informalidade diz respeito a garantias mútuas que deixam de ser exigidas em razão da confiança entre as partes (um empréstimo sem nota promissória, por exemplo), mas não se pode querer aplicar a mesma informalidade ou vínculo de confiança na relação do contribuinte com a Fazenda Pública. Essa relação é formal e vinculada à lei, sem exceção. Conforme se observou, a defesa rebateu ponto a ponto os termos do Relatório Fiscal, criando teorias inexistentes, mas o exame da matéria não pode se ater à análise de cada fato isolado, mas sim com base na interligação de todos, no encadeamento de todas as situações postas pelo autuante, dentro de um contexto em que é nítida a intenção do contribuinte de afastar os rendimentos da tributação. Fl. 798DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.423 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11282.720042/2021-09 35 Comprova-se ao fisco a boa-fé e veracidade do contrato de mútuo, com documentação hábil e idônea, quando os valores e datas estão em conformidade com os extratos e as movimentações financeiras em ambas as partes contratadas, devendo ser comprovadas, além da devida escrituração contábil de forma legal, a efetiva devolução do valor emprestado. A falta de comprovação da efetividade das operações de mútuos pactuados entre o contribuinte e as empresas, contabilizados ou não, sujeita os valores envolvidos à incidência do imposto como rendimentos tributáveis recebidos de pessoas jurídicas. A defesa teceu argumentos a respeito da ausência de simulação nos contratos de mútuo, mas a fiscalização em nenhum momento tratou dessa possibilidade. A tributação dos rendimentos se deu de forma bastante simples. Os contratos de mútuo não tiveram sua eficácia comprovada, daí porque os rendimentos foram considerados tributáveis. O interessado faz ainda menção a decisões administrativas e judiciais no intuito que elas corroborem os seus argumentos de defesa, contudo, as decisões administrativas trazidas ao processo pelo contribuinte não se constituem em normas gerais, razão pela qual seus julgados não se aplicam a qualquer outra ocorrência, senão àquele objeto da decisão. Impacta destacar que, em análise acerca do tema, tenho adotado como razão de decidir, não apenas os argumentos acerca da formalidade dos contratos, mas, sobremaneira, os aspectos inerentes a sua materialidade. Ora, pela natureza do mútuo, imperioso é observar que o valor retorne ao mutuante ou que, ao menos, todos os requisitos de sua formalização e dos registros acerca dos valores envolvidos precisam estar adequadamente demonstrados, o que não é observado no caso que analisamos O contrato entre partes relacionadas não fora registrado em cartório Alguns contratos apresentados são intempestivos A contabilização tem informações colidentes com os documentos de depósito Cabe-nos destacar que uma operação de mútuo não registrada em cartório, mas registrada na contabilidade, com os valores destinados sendo também declarados pelo mutuário, e, sendo eles devolvidos no prazo acordado ao mutuante, na visão deste relator, poderiam suprir, dada a constatação da materialidade da operação, a ausência do registro. Quando os alegados equívocos se acumulam, o julgador passa a analisar com maior cuidado os elementos probatórios. Na análise dos julgados apontados pelo recorrente, impacta destacar que tratam de temas distintos e atacam a simulação em outras tipologias, Assim, trago, do recente acórdão 2102-003.775, de relatoria do Conselheiro Yendis Rodrigues Costa, com o qual minhas posições em votações sobre o tema são similares, abaixo ementado Fl. 799DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.423 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11282.720042/2021-09 36 IMPOSTO DE RENDA DE PESSOA FÍSICA. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. CONTRATO DE MÚTUO ENTRE PESSOA FÍSICA E PESSOA JURÍDICA LIGADA. AUSÊNCIA DE DOCUMENTAÇÃO IDÔNEA. DESCONSIDERAÇÃO. INCIDÊNCIA DO IRPF. A ausência de elementos essenciais à validade e à eficácia de contrato de mútuo – como a apresentação de instrumento escrito, comprovação da disponibilidade financeira do mutuante, efetiva transferência de numerário e posterior quitação – autoriza a autoridade fiscal a desconsiderar a operação e tributar os valores percebidos como rendimentos. Inviável o reconhecimento da natureza jurídica de mútuo a contratos celebrados entre pessoas interligadas, sem robusta comprovação material, sendo legítimo o lançamento de ofício com base na constatação de omissão de rendimentos. CONTRATO DE MÚTUO. ELEMENTOS PROBATÓRIOS DE SUA VALIDADE. VALORAÇÃO DA PROVA. A forma livre para a celebração de mútuo não significa concluir pela plena oponibilidade do contrato de mútuo em face da autoridade tributária, podendo esta refutar a sua validade ou legitimidade, em virtude de outros elementos probatórios, à luz da valoração da prova, que pode inclusive, resultar em sua ineficácia perante a autoridade tributária e, consequentemente Deste, faço questão de destacar 40. Conforme anteriormente explanado, o contrato de mútuo, assim como qualquer outro documento apresentado pelo contribuinte para comprovação de qualquer fato contábil, é submetido a uma análise de verossimilhança, de legitimidade, a partir da qual a autoridade tributária, de forma cética, entende haver segurança jurídica ou não na determinação da ocorrência ou não de determinada transação ou fato contábil. 41. No presente caso concreto, se o contrato de mútuo teve vigência até dezembro de 2021, em tese, por interesse do próprio contribuinte, este haveria de, à luz do princípio da cooperação e da boa-fé processual, ter juntado ao processo todos os valores de devolução de mútuo, caso tivesse havido tais devoluções, cujas informações somente o contribuinte poderia ter apresentado, na defesa de seu direito, e não o fez. 42. Ou seja, embora não seja uma exigência literal da lei a devolução do mútuo, é consabido que o mútuo e um empréstimo Fl. 800DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.423 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11282.720042/2021-09 37 de coisa fungível, conforme legislação supramencionada, e que se demonstra plausível buscar, no campo da valoração da prova, a validação ou refutação de tal instrumento, sendo um desses meios de validação ou refutação, a identificação ou não de transações comprovadas de devolução, sem as quais, combinado com os outros aspectos já tratados no subtópico anterior, o mútuo perde o seu valor probatório em detrimento do registro constante no Sped da empresa, que não considera tais valores como mútuo. Cito também, em tema conexo (Contribuições Previdenciárias), voto da Conselheira Débora Fofano, em decisão unânime OPERAÇÃO DE MÚTUO. SÓCIO DA EMPRESA. NÃO COMPROVAÇÃO. INCIDÊNCIA DA CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. É devida a contribuição sobre remunerações pagas o creditadas, a qualquer título, no descer do mês, aos segurados contribuintes individuais a serviço da empresa. A operação financeira de mútuo firmado entre as partes, sem comprovação de quitação do negócio jurídico, não é válido se afastar o caráter remuneratório dos valores disponibilizados aos sócios. Número da decisão: 2201-010.303 Também em decisão unânime, num caso de IRPF, ano calendário 2008, de Relatoria da conselheira Ana Carolina da Silva Barbosa, enfrenta o tema: CONTRATO DE MÚTUO. EMPRÉSTIMO NÃO COMPROVADO. A apresentação de contratos de mútuo, sem o cumprimento dos requisitos legais e sem a apresentação do fluxo de retorno dos valores que deveriam ter sido devolvidos até o prazo final do contrato, não se prestam a comprovar a efetiva realização do negócio. Acórdão 2401-010.958 Neste contexto, não observo pois a necessidade de reforma do acórdão recorrido Fl. 801DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.423 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11282.720042/2021-09 38 Conclusão Ante o exposto, voto por conhecer do recurso voluntário interposto, afastar a preliminar suscitada e, no mérito, nego-lhe provimento Assinado Digitalmente Marcus Gaudenzi de Faria Fl. 802DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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11291824 #
Numero do processo: 16327.721540/2013-19
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Feb 10 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Mon Apr 06 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2011, 2012, 2013 MULTA ISOLADA. COMPENSAÇÃO NÃO HOMOLOGADA. INCONSTITUCIONALIDADE. RECURSO EXTRAORDINÁRIO Nº 796.939/RS. TEMA Nº 736. DECISÃO DEFINITIVA DE MÉRITO. APLICAÇÃO DO ARTIGO 99 DO RICARF. Conforme restou fixado pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento do RE nº 796.939/RS – Tema 736 sob a sistemática de repercussão geral, a multa isolada de 50% prevista no §17 do artigo 74 da Lei nº 9.430/1996 é inconstitucional para incidir diante da mera negativa de homologação de compensação tributária por não consistir em ato ilícito com aptidão para propiciar automática penalidade pecuniária.
Numero da decisão: 3301-014.960
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Keli Campos de Lima – Relatora Assinado Digitalmente Paulo Guilherme Deroulede – Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Marcio Jose Pinto Ribeiro, Bruno Minoru Takii, Rodrigo Kendi Hiramuki, Rachel Freixo Chaves, Keli Campos de Lima, Paulo Guilherme Deroulede (Presidente).
Nome do relator: KELI CAMPOS DE LIMA

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ementa_s : Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2011, 2012, 2013 MULTA ISOLADA. COMPENSAÇÃO NÃO HOMOLOGADA. INCONSTITUCIONALIDADE. RECURSO EXTRAORDINÁRIO Nº 796.939/RS. TEMA Nº 736. DECISÃO DEFINITIVA DE MÉRITO. APLICAÇÃO DO ARTIGO 99 DO RICARF. Conforme restou fixado pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento do RE nº 796.939/RS – Tema 736 sob a sistemática de repercussão geral, a multa isolada de 50% prevista no §17 do artigo 74 da Lei nº 9.430/1996 é inconstitucional para incidir diante da mera negativa de homologação de compensação tributária por não consistir em ato ilícito com aptidão para propiciar automática penalidade pecuniária.

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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Keli Campos de Lima – Relatora Assinado Digitalmente Paulo Guilherme Deroulede – Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Marcio Jose Pinto Ribeiro, Bruno Minoru Takii, Rodrigo Kendi Hiramuki, Rachel Freixo Chaves, Keli Campos de Lima, Paulo Guilherme Deroulede (Presidente).

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INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2011, 2012, 2013 MULTA ISOLADA. COMPENSAÇÃO NÃO HOMOLOGADA. INCONSTITUCIONALIDADE. RECURSO EXTRAORDINÁRIO Nº 796.939/RS. TEMA Nº 736. DECISÃO DEFINITIVA DE MÉRITO. APLICAÇÃO DO ARTIGO 99 DO RICARF. Conforme restou fixado pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento do RE nº 796.939/RS – Tema 736 sob a sistemática de repercussão geral, a multa isolada de 50% prevista no §17 do artigo 74 da Lei nº 9.430/1996 é inconstitucional para incidir diante da mera negativa de homologação de compensação tributária por não consistir em ato ilícito com aptidão para propiciar automática penalidade pecuniária. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Keli Campos de Lima – Relatora Assinado Digitalmente Paulo Guilherme Deroulede – Presidente Fl. 996DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.960 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.721540/2013-19 2 Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Marcio Jose Pinto Ribeiro, Bruno Minoru Takii, Rodrigo Kendi Hiramuki, Rachel Freixo Chaves, Keli Campos de Lima, Paulo Guilherme Deroulede (Presidente). RELATÓRIO Para fins de economia processual adoto o relatório da decisão recorrida a fim de elucidar os fatos que motivaram a autuação, vejamos: Relatório Através do PER nº 17317.27091.290911.1.2.57-2522, o contribuinte pleiteou um crédito de R$ 147.961.441,34, a título de pagamento a maior de Cofins dos períodos de apuração de jan/2001 a dez/2005, reconhecido em sentença judicial transitada em julgado em 12/11/2008. Na ação judicial o contribuinte buscou afastar o alargamento da base de cálculo da Cofins, introduzido pelo § 1° do artigo 3° da Lei n° 9.718/98, declarado inconstitucional pelo STF no RE n° 364.084 e, com isso, ver reconhecido seu direito de compensar ou restituir, os valores pagos a maior por aplicação do referido dispositivo legal, naquilo em que excedeu aos valores que seriam devidos com base na Lei Complementar n° 70/91. De acordo com a interpretação do contribuinte, a sentença judicial transitada em julgado garantiu-lhe o direito à apuração da Cofins sem a inclusão na base de cálculo, dentre outras, das receitas financeiras. Por sua vez, a DEINF/SPO entendeu, com base em orientação da PRFN, que a sentença transitada em julgado não assegurou ao contribuinte o direito à exclusão das receitas financeiras da base de cálculo da Cofins e, por via de conseqüência, deveria ser aplicado o entendimento firmado no Parecer PGFN/CAT/N° 2.773/2007, que prevê a inclusão das receitas financeiras das instituições financeiras na base de cálculo da Cofins. Aplicando a interpretação adotada pela PRFN, a DEINF/SPO apurou e reconheceu um crédito de pagamento a maior de R$ 2.032.693,62, em valores originais, não homologando as compensações, no que excederam esse valor. A não homologação se deu no âmbito do processo nº 16327.720989/2012-71, julgado conjuntamente com este na presente sessão. O Despacho Decisório de não homologação encontra-se às fls. 140 a 160. Como conseqüência direta da não homologação acima relatada, foi aplicada neste processo a multa isolada prevista no § 17 do art. 74 da Lei nº 9.430/96, equivalente a 50% do valor do débito objeto de declaração de compensação não homologada. Fl. 997DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.960 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.721540/2013-19 3 A multa totalizou a importância de R$ 74.242.807,72. A descrição dos fatos, inclusive a identificação dos PER/DCOMP sobre os quais incidiu a multa, bem como o respectivo enquadramento legal, constam do Termo de Verificação Fiscal de fls. 225 a 231. O auto de infração encontra-se anexo às fls. 232 a 241. Ciente do lançamento em 11/12/2013 (fl. 231), o contribuinte apresentou a impugnação de fls. 248 a 299. Além de alegações específicas contra o lançamento da multa, a impugnação reitera ipsis literis as alegações opostas na manifestação de inconformidade nº processo nº 16327.720989/2012-71. Segue-se uma síntese das alegações. Das Alegações Especificas Contra a Multa. Do Auto de Infração • A multa deve ser afastada porque aplicável somente às hipóteses em que o contribuinte efetua a compensação que sabe indevida ou inviável, não se aplicando ao caso concreto em que as compensações foram realizadas com base em decisão judicial transitada em julgado. • O simples fato de a autoridade fiscal haver formulado consulta à PRFN quanto à extensão da coisa julgada, exclui, por si só, a aplicação da multa, em razão do disposto no art. 112, II, do CTN. • Ainda que se aplicasse ao caso concreto, a multa somente poderia ser aplicada após a eventual decisão administrativa definitiva que confirmasse a não homologação. Assim, o processo nº 16327.720989/2012-71, no bojo do qual foi emitido o Despacho Decisório de não homologação, seria prejudicial do presente processo, devendo esses dois processos serem reunidos para julgamento, em razão da aplicação analógica do § 3º do art. 18 da Lei nº 10.833/03. • A decisão que não homologou as compensações não pode prevalecer, já que tais compensações foram efetuadas com base em decisão judicial transitada em julgado. Da Inaplicabilidade de Multa no Caso Concreto. • A multa em questão tem a finalidade de "combater desvios", "coibir práticas contrárias à ética e à isonomia", "coibir fraudes" e reduzir o espaço dos contribuintes que se valem de "meios irregulares" para não pagar tributo devido; em suma, casos em que o contribuinte não só tem consciência da ilicitude da sua conduta, mas também a intenção de praticá- la para a obtenção de economia tributária, não sendo esse o caso. • Desse modo, a correta interpretação do dispositivo legal que introduziu a multa só pode ser aquela que entende ser aplicável tal multa nos casos em Fl. 998DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.960 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.721540/2013-19 4 que o contribuinte, tendo consciência da inexistência do crédito ou da impossibilidade da sua compensação, e, portanto, da ilicitude da mesma, ainda assim a pratique para obter seus efeitos. O mero fato de uma compensação não vir a ser homologada pela autoridade competente não revela necessariamente a existência de ilicitude. • O fato de o elemento objetivo do tipo penal apresentação de "declaração de compensação não homologada'' estar descrito sem qualquer ressalva aparente no § 17 do artigo 74 da Lei n° 9.430/96 não significa que a multa deva ser aplicada em relação a toda e qualquer compensação não homologada, mas só nas situações em que estiver também presente o elemento subjetivo do tipo, qual seja, consciência da ilicitude e a intenção de praticá-la. Da Aplicabilidade do Artigo 112, II do CTN. • A própria autoridade lançadora teve dúvida sobre a legitimidade da compensação efetuada pelo Impugnante, e não dúvida subjetiva, mas dúvida objetiva formalmente apresentada à PGFN, razão pela qual a multa não poderia ser aplicada ao caso concreto quando menos em decorrência do artigo 112, II do CTN. Da Impossibilidade de Aplicação da Multa Antes da Decisão Administrativa Definitiva no Processo de Não Homologação. • Tendo em vista o efeito suspensivo da manifestação de inconformidade previsto no § 6º do artigo 74 da Lei n° 9.430/96, a multa somente poderia ser lançada após a decisão administrativa definitiva, com a confirmação da não homologação, seja na DRJ, seja no CARF. Da Prejudicialidade do Processo nº 16327.720989/2012-71. • Mesmo que se admitisse a possibilidade de lançamento da multa antes de findo o processo administrativo de julgamento da manifestação de inconformidade contra a não homologação das compensações, de qualquer modo, sua cobrança estaria impedida até decisão final nº referido processo. Das Alegações Reiteradas da Manifestação de Inconformidade. Da Coisa Julgada. • A sentença de primeira instância lhe assegurou o direito à restituição/compensação dos valores pagos a título de Cofins com base no faturamento, nessa base de cálculo não se incluindo as receitas financeiras. • O pedido da exclusão das receitas financeiras da base de cálculo da Cofins foi expressamente formulado na inicial e objeto de controvérsia nos autos, de modo que ao julgar pela procedência da ação, o Juízo reconheceu o direito à exclusão das receitas financeiras da base de cálculo da Cofins. Fl. 999DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.960 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.721540/2013-19 5 • Por sua vez, o acórdão de segunda instância não alterou a sentença nº que diz respeito a esse aspecto, tendo assim transitado em julgado seu direito, inclusive com o reconhecimento da não inclusão das receitas financeiras na base de cálculo da contribuição. • A interpretação de que o acórdão do TRF 3º desconstituiu na integra a sentença de 1º grau e, conseqüentemente, o direito nela assegurado de exclusão das receitas financeiras da base de cálculo da Cofins, se deu a partir de uma aplicação absolutamente distorcida e equivocada do magistério dos Professores Humberto Theodoro Jr. e Nelson Nery Jr., conforme será detalhado adiante. Do Despacho Decisório • Da leitura da fundamentação do Despacho Decisório, depreende-se que a própria autoridade fiscal reconhece que a sentença de primeiro grau conferiu à autora da ação o direito ao recolhimento da contribuição com base no faturamento, nele não se incluindo, dentre outras, as receitas financeiras. • O Despacho Decisório foi emitido com base em orientação da PRFN, fundada em premissas verdadeiras em tese, mas equivocadamente aplicadas ao caso concreto. • Conforme expresso em pareceres exarados pelos Professores Humberto Theodoro Jr. e Nelson Nery Jr., cujos magistérios foram citados pela PRFN como fundamentos de sua conclusão, os próprios doutrinadores atestam o equivoco da interpretação adotada por aquela Procuradoria. Do Efeito Substitutivo do Acórdão em Relação à Sentença. • Não procede o raciocínio da PRFN segundo o qual seria inoportuna qualquer menção à sentença de primeira instância, sob o falso fundamento de que o acórdão, pelo efeito devolutivo, a substituiu ampla e ilimitadamente. Em realidade, o que ocorre é exatamente o inverso, ou seja, o efeito substitutivo do acórdão em relação à sentença opera-se por inteiro no campo processual, mas no campo material esta substituição se dá com a ratificação da decisão recorrida naquilo em que não modificada e sua alteração apenas nos limites em que provido o recurso interposto. • De acordo com pareceres dos juristas Humberto Theodoro Jr. e Nelson Nery Jr., proferidos especificamente para o caso concreto, o efeito devolutivo de que trata o art. 512 do CPC opera a substituição da sentença apenas naquilo que tiver sido objeto de recurso e, explicitamente deliberado pelo colegiado, de forma que, naquilo em que não houve reforma no ato do Tribunal, prevalece eficaz a sentença. Do Alcance da Coisa Julgada no Caso Concreto • Ficou absolutamente explícito no pedido formulado o pleito das Autoras de reconhecimento de que: a) a COFINS deveria incidir apenas sobre o Fl. 1000DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.960 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.721540/2013-19 6 faturamento tal como previsto no art. 2º da LC 70/91; e b) este conceito de faturamento previsto na LC 70/91 não inclui as receitas financeiras. Logo, ao serem acolhidos os embargos de declaração confirmando a procedência da ação nos exatos termos em que formulado o pedido, dúvidas não restaram sobre a confirmação do direito da manifestante à não inclusão na base de cálculo da Cofins, dentre outras, das receitas financeiras. • As duas premissas em que se baseou a Solução de Consulta da PRFN, quais sejam: a) a de que a parte dispositiva da sentença deve ser interpretada em harmonia com os fundamentos e a de que b) a motivação é imprescindível à correta exegese do julgado, embora em tese corretas, foram aplicadas ao caso concreto de forma manifestamente equivocada, de modo que jamais poderiam ter levado a vislumbrar-se no julgamento uma decisão que ele não contém, qual seja, a de que as receitas financeiras integram o faturamento e devem compor a base de cálculo da Cofins. • De acordo com os pareceres dos professores Humberto Theodoro Jr. e Nelson Nery Jr., elaborados especificamente para o caso concreto, referidos juristas concluem pela caracterização do trânsito em julgado do direito da manifestante de não incluir na base de cálculo da Cofins as receitas financeiras. • No presente caso, não há que se falar em julgamento citra petita, como sugere a PRFN, já que a sentença de primeira instância julgou integralmente procedente a ação, nos exatos termos do pedido formulado. Portanto, não há que se falar em embargo de declaração para suprir a pretendida lacuna vislumbrada pela PRFN. Logo, não prospera a afirmação da PRFN ao acusar a manifestante de permanecer inerte e em contumácia, permitindo a preclusão da decisão em sentido desfavorável à sua pretensão. Assim, seria da Fazenda Nacional apelante, e não da impugnante recorrida, o ônus da oposição de embargos de declaração, caso pretendesse ver esclarecida eventual modificação da sentença recorrida. • O fato de haver ajuizado MS propugnando pela não incidência da Cofins sobre suas receitas financeiras, relativamente a outros períodos de apuração, “longe de corroborar os argumentos do r. despacho decisório apenas evidencia que no caso caberia à Fazenda Nacional ter sido diligente e oposto embargos de declaração ou os recursos cabíveis visando a que decisão de teor semelhante fosse proferida também nos autos da ação ordinária n° 2006.61.00.003422-0”. No MS em causa, o TRF expressamente apreciou a questão e entendeu estarem as receitas financeiras incluídas na base de cálculo da Cofins. • Não prospera o entendimento da DEINF/SPO de que o produto das operações de intermediação financeira (spread) não constituiria receita financeira e que nesse conceito se incluiriam apenas as receitas de Fl. 1001DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.960 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.721540/2013-19 7 aplicações próprias e de terceiros. Todas são receitas financeiras e devem ser excluídas da base de cálculo da Cofins. O presente processo está sendo julgado concomitantemente com o processo nº 16327.720989/2012-71, que trata da manifestação de inconformidade contra a não homologação que motivou o lançamento da multa de que trata este processo. Em julgamento da impugnação, a 5ª Turma da DRJ/FOR por meio do acordão 08- 31.378 julgou-a parcialmente procedente apenas para manter a suspensão da exigibilidade da multa em razão da apresentação de manifestação de inconformidade contra a não-homologação das compensações, conforme decisão abaixo ementada: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano-calendário: 2011, 2012, 2013 MULTA ISOLADA. NÃO HOMOLOGAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. RESPONSABILIDADE OBJETIVA. Aplica-se a multa isolada prevista no § 17 do artigo 74 da Lei 9.430/96 sobre o crédito objeto de declaração de compensação não homologada, independentemente da intenção do contribuinte em apresentar declaração com o conhecimento da inexistência do seu direito creditório. Trata-se da responsabilidade objetiva disposta no artigo 136 do Código Tributário Nacional. MULTA ISOLADA. NÃO HOMOLOGAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. APRESENTAÇÃO DE MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE. SUSPENSÃO DA EXIGIBILIDADE. No caso de apresentação de manifestação de inconformidade contra a não homologação da compensação, fica suspensa a exigibilidade da multa de ofício de que trata o § 17 do artigo 74 da Lei 9.430/96, ainda que não impugnada essa exigência, enquadrando-se no disposto no inciso III do artigo 151 do Código Tributário Nacional. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido Irresignada, a Recorrente apresentou recurvo voluntário com os mesmos argumentos da impugnação e a 3ª Câmara / 2ª Turma Ordinária deste e. Conselho por meio da Resolução 3302000.690 de 28/02/2018 entendeu por sobrestar o julgamento na Câmara até a decisão definitiva do processo 16327.720989/2012 71. Em 29/09/2023 (fls. 986), em face do julgamento do tema 736 nos autos do RE nº 796.939//RS sob a sistemática de repercussão geral, foi proferido despacho de encaminhamento para julgamento, por não mais subsistir o fundamento para o sobrestamento. Por meio da petição de fls. 989, a Recorrente comparece aos autos requerendo a extinção em face da declaração da “inconstitucionalidade do § 17 do art. 74 da Lei 9.430, de 27 de Fl. 1002DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.960 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.721540/2013-19 8 dezembro de 1996, incluído pela Lei 12.249, de 11 de junho de 2010, alterado pela Lei 13.097, de 19 de janeiro de 2015, e, por arrastamento, a inconstitucionalidade do inciso I do § 1º do art. 74 da Instrução Normativa RFB 2.055/2021” É o relatório. VOTO Conselheira Keli Campos de Lima, Relatora. O Recurso é tempestivo e preenche os demais requisitos de admissibilidade, portanto deve ser admitido. Cuida-se de recurso voluntário interposto contra o acordão 5ª Turma da DRJ/FOR que julgou parcialmente procedente impugnação mantendo a aplicação de multa isolada decorrente não homologação das compensações realizadas pela Recorrente no período de 2011 a 2013, tendo por fundamento legal a disposição contida no §17 do artigo 74 da Lei nº 9.430/961 (multa de 50% sobre os valores dos débitos das compensações não homologadas). Vejamos a fundamentação constante no auto de infração (fls.232/241): Ocorre que o Supremo Tribunal Federal no julgamento do RE nº 796.939/RS – Tema 736 - sob a sistemática de repercussão geral fixou a seguinte tese: Ementa: RECURSO EXTRAORDINÁRIO. REPERCUSSÃO GERAL. TRIBUTOS ADMINISTRADOS PELA SECRETARIA DA RECEITA FEDERAL DO BRASIL. COMPENSAÇÃO TRIBUTÁRIA. NEGATIVA DE HOMOLOGAÇÃO. MULTA ISOLADA. AUTOMATICIDADE. DIREITO DE PETIÇÃO. DEVIDO PROCESSO LEGAL. BOA-FÉ. ART. 74, §17, DA LEI 9.430/96. 1. Fixação de tese jurídica para o Tema 736 da sistemática da repercussão geral: “É inconstitucional a multa isolada prevista em lei para incidir diante da mera negativa de homologação de compensação tributária por não consistir em ato ilícito com aptidão para propiciar automática penalidade pecuniária”. 2. O pedido de compensação tributária não se compatibiliza com a função teleológica repressora das multas tributárias, porquanto a automaticidade da sanção, sem quaisquer considerações de índole 1 Art. 74. (...) § 17. Será aplicada multa isolada de 50% (cinquenta por cento) sobre o valor do débito objeto de declaração de compensação não homologada, salvo no caso de falsidade da declaração apresentada pelo sujeito passivo. Fl. 1003DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.960 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.721540/2013-19 9 subjetiva acerca do animus do agente, representaria imputar ilicitude ao próprio exercício de um direito subjetivo público com guarida constitucional. 3. A matéria constitucional controvertida consiste em saber se é constitucional o art. 74, §§15 e 17, da Lei 9.430/96, em que se prevê multa ao contribuinte que tenha indeferido seu pedido administrativo de ressarcimento ou de homologação de compensação tributária declarada. 4. Verifica-se que o §15 do artigo precitado foi derrogado pela Lei 13.137/15; o que não impede seu conhecimento e análise em sede de Recurso Extraordinário considerando a dimensão dos interesses subjetivos discutidos em sede de controle difuso. 5. Por outro lado, o §17 do artigo 74 da lei impugnada também sofreu alteração legislativa, desde o reconhecimento da repercussão geral da questão pelo Plenário do STF. Nada obstante, verifica-se que o cerne da controvérsia persiste, uma vez que somente se alterou a base sobre a qual se calcula o valor da multa isolada, isto é, do valor do crédito objeto de declaração para o montante do débito. Nesse sentido, permanece a potencialidade de ofensa à Constituição da República no tocante ao direito de petição e ao princípio do devido processo legal. 6. Compreende-se uma falta de correlação entre a multa tributária e o pedido administrativo de compensação tributária, ainda que não homologado pela Administração Tributária, uma vez que este se traduz em legítimo exercício do direito de petição do contribuinte. Precedentes e Doutrina. 7. O art. 74, §17, da Lei 9.430/96, representa uma ofensa ao devido processo legal nas duas dimensões do princípio. No campo processual, não se observa no processo administrativo fiscal em exame uma garantia às partes em relação ao exercício de suas faculdades e poderes processuais. Na seara substancial, o dispositivo precitado não se mostra razoável na medida em que a legitimidade tributária é inobservada, visto a insatisfação simultânea do binômio eficiência e justiça fiscal por parte da estatalidade. 8. A aferição da correção material da conduta do contribuinte que busca à compensação tributária na via administrativa deve ser, necessariamente, mediada por um juízo concreto e fundamentado relativo à inobservância do princípio da boa-fé em sua dimensão objetiva. Somente a partir dessa avaliação motivada, é possível confirmar eventual abusividade no exercício do direito de petição, traduzível em ilicitude apta a gerar sanção tributária. 9. Recurso extraordinário conhecido e negado provimento na medida em que inconstitucionais, tanto o já revogado § 15, quanto o atual § 17 do art. 74 da Lei 9.430/1996, mantendo, assim, a decisão proferida pelo Tribunal a quo. Tema 736 - Constitucionalidade da multa prevista no art. 74, §§ 15 e 17, da Lei 9.430/1996 para os casos de indeferimento dos pedidos de ressarcimento e de não homologação das declarações de compensação de créditos perante a Receita Federal. Tese É inconstitucional a multa isolada prevista em lei para incidir diante da mera negativa de homologação de compensação tributária por não consistir em ato ilícito com aptidão para propiciar automática penalidade pecuniária. Fl. 1004DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.960 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.721540/2013-19 10 (RE 796939. Órgão julgador: Tribunal Pleno. Relator(a): Min. EDSON FACHIN Julgamento: 18/03/2023. Publicação: 23/05/2023.) Assim, nos termos do 99 do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023, as decisões transitadas em julgado pelo STF em repercussão geral devem obrigatoriamente ser aplicadas por este Colegiado, vejamos: Art. 99. As decisões de mérito transitadas em julgado, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal, ou pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática da repercussão geral ou dos recursos repetitivos, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. Parágrafo único. O disposto no caput não se aplica nos casos em que houver recurso extraordinário, com repercussão geral reconhecida, pendente de julgamento pelo Supremo Tribunal Federal, sobre o mesmo tema decidido pelo Superior Tribunal de Justiça, na sistemática dos recursos repetitivos Neste sentido, considerando que o presente processo trata exclusivamente da multa isolada declarada inconstitucional, é imperioso a aplicação do entendimento com cancelamento do lançamento. Assim, voto por conhecer e dar provimento ao recurso voluntário. Assinado Digitalmente Keli Campos de Lima Fl. 1005DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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Numero do processo: 13971.720635/2017-48
Turma: Primeira Turma Ordinária da Primeira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Feb 26 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Mon Apr 06 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2011, 2012, 2013 NULIDADE POR OMISSÃO INSANÁVEL DA DECISÃO RECORRIDA. CERCEAMENTO AO DIREITO DE DEFESA. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. Verificada ausência de manifestação por parte da decisão recorrida sobre matéria cuja omissão é insanável, verifica-se cerceamento ao direito de defesa decorrente da supressão de instância, resultando na nulidade da decisão de piso.
Numero da decisão: 1101-002.086
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto do Relator, para anular a decisão de primeira instância para que outra seja proferida com análise de todos os pontos controvertidos na impugnação. Assinado Digitalmente Jeferson Teodorovicz – Relator Assinado Digitalmente Efigênio de Freitas Júnior – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Roney Sandro Freire Correa, Jeferson Teodorovicz, Edmilson Borges Gomes, Diljesse de Moura Pessoa de Vasconcelos Filho, Rycardo Henrique Magalhães de Oliveira e Efigênio de Freitas Júnior (Presidente).
Nome do relator: JEFERSON TEODOROVICZ

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CERCEAMENTO AO DIREITO DE DEFESA. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. Verificada ausência de manifestação por parte da decisão recorrida sobre matéria cuja omissão é insanável, verifica-se cerceamento ao direito de defesa decorrente da supressão de instância, resultando na nulidade da decisão de piso. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto do Relator, para anular a decisão de primeira instância para que outra seja proferida com análise de todos os pontos controvertidos na impugnação. Assinado Digitalmente Jeferson Teodorovicz – Relator Assinado Digitalmente Efigênio de Freitas Júnior – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Roney Sandro Freire Correa, Jeferson Teodorovicz, Edmilson Borges Gomes, Diljesse de Moura Pessoa de Vasconcelos Filho, Rycardo Henrique Magalhães de Oliveira e Efigênio de Freitas Júnior (Presidente). Fl. 174DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.086 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.720635/2017-48 2 RELATÓRIO Trata-se de recurso voluntário protocolado pelo contribuinte e responsáveis solidários (efls. 109/172, contra acórdão da DRJ, efls. 62/99, que julgou improcedente impugnação administrativa apresentada pelo contribuinte/responsável (efl. 54/60), contra auto de infração de IRPJ e reflexos (05/38) lavrado e lastreado em Relatório Fiscal (efls.40/45) que gerou crédito tributário de IPRJ do ano calendário de 2011, 2012 e 2013. Para síntese dos fatos, reproduzo o relatório do acórdão recorrido: Trata-se de processo apenso ao PAF nº 10920.724260/2015-31 para cuidar de autos de infração complementares aos constituídos naquele feito e exigir de KR INVESTIMENTOS LTDA. – EPP, pessoa jurídica que apurou Imposto de Renda na modalidade do lucro presumido nos anos-calendário de 2011, 2012 e 2013, crédito tributário de R$ 75.743,83, relativo àquele período, por meio de Autos de Infração às fls. 2-38, conforme discriminado na tabela abaixo, em virtude de haver omitido receitas, cf. discriminado no Relatório Fiscal às fls. 40-45. 2. Foi imputada responsabilidade solidária ao sócio administrador da entidade, senhor Gilmar Krutzsch, nos termos dos arts. 134 e 135 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 – Código Tributário Nacional – CTN, porque, a juízo da Autoridade Fiscal a quo, teria havido infração a diversos dispositivos do Código Civil – Lei n° 10.406 de 10/01/2002, e da Lei 8.137/90, que trata dos crimes contra a ordem tributária. Ciência 3. A sociedade empresária foi devidamente cientificada em 24/03/2017, cf. Aviso de Recebimento – AR à fl. 48, e, em 05/04/2017, foi dada ciência ao administrador da entidade, senhor Gilmar Krutzsch, da imputação de responsabilidade solidária, cf. AR à fl 51. Impugnação 4. A KR, por meio do diretor Gilmar Krutzsch, já identificado no processo principal, apresentou impugnação em 25/04/2017, que foi juntada às fls. 54-60 do feito. 5. O senhor Gilmar Krutzsch não apresentou impugnação em nome próprio. Fl. 175DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.086 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.720635/2017-48 3 6. Por uma questão de economia processual, repete-se a seguir o teor do relatório do processo principal dada a identidade entre os eventos relatados e a impugnação então oposta pela contribuinte, os aspectos novos da peça apresentada neste PAF, serão tratados adiante neste relatório e voto. Trata-se de autos de infração, às fls. 4-116, lavrados para exigir de KR INVESTIMENTOS LTDA. – EPP, pessoa jurídica que apurou Imposto de Renda na modalidade do lucro presumido nos anos-calendário de 2011, 2012 e 2013, crédito tributário de R$ 8.625.492,89, relativo àquele período, conforme discriminado na tabela abaixo, em virtude de haver omitido receitas, cf. discriminado no Relatório Fiscal às fls. 117-207. 2. Foi imputada responsabilidade solidária ao administrador da sociedade empresária, senhor Gilmar Krutzsch, nos termos dos arts. 134 e 135 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 – Código Tributário Nacional – CTN, porque, a juízo da Autoridade Fiscal a quo, teria havido infração a diversos dispositivos do Código Civil – Lei n° 10.406 de 10/01/2002, e da Lei 8.137/90, que trata dos crimes contra a ordem tributária. Ação Fiscal 3. A Fiscalização informa, em primeiro lugar, que, de acordo com o contrato social, datado de 01/04/2011, às fls. 216-221, o objeto social de KR Investimentos Ltda. – EPP consiste em: 1) administração e locação de investimentos, bens e direitos, próprios e de terceiros; 2) participação em outras sociedades; 3) assessoria administrativa; 4) intermediação de negócios; e 5) compra, venda, alienação e locação de ativos financeiros, direitos creditórios e direitos de ações judiciais e extrajudiciais. 4. Em seguida, acrescenta que, nos termos do art. 33, I e §2º, do Decreto nº 7.574, de 29 de setembro de 2011, a contribuinte perdeu a espontaneidade desde o momento em que tomou ciência – em 05/06/2014 – do Termo de Diligência nº 2014.00259-1-01, cf. se verifica às fls. 210-212. Por esse motivo, as declarações retificadoras de DIPJ, DCTF e DACON do período – A/C de 2011 a 2013 – não foram levadas em conta no curso do procedimento fiscal. 5. Além das retificações antes referidas – continua a Fiscalização – a contribuinte optou pelo parcelamento de débitos estatuído pela Lei nº 12.996, de 18 de junho de 2014, cf. comprovante de 25/08/2014, naquela mesma data, efetuou o primeiro pagamento, no valor de R$ 22.887,68, cf. documentos às fls. 1.774- Fl. 176DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.086 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.720635/2017-48 4 1.777. Tal iniciativa, contudo, não teve o condão de modificar o andamento da Ação Fiscal. 6. No dia 26/06/2014, os sócios da fiscalizada compareceram à sede da DRF/Blumenau-SC onde tomaram ciência do Termo de Início de Fiscalização, cf. documento às fls. 223-226, e foram intimados a apresentar extratos bancários de todas as contas mantidas em instituições financeiras. 7. Na ocasião, prestaram depoimento sobre as atividades da entidade, coligido às fls. 213-214 e declararam que, em razão dos negócios realizados pela KR, ocorriam depósitos das cessionárias dos direitos transacionados diretamente na conta corrente da fiscalizada. Os diretores mencionaram dois cedentes de créditos: Lubanco Advogados do Brasil, sociedade sediada no Rio de Janeiro e em Brasília; e Anser Participações, com sede no Rio de Janeiro. 8. Em 14/08/2014, a fiscalizada atendeu ao Termo de Início, trazendo ao conhecimento da Autoridade Fiscal parte dos documentos solicitados nas intimações expedidas até aquele momento. Dando continuidade à Ação Fiscal, em 20/10/2014, a contribuinte foi intimada – por meio do Termo de Intimação 2014.00226-0-02, às fls. 587-589 – a apresentar extratos bancários que suprissem as lacunas da documentação até então entregue. 9. Dada a inércia do sujeito passivo, porém, a Fiscalização expediu Requisição de Informações sobre Movimentação Financeira – RMF, dirigida à Caixa Econômica Federal – CEF, instituição financeira em que a fiscalizada mantinha sua única conta corrente. 10. Ato contínuo, a Autoridade Lançadora requereu, por meio do Termo de Intimação nº 2014.00226-0-03, à fl. 659, que a fiscalizada apresentasse os anexos – não entregues – dos contratos celebrados com os dois clientes antes referidos: Lubanco e Anser. O objetivo da demanda, segundo a Fiscalização, era apurar o valor a ser pago pelos serviços de intermediação prestados pela fiscalizada. 11. Em resposta, a contribuinte afirmou não dispor dos anexos requeridos. Diante desse fato, a Fiscalização intimou então as contratantes a apresentar os respectivos anexos; diligências que se revelaram, contudo, infrutíferas. 12. De posse das informações bancárias, a Fiscalização informou a KR que os depósitos bancários desprovidos de comprovação de origem seriam tomados como omissão de receitas nos termos do art. 42 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996. Por esse motivo, no próprio termo de intimação – o de nº 2014.00226-0-05 – a fiscalizada era instada a apresentar justificativa para todos os créditos em sua conta corrente, indicando as respectivas motivações e origens, devidamente documentadas. 13. A interessada requereu dilação de prazo, porém, face às sucessivas concessões anteriores e à reiterada omissão, tal pedido, no entender da Autoridade Fiscal a quo, estava “despido de razoabilidade” e, por esse motivo, foi indeferido. 14. Eis que, em 20/07/2015, sem se referir a uma intimação específica, a interessada apresentou novos documentos entre os quais cópias de contratos com Anser e Lubanco, além de Cortez Advogados, acompanhadas dos respectivos anexos e autorizações de pagamentos, fls. 282-291. Fl. 177DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.086 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.720635/2017-48 5 15. De posse de todos os documentos reunidos, a Autoridade Fiscal a quo entendeu restar configurada a omissão de receitas resultantes de suas atividades operacionais e também por presunção legal. Foram observadas ainda receitas financeiras escrituradas mas não declaradas ou não confessadas em DCTF, conforme minuciosamente consignado nas fls. 125- 195 do Relatório Fiscal. 16. Segue-se a descrição resumida das infrações apuradas Infração – Omissão de Receitas da Atividade 17. O cotejamento dos extratos bancários da KR com os registros de sua escrituração contábil demonstrou que a fiscalizada movimentou, nos anos- calendário de 2011, 2012 e 2013 o montante de R$ 21.098.740,45. Sua receita declarada nesse período, contudo, cf. DIPJs originais, foi de apenas R$ 7.544.494,45 (35,75%). 18. Segundo a Autoridade Fiscal, a grande maioria dos créditos na conta bancária na CEF ocorreu por meio de Transferência Eletrônicas de Disponíveis – TED. Os extratos daquela instituição financeira, porém, diferentemente dos de outros bancos, não discriminam os remetentes dos recursos. A grande maioria desses créditos bancários, na contabilidade, foi escriturada a crédito da conta Adiantamento Clientes, com históricos tais como: "VL ADIANTAMENTO DE CLIENTE ANSER" ou "VL ADIANTAMENTO DE CLIENTE MTR". 19. De acordo com a KR, tais recursos teriam apenas transitado por sua conta corrente; para a Fiscalização, porém, como a fiscalizada também se dedicava à compra, venda, alienação e locação de ativos financeiros (cf. Cláusula Segunda, alínea ‘e’, de seu Contrato Social, à fl. 216), a intermediação de negócios alegada coexistia com transações com papéis promovidas pelo próprio sujeito passivo. 20. Os créditos bancários em questão, portanto, podiam referir-se a pagamentos por créditos adquiridos de terceiros ou a negócios entabulados pela própria fiscalizada, configurando, nesse último caso, receita operacional. 21. Com efeito, a Autoridade Fiscal a quo informa que apurou a existência de uma conta denominada “AÇÕES DIVERSAS”, no Livro Razão do ano-calendário de 2013, em que estavam registradas a aquisição de ativos – precatórios e créditos e que os referidos lançamentos contábeis na conta “VL ADIANTAMENTO DE CLIENTE ANSER”, foram escriturados sem indicar a natureza da operação, chegando a receber registros tanto da Anser, quanto da Lubanco . 22. Afirma a Autoridade Fiscal a quo: Há aqui uma inconsistência flagrante, a mostrar que o histórico poderia estar dissimulando a verdadeira natureza da operação, que não seria adiantamento de valores, mas sim receita tributável. 23. Face às lacunas verificadas, a Fiscalização realizou diligências em sociedades empresárias identificadas na escrituração contábil como remetentes de recursos para a KR Investimentos. Diligências em MTR Transportes e MTR Logística 24. As sociedades MTR Transportes e MTR Logística foram diligenciadas, porque, nos três anos fiscalizados, foram encontrados lançamentos contábeis dessas sociedades no montante de R$ 13.193.125,80 com o histórico “VL ADIANTAMENTO DE CLIENTE MTR”. Fl. 178DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.086 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.720635/2017-48 6 25. Em resposta às intimações, as duas pessoas jurídicas esclareceram que contrataram a fiscalizada para intermediar a aquisição de ativos financeiros, precatórios estaduais e direitos creditórios de origem judicial. As respostas foram acompanhadas de cópias de contratos, juntados às fls. 600-601 (1 contrato de MTR Logística) e fls. 606-611 (3 contratos de MTR Transportes). 26. Dois dos contratos apresentados por MTR Transportes dizem respeito, segundo a Fiscalização, tão-somente à prestação de serviços de intermediação e, assim, os valores recebidos pela KR em razão deles: R$ 4.500.000,00, do primeiro contrato, e R$ 1.200.000,00, do segundo, constituem resultado operacional da fiscalizada, porque ocorreram na forma de repasses regulares em datas predeterminadas, acertadas no instrumento contratual. 27. A Autoridade Fiscal identificou os créditos vinculados a esses contratos nos extratos bancários disponíveis e os cotejou com os registros contábeis da KR. Verificou, então, omissão de registros na contabilidade e na declaração na Declaração de Informações Econômico Fiscais da Pessoa Jurídica – DIPJ. Concluiu este tópico com a tabela à fl. 134, reproduzida abaixo, que sintetiza as omissões até então apuradas. 28. Importa registrar que o último valor apurado, R$ 130.000,00, não foi constituído nos AI, conforme será tratado adiante neste voto. 29. Ainda em relação a essas empresas, o terceiro contrato de MTR Transportes, às fls. 608-609, e o contrato de MTR Logística se diferenciavam dos dois referidos anteriormente, porque contemplavam a compra de ativos financeiros, direitos creditórios e precatórios federais e estaduais. Sobre eles, a Autoridade Fiscal a quo afirma, à fl. 139, que as diligenciadas apresentaram, verbatim: (...) uma miríade de documentos de cessão de direitos creditórios em favor delas - escrituras públicas, em sua maioria - com a interveniência quase sempre de Gilmar Krutzsch ou João Antonio Calegário Vieira como mandatários delas. 30. A Autoridade Fiscal a quo afirma ainda que constatou a venda direta de direitos creditórios da Fiscalizada à MTR, o que a levou a concluir, à fl. 142: “(...) transparece apenas a atuação da Fiscalizada, o que se coaduna com os termos constantes dos contratos firmados entre elas”. O objetivo final dos negócios com esses papéis, acrescenta, é a compensação de tributos fiscais e previdenciários. 31. O quadro à fl. 150, consolida as receitas omitidias provenientes desses contratos de MTR Transporte e MTR Logística. Fl. 179DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.086 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.720635/2017-48 7 32. Analogamente, aos dois contratos da MTR Transportes, antes referidos, também foram apurados créditos cujas notas fiscais foram reconhecidas como receitas, mas que não foram declaradas em DIPJ, matéria que foi tratada adiante no Relatório Fiscal. E assim será abordada neste relatório. Diligências em Koehler Tinturaria Ltda 33. A sociedade empresária Koehler Tinturaria Ltda. transferiu R$ 4.155.177,72 para a fiscalizada, por esse motivo foi intimada a esclarecer a natureza dessas operações; em sua resposta, informou que se tratava de contrato assinado com a Lubanco – cliente da KR – que a orientou a efetuar os pagamentos em favor da fiscalizada a partir de junho de 2011 – informação confirmada pela Autoridade Fiscal a quo. 34. A Fiscalização destaca, nesse ponto do relatório, a estreita ligação existente entre os dois sócios da KR com as sociedades Anser e Lubanco. Afirmando, in verbis: Observe-se que estas duas empresas celebraram contratos envolvendo a transferência de direitos creditórios e sua utlização a transferência de direitos tributários e previdenciários com a Kohler, com a Texarte e com a A. S. Têxtil. 35. Tais valores, portanto, no entender da Autoridade Fiscal, constituiriam remuneração da contribuinte; e a KR, mesmo intimada a comprovar a origem de todos os créditos existentes em sua conta corrente, não se pronunciou, cf. parágrafo 137, à fl. 162 do Relatório Fiscal. 36. O quadro à fl. 163, reproduzido abaixo, consolida os créditos apurados que configurariam omissão de receitas nos negócios da KR com a Koehler Tinturaria, totalizando R$ 4.155.177,72. 7 Fl. 180DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.086 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.720635/2017-48 8 Diligências em Texarte Têxtil e AS Textil 37. Situação análoga a da Kohler foi verificada nos negócios relacionados à sociedade empresária Texarte Têxtil, cujos resultados chegaram a R$ 627.731,30, cf.. tabela à fl. 166, reproduzida abaixo. 38. Também em relação a essa omissão de receitas apurada no relatório, apenas R$ 586.231,30 foram constituídos nos autos de infração, como se verá adiante neste voto. 39. A omissão relacionada à AS Têxtil monta a R$ 500.000,00, cf. tabela a fl. 173, reproduzida abaixo. 8 Fl. 181DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.086 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.720635/2017-48 9 40. Tais valores apurados foram compreendidos como omissão de receitas. Créditos recebidos das pessoas jurídicas Lubanco e Anser cedentes dos papéis negociados pela fiscalizada 41. Extratos bancários da KR registram a existência de R$ 446.977,78 de créditos oriundos das sociedades empresárias Lubanco e Anser (cf. tabela à fl. 173), entretanto, não foram apuradas, entre as notas fiscais emitidas pela fiscalizada, “nenhuma em face de Lubanco, e apenas três em face da Anser”, que totalizavam R$ 1.438.220,22, cf. quadro à fl. 174 reproduzido abaixo. 42. Afirma, então, a Autoridade Fiscal a quo: 160. Os valores originados da Lubanco, sem correspondência em notas fiscais e não reconhecidos como receitas na contabilidade consubstanciam receita operacional da Fiscalizada, haja vista a contrato firmado com a Lubanco em data anterior aos créditos. (...) 161. Os créditos oriundos da Anser, no entanto, não podem ser relacionados às notas fiscais emitidas por absoluta incompatibilidade 43. Os valores assim apurados foram considerados como receita operacional por haver contrato de prestação de serviços pela fiscalizada com as cedentes em data anterior aos créditos. Receitas escrituradas mas não declaradas em DIPJ 44. Afora as receitas já comentadas, a fiscalizada escriturou receitas em sua contabilidade que não foram, contudo, oferecidas à tributação, cf. quadro à fl. 179, reproduzido abaixo. Importa destacar mais uma vez que as DIPJ retificadoras apresentadas depois da primeira notificação não foram levadas em consideração pela Autoridade Fiscal a quo, em razão de a espontaneidade da fiscalizada haver sido excluída conforme visto anteriormente. Fl. 182DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.086 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.720635/2017-48 10 45. Segundo a Fiscalização, as diferenças apuradas neste tópico configuram omissão de receita. Ademais, também foram consideradas receitas não tributadas aquelas referentes aos meses em que não houve a emissão de notas fiscais apesar de ter havido receitas reconhecidas, e. g. janeiro de 2012. 46. Ademais, foram constituídos os tributos declarados na DIPJ e DACON, mas não confessados em DCTF, cf. tabela à fl. 185, reproduzida abaixo. Omissão de Receitas Presunção Legal - Art. 42 Lei 9.430/96 47. Continua a Autoridade Fiscal afirmando que foi possível comprovar a origem de parte dos créditos verificados na conta bancária da fiscalizada. Além desses, contudo, foram encontrados créditos “para os quais a Fiscalização não conseguiu descortinar a sua origem e natureza”. 48. Argumenta a Autoridade Fiscal a quo: 204. Diga-se que não basta a identificação do remetente. Para afastar a presunção do artigo 42 da Lei 9.430/96, necessária a comprovação de que tais créditos tiveram origem em rendimentos não tributáveis, sujeitos à tributação definitiva e/ou já tributados exclusivamente na fonte. Ou ainda, que tiveram origem em rendimentos tributáveis já oferecidos à tributação ou mesmo que não consubstanciam a natureza de rendimentos. 49. O quadro à fl. 188 consolida as receitas nessa situação que alcançam o total de R$ 343.013,35 (no A/C de 2011); R$ 814.691,84 (no A/C de 2012) e R$ 709.715,87 (no A/C de 2013). Fl. 183DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.086 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.720635/2017-48 11 Omissão de Receitas Financeiras 50. Continuando o Relatório Fiscal informa que a fiscalizada auferiu receitas financeiras nos anos-calendário fiscalizados, cf. quadro à fl. 189, reproduzido abaixo. 51. Tais valores foram escriturados na contabilidade e levados ao resultado do exercício, porém não foram adicionados ao lucro presumido apurado nas DIPJ dos respectivos anos-calendário, exceto pelos trimestres 3 e 4 do ano-calendário de 2013, e mesmo nesse caso, como a DIPJ do A/C 2013 foi apresentada depois de iniciada a Ação Fiscal, tais lançamentos não foram levados em conta na constituição dos tributos. 52. Informa a Autoridade Fiscal que, para fins de apuração do IRPJ e da CSLL, os rendimentos financeiros auferidos pela KR no período foram adicionados ao valor resultante da aplicação dos percentuais de que trata o art. 15 da Lei n° 9.249, de 1995, sobre a receita bruta definida pelo art. 31 da Lei n° 8.981, de 1995, nos termos do art. 25 da Lei 9.430, de 1996. Síntese 53. A tabela à fl. 191, reproduzida abaixo, consolida todos os valores cf. as categorias antes referidas. Fl. 184DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.086 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.720635/2017-48 12 Qualificação da Multa 54. No entender da Fiscalização, a existência de vultosos créditos bancários oriundos, de fato, de receitas operacionais mantidos em contas de adiantamento de clientes, não reconhecidos como receita, nem oferecidos à tributação – além da circunstância de haver receitas escrituradas, não confessadas ou apenas parcialmente declaradas ao Fisco – somados ao fato de a contribuinte haver deixado de confessar tributos quando a receita foi declarada, implicam a qualificação da multa aplicada (150%), “por restar caracterizada a prática de sonegação prevista no art. 71 da Lei 4.502/64”. 55. Acrescenta que foi verificado evidente intuito de fraude, no termos dos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 1964, em razão de a fiscalizada: a) deixar de declarar como receitas operacionais créditos bancários da ordem de R$ 12.241.005,86 entre 2011 e 2013, o que corresponde a um valor 60% maior do que o efetivamente declarado nas DIPJ originais, 3 b) usar de lançamentos contábeis em conta de adiantamento de clientes com contrapartida em “banco”, sem reflexo em conta de resultado para registrar os créditos havidos, c) deixar de declarar ao Fisco receitas reconhecidas contabilmente da ordem de R$ 3.792.960,53 e d) deixar de confessar, na DCTF, total ou parcialmente, os tributos apurados na DIPJ ou na DACON. 56. Referidas condutas – aduz – amoldam-se à hipótese prevista para a sonegação, art. 71 da Lei nº 4.502, de 1964, dado que teria ocorrido o fato gerador, comprovada pela existência de receitas oriundas de prestação de serviços que foram mantidas fora do conhecimento do Fisco. 57. Afirma a Autoridade Fiscal a quo: 236. A intenção de sonegar no presente caso é indiscutível: não há como justificar como não intencional, ou seja, não há como se atribuir a qualquer erro ou equívoco escusável o fato de declarar um valor correspondente a pouco menos de um terço das receitas apuradas, ou pouco menos da metade do valor omitido. Esclarecendo: a Fiscalizada declarou R$ 7.544.494,45 nas DIPJ originais, antes do início do procedimento fiscal, valor este que retificou para R$ 10.044.397,69 após o referido início. Significa dizer que antes mesmo de qualquer conclusão da Fiscalização a Fiscalizada já tinha admitido uma Fl. 185DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.086 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.720635/2017-48 13 omissão de R$ 2.499.903,24! 237. Mas o valor da omissão apurado pela Fiscalização foi muito maior que estes 2,5 milhões rapidamente descobertos pela Fiscalizada, na verdade o valor omitido alcançou R$ 16.033.966,39, superior ao total admitido pela Fiscalizada. 58. Não seria o caso, pois, de se caracterizar os fatos graves relatados como mero equívoco, nem mesmo a retificação de declarações promovida pela Fiscalizada teria esse condão, face a conduta dolosa descrita. Ciência 59. A sociedade empresária foi devidamente cientificada em 16/12/2015, cf. Termo de Ciência às fls. 1.073-1.074. Na mesma data, foi dada ciência ao administrador da entidade, senhor Gilmar Krutzsch, a quem se imputou responsabilidade tributária, cf. documento às fls. 1.075-1.077. 60. A KR, por meio de mesmo diretor Gilmar Krutzsch, cf. documentos societários às fls. 216-221, apresentou impugnação em 15 de janeiro de 2016, às fls. 1.079- 1.140, acompanhada dos documentos juntados às fls. 1.141-1.776. 61. O senhor Gilmar Krutzsch, em nome próprio, apresentou impugnação juntada às fls. 1.778-1.838. Impugnação da pessoa jurídica KR – Questões preliminares 62. A impugnante afirma, em caráter preliminar, que “muitos dos documentos que integram o Auto de Infração” foram obtidos pela fiscalização sem autorização judicial ou da própria contribuinte, o que consistiria, a seu juízo, “ilegalidade e inconstitucionalidade” suficientes para inquinar de nulidade todo procedimento fiscalizatório. 63. Teria havido também coação dos representante da entidade e má-fé dos agentes públicos na reunião ocorrida em 26/06/2014 entre seus d iretores e “03 Auditores Fiscais, mais o chefe da Delegacia de Blumenau”, haja vista que, na ocasião, tentou-se distorcer as informações prestadas sobre as atividades da contribuinte. Por esse motivo, todas as informações então colhidas deveriam ser desconsideradas. 64. Não foram levados em conta, tampouco, documentos juntados ao feito que demonstrariam as relações contratuais da contribuinte com seus clientes. Também foi ignorado o fato de que: toda a movimentação financeira da contribuinte fiscalizada, se deu via conta bancária, ou seja, as entradas e saídas estão devidamente registradas através de TED's bancárias. Isso significa dizer que a comprovação da origem e destino dos recursos não ocorreu de forma duvidosa. 65. Teria havido cerceamento de direito de defesa porque a motivação das operações financeiras discutidas no feito – consignada nos contratos celebrados entre a KR e seus clientes – permaneceu à disposição da Fiscalização e mesmo assim não foi levada em conta na Ação Fiscal, como também não o foram, os valores devolvidos pela Fiscalizada a seus clientes. 66. Acrescenta que a qualificação da multa é “inconstitucional e ilegal”, além de injustificada no caso em tela e, igualmente, o arrolamento de bens promovido pela Fiscalização, porque infringe o direito de propriedade, notadamente do sócio administrador. Fl. 186DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.086 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.720635/2017-48 14 67. Haveria, por fim, ilegitimidade ativa do ente fiscalizador, porque o domicílio fiscal da pessoa jurídica autuada se situa na cidade de Jaraguá do Sul -SC, que faz parte da circunscrição da DRF/Joinville-SC e não há nos autos justificativa para o procedimento fiscalizatório ter sido conduzido por Autoridade Fiscal da DRF/Blumenau-SC. 68. Requer que sejam desconsiderados todos os parágrafos que transmitem opinião pessoal da Autoridade Fiscal e também os que não contenham base fática ou legal, porque demonstram claro afastamento da verdade real. 69. Acrescenta que não teve acesso ao conteúdo das diligências realizadas pela Impugnada junto a seus clientes, sofrendo, também por isso, cerceamento em seu direito de defesa. Pergunta: “como exercer o direito ao contraditório, a ampla defesa, ao devido processo legal, se a Impugnada não juntou a íntegra das diligências e respostas fornecidas pelos diligenciados?” 70. Teria havido, igualmente, infração à Portaria SRF n° 3.007, de 2001 que estabelece as normas de emissão do Mandado de Procedimento Fiscal – MPF, segundo a fiscalizada, verbatim: A expedição de um MPF-D, para a execução de um procedimento fiscalizatório, visando à homologação do lançamento, fere o Princípio da Motivação dos atos administrativos, por desvio de finalidade da autoridade outorgante e por excesso de poder com que agem as autoridades fiscais. É, portanto, um documento irremediavelmente nulo, sendo nulas também suas prorrogações e todos os atos e conseqüências decorrentes, configurando-se, inclusive, imprestáveis, os documentos apurados sob sua égide. 71. Ademais, recorreu a Fiscalização aos arts. 2º e 3º, VII, do Decreto n° 3.724, de 2001, que se referem à “quebra de sigilo bancário” da contribuinte, o que somente poderia ocorrer durante procedimento de fiscalização. Acesso indevido por parte da Autoridade Fiscal a dados do movimentação bancária 72. Seria inadequada – repisa a contribuinte – a presunção estabelecida pelo art. 42 da Lei n° 9.430, de 1996, porque não há uma correlação lógica, direta e segura entre o os depósitos não justificados e o rendimento supostamente omitido, porque a movimentação bancária em si não tipifica renda e, assim, não constitui fato gerador do Imposto de Renda. 73. Traz ao feito respeitável jurisprudência administrativa e judicial. 74. No caso em tela, a contribuinte afirma que comprovou todas as movimentações financeiras de sua conta corrente por meio de contratos que a obrigavam a receber valores por conta e ordem de terceiros com a incumbência de repassá-los a outros contratados, mantendo para si apenas o valor dos serviços prestados. 75. Nesses termos, afirma: não é possível estabelecer uma correlação direta entre o montante dos depósitos e a omissão de rendimentos pois todos os créditos foram justificados bem como todas as transferências à terceiros têm amparo contratual e o encargo probatório transferido para a contribuinte, foi plenamente atendido. 76. E, em seguida, acrescenta: Todavia, ainda que se pudesse afirmar que a presunção legal instituída pelo artigo 42 da Lei n° 9.430/96 resiste a todas as críticas, cabe perguntar se o Fisco terá vantagem em utilizá-la. Como regra, não! Fl. 187DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.086 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.720635/2017-48 15 Com efeito, na execução da auditoria, se o caminho adotado for simplesmente somar os depósitos e exigir do contribuinte a comprovação da origem dos recursos, é possível prever a lavratura de autos de infração com crédito tributário de montante estratosférico, que no final resultará em simples registros estatísticos, muito úteis para chancelar discursos voluntaristas, mas sem nenhuma efetividade. 77. Dado que a movimentação bancária sozinha não comprova a presença de rendimento tributável, outros elementos deveriam ter sido reunidos para caracterizar a omissão de receita. Nos autos atacados, porém, os próprios depósitos bancários foram considerados fato imponível “em clara e inequívoca presunção legal decorrente da inversão do ônus da prova dentro do processo administrativo tributário”. 78. Insiste que, no caso concreto, foi demonstrada a origem dos recursos, por meio de documentos auto-explicativos, por isso, forçosamente, a conclusão deveria ter sido que referidos depósitos bancários não corresponderiam em sua totalidade a fato gerador do tributo. 79. Tendo havido erro no cálculo do tributo, em homenagem ao principio da verdade material, o lançamento deveria ser revisado. Revogação do Artigo 42 da Lei 9.430, de 1996 80. A contribuinte abraça teoria segundo a qual o art. 42 da Lei 9.430, de 1996, fonte da presunção jurís tantum de omissão de receita antes referida, vigorava no ordenamento jurídico ao tempo em que à Administração Tributária era vedada a “quebra do sigilo bancário”, o que a obrigava a recorrer ao Poder Judiciário, nos termos do art. 38, §5º da Lei n° 4.595, de 1964. 81. Eis que o art. 5º, §4º, da Lei Complementar 105, de 10 de janeiro de 2001 2001, facultou a “quebra administrativa do sigilo bancário do contribuinte”, atendidas as condições que especifica, 82. Assim, conclui, o emprego de presunções relativas para a apuração da base de cálculo dos tributos só seria concebível em matéria fiscal, se a Autoridade Administrativa não dispusesse de outros meios para apurar e quantificar a verdadeira base de cálculo do tributo. Dado que a Lei Complementar nº 105, de 2001, estabeleceu meios para a apuração direta da movimentação financeiras, por parte da Fiscalização, o artigo 42 da Lei nº 9.430, de 1996 está tacitamente revogado. Estorno dos valores apontados como receita bruta – Exclusão total da base tributável 83. A impugnante informa que parte dos valores depositados em sua conta corrente bancária foram devolvidos a seus clientes em razão de desfazimento de negócios, ou de comum acordo entre as partes. Operações desse tipo não foram levados em conta pela Fiscalização. 84. Os valores em tela encontram-se discriminados à fl. 1.103 e totalizam R$ 180.164,42, de Malharia Diana Ltda, e R$ 640.000,00 de Texarte Têxtil. A alegação é comprovada com documentos respectivamente às fls. 1.399 e 1411-1431. Prova material da base tributável Fl. 188DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.086 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.720635/2017-48 16 85. A contribuinte questiona os montantes discriminados por meio de TED como segue: 1) Kohler Tinturaria Ltda.: depositou o valor de R$ 4.155.177,72, conforme consignado na pagina 35 item 116, sendo que está devidamente comprovado através do contrato, anexo ao contrato e autorização de depósito, sendo que desse montante depositado, 37% (trinta e sete por cento) coube a Impugnante, qual seja R$ 1.537.415,76 (um milhão, quinhentos e trinta e sete mil, quatrocentos e quinze reais e setenta e seis centavos). Os documentos acostados aos autos, assim como a afirmação constante às fis. 37/38/39/40/41/42/43/44/45 assim o demonstram. 2) A.S. Têxtil Ltda.: esta empresa depositou o montante de R$ 500.000,00 na conta da Impugnante. Conforme os documentos ora acostados, resta demonstrada de forma inconteste que a origem dos depósitos está consubstanciada no contrato firmado com o advogado dr. José Roberto Cortez de São Paulo (SP), para realização de trabalho jurídico em face do passivo tributário existente, que já encontrava-se em sede de execução fiscal. Note-se que a empresa sequer cumpriu com a totalidade do contrato. Portanto, os pagamentos realizados a Impugnante, TEM SUA ORIGEM NO CONTRATO COM O Dr. JOSE ROBERTO CORTEZ. NADA TEM HAVER COM COMPENSAÇÃO DE VALORES!! A propósito desta prova inequívoca (contrato com José Roberto Cortez) porque documental e contemporânea aos fatos, resta demonstrado que o depoimento do representante legal da empresa A.S Têxtil Ltda., carece de seriedade, e não se presta aos fins que pretende a Impugnada. 3) ANSER REPRESENTAÇÕES: Os créditos recebidos de Anser, conforme descriminado às fls. 57 item 158/159, referem-se a recebimento de comissão pela intermediação de negócios, conforme demonstram os contratos firmados entre as partes, fato este inclusive reconhecido exaustivamente pelo auditor fiscal em seu fatídico relatório; 4)ANSER: o sr. Auditor sequer mencionou os repasses que a Impugnante fez a esta empresa. O valor remetido com fulcro nos contratos firmados perfaz o montante de R$ 6.735.319,26 durante os anos de 2011/2012 e 2013. Ora, esse valor tem origem nos contratos firmados entre as partes e os clientes, intermediados, e por conclusão obvia não pode ser considerada receita tributável da Impugnante 5)TEX COTTON IND. DE CONFECÇÕES LTDA.: a empresa depositou na conta da Impugnante o valor de R$ 308.320,22. Este valor refere-se a pagamento de comissão por intermediação de negócios. A comissão paga refere-se a contrato firmado da Texcotton com a Anser, e valor depositado para a Impugnante, foi a comissão a que tinha direito. Os documentos juntados pela Impugnante, bem como a própria empresa Tex Cotton demonstram a veracidade das alegações - vide também a pagina 59/61; 6) MTR TRANSPORTES LTDA., e MTR LOGÍSTICA LTDA.: estes clientes de fato depositaram o valor de R$ 13.193.125,80 na conta corrente da Impugnante, abrangendo os anos de 2011/2012/2013. Tudo foi movimentado via transferência bancária (TED). As paginas 13/14/15/16/17/18 demonstram claramente os repasses. Este repasses referem-se a compra de precatórios estaduais (SP e RJ), conforme demonstram as escrituras públicas e contratos anexos. A saber: Fl. 189DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.086 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.720635/2017-48 17 6.1- aquisição de precatórios estaduais de São Paulo no importe de R$ 3.652.046,69. O percentual pago no precatório (as vezes com variação foi em média de 27%, sendo que foi transacionado com a empresa o percentual de 55%. Portanto, lucro da Impugnante foi de 28%). 6.2-aquisição de direito creditório federal consubstanciado nos autos n. 0056491- 31.1995.4.02.5102, da 2. Vara Federal de Niteroi/RJ, no importe de R$ 5.300.000,00. O percentual pago por este crédito foi de 70%, sendo que foi repassado o percentual de 45% ao cedente, e a Impugnante obteve um ganho de 25%. 6.3- contrato celebrado em nome da empresa (MTR Transportes) com o dr. José Roberto Cortez (SP), restou demonstrado e reconhecido pela Impugnada às páginas 27/28 item 90/91 do presente relatório,que houveram repasses no valor de R$ 2.376.865,70 no período fiscalizado. Este nem . sequer foi deduzido do montante depositado pela empresa, tendo sido incluído na base de cálculo utilizada pelo sr. Agente fiscalizador. Só podem existir duas hipóteses para a conclusão do D. Auditor Fiscal: desconhecimento técnico ou MÁ-FÉ! 6.4- contratos de compra de debêntures da Investidora, para as empresas em referência. Esse montante foi de R$ 1.169.636,46, sendo o percentual pago o montante de 55%. O percentual que remunerou a Impugnante foi de 15%, conforme demonstra os contratos anexos. 6.5- contratos de compra de venda de precatórios, celebrado com a Curi Créditos Tributários (SP), no valor de R$ 468.612,28. Este valor também transitou na conta corrente da Impugnante. 86. Desse modo – conclui – todos os valores recebidos antes referidos devem ser subtraídos dos valores remetidos aos terceiros antes de se considerar a base tributável. Inconstitucionalidade e ilegalidade da transferência do sigilo bancário para o fisco 87. Até o advento da Lei complementar nº 105, de 2001, prevalecia no ordenamento jurídico brasileiro a exigência de expressa ordem judicial, para que houvesse a transferência de dados financeiros ao Fisco, posto que somente o Poder Judiciário está autorizado a sopesar, em casos assim, o interesse público. No entender da contribuinte, a transferência do sigilo de dados bancários para o Fisco fere o direito à dignidade, à liberdade, à intimidade e à privacidade de pessoa naturais e jurídicas. 88. Acrescenta que: A prática da quebra, com base na Lei 105/2001, constitui-se numa aberração jurídica como também limitando a atividade da administração tributária ao subordiná-la aos direitos individuais previstos na Carta Magna. Conclui-se que se inviabiliza então a idéia segundo a qual ao se confrontar os direitos constitucionalmente amparados, sigilo bancário e fiscalização tributária, o segundo se sobreponha, em razão da relevância dos bens jurídicos envolvidos 89. Desse modo, todas as transferências de sigilo seriam inconstitucionais, malgrado ausência da posição definitiva do STF sobre a matéria e,portanto, devem ser anulados os atos que nelas se apóiem. Validade das declarações retificadoras apresentadas 90. As declarações retificadoras apresentadas – alega a impugnante – não trouxeram prejuízo ao fisco e, cf. respeitável jurisprudência, revelam-se Fl. 190DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.086 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.720635/2017-48 18 perfeitamente legais, não cabendo a alegação de extemporaneidade ou de falta de espontaneidade. 91. A Autoridade Fiscal não considerou as retificadoras, no que diz respeito às multas aplicadas, em desacordo com o preconizado na lei do REFIS – Lei nº 12.996, de 18 de junho de 2014, ao qual aderiu a impugnante. Registra que os sistemas da RFB aceitaram que referidas retificadores fossem transmitidas. Reaquisição da espontaneidade 92. Alternativamente, alega que readquiriu a espontaneidade, porque tomou ciência de uma das diligências em 05/06/2014, enquanto o início do procedimento, cf. Termo de Início da Fiscalização, ocorreu em 26/06/2014, representando uma continuidade da diligência efetuada. 93. A matéria espontaneidade, continua, é disciplinada pelo art. 7º do Decreto n° 70.235, de 1972, e segundo jurisprudência administrativa, a contribuinte pode recuperá-la, quando o Fisco não dá seguimento à fiscalização iniciada há mais de 60 dias. 94. A contribuinte, em seguida, aduz: declara sua vontade de que todo e qualquer débito remanescente do Auto de Infração em tela, uma vez esgotados os recursos, em qualquer esfera e todos os meios da mais ampla defesa, seja dada a possibilidade de incluí-los no parcelamento da Lei 12.996/2014”. (...) Portanto, requer que se considere readquirida a espontaneidade em 12/10/2014 e que qualquer levantamento tenha início na nova situação fática produzida pelas declarações retificadoras e pela adesão ao parcelamento da Lei 12.996/2014. Serão assim, nulos, inválidos e carentes de qualquer substância os Autos de Infração aqui combatidos por não considerarem a situação descrita acima. Multa qualificada 95. Contesta a qualificação da multa aplicada arrolando os seguintes argumentos: (...) optou pela tributação pelo lucro presumido não havendo como se falar em qualquer despesa montada, maquiada ou não incorrida, pela própria definição do regime de tributação; (...) a maior parte da presente autuação tem como base valores contabilizados e não declarados, bem como, valores contabilizados, declarados mas não confessados como débito. Como pode haver justificativa para lançamento de multa qualificada em valores contabilizados. E mais, é completamente absurdo o lançamento de multa qualificada com valores declarados. Como poderá se justificar o evidente intuito de fraude ou dolo em valores de faturamento informados ao fisco federal. O auditor fiscal nem se deu ao trabalho de segregar ou tentar qualificar de forma diferente. De forma açodada, equivocada e descuidada coloca quase todo o valor autuado sob a mesma multa qualificada. 96. Salienta que não houve representação fiscal para fins penais, o que demonstraria, a seu juízo, a falta de base para a tipificação agravada. 97. Ademais, a qualificação da multa “beira as raias do confisco”, em desacordo com o determinado pelo artigo 150, inciso IV da Constituição Federal, cf. respeitável jurisprudência trazida ao feito. Ilegalidade do arrolamento de bens pessoais do sócio administrador Fl. 191DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.086 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.720635/2017-48 19 98. A responsabilidade pessoal prevista no art. 135 do CTN apresenta nítido caráter subsidiário e excepcional, exigindo provas consistentes de atuação, por parte do administrador, com excesso de poderes ou infração à lei ou contrato. 99. No caso em tela – acrescenta – não foram esgotadas a localização de bens do interessado, nem o crédito se encontra com a exigibilidade suspensa. 100. O arrolamento dos bens se fundamenta no art.64 da Lei n.° 9.532, de 1997, entretanto a Autoridade Fiscal não tinha razão para arrolar os bens particulares do sócio administrador porque a KR ofereceu bens e ativos financeiros suficientes para garantir o montante da autuação. 101. Além do mais, o arrolamento de bens constitui nulidade insanável porque não há “permissivo legal expresso para arrolamento de bens m nome dos sócios por dívidas da sociedade”, cf. respeitável jurisprudência. Petitório 102. Requer, por fim, que a impugnação seja julgada procedente e preliminarmente, cancelado o lançamento fiscal em razão das ilicitudes referidas na peça impugnatória, ou, no mérito, que seja afastada a imputação face a ausência de seus pressupostos, ou, sucessivamente, que somente se atenha aos valores descontados e que seja afastada a qualificação da multa em razão de ausência de dolo. Impugnação do senhor Gilmar Krutzsch 103. O senhor Gilmar Krutzsch apresentou em 15/01/2016 impugnação em nome próprio, na qual, em essência, repete os argumentos apresentados na peça impugnatória da pessoa jurídica, os quais não serão repetidos neste relatório por uma questão de economia processual, sendo julgados em conjunto adiante neste voto. Resolução, Diligência, Autos de Infrçaão Complementares e Impugnação 104. Em 23/01/2017, por meio da Resolução nº 06-000.039, esta 1ª Turma de Julgamento da DRJ/Curitiba-PR fez os autos retornarem à Unidade de origem em virtude de haver sido detectado equívoco no cálculo do montante do crédito tributário constituído, cf. referido anteriormente neste relatório. 105. Depois de reapreciar os fatos, a Autoridade Fiscal a quo lavrou Autos de Infração Complementares que constam do Processo Administrativo Fiscal nº 13971.720635/2017-48 apensado a este feito, cujos valores se encontram resumidos na tabela abaixo. 106. Informa a Autoridade Fiscal a quo, no Relatório Fiscal às fls. 40-45, do Processo Administrativo Fiscal em apenso: Fl. 192DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.086 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.720635/2017-48 20 14. Esclareça-se que na lavratura deste Auto de Infração foram considerados os eventuais parâmetros de adicional de Imposto de Renda, tendo sido indicados no campo "informações complementares" os valores do lucro presumido informados nas DIPJ 2012 e 2013, suficientes, já estes, para posicionar o valor lançado integralmente na faixa do adicional. 107. Foi igualmente imputada responsabilidade solidária ao senhor Gilmar Krutzsch. Nova ciência 108. A sociedade empresária e o responsável solidário tomaram ciência do novo lançamento em 24/03/2017 e 05/04/2017, respectivamente, cf. cópias de Avisos de Recebimento – AR às fls. 48 e 51 do PAF apensado. 109. Em 05/05/2017, a KR apresentou impugnação aos Autos de Infração Complementares, juntada às fls. 54-60 do PAF nº 13971.720635/2017-48. 110. Em breve resumo, afirma que não sente necessidade de repetir o conteúdo da impugnação trazida ao processo 10920.724260/2015-31, porque os mesmos motivos e argumentações antes apresentados permaneceriam aplicáveis; entretanto, afirma que os créditos tributários constituídos em acréscimo não foram objeto de lançamento por conta de erro na transcrição de uma tabela para outra – sem, contudo, esclarecer a razão dessa afirmação. 111. Sustenta que teria havido decadência na constituição dos créditos tributários objeto dos autos de infração complementares, porque os recebimentos que motivaram os lançamentos: o da MTR Transportes Ltda. no valor de R$ 130.000,00 e o da Texarte Textil ltda, no valor de R$ 41.500,00, são respectivamente de 10/11/2011 e de fevereiro de 2012. 112. Dado que a ciência dos lançamentos ocorreu em 24/03/2017 e que não é cabível a qualificação da multa no caso concreto, entende que ambos os crédi tos tributários estariam fulminados pela decadência. 113. Requer o acolhimento da impugnação em conjunto com os argumentos apresentados no Processo principal ou pelos argumentos próprios que são agora apresentados. 114. O senhor Gilmar Krutzsch não formalizou impugnação contra os autos- complementares. 115. É o que importa relatar. 7. A impugnante ora acrescenta o argumento da decadência contra os Autos de Infração complementares, porque, a seu juízo, os recebimentos que deram origem à exação, datados de R$ 10/11/2011, no valor de R$ 130.000,00, e 28/02/2012, no valor de R$ 41.500,00, ocorreram depois de decorridos mais de cinco do momento em que tomou ciência dos novos autos de infração: 24/03/2017, cf. Aviso de Recebimento – AR à fl. 48. 8. Como não há que se falar, alega, em dolo no caso concreto que ensejasse a qualificação da multa aplicada, não haveria porque aplicar o prazo do art. 173, I, do CTN, mas o art. 150 do mesmo diploma legal e, assim, estaria decaído o direito do Fisco. 9. É o que importa relatar. Fl. 193DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.086 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.720635/2017-48 21 Nada obstante, o acórdão recorrido julgou improcedente a pretensão impugnatória, conforme ementa abaixo: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA - IRPJ Ano-calendário: 2011, 2012, 2013 DECISÕES ADMINISTRATIVAS. EFEITOS. São improfícuos os julgados administrativos trazidos pelo sujeito passivo, pois tais decisões não constituem normas complementares do Direito Tributário, já que foram proferidas por órgãos colegiados sem, entretanto, uma lei que lhes atribuísse eficácia normativa, na forma do art. 100, II, do Código Tributário Nacional. COAÇÃO DE REPRESENTANTES. CERCEAMENTO DE DIREITO DE DEFESA. A oitiva de dirigentes da pessoa jurídica na sede da DRF, com a redução a termo dos depoimentos na presença de três Autoridades Fiscais não pode ser considerada medida coativa e não configura cerceamento de direito de defesa. ARGUIÇÕES DE ILEGALIDADE E INCONSTITUCIONALIDADE. Não compete à autoridade administrativa a apreciação de constitucionalidade e legalidade das normas tributárias, cabendo-lhe observar a legislação em vigor. CONSTITUCIONALIDADE DA LEI COMPLEMENTAR Nº 105, DE 2001. O Supremo Tribunal Federal acolheu a tese da constitucionalidade da transferência de dados bancários das instituições financeiras para a Administração Tributária - RE 601.314-SP, Relator: Min. Edson Fachin. DIPJ RETIFICADORA APRESENTADA APÓS O LANÇAMENTO. INEFICÁCIA. A declaração entregue após o início do procedimento fiscal não produz quaisquer efeitos sobre o lançamento de ofício. MOVIMENTAÇÃO BANCÁRIA. FALTA DE COMPROVAÇÃO DA ORIGEM DOS RECURSOS. PRESUNÇÃO LEGAL DE OMISSÃO DE RECEITAS. Correto o lançamento fundado na ausência de comprovação da origem dos depósitos bancários, por constituir-se de presunção legal de omissão de receitas, expressamente autorizada pelo art. 42 da Lei n° 9.430/1996, devendo a base de cálculo ser reduzida em relação aos ingressos justificados na impugnação. ARROLAMENTO DE BENS. O procedimento de arrolamento efetivado pela autoridade lançadora não se insere no âmbito de competência das Delegacias de Julgamento. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Observe-se que, no julgamento do processo apenso, a autoridade julgadora repetiu a decisão prolatada sobre o processo principal, mas acrescentando o seguinte: 13. No que diz respeito ao novo argumento oposto pela impugnante, a saber, a incidência do instituto da decadência sobre os Autos de Infração Complementares em razão de haver expirado o prazo quinquenal estabelecido pelo art. 150 do CTN, ele não merece prosperar, porque o fato gerador mais antigo, como Fl. 194DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.086 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.720635/2017-48 22 reconhece a impugnante, ocorreu em 30/11/2011 e, tendo em visto o que ficou amplamente demonstrado na fundamentação do voto no processo principal: a existência de dolo no caso concreto, o dispositivo a ser aplicado à hipótese em tela é o art. 173, I, do mesmo código. 14. Nessas circunstâncias, como o tributo poderia ser lançado a partir de 2012, o primeiro dia da contagem do prazo quinquenal é o primeiro dia do ano seguinte: 01/01/2013; assim, como a ciência dos Autos de Infração Complementares ocorreram em 24/03/2017 e 05/04/2017, fls. 48 e 51 respectivamente, os lançamentos são tempestivos. Conclusão 15. De todo exposto, voto pela manutenção integral dos Autos de Infração Complementares e também pela imputação de responsabilidade solidária ao senhor Gilmar Krutzsch. Após, devidamente cientificado em 18.07.2017 (AR às efls.106): O contribuinte interpôs o recurso voluntário em 17.08.2017 (efls. 107), às efls. 109/172 e renovando os argumentos já expostos em sede impugnatória, com as seguintes alegações (cuja petição era idêntica ao peticionado no processo principal), a seguir sumarizadas: III – DA PRELIMINAR DE NULIDADE DOS AUTOS DE INFRAÇÃO Provas Ilegais e Cerceamento de Direito de Defesa; Nulidade Do Lançamento Por Desrespeito Às Regras De Emissão Dos Mandados De Procedimento Fiscal; IV – MOVIMENTAÇÃO BANCÁRIA – INEXISTÊNCIA DE CORRELAÇÃO DIRETA COM RECEITA (RENDA) TRIBUTÁVEL - Da Verdade Material x Verdade Formal - E do Real Rendimento do Contribuinte Impugnante; A Revogação Do Artigo 42 Da Lei 9.430/96 Em Face da Antinomia Com o Parágrafo 4. Do Art. 5. Da Lei Complementar 105/2001. V – DA RESTITUIÇÃO (ESTORNO) DOS VA-LORES APONTADOS COMO RECEITA BRUTA – EXCLUSÃO TOTAL DA BASE TRIBUTÁVEL Da Alegação de Omissão de Receitas da Atividade. VI – DA VERDADE MATERIAL – PROVA IRREFUTÁVEL DA BASE TRIBUTÁVEL – VALORES REMETIDOS AOS CONTRATANTES. VII – QUEBRA DE SIGILO BANCÁRIO – INCONSTITUCIONALIDADE/ILEGALIDA DE. VIII – DA VALIDADE DA RETIFICAÇÃO DA DIPJ/DACON/DCTF – ADESÃO AO REFIS. IX – DA REAQUISIÇÃO DA ESPONTANEIDADE, DA VALIDADE DAS DIPJ, DCTF E DACON RETIFICADORAS E DA POSSIBILIDADE DE INCLUSÃO DOS EVENTUAIS DÉBITOS NO PARCELAMENTO DA LEI 12.996/2014. X – DA MULTA QUALIFICADA. Inconstitucionalidade e Ilegalidade. 45. Ausência de fato gerador. XI – DA ILEGALIDADE DO ARROLAMENTO DE BENS PESSOAIS DO SóCIO ADMINISTRADOR. Fl. 195DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.086 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.720635/2017-48 23 Para, ao final, requerer: XII - DO PEDIDO Face ao exposto, requer-se: 1) A reforma do acórdão impugnado, com o julgamento de total improcedência da autuação fiscal consubstanciada no Processo Administrativo nº 10920-724.260/2015-31 e 13971.720635/2017-48 (acórdãos 06.59.646/06.59.647), pelos argumentos anteriormente delineados, notadamente pela arbitrariedade, ilegalidade e inconstitucionalidade do uso indevido das informações bancárias do contribuinte, cerceamento de defesa (falta de juntada de todos os documentos inerentes a fiscalização reali zada), pela indevida base de cálculo utilizada (movimentação bancária), pelo não abatimento de valores com origem declarada e reconhecida pela Recorrente, fulcrada em contratos/anexos/autorização/escrituras públicas anexadas aos autos); 2) Que seja anulado o arrolamento de bens do sócio administrador, dada sua completa ilegalidade; 3) Alternativamente, caso o acórdão não seja julgado totalmente improcedente, requer-se: 3.1) Que seja reconhecida e considerada legítima e válida, as retificações de DIPJ/DACON/DCTF relativas aos exercícios envolvidos no processo em epígrafe, assim como a adesão aos termos da Lei 12.996/2014; 3.2) Que sejam considerados os valores repassados (ted’s enviadas), eis que comprovada a origem dos depósitos e remessas, de forma a se deduzir/abater da base de cálculo dos tributos (IR/CSLL/Pis/Cofins), ora discutidos, por se tratar de trânsito de valores de terceiros, verdadeiros titulares dos contratos e direitos creditórios intermediados pela Recorrente; 3.3) Seja anulada a multa qualifi cada de 150%, eis que totalmente incabível no presente caso; 3.4) A produção de provas em direito admitidas, notadamente a testemunhal, pericial, provas complementares a serem juntadas no curso do processo administrativo em consonância com a verdade real, e outras que se fizerem necessárias. Após, os autos foram encaminhados ao CARF, para apreciação e julgamento. É o Relatório. VOTO Conselheiro Jeferson Teodorovicz, Relator O recurso voluntário é tempestivo e dele conheço. Conforme relatado, trata-se de processo apenso ao PAF nº 10920.724260/2015-31 para cuidar de autos de infração complementares aos constituídos naquele feito e exigir de KR INVESTIMENTOS LTDA. – EPP, pessoa jurídica que apurou Imposto de Renda na modalidade do lucro presumido nos anos-calendário de 2011, 2012 e 2013, crédito tributário decorrente de suposta omissão de receitas, nos termos do Relatório Fiscal às fls. 40-45. Por se tratarem dos mesmos fatos e fundamentos, peço vênia para transcrever as razões apostas no Processo Principal e totalmente aplicáveis ao presente processo: A recorrente alega preliminarmente a nulidade do lançamento, pois estaria baseado em provas ilegais, a saber a quebra de sigilo da Recorrente. Fl. 196DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.086 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.720635/2017-48 24 Contudo, o questionamento apresentado pelo contribuinte sobre a obtenção de informações de entidades financeiras por parte da autoridade fiscal, também não merece prosperar, pois tal permissivo legal se encontra perfeitamente válido, conforme o art. 6ª da Lei Complementar n. 105/2001. Com efeito, conforme já vem se manifestando este Tribunal Administrativo, é perfeitamente “(...) lícito ao fisco, sobretudo após a edição da Lei Complementar n°. 105, de 2001, examinar informações relativas ao contribuinte, constantes de documentos, livros e registros de instituições financeiras e de entidades a elas equiparadas, inclusive os referentes a contas de depósitos e de aplicações financeiras, quando houver procedimento de fiscalização em curso e tais ex ames forem considerados indispensáveis, independentemente de autorização judicial” (Acórdão n. 104-23.518). Acrescente-se que a quebra de sigilo fiscal encontra amparo em norma válida vigente e eficaz, não podendo ser afastada por suposta inconstitucionali dade, conforme dispõe a Súmula CARF n. 2; Ademais, a matéria já foi objeto de análise pelo Supremo Tribunal Federal que se manifestou pela validade da norma, com repercussão geral reconhecida: RECURSO EXTRAORDINÁRIO. REPERCUSSÃO GERAL. DIREITO TRIBUTÁRIO. DIREITO AO SIGILO BANCÁRIO. DEVER DE PAGAR IMPOSTOS. REQUISIÇÃO DE INFORMAÇÃO DA RECEITA FEDERAL ÀS INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS. ART. 6º DA LEI COMPLEMENTAR 105/01. MECANISMOS FISCALIZATÓRIOS. APURAÇÃO DE CRÉDITOS RELATIVOS A TRIBUTOS DISTINTOS DA CPMF. PRINCÍPIO DA IRRETROATIVIDADE DA NORMA TRIBUTÁRIA. LEI 10.174/01. 1. O litígio constitucional posto se traduz em um confronto entre o direito ao sigilo bancário e o dever de pagar tributos, ambos referidos a um mesmo cidadão e de caráter constituinte no que se refere à comunidade política, à luz da finalidade precípua da tributação de realizar a igualdade em seu duplo compromisso, a autonomia individual e o autogoverno coletivo. 2. Do ponto de vista da autonomia individual, o sigilo bancário é uma das expressões do direito de personalidade que se traduz em ter suas atividades e informações bancárias livres de ingerências ou ofensas, qualificadas como arbitrárias ou ilegais, de quem quer que seja, inclusive do Estado ou da própria instituição financeira. 3. Entende-se que a igualdade é satisfeita no plano do autogoverno coletivo por meio do pagamento de tributos, na medida da capacidade contributiva do contribuinte, por sua vez vinculado a um Estado soberano comprometido com a satisfação das necessidades coletivas de seu Povo. 4. Verifica-se que o Poder Legislativo não desbordou dos parâmetros constitucionais, ao exercer sua relativa liberdade de conformação da ordem jurídica, na medida em que estabeleceu requisitos objetivos para a requisição de informação pela Administração Tributária às instituições financeiras, assim como manteve o sigilo dos dados a respeito das transações financeiras do contribuinte, observando-se um translado do dever de sigilo da esfera bancária para a fiscal. 5. A alteração na ordem jurídica promovida pela Lei 10.174/01 não atrai a aplicação do princípio da irretroatividade das leis tributárias, uma vez que aquela Fl. 197DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.086 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.720635/2017-48 25 se encerra na atribuição de competência administrativa à Secretaria da Receita Federal, o que evidencia o caráter instrumental da norma em questão. Aplica-se, portanto, o artigo 144, §1º, do Código Tributário Nacional. 6. Fixação de tese em relação ao item “a” do Tema 225 da sistemática da repercussão geral: “O art. 6º da Lei Complementar 105/01 não ofende o direito ao sigilo bancário, pois realiza a igualdade em relação aos cidadãos, por meio do princípio da capacidade contributiva, bem como estabelece requisitos objetivos e o translado do dever de sigilo da esfera bancária para a fiscal”. 7. Fixação de tese em relação ao item “b” do Tema 225 da sistemática da repercussão geral: “A Lei 10.174/01 não atrai a aplicação do princípio da irretroatividade das leis tributárias, tendo em vista o caráter instrumental da norma, nos termos do artigo 144, §1º, do CTN”. 8. Recurso extraordinário a que se nega provimento. (RE 601314, Relator(a): EDSON FACHIN, Tribunal Pleno, julgado em 24-02-2016, ACÓRDÃO ELETRÔNICO REPERCUSSÃO GERAL - MÉRITO DJe-198 DIVULG 15-09- 2016 PUBLIC 16-09-2016) Portanto, não há que se falar em violação de sigilo, de sorte que afasto a referida alegação. Na mesma linha, afasto a alegação de cerceamento de direito de defesa, haja vista que o recorrente, em minha leitura, não foi prejudicado em seu direito de defender-se sob esse prisma: Noutro norte, é importante destacar que a Recorrente não teve acesso, ao conteúdo das diligências realizadas pela Recorrida junto a seus clientes, cerceando assim o direito de defesa da contribuinte em questão. Este fato está confessado pela Impugnada no relatório fiscal dos autos de infração (páginas: 13; 35; 47; 50 do relatório fiscal do auto de infração originário). Deve-se lembrar que a etapa inquisitiva prescinde da participação do contribuinte, que precisa da correta instauração do processo tributário para considerar-se prejudicado em sua defesa, o que, na fase inquisitiva, ainda não se manifesta. Por outro lado, adianto que outros argumentos levam este julgador a entender pelo risco manifesto ao cerceamento ao direito de defesa, mas por outros fundamentos, que adiante será explicado. Antes disso, a Recorrente alega ainda a nulidade do lançamento por desrespeito às regras de emissão dos mandados de procedimento fiscal. Contudo, também sem razão a Recorrente, pois se aplica ao caso a inteligência da Súmula CARF n. 171: Súmula CARF nº 171 Aprovada pelo Pleno em sessão de 06/08/2021 – vigência em 16/08/2021 Irregularidade na emissão, alteração ou prorrogação do MPF não acarreta a nulidade do lançamento. (Vinculante, conforme Portaria ME nº 12.975, de 10/11/2021, DOU de 11/11/2021). Acórdãos Precedentes: 9101-004.676, 9202-008.028, 9303-009.609, 1201 003.397,1301-004.043, 1302-004.407, 1401-003.974, 1402-003.702, 2201 Fl. 198DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.086 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.720635/2017-48 26 006.455, 2202-005.050, 2401-007.673, 2402-008.269, 3201-006.663, 3301 005.617, 3302-006.583, 3401-006.575 e 3402-007.198. Assim, entendo que também deve ser afastada referida alegação. Alega-se ainda a inexistência de correlação lógica entre a movimentação bancária e o conceito de renda tributável. A matéria controvertida no mérito diz respeito à omissão de receita por presunção legal, decorrente da comprovação de depósitos bancários não declarados pela contribuinte, mercê da aplicação do art. 42 da Lei 9430/96, segundo o qual: Art. 42. Caracterizam-se também omissão de receita ou de rendimento os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. Vê-se que o dispositivo legal estipula presunção legal juris tantum de omissão de receita, sempre que o sujeito passivo mantiver recursos creditados em instituição financeira sem origem justificável ou comprovada. Naturalmente, a contribuinte pode afastar tal presunção mediante apresentação de escrituração que demonstre a origem das operações e o eventual pagamento dos tributos. Contudo, a presunção deve ser mantida nas hipóteses em que o sujeito passivo não apresente qualquer elemento capaz de demonstrar a origem dos recursos, inclusive, quando houver interposição de pessoa que detenha ou maneje recurso de terceiro tendente a reduzir ou evitar artificialmente a tributação devida. Nesse aspecto, não há qualquer violação da aplicação do referido artigo que importa mera presunção, imputando ao contribuinte o ônus de comprovar suas alegações, bem como a origem dos depósitos bancários. Tampouco há que se falar em revogação do art. 42 da Lei n. 9.430/1996 pelo art. 105 da Lei Complementar n. 105/2001, haja vista que este dispositivo não trata dos efeitos fiscais de eventual verificação de depósitos com origem não comprovada, não havendo coincidência de conteúdo que pudesse ensejar uma revogação tácita. Assim, novamente, afasto a referida alegação. Por outro lado, vê-se que a recorrente sustenta também que que vários dos valores depositados em sua conta bancária foram ressarcidos aos clientes, por desfazimento dos negócios, ou por acordo entre as partes: Dos valores devolvidos/estornados: 1) Malharia Diana Ltda.: depositou em 2011 o valor de R$ 180.164,42, sendo que referido valor foi devolvido em sua integralidade para a depositante em agosto de 2012 (prova nos autos); 2) Texarte Têxtil Ltda.: depositou o valor de R$ 627.731,30, conforme explicitado na pagina 50 item 147 do relatório fiscal do auto de infração originário. Os documentos anexos, fazem prova robusta e incontestável que durante os exercícios de 2014 e 2015 a Recorrente devolveu (estornou) à sua cliente o valor Fl. 199DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.086 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.720635/2017-48 27 de R$ 640.000,00. Portanto, não há que se falar em tributação de valores estornados. Nota-se que o acórdão pontuou os argumentos da impugnação segregando por depositante. No entanto, no voto condutor da decisão de piso, não há qualquer referência à Malharia Diana Ltda. Ainda, no que diz respeito à Taxarte, o acórdão consigna: Receitas oriundas de Texarte Têxtil e AS Têxtil 179. A situação da Texarte Têxtil e da AS Têxtil é idêntica a da tinturaria Kohler, vale dizer foram detectados créditos bancários oriundos dessas pessoas jurídicas em contas “Adiantamento de Clientes” não oferecidas a tributação; tais valores, por esse motivo, foram “levados ao Auto de Infração para a constituição dos tributos devidos”. 180. Do mesmo modo, a contribuinte limita-se a alegar que tais recursos possuem origem definida, sem, contudo, demonstrar quais parcelas afetariam o resultado da entidade nem como se produziria tal efeito. 181. Mais uma vez andou bem a Autoridade Fiscal, em face dos ele mentos disponíveis, ao constituir o crédito tributário. Por outro lado, conforme já exposto, quanto à Malharia Dianta, conforme relatório da decisão de piso: Estorno dos valores apontados como receita bruta – Exclusão total da base tributável 83. A impugnante informa que parte dos valores depositados em sua conta corrente bancária foram devolvidos a seus clientes em razão de desfazimento de negócios, ou de comum acordo entre as partes. Operações desse tipo não foram levados em conta pela Fiscalização. 84. Os valores em tela encontram-se discriminados à fl. 1.103 e totalizam R$ 180.164,42, de Malharia Diana Ltda, e R$ 640.000,00 de Texarte Têxtil. A alegação é comprovada com documentos respectivamente às fls. 1.399 e 1411- 1431. Nada obstante expressamente mencionado no Relatório da decisão recorrida, analisando o voto condutor do acórdão recorrido, no que tange à Malharia Diana Ltda (ou “Diana Ltda”) verifica-se que, apesar de ter sido elencada no relatório (fls. 1865), essa matéria não foi objeto de análise pela DRJ, e nem eventuais documentos disponibilizados pelo recorrente sobre, de sorte que o melhor caminho importa na devolução dos autos para complementação da decisão, sob risco de supressão de instância, e nulidade da decisão por cerceamento ao direito de defesa. Logo, identifico aqui nulidade insanável da decisão por supressão de instância, haja vista a lacuna identificada, o que importa na necessidade de devolução dos autos à autoridade julgadora de piso para preenchimento da omissão apontada. Por fim, deixo de me manifestar sobre as demais matérias questionadas, pela perda de objeto. Fl. 200DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.086 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.720635/2017-48 28 Conclusão Ante o exposto, conheço do recurso para declarar a nulidade da decisão recorrida, para que o processo retorne à autoridade julgadora de piso, para que se anal ise todos os documentos apresentados pelo recorrente. Ante o exposto, conheço do recurso para dar-lhe provimento para anular a decisão de primeira instância para que outra seja proferida com análise de todos os pontos controvertidos na impugnação. É como voto. Assinado Digitalmente Jeferson Teodorovicz Fl. 201DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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Numero do processo: 10380.723733/2011-11
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Mar 19 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Tue Apr 07 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2008 ADMISSIBILIDADE. TEMPESTIVIDADE DO RECURSO VOLUNTÁRIO. INTIMAÇÃO ELETRÔNICA. DOMICÍLIO TRIBUTÁRIO ELETRÔNICO. Reconhece-se a tempestividade do Recurso Voluntário quando demonstrada a inexistência de adesão ao Domicílio Tributário Eletrônico, o que invalida a intimação eletrônica realizada sem observância das regras legais. Comprovada a ciência válida da decisão recorrida em data posterior, considera-se observado o prazo recursal previsto no Decreto nº 70.235/1972. DELIMITAÇÃO DA MATÉRIA EM LITÍGIO. DESISTÊNCIA PARCIAL. PROGRAMAS DE REGULARIZAÇÃO TRIBUTÁRIA. A apresentação de pedido expresso de desistência parcial do Recurso Voluntário, para fins de adesão ou migração a programas de regularização tributária, configura renúncia ao direito sobre os débitos abrangidos, nos termos do art. 78, § 3º, do Anexo II do RICARF, subsistindo a discussão administrativa apenas quanto às matérias não alcançadas pela desistência. CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS. PAGAMENTOS A COOPERATIVAS DE TRABALHO. ART. 22, IV, DA LEI Nº 8.212/1991. INCONSTITUCIONALIDADE. TEMA 166 DO STF. REPERCUSSÃO GERAL.A contribuição previdenciária prevista no art. 22, IV, da Lei nº 8.212/1991, incidente sobre o valor bruto da nota fiscal ou fatura de serviços prestados por cooperados por intermédio de cooperativas de trabalho, foi declarada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento do Tema 166 da repercussão geral (RE 595.838). Firmada a tese em regime de repercussão geral, impõe-se sua observância pelos órgãos de julgamento administrativo, não se tratando de controle de constitucionalidade, mas de aplicação de orientação jurisprudencial vinculante.
Numero da decisão: 2002-010.196
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidades de votos, em conhecer do Recurso Voluntário, e, no mérito, dar-lhe provimento. Assinado Digitalmente Fernando Gomes Favacho – Relator Assinado Digitalmente Marcelo de Sousa Sateles – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rafael de Aguiar Hirano, Andre Barros de Moura, Luciana Costa Loureiro Solar, Marcelo Freitas de Souza Costa, Fernando Gomes Favacho, Marcelo de Sousa Sateles (Presidente).
Nome do relator: FERNANDO GOMES FAVACHO

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TEMPESTIVIDADE DO RECURSO VOLUNTÁRIO. INTIMAÇÃO ELETRÔNICA. DOMICÍLIO TRIBUTÁRIO ELETRÔNICO. Reconhece-se a tempestividade do Recurso Voluntário quando demonstrada a inexistência de adesão ao Domicílio Tributário Eletrônico, o que invalida a intimação eletrônica realizada sem observância das regras legais. Comprovada a ciência válida da decisão recorrida em data posterior, considera-se observado o prazo recursal previsto no Decreto nº 70.235/1972. DELIMITAÇÃO DA MATÉRIA EM LITÍGIO. DESISTÊNCIA PARCIAL. PROGRAMAS DE REGULARIZAÇÃO TRIBUTÁRIA. A apresentação de pedido expresso de desistência parcial do Recurso Voluntário, para fins de adesão ou migração a programas de regularização tributária, configura renúncia ao direito sobre os débitos abrangidos, nos termos do art. 78, § 3º, do Anexo II do RICARF, subsistindo a discussão administrativa apenas quanto às matérias não alcançadas pela desistência. CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS. PAGAMENTOS A COOPERATIVAS DE TRABALHO. ART. 22, IV, DA LEI Nº 8.212/1991. INCONSTITUCIONALIDADE. TEMA 166 DO STF. REPERCUSSÃO GERAL. A contribuição previdenciária prevista no art. 22, IV, da Lei nº 8.212/1991, incidente sobre o valor bruto da nota fiscal ou fatura de serviços prestados por cooperados por intermédio de cooperativas de trabalho, foi declarada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento do Tema 166 da repercussão geral (RE 595.838). Firmada a tese em regime de repercussão geral, impõe-se sua observância pelos órgãos de julgamento administrativo, não se tratando de controle de constitucionalidade, mas de aplicação de orientação jurisprudencial vinculante. Fl. 3302DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2002-010.196 – 2ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10380.723733/2011-11 2 ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidades de votos, em conhecer do Recurso Voluntário, e, no mérito, dar-lhe provimento. Assinado Digitalmente Fernando Gomes Favacho – Relator Assinado Digitalmente Marcelo de Sousa Sateles – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rafael de Aguiar Hirano, Andre Barros de Moura, Luciana Costa Loureiro Solar, Marcelo Freitas de Souza Costa, Fernando Gomes Favacho, Marcelo de Sousa Sateles (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de créditos tributários constituídos pela fiscalização e formalizados por meio de Autos de Infração (fl. 17 a 183) lavrados contra o sujeito passivo. Foram lavrados os seguintes autos: AI nº 37.326.046-6, relativo a contribuições previdenciárias patronais, inclusive SAT/RAT, sobre remunerações não declaradas em GFIP; AI nº 37.326.047-4, referente a contribuições de segurados empregados e contribuintes individuais; AI nº 37.326.048-2, relativo a contribuições destinadas a outras entidades e fundos; AI nº 37.326.045-8, atinente a contribuições sobre pagamentos a cooperativas de trabalho; e autos específicos de multa por descumprimento de obrigações acessórias (AIs nº 37.326.050-4, 37.326.049-0 e 37.326.043-1). Segundo o Relatório Fiscal (fl. 04 a 12), os fatos geradores das contribuições lançadas decorreram, principalmente, de: pagamentos sob a rubrica “Ajuda de Custo” e “Devolução de desconto indevido” a empregados, sem comprovação adequada de sua natureza; divergências não justificadas entre as remunerações registradas em folha de pagamento e as declaradas em GFIP, tanto de empregados quanto de contribuintes individuais; salário-família pago em desacordo com a legislação; remunerações pagas a empregados por meio de cartões de premiação, vinculadas a contrato de prestação de serviços com a empresa Sales, Adan & Associados Marketing e Incentivos Ltda.; remunerações indiretas a contribuintes individuais (Giovanni Perazzolo e Stefanio L. Bargio) por meio de cartões corporativos, sem inclusão em GFIP; Fl. 3303DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2002-010.196 – 2ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10380.723733/2011-11 3 e pagamentos a cooperativas de trabalho (UNIODONTO e COOPERCARGA) não declarados em GFIP. Para comprovar os lançamentos, a fiscalização juntou termos fiscais, planilhas e respostas do contribuinte (fls. 185 a 257), planilhas elaboradas pela própria fiscalização (fls. 258 a 299), amostras de folhas de pagamento (fls. 300 a 326), dados extraídos do sistema GFIP (fls. 327 a 339), notas fiscais (fls. 340 a 384), informações obtidas na Internet (fls. 385 a 388), extratos de cartões corporativos (fls. 389 a 432), notas fiscais de cooperativas (fls. 433 a 460), bem como contratos sociais, documentos de identificação e procurações (fls. 461 a 511). O contribuinte apresentou Impugnação ao Auto de Infração (fl. 815 a 832). A defesa invoca o contraditório e a ampla defesa (CF e art. 37 da Lei 8.212/91) e sustenta, em preliminar, nulidade do lançamento por falta de motivação e de pormenorização da base de cálculo e dos elementos fáticos, afirmando que a descrição é genérica, as planilhas não permitem compreender o enquadramento e os parâmetros do débito, e haveria cerceamento do direito de defesa, além de apontar impropriedades na adoção de aferição indireta. No mérito, a impugnante afirma inconsistência na caracterização do fato gerador, com apelo à legalidade/tipicidade fechada (art. 150, I, CF; art. 110 do CTN) e nega a incidência sobre verbas tidas como eventuais/indenizatórias, especialmente ajuda de custo, ganhos eventuais e abonos desvinculados do salário (art. 28, §9º, da Lei 8.212/91), alegando ausência de prova de habitualidade, falta de discriminação dos beneficiários e vedação de presunções, citando precedentes do STJ sobre a natureza indenizatória da ajuda de custo quando não habitual. Subsidiariamente, requer a exclusão da base de valores constantes de notas fiscais de empresa de marketing de incentivos por se tratarem de serviços, pede redução da penalidade por desproporcionalidade/efeito confiscatório (com referência ao art. 112 do CTN e doutrina de proporcionalidade) e, ao final, requer o conhecimento e provimento da impugnação para afastar o lançamento, ou ao menos reduzir a multa, com produção de provas (diligências/perícia) e intimações aos procuradores para fins recursais. O Acórdão 14-58.563 - 10ª Turma da DRJ/POR (fl. 3.045 a 3.070), em Sessão de 26/05/2015, julgou a impugnação procedente em parte, com a seguinte ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2008 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. DECISÕES ADMINISTRATIVAS E JUDICIAIS. VINCULAÇÃO DEPENDENTE DE DISPOSIÇÃO LEGAL EXPRESSA. As decisões judiciais e administrativas somente vinculam os julgadores de 1ª instância nas situações expressamente previstas na legislação. INCONSTITUCIONALIDADE. ILEGALIDADE. APRECIAÇÃO NO ÂMBITO ADMINISTRATIVO. VEDAÇÃO. Não compete à autoridade administrativa manifestar-se quanto à inconstitucionalidade ou ilegalidade das leis, por ser essa prerrogativa exclusiva do Poder Judiciário. Fl. 3304DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2002-010.196 – 2ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10380.723733/2011-11 4 NULIDADE. LANÇAMENTO. MOTIVAÇÃO E FUNDAMENTOS DE FATO E DE DIREITO CONSISTENTES. AUSÊNCIA DE NULIDADE. O lançamento devidamente motivado e fundamentado em elementos fáticos e em dispositivos legais vigentes à época da ocorrência dos fatos geradores afasta a alegação de nulidade com base nesses fatores. MATÉRIA NÃO CONTESTADA. Considera-se como não contestada a matéria que não tenha sido expressamente questionada, cristalizando-se como incontroversa e definitiva no âmbito administrativo. SALÁRIO-DE-CONTRIBUIÇÃO. PARCELAS NÃO INTEGRANTES. EXCLUSÃO LEGAL EXPRESSA E EXAUSTIVA. Somente as parcelas expressamente previstas na lei não se sujeitam à incidência previdenciária e podem ser excluídas do salário-de- contribuição para fins de apuração da base de cálculo correspondente, e desde que sejam atendidas todas as condições legais e sua correspondente regulamentação. PROVA. PREMISSAS INFORMADAS PELA PRÓPRIA EMPRESA. SUFICIÊNCIA. As premissas informadas pela própria empresa ou retiradas de sua escrita fiscal são suficientes para fundamentar o lançamento, a ela cabendo o ônus da prova para que possam ser retificadas. CARTÃO CORPORATIVO. GASTOS DISSOCIADOS DA ATIVIDADE EMPRESARIAL. REMUNERAÇÃO INDIRETA. A identificação de gastos dissociados das atividades empresariais efetuados pelos trabalhadores por meio de cartão corporativo pago pela empresa configura fato gerador de contribuição previdenciária, na modalidade de remuneração indireta. ESTRANGEIRO PRESTANDO SERVIÇO NO BRASIL. ACORDO INTERNACIONAL. SEGURADO OBRIGATÓRIO. Existindo acordo internacional com o seu país de origem, o estrangeiro não domiciliado no Brasil e contratado para prestar serviços eventuais, mediante remuneração, é considerado contribuinte obrigatório do RGPS. SERVIÇOS PRESTADOS POR COOPERATIVA DE TRABALHO. CONTRIBUIÇÃO SOBRE O VALOR DO SERVIÇO. A empresa é obrigada a contribuir com quinze por cento sobre o valor bruto da nota fiscal ou fatura de prestação de serviços, relativamente a serviços que lhe são prestados por cooperados por intermédio de cooperativas de trabalho, inclusive cooperativas da área de transporte de cargas. OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS. APRESENTAÇÃO DE DOCUMENTOS E FORNECIMENTO DE INFORMAÇÕES. OBRIGAÇÕES DISTINTAS. São obrigações distintas as obrigações da empresa de exibir todos os documentos e livros relacionados com as contribuições previdenciárias e de prestar à Secretaria da Receita Federal do Brasil todas as informações cadastrais, financeiras e contábeis de seu interesse, na forma por ela estabelecida, bem como os esclarecimentos necessários à fiscalização, possibilitando a aplicação de autuações e multas distintas. Fl. 3305DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2002-010.196 – 2ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10380.723733/2011-11 5 MULTA DE OFÍCIO. PERCENTUAL. LEGALIDADE. A multa de ofício no lançamento de crédito tributário que deixou de ser recolhido ou declarado é aplicada no percentual determinado expressamente em lei e sua aplicação exclui a multa moratória, que é por ela absorvida. MULTA. CARÁTER CONFISCATÓRIO. A vedação ao confisco pela Constituição Federal é dirigida ao legislador, cabendo à autoridade administrativa apenas aplicar a multa, nos moldes da legislação que a instituiu. MULTA. LEGISLAÇÃO SUPERVENIENTE. RETROATIVIDADE BENIGNA. ANÁLISE COMPARATIVA PARA APLICAÇÃO DA MULTA MAIS BENÉFICA. IMPOSSIBILIDADE DE APLICAÇÃO RETROATIVA DA MULTA ISOLADA. Verificando-se em relação aos mesmos fatos geradores a aplicação de multa em decorrência do descumprimento da obrigação acessória prevista no parágrafo 5º do artigo 32 da Lei n° 8.212/91 e de multa moratória cominada no artigo 35 da mesma Lei (na redação dada pela Lei 9.876/99), para fins de determinação da penalidade mais benéfica o somatório das mesmas deve ser comparado à multa de ofício prevista na legislação superveniente (artigo 44, I da Lei 9.430/96, em virtude da nova redação conferida pela MP 449/2008 ao artigo 35 da Lei 8.212/91). Nas competências em que não haja lançamento de tributo, cabe a aplicação retroativa da multa isolada por incorreção na declaração da contribuição e das informações à Previdência Social. PEDIDO DE DILIGÊNCIA OU PERÍCIA. PRESCINDIBILIDADE. INDEFERIMENTO. Estando presentes nos autos todos os elementos de convicção necessários à adequada solução da lide, indefere-se, por prescindível, o pedido de diligência ou perícia. DOMICÍLIO TRIBUTÁRIO. ENDEREÇO CADASTRAL. O domicílio tributário do sujeito passivo é o endereço postal fornecido pelo próprio contribuinte à Secretaria da Receita Federal do Brasil para fins cadastrais ou eletrônicos autorizado. O contribuinte interpôs Recursos Voluntários ao DEBCAD 37.326.048-2 (fl. 3.130); ao DEBCAD 37.326.047-4 (fl. 3.158); ao 37.326.046-6 (fl. 3.179) e ao 37.326.045-8 (fl. 3.203). Quanto a este último, nele alega: Que a fiscalização não pormenorizou no auto de infração a base de cálculo da incidência, o que denota prejuízo no direito de ampla defesa (fl. 3.204); Inconsistência da caracterização do fato gerador (fl. 3.204); Fatos geradores em discrepância com a realidade fática e ausência de indicação pormenorizada da ação fiscal – indicação genérica (fl. 3.212); Ilegalidade do ato por malferimento a direito fundamental de aplicabilidade imediata (fl. 3.212); Dispositivos assecuratórios da defesa administrativa (fl. 3.213); Aplicação da lei mais benéfica ao contribuinte (fl. 3.215); Observância dos autos de infrações a ensejar a subsistência do auto (fl. 3.219) e Pedido de reforma (fl. 3.221). Posteriormente apresentou juntada de comprovante de adesão ao PRORELIT – Programa de Redução de Litígios Tributários, instituído pela Lei 13.202/2015 (fl. 3.227) Fl. 3306DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2002-010.196 – 2ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10380.723733/2011-11 6 Em 31/05/2017, o sujeito passivo apresentou pedido expresso de desistência do Recurso Voluntário, em razão da inclusão dos débitos no Programa de Regularização Tributária – PRT (fl. 3.272). A desistência foi reconhecida por despacho do Presidente do CARF (fl. 3.274), nos termos do art. 78 do Anexo II do RICARF, configurando renúncia ao direito sobre o qual se fundava o recurso e determinando o retorno dos autos à unidade de origem para prosseguimento da exigência do crédito tributário, restando inviável a apreciação do mérito pelo Conselho. Após o pedido inicial de desistência (31/05/2017) e o despacho presidencial (fl. 3.274) reconhecendo os efeitos do art. 78 do Anexo II do RICARF (renúncia e retorno à origem), os autos foram efetivamente encaminhados à ARF/Maranguape/DRF/Fortaleza para cumprimento do comando (fl. 3.275). Na sequência, a contribuinte restringiu o alcance da desistência, esclarecendo tratar-se de DESISTÊNCIA PARCIAL: primeiro, em 21/08/2017 (fls. 3.278/3.280), afirmou que a desistência se referia exclusivamente às DEBCADs 37.326.046-6 e 37.326.048-2, permanecendo a discussão quanto às DEBCADs 37.326.045-8 e 37.326.047-4; depois, em 10/11/2017 (fls. 3.284/3.286), requereu nova desistência parcial somente do DEBCAD 37.326.047-4, declarando remanescer em debate apenas o DEBCAD 37.326.045-8. Os próprios despachos subsequentes confirmam essa depuração do litígio: em 31/08/2017 (fl. 3.281) determinou-se o prosseguimento do julgamento apenas quanto a 37.326.045-8 e 37.326.047-4, e, mais adiante, a RFB consignou que, de sete DEBCADs, três (37.326.046-6/47-4/48-2) foram objeto de desistência para o PERT, outros três (37.326.043-1/49- 0/50-4) sequer tiveram Recurso Voluntário, restando apenas o DEBCAD 37.326.045-8 pendente de julgamento (fl. 3.292). É o Relatório. VOTO Conselheiro Fernando Gomes Favacho, Relator. 1. Admissibilidade. Matéria em litígio. Reconhece-se a tempestividade do Recurso Voluntário, uma vez que restou comprovada a inexistência de adesão ao Domicílio Tributário Eletrônico, o que invalida a intimação eletrônica realizada em junho de 2015. A ciência válida do Acórdão de Impugnação somente ocorreu em 13/10/2015, iniciando-se, a partir daí, o prazo recursal de 30 dias, observado com a interposição do recurso em 12/11/2015 (fl. 3.156). O Recurso Voluntário subsiste apenas quanto ao DEBCAD 37.326.045-8, tendo havido renúncia (art. 78, §3º, Anexo II do RICARF) relativamente aos débitos alcançados pelas desistências parciais formalizadas para adesão/migração a programas de regularização Fl. 3307DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2002-010.196 – 2ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10380.723733/2011-11 7 (PRT/PERT), com retorno dos autos à origem para processamento e eventual apartação quando necessário (fl. 3.286). Os registros de adesão/validação do PERT e o formulário de “Requerimento de Desistência” (fls. 3.288 a 3.291) reforçam a consolidação administrativa dessa renúncia parcial, ao passo que, já no âmbito do CARF, o despacho de 10/11/2025 apenas providencia a redistribuição interna para a 2ª Turma Extraordinária, mantendo a relatoria, com base no art. 89, §6º, do RICARF (Portaria MF nº 1.634/2023), para julgamento do único ponto remanescente. 2. DEBCAD N°. 37.326.045-8: Contribuições previdenciárias patronais não declaradas em GFIP incidentes sobre pagamentos realizados a cooperativas de trabalho. Conforme o Relatório Fiscal, este DEBCAD está: (fl. 10) Abrangendo às competências de 01/2007 até 10/2008, com valor total de R$ 5.557,64, consolidado em 29/04/2011. No relatório “Discriminativo do Débito - DD” (anexo do Auto) encontra-se especificado os levantamentos utilizados neste documento de débito. Alíquotas: 15%, destinada à Previdência Social, incidente sobre pagamentos realizados a contribuintes individuais que prestação serviço por intermédio de cooperativas de trabalho, conforme previsão do inciso VI do artigo 22 da Lei 8.212/91. No presente tópico, discute-se a exigência de contribuições previdenciárias incidentes sobre valores pagos pela recorrente a cooperativas de trabalho, especificamente UNIODONTO e COOPERCARGA, no período de 01/2007 a 10/2008, totalizando R$ 5.557,64. Sustenta o contribuinte, em síntese, a nulidade do lançamento por ausência de pormenorização da base de cálculo e por indicação genérica dos fatos geradores, bem como a inconsistência da caracterização da hipótese de incidência. Alega, ainda, violação ao direito de ampla defesa, ilegalidade do ato administrativo, necessidade de aplicação da legislação mais benéfica e impropriedade da subsistência do auto de infração, requerendo, ao final, a reforma da decisão recorrida. O ora Recorrente alega a existência da ADI nº 2.594, e aponta que a Coopercarga é cooperativa de transporte e não de trabalho. O Supremo Tribunal Federal, no julgamento do Tema 166 da repercussão geral (RE 595.838), fixou a tese de que é inconstitucional a contribuição previdenciária prevista no art. 22, IV, da Lei nº 8.212/1991, incidente sobre o valor bruto da nota fiscal ou fatura referente a serviços prestados por cooperados por intermédio de cooperativas de trabalho. Tratando-se de entendimento firmado pelo STF em regime de repercussão geral, com eficácia vinculante, impõe-se sua observância no âmbito administrativo, não se tratando de controle difuso de constitucionalidade, mas de aplicação de orientação jurisprudencial vinculante. Fl. 3308DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2002-010.196 – 2ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10380.723733/2011-11 8 Noutro giro, o fato de a Coopercarga ser uma cooperativa de transporte não altera a subsunção da hipótese ao art. 22, IV, da Lei nº 8.212/1991, razão pela qual, à luz da orientação firmada pelo STF, a exigência não subsiste. Dessa forma, deve ser afastada a cobrança das contribuições previdenciárias incidentes sobre os pagamentos realizados a cooperativas de trabalho, no âmbito do DEBCAD nº 37.326.045-8. Conclusão. Acordam os membros do colegiado, por unanimidades de votos, em conhecer do Recurso Voluntário, e, no mérito, dar-lhe provimento. Assinado Digitalmente Fernando Gomes Favacho Fl. 3309DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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Numero do processo: 10980.014934/97-29
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed May 04 00:00:00 UTC 2011
Ementa: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/04/1992 a 31/12/1996 COFINS. DECADÊNCIA. PRAZO. Na ausência de pagamento relativo à Cofins lançada, é de cinco anos contados do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado o prazo para constituição do correspondente crédito tributário. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/04/1992 a 31/12/1996 DECISÃO DE 1ª INSTÂNCIA. NULIDADE. INCABÍVEL. A decisão proferida por autoridade competente que permite o sujeito saber do quê, como e perante quem se defender não possui vício de nulidade. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL - COFINS Período de apuração: 01/04/1992 a 31/12/1996 CONTRIBUINTE. É contribuinte da Cofins toda pessoa jurídica, inclusive a que lhe é equiparada pela legislação do imposto de renda. BASE DE CÁLCULO. A base imponível da Cofins sob a égide da Lei Complementar n° 70, de 1991, é a receita bruta das vendas de mercadorias, de mercadorias e serviços e de serviço de qualquer natureza.
Numero da decisão: 3402-001.138
Decisão: ACORDAM os membros da 4ª câmara / 2ª turma ordinária do terceira SEÇÃO DE JULGAMENTO, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso.
Nome do relator: SILVIA DE BRITO OLIVEIRA

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3402­01.138  –  4ª Câmara / 2ª Turma Ordinária   Sessão de  4 de maio de 2011  Matéria  COFINS. AUTO DE INFRAÇÃO.  Recorrente  SOCIEDADE DE ENSINO UNIFICADO  Recorrida  DRJ em CURITIBA­PR    ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO  Período de apuração: 01/04/1992 a 31/12/1996  COFINS. DECADÊNCIA. PRAZO.  Na  ausência  de  pagamento  relativo  à  Cofins  lançada,  é  de  cinco  anos  contados do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento  poderia ter sido efetuado o prazo para constituição do correspondente crédito  tributário.  ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL  Período de apuração: 01/04/1992 a 31/12/1996  DECISÃO DE 1ª INSTÂNCIA. NULIDADE. INCABÍVEL.  A decisão proferida por autoridade competente que permite o sujeito saber do  quê, como e perante quem se defender não possui vício de nulidade.  ASSUNTO:  CONTRIBUIÇÃO  PARA  O  FINANCIAMENTO  DA  SEGURIDADE  SOCIAL ­ COFINS  Período de apuração: 01/04/1992 a 31/12/1996  CONTRIBUINTE.  É  contribuinte  da  Cofins  toda  pessoa  jurídica,  inclusive  a  que  lhe  é  equiparada pela legislação do imposto de renda.  BASE DE CÁLCULO.  A  base  imponível  da  Cofins  sob  a  égide  da  Lei  Complementar  n°  70,  de  1991, é a receita bruta das vendas de mercadorias, de mercadorias e serviços  e de serviço de qualquer natureza.      Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.     Fl. 356DF CARF MF Impresso em 07/04/2016 por MARIA MADALENA SILVA EX CL UÍ DO Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/05/2011 por SILVIA DE BRITO OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 11/05/ 2011 por SILVIA DE BRITO OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 17/05/2011 por NAYRA BASTOS MANATTA     2 ACORDAM  os  membros  da  4ª  câmara  /  2ª  turma  ordinária  do  terceira   SSEEÇÇÃÃOO  DDEE  JJUULLGGAAMMEENNTTOO, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso.      Nayra Bastos Manatta  Presidente    Sílvia de Brito Oliveira  Relatora    Participaram  do  presente  julgamento  os  Conselheiros  Júlio  César  Alves  Ramos,  João Carlos  Cassuli  Junior,  Sílvia  de Brito Oliveira,  Fernando  Luiz  da Gama  Lobo  D'Eça, Angela Sartori e Nayra Bastos Manatta.    Relatório  Contra  a  pessoa  jurídica  qualificada  neste  processo  foi  lavrado  auto  de  infração para  formalizar a exigência  tributária  relativa à Contribuição para Financiamento da  Seguridade Social (Cofins) decorrente dos fatos geradores ocorridos no período abril de 1992 a  dezembro  de  1996,  com  a multa  aplicável  nos  lançamentos  de  ofício  e  os  juros moratórios  correspondentes.  Ensejou  a  constituição  de  ofício  do  crédito  tributário,  com  ciência  à  contribuinte  em  18  de  novembro  de  1997,  a  constatação  de  falta  de  recolhimento  dessa  contribuição  incidente  sobre  a  receita  de  prestação  de  serviços  e  de  venda  de  materiais  escolares, conforme cópia do livro registro de serviços prestados e do livro razão.  A peça fiscal foi impugnada e a Delegacia da Receita Federal de Julgamento  em Curitiba­PR (DRJ/CTA) julgou procedente o lançamento, nos termos do voto condutor do  Acórdão  constante  das  fls.  165  a  175,  ensejando  a  interposição  de  recurso  voluntário  para  alegar,  em  preliminar,  que  o  julgamento  da  DRJ/CTA  deve  ser  anulado  porque  foi  parcial,  omisso e confuso.  No mérito, foi alegado, em apertada síntese, que:  I  –  não  é  contribuinte  da  Cofins,  pois,  de  acordo  com  o  art.  1°  da  Lei  Complementar  n°  70,  de  1991,  para  ser  contribuinte  dessa  contribuição,  deve  ser  pessoa  jurídica  ou  equiparada  pela  legislação  do  Imposto  sobre  a  Renda  e  a  Recorrente  não  é  contribuinte do Imposto de Renda, pois é instituição que atende os requisitos do art. 14, da Lei  n° 5.172, de 25 de outubro de 1966 – Código Tributário Nacional (CTN);  Fl. 357DF CARF MF Impresso em 07/04/2016 por MARIA MADALENA SILVA EX CL UÍ DO Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/05/2011 por SILVIA DE BRITO OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 11/05/ 2011 por SILVIA DE BRITO OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 17/05/2011 por NAYRA BASTOS MANATTA Processo nº 10980.014934/97­29  Acórdão n.º 3402­01.138  S3­C4T2  Fl. 340          3 II – de acordo com o art. 2° da Lei Complementar n° 70, de 1991, a base de  cálculo  da  Cofins  é  o  faturamento  definido  como  a  receita  bruta  de  vendas  e  faturamento  pressupõe proveito material, pecuniário, vantagens, ganhar muito dinheiro, com a sua atividade  e as receitas da contribuinte são estatutárias, oriundas da cobrança de mensalidades ou taxas de  materiais  didáticos,  sem  qualquer  objetivo  comercial,  vantagem,  interesse  pecuniário,  remuneração, etc.;  III  –  uma  vez  que  a  recorrente  não  tem  fins  lucrativos,  não  terá,  por  conseqüência,  faturamento  ou  vendas,  pois  esses  vocábulos  pressupõem  a  obtenção  de  vantagens pecuniárias, ganhos, proveitos, ou seja, lucros; e  IV – o benefício de redução da multa para pagamento ou parcelamento deve  ser  reconhecido  a  qualquer  tempo,  sob  pena  de  violação  ao  disposto  no  art.  5°,  LV,  da  Constituição Federal;  Ao  final,  a  recorrente  alegou  a  decadência  do  direito  de  constituição  do  crédito  tributário  para  os  fatos  geradores  anteriores  a  novembro  de  1992  e  solicitou  o  provimento  do  seu  recurso  para  cancelar  o  lançamento  ou  anular  a  decisão  recorrida,  requerendo ainda:  1) caso seja mantido o lançamento, a exclusão de seu montante das parcelas  prescritas ou daquelas em que se operou a decadência do direito;  2)  que  seja  concedido  à  Recorrente  o  beneficio  previsto  no  art.  100,  I,  §  único, do CTN;  3)  que  seja  concedido  à  Recorrente,  o  beneficio  da  redução  da multa,  seja  para pagamento ou parcelamento, conforme especificado acima.  Após  decisão  da  Câmara  Superior  de  Recursos  Fiscais  (CSRF),  que  deu  provimento a recurso especial da Procuradoria da Fazenda Nacional para afastar a nulidade do  auto  de  infração  proferida  em  julgamento  realizado  pela  3ª  Câmara  do  extinto  Segundo  Conselho de Contribuintes, este processo retornou àquele 3ª Câmara e o julgamento do recurso  voluntário  foi convertido em diligência para que se verificasse o cumprimento dos requisitos  do art. 55 da Lei n° 8.212, de 1991, e do art. 14 do CTN.  A diligência foi realizada e o processo foi encaminhado a este colegiado com  a informação fiscal das fls. 302 a 311 sobre a qual manifestou­se a contribuinte para aduzir que  não  está  obrigada  ao  cumprimento  do  art.  55  da  Lei  n°  8.212,  de  1991,  que  destina­se  às  entidades que pleiteiam isenção da contribuição previdenciária patronal, e está obrigada apenas  à observância do art. 14 do CTN.  É o relatório.    Voto             Conselheira Sílvia de Brito Oliveira, Relatora  Fl. 358DF CARF MF Impresso em 07/04/2016 por MARIA MADALENA SILVA EX CL UÍ DO Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/05/2011 por SILVIA DE BRITO OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 11/05/ 2011 por SILVIA DE BRITO OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 17/05/2011 por NAYRA BASTOS MANATTA     4 O  recurso  é  tempestivo  e  seu  julgamento  está  inserto  na  esfera  de  competência  da  3ª  Seção  de  Julgamento  do  Conselho  Administrativo  de  Recursos  Fiscais  (Carf), devendo ser conhecido.  Preliminarmente,  cumpre  observar  que  a  exigência  formulada  refere­se  a  período em que não houve nenhum pagamento de Cofins pela contribuinte. Portanto, por força  do art. 62­A do Regimento Interno do Carf aprovado pela Portaria MF n° 256, de 22 de junho  de  2009,  introduzido  pela  Portaria  MF  n°  586,  de  21  de  dezembro  de  2010,  quanto  à  decadência, deve ser adotado o entendimento do Superior Tribunal de Justiça (STJ) de que, não  havendo  pagamento  a  ser  homologado,  aplica­se  o  art.  173  do  CTN,  que  estabelece,  ipsis  litteris:  Art.  173.  O  direito  de  a  Fazenda  Pública  constituir  o  crédito  tributário extingue­se após 5 (cinco) anos, contados:  I  ­  do  primeiro  dia  do  exercício  seguinte  àquele  em  que  o  lançamento poderia ter sido efetuado;  (...)  No caso  em exame,  sendo os  fatos  geradores mais  antigos os ocorridos  em  1992, o termo inicial do prazo de decadência é 1° de janeiro de 1993 e seu término se dá em 1°  de janeiro de 1998.  Destarte, uma vez que a contribuinte teve ciência do auto de infração em 18  de novembro de 1997, o lançamento aperfeiçoou­se no qüinqüênio previsto no art. 173, inc. I,  do CTN, não se tendo operado a decadência.  Quanto à alegada nulidade da decisão recorrida, não vislumbro nela nenhum  dos vícios relacionados no art. 59 do Decreto n° 70.235,, de 06 de março de 1972.  A recorrente alegou que, na instância de piso, teriam sido adotados critérios  interpretativos  distintos  para  as  partes,  pois,  primeiro,  o  julgador  afirmou  a  necessidade  da  interpretação literal, depois, que não se poderia ater a interpretação exclusivamente literal.  Ora,  o  que  fez  o  julgador  foi  se  utilizar  da  interpretação  literal  apenas  na  hipótese em que ela é obrigatória, em face do comando contido no art. 111 do CTN, portanto  não  se  trata  de  adoção  desse  método  de  interpretação  para  beneficiar  ou  prejudicar  a  contribuinte ou a Fazenda Nacional.  Também não é  causa de nulidade o mero  fato de  a decisão  recorrida  ter­se  fundamentado  em  dispositivo  constitucional  não  invocado  na  impugnação  e,  ademais  disso,  não obstante o art. 195, § 7°, da Constituição Federal de 1988 utilize o vocábulo “isentas”, não  há dúvida de que, com efeito, trata­se de imunidade, pois o que se tem é desoneração tributária  inserta no texto constitucional.  Por  fim,  possíveis  equívocos  na  transcrição  ou  na  interpretação  de  um  Parecer  Normativo  não  maculam  a  decisão  recorrida,  pois  da mera  leitura  da  peça  recursal  percebe­se que a contribuinte entendeu a decisão proferida pela DRJ/CTA e mostrou que sabe  perfeitamente, do quê, como e perante quem se defender.  No  exame  do  mérito,  é  mister  trazer  a  lume  os  arts.  1°  e  2°  da  Lei  Complementar n° 70, de 1991, que prescrevem:  Fl. 359DF CARF MF Impresso em 07/04/2016 por MARIA MADALENA SILVA EX CL UÍ DO Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/05/2011 por SILVIA DE BRITO OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 11/05/ 2011 por SILVIA DE BRITO OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 17/05/2011 por NAYRA BASTOS MANATTA Processo nº 10980.014934/97­29  Acórdão n.º 3402­01.138  S3­C4T2  Fl. 341          5 Art.  1°  Sem  prejuízo  da  cobrança  das  contribuições  para  o  Programa  de  Integração  Social  (PIS)  e  para  o  Programa  de  Formação  do  Patrimônio  do  Servidor  Público  (Pasep),  fica  instituída contribuição social para financiamento da Seguridade  Social,  nos  termos  do  inciso  I  do  art.  195  da  Constituição  Federal,  devida  pelas  pessoas  jurídicas  inclusive  as  a  elas  equiparadas  pela  legislação  do  imposto  de  renda,  destinadas  exclusivamente  às  despesas  com  atividades­fins  das  áreas  de  saúde, previdência e assistência social.  Art. 2° A contribuição de que trata o artigo anterior será de dois  por  cento  e  incidirá  sobre  o  faturamento  mensal,  assim  considerado  a  receita  bruta  das  vendas  de  mercadorias,  de  mercadorias e serviços e de serviço de qualquer natureza.  (...)  Note­se que, de acordo com o art. 1° acima transcrito, a Cofins é devida por  todas  as  pessoas  jurídicas,  sem  exceção,  inclusive  as  pessoas  que  são  apenas  equiparadas  a  pessoa jurídica pela legislação do imposto de renda.  A  defesa  da  recorrente  de  que  não  seria  contribuinte  da  Cofins  carece  de  fundamento  legal,  pois  a  Lei,  ao  definir  o  contribuinte  da Cofins,  alcançou  todas  as  pessoas  jurídicas e, mais adiante, em seu art. 6°, tratou de isentar algumas delas.  Quanto  à  base  imponível  da  contribuição  em  tela,  observe­se  que  ficou  definido o faturamento e a própria lei tratou de conceituar esse faturamento para a incidência  da Cofins como sendo a receita bruta “das vendas de mercadorias, de mercadorias e serviços e  de serviço de qualquer natureza”.  Ora,  as  cópias  dos  livros  trazidos  pela  fiscalização  não  deixam  dúvidas  de  que a contribuinte realizou venda de mercadorias (material didático) e de serviço.  Relativamente à imunidade do art. 150, inc. VI, “c”, da Constituição Federal,  cumpre lembrar que ela não alcança as contribuições sociais, mas tão somente os impostos. A  imunidade das  contribuições  sociais  foi  tratada no  art.  195, § 7°,  da Constituição Federal  de  1988,  contudo  essa  imunidade  é  destinada  apenas  às  entidades  beneficentes  de  assistência  social  que  atendam  as  exigências  estabelecidas  em  lei  e,  ao  contrário  do  que  afirmou  a  recorrente, não está restrita à contribuição previdenciária patronal.  Por essa razão é que se perquiriu, na diligência, o cumprimento dos requisitos  do  art.  55  da  Lei  n°  8.212,  de  1991,  e  do  art.  14  do  CTN,  pois  o  precitado  dispositivo  constitucional poderia agasalhar a imunidade pretendida pela recorrente.  Nesse ponto, cumpre registrar que a recorrente insistiu. Na sua manifestação  sobre a diligência, que cumpre o art. 14 do CTN e, de fato, a informação fiscal produzida na  diligência  não  é  clara  quanto  a  esse  item.  Entretanto,  ficou  perfeitamente  claro  que  a  contribuinte não possui o Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social (Cebas) e,  portanto, não é entidade beneficente de assistência social para gozar da imunidade agasalhada  pelo  art.  195,  §  7°,  da Constituição Federal  de  1988,  sendo,  pois,  desnecessário  averiguar  o  cumprimento dos requisitos previstos no art. 14 do CTN.  Diante do exposto, voto por negar provimento ao recurso.  Fl. 360DF CARF MF Impresso em 07/04/2016 por MARIA MADALENA SILVA EX CL UÍ DO Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/05/2011 por SILVIA DE BRITO OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 11/05/ 2011 por SILVIA DE BRITO OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 17/05/2011 por NAYRA BASTOS MANATTA     6 Sala das Sessões, em 04 de maio de 2011    Sílvia de Brito Oliveira                                Fl. 361DF CARF MF Impresso em 07/04/2016 por MARIA MADALENA SILVA EX CL UÍ DO Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 11/05/2011 por SILVIA DE BRITO OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 11/05/ 2011 por SILVIA DE BRITO OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 17/05/2011 por NAYRA BASTOS MANATTA

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