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Numero do processo: 16561.720070/2014-76
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Feb 20 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Apr 17 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2009, 2010, 2011, 2012
RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA INTERESSE COMUM.
Entendido o interesse comum, como a participação ativa no processo decisório e implementação das operações objeto da ação fiscal, cabe a responsabilização solidária dos acionistas, que são comuns às empresas envolvidas nas operações societárias, inclusive a incorporadora.
Numero da decisão: 1201-002.027
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em acolher os embargos de declaração quanto à omissão no acórdão embargado, e, por voto de qualidade, em negar provimento ao recurso voluntário dos recorrentes (responsáveis solidários). Vencidos os conselheiros: Luis Henrique Marotti Toselli, Luis Fabiano Alves Penteado e Leonam Rocha de Medeiros que afastavam a responsabilidade solidária. O conselheiro Luis Henrique Marotti Toselli apresentará declaração de voto.
(assinado digitalmente)
Ester Marques Lins de Sousa - Presidente.
(assinado digitalmente)
Eva Maria Los - Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ester Marques Lins de Sousa (Presidente), Eva Maria Los, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Luis Fabiano Alves Penteado, Luis Henrique Marotti Toselli e Leonam Rocha de Medeiros (suplente convocado). Ausentes, justificadamente, José Carlos de Assis Guimarães, Rafael Gasparello Lima e Gisele Barra Bossa.
Nome do relator: Relator
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Entendido o interesse comum, como a participação ativa no processo decisório e implementação das operações objeto da ação fiscal, cabe a responsabilização solidária dos acionistas, que são comuns às empresas envolvidas nas operações societárias, inclusive a incorporadora. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em acolher os embargos de declaração quanto à omissão no acórdão embargado, e, por voto de qualidade, em negar provimento ao recurso voluntário dos recorrentes (responsáveis solidários). Vencidos os conselheiros: Luis Henrique Marotti Toselli, Luis Fabiano Alves Penteado e Leonam Rocha de Medeiros que afastavam a responsabilidade solidária. O conselheiro Luis Henrique Marotti Toselli apresentará declaração de voto. (assinado digitalmente) Ester Marques Lins de Sousa Presidente. (assinado digitalmente) Eva Maria Los Relatora. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ester Marques Lins de Sousa (Presidente), Eva Maria Los, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Luis Fabiano Alves Penteado, Luis Henrique Marotti Toselli e Leonam Rocha de Medeiros (suplente convocado). Ausentes, justificadamente, José Carlos de Assis Guimarães, Rafael Gasparello Lima e Gisele Barra Bossa. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 56 1. 72 00 70 /2 01 4- 76 Fl. 2145DF CARF MF Processo nº 16561.720070/201476 Acórdão n.º 1201002.027 S1C2T1 Fl. 3 2 Relatório Trata o processo dos autos de infração de págs .715/784 em que foram exigidos o IRPJ e CSLL dos anoscalendário de 2009, 2010, 2011 e 2012, sob a fundamentação de despesas financeiras inexistentes, exclusões indevidas e multa isolada por falta de recolhimento sobre a base de cálculo estimada. 2. Foram responsabilizados solidariamente, com base no art. 124, I do Código Tributário Nacional CTN, Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966, págs. 715/730 e 757/768: José Luiz Zillo, CPF 049.022.11815 João Zillo Participações Ltda, CNPJ 05.470.123/000100 Carmen Tonanni, CPF 141.300.04875 Alf Participações Ltda, CNPJ 63.959.738/000109 Maria José Lorenzetti, CPF 190.962.66862 Antonio José Zillo, CPF 559.373.30820 Ângela Isabel Zillo Orsi CPF 195.425.84881 Miriam Regina Zillo, CPF 604.167.34804 José Roberto Lorenzetti, CPF 708.262.42804 Maria Izabel Lorenzetti Losasso, CPF 538.370.88804 Vera Lúcia Lorenzetti Gelás, CPF 050.590.23893 Lino Paticipações Ltda, CNPJ 67.447.466/000100 Paulo Henrique Zillo, CPF 601.648.67872 Marilene Carani, CPF 170.476.30880 Miguel Zillo, CPF 095.844.12868 José Augusto Zillo, CPF 035.253.84815 Daniel Jesus Zillo, CPF 069.027.31853 João Batista Zillo, CPF 363.048.40853 Maria Lúcia Zillo Marun, CPF 158.227.20854 Luiz Santana Zillo, CPF 601.648.24804 Companhia Agrícola Quatá, CNPJ 45.631.926/000113 Fl. 2146DF CARF MF Processo nº 16561.720070/201476 Acórdão n.º 1201002.027 S1C2T1 Fl. 4 3 3. O motivo da atribuição de responsabilidade foi, para todos, exceto a Companhia Agricola Quatá: Atribuise a responsabilidade solidaria a esse acionista da Fiscalizada(emissora) e da Debenturista, uma vez que, aprovou a emissão de debêntures intragrupo. Essa aprovação foi retratada na Ata da Assembleia Geral Extraordinária, realizada em 03 de dezembro de 2002, cuja ordem do dia foi o exame da proposta da Diretoria, que consistiu na emissão de debêntures entre empresas do grupo. Em 13 de dezembro de 2007, outra AGE da Fiscalizada, aprovou, por unanimidade, a prorrogação do prazo de vencimento das debêntures(séries 03 a 11) para 16 de dezembro de 2012, conforme proposta da Diretoria e, também, sob a consideração do decidido na Assembléia Geral da Debenturista, em 10 de dezembro de 2007. Como se constata, não há como negar o conhecimento por parte do acionista em tela, de que se levou a cabo uma operação abusiva para a redução do IRPJ e CSLL devidos. 4. A Companhia Agricola Quatá,também com base no art. 124, I do CTN: Atribuise a responsabilidade solidária a essa pessoa jurídica, por ser a sucessora da adquirente das debêntures emitidas pela Fiscalizada. Frisese que a Fiscalizada, a Debenturista que foi incorporada e a Incorporadora(Quatá), tem acionistas em comum. 5. Este processo foi julgado por esta Turma que emitiu o Acórdão nº 1201001.752, de 18 de maio de 2017, no qual o Relator, que propunha dar provimento ao recurso voluntário do contribuinte foi vencido e designada conselheira que redigiu o voto vencedor que negou provimento ao recurso voluntário; ao elaborar o voto vencedor, evidenciouse que deixaram de ser objeto do julgamento pela Turma, os recursos voluntários apresentados pelos responsáveis solidários; por isso, a redatora designada apresentou Embargos de Declaração apontando que: Como redatora designada para elaborar o voto vencedor no Acórdão nº 1201001.752, de 18 de maio de 2017, desta Turma, verifiquei as seguintes pontos: a) O Acórdão deixou de se pronunciar sobre os recursos voluntários interpostos pelos responsáveis solidários: Miriam Regina Zillo, Luiz Santana Zillo, Maria Lúcia Zillo Marun, Daniel Jesus Zillo, Antonio José Zillo, José Luiz Zillo, Miguel Zillo, João Batista Zillo, José Augusto Zillo, Paulo Henrique Zillo, Lino Paticipações Ltda, Alf Part Ltda, João Zillo Participações Ltda, José Roberto Lorenzetti, Ângela Isabel Zillo Orsi, Carmen Tonanni, Maria José Lorenzetti, Marilene Carani, Maria Izabel Lorenzetti Losasso, Vera Lúcia Lorenzetti Gelás, Companhia Agrícola Quatá; Fl. 2147DF CARF MF Processo nº 16561.720070/201476 Acórdão n.º 1201002.027 S1C2T1 Fl. 5 4 b) o Acórdão deixou de se pronunciar sobre o requerimento de apensação e julgamento conjunto do presente processo e do processo nº 10825.901978/201373, relativo à Companhia Agrícola Luiz Zillo e sobrinhos (incorporada pela Companhia Agrícola Quatá) que, no momento, se encontra para Distribuir/Sortear, na 2ª TO da 3ª Câmara da 1ª Seção do CARF. 6. Os Embargos de Declaração foram admitidos. 7. Reproduzse a seguir a descrição da autuação feita no relatório do Acórdão embargado: O Termo de Verificação Fiscal, de fls. 687 a 679, informa que foram efetuadas verificações fiscais relativas ao tratamento tributário dado às remunerações de debêntures, nos anos calendário de 2008, 2009, 2010, 2011 e 2012, cujos títulos foram emitidos pela contribuinte acima identificada em dezembro de 2002. Destaca que o presente trabalho enfoca os efeitos tributários na situação em que a emitente e a debenturista são pessoas jurídicas sob controle comum, isto é, têm os mesmos proprietários. Depois de apresentar a legislação de regência, tecer considerações sobre o tratamento tributário e apresentar exemplos de situações de emissão de debêntures, aborda especificamente o caso sob fiscalização, afirmando que: A Açucareira Zillo Lorenzetti S/A. emitiu debêntures em 2002, tendo como adquirente (debenturista) a Companhia Agrícola Zillo Lorenzetti, CNPJ Nº 45.036.639/0001 65; Em dezembro de 2008, a debenturista foi incorporada pela Companhia Agrícola Quatá, CNPJ nº 45.631.926/000113, empresa esta, que em 2009, já apresentava elevado saldo de prejuízos fiscais e base de cálculo negativa da CSLL (mais de R$ 330 milhões); Considerando que nos anoscalendário de 2007 e 2008, a emissora “resgatou”(sempre por meio de encontro de contas contábeis), as quantias de R$ 22.361.356,34 e R$ 27.416.164,16, respectivamente e, a debenturista na época, Cia Agrícola Zillo Lorenzetti, apresentou lucro real e base de cálculo positiva da CSLL nesses períodos, tais valores não foram considerados no cálculo da sangria aos cofres públicos. No caso eles se compensaram. Em 2009 não houve “resgate”, apenas reconhecimento da remuneração dos juros por competência. Nos anoscalendário de 2010 a 2012 houve “resgates” e, considerando que a debenturista(Agrícola Quatá) compensou integralmente os lucros com os saldos de prejuízos fiscais e base de cálculo negativa da CSLL que ela detinha, houve uma redução drástica no IRPJ e CSLL, pois de um lado as Fl. 2148DF CARF MF Processo nº 16561.720070/201476 Acórdão n.º 1201002.027 S1C2T1 Fl. 6 5 participações foram deduzidas tributariamente e do outro elas não sofreram tributação. pelo fato da debenturista ter elevado saldos de prejuízos fiscais e BC negativa da CSLL e, pela sua atividade rural, poder compensar integralmente os seus lucros, ela ficou com um crédito de IR a compensar ou a restituir de igual valor ao anteriormente retido. Ela pediu restituição. dados extraídos das DIPJs da Companhia Agrícola Quatá demonstram que as receitas a título de participações nos lucros e juros jamais foram tributadas na debenturista. Além do prejuízo fiscal e base de cálculo negativa da CSLL gerados em 2009, existem saldos anteriores de R$ 225.119.089,33 e R$ 232.339.019,62, respectivamente. Ressaltese que no anocalendário de 2013, houve prejuízo fiscal e base de cálculo negativa de CSLL nos valores de R$ 79.940.812,70 e R$ 79.940.812,75, respectivamente, o que mostra que as receitas de remuneração de debêntures não foram e nem serão tributadas. E, por fim, quando da emissão das debêntures, a debenturista, na época a Cia Agrícola Zillo Lorenzetti, “pagou”(por meio de encontro de contas contábeis) à emissora, a quantia de R$ 22.000.000,00 a título de prêmio, ou seja, ágio. Esse valor foi lançado no patrimônio líquido da emissora, sem nenhuma tributação e, na debenturista, foi amortizado tributariamente de forma gradual. Concluise que a emissão de debêntures, nas circunstâncias descritas, caracterizouse em um Planejamento Tributário Abusivo, o qual provocou uma sangria aos cofres públicos da ordem de R$ 69.265.458,50. As debêntures foram emitidas em 11/12/2002 pelo valor de R$ 55.000.000,00, divididas em 11 séries de R$ 5.000.000,00, conforme Escritura Particular de Emissão de Debêntures, subscritas unicamente pela Companhia Agrícola Zillo Lorenzetti, CNPJ Nº 45.036.639/000165(posteriormente incorporada pela Cia Agrícola Quatá, CNPJ nº 45.631.926/000113, em 31/12/2008). Na subscrição, a debenturista “pagou” à emissora um prêmio de R$ 2.000.000,00 para cada uma das séries emitidas, totalizando R$ 22.000.000,00. Tanto a emissora das debêntures(Açucareira Zillo) como a debenturista (Agrícola Zillo) têm os mesmos acionistas. O mesmo se aplica à Cia Agrícola Quatá. As debêntures tiveram origem nos créditos detidos pela debenturista Companhia Agrícola Lorenzetti contra a Açucareira Zillo Lorenzetti S.A., ou seja, os débitos desta foram transformados em debêntures, sujeitas às “remunerações” para Fl. 2149DF CARF MF Processo nº 16561.720070/201476 Acórdão n.º 1201002.027 S1C2T1 Fl. 7 6 aquela, não ocorrendo, portanto, movimentação financeira entre elas. No ato da subscrição, a debenturista Companhia Agrícola Lorenzetti “pagou”, também, por meio de acerto de contas contábeis, um prêmio de R$ 2.000.000,00 para cada uma das séries emitidas, totalizando o valor de R$ 22.000.000,00, o qual foi contabilizado no patrimônio líquido da fiscalizada em conta de Reserva de Capital – Prêmio na Emissão de Debêntures. O prazo das debêntures foi de 5 anos com vencimento em 16/12/2007, conferindo ao debenturista rendimentos de juros sobre o valor de face do título à razão de 12% ao ano e, participação nos lucros da emitente à razão de 50% do valor acumulado entre o mêsda emissão e o mês imediatamente anterior ao do resgate, considerandose, para tanto, o resultado antes do cômputo da CSLL e do IRPJ. Até o mês de novembro de 2007, a emissora fiscalizada (Açucareira Zillo) contabilizou as participações das debêntures nos lucros em conta de resultado, como provisões dedutíveis do IRPJ e CSLL, com base no inciso I, do artigo 462 do RIR/99. Por se tratar de provisões não expressamente autorizadas pela legislação tributária, conforme reza o artigo nº 335, do RIR/99, a DRF em Bauru,SP. lavrou dois Autos de Infração, Processos nºs 15889.000624/200731 e 15889.000245/200821, referentes aos anos calendários de 2002 e 2003 a 2006, respectivamente. 8. A autuação foi impugnada pelo contribuinte e pelos responsáveis solidários; a Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Belo Horizonte/MGDRJ/BHE, julgou improcedentes todas as impugnações apresentadas, mantendo integralmente o crédito tributário exigido e as indicações de responsabilidade solidárias das pessoas físicas e jurídicas enumeradas, em relação às quais emitiu a seguinte ementa: RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA São solidariamente responsáveis as pessoas físicas e/ou jurídicas que participem efetivamente do processo decisório para engendrar operações com o objetivo de reduzir a carga tributária, demonstrando o interesse comum ao auferir, direta ou indiretamente, os benefícios delas decorrentes. 9. Os responsáveis solidários foram notificados em 10/04/2015, exceto Miriam Regina Zillo, págs. 1.475/1.580, e apresentaram recursos voluntários, tempestivos, inclusive Miriam Regina Zillo, em 11/05/2015, págs. 1.686/2.204. Recursos Voluntários. Responsáveis solidários 10. Todos apresentaram recurso voluntário de mesmo teor a seguir sintetizado. 11. Descreve a autuação e as razões porque, no seu entender, o Autuante entendeu que as debêntures, remuneradas em parte por juros e em parte com lucros, subscritas pela Companhia Agrícola Zillo Lorenzetti CAZL, incorporada pela Companhia Agrícola Quatá CAQ, em Fl. 2150DF CARF MF Processo nº 16561.720070/201476 Acórdão n.º 1201002.027 S1C2T1 Fl. 8 7 operação realizada 31/12/2008, no total de 11 séries de valor nominal de R$ 5 milhões, tendo sido atribuída a cada uma delas um prêmio de R$ 2 milhões (captação total de R$ 77 milhões R$ 55 milhões de valor nominal e R$ 22 milhões de prêmio), resgatadas entre 2007 e 2012 teriam sido " 'formalizadas apenas no papel', que teve o único propósito de reduzir indevidamente as bases de cálculo do IRPJ e da CSLL ". 12. Transcreve os motivos da responsabilização, já transcritos neste relatório. 13. Advogam que os Termos de Responsabilidade Tributária são nulos porque: não indica qual a razão a justificar a solidariedade da Recorrente a AZL, sendo certo que o fato de ser acionista da autuada e ter votado pela emissão e resgate das debêntures que, quando liquidadas, tiveram suas despesas deduzidas nas bases do IRPJ e da CSLL da pessoa jurídica, não autoriza afirmar que teria "interesse comum" com o fato gerador dos tributos constituídos em face da emitente dos títulos. Isso porque, para haver solidariedade, a Recorrente teria que ter atuado em conjunto com o contribuinte na prática do fato gerador dos tributos que se alega serem devidos. Isto é, teria que ter deduzido os gastos com debêntures do mesmo modo que a AZL, o que evidentemente não o fez, não só por não ser contribuinte do IRPJ e da CSLL, mas do IRPF, como também por não ter apropriado referidos gastos no cálculo deste. 14. A Cia Agrícola Quatá, neste ponto argumentou : que o fato de ser incorporadora da subscritora das debêntures que, quando liquidadas, tiveram suas despesas deduzidas nas bases do IRPJ e da CSLL da AZL, não autoriza afirmar que teria "interesse comum" com o fato gerador dos tributos constituídos cm face da emitente dos títulos. Isso porque, para haver solidariedade, a Recorrente teria que ter atuado em conjunto com o contribuinte na prática do fato gerador dos tributos que se alega serem devidos. Isto c, teria que ter deduzido os gastos com debêntures do mesmo modo que a AZL, o que evidentemente não o fez, por não ter apropriado referidos gastos no cálculo deste. 15. Obs: AZL é abreviatura da Açucareira Zillo Lorenzetti, a Autuada. 16. Complementa que a nulidade deve ser declarada por ausência de motivação dos Termos, dado que deveria ter sido demonstrado que os Recorrentes obtiveram acréscimo patrimonial com a emissão e resgate das debêntures; que os Termos deveriam ter: (a) a indicação dos motivos de fato (circunstância do mundo real que serve de suporte ao ato) e de direito (previsão legal abstrata de uma situação fática que justifica o ato) que autorizam a solidariedade; e (b) a demonstração da perfeita correlação entre um e outro (subsunção do fato descrito à norma na qual se fundamenta o ato). Por se tratar da emissão de ato administrativo, aplicase a "teoria dos motivos determinantes", de modo que "a invocação de 'motivos de fato' falsos, inexistentes, ou incorretamente qualificados vicia o ato"5, Fl. 2151DF CARF MF Processo nº 16561.720070/201476 Acórdão n.º 1201002.027 S1C2T1 Fl. 9 8 conforme pacífica jurisprudência do Supremo Tribunal Federal6 e do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais7. 17. Aduz que estão ausentes os pressupostos caracterizadores da sujeição passiva solidária, pois interesse comum só tem lugar se duas ou mais pessoas praticam a conduta que faz surgir a obrigação tributária e, neste caso, só poderia se caracterizar se, além da AZL, os Recorrentes tivessem, em igual medida, auferido renda ou lucro em a emissão e resgate das debêntures. Ainda que se assuma para argumentar que a dedução dos gastos com as debêntures tenha possibilitado a redução do IRPJ e da CSLL devidos pela AZL e isso tenha proporcionado benefício econômico à Recorrente, tal resultado, mesmo que existente, seria insuficiente a autorizar a imputação da responsabilidade solidária prevista no artigo 124, I, do CTN. Tal aspecto, além de não ter sido indicado pela Fiscalização, que se limitou a justificar a solidariedade em razão da aprovação da operação, mesmo que tivesse sido apontado não se mostraria hábil a justificar a exigência conjunta, pois só quando há interesse comum no fato gerador é que se pode cogitar da aplicação do artigo 124 do CTN, conforme remansosa jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça STJ e do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais CARF. 18. Destaca que não foi apontado aumento patrimonial dos Recorrentes, e, se por hipótese a operação tivesse proporcionado benefício econômico aos Recorrentes, ainda que configurado, seria algo indireto, dissociado do interesse comum no fato gerador a que se refere o artigo 124, I, do CTN. Cita Acórdãos do CARF e se identificam os recorrentes como "terceiros alheios a tais operações". PFN. Contrarrazões. 19. A Procuradoria da Fazenda Nacional PFN apresentou Contrarrazões aos Recursos Voluntários em que advogou o cabimento da sujeição passiva solidária dos sócios, pois agiram diretamente em operações societárias tendentes a impedir o correto recolhimento de tributos, bem como, da debenturista, pois agiu em conluio com a emissora das debêntures para que o grupo econômico auferisse vantagens tributárias indevidas. Voto Conselheira Eva Maria Los 1 Responsabilidade Solidária. Art. 124, I do CTN. Iteresse Comum. 20. Opinou a PFN, sobre os acionistas da Autuada: , aprovaram por unanimidade a emissão de debêntures intraqrupo na Ata da Assembleia Geral Extraordinária, realizada em 03 de dezembro de 2002, cuja ordem do dia foi o exame da proposta da diretoria, que consistiu na emissão de debêntures entre empresas do grupo. Fl. 2152DF CARF MF Processo nº 16561.720070/201476 Acórdão n.º 1201002.027 S1C2T1 Fl. 10 9 Em 13 de dezembro de 2007, outra AGE da contribuinte aprovou, por unanimidade, a prorrogação do prazo de vencimento das debêntures (séries 03 a 11) para 16 de dezembro de 2012, conforme proposta da Diretoria e, também, sob a consideração do decidido na Assembleia Geral da Debenturista, em 10 de dezembro de 2007. (grifouse.) 21. E sobre a Companhia Agrícola Quatá, sucessora por incorporação da Cia Agrícola Luiz Zillo e sobrinhos: Do mesmo modo, cabe responsabilizar a debenturista, pois agiu em conluio com a emissora das debêntures para que o grupo econômico auferisse vantagens tributárias indevidas. Dado que foi extinta por incorporação, a sucessora deve assumir a responsabilidade que lhe cabe na forma do art. 133 do CTN. 22. O art. 133, I do CTN determina que pessoa jurídica de direito privado que adquirir de outra, por qualquer título, fundo de comércio ou estabelecimento comercial, industrial ou profissional, e continuar a respectiva exploração, sob a mesma ou outra razão social ou sob firma ou nome individual, responde pelos tributos, relativos ao fundo ou estabelecimento adquirido, devidos até à data do ato, integralmente, se o alienante cessar a exploração do comércio, indústria ou atividade, que é o caso da sucessão por incorporação. 23. As responsabilizações solidárias foram todas com base no art. 124, I do CTN. 24. Os acionistas responsabilizados são acionistas de sociedade anônima fechada (não se trata de S/A aberta, com acionistas preferenciais que não participam das decisões); as decisões, conforme citado pela PFN, foram unânimes, nas Assembléias que aprovaram as operações. 25. Cabe aqui comentar o significado do interesse comum objeto do art. 124, I do CTN.; citemse alguns acórdãos judiciais. TRIBUTÁRIO. INVESTIMENTO RELEVANTE EM SOCIEDADE COLIGADA. SOLIDARIEDADE NO CRÉDITO TRIBUTÁRIO DESTA. INEXISTÊNCIA. 1. São solidariamente obrigadas pelo crédito tributário as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal, segundo prevê o art. 124, I, do CTN. O interesse comum das pessoas não é revelado pelo interesse econômico no resultado ou no proveito da situação que constitui o fato gerador da obrigação principal, mas pelo interesse jurídico, que diz respeito à realização comum ou conjunta da situação que constitui o fato gerador. É solidária a pessoa que realiza conjuntamente com outra, ou outras pessoas, a situação que constitui o fato gerador, ou que, em comum com outras, esteja em relação econômica com o ato, fato ou negócio que dá origem à tributação; por outras palavras, (...) pessoa que tira uma vantagem econômica do ato, fato ou negócio tributado (Rubens Gomes de Sousa, Compêndio de Legislação Tributária, 3ª ed., Rio de Janeiro, Edições Financeiras, 1964, p. 67). 2. A sociedade que participa do capital de outra, ainda que de forma relevante, não é Fl. 2153DF CARF MF Processo nº 16561.720070/201476 Acórdão n.º 1201002.027 S1C2T1 Fl. 11 10 solidariamente obrigada pela dívida tributária referente ao imposto de renda desta última, pois, embora tenha interesse econômico no lucro, não tem o necessário interesse comum, na acepção que lhe dá o art. 124 do CTN, que pressupõe a participação comum na realização do lucro. Na configuração da solidariedade é relevante que haja a participação comum na realização do lucro, e não a mera participação nos resultados representados pelo lucro. 3. Apelação a que se dá provimento, para a exclusão do nome da apelante do rol dos devedores solidários. (TRF 4ª Região. 2ª Turma, AMS 94.04.550469, Relator Zuudi Sakakihara, DJ 27/10/1999). (Grifouse,) (...) temse que o interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal implica que as pessoas solidariamente obrigadas sejam sujeitos da relação jurídica que deu azo à ocorrência do fato imponível. Isto porque feriria a lógica jurídicotributária a integração, no pólo passivo da relação jurídica, de alguém que não tenha tido qualquer participação na ocorrência do fato gerador da obrigação. […] 9. Destarte, a situação que evidencia a solidariedade, quanto ao ISS, é a existência de duas ou mais pessoas na condição de prestadoras de apenas um único serviço para o mesmo tomador, integrando, desse modo, o pólo passivo da relação. Forçoso concluir, portanto, que o interesse qualificado pela lei não há de ser o interesse econômico no resultado ou no proveito da situação que constitui o fato gerador da obrigação principal, mas o interesse jurídico, vinculado à atuação comum ou conjunta da situação que constitui o fato imponível. […] (STJ, REsp884.845/SC, 1ª Turma, Rel. Min. Luiz Fux,DJ05.02.09) 26. Transcrevese, por ter sido muito clara, a explanação feita pelo Conselheiro Luis Henrique Marotti Toselli, integrante desta Turma, no Acórdão nº 1201001.904 de 17 de outubro de 2017: A fundamentação legal para o enquadramento das pessoas jurídicas corresponde ao artigo 124,1 do CTX.. verbis: "Art. 124 São solidariamente obrigadas: I as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal;" se, a partir desse dispositivo legal, que a solidariedade da obrigação tributária principal é regida por uma norma própria que tem no núcleo de seu antecedente a existência de interesse comum das partes na situação jurídica que corresponde ao fato gerador tributário. Tendo isso em vista, a análise da procedência ou não do Termo de Sujeição Passiva Solidária depende da precisa delimitação do Fl. 2154DF CARF MF Processo nº 16561.720070/201476 Acórdão n.º 1201002.027 S1C2T1 Fl. 12 11 sentido jurídico da expressão "interesse comum". Isto é importante porque o referido instituto jurídico não raramente é utilizado genericamente ou como forma de buscar exercer um subjetivo "boni senso", atropelando seus limites normativos. E como se verifica, a solidariedade foi tratada no Código Tributário Nacional de forma autônoma, ou seja. segregada do capítulo da responsabilidade tributária. a responsabilidade tributária, terceiros são chamados a responder pela obrigação tributária, sempre que verificadas as condições postas pela legislação. Já a responsabilidade solidária, fundamentada no artigo 124. I. do CTN. não se dirige a terceiros, isto é. pessoas estranhas à relação jurídica que dá ensejo à obrigação tributária. Pelo contrário, a norma construída a partir do dispositivo legal em questão se dirige às pessoas que efetivamente participam do nascimento da obrigação de cunho tributário. A redação do inciso I do artigo 124 é clara ao prescrever serem solidárias as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal. E indispensável, portanto, para fins da correta aplicação da responsabilidade prevista no artigo 124. I. que as pessoas solidárias tenham participação no fato que constitui a hipótese de incidência tributária. As partes coobrigadas. contudo, devem participar de urna única relação jurídica, da qual em um dos polos apenas figuram as duas paites. Tratase de um pressuposto normativo que não admite restrições. Como já se posicionou o STJ: [...] 7. Conquanto a expressão "interesse comum" encarte um conceito indeterminado, é mister procederse a uma interpretação sistemática das normas tributárias, de modo a alcançar a ratio essendi do referido dispositivo legal Nesse diapasão, temse que o interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal implica que as pessoas solidariamente obrigadas sejam sujeitos da relação jurídica que deu azo à ocorrência do fato imponível. Isto porque feriria a lógica juridicotributária a integração, no pólo passivo da relação jurídica, de alguém que não tenha tido qualquer participação na ocoirência do fato gerador da obrigação (STJ REsp n° 884.845 SC). A responsabilidade solidaría constitui meio de graduar a responsabilidade daqueles sujeitos que compõem o polo passivo desde a origem da obrigação. Assim, por exemplo, ocorre com coproprietáríos de mercadorias que. vendidas, sujeitamse ao ICMS. Neste caso. existe a solidariedade, pois ambos estão no mesmo polo da relação (são vendedores). Na hipótese, porém, de faltar esta equivalência caso do usuário final que compra mercadoria com preço abaixo do mercado . não há que se falar Fl. 2155DF CARF MF Processo nº 16561.720070/201476 Acórdão n.º 1201002.027 S1C2T1 Fl. 13 12 em interesse jurídico e. conseqüentemente, imputar a responsabilidade por interesse comum. O interesse econômico, reconhecemos, até pode servir de indício para a caracterização de interesse comum, mas. isoladamente considerado, não constitui prova suficiente para aplicar a solidariedade. Também a utilização da responsabilidade solidária como espécie de "sanção" a determinada pessoa que teria "contribuído" com dada operação ou estrutura não é cabível do ponto de vista jurídico. É imprescindível existir, para que seja imputada a responsabilidade solidária, a participação efetiva do sujeito qualificado como solidário na ocorrência do fato gerador. Nesse sentido, o interesse comum de que trata o artigo 124. inciso I. do CTN é sempre jurídico, não devendo ser confundido com "interesse econômico", "sanção", "meio de justiça"' etc. E também não é suficiente que a pessoa tenha tido participação furtiva como interveniente num negócio jurídico, ou mesmo que seja sócio ou administrador da empresa contribuinte, para que a solidariedade seja validamente estabelecida. Pelo contrário, é imprescindível a comprovação de que o sujeito tido por solidário teve interesse jurídico, o que se faz com a demonstração cabal da relação direta e pessoal dele com a prática do ato ou atos que deram azo à relação jurídico tributária. 27. O Termo de Verificação Fiscal descreveu que as empresas envolvidas nas operações com debêntures têm os mesmos acionistas, Famílias Zillo/Lorenzetti; estes, que são os tomadores de decisão, por unanimidade, decidiram pelas operações objeto da autuação. 28. Em síntese, entendido o interesse comum, como a participação ativa no processo decisório e implementação das operações objeto da ação fiscal, cabe a responsabilização dos acionistas, inclusive da incorporadora. 2 Processo nº 10825.901978/201373, relativo à Companhia Agrícola Luiz Zillo e sobrinhos (incorporada pela Companhia Agrícola Quatá) 29. Requer a apensação e julgamento conjunto do processo supra com o presente. 30. Segundo o relatório da DRJ em Porto Alegre/RS, que proferiu Acórdão considerando improcedente a manifestação de inconformidade contra o indeferimento da compensação pela DRF em Bauru/SP, trata o processo nº 10825.901978/201373 de compensação de débitos com pretendido direito creditório de Saldo Negativo (SN) de IRPJ do anocalendário 2008; o SN seria resultante de retenções de IR na fonte sobre remuneração de debêntures emitidas por Usina Barra Grande de Lençóis, empresa do mesmo grupo econômico. 31. A DRF Bauru não reconheceu o saldo negativo pleiteado por considerar descumpridos os requisitos previstos no art. 170 do CTN: liquidez e certeza do crédito. A decisão baseouse nos mesmos elementos que levaram à formalização dos autos de infração de Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ) e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) Fl. 2156DF CARF MF Processo nº 16561.720070/201476 Acórdão n.º 1201002.027 S1C2T1 Fl. 14 13 contra a emissora das debêntures, por irregularidade na dedução de despesas financeiras e em exclusões do lucro real, conforme processo administrativo 16561.720147/201416. 32. Verificase que a autuação no processo 16561.720147/201416 é análoga à que se julgou no Acórdão embargado; porém não há decorrência entre os dois processos, ou seja, nem aquele depende deste, nem este daquele, dado que as empresas envolvidas na autuação do presente processo são: Açucareira Zillo Lorezenzetti (emissora das debêntures, autuada); Companhia Agrícola Zillo Lorenzetti (debenturista), Companhia Agrícola Quata (incorporadora da debenturista), enquanto que naqueles dois processos, a empresas envolvidas são: Usina Barra Grande de Lençóis (emissora das debêntures), Companhia Agrícola Zillo Lorenzetti (debenturista) e Companhia Agrícola Quata (incorporadora da debenturista). 33. Pelo exposto, não é necessária a apensação do processo requerido ao presente e tampouco o julgamento conjunto. 3 Conclusão. Voto por ACOLHER os embargos de declaração, para sanar a omissão e NEGAR PROVIMENTO aos recursos voluntários dos responsáveis solidários. (assinado digitalmente) Eva Maria Los Declaração de Voto Conselheiro Luis Henrique Marotti Toselli A controvérsia diz respeito à responsabilidade solidária imputada aos acionistas da Açucareira Zillo Lorenzetti S/A, ao argumento de que teriam "interesse comum" na prática de planejamento tributário abusivo consistente na dedução de despesas oriundas de debêntures criadas "artificialmente" com o único propósito de reduzir o lucro tributável. A peça fiscal, apoiada no artigo 124, I, do CTN, assim motivou a responsabilidade solidária: "Atribuise a responsabilidade solidária aos acionistas da Fiscalizada (emissora) e das Debenturistas, que são os mesmos, uma vez que aprovaram por unanimidade a emissão de debêntures intragrupo. Como se constata, não há como negar o conhecimento por parte dos acionistas de que se levou a cabo uma operação abusiva para a redução do IRPJ e CSLL devidos. Fl. 2157DF CARF MF Processo nº 16561.720070/201476 Acórdão n.º 1201002.027 S1C2T1 Fl. 15 14 Frise que a responsabilidade recai, também, sobre a Debenturista Companhia Agrícola Quatá, por ser a incorporadora da Cia Agrícila Zillo Lorenzetti." No julgamento do recurso voluntário dos solidários, prevaleceu esse mesmo entendimento por voto de qualidade. Assim concluiu o voto vencedor: 27 O Termo de Verificação Fiscal descreveu que as empresas envolvidas nas operações com debêntures têm os mesmos acionistas, Famílias Zillo/Lorenzetti; estes, que são os tomadores de decisão, por unanimidade, decidiram pelas operações objeto da autuação. 28 Em síntese, entendido o interesse comum, como a participação ativa no processo decisório e implementação das operações objeto da ação fiscal, cabe a responsabilização dos acionistas, inclusive da incorporadora. Em primeiro lugar, chama atenção o fato de que o fundamento para a qualificação da solidariedade limitouse à identificação das pessoas que participaram e aprovaram a ata que autorizou a emissão das debêntures questionadas, e nada mais. O silogismo empregado foi o seguinte: os acionistas da empresa (S/A. fechada), no contexto da gestão empresarial, concordaram com a emissão das debêntures; essas debêntures, porém, não possuem substância, razão pela qual proporcionaram redução indevida de carga tributária; essa redução caracteriza interesse comum, o que enseja a responsabilidade solidária. Com a devida vênia, não concordo com esse racional. Segundo penso, há dois graves vícios que comprometem a imputação da responsabilidade solidária nesse caso concreto: (i) nulidade por falta de motivação; e (ii) não caracterização de "interesse comum". Com efeito, percebese claramente que a autoridade autuante confundiu "interesse comum" com responsabilidade pessoal por atos no exercício de atividades empresariais, esta prevista no artigo 135 do CTN (e não no 124), in verbis: Art. 135. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos: I as pessoas referidas no artigo anterior; II os mandatários, prepostos e empregados; III os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. O artigo 135 em questão não foi objeto de nenhum comentário pela fiscalização. Ora, se foi o ato de gestão dos acionistas a causa da imputação da responsabilidade solidária, deveria a autoridade ter apontado e motivado em qual das hipóteses acima se enquadraria o contribuinte. Fl. 2158DF CARF MF Processo nº 16561.720070/201476 Acórdão n.º 1201002.027 S1C2T1 Fl. 16 15 O TVF deveria, para valer sua tese, ter capitulado a autuação naquele dispositivo legal o que não o fez e, mais ainda, deveria ter demonstrado em que medida as pessoas qualificadas como responsáveis agiram em infração a lei, ou em contrariedade aos limites do desempenho de sua função de sócio, acionista ou administrador, o que também foi omitido. Quer a autoridade fiscal ver prevalecer o Termo de Sujeição Passiva Solidária, mister que ela fundamente adequadamente o Auto, bem como comprove a participação direta e consciente do administrador na realização dos atos alegadamente simulados ou fraudulentos. A atribuição de responsabilidade tributária não constitui expediente que possa ser utilizado “por atacado” ou “no modo automático”, uma vez que tal instituto exige a comprovação de que os fatos ou atos que geraram o descumprimento de normas tributárias tenham sido praticados conscientemente (isto é, com dolo) pela pessoa qualificada como responsável. Enquanto ato administrativo vinculado, o enquadramento do fato à hipótese normativa deve ser motivado, permitindo o pleno conhecimento das circunstâncias fáticas e a devida compreensão das razões de direito que nortearam o lançamento por responsabilidade. Nesse caso, salta aos olhos a indicação de dispositivo legal inapropriado e incoerente com as respectivas razões fáticas relatadas pelo fisco, o que prejudica a aplicação da solidariedade, tornandose esta nula por falta de motivação adequada. No mérito, vale assinalar que já foi reconhecido e consolidado pelo STJ que o inadimplemento da obrigação tributária pela sociedade não gera, por si só, a responsabilidade solidária do sóciogerente (Súmula 430). Assim, o não pagamento de tributo pela sociedade, ou uma tentativa de redução da carga tributária "às claras", não constituem causas suficientes para que seus representantes se tornem responsáveis por débitos fiscais. Isso porque, ao contrário do que argumenta a tese vencedora, a mera qualificação de acionista, sócio, diretor, gerente ou representante da empresa autuada, por si só, não é suficiente para ensejar responsabilidade pessoal ou solidária. Nesse ponto, vale assinalar que o STF julgou inconstitucional o artigo 13 da Lei nº 8.620/93 (STF. RE 562.276. Plenário, 03/11/2010), dispositivo este que pretendeu vincular à simples condição de sócio a obrigação por débitos previdenciários de sociedades limitadas. Finalmente, e ainda que se considere que a invocação do artigo 124, I, do CTN teria sido apropriada, não há que se falar em interesse comum no caso sob análise. Diferentemente da responsabilidade tributária do artigo 135, onde terceiros são chamados a responder pela obrigação tributária, sempre que verificadas as condições postas pela legislação, a responsabilidade solidária prevista no artigo 124, I, do CTN, não se dirige a terceiros, isto é, pessoas estranhas à relação jurídica que dá ensejo à obrigação tributária, mas sim às pessoas que efetivamente participam do fato que constitui a hipótese de incidência tributária. Fl. 2159DF CARF MF Processo nº 16561.720070/201476 Acórdão n.º 1201002.027 S1C2T1 Fl. 17 16 As partes coobrigadas devem participar de uma única relação jurídica, da qual em um dos polos apenas figuram as duas partes. Tratase de um pressuposto normativo que não admite restrições. Como já se posicionou o STJ: [...] 7. Conquanto a expressão "interesse comum" encarte um conceito indeterminado, é mister procederse a uma interpretação sistemática das normas tributárias, de modo a alcançar a ratio essendi do referido dispositivo legal. Nesse diapasão, temse que o interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal implica que as pessoas solidariamente obrigadas sejam sujeitos da relação jurídica que deu azo à ocorrência do fato imponível. Isto porque feriria a lógica jurídicotributária a integração, no pólo passivo da relação jurídica, de alguém que não tenha tido qualquer participação na ocorrência do fato gerador da obrigação (STJ REsp nº 884.845 – SC). A responsabilidade solidária constitui meio de graduar a responsabilidade daqueles sujeitos que compõem o polo passivo desde a origem da obrigação. Assim, por exemplo, ocorre com coproprietários de mercadorias que, vendidas, sujeitamse ao ICMS. Neste caso, existe a solidariedade, pois ambos estão no mesmo polo da relação (são vendedores). Na hipótese, porém, de faltar esta equivalência caso do usuário final que compra mercadoria com preço abaixo do mercado , não há que se falar em interesse jurídico e, conseqüentemente, imputar a responsabilidade por interesse comum. O interesse econômico, reconhecemos, até pode servir de indício para a caracterização de interesse comum, mas, isoladamente considerado, não constitui prova suficiente para aplicar a solidariedade. Também a utilização da responsabilidade solidária como espécie de “sanção” a determinada pessoa que teria “contribuído” com dada operação ou estrutura não é cabível do ponto de vista jurídico. Nesse sentido, o interesse comum de que trata o artigo 124, inciso I, do CTN é sempre jurídico, não devendo ser confundido com “interesse econômico”, “sanção”, “meio de justiça” etc. Nesses termos, não é suficiente que a pessoa tenha tido participação furtiva como interveniente num negócio jurídico, ou mesmo que seja acionista, sócio ou administrador da empresa contribuinte, para que a solidariedade seja validamente estabelecida. Pelo contrário, é imprescindível a comprovação de que o sujeito tido por solidário teve interesse jurídico, o que se faz com a demonstração cabal da relação direta e pessoal dele com a prática do ato ou atos que deram azo à relação jurídico tributária. Do ponto de vista da jurisprudência administrativa, destacase a noção correlata entre interesse comum e confusão patrimonial. Assim, quando restar caracterizada a confusão patrimonial entre os dois ou mais sujeitos, cabível a aplicação da responsabilidade solidária. Fl. 2160DF CARF MF Processo nº 16561.720070/201476 Acórdão n.º 1201002.027 S1C2T1 Fl. 18 17 A expressão “confusão patrimonial” é inerente a teoria da desconsideração da personalidade jurídica do direito privado. O artigo 50 do Código Civil, aliás, assim dispõe: “em caso de abuso da personalidade jurídica, caracterizado pelo desvio de finalidade, ou pela confusão patrimonial, pode o juiz decidir, a requerimento da parte, ou do Ministério Público quando lhe couber intervir no processo, que os efeitos de certas e determinadas relações de obrigações sejam estendidos aos bens particulares dos administradores ou sócios da pessoa jurídica”. Confundir consiste no ato ou efeito de enganar, de iludir, enfim, aparentar ser. Na prática, ocorre a confusão patrimonial quando não é possível uma segregação clara entre as atividades profissionais ou empresarias exercidas por mais de um sujeito. Tal fenômeno costuma se revelar quando os negócios dos sócios se confundem com os da pessoa jurídica; quando há abuso dentro de um mesmo grupo econômico; quando as partes se valem de pessoas interpostas etc. De acordo com Luiz Carlos de Andrade Júnior1: “a confusão patrimonial caracterizase pela impossibilidade de distinguir se o uso e a disposição de determinados bens dãose pela sociedade ou pelos seus membros; ou, melhor dizendo, se o patrimônio é empregado de modo a satisfazer interesses de uma ou de outros. Configurase, por exemplo, quando a sociedade utiliza imóveis pertencentes aos sócios, emprega veículos destes para o desempenho de suas atividades operacionais ou paga suas contas pessoais. A confusão patrimonial pode, ademais, relacionarse a uma situação de controle, especialmente nos grupos econômicos de subordinação, em que as sociedades controladas perdem grande parte de sua autonomia de gestão empresarial em razão da atuação “soberana” da sociedade holding”. A existência ou não de confusão patrimonial depende de cada situação fática, mas é possível identificar alguns indícios comuns que podem levar a esta constatação. São eles, sem prejuízos de eventuais outros: 1 a capacidade dos sócios; 2 a coincidência de administradores e/ou procuradores; 3 gestão única do negócio; 4 semelhança de atividades; 5 identidade de endereço; 6 empregados comuns; estrutura operacional dependente; 7 incapacidade econômica; 8 benefício financeiro; e 9 impacto da carga tributária. Apenas com a reunião de indícios precisos e convergentes, capazes de caracterizar a confusão patrimonial como um todo, é que estaremos no campo do interesse comum, em seu sentido jurídico e, conseqüentemente, da responsabilidade solidária. Trazendo essas considerações ao presente caso, afasto a sujeição passiva dos responsáveis solidários, uma vez que, não bastasse o vício na motivação, os elementos constantes dos autos não demonstram nenhuma confusão patrimonial. Não há no trabalho fiscal qualquer prova de que as pessoas qualificadas como solidárias teriam auferido qualquer vantagem adicional advindos da dedução da despesa 1 A simulação no direito civil. São Paulo: Malheiros. 2016. P. 209. Fl. 2161DF CARF MF Processo nº 16561.720070/201476 Acórdão n.º 1201002.027 S1C2T1 Fl. 19 18 glosada. O pretenso benefício econômico sequer foi identificado e demonstrado de forma clara pela autoridade responsável pelo lançamento. Não restam dúvidas de que o sócio pretende auferir lucros. Essa é a razão de empreender e o que move a atividade econômica e a livre iniciativa. Mas daí a concluir que atos de gestão implicam interesse comum ou confusão patrimonial existe uma distância enorme. O simples fato dos solidários serem acionistas da autuada e terem votado pela emissão e resgate das debêntures posteriormente deduzidas para fins fiscais, não revela interesse comum. E ainda que porventura tenham recebido dividendos o que não foi comprovado isso não pode se confundir com interesse jurídico no fato gerador. Os acionistas são pessoas que não se confundem com a sociedade investida. O Direito assim quis. Admitir o contrário significa violar a autonomia da pessoa jurídica e permitiria, sem lei, a adoção de estranha presunção de confusão patrimonial entre sócio e empresa, o que não se sustenta. Conforme restou assentado no referido precedente do STF2, “não é dado ao legislador estabelecer confusão entre os patrimônios das pessoas física e jurídica, o que, além de impor desconsideração ex lege e objetiva da personalidade jurídica, descaracterizando as sociedades limitadas, implica irrazoabilidade e inibe a iniciativa privada”. Nesse sentido, voto por ACOLHER OS EMBARGOS, COM EFEITOS INFRINGENTES, para AFASTAR A RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. (assinado digitalmente) Luis Henrique Marotti Toselli 2 STF. RE 562.276. Plenário, 03/11/2010. Fl. 2162DF CARF MF
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Numero do processo: 10480.721860/2009-25
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Feb 05 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Mar 14 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/02/2004 a 30/12/2004
NULIDADE. MPF.
O MPF é mecanismo de controle administrativo e nenhuma irregularidade houve em relação ao mandado, uma vez que regularmente emitido e cientificado à Contribuinte.
PROCESSO JUDICIAL POSTERIOR AO LANÇAMENTO. IDENTIDADE DE OBJETO. CONCOMITÂNCIA. SÚMULA CARF N° 01.
"Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial."
ALEGAÇÃO DE CONTRARIEDADE A PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS. IMPOSSIBILIDADE. APLICAÇÃO DA SÚMULA CARF N°. 02
Aplicação da Súmula CARF n°. 02: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária.
TRABALHADOR TEMPORÁRIO. SEGURADO OBRIGATÓRIO. RGPS.
O trabalhador temporário é segurado obrigatório do RGPS na qualidade de empregado e o vínculo empregatício se estabelece, em regra, com a empresa que arregimenta a mão-de-obra.
ALÍQUOTA DO SAT. ATIVIDADE PREPONDERANTE. CNPJ ÚNICO.
A alíquota de contribuição para o Seguro de Acidente do Trabalho (SAT) é aferida pelo grau de risco da atividade preponderante da empresa, quando houver apenas um registro no CNPJ.
Considera-se preponderante a atividade que ocupa em cada competência, o maior número de segurados empregados, trabalhadores avulsos e médicos residentes.
Numero da decisão: 2201-004.090
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares arguidas e, no mérito, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Carlos Henrique de Oliveira - Presidente
(assinado digitalmente)
Daniel Melo Mendes Bezerra - Relator
EDITADO EM: 06/03/2018
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Douglas Kakazu Kushiyama, Marcelo Milton da Silva Risso, Daniel Melo Mendes Bezerra e Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim. Ausente justificadamente a Conselheira Dione Jesabel Wasilewski.
Nome do relator: DANIEL MELO MENDES BEZERRA
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares arguidas e, no mérito, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Carlos Henrique de Oliveira - Presidente (assinado digitalmente) Daniel Melo Mendes Bezerra - Relator EDITADO EM: 06/03/2018 Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Douglas Kakazu Kushiyama, Marcelo Milton da Silva Risso, Daniel Melo Mendes Bezerra e Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim. Ausente justificadamente a Conselheira Dione Jesabel Wasilewski.
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MPF. O MPF é mecanismo de controle administrativo e nenhuma irregularidade houve em relação ao mandado, uma vez que regularmente emitido e cientificado à Contribuinte. PROCESSO JUDICIAL POSTERIOR AO LANÇAMENTO. IDENTIDADE DE OBJETO. CONCOMITÂNCIA. SÚMULA CARF N° 01. "Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial." ALEGAÇÃO DE CONTRARIEDADE A PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS. IMPOSSIBILIDADE. APLICAÇÃO DA SÚMULA CARF N°. 02 Aplicação da Súmula CARF n°. 02: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. TRABALHADOR TEMPORÁRIO. SEGURADO OBRIGATÓRIO. RGPS. O trabalhador temporário é segurado obrigatório do RGPS na qualidade de empregado e o vínculo empregatício se estabelece, em regra, com a empresa que arregimenta a mãodeobra. ALÍQUOTA DO SAT. ATIVIDADE PREPONDERANTE. CNPJ ÚNICO. A alíquota de contribuição para o Seguro de Acidente do Trabalho (SAT) é aferida pelo grau de risco da atividade preponderante da empresa, quando houver apenas um registro no CNPJ. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 48 0. 72 18 60 /2 00 9- 25 Fl. 3566DF CARF MF Processo nº 10480.721860/200925 Acórdão n.º 2201004.090 S2C2T1 Fl. 3.567 2 Considerase preponderante a atividade que ocupa em cada competência, o maior número de segurados empregados, trabalhadores avulsos e médicos residentes. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares arguidas e, no mérito, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Carlos Henrique de Oliveira Presidente (assinado digitalmente) Daniel Melo Mendes Bezerra Relator EDITADO EM: 06/03/2018 Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Douglas Kakazu Kushiyama, Marcelo Milton da Silva Risso, Daniel Melo Mendes Bezerra e Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim. Ausente justificadamente a Conselheira Dione Jesabel Wasilewski. Relatório Tratase de recurso voluntário interposto em face do Acórdão nº 1268.281 13a Turma da DRJ/RJ1, o qual julgou procedente em parte a impugnação apresentada para desconstituir o Auto de Infração, pelo qual se exige contribuição previdenciária incidente sobre a folha de pagamento de contribuintes individuais e segurados empregados. A descrição dos fatos foi feita de modo elucidativo pela decisão de piso, nos termos seguintes: Tratase de Auto de Infração (AI n° 37.200.3230) lavrado contra a empresa acima identificada, referente às contribuições da empresa destinadas à Seguridade Social, estabelecidas no art. 22, incisos I, II e III da Lei n° 8.212/91. Esclarece o relatório (fls.218/233) que as contribuições incidem sobre remunerações efetuadas a segurados empregados e contribuintes individuais que não foram declaradas em Guia do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social GFIP, sendo que tal omissão também motivou a lavratura do Auto de Infração pelo descumprimento da obrigação acessória contido no Al n° 37.146.3700 (Código de Fundamentação Legal CFL 68), que integra o processo n° 10480.721869/200936. Os lançamentos objeto deste AI foram consolidados nos seguintes códigos de levantamentos: Cód.DESCRIÇÃO Fl. 3567DF CARF MF Processo nº 10480.721860/200925 Acórdão n.º 2201004.090 S2C2T1 Fl. 3.568 3 B01 PRO LABORE remuneração de prólabore das sócias Cleônides e Sônia, seguradas contribuintes individuais, no valor de R$ 3.000,00 mensal para cada uma, nas competências 02/2004 a 12/2004 (salvo 05/2004 e 07/2004), e aplicada multa anterior (24%). B63 PRESTADOR DE SERVIÇO PF AUTÔNOMO relacionado às remunerações pagas aos demais contribuintes individuais por serviços prestados sem vinculo empregatício, no mês de 02/2004 a 12/2004 (exceto 07/2004). Aplicação da multa anterior (24%). CLT FPAS 515 CONTR INDETERMINADO relativo às remunerações pagas aos segurados empregados (contrato por tempo indeterminado), nos meses de 02/2004 a 12/2004. Aplicação de multa anterior (24%). MOT FPAS 655 CONTR DETERMINADO MOT referentes às remunerações pagas aos segurados empregados (contrato por prazo determinado Lei n° 6.019/74), nas competências 03/2004 a 12/2004 (salvo 05/2004) Aplicação de multa anterior (24%). A09 ALIMENTAÇÃO salário ”in natura” consistente no pagamento do custeio das refeições concedidas aos segurados empregados, identificada na contabilidade na conta 91101010011 e 91101010013. RAI DIFERENÇA RAIS X DIÁRIO diferença de remuneração verificada na Relação Anual de Informações Sociais RAIS e nos lançamentos contábeis nas contas: 91101010001, 91101010002, 91101010003, 91101010007, 91101010008, 91101010015, 21103030001, 21103050001, 21104010001, 21108010001 e 21108020001, relativos às competências: 06/2004, 08/2004, 10/2004, 11/2004 e 12/2004. Diferenças essas não declaradas em GFIP. CSF REMUNERAÇÃO SAL FAMFPAS 515 remuneração do segurado empregado relativo à quota do saláriofamília pago em desacordo com a lei (não comprovação da documentação relativa à concessão do benefício, a saber: Certidão de nascimento; Termo de guarda judicial/ tutela, Certidão de casamento do segurado e de nascimento do enteado; Termo de responsabilidade, Atestado anual de vacinação obrigatória ou documento equivalente para dependente até 7 anos; Freqüência escolar semestral em maio e novembro, para dependentes a partir dos 7 anos). GDC GLOSA DEDUÇÃO FPAS 515 valores glosados de saláriofamília em razão da não apresentação de documentos obrigatórios. GLO GLOSA COMPENSAÇÃO Valores glosados de compensação, nas competências 01/2004, 05/2004 e 08/2004, em decorrência da não comprovação da origem dos valores compensados, declarados em GFIP. Fl. 3568DF CARF MF Processo nº 10480.721860/200925 Acórdão n.º 2201004.090 S2C2T1 Fl. 3.569 4 GDM GLOSA DEDUÇÃO FPAS 655 valores glosados de saláriofamília em razão da não apresentação de documentos obrigatórios. MSF REMUNERAÇÃO SAL FAMFPAS 655 remuneração do segurado empregado relativo à quota do saláriofamília pago em desacordo com a lei. (não comprovação da documentação relativa à concessão do benefício). Explica ainda o Autuante que os Levantamentos iniciados com a letra Z foram criados para aplicação da multa de ofício (75%) e que acostou planilhas que demonstram as diferenças entre os valores declarados em GFIP e os montantes apurados na escrita contábil. Informa que o contribuinte entregou, em 26/01/2009, GFIP retificadora para o FPAS 515 nas competências de 01/2004 a 04/2004 declarando apenas um segurado: José Ricardo Alves. Todavia, como o procedimento fiscal já havia sido iniciado, essa declaração foi desconsiderada e a contribuição nela declarada compõe a base de cálculo do levantamento ora realizado. Segue em anexos as telas GFIP WEB. Informa, ainda, que a multa de ofício das competências 01/2004, 05/2004 a 11/2004 foi agravada em 50% tendo em vista a ocorrência da conduta prevista no inciso II do §2° do art. 44 da Lei n° 9.430/96, uma vez que a empresa, apesar de intimada no TIAF de 13/02/2008, deixou de fornecer à fiscalização os arquivos digitais relacionados à contabilidade e folha de pagamento (TIAF). Explica que, apesar de reiteradamente intimada, a Autuada deixou de apresentar à fiscalização vários documentos relacionados com as contribuições previdenciárias, destacando as folhas de pagamentos de décimo terceiro salário, documentação relativa à concessão de benefícios saláriofamília e saláriomaternidade e documentação dos lançamentos nas contas de pagamento de pessoas físicas sem vínculo empregatício. Relata também que a empresa lançou na mesma conta remunerações a pessoas físicas sujeitas ou não à incidência da contribuição previdenciária, bem como escriturou pagamentos a pessoas jurídicas juntamente com o de pessoas físicas, acrescentando que os históricos das contas muitas vezes não expressam o verdadeiro significado das transações. Por fim, conclui: “Relativamente à contagem do prazo decadencial aqui considerada, tendo em vista os fatos listados nos tópicos anteriores, associado ao fato de tratarse de lançamento de ofício e a conclusão de que os fatos geradores levantados ocorreram de forma sistemática, configurandose rotina administrativa da empresa que tais omissões caracterizam a ocorrência de fraude ”latu sensu”, iniciase, por conseguinte, a contagem do prazo para a Fazenda Nacional exercer o direito de constituir a exigência tributária através de lançamento de ofício, Fl. 3569DF CARF MF Processo nº 10480.721860/200925 Acórdão n.º 2201004.090 S2C2T1 Fl. 3.570 5 no primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, conforme determinado nos artigos 150, §4° combinado com o art. 173, inciso I, ambos do Código Tributário Nacional. ” Alega que não há mandados de procedimento que comprovam a prorrogação tempestiva do prazo de fiscalização, pelo que defende a nulidade do auto de infração. “... apenas no dia 09/outubro/2008, quando já expirado há mais de 4 (quatro) meses o prazo fatal para a conclusão da fiscalização, é que foi lavrado novo TERMO DE CIÊNCIA E DE CONTINUAÇÃO DE PROCEDIMENTO FISCAL, lavrado, justamente pelos mesmos Auditores Fiscais que iniciaram o procedimento fiscal.” Ressalta a adoção de regime de tributação pelo lucro presumido, razão pela qual enquadrase em exclusão da obrigação de escriturar o Livro Diário ou Razão; Entende que “caberia ao Auditor Fiscal apurar as informações contidas no LIVRO CAIXA ainda que o LIVRO RAZÃO tivesse registrado na JUCEPE, posto que, conforme exposto anteriormente, tal livro NÃO É OBRIGATÓRIO .” Alega que as Contribuições Previdenciária nos valores mensais de R$ 1.200,00 incidente sobre as remunerações pagas as sócias CLEÔNIDES LOURENÇO DA SILVA e SÔNIA MARIA LOURENÇO DA SILVA foram tempestivamente pagas. Denomina “estranha” a forma de apuração das bases de cálculos das contribuições sociais. Defende novamente a nulidade do auto de infração em virtude de se basear no livro diário e repisa o fato de ter vertido pagamentos em GPS. Questiona como pode um mesmo documento (folhade pagamento) servir para extrair a base de cálculo da Contribuição Previdenciária dos Segurados, e este mesmo documento não servir para extrair a base de cálculo da Contribuição da Empresa. Ressalta que o valor constante no LIVRO DIÁRIO é superior ao valor da RAIS, e que estaria sendo cobrado duas vezes, em levantamentos distintos. Com vistas a comprovar que o SALÁRIOFAMÍLIA foi pago de acordo com o que prescreve a Lei n° 8.213/91, apresenta os documentos de fls. 2.591/3.447. Entende que os promotores de vendas, ainda que contratados sob o regime da Lei n.° 6.019/74, devem ser enquadrados no grau de risco leve (1%). Defende a impossibilidade de se considerar os custos com alimentação como base de cálculo da contribuição previdenciária. Entende que, apesar de não ter procedido ao recadastramento imposto pela Portaria n.° 66, de 19.12.2003, Fl. 3570DF CARF MF Processo nº 10480.721860/200925 Acórdão n.º 2201004.090 S2C2T1 Fl. 3.571 6 sua inscrição anterior no PAT não poderia ter sido desconsiderada. Entende que não deve contribuição previdenciária sobre a remuneração dos trabalhadores que agencia para tomadores de mãodeobra temporária definida na Lei n.° 6.019, de 03.01.1974. “O trabalhador temporário não possui vínculo empregatício com nenhuma das partes, ou seja, o trabalhador temporário não é empregado da Impugnante, nem tampouco do tomador dos serviços. ” (...)A Impugnante faz, tãosomente, o repasse das remunerações dos trabalhadores temporários, posto que, como exposto alhures, inclui o valor dos salários e dos encargos trabalhistas nas suas notas fiscais, para poder, depois de recebidas, repassálos imediatamente aos seus legítimos e únicos proprietários, os trabalhadores temporários. Neste diapasão, se o trabalhador temporário vier a ter vínculo empregatício com alguém, o terá com o tomador dos seus serviços, após o término da sua prestação de trabalho temporário, e nunca com a Impugnante.” Defende a exclusão da parcela relativa aos pagamentos efetuados a título de "1/3 de férias" e horas extras da composição da base de cálculo da contribuição previdenciária. Entende que apenas a Lei Complementar poderia instituir a contribuição em questão, pois se trataria de uma nova fonte de custeio da Previdência Social. A DRJ Rio de Janeiro I proferiu decisão (acórdão de fls. 3.468/3487), nos termos da seguinte ementa: MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL. INSTRUMENTO DE CONTROLE DA ADMINISTRAÇÃO. VALIDADE DO LANÇAMENTO. É válido o lançamento fiscal realizado com amparo de Mandado de Procedimento Fiscal, cujo número foi devida e formalmente informado ao contribuinte por ocasião da entrega do termo de início do procedimento fiscal. LIVRO DIÁRIO. EFEITOS FISCAIS. A empresa, mesmo desobrigada, que opta por apresentar o livro diário ao fisco, não pode se opor ao efeito probante que o livro produz. Inteligência do art. 45, parágrafo único, da Lei n. 8.981/1995 combinado com o art. 226 do Código Civil/2002. MANIFESTAÇÃO GENÉRICA. PRECLUSÃO PROCESSUAL ADMINISTRATIVA. A matéria não expressamente impugnada está sujeita à preclusão. Necessidade de estabilização do processo contencioso fiscal. Inteligência do Art. 17 do Decreto 70.235/72. ILEGALIDADE E INCONSTITUCIONALIDADE. JULGAMENTO ADMINISTRATIVO. Fl. 3571DF CARF MF Processo nº 10480.721860/200925 Acórdão n.º 2201004.090 S2C2T1 Fl. 3.572 7 É defeso ao julgador administrativo se pronunciar sobre ilegalidade ou inconstitucionalidade de normas em vigor. CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS. EMPRESA DE TRABALHO TEMPORÁRIO. A empresa de trabalho temporário é obrigada a recolher as contribuições previdenciárias incidentes sobre a remuneração de todos os segurados a seu serviço, inclusive dos trabalhadores cujo contrato é regido pela Lei n.° 6.019, de 03.01.1974. SAT. ATIVIDADE PREPONDERANTE. ALÍQUOTA. APLICAÇÃO. A contribuição a cargo da empresa, destinada à Seguridade Social, para o financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientais do trabalho, terá sua alíquota variada conforme a atividade preponderante da empresa. Considerase preponderante a atividade que ocupa, na empresa, o maior número de segurados empregados e trabalhadores avulsos. A legislação de regência determina a Relação de Atividades Preponderantes e correspondentes Graus de Risco, de acordo com o enquadramento da empresa conforme a Classificação Nacional de Atividades Econômicas. SALÁRIO FAMÍLIA COMPROVAÇÃO DE REGULARIDADE. Comprovada a existência dos documentos que fundamentam o pagamento do saláriofamília, reconhecese o direito à compensação dos valores pagos pela empresa aos segurados, tornando insubsistente o lançamento com base nas glosas do benefício. AUXÍLIOALIMENTAÇÃO IN NATURA. NÃO INCIDÊNCIA. Não incidem contribuições previdenciárias e as destinadas a terceiros sobre o auxílioalimentação in natura. Jurisprudência pacífica do Egrégio Superior Tribunal de Justiça. PARECER PGFN/CRJ/Nº 2117 /2011. Aplicação da Lei n° 10.522, de 19 de julho de 2002, na redação da Lei 12.844/2013, e do Decreto n° 2.346, de 10 de outubro de 1997. A ciência dessa decisão ocorreu em 09/07/2015 (fl.3499) e o recurso voluntário foi tempestivamente apresentado em 30/07/2015 (fls. 3504/3530). Em suas razões recursais o sujeito passivo reitera os termos expendidos na peça defensiva, excetuando o pagamento de auxílioalimentação in natura, cuja decisão lhe foi favorável no julgamento de primeira instância e a descaracterização dos valores pagos a título de saláriofamília. É relatório. Voto Fl. 3572DF CARF MF Processo nº 10480.721860/200925 Acórdão n.º 2201004.090 S2C2T1 Fl. 3.573 8 Conselheiro Daniel Melo Mendes Bezerra Relator Admissibilidade O recurso voluntário apresentado preenche os requisitos de admissibilidade, devendo, pois, ser conhecido. Preliminarmente Da nulidade Ausência de prorrogação tempestiva do Mandado de Procedimento Fiscal MPF Argumenta o recorrente que o Mandado de Procedimento Fiscal – MPF foi prorrogado diversas vezes, com a continuidade dos trabalhos pelo mesmo AuditorFiscal. No seu entendimento, a prorrogação obrigatoriamente demandaria um novo AuditorFiscal para a continuidade do procedimento, sendo nulo o lançamento por ter sido lavrado por autoridade incompetente, inteligência do art. 14, inciso II4 e 155 da Portaria/RFB n.° 11.371/2007 c/c art. 59, inciso I, do Decreto n.° 70.235/72. De pronto, afasto a preliminar de nulidade da aventada no recurso voluntário, tendo em vista que não se verificam nos autos quaisquer das hipóteses previstas no art. 59 do Decreto n° 70.235, de 1972, verbis: “Art. 59. São nulos; I os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa.” A autoridade fiscal que presidiu o procedimento é ocupante do cargo de AuditorFiscal da Receita Federal do Brasil, sendo competente, no exercício de suas atribuições, para lavrar todos os termos necessários para o correto desempenho de suas funções. Os atos e termos lavrados por pessoa competente, dentro da estrita legalidade e garantido o mais absoluto direito de defesa, mediante abertura do prazo legal de impugnação, não há que se cogitar de nulidade dos autos de infração. Igualmente foram atendidos os preceitos do artigo 10 do PAF (Decreto n° 70.235, de 1972), ratificando a inexistência da nulidade pretendida, pelo que se indefere o pleito. Acerca da alegada irregularidade no Mandado de Procedimento Fiscal (MPF) que macularia o lançamento e provocaria sua nulidade, a decisão recorrida detalhadamente enfrentou o ponto, posição com a qual concordo e adoto como razões de decidir. Está pacificado o entendimento na jurisprudência administrativa de que o Mandado de Procedimento Fiscal (MPF), seja ele de Fiscalização, de Diligência ou Especial, prestase primordialmente a controle de natureza interna da Receita Federal, embora também Fl. 3573DF CARF MF Processo nº 10480.721860/200925 Acórdão n.º 2201004.090 S2C2T1 Fl. 3.574 9 permita aos contribuintes aferir se a ação fiscal que se realiza é realmente originária do órgão tributário, se o servidor é da carreira de auditoria, quais são os tributos envolvidos, período, etc. Ou seja, é regramento administrativo que dá as diretrizes do procedimento a ser levado a efeito, sem, jamais, suprir a competência legal do servidor responsável pela ação fiscal prevista no artigo 142 do Código Tributário Nacional: Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Parágrafo único. A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional. Nesse contexto, cabe ao AuditorFiscal que preside o feito elaborar os termos que entender necessários para o melhor cumprimento do trabalho fixado, sendo tais termos aqueles que iniciam, dão sequência ou encerram a ação fiscal, aí incluídas eventuais circularizações, pesquisas ou obtenção de dados, bem como o procedimento de requerer, internamente, a conversão de um MPF de Diligência em MPF de Fiscalização, se as circunstâncias e os fatos assim exigirem. A jurisprudência do CARF já pacífica acerca do assunto: Assunto:Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 31/07/1999 a 31/03/2004 Ementa: MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL. O Mandado de Procedimento Fiscal MPF se constitui de mero controle administrativo, visando, sobretudo, proporcionar segurança ao contribuinte, não tendo o condão de tornar nulo lançamento corretamente efetuado, sob pena de contrariar o Código Tributário Nacional e o Decreto n° 70.235/72, o que não se permite a uma Portaria. (Acórdão n° 20180670 Relator Maurício Taveira e Silva) E, para que não pairem dúvidas sobre a competência dos Auditores Fiscais da Receita Federal para diligenciar e fiscalizar os contribuintes, observemse os seguintes artigos do RIR/1999 (Decreto n° 3.000, de 26 de março de 1.999): Art. 904. A fiscalização do imposto compete às repartições encarregadas do lançamento e, especialmente, aos Auditores Fiscais do Tesouro Nacional, mediante ação fiscal direta, no domicílio dos contribuintes (Lei n° 2.354, de 1954, art. 7°, e DecretoLei n° 2.225, de 10 de janeiro de 1985). § 1° A ação fiscal direta, externa e permanente, realizarseá pelo comparecimento do AuditorFiscal do Tesouro Nacional no domicílio do contribuinte, para orientálo ou esclarecêlo no cumprimento de seus deveres fiscais, bem como para verificar a Fl. 3574DF CARF MF Processo nº 10480.721860/200925 Acórdão n.º 2201004.090 S2C2T1 Fl. 3.575 10 exatidão dos rendimentos sujeitos à incidência do imposto, lavrando, quando for o caso, o competente termo (Lei n° 2.354, de 1954, art. 7°). Art. 911. Os AuditoresFiscais do Tesouro Nacional procederão ao exame dos livros e documentos de contabilidade dos contribuintes e realizarão as diligências e investigações necessárias para apurar a exatidão das declarações, balanços e documentos apresentados, das informações prestadas e verificar o cumprimento das obrigações fiscais (Lei n° 2.354, de 1954, art. 7°). Em suma, o MPF não é o meio hábil para se considerar iniciada, continuada ou finalizada uma fiscalização, mas instrumento de controle da RFB e que, disponibilizado ao contribuinte, permite lhe conhecer detalhes do procedimento que será levado a efeito em seu estabelecimento. Como dito alhures, é remansosa a jurisprudência do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, em todas as suas Câmaras, a respeito de nulidades suscitadas em relação ao Mandado de Procedimento Fiscal, todas improvidas: PAF MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL MPF PRORROGAÇÃO VALIDADE A competência para execução de fiscalização, delegada através de Mandado de Procedimento Fiscal, não desconhece o princípio da competência vinculada do servidor administrativo e da indisponibilidade dos bens públicos. Continuação de trabalho fiscal com prorrogação feita tempestivamente, por meio eletrônico, é válida nos termos das Portarias do Ministério da Fazenda de n°s 1265/1999, 3007/2001 e 1.468/2003. (Data da Sessão 14/09/2007 Relator Paulo Roberto Cortez Acórdão n° 10196351). Do mesmo modo: Sexta Câmara/Primeiro Conselho de Contribuintes Acórdão n° 10615259 Data da Sessão 25/01/2006 Relator(a) Luiz Antonio de Paula MPF NULIDADE DO LANÇAMENTO Comprovado nos autos a emissão regular do MPF bem como do MPF complementar e prorrogações, deve ser afastada a preliminar de nulidade calcada em alegada irregularidade ou inexistência de tais documentos. MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL (MPF). NULIDADE DE AUTO DE INFRAÇÃO. INOCORRÊNCIA. Constituindose o MPF em elemento de controle da administração tributária, disciplinado por ato administrativo, eventual irregularidade formal nele detectada não enseja a nulidade do auto de infração, nem de quaisquer Termos Fiscais lavrados por agente fiscal competente para proceder ao lançamento, atividade vinculada e obrigatória nos termos da lei. Fl. 3575DF CARF MF Processo nº 10480.721860/200925 Acórdão n.º 2201004.090 S2C2T1 Fl. 3.576 11 Igualmente, os Acórdãos n°s 10809653, Relator Cândido Rodrigues Neuber; 10248948, Relator José Raimundo Tosta Santos; 10422515, Relator Antonio Lopo Martinez. MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL. CAUSA DE NULIDADE. A Portaria SRF n° 3.007/2002 é mero ato infralegal destinado à administração de recursos humanos da Secretaria da Receita Federal, não se confundindo, por conseguinte, com norma atributiva de competência. A doutrina é sólida na afirmação de que somente a lei pode definir o círculo de atribuições dos órgãos e dos agentes públicos, vedandose ao administrador a imposição de restrições ou mesmo a ampliação dos poderes deveres conferidos pelo legislador. Tampouco a citada Portaria possui natureza procedimental, pois, como é cediço, o procedimento de fiscalização se curva ao Decreto n° 70.235/72, que tem status de lei e vigência preservada por norma legal superveniente, nos termos do artigo 69 da Lei n° 9.784/99. Sendo assim, o Poder Legislativo cuidou sozinho de estabelecer as normas processuais administrativas, sem autorizar o Executivo a imiscuirse nessa função. Portanto, seja no tocante à competência administrativa, seja no tocante à execução do procedimento em si, não se vislumbra, na espécie, a degradação do grau hierárquico da norma, presente quando a lei, para descongestionar o órgão legislativo, sem regulamentar a matéria, rebaixa formalmente o seu grau normativo, remetendo a normação dessa mesma matéria ao Poder Executivo (Processo n° 16327.002075/200252 3a Câmara 1° Conselho de Contribuintes Sessão em 28/02/2007 Relator Flávio Franco Corrêa Acórdão 10322886). Assim sendo, resta claro que eventual perda de validade de um Mandado de Procedimento Fiscal (MPF), não enseja a nulidade do procedimento fiscal, não merecendo provimento o inconformismo do recorrente. Da utilização de informações do Livro Diário Argumenta o recorrente ser optante pelo regime de tributação do Imposto de Renda Pessoa Jurídica IRPJ com base no lucro presumido, sendo que em virtude do disposto no art. 45, parágrafo único, da Lei n. 8.981, de 20.01.1995, não está obrigada a manter o Livro Diário. Lembra que não está impedida de manter tal livro, posto que isto só lhe será uma faculdade. Caberia ao AuditorFiscal apurar as informações contidas no LIVRO CAIXA ainda que o LIVRO RAZÃO tivesse registrado na JUCEPE, posto que em nenhum dos termos de intimação para apresentação de documentos foi solicitado o o Livro Caixa, restringindose a solicitar justamente o Livro Diário e Livro Razão, que, conforme citado anteriormente, são dispensados. Nesse tocante, mandou bem a decisão de piso, ao observar que houve uma alteração legislativa inaugurada pelo Decreto 3.265, de 29/11/1999, que alterou o parágrafo 16 do artigo 225 do Regulamento da Previdência Social, aprovado pelo Decreto 3.048/99, a Fl. 3576DF CARF MF Processo nº 10480.721860/200925 Acórdão n.º 2201004.090 S2C2T1 Fl. 3.577 12 expressão “são dispensadas” para “são desobrigadas”, em consonância com o art. 45, parágrafo único, da Lei n. 8.981/1995. Portanto, as empresas habilitadas à opção pelo regime de tributação com base no lucro presumido poderão optar por manter escrituração contábil ou manter o livro caixa, o qual deverá ser escriturado com toda a movimentação financeira, inclusive a bancária. Deve ser ressaltado que a escrituração de livros contábeis é uma obrigação acessória, sendo certo que em relação ao Livro Diário, estava o sujeito passivo desobrigada a cumprila, fato que por si só, não afasta a presteza das informações contidas no referido documento. No caso que se cuida, ainda que tenha sido intimada a apresentar o Livro Diário, a recorrente fez a opção por apresentálo, mesmo estando desobrigada de fazêlo. Em parte, as informações obtidas através da análise do referido documento foram utilizadas pela Fiscalização como elementos de prova para o presente lançamento. Não há nenhuma irregularidade em tal procedimento. É dever da autoridade admistrativa buscar elementos de prova para supedanear o lançamento, e o Livro Diário, não sendo documento estranho ao contribuinte, é meio válido e idôneo para embasar referido ato administrativo. De igual modo, não há óbice à Fiscalização de considerar o maior valor de base de cálculo dentre os meios de prova apreciados, sejam folhas de pagamento, RAIS ou livros contábeis, razão qual não procede o argumento do recorrente de que houve erro no lançamento em relação à competência dezembro/2014. Destarte, não merece guarida a alegação recursal, devendo ser afastada a preliminar de nulidade suscitada. Da exigência de crédito tributário contrário à decisão judicial Aduz a recorrente que, após o lançamento, obteve provimento jurisdicional para afastar a cobrança de 1/3 de férias, férias usufruídas, avisoprévio indenizado, auxílio doença e auxílio acidente. Contudo, a recorrente não demonstrou que as verbas controvertidas estão contidas no presente lançamento. Os levantamentos foram apurados com base em documentos fornecidos pelo contribuinte: livros contábeis, folhas de pagamento e RAIS, mas não foram declarados em GFIP. Em obediência ao princípio da unidade de jurisdição, todas as verbas supra nominadas não podem ser apreciadas no âmbito do presente processo, eis que submetidas à apreciação do Poder Judiciário. Embora de fato haja uma divergência jurisprudencial na tese apresentada pelo recorrente, aplicase ao caso o parágrafo único do art. 38 da Lei n° 6.830/80 o qual prevê que a propositura, pelo contribuinte, de ação judicial com o propósito de discutir os termos da relação tributária importa em renúncia ao poder de recorrer na esfera administrativa e desistência do recurso acaso interposto. Fl. 3577DF CARF MF Processo nº 10480.721860/200925 Acórdão n.º 2201004.090 S2C2T1 Fl. 3.578 13 Esse mandamento já foi internalizado por este Conselho por meio da Súmula CARF n° 01: Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial. Os autores Marcos Vinícius Neder e Maria Teresa Martinez López, na obra Processo Administrativo Fiscal Federal Comentado (Editora Dialética. São Paulo 2010, p. 299) explicam que a súmula reflete o fundamento de que o ordenamento jurídico brasileiro adota o princípio da jurisdição una, estabelecido no artigo 5°, inciso XXXV, da Carta Política de 1988. A todo rigor, inexiste dispositivo legal que permita a discussão paralela da mesma matéria em instâncias diversas, sejam elas administrativas ou judiciais ou uma de cada natureza. Do trabalhador temporário incidência da contribuição previdenciária Argumenta a recorrente que não pode incidir contribuição previdenciária sobre os pagamentos realizados a trabalhadores temporários. Todavia, deve ser ressaltado que essa tese não encontra respaldo no ordenamento jurídico brasileiro. O trabalhador temporário, regulamentado inicialmente pela Lei nº 6.019/1974, é segurado obrigatório da Previdência Social, na condição de empregado. Trabalhador temporário é aquele que, contratado por empresa de trabalho temporário, por prazo não superior a três meses, prorrogável, presta serviço para atender a necessidade transitória de substituição de pessoal regular e permanente ou a acréscimo extraordinário de serviço de outras empresas. A Lei nº 8.212/91 prevê: Art. 12. São segurados obrigatórios da Previdência Social as seguintes pessoas físicas: I como empregado: (...) b) aquele que, contratado por empresa de trabalho temporário, definida em legislação específica, presta serviço para atender a necessidade transitória de substituição de pessoal regular e premanente ou a acréscimo extraordinário de serviços de outras empresas. (...) A redação do dispositivo legal é tão cristalina que sequer se tem notícia de questionamentos judiciais acerca da condição de segurado obrigatório do Regime Geral de Previdência Social RGPS dos trabalhadores temporários. Assim sendo, o tema não comporta maiores digressões, sendo manifestamente improcedente o inconformismo recursal. Fl. 3578DF CARF MF Processo nº 10480.721860/200925 Acórdão n.º 2201004.090 S2C2T1 Fl. 3.579 14 Inconstitucionalidade da exigência de contribuições do trabalhador temporário No que pertine às alegações de inconstitucionalidade de lei válida, vigente e eficaz não cabe manifestação desse colegiado. É vedado ao julgador administrativo negar aplicação de lei sob alegação de inconstitucionalidade. O tema é pacificado no âmbito deste Conselho Administrativo, nos termos da Súmula CARF n° 02: Súmula CARF n°. 02: “O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de Lei Tributária”. A autoridade administrativa é vinculada à legalidade estrita, seja nos termos da Lei 8.112 de 1990, em seu artigo 116, III, seja pelo artigo 41, inciso IV, do Anexo II, do atual Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (RICARF), aprovado pela Portaria MF n° 343, de 09/06/2015. Assim, a partir do momento em que a norma é inserida em nosso sistema legislativo, é obrigação da autoridade administrativa a sua aplicação, não cabendo ao julgador administrativo expressar seu juízo de valor por eventuais injustiças que esta norma tenha causado, papel este incumbido aos tribunais competentes. A hipótese colocada, sem dúvida alguma, configura aquela situação prevista na Súmula CARF nº 02 supra transcrita. Destarte, a decisão recorrida não merece ser reformada quanto aos pontos alegados pela recorrente. Inexigibilidade da contribuição ao SAT equiparação com trabalhadores autônomos Aduz a recorrente que não deve pagar a contribuição destinada ao financiamento da incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientais do trabalho e que o trabalhador temporário deve ter o mesmo tratamento dispensado aos trabalhadores autônomos, pleiteando uma equiparação. A pretensão recursal não pode prosperar à mingua de amparo legal. Os segurados empregados e os segurados contribuintes individuais são filiados obrigatórios do RGPS. Enquanto o segurado empregado possui vínculo empregatício, o segurado contribuinte individual exerce trabalho por conta própria. A legislação de regência (Lei nº 8.212/91) prevê a contribuição para o GILRAT, e adota como base de cálculo a folha salarial de empregados e trabalhadores avulsos. Vejamos: (Lei nº 8.212/91) Art. 22. A contribuição a cargo da empresa, destinada à Seguridade Social, além do disposto no art. 23, é de: I vinte por cento sobre o total das remunerações pagas, devidas ou creditadas a qualquer título, durante o mês, aos segurados empregados e trabalhadores avulsos que lhe prestem serviços, destinadas a retribuir o trabalho, qualquer que seja a sua forma, inclusive as gorjetas, os ganhos habituais sob a forma de utilidades e os adiantamentos decorrentes de reajuste salarial, quer pelos Fl. 3579DF CARF MF Processo nº 10480.721860/200925 Acórdão n.º 2201004.090 S2C2T1 Fl. 3.580 15 serviços efetivamente prestados, quer pelo tempo à disposição do empregador ou tomador de serviços, nos termos da lei ou do contrato ou, ainda, de convenção ou acordo coletivo de trabalho ou sentença normativa II para o financiamento do benefício previsto nos arts. 57 e 58 da Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991, e daqueles concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientais do trabalho, sobre o total das remunerações pagas ou creditadas, no decorrer do mês, aos segurados empregados e trabalhadores avulsos; a) 1% (um por cento) para as empresas em cuja atividade preponderante o risco de acidentes do trabalho seja considerado leve; b) 2% (dois por cento) para as empresas em cuja atividade preponderante esse risco seja considerado médio; c) 3% (três por cento) para as empresas em cuja atividade preponderante esse risco seja considerado grave. Desse modo, não merece provimento o pleito do recorrente. Do enquadramento da alíquota do SAT A controvérsia neste processo é o estabelecimento do correto percentual de grau de risco em função da atividade preponderante do contribuinte, já que se utiliza de registro único no CNPJ. Conforme exposto pelo recorrente, a jurisprudência do STJ se firmou no sentido de que a alíquota da contribuição para o SAT/GILRAT deve ser aferida pelo grau de risco desenvolvido em cada empresa, individualizada pelo seu CNPJ, ou pelo grau de risco da atividade preponderante quando houver apenas um registro. O enunciado da Súmula n° 351 do STJ assim dispõe: A alíquota de contribuição para o Seguro de Acidente do Trabalho (SAT) é aferida pelo grau de risco desenvolvido em cada empresa, individualizada pelo seu CNPJ, ou pelo grau de risco da atividade preponderante quando houver apenas um registro. O enquadramento no correspondente grau de risco será feito pela atividade econômica da empresa em conformidade com a Classificação Nacional de Atividades EconômicasCNAE. A empresa com estabelecimento único e mais de uma atividade econômica simulará o enquadramento em cada atividade, definindo como preponderante aquela que ocupe o maior número de segurados empregados, trabalhadores avulsos e médicos residentes. As atividades econômicas das empresas e o respectivo grau de risco compõem a Relação de Atividades Preponderantes e Correspondentes Graus de Risco, Fl. 3580DF CARF MF Processo nº 10480.721860/200925 Acórdão n.º 2201004.090 S2C2T1 Fl. 3.581 16 (conforme a CNAE) Anexo V do Regulamento da Previdência Social RPS, aprovado pelo Decreto n° 3.048/1999, vigendo, à época dos fatos em análise, com a redação dada pelo Decreto n° 6.042/2007. A Instrução Normativa RFB n° 1.453/2014 alterou a Instrução Normativa RFB n° 971/2009, em seu art. 72, § 1°, inciso II, ratificando o entendimento pronunciado pela sumula 351 do STJ. Sua literalidade determina que a alíquota da contribuição sobredita será aferida pelo grau de risco preponderante em cada estabelecimento da empresa que possui CNPJ próprio. É fato incontroverso nos autos que a recorrente é uma sociedade empresarial cujo objeto social é a prestação de serviços de: recrutamento, seleção de pessoal, treinamento, mãodeobra temporária (Lei n° 6.019/74); mãodeobra especializada, merchandising; promoções e eventos; telemarketing; limpeza, conservação e higienização, copa, operação de telefonia; condução de elevadores; digitação; e de motoboys, conforme previsto na cláusula 2a da 14ª alteração e consolidação do contrato social de 21/10/2003, registrado na JUCEPE em 21/11/2003 sob n° 20030924286 protocolo n° 03/0924286. O CNAE Classificação Nacional de Atividades Econômicas considerado no lançamento, tanto para os empregados contratados por prazo indeterminado, quanto para para os segurados empregados contratados sob a égide da Lei n° 6.019/74 (trabalho temporário) foi CNAE 74.500 (seleção, agenciamento e locação de mãodeobra). A atividade preponderante da empresa, ou seja a que ocupa o maior número de segurados em todos os meses do lançamento é a de seleção, agenciamento e locação de mãodeobra. Assim, temse que a contribuinte possui um único CNPJ e a atividade preponderante no período de 01/2004 a 12/2004, submente à Classificação Nacional de Atividade Econômica – CNAE 74.500, prevista no Anexo V do RPS, “seleção, agenciamento e locação de mãodeobra”, grau de risco médio, alíquota de 2%, e não de 1% como pretende a recorrente. Deste modo, deve ser mantido o lançamento SAT/GILRAT à alíquota de 2%, posto que em conformidade a legislação. Conclusão Diante do exposto, voto por conhecer do recurso voluntário apresentado para rejeitar as preliminares arguidas e, no mérito, negarlhe provimento. Daniel Melo Mendes Bezerra Relator Fl. 3581DF CARF MF Processo nº 10480.721860/200925 Acórdão n.º 2201004.090 S2C2T1 Fl. 3.582 17 Fl. 3582DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16643.000289/2010-11
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Feb 21 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Mar 28 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2005
EMBARGOS INOMINADOS. ERROS DE ESCRITA. CORREÇÃO. CABIMENTO.
Tendo a matéria sido devidamente apreciada pelo colegiado, a interrupção do texto configura erro de escrita que deve ser corrigido e complementado nos termos do quanto decidido pelo colegiado.
PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. ALEGAÇÃO DE ERRO NA VALORAÇÃO DO ESTOQUE INICIAL DE INSUMOS. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. INOVAÇÃO. NÃO CONHECIMENTO.
Não tendo sido, a matéria recorrida, suscitada na impugnação, impõe-se reconhecer sua preclusão, nos termos do art. 17 do Decreto nº 70.235/1972.
Numero da decisão: 1302-002.583
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em acolher os embargos, sem efeitos modificativos, nos termos do relatório e voto do relator.
(assinado digitalmente)
Luiz Tadeu Matosinho Machado - Presidente e Relator.
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Paulo Henrique Silva Figueiredo Rogério Aparecido Gil, Lizandro Rodrigues de Sousa, Gustavo Guimarães da Fonseca, Leonam Rocha de Medeiros (suplente convocado) e Luiz Tadeu Matosinho Machado. Ausente, momentaneamente, o Conselheiro Flávio Machado Vilhena Dias Dias
Nome do relator: LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 9; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1743; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S1C3T2 Fl. 4.883 1 4.882 S1C3T2 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS PRIMEIRA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 16643.000289/201011 Recurso nº Embargos Acórdão nº 1302002.583 – 3ª Câmara / 2ª Turma Ordinária Sessão de 23 de fevereiro de 2018 Matéria Preço de Transferência Embargante ZF DO BRASIL LTDA Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2005 EMBARGOS INOMINADOS. ERROS DE ESCRITA. CORREÇÃO. CABIMENTO. Tendo a matéria sido devidamente apreciada pelo colegiado, a interrupção do texto configura erro de escrita que deve ser corrigido e complementado nos termos do quanto decidido pelo colegiado. PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. ALEGAÇÃO DE ERRO NA VALORAÇÃO DO ESTOQUE INICIAL DE INSUMOS. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. INOVAÇÃO. NÃO CONHECIMENTO. Não tendo sido, a matéria recorrida, suscitada na impugnação, impõese reconhecer sua preclusão, nos termos do art. 17 do Decreto nº 70.235/1972. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em acolher os embargos, sem efeitos modificativos, nos termos do relatório e voto do relator. (assinado digitalmente) Luiz Tadeu Matosinho Machado Presidente e Relator. Participaram do presente julgamento os conselheiros: Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Paulo Henrique Silva Figueiredo Rogério Aparecido Gil, Lizandro Rodrigues de Sousa, Gustavo Guimarães da Fonseca, Leonam Rocha de Medeiros (suplente convocado) e Luiz Tadeu Matosinho Machado. Ausente, momentaneamente, o Conselheiro Flávio Machado Vilhena Dias Dias AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 64 3. 00 02 89 /2 01 0- 11 Fl. 5594DF CARF MF Processo nº 16643.000289/201011 Acórdão n.º 1302002.583 S1C3T2 Fl. 4.884 2 Relatório Tratase de apreciar embargos de declaração do sujeito passivo interposto em face do Acórdão nº 1302002.128, proferido por esta turma na sessão de 17 de maio de 2017, mediante o qual, por unanimidade de votos, foi negado provimento aos recurso de ofício e, por maioria de votos, foi negado provimento ao recurso voluntário, conforme consubstanciado na seguinte ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Anocalendário: 2005 LANÇAMENTO FISCAL. ERROS DE CÁLCULO. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. A simples constatação de erros nos cálculos das diferenças devidas, a partir de dados fornecidos pela própria fiscalizada, não implica na nulidade do lançamento. Assim, revelase correta a retificação do montante de tributos exigidos promovida pelo acórdão recorrido. MULTA REGULAMENTAR. FALTA DE PRESTAÇÃO DE INFORMAÇÕES. INAPLICABILIDADE. A multa regulamentar, prevista no art. 968 do RIR/99, é dirigida à falta de prestação de informações por terceiros (art. 928), quando intimado pelas autoridades fiscais. Não se aplica ao contribuinte sob fiscalização. Para os casos de recusa na prestação de informações por parte do fiscalizado, que revelem a intenção de obstaculizar a ação fiscal existe a previsão legal específica de majoração da multa de ofício que vier a ser aplicada no curso do procedimento fiscal (art. 44, § 2º da Lei 9.430/1996). PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. AJUSTES. IN.SRF. 243/2002. LEGALIDADE. A proporcionalização determinada pelos incisos do § 11 do art. 12 da IN SRF 243/02 é uma interpretação que atende aos critérios da razoabilidade, por ser mais conforme com o espírito de uma norma que regulamenta (art. 18, II, da Lei 9.430/96; adequação, vez que não cabia ao legislador pormenorizar, em texto de lei, o método de cálculo do preço parâmetro, bastando que desse contornos legais, devidamente observados pela IN 243/02; e necessidade, ao retificar a equivocada interpretação dada pela IN SRF 32/01, aperfeiçoando o método de cálculo do PRL60, de forma a permitir o controle de preços de transferência quando mais de um insumo importado estiver compondo o produto final vendido. PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. MÉTODO PRL. Fl. 5595DF CARF MF Processo nº 16643.000289/201011 Acórdão n.º 1302002.583 S1C3T2 Fl. 4.885 3 O acondicionamento do insumo importado, individualmente ou em kits, em embalagens, com aposição de marca e conseqüente agregação de valor, impõe a apuração do preço parâmetro com base no método Preço de Revenda menos Lucro (PRL), com margem de lucro de sessenta por cento. PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. FRETE E SEGURO E IMPOSTOS DE IMPORTAÇÃO. Uma vez que compõem o preço de venda do produto, o valor do frete, seguro e dos impostos de importação devem ser considerados no preço praticado para fins de apuração dos ajustes dos preços de transferência segundo o método PLR, como forma de se propiciar a comparabilidade entre o preço parâmetro e o custo de aquisição dos insumos. PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. ESCOLHA DO MÉTODO DE AJUSTE MAIS BENÉFICO. FISCALIZAÇÃO. INEXISTÊNCIA DE OBRIGATORIEDADE. Não tem a fiscalização de apurar o preço parâmetro com base em todos os métodos possíveis, com vistas a buscar o que se revele mais benéfico ao contribuinte. Cabe ao contribuinte escolher o método que vai utilizar, sendolhe assegurada a manutenção da escolha, uma vez comprovado o preçoparâmetro apurado com base em documentação idônea e apresentação das memórias de cálculo. PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. PREÇOSPARÂMETRO APURADOS COM BASE NOS MÉTODOS PRL 60 E PRL20. MÉDIA PONDERADA. CABIMENTO. Quando os insumos importados de pessoas vinculadas são aplicados em parte no processo produtivo e em parte são revendidos, ao se eleger o PRL como método de apuração, deve ser observado o preço médio ponderado do período. resultante da aplicação do método PRL20, no caso de revenda, e do método PRL60, na hipótese dos insumos aplicados na produção. A solução adotada pela fiscalização para definição de um preço parâmetro único, encontra amparo no art. 12 da IN.SRF. nº 243/2002, revelandose fórmula razoável e compatível com as demais normas que orientam a definição dos preços de transferência. PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. ALEGAÇÃO DE ERRO NA VALORAÇÃO DO ESTOQUE INICIAL DE INSUMOS. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. INOVAÇÃO. NÃO CONHECIMENTO. Não tendo sido, a matéria recorrida, suscitada na impugnação, impõese reconhecer sua preclusão, nos termos do art. 17 do Decreto nº 70.235/1972. PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. RELAÇÃO INSUMO X PRODUTO. Fl. 5596DF CARF MF Processo nº 16643.000289/201011 Acórdão n.º 1302002.583 S1C3T2 Fl. 4.886 4 A relação insumo produto deve espelhar o percentual de custos dos insumos e o custo do produto final, ou seja, qual a participação, em termos de custos, dos insumos em análise, em relação ao custo total do produto. O percentual de custos deve considerar a relação entre as quantidades de insumo consumidas e as quantidades de produto produzidas (coeficiente insumoproduto). Se para cada unidade produzida foram aplicadas 2 unidades do insumo, o preço parâmetro de uma unidade de insumo deve ser o resultado encontrado, dividido por 2. Assim, revelase correto o procedimento fiscal que, para apurar o preço parâmetro pelo método PRL60, procedeu a um ajuste do mesmo, dividindo o valor encontrado por 2 (coeficiente insumoproduto), de modo a ter ambos os preços (praticado e parâmetro) na mesma base referencial (unidade do insumo). O embargante foi cientificado do acórdão embargado em 21/08/2017, segunda feira (Termo de Ciência por Abertura de Mensagem, efl. 5.554), e os presentes embargos foram opostos em 28/08/2017, segundafeira (efl. 5.556), portanto, dentro do prazo previsto no art. 65, §1º, do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 343/2015 e alterações supervenientes. O embargante se opõs ao acórdão em face de quatro alegadas omissões, em síntese, i) saldo inicial de estoque adotado equivocadamente; ii) nulidade da decisão de 1.ª instância; iii) inaplicabilidade da IN SRF n.º 243/2002; iv) documento específico que comprova aposição da marca da empresa; e uma alegada contradição, inerente a v) provas nos autos. Os embargos foram parcialmente admitidos na condição de embargos inominados, conforme art. 66 do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF n.º 343/2015, somente quanto à matéria contida no item "i" (saldo inicial de estoque adotado equivocadamente), com a estrita finalidade de sanar a lacuna existente na forma de interrupção do texto no 5.º parágrafo do item "6" do voto condutor do acórdão. Do Despacho de Admissibilidade, proferido em 11 de outubro de 2017, extraise a seguinte análise sobre o ponto que restou admitido, verbis: [...] A análise do atendimento aos requisitos contidos no art. 65 do Anexo II do RICARF será individualizada por temas, a seguir, na forma como especificados nos embargos. i) Omissão quanto ao saldo inicial de estoque adotado equivocadamente. Aponta o embargante que o acórdão não examinou a circunstância de o Auditor Fiscal ter adotado um saldo inicial de estoque de mercadorias importadas equivocado, utilizandoo no cálculo dos preços de transferência. Afirma que a Turma julgadora não conheceu e não motivou o não conhecimento da alegação, em recurso voluntário, de que elementos como frete interno, despesas aduaneiras, Fl. 5597DF CARF MF Processo nº 16643.000289/201011 Acórdão n.º 1302002.583 S1C3T2 Fl. 4.887 5 armazenagem e montagem não devem ser acrescidos ao custo do estoque inicial, não possuindo relação com a formação do preço de transferência. Acrescenta trecho do acórdão embargado contendo insuficiência de redação, a qual qualifica como mais um componente que denotaria omissão da decisão quanto à fundamentação, nessa matéria. Transcrevo trechos do acórdão embargado, com a conclusão patente na ementa e o tratamento dado pelo relator do voto condutor ao assunto questionado pelo embargante, relativamente à omissão apontada, fundada na ausência de enfrentamento da matéria "estoque inicial apurado equivocadamente": Ementa. [...] PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. ALEGAÇÃO DE ERRO NA VALORAÇÃO DO ESTOQUE INICIAL DE INSUMOS. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. INOVAÇÃO. NÃO CONHECIMENTO. Não tendo sido, a matéria recorrida, suscitada na impugnação, impõese reconhecer sua preclusão, nos termos do art. 17 do Decreto nº 70.235/1972. [...] Voto. 6. Apuração incorreta do Saldo Inicial de Estoque Neste ponto a recorrente aponta que a autoridade fiscal cometeu um equívoco na apuração do preçoparâmetro ao deixar de considerar que o saldo do estoque inicial existente, continham em seu valor custos que não deveriam, nem poderiam ser considerados. Sustenta que o valor de aquisição e custo do estoque são conceito distintos, pois enquanto o primeiro é composto apenas pelo preço da compra o segundo contém diversos outros custos, como frete interno, armazenagem, montagem, etc. Alega que, como a autoridade fiscal não depurou esse custo, o lançamento deve ser cancelado. A PGFN aponta em suas contrarrazões que se trata de alegação inovadora por parte da recorrente, na medida em que não suscitou tal matéria em sua impugnação. Examinando o acórdão recorrido, verificase que, de fato, C [...] (grifei). No exame dos trechos transcritos, vejamos se houve alguma omissão correspondente a ponto, tema ou matéria sobre a qual a turma julgadora deveria ter se manifestado no acórdão, conforme alegado pelo embargante. A leitura da ementa, por si só já reúne as razões pelas quais o colegiado deixou de conhecer este item do recurso voluntário: concluiu pela preclusão da matéria, por não ter sido objeto de contestação em sede de impugnação, e associou o fato ao dispositivo legal aplicável (art. 17 do Decreto n.º 70.235/72). Ficou claro que Fl. 5598DF CARF MF Processo nº 16643.000289/201011 Acórdão n.º 1302002.583 S1C3T2 Fl. 4.888 6 o acórdão não se omitiu e enfrentou a questão assinalando preclusão por não ter havido inclusão deste tópico na impugnação, ou seja, a falta de análise do mérito do assunto foi voluntária, não omissiva, tendo sido justificado e fundamentado o impedimento da apreciação do tema — não ter sido incluído na fase litigiosa. Não obstante o caráter sintético da ementa, não é possível observar prejuízo para o contribuinte embargante sob o aspecto de limitação do contraditório e da ampla defesa, notadamente porque, ao contrário do afirmado nos embargos, a referida ementa contém a apropriada motivação para o não conhecimento da matéria. Avançando para a leitura do voto condutor da decisão embargada, em efetivo se verifica insuficiência de texto ao final do item "6" do voto, quando se observa truncada a redação do 5.º e último parágrafo deste item, conforme a seguir: "Examinando o acórdão recorrido, verificase que, de fato, C". Configurase então uma situação bem particular, onde a simultânea ponderação dos significados do voto e da a ementa, numa reflexão objetiva, permite admitir que a linha de juízo até o trecho, ainda que incompleto, do voto apresenta congruência com o texto ementado, principalmente porque o relator do voto condutor destaca que a preclusão fora aludida nas contrarrazões produzidas pela PGFN, e, segue no parágrafo posterior demonstrando ânimo de referência a essa alusão, com o teor conclusivo da expressão "verificase que, de fato, (...)". Até aí não se pode dizer que foi identificado ponto sobre o qual os julgadores deveriam necessariamente se pronunciar, tampouco se pode diagnosticar prejuízo para o contribuinte embargante em seu direito de defesa, uma vez que se revela suficiente a fundamentação no voto e na ementa para permitir a aferição pelo embargante acerca da viabilidade de eventual recurso especial voltado para sanar possível divergência de entendimentos, no âmbito do CARF, sobre a preclusão na forma pronunciada pela Turma ora embargada. Entretanto, é razoável dizer que a interrupção do texto configura erro de escrita, hipótese capaz de justificar a interposição de embargos inominados, conforme estabelece o art. 66 do Anexo II do RICARF. Dada a regência do princípio da fungibilidade dos recursos, entendo cabível e sob as balizas do direito a admissão dos presentes embargos exclusivamente neste formato recursal, com a estrita finalidade de sanar a lacuna havida a partir da interrupção do texto no 5.º parágrafo do item "6" do voto condutor do acórdão. [...] Os demais pontos dos embargos foram rejeitados por meio do despacho que examinou sua admissibilidade. É o relatório. Fl. 5599DF CARF MF Processo nº 16643.000289/201011 Acórdão n.º 1302002.583 S1C3T2 Fl. 4.889 7 Voto Conselheiro Luiz Tadeu Matosinho Machado Relator Os embargos foram apresentados tempestivamente e parcialmente admitidos como embargos inominados, nos termos regimentais. Impõese assim a sua apreciação. Com efeito, conforme demonstrado no despacho de admissibilidade, não obstante o colegiado tenha enfrentado a questão suscitada no recurso voluntário e decidido, por unanimidade, não conhecer da matéria, por ocasião da formalização do acórdão, parte do texto da fundamentação foi inadvertidamente excluído, restando truncada a conclusão do voto, embora corretamente espelhada na ementa. Confirase, a propósito do enfrentamento o conteúdo da decisão estampada no acórdão embargado, verbis: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso de ofício, e quanto ao recurso voluntário, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar de nulidade da autuação, e, no mérito, por maioria de votos. em negar provimento ao recurso: 1 quanto a ilegalidade da IN.SRF. nº 243/2002; 2 quanto a aplicação do Método PRL60 para produtos originalmente submetidos pela Recorrente ao cálculo conforme o método PRL20; 3 quanto ao Valor FOB x Valor CIF para fim do preço praticado; 4 quanto a escolha do preço parâmetro com base no PRL60; 5 quanto ao cálculos com base em médias ponderadas nas situações em que a mesma matériaprima foi empregada na produção de mais de um produto, ou foi destinada tanto à produção como à revenda; vencido, quanto a estes pontos, o Conselheiro Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa; e, por unanimidade, para não conhecer da alegação contida no item 6 do recurso (apuração incorreta do Saldo Inicial de Estoque), e negar provimento quanto ao item 7 Índice de participação insumo/produto, nos termos do voto do relator. A ementa, também espelha a decisão do colegiado, verbis: PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. ALEGAÇÃO DE ERRO NA VALORAÇÃO DO ESTOQUE INICIAL DE INSUMOS. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. INOVAÇÃO. NÃO CONHECIMENTO. Não tendo sido, a matéria recorrida, suscitada na impugnação, impõese reconhecer sua preclusão, nos termos do art. 17 do Decreto nº 70.235/1972. Assim, para a retomada da linha de raciocínio sobre o ponto em exame reproduzo abaixo o voto transcrito no acórdão embargado, verbis: "6. Apuração incorreta do Saldo Inicial de Estoque Neste ponto a recorrente aponta que a autoridade fiscal cometeu um equívoco na apuração do preçoparâmetro ao deixar de considerar que o saldo do estoque Fl. 5600DF CARF MF Processo nº 16643.000289/201011 Acórdão n.º 1302002.583 S1C3T2 Fl. 4.890 8 inicial existente, continham em seu valor custos que não deveriam, nem poderiam ser considerados. Sustenta que o valor de aquisição e custo do estoque são conceito distintos, pois enquanto o primeiro é composto apenas pelo preço da compra o segundo contém diversos outros custos, como frete interno, armazenagem, montagem, etc. Alega que, como a autoridade fiscal não depurou esse custo, o lançamento deve ser cancelado. A PGFN aponta em suas contrarrazões que se trata de alegação inovadora por parte da recorrente, na medida em que não suscitou tal matéria em sua impugnação. Examinando o acórdão recorrido, verificase que, de fato, C Pelo exposto, não conheço da referida alegação." Deste modo, o raciocínio deduzido no voto, deve ser retomado e complementado a partir do penúltimo parágrafo acima transcrito, nos termos abaixo, destacados em negrito: [...] Examinando o acórdão recorrido, verificase que, de fato, a matéria sob exame não foi suscitada na impugnação, nem objeto de consideração na decisão de primeira instância, de modo que não pode ser conhecida, nos termos do art. 17 do Decreto nº 70.235/1972, verbis: Art. 17. Considerarseá não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo impugnante Assim, não tendo sido impugnada a matéria, impõese reconhecer sua preclusão. [...] CONCLUSÃO Por todo o exposto, voto no sentido de acolher os embargos inominados, para corrigir a lacuna apontada, sem efeitos modificativos na decisão embargada. (assinado digitalmente) Luiz Tadeu Matosinho Machado Fl. 5601DF CARF MF Processo nº 16643.000289/201011 Acórdão n.º 1302002.583 S1C3T2 Fl. 4.891 9 Fl. 5602DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11128.006309/2008-59
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Feb 27 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Mar 08 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Data do fato gerador: 27/03/2008
DANO AO ERÁRIO. OCULTAÇÃO DO RESPONSÁVEL PELA OPERAÇÃO DE COMÉRCIO EXTERIOR.
A pessoa jurídica que ceder seu nome, inclusive mediante a disponibilização de documentos próprios, para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas no acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários fica sujeita a multa de 10% (dez por cento) do valor da operação acobertada.
Recurso negado.
Numero da decisão: 3402-004.935
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Vencidas as Conselheiras Thais De Laurentiis Galkowicz e Maysa de Sá Pittondo Deligne, que davam provimento ao Recurso pela ausência de provas da interposição fraudulenta comprovada.
(assinado digitalmente)
Jorge Olmiro Lock Freire - Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Jorge Olmiro Lock Freire, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Maria Aparecida Martins de Paula, Thais De Laurentiis Galkowicz, Waldir Navarro Bezerra, Diego Diniz Ribeiro, Pedro Sousa Bispo e Carlos Augusto Daniel Neto.
Nome do relator: JORGE OLMIRO LOCK FREIRE
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ementa_s : Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Data do fato gerador: 27/03/2008 DANO AO ERÁRIO. OCULTAÇÃO DO RESPONSÁVEL PELA OPERAÇÃO DE COMÉRCIO EXTERIOR. A pessoa jurídica que ceder seu nome, inclusive mediante a disponibilização de documentos próprios, para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas no acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários fica sujeita a multa de 10% (dez por cento) do valor da operação acobertada. Recurso negado.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Data do fato gerador: 27/03/2008 DANO AO ERÁRIO. OCULTAÇÃO DO RESPONSÁVEL PELA OPERAÇÃO DE COMÉRCIO EXTERIOR. A pessoa jurídica que ceder seu nome, inclusive mediante a disponibilização de documentos próprios, para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas no acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários fica sujeita a multa de 10% (dez por cento) do valor da operação acobertada. Recurso negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Vencidas as Conselheiras Thais De Laurentiis Galkowicz e Maysa de Sá Pittondo Deligne, que davam provimento ao Recurso pela ausência de provas da interposição fraudulenta comprovada. (assinado digitalmente) Jorge Olmiro Lock Freire Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Jorge Olmiro Lock Freire, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Maria Aparecida Martins de Paula, Thais De Laurentiis Galkowicz, Waldir Navarro Bezerra, Diego Diniz Ribeiro, Pedro Sousa Bispo e Carlos Augusto Daniel Neto. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 12 8. 00 63 09 /2 00 8- 59 Fl. 142DF CARF MF Processo nº 11128.006309/200859 Acórdão n.º 3402004.935 S3C4T2 Fl. 143 2 Relatório Tratase de recurso voluntário contra lançamento fiscal de multa administrativa por ocultação do real importador (art. 33 da Lei 11.488/2007). Informa o relato fiscal, em suma, o seguinte: a declaração de importação 08/04640461, parametrizada no canal vermelho, deu início ao procedimento de fiscalização; a empresa possui um único sócio que não apresenta capacidade financeira para a importação de U$ 628.904,44, nos últimos seis meses, uma vez que os seus rendimentos entre 2004 e 2006 somaram pouco mais de R$ 115.000,00, sendo também difícil de acreditar na integralização de um milhão de reais, que consta no contrato social da empresa, o que levou a intimação da empresa para apresentação de diversos documentos; o procedimento especial de fiscalização para apuração de interposição fraudulenta de terceiros consta da intimação, tendo optado a interessada por não apresentar alguns documentos alegando sigilo fiscal. Já os documentos apresentados são suficientes para caracterizar a fraude na declaração de importação 08/04640461; as mercadorias registradas na DI 08/04640461, objeto da apreensão, mesmo antes de desembaraçadas já foram relacionadas em Notas Fiscais de Entrada e de Saída emitidas em 01/04/2008 e, pelo conteúdo dessas Notas Fiscais emitidas prematuramente, todas as mercadorias descritas nesta Declaração de Importação seriam destinadas à empresa Liu Guofeng (CNPJ: 05.254.227/000187); o conteúdo total das mercadorias descritas na Declaração de Importação 08/0.464.0461 e declarado na Fatura Comercial 1092502108 de 06/01/2008 seria endereçado a uma empresa que encomendou um determinado lote de mercadorias para uma empresa com sócio que não demonstrou ter capacidade financeira para promover essa importação; para a importação por encomenda devem ser observados os requisitos legais dos art. 1 o a 3 o da IN SRF 634/2006, como a obrigatoriedade de que os recursos financeiros utilizados no processo de importação sejam originários do importador e não do encomendante, que deve haver a prévia vinculação do importador por encomenda ao encomendante no Siscomex, devendo o encomendante estar habilitado nos termos da IN SRF 650/2006, que revogou a IN SRF 455/2004 e que cabe ainda ao importador por encomenda informar o número de inscrição do encomendante no CNPJ ao registrar a Declaração de Importação; o grande número de exemplos de importações de mercadorias que são imediatamente encaminhadas para um destinatário certo mostra que a fonte dos recursos necessários para a ocorrência dessas importações provém desses destinatários das mercadorias, que são previamente conhecidos da empresa autuada antes mesmo do desembaraço aduaneiro dessas mercadorias, sendo que esse modo de operação da empresa autuada faz com que o valor apurado em seus estoques seja igual a R$ 0,00 (zero reais), como o que foi dito na Declaração do Imposto de Renda Pessoa Jurídica (DIRPJ), relativa ao ano calendário 2006, entregue pela empresa autuada; Fl. 143DF CARF MF Processo nº 11128.006309/200859 Acórdão n.º 3402004.935 S3C4T2 Fl. 144 3 apesar de ter adquirido R$ 6.275.271,70 em mercadorias no ano calendário 2006, a empresa autuada encerrou esse ano calendário sem qualquer mercadoria em seus estoques, o que demonstra que a empresa autuada foi constituída apenas para ocultar aqueles que seriam os reais importadores das mercadorias com a finalidade de gerar uma série de vantagens a essas pessoas que desejam se esconder da fiscalização aduaneira; a participação do único sócio da empresa autuada, o Sr. Arthur Celso de Souza, em fraudes aduaneiras dessa natureza vem de longa data. O Sr. Arthur Celso de Souza foi sócio da empresa ARM Trading Ltda (CNPJ 05.762.482/000130) que se tornou inapta em razão da prática de irregularidades em operações de comércio exterior a partir da publicação do Ato Declaratório Executivo n° 20, publicado em 28/08/2006, e que gerou efeitos retroativos a partir de 02/06/2004; além disso, ao registrar a Declaração de Importação 08/04640461, a empresa autuada informou uma quantidade muito menor de canetas esferográficas à existente e que foi relacionada no Termo de Retenção 2008/0159, ao invés da empresa autuada ter registrado as 2.484.096 unidades de canetas esferográficas na Declaração de Importação 08/04640461, foram registradas apenas 55.448 canetas esferográficas. A quantidade verdadeira de canetas esferográficas importadas é cerca de 4.380 % superior à quantidade de canetas registradas, o que é suficiente para demonstrar que o conteúdo da Fatura Comercial 1092502108 apresentada é falso, sendo manipulado pela empresa autuada para obter uma expressiva vantagem tributária que seria alcançada ao arrepio da lei; além do menor recolhimento de tributos ocasionado pela constatação da prática de interposição fraudulenta de terceiros na operação de comércio exterior estampada na Declaração de Importação 08/04640461, a empresa autuada declarou um montante demasiadamente inferior de II, IPI, Pis, Cofins e ICMS ao efetivamente devido nesta mesma operação de importação, em razão da quantidade de canetas esferográficas detectada pela fiscalização aduaneira ser 4.380 % superior à quantidade declarada pela empresa autuada, sendo o dano ao Erário gerado não só pela constatação de interposição fraudulenta em uma operação de importação, como também pelo uso de um documento ideologicamente falso, já que espelha uma falsa declaração de conteúdo. As mercadorias importadas pela referida DI foram apreendidas e declarado seu perdimento, ainda consoante informação fiscal (fl. 5), por meio do Auto de Infração e Termo de Apreensão e Guarda Fiscal nº 0817800/10650/08, cuja cópia foi anexada aos autos. Contestada a exação, a DRJ/SPO, em 22/02/2017, julgou improcedente a impugnação (fls. 101/114). Não resignada com tal decisão, foi interposto recurso voluntário (fls. 123/129), no qual alegase, em síntese: nulidade do lançamento por ausência de provas por não haver "sequer um elemento apto a comprovar a suposta fraude cometida pela recorrente". Entende que "existem meras suspeitas acerca da suposta infração, mas nenhuma prova derradeira". que tem capacidade financeira, pois a SRF concedeu um RADAR que autoriza a promover importações anuais de dez milhões de dólares, tendo sempre respeitado o limite de importação, efetivou operações a crédito com fornecedores estrangeiros (muitas vezes efetuando a venda do produto muito antes de haver a chegada ou descarga em Território Nacional, o que leva à emissão de Nota Fiscal no mesmo dia do desembaraço da carga), integralizou o capital social de um milhão de Reais com o imóvel "onde estava situada a Fl. 144DF CARF MF Processo nº 11128.006309/200859 Acórdão n.º 3402004.935 S3C4T2 Fl. 145 4 recorrente" e que o lucro que obtém em suas operações "é suficiente para atestar a origem do dinheiro empregado naquelas". quanto à imputação fiscal acerca da emissão de notas fiscais de entrada e saída antes do desembaraço e o fato de seu estoque em 2006 ser igual a zero, cingese a alegar que "não passam de infundadas suposições, sem esteio em qualquer prova concreta o que por si só seria suficiente para anulação do crédito tributário". Invoca que tais alegações afrontam a livre iniciativa e a livre concorrência, protegidas pela Carta Política, vez que seu objeto social é justamente a importação para revenda no mercado interno, por seu estoque ter sido liquidado em 2006. É o relatório. Voto Conselheiro Jorge Lock Freire, Relator. Inicialmente, afasto a alegação de nulidade do lançamento pela alegada falta de provas. A exação está devidamente motivada, demonstrando a fiscalização a falta de capacidade financeira da empresa e de seu único sócio com base nos fatos e provas a que me referi no relatório. Portanto, não há vício a macular o lançamento de nulidade alguma. Inclusive, no curso do procedimento fiscal lastreado na IN SRF 206/2002, apesar da evidência de que os recursos utilizados para integralização do capital social da autuada e para pagamento das mercadorias importadas tinham como fonte terceiros, a recorrente foi intimada, em 18/04/2008, a apresentar vários documentos de modo a propiciála produzir prova em sentido contrário. Contudo, em nome do sigilo bancário, deixou de apresentar as solicitadas "cópias autenticadas dos extratos bancários de todas as contas bancárias do Sr. Arthur Celso de Souza desde 01/11/2005" com indicação da fonte pagadora e o seu número de inscrição no CPF ou CNPJ de todos os depósitos acima de R$ 3.500.000,00. Igualmente, esquivouse de apresentar os "documento que demonstrem a origem dos recursos provenientes do Sr. Arthur Celso de Souza na aquisição da empresa intimada e nas importações das mercadorias promovidas pela mesma empresa, que totalizaram US$ 622.699,63 nos últimos seis meses". Portanto, descabida a alegação de faltas de provas. Adiante analisaremos as provas produzidas pelo Fisco a embasar a exigência fiscal no sentido que houve interposição fraudulenta presumida na importação. A defesa, em verdade, é uma peça de ficção, pois em nenhum momento ela fez qualquer menção ao fato de que a importação foi calcada em documento fraudulento. Esqueceuse que é fato inconteste que em vez das 55.448 unidades de caneta esferográfica declaradas na DI em questão, foram encontradas 2.484.096 unidades, vale dizer 4.380% superior a quantidade declarada. Ou seja, falsa declaração de conteúdo, quer na DI, quer na fatura comercial 1092502108, de 06/01/2008. Sobre esse fato palavra alguma! Essa fraude é que deu azo ao perdimento da mercadoria (art. 23, IV, do DL 1.455/76). Todavia, nestes autos a infração imputada a recorrente foi o de cessão de nome na importação. Este é o objeto do lançamento sob comento. E a norma em que se arrima a exação (art. 33 da Lei 11.488/2007) dispõe o seguinte: Fl. 145DF CARF MF Processo nº 11128.006309/200859 Acórdão n.º 3402004.935 S3C4T2 Fl. 146 5 “Art. 33. A pessoa jurídica que ceder seu nome, inclusive mediante a disponibilização de documentos próprios, para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas no acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários fica sujeita a multa de 10% (dez por cento) do valor da operação acobertada, não podendo ser inferior a R$ 5.000,00 (cinco mil reais). Parágrafo único. À hipótese prevista no caput deste artigo não se aplica o disposto no art. 81 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996.” Assim, a “interposição fraudulenta”, inclusive já mencionada no texto da Instrução Normativa SRF nº 225/2002, caracterizase pela ocultação do verdadeiro importador de mercadorias estrangeiras, conforme definição constante do DecretoLei nº 1.455/1976 (artigo 23, inciso V e § 2º, com redação dada pela Lei nº 10.637/2002). Ou seja, a utilização de empresas interpostas para a realização de importações destinadas a terceiros passou a ser conduta punida com a pena de perdimento das mercadorias importadas, bem como a ocultação decorre da não informação do responsável pela operação, terceiro a quem se destinam mercadorias e que pode fornecer, ou não, os recursos empregados. Em outras palavras, a multa imposta tem como pressuposto fático a ocultação do real importador, seja lá por que motivo for, e o lançamento bem como a r. decisão discorrem sobre essas causas, todas com o intuito de fraudar o Fisco ou o poder de polícia aduaneiro. E, sem embargo, há fartos elementos no processo que demonstram que a operação foi realizada por conta e ordem da empresa Liu Guofeng (CNPJ: 05.254.227/0001 87), pois: a empresa possui um único sócio que não apresenta capacidade financeira para a importação de U$ 628.904,44, nos últimos seis meses, uma vez que os seus rendimentos, entre 2004 e 2006, somaram pouco mais de R$ 115.000,00. Pouco crível a integralização de um milhão de reais, que consta no contrato social da empresa, o que levou à intimação da empresa para apresentação de diversos documentos. A empresa averba que a integralização deuse com a entrega do imóvel onde seria sua sede social, mas não há prova da origem de tal bem, tãosomente meras alegações; as mercadorias registradas na Declaração de Importação 08/0.464.0461 que são objetos dessa apreensão sequer foram desembaraçadas, e já tinham sido emitidas, em 01/04/2008, as Notas Fiscais de Entrada e de Saída. Pelo conteúdo dessas Notas Fiscais emitidas prematuramente, todas as mercadorias descritas nesta Declaração de Importação seriam destinadas à empresa Liu Guofeng (CNPJ: 05.254.227/000187); o conteúdo total das mercadorias descritas na Declaração de Importação 08/0.464.0461 e declarado na Fatura Comercial 1092502108 de 06/01/2008 seria endereçado a uma empresa que encomendou um determinado lote de mercadorias para uma empresa com sócio que não demonstrou ter capacidade financeira para promover essa importação; o grande número de exemplos de importações de mercadorias que são imediatamente encaminhadas para um destinatário certo mostra que a fonte dos recursos necessários para a ocorrência dessas importações provém desses destinatários das mercadorias, que são previamente conhecidos da empresa autuada antes mesmo do desembaraço aduaneiro dessas mercadorias, sendo que esse modo de operação da empresa autuada fez com que o valor Fl. 146DF CARF MF Processo nº 11128.006309/200859 Acórdão n.º 3402004.935 S3C4T2 Fl. 147 6 apurado em seus estoques seja igual a R$ 0,00 (zero reais), como o que foi informado na Declaração do Imposto de Renda Pessoa Jurídica (DIRPJ), relativa ao ano calendário 2006, entregue pela empresa autuada; apesar de ter adquirido R$ 6.275.271,70 em mercadorias no ano calendário 2006, a empresa autuada encerrou esse ano calendário sem qualquer mercadoria em seus estoques, o que demonstra que a mesma foi constituída apenas para ocultar aqueles que seriam os reais importadores das mercadorias com a finalidade de gerar uma série de vantagens a essas pessoas que desejam se esconder da fiscalização aduaneira. O fato de a SRF ter concedido um RADAR que autoriza a promover importações anuais de mais de dez milhões de dólares, mais de dez vezes o valor dos últimos seis meses importados, não derruba as suspeitas de interposição fraudulenta de terceiros, que devem ser investigadas pelo Fisco por dever legal. Operações a crédito com fornecedores estrangeiros, com a venda do produto muito antes de haver a chegada ou descarga em Território Nacional, ou a correção da declaração de rendimentos também, igualmente não afastam a interposição de terceiros presumida com base em todos os fatos já citados, mas que basicamente podem ser resumida pela falta de capacidade financeira da autuada. Quisesse ela fazer prova a seu favor deveria apresentar sua movimentação financeira, o que eximiuse de fazer na fase investigatória, como em qualquer fase do rito do Decreto 70.235/72. Dessarte, com base nas provas produzidas pela fiscalização, que inverteu o ônus da prova, do que não se desincumbiu a recorrente de produzir prova a contrapor aquelas produzidas na ação fiscal, entendo ter havido na importação em análise interposição fraudulenta. Portanto, correta a aplicação da multa por cessão de nome na importação a que alude o art. 33 da Lei 11.488/2007. CONCLUSÃO Diante do exposto, nego provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Jorge Olmiro Lock Freire Fl. 147DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 12670.000753/2009-58
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Jan 18 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Feb 16 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Simples Nacional
Ano-calendário: 2009
SIMPLES NACIONAL. DÉBITOS COM EXIGIBILIDADE NÃO SUSPENSA. AUSÊNCIA DE INFORMAÇÃO.
O Termo de Indeferimento da Opção pelo Simples Nacional que não consigna com precisão os débitos inscritos em dívida ativa do sujeito passivo optante, que não estejam com exigibilidade suspensa é nulo, a ele se aplicando os efeitos da Súmula CARF nº. 22.
Numero da decisão: 1001-000.287
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado.
(assinado digitalmente)
Lizandro Rodrigues de Sousa - Presidente.
(assinado digitalmente)
Edgar Bragança Bazhuni - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Lizandro Rodrigues de Sousa (presidente), Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues e Jose Roberto Adelino da Silva.
Nome do relator: EDGAR BRAGANCA BAZHUNI
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DÉBITOS COM EXIGIBILIDADE NÃO SUSPENSA. AUSÊNCIA DE INFORMAÇÃO. O Termo de Indeferimento da Opção pelo Simples Nacional que não consigna com precisão os débitos inscritos em dívida ativa do sujeito passivo optante, que não estejam com exigibilidade suspensa é nulo, a ele se aplicando os efeitos da Súmula CARF nº. 22. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado. (assinado digitalmente) Lizandro Rodrigues de Sousa Presidente. (assinado digitalmente) Edgar Bragança Bazhuni Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Lizandro Rodrigues de Sousa (presidente), Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues e Jose Roberto Adelino da Silva. Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 12 67 0. 00 07 53 /2 00 9- 58 Fl. 103DF CARF MF Processo nº 12670.000753/200958 Acórdão n.º 1001000.287 S1C0T1 Fl. 103 2 Tratase de Recurso Voluntário interposto pela Recorrente em face de decisão proferida pela 2ª Turma da Delegacia Regional de Julgamento em Juiz de Fora (MG), mediante o Acórdão nº 0947.166, de 09/10/2013 (efls. 84/86), objetivando a reforma do referido julgado. A empresa fez a opção pelo Simples Nacional, que foi indeferida, mediante o “Termo de Indeferimento da Opção pelo Simples Nacional”, de 25/03/2009 (efl. 07), sob o fundamento de que a pessoa jurídica incorreu, naquele momento, na seguinte situação impeditiva: Débito com a Secretaria da Receita Federal do Brasil oriundo da Secretaria da Receita Federal do Brasil, cuja exigibilidade não está suspensa. A interessada apresentou manifestação de inconformidade contra o indeferimento da sua opção pelo Simples Nacional, alegando, em síntese, que não havia no TI original informação dos débitos, cuja diferença teria sido recolhida imediatamente. A DRJ negou provimento à manifestação de inconformidade do contribuinte ao considerar que "o segundo TI, o Darf e o respectivo comprovante de fls. 60, relativos àquele débito, dão conta de que a regularização daquela pendência fiscal ocorreu em 07/05/2009, a destempo". O Acórdão foi assim ementado: ASSUNTO: SIMPLES NACIONAL Anocalendário: 2009 OPÇÃO. NÃO REGULARIZAÇÃO DE PENDÊNCIA. INDEFERIMENTO. Uma vez não comprovada a regularização de pendência fiscal, impeditiva do ingresso ao Simples Nacional, há que se manter o indeferimento operado. Manifestação de Inconformidade Improcedente Sem Crédito em Litígio. Ciente da decisão de primeira instância em 30/04/2014, conforme Aviso de Recebimento à efl. 91, a Recorrente apresentou recurso voluntário em 22/05/2014 (efls. 93/100), conforme carimbo aposto à efl. 93. É o Relatório. Voto Conselheiro Edgar Bragança Bazhuni, Relator Fl. 104DF CARF MF Processo nº 12670.000753/200958 Acórdão n.º 1001000.287 S1C0T1 Fl. 104 3 O recurso apresentado atende aos requisitos de admissibilidade previstos no Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, que regula o processo administrativofiscal (PAF). Dele conheço. No recurso interposto, a recorrente reitera os argumentos apresentado em sede de primeira instância, ou seja, que não havia no TI original informação dos débitos, cuja diferença teria sido recolhida imediatamente. Da análise dos autos, verificase que a recorrente não foi devidamente informada dos débitos que possuía ao tempo do indeferimento de sua opção, tendo sido comunicada apenas que se tratava de Débito com a Secretaria da Receita Federal do Brasil oriundo da Secretaria da Receita Federal do Brasil, cuja exigibilidade não estava suspensa, conforme consta do Termo de Indeferimento da Opção pelo Simples Nacional, efl.04. Não há informações sobre valores ou período de apuração, por exemplo. O Carf já pacificou entendimento de que o ato declaratório de exclusão do Simples que simplesmente consigna existência de débitos sem os indicar com precisão é nulo, nos termos da Súmula CARF nº. 22, verbis: Súmula CARF nº. 22: É nulo o ato declaratório de exclusão do Simples que se limite a consignar a existência de pendências perante a Dívida Ativa da União ou do INSS, sem a indicação dos débitos inscritos cuja exigibilidade não esteja suspensa. Considerando que o Termo de Indeferimento incorre no mesmo defeito, que tal imprecisão importa em cerceamento do direito de defesa do sujeito passivo e que esta situação deve ser observada em qualquer lide, a ele deve ser estendido os efeitos decorrentes da Súmula nº. 22. Em face do exposto, voto no sentido de DAR PROVIMENTO ao recurso, para reconhecer o direito da Recorrente de usufruir o benefício do Simples Nacional a partir de 01/01/2009. (assinado digitalmente) Edgar Bragança Bazhuni Fl. 105DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11128.002882/2010-16
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Mar 20 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Apr 05 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Classificação de Mercadorias
Data do fato gerador: 06/04/2006
CLASSIFICAÇÃO FISCAL.
O produto comercialmente denominado LUTAVIT B2 SG 80, identificado como sendo Riboflavina (Vitamina B2) e excipientes (polissacarídeos e substâncias inorgânicas à base de fosfato), especialmente formulada para emprego na fabricação de razão animal, segundo as Regras Gerais de Interpretação do Sistema Harmonizado - RGI/SH e as orientações das Notas Explicativas do Sistema Harmonizado - NESH, deve ser classificado no código NCM 2309.90.90.
CLASSIFICAÇÃO FISCAL. ERRO DE ENQUADRAMENTO. INFRAÇÃO ADMINISTRATIVA.
Conforme ADN COSIT 12/1997, o erro de classificação não constitui infração administrativa ao controle das importações, desde que o produto esteja corretamente descrito, com todos os elementos necessários à sua identificação e ao enquadramento tarifário pleiteado, e que não se constate, em qualquer dos casos, intuito doloso ou má fé por parte do declarante.
Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Data do fato gerador: 06/04/2006
COFINS. BASE DE CÁLCULO. ART. 7º, I, LEI Nº 10.865/04. INCONSTITUCIONALIDADE. REPERCUSSÃO GERAL. OBSERVÂNCIA.
O Supremo Tribunal Federal declarou a inconstitucionalidade, em sede de repercussão geral, do art. 7º, I da Lei nº 10.865/04, que previa a inclusão do ICMS e das próprias contribuições na apuração do PIS/PASEP-Importação e Cofins-Importação, cuja observância neste sodalício é obrigatória, por força das disposições do art. 62 do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais - RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343/15.
Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Data do fato gerador: 06/04/2006
PIS/PASEP. BASE DE CÁLCULO. ART. 7º, I, LEI Nº 10.865/04. INCONSTITUCIONALIDADE. REPERCUSSÃO GERAL. OBSERVÂNCIA.
O Supremo Tribunal Federal declarou a inconstitucionalidade, em sede de repercussão geral, do art. 7º, I da Lei nº 10.865/04, que previa a inclusão do ICMS e das próprias contribuições na apuração do PIS/PASEP-Importação e Cofins-Importação, cuja observância neste sodalício é obrigatória, por força das disposições do art. 62 do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais - RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343/15.
Recurso voluntário provido em parte.
Numero da decisão: 3401-004.432
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, em dar provimento parcial do recurso voluntário, da seguinte forma: (a) por unanimidade de votos, para manter o lançamento no que se refere à classificação da mercadoria, e à multa por erro de classificação, e excluir o valor do ICMS e das próprias contribuições da base de cálculo do PIS/PASEP-Importação e da Cofins-Importação; e (b) por maioria de votos, para afastar a multa por falta de licenciamento, em função do disposto no ADN COSIT 12/1996, vencidos o relator, Cons. Robson José Bayerl, e o Conselheiro Fenelon Moscoso de Almeida. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Rosaldo Trevisan.
Rosaldo Trevisan Presidente e Redator designado
Robson José Bayerl Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Rosaldo Trevisan, Robson José Bayerl, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Tiago Guerra Machado, Marcos Roberto da Silva (suplente convocado), Renato Vieira de Ávila (suplente convocado) e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco. Ausente justificadamente a Cons. Mara Cristina Sifuentes.
Nome do relator: ROBSON JOSE BAYERL
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ementa_s : Assunto: Classificação de Mercadorias Data do fato gerador: 06/04/2006 CLASSIFICAÇÃO FISCAL. O produto comercialmente denominado LUTAVIT B2 SG 80, identificado como sendo Riboflavina (Vitamina B2) e excipientes (polissacarídeos e substâncias inorgânicas à base de fosfato), especialmente formulada para emprego na fabricação de razão animal, segundo as Regras Gerais de Interpretação do Sistema Harmonizado - RGI/SH e as orientações das Notas Explicativas do Sistema Harmonizado - NESH, deve ser classificado no código NCM 2309.90.90. CLASSIFICAÇÃO FISCAL. ERRO DE ENQUADRAMENTO. INFRAÇÃO ADMINISTRATIVA. Conforme ADN COSIT 12/1997, o erro de classificação não constitui infração administrativa ao controle das importações, desde que o produto esteja corretamente descrito, com todos os elementos necessários à sua identificação e ao enquadramento tarifário pleiteado, e que não se constate, em qualquer dos casos, intuito doloso ou má fé por parte do declarante. Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Data do fato gerador: 06/04/2006 COFINS. BASE DE CÁLCULO. ART. 7º, I, LEI Nº 10.865/04. INCONSTITUCIONALIDADE. REPERCUSSÃO GERAL. OBSERVÂNCIA. O Supremo Tribunal Federal declarou a inconstitucionalidade, em sede de repercussão geral, do art. 7º, I da Lei nº 10.865/04, que previa a inclusão do ICMS e das próprias contribuições na apuração do PIS/PASEP-Importação e Cofins-Importação, cuja observância neste sodalício é obrigatória, por força das disposições do art. 62 do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais - RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343/15. Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Data do fato gerador: 06/04/2006 PIS/PASEP. BASE DE CÁLCULO. ART. 7º, I, LEI Nº 10.865/04. INCONSTITUCIONALIDADE. REPERCUSSÃO GERAL. OBSERVÂNCIA. O Supremo Tribunal Federal declarou a inconstitucionalidade, em sede de repercussão geral, do art. 7º, I da Lei nº 10.865/04, que previa a inclusão do ICMS e das próprias contribuições na apuração do PIS/PASEP-Importação e Cofins-Importação, cuja observância neste sodalício é obrigatória, por força das disposições do art. 62 do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais - RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343/15. Recurso voluntário provido em parte.
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O produto comercialmente denominado “LUTAVIT B2 SG 80”, identificado como sendo Riboflavina (Vitamina B2) e excipientes (polissacarídeos e substâncias inorgânicas à base de fosfato), especialmente formulada para emprego na fabricação de razão animal, segundo as Regras Gerais de Interpretação do Sistema Harmonizado RGI/SH e as orientações das Notas Explicativas do Sistema Harmonizado NESH, deve ser classificado no código NCM 2309.90.90. CLASSIFICAÇÃO FISCAL. ERRO DE ENQUADRAMENTO. INFRAÇÃO ADMINISTRATIVA. Conforme ADN COSIT 12/1997, o erro de classificação não constitui infração administrativa ao controle das importações, desde que o produto esteja corretamente descrito, com todos os elementos necessários à sua identificação e ao enquadramento tarifário pleiteado, e que não se constate, em qualquer dos casos, intuito doloso ou má fé por parte do declarante. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Data do fato gerador: 06/04/2006 COFINS. BASE DE CÁLCULO. ART. 7º, I, LEI Nº 10.865/04. INCONSTITUCIONALIDADE. REPERCUSSÃO GERAL. OBSERVÂNCIA. O Supremo Tribunal Federal declarou a inconstitucionalidade, em sede de repercussão geral, do art. 7º, I da Lei nº 10.865/04, que previa a inclusão do ICMS e das próprias contribuições na apuração do PIS/PASEPImportação e CofinsImportação, cuja observância neste sodalício é obrigatória, por força AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 12 8. 00 28 82 /2 01 0- 16Fl. 251DF CARF MF 2 das disposições do art. 62 do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343/15. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Data do fato gerador: 06/04/2006 PIS/PASEP. BASE DE CÁLCULO. ART. 7º, I, LEI Nº 10.865/04. INCONSTITUCIONALIDADE. REPERCUSSÃO GERAL. OBSERVÂNCIA. O Supremo Tribunal Federal declarou a inconstitucionalidade, em sede de repercussão geral, do art. 7º, I da Lei nº 10.865/04, que previa a inclusão do ICMS e das próprias contribuições na apuração do PIS/PASEPImportação e CofinsImportação, cuja observância neste sodalício é obrigatória, por força das disposições do art. 62 do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343/15. Recurso voluntário provido em parte. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, em dar provimento parcial do recurso voluntário, da seguinte forma: (a) por unanimidade de votos, para manter o lançamento no que se refere à classificação da mercadoria, e à multa por erro de classificação, e excluir o valor do ICMS e das próprias contribuições da base de cálculo do PIS/PASEPImportação e da Cofins Importação; e (b) por maioria de votos, para afastar a multa por falta de licenciamento, em função do disposto no ADN COSIT 12/1996, vencidos o relator, Cons. Robson José Bayerl, e o Conselheiro Fenelon Moscoso de Almeida. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Rosaldo Trevisan. Rosaldo Trevisan – Presidente e Redator designado Robson José Bayerl – Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Rosaldo Trevisan, Robson José Bayerl, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Tiago Guerra Machado, Marcos Roberto da Silva (suplente convocado), Renato Vieira de Ávila (suplente convocado) e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco. Ausente justificadamente a Cons. Mara Cristina Sifuentes. Relatório Tratase de lançamento para exigência de tributos incidentes na importação (DI 06/03972904), acrescidos de consectários legais e multas diversas (falta de licenciamento e erro de classificação fiscal), decorrentes de reclassificação fiscal do produto comercialmente Fl. 252DF CARF MF Processo nº 11128.002882/201016 Acórdão n.º 3401004.432 S3C4T1 Fl. 11 3 denominado “LUTAVIT B2 SG 80”, enquadrado pelo contribuinte no código tarifário 2936.23.10 (Vitamina B2 – Riboflavina). Em procedimento de conferência física houve retirada de amostras para análise, resultando na confecção do Laudo de Análises Falcão Bauer nº 1.163/20061, de 13/04/2006, cujo resultado indicou que não se trataria apenas de Riboflavina (Vitamina B2), mas de uma “preparação constituída de Riboflavina (Vitamina B2) e Excipientes como Derivado de Celulose e Substâncias Inorgânicas à base de Fosfato, especificamente elaborada para ser adicionada às rações animais, na forma de pó” (efls. 56/57). Baseada nessas informações a fiscalização promoveu o reenquadramento do produto para o código 2309.90.90 (outras preparações dos tipos utilizados na alimentação de animais). Em impugnação o contribuinte sustentou que o produto é um aditivo nutricional para alimentação animal, sendo que vitamina B2 é produzida por fermentação e concentrada até a composição mínima de 80%, correspondendo os outros 20% a impurezas; que não se trataria de uma preparação, mas sim um concentrado; que a única classificação possível seria no código 2936.23.10; que as Notas Explicativas do Sistema Harmonizado – NESH impediriam a classificação do produto no Capítulo 23; que as matérias reunidas no processo não tornam o produto apto a um uso específico; que a multa por erro de classificação fiscal é descabida, por força do ADN Cosit nº 10/97, e, da mesma forma, a multa do art. 44 da Lei nº 9.430/96, em atenção às disposições do ADI SRF 13/02; que haveria afronta aos princípios da razoabilidade, proporcionalidade e ao tratamento isonômico; que a multa por falta de licença de importação é improcedente, uma vez que o produto foi devidamente licenciado, descrito e desembaraçado; que a base de cálculo do PIS/Pasep e Cofins incidente na importação, na forma definida pela Lei nº 10.865/2004, seria inconstitucional, o que, por arrastamento, implicaria a improcedência das multas proporcionais a esses tributos; e, que, em razão da suspensão da exigibilidade do crédito tributário, haveria impedimento à fluência dos juros moratórios. Dentre os pedidos formulados, houve pleito de produção de prova pericial, com arrolamento de quesitos, sem exposição de motivos e indicação de assistente técnico. Em 30/07/2015 foram coligidas ao processo cópias de certidão de “objeto e pé” referente à Ação Anulatória nº 000671426.2010.4.03.6104, que trata de classificação fiscal do produto objeto de autuação, e do laudo pericial produzido naquele feito (efls. 151/182). A DRJ São Paulo/SP manteve o lançamento em decisão assim ementada: “CLASSIFICAÇÃO FISCAL. LUTAVIT B2SG80 Produto identificado em laudo técnico como sendo Riboflavina (Vitamina B2) e excipientes (polissacarídeos e substâncias inorgânicas à base de fosfato), especificamente formulada para ser utilizada em ração animal, classificase no código NCM 2309.90.90. ARGÜIÇÃO DE ILEGALIDADE E INCONSTITUCIONALIDADE. INCOMPETÊNCIA DAS INSTÂNCIAS ADMINISTRATIVAS PARA APRECIAÇÃO As autoridades administrativas estão obrigadas à observância da legislação tributária vigente no País, sendo incompetentes Fl. 253DF CARF MF 4 para a apreciação de argüições de inconstitucionalidade e ilegalidade de atos legais regularmente editados.” O recurso voluntário, com certa variação, reprisou os argumentos da impugnação, à exceção da fluência dos juros de mora. É o relatório. Voto Vencido Conselheiro Robson José Bayerl, Relator O recurso voluntário preenche os requisitos de admissibilidade, o que impõe o seu conhecimento. A questão de fundo – classificação fiscal do produto LUTAVIT B2 SG 80 – foi abordada com bastante propriedade pela decisão reclamada, valendo a reprodução do excerto específico: “Primeiramente, cabe observar que, em relação à decisão em primeira instância que foi favorável à contribuinte, nos autos do processo nº 000l671426.2010.4.3.6104 da 8ª Vara Federal de São Paulo, não há determinação judicial de que seus efeitos atinjam outras importações, mesmo que do mesmo contribuinte e para o mesmo produto, que é o caso deste processo, pois seu efeito não é ‘erga omnes’. Quanto à questão da classificação do produto importado propriamente dita, temos nos autos dois laudos oficiais, um do Laboratório de Análises FALCÃO BAUER, objeto do Laudo de Análise nº 1163/20061 e outro do perito judicial do processo nº 000671426.2010.4.3.6104, que tramita na 8ª Vara Federal de São Paulo. Em que pese os laudos apresentarem algumas divergências, são pontos incontroversos: · Que o produto importado LUTAVIT B2SG80 é composto de Riboflavina (Vitamina B2) e Excipientes derivados de celulose (Polissacarídeos) e Substâncias Inorgânicas base de Fosfato. · Que o produto importado, na condição que se encontra, é utilizado apenas pelas indústrias formuladoras de ração animal, não podendo ter seu uso, por exemplo, voltado para consumo humano. E o laudo judicial traz as seguintes informações: · A matéria prima utilizada pela BASF pra produzir vitamina B2 (Riboflavina) é a beterraba, através de reação (fermentação) por microorganismos. · Esta reação não é completa (somente 80%), resultando 20% como resíduo, do qual o polissacarídeo é parte. Fl. 254DF CARF MF Processo nº 11128.002882/201016 Acórdão n.º 3401004.432 S3C4T1 Fl. 12 5 · A riboflavina utilizada no tratamento da profilaxia da deficiência de vitamina B2, via de regra é fabricada por via química e não por biotecnologia (fermentação) em virtude da necessidade de maior pureza, inclusive para ser utilizada por via endovenosa. · A produção por via química é muito mais cara, dado os custos de purificação, quando da utilização como fármaco. · No caso em exame, a Riboflavina produzida por fermentação. A presença do polissacarídeo é benéfica na ração, como elemento energético (produção de energia), porém essa é uma característica do método de fabricação, e não foi adicionado com vista ao produto final, fabricação de ração; essa purificação não é feita quando se destina à fabricação de ração. O produto importado LUTAVIT B2SG80 é composto por vitamina B2 mais polissacarídeos. É importante destacar que ambos os laudos reconhecem que o composto (vitamina B2 + polissacarídeos), tem sua aplicação específica para produção de ração animal, não podendo ser utilizado, por exemplo na produção de fármacos para consumo humano. As notas explicativas do sistema harmonizado, NESH estabelecem para a posição 29: Produtos químicos orgânicos 1. Ressalvadas as disposições em contrário, as posições do presente Capítulo apenas compreendem: os compostos orgânicos de constituição química definida apresentados isoladamente, mesmo contendo impurezas; (...) O termo ‘impurezas’ aplicase exclusivamente às substâncias cuja associação com o composto químico distinto resulta, exclusiva e diretamente, do processo de fabricação (incluída a purificação). Essas substâncias podem provir de qualquer dos elementos que intervêm na fabricação e que são essencialmente os seguintes: matérias iniciais não convertidas; impurezas contidas nas matérias iniciais; reagentes utilizados no processo de fabricação (incluída a purificação ) ; subprodutos. No entanto, convém referir que essas substâncias não são sempre consideradas impurezas autorizadas pela Nota 1 a). Fl. 255DF CARF MF 6 Quando essas substâncias são deliberadamente deixadas no produto para tornálo particularmente apto para usos específicos de preferência a sua aplicação geral, não são consideradas impurezas admissíveis. Considerando que: · o produto importado LUTAVIT B2SG80 é composto de Riboflavina, polissacarídeos e substâncias inorgânicas à base de fosfato, não apenas de Riboflavina; · o laudo do perito judicial esclarece que o polissacarídeo foi deliberadamente deixado no produto por ser benéfico ao metabolismo animal (fornecedor de energia) · na maneira como se encontra, o produto LUTAVIT B2SG80 é utilizado apenas pelas indústrias formuladoras de ração animal (uso específico), não podendo ter seu uso, por exemplo, voltado para consumo humano, ou seja, não tem, na condição em que foi importado (Riboflavina, polissacarídeos e substâncias inorgânicas à base de fosfato, e não só Riboflavina ) uso em qualquer tipo de produto (uso geral), como por exemplo ser matéria prima na fabricação de fármacos para consumo. · a destinação do produto importado (uso exclusivo em ração animal) é fundamental para sua correta classificação. Com base nas NESH da posição 29 retro mencionadas, entendo que não cabe a classificação do produto (Riboflavina mais polissacarídeos e substancias inorgânicas a base de fosfato) na posição 29. Prosseguindo na classificação tarifária da mercadoria importada, em que pese o polissacaríedo ser resultante do processo de fabricação, esta mistura (Riboflavina mais polissacarídeos e substâncias inorgânicas à base de fosfato) tem sua utilização voltada para entrar na composição de ração animal. As Notas Explicativas da posição 2309 estabelecem: C. AS PREPARAÇÕES DESTINADAS A ENTRAR NA FABRICAÇÃO DOS ALIMENTOS ‘COMPLETOS’ OU ‘COMPLEMENTARES’ DESCRITOS NOS GRUPOS A E B, ACIMA Estas preparações, designadas comercialmente pré misturas, são geralmente compostos de caráter complexo que compreendem um conjunto de elementos (às vezes denominados ‘aditivos’), cuja natureza e proporções variam consoante a produção zootécnica a que se destinam. Esses elementos são de três espécies: 1) os que favorecem à digestão e, de uma forma mais geral, à utilização dos alimentos pelo animal, defendendo o seu estado de saúde: vitaminas ou provitaminas, aminoácidos, antibióticos, Fl. 256DF CARF MF Processo nº 11128.002882/201016 Acórdão n.º 3401004.432 S3C4T1 Fl. 13 7 coccidiostáticos, oligoelementos, emulsificantes, aromatizantes ou aperitivos, etc.; 2) os destinados a assegurar a conservação dos alimentos, especialmente as gorduras que contêm, até serem consumidos pelo animal: estabilizantes, antioxidantes, etc.; 3) os que desempenham a função de suporte e que podem consistir quer em uma ou mais substâncias orgânicas nutritivas (especialmente farinhas de mandioca ou de soja, farelos, leveduras e diversos resíduos da indústria alimentar), quer em substâncias inorgânicas (por exemplo: magnesita, cré, caulim, sal, fosfatos). E traz a informação de que excluemse da presente posição: As vitaminas, mesmo de constituição química definida, misturadas entre si ou não, mesmo apresentadas em um solvente ou estabilizadas por adição de agentes antioxidantes ou antiaglomerantes, por adsorção em um substrato ou por revestimento, por exemplo, com gelatina, ceras, matérias graxas (gordas*), desde que a quantidade das substâncias acrescentadas, substratos ou revestimentos não modifiquem o caráter de vitaminas e nem as tornem particularmente aptas para usos específicos de preferência à sua aplicação geral (posição 29.36). Assim, segundo as Notas Explicativas, a mercadoria importada, ((Riboflavina, polissacarídeos e substâncias inorgânicas à base de fosfato, e não só riboflavina) deve ser enquadrada como uma preparação destinada a entrar na fabricação dos alimentos ‘completos’ ou ‘complementares’ da alimentação animal, ainda mais que a própria impugnante admite na descrição da mercadoria na declaração de importação: ‘USO EXCLUSIVO PARA FABRICAÇÃO DE RAÇÃO ANIMAL. A especificidade de uso dessa mercadoria é critério essencial ao seu enquadramento tarifário, independentemente de seu conceito técnico. Por conseguinte, fazendo uso da RGI/SH no 1, combinada com a Regra 6 (subposição) e com a RGC (item), concluise como correto o código 2309.90.90 da Nomenclatura Comum do Mercosul para classificar a mercadoria em questão. Correta pois a reclassificação fiscal da mercadoria LUTAVIT B2SG80 (Riboflavina mais polissacarídeos e substâncias inorgânicas à base de fosfato), tal como efetivada pela fiscalização. Diante do exposto, verificase que foi atendido o disposto no artigo 142 do CTN, uma vez que a fiscalização agiu corretamente, ao proceder a reclassificação fiscal, devidamente fundamentada nas regras de classificação. Descabe a alegação da impugnante que a classificação na Fl. 257DF CARF MF 8 posição 29.36 é mais específica do que a posição 23.09.” (destaques no original) Essas colocações foram arrostadas pelo recorrente, que aduziu não se tratar o produto importado de uma preparação, mas sim de uma composição de, no mínimo, 80% de vitamina B2 e impurezas (resíduos fermentativos); que o produto é um aditivo nutricional para alimentação animal, fonte de vitamina B2, de modo que deveria ser classificado no código 2936.23.10, mais específico; que nenhum excipiente foi adicionado ao produto para tornálo apto a aplicação específica; que é improcedente a afirmação da decisão recorrida que os polissacarídeos foram deliberadamente deixados no produto; que o fato desses resíduos (polissacarídeos) comporem o produto, como etapa normal do processo, não o torna apto a aplicação específica; e, que as “notas explicativas da NESH” excluiriam as vitaminas da posição 2309. Nada obstante a argumentação deduzida pelo recorrente, entendo que não lhe assiste razão, pelos motivos que passo a expor. O fato de se tratar o produto importado de um composto e não uma preparação, como sustenta o reclamante, não conduz ao afastamento da classificação no Capítulo 23 da NCM, haja vista que o próprio colegiado a quo não partiu da premissa que se trataria de uma “preparação”, bastando o exame dos termos utilizados na exposição de raciocínio do voto condutor, mormente por haver acolhido, também, as conclusões do laudo pericial produzido no âmbito do processo judicial. Da mesma forma, a presença dos polissacarídeos (resíduos) resultar de reação natural do processo de fermentação, e não por intervenção humana, a meu ver, não profliga a tese lá estampada, consoante a qual o produto deve ser enquadrado no código 2309.90.90, isso porque, nos termos do art. 94, parágrafo único, do Decreto nº 4.543/02, “para fins de classificação das mercadorias, a interpretação do conteúdo das posições e desdobramentos da Nomenclatura Comum do Mercosul será feita com observância das Regras Gerais para Interpretação, das Regras Gerais Complementares e das Notas Complementares e, subsidiariamente, das Notas Explicativas do Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias, da Organização Mundial das Alfândegas (Decretolei no 1.154, de 1o de março de 1971, art. 3o).” Nessa vereda, ainda que o laudo pericial judicial reconheça que o produto é uma vitamina B2 com resíduos de polissacarídeos, originários do processo natural de fermentação, o que, em tese, atrairia a classificação pretendida pelo recorrente (2936.23.10), por ser mais específica, não se pode desconsiderar que esse mesmo laudo responde que esses polissacarídeos (resíduos naturais da fermentação) são benéficos à ração animal, não sendo necessária qualquer purificação, a par de descrever o processo de fermentação, onde os microorganismos consumiriam os polissacarídeos (glicose, açúcares) para obtenção de energia, reprodução e geração do produto desejado, estabilizandose o processo em 80% da fabricação de vitamina B2, quando então é interrompido (efl. 164). Em outra passagem destaca (o laudo) que a vitamina B2, a depender da forma de produção, pode ser utilizada em outras finalidades, inclusive produção de fármacos (efl. 162), no entanto, no estado em que importada, a Riboflavina (vitamina B2) com polissacarídeos na proporção de 80% x 20%, é destinada exclusivamente à fabricação de ração para animais (efl. 163). Assim, tal qual a decisão recorrida, reconheço que a finalidade específica do produto tem importância fundamental na definição de sua classificação, não devido a regra de Fl. 258DF CARF MF Processo nº 11128.002882/201016 Acórdão n.º 3401004.432 S3C4T1 Fl. 14 9 interpretação do Sistema Harmonizado, mas por força da seguinte disposição das Notas Explicativas do Sistema Harmonizado – NESH, veiculada no Capítulo 23: “C. AS PREPARAÇÕES DESTINADAS A ENTRAR NA FABRICAÇÃO DOS ALIMENTOS “COMPLETOS” OU “COMPLEMENTARES” DESCRITOS NOS GRUPOS A E B, ACIMA Estas preparações, designadas comercialmente prémisturas, são geralmente compostos de caráter complexo que compreendem um conjunto de elementos (às vezes denominados “aditivos”), cuja natureza e proporções variam consoante a produção zootécnica a que se destinam. Esses elementos são de três espécies: 1) os que favorecem à digestão e, de uma forma mais geral, à utilização dos alimentos pelo animal, defendendo o seu estado de saúde: vitaminas ou provitaminas, aminoácidos, antibióticos, coccidiostáticos, oligoelementos, emulsificantes, aromatizantes ou aperitivos, etc.; 2) os destinados a assegurar a conservação dos alimentos, especialmente as gorduras que contêm, até serem consumidos pelo animal: estabilizantes, antioxidantes, etc.; 3) os que desempenham a função de suporte e que podem consistir quer em uma ou mais substâncias orgânicas nutritivas (especialmente farinhas de mandioca ou de soja, farelos, leveduras e diversos resíduos da indústria alimentar), quer em substâncias inorgânicas (por exemplo: magnesita, cré, caulim, sal, fosfatos). (...) Excluemse da presente posição: (...) e) As vitaminas, mesmo de constituição química definida, misturadas entre si ou não, mesmo apresentadas em um solvente ou estabilizadas por adição de agentes antioxidantes ou antiaglomerantes, por adsorção em um substrato ou por revestimento, por exemplo, com gelatina, ceras, matérias graxas (gordas*), desde que a quantidade das substâncias acrescentadas, substratos ou revestimentos não modifiquem o caráter de vitaminas e nem as tornem particularmente aptas para usos específicos de preferência à sua aplicação geral (posição 29.36).” No caso vertente, independente de se tratar de um processo natural ou artificial, manipulado deliberadamente ou não, é fato que o produto, no estado e na forma em que importado, possui quantidade de substâncias (polissacarídeos) que o torna específico para uma única forma de utilização: produção de ração animal. Por mais que o recorrente se esforce em defender que o produto se destina a uso geral, a verdade é que os laudos colacionados indicam justamente o contrário, ao acentuarem que o produto “LUTAVIT B2 SG 80” destinase especificamente à produção de ração animal, como atesta o Laudo de Análises Falcão Bauer (efls. 56/57), sendo que a mesma Fl. 259DF CARF MF 10 conclusão pode ser alcançada pelo laudo pericial judicial (efls. 152/153), ao responder que o produto não pode ser utilizado como fármaco (não foi obtido por reação química e tampouco possui o grau de pureza necessário para tanto), não pode ser utilizado por via injetável ou administrada de forma diferente da oral (obtido por fermentação e com presença de polissacarídeos), não pode ser utilizado em humanos e que o produto LUTAVIT B2 SG 80 é matéria prima para fabricação de ração, não sendo localizado, pelo perito, na literatura técnica, qualquer outra forma de utilização do produto (quesitos 2.1 e 2.2) que não a preparação de ração animal. A própria descrição do produto na declaração de importação informa que se destina a “uso exclusivo para fabricação de ração animal” (efl. 46). Essa peculiaridade – presença de polissacarídeos –, ao especializar o uso do produto – fabricação de ração animal –, segundo as disposições da NESH, impede o seu enquadramento no código pretendido pelo recorrente (2936.23.10), mostrandose o código tarifário apontado pela fiscalização (2309.90.90), à luz das regras de classificação, o mais adequado. Demais disso, a classificação desse mesmo produto internacionalmente segue a mesma codificação do Sistema Harmonizado SH, aplicado em mais de 150 (cento e cinquenta países), bastando para verificar essa situação, simples busca na rede mundial de computadores pelo nome comercial da mercadoria (e.g., www.zauba.com e www.eximpulse.com). No que tange à multa por falta de licença de importação (art. 169, I, “b”do DL 37/66), o relatório fiscal assevera que a novel classificação fiscal exige licenciamento não automático, o que configura a infração capitulada, não aproveitando ao recorrente as disposições do ADN Cosit nº 12, de 21/01/1997: “O COORDENADORGERAL DO SISTEMA DE TRIBUTAÇÃO, no uso das atribuições que lhe confere o item II da Instrução Normativa nº 34, de 18 de setembro de 1974, e tendo em vista o disposto no inciso II do art. 526 do Regulamento Aduaneiro aprovado pelo Decreto nº 91.030, de 5 de março de 1985, e no art. 112, inciso IV, do Código Tributário Nacional Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966, declara, em caráter normativo, às Superintendências Regionais da Receita Federal, às Delegacias da Receita Federal de Julgamento e aos demais interessados, que não constitui infração administrativa ao controle das importações, nos termos do inciso II do art. 526 do Regulamento Aduaneiro, a declaração de importação de mercadoria objeto de licenciamento no Sistema Integrado de Comércio Exterior SISCOMEX, cuja classificação tarifária errônea ou indicação indevida de destaque "ex" exija novo licenciamento, automático ou não, desde que o produto esteja corretamente descrito, com todos os elementos necessários à sua identificação e ao enquadramento tarifário pleiteado, e que não se constate, em qualquer dos casos, intuito doloso ou má fé por parte do declarante.” (destacado) Fl. 260DF CARF MF Processo nº 11128.002882/201016 Acórdão n.º 3401004.432 S3C4T1 Fl. 15 11 Em que pese a ausência de máfé, não é possível sustentar que a mercadoria tenha sido corretamente descrita, com todos os elementos necessários à sua identificação, pois, ainda que tenha sido declarada como “LUTAVIT B2 SG 80 – VITAMINA B2 – USO EXCLUSIVO PARA FABRICAÇÃO DE RAÇÃO ANIMAL – CONCENTRAÇÃO MIN. 80% ESTADO SÓLIDO – QUALIDADE INDUSTRIAL – FEED GRADE” (efl. 51), não houve especificação da existência dos polissacarídeos, no percentual de 20%, mesmo que resultante de processo natural de fermentação, informação esta que mostrou fundamental e relevantíssima à definição do código tarifário apropriado, como exposto. Também não merece acolhida a alegação de descabimento da multa de ofício por força do ADI SRF 13/02, quando envolvido reenquadramento tarifário, estando descrita corretamente a mercadoria importada, porquanto, como visto, a descrição constante da declaração de importação não traz todos os elementos necessários à sua identificação, além do que, distintamente do que previa o ADN Cosit nº 10/97, o referido ADI SRF 13/02, que o revogou, não relacionou o erro de classificação fiscal como fato impunível. Eis a redação do ADN Cosit nº 10/97: “O COORDENADORGERAL DO SISTEMA DE TRIBUTAÇÃO, no uso das atribuições que lhe confere o item II da Instrução Normativa nº 34, de 18 de setembro de 1974, e tendo em vista o disposto no art. 112 do Regulamento Aduaneiro aprovado pelo Decreto nº 91.030, de 5 de março de 1985, e art. 107, inciso I, do Regulamento do Imposto sobre Produtos Industrializados aprovado pelo Decreto nº 87.981, de 23 de dezembro de 1982, Declara, em caráter normativo, às Superintendências Regionais da Receita Federal, às Delegacias da Receita Federal de Julgamento e aos demais interessados, que não constitui infração punível com as multas previstas no art. 4º da Lei nº 8.218, de 29 de agosto de 1991, e no art. 44 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, a solicitação, feita no despacho aduaneiro, de reconhecimento de imunidade tributária, isenção ou redução do imposto de importação e preferência percentual negociada em acordo internacional, quando incabíveis, bem assim a classificação tarifária errônea ou a indicação indevida de destaque (ex), desde que o produto esteja corretamente descrito, com todos os elementos necessários à sua identificação e ao enquadramento tarifário pleiteado, e que não se constate, em qualquer dos casos, intuito doloso ou má fé por parte do declarante. 2. Nos casos acima, os tributos devidos em razão de falta ou insuficiência de pagamento, exigidos no curso do despacho ou em ato de revisão aduaneira, serão acrescidos dos encargos legais, nos termos da legislação em vigor, a partir da data do registro da Declaração de Importação, relativamente ao Imposto de Importação, e do Fl. 261DF CARF MF 12 desembaraço aduaneiro, relativamente ao Imposto sobre Produtos Industrializados vinculado à importação. 3. Ficam revogados os Atos Declaratórios (Normativos) COSIT nºs. 38, de 24 de junho de 1994, e 36, de 5 de outubro de 1995.” (destacado) O ADI SRF 13/02, por sua vez, está vazado nos seguintes termos: “O SECRETÁRIO DA RECEITA FEDERAL, no uso da atribuição que lhe confere o inciso III do art. 209 do Regimento Interno da Secretaria da Receita Federal, aprovado pela Portaria MF nº 259, de 24 de agosto de 2001, e considerando o disposto no art. 84, e seu § 2º, da Medida Provisória nº 2.15835, de 24 de agosto de 2001, declara: Art. 1º Não constitui infração punível com a multa prevista no art. 44 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, a solicitação, feita no despacho de importação, de reconhecimento de imunidade tributária, isenção ou redução do imposto de importação e preferência percentual negociada em acordo internacional, quando incabíveis, bem assim a indicação indevida de destaque ex, desde que o produto esteja corretamente descrito, com todos os elementos necessários à sua identificação e ao enquadramento tarifário pleiteado, e que não se constate, em qualquer dos casos, intuito doloso ou má fé por parte do declarante. Art. 2º Fica revogado o Ato Declaratório (Normativo) Cosit nº 10, de 16 de janeiro de 1997.” (destacado) Notese que o ato interpretativo supra não faz qualquer menção à errônea classificação fiscal, sendo suprimido esse trecho, em relação à redação anterior. Logo procedente a cobrança da multa de ofício sobre as diferença de tributos decorrentes da reclassificação promovida. Quanto à multa por erro de classificação fiscal, as disposições do ADN Cosit nº 10/97 não amparam a elisão dessa penalidade, mesmo porque, à época dos fatos, encontrava se revogado pelo ADI SRF 13/02, que também não contempla o pleito. Além do que, como já aduzido, a mercadoria, da forma como descrita, não trouxe todos os elementos necessários à sua completa identificação. Respeitante à inclusão do ICMS e das próprias contribuições na apuração do PIS/PASEPImportação e CofinsImportação, mesmo que o CARF não possua competência para se manifestar sobre a inconstitucionalidade de norma tributária (Súmula CARF nº 2), deve ser acolhido a reclamação do contribuinte, com fulcro nas exceções previstas no art. 26A do Decreto nº 70.235/72 e, especialmente, no art. 62 do RICARF/15 (Portaria MF 343/15): “Art. 62. Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. Fl. 262DF CARF MF Processo nº 11128.002882/201016 Acórdão n.º 3401004.432 S3C4T1 Fl. 16 13 § 1º O disposto no caput não se aplica aos casos de tratado, acordo internacional, lei ou ato normativo: I que já tenha sido declarado inconstitucional por decisão definitiva plenária do Supremo Tribunal Federal; (Redação dada pela Portaria MF nº 39, de 2016) II que fundamente crédito tributário objeto de: a) Súmula Vinculante do Supremo Tribunal Federal, nos termos do art. 103A da Constituição Federal; b) Decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal ou do Superior Tribunal de Justiça, em sede de julgamento realizado nos termos dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 Código de Processo Civil, na forma disciplinada pela Administração Tributária; (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016) c) Dispensa legal de constituição ou Ato Declaratório da ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (PGFN) aprovado pelo Ministro de Estado da Fazenda, nos termos dos arts. 18 e 19 da Lei nº 10.522, de 19 de julho de 2002; d) Parecer do AdvogadoGeral da União aprovado pelo Presidente da República, nos termos dos arts. 40 e 41 da Lei Complementar nº 73, de 10 de fevereiro de 1993; e e) Súmula da AdvocaciaGeral da União, nos termos do art. 43 da Lei Complementar nº 73, de 1993. (Redação dada pela Portaria MF nº 39, de 2016) § 2º As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016)” (destacado) Nesse sentido, O Supremo Tribunal Federal já se manifestou pela inconstitucionalidade do art. 7º, I da Lei nº 10.865/04, por intermédio do RE 559.937/RS, julgado sob a sistemática da repercussão geral, conforme ementa que ora se reproduz: “Tributário. Recurso extraordinário. Repercussão geral. PIS/COFINS – importação. Lei nº 10.865/04. Vedação de bis in idem. Não ocorrência. Suporte direto da contribuição do importador (arts. 149, II, e 195, IV, da CF e art. 149, § 2º, III, da CF, acrescido pela EC 33/01). Alíquota específica ou ad valorem. Valor aduaneiro acrescido do valor do ICMS e das próprias contribuições. Inconstitucionalidade. Isonomia. Ausência de afronta. Fl. 263DF CARF MF 14 1. Afastada a alegação de violação da vedação ao bis in idem, com invocação do art. 195, § 4º, da CF. Não há que se falar sobre invalidade da instituição originária e simultânea de contribuições idênticas com fundamento no inciso IV do art. 195, com alíquotas apartadas para fins exclusivos de destinação. 2. Contribuições cuja instituição foi previamente prevista e autorizada, de modo expresso, em um dos incisos do art. 195 da Constituição validamente instituídas por lei ordinária. Precedentes. 3. Inaplicável ao caso o art. 195, § 4º, da Constituição. Não há que se dizer que devessem as contribuições em questão ser necessariamente nãocumulativas. O fato de não se admitir o crédito senão para as empresas sujeitas à apuração do PIS e da COFINS pelo regime nãocumulativo não chega a implicar ofensa à isonomia, de modo a fulminar todo o tributo. A sujeição ao regime do lucro presumido, que implica submissão ao regime cumulativo, é opcional, de modo que não se vislumbra, igualmente, violação do art. 150, II, da CF. 4 Ao dizer que a contribuição ao PIS/PASEP Importação e a COFINS Importação poderão ter alíquotas ad valorem e base de cálculo o valor aduaneiro, o constituinte derivado circunscreveu a tal base a respectiva competência. 5. A referência ao valor aduaneiro no art. 149, § 2º, III, a , da CF implicou utilização de expressão com sentido técnico inequívoco, porquanto já era utilizada pela legislação tributária para indicar a base de cálculo do Imposto sobre a Importação. 6. A Lei 10.865/04, ao instituir o PIS/PASEP Importação e a COFINS Importação, não alargou propriamente o conceito de valor aduaneiro, de modo que passasse a abranger, para fins de apuração de tais contribuições, outras grandezas nele não contidas. O que fez foi desconsiderar a imposição constitucional de que as contribuições sociais sobre a importação que tenham alíquota ad valorem sejam calculadas com base no valor aduaneiro, extrapolando a norma do art. 149, § 2º, III, a, da Constituição Federal. 7. Não há como equiparar, de modo absoluto, a tributação da importação com a tributação das operações internas. O PIS/PASEP Importação e a COFINS Importação incidem sobre operação na qual o contribuinte efetuou despesas com a aquisição do produto importado, enquanto a PIS e a COFINS internas incidem sobre o faturamento ou a receita, conforme o regime. São tributos distintos. 8. O gravame das operações de importação se dá não como concretização do princípio da isonomia, mas como medida de política tributária tendente a evitar que a entrada de produtos desonerados tenha efeitos predatórios relativamente às empresas sediadas no País, visando, assim, ao equilíbrio da balança comercial. 9. Inconstitucionalidade da seguinte parte do art. 7º, inciso I, da Lei 10.865/04: “acrescido do valor do Imposto sobre Operações Relativas à Circulação de Mercadorias e sobre Prestação de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação – ICMS incidente no desembaraço aduaneiro e do valor das próprias contribuições , por violação do art. 149, § 2º, III, a, da CF, acrescido pela EC 33/01. Fl. 264DF CARF MF Processo nº 11128.002882/201016 Acórdão n.º 3401004.432 S3C4T1 Fl. 17 15 10. Recurso extraordinário a que se nega provimento.” A decisão em comento transitou em julgado em 29/10/2014, de modo que sua observância neste sodalício é impositiva, sendo certo que dessa parte exonerada devem os consectários legais ser decotados do lançamento na mesma proporção (Accessorium sequitur suum principale). Com essas considerações, voto por dar parcial provimento ao recurso para que se exclua o ICMS e as próprias contribuições da apuração do PIS/PASEPImportação e CofinsImportação. Robson José Bayerl Voto Vencedor Conselheiro Rosaldo Trevisan, Redator designado Minha divergência em relação ao voto do relator resumese à questão referente à possibilidade de aplicação da multa prevista no artigo 169, I, “b” do DecretoLei no 37/1966, com a redação dada pela Lei no 6.562/1978: “Art.169. Constituem infrações administrativas ao controle das importações: I importar mercadorias do exterior: (...) b) sem Guia de Importação ou documento equivalente, que não implique a falta de depósito ou a falta de pagamento de quaisquer ônus financeiros ou cambiais: Pena: multa de 30% (trinta por cento) do valor da mercadoria.” Ao tratar da multa em questão (à época, disciplinada no art. 526, II do Regulamento Aduaneiro), a própria RFB, por meio do ADN COSIT no 12/1997, declarou, em caráter normativo, que: “...não constitui infração administrativa ao controle das importações, nos termos do inciso II do art. 526 do Regulamento Aduaneiro, a declaração de importação de mercadoria objeto de licenciamento no Sistema Integrado de Comércio Exterior SISCOMEX, cuja classificação tarifária errônea ou indicação indevida de destaque "ex" exija novo licenciamento, automático ou não, desde que o produto esteja corretamente descrito, com todos os elementos necessários à sua identificação e ao enquadramento tarifário pleiteado, e que não se constate, em qualquer dos casos, intuito doloso ou má fé por parte do declarante.”(grifo nosso) Fl. 265DF CARF MF 16 Vejase que o texto do ato declaratório normativo trata exatamente da situação narrada no presente processo, no qual a classificação errônea fez com que houvesse necessidade de novo licenciamento. As únicas hipóteses em que poderia ter a fiscalização aplicado, então, a referida multa, seriam a de existência de dolo ou máfé (ausente de imputação, nos autos) ou descrição incorreta ou incompleta. Na decisão de piso e no voto do relator entendese ter havido essa segunda circunstância (descrição incompleta/incorreta). E é exatamente de tal entendimento que divirjo, por ser o produto, na descrição da declaração de importação, designado, já de início, por seu nome comercial: LUTAVIT® B2SG80. A designação pelo nome comercial, que tem composição estabelecida, e que não varia no tempo, permite ao fisco, em simples consulta à rede mundial de computadores, saber a descrição minuciosa da mercadoria. E, se necessário, demandar perícia para atestar a correta classificação, até mesmo sem a presença do produto. Ademais, no caso, não houve imputação fiscal de que o produto fosse outro que não o LUTAVIT® B2SG80, ou de que a amostra submetida a exame não correspondesse a tal produto, mas a mistura diversa. Não entendo, assim, aplicável ao caso a multa prevista no artigo 169, I, “b” do DecretoLei no 37/1966, com a redação dada pela Lei no 6.562/1978, por força de entendimento da própria RFB, normativo, veiculado pelo ADN COSIT no 12/1997, visto que não há imputação fiscal de dolo ou máfé, nem de descrição incorreta/incompleta, mas apenas de classificação incorreta do LUTAVIT® B2SG80. Pelo exposto, voto por dar provimento ao recurso voluntário em relação a tal item. Rosaldo Trevisan Fl. 266DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16561.720026/2011-13
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Nov 08 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Feb 09 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2005
ADMISSIBILIDADE. MATÉRIA COM DOIS FUNDAMENTOS COMPLEMENTARES. NECESSIDADE DE DEVOLUÇÃO INTEGRAL.
Recurso que não logra demonstrar ocorrência de divergência na interpretação da legislação tributária para os dois fundamentos complementares necessários para apreciação da matéria perde a utilidade. No caso, os paradigmas se prestaram a demonstrar divergência apenas para um dos fundamentos, não se consumando a devolução integral. Recurso não conhecido.
Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2005, 2006, 2007, 2008, 2009
AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. INCORPORAÇÃO DE EMPRESA. UTILIZAÇÃO DE EMPRESA-VEÍCULO. AUSÊNCIA DE PROPÓSITO NEGOCIAL
Não produz o efeito tributário pretendido pelo sujeito passivo a incorporação de pessoa jurídica em cujo patrimônio constava registro de ágio com fundamento em expectativa de rentabilidade futura, sem qualquer finalidade negocial ou societária, em operações em seqüência feitas em curto espaço de tempo entre a integralização de capital na incorporada e posterior evento de incorporação reversa. Nestes casos resta caracterizada a utilização da incorporada como mera empresa-veículo para transferência do ágio à incorporadora.
Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2005, 2006, 2007, 2008, 2009
MULTA QUALIFICADA. EVIDENTE INTUITO DE FRAUDE
Caracteriza o evidente intuito de fraudar o Fisco as operações de reestruturação societárias criadas com o objetivo único de possibilitar a amortização de ágio gerado artificialmente, mediante a utilização de empresas-veículo, sem propósito negocial que não seja o de obter benefício tributário.
DECADÊNCIA. REGRA DE CONTAGEM
Nos casos em que se verifica o dolo, a fraude e a simulação, a regra de contagem do prazo decadencial a ser aplicada é aquela prevista no art. 173, I, do CTN, ou seja, o prazo tem início no primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. (Súmula CARF nº 72)
JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO.
A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic.
Numero da decisão: 9101-003.208
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional quanto à (i) qualificação da multa de ofício, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que não conheceram do recurso. Votaram pelas conclusões os conselheiros Cristiane Silva Costa e Flávio Franco Corrêa. No mérito, por voto de qualidade, acordam em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe negaram provimento e, por unanimidade de votos, em decorrência do restabelecimento da multa qualificada, aplicar a contagem decadencial com base no art. 173, inciso I do CTN conforme Súmula CARF nº 72. Por maioria de votos, acordam em não conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional quanto à (ii) exigência de multa isolada sobre falta de recolhimento de estimativas, vencidos os conselheiros Adriana Gomes Rêgo (relatora) e Flávio Franco Corrêa, que conheceram do recurso; acordam, ainda, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Especial do Contribuinte quanto à (iii) decadência e acordam, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte quanto (iv) ao ágio. No mérito, para o ágio denominado "CAJATI", por maioria, dar provimento ao recurso, vencidos os conselheiros André Mendes de Moura, Rafael Vidal de Araújo e Flávio Franco Corrêa, que lhe negaram provimento. Para os ágios "ANDELY", "BIPART" e "BPART", por qualidade, negar provimento ao recurso, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento; acordam, também, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte quanto à (v) incidência de juros sobre a multa de ofício. No mérito, por voto de qualidade, acordam em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. Designado para redigir o voto vencedor, quanto ao não conhecimento da exigência de multa isolada sobre falta de recolhimento de estimativas, o conselheiro André Mendes de Moura. Manifestou intenção de apresentar declaração de voto o conselheiro Luís Flávio Neto.
(assinado digitalmente)
Adriana Gomes Rêgo Relatora e Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
André Mendes de Moura - Redator Designado
Participaram do presente julgamento os conselheiros Adriana Gomes Rêgo, André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luís Flávio Neto, Flávio Franco Correa, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Guerra de Macedo. Ausente, justificadamente, o conselheiro Carlos Alberto Freitas Barreto.
Nome do relator: ADRIANA GOMES REGO
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camara_s : 1ª SEÇÃO
ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2005 ADMISSIBILIDADE. MATÉRIA COM DOIS FUNDAMENTOS COMPLEMENTARES. NECESSIDADE DE DEVOLUÇÃO INTEGRAL. Recurso que não logra demonstrar ocorrência de divergência na interpretação da legislação tributária para os dois fundamentos complementares necessários para apreciação da matéria perde a utilidade. No caso, os paradigmas se prestaram a demonstrar divergência apenas para um dos fundamentos, não se consumando a devolução integral. Recurso não conhecido. Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2005, 2006, 2007, 2008, 2009 AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. INCORPORAÇÃO DE EMPRESA. UTILIZAÇÃO DE EMPRESA-VEÍCULO. AUSÊNCIA DE PROPÓSITO NEGOCIAL Não produz o efeito tributário pretendido pelo sujeito passivo a incorporação de pessoa jurídica em cujo patrimônio constava registro de ágio com fundamento em expectativa de rentabilidade futura, sem qualquer finalidade negocial ou societária, em operações em seqüência feitas em curto espaço de tempo entre a integralização de capital na incorporada e posterior evento de incorporação reversa. Nestes casos resta caracterizada a utilização da incorporada como mera empresa-veículo para transferência do ágio à incorporadora. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2005, 2006, 2007, 2008, 2009 MULTA QUALIFICADA. EVIDENTE INTUITO DE FRAUDE Caracteriza o evidente intuito de fraudar o Fisco as operações de reestruturação societárias criadas com o objetivo único de possibilitar a amortização de ágio gerado artificialmente, mediante a utilização de empresas-veículo, sem propósito negocial que não seja o de obter benefício tributário. DECADÊNCIA. REGRA DE CONTAGEM Nos casos em que se verifica o dolo, a fraude e a simulação, a regra de contagem do prazo decadencial a ser aplicada é aquela prevista no art. 173, I, do CTN, ou seja, o prazo tem início no primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. (Súmula CARF nº 72) JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional quanto à (i) qualificação da multa de ofício, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que não conheceram do recurso. Votaram pelas conclusões os conselheiros Cristiane Silva Costa e Flávio Franco Corrêa. No mérito, por voto de qualidade, acordam em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe negaram provimento e, por unanimidade de votos, em decorrência do restabelecimento da multa qualificada, aplicar a contagem decadencial com base no art. 173, inciso I do CTN conforme Súmula CARF nº 72. Por maioria de votos, acordam em não conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional quanto à (ii) exigência de multa isolada sobre falta de recolhimento de estimativas, vencidos os conselheiros Adriana Gomes Rêgo (relatora) e Flávio Franco Corrêa, que conheceram do recurso; acordam, ainda, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Especial do Contribuinte quanto à (iii) decadência e acordam, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte quanto (iv) ao ágio. No mérito, para o ágio denominado "CAJATI", por maioria, dar provimento ao recurso, vencidos os conselheiros André Mendes de Moura, Rafael Vidal de Araújo e Flávio Franco Corrêa, que lhe negaram provimento. Para os ágios "ANDELY", "BIPART" e "BPART", por qualidade, negar provimento ao recurso, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento; acordam, também, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte quanto à (v) incidência de juros sobre a multa de ofício. No mérito, por voto de qualidade, acordam em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. Designado para redigir o voto vencedor, quanto ao não conhecimento da exigência de multa isolada sobre falta de recolhimento de estimativas, o conselheiro André Mendes de Moura. Manifestou intenção de apresentar declaração de voto o conselheiro Luís Flávio Neto. (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rêgo Relatora e Presidente em Exercício (assinado digitalmente) André Mendes de Moura - Redator Designado Participaram do presente julgamento os conselheiros Adriana Gomes Rêgo, André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luís Flávio Neto, Flávio Franco Correa, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Guerra de Macedo. Ausente, justificadamente, o conselheiro Carlos Alberto Freitas Barreto.
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MULTA QUALIFICADA. DECADÊNCIA. JUROS SOBRE MULTA. Recorrentes FAZENDA NACIONAL BUNGE FERTILIZANTES S/A ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2005 ADMISSIBILIDADE. MATÉRIA COM DOIS FUNDAMENTOS COMPLEMENTARES. NECESSIDADE DE DEVOLUÇÃO INTEGRAL. Recurso que não logra demonstrar ocorrência de divergência na interpretação da legislação tributária para os dois fundamentos complementares necessários para apreciação da matéria perde a utilidade. No caso, os paradigmas se prestaram a demonstrar divergência apenas para um dos fundamentos, não se consumando a devolução integral. Recurso não conhecido. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2005, 2006, 2007, 2008, 2009 AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. INCORPORAÇÃO DE EMPRESA. UTILIZAÇÃO DE EMPRESAVEÍCULO. AUSÊNCIA DE PROPÓSITO NEGOCIAL Não produz o efeito tributário pretendido pelo sujeito passivo a incorporação de pessoa jurídica em cujo patrimônio constava registro de ágio com fundamento em expectativa de rentabilidade futura, sem qualquer finalidade negocial ou societária, em operações em seqüência feitas em curto espaço de tempo entre a integralização de capital na incorporada e posterior evento de incorporação reversa. Nestes casos resta caracterizada a utilização da incorporada como mera empresaveículo para transferência do ágio à incorporadora. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2005, 2006, 2007, 2008, 2009 MULTA QUALIFICADA. EVIDENTE INTUITO DE FRAUDE Caracteriza o evidente intuito de fraudar o Fisco as operações de reestruturação societárias criadas com o objetivo único de possibilitar a AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 56 1. 72 00 26 /2 01 1- 13 Fl. 8973DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 8.974 2 amortização de ágio gerado artificialmente, mediante a utilização de empresasveículo, sem propósito negocial que não seja o de obter benefício tributário. DECADÊNCIA. REGRA DE CONTAGEM Nos casos em que se verifica o dolo, a fraude e a simulação, a regra de contagem do prazo decadencial a ser aplicada é aquela prevista no art. 173, I, do CTN, ou seja, o prazo tem início no primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. (Súmula CARF nº 72) JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic. Fl. 8974DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 8.975 3 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional quanto à (i) qualificação da multa de ofício, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que não conheceram do recurso. Votaram pelas conclusões os conselheiros Cristiane Silva Costa e Flávio Franco Corrêa. No mérito, por voto de qualidade, acordam em darlhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe negaram provimento e, por unanimidade de votos, em decorrência do restabelecimento da multa qualificada, aplicar a contagem decadencial com base no art. 173, inciso I do CTN conforme Súmula CARF nº 72. Por maioria de votos, acordam em não conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional quanto à (ii) exigência de multa isolada sobre falta de recolhimento de estimativas, vencidos os conselheiros Adriana Gomes Rêgo (relatora) e Flávio Franco Corrêa, que conheceram do recurso; acordam, ainda, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Especial do Contribuinte quanto à (iii) decadência e acordam, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte quanto (iv) ao ágio. No mérito, para o ágio denominado "CAJATI", por maioria, dar provimento ao recurso, vencidos os conselheiros André Mendes de Moura, Rafael Vidal de Araújo e Flávio Franco Corrêa, que lhe negaram provimento. Para os ágios "ANDELY", "BIPART" e "BPART", por qualidade, negar provimento ao recurso, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento; acordam, também, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte quanto à (v) incidência de juros sobre a multa de ofício. No mérito, por voto de qualidade, acordam em negarlhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. Designado para redigir o voto vencedor, quanto ao não conhecimento da exigência de multa isolada sobre falta de recolhimento de estimativas, o conselheiro André Mendes de Moura. Manifestou intenção de apresentar declaração de voto o conselheiro Luís Flávio Neto. (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rêgo – Relatora e Presidente em Exercício (assinado digitalmente) André Mendes de Moura Redator Designado Participaram do presente julgamento os conselheiros Adriana Gomes Rêgo, André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luís Flávio Neto, Flávio Franco Correa, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Guerra de Macedo. Ausente, justificadamente, o conselheiro Carlos Alberto Freitas Barreto. Fl. 8975DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 8.976 4 Relatório A FAZENDA NACIONAL recorre a este Colegiado, por meio do Recurso Especial de efls. 8.342/8.373, contra o Acórdão nº 1402001.460, de 8 de outubro de 2013 (e fls. 8.214/8.301) que, por voto de qualidade, deu provimento parcial ao recurso voluntário impetrado por BUNGE FERTILIZANTES S/A, exonerando a multa qualificada, de forma a reduzíla ao percentual de 75% , bem como a multa isolada exigida em concomitância com a multa de ofício. A decisão restou ementada nos seguintes termos: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2005, 2006, 2007, 2008, 2009 PRELIMINAR. DECADÊNCIA. FORMAÇÃO DE ÁGIO EM PERÍODOS ANTERIORES AO DA OCORRÊNCIA DO FATO GERADOR. INOCORRÊNCIA. Somente pode se falar em contagem do prazo decadencial após a data de ocorrência dos fatos geradores, não importando a data contabilização de fatos passados que possam ter repercussão futura. O art. 113, § 1º, do CTN aduz que “A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador” e o papel de Fisco de efetuar o lançamento, nos termos do art. 142 do Estatuto Processual, nada mais é do que o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente. Não é papel do Fisco auditar as demonstrações contábeis dos contribuintes a fim de averiguar sua correição à luz dos princípios e normas que norteiam as ciências contábeis. A preocupação do Fisco deve ser sempre o reflexo tributário de determinados fatos, os quais, em inúmeras ocasiões, advém dos registros contábeis. Ressaltese o § 4º do art. 9º do Decreto nº 70.235, de 1972, prevê que seja efetuado o lançamento “também nas hipóteses em que, constatada infração à legislação tributária, dela não resulte exigência de crédito tributário.” O prazo decadencial somente tem início após a ocorrência do fato gerador (art. 150, § 4º, do CTN), ou após o primeiro dia do exercício seguinte ao que o lançamento poderia ter sido efetuado nas hipóteses do art. 173, I, do CTN. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2005, 2006, 2007, 2008, 2009 Fl. 8976DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 8.977 5 IRPJ/CSLL. UTILIZAÇÃO DE SOCIEDADE VEÍCULO. REESTRUTURAÇÃO SOCIETÁRIA. ÁGIO TRANSFERIDO. AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO INDEVIDA. 1. O direito à contabilização do ágio não pode ser confundido com o direito à sua amortização. 2. Em regra, o ágio efetivamente pago em operação entre empresas não ligadas e calcadas em laudo que comprove a expectativa de rentabilidade futura deve compor o custo do investimento, sendo dedutível somente no momento da alienação de tal investimento (inteligência do art. 426 do RIR/99). 3. A exceção trazida pelo caput do art. 386, e seu inciso III, pressupõe uma efetiva reestruturação societária na qual a investidora absorve parcela do patrimônio da investida, ou vice versa (§ 6º, II). A operacionalização de tal reestruturação de forma artificial, calcada em operações meramente formais e com fins unicamente tributários mediante utilização de “empresas veículo”, não possui o condão de alterar a verdade dos fatos, de modo a transformar o que deveria ser contabilizado como custo do investimento em amortização de ágio. 3. A amortização do ágio oriundo de operações societárias, para ser eficaz perante o Fisco, deve decorrer de atos efetivamente existentes, e não apenas artificiais e formalmente revelados em documentação ou na escrituração mercantil ou fiscal. 4. Nesse cenário, o ágio artificialmente transferido não pode ser utilizado para redução da base de cálculo de tributos. 5. A utilização de sociedade veículo, de curta duração, constitui prova da artificialidade daquela sociedade e das operações nas quais ela tomou parte, notadamente, no caso concreto, a transferência do ágio ao real investidor para fins de amortização. IRPJ/CSLL. AQUISIÇÃO DAS PRÓPRIAS AÇÕES. PAGAMENTO DE MAIS VALIA. CONTABILIZAÇÃO EM CONTAS PATRIMONAIS. RESULTADO DO EXERCÍCIO INALTERADO. UTILIZAÇÃO DE SOCIEDADE VEÍCULO. GERAÇÃO ARTIFICIAL DE ÁGIO. AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO ARTIFICIAL. IMPOSSIBILIDADE. 1. A Lei das S/A LSA veda, em regra, a negociação com as próprias ações. Comprovada que operações formalizadas como aquisição de investimento, com posterior cisão parcial e incorporação, na verdade dissimulavam aquisição das próprias ações, deve o Fisco apurar os tributos devidos de acordo com os fatos efetivamente ocorridos. 2. O pagamento de mais valia em aquisição das próprias ações não pode alterar o resultado do período, devendo ser contabilizado diretamente em contas patrimoniais, ou seja, sem transitar pelo resultado. Fl. 8977DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 8.978 6 3. O ágio gerado em operações societárias, para ser eficaz perante o Fisco, deve decorrer de atos efetivamente existentes, e não apenas artificiais e formalmente revelados em documentação ou na escrituração mercantil ou fiscal. 4. Nesse cenário, o ágio artificialmente gerado não pode ser utilizado para redução da base de cálculo de tributos. 5. A utilização de sociedade veículo, de curta duração, constitui prova da artificialidade daquela sociedade e das operações nas quais ela tomou parte, notadamente a geração e a transferência do ágio. LUCRO REAL. ÁGIO INTERNO. GLOSA DE AMORTIZAÇÃO. INCORPORAÇÃO REVERSA. FALTA DE PROPÓSITO NEGOCIAL. A circunstância de a operação ser praticada por empresas do mesmo grupo econômico somada a falta de propósito negocial ou societário da operação dentro do seu contexto, analisado o caso específico, impedem os efeitos tributários da operação desejados pelo contribuinte. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. INAPLICABILIDADE. INOCORRÊNCIA DE FRAUDE Nos lançamentos de ofício para constituição de diferenças de tributos devidos, não pagos e não declarados, via de regra, é aplicada a multa proporcional de 75%, nos termos do art. 44, inciso I, da Lei 9.430/1996. A qualificação da multa para o percentual de 150% depende não só da intenção do agente, como também da prova fiscal da ocorrência da fraude, caracterizada pela prática de ação ou omissão dolosa com esse fim. Na situação versada nos autos não houve dolo por parte do contribuinte, logo incabível a aplicação da multa qualificada. IRPJ. ESTIMATIVAS. FALTA DE RECOLHIMENTO. MULTA ISOLADA. A infração relativa ao não recolhimento da estimativa mensal caracteriza etapa preparatória do ato de reduzir o imposto no final do ano. Pelo critério da consunção, a primeira conduta é meio de execução da segunda. O bem jurídico mais importante é sem dúvida a efetivação da arrecadação tributária, atendida pelo recolhimento do tributo apurado ao fim do anocalendário, e o bem jurídico de relevância secundária é a antecipação do fluxo de caixa do governo, representada pelo dever de antecipar essa mesma arrecadação. Precedentes. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à taxa SELIC. AUTOS REFLEXOS. CSLL. Fl. 8978DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 8.979 7 O decidido quanto ao IRPJ aplicase à tributação dele decorrente. Recurso Voluntário parcialmente provido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, rejeitar a argüição de decadência. Vencido o Conselheiro Carlos Pelá (Relator). No mérito, por voto de qualidade, dar provimento parcial ao recurso para cancelar a qualificação da multa de ofício aplicada junto com o tributo e a multa isolada. Vencidos os Conselheiros Carlos Pelá (Relator), Moisés Giacomelli Nunes da Silva e Paulo Roberto Cortez que davam provimento em maior extensão para cancelar a exigência, exceto aquela referente ao denominado ágio interno, sendo que o Conselheiro Carlos Pelá (Relator) também foi vencido na parte em que votou pela não incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício. Os Conselheiros Leonardo de Andrade Couto e Fernando Brasil de Oliveira Pinto foram vencidos em relação à multa isolada. Designado o Conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto para redigir o voto vencedor em relação à decadência, glosa de despesas com ágio e à exigência dos juros de mora sobre a multa de ofício. Breve Histórico: Em resumo e de acordo com os relatórios que antecedem aos votos proferidos nos acórdãos da DRJ e do Colegiado a quo, trata o processo de Autos de Infração de IRPJ e de CSLL dos anoscalendário 2005 a 2009, com acréscimo de multa de ofício qualificada, multa isolada por falta de recolhimento de estimativas e juros, que tiveram por base as seguintes infrações: (i) glosa de exclusão indevida na apuração do Lucro Real, referente à amortização de ágio nesses anoscalendário; (ii) compensação indevida de prejuízo fiscal e base negativa, no anocalendário de 2007, e (iii) falta de recolhimento de estimativas nos anoscalendário de 2006 a 2009. O Termo de Verificação Fiscal encontrase às efls. 7.372/7.466 e os Autos de Infração e correspondentes demonstrativos às efls. 7.467/7.517. A compensação indevida de prejuízo fiscal e base negativa, no ano calendário de 2007, e as multas isoladas são decorrentes das glosas de exclusões oriundas de despesas de amortizações de ágios que acabaram por afetar as bases de cálculos sobre as quais são apuradas as antecipações obrigatórias do IRPJ e da CSLL e as compensações fiscais. A multa de ofício foi qualificada pela subsunção dos fatos ao que dispõe os arts. 71 e 72 da Lei nº 4.502/64, combinados com o art. 44, §1º, da Lei 9.430/1996, em razão de vislumbrar a Fiscalização evidente intuito de fraude. As autuações seriam fruto de um extenso trabalho no qual foram analisadas diversas operações societárias realizadas pela interessada e empresas do grupo do qual ela faz parte (Grupo Bunge), ao longo de muitos anos. A reorganização societária do Grupo Bunge foi subdividida em cinco operações societárias distintas, que culminaram com o registro de cinco ágios distintos, posteriormente transferidos, em razão de novos eventos societários, para a empresa autuada, que passou a amortizálos. Fl. 8979DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 8.980 8 Eis a nomenclatura de abreviações das empresas envolvidas nas reorganizações societárias: GB Grupo Bunge BB Bunge Brasil S/A BF Bunge Fertilizantes S/A BI Bunge Investimentos Ltda. BIC Bunge Investimentos e Consultoria Ltda. BPART Bunge Participações Ltda. BALPART Bunge Alimentos e Participações Ltda. BAL Bunge Alimentos S/A BIPART Bunge I de Participações S/A CAJATI Cajati Participações Ltda. ANDELY Andely Holding Ltda. O Termo de Verificação Fiscal (efls. 7.372/7.466) dá conta, em resumo, dos seguintes fatos, dentre outros: SITUAÇÃO INICIAL A ação fiscal teve por escopo inicial a análise da incorporação da Bunge Brasil S.A. (BB), CNPJ 61.074.092/000149, pela sua subsidiária integral Bunge Fertilizantes S.A. (BF), tendo sido constatado, de início, que a incorporada declarou R$ 851.479.101,42 de ágio, na Ficha 45A linha 27 de sua DIPJ de evento especial; mas, na mesma data, 31/10/2005, foram realizadas outras incorporações no Grupo Bunge (GB), a saber: 1. da Bunge Investimentos Ltda., CNPJ 07.052.334/000158 (BI), que foi constituída em 15/09/2004, pela Bunge Investimentos e Consultoria Ltda., CNPJ 67.866.863/000117 (BIC), com um ágio declarado na incorporada de R$ 367.069.306,50; 2. da BIC, aberta em 18/05/92, pela BB, com ágio declarado de R$ 501.662.557,60; 3. da Bunge Participações Ltda. (BPART), CNPJ 06.282.557/000149, aberta em 14/05/2004, pela BB, com ágio de R$ 389.373.463,92; 4. cisão parcial na BF com versão de parcela do seu patrimônio para a Bunge Alimentos Participações Ltda. (BALPART), CNPJ 07.712.535/000134, que depois foi incorporada, em 28/02/2006, pela Bunge Alimentos S.A. (BAL), CNPJ 84.046.101/000193, com ágio de R$ 476.318.882,50; Fl. 8980DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 8.981 9 5. além disso, a BF havia contabilizado outros ágios, que vinham sendo amortizados à razão de 10% ao ano, provenientes de incorporações anteriores da Bunge I de Participações S.A. (BIPART), de CNPJ 05.111.830/000100 e da Cajati Participações Ltda. (CAJATI), de CNPJ 05.675.377/000164, com ágios de R$ 286.656.102,71 e R$ 170.844.432,64, registrados nas contas 1332424 e 1332425, respectivamente; 6. quanto ao ágio de R$ 851.479.101,42 proveniente da incorporação da BB, em 31 /10/2005, a BF assim demonstrou sua origem: a) R$ 389.373.463,92, de ágio incorporado da BPART, decorrente da compra de ações da BB; b) R$ 400.439.243,50, de ágio incorporado da BI, decorrente da compra da BIC; c) R$ 61.666.394,00 de ágio incorporado da BIC; 7. do total do ágio incorporado pela BF na incorporação da BB (R$ 851.479.101,42), uma parcela foi vertida para a BALPART, CNPJ 07.712.535/000134, na cisão parcial da BF: Ágio Vertido por Cisão Remanescente Ágio aquisição ações da BB 389.373.463,92 171.324.324,12 218.049.139,80 Ágio BIC 400.439.243,50 176.193.267,14 224.245.976,36 Ágio Ceval Alimentos S.A. 61.666.394,00 61.666.394,00 0,00 851.479.101,42 409.183.985,26 442.295.116,16 Foram analisadas pela auditoria fiscal as parcelas que geraram as seguintes amortizações anuais de ágio, por operação: Conta 2005 2006 2007 2008 2009 Amortização de Ágio BIC 22.424.597,66 22.424.597,66 22.424.597,66 22.424.597,66 22.424.597,66 Amortz. Ágio BB 27.256.142,50 21.804.913,92 21.804.913,92 21.804.913,92 21.804.913,92 TOTAL 49.680.740,16 44.229.511,56 44.229.511,56 44.229.511,56 44.229.511,56 Analisadas então todas as operações que envolveram a transferência para a interessada dos ágios gerados em reorganizações societárias correspondentes aos referidos grupos de empresas, concluiu a auditoria fiscal que o sujeito passivo se valeu de subterfúgios e manobras empresarias que foram concebidas com o intuito exclusivo de obter uma vantagem tributária, traduzida em economia no pagamento de tributos. Fl. 8981DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 8.982 10 De acordo com os agentes fiscais, o Grupo Bunge (GB) se valeu de incorporações destituídas de propósito negocial e sem qualquer fundamento econômico, com a constituição de empresas de existência efêmera, as chamadas “empresasveículo”, usadas apenas como artifício para viabilizar a dedutibilidade de ágios que, logo após cumprirem suas funções, foram incorporadas e deixaram de existir. Entendeu a fiscalização que as operações de reestruturação do GB se afastam de uma reorganização natural, no momento em que foram encadeadas de forma estruturada e em seqüência, com a constituição de empresas totalmente subordinadas ao grupo, com administradores comuns, localizadas no mesmo endereço, com mesmo contador, que não possuíram funcionários ou empregados, sem qualquer movimento operacional, tendo todas elas como única função dar ensejo a situações em que fosse possível a dedutibilidade do ágio. Ao apreciar o litígio, o Colegiado a quo, em voto vencedor, deduziu entendimento no sentido de reconhecer que o contribuinte tem o direito de estruturar o seu negócio de maneira que melhor lhe convier, não se admitindo, porém, que os atos e negócios praticados se baseiem numa aparente legalidade, sem qualquer finalidade empresarial ou negocial, para disfarçar o real objetivo da operação, quando unicamente almeje reduzir o pagamento de tributos. Nesse contexto, concluiu que houve operações artificiais, assim caracterizadas pela criação de empresas veículos que viabilizassem operações de reestruturações com incorporações reversas que permitiriam alcançar o real propósito desses negócios, que foi a transferência de ágios e posteriores amortizações. Nessa questão, ao final, assentou que não se poderia acatar as deduções a título de ágio realizadas pelo sujeito passivo, mantendo, nessa parte, a decisão da DRJ, assim como a incidência de juros sobre a multa. A multa qualificada foi exonerada e reduzida ao percentual de 75%, por entender o colegiado que a fraude não restou caracterizada. A multa isolada também foi exonerada, em razão da tese de que, encerrado o anocalendário com a apuração final do tributo, é sobre este que deve incidir a penalidade, já que as estimativas seriam meras antecipações do valor a ser devido ao final do anocalendário. Prosseguindose no relato do andamento processual, em 23/09/2014, os procuradores da interessada protocolizaram petição aduzindo a desistência parcial do Recurso Voluntário interposto com o que, cumulativamente, renunciaram ao direito em que se funda essa parte do recurso, e que se refere às discussões a respeito da amortização do ágio da BUNGE INVESTIMENTO E CONSULTORIA LTDA (BIC) (efls. 8.308/8.322). Com efeito, consta a formalização do processo em apenso nº 16151.720093/201411, para o qual foram transferidos os débitos atinentes à essa parte do lançamento. A Fazenda Nacional, em seu Recurso Especial, alegou divergência jurisprudencial relativamente às seguintes matérias (efls. 8.342/8.373): (i) correta caracterização da qualificação da multa de ofício. Apresenta como paradigmas o Acórdão nº 120200.753 e o Acórdão nº 10196.724; Fl. 8982DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 8.983 11 (ii) exigência de multa isolada sobre falta de recolhimento de estimativas, após o encerramento do anocalendário. Ofertou como paradigmas o Acórdão nº 1302001.080 e Acórdão nº 1202000.964; (iii) exigência de multa isolada sobre falta de recolhimento de estimativas, ainda que em concomitância com a multa de ofício. Apresentou como paradigma o Acórdão nº 120200.410. Ao detalhar os fundamentos para a reforma do acórdão, a Fazenda afirma que a imposição da multa qualificada é mandatória, no presente caso, em vista de os atos praticados pela interessada terem sido fraudulentos e simulados. Além disso, a auditoria fiscal teria verificado a ausência de propósito negocial e fundamento econômico nas operações que deram origem ao ágio. Aponta que, in casu, não houve aquisição de investimento e circulação de riqueza nova e que o Grupo Bunge nada mais fez do que cobrar ágio de si mesmo. Diante dessas características, terseia a criação de um ágio meramente artificial para posterior dedução fiscal de sua despesa de amortização. Depois de se referir a cada uma das operações denominadas "Ágio Andely", "Ágio BIPART e "Ágio Cajati", conclui que o Grupo Bunge tratou de planejar previa e fraudulenta reorganização societária, juntamente com a ajuda de consultoria especializada, que denotaria o evidente intuito doloso da contribuinte de, com a criação do ágio, reduzir de forma indevida o seu futuro passivo tributário. No tocante ao pleito pela manutenção da penalidade isolada, pondera que a multa prevista no artigo 44, par. 1º, inciso IV da Lei nº. 9.430, de 1996, atualmente amparada no art. 44, II, b, da mesma lei, na redação dada pela Lei n.º 11.488/07, decorre do descumprimento da obrigação de recolher a estimativa apurada no mêscalendário, independentemente de se apurar ou não resultado anual tributável, sendo cabível mesmo após o encerramento do anocalendário e nada tendo a ver com a multa devida pela falta de recolhimento do tributo apurado com base no lucro real anual ou trimestral. Observa que a aplicação da multa de ofício, prevista no art. 44, inc. I, da Lei 9.430/96, resultou da falta de recolhimento de tributo IRPJ e CSLL por parte da empresa. A denominada multa isolada, fundada no art. 44, II, ‘b’ da Lei 9.430/96, foi aplicada em razão do descumprimento da sistemática de recolhimento por estimativa mensal da CSLL e, sob essa ótica, o não recolhimento do IRPJ e da CSLL por estimativa é infração bastante diversa daquela consistente na omissão de receitas apurada ao final do anocalendário, nada impedindo que dessas infrações resultem penalidades distintas: (i) da omissão de rendimentos, da qual decorreria a multa de ofício prevista no art. 44, inciso I, da Lei 9.430/96; (ii) do descumprimento do regime de recolhimento de estimativa, da qual decorreria a multa isolada prevista no atual art. 44, inciso II, alínea “b”, da mesma Lei. Assinala que no presente caso restou plenamente configurado o desrespeito da Contribuinte à Lei nº 9.430/96, devendo, portanto, ser mantido o lançamento da multa isolada. Ao final pleiteou pelo conhecimento e provimento do Recurso Especial, a fim de que o acórdão recorrido seja reformado nas questões objeto da insurgência. Fl. 8983DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 8.984 12 Pelo despacho de efls. 8.382/8.336, a presidência da Quarta Câmara da Primeira Seção do CARF deu seguimento ao Recurso Especial da PFN. A interessada igualmente foi cientificada do Acórdão nº 1402001.460 e, contra essa decisão, manejou, tempestivamente, Embargos de Declaração objetivando suprir omissão, contradição e obscuridade (efls. 8.396/8.414). Também apresentou contrarrazões (efls. 8.418/8.468) ao Recurso Especial da PFN. Nessa peça de defesa sustenta, preliminarmente, que o apelo especial da PFN contraria, ao menos em parte, o que dispõe a Súmula CARF nº 105. Observa que, considerando que houve aplicação da penalidade isolada para fatos geradores ocorridos antes de janeiro/2007, mais especificamente nos meses de janeiro e fevereiro de 2006, além do próprio mês de janeiro de 2007, terseia um Recurso Especial em total contrariedade à referida Súmula CARF nº 105, já que a multa isolada teria sido aplicada em concomitância com a multa de ofício, exatamente nos termos da vedação a que se refere a Súmula. Assim, o Recurso Especial, nessa parte, por afrontar o que dispõe o art. 67, § 3º, do Anexo II, do RICARF, não poderia ser admitido. Consigna, ainda em preliminares, que não teria sido caracterizada a divergência jurisprudencial apontada em relação à multa qualificada. Afirma que na análise dos casos confrontados denotarseia que a norma do art. 44 foi interpretada de forma idêntica, e assim não haveria qualquer divergência, eis que tanto o acórdão recorrido, quanto o paradigma de nº 120200.753 afirmaram que na constatação do evidente intuito de fraude, deve ser aplicada a multa qualificada. Portanto, haveria convergência de interpretações e não divergência e a diferença entre as decisões estaria na análise dos fatos, que nestes autos motivaram a exoneração da multa qualificada, enquanto que no outro caso determinaram a sua manutenção. No mérito, em resumo, assenta que não ocorreu o intuito doloso de fraudar o Fisco porque os atos praticados estão conservados em sua forma documental e escritural reveladora da sua efetiva substância jurídica, tais como eles ocorreram, sem a mínima modificação. Assim, sendo o intuito doloso prérequisito para a cominação da penalidade qualificada, a sua ausência ensejaria a exoneração dessa qualificação. Lembra que os vários "Fatos Relevantes" publicados que chegaram a citar a vantagem fiscal referentes às amortizações dos ágios evidenciariam a total lisura e transparência das operações, acrescentando que não se poderia esquecer que todos os atos que envolveram as operações foram levados à registro público, constaram de notas explicativas e de balanços publicados, como também a CVM e o BACEN, no âmbito de suas respectivas atribuições, concederam registro e validaram as operações em questão. Cita estudos doutrinários e reproduz extensa jurisprudência. No que respeita à multa isolada afirma, também resumidamente, que os recolhimentos mensais por estimativa efetuados mês a mês, ou mesmo a ausência de recolhimento em razão de apuração de prejuízo fiscal num mês específico, se caracterizam por sua provisoriedade, na medida em que, terminado o períodobase, somente o tributo incidente sobre o lucro é que passa a ser devido. Fl. 8984DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 8.985 13 Logo, uma vez encerrado o período de apuração, não haveria mais que se falar em imposição de multa isolada, porque o que está sendo exigido não é mais a estimativa mensal, e sim a diferença a menor do montante de IRPJ e de CSLL devidos referentes a todo o período de apuração, fato esse que, se for o caso, será apenado com multa de 75%. Registra que mesmo após as alterações promovidas no art. 44 da Lei nº 9.530/96, não houve mudança jurídica desse entendimento, mas apenas alteração do percentual da multa isolada que foi reduzido. Aqui também reproduz estudos doutrinários e jurisprudência administrativa e judicial. Pede ao final pelo não conhecimento do apelo especial da PFN ou, no caso de seu conhecimento, que sejalhe negado provimento. Os Embargos de Declaração da interessada foram admitidos (efls. 8.471/8.482) e, em sessão de julgamento realizada em 05/04/2016, foi proferido o acórdão integrativo nº 1402002.145, pelo qual decidiuse, por unanimidade de votos, acolhêlos para suprir omissões no acórdão nº 1402001.460, com efeitos infringentes, e reconhecer a extinção do crédito tributário atinente ao anocalendário de 2005 em face da decadência, dando provimento ao recurso em relação a essa matéria. A decisão recebeu a seguinte ementa: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2005, 2006, 2007, 2008, 2009 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. NOVO PRONUNCIAMENTO PARA SUPRIR OMISSÃO. Constatado que o acórdão foi omisso, prolatase nova decisão a fim de suprir a lacuna apontada. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2005 DECADÊNCIA. OCORRÊNCIA DE PAGAMENTO ANTECIPADO E AUSÊNCIA DE DOLO FRAUDE OU SIMULAÇÃO. INÍCIO DA CONTAGEM DO PRAZO A PARTIR DA DATA DE OCORRÊNCIA DO FATO GERADOR. PRECEDENTE DO STJ NO RECURSO ESPECIAL N° 973.733/SC. Comprovada a ocorrência de pagamento antecipado, e inexistindo a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, a contagem do prazo decadencial deve se dar com base no disposto no § 4º do art. 150 do Código Tributário Nacional, ou seja, a partir da ocorrência do fato gerador. Precedente do STJ no Recurso Especial n° 973.733/SC julgado nos termos do art. 543C do CPC o que implica, em razão do disposto no art. 62, §2º, do Anexo II do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF 343/2015, vinculação dos membros deste Colegiado à tese vencedora no âmbito do STJ. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Fl. 8985DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 8.986 14 Anocalendário: 2005, 2006, 2007, 2008, 2009 IRPJ/CSLL. UTILIZAÇÃO DE SOCIEDADE VEÍCULO. REESTRUTURAÇÃO SOCIETÁRIA. AMORTIZAÇÃO INDEVIDA DO ÁGIO. 1. O direito à contabilização do ágio não pode ser confundido com o direito à sua amortização. 2. Em regra, o ágio efetivamente pago em operação entre empresas não ligadas e calcadas em laudo que comprove a expectativa de rentabilidade futura deve compor o custo do investimento, sendo dedutível somente no momento da alienação de tal investimento (inteligência do art. 426 do RIR/99). 3. A exceção trazida pelo caput do art. 386, e seu inciso III, pressupõe uma efetiva reestruturação societária na qual a investidora absorve parcela do patrimônio da investida, ou vice versa (§6º, II). A operacionalização de tal reestruturação de forma artificial, calcada em operações meramente formais e com fins unicamente tributários mediante utilização de “empresas veículo”, não possui o condão de alterar a verdade dos fatos, de modo a transformar o que deveria ser contabilizado como custo do investimento em amortização de ágio. 3. A amortização do ágio oriundo de operações societárias, para ser eficaz perante o Fisco, deve decorrer de atos efetivamente existentes, e não apenas artificiais e formalmente revelados em documentação ou na escrituração mercantil ou fiscal. 4. Nesse cenário, o ágio artificialmente transferido não pode ser utilizado para redução da base de cálculo de tributos. 5. A utilização de sociedade veículo, de curta duração, constitui prova da artificialidade daquela sociedade e das operações nas quais ela tomou parte, notadamente, no caso concreto, a transferência do ágio ao real investidor para fins de amortização. Tal cenário não se altera ainda que a sociedade veículo não tenha sido criada pela real adquirente, se, por mera interposição de tal pessoa jurídica no negócio realizado, advierem efeitos tributários distintos do que seriam esperados da real operação levada a efeito. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, acolher os embargos para suprir omissões no acórdão 1402001.460, com efeitos infringentes, e reconhecer a extinção do crédito tributário atinente ao anocalendário de 2005 em face da decadência, dando provimento ao recurso em relação a essa matéria, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. Intimada desse acórdão integrativo, a PFN aviou contra ele aditamento ao Recurso Especial (efls. 8.512/8.522), arguindo que outras decisões proferidas no âmbito do CARF/Conselho de Contribuintes, adotaram tese jurídica diversa a respeito da decadência no caso de multa qualificada. Indicou como paradigmas o Acórdão nº 10617.149 e o Acórdão nº 1102000.939. Fl. 8986DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 8.987 15 Nas razões meritórias consigna que tendo restado caracterizado o dolo no presente caso, tornarseia forçoso o afastamento da decadência, independentemente de ter ocorrido ou não antecipação de pagamento, tendo em vista a aplicação do art. 173, I, do CTN, tese essa que já teria sido pacificada, nesse mesmo sentido, pelo STJ, em julgamentos de recursos repetitivos. Pugna, ao final, pelo acolhimento do apelo especial e, na hipótese de provimento do Recurso Especial da PFN quanto à matéria da qualificação da multa, seja também dado provimento ao presente recurso, para reformar o acórdão recorrido, de forma a aplicar, na contagem do prazo decadencial, o disposto no art. 173 do CTN; Pelo despacho de efls. 8.525/8.530, a presidência da Quarta Câmara da Primeira Seção do CARF dá seguimento ao aditivo ao Recurso Especial. A interessada também foi cientificada do acórdão integrativo nº 1402 002.145, do Recurso Especial da PFN e seu aditivo, e dos despachos que os admitiram e apresentou, também, Recurso Especial de divergência (efls. 8.548/8.601). Aduz que o Recurso Especial visa a reforma do Acórdão nº 1402001.460 e de seu complementar nº 1402002.145, nas questões julgadas desfavoravelmente ao seu pleito e que dizem respeito a: (i) decadência do direito de questionar a formação dos ágios. Indica como paradigmas o Acórdão nº 10197.084 e Acórdão nº 10709.545 (ii) dedutibilidade, para fins fiscais, dos ágios apurados em aquisições de investimentos. Apresentou como paradigmas o Acórdão nº 1201001.242 e Acórdão nº 1301 001.950; (iii) incidência de juros sobre a multa de ofício. Indicou como paradigmas o Acórdão nº 9101000.722 e Acórdão nº 1202001.118. Quanto ao primeiro ponto divergente a decadência do direito de questionar a formação dos ágios sustenta que, como a exigência fiscal remonta a fatos ocorridos e registrados contabilmente há mais de cinco anos, estaria fulminado o direito de o Fisco contestar essas operações, observando que a Fazenda teria tido ciência de tais fatos pelas alterações cadastrais produzidas em decorrência dessas operações, como também pelas DIPJ apresentadas, perdendo o prazo de contestálas. Admitir o contrário seria colocar em risco o princípio da segurança jurídica, risco esse que o instituto da decadência visa, justamente, combater. No que se refere à segunda tese divergente dedutibilidade, para fins fiscais, dos ágios apurados em aquisições de investimentos primeiramente discorre a respeito das operações que envolveram o surgimento e aproveitamento dos denominados "Ágio Andely", "Ágio Bunge I de Participações", "Ágio Cajati" e "Ágio Bunge Participações", para depois apontar que a turma teria expressamente reconhecido a legitimidade de ágios decorrentes de operações entre partes independentes, sendo que a única irresignação do colegiado seria a utilização de empresa veículo nas referidas operações, o que teria o condão de invalidar a amortização dos ágios pretendidos, por terem sido transferidos por meio dessas empresas. Mas os paradigmas indicados demonstrariam que a mera utilização de empresa veículo não seria suficiente a invalidar o ágio, tampouco impedir a sua amortização. Fl. 8987DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 8.988 16 Em extenso arrazoado, em que colaciona estudos doutrinários de seu patrono, conclui que a utilização de empresas veículo em situações como as aqui analisadas, em nada altera a situação fática realmente encontrada, que é a efetiva aquisição de investimento entre partes independentes e que há decisões administrativas no sentido de que, havendo direito à amortização do ágio por meio de incorporação direta, não se poderia negar o mesmo direito na hipótese em que ocorre de forma indireta. Ressalta que, ainda que prevaleça a tese rechaçada, esta não valeria para o denominado "Ágio Cajati", visto que neste caso se deu a requerida confusão patrimonial entre o real investidor, no caso a interessada, e a investida Cajati. Registra que o ordenamento jurídico não teria incorporado a existência do propósito negocial como requisito de validade de negócios jurídicos, de modo que a sua ausência não poderia motivar a desconsideração dos atos efetivamente praticados. Ademais, alega que todas as operações foram motivadas por legítimos propósitos negociais, como reconheceu o voto vencido do acórdão recorrido. Discorre que no caso da Andely, sua criação e posterior incorporação reversa evitou complicações operacionais visto que o desaparecimento da Manah traria inúmeros transtornos e trabalhos burocráticos que poderiam ser evitados com a incorporação reversa. No caso da Cajati, lembra que a estrutura societária que envolvia o controle da Fosfértil existia antes da aquisição, de modo que não pode ser entendida como "estruturada" apenas para obtenção de benefícios fiscais. Ademais, não haveria na legislação qualquer menção à efemeridade de participação no negócio para sua desconsideração. E diante da comprovação de que a estrutura societária já existia, terseia a insustentabilidade da premissa fiscal, visto que houve a efetiva confusão patrimonial entre real investidor e investida, que autoriza a amortização do ágio segundo a linha de raciocínio adotada pelo Fisco. Quanto ao "Ágio Bunge I Participações", elenca as razões negociais que teriam levado à reorganização societária: (i) segregação do ágio relativo à Bunge Fertilizantes separadamente do ágio da Bunge Alimentos; (ii) o emparelhamento da amortização do ágio com a geração de lucros a que ele se refere, o que atende não só à letra da lei, mas ao espírito desta; e a manutenção dos eventos societários benéficos obtidos com a centralização do controle direto das duas companhias em uma holding no Brasil. E, relativamente ao Ágio Bunge Participações, afirma que o seu propósito negocial foi justamente a viabilização de Oferta Pública de Ações. Prossegue com arrazoado descrevendo os fatos que envolveram a legalidade da organização. Concernente ao último ponto divergente incidência de juros sobre a multa de ofício a respeito do qual, alega, limitase a caracterizar a divergência pelo confronto das ementas do acórdão recorrido e dos paradigmas, no mérito, afirma que a exigência de juros sobre multa de ofício ofende o disposto no art. 61 da Lei nº 9.430,de 1996 que previu a incidência de juros apenas sobre o valor do principal a título de tributos ou contribuições. Defende que a comparação entre esse artigo e o parágrafo único do art. 43 do mesmo comando legal demonstra que, neste último, a lei determinou a cobrança de juros sobre a multa isolada que constitui um crédito tributário principal e não a determina sobre o valor da multa calculada proporcionalmente ao principal do tributo devido, pois é este que constitui o crédito tributário principal. Fl. 8988DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 8.989 17 Diz ainda que, acaso se entenda de outra forma, a incidência de juros devese limitar a 1% ao mês tendo em conta o disposto no art. 161, § 1º, do CTN. Pede, ao final, pelo acolhimento do apelo especial com a exoneração total das exigências ou, se mantidas, a não incidência de juros sobre a multa. A interessada também apresentou contrarrazões (efls. 8.765/8.770) ao Recurso Especial apresentado pela PFN contra o Acórdão integrativo nº 1402002.145 em que se limita a admitir que há relação de dependência entre a aplicabilidade da multa qualificada e a decadência dos fatos geradores relativos ao anocalendário 2005, aduzindo apenas ratificar os argumentos expostos em suas contrarrazões anteriormente apresentadas, de modo que pede pelo não acolhimento do apelo especial nas questões suscitadas. Pelo despacho de efls. 8.841/8.848, a presidência da Quarta Câmara da Primeira Seção do CARF, dá seguimento ao Recurso Especial da contribuinte. A PFN foi cientificada do Recurso Especial da contribuinte e do despacho que o admitiu e apresentou contrarrazões (efls. 8.850/8.897). Depois de relatar os fatos, afirma, em resumo, que inexiste decadência do direito de questionar a formação dos ágios, lembrando que o prazo decadencial deve ser aplicado à atividade tributante do Estado, ou seja, quando ocorrida a materialização da hipótese de incidência tributária prevista em lei (fato gerador), o Fisco tem o prazo de cinco anos para constituir a correspondente obrigação tributária por meio do lançamento. Assim, para que seja aplicado o instituto da decadência é necessário primeiro que tenha ocorrido fato gerador de obrigação tributária, o que não se dá no caso da formação de ágios ou de pagamento de ágios. Afirma, ainda, que somente quando o contribuinte deduz o ágio na apuração lucro real, é que o Fisco tem algo a homologar e que no presente caso teria sido o lucro real apurado pelo sujeito passivo nos anos de 2005 a 2009. Antes disso o Estado não teria fato tributário envolvendo o ágio pago pela empresa. Sem que haja fatos geradores não haveria como afirmar que houve transcurso de prazo decadencial. Colaciona jurisprudência administrativa e judicial. Observa que o ágio ou deságio devem sempre decorrer da efetiva aquisição de um investimento oriundo de um negócio comutativo, onde as partes contratantes sejam independentes entre si e ocupando posições opostas, e tenham interesse em assumir direitos e deveres correspondentes e proporcionais, devendo haver o imprescindível substrato econômico, além de um dispêndio feito pelo adquirente que representará um ganho para o alienante. Acusa que os ágios gerados e aproveitados dentro do Grupo Bunge não podem ser dedutíveis porque não preencheram todos esses requisitos, ao que passa a analisar cada um deles, individualmente, concluindo que em nenhum se verificou efetivo propósito negocial que não a mera geração artificial de ágios que possibilitassem a sua dedução das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL. Quanto à incidência de juros sobre a multa de ofício, pondera que a interpretação supostamente literal do art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, não permitiria afastar aplicabilidade dos juros de mora sobre a multa e que uma interpretação efetivamente literal conduziria à conclusão de que deve haver a incidência de juros de mora sobre a multa de ofício. Aqui também colaciona estudos doutrinários e jurisprudência administrativa e judicial. Fl. 8989DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 8.990 18 Pede, ao final, seja negado provimento ao recurso especial manejado pela contribuinte, mantendose o acórdão proferido pela Turma Ordinária a quo, nos quesitos objeto da insurgência. Distribuídos os autos para julgamento, notouse que havia a necessidade de complementar o exame de admissibilidade do primeiro Recurso Especial interposto pela PFN. Com efeito, no apelo especial de efls. 8.342/8.373), a PFN alegou divergência jurisprudencial relativamente às seguintes matérias: (i) correta caracterização da qualificação da multa de ofício, apresentando como paradigmas o Acórdão nº 120200.753 e o Acórdão nº 10196.724; (ii) exigência de multa isolada sobre falta de recolhimento de estimativas, após o encerramento do anocalendário, ofertando como paradigmas o Acórdão nº 1302 001.080 e Acórdão nº 1202000.964; (iii) exigência de multa isolada sobre falta de recolhimento de estimativas, ainda que em concomitância com a multa de ofício, para a qual apresentou o paradigma de nº 120200.410. Mas, no despacho de exame de admissibilidade de efls. 8.382/8.336, foram analisadas apenas as divergências relativas às matérias " correta caracterização da qualificação da multa de ofício" e "exigência de multa isolada sobre falta de recolhimento de estimativas, ainda que em concomitância com a multa de ofício", deixando de se pronunciar sobre o tema relativo ao item "exigência de multa isolada sobre falta de recolhimento de estimativas, após o encerramento do anocalendário”. Além disso, quando analisou o tema da concomitância, cotejou o acórdão recorrido com o paradigma trazido para a divergência relativa à exigência de multa isolada sobre falta de recolhimento de estimativas após o encerramento do anocalendário. Assim, foi proposta a complementação do exame de admissibilidade (despacho de saneamento de efls. 8.899/8.904), sobrevindo a complementação pelo despacho de exame de admissibilidade de efls. 8.923/8.930, proferido pela presidência da Quarta Câmara da Primeira Seção do CARF, em 24/07/2017. Por esse despacho aquela autoridade entendeu que restaram caracterizadas as divergências em relação às seguintes matérias: (ii) exigência de multa isolada sobre falta de recolhimento de estimativas, após o encerramento do anocalendário e (iii) exigência de multa isolada sobre falta de recolhimento de estimativas, ainda que em concomitância com a multa de ofício. O sujeito passivo tomou ciência desse despacho complementar, em 02/08/2017 (TERMO DE CIÊNCIA POR ABERTURA DE MENSAGEM de efl. 8.938) e em 14/08/2017 ofereceu contrarrazões complementares (efls. 8.941/8.950). Em sua defesa reportase, inicialmente, às razões já apresentadas em contrarrazões a respeito do tema "exigência de multa isolada sobre falta de recolhimento de estimativas, ainda que em concomitância com a multa de ofício", oferecendo razões inéditas apenas contra o tema " exigência de multa isolada sobre falta de recolhimento de estimativas, após o encerramento do anocalendário", observando, contudo, que reitera todos os argumentos de defesa deduzidos anteriormente. Fl. 8990DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 8.991 19 Depois de trazer transcrições dos dispositivos legais debatidos reafirma que os recolhimentos efetuados mês a mês ou a ausência de recolhimentos em face de apuração de prejuízo fiscal ou base negativa de CSLL, tem caráter provisório e somente o tributo devido ao final do período de apuração é que é definitivo. Alega que após encerrado o período de apuração não mais deve ser exigida a multa isolada, mas somente a multa sobre o valor já definitivamente apurado. Observa, ainda, que o não pagamento de tributo implica em uma única conduta, e não duas, não mudando sua característica unitária o fato desse pagamento ser dividido em etapas. Pondera que, se após o encerramento do período não se pode mais exigir estimativas, também não se pode exigir a penalidade correspondente, mas apenas da diferença não recolhida e eventual multa sobre esse valor. Colaciona jurisprudência administrativa e pede, ao final, pela manutenção do acórdão recorrido nesse tema. É o relatório. Voto Vencido Conselheira Adriana Gomes Rêgo Relatora Delimitação do Litígio. Conforme já relatado, a recorrida apresentou, em 23/09/2014, por intermédio de seus procuradores, petição declarando a desistência parcial do Recurso Voluntário interposto, bem como a renúncia ao direito em que se funda a discussão a respeito da amortização do ágio da BUNGE INVESTIMENTO E CONSULTORIA LTDA (BIC) (efls. 8.308/8.322). Nesse sentido consta a formalização do processo em apenso nº 16151.720093/201411, para o qual foram transferidos os débitos atinentes à essa parte do lançamento, que representa um crédito tributário no valor de R$ 16.011.165,00, razão pela qual não há mais litígio em relação ao denominado "Ágio BIC". À vista disso, não será mais objeto de discussão o tema atinente ao ágio da BUNGE INVESTIMENTO E CONSULTORIA LTDA (BIC). 1) CONHECIMENTO DO RECURSO ESPECIAL DA FAZENDA NACIONAL 1.1) DA CONCOMITÂNCIA DA MULTA ISOLADA COM A EXIGIDA DE OFÍCIO Como a Recorrida apresenta, em sede de contrarrazões, alegações no sentido de que não deve ser conhecido o Recurso Especial da PFN por inobservância de pressupostos regimentais, iniciase pela análise de referidos questionamentos. Fl. 8991DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 8.992 20 O primeiro deles se encaminha no sentido de que os paradigmas indicados pela PFN para o fim de caracterização de divergência jurisprudencial na comparação com o acórdão recorrido, na matéria referente à multa isolada sobre a falta de recolhimento de estimativas mensais, afrontariam a Súmula CARF nº 105 e, nessas condições, o apelo especial teria inobservado o que dispõe o art. 67, § 3º, do Anexo II, do RICARF e, assim, não poderia ser conhecido. Na questão da multa isolada sobre a falta de recolhimento de estimativas mensais, a PFN apresentou duas teses divergentes. A primeira, referente à exigência de multa isolada sobre falta de recolhimento de estimativas, após o encerramento do anocalendário, ofertando como paradigmas o Acórdão nº 1302001.080 e Acórdão nº 1202000.964. A segunda tese divergente se refere à exigência de multa isolada sobre falta de recolhimento de estimativas, ainda que em concomitância com a multa de ofício. Para esta tese indicou como paradigma o Acórdão nº 120200.410. Ocorre que este acórdão trazido pela Fazenda como paradigma para a tese da concomitância é no sentido de afastar a tese da concomitância para o anocalendário de 1998, ou seja, para lançamento da multa isolada com base na redação original do art. 44 da Lei nº 9.430/96. Por conseguinte, no que diz respeito ao lançamento para exigência de multa isolada nestes autos, em concomitância com a multa de ofício, não se conhece do recurso da Fazenda Nacional, posto que trouxe acórdão cuja legislação enfrentada era outra. E, para o anocalendário de 2006, a tese defendida pela Fazenda estaria superada pela Súmula CARF nº 105. Mas salientase que em 2006, sequer houve lançamento concomitante da multa de ofício com multa isolada, posto que as penalidades isoladas dizem respeito a janeiro e fevereiro, e a de ofício, a dezembro. Apenas para corroborar o fato de que esse paradigma contraria a Súmula CARF nº 105, o Acórdão da CSRF nº 9101002.736, proferido nesse mesmo processo, em 4/4/2017, afastou o entendimento nele proferido pela câmara baixa. Portanto, em relação à matéria "iii" "exigência de multa isolada sobre falta de recolhimento de estimativas, ainda que em concomitância com a multa de ofício", o Recurso Especial da PFN não preencheu os requisitos de admissibilidade e, portanto, não deve ser conhecido. Porém, as multas isoladas ainda devem ser analisadas por esse colegiado por força da segunda divergência, qual seja, a da possibilidade de lançamento da multa isolada após o encerramento do anocalendário, que foi admitida por meio de Despacho de efls. 8.923 e seguintes. 1.2) DA MULTA QUALIFICADA Outra razão dada pela Recorrida para não conhecimento do Recurso Especial da PFN seria a ausência de divergência jurisprudencial em relação ao tema " caracterização da qualificação da multa de ofício". Afirma a Recorrida que não há qualquer divergência de entendimentos entre as teses consignadas no acórdão recorrido e nos paradigmas, mas sim, falta de similitude fática entre as decisões comparadas. Fl. 8992DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 8.993 21 Passase a analisar. Na referida matéria da qualificação da multa, o acórdão recorrido deduziu a seguinte ementa: MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. INAPLICABILIDADE. INOCORRÊNCIA DE FRAUDE. Nos lançamentos de ofício para constituição de diferenças de tributos devidos, não pagos e não declarados, via de regra, é aplicada a multa proporcional de 75%, nos termos do art. 44, inciso I, da Lei 9.430/1996. A qualificação da multa para o percentual de 150% depende não só da intenção do agente, como também da prova fiscal da ocorrência da fraude, caracterizada pela prática de ação ou omissão dolosa com esse fim. Na situação versada nos autos não houve dolo por parte do contribuinte, logo incabível a aplicação da multa qualificada. No caso analisado pelo recorrido, a auditoria fiscal afirmou que a empresa autuada teria se valido de uma série de artifícios com o fim específico de se aproveitar de deduções de parcelas de amortização de ágios que teriam sido gerados artificialmente, em algumas situações transferidos para outras empresas do grupo, com a interposição/utilização de empresas veículos de existência efêmera e sem qualquer propósito negocial, em operações de reestruturações societárias em seqüência. É o que se verifica dos seguintes trechos extraídos do relatório que antecede aos votos: Em resumo, após descrever as operações praticadas, acima resumidas, a fiscalização glosou as amortizações fiscais, questionando, de um modo geral, os seguintes pontos, em sua maior parte comum a todas as operações: A incorporação reversa consta no art. 264 da Lei das S.A., mas não pode ser realizada abusivamente ou como negócio indireto, em fraude à lei societária e tributária; Citando Marco Aurélio Greco, alega que a criação de uma pessoa jurídica tem que ter algum propósito negocial, não podendo ser efêmera. Sustenta ainda, que empresas veículo não tem a finalidade típica das empresas, tal como prevê o Código Civil; ainda citando o referido jurista, alega que o ágio somente deve ser proveniente de operações praticadas com terceiros; é inválida a transferência de ágios por meio de operações societárias praticadas dentro do grupo, implementadas por meio de “empresa veículo”; a utilização de empresa veicula revela a total falta de propósito negoical e inexistência de fundamento econômico das transformações societárias praticadas [...] As provas mostram que a principal conduta foi a de impedir , total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador, excluir ou modificar suas características essenciais, de modo a reduzir as bases de cálculos do IRPJ e da CSLL, tendo como conseqüência a falta de pagamento dos referidos tributos, em montantes proporcionais ao ágio amortizado, transferido para a BF através de empresas veículo criadas exclusivamente para esse fim, além da criação artifical de um ágio a partir de Fl. 8993DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 8.994 22 negociação ficta entre empresas totalmente subordinadas (ágio veiculado pela BI), nos moldes do art. 72 da Lei nº 4.502/64 (fraude). Os agentes deixaram patente que a intenção foi a de impedir a ocorrência do fato gerador e a de excluir ou modificar suas características essenciais, tudo para tentar livrar a fiscalizada do IRPJ e da CSLL, como se infere, em suma, dos seguintes elementos: [...] Por tudo isso, concluiu a Fiscalização que a arquitetura do esquema que se desenhou, apesar de aparente legalidade com a formalização e com o registro de atos em órgãos apropriados deve ser vista como causa planejada para turvar a visão do Fisco, impedindoo de ter conhecimento da redução indevida das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL. De outro giro, o colegiado a quo, em sua maioria, entendeu que a caracterização do dolo e da fraude somente se dá no caso de haver documentos falsificados, adulterados, notas fiscais frias, contabilidade que registre "caixa 2", conta bancária ficta, falsidade ideológica, etc... e que, no caso, por ausência desses tipos de patologia, não teria sido caracterizado o intuito doloso e fraudulento de lesar o Fisco. Por pertinente, recolho do voto o seguinte trecho: Analisando os dispositivos do art. 20 da Lei nº. 1598/77, art. 7º e 8º da Lei nº. 9.532/97 não é possível identificar vedação expressa aos procedimentos adotados pela Recorrente. Além disso, no caso presente, todos os atos foram praticados antes da materialização da hipótese de incidência prevista hipoteticamente em lei. Não há registros de documentos falsos, inidôneos, fraudes em registros contábeis ou de qualquer natureza. Pelo contrário, todos os atos societários foram registrados nos órgãos competentes (CVM e Bacen), assim como na escrituração contábil e fiscal da Recorrente. [...] Embora parte das operações tenha sido realizada dentro do Grupo Bunge e exista uma proximidade de datas, tais indícios, confrontados com os fatos de que: todas as operações praticadas pela Recorrente foram dotadas de publicidade; não houve apresentação ao Fisco de elemento inexato, documento inidôneo ou fraudulento, declarações falsas ou errôneas; não houve omissão de qualquer natureza; não foi comprovada simulação (o que sequer foi alegado pelas autoridades autuantes); e que, por fim, os atos praticados, isoladamente considerados, são válidos; demonstram que, na verdade, estamos diante de erro de interpretação da lei, não devendo ser aplicada a multa qualificada. A fraude à lei não pode ser confundida com erro de interpretação da lei, haja vista que, na fraude a lei, o ato em si é ilícito tendo em vista que o ordenamento jurídico proíbe sua prática. Portanto, aqui, a falta ou insuficiência de pagamento de IRPJ e CSLL é decorrente da prática de atos dentro dos limites legais, não podendo, portanto, ser tida como uma fraude. (Negritouse) Fl. 8994DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 8.995 23 O primeiro paradigma apresentado para confronto com o recorrido recebeu, na mesma matéria, a seguinte ementa: Acórdão nº 120200.753 MULTA QUALIFICADA. A constatação de evidente intuito de fraudar o Fisco, pela intencional prática de atos simulados, enseja a qualificação da multa de ofício. Do relatório que antecede o voto proferido neste paradigma extraise que: De acordo com o Relatório do Trabalho Fiscal (fls. 590 a 624), a autuação decorreu da desconsideração de diversas operações societárias simuladas que permitiram a amortização do ágio com o objetivo de redução da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, tendo sido aplicada a multa de ofício qualificada (150%), nos termos do art. 72 da Lei nº 4.502/64 e exigida a multa isolada (50%) decorrente da falta de recolhimento das estimativas de IRPJ e CSLL, uma vez que o contribuinte optou pela apuração anual do IRPJ e da CSLL nos anoscalendário 2006, 2007 e 2008. E do voto proferido neste paradigma, do qual recolho os seguintes trechos, vêse a semelhança dos fatos com aqueles descritos no acórdão recorrido De início, verificase que o ágio formouse internamente, como destacou a autoridade fiscal, entre empresas pertencentes ao mesmo grupo econômico, embora sustente o contrário a recorrente. [...] Assim, verificase grupo econômico quando as empresas são controladas pelas mesmas pessoas, como é exatamente o caso dos autos, em que, de um lado, a Recorrente adquiriu participações de empresa (CAIMI BRASIL) constituída unicamente pelo capital de sua própria sócia (CAIMI SAC Chile). A cronologia das operações demonstra o grau de relacionamento entre as envolvidas: [...] Cabe ainda ressaltar que o sócio Sr. Severino Adolfo Oppelt, em 27/12/2004, era detentor da maior parte do capital da JOFECRED (99,5%), o que demonstra a utilização da empresa JOFECRED como mero veículo na integralização do capital com ágio na Recorrente, visto que o sócio pessoa física passou a fazer parte da LIAISON através de empresa por ele controlada. [...] Por lhe faltar fundamentação econômica, a reestruturação entre empresas do mesmo grupo econômico, engendrada com o objetivo de reduzir a tributação, não pode ser oponível ao Fisco, como é o caso dos autos. [...] Cabe ressaltar que, ao imputar a qualificação de simuladas às operações efetuadas em seqüência, a autoridade fiscal acaba por afastar a possibilidade de configuração de planejamento tributário lícito, consoante tem entendido a doutrina Fl. 8995DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 8.996 24 moderna. Nesse caso, a inoponibilidade das operações ao Fisco decorre de sua própria ilicitude. A recorrente aduz que meros indícios não seriam suficientes para afastar os efeitos de operações realizadas com propósitos lícitos e nos termos da lei. Ao contrário do que sustenta a recorrente, todavia, os indícios possuem alta relevância na formação da convicção daquele que aprecia casos de simulação. [...] No caso concreto, dos elementos juntados aos autos se constata uma seqüência de negócios com aparência de regulares e visando certo efeito diverso do demonstrado. Nesse caso, o vício na causa do negócio complexo leva ao reconhecimento de simulação de todo o conjunto de atos e negócios parciais. [...] Multa qualificada – 150% Diante de todo o exposto em relação à infração, resta evidenciado que os negócios jurídicos foram praticados de forma simulada, nos termos do § 1º do art. 167 do Código Civil. Verificouse que, a partir do engrendramento de operações societárias complexas e simuladas, incluindo a participação de interposta pessoa (JOFECRED), pretendeu a recorrente, intencionalmente, subtrairse à tributação, o que tornou tais operações ilegais, uma vez que o ordenamento jurídico brasileiro não permite a evasão tributária por meio de simulação. (Negritouse) Verificase que as situações em tudo se assemelham. Em ambos os casos verificouse o surgimento de ágio artificial e uma seqüência de operações de reorganização societária com a utilização de empresasveículo. Nas duas situações a auditoria fiscal entendeu que as operações eram desprovidas de propósito negocial e que visaram unicamente reduzir a tributação. Mas as conclusões a que chegaram os colegiados foram distintas. No caso do recorrido houve acusação fiscal de utilização de empresas veículo, houve acusação fiscal de que todo o planejamento geração do ágio, transferência de ágio ocorreu entre empresas do mesmo grupo Bunge, contudo a maioria do colegiado entendeu que não houve a prática de ato doloso para a configuração de ilícito fiscal e que haveria a necessidade, para a configuração do dolo e da fraude, que fossem apresentados documentos falsificados ou coisa similar para justificar a penalidade qualificada. Já para o paradigma, esse arranjo foi suficiente para caracterizar a simulação e fraude e, assim, manter a penalidade qualificada. A comparação entre essas decisões caracteriza a divergência jurisprudencial. Em relação ao segundo paradigma, observo, primeiramente, que houve equívoco na menção ao número da decisão no Recurso Especial. Com efeito, a PFN, ao indicar o segundo paradigma, mencionou o Acórdão nº 10196.668, mas fez a transcrição da ementa e o cotejo analítico com o Acórdão nº 101 96.724, que é o correto e que foi analisado pelo despacho de exame de admissibilidade do Recurso Especial da PFN. Fl. 8996DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 8.997 25 Feita essa pequena observação, transcrevese a ementa desse segundo paradigma apresentado para o tema: Acórdão nº 10196.724 INCORPORAÇÃO DE SOCIEDADE. AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO NA AQUISIÇÃO DE AÇÕES. SIMULAÇÃO. A reorganização societária, para ser legitima, deve decorrer de atos efetivamente existentes, e não apenas artificial e formalmente revelados em documentação ou na escrituração mercantil ou fiscal. A caracterização dos atos como simulados, e não reais, autoriza a glosa da amortização do ágio contabilizado. MULTA QUALIFICADA A simulação justifica a aplicação da multa qualificada. E para demonstrar os fatos sobre os quais o colegiado do paradigma se pronunciou, reproduzse os seguintes trechos do seu relatório: A fiscalização glosou despesas com amortização de ágio, cuja contrapartida foi a reserva de ágio formada em 06/08/1998, por ocasião da incorporação, pela LIBRA TERMINAL 35 S/A, da empresa ZBT TERMINAIS SANTOS S/A. Entendeu a fiscalização que a constituição da empresa ZBT TERMINAIS SANTOS S/A. e sua incorporação pela LIBRA TERMINAL 35 S/A foram meras simulações com o objetivo de criar despesas de amortização de ágio para deduzir da base de cálculo do Imposto de Renda e da Contribuição Social. [...] A amortização do ágio foi considerada indedutível para efeito de apuração do lucro real, por ter a fiscalização concluído que a empresa ZBT teve sua criação vinculada exclusivamente à tentativa de ocultar a verdadeira operação promovida pela LIBRA TERMINAIS, com a intenção inequívoca de afastar a incidência tributária dos resultados contábeis na LIBRA TERMINAL 35 S/A, caracterizada pelos seguintes fatos: a) A ZBT jamais operara os seus fins institucionais, evidenciado pela imediatidade entre a sua constituição e a operação triangular promovida pela LIBRA TERMINAIS S/A; b) Os recursos que supostamente deram lastro à engenhosa operação de engenharia tributária promovida pela LIBRA TERMINAIS jamais implicaram qualquer desembolso ou investimento por parte da empresa, cingindose tão somente a uma reavaliação de seus ativos com o intuito de gerar despesas com a amortização do ágio; c) Em junho de 1998, a ZBT teve a sua constituição e abertura e neste mesmo ano não declarou qualquer atividade, tendo apresentado um capital inicial de R$ 1.000,00. Em agosto de 1998 a empresa aumentou seu capital de RS 1.000,00 para R$ 123.157.000,00, que foi integralizado pela LIBRA TERMINAIS com ações da LIBRA TERMINAL 35. Com isso a ZBT passou à condição de investidora na LIBRA TERMINAL 35, e foi extinta por incorporação pela investida (LIBRA TERMINAL 35). Tudo isso sem qualquer desembolso financeiro, apenas com uma Fl. 8997DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 8.998 26 nova avaliação a mercado, baseada em resultados futuros, conforme se depreende de um laudo de avaliação; Esclareceu a fiscalização que o objeto da autuação não se prende ao ato da incorporação ou à sua legalidade, e sim às repercussões tributárias decorrentes do referido ato, as quais evidenciaram o propósito único de provocar a redução do resultado contábil e Fiscal. Tais fatos ensejaram a qualificação da penalidade. Sobre eles, assim se pronunciou o colegiado paradigmático: Assim, a controvérsia se situa entre a caracterização da seqüência de operações como simulação, como quer o autuante, ou como legitima estruturação societária, como quer a Recorrente [...] É de todo evidente que a operação foi articulada pelas pessoas físicas que, direta ou indiretamente, controlam o capital das empresas envolvidas, para criar, formalmente, uma situação que se enquadrasse na possibilidade de deduzir despesas de amortização de ágio, advinda com a publicação da Lei n° 9.532/97. A sucessão dos atos, a proximidade temporal entre eles e a extinção da empresa por incorporação revelam que nunca houve a intenção real de constituir uma empresa (a ZBT, constituída em junho de 1998 e extinta em agosto de 1998) para efetivamente operar segundo seu objetivo social, mas sim de criar uma sociedade efêmera, de passagem, que possibilitasse um registro de ágio a ser amortizado por empresa do grupo. [...] Nada do que foi trazido no recurso sensibiliza meu espírito a ponto de produzir dúvida quanto à inexistência de fato da ZBT, que foi constituída exclusivamente para possibilitar a formação de um ágio, passível de gerar despesa de amortização. (Negritouse) Assim, os fatos analisados pelo acórdão recorrido e pelo paradigma acima são extremamente similares, mas as conclusões a que chegaram os colegiados a respeito da qualificação da multa sobre esses fatos foi dissonante, o que caracteriza a divergência jurisprudencial. Para a divergência relativa ao prazo decadencial, quando há aplicação de multa qualificada, não há argüição nas contrarrazões para não se conhecer do recurso e, de fato, a divergência também está caracterizada nos termos do despacho de efls. 8.841/8.848. Portanto, o Recurso Especial da PFN deve ser parcialmente conhecido, apenas no que respeita aos seguintes temas: (i) correta caracterização da qualificação da multa de ofício; (ii) exigência de multa isolada sobre falta de recolhimento de estimativas, após o encerramento do anocalendário; e Fl. 8998DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 8.999 27 (iii) regra de prazo decadencial no caso de aplicação de multa qualificada. 2) CONHECIMENTO DO RECURSO ESPECIAL DO SUJEITO PASSIVO 2.1) DA DECADÊNCIA DO DIREITO DE O FISCO QUESTIONAR A FORMAÇÃO DOS ÁGIOS O Recurso Especial do sujeito passivo é tempestivo, como assentou o despacho que o admitiu. Isto porque a ciência do acórdão integrativo n° 1402002.145 se deu em 20/06/2016, conforme demonstra o Termo à efl. 8.546, e o Apelo Especial foi apresentado em 04/07/2016 (efl. 85.47 do eprocesso). Contudo, identificase equívoco no tocante à sua admissibilidade, pois inexiste similitude fática em relação à divergência relativa ao tema “Decadência do direito de o Fisco questionar a formação dos ágios”, cujos paradigmas indicados foram os acórdãos nº 101 97.084 e nº 10709.545. É que, no acórdão recorrido, o tema foi assim resumido em ementa: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2005, 2006, 2007, 2008, 2009 PRELIMINAR. DECADÊNCIA. FORMAÇÃO DE ÁGIO EM PERÍODOS ANTERIORES AO DA OCORRÊNCIA DO FATO GERADOR. INOCORRÊNCIA. Somente pode se falar em contagem do prazo decadencial após a data de ocorrência dos fatos geradores, não importando a data contabilização de fatos passados que possam ter repercussão futura. O art. 113, § 1º, do CTN aduz que “A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador” e o papel de Fisco de efetuar o lançamento, nos termos do art. 142 do Estatuto Processual, nada mais é do que o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente. Não é papel do Fisco auditar as demonstrações contábeis dos contribuintes a fim de averiguar sua correição à luz dos princípios e normas que norteiam as ciências contábeis. A preocupação do Fisco deve ser sempre o reflexo tributário de determinados fatos, os quais, em inúmeras ocasiões, advém dos registros contábeis. Ressaltese o § 4º do art. 9º do Decreto nº 70.235, de 1972, prevê que seja efetuado o lançamento “também nas hipóteses em que, constatada infração à legislação tributária, dela não resulte exigência de crédito tributário.” O prazo decadencial somente tem início após a ocorrência do fato gerador (art. 150, § 4º, do CTN), ou após o primeiro dia do exercício seguinte ao que o lançamento poderia ter sido efetuado nas hipóteses do art. 173, I, do CTN. Fl. 8999DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.000 28 No voto condutor consignouse que para início da contagem do prazo decadencial, devese ater à data de ocorrência dos fatos geradores, e não à data de contabilização de fatos passados que possam ter repercussão futura. Até mesmo à vista do que dispõe o art. 113, § 1º, do CTN, de que “A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador” sendo papel do Fisco efetuar o lançamento, nos termos do art. 142 do mesmo CTN, procedimento administrativo tendente a verificar, justamente, a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente. Assinalouse que o lançamento, dado seu caráter constitutivo do crédito tributário, somente pode ser realizado após a ocorrência do fato gerador e, conseqüentemente, do surgimento da obrigação tributária e que não é papel do Fisco auditar as demonstrações contábeis dos contribuinte a fim de averiguar sua correição à luz dos princípios e normas que norteiam as ciências contábeis. A preocupação do Fisco deve ser sempre o reflexo tributário de determinados fatos, os quais, em inúmeras ocasiões, advêm dos registros contábeis. Observouse que o prazo decadencial somente tem início após a ocorrência do fato gerador, iniciandose sua contagem conforme estatuído no art. 150, § 4º, do CTN, ou após o primeiro dia do exercício seguinte ao que o lançamento poderia ter sido efetuado nas hipóteses do art. 173, I, do CTN. O primeiro paradigma indicado para este tema, por sua vez, recebeu a seguinte ementa: Acórdão nº 10197.084 IRPJ — DECADÊNCIA — Uma vez expirado o prazo previsto no art 150 § 4º, a Fiscalização não está autorizada a promover revisão dos fatos ocorridos e registrados anteriormente, pois que alcançados pelo instituto da decadência. Não prevalece a exigência em relação aos valores submetidos à tributação como conseqüência da inobservância da regra que tornara imutáveis os fatos espelhados nos registros contábeis mantidos Extraise da referida decisão os seguintes trechos que muito bem demonstram os fatos sobre os quais o colegiado se debruçou: A matéria sob exame diz respeito à glosa da amortização do ágio e da de variação cambial passiva nos anoscalendário de 1999, 2000 e 2001, cujos fatos decorreram das operações efetuadas pela interessada no anocalendário de 1995, sob a acusação fiscal da ocorrência de evasão de divisas do pais Consta do Termo de Verificação Fiscal a acusação de irregularidade abaixo reproduzida, a qual foi também transcrita no voto condutor do aresto recorrido. A simulação, em tese, caracterizada pelos eventos narrados, trouxe, na esfera tributaria, influências que ora tratamos de corrigir, assim é imperativo a glosa da amortização do ágio, ocorrido na época da incorporação (ano calendário 1995), no valor de US$ 46.800.000,00, equivalente à época em R$ 45.405.306,00. Vide cópia de declaração de 1996 (fls. 260 a 265) onde não aparece tal movimento na conta específica de ágio (fls. 263 verso). (grifei). Considerese que a amortização do ágio não pôde ser apurada formalmente, devido a omissão de informação por parte do fiscalizado, todavia, a norma contábil e seus princípios gerais indicam que ao incorporar, o valor do Fl. 9000DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.001 29 investimento é substituído pelas contas do ativo e passivo da incorporada, o que sobra é o ágio que mercê da não existência da empresa, como investimento, tem, conto único lugar contábil possível de acolher tal valor as contas de resultado (vide cópia da Declaração do Imposto de renda do anocalendário 1996, onde não aparece a conta de ágio, que conforme o contribuinte foi lançado no ativo, nem tampouco se verifica na conta de investimento (fl. 252 a 265, especificamente a fl. 263 verso). A glosa de variações cambiais no período de 1995 a 2001, conforme quadro composto por esta fiscalização, baseado nas poucas informações que, dispúnhamos, mas que fecha com o saldo (única informação) da conta do passivo onde registrava a divida com a empresa Hogan Promotions (fl. 268). Sobre tais fatos, assim decidiu o colegiado paradigmático: Ora, como se depreende do relato e da transcrição acima, os valores não constam de qualquer documento e/ou registro contábil da recorrente, eis que, como informa a própria autoridade autuante, a amortização do ágio não pode ser apurada formalmente devido a omissão de informação por parte da contribuinte. Assim, partiu a fiscalização para uma mera dedução de que, em tese, e de acordo com os princípios gerais, o único lugar contábil possível de acolher o valor do ágio seria as contas de resultado Pois bem, quanto a isso, é uma dedução muito lógica, mas como pode a fiscalização afirmar que a empresa procedeu a amortização do ágio no período compreendido entre os anos de 1996 e 2001? Ora, tratase de uma mera ilação, limitandose a ação fiscal a afirmar que não consta a conta de ágio na conta do ativo, nem tampouco na conta de investimento na DIPJ anocalendário de 1996. Ou seja, se não aparece em nenhuma conta do ativo ou de investimentos no anocalendário de 1996, significa que a empresa registrou como despesa no próprio anobase de 1996. [...] No que tange à questão da decadência, o procedimento fiscal sob exame começa de forma equivocada. Parte do pressuposto de que os atos praticados, porque constituiriam "simulação", não estariam cobertos por decadência, em prazo algum (parágrafos terceiro e quarto da fl 3.32 do TVF). [...] Vêse, notadamente, dos fatos apreciados pelo paradigma, que eles não guardam similaridade com aqueles tratados pelo recorrido. Neste primeiro paradigma, a auditoria fiscal admitiu que não pode apurar o momento da amortização do ágio, e fêlo por "dedução", por considerar que, por não constar o registro do ágio na conta de ativo ou na conta de investimento, o único lugar passível de acolher o ágio apurado e pago no ano de 1995 seria as contas de resultando e, mais uma vez, por dedução, entendeu que se deu a amortização do ágio no período que vai do ano de 1996 a 2001. E, ainda, por entender que os atos teriam sido simulados pelo sujeito passivo, também não respeitou regra alguma de contagem de prazo decadencial para efetuar o lançamento. No caso do recorrido, a arguição do sujeito passivo é de que o Fisco não poderia analisar operações de reestruturação societária ocorridas há mais de 5 (cinco) anos, Fl. 9001DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.002 30 pelas quais foram gerados ágios, para afirmar que tais operações não seriam oponíveis à Fazenda Pública, de modo a implicar na glosa da dedução de parcelas de amortização desses ágios em períodos posteriores, não alcançados pelo prazo decadencial. Não há como comparar situações distintas para o fim de caracterizar divergência jurisprudencial, já que as diferenças de conclusões dos colegiados não advieram da interpretação da legislação tributária, mas sim da ausência de similitude fática entre os casos. O segundo acórdão indicado como paradigma para esta matéria tem a seguinte ementa: Acórdão nº 10709.545 DECADÊNCIA OMISSÃO DE GANHO DE CAPITAL GLOSA DE ÁGIO. O fisco pode questionar fatos ocorridos no passado cujos efeitos fiscais se dão no futuro, pois o tempo não pode transformar em verdadeiro o que não era real, nem tampouco desfazer o que consolidou, desde que a readequação dos fatos situados em períodos já decaídos não decorra de juízo de valor. É o caso da formação de ágio maior por erro de cálculo, cujos efeitos fiscais somente se verifiquem no futuro, na sua amortização ou na utilização como custo na baixa. Reproduzse, abaixo, trechos do voto proferido no paradigma para que se esclareçam os fatos por ele analisados: Da glosa do ágio de R$ 26.439.785,00, originado na subscrição, em 20.12.95, de aumento de capital na VONPAR REFRESCOS, integralizado pela fiscalizada, mediante a conferência das ações da KAIK Participações: Segundo a fiscalização o ágio é indedutível, posto que foi calculado incorretamente. Considerou como correto ágio no valor de R$ 1.636,65. O equívoco cometido pela VONPAR — MAXXI deveuse ao fato de a empresa não ter levado em consideração em seu cálculo que praticamente não houve alteração na sua participação percentual no capital social da investida quando da subscrição do aumento de capital, que era de 60,2666% e passou a ser 60,2676%. Correto o procedimento da fiscalização. O valor de R$ 1.636,65, segundo a fiscalização também é indedutível do lucro real por se tratar de ágio na subscrição de ações, uma vez que pelo seu entendimento, não existe previsão legal para dedução do ágio na subscrição de ações. Em relação à alegada decadência, não acolho a alegação da recorrente de que teria decaído o direito do fisco de questionála. O fisco pode questionar fatos ocorridos no passado cujos efeitos fiscais se dão no futuro, pois o tempo não pode transformar em verdadeiro o que não era real, nem tampouco desfazer o que consolidou, desde que a readequação dos fatos situados em períodos já decaídos não decorra de juízo de valor. É o caso da formação de ágio maior por erro de cálculo, cujos efeitos fiscais somente se verifiquem no futuro, na sua amortização ou na utilização como custo na baixa. Fl. 9002DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.003 31 Não há como este paradigma possa contrariar o que disse o recorrido. Ao contrário, o que se verifica é convergência de conclusões pois, em ambas as decisões, os colegiados assentaram o entendimento de que não é vedado ao Fisco analisar fatos que tenham ocorrido no passado, em períodos abrangidos pela decadência, quando destes fatos vierem a ser produzidos efeitos tributário futuros, em períodos não alcançados pelo prazo decadencial, desde que somente se dê eventual lançamento em relação aos fatos e períodos não alcançados pela decadência. Salientase que este paradigma tratou de autuação de omissão de ganho de capital na alienação de investimento que ocorreu em 2000. Porém essa omissão foi identificada por entender a Fiscalização que houve a baixa de um ágio inexistente. Ocorre que neste caso, a Fiscalização não buscou tratar os efeitos tributários da amortização do ágio. Mas sim, glosar o custo do investimento, tendo retrocedido a um período de formação do ágio (1995), motivo pelo qual a relatora entendeu pela impossibilidade de lançamento. Por oportuno, transcrevese a parte que, tivesse a Fiscalização feito o que foi feito no presente lançamento, o entendimento seria convergente com o do acórdão recorrido: Sem entrar no mérito da questão do prazo decadencial, entendemos que a fiscalização tinha dois caminhos viáveis: a) voltarse contra a não tributação pelos sócios do grupo VONPAR da mais valia atribuída ao investimento em 1995; b) taxar como "ágio de si mesmo" (simulação) a mais valia contabilizada na VONPARMA)OCI, quando da recepção do investimento na VONPAR VONPAR (1995) e glosar os efeitos que se deram, já na VONPAR REFRESCOS, que se utilizou da empresa veículo (VONPAR CORRETORA) para amortizar o ágio. Entretanto a fiscalização escolheu um terceiro caminho, pois glosou parte do custo do investimento na VONPAR REFRESCOS, representada pelo ágio nele "pendurado" quando da integralização de capital na CORRETORA (2000). Com efeito, a fiscalização retrocedeu ao período da formação do ágio (1995) para, ora atribuir à recorrente uma perda de capital não dedutível, ora atribuirlhe uma reserva de reavaliação realizada, tudo para "forçar" a desconsideração de parte do custo do investimento dado em integralização de capital na Corretora. (Negritou se) Portanto, a divergência jurisprudencial suscitada para este tema não se caracterizou. Assim, conheço do Recurso Especial da contribuinte apenas no tocante aos demais temas divergentes, quais sejam: (i) dedutibilidade, para fins fiscais, dos ágios apurados em aquisições de investimentos e; (ii) incidência de juros sobre a multa de ofício. Fl. 9003DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.004 32 3) Mérito do Recurso Especial do Contribuinte e do Recurso Especial da Fazenda Nacional Verificase que a maior parte da questão meritória dos autos foi devolvida para apreciação deste Colegiado Superior, uma vez que ambos os Recursos Especiais da PFN e do Sujeito Passivo foram admitidos em quase todas as questões divergentes levantadas. Isso inclui todas as operações que envolveram a amortização dos ágios, como também as questões adjacentes, como a decadência do anocalendário de 2005, a multa qualificada e os juros sobre a multa de ofício. 3.1) DAS OPERAÇÕES COM ÁGIO De início, ressaltase que o sujeito passivo reconhece que se valeu de empresasveículo nas operações de reestruturação societária em sequência. Não nega que um dos objetivos das reestruturações foi o de possibilitar ganho financeiro com a amortização de ágios, como defende o Fisco. Não contesta a falta de confusão patrimonial entre reais investidores e investidas, em algumas das operações. Apenas discorda dessa interpretação dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, adotada pela decisão recorrida. Nesse contexto, entende que tais situações, se não são proibidas pela lei, então não são ilegais. Não sendo ilegais, então devese delas abstrair para que sejam analisados os reais efeitos produzidos por tais operações, inclusive os tributários. Ocorre que, por diversas oportunidades, esta 1ª Turma da CRSF vem se defrontando com casos em que operações societárias e movimentação de recursos precedem a incorporação de empresa adquirida com ágio junto à terceiros, incorporação essa que enseja a amortização do ágio pelo permissivo dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997. Em todas elas, a averiguação da correção da dedução do ágio amortizado nas bases de cálculo do IRPJ e da CSLL não se restringe à legitimidade de origem do ágio e aos aspectos formais das operações. A confusão patrimonial entre a real investidora e a investida é requisito indispensável para a dedutibilidade da amortização do ágio, afastandose situações artificiais em que a incorporação não envolve a real investidora. Citese, por exemplo, o acórdão nº 9101002.304 (de 6 de abril de 2016) e o nº 9101002.312 (de 3 de maio de 2016), ambos da lavra do Conselheiro André Mendes Moura. Transcrevese a bem traçada ementa do primeiro julgado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2005, 2006, 2007, 2008 PREMISSA. INSTITUTO JURÍDICOTRIBUTÁRIO. O conceito do ágio é disciplinado pelo art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 27/12/1977 e os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 10/12/1997, e tratase de instituto jurídicotributário, premissa para a sua análise sob uma perspectiva histórica e sistêmica. APROVEITAMENTO DO ÁGIO. INVESTIDORA E INVESTIDA. EVENTOS. SEPARAÇÃO. UNIÃO. São dois os eventos em que a investidora pode se aproveitar do ágio contabilizado: (1) a investidora deixa de ser a detentora do investimento, ao alienar a participação Fl. 9004DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.005 33 da pessoa jurídica adquirida com ágio; (2) a investidora e a investida transformam se em uma só universalidade (em eventos de cisão, transformação e fusão). DESPESAS. AMORTIZAÇÃO. ÁGIO. A amortização, a qual se submete o ágio para o seu aproveitamento, constituise em espécie de gênero despesa, e, naturalmente, encontrase submetida ao regramento geral das despesas disposto no art. 299 do RIR/99, submetendose aos testes de necessidade, usualidade e normalidade. DESPESAS. FATOS ESPONTÂNEOS. Não há norma de despesa que recepcione um situação criada artificialmente. As despesas devem decorrer de operações necessárias, normais, usuais da pessoa jurídica. Não há como estender os atributos de normalidade, ou usualidade, para despesas derivadas de operações atípicas, não consentâneas com uma regular operação econômica e financeira da pessoa jurídica. CONDIÇÕES PARA AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. TESTES DE VERIFICAÇÃO A cognição para verificar se a amortização do ágio passa por verificar, primeiro, se os fatos se amoldam à hipótese de incidência dos arts. 385 e 386 do RIR/99, segundo, se requisitos de ordem formal estabelecidos encontramse atendidos, como arquivamento da demonstração de rentabilidade futura do investimento e efetivo pagamento na aquisição, e, terceiro, se as condições do negócio atenderam os padrões normais de mercado, com atuação de agentes independentes e reorganizações societárias com substância econômica. AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. HIPÓTESE DE INCIDÊNCIA. INVESTIDOR E INVESTIDA. MESMA UNIVERSALIDADE. Os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 10/12/1997 se dirigem às pessoas jurídicas (1) real sociedade investidora, aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura, decidiu pela aquisição e desembolsou originariamente os recursos, e (2) pessoa jurídica investida. Devese consumar a confusão de patrimônio entre essas duas pessoas jurídicas, ou seja, o lucro e o investimento que lhe deu causa passam a se comunicar diretamente. Compartilhando do mesmo patrimônio a controladora e a controlada ou coligada, consolidase cenário no qual os lucros auferidos pelo investimento passam a ser tributados precisamente pela pessoa jurídica que adquiriu o ativo com mais valia (ágio). Enfim, tomase o momento em que o contribuinte aproveitase da amortização do ágio, mediante ajustes na escrituração contábil e no LALUR, para se aperfeiçoar o lançamento fiscal com base no regime de tributação aplicável Mencionese também os acórdãos nº 9101002.428 (de 18 de agosto de 2016) e nº 9101002.470 (de 21 de novembro de 2016), em que o Conselheiro Rafael Vidal de Araújo figurou como Relator, valendo transcrever o trecho a seguir da ementa do último julgado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2007, 2008, 2009 ÁGIO ORIUNDO DE AQUISIÇÃO COM USO DE RECURSOS FINANCEIROS DE OUTREM. AMORTIZAÇÃO. INDEDUTIBILIDADE. A hipótese de incidência tributária da possibilidade de dedução das despesas de amortização do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, requer que participe da Fl. 9005DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.006 34 "confusão patrimonial" a pessoa jurídica investidora real, ou seja, aquela que efetivamente acreditou na "mais valia" do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição. Não é possível o aproveitamento tributário do ágio se a investidora real transferiu recursos a uma "empresaveículo" com a específica finalidade de sua aplicação na aquisição de participação societária em outra empresa e se a "confusão patrimonial" advinda do processo de incorporação não envolve a pessoa jurídica que efetivamente desembolsou os valores que propiciaram o surgimento do ágio, ainda que a operação que o originou tenha sido celebrada entre terceiros independentes e com efetivo pagamento do preço. Citese, por fim, o acórdão nº 9101002.213 (de 3 de fevereiro de 2016), da lavra do exConselheiro Marcos Aurélio Pereira Valadão, cuja ementa é transcrita a seguir: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2006, 2007, 2008, 2009, 2010 ÁGIO. INVESTIDA. REAIS INVESTIDORAS. INEXISTÊNCIA DE CONFUSÃO PATRIMONIAL. INDEDUTIBILIDADE. IRPJ. CSLL. Nos termos da legislação fiscal, é indedutível o ágio deduzido pela investida, em inexistindo a necessária confusão patrimonial com as suas reais investidoras. No antes referido acórdão nº 9101002.470, o Conselheiro Rafael Vidal de Araújo foi preciso ao situar a figura do investidor de fato, que suporta o ágio, e a confusão patrimonial, efetiva e não aparente, nos componentes pessoal e material das regras de amortização do ágio que o RIR/1999 traz, nos arts. 385 e 386, da Lei nº 9.532, de 1997, e no DecretoLei nº 1.598, de 1977. Caso o ágio não tenha sido de fato arcado por nenhuma das pessoas participantes da "confusão patrimonial", não restarão satisfeitos nem o aspecto pessoal da norma nem o material, não havendo "sentido em clamarse pela dedutibilidade das despesas decorrentes de amortização de ágio instituída pelo art. 386 do RIR/1999". Confirase: Concluise, portanto, que o art. 386 do RIR/1999, sob o aspecto pessoal, se dirige à investidora que vier a incorporar sua investida (ou por ela ser incorporada), após ter efetivamente acreditado na mais valia do investimento, feito os estudos de rentabilidade futura e desembolsado os recursos para a aquisição da participação societária (tanto o valor do principal quanto o do ágio). Ou seja, quando ocorre a incorporação é que se dá a subsunção do fato à norma e surge a prerrogativa de amortização do sobrepreço, pago em momento anterior pela investidora em razão da confiança na rentabilidade futura da investida. Destaquese que a regra se aplica tanto à incorporação da investida pela investidora quanto, no sentido inverso, à hipótese em que a investidora é que é incorporada por sua investida. Em ambos os casos, a lei exige que a investidora envolvida na incorporação seja a "original" ou stricto sensu (no sentido de que a originalidade está indissociavelmente ligada à pessoa jurídica que paga o ágio e, por isso mesmo, tem confiança na rentabilidade futura, pois é quem assume o risco). (...) De forma correlata ao que se analisou quanto ao aspecto pessoal, a confusão de patrimônios, principal item do aspecto material para fins de enquadramento no art. 386 do RIR/1999, consumase quando, na sociedade incorporadora, o lucro futuro Fl. 9006DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.007 35 e o investimento original com expectativa desse lucro (aquele que foi sobreavaliado) passam a se comunicar diretamente (os riscos se fundem: o risco do investimento assim entendidos os recursos aportados e o risco do empreendimento). Compartilhando o mesmo patrimônio a investidora e a investida, consolidase cenário no qual a pessoa jurídica detentora da "mais valia" (ágio) do investimento baseado na expectativa de rentabilidade futura passa a ser responsável também por honrar tal rentabilidade. Assim, a legislação permite que o contribuinte considere perdido o capital que foi investido com o ágio e deduza a despesa relativa à "mais valia". Configuração semelhante ocorre na incorporação reversa, na medida em que a pessoa jurídica responsável por gerar a rentabilidade esperada para o futuro passa a ser a detentora do ágio baseado na expectativa de tal rentabilidade. Sendo assim, pressupõese que a "mais valia" porventura contabilizada tenha sido efetivamente suportada por alguma das pessoas que participam da "confusão patrimonial". Para fins de acesso à dedutibilidade estabelecida pelo art. 386 do RIR/1999, a pessoa jurídica que efetivamente suportou o ágio pago na aquisição de um investimento deve incorporar tal investimento (incorporação da investida pela investidora) ou ser incorporada pela empresa onde investiu (incorporação "às avessas"). Em síntese, a subsunção aos artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997, assim como aos artigos 385 e 386 do RIR/1999, exige a satisfação dos aspectos temporal, pessoal e material das hipóteses ali previstas. Na atual redação destes dispositivos, exclusivamente no caso em que houver o efetivo desembolso de valores (ou sacrifício de outros ativos) a título de investimento da investidora (futura incorporadora ou, no caso da incorporação reversa, incorporada) na investida (futura incorporada ou, no caso da incorporação reversa, incorporadora), é que haverá o atendimento aos aspectos pessoal e material. Se o ágio não foi de fato arcado por nenhuma das pessoas participantes da "confusão patrimonial", não há sentido em clamarse pela dedutibilidade das despesas decorrentes de amortização de ágio instituída pelo art. 386 do RIR/1999. Aliás, o Conselheiro André Mendes Moura demonstra no acórdão nº 9101 002.304 que, independentemente da "genialidade da construção empreendida, da reorganização societária arquitetada e consumada", o investidor originário é, de fato, aquele de quem partem a decisão e os recursos para a aquisição do investimento com sobrepreço. Vejase: A primeira verificação parece óbvia, mas, diante de todo o exposto até o momento, observase que a discussão mais relevante inserese precisamente neste momento, situado antes da subsunção do fato à norma. Falase insistentemente se haveria impedimento para se admitir a construção de fatos que buscam se amoldar à hipótese de incidência de norma de despesa. O ponto é que, independente da genialidade da construção empreendida, da reorganização societária arquitetada e consumada, a investidora originária prevista pela norma não perderá a condição de investidora originária. Quem viabilizou a aquisição? De onde vieram os recursos de fato? Quem efetuou os estudos de viabilidade econômica da investida? Quem tomou a decisão de adquirir um investimento com sobrepreço? Respondo: a investidora originária. Fl. 9007DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.008 36 Ainda que a pessoa jurídica A, investidora originária, para viabilizar a aquisição da pessoa jurídica B, investida, tenha (1) "transferido" o ágio para a pessoa jurídica C, ou (2) efetuado aportes financeiros (dinheiro, mútuo) para a pessoa jurídica C, a pessoa jurídica A não perderá a condição de investidora originária. Podese dizer que, de acordo com as regras contábeis, em decorrência de reorganizações societárias empreendidas, o ágio legitimamente passou a integrar o patrimônio da pessoa jurídica C, que por sua vez foi incorporada pela pessoa jurídica B (investida). Ocorre que a absorção patrimonial envolvendo a pessoa jurídica C e a pessoa jurídica B não tem qualificação jurídica para fins tributários. Isso porque se trata de operação que não se enquadra na hipótese de incidência da norma, que elege, quanto ao aspecto pessoal, a pessoa jurídica A (investidora originária) e a pessoa jurídica B (investida), e quanto ao aspecto material, o encontro de contas entre a despesa incorrida pela pessoa jurídica A (investidora originária que efetivamente incorreu no esforço para adquirir o investimento com sobrepreço) e as receitas auferidas pela pessoa jurídica B (investida). Mostrase insustentável, portanto, ignorar todo um contexto histórico e sistêmico da norma permissiva de aproveitamento do ágio, despesa operacional, para que se autorize "pinçar" os artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, promover uma interpretação isolada, blindada em uma bolha contábil, e se construir uma tese no qual se permita que fatos construídos artificialmente possam alterar a hipótese de incidência de norma tributária. Compartilhase, por conseguinte, com o fundamento de todos esses acórdãos e com o acórdão recorrido, no sentido de que, diferentemente do entendimento adotado pela empresa autuada, a interpretação dos arts. 7º e 8º, da Lei nº 9.532, de 1997 somente admite a dedutibilidade da amortização do ágio se investida ou investidora tiverem arcado com o ônus efetivo do ágio. Por certo que a interessada tem o direito de se organizar da maneira que melhor julgar. Mas esse direito não é ilimitado e deve supor a existência de causas reais que levem a tal fim. Há grande diferença entre operações que objetivam os negócios empresariais e operações que objetivam reduzir artificialmente a carga tributária. A contribuinte alega que tudo foi legal. São praxe alegações no sentido de que, se não está proibido pela lei, então tudo é permitido. Contudo, como já disse Sandra Maria Faroni, ao proferir voto no Acórdão nº 10195.537: A mais moderna corrente doutrinária entende que a ótica da análise não deve ser sob o ângulo da licitude ou ilicitude (a licitude é requisito prévio), mas sim, da oponibilidade ou inoponibilidade dos seus efeitos ao fisco. O conceito de legalidade a ser observado não tem sentido estrito de corresponder à conduta que esteja de acordo com os preceitos específicos da lei, mas sim um sentido amplo, de conduta que esteja de acordo com o Direito, que abrange, além da lei, os princípios jurídicos. Assim, cada caso deve ser analisado com cuidado, para decidir sobre a oponibilidade ao fisco dos negócios formalizados. Fl. 9008DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.009 37 Naquele caso, o sujeito passivo também invocava um planejamento tributário lícito (elisão fiscal) e não uma evasão de tributos. E a conselheira, citando ensinamento de Ricardo Mariz de Oliveira, assim se pronunciou: Ricardo Mariz de Oliveira, já em 1997 ensinava que a elisão, além de resultar da prática ou da não prática de atos ou negócios anteriores à ocorrência do fato gerador (para evitála) visando à economia tributária , para ser legítima, deve decorrer de atos ou omissões que não contrariem a lei, e de atos ou omissões efetivamente existentes, e não apenas artificial e formalmente revelados em documentação ou na escrituração mercantil ou fiscal. (OLIVEIRA, Ricardo Mariz de "Fundamentos do Imposto de Renda", 1977, Ed. Revista dos Tribunais, p. 303). A autoorganização com a finalidade predominante de pagar menos imposto configura abuso de direito e, nessas condições, sem qualquer propósito negocial. Como tal, uma vez provado trataremse de operações com esta razão principal, como restou provado nestes autos, pode o Fisco recusarse a aceitar seus efeitos no âmbito tributário de modo a neutralizar os efeitos fiscais do excesso abusivo. No que se refere à utilização de empresasveículo, é necessário lembrar, na linha dos pronunciamentos da Comissão de Valores Mobiliários CVM (Nota Explicativa à Instrução CVM nº 349/01), que o uso de empresaveículo visando o aproveitamento antecipado do benefício fiscal trazido pelo art. 7º, da Lei nº 9.532/97, distorce a figura da incorporação em sua dimensão econômica. Em regra, concebese como empresaveículo aquela que recebe da investidora participação societária com ágio como forma de integralização de capital e passa por processo de fusão, cisão ou incorporação inclusive às avessas de maneira a criar as condições de atendimento aos requisitos legais para dedução das amortizações do ágio integrante do seu patrimônio, no mais das vezes sendo criadas para esse fim específico, com curta duração sem apresentarem atividade operacional ou até mesmo quadro de empregados . É a pessoa jurídica criada no seio de um grupo empresarial sem qualquer propósito negocial ou objetivo de exploração de atividade econômica, servindo apenas para transferência de ágio de outra sociedade com o fim único de proporcionar artificialmente as condições para amortização do ágio transferido, conferindo aparência de legalidade à conseqüente redução da base de cálculo tributável segundo a permissão do art. 386 do RIR/1999. A empresaveículo não participa do fato econômico original constitutivo do ágio, não integra nenhum dos pólos, seja na condição de investidora ou de investida. Surge na cadeia de operações após o evento inicial, cumprindo o seu papel de intermediária, que é o de transferir o ágio para a pessoa jurídica que irá deduzilo, em conformidade com o planejamento tributário estipulado pelas partes interessadas. Nos arranjos societários em que se utiliza de empresasveículo, temse, então, que quem arca com o efetivo ônus relativo ao ágio não é nem a pessoa jurídica incorporada, nem a incorporadora. Portanto, não se tem a confusão patrimonial necessária para a amortização de que tratam os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997. Com apoio nessas premissas, passase a analisar cada um dos ágios constituídos e glosados pela autoridade fiscal, na ordem cronológica das operações, tal como Fl. 9009DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.010 38 efetuado pelo acórdão recorrido, com exceção do denominado "Ágio BIC", porque, como dito, a parcela do crédito tributário a ele correspondente não se encontra mais em litígio. 3.1.1 ÁGIO ANDELY: R$ 49.936.475,94 Estes são, em resumo, os fatos que deram surgimento ao denominado "ágio ANDELY", cujas amortizações anuais somam R$ 4.993.647,60: 1 a ANDELY, CNPJ 03.584.439/000125, foi constituída em 07/01/2000, pelos sócios Maria Cristina Cescon Avedisan (99%) e José Roberto de Camargo Opice (1%), ambos advogados, com um capital de R$ 100,00, conforme breve relato da JUCESP; 2 na 1ª alteração, de 26/03/2000, registrada na JUCESP em 11/04/2000, Maria Cristina transferiu suas 99 quotas para a Bunge Foods Limited e José Roberto transferiu sua quota para Mario Alves Barbosa Neto, ficando a administração a cargo de Mario Alves Barbosa Neto e da Bunge Foods, que a delegou a Vital Jorge Lopes, sendo a sede transferida para a Av. Maria Coelho Aguiar, n° 215, bloco D, 5° andar, parte; 3 na 2ª alteração, de 12/04/2000, registrada na JUCESP em 10/05/2000, o capital da ANDELY foi aumentado para R$ 145.192.100,00, tendo a Bunge Foods Limited subscrito e integralizado todas as quotas; 4 com esses recursos, no mesmo dia 12/04/2000, a ANDELY adquiriu o controle acionário da MANAH S.A. (MANAH), empresa do ramo de fertilizantes. Foi divulgado um comunicado para o mercado (fato relevante) noticiando a aprovação do aumento de capital na empresa MANAH, no valor de R$ 140.000.000,00, baseado exclusivamente nas cotações de mercado das ações preferenciais, acrescido de ágio. A ANDELY subscreveu e integralizou esse aumento, pagando o correspondente ágio na subscrição das ações da MANAH. 5 o ágio, no valor de R$ 49.985.798,70, foi registrado na contabilidade da ANDELY e teve como fundamento a expectativa de rentabilidade futura. 6 em 31/08/2000, a MANAH incorporou a ANDELY, fato também divulgado por meio de “fato relevante”, operação que ensejou o início das amortizações do ágio apurado. 7 mais adiante, a MANAH teve sua razão social alterada para BUNGUE FERTILIZANTES S.A. (BF), a ora autuada. 8 a DIPJ da ANDELY, de 01/01/2000 a 31/08/2000, mostra que: (i) tinha participação de 21,23% no capital total da MANAH; (ii) não há informações sobre contas caixa ou bancos; (iii) só há saldos, no ativo, de créditos com pessoas ligadas, participações em coligadas e ágio em investimentos; (iv) não há informações de despesas com remunerações, salários ou encargos sociais. A auditoria fiscal deduziu, a respeito das operações envolvendo a apuração e a amortização do denominado "ÁGIO ANDELY", o seguinte (TVF página 64): Por tudo o que foi verificado e descrito neste item e subitens, a única função da sociedade Andely Holding, controlada integralmente pelo grupo Bunge, foi a de servir como empresa veículo para o investimento e o ágio na Manah S.A para após Fl. 9010DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.011 39 uma incorporação reversa possibilitar a dedução do ágio na apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL na incorporadora, ajustandose à hipótese prevista no art. 386, III, c/c o art. 385, § 2º, II, ambos do RIR/1999. Ou seja, a ANDELY HOLDING LTDA., foi constituída em 07/01/2000, tendo por capital social o valor de R$ 100,00 (cem reais) e como sócios dois advogados Maria Cristina Cescon Avedisan, com 99% do capital social e José Roberto de Camargo Opice, com 1% do capital social e, apenas dois meses depois, em 26/03/2000, foi transferida para a BUNGE FOODS LIMITED que, em aproximadamente 15 (quinze) dias 12/04/2000 aumentou o capital social da ANDELY para R$ 145.192.100,00, totalmente subscrito e integralizado pela BUNGE FOODS LIMITED, conforme contratos de câmbio já mencionados. Com os recursos oriundos do novo capital social subscrito pela BUNGE FOODS LIMITED na ANDELY, esta adquiriu o controle acionário da MANAH S.A. Fertilizantes, subscrevendo, integralizando esse aumento e pagando o correspondente ágio na subscrição das ações da MANAH. A ANDELY passou a ter em seu ativo não mais contratos de câmbio, mas, sim, recebíveis (pouco mais de R$ 1.000.000,00) e ações da MANAH (atual BF) registradas por R$ 49.322,76, como investimento, e por R$ 49.936.475,94, como ágio, sem saldos em conta caixa ou bancos, sem empregados, e com prejuízo registrado de mais de R$ 94.000.000,00. O controle da MANAH (pouco mais de 57% do seu capital) foi adquirido por meio de outras empresas do GB, conforme “Fato Relevante". O ágio, no valor de R$ 49.985.798,70, foi registrado na contabilidade da ANDELY. Oito (8) meses após a constituição da ANDELY, a MANAH a incorporou, divulgando o evento por meio de “fato relevante”, operação essa que ensejou o início das amortizações do ágio apurado. A autuada defende a dedutibilidade da despesa com amortização do ágio registrado pela ANDELY, a partir da incorporação desta empresa pela MANAH, em 31/10/2005. Afirma que esse ágio decorreu de um efetivo dispêndio financeiro e de uma operação com inegável propósito negocial, assim como fora absorvido por meio de uma incorporação empresarial válida. Ocorre que o efetivo dispêndio financeiro foi feito pela BUNGE FOODS LIMITED. Foi com os recursos aportados pela BUNGE FOODS LTD que a ANDELY adquiriu as ações da MANAH com ágio. Ou seja, o ônus financeiro foisuportado verdadeiramente pela BUNGE FOODS LTD. Nessas circunstâncias, não houve a necessária “confusão patrimonial” entre a real investidora no caso a BUNGE FOODS LTD e a investida, a MANAH, porque a incorporação se deu entre ANDELY e MANAH a MANAH incorporou a ANDELY. Em verdade, a ANDELY foi criada especialmente para servir de veículo que possibilitasse a amortização do ágio gerado na MANAH por meio de uma incorporação reversa. Isto porque se houvesse a aquisição direta pela BUNGE FOODS LTD. das ações da MANAH, não seria possível o aproveitamento fiscal do ágio. Em face disso, tratase de dedução que não está amparada nos artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, motivo pelo qual deve ser mantida a atuação fiscal relativa a essa operação. Fl. 9011DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.012 40 Multa Qualificada Conforme observou a autoridade julgadora de 1ª Instância, a relação entre o ágio e o investimento, neste caso, foi desproporcionalmente alta, de cerca de 1000 para 1, ao passo que cerca de 2/3 do capital aportado em contratos de câmbio se transformaram em prejuízo. No protocolo de incorporação e justificação da ANDELY, consta expressamente (DOC 169 efls. 1.859/1.861): 1. JUSTIFICAÇÃO As administrações das partes entendem que a incorporação pela MANAH da ANDELY, com sua conseqüente extinção, se justifica na medida em que permitirá a melhoria do fluxo de caixa da MANAH, resultante do crédito fiscal gerado pela amortização do ágio pago pela ANDELY quando da aquisição de ações de emissão da MANAH. O patrimônio líquido da ANDELY é representado exclusivamente por recebíveis e pelo investimento na MANAH, incluindo o ágio apurado na sua aquisição. A operação de incorporação objeto deste Protocolo não afetará os dividendos futuros a serem atribuídos às ações detidas pelos acionistas não controladores, em razão da amortização do ágio, acima referido. (Negritouse) Também consta do item 2.3 do referido protocolo: 2.1. Aumento do Patrimônio da Incorporadora: A incorporação da ANDELY acarretará o aumento do patrimônio líquido da MANAH, de R$ 218.011.487,86, para R$ 268.980.146,18. Do patrimônio da ANDELY a ser incorporado, no valor total de R$ 50.968.658,32, o valor de R$ 49.936.475,94 será destinado à reserva especial de ágio na incorporação, na forma do art. 6º da Instrução CVM nº 319/99, e o valor de R$ 1.032.182,38 será destinado à reserva de capital. E, ainda, o item 3.1 do protocolo de incorporação: 3. FUTURO AUMENTO DE CAPITAL DA INCORPORADORA. 3.1. Capitalização da Reserva Especial de Ágio na Incorporação: Na medida em que a MANAH vier a auferir o benefício fiscal decorrente da amortização do ágio pago pela ANDELY na aquisição das ações de emissão da MANAH, conforme autorizam os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/97 e os arts. 385 e seguintes do Regulamento do Imposto de Renda, Decreto nº 3.000, de 26 de março de 1999, o correspondente crédito representado por parcela equivalente da reserva especial de ágio constituída nos termos do item 2.3 acima, será objeto de capitalização em favor dos quotistas da ANDELY. O aumento de capital em questão será efetivado mediante a emissão de ações ordinárias e preferenciais, observada a proporção entre as ações ordinárias e preferenciais então existentes, sendo assegurado o direito de preferência dos demais acionistas à subscrição dessas ações resultantes. Como se vê, a organização dos negócios que envolveram o referido rearranjo societário já vislumbrava, de antemão, o benefício fiscal da amortização do ágio gerado na MANAH, pelo aumento de seu capital social, integralizado pela ANDELY com o aporte feito pela BUNGE FOODS LIMITED. Fl. 9012DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.013 41 Ademais, a MANAH atual BF ao incorporar a ANDELY em 31/08/2000, incorporou o ágio de si mesma, de R$ 49.936.475,94, com amortização anual de R$ 4.993.647,60. Além disso, como visto no relatório, a DIPJ da ANDELY, de 01/01/2000 a 31/08/2000, demonstra que (i) tinha participação de 21,23% no capital total da MANAH; (ii) não há informações sobre contas caixa ou bancos; (iii) só há saldos, no ativo, de créditos com pessoas ligadas, participações em coligadas e ágio em investimentos; (iv) não há informações de despesas com remunerações, salários ou encargos sociais. A DIPJ também mostra que o PL da MANAH evoluiu de R$ 75.029.537,13 para R$ 82.617.416,38, na data da incorporação. Mas o Termo de Verificação Fiscal aponta que o PL da MANAH já era, por ocasião da incorporação da ANDELY, de mais de R$ 218.000.00,00, passando a ser, depois da sua incorporação, de quase R$ 269.000.000,00 (efl. 7430). A diferença, em 31/08/2000, entre o PL apontado no Termo de Verificação Fiscal e o da DIPJ, é de cerca de R$ 135.000.000,00. Ou seja: o Termo de Verificação Fiscal mostra um PL da MANAH cerca de 200% maior do que o da DIPJ. A grosso modo, o PL da MANAH passou, no breve período de 8 meses, de cerca de R$ 75.000.000,00 para cerca de R$ 218.000.000,00, antes da incorporação da ANDELY. Diante desses fatos não há como negar que a ANDELY serviu apenas como veículo a possibilitar a amortização de ágio. No Recurso Especial a contribuinte assim justifica a operação envolvendo o "ÁGIO ANDELY" (página 24 do REsp): De fato, no caso da Andely, sua criação e posterior incorporação reversa evitou complicações operacionais, visto que a Manah, como grande empresa do ramo de fertilizantes, tinha contratos, inscrições registros, entre outras formalidades inerentes ao seu funcionamento, de forma que o seu desaparecimento por incorporação (caso fosse ela a incorporada) acabaria trazendo inúmeros transtornos e trabalhos burocráticos, que poderiam ser evitados com a incorporação reversa. Os mesmos transtornos ocorreriam caso a Bunge Foods não tivesse constituído a Andely, pois, nesta hipótese, seria ela a empresa que passaria por inúmeros transtornos burocráticos. Assim, uma vez eficiente e válida de evitar tais inconvenientes era implementar a operação por meio da constituição da Andely para adquirir o investimento, com sua posterior incorporação pela Manah. Com a devida vênia às argumentações, não é o que se vê dos fatos aqui narrados. Com efeito, se as empresas tinham atividades operacionais, por que razão incorporar? A explicação da contribuinte, na verdade, corrobora a tese de que houve a criação Fl. 9013DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.014 42 de uma pessoa jurídica veículo e uma reorganização societária com o único intuito de reduzir carga tributária. De acordo com o Protocolo de Incorporação e Justificação destacado pela Fiscalização no TVF, efl. 59, verificase: [...]as administrações das partes entendem que a incorporação pela Manah de Andely, com sua conseqüente extinção, se justifica na medida que permitirá a melhoria do fluxo de caixa da Manah, resultante do crédito fiscal gerado pela amortização do ágio pago pela Andely quando da aquisição das ações de emissão da Manah. O patrimônio líquido da Andely é representado exclusivamente por recebíveis e pelo investimento na Manah, incluindo o ágio apurado na sua aquisição...[...] (Destaques do TVF). A efemeridade da existência da ANDELY é fato. Não há propósito negocial na criação da ANDELY que não seja o de viabilizar a futura e muito rápida amortização de ágio gerado artificialmente. A ANDELY, em sua curta existência, não produziu riqueza alguma. Não efetuou nenhuma operação comercial ou financeira. Não contratou funcionários nem pactuou com fornecedores ou clientes. Nada, absolutamente nada. Foi criada, como que "por encomenda" em janeiro/2000, por dois advogados, com capital social irrisório de R$ 100,00, para apenas alguns meses depois ser incorporada por uma grande empresa do ramo de fertilizantes, a MANAH, hoje BUNGE FERTILIZANTES, propiciando com essa incorporação que a MANAH passasse a amortizar um ágio milionário gerado na própria MANAH no meio desse caminho. É evidente a realização de uma seqüência de operações societárias com o único objetivo de reduzir as bases de cálculo do IRPJ e da CSLL a serem recolhidos pela empresa final. É que o se denota como verdadeiro objetivo desse rearranjo societário, o de tornar a despesa com a amortização do ágio em uma despesa dedutível da base de cálculo do IRPJ e da CSLL – o que não ocorreria se a contribuinte tivesse adquirido diretamente a participação na MANAH. Isto porque sabese que o ágio formado na operação de compra e venda de participação societária também poderia surgir no caso de uma aquisição direta. Entretanto, se a operação fosse direta, a despesa correspondente ao ágio não seria considerada dedutível no momento da sua amortização contábil, tendo em vista que não existe nenhuma norma legal que autorize a dedução da base de cálculo do IRPJ e da CSLL nessa situação. Por isso mesmo fica evidente que o único intuito que se desejou com a criação da ANDELY HOLDING controlada integralmente pelo GB (Grupo Bunge) foi a de servir como empresa veículo para o investimento e o ágio na MANAH para, após uma incorporação reversa, possibilitar a dedução do ágio na apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL, na incorporadora, de forma a ajustar esses fatos à hipótese prevista no art. 386, III e 385, § 2º, II, ambos do RIR/99. Sem dúvidas, em curtíssimo espaço de tempo, não obstante a defesa declinar formalmente razões de ordem societária ou econômica, constituiuse uma HOLDING ANDELY HOLDING injetouse capital nessa HOLDING para que ela pudesse adquirir ações com ágio da MANAH (atual BF) e, passo seguinte, fez desaparecer a HOLDING criada para, por meio de uma incorporação reversa, deduzir um ágio derivado de uma alegada rentabilidade futura de seus ativos. Fl. 9014DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.015 43 Em face de toda esse arranjo artificialmente criado para reduzir tributo, mantemse a multa qualificada porque vislumbrase fraude. Isso porque na fraude temse o comportamento caracterizado pelo esforço deliberado no sentido de retardar ou impedir o acontecimento do fato jurídico, ou, ainda, tentando modificar ou excluir os traços peculiares à identificação daquele evento, tudo dirigido ao escopo de não pagar quantia devida a título de tributo ou pagálo com redução, ou de diferir seu pagamento. Na lição de Maria Angélica S de Souza Dias1, na fraude os contratantes procuram contornar a lei, criando mecanismos destinados a fugir à sua aplicação. Não a confrontam mas, através de vias oblíquas, são obtidos resultados que aquela lei que está sendo contornada pretendia impedir, de modo que a violação da lei é feita de forma indireta, através de uma "cobertura", de um evento "aparente" . Para a autora, a fraude muda o estado do fato regulado pela lei, de forma tal que esta se torna inaplicável. E estas são duas das formas elencadas para isso: (i) pelo emprego de uma forma jurídica diferente ou de uma combinação de formas e, (ii) alterandose as condições em que o fato se produz. Eis a função da ANDELY. Criada artificialmente, sem propósito negocial, com um único objetivo de possibilitar o aproveitamento do ágio. Como justificativa, a recorrente sustenta que o motivo pelo qual a Bunge Foods não adquiriu o controle direto da MANAH é o fato de que tanto Manah quanto a Bunge Foods tinham contratos e atividades econômicas ativas que seriam prejudicadas caso uma ou outra fosse incorporada. Mas essa justificativa não afasta o intuito doloso. Ao contrário, o comprova, eis que a própria recorrente admite que a ANDELY somente se prestou a possibilitar a amortização do ágio e que sua constituição e posterior desaparecimento já estavam previstos. Concluise, portanto, que a criação da ANDELY teve por objetivo, apenas, construir um cenário que se assemelhasse à hipótese legal que autoriza a amortização do ágio. Diante dos fatos aqui retratados não resta dúvida de que o sujeito passivo agiu intencionalmente, de fato dolosamente, no sentido de impedir ou retardar o conhecimento por parte da autoridade fazendária, das suas condições pessoais, afetando, assim, as obrigações tributárias principais, infringindo, pois, o disposto no art. 72 da Lei nº 4.502/64. Assim, a multa qualificada deve subsistir. 3.1.2) ÁGIO BIPART: R$ 286.656.101,71 Podese assim resumir os fatos apurados pela auditoria fiscal, no tocante ao ágio da BIPART BUNGE I DE PARTICIPAÇÕES S/A, como extraído do relatório que antecede o voto do acórdão recorrido: 1 Tratase, em sua maior parte, de ágio apurado originalmente pela empresa SERRANA S.A. (atual BUNGE BRASIL S.A. – BB), no ano de 2001, como resultado da aquisição de ações da BF (BUNGE FERTILIZANTES) e BAL (BUNGE ALIMENTOS), de acionistas minoritários, assim dividido: 1 DIAS, Maria Angélica S. de Souza. O Planejamento Tributário e a Simulação. Revista Planejamento Tributário da APET. MP Editora. São Paulo, 2007 pp. 9899 Fl. 9015DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.016 44 a) R$ 215.298.004,62 Na época, a SERRANA atual BUNGE BRASIL (BB) adquiriu ações da BUNGE FERTILIZANTES (BF) de acionistas minoritários desta, por valor de mercado, ou seja, investimento PL em 30/11/2011 de R$ 116.871.866,34 e ágio de R$ 215.298.004,62, totalizando R$ 332.169.870,96. O pagamento não se deu por espécie, mas por troca de ações, já que a SERRANA pagou os acionistas minoritários com ações próprias. O ágio apurado pela BB referente especificamente ao fechamento de capital da BF (R$ 215.298.004,62) era baseado em expectativa de rentabilidade futura e ficou registrado na contabilidade da BB; b) R$ 71.358.098,09 Havia também dois outros ágios, então detidos pela BB, os quais eram referentes a aquisições feitas junto a terceiros, das empresas IAP S.A e FERTISUL S.A. Tais ágios somavam R$ 71.358.098,09 e também possuíam como fundamento a expectativa de rentabilidade futura. Essas “substituição de ações” culminaram no fechamento de capital da BF e da BAL. No final da operação, a BB (Serrana) tornouse uma empresa de capital aberto, controlando a BF e a BAL que deixaram de ter suas ações negociadas em bolsa. 2 em 29/05/2002, a BB (Bunge Brasil S/A), constituiu a subsidiária integral BIPART (BUNGE I DE PARTICIPAÇÕES), com capital subscrito e integralizado de R$ 10.000,00; 3 em 15/08/2002, o capital da BIPART foi aumentado em R$ 763.787.298,49, subscrito e integralizado pela BB mediante a conferência de bens que consistiam no investimento e no ágio da BF (Bunge Fertilizantes S/A), nos valores de R$ 504.690.724,35 e R$ 259.096.574,14, respectivamente, conforme laudo. Portanto, a BIPART passou a controlar diretamente a BF, detendo todos os seus ativos, inclusive o ágio referido; 4 em 29/08/2002, foi aprovada a incorporação da BIPART pela BF, aumentando seu PL (reserva de capital) no valor do ágio (R$ 259.106.574,14), com aumento de capital para R$ 518.310.000,00, ou seja, incorporação do investimento da BF, mais o respectivo ágio; 5 esse fato deu ensejo à amortização dos ágios registrados. Toda a operação foi divulgada ao mercado por meio de “fatos relevantes”. A auditoria fiscal concluiu que a única função da BIPART, subsidiária integral da BB (BUNGE BRASIL), foi a de servir como empresa veículo para o investimento e o ágio na BF (BUNGE FERTILIZANTES) para, após uma incorporação reversa, possibilitar a dedução do ágio na apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL na incorporadora, ajustandose à hipótese prevista no art. 386, III, c/c o art. 385, § 2º, II, ambos do RIR/1999. Aqui, como se verifica do relato dos fatos, as operações em seqüência se repetem, pois: Fl. 9016DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.017 45 em 29/05/2002, a BB, constitui a subsidiária integral BIPART, com capital de R$ 10.000,00; em 15/08/2002, menos de 3 (três) meses após sua constituição, o capital da BIPART é aumentado em R$ 763.787.298,49, subscrito e integralizado pela BB mediante a conferência de bens que consistiam no investimento e no ágio (R$ 259.096.574,14) na BF; apenas alguns dias depois, em 29/08/2002, foi aprovada a incorporação da BIPART pela BF, possibilitando o início da amortização do ágio. Em comunicado denominado "Fato Relevante", emitido em 13/08/2002, que compõe o doc 166A (efls. 1.847/1.848), a BUNGE BRASIL S/A BB, não só admite, como declara exatamente qual foi o propósito negocial da operação: Em atendimento ao disposto na Instrução CVM nº 358, de 3 de janeiro de 2002, informamos que em reunião realizada nesta data o Conselho de Administração deliberou tomar as seguintes providências para permitir a utilização dos créditos tributários relativos aos ágios apurados quando da aquisição pela Bunge Brasil S.A. da totalidade das ações da Bunge Fertilizantes S.A. e Bunge Alimentos S.A., via incorporação de ações aprovada na AGE de 19.12.2001: a) Transferir os investimentos nas subsidiárias integrais Bunge Fertilizantes S.A. e Bunge Alimentos S.A., respectivamente para as subsidiárias integrais constituídas para esse fim, Bunge I de Participações S.A. e Bunge II de Participações S.A., a título de integralização de capital pelos valores contábeis dos investimentos transferidos; e b) Efetivar as incorporações inversas de Bunge I de Participações S.A. em Bunge Fertilizantes S.A. e de Bunge II de Participações S.A. em Bunge Alimentos S.A.. A amortização dos referidos ágios será apropriada aos resultados da Bunge Fertilizantes S.A. e Bunge Alimentos S.A. de forma linear, à taxa anual de 10%, sendo que o benefício anual decorrente dos correspondentes créditos tributários a ser refletido no resultado da Bunge Brasil S.A. por equivalência patrimonial durante o período de amortização, está estimado a valores nominais em R$ 39,6 milhões. A amortização dos ágios será iniciada a partir da data das respectivas incorporações inversas. Exclusivamente para fins de cálculo do dividendo mínimo obrigatório, os valores amortizados dos ágios líquidos dos efeitos tributários, refletidos na Bunge Brasil S.A. por equivalência patrimonial em cada exercício social, serão ajustados como acréscimo do lucro líquido do exercício com o objetivo de neutralizar seus efeitos. Neste caso, também não se pode afirmar que houve desembolso financeiro para pagamento do ágio. Com efeito, foi a SERRANA que adquiriu ações da BUNGE FERTILIZANTES (BF) de acionistas minoritários desta, com ágio, mas pagando esses acionistas não com espécie, mas com ações próprias. O que houve, enfim, foi troca de ações. Mas caso se entenda que essa troca de ações equivaleria a um pagamento, esse pagamento foi feito pela SERRANA. Fl. 9017DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.018 46 Não se vislumbra, assim, a necessária confusão patrimonial entre real investidor SERRANA e investida BIPART. Ademais, o que houve aqui foi a transferência do ágio registrado na contabilidade da BB antiga SERRANA, para a BIPART, que posteriormente foi incorporada pela BF. Da mesma forma, aqui também a auditoria fiscal apurou que a BIPART não produziu qualquer riqueza, não efetuou operações comerciais, não contratou funcionários e teve por endereço cadastral a Av. Maria Coelho Aguiar, 215, Bloco D, 5º andar. Os únicos fatos registrados no único Livro Diário da BIPART se referem à subscrição e integralização de capital social, aumento do capital social e transferência do acervo por ocasião da incorporação pela BF. Em sua defesa a contribuinte argúi que as razões negociais que culminaram na reorganização societária realizada foram: (i) a segregação do ágio relativo à Bunge Fertilizantes, separadamente do ágio pertinente à Bunge Alimentos; (ii) o emparelhamento da amortização do ágio com a geração dos lucros a que ele se refere, que corresponderia à "mens legis", portanto atendendo não somente à letra da lei, como também ao espírito desta; (iii) e a manutenção dos efeitos benéficos no âmbito societário, obtidos com a centralização do controle direto das duas companhias operativas em uma holding no Brasil, permitindo que os acionistas das duas continuassem a participar dos resultados de ambas, e não mais apenas do seu investimento original, sem desfazer as vantagens de gestão das empresas operativas. Ocorre que à página 71 do TVF, consigna a Fiscalização: Verificamos em fato relevante publicado pela Bunge Brasil S.A. em 13/08/2002 a comunicação de que para permitir a utilização dos créditos tributários relativos aos ágios apurados quando da aquisição pela Bunge Brasil S.A. da totalidade das ações da Bunge Fertilizantes S.A., via incorporação de ações aprovada na AGE de 19.12.2001, seria transferido o investimento da subsidiária integral Bunge Fertilizantes S.A. para a subsidiária Integral Bunge I de Participações S.A constituída para esse fim a título de integralização de capital pelos valores contábeis dos investimentos transferidos e que seria efetivada a incorporação reversa de Bunge I de Participações em Bunge Fertilizantes S.A. [...] Vêse, então, que o que ocorreu, neste caso, foi uma mera transferência de ágio e a criação da BIPART teve esse objetivo por propósito negocial. Nessas condições, temse que a BIPART não participou em nenhum negócio relativo a aquisição de investimento, visto que ela apenas recebeu ativos que já pertenciam ao grupo econômico do qual fazia parte, o GRUPO BUNGE, e que continham o registro de um ágio. Fl. 9018DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.019 47 Isto leva, necessariamente, à conclusão de que a BB não adquiriu a participação na BIPART com o pagamento de um ágio, ela apenas transferiu um ágio que já estava registrado em sua contabilidade. Como bem apontou a PFN em suas contrarrazões, quando a BB integralizou o aumento de capital na BIPART, o ágio registrado na operação não tinha por fundamento econômico a rentabilidade futura de nenhuma das mencionadas empresas. Conseqüentemente, a operação que levou o ágio à BIPART – isto é, a integralização de aumento de capital desta empresa – não tinha respaldo econômico em nenhum laudo sobre rentabilidade futura. Portanto, resta evidente que houve a mera transferência de um ágio, e não a aquisição de um investimento com o pagamento de “mais valia”. A PFN destacou, ainda, o fato de que havia uma empresa do GRUPO BUNGE que controlava as empresas participantes do ato societário. A BB era controladora tanto da BIPART quanto da BB de forma que os ativos do GRUPO BUNGE apenas circularam internamente, entre empresas que integravam o grupo empresarial. Fica assim evidente que não se configurou negócio comutativo realizado entre partes independentes. Como mencionado no preâmbulo deste voto de mérito, nos termos da legislação de regência e na jurisprudência firmada neste órgão, para haver a possibilidade de deduzir um ágio validamente experimentado em reorganização societária é indispensável que tenha havido efetiva a aquisição de um investimento, num negócio entabulado entre partes independentes, com pagamento de ágio fundamentado em rentabilidade futura. Mas aqui houve mera transferência de ágio. Ressaltese que em aproximadamente 3 (três) meses a BIPART foi criada, capitalizada com transferência de ágio e extinta por incorporação. É cristalina a existência efêmera da BIPART eis que esta não desempenhou, durante o período em que existiu, nenhuma atividade empresarial – não registrou funcionários, não contratou com clientes ou fornecedores, enfim, não promoveu a circulação de bens ou serviços. Mas nesse curto tempo essa veículo proporcionou um ganho tributário e econômico para o GRUPO BUNGE. Acolhese, assim, as razões deduzidas pela auditoria fiscal, no Termo de Verificação Fiscal e considerase indevida a amortização do ágio denominado ÁGIO BIPART. Negase provimento, portanto, ao Recurso Especial da Contribuinte no que diz respeito a essa amortização de ágio. Multa Qualificada Aqui, pelas mesmas razões adotadas anteriormente, deve ser mantida a multa qualificada. De fato, não se vislumbra outra razão para o arranjo perpetrado senão a de redução de tributo, conforme constou do próprio "fato relevante" publicado, em que se admite que para permitir a utilização dos ágios seria transferido o investimento da BF para a BIPART que foi constituída especialmente para esse fim e foi efetivada pela incorporação reversa da BIPART pela BF . Ademais as próprias justificativas apresentadas pelo sujeito passivo demonstram claramente esse intuito. Como já destacado, a contribuinte elencou as seguintes razões para o negócio: Fl. 9019DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.020 48 (i) segregação do ágio relativo à Bunge Fertilizantes, separadamente do ágio pertinente à Bunge Alimentos. Ora, essa segregação é feita na contabilidade. Portanto, independeria da constituição da BIPART. Essa razão não justifica a criação da BIPART. (ii) o emparelhamento do amortização do ágio com a geração dos lucros a que ele se refere; (iii) e a manutenção dos efeitos benéficos no âmbito societário, obtidos com a centralização do controle direto das duas companhias operativas em uma holding no Brasil, permitindo que os acionistas das duas continuassem a participar dos resultados de ambas, e não mais apenas do seu investimento original, sem desfazer as vantagens de gestão das empresas operativas. Os itens (ii) e (iii) acima somente comprovam o que se está aqui a afirmar: a BIPART foi criada com o intuito exclusivo de permitir o aproveitamento do ágio, o que demonstra a artificialidade da operação. Operações de reorganização societária para serem consideradas legítimas devem decorrer de atos efetivamente existentes, não bastando para essa caracterização que sejam formalmente revelados em documentação ou escrituração mercantil. Devese perquirir se os atos praticados são reais e não artificialmente criados e essa análise deve ser feita não apenas para cada negócio isoladamente, mas também em relação ao conjunto dos negócios encadeados. Assim, operações de reorganização societária eivadas de artificialidade, além de não serem oponíveis à Fazenda Pública, denotam patologia de ilicitude. E o uso de empresas veículo em operações de reestruturação societária com ágio representa forte indício de ilicitude do negócio praticado. Assim, não há qualquer propósito negocial na constituição da BIPART a não ser a sua utilização como instrumento a possibilitar a transferência de um ágio para dentro de um mesmo grupo econômico, de maneira a dar uma aparência de que seriam atendidos na forma e não na essência os requisitos impostos pela legislação de regência para gozo do benefício de amortização de ágio. Assim, a multa qualificada para esta operação deve ser mantida. 3.1.3 ÁGIO CAJATI: R$ 170.844.432,64 Relativamente ao denominado "Ágio Cajati", este é o resumo dos fatos apurados pela auditoria fiscal: 1 em 28/04/2003, Maria Cristina Cescon Avedissian e Marcos Rafael Flesch, ambos advogados, constituíram a DIJON PARTICIPAÇÕES LTDA (DIJON), com capital de R$ 100,00, divididos em 100 quotas (ela com 99 e ele com 1). 2 em 24/10/2003, Maria Cristina cedeu suas 99 quotas para a COMPANHIA PAULISTA DE FERROS LIGAS CPFL, empresa controlada pela Companhia Vale do Rio Doce VALE que, por sua vez, subscreveu e integralizou o aumento de capital Fl. 9020DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.021 49 na DIJON com ações da FERTILIZANTES FOSFATADOS S.A. FOSFÉRTIL. O capital da DIJON passou a ser de R$ 66.259.900,00. 3 ainda no mesmo dia 24/10/2003, a CPFL alienou 66.259.899 quotas representativas do capital da DIJON para a BF. A operação foi amplamente divulgada por meio de “fato relevante” publicado pela VALE. 4 após a compra das ações pela BF, a denominação da DIJON foi alterada para CAJATI PARTICIPAÇÕES LTDA. (CAJATI). Nessa operação, a BF registrou o pagamento de ágio, referente ao investimento adquirido na CAJATI, com fundamento em expectativa de rentabilidade futura da FOSFÉRTIL. 5 em 30/04/2004, a BF incorporou a CAJATI, e passa a amortizar o ágio. A Fiscalização concluiu que a única função da CAJATI foi a de servir como empresa veículo, para possibilitar a dedução do ágio na BF. Além disso, acrescenta que a CAJATI: (i) não tinha empregados, nem qualquer registro de remuneração, ordenados, salários ou encargos sociais; (ii) só traz resultados de equivalência patrimonial; (iii) não tinha qualquer atividade empresarial geradora de receitas; (iv) não trazia informação de ágio registrada em sua DIPJ. Nesse contexto, peço vênia para transcrever as razões que levaram a auditoria fiscal a glosar as parcelas de amortização do ágio gerado na CAJATI, consignadas no Termo de Verificação Fiscal (páginas 57 e ss efls. 7.372/7.466): Como constatamos, após dois advogados terem aberto uma sociedade, em 24/10/2003, a Companhia Paulista de Ferro e Ligas (CPFL), uma subsidiária da CVRD , foi admitida na sociedade integralizando aumento de capital social com ações representativas de 11,13% do capital da Fertilizantes Fosfatados S/A Fosfértil o capital passou de R$ 100,00 para R$ 66.259.900,00 (quotas de R$ 1,00). A Fosfértil passou a ter todas as quotas da sociedade menos uma. Naquele mesmo dia foi assinado um contrato de venda entre a CPFL e a Bunge Fertilizantes. Todas as quotas (menos uma) foram transferidas para a Bunge Fertilizantes por R$ 240.000.000,00, a qual efetuou o pagamento no ato. No contrato encontramos referências de que a Bunge Fertilizantes seria responsável pelos atos de registro. A quota restante foi vendida para Mario Barbosa Alves Neto diretor presidente da Bunge Fertilizantes. Notase que em um mesmo dia (24/10/2003) a CPFL aumentou e integralizou capital da DIJON com ações da Fosfértil e vendeu essas quotas para a Bunge Fertilizantes. Ficou claro que o que ocorreu foi a venda das ações da Fosfértil, de propriedade da CPFL, para a Bunge Fertilizantes; a Cajati foi um mero veículo. Referida venda foi evidenciada em "fato relevante" publicado pela Companhia Vale do Rio Doce em 24 de outubro de 2003 onde a CVRD comunicou ao mercado que sua subsidiária, a Companhia Paulista de Ferro e Ligas (CPFL), concretizara a venda de ações da Fertilizantes Fosfatados S/A Fosfértil para a Bunge Fertilizantes Fl. 9021DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.022 50 S/A por R$ 240 milhões. Vários outros atos, como descrito neste item e subitens, evidenciam que de fato o que ocorreu foi a venda das ações da Vale para a Bunge Fertilizantes. Contabilmente a Bunge Fertilizantes registrou o investimento por EP e a diferença como ágio, fundamentado em expectativa de rentabilidade futura, conforme laudo de avaliação apresentado. Em 30/04/2004 a Cajati foi incorporada e a partir de 2004 a Bunge Fertilizantes começou a amortizar esse ágio. A Cajati Participações, com sede no mesmo endereço da Bunge Fertilizantes, e como contador Roberto Correa Sampaio, contador da Bunge Fertilizantes, nunca teve empregados ou qualquer despesas com remunerações ou encargos sociais; nas demonstrações de resultado (Fichas 6A) não há receitas, somente resultados positivos de participações societárias. A interessada BF, à fl. 5 de sua impugnação, argumentou que a CAJATI tinha seu patrimônio composto por investimento em outra empresa do ramo de fertilizantes, a FOSFÉRTIL, cuja aquisição era de seu interesse. É verdade que as operações que envolveram a criação e a incorporação da CAJATI possuem algumas semelhanças com aquelas anteriormente analisadas. Com efeito, as operações em seqüência se repetem, visto que a DIJON/CAJATI foi também criada por dois advogados, em 28/04/2003, com o capital social singelo de apenas R$ 100,00 e em seguida, no dia 24/10/2003, cedida para a CPFL, empresa do grupo VALE, que no mesmo dia aumentou o seu capital social de R$ 100,00 para R$ 66.259.900,00, integralizandoo com ações da FOSFÉRTIL e que, também no mesmo dia 24/10/2003, aliena as quotas representativas do capital da DIJON/CAJATI para a BF, que registrou o pagamento de ágio, referente ao investimento adquirido na CAJATI, com fundamento em expectativa de rentabilidade futura da FOSFÉRTIL. Na seqüência, a BF incorporou a CAJATI. Vêse que a DIJON/CAJATI também teve existência efêmera, de apenas 1 (um) ano, não registrou funcionários, não exerceu qualquer atividade operacional ou empresarial geradora de receitas. Mas aqui há uma questão que diferencia este negócio dos outros. A empresaveículo DIJON/CAJATI não foi criada pelo GRUPO BUNGE. A DIJON/CAJATI foi criada pelo grupo VALE que depois subscreveu seu capital com as ações da FOSFÉRTIL. Compreendese que o principal indício que fundamentou as conclusões da autoridade fiscal foi o fato de a CPFL ter integralizado um aumento de capital na DIJON (CAJATI), no mesmo dia em que foi formalizado o contrato de compra e venda das quotas desta empresa, com a participação que detinha na FOSFÉRTIL, ou seja, capitalizaram a DIJON (CAJATI) com as ações da Fósfértil, para depois alienála à Bunge Fertilizantes. Outro indício foi a divulgação, pela VALE, de “fato relevante” no qual estava registrado que a VALE vendeu, por meio de sua subsidiária CPFL, as ações da FOSFÉRTIL para a BF por R$ 240 milhões. Mas o que a Bunge Fertilizantes fez foi adquirir um investimento, certamente com a visão de que pagaria um ágio amortizável por isso, e que poderia depois incorporar a CAJATI (DIJON), sem retirar do mundo jurídico a empresa já existente Fósfértil. À toda sorte, fica evidente que o objetivo da operação sempre foi, desde o começo, a compra das ações da CPFL pela BF. Mas essa compra, se fosse feita de forma simples e direta pela própria BF, não lhe permitiria a amortização do ágio, o que levou os administradores do grupo a optarem, mais uma vez, pela criação de uma empresa intermediária Fl. 9022DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.023 51 que pudesse ser utilizada como veículo a possibilitar essa amortização. E essa foi exatamente a função da CAJATI. A aquisição foi sem dúvida vantajosa para a Bunge Fertilizantes, mas, neste caso, dentro dos limites da lei. De fato, o ágio foi adquirido e pago por partes independentes que, depois, incorporaram a PJ investida. Ademais, em que pese a questão ter sido levantada pela PFN em contrarrazões, fato é que a auditoria fiscal não questionou o laudo de avaliação. É fato, como já afirmado pela auditoria fiscal, que a DIJON/CAJATI é uma empresaveículo. Contudo, essa veículo, como explicou a recorrente em suas peças de defesa, não foi constituída pelo GRUPO BUNGE. A Bunge Fertilizantes apenas adquiriu a DIJON/CAJATI, como também poderia ter adquirido a própria Fósfértil. Portanto, a utilização da veículo DIJON/CAJATI, neste caso, não se deu pelo GRUPO BUNGE, mas pelo grupo VALE. Em face do exposto, relativamente a essa parcela do ágio, não deve ser mantida a exigência fiscal. Por conseguinte, como a exigência relativa ao ágio está sendo afastada, por decorrência, a multa qualificada não subsiste no que toca a essa parcela. 3.1.4 ÁGIO BPART: R$ 389.373.463,92 Com relação ao denominado "Ágio BPART", os fatos apurados pela fiscalização (TVF, a partir da página 38) são a seguir resumidamente relatados: em 29/04/2004 a BUNGE LIMITED (controladora do GRUPO BUNGE) anunciou a intenção de fechar o capital de sua controlada BB através de uma Oferta Pública de Aquisição de Ações OPA; quinze dias depois disso, em 14/05/2004, é constituída a BPART BUNGE PARTICIPAÇÕES LTDA. pela BUNGE BIC HOLDINGS BV (99,99%) e pela BUNGE INVESTIMENTOS E CONSULTORIA LTDA. BIC (0,01%), com capital de R$ 10.000,00, para comprar as ações da BB que estavam em circulação nas mãos de minoritários; feita a avaliação com data base 31/03/2004, o leilão de compra de ações da BB ocorreu em 27/09/2004, tendo sido pago pela BPART valor superior ao patrimonial da BB, resultando em ágio de R$ 820.783.564,53, assim decomposto: 1) R$ 800.783.564,56 pelo pagamento (compra) de 124.345.274 ações da BB; 2) R$ 20.079.508,03 pelos gastos ligados à operação; as origens dos recursos que a BPART utilizou na aquisição da BB foram financiamentos de longo prazo, no total de R$ 849.617.000,00 (US$ 280.000.000,00), remetidos pela sua subsidiária integral no exterior, Bunge Trade Ltd., em 31/07/2004; tais financiamentos correspondiam, segundo a fiscalizada, a operações de prépagamento de exportação tipo de financiamento ao exportador na fase de préembarque da mercadoria, com Fl. 9023DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.024 52 recursos levantados junto a um banco no exterior ou a um importador, provendo capital de giro para viabilizar produção e vendas ao exterior; em 30/06/2005, a Bunge BIC Holdings BV foi substituída pela Bunge Brasil Holdings BV, em vista da incorporação da primeira pela segunda, no exterior; em 13/10/2005, o capital da BPART de R$ 10.000,00 foi aumentado e integralizado com créditos de R$ 165.000.000,00 provenientes das quotas da BIC pela Bunge BIC Holdings; em 26/10/2005 o capital foi reduzido para R$ 135.308.200,00 em razão de absorção de prejuízos; em 31/10/2005, ocorreram as seguintes operações: a) a BB incorporou a BPART, fato que deu ensejo à amortização do ágio; b) a BB incorporou a BIC; c) a BF incorporou a BB; d) a cisão parcial da BF, com versão de patrimônio para a Bunge Alimentos Participações Ltda. BALPART , seguida de incorporação desta pela BAL, através do que apenas o ágio pertinente à BF ficou nela, e o ágio relativo à BAL passou para esta. Conforme o TVF, acerca dos contratos de prépagamento de exportação, o pagamento do principal se deu via exportação, e dos juros, via exportação ou câmbio. Até a data da incorporação da BPART pela BB, em 31/10/2005, foram liquidados US$ 93.000.000,00 de principal e US$ 37.024.166,67 de juros, sendo que todas as liquidações e pagamentos de juros ocorreram em outubro de 2005, no mesmo mês das incorporações. Após as incorporações/cisão de 31/10/2005, o montante do saldo a pagar (US$ 187.000.000,00) foi segregado entre a BF (US$ 80.400.000,00) e a BALPART (US$ 106.600.000,00), sendo que esta veio a ser incorporada, em 28/02/2006, pela BAL. A parcela do ágio incorporada pela BAL foi objeto de fiscalização pela DRF/Blumenau – MPF 09.2.04.002010000292. Ainda de acordo com o relato extraído dos autos, a justificativa para a incorporação é que a atividade da BPART poderia ser exercida pela BB ou sucessora sem solução de continuidade e a reestruturação permitiria a redução de gastos; segundo o protocolo de justificação: "O acervo líquido da Bunge Participações para fins de incorporação, será avaliado com base no seu valor contábil na data de 30/09/2005, ajustado pela liquidação parcial de prépagamento de exportação em 11/10/2005, pelo aumento do capital social em 13/10/2005 e pela absorção de prejuízos acumulados contra capital em 26/10/2005" A auditoria apurou ainda: a DIPJ da BPART mostra que ela, em 2004: a) não tinha empregados; b) tinha uma subsidiária integral no exterior, a Bunge Trade Ltd.; c) tinha PIS e COFINS só de receitas financeiras; Fl. 9024DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.025 53 d) tinha só despesas ("Outras Despesas Operacionais") de R$ 361.133,80, sendo R$ 360.841,97 com contrapartida a uma contacorrente com a BF; e) tinha resultado contábil só de receitas/despesas financeiras e resultado em participações societárias, tendo tido prejuízo fiscal de R$ 16.926.420,57; a DIPJ da BPART mostra que ela, em 2005: a) tinha despesas com serviços prestados por PJ de R$ 111.299,87; b) tinha provisões não dedutíveis, que correspondia a ágio, de R$ 42.182.125,31; c) tinha resultado contábil só de receitas/despesas financeiras e resultado em participações societárias, tendo tido lucro real zero; A fiscalização concluiu que a BPART foi constituída somente para permitir o registro do ágio na compra das ações da BB que estavam em circulação para, na seqüência, ser incorporada pela BB, que seria incorporada pela BF, ocorrendo todas essas incorporações/cisão no mesmo dia. Logo, a única função da BPART foi a de servir como empresa veículo para o investimento e o ágio de modo a possibilitar a dedução desse ágio na BF. Assim como nas operações anteriores já analisadas nestes autos, verificouse também em relação à BPART que, em 2004: a) não tinha empregados; b) tinha uma controlada integral no exterior, a Bunge Trade Ltd.; c) tinha PIS e COFINS só de receitas financeiras; d) tinha só despesas ("Outras Despesas Operacionais"), de R$ 361.133,80, dos quais o valor de R$ 360.841,97 tinha como contrapartida uma contacorrente com a BF; e) tinha resultado contábil só de receitas/despesas financeiras e resultado em participações societárias, tendo tido prejuízo fiscal de R$ 16.926.420,57. E em 2005: a) tinha despesas com serviços prestados por PJ de R$ 111.299,87; b) tinha provisões não dedutíveis, que correspondem a ágio, de R$ 42.182.125,31; c) tinha resultado contábil só de receitas/despesas financeiras e resultado em participações societárias, tendo tido lucro real ZERO. Julgase conveniente transcrever os fatos apurados pela auditoria fiscal, conforme explicitado no Termo de Verificação Fiscal item "F" (a partir da página 48), porque melhor demonstram com precisão as minúcias de toda esta operação: Através de "Fato Relevante da Bunge Brasil S.A., datado de 29/04/2004, a Bunge Limited, controladora da Bunge Brasil S.A., foi a público informar que seu "Conselho de Diretores" aprovara a realização de oferta pública para aquisição da totalidade das ações ordinárias e preferenciais de emissão da Bunge Brasil em circulação no mercado visando o seu cancelamento de registro como companhia de capital aberto. A BUNGE LIMITED comunicou ainda que a decisão tomada pelo seu "Board of Directors" (Conselho de Diretores) foi motivada por consulta formulada pelo Banco de Investimentos Credit Suisse First Boston S.A. ("CSFB"), sobre seu interesse em adquirir ações de emissão de sua controlada (Doc 252). Para aquisição dessas ações, o grupo Bunge constituiu, em 14/05/2004, a sociedade Bunge Participações Ltda. tendo como quotistas a Bunge BIC Holdings BV (99,99%) e a Bunge Investimentos e Consultoria Ltda. Para diretores foram eleitos Hildegard Gutz Horta e Miguel Juan Pryor. Hildegard era procuradora da Bunge Cooperatief UA, Bunge Brasil Holdings BV e Bunge BIC Holdings BV no Brasil e também diretora, juntamente com Miguel Juan, da Bunge Fertilizantes S.A. Fl. 9025DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.026 54 O capital social era de R$ 10.000,00 e assim ficou até 13/10/2005, às vésperas da incorporação pela Bunge Brasil S.A. em 31/10/2005. [...] Conforme se verificou no fato relevante publicado pela Bunge Brasil (Doc 267), datado de 30/05/2004, a Bunge Participações Ltda. na qualidade de ofertante e em complementação ao Fato Relevante publicado pela Bunge Limited em 29/04/2004, informou aos acionistas da Bunge Brasil S.A. ("Bunge Brasil") e ao mercado que, em 28.05/2004 havia sido protocolado na Comissão de Valores Mobiliários CVM o pedido de registro da oferta pública de aquisição da totalidade das 136.113.918 ações ordinárias e preferenciais de emissão da Bunge Brasil em circulação no mercado. Foram publicados mais dois fatos relevantes (31/05/2004 e 30/06/2004), ambos fazendo menção ao fato relevante de 29/04/2004. A Bunge Participações, com um capital social de apenas R$ 10.000,00, controlada integralmente pelo grupo Bunge, adquiriu as ações em circulação fechando o capital da Bunge Brasil S.A. Para a aquisição dessas ações, a sociedade que tinha um capital de R$ 10.000,00, desembolsou, em 2004, R$ 820.863.072,59. Considerando o laudo de avaliação econômica da Bunge Brasil, foi registrado um ágio fundamentado em rentabilidade futura de R$ 389.373.463,52. No balanço patrimonial de 31/12/2004 (DIPJ Ac 2004) o PL da Bunge Participações Ltda. estava negativo em R$ 78.101.679,83. Ao analisarmos a escrituração contábil da Bunge Participações Ltda., verificamos que as origens dos recursos para a aquisição das ações que estavam em circulação no mercado consistiram em operações denominadas "prépagamentos de exportações", as quais estavam registradas no passivo em "ADIANTAMENTOS DIVERSOS LP". Essas operações consistem em uma modalidade de financiamento ao exportador na fase de préembarque da mercadoria, com recursos levantados junto a um banco no exterior ou a um importador, provendo capital de giro para viabilizar a produção e as vendas ao exterior. Os valores totais financiados foram de US$ 280.000.000,00 equivalentes a R$ 849.617.000,00. A Bunge Participações Ltda. não teve qualquer tipo de receita afeta à exportações. Analisandose os contratos de câmbio, constatamos que o remetente dos recursos foi a Bunge Trade Ltd., subsidiária integral da Bunge Participações Ltda., e as mercadorias que seriam exportadas seriam a soja e seus derivados. Constatamos que todos os contratos de câmbio foram assinados por Virgilio Januário Martins e Reinaldo Henrique Steolla; ambos tinham vínculos empregatícios com a Bunge Fertilizantes. Conforme verificamos em artigos disponibilizados no sítio da Bungeprev na internet, Reinaldo foi gerente financeiros da Bunge Fertilizantes. Após a incorporação da Bunge Participações pela Bunge Brasil (a qual depois foi incorporada pela Bunge Fertilizantes S.A.) em 31/10/2005, foram liquidados US$ 93.000.000,00 e pagos juros de US$ 37.024.166,67. Essas liquidações do principal e os pagamentos de juros ocorreram cerca de 20 dias antes das incorporações. Pelos documentos apresentados, referentes aos pagamentos de juros à Bunge Trade Ltd., verificamos que esses documentos foram produzidos em formulários personalizados da Bunge Fertilizantes, o mesmo ocorrendo com relatórios internos da Bunge Fertilizantes onde constam as assinaturas de Wagner Chuqui, gerente financeiro da Bunge Fertilizantes. Fl. 9026DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.027 55 Os contratos de câmbio, na contratação dos prépagamentos de exportação e no pagamentos dos juros, foram assinados por Virgilio, Reinaldo e Wagner todos com vinculo empregatício com a Bunge Fertilizantes. Todas as operações financeiras, que incluíram a tomada de créditos no exterior e o pagamento dos juros tiveram o aval de funcionários da Bunge Fertilizantes mais de R$ 0,9 bilhão; não poderia ser diferente pois a Bunge Participações nunca teve funcionários e tinha um capital social irrisório até a integralização em 13/10/2005 com créditos de R$ 165.000.000,00 (créditos esses provenientes da operação de compra das quotas da Bunge Investimentos e Consultoria pela Bunge BIC Holdings, operação descrita no item anterior, onde evidenciamos a operação de compra de um investimento do grupo Bunge por ele mesmo, gerando artificialmente um ágio). A liquidação dos US$ 93.000.000,00 foi feita através de exportações de soja e seus derivados. Todos os conhecimentos de embarque tiveram como remetente das mercadorias a Bunge Alimentos S.A. Nos demonstrativos de quitação onde estão relacionados datas de embarque, nº de contratos, RE e despacho, assinam pela Bunge Alimentos S.A Érico Tavares Lopes e Simone Maria de Souza Bodenmuller, ambos tinham vínculos empregatícios com a Bunge Alimentos. Juntamente com esses demonstrativos que vinculam despachos de exportação aos contratos de prépagamento de exportação, foram apresentados ofícios dirigidos à DRF/Blumenau onde a Bunge Alimentos declarou que a Bunge Participações Ltda constava cadastrada no Siscomex como empresa do mesmo grupo econômico e que estava autorizada a vincular contrato de câmbio em registros de exportação da Bunge Alimentos S.A. No momento das exportações de soja/derivados, foi contabilizado em uma conta de mútuo passivo com a Bunge Alimentos (tendo como contrapartida a conta prépagamento de exportações) o valor de R$ 207.938.540,24 (Doc 263). Na Bunge Fertilizantes, após as incorporações, houve o registro desse mútuo passivo com a Bunge Alimentos e quando da cisão parcial da Bunge Fertilizantes para a Bunge Alimentos Participações Ltda., também em 31/10/2005, esse mútuo passivo foi vertido. Quando da incorporação da Bunge Alimentos Participações pela Bunge Alimentos S.A., teremos obrigações e direitos se anulando (Doc 297/298). Dentre a documentação apresentada, chamou a atenção uma correspondência do Banco Itaú (Doc. 141 A) encaminhada à Bunge Participações aos cuidados de Lucineide Zampilli, datada de 09/08/2004; o AR anexado tinha como destinatário a Bunge Fertilizantes a/c Lucineide. Lucineide em 2004 tinha vínculo empregatício com a Bunge Fertilizantes (Doc. 145). O saldo remanescente do principal a pagar, em um total de US$ 187.000.000,00, foi distribuído entre a Bunge Alimentos Participações Ltda: US$ 106.600.000,00 e a Bunge Fertilizantes S.A.: US$ 80.400.000,00 (Obs.: a Bunge Alimentos e Participações foi incorporada posteriormente pela Bunge Alimentos S.A., operação que foi objeto de ação fiscal na DRF/Blumenau). Analisandose as DIPJ e DIRF apresentadas pelka Bunge Participações Ltda. verificamos que o contador responsável foi Roberto Correa Sampaio. Roberto Correa Sampaio era/é contador da Bunge Brasil S.A. e da Bunge Fertilizantes S.A. Verificamos que no Ac de 2004 a Bunge Participações apurou um prejuízo fiscal de R$ 16.926.420,57 e no Ac 2005 o resultado fiscal informado foi zero. Fl. 9027DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.028 56 Todas as empresas estavam localizadas na Av. Maria Coelho Aguiar nº 215 bloco D 5º andar a subordinação total sempre foi ao grupo Bunge, como se nota pelo fato relevante publicado em 29/04/2004, pelos administradores/quotistas comuns; todos os responsáveis pelas operações financeiras eram funcionários da Bunge Fertilizantes, assim como o contador responsável pelas empresas envolvidas. Resta claro, por tudo o que foi apurado e exposto neste item e subitens (5.1.1.2), que a Bunge Participações foi constituída pelo grupo Bunge somente para permitir o registro do ágio na compra das ações da Bunge Brasil que estavam em circulação para na seqüência ser incorporada pela investida (Bunge Brasil) a qual seria incorporada pela Bunge Fertilizantes, todas essas operações de incorporações/cisão ocorrendo no mesmo dia, em sequência. Em suma: a BPART, com um capital social de apenas R$ 10.000,00, controlada integralmente pelo grupo Bunge, adquiriu as ações em circulação fechando o capital da BB. Para a aquisição dessas ações, a sociedade desembolsou, em 2004, R$ 820.863.072,59. O laudo de avaliação da BB apontou um ágio fundamentado em rentabilidade futura no valor de R$ 389.373.463,52. Os valores desembolsados pela BPART para aquisição das ações da BB foram obtidos através de financiamentos destinados a préexportações de soja. Mas é claro que a BPART nunca efetuou essas exportações. Pretendeuse, em verdade, dar uma aparência de que houve a obtenção de recursos destinados a exportações pela BPART. Mas os contratos de câmbio relacionados ao envio dos recursos e as remessas de juros foram assinados por funcionários da BF e as exportações foram feitas pela BAL. Aqui também não se vislumbra a necessária confusão patrimonial entre real investidor e investida. Isto porque os recursos que a BPART utilizou na aquisição da BB foram remetidos pela sua subsidiária integral no exterior, Bunge Trade Ltd. Mas não é só. No fechamento de capital da BB, o Grupo Bunge promoveu a valorização das ações que se encontravam de posse dos minoritários no mercado e, através da BPART, adquiriu essas ações com ágio. Temse, assim, que o Grupo Bunge adquiriu suas próprias ações com ágio e, posteriormente, se beneficiou da amortização desse mesmo ágio. Ora, é certo que qualquer pessoa jurídica do grupo poderia adquirir ações do conglomerado, mas não buscando se beneficiar da dedução de amortização de ágio, vez que sem a criação da empresaveículo, não haveria a amortização do ágio. Ou seja, não havia outro propósito negocial com a criação da BPART que não fosse o da economia fiscal a ser gozada pelo GB, por meio da BF, pela criação de um ágio artificial, no seio do mesmo grupo econômico, que posteriormente foi amortizado por empresa pertencente ao conglomerado. No voto vencedor deduzido no acórdão recorrido, o relator observou esse aspecto relativo ao gozo do benefício de amortização de ágio neste caso, pelo que peço licença para transcrever o seguinte trecho do voto: Especificamente em relação ao denominado “ágio BPART”, em que se visou ao fechamento do capital da Recorrente, convém tecer comentários complementares. Fl. 9028DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.029 57 De acordo com o caput do art. 30 da LSA, a regra geral é que “A companhia não poderá negociar com as próprias ações”. Caberia a análise quanto à exceção contida na alínea "b", do parágrafo 1°, do artigo 30 da LSA a fim de verificar se o valor envolvido na operação superaria o montante de lucros e reservas da Recorrente, o que viabilizaria a aquisição das próprias ações, sem contudo, alterar seus efeitos contábeis, conforme se demonstrará a seguir. Na operação analisada, entendo que se tornou evidente que ao final, de fato, a Recorrente adquiriu suas próprias ações. Para tanto, utilizouse de BPART como empresa veículo na aquisição de tais ações. A conseqüência contábil de tal interposição foi possibilitar que a “mais valia” na aquisição das ações fosse contabilizada por BPART como ágio. Ato contínuo, BPART foi incorporada pela Recorrente. A conseqüência fiscal da última operação foi possibilitar à Recorrente a amortização de tal ágio, reduzindo as bases de cálculo de IRPJ e CSLL. É importante ressaltar que não está se afirmando que o Grupo Bunge não poderia adquirir as ações de uma das empresas do conglomerado, mas sim que o modo como a operação foi estruturada acabou por configurar a aquisição das próprias ações, com repercussão também no âmbito fiscal. Analisamse ainda os efeitos de tal operação nos resultados da Recorrente. Ao adquirir suas próprias ações as pessoas jurídicas devem adotar tratamento contábil específico e determinado. Caso as operações fossem corretamente contabilizadas a aquisição das próprias ações deveria ser registrada em conta retificadora do patrimônio líquido – ações em tesouraria, e não como ágio. O processo de aquisição das próprias ações não está sujeito ao mesmo regramento do ágio quando há o pagamento de mais valia em tal operação. O Manual de Contabilidade Societária da FIPECAFI explicita: a) a aquisição de ações de emissão própria é uma transação de capital da companhia com seus sócios, não devendo afetar o resultado; b) a operação de compra de ações pela própria companhia é como se fosse uma devolução de patrimônio líquido, motivo pelo qual a conta que as registra (devedora, com título de “Ações em Tesouraria”) deve ser apresentada como conta redutora do patrimônio (conforme artigo 182, parágrafo 5º, da Lei 6.404 de 1976); e c) as ações adquiridas devem ser contabilizadas na conta de ações em tesouraria por seu custo de aquisição, ou seja, pelo preço pago ao detentor das referidas ações.” (grifos do original) Por conseguinte, sob o aspecto tributário, caso a aquisição das ações da Recorrente não tivesse sido tratada como aquisição de investimento, mas sim como aquisição das próprias ações, não haveria efeitos sobre seus resultados, uma vez que o tratamento contábil dado às aquisições das próprias ações influenciaria tão somente contas patrimoniais. Logo, além da vedação a negociação com as próprias ações (art. 30 da LSA), podese concluir que também o aspecto tributário levou a Recorrente a estruturar a operação de aquisição de suas próprias ações de modo artificial, burlando não só a legislação societária, mas ferindo de morte também princípios norteadores de nosso arcabouço jurídico, em especial, o princípio da capacidade contributiva. Fl. 9029DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.030 58 Em resumo: analisandose o cenário, constatase que a Recorrente desejava adquirir ações de sua própria emissão em poder de terceiros. Contudo, o art. 30 da LSA veda, em regra, que a companhia negocie com as próprias ações. Por meio de operações sucessivas, mediante utilização de empresa veículo (BPART), a Recorrente, ao final de todas as etapas, passou a deter suas próprias ações. Cumpre ressaltar que a detecção de desrespeito à legislação societária, pura e simplesmente, não é objeto do trabalho da RFB. Contudo, quando tal conduta passa a gerar reflexos tributários, não se pode olvidar que a autoridade fiscal não só pode, mas deve, a teor do disposto no art. 142 do Estatuto Tributário, apurar o crédito tributário eventualmente recolhido a menor. Frisese: não houve aquisição de investimentos, mas sim aquisição das próprias ações. Como conseqüência, a mais valia na aquisição sequer poderia afetar o resultado da Recorrente. Observase que, no caso em exame, sem a utilização de empresa veículo, não haveria a criação do ágio, pois os efeitos contábeis da operação seriam retratados diretamente no patrimônio líquido da Recorrente, conforme já abordado. De igual forma, tornarseia evidente a infringência à legislação societária relativa à aquisição das próprias ações. É de pouco relevo se BPART efetivamente operava, ou se sua existência foi efêmera. O importante para a caracterização como conduit company foi a efemeridade de sua participação no negócio, em si. Em curto lapso, simplesmente por sua interposição em negócio jurídico, foi capaz de causar efeitos tributários, não em si mesma, mas na pessoa jurídica que efetivamente ocupava um dos polos da operação negocial perpetrada, qual seja, a Recorrente. E, frisese, o papel da conduit company serviu, no caso concreto, a uma só vez, para fraudar a legislação societária e diminuir a carga tributária da Recorrente, verdadeira adquirente de suas próprias ações. Além de tais causas, não houve comprovação de outro papel por parte de BPART. O sujeito passivo, no Recurso Especial aviado, tenta desqualificar o voto proferido no acórdão recorrido. Nesse sentido afirma que BPART (assim como a ANDELY, BIPART e CAJATI) constituiuse em uma empresa com "propósito específico" de adquirir as ações da BB pulverizadas no mercado e que o propósito negocial de toda a operação foi, justamente, a viabilização da Oferta Pública de Ações, sob a "máxima vigilância" da CVM, a quem caberia fiscalizar as operações no mercado mobiliário e detectar fraudes porventura praticadas, mas que aprovou integralmente a operação. Na verdade, o sujeito passivo, ao fazer tais afirmações, tenta minimizar a gravidade dos fatos. Ao nomear empresas de "propósito específico" objetiva sutilmente minorar o gravame que existe na utilização desse tipo de sociedade de passagem. Da mesma forma, ao se referir a atuação da CVM no mercado mobiliário. Por óbvio que não se pode exigir que a CVM detecte absolutamente todas as operações de reorganização societária estruturadas artificialmente, já que as empresas se esmeram cada vez mais na prática de atos que tenham aparente legalidade e substância econômica, com o fim de encobrir os reais objetivos almejados com esses negócios. O mesmo não se poderia exigir da RFB. A BPART não se constituiu, em rigor, em uma empresa, mas foi concebida apenas para servir de veículo para aquisição das ações da BB em circulação nas mãos dos minoritários, no fechamento de seu capital, para, em seguida, ser incorporada pela BB, que posteriormente foi incorporada pela BF cumprindo, assim, todas as etapas préconcebidas do negócio possibilitandose com todo esse esquema que a BF adquirisse, do mercado, suas próprias ações. Fl. 9030DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.031 59 De fato, é evidente que a BPART foi constituída com o único propósito de permitir o investimento e o ágio . Por tais conclusões não se pode admitir a dedutibilidade do denominado "ÁGIO BPART". Multa Qualificada A auditoria fiscal deixou bem claro que a Bunge Limited era a controladora da Bunge Brasil e que a BPART foi constituída em 2004 com a única finalidade de adquirir ações da Bunge Brasil. Temse, assim, que nesta operação também foi criada a figura da empresa veículo a possibilitar a sua amortização por meio de incorporação reversa. A sociedade veículo tinha uma capital de R$ 10.000,00, desembolsou, em 2004, R$ 820.863.072,59, registrou em sua escrituração contábil que a origem dos recursos para a aquisição das ações eram operações de “prépagamentos de exportações”, mas o fato é que a Bunge Participações não auferiu qualquer tipo de receita afeta a exportações. Assim, houve até todo um arranjo para tentar dar uma aparência de legalidade à operação. Às páginas 49 e 50 do Relatório Fiscal há referências mais explícitas à documentação apresentada: formulários personalizados da Bunge Fertilizantes e documentos assinados pelos funcionários desta. Nesse contexto, a conduta dolosa tendente a impedir a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal (o que o art. 72 da Lei n° 4.502, de 1964, classifica como "fraude") é evidenciada pela deliberada consecução de atos que culminam com a supressão ilícita de tributos, através da criação dessa empresa Bunge Participações, uma empresa veículo, controlada integralmente pelo grupo Bunge, criada com o único propósito de reduzir tributos. Portanto, devese manter também aqui a multa qualificada. Conclusão Podese concluir que, nas operações analisadas, resta claro que a única motivação econômica que delas se extrai é a economia tributária. Por mais que a contribuinte negue afirmando que as reestruturações foram necessárias para melhor controle e centralização dos negócios do GB e apresente argumentos no sentido de que foram observados todos os requisitos formais de registro de todas as operações realizadas, tanto no âmbito contábil, quanto no dos órgãos cartoriais competentes, não se verifica motivação extratributária nas referidas operações. O dolo resta evidenciado com a própria criação e utilização das pessoas jurídicas como “empresas veículo”, empresas que nunca tiveram funcionários, não geraram riquezas, todas com sede no mesmo endereço da autuada, e todas pessoas jurídicas subordinadas ao mesmo grupo econômico. A Fiscalização ainda destacou na página 93 do seu Relatório que os valores amortizados pela autuada foram declarados em sua DIPJ sempre nas linhas referentes a “outras Fl. 9031DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.032 60 despesas financeiras”, ao invés de se fazer na linha correspondente a ágio amortizado, o que demonstra uma tentativa de dificultar a constatação dessas amortização pelo Fisco. Em face do exposto, relativamente ao mérito das operações com ágio, dáse parcial provimento ao Recurso Especial do Sujeito Passivo para exonerar a parcela do crédito tributário correspondente ao denominado "Ágio CAJATI", bem como dáse parcial provimento ao Recurso Especial da PFN para restabelecer a multa qualificada nas operações de amortização de ágio mantidas no presente voto. 3.2 DECADÊNCIA DO LANÇAMENTO ANOCALENDÁRIO 2005 Em virtude da caracterização da fraude nos lançamentos atinentes às operações denominadas "Ágio ANDELY", "Ágio BIPART" e "Ágio BPART", a regra de contagem de prazo decadencial a ser aplicada às exigências é a do art. 173, I, do CTN, nos termos deduzidos no julgamento do REsp nº 973.333SC, afetado como representativo de controvérsia pelo STJ e já conhecidos por este Colegiado Superior, bem como na Súmula CARF nº 72, que expressamente consigna: “Caracterizada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, a contagem do prazo decadencial regese pelo art. 173, inciso I, do CTN”. Ou seja, aplicase o prazo de 5 (cinco) anos contados a partir do primeiro dia do exercício seguinte ao que o lançamento poderia ter sido efetuado. Assim, tratandose de período de apuração anual, em que o fato gerador ocorre em 31/12, temse que, para o anocalendário 2005, o lançamento somente poderia ter sido efetuado no anocalendário 2006 e o primeiro dia do exercício seguinte ao que o lançamento poderia ter sido efetuado é o dia 01/01/2007, primeiro dia do prazo de 5 (cinco) anos, que se encerrou em 31/12/2011. Como a ciência dos lançamentos ocorreu em 12/12/2011, verificase que não se operou a decadência relativamente ao anocalendário mais antigo, no caso, o anocalendário 2005. Afastase, portanto, a arguição de decadência e dáse provimento ao Recurso Especial da PFN neste tema. 3.3 INCIDÊNCIA DE JUROS DE MORA SOBRE A MULTA DE OFÍCIO O sujeito passivo questiona a incidência dos juros de mora devidos à taxa Selic sobre a multa aplicada de ofício. Apresentou como paradigmas os acórdãos nº 9101 000.722, de 14/12/2010, e 1202001.118, de 12/03/2014, cujas ementas foram reproduzidas no relatório. Quanto ao tema, em recente julgado proferi meu voto no sentido de afirmar a incidência de juros de mora sobre a multa de ofício (acórdão 9101002.349, de 14/06/2016), o qual foi ratificado pela maioria dos Conselheiros da 1ª Turma da CSRF, conforme razões que reafirmo a seguir. A Lei nº 9.430, de 1996, estabelece, em seu artigo 61, § 3º, que sobre os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal incidirão juros de mora à taxa Selic. Vejase: Fl. 9032DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.033 61 Art. 61. Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1º de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. (...) § 3º Sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês do pagamento. (Grifei) De outra banda, está estampado na Súmula CARF nº 5 que são devidos juros de mora sobre o crédito tributário não integralmente pago no vencimento. Confirase: Súmula CARF nº 5: São devidos juros de mora sobre o crédito tributário não integralmente pago no vencimento, ainda que suspensa sua exigibilidade, salvo quando existir depósito no montante integral. (Grifei) Ora, dos artigos 113, § 1º, e 139 do CTN deflui que o crédito tributário, que decorre da obrigação principal, compreende tanto o tributo em si quanto a penalidade pecuniária, o que inclui, à toda evidência, a multa de oficio proporcional de caráter punitivo. Vale transcrever os dispositivos: Art. 113. A obrigação tributária é principal ou acessória. § 1º A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extinguese juntamente com o crédito dela decorrente. Art. 139. O crédito tributário decorre da obrigação principal e tem a mesma natureza desta. (Grifei) Sendo assim, outra não pode ser a interpretação da expressão “débitos decorrentes de tributos e contribuições” expressa no retrotranscrito artigo 61 da Lei nº 9.430, de 1996, senão a de que abarca a integralidade do crédito tributário, incluindo a multa de oficio proporcional punitiva, constituída por ocasião do lançamento. Resta evidente que a multa de ofício proporcional, bem como a multa isolada, lançadas juntamente com o tributo devido, se não paga no vencimento, sujeitase a juros de mora por força do disposto no artigo 61, caput, da Lei nº 9.430, de 1996. Aliás, se a intenção do legislador fosse limitar a aplicação do artigo 61 apenas aos débitos principais de tributos e contribuições, como sustenta a recorrente, bastaria suprimir o termo "decorrente", como bem pontua o Conselheiro Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, no voto condutor do Acórdão nº 1401001.653: É importante notar que no caput do art. 61, o texto é “débitos [...] decorrentes de tributos e contribuições” e não meramente “débitos de tributos e contribuições”. O termo “decorrentes” Fl. 9033DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.034 62 evidencia que o legislador não quis se referir, para todas as situações, apenas aos tributos e contribuições em termos estritos. Além disso, o CTN claramente permite a aplicação de juros sobre "crédito", conceito no qual se insere a multa de ofício. O artigo 161, caput, do Código, estabelece a incidência de juros de mora sobre o "crédito não integralmente pago no vencimento", dispondo o seguinte: Art. 161. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária. § 1º Se a lei não dispuser de modo diverso, os juros de mora são calculados à taxa de um por cento ao mês. (Grifei) Não há dúvida de que multa não é tributo, pela própria dicção do artigo 3º do CTN: "Tributo é toda prestação pecuniária compulsória, em moeda ou cujo valor nela se possa exprimir, que não constitua sanção de ato ilícito, instituída em lei e cobrada mediante atividade administrativa plenamente vinculada". Todavia, a coerência interna do CTN evidencia, com clareza, conforme revelam os artigos 113, § 1º, e 139, que a penalidade pecuniária é também objeto da obrigação tributária principal e assim integra o conceito de crédito, objeto da relação jurídica estabelecida entre o Fisco e o sujeito passivo, beneficiando se de todas as garantias a ele asseguradas por lei, inclusive o acréscimo de juros de mora. Adotando estas premissas, o Conselheiro Pedro Paulo Pereira Barbosa também concluiu, no voto condutor do Acórdão nº 220101.630, que, se o artigo 113 do CTN incorpora à obrigação principal o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária, e o artigo 139 do CTN estipula que o crédito tributário tem a mesma natureza da obrigação principal, é evidente que a penalidade pecuniária integra o conceito de crédito tributário. Em acréscimo, o Conselheiro expõe que: Nesse mesmo sentido, no art. 142, que define o procedimento de lançamento, por meio do qual se constitui o crédito tributário, o legislador não esqueceu de mencionar a imposição da penalidade. Da mesma forma, o art. 175, II, ao se referir à anistia como forma de exclusão do crédito tributário, afasta qualquer dúvida que ainda pudesse remanescer sobre a inclusão da penalidade pecuniária no crédito tributário, pois não seria lícito atribuir ao legislador ter dedicado um inciso especificamente para tratar da exclusão do crédito tributário de algo que nele não está contido. Poderseia argumentar em sentido contrário dizendo que, mesmo estando a penalidade pecuniária contida no crédito tributário, ao se referir a “crédito” no artigo 161, o Código não estaria se referindo ao crédito tributário, mas apenas ao tributo. Questionase, por exemplo, o fato de a parte final do caput do artigo fazer referência à imposição de penalidade e, portanto, se os juros seriam devidos, sem prejuízo da aplicação de penalidades, estas não poderiam estar sujeitas aos mesmos juros. Fl. 9034DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.035 63 Inicialmente, conforme a advertência de Carlos Maximiliano, não vejo como, num artigo de lei, em um capítulo que versa sobre a extinção do crédito tributário e numa seção que trata do pagamento, forma de extinção do crédito tributário, a expressão “o crédito não integralmente pago” possa ser interpretado em acepção outra que não a técnica, de crédito tributário. Sobre a alegada contradição entre a parte inicial e a parte final do dispositivo que essa interpretação ensejaria, penso que tal imperfeição de fato existe. Mas se trata aqui de situação como a que me referi nas considerações iniciais, em que as limitações da linguagem ou mesmo as imperfeições técnicas que o processo legislativo está sujeito produzem textos imprecisos, às vezes obscuros ou contraditórios, mas que tais ocorrências não permitem concluir que a melhor interpretação do texto é aquela que harmoniza a própria estrutura gramatical do texto, e não aquela que melhor harmoniza esse dispositivo com os demais que integram o diploma legal. É interessante notar que em outro artigo do mesmo CTN o legislador incorreu na mesma aparente contradição ao se referir conjuntamente a crédito tributário e a penalidade. Refirome ao art. 157, segundo o qual “a imposição de penalidade não ilide o pagamento integral do crédito tributário”. Uma interpretação apressada poderia levar à conclusão de que a penalidade não é parte do crédito tributário, pois a sua imposição não poderia excluir o pagamento dela mesma. Porém, essa inconsistência gramatical não impediu que a doutrina, de forma uníssona, embora a remarcando, mas não por causa dela, extraísse desse texto a prescrição de que a penalidade não é substitutiva do próprio tributo, estremando nesse ponto o Direito Tributário de certas normas do Direito Civil em que penalidade é substitutiva da obrigação; de que o fato de se aplicar uma penalidade pelo não pagamento do tributo, por exemplo, não dispensa o infrator do pagamento do próprio tributo. [...] Não é preciso grande esforço de interpretação, portanto, para se concluir que o crédito tributário compreende o tributo e a penalidade pecuniária, interpretação que harmoniza os diversos dispositivos do CTN, ao contrário da tese oposta. Acrescentese, supletivamente, que, como se verá com detalhes mais adiante, a legislação ordinária de há muito vem prevendo a incidência dos juros sobre a multa de ofício, sem que se tenha notícia da invalidação dessas normas pelo Poder Judiciário, por falta de fundamento de validade. Concluo, assim, no sentido de que o art. 161 do CTN autoriza a cobrança de juros sobre a multa de ofício. Porém, conforme disposto no seu parágrafo primeiro, esses deverão ser calculados à taxa de 1% ao mês, salvo se lei dispuser de modo diverso, o que introduz a segunda questão: a da existência ou não de lei prevendo a incidência de juros sobre a multa de ofício com base na taxa Selic. Fl. 9035DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.036 64 Corroborando o entendimento de que o crédito e a obrigação tributária são compostos pelo tributo devido e pelas penalidades eventualmente exigíveis, em 1/9/2009, a 2ª Turma do Superior Tribunal de Justiça assim decidiu nos autos do Recurso Especial nº 1.129.990/PR, sob a condução do Ministro Castro Meira: TRIBUTÁRIO. MULTA PECUNIÁRIA. JUROS DE MORA. INCIDÊNCIA. LEGITIMIDADE. 1. É legítima a incidência de juros de mora sobre multa fiscal punitiva, a qual integra o crédito tributário. 2. Recurso especial provido. Analisouse, no caso, norma estadual questionada sob o argumento de que a multa por inadimplemento de ICMS não integraria o crédito tributário. Interpretando o artigo 161 do CTN em conjunto com os artigos 113 e 139 do CTN, o Ministro concluiu que o crédito e a obrigação tributária são compostos pelo tributo devido e pelas penalidades eventualmente exigíveis e, tendo em conta que o artigo 161 do CTN, ao se referir ao crédito, está tratando de crédito tributário, concluiu que referido dispositivo autoriza a exigência de juros de mora sobre multas. Este foi, aliás, o entendimento da 1ª Turma do Superior Tribunal de Justiça, como se vê no julgamento do Agravo Regimental no Recurso Especial nº 1.335.688/PR, de 4/12/2012, Relator Min. Benedito Gonçalves: AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. MANDADO DE SEGURANÇA. JUROS DE MORA SOBRE MULTA. INCIDÊNCIA. PRECEDENTES DE AMBAS AS TURMA QUE COMPÕEM A PRIMEIRA SEÇÃO DO STJ. 1. Entendimento de ambas as Turmas que compõem a Primeira Seção do STJ no sentido de que: "É legítima a incidência de juros de mora sobre multa fiscal punitiva, a qual integra o crédito tributário." (REsp 1.129.990/PR, Rel. Min. Castro Meira, DJ de 14/9/2009). De igual modo: REsp 834.681/MG, Rel. Min.Teori Albino Zavascki, DJ de 2/6/2010. 2. Agravo regimental não provido. (Grifei) Vale destacar o seguinte trecho da decisão: Quanto ao mérito, registrou o acórdão proferido pelo TRF da 4ª Região à fl. 163: "... os juros de mora são devidos para compensar a demora no pagamento. Verificado o inadimplemento do tributo, é possível a aplicação da multa punitiva que passa a integrar o crédito fiscal, ou seja, o montante que o contribuinte deve recolher ao Fisco. Se ainda assim há atraso na quitação da dívida, os juros de mora devem incidir sobre a totalidade do débito, inclusive a multa que, neste momento, constitui crédito titularizado pela Fazenda Pública, não se distinguindo da exação em si para efeitos de recompensar o credor pela demora no pagamento." (Grifei) Em julgado recente, a 1ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais decidiu pela incidência de juros de mora sobre a multa de ofício proporcional, conforme se Fl. 9036DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.037 65 verifica a partir da ementa do Acórdão nº 9101002.514, de 13 de dezembro de 2016, do qual foi relator o Conselheiro Rafael Vidal de Araújo: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2004, 2005, 2006 [...] JUROS SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA. Por ser parte integrante do crédito tributário, a multa de ofício sofre a incidência dos juros de mora, conforme estabelecido no art. 161 do CTN. Precedentes do STJ. Portanto, não assiste razão à Contribuinte quando afirma que a incidência de juros de mora sobre a multa de ofício não encontra respaldo na legislação. Como se viu, a exigência dos juros de mora sobre a multa de ofício decorrem da lei. Por fim, conforme o antes transcrito § 3º do artigo 61 da Lei nº 9.430, de 1996, a taxa aplicável ao débitos de que aqui se trata, aí incluídos, como se viu, os decorrentes da aplicação de multa de ofício, é aquela "a que se refere o § 3º do art. 5º", qual seja a taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia Selic. Vejase: Art. 5º (...) §3º As quotas do imposto serão acrescidas de juros equivalentes à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC, para títulos federais, acumulada mensalmente, calculados a partir do primeiro dia do segundo mês subseqüente ao do encerramento do período de apuração até o último dia do mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês do pagamento. Pelo exposto, votase no sentido de manter a aplicação dos juros de mora à taxa SELIC sobre a multa de ofício, negando provimento ao Recurso Especial do Sujeito Passivo no que diz respeito a este tema. 3.4 PREJUÍZO FISCAL E BASE DE CÁLCULO NEGATIVA Em vista de que foram glosadas parcelas de amortizações dos ágios promoveuse o ajuste nos saldos de prejuízos fiscais, de modo que no anocalendário 2007 apurouse saldo insuficiente de prejuízos fiscais e de base de cálculo negativa de CSLL. Esses saldos devem ser novamente ajustados em face da desistência do sujeito passivo do recurso em relação à parcela do crédito tributário correspondente ao denominado "Ágio BIC" e em decorrência da exoneração da parte do lançamento relacionado ao denominado "Ágio CAJATI". Em face do exposto: (i) conheço, em parte, do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, doulhe provimento parcial para restabelecer, em parte, a exigência da multa qualificada; Fl. 9037DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.038 66 (ii) conheço do Recurso Especial da contribuinte e doulhe parcial provimento para excluir do lançamento a parcela do crédito tributário referente ao denominado "Ágio CAJATI". É como voto. (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rêgo Voto Vencedor Conselheiro André Mendes de Moura Redator Designado O presente voto vencedor diz respeito exclusivamente à admissibilidade do recurso especial da PGFN em relação à matéria "multa isolada sobre falta de recolhimento de estimativas". Não obstante o substancioso voto da I. Relatoria, manifestei divergência sobre a questão e nesse ponto fui acompanhado pela maioria do Colegiado. Isso porque entendo que o recurso não pode ser conhecido em relação à matéria. O acórdão recorrido afastou a multa isolada sobre falta de recolhimento de estimativas mensais por dois fundamentos: (1) impossibilidade de lançamento de multa isolada após o encerramento do anocalendário e (2) impossibilidade de concomitância entre a multa isolada e a multa de ofício. Transcrevo excerto do voto da decisão recorrida (parte em que foi vencedora), no qual se menciona jurisprudência sobre o assunto: Citese a esse respeito entendimento firmado no âmbito administrativo pela CSRF do antigo Conselho de Contribuintes, Acórdão CSRF/0105.875, proferido em 23/06/2008, da Relatoria do exConselheiro Marcos Vinicius Neder de Lima: MULTA ISOLADA FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVA O artigo 44 da Lei n° 9.430/96 preceitua que a multa de oficio deve ser calculada sobre a totalidade ou diferença de tributo, materialidade que não se confunde com o valor calculado sob base estimada ao longo do ano. O tributo devido pelo contribuinte surge quando é o lucro apurado em 31 de dezembro de cada ano. Improcede a aplicação de penalidade pelo nãorecolhimento de estimativa quando a fiscalização apura, após o encerramento do exercício, valor de estimativas superior ao imposto apurado em sua escrita fiscal ao final do exercício. Fl. 9038DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.039 67 APLICAÇÃO CONCOMITANTE DE MULTA DE OFÍCIO E MULTA ISOLADA NA ESTIMATIVA Incabível a aplicação concomitante de multa isolada por falta de recolhimento de estimativas no curso do período de apuração e de oficio pela falta de pagamento de tributo apurado no balanço. A infração relativa ao não recolhimento da estimativa mensal caracteriza etapa preparatória do ato de reduzir o imposto no final do ano. Pelo critério da consunção, a primeira conduta é meio de execução da segunda. O bem jurídico mais importante é sem dúvida a efetivação da arrecadação tributária, atendida pelo recolhimento do tributo apurado ao fim do anocalendário, e o bem jurídico de relevância secundária é a antecipação do fluxo de caixa do governo, representada pelo dever de antecipar essa mesma arrecadação. Tanto que a decisão recorrida tratou dos dois fundamentos para afastar a multa isolada por falta de recolhimento de estimativas mensais, que a recorrente, PGFN, apresentou acórdãos paradigmas enfrentando: (1) a impossibilidade de lançamento de multa isolada após o encerramento do anocalendário, Acórdãos nº 1302001.080 e nº 1202000.964; e (2) para a impossibilidade de concomitância entre a multa isolada e a multa de ofício, Acórdão nº 120200.410. Ocorre que, acertadamente, a Relatora só identificou a demonstração da divergência na interpretação da legislação tributária (art. 67, Anexo II do RICARF) para apenas um fundamento, a impossibilidade de lançamento de multa isolada após o encerramento do anocalendário. Para o outro fundamento, relativo à concomitância de multa isolada com a multa de ofício, a PGFN não logrou demonstrar a divergência. No caso dos autos, a matéria "multa isolada sobre falta de recolhimento de estimativas mensais" sustentase por dois fundamentos, que se complementam. Por isso, para a reforma da decisão, ambos deveriam ser superados. Assim, considerando que a reforma da decisão recorrida só poderia se operacionalizar caso enfrentados os dois fundamentos, e que apenas um deles foi admitido, resta consumada a insuficiência do recurso em relação à matéria "multa isolada sobre falta de recolhimento de estimativas mensais". Não haveria nenhuma utilidade apreciar o mérito apenas do fundamento "impossibilidade de lançamento de multa isolada após o encerramento do anocalendário". Ainda que fosse objeto de reforma, ainda remanesceria a necessidade de análise do fundamento "impossibilidade de concomitância entre a multa isolada e a multa de ofício", cuja divergência não foi demonstrada. Diante do exposto, voto no sentido de não conhecer do recurso especial da PGFN, em relação à matéria "multa isolada sobre falta de recolhimento de estimativas mensais". (assinado digitalmente) Andre Mendes de Moura Fl. 9039DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.040 68 Declaração de Voto Conselheiro Luís Flávio Neto Na reunião de novembro de 2017, a Câmara Superior de Recursos Fiscais (“CSRF”) analisou recursos especiais interpostos por BUNGE FERTILIZANTES S/A (doravante “contribuinte”) e pela PROCURADORIA DA FAZENDA NACIONAL (doravante “PFN”), em face do acórdão 1402001.460 (doravante “acórdão a quo” ou “acórdão recorrido”) Nesta declaração de voto, permissa vênia, apresento fundamentos que me fizeram votar pelo PROVIMENTO do recurso especial interposto pelo contribuinte (que compreendo que deve ser conhecido apenas parcialmente) e pelo NÃO PROVIMENTO do recurso especial interposto pela PFN (que compreendo que sequer deveria ser conhecido). O recurso especial do contribuinte, na parte conhecida, diz respeito à amortização fiscal do ágio em uma série de reestruturações societárias efetivamente praticadas. A Turma a quo compreendeu que tais operações não poderiam dar ensejo à amortização fiscal do ágio, especialmente pela utilização da chamada “empresa veículo” nas reestruturação realizadas. Para não me estender nesta declaração de voto, abordarei apenas a questão da inexistência de qualquer ilegalidade da constituição das referidas empresas com propósito específico. A Lei n. 9.532/97 estabeleceu uma fórmula operacional básica, segundo a qual, por meio de determinados atos societários, deverá haver a reunião do acervo patrimonial cuja rentabilidade futura justificou o ágio com o acervo patrimonial em que se localiza o investimento realizado com o respectivo ágio: receitas e despesas devem ser emparelhadas, com “‘a realização’ do investimento, mediante operação que integre, numa mesma entidade, a investidora e o acervo objeto do investimento”2. Ocorre que muitas outras operações podem ser realizadas no ínterim entre a aquisição de investimento com ágio e a absorção desta pela empresa investidora (ou vice versa), o que exige que se compreenda qual a relevância tributária de tais operações intermediárias, periféricas, adjacentes. Em especial, a tese sustentada pela PFN exige que este Tribunal adote uma das seguintes interpretações: 1a) As reorganizações societárias que não ocasionem o encontro da entidade investida e da que detém o investimento são indiferentes e neutras para fins fiscais: por esta, não há ampliação ou redução de qualquer direito à amortização de ágio por parte do contribuinte e nem o Estado amplia ou reduz a sua esfera de direitos em relação à amortização de tais despesas; 2 AMARO, Luciano. Amortização fiscal do ágio por rentabilidade futura, in Direito, Economia e Política: Ives Gandra, 80 anos do humanista. São Paulo : Ed. IASP, 2015, p. 715. Fl. 9040DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.041 69 2a) As reorganizações societárias em questão fazem com que pereça o direito à amortização de ágio por expectativa de rentabilidade futura, ainda que este tenha sido legitimamente apurado: por esta, há restrição ao direito do contribuinte à amortização de despesas com ágio, com a consequente ampliação da participação do Estado no patrimônio privado. Compreendo que essas operações societárias periféricas, que não possibilitam o encontro dos acervos patrimoniais da investidora e da investida, são indiferentes e neutras para fins de amortização fiscal do ágio. Para o caso em exame nos presentes autos, interessa analisar com mais detalhes a questão da “empresaveículo”. Com paralelo nas “conduit companies”, a expressão acolhida na pragmática do CARF pode, em si, dar ensejo a confusões, pois é capaz de abarcar situações distintas e encontrar justificativa por razões variadas, atinentes a fatores de mercado, regulatórios, societários ou mesmo exclusivamente tributários. Salvo hipótese de fraude, a utilização de “empresaveículo” não gera qualquer efeito tributário, isto é, não altera o potencial de amortização deste em caso de posterior operação de fusão, incorporação ou cisão que ocasione o encontro patrimonial requerido pelo legislador. Por isso é correto afirmar que tais operações são neutras, não alterando a esfera de direitos dos contribuintes ou do fisco no que concerne a efetiva amortização do ágio. A Lei n. 9.532/97 não veda, expressa ou implicitamente, a prática de tais operações intermediárias, que são indiferentes ao legislador, gozando daquilo que TÉRCIO SAMPAIO FERRAZ JR.3 classifica de “permissão fraca”. Ensina o Professor que: “Permissões, no entanto, não resultam apenas de um preceito expresso, mas também da ausência de norma, do que decorre a chamada liberdade negativa. A permissão por ausência de norma (livre por não estar proibido nem ser obrigado) chamase permissão fraca. Já a permissão que resulta da norma se chama permissão forte, que aponta para a liberdade no sentido positivo.” De fato, não há disposição expressa na Lei n. 9.532/97 que vede expressamente a realização de reorganizações societárias periféricas e intermediárias ao evento de absorção eleito para ensejar a amortização do ágio por expectativa de rentabilidade futura, a exemplo da constituição de empresaveículo. O que há é uma tese sobre uma “interpretação” da Lei n. 9.532/97, pela qual a PFN sustenta a perda da possibilidade de amortização do ágio em face de reorganizações societárias com empresasveículo. Como não há disposição expressa nesse sentido que dê ensejo a argumentos contundentes apoiados em interpretação literal, é necessário investigar se uma interpretação sistemática, teleológica ou mesmo histórica apoiariam tal tese. De início, não se pode jamais perder de vista que, na receita procedimental básica prescrita pelo legislador para que o contribuinte opte (economia de opção) pela amortização fiscal do ágio em aquisição oneroso de investimento, a chamada empresa veículo funciona como instrumento para o emparelhamento das receitas (da empresa investida) com as 3 FERRAZ JUNIOR, Tercio Sampaio. Da compensação de prejuízos fiscais ou da trava de 30%, in Revista Fórum de Direito Tributário ‑ RFDT, ano 10, n. 60. Belo Horizonte, 2012. Fl. 9041DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.042 70 despesas da amortização do ágio (apurados pela empresa investidora), o que, afinal, pressupõe alguma forma de “push down accounting”. Daí a assertiva de VICTOR BORGES POLIZELLI4: “Enfatizase: a ‘empresa veículo’ foi legalmente criada pela Lei n. 9.532/1997 como condição para o carregamento do ágio para baixo, para a empresa investida”. Além disso, parece fora de dúvida que, ausente manifestação clara e expressa do legislador para a limitação de liberdades fundamentais, qualquer interpretação que conduza a tal limitação deverá ser avaliada a partir das normas constitucionais que tutelam a liberdade que se pretende restringir. Na ausência de tal manifestação expressa de forma clara pelo legislador, a análise sistemática do ordenamento demanda, antes de tudo, verificar se a interpretação em questão contraria liberdade constitucional de empresa, de investimento, de organização e de contratação, me parece ser dever do julgador administrativo evitála. A razoabilidade dessa tese deve enfrentar esse teste fatal. A tese em questão evidencia duas interpretações antagônicas do art. 25 da Lei n. 9.532/97: 1a) A utilização de empresaveículo é indiferente ou mesmo goza de permissão do sistema jurídico: por esta, não há ampliação ou redução de qualquer direito à amortização de ágio por parte do contribuinte e nem o Estado amplia ou reduz a sua esfera de direitos em relação à amortização de tais despesas; 2a) A utilização de empresaveículo faz com que pereça o direito à amortização de ágio por expectativa de rentabilidade futura, ainda que este tenha sido legitimamente apurado: por esta, há restrição ao direito do contribuinte à amortização de despesas com ágio, com a consequente ampliação da participação do Estado no patrimônio privado. É premissa inafastável que a atividade arrecadatória do Estado deve observar todo o repertório de direitos assegurados às pessoas físicas e jurídicas, o que evidentemente inclui as liberdades econômicas. Desrespeitado esse limite, a tributação perde legitimidade. E, no Brasil, a Ordem Econômica é amparada por normas constitucionais geralmente suscitadas para fundamentar o direito do contribuinte à autoorganização de suas atividades sem a interferência do fisco: a garantia à livre iniciativa e à livre concorrência. A livre iniciativa foi erigida como fundamento da ordem econômica pelo caput do art. 170 da Constituição Federal5. Como observa EROS ROBERTO GRAU6, a livre 4 POLIZELLI, Victor Borges. Caso ALE Combustíveis: distinção entre ágio com fundamento em “fundo de comércio” ou “rentabilidade futura” e a utilização de empresa veículo e propósito negocial, in Planejamento Tributário: Análise de Casos, volume 2 (Coord.: CASTRO, Leonardo Freitas de Moraes e). São Paulo : MP Editora, 2014, p. 1578. 5 BRASIL, CF/88, Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios: I soberania nacional; II propriedade privada; III função social da propriedade; IV livre concorrência; V defesa do consumidor; VI defesa do meio ambiente, inclusive mediante tratamento diferenciado conforme o impacto ambiental dos produtos e serviços e de seus processos de elaboração e prestação; VII redução das desigualdades regionais e sociais; VIII busca do pleno emprego; IX tratamento favorecido para as empresas de pequeno porte constituídas sob as leis brasileiras e que tenham sua sede e administração no País. Parágrafo único. É assegurado a todos o livre exercício de qualquer atividade econômica, independentemente de autorização de órgãos públicos, salvo nos casos previstos em lei. 6 GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988 (interpretação e crítica). São Paulo : Malheiros, 2007, p. 212213. Conforme o autor: “não pode ser reduzida, meramente, à feição que assume como liberdade econômica, empresarial Fl. 9042DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.043 71 iniciativa assume uma dupla feição, protegendo ao capital e ao trabalho. Na explicação de TERCIO SAMPAIO FERRAZ JÚNIOR7, tratase de mandamento para que o Estado atue de forma negativa, no sentido de não interferir na expansão da criatividade do indivíduo e, ainda, positiva, de atuação para a valorização do trabalho humano. A esse propósito, leciona esse professor: “Não há, pois, propriamente, um sentido absoluto e ilimitado na livre iniciativa, que por isso não exclui a atividade normativa e reguladora do Estado. Mas há ilimitação no sentido de principiar a atividade econômica, de espontaneidade humana na produção de algo novo, de começar algo que não estava antes. Esta espontaneidade, base da produção da riqueza, é o fator estrutural que não pode ser negado pelo Estado. Se, ao fazêlo, o Estado a bloqueia e impede, não está intervindo, no sentido de normar e regular, mas está dirigindo e, com isso, substituindose a ela na estrutura fundamental do mercado”. A autonomia privada decorre do princípio da livre iniciativa, atribuindo aos particulares o direito à liberdade contratual, isto é, de livremente celebrar ou não um contrato (liberdade de celebração), bem como de eleger o tipo contratual mais adequado (liberdade de seleção do tipo contratual) e de preencher o seu conteúdo de acordo com os seus interesses (liberdade de fixação do conteúdo do contrato ou de estipulação).8 Garantese, por esse princípio, a liberdade de empresa, de investimento, de organização e de contratação9. A liberdade contratual, que garante ao particular a faculdade de contratar ou não contratar, de escolher como e com quem estabelecer uma relação contratual e, por óbvio, de decidir qual o conteúdo dos contratos, decorre da autonomia privada. TULIO ROSEMBUJ10 observa que a liberdade da empresa não se esgota no exercício da liberdade contratual, no exercício do direito de propriedade ou na atividade de produção de bens de terceiros no mercado livre: tratase da garantia de se poder combinar fatores de produção e de utilizar de riqueza para produzir nova riqueza. Já o princípio da livre concorrência pode ser compreendido como garantia de oportunidades iguais a todos os agentes do mercado, de tal forma que o particular possui a faculdade de conquistar a clientela por seus próprios méritos e na expectativa de que sejam premiados os eficientes e excluídos os ineficientes, embora seja vedada a detenção do mercado e a prática de concorrência desleal. A livre concorrência tem como pressuposto a livre iniciativa e induz à distribuição de recursos a preços mais baixos ao consumidor. Não se exige, contudo, identidade de condições entre os partícipes do mercado, que, respeitados os limites prescritos pelo Direito econômico, podem se valer de todas as suas forças para conquistar a clientela11. (isto é, da empresa, expressão do dinamismo dos bens de produção); pela mesma razão não se pode nela, livre iniciativa, visualizar tãosomente, apenas, uma afirmação do capitalismo”. 7 APUD GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988 (interpretação e crítica). São Paulo : Malheiros, 2007, p. 206207. 8 Cf. BOULOS, Daniel M. Abuso do Direito no novo Código Civil. São Paulo: Editora Método 2006, p. 226240. No mesmo sentido, TÔRRES, Heleno Taveira. O conceito constitucional de autonomia privada como poder normativo dos particulares e os limites da intervenção estatal, in Direito e poder: nas instituições e nos valores do público e do privado contemporâneos. Heleno Taveira Torres (coordenador). Barueri : Manole, 2005, p. 567. 9 Cf. BARRETO, Paulo Ayres. Elisão tributária limites normativos. Tese apresentada ao concurso à livre docência do Departamento de Direito Econômico e Financeiro da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. São Paulo : USP, 2008, p. 128129. 10 ROSEMBUJ, Tulio. El fraude de lei, la simulación y el abuso de las formas em el derecho tributario. Barcelona : Marcial Pons. 1999, p. 57. 11 Cf. GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988 (interpretação e crítica). São Paulo : Malheiros, 2007, p. 210. Fl. 9043DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.044 72 Notese que nenhuma dessas liberdades é absoluta. As liberdades econômicas, segundo EROS GRAU12, nem mesmo em sua formulação original (Édito de Turgot, de 1776) pretendiam a omissão total do Estado. Em trabalho publicado em 1969, LUIGI FERRI13 já apontava que: “El problema de la autonomia es ante de todo um problema de limites, y de limites que son siempre el reflejo de normas juridicas, a falta de las cuales el mismo problema no podría siquiera plantearse a menos que se quiera identificar la autonomia com la liberdad natural o moral del hombre”. O que se coloca em questão é a necessidade de manifestação expressa e clara do legislador para a restrição de tal liberdade ou, ao menos, a existência de razoabilidade na interpretação conduzida pela administração fiscal que conduza à tal restrição. Afinal, como ensina TÉRCIO SAMPAIO FERRAZ JÚNIOR14, a “intervenção que possa afetar a liberdade deve, antes de tudo, estar pautada por regras claras e públicas, que permitam ao indivíduo planejar seu curso de vida, ciente das consequências jurídicas de seus atos.” Resta evidenciado, então, que, a ausência de decisão clara do agente competente (Poder Legislativo) é realmente fator suficiente afastar restrição à liberdade de autoorganização consubstanciada na penalização de operações societárias intermediárias, como é o caso da constituição de empresasveículo. Por maior que seja o esforço dialético, uma investigação sistemática, com o cotejo analítico das aludidas normas constitucionais, torna evidente não ser razoável a interpretação que, à revelia de lei em sentido estrito nesse sentido, conclua que as reorganizações societárias intermediárias ao encontro patrimonial da entidade investida com o investimento faz que pereça o direito à amortização de ágio por expectativa de rentabilidade futura legitimamente apurado. Se há limites ao exercício da liberdade, também há limites à sua restrição, pois “a liberdade pode ser disciplinada, mas não pode ser eliminada”15. A exigência de congelamento completo da estrutura societária do grupo empresarial, sob pena de perda do direito à potencial amortização do ágio legitimamente apurado, sem dúvida consiste em uma liberdade de empresa, de investimento, de organização e de contratação. Em linha com o quanto exposto acima, se uma liberdade econômica é bloqueada, ainda que por via obtusa, o Estado deixa de “normar e regular, mas está dirigindo e, com isso, substituindose a ela na estrutura fundamental do mercado”, o que é consentâneo com a Constituição. Ocorre que a liberdade de empresa, que pressupõe a livre contratação e autoorganização colocam em xeque a tese ora em análise, pela qual uma operação válida perante o Direito privado e que não traz qualquer “prejuízo” ao erário, seria sancionada com o perecimento do direito à amortização fiscal das despesas de ágio garantida pela Lei n. 9.532/97. Afinal, porque seria válida interpretação que conduz à manifesta desigualdade tributária, autorizando a amortização do ágio a algumas empresas, mas negandoa para outras? O exemplo dos fundos de previdência é muito ilustrativo, pois geralmente há 12 GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988 (interpretação e crítica). São Paulo : Malheiros, 2007, p. 203. 13 FERRI, Luigi. La autonomia privada. Madri : Editora Revista de Derecho Privado, 1969, p. 45. 14 FERRAZ JÚNIOR, Tercio Sampaio. Direito Constitucional: liberdade de fumar, privacidade, estado, direitos fundamentais e outros temas. – Barueri, SP : Manole, 2007, p. 195. 15 FERRAZ JÚNIOR, Tercio Sampaio. Direito Constitucional: liberdade de fumar, privacidade, estado, direitos fundamentais e outros temas. – Barueri, SP : Manole, 2007, p. 195. Fl. 9044DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.045 73 normas regulatórias que não permitem a absorção das empresas investidas ou, ainda, que sejam absorvidas por estas. Porque seria legítimo restringir o direito à livre iniciativa e de contratar de tais entidades, com a vedação à utilização de empresas veículo que pudesse adquirir o investimento e após realizar os procedimentos societários necessários à amortização do ágio? Ou, com olhos ao princípio da livre concorrência, porque tais fundos deveriam ser submetidos a condições desiguais, com o cerceamento de seu direito à amortização do ágio? Tal consideração não se aplica apenas quando empresa adquirente do investimento seja um fundo de previdência, instituição bancaria ou outras entidades com normas regulatórias próprias. A interpretação proposta pela PFN imputaria à mais comum das empresas desigualdade em relação a outras que se encontrem em situação semelhante, o que redundaria em inevitável vilipendio do princípio da livre concorrência. Para que reste evidenciada a seriedade de tal constatação, suponhase que três grupos empresariais do mesmo seguimento econômico concorram por uma mesma fatia do mercado e todos realizaram recentes aquisições de participação relevante em controladas e coligadas: “Empresa A”: Nacional. Adquire os investimentos em outras pessoas jurídicas nacionais e posteriormente os incorpora; “Empresa B”: Nacional. Por motivos gerenciais, decide constituir uma empresa veículo para a aquisição de investimento e a posterior incorporação da investida (ou ser incorporada por esta); “Empresa C”: Estrangeira. Por motivos gerenciais e também para viabilizar a posterior amortização fiscal do ágio, decide constituir uma empresa veículo para a aquisição de investimento e a posterior incorporação da investida (ou ser incorporada por esta). “Empresa D”: Estrangeira. Por motivos gerenciais e também para viabilizar a posterior amortização fiscal do ágio, após a aquisição de investimento com ágio em epresa brsileira, decide constituir uma empresa brasileira para deter o investimento investimento e a posteriormente proceer a incorporação da investida (ou ser incorporada por esta). Se a interpretação sustentada pela PFN for levada a termo, apenas a empresa “A” estaria livre para se valer da opção fiscal outorgada pela Lei n. 9.532/97 e amortizar o ágio à fração de 1/60 ao mês. Tanto as empresa “B”, “C” e “D” seriam privadas da possibilidade de se valer da economia de opção em questão. O tratamento desigual e o desiquilíbrio concorrencial evidenciados nesse exemplo hipotético denunciam a desproporcionalidade e ausência de razoabilidade dessa interpretação que restringe direitos à revelia de lei que lhe dê suporte. A desigualdade perpetrada por essa interpretação se mostra mais discriminatória, no exemplo acima, em relação às empresa “C” e “D”. Tratandose de empresa estrangeira, não se poderia cogitar que incorporasse diretamente a empresa brasileira investida ou, ainda, que fosse incorporada por esta. A isonomia entre esta empresa e as demais concorrentes de mercado apenas se verificaria se, por exemplo, a “Empresa C” constituísse uma pessoa jurídica no Brasil (empresaveículo), na qual pudesse integralizar capital suficiente para a aquisição do investimento para, após, executar a fórmula prescrita pelo legislador. Fl. 9045DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.046 74 A restrição ao direito do contribuinte à amortização de despesas com ágio, com a consequente ampliação da maior participação do Estado no patrimônio privado, encontra como obstáculo a liberdade de empresa, de investimento, de organização e de contratação, torna defesa à administração fiscal ingerências às lícitas decisões empresariais. Ausente lei em sentido estrito, sob pena de arbitrariedade, não pode a administração fiscal se opor às aludidas reorganizações societárias, especialmente quando tal ato conduza, por si só, à maior tributação do patrimônio privado. Por sua vez, o recurso especial interposto pela PFN diz respeito à qualificação da multa de ofício imposta ao contribuinte, a qual requer seja majorada para o percentual de 150% em face da utilização de “empresa veículo” nas reestruturações societárias implementadas. Nesse ponto, o acórdão recorrido restou assim ementado: “MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. INAPLICABILIDADE. INOCORRÊNCIA DE FRAUDE. Nos lançamentos de ofício para constituição de diferenças de tributos devidos, não pagos e não declarados, via de regra, é aplicada a multa proporcional de 75%, nos termos do art. 44, inciso I, da Lei 9.430/1996. A qualificação da multa para o percentual de 150% depende não só da intenção do agente, como também da prova fiscal da ocorrência da fraude, caracterizada pela prática de ação ou omissão dolosa com esse fim. Na situação versada nos autos não houve dolo por parte do contribuinte, logo incabível a aplicação da multa qualificada.” Referido acórdão foi objeto de embargos de declaração acolhidos pela Turma a quo, valendo destacar a correspondente ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal Anocalendário: 2005, 2006, 2007, 2008, 2009 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. NOVO PRONUNCIAMENTO PARA SUPRIR OMISSÃO. Constatado que o acórdão foi omisso, prolatase nova decisão a fim de suprir a lacuna apontada. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Anocalendário: 2005 DECADÊNCIA. OCORRÊNCIA DE PAGAMENTO ANTECIPADO E AUSÊNCIA DE DOLO FRAUDE OU SIMULAÇÃO. INÍCIO DA CONTAGEM DO PRAZO A PARTIR DA DATA DE OCORRÊNCIA DO FATO GERADOR. PRECEDENTE DO STJ NO RECURSO ESPECIAL N° 973.733/SC. Comprovada a ocorrência de pagamento antecipado, e inexistindo a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, a contagem do prazo decadencial deve se dar com base no disposto no § 4º do art. 150 do Código Tributário Nacional, ou seja, a partir da ocorrência do fato gerador. Precedente do STJ no Recurso Especial n° 973.733/SC julgado nos termos do art. 543C do CPC o que implica, em razão do disposto no art. 62, §2º, do Anexo II do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF 343/2015, vinculação dos membros deste Colegiado à tese vencedora no âmbito do STJ. Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica – IRPJ Anocalendário: 2005, 2006, 2007, 2008, 2009 IRPJ/CSLL. UTILIZAÇÃO DE SOCIEDADE VEÍCULO. REESTRUTURAÇÃO SOCIETÁRIA. AMORTIZAÇÃO INDEVIDA DO ÁGIO. Fl. 9046DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.047 75 1. O direito à contabilização do ágio não pode ser confundido com o direito à sua amortização. 2. Em regra, o ágio efetivamente pago em operação entre empresas não ligadas e calcadas em laudo que comprove a expectativa de rentabilidade futura deve compor o custo do investimento, sendo dedutível somente no momento da alienação de tal investimento (inteligência do art. 426 do RIR/99). 3. A exceção trazida pelo caput do art. 386, e seu inciso III, pressupõe uma efetiva reestruturação societária na qual a investidora absorve parcela do patrimônio da investida, ou viceversa (§6º, II). A operacionalização de tal reestruturação de forma artificial, calcada em operações meramente formais e com fins unicamente tributários mediante utilização de “empresas veículo”, não possui o condão de alterar a verdade dos fatos, de modo a transformar o que deveria ser contabilizado como custo do investimento em amortização de ágio. 3. A amortização do ágio oriundo de operações societárias, para ser eficaz perante o Fisco, deve decorrer de atos efetivamente existentes, e não apenas artificiais e formalmente revelados em documentação ou na escrituração mercantil ou fiscal. 4. Nesse cenário, o ágio artificialmente transferido não pode ser utilizado para redução da base de cálculo de tributos. 5. A utilização de sociedade veículo, de curta duração, constitui prova da artificialidade daquela sociedade e das operações nas quais ela tomou parte, notadamente, no caso concreto, a transferência do ágio ao real investidor para fins de amortização. Tal cenário não se altera ainda que a sociedade veículo não tenha sido criada pela real adquirente, se, por mera interposição de tal pessoa jurídica no negócio realizado, advierem efeitos tributários distintos do que seriam esperados da real operação levada a efeito. O artigo 44, da Lei 9.430/1996, apresentava a seguinte redação à época dos fatos: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; II cento e cinqüenta por cento, nos casos de evidente intuito de fraude, definido nos arts. 71, 72 e 73 da Lei n.o 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. (...) A matriz legal prescrita pelo legislador ordinário prevê penalidades diferentes para hipóteses factuais distintas: multa de ofício de 75%(Lei n. 9.430/96, art. 44, I): cabível quando o sujeito passivo tributário deixar de pagar ou recolher, declarar ou apresentar declaração inexata do tributo devido; multa de ofício de 150% (Lei n. 9.430/96, art. 44, II): cabível quando o contribuinte além de deixar de pagar ou recolher, declarar ou apresentar declaração inexata do tributo devido, o faz mediante conduta demonstradamente dolosa, isto é, quando ficar caracterizada a prática das infrações previstas nos arts. 71 a 73 da Lei n. 4.502/64, com evidente intuito de fraude. É da essência da sonegação o propósito de ocultar, de impedir ou retardar o conhecimento da autoridade administrativa a respeito da ocorrência do fato jurídico, de algum Fl. 9047DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.048 76 de seus elementos ou de condições pessoais do contribuinte. O dolo pode ser verificado em uma série de fatores que evidenciam a intuito de privar o Estado de arrecadação tributária a que faria jus. À época dos casos dos autos, o legislador exigia que intuito de fraude por parte do contribuinte fosse evidente. No presente caso, a questão reside em saber se há um acervo de provas que torne “evidente” a pratica de atos dolosos, vocacionados a ocultar o fisco o conhecimento quanto à ocorrência do fato gerador (sonegação) ou mesmo fraudar a ocorrência deste. Permissa vênia aos Conselheiros que compreenderam de forma diversa, mas compreendo ser evidente a ausência de intuito doloso por parte do contribuinte na amortização fiscal de ágio efetivamente incorrido. No caso sob análise, os seus fatos relevantes tiveram início há mais de 12 anos, o que exige, para a correta a aplicação das normas jurídicas, necessária contextualização. Ocorre que, há época dos fatos, o entendimento dominante consistia na legitimidade fiscal das operações em tela (transferência de investimento com ágio mediante adoção de empresa veículo), o que exclui a possibilidade do contribuinte ter agido com o específico intuito doloso de evadir tributos. Mesmo nos dias atuais é bastante controvertido a inoponibilidade fiscal do ágio amortizado pelo contribuinte. O presente julgamento é prova disso: parcela da operação foi considerada legítima pela maioria dos julgadores desta CSRF, mesmo na presença de uma empresa veículo, enquanto que, em relação às demais operações, metade dos Conselheiros compreenderam pela sua legitimidade (prevalecendo, em relação a estas, a manutenção da autuação fiscal pelo voto de qualidade). É possível reputar que tais operações, realizadas às claras e sem a utilização de subterfúgios para acorbetar quaisquer de seus detalhes, traziam embutidas um evidente dolo específico para a evasão de tributos, se ainda hoje são muito eloquentes as posições que consideram referidas reestruturações societárias plenamente legítimas? Compreendo que não. Em relação às referidas glosas de despesas de ágio mantidas pelo voto de qualidade no julgamento realizado por este e. Colegiado, se mácula houve, esta apenas pode estar relacionada a mero “erro de direito”, isto é, à incorreta compreensão quanto às normas tributárias em questão. Permissa máxima venia, em face de um sistema tributário complexo como o nosso, se o “erro de direito” passar a ser equiparado a atos praticados com “evidente intuito de fraude” (sujeitos a multas de 150% e também a consequências da esfera penal), caminharemos para a penalização generalizada de tudo e de todos, o que não é condizente com o Estado de Direito e nem reflete a adequada aplicação das normas punitivas prescritas pelo legislador competente. Há ainda duas questões relacionadas à proteção da confiança do contribuinte face às mensagens emanadas pela administração fiscal que, por encontrar raízes no princípio da segurança jurídica, devem ser consideradas com atenção: i) o contribuinte ora sob julgamento parece ter agido justamente de acordo com a jurisprudência administrativa dominante à época, que repetidamente considerava legítima a utilização de empresas veículo em reestruturações societárias dessa natureza; ii) em nenhum momento foi editada instrução normativa, ato declaratório ou qualquer outro pronunciamento dessa natureza veiculando entendimento Fl. 9048DF CARF MF Processo nº 16561.720026/201113 Acórdão n.º 9101003.208 CSRFT1 Fl. 9.049 77 diverso pela administração fiscal, capaz de esclarecer à sociedade que operações como as praticadas não seriam consideradas legítimas. O contexto em questão requer, portanto, seja aplicado o art. 112 do CTN, o que torna cogente, ao menos, a desqualificação da multa de ofício para o percentual de 75%. Pelo exposto e pelos demais fundamentos declinados no julgamento deste caso, quanto às matérias admitidas, voto por DAR PROVIMENTO ao recurso especial do contribuinte e por NEGAR PROVIMENTO ao recurso especial da PFN. (assinatura digital) Luís Flávio Neto Fl. 9049DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10925.001667/2009-06
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Jan 31 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Apr 16 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Data do fato gerador: 27/07/2009
AUTOS DE INFRAÇÕES - OMISSÃO DE DADOS EM GFIP - MULTA -AIOP CORRELATO - JULGADOS EM CONJUNTO - SUSPENSÃO - DESNECESSIDADE.
A sorte de auto de infração relacionado a omissão em GFIP, está diretamente relacionado ao resultado dos auto de infração de obrigação principal lavrado sobre os mesmos fatos geradores, sendo julgados em conjunto, este anteriormente àquele, pelo princípio de economia processual, não há que se suspender o seus andamentos.
APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009.
Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta.
O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo.
Numero da decisão: 9202-006.486
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em negar lhe provimento. Acordam ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, em negar-lhe provimento.
(Assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Relator e Presidente em Exercício.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício). Ausente, justificadamente, a conselheira Adriana Gomes Rêgo.
Nome do relator: LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS
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Recorrentes FAZENDA NACIONAL COTRAMOL COOPERATIVA TRANSPORTE DE CARGAS DO MEIO OESTE CAT LTDA ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Data do fato gerador: 27/07/2009 AUTOS DE INFRAÇÕES OMISSÃO DE DADOS EM GFIP MULTA AIOP CORRELATO JULGADOS EM CONJUNTO SUSPENSÃO DESNECESSIDADE. A sorte de auto de infração relacionado a omissão em GFIP, está diretamente relacionado ao resultado dos auto de infração de obrigação principal lavrado sobre os mesmos fatos geradores, sendo julgados em conjunto, este anteriormente àquele, pelo princípio de economia processual, não há que se suspender o seus andamentos. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 92 5. 00 16 67 /2 00 9- 06 Fl. 485DF CARF MF 2 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em negar lhe provimento. Acordam ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, em negarlhe provimento. (Assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Relator e Presidente em Exercício. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício). Ausente, justificadamente, a conselheira Adriana Gomes Rêgo. Relatório Do auto de infração ao recurso voluntário Trata o presente processo de auto de infração de obrigação acessória AIOA, DEBCAD nº 37.154.3754, à efl. 02, no qual foram constituídos créditos referentes à multa em face da apresentação de Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social GFIP com dados não correspondentes aos fatos geradores de todas as contribuições previdenciárias. O auto de infração foi cientificado à contribuinte em 29/07/2009 e constituiu crédito de multa no valor de R$ 704.465,40, com tem seu relatório fiscal de infração posto às e fls. 101 a 121 e relatório de aplicação da multa às efls. 122 e 123. A contribuinte apresentou impugnação ao lançamento, às efls. 130 a 137, em 26/08/2009. Em 05/10/2011, o presente processo foi apensado ao de nº 10925.001662/200953, conforme termo de efl. 208. Já a 5ª Turma da DRJ/FNS, no acórdão nº 0730.153, prolatado em 22/11/2012, às efls. 209 a 233, considerou, por unanimidade, improcedente a impugnação, mantendo integralmente o crédito tributário exigido. Inconformada, a contribuinte, interpôs recurso voluntário, em 12/04/2013, às efls. 247 a 281, argumentando, em síntese que extraímos do acórdão recorrido, que: 1. O fisco simplesmente ignora uma série de documentos apresentados pela requerente. , com fulcro na subjetiva ilação de que a cooperativa não distingue os prestadores de serviços em sua contabilidade, chega a exigir valores que não compõem a base de cálculo de contribuições. 2. Não verifica a inadimplência dos tributos em comento, simplesmente autua, sem observar que os mesmos podem ter sido recolhidos aos cofres públicos pelo próprio contribuinte individual. Fl. 486DF CARF MF Processo nº 10925.001667/200906 Acórdão n.º 9202006.486 CSRFT2 Fl. 486 3 3. Em preliminar fala em nulidade, ao entendimento de abuso de poder da autoridade fiscal que agiu de forma ilegal e arbitrária no procedimento de fiscalização. 4. Cita que a empresa cumpriu todas as exigências e intimações no curso da fiscalização e que por várias vezes a autoridade fiscal invadiu a sede da recorrente, abrindo gavetas e arquivos, jogando papéis no chão e levandoos como se seu fossem. 5. improcedência da pretensão fiscal, além do teto limite.Que embora a Lei nº 8.212/91 em se art. 15 equipare a cooperativa a empresa, tal fato serve apenas para os fins desta lei, e não para a Lei nº 8.706/93 e, ainda, mesmo que equiparada por esta lei, tem que é irrelevante quando a contribuição é a devida pelos transportadores autônomos. 6. Aduz que o art. 2º do Decreto nº 1.007, de 13 de dezembro de 1993 é claro ao dispor que a responsabilidade é da pessoa jurídica tomadora dos serviços do transportador autônomo. 7. Discorre sobre as Sociedades Cooperativas, seus fins e que se trata de um sistema de ajuda mútua, mediante esforço comum de interessados, eliminando intermediários, que foi o motivo da criação da COTRAMOL, sociedade cooperativa de transporte, que pratica atos cooperados e não cooperados e que no seu caso, os fretes realizados pelos cooperados a tomadores de serviços são atos cooperados. 8. Que é uma sociedade cooperativa e não uma transportadora (sociedade empresária). 9. Fala que o lançamento é nulo porque contém valores a título de terceiros e esporádicos quando se trata de frete prestado por cooperado. 10. Diz que em inúmeros casos, a autoridade fiscal apura valores supostamente devidos quando o frete é prestado por Cooperado (C), lançando valores de fretes na coluna Cooperado e também na coluna Terceiro (T) e Esporádicos (E). 11. Fala em nulidade por tipificação indevida no fato que a legislação não se refere a matéria objeto do lançamento, aduzindo que o § 4° do art. 201 do Decreto 3.048/99 não se aplica a atividade de transporte rodoviário de cargas, mas sim de atividade remunerada de condutor autônomo de veiculo rodoviário, ou ao auxiliar de condutor autônomo de veiculo rodoviário. 12. Aduz que não está obrigada a prestar informação em Guia de Recolhimento do FGTS e informações à Previdência Social (GFIP) sobre os valores que repassa a transportador autônomo cooperado e não cooperado; que não há fato gerador nestas operações e que informa corretamente em GFIP os segurados empregados e contribuintes individuais que lhe prestam serviços, remetendo aos argumentos da peça de impugnação que apresentou no Auto de Infração nº 37.180.7875, da mesma forma Fl. 487DF CARF MF 4 quanto a não exigência de contribuição ao SEST/SENAT conforme impugnação que apresentou no Auto de Infração 37.180.7867, que alega ter anexado. 13. Fala que inexiste crime contra a ordem tributária na sua conduta de não informar em GFIP, objeto da Representação Fiscal para Fins Penais nos processos nº 13982.000859/200909 e 13982.000860/200925 e que a fiscalização não indicou claramente qual seria o dolo ou evidente intuito de fraude praticado pela impugnante. 14. Por fim requereu a nulidade do procedimento fiscal e insubsistente o auto de infração, produção de todos os meios de provas, especialmente documental, bem como sejam as intimações encaminhadas aos advogados O recurso voluntário foi apreciado pela 1ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da Segunda Seção de Julgamento em 23/01/2014, resultando no acórdão nº 401003.378, às efls. 336 a 355, que tem as seguintes ementas: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Data do fato gerador: 27/07/2009 PREVIDENCIÁRIO CUSTEIO AUTO DE INFRAÇÃO OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA SEGURADOS EMPREGADOS E CONTRIBUINTES INDIVIDUAIS ARTIGO 32, IV, § 5º E ARTIGO 41 DA LEI N.º 8.212/91 C/C ARTIGO 284, II DO RPS, APROVADO PELO DECRETO N.º 3.048/99 OMISSÃO EM GFIP A inobservância da obrigação tributária acessória é fato gerador do autodeinfração, o qual se constitui, principalmente, em forma de exigir que a obrigação seja cumprida; obrigação que tem por finalidade auxiliar o INSS na administração previdenciária. Inobservância do art. 32, IV, § 5º da Lei n ° 8.212/1991, com a multa punitiva aplicada conforme dispõe o art. 284, II do RPS, aprovado pelo Decreto n ° 3.048/1999.: “informar mensalmente ao Instituto Nacional do Seguro SocialINSS, por intermédio de documento a ser definido em regulamento, dados relacionados aos fatos geradores de contribuição previdenciária e outras informações de interesse do INSS. (Incluído pela Lei 9.528, de 10.12.97)”. OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA NÃO APRESENTAÇÃO DE INFORMAÇÕES E DOCUMENTOS ALEGAÇÕES DESPROVIDAS DE ELEMENTOS DE PROVA IMPROCEDÊNCIA DAS ALEGAÇÕES Uma vez que a autoridade fiscal demonstrou de forma clara a falta descrita na autuação, bem como toda a fundamentação legal, incumbe ao recorrente comprovar a improcedência dos fatos descritos pela autoridade fiscal. Meras alegações de existência de documentos e folhas de pagamento à disposição da fiscalização não se prestam a Fl. 488DF CARF MF Processo nº 10925.001667/200906 Acórdão n.º 9202006.486 CSRFT2 Fl. 487 5 desconstituir o lançamento, fundamentados em registros contábeis apurados nos livros dos recorrentes verificados durante o procedimento fiscal. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Data do fato gerador: 27/07/2009 PREVIDENCIÁRIO CUSTEIO AUTO DE INFRAÇÃO ARTIGO 32, IV, § 5º E ARTIGO 41 DA LEI N.º 8.212/91 C/C ARTIGO 284, II DO RPS, APROVADO PELO DECRETO N.º 3.048/99 AIOP CORRELATO A sorte de Autos de Infração relacionados a omissão em GFIP, está diretamente relacionado ao resultado dos AIOP lavrados sobre os mesmos fatos geradores, sendo que a procedência dos mesmos O acórdão teve o seguinte teor: ACORDAM os membros do colegiado, por unanimidade de votos: I) rejeitar as preliminares de nulidade; e II) no mérito, dar provimento parcial para excluir do lançamento os fatos geradores correspondentes as CTRC descritas na planilha fls. 16 do recurso voluntário. Ausente justificadamente o conselheiro Igor Araújo Soares. Embargos de declaração da Procuradoria Em 08/08/2014, a Procuradoria da Fazenda Nacional manejou embargos de declaração às efls. 356 a 357. Afirma a existência de omissão no acórdão embargado, quando este se omite em apreciar a existência do processo nº 10925.001666/200953 cuja solução definitiva poderia modificar a posição adotada no presente processo, gerando decisões contraditórias. Tal omissão dificulta uma possível impugnação do julgamento, e desse modo, cerceia o direito de defesa da Fazenda Nacional. A Presidente da 4ª Câmara da Segunda Seção de Julgamento apreciou os embargos, às efls. 358 a 360, na Informação nº 2401082 de 11/08/2015, e não encontrou omissão que levasse à reapreciação da decisão embargada, uma vez que até mesmo havia sido julgado o processo nº 10925.001666/200953, na mesma sessão. Foram assim rejeitados os embargos de declaração. RE da Fazenda A Procuradora da Fazenda interpôs recurso especial de divergência, em 24/09/2015, às efls. 362 a 369, divergindo do acórdão com relação a decisões proferidas em processos vinculados. Toma por paradigmas os acórdãos nº 30130.894 e nº 30333.772, que acolhem a tese de que decisão proferida em processo principal somente pode ser aplicada aos seus decorrentes após ter se tornado definitiva, enquanto o acórdão a quo se fundamentou em Fl. 489DF CARF MF 6 decisão do processo nº 10925.001666/200953 que não é definitiva, podendo vir a ser reformada por força de recurso da União. Assim, argumenta: Observese, por exemplo, que na eventualidade de se ter reformada a decisão proferida no processo em trâmite na Câmara Superior de Recursos Fiscais, o mesmo não poderá acontecer no presente feito, tendo em vista a impossibilidade de reversão da decisão nele proferida, se não acolhido o presente recurso. Argumenta que o aresto teria se tornado deficitário em expor os fundamentos que motivaram a exoneração do crédito tributário, fato este que ocasionaria a nulidade dessa parte do julgado. Por essas razões requer o conhecimento e o provimento do recurso para que esta Turma reforme a decisão recorrida seguindo o entendimento demonstrado neste apelo. Importante relatar, neste ponto, que em seu Recurso Especial a Fazenda Nacional limitouse a atacar o julgamento da multa sem o trânsito em julgado da decisão acerca do tributo, sem fazer qualquer referência a critério jurídico que pudesse alterar a decisão recorrida. O recurso especial de divergência da Fazenda foi também apreciado pela Presidente da 4ª Câmara da Segunda Seção de Julgamento do CARF, nos termos dos arts. 67 e 68 do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos 370 a 375, datado de 23/12/2015, entendendo por lhe dar seguimento, ao vislumbrar similitude fática entre os acórdãos recorrido e paradigma e o recurso especial cumprir os demais requisitos regimentais. RE da contribuinte A contribuinte foi intimada (efl. 376) do acórdão nº 2401003.378, da Informação nº 2401082, do Recurso especial de divergência da PFN e do despacho de admissibilidade de efls. 370 a 375, em 15/02/2016 (efl. 379), e interpôs recurso especial de divergência em 1º/03/2016, às efls. 433 a 442. A matéria recorrida, cuja divergência estaria posta nos acórdãos nº 2302 003.370 e 2301003.531 é a aplicação de multa pelo critério de retroatividade benigna, em face das alterações de penalidades da Lei nº 8.212/1991, trazidas pela Lei nº 11.491/2009. A recorrente alega que o acórdão a quo conclui pela aplicação de penalidade que atinge 75% da totalidade dos tributos lançados, pela incidência do art. 35A da Lei nº 8.212/1991. Os paradigmas afirmam que deva ser realizado o comparativo entre as penalidades do art. 32A, inc. I, da Lei nº 8.212/1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941/2009, com o art. 32, § 5º, da mesma lei, aplicandose a mais favorável ao contribuinte. Finaliza por requerer o conhecimento e o provimento do seu recurso especial de divergência para que se reforme cancele a exigência fiscal por vício de forma ou, alternativa e sucessivamente, consignar que, em atenção À retroatividade benigna , a multa aplicada seja a prevista no art. 32A da Lei nº 8.212/1991. No despacho de efls. 476 a 481, em 25/05/2016, a Presidente da 4ª Câmara da Segunda Seção de Julgamento, reconheceu a similitude das situações fáticas dos acórdãos paradigmas e do recorrido, com atendimento aos requisitos regimentais, e entendeu por dar Fl. 490DF CARF MF Processo nº 10925.001667/200906 Acórdão n.º 9202006.486 CSRFT2 Fl. 488 7 seguimento ao recurso especial da contribuinte para que se rediscuta a matéria relativa à aplicação de multa com a consideração da penalidade mais benigna. Contrarrazões da Fazenda A Procuradoria da Fazenda Nacional manejou contrarrazões ao recurso em 08/07/2016, às efls. 482 a 484. Em seu arrazoado, a Procuradora afirma que a tese encampada pela recorrente não merece prevalecer, pois a forma de cálculo por ela defendida somente pode ser utilizada no caso em que tenha havido tãosomente lançamento de multa por descumprimento de obrigação acessória, com multa isolada prevista no artigo 32A da Lei nº 8.212/1991, recolhendose, contudo, as contribuições destinadas a Seguridade Social. Por outro lado, toda vez que houver o lançamento da obrigação principal, além do descumprimento da obrigação acessória, tal como no caso dos autos, a multa lançada será única, prevista no artigo 35ª Nessa linha de raciocínio, os Autos de Infração devem ser mantidos, com a ressalva de que, no momento da execução do julgado, a autoridade fiscal deverá apreciar a norma mais benéfica: se as duas multas anteriores (arts. 35, II e 32, IV, § 5º da Lei nº 8.212/1991) ou a do art. 35A incluída pela MP 449/2008. Ao final, requerer seja negado provimento ao recurso especial de divergência interposto pela contribuinte. É o relatório. Voto Conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos Relator Os recursos especiais da Procuradoria da Fazenda Nacional e da contribuinte são tempestivos, cumprem os requisitos regimentais e, por isso, deles conheço. RE da Fazenda Vinculação a processo não definitivamente julgado. Entendo correta a procuradora quanto afirma a necessidade de não contradição entre julgados que tem interdependência, invocando a definitividade da decisão do processo ao qual o presente está apenso, haja vista que aqui não se trata de multa isolada, mas sim de multa que deve ser calculada considerandose o valor do tributo mantido no auto de infração de obrigação principal. Todavia, não se pode concluir pela impossibilidade de julgamento de multa antes do trânsito em julgado administrativo da decisão no processo principal. Com efeito, o que não se admite é o julgamento, em qualquer instância, do acessório (multa) antes do julgamento do principal (tributo). Pelo contrário, o julgamento, seja em primeira ou segunda instância, bem como em instância especial pode e deve ser feito conjuntamente. Fl. 491DF CARF MF 8 No caso concreto, a decisão recorrida aplicou critério coerente com o julgamento do processo principal e, mesmo que este não tenha transitado em julgado, não houve prejuízo para as partes, visto que (a) abriuse prazo para recurso e (b) admitidos os recursos, os processos estão pautados para julgamento em conjunto. Observese que o processo nº 10925.001666/200953 consta da presente pauta de julgamento. Por outro lado, a suspensão deste processo nesta quadra apenas atrasaria seu andamento, contrariando o princípio de economia processual, sem qualquer ganho relativamente à situação material nele posta. Pelo exposto, voto por conhecer do recurso especial de divergência da Fazenda para negarlhe provimento, por despicienda a suspensão do processo de multa por descumprimento da obrigação acessória em face do julgamento prévio do recurso especial de divergência no processo do auto de infração de obrigação principal. RE da contribuinte Multas e retroatividade benigna A solução do litígio decorre do disposto no artigo 106, inciso II, alínea “a” do CTN, a seguir transcrito: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; II tratandose de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de definilo como infração; b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. (grifos acrescidos) De inicio, cumpre registrar que a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), de forma unânime pacificou o entendimento de que na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Assim, a multa de mora prevista no art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, não é aplicável quando realizado o lançamento de ofício, conforme consta do Acórdão nº 9202004.262 (Sessão de 23 de junho de 2016), cuja ementa transcrevese: AUTO DE INFRAÇÃO OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA MULTA APLICAÇÃO NOS LIMITES DA LEI 8.212/91 C/C LEI 11.941/08 APLICAÇÃO DA MULTA MAIS FAVORÁVEL RETROATIVIDADE BENIGNA NATUREZA DA MULTA APLICADA. A multa nos casos em que há lançamento de obrigação principal lavrados após a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, Fl. 492DF CARF MF Processo nº 10925.001667/200906 Acórdão n.º 9202006.486 CSRFT2 Fl. 489 9 mesmo que referente a fatos geradores anteriores a publicação da referida lei, é de ofício. AUTO DE INFRAÇÃO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL E ACESSÓRIA COMPARATIVO DE MULTAS APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Se as multas por descumprimento de obrigações acessória e principal foram exigidas em procedimentos de ofício, ainda que em separado, incabível a aplicação retroativa do art. 32A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, eis que esta última estabeleceu, em seu art. 35 A, penalidade única combinando as duas condutas. A legislação vigente anteriormente à Medida Provisória n° 449, de 2008, determinava, para a situação em que ocorresse (a) recolhimento insuficiente do tributo e (b) falta de declaração da verba tributável em GFIP, a constituição do crédito tributário de ofício, acrescido das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, respectivamente. Posteriormente, foi determinada, para essa mesma situação (falta de pagamento e de declaração), apenas a aplicação do art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991, que faz remissão ao art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996. Portanto, para aplicação da retroatividade benigna, resta necessário comparar (a) o somatório das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, e (b) a multa prevista no art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991. A comparação de que trata o item anterior tem por fim a aplicação da retroatividade benigna prevista no art. 106 do CTN e, caso necessário, a retificação dos valores no sistema de cobrança, a fim de que, em cada competência, o valor da multa aplicada no auto de infração de obrigação acessória AIOA somado com a multa aplicada na NFLD do auto de infração da obrigação principal AIOP não exceda o percentual de 75%. Prosseguindo na análise do tema, também é entendimento pacífico deste Colegiado que na hipótese de lançamento apenas de obrigação principal, a retroatividade benigna será aplicada se, na liquidação do acórdão, a penalidade anterior à vigência da MP 449, de 2008, ultrapassar a multa do art. 35A da Lei n° 8.212/91, correspondente aos 75% previstos no art. 44 da Lei n° 9.430/96. Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela MP 449 (convertida na Lei 11.941, de 2009), tenham sido aplicadas isoladamente descumprimento de obrigação acessória sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, bem assim no caso de competências em que o lançamento da obrigação principal tenha sido atingida pela decadência. Neste sentido, transcrevese excerto do voto unânime proferido no Acórdão nº 9202004.499 (Sessão de 29 de setembro de 2016): Até a edição da MP 449/2008, quando realizado um procedimento fiscal, em que se constatava a existência de débitos previdenciários, lavravase em relação ao montante da Fl. 493DF CARF MF 10 contribuição devida, notificação fiscal de lançamento de débito NFLD. Caso constatado que, além do montante devido, descumprira o contribuinte obrigação acessória, ou seja, obrigação de fazer, como no caso de omissão em GFIP (que tem correlação direta com o fato gerador), a empresa era autuada também por descumprimento de obrigação acessória. Nessa época os dispositivos legais aplicáveis eram multa art. 35 para a NFLD (24%, que sofria acréscimos dependendo da fase processual do débito) e art. 32 (100% da contribuição devida em caso de omissões de fatos geradores em GFIP) para o Auto de infração de obrigação acessória. Contudo, a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, inseriu o art. 32A, o qual dispõe o seguinte: “Art. 32A. O contribuinte que deixar de apresentar a declaração de que trata o inciso IV do caput do art. 32 desta Lei no prazo fixado ou que a apresentar com incorreções ou omissões será intimado a apresentála ou a prestar esclarecimentos e sujeitarseá às seguintes multas: I – de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas; e II – de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3o deste artigo. § 1o Para efeito de aplicação da multa prevista no inciso II do caput deste artigo, será considerado como termo inicial o dia seguinte ao término do prazo fixado para entrega da declaração e como termo final a data da efetiva entrega ou, no caso de não apresentação, a data da lavratura do auto de infração ou da notificação de lançamento. § 2o Observado o disposto no § 3o deste artigo, as multas serão reduzidas: I – à metade, quando a declaração for apresentada após o prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício; ou II – a 75% (setenta e cinco por cento), se houver apresentação da declaração no prazo fixado em intimação. § 3o A multa mínima a ser aplicada será de: I – R$ 200,00 (duzentos reais), tratandose de omissão de declaração sem ocorrência de fatos geradores de contribuição previdenciária; e II – R$ 500,00 (quinhentos reais), nos demais casos.” Entretanto, a MP 449, Lei 11.941/2009, também acrescentou o art. 35A que dispõe o seguinte, Fl. 494DF CARF MF Processo nº 10925.001667/200906 Acórdão n.º 9202006.486 CSRFT2 Fl. 490 11 “Art. 35A. Nos casos de lançamento de ofício relativos às contribuições referidas no art. 35 desta Lei, aplicase o disposto no art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996.” O inciso I do art. 44 da Lei 9.430/96, por sua vez, dispõe o seguinte: “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata “ Com a alteração acima, em caso de atraso, cujo recolhimento não ocorrer de forma espontânea pelo contribuinte, levando ao lançamento de ofício, a multa a ser aplicada passa a ser a estabelecida no dispositivo acima citado, ou seja, em havendo lançamento da obrigação principal (a antiga NFLD), aplicase multa de ofício no patamar de 75%. Essa conclusão levanos ao raciocínio que a natureza da multa, sempre que existe lançamento, referese a multa de ofício e não a multa de mora referida no antigo art. 35 da lei 8212/91. Contudo, mesmo que consideremos que a natureza da multa é de "multa de ofício" não podemos isoladamente aplicar 75% para as Notificações Fiscais NFLD ou Autos de Infração de Obrigação Principal AIOP, pois estaríamos na verdade retroagindo para agravar a penalidade aplicada. Por outro lado, com base nas alterações legislativas não mais caberia, nos patamares anteriormente existentes, aplicação de NFLD + AIOA (Auto de Infração de Obrigação Acessória) cumulativamente, pois em existindo lançamento de ofício a multa passa a ser exclusivamente de 75%. Tendo identificado que a natureza da multa, sempre que há lançamento, é de multa de ofício, considerando o princípio da retroatividade benigna previsto no art. 106. inciso II, alínea “c”, do Código Tributário Nacional, há que se verificar a situação mais favorável ao sujeito passivo, face às alterações trazidas. No presente caso, foi lavrado AIOA julgada, e alvo do presente recurso especial, prevaleceu o valor de multa aplicado nos moldes do art. 32A. No caso da ausência de informação em GFIP, conforme descrito no relatório a multa aplicada ocorreu nos termos do art. 32, inciso IV, § 5º, da Lei nº 8.212/1991 também revogado, o qual previa uma multa no valor de 100% (cem por cento) da contribuição não declarada, limitada aos limites previstos no § 4º do mesmo artigo. Fl. 495DF CARF MF 12 Face essas considerações para efeitos da apuração da situação mais favorável, entendo que há que se observar qual das seguintes situações resulta mais favorável ao contribuinte: · Norma anterior, pela soma da multa aplicada nos moldes do art. 35, inciso II com a multa prevista no art. 32, inciso IV, § 5º, observada a limitação imposta pelo § 4º do mesmo artigo, ou · Norma atual, pela aplicação da multa de setenta e cinco por cento sobre os valores não declarados, sem qualquer limitação, excluído o valor de multa mantido na notificação. Levando em consideração a legislação mais benéfica ao contribuinte, conforme dispõe o art. 106 do Código Tributário Nacional (CTN), o órgão responsável pela execução do acórdão deve, quando do trânsito em julgado administrativo, efetuar o cálculo da multa, em cada competência, somando o valor da multa aplicada no AI de obrigação acessória com a multa aplicada na NFLD/AIOP, que não pode exceder o percentual de 75%, previsto no art. 44, I da Lei n° 9.430/1996. Da mesma forma, no lançamento apenas de obrigação principal o valor das multa de ofício não pode exceder 75%. No AI de obrigação acessória, isoladamente, o percentual não pode exceder as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Observese que, no caso de competências em que a obrigação principal tenha sido atingida pela decadência (pela antecipação do pagamento nos termos do art. 150, § 4º, do CTN), subsiste a obrigação acessória, isoladamente, relativa às mesmas competências, não atingidas pela decadência posto que regidas pelo art. 173, I, do CTN, e que, portanto, deve ter sua penalidade limitada ao valor previsto no artigo 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Cumpre ressaltar que o entendimento acima está em consonância com o que dispõe a Instrução Normativa RFB nº 971, de 13 de novembro de 2009, alterada pela Instrução Normativa RFB nº 1.027 em 22/04/2010, e no mesmo diapasão do que estabelece a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, que contempla tanto os lançamentos de obrigação principal quanto de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente. Neste passo, para os fatos geradores ocorridos até 03/12/2008, a autoridade responsável pela execução do acórdão, quando do trânsito em julgado administrativo, deverá observar a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 que se reporta à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias nos lançamentos de obrigação principal e de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. De fato, as disposições da referida Portaria, a seguir transcritas, estão em consonância com a jurisprudência unânime desta 2ª Turma da CSRF sobre o tema: Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 Fl. 496DF CARF MF Processo nº 10925.001667/200906 Acórdão n.º 9202006.486 CSRFT2 Fl. 491 13 Art. 1º A aplicação do disposto nos arts. 35 e 35A da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, às prestações de parcelamento e aos demais débitos não pagos até 3 de dezembro de 2008, inscritos ou não em Dívida Ativa, cobrados por meio de processo ainda não definitivamente julgado, observará o disposto nesta Portaria. Art. 2º No momento do pagamento ou do parcelamento do débito pelo contribuinte, o valor das multas aplicadas será analisado e os lançamentos, se necessário, serão retificados, para fins de aplicação da penalidade mais benéfica, nos termos da alínea "c" do inciso II do art. 106 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional (CTN). § 1º Caso não haja pagamento ou parcelamento do débito, a análise do valor das multas referidas no caput será realizada no momento do ajuizamento da execução fiscal pela Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN). § 2º A análise a que se refere o caput darseá por competência. § 3º A aplicação da penalidade mais benéfica na forma deste artigo darseá: I mediante requerimento do sujeito passivo, dirigido à autoridade administrativa competente, informando e comprovando que se subsume à mencionada hipótese; ou II de ofício, quando verificada pela autoridade administrativa a possibilidade de aplicação. § 4º Se o processo encontrarse em trâmite no contencioso administrativo de primeira instância, a autoridade julgadora fará constar de sua decisão que a análise do valor das multas para verificação e aplicação daquela que for mais benéfica, se cabível, será realizada no momento do pagamento ou do parcelamento. Art. 3º A análise da penalidade mais benéfica, a que se refere esta Portaria, será realizada pela comparação entre a soma dos valores das multas aplicadas nos lançamentos por descumprimento de obrigação principal, conforme o art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e de obrigações acessórias, conforme §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e da multa de ofício calculada na forma do art. 35A da Lei nº 8.212, de 1991, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009. § 1º Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, tenham sido aplicadas isoladamente, sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal, deverão ser comparadas com as Fl. 497DF CARF MF 14 penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. § 2º A comparação na forma do caput deverá ser efetuada em relação aos processos conexos, devendo ser considerados, inclusive, os débitos pagos, os parcelados, os nãoimpugnados, os inscritos em Dívida Ativa da União e os ajuizados após a publicação da Medida Provisória nº 449, de 3 de dezembro de 2008. Art. 4º O valor das multas aplicadas, na forma do art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, sobre as contribuições devidas a terceiros, assim entendidas outras entidades e fundos, deverá ser comparado com o valor das multa de ofício previsto no art. 35 A daquela Lei, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009, e, caso resulte mais benéfico ao sujeito passivo, será reduzido àquele patamar. Art. 5º Na hipótese de ter havido lançamento de ofício relativo a contribuições declaradas na Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social (GFIP), a multa aplicada limitarseá àquela prevista no art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. Dessarte, voto por negar provimento ao recurso da contribuinte, mantendo o critério do auto de infração ratificado pelo acórdão recorrido e que aplicava a retroatividade benigna em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04/12/2009. CONCLUSÃO Por todo o exposto, voto por conhecer de ambos os recursos especiais de divergência apresentados para: a) negar provimento ao recurso da Procuradoria da Fazenda Nacional para dar posseguimento ao julgamento do presente processo; b) negar provimento ao recurso especial de divergência da contribuinte, para manter o auto de infração e o acórdão a quo no que respeita às multas, por têlas apurando em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04/12/2009. (Assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Fl. 498DF CARF MF Processo nº 10925.001667/200906 Acórdão n.º 9202006.486 CSRFT2 Fl. 492 15 Fl. 499DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10865.910365/2009-74
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Terceira Seção
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Sep 28 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Feb 15 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 01/10/2007 a 31/12/2007
DCOMP - IPI - ERRO NO PREENCHIMENTO - VERDADE MATERIAL
Importa em reconhecimento do crédito, se constatado erro no preenchimento do PER/DCOMP
Numero da decisão: 3001-000.015
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário.
(assinado digitalmente)
Orlando Rutigliani Berri - Presidente
(assinado digitalmente)
Renato Vieira de Avila - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Orlando Rutigliani Berri, Renato Vieira de Avila, Cleber Magalhães e Cássio Schappo.
Nome do relator: RENATO VIEIRA DE AVILA
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI Período de apuração: 01/10/2007 a 31/12/2007 DCOMP - IPI - ERRO NO PREENCHIMENTO - VERDADE MATERIAL Importa em reconhecimento do crédito, se constatado erro no preenchimento do PER/DCOMP
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/10/2007 a 31/12/2007 DCOMP IPI ERRO NO PREENCHIMENTO VERDADE MATERIAL Importa em reconhecimento do crédito, se constatado erro no preenchimento do PER/DCOMP Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Orlando Rutigliani Berri Presidente (assinado digitalmente) Renato Vieira de Avila Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Orlando Rutigliani Berri, Renato Vieira de Avila, Cleber Magalhães e Cássio Schappo. Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto em face de decisão da Delegacia Regional de Julgamento de Ribeirão Preto/RPO, cujo conteúdo declarou improcedente as razões da recorrente em Manifestação de Inconformidade referente ao ressarcimento de IPI. Despacho Decisório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 86 5. 91 03 65 /2 00 9- 74 Fl. 123DF CARF MF 2 A fiscalização, em sede de análise do Pedido de Ressarcimento sob n.º 15428.99989.180208.1.1.015770, houve por bem considerar todo o crédito pleiteado, como apto ao seu integral reconhecimento. No entanto, de acordo com o despacho decisório, o saldo de crédito reconhecido, para efeito da compensação pretendida, foi considerado insuficiente para extinguir o débito informado pelo contribuinte, ora recorrente. Da Manifestação de Inconformidade O objeto da Manifestação de Inconformidade consiste, tão somente, na DCOMP sob número de registro 21971.03063.160408.1.3.012514, a qual considerada homologada parcialmente pelo Despacho Decisório. Em suas razões, alega a Recorrente a existência de Erro Material no preenchimento da DCOMP retro mencionada. Em síntese, sustenta que, por erro de digitação, onde deveria constar, no código da Receita 2089, a competência 01/2008, constou, equivocadamente, a competência 01/2007. Ao final, pleiteou a retificação, por parte da Receita Federal, do Despacho Decisório, no sentido de considerar a competência informada. Acórdão DRJ/RPO Regularmente impulsionado o feito, fora recebida a Manifestação de Inconformidade pela DRJ/RPO, a qual prolatou Acórdão 1464.754, da 2a. Turma, sob a seguinte ementa: Assunto: IPI DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. RETIFICAÇÃO APÓS DESPACHO DECISÓRIO. IMPOSSIBILIDADE. A Declaração de Compensação somente poderá ser retificada pelo sujeito passivo caso se encontre pendente de decisão administrativa à data do envio do documento retificador. Em trecho de seu voto, a autoridade de primeira instância administrativa sustenta sua posição da impossibilidade de as alegações trazidas na manifestação de inconformidade não ter o condão de retificar a Declaração de Compensação. Recurso Voluntário O Recurso Voluntário trouxe aos autos o tema relativo ao Erro Material cometido, vez que indicou na Perd/Competência 21971.03063.160408.1.3.012514, período divergente, qual seja, a competência 01/2007, sendo, em verdade, o período de 01/2008, a competência originária do crédito apurado em favor próprio. Pugna, pela aplicação concreta do princípio da verdade material, aos eventos descritos e discutidos nesta seara. É o Relatório. Voto Fl. 124DF CARF MF Processo nº 10865.910365/200974 Acórdão n.º 3001000.015 S3C0T1 Fl. 48 3 Conselheiro Renato Vieira de Avila Relator Tempestividade A Recorrente, segundo consta do Termo de Ciência de Abertura de Mensagem, mediante o respectivo DTE, tomou ciência do acórdão que julgou sua Manifestação de Inconformidade em 20 de março de 2017. O Recurso Voluntário foi protocolizado em 19 de abril de 2017. Tempestivo, portanto, Recurso Voluntário. Em decorrência, dele tomo conhecimento. Mérito Razão assiste à Recorrente. Em sede do processo administrativo tributário federal, é pacífica a busca pela verdade material, sendo válido, conforme se denota abaixo, reconhecer que houve, de fato, a troca da compentência 01/2008, pela competência 01/2007. Este tribunal, com supedâneo em farta jurisprudência, vem decidindo pela possibilidade em reconhecer os erros materiais de fácil verificação, como o caso destes autos: Acórdão 3201001.542 IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI. RESSARCIMENTO. EQUÍVOCO NO PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO. VERDADE MATERIAL Reconhecido de forma inequívoca o direito creditório afirmado, deve haver a sua homologação, considerando a data dos pedidos originais, ainda que o pleito do contribuinte contenha erros procedimentais, posteriormente sanados pelo contribuinte. E, mais especificamente ao caso de Erro Material em PER/DCOMP relativo ao IPI: Acórdão: 3301002.369 ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/10/2001 a 31/12/2001 RESSARCIMENTO DE IPI. PER/DCOMP. ERRO DE PREENCHIMENTO. Demonstrada a ocorrência de erro de preenchimento do PER/DCOMP, de fácil verificação, deve ser corrigido em nome da verdade material. Recurso Voluntário Provido Direito Creditório Reconhecido. Fl. 125DF CARF MF 4 Neste sentido, foto por conhecer do Recurso Voluntário para darlhe Provimento, determinando a alocação do saldo de crédito em favor do contribuinte, no limite do constante na competência 01/2008, conforme informado pelo contribuinte, em DCTF. (assinado digitalmente) Renato Vieira de Avila Fl. 126DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10880.659068/2012-37
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Mar 22 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Apr 05 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 3402-001.325
Decisão: Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência, nos termos do voto do Relator.
(assinado digitalmente)
Jorge Olmiro Lock Freire - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Jorge Freire, Waldir Navarro Bezerra, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Thais De Laurentiis Galkowicz, Pedro Sousa Bispo, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto.
Nome do relator: JORGE OLMIRO LOCK FREIRE
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decisao_txt : Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência, nos termos do voto do Relator. (assinado digitalmente) Jorge Olmiro Lock Freire - Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Jorge Freire, Waldir Navarro Bezerra, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Thais De Laurentiis Galkowicz, Pedro Sousa Bispo, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência, nos termos do voto do Relator. (assinado digitalmente) Jorge Olmiro Lock Freire Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Jorge Freire, Waldir Navarro Bezerra, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Thais De Laurentiis Galkowicz, Pedro Sousa Bispo, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto. Relatório Cuida o presente de Recurso Voluntário interposto contra Acórdão da DRJ que considerou improcedente Manifestação de Inconformidade contra Despacho Decisório que não homologou a compensação pleiteada. Conforme o Despacho Decisório, o DARF identificado como origem do crédito vindicado havia sido integralmente utilizado para a quitação de débitos do contribuinte, não restando saldo disponível. Em sua manifestação de inconformidade, a contribuinte alega que: · importa mercadorias, referentes as NCMS n° 9021.1020 e revende a distribuidores e convênios médicos e hospitais; · de acordo com art. 8°, § 12, inciso XIX da Lei nº 10.865/04, incluído pela Lei nº 12.058/09 (vigência a partir de 01/01/2010), ficam reduzidas a 0% as alíquotas de PIS/COFINS importação, na hipótese de RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 08 80 .6 59 06 8/ 20 12 -3 7 Fl. 285DF CARF MF Processo nº 10880.659068/201237 Resolução nº 3402001.325 S3C4T2 Fl. 3 2 importação de artigos e aparelhos ortopédicos ou para fraturas classificados na NCM 90.21.10; · Art. 28. Ficam reduzidas a 0% (zero) as alíquotas da contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS incidentes sobre a receita bruta decorrente da venda, no mercado interno, de: XV artigos e aparelhos ortopédicos ou para fraturas classificados no código 90.21.10 da NCM; (Incluído pela Lei n°12.058, de 2009) (Produção de efeito); · a empresa durante o período de Janeiro/2010 a Abril/2012, continuou a recolher PIS/COFINS sobre as mencionadas mercadorias; · outrossim, o valor considerado como VALOR ORIGINAL TOTAL/UTILIZADO no despacho decisório está diferente do informado no PER/DCOMP; · portanto, acredita que faz jus ao crédito utilizado nos PER/DCOMP não homologados, para tanto anexando os documentos, assim especificados: a Cópia da Planilha com os valores dos créditos, tais como o número dos PER/DCOMP; b Cópia do livro de Saída do referido período; c Cópia dos Dacon com os valores de receita com alíquota zero; d Cópia dos Darf recolhidos do referido período; e Cópia da Lei nº 12.058 f Cópia do PER/DCOMP do período. A DRJ não reconheceu o direito creditório por entender que o contribuinte não havia comprovado a existência de crédito líquido e certo. Diante deste quadro, o contribuinte interpôs o recurso voluntário, em que repisou os fundamentos trazidos em sua manifestação de inconformidade, com especial ênfase para o fato haver provado as retificações das declarações prestadas (DACON's e DCTF's) com operações sujeitas à alíquota zero para o período em análise, fato este que não poderia ter sido ignorado pela decisão atacada, sob pena de ofensa ao princípio da verdade material. É o relatório. Voto Conselheiro Jorge Olmiro Lock Freire O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido na Resolução nº 3402001.316, de 22 de março de 2018, proferida no julgamento do processo 10880.659059/201246, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Fl. 286DF CARF MF Processo nº 10880.659068/201237 Resolução nº 3402001.325 S3C4T2 Fl. 4 3 Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu na Resolução 3402001.316: "5. A questão aqui posta não demanda maiores digressões. Como visto alhures, no período de janeiro de 2010 a abril de 2012 o recorrente recolheu PIS/COFINS para mercadorias sujeitas a alíquota zero (art. 8°, § 12, inciso XIX e XV da Lei nº 10.865/04), o que fez com que apresentasse pedido de compensação para reaver o que pagou indevidamente. 6. Acontece que as sobreditas retificações foram apresentadas após o despacho decisório impugnado e, por isso, ignorados pela DRF. Ademais, a decisão recorrida aduz que além de tais retificações o contribuinte também deveria ter apresentado outros elementos de prova a atestar seu crédito, de modo a tornálo líquido e certo. 7. Já em sede de recurso voluntário o contribuinte trouxe outros documentos que aparentemente comprovam seu crédito, quais sejam, as notas fiscais de comercialização dos produtos desonerados e indevidamente tributados, bem como uma planilha em que correlaciona tais bens aos valores indevidamente pagos a título de tributo. 8. Percebese, pois, que diante dos fatos aqui expostos e dos documentos acostados nos autos, é possível vislumbrar que de fato o contribuinte possui um crédito em seu favor. Logo, levando ainda em consideração que no âmbito do processo administrativo vigora o princípio da verdade material1, e, ainda, com especial respeito aos valores da eficiência e da moralidade, que devem conformar as ações da Administração Pública, é salutar que o presente caso seja convertido em julgamento para que: · a unidade preparadora, com base nos documentos acostados nos autos, bem como outros que venha a solicitar junto ao contribuinte, analise se de fato o recorrente promoveu as retificações necessárias a demonstrar a existência do crédito aqui vindicado e, em caso positivo, detalhe analiticamente o impacto de tal crédito para a compensação promovida. 9. Elaborado o sobredito relatório fiscal, o contribuinte deverá ser intimado para, facultativamente, se manifestar a seu respeito em 30 (trinta) dias, exatamente como prescreve o parágrafo único do art. 35 do Decreto n. 7.574/2011." Importante frisar que os documentos juntados pela contribuinte no processo paradigma, como prova do direito creditório, encontram correspondência nos autos ora em 1 "Registrese, desde já, que este importante valor normativo não se assemelha a uma ferramenta mágica, como pretendem alguns, e, por óbvio, não tem a aptidão de "validar" preclusões e atecnias, nem de transformar tais defeitos em um processo administrativo "regular". Este tipo de interpretação a respeito do princípio da verdade material só se presta a apequenar esta importante norma. Assim, quando se fala em verdade material o que se quer exprimir é a possibilidade de reconstruir a relação jurídica de direito material conflituosa por intermédio de uma metodologia jurídica mais flexível, ou seja, menos apegada à forma, o que se dá pelas características peculiares do direito material vindicado processualmente, i.e., pela sua contextualização." (RIBEIRO, Diego Diniz. O CPC/2015 e seus reflexos no processo administrativo tributário. In: Paulo de Barros Carvalho, Priscila de Souza. (Orgs.). Racionalização do sistema tributário. São Paulo: Noeses, 2017, p. 219240.). Fl. 287DF CARF MF Processo nº 10880.659068/201237 Resolução nº 3402001.325 S3C4T2 Fl. 5 4 análise. Desta forma, os elementos que justificaram a conversão do julgamento em diligência no caso do paradigma também a justificam no presente caso. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do anexo II do RICARF, DECIDO CONVERTER O JULGAMENTO EM DILIGÊNCIA, para que unidade preparadora, com base nos documentos acostados nos autos, bem como outros que venha a solicitar junto ao contribuinte, analise se de fato o recorrente promoveu as retificações necessárias a demonstrar a existência do crédito aqui vindicado e, em caso positivo, detalhe analiticamente o impacto de tal crédito para a compensação promovida. Elaborado o sobredito relatório fiscal, o contribuinte deverá ser intimado para, facultativamente, se manifestar a seu respeito em 30 (trinta) dias, exatamente como prescreve o parágrafo único do art. 35 do Decreto n. 7.574/2011. (Assinado com certificado digital) Jorge Olmiro Lock Freire . Fl. 288DF CARF MF
score : 1.0
