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Numero do processo: 10283.905370/2012-10
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Jan 29 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Feb 26 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/12/2011 a 31/12/2011
MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE. APRESENTAÇÃO INTEMPESTIVA. INSTAURAÇÃO DA FASE LITIGIOSA. IMPOSSIBILIDADE.
A apresentação da manifestação de inconformidade fora do prazo de 30 (trinta dias), ainda que seja apenas 1 (um) dias, não instaura a fase litigiosa do processo e impede o conhecimento da matéria litigiosa pelas instâncias julgadoras.
PRELIMINAR DE TEMPESTIVIDADE SUSCITADA. POSSIBILIDADE DE CONHECIMENTO PELAS INSTÂNCIAS JULGADORAS. NÃO COMPROVADO O CUMPRIMENTO DO PRAZO. CONHECIMENTO DO MÉRITO. IMPOSSIBILIDADE.
No âmbito do processo administrativo fiscal, é passível conhecimento pelas instâncias julgadoras apenas a preliminar de tempestividade da manifestação de inconformidade suscitada pelo sujeito passivo, porém, se referida preliminar não for superada, como ocorreu nos presentes, não se toma conhecimento das questões meritórias suscitadas em sede de manifestação de inconformidade e de recurso voluntário.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 3302-004.950
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
PAULO GUILHERME DÉROULÈDE - Presidente e Relator
Participaram do julgamento os Conselheiros Paulo Guilherme Déroulède, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Walker Araújo, José Fernandes do Nascimento, Diego Weis Júnior, Jorge Lima Abud, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza e José Renato Pereira de Deus.
Nome do relator: PAULO GUILHERME DEROULEDE
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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/12/2011 a 31/12/2011 MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE. APRESENTAÇÃO INTEMPESTIVA. INSTAURAÇÃO DA FASE LITIGIOSA. IMPOSSIBILIDADE. A apresentação da manifestação de inconformidade fora do prazo de 30 (trinta dias), ainda que seja apenas 1 (um) dias, não instaura a fase litigiosa do processo e impede o conhecimento da matéria litigiosa pelas instâncias julgadoras. PRELIMINAR DE TEMPESTIVIDADE SUSCITADA. POSSIBILIDADE DE CONHECIMENTO PELAS INSTÂNCIAS JULGADORAS. NÃO COMPROVADO O CUMPRIMENTO DO PRAZO. CONHECIMENTO DO MÉRITO. IMPOSSIBILIDADE. No âmbito do processo administrativo fiscal, é passível conhecimento pelas instâncias julgadoras apenas a preliminar de tempestividade da manifestação de inconformidade suscitada pelo sujeito passivo, porém, se referida preliminar não for superada, como ocorreu nos presentes, não se toma conhecimento das questões meritórias suscitadas em sede de manifestação de inconformidade e de recurso voluntário. Recurso Voluntário Negado.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/12/2011 a 31/12/2011 MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE. APRESENTAÇÃO INTEMPESTIVA. INSTAURAÇÃO DA FASE LITIGIOSA. IMPOSSIBILIDADE. A apresentação da manifestação de inconformidade fora do prazo de 30 (trinta dias), ainda que seja apenas 1 (um) dias, não instaura a fase litigiosa do processo e impede o conhecimento da matéria litigiosa pelas instâncias julgadoras. PRELIMINAR DE TEMPESTIVIDADE SUSCITADA. POSSIBILIDADE DE CONHECIMENTO PELAS INSTÂNCIAS JULGADORAS. NÃO COMPROVADO O CUMPRIMENTO DO PRAZO. CONHECIMENTO DO MÉRITO. IMPOSSIBILIDADE. No âmbito do processo administrativo fiscal, é passível conhecimento pelas instâncias julgadoras apenas a preliminar de tempestividade da manifestação de inconformidade suscitada pelo sujeito passivo, porém, se referida preliminar não for superada, como ocorreu nos presentes, não se toma conhecimento das questões meritórias suscitadas em sede de manifestação de inconformidade e de recurso voluntário. Recurso Voluntário Negado. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) PAULO GUILHERME DÉROULÈDE Presidente e Relator AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 28 3. 90 53 70 /2 01 2- 10 Fl. 189DF CARF MF Processo nº 10283.905370/201210 Acórdão n.º 3302004.950 S3C3T2 Fl. 3 2 Participaram do julgamento os Conselheiros Paulo Guilherme Déroulède, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Walker Araújo, José Fernandes do Nascimento, Diego Weis Júnior, Jorge Lima Abud, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza e José Renato Pereira de Deus. Relatório O Despacho Decisório proferido pela unidade de origem não homologou a compensação declarada em PER/DCOMP pela contribuinte acima qualificada, sob o fundamento de que, a partir das características do DARF descrito no PerDcomp, foram localizados um ou mais pagamentos, mas integralmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para compensação dos débitos informados no PerDcomp. Contra o contribuinte acima identificado foi emitido o Despacho Decisório pela unidade de origem que não homologou a compensação declarada em PER/DCOMP sob a justificativa de que o pagamento referente ao DARF indicado foi integralmente utilizado para a quitação de débitos do contribuinte não restando crédito disponível para compensação dos débitos informados no PER/DCOMP. Ciente do Despacho Decisório, o contribuinte apresentou Manifestação de Inconformidade, na qual alega em síntese que: • Sua manifestação de inconformidade era tempestiva e afirmou que recebeu a Intimação da Exigência em 23/01/2013 e apresentou a manifestação em 22/02/2013. • Ressalta, que “ainda que o recurso seja intempestivo, o que se admite apenas para fins de argumentação, a autoridade local encarregada da administração do tributo (Delegacia da Receita Federal em Manaus) não é competente para julgar a tempestividade do recurso, devendo este seguir para a Delegacia da Receita Federal de Julgamento, órgão competente para julgar tal fato, conforme previsão do art. 35 do Decreto nº 70.235/72.” • A legislação federal referente à restituição/compensação assegura em caso de não homologação da compensação o direito a interposição de manifestação de inconformidade; • O Despacho Decisório de não homologação foi demasiadamente sucinto e não esclareceu o porquê da decisão. • Os princípios constitucionais do contraditório e ampla defesa não foram respeitados pela administração tributária. O Despacho Decisório deve ser considerado nulo uma vez que não expôs os motivos da não homologação prejudicando seu direito de defesa; • É “empresa industrial com projeto aprovado na SUFRAMA e detentora de incentivos fiscais próprios da Zona Franca de Manaus, instituídos pelo DecretoLei nº 288/1967, bem como sujeita ao regime de apuração pela sistemática não cumulativa do PIS e da COFINS, podendo descontar créditos que poderão ser deduzidos do montante devido de tributos administrados pela Receita Federal do Brasil.” Fl. 190DF CARF MF Processo nº 10283.905370/201210 Acórdão n.º 3302004.950 S3C3T2 Fl. 4 3 • Faz jus aos créditos de PIS e COFINS, com base nos artigos 3º da Lei 10.637/2002 e da Lei nº 10.833/2003, especificamente com relação ao inciso III: “energia elétrica e energia térmica, inclusive sob a forma de vapor, consumidas nos estabelecimentos da pessoa jurídica.” • Levantou os créditos no mês de competência e utilizou parte do crédito oriundo de energia elétrica prevista no inciso III, conforme DACONs retificadoras para pagamento das contribuições vencidas no período; • “A manifestante, inclusive, providenciou a retificação da DCTF correspondente, regularizando qualquer pendência que ainda pudesse haver.” A defesa relaciona os Acórdãos nºs 1246124 de 10 de maio de 2012 da 17ª Turma e 1638673 de 11 de maio de 2012 da 3ª Turma. 17ª TURMA ACÓRDÃO N° 1246124 de 10 de Maio de 2012 ASSUNTO: Normas de Administração Tributária EMENTA: COMPENSAÇÃO. PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. Em face das evidências de erro na apuração e recolhimento do tributo, e não se verificando outros impedimentos ao reconhecimento do direito creditório alegado, cumpre admitir a compensação promovida até o limite do crédito informado na DCOMP. 3ª TURMA ACÓRDÃO N° 1638673 de 11 de Maio de 2012 ASSUNTO: Normas Gerais de Direito Tributário EMENTA: DCOMP. PAGAMENTO INDEVIDO. DESPACHO DECISÓRIO. ERRO. SALDO UTILIZÁVEL. Verificado erro no despacho decisório, o qual afirmara equivocadamente ter sido o valor pago indevidamente totalmente utilizado em momento anterior, restabelecese o direito ao crédito contra o Fisco a ser utilizado nas compensações constantes da DCOMP. Período de apuração: 01/05/2003 a 31/05/2003 • “é fato que a Declaração entregue à Receita Federal do Brasil pela Manifestante não nega seu direito à compensação e, mais, comprova a legitimidade de seu comportamento idôneo.” • Ao final requer que se julgue procedente a Manifestação de Inconformidade, para o efeito de reformar o Despacho Decisório exarado no processo e homologar integralmente a PER/DCOMP constante nos autos. Sobreveio a decisão de primeira instância, em que, por unanimidade de votos, a manifestação de inconformidade foi julgada improcedente, nos termos do Acórdão 08 033.529. O fundamento adotado foi o de que a manifestação de inconformidade havia sido apresentada após o decurso do prazo estabelecido na legislação que rege o processo administrativo fiscal, considerandose, portanto, intempestiva. Fl. 191DF CARF MF Processo nº 10283.905370/201210 Acórdão n.º 3302004.950 S3C3T2 Fl. 5 4 Cientificada, a requerente protocolou o recurso voluntário em que reafirmou as razões de defesa suscitadas na manifestação de inconformidade. Em aditamento, em sede de preliminar, a recorrente alegou que a decisão do órgão julgador de primeiro grau de não analisar o mérito em razão da apresentação intempestiva da manifestação de inconformidade não merecia prosperar, pelas seguintes razões: a) a manifestação da inconformidade fora apresentada com apenas 1 (um) dia de atraso, porque não fora possível protocolar no dia 21/1/2015, mas somente no dia seguinte, por “questões impeditivas do próprio Centro de Atendimento ao Contribuinte CAC em Manaus/AM.”; e b) não era razoável que o mérito da manifestação de inconformidade fosse vilipendiado em razão de um fato totalmente alheio à vontade do contribuinte, “sendo uma afronta, inclusive aos Princípios da Razoabilidade, Ampla Defesa e do Contraditório.”; e c) a autoridade julgadora desconsiderou os princípios basilares do processo administrativo, a saber, os Princípios da Verdade Material, da Moralidade e do Informalismo Moderado É o relatório. Voto Conselheiro Paulo Guilherme Déroulède, Relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3302004.936, de 29 de janeiro de 2018, proferido no julgamento do processo 10283.905335/201292, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3302004.936): "O recurso foi apresentado tempestivamente, trata de matéria da competência deste Colegiado e preenche os demais requisitos de admissibilidade, portanto, deve ser conhecido. O litígio cingese à preliminar de intempestividade da apresentação da manifestação de inconformidade, que foi apreciada no julgamento de primeiro grau, por força do que dispõe o art. 56, § 2º, do Decreto 7.574/2011, a seguir transcrito: Art. 56. A impugnação, formalizada por escrito, instruída com os documentos em que se fundamentar e apresentada em unidade da Secretaria da Receita Federal do Brasil com jurisdição sobre o domicílio tributário do sujeito passivo, bem como, remetida por via postal, no prazo de trinta dias, contados da data da ciência da intimação da exigência, instaura a fase litigiosa do procedimento (Decreto no70.235, de 1972, arts. 14e15). [...] Fl. 192DF CARF MF Processo nº 10283.905370/201210 Acórdão n.º 3302004.950 S3C3T2 Fl. 6 5 §2º Eventual petição, apresentada fora do prazo, não caracteriza impugnação, não instaura a fase litigiosa do procedimento, não suspende a exigibilidade do crédito tributário nem comporta julgamento de primeira instância, salvo se caracterizada ou suscitada a tempestividade, como preliminar. [...] (grifos não originais) Não há controvérsia nos autos quanto ao descumprimento do prazo de apresentação da manifestação de inconformidade. Nas próprias peças defensivas colacionadas aos autos, a recorrente, expressamente, reconhecera que a peça instauradora do litígio fora apresentada no dia seguinte ao vencimento do prazo de 30 (trinta) dias, fixado no art. 15 do Decreto 70.235/1972. Diante dessa constatação, não remanesce qualquer dúvida que, como não foi instaurado o litígio em relação ao mérito, nos termos do art. 14 do Decreto 70.235/1972, induvidosamente, este Colegiado não poderá se manifestar sobre as questões meritórias alegadas pela recorrente no recurso em apreço. Portanto, a presente análise limitarseá à preliminar de tempestividade da manifestação de inconformidade suscitada pela recorrente. E em relação a essa questão, no recurso em apreço, a recorrente alegou que a manifestação da inconformidade não fora apresentada dentro prazo legal, porque “questões impeditivas do próprio Centro de Atendimento ao Contribuinte CAC em Manaus/AM.” Acontece que a recorrente não trouxe à colação dos autos nenhum elemento probatório que confirmasse o alegado. Assim, em razão dessa omissão, por razão óbvia, não há ser acatada tal alegação. A recorrente alegou que não era razoável que o mérito da manifestação de inconformidade fosse vilipendiado em razão de um fato totalmente alheio à vontade do contribuinte, “sendo uma afronta, inclusive aos Princípios da Razoabilidade, Ampla Defesa e do Contraditório.” No âmbito do processo administrativo fiscal, por disposição expressa do caput do art. 26A do Decreto 70.235/1972, é expressamente vedado ao julgador afastar aplicação ou deixar de observar preceito legal dotado de plena vigência e eficácia, inclusive, em situações que, em tese, possa configurar conflito com os princípios constitucionais explícitos ou implícitos. Assim, ainda que se possa vislumbrar, no caso em tela, algum conflito com os princípios da razoabilidade, ampla defesa e do contraditório, há de prevalecer o disposto no art. 14, combinado com o disposto no art. 15, ambos do Decreto 70.235/1972. Portanto, não há como acatar a presente alegação suscitada pela recorrente. Com base no mesmo fundamento, também não merece acolhimento a alegação da recorrente de que a autoridade julgadora desconsiderou princípios basilares do processo administrativo, tais como os princípios da verdade material, da moralidade e do informalismo moderado. Aliás, no caso, não houve desconsideração dos referidos princípios no julgamento de primeiro grau, haja vista que as autoridades julgadoras Fl. 193DF CARF MF Processo nº 10283.905370/201210 Acórdão n.º 3302004.950 S3C3T2 Fl. 7 6 não apreciaram as questões meritórias, por estrito cumprimento do disposto nos referidos preceitos legais. Com base nessas considerações, resta demonstrado que a decisão de primeiro foi proferida com estrita observância das normas legais que regem o processo administrativo fiscal, portanto, não há qualquer reparo a ser feito. Por todo o exposto, votase por negar provimento ao recurso voluntário, para manter na íntegra a decisão recorrida. Da mesma forma que no caso do paradigma, no presente processo restou configurada a intempestividade da Manifestação de Inconformidade, não trazendo a recorrente à colação dos autos nenhum elemento probatório que infirmasse a decisão recorrida. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, o Colegiado decidiu negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Fl. 194DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11176.000114/2007-49
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Mon Feb 26 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Mar 23 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/02/1999 a 28/02/2006
PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. RECURSO ESPECIAL DE DIVERGÊNCIA. PRESSUPOSTOS DE ADMISSIBILIDADE.
Não se conhece de Recurso Especial de Divergência, quando não resta demonstrado o alegado dissídio jurisprudencial, tendo em vista a ausência de similitude fática entre os acórdãos recorrido e paradigmas.
Numero da decisão: 9202-006.504
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Especial. Votou pelas conclusões a conselheira Maria Helena Cotta Cardozo.
(assinado digitalmente)
Maria Helena Cotta Cardozo - Presidente em exercício
(assinado digitalmente)
Patrícia da Silva - Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo (Presidente em Exercício).
Nome do relator: PATRICIA DA SILVA
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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/02/1999 a 28/02/2006 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. RECURSO ESPECIAL DE DIVERGÊNCIA. PRESSUPOSTOS DE ADMISSIBILIDADE. Não se conhece de Recurso Especial de Divergência, quando não resta demonstrado o alegado dissídio jurisprudencial, tendo em vista a ausência de similitude fática entre os acórdãos recorrido e paradigmas.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Especial. Votou pelas conclusões a conselheira Maria Helena Cotta Cardozo. (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo - Presidente em exercício (assinado digitalmente) Patrícia da Silva - Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo (Presidente em Exercício).
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ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/02/1999 a 28/02/2006 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. RECURSO ESPECIAL DE DIVERGÊNCIA. PRESSUPOSTOS DE ADMISSIBILIDADE. Não se conhece de Recurso Especial de Divergência, quando não resta demonstrado o alegado dissídio jurisprudencial, tendo em vista a ausência de similitude fática entre os acórdãos recorrido e paradigmas. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Especial. Votou pelas conclusões a conselheira Maria Helena Cotta Cardozo. (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo Presidente em exercício (assinado digitalmente) Patrícia da Silva Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo (Presidente em Exercício). Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 17 6. 00 01 14 /2 00 7- 49 Fl. 2663DF CARF MF Processo nº 11176.000114/200749 Acórdão n.º 9202006.504 CSRFT2 Fl. 2.664 2 Tratase de recurso especial de divergência interposto com fundamento no artigo 67 do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 256, de 22/06/2009. Seguem trechos do acórdão recorrido: Acórdão nº 2401003.571 PREVIDÊNCIA PRIVADA NÃO EXTENSÃO A TODOS OS EMPREGADOS E DIRIGENTES IMPOSSIBILIDADE DE CUMPRIMENTO LEGAL NO CASO DE INCORPORAÇÃO QUANDO A SUCESSORA NÃO FOI A INSTITUIDORA DO PLANO Embora a lei 8.212/90, exija em seu art. 28, § 9 que a previdência privada seja disponível a totalidade de empregados e dirigentes, entendo que os argumentos do recorrente são pertinentes a que se diga que nesse ponto também o lançamento não se aperfeiçoou para que se possa afirmar que o recorrente descumpriu os preceitos legais para usufruir do benefício de exclusão da base de cálculo PREVIDÊNCIA PRIVADA. Ao manter benefício de previdência privada apenas aos trabalhadores vinculadas a empresa incorporada não podemos dizer que a empresa descumpriu preceito legal, posto que não foi ela a instituidora do plano, nem tampouco poderia suprimir o direito dos beneficiários por força da relação contratual a que está obrigada a obedecer ... ACORDAM os membros do colegiado, I) Por unanimidade de votos: a) negar provimento ao recurso de ofício; b) rejeitar a preliminar de nulidade da decisão de primeira instância; e c) reconhecer a decadência até a competência 11/2001. II) Por maioria de votos, dar provimento parcial ao recurso para excluir do lançamento o levantamento PP1, vencida a conselheira Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, que excluía o levantamento por vício formal. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Igor Araújo Soares. ... No caso em concreto, o motivo considerado à unanimidade por esta Turma que ensejou a necessidade de exclusão do lançamento do levantamento PP1 foi o fato de que a empresa autuada, por se tratar de incorporadora da empresa que instituiu o benefício, não poderia vir a ser responsabilizada por eventuais inconsistências na concessão do plano de previdência privada complementar instituída pela empresa incorporada, sem que em face desta tenha sido verificado o descumprimento da legislação. ... Fl. 2664DF CARF MF Processo nº 11176.000114/200749 Acórdão n.º 9202006.504 CSRFT2 Fl. 2.665 3 No entanto, com as devidas vênias, entendo que tal irregularidade, não pode ser considerada, apenas, como um mero vício formal. O lançamento, a meu ver, foi de encontro ao que determinado pelo art. 142 do CTN, uma vez que se trata de uma situação em que o lançamento efetuado da forma como o foi não possui qualquer condição de procedibilidade, tendo em vista que no presente caso, o lançamento em face da empresa incorporadora sequer poderia ser realizado, o que vai de encontro ao disposto no art. 142 do CTN, a seguir: ... Dessa forma, em não tendo havido a demonstração da ocorrência do fato gerador no caso em concreto e mesmo considerandose o erro na eleição do sujeito passivo, situação que não enseja a devida caracterização da relação jurídico tributária, não há que se falar na possibilidade do lançamento da própria exigência tributária em si, de modo que há de ser reconhecida a total improcedência do lançamento da verba PP1. Ante todo o exposto, voto no sentido de DAR PROVIMENTO ao recurso para determinar a exclusão do levantamento PP1, acompanhando a Em. Relatora quanto aos demais fundamentos de seu voto. Tratase, na origem, da NFLD, lavrada sob o n. 37.046.9674, em desfavor da recorrente tem por objeto as contribuições sociais destinadas ao custeio da Seguridade Social, parcela a cargo dos segurados não descontada em época própria, da empresa, destinada ao financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrentes dos riscos ambientais do trabalho, bem como a destinadas a terceiros, , levantadas sobre os valores pagos a pessoas físicas na qualidade de empregados e contribuintes individuais no período de 02/1999 a 02/2006. Inconformada, a ora Recorrida apresentou, tempestivamente, Impugnação ao Auto de Infração suscitando as razões de fato e de direito que ensejam o cancelamento do lançamento, acompanhado dos respectivos documentos comprobatórios, a fim de demonstrar, em síntese: (i) a extinção de parte do lançamento por força da decadência, (ii) a não incidência das contribuições previdenciárias sobre a previdência complementar oferecida a parte dos funcionários, por força da ressalva prevista no art.28, §9º, alínea ‘p’ da Lei 8.212/91, (iii) a inconsistência e contradição do cálculo efetuado pela Fiscalização, que, para apurar o montante supostamente devido, considerou todos os funcionários da Recorrente como beneficiários dos planos de previdência privada, (iv) a existência de acordos de PLR homologados pelo Sindicato da categoria de acordo com a legislação previdenciária e, por fim, (v) o pagamento da contribuição incidente sobre os valores pagos aos seus diretores estatutários. Antes que o mérito da referida defesa fosse devidamente apreciado pela Delegacia Regional da Receita Federal do Brasil, o julgamento foi convertido em diligência, a fim de que o Fiscal que lavrou o referido Auto prestasse esclarecimentos acerca da base de cálculo utilizada para aferição do montante da contribuição previdenciária incidente sobre os planos de previdência complementar, especificando o número de funcionários considerados em sua apuração. Fl. 2665DF CARF MF Processo nº 11176.000114/200749 Acórdão n.º 9202006.504 CSRFT2 Fl. 2.666 4 Não obstante a manifestação fiscal tenha sido genérica e imprecisa, os autos foram encaminhados para julgamento, ocasião em que a defesa apresentada foi julgada parcialmente procedente para reconhecer apenas a ocorrência da decadência dos lançamentos relativos aos períodos de 02/1999 a 11/2000, mantendose inalterados os demais lançamentos impugnados. Irresignada, a Recorrida interpôs Recurso Voluntário requerendo, preliminarmente, a aplicação o artigo 150, §4º do CTN para contagem do prazo decadencial e a declaração de nulidade da r. decisão reconhecida em virtude do cerceamento de defesa causado pelo indeferimento da perícia. No mérito, reiterouse as razões que confirmam a não incidência das contribuições previdenciárias sobre os valores apurados a título de previdência privada complementar, PLR e bonificação Ao apreciar o referido Recurso Voluntário e também o Recurso de Ofício, a 1ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da 2ª Seção houve por bem darlhe provimento parcial apenas para excluir do lançamento, pela fluência do prazo decadencial, as competências de 02/1999 até 11/2001 e excluir do o levantamento denominado “PP1”, por nulidade, conforme a ementa supra. Já no que tange a parcela relativa à previdência privada concedida a apenas parte de seus funcionários, a União Federal interpôs o presente Recurso Especial objetivando a reforma parcial da decisão, para que seja reconhecida a ausência de nulidade da parcela autuada a título de previdência privada complementar concedida a apenas parte de seus funcionários, ou, alternativamente, que tal nulidade seja reconhecida por vício formal, a fim de permitir o reinício do prazo para lançamento, nos termos do art. 173, II do CTN. Do despacho de admissibilidade realizado pela Ilustre Conselheira Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, destaco: Em uma melhor reflexão sobre o acórdão recorrido, ainda apenas quanto à existência de vício de nulidade ou não, constato que a conclusão no voto condutor não corresponde com os fundamentos, o que acabou provocando divergências. Senão vejamos. Houve uma interpretação do artigo 28, §9º alínea “p” da Lei 8.212/1991 no sentido de que a expressão “disponível à totalidade de seus empregados e dirigentes” deve levar em consideração os motivos porque nem todos os segurados tiveram acesso ao benefício. Como os beneficiários assim o foram em razão do contrato de trabalho anterior com a empresa incorporada não se estaria infringido o dispositivo legal. Não cabe, nessa instância, modificarse o entendimento do acórdão, mas é importante se pronunciar que tal fundamento está relacionado ao mérito e não à motivação do lançamento. Caso a turma julgadora, de fato, entende que não haveria incidência da contribuição previdenciária nessas condições então seria o caso de provimento ao recurso. Quando se concluiu pela nulidade, com efeito, faltou a comprovação de um prejuízo à defesa. Na verdade, não se trata de vício, mas da tese pela não incidência. Para o entendimento adotado pela fiscalização, o relatório está completo, com a descrição detalhada e minuciosa dos fundamentos. Fl. 2666DF CARF MF Processo nº 11176.000114/200749 Acórdão n.º 9202006.504 CSRFT2 Fl. 2.667 5 Assim, entendo que os acórdãos indicados se prestam como paradigma. E consequentemente também houve comprovação quanto à natureza do vício, pois se, de fato, sequer existe vício, seria incoerente compreendêlo como material. Em sede de contrarrazões a Recorrida requerse o não conhecimento do Recurso Especial da Fazenda Nacional pela ausência de ocorrência do fato gerador pelo sujeito passivo autuado, ou, quando menos, seu desprovimento, mantendose o acórdão inalterado no que tange à nulidade por vício material que macula o lançamento fiscal relativo a exigência de contribuições previdenciárias sobre a previdência privada complementar (PP1). O contribuinte não teve conhecido seu Recurso Especial em que suscitava as seguintes matérias: a) Nulidade da decisão indeferimento de perícia e b) Salário Indireto PLR empregados. É o relatório. Voto Conselheira Patrícia da Silva Relatora A matéria em litígio está adstrita ao Recurso Especial da Fazenda Nacional e às seguintes matérias: a) Ausência de vício de nulidade quando não comprovado prejuízo à defesa; b) Natureza do vício: se formal ou material. Admissibilidade Importa notar que, não há referência no voto vencedor a qualquer nulidade, de ordem formal ou material. Entretanto, no Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional, que ora está a ser analisado, alçouse como paradigmas acórdãos que tratam apenas e tãosomente da descaracterização da nulidade por cerceamento ao direito de defesa, quando suficientemente descritos os fatos e motivos no auto de infração. Como o acórdão recorrido não declarou qualquer nulidade, mas reconheceu a improcedência do lançamento no que tange aos valores pagos a título de previdência privada, entendo que não restou caracterizada a divergência. Ausência de similitude fática: Conforme destacado do despacho de admissibilidade, Em uma melhor reflexão sobre o acórdão recorrido, ainda apenas quanto à existência de vício de nulidade ou não, constato que a conclusão no voto condutor não corresponde com os fundamentos, o que acabou provocando divergências. Senão vejamos. Houve uma interpretação do artigo 28, §9º alínea “p” da Lei 8.212/1991 no sentido de que a expressão “disponível à Fl. 2667DF CARF MF Processo nº 11176.000114/200749 Acórdão n.º 9202006.504 CSRFT2 Fl. 2.668 6 totalidade de seus empregados e dirigentes” deve levar em consideração os motivos porque nem todos os segurados tiveram acesso ao benefício. Como os beneficiários assim o foram em razão do contrato de trabalho anterior com a empresa incorporada não se estaria infringido o dispositivo legal. Não cabe, nessa instância, modificarse o entendimento do acórdão, mas é importante se pronunciar que tal fundamento está relacionado ao mérito e não à motivação do lançamento. Caso a turma julgadora, de fato, entende que não haveria incidência da contribuição previdenciária nessas condições então seria o caso de provimento ao recurso. O d. acórdão recorrido, com fundamento no art. 142 do Código Tributário Nacional, afastou a exigência das contribuições previdenciárias sobre os valores pagos a título de previdência privada concedida aos empregados da empresa GLOBAL TELECOM, incorporada pela VIVO S/A. Entendeuse que, em verdade, a Recorrida não instituiu o benefício, mas manteve direito adquirido pelos empregados da empresa incorporada, em razão de disposições da legislação trabalhista que impedem a supressão de benefícios, em respeito ao contrato de trabalho (artigos 10 , 448 e 448A da CLT). Assim, prevaleceu o entendimento de que os fatos postos nos autos não atraem a incidência da ressalva estabelecida na alínea “p” do §9º do artigo 28 da Lei 8.212/91, que exige, para não incidência da contribuição previdenciária sobre os valores pagos a título de previdência complementar, que o benefício seja disponibilizado a todos os empregados. Considerouse que, o benefício foi disponibilizado a todos os empregados da GLOBAL TELECOM, empresa incorporada pela Recorrida. E que, por força do disposto no art. 448 da CLT, a incorporadora não poderia deixar de conceder o referido benefício, daí porque não há falarse em benefício instituído pela incorporadora e não estendido aos demais empregados, visto que o benefício não só não foi instituído por ela, como também, por força de comando legal, não poderia ela deixar de conceder referido benefício àqueles empregados. Entretanto, o voto vencedor e que prevaleceu para o julgamento, não declarou nulidade, mas apenas excluiu a exigência de contribuição previdência sobre a parcela, por ausência de subsunção dos fatos à norma. A ementa do julgado confirma essa assertiva, como também o voto vencedor e a deliberação do colegiado. Confirase trecho da ementa e a deliberação do colegiado: “(...) PREVIDÊNCIA PRIVADA – NÃO EXTENSÃO A TODOS OS EMPREGADOS E DIRIGENTES – IMPOSSIBILIDADE DE CUMPRIMENTO LEGAL NO CASO DE INCORPORAÇÃO QUANDO A SUCESSORA NÃO FOI A INSTITUIDORA DO PLANO. Embora a Lei 8.212/90, exija em seu art. 28, §9º que a previdência privada seja disponível a totalidade de empregados e dirigentes, entendo que os argumentos do recorrente são pertinentes a que se diga que nesse ponto também o lançamento não se aperfeiçoou para que se possa afirmar que o recorrente descumpriu os preceitos legais para usufruir do benefício de exclusão da base de cálculo PREVIDÊNCIA PRIVADA. Ao manter benefício de previdência privada apenas aos trabalhadores vinculados a empresa incorporada não podemos dizer que a empresa descumpriu preceito legal, posto que não foi ela a instituidora do plano, nem tampouco poderia suprimir o Fl. 2668DF CARF MF Processo nº 11176.000114/200749 Acórdão n.º 9202006.504 CSRFT2 Fl. 2.669 7 direito dos beneficiários por força da relação contratual a que está obrigada a obedecer. (....)”. “ACORDAM os membros do Colegiado. I) Por unanimidade de votos: a) negar provimento ao recurso de ofício; b) rejeitar a preliminar de nulidade da decisão de primeira instância; e c) reconhecer a decadência até a competência 11/2001. II) Por maioria de votos, dar provimento parcial ao recurso para excluir do lançamento o levantamento PP1, vencida a Conselheira Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, que excluía o levantamento por vício formal. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Igor Araújo Soares”. Em seu Recurso Especial, a Fazenda Nacional apresenta dois paradigmas que tratam da impossibilidade do reconhecimento de nulidade do lançamento quando não caracterizado o cerceamento ao direito de defesa, eis que suficiente a descrição dos fatos e motivação posta no auto de infração. As situações postas nos paradigmas colacionados no referido apelo especial – acórdãos 10808.499 e 20401.947 – são absolutamente diversa da verificada no acórdão recorrido. De fato, no acórdão recorrido não foi reconhecida nulidade, como já anotado, mas a simples ausência de subsunção dos fatos à norma. Daí porque os paradigmas não se prestam ao confronto jurisprudencial. A ausência de similitude fática no caso é patente, pois em momento algum ao longo de todo o seu recurso a Fazenda Nacional enfrenta os argumentos mencionados no acórdão recorrido, muito pelo contrário, pela leitura do aludido recurso sequer é possível compreender a natureza da matéria discutida nos autos e o fundamento da decisão que é a manutenção de contratos de trabalho em virtude de incorporação. Não fosse suficiente, o manual de admissibilidade do recurso especial exige que haja demonstração da legislação tributária que está sendo interpretada de modo divergente, de forma que os paradigmas, que não tratam da interpretação do art. 28, §9º, alínea “p” da Lei nº 8.212/91, não são hábeis a demonstrar o dissenso interpretativo. Outrossim, toda a fundamentação do recurso especial vertese apenas e tão somente para afastar pretensa nulidade, que, como já apontado, não foi acolhida pelo acórdão recorrido, nos termos do voto vencedor. Com efeito, houve a exclusão da exigência tributária por simples ausência de subsunção dos fatos à norma, não prevalecendo o voto vencido, da Conselheira Elaine Cristina, única Conselheira que entendeu pela existência de nulidade por vício formal. O que, portanto não dá ensejo ao Especial nem quanto a nulidade, nem quanto à natureza de vício inexistente. Diante do exposto, não conheço do Recurso Especial da Fazenda Nacional. É como voto. (assinado digitalmente) Patrícia da Silva Fl. 2669DF CARF MF Processo nº 11176.000114/200749 Acórdão n.º 9202006.504 CSRFT2 Fl. 2.670 8 Fl. 2670DF CARF MF
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Numero do processo: 13005.721718/2014-49
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Mar 06 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Apr 24 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2009, 2010
RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. MATÉRIA PREJUDICADA NO JULGAMENTO DOS RECURSOS VOLUNTÁRIOS. RESTABELECIMENTO DA MULTA QUALIFICADA. CESSAÇÃO DA QUESTÃO PREJUDICIAL. NECESSIDADE DE JULGAMENTO DO MÉRITO.
Uma vez restabelecida a aplicação da multa de ofício qualificada, deixa de existir questão implicitamente considerada como prejudicial pela Turma a quo por ocasião do julgamento dos recursos voluntários dos sujeitos passivos.
Naquela ocasião, a responsabilidade solidária foi afastada em decorrência da desqualificação da multa de ofício. Tendo sido restabelecida, em sede de julgamento de recurso especial, a multa de ofício ao seu percentual qualificado de 150%, faz-se necessário o retorno dos autos à Turma a quo para julgamento quanto ao cabimento da responsabilidade tributária solidária imputada aos ex-diretores da contribuinte.
Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2009, 2010
ÁGIO INTERNO. AMORTIZAÇÃO. INDEDUTIBILIDADE.
A hipótese de incidência tributária da possibilidade de dedução das despesas de amortização do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, requer a participação de uma pessoa jurídica investidora originária, que efetivamente tenha acreditado na "mais valia" do investimento e feito sacrifícios patrimoniais para sua aquisição.
Inexistentes tais sacrifícios, notadamente em razão do fato de alienante e adquirente integrarem o mesmo grupo econômico e estarem submetidos a controle comum, evidencia-se a artificialidade da reorganização societária que, carecendo de propósito negocial e substrato econômico, não tem o condão de autorizar o aproveitamento tributário do ágio que pretendeu criar.
MULTA QUALIFICADA. CABIMENTO.
A constatação de evidente intuito de fraudar o Fisco, pela intencional prática de atos simulados, enseja a qualificação da multa de ofício.
Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
Ano-calendário: 2009, 2010
TRIBUTAÇÃO REFLEXA.
Sendo a tributação decorrente dos mesmos fatos e inexistindo razão que demande tratamento diferenciado, aplica-se à CSLL o quanto decidido em relação ao IRPJ.
Numero da decisão: 9101-003.442
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, por maioria de votos, em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. Votaram pelas conclusões os conselheiros Cristiane Silva Costa e José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado). Acordam, ainda, (i) por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, por voto de qualidade, em dar-lhe provimento em relação à multa qualificada, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, José Eduardo Dornelas Souza e Gerson Macedo Guerra, que lhe negaram provimento; e (ii) por maioria de votos, em devolver os autos ao colegiado de origem para prolação de nova decisão quanto à atribuição de responsabilidade solidária aos ex-diretores da contribuinte e da MERIDIONAL, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa e Gerson Macedo Guerra, que entenderam não ser necessária sua devolução para novo julgamento. Declarou-se impedida de participar do julgamento a conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio, substituída pelo conselheiro José Eduardo Dornelas Souza..
(assinado digitalmente)
Adriana Gomes Rego - Presidente
(assinado digitalmente)
Rafael Vidal de Araújo - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luis Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado), Gerson Macedo Guerra, Adriana Gomes Rêgo (Presidente).
Nome do relator: RAFAEL VIDAL DE ARAUJO
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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2009, 2010 RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. MATÉRIA PREJUDICADA NO JULGAMENTO DOS RECURSOS VOLUNTÁRIOS. RESTABELECIMENTO DA MULTA QUALIFICADA. CESSAÇÃO DA QUESTÃO PREJUDICIAL. NECESSIDADE DE JULGAMENTO DO MÉRITO. Uma vez restabelecida a aplicação da multa de ofício qualificada, deixa de existir questão implicitamente considerada como prejudicial pela Turma a quo por ocasião do julgamento dos recursos voluntários dos sujeitos passivos. Naquela ocasião, a responsabilidade solidária foi afastada em decorrência da desqualificação da multa de ofício. Tendo sido restabelecida, em sede de julgamento de recurso especial, a multa de ofício ao seu percentual qualificado de 150%, faz-se necessário o retorno dos autos à Turma a quo para julgamento quanto ao cabimento da responsabilidade tributária solidária imputada aos ex-diretores da contribuinte. Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2009, 2010 ÁGIO INTERNO. AMORTIZAÇÃO. INDEDUTIBILIDADE. A hipótese de incidência tributária da possibilidade de dedução das despesas de amortização do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, requer a participação de uma pessoa jurídica investidora originária, que efetivamente tenha acreditado na "mais valia" do investimento e feito sacrifícios patrimoniais para sua aquisição. Inexistentes tais sacrifícios, notadamente em razão do fato de alienante e adquirente integrarem o mesmo grupo econômico e estarem submetidos a controle comum, evidencia-se a artificialidade da reorganização societária que, carecendo de propósito negocial e substrato econômico, não tem o condão de autorizar o aproveitamento tributário do ágio que pretendeu criar. MULTA QUALIFICADA. CABIMENTO. A constatação de evidente intuito de fraudar o Fisco, pela intencional prática de atos simulados, enseja a qualificação da multa de ofício. Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL Ano-calendário: 2009, 2010 TRIBUTAÇÃO REFLEXA. Sendo a tributação decorrente dos mesmos fatos e inexistindo razão que demande tratamento diferenciado, aplica-se à CSLL o quanto decidido em relação ao IRPJ.
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 48; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 2108; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => CSRFT1 Fl. 2 1 1 CSRFT1 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS CÂMARA SUPERIOR DE RECURSOS FISCAIS Processo nº 13005.721718/201449 Recurso nº Especial do Procurador e do Contribuinte Acórdão nº 9101003.442 – 1ª Turma Sessão de 6 de março de 2018 Matéria Dedutibilidade de despesas de amortização de ágio gerado internamente. Recorrentes FAZENDA NACIONAL ALLIANCE ONE BRASIL EXPORTADORA DE TABACOS LTDA ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2009, 2010 RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. MATÉRIA PREJUDICADA NO JULGAMENTO DOS RECURSOS VOLUNTÁRIOS. RESTABELECIMENTO DA MULTA QUALIFICADA. CESSAÇÃO DA QUESTÃO PREJUDICIAL. NECESSIDADE DE JULGAMENTO DO MÉRITO. Uma vez restabelecida a aplicação da multa de ofício qualificada, deixa de existir questão implicitamente considerada como prejudicial pela Turma a quo por ocasião do julgamento dos recursos voluntários dos sujeitos passivos. Naquela ocasião, a responsabilidade solidária foi afastada em decorrência da desqualificação da multa de ofício. Tendo sido restabelecida, em sede de julgamento de recurso especial, a multa de ofício ao seu percentual qualificado de 150%, fazse necessário o retorno dos autos à Turma a quo para julgamento quanto ao cabimento da responsabilidade tributária solidária imputada aos exdiretores da contribuinte. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2009, 2010 ÁGIO INTERNO. AMORTIZAÇÃO. INDEDUTIBILIDADE. A hipótese de incidência tributária da possibilidade de dedução das despesas de amortização do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, requer a participação de uma pessoa jurídica investidora originária, que efetivamente tenha acreditado na "mais valia" do investimento e feito sacrifícios patrimoniais para sua aquisição. Inexistentes tais sacrifícios, notadamente em razão do fato de alienante e adquirente integrarem o mesmo grupo econômico e estarem submetidos a controle comum, evidenciase a artificialidade da reorganização societária AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 00 5. 72 17 18 /2 01 4- 49 Fl. 3238DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 3 2 que, carecendo de propósito negocial e substrato econômico, não tem o condão de autorizar o aproveitamento tributário do ágio que pretendeu criar. MULTA QUALIFICADA. CABIMENTO. A constatação de evidente intuito de fraudar o Fisco, pela intencional prática de atos simulados, enseja a qualificação da multa de ofício. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2009, 2010 TRIBUTAÇÃO REFLEXA. Sendo a tributação decorrente dos mesmos fatos e inexistindo razão que demande tratamento diferenciado, aplicase à CSLL o quanto decidido em relação ao IRPJ. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, por maioria de votos, em negarlhe provimento, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. Votaram pelas conclusões os conselheiros Cristiane Silva Costa e José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado). Acordam, ainda, (i) por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, por voto de qualidade, em darlhe provimento em relação à multa qualificada, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, José Eduardo Dornelas Souza e Gerson Macedo Guerra, que lhe negaram provimento; e (ii) por maioria de votos, em devolver os autos ao colegiado de origem para prolação de nova decisão quanto à atribuição de responsabilidade solidária aos ex diretores da contribuinte e da MERIDIONAL, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa e Gerson Macedo Guerra, que entenderam não ser necessária sua devolução para novo julgamento. Declarouse impedida de participar do julgamento a conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio, substituída pelo conselheiro José Eduardo Dornelas Souza.. (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rego Presidente (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araújo Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luis Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado), Gerson Macedo Guerra, Adriana Gomes Rêgo (Presidente). Fl. 3239DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 4 3 Relatório Tratase de recursos especiais interpostos pela ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (PGFN) e pela contribuinte ALLIANCE ONE BRASIL EXPORTADORA DE TABACOS LTDA., com fundamento nos arts. 67 e seguintes do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09/06/2015 (RICARF/2015). Os recorrentes questionam as partes que lhes foram desfavoráveis no Acórdão nº 1402002.148, por meio do qual os membros da 2a Turma Ordinária da 4a Câmara da 1a Seção de Julgamento do CARF decidiram, por maioria de votos, dar provimento parcial ao recurso voluntário interposto pela contribuinte para reduzir a multa de ofício ao percentual de 75% e dar provimento aos recursos voluntários das pessoas físicas apontadas pela Fiscalização como responsáveis solidários para excluílos da relação jurídicotributária. No que tange ao ponto central do mérito, a decisão recorrida manteve os autos de infração lavrados pela Fiscalização. As autuações se fundamentaram no entendimento de que a contribuinte excluiu indevidamente, nos anoscalendário 2009 a 2010, na apuração das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL, despesas relativas à amortização fiscal de ágio contabilizado em operações societárias que envolveram ato simulado de compra e venda de participação societária entre empresas do mesmo grupo econômico, sem a efetivação de alteração no controle das sociedades envolvidas. As despesas foram consideradas indedutíveis, uma vez que o ágio teria sido gerado de forma artificial, sem propósito negocial ou substrato econômico. Tais operações envolveram a contribuinte ALLIANCE ONE BRASIL EXPORTADORA DE TABACOS LTDA. (que à época tinha a denominação de DIMON DO BRASIL TABACOS LTDA.) e várias empresas a ela relacionadas. Até maio de 2005, a contribuinte era subsidiária no Brasil do grupo multinacional DIMON INCORPORATED, sendo controlada diretamente pela holding internacional INTABEX NETHERLANDS B.V. (doravante denominada apenas de INTABEX). Já a MERIDIONAL DE TABACOS LTDA. (mencionada de agora em diante como MERIDIONAL), até então concorrente da contribuinte, era a subsidiária brasileira do grupo internacional STANDARD COMMERCIAL CORPORATION, tendo como controladoras diretas as holdings estrangeiras TRANSCONTINENTAL LEAF TOBACCO CORPORATION LIMITED e STANDARD COMMERCIAL TOBACCO CO. INC.. Em 13/05/2005, os dois grupos multinacionais citados resolvem se unir por meio da incorporação da STANDARD COMMERCIAL CORPORATION pela DIMON INCORPORATED. A empresa resultante recebe a denominação de ALLIANCE ONE INTERNATIONAL INC.. Em 30/08/2005, a INTABEX, única sócia da ALLIANCE ONE BRASIL, cede, a título oneroso, a totalidade das quotas da contribuinte à MERIDIONAL, por seu valor de mercado estimado em R$ 507.000.000,00 (valor baseado na expectativa de rentabilidade futura das quotas reavaliadas, de acordo com laudo elaborado por empresa especializada). Como o valor patrimonial das quotas cedidas era de R$ 268.324.917,57, a MERIDIONAL registrou ágio equivalente à diferença entre este valor e o "custo de aquisição" da participação Fl. 3240DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 5 4 societária alienada (R$ 238.675.082,43). Para "pagar" sua dívida com a INTABEX, a MERIDIONAL emitiu novas quotas de capital no valor de R$ 507.000.000,00, que foram subscritas por sua credora mediante a capitalização das "contas a pagar" registradas em seu favor. Um mês depois, em 30/09/2005, a contribuinte incorpora sua então controladora integral MERIDIONAL pelo valor de seu patrimônio líquido, trazendo para a sua contabilidade o ágio que passou então a ser aproveitado para a redução do IRPJ e da CSLL devidos, sob o argumento de que sua situação enquadrarseia na regra insculpida no art. 386 do Regulamento do Imposto de Renda Decreto nº 3.000/1999 (RIR/1999), que reproduz os comandos legais dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997. Por entender que tal dedução não tinha base legal, a Fiscalização lavrou autos de infração relativos ao IRPJ e à CSLL referentes ao período pelo qual durou a dedução entendida como indevida. As deduções indevidas realizadas durante os anoscalendário de 2005 a 2007 foram objeto de lançamento tributário realizado nos autos do processo administrativo tributário nº 13005.001065/200911. Já as glosas das deduções indevidas verificadas no anocalendário 2008 foram tratadas no processo administrativo nº 13005.722696/201353. Por fim, as exclusões indevidamente realizadas em 2009 e 2010 (últimos períodos do prazo de 60 meses durante o qual a contribuinte se julgou amparada para realizar as deduções) foram objeto de tratamento pela Fiscalização nos presentes autos. No total, foram indevidamente excluídos da parte B do LALUR, a título de amortização do ágio criado internamente, R$ 47.735.016,48 no anocalendário 2009 e R$ 35.801.262,39 no anocalendário 2010. Juntamente com as glosas das despesas indevidamente deduzidas, a Fiscalização aplicou à contribuinte a multa de ofício em sua modalidade qualificada, no percentual de 150%, por considerar que sua atuação se dera de forma dolosa e simulada. Além disso, imputouse às pessoas físicas HILTON KAPPAUN (sócio administrador e diretor da contribuinte à época da reorganização societária), HENRIQUE CAMPESTRINI (sócioadministrador e diretor financeiro da contribuinte à época da reorganização societária) e ALEXANDRE STROSCHOEN (diretor financeiro da MERIDIONAL à época da reorganização societária) responsabilidade solidária pelos créditos tributários lançados, nos termos do art. 135, III, do CTN, uma vez que detinham o poder de administração das entidades no momento da realização das operações simuladas que fizeram surgir o ágio interno. A autuação fora integralmente mantida em sede de julgamento administrativo de primeira instância, inclusive no que diz respeito à responsabilidade solidária imposta aos ex administradores da contribuinte e da MERIDIONAL. Posteriormente, a 2a Turma Ordinária da 4a Câmara, em julgamento que culminou na prolação do acórdão contra o qual ora se insurgem tanto a contribuinte quanto a PGFN, decidiu manter os créditos tributários relacionados às glosas das despesas e afastar tanto a aplicação da multa de ofício qualificada quanto a imputação de responsabilidade solidária às pessoas físicas retromencionadas. O acórdão recorrido foi assim ementado: Fl. 3241DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 6 5 Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Anocalendário: 2009, 2010 OPERAÇÕES DE REORGANIZAÇÃO SOCIETÁRIA. SIMULAÇÃO As operações de reorganização societária, para serem legítimas, devem possuir propósito negocial real, inalterável ao arbítrio de quem as pratica, decorrer de atos efetivamente existentes e não serem artificiais e apenas formalmente registrados nos contratos sociais e na escrituração contábil. ÁGIO. SIMULAÇÃO. DEDUTIBILIDADE. Constatada a simulação na criação de ágio, é cabível a glosa da dedução da base de cálculo do IRPJ. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Anocalendário: 2009, 2010 LANÇAMENTO REFLEXO. CSLL. A decisão relativa ao auto de infração do IRPJ deve ser igualmente aplicada no julgamento do auto de infração da CSLL, uma vez que am os lançamentos, do IRPJ e da CSLL, estão apoiados nos mês elementos de convicção. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Anocalendário: 2009, 2010 MULTA DE OFÍCIO. AUSÊNCIA DE DOLO. IMPOSSIBILIDADE. Constatado que o procedimento adotado pelo contribuinte não denota dolo não se pode falar em dolo, e, consequentemente, em fraude, sonegação ou conluio (arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/64), elementos necessários à qualificação da multa de ofício, conforme determina o parágrafo 1º do art. 44 da Lei nº 9.430/96. SUJEIÇÃO PASSIVA. AUSÊNCIA DE DOLO. RESPONSABILIDADE ATRIBUÍDA A ADMINISTRADOR DA PESSOA JURÍDICA. ART. 135, III, DO CTN. IMPOSSIBILIDADE. A exoneração da penalidade qualificada afasta conduta dolosa que denote sonegação, fraude ou conluio, impossibilitando a responsabilização dos administradores da pessoa jurídica com base no art. 135, III, do CTN. Após a formalização do acórdão, os autos foram encaminhados de forma eletrônica à PGFN em 10/05/2016, para fins de ciência do teor da decisão. A intimação pessoal do Procurador se daria, portanto, em 09/06/2016, nos termos do §3º do art. 7º da Portaria MF nº 527/2010. Antes disso, em 08/06/2016, a PGFN interpôs recurso especial insurgindose contra o Acórdão nº 1402002.148, sob a alegação de que a decisão teria dado à legislação tributária que trata da qualificação da multa de ofício interpretação diversa da que tem sido adotada em outros processos julgados no âmbito do CARF. Fl. 3242DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 7 6 Em atendimento aos requisitos de admissibilidade do recurso especial previstos nos arts. 67 e seguintes do Anexo II do RICARF/2015, a recorrente apontou acórdãos de turmas da Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF) que teriam dado ao tema debatido interpretação diversa daquela esposada pela decisão recorrida. A Fazenda Nacional inicia seu recurso especial argumentando que o acórdão recorrido teria determinado o afastamento da responsabilidade solidária dos exadministradores da contribuinte e da MERIDIONAL em mera decorrência da desqualificação da multa de ofício. O voto vencedor da decisão recorrida, entendendo inexistentes a simulação ou o dolo que permitiriam a aplicação da multa no percentual de 150%, teria concluído em seguida pelo descabimento da imputação de responsabilidade solidária às pessoas físicas indicadas pela Fiscalização. Assim, defende a PGFN que eventual reforma do acórdão recorrido no que toca à matéria "qualificação da multa de ofício" logicamente implicaria em sua revisão também no que diz respeito à "responsabilidade solidária dos exadministradores". Tratando especificamente da multa de ofício qualificada, a recorrente relata que o acórdão recorrido teria concluído pelo seu descabimento, uma vez que os negócios jurídicos promovidos pela contribuinte e pelas demais empresas de seu grupo econômico, embora fossem efetivamente ineficazes quanto aos efeitos tributários pretendidos, não teriam sido dolosos ou caracterizado simulação. O grupo econômico teria apenas tentado adotar no Brasil as diretrizes estabelecidas na integração mundial das empresas dos grupos DIMON INCORPORATED e STANDARD COMMERCIAL CORPORATION, em relação à consideração dos valores de mercado das empresas integradas. Afirma a PGFN que, ao adotar tal entendimento, a decisão recorrida teria entrado em conflito com os Acórdãos nº 9101002.300 e nº 9101002.301, ambos proferidos pela 1ª Turma da CSRF. O primeiro acórdão indicado como paradigma, analisando situação fática similar à relatada no acórdão recorrido, teria concluído que a intencional prática de atos simulados visando à criação artificial de ágio interno caracteriza ação dolosa tendente a impedir a ocorrência de fato gerador de obrigação tributária principal ou a modificar suas características de modo a reduzir o montante devido. Assim, restaria plenamente justificada a aplicação da multa de ofício qualificada. Já a segunda decisão paradigma teria exposto o entendimento de que situações como a examinada no presente processo, em que ágio é criado de forma simulada em operações não reais, apenas com o intuito ficto de antecipar os efeitos de sua dedutibilidade, configuram o dolo necessário à qualificação da multa com base no art. 44, § 1º, da Lei nº 9.430/1996. Concluiu a decisão que o plus na conduta praticada pela contribuinte teria ultrapassado o tipo objetivo da norma tributária, restando demonstrada a presença dos elementos volitivo e cognitivo necessários à caracterização do dolo. Após defender a existência de divergência jurisprudencial entre os acórdãos recorrido e paradigmas, a PGFN apresenta também uma série de alegações que deveriam, sob seu ponto de vista, provocar a reforma da decisão recorrida, na parte atinente ao cabimento da multa de ofício qualificada (e, como consequência, também no que diz respeito à imposição da responsabilidade solidária aos exadministradores da contribuinte e da MERIDIONAL). Em suma, argumentase que: Fl. 3243DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 8 7 O acórdão recorrido desqualificou a multa de ofício em contrariedade ao art. 44, I, c/c § 1º, da Lei nº 9.430/1996, conforme redação conferida pela Lei nº 11.488/2007; No caso concreto, a autoridade fiscal logrou demonstrar cabalmente o nítido intuito de fraude das operações manobradas pela contribuinte com simulação para criação de ágio interno sem propósito negocial. Assim, mostrase clara a intenção de fraude mediante a utilização de sociedade como mero instrumento de antecipação dos efeitos fiscais do ágio gerado artificialmente; A contribuinte não conseguiu apontar um motivo negocial que justificasse o simulacro orquestrado. Por meio de sua ação firme, abusiva e sistemática, em burla ao cumprimento da obrigação fiscal, demonstrou conduta consciente em busca de enriquecimento sem causa por meio da amortização do ágio; A contribuinte praticou atividade fraudulenta comprovada por meio da realização de operações artificiais, sem propósito negocial e valendose de empresaveículo, com o exclusivo escopo de antecipar os efeitos fiscais da amortização do ágio, motivo pelo qual foi devidamente aplicada pela Fiscalização a multa de 150%; Como resultado da conduta dolosa da contribuinte, houve diminuição do efetivo valor da obrigação tributária, com o consequente pagamento a menor do tributo devido, em evidente prejuízo ao erário; A conduta foi sempre produto da vontade da contribuinte, livre e consciente, realizada de forma deliberada, objetivando modificar a característica essencial do fato gerador da obrigação tributária principal. O intuito de fraude da contribuinte mostrase evidente quando se vê que ela participou ativamente das operações artificiais; A conduta da contribuinte demonstrou desprezo ao cumprimento da obrigação fiscal, ao princípio da solidariedade de matriz constitucional e ao dever legal de participação, indicando a intensidade do dolo; Deve ser, portanto, mantida a qualificação da multa, posto que amparada nos comandos legais aplicáveis e justificada pelo contexto probante que instrui os autos; Com a reforma da decisão recorrida em relação à qualificação da multa de ofício, ficaria recomposto o quadro determinado pelo acórdão de primeira instância administrativa, que mantivera a imputação de responsabilidade dos sócios em virtude da verificação de simulação, nos termos do art. 135, III, do CTN. A PGFN encerra seu recurso especial pedindo que ele seja conhecido e provido a fim de reformar o acórdão recorrido para que seja restabelecida a multa qualificada, bem como a responsabilização dos sócios. Alternativamente, requer o provimento do recurso para o restabelecimento da multa qualificada e o retorno dos autos à instância a quo para que seja reavaliada a questão relativa à responsabilização dos sócios, agora com base na presunção de que houve, no caso concreto, simulação. A irresignação da Fazenda Nacional foi submetida a juízo de admissibilidade, a fim de se verificar o atendimento dos requisitos regimentalmente exigidos dos recursos especiais. As conclusões foram expostas em despacho de 28/06/2016, que entendeu ter sido devidamente comprovada pela recorrente a ocorrência de dissenso jurisprudencial entre os Fl. 3244DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 9 8 Acórdãos nº 1402002.148 (recorrido) e nº 9101002.300 e nº 9101002.301 (paradigmas) no que se relaciona à questão da qualificação da multa de ofício. Assim, deuse seguimento ao recurso especial interposto pela PGFN. Em 06/07/2016, a contribuinte foi intimada para tomar ciência do Acórdão nº 1402002.148, do recurso especial apresentado pela PGFN e do despacho que o admitiu, por meio de mensagem eletrônica enviada à sua Caixa Postal (Domicílio Tributário Eletrônico). Em resposta, e em consonância com as disposições infralegais, a contribuinte protocolou eletronicamente, em 19/07/2016, de forma tempestiva, dois documentos: i) contrarrazões aos argumentos constantes do recurso especial da PGFN e; ii) seu próprio recurso especial, em que questiona a parte do Acórdão nº 1402002.148 que lhe foi desfavorável. Nas contrarrazões opostas ao recurso especial da Fazenda Nacional, a contribuinte perfilou alegações que podem ser assim resumidas: A PGFN tentou, em seu recurso especial, tratar as matérias "qualificação da multa de ofício" e "responsabilização dos diretores" de forma conjunta, pleiteando a reforma da decisão por ela recorrida nestes dois tópicos como se fossem decorrentes e inseparáveis. Tal pretensão é descabida, uma vez que, embora haja alguma conexão entre os assuntos, tratase de matérias autônomas, com fundamentos legais absolutamente distintos e fundamentos de decidir diferentes; Como a Fazenda Nacional somente demonstrou a suposta divergência jurisprudencial em relação à qualificação da multa de ofício, seu recurso especial deixou de cumprir os requisitos regimentais de admissibilidade, previstos no art. 67 do RICARF/2015, no que diz respeito à matéria "responsabilização dos diretores", razão pela qual não pode ser admitido quanto a este tema; Assim, a matéria submetida à análise da CSRF limitase à qualificação da multa, sendo vedado ao colegiado analisar a matéria relativa à responsabilidade solidária dos diretores, que não foi propriamente objeto de recurso especial e, portanto, está definitivamente decidida pela decisão da 2ª Turma da 4ª Câmara da 1ª Seção do CARF; Não tem qualquer fundamento legal a tentativa das autoridades fiscais de condicionar o registro e a amortização fiscal do ágio à existência de propósitos negociais nas operações de aquisição, desde que se esteja diante de operações lícitas. Não obstante, é indiscutível a existência de inúmeras razões negociais que levaram às operações em exame; A primeira e principal razão negocial para a reestruturação das atividades da contribuinte recorrida e da MERIDIONAL decorre da integração global das atividades das empresas do grupo DIMON INCORPORATED e das empresas do grupo STANDARD COMMERCIAL CORPORATION; No que diz respeito à estrutura adotada no Brasil para promover a integração das empresas antes pertencentes a grupos econômicos distintos, a operação de venda da totalidade das quotas da contribuinte à MERIDIONAL pelo valor de R$ 507.000.000,00, considerada desnecessária pela Fiscalização, teve claro objetivo negocial: refletir o valor de mercado da recorrida nas demonstrações financeiras anteriores e posteriores à integração com a MERIDIONAL; Fl. 3245DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 10 9 A discrepância de R$ 238.675.082,43 entre o valor de livros da recorrida e seu valor de mercado deveria ser reconhecida, de acordo com as diretrizes estabelecidas na integração mundial dos grupos econômicos, haja vista a troca de ações das empresas efetuada no exterior a valor de mercado; Diante do objetivo de seguir o princípio adotado no exterior de reconhecer o valor de mercado do investimento da INTABEX na recorrida antes de sua integração com a empresa MERIDIONAL e em seguida dandolhe participação amplamente majoritária naquela, foram analisadas as alternativas possíveis para tanto e decidiuse, em estrita observância à legislação comercial e fiscal, que a operação de compra e venda das quotas da recorrida à MERIDIONAL, com o registro de ágio, seguida da capitalização dos valores a receber, seria a opção mais adequada; Ao contrário do alegado pelas autoridades fiscais e julgadoras, os efeitos desta operação de compra e venda não foram anulados nas operações subsequentes: o valor do ágio no investimento da MERIDIONAL na recorrida, posteriormente incorporado por esta, foi mantido nos demonstrativos financeiros da empresa pósincorporação, o que era justamente o objetivo da recorrida; A proposta das autoridades fiscais sobre a estrutura que, alegadamente, seria a mais adequada para o caso, qual seja, a incorporação lateral a valor de livros, teria resultados econômicos completamente diferentes: diferença de pelo menos R$ 100.000.000,00 em valores patrimoniais; A proposta das autoridades fiscais no sentido de que as operações de consolidação de negócios no Brasil deveriam ter sido realizadas exatamente da mesma forma que foram realizadas nos EUA não tem qualquer cabimento, uma vez que a estrutura adotada no exterior, de troca de ações entre as empresas abertas, simplesmente não era possível no Brasil por tratar de duas empresas fechadas. Apesar disso, tentouse adotar localmente os mesmos princípios; Ainda que não em moeda corrente, a MERIDIONAL efetivamente pagou sua dívida assumida junto à INTABEX através da emissão de novas quotas de seu capital social. A forma de pagamento eleita não descaracteriza, de forma alguma, o fato de que a MERIDIONAL efetivamente saldou sua dívida; A MERIDIONAL tinha fortes razões negociais para evitar o desembolso do valor das quotas da recorrida adquiridas junto à INTABEX, na medida em que os R$ 507.000.000,00 que deixaram de ser remetidos em dinheiro foram utilizados no financiamento das próprias atividades da recorrida no cenário pósincorporação; A INTABEX, de seu lado, também tinha relevantes razões negociais para aceitar que o pagamento de seu crédito fosse feito através de quotas da MERIDIONAL, na medida em que, assim, voltaria a participar de forma majoritária do quadro societário da empresa consolidada no Brasil; Todas as etapas da transformação societária ocorrida no Brasil têm claras e relevantes razões negociais no contexto da reestruturação do grupo. Assim, o máximo que se poderia alegar é que se trata de negócio jurídico indireto, uma vez que optouse por realizar em dois tempos um ato jurídico que poderia ter sido, em tese, realizado em único tempo; Fl. 3246DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 11 10 Considerando que a recorrida e a MERIDIONAL realmente desejavam alcançar o fim prático do negócio declarado e adotado (unificação das operações) e que se submeteram por inteiro ao seu regime jurídico e aos seus efeitos, concluise que não houve qualquer ato simulado, mas possivelmente um negócio jurídico indireto; A opção da recorrida, entre várias alternativas lícitas possíveis, por uma forma específica de promover sua integração com a MERIDIONAL que esteja em perfeita consonância com as leis vigentes e que lhe seja mais favorável sob o aspecto tributário é assegurada pela Constituição Federal através do direito de propriedade, do direito ao pleno exercício da autonomia da vontade, do princípio da legalidade, dentre outros; À Administração Pública não é dada a faculdade de, através das convicções pessoais de seus agentes, emitir juízo de valor quanto à livre escolha de determinadas formas de negócio jurídico pelos empresários, desde que estes tenham sido realizados de maneira inteiramente lícita; Tendo em vista a legalidade, a legitimidade e o efetivo propósito negocial das operações que geraram o registro e a amortização do ágio, tornase evidente que não houve, no caso concreto, qualquer simulação ou intuito de fraude; Analisando o caso a partir das hipóteses de simulação previstas no art. 167 do Código Civil, verificase que a situação fática analisada não configura nenhuma delas, uma vez que cada uma das operações efetuadas, realizadas no âmbito da reestruturação societária das atividades da recorrida, refletiu exatamente a vontade entre as partes envolvidas e foi baseada em documentos válidos e declarações verdadeiras, tendo sido inteiramente suportados pelas partes os efeitos das operações e mantida inalterada a situação jurídica alcançada após as mesmas operações; O Relatório da Ação Fiscal, elaborado pela Fiscalização, aponta como supostas evidências de ocorrência de simulação exclusivamente a "falta de propósito negocial", o "resultado econômicofinanceiro nulo", a "prática de atos entre partes ligadas" e "todos os atos são desfeitos em curtíssimo espaço de tempo". Assim, embora as autoridades fiscais tenham tentado descaracterizar as operações societárias em razão de uma alegada "simulação", o auto de infração na realidade não se funda neste dispositivo legal, mas apenas em uma análise subjetiva das operações em exame, sob o enfoque da "substância sobre a forma", o que não só não tem respaldo legal, como certamente não autoriza a aplicação da multa agravada; Também impede a aplicação da multa agravada de 150% no caso concreto o fato de não ter sido demonstrado ou comprovado o evidente intuito de fraude por parte da contribuinte recorrida; Nos presentes autos, restou demonstrado que as operações envolvendo a recorrida foram realizadas sob o estrito amparo da legislação tributária e comercial, com claro e evidente intuito negocial e em absoluta transparência perante as autoridades fiscais. Assim, não pode prevalecer a aplicação da multa agravada; Por fim, ainda que se aceitasse ter havido possível infração à legislação e que possa ter existido dúvidas sobre a aplicação da multa agravada, seria mandatório que a Fiscalização interpretasse o art. 44 da Lei nº 9.430/1996 da maneira mais favorável à contribuinte, de acordo com o determinado pelo art. 112 do CTN. Fl. 3247DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 12 11 Por conta de tudo que expõe, a contribuinte recorrida pede, ao final, que seja negado provimento ao recurso especial da PGFN, mantendose a decisão recorrida no tocante à impossibilidade de aplicação da multa qualificada de 150% ao presente caso. Conforme se adiantou, na mesma data em que protocolou suas contrarrazões, a contribuinte apresentou também recurso especial, com o objetivo de contestar o posicionamento exposto no acórdão recorrido em relação ao seu ponto central: indedutibilidade das despesas de amortização do "ágio interno". A contribuinte recorrente narra que o acórdão recorrido teria capturado a essência das transações em exame: operações lícitas realizadas sem simulação, dolo ou fraude, conforme exposto no voto vencedor que afastou a qualificação da multa de ofício e a responsabilidade solidária dos exadministradores. Apesar disso, prevaleceu na 2ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da 1ª Seção do CARF o entendimento de que agiu corretamente a Fiscalização ao lançar os créditos de IRPJ e de CSLL decorrentes da glosa de despesas de amortização do ágio. Tal conclusão baseouse no entendimento de que as operações societárias que possibilitaram o surgimento do ágio posteriormente amortizado careceriam de propósito negocial, uma vez que teriam sido realizadas com a exclusiva finalidade de geração do ágio interno. Assim, entendeuse que não estariam satisfeitas no caso concreto as condições para a dedutibilidade das despesas de amortização do ágio. O recurso especial da contribuinte traz a alegação de que o acórdão recorrido, ao assim concluir, endossando o entendimento da Fiscalização, teria entrado em divergência com os Acórdãos nº 1202000.884 (proferido pela 2ª Turma Ordinária da 2ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF), nº 1101000.841 (prolatado pela 1ª Turma Ordinária da 1ª Câmara da mesma 1ª Seção) e nº 1301001.297 (exarado pela 1ª Turma Ordinária da 3ª Câmara, ainda da 1ª Seção de Julgamento do CARF). O primeiro acórdão paradigma teria, segundo a contribuinte, analisado contexto fático bastante semelhante ao abordado pela decisão recorrida: reorganização societária promovida entre empresas brasileiras como decorrência da unificação de seus grupos controladores internacionais, concretizada por meio de operações que a Fiscalização considerou incapazes de originar ágio amortizável porque teriam sido realizadas dentro do mesmo grupo econômico, sem propósito negocial e sem efetivo desembolso financeiro. Apesar disso, teria concluído o Acórdão nº 1202000.884 de forma oposta à abraçada pela decisão recorrida. Prevaleceu no acórdão paradigma o entendimento pela improcedência da acusação fiscal, pois considerouse que as negociações ocorreram com empresas de diferentes grupos econômicos no exterior e que houve o efetivo desembolso financeiro na operação originária (realizada no exterior). Já a divergência jurisprudencial verificada entre o acórdão recorrido e o Acórdão nº 1101000.841, segundo paradigma indicado pela contribuinte recorrente, adviria do fato de esta decisão, diante de situação fática similar à encontrada nos presentes autos (operações realizadas entre partes relacionadas, sem propósito negocial, sem efetivo desembolso para aquisição de participação societária e sem modificação na estrutura societária após a conclusão das operações, tudo segundo a Fiscalização), ter concluído pela improcedência da acusação fiscal por considerar que a regularidade do registro e da Fl. 3248DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 13 12 amortização do ágio depende exclusivamente da observância dos arts. 385 e 386 do RIR/1999, não sendo permitida à Fiscalização estabelecer condições não fixadas pela legislação tributária. No mesmo sentido teria decidido o terceiro paradigma trazido pela contribuinte. O Acórdão nº 1301001.297, de forma contrária ao defendido pela decisão recorrida, considerou que a dedutibilidade de despesas de amortização de ágio, prevista nos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997, não é vedada em situações de operações realizadas entre empresas do mesmo grupo econômico, sem substância econômica ou efetivo desembolso de valores na aquisição de participação societária, por inexistência de mandamento legal que assim preveja. Após arguir a existência de divergência jurisprudencial acerca da possibilidade de aproveitamento tributário do ágio gerado em operações como as descritas no presente processo, a contribuinte defende a reforma do acórdão recorrido apresentando uma série de alegações. Além dos argumentos já apresentados nas contrarrazões que opôs ao recurso especial da PGFN, tratando especificamente do propósito negocial das operações condenadas pela Fiscalização, a contribuinte trouxe as seguintes alegações: A recorrente não pode concordar com o entendimento exposto pelas autoridades fiscais e julgadoras no sentido de que a compra de suas quotas pela MERIDIONAL não seria necessária para a unificação das duas empresas, isto é, que não haveria propósito negocial válido para justificar a referida aquisição e legitimar o ágio ali gerado; A contribuinte discorda de tal posicionamento porque (i) a legislação não condiciona a validade de um negócio jurídico à existência de um propósito negocial; (ii) a economia de tributos, por si só, é suficiente para justificar o negócio jurídico; e (iii) no presente caso é evidente a existência de propósito negocial; Um negócio jurídico, para ser válido, deve apenas atender aos requisitos estabelecidos no art. 104 do Código Civil: (i) agente capaz; (ii) objeto lícito, possível, determinado ou determinável; e (iii) forma prescrita ou não defesa em lei. Não pode a autoridade tributária estabelecer outras exigências que não encontram qualquer fundamentação na legislação; Ainda que se admita a necessidade de um propósito negocial para a validade de um negócio jurídico, a busca por economia tributária, por si só, já poderia cumprir este papel. Ao assegurar o direito à propriedade, a liberdade para desenvolver atividades econômicas e a liberdade contratual, a Constituição Federal permite que os contribuintes, dentro de meios lícitos, organizem suas atividades empresariais visando a reduzir sua carga tributária; A proximidade temporal entre os atos societários realizados no Brasil no âmbito da reestruturação da contribuinte recorrente e da MERIDIONAL foi equivocadamente apontada pelo acórdão recorrido como uma evidência da existência de simulação. Tal fato é somente reflexo da agilidade demonstrada pelo grupo econômico para implementar medidas previamente estudadas e decididas, tanto em nível local quanto global; A decisão recorrida também considerou um suposto resultado econômico financeiro nulo das operações promovidas no Brasil como evidência de simulação. Mais uma vez se equivocou, já que tal resultado das operações não foi nulo: da forma em que foi realizada a reorganização societária, obtevese uma diferença de, ao menos, R$ 100.000.000,00 Fl. 3249DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 14 13 no valor do patrimônio líquido da recorrente, contribuindo para os negócios da empresa no seu relacionamento com clientes, fornecedores e bancos; Mais um fato erroneamente considerado pelo acórdão recorrido como indicativo de simulação é a interdependência entre as empresas envolvidas na reorganização societária no Brasil. Tal entendimento não tem qualquer fundamento, uma vez que o art. 104 do Código Civil não faz qualquer menção à independência entre as empresas como requisito de validade de um negócio jurídico; A ausência de movimentação financeira foi mais uma característica apontada pelo acórdão recorrido como evidência de simulação. Mais uma vez se equivocaram as autoridades julgadoras, já que uma operação em que há o recebimento de quotas de outra empresa em ato de integralização de capital nada mais é do que uma aquisição de participação societária com pagamento em quotas, que em nada é diferenciada pela legislação de outros tipos de alienação a título oneroso para os fins tributários discutidos no presente processo; O ágio que foi aproveitado tributariamente pela contribuinte recorrente não pode ser classificado como interno, uma vez que decorreu de operações de unificação de dois grupos empresariais até então não relacionados e, mais, concorrentes diretos no Brasil e no exterior; Mesmo que de ágio interno se tratasse, ainda assim a acusação fiscal careceria de fundamento, pois a legislação tributária não impõe como condição para registro ou amortização do ágio a realização de operações entre partes não relacionadas; Prova de que a legislação fiscal vigente à época dos fatos não estabelecia qualquer restrição ao registro e à amortização de ágio dito interno foi a recente inclusão no ordenamento jurídico pátrio da Lei nº 12.973/2014, que passou a vedar expressamente, em seu art. 22, o aproveitamento tributário de ágio gerado em operações realizadas entre empresas relacionadas. A contribuinte encerra pedindo que seu recurso seja admitido e provido para determinar a reforma parcial da decisão recorrida no tocante à dedutibilidade das parcelas de amortização do ágio, reconhecendose a total improcedência do lançamento fiscal. Despacho de 30/08/2016 analisou o cumprimento dos requisitos regimentais pelo recurso especial interposto pela contribuinte. Concluiuse ter sido devidamente comprovada a existência de divergência jurisprudencial entre o acórdão recorrido e os dois primeiros paradigma elencados pela recorrente: nº 1202000.884 e nº 1101000.841. Não foi analisada a pretensa existência de dissídio jurisprudencial entre a decisão recorrida e o terceiro paradigma trazido pela contribuinte (Acórdão nº 1301001.297), em virtude da limitação quantitativa estabelecida pelo § 7º do art. 67 do Anexo II do RICARF/2015. Os autos foram eletronicamente encaminhados à PGFN em 30/08/2016, para fins de intimação acerca do recurso especial apresentado pela contribuinte e do despacho que o admitiu, nos termos do art. 70 do Anexo II do RICARF/2015. Em resposta, foram apresentadas, já em 01/09/2016, contrarrazões às alegações da contribuinte. Com o objetivo de que fosse mantida a decisão contida no acórdão recorrido, em relação à indedutibilidade das despesas de amortização do ágio gerado na operação de Fl. 3250DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 15 14 aquisição das quotas da contribuinte pela empresa relacionada MERIDIONAL, a Fazenda Nacional apresentou as seguintes alegações: No caso concreto, não obstante as ações da contribuinte visarem à reorganização societária imposta pela unificação dos negócios dos grupos norteamericanos STANDARD COMMERCIAL CORPORATION e DIMON INCOPORATED, a realização de uma operação societária com o único objetivo de reduzir a base de cálculo do IRPJ e da CSLL a serem recolhidos pela empresa resultante da reorganização exorbitou esse propósito negocial; A criação de um ágio fictício, simulado, que não apresenta qualquer propósito negocial e substrato econômico a justificar a sua existência real não permite a dedução da despesa com sua amortização nos termos previstos pela legislação tributária; Por meio da sequência de operações realizadas, mormente aquelas ocorridas no Brasil e submetidas à legislação tributária cuja incidência se discute no presente processo, não houve nenhuma aquisição de quotas da contribuinte a justificar a existência do correspondente ágio. A suposta aquisição (subscrição de capital da MERIDIONAL) fora orquestrada pelo grupo ALLIANCE a fim de ser cancelada ao final, pois visava a fundir as duas empresas brasileiras, e não submeter uma ao controle da outra; O conceito tributáriocontábil de ágio se encontra previsto no art. 385 do RIR/1999, que repete o conteúdo do art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977: é a diferença positiva entre o custo de aquisição de uma participação societária e o valor de patrimônio líquido deste investimento; A dedutibilidade do ágio, por sua vez, é prevista nos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997, que são repetidos no art. 386 do RIR/1999: o ágio será dedutível se tiver sido pago com base na rentabilidade futura da participação societária adquirida e se houver a confusão patrimonial entre investidora e investida; O "ágio de si mesmo", espécie de ágio interno (gerado entre partes dependentes), envolve uma reavaliação espontânea de uma participação societária dentro de um grupo empresarial, onde o custo do "ganho patrimonial" decorrente dessa reavaliação é aproveitado fiscalmente pela própria pessoa jurídica cujo patrimônio é reavaliado; A abusividade do "ágio de si mesmo" reside nos seguintes aspectos: em que pese haver a declaração pelas partes de que houve uma aquisição de participação societária com pagamento de ágio, aferese que, em face das operações, não houve a participação de terceiros estranhos ao grupo a fim de justificar a existência da operação com base na circulação de riquezas entre partes independentes e na alteração do controle societário do investimento negociado; A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) já se pronunciou, em seu OfícioCircular/CVM/SNC/SEP nº 01/2007, contrariamente à possibilidade de geração do "ágio de si mesmo" em operações efetuadas dentro de um mesmo grupo econômico e sem o efetivo dispêndio; O OfícioCircular da CVM afirma que "do ponto de vista econômico, o registro de ágio, em transações como essas, somente seria concebível se realizada entre partes independentes, conhecedoras do negócio, livres de pressões ou outros interesses que não a essência da transação"; Fl. 3251DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 16 15 Também o Comitê de Pronunciamentos Contábeis já analisou tal questão, em sua Orientação Técnica OCPC nº 02/2008: "É importante lembrar que só pode ser reconhecido o ativo intangível ágio por expectativa de rentabilidade futura se adquirido de terceiros, nunca o gerado pela própria entidade (ou mesmo conjunto de empresas sob controle comum). E o adquirido de terceiros só pode ser reconhecido no Brasil, pelo custo, vedada completamente sua reavaliação"; Em face da completa ausência de participação de terceiros na operação que dá ensejo ao "ágio de si mesmo", a única transferência de riqueza que decorre de seu registro e de sua amortização é do Estado para o contribuinte, consequência dos tributos que deixam de ser recolhidos; No caso sob análise, o ágio ao final deduzido pela contribuinte foi registrado pela MERIDIONAL dentro de uma típica estrutura do "ágio de si mesmo". A diferença foi que o grupo ALLIANCE, ao invés de promover uma simples reavaliação de uma de suas empresas, se aproveitou de seu intuito de fundir duas empresas brasileiras para gerar o ágio a ser deduzido; No que importa à caracterização da ocorrência do "ágio de si mesmo", vêse que, no decorrer das operações que permitiram o surgimento e a amortização do ágio ao final constituído, as quotas da contribuinte não foram em momento algum negociadas entre partes independentes para justificar a existência do ágio. No momento em que o ágio foi registrado pela MERIDIONAL, as empresas do grupo ALLIANCE localizadas no exterior já detinham o controle tanto da alienante quanto da adquirente; Vale ressaltar que a incorporação do grupo STANDARD CO pelo grupo DIMON, realizada no exterior em 13/05/2005, não é hábil a justificar o surgimento do ágio em questão no Brasil. Tal operação ocorreu exclusivamente no exterior, envolvendo partes estrangeiras e objeto estrangeiro. O ágio registrado pela MERIDIONAL não surgiu com a incorporação realizada no exterior, mas somente com o intuito declarado do grupo ALLIANCE de consolidar suas atividades no Brasil com a reavaliação de suas participações societárias; Independentemente da forma como a contribuinte recorrente pretende expor seu ponto de vista, fato é que o fundamento econômico alegado por ela para justificar o surgimento do ágio é a reavaliação de seu patrimônio dentro do grupo econômico. Ao firmar que o propósito negocial que levou ao surgimento do ágio foi uma reorganização societária (consolidação das atividades no Brasil), a contribuinte assume que não houve qualquer aquisição de investimento pelo grupo ALLIANCE; Ao julgar a conduta adotada pela contribuinte e pelas demais empresas de seu grupo econômico, no que toca aos efeitos tributários observados nos anoscalendário de 2005 a 2007, a 2ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF manteve integralmente a autuação realizada pela Fiscalização (glosa das despesas de amortização do ágio gerado internamente), inclusive quanto à qualificação da multa de ofício, conforme restou formalizado no Acórdão nº 1302000.991. A PGFN encerra suas contrarrazões pedindo que seja negado provimento ao recurso especial manejado pela contribuinte. Os autos seguiram então para a CSRF para o julgamento dos recursos especiais. Fl. 3252DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 17 16 É o relatório. Fl. 3253DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 18 17 Voto Conselheiro Rafael Vidal de Araujo, Relator Conforme relatado, a contribuinte ALLIANCE ONE BRASIL questionou, por ocasião da apresentação de suas contrarrazões, a pretensão da PGFN de que eventual provimento dado ao recurso especial fazendário fosse suficiente para reformar o Acórdão nº 1402002.148 tanto no que atine à determinada desqualificação da multa de ofício quanto em relação ao afastamento da responsabilização solidária atribuída pela Fiscalização aos ex administradores da contribuinte e da MERIDIONAL. Defendeu a contribuinte que o recurso especial apresentado pela PGFN não tem o alcance que esta lhe quis atribuir, uma vez que só teriam sido atendidos os requisitos de admissibilidade recursal quanto à matéria "qualificação da multa de ofício". A matéria "responsabilização dos exdiretores" não teria sido propriamente objeto do recurso fazendário, não podendo ser submetida à apreciação desta 1ª Turma da CSRF. Julgo que este voto deve principiarse pela análise da questão suscitada pela contribuinte contrarrazoante. Na sequência, passarei ao exame das matérias de mérito apresentadas nos recursos especiais da contribuinte ("possibilidade de aproveitamento tributário do ágio criado nas operações envolvendo a contribuinte e a MERIDIONAL") e da Fazenda Nacional ("qualificação da multa de ofício"), nesta ordem. No que concerne a tais matérias, adoto as razões expostas nos despachos que examinaram a admissibilidade dos recursos para delas CONHECER. 1) Preliminar de não conhecimento do recurso especial da PGFN quanto à responsabilização solidária dos exdiretores da contribuinte A PGFN argumenta, em seu recurso especial, que o acórdão recorrido somente teria decidido cancelar a atribuição de responsabilidade solidária imputada pela Fiscalização aos exdiretores da contribuinte e da MERIDIONAL em virtude do que decidiu antes quanto ao descabimento da aplicação de multa de ofício qualificada no caso concreto. Assim, eventual reforma da decisão recorrida que implicar no restabelecimento da multa de ofício ao seu percentual qualificado de 150% logicamente deveria conduzir também à reativação da responsabilização solidária. Ao final de seu recurso, a Fazenda Nacional volta a defender sua tese, pedindo a reforma da decisão quanto aos dois pontos. Alternativamente, pede que, em caso de restabelecimento da multa qualificada, os autos sejam devolvidos à 2a Turma Ordinária da 4a Câmara da 1a Seção de Julgamento do CARF para que seja reapreciado o tema da responsabilização solidária, agora à luz do novo fato de que teria sido reconhecida a ocorrência de simulação na reorganização societária promovida pelo grupo econômico a que pertence a contribuinte. Em contraposição, a contribuinte defende o descabimento de tal pretensão, argumentando que somente foi objeto do recurso especial da Fazenda Nacional a primeira matéria identificada: qualificação da multa de ofício. Não existiria, ao contrário do alegado Fl. 3254DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 19 18 pela PGFN, uma relação de indissociabilidade entre esta matéria e a responsabilização solidária dos administradores do sujeito passivo. A contribuinte afirma que, embora os temas guardem conexão relevante entre si, os fundamentos legais e os fundamentos de decidir aplicáveis a cada um são distintos, o que impediria a extensão automática ao segundo assunto do que for decidido quanto ao primeiro, na linha defendida pela PGFN. Prossegue a contribuinte afirmando que o recurso especial fazendário somente cumpriu os requisitos de admissibilidade estabelecidos pelos arts. 67 e seguintes do Anexo II do RICARF/2015 no que concerne à qualificação da multa de ofício, o que, por si só, já impediria o conhecimento e o julgamento por esta 1ª Turma da CSRF da matéria atinente à responsabilização dos exdiretores. Muito bem. A primeira providência para apreciação da controvérsia que se coloca é analisar os termos utilizados pelo voto vencedor do Acórdão nº 1402002.148, ora recorrido, quando decidiu pela desqualificação da multa de ofício e pelo afastamento de responsabilidade solidária determinada pela Fiscalização: "Com a devida vênia, o que diz respeito à penalidade de 150% e a responsabilidade dos coobrigados, ouso discordar do entendimento do i. Conselheiro Relator. Analisando o caso, entendo não restar caracterizado o dolo a justificar a exasperação da penalidade. (...) Embora os efeitos tributários advindos no Brasil de tal estruturação da operação não possa ser aceita, entendo que não se pode concluir ter ocorrido simulação, e, consequentemente, dolo na operação realizada. Nesse cenário, considero não restar caracterizada a ocorrência de fraude, sonegação ou conluio (arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/64), elementos necessários à qualificação da multa de ofício, conforme determina o parágrafo 1º do art. 44 da Lei nº 9.430/96. Assim sendo, voto por reduzir a penalidade aplicada para 75%. No que se refere à responsabilidade tributária atribuída aos coobrigados, venho me posicionando que, nos casos em que mantida a multa qualificada, os administradores da pessoa jurídica à época dos fatos geradores podem ser incluídos no polo passivo da obrigação tributária, uma vez que se tratar não de um simples inadimplemento, mas sim de um inadimplemento qualificado, doloso, caracterizado por conduta fraudulenta e com repercussões, inclusive, na esfera criminal. Nessas oportunidades, tenho esclarecido que tal implicação não possui correspondência biunívoca, ou seja, não se pode fazer o raciocínio inverso a ponto de se concluir que, na ausência de tal penalidade qualificada, não incidiria a responsabilidade tributária de que trata o art. 135, III, do CTN. Isso porque há hipóteses em que sequer é necessário o lançamento de ofício do crédito tributário para que o responsável legal da pessoa jurídica responda pelo crédito tributário, como, por exemplo, nos casos de apropriação indébita previdenciária (art. 168A do Código Penal) e na Fl. 3255DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 20 19 apropriação indébita de que trata como crime contra a ordem tributária pela art. 2º, inciso II, da Lei nº 8.137/90 (falta de recolhimento de imposto de renda retido na fonte e de IPI destacado na nota fiscal, por exemplo). Em tais hipóteses, basta o contribuinte declarar o débito e não recolhêlo para que o administrador da pessoa jurídica, ao lado da própria empresa, passe a responder pelo débito correspondente, sem que haja necessidade sequer da realização do lançamento de ofício, e, muito menos, de penalidade qualificada. Nesse mesmo sentido, este colegiado vem decidindo que nos lançamentos em que reste configurado que a pessoa jurídica autuada encontrase em nome de interpostas pessoas, mas o fato gerador correspondente não tem qualquer correlação com tal interposição (por exemplo, depósitos bancários, sem comprovação de origem, nas próprias contas da pessoa jurídica autuada – art. 42 da Lei nº 9.430/96), não há incidência de multa qualificada, mas os reais proprietários de tal pessoa jurídica devem responder pelo crédito tributário correspondente, quer por força do art. 124, I, do CTN, quer pelo disposto no art. 135, III, do CTN quando demonstrados que administravam tal pessoa jurídica. No caso concreto o colegiado entendeu por desqualificar a multa de ofício, reduzindoa ao patamar de 75%. Nesse contexto, e na ausência de outros elementos a ensejar a responsabilidade dos coobrigados, então não restar caracterizada a infração à lei a que se refere o art. 135, III, do CTN. Assim sendo, voto também por afastar a responsabilidade atribuída aos coobrigados." (grifouse) Em consonância com o entendimento exposto no voto vencedor, trouxe a ementa do julgado: SUJEIÇÃO PASSIVA. AUSÊNCIA DE DOLO. RESPONSABILIDADE ATRIBUÍDA A ADMINISTRADOR DA PESSOA JURÍDICA. ART. 135, III, DO CTN. IMPOSSIBILIDADE. A exoneração da penalidade qualificada afasta conduta dolosa que denote sonegação, fraude ou conluio, impossibilitando a responsabilização dos administradores da pessoa jurídica com base no art. 135, III, do CTN. Concluise da leitura do acórdão recorrido que efetivamente o afastamento da responsabilidade solidária lastreada no art. 135, III, do CTN, se deu em decorrência do entendimento anterior de que seria inaplicável no caso concreto a multa de ofício no percentual qualificado de 150%, em razão da inexistência de fraude, sonegação ou conluio na conduta da contribuinte durante o processo de reorganização societária das empresas brasileiras pertencentes ao seu grupo econômico. O voto vencedor é claro ao declarar que a aplicação de multa qualificada possibilita a inclusão dos administradores da contribuinte no polo passivo da obrigação tributária, uma vez que estarseia diante de um inadimplemento qualificado, doloso, caracterizado por conduta fraudulenta. Fl. 3256DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 21 20 Após defender que o caminho inverso nem sempre é verdadeiro (a imputação da responsabilidade solidária não requer, necessariamente, a aplicação da multa qualificada), o i. Conselheiro designado Redator da decisão conclui que, no caso sob análise, diante da desqualificação da multa de ofício e da ausência de razão que pudesse justificar a responsabilização solidária de forma autônoma, a consequência lógica é a não caracterização da infração à lei referida no art. 135, III, do CTN. A ementa do julgado, na parte relacionada a esta discussão, apenas repete, de forma mais direta e objetiva, tal conclusão. Portanto, constatase que o Acórdão nº 1402002.148 efetivamente não analisou de forma autônoma o cabimento da responsabilidade tributária solidária imputada pela Fiscalização aos exadministradores da contribuinte e da MERIDIONAL. A decisão relativa à matéria foi construída em decorrência do decidido quanto à inadequação da qualificação da multa de ofício no caso concreto. Neste aspecto, concordo com a alegação trazida pela recorrente Fazenda Nacional. Podese dizer que a análise da matéria restou prejudicada na decisão recorrida. O cancelamento da multa qualificada foi considerado, ainda que de forma implícita, questão prejudicial à análise da responsabilização solidária, cujo mérito a decisão se absteve de discutir. Assim, a Fazenda Nacional de fato não poderia contestar diretamente, pela via do recurso especial, o entendimento do acórdão recorrido no que toca à "responsabilidade solidária dos exadministradores da contribuinte". Como não houve análise jurídica do tema, seria impossível a caracterização da divergência jurisprudencial requerida pelo art. 67 do Anexo II do RICARF/2015. Como consequência, entendo caber razão à contribuinte recorrida quando defende que a matéria atinente à responsabilidade dos exadministradores não pode ser submetida ao julgamento da CSRF, pelo menos neste momento. Além do já apontado desatendimento aos requisitos de admissibilidade recursal, outra razão ainda mais relevante impede tal exame: a supressão de instância do contencioso administrativo. Explico: caso esta 1ª Turma da CSRF entenda, neste julgamento, pelo restabelecimento da aplicação da multa qualificada, deixa de existir a questão que a Turma a quo considerou prejudicial à apreciação do mérito da matéria "responsabilização solidária dos exdiretores". Dessa forma, para garantir a ambos os litigantes o direito ao contraditório e à ampla defesa, devese garantir que a 2a Turma Ordinária da 4a Câmara aprecie, antes desta 1ª Turma da CSRF, o acerto ou não da conduta da Fiscalização referente à imputação da responsabilidade solidária aos exadministradores da contribuinte e da MERIDIONAL. Registrese que os recursos voluntários apresentados pelos exdiretores HILTON KAPPAUN, HENRIQUE CAMPESTRINI e ALEXANDRE STROSCHOEN trouxeram alegações autônomas, que não se confundem com aquelas concernentes à regularidade das operações societárias discutidas, e que não foram apreciadas pela Turma a quo, como por exemplo a tese da impossibilidade de sua responsabilização nestes autos em específico em razão de já não ocuparem os cargos diretivos nos anoscalendário 2009 e 2010, período a que se referem as glosas objeto do presente processo. Outro motivo pelo qual tornase imperativa a devolução do processo à Turma Ordinária (caso esta CSRF entenda pelo restabelecimento da qualificação da multa) é a necessidade de oportunizar às pessoas físicas responsabilizadas o oferecimento de Fl. 3257DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 22 21 contrarrazões ao recurso especial da Fazenda Nacional. Se fosse atendido o pleito originário da PGFN, a matéria "responsabilização solidária dos exdiretores" poderia vir a ser julgada por esta 1ª Turma da CSRF sem que os sujeitos passivos interessados tivessem a chance de contrarrazoar as considerações fazendárias. Diante de todo o exposto, entendo que a providência que se impõe é a devolução do processo à 2a Turma Ordinária da 4a Câmara da 1ª Seção do CARF, exclusivamente para julgamento da questão concernente à responsabilização solidária dos ex diretores da contribuinte e da MERIDIONAL, na hipótese de esta 1ª Turma da CSRF concluir pelo restabelecimento da multa de ofício ao percentual qualificado de 150%. Caso nesta Turma prevaleça o entendimento pela aplicação da multa de ofício no seu patamar regular de 75%, a devolução sugerida perde o sentido, uma vez que seriam mantidos os termos já aprovados no Acórdão nº 1402002.148: desqualificada a multa de ofício, afastase consequentemente a responsabilidade solidária. Por fim, obviamente a questão também se resolve de forma definitiva nesta 1ª Turma da CSRF caso prevaleça no Colegiado o entendimento defendido pela contribuinte em seu recurso especial, no sentido de que seriam incabíveis as glosas promovidas pela Fiscalização. Canceladas as verbas principais, as acessórias e a responsabilidade solidária obviamente deixam de existir. 2) Possibilidade de aproveitamento tributário do ágio criado nas operações envolvendo a contribuinte e a MERIDIONAL A contribuinte ALLIANCE ONE BRASIL contesta, em seu recurso especial, o entendimento do Acórdão nº 1402002.148 de que as operações societárias promovidas por seu grupo econômico no Brasil em 2005 careceriam de propósito negocial e de substrato econômico por terem envolvido ato simulado de compra e venda de participação societária, o que impediria o aproveitamento tributário do ágio nelas originado. O ponto central do debate desenvolvido ao longo dos presentes autos diz respeito à regularidade do procedimento adotado pela contribuinte (e condenado pela Fiscalização) de promover, nos anoscalendário de 2009 e 2010, o aproveitamento tributário do ágio originado nas referidas operações. Tal ágio originouse em operação praticada em 30/08/2005, data em que a INTABEX, holding estrangeira que era a única sócia da contribuinte ALLIANCE ONE BRASIL, vendeu a totalidade das quotas desta à MERIDIONAL, pelo valor de mercado alegado de R$ 507.000.000,00. Tal valor consta de laudo de reavaliação do valor das quotas da contribuintes, com base na expectativa de sua rentabilidade futura, elaborado por empresa especializada. Como o valor patrimonial das quotas alienadas era de R$ 268.324.917,57, a MERIDIONAL registrou em sua contabilidade um ágio de R$ 238.675.082,43, correspondente à diferença entre este valor contábil e aquele praticado na alienação. Em 30/09/2005, a ALLIANCE ONE BRASIL incorporou sua controladora integral MERIDIONAL, trazendo para sua contabilidade o ágio registrado de R$ 238.675.082,43. Julgandose amparada pelo art. 386 do RIR/1999 (que tem como fundamento Fl. 3258DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 23 22 legal os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997), a contribuinte passou a promover o aproveitamento fiscal do ágio, reduzindo mensalmente os valores apurados de IRPJ e de CSLL. A Fiscalização discordou do procedimento adotado pela contribuinte, por considerar que o ágio em questão teria sido originado em operações realizadas entre partes relacionadas, sem propósito negocial ou substrato econômico. Assim, determinou a glosa das despesas indevidamente deduzidas do resultado tributável da contribuinte. As glosas relativas aos anoscalendário de 2005 a 2007 são objeto do processo administrativo tributário nº 13005.001065/200911. Já as glosas de deduções promovidas em 2008 são tratadas no processo administrativo nº 13005.722696/201353. Nos presentes autos são debatidas as glosas das deduções indevidamente promovidas em 2009 e 2010. Nestes anos especificamente, a contribuinte operacionalizou a dedução das despesas de amortização do ágio por meio da exclusão direta dos respectivos valores da parte B de seu LALUR (R$ 47.735.016,48 em 2009 e R$ 35.801.262,39 em 2010). Muito bem. A respeito da figura do ágio, há que se dizer que seu conceito tributário foi introduzido no ordenamento brasileiro pelo DecretoLei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977. À época dos fatos discutidos nestes autos, dispunha o art. 20 do Decreto Lei, antes de ter sua redação alterada pela Lei nº 12.973, de 13/05/2014: Art 20 O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em: I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo 21; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o número I. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento. § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico: a) valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; b) valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; c) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam as letras a e b do § 2º deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração. O art. 385 do RIR/1999 é basicamente uma cópia do art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977. Em ambos os dispositivos, encontrase a determinação de que contribuintes que avaliam investimentos em sociedade controlada ou coligada pelo valor do patrimônio líquido Fl. 3259DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 24 23 registrem o ágio apurado na aquisição de participação societária em subconta separada daquela que registra o valor do patrimônio líquido da investida na época da aquisição. Além disso, os dispositivos prevêem que tal ágio deve ser fundamentado em pelo menos um dos três fatores: a) valor de mercado dos bens do ativo da investida superior ao registrado na contabilidade; b) expectativa de resultados positivos da investida nos exercícios futuros ou; c) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. Quando o art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977 e o art. 385 do RIR/1999 afirmam que o destinatário das regras ali expostas é o contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido, estão se referindo ao método da equivalência patrimonial. Segundo tal método, as variações observadas nos patrimônios líquidos da sociedades coligadas ou controladas provocam reflexos nos valores dos investimentos registrados na investidora. Observese o que dispõem os arts. 387 a 389 do RIR/1999, a respeito do método de equivalência patrimonial: Art. 387. Em cada balanço, o contribuinte deverá avaliar o investimento pelo valor de patrimônio líquido da coligada ou controlada, de acordo com o disposto no art. 248 da Lei nº 6.404, de 1976, e as seguintes normas (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 21, e DecretoLei nº 1.648, de 1978, art. 1º, inciso III): I o valor de patrimônio líquido será determinado com base em balanço patrimonial ou balancete de verificação da coligada ou controlada levantado na mesma data do balanço do contribuinte ou até dois meses, no máximo, antes dessa data, com observância da lei comercial, inclusive quanto à dedução das participações nos resultados e da provisão para o imposto de renda; (...) Art. 388. O valor do investimento na data do balanço (art. 387, I), deverá ser ajustado ao valor de patrimônio líquido determinado de acordo com o disposto no artigo anterior, mediante lançamento da diferença a débito ou a crédito da conta de investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 22). (...) Art. 389. A contrapartida do ajuste de que trata o art. 388, por aumento ou redução no valor de patrimônio líquido do investimento, não será computada na determinação do lucro real (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 23, e DecretoLei nº 1.648, de 1978, art. 1º, inciso IV). (...) O art. 389 do RIR/1999 é explícito ao determinar que os resultados auferidos pelas empresas coligadas ou controladas não devem ser computados na determinação do resultado da investidora. Assim, lucros apurados em uma investida devem ser objeto de tributação somente no âmbito daquela empresa. Embora tenham o reflexo de majorar o valor do investimento registrado na investidora, os lucros da investida não devem integrar a base Fl. 3260DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 25 24 tributável da pessoa jurídica que nela detém participação societária, sob pena de configurarse hipótese de dupla tributação. Caso a investidora tenha registrado, em sua contabilidade, ágio decorrente da expectativa de rentabilidade futura da investida, concluise que a causa do pagamento a maior efetivamente se concretizou, mas foi tributada somente na coligada ou controlada. Sendo assim, não há que se cogitar de amortização do ágio na investidora, uma vez que não ocorre, nesta pessoa jurídica, tributação do resultado positivo da investida. Somente seria lógico falar em amortização daquele ágio caso a concretização do motivo que lhe deu causa, qual seja, a lucratividade futura da investida, tivesse reflexos tributários na pessoa jurídica que pagou a "mais valia". Dessa forma, o dispêndio a maior poderia ser gradativamente recuperado sob a forma de despesas dedutíveis, se os lucros que o motivaram provocassem um maior recolhimento de tributos nos períodos posteriores à aquisição do investimento. Como, por determinação legal, não é esta a hipótese que se verifica no método de equivalência patrimonial, podese concluir que a regra geral é a da impossibilidade de utilização fiscal do ágio registrado na investidora. É o que reza expressamente o art. 391 do RIR/1999: Art. 391. As contrapartidas da amortização do ágio ou deságio de que trata o art. 385 não serão computadas na determinação do lucro real, ressalvado o disposto no art. 426 (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 25, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso III). Parágrafo único. Concomitantemente com a amortização, na escrituração comercial, do ágio ou deságio a que se refere este artigo, será mantido controle, no LALUR, para efeito de determinação do ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação do investimento (art. 426). Existem, contudo, duas exceções a tal regra. A primeira delas é indicada pelo próprio art. 391, quando ressalva o disposto no art. 426 do mesmo RIR/1999: Art. 426. O valor contábil para efeito de determinar o ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação de investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor de patrimônio líquido (art. 384), será a soma algébrica dos seguintes valores (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 33, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso V): I valor de patrimônio líquido pelo qual o investimento estiver registrado na contabilidade do contribuinte; II ágio ou deságio na aquisição do investimento, ainda que tenha sido amortizado na escrituração comercial do contribuinte, excluídos os computados nos exercícios financeiros de 1979 e 1980, na determinação do lucro real; III provisão para perdas que tiver sido computada, como dedução, na determinação do lucro real, observado o disposto no parágrafo único do artigo anterior. Fl. 3261DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 26 25 A primeira exceção à regra da impossibilidade de aproveitamento tributário do ágio tratado pelo art. 385 do RIR/1999 diz respeito, portanto, à apuração de ganho ou perda de capital. Se o investimento que deu causa à "mais valia" for alienado ou liquidado, o ágio ou deságio registrados na contabilidade da controladora devem compor o custo de aquisição considerado no cálculo do resultado tributável da operação, sobre o qual incidirão IRPJ e CSLL. Já a segunda exceção referese a transformações societárias envolvendo investidoras, investidas e o ágio associado aos investimentos. A respeito da evolução histórica das previsões legais que contemplaram a possibilidade de aproveitamento tributário do ágio em hipóteses de transformações societárias, remetome ao irretocável apanhado feito pelo nobre Conselheiro André Mendes de Moura no Acórdão nº 9101002.301: "Primeiro, o tratamento conferido à participação societária extinta em fusão, incorporação ou cisão, atendia o disposto no art. 34 do DecretoLei nº 1.598, de 1977: Art 34 Na fusão, incorporação ou cisão de sociedades com extinção de ações ou quotas de capital de uma possuída por outra, a diferença entre o valor contábil das ações ou quotas extintas e o valor de acervo líquido que as substituir será computado na determinação do lucro real de acordo com as seguintes normas: (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) I somente será dedutível como perda de capital a diferença entre o valor contábil e o valor de acervo líquido avaliado a preços de mercado, e o contribuinte poderá, para efeito de determinar o lucro real, optar pelo tratamento da diferença como ativo diferido, amortizável no prazo máximo de 10 anos; (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) II será computado como ganho de capital o valor pelo qual tiver sido recebido o acervo líquido que exceder o valor contábil das ações ou quotas extintas, mas o contribuinte poderá, observado o disposto nos §§ 1º e 2º, diferir a tributação sobre a parte do ganho de capital em bens do ativo permanente, até que esse seja realizado. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) § 1º O contribuinte somente poderá diferir a tributação da parte do ganho de capital correspondente a bens do ativo permanente se: (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) a) discriminar os bens do acervo líquido recebido a que corresponder o ganho de capital diferido, de modo a permitir a determinação do valor realizado em cada períodobase; e (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) b) mantiver, no livro de que trata o item I do artigo 8º, conta de controle do ganho de capital ainda não tributado, cujo saldo ficará sujeito a correção monetária anual, por ocasião do balanço, aos mesmos coeficientes aplicados na correção do ativo permanente. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) Fl. 3262DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 27 26 § 2º O contribuinte deve computar no lucro real de cada período base a parte do ganho de capital realizada mediante alienação ou liquidação, ou através de quotas de depreciação, amortização ou exaustão deduzidas como custo ou despesa operacional. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) O que se pode observar é que o único requisito a ser cumprido, como perda de capital, é que o acervo líquido vertido em razão da incorporação, fusão ou cisão estivesse avaliado a preços de mercado. Contudo, para que se consumasse a perda de capital prevista no inciso I, o valor contábil deveria ser maior do que o acervo líquido avaliado a preços de mercado, e tal situação se mostraria viável, especialmente, quando, imediatamente após à aquisição do investimento com ágio, ocorresse a operação de incorporação, fusão ou cisão. Ocorre que tal previsão se consumou em operações um tanto quanto questionáveis por vários contribuintes, mediante aquisição de empresas deficitárias pagandose ágio, para, em logo em seguida, promover a incorporação da investidora pela investida. As operações ocorriam quase simultaneamente. E, nesse contexto, o aproveitamento do ágio, nas situações de transformação societária, sofreu alteração legislativa. Vale transcrever a Exposição de Motivos da MP nº 1.602, de 19971, que, posteriormente, foi convertida na Lei nº 9.532, de 1997. 11. O art. 8º estabelece o tratamento tributário do ágio ou deságio decorrente da aquisição, por uma pessoa jurídica, de participação societária no capital de outra, avaliada pelo método da equivalência patrimonial. Atualmente, pela inexistência de regulamentação legal relativa a esse assunto, diversas empresas, utilizando dos já referidos "planejamentos tributários", vem utilizando o expediente de adquirir empresas deficitárias, pagando ágio pela participação, com a finalidade única de gerar ganhos de natureza tributária, mediante o expediente, nada ortodoxo, de incorporação da empresa lucrativa pela deficitária. Com as normas previstas no Projeto, esses procedimentos não deixarão de acontecer, mas, com certeza, ficarão restritos às hipóteses de casos reais, tendo em vista o desaparecimento de toda vantagem de natureza fiscal que possa incentivar a sua adoção exclusivamente por esse motivo. Não vacilou a doutrina abalizada de LUÍS EDUARDO SCHOUERI2 ao discorrer, com precisão sobre o assunto: Anteriormente à edição da Lei nº 9.532/1997, não havia na legislação tributária nacional regulamentação relativa ao tratamento que deveria ser conferido ao ágio em hipóteses de incorporação envolvendo a 1 Exposição de Motivos publicada no Diário do Congresso Nacional nº 26, de 02/12/1997, pg. 18021 e segs, http://legis.senado.leg.br/diarios/BuscaDiario?datSessao=01/12/1997&tipDiario=2. Acesso em 15/02/2016. 2 SCHOUERI, Luís Eduardo. Ágio em reorganizações societárias (aspectos tributários). São Paulo : Dialética, 2012, p. 66 e segs. Fl. 3263DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 28 27 pessoa jurídica que o pagou e a pessoa jurídica que motivou a despesa com ágio. O que ocorria, na prática, era a consideração de que a incorporação era, per se, evento suficiente para a realização do ágio, independentemente de sua fundamentação econômica. (...) Sendo assim, a partir de 1998, ano em que entrou em vigor a Lei nº 9.532/1997, adveio um cenário diferente em matéria de dedução fiscal do ágio. Desde então, restringiramse as hipóteses em que o ágio seria passível de ser deduzido no caso de incorporação entre pessoas jurídicas, com a imposição de limites máximos de dedução em determinadas situações. Ou seja, nem sempre o ágio contabilizado pela pessoa jurídica poderia ser deduzido de seu lucro real quando da ocorrência do evento de incorporação. Pelo contrário. Com a regulamentação ora em vigor, poucas são as hipóteses em que o ágio registrado poderá ser deduzido, a depender da fundamentação econômica que lhe seja conferida. Merece transcrição o Relatório da Comissão Mista3 que trabalhou na edição da MP 1.609, de 19974: O artigo 8º altera as regras para determinação do ganho ou perda de capital na liquidação de investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor do patrimônio líquido, quando agregado de ágio ou deságio. De acordo com as novas regras, os ágios existentes não mais serão computados como custo (amortizados pelo total), no ato de liquidação do investimento, como eram de acordo com as normas ora modificadas. O ágio ou deságio referente à diferença entre o valor de mercado dos bens absorvidos e o respectivo valor contábil, na empresa incorporada (inclusive a fusionada ou cindida), será registrado na própria conta de registro dos respectivos bens, a empresa incorporador (inclusive a resultante da fusão ou a que absorva o patrimônio da cindida), produzindo as repercussões próprias na depreciação normal. O ágio ou deságio decorrente de expectativa de resultado futuro poderá ser amortizado durante os cinco anoscalendário subsequentes à incorporação, à razão de 1/60 (um sessenta avos) para cada mês do período de apuração. (...) Percebese que, em razão de um completo desvirtuamento do instituto, o legislador foi chamado a intervir, para normatizar, nos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, sobre situações específicas tratando de eventos de transformação societária envolvendo investidor e investida. Inclusive, no decorrer dos debates tratando do assunto, chegouse a cogitar que o aproveitamento do ágio não seria uma despesa, mas um benefício fiscal. 3 Relatório da Comissão Mista publicada no Diário do Congresso Nacional nº 27, de 03/12/1997, pg. 18494, http://legis.senado.leg.br/diarios/BuscaDiario?datSessao=01/12/1997&tipDiario=2. Acesso em 15/02/2016. 4 Na realidade, o número da Medida Provisória abordada é 1.602. Fl. 3264DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 29 28 Em breves palavras, caso fosse benefício fiscal, o próprio legislador deveria ter tratado do assunto, como o fez na Exposição de Motivos de outros dispositivos da MP nº 1.607, de 1997 (convertida na Lei nº 9.532, de 1997). Na realidade, a Exposição de Motivos deixa claro que a motivação para o dispositivo foi um maior controle sobre os planejamentos tributários abusivos, que descaracterizavam o ágio por meio de analogias completamente desprovidas de sustentação jurídica. E deixou claro que se trata de uma despesa de amortização." Depreendese da retrospectiva transcrita que os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 (produto da conversão da Medida Provisória nº 1.602/1997) foram erigidos pelo legislador com a específica finalidade de coibir a prática de planejamentos tributários abusivos em que empresas superavitárias adquiriam com ágio empresas deficitárias para serem em seguida incorporadas por elas. Tal incorporação reversa, também denominada de incorporação "às avessas", não tinha nenhum propósito negocial que não fosse a simples geração de ganhos de natureza tributária. Os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 foram integralmente incorporados ao RIR/1999 por meio de seu art. 386. Como este artigo faz referência expressa a dispositivos do art. 385 (cópia do já reproduzido art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977), transcrevemse ambos a seguir: Art. 385. O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20): I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo seguinte; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o inciso anterior. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 1º). § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 2º): I valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; II valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; III fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam os incisos I e II do parágrafo anterior deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 3º). Fl. 3265DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 30 29 Art. 386. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no artigo anterior (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, e Lei nº 9.718, de 1998, art. 10): I deverá registrar o valor do ágio ou deságio cujo fundamento seja o de que trata o inciso I do §2º do artigo anterior, em contrapartida à conta que registre o bem ou direito que lhe deu causa; II deverá registrar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso III do §2º do artigo anterior, em contrapartida a conta de ativo permanente, não sujeita a amortização; III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do §2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; IV deverá amortizar o valor do deságio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do §2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração do lucro real, levantados durante os cinco anoscalendário subseqüentes à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no mínimo, para cada mês do período de apuração. §1º O valor registrado na forma do inciso I integrará o custo do bem ou direito para efeito de apuração de ganho ou perda de capital e de depreciação, amortização ou exaustão (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, §1º). §2º Se o bem que deu causa ao ágio ou deságio não houver sido transferido, na hipótese de cisão, para o patrimônio da sucessora, esta deverá registrar (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, §2º): I o ágio em conta de ativo diferido, para amortização na forma prevista no inciso III; II o deságio em conta de receita diferida, para amortização na forma prevista no inciso IV. §3º O valor registrado na forma do inciso II (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, §3º): I será considerado custo de aquisição, para efeito de apuração de ganho ou perda de capital na alienação do direito que lhe deu causa ou na sua transferência para sócio ou acionista, na hipótese de devolução de capital; II poderá ser deduzido como perda, no encerramento das atividades da empresa, se comprovada, nessa data, a inexistência do fundo de comércio ou do intangível que lhe deu causa. §4º Na hipótese do inciso II do parágrafo anterior, a posterior utilização econômica do fundo de comércio ou intangível sujeitará a pessoa física ou jurídica usuária ao pagamento dos tributos ou contribuições que deixaram de ser pagos, acrescidos de juros de mora e multa, calculados de conformidade com a legislação vigente (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, §4º). Fl. 3266DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 31 30 §5º O valor que servir de base de cálculo dos tributos e contribuições a que se refere o parágrafo anterior poderá ser registrado em conta do ativo, como custo do direito (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, §5º). §6º O disposto neste artigo aplicase, inclusive, quando (Lei nº 9.532, de 1997, art. 8º): I o investimento não for, obrigatoriamente, avaliado pelo valor do patrimônio líquido; II a empresa incorporada, fusionada ou cindida for aquela que detinha a propriedade da participação societária. §7º Sem prejuízo do disposto nos incisos III e IV, a pessoa jurídica sucessora poderá classificar, no patrimônio líquido, alternativamente ao disposto no §2º deste artigo, a conta que registrar o ágio ou deságio nele mencionado (Lei nº 9.718, de 1998, art. 11). Verificase que os arts. 385 e 386 do RIR/1999 guardam uma relação indissociável entre si, uma vez que requisitos à aplicação do segundo artigo são extraídos diretamente da redação do primeiro. O art. 385, conforme já mencionado, estabelece duas regras principais. A primeira determina que o ágio apurado em uma aquisição de participação societária em sociedade controlada ou coligada seja registrado em subconta separada daquela que registra o valor do patrimônio líquido da investida na época da aquisição. Já a segunda fixa os possíveis fundamentos econômicos do ágio pago na aquisição da participação societária (valor de mercado dos bens do ativo da investida superior ao registrado na contabilidade; expectativa de resultados positivos da investida nos exercícios futuros; fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas). Por fim, o artigo ainda prevê que o ágio fundamentado em valor de mercado dos bens do ativo da investida ou na expectativa de resultados futuros deve ser baseado em documentação comprobatória, devidamente arquivada. Já o art. 386 trata, entre outras coisas, da possibilidade de aproveitamento tributário do ágio decorrente do fundamento econômico previsto no inciso II do §2º do artigo anterior (valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros). O caput do art. 386 traz o primeiro requisito que deve ser cumprido para que seja possível o aproveitamento do ágio: uma pessoa jurídica deve absorver o patrimônio de uma segunda, em que detenha participação societária adquirida com ágio. A respeito deste primeiro requisito exigido pela norma, recorro novamente ao Acórdão nº 9101002.301, pela assertividade da análise ali desenvolvida: "Percebese claramente, no caso, que o suporte fático delineado pela norma predica, de fato, que investidora e investida tenham que integrar uma mesma universalidade: A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio. Fl. 3267DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 32 31 A conclusão é ratificada analisandose a norma em debate sob a perspectiva da hipótese de incidência tributária delineada pela melhor doutrina de GERALDO ATALIBA 5. Esclarece o doutrinador que a hipótese de incidência se apresenta sob variados aspectos, cuja reunião lhe dá entidade. Ao se apreciar o aspecto pessoal, merecem relevo as palavras da doutrina, ao determinar que se trata da qualidade que determina os sujeitos da obrigação tributária. E a norma em análise se dirige à pessoa jurídica investidora originária, aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição, e à pessoa jurídica investida. Ocorre que, em se tratando do ágio, as reorganizações societárias empreendidas apresentaram novas pessoas ao processo. Como exemplo, podemos citar situação no qual a pessoa jurídica A adquire com ágio participação societária da pessoa jurídica B. Em seguida, utilizase de uma outra pessoa jurídica, C, e integraliza o capital social dessa pessoa jurídica C com a participação societária que adquiriu da pessoa jurídica B. Resta consolidada situação no qual a pessoa jurídica A controla a pessoa jurídica C, e a pessoa jurídica C controla a pessoa jurídica B. Em seguida, sucedese evento de transformação societária, no qual a pessoa jurídica B absorve patrimônio da pessoa jurídica C, ou vice versa. Ocorre que os sujeitos eleitos pela norma são precisamente a pessoa jurídica A (investidora) e a pessoa jurídica B (investida) cuja participação societária foi adquirida com ágio. Para fins fiscais, não há nenhuma previsão para que o ágio contabilizado na pessoa jurídica A (investidora), em razão de reorganizações societárias empreendidas por grupo empresarial, possa ser considerado "transferido" para a pessoa jurídica C, e a pessoa jurídica C, ao absorver ou ser absorvida pela pessoa jurídica B, possa aproveitar o ágio cuja origem deuse pela aquisição da pessoa jurídica A da pessoa jurídica B. Da mesma maneira, encontramse situações no qual a pessoa jurídica A realiza aportes financeiros na pessoa jurídica C e, de plano, a pessoa jurídica C adquire participação societária da pessoa jurídica B com ágio. Em seguida, a pessoa jurídica C absorve patrimônio da pessoa jurídica B, ou vice versa, a passa a fazer a amortização do ágio. Mais uma vez, não é o que prevê o aspecto pessoal da hipótese de incidência da norma em questão. A pessoa jurídica que adquiriu o investimento, que acreditou na mais valia e que desembolsou os recursos para a aquisição foi, de fato, a pessoa jurídica A (investidora). No outro pólo da relação, a pessoa jurídica adquirida com ágio foi a pessoa jurídica B. Ou seja, o aspecto pessoal da hipótese de incidência, no caso, autoriza o aproveitamento do ágio a partir do momento em que a pessoa jurídica A (investidora) e a pessoa jurídica B (investida) passem a integrar a mesma universalidade. 5 ATALIBA, Geraldo. Hipótese de Incidência Tributária, 6ª ed. São Paulo : Malheiros Editores, 2010, p. 51 e segs. Fl. 3268DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 33 32 São as situações mais elementares. Contudo, há reorganizações envolvendo inúmeras empresas (pessoa jurídica D, E, F, G, H e assim por diante). Vale registrar que goza a pessoa jurídica de liberdade negocial, podendo dispor de suas operações buscando otimizar seu funcionamento, com desdobramentos econômicos, sociais e tributários. Contudo, não necessariamente todos os fatos são recepcionados pela norma tributária. A partir do momento em que, em razão das reorganizações societárias, passam a ser utilizadas novas pessoas jurídicas (C, D, E, F, G, e assim sucessivamente), pessoas jurídicas distintas da investidora originária (pessoa jurídica A) e da investida (pessoa jurídica B), e o evento de absorção não envolve mais a pessoa jurídica A e a pessoa jurídica B, mas sim pessoa jurídica distinta (como, por exemplo, pessoa jurídica F e pessoa jurídica B), a subsunção ao art. 386 do RIR/99 tornase impossível, vez que o fato imponível (suporte fático, situado no plano concreto) deixa de ser amoldar à hipótese de incidência da norma (plano abstrato), por incompatibilidade do aspecto pessoal. Em relação ao aspecto material, há que se consumar a confusão de patrimônio entre investidora e investida, a que faz alusão o caput do art. 386 do RIR (A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio...). Com a confusão patrimonial, aperfeiçoa se o encontro de contas entre investidor e investida, e a amortização do ágio passa a ser autorizada, com repercussão direta na base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Na realidade, o requisito expresso de que investidor e investida passam a compor o mesmo patrimônio, mediante evento de transformação societária, no qual a investidora absorve a investida, ou vice versa, encontra fundamento no fato de que, com a confusão de patrimônios, o lucro auferido pela investida passa a integrar a mesma universalidade da investidora. SCHOUERI6, com muita clareza, discorre que, antes da absorção, investidor e investida são entidades autônomas. O lucro auferido pela investida (que foi a motivação para que a investidora adquirisse a investida com o sobrepreço), é tributado pela própria investida. E, por meio do MEP, eventual acréscimo no patrimônio líquido da investida seria refletido na investidora, sem, contudo, haver tributação na investidora. A lógica do sistema mostrase clara, na medida em que não caberia uma dupla tributação dos lucros auferidos pela investida. Por sua vez, a partir do momento em que se consuma a confusão patrimonial, os lucros auferidos pela então investida passam a integrar a mesma universalidade da investidora. Reside, precisamente nesse ponto, o permissivo para que o ágio, pago pela investidora exatamente em razão dos lucros a serem auferidos pela investida, possa ser aproveitado, vez que passam a se comunicar, diretamente, a despesa de amortização do ágio e as receitas auferidas pela investida. 6 SCHOUERI, 2012, p. 62. Fl. 3269DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 34 33 Ou seja, compartilhando o mesmo patrimônio investidora e investida, consolidase cenário no qual a mesma pessoa jurídica que adquiriu o investimento com mais valia (ágio) baseado na expectativa de rentabilidade futura, passa a ser tributada pelos lucros percebidos nesse investimento. Verificase, mais uma vez, que a norma em debate, ao predicar, expressamente, que para se consumar o aproveitamento da despesa de amortização do ágio, os sujeitos da relação jurídica seriam a pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, ou seja, investidor e investida, não o fez por acaso. Tratase precisamente do encontro de contas da investidora originária, que incorreu na despesa e adquiriu o investimento, e a investida, potencial geradora dos lucros que motivou o esforço incorrido. Prosseguindo a análise da hipótese de incidência da norma em questão, no que concerne ao aspecto temporal, cabe verificar o momento em que o contribuinte aproveitase da amortização do ágio, mediante ajustes na escrituração contábil e no LALUR, evento que provoca impacto direto na apuração da base de cálculo tributável. Considerandose o regime de tributação adotado pelo sujeito passivo, aperfeiçoase o lançamento fiscal e o termo inicial para contagem do prazo decadencial." Concluise, portanto, que o art. 386 do RIR/1999, sob o aspecto pessoal, se dirige à investidora que vier a incorporar sua investida (ou por ela ser incorporada), após ter efetivamente acreditado na mais valia do investimento, feito os estudos de rentabilidade futura e desembolsado os recursos para a aquisição da participação societária (tanto o valor do principal quanto o do ágio). Ou seja, quando ocorre a incorporação é que se dá a subsunção do fato à norma e surge a prerrogativa de amortização do sobrepreço, pago em momento anterior pela investidora em razão da confiança na rentabilidade futura da investida. Destaquese que a regra se aplica tanto à incorporação da investida pela investidora quanto, no sentido inverso, à hipótese em que a investidora é que é incorporada por sua investida. Em ambos os casos, a lei exige que a investidora envolvida na incorporação seja a "original" ou stricto sensu (no sentido de que a originalidade está indissociavelmente ligada à pessoa jurídica que paga o ágio e, por isso mesmo, tem confiança na rentabilidade futura, pois é quem assume o risco). A situação em que a investida incorpora sua investidora é denominada de incorporação reversa ou ainda de incorporação "às avessas". A previsão da possibilidade de aproveitamento fiscal do ágio nesta hipótese é trazida pelo §6º, inciso II, do art. 386 do RIR/1999. O dispositivo faz uso de uma técnica legislativa transitiva, indicando assim que o que vale para o caput do art. 386 do RIR/1999 vale também para o seu §6º. As premissas de exegese da norma não são afetadas, sendo necessárias apenas as devidas adaptações para contemplar a situação prevista. De forma correlata ao que se analisou quanto ao aspecto pessoal, a confusão de patrimônios, principal item do aspecto material para fins de enquadramento no art. 386 do RIR/1999, consumase quando, na sociedade incorporadora, o lucro futuro e o investimento original com expectativa desse lucro (aquele que foi sobreavaliado) passam a se comunicar diretamente (os riscos se fundem: o risco do investimento assim entendidos os recursos aportados e o risco do empreendimento). Fl. 3270DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 35 34 Compartilhando o mesmo patrimônio a investidora e a investida, consolidase cenário no qual a pessoa jurídica detentora da "mais valia" (ágio) do investimento baseado na expectativa de rentabilidade futura passa a ser responsável também por honrar tal rentabilidade. Assim, a legislação permite que o contribuinte considere perdido o capital que foi investido com o ágio e deduza a despesa relativa à "mais valia". Configuração semelhante ocorre na incorporação reversa, na medida em que a pessoa jurídica responsável por gerar a rentabilidade esperada para o futuro passa a ser a detentora do ágio baseado na expectativa de tal rentabilidade. Sendo assim, pressupõese que a "mais valia" porventura contabilizada tenha sido efetivamente suportada por alguma das pessoas que participam da "confusão patrimonial". Para fins de acesso à dedutibilidade estabelecida pelo art. 386 do RIR/1999, a pessoa jurídica que efetivamente suportou o ágio pago na aquisição de um investimento deve incorporar tal investimento (incorporação da investida pela investidora) ou ser incorporada pela empresa em que investiu (incorporação "às avessas"). Em síntese, a subsunção aos artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997, assim como aos artigos 385 e 386 do RIR/1999, exige a satisfação dos aspectos temporal, pessoal e material das hipóteses ali previstas. Na atual redação destes dispositivos, exclusivamente no caso em que houver o efetivo desembolso de valores (ou sacrifício de outros ativos) a título de investimento da investidora (futura incorporadora ou, no caso da incorporação reversa, incorporada) na investida (futura incorporada ou, no caso da incorporação reversa, incorporadora), é que haverá o atendimento aos aspectos pessoal e material. Se o ágio não foi de fato arcado por nenhuma das pessoas participantes da "confusão patrimonial", não há sentido em clamarse pela dedutibilidade das despesas decorrentes de amortização de ágio instituída pelo art. 386 do RIR/1999. No caso analisado nos presentes autos, é incontroverso que o ágio que a contribuinte pretendeu aproveitar tributariamente teve origem em 30/08/2005, quando a MERIDIONAL adquiriu a totalidade das quotas da ALLIANCE ONE BRASIL junto à INTABEX pelo valor de R$ 507.000.000,00. O fato de tal valor ser superior ao valor patrimonial das quotas alienadas (R$ 268.324.917,57) fez com que a MERIDIONAL registrasse a diferença como ágio, quantificado em R$ 238.675.082,43. Em 30/09/2005, a controladora MERIDIONAL foi incorporada pela contribuinte ALLIANCE ONE BRASIL, sua controlada, em um processo de incorporação reversa, o que fez com que o ágio antes contabilizado na primeira ingressasse no patrimônio da segunda. Como o ágio fora originalmente atribuído à expectativa de rentabilidade futura de suas próprias quotas, a contribuinte considerou que tinha reunido na mesma entidade o ágio e o investimento cuja expectativa de resultados lhe servira como fundamento. Assim, julgandose amparada pelos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 (art. 386 do RIR/1999), passou a promover a redução das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL por meio da exclusão de valores atribuídos à dedução das despesas de amortização do referido ágio. Ocorre que o entendimento defendido pela não tem amparo legal nos mencionados dispositivos legais ou em quaisquer outros. Fl. 3271DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 36 35 Interpretandose o conteúdo do art. 386 do RIR/1999 sob a perspectiva da hipótese de incidência tributária, verificase que não restaram observados, no caso concreto, os aspectos pessoal e material necessários à subsunção da situação fática à previsão normativa. A configuração do aspecto pessoal da hipótese de incidência do art. 386 do RIR/1999 requer, como foi visto, que a pessoa jurídica que vier a absorver o patrimônio da outra em que detenha participação societária (ou a ser absorvida por ela, no caso da incorporação "às avessas") tenha acreditado na "mais valia", feito estudos de rentabilidade futura e efetivamente desembolsado os recursos para a aquisição do investimento. No caso dos autos, é incontroverso que não houve desembolso algum, por qualquer das partes envolvidas, nas operações que originaram o ágio de R$ 238.675.082,43. Este número adveio simplesmente da diferença entre a reavaliação encomendada pela administração local do grupo ALLIANCE (após já sacramentada a unificação dos grupos internacionais DIMON INCORPORATED e STANDARD COMMERCIAL CORPORATION) e o valor nominal das quotas da contribuinte que foram cedidas pela INTABEX à MERIDIONAL. Sendo assim, não há que se falar na existência de uma investidora real, que faria jus à possibilidade de aproveitamento tributário do ágio nos moldes delineados no art. 386 do RIR/1999. Além disso, também o aspecto material da hipótese de incidência do art. 386 do RIR/1999 não restou caracterizado no caso concreto. Para que o ágio possa ser objeto de aproveitamento fiscal, é necessária a ocorrência de "confusão patrimonial" entre investidora e investida porque assim passam a coexistir dentro da mesma pessoa jurídica a "mais valia" paga com base na expectativa de rentabilidade futura e o próprio investimento de que se espera tal rentabilidade. É justamente por conta deste encontro que a legislação permite que os contribuintes dêem por perdido o capital investido na "mais valia" e passem a utilizar as despesas de sua amortização como deduções da base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Se não existiu o efetivo dispêndio da investidora por tal "mais valia", não há valor pago a maior que possa ser considerado perdido por ocasião de seu encontro, na contabilidade da mesma pessoa jurídica, com o investimento de que se esperava a produção futura de resultados positivos. Logo, perde o sentido a possibilidade de aproveitamento tributário do ágio. Assim, a operação de aproveitamento tributário do ágio por meio da exclusão de valores correspondentes às despesas de sua amortização, promovida pela contribuinte diretamente na parte B de seu LALUR nos anos de 2009 e 2010, não teve amparo dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 ou dos arts. 385 e 386 do RIR/1999. Conforme se viu, a possibilidade de aproveitamento fiscal do ágio só tem sentido em situações em que a investidora de fato, responsável por arcar com o dispêndio que faz nascer o ágio, incorpora a pessoa jurídica em que possua participação societária (investimento) ou é por ela incorporada. No caso dos autos, não existiu a figura da investidora originária porque não houve dispêndio apto a amparar a criação do ágio que se pretendeu amortizável. O ágio contabilizado decorreu de reavaliação do valor de mercado das quotas da contribuinte ALLIANCE ONE BRASIL, posteriormente cedidas pela INTABEX à MERIDIONAL, não tendo sido verificado dispêndio que viesse a satisfazer os aspectos pessoal e material da hipótese de incidência da benesse estabelecida no art. 386 do RIR/1999. É indiferente para tal conclusão o fato de, ao final das operações societárias promovidas pelo grupo econômico, estarem reunidos no patrimônio da contribuinte Fl. 3272DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 37 36 ALLIANCE ONE BRASIL o ágio de R$ 238.675.082,43, fundamentado na expectativa de sua própria rentabilidade futura, e o investimento que lhe serviu de fundamento. Sem a realização de investimento efetivo que justifique o nascimento do ágio, não há que se falar na ocorrência de confusão patrimonial que possibilite a dedutibilidade prevista no art. 386 do RIR/1999. Importante ressaltar que, quando se estabelece a necessidade de que a investidora arque com a aquisição do investimento com ágio, não se restringe tal operação a uma compra e venda com o desembolso de valores monetários. O dispêndio a que se refere diz respeito a qualquer operação que gere ganhos para o alienante e gastos para o adquirente. Mais do um pagamento em dinheiro, o que se espera como resultado desta operação é que haja variações patrimoniais para os envolvidos em valores proporcionais ao negócio celebrado. O ágio inicialmente contabilizado pela MERIDIONAL e posteriormente incorporado pela recorrente ALLIANCE ONE BRASIL foi criado sem esta troca de riquezas entre adquirente e alienante. A criação de tal ágio foi um fenômeno puramente contábil. Ninguém sacrificou valores ou direitos que justificassem sua criação. Isto só foi possível porque as empresas ALLIANCE ONE BRASIL, a MERIDIONAL e a INTABEX já eram, em agosto de 2005, todas pertencentes ao mesmo grupo econômico. Até maio de 2005, a contribuinte ALLIANCE ONE BRASIL (controlada direta da holding estrangeira INTABEX) e a MERIDIONAL eram concorrentes diretas no Brasil, atuando no mercado de tabaco. Os grupos econômicos internacionais a que pertenciam também concorriam a nível global, sendo que a contribuinte era parte do grupo controlado pela DIMON INCOPORATED e a MERIDIONAL pertencia ao grupo capitaneado pela STANDARD COMMERCIAL CORPORATION. Em 13/05/2005, nos Estados Unidos da América, a DIMON INCORPORATED incorporou a STANDARD COMMERCIAL CORPORATION e mudou sua denominação para ALLIANCE ONE INTERNATIONAL INC.. Assim, a partir de maio de 2005, tanto a contribuinte ALLIANCE ONE BRASIL e sua controladora INTABEX quanto a empresa MERIDIONAL estavam submetidas ao controle de uma mesma pessoa jurídica norteamericana, a ALLIANCE ONE INTERNATIONAL INC.. A MERIDIONAL submetiase a tal controle por intermédio de suas controladoras diretas, as holdings estrangeiras TRANSCONTINENTAL LEAF TOBACCO CORPORATION LIMITED e STANDARD COMMERCIAL TOBACCO CO. INC.. Somente em razão desta nova configuração é que foi possível a realização da "venda" das quotas da contribuinte pela INTABEX à MERIDIONAL, em 30/08/2005, sem qualquer substrato econômico ou sacrifício patrimonial em contrapartida. A MERIDIONAL, a princípio, registrou como obrigação a pagar a dívida de R$ 507.000.000,00 que assumiu junto à INTABEX. No dia seguinte, "pagou" a dívida por meio da emissão de novas quotas, no valor total de R$ 507.000.000,00, que foram entregues à INTABEX. Ou seja, como afirmado antes, o ágio foi criado pelo grupo econômico com contrapartida meramente contábil, de forma artificial. A circulação de riquezas requerida pelo art. 386 do RIR/1999, para fins de caracterização do aspecto pessoal da hipótese de incidência, requer obrigatoriamente a participação de um terceiro, externo ao grupo econômico que negocia a participação societária, Fl. 3273DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 38 37 especificamente na operação que fixa o "custo de aquisição", o "valor de mercado", que será empregado no cálculo do ágio. É neste momento que a participação de um terceiro é necessária, porque somente desta forma é possível garantir que o valor praticado na "aquisição" do investimento é verossímil e apto a ser utilizado como parâmetro de cálculo de um ágio que poderá ser posteriormente convertido em vantagens tributárias para o adquirente da participação societária. No caso concreto, os controladores da INTABEX e da MERIDIONAL poderiam determinar, em última instância, qualquer valor de "alienação" para as quotas da ALLIANCE ONE BRASIL que foram cedidas em 30/08/2005 porque ocupavam, simultaneamente, as posições de alienante e adquirente da participação societária. Não há sentido em se cogitar da existência de ágio com base em reavaliação promovida unilateralmente pelos controladores, sem que o valor estipulado para a "mais valia" passe pelo crivo de razoabilidade do mercado, por meio da aceitação, por um terceiro nãorelacionado, em arcar com o correspondente ônus (não necessariamente por meio de pagamento, mas de algum sacrifício patrimonial proporcional). Assim, o negócio celebrado entre estas empresas não aconteceu em um ambiente de livre concorrência, em que os atos negociais visam a atender aos interesses de ambos os contratantes, que assumem direitos e deveres proporcionais. O fato de as empresas integrarem um mesmo grupo econômico adiciona novos elementos e interesses maiores ao negócio. Não necessariamente os atos celebrados têm como objetivo beneficiar todas as partes envolvidas. Portanto, quanto ao aproveitamento tributário do ágio de R$ 238.675.082,43 (sendo R$ 47.735.016,48 no anocalendário 2009 e R$ 35.801.262,39 no anocalendário 2010), pretendido pela recorrente ALLIANCE ONE BRASIL, considero que andou bem a Fiscalização ao não permitilo e ao determinar as respectivas glosas. Conforme se verificou, tratase de ágio interno, criado de forma artificial em operações meramente contábeis realizadas entre empresas pertencentes ao mesmo grupo econômico, imprestável, portanto, para fins de utilização tributária. Este entendimento é corroborado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que já se pronunciou de forma contrária à possibilidade de geração de ágio em operações societárias envolvendo apenas empresas pertencentes a um mesmo grupo econômico, por meio do OfícioCircular/CVM/SNC/SEP nº 01/2007, de onde se transcreve o seguinte trecho: "Em nosso entendimento, ainda que essas operações atendam integralmente os requisitos societários, do ponto de vista econômico contábil é preciso esclarecer que o ágio surge, única e exclusivamente, quando o preço (custo) pago pela aquisição ou subscrição de um investimento a ser avaliado pelo método da equivalência patrimonial, supera o valor patrimonial desse investimento. E mais, preço ou custo de aquisição somente surge quando há o dispêndio para se obter algo de terceiros. Assim, não há, do ponto de vista econômico, geração de riqueza decorrente de transação consigo mesmo. Qualquer argumento que não se fundamente nessas assertivas econômicas configura sofisma formal e, portanto, inadmissível. Fl. 3274DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 39 38 Não é concebível, econômica e contabilmente, o reconhecimento de acréscimo de riqueza em decorrência de uma transação dos acionistas com eles próprios. Ainda que, do ponto de vista formal, os atos societários tenham atendido à legislação aplicável (não se questiona aqui esse aspecto), do ponto de vista econômico, o registro de ágio, em transações como essas, somente seria concebível se realizada entre partes independentes, conhecedoras do negócio, livres de pressões ou outros interesses que não a essência da transação, condições essas denominadas na literatura internacional como “arm’s length”. Portanto, é nosso entendimento que essas transações não se revestem de substância econômica e da indispensável independência entre as partes, para que seja passível de registro, mensuração e evidenciação pela contabilidade." (grifouse) Assim, verificase que a CVM não chancela a existência contábil do ágio gerado dentro de um mesmo grupo econômico, sem dispêndio algum. Também o Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC) já se manifestou de maneira semelhante, por meio da Orientação Técnica OCPC nº 02/2008: "É importante lembrar que só pode ser reconhecido o ativo intangível ágio por expectativa de rentabilidade futura se adquirido de terceiros, nunca o gerado pela própria entidade (ou mesmo conjunto de empresas sob controle comum). E o adquirido de terceiros só pode ser reconhecido, no Brasil, pelo custo, vedada completamente sua reavaliação." Por fim, relevante ainda mencionar que o Conselho Federal de Contabilidade (CFC) tampouco reconhece a legitimidade do ágio gerado intragrupo, como foi expresso nas seguintes Resoluções: Resolução CFC nº 1.110/2007 “O reconhecimento de ágio decorrente de rentabilidade futura gerado internamente (goodwill interno) é vedado pelas normas nacionais e internacionais. Assim, qualquer ágio dessa natureza anteriormente registrado precisa ser baixado.” Resolução CFC nº 1.303/2010 "48. O ágio derivado da expectativa de rentabilidade futura (goodwill) gerado internamente não deve ser reconhecido como ativo. 49. Em alguns casos incorrese em gastos para gerar benefícios econômicos futuros, mas que não resultam na criação de ativo intangível que se enquadre nos critérios de reconhecimento estabelecidos na presente Norma. Esses gastos costumam ser descritos como contribuições para o ágio derivado da expectativa de rentabilidade futura (goodwill) gerado internamente, o qual não é reconhecido como ativo porque não é um recurso identificável (ou seja, não é separável nem advém de direitos contratuais ou outros direitos legais) controlado pela entidade que pode ser mensurado com confiabilidade ao custo." Fl. 3275DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 40 39 Os atos administrativos mencionados e parcialmente transcritos foram todos exarados de 2007 em diante, posteriormente, portanto, ao período em que o grupo econômico a que pertence a contribuinte recorrente praticou as operações societárias que pretensamente originaram ágio passível de aproveitamento tributário (2005). Isto não significa, entretanto, que o entendimento exposto nos atos administrativos daqueles órgãos fosse novo. A este respeito, observese a manifestação da própria CVM por ocasião do julgamento de recurso constante do Processo Administrativo CVM RJ 2007/3480: "RELATÓRIO No caso concreto, as demonstrações financeiras da Companhia do exercício de 2006 continham uma informação que a SEP e a SNC consideraram errada: o valor de um ativo (a participação acionária na CPM USA) foi contabilizado por um valor apurado em laudo de avaliação, mas esse bem estava, antes, contabilizado em companhia do mesmo grupo por valor mais baixo, e o aumento de seu valor se deu por incorporação entre partes relacionadas. A Companhia não recorreu quanto ao mérito desse entendimento, mas entende que ele somente foi manifestado pela CVM ao mercado através do Oficio Circular de 2007, divulgado em 14.02.2007,(...) SEP e SNC confirmam que essa dicção somente constou a partir do Oficio Circular 01/2007, mas sustentam que o entendimento já era este desde sempre, porque ele decorre dos princípios contábeis geralmente são aplicáveis à escrituração contábil das companhias brasileiras por força do art. 177 da Lei 6.404/76 (...) O recurso apresentado pela Companhia sustenta que a introdução desse entendimento pela CVM constituiria mudança de critério contábil de que trata o art. 186, §1º da Lei 6.404/76, e, por isso, a determinação de baixa do ágio poderia ser feita mediante ajuste de exercícios anteriores, na primeira ITR, como já teria sido aceito pela CVM em outros precedentes. Quanto ao primeiro ponto, entendo ter razão a área técnica. Não se pode afirmar que seja novo o entendimento da CVM quanto à impossibilidade contábil de aproveitamento do ágio interno (assim entendido como aquele gerado em operações entre partes relacionadas). Como lembra a SNC, essa impossibilidade está ligada ao Principio do Custo como Base de Valor — segundo os especialistas "o mais antigo e discutido principio de contabilidade" — que considera o valor de entrada como o que deve servir de base para registro de qualquer ativo, ressalvada a hipótese restrita (e mesmo inexistente em alguns países, como nos Estados Unidos) de reavaliação e, ainda, observandose o valor de recuperação, sempre que menor. Como destacam as áreas técnicas, esse principio foi expressamente reconhecido na "Estrutura Conceitual Básica de Contabilidade" desde a Deliberação 29/86, além de estar à base da Deliberação 183/95. Portanto, ainda que o OficioCircular 01/2007 tenha vindo a dar maior destaque à questão especifica do ágio interno, o entendimento da CVM Fl. 3276DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 41 40 sempre existiu, com fundamento do Principio do Custo como Base de Valor, e era público. Assim, não vejo como sustentar, portanto, que se possa falar em "mudança de critério contábil" (grifouse). Diante de todo o exposto, concluise que as próprias Ciências Contábeis têm restrições em relação à existência do ágio gerado internamente, por meio de operações societárias realizadas no interior de um grupo econômico e sem o lastro de efetiva circulação de riquezas. Com base nisso e na inexistência de lei que estabeleça tratamento tributário diferenciado para este instituto, forçoso se faz concluir pela inutilidade do denominado "ágio interno" para os fins tributários pretendidos pela recorrente. Diante do exposto, relativamente ao pedido de reconhecimento da legitimidade do aproveitamento tributário do ágio gerado em operações envolvendo apenas empresas pertencentes ao grupo econômico ALLIANCE, voto por NEGAR PROVIMENTO ao recurso especial da contribuinte. 3) Qualificação da multa de ofício Conforme relatado alhures, a PGFN apresentou recurso especial questionando a conclusão a que chegou o Acórdão nº 1402002.148 em relação à inaplicabilidade da multa de ofício qualificada ao caso concreto. A Fazenda Nacional defende a aplicação da multa de ofício em seu percentual qualificado de 150% por entender que a Fiscalização logrou demonstrar cabalmente o nítido intuito de fraude das operações praticadas pela contribuinte com simulação para criar ágio interno sem propósito negocial. Prossegue a recorrente afirmando que a contribuinte teve participação ativa nas operações artificiais promovidas pelo seu grupo econômico, atuando de forma dolosa, firme, consciente e livre para, de forma deliberada, modificar a característica essencial de fato gerador de obrigação tributária principal. Assim, teria sido suficientemente demonstrada a presença dos elementos volitivo e cognitivo necessários à caracterização do dolo, devendo ser restabelecida a qualificação da multa de ofício, posto que amparada nos comandos legais aplicáveis e justificada pelo contexto probante. A análise da pretensão recursal da Fazenda Nacional deve iniciarse pelo exame dos fundamentos manejados pela Fiscalização para aplicar, no caso concreto sob discussão, a multa de ofício em sua modalidade qualificada. O Relatório Fiscal datado de 30/09/2014 justificou tal conclusão com base nas seguintes considerações: "VI MULTA QUALIFICADA 219. Os fatos expostos neste relatório demonstram que a Contribuinte atuou de forma dolosa, através de ato simulado de compra e venda de participação societária implementada no BRASIL pela administração local, com real interesse em modificar suas características pessoais frente ao FISCO, mostrandose como uma controlada da sua futura incorporada por um pequeno lapso temporal e assim, implementar condições artificiais para se adequar ao disposto no art. 7º da Lei 9.532/97 e alcançar o gozo do benefício fiscal do aproveitamento ágio Fl. 3277DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 42 41 interno que não seria gerado se a materialidade da incorporação internacional fosse mantida no Brasil. 220. A interposição da compra e venda da participação societária foi apresentada como uma operação precedente necessária para o processo de reorganização no Brasil derivado da reorganização internacional, mas seu objetivo real teve apenas como fim a alteração das características individuais da Contribuinte perante o FISCO, e mais contundentemente, foi realizada na contramão da verdade material existente, já que toda a linha de incorporação já se encontrada prédefinida quando da sua implementação. 221. Apurouse de forma contundente que os agentes que participaram da operação de compra e venda não eram os verdadeiros interessados na operação. Foram usados, tiveram a vontade manipulada em favor de terceiro. O poder de mando conferido aos Diretores pelos contratos sociais que dão forma a operação em nome da MERIDIONAL já se encontrava deturpado. Foi provado que nem a PJ que implementa a condição, nem seus representantes estavam à frente da condução do negócio apresentado ao FISCO. Não havia qualquer interesse econômico ou mesmo capacidade financeira (alegada pela própria Contribuinte em suas justificativas) para que uma empresa à beira da extinção (já definida pela incorporação internacional) implementasse uma operação de grande monta sem ter qualquer objetivo econômico ou financeiro ou simplesmente para buscar realizar o seu objeto através de terceiros. Nem mesmo a operação fazia parte da sua atividade e seus representantes legais estavam autorizados para praticálo. A afronta a diversos elementos formais no açodado interesse em realizar o ato, corroborou com a identificação da simulação com objetivo de promover a sonegação fiscal através da fraude a Lei Tributária, mais precisamente o art. 7º da Lei 9.532 através da inserção de elementos formais não alinhados com a verdade material na relação jurídicotributária e propositadamente alterála a seu favor com fins de reduzir o tributo devido. 222. A multa aplicada nos casos de lançamento de ofício é calculada sobre a diferença de tributo ou contribuição está prevista no Art. 44, I da Lei 9.430 de 27/12/1996. No caso de constatação de que a conduta é enquadrada nos casos previstos do §1º do art. 44, a multa disposta no inciso I é aplicada em dobro, ou seja, 150%: Lei 9430/96 Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas, calculadas sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; (Vide Lei nº 10.892, de 2004)(Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) § 1º O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras Fl. 3278DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 43 42 penalidades administrativas ou criminais cabíveis. (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) (...) Lei 4502/64 Art. 71. Sonegação é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I – da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; II – das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Art. 72. Fraude é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do impôsto devido, ou a evitar ou diferir o seu pagamento. Art. 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos arts. 7l e 72. 223. Exaustivamente expostos no presente relatório o fatos que demonstram a fraude tributária e a sonegação tributária, a fiscalização aplica a multa qualificada de 75% (setenta e cinco por cento), em dobro, nos termos do §1º do art. 44 da Lei 9.430/96. " (grifouse) Verificase, portanto, que a autoridade lançadora considerou configuradas no caso concreto hipóteses de fraude e sonegação tributárias, tipificadas nos arts. 71 e 72 da Lei nº 4.502/1964. Sendo assim, entendeuse como impositiva a qualificação da multa de ofício que acompanhou os lançamentos principais, conforme determinado pelo § 1º do art. 44 da Lei nº 9.430/1996. Ao apreciar as impugnações apresentadas pelos sujeitos passivos (contribuinte e seus exdiretores, que foram apontados como responsáveis solidários), a 3ª Turma da Delegacia de Receita Federal do Brasil de Julgamento (DRJ) em Ribeirão Preto/SP assim dispôs no Acórdão nº 1457.960, a respeito da aplicação da multa qualificada no caso sob análise: "EMENTA (...) MULTA QUALIFICADA. Constatado o dolo na prática de fraude e conluio que resultaram na geração de ágio artificial, criado de forma consciente e deliberada, é cabível qualificação da multa de ofício, aplicada no percentual de 150%. (...) VOTO Fl. 3279DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 44 43 (...) Multa qualificada. A impugnante reclama que não pode ser aplicada a multa de 150% (qualificada) ao lançamento efetuado, porque inexistem condutas dolosas e práticas de atos simulados. Para explicitar a aplicabilidade dessa multa, transcrevemse os dispositivos da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, que a fundamentam, in verbis: (...) Vêse que, para enquadrar determinado ilícito fiscal nos dispositivos dessa lei, há necessidade que esteja caracterizado o intuito doloso. Ademais, podese afirmar que cada ato ilícito carrega uma determinada carga de lesão à ordem tributária, onde determinadas condutas são tão graves a ponto de, por si só, imediatamente consubstanciarem o intuito doloso. Passandose ao caso concreto que aqui se tem, a multa de ofício com esse percentual é aplicável sobre o imposto e contribuição apurada, pois a forma pela qual foram executadas as operações evidenciam as intenções das partes em reduzir o montante dos tributos devidos, como bem descrito pelo Autuante, no Relatório Fiscal: (...) Dessa forma, devese confirmar que restou claro o intuito de impedir ou retardar o conhecimento por parte da autoridade fazendária da ocorrência do fato gerador da obrigação principal e das condições pessoais do contribuinte e também da ocorrência do fato gerador, propiciando a redução indevida dos tributos devidos. Estando provada a ocorrência de conduta lesiva ao erário, dolosa, da autuada, justificase a aplicação da multa de ofício com o percentual de 150%, conforme enquadramento legal citado nos autos." (grifouse) Prevaleceu, portanto, na primeira instância de julgamento administrativo o entendimento pelo acerto da qualificação da multa de ofício determinada pela Fiscalização. A decisão fez remissão aos termos do Relatório Fiscal para concluir ter sido claramente demonstrado o intuito doloso da contribuinte de impedir ou retardar o conhecimento, por parte da autoridade tributária, do fato gerador da obrigação principal e das suas próprias condições pessoais, com o objetivo maior de reduzir indevidamente o montante dos tributos devidos. Na sequência, houve interposição de recursos voluntários pela contribuinte e pelos responsáveis solidários, que provocaram o proferimento do Acórdão nº 1402002.148. Naquela decisão, o i. Conselheiro Relator foi vencido quanto aos temas da qualificação da multa de ofício e da responsabilização solidária dos exdiretores da contribuinte. Prevaleceu em relação a tais tópicos o entendimento consubstanciado no voto vencedor assim redigido: "Com a devida vênia, o que diz respeito à penalidade de 150% e a responsabilidade dos coobrigados, ouso discordar do entendimento do i. Conselheiro Relator. Fl. 3280DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 45 44 Analisando o caso, entendo não restar caracterizado o dolo a justificar a exasperação da penalidade. As operações levadas a efeito foram realizadas segundo diretrizes estabelecidas na integração mundial das empresas dos grupos do DIMON Incorporated e Standard Commercíal Corporation, haja vista a troca de ações das empresas efetuada no exterior, a valores de mercado. Conforme evidenciou a Recorrente, apesar da troca de ações não ser uma opção viável para a consolidação das operações do grupo no País, esse critério de valoração a mercado haveria de ser e foi utilizado nas reorganizações realizadas pelas subsidiárias diretas e indiretas das empresas não só no Brasil, mas também em nível mundial. Ainda segundo consta nos autos, diante do objetivo de seguir o princípio adotado no exterior de reconhecer o valor de mercado do investimento da Intabex na Recorrente antes de sua integração com a empresa Meridional e em seguida dandolhe participação amplamente majoritária naquela, foram analisadas as alternativas possíveis para tanto e decidiuse que a operação de compra e venda das quotas da Recorrente à Meridional, com o registro de ágio, seguida da capitalização dos valores a receber, seria a opção mais adequada. Embora os efeitos tributários advindos no Brasil de tal estruturação da operação não possa ser aceita, entendo que não se pode concluir ter ocorrido simulação, e, consequentemente, dolo na operação realizada. Nesse cenário, considero não restar caracterizada a ocorrência de fraude, sonegação ou conluio (arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/64), elementos necessários à qualificação da multa de ofício, conforme determina o parágrafo 1º do art. 44 da Lei nº 9.430/96. Assim sendo, voto por reduzir a penalidade aplicada para 75%." (grifou se) A decisão recorrida considerou, pois, que a operação de venda das quotas da contribuinte ALLIANCE ONE BRASIL pela INTABEX à MERIDIONAL, a valor de mercado, antes da integração definitiva entre esta última e a contribuinte, seria a forma mais adequada de seguir no Brasil a diretriz adotada mundialmente na unificação das empresas antes pertencentes aos grupos multinacionais distintos DIMON INCORPORATED e STANDARD COMMERCIAL CORPORATION. Em razão disso, concluiuse que a conduta da contribuinte não estaria eivada de dolo e não caracterizaria fraude, sonegação ou conluio necessários à qualificação da multa de ofício, nos termos dos arts. 71 a 73 da Lei nº 4.502/1964 e art. 44, § 1º, da Lei nº 9.430/1996. Com a devida vênia, discordo da tese que prevaleceu no acórdão recorrido e entendo que cabe razão à Fazenda Nacional em sua pretensão recursal. Acompanho o entendimento da Fiscalização e do acórdão proferido pela DRJ em Ribeirão Preto/SP, no sentido de que a reorganização societária promovida pelo grupo econômico da contribuinte tinha um único objetivo traçado desde seu início: a fabricação artificial de ágio que pudesse ser objeto de aproveitamento fiscal para fins de redução da carga Fl. 3281DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 46 45 tributária da contribuinte. Assim, verificase a dissociação entre a vontade declarada pelo contribuinte e sua vontade real, caracterizandose hipótese de simulação apta a caracterizar a fraude tipificada no art. 72 da Lei nº 4.502/1964. Ainda que o então recémcriado grupo internacional ALLIANCE estivesse, como alega a contribuinte, efetivamente promovendo a integração das operações de suas empresas brasileiras, com os objetivos de eliminar duplicidades, cortar custos e aumentar a eficiência, isso não justificaria a realização da operação societária levada à prática em 30/08/2005, por meio da qual a INTABEX alienou à MERIDIONAL a integralidade das quotas da contribuinte ALLIANCE ONE BRASIL, a valores reavaliados. Para atender ao objetivo de redução da complexidade da estrutura societária e de reunião das operações de duas empresas do grupo, bastaria a transferência do controle acionário ou mesmo a incorporação de uma das empresas por outra, a valores contábeis. A concretização de tais objetivos não necessitava, de forma alguma, que a MERIDIONAL adquirisse, com ágio milionário, as quotas da contribuinte. Inclusive, apenas um mês após tal aquisição de participação societária, ocorreu a incorporação inversa da investidora MERIDIONAL pela investida ALLIANCE ONE BRASIL. Tal fato corrobora a desnecessidade da operação que especificamente provocou o surgimento contábil do ágio que se pretendeu amortizável. A contribuinte alega que esta operação específica seria necessária para respeitar uma diretriz estabelecida mundialmente para a integração das empresas antes pertencentes aos grupos internacionais distintos DIMON INCORPORATED e STANDARD COMMERCIAL CORPORATION. Ora, se as operações de integração entre as empresas estrangeiras do grupo recémcriado se deram mediante troca de ações ou se envolveram companhias de capital aberto ou fechado, nada disso tornava imperativa a reavaliação a valor de mercado das quotas da contribuinte antes de sua integração definitiva com a MERIDIONAL. Não se pode afirmar nem mesmo que o valor de mercado da ALLIANCE ONE BRASIL, quando ainda era denominada de DIMON DO BRASIL TABACOS LTDA., tenha sido levado em consideração para a fixação de valores adotados em operações realizadas no exterior antes de 30/08/2005 (data da aquisição das quotas da contribuinte com ágio). Isso porque a integração dos grupos estrangeiros se deu em 13/05/2005 e o laudo de reavaliação elaborado pela PricewaterhouseCoopers, empresa de auditoria, é datado de agosto de 2005 (conforme se verifica na capa do Relatório de Avaliação Econômica à fl. 1067). Assim, não resta outra conclusão a não ser que o único intuito da operação realizada pelo grupo econômico da contribuinte em 30/08/2005, em meio a outras operações que tinham a finalidade legítima de unificar as operações das empresas brasileiras do grupo, foi indubitavelmente a geração artificial do ágio milionário de R$ 238.675.082,43, posteriormente utilizado pela contribuinte para reduzir drasticamente o montante de tributos recolhidos aos cofres públicos. A atuação da contribuinte e das demais empresas pertencentes a seu grupo econômico teve, portanto, evidente intuito de fraude e caracterizou simulação. A contribuinte tinha a consciência e a vontade para a prática da conduta contrária ao ordenamento. Sua conduta foi deliberada e planejada para reduzir indevidamente o montante de tributos devidos sobre seu lucro, a partir da criação de ágio artificial e da dedução de despesas inexistentes. Fl. 3282DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 47 46 Outras características observadas na reorganização societária promovida pelo grupo ALLIANCE no Brasil também permitem concluir que houve efetivamente simulação e evidente intuito de fraude no que se relaciona à criação do ágio interno: a) Não houve circulação de riquezas que pudesse justificar o surgimento do ágio, uma vez que nenhuma empresa não relacionada tomou parte em quaisquer das operações identificadas. Ainda que a contribuinte tenha defendido que as empresas envolvidas pertenciam a grupos econômicos distintos até maio de 2005, o fato é que todas já estavam submetidas a controle societário comum à época das operações discutidas nos presentes autos; b) No momento da incorporação reversa da MERIDIONAL pela contribuinte ALLIANCE ONE BRASIL, os efeitos das operações anteriores foram anulados. O único resultado encontrado ao final foi a existência do ágio criado artificialmente, que posteriormente se pretendeu dedutível; c) O relatório da empresa PricewaterhouseCoopers que visou à avaliação do valor de mercado das quotas da contribuinte identifica inicialmente como sua contratante a MERIDIONAL, empresa que, em tese, efetivamente viria em seguida a investir na contribuinte. Mais adiante, todavia, o relatório menciona como contratante a administração local do novo grupo ALLIANCE, o que deixa claro que a criação do ágio interno foi planejada antecipadamente para ocorrer no bojo das legítimas operações de unificação das empresas brasileiras do grupo recémcriado; d) Outra prova da atuação deliberada e sincronizada das empresas do grupo econômico, com a finalidade de gerar artificialmente o ágio que depois se pretendeu amortizável, foi o fato de a mesma advogada atuar como procuradora das holdings estrangeiras INTABEX (controladora direta da ALLIANCE ONE BRASIL), ALLIANCE ONE INTERNATIONAL INC. e TRANSCONTINENTAL LEAF TOBACCO CORPORATION LIMITED (controladoras diretas da MERIDIONAL) na operação que gerou o ágio interno e na subsequente incorporação reversa entre as empresas brasileiras; e) Nas operações realizadas em território brasileiro, verificouse situação que foge a qualquer propósito negocial: a INTABEX vendeu quotas da contribuinte à MERIDIONAL e recebeu como pagamento, no dia seguinte, novas quotas emitidas pela adquirente, cuja incorporação pela contribuinte ALLIANCE ONE BRASIL já estava decidida. Na essência, a INTABEX vendeu participação societária na contribuinte e recebeu, como pagamento, a mesma participação societária na contribuinte. Existe ainda um fator que, no meu ponto de vista, representa prova cabal da falta de substância econômica da reorganização societária promovida e do real objetivo desejado de mera economia fiscal: nenhuma alteração de fato ocorreu, entre o início e o encerramento das operações societárias analisadas, no controle societário da empresa fiscalizada. Após 13/05/2005, a contribuinte era controlada diretamente pela INTABEX e indiretamente pela ALLIANCE ONE INTERNATIONAL INC., empresa recémcriada nos Estados Unidos da América pela fusão das gigantes DIMON INCORPORATED e STANDARD COMMERCIAL CORPORATION. Em 30/08/2005, a contribuinte passa a ser controlada diretamente pela MERIDIONAL. Esta empresa, por sua vez, passou a ser controlada pela INTABEX (que Fl. 3283DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 48 47 recebeu suas quotas em pagamento pela venda das quotas da ALLIANCE ONE BRASIL), pela TRANSCONTINENTAL LEAF TOBACCO CORPORATION LIMITED e pela ALLIANCE ONE INTERNATIONAL INC.. Esta última empresa, portanto, controlava direta ou indiretamente todas as demais citadas. Por fim, em 30/09/2005, a contribuinte ALLIANCE ONE BRASIL incorpora sua então controladora integral MERIDIONAL, passando a ser controlada diretamente pelas empresas INTABEX, TRANSCONTINENTAL LEAF TOBACCO CORPORATION LIMITED e ALLIANCE ONE INTERNATIONAL INC.. Pois bem. A partir de maio de 2005, a contribuinte e a empresa MERIDIONAL sempre estiveram submetidas ao controle, direto ou indireto, da empresa norte americana ALLIANCE ONE INTERNATIONAL INC.. Após a extinção da MERIDIONAL, por conta de sua incorporação, a contribuinte permaneceu sob o controle da mesma empresa norteamericana. Constatase, portanto, que o controle de todas as pessoas jurídicas envolvidas na reorganização societária promovida pelo grupo ALLIANCE sempre esteve nas mãos da mesma empresa, desde sua criação em 13/05/2005. Nunca houve figuras distintas de alienante e adquirente que pudessem protagonizar um negócio jurídico apto a provocar o legítimo aparecimento de ágio. Tudo isso posto, verificase a existência de duas vontades do grupo ALLIANCE, no que atine à operação que gerou artificialmente o ágio. A vontade declarada seria a reavaliação das quotas da contribuinte ALLIANCE ONE BRASIL para fins de atendimento a uma diretriz fixada globalmente para as operações de unificação de empresas antes concorrentes. Já a vontade real, descortinada por todas as considerações expostas neste voto, foi aproveitarse da unificação das empresas brasileiras ALLIANCE ONE BRASIL e MERIDIONAL para criar ágio artificial e utilizálo posteriormente na redução indevida de tributos devidos pela contribuinte. A divergência entre vontades declarada e real, constatada no caso sob exame, caracteriza a simulação praticada pela contribuinte e pelas demais empresas de seu grupo econômico, nos termos do art. 167, § 1º, inciso II, do Código Civil Brasileiro. Ademais, considero que o planejamento tributário levado a efeito pela contribuinte consistiu de ação dolosa com evidente intuito de fraude, uma vez que tentouse impedir ou retardar o conhecimento, por parte da autoridade tributária, de fato gerador de obrigação principal ou ainda modificar suas características essenciais de modo a reduzir o montante de tributo devido. Sua conduta, assim, subsumese à definição legal de fraude contida no art. 72 da Lei nº 4.502/1964, autorizadora da qualificação da multa de ofício segundo a determinação do art. 44, § 1º da Lei nº 9.430/1996. Diante do exposto, voto por DAR PROVIMENTO ao recurso especial da Fazenda Nacional relativamente ao pedido de restabelecimento da multa de ofício ao percentual qualificado de 150%. Desse modo, sumariando os entendimentos expostos, voto no sentido de: Fl. 3284DF CARF MF Processo nº 13005.721718/201449 Acórdão n.º 9101003.442 CSRFT1 Fl. 49 48 NEGAR PROVIMENTO ao recurso especial da contribuinte quanto ao pleito de cancelamento das glosas relacionadas à utilização tributária do ágio gerado internamente; DAR PROVIMENTO ao recurso especial da PGFN para restabelecer a multa de ofício ao seu percentual qualificado de 150%; e DETERMINAR o retorno dos autos à Turma a quo, para prolação de nova decisão quanto à atribuição de responsabilidade solidária aos exdiretores da contribuinte e da MERIDIONAL, com base no restabelecimento da qualificação da multa de ofício, após ser dada ciência às partes desta decisão. (Assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araújo Fl. 3285DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10314.721061/2015-19
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Mar 22 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Apr 12 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Direitos Antidumping, Compensatórios ou de Salvaguardas Comerciais
Período de apuração: 01/06/2011 a 30/04/2014
DUMPING. CALÇADOS ORIGINÁRIOS DA CHINA. IMPORTAÇÃO PARA O PAÍS. COBRANÇA DE DIREITO ANTIDUMPING. POSSSIBILDADE.
As importações brasileiras de calçados, classificados nas posições 6402 a 6405 da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM), originários da República Popular da China, estão sujeitos a cobrança de direito antidumping a ser recolhido sob a forma de alíquota específica fixa de US$ 13,85/par (treze dólares estadunidenses e oitenta e cinco centavos por par).
Assunto: Classificação de Mercadorias
Período de apuração: 01/06/2011 a 30/04/2014
CALÇADOS DE PLÁSTICOS PERMEÁVEL. CÓDIGO NCM.
Classificam-se no código NCM 6402.99.90 os modelos de calçados de plásticos permeáveis, ou seja, os calçados de plásticos que não asseguraram proteção contra a água ou outros líquidos.
CALÇADOS DOMÉSTICOS (PANTUFAS). SOLA EXTERIOR CONSTITUÍDA DE TECIDO (FELTRO). PARTE SUPERIOR CONSTITUÍDA DE QUALQUER MATÉRIA. CÓDIGO NCM.
Os calçados domésticos, denominados de pantufas, cuja sola exterior é constituída de tecido (feltro) e a parte superior constituída de qualquer matéria classificam-se no código NCM 6405.90.90 e não no código NCM 6402.99.90 adotado pela fiscalização.
Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/06/2011 a 30/04/2014
DECISÃO DE PRIMEIRO GRAU. MOTIVAÇÃO SUFICIENTE. DECLARAÇÃO DE NULIDADE. IMPOSSIBILIDADE.
Não é passível de nulidade a decisão de primeiro grau em que apresentado pronunciamento claro e suficiente sobre todas as razões de defesa suscitadas na peça defensiva e a recorrente demonstrou pleno conhecimento dos fundamentos da decisão.
DESEMBARAÇO ADUANEIRO. NATUREZA JURÍDICA. ATO DE LIBERAÇÃO DE MERCADORIA.
No âmbito do procedimento do despacho aduaneiro de importação, o desembaraço aduaneiro é o ato que põe termo a fase de conferência aduaneira mediante a liberação da mercadoria com a sua colocação à disposição do importador. Por ausência de previsão legal, o ato de desembaraço aduaneiro de importação não tem natureza de ato de lançamento de ofício e tampouco de ato de homologação expressa de lançamento por homologação.
REVISÃO ADUANEIRA. PREVISÃO EXPRESSA EM LEI. APURAÇÃO DE DIFERENÇA DE CRÉDITO TRIBUTÁRIO NO ÂMBITO DO DESPACHO ADUANEIRO DE IMPORTAÇÃO. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. POSSIBILIDADE.
Se na fase de revisão aduaneira for apurada irregularidade no pagamento de tributos ou infrações à legislação tributária ou aduaneira, enquanto não decaído o direito de constituir o crédito tributário, a autoridade fiscal deve proceder o lançamento da diferença de tributo apurada e, se for o caso, aplicar as penalidades cabíveis.
Recurso Voluntário Provido em Parte.
Numero da decisão: 3302-005.322
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar a preliminar de nulidade e, no mérito, por voto de qualidade em segunda votação, em dar provimento parcial para afastar a cobrança do direito antidumping sobre os valores das importações discriminadas na "Tabela 04 - Produtos Classificados incorretamente no subitem 6405.90.00 da NCM e reclassificados para NCM 6402.99.90" (fls. 463/464) e para excluir a multa de ofício e os juros de mora relativos aos lançamentos dos produtos mencionados no item II.2.1 - Dos produtos classificados incorretamente no código NCM 6401.99.90 e reclassificados para o código NCM 6402.99.90, vencidos os Conselheiros Walker Araújo, José Renato P. de Deus, Diego Weis Jr e Raphael M. Abad, que davam provimento em maior extensão para excluir todos os lançamentos relativos aos produtos mencionados no item II.2.1 - Dos produtos classificados incorretamente no código NCM 6401.99.90 e reclassificados para o código NCM 6402.99.90. O Conselheiro Paulo Guilherme Déroulède fará declaração de voto. Em primeira votação, os Conselheiros José Fernandes do Nascimento e Maria do Socorro F. Aguiar davam provimento parcial para afastar a cobrança do direito antidumping sobre os valores das importações discriminadas na Tabela 04 - Produtos Classificados incorretamente no subitem 6405.90.00 da NCM e reclassificados para NCM 6402.99.90 (fls. 463/464); os Conselheiros Walker Araújo, José Renato P. de Deus, Diego Weis Jr e Raphael M. Abad, que davam provimento em maior extensão para excluir todos os lançamentos relativos aos produtos mencionados no item II.2.1 - Dos produtos classificados incorretamente no código NCM 6401.99.90 e reclassificados para o código NCM 6402.99.90; o Conselheiro Jorge Lima Abud negava provimento ao recurso voluntário. O Conselheiro Paulo G. Déroulède dava provimento parcial para excluir a multa de ofício e os juros de mora relativos aos lançamentos dos produtos mencionados no item II.2.1 - Dos produtos classificados incorretamente no código NCM 6401.99.90 e reclassificados para o código NCM 6402.99.90.
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède - Presidente.
(assinado digitalmente)
José Fernandes do Nascimento - Relator.
Participaram do julgamento os Conselheiros Paulo Guilherme Déroulède, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Walker Araújo, José Fernandes do Nascimento, Raphael Madeira Abad, Jorge Lima Abud, Renato Vieira de Ávila e José Renato Pereira de Deus.
Nome do relator: JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO
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ementa_s : Assunto: Direitos Antidumping, Compensatórios ou de Salvaguardas Comerciais Período de apuração: 01/06/2011 a 30/04/2014 DUMPING. CALÇADOS ORIGINÁRIOS DA CHINA. IMPORTAÇÃO PARA O PAÍS. COBRANÇA DE DIREITO ANTIDUMPING. POSSSIBILDADE. As importações brasileiras de calçados, classificados nas posições 6402 a 6405 da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM), originários da República Popular da China, estão sujeitos a cobrança de direito antidumping a ser recolhido sob a forma de alíquota específica fixa de US$ 13,85/par (treze dólares estadunidenses e oitenta e cinco centavos por par). Assunto: Classificação de Mercadorias Período de apuração: 01/06/2011 a 30/04/2014 CALÇADOS DE PLÁSTICOS PERMEÁVEL. CÓDIGO NCM. Classificam-se no código NCM 6402.99.90 os modelos de calçados de plásticos permeáveis, ou seja, os calçados de plásticos que não asseguraram proteção contra a água ou outros líquidos. CALÇADOS DOMÉSTICOS (PANTUFAS). SOLA EXTERIOR CONSTITUÍDA DE TECIDO (FELTRO). PARTE SUPERIOR CONSTITUÍDA DE QUALQUER MATÉRIA. CÓDIGO NCM. Os calçados domésticos, denominados de pantufas, cuja sola exterior é constituída de tecido (feltro) e a parte superior constituída de qualquer matéria classificam-se no código NCM 6405.90.90 e não no código NCM 6402.99.90 adotado pela fiscalização. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/06/2011 a 30/04/2014 DECISÃO DE PRIMEIRO GRAU. MOTIVAÇÃO SUFICIENTE. DECLARAÇÃO DE NULIDADE. IMPOSSIBILIDADE. Não é passível de nulidade a decisão de primeiro grau em que apresentado pronunciamento claro e suficiente sobre todas as razões de defesa suscitadas na peça defensiva e a recorrente demonstrou pleno conhecimento dos fundamentos da decisão. DESEMBARAÇO ADUANEIRO. NATUREZA JURÍDICA. ATO DE LIBERAÇÃO DE MERCADORIA. No âmbito do procedimento do despacho aduaneiro de importação, o desembaraço aduaneiro é o ato que põe termo a fase de conferência aduaneira mediante a liberação da mercadoria com a sua colocação à disposição do importador. Por ausência de previsão legal, o ato de desembaraço aduaneiro de importação não tem natureza de ato de lançamento de ofício e tampouco de ato de homologação expressa de lançamento por homologação. REVISÃO ADUANEIRA. PREVISÃO EXPRESSA EM LEI. APURAÇÃO DE DIFERENÇA DE CRÉDITO TRIBUTÁRIO NO ÂMBITO DO DESPACHO ADUANEIRO DE IMPORTAÇÃO. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. POSSIBILIDADE. Se na fase de revisão aduaneira for apurada irregularidade no pagamento de tributos ou infrações à legislação tributária ou aduaneira, enquanto não decaído o direito de constituir o crédito tributário, a autoridade fiscal deve proceder o lançamento da diferença de tributo apurada e, se for o caso, aplicar as penalidades cabíveis. Recurso Voluntário Provido em Parte.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: DIREITOS ANTIDUMPING, COMPENSATÓRIOS OU DE SALVAGUARDAS COMERCIAIS Período de apuração: 01/06/2011 a 30/04/2014 DUMPING. CALÇADOS ORIGINÁRIOS DA CHINA. IMPORTAÇÃO PARA O PAÍS. COBRANÇA DE DIREITO ANTIDUMPING. POSSSIBILDADE. As importações brasileiras de calçados, classificados nas posições 6402 a 6405 da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM), originários da República Popular da China, estão sujeitos a cobrança de direito antidumping a ser recolhido sob a forma de alíquota específica fixa de US$ 13,85/par (treze dólares estadunidenses e oitenta e cinco centavos por par). ASSUNTO: CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS Período de apuração: 01/06/2011 a 30/04/2014 CALÇADOS DE PLÁSTICOS PERMEÁVEL. CÓDIGO NCM. Classificamse no código NCM 6402.99.90 os modelos de calçados de plásticos permeáveis, ou seja, os calçados de plásticos que não asseguraram proteção contra a água ou outros líquidos. CALÇADOS DOMÉSTICOS (PANTUFAS). SOLA EXTERIOR CONSTITUÍDA DE TECIDO (FELTRO). PARTE SUPERIOR CONSTITUÍDA DE QUALQUER MATÉRIA. CÓDIGO NCM. Os calçados domésticos, denominados de pantufas, cuja sola exterior é constituída de tecido (feltro) e a parte superior constituída de qualquer matéria classificamse no código NCM 6405.90.90 e não no código NCM 6402.99.90 adotado pela fiscalização. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/06/2011 a 30/04/2014 AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 31 4. 72 10 61 /2 01 5- 19 Fl. 5339DF CARF MF 2 DECISÃO DE PRIMEIRO GRAU. MOTIVAÇÃO SUFICIENTE. DECLARAÇÃO DE NULIDADE. IMPOSSIBILIDADE. Não é passível de nulidade a decisão de primeiro grau em que apresentado pronunciamento claro e suficiente sobre todas as razões de defesa suscitadas na peça defensiva e a recorrente demonstrou pleno conhecimento dos fundamentos da decisão. DESEMBARAÇO ADUANEIRO. NATUREZA JURÍDICA. ATO DE LIBERAÇÃO DE MERCADORIA. No âmbito do procedimento do despacho aduaneiro de importação, o desembaraço aduaneiro é o ato que põe termo a fase de conferência aduaneira mediante a liberação da mercadoria com a sua colocação à disposição do importador. Por ausência de previsão legal, o ato de desembaraço aduaneiro de importação não tem natureza de ato de lançamento de ofício e tampouco de ato de homologação expressa de lançamento por homologação. REVISÃO ADUANEIRA. PREVISÃO EXPRESSA EM LEI. APURAÇÃO DE DIFERENÇA DE CRÉDITO TRIBUTÁRIO NO ÂMBITO DO DESPACHO ADUANEIRO DE IMPORTAÇÃO. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. POSSIBILIDADE. Se na fase de revisão aduaneira for apurada irregularidade no pagamento de tributos ou infrações à legislação tributária ou aduaneira, enquanto não decaído o direito de constituir o crédito tributário, a autoridade fiscal deve proceder o lançamento da diferença de tributo apurada e, se for o caso, aplicar as penalidades cabíveis. Recurso Voluntário Provido em Parte. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar a preliminar de nulidade e, no mérito, por voto de qualidade em segunda votação, em dar provimento parcial para afastar a cobrança do direito antidumping sobre os valores das importações discriminadas na "Tabela 04 Produtos Classificados incorretamente no subitem 6405.90.00 da NCM e reclassificados para NCM 6402.99.90" (fls. 463/464) e para excluir a multa de ofício e os juros de mora relativos aos lançamentos dos produtos mencionados no item II.2.1 Dos produtos classificados incorretamente no código NCM 6401.99.90 e reclassificados para o código NCM 6402.99.90, vencidos os Conselheiros Walker Araújo, José Renato P. de Deus, Diego Weis Jr e Raphael M. Abad, que davam provimento em maior extensão para excluir todos os lançamentos relativos aos produtos mencionados no item II.2.1 Dos produtos classificados incorretamente no código NCM 6401.99.90 e reclassificados para o código NCM 6402.99.90. O Conselheiro Paulo Guilherme Déroulède fará declaração de voto. Em primeira votação, os Conselheiros José Fernandes do Nascimento e Maria do Socorro F. Aguiar davam provimento parcial para afastar a cobrança do direito antidumping sobre os valores das importações discriminadas na “Tabela 04 Produtos Classificados incorretamente no subitem 6405.90.00 da NCM e reclassificados para NCM 6402.99.90” (fls. 463/464); os Conselheiros Walker Araújo, José Renato P. de Deus, Diego Weis Jr e Raphael M. Abad, que davam provimento em maior extensão para excluir todos os lançamentos relativos aos produtos mencionados no item II.2.1 Dos produtos classificados incorretamente no código NCM 6401.99.90 e reclassificados para o código NCM 6402.99.90; o Conselheiro Jorge Lima Abud negava provimento ao recurso voluntário. O Conselheiro Paulo G. Déroulède dava provimento parcial para excluir a multa de ofício e os juros de mora relativos aos lançamentos dos produtos Fl. 5340DF CARF MF Processo nº 10314.721061/201519 Acórdão n.º 3302005.322 S3C3T2 Fl. 5.340 3 mencionados no item II.2.1 Dos produtos classificados incorretamente no código NCM 6401.99.90 e reclassificados para o código NCM 6402.99.90. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Presidente. (assinado digitalmente) José Fernandes do Nascimento Relator. Participaram do julgamento os Conselheiros Paulo Guilherme Déroulède, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Walker Araújo, José Fernandes do Nascimento, Raphael Madeira Abad, Jorge Lima Abud, Renato Vieira de Ávila e José Renato Pereira de Deus. Relatório Por bem descrever os fatos, adotase o relatório que integra o acórdão recorrido, que segue integralmente transcrito: Trata o presente processo de auto de infração, lavrado em 18/02/2015, em face do contribuinte em epígrafe, formalizando a exigência de Direitos Antidumping acrescidos de multa de ofício e juros de mora, no valor de R$ 33.119.599,57, em virtude dos fatos a seguir descritos. No exercício das funções de fiscalização, em cumprimento ao disposto nos arts. 194 a 197 do Código Tributário Nacional (CTN Lei nº 5.172/1966) e nos artigos 54 e 138 do DecretoLei nº 37/1966, e em atendimento à programação do Serviço de Pesquisa e Seleção da Delegacia Especial de Fiscalização do Comércio Exterior e Indústria (DELEX), realizouse a ação fiscal na empresa CROCS BRASIL COMERCIO DE CALÇADOS LTDA., CNPJ nº 74.261.884/001146 para verificação da regularidade do pagamento dos direitos antidumping de calçados importados da marca CROCS de diversos modelos, originários da República Popular da China (RPC), importados no período de junho de 2011 a abril/2014. Tais mercadorias vêm sendo classificadas nas seguintes NCMs: Posição 6401 "Calçados impermeáveis de sola exterior e parte superior de borracha ou plásticos, em que a parte superior não tenha sido reunida à sola exterior por costura ou por meio de rebites, pregos, parafusos, espigões ou dispositivos semelhantes, nem formada por diferentes partes reunidas pelos mesmos processos" , mais especificamente na posição 6401.99.90 (Outros; Outros); NCM 6402.20.00 ("Calçados com parte superior em tiras ou correias, fixadas à sola por pregos, tachas, pinos e semelhantes"); e NCM 6405.90.00 ("Outros calçados; Outros"). Fl. 5341DF CARF MF 4 Essas classificações tributárias foram feitas com o intuito de fugirem do recolhimento dos direitos antidumping, tendo em visa que tais posições/classificações são exceções à cobrança desses valores para calçados originários da China. No caso dos calçados classificados na NCM de Posição 6401 e no item 6405.90.00, o contribuinte está utilizandose de uma caracterização equivocada de seus produtos para enquadrálos nessa posição que o isenta do pagamento de direitos antidumping. Já no caso dos calçados classificados na NCM 6402.20.00, a classificação adotada pelo contribuinte está correta, mas o mesmo faz uma interpretação equivocada das exceções de pagamento dos direitos antidumping, adotando essa característica para seus produtos e não recolhendo tais valores, conforme ficará demonstrado ao longo desse relatório fiscal. O contribuinte também classifica corretamente alguns modelos de calçados nos seguintes itens: NCM 6402.99.90 ("Outros calçados com sola exterior e parte superior de borracha ou plásticos; Outros calçados; Outros; Outros"); NCM 6403.99.90 ("Calçados com sola exterior de borracha, plástico, couro natural ou reconstituído e parte superior de couro natural; Outros calçados; Outros; Outros"); e NCM 6404.19.00 ("Calçados com sola exterior de borracha, plásticos, couro natural ou reconstituído e parte superior de matérias têxteis; Calçados com sola exterior de borracha ou de plásticos; Outro"), nos quais os direitos antidumping são devidos, nos termos do art. 1° da Resolução CAMEX n° 14/2010, mas simplesmente não recolhe tais direitos. Calçados CROCS importados classificados na posição 6401.99.90 Ao ver da fiscalização, e em concordância com a Nota Técnica 044/2013 da Secretaria de Comércio Exterior Departamento de Defesa Comercial, que trata de produto similar, esses produtos deveriam ter sido classificados na NCM 6402.99.90 ("Outros Calçados com Sola Exterior e Parte Superior de Borracha ou Plásticos; Outros Calçados; Outros; Outros), com as seguintes alíquotas incidentes (as mesmas alíquotas no caso da posição 6401): · 35% de Imposto de Importação; · 0% de Imposto sobre Produtos Industrializados na importação; · 1,65% de PISimportação; · 8,6% de COFINSimportação; e · pagamento de direitos antidumping à alíquota específica fixa de US$ 13,85/par (treze dólares estadunidenses e oitenta e cinco Fl. 5342DF CARF MF Processo nº 10314.721061/201519 Acórdão n.º 3302005.322 S3C3T2 Fl. 5.341 5 centavos por par), nos termos da Resolução CAMEX n° 14, de 4 de março de 2010, pois: tais produtos não se enquadram na descrição de CALÇADOS IMPERMEÁVEIS, conforme a descrição das Notas Explicativas da posição 6401; e NÃO SE CONSTITUEM EM PEÇA INTEIRIÇA, EM RAZÃO DE HAVER ALÇA ENCAIXADA À PARTE SUPERIOR DOS CALÇADOS, conforme Nota Técnica 044 2013 CGASDECOMSECEX. · cobrança de multa por classificação incorreta. Calçados CROCS importados classificados na posição 6402.20.00 Estão corretamente classificados, mas não constituem exceção ao pagamento dos direitos antidumping porque são calçados constituídos de plástico, conforme laudo pericial apresentado pelo próprio contribuite [sic], e não de borracha, que nesse caso é isento do pagamento de antidumping nessa posição NCM. Também é feita a exigência de multa por prestação de informação inexata pelo fato de o contribuinte ter informado nas DI que tais produtos são exceção à regra geral de cobrança de antidumping, quando não o são. Calçados CROCS importados classificados na posição 6405.90.00 Foram descritos pelo contribuinte como "calçados domésticos (pantufas)", também isentos da incidência dos direitos antidumping. A fiscalização entende que tal caracterização é equivocada e que a classificação correta é na NCM de item 6402.99.90 ("Outros Calçados com Sola Exterior e Parte Superior de Borracha ou Plásticos; Outros Calçados; Outros; Outros), com a exigência dos direitos antidumping e de multa por classificação incorreta. Portanto, o presente auto de infração tem o escopo principal de formalizar o lançamento da diferença de direitos antidumping não recolhidos na importação de calçados originários da China, devidos pela classificação incorreta na posição 6401 e no item 6405.90.00 da NCM, e interpretação incorreta das exceções da NCM 6402.20.00, conforme previsto na Resolução CAMEX 14/2010, e no Decreto nº 6.759/2009, art. 717, II e § 2°, art. 788, §§ 1°, 2° e 3° e art. 789. A cobrança de multa regulamentar de 1% (um por cento) sobre o valor aduaneiro devido à classificação incorreta, conforme previsto na Medida Provisória nº 2.158 35, de 24 de agosto de 2001, art. 84, I, e no Decreto nº 6.759/2009 (Regulamento Aduaneiro de 2009 RA/2009), art. 711, I, será efetuada por meio de outro Auto de Infração, formador do Processo Administrativo Fiscal n. 10314721.062/201563. Fl. 5343DF CARF MF 6 Cientificado do auto de infração, via Aviso de Recebimento, em 24/02/2015 (fls. 3.982), o contribuinte, protocolizou impugnação, tempestivamente em 27/10/2009, na forma do artigo 56 do Decreto nº 7.574/2011, de fls. 3.986 à 4.047, instaurando assim a fase litigiosa do procedimento. O impugnante alegou que: ⊙ DA IMPOSSIBILIDADE DE MUDANÇA DO CRITÉRIO JURÍDICO Conforme anteriormente informado, a Impugnante, ciente das peculiaridades de seus produtos e diante da ausência de uma classificação fiscal que se encaixasse perfeitamente a eles, buscou junto às autoridades se resguardar contra a imposição de penalidades. Fazendo referências explícitas a (i) dificuldades enfrentadas junto à Receita Federal em procedimentos de importação e (ii) preocupação quanto a eventuais problemas futuros com o Fisco (vide, por exemplo, petições protocoladas no Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior em 09 de setembro de 2009 doc. 08 e na CAMEX em 07 de outubro de 2009 doc. 10), a Impugnante deixava clara a sua intenção de observar a legislação e de se amparar na opinião oficial de autoridades. Em função dessas provocações, em 23 de outubro de 2009 a CAMEX emitiu a Nota Técnica n° 109/2009 (doc. 11) informando que os produtos da Impugnante, por serem injetado e impermeável, estavam classificados na posição 6401 e, com isso, fora da exigência do direito antidumping. Reforçando a afirmação acima, muito recentemente foi publicada a Circular SECEX n° 9/15 (doc. 16), que torna públicas algumas informações contidas no Parecer DECOM n° 6/15 (doc. 21), dando início ao processo de revisão da aplicação desse direito antidumping. Ao tratar da similaridade entre o produto objeto da revisão e o produto nacional, a Circular SECEX n° 9/15 foi clara ao afirmar que calçados injetados são costumeiramente classificados na posição 6401 da NCM e que “não são produto objeto da presente revisão, uma vez que foram expressamente excluídos da Resolução CAMEX n° 14/10.” Assim, ao ignorar por completo a conclusão da CAMEX no tocante a todos os produtos classificados na posição NCM 6401, a Sra. Agente Fiscal acaba por desobedecer comando emanado de autoridade competente na aplicação da medida antidumping. E o que é pior, a Sra. Agente Fiscal também invalida (i) conclusão contida em laudo oficial elaborado quando da inspeção aduaneira das mercadorias importadas e declaradas na Dl n° 09/13065743, que levou o Agente Fiscal, Sr. Mario Tomiyasu Hukazono (matrícula 3.011.5183), a determinar a utilização da NCM 6401; além (ii) das práticas reiteradas por Agentes Fiscais da Receita Federal nos portos de entrada em posteriores e incontáveis operações de importação de produtos com as mesmas características. Fl. 5344DF CARF MF Processo nº 10314.721061/201519 Acórdão n.º 3302005.322 S3C3T2 Fl. 5.342 7 Assim, referido laudo, pedido por um Agente Fiscal da Receita Federal do Brasil (SAT 6.304/09 EQCOF) e elaborado por uma profissional independente3 e devidamente credenciada de acordo com a Portaria n° 103/09, da Alfândega da Receita Federal do Brasil do Porto de Santos, representa a posição e a conclusão oficial das autoridades fiscais federais a respeito da classificação dos produtos na NCM 6401. Posteriormente a esse episódio que envolveu a elaboração do laudo oficial da Receita Federal, em todas as importações dos produtos classificados na NCM 6401 (que representam a maioria dos produtos desta autuação) as autoridades fiscais reiteradamente observaram referido laudo e não exigiram o recolhimento do direito antidumping. Isso se deu em conformidade com o que determina o §3° do art. 30 do Decretolei n° 70.235/72. Nesse sentido, a empresa passou, inclusive, por outras verificações físicas em procedimentos de importação que caíram no canal vermelho4. As classificações fiscais e o tratamento dado ao recolhimento do direito antidumping foram respeitados pelos Fiscais responsáveis pelo controle aduaneiro dessas mercadorias. São exemplos as importações amparadas pelas Dls n° 1107117048, 1108090135 e 1103863551 (doc. 17). Ora, a empresa vinha importando, sob a supervisão e fiscalização de autoridades fiscais e aduaneiras, de acordo com (i) a Nota Técnica n° 109/2009 da CAMEX (doc. 10) e o (ii) laudo referente à Solicitação de Assistência Técnica da Alfândega do Porto de Santos SAT 6.304/09 EQCOF, da Receita Federal (doc. 13). Surpreendentemente, o que parecia estar pacificado após as manifestações oficiais acima comentadas é agora questionado por meio da presente autuação. Assim, não há como negar que referida ação do Fisco representa explícita modificação de critério jurídico. Transcreve o artigo 146 do Código Tributário Nacional. Junta textos da doutrina de Leandro Paulsen e Ricardo Lodi Ribeiro: (Constituição e Código Tributário à luz da doutrina e da jurisprudência. 16a ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado: ESMAFE, 2014. página 1162); (A Proteção da Confiança Legítima do Contribuinte. RDDT n° 145, out/07, p.99.) Junta textos da jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça: (AgRg no REsp 1347324/RS, Rei. Ministra ELIANA CALMON, SEGUNDA TURMA, julgado em 06/08/2013, DJe 14/08/2013). Assim, DEVE SER APLICADO AO PRESENTE CASO A ORIENTAÇÃO FIRMADA PELO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. Fl. 5345DF CARF MF 8 Por todo o exposto, em face da aplicação do artigo 146 do Código Tributário Nacional à espécie, em face da jurisprudência pacífica do Superior Tribunal de Justiça e em obediência ao Regimento Interno do CARF, o presente Auto de Infração deve ser completamente cancelado. ⊙ A IMPOSSIBILIDADE DE IMPOSIÇÃO DE MULTA E JUROS Como já comentado por diversas vezes, a Impugnante observou (i) a Nota Técnica n° 109/2009 da CAMEX (doc. 11); o ii) laudo referente à Solicitação de Assistência Técnica da Alfândega do Porto de Santos SAT 6.304/09 EQCOF, da Receita Federal (doc. 13), que levou o Agente Fiscal, Sr. Mario Tomiyasu Hukazono (matrícula 3.011.5183) a determinar a utilização da NCM 6401; e (iii) as práticas reiteradas das autoridades fiscais aduaneiras, que sempre observaram o laudo e chancelavam importações com referida classificação fiscal. Assim, nas referidas importações evidenciase a existência de “práticas reiteradamente observadas pelas autoridades administrativas”, conforme estabelecido no artigo 100 do Código Tributário Nacional, acima transcrito. Junta textos da doutrina de Humberto Ávila: (Imposto sobre a Prestação de Serviços de Qualquer Natureza. ISS. Normas constitucionais aplicáveis. Precedentes do Supremo Tribunal Federal. Hipótese de incidência, base de cálculo e local da prestação. Leasing financeiro: análise da incidência. RDDT 122/120, nov05). A impossibilidade de aplicação de penalidades, cobrança de juros de mora ou mesmo da atualização da base de cálculo do tributo, como muito bem ressaltado pelo eminente jurista, repousa na própria essência da moralidade administrativa e também no principio da boafé, haja vista que a mudança no entendimento do Fisco acerca de determinada questão, como ocorre na espécie, embora possa legitimar a cobrança de valores que se entenda devido, nunca poderá penalizar o contribuinte por haver seguido práticas reiteradamente até então aceitas pela administração. Há prática reiterada da administração referente ao reconhecimento da classificação fiscal NCM 6401 nas importações da maioria das mercadorias da Impugnante. Conforme dito anteriormente, diversas importações posteriores à elaboração do laudo referente à Solicitação de Assistência Técnica da Alfândega do Porto de Santos SAT 6.304/09 EQ.COF (na importação a que se refere à Dl n° 09/13065743) foram submetidas aos canais vermelho e amarelo. Ou seja, sofreram, mais de uma vez, inspeção física e análise documental, tendo com isso obtido inquestionavelmente a anuência da Receita Federal no tocante às classificações fiscais adotadas. Sendo assim, configurada está a prática reiterada da administração, impondose a exclusão das penalidades aplicadas (multa de mora), bem como dos juros de mora e da atualização da base de cálculo do tributo, nos exatos termos do Fl. 5346DF CARF MF Processo nº 10314.721061/201519 Acórdão n.º 3302005.322 S3C3T2 Fl. 5.343 9 artigo 100, inciso III e parágrafo único, do Código Tributário Nacional, na linha do entendimento doutrinário e jurisprudencial acima reproduzido. ⊙ DO PRODUTO CORRETAMENTE CLASSIFICADO NA NCM 6401.99.90 E EQUIVOCADAMENTE RECLASSIFICADO PELA AUTORIDADE FISCAL NA NCM 6402.99.90 Dentre os pontos questionados pela autoridade fiscal no auto de infração está a classificação tarifária dos produtos importados sob a NCM 6401.99.90. No entanto, antes de abordar os argumentos trazidos pela autoridade, a CROCS entende ser necessário esclarecer determinados aspectos relacionados à organização e ao funcionamento da estrutura tarifária adotada pelo Brasil, a Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM), para que seja realizada uma análise correta de classificação tarifária. Relaciona os modelos importados na NCM 6401.99.90 deveríam ser reclassificados na NCM 6402.99.90, segundo a fiscalização. Transcreve a descrição da NCM 6401.99.90. A autoridade fiscal alega que a classificação desses modelos na NCM 6401.99.90 seria incorreta porque (i) esses calçados não seriam impermeáveis, e (ii) a parte superior dos mesmos teria sido reunida às solas, não constituindo modelos de peça única. O produto da CROCS é impermeável. Ao invés de se apegar a questões técnicas específicas quanto ao produto em si, a única coisa que sustenta a tese da acusação diz respeito a um pequeno trecho da NESH (que, como vimos acima, não é vinculante e servem apenas para orientação). A este respeito, é válido verificar que a Sra. Agente Fiscal, mesmo afirmando estar ciente do laudo referente à Solicitação de Assistência Técnica da Alfândega do Porto de Santos SAT 6.304/09 EQCOF, da Receita Federal (doc. 13), Uque atestou que tais calçados são produzidos em PLÁSTICO e que por isso, tais calçados são impermeáveis”, dele discorda. A acusação, como dito, se baseia em um pequeno trecho da NESH. Não trouxe o Fisco sequer um laudo que pudesse basear sua conclusão. Para a Sra. Agente Fiscal, na posição adotada apenas se incluem botas e galochas. O sentido literal ou ordinário do termo “impermeável” da posição 6401 é única e exclusivamente este que aparece no dicionário. O termo “impermeável” não comporta a interpretação excessiva da Sra. Agente Fiscal de que seriam calçados “capazes de proteger os pés de água e líquidos por possuírem abertura na frente ou atrás, orifícios frontais e/ou deixarem a parte superior do pé exposto na maioria dos modelos”. Fl. 5347DF CARF MF 10 A segunda razão a afastar esse entendimento é a própria organização e contexto da posição aqui debatida. Como transcrito acima, os itens da posição 6401 representam opções que não admitem a conclusão de que apenas botas e galochas estariam lá incluídas. A tese da acusação sugere que apenas calçados que possuam tamanho maior do que um calçado comum de cano baixo fazem parte dessa parte da NCM. Isso não possui qualquer fundamento, conforme se verificam as descrições das várias subposições da 6401. Transcreve as descrições das várias subposições da 6401. Das descrições acima é possível afirmar que a posição 6401 engloba todos os tipos de calçados impermeáveis e não somente aqueles “calçados fechados que protegem o pé inteiro, semelhantes a botas e galochas.”'7 Os sapatos semelhantes a botas e galochas classificamse nas subposições 6401.92 (calçados cobrindo o tornozelo, mas não joelho) e/ou 6401.99.10 (calçados cobrindo o joelho). Outros sapatos permeáveis, que não botas e galochas, podem ser classificados nas demais subposições da posição 6401. Além disso, o Fisco afirma que os produtos que possuam materiais impermeáveis não necessariamente transformam o calçado em um produto impermeável. Ocorre, no entanto, que ainda que isso fosse verdade, essa conclusão não se aplicaria ao caso desses calçados da Impugnante porque os calçados aqui comentados não só são feitos de material impermeável, mas também são eles próprios impermeáveis. É o que afirmou categoricamente a Sra. Débora Aparecida Mayer, engenheira responsável pelo Laudo SAT 6.304/09 EQCOF (doc. 13), que levou a Receita Federal a adotar a posição 6401. Transcreve o item 2 do Laudo SAT 6.304/09 EQCOF. A acusação de que os calçados não cumprem o requisito da impermeabilidade contradiz, ironicamente, a própria criação do produto. Portanto, sob qualquer ângulo que se analise a questão, a questão da impermeabilidade é elemento que certamente desfavorece a tese da acusação. Nesse sentido, a afirmação de que a parte traseira, a dianteira ou o peito do pé podem estar abertos e que isso demonstraria a permeabilidade do produto não passa de interpretação forçada e não embasada em qualquer literatura técnica e, muito menos, na posição 6401 e suas subposições e respectivos códigos numéricos, nas Notas de Seção, Capítulo e Subposição e nas Regras Gerais de Interpretação. Isso levou à expedição do “Certificado de Aprovação n° 27.622” (doc. 18), do Ministério do Trabalho, cuja descrição não deixa dúvidas: “Calçado ocupacional, tipo calçado baixo, impermeável,confeccionado em material polimérico. Fl. 5348DF CARF MF Processo nº 10314.721061/201519 Acórdão n.º 3302005.322 S3C3T2 Fl. 5.344 11 Referido modelo, cuja semelhança é inegável com os demais CROCS classificados na NCM 6401, foi, portanto, aprovado como um calçado de segurança a ser utilizado em ambientes diversos, inclusive úmidos, como cozinhas. Logo, não há quaisquer dúvidas acerca da impermeabilidade dos produtos, atestadas inclusive em diferentes laudos. O produto da CROCS é composto de uma peça única Segundo a autoridade fiscal, alguns modelos não poderíam ainda ser classificados na NCM 6401.99.90, porque não seriam compostos de uma peça única como exige a descrição da posição. Segundo a autoridade fiscal, alguns desses calçados seriam compostos por 2 (duas) partes: a parte superior do calçado e a tira do tornozelo. Essa posição foi sustentada na autuação com base na Nota Técnica do Departamento de Defesa Comercial (DECOM) n° 44/201320. Naquela ocasião, o DECOM se manifestou a respeito da classificação tarifária de determinado produto que julgou que não deveria ser classificado na NCM 6401.99.90 porque não constituía uma peça única, uma vez que o calçado tinha uma tira de tornozelo anexada à parte superior do calçado, semelhantemente ao que ocorre em alguns modelos da Impugnante. Diante da completa falta de precisão da autoridade no momento de determinar quais modelos não constituiriam calçados de peça única, a Impugnante estimou que os seguintes modelos poderiam ser considerados como “similares ao CROCS Classic" e, na visão equivocada da autoridade, não deveriam ser classificados na NCM 6401.99.90. O entendimento da autoridade fiscal não se sustenta por diversos motivos. Primeiramente, o DECOM não é a autoridade competente para esclarecer dúvidas sobre classificação tarifária. De acordo com o artigo 6o do Decreto n° 8.058/2013, cabe ao DECOM conduzir as investigações de defesa comercial iniciadas pela Secretaria de Comércio Exterior (SECEX). De acordo com a Instrução Normativa n° 1.464/2014, a autoridade competente para se manifestar sobre classificação tarifária é a Receita Federal do Brasil. Dessa forma, qualquer opinião expressa pelo DECOM sobre classificação tarifária, esteja ela correta ou não, não tem nenhum valor para fins tributários. Em segundo lugar, a avaliação de escopo realizada pelo DECOM e que foi concluída pela Nota Técnica n° 44/2013 se refere a um produto que não se confunde com os diferentes modelos de calçados classificados pela Impugnante na posição 6401 da NCM. Assim, a autoridade fiscal não pode utilizar uma opinião expressa pelo DECOM a respeito de um determinado produto, de uma outra empresa, para fundamentar a reclassificação Fl. 5349DF CARF MF 12 tarifária de outros produtos distintos que nunca foram analisados pelo Departamento. Em terceiro lugar, não há que se falar em calçados de 2 (duas) partes. Os calçados importados pela CROCS na NCM 6401.99.90 são todos de peça única e encontram respaldo na legislação brasileira e no SH para serem considerados dessa maneira. Conforme visto acima, as Notas dos Capítulos do SH são vinculantes e especificamente a Nota 4(A) do Capítulo 64 esclarece 2 (dois) pontos importantes: (i) protetores de tornozelo, como as tiras de tornozelo de alguns calçados da CROCS, são considerados acessórios; e (ii) acessórios são irrelevantes, não sendo levados em consideração na determinação do material que compõe a parte superior de um calçado. Concluise das definições acima que os acessórios não integram a parte superior dos calçados. Assim, as tiras de tornozelo presentes em determinados modelos de calçados da Impugnante são consideradas acessórios e, por esse motivo, não compõem a parte superior dos mesmos. A parte superior desses modelos seria composta apenas pelo material que cobre a lateral e o peito do pé. Ou seja, a parte superior de calçados tipo mocassim ou calçados cujas solas são de plástico moldado deve ser entendida como sendo a parte do calcado que cobre os lados e o peito do pé. A parte de trás que envolve o calcanhar não deve ser entendida como compondo a parte superior desses calçado. Diante do exposto, os modelos de calçados da Impugnante não podem ser desqualificados como calçados de peça única em função da tira de tornozelo presente na parte de trás. Essa tira não é considerada pela legislação como relevante para compor a parte superior do calçado, nem para determinar o material do qual a parte superior é composta. ⊙ DOS PRODUTOS CLASSIFICADOS NA NCM 6401.99.90 E RECLASSIFICADOS NA NCM 6402.20.00 No caso da Dl /Adição 11/13022770, tratase de amostras. Portanto, os argumentos expostos no tópico acima aqui se aplicam integralmente. Com relação às importações do modelo Baya Flip na Dl 13/1382060 3/001, a Impugnante classificou essas importações na NCM 6401.99.90 por solicitação do próprio Fisco. Historicamente, a Impugnante sempre classificou as importações de modelos Baya Flip na NCM 6402.20.00. No período analisado pela autoridade fiscal, esse modelo também foi importado, por exemplo, nas Dls 12/2168312, 12/4150925, 12/6118964, 12/13983284, 12/14911791, 12/16474097, 12/20953980, 13/633613, 13/2649738 e 13/16373128. Em Fl. 5350DF CARF MF Processo nº 10314.721061/201519 Acórdão n.º 3302005.322 S3C3T2 Fl. 5.345 13 absolutamente todas essas Dls, o Baya Flip foi classificado na NCM 6402.20.00. No entanto, em agosto de 2012, a Dl 12/13983284 caiu no canal amarelo da Receita Federal.28 Após análise por parte do fiscal responsável (Sr. Feliciano), que entendia que o produto era um calçado injetado, foi solicitado que o produto fosse reclassificado da NCM 6402.20.00 para a NCM 6401.99.90.29. Naquela ocasião, a Impugnante explicou ao fiscal que alguns pares desse modelo já estavam em trânsito sob a NCM 6402.20.00, mas que as próximas importações do modelo Baya Flip seriam feitas sob a NCM 6401.99.90. Assim, em virtude da solicitação feita pelo fiscal, a Impugnante passou a importálos na NCM 6401.99.90. Portanto, essa exigência configuraria mudança de critério jurídico, o que não é possível, nos termos já expostos. ⊙ DO PEDIDO Diante de todo o exposto, requer a Impugnante seja o Auto de Infração aqui combatido julgado totalmente improcedente, com seu subseqüente cancelamento, extinguindose a exigência nele consubstanciada. Por fim, protesta a Impugnante provar o alegado por todos os meios de prova admitidos, em especial pela juntada de novos documentos que se fizerem necessários, em eventual nova diligência fiscal para avaliar as características técnicas dos produtos, necessária à apuração da verdade material, caso entendam V.Sas. necessário. Sobreveio a decisão de primeira instância, em que, por maioria de votos, a impugnação foi julgada improcedente e o crédito tributário integralmente mantido, com base no fundamento resumido no enunciado da ementa que segue transcrito: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A IMPORTAÇÃO II Data do fato gerador: 04/01/2013 Importação de calçados da China. Para os calçados classificados na NCM de Posição 6401, o contribuinte está utilizandose de uma caracterização equivocada de seus produtos, pois se tratam de calçados permeáveis, conforme determinação das Notas Explicativas do Sistema Harmonizado da própria posição. Para os calçados classificados na NCM 6402.20.00, a classificação adotada pelo contribuinte está correta, mas o mesmo faz uma interpretação equivocada das exceções de pagamento dos direitos antidumping. Fl. 5351DF CARF MF 14 Para os calçados classificados na NCM 6405.90.00, o contribuinte também está utilizandose de uma caracterização equivocada. Por exclusão, a melhor classificação é na NCM 6402.99.90. Por serem normatizadas através dessas instruções normativas, as Notas Explicativas do Sistema Harmonizado são de observância obrigatória para a Administração Pública. O simples e isolado fato de ser uma amostra não comercial não confere à operação de importação imunidade ou isenção. O texto normativo é taxativo em excluir da incidência dos direitos Antidumping as sandálias praianas, confeccionadas em borracha. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Em 12/6/2015, a recorrente foi cientificada da decisão. Inconformado, em 13/7/2015 (fl. 5210), protocolou o recurso voluntário de fls. 5142/5207, em que reafirmou as razões de defesa suscitadas na peça impugnatória. Em aditamento, em preliminar, alegou nulidade da decisão recorrida por “absoluta ausência de análise dos argumentos apresentados” pela recorrente na peça impugnatória. Em 23/1/2018, por meio da petição de fls. 5304/5305, a recorrente requereu a juntada aos autos do Acórdão nº 3301004.043, prolatado na Sessão de 29 de agosto de 2017 pela 1ª Turma Ordinária da 3ª Câmara desta 3ª Seção (fls. 5306/5338), no âmbito dos autos do processo nº 10314.720037/201562, bem como reiterou as razões apresentadas em seu recurso voluntário, para que ele fosse integralmente provido, com o cancelamento total das exigências fiscais veiculadas pelo lançamento fiscal aqui atacado. É o relatório. Voto Conselheiro José Fernandes do Nascimento, Relator. O recurso foi apresentado tempestivamente, trata de matéria da competência deste Colegiado e preenche os demais requisitos de admissibilidade, portanto, deve ser conhecido. Previamente, cabe esclarecer que a multa regulamentar por incorreta classificação das mercadorias na NCM foi objeto de outro auto de infração integrante do processo n° 10314.721062/201563, o qual se encontra no órgão de julgamento de primeiro grau aguardando julgamento da impugnação. Fl. 5352DF CARF MF Processo nº 10314.721061/201519 Acórdão n.º 3302005.322 S3C3T2 Fl. 5.346 15 O lançamento objeto do presente auto de infração referese apenas à exigência dos valores devidos a título de direito antidumping, acrescidos de multa de ofício e dos juros moratórios. A presente lide envolve questões preliminares e de mérito. Em sede de preliminar, a recorrente alegou a nulidade da decisão recorrida, enquanto que, no mérito, alegou a improcedência da cobrança do direito antidumping objeto da presente autuação. Tais questões serão a seguir analisadas. I DA QUESTÃO PRELIMINAR Em sede de preliminar, a recorrente alegou a nulidade da decisão recorrida, por ausência de análise de parte dos argumentos apresentados e das provas carreadas aos autos, conforme se extrai do excerto que segue transcrito: Por absoluta ausência de análise da maioria dos argumentos apresentados (alguns deles simplesmente intocados, como, por exemplo, o que clama por, pelo menos, afastamento de multa e juros, nos termos do parágrafo único do art. 100 do Código Tributário Nacional) e das provas carreadas com a Impugnação, temse decisão que viola o direito de defesa da empresa (para dizer o mínimo), além de afrontar princípios como o da legalidade, motivação, razoabilidade, moralidade e contraditório, todos constantes de maneira explícita no art. 2o da Lei n° 9.784/991. A leitura do texto transcrito revela que, de modo genérico, a recorrente alegou que não foram analisados a maioria dos argumentos, no entanto, de forma objetiva, citou apenas o argumento relativo ao afastamento da multa e dos juros, nos termos do parágrafo único do art. 100 do CTN. A alegação genérica, certamente, dispensa qualquer comentário a respeito. Já em relação ao afastamento da multa e dos juros, a leitura do voto condutor do julgado esclarece que não é verdade que tal ponto não foi apreciado no julgado recorrido. Com efeito, diferentemente do alegado pela recorrente, no tópico sobre “MULTA DE OFÍCIO. PREVISÃO LEGAL E PERCENTUAL”, de forma exaustiva, com menção aos dispositivos legais pertinentes, à jurisprudência deste Conselho e do Superior Tribunal de Justiça, o nobre Relator do voto condutor do julgado recorrido, fundamentadamente, abordou o presente ponto da controvérsia. E se não fez referência expressa ao citado art. 100 do CTN, como alegado pela recorrente, no entendimento deste Relator, os bem postos argumentos revelamse suficientes para a adequada motivação da rejeição da exclusão dos acréscimos questionados. A propósito da questão, não se pode olvidar que o julgador não está obrigado a rebater todos os argumentos apresentados, conforme jurisprudência pacífica dos tribunais superiores. O que o ordenamento jurídico do País exige é que a questão suscitada seja 1 "Art. 2e A Administração Pública obedecerá, dentre outros, aos princípios da legalidade, finalidade, motivação, razoabilidade, proporcionalidade, moralidade, ampla defesa, contraditório, segurança jurídica, interesse público e eficiência. (...)" Fl. 5353DF CARF MF 16 apreciada e apresentada motivação consistente para a decisão, o que, inequivocamente, ocorreu no caso em tela. No que tange a alegação de que não houve análise das provas carreadas aos autos, tratase de mais uma alegação de cunho genérico, posto que sequer a recorrente mencionou, especificamente, quais as provas apresentadas não foram analisadas. Assim, por se trata de alegação meramente genérica, fica inviabilizada qualquer consideração a respeito. Por essas razões, rejeitase a presente preliminar de nulidade. II DAS QUESTÕES DE MÉRITO No mérito, as questões controversas cingemse à cobrança do direito antidumping2, acrescidos de multa de ofício e dos juros moratórios. O direito antidumping objeto da presente autuação referese a importações de calçados da marca CROCS de diversos modelos, originários da República Popular da China (RPC), realizadas pela recorrente no período de junho de 2011 a abril de 2014, e despachadas por meio das Declarações de Importação (DI) discriminadas na relação de fls. 7/13. No caso, especificamente, tratase de direito antidumping definitivo3, a ser cobrado por período de até 5 (cinco) anos, instituído por meio da Resolução CAMEX nº 14, de 4 de março de 2010, na forma de alíquota específica fixa de US$ 13,85/par (treze dólares estadunidenses e oitenta e cinco centavos por par). A instituição do referenciado direito antidumping foi feita após findo regular processo administrativo investigativo conduzido pelo Departamento de Defesa Comercial (DECOM) da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), em que constatada a prática de dumping4 nas importações brasileiras de calçados das posições 64.02 a 64.05 da NCM originários da RPC e a existência de dano à indústria doméstica decorrente de tal prática. A citada medida foi aplicada em conformidade com o disposto no art. 42 do Decreto 1.602/1995, denominado Regulamento das Medidas Antidumping, na época vigente5. O prazo, o valor e os produtos alcançados com a citada medida antidumping foram especificados no caput do art. 1º da referida Resolução CAMEX, que segue transcrito: Art.1° Aplicar direito antidumping definitivo, por até 5 (cinco) anos, nas importações brasileiras de calçados, classificados nas posições 6402 a 6405 da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM), da República Popular da China, a ser recolhido sob a forma de alíquota específica fixa de US$ 13,85/par (treze dólares estadunidenses e oitenta e cinco centavos por par). 2 O art. 784, II, do RA/2009 define o direito antidumping como “o montante em dinheiro, igual ou inferior à margem de dumping apurada, com o fim exclusivo de neutralizar os efeitos danosos das importações objeto de dumping, calculado mediante a aplicação de alíquotas ad valorem ou específicas, ou pela conjugação de ambas.” 3 Segundo o art. 785 do RA/2009, os direitos antidumping, provisórios ou definitivos, serão aplicados mediante a cobrança de importância, em real, que corresponderá a percentual da margem de dumping, “apurados em processo administrativo, nos termos da legislação específica, suficientes para sanar dano ou ameaça de dano à indústria doméstica.” 4 O art. 784, I, do RA/2009 define o dumping como “a introdução de um bem no mercado doméstico, inclusive sob as modalidades de drawback, a preço de exportação inferior ao preço efetivamente praticado para o produto similar nas operações mercantis normais, que o destinem a consumo interno no país exportador.” 5 Atualmente a matéria encontrase regulamentada pelo Decreto 8.058/2013. Fl. 5354DF CARF MF Processo nº 10314.721061/201519 Acórdão n.º 3302005.322 S3C3T2 Fl. 5.347 17 Dos produtos classificados nas posições 6402 a 6405 da NCM foram excluídos os produtos relacionados nos incisos I a IX do parágrafo único do art. 1° da citada Resolução CAMEX, dos quais merecem destaques, por serem relevantes para o deslinde do caso em tela, os incisos I e V, a seguir transcritos: Art. 1º [...] Parágrafo único. Os calçados a seguir relacionados estão excluídos da aplicação do direito antidumping definitivo, ainda que classificados nas posições tarifárias 6402 a 6405: I sandálias praianas, confeccionadas em borracha e cujas tiras são fixadas ao solado por espigões (comumente classificadas na NCM 6402.20.00); [...] V calçados domésticos (pantufas); [...] (grifos não originais) A leitura conjunta do art. 1º e do seu parágrafo único informa que todos os produtos originários da China, classificados no Capítulo 64 da NCM (“Calçado, polainas e artefatos semelhantes, e suas partes”) estavam sujeitos ao direito antidumping em comento no fixado. Foram excluídos da aplicação do referido direito antidumping apenas os produtos relacionados nos incisos I a IX do citado parágrafo único, ainda que pertencentes às posições 64.02 a 64.05 da NCM, conforme já mencionado, bem como os produtos classificados nas posições 64.01 e 64.06 da NCM, cujos textos seguem transcritos: Posição 6401 Calçados impermeáveis de sola exterior e parte superior de borracha ou plásticos, em que a parte superior não tenha sido reunida à sola exterior por costura ou por meio de rebites, pregos, parafusos, espigões ou dispositivos semelhantes, nem formada por diferentes partes reunidas pelos mesmos processos. 64.06 Partes de calçado (incluindo as partes superiores, mesmo fixadas a solas que não sejam as solas exteriores); palmilhas, reforços interiores e artigos semelhantes, amovíveis; polainas, perneiras e artigos semelhantes, e suas partes. (grifos não originais) Por meio da Nota Técnica nº 044/2013/CGAS/DECOM/SECEX (fls. 1323/1326), o Departamento de Defesa Comercial da Secex, órgão responsável pela investigação da prática de dumping e proposição da medida antidumping, apresentou a seguinte definição para os tipos de calçados objeto do direito antidumping em comento: O produto objeto do direito antidumping, conforme definição estabelecida pela Resolução CAMEX n2 14, de 4 de março de 2010, publicada no D.O.U. de 5 de março de 2010, que encerrou a mencionada investigação de dumping, são artefatos para proteção dos pés, construídos com a parte superior em material natural ou sintético e a parte inferior em material natural ou sintético, voltados para o consumidor masculino, feminino ou infantil e destinados ao uso diário, social, ou esportivo, Fl. 5355DF CARF MF 18 importados da RPC, classificados nas posições 6402 a 6405 da NCM. E no exercício da missão constitucional de bem exercer o controle aduaneiro, estabelecida no art. 237 da Constituição Federal de 1988 (CF/1988), com a finalidade de verificar o correto cumprimento da norma instituidora do direito antidumping em apreço, com respaldo no art. 149, I, do CTN e no art. 54 do Decretolei 37/1966, a fiscalização aduaneira da RFB procedeu a verificação das operações de importação dos produtos do Capítulo 64 da NCM originários da China, realizadas pela recorrente no citado período. E de acordo com o minucioso e bem elaborado Relatório Fiscal de fls. 263/358, que integra o questionado auto de infração (fls. 2/262), ao revisar as citadas DI, a autoridade fiscal apurou irregularidades que, no seu entendimento, implicaram descumprimento da medida antidumping estabelecida na referida Resolução CAMEX e o consequente não recolhimento da margem de dumping fixada no citado ato normativo. As irregularidades apuradas objeto das presentes autuações podem ser agrupadas em 5 (cinco) tipos diferentes, a saber: a) classificação incorreta de grande parte dos produtos importados na posição 64.01 da NCM, especificamente, no código NCM 6401.99.90 (Outros; Outros), quando o enquadramento correto da maioria deles seria na posição 64.02 da NCM, especificamente: a.1) no código NCM 6402.99.90 (“Outros Calçados com Sola Exterior e Parte Superior de Borracha ou Plásticos; Outros Calçados; Outros; Outros), para a maioria dos modelos, porque tais produtos não se enquadravam na descrição de calçados impermeáveis, conforme a descrição das NESH da posição 6401, e não se constituíam em peça inteiriça, em razão de haver alça encaixada à parte superior dos calçados, conforme Nota Técnica CGASDECOMSECEX 44/2013 (Tabela 01 – Produtos Classificados INCORRETAMENTE na Posição 6401 da NCM e reclassificados para NCM 6402.99.90); e a.2) no código NCM 6402.20.00 (“Calçados com parte superior em tiras ou correias, fixadas à sola por pregos, tachas, pinos e semelhantes”), para alguns poucos modelos, porque não eram impermeáveis, nos termos das NESH da posição 6401, pois eram totalmente abertos atrás e na parte superior, sendo que a parte superior do calçado era constituída de tiras que são fixadas ao solado por pinos ou semelhantes, ou qualquer outro processo, e fabricados em plástico (Tabela 02 – Produtos Classificados INCORRETAMENTE na Posição 6401 da NCM e reclassificados para NCM 6402.20.00) subitem 6.3.1 do Relatório Fiscal; b) classificação correta da maioria dos produtos no código NCM 6402.20.00 (“Calçados com parte superior em tiras ou correias, fixadas à sola por pregos, tachas, pinos e semelhantes”), porém, como eram calçados constituídos de plástico, conforme laudo pericial apresentado pelo próprio contribuinte, e não de borracha, tais produtos não se incluíam na exceção ao pagamento dos direitos antidumping, prevista no inciso I do parágrafo único do art. 1º da Resolução CAMEX 14/2010 (Tabela 03 – Produtos Classificados no subitem 6402.20.00 da NCM fabricados em PLÁSTICO) subitem 6.3.2 do Relatório Fiscal; c) classificação incorreta de alguns calçados no código NCM 6405.90.00, denominados pelo importador como “calçados para dormir ou pantufas”, porém, sua classificação correta seria no código NCM 6402.99.90 (“Outros Calçados com Sola Exterior e Parte Superior de Borracha ou Plásticos; Outros Calçados; Outros; Outros”), porque, de acordo com o estabelecido nas Notas Explicativas referentes a essa posição (“Entre os calçados incluídos nesta posição, podem citarse: 1) os de sola exterior de borracha ou de plástico e Fl. 5356DF CARF MF Processo nº 10314.721061/201519 Acórdão n.º 3302005.322 S3C3T2 Fl. 5.348 19 parte superior de matéria, que não seja borracha, plásticos, couro natural ou matérias têxteis”). Além disso, tais calçados não se enquadravam no conceito comum de pantufas, não se enquadrando também nos casos de exceção ao pagamento dos direitos antidumping (Tabela 04 – Produtos Classificados INCORRETAMENTE no subitem 6405.90.00 da NCM e reclassificados para NCM 6402.99.90) subitem 6.3.3 do Relatório Fiscal d) classificação incorreta de alguns poucos modelos de calçados no código NCM 6402.20.00, porque, apesar de possuírem a parte superior em tiras, estas não eram fixadas ao solado por pregos, tachas, pinos ou semelhantes, razão pela qual a classificação correta de tais modelos era no código NCM 6402.99.90 da NCM (“Outros Calçados com Sola Exterior e Parte Superior de Borracha ou Plásticos; Outros Calçados; Outros; Outros); e e) classificação correta de alguns modelos de calçados nos códigos NCM 6402.99.90 (“Outros calçados com sola exterior e parte superior de borracha ou plásticos; Outros calçados; Outros; Outros”), 6403.99.90 (“Calçados com sola exterior de borracha, plástico, couro natural ou reconstituído e parte superior de couro natural; Outros calçados; Outros; Outros”) e 6404.19.00 (“Calçados com sola exterior de borracha, plásticos, couro natural ou reconstituído e parte superior de matérias têxteis; Calçados com sola exterior de borracha ou de plásticos; Outro”), nos quais os direitos antidumping são devidos, nos termos do art. 1° da Resolução CAMEX n° 14/2010, mas tais direitos não foram recolhidos pela recorrente. O agrupamento das referidas irregularidades visa facilitar a definição dos pontos controvertidos e apresentar a sua análise de forma clara e objetiva, por tópicos específicos, e evitar repetição desnecessária. II.1 Da Mudança de Critério Jurídico No recurso em apreço, a recorrente pleiteou o cancelamento do auto de infração sob o argumento de que houve mudança de critério em relação aos lançamentos em apreço, o que era vedada pelo art. 146 do CTN, que tem a seguinte redação, in verbis: Art. 146. A modificação introduzida, de ofício ou em conseqüência de decisão administrativa ou judicial, nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa no exercício do lançamento somente pode ser efetivada, em relação a um mesmo sujeito passivo, quanto a fato gerador ocorrido posteriormente à sua introdução. (grifos não originais) Da simples leitura do citado preceito legal extraise que são 3 (três) as condições cumulativas necessárias, para fim de configuração de mudança do critério jurídico, a saber: a) a primeira: haja um prévio ato de lançamento de ofício, em que a autoridade administrativa tenha fixado um determinado critério jurídico; b) a segunda: a modificação do critério jurídico anterior seja introduzida pela autoridade administrativa (mediante ato de ofício) ou pelo órgão julgador administrativo ou judicial (por meio de decisão administrativa ou judicial); Fl. 5357DF CARF MF 20 c) a terceira: tanto o ato de lançamento quanto o ato de ofício e as decisões administrativa e judicial refiramse a um mesmo sujeito passivo. De todas, a primeira condição é a mais importante, logo, sem a ocorrência dela, obviamente, a análise das outras duas condições revelase descabida. Em outras palavras, sem a ocorrência de prévio ato de lançamento de ofício, a análise da ocorrência das outras duas condições seguintes tornase dispensável, por ser aquela a condição necessária, porém, não suficiente. E o lançamento de ofício, sabidamente, é aquele realizado pela autoridade administrativa, segundo os procedimentos estabelecidos no art. 142 do CTN, desde que presentes as situações elencadas no art. 149 do CTN. No caso em tela, não há notícia de que tenha havido lançamento ofício em relação a quaisquer das operações de importação realizada pela recorrente, objeto da presente autuação. No presente caso, o que houve foi apenas lançamento por homologação (ou autolançamento, segundo parte relevante da doutrina), conforme previsto no art. 150 do CTN, uma vez que a autuada foi quem apurou e recolheu antecipadamente o valor dos tributos informados nas respectivas DI, documento base do despacho aduaneiro de importação. E o despacho aduaneiro de importação, sabese, consiste no procedimento em que é verificada a exatidão dos dados declarados pelo importador em relação à mercadoria importada, aos documentos apresentados e à legislação específica. Tratase de procedimento de natureza mista, destinado à verificação do cumprimento das normas de controle aduaneiro e tributárias, incidentes sobre a operação de importação. O despacho aduaneiro processase em duas etapas sequenciais. A primeira é denominada de fase de conferência aduaneira e a segunda e seguinte de fase de revisão aduaneira. A fase de conferência aduaneira iniciase com o registro da DI e se encerra com o ato de desembaraço aduaneiro (liberação da mercadoria), proferido pela autoridade fiscal. Nessa fase é feita (i) a identificação do importador, (ii) a verificação da mercadoria e da correção das informações relativas a sua natureza, classificação fiscal, quantificação e valor, e (iii) a confirmação do cumprimento de todas as obrigações, fiscais e outras, exigíveis em razão da importação. Por sua vez, a fase de revisão aduaneira iniciase com o ato de desembaraço aduaneiro e se encerra (i) com ato de ciência do autuado da exigência do crédito tributário lançado, ou (ii) com o transcurso do prazo de 5 (cinco) anos, contado do registro da DI. Nesta fase e feita apuração da regularidade do pagamento dos tributos e dos demais gravames devidos à Fazenda Nacional, da aplicação de benefício fiscal e da exatidão das informações prestadas pelo importador na declaração de importação. A principal justificativa para adoção das referidas fases no âmbito do procedimento de despacho aduaneiro de importação está relacionada com a premente necessidade de celeridade dos atos de liberação da imensa quantidade de mercadorias importadas e que transitam, diariamente, pelos diversos recintos alfandegados brasileiros, situação que, certamente, impossibilita a fiscalização aduaneira de, na fase de conferência aduaneira do despacho, realizar um exame minucioso de todos os aspectos do controle aduaneiro e tributário atinentes aos inúmeros e diversificados despachos aduaneiros de importação que ingressam e se processam todos os dias nas inúmeras unidades aduaneiras da RFB. Dada essa circunstância, o processamento do despacho aduaneiro em duas fases tem por objetivo, de um lado, evitar ônus financeiro adicional aos importadores, em decorrência da demora na liberação das mercadoria, e de outro, permitir que a fiscalização aduaneira, após a Fl. 5358DF CARF MF Processo nº 10314.721061/201519 Acórdão n.º 3302005.322 S3C3T2 Fl. 5.349 21 liberação da mercadoria e enquanto não concluído o prazo de decadência do direito de constituir o crédito tributário e/ou aplicar penalidades pecuniárias, proceda análise pormenorizada das informações prestadas pelo importador, com o objetivo de verificar se as obrigações aduaneiras e tributárias foram corretamente cumpridas. Com base nessa breve explicação, fica evidenciado que o ato de desembaraço aduaneiro, que põe termo à fase de conferência aduaneira, não tem natureza de ato de lançamento de ofício e tampouco ato de homologação expressa do autolançamento. Neste caso, por não atender os requisitos fixados no art. 150 do CTN. O referido o ato, enfatizase novamente, tem o efeito jurídico de autorizar a liberação ou desembaraço da mercadoria, conforme expressamente estabelecido no art. 51 do Decretolei 37/1966, com a redação dada pelo Decretolei 2.472/1988, que tem o seguinte teor, in verbis: Art. 51 Concluída a conferência aduaneira, sem exigência fiscal relativamente a valor aduaneiro, classificação ou outros elementos do despacho, a mercadoria será desembaraçada e posta à disposição do importador. (Redação dada pelo DecretoLei nº 2.472, de 01/09/1988) § 1º Se, no curso da conferência aduaneira, houver exigência fiscal na forma deste artigo, a mercadoria poderá ser desembaraçada, desde que, na forma do regulamento, sejam adotadas as indispensáveis cautelas fiscais. (Incluído pelo DecretoLei nº 2.472, de 01/09/1988) § 2º O regulamento disporá sobre os casos em que a mercadoria poderá ser posta à disposição do importador antecipadamente ao desembaraço. (Incluído pelo DecretoLei nº 2.472, de 01/09/1988). grifos não originais Assim, se há definição legal da natureza do ato de desembaraço aduaneiro, como mero ato de liberação da mercadoria importada, no sentido de colocála à disposição do importador, não pode o intérprete atribuir ao referido ato efeito jurídico distinto daquele expressamente determinado na norma legal. Em outras palavras, ao ato de desembaraço aduaneiro não pode ser atribuído o efeito de ato de lançamento de ofício ou ato de homologação expressa do lançamento por homologação, especialmente, porque tal interpretação implicaria retirar qualquer eficácia ou efeito jurídico prático à atividade de revisão aduaneira, prevista no art. 54 do Decretolei 37/1966, com a redação dada pelo Decretolei 2.472/1988, a seguir transcrito: Art. 54 A apuração da regularidade do pagamento do imposto e demais gravames devidos à Fazenda Nacional ou do benefício fiscal aplicado, e da exatidão das informações prestadas pelo importador será realizada na forma que estabelecer o regulamento e processada no prazo de 5 (cinco) anos, contado do registro da declaração de que trata o art.44 deste Decreto Lei. (Redação dada pelo DecretoLei nº 2.472, de 01/09/1988) grifos não originais Com efeito, se a atividade de revisão aduaneira destinase a apurar a regularidade do pagamento dos tributos e demais gravames devidos na operação de importação, o que compreende a atividade de lançamento de direito antidumping, , induvidosamente, pretender atribuir ao ato de desembaraço aduaneiro a natureza de lançamento Fl. 5359DF CARF MF 22 de ofício ou homologação expressa de lançamento, na prática, significaria tornar sem qualquer efeito prático o trabalho de fiscalização realizado na fase de revisão aduaneira do despacho de importação e, ainda, implicaria a revogação tácita do citado preceito legal, retirando qualquer eficácia ou resultado prático da atividade de controle aduaneiro realizado após o ato de desembaraço aduaneiro, com grave prejuízo ao erário. Além disso, como todas as informações sobre a operação de importação consignadas na DI são prestadas pelo próprio importador, previamente ao início do despacho aduaneiro, obviamente, não há que se falar em critério jurídico da autoridade fiscal se ela não teve qualquer participação na formalização do despacho aduaneiro de importação. E após o registro, sabese que a DI registrada é submetida parametrização e distribuída para os canais de conferência aduaneira, conforme estabelecido no art. 21, I, da Instrução Normativa RFB 680/2016, a seguir transcrito: Art. 21. Após o registro, a DI será submetida a análise fiscal e selecionada para um dos seguintes canais de conferência aduaneira: I verde, pelo qual o sistema registrará o desembaraço automático da mercadoria, dispensados o exame documental e a verificação da mercadoria; II – amarelo, pelo qual será realizado o exame documental, e, não sendo constatada irregularidade, efetuado o desembaraço aduaneiro, dispensada a verificação da mercadoria; III – vermelho, pelo qual a mercadoria somente será desembaraçada após a realização do exame documental e da verificação da mercadoria; e IV – cinza, pelo qual será realizado o exame documental, a verificação da mercadoria e a aplicação de procedimento especial de controle aduaneiro, para verificar elementos indiciários de fraude, inclusive no que se refere ao preço declarado da mercadoria, conforme estabelecido em norma específica. [...] (grifos não originais) Veja que, se a DI for selecionada para o canal verde, o que tem ocorrido com a quase totalidade dos despachos aduaneiros de importação e ocorreu no caso em apreço, o desembaraço ou liberação da mercadoria ocorre de forma automática pelo sistema eletrônico, sem qualquer participação da autoridade fiscal. E em relação aos demais canais de conferência aduaneira, embora haja participação da autoridade fiscal no ato de desembaraço aduaneiro, pelas condições estabelecidas no art. 146 do CTN, só há de se cogitar de introdução de critério de jurídico se, no curso do despacho e previamente ao ato de desembaraço, houve lançamento de ofício pela autoridade fiscal. Sem o lançamento de ofício não há referencial para definição da ocorrência ou não mudança de critério jurídico. De acordo com o art. 54 do Decretolei 37/1966, a única condição exigida para apuração e constituição válida do crédito tributário, apurado na fase de revisão aduaneira, é que o lançamento seja concluído antes do prazo de cinco anos contados da data do registro da declaração de importação correspondente. Assim, se na fase de revisão do despacho aduaneiro de importação for apurada falta ou insuficiência de pagamento de tributos ou outro gravame, como ocorreu no caso em tela, por força do disposto no art. 142 do CTN, o lançamento dos Fl. 5360DF CARF MF Processo nº 10314.721061/201519 Acórdão n.º 3302005.322 S3C3T2 Fl. 5.350 23 valores apurados, não recolhidos ou confessados pelo contribuinte, deve ser feito pela autoridade fiscal, sob pena responsabilidade funcional. Feitas essas breves considerações, passase a analisar os argumentos suscitados pela recorrente no recurso em apreço. A começar pelo argumento de que a fiscalização ao ignorar por completo a conclusão da CAMEX veiculada Nota Técnica n° 109/2009, Circular SECEX nº 9/2015 e Parecer DECOM n° 6/2015, no tocante a todos os produtos classificados na posição NCM 6401, desobedecera comando emanado de autoridade competente sobre a aplicação da medida antidumping. Sabese que os atos administrativos expedidos pela CAMEX ou DECOM não tem natureza de lançamento tributário. Nos termos do art. 142 do CTN, a atividade de lançamento é privativa das autoridades fiscais integrantes dos quadros da RFB. E quais foram a modificação introduzida pelos referidos atos administrativos “nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa no exercício do lançamento”? A recorrente não informou e não há nos atos qualquer informação a respeito. Em seguida, a recorrente alegou, que a autoridade fiscal lançadora também ignorara e invalidara (i) “a conclusão contida em laudo oficial elaborado quando da inspeção aduaneira das mercadorias importadas e declaradas na DI n° 09/13065743, que levou o Agente Fiscal, [...], a determinar a utilização da NCM 6401”; e as (ii) “práticas reiteradas por Agentes Fiscais da Receita Federal nos portos de entrada em posteriores e incontáveis operações de importação de produtos com as mesmas características.” No que tange ao referido Laudo Técnico (fls. 4647/4660), previamente, é oportuno esclarecer que ele foi emitido em 4/12/2009 e se refere a identificação física das mercadorias descritas nas adições 001, 002 e 003 da DI nº 09/13065743 (fls. 4664/4675). Na resposta ao quesito nº 2 da Solicitação de Assistência Técnica de fl. 4.646, respondeu a engenheira credenciada perante a unidade aduaneira de origem, que as amostras dos modelos de calçados analisados (as fotos encontramse na fl. 4650) tratavamse “de calçados impermeáveis produzidos pelo processo de moldagem por injeção de plástico, 100% Croslite™ (Copolímero de EVA Etileno Vinil Acetato).” As informações de natureza técnica, apresentadas no referido Laudo, foram utilizadas pela autoridade fiscal responsável pelo desembaraço aduaneiro, para a definição da classificação fiscal dos modelos de calçados despachados por meio da referida DI (fls. 4602/4603). É pertinente ainda ressaltar que, do referido procedimento, não resultou lavratura de auto de infração, mas apenas determinação da autoridade fiscal para que os produtos fossem reclassificados para o código NCM 6401.99.90 e retirada a exigência de recolhimento do direito antidumping. Além disso, a presente autuação referese às importações relativas às DI registradas no período de junho de 2011 a abril de 2014 e os modelos de calçados nelas descritos são distintos daqueles identificados no referido laudo técnico. E dada essa circunstância, não é possível aplicar a conclusão exarada no referido laudo, para os modelos de calçados objeto das importações objeto das presentes autuações. E como se trata de produtos de modelos diferentes dos importados por meio da citada DI, além da previsão legal da revisão aduaneira do lançamento, prevista no art. 54 do Decretolei 37/1966, combinado com o disposto no art. 149, I, do CTN, no caso, a autoridade fiscal ainda poderia proceder o lançamento do direito antidumping relativos às DI do período da autuação, por expressa permissão do inciso VIII do art. 149 do CTN. Fl. 5361DF CARF MF 24 Além disso, ainda que elaborado por técnico credenciado, ao contrário do que alegou a recorrente, o citado laudo técnico não representa a posição e a conclusão oficial das autoridades fiscais federais da RFB sobre a classificação dos produtos na NCM. Sabese que, no âmbito do processo administrativo fiscal, a atividade de identificação da mercadoria e atividade de classificação fiscal são distintas e, por razão óbvia, atribuídas a pessoas distintas. Nesse sentido, dispõe o art. 306 do Decreto 70.235/1972, que os laudos ou pareceres técnicos oficiais ou emitidos por técnicos credenciados “serão adotados nos aspectos técnicos de sua competência, salvo se comprovada a improcedência desses laudos ou pareceres.” E para afastar qualquer dúvida sobre a natureza estritamente técnica da atividade de identificação da mercadoria e a natureza estritamente jurídica da atividade de classificação fiscal, o citado preceito legal, no seu § 1º, deixou expresso que “não se considera como aspecto técnico a classificação fiscal de produto.” A leitura conjunta dos referidos preceitos legais informa que, enquanto atividade de elaboração de laudos ou pareceres tem natureza técnica e visa à identificação física da mercadoria, consoante as regras e os princípios próprios da merceologia7. De outra parte, temse que a classificação fiscal de mercadorias na NCM revestese de aspecto jurídico e deverá ser feita segundo as “Regras Gerais para Interpretação, das Regras Gerais Complementares e das Notas Complementares e, subsidiariamente, das Notas Explicativas do Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias (NESH), da Organização Mundial das Aduanas”, conforme expressamente determina o parágrafo único do art. 94 do Decreto 6.759/2009 (RA/2009), a seguir reproduzido: Art. 94. A alíquota aplicável para o cálculo do imposto é a correspondente ao posicionamento da mercadoria na Tarifa Externa Comum, na data da ocorrência do fato gerador, uma vez identificada sua classificação fiscal segundo a Nomenclatura Comum do Mercosul. Parágrafo único. Para fins de classificação das mercadorias, a interpretação do conteúdo das posições e desdobramentos da Nomenclatura Comum do Mercosul será feita com observância 6 "Art. 30. Os laudos ou pareceres do Laboratório Nacional de Análises, do Instituto Nacional de Tecnologia e de outros órgãos federais congêneres serão adotados nos aspectos técnicos de sua competência, salvo se comprovada a improcedência desses laudos ou pareceres. § 1° Não se considera como aspecto técnico a classificação fiscal de produtos. § 2º A existência no processo de laudos ou pareceres técnicos não impede a autoridade julgadora de solicitar outros a qualquer dos órgãos referidos neste artigo. § 3º Atribuirseá eficácia aos laudos e pareceres técnicos sobre produtos, exarados em outros processos administrativos fiscais e transladados mediante certidão de inteiro teor ou cópia fiel, nos seguintes casos: (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) a) quando tratarem de produtos originários do mesmo fabricante, com igual denominação, marca e especificação;(Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997)(Produção de efeito) b) quando tratarem de máquinas, aparelhos, equipamentos, veículos e outros produtos complexos de fabricação em série, do mesmo fabricante, com iguais especificações, marca e modelo. (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997)" 7 Segundo a Wikipédia, "a merceologia pode ser entendida como um estudo que leva em consideração a análise das características técnicas e comerciais de uma determinada mercadoria. Formalmente, dividese em dois módulos: Módulo de Informações Técnicas e Módulo de Informações Comerciais, pelos quais se torna possível conhecer a mercadoria tanto técnica (sua identificação; suas características operacionais e usuais; seus insumos e matériasprimas utilizados; entre outros), como comercialmente (nomes usuais; canais de distribuição; comissões; preço internacional; entre outros)." (Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Merceologia>. Acesso em 22 fev. 2018. Fl. 5362DF CARF MF Processo nº 10314.721061/201519 Acórdão n.º 3302005.322 S3C3T2 Fl. 5.351 25 das Regras Gerais para Interpretação, das Regras Gerais Complementares e das Notas Complementares e, subsidiariamente, das Notas Explicativas do Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias, da Organização Mundial das Aduanas (DecretoLei nº 1.154, de 1º de março de 1971, art. 3º, caput). (grifos não originais) Assim, tendo em conta as características específicas de cada atividade, com respaldo no art. 813 do RA/2009, o Secretario da Receita Federal do Brasil editou a Instrução Normativa RFB 1020/2010, cujos os arts. 31 e 32 assim dispuseram sobre os requisitos dos laudos periciais: Art. 31. Os laudos periciais destinados a identificar e a quantificar mercadoria importada ou a exportar deverão conter, expressamente, conforme o caso, os seguintes requisitos: I explicitação e fundamentação técnica das verificações, testes, ensaios ou análises laboratoriais empregados na identificação da mercadoria; II exposição dos métodos e cálculos utilizados para fundamentar as conclusões do laudo referente à quantificação de mercadoria a granel; e III indicação das fontes, referências bibliográficas e normas nacionais e internacionais empregadas na elaboração do laudo, e cópia daquelas que tenham relação direta com a mercadoria objeto de verificação, teste, ensaio ou análise laboratorial. § 1º Os laudos não poderão conter quaisquer indicações sobre posições, subposições, itens ou códigos da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM). [...] Art. 32. Os laudos periciais que não atenderem aos requisitos previstos no art. 31 somente serão aceitos se sanadas suas falhas ou omissões, no prazo de 5 (cinco) dias úteis da ciência da intimação da autoridade fiscal da unidade local da RFB, da Divisão de Administração Aduaneira (Diana) ou da CoordenaçãoGeral de Administração Aduaneira (Coana), conforme o caso. (grifos não originais) A determinação contida no § 1º do art. 31 visa delimitar a atuação do perito apenas em relação aos aspectos técnicos ou merciológicos sobre a identificação do produto e evitar qualquer ingerência na atividade de classificação fiscal do produto na NCM. Entretanto, é pertinente esclarecer que, nos termos do § 3º do citado art. 30, aos laudos e pareceres técnicos exarados em outros processos administrativos fiscais poderá ser atribuída eficácia em outros processos, nas seguintes hipóteses: a) quando tratarem de produtos originários do mesmo fabricante, com igual denominação, marca e especificação; (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) Fl. 5363DF CARF MF 26 b) quando tratarem de máquinas, aparelhos, equipamentos, veículos e outros produtos complexos de fabricação em série, do mesmo fabricante, com iguais especificações, marca e modelo. (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) (grifos não originais) No caso em tela, se tais condições forem atendidas, inequivocamente, a conclusão técnica exarada no citado laudo será levada em conta na apreciação do mérito da correta classificação fiscal dos produtos importados pela recorrente, objeto da presente autuação. A recorrente ainda alegou que passara, inclusive, por outras verificações físicas em procedimentos de importação que caíram no canal vermelho. No entanto, as classificações fiscais e o tratamento dado ao recolhimento do direito antidumping foram respeitados pelas autoridades fiscais responsáveis pelo controle aduaneiro dessas mercadorias. São exemplos as importações amparadas pelas DI n° 1107117048, 1108090135 e 1103863551. Conforme anteriormente demonstrado, o desembaraço aduaneiro das DI, ainda que submetidas a canal amarelo, vermelho ou cinza, não tem o efeito de lançamento, mas de liberação da mercadoria e, nessa condição, não representa critério jurídico, conforme previsto no art. 146 do CTN. Além disso, dada a insignificância das 3 (três) DI dentro do universo das 1.156 DI desembaraçadas, objeto da presente autuação, ainda que a autoridade fiscal tenha concordado de forma expressa com a classificação fiscal adotada pela recorrente, o que não foi provado nos autos, ainda assim, por razão óbvia, essa conclusão não poderia ser estendida para as demais importações desembaraçadas por meio das 1.153 DI. Assim, chegase a conclusão de que, no caso em tela, não houve mudança de critério jurídico, conforme alegado pela recorrente, portanto, inaplicável ao caso em tela, o entendimento esposado na jurisprudência do STJ, especialmente, do REsp 1.130.545/RJ, julgado sob o rito dos recursos repetitivos, estabelecido no art. 543C do CPC revogado, que trata de hipótese de revisão de lançamento por de erro de direito (equívoco na valoração jurídica dos fatos), situação que não ocorreu na autuação em apreço. Primeiro, porque não houve lançamento anterior e segundo, porque os produtos objeto da presente autuação são diferentes daqueles que foram analisados no citado laudo técnico. Para que não reste dúvida, transcrevese a seguir o inteiro teor do enunciado da ementa do referido julgado: PROCESSO CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ARTIGO 543C, DO CPC. TRIBUTÁRIO E PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO. IPTU. RETIFICAÇÃO DOS DADOS CADASTRAIS DO IMÓVEL. FATO NÃO CONHECIDO POR OCASIÃO DO LANÇAMENTO ANTERIOR (DIFERENÇA DA METRAGEM DO IMÓVEL CONSTANTE DO CADASTRO). RECADASTRAMENTO. NÃO CARACTERIZAÇÃO. REVISÃO DO LANÇAMENTO. POSSIBILIDADE. ERRO DE FATO. CARACTERIZAÇÃO. 1. A retificação de dados cadastrais do imóvel, após a constituição do crédito tributário, autoriza a revisão do lançamento pela autoridade administrativa (desde que não extinto o direito potestativo da Fazenda Pública pelo decurso do prazo decadencial), quando decorrer da apreciação de fato não Fl. 5364DF CARF MF Processo nº 10314.721061/201519 Acórdão n.º 3302005.322 S3C3T2 Fl. 5.352 27 conhecido por ocasião do lançamento anterior, ex vi do disposto no artigo 149, inciso VIII, do CTN. 2. O ato administrativo do lançamento tributário, devidamente notificado ao contribuinte, somente pode ser revisto nas hipóteses enumeradas no artigo 145, do CTN, verbis: "Art. 145. O lançamento regularmente notificado ao sujeito passivo só pode ser alterado em virtude de: I impugnação do sujeito passivo; II recurso de ofício; III iniciativa de ofício da autoridade administrativa, nos casos previstos no artigo 149." 3. O artigo 149, do Codex Tributário, elenca os casos em que se revela possível a revisão de ofício do lançamento tributário, quais sejam: "Art. 149. O lançamento é efetuado e revisto de ofício pela autoridade administrativa nos seguintes casos: I quando a lei assim o determine; II quando a declaração não seja prestada, por quem de direito, no prazo e na forma da legislação tributária; III quando a pessoa legalmente obrigada, embora tenha prestado declaração nos termos do inciso anterior, deixe de atender, no prazo e na forma da legislação tributária, a pedido de esclarecimento formulado pela autoridade administrativa, recuse se a prestálo ou não o preste satisfatoriamente, a juízo daquela autoridade; IV quando se comprove falsidade, erro ou omissão quanto a qualquer elemento definido na legislação tributária como sendo de declaração obrigatória; V quando se comprove omissão ou inexatidão, por parte da pessoa legalmente obrigada, no exercício da atividade a que se refere o artigo seguinte; VI quando se comprove ação ou omissão do sujeito passivo, ou de terceiro legalmente obrigado, que dê lugar à aplicação de penalidade pecuniária; VII quando se comprove que o sujeito passivo, ou terceiro em benefício daquele, agiu com dolo, fraude ou simulação; VIII quando deva ser apreciado fato não conhecido ou não provado por ocasião do lançamento anterior; IX quando se comprove que, no lançamento anterior, ocorreu fraude ou falta funcional da autoridade que o efetuou, ou omissão, pela mesma autoridade, de ato ou formalidade especial. Parágrafo único. A revisão do lançamento só pode ser iniciada enquanto não extinto o direito da Fazenda Pública." 4. Destarte, a revisão do lançamento tributário, como consectário do poderdever de autotutela da Administração Fl. 5365DF CARF MF 28 Tributária, somente pode ser exercido nas hipóteses do artigo 149, do CTN, observado o prazo decadencial para a constituição do crédito tributário. 5. Assim é que a revisão do lançamento tributário por erro de fato (artigo 149, inciso VIII, do CTN) reclama o desconhecimento de sua existência ou a impossibilidade de sua comprovação à época da constituição do crédito tributário. 6. Ao revés, nas hipóteses de erro de direito (equívoco na valoração jurídica dos fatos), o ato administrativo de lançamento tributário revelase imodificável, máxime em virtude do princípio da proteção à confiança, encartado no artigo 146, do CTN, segundo o qual "a modificação introduzida, de ofício ou em conseqüência de decisão administrativa ou judicial, nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa no exercício do lançamento somente pode ser efetivada, em relação a um mesmo sujeito passivo, quanto a fato gerador ocorrido posteriormente à sua introdução". 7. Nesse segmento, é que a Súmula 227/TFR consolidou o entendimento de que "a mudança de critério jurídico adotado pelo Fisco não autoriza a revisão de lançamento". 8. A distinção entre o "erro de fato" (que autoriza a revisão do lançamento) e o "erro de direito" (hipótese que inviabiliza a revisão) é enfrentada pela doutrina, verbis: "Enquanto o 'erro de fato' é um problema intranormativo, um desajuste interno na estrutura do enunciado, o 'erro de direito' é vício de feição internormativa, um descompasso entre a norma geral e abstrata e a individual e concreta. Assim constitui 'erro de fato', por exemplo, a contingência de o evento ter ocorrido no território do Município 'X', mas estar consignado como tendo acontecido no Município 'Y' (erro de fato localizado no critério espacial), ou, ainda, quando a base de cálculo registrada para efeito do IPTU foi o valor do imóvel vizinho (erro de fato verificado no elemento quantitativo). 'Erro de direito', por sua vez, está configurado, exemplificativamente, quando a autoridade administrativa, em vez de exigir o ITR do proprietário do imóvel rural, entende que o sujeito passivo pode ser o arrendatário, ou quando, ao lavrar o lançamento relativo à contribuição social incidente sobre o lucro, mal interpreta a lei, elaborando seus cálculos com base no faturamento da empresa, ou, ainda, quando a base de cálculo de certo imposto é o valor da operação, acrescido do frete, mas o agente, ao lavrar o ato de lançamento, registra apenas o valor da operação, por assim entender a previsão legal. A distinção entre ambos é sutil, mas incisiva." (Paulo de Barros Carvalho, in "Direito Tributário Linguagem e Método", 2ª Ed., Ed. Noeses, São Paulo, 2008, págs. 445/446) "O erro de fato ou erro sobre o fato darseia no plano dos acontecimentos: dar por ocorrido o que não ocorreu. Valorar fato diverso daquele implicado na controvérsia ou no tema sob inspeção. O erro de direito seria, à sua vez, decorrente da escolha equivocada de um módulo normativo inservível ou não mais aplicável à regência da questão que estivesse sendo juridicamente Fl. 5366DF CARF MF Processo nº 10314.721061/201519 Acórdão n.º 3302005.322 S3C3T2 Fl. 5.353 29 considerada. Entre nós, os critérios jurídicos (art. 146, do CTN) reiteradamente aplicados pela Administração na feitura de lançamentos têm conteúdo de precedente obrigatório. Significa que tais critérios podem ser alterados em razão de decisão judicial ou administrativa, mas a aplicação dos novos critérios somente pode darse em relação aos fatos geradores posteriores à alteração." (Sacha Calmon Navarro Coêlho, in "Curso de Direito Tributário Brasileiro", 10ª Ed., Ed. Forense, Rio de Janeiro, 2009, pág. 708) "O comando dispõe sobre a apreciação de fato não conhecido ou não provado à época do lançamento anterior. Dizse que este lançamento teria sido perpetrado com erro de fato, ou seja, defeito que não depende de interpretação normativa para sua verificação. Frisese que não se trata de qualquer 'fato', mas aquele que não foi considerado por puro desconhecimento de sua existência. Não é, portanto, aquele fato, já de conhecimento do Fisco, em sua inteireza, e, por reputálo despido de relevância, tenhao deixado de lado, no momento do lançamento. Se o Fisco passa, em momento ulterior, a dar a um fato conhecido uma 'relevância jurídica', a qual não lhe havia dado, em momento pretérito, não será caso de apreciação de fato novo, mas de pura modificação do critério jurídico adotado no lançamento anterior, com fulcro no artigo 146, do CTN, (...). Neste art. 146, do CTN, prevêse um 'erro' de valoração jurídica do fato (o tal 'erro de direito'), que impõe a modificação quanto a fato gerador ocorrido posteriormente à sua ocorrência. Não perca de vista, aliás, que inexiste previsão de erro de direito, entre as hipóteses do art. 149, como causa permissiva de revisão de lançamento anterior." (Eduardo Sabbag, in "Manual de Direito Tributário", 1ª ed., Ed. Saraiva, pág. 707) 9. In casu, restou assente na origem que: "Com relação a declaração de inexigibilidade da cobrança de IPTU progressivo relativo ao exercício de 1998, em decorrência de recadastramento, o bom direito conspira a favor dos contribuintes por duas fortes razões. Primeira, a dívida de IPTU do exercício de 1998 para com o fisco municipal se encontra quitada, subsumindose na moldura de ato jurídico perfeito e acabado, desde 13.10.1998, situação não desconstituída, até o momento, por nenhuma decisão judicial. Segunda, afigurase impossível a revisão do lançamento no ano de 2003, ao argumento de que o imóvel em 1998 teve os dados cadastrais alterados em função do Projeto de Recadastramento Predial, depois de quitada a obrigação tributária no vencimento e dentro do exercício de 1998, pelo contribuinte, por ofensa ao disposto nos artigos 145 e 149, do Código Tribunal Nacional. Considerando que a revisão do lançamento não se deu por erro de fato, mas, por erro de direito, visto que o recadastramento no imóvel foi posterior ao primeiro lançamento no ano de 1998, tendo baseado em dados corretos constantes do cadastro de imóveis do Município, estando o contribuinte notificado e tendo quitado, tempestivamente, o tributo, não se verifica justa causa para a pretensa cobrança de diferença referente a esse exercício." Fl. 5367DF CARF MF 30 10. Consectariamente, verificase que o lançamento original reportouse à área menor do imóvel objeto da tributação, por desconhecimento de sua real metragem, o que ensejou a posterior retificação dos dados cadastrais (e não o recadastramento do imóvel), hipótese que se enquadra no disposto no inciso VIII, do artigo 149, do Codex Tributário, razão pela qual se impõe a reforma do acórdão regional, ante a higidez da revisão do lançamento tributário. 10. Recurso especial provido. Acórdão submetido ao regime do artigo 543C, do CPC, e da Resolução STJ 08/2008. 8 No caso, além de não ter havido lançamento em relação a referida DI, não há notícia nos autos de que tenha havido lançamento anterior em relação qualquer das DI objeto do presente lançamento. Assim, se não houve lançamento anterior, conforme exige o art. 146 do CTN, obviamente, não houve critério jurídico anterior, logo, não há que se falar em mudança de critério jurídico na autuação em apreço. Por essas razões, fica afastada a alegação de existência de mudança de critério jurídico no caso, em decorrência, avançase para as demais questões meritórias. II.2 Das Questões de Mérito Relativas ao Direito Antidumping e às Classificações Fiscais dos Calçados No recurso em apreço, a recorrente manifestou discordância em relação à reclassificação fiscal dos produtos e pelo produto, embora classificado corretamente, não se enquadrar nas hipóteses de exclusão das posições 64.02 a 64.05 previstas no parágrafo único do art. 1º do citada Resolução CAMEX. No citado Relatório Fiscal, a autoridade fiscal informou que, em resposta ao Termo de Intimação 499/2014, o recorrente apresentou tabela contendo as seguintes informações, relativas às Declarações de Importação (DI) relacionadas pela fiscalização: DI, Adição, Modelo do Produto, Foto Ilustrativa do Produto, Antidumping Recolhido e Justificativa para o não recolhimento do antidumping. Com base nas informações prestadas na citada tabela, a referida autoridade fiscal elaborou novas tabelas (Tabela 01 a 04) para os produtos que entendia estarem classificados incorretamente e/ou que ensejavam o pagamento dos direitos antidumping, e que foram apresentadas em anexo ao referido Relatório Fiscal (fls. 359/464). II.2.1 Dos produtos classificados incorretamente no código NCM 6401.99.90 e reclassificados para o código NCM 6402.99.90 No subitem 6.3.1 do Relatório Fiscal (fls. 294/305), grande parte dos calçados classificados no código NCM 6401.99.90 são similares ao modelo CROCS CLASSIC, e outros similares aos modelos CARLIE FLAT e CROCS TONE JULIA FLAT, em termos de formato e desenho externo. A autoridade fiscal chegou a essa conclusão com base na informação extraída do sítio da empresa (item 6.2 do Relatório Fiscal) de que todos os calçados da marca CROCS são fabricados a partir de uma resina de célula fechada CROSLITE™ e que essa resina tratase de plástico injetado de Copolímero de EVA (Etileno Vinil Acetato), conforme resposta 8 BRASIL. STJ. PRIMEIRA SEÇÃO. REsp 1130545/RJ, Rel. Ministro LUIZ FUX, julgado em 09/08/2010, DJe 22/02/2011. Fl. 5368DF CARF MF Processo nº 10314.721061/201519 Acórdão n.º 3302005.322 S3C3T2 Fl. 5.354 31 apresentada ao quesito nº 2 do citado Laudo Pericial. As fotos dos referidos modelos de calçados encontramse reproduzidas nas fls. 295/296 do Relatório Fiscal. E tais fotos foram extraídas do Catálogo de Produtos apresentado pela CROCS DO BRASIL, em resposta ao Termo de Intimação 208/2014. Com base nas referidas fotos e nas informações técnicas sobre matéria constitutiva do produto, apresentadas no citado Laudo Pericial, complementadas com as extraídas do sítio da recorrente na internet, a autoridade fiscal chegou as seguintes relevantes conclusões: Embora o contribuinte tenha apresentado Laudo Pericial datado de 2009 (ver <Documentos Comprobatórios – Outros – Laudo Pericial de 2009>), que atestou que tais calçados são produzidos em PLÁSTICO e que por isso, tais calçados são impermeáveis, essa fiscalização discorda dessa última afirmação pelos seguintes motivos: O simples fato de um calçado ser fabricado por um material impermeável não faz dele, necessariamente, um calçado impermeável, pois, a depender de seu modelo, permite o contato dos pés com a água, como por exemplo, um chinelo como os popularmente conhecidos chinelos Hawaianas. O calçado da marca CROCS apresentado na primeira imagem acima é aberto atrás e possui orifícios na parte superior e lateral frontal, na segunda imagem é aberto na frente e não cobre o peito do pé, e na terceira imagem é fechado na frente e atrás, mas não cobre o peito do pé. Tais características desses modelos permitem o contato dos pés com água, descaracterizando a qualidade de IMPERMEÁVEL, essencial para sua classificação na NCM citada (6401.99.90). De acordo com a Instrução Normativa RFB nº 807, de 11 de janeiro de 2008, com alterações trazidas pela IN RFB 1.072/2010 e IN RFB 1.260/2012, as Notas Explicativas da Posição NCM 6401, por sua definição, excluem tais calçados dessa classificação, tendo em vista que, de acordo com o texto da NESH, “os calçados da presente posição são concebidos para assegurar uma proteção contra a água ou outros líquidos e abrangem, entre outros, botas para neve, galochas e botas de esqui”, e como os produtos acima identificados não são capazes de proteger os pés de água e líquidos por possuírem abertura na frente ou atrás, orifícios frontais e/ou deixarem a parte superior do pé exposto na maioria dos modelos, não podem ser classificados nessa posição. Notese que os exemplos de calçados citados na NESH são todos de calçados fechados que protegem o pé por inteiro, semelhantes a botas e galochas. Ainda de acordo com a Instrução Normativa RFB nº 807/2008, com alterações trazidas pela IN RFB 1.072/2010 e IN RFB 1.260/2012, e com Notas Explicativas da Posição NCM 6401, “esta posição abrange os calçados impermeáveis cuja sola exterior e parte superior (ver as alíneas C) e D) das Considerações Gerais) são de borracha (sendo o termo “borracha” entendido na acepção que lhe é dada na Nota 1 do Capítulo 40), de plástico ou ainda de tecido ou outro suporte Fl. 5369DF CARF MF 32 têxtil que apresente uma camada exterior de borracha ou de plástico perceptível à vista desarmada (ver a Nota 3a) do presente Capítulo) desde que a parte superior não esteja fixada à sola por qualquer dos processos enumerados no texto da posição, nem seja formada de diferentes partes reunidas pelos mesmos processos”. Assim, como os calçados do modelo CROCS CLASSIC e similares não se constituem de peça única, pois possuem alça encaixada à parte superior do calçado, de acordo com parecer emitido em Nota Técnica do Departamento de Defesa Comercial da Secretaria de Comércio Exterior do MDIC, para calçados de outra marca, porém muito similares aos modelos da CROCS (ver <Documentos Comprobatórios – Outros – Nota Técnica 044_2013/CGAS/DECOM/SECEX>), tais calçados também são excluídos dessa classificação. (destaques dos originais) De outra parte, ainda segundo o citado Relatório Fiscal, alguns modelos de calçados da CROCS classificados na Posição 6401 da NCM, mais especificamente aqueles da Linha Boot, classificados na NCM 6401.92.00, estavam corretamente classificados, pois tais modelos apresentavam todas as características necessárias para classificação nessa posição. As fotografias de alguns produtos da Linha Boot, apresentadas no Catálogo de Produtos pela recorrente, em resposta ao Termo de Intimação 208/2014, encontramse reproduzidas nas fls. 302/304 do citado Relatório Fiscal. Observase nas referidas fotos que alguns modelos até são descritos como “waterproof rain boot” ou “botas à prova d’água” (tradução livre), enquadrandose no conceito de “calçados impermeáveis” descrito pela NESH da Posição 6401 da NCM. A comparação dessas figuras com as anteriores revela que tais modelos de calçados não apresentam nenhuma semelhança com aqueles modelos anteriormente citados (CROCS CLASSIC, CARLIE FLAT e CROCS TONE JULIA), que foram classificados incorretamente na Posição 6401 da NCM nas referidas DI, por serem permeáveis à água ou outro líquidos. Para fins de comparação, seguem transcritos os textos das Posições 6401 e 6402 da NCM, seguidas das NESH das referidas posições: TEXTO DA POSIÇÃO 64.01: 64.01 Calçados impermeáveis de sola exterior e parte superior de borracha ou plásticos, em que a parte superior não tenha sido reunida à sola exterior por costura ou por meio de rebites, pregos, parafusos, espigões ou dispositivos semelhantes, nem formada por diferentes partes reunidas pelos mesmos processos. 6401.10 Calçados com biqueira protetora de metal 6401.9 Outros calçados: 6401.92 Cobrindo o tornozelo, mas não o joelho 6401.99 Outros (grifos não originais) NESH DA POSIÇÃO 64.01:9 9 Texto extraído da IN RFB nº 1.260, de 20 de março de 2012. Fl. 5370DF CARF MF Processo nº 10314.721061/201519 Acórdão n.º 3302005.322 S3C3T2 Fl. 5.355 33 Esta posição abrange os calçados impermeáveis cuja sola exterior e parte superior (ver as alíneas C) e D) das Considerações Gerais) são de borracha (sendo o termo “borracha” entendido na acepção que lhe é dada na Nota 1 do Capítulo 40), de plástico ou ainda de tecido ou outro suporte têxtil que apresente uma camada exterior de borracha ou de plástico perceptível à vista desarmada (ver a Nota 3ª) do presente Capítulo) desde que a parte superior não esteja fixada à sola por qualquer dos processos enumerados no texto da posição, nem seja formada de diferentes partes reunidas pelos mesmos processos. Os calçados da presente posição são concebidos para assegurar uma proteção contra a água ou outros líquidos e abrangem, entre outros, botas para neve, galochas e botas de esqui. (grifos não originais) […] TEXTO DA POSIÇÃO 64.02: 64.02 Outros calçados com sola exterior e parte superior de borracha ou plásticos. 6402.1 Calçados para esporte (desporto*): 6402.12 Calçados para esqui e para surfe de neve 6402.19 Outros 6402.20 Calçados com parte superior em tiras ou correias, fixados à sola por pregos, tachas, pinos e semelhantes 6402.9 Outros calçados: 6402.91 Cobrindo o tornozelo 6402.99 Outros 6402.99.90 Outros NESH DA POSIÇÃO 64.0210: A presente posição abrange os calçados cuja sola exterior e a parte superior sejam de borracha ou de plástico, excluídos os da posição 64.01. (grifos não originais) Com base nos textos transcritos, podese afirmar que a posição 64.01 da NCM compreende apenas os “calçados impermeáveis constituídos de borracha ou plástico e que não sejam formados de diferentes partes reunidas”. A propósito, as NESH da posição 64.01 da NCM esclarecem que os calçados impermeáveis são aqueles concebidos para assegurar uma proteção contra a água ou outros líquidos e abrangem, entre outros, botas para neve, galochas e botas de esqui, que constituídos de peça única. 10 Texto extraído da IN RFB nº 1.260, de 20 de março de 2012. Fl. 5371DF CARF MF 34 E os modelos de calçados discriminados na “Tabela 01 Produtos Classificados INCORRETAMENTE na Posição 6401 da NCM e reclassificados para NCM 6402.99.90” (fls. 359/414), como não atendem tal especificação não se enquadram na posição 64.01 da NCM. Tais produtos pertencem a posição 64.02, que compreende “Outros calçados com sola exterior e parte superior de borracha ou plásticos”, excluídos os da posição 64.01. A propósito do enquadramento dos referidos modelos de calçados, revelase pertinente trazer à colação a conclusão do Departamento de Defesa Comercial da Secex, exarada na Nota Técnica nº 044/2013/CGAS/DECOM/SECEX (fls. 1323/1326), em resposta a consulta formulada sobre a aplicação do direito antidumping para o produto descrito como “sandália com sola exterior e parte superior constituída de plástico, com alça encaixada à parte superior permitindo o uso alternativo como chinelo ou como sandália”, que se segue reproduzida: Com base nas informações fornecidas pela TOYLAND, bem como no teor da Resolução CAMEX n° 14, de 4 de março de 2010, os técnicos deste Departamento atestaram que: a) O produto objeto da avaliação de escopo não pode ser classificado no item 6401.99.90 da NCM, devido ao fato de não constituirse em peça inteiriça, em razão de haver alça encaixada à parte superior do calçado; b) A despeito do que argumentou a TOYLAND, o Departamento não endossa a similaridade sugerida pela empresa entre o produto objeto da avaliação de escopo e as sandálias praianas (comumente classificadas no item 6402.20.00), excluídas da aplicação da medida. A exclusão referese a produtos feitos em borracha e com tiras fixadas ao solado por espigões. O produto objeto da avaliação de escopo constituise em plástico, estando, portanto, no âmbito de aplicação da medida antidumping em vigor, O DECOM também não compartilha a ideia de similaridade entre os produtos no que se refere às funções, aos usos e ao mercado consumidor; e) O Departamento concorda com a reclassificação realizada pela autoridade aduaneira da Secretaria da Receita Federal do Brasil no item 6402 .99.9011 da NCM. Essa conclusão é relevante, porque grande parte dos modelos de calçados da Tabela 01 referese a modelos de calçados com características idênticas ou similares aos dos produtos analisados pelo DECOM. Para confirmar o asseverado, este Relator recomenda aos demais pares que vejam as fotos colacionadas aos autos, na fase impugnatória, pela própria recorrente (doc. 19 fls. 4767/4803). Por todas essas razões, como a maioria dos calçados da marca CROCS importados da China pela recorrente, por suas características externas, não são impermeáveis, de modo a assegurar uma proteção contra a água ou outros líquidos, eles não se classificam no código NCM 6401.99.00, mas no código NCM 6402.99.90, conforme determinado pela autoridade fiscal. No recurso em apreço, a recorrente alegou o seguinte: 11 Item 6402.99.90 da Nomeclatura Comum do Mercosul: "Outros calçados com sola exterior e parte superior de borracha ou plásticos. : Outros calçados: : Outros : Outros" Fl. 5372DF CARF MF Processo nº 10314.721061/201519 Acórdão n.º 3302005.322 S3C3T2 Fl. 5.356 35 Das descrições acima é possível afirmar que a posição 6401 engloba todos os tipos de calçados impermeáveis e não somente aqueles "calçados fechados que protegem o pé inteiro, semelhantes a botas e galochas.” Os sapatos semelhantes a botas e galochas classificamse nas subposições 6401.92 (calçados cobrindo o tornozelo, mas não joelho) e/ou 6401.99.10 (calçados cobrindo o joelho). Outros sapatos impermeáveis, que não botas e galochas, podem ser classificados nas demais subposições da posição 6401. A alegação não procede, porque, além de não ter respaldo nas normas sobre classificação de mercadorias, ela conflita com os esclarecimentos das NESH das referidas posições, anteriormente transcritas. A recorrente ainda alegou que os calçados objeto da reclassificação fiscal em apreço não só eram feitos de material impermeável, mas também eram eles próprios impermeáveis, conforme informação apresentada no citado laudo técnico. Essa alegação também não procede. A uma, porque o referido laudo técnico foi elaborado em 4 de dezembro de 2009 e se referese aos modelos de calçados discriminados na DI nº 09/13065743, que não foram objeto da presente autuação. A duas, porque as conclusões técnicas de cunho merceológico, por força do disposto no art. 30 do Decreto 70.235/1972, não se sobrepõem ou dispensa as conclusões jurídicas sobre a classificação do produto na NCM, respalda por princípios e regramento normativo próprio. A três, porque nenhum dos 5 (cinco) modelos de calçados analisados no referido laudo (modelos Dockel, Ziggle Rosa, Buzz Lightyear Cloq, Princess Ballet Fiat Rosa Neon e Gabby Rosa Claro) não se encontra relacionado na citada Tabela 01, o que demonstra que tais modelos de calçados não foram objeto da presente autuação. A recorrente alegou ainda que a impermeabilidade do produto podia ser constatada até mesmo por um leigo, porque a característica dos produtos impedia que os pés do usuário se molhassem mesmo quando utilizados em superfícies úmidas ou molhadas. E em reforço ao seu argumento citou Certificado de Aprovação n° 27.622 (fl. 4766), expedido pelo Ministério do Trabalho, no qual consta a aprovação para “PROTEÇÃO DOS PÉS DO USUÁRIO CONTRA AGENTES ESCORIANTES”. Tratase de alegação sem respaldo jurídico, uma vez baseada em documentos sem qualquer relevância para fim de classificação fiscal do produto, portanto, não merece qualquer consideração a respeito. A recorrente alegou ainda que, diante da completa falta de precisão da autoridade no momento de determinar quais modelos não constituiriam calçados de peça única, “a recorrente estimou que os seguintes modelos poderiam ser considerados como ‘similares ao CROCS Classic’ e, na visão equivocada da autoridade, não deveriam ser classificados na NCM 6401.99.90”. Para a recorrente, essa imprecisão implicaria nulidade do auto de infração. Essa alegação também não procede. A uma, porque na referida Tabela 01 foram relacionados todos os modelos de calçados, inclusive, a grande maioria com fotos fornecidas pela própria autuada, o que contraria a imprecisão alegada. Para que não reste dúvida, segue transcrito o excerto extraído do citado Relatório Fiscal: Fl. 5373DF CARF MF 36 De acordo com a tabela contendo imagens dos calçados importados da China, apresentada pelo contribuinte em resposta ao Termo de Intimação 499/2014 (ver <Resposta à Intimação>), grande parte dos calçados classificados na NCM 6401.99.90 são similares ao modelo CROCS CLASSIC, e outros similares aos modelos CARLIE FLAT e CROCS TONE JULIA FLAT, em termos de formato e desenho externo. A duas, porque o procedimento da autoridade fiscal foi respalda na conclusão do Departamento de Defesa Comercial da Secretaria de Comércio Exterior do MDIC exarada na Nota Técnica nº 044/2013/CGAS/DECOM/SECEX (fls. 1323/1326), para os calçados de outra marca, porém muito similares aos modelos da CROCS. Com efeito, na resposta a consulta formulada sobre a aplicação do direito antidumping para o produto descrito como “sandália com sola exterior e parte superior constituída de plástico, com alça encaixada à parte superior permitindo o uso alternativo como chinelo ou como sandália”, assim se manifestou o referido órgão, in verbis: Com base nas informações fornecidas pela TOYLAND, bem como no teor da Resolução CAMEX n° 14, de 4 de março de 2010, os técnicos deste Departamento atestaram que: a) O produto objeto da avaliação de escopo não pode ser classificado no item 6401.99.90 da NCM, devido ao fato de não constituirse em peça inteiriça, em razão de haver alça encaixada à parte superior do calçado; b) A despeito do que argumentou a TOYLAND, o Departamento não endossa a similaridade sugerida pela empresa entre o produto objeto da avaliação de escopo e as sandálias praianas (comumente classificadas no item 6402.20.00), excluídas da aplicação da medida. A exclusão referese a produtos feitos em borracha e com tiras fixadas ao solado por espigões. O produto objeto da avaliação de escopo constituise em plástico, estando, portanto, no âmbito de aplicação da medida antidumping em vigor, O DECOM também não compartilha a ideia de similaridade entre os produtos no que se refere às funções, aos usos e ao mercado consumidor; e) O Departamento concorda com a reclassificação realizada pela autoridade aduaneira da Secretaria da Receita Federal do Brasil no item 6402 .99.9012 da NCM. O procedimento da autoridade fiscal está correto e não merece qualquer reparo, pois, se comparadas as fotos dos modelos dos calçados objeto da referida Nota Técnica com os correspondentes modelos dos calçados discriminados na Tabela 01, verificase que ambos são similares, conforme asseverado pela recorrente. Portanto, resta demonstrada a improcedência dessa pressente alegação. Com base nessas considerações, chegase a conclusão que os calçados CROCS dos Modelos CROCS CLASSIC e outros similares aos modelos CARLIE FLAT e CROCS TONE JULIA FLAT, classificamse no código 6402.99.90 da NCM e estão sujeito ao direito antidumping, nos termos da Resolução CAMEX 14/2010. II.2.2 Da cobrança de direito antidumping sobre amostras 12 Item 6402.99.90 da Nomeclatura Comum do Mercosul: "Outros calçados com sola exterior e parte superior de borracha ou plásticos. : Outros calçados: : Outros : Outros" Fl. 5374DF CARF MF Processo nº 10314.721061/201519 Acórdão n.º 3302005.322 S3C3T2 Fl. 5.357 37 Em relação a esse tópico, a recorrente alegou que, na presente autuação, foram cobrados indevidamente valores relacionados a importações de amostras constantes das DI de n°s 1111340066; 1111342522; 1111346730; 1113022770; 1210980071; 1311709446; e 1406349692. A recorrente não apresentou nenhum fundamento jurídico que amparasse a sua alegação de que não era cabível a cobrança do direito antidumping sobre tais operações. E como não há legislação que ampare a pretensão da recorrente, a cobrança deve ser mantida. II.2.3 Das amostras classificadas corretamente nas NCM 6403.99.90, 6404.19.00 e 6402.99.90 de acordo com a autoridade fiscal A recorrente alegou que os referidos casos de amostras não deviam ser entendidos como representativos da posição adotada pela CROCS, pois elas representavam uma ínfima parte do lançamento. Em seguida a recorrente alegou que: Fato é que, pertencentes ou não a uma classificação fiscal que exija o recolhimento de direitos antidumping, as amostras não possuem valor comercial e não são comercializadas no mercado doméstico. Portanto, o bem protegido com a imposição das medidas antidumping (calçado fabricado pela indústria nacional) não é, na prática, atingido ou sofre com a importação dessas amostras, pois não concorrem no mercado doméstico. Isto, por si só, já impediria a cobrança relacionada a esses produtos, visto que o artigo 4° do Decreto n° 1602/95 considera a prática de "dumping' a introdução de um bem no mercado doméstico a preço de exportação inferior ao valor normal. Se não há introdução do bem no mercado doméstico, não há prática de dumping. Tratase de mais uma alegação de cunho meramente retórico, sem embasamento jurídico, logo, pelas mesmas razões apresentadas no tópico precedente, rejeitase a presente alegação. II.2.4 Dos produtos classificados no código NCM 6401.99.90 e reclassificados para o código NCM 6402.20.00 Previamente, cabe esclarecer que, de acordo com o citado Relatório Fiscal, a reclassificação fiscal em epígrafe foi realizada porque os correspondentes modelos de calçados eram impermeáveis, nos termos das NESH da posição 6401, pois não eram totalmente abertos atrás e na parte superior, sendo que a parte superior do calçado era constituída de tiras que são fixadas ao solado por pinos ou semelhantes, ou qualquer outro processo, e fabricados em plástico. Os modelos dos calçados em referência encontramse discriminados na “Tabela 02 Produtos Classificados INCORRETAMENTE na Posição 6401 da NCM e reclassificados para NCM 6402.20.00” (fl. 415). Os modelos de calçados relativa a reclassificação em apreço são os seguintes: Aliana Girls Ref 11919 (DI/Adição 11/1302277 0/003), Duet Athens Ref 12058 (DI/Adição 11/13022770/004) e Baya Flip Ref 11999 Fl. 5375DF CARF MF 38 (DI/Adição 13/1382060 3/001). As fotografias dos referidos modelos de calçados constam das fls. 305/306 do referido Relatório Fiscal. Em relação a esse ponto, a recorrente alegou que não questionava a classificação dos citados produtos na NCM 6401.99.90, mas a mudança de critério jurídico na classificação tributária de amostras e do modelo Baya Flip pela autoridade fiscal. Em relação a DI/Adição 11/13022770, a recorrente alegou que se tratava de amostras. Portanto, os argumentos expostos nos tópicos anteriores aqui se aplicavam integralmente. Da mesma forma, os mesmos argumentos apresentados nos tópicos precedentes para afastar a pretensão da recorrente também se aplica a essa alegação. Em relação aos modelos Baya Flip, desembaraçados por meio da DI 13/13820603/001, a recorrente alegou que os classificara na NCM 6401.99.90 por solicitação do próprio Fisco. E esclareceu que: Historicamente, a CROCS sempre classificou as importações de modelos Baya Flip na NCM 6402.20.00. No período analisado pela autoridade fiscal, esse modelo também foi importado, por exemplo, nas DIs 12/2168312, 12/4150925, 12/6118964, 12/13983284, 12/14911791, 12/16474097, 12/20953980, 13/633613, 13/2649738 e 13/16373128. Em absolutamente todas essas DIs, o Baya Flip foi classificado na NCM 6402.20.00. 13 No entanto, em agosto de 2012, a DI 12/13983284 caiu no canal amarelo da Receita Federal.14 Após análise por parte do fiscal responsável [...], que entendia que o produto era um calçado injetado, foi solicitado que o produto fosse reclassificado da NCM 6402.20.00 para a NCM 6401.99.90. 15 Naquela ocasião, a CROCS explicou ao fiscal que alguns pares desse modelo já estavam em trânsito sob a NCM 6402.20.00, mas que as próximas importações do modelo Baya Flip seriam feitas sob a NCM 6401.99.90. Assim, em virtude da solicitação feita pelo fiscal, a CROCS passou a importálos na NCM 6401.99.90. Portanto, essa exigência configuraria mudança de critério jurídico, o que não é possível, nos termos já expostos. A análise dos referidos documentos (DI nº 12/13983284 e extrato de fls. 4865/4884 comprovam apenas que a referida DI foi selecionada para o canal amarelo no dia 2/8/2012 e registrada a solicitação de retificação no dia 14/12/2012. No referido extrato a única pendência relatada foi a necessidade de entrega ao depositário de documento de recolhimento/exoneração do ICMS. Não consta dos referidos documentos exigência alguma feita pela autoridade fiscal da RFB e não há nos autos outro documento que comprove a alegada exigência de retificação do código NCM dos produtos. Assim, na ausência da prova da referida exigência resta prejudicada qualquer consideração a respeito da alegada mudança de critério jurídico. 13 Fls. 64262 do Auto de Infração (processo administrativo n° 10314721061/201519). 14 Doc. 23 da Impugnação Tela do sistema com comprovante de que a Dl passou pelo canal amarelo da Receita Federal. 15 Doc. 22 da Impugnação Dl 12/13983284 e Retificação. Fls. 5.100 e 5.101 Fl. 5376DF CARF MF Processo nº 10314.721061/201519 Acórdão n.º 3302005.322 S3C3T2 Fl. 5.358 39 Por essas razões, fica demonstrada a improcedência da presente alegação. II.2.5 Do produto classificado no código NCM 6402.20.00 De acordo com o subitem 6.3.2 do Relatório Fiscal, o presente ponto trata de produtos classificados corretamente no código NCM 6402.20.00 (“Calçados com parte superior em tiras ou correias, fixadas à sola por pregos, tachas, pinos e semelhantes”), porém, como eram calçados constituídos de plástico, conforme laudo pericial apresentado pelo próprio contribuinte, e não de borracha, não estavam na exceção ao pagamento dos direitos antidumping, prevista no inciso I do parágrafo único do art. 1º da Resolução CAMEX 14/2010. Os modelos dos calçados em referência encontramse discriminados na “Tabela 03 Produtos Classificados no subitem 6402.20.00 da NCM fabricados em PLÁSTICO” (fls. 416/462). Algumas fotos ampliadas dos referidos modelos de calçados, extraídas do Catálogo de Produtos apresentado em resposta a Intimação 208/2014, encontram se reproduzidas na fl. 312 do Relatório Fiscal. Segundo a fiscalização, a classificação fiscal na NCM dos referidos modelos de calçados estava correta, mas eles não se enquadravam na exceção ao direito antidumping estabelecida no inciso I do parágrafo único do art. 1º da Resolução CAMEX/2010, a seguir transcrito: Art. 1° [...] Parágrafo único. Os calçados a seguir relacionados estão excluídos da aplicação do direito antidumping definitivo, ainda que classificados nas posições tarifárias 6402 a 6405: I) As sandálias praianas, confeccionadas em borracha e cujas tiras são fixadas ao solado por espigões (comumente classificadas na NCM 6402.20.00); [...] (grifos não originais) A redação do preceito normativo em destaque é clara no sentido de determinar que somente se enquadra na referida exceção ao recolhimento dos direitos antidumping as sandálias praianas fabricadas em borracha. E conforme informações obtidas no sítio na internet da recorrente e prestadas pela recorrente em resposta ao Termos de Intimação 208/2014 e 425/2014, os chinelos modelos FLIP e similares originários da China foram fabricados a partir de uma resina de célula fechada CROSLITE™. Essa resina tratase de plástico injetado de copolímero de Etileno Vinil Acetato (EVA), conforme Laudo Pericial apresentado pela próprio recorrente. Entretanto, apesar clareza da redação em destaque, a recorrente alegou que a interpretação dada pela autoridade fiscal não levara em consideração o real significado da norma e a intenção do Departamento de Defesa Comercial (DECOM) e da CAMEX, que era de excluir do escopo do direito antidumping sandálias praianas, “que são aquelas utilizadas para ir à praia, independentemente do material com o qual elas fossem feitas.” No caso, o que pretende a recorrente é que, na interpretação da referida norma excepcional, sabidamente sujeita a interpretação restritiva, seja levada em conta o real significado e a intenção dos órgãos emissores. Fl. 5377DF CARF MF 40 O real significado da norma deve ser extraído a partir do teor do seu texto, com o emprego dos métodos de interpretação consagrados pela doutrina (literal, sistemática, teleológico etc.). No caso, por se tratar norma excepcional, o método de interpretação literal revelase suficiente para extração do seu real significado, já que esse tipo de norma não comporta sentido ampliativo. Além disso, a norma revelase clara e de fácil compreensão dada a singeleza da sua compostura frásica, composta de sujeito e adjetivo, a saber: “As sandálias praianas, confeccionadas em borracha”. No que tange à consideração da intenção manifestada pelos citados órgãos, por razão óbvia, deixase de fazer qualquer comentário a respeito, ante a evidente impossibilidade material desse julgador perscrutar a intenções dos referidos órgãos emitentes da norma interpretada. A recorrente alegou que nem todas as sandálias praianas são de borracha, sendo inclusive muitas compostas por uma mistura de borracha e plástico. A alegação da recorrente referese aos modelos de sandálias praianas em geral. Porém, a presente autuação cingese aos modelos de sandálias praianas por ela importados e discriminados na citada Tabela 03. E com base nos elementos probatórios colacionados aos autos, inequivocamente, tais modelos são de plástico, logo, eles não se incluem na exceção prevista no inciso I do parágrafo único do art. 1º da Resolução CAMEX/2010. Por conseguinte, estavam sujeitas à cobrança do direito antidumping em destaque. Ainda segundo a recorrente, a CAMEX e o DECOM não poderiam excluir do escopo de aplicação do direito antidumping apenas as sandálias de borracha, pois isso significaria que uma determinada empresa, a Alpargatas (Havaianas), cujos produtos são notoriamente feitos de borracha, estaria recebendo um tratamento preferencial em detrimento de empresas concorrentes, cujos produtos são em grande parte de plástico e que continuariam sujeitas ao pagamento das medidas antidumping. Para a recorrente, a concessão de tratamento preferencial por parte do governo brasileiro a uma empresa, em detrimento das suas concorrentes, constituiria uma violação ao Princípio da Impessoalidade estabelecido no caput do artigo 37 da Constituição Federal. Essa alegação envolve aplicação/sopesamento de princípios constitucionais, matéria defesa aos julgadores deste Conselho, nos termos do art. 26A do Decreto 70.235/1972. A recorrente ainda apresenta uma série de considerações sobre conceito de similaridade, especialmente, o veiculado pelo artigo 2.6 do Acordo Antidumping da Organização Mundial do Comércio (OMC), reproduzido no art. 9º da Lei 8.058/2013, que, no entendimento deste Relator, não tem relação alguma com o ponto em discussão. Por esse motivo, deixase de apresentar qualquer consideração a respeito. A recorrente ainda apresenta considerações sobre a composição química da matéria prima utilizada na fabricação de calçados, sobre características físicas dos modelos de calçados, bem como normas e especificações técnicas, processo produtivo, uso e aplicações, grau de sustentabilidade e percepção do consumidor, canais de distribuição e mercado relativos às sandálias praianas. Como todos esses argumentos são irrelevantes para deslinde do ponto da demanda em apreço, inequivocamente, temse por dispensável qualquer análise a respeito. Fl. 5378DF CARF MF Processo nº 10314.721061/201519 Acórdão n.º 3302005.322 S3C3T2 Fl. 5.359 41 Com base nessas considerações devem ser mantidas a cobrança integral do direito antidumping sobre os modelos de calçados discriminados na citada Tabela 03. II.2.6 Do produto classificado no código NCM 6405.90.00 e reclassificado para o código NCM 6402.99.90 De acordo com o subitem 6.3.3 do Relatório Fiscal, os calçados do modelo CrocLodge Slipper, denominados pelo importador como “calçados para dormir ou pantufas”, foram classificados incorretamente no código NCM 6405.90.00. Para a fiscalização a classificação correta do produto seria no código NCM 6402.99.90 (“Outros Calçados com Sola Exterior e Parte Superior de Borracha ou Plásticos; Outros Calçados; Outros; Outros”), por serem constituídos de sola e parte superior de plástico. Ainda segundo o citado Relatório Fiscal, na resposta ao Termo de Intimação 208/2014, a contribuinte justificou o não recolhimento de direitos antidumping na importação desses calçados da China, porque se tratava de calçados domésticos ou pantufas, excluídos da aplicação de tais direitos, por força do inciso V do parágrafo único do art. 1º da Resolução CAMEX/2010, a seguir transcrito: Art. 1° [...] Parágrafo único. Os calçados a seguir relacionados estão excluídos da aplicação do direito antidumping definitivo, ainda que classificados nas posições tarifárias 6402 a 6405: [...] V) Os calçados domésticos (pantufas); [...] (grifos não originais) Os modelos dos calçados em referência encontramse discriminados na “Tabela 04 Produtos Classificados INCORRETAMENTE no subitem 6405.90.00 da NCM e reclassificados para NCM 6402.99.90” (fls. 463/464). As duas fotografias ampliadas dos referidos modelos de calçados, extraídas do citado Catálogo de Produtos entregue em resposta ao Termo de Intimação 208/2014, encontramse reproduzidas na fl. 318 do Relatório Fiscal. A controvérsia cingese em saber se o referido produto pertence a posição 64.02 da NCM (“Outros Calçados com Sola Exterior e Parte Superior de Borracha ou Plásticos”), defendido pela fiscalização, ou na posição 64.05 da NCM (“Outros calçados”), como pretendido pela recorrente. O presente dissenso há de ser resolvido com base nas normas sobre classificação fiscal. Nesse sentido, as NESH da Posição 6405 da NCM esclarecem que, para serem incluído nessa posição, os calçados que tem sola exterior de plástico não podem ter parte superior também de plástico. Senão veja o texto da referida posição: NESH DA POSIÇÃO 64.05: Entre os calçados incluídos nesta posição, podem citarse: Fl. 5379DF CARF MF 42 1) os de sola exterior de borracha ou de plástico e parte superior de matéria, que não seja borracha, plásticos, couro natural ou matérias têxteis. [...] Nas Considerações Gerais sobre o Capítulo 64, as alíneas “C” e “D” das NESH esclarecem, para fins de classificação, o que considera “sola exterior” e “parte superior” dos calçados e a relevância da matéria constitutiva. Para facilitar a compreensão, seguem transcritos os textos das referidas alíneas: C) Na acepção das posições 64.01 a 64.05, considerase “sola exterior” a parte do calçado (excluído o salto nela fixado) que, durante a utilização, entra em contato com o solo. Para fins de classificação, a matéria constitutiva da “sola exterior” é determinada pela que tenha a maior superfície de contato com o solo. Para determinar a matéria constitutiva da sola exterior, não devem ser levados em conta os acessórios ou reforços que cobrem parcialmente a sola (ver Nota 4 b) do presente Capítulo). Esses acessórios ou reforços compreendem pontas, travessas, pregos, protetores ou dispositivos semelhantes (incluindo uma fina camada de matéria têxtil flocada (para criar um desenho, por exemplo) ou uma matéria têxtil destacável, aplicada mas não incorporada na sola). O calçado feito de uma só peça (tamancos, por exemplo), sem solas aplicadas, classificase de acordo com a matéria constitutiva da sua parte inferior, apesar de esta não constituir propriamente uma sola exterior. D) Para fins de classificação do calçado nas posições do presente Capítulo, devese, por outro lado, ter em conta a matéria constitutiva da parte superior. Neste caso, considerase como “parte superior” as partes do calçado situadas acima da sola (pala, cano). Todavia, no que respeita a determinado calçado cuja sola é de plástico moldado e a determinado calçado tipo mocassim dos índios da América, a parte superior, total ou parcialmente, e a sola são feitas em uma só peça do mesmo material, o que não permite distinguir facilmente a sola exterior da parte superior. Neste caso, considerase como parte superior a parte do calçado que cobre os lados e o peito do pé. A dimensão da parte superior é muito variável, consoante o tipo de calçado considerado que pode ir desde os que cobrem o pé e toda a perna, incluindo a coxa (botas de pescador) até àqueles que consistem apenas em uma correia ou cordão (certos tipos de sandálias, por exemplo). (grifos não originais) Por sua vez, os calçados domésticos ou pantufas são definidos como chinelos acolchoados e macios, utilizados estritamente para uso doméstico como agasalho16. As fotografias extraídas da internet e reproduzidas na fl. 317 do Relatório Fiscal esclarecem a aparência e as características do tipo de calçado em destaque. Com base nesses esclarecimentos e na simples comparação das imagens colacionadas, a autoridade fiscal concluiu que o citado modelo de calçado importado da China 16 S.f.(a) Chinelo acolchoado e macio, estritamente para uso doméstico como agasalho. Var. pantufo. (Fonte: Dicionário Informal http://www.dicionarioinformal.com.br/pantufa/). Fl. 5380DF CARF MF Processo nº 10314.721061/201519 Acórdão n.º 3302005.322 S3C3T2 Fl. 5.360 43 pela recorrente não tem semelhança na aparência nem apresenta as características físicas do chinelo doméstico ou pantufa. Ademais, apresenta sola exterior de plástico e parte superior de plástico, o que o exclui da posição 64.05 da NCM, por expressa determinação da NESH da referida posição precedentemente transcrita. A autoridade fiscal ainda apresentou as seguintes conclusões exaradas no citado Relatório Fiscal, que seguem reproduzidas: Comparandose as imagens, verificase que a “pantufa” da marca CROCS não apresenta nenhuma semelhança com as PANTUFAS tradicionalmente conhecidas, pois a primeira é constituída de resina de célula fechada CROSLITE™, segundo informação do próprio sitio do fabricante (ver item 6.2 desse Relatório Fiscal), enquanto que as segundas são constituídas de material acolchoado e macio, inclusive pelúcia. Além disso, pela simples imagem do modelo da CROCS, fica nítido que o calçado é inteiramente constituído do mesmo material, qual seja, resina de célula fechada CROSLITE™, que se trata de plástico injetado de Copolímero de EVA (Etileno Vinil Acetato) (ver <Documentos Comprobatórios – Outros – Laudo Pericial>). Ainda, o próprio texto das Notas Explicativas da Posição 6405 da NCM exclui tais calçados dessa posição ao estabelecer que, “entre os calçados incluídos nesta posição, podem citarse: 1) os de sola exterior de borracha ou de plástico e parte superior de matéria, que NÃO seja borracha, plásticos, couro natural ou matérias têxteis”. (grifos dos originais) Por sua vez, no recurso em apreço, a recorrente contesta a conclusão externada no citado Relatório Fiscal, com base apenas em imagem, de que o modelo de calçado em apreço era “ inteiramente constituído do mesmo material, qual seja, resina de célula fechada CROSLITE™, que se trata de plástico injetado de Copolímero de EVA (Etileno Vinil Acetato)”. Segundo a recorrente, embora a parte superior do calçado fosse constituída de plástico, a sola exterior era constituída “de tecido (feltro) ) com pequenas protuberâncias de silicone inseridas”. Para que não reste dúvida, transcrevese a seguir o trecho pertinente: Enfim, voltando ao caso das pantufas, uma verdadeira análise das características do modelo CrocLodge Slipper demonstra que o produto em questão não é constituído de um único material, como afirma a autoridade. Apenas a parte superior do CrocLodge Slipper é constituída de plástico CROSLITE™. A sola exterior é constituída de tecido (feltro) com pequenas protuberâncias de silicone inseridas, conforme pode ser observado nas fotos apresentadas no doc. XX [doc. 31 da impugação]. Também do datasheet oficial (doc. 32 da Impugnação) com as especificações técnicas desse produto, pode ser verificada a alusão a diversos outros materiais, principalmente os da sola ("felt" feltro) e os da palmilha (“footbed textile” palmilha têxtil). A fiscalização, no entanto, parece não ter se dado ao trabalho de ver as fotos e os documentos apresentados na Fl. 5381DF CARF MF 44 impugnação, pois manteve o seu entendimento e sequer fez menção a elas no Acórdão. (grifos não originais) E com base no entendimento de que a sola exterior do modelo de calçado em referência (CrocLodge Slipper) era constituída de tecido (feltro), a recorrente alegou que o citado modelo de calçado poderia ser classificado na posição 6405 da NCM, independentemente do tipo de material de que era composta a sua parte superior, com base no item 3 da NESH da citada posição, segue transcrito: Entre o calçado incluído nesta posição, pode citarse: [...] 3) O de sola exterior de madeira, cortiça, cordel ou corda, cartão, pele com pelo, tecido, feltro, falso tecido, linóleo, ráfia, palha, bucha (lufa*), etc. A parte superior deste calçado pode ser de qualquer matéria. (grifos não originais) A simples leitura dos excertos extraídos do recurso voluntário informa que, para comprovar que a sola exterior do citado modelo de calçado era constituída de tecido (feltro), a recorrente apresentou com a peça impugnatória o “Doc. 31 Fotos do modelo CrocLodge Slipper” (fls. 5035/5040) e o “Doc. 32 Datasheet oficial do CrocLodge Slipper” (fl. 5041). As primeiras fotos mostram que a sola exterior é constituída de material diferente do material da parte superior, enquanto que o Datasheet (Ficha Técnica) informa que a sola exterior do calçado, ou seja, a parte do calçado que durante a utilização, entra em contato com o solo” é constituída de tecido tipo feltro (felt). A análise dos referidos documentos revela que assiste razão à recorrente, pois, se eles comprovam que a sola exterior do referenciado modelo de calçado é constituída de tecido (feltro), inequivocamente, ele pertence a posição 64.05 (“Outro calçado”) da NCM, conforme esclarecimento expresso no item da citada posição. E como a parte superior é constituída de plástico, o citado produto enquadrase na subposiçao 6405.90 (“Outro calçado; Outro”). E como a sola exterior é constituída de tecido do tipo feltro, ele se classifica no código NCM 6405.90.90 (“Outro calçado; Outro; Outro”). Dada essa constituição, o modelo de calçado em apreço (pantufa) somente pertenceria a posição 64.02 da NCM, se a parte superior, feita de uma só peça ou montada por qualquer processo, exceto a costura, fosse fixada à sola por costura, conforme esclarecido na alínea “c” da NESH da respectiva posição, que segue transcrito: A presente posição abrange o calçado cuja sola exterior e a parte superior sejam de borracha ou de plástico, excluídos os da posição 64.01. [...] Entre o calçado abrangido pela presente posição, pode citarse: [...] c) As pantufas ou as chinelas sem talão nem contraforte, cuja parte superior, feita de uma só peça ou montada por qualquer processo, exceto a costura, é fixada à sola por costura. [...] (grifos não originais) Fl. 5382DF CARF MF Processo nº 10314.721061/201519 Acórdão n.º 3302005.322 S3C3T2 Fl. 5.361 45 No caso, é evidente que a parte superior do calçado não foi ficada à sola exterior por costura. Logo, o referido modelo de calçado não se enquadra na posição 64.02 da NCM, conforme entendimento manifestado pela autoridade fiscal. Com base nessas considerações, chegase a conclusão que o referenciado modelo de calçado (CrocLodge Slipper) foi corretamente classificado pela recorrente no código NCM 6405.90.90, por conseguinte, deve ser restabelecida a classificação do produto na código NCM 6405.90.90 e cancelada a cobrança o direito antidumping, referente ao citado modelo de calçado, que se encontra discriminado por DI na citada “Tabela 04 Produtos Classificados INCORRETAMENTE no subitem 6405.90.00 da NCM e reclassificados para NCM 6402.99.90”. II.2.7 Do pedido de diligência No recurso em apreço, a recorrente pleiteou em caráter alternativo que, caso os membros desse Colegiado entendessem necessário qualquer esclarecimento quanto aos produtos importados, fosse determinada a realização de diligência, pelo que, desde logo, protestava para demonstrar a verdade dos fatos pelos meios em direito admitidos, bem como a juntada de novos documentos que eventualmente se fizessem necessários, em observância ao princípio da verdade material. Tratase de pedido de produção de prova genérico e ainda dependente do entendimento dos membros deste Colegiado sobre a necessidade de qualquer esclarecimento quanto a identificação dos produtos importados. Para este Relator as provas coligidas aos autos são suficientes para a formação da convicção sobre a matéria fática objeto da lide, portanto, dispensável e desnecessária a conversão do julgamento em diligência, para produção de prova. Além disso, como apresentado, o pedido de diligência em apreço reputase não formulado, por não atender os requisitos do inciso IV do art. 16 do Decreto 70.235/1972, conforme dispõe o § 1 do citado artigo. Por essas razões, com respaldo no caput do art. 18 do Decreto 70.235/1972, por entender prescindível, este Relator opina pelo indeferimento do pedido de diligência formulado/sugerido. II.3 Da Impossibilidade de Imposição da Multa de Ofício e dos Juros de Mora Para a recorrente, na remotíssima hipótese de não ser acatado os argumentos precedentemente analisados, o que admitia apenas para argumentar, no mínimo, este Colegiado deveria excluir a multa de ofício aplicada e os encargos moratórios (multa e juros de mora), em razão do disposto no parágrafo único do artigo 100 do CTN, uma vez que foram por ela observadas, in verbis: (i) a Nota Técnica n° 109/2009 da CAMEX (doc. 11 da Impugnação); o (ii) laudo referente à Solicitação de Assistência Técnica da Alfândega do Porto de Santos SAT 6.304/09 EQCOF, da Receita Federal (doc. 13 da Impugnação), que levou o Agente Fiscal, [...] a determinar a utilização da NCM 6401; e (iii) as práticas reiteradas das autoridades fiscais aduaneiras, Fl. 5383DF CARF MF 46 que sempre observaram o laudo e chancelavam importações com referida classificação fiscal. (grifos dos originais) O inteiro teor do art. 100 do CTN e do seu parágrafo único seguem transcritos: Art. 100. São normas complementares das leis, dos tratados e das convenções internacionais e dos decretos: I os atos normativos expedidos pelas autoridades administrativas; II as decisões dos órgãos singulares ou coletivos de jurisdição administrativa, a que a lei atribua eficácia normativa; III as práticas reiteradamente observadas pelas autoridades administrativas; IV os convênios que entre si celebrem a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios. Parágrafo único. A observância das normas referidas neste artigo exclui a imposição de penalidades, a cobrança de juros de mora e a atualização do valor monetário da base de cálculo do tributo. Na primeira votação, este Conselheiro votou pelo não acolhimento da presente alegação da recorrente. A uma, porque os documentos por ela citados não são normas complementares, segundo o disposto nos incisos do caput do citado art. 100. A duas, porque as denominadas práticas reiteradas pelas autoridades fiscais não foram comprovadas nos autos. Com efeito, a referida Nota Técnica 109/2009, emitida pelo DECOM e não pela CAMEX, inequivocamente, não se reveste de um ato normativo de natureza tributária, o que já é suficiente para afastar aplicação do parágrafo único do art. 100 do CTN. Ademais, diferentemente do alegado pela recorrente, a leitura do referido documento revela que o pleito de retificação da Resolução CAMEX n° 48, de 8 de setembro de 2009, não foi acatado pelo DECOM/CAMEX, mas integralmente indeferido, conforme se infere do texto do item 1 da Carta nº 10 enviada pela CAMEX à recorrente, a seguir transcrito: 1. De ordem, informo que, após análise técnica efetuada pelo Departamento de Defesa Comercial, da Secretaria de Comércio Exterior, do Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior, constatouse não ser cabível a retificação da Resolução CAMEX n° 48, de 8 de setembro de 2009, pelas razões expostas na Nota Técnica n° 109/2009/CGPI/DECOM/SECEX, de 21 de outubro de 2009, que segue anexa. Além disso, em vez de orientação à recorrente, como alegou a recorrente, o teor da referida Nota Técnica dirigiulhe uma mensagem dissabor pela intempestividade do pedido e pelas incompreensíveis insistências em pretender classificação fiscal que não condizia “com o produto que ela alega importar”. A confirmação do asseverado, pode ser feita com a simples leitura do fragmento texto extraído da referida Nota, que segue transcrito: Observese que a investigação foi iniciada há mais de 9 meses. Portanto, a Crocs teve suficiente tempo para rever eventuais erros de classificação e corrigilos. Não compreensíveis os motivos que levam a importadora a insistir em classificação que não condiz com o produto que ela alega importar. Não cabe, por conseguinte, recorrer à Administração para resolver um problema que deriva somente de sua Fl. 5384DF CARF MF Processo nº 10314.721061/201519 Acórdão n.º 3302005.322 S3C3T2 Fl. 5.362 47 própria insistência, ou mesmo resistência, em declarar o correto código tarifário. Já o citado Laudo Técnico, embora emitido por técnico credenciado pelo órgão de Administração Aduaneira, sequer revestese de ato administrativo, portanto, muito menos de ato normativo expedido pela autoridade tributária. Ademais, conforme já mencionado, o referido Laudo foi expedido em 4/12/2009 e se refere à identificação de modelos de calçados que não foram objeto das importações objeto da presente autuação. Portanto, além de não ato normativo, tal Laudo se refere a identificação de modelos de calçado estranho a presente autuação, conforme já demonstrado em tópico anterior. Enfim, as chamadas práticas reiteradas das autoridades fiscais aduaneiras também não restou comprovada, haja vista que a quase totalidade das DI foram selecionadas para o canal verde de distribuição e liberadas sem qualquer verificação das autoridades fiscais. Assim, a alegação da recorrente só teria algum sentido se os algorítimos17 dos computadores da SERPRO fossem equiparadas a autoridades fiscais, conforme exige o art. 142 do CTN. E essa condição, felizmente, ainda não ocorreu. Entretanto, na segunda votação, após melhor refletir os bem postos fundamentos apresentados pelo nobre Conselheiro Paulo Guilherme Déroulède, este Conselheiro acatou a presente alegação da recorrente, para excluir a multa de ofício e os juros de mora restritos aos lançamentos dos produtos mencionados no item II.2.1 Dos produtos classificados incorretamente no código NCM 6401.99.90 e reclassificados para o código NCM 6402.99.90. Dessa forma, com respaldo no art. 50, § 1º, da Lei 9.784/1999, como razão decidir adotase os mesmos fundamentos apresentados na Declaração de Voto apresentada pelo nobre Conselheiro Paulo Guilherme Déroulède, que segue o presente voto, como se aqui estivesse transcrita. III DA CONCLUSÃO Por todo o exposto, votase por rejeitar a preliminar de nulidade e, no mérito, dar provimento parcial ao recurso, para (i) afastar a cobrança do direito antidumping sobre os valores das importações discriminadas na “Tabela 04 Produtos Classificados INCORRETAMENTE no subitem 6405.90.00 da NCM e reclassificados para NCM 6402.99.90” (fls. 463/464) e (ii) excluir a multa de ofício e os juros de mora relativos aos lançamentos dos produtos mencionados no item II.2.1 Dos produtos classificados incorretamente no código NCM 6401.99.90 e reclassificados para o código NCM 6402.99.90. (assinado digitalmente) 17 Segundo a Wikipédia, algoritmo "é uma sequência finita de instruções bem definidas e não ambíguas, cada uma das quais devendo ser executadas mecânica ou eletronicamente em um intervalo de tempo finito e com uma quantidade de esforço finita. (Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Algoritmo> Acesso em 22 fev. 2018. Fl. 5385DF CARF MF 48 José Fernandes do Nascimento Declaração de Voto Conselheiro Paulo Guilherme Déroulède. Concernente à exclusão da multa de ofício e dos juros de mora, por aplicação do artigo 100, inciso III do CTN, entendo cabível, por ocorrência de prática reiterada por parte da administração tributária. Conforme constante do voto condutor, em 4/12/2009 fora emitido laudo técnico (efls. 4747/4660) referente à identificação física das mercadorias descritas nas adições 001, 002 e 003 da DI nº 09/13065743. Referido laudo foi solicitado pela Equipe de Conferência Física da Alfândega do Porto de Santos, para identificação da mercadoria e correto enquadramento tarifário. A conclusão do laudo foi de que as mercadorias conferiam com a descrição contida na DI nº 09/13065743, cujos modelos analisados constam das efls. 4647 e 4650. A partir das conclusões do laudo, o AuditorFiscal da Receita Federal do Brasil Mário Hokazono aquiesceu o requerimento da recorrente protocolado em 12/11/2009, retirando a exigência de direitos antidumping, reclassificando as mercadorias para oo código 6401.99.90 e determinando o recolhimento da multa por erro na classificação e ICMS complementar (efls. 4663). No extrato de solicitação de retificação da DI 09/13065743, restou consignado que a recorrente recolhera a multa de 1% sobre o valor aduaneiro e procedera à reclassificação para o código 6401.99.90, conforme determinação da autoridade fiscal. Verificase, outrossim, que os modelos das fotos da efl. 4650, objeto do laudo pericial, são similares aos modelos objeto da autuação especificados no item 6.3.1 do Relatório Fiscal, (efls. 294/296) sendo constituídos do mesmo material (resina CROSLITE) e com formatos similares, de modo que as conclusões obtidas no laudo pericial se aplicariam a estes produtos. Embora este conselheiro entenda correta a reclassificação efetuada neste processo e, consequentemente, entende equivocada a acepção dada à palavra impermeável pelo laudo pericial, cujas conclusões foram adotadas pela autoridade fiscal responsável pelo despacho de importação da DI nº 09/13065743, é forçoso reconhecer que a contribuinte seguiu as determinações expressas efetuadas pela anterior autoridade fiscal, quanto à classificação fiscal, inclusive recolhendo multa de 1% sobre o valor aduaneiro por erro de classificação, de que trata o artigo 711, inciso I do RA/2009. Posteriormente, à determinação expressa da autoridade fiscal na DI referida acima, durante o período autuado, a recorrente procedeu ao registro de 1.156 DIs, sendo três delas no canal vermelho, no qual é efetuado exame documental e a verificação da mercadoria, conforme artigo 21 da IN SRF 680/2006, a seguir transcrito: Fl. 5386DF CARF MF Processo nº 10314.721061/201519 Acórdão n.º 3302005.322 S3C3T2 Fl. 5.363 49 SELEÇÃO PARA CONFERÊNCIA ADUANEIRA Art. 21. Após o registro, a DI será submetida a análise fiscal e selecionada para um dos seguintes canais de conferência aduaneira: I verde, pelo qual o sistema registrará o desembaraço automático da mercadoria, dispensados o exame documental e a verificação da mercadoria; II amarelo, pelo qual será realizado o exame documental, e, não sendo constatada irregularidade, efetuado o desembaraço aduaneiro, dispensada a verificação da mercadoria; III vermelho, pelo qual a mercadoria somente será desembaraçada após a realização do exame documental e da verificação da mercadoria; e IV cinza, pelo qual será realizado o exame documental, a verificação da mercadoria e a aplicação de procedimento especial de controle aduaneiro, para verificar elementos indiciários de fraude, inclusive no que se refere ao preço declarado da mercadoria, conforme estabelecido em norma específica. Destacase, ainda, que eventuais exigências feitas pela fiscalização, durante o despacho aduaneiro, são registradas no SISCOMEX, cujo pagamento poderá ser efetuado pelo importador, sem a necessidade de formalização de processo administrativo, nos termos do artigo 4218 da IN SRF nº 680/2006, o que ocorreu no caso da DI nº 09/13065743. Ressalvando meu entendimento de que o desembaraço aduaneiro, não representa lançamento por homologação expressa e que a situação não comporta alteração de critério jurídico, considero que o despacho de importação da DI nº 09/13065743, no qual houve expressa classificação fiscal empreendida pela autoridade fiscal, aliado a posteriores despachos de importação com verificações documentais e físicas das mercadorias pelo canal vermelho representam práticas reiteradas das autoridades administrativas, quanto à classificação fiscal adotada pela recorrente, a qual seguiu determinação expressa de uma primeira autoridade fiscal e submeteu por outras três ocasiões à outras autoridades que, verificando documentalmente e fisicamente as mercadorias, mantiveram a classificação adotada nas DIs, consubstanciando, assim, a prática reiterada. Neste sentido, citamse os seguintes acórdãos: Acórdão nº 3401003.111, de 25/02/2016: 18 Art. 42. As exigências formalizadas pela fiscalização aduaneira e o seu atendimento pelo importador, no curso do despacho aduaneiro, deverão ser registrados no Siscomex. § 1º Sem prejuízo do disposto no caput, na hipótese de a exigência referirse a crédito tributário ou direito comercial, o importador poderá efetuar o pagamento correspondente, independentemente de formalização de processo administrativo fiscal. § 2º Havendo manifestação de inconformidade, por parte do importador, em relação à exigência de que trata o § 1º, o crédito tributário ou direito comercial será constituído mediante lançamento em auto de infração. § 2º Havendo manifestação de inconformidade, por parte do importador, em relação à exigência de que trata o § 1º, o crédito tributário ou direito comercial será constituído mediante lançamento em auto de infração, que deverá ser lavrado em até 3 (três) dias úteis. Fl. 5387DF CARF MF 50 {...] MORA E PENALIDADES NA REVISÃO ADUANEIRA DE MUITAS IMPORTAÇÕES. AFASTAMENTO. Apesar de não se tratar de uma mudança de critério jurídico, a posição firmada a partir da revisão aduaneira que nega a prática reiterada das autoridades do despacho, exercidas individualmente, configura a situação para a qual se deve invocar a aplicação da lei posta no parágrafo único do artigo 100 do CTN, a ser aplicada nos termos da competência estatuída pela lei do processo administrativo fiscal (Decreto n. 70.235, de 1972) e estatuída na lei aduaneira (artigo 97 e 101 do DL 37/1966). Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado da Primeira Turma da Quarta Câmara da Terceira Seção, em dar parcial provimento ao recurso, nos seguintes termos: (a) Preliminar de nulidade por cerceamento de defesa negouse provimento, por unanimidade; (b) Preliminar de decadência deuse provimento para excluir as DIs registradas anteriormente a 30/10/2007, inclusive, por unanimidade, sendo que os conselheiros Robson José Bayerl, Rosaldo Trevisan, Eloy Eros da Silva Nogueira, Waltamir Barreiros e Fenelon Moscoso de Almeida acompanharam pelas conclusões; (c) Revisão aduaneira e a mudança de critério jurídico (aplicação do art. 146 do CTN) negouse provimento, por maioria, vencidos os conselheiros Augusto Fiel Jorge D'Oliveira, que dava provimento às declarações de importação parametrizadas para o canal vermelho, e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco, que dava provimento, designado o conselheiro Eloy Eros da Silva Nogueira para redigir o voto vencedor; (d) Classificação fiscal negouse provimento, por unanimidade, os conselheiros Rosaldo Trevisan, Eloy Eros da Silva Nogueira, Waltamir Barreiros, Fenelon Moscoso de Almeida e Elias Fernandes Eufrásio acompanharam pelas conclusões; (e) Exclusão de penalidades e juros de mora deuse provimento ao recurso, por unanimidade; e, (f) quanto à inclusão do ICMS e das próprias contribuições na apuração do PIS/COFINSImportação, deuse provimento, por unanimidade. Acórdão nº 3401003.107: MORA E PENALIDADES NA REVISÃO ADUANEIRA DE MUITAS IMPORTAÇÕES. AFASTAMENTO. Apesar de não se tratar de uma mudança de critério jurídico, a posição firmada a partir da revisão aduaneira que nega a prática reiterada das autoridades do despacho, exercidas individualmente, configura a situação para a qual se deve invocar a aplicação da lei posta no parágrafo único do artigo 100 do CTN, a ser aplicada nos termos da competência estatuída pela lei do processo administrativo fiscal (Decreto n. 70.235, de 1972) e estatuída na lei aduaneira (artigo 97 e 101 do DL 37/1966). Acórdão nº 3201002.026: Fl. 5388DF CARF MF Processo nº 10314.721061/201519 Acórdão n.º 3302005.322 S3C3T2 Fl. 5.364 51 NORMAS COMPLEMENTARES. PRÁTICA REITERADA. Considerase prática reiterada das autoridades administrativas, à luz do artigo 100, inciso III, do CTN, a utilização de classificação fiscal de mercadorias já determinadas em soluções de consulta da RFB e confirmadas em despachos de importação selecionados para canais de conferência. Diante do exposto, voto para excluir a multa de ofício e os juros de mora relativos aos lançamentos dos produtos mencionados no item II.2.1 Dos produtos classificados incorretamente no código NCM 6401.99.90 e reclassificados para o código NCM 6402.99.90. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Fl. 5389DF CARF MF
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Numero do processo: 10865.721640/2013-63
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Fri Feb 02 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Mar 09 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2011, 2012
ALEGAÇÕES DE INCONSTITUCIONALIDADE. SÚMULA 2 DO CARF. APLICAÇÃO
De conformidade com a Súmula CARF nº 2, este Colegiado não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária.
COMPENSAÇÃO. MÉRITO.
Não podem ser conhecidas as alegações sobre a aplicação do art. 100, §§ 9° e 10 da Constituição Federal, bem como da Lei 12.431/2011 (art. 30, §§ 1°, 2° e 6°), pois isto implicaria na análise da compensação propriamente dita, o que não é o caso dos autos, que versa somente sobre a multa aplicada no percentual de 75%.
COMPENSAÇÃO. UTILIZAÇÃO DE PRECATÓRIOS ADQUIRIDOS DE TERCEIROS. MULTA ISOLADA. ARGUMENTO RECURSAL QUE NÃO CORRESPONDE COM A MATÉRIA DO AUTO DE INFRAÇÃO.
Estando o mérito recursal (multa agravada de 150%) dissociado da matéria efetivamente versada na autuação (multa regulamentar de 75%), não há como dar provimento ao recurso.
Numero da decisão: 3201-003.405
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário.
Winderley Morais Pereira - Presidente.
Leonardo Vinicius Toledo de Andrade - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Winderley Morais Pereira (Presidente), Tatiana Josefovicz Belisário, Paulo Roberto Duarte Moreira, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima e Leonardo Vinicius Toledo de Andrade.
Nome do relator: LEONARDO VINICIUS TOLEDO DE ANDRADE
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ementa_s : Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2011, 2012 ALEGAÇÕES DE INCONSTITUCIONALIDADE. SÚMULA 2 DO CARF. APLICAÇÃO De conformidade com a Súmula CARF nº 2, este Colegiado não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. COMPENSAÇÃO. MÉRITO. Não podem ser conhecidas as alegações sobre a aplicação do art. 100, §§ 9° e 10 da Constituição Federal, bem como da Lei 12.431/2011 (art. 30, §§ 1°, 2° e 6°), pois isto implicaria na análise da compensação propriamente dita, o que não é o caso dos autos, que versa somente sobre a multa aplicada no percentual de 75%. COMPENSAÇÃO. UTILIZAÇÃO DE PRECATÓRIOS ADQUIRIDOS DE TERCEIROS. MULTA ISOLADA. ARGUMENTO RECURSAL QUE NÃO CORRESPONDE COM A MATÉRIA DO AUTO DE INFRAÇÃO. Estando o mérito recursal (multa agravada de 150%) dissociado da matéria efetivamente versada na autuação (multa regulamentar de 75%), não há como dar provimento ao recurso.
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SÚMULA 2 DO CARF. APLICAÇÃO De conformidade com a Súmula CARF nº 2, este Colegiado não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. COMPENSAÇÃO. MÉRITO. Não podem ser conhecidas as alegações sobre a aplicação do art. 100, §§ 9° e 10 da Constituição Federal, bem como da Lei 12.431/2011 (art. 30, §§ 1°, 2° e 6°), pois isto implicaria na análise da compensação propriamente dita, o que não é o caso dos autos, que versa somente sobre a multa aplicada no percentual de 75%. COMPENSAÇÃO. UTILIZAÇÃO DE PRECATÓRIOS ADQUIRIDOS DE TERCEIROS. MULTA ISOLADA. ARGUMENTO RECURSAL QUE NÃO CORRESPONDE COM A MATÉRIA DO AUTO DE INFRAÇÃO. Estando o mérito recursal (multa agravada de 150%) dissociado da matéria efetivamente versada na autuação (multa regulamentar de 75%), não há como dar provimento ao recurso. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário. Winderley Morais Pereira Presidente. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 86 5. 72 16 40 /2 01 3- 63 Fl. 719DF CARF MF 2 Leonardo Vinicius Toledo de Andrade Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Winderley Morais Pereira (Presidente), Tatiana Josefovicz Belisário, Paulo Roberto Duarte Moreira, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima e Leonardo Vinicius Toledo de Andrade. Relatório Por retratar com fidelidade os fatos, adoto, com os devidos acréscimos, o relatório produzido em primeira instância, o qual está consignado nos seguintes termos: "O presente processo trata de Auto de Infração emitido pela DRFLimeira/SP, para exigência do crédito tributário no importe de R$ 14.276.262,12. 2. A descrição dos fatos e enquadramento legal constam do Auto de Infração anexado ao processo, e do Termo de Verificação Fiscal – parte integrante do Auto de Infração– de onde se extrai, em síntese: 2.1 O contribuinte epigrafado protocolizou diversos processos administrativos solicitando a extinção de diversos débitos de natureza tributária, informando ter adquirido créditos oriundos de reclamação trabalhista de terceiros transitada em julgado promovido em face da União Federal, cujo feito originouse de precatório. As declarações de compensação apresentadas pelo contribuinte foram consideradas não declaradas pela DRF, motivando o lançamento da multa isolada prevista no art. 18 da Lei nº 10.833, de 2003. O valor dos débitos compensados importa em R$ 19.032.349,47, sobre o qual foi aplicada a multa de ofício no importe de R$ 14.274.262,10. 2.3 O contribuinte impetrou mandado de segurança contra os Despachos Decisórios exarados pela DRF, pleiteando o efeito suspensivo aos recursos administrativos interpostos em face das decisões prolatadas. A segurança foi denegada uma vez que a decisão judicial avaliou que a autoridade impetrada agiu de forma acertada. 3. O contribuinte foi cientificado do Auto de Infração aos 17/07/2013, conforme AR Aviso de Recebimento à fl. 19. Aos 15/08/2013 o contribuinte apresentou a impugnação anexada às fls. 311 a 321, onde resumidamente argumenta: Impugnação Síntese dos fatos 4. A impugnante apresentou “pedido de reconhecimento de direito creditório onde se almejou ver declarada a quitação de débitos tributários, com esteio na redação do artigo 100 e seus parágrafos (...) com redação dada após a promulgação da Fl. 720DF CARF MF Processo nº 10865.721640/201363 Acórdão n.º 3201003.405 S3C2T1 Fl. 3 3 Emenda Constitucional 62/2009 (...) regulamentada pela Lei nº 12.431/11”. 4.1 A autoridade fazendária não analisou o pedido de compensação realizado, sem lançar qualquer espécie de fundamentação; alegou apenas tratarse de contribuinte sujeito ao regime diferenciado e que a compensação realizada equivaleria à falta de pagamento dos tributos. Tal decisão já foi objeto de interposição recursal. 4.2 O fundamento do presente auto de infração se dá pelo fato de o contribuinte ter feito compensação tida como não declarada, pela sistemática do art. 74 da Lei nº 9.430, de 1996. Acontece que a compensação que originou a multa aplicada não está regida pelo art. 74 da Lei nº 9.430, de 1996, sendo insusceptível o lançamento da presente multa. Impossibilidade de lançamento de multa pelo exercício do direito constitucional 5. O lançamento da multa isolada, nos termos em que foi realizado, ofende a lógica do razoável. Argumenta que o único meio de o contribuinte fazer chegar ao conhecimento da administração pública fazendária seu intuito de requerer a compensação de débitos tributários com crédito de precatório é mediante peticionamento. Cabe ao ente público julgar tal pedido. Contudo, o exercício deste direito não pode servir de causa para lhe trazer ônus, como no caso em questão, do lançamento da multa isolada. 5.1 Acrescenta que, entendimento tirado à luz da Constituição da República vetou o lançamento da multa isolada ao se proceder a compensação de débitos tributários com créditos de precatório, mediante pedidos dirigidos à Receita Federal do Brasil. Ilustra com jurisprudência administrativa. Inaplicabilidade do art. 74 da Lei nº 9.430, de 1996 6. O impugnante argumenta que o lançamento fiscal parte de uma premissa equivocada – aplicação do art. 74 da Lei nº 9.430, de 1996 – portanto, deve ser anulada. Esclarece que o dispositivo legal utilizado pelo fisco “não lida com créditos de precatório”, mas que lei posterior – a Lei nº 12.431, de 2011 – trata especificamente da compensação de créditos com precatório. Mérito 7. O impugnante defende que a presente impugnação deve ser analisada à luz da norma vigente, art. 100, §§ 9º e 10º da Carta da República. O estado houve por bem regulamentar o procedimento de compensação de débitos Fl. 721DF CARF MF 4 tributários com créditos de precatórios através da Lei nº 12.431, de 2011, em seu art. 30. 7.1 Esclarece que pelo texto do § 6º do art. 30, “deverão ser levados à compensação os créditos e os débitos oriundos da mesma pessoa jurídica devedora do precatório (...) Não se restringiu o detentor do precatório, se original ou cessionário”. As condições previstas na legislação estão presentes no caso dos autos, logo, a compensação é possível. Ilustra com passagem de Hyioshi Harada. Conclusão 8. Diante do exposto, o impugnante requer: • O recebimento da impugnação com efeito suspensivo. • A exclusão ou redução do percentual da multa aplicada a um percentual que não se caracterize por confiscatório. • Protesta pela juntada de novos documentos e produção de novas provas, como perícia, diligências e outras. • Requer que todas as intimações sejam expedidas em nome e no endereço do advogado."" A decisão recorrida apresenta a seguinte ementa: "ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2011, 2012 NULIDADE. CERCEAMENTO DE DEFESA. INEXISTÊNCIA. Improcedente a argüição de nulidade do lançamento de ofício quando este atender as formalidades legais e for efetuado por servidor competente. Quando presentes a completa descrição dos fatos e o enquadramento legal, de modo a atender integralmente ao que determina o art. 10 do Decreto nº 70.235/72, não há que se falar em cerceamento do direito de defesa. CRÉDITO DECORRENTE DE DECISÃO JUDICIAL TRANSITADA EM JULGADO Na hipótese de crédito decorrente de decisão judicial transitada em julgado, a DCOMP será recepcionada pela RFB somente depois de prévia habilitação do crédito pela unidade da RFB com jurisdição sobre o domicílio tributário do sujeito passivo. DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. UTILIZAÇÃO PROGRAMA PER/DCOMP Fl. 722DF CARF MF Processo nº 10865.721640/201363 Acórdão n.º 3201003.405 S3C2T1 Fl. 4 5 Considerase não declarada a compensação de débitos tributários informadas pelo contribuinte em inobservância ao determinado na legislação tributária vigente. IMPOSIÇÃO DE PENALIDADE. MULTA ISOLADA. COMPENSAÇÃO TRIBUTÁRIA VEDADA. UTILIZAÇÃO DE CRÉDITOS DE TERCEIROS E DE ORIGEM NÃO TRIBUTÁRIA. Cabível a aplicação e exigência de multa isolada sobre o valor do débito tributário objeto de compensação indevida, considerada “não declarada” por utilização de direito creditório de terceiros e/ou não administrado pela Secretaria da Receita Federal do Brasil. Impugnação Improcedente" O recurso voluntário foi interposto de forma hábil e tempestiva, contendo, em breve síntese, os seguintes argumentos: (i) inaplicabilidade do art. 74, da Lei 9430/1996 Lei 12431/2011 é lei posterior e específica, pois trata do caso de compensação com crédito de precatório Lei de Introdução ao Código Civil art. 2°; (ii) inconstitucionalidade da Instrução Normativa 900/08 Possibilidade de entrega do pedido de compensação em papel A Lei 12431/2011 é lei posterior e específica, pois trata do caso de compensação com crédito de precatório Lei de Introdução ao Código Civil art. 2°, § 1°; (iii) as normas do art. 100, §§ 9° e 10, da Constituição Federal foram regulamentadas pela Lei 12431/2011; (iv) inexistência de dolo ou fraude desconsideração da hipótese de incidência da multa agravada de 150%, do art. 44, II, da Lei 9430/1996; (v) inconstitucionalidade da multa, uma vez que é confiscatória, desproporcional e contraria frontalmente à jurisprudência do Supremo Tribunal Federal art. 19, da Lei 10522/2002, com redação dada pela Lei 12844/2013; Ao final, requer a recorrente o provimento do recurso voluntário, com o cancelamento do auto de infração. O processo foi encaminhado a este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, tendo sido convertido o julgamento em diligência, conforme Resolução nº 3201 000.673 de 27 de abril de 2016. Mencionada Resolução determinou a adoção das seguintes providências: "Diante do exposto, tendo em vista a decisão acerca do presente recurso voluntário ser dependente do desfecho do processo nº 10166.000448/201236, voto por converter o julgamento em diligência, determinando que seja juntada aos autos informação Fl. 723DF CARF MF 6 acerca dos andamentos processuais bem como cópia das decisões proferidas referentes ao processo nº 10166.000448/201236. Depois de tomadas as providências requeridas, que sejam intimadas as partes acerca do resultado desta diligência, sendo concedido a cada um o prazo de 30 dias para manifestação, caso tenham interesse. Posteriormente, os autos devem ser devolvidos a este julgador para a conclusão da lide." A Delegacia da Receita Federal do Brasil em Limeira, prestou a seguinte informação: "Em atendimento à resolução de folhas 661 a 666, foram juntadas a este processo cópias das decisões proferidas no processo 10166.000448/201236. Considerando que o processo 10166.000448/201236 foi juntado por apensação ao processo 10166.001052/201125, para análise conjunta com mais vinte e dois processos, por possuírem petição, decisão de origem e recurso de mesmo teor, foram juntadas a este processo cópias das decisões proferidas no processo principal de número 10166.001052/201125, cujo teor engloba o processo 10166.000448/201236. Realizada a ciência em 12/06/2014, do despacho decisório que analisou todos os processos em conjunto, com o NÃO PROVIMENTO dos Recursos Hierárquicos, os processos foram encaminhados para arquivamento." A recorrente foi cientificada da Resolução 3201000.673, e da informação requerida na mencionada resolução, que trata do andamento do processo 10166.000448/2012 36. Foi encaminhado, ainda, cópia do despacho decisório constante no processo 10166.001052/201125, cuja ciência já ocorreu em 12/06/2014. Foi ressalvado à recorrente o direito, caso tivesse interesse, à apresentação de manifestação em relação ao resultado da diligência, no prazo de 30 (trinta) dias, a partir da ciência. Não houve manifestação da recorrente em relação ao resultado da diligência. É o relatório. Voto Conselheiro Leonardo Vinicius Toledo de Andrade O recurso voluntário foi interposto de forma hábil e tempestiva, por isso merece ser conhecido. Fl. 724DF CARF MF Processo nº 10865.721640/201363 Acórdão n.º 3201003.405 S3C2T1 Fl. 5 7 Preliminarmente, no que tange as alegações de inconstitucionalidade tecidas pela recorrente em sua peça recursal, as afasto em razão da incompetência deste Colegiado para decidir sobre a constitucionalidade da legislação tributária. A matéria é objeto da Súmula CARF nº 2, publicada no DOU de 22/12/2009 a seguir ementada: “Súmula CARF nº 2 O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária” Assim, sendo referida súmula de aplicação obrigatória por este colegiado, maiores digressões sobre a matéria são desnecessárias. No que tange ao mérito da questão, não podem ser conhecidas as alegações da recorrente sobre a aplicação do art. 100, §§ 9° e 10 da Constituição Federal, bem como da Lei 12.431/2011 (art. 30, §§ 1°, 2° e 6°), pois isto implicaria na análise da compensação propriamente dita, o que não é o caso dos autos, que versa somente sobre a multa aplicada no percentual de 75% (setenta e cinco por cento). Ainda, em relação ao mérito, a recorrente defende que não é o caso de aplicação da multa agravada de 150%, do art. 44, II, da Lei 9430/1996. Em relação a tal argumento, não há como provêlo, pois nos autos sequer se está tratando de multa agravada no percentual de 150%, mas sim, da multa regulamentar de 75%. O excerto a seguir transcrito da decisão recorrida é elucidativo em relação ao valor da multa objeto do presente processo: "As declarações de compensação apresentadas pelo contribuinte foram consideradas não declaradas pela DRF, motivando o lançamento da multa isolada prevista no art. 18 da Lei nº 10.833, de 2003. O valor dos débitos compensados importa em R$ 19.032.349,47, sobre o qual foi aplicada a multa de ofício no importe de R$ 14.274.262,10." Através de cálculo aritmético é possível aferir, portanto, que a multa aplicada no valor de R$ 14.274.262,10 corresponde a 75% dos débitos. Além disto, a planilha anexada ao Termo de Verificação Fiscal não deixa margem de dúvidas sobre qual multa foi aplicada: Fl. 725DF CARF MF 8 Assim, não se está tratando da multa agravada de 150%, mas da multa regulamentar de 75%, o que atrai a aplicação da tese do divórcio ideológico. Neste sentido, transcrevo posicionamento do Supremo Tribunal Federal STF: "AGRAVO DE INSTRUMENTO AUSÊNCIA DE IMPUGNAÇÃO DOS FUNDAMENTOS EM QUE SE ASSENTOU O ATO DECISÓRIO QUESTIONADO IMPUGNAÇÃO RECURSAL QUE NÃO GUARDA PERTINÊNCIA COM OS FUNDAMENTOS EM QUE SE ASSENTOU O ATO DECISÓRIO QUESTIONADO OCORRÊNCIA DE DIVÓRCIO IDEOLÓGICO INADMISSIBILIDADE RECURSO IMPROVIDO. O RECURSO DE AGRAVO DEVE IMPUGNAR, ESPECIFICADAMENTE, TODOS OS FUNDAMENTOS DA DECISÃO AGRAVADA. O recurso de agravo a que se referem os arts. 545 e 557, § 1º, ambos do CPC, na redação dada pela Lei nº 9.756/98, deve infirmar todos os fundamentos jurídicos em que se assenta a decisão agravada. O descumprimento dessa obrigação processual, por parte do recorrente, torna inviável o recurso de agravo por ele interposto. Precedentes. A ocorrência de divergência temática entre as razões em que se apóia a petição recursal, de um lado, e os fundamentos que dão suporte à matéria efetivamente versada na decisão recorrida, de outro, configura hipótese de divórcio ideológico, que, por comprometer a exata compreensão do pleito deduzido pela parte recorrente, Fl. 726DF CARF MF Processo nº 10865.721640/201363 Acórdão n.º 3201003.405 S3C2T1 Fl. 6 9 inviabiliza, ante a ausência de pertinente impugnação, o acolhimento do recurso interposto. Precedentes." (AI 440079 AgR, Relator(a): Min. CELSO DE MELLO, Segunda Turma, julgado em 28/06/2005, DJ 14102005 PP00014 EMENT VOL 0220904 PP00769) Este relator não desconhece que este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais CARF possui importantes precedentes jurisprudenciais que afastaram a multa no percentual de 150% (cento e cinquenta por cento), em casos em que não foi demonstrada fraude, conforme a seguir: "GLOSA DE COMPENSAÇÃO. AUSÊNCIA DE LIQUIDEZ E CERTEZA. Demonstrado nos autos que faleciam aos créditos utilizados na compensação os requisitos de liquidez e certeza exigidos pela legislação, mostrase correta a glosa a respectiva exigência das contribuições previdenciárias que deixaram de ser recolhidas. COMPENSAÇÃO. UTILIZAÇÃO DE PRECATÓRIOS ADQUIRIDOS DE TERCEIROS. FALTA DE PREVISÃO LEGAL. IMPOSSIBILIDADE. Não há previsão legal autorizando a compensação de contribuições sociais com créditos de precatórios adquirido de terceiros. MULTA ISOLADA. FALTA DE DEMONSTRAÇÃO DE FRAUDE NO PROCESSO DE COMPENSAÇÃO. INAPLICABILIDADE. Inaplicável a multa isolada de 150% nos casos em que o fisco fundamente a sua imposição apenas na incorreta declaração da GFIP. JUROS SELIC. INCIDÊNCIA SOBRE OS DÉBITOS TRIBUTÁRIOS ADMINISTRADOS PELA RFB. A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais." (grifo nosso) (Processo 10410.721627/201352; Acórdão 2301 004.234; Relator Conselheiro Manoel Coelho Arruda Junior, sessão de 02/12/2014) Do voto condutor destaco: "Verificase, assim, que o processo não trata de compensação de créditos inexistentes ou mesmo objeto de fraude, mas de valores que, por ausência de previsão legal, não poderiam ser utilizados para encontro de contas com a Fazenda. Fl. 727DF CARF MF 10 Para que restasse caracterizada a falsidade mencionada no § 10 do art. 89, entendo que deveria ser comprovada a fraude, conceituada no art. 72 da Lei n.º 4.502/1964, verbis: Art . 72. Fraude é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do impôsto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. O fisco tenta caracterizar a fraude sob a alegação de que a empresa mesmo ciente da impossibilidade legal, utilizou os créditos. Entendemos, todavia, que a apresentação para encontro de contas de créditos obtidos pelo sujeito passivo, mas sem força para operar a compensação tributária, deve ser punida com a imposição dos acréscimos legais, jamais ser tratada como falsificação, com aplicação de multa isolada no patamar de 150%." "Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/10/2006 a 31/12/2008 COMPENSAÇÃO. UTILIZAÇÃO DE PRECATÓRIOS ADQUIRIDOS DE TERCEIROS. FALTA DE PREVISÃO LEGAL. IMPOSSIBILIDADE. Não há previsão legal autorizando a compensação de contribuições sociais com créditos de precatórios adquirido de terceiros. MULTA ISOLADA. FALTA DE DEMONSTRAÇÃO DE FRAUDE NO PROCESSO DE COMPENSAÇÃO. INAPLICABILIDADE. Inaplicável a multa isolada de 150% nos casos em que o fisco fundamente a sua imposição apenas na incorreta declaração da GFIP. JUROS SELIC. INCIDÊNCIA SOBRE OS DÉBITOS TRIBUTÁRIOS ADMINISTRADOS PELA RFB. A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais.Recurso Voluntário Provido em Parte." (grifo nosso) (Processo 11020.723321/201125; Acórdão 2401002.982; Relator Conselheiro Kleber Ferreira de Araújo; sessão de 17/04/2013) Ocorre que, como já dito, não se está diante de processo em que se exige a multa isolada de 150% (cento e cinquenta por cento), mas caso em que se discute a aplicação da multa regulamentar de 75% (setenta e cinco por cento). Assim, diante do fato deste Colegiado estar impossibilitado de analisar argumentos de índole constitucional (inconstitucionalidade), aliado da impossibilidade de se Fl. 728DF CARF MF Processo nº 10865.721640/201363 Acórdão n.º 3201003.405 S3C2T1 Fl. 7 11 conhecer da argumentação sobre a legitimidade e legalidade da compensação e, ainda, em razão do argumento sobre a multa estar fundado na impossibilidade de aplicála no percentual de 150% (cento e cinquenta por cento), quando o fora imposta em 75% (setenta e cinco por cento), voto por negar provimento ao recurso voluntário. É como voto. Leonardo Vinicius Toledo de Andrade Relator Fl. 729DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 19675.720110/2014-91
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Feb 26 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Mar 13 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas de Administração Tributária
Período de apuração: 04/02/2014 a 25/02/2014
CONCOMITÂNCIA. RENÚNCIA À ESFERA ADMINISTRATIVA. NULIDADE. FALTA DE APRECIAÇÃO. IMPROCEDENTE.
Súmula CARF nº 1: Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial.
Recurso Voluntário Não Conhecido. Crédito Tributário Mantido.
Numero da decisão: 3302-005.228
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso voluntário.
(assinatura digital)
Paulo Guilherme Déroulède - Presidente
(assinatura digital)
Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza - Relatora
Ausente, momentaneamente, o Conselheiro Raphael M. Abad
Participaram do julgamento os Conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède (Presidente), José Fernandes do Nascimento, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, José Renato Pereira de Deus, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza, Jorge Lima Abud e Walker Araujo.
Nome do relator: SARAH MARIA LINHARES DE ARAUJO PAES DE SOUZA
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ementa_s : Assunto: Normas de Administração Tributária Período de apuração: 04/02/2014 a 25/02/2014 CONCOMITÂNCIA. RENÚNCIA À ESFERA ADMINISTRATIVA. NULIDADE. FALTA DE APRECIAÇÃO. IMPROCEDENTE. Súmula CARF nº 1: Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial. Recurso Voluntário Não Conhecido. Crédito Tributário Mantido.
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RENÚNCIA À ESFERA ADMINISTRATIVA. NULIDADE. FALTA DE APRECIAÇÃO. IMPROCEDENTE. Súmula CARF nº 1: Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial. Recurso Voluntário Não Conhecido. Crédito Tributário Mantido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso voluntário. (assinatura digital) Paulo Guilherme Déroulède Presidente (assinatura digital) Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza Relatora Ausente, momentaneamente, o Conselheiro Raphael M. Abad Participaram do julgamento os Conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède (Presidente), José Fernandes do Nascimento, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, José Renato AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 67 5. 72 01 10 /2 01 4- 91 Fl. 140DF CARF MF 2 Pereira de Deus, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza, Jorge Lima Abud e Walker Araujo. Relatório Por bem transcrever os fatos e ser sintático, adotase o relatório da DRJ/Fortaleza, fls. 89 e seguintes1: Tratase de autuação fiscal no montante de R$ 41.496,46, relativa a PIS/PASEPimportação e COFINSimportação. Na descrição dos fatos dos autos de infração, às fls. 31 (PIS/PASEP) e 38 (COFINS), consta: “O importador, por meio das DI' s discriminadas abaixo, submeteu a despacho de importação as mercadorias identificadas em suas adições, não tendo efetuado o recolhimento das contribuições ao PIS e a COFINS, face a medida cautelar concedida pelo Tribunal Federal Regional da 3a Região nos autos do Processo n° 2004.61.00.0332672, processo principal 2004.61.00.0131745, em trâmite na 13ª Vara Federal de São Paulo. Tendo sido desembaraçadas essas DI's, para resguardar os direitos da Fazenda Nacional, fazse a exigência das referidas contribuições e, desde logo, suspendese a exigibilidade do crédito tributário, submetendoo às decisões no referido processo”. Cientificada, pessoalmente, em 26/03/2014 (fls. 4950), a MARFRIG apresentou sua impugnação em 23/04/2014 (fls. 53 60), na qual discorre sobre os fatos, e alega: a impugnante ajuizou ação pelo rito ordinário, processo n° 2004.61.00.033267 2, em face da União, a qual foi julgada procedente, declarando a inexistência de relação jurídica que obrigue a empresa ora impugnante, ao recolhimento do PIS e da Cofins em suas importações, negando aplicação à Lei n° 10.865/2004, e encontrase pendente de julgamento definitivo; primeiramente, destaca que a matéria trazida na impugnação não possui qualquer identidade com a ação judicial, eis que não se discute a inexigibilidade do PIS/COFINS Importação, mas a impossibilidade da empresa sofrer o seu lançamento face tratar se de mera antecipação de caixa; considerando que na impugnação demonstrase a impossibilidade de prosseguimento da autuação por razões diversas daquelas apontadas na medida judicial ajuizada pela Impugnante, o ora alegado deverá ser conhecido para julgamento no âmbito administrativo; não se pode manter a exigência do auto de infração, ante o recolhimento integral das contribuições ao PIS e a Cofins faturamento, deixando a peticionária de se beneficiar quanto ao 1 Todas as páginas, referenciadas no voto, correspondem ao eprocesso. Fl. 141DF CARF MF Processo nº 19675.720110/201491 Acórdão n.º 3302005.228 S3C3T2 Fl. 3 3 crédito relativo às contribuições ao PIS e a Cofins importação, autorizado pelo art. 15 da Lei 10.865/2004; se a empresa tivesse realizado o recolhimento das contribuições do PIS e Cofins importação ora exigidas, teria direito de descontar tal valor quando do recolhimento de PIS e Cofins sobre seu faturamento; contudo, considerando que a empresa utilizase da medida judicial acima apontada, vem recolhendo integralmente o PIS e a Cofins (faturamento), sem qualquer desconto do PIS e da Cofins importação; se não houve a utilização de créditos (valores relativos ao PIS e a Cofins importação) que deveriam ser descontados neste sistema, não há que se falar na presente exigência, posto que a empresa recolheu integralmente o PIS e a Cofins sobre o seu faturamento; ao exigir o presente auto de infração as contribuições do PIS/Cofins Importação, mesmo não tendo a empresa utilizado do crédito, equivale a exigência em duplicidade do PIS/Cofins – Importação; a sistemática utilizada pela empresa apenas e tão somente posterga o pagamento do PIS/COFINS Importação. Ela não deixa de recolher os tributos devidos, não deixa de cumprir com suas obrigações, não causa qualquer prejuízo ao erário. Razões pelas quais o auto de infração deve ser anulado; com base na Lei 10.865/2004, notadamente no seu art. 15, espera a empresa que não lhe sejam exigidos o PIS e a Cofins importação, pois houve o recolhimento de PIS e Cofins na modalidade de faturamento em sua integralidade, sem a utilização do desconto do crédito autorizado pela referida norma; assim, independentemente do resultado final da ação judicial e ainda que fosse dado provimento ao recurso da Fazenda Nacional, o crédito tributário ora exigido é indevido. em suma, utilizandose da suspensão da exigibilidade do PIS e da Cofins Importação, por meio da ação judicial, a empresa deixou de recolher referidas contribuições.Por outro lado, deixou de utilizar do crédito decorrente destas previsto no art. 15 da Lei 10.865/2004, quando do pagamento do PIS e da Cofins faturamento, pois as recolheu integralmente na operação comercial subseqüente saída dos produtos importados depois de nacionalizados para venda a seus clientes no mercado interno; referida autuação não procede e não merece valia, eis que a empresa efetivamente já despendeu os valores relativos à PIS e COFINS, conforme explicitado ao longo da impugnação; ademais, mostrase absurda e em total afronta ao princípio da razoabilidade, exigir que se paguem os valores relativos ao auto de infração, quando estes já foram recolhidos; Fl. 142DF CARF MF 4 pelo exposto e em que pese à existência de ação judicial que se discute a inconstitucionalidade da Lei 10.865/2004, requer sejam consideradas as razões ora trazidas, julgandose improcedente o auto de infração impugnado em sua totalidade, ante ao recolhimento integral de PIS e Cofins faturamento, sem utilização do crédito que a Empresa teria direito se tivesse arcado com o recolhimento de PIS e Cofins importação, evitandose desta forma a duplicidade na exigência de referida exação. A DRJ/Fortaleza não conheceu da impugnação, vide ementa abaixo: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 04/02/2014 a 25/02/2014 PROCESSOS ADMINISTRATIVO E JUDICIAL. IDENTIDADE DE OBJETO. RENÚNCIA À INSTÂNCIA ADMINISTRATIVA. Em razão do princípio da unidade de jurisdição, a propositura de ação na Justiça contra a Fazenda Pública implica renúncia ao direito de recorrer às instâncias julgadoras administrativas, no tocante à matéria discutida judicialmente, de modo que o lançamento fica vinculado ao que for decidido no Poder Judiciário. A contribuinte, irresignada, apresentou Recurso Voluntário. É o relatório. Voto Conselheira Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza, Relatora. 1. Dos requisitos de admissibilidade O Recurso Voluntário foi apresentado de modo tempestivo, a ciência do acórdão ocorreu em 05 de março de 2015, fls. 98, e o recurso foi protocolado em 24 de março de 2015, fls. 101. Tratase, portanto, de recurso tempestivo e de matéria que pertence a este colegiado. 2. Da concomitância e da renúncia à esfera administrativa A Recorrente alega pela nulidade do lançamento efetuado, ocorre que em análise à certidão, fls. 43 e seguintes, observase que o objeto do processo administrativo e do processo judicial é o mesmo, o que implica na concomitância e, por conseguinte, renúncia à esfera administrativa. Da certidão que retrata o processo judicial, extraise que: (...) objetivando a concessão de medida liminar para "i) suspender a exigibilidade do crédito tributário constante dos lançamentos relativos aos processos administrativos listados no extrato anexo e os faturamentos lançados, relativos a exigência de PIS e Fl. 143DF CARF MF Processo nº 19675.720110/201491 Acórdão n.º 3302005.228 S3C3T2 Fl. 4 5 COFINS importação, decorrente do cumprimento da medida judicial nos autos suplementares Processo n° 2006.61.00.0122467 considerando o recolhimento integral de PIS e Cofins faturamento em etapa subsequente a importação sem a utilização dos créditos da importação, bem como não sejam colocados como óbice à emissão de Certidão Negativa de Débitos; ii) autorizar o desembaraço das mercadorias importadas pelas requerentes, sem a antecipação do pagamento de PIS e Cofins sobre importação, exigido nos termos da Lei 10.865/04, a fim de evitar que a imposição continue a levar as empresas a acumularem créditos de tributos federais, impedindo que as autoridades adotem qualquer medida coercitiva". Por fim, requereu a procedência da ação. Tratase da mesma argumentação, contida na impugnação e em sede de recurso voluntário. Quando o contribuinte opta pela esfera judicial, automaticamente, ele renuncia à esfera administrativa, vide súmula Carf: Súmula CARF nº 1: Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial. No mesmo sentido, vide o Decreto nº 7574/2011: Decreto nº 7574/2011 Art. 87. A existência ou propositura, pelo sujeito passivo, de ação judicial com o mesmo objeto do lançamento importa em renúncia ou em desistência ao litígio nas instâncias administrativas (Lei no 6.830, de 1980, art. 38, parágrafo único). Parágrafo único. O curso do processo administrativo, quando houver matéria distinta da constante do processo judicial, terá prosseguimento em relação à matéria diferenciada. Esta turma já decidiu nos seguintes termos, vide acórdão nº 3302.002.957, Relatora Maria do Socorro Ferreira Aguiar: ASSUNTO: CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS Período de apuração: 01/05/1992 a 31/12/1995 AÇÃO JUDICIAL. CONCOMITÂNCIA DE PEDIDO. RENÚNCIA À INSTÂNCIA ADMINISTRATIVA. DEFINITIVIDADE DA EXIGÊNCIA. A opção pela via judicial quanto ao questionamento da incidência do IPI sobre os cartões com tarja magnética importa Fl. 144DF CARF MF 6 renúncia à instância administrativa, tornando definitiva, nesta esfera, a discussão da matéria sub judice. DECISÃO JUDICIAL TRANSITADA EM JULGADO FAVORÁVEL AO CONTRIBUINTE. PROVIDÊNCIAS DE COMPETÊNCIA DA UNIDADE. Existindo decisão judicial transitada em julgado, favorável ao contribuinte, declarando a não ocorrência do fato gerador do IPI, compete à unidade as providências no âmbito de sua competência. Portanto, em face da concomitância, e de não existir nenhum argumento em Recurso Voluntário, que saia da esfera da concomitância, aplicase a Súmula Carf nº 1. 3. Conclusão Por todo o exposto, voto por não conhecer o Recurso Voluntário. Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza Fl. 145DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10120.902609/2009-59
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Oct 24 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Feb 21 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 1999
Ementa:
CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL - COFINS. COMPENSAÇÃO. REQUISITO. COMPROVAÇÃO DA EXISTÊNCIA E DA LIQUIDEZ DO CRÉDITO.
A comprovação da existência e da liquidez do crédito são requisitos essenciais à acolhida de pedidos de compensação.
Recurso Voluntário Negado
Numero da decisão: 3401-004.050
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário apresentado.
(assinado digitalmente)
Rosaldo Trevisan - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Rosaldo Trevisan, Robson José Bayerl, Augusto Fiel Jorge D'Oliveira, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Tiago Guerra Machado e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco.
Nome do relator: ROSALDO TREVISAN
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 1999 Ementa: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS. COMPENSAÇÃO. REQUISITO. COMPROVAÇÃO DA EXISTÊNCIA E DA LIQUIDEZ DO CRÉDITO. A comprovação da existência e da liquidez do crédito são requisitos essenciais à acolhida de pedidos de compensação. Recurso Voluntário Negado Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário apresentado. (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Rosaldo Trevisan, Robson José Bayerl, Augusto Fiel Jorge D'Oliveira, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Tiago Guerra Machado e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco. Relatório Versa o presente sobre PER/DCOMP invocando créditos referentes a pagamento indevido ou maior de CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 12 0. 90 26 09 /2 00 9- 59 Fl. 83DF CARF MF Processo nº 10120.902609/200959 Acórdão n.º 3401004.050 S3C4T1 Fl. 3 2 Não tendo sido localizado tal pagamento nos sistemas da RFB, a empresa foi intimada a se manifestar, e, diante de seu silêncio, o crédito foi indeferido e a compensação não homologada, por Despacho Decisório Eletrônico, tendo a empresa apresentado Manifestação de Inconformidade, na qual alegou, em síntese, que: (a) é inconstitucional a majoração de alíquota promovida pelos Decretos no 2.445/1988 e no 2.449/1998, já reconhecida pelo Poder Judiciário e declarada por ato do Senado (Resolução no 49, de 9/10/1995), e a aplicação retroativa (sistemática da semestralidade) do art. 18 da Lei no 9.715/1998 (conforme ADIn no 1.4170, publicada em 23/03/2011 e também reconhecida por ato do Senado – Resolução no 10, de 08/06/2005); e (b) o prazo para pedir a restituição é fixado a partir da data em que se tornar definitiva a decisão administrativa / judicial / Resolução do Senado. A decisão de primeira instância foi, unanimemente, pela improcedência da manifestação de inconformidade, sob os seguintes fundamentos. (a) a empresa não alegou nem comprovou o suposto pagamento a maior ou indevido que teria efetuado, a despeito de ter sido intimada para tanto; (b) em pesquisa aos sistemas da RFB, verificouse a existência de DARF de recolhimento com a data de arrecadação diversa da indicada no pedido, parecendo a empresa buscar com a data incorreta em seu pedido frustrar eventual extinção de prazo para pedir restituição, que ocorre após cinco anos do pagamento indevido, com vem decidindo o STJ na sistemática dos recursos repetitivos (REsp no 1.110.578/SP) e o CARF. Ciente da decisão de piso, a empresa interpôs Recurso Voluntário, basicamente repisando o argumento de que não poderia o artigo 18 da norma legal (hoje Lei no 9.715/1998) ter retroagido, como decidiu o STF na ADIn no 1.417 (e Resolução no 10/2005), e reconheceu a própria Receita Federal, na IN SRF no 6/2000; e acrescentando que a Lei no 9.715/1998 revogou a Lei Complementar no 7/70, e que a cobrança também estaria com prazo decaído. É o relatório. Voto Conselheiro Rosaldo Trevisan, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3401004.025, de 24 de outubro de 2017, proferido no julgamento do processo 10120.901000/200962, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3401004.025): "O recurso voluntário apresentado preenche os requisitos formais de admissibilidade e, portanto, dele se toma conhecimento. Diante da imputação fiscal e das defesas apresentadas, há pouco a discutir no presente processo. Isso porque em nenhuma das peças de defesa a empresa informa, objetivamente, aquilo que foi intimada a esclarecer desde antes do início do contencioso: qual Fl. 84DF CARF MF Processo nº 10120.902609/200959 Acórdão n.º 3401004.050 S3C4T1 Fl. 4 3 foi exatamente o recolhimento indevido e qual o motivo para que especificamente essa quantia seja considerada de fato indevida. Enquanto a defesa se alonga em discussões de direito que, em geral, já estão pacificadas administrativa e judicialmente, não dedica uma linha sequer a informar como os valores que entende indevidos o são pela ocorrência, no caso concreto, de tais situações jurídicas genericamente descritas. Como bem destacou a instância de piso, a empresa jamais comprovou o suposto pagamento a maior ou indevido, mesmo tendo sido intimada a tanto, na fase précontenciosa. Persiste, assim, a ausência de liquidez e certeza sobre o débito, ainda antes de se iniciar a discussão jurídica, que deixa de ser relevante, por não se saber, de forma peremptória, se é relacionada ao caso concreto aqui narrado. Não se desincumbe, assim, a postulante ao crédito, de seu ônus probatório, acreditando que as alegações de direito genéricas socorrem sua demanda, sem realizar qualquer esforço para vincular tais discussões jurídicas ao caso em análise, dotando de certeza e de liquidez o crédito. Em relação a alegação de decadência para cobrança, cabe destacar que não se está aqui a analisar lançamento, mas pedido de restituição, cumulado com compensação. E, como destacou a DRJ, a existência de Resolução do Senado reconhecendo eventual inconstitucionalidade é despicienda para fins de contagem do prazo prescricional (REsp no 1.110.578SP, julgado na sistemática dos recursos repetitivos). Poderseia agregar aos argumentos de defesa, de ofício, o tratamento reconhecido aos pedidos administrativos pelo STF (RE no 566.621/RS) e pelo CARF (Súmula CARF no 91). No entanto, como destacado de início, a discussão sobre haver ou não expirado o prazo para pedir restituição se afigura secundária, diante da ausência de liquidez e certeza do crédito. E a comprovação da existência e da liquidez do crédito são requisitos essenciais à acolhida de pedidos de compensação. Pelo exposto, voto no sentido de negar provimento ao recurso voluntário apresentado." Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, o colegiado negou provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan Fl. 85DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10880.679893/2009-52
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Mar 07 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Apr 11 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas de Administração Tributária
Ano-calendário: 2004
DÉBITO INFORMADO EM DCTF. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO DO ERRO.
A simples retificação de DCTF para alterar valores originalmente declarados, desacompanhada de documentação hábil e idônea, não pode ser admitida para modificar Despacho Decisório.
COMPENSAÇÃO. DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA.
Constatada a inexistência do direito creditório por meio de informações prestadas pelo interessado à época da transmissão da Declaração de Compensação, cabe a este o ônus de comprovar que o crédito pretendido já existia naquela ocasião.
Numero da decisão: 2201-004.331
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares arguídas e, no mérito, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Carlos Henrique de Oliveira - Presidente.
(assinado digitalmente)
Carlos Alberto do Amaral Azeredo - Relator.
EDITADO EM: 23/03/2018
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira, José Alfredo Duarte Filho, Douglas Kakazu Kushiyama, Marcelo Milton da Silva Risso, Dione Jesabel Wasilewski, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Daniel Melo Mendes Bezerra e Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim.
Nome do relator: CARLOS ALBERTO DO AMARAL AZEREDO
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ementa_s : Assunto: Normas de Administração Tributária Ano-calendário: 2004 DÉBITO INFORMADO EM DCTF. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO DO ERRO. A simples retificação de DCTF para alterar valores originalmente declarados, desacompanhada de documentação hábil e idônea, não pode ser admitida para modificar Despacho Decisório. COMPENSAÇÃO. DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA. Constatada a inexistência do direito creditório por meio de informações prestadas pelo interessado à época da transmissão da Declaração de Compensação, cabe a este o ônus de comprovar que o crédito pretendido já existia naquela ocasião.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares arguídas e, no mérito, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Carlos Henrique de Oliveira - Presidente. (assinado digitalmente) Carlos Alberto do Amaral Azeredo - Relator. EDITADO EM: 23/03/2018 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira, José Alfredo Duarte Filho, Douglas Kakazu Kushiyama, Marcelo Milton da Silva Risso, Dione Jesabel Wasilewski, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Daniel Melo Mendes Bezerra e Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim.
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 9; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1400; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S2C2T1 Fl. 86 1 85 S2C2T1 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS SEGUNDA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 10880.679893/200952 Recurso nº Voluntário Acórdão nº 2201004.331 – 2ª Câmara / 1ª Turma Ordinária Sessão de 07 de março de 2018 Matéria DCOMP ELETRÔNICO PGIM Recorrente TIM CELULAR S.A. Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA Anocalendário: 2004 DÉBITO INFORMADO EM DCTF. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO DO ERRO. A simples retificação de DCTF para alterar valores originalmente declarados, desacompanhada de documentação hábil e idônea, não pode ser admitida para modificar Despacho Decisório. COMPENSAÇÃO. DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA. Constatada a inexistência do direito creditório por meio de informações prestadas pelo interessado à época da transmissão da Declaração de Compensação, cabe a este o ônus de comprovar que o crédito pretendido já existia naquela ocasião. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares arguídas e, no mérito, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Carlos Henrique de Oliveira Presidente. (assinado digitalmente) Carlos Alberto do Amaral Azeredo Relator. EDITADO EM: 23/03/2018 AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 67 98 93 /2 00 9- 52 Fl. 86DF CARF MF 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira, José Alfredo Duarte Filho, Douglas Kakazu Kushiyama, Marcelo Milton da Silva Risso, Dione Jesabel Wasilewski, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Daniel Melo Mendes Bezerra e Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim. Relatório Trata o presente de Declaração de Compensação formalizada por meio eletrônico e registrada sob o número 03682.11631.180607.1.3.049744, fl. 02 a 04, com a qual o contribuinte extinguiu, nos termos da legislação, débito com a utilização de suposto indébito tributário decorrente de pagamento efetuado a maior ou indevidamente. Tal documento foi analisado pelo Sistema da Controle de Créditos SCC, tendo sido emitido o Despacho Decisório de fl. 05, por meio do qual o Titular da unidade de jurisdição do sujeito passivo não homologou a compensação declarada, detalhando os motivos que lastrearam tal decisão que, em apertada síntese, seria a inexistência de saldo disponível do suposto pagamento indevido ou a maior, integralmente utilizado para extinguir débito declarado pelo contribuinte. Cientificado do Despacho Decisório de não homologação em 05/11/2009, fl. 07, não concordando com seus termos, o contribuinte apresentou, em 03/12/2009, a manifestação de inconformidade de fl. 08 a 22. Os argumentos da defesa foram estruturados nos seguintes tópicos: Preliminar: do efeito suspensivo da presente manifestação de inconformidade; Pleiteia a atribuição de efeito suspensivo nos termos do inciso III do art. 151 do Código Tributário Nacional. da carência de fundamentação do Despacho Decisório. Sustenta a nulidade do Despacho Decisório por entender que a carência de sua motivação ofende aos Princípios do Contraditório e da Ampla Defesa. Mérito: O mero preenchimento incorreto da declaração não gera direito à crédito em favor da fazenda nacional da necessária observância aos princípios da busca pela verdade material, da razoabilidade e da proporcionalidade. Sustenta o recorrente que a lide administrativa em curso é fruto de um mero equívoco cometido na elaboração das DCTF originais apresentadas e da incapacidade do sistema informatizado da RFB. Afirma que. se fosse dada ao contribuinte a chance de apresentar explicações à Fazenda Nacional, poupariase tempo com cobranças infundadas, já que qualquer Agente Fiscal que analisasse a situação em tela notaria que houve tão somente um erro de preenchimento de declaração. Fl. 87DF CARF MF Processo nº 10880.679893/200952 Acórdão n.º 2201004.331 S2C2T1 Fl. 87 3 Cita precedentes judiciais e administrativos, além de conclusões doutrinárias que apontam para a necessidade da Administração Pública investigar e valorar corretamente os fatos que dão ensejo à cobrança, em particular se já possui dados para identificálos, não podendo se ater a minúcias formais em manifesto prejuízo ao contribuinte. Informa já estar levantando internamente toda a documentação probante do seu direito creditório e providenciando a retificação da DCTF que demonstrará a existência do crédito indicado na DCOMP. Por fim, após ratificar os pedidos de atribuição de efeito suspensivo e de reconhecimento da nulidade do Despacho Decisório, pugna pela conversão do julgamento em diligência para que seja efetivamente examinada sua escrita fiscal para confirmação do seu direito creditório e a consequente homologação da compensação declarada. Debruçada sobre os termos da manifestação de inconformidade, a Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em São Paulo I/SP consideroua improcedente, nos termos do Acórdão de fl. 43 a 49, cujas conclusões podem ser assim resumidas: (...) Primeiramente, esclarecese à douta manifestante que, ao contrário do que alega, o despacho decisório do presente processo não é nulo pois, foi assinado por servidor competente no exercício de suas funções e sem preterimento do direito de defesa da contribuinte. (...) A analise eletrônica do despacho decisório de fls. 03, demonstra que os alegados pagamentos indevidos foram utilizados para quitar débitos declarados em DCTF , não restando qualquer crédito para ser compensado. (...) Assim, de acordo com o art. 59 do Decreto n° 70.235/72, não há qualquer nulidade no despacho decisório em comento, não assistindo razão a reclamante. (...) Relativamente à alegação que teria cometido erros no preenchimento da DCTF e que, sanados esses erros , haveria o crédito que utilizou nas PER/DCOMP , observase que a contribuinte limitase a declarar o fato mas não logrou apresentar qualquer prova do que alega. De fato, a contribuinte limitase alegar a existência de erro de preenchimento, erro nos cálculos de apuração de tributo, erro no pagamento em DARF, mas reconhece perfeitamente não haver apresentado qualquer DCTF retificadora até a data da ciência do Despacho Decisório. (...) Alias a simples alegação e mesmo a apresentação de DCTF retificadora não faz qualquer prova, por si só, nessa altura do rito processual, devendo, ao contrário, vir acompanhada dos documentos comprobatórios de eventual equivoco cometido na elaboração da declaração original.. Assim, a contribuinte deveria ter acostado aos autos a sua escrituração contábil/fiscal do período, em especial os Livros Diário e Razão, além da movimentação comercial da empresa. Fl. 88DF CARF MF 4 (...) Tratandose de exibição de documentos, cuja guarda e apresentação compete à contribuinte, desnecessária se revela também a realização de diligencias, que se presta mais a elucidar detalhes cuja prova cabe ao Fisco Federal, não aplicável ao presente caso, conforme infere dos dispositivos do Decreto n° 70.235/1972 que tratam da matéria: Cientificado do Acórdão da DRJ em 26/11/2010, conforme AR de fl. 51, e ainda inconformado, o contribuinte apresentou, tempestivamente, o recurso voluntário de fl. 52 a 68, que, em sua essência, reafirma as alegações já produzidas na impugnação, e que serão detalhadas no curso voto abaixo. É o relatório necessário. Voto Conselheiro Carlos Alberto do Amaral Azeredo Relator Por ser tempestivo e por preencher as demais condições de admissibilidade, conheço do Recurso Voluntário. DA CARÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO DO DESPACHO DECISÓRIO Após resumir os fatos, o recorrente contesta a conclusão do Acórdão recorrido de que a motivação do despacho decisório e os demais elementos do mesmo são suficientemente claros. Afirma que tal ato administrativo é absolutamente carente de fundamentação, do que resulta sua nulidade. Alega que, embora o avanço da tecnologia imponha o tratamento de demandas de forma eletrônica, não se pode admitir que sua agilidade viole direitos expressos na Constituição federal, resultando em prejuízo ao contraditório e à ampla defesa, já que desconhecidas as razões da negativa do crédito pleiteado. Não merecem acolhida as alegações recursais. A análise superficial do Despacho Decisório de fl. 05 não deixa nenhuma dúvida sobre os motivos que levaram à não homologação da compensação declarada. Tal documento indica claramente o número da DCOMP a que se refere, sua data de transmissão, o tipo de crédito pleiteado (pagamento indevido ou a maior), as características do DARF relativo ao suposto recolhimento em excesso, bem assim informa que tal recolhimento teria sido integralmente utilizado para quitar débitos do contribuinte, indicando código de receita e data do vencimento de tal débito. Diante de tais informações, não há necessidade de nenhuma outra motivação para se concluir pela inexistência de saldo disponível para lastrear a compensação pretendida. Portanto, presentes os elementos necessários ao pleno entendimento das razões que levaram à não homologação da compensação declarada, além de terem sido observados todos os requisitos de validade do ato administrativo, rejeito a preliminar de nulidade arguida. Fl. 89DF CARF MF Processo nº 10880.679893/200952 Acórdão n.º 2201004.331 S2C2T1 Fl. 88 5 DA VIOLAÇÃO AOS PRINCÍPIOS DA ESTRITA LEGALIDADE, DA VERDADE MATERIAL, DA RAZOABILIDADE E DA PROPORCIONALIDADE Sustenta o recorrente que a lide administrativa em curso é fruto de um mero equívoco cometido na elaboração das DCTF originais apresentadas e da incapacidade do sistema informatizado da RFB fazer o cruzamento destas com as informações prestadas via DCOMP, em que pese a evidência do direito ao aproveitamento de tais créditos. Afirma que, se fosse dada ao contribuinte a chance de apresentar explicações à Fazenda Nacional, poupariase tempo com cobranças infundadas, já que qualquer Agente Fiscal que analisasse a situação em tela notaria que não há justificativas válidas para a glosa ora em comento. Aduz que não merece amparo a conclusão do Julgador de 1ª Instância sobre a impossibilidade da DRJ e do Carf reconhecerem direito a crédito sem suporte documental produzido previamente pelo contribuinte. Cita precedentes administrativos e conclusões doutrinárias que apontam para a necessidade da Administração Pública investigar e valorar corretamente os fatos que dão ensejo à cobrança, em particular se já possui dados para identificálos, não podendo se ater a minúcias formais em manifesto prejuízo ao contribuinte. Afirma que a não homologação da compensação ofende ao Principio da Proporcionalidade, que impõe a adequação das medidas restritivas. Destaca que a Autoridade recorrida desconsiderou seu protesto pela apresentação posterior da DCTF retificada. Como é de elementar sabença, no exercício de seu mister, este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais promove a verificação da legalidade dos atos administrativos produzidos no curso do procedimento fiscal e do julgamento em primeira instância, cotejando os fatos identificados e os efetivamente ocorridos com a legislação tributária correspondente. No caso ora sob análise, temos que o contribuinte, utilizando de indébito tributário decorrente de pagamento a maior ou indevido, extinguiu débitos de sua responsabilidade, nos termos do art. 74 da Lei 9.430/96: Art. 74. O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizálo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão. § 1o A compensação de que trata o caput será efetuada mediante a entrega, pelo sujeito passivo, de declaração na qual constarão informações relativas aos créditos utilizados e aos respectivos débitos compensados.. § 2o A compensação declarada à Secretaria da Receita Federal extingue o crédito tributário, sob condição resolutória de sua ulterior homologação. (...) Fl. 90DF CARF MF 6 § 5º O prazo para homologação da compensação declarada pelo sujeito passivo será de 5 (cinco) anos, contado da data da entrega da declaração de compensação. Dentro do lapso temporal legal, a Autoridade Administrativa emitiu o Despacho Decisório de fl. 05, por identificar que o pagamento que lastreava o crédito utilizado na compensação estaria integralmente comprometido com a liquidação de débito confessado pelo contribuinte em DCTF. Por sua vez, o recorrente reconhece que houve erro nas informações prestadas na DCTF ativa na data análise da DCOMP, tendo apresentado a impugnação alegando que estaria levantando internamente toda a documentação probante do seu direito creditório e providenciando a retificação da DCTF. Como se vê, pelas palavras do próprio recorrente, o crédito utilizado na DCOMP apresentada em junho de 2007 ainda não havia sido levantado na época da manifestação de inconformidade, em 2009. Tampouco foi juntada aos autos a DCTF retificadora, a qual foi, conforme informações disponíveis nos sistemas da RFB, apresentada em 03/12/2009, evidentemente após ciência do inteiro teor do Despacho Decisório ora sob análise. Com a ressalva de que, neste caso, a retificação ocorreu mais de cinco anos após o recolhimento alegadamente indevido, o que já não permitiria sua utilização em razão do preceito contido no inciso I do art. 168 do CTN. Assim, dispõe o DecretoLei nº 2.124/1984: Art. 5º O Ministro da Fazenda poderá eliminar ou instituir obrigações acessórias relativas a tributos federais administrados pela Secretaria da Receita Federal. § 1º O documento que formalizar o cumprimento de obrigação acessória, comunicando a existência de crédito tributário, constituirá confissão de dívida e instrumento hábil e suficiente para a exigência do referido crédito. Portanto, considerando que, no momento da ulterior homologação do procedimento compensatório, de fato, os valores confessados pelo contribuinte como devidos, por meio de instrumento hábil e suficiente a sua exigência, não deixavam dúvidas da inexistência de crédito passível de restituição ou compensação. A criação do Sistema de Controle de CréditosSCC objetivou dar maior celeridade e segurança à necessária conferência dos pedidos de restituição, ressarcimentos e declarações de compensação formalizados pelos contribuintes. Naturalmente, tratase de ferramenta de extrema utilidade e eficiência quando batimentos de sistemas podem indicar a existência dos direitos pleiteados. Por outro lado, quando a complexidade da demanda exige, remanesce a necessidade de análise manual dos créditos pleiteados. Das situações possíveis de serem tratadas eletronicamente, sem sombra de dúvida, os indébitos tributários decorrentes de pagamentos indevidos ou a maior são, como regra, os que apresentam menor complexidade de análise, já que basta o SCC localizar o pagamento, identificar suas características e verificar, no sistema próprio, se há débitos compatíveis que demonstrem, no todo ou em parte, a ocorrência de um pagamento indevido ou a maior. Assim, não merece prosperar a alegação da defesa sobre a suposta incapacidade dos sistemas da RFB em cruzar informações. Ora, o sistema foi preciso em suas Fl. 91DF CARF MF Processo nº 10880.679893/200952 Acórdão n.º 2201004.331 S2C2T1 Fl. 89 7 verificações e as alegações recursais sobre o erro no preenchimento da DCTF apenas corroboram a excelência do trabalho efetuado pelos sistemas da RFB. Afinal, nem mesmo o contribuinte havia apurado a efetiva existência do seu direito creditório quando da apresentação da DCOMP ou da impugnação. Menos procedente ainda é a argumentação recursal de que o contribuinte deveria ter sido instado a apresentar explicações à Fazenda Nacional. Se assim fosse, em particular nestes casos mais simples, do que teria adiantado a construção de um sistema eletrônico para tratamento de demandas dessa natureza, já que um simples cotejo de informações declaradas daria lugar a um lento e manual procedimento fiscal? Portando, em uma análise primária, notase que a não homologação em discussão é procedente, o que não impede que se reconheça, em respeito à verdade material, que tenha havido algum erro de fato que justifique sua revisão. Contudo, para tanto, necessário que sejam apresentados os elementos que comprovem a ocorrência de tal erro. Veja o que preceitua a Lei 13.105/2015 (Código de Processo Civil): Art. 373. O ônus da prova incumbe: I ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito; II ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor. Assim, caso a retificação tivesse ocorrido antes do procedimento de homologação, decerto que caberia ao Fisco buscar elementos que apontassem eventual impropriedade na alteração para menor do débito anteriormente declarado. Contudo, efetuada a retificação em momento posterior àquele em que o Fisco exerce com precisão o seu direito, passa ser do contribuinte o ônus de provar a existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito da Fazenda. Ocorre que o contribuinte limitase a contestar a Decisão recorrida afirmando a ocorrência de mero erro de informação e que estaria providenciando o levantamento do seu crédito e a retificação da DCTF. Ora, não merece prosperar tais conclusões. Não foi trazida aos autos nenhuma documentação que tenha sido produzida em tal levantamento e que pudesse lastrear a alegação de erro. Por outro lado, a DCTF retificadora, ainda que não haja impedimento para que seja apresentada após a não homologação de uma compensação, por si só não se constituiu em elemento capaz de confirmar a correção dos dados nela inseridos. As manifestações doutrinárias e os precedentes administrativos colacionados no recurso não vinculam a presente análise, sendo certo que tantas outras decisões em sentido oposto poderiam ser citadas, com se verifica no Acórdão nº 3201001.713 da 2ª Câmara/1ª Turma Ordinária: DÉBITO INFORMADO EM DCTF. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO DO ERRO A simples retificação de DCTF para alterar valores originalmente declarados, desacompanhada de documentação hábil e idônea, não pode ser admitida para modificar Despacho Decisório. Fl. 92DF CARF MF 8 COMPENSAÇÃO. DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA. Constatada a inexistência do direito creditório por meio de informações prestadas pelo interessado à época da transmissão da Declaração de Compensação, cabe a este o ônus de comprovar que o crédito pretendido já existia naquela ocasião. Quanto à alegação de que a Autoridade recorrida desconsiderou seu protesto pela apresentação posterior da DCTF retificada, bem assim quanto à sugestão para conversão do julgado em diligência, é evidente que não poderia a DRJ suspender o julgamento sobre a procedência de um crédito pleiteado em 2007, quando já deveria ter sido apurada a sua liquidez e certeza, para aguardar o contribuinte a efetuar o levantamento de seu suposto direito. Notase que, mesmo sabendo da necessidade de apresentação de elementos probatórios, do mesmo modo agiu o recorrente ao apresentar seu recurso voluntário, lastreando o suposto direito ao crédito unicamente no erro que teria levado à retificação da DCTF levada a termo após o Despacho Decisório de não homologação, quando já decorridos quase 5 anos do fato gerador que pretende ver alterado. É inegável que, comprovada a ocorrência de erro que justifique a alteração de ato administrativo que tenha constituído crédito tributário em razão de infração à legislação tributária, ou mesmo negado direito pleiteado pelo contribuinte, pode a Administração, diante do seu dever de auto tutela, reconhecer efeitos de ofício. Contudo, não há nos autos nenhuma evidência da ocorrência de tal erro, que se mostra presente apenas nas alegações do recorrente. Assim, não tendo sido apresentado pelo recorrente elementos que justificassem a conversão do julgamento em diligência ou que comprovassem os supostos erros de fato que levaram à retificação da DCTF em momento posterior à Decisão administrativa, correta a decisão recorrida ao negar a conversão do julgamento em diligência e ao entender improcedente a manifestação de inconformidade. Por fim, não há nada nos autos que indique eventual ofensa aos Princípios da Estrita Legalidade, da Verdade Material, da Razoabilidade ou da Proporcionalidade. Afinal, todo o procedimento foi efetuado de acordo com os elementos de fato e de direito disponíveis; não foi efetivamente comprovada a ocorrência de erro de fato; a cobrança de um débito indevidamente compensado é medida que se impõe como consequência da não homologação da compensação, devendo sobre estes incidir os acréscimos legais previstos para os casos de pagamento a destempo. Assim, nego provimento ao recurso voluntário neste tema. DO ESCORREITO PROCEDIMENTO DE COMPENSAÇÃO REALIZADO PELA ORA RECORRENTE Sustenta a defesa que, apresentada a DCTF retificadora, a qual corrigiria equívoco contido na DCTF ativa no momento da análise da compensação declarada, cai por terra qualquer dúvida quanto à liquidez e certeza do crédito pleiteado. Afirma que tal equívoco é perfeitamente sanável até mesmo de ofício, já que o fisco que tem livre acesso à escrituração fiscal da recorrente. Por fim, não tendo sido possível apresentar a manifestação de inconformidade com a instrução da documentação acostada ao recurso voluntário, requer sua apreciação. Fl. 93DF CARF MF Processo nº 10880.679893/200952 Acórdão n.º 2201004.331 S2C2T1 Fl. 90 9 Ao contrário do que quer fazer crer a defesa, mesmo com o recurso voluntário, nenhuma documentação comprobatória do direito pleiteado foi apresentada. Os argumentos em tela foram aqui reproduzidos exclusivamente em respeito ao esforço argumentativo do recorrente, mas não merecem qualquer acolhida, devendo às questões do ônus da prova e do conteúdo probatório contido nos autos serem aplicadas as razões e fundamentos legais citados no item precedente, que adoto com razão de decidir para, da mesma forma, negar provimento ao recurso voluntário no tema em questão. Conclusão Por tudo que consta nos autos, bem assim nas razões e fundamentos legais que integram o presente, nego provimento ao recurso voluntário. Carlos Alberto do Amaral Azeredo Relator Fl. 94DF CARF MF
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Numero do processo: 11080.722781/2010-41
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Mar 20 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Apr 16 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/09/1999 a 31/12/2000
CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS. SOCIEDADE DE ECONOMIA MISTA. CONSTRUÇÃO CIVIL. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. INEXISTÊNCIA.
A Administração Pública não responde solidariamente por créditos previdenciários devidos pela empresa contratada para prestação de serviços de construção civil, reforma ou acréscimo, exceto nos casos de cessão de mão-de-obra.
Numero da decisão: 9202-006.587
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar-lhe provimento. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplica-se o decidido no julgamento do processo 11080.722524/2010-17, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
(assinado digitalmente)
Maria Helena Cotta Cardozo - Presidente em exercício e Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Maria Helena Cotta Cardozo (Presidente em Exercício).
Nome do relator: LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS
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SOCIEDADE DE ECONOMIA MISTA. CONSTRUÇÃO CIVIL. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. INEXISTÊNCIA. A Administração Pública não responde solidariamente por créditos previdenciários devidos pela empresa contratada para prestação de serviços de construção civil, reforma ou acréscimo, exceto nos casos de cessão de mãodeobra. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em darlhe provimento. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplicase o decidido no julgamento do processo 11080.722524/201017, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo Presidente em exercício e Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Maria Helena Cotta Cardozo (Presidente em Exercício). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 08 0. 72 27 81 /2 01 0- 41 Fl. 403DF CARF MF 2 Relatório Tratase de Recurso Especial interposto pela Contribuinte contra o Acórdão de Recurso Voluntário, no qual restou consignada a seguinte ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/09/1999 a 31/12/2000 CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. CONSTRUÇÃO CIVIL. SOLIDARIEDADE. ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA. PARECER AGU AC 55/ 2006. ALCANCE. Os efeitos do Parecer AGU nº AC55/ 2006 DOU de 24/11/2006 alcançam, tão somente, os Contratos Administrativos celebrados pela Administração Pública direta, circunstância em que Poder Público atua com supremacia sobre as empresas privadas contratadas, mediante cláusulas e preceitos de Direito Público previstos no Capítulo III da Lei nº 8.666/93, não irradiando efeitos sobre as Sociedades de Economia Mista, pessoas jurídicas de direito privado, eis que tais empresas atuam no mercado de bens e serviços em igualdade de condições que as demais empresas privadas, e cujos contratos regemse pelas normas de Direito Privado. LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO. NFLD. ATO ADMINISTRATIVO. PRESUNÇÃO DE VERACIDADE E LEGALIDADE. INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA. Tendo em vista o consagrado atributo da presunção de veracidade que caracteriza os atos administrativos, gênero do qual o lançamento tributário é espécie, operase a inversão do encargo probatório, repousando sobre o Notificado o ônus de desconstituir o lançamento ora em consumação. Havendo um documento público com presunção de veracidade não impugnado eficazmente pela parte contrária, o desfecho há de ser em favor dessa presunção. CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. CONSTRUÇÃO CIVIL. O proprietário, o dono da obra ou condômino da unidade imobiliária, qualquer que seja a forma de contratação da construção, reforma ou acréscimo, são solidários com o construtor, e estes com a subempreiteira, pelo cumprimento das obrigações para com a Seguridade Social, admitida a retenção de importância a este devida para garantia do cumprimento dessas obrigações, não se aplicando, em qualquer hipótese, o benefício de ordem. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. CONSTRUÇÃO CIVIL. ARBITRAMENTO DA BASE DE CÁLCULO. LEGALIDADE. Nas hipóteses em que o cálculo do tributo tiver por base, ou tomar em consideração, o valor ou o preço de bens, direitos, Fl. 404DF CARF MF Processo nº 11080.722781/201041 Acórdão n.º 9202006.587 CSRFT2 Fl. 3 3 serviços ou atos jurídicos, a autoridade lançadora, mediante processo regular, poderá arbitrar o valor da base de cálculo ou os aludidos preços, sempre que forem omissos ou não merecerem fé as declarações ou os esclarecimentos prestados, ou os documentos expedidos pelo sujeito passivo ou pelo terceiro legalmente obrigado. Em caso de recusa ou sonegação de qualquer documento ou informação, ou sua apresentação deficiente, o fisco federal pode inscrever de ofício importância que reputar devida, cabendo à empresa o ônus da prova em contrário. A utilização de percentual definido em ato normativo, incidente sobre o valor dos serviços contidos em notas fiscais, para fins de apuração indireta da base de cálculo das contribuições previdenciárias, constitui procedimento que observa os princípios da legalidade e da proporcionalidade. CERTIDÃO NEGATIVA DE DÉBITO. ELISÃO DA SOLIDARIEDADE. IMPOSSIBILIDADE. A CND apenas certifica que, no momento de sua emissão, não havia crédito tributário formalmente constituído em desfavor da empresa signatária da certidão, circunstância que não afasta o direito da Fazenda Pública de constituir e cobrar qualquer débito eventualmente apurado após a sua emissão, conforme ressalvado na própria CND. A apresentação de CND emitida em nome de empresa prestadora de serviços não é suficiente para elidir a responsabilidade solidária na construção civil. A elisão somente é possível com a comprovação do recolhimento da contribuição devida, pela apresentação dos documentos exigidos pela legislação de regência. Recurso Voluntário Negado Conforme consta do auto de infração, os objetos dos lançamentos são as contribuições sociais destinadas à Seguridade Social correspondentes a: II remuneração paga aos segurados empregados das empresas executoras de obras de construção civil, incluída em notas fiscais, faturas e recibos, pelas quais o Banco do Brasil, na condição de contratante dos serviços, responde solidariamente, haja vista que não houve elisão da responsabilidade solidária nos termos da legislação aplicável, a seguir fundamentada, cujo lançamento está codificado como “SC1 – SOLIDA. CONST. CIVIL ANTES 1999”; III remuneração paga aos segurados empregados das empresas prestadoras serviços com cessão de mãodeobra, incluída em notas fiscais, faturas e recibos, pelas quais o Banco do Brasil, na condição de contratante dos serviços, responde solidariamente, haja vista que não houve elisão da responsabilidade solidária nos termos da legislação aplicável, a seguir fundamentada, cujo lançamento está codificado como “SM1 – SOLIDARIEDADE CMO ANTES 1999”. Fl. 405DF CARF MF 4 Especificamente quanto aos fatos geradores da Solidariedade na Construção Civil e por Cessão de MãodeObra: a) fazem parte do crédito previdenciário as contribuições devidas pela notificada, destinadas à Seguridade Social, correspondentes à parte da empresa (FPAS) e dos segurados empregados, ao financiamento da complementação das prestações por acidente do trabalho (Seguro de Acidente de TrabalhoSAT) e ao financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa; b) as contribuições previdenciárias destinadas a Terceiros não foram incluídas na presente notificação, tendo em vista o entendimento do Parecer CJ/MPAS n.º 1.710/99. Irresignada, a ora Recorrente impugnou a autuação alegando, em síntese: a necessidade de chamamento ao processo da empresa executora, responsável pelo recolhimento tributário, a fim de que se apurasse a real existência dos débitos autuados, em observância aos princípios da garantia de defesa e da verdade material; a impossibilidade de enquadrar o Impugnante como responsável solidário, já que a responsabilidade pelo recolhimento do tributo foi assumida pela empresa contratada, esta na forma de licitação pública; a autuação indevida, por não lhe ter sido garantido o benefício de ordem, cobrando em primeiro lugar, da contribuinte propriamente dita, já que a redação do art. 30, inciso IV da Lei n. 8.212/91, até dezembro de 1997 não vedava sua aplicação; e a irregularidade na apuração do lançamento do crédito tributário. A Delegacia da Receita Federal de Julgamento entendeu pela improcedência da impugnação apresentada, mantendo o crédito tributário exigido, o que gerou a interposição de Recurso Voluntário, ao qual foi negado provimento. Posteriormente, foi interposto Recurso Especial pela Contribuinte, no qual, acerca da divergência, a Recorrente sustenta que o Acórdão de Recurso Voluntário adotou entendimento divergente da 1ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da 2ª Seção de Julgamento do CARF (acórdão n.º 2401003.200), merecendo, por isso, reanálise do tema: responsabilidade solidária de sociedade de economia mista na contratação de obra de construção civil. Foi realizado exame de admissibilidade, restando disposta a seguinte conclusão: Do exposto, verificase que foram atendidos os pressupostos de admissibilidade do recurso especial previstos nos arts. 67 e 68 do Anexo II do RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343 de 09/06/2015, razão pela qual é de se DAR SEGUIMENTO ao pedido do recorrente para que seja reapreciada a seguinte matéria: responsabilidade solidária de sociedade de economia mista na contratação de obra de construção civil art. 30,VI da lei 8212/91. Cabe destacar que o acórdão paradigma trata de situação fática idêntica a dos autos, referindose ao mesmo tributo e à mesma parte (Banco do Brasil). No que se referem às razões de reforma do Acórdão vergastado, a Recorrente aduz, em síntese, que: Fl. 406DF CARF MF Processo nº 11080.722781/201041 Acórdão n.º 9202006.587 CSRFT2 Fl. 4 5 a) considerando que o lançamento objurgado não se refere a contratos formados por cessão de mãodeobra, mas sim, exclusivamente, para realização de obras de construção civil contratadas mediante empreitada, cujo conceito não se equipara a celebração de contratos mediante cessão de mãodeobra, há que se reconhecer a inexistência de responsabilidade solidária; b) com base no Parecer AGU n.º AC55/2006 e respaldado no entendimento deste Conselho (Súmula CARF n.º 66), resta indene de dúvida que a Administração Pública não responde solidariamente por créditos previdenciários de empresas contratadas para prestação de serviços de construção civil, como é exatamente o caso das contratações realizadas pelo Recorrente, sociedade de economia mista; c) deve ser promovido o cancelamento do crédito legal constituído, com o reconhecimento da nulidade da autuação. Foram apresentadas contrarrazões pela Procuradoria da Fazenda Nacional, nas quais expressamente restou consignada a concordância com a demonstração da divergência jurisprudencial apontada pela Recorrente, nos seguintes termos: O cotejo levado a cabo pela Recorrente permite constatar que efetivamente foi demonstrada a alegada divergência jurisprudencial: enquanto no caso do acórdão recorrido entendeuse que sociedade de economia mista responde solidariamente por contratação de obra de construção civil em razão do art. 30,VI da lei 8212/91, o paradigma decidiu em sentido contrário. Quanto às razões do improvimento do Recurso Especial interposto pelo contribuinte, a Procuradoria dispôs, em síntese: a) o alegado pelo contribuinte de que o próprio STJ confirma a não aplicabilidade da Responsabilidade Solidária em relação à sociedade de economia mista não procede para o caso em tela, eis que o citado acórdão do Superior Tribunal de Justiça trata da Responsabilidade Solidária prevista quando da contratação de serviços mediante cessão de mãodeobra (REsp 417.794RS, Relator Min. Luiz Fux. – 1ª Turma); b) não é possível aceitar os argumentos expostos no tópico anterior, uma vez que o lançamento de que trata este processo não é de responsabilidade solidária decorrente da execução de contrato de cessão de mão de obra, de acordo com o artigo 31 da Lei 8.212/1991, mas de responsabilidade solidária decorrente de serviços de construção civil, de acordo com o artigo 30, VI, da Lei 8.212/1991. Fazse necessário destacar que o Recurso Especial sob análise tratase de Paradigma, de modo que o resultado consignado no presente julgamento será aplicado aos demais processos com fundamento em idêntica questão de direito que foram distribuídos no mesmo lote, consoante o disposto no art. 47, § 1º e §2º, do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), abaixo transcrito: Fl. 407DF CARF MF 6 Art. 47. Os processos serão sorteados eletronicamente às Turmas e destas, também eletronicamente, para os conselheiros, organizados em lotes, formados, preferencialmente, por processos conexos, decorrentes ou reflexos, de mesma matéria ou concentração temática, observandose a competência e a tramitação prevista no art. 46. § 1º Quando houver multiplicidade de recursos com fundamento em idêntica questão de direito, o Presidente de Turma para o qual os processos forem sorteados poderá sortear 1 (um) processo para definilo como paradigma, ficando os demais na carga da Turma. § 2º Quando o processo a que se refere o § 1º for sorteado e incluído em pauta, deverá haver indicação deste paradigma e, em nome do Presidente da Turma, dos demais processos aos quais será aplicado o mesmo resultado de julgamento. Portanto, aplicase ao presente a sistemática de recursos repetitivos prevista no Regimento Interno da Casa. É o relatório. Voto Conselheira Maria Helena Cotta Cardozo Relatora Este processo foi julgado na sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9202006.580, de 20/03/2018, proferido no julgamento do processo 11080.722524/201017, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio nos termos regimentais, o inteiro teor do voto proferido naquela decisão (Acórdão 9202006.580): Conheço do recurso, pois se encontra tempestivo e presentes os requisitos de admissibilidade. De conformidade com o narrado, a divergência objeto da controvérsia é a responsabilidade solidária da sociedade de economia mista na contratação de obra de construção civil. Sobre a aptidão da mencionada divergência suscitada pela Recorrente para fins de conhecimento do Recurso, houve concordância da Procuradoria da Fazenda Nacional. Apesar da referida concordância, a Procuradoria da Fazenda, durante a sustentação oral proferida, quando do início do julgamento do recurso sob análise, suscitou o seu não conhecimento. Não assiste razão à Fazenda Nacional, tendo em vista que restou configurada a divergência argüida, pois o acórdão paradigma Fl. 408DF CARF MF Processo nº 11080.722781/201041 Acórdão n.º 9202006.587 CSRFT2 Fl. 5 7 (n.º 2401003.200) trata de situação fática idêntica, mesmo tributo e mesma parte, inclusive (Banco do Brasil), em que foi aplicado entendimento jurídico diverso do posicionamento adotado pelo acórdão recorrido (sobre o art. 30, inciso VI, da Lei 8.212/91). Desse modo, assentou o colegiado pelo conhecimento do Recurso Especial interposto pela Contribuinte. No que se refere ao mérito do recurso, assevera a Recorrente que, com base no Parecer AGU n.º AC55/2006 e respaldado no entendimento deste Conselho (Súmula CARF n.º 66), resta indene de dúvida que a Administração Pública não responde solidariamente por créditos previdenciários de empresas contratadas para prestação de serviços de construção civil, como é exatamente o caso das contratações realizadas pelo Recorrente, sociedade de economia mista. Por outro lado, a PFN alega a impossibilidade de aceitação dos argumentos da Contribuinte, uma vez que o REsp 417.794RS citado no Recurso sob análise trata da responsabilidade solidária prevista quando da contratação de serviços mediante cessão de mãodeobra, de acordo com o art. 31 a Lei 8.212/91, não sendo o caso dos autos, que dispõe, na realidade, sobre a responsabilidade solidária decorrente de serviços de construção civil, de acordo com o art. 30, VI, da Lei 8.212/91. Assim, assevera a Procuradoria que: modificar o julgado importaria em violação ao referido dispositivo legal, o que não pode ser feito na via administrativa (Súmula n. 2 do CARF). Estabelecidos os contornos da controvérsia, impende discorrer sobre a natureza jurídica do Banco do Brasil S.A, que é uma entidade dotada de personalidade jurídica de direito privado, criada por lei para a exploração de atividade econômica, sob a forma de sociedade anônima, cujas ações com direito a voto pertencem em sua maioria à União, enquadrandose, nos termos do DecretoLei 200/1967, como sociedade de economia mista. Pleiteia a Recorrente a aplicação, ao presente caso, do Enunciado de Súmula CARF 66 abaixo transcrito: Súmula CARF nº 66: Os Órgãos da Administração Pública não respondem solidariamente por créditos previdenciários das empresas contratadas para prestação de serviços de construção civil, reforma e acréscimo, desde que a empresa construtora tenha assumido a responsabilidade direta e total pela obra ou repasse o contrato integralmente. Tendo em vista que, ao editar os enunciado de súmula, os tribunais devem aterse às circunstâncias fáticas dos precedentes que motivaram sua criação, nos termos do art. 926, § 2º, do CPC, para melhor avaliar a subsunção do presente caso ao disposto na Súmula CARF n.º 66, foi realizado o distinguishing entre o caso concreto analisado e os paradigmas que orientaram a formação da Súmula mencionada. Fl. 409DF CARF MF 8 Um dos paradigmas relevantes é o Acórdão n.º 20600.611, da Fundação Clóvis Salgado e Outros, que nega provimento a Recurso de Ofício em razão da inexistência de responsabilidade solidária na construção civil, conforme a ementa baixo transcrita: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/11/1997 a 31/07/1998 Ementa: RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA — CONSTRUÇÃO CIVIL — ÓRGÃO PÚBLICO — FUNDAMENTO LEGAL ART. 30, INCISO VI LEI 8.212/1991 —INEXISTÊNCIA. Diante do que prevê o artigo 71, § 2° da Lei n° 8.666/93, com a redação dada pela Lei n° 9.032/95, somente nas situações previstas no art. 31 da Lei n° 8.212/1991, a Administração passou a responder solidariamente com o contratado pelas contribuições previdenciárias por ele devidas. Recurso de Oficio Negado Convém salientar que a contribuinte no referido processo é uma Fundação Estadual pertencente à administração indireta, da mesma forma que a Recorrente (Sociedade de Economia Mista). Nesse contexto, pareceme que a Súmula 66 trata da Administração pública direta e indireta, mas, impropriamente, se utiliza da expressão "órgão público". Sobre a abrangência do conceito de órgão público, José dos Santos Carvalho Filho, esclarece: Enquanto a Administração Direta é composta de órgãos internos do Estado, a Administração indireta se compõe de pessoas jurídicas, também denominadas de entidades. De acordo com o art. 4º, II, do Decretolei n.º 200/1967, a Administração Indireta compreende as seguintes categorias de entidades, dotadas, como faz questão de consignar a lei, de personalidade jurídica própria: a) as autarquias; b) as empresas públicas; c) as sociedades de economia mista; e d) as fundações públicas. Considerando o paradigma utilizado para a formação da Súmula 66, a interpretação mais adequada é a de que o Enunciado trata da Administração pública como um todo, não apenas de órgão público; compartimento na estrutura estatal a que são cometidas funções determinadas, sendo integrado por agentes que, quando as executam, manifestam a própria vontade do Estado; alcançando as entidades da administração pública indireta. Portanto, considero perfeitamente aplicável o referido Enunciado, desde que a empresa construtora tenha assumido a responsabilidade direta e total pela obra ou repasse o contrato integralmente. O requisito citado não foi objeto de discussão nos autos, pois a controvérsia se instaurou de forma mais ampla, existência ou não de responsabilidade da SEM na Construção Civil. Fl. 410DF CARF MF Processo nº 11080.722781/201041 Acórdão n.º 9202006.587 CSRFT2 Fl. 6 9 Pelo fato de o Banco do Brasil tratarse de sociedade de economia mista, fazendo parte da Administração Pública Federal, ele está submetido ao regramento especial disposto Lei nº 8666/93: Art. 1º Esta Lei estabelece normas gerais sobre licitações e contratos administrativos pertinentes a obras, serviços, inclusive de publicidade, compras, alienações e locações no âmbito dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. (...). Parágrafo único. Subordinamse ao regime desta Lei, além dos órgãos da administração direta, os fundos especiais, as autarquias, as fundações públicas, as empresas públicas, as sociedades de economia mista e demais entidades controladas direta ou indiretamente pela União, Estados, Distrito Federal e Municípios. O citado diploma dispõe, em seu art. 71, que as responsabilidades pelos encargos decorrentes da execução dos contratos firmados com a Administração Pública deverão ser atribuídas apenas ao contratado, exceto nos casos em que a execução do contrato seja realizada mediante a cessão de mão deobra, assim vejamos: Art. 71. O contratado é responsável pelos encargos trabalhistas, previdenciários, fiscais e comerciais resultantes da execução do contrato. § 1º A inadimplência do contratado, com referência aos encargos trabalhistas, fiscais e comerciais não transfere à Administração Pública a responsabilidade por seu pagamento, nem poderá onerar o objeto do contrato ou restringir a regularização e o uso das obras e edificações, inclusive perante o Registro de Imóveis. (Redação dada pela Lei nº 9.032, de 1995) § 2° A Administração Pública responde solidariamente com o contratado pelos encargos previdenciários resultantes da execução do contrato, nos termos do art. 31 da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 19911. (Redação dada pela Lei nº 9.032, de 1995). Assim, em razão de os contratos realizados com a Recorrente serem regidos pela Lei de Licitações, entendo cumprido o requisito previsto na Súmula em questão, em razão da natureza do contrato administrativo realizado a partir do procedimento licitatório, bem como diante da objeto social do Banco (operações bancárias ativas, passivas e acessórias, a prestação de serviços bancários, de intermediação e suprimento financeiro sob suas múltiplas formas e o exercício de quaisquer atividades facultadas às instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional). Conforme já identificado nos Fundamentos Legais do Débito, fls. 8 e 9, a responsabilidade solidária atribuída à Recorrente foi Fl. 411DF CARF MF 10 fundamentada no art. 30, inciso VI, da Lei 8.212/91, que assim dispõe: Art. 30. A arrecadação e o recolhimento das contribuições ou de outras importâncias devidas à Seguridade Social obedecem às seguintes normas: VI o proprietário, o incorporador definido naLei nº 4.591, de 16 de dezembro de 1964, o dono da obra ou condômino da unidade imobiliária, qualquer que seja a forma de contratação da construção, reforma ou acréscimo, são solidários com o construtor, e estes com a subempreiteira, pelo cumprimento das obrigações para com a Seguridade Social, ressalvado o seu direito regressivo contra o executor ou contratante da obra e admitida a retenção de importância a este devida para garantia do cumprimento dessas obrigações, não se aplicando, em qualquer hipótese, o benefício de ordem;(...). Cumpre elucidar que a previsão trazida na Lei 8.666/93 tratase de norma especial que rege a responsabilidade dos entes da Administração Pública sobre encargos administrativos, devendo prevalecer sobre o art. 30, inciso VI, da Lei 8.212/91, que prescreve norma geral sobre responsabilidade solidária pelos débitos previdenciários decorrentes das obras de construção civil, independente de quem seja o contratante, o que se consubstancia na aplicação do princípio da especialidade, lex specialis derrogat generali. Vale destacar a aplicabilidade do Parecer AC nº 055/2006 da Advocacia Geral da União (AGU), aprovado pelo Presidente da República, também consolidando o entendimento de que a Administração Pública não poderá responder por créditos previdenciários devidos pela empresa contratada para prestação de serviços de construção civil, reforma ou acréscimo, nos termos do art. 30, VI da Lei 8.212/91, conforme ementa abaixo transcrita: PREVIDENCIÁRIO. ADMINISTRATIVO. CONTRATOS. OBRAS PÚBLICAS. CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA E RETENÇÃO. DEFINIÇÃO. I Desde a Lei nº 5.890/73, até a edição do DecretoLei nº 2.300/86, a Administração Pública respondia pelas contribuições previdenciárias solidariamente com o construtor contratado para a execução de obras de construção, reforma ou acréscimo de imóvel, qualquer que fosse a forma da contratação. II Da edição do DecretoLei nº 2.300/86, até a vigência da Lei nº 9.032/95, a Administração Pública não respondia, nem solidariamente, pelos encargos previdenciários devidos pelo contratado, em qualquer hipótese. Precedentes do STJ. III A partir da Lei nº 9.032/95, até 31.01.1999 (Lei nº 9.711/98, art. 29), a Administração Pública passou a responder pelas contribuições previdenciárias solidariamente com o cedente de mãodeobra contratado para a execução de serviços de construção civil executados mediante cessão de mãodeobra, nos termos do artigo 31 da Lei nº 8.212/91 (Lei nº 8.666/93, art. Fl. 412DF CARF MF Processo nº 11080.722781/201041 Acórdão n.º 9202006.587 CSRFT2 Fl. 7 11 71, § 2º), não sendo responsável, porém, nos casos dos contratos referidos no artigo 30, VI da Lei nº 8.212/91 (contratação de construção, reforma ou acréscimo). IV Atualmente, a Administração Pública não responde, nem solidariamente, pelas obrigações para com a Seguridade Social devidas pelo construtor ou subempreiteira contratados para a realização de obras de construção, reforma ou acréscimo, qualquer que seja a forma de contratação, desde que não envolvam a cessão de mãodeobra, ou seja, desde que a empresa construtora assuma a responsabilidade direta e total pela obra ou repasse o contrato integralmente (Lei nº 8.212/91, art. 30, VI e Decreto nº 3.048/99, art. 220, § 1º c/c Lei nº 8.666/93, art. 71). V Desde 1º.02.1999 (Lei nº 9.711/98, art. 29), a Administração Pública contratante de serviços de construção civil executados mediante cessão de mãodeobra deve reter onze por cento do valor bruto da nota fiscal ou fatura de prestação de serviços e recolher a importância retida até o dia dois do mês subseqüente ao da emissão da respectiva nota fiscal ou fatura, em nome da empresa contratada, cedente da mãodeobra (Lei nº 8.212/91, art. 31). Em virtude de a Advocacia Geral da União ter reconhecido, por meio de Parecer aprovado pelo Presidente da República, que a responsabilidade da Administração sobre as contribuições previdenciárias decorrentes dos contratos administrativos é restrita apenas aos casos de cessão de mãodeobra, tal entendimento deve ser seguido pelos órgãos da Administração, conforme determina o art. 40, §1º da Lei Complementar nº 73/93 abaixo transcrito: Art. 40. Os pareceres do Advogado Geral da União são por este submetidos à aprovação do Presidente da República. § 1º O parecer aprovado e publicado juntamente com o despacho presidencial vincula a Administração Federal, cujos órgãos e entidades ficam obrigados a lhe dar fiel cumprimento. Considerando que a matéria recorrida não se refere à execução de contratos mediante cessão de mãodeobra, concluise que, no presente caso, não há que se falar em responsabilidade solidária da Contribuinte pelos débitos previdenciários decorrentes de obras de construção civil, fundamentada no art. 30, inciso VI da Lei 8.212/12. Ademais, acerca dos argumentos da Procuradoria, tornase imperioso elucidar que a Recorrida centraliza suas contrarrazões na impossibilidade de aceitação dos argumentos da Contribuinte, uma vez que o REsp 417.794RS não seria aplicável ao caso, contudo a Recorrente não faz menção ao julgado citado, de modo que rejeito as sintéticas argumentações da Fazenda. Fl. 413DF CARF MF 12 Diante do exposto, voto por conhecer do recurso especial interposto pela Contribuinte e, no mérito, darlhe provimento. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, nos termos dos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, voto em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar lhe provimento. (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo Fl. 414DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13527.000053/2003-94
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Feb 22 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Apr 18 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 01/10/2002 a 31/12/2002
CRÉDITO PRESUMIDO. BASE DE CÁLCULO. INSUMOS ADQUIRIDOS DE PESSOAS FÍSICAS E DE COOPERATIVAS.
O cálculo do crédito presumido de IPI deve considerar os valores referentes às aquisições de cooperativas e pessoas físicas. Entendimento obrigatório em razão do disposto no Art. 62A do RICARF em conjunto com a decisão em sede de re curso repetitivo do STJ em RE n.º 993.164/MG.
Numero da decisão: 9303-006.348
Decisão:
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, em dar-lhe provimento. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em negar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Érika Costa Camargos Autran - Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas, Charles Mayer de Castro Souza, Érika Costa Camargos Autran, Andrada Márcio Canuto Natal, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Tatiana Midori Migiyama, Vanessa Marini Cecconello.
Nome do relator: ERIKA COSTA CAMARGOS AUTRAN
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BASE DE CÁLCULO. INSUMOS ADQUIRIDOS DE PESSOAS FÍSICAS E DE COOPERATIVAS. O cálculo do crédito presumido de IPI deve considerar os valores referentes às aquisições de cooperativas e pessoas físicas. Entendimento obrigatório em razão do disposto no Art. 62A do RICARF em conjunto com a decisão em sede de re curso repetitivo do STJ em RE n.º 993.164/MG. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, em darlhe provimento. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em negarlhe provimento. (assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 52 7. 00 00 53 /2 00 3- 94 Fl. 262DF CARF MF Processo nº 13527.000053/200394 Acórdão n.º 9303006.348 CSRFT3 Fl. 263 2 Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Érika Costa Camargos Autran Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas, Charles Mayer de Castro Souza, Érika Costa Camargos Autran, Andrada Márcio Canuto Natal, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Tatiana Midori Migiyama, Vanessa Marini Cecconello. Relatório Tratamse de Recursos Especiais de Divergência interpostos pelo Contribuinte e pela Fazenda Nacional contra o acórdão n.º 340200.282, de 18 de setembro de 2009 (fls. 179 a 188 do processo eletrônico), proferido Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção de Julgamento deste CARF, decisão que: I) por maioria de votos, deu provimento parcial ao recurso, para reconhecer o direito de aquisição de cooperativa; e II) pelo voto de qualidade, negou provimento ao recurso, quanto aquisições de pessoa física. A discussão dos presentes autos tem origem no pedido protocolado pelo Contribuinte de ressarcimento de créditos presumido de IPI, com base na Lei n° 9.363, de 1996 e Portaria MF n.° 38, de 1997, no valor de R$ 381.524,73, como ressarcimento das contribuições do PIS/Pasep e da Cofins incidentes nas aquisições de matériasprimas, produtos intermediários e materiais de embalagem empregados na industrialização de produtos exportados, relativo ao 4° trimestre de 2002, conforme pedido de ressarcimento de fl. 19, cumulado com o pedido de compensação de fl. 33. A DRF/Feira de Santana reconheceu parcialmente o direito creditório no valor de R$ 165.707,17 e compensou os débitos até o limite do crédito reconhecido, com base no Termo de Verificação Fiscal que excluiu da base de cálculo os valores relativos as notas fiscais de matériaprima, produto intermediário e material de embalagem adquiridos de empresas optantes do Simples, Cooperativas, pessoas físicas e empresas inativas. Fl. 263DF CARF MF Processo nº 13527.000053/200394 Acórdão n.º 9303006.348 CSRFT3 Fl. 264 3 O Contribuinte apresentou Manifestação de Inconformidade, alegando, em síntese, que: adquire sua matériaprima principal (couros e peles de caprinos) de pessoas fisicas. Explica que estas mercadorias são adquiridas, na feira, por comerciantes (intermediários) que as revendem para a indústria, mediante a emissão de nota fiscal avulsa de venda; dessa forma, o indeferimento parcial do Pedido de Ressarcimento decorre quase na sua totalidade da exclusão dos valores relativamente às referidas aquisições de pessoas físicas, sendo pouco representativo — no contexto geral — as aquisições de cooperativas e empresas optantes pelo SIMPLES; as Instruções Normativas SRF nº 23/1997 e nº 103/1997 extrapolaram os limites fixados pelo legislador, na medida que excluíram as aquisições de pessoas físicas e cooperativas, da base de cálculo do benefício do crédito presumido, uma vez que o disposto no artigo 1° da Lei n" 9.363, de 1996, não estabelece nenhuma restrição, quaisquer aquisições de matéria prima, materiais de embalagens e produtos intermediários devem ser consideradas para fins de apuração do valor do benefício fiscal; não cabe, pois, ao intérprete criar uma exceção não contida no texto legal, isto é, não é juridicamente válido sustentar que apenas as aquisições efetuadas de pessoas jurídicas fazem jus ao benefício, posto que isso implicaria afronta ao princípio da legalidade, bem como afronta ao disposto no art. 100 do CTN. Ainda descreve sobre ato administrativo e seus pressupostos de validade, sobre o princípio da legalidade e da impossibilidade de que normas complementares contrariem as leis que visam regulamentar, nesse sentido cita e transcreve decisões judiciais e administrativas (Conselho de Contribuintes e Câmara Superior de Recursos Fiscais), que corroboram com sua tese. Por fim, requer que a impugnação seja julgada procedente, com vistas a ser deferido integralmente o ressarcimento do crédito presumido de IPI relativo a contribuição para o PIS e COHNS no valor de R$ 215.817,56. Fl. 264DF CARF MF Processo nº 13527.000053/200394 Acórdão n.º 9303006.348 CSRFT3 Fl. 265 4 A DRJ em Salvador/BA julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade apresentada pelo contribuinte. Irresignado com a decisão contrária ao seu pleito, o contribuinte apresentou recurso voluntário, o Colegiado decidiu, assim: I) por maioria de votos, deu provimento parcial ao recurso, para reconhecer o direito de aquisição de cooperativa; e II) pelo voto de qualidade, negou provimento ao recurso, quanto aquisições de pessoa física, conforme acórdão assim ementado in verbis: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS – IPI Período de apuração: 01/10/2002 a 31/12/2002 BASE DE CÁLCULO. INSUMOS ADQUIRIDOS DE NÃO CONTRIBUINTES COOPERATIVAS. A partir da revogação da isenção deferida as cooperativas de produção, em relação as contribuições ao PIS e à COFINS, é legitima a inclusão das aquisições a essas entidades na base de cálculo do crédito presumido instituído pela Lei n° 9.363/96. CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI. BASE DE CÁLCULO. INSUMOS ADQUIRIDOS DE NÃO CONTRIBUINTES. PESSOAS FÍSICAS Excluemse da base de cálculo do crédito presumido do IPI as aquisições de insumos que não sofreram incidência das contribuições ao PIS e à COFINS no fornecimento ao produtorexportador. Recurso provido em parte. O Contribuinte interpôs Recurso Especial de Divergência (fls.192 a 210) em face do acordão recorrido que deu provimento parcial ao recurso voluntário, a divergência suscitada pelo Contribuinte, diz respeito ao direito à apuração do crédito presumido PIS/COFINS sobre as aquisições de pessoas físicas. Para comprovar a divergência jurisprudencial suscitada, o Contribuinte apresentou como paradigmas os acórdãos de números CSRF/ 0202.462 e 20180.508. A comprovação do julgado firmouse pela juntada de cópias de inteiro teor dos acórdãos, documento de fls. 212 a 224. Fl. 265DF CARF MF Processo nº 13527.000053/200394 Acórdão n.º 9303006.348 CSRFT3 Fl. 266 5 O Recurso Especial do Contribuinte foi admitido, conforme despacho de fls. 246 e 247, sob o argumento que no tocante à existência de dissídio jurisprudencial administrativo, procede a contradição assinalada pelo recorrente, tendo os acórdãos paradigmas, de fato, dado interpretação distinta ao tratamento do assunto em relação ao recorrido, qual seja, admitiram a inclusão de aquisições de pessoas físicas na apuração do crédito presumido de IPI da Lei n.º 9.363/96, como se depreende do exame de seus conteúdos. A Fazenda Nacional foi cientificada para apresentar contrarrazões, conforme se verifica às fls. 250 e não se manifestou. A Fazenda Nacional também interpôs Recurso Especial de Divergência (fls. 234 a 239) em face do acordão recorrido que deu provimento parcial ao recurso do Contribuinte, a divergência suscitada pela Fazenda Nacional, diz respeito ao direito do crédito presumido de IPI em relação às aquisições de cooperativas. Para comprovar a divergência jurisprudencial suscitada, a Fazenda Nacional apresentou como paradigma o acórdão de número 20180.528. A comprovação do julgado firmouse pela transcrição da ementa do acórdão no corpo da peça recursal. O Recurso Especial da Fazenda Nacional foi admitido, conforme despacho de fls. 248 e 249, sob o argumento que da leitura do acórdão divergente, houve interpretação conflitante com a esposada na decisão ora atacada, porquanto naquele restou fixado que as aquisições de pessoas físicas e de cooperativas, por não sofrerem a incidência de PIS/Pasep e Cofins, não devem compor a apuração do crédito presumido em tela, por ausência de previsão legal. Ainda, o Contribuinte protocolou documento de fls. 243 e 244, juntando cópia do ATO DECLARATORIO N° 14/2011 da Procuradoria Geral da Fazenda Nacional PGFN, que dispensou de apresentação de contestação, interposição de recursos e desistência Fl. 266DF CARF MF Processo nº 13527.000053/200394 Acórdão n.º 9303006.348 CSRFT3 Fl. 267 6 dos já interpostos, quando os processos versarem no sentido da ilegalidade da Instrução Normativa SRF n°23/1997. O Contribuinte solicitou manifestação da Fazenda Nacional quanto ao documento juntado e esta não manifestou sobre o teor do documento. É o relatório em síntese. Voto Conselheira Érika Costa Camargos Autran Relatora Os recursos especiais interpostos pela FAZENDA NACIONAL e pelo Contribuinte CAMPELO INDÚSTRIA E COMÉRCIO LTDA atendem aos pressupostos de admissibilidade, devendo, assim, ser conhecidos. No mérito, o Recurso Especial da Fazenda Nacional diz respeito ao direito do crédito presumido de IPI em relação às aquisições de cooperativas. De outro lado, o Recurso Especial interposto pelo Sujeito Passivo diz respeito ao direito à apuração do crédito presumido PIS/COFINS sobre as aquisições de pessoas físicas. Passase, então, ao exame do mérito da demanda. Tratase de matéria que não comportam maiores delongas por parte desta Câmara Superior, pois o tema, foi objeto de julgamento pelo Superior Tribunal de Justiça, por meio da sistemática dos recursos repetitivos do art. 543C do Código de Processo Civil de 1973 (correspondente ao art. 1.036 do Novo Código de Processo Civil), nos autos do REsp n° 993.164MG, de relatoria do Ministro Luiz Fux, decidindo a questão, vejamos: PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. IPI. CRÉDITO PRESUMIDO PARA RESSARCIMENTO DO VALOR DO PIS/PASEP E DA COFINS. EMPRESAS PRODUTORAS E EXPORTADORAS DE MERCADORIAS NACIONAIS. LEI 9.363/96. Fl. 267DF CARF MF Processo nº 13527.000053/200394 Acórdão n.º 9303006.348 CSRFT3 Fl. 268 7 INSTRUÇÃO NORMATIVA SRF 23/97. CONDICIONAMENTO DO INCENTIVO FISCAL AOS INSUMOS ADQUIRIDOS DE FORNECEDORES SUJEITOS À TRIBUTAÇÃO PELO PIS E PELA COFINS. EXORBITÂNCIA DOS LIMITES IMPOSTOS PELA LEI ORDINÁRIA. SÚMULA VINCULANTE 10/STF. OBSERVÂNCIA. INSTRUÇÃO NORMATIVA (ATO NORMATIVO SECUNDÁRIO). CORREÇÃO MONETÁRIA. INCIDÊNCIA. EXERCÍCIO DO DIREITO DE CRÉDITO POSTERGADO PELO FISCO. NÃO CARACTERIZAÇÃO DE CRÉDITO ESCRITURAL. TAXA SELIC. APLICAÇÃO. VIOLAÇÃO DO ARTIGO 535, DO CPC. INOCORRÊNCIA. 1. O crédito presumido de IPI, instituído pela Lei 9.363/96, não poderia ter sua aplicação restringida por força da Instrução Normativa SRF 23/97, ato normativo secundário, que não pode inovar no ordenamento jurídico, subordinandose aos limites do texto legal. 2. A Lei 9.363/96 instituiu crédito presumido de IPI para ressarcimento do valor do PIS/PASEP e COFINS, ao dispor que: "Art. 1º A empresa produtora e exportadora de mercadorias nacionais fará jus a crédito presumido do Imposto sobre Produtos Industrializados, como ressarcimento das contribuições de que tratam as Leis Complementares nos sete, de sete de setembro de 1970, 8, de três de dezembro de 1970, e de dezembro de 1991, incidentes sobre as respectivas aquisições, no mercado interno, de matérias primas, produtos intermediários e material de embalagem, para utilização no processo produtivo. Parágrafo único. O disposto neste artigo aplicase, inclusive, nos casos de venda a empresa comercial exportadora com o fim específico de exportação para o exterior.”. 3. O artigo 6º, do aludido diploma legal, determina, ainda, que "o Ministro de Estado da Fazenda expedirá as instruções necessárias ao cumprimento do disposto nesta Lei, inclusive quanto aos requisitos e periodicidade para apuração e para fruição do crédito presumido e respectivo ressarcimento, à definição de receita de exportação e aos documentos fiscais comprobatórios dos lançamentos, a esse título, efetuados pelo produtor exportador". 4. O Ministro de Estado da Fazenda, no uso de suas atribuições, expediu a Portaria 38/97, dispondo sobre o cálculo e a utilização do crédito presumido instituído pela Lei 9.363/96 e autorizando o Secretário da Receita Federal a Fl. 268DF CARF MF Processo nº 13527.000053/200394 Acórdão n.º 9303006.348 CSRFT3 Fl. 269 8 expedir normas complementares necessárias à implementação da aludida portaria (artigo 12). 5. Nesse segmento, o Secretário da Receita Federal expediu a Instrução Normativa 23/97 (revogada, sem interrupção de sua força normativa, pela Instrução Normativa 313/2003, também revogada, nos mesmos termos, pela Instrução Normativa 419/2004), assim preceituando: "Art. 2º Fará jus ao crédito presumido a que se refere o artigo anterior à empresa produtora e exportadora de mercadorias nacionais. § 1º O direito ao crédito presumido aplicase inclusive: I ¬ Quando o produto fabricado goze do benefício da alíquota zero; II ¬ nas vendas a empresa comercial exportadora, com o fim específico de exportação. § 2º O crédito presumido relativo a produtos oriundos da atividade rural, conforme definida no art. 2º da Lei nº 8.023, de 12 de abril de 1990, utilizados como matériaprima, produto intermediário ou embalagem, na produção bens exportados, será calculado, exclusivamente, em relação às aquisições, efetuadas de pessoas jurídicas, sujeitas às contribuições PIS/PASEP e COFINS.”. 6. Com efeito, o § 2º, do artigo 2º, da Instrução Normativa SRF 23/97, restringiu a dedução do crédito presumido do IPI (instituído pela Lei 9.363/96), no que concerne às empresas produtoras e exportadoras de produtos oriundos de atividade rural, às aquisições, no mercado interno, efetuadas de pessoas jurídicas sujeitas às contribuições destinadas ao PIS/PASEP e à COFINS. 7. Como de sabença, a validade das instruções normativas (atos normativos secundários) pressupõe a estrita observância dos limites impostos pelos atos normativos primários a que se subordinam (leis, tratados, convenções internacionais, etc.), sendo certo que, se vierem a positivar em seu texto uma exegese que possa irromper a hierarquia normativa sobrejacente, viciarse ão de ilegalidade e não de inconstitucionalidade (Precedentes do Supremo Tribunal Federal: ADI 531 AgR, Rel. Ministro Celso de Mello, Tribunal Pleno, julgado em 11.12.1991, DJ 03.04.1992; e ADI 365 AgR, Rel. Ministro Celso de Mello, Tribunal Pleno, julgado em 07.11.1990, DJ 15.03.1991). 8. Consequentemente, sobressai a "ilegalidade" da instrução normativa que extrapolou os limites impostos pela Lei 9.363/96, ao excluir, da base de Fl. 269DF CARF MF Processo nº 13527.000053/200394 Acórdão n.º 9303006.348 CSRFT3 Fl. 270 9 cálculo do benefício do crédito presumido do IPI, as aquisições (relativamente aos produtos oriundos de atividade rural) de matériaprima e de insumos de fornecedores não sujeito à tributação pelo PIS/PASEP e pela COFINS (Precedentes das Turmas de Direito Público: REsp 849287/RS, Rel. Ministro Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, julgado em 19.08.2010, DJe 28.09.2010; AgRg no REsp 913433/ES, Rel. Ministro Humberto Martins, Segunda Turma, julgado em 04.06.2009, DJe 25.06.2009; REsp 1109034/PR, Rel. Ministro Benedito Gonçalves, Primeira Turma, julgado em 16.04.2009, DJe 06.05.2009; REsp 1008021/CE, Rel. Ministra Eliana Calmon, Segunda Turma, julgado em 01.04.2008, DJe 11.04.2008; REsp 767.617/CE, Rel. Ministro Luiz Fux, Primeira Turma, julgado em 12.12.2006, DJ 15.02.2007; REsp 617733/CE, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, Primeira Turma, julgado em 03.08.2006, DJ 24.08.2006; e REsp 586392/RN, Rel. Ministra Eliana Calmon, Segunda Turma, julgado em 19.10.2004, DJ 06.12.2004). 9. É que: (i) "a COFINS e o PIS oneram em cascata o produto rural e, por isso, estão embutidos no valor do produto final adquirido pelo produtor exportador, mesmo não havendo incidência na sua última aquisição"; (ii) "o Decreto 2.367/98 do Regulamento do IPI, posterior à Lei 9.363/96, não fez restrição às aquisições de produtos rurais"; e (iii) "a base de cálculo do ressarcimento é o valor total das aquisições dos insumos utilizados no processo produtivo (art. 2º), sem condicionantes" (REsp 586392/RN). 10. A Súmula Vinculante 10/STF cristalizou o entendimento de que: "Viola a cláusula de reserva de plenário (CF, artigo 97) a decisão de órgão fracionário de tribunal que, embora não declare expressamente a inconstitucionalidade de lei ou ato normativo do poder público, afasta sua incidência, no todo ou em parte." 11. Entrementes, é certo que a exigência de observância à cláusula de reserva de plenário não abrange os atos normativos secundários do Poder Público, uma vez não estabelecido confronto direto com a Constituição, razão pela qual inaplicável a Súmula Vinculante 10/STF à espécie. 12. A oposição constante de ato estatal, administrativo ou normativo, impedindo a utilização do direito de crédito de IPI (decorrente da aplicação Fl. 270DF CARF MF Processo nº 13527.000053/200394 Acórdão n.º 9303006.348 CSRFT3 Fl. 271 10 do princípio constitucional da não cumulatividade), descaracteriza referido crédito como escritural (assim considerado aquele oportunamente lançado pelo contribuinte em sua escrita contábil), exsurgindo legítima a incidência de correção monetária, sob pena de enriquecimento sem causa do Fisco (Aplicação analógica do precedente da Primeira Seção submetido ao rito do artigo 543C, do CPC: REsp 1035847/RS, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 24.06.2009, DJe 03.08.2009). 13. A Tabela Única aprovada pela Primeira Seção (que agrega o Manual de Cálculos da Justiça Federal e a jurisprudência do STJ) autoriza a aplicação da Taxa SELIC (a partir de janeiro de 1996) na correção monetária dos créditos extemporaneamente aproveitados por óbice do Fisco (REsp 1150188/SP, Rel. Ministra Eliana Calmon, Segunda Turma, julgado em 20.04.2010, DJe 03.05.2010). 14. Igualmente, a apontada ofensa ao artigo 535, do CPC, não restou configurada, uma vez que o acórdão recorrido pronunciase de forma clara e suficiente sobre a questão posta nos autos. Salientese, ademais, que o magistrado não está obrigado a rebater, um a um, os argumentos trazidos pela parte, desde que os fundamentos utilizados tenham sido suficientes para embasar a decisão, como de fato ocorreu na hipótese dos autos. 15. Recurso especial da empresa provido para reconhecer a incidência de correção monetária e a aplicação da Taxa Selic. 16. Recurso especial da Fazenda Nacional desprovido. 17. Acórdão submetido ao regime do artigo 543C, do CPC, e da Resolução STJ 08/2008. Nos termos do art. 62, §1º, II, alínea “b”, do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF nº 343/2015, é obrigatória a reprodução das decisões proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça pela sistemática dos artigos 543B e 543C do Código de Processo Civil de 1973 ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015. Fl. 271DF CARF MF Processo nº 13527.000053/200394 Acórdão n.º 9303006.348 CSRFT3 Fl. 272 11 Art. 62. Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. (...) § 2º As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 – Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016) Ademais, cumpre ressaltar que quanto ao cômputo das aquisições não contribuintes (pessoas físicas ou cooperativas) na apuração do crédito presumido de IPI de que trata a Lei nº 9.363/96, existe Ato Declaratório nº 14/2011 da PGFN dispensando apresentação de contestação para esses casos nos seguintes termos: A PROCURADORIAGERAL DA FAZENDA NACIONAL, no uso da competência legal que lhe foi conferida ..., DECLARA que fica autorizada a dispensa de apresentação de contestação, de interposição de recursos e a desistência dos já interpostos, desde que inexista outro fundamento relevante: “nas ações e decisões judiciais que fixem o entendimento no sentido da ilegalidade da IN/SRF 23/1997, que, ao excluir da base de cálculo do benefício do crédito presumido do IPI as aquisições relativamente aos produtos da atividade rural, de matériaprima e de insumos de pessoas físicas, extrapolou os limites do art. 1º da Lei n. 9.363/1996”. JURISPRUDÊNCIA: AGRESP 913433/ES, REsp 627.941/CE, REsp 840.056/CE RESP 995285/PE, RESP 1008021/CE, RESP 921397/CE, RESP 840056/CE, RESP 767617/CE, todas do STJ. E no âmbito do STJ, existe inclusive Súmula a respeito deste tema, publicada em 13/08/2012: Fl. 272DF CARF MF Processo nº 13527.000053/200394 Acórdão n.º 9303006.348 CSRFT3 Fl. 273 12 Súmula 494: O benefício fiscal do ressarcimento do crédito presumido do IPI relativo às exportações incide mesmo quando as matériasprimas ou os insumos sejam adquiridos de pessoa física ou jurídica não contribuinte do PIS/PASEP. Por essas razões, voto no sentido dar o provimento ao Recurso Especial interposto pelo Contribuinte para reconhecer o direito do crédito em relação aos valores correspondentes às aquisições de matériasprimas, produtos intermediários e material de embalagem de pessoas físicas. E nego provimento ao Recurso Especial da Fazenda mantendo a decisão que reconheceu a inclusão na base de cálculo do crédito presumido de que trata a Lei nº 9.363/96 das aquisições efetuadas junto as cooperativas. E como voto. (assinado digitalmente) Érika Costa Camargos Autran Fl. 273DF CARF MF
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