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6744683 #
Numero do processo: 15983.720065/2015-11
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Mar 15 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu May 11 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Período de apuração: 01/01/2011 a 31/12/2013 PRELIMINAR. ERRO DE SUJEIÇÃO PASSIVA. NEGÓCIOS JURÍDICOS VINCULADOS AO SUJEITO PASSIVO. Considerando que os negócios jurídicos analisados possuem alguma conexão com o sujeito passivo, não é possível, em sede de preliminares, reconhecer de plano que não há relação pessoal e direta do mesmo com a situação que constituiu os fatos geradores imputados pelas autoridades fiscais. Preliminar rejeitada. PRELIMINAR. NULIDADE. LANÇAMENTO. FALTA DE FUNDAMENTAÇÃO LEGAL. Estando devidamente circunstanciado no lançamento fiscal as razões de fato e de direito que o lastreiam, e não verificado cerceamento de defesa, não há motivos para decretação de sua nulidade por falta de motivação. Preliminar rejeitada. PRELIMINAR. RETROATIVIDADE BENIGNA. ART. 106, A DO CTN. MP 690/15. Considerando que as relações analisadas no presente processo: (i) não foram constituídas durante a vigência do art. 8º da referida MP 690/15; (ii) o artigo 8º não foi abarcado pela respectiva lei de conversão; (iii) o artigo 8º da MP 690/15 somente trata de questões relacionadas a exploração de direito de imagem, enquanto o presente lançamento cuida de outros temas, não é crível declarar nulidade da exigência fiscal. Preliminar rejeitada. PRELIMINAR. RECEITAS QUE JÁ FORAM TRIBUTADAS PELA PESSOA JURÍDICA. Não se trata de questão a ser debatida em sede de preliminares, pois somente se poderá falar em compensação de tributos pagos pelas pessoas jurídicas envolvidas após confirmada a legalidade do lançamento. Ainda que cabível, a compensação não gera nulidade. Preliminar rejeitada. PRELIMINAR. RECONHECIMENTO TRIBUTOS PAGOS EM 2014 E 2015. Não é objeto do presente processo a análise de fatos geradores ou tributos incorridos nos anos de 2014 e 2015, ainda que relativos a fatos geradores análogos. Preliminar rejeitada. DIREITO DE IMAGEM. DIREITO PERSONALÍSSIMO. VERTENTE PATRIMONIAL. OBJETO CONTRATUAL LÍCITO. CESSÃO OU EXPLORAÇÃO DE USO DE IMAGEM POR TERCEIROS. ART. 11 E 20 DO CC/02. ATLETA PROFISSIONAL. ART. 87-A DA LEI 9.615/98. O direito de imagem, não obstante ser personalíssimo, pode ser cedido ou explorado por terceiro, uma vez que possui vertente patrimonial disponível. Raciocínio do art. 11 e 20 do CC/02. No que se refere a atletas, o art. 87-A da Lei 9.615/98, a Lei Pelé, reconhece expressamente tal disponibilidade. CONTRATO GRATUITO. NEGOCIAÇÃO PARTICULAR. VONTADE DAS PARTES. A onerosidade ou gratuidade de contrato particular emerge da vontade das partes não cabendo ao Fisco avaliá-la. REGISTRO PUBLICO. ART. 221 CC/02. CONDIÇÃO DE EFICÁCIA DO CONTRATO PERANTE TERCEIROS PREJUDICADOS. ECONOMIA TRIBUTÁRIA NÃO CONFIGURA PREJUÍZO. AUTONOMIA PRIVADA. LIBERDADE CONTRATUAL. O registro publico é condição de eficácia do contrato perante terceiros prejudicados. A Fazenda Publica não é terceiro interessado a não ser que comprove, no caso concreto, situação de prejuízo. A liberdade na organização de negócios privados, quando legítima, e eventual economia tributária, não podem ser consideradas como elementos de prejuízo sob pena de violação do ordenamento jurídico pátrio, mormente o direito ao exercício da autonomia privada e liberdade contratual (Art. 170 CF/88). JOGADOR DE FUTEBOL. CONTRATO DE EXPLORAÇÃO DO DIREITO DE IMAGEM CELEBRADO COM O CLUBE. VALOR DESPROPORCIONAL. FALTA DE COMPROVAÇÃO DA EFETIVA EXPLORAÇÃO. INAPLICABILIDADE DO ART. 87-A DA LEI 9.615/98. Conquanto o direito de imagem goze de natureza tipicamente civil, há de ser reconhecida a sua natureza salarial, quando, no caso concreto, a parcela decorrente da cessão de seu uso é ajustada em montante que em muito supera o salário nominal do empregado, e paga em valores pré fixados independentes da efetiva exploração da imagem. Verificada a desproporcionalidade entre o valor ajustado e o salário do atleta e não havendo comprovação da devida exploração da imagem contratada - a qual é o objeto central do contrato de cessão de uso de imagem - resta evidenciada a fraude na contratação, artifício usado para evitar o pagamento integral dos tributos e demais encargos envolvidos, inclusive com a utilização de pessoa jurídica interposta. JOGADOR DE FUTEBOL. DIREITO DE USO DE IMAGEM. CONTRATO COM PATROCINADORES. ANUÊNCIA DO ATLETA. Considerando que o objeto contratual é imagem do atleta, é natural que se queira a anuência do mesmo em relação a extensão de suas obrigações, de forma a garantir que a exploração não violará direitos morais. EXPLORAÇÃO DO DIREITO PATRIMONIAL DE SERVIÇO PERSONALÍSSIMO POR PESSOA JURÍDICA. APLICABILIDADE DO ART. 87-A DA LEI 9.615/98. IMPOSSIBILIDADE DE DESLOCAMENTO OU RECLASSIFICAÇÃO DO RENDIMENTO A PESSOA FÍSICA. ESPORTISTA. A possibilidade de exploração de serviços de caráter personalíssimo por pessoa jurídica foi expressamente reconhecida pela legislação civil e tributária. No que se refere especificamente a exploração de serviços de caráter personalíssimo vinculados ao uso de imagem de atletas, dispõe o art. 87-A da Lei 9.615/98 - Lei Pelé. DIREITO DE USO DE IMAGEM. CONTRATO COM PATROCINADOR. OBRIGAÇÕES PERSONALÍSSIMAS. CLAUSULAS DE GARANTIA OU RESCISÃO VINCULADAS AO ATLETA. VALIDADE DO CONTRATO. A inclusão de obrigações personalíssimas além de ser adequada, não descaracteriza o contrato de exploração de direito de uso de imagem. Tampouco clausulas de garantia pessoal de cumprimento, assim como o fato das causas de rescisão se relacionarem a condutas da pessoa física comprometem a natureza jurídica contratual. OMISSÃO DE RENDIMENTOS RECEBIDOS DE FONTES NO EXTERIOR. TRANSFERÊNCIA DE JOGADOR DE FUTEBOL. São tributados como rendimentos de pessoa física recebidos de fonte situada no exterior os valores auferidos por atleta profissional de futebol, em decorrência de sua transferência para clube estrangeiro. CONTRATOS COM TERCEIROS. BARCELONA. AGENCIA. SCOUTING. ARRENDAMENTO DE SERVIÇOS PROFISSIONAIS. FALTA DE VINCULAÇÃO DO OBJETO AO ATLETA. IMPOSSIBILIDADE DE DESLOCAMENTO OU RECLASSIFICAÇÃO DO RENDIMENTO A PESSOA FÍSICA. Uma vez que o objeto contratual não implica em qualquer atividade a ser realizada pelo atleta, que o mesmo não é sócio da pessoa jurídica e não há comprovação de que este recebeu qualquer repasse de valores da mesma, se torna impossível deslocar ou reclassificar, para o atleta, os rendimentos pagos. VERBAS RECEBIDAS COMO RETRIBUIÇÃO POR CESSÃO DE DIREITO DE IMAGEM. CLUBE ESTRANGEIRO. VALORES FIXADOS COMO PERCENTUAL DA REMUNERAÇÃO ACORDADA. Os valores recebidos como retribuição por cessão de direito de imagem à clube estrangeiro, ainda que por intermédio de sucessivas interpostas pessoas, revestem-se de caráter salarial, quando correspondem a percentuais pré-estabelecidos incidentes sobre verbas remuneratórias, e não restar comprovado estarem associados à efetiva exploração daquele direito. QUALIFICAÇÃO DA MULTA DE OFÍCIO. CABIMENTO. Constatada a atuação do sujeito passivo nas condutas fraudulentas apuradas pela fiscalização, deve ser mantida a qualificação da multa de ofício. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. INTERESSE COMUM NA SITUAÇÃO. ART. 124, I DO CTN. Verificado interesse comum na situação que constitui o fato gerador, cabe a imputação de responsabilidade solidária com base no art. 124, I do CTN. ART. 44 DA LEI 9.430/96. MULTA ISOLADA E MULTA DE OFÍCIO. CONCOMITÂNCIA. POSSIBILIDADE A PARTIR DO ADVENTO DA MP 351/2007. Após o advento da MP nº 351/2007, é aplicável a multa isolada prevista no art. 44 da Lei nº 9.430/96 em concomitância com a multa de ofício sobre diferenças no IRPF devido no ajuste anual, apurada em procedimento fiscal. RECLASSIFICAÇÃO DE RECEITA TRIBUTADA NA PESSOA JURÍDICA PARA RENDIMENTOS DE PESSOA FÍSICA. COMPENSAÇÃO DE TRIBUTOS PAGOS NA PESSOA JURÍDICA. Devem ser compensados na apuração de crédito tributário os valores arrecadados sob o código de tributos exigidos da pessoa jurídica, cuja receita foi desclassificada e convertida em rendimentos de pessoa física, base de cálculo do lançamento de oficio. ERRO NA BASE DE CALCULO. CONVERSÃO DE CÂMBIO. ESCRITURAÇÃO DA PESSOA JURÍDICA. Em obediência ao princípio da moralidade administrativa, seria desarrazoado que a conversão de valores recebidos do exterior fossem calculados de outra forma do que aquela que já foi escriturada nos livros contábeis da pessoa jurídica.
Numero da decisão: 2402-005.703
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso voluntário; b) quanto às preliminares: i) pelo voto de qualidade, em rejeitar a preliminar de nulidade por falta de motivação legal, vencidos os Conselheiros Jamed Abdul Nasser Feitoza, Theodoro Vicente Agostinho, João Victor Ribeiro Aldinucci e Bianca Felicia Rothschild; ii) por unanimidade de votos, em rejeitar as demais preliminares; e, c) no mérito, em dar parcial provimento ao recurso para: i) por maioria de votos, excluir da base de cálculo do lançamento os valores relativos: 1. aos rendimentos do trabalho, sem vínculo empregatício, decorrentes dos contratos de publicidade celebrados entre a Neymar Sport e terceiros, exceto os firmados com o Santos Futebol Clube referidos nos itens 4.1.3.3.1 e 4.1.3.3.2 do Relatório Fiscal, vencidos os Conselheiros Túlio Teotônio de Melo Pereira e Mário Pereira de Pinho Filho, votou pelas conclusões o Conselheiro Ronnie Soares Anderson; e 2. aos contratos de Agência: Barcelona x Neymar Sport, e de Scouting/Arrendamento de serviços profissionais: Barcelona x N&N Consultoria, vencidos os Conselheiros Túlio Teotônio de Melo Pereira e Mário Pereira de Pinho Filho, votou pelas conclusões o Conselheiro Ronnie Soares e, ii) por unanimidade de votos, deferir o pleito compensatório relativo aos tributos pagos pelas pessoas jurídicas tidas por responsáveis solidárias e cujas receitas foram reclassificadas como rendimentos tributáveis recebidos pelo contribuinte, e determinar a retificação do lançamento de modo que valores recebidos do exterior sejam convertidos em Reais de acordo com o disposto no inciso I do § 1º art. 394 do Decreto nº 3.000, de 26 de março de 1999 - Regulamento do Imposto de Renda (RIR). Em relação à negativa de provimento do recurso voluntário quanto aos contratos de direito de imagem Neymar Sport x Santos, examinados nos itens 4.1.3.3.1 e 4.1.3.3.2 do Relatório Fiscal, votaram pelas conclusões os Conselheiros Ronnie Soares Anderson, Túlio Teotônio de Melo Pereira, Mário Pereira de Pinho Filho e Jamed Abdul Nasser Feitoza. Manifestaram a intenção de apresentar declaração de voto os Conselheiros João Victor Ribeiro Aldinucci e Túlio Teotônio de Melo Pereira. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Ronnie Soares Anderson. Não participaram da sessão de julgamento realizada em 15/03/2017, por motivo justificado, e votaram somente em relação ao conhecimento e a à preliminar de nulidade por falta de motivação legal na sessão de 08/02/2017, os Conselheiros Kleber Ferreira de Araújo e Theodoro Vicente Agostinho. Indeferidos os pedidos apresentados pelos representantes legais do recorrente de nova sustentação oral e adiamento do julgamento, por falta de previsão no Regimento Interno do Conselho Administrativos de Recursos Fiscais. (assinado digitalmente) Mário Pereira de Pinho Filho - Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Bianca Felícia Rothschild - Relatora (assinado digitalmente) Ronnie Soares Anderson – Redator Designado Participaram do presente julgamento da Sessão do dia 19/01/2017 e 08/02/2017 os Conselheiros: Kleber Ferreira de Araújo (Presidente), Ronnie Soares Anderson, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Túlio Teotônio de Melo Pereira, Theodoro Vicente Agostinho, Mário Pereira de Pinho Filho, Bianca Felícia Rothschild e João Victor Ribeiro Aldinucci. Participaram do presente julgamento da Sessão do dia 15/03/2017 os Conselheiros: Mário Pereira de Pinho Filho (Presidende em Exercício), Ronnie Soares Anderson, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Túlio Teotônio de Melo Pereira, Bianca Felícia Rothschild e João Victor Ribeiro Aldinucci.
Nome do relator: BIANCA FELICIA ROTHSCHILD

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Considerando que as relações analisadas no presente processo: (i) não foram constituídas durante a vigência do art. 8º da referida MP 690/15; (ii) o artigo 8º não foi abarcado pela respectiva lei de conversão; (iii) o artigo 8º da MP 690/15 somente trata de questões relacionadas a exploração de direito de imagem, enquanto o presente lançamento cuida de outros temas, não é crível declarar nulidade da exigência fiscal. Preliminar rejeitada. PRELIMINAR. RECEITAS QUE JÁ FORAM TRIBUTADAS PELA PESSOA JURÍDICA. Não se trata de questão a ser debatida em sede de preliminares, pois somente se poderá falar em compensação de tributos pagos pelas pessoas jurídicas envolvidas após confirmada a legalidade do lançamento. Ainda que cabível, a compensação não gera nulidade. Preliminar rejeitada. PRELIMINAR. RECONHECIMENTO TRIBUTOS PAGOS EM 2014 E 2015. Não é objeto do presente processo a análise de fatos geradores ou tributos incorridos nos anos de 2014 e 2015, ainda que relativos a fatos geradores análogos. Preliminar rejeitada. DIREITO DE IMAGEM. DIREITO PERSONALÍSSIMO. VERTENTE PATRIMONIAL. OBJETO CONTRATUAL LÍCITO. CESSÃO OU EXPLORAÇÃO DE USO DE IMAGEM POR TERCEIROS. ART. 11 E 20 DO CC/02. ATLETA PROFISSIONAL. ART. 87-A DA LEI 9.615/98. O direito de imagem, não obstante ser personalíssimo, pode ser cedido ou explorado por terceiro, uma vez que possui vertente patrimonial disponível. Raciocínio do art. 11 e 20 do CC/02. No que se refere a atletas, o art. 87-A da Lei 9.615/98, a Lei Pelé, reconhece expressamente tal disponibilidade. CONTRATO GRATUITO. NEGOCIAÇÃO PARTICULAR. VONTADE DAS PARTES. A onerosidade ou gratuidade de contrato particular emerge da vontade das partes não cabendo ao Fisco avaliá-la. REGISTRO PUBLICO. ART. 221 CC/02. CONDIÇÃO DE EFICÁCIA DO CONTRATO PERANTE TERCEIROS PREJUDICADOS. ECONOMIA TRIBUTÁRIA NÃO CONFIGURA PREJUÍZO. AUTONOMIA PRIVADA. LIBERDADE CONTRATUAL. O registro publico é condição de eficácia do contrato perante terceiros prejudicados. A Fazenda Publica não é terceiro interessado a não ser que comprove, no caso concreto, situação de prejuízo. A liberdade na organização de negócios privados, quando legítima, e eventual economia tributária, não podem ser consideradas como elementos de prejuízo sob pena de violação do ordenamento jurídico pátrio, mormente o direito ao exercício da autonomia privada e liberdade contratual (Art. 170 CF/88). JOGADOR DE FUTEBOL. CONTRATO DE EXPLORAÇÃO DO DIREITO DE IMAGEM CELEBRADO COM O CLUBE. VALOR DESPROPORCIONAL. FALTA DE COMPROVAÇÃO DA EFETIVA EXPLORAÇÃO. INAPLICABILIDADE DO ART. 87-A DA LEI 9.615/98. Conquanto o direito de imagem goze de natureza tipicamente civil, há de ser reconhecida a sua natureza salarial, quando, no caso concreto, a parcela decorrente da cessão de seu uso é ajustada em montante que em muito supera o salário nominal do empregado, e paga em valores pré fixados independentes da efetiva exploração da imagem. Verificada a desproporcionalidade entre o valor ajustado e o salário do atleta e não havendo comprovação da devida exploração da imagem contratada - a qual é o objeto central do contrato de cessão de uso de imagem - resta evidenciada a fraude na contratação, artifício usado para evitar o pagamento integral dos tributos e demais encargos envolvidos, inclusive com a utilização de pessoa jurídica interposta. JOGADOR DE FUTEBOL. DIREITO DE USO DE IMAGEM. CONTRATO COM PATROCINADORES. ANUÊNCIA DO ATLETA. Considerando que o objeto contratual é imagem do atleta, é natural que se queira a anuência do mesmo em relação a extensão de suas obrigações, de forma a garantir que a exploração não violará direitos morais. EXPLORAÇÃO DO DIREITO PATRIMONIAL DE SERVIÇO PERSONALÍSSIMO POR PESSOA JURÍDICA. APLICABILIDADE DO ART. 87-A DA LEI 9.615/98. IMPOSSIBILIDADE DE DESLOCAMENTO OU RECLASSIFICAÇÃO DO RENDIMENTO A PESSOA FÍSICA. ESPORTISTA. A possibilidade de exploração de serviços de caráter personalíssimo por pessoa jurídica foi expressamente reconhecida pela legislação civil e tributária. No que se refere especificamente a exploração de serviços de caráter personalíssimo vinculados ao uso de imagem de atletas, dispõe o art. 87-A da Lei 9.615/98 - Lei Pelé. DIREITO DE USO DE IMAGEM. CONTRATO COM PATROCINADOR. OBRIGAÇÕES PERSONALÍSSIMAS. CLAUSULAS DE GARANTIA OU RESCISÃO VINCULADAS AO ATLETA. VALIDADE DO CONTRATO. A inclusão de obrigações personalíssimas além de ser adequada, não descaracteriza o contrato de exploração de direito de uso de imagem. Tampouco clausulas de garantia pessoal de cumprimento, assim como o fato das causas de rescisão se relacionarem a condutas da pessoa física comprometem a natureza jurídica contratual. OMISSÃO DE RENDIMENTOS RECEBIDOS DE FONTES NO EXTERIOR. TRANSFERÊNCIA DE JOGADOR DE FUTEBOL. São tributados como rendimentos de pessoa física recebidos de fonte situada no exterior os valores auferidos por atleta profissional de futebol, em decorrência de sua transferência para clube estrangeiro. CONTRATOS COM TERCEIROS. BARCELONA. AGENCIA. SCOUTING. ARRENDAMENTO DE SERVIÇOS PROFISSIONAIS. FALTA DE VINCULAÇÃO DO OBJETO AO ATLETA. IMPOSSIBILIDADE DE DESLOCAMENTO OU RECLASSIFICAÇÃO DO RENDIMENTO A PESSOA FÍSICA. Uma vez que o objeto contratual não implica em qualquer atividade a ser realizada pelo atleta, que o mesmo não é sócio da pessoa jurídica e não há comprovação de que este recebeu qualquer repasse de valores da mesma, se torna impossível deslocar ou reclassificar, para o atleta, os rendimentos pagos. VERBAS RECEBIDAS COMO RETRIBUIÇÃO POR CESSÃO DE DIREITO DE IMAGEM. CLUBE ESTRANGEIRO. VALORES FIXADOS COMO PERCENTUAL DA REMUNERAÇÃO ACORDADA. Os valores recebidos como retribuição por cessão de direito de imagem à clube estrangeiro, ainda que por intermédio de sucessivas interpostas pessoas, revestem-se de caráter salarial, quando correspondem a percentuais pré-estabelecidos incidentes sobre verbas remuneratórias, e não restar comprovado estarem associados à efetiva exploração daquele direito. QUALIFICAÇÃO DA MULTA DE OFÍCIO. CABIMENTO. Constatada a atuação do sujeito passivo nas condutas fraudulentas apuradas pela fiscalização, deve ser mantida a qualificação da multa de ofício. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. INTERESSE COMUM NA SITUAÇÃO. ART. 124, I DO CTN. Verificado interesse comum na situação que constitui o fato gerador, cabe a imputação de responsabilidade solidária com base no art. 124, I do CTN. ART. 44 DA LEI 9.430/96. MULTA ISOLADA E MULTA DE OFÍCIO. CONCOMITÂNCIA. POSSIBILIDADE A PARTIR DO ADVENTO DA MP 351/2007. Após o advento da MP nº 351/2007, é aplicável a multa isolada prevista no art. 44 da Lei nº 9.430/96 em concomitância com a multa de ofício sobre diferenças no IRPF devido no ajuste anual, apurada em procedimento fiscal. RECLASSIFICAÇÃO DE RECEITA TRIBUTADA NA PESSOA JURÍDICA PARA RENDIMENTOS DE PESSOA FÍSICA. COMPENSAÇÃO DE TRIBUTOS PAGOS NA PESSOA JURÍDICA. Devem ser compensados na apuração de crédito tributário os valores arrecadados sob o código de tributos exigidos da pessoa jurídica, cuja receita foi desclassificada e convertida em rendimentos de pessoa física, base de cálculo do lançamento de oficio. ERRO NA BASE DE CALCULO. CONVERSÃO DE CÂMBIO. ESCRITURAÇÃO DA PESSOA JURÍDICA. Em obediência ao princípio da moralidade administrativa, seria desarrazoado que a conversão de valores recebidos do exterior fossem calculados de outra forma do que aquela que já foi escriturada nos livros contábeis da pessoa jurídica.

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conteudo_txt : Metadados => date: 2017-05-04T20:24:12Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; dcterms:created: 2017-05-04T20:23:49Z; Last-Modified: 2017-05-04T20:24:12Z; dcterms:modified: 2017-05-04T20:24:12Z; dc:format: application/pdf; version=1.4; xmpMM:DocumentID: uuid:f25131c7-5d6b-4237-8ae9-cc2b2e13cb12; Last-Save-Date: 2017-05-04T20:24:12Z; access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:modified: 2017-05-04T20:24:12Z; meta:save-date: 2017-05-04T20:24:12Z; pdf:encrypted: true; modified: 2017-05-04T20:24:12Z; Content-Type: application/pdf; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; meta:creation-date: 2017-05-04T20:23:49Z; created: 2017-05-04T20:23:49Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 169; Creation-Date: 2017-05-04T20:23:49Z; pdf:charsPerPage: 2000; access_permission:extract_content: true; 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com o sujeito passivo, não é possível, em sede de preliminares, reconhecer de  plano  que  não  há  relação  pessoal  e  direta  do  mesmo  com  a  situação  que  constituiu os fatos geradores imputados pelas autoridades fiscais. Preliminar  rejeitada.  PRELIMINAR.  NULIDADE.  LANÇAMENTO.  FALTA  DE  FUNDAMENTAÇÃO LEGAL.  Estando devidamente circunstanciado no lançamento fiscal as razões de fato  e de direito que o lastreiam, e não verificado cerceamento de defesa, não há  motivos para decretação de  sua nulidade por  falta de motivação. Preliminar  rejeitada.  PRELIMINAR.  RETROATIVIDADE BENIGNA. ART.  106,  A  DO CTN.  MP 690/15.  Considerando que as relações analisadas no presente processo: (i) não foram  constituídas durante a vigência do art. 8º da referida MP 690/15; (ii) o artigo  8º não foi abarcado pela respectiva lei de conversão; (iii) o artigo 8º da MP  690/15  somente  trata  de  questões  relacionadas  a  exploração  de  direito  de  imagem, enquanto o presente lançamento cuida de outros temas, não é crível  declarar nulidade da exigência fiscal. Preliminar rejeitada.  PRELIMINAR.  RECEITAS  QUE  JÁ  FORAM  TRIBUTADAS  PELA  PESSOA JURÍDICA.  Não se trata de questão a ser debatida em sede de preliminares, pois somente  se  poderá  falar  em  compensação  de  tributos  pagos  pelas  pessoas  jurídicas     AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 98 3. 72 00 65 /2 01 5- 11 Fl. 16511DF CARF MF     2  envolvidas após confirmada a legalidade do lançamento. Ainda que cabível, a  compensação não gera nulidade. Preliminar rejeitada.  PRELIMINAR.  RECONHECIMENTO  TRIBUTOS  PAGOS  EM  2014  E  2015.  Não  é  objeto  do  presente  processo  a  análise  de  fatos  geradores  ou  tributos  incorridos  nos  anos  de  2014  e  2015,  ainda  que  relativos  a  fatos  geradores  análogos. Preliminar rejeitada.  DIREITO  DE  IMAGEM.  DIREITO  PERSONALÍSSIMO.  VERTENTE  PATRIMONIAL.  OBJETO  CONTRATUAL  LÍCITO.  CESSÃO  OU  EXPLORAÇÃO DE USO DE IMAGEM POR TERCEIROS. ART. 11 E 20  DO CC/02. ATLETA PROFISSIONAL. ART. 87­A DA LEI 9.615/98.  O  direito  de  imagem,  não  obstante  ser  personalíssimo,  pode  ser  cedido  ou  explorado por  terceiro, uma vez que possui vertente patrimonial disponível.  Raciocínio do art. 11 e 20 do CC/02. No que se refere a atletas, o art. 87­A da  Lei 9.615/98, a Lei Pelé, reconhece expressamente tal disponibilidade.  CONTRATO  GRATUITO.  NEGOCIAÇÃO  PARTICULAR.  VONTADE  DAS PARTES.  A  onerosidade  ou  gratuidade  de  contrato  particular  emerge  da  vontade  das  partes não cabendo ao Fisco avaliá­la.  REGISTRO PUBLICO. ART. 221 CC/02. CONDIÇÃO DE EFICÁCIA DO  CONTRATO  PERANTE  TERCEIROS  PREJUDICADOS.  ECONOMIA  TRIBUTÁRIA NÃO CONFIGURA PREJUÍZO. AUTONOMIA PRIVADA.  LIBERDADE CONTRATUAL.  O  registro  publico  é  condição  de  eficácia  do  contrato  perante  terceiros  prejudicados.  A  Fazenda  Publica  não  é  terceiro  interessado  a  não  ser  que  comprove, no caso concreto, situação de prejuízo. A liberdade na organização  de  negócios  privados,  quando  legítima,  e  eventual  economia  tributária,  não  podem ser consideradas como elementos de prejuízo sob pena de violação do  ordenamento  jurídico pátrio, mormente o direito  ao  exercício da  autonomia  privada e liberdade contratual (Art. 170 CF/88).  JOGADOR  DE  FUTEBOL.  CONTRATO  DE  EXPLORAÇÃO  DO  DIREITO  DE  IMAGEM  CELEBRADO  COM  O  CLUBE.  VALOR  DESPROPORCIONAL.  FALTA  DE  COMPROVAÇÃO  DA  EFETIVA  EXPLORAÇÃO. INAPLICABILIDADE DO ART. 87­A DA LEI 9.615/98.  Conquanto o direito de imagem goze de natureza tipicamente civil, há de ser  reconhecida  a  sua  natureza  salarial,  quando,  no  caso  concreto,  a  parcela  decorrente da cessão de seu uso é ajustada em montante que em muito supera  o  salário  nominal  do  empregado,  e  paga  em  valores  pré  fixados  independentes da efetiva exploração da imagem.  Verificada a desproporcionalidade entre o valor ajustado e o salário do atleta  e não havendo comprovação da devida exploração da imagem contratada ­ a  qual  é  o  objeto  central  do  contrato  de  cessão  de  uso  de  imagem  ­  resta  evidenciada a fraude na contratação, artifício usado para evitar o pagamento  integral dos tributos e demais encargos envolvidos, inclusive com a utilização  de pessoa jurídica interposta.  JOGADOR  DE  FUTEBOL.  DIREITO  DE  USO  DE  IMAGEM.  CONTRATO COM PATROCINADORES. ANUÊNCIA DO ATLETA.  Fl. 16512DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 3          3  Considerando que  o  objeto  contratual  é  imagem do  atleta,  é  natural  que  se  queira  a  anuência do mesmo  em  relação  a  extensão  de  suas  obrigações,  de  forma a garantir que a exploração não violará direitos morais.  EXPLORAÇÃO  DO  DIREITO  PATRIMONIAL  DE  SERVIÇO  PERSONALÍSSIMO  POR  PESSOA  JURÍDICA.  APLICABILIDADE  DO  ART. 87­A DA LEI 9.615/98. IMPOSSIBILIDADE DE DESLOCAMENTO  OU  RECLASSIFICAÇÃO  DO  RENDIMENTO  A  PESSOA  FÍSICA.  ESPORTISTA.  A  possibilidade  de  exploração  de  serviços  de  caráter  personalíssimo  por  pessoa  jurídica  foi  expressamente  reconhecida  pela  legislação  civil  e  tributária.  No  que  se  refere  especificamente  a  exploração  de  serviços  de  caráter personalíssimo vinculados ao uso de imagem de atletas, dispõe o art.  87­A da Lei 9.615/98 ­ Lei Pelé.  DIREITO DE USO DE IMAGEM. CONTRATO COM PATROCINADOR.  OBRIGAÇÕES PERSONALÍSSIMAS. CLAUSULAS DE GARANTIA OU  RESCISÃO VINCULADAS AO ATLETA. VALIDADE DO CONTRATO.  A  inclusão  de  obrigações  personalíssimas  além  de  ser  adequada,  não  descaracteriza  o  contrato  de  exploração  de  direito  de  uso  de  imagem.  Tampouco clausulas de garantia pessoal de cumprimento, assim como o fato  das  causas  de  rescisão  se  relacionarem  a  condutas  da  pessoa  física  comprometem a natureza jurídica contratual.  OMISSÃO  DE  RENDIMENTOS  RECEBIDOS  DE  FONTES  NO  EXTERIOR. TRANSFERÊNCIA DE JOGADOR DE FUTEBOL.  São tributados como rendimentos de pessoa física recebidos de fonte situada  no  exterior  os  valores  auferidos  por  atleta  profissional  de  futebol,  em  decorrência de sua transferência para clube estrangeiro.  CONTRATOS  COM  TERCEIROS.  BARCELONA.  AGENCIA.  SCOUTING.  ARRENDAMENTO  DE  SERVIÇOS  PROFISSIONAIS.  FALTA  DE  VINCULAÇÃO  DO  OBJETO  AO  ATLETA.  IMPOSSIBILIDADE  DE  DESLOCAMENTO  OU  RECLASSIFICAÇÃO  DO RENDIMENTO A PESSOA FÍSICA.  Uma  vez  que  o  objeto  contratual  não  implica  em  qualquer  atividade  a  ser  realizada pelo  atleta,  que o mesmo não é  sócio da pessoa  jurídica  e não há  comprovação de que este recebeu qualquer repasse de valores da mesma, se  torna  impossível  deslocar  ou  reclassificar,  para  o  atleta,  os  rendimentos  pagos.  VERBAS  RECEBIDAS  COMO  RETRIBUIÇÃO  POR  CESSÃO  DE  DIREITO DE IMAGEM. CLUBE ESTRANGEIRO. VALORES FIXADOS  COMO PERCENTUAL DA REMUNERAÇÃO ACORDADA.  Os  valores  recebidos  como  retribuição  por  cessão  de  direito  de  imagem  à  clube estrangeiro, ainda que por intermédio de sucessivas interpostas pessoas,  revestem­se  de  caráter  salarial,  quando  correspondem  a  percentuais  pré­ estabelecidos  incidentes  sobre  verbas  remuneratórias,  e  não  restar  comprovado estarem associados à efetiva exploração daquele direito.  QUALIFICAÇÃO DA MULTA DE OFÍCIO. CABIMENTO.  Fl. 16513DF CARF MF     4  Constatada a atuação do sujeito passivo nas condutas  fraudulentas apuradas  pela fiscalização, deve ser mantida a qualificação da multa de ofício.  RESPONSABILIDADE  SOLIDÁRIA.  INTERESSE  COMUM  NA  SITUAÇÃO. ART. 124, I DO CTN.  Verificado interesse comum na situação que constitui o fato gerador, cabe a  imputação de responsabilidade solidária com base no art. 124, I do CTN.  ART.  44 DA  LEI  9.430/96. MULTA  ISOLADA E MULTA DE OFÍCIO.  CONCOMITÂNCIA.  POSSIBILIDADE  A  PARTIR  DO  ADVENTO  DA  MP 351/2007.  Após o advento da MP nº 351/2007, é aplicável a multa  isolada prevista no  art.  44  da  Lei  nº  9.430/96  em  concomitância  com  a multa  de  ofício  sobre  diferenças no IRPF devido no ajuste anual, apurada em procedimento fiscal.  RECLASSIFICAÇÃO  DE  RECEITA  TRIBUTADA  NA  PESSOA  JURÍDICA  PARA  RENDIMENTOS  DE  PESSOA  FÍSICA.  COMPENSAÇÃO  DE  TRIBUTOS  PAGOS  NA  PESSOA  JURÍDICA.  Devem  ser  compensados  na  apuração  de  crédito  tributário  os  valores  arrecadados sob o código de tributos exigidos da pessoa jurídica, cuja receita  foi  desclassificada  e  convertida  em  rendimentos  de  pessoa  física,  base  de  cálculo do lançamento de oficio.  ERRO  NA  BASE  DE  CALCULO.  CONVERSÃO  DE  CÂMBIO.  ESCRITURAÇÃO DA PESSOA JURÍDICA.  Em obediência ao princípio da moralidade administrativa, seria desarrazoado  que a conversão de valores recebidos do exterior fossem calculados de outra  forma  do  que  aquela  que  já  foi  escriturada  nos  livros  contábeis  da  pessoa  jurídica.      Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.  Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer  do  recurso  voluntário;  b)  quanto  às  preliminares:  i)  pelo  voto  de  qualidade,  em  rejeitar  a  preliminar  de  nulidade  por  falta  de motivação  legal,  vencidos  os Conselheiros  Jamed Abdul  Nasser Feitoza, Theodoro Vicente Agostinho, João Victor Ribeiro Aldinucci e Bianca Felicia  Rothschild; ii) por unanimidade de votos, em rejeitar as demais preliminares; e, c) no mérito,  em dar parcial provimento ao recurso para: i) por maioria de votos, excluir da base de cálculo  do lançamento os valores relativos: 1. aos rendimentos do trabalho, sem vínculo empregatício,  decorrentes dos contratos de publicidade celebrados entre a Neymar Sport e terceiros, exceto os  firmados  com  o  Santos  Futebol  Clube  referidos  nos  itens  4.1.3.3.1  e  4.1.3.3.2  do  Relatório  Fiscal,  vencidos  os  Conselheiros  Túlio  Teotônio  de Melo  Pereira  e Mário  Pereira  de  Pinho  Filho,  votou  pelas  conclusões  o Conselheiro Ronnie Soares Anderson;  e  2.  aos  contratos  de  Agência: Barcelona  x Neymar  Sport,  e  de  Scouting/Arrendamento  de  serviços  profissionais:  Barcelona  x N&N Consultoria,  vencidos  os  Conselheiros  Túlio  Teotônio  de Melo  Pereira  e  Mário Pereira de Pinho Filho, votou pelas conclusões o Conselheiro Ronnie Soares e,  ii) por  unanimidade de votos, deferir o pleito compensatório relativo aos tributos pagos pelas pessoas  jurídicas  tidas  por  responsáveis  solidárias  e  cujas  receitas  foram  reclassificadas  como  rendimentos tributáveis recebidos pelo contribuinte, e determinar a  retificação do lançamento  de  modo  que  valores  recebidos  do  exterior  sejam  convertidos  em  Reais  de  acordo  com  o  disposto  no  inciso  I  do  §  1º  art.  394  do  Decreto  nº  3.000,  de  26  de  março  de  1999  ­  Regulamento  do  Imposto  de Renda  (RIR).  Em  relação  à  negativa de  provimento  do  recurso  Fl. 16514DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 4          5  voluntário quanto aos contratos de direito de imagem Neymar Sport x Santos, examinados nos  itens  4.1.3.3.1  e  4.1.3.3.2  do  Relatório  Fiscal,  votaram  pelas  conclusões  os  Conselheiros  Ronnie  Soares  Anderson,  Túlio  Teotônio  de Melo  Pereira,  Mário  Pereira  de  Pinho  Filho  e  Jamed  Abdul  Nasser  Feitoza. Manifestaram  a  intenção  de  apresentar  declaração  de  voto  os  Conselheiros João Victor Ribeiro Aldinucci e Túlio Teotônio de Melo Pereira. Designado para  redigir o voto vencedor o Conselheiro Ronnie Soares Anderson. Não participaram da sessão de  julgamento realizada em 15/03/2017, por motivo justificado, e votaram somente em relação ao  conhecimento  e  a  à  preliminar  de  nulidade  por  falta  de  motivação  legal  na  sessão  de  08/02/2017,  os  Conselheiros  Kleber  Ferreira  de  Araújo  e  Theodoro  Vicente  Agostinho.  Indeferidos  os  pedidos  apresentados  pelos  representantes  legais  do  recorrente  de  nova  sustentação  oral  e  adiamento  do  julgamento,  por  falta  de  previsão  no Regimento  Interno  do  Conselho Administrativos de Recursos Fiscais.    (assinado digitalmente)  Mário Pereira de Pinho Filho ­ Presidente em Exercício    (assinado digitalmente)  Bianca Felícia Rothschild ­ Relatora    (assinado digitalmente)  Ronnie Soares Anderson – Redator Designado    Participaram  do  presente  julgamento  da  Sessão  do  dia  19/01/2017  e  08/02/2017 os Conselheiros: Kleber Ferreira de Araújo (Presidente), Ronnie Soares Anderson,  Jamed Abdul Nasser Feitoza, Túlio Teotônio de Melo Pereira, Theodoro Vicente Agostinho,  Mário Pereira de Pinho Filho, Bianca Felícia Rothschild e João Victor Ribeiro Aldinucci.    Participaram  do  presente  julgamento  da  Sessão  do  dia  15/03/2017  os  Conselheiros:  Mário  Pereira  de  Pinho  Filho  (Presidende  em  Exercício),  Ronnie  Soares  Anderson,  Jamed  Abdul  Nasser  Feitoza,  Túlio  Teotônio  de  Melo  Pereira,  Bianca  Felícia  Rothschild e João Victor Ribeiro Aldinucci.  Fl. 16515DF CARF MF     6    Relatório  Inicialmente, adota­se o relatório da decisão recorrida, o qual bem retrata os  fatos e os fundamentos do lançamento, da impugnação e dos incidentes ocorridos até então:  "Tratam­se  de  impugnações  apresentadas  pelo  contribuinte  NEYMAR DA SILVA Santos JÚNIOR (CPF n° 382.443.358­31) e  pelos responsáveis solidários indicados na autuação ­ NEYMAR  DA  SILVA  Santos  (CPF  n°  080.591.778­00),  NADINE  GONÇALVES  DA  SILVA  Santos  (CPF  nº  121.215.028­74),  Neymar  Sport  E  MARKETING  S/S  LTDA  (CNPJ  n°  08.007.812/0001­70),  N&N  Consultoria  ESPORTIVA  E  EMPRESARIAL  LTDA  (CNPJ  14.625.902/0001­28)  e  N  &  N  ADMINISTRAÇÃO  DE  BENS,  PARTICIPAÇÕES  E  INVESTIMENTOS  LTDA  (CNPJ  15.913.144/0001­06),  em  face  de Auto de Infração lavrado no âmbito da Delegacia da Receita  Federal do Brasil em Santos (fls. 7.236/7.257).  Por meio do referido Auto de Infração (fls. 7.236/7.258), relativo  ao  Imposto  de  Renda  de  Pessoa  Física  ­  IRPF,  relativo  aos  exercícios 2012, 2013 e 2014, está sendo exigido do contribuinte  o  recolhimento  de  crédito  tributário  no  valor  de  R$188.820.129,25, sendo:  Imposto ­ R$63.591.796,06  Juros de Mora (calculados até 05/2015) ­ R$10.282.883,82  Multa de Ofício ­ R$95.387.694,09  Multa Isolada ­ R$19.557.755,28  Conforme descrição dos fatos e enquadramento legal constantes  do  AUTO  DE  INFRAÇÃO  (fls.  7.236/7.258)  e  do  Termo  de  Descrição dos Fatos (TDF ­ fls.7.040/7.234), que acompanha e  é  parte  integrante  do  Auto,  foram  apuradas  as  seguintes  infrações:  1.  Omissão  de  rendimentos  do  trabalho  sem  vínculo  empregatício,  relativos  aos  serviços  de  publicidade  não  tributados  na  pessoa  física  e/ou  tributados  indevidamente  na  empresa Neymar Sport E MARKETING S/S LTDA – ME, CNPJ  08.007.812/0001­70  (tópico  5.1  do  Termo  de  Descrição  dos  Fatos);  2.  Omissão  de  rendimentos  de  fontes  situadas  no  exterior,  oriundos dos  serviços  de publicidade não  tributados  na  pessoa  física e/ou tributados indevidamente na empresa Neymar Sport E  MARKETING  S/S  LTDA  –  ME,  CNPJ  08.007.812/0001­70  (tópico 5.2.1 do Termo de Descrição dos Fatos);  3.  Omissão  de  rendimentos  de  fontes  situadas  no  exterior,  oriundos  do  direito  de  preferência,  pagos  pelo  FCB  (Futbol  Club Barcelona), não tributados na pessoa física e/ou tributados  indevidamente na empresa N & N CONSULTORIA ESPORTIVA  Fl. 16516DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 5          7  E  EMPRESARIAL  LTDA,  CNPJ  14.625.902/0001­28  (tópico  5.2.2 do Termo de Descrição dos Fatos);  4.  Omissão  de  rendimentos  de  fontes  situadas  no  exterior,  oriundos  do  trabalho  com  vínculo  empregatício  (contrato  de  agência,  scouting  e  direitos  de  imagem),  pagos  pelo  FCB  (Futbol  Club  Barcelona),  não  tributados  na  pessoa  física  e/ou  tributados  indevidamente  nas  empresas  Neymar  Sport  E  MARKETING S/S LTDA – ME, CNPJ 08.007.812/0001­70, N &  N CONSULTORIA ESPORTIVA E EMPRESARIAL LTDA, CNPJ  14.625.902/0001­28  e  N  &  N  ADMINISTRAÇÃO  DE  BENS,  PARTICIPAÇÕES  E  INVESTIMENTOS  LTDA,  CNPJ  15.913.144/0001­06  (tópico  5.2.3  do  Termo  de  Descrição  dos  Fatos).  5. Falta de recolhimento do IRPF devido a título de carnê­leão,  ensejando a exigência da Multa Isolada.  As  autoridades  fiscais  incluíram  no  pólo  passivo,  como  responsáveis  solidários  pelo  crédito  tributário  constituído,  Neymar  da  Silva  Santos  e  Nadine  Gonçalves  da  Silva  Santos,  pais  do  contribuinte,  e  as  empresas Neymar  Sport  e Marketing  S/S  Ltda­ME  (Neymar  Sport),  N&N  Consultoria  Esportiva  e  Empresarial LTDA (N&N Consultoria) e N&N Administração de  Bens,  Partic.  e  Investimentos  LTDA  (N&N  Administração  de  Bens),  que  têm como únicos  sócios os pais do  contribuinte,  em  razão de entenderem estar caracterizado o interesse comum e a  atuação  conjunta  de  todos  nas  situações  que  constituíram  os  fatos geradores das obrigações tributárias.  A  exigência  da  multa  de  ofício  qualificada,  no  percentual  de  150%, foi justificada pelos autuantes tendo em vista a apuração  de  ocorrência  de  sonegação,  fraude  e  conluio  nos  negócios  perpetrados.  Ao longo do TDF, as autoridades fiscais buscam demonstrar que  o  contribuinte  e  os  responsáveis  solidários  praticaram  atos  e  negócios jurídicos envolvendo simulações, com o objetivo único  de reduzir a carga tributária incidente nas transações realizadas  pelo  contribuinte,  mormente  nas  prestações  de  serviços  de  publicidade e nos valores recebidos do Futebol Clube Barcelona  (Barcelona), relativos a sua transferência para o clube.  O trabalho fiscal está baseado em documentos e esclarecimentos  prestados pelo contribuinte, pelas empresas Neymar Sport, N&N  Consultoria  e  N&N  Administração  de  Bens,  bem  como  em  documentação  encaminhada  pela  Justiça  espanhola  para  o  Ministério  Público  Federal  e  repassada  à  Receita  Federal  do  Brasil (RFB).  Eis, muito resumidamente, algumas conclusões  importantes das  autoridades lançadoras, destacadas do Termo de Descrição dos  Fatos (TDF ­ fls. 7.040/7.234),que serviram para fundamentar a  autuação:  Fl. 16517DF CARF MF     8  ­ A Neymar  Sport  e Marketing  S/S Ltda­ME  (Neymar  Sport),  a  N&NConsultoria  Esportiva  e  empresarial  LTDA  (N&N  Consultoria)  e  a  N&N  Administração  de  Bens,  Partic.  e  Investimentos  LTDA  (N&N  Administração  de  Bens)  seriam  interpostas pessoas, utilizadas com o objetivo de deslocar, para  uma  tributação  mais  favorecida  nas  pessoas  jurídicas,  os  rendimentos  auferidos  pelo  contribuinte  em  relação  aos  contratos  publicitários  e  aos  demais  contratos  firmados  com  terceiros, inclusive com o clube Barcelona.  ­  O  direito  à  imagem  não  poderia  ter  sido  cedido  pelo  contribuinte à Neymar Sport, na forma do Contrato de Cessão de  Imagem apresentado pelos impugnantes (fl. 2.581), uma vez que  se  trata  de  direito  personalíssimo,  inalienável  e  intransferível.  Além disso, os efeitos desse contrato não se operariam perante a  Receita  Federal  do  Brasil,  por  não  ter  sido  registrado  em  registro  público.  E  mais:  o  contrato  não  apresentaria  as  características  típicas  de  um  contrato  de  cessão  ou  licença  do  uso de imagem (previsão de direitos e obrigações, remuneração  etc.) e não haveria nele efetivo propósito negocial.  ­  A  execução  dos  contratos  publicitários  estaria  vinculada  ao  desempenho personalíssimo do atleta, devendo ser executado por  ele  e  não  pela  pessoa  jurídica;  nesse  sentido,  o  atleta  seria  o  verdadeiro titular dos rendimentos auferidos.  ­ O fato de a empresa Neymar Sport ter conseguido o número de  seu CNPJ em 22/05/2006 e ter celebrado contratos anteriores a  essa data  seria um indício de negócios  jurídicos  simulados, em  razão  do  documento  antedatado.  Além  disso,  a  Neymar  Sport  não  teria uma estrutura empresarial para gerir e administrar a  carreira  do  contribuinte,  utilizando­se  de  profissionais  do  Santos.  ­  A  empresa  N&N  Consultoria  não  teria  realizado  qualquer  operação  relacionada  com  o  seu  objeto  social,  não  teria  funcionários  contratados  à  época  dos  fatos  apurados  (com  exceção  dos  pais  do  atleta  e  de  uma  funcionária),  possuiria  baixo capital social integralizado e não teria praticado nenhuma  atividade operacional autônoma.  Além disso, o  fato de  ter obtido seu CNPJ em 17/11/2011 e  ter  celebrado contratos  anteriores a  essa data  constituiria  também  indício de negócios jurídicos simulados, especialmente, o acordo  com  opção  de  futura  transferência  dos  direitos  federativos  e  econômicos do contribuinte ao clube Barcelona, em 15/11/2011.  ­  Teria  havido  negociação  do  Impugnante  com  o  Barcelona,  possivelmente  em  confronto  com  as  leis  que  regulamentam  o  Direito  Desportivo,  envolvendo  o  valor  recebido  pela  N&N  supostamente  a  título  de  indenização/cláusula  penal  (€40.000.000,00), que, na verdade, constituiria remuneração por  vínculo de trabalho. Um suposto empréstimo de €10.000.000,00  à  referida  empresa  seria,  na  verdade,  um  pré­pagamento  feito  pelo Barcelona em virtude da contratação do atleta.  ­  O  contrato  firmado  entre  a  N&N  e  o  contribuinte,  em  27/04/2011,  referente  à  prestação  de  serviços  para  consultoria  esportiva,  planejamento  e otimização de  carreira desportiva de  Fl. 16518DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 6          9  atleta profissional não teria sido registrado em registro público,  não podendo, por isso, produzir efeitos perante o Fisco.  ­ As remunerações recebidas pela N&N Administração de Bens a  título de direito de imagem coletiva serviriam para deslocar, da  pessoa física para a jurídica, a tributação incidente sobre parte  dos  valores  pagos  pelo  Barcelona.  Além  disso,  faltaria  capacidade  operacional  à  N&N  Administração  de  Bens,  para  exercer as obrigações pactuadas no contrato.  ­  Teria  havido  confusão  patrimonial  envolvendo  as  empresas  consideradas responsáveis solidárias na autuação e uma suposta  falta  de  propósito  negocial  nas  operações  realizadas  entre  o  contribuinte e as referidas empresas.  ­  Os  valores  em  questão  pertenceriam  ao  contribuinte  e,  portanto, deveriam ser tributados na pessoa física, com base na  tabela progressiva, nos termos do art. 3°, § I, da Lei nº7.713/88.  ­ Os autuantes entenderam que o contribuinte e os responsáveis  solidários teriam atuado em conluio para deslocar a tributação  da  pessoa  física  para  as  empresas  envolvidas,  no  que  diz  respeito  aos  rendimentos  decorrentes  dos  contratos  de  publicidade. (tanto os decorrentes de fontes pagadoras situadas  no Brasil como no exterior), aos oriundos da negociação com o  Barcelona  para  exercício  futuro  de  opção  de  contratação,  aos  oriundos  da  execução  de  supostos  serviços  para  o  Barcelona  (contrato de agência e scouting) e à cessão de direitos coletivos  de imagem.  Em sua impugnação (fls. 7322/7427), que vem acompanhada dos  documentos de fls. 7428/8550, o contribuinte, por intermédio de  seu representante  legal,  faz um breve histórico da ação  fiscal e  da  carreira  profissional  do  atleta  e  apresenta,  em  suma,  os  seguintes argumentos:  ­  a  abertura  das  empresas  Neymar  Sport,  N&N  Consultoria  e  N&N  Administração  de  Bens  teria  sido  necessária  para  administrar  sua  imagem,  em  função  de  seu  talento  e  de  sua  carreira;  ­ para que a carreira do atleta seja duradoura e lucrativa e ele  possa  se  dedicar  inteiramente  a  sua  atividade  esportiva,  seria  necessário  contar  com  uma  equipe  de  profissionais  para  administrá­la;  ­  a  Neymar  Sport  teria  sido  aberta  em  2006,  quando  o  atleta  ainda contava  com 14  anos,  com  estrutura  proposta  e  apoiada  pelo Santos;  ­  a  N&N  Consultoria  teria  sido  aberta  em  2011,  para  representá­lo  e  assessorá­lo  na  projeção  de  sua  carreira,  e  a  N&N  Administração  de  Bens  teria  sido  organizada  em  2012,  para cuidar dos bens tangíveis e intangíveis;  Fl. 16519DF CARF MF     10  ­  as  Autoridades  Fiscais  teriam  concluído  que  teria  sido  montada  uma  estrutura  simulada,  sem  existir  de  fato,  com  o  intuito  único  de  economia  tributária,  mas  não  teriam  comprovado  o  benefício  econômico  do  contribuinte  com  tal  estrutura;  ­ não seria sócio de nenhuma das empresas e não haveria prova  do recebimento dos rendimentos a ele atribuídos na autuação;  ­  não  seria  possível  identificar  na  documentação  reunida  na  ação fiscal qualquer repasse de recursos das empresas para ele,  que não fossem remuneração por serviços prestados;  ­  os  autuantes  o  teriam  acusado  de  simulação,  mas  teriam  deixado de comprovar seu benefício econômico;  ­  a  capacidade  contributiva  não  poderia  ser  atribuída  a  ele,  quando todas as receitas e os lucros das atividades empresariais  teriam  permanecido  com  as  próprias  empresas  e  com  seus  sócios, por meio dos dividendos;  ­  haveria  erro  na  identificação  do  sujeito  passivo,  em  face  da  falta  de  comprovação  de  que  o  contribuinte  seria  o  efetivo  detentor da renda;  ­  os  direitos  de  imagem  teriam  natureza  patrimonial  e  seriam  passíveis de cessão, onerosa ou gratuita;  ­  inexistiria  óbice  para  que  uma  empresa  desenvolvesse  a  atividade de exploração desse patrimônio intangível e recebesse  os  proventos  resultantes  dos  contratos  publicitários  celebrados  com patrocinadores, parceiros e licenciados;  ­  quanto  ao  tamanho  da  empresa,  o  crescimento  dela  teria  se  dado na proporção de seu crescimento profissional como atleta,  inexistindo anormalidade nesse fenômeno;  ­  apesar  de  as  autoridades  fiscais  elaborarem  cálculos  para  apontar a economia de 50% na tributação dos rendimentos pelas  empresas,  não  teriam compensado os  tributos pagos por  elas  e  pelas pessoas físicas no período;  ­  tal  procedimento  caracterizaria  confisco,  promovendo  o  enriquecimento sem causa do órgão fazendário;  ­  não  seria  possível  reaver  os  tributos  pagos  pelas  empresas,  uma vez que não haveria motivação para o pedido de restituição,  já  que  quem  os  pagou  entende­os  devidos,  e  o  pedido  provavelmente  seria  negado,  até  a  decisão  definitiva  nestes  autos,  quando  então  já  estaria  decaído  o  direito  de  restituir  o  indébito;  ­  as  atividades  desenvolvidas  seriam  compatíveis  com  as  disposições  do  direito  esportivo,  tanto  no  âmbito  doméstico  como no internacional.  O contribuinte discorre sobre contrato de trabalho do jogador e  os  direitos  econômicos  e  federativos  dele  decorrentes  e  prossegue, com os seguintes argumentos:  Fl. 16520DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 7          11  ­  haveria  erro  das  autoridades  fiscais  ao  atribuírem  a  ele  pagamentos que teriam sido legitimamente cedidos a terceiros;  ­  teria  sido  equivocada  a  tributação  pelo  Fisco  de  rendimento  decorrente de contrato comercial entre empresas, como se fosse  rendimento do trabalho;  ­ o valor de €40.000.000,00, recebido do Barcelona, decorreria  do  descumprimento  pelo  clube  do  acordo  de  opção  futura  celebrado  entre  as  partes,  com  efeitos  para  2014;  não  se  confundiria com salário, já que este dependeria de uma relação  de emprego, o que só teria ocorrido em 2013;  ­  inexistiria  nos  autos  qualquer  dos  elementos  necessários  à  caracterização da hipótese de simulação;  ­  não  haveria  uma  falsa  aparência  a  ser  desconstituída;  a  estrutura jurídica existiria, os tributos teriam sido registrados e  pagos e as declarações, entregues tempestivamente;  ­  embora  convidadas,  as  autoridades  fiscais  não  teriam  se  interessado  em  verificar  a  localização  das  empresas  e  suas  atividades sociais;  ­  toda a documentação  solicitada no curso da ação  fiscal  teria  sido apresentada;  ­  não  haveria  prova  de  qualquer  divergência  entre  a  vontade  interna e a vontade manifesta no negócio;  ­ o modelo de gestão adotado seria eficiente e responsável pelo  rápido crescimento do interesse por ele nos mercados nacional e  internacional;  ­  o  valor  de  todos  os  tributos  pagos  pelas  empresas  e  pelas  pessoas  físicas  espontaneamente  seria  superior  ao  cobrado  no  auto de infração;  ­  o  ordenamento  pátrio  não  admitiria  que  a  fiscalização  desconsiderasse  as  pessoas  jurídicas  no  caso  em  questão,  cabendo  observar,  em  especial,  o  artigo  129  da  Lei  nº  11.196/2005;  ­ a desconsideração da personalidade jurídica teria sido atitude  desproporcional e decorrente de pequenas falhas nos contratos;  ­  não  haveria  intuito  de  enganar  a  Fazenda,  nem  simulação,  confusão  patrimonial  e  tampouco  solidariedade  entre  os  acusados,  como  demonstraria  um  parecer  acerca  do  tema  juntado;  Discorre sobre a criação do Instituto Neymar Jr e assevera que,  se as empresas fossem de fato sem propósito negocial e criadas  para fraudar o Fisco, não haveria interesse em criar um projeto  social  dessa  magnitude.  Acrescenta  que  a  existência  desse  instituto,  por  si  só,  justificaria  a  existência  das  empresas,  que  muito contribuiriam para o seu sucesso.  Fl. 16521DF CARF MF     12  Requer  especial  proteção ao  seu  sigilo  fiscal,  em  razão  da  sua  notoriedade,  e  solicita  que  seja  comunicado  em  caso  de  os  documentos  e  informações  constantes  dos  autos  serem  solicitados  por  outro  órgão.  Prossegue  em  sua  defesa,  assinalando ainda que:  ­  ainda  que  se  entendesse  correta  a  descaracterização  das  empresas  envolvidas  na  autuação,  seria  preciso  haver  um  terceiro  como  real  beneficiário  desses  rendimentos,  que  não  seria o impugnante;  ­ quem efetivamente teria recebido e deteria os recursos seria a  Neymar Sport;  ­  não  teria  qualquer  relação  societária  com  as  empresas  envolvidas  e  nem  interferiria  no  rumo  de  seus  negócios,  havendo, portanto, erro de sujeição passiva do lançamento;  ­ se desconsideradas as empresas, teria que se considerar, como  real beneficiária da redução tributária durante esses anos, cada  uma das empresas ou, no máximo, os  seus sócios, em razão da  distribuição dos dividendos;  ­ a sua eleição como alvo para centralizar a renda e o cálculo do  tributo seria discricionária e indevida, uma vez que os resultados  seriam  direcionados  para  as  próprias  empresas  ou  para  seus  sócios, destacando­se que não seria sócio de nenhuma delas;  ­  sendo  as  pessoas  físicas  tributadas  pelos  rendimentos  efetivamente  recebidos,  o  lançamento  seria  nulo,  por  erro  na  identificação do sujeito passivo;  ­  tal  nulidade  não  poderia  ser  sanada  pelas  autoridades  julgadoras,  na  medida  que  eventual  correção  do  método  de  apuração  dos  créditos  tributários  de  IRPF  implicaria  modificação do critério jurídico do lançamento;  ­  não  haveria  qualquer  irregularidade  na  constituição  da  empresa Neymar Sport;  ­ as autoridades fiscais teriam se equivocado ao desqualificar o  propósito  empresarial  da  Neymar  Sport,  só  porque  estaria  centrada  na  exploração  dos  direitos  de  imagem,  cedidos  gratuitamente pelo atleta;  ­  a  Neymar  Sport  seria  a  detentora  do  seu  direito  de  imagem,  conforme  Instrumento  Particular  de  Contrato  de  Cessão  de  Direito  de  Uso  de  Nome,  Apelido  Desportivo  e  Imagem  do  Atleta;  ­ a empresa teria sido constituída para gerir a imagem do atleta,  que,  à  época,  tinha  14  anos  e  nem  era  jogador  profissional,  sendo apontado como uma promessa do futebol;  ­  a  cessão  do  direito  de  imagem  nos  segmentos  artístico  e  desportivo se daria para melhor administração das carreiras por  uma empresa constituída e concentrada nessa atividade;  ­  a  cessão  dos  direitos  patrimoniais  de  imagem  à  empresa  Neymar  Sport  teria  proporcionado  um  melhor  aproveitamento  Fl. 16522DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 8          13  econômico,  sendo  permitida  pela  lei  brasileira  e  apresentando  validade e conteúdo negocial;  ­ não se configuraria fraude  fiscal o fato de a data do contrato  não coincidir com a data de sua assinatura; o fato teria ocorrido  por  despreparo  dos  pais  do  atleta,  que  não  contariam  com  assessoria jurídica;  ­  entre  as  condições  impostas  pelo  Santos  para  assinatura  de  contrato em 2006, constaria a apresentação de documentação de  uma empresa que seria detentora dos direitos de imagem;  ­  o  contrato  social  da  Neymar  Sport  teria  sido  submetido  ao  Cartório  de  Registro  de  Títulos  e  Documentos  e  Civil  Pessoa  Jurídica de Santos em 27/04/2006;  ­ em 10/05/2006, com o contrato pronto para ser assinado, teria  sido percebida a ausência de CNPJ;  ­  essa  inscrição  não  seria  necessária  para  efeitos  comerciais  e  civis e poderia ser obtida posteriormente;  ­ para não se perder a oportunidade oferecida pelo Santos, teria  sido mantida a data original e o documento complementado com  o CNPJ posteriormente;  ­ não teria havido premeditação para lesar o Fisco;  ­  a  cessão  dos  direitos  patrimoniais  de  imagem  por  acordo  privado  representaria  um  negócio  jurídico  válido  em  sua  substância e forma, conforme disposto no artigo 167 do Código  Civil;  teria havido um acordo válido entre as partes acerca de  um objeto lícito, sendo que a data aposta não desqualificaria a  validade do acordo e muito menos a intenção das partes de que  ele produzisse efeitos desde 11/05/2006;  ­ o contrato de cessão de direito de uso de imagem de 2009 não  teria sido o primeiro firmado entre o atleta e a empresa Neymar  Sport;  ­ no curso da ação fiscal, teria havido um erro de compreensão  quanto  ao  solicitado  pela  Autoridade  Fiscal,  o  que  teria  acarretado a não apresentação dos contratos firmados em 2006  e 2007;  ­  nos autos do processo 15983.720427/2012­21, as autoridades  fiscais  teriam  tido  acesso  ao  contrato  de  cessão  de  imagem  anterior,  conforme  indicação  no  Termo  de  Verificação  Fiscal;  não teria existido a omissão de um documento essencial, quando  esse  já  teria  sido  apresentado  às  autoridades  fiscais  em  ação  fiscal anterior;  ­  não  haveria  óbice  legal  à  cessão  do  direito  de  imagem  gratuitamente;  Fl. 16523DF CARF MF     14  ­  teria  sido  equivocado  o  procedimento  fiscal  de  tomar  como  rendimentos do trabalho sem vínculo os decorrentes de contratos  publicitários;  ­  a  desconsideração  da  personalidade  jurídica  teria  sido  equivocada e ilegal, uma vez que teria havido a cessão do direito  de imagem;  ­  a  Lei  nº  11.196,  de  2005,  permitiria  a  tributação  desses  rendimentos  na  pessoa  jurídica;  o  fato  gerador  tributário  independeria  da  validade  jurídica  dos  atos  efetivamente  praticados pelo contribuinte (artigo 118, inciso I do CTN).  ­ a criação da empresa teria sido necessária para administrar os  seus  contratos,  deixando  o  atleta  concentrar  seus  esforços  no  aperfeiçoamento da carreira de futebol;  ­ a estrutura da Neymar Sport no início seria pequena, mas, com  a evolução do atleta, teria crescido;  ­  não  haveria  impedimento  para  a  tributação  dos  rendimentos  decorrentes dos serviços personalíssimos na pessoa jurídica;  ­  teria  cedido  legitimamente  o  direito  de  uso  de  sua  imagem à  Neymar  Sport,  no  que  tange  aos  contratos  relativos  à  figura  individual  do  atleta,  e  à N&N Administração de Bens,  para  os  contratos relativos à figura do atleta na coletividade do time;  ­ a edição do artigo 129 da Lei nº11.196, de 2005, teria regulado  o  tratamento  fiscal  e  previdenciário  aplicável  a  tais  contratações;  ­ as atividades por ele exercidas  seriam de natureza artística e  cultural;  configurariam  a  exploração  da  figura  do  ídolo  para  fins comerciais e não poderiam ser associadas a uma relação de  trabalho sem vínculo empregatício;  ­  a  autuação  não  poderia  subsistir,  pois  a  relação  jurídica  do  atleta  com  as  empresas  e  a  prática  fiscal  adotadas  por  eles  estariam amparadas  por  norma  jurídica  vigente  desde  a  época  dos fatos questionados;  ­  entendimentos  doutrinários  e  jurisprudenciais  respaldariam a  tributação desses rendimentos na pessoa jurídica;  ­  não  teria  havido  omissão  de  rendimentos  recebidos  como  contraprestação de campanhas publicitárias;  ­  inexistiria  qualquer  irregularidade  no  fato  de  o  impugnante  não  figurar  no  quadro  societário  das  pessoas  jurídicas  que  administram  o  patrimônio  decorrente  da  exploração  de  sua  imagem; ele não teria se transformado em pessoa jurídica, mas  teria cedido os direitos de imagem à pessoa jurídica;  ­ com o sucesso da gestão dos negócios pelo pai no início da sua  carreira, teria optado por manter a relação inicial, mesmo após  a  sua  maioridade,  deixando  a  cargo  do  pai  os  negócios  e  preocupando­se apenas com o trabalho dentro de campo;  Fl. 16524DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 9          15  ­  seria  usual,  em  contratações  envolvendo  a  licença  de  uso  de  imagem, que os  contratantes  solicitem que o próprio artista ou  atleta participe do  contrato,  como  anuente,  obrigado  solidário,  garantidor ou qualquer outra  forma  indicada pelo  contratante;  esse  fato  não  invalidaria  a  contratação  da  empresa  detentora  dos direitos de imagem;  ­  para  o  legislador  tributário,  interessariam  os  fatos  que  demonstram um fenômeno econômico, que serve de base para a  imposição do  tributo,  independentemente de o  instituto  jurídico  do direito privado (no caso, o contrato) estar dotado de validade  formal, na forma do artigo 118 do CTN;  ­  independentemente  da  validade  dos  contratos  questionados  pela  Autoridade  Fiscal,  a  intenção  sempre  teria  sido  ceder  os  direitos de imagem para Neymar Sport e N&N Administração de  Bens; os contratos firmados entre as empresas e os anunciantes,  ainda  que  ele  figure  como  co­obrigado,  interveniente  ou  garantidor de execução, seriam legítimos;  ­ a exigência de reconhecimento de firma, registro em cartório e  assinatura de testemunhas não seriam requisitos de validade do  negócio jurídico;  ­ tendo havido o acordo de vontades entre as partes contratantes  e  sendo  legítimo  o  objeto  da  contratação,  o  negócio  jurídico  seria  válido,  ainda  que  tivesse  sido  objeto  de  acordo  verbal,  como admitiria a legislação brasileira;  ­  a  quantidade  de  funcionários  não  se  revelaria  critério  hábil  para avaliar o propósito empresarial da companhia, pois muitas  vezes  ela  se  vale  de  terceirizados,  que  prestam  serviços  na  medida e no limite das suas especializações;  ­  ele,  assim como outros  jogadores,  contaria  com a assistência  do clube, que teria interesses próprios nas transações efetuadas;  a  "turma  do  Neymar"  seria  um meio  do  clube  acompanhar  os  resultados econômicos da licença de imagem, maximizando seus  próprios ganhos;  ­ a abertura da Neymar Sport teria se dado quando ele contava  apenas com 14 anos e não jogava no time principal do Santos;  ­  teria  comprovado  a  finalidade  da  constituição  da  Neymar  Sport,  bem  como  o  integral  cumprimento  de  seu  objeto  social,  qual seja, o gerenciamento da imagem do impugnante;  ­  a  N&N  Consultoria  teria  por  finalidade  o  agenciamento  de  atletas,  auxiliando­os  na  condução  de  assuntos  profissionais  relativos à carreira esportiva;  ­  em  razão  de  a  empresa  Neymar  Sport  não  ser  capaz  de  administrar  concomitantemente  a  projeção  de  sua  imagem  e  também sua carreira desportiva,  teriam optado pela criação de  uma nova empresa para tratar dessa última;  Fl. 16525DF CARF MF     16  ­ a empresa prestaria assessoria ao jogador na escolha de clube,  na  negociação  de  contrato  de  trabalho,  nas  decisões  relacionadas  à  evolução  de  sua  carreira  e  na melhora  de  sua  performance;  ­  o  site  da  empresa  (www.nnconsultoria.com)  e  os  contratos  firmados com atletas/artistas agenciados por ela demonstrariam  seu propósito negocial; seria infundada a acusação de ausência  de substância econômica na consecução de suas atividades;  ­  os  contratos  assinados  pela  N&N  Consultoria  após  a  sua  constituição  representariam  a  manifestação  de  seu  propósito  negocial;  ­  não  configuraria  simulação  a  aposição  de  data  anterior  à  emissão do CNPJ, no contrato assinado com a empresa N&N;  ­  as  partes  teriam  indicado  no  contrato  a  data  em  que  pretendiam  que  ele  tivesse  sido  assinado,  mas,  por  motivos  alheios  ao  seu  próprio  controle,  a  assinatura  teria  ocorrido  alguns dias depois;  ­  esse  fato  não  invalidaria  a  contratação  e  muito  menos  imprimiria  a  ela  um  peso  de  fraude.  Apenas  indicaria,  na  sua  visão,  que  as  partes  queriam  manifestar  e  reforçar  que  seu  vínculo já existia desde uma data anterior.  ­  a  pessoa  jurídica  passaria  a  ter  existência  legal  e  personalidade jurídica com a inscrição de seus atos constitutivos  no registro próprio;  ­ a N&N existiria desde 21/09/2011 e gozaria de personalidade  jurídica, estando  legitimamente autorizada a assinar o contrato  de 27/10/2011;  ­ os valores recebidos decorrentes do contrato de arrendamento  de  serviços  profissionais,  assinado  entre  a  empresa  N&N  Consultoria  e  o  Barcelona,  não  estariam  relacionados  à  sua  atividade como jogador; a empresa  teria executado plenamente  as atividades para as quais  foi contratada,  conforme  relatórios  encaminhados ao Barcelona sobre jogadores em atividade; seria  prova  suficiente  de  que  teria  propósito  negocial  e  substância  desvinculada da relação de trabalho do contribuinte;  ­  cada  uma  das  três  empresas  teria  sua  atividade  própria  e  independente das demais: a Neymar Sport cuidaria da imagem, a  N&N,  da  carreira  e  a N&N Administração  de Bens,  dos  bens;  todas  elas  teriam  contabilidade  própria  e  negócios  jurídicos  distintos, inexistindo o conluio apontado pela Autoridade Fiscal;  ­  após  a  sua  contratação  pelo  Barcelona,  a  empresa  N&N  Administração  de  Bens  teria  firmado  contrato  de  imagem,  por  meio  do  qual  lhe  teriam  sido  cedidos  os  direitos  de  imagem  coletiva atribuídos pelo clube;  ­  os  rendimentos  auferidos  pela  empresa  em decorrência  desse  contrato  não  representariam  parcela  dos  seus  proventos  salariais; seriam receitas decorrentes da exploração da imagem  coletiva do time, tendo natureza essencialmente comercial;  Fl. 16526DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 10          17  ­  teria  obtido,  em  08/11/2011,  autorização  do  Santos  para  negociar seus futuros direitos econômicos e federativos, quando  encerrado seu compromisso com o clube;  ­ parecer jurídico juntado a sua defesa apontaria como legítimo  o  direito  da  empresa  N&N  receber  multa  punitiva  pelo  descumprimento do contrato pelo Barcelona;  ­  as  autoridades  fiscais  teriam  tirado  conclusões  inverídicas  e  desvinculadas da realidade dos fatos, no tocante a esse contrato;  ­ realizando o empréstimo para a N&N Consultoria, o Barcelona  pretenderia garantir a ida do jogador para o clube;  ­  inexistiria  óbice  legal  para  que  as  partes  contratassem  nesse  sentido;  ­ a natureza indenizatória da cláusula penal seria recepcionada  pela  legislação  e  jurisprudência  brasileiras,  que  admitiriam  a  compensação por "perda de chance";  ­  teriam  sido  recolhidos  os  impostos  e  contribuições  incidentes  sobre  o  empréstimo  recebido,  assim  como  o  ganho  de  capital  obtido por ocasião da devolução do empréstimo feito aos sócios  da N&N;  ­  com  sua  defesa,  teria  demonstrado  a  substância  econômica  relativa  à  constituição  e  ao  funcionamento  das  três  pessoas  jurídicas envolvidas;  ­  as  empresas  teriam  atividades  próprias  e  legítimas,  distintas  umas das outras e também distintas do trabalho profissional do  impugnante,  o  que  eliminaria  qualquer  descaracterização  das  suas atividades;  ­  os  vícios  apontados  pelas  autoridades  fiscais  não  prosperariam, na medida que o objeto contratado seria legítimo  e representaria a vontade das partes contratantes;  ­  todas  as  operações  societárias  envolveriam  empresas  operacionais, com propósitos negociais evidentes;  ­ a opção por modelos de operação societária previstos em lei e  tributariamente  mais  vantajosos  não  poderia  ser  equiparada  a  um ato fraudulento;  ­ as autoridades fiscais não teriam comprovado a ocorrência do  ato  fraudulento  e  de  dolo,  tendo  se  valido  de mera  presunção,  sem provas efetivas;  ­  os  fatos  apontados  no  tocante  à  empresa  Neymar  Sport  não  guardariam  relação  com  a  realidade  fática  vivida  pelo  contribuinte e pela empresa; a empresa teria empenhado tempo,  recursos  financeiros,  ampliado  o  mercado  do  impugnante,  potencializado e valorizado sua  imagem,  sempre  recolhendo os  tributos devidos;  Fl. 16527DF CARF MF     18  ­ o entendimento das autoridades  fiscais nos autos do processo  15983.720427/2012­21  iria  de  encontro  às  conclusões  da  presente autuação;  ­ em relação a N&N Consultoria, restaria comprovado o motivo  de  sua  criação,  bem  como  a  prestação  de  serviços  a  diversos  artistas  e  esportistas,  desenvolvendo  regularmente  suas  atividades e tendo um propósito negocial sólido;  ­  não  poderia  sofrer  o  ônus  tributário  incidente  sobre  rendimentos  que  não  seriam  de  sua  responsabilidade  e  nunca  teriam ingressado em suas contas bancárias;  ­ a  finalidade pretendida, a  forma como os atos ocorreram e o  seu  consequente  resultado  fiscal  teriam  se  dado  dentro  dos  limites legais;  ­ os fatos apontados pela Autoridade Fiscal provariam a ligação  entre as pessoas jurídicas, mas não a simulação, a interposição  fraudulenta  e  a  falta  de  propósito  negocial;  seria  indevida  a  tributação  de  pessoa  física  que  não  seria  sócia  e  nem  teria  se  aproveitado juridicamente do resultado das empresas;  ­  as autoridades  fiscais  teriam desconsiderado a personalidade  jurídica das  sociedades,  sem contar com a autorização  judicial  exigida;  ­  não  haveria  fundamento  para  a  desconsideração  da  personalidade  jurídica,  nem  competência  administrativa,  conforme artigo 50 do Código Civil;  ­  a  responsabilidade solidária  seria  contraditória  com a  lógica  adotada na autuação;  ­ os incisos I e II, do artigo 124 do CTN, não seriam aplicáveis  ao caso e inexistiria abuso de personalidade jurídica, desvio de  finalidade e confusão patrimonial;  ­  existiria  clara  distinção  patrimonial  entre  as  pessoas  envolvidas,  que  teriam  obedecido  rigorosamente  às  regras  de  escrituração contábil e fiscal;  ­  as  únicas  evidências  apresentadas  pela  fiscalização  seriam  eventos  circunstanciais  e  isolados  divulgados  pela  mídia,  que  não comporiam um conjunto probatório minimamente aceitável  para caracterizar a existência de confusão patrimonial;  ­  as  autoridades  fiscais  não  teriam  conseguido  identificar  qualquer  repasse  de  recursos  das  empresas  ao  impugnante,  justificando  o  lançamento  baseado  em  artigos  da  mídia  sensacionalista;  ­  os  tributos  que  teriam  sido  pagos  pelas  pessoas  jurídicas  deveriam ser considerados na quantificação do crédito tributário  constituído,  sob  pena  de  caracterização  de  bis  in  idem;  se  a  compensação  desses  valores  não  ocorrer  na  autuação,  as  empresas não teriam como reavê­los;  ­  os  acusados  entenderiam que  os valores  anteriormente pagos  seriam  devidos;  um  eventual  pedido  de  restituição  formulado  Fl. 16528DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 11          19  seria negado pela Delegacia de origem, até a decisão definitiva  nestes  autos;  se  for  aguardada  a  decisão  final  do  CARF,  o  indébito estaria decaído;  ­ faria jus a compensação de imposto de fontes no exterior;  ­  prevalecendo  a  autuação,  teriam  que  ser  reconhecidos  como  indevidos  todos  os  tributos  recolhidos  pelas  empresas  e  sócios  em 2014 e 2015;  tendo se  tornado não residente em janeiro de  2014 e, prevalecendo o entendimento da autuação, a tributação  dos  rendimentos  auferidos  e  tributados  pelas  empresas  nesse  período não poderia ser levada a efeito no contribuinte;  ­  as  autoridades  fiscais  teriam  desconsiderado  os  valores  recebidos,  da  forma  como  escriturados  na  contabilidade  das  empresas,  aplicando  as  regras  da  pessoa  física,  o  que  teria  modificado a base de cálculo o imposto;  ­ teria que ser aplicado ao caso o mesmo raciocínio lógico que  permite a compensação dos valores pagos na pessoa jurídica.  ­ seria indevida a aplicação concomitante da multa isolada e da  multa de ofício, conforme súmula do CARF;  Ao  final,  requer  a  nulidade  do  auto  de  infração  por  erro  de  sujeição passiva; e, caso não seja esse o entendimento, requer o  cancelamento  da  autuação,  haja  vista  a  necessidade  de  uma  estrutura  empresarial  para  atingir  o  potencial  econômico  do  jogador,  a  falta  de  comprovação  de  benefício  econômico  do  impugnante  com  a  estrutura  jurídica  desconsiderada  pela  Autoridade Fiscal, a validade de cessão do direito de imagem, o  pagamento  pelas  empresas  e  pelo  impugnante  dos  tributos  que  não foram considerados na autuação.  Repisa  que  as  atividades  das  empresas  seriam  inteiramente  compatíveis com a disciplina prevista no direito esportivo, tanto  no âmbito doméstico como no internacional, ressaltando ainda a  criação  do  Instituto  Neymar  em  prol  da  comunidade  e  a  inexistência de planejamento tributário.  Pede  ainda  o  cancelamento  da  multa  de  ofício  de  150%,  entendendo não restar comprovada simulação ou intuito doloso  na  conduta  dos  envolvidos.  Requer  todos  os  meios  de  prova,  inclusive perícia e diligência.  Das impugnações dos responsáveis solidários  Neymar Sport (fls. 8.554/8.654, acompanhada de documentos de  fls.8.655/9.787),  N&N  Consultoria  Esportiva  e  Empresarial  LTDA  (fls.  9.791/9.892,  acompanhada  de  documentos  de  fls.  9.893/11.025),  Nadine  Gonçalves  da  Silva  Santos  (fls.11.029/11.129,  acompanhada  de  documentos  de  fls.  11.130/12.263),  N&N  Administração  de  Bens,  Participações  e  Investimentos  LTDA  (fls.  12.267/12.368,  acompanhada  de  documentos de fls. 12.369/13.505) e Neymar da Silva Santos (fls.  13.509/13.613,  acompanhada  de  documentos  de  fls.  Fl. 16529DF CARF MF     20  13.614/14.747)  apresentaram,  em  09/06/2015,  defesas  de  idêntico  teor, apenas alterando a ordem, na peça de defesa, do  item intitulado "Da inexistência de responsabilidade solidária".  Em sessão realizada em 04 de Março de 2016, a 20ª Turma da DRJ/RJ julgou  a impugnação procedente, conforme decisão assim ementada:  "OMISSÃO  DE  RENDIMENTOS.  Os  rendimentos  tributáveis  sujeitos à tabela progressiva recebidos pelos contribuintes e seus  dependentes  indicados  na  declaração  de  ajuste  devem  ser  espontaneamente  oferecidos  à  tributação  na  declaração  de  ajuste anual.  Na hipótese de apuração pelo Fisco de omissão de rendimentos  sujeitos à tabela progressiva, cabe a adição do valor omitido à  base de cálculo do imposto, com exigência do crédito tributário  correspondente  ou  ajuste  do  valor  do  IRPF  a  Restituir  declarado.  FALTA  DE  RECOLHIMENTO  MENSAL  OBRIGATÓRIO  (CARNÊ­LEÃO).  MULTA  ISOLADA.  Sujeita­se  ao  pagamento  mensal obrigatório do  imposto  (carnê­leão) a pessoa  física que  receber de outra pessoa física, ou de fontes situadas no exterior,  rendimentos que não tenham sido tributados na fonte, no País. A  falta  de  recolhimento  mensal  obrigatório  enseja,  por  expressa  determinação legal, a aplicação da multa isolada.  DIREITO DE  IMAGEM. O direito à própria  imagem não pode  ser objeto de alienação ou mesmo de  transferência, por ser um  direito personalíssimo e  vinculado à própria pessoa, ainda que  sua utilização, por meio de licença de uso seja possível.  O  titular  pode  autorizar  ou  licenciar  a  exploração  do  uso  do  direito e não ceder o próprio direito em si. Não pode transferir a  titularidade do direito a uma pessoa jurídica, com quem não tem  qualquer vínculo, para que ela, como nova titular desse direito,  autorize a exploração do seu uso.  O contrato de cessão do próprio direito de imagem para terceiro  (diferente do contrato de cessão do uso do direito), para que ele  o explore (como se fosse o novo titular desse direito), não pode  ser  oposto  ao  Fisco,  mormente  se  não  foi  objeto  de  registro  público e se constatada fraude, simulação.  JOGADOR DE FUTEBOL. CONTRATO DE EXPLORAÇÃO DO  DIREITO  DE  IMAGEM  CELEBRADO  COM  O  CLUBE.  FRAUDE.  Conquanto  o  direito  de  imagem  goze  de  natureza  tipicamente civil, há de ser reconhecida a sua natureza salarial,  quando,  no  caso  concreto,  a  parcela  é  ajustada  em  valor  que  supera o salário nominal do empregado e a entidade desportiva  não  consegue  comprovar  a  efetiva  exploração  da  imagem  contratada com o jogador.  Verificada  a  desproporcionalidade  entre  o  valor  ajustado  e  o  salário do atleta e não sendo possível a comprovação pelo clube  da devida exploração da imagem contratada ­ o que é o objeto  central  do  contrato  de  licença  de  uso  de  imagem  ­  resta  evidenciada  a  fraude  na  contratação  do  atleta,  artifício  usado  Fl. 16530DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 12          21  para evitar o pagamento  integral  dos  tributos devidos,inclusive  com a utilização de interposta empresa prestadora de serviços.  IDENTIFICAÇÃO  DO  VERDADEIRO  SUJEITO  PASSIVO DA  OBRIGAÇÃO  TRIBUTÁRIA.  A  autoridade  fiscal  pode  reclassificar receitas apresentadas ao Fisco como auferidas por  determinadas  empresas  em  decorrência  de  contratos  intuitupersonae  firmados  com  outras  empresas,  tratando­as  como  rendimentos  auferidos  pela  pessoa  física,  diante  da  constatação  da  relação  pessoal  e  direta  desta  com  a  situação  que  constitua  o  fato  gerador  do  tributo  e  da  apuração  de  negócios  jurídicos  praticados  com a  finalidade  de  dissimular a  ocorrência  do  fato  gerador  do  tributo  ou  a  natureza  dos  elementos constitutivos da obrigação tributária.  IMPONIBILIDADE  AO  FISCO  DE  INSTRUMENTO  PARTICULAR NÃO REGISTRADO NO REGISTRO PÚBLICO.  O instrumento particular não registrado no registro público não  produz efeitos perante terceiros, inclusive o Fisco, não podendo  ser oposto a ele para afastar a exigência tributária.  ATO  OU  NEGÓCIO  JURÍDICO  SIMULADO.  DESCONSIDERAÇÃO PELO FISCO.Restando comprovado que  o  contribuinte  praticou  ato  jurídico  simulado,  com o  intuito  de  impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato  gerador  da  obrigação  tributária  principal,  ou  a  excluir  ou  modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o  montante do imposto devido, evitar ou diferir o seu pagamento,  impõe­se a desconsideração do ato viciado.  MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. É cabível a aplicação da  multa qualificada nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei  nº4.502, de 1964.  MULTA ISOLADA E MULTA DE OFÍCIO. CONCOMITÂNCIA.  A  aplicação  da  multa  isolada  decorre  de  descumprimento  do  dever  legal  de  recolhimento  mensal  de  carnê­leão,  não  se  confundindo  com  a multa  proporcional  aplicada  sobre  o  valor  do  imposto  apurado  nos  casos  de  falta  de  pagamento  ou  recolhimento, de falta de declaração ou de declaração inexata.  COMPENSAÇÃO  DE  DÉBITO  DA  PESSOA  FÍSICA  COM  CRÉDITO  DE  PESSOA  JURÍDICA.O  suposto  crédito  advindo  do pagamento de impostos pela pessoa jurídica não é passível de  compensação com débito do sujeito passivo (pessoa física).  CRÉDITO  TRIBUTÁRIO.  RESPONSABILIDADE  SOLIDÁRIA.  Respondem solidariamente pelo crédito  lançado as pessoas que  tenham  interesse  comum  na  situação  que  constitua  o  fato  gerador  da  obrigação  principal,  evidenciado  na  participação  direta ou indireta nas operações e no desfrute de seus resultados  em caso de fraude.  Impugnação Improcedente  Crédito Tributário Mantido"  Fl. 16531DF CARF MF     22  RECURSO VOLUNTÁRIO  O contribuinte  foi  intimado da decisão  em 17 de março de 2016 e  interpôs  recurso  voluntário  em  18  de  abril  de  2016,  reiterando  o  que  alegou  na  impugnação,  acrescentando,  ainda,  em  pontos  objetivos,  os  seguintes  argumentos  resumidos  (abaixo  se  inicia do numeral "2" com objetivo de observar a mesma numeração da peça recursal):  2.  Pontos  cruciais  da  defesa  que  merecem  atenção  inicial  dos  nobres  conselheiros  2.1 Real necessidade de estrutura empresarial para explorar a imagem e  apoiar a carreira do atleta  Argumenta  que  a  criação  de  empresas  para  gerir  tarefas  empresariais  teria  sido necessária para que Neymar Jr. tivesse tempo para se dedicar as suas atividades esportivas.  A Neymar Sport  haveria  sido  criada  quando Neymar  Jr.  tinha  14  anos  por  exigência  do  Santos  Futebol  Clube  para  representá­lo  em  relação  a  sua  imagem,  a  N&N  haveria sido criada em 2011 para assessorá­lo em relação a sua carreira e em 2012 haveria sido  criada a N&N Administração de Imóveis para cuidar de seus bens.  2.2  Indevida  desconsideração  da  personalidade  jurídica  das  empresas  para atingir o atleta  Destaca  que  a  fiscalização  teria  alegado  confusão  patrimonial  e  desvio  de  finalidade entre as empresas, critérios de fato presentes no art. 50 do Código Civil, mas cuja  aplicação estaria adstrita ao Poder Judiciário. Destaca, ainda, que a fiscalização teria acusado  as  empresas  e  seus  sócios  de  serem  responsáveis  solidários  pelo  débito  fiscal,  pois  seriam  empresas  interpostas, mas  logo após  teria afirmado que estas efetivamente  teriam atuado nas  operações fraudulentas.  Alega  que  a  DRJ  teria  afirmado  que  não  houve  desconsideração  de  personalidade  jurídica, mas mera reclassificação de receitas, apesar da fiscalização  jamais  ter  feito essa afirmação.  2.3  Não  há  prova  do  benefício  do  Recorrente  com  a  estrutura  que  foi  desconsiderada  Argumenta que Neymar Jr. não seria sócio de nenhuma das empresas e que  não  teria  recebido  nenhum  rendimento  das  mesmas.  Sustenta,  ainda,  que  não  haveria  comprovação  do  benefício  econômico  de  Neymar  Jr.,  pois  todas  as  receitas  teriam  sido  recebidas  pelas  empresas,  desta  forma,  não  haveria  capacidade  contributiva  a  ser  atribuída  a  Neymar Jr.  2.4 Validade da Cessão de Uso de Direitos Econômicos de Imagem  Alega  que  as  autoridades  fiscais  teriam  considerado  nulas  as  cessões  de  cessão  de  uso  de  imagem  quando  haveria  reconhecimento  doutrinário  e  legislativo  de  tal  direito. Cita a MP 690/15 em que haveria disciplina da tributação da exploração do direito de  imagem  as  empresas  e  art.  129  da  Lei  11.196/05  que  proibiria  o  Fisco  de  desconsiderar  a  personalidade jurídica no intuito de alcançar indivíduos no caso de exploração empresarial de  atividades culturais e artísticas, mesmo as de caráter personalíssimo.  Fl. 16532DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 13          23    2.5 Irregularidades formais nos contratos não  interrompem seus efeitos  se convalidados ao longo da execução  Alega  que  as  autoridades  fiscais  teriam  dado mais  peso  que  o  aplicável  as  formalidades  contratuais,  pois  a  legislação  brasileira  disciplina  que  o  acordo  de  vontade  vincula as partes, independentemente de ser escrito ou verbal, de ser assinado por testemunhas  ou mesmo se ausentes o registro público ou reconhecimento de firmas.  1º  ­  Suposta  Fraude  na  Cessão  de  Direito  de  uso  da  Imagem  do  Recorrente para Neymar Sport  Cita o Instrumento Particular de Contrato de Cessão de Direito que, segundo  a  fiscalização,  teria  sido  antedatado, pois  embora datado de 11/05/2006 continha o CNPJ da  empresa, o qual só teria sido emitido 22 de Maio de 2006.  A explicação constante do Recurso Voluntário  explicita que em 01/04/06 o  Santos Futebol Clube se propôs a investir na carreira de Neymar Jr. Uma das condições teria  sido de "apresentar no prazo máximo de 40 (quarenta) dias a partir da assinatura da presente,  ou seja, até 10 de maio de 2006, a documentação da empresa detentora dos seus direitos de  imagem,  com  código  de  atividade  econômica  principal  adequado  à  essa  atividade  (CNPJ),  cuja empresa deverá figurar como Cedente no mencionado contrato a ser celebrado."  Alega que,  como a Neymar Sport,  empresa que viria  a  se  tornar  titular dos  direitos patrimoniais de  imagem de Neymar Jr. ainda não continha o CNPJ, os sócios  teriam  aguardado até que este  foi emitido, em 22 de Maio de 2006, para ser  assinado, mantendo­se  todavia a data do contrato àquela exigida de 11 de Maio de 2006.  Desta forma, argumenta que o contrato não teria sido antedatado para lesar o  fisco, mas simplesmente por um receio de se perder a oportunidade ofertada. Ou seja, não teria  havido dolo e lembra que Neymar Jr. teria apenas 14 anos na época.  Argumenta  que  a  cessão  de  direitos  patrimoniais  de  imagem  representaria  negócio  jurídico  válido  em  substância  e  forma,  mas  mesmo  que  considerado  simulado  nos  termos  do  art.  167  do Código Civil  não  seria  nulo  visto  que  este mesmo  preceituaria  que  o  subsistirá o que se dissimulou, se válido for na substância e na forma.  Os erros nas datas do contrato não teriam intenção de enganar ninguém, eis  que nesse  ínterim não  teria ocorrido qualquer  fato gerador de  imposto de  renda ou qualquer  outro tributo.  2º  ­  Suposta  Fraude  pela  N&N  ao  assinar  contrato  de  consultoria  esportiva com o Recorrente  Cita  o  Instrumento  Particular  de  Contrato  de  Consultoria  Esportiva  que,  segundo a fiscalização, teria sido antedatado, pois embora datado de 27 de Outubro de 2011 já  continha o CNPJ da empresa, o qual só teria sido emitido em 17 de Novembro de 2011.  Alega que, entre 27 de outubro de 2011 e 17 de Novembro de 2011 (22 dias)  a N&N teria firmado Acordo para futura transferência de direitos federativos e econômicos de  Fl. 16533DF CARF MF     24  Neymar Jr. ao Barcelona em 15 de Novembro de 2011. Desta  forma, caso considerado nulo,  seriam ainda anulados os contratos firmados pela N&N (1) Contrato de empréstimo celebrado  com Neymar e Nadine em 15/02/2012; (2) Contrato de Arrendamento de Serviços Profissionais  celebrado  com  o  Barcelona  em  30/07/2013  e  (3)  Contrato  de  empréstimo  celebrado  com  o  Barcelona em 06/12/2013.  Argumenta que  a  empresa  já gozaria de personalidade  jurídica desde 21 de  Setembro  de  2011  quando  teria  levado  a  registro  seus  atos  constitutivos,  portanto,  estaria  legitimada, assim, a celebrar o contrato. Sustentam que, neste caso as partes teriam inserido no  contrato  a  data  em  que  pretendiam  que  ele  tivesse  sido  assinado  e  quando  já  se  sentiam  vinculadas  mas  que  por  motivos  alheios  a  seu  controle  (estavam  ausentes  negociações  demoraram mais  que  o  esperado,  dependiam da  aprovação  da  diretoria,  advogado  atrasou)  a  assinatura teria ocorrido alguns dias depois.  Desta  forma,  apesar  de  antedatado,  o  contrato  não  poderia  ser  considerado  como fraude visto a ausência de dolo, elemento intrínseco da simulação.  Refuta as alegações da fiscalização de que a variação de dias (22 dias) teria o  condão de  alterar  fatos  geradores  futuros  e considerar nulos  estes  contratos para  fins  fiscais,  quando a diferença de datas é  irrelevante para arrecadação dos  tributos. Frisa que as dúvidas  levantadas  pelo  fisco  são  apenas  em  relação  as  datas  e  não  ao  conteúdo  do  contrato  que  permanecem válidos nos termos do art. 167 do Código Civil.  Desta  forma,  sustenta  que  provaria­se  que  não  houve  dolo,  pois  não  seria  possível identificar quem teria sido enganado no ínterim entre as datas de assinatura e emissão  do  CNPJ.  Alega  que  alguém  que  antecipa  intencionalmente  datas  de  contrato  queira  se  favorecer dos efeitos jurídicos de data anterior, o que não ficaria comprovado no caso.  2.6 Acusados pagaram tributos que não foram considerados no Auto de  Infração  Alega que as autoridades fiscais não consideraram os  tributos que já  teriam  sido  pagos  pelas  empresas  solidárias  no  período.  Este  posicionamento,  que  teria  sido  chancelado  pela  decisão  recorrida,  configuraria  confisco  e  promoveria  enriquecimento  sem  causa da União.  2.7 Atividades das empresas são compatíveis com Direito Esportivo  Argumenta que a legislação conferiria ao jogador, através da empresa que o  agencia,  a  negociar  sua  transferência  para  o  período  após  o  contrato  de  trabalho,  quando  se  tornaria "free agent".  2.8 Ausência de simulação e de intuito doloso na conduta dos envolvidos  Alega que não estariam presentes nos autos qualquer dos elementos exigidos  pela jurisprudência administrativa para a caracterização de simulação: a) falsa aparência a ser  desconstituída;  b)  não  haveria  benefício  econômico  de Neymar  Jr.;  c)  o  administrador  teria  aplicado  a  lei  convicto  de  ser  a  melhor  interpretação;  d)  não  haveria  redução  tributária;  e)  haveria vedação expressa para desconsideração de personalidade jurídica neste caso.  2.9 A criação do Instituto Neymar Jr. em prol da comunidade  Fl. 16534DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 14          25  O  Instituto Neymar  Jr.,  projeto  com área de 8.400 m2  e  cujo objetivo  seria  auxiliar  a  comunidade  carente  do  Estado  de  São  Paulo,  comprovaria  que  há  propósito  corporativo para as empresas.  3. Preliminares  3.1 Erro de sujeição passiva  Sustenta  que  o  lançamento  teria  se  baseado  na  tese  de  que  são  personalíssimos e intransferíveis os direitos relacionados aos serviços alegadamente prestados  por  Neymar  Jr.  Sendo  assim,  haveria  uma  reclassificação  dos  respectivos  rendimentos  da  pessoa jurídica para a pessoa física. Ou seja, as pessoas jurídicas seriam interpostas, concluindo  que  os  rendimentos  deveriam  ser  redirecionados  ao Recorrente. No  entanto, Neymar  Jr.  não  teria recebido qualquer  rendimento advindo das empresas, ou seja, não seria beneficiário dos  rendimentos.  Alega  que  as  autoridades  fiscais  sustentaram,  ainda,  simulação  e  falta  de  substancia  na  constituição  das  empresas  envolvidas,  no  entanto,  afirma  que  a  estrutura  operacional teria evoluído contando hoje com quase 50 funcionários, prédio dedicado as suas  atividades, contabilidade regular e inúmeros contratos.  Desta  forma,  o  lançamento  fiscal  é  nulo  pois  teria  sido  imputado  erro  na  eleição do sujeito passivo.  3.2 Nulidade por falta de motivação legal  Afirma  que  não  haveria  na  descrição  do  auto  de  infração  indicação  de  fundamento  para  desconsideração  da  personalidade  jurídica.  A  base  legal  mencionada  é  genérica em relação a tributação da pessoa física. Não há elementos que permitiriam concluir  se  a  desconsideração  decorre  do  art.  116  do  CTN,  artigo  50  do  Código  Civil  ou  de  responsabilidade tributária com base no art. 135 e 137 do CTN.  Defende,  desta  forma,  a  nulidade  do  Auto  de  Infração  por  ausência  na  fundamentação legal e porque estaria fundamentado em regras de caráter genérico.  3.3 Retroatividade Benigna da MP 690/15  Alega,  em  sede  de  Recurso  Voluntário  que,  com  a  edição  da  Medida  Provisória  690/15,  a  Fazenda  Nacional  admitiria  expressamente  a  exploração  de  direito  de  imagem  de  celebridades  por  meio  de  pessoa  jurídica  constituída  para  este  fim.  Suscita  aplicação  do  artigo  106  do  CTN  que  teria  previsto  aplicação  de  lei  nova  a  fato  pretérito.  Argumenta que embora a MP mencionada não tivesse sido convertida em lei, esta vigorou por  120 dias o que permitiria a aplicação da retroatividade benigna do art. 106 do CTN.  3.4 Nulidade da  exigência  fiscal  sobre  receitas que  já  foram  tributadas  pela pessoa jurídica  A defesa do contribuinte se insurge contra a impossibilidade de compensação  no lançamento fiscal sobre tributos que já teriam sido pagos pelas pessoas jurídicas envolvidas.  Argumenta  que  se  a  estrutura  empresarial  foi  considerada  enganosa  e  inexistente,  seria  coerente considerar como indevidos os tributos que teriam sido por estas.  Fl. 16535DF CARF MF     26  Argumenta  que  deveria  ser  exigido  no  lançamento  apenas  a  parcela  não  recolhida de tributos cobrados, sob pena de confisco e enriquecimento sem causa do Erário.  Cita  precedentes  favoráveis  do  CARF  no  sentido  de  que  seria  possível  a  compensação/aproveitamento de  tributos pagos pela pessoa  jurídica pela  pessoa  física objeto  do lançamento.  3.5 Reconhecimento dos tributos pagos em 2014 e 2015 pelas empresas e  seus sócios que sofrera a descaracterização pela fiscalização  Alega que, na hipótese de prevalecer o lançamento, todos os rendimentos de  2014  e  2015  que  teriam  sido  pelas  empresas  e  demais  acusados  também  deveriam  ser  imputados a Neymar Jr.  Considerando  que  Neymar  Jr.  teria  passado  à  condição  de  residente  na  Espanha a partir de janeiro de 2014, os tributos que teriam sido pagos pelas empresas e sócios  em 2014 e 2015  teriam  sido  recolhidos  indevidamente no Brasil,  devendo o Fisco brasileiro  promover  sua  restituição. Neste  sentido,  a defesa do  atleta  requer que os  tributos pagos pela  autuação sejam também incluídos na compensação de ofício, caso o lançamento prevaleça.  4. Razões de Mérito  4.1  Propósito  Empresarial  e  Substância  das  Atividades  Desenvolvidas  pela Neymar Sport, N&N Consultoria e N&N Administração de Bens  Caracteriza o histórico da Neymar Sport em três principais fases.  A primeira entre 2006 e 2009 relacionada a sua estruturação, a segunda entre  2009 e 2011 marcada pelo crescimento de Neymar Jr. em mercado brasileiro e divulgação da  imagem do atleta e a terceira entre 2011 e a presente data em que haveria expansão da imagem  do atleta em mercados internacionais.  Como  argumento  para  a  falta  de  substancia,  as  autoridades  fiscais  teriam  alegado que a Neymar Sport tinha poucos funcionários, já que alguns colaboradores do Santos  assessoravam e Neymar Jr.  Neste sentido, argumenta que a participação dos colaboradores do Santos se  deu porque na época o Santos deteria 100% do recebimento dos recursos advindos da imagem  de Neymar Jr. Com a mudança deste cenário em 2010, os assessores teriam sido contratados e  pagos pela Neymar Sport. Alega, ainda, que não necessariamente a quantidade de empregados  serviria para avaliar o propósito empresarial da empresa, que as vezes se valeria de terceiros.  Defende  que  não  é  possível  alegar  que  em  2006,  quando Neymar  Jr.  tinha  apenas 14 anos e nem era jogados profissional ainda, poderia­se presumir que os seus pais já  saberiam que seria uma celebridade internacional de futebol e receberia valores milionários por  sua imagem.  4.2 Direito de Imagem: evolução cronológica  Argumenta a defesa do atleta que em 01/08/2004 teria assinado seu primeiro  contrato com o Santos para atletas em formação.  Em 01/04/2006  teria  assinado  segundo  contrato  com o Santos  que  previa  a  cessão  de  imagem  de  Neymar  Jr.  ao  clube.  Tendo  em  vista  que  a  Neymar  Sport  já  seria  Fl. 16536DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 15          27  detentora dos direitos de uso da imagem de Neymar Jr., ela teria firmado com o Santos contrato  que previa a cessão do uso de imagem até 05/02/2011.  Em  01/04/2009  teria  havido  celebração  de  novo  contrato  de  trabalho  entre  Neymar  Jr.  e  Santos,  ocasião  em  que  teria  sido  reafirmada  a  cessão  de  imagem  conferida  a  Neymar Sport.  Ao  longo  dos  próximos  anos,  teriam  sido  celebrados  aditamentos  entre  a  Neymar Sport e o Santos de modo que a participação da Neymar Sport fosse aumentando até  que, em meados de 2013, o vínculo entre Neymar Jr. e o Santos teria sido encerrado.  Ressalta  que  apesar  da  autoridade  fiscal  pretender  dar  conotação  de  fraude  aos  contratos  simplesmente  porque  por  vezes  utilizaria  a  expressão  "cessão  de  direito  de  imagem"  e  não  "cessão  de  uso  de  direito  de  imagem",  tal  conotação  não  seria  possível  conforme art. 107 e 112 do Código Civil que determinariam, respectivamente, que " A validade  da declaração de vontade não dependerá de forma especial, senão quando a lei expressamente a  exigir." e " Nas declarações de vontade se atenderá mais à intenção nelas consubstanciada do  que ao sentido literal da linguagem."  4.3 Cessão de Imagem a pessoa jurídica e condições da cessão  Argumenta  que  a  Constituição  Federal  e  Código  Civil  amparariam  na  generalidade  a  proteção  aos  direitos  pessoais,  incluindo  o  direito  de  imagem.  Essa  proteção  consideraria  os  reflexos  morais  do  direito  de  imagem,  caracterizando­os  como  direitos  personalíssimos  e  invioláveis.  Por  outro  lado,  o  direito  de  imagem  não  se  resumiria  ao  seu  aspecto  moral,  mas  também  absorveria  aspectos  econômicos  que  seriam  chamados  de  patrimoniais  que,  por  sua  vez,  seriam  disponíveis  através  de  transferência,  cessão  ou  licenciamento. Cita a Lei Pelé.  Sustenta,  ainda,  que  a  legislação  societária  e  civil  autorizaria  a  criação  de  empresa individual para exploração do direito de imagem ­ EIRELI.  Defende que as condições contratuais para exercício do direito de uso seriam  questões  que  emergem da  negociação  particular  entre  os  contratantes,  não  cabendo  ao Fisco  levantar suposições de que a  contratação  foge do usual ou que deveria  ter mais cláusulas. O  fato de ter sido cedida a título gratuito não invalida a cessão, pois a vontade das partes teria se  dado dentro dos parâmetros legais. Cita precedentes.  4.4 Direito Personalíssimo  Alega  que,  apesar  das  autoridades  fiscais  terem  desconsiderado  a  natureza  dos contratos de cessão de uso de imagem por entender que  tem caráter personalíssimo, sem  execução propriamente pela empresa, mas sim pessoal de Neymar Jr., argumenta que o caráter  pessoal seria  intrínseco a qualquer prestação de  serviço, pois ao se contratar qualquer pessoa  jurídica  o  que  se  busca,  na  verdade,  seria  a  atuação  do  profissional  atuante  (caráter  personalíssimo) mas nem por isso deve­se atribuir o rendimento às pessoas físicas, mas sim às  pessoas jurídicas contratadas.  As características constitucionais do direito a imagem de ser personalíssimo e  inviolável e ainda aquelas que teriam sido pelo Código Civil ­ intransmissível e irrenunciável ­  diriam  respeito  a  imagem de  conteúdo moral. Com a  evolução  do  direito  entendeu­se  que  a  Fl. 16537DF CARF MF     28  imagem, em determinadas situações, também possuiria conteúdo patrimonial sujeito a cessão a  terceiros. Neste contexto foi publicada a Lei 11.196/05 regulando em seu art. 129 o tratamento  fiscal aplicável a este tipo de contratação.  O  objeto  do  contrato  seria  a  exploração  da  figura  do  ídolo,  totalmente  desconexa  de  sua  atividade  profissional,  desta  forma,  não  poderiam  ser  considerados  tais  rendimentos como de relação de trabalho sem vínculo empregatício.  4.5 Compartilhamento do proveito econômico do uso de Imagem  Alega  que  a  cessão  do  direito  de  uso  de  imagem  teria  sido  subcedida  ao  Santos em sua totalidade por muitos anos. Desta forma, as autoridades deveriam questionar o  Santos  que,  da  mesma  forma,  foi  explorador  do  direito  de  imagem  de  Neymar  Jr.  a  título  gratuito.  Este fato justifica o envolvimento de colaboradores do Santos. A medida que  o os proveitos da imagem foram sendo deslocados para a Neymar Sport, custos e investimentos  foram assumidos pela empresa, que foi crescendo e se aparelhando para tanto.  4.6 Serviço de Publicidade e Diária  Apesar das autoridades  fiscais e  julgadores de primeira  instancia acordarem  que os valores recebidos pela Neymar Sport a titulo de exploração dos direitos de imagem de  Neymar Jr. deveriam ser considerados como remuneração de trabalho de publicidade, sustenta  a  defesa  que  o  seu  rendimento  de  trabalho  é  pago  pelo  clube  que  o  contratou,  pois  sua  atividades  profissional  é  jogar  futebol.  Por  isso  Neymar  Jr.  teria  recebido  remuneração  intitulada de "diária" que compensa sua disponibilidade por algumas horas para cumprir com  sua  obrigação  personalíssima  (diferente  de  direito  personalíssimo)  não  desqualificando  o  acordo de cessão de direito de uso de imagem.  4.7 Remuneração não tem natureza salarial  Sustenta que Neymar  Jr.  jogava  futebol  para o Santos  e  recebia  salário nos  termos da CLT. É possível verificar que o salário foi aumentando gradativamente ao longo dos  anos: 2008 ­ R$ 25 mil; 2009 ­ R$ 50 mil; 2010 ­ R$ 130 mil e 2011 a 2013 ­ R$ 200 mil.  Desta  forma,  fica  refuta  as  alegações  das  autoridades  fiscais  de  que  o  salário  cumpria  patamares  mínimos  para  fins  de  reduzir  a  carga  tributária  incidente.  Ou  seja,  não  houve  redução salarial ou substituição por licença de uso de imagem.  Cita precedentes da Justiça do Trabalho que explicam as situações em que o  salário é legítimo e aquelas nos quais os clubes camuflam o pagamento por meio de utilização  fraudulenta  do  instituto  do  direito  de  imagem.  Destaca  o  caso  de Alexandre  "Pato"  em  que  restou entendido que o fato do atleta ter cedido seus direitos de imagem a empresa que sequer é  sócio  reforça  o  entendimento  de  que  tais  valores  não  poderiam  ser  entendidos  como  complemento a remuneração.  Cita,  ainda,  entendimento  do Conselho Administrativo  de Recursos  Fiscais  quanto  a  não  incidência  de  contribuições  previdenciárias  sobre  direito  de  imagem,  por  reconhecer que não se trata de remuneração.  4.8 Data do Contrato, Registro e Demais formalidade contratuais  a) Data do Contrato vis a vis emissão do CNPJ  Fl. 16538DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 16          29  Cita  alegações  das  autoridades  fiscais  que  Neymar  Jr.  teria  simulado  dois  contratos  e  argumenta  que  em  nenhum  momento  houve  fraude  ou  dolo  pois  os  contratos  refletem a verdadeira intenção das partes.  Sustenta que um descasamento de poucos dias seria resultado de intenção de  fraudar o fisco seria absurdo, ainda mais no contrato assinado em 2006, data em que Neymar  Jr.  tinha  apenas  14  anos.  Alega  que  a  diferença  de  datas  não  caracteriza  fraude  por  três  motivos:  i)  não  houve  dolo  ou  intuito  de  fraude,  elementos  imprescindíveis  para  configurar  nulidade  do  negocio  jurídico;  ii)  não  há  parte  prejudicada,  pois  nenhum  dos  contraentes  do  pacto  alegou  prejuízo;  iii)  nenhum  efeito  monetário  vantajoso  foi  produzido  no  ínterim  da  diferença  de  dias,  nenhum  valor  foi  pago  pelo  Santos,ou  seja,  não  houve  fato  gerador  de  imposto de renda.  Ressalta  que  para  efeitos  da Autuação  Fiscal  que  abrange  os  exercícios  de  2011 a 2013 vale o contrato de cessão de direito de uso de  imagem assinado em 01/04/2009  sobre o qual não há qualquer questionamento de data.  b) Registro e Reconhecimento de Firmas  Aponta que na decisão recorrida foi indicado que "O instrumento particular  não registrado no registro publico não produz efeitos perante terceiros, inclusive o Fisco, não  poder ser oposto a ele para afastar a exigência tributária".  Neste  sentido,  alega  que  a  legislação  é  clara  ao  prever  que  o  acordo  de  vontade  vincula  e  obriga  as  partes  independentemente  da  forma  (verbal  ou  escrita,  contrato  particular ou escritura publica, com presença de  testemunhas ou não) e mesmo se ausentes o  registro publico e reconhecimento de firmas. Desta forma, a falta de qualquer destes requisitos  não torna os contratos inválidos, considerando que houve acordo de vontade entre as partes e  sendo legítimo o objeto de contratação, o negocio jurídico é valido.  4.9 Pré­Acordo com o Barcelona e a Cláusula Penal  Neste tópico a defesa do contribuinte relata os atos que envolveram sua saída  do  Santos  e  sua  contratação  pelo  Barcelona,  de  forma  a Argumentar  a  natureza  efetiva  dos  diferentes pagamentos realizados por tal clube a Neymar Jr. e as empresas.  Argumenta primeiramente que a venda de Neymar Jr. ao Barcelona foi feita  pelo Santos, detentor dos direitos federativos sobre o atleta à época.  Após  a  contratação  do  jogador  profissional  em  2009,  o  Santos  renovou  o  contrato com e Neymar Jr. em agosto de 2011 e, após diversos aditamentos, prorrogou a sua  duração até 25/08/2014.  Dentro  deste  contexto  de  aprimoramento  profissional,  Neymar  Jr.  celebrou  contrato  com a N&N Consultoria para que  fosse desenvolvido um plano de  carreira a  longo  prazo objetivando oportunidades a partir de 2014, quando estaria desvinculado do Santos.  Em novembro de 2011,  como não  tinha pretensão de  renovar o  contrato de  trabalho após 2014, o Santos concedeu a Neymar Jr. uma autorização ­ em caráter de exceção  ao regulamento da FIFA ­ para que ele pudesse negociar seus direitos econômicos e federativos  Fl. 16539DF CARF MF     30  quando  encerrasse  seu  compromisso  com  o  Santos.  Ressalta  que  Neymar  Jr.  nunca  foi  penalizado pela FIFA ou CBF.  Desta  forma,  mediante  anuência  do  Santos,  a  N&N  concedeu  uma  opção  futura ao Barcelona de contratar o jogador quando o seu vinculo com o Santos expirasse.  Cita parecer do responsável pelo Departamento de Governança e Disciplina  da  FIFA  em  que  este  pacifica  o  direito  legitimo  da N&N  de  receber  a multa  punitiva  pelo  descumprimento do Barcelona, de acordo com os seguintes argumentos:  a) os pais do  jogador  seriam seus agentes naturais, podendo atuar de  forma  individual  ou  empresarial,  hipótese  em  que  a  empresa  é  legitima  titular  das  remunerações  negociadas. Deve haver vinculo contratual entre o jogador e tal empresa, como de fato há entre  o atleta e a N&N;  b)  Não  é  admitido  que  um  terceiro  represente  o  jogador  a  titulo  gratuito,  mesmo que parente. A remuneração a ser paga pelo clube contratante não observa limite.  c)  Não  há  óbice  para  que  um  clube  conceda  liberação  ao  jogador  para  negociar opção de transferência quando se tornar "free agent".  Desta forma, foi celebrado em 15/11/2011 entre Barcelona, N&N e Neymar  Jr. o acordo cuja opção de contratação futura cuja opção consistia na faculdade do Barcelona  adquirir os direitos federativos e econômicos do  jogador quando estive estivesse na condição  de "free agent".  O  acordo  previa  que  o Barcelona  deveria  pagar  a N&N pelo  exercício  dos  direitos futuro a quantia de €40 milhões da seguinte forma: i) €10 milhões como compensação  da amortização do empréstimo previsto no contrato firmado entre as partes em 06/12/2011 e ii)  €30 milhões em 01/09/2014 momento em que o jogador se tornaria "free agent". Caso qualquer  das partes descumprisse o acordo deveria pagar à outra parte uma clausula penal compensatória  no valor de €40 milhões.  No  entanto,  alega  que  o  Barcelona  descumpriu  o  acordo  ao  entrar  em  negociações diretamente com o Santos. Sendo assim, em 31/05/2013, o Barcelona adquiriu os  direitos federativos e econômicos do jogador pelo valor de €17 milhões, levando a quebra do  contrato com a N&N e conseqüente obrigação do Barcelona indenizá­la.  Alega que a clausula relativa ao seguro de vida ou lesão permanente do atleta  é previsão padrão em qualquer contrato de prestação de serviços com esportistas.  Conforme contrato, em 06.12.2011 foi firmado contrato de empréstimo entre  Barcelona,  N&N  e  Recorrente.  No  entendimento  do  Barcelona,  o  empréstimo  reforçava  a  obrigação da N&N assumida em contrato e seria um desmotivador para negociação com outros  clubes.  Em 24/10/2013 foi pago pelo Barcelona a N&N o valor de €25 milhões e em  04/09/2014  o  valor  restante  de  €5 milhões,  valores  que  permaneceram  na  conta  bancária  da  N&N Consultoria, ou seja, não foram repassados a Neymar Jr.  Sustenta que a natureza indenizatória da clausula penal paga pelo Barcelona é  amplamente admitida como compensação por "perda de chance".  Fl. 16540DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 17          31  Cita  jurisprudência  que  confirma  que  "a  teoria  da  perda  de  chance  visa  à  responsabilização  do  agente  causador  não  de  um  dano  emergente, mas  de  precisamente  da  perda de se buscar posição mais vantajosa que muito provavelmente se alcançaria, não fosse o  ato ilícito praticado."  Defende que as alegações das autoridades fiscais de  inexistência de data na  minuta de contrato juntada ao acordo de opção futura, invalidade do empréstimo e suspeita na  contratação de apólice de seguro são, em verdade, irrelevantes e acessórios ao acordo principal.  Argumenta que em relação aos pagamentos sob o contrato de trabalho com o  Barcelona,  o  contrato  é  claro  em  relação  ao  valor  fixo mensal  ou  anual  e  bonificações  por  assiduidade, performance e sucesso em partidas. Tais valores foram reconhecidos como salário  e tributados nos termos da legislação aplicável.  4.10 Pagamentos pelo Barcelona à N&N (Scouting e Agencia) e a N&N  Administração de Bens (Imagem Coletiva)  Sustenta o propósito da constituição da empresa N&N Argumentando que a  partir  de  2011,  ano  em  que  Neymar  Jr.  já  tinha  19  anos,  este  já  apresentava  repercussão  nacional e internacional, sendo necessária atenção a sua carreira, como a venda futura a algum  time  internacional,  assim  como  atenção  às  suas  atividades  publicitárias.  Neste  contexto,  a  Neymar  Sport  não  estaria  capacitada  a  atuar  em  focos  tão  diversificados  sendo  necessária  a  constituição de uma estrutura mais robusta.  A  N&N  vinha  para  cumprir  o  papel  de  assistir  o  jogador  nas  escolhas  de  clubes,  assessorá­lo  nas  negociações  de  contratos  de  trabalho  e  participar  de  decisões  estratégicas  em  relação  a  evolução  de  sua  carreira.  Cita  como  exemplo  a  contratação  de  fisioterapeuta e preparador físico, cuja atribuição era levar o desempenho do jogador a níveis  superiores aqueles propostos pelo clube.  Em  relação  a  substancia,  a  defesa  do  contribuinte  refuta  as  alegações  das  autoridades  fiscais  de  que  a N&N  não  teria  realizado  qualquer  operação  relacionada  ao  seu  objeto social afirmando que executou diversos serviços de consultoria e assessoria vinculados  ao  esporte  e  carreira  artística  de  personalidades.  Sustenta  que  a  empresa  conta,  ainda,  com  aparelhamento e estrutura condizentes com seus negócios e 20 empregados contratados.  Sustenta o propósito e substancia da empresa N&N Administração de Bens  Argumentando que esta tem escopo de cuidar dos direitos de imagem coletiva do atleta perante  os clubes desportivos e demais bens a ativos geridos pelos sócios.  Argumenta  que  os  direitos  de  imagem  coletiva  diferem  dos  direitos  individuais por serem associados a exposição, divulgação e comercialização da marca do clube  em associação a um conjunto de jogadores, inclusive mediante o uso de nomes e imagens que  suponham relação entre todos.  Tendo  em  vista  o  acima,  em  relação  as  alegações  das  autoridades  fiscais,  confirmadas  pelos  julgadores  de  primeira  instancia,  de  que  os  pagamentos  pelo Barcelona  à  empresa N&N Administração de Bens  seriam  remuneração de  trabalho de Neymar  Jr.,  alega  que as receitas atribuídas à exploração da imagem coletiva tem natureza comercial.  Fl. 16541DF CARF MF     32  4.11  Da  tributação  do  empréstimo  concedido  aos  sócios  da  N&N  no  montante de €10.000.000 (Dez milhões de Euros)  Alega que são  infundadas as  ilações que a decisão  recorrida  tece acerca do  empréstimo de €10.000.000  realizado entre o Barcelona  e a N&N, bem como o mutuo entre  esta empresa e seus sócios, com a finalidade de descaracterizar o negocio jurídico.  Reforça,  ainda,  que  existem  documentos  comprovando  as  transações  envolvidas,  quais  sejam:  i)  credito  na  conta  da  N&N  em  15/02/2012  de  €10.000.000;  ii)  transferência pela N&N a seus sócios em 17/02/2012 e 26/03/2012 no mesmo valor recebido  pelo  Barcelona;  iii)  quitação  do  contrato  de  mutuo  pelos  sócios  na  conta  da  N&N  em  01/09/2014 e remissão da dívida contraída pela N&N e Barcelona. Destaca ainda que todos os  efeitos  tributários  os  das  transações  foram  devidamente  reconhecidos  e  tributos  pagos  (IOF,  ganho de capital, rendimentos de aplicação financeira).  Alega que Neymar  Jr.  nunca  recebeu  tal  valor  e que não cabe  a  autoridade  fiscal  avaliar  a  melhor  forma  como  os  sujeitos  passivos  deveriam  realizar  seus  negócios  jurídicos.  5. Da Inaplicabilidade da multa qualificada ao presente caso  5.1 Inexistência de Dolo: Impossibilidade de descaracterizar as empresas  envolvidas e a tributação da renda  A defesa reafirma a ausência de dolo e que não há comprovação do mesmo  nos autos, sendo portanto  inaplicável a multa agravada de 150%. Argumenta que não há nos  autos qualquer elemento necessário a caracterização da hipótese de simulação com propósito  de  enganar  o  Fisco:  i)  não  há  falsa  aparência  a  ser  desconstituída;  ii)  não  há  benefício  econômico do atleta Neymar  Jr;  iii) não há qualquer divergência  entre a vontade  interna  e  a  vontade manifestada no negócio; iv) não há redução de carga tributária; v) há vedação expressa  para que a fiscalização desconsiderar a pessoa jurídica nesse caso.  5.2 A necessidade de comprovação do ato fraudulento ou simulado  Alega que não há comprovação do dolo dos responsáveis solidários e que a  decisão recorrida sustenta a aplicação de multa qualificada pela suposta vantagem fiscal obtida  por  meio  da  atual  estrutura  de  negócios.  Desta  forma,  a  mera  presunção  de  ocorrência  de  fraude não pode legitimar a aplicação da multa agravada.  Sustenta que a Neymar Sport foi constituída em 2006 com propósito negocial  claro,  sendo  impossível,  à  época  de  sua  constituição,  alegar  que  arquitetavam  uma  estrutura  mais benéfica sob a ótica tributária.  Argumenta,  ainda,  que  não  cabe  qualquer  alegação  de  simulação  quanto  a  constituição e operação das empresas N&N e N&N Administração de Bens.  5.3 Inocorrência de evento simulado, fraude à lei ou conluio  Ressalta  que  os  rendimentos  pagos  as  pessoas  jurídicas  nunca  foram  remetidos a pessoa de Neymar Jr., tendo como prova os extratos bancários e sua Declaração de  Imposto de Renda que pode ser consultada a qualquer tempo.  Fl. 16542DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 18          33  Afirma  que  cabe  as  autoridades  fiscais  comprovar  a  ocorrência  do  auto  fraudulento, o que não ocorre no caso. Tendo em vista a ausência de simulação e fraude pelos  envolvidos, não há que se falar em conluio.  6. Da inexistência de responsabilidade solidária  Destaca que as autoridades fiscais atribuíram responsabilidade solidária entre  Neymar Jr., seus pais e as três empresas relacionadas com base no art. 124 do CTN, alegando  suposto  abuso  de  personalidade  jurídica  das  empresas,  suposta  vinculação  gerencial  e  coincidência  de  sócios  e  administradores,  ausência  de  capacidade  operacional,  confusão  patrimonial e prática de atos fraudulentos.  Ressalta  que  os  argumentos  levantados  pela  fiscalização  provam  apenas  a  ligação  entre  as  pessoas  envolvidas,  jamais  simulação,  interposição  fraudulenta  e  falta  de  propósito negocial que autorize tributar uma pessoa física que não é sócia ou se aproveitou do  resultado destas empresas.  Adverte que não é possível a desconsideração da personalidade jurídica neste  caso, seja com base no art. 50 do Código Civil, seja pela proteção do art. 129 da Lei 11.196/05.  7.  Da  inexistência  de  abuso  de  personalidade  jurídica,  desvio  de  finalidade e confusão patrimonial  Alega  que  as  autoridades  fiscais  verificaram  desvio  de  finalidade  pela  utilização de pessoa jurídica para fins diversos do previsto em seu ato constitutivo.  Em  relação a  alegação de desvio de  finalidade  refuta  argumentando que:  i)  não houve simulação nos contratos; ii) não houve economia tributária; iii) as pessoas jurídicas  envolvidas de fato desenvolvem as atividades a que se propõe; iv) a fiscalização desconsiderou  o contexto da formação de Neymar Jr. e constituição das empresas; v) a despeito das datas dos  contratos, houve um acordo válido entre as partes e vi) não houve premeditação para lesar o  fisco.  Em  relação  a  alegação  de  confusão  patrimonial,  argumenta  que  há  clara  distinção patrimonial entre as pessoas envolvidas e que: i) as empresas possuem contabilidade  própria e recolhem seus tributos de acordo com a natureza das atividades desenvolvidas; ii) a  fiscalização  não  aponta  vício,  falha  ou  equivoco  contábil;  iii)  a  fiscalização  não  identificou  receita omitida ou despesas indevidas; iv) a fiscalização não identificou pagamento de dívidas  de Neymar Jr pelas empresas; v) os bens moveis e  imóveis foram adquiridos com as receitas  oriundas  das  atividades  operacionais  das  pessoas  jurídicas;  vi)  não  foi  encontrada  irregularidade  nas  aquisições  realizadas  pelas  pessoas  envolvidas  e  vii)  a  integralização  do  capital  da N&N  e  amortização  dos  empréstimos  foram  realizada  com  recursos  próprios  dos  sócios das pessoas jurídicas.  8.  Erro  na  base  de  cálculo  considerada  pelas  autoridades  fiscais  na  cobrança sobre os valores recebidos de fontes no exterior  Argumenta  que  caso  não  haja  reforma  total  da  decisão  recorrida  que  seja  reconhecida sua reforma parcial no que diz respeito a base de cálculo utilizada no lançamento.  Aponta que caso os valores considerados para fins de base de cálculo sejam confirmados como  recebidos  por  pessoa  física,  que  a  conversão  de  valores  recebidos  do  exterior,  siga  aquela  Fl. 16543DF CARF MF     34  conforme  foi  escriturada  pelas  pessoas  jurídicas  afastadas,  pois  foram  de  fato  os  valores  recebidos.  De  acordo  com  a  autuação  fiscal,  a  base  de  cálculo  teria  superado  os  valores  efetivamente recebidos em mais de R$ 4 milhões.  9. Impossibilidade de aplicação da multa isolada e multa de ofício sobre  a mesma base de cálculo  Alega que a decisão recorrida mantém a exigência de duas multas conforme  estabelecido  no  lançamento:  a multa  de  ofício  (150%)  sobre  os  valores  recebidos  de  fontes  estrangeiras e a multa  isolada (50%) pelo não recolhimento do carnê­leão na competência do  recebimento  sobre  a  mesma  base  de  cálculo.  Defende  que  tal  prática  fere  os  princípios  constitucionais da razoabilidade, do não confisco e proporcionalidade. Invoca a Súmula CARF  105 e precedentes do CARF.  10. Dos pedidos  Ante  todo  o  exposto,  requer  o  contribuinte  que  sejam  acolhidas  as  preliminares, anulando­se o lançamento.  Adicionalmente, requer seja dado provimento total ao recurso, cancelando­se  o lançamento por todas as razões de mérito expostas . Requer, ainda, seja dado provimento ao  presente  recurso para  afastar a multa qualificada de 150% pela  ausência  de comprovação de  simulação,  intuito  doloso  ou  abuso  do  direito.  Por  fim,  protesta  pela  produção  de  provas  e  sustentação oral.  CONTRARRAZÕES  A Procuradoria Geral da Fazenda Nacional ­ PGFN foi  intimada do recurso  voluntário  e  interpôs  contrarrazões  em  22/06/2016,  adicionando  em  pontos  objetivos,  os  seguintes  argumentos  resumidos  (abaixo  se  inicia  do  numeral  "ii"  para  corresponder  às  contrarrazões):  II. Das preliminares suscitadas pelo contribuinte  Inicialmente,  lembra  que  a  validade  dos  atos  praticados  no  âmbito  do  processo administrativo fiscal federal deve ser averiguada consoante o disposto nos arts. 59 e  60  do  Decreto  nº  70.235,  de  1972.  Ressalta  que  não  se  vislumbra  o  descumprimento  de  nenhum  dos  requisitos  fixados  no  citado  art.  59.  Por  outro  lado,  ressalta  que  a  própria  impugnação e o  recurso voluntário demonstram que o contribuinte  tinha pleno conhecimento  de  qual  era  objeto  da  autuação,  tendo  se  defendido,  desde  a  impugnação,  de  todos  os  atos  imputados pela Fiscalização.  II.1 – Suporta falta de motivação legal  Ressalta  que  em  vez  de  se  preocupar  em  afastar  as  conclusões  alcançadas  pela  autoridade  fiscal  –  e  corroboradas  pela  turma  julgadora  de  primeira  instância  –,  o  contribuinte propõe o debate sobre a necessidade de regulamentação do parágrafo único do art.  116  do  CTN,  ou  a  competência  exclusiva  do  Poder  Judiciário  para  desconsiderar  a  personalidade  jurídica  de  pessoas  jurídicas  –  o  que  é  indiscutível  –,  ou  a  possibilidade  de  aplicar  conceitos  como  “substância  econômica”  ou  “propósito  negocial”  –  que  configuram  instrumentos consagrados de avaliação da legitimidade de negócios, sendo amplamente aceitos.  Fl. 16544DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 19          35  Menciona que a autoridade fiscal apontou os fundamentos fáticos e jurídicos  da simulação – vale lembrar, há citação expressa do art. 167 do Código Civil –, de modo que  mostram­se totalmente impertinentes as alegações de omissão, trazidas pelo contribuinte.  Diante  disso,  não  deve  ser  imputado  vício  de  omissão  à  decisão  recorrida,  uma vez que não restou caracterizada a suposta omissão – que teria provocado o cerceamento  do direito de defesa da contribuinte. Assim, mostra­se insubsistente a preliminar suscitada no  recurso voluntário, razão pela qual deve ser afastada integralmente.  II.2 – Alegada retroatividade benigna  Argumenta  que  ainda  que  se  entenda  pertinente  o  pedido  do  contribuinte,  trata­se  de  questão  de mérito,  uma vez  que  precisa  ser  averiguado  se  a utilização  da  pessoa  jurídica,  para  prestar  serviços  personalíssimos,  foi  realmente  válida.  Sustenta  que  após  essa  análise, caberia discutir a aplicabilidade do art. 129 da Lei no 11.196, de 2005.  II.3 – Nulidade por negativa de pedido de compensação  Argumenta  que  não  se  trata  de  questão  a  ser  debatida  em  sede  de  preliminares, mas após enfrentado o mérito do presente processo administrativo. Com efeito,  somente  se  poderá  falar  em  compensação  de  tributos  pagos  pela  pessoa  jurídica  depois  de  confirmada  a  legalidade  do  lançamento.  Por  outro  lado,  ainda  que  se  considere  cabível  o  pedido  de  compensação  formulado  pelo  contribuinte,  isso  não  ocasionaria  a  nulidade  da  autuação ou da decisão recorrida.  II.4  –  Pedido  de  restituição  de  tributos  pagos  nos  anos­calendarios  de  2014 e 2015  Alega  que  os  anos­calendário  2014  e  2015  não  terem  sido  objeto  do  lançamento,  o  pedido  formulado  pelo  contribuinte  é  incompatível  com  o  rito  do  presente  processo administrativo.  Ademais,  a  matéria  não  é  tão  simples  quanto  o  contribuinte  tenta  fazer  parecer,  isto é, uma simples correlação do que  foi pago, no Brasil,  seria devido na Espanha.  Isso porque se o serviço foi prestado a residentes no Brasil, estes fariam a remessa ao prestador  residente no exterior, o que ensejaria a cobrança de Imposto de Renda Retido na Fonte (IRF).  Nessa perspectiva, não haveria a restituição direta, como o contribuinte alega que deveria ser  reconhecida neste processo administrativo, que, é bom frisar, não trata desse assunto.  III – Alegações genéricas  Alega que são apenas considerações de cunho subjetivo do contribuinte – não  a  compilação  de  dados  e  provas  objetivas,  que  se  contraponham  aos  fatos  examinados  pela  Fiscalização.  III.1 – “Real necessidade de estrutura empresarial”  Argumenta que a autoridade fiscal jamais exigiu que o atleta fosse um exímio  administrador ou empresário, assim como não há qualquer colocação no sentido de que deveria  ser o próprio atleta o responsável pela gestão de sua carreira.  Fl. 16545DF CARF MF     36  Ao que parece, o contribuinte tentar desvirtuar o foco da autuação fiscal, que  teve como ponto central demonstrar que foram utilizadas pessoas jurídicas meramente formais,  mediante contratos com fortes indícios de manipulação de dados, para reduzir a carga tributária  incidente sobre os rendimentos auferidos pelo jogador Neymar Jr.  Sustenta que, ao longo do Termo de Descrição dos Fatos ­ TDF, a autoridade  administrativa  demonstrou  cabalmente  que  as  empresas  não  possuíam  funcionários  para  desenvolver o objeto social – o que o contribuinte reconhece, ao assumir que fora utilizada a  estrutura do Santos; que a inserção das pessoas jurídicas aconteceu de forma casuística – cada  uma foi utilizada para um fim específico nas negociações com o Santos ou com o Barcelona; e  que  havia  irregularidades  formais  e  jurídicas  nas  negociações  realizadas  pelas  pessoas  jurídicas, em nome do atleta Neymar Jr.  III.2 – Da suposta desconsideração da personalidade jurídica  Defende  que  em  nenhum  momento  a  pretensão  da  autoridade  fiscal  foi  aplicar o art. 50 do Código Civil. Confere razão ao contribuinte, quando afirma que o art. 50 do  Código  Civil  é  específico  para  a  atuação  do  Poder  Judiciário  e  que  não  há  pretensão  das  autoridades fiscais em realizar tal papel.  Sustenta que o caso dos autos retrata a utilização abusiva de pessoas jurídicas  no  intuito  de  retirar  a  incidência  tributária  da  pessoa  física  (Neymar  Jr.)  e  passá­la  para  as  pessoas  jurídicas.  Nessas  situações,  o  trabalho  das  autoridades  fazendárias  é  justamente  identificar  o  verdadeiro  sujeito  passivo  tributário  –  e  não  aquele  que  os  contribuintes  formalmente elegem, mediante subterfúgios artificiais e, no caso dos autos, fraudulentos.  Para isso, não é necessário que a autoridade fiscal decrete a desconsideração  da  personalidade  jurídica,  cabendo  a  ela  apenas  indicar  o  verdadeiro  contribuinte  e,  no  máximo, os responsáveis solidários. Esse entendimento encontra respaldo na jurisprudência do  CARF,  que  tem  privilegiado  a  substância  sobre  a  forma,  ao  contrário  da  contribuinte,  que  pretende que seja dada prevalência aos aspectos meramente formais.  III.3 – Não há prova do benefício de Neymar Jr.  Alega  ser  inacreditável  que  o  contribuinte  alegue  que  as  pessoas  jurídicas  interpostas não ofereceram nenhum benefício econômico ao atleta.  Sustenta que são justamente esses elementos que demonstram o absurdo de se  imaginar que o atleta não teve nenhum proveito econômico. Exemplifica citando o iate adquirido  por R$ 15 milhões, que consta do ativo não­circulante da Neymar Sport.  Com efeito, para que a tese da defesa do contribuinte fizesse sentido, ter­se­ia  que  vislumbrar  a  seguinte  situação:  a  maior  parte  do  potencial  econômico  do  jogador  foi  transferida  a  terceiros,  gratuitamente,  sem  qualquer  vantagem  ao  jogador,  situação  que  permanecera  até  a  presente  data.  Frisa  que  o  proveito  econômico  se  encontra  justamente  na  redução  significativa  da  carga  tributária  que  o  Neymar  Jr.  conseguiu,  ao  interpor  diversas  pessoas jurídicas para receber rendimentos que são de sua titularidade.  III.4 – Validade da Cessão de uso  Sustenta que a nulidade apontada pela autoridade fiscal é fundamentada nas  evidências  de  que  houve  manipulação  das  datas  dos  contratos  celebrados  pelas  pessoas  jurídicas Neymar Sport e N&N Consultoria.  Fl. 16546DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 20          37  Além  disso,  há  diversos  indícios  de  que  as  pessoas  jurídicas  não  desenvolviam  a  exploração  de  direito  de  imagem,  seja  porque  não  tinham  estrutura  para  realizar  tal  atividade  empresarial,  seja  porque  houve  caracterização  de  pagamento  de  verba  salarial sob a denominação de “direito de imagem”.  III.5 – Acusados pagaram tributos  Alega que o fato de as pessoas jurídicas terem recolhido tributo não apaga a  existência de simulação, fato que está sendo objeto de inquérito e investigação por autoridades  brasileiras e espanholas.  Acredita  ser  despropositada  a  alegação  de  confisco,  levantada  pelo  contribuinte, visto que tal inconformismo centra­se na aplicação da multa qualificada de 150%.  Ressalta que o princípio da vedação ao confisco coíbe a utilização de tributos de maneira tão  exacerbada que implique efeito confiscatório.  Entretanto, não há como estender esse  raciocínio às penalidades, que visam  reprimir condutas indesejadas ou compensar prejuízos causados.  III.6 – Atividade compatíveis com o Direito Esportivo  Reconhece­se  que  os  conceitos  de  free  agent,  imagem  individual,  imagem  coletiva, direitos federativos e econômicos, abordados no Termo de Verificação Fiscal, podem  ter denotação específica no Direito Esportivo.  Contudo, alega que o contribuinte esqueceu­se de correlacionar a importância  do direito econômico a todo o contexto da operação de transferência do jogador Neymar Jr. ao  Barcelona. Por exemplo, ao mencionar a autorização do Santos, datada de 08/11/2011, alega  que a defesa não mencionou que o próprio  signatário da carta  acusa o  jogador Neymar  Jr.  e  seus representantes de terem perpetrado uma negociação às escondidas com o Barcelona.  Alega  que  a  autoridade  fiscal  não  afirma  que  os  direitos  econômicos  associados  aos  atletas  free  agent  não  são  valiosos  e  objeto  de  intensa  negociação,  mas  questiona o arranjo societário, com pessoas jurídicas sem substância, montado para direcionar  o valor de 40 milhões de euros para a pessoa jurídica. Frisa que a N&N Consultoria – empresa  que  aparece  como  parte  no  contrato  relacionado  ao  direito  econômico  “free  agent”  –  não  possuía sequer capital social integralizado à época da negociação com o Barcelona.  IV – Da omissão de receitas referente ao direito de imagem  Analisa, primeiramente, a situação da Neymar Sport. Posteriormente, passar­ se­á  ao  exame  da  N&N  Administração  de  Bens,  que  foi  inserida  nas  operações  do  Grupo  Neymar após a transferência do jogador para o Barcelona.  IV.1 – Negócios envolvendo a Neymar Sport  Defende  ser  fundamental  averiguar  os  aspectos  indicados  pela  autoridade  fiscal que serviram para desqualificar a Neymar Sport como beneficiária juridicamente válida  dos recursos referentes a direito de imagem.  IV.1.1 – Cessão de uso de direito de imagem  Fl. 16547DF CARF MF     38  No  presente  tópico,  serão  examinados  os  problemas  encontrados  pela  autoridade fiscal, após analisar os documentos relativos à cessão de direito de uso de imagem,  em favor da Neymar Sport e, posteriormente, em favor do Santos Futebol Clube.  IV.1.1.1 – Divergência entre datas  Primeiramente, avalia se a cessão de uso dos direitos de imagem do jogador  Neymar Jr., para a Neymar Sport, pode ser considerada juridicamente válida.  O  ponto  de  partida  da  Fiscalização  foi  o  contrato  firmado,  em  10/05/2006,  entre  a Neymar  Sport  e  o  Santos,  no  qual  a Neymar  Sport  aparece  como  cedente  e  o  clube  figura  como  cessionário. Nesse  contexto,  o  pressuposto  básico  do  referido  contrato  é  que  o  jogador Neymar  Jr.  tenha  transferido,  anteriormente,  o  direito  de  uso  de  imagem  à Neymar  Sport. Com  efeito,  a Neymar  Sport  somente  poderia  ceder  os  direitos  de  imagem  ao  Santos  caso tais direitos já tivessem sido transferidos à aludida pessoa jurídica.  A  autoridade  fiscal  intimou  a Neymar  Sport,  em  diversas  oportunidades,  a  fim  de  Argumentar  essa  questão.  Mais  precisamente,  a  Fiscalização  procurou  saber  se  a  Neymar Sport teria firmado outro contrato de cessão de “direito de imagem”, distinto daquele  contrato celebrado em 01/04/2009.  Caso  houvesse  outro  acordo  para  a  cessão  desses  direitos,  poderia  haver  justificativa para  a  existência  do  contrato  de  cessão  dos  referidos  direitos  com o Santos,  em  10/05/2006.  Contudo, em todas as oportunidades em que respondeu aos questionamentos  da autoridade fiscal, a Neymar Sport sempre afirmou que “não existe outro contrato anterior de  Cessão de Imagem firmado com o atleta Neymar da silva Santos Junior”. Assim, partindo da  afirmação  da  própria  Neymar  Sport,  a  autoridade  fiscal  concluiu  que  esta  pessoa  jurídica  somente adquiriu os “direitos de imagem” do jogador em 01/04/2009, ou seja, 3 anos após a  data em que afirma ter cedido ao Santos os mesmos “direitos de imagem”.  Alega  que  o  primeiro  contrato  de  cessão  de  uso  de  direito  de  imagem  do  jogador Neymar Jr., no qual este figura como cedente e a Neymar Sport como cessionária (fls.  7501­7502) somente foi apresentado em sede de impugnação.  Ao examinar o documento, fica claro que a Neymar Sport recebeu o direito  de uso de imagem um dia após ter cedido o referido direito ao Santos.  Alega confusão nas cessões de uso de direito de imagem do atleta. e destaca  que  o  CNPJ  da  Neymar  Sport  consta  do  documento  produzido  em  11/05/2006,  porém,  conforme destacado pela autoridade fiscal, a referida empresa somente adquiriu o seu número  de  CNPJ  em  22/05/2006.  Alega  que,  por  isso,  houve  manipulação  de  dados  no  citado  documento,  o  que  implica  a  sua  nulidade,  nos  termos  do  inciso  III  do  §  1º  do  art.  167  do  Código Civil.  Destaca  que,  ao  contrário  do  alegado  pelo  contribuinte,  o  contrato  firmado  com o Santos, em 10/05/2006, previa o pagamento do montante de R$ 1.780.333,30, a título de  cessão dos direitos de imagem. Nesse ponto, lembra que o contribuinte enfatiza que não teria  havido a intenção de lesar o Fisco, assim como o atleta e o seus pais eram pessoas “simples” e  que  não  tiveram  nenhuma  vantagem  financeira  direta  naquele  momento.  Questiona,  desta  forma, o pagamento de quase R$ 1,8 milhões de reais.  Fl. 16548DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 21          39  IV.1.1.2  –  Clausulas  do  contrato  com  a  Neymar  Sport  celebrado  em  01/04/2009  Aponta que o contribuinte considera que o contrato firmado entre a Neymar  Sport  e  o  jogador  Neymar  Jr.,  em  01/04/2009,  representaria  uma  “ratificação”  do  contrato  firmado entre o jogador e a citada empresa em 11/05/2006. Sustenta que, ainda que se admita  essa  tese  como  verdadeira,  acredita  ser  conveniente  analisar  alguns  pontos  do  contrato,  celebrado em 01/04/2009, indicados pela autoridade fiscal como problemáticos.  Assinala  com  ponto  principal  que  não  há  nenhum  tipo  de  limitação  ou  previsão de obrigações para o cedente e a cessionária: o objetivo era simplesmente permitir que  a Neymar Sport usufruísse dos resultados econômicos provenientes da exploração de direitos  de  imagem,  sem  a menor  preocupação  da  extensão  da  cessão  de  direitos  e,  ainda,  de  forma  gratuita.  Ressalta  que  a  Fiscalização  entendeu  que  a  gratuidade  do  contrato  é  importante  porque  o  jogador  Neymar  Jr.  assumiu  diversas  obrigações  relacionadas  à  sua  imagem, em contratos posteriores, sem que houvesse a previsão de qualquer pagamento, pela  Neymar Sport, como remuneração pelos serviços personalíssimos prestados pelo atleta.  Considera que como Neymar Jr. não figurava como sócio da Neymar Sport, é  possível  identificar  um  claro  abuso  na  constituição  da  pessoa  jurídica  porque,  ainda  que  se  admita  a  possibilidade  de  um  direito  personalíssimo  ser  explorado  por meio  de  uma  pessoa  jurídica,  é  completamente  desarrazoado  e  desproporcional  o  titular  do  direito  de  imagem  (atleta) não receber nenhum proveito econômico da exploração desse direito.  Alega que  a distribuição  do  resultado  da  exploração  do  direito  de  imagem,  quando  se  utiliza  a  pessoa  jurídica,  deveria  vir  na  forma  de  dividendos  –  quando  o  atleta  aparece  como  sócio  da  pessoa  jurídica  –  ou,  pelo  menos,  mediante  a  estipulação  de  uma  remuneração  paga  pela  pessoa  jurídica  em  favor  do  atleta.  Aponta,  contudo,  nada  disso  aconteceu, visto que o jogador Neymar Jr. não era acionista da Neymar Sport – portanto, não  teria direito a receber dividendos –, tampouco fora estipulado, no contrato de cessão de direito  de imagem, qualquer forma de remuneração em benefício do atleta.  Entende  que  a  exploração  do  direito  de  imagem  tem  conteúdo  econômico,  sendo mais natural a atribuição de um valor para realizar a cessão de uso de tal direito. Nesse  cenário, o cedente receberia a contrapartida pelo uso do seu direito de imagem no momento da  cessão, em vez de perceber retribuição financeira ao longo do tempo – via dividendos ou outra  forma de remuneração.  Por fim, considera necessário que a cessão seja por prazo determinado, para  que  a  cessão  não  se  torne  desproporcional.  Acredita  que  ceder  o  direito  de  uso,  por  prazo  indeterminado,  significaria  oportunizar  ao  cessionário  a  perspectiva  de  auferir  vantagem  patrimonial muito  superior  sem  limites  e,  o que  é mais grave, mediante  a exploração de um  direito personalíssimo da pessoa física cedente.  Conclui que a formatação jurídica escolhida pelo jogador Neymar Jr. e seus  pais implicaria a exclusão do atleta da participação dos resultados obtidos pela Neymar Sport,  configurando  a  ausência  de  propósito  negocial  mencionada  pela  autoridade  fiscal,  isto  é,  o  negócio  foi  realizado  de  uma maneira  que  destoa  do  que  se  poderia  esperar  de  uma  prática  comercial normal.  Fl. 16549DF CARF MF     40  Afirma que a cessão de direitos de imagem do jogador Neymar Jr., em favor  da Neymar Sport,  não pode ser  considerada como adequada ou usual,  se  levarmos em conta  padrões de mercado. A não ser que se considere normal ou aceitável, em um negócio feito em  condições de  livre mercado, que o  titular do direito  a  ser  explorado o  transfira,  em  favor de  terceiros, gratuitamente sem qualquer expectativa de retorno financeiro.  Aponta que a única explicação para a forma pela qual realizou­se a cessão do  direito de imagem, em favor de terceiros e gratuitamente, é o fato de os beneficiários de direito  – ou seja, os acionistas da Neymar Sport – serem os pais do jogador Neymar Jr. Daí porque a  autoridade  fiscal  ressaltou  o  elemento  “partes  relacionadas”  ou  “operação  intragrupo”,  no  Termo de Verificação Fiscal.  Aponta que a situação dos autos não retrata uma EIRELI, mas uma sociedade  empresária que recebeu, gratuitamente, a prerrogativa de explorar os direitos de imagem de um  jogador de futebol, sem que este jogador seja sócio da pessoa jurídica.  Menciona que o  art.  87­A da Lei nº 9.615, de 1998  (Lei Pelé),  autorizou a  cessão de direito de  imagem de  atletas, porém, destaca que  a norma  traz como requisitos da  cessão a “fixação de direitos, deveres e condições” distintas do contrato de trabalho, devendo  existir,  portanto,  deveres  e  obrigações  específicos  para  o  contrato  de  cessão  de  direito  de  imagem.  Alega  que  é  precisamente  nesse  aspecto  que  os  contratos  firmados  pelo  contribuinte com a Neymar Sport mostram­se incompatíveis com a regulamentação do art. 87­ A da Lei nº 9.615, de 1998, pois a cessão de direito de imagem, em favor da Neymar Sport,  não apresenta a estipulação de direitos e deveres para as partes.  A  Alega  que  cabe,  sim,  às  autoridades  fazendárias  questionarem  aspectos  incomuns ou suspeitos nos negócios realizados pelos contribuintes.  Argumenta  que  os  procedimentos  de  investigação  e  averiguação  dos  fatos  consistem,  precisamente,  na  atividade  fim  da Administração Tributária,  alega  que  pensar  de  forma diferente seria atribuir presunção de veracidade aos atos praticados pelos contribuintes,  sob a justificativa de que se trataria de “liberdade de escolha” ou “autonomia gerencial”.  Aponta, ainda, que a exigência de previsão, no contrato de cessão de direitos  de  imagem,  das  atribuições,  obrigações,  direitos  e  deveres  das  partes  é  uma  decorrência  da  legislação brasileira.  Por  fim, Argumenta que  a Fiscalização não questiona a necessidade de um  atleta de alto nível delegar funções burocráticas a outra pessoa, seja  física ou  jurídica. Alega  que o questionamento da autoridade fiscal está  centrado no  fato de o  jogador Neymar  Jr.  ter  cedido um direito patrimonial potencialmente valioso – o direito de uso de sua imagem – sem  exigir nenhuma contraprestação do cessionário.  IV.1.2 – Inexistência de estrutura empresarial da Neymar Sport  Destaca que a autoridade fiscal ressalta que a Neymar Sport não contava com  estrutura empresarial para desempenhar a exploração do direito de imagem do jogador Neymar  Jr., o que demonstraria a artificialidade da referida pessoa jurídica.  Alega  que,  no  ano­calendário  de  2011,  a  citada  pessoa  jurídica  não  tinha  contratado nenhum profissional na área de marketing ou publicidade. Não obstante ter firmado  diversos contratos de publicidade, que tinham por objeto o direito de uso da imagem do atleta.  Fl. 16550DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 22          41  Argumenta  que  a  Neymar  Sport  confessou  que  a  gestão  dos  contratos  de  publicidade era desenvolvida,  à  época,  por  funcionários  contratados pelo Santos. Trata­se de  mais  um  indício  da  artificialidade  da  Neymar  Sport:  a  atividade  de  gestão  da  carreira  do  jogador Neymar Jr. ficou a cargo de um grupo de funcionários do Santos FUTEBOL CLUBE.  Aponta que a busca por patrocinadores e contratos de publicidade, atividade  intimamente  ligada  à  exploração  do  direito  de  imagem  do  atleta  Neymar  Jr.,  não  foi  desempenhado  diretamente  pela  Neymar  Sport  –  como  era  de  se  esperar.  Conclui  que,  na  realidade, a Neymar Sport se comportou como titular do direito de exploração da imagem do  atleta apenas no que diz respeito ao recebimento dos valores, enquanto todo o ônus de buscar  os contratos de publicidade e patrocinadores foi delegada a funcionários do Santos FUTEBOL  CLUBE.  Destaca que a autoridade responsável pelo lançamento elenca como prova a  participação do Sr. EDUARDO MUSA e da Sra. GABRIELA POZZI, como testemunhas, em  dezenas  de  contratos  publicitários  fechados  pelo  jogador  Neymar  Jr.  Relembra  que  estas  pessoas ainda aparecem como responsáveis pelo recebimento de notificações ou comunicações,  referentes a diversos contratos publicitários.  Indica  que  a  citada  pessoa  jurídica  contava  com  dois  seguranças,  em  seu  quadro  de  funcionários  –  e  apenas  esses  dois  seguranças.  De  acordo  com  o  noticiado  pela  autoridade  fiscal,  “até  o  ano­calendário  de  2013  a  Neymar  Sport  não  possuía  nenhum  funcionário dotado de condições técnicas para as atribuições que um gestor de imagem exige”.  Desse  modo,  evidencia  a  incompatibilidade  entre  o  aspecto  formal  da  Neymar  Sport  –  que  no  “papel”  figurava  como  responsável  pela  exploração  do  direito  de  imagem  –  e  o  aspecto material,  ou  seja,  a  inexistência  de  atividades  operacionais  da  citada  pessoal jurídica, voltadas para a consecução de contratos ou patrocínio vinculados à imagem do  atleta Neymar Jr.  Diante de  todo o exposto, concorda com a autoridade fiscal, quando afirma  que “a Neymar Sport não é uma empresa que efetivamente gere (ou geria) a imagem do atleta,  mas, uma pessoa jurídica criada com o único propósito de economia tributária”.  Afirma  que  os  elementos  indicados  acima  –  irregularidades  no  contrato  de  direito  de  imagem,  gratuidade da  cessão,  estrutura  da  empresa  –  demonstram que  a Neymar  Sport não pode ser considerada uma pessoa jurídica constituída legitimamente para exercer a  função de exploradora dos direitos de imagem do Neymar Jr.  IV.1.3  –  Suposta  incapacidade  econômica  da  Neymar  Sport  para  remunerar Neymar Jr.  Relembra  que,  segundo  a  defesa  do  contribuinte,  a  Neymar  Sport  cedeu  100% do direito de imagem do jogador Neymar Jr. ao Santos, sendo que este clube teria ficado,  por  vários  anos,  com  todo  o  aproveitamento  econômico  da  exploração  do  aludido  direito. A  seguir,  o  contribuinte  argumenta  que não  seria  possível  “a Neymar Sport  remunerar  o  atleta  nesse período em que tampouco ela recebia recursos pela exploração da imagem!”.  Acrescenta,  ainda,  que  o  estranho  ou  desarrazoado  seria  a  Neymar  Sport  remunerar o atleta, diante dessas condições. Essa parece ser a perspectiva do negócio, para o  Fl. 16551DF CARF MF     42  contribuinte: a cessão gratuita é válida e a Neymar Sport não tinha como remunerar o jogador,  já que sub­cedeu / sub­licenciou o direito para o Santos.  Indica que o problema na tese do contribuinte é que a sub­cessão ao Santos  não foi gratuita, conforme se verifica na cláusula sexta do “Instrumento Particular de Cessão de  Uso de Imagem” (fl. 7503­7507). Aponta que o cessionário (Santos) se compromete a pagar à  cedente (Neymar Sport) o valor total de R$ 1.780.333,30 (um milhão, setecentos e oitenta mil,  trezentos  e  trinta  e  três  reais  e  trinta  centavos).  Daí  porque  não  faria  sentido  a  alegação  do  contribuinte de que a Neymar Sport não tinha condições de remunerar o jogador Neymar Jr.  Por  outro  lado,  avalia  a  argumentação  relativa  à  evolução  da  estrutura  da  Neymar  Sport  também  como  improcedente.  Segundo  o  contribuinte,  a  Neymar  Sport  foi  crescendo conforme passou a deter participação na exploração do direito de imagem do atleta.  O problema é que, no período objeto da fiscalização (2010 a 2013), a Neymar Sport possuía  somente  2  empregados,  contratados  para  desempenhar  a  função  de  segurança  –  informação  extraída  das  GFIP  e  não  contestadas  pelo  contribuinte.  Não  vislumbra  como  essa  equipe  poderia  ser  enquadrada  como  “crescimento  e  aparelhamento”  da  Neymar  Sport,  a  fim  de  desenvolver o seu objeto social.  IV.1.4 – Análise dos contratos firmados com o Santos Futebol Clube  Aponta  que  o  contribuinte  alega  que  a  autoridade  fiscal  não  teria  afirmado  que os valores pagos a título de direito de imagem possuem natureza salarial, dando a entender  que esse tema foi uma inovação da turma julgadora de primeira instância.  Ao  suscitar  esse  argumento,  o  contribuinte  teria  tentado  imputar  à  decisão  recorrida um vício que provocaria a sua nulidade, vale dizer, uma suposta mudança de critério  jurídico.  Entretanto,  em  suas  contrarazões  a  PGFN  sustenta  que  não  merece  prosperar  tal  alegação.  Transcreve  os  trechos  das  fls.  7133­7134,  7143  e  7147­7148  do  Termo  de  Verificação Fiscal em que constam as alegações da fiscalização em relação a natureza salarial  do direito de imagem.  Alega  que  a  segunda  questão  abordada  pelo  contribuinte  para  afastar  a  constatação  da  autoridade  fazendária,  no  tocante  à  disparidade  entre  os  valores  referentes  a  direito de imagem e a verba nomeadamente salarial, foi a apresentação de um quadro, no qual  ilustrava a evolução salarial do jogado no Santos, assim não faria sentido as autoridades fiscais  questionarem os pagamentos feitos ao jogador Neymar Jr., pelo Santos, haja vista o salário do  atleta ter sido majorado em 1.000%, em menos de 5 anos, chegando ao patamar de R$ 200 mil  mensais.  Aponta  os  motivo  que  levaram  a  autoridade  fiscal  afirmar  que  os  valores  pagos pelos Santos, a título de direito de imagem, consistem em verba salarial:  a)  Geralmente,  os  atletas  de  futebol  recebem  parte  da  remuneração  como  salário, propriamente dito, e outra parcela como “direitos de imagem”;  b) Quando os clubes e atletas definem que a maior parte da remuneração será  feita  via  “direitos  de  imagem”,  a  grande  vantagem  para  os  clubes  é  escapar  dos  encargos  trabalhistas e previdenciários.  c)  Os  atletas  acabam  constituindo  pessoas  jurídicas  com  a  finalidade  específica  de  atribuir  a  estas  o  recebimento  dos  citados  “direitos  de  imagem”.  A  vantagem  notória para os jogadores de futebol é ter uma tributação menos onerosa, se comparada à carga  tributária incidente sobre os rendimentos percebidos por pessoas físicas.  Fl. 16552DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 23          43  Sustenta  que  esse  foi  o  contexto  que  provavelmente  norteou  o  acordo  celebrado entre o Santos e a Neymar Sport,  em 10/05/2006. Aponta que o problema é que o  citado  contrato  possui  um  vício  insuperável,  qual  seja:  no  momento  em  que  foi  celebrado  (10/05/2006), a Neymar Sport não era titular do direito de uso da imagem do jogador Neymar  Jr., pois o primeiro contrato de cessão de uso de direito de imagem, em favor da Neymar Sport,  somente  foi  assinado  em  11/05/2006.  Sendo  assim,  todos  os  pagamentos  feitos  pelo  Santos  seriam para a pessoa física, Neymar Jr.  Aponta, ainda a questão da manipulação das datas dos contratos, reforçando  que não pode ser aceita a Neymar Sport como titular do direito de uso de imagem do jogador  Neymar Jr.  Apesar  de  tudo  isso,argumenta  que  ainda  que  se  entenda  que  a  cessão  de  direitos transcorreu normalmente e sem vícios, passa­se a analisar as cláusulas contratuais.  Clausula  Terceira  ­  aponta  que  demonstra  a  presença  de  subordinação  do  ATLETA à vontade do Santos, visto que o jogador deve atender a uma série de exigências e  compromissos  diretamente  relacionadas  às  atividades  do  clube.  Dentre  essas  obrigações,  destaca­se  a  necessidade  de o ATLETA utilizar  o uniforme oficial  do Santos  ou qualquer  outro que o seja dos patrocinadores do clube – o que é atribuição típica de um empregado.  Alega que não houve comprovação da exploração do direito de  imagem do  atleta, pois ao ser intimado o Santos encaminhou material que, a seu ver, nada tendo a ver com  a exploração comercial da imagem do atleta Neymar Júnior.”.  Aponta  que  este  é  o  primeiro  indício  de  que  houve  a  interposição  de  uma  pessoa  jurídica  (Neymar Sport),  para  fins  de  recebimento  dos  valores  a  título  de  “direito  de  imagem”, na tentativa de burlar os encargos trabalhistas, fiscais e previdenciários.  Argumenta que o atleta concorda com esse arranjo, mesmo perdendo direitos  trabalhistas, por causa da vantagem tributária.  Clausula Sexta  ­ Aponta que a  remuneração ocorreria de forma sistemática,  mensal e com valores fixos – outro indicativo que remete a uma relação empregatícia.  Argumenta que, em 05/02/2010, foi celebrado outro contrato entre a Neymar  Sport  e  o  Santos,  por  meio  do  qual  a  Neymar  Sport  passaria  a  deter  50%  do  resultado  da  exploração  dos  direitos  de  imagem.  Como  contrapartida,  o  Santos  concordou  em  pagar  o  montante  de  R$4.709.687,00,  em  parcelas  fixas  mensais.  Novamente,  destaca  que  a  remuneração do direito de imagem seguia uma sistemática típica de pagamento de salário.  Observa  que,  em  19/08/2010,  houve  novo  contrato  firmado  entre  Santos  e  Neymar  Sport,  que  teria  passado  a  prever,  expressamente,  o  pagamento  de  valores  fixos  independentemente do resultado obtido com a cessão dos direitos de uso da imagem do atleta a  terceiros. Alega que a forma encontrada para conceder os aumentos salariais foi a concessão de  mais verbas sob a denominação de “direito de imagem”, o que é facilmente percebido, quando  se analisa os termos estipulados.  Por  sua  vez,  em  07/11/2011,  é  celebrado  outro  contrato,  que,  segundo  as  contrarazões, revela uma típica relação laboral apesar da renegociação tratar de pagamentos a  título  de  exploração  de  direito  de  imagem  do  atleta.  Verifica  que  foi  estipulada  uma  Fl. 16553DF CARF MF     44  remuneração desvinculada da exploração do direito de  imagem do  jogador Neymar  Jr., visto  que ela seria paga “sem prejuízo da partilha de resultados” referentes à exploração do direito de  imagem.  Por fim, destaca o contrato firmado, entre o Santos e o jogador Neymar Jr.,  em 21/12/2011, do qual a autoridade fiscal chama a atenção para o que alega ser  indícios de  que havia a intenção de trocar salário por “direito de imagem”, pois este teria renunciado a um  aumento de salário em prol de aumento em sua remuneração de imagem, que seria entregue a  Neymar Sport.  IV.1.4.1  –  Desproporção  entre  a  remuneração  de  direito  de  imagem  e  salário  Alega  que  Neymar  Jr.  e  nem  o  Santos  lograram  explicar  porque  o  clube,  na  qualidade de cessionário do direito de imagem, ficou com parcela significativamente menor do que  aquela  paga  à Neymar Sport  e  a  desproporção  dos  valores  pagos  a  título de  salário  e  direito  de  imagem.  IV.1.5  –  Caracterização  como  rendimento  salarial:  inaplicabilidade  do  art. 129 da Lei no 11.196, de 2005  Afirma  que,  após  examinar  as  cláusulas  contratuais  dos  acordos  afirmados  entre o Santos e o jogador Neymar Jr., assim como o acordo entre o Santos e a Neymar Sport,  fica  evidente  que  existe  uma  relação  tipicamente  de  trabalho,  presentes  os  elementos:  pessoalidade, não­eventualidade, onerosidade e subordinação.  Adicionalmente, salienta que a Neymar Sport, durante quase todo o período  objeto de fiscalização, não possuía estrutura empresarial para explorar o direito de imagem do  atleta.  Cita  a  norma  prevista  no  art.  31  da  Lei  nº  9.615,  de  1998,  que  trata  especificamente  da  definição  de  “salário”  na  prática  desportiva,  e  conclui  que  os  valores  recebidos pela Neymar Sport, a título de prestação de serviço de direito de imagem, constituem  típica remuneração de natureza salarial, paga em virtude do vínculo empregatício firmado entre  o jogador Neymar Jr. e o Santos. Com efeito, essas verbas possuem todas as características de  uma gratificação ou prêmio.  No tocante ao art. 129 da Lei 11.196/05, afirma que o contribuinte defende a  tese de que tal norma legitimaria a contratação de serviços intelectuais, mesmo que de cunho  personalíssimo, por meio de pessoas jurídicas, como se o art. 129 autorizasse e legalizasse toda  e qualquer prestação de serviço, permitindo que as empresas utilizem indiscriminadamente essa  forma de contratação.  Afirma que a Lei veio para confirmar a legalidade da contratação de prestadores  de serviço, desde que o  trabalho não seja  realizado na  forma do artigo 3º da CLT. Caracterizada  uma  relação de  emprego,  nada muda,  a  fiscalização  deverá  efetuar a  cobrança das  contribuições  previdenciárias  e  a  Justiça  do  Trabalho  reconhecer  os  direitos  trabalhistas  decorrentes  ­  Neste  sentido,  cita  entrevista  do  Presidente  do  TST,  senhor  Ministro  Vantuil  Abdala,  ao  Valor  Econômico.  Cita  jurisprudência  do  Tribunal  Superior  do  Trabalho  que  corroboraria  o  entendimento de que o artigo 129 da Lei 11.196, de 2005, não  teve o condão de legalizar  toda e  qualquer prestação de serviço por meio de pessoa jurídica, ficando a salvo a relação de emprego.  Fl. 16554DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 24          45  Reforça que a norma do art. 129 da Lei 11.196, de 2005, não autoriza a prestação  de  serviços  com  as  típicas  características  da  relação  de  emprego  por  meio  da  interposição  de  pessoas  jurídicas. Até mesmo para os  fins  fiscais e previdenciários propugnados pela norma, ela  apenas  incidiria  quando  se  estivesse  diante  de  verdadeiros  profissionais  autônomos  que  prestem  serviços personalíssimos, mas desde que não exista subordinação, por qualquer de suas dimensões,  e que não exista a chamada não eventualidade.  Por  essas  razões,  sustenta  que  não  incide  a  regra  contida  no  art.  129  da  Lei  11.196, 2005, ao caso dos autos.  IV.2 – Negócios envolvendo a N&N Administração de Bens  No  tocante  à N&N Administração de Bens,  relembra que  a  acusação  fiscal  aponta para a utilização desta pessoa jurídica para os mesmos fins identificados em relação à  Neymar Sport, qual seja: receber a remuneração a título de direito de imagem por intermédio  de uma pessoa jurídica, a qual está submetida ao regime do lucro presumido.  Sustenta  que,  desta  forma,  o  contribuinte  pretendia  manter  a  estrutura  tributária mais  benéfica,  ao  escapar  das  regras  de  tributação  da  renda  das  pessoas  físicas  e  apurar os seus ganhos na sistemática do lucro presumido.  Relembra a cronologia dos contratos:  a) 31/05/2013  ­ Acordo entre o Santos, o Barcelona e o Neymar  Jr., para a  transferência do atleta ao clube espanhol.  b)  01/06/2013  (sábado)  ­  Acordo  entre  Neymar  Sport,  então  detentora  do  direito  de  uso  de  imagem  do  atleta,  e  N&N  ADMINISTRAÇÃO  transferiu  para  a  N&N  ADMINISTRAÇÃO uma parte do direito de uso de imagem do atleta, denominada “imagem  coletiva”.  c)  03/06/2013  (segunda­feira)  ­  Contrato  entre  o  Barcelona  e  a  N&N  ADMINISTRAÇÃO em relação a exploração dos direitos de imagem coletiva do atleta.  Alega evidência sobre a  transferência formal de parte das receitas de direito  de imagem à N&N Administração de Bens demonstrando a utilização meramente artificial da  empresa,  a qual  conseguiu  firmar um contrato para  exploração de direito de  imagem,  com o  Barcelona,  logo no primeiro dia útil  após  ter  sido contemplada como cessionária do  referido  direito.  Argumenta que a Neymar Sport adotava o regime do lucro presumido e que  no  ano­calendário  de  2012,  obteve  faturamento  anual  de R$  48.000.000,00  (quarenta  e  oito  milhões de reais), limite legal para o aproveitamento do regime do lucro presumido. Alega que,  considerando  que  o  atleta  seria  transferido  pro  Barcelona,  a  empresa  tinha  expectativa  no  aumento do faturamento, assim, para manter a situação fiscal vantajosa, o Grupo Neymar optou  por  direcionar  para  a N&N Administração  de Bens  parte  da  remuneração  devida  a  título  de  direito de imagem, mantendo as duas no regime do lucro presumido e, com isso, permanecendo  com a carga tributária menos onerosa.  Alega  que  trata­se  de  planejamento  tributário  conhecido  que  realiza  uso  abusivo de pessoas  jurídicas, privilegiando a  forma sobre a substância. Com efeito, a mesma  Fl. 16555DF CARF MF     46  atividade  empresarial  é  desenvolvida  por  pessoas  jurídicas  formalmente  distintas,  mas  que  representam, em essência, uma única entidade ou pessoa – o controlador do grupo.  Chama a atenção para o  fato de o objeto  social  da N&N Administração  de  Bens não prever a exploração de direito de imagem.  E,  assim  como  verificado  na  Neymar  Sport,  reforça  que  a  autoridade  fazendária constatou que a N&N Administração de Bens não detinha estrutura empresarial para  desempenhar a exploração do direito de imagem.  Cita a GFIP da  empresa,  relativa  ao  ano­calendário 2013,  em que  constava  apenas um único funcionário contratado.  Destaca  a  tabela  elaborada  pela  autoridade  fiscal  que  demonstraria  que  o  acerto  envolvendo  o  Barcelona  e  a  N&N  Administração  de  Bens  resultou  em  uma  remuneração, em favor desta pessoa jurídica, de 17,65% dos rendimentos auferidos pelo atleta  Neymar Jr.  Sustenta que não houve qualquer preocupação no sentido de destinar à N&N  Administração de Bens  apenas  rendimentos  relacionados  à pretensa exploração de direito de  imagem  do  jogador.  Com  efeito,  os  17,65%  recairiam  sobre  todos  valores  auferidos  pelo  jogador Neymar Jr., mesmo que não dissessem respeito à sua imagem, tais como: prêmios por  campeonatos eventualmente vencidos pelo Barcelona, prêmio por ser eleito melhor jogador da  FIFA, salário, “luvas”, etc.  Isso afastaria qualquer alegação de que a N&N Administração de  Bens estaria recebendo pela exploração de direitos de imagem do jogador Neymar Jr.  V  –  Da  Omissão  de  receitas  referentes  à  transferência  do  jogador  ao  clube espanhol Barcelona  Menciona que a terceira parte da autuação fiscal diz respeito à transferência  do jogador Neymar Jr. para o clube espanhol Barcelona.  a) 27/04/2011 ­ Contrato firmado entre o Neymar Jr. e a N&N Consultoria,  cujo objeto seria a consultoria esportiva, planejamento e otimização da carreira desportiva de  atleta  profissional. Destaca  que  o  protocolo  do  contrato  social  da N&N Consultoria  ocorreu  somente em 18/10/2011.  b)  27/10/2011  ­  Novo  contrato  firmado  entre  o  Neymar  Jr.  e  a  N&N  Consultoria, cujo objeto seria o mesmo do anterior.  *Ressalta que neste contrato  já consta o CNPJ da N&N Consultoria, apesar  deste só ter sido emitido em 17/11/2011.  c) 10/11/2011 ­ Aditamento ao contrato celebrado em 27/10/2011 em que o  atleta  concede  à  N&N  Consultoria  o  direito  de  receber  (diretamente  do  clube  europeu  que  viesse a ser aceito pelo atleta) todos os valores eventualmente decorrentes de sua condição de  free agent.  *Aponta que verifica­se que houve a inserção do CNPJ da N&N Consultoria,  o qual somente seria expedido em 17/11/2011.  d)  15/11/2011  ­ Acordo  entre N&N Consultoria  e  o  Barcelona  prevendo  a  transferência  do  jogador  Neymar  Jr.  ao  clube  espanhol,  no  dia  25/08/2014.  Assim,  a  N&N  Consultoria concordou em transferir os direitos econômicos do atleta ao Barcelona, enquanto o  Fl. 16556DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 25          47  clube espanhol aceitou pagar a quantia de 40 milhões de euros pela transferência, da seguinte  forma:  €10.000.000,  como  compensação  da  amortização  do  empréstimo  que  seria  contraído em 06/12/2011;  €30.000.000,  em  01/09/2014,  momento  em  que  o  jogador  se  tornaria  free  agent.  Em relação a este contrato destaca a existência da Cláusula Sétima, segundo a  qual a parte descumpridora da obrigação de subscrever o contrato futuro do atleta, na qualidade  de free agent, deveria pagar à outra parte o montante de 40 milhões de euros. Desta forma, se o  Barcelona contratasse o jogador Neymar Jr. diretamente junto ao Santos – o que efetivamente  ocorreu – também restaria configurada o descumprimento contratual, de modo que caberia ao  Barcelona “indenizar” a N&N Consultoria.  Sustenta  que  o  valor  pago  pelo  Barcelona  foi  uma  espécie  de  “direito  de  preferência”, para assegurar que o Neymar Jr. fechasse contrato com o clube espanhol.  * Ressalta que neste contrato já consta o CNPJ da N&N Consultoria, apesar  deste só ter sido emitido em 17/11/2011.  e) 31/05/2013 ­ Acordo entre o Santos, o Barcelona e o Neymar Jr., mediante  o qual o atleta seria  transferido ao clube espanhol,  tendo como contrapartida o pagamento de  17 milhões de euros. Desse modo, encerrou­se o vínculo do jogador Neymar Jr. com o Santos  ainda na vigência do contrato de trabalho.  03/06/2013 ­ N&N Consultoria e o Barcelona firmam um documento, no qual  reconheceu­se que o clube espanhol descumpriu o acordo de 15/11/2011, e teria que indenizar  a  N&N  Consultoria  em  €40.000.000,  pois  teria  ocorrido  uma  antecipação  da  compra,  pelo  Barcelona, dos direitos econômicos do atleta.  f)  25/03/2014  (durante  o  curso  da  fiscalização)­  N&N  Consultoria  e  o  Neymar Jr. efetivaram um distrato do primeiro contrato celebrado em 27/04/2011.  Sustenta  que  a  diferença  de  datas  em  diversos  contratos  dos  citados  acima  demonstra que tais documentos foram antedatados.  Alega que quando o contribuinte se defendeu das acusações de alterações de  datas nos contratos da Neymar Sport,  teria alegado que não havia intenção de fraude porque,  naquela época, pretendia­se apenas assegurar o vínculo do jovem Neymar Jr. (14 anos) com o  Santos. Questiona a justificativa para os demais documentos antedatados.  V.1 – Da interposição da N&N Consultoria  Alega  que  o  primeiro  indício  para  caracterizar  a  artificialidade  da  N&N  Consultoria  seria  o  fato  de  o  capital  social  da  referida  pessoa  jurídica  somente  ter  sido  integralizado  em  21/12/2011,  ou  seja,  após  toda  a  negociação  com  o  Barcelona.  Ressalta,  ainda, que os recursos para a integralização do capital social teriam sido disponibilizados pela  Neymar Sport, no que seria uma demonstração de confusão patrimonial entre as empresas do  Grupo Neymar.  Fl. 16557DF CARF MF     48  O segundo ponto que levanta seria a manipulação de dados nos documentos  assinados  pela  N&N  Consultoria,  a  fim  de  inserir  o  CNPJ  –  conforme  anteriormente  explicitado. Reafirma que se trata de fraude documental, que torna os documentos nulos, em  virtude da configuração de simulação – nos termos do art. 167 do Código Civil.  Em  relação  ao  empréstimo,  celebrado  entre  a  N&N  Consultoria  e  o  Barcelona,  em  06/12/2011,  no  valor  de  10  milhões  de  euros,  a  autoridade  fiscal  alega  que  configuraria um adiantamento referente à transferência do jogador Neymar Jr. ao Barcelona.  Repisa  a  clausula  indenizatória,  reafirmando  que  o  empréstimo  seria  uma  simulação, pois uma parcela do valor de 40 milhões de euros, o equivalente a 10 milhões de  euros, seria “paga” via compensação do empréstimo contraído pela N&N Consultoria junto ao  Barcelona. Ou seja, seria uma forma de encontro de contas.  Atenta para a cláusula quarta do contrato, a qual previa a obrigação da N&N  Consultoria de  ressarcir  o Barcelona, que  serviria  como um  retorno dos  recursos  financeiros  para o Barcelona, caso o contrato não fosse cumprido.  Nesse contexto, argumenta que há uma formatação muito clara para o acordo  estabelecido  entre  as  partes,  com  dois  cenários  bem  distintos:  (a)  caso  o  negócio  fosse  finalizado satisfatoriamente, o  “empréstimo” seria quitado via compensação; ou  (b)  surgindo  algum  evento  imprevisto,  que  impedisse  a  transferência  do  atleta  para  o  Barcelona,  a N&N  Consultoria deveria “ressarcir” o clube espanhol.  No  primeiro  cenário,  apresentariam­se  elementos  típicos  de  um  “empréstimo”,  mas  no  segundo  cenário  ficaria  claro  que  o  ressarcimento,  significaria  a  quitação  do  “empréstimo”  –  e  não  mais  uma  obrigação  assumida  pela  N&N  Consultoria.  Partindo dessa premissa, ficaria evidente que o repasse inicial de 10 milhões de euros, que as  partes preferiram denominar “empréstimo”, consiste em uma antecipação do valor estipulado  para a transferência do atleta para o Barcelona.  Não obstante, destaca mais um elemento, indicado pela autoridade fiscal, que  reforçaria  a  descaracterização  do  “empréstimo”,  qual  seja:  o  seguro  contratado  N&N  Consultoria, e que teria sido custeado pelo Barcelona, a fim de se precaver em caso de sinistros  envolvendo  o  jogador  Neymar  Jr.,  que  serviria  para  resguardar  o  Barcelona  de  eventuais  prejuízos, notadamente por já ter investido 10 milhões de euros para contar com o atleta em seu  plantel de jogadores.  Nesse ponto,  a  autoridade  fiscal  questiona,  com  razão,  a  existência de uma  apólice  de  seguro  para  cobrir  riscos  que  já  estariam  cobertos  pela  obrigação,  assumida  pela  N&N, de ressarcir os 10 milhões de euros empregados pelo Barcelona.  Em outras palavras, alega que o “empréstimo” seria inevitavelmente quitado,  mas não com recursos da própria N&N, pois ou haveria uma compensação ou o “empréstimo”  seria  quitado  com  a  apólice  de  seguro  contratada  pela  N&N  Consultoria  e  custeada  pelo  Barcelona. Este seria o motivo para a autoridade fiscal  ter considerado a natureza jurídica do  valor recebido pela N&N como “adiantamento de parte do valor pactuado com o atleta para ter  a preferência na sua futura contratação”.  Alega outra evidência da artificialidade da N&N Consultoria baseando­se no  fato  que  esta  não  ter  contratado  nenhum  funcionário  até  13/09/2013,  conforme  informações  extraídas da GFIP de 12/2013 – o que não teria sido contestado.  Fl. 16558DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 26          49  VI  –  Do  conceito  de  simulação  na  esfera  tributária:  configuração  de  negócio jurídico simulado com a intenção de burlar o fisco  Neste tópico, a PGFN tece considerações acerca do instituto da simulação no  âmbito tributário, destacando a necessidade da perfeição da vontade manifestada cujos vícios  acarreta a invalidade do ato jurídico. Cita art.167 do Código Civil.  Sustenta que o desfazimento do negócio simulado é medida desnecessária no  âmbito da Administração Tributária, pois é suficiente reconhecer que houve a invalidade para  dar o adequado tratamento ao verdadeiro negócio ocorrido. Cita os arts. 109, 118 e 149, VII,  todos do CTN.  Alega que mesmo que, a princípio, pudesse haver uma “coincidência” entre a  intenção das partes e os atos jurídicos formalizados, ainda assim tais atos poderiam não surtir  efeitos  jurídicos  tributários. Ou seja, mesmo havendo compatibilidade formal com as normas  civis, o ato não surtiria efeitos tributários se restasse evidenciada a finalidade preponderante de  escapar de uma tributação específica. Cita jurisprudência do CARF.  Deste modo,  conforme  já estaria pacificado na  jurisprudência do CARF, os  efeitos  tributários  não  seriam  definidos  simplesmente  pelos  atos  formalmente  praticados.  Notadamente quando identificada a simulação, situação na qual os atos meramente formais não  podem ser opostos ao Fisco. Assim, argumenta que ao caso examinado deve ser conferido o  tratamento tributário que o verdadeiro ato dissimulado produz.  VII – Da aplicação da multa qualificada de 150%  Cita o inciso II do art. 44 da Lei nº 9.430/96 e sustenta que o Fisco, em razão  dos fatos ocorridos, tem um interesse a ser protegido (um crédito a haver) que é impedido ou  frustrado pela conduta do contribuinte ­ fraude.  Alega  que,  no  que  diz  respeito  especificamente  à  fraude,  os  documentos  antedatados  são prova mais do que suficiente da  simulação. Com efeito,  houve claramente a  união de vontades direcionada para o planejamento tributário abusivo, qual seja: utilização de  pessoas  jurídicas de  forma artificial  e  abusiva,  com o notório propósito de  redução de carga  tributária.  VIII – Da solidariedade em relação aos sócios: aplicabilidade do inciso I  do art. 124 do CTN  Argumenta  que  a  responsabilidade  tributária  solidária  exsurge  quando  o  responsável  é  chamado  para  adimplir  o  crédito  tributário  concomitantemente  com  o  contribuinte,  arcando,  independentemente  deste,  com  o  pagamento  integral  do  crédito  tributário.  Cita  o  art.  124  do  CTN  e  sustenta  que,  o  inciso  I  disporia  sobre  a  solidariedade quando os sujeitos estão na mesma relação obrigacional. Neste caso, haveria um  interesse  comum  das  pessoas  que  participam  da  situação  que  origina  o  fato  gerador  para,  conseqüentemente, passarem à condição de devedores solidários.  Fl. 16559DF CARF MF     50  Destaca que a economia fiscal obtida com os atos simulados teria beneficiado  tanto  os  sócios  quanto  o  atleta  Neymar  Jr.,  pois  o  patrimônio  construído  por  meio  da  exploração dos direitos ligados ao atleta acabou sendo revertido em benefício de todos.  IX – Da impossibilidade de aproveitamento do IRRF no caso dos autos  O contribuinte sustenta que os recolhimentos de IR feitos pelas empresas do  Grupo  Neymar  deveriam  ser  abatidos  da  exigência  consolidada  nos  presentes  autos.  No  entanto, a pretensão da contribuinte não merece prosperar.  Isso porque não há previsão  legal  para  converter  o  presente  processo  administrativo,  no  qual  se  discute  a  legalidade  do  lançamento realizado, em procedimento específico de compensação.  Para que  isso fosse possível,  seria necessário existir previsão  legal expressa  nesse  sentido,  o  que  não  é  o  caso. Dessa  forma,  após  o  encerramento  do  presente  processo  administrativo, havendo crédito de IR a ser restituído ou compensado, caberá à Neymar Sport,  N&N  Consultoria  e  N&N  Administração  de  Bens  instaurar  o  pertinente  procedimento  de  compensação, via declaração de compensação a ser entregue à Secretaria da Receita Federal do  Brasil, nos termos do art. 74 da Lei nº 9.430, de 1996.  Ante  o  exposto,  requer  que  seja  negado  provimento  ao  recurso  voluntário  interposto pela contribuinte.  É o relatório.  Fl. 16560DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 27          51    ÍNDICE  A) TEMPESTIVIDADE  B) PRELIMINARES  B.1) Erro de sujeição passiva  B.2) Nulidade por falta de motivação legal  B.3) Retroatividade Benigna da MP 690/15  B.4) Nulidade da exigência fiscal sobre receitas que já foram tributadas pela pessoa jurídica  B.5) Reconhecimento dos tributos pagos em 2014 e 2015    C) RAZÕES DE MÉRITO  C.1) Omissão de rendimentos do trabalho sem vinculo empregatício e de fontes situadas  no exterior, relativos a serviços de publicidade, tributados indevidamente na Neymar  Sport  C.1.1) Contrato de direito de imagem: Neymar Jr. x Neymar Sport­ 11/05/2006  C.1.2) Contrato de direito de imagem: Neymar Jr. x Neymar Sport­ 01/04/2009  C.1.2.1) Objeto: Cessão contratual x direito de imagem  C.1.2.2) Remuneração: Contrato Gratuito  C.1.2.3) Formalidades: Registro Público  C.1.3) Contrato de direito de imagem: Neymar Sport x Santos­10/05/2006  C.1.4) Contrato de direito de imagem: Neymar Sport x Santos­19/08/2010  C.1.5) Validade dos contratos de direito de imagem com terceiros  C.1.5.1) Serviços personalíssimos x exploração por pessoa jurídica  C.1.5.2) Substância da Neymar Sport  C.1.5.3) Contratos firmados com terceiros e Neymar Jr./Neymar Sport/Santos:  a) Red Bull  b) Johnson Controls ­ Bateria Heliar  c) Volkswagen do Brasil  d) Universo dos Livros  e) AMBEV  f) Dentsu/Panasonic  g) Banco Santander  h) Glaxosmithline  i) Lupo  j) HWT Promoções Esportivas  l) Globo Comunicações  m) CSU Cardsystem  n) Claro S/A  o) Tots Toys/Rede Bom dia  p) Beats electronics    C.2) Omissão de rendimentos de fontes situadas no exterior, oriundos do direito de  preferência/direitos econômicos futuros pagos pelo Barcelona tributados na N&N  Consultoria  C.2.1) Contrato de consultoria esportiva: N&N Consultoria x Neymar Jr. ­ 27/04/2011  C.2.1.1) Simulação: Data do contrato x emissão do CNPJ  Fl. 16561DF CARF MF     52  C.2.1.2) Vontade e intenção das partes  C.2.1.3) Formalidades: Registro Público  C.2.2) Contrato de opção de contratação futura: N&N Consultoria x Barcelona ­ 15/11/2011  C.2.2.1) Objeto: Cessão de direitos econômicos futuros  C.2.3) Empréstimo entre Barcelona e N&N Consultoria  C.2.4) Indenização recebida pela N&N Consultoria  C.2.5) Substância da N&N Consultoria    C.3) Omissão de rendimentos de fontes situadas no exterior, do trabalho com vínculo  empregatício pagos pelo Barcelona a Neymar Sport; N&N Consultoria e N&N  Administração  C.3.1) Contrato de Agencia: Barcelona x Neymar Sport  C.3.2) Contrato de Scouting/Arrendamento de serviços prof.: Barcelona x N&N Consultoria  C.3.3) Contrato de Representação e Gestão: Barcelona x N&N Consultoria  C.3.4) Contrato de cessão de uso de imagem: Neymar Sport x N&N Administração  C.3.5) Contrato de cessão de uso de imagem: Barcelona x N&N Administração    C.4) Qualificação da Multa de Ofício    C.5) Responsabilidade Solidária  C.5.1) Art. 124, I do Código Tributário Nacional  C.5.2) Fato gerador x Interesse comum    C.6) Concomitância entre as multas de ofício e isolada  C.7) Compensação de crédito de pessoa jurídica e pessoa física  C.8) Erro na base de cálculo    D) CONCLUSÕES FINAIS  Fl. 16562DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 28          53    Voto Vencido  Conselheira Bianca Felícia Rothschild ­ Relatora  Trata­se  de  lançamento  de  ofício  em  face  do  contribuinte  NEYMAR  DA  SILVA  SANTOS  JÚNIOR,  relativo  ao  Imposto  de  Renda  de  Pessoa  Física  (IRPF)  dos  exercícios 2012, 2013 e 2014 (anos­calendário 2011, 2012 e 2013), em que está sendo exigido  do contribuinte o recolhimento de crédito tributário no valor de R$188.820.129,25, sendo:  Imposto – R$63.591.796,06  Juros de Mora (calculados até 05/2015) – R$10.282.883,82  Multa de Ofício – R$95.387.694,09  Multa Isolada – R$19.557.755,28  Conforme descrição dos fatos e enquadramento legal constantes do Auto de  Infração  (AI  –  fls.  7.236/7.258)  e  do  TDF  (fls.7.040/7.234),  que  acompanham  e  são  parte  integrante do AI, foram apuradas as seguintes infrações:  1. Omissão  de  rendimentos  do  trabalho  sem  vínculo  empregatício  relativos  aos  serviços de publicidade não  tributados na pessoa física e/ou  tributados  indevidamente na  empresa Neymar Sport e Marketing S/S Ltda. (Neymar Sport);  2.  Omissão  de  rendimentos  de  fontes  situadas  no  exterior,  oriundos  dos  serviços  de  publicidade  não  tributados  na  pessoa  física  e/ou  tributados  indevidamente  na  empresa Neymar Sport;  3. Omissão de rendimentos de fontes situadas no exterior, oriundos do direito  de  preferência,  pagos  pelo  Barcelona  Futebol  Clube,  não  tributados  na  pessoa  física  e/ou  tributados  indevidamente na empresa N&N Consultoria Esportiva e Empresarial Ltda.  (N&N  Consultoria);  4.  Omissão  de  rendimentos  de  fontes  situadas  no  exterior,  oriundos  do  trabalho com vínculo empregatício (contrato de agência, scouting e direitos de imagem), pagos  pelo Barcelona Futebol Clube, não  tributados na pessoa  física e/ou  tributados  indevidamente  nas empresas Neymar Sport; N&N Consultoria e N&N Administração de Bens, Participações e  Investimentos Ltda. (N&N Administração).  5. Falta de recolhimento do IRPF, devido a título de carnê­leão, ensejando a  exigência da Multa Isolada.  As  autoridades  fiscais  incluíram  no  pólo  passivo,  como  responsáveis  solidários pelo crédito tributário constituído, Neymar da Silva Santos e Nadine Gonçalves da  Silva  Santos,  pais  do  contribuinte,  e  as  empresas  Neymar  Sport,  N&N  Consultoria  e  N&N  Administração, que têm como únicos sócios os pais do contribuinte, em razão de entenderem  estar  caracterizado  o  interesse  comum  e  a  atuação  conjunta  de  todos  nas  situações  que  constituíram os fatos geradores das obrigações tributárias.  Fl. 16563DF CARF MF     54  A  exigência  da  multa  de  ofício  qualificada,  no  percentual  de  150%,  foi  justificada  pelos  autuantes  tendo  em  vista  a  alegação  de  ocorrência  de  sonegação,  fraude  e  conluio nos negócios perpetrados.  A) TEMPESTIVIDADE  O recurso voluntário é TEMPESTIVO, visto que o recorrente foi  intimado  da decisão no dia 17 de março de 2016 e interpôs recurso voluntário no dia 18 de abril de 2016.  O  recurso  atende  também  às  demais  condições  de  admissibilidade, merecendo,  portanto,  ser  ainda CONHECIDO.  B) PRELIMINARES  Previamente  à  analise  das  preliminares,  cabe  esclarecer  que  o  recorrente,  Neymar da Silva Santos  Júnior,  popularmente  conhecido como Neymar  Jr.,  é um  futebolista  brasileiro, reconhecido mundialmente por suas conquistas profissionais.  B.1) Erro na identificação do sujeito passivo  A defesa do contribuinte sustenta que o lançamento teria se baseado na tese  de  que  são  personalíssimos  e  intransferíveis  os  direitos  cedidos  por Neymar  Jr.  às  empresas  Neymar Sport, N&N Consultoria e N&N Administração.  A  natureza  personalíssima  e  a  intransferibilidade  de  tais  direitos  teria  sido,  portanto, o principal fundamento para a reclassificação para a pessoa física de Neymar Jr. dos  rendimentos auferidos pelas pessoas jurídicas acima referidas em face de tal cessão.  De acordo com este entendimento, as pessoas  jurídicas mencionadas  teriam  sido  interpostas  com  a  finalidade  de  reduzir  a  carga  tributária  de  Neymar  Jr.,  quando  na  verdade,  no  entendimento  das  autoridades  fiscais,  os  rendimentos  deveriam  ter  sido  redirecionados ao mesmo.  No  entanto,  aduz  a  defesa  que  Neymar  Jr.  não  teria  recebido  qualquer  rendimento  advindo  das  empresas  citadas,  ou  seja,  não  seria  ele  o  beneficiário  efetivo  dos  rendimentos1.  Alega, ademais, que os supostos fatos geradores ocorreram após a edição da  Lei  nº  11.196/05,  cujo  art.  129  teria  determinado  a  legitimidade  da  tributação,  na  pessoa  jurídica, de rendimentos advindos de cessão de uso de direito de imagem de pessoa física.  Sobre  as  alusões  de  simulação  e  falta  de  substância  na  constituição  das  empresas envolvidas, a defesa do contribuinte assevera que a estrutura operacional das mesmas  teria evoluído contando hoje com quase 50  funcionários, prédio dedicado às  suas atividades,  contabilidade regular e inúmeros contratos.  Com  base  em  tais  argumentos,  sustenta  a  defesa  ainda,  que  o  lançamento  fiscal seria nulo, pois teria incorrido em erro na eleição do sujeito passivo.                                                              1  A  legislação  tributária  traz  o  conceito  de  beneficiário  efetivo  no  §  1º  do  artigo  26  da  Lei  nº  12.249/2010,  segundo o qual “considerar­se­á como efetivo beneficiário a pessoa física ou jurídica não constituída com o único  ou principal objetivo de economia  tributária que auferir esses valores por sua própria conta e não como agente,  administrador fiduciário ou mandatário por conta de terceiro”. Embora este dispositivo seja específico no que se  refere à dedutibilidade de certas despesas pagas para o exterior, pode ser utilizado aqui por analogia.  Fl. 16564DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 29          55  Por sua vez, a PGFN defende que o caso dos autos retrata a utilização abusiva  de  pessoas  jurídicas  no  intuito  de  retirar  a  incidência  tributária  da  pessoa  física.  Nessas  situações, o trabalho das autoridades fazendárias seria justamente o de identificar o verdadeiro  sujeito  passivo  tributário,  diferente  daqueles  elegidos  formalmente  pelos  contribuintes,  mediante subterfúgios artificiais e, no caso dos autos, também fraudulentos.  ***  No que se  refere  à preliminar de  erro de  identificação de  sujeito passivo,  a  defesa  do  contribuinte  se  baseia,  fundamentalmente,  nos  argumentos  de  que Neymar  Jr.  não  seria  sócio  das  empresas  envolvidas,  quais  sejam, Neymar  Sport,  N&N Consultoria  e N&N  Administração,  e  que  não  há  provas  nos  autos  de  que  ele  teria  recebido  qualquer  benefício  econômico advindo das empresas.  De fato, o argumento de que Neymar Jr. não era  sócio das empresas acima  citadas é  facilmente comprovado pela  análise dos  respectivos  atos constitutivos das mesmas,  tais  quais  indicam,  igualmente  para  todas,  que  seus  únicos  sócios  são  as  pessoas  físicas  de  Neymar da Silva Santos e de Nadine Gonçalves da Silva Santos, pais do atleta.  No que se refere ao recebimento de benefício econômico, vale destacar que a  própria PGFN confirma que nenhum pagamento teria sido feito pelas empresas mencionadas a  Neymar Jr., conforme se extrai dos seguintes trechos das contrarrazões (fls 16285 e segs):  Nesse ponto, chega a  ser  inacreditável que o recorrente alegue  que  as  pessoas  jurídicas  interpostas  não  ofereceram  nenhum  benefício  econômico  ao  atleta.  Por  certo,  não  sendo  sócio  ou  empregado  das  acima  citadas  pessoas  jurídicas,  era  de  se  esperar que não houvesse nenhum pagamento  formal ao atleta.  Ademais, como os contratos de cessão de uso de imagem foram  todos  celebrados  de  forma  não  onerosa  –  seja  por  inexistir  previsão de pagamento no momento da cessão ou qualquer outra  remuneração  futura  do  jogador  –,  também  não  seriam  encontrados registros de repasses a título de direito de imagem.  Não obstante, são justamente esses elementos que demonstram o  absurdo de  se  imaginar que o atleta não  teve nenhum proveito  econômico.  Com  efeito,  para  que  a  tese  do  recorrente  faça  sentido,  ter­se­ia  que  vislumbrar  a  seguinte  situação:  a  maior  parte  do  potencial  econômico  do  jogador  foi  transferida  a  terceiros, gratuitamente, sem qualquer vantagem ao jogador. O  atleta  não  somente  concordou  com  isso,  no  momento  da  contratação, mas permanece satisfeito com a sua situação até a  presente  data. Assim,  temos  um  caso  singular  de  atleta  de  alto  rendimento altruísta,  que  concorda em  trabalhar,  participar de  campanhas  publicitárias,  ser  cobrado  por  resultados,  mesmo  sabendo  que  parte  substancial  dos  rendimentos  auferidos  por  sua  causa  são  totalmente  destinados  a  terceiros,  sem  qualquer  contrapartida a ele.  Abstraindo a alegação despropositada do recorrente, importante  frisar  que  o  proveito  econômico  se  encontra  justamente  na  redução  significativa  da  carga  tributária  que  o  Neymar  Jr.  Fl. 16565DF CARF MF     56  conseguiu,  ao  interpor  diversas  pessoas  jurídicas  para  receber  rendimentos que são de sua titularidade.  Além  disso,  relevante  destacar  que  a  autoridade  fiscal  não  se  baseou  apenas  em  “matérias  sensacionalistas”,  mas  em  dados  extraídos  dos  documentos  contábeis  e  fiscais  das  pessoas  jurídicas  utilizadas  pelo  GRUPO  NEYMAR.  Apenas  para  exemplificar,  cita­se  o  iate  adquirido  por  R$  15  milhões,  que  consta do ativo não­circulante da Neymar Sport.  Apesar  do  esforço  do  recorrente,  fica  difícil  aceitar  a  inexistência  de  proveito  econômico  para  o  atleta,  ainda  mais  quando  se  verifica  que  este  usufrui  normalmente  de  bens  adquiridos em virtude de pagamentos vinculados a sua pessoa –  a título de direito de imagem. Pensar em sentido contrário seria  admitir que a Neymar Sport é quem utiliza o iate, para atingir os  seus  objetivos  sociais,  ou  que  os  sócios  da  referida  pessoa  jurídica – os pais do jogador – teriam a prerrogativa de proibir  o atleta de utilizar o mencionado iate. O mesmo raciocínio vale  para todos os demais bens adquiridos e registrados em nome das  pessoas  jurídicas  interpostas,  cujo  propósito  era  exatamente  esse:  fazer  a  blindagem  patrimonial  do  atleta,  de  modo  que  nenhum bem fosse vinculado à pessoa física do jogador Neymar  Jr.(grifei)  Pela  leitura  dos  trechos  acima,  nota­se  que  a  PGFN  admite  que  não  há  transferência  efetiva  a  Neymar  Jr.  de  nenhum  numerário  advindo  das  empresas  que,  supostamente, teriam sido criadas para obter um tratamento tributário mais favorável.  A PGFN alega, no entanto, conforme os mesmos trechos acima reproduzidos,  que  o  benefício  econômico  de  Neymar  Jr.  restaria  caracterizado  através  de:  i)  redução  significativa da carga tributária lograda pelo mesmo ao interpor diversas pessoas jurídicas para  receber  rendimentos  que  são  de  sua  titularidade  e  ii)  usufruto  de  bens  adquiridos  pelas  empresas envolvidas com os rendimentos vinculados à sua pessoa (ex: veículos de luxo e iate).  A  comprovação  de  que  Neymar  Jr.  não  era  sócio  e  nem  recebeu  qualquer  numerário das  empresas Neymar Sport, N&N Consultoria  e N&N Administração,  induz,  em  uma análise preliminar,  à conclusão de que houve erro na identificação do sujeito passivo, o  que geraria a nulidade do lançamento.  Tal  conclusão  estaria baseada,  entre outros,  no  argumento de que,  como  se  depreende  da  legislação  tributária2,  pessoas  físicas  são  tributadas  sob  o  regime  de  caixa,  ou  seja, somente quando os rendimentos tenham sido efetivamente disponibilizados a estas.  Neste  sentido,  a Coordenação­Geral do Sistema de Tributação  (COSIT),  na  Solução  de  Consulta  Interna  nº  8/2013,  já  pronunciou  seu  entendimento  de  que  o  erro  na  identificação  do  sujeito  passivo  ocorre  quando  há  imprecisão  no  confronto  entre  a  norma  tributária com o fato jurídico tributário em um dos elementos do consequente da regra­matriz  de incidência, neste caso, qual seja, o pessoal. Vejamos:  10.1. No erro de direito há  incorreção no cotejo entre a norma  tributária (hipótese de incidência) com o fato jurídico tributário  em  um  dos  elementos  do  consequente  da  regra­matriz  de                                                              2 Art. 3º, 4º e 8º  da Lei n.º 9.250/95; Art. 12­A da Lei n.º 7.713/88; nos arts. 75 e 718 do Decreto nº 3.000/99.  Fl. 16566DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 30          57  incidência, qual seja, o pessoal. Há erro no ato­norma. É vício  material e, portanto, impossível de ser convalidado.  10.2.  Desse  modo,  o  erro  na  interpretação  da  regramatriz  de  incidência  no  que  concerne  ao  sujeito  passivo  da  obrigação  tributária (o que inclui tanto o contribuinte como o responsável  tributário) gera um  lançamento nulo por vício material, não se  aplicando a regra especial de contagem do prazo decadencial do  art. 173, II, do CTN.  Noutro  giro,  não  obstante  o  acima,  temos  que  o  inciso  I  do  artigo  121  do  Código Tributário Nacional (CTN) define que o sujeito passivo é aquele que mantém relação  pessoal e direta com a situação que constitua o respectivo fato gerador. Vejamos:  Art.  121.  Sujeito  passivo  da  obrigação  principal  é  a  pessoa  obrigada ao pagamento de tributo ou penalidade pecuniária.  Parágrafo único. O sujeito passivo da obrigação principal diz­ se:  I  ­  contribuinte,  quando  tenha  relação  pessoal  e  direta  com  a  situação que constitua o respectivo fato gerador;(grifei)  A  verificação  da  relação  direta  e  pessoal  entre  o  contribuinte  e  a  situação  sobre a qual se constitui o fato gerador é competência da autoridade administrativa conforme  art. 142 do CTN. Diz o referido artigo:  Art.  142.  Compete  privativamente  à  autoridade  administrativa  constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido  o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência  do  fato  gerador  da  obrigação  correspondente,  determinar  a  matéria  tributável,  calcular  o  montante  do  tributo  devido,  identificar  o  sujeito  passivo  e,  sendo  caso,  propor  a  aplicação  da penalidade cabível.(grifei)  Neste sentido, a PGFN alega que Neymar Jr. seria o sujeito passivo dos fatos  geradores imputados pelas autoridades fiscais por ter relação pessoal e direta com os mesmos.  Este seria o embasamento legal para que o mesmo fosse, desta forma, inserido no pólo passivo  do presente lançamento na qualidade de contribuinte.  Deveras,  tendo  em  vista  que  as  transações  narradas  no  TDF  possuem  evidente  conexão  com Neymar  Jr.,  não  é  possível,  em  sede  de  preliminares,  reconhecer  de  plano que não há, de fato, relação pessoal e direta do mesmo com a situação que constituiu os  fatos  geradores  imputados  pelas  autoridades  fiscais,  apesar  de  ser  possível  se  constatar  facilmente que Neymar Jr. não é sócio das empresas Neymar Sport, N&N Consultoria e N&N  Administração e que não recebeu qualquer benefício econômico advindo das mesmas.  Note­se,  destarte,  que  esta  preliminar  não  cuida  de  reconhecer  a  sujeição  passiva de Neymar Jr. em relação à realização dos fatos geradores e consequentes penalidades  que lhe são imputadas pelo auto de infração. Apenas e tão somente se está decidindo que esta  matéria  será  analisada,  mais  detidamente,  nas  razões  de  mérito,  à  luz  de  cada  uma  das  transações descritas no TDF, conforme se procederá adiante.  Fl. 16567DF CARF MF     58  Dessa forma, voto pelo indeferimento do pedido de anulação integral do auto  de  infração  com  base  nas  alegações  de  erro  na  eleição  de  sujeito  passivo,  ressalvando  a  possibilidade de decidir com base neste fundamento em relação à imputações específicas feitas  a Neymar Jr. quando da análise de mérito.  B.2) Nulidade por falta de motivação legal  A  defesa  do  contribuinte  aduz  que  não  haveria,  na  descrição  do  auto  de  infração,  indicação  de  fundamento  para  a desconsideração  da  personalidade  jurídica. A base  legal mencionada  seria  genérica  em  relação à  tributação da pessoa  física. Neste  sentido, não  haveria elementos que permitiriam concluir se a desconsideração decorre do art. 116 do CTN,  artigo  50  do Código Civil,  ou  de  responsabilidade  tributária  com  base  no  art.  135  e  137  do  CTN.  A defesa do contribuinte defende, dessa forma, a nulidade do auto de infração  por ausência de  fundamentação  legal e porque o  lançamento estaria abalizado em normas de  caráter genérico.  Por  sua  vez,  a  PGFN  defende  que  não  existiria  a  alardeada  omissão  da  autoridade fiscal. Menciona que a autoridade fiscal apontou os fundamentos fáticos e jurídicos  da  simulação  –  ressalta  a  citação  expressa  do  art.  167  do  Código  Civil  –  de  modo  que  as  alegações de omissão, trazidas na peça recursal, mostram­se totalmente impertinentes.  A PGFN defende que, em nenhum momento, a pretensão da autoridade fiscal  foi de aplicar o art. 50 do Código Civil e que o caso dos autos retrata a utilização abusiva de  pessoas  jurídicas  no  intuito  de  retirar  a  incidência  tributária  da  pessoa  física.  Para  isso,  não  teria  sido  necessário  que  a  autoridade  fiscal  decretasse  a  desconsideração  da  personalidade  jurídica, cabendo a ela apenas indicar o verdadeiro contribuinte e, no máximo, os responsáveis  solidários.  De  acordo  com  a  PGFN,  esse  entendimento  encontraria  respaldo  na  jurisprudência  do  CARF,  que  tem  privilegiado  a  substância  sobre  a  forma,  ao  contrário  da  defesa  do  contribuinte,  que  pretenderia  que  fosse  dada  prevalência  aos  aspectos meramente  formais.  ***  A  desconsideração  de  personalidade  jurídica  estaria  configurada,  conforme  alegações  da  defesa  do  contribuinte,  na  medida  em  que  as  autoridades  fiscais  imputam  responsabilidade  solidária  aos  pais  de Neymar  Jr.  que,  na  qualidade  de  sócios  das  empresas  Neymar Sport, N&N Consultoria e N&N Administração, conforme aduzido pelas autoridades  fiscais, em conjunto com o jogador, seriam os responsáveis diretos pelas infrações praticadas e  que  teriam  se  utilizado  da  interposição  fraudulenta  das  mencionadas  empresas,  que,  como  arguido,  sequer  possuiriam  estrutura  operacional  para  desenvolver  propriamente  suas  atividades.  Verifica­se que não há nos autos quaisquer contratos, excetuado os contratos  sociais  das  empresas,  que  tenham  sido  assinados  pelas  pessoas  físicas  de  Neymar  da  Silva  Santos ou Nadine Gonçalves da Silva Santos. Do contrário, todos os contratos foram assinados  na qualidade de representantes  legais das empresas Neymar Sport, N&N Consultoria e N&N  Administração. Dessa forma, confirma­se que a atribuição de responsabilidade a  tais pessoas  físicas se dá unicamente por serem sócios das empresas envolvidas.  Fl. 16568DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 31          59  A inclusão no pólo passivo dos pais de Neymar  Jr., na qualidade de sócios  das  empresas  acima  mencionadas,  com  base  nos  argumentos  de  abuso  de  personalidade  jurídica,  desvio  de  finalidade  e  confusão  patrimonial,  significa,  na  prática,  uma  desconsideração da personalidade jurídica para fins fiscais.  A aplicação do artigo 124,  I do CTN,  invocado pelas autoridades fiscais no  auto de infração para imputar responsabilidade solidária aos pais do atleta, exclusivamente, não  pode  ser  utilizada  como  fundamento  legal  para  que  as  pessoas  jurídicas  envolvidas  sejam  desconsideradas e não há na descrição do auto de infração outra fundamentação que permitisse  que tais sujeitos passivos sejam imputados pessoalmente.  Mesmo diante da análise detalhada dos autos, não há elementos que levem a  uma conclusão sobre a base legal na qual  teriam se fundamentado as autoridades fiscais para  afastar as pessoas jurídicas e imputar os respectivos sócios como sujeitos passivos.  Conforme  mencionado,  entre  os  principais  argumentos  trazidos  pelas  autoridades  fiscais  para  o  afastamento  das  pessoas  jurídicas  estão  o  abuso  da  personalidade  jurídica,  caracterizado  pelo  desvio  de  finalidade  ou  pela  confusão  patrimonial,  vejamos  (fls.  7214 e 7228):  6  –  DOS  FUNDAMENTOS  DA  SUJEIÇÃO  PASSIVA  SOLIDÁRIA  6.1.1  –  DO  ABUSO  DA  PERSONALIDADE  JURÍDICA  –  DESVIO DE FINALIDADE  Conforme exaustivamente demonstrado ao longo deste termo, os  integrantes  do  grupo  Neymar  elaboraram  vários  contratos  simulados  (antedatados),  confeccionados  sob medida,  de  forma  casuística, com o objetivo único de transferir, de forma indevida,  responsabilidades tributárias do atleta para as pessoas jurídicas  do  grupo  (N&N  e Neymar  Sport),  visando  economia  tributária  (redução no pagamento dos tributos devidos).  6.1.5 – DA CONFUSÃO PATRIMONIAL  Por  confusão  patrimonial  deve­se  entender  a  ausência  de  distinção entre o patrimônio social e o patrimônio de um, alguns  ou  todos  os  sócios,  refletindo  a  falta  de  uma  nítida  separação  entre a massa patrimonial da sociedade e aquela do(s) sócio(s).  Já vimos que bens móveis e imóveis, adquiridos com a prestação  de serviços personalíssimos do atleta, foram blindados em nome  de  outras  pessoas  (físicas  e  jurídicas)  integrantes  do  grupo  Neymar.  Também  restou  comprovado  que  TODOS  os  rendimentos  tributáveis  auferidos  pelos  pais  do  atleta  são  oriundos  das  pessoas jurídicas do grupo (N&N, Neymar Sport e N&N Adm. de  Bens).  Eles  não  obtiveram,  no  período  fiscalizado,  quaisquer  outros rendimentos tributáveis.  (...)  Com  efeito,  a  confusão  patrimonial  é  comum  em  grupos  econômicos,  pois  os  recursos  são  utilizados  de  acordo  com  a  conveniência das pessoas envolvidas, sem levar em consideração  Fl. 16569DF CARF MF     60  o  princípio  da  entidade,  no  qual  deveria  existir  uma  diferenciação entre o patrimônio de cada indivíduo no universo  do patrimônio do grupo.  Verifica­se que, na prática, o lançamento imputa responsabilidade solidária a  sujeitos  passivos  pessoas  físicas  por  entender  que  houve  abuso  da  personalidade  jurídica,  caracterizado  pelo  desvio  de  finalidade  ou  pela  confusão  patrimonial.  Sabe­se  que  os  argumentos  nos  trechos  reproduzidos  acima  são  exatamente  os  requisitos  de  necessária  verificação  para  aplicação  do  art.  50  do  Código  Civil  e  consequente  configuração  da  desconsideração da personalidade jurídica. Vejamos:  Art.  50.  Em  caso  de  abuso  da  personalidade  jurídica,  caracterizado  pelo  desvio  de  finalidade,  ou  pela  confusão  patrimonial, pode o juiz decidir, a requerimento da parte, ou do  Ministério Público quando lhe couber intervir no processo, que  os efeitos de certas e determinadas relações de obrigações sejam  estendidos aos bens particulares dos administradores ou sócios  da pessoa jurídica. (grifei)  No entanto,  a  simples  literalidade do  artigo  citado permite verificar que  tal  dispositivo  é  de  aplicação  exclusiva  do  poder  judiciário,  ou  seja,  não  poderia  ser  utilizado  como  base  para  fundamentar  o  lançamento  fiscal  em  questão,  por  interpretação  a  contrario  sensu do artigo citado, sob pena de usurpação de competência do judiciário.  Mesmo que a intenção da autoridade fiscal não tenha sido a de se basear no  artigo  50  para  desconsiderar  a  personalidade  jurídica  das  empresas  envolvidas,  não  há  elementos nos autos que permitiriam concluir se a desconsideração decorre do art. 116, 135 ou  137 do CTN.  O  que  se  infere,  no  fim  das  contas,  é  que  houve,  de  forma  prática  e  sem  fundamentação  legal  para  tal,  a  desconsideração  da  personalidade  jurídica  das  empresas  envolvidas  para  fins  de  atingir  as  pessoas  físicas  dos  sócios,  embora  a  fiscalização  e  autoridades fiscais de primeira instância defendam o contrário.  Concluo que, considerando­se os fundamentos do TDF vis­à­vis o artigo 50  do  Código  Civil,  voto  pela  nulidade  do  lançamento  realizado,  seja  pela  usurpação  de  competência  do  judiciário  pelas  autoridades  administrativas  fiscais,  seja  por  claro  erro  na  indicação dos pais do atleta como sujeitos passivos solidários, atropelando­se a personalidade  jurídica das empresas envolvidas.  Conforme  já  citado  acima,  a  COSIT,  na  Solução  de  Consulta  Interna  nº  8/2013,  já  pronunciou  seu  entendimento  de  que  o  erro  na  identificação  do  sujeito  passivo,  mesmo que solidário, gera nulidade do lançamento. Vale a pena relembrar o trecho pertinente:  10.2.  Desse  modo,  o  erro  na  interpretação  da  regramatriz  de  incidência  no  que  concerne  ao  sujeito  passivo  da  obrigação  tributária (o que inclui tanto o contribuinte como o responsável  tributário) gera um  lançamento nulo por vício material, não se  aplicando a regra especial de contagem do prazo decadencial do  art. 173, II, do CTN. (grifei)  Poderia­se, ainda, alegar que a ausência de fundamento para desconsideração  da personalidade  jurídica  invalidaria o auto de infração pois estaríamos diante de afronta aos  princípios  de  ampla  defesa  e  contraditório,  princípios  fundamentais  garantidos  pela  Constituição Federal.  Fl. 16570DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 32          61  A  nulidade  no  processo  administrativo  fiscal  com  base  neste  argumento  encontra­se disciplinada nos artigos 59 do Decreto nº 70.235, de 1972:  Art. 59. São nulos:  I ­ os atos e termos lavrados por pessoa incompetente;  II  ­  os  despachos  e  decisões  proferidos  por  autoridade  incompetente ou com preterição do direito de defesa.  § 1º A nulidade de qualquer ato só prejudica os posteriores que  dele diretamente dependam ou sejam conseqüência.  §  2º  Na  declaração  de  nulidade,  a  autoridade  dirá  os  atos  alcançados,  e  determinará  as  providências  necessárias  ao  prosseguimento ou solução do processo.  § 3º Quando puder decidir do mérito a favor do sujeito passivo a  quem  aproveitaria  a  declaração  de  nulidade,  a  autoridade  julgadora  não  a  pronunciará  nem  mandará  repetir  o  ato  ou  suprir­lhe a falta. (grifei)  O  ilustre  Professor  Sergio  André  Rocha  analisou  a  interpretação  desses  dispositivos nos seguintes termos:  “No que se refere a estes últimos, ou seja, aos atos que ostentem  conteúdo  decisório,  implica  ainda  a  nulidade  do  processo  a  preterição  do  direito  de  defesa.  Ou  seja,  caso  seja  proferida  determinada decisão no âmbito do processo administrativo fiscal  sem  que  se  tenha  resguardado  o  direito  do  contribuinte  de  participar  ativamente  do  processo,  será  nula  a  decisão,  por  violação do princípio do devido processo legal e seus corolários.  Nessa ordem de  ideias,  acarretam a nulidade da decisão, pelo  cerceamento do direito de defesa do contribuinte, por exemplo:  (a)  a  falta  de  motivação  do  auto  de  infração  ou  da  decisão  proferida  em  instância  inferior,  para  o  que  se  exige  a  explicitação clara das razões de fato e de direito que levaram à  pratica de determinado ato pela Administração Fazendária;  (b)  a  falta  de  intimação  do  contribuinte  acerca  de  ato  processual  sobre o qual deveria manifestar­se;  (c) a  injustificada negativa  da  Autoridade  Julgadora  a  proceder  às  diligências  e  perícias  necessárias para a elucidação da questão; (d) a não­apreciação  dos  argumentos  jurídicos  sustentados  pelo  contribuinte  em  sua  impugnação, etc.”.(grifei) 3  Tendo em vista as considerações acima, em relação à preliminar de nulidade  ora debatida, defiro o pedido da defesa.  B.3) Retroatividade Benigna da MP 690/15                                                              3 ROCHA, Sergio André. Processo Administrativo Fiscal: Controle Administrativo do Lançamento Tributário. 4  ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2010. p. 386­387  Fl. 16571DF CARF MF     62  Alega a  defesa  do  contribuinte  que,  com a  edição  da Medida Provisória  nº  690/15  (MP  690/15),  a  Fazenda Nacional  admitiria  expressamente  (art.  8º)  a  exploração  de  direito de imagem por meio de pessoa jurídica constituída para este fim.  A defesa do contribuinte, desta forma, requer a aplicação do artigo 106, a, do  CTN, de forma que se possa aproveitar o estabelecido no art. 8º da MP 690/15 (lei posterior)  em relação aos fatos geradores analisados no presente processo (fatos pretéritos). Argumenta  que, embora a MP mencionada não  tivesse sido convertida em  lei, vigorou ela por 120 dias,  fato que permitiria a aplicação da retroatividade benigna com base em tal dispositivo legal.  ***  Entendo  que  a  edição  da  MP  690/15  corroborou  a  possibilidade  de  exploração do direito patrimonial de imagem através de pessoa jurídica, possibilidade esta que,  no caso de atletas, já estava consagrada pelo art. 87A incluído pela Lei nº 12.395/11 na Lei nº  9.615/98.  O art. 8º da MP 690/15 determinou que as receitas decorrentes da cessão de  direitos patrimoniais de autor ou de imagem, nome, marca ou voz de que seja detentor o titular  ou o sócio da pessoa jurídica, deveriam ser adicionadas à base de cálculo do IRPJ e da CSLL,  sem a aplicação dos percentuais do lucro presumido definidos no art. 15 da Lei 9.249/95. Ou  seja,  a  inovação  proposta  seria  apenas  em  relação  à  forma  de  tributação  a  que  seriam  submetidas as receitas decorrentes de tal exploração no caso de pessoas jurídicas cujo direito  explorado pertenceria ao titular ou sócio da mesma.  A  justificativa da  inserção do mencionado art. 8º constante da exposição de  motivos  da  referida  medida  provisória  claramente  tomou  como  premissa  a  licitude  da  constituição,  por  profissionais  que  exploram  economicamente  a  sua  imagem,  de  pessoas  jurídicas com o objetivo de gestão dos seus próprios direitos personalíssimos. 4  No  entanto,  quando  da  conversão  da  MP  690/15  na  Lei  nº  13.241/15,  o  projeto de lei de conversão do Senado Federal – PLC nº 26/2015 – rejeitou o teor do artigo 8º.  Saber  se  determinado  artigo,  que  foi  expressamente  rejeitado  pelo  Poder  Legislativo, quando da análise da conversão em lei da respectiva medida provisória, integra o  ornamento  jurídico  para  fins  de  retroatividade  benigna  é  fundamental  e  envolve  questão  constitucional, pois demanda análise do art. 62, § 3º e § 11 da Constituição Federal, que assim  estabelece:  Art.  62.  Em  caso  de  relevância  e  urgência,  o  Presidente  da  República poderá adotar medidas provisórias, com força de lei,  devendo submetê­las de imediato ao Congresso Nacional.  (...)§ 3º As medidas provisórias, ressalvado o disposto nos §§ 11  e  12  perderão  eficácia,  desde  a  edição,  se  não  forem  convertidas  em  lei no prazo de  sessenta dias, prorrogável,  nos  termos do § 7º, uma vez por igual período, devendo o Congresso                                                              4  EM nº  00117/2015 MF. O  segundo  ponto  deste  projeto  diz  respeito  à  tributação  incidente  sobre  a  cessão  de  direitos  patrimoniais  de  autor ou de  imagem,  nome, marca ou  voz de que  seja  detentor o  titular ou  o  sócio  da  pessoa  jurídica.  Atualmente,  diversos  profissionais  constituem  pessoas  jurídicas  para  o  recebimento  dos  rendimentos de cessão de direitos patrimoniais de autor ou de  imagem,  nome, marca ou voz  (personalíssimos).  Esses  rendimentos podem estar sujeitos ao percentual de presunção quando a empresa opta pela  tributação com  base  no  lucro  presumido.  http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015­2018/2015/Exm/Exm­MP%20690­ 15.pdf   Fl. 16572DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 33          63  Nacional  disciplinar,  por  decreto  legislativo,  as  relações  jurídicas delas decorrentes.  (...) § 11. Não editado o decreto legislativo a que se refere o § 3º  até sessenta dias após a rejeição ou perda de eficácia de medida  provisória,  as  relações  jurídicas  constituídas  e  decorrentes  de  atos  praticados  durante  sua  vigência  conservar­se­ão  por  ela  regidas. (grifei)  Considerando que as relações analisadas no presente processo: (i) não foram  constituídas durante a vigência do art. 8º da referida MP 690/15; (ii) o artigo 8º não foi incluído  na  respectiva  lei  de  conversão;  (iii)  o  artigo  8º  da  MP  690/15  somente  trata  de  questões  relacionadas  à  exploração  de  direito  de  imagem,  enquanto  o  presente  lançamento  cuida  de  outros temas; não é crível declarar nulidade da exigência fiscal por força da aplicação da norma  referida, concomitantemente com o Art. 106, alínea "a" do CTN.  Dessa forma, em relação à preliminar de aplicação da retroatividade benigna  da MP 690/15, carece de razão a defesa do contribuinte, não sendo possível considerar nulo o  lançamento.  B.4) Nulidade da exigência fiscal sobre receitas que já foram tributadas  pela pessoa jurídica  A defesa do contribuinte se insurge contra a impossibilidade de compensação  no lançamento fiscal sobre tributos que já teriam sido pagos pelas pessoas jurídicas envolvidas,  conforme  decisão  recorrida. Argumenta  que  se  a  estrutura  empresarial  das  pessoas  jurídicas  Neymar  Sport,  N&N  Consultoria  e  N&N  Administração  foi  considerada  enganosa  e  inexistente, seria coerente então considerar como indevidos os tributos que teriam sido pagos  por elas.  Aduz  a  defesa  do  contribuinte  que  deveria  ter  sido  exigido  no  lançamento  apenas  a  parcela  não  recolhida  de  tributos  cobrados,  sob  pena  de  confisco  e  enriquecimento  sem causa do Erário.  A defesa do contribuinte cita precedentes favoráveis do CARF no sentido de  que seria possível a compensação/aproveitamento de  tributos pagos pela pessoa  jurídica pela  pessoa física objeto do lançamento.  ***  Julgo que não se trata de questão a ser debatida em sede de preliminares, mas  após enfrentado o mérito do presente processo administrativo. Com efeito, somente se poderá  falar em compensação de tributos pagos pelas pessoas jurídicas envolvidas após confirmada a  legalidade do lançamento.  Por  outro  lado,  ainda  que  se  considere  cabível  o  pedido  de  compensação  formulado, isso não ocasionaria a nulidade da autuação ou da decisão recorrida.  Ante o exposto, nego razão ao Recorrente, resguardando­me, no entanto, ao  direito de, após a análise dos fatos concretos nas  razões de mérito adiante analisadas, decidir  pela possibilidade do pleito compensatório pretendido pela defesa.  Fl. 16573DF CARF MF     64  B.5) Reconhecimento dos tributos pagos em 2014 e 2015  A defesa do contribuinte alega que, na hipótese de prevalecer o lançamento,  todos  os  rendimentos  de  2014  e  2015 que  teriam  sido  reconhecidos  pelas  empresas Neymar  Sport, N&N Consultoria e N&N Administração também deveriam ser imputados a Neymar Jr.  Considerando  que  Neymar  Jr.  teria  passado  à  condição  de  residente  na  Espanha a partir de janeiro de 2014, os tributos que teriam sido pagos pelas empresas em 2014  e 2015  teriam sido recolhidos  indevidamente no Brasil, devendo o Fisco brasileiro promover  sua  restituição.  Neste  sentido,  a  defesa  do  contribuinte  requer  que  os  tributos  pagos  pela  autuação sejam também incluídos na compensação de ofício, caso o lançamento prevaleça.  A PGFN alega que os anos­calendário de 2014 e 2015 não teriam sido objeto  do  lançamento  e  que  o  pedido  formulado  pelo  contribuinte  é  incompatível  com  o  rito  do  presente processo administrativo.  Ademais, sustenta a PGFN que a matéria não é  tão simples quanto a defesa  do  contribuinte  tenta  fazer  parecer,  isto  é,  que  o  que  seria  devido  na  Espanha  poderia  ser  calculado  a  partir  de  uma  simples  correlação  do  que  foi  pago  no  Brasil.  Isso  porque  se  o  serviço  foi  prestado  a  residentes  no Brasil,  estes  fariam  a  remessa  ao  prestador  residente  no  exterior, o que ensejaria a cobrança de Imposto de Renda Retido na Fonte. Nessa perspectiva,  não  haveria  a  restituição  direta,  como  a  defesa  do  contribuinte  alega  que  deveria  ser  reconhecida neste processo administrativo, que, frisa novamente, não trata desse assunto.  ***  Em relação à preliminar suscitada, carece de razão o Recorrente, não sendo  objeto  do  presente  processo  a  análise  de  fatos  geradores  ou  tributos  incorridos  nos  anos  de  2014 e 2015, ainda que relativos a fatos geradores análogos. Desta forma, rejeito a preliminar  suscitada.  ­  Para a hipótese de meus pares não comungarem de semelhante pensamento  quanto ao deferimento da preliminar de nulidade, permito­me proceder à análise das razões de  mérito.  C) RAZÕES DE MÉRITO  Antes de adentrarmos nas razões de mérito, peço vênia para realizar um breve  comentário sobre a singularidade do caso que se passa a analisar.  Diferentemente  dos  casos  análogos  relativos  a  direito  de  imagem  julgados  por  este  colegiado,  neste  caso,  o  sujeito  passivo  autuado  (Neymar  Jr.)  não  recebeu  qualquer  benefício econômico advindo dos negócios jurídicos analisados no auto de infração.  Tal afirmação advém do fato de que Neymar Jr. não possui relação societária  com  nenhuma  das  empresas  do  grupo,  Neymar  Sport,  N&N  Consultoria  ou  N&N  Administração,  sendo  assim,  não  recebeu  pró­labore  ou  dividendos  das mesmas  e,  ainda,  do  fato de que não foi comprovado pela fiscalização qualquer repasse financeiro a Neymar Jr. na  qualidade de terceiro.  Tanto a autoridade fiscalizadora quanto a PGFN reconhecem que Neymar Jr.  não recebeu qualquer valor advindo das referidas empresas. Transcrevo, nesse sentido, trecho  Fl. 16574DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 34          65  das  contrarrazões  (fl  16.286)  "Por  certo,  não  sendo  sócio  ou  empregado  das  acima  citadas  pessoas jurídicas, era de se esperar que não houvesse nenhum pagamento formal ao atleta."  A  argumentação,  levantada  pela  PGFN,  de  que  o  benefício  colhido  por  Neymar Jr. seria a redução significativa da carga tributária pelas pessoas jurídicas constituídas  por  seus  pais,  data  vênia,  não  se  traduz  em  vantagem  financeira  para  o  próprio.  E,  ainda,  a  alegação de que Neymar Jr. teria usufruído de bens móveis (iate, veículos) e imóveis de luxo  adquiridos pelas empresas envolvidas – mesmo que houvesse comprovação de tal alegação, o  que não ocorreu – também não teria o condão de comprovar benefício financeiro.  A constatação inequívoca de que Neymar Jr. não obteve benefício econômico  dos  negócios  jurídicos  alvejados  pelo  presente  auto  de  infração  é  essencialmente  importante  porque  permite  concluir  que  o  atleta  promoveu  por  liberalidade  a  cessão  de  determinados  direitos  personalíssimos  às  empresas  constituídas  por  seus  pais  e,  consequentemente,  dos  rendimentos advindos da exploração de tais direitos.  Considerando  que  os  direitos  em  questão  eram  legitimamente  cedíveis  conforme a respectiva legislação de regência (objeto lícito), que a cessão munificente era a real  intenção e vontade do atleta (agente capaz), que os contratos observaram forma não defesa em  lei e que não houve qualquer lesão ao fisco, conforme se demonstrará pormenorizadamente a  seguir, os negócios  jurídicos são válidos (art. 104 CC/02), não havendo como se  imputar, na  grande maioria dos casos que serão a seguir analisados, infração tributária a Neymar Jr.  Em  poucas  palavras,  o  processo  em  análise  se  traduz  em  legítimo  acordo  familiar,  em  que  os  rendimentos  auferidos  pela  efetiva  prática  desportiva  do  futebol  permaneceram  com  o  atleta,  enquanto  que  direitos  personalíssimos  correlatos  à  prática  do  futebol (i.e. direito de imagem e direitos federativos/econômicos) foram cedidos aos seus pais,  que decidiram realizar a exploração dos mesmos através de pessoas jurídicas.  Sem mais delongas, passo a analisar as razões de mérito.  C.1) Omissão de rendimentos do trabalho sem vinculo empregatício e de  fontes situadas no exterior, relativos a serviços de publicidade, tributados indevidamente  na Neymar Sport.  C.1.1)  Contrato  de  direito  de  imagem:  Neymar  Jr.  x  Neymar  Sport  –  11/05/2006  Em 11/05/2006 foi celebrado entre Neymar Jr. e a Neymar Sport o primeiro  Instrumento Particular de Contrato de Cessão de Direito (fls 9.970).  Em relação a tal contrato, a fiscalização alega inconsistências em relação ao  objeto contratual e sua data de celebração, caracterizando­o como simulado.  Considerando  que  as  infrações  ora  analisadas  se  referem  a  fatos  geradores  ocorridos  nos  anos  de  2011  a  2013,  e  considerando­se  ainda  a  existência  de  um  segundo  contrato celebrado entre as mesmas partes, com o mesmo objeto, em 01 de abril de 2009, ou  seja,  posterior  ao  ano  de  celebração  do  contrato  em  tela  específica,  fica  claro  que  o  mais  recente deve ser considerado legítimo para reger a relação das partes nos anos de 2011 a 2013.  Fl. 16575DF CARF MF     66  Em  outras  palavras,  mesmo  que  o  contrato  celebrado  em  11/05/2006  seja  considerado nulo em razão das alegações da fiscalização, tal nulidade somente geraria efeitos  até 01 de abril de 2009, data em que se celebrou novo contrato entre as partes.  Passo, desta forma, à análise do contrato de 01 de abril de 2009.  C.1.2)  Contrato  de  direito  de  imagem:  Neymar  Jr.  x  Neymar  Sport  –  01/04/2009  Em 01 de abril de 2009, foi celebrado entre o Neymar Jr. e a Neymar Sport o  segundo Instrumento Particular de Contrato de Cessão de Direito, cujo teor dispõe:  "O  Atleta,  neste  ato,  cede  e  transfere  para  a  Neymar  Sport  e  Marketing, todo e qualquer direito de sua imagem, a partir desta  data até 31 de dezembro de 2020."  C.1.2.1) Objeto: Cessão contratual x direito de imagem  A fiscalização aduz que o direito à  imagem não poderia  ter sido cedido por  Neymar  Jr.  à Neymar Sport, na  forma do  instrumento acima citado, uma vez que se  trata de  direito personalíssimo,  inalienável  e  intransferível. Nesse sentido,  argumenta que a execução  dos  contratos  publicitários  estaria  vinculada  ao  desempenho  pessoal  do  atleta,  devendo  ser  executado  por  ele  e  não  pela  pessoa  jurídica.  Por  tal,  o  atleta  seria  o  verdadeiro  titular  dos  rendimentos auferidos.  Por  seu  turno,  a  defesa  do  contribuinte  argumenta  que  a  Constituição  Federal/88 e Código Civil/02 amparariam a proteção aos direitos pessoais, incluindo o direito  de  imagem.  Essa  proteção  consideraria  os  reflexos  morais  do  direito  de  imagem,  caracterizando­os  como  direitos  personalíssimos  e  invioláveis.  Por  outro  lado,  o  direito  de  imagem não se resumiria ao seu aspecto moral, mas também absorveria aspectos econômicos  que  seriam  chamados  de  patrimoniais  que,  por  sua  vez,  estariam  disponíveis  através  de  transferência, cessão ou licenciamento.  Apesar das autoridades fiscais terem desconsiderado a natureza dos contratos  de cessão de uso de imagem por entenderem ser este um direito de caráter personalíssimo, sem  execução propriamente pela empresa, mas sim por Neymar Jr., a defesa do contribuinte alega  ainda que o caráter pessoal seria intrínseco a qualquer prestação de serviço, pois ao se contratar  qualquer  pessoa  jurídica  o  que  se  busca,  na  verdade,  é  a  atuação  do  profissional  (caráter  personalíssimo), o que nem por  isso  resulta em uma atribuição do  rendimento a  tais pessoas  físicas atuantes, mas sim às pessoas jurídicas contratadas.  ***  O  direito  à  imagem  se  relaciona  a  uma  das  condições  mais  básicas  e  intrínsecas do ser humano, à projeção da personalidade, física ou moral, perante a sociedade. E  é  justamente  na  medida  em  que  se  caracteriza  como  direito  personalíssimo,  que  tal  direito  possui sua inviolabilidade protegida por meio de indenização, conforme tutela da Constituição  Federal/88 expressa nos incisos V e X do art. 5º:  Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer  natureza,  garantindo­se  aos  brasileiros  e  aos  estrangeiros  residentes  no  Pais  a  inviolabilidade  do  direito  à  vida,  à  liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos  seguintes:  Fl. 16576DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 35          67  V ­ é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo,  além da indenização por dano material, moral ou à imagem; (...)  X  ­  são  invioláveis  a  intimidade,  a  vida  privada,  a  honra  e  a  imagem  das  pessoas,  assegurado  o  direito  a  indenização  pelo  dano material ou moral decorrente de sua violação;(grifei)  Considerando  a  imagem  como  inerente  e,  portanto,  indissociável  da  figura  humana,  o Código Civil  a  define,  via  de  regra,  como direito  intransmissível  e  irrenunciável,  assim como os demais direitos da personalidade.  No  entanto,  o  caráter  de  indisponibilidade  dos  direitos  de  personalidade,  como determina o art. 11 do Código Civil, admite exceções. Vejamos:  Art. 11. Com exceção dos casos previstos em lei, os direitos da  personalidade  são  intransmissíveis  e  irrenunciáveis,  não  podendo o seu exercício sofrer limitação voluntária. (grifei)  Verifica­se  que  a  disponibilidade  específica  do  direito  de  imagem,  como  exceção à regra, é reconhecida mais adiante quando o Código Civil determina, nos termos do  art.  20,  que  a  reprodução  de  imagem  para  fins  comerciais,  sem  autorização  do  seu  titular,  enseja o direito a indenização.  Art. 20. Salvo se autorizadas, ou se necessárias à administração  da  justiça ou à manutenção da ordem pública, a divulgação de  escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição  ou  a  utilização  da  imagem  de  uma  pessoa  poderão  ser  proibidas,  a  seu  requerimento  e  sem  prejuízo  da  indenização  que  couber,  se  lhe  atingirem  a  honra,  a  boa  fama  ou  a  respeitabilidade, ou se se destinarem a fins comerciais. (grifei)  A  provisão  de  que  a  autorização  de  exposição  ou  utilização  de  imagem  prejudica  o  pleito  indenizatório  autoriza  o  entendimento  de  que  o  direito  à  imagem  é  disponível, revelando, por conseguinte, sua vertente patrimonial.  Neste mesmo racional se baseou o Superior Tribunal de Justiça em vários dos  julgados sobre o tema. Vejamos um exemplo:  RECURSO  ESPECIAL  N.  267.529­RJ  (2000/0071809­2)  Relator: Ministro Salvio de Figueiredo Teixeira  EMENTA Direito à imagem. Corretor de seguros. Nome e  foto.  Utilização  sem  autorização.  Proveito  econômico.  Direitos  patrimonial  e  extrapatrimonial.  Locupletamento.  Dano.  Prova.  Desnecessidade.  Enunciado  n.  7  da  Súmula­STJ.  Indenização.  Quantum.  Redução.  Circunstâncias  da  causa.  Honorários.  Condenação.  Art.  21,  CPC.  Precedentes.  Recurso  provido  parcialmente.  I  ­  O  direito  à  imagem  reveste­se  de  duplo  conteúdo:  moral,  porque direito de personalidade; patrimonial, porque assentado  no princípio segundo o qual a ninguém é lícito locupletar­se à  custa alheia. (grifei)  Fl. 16577DF CARF MF     68  No  voto  do  mencionado  processo,  o  Sr.  Ministro  Sálvio  de  Figueiredo  Teixeira  (Relator),  ressalta  que  "A  propósito,  abordando  o  tema  sob  o  prisma  do  direito  à  imagem,  a  Profa.  Silma Mendes Berti,  na monografia  “Direito  à  Própria  Imagem”,  Ed.  Del  Rey, 1993, Cap. III, p. 36, leciona:  "Pierre Kayser  também  ressalta  o  duplo  conteúdo  do  direito  à  imagem que assegura tanto o interesse moral quanto o interesse  material do indivíduo em relação a ela.  Esse duplo aspecto é, por certo, refletido na noção ambígua do  direito à imagem, que não protege apenas o interesse moral que  tem  a  pessoa  de  se  opor  à  sua  divulgação,  em  situações  atentatórias  à  sua  vida  privada,  mas  assegura  também  a  proteção  do  interesse material  a  que  a  sua  imagem  não  seja  explorada sem a devida autorização e confere­lhe o monopólio  de sua exploração." (grifei)  Diante de todo o acima, não obstante sua natureza de direito personalíssimo,  o direito a imagem possui, ainda, esta segunda vertente, a patrimonial, na medida em que seu  titular tem a prerrogativa de dispor desse direito, autorizando a cessão ou exploração do uso de  sua imagem por terceiros.  No  que  se  refere  aos  desportistas,  o  reconhecimento  do  direito  patrimonial  relativo à imagem se deu na própria Lei nº 9.615/98 (Lei Pelé), que estabelece normais gerais  sobre o desporto, através da inclusão do art. 87A pela Lei nº 12.396/11:  Art. 87­A. O direito ao uso da imagem do atleta pode ser por ele  cedido  ou  explorado,  mediante  ajuste  contratual  de  natureza  civil  e  com  fixação  de  direitos,  deveres  e  condições  inconfundíveis  com  o  contrato  especial  de  trabalho  desportivo.  (Incluído pela Lei nº 12.395, de 2011). (grifei)  Em relação ao caso analisado, o que se verifica é que o objeto contratual é a  cessão  do  direito  ao  uso  de  imagem  de  Neymar  Jr.  pela  Neymar  Sport,  ou  seja,  o  que  se  pretende contratar é justamente a "vertente patrimonial" da imagem do atleta.  O que se dá seria tão somente a permissão do atleta para que sua imagem seja  usada por um terceiro, sem violar a titularidade do direito em si. Esta cessão do direito de uso  da sua imagem é, inclusive, o que justifica Neymar Jr. ter sido incluído como interveniente nos  contratos posteriormente celebrados pela Neymar Sport e patrocinadores, já que é o uso da sua  própria imagem que está envolvido.  Em conclusão, acredito ser indubitável a licitude de objeto contratual que se  baseie  na  cessão  do  direito  ao  uso  de  imagem,  nome, marca  ou  voz  de pessoa  física  para  a  pessoa jurídica, conforme acima fundamentado.  C.1.2.2) Remuneração: Contrato Gratuito  A fiscalização sustenta que não consta nenhuma cláusula contendo a previsão  de compensação  financeira pela  “cessão da  imagem” do atleta. Ou seja,  o atleta  teria cedido  seus direitos “de graça”,  sem nenhum custo. Ou  teria cedido “todo e qualquer direito de  sua  imagem”,  desde  01  de  abril  de  2009  até  31  de  dezembro  de  2020,  sem  qualquer  contraprestação. Afirma que só teria agido dessa forma pelo fato dos proprietários da Neymar  Sport serem seus pais.  Fl. 16578DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 36          69  Dessa  forma,  a  fiscalização  entendeu  que  a  gratuidade  do  contrato  é  importante  porque  o  jogador  assumiu  diversas  obrigações  relacionadas  à  sua  imagem,  em  contratos posteriores, sem que houvesse a previsão de qualquer pagamento, pela Neymar Sport,  como remuneração pelos serviços personalíssimos prestados pelo atleta.  A  defesa  do  contribuinte  defende  que  as  condições  contratuais  para  o  exercício da cessão do direito ao uso de imagem seriam questões que emergem da negociação  particular entre os contratantes, não cabendo ao Fisco levantar suposições de que a contratação  foge do usual ou que deveria ter mais cláusulas. O fato de ter sido cedido a título gratuito não  invalidaria a cessão, pois a vontade das partes teria se dado dentro dos parâmetros legais. Cita  precedentes.  Em  seu  turno,  a  PGFN  assinala  que  como  Neymar  Jr.  não  figurava  como  sócio da Neymar Sport, é possível identificar um claro abuso na constituição da pessoa jurídica  porque,  ainda  que  se  admita  a  possibilidade  de um  direito  personalíssimo  ser  explorado  por  meio  de  uma  pessoa  jurídica,  é  completamente  desarrazoado  e  desproporcional  o  titular  do  direito  de  imagem  (atleta)  não  receber  nenhum  proveito  econômico  da  exploração  desse  direito.  A PGFN alega que a distribuição do resultado da exploração do direito de uso  de imagem, quando se utiliza a pessoa jurídica, deveria vir na forma de dividendos – quando o  atleta aparece como sócio da pessoa jurídica – ou, pelo menos, mediante a estipulação de uma  remuneração  paga  pela  pessoa  jurídica  em  favor  do  atleta. Aponta,  contudo,  que  nada  disso  aconteceu, visto que Neymar Jr. é era acionista da Neymar Sport – portanto não teria direito a  receber  dividendos  –  tampouco  fora  estipulado,  no  contrato  de  cessão  de  direito  de  uso  de  imagem, qualquer forma de remuneração em benefício do mesmo.  Por  fim,  a  PGFN  considera  necessário  que  a  cessão  fosse  por  prazo  determinado, para que a cessão não se tornasse desproporcional. Acredita que ceder o direito  de  uso,  por  prazo  indeterminado,  significaria  oportunizar  ao  cessionário  a  perspectiva  de  auferir  vantagem patrimonial muito  superior,  sem  limites  e,  o  que  é mais  grave, mediante  a  exploração de um direito personalíssimo da pessoa física cedente.  Conclui a PGFN que a formatação  jurídica escolhida pelo atleta e seus pais  implicaria  na  exclusão  de  Neymar  Jr.  da  participação  dos  resultados  obtidos  pela  Neymar  Sport,  configurando ausência de propósito negocial como mencionada pela autoridade  fiscal,  isto é, o negócio  foi  realizado de uma maneira que destoa do que se poderia esperar de uma  prática comercial normal.  A PGFN aponta que a única explicação para a  forma pela qual a cessão do  direito de uso de imagem foi realizada, em favor de terceiros e gratuitamente, é o fato de que os  beneficiários de direito – ou seja, os acionistas da Neymar Sport – serem os pais de Neymar Jr.  Daí  porque  a  autoridade  fiscal  ressaltou  o  elemento  “partes  relacionadas”  ou  “operação  intragrupo".  Menciona  a  PGFN  que  o  art.  87­A  da  Lei  nº  9.615,  de  1998  (Lei  Pelé),  autorizou a cessão de direito de uso de  imagem de  atletas,  porém, destaca que  a norma  traz  como requisitos da cessão a “fixação de direitos, deveres e condições” distintas do contrato de  trabalho, devendo existir, portanto, deveres e obrigações específicos para o contrato de cessão  de direito de uso de imagem.  Fl. 16579DF CARF MF     70  A PGFN alega que é precisamente nesse aspecto que os contratos  firmados  por Neymar Jr. com a Neymar Sport mostram­se incompatíveis com a regulamentação do art.  87­A da Lei nº 9.615, de 1998, pois a cessão de direito de imagem, em favor da Neymar Sport,  não apresenta a estipulação de direitos e deveres para as partes.  ***  Sobre esse tópico, não é possível deixar de registrar de antemão que não há  qualquer  disposição  legal  que  impeça  ou  restrinja  a  possibilidade  de  um  indivíduo  contratar  gratuitamente.  Este  fato,  por  si  só,  já  extinguiria  qualquer  argumentação  ofertada  pelas  autoridades fiscais no sentido de invalidar o instrumento contratual por ser não oneroso.  O  argumento  de  que  a  formatação  jurídica  escolhida  permitiria  uma  exploração desproporcional, pois o  titular do direito de uso de  imagem (atleta) não receberia  nenhum proveito econômico da exploração desse direito, data vênia, não procede.  Em linha com os argumentos expostos pela defesa do contribuinte, a  forma  de  compensação  financeira  que  emerge  da  negociação  particular  entre  os  contratantes  é  exercício de direito que não cabe ao Fisco avaliar, sendo,  inclusive, expressamente permitido  em lei.  Dessa forma, é legítima e plenamente viável a forma de compensação, tendo  em vista que a onerosidade ou não de qualquer negociação depende da vontade entre as partes.  O posicionamento da doutrina especificamente no que se refere à cessão do  direito  de  uso  de  imagem  de  forma  gratuita  por  atletas  confirma  o  entendimento  acima  defendido:  “A disponibilidade  parcial  da  própria  imagem é  admitida  pela  doutrina  e  pela  jurisprudência  brasileira,  sendo  mesmo  uma  prática  comum  na  atualidade,  especialmente  em  relação  às  pessoas  famosas,  como  desportistas,  atrizes  e  modelos. O  uso  consentido  da  própria  imagem em  favor  de  terceiros  pode  ser  realizada  gratuitamente  ou mediante  pagamento,  conforme  se  pretende demonstrar mais adiante." 5 (grifei)  A jurisprudência, por sua vez, também acompanha esse racional:  RESPONSABILIDADE  CIVIL.  AÇÃO  INDENIZATÓRIA.  UTILIZAÇÃO  DE  IMAGEM  EM  CAMPANHA  DE  COSMÉTICOS. AUTORIZAÇÃO. DANO MATERIAL E MORAL.  DESCABIMENTO.  1.  Inaplicabilidade  do  Código  de  Defesa  do  Consumidor.  Matéria discutida que não diz com relação de consumo. Caso em  que a autora teve divulgada fotografia em campanha publicitária  para divulgação de linha de cosméticos. Prova dos autos indica  ter  a  demandante  consentido  previamente  com  o  uso  das  fotografias.  Ausência  de  insurgência  quanto  ao  pagamento  de  cachê.  Cessão  gratuita  de  imagem.  Direito  disponível.  Inexistência  de  ilicitude  por  parte  da  requerida.  Sentença  de  improcedência  mantida.  NEGARAM  PROVIMENTO  À  APELAÇÃO.  UNÂNIME.  (...)  Todavia,  em  que  pese  esta  proteção dispensada pelo ordenamento jurídico pátrio à imagem                                                              5 FACHIN, Julmar Antonio. “A Proteção Jurídica da Imagem”. São Paulo, Celso Bastos – Editor. 1999, pág. 72.  Fl. 16580DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 37          71  do  indivíduo,  entendo  que  o  direito  de  imagem  nos  moldes  preconizados  na  inicial  configura  um  direito  disponivel,  sendo  inclusive possível de se cogitar do uso gratuito da imagem, caso  autorizado pelo titular. 6 (grifei)  Nesse sentido, é  legítima a contratação ora analisada, não havendo sustento  nos argumentos trazidos pelas autoridades fiscais de que a gratuidade contratual desqualificaria  o acordo celebrado entre as partes.  De qualquer sorte, importante ressaltar ainda, que da época de celebração do  contrato  analisado  (2009),  o  direito  de  imagem  de  Neymar  Jr.  realmente  não  tinha  valor  expressivo, pois este ainda não era considerado celebridade ou possuía a notoriedade de hoje.  Ou seja, não seria adequado avaliar a gratuidade do contrato com base na imagem que o atleta  possui hoje.  C.1.2.3) Formalidades: Registro Público  A Fiscalização alega, ainda, que os  efeitos desse contrato não se operariam  perante a Receita Federal do Brasil, por não ter sido o mesmo consignado em registro público,  nos termos do art. 221 do Código Civil:  Art. 221. O instrumento particular, feito e assinado, ou somente  assinado por quem esteja na livre disposição e administração de  seus bens, prova as obrigações convencionais de qualquer valor;  mas os seus efeitos, bem como os da cessão, não se operam, a  respeito  de  terceiros,  antes  de  registrado  no  registro  público.  (grifei)  A  defesa  do  contribuinte  defende  que  a  legislação  é  clara  ao  prever  que  o  acordo de vontade vincula e obriga as partes  independentemente da forma (verbal ou escrita,  contrato  particular  ou  escritura  publica,  com  presença  de  testemunhas  ou  não)  e  mesmo  se  ausentes o registro público e reconhecimento de firmas.  ***  Pela  leitura  do  art.  221  acima  transcrito,  verifica­se  que  a  necessidade  do  registro  público  se  dá  como  condição  imposta  para  fins  de  eficácia  do  contrato  perante  terceiros. No entanto, não se  trata  aqui de qualquer  terceiro, mas sim daquele com potencial  interesse  no  negócio  jurídico.  A  exigência  de  registro  público  visa  proteger  o  terceiro  que,  embora  não  tenha  participado  do  negócio  jurídico,  foi  eventualmente  prejudicado  com  os  efeitos reflexos do mesmo.  A Fazenda Pública não pode ser considerada como terceiro interessado a não  ser que  comprove, no  caso  concreto,  situação de prejuízo,  o que não ocorre no processo  em  debate.  A  liberdade  na  organização  de  negócios  privados  realizada  de  forma  legítima  e,  eventual  economia  tributária,  não  podem  ser  consideradas  como  elementos  prejudiciais  aos  cofres públicos  sob pena de violação do ordenamento  jurídico pátrio, mormente o direito  ao  exercício da autonomia privada e liberdade contratual (Art. 170 CF/88).                                                              6 Apelação  cível  nº  70055149652,  Décima  Câmara  Cível,  Tribunal  de  Justiça  de  RS,  Relator:  Jorge  Alberto  Scheiner Pestana, Julgado em 29/05/2014.    Fl. 16581DF CARF MF     72  Vale  apontar,  ademais,  que  o  instrumento  ora  analisado  não  se  encontra  listado entre aqueles que devem ser, necessariamente, sujeitos a registro público para  fins de  surtir  efeito  perante  terceiros,  conforme  determina  a  Lei  nº  6.015/73,  que  dispõe  sobre  o  registro público. Vejamos:  Art.  129.  Estão  sujeitos  a  registro,  no  Registro  de  Títulos  e  Documentos, para surtir efeitos em relação a terceiros:  1º) os contratos de locação de prédios, sem prejuízo do disposto  do artigo 167, I, nº 3;  2º) os documentos decorrentes de depósitos, ou de cauções feitos  em  garantia  de  cumprimento  de  obrigações  contratuais,  ainda  que em separado dos respectivos instrumentos;  3º)  as  cartas  de  fiança,  em  geral,  feitas  por  instrumento  particular,  seja  qual  for  a  natureza  do  compromisso  por  elas  abonado;  4º) os contratos de locação de serviços não atribuídos a outras  repartições;  5º) os contratos de compra e venda em prestações, com reserva  de  domínio  ou  não,  qualquer  que  seja  a  forma  de  que  se  revistam, os de alienação ou de promessas de venda referentes a  bens móveis e os de alienação fiduciária;  6º)  todos  os  documentos  de  procedência  estrangeira,  acompanhados  das  respectivas  traduções,  para  produzirem  efeitos  em  repartições  da  União,  dos  Estados,  do  Distrito  Federal,  dos  Territórios  e  dos  Municípios  ou  em  qualquer  instância, juízo ou tribunal;  7º)  as  quitações,  recibos  e  contratos  de  compra  e  venda  de  automóveis,  bem  como  o  penhor  destes,  qualquer  que  seja  a  forma que revistam;  8º)  os  atos  administrativos  expedidos  para  cumprimento  de  decisões  judiciais,  sem  trânsito  em  julgado,  pelas  quais  for  determinada  a  entrega,  pelas  alfândegas  e mesas  de  renda,  de  bens e mercadorias procedentes do exterior.  Não obstante  o  acima,  como  argumentação  complementar,  o mesmo  citado  art. 221 do Código Civil, determina em seu parágrafo primeiro:  Parágrafo único. A prova do instrumento particular pode suprir­ se pelas outras de caráter legal.  Sendo assim, apesar da falta de registro do contrato em registro público, tem­ se  que  o  parágrafo  único  do  art.  221  do Código Civil  admite  outras  provas  de  caráter  legal  como forma de supri­lo.  Tendo  em  vista  a  exaustiva  apresentação  de  documentos  relacionados  à  correta  contabilidade  da  empresa  envolvida  e  a  falta  de  qualquer  questionamento  quanto  à  veracidade das informações nesta contida, e a escrituração contábil regular da Neymar Sport,  conforme acostada aos autos, de todos os recebimentos advindos da cessão de uso de direito de  imagem –, ambos os fatos fazem prova a favor do contribuinte. Nesse sentido, dispõe o art. 923  do Regulamento de Imposto de Renda:  Fl. 16582DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 38          73  Art.  923.  A  escrituração  mantida  com  observância  das  disposições  legais  faz  prova  a  favor  do  contribuinte  dos  fatos  nela registrados e comprovador por documentos hábeis, segundo  sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais. (grifei)  Tendo  em  vista  todo  o  acima,  a  realização  do  negócio  jurídico  foi  comprovada  e  é  legítima  para  projetar  seus  efeitos  tributários,  não  havendo  sustento  nos  argumentos  trazidos  pelas  autoridades  fiscais  de  que  a  falta  de  formalidades  contratuais,  mormente registro público, desqualificaria o acordo celebrado entre as partes ou traria qualquer  prejuízo na produção de efeitos perante a Fazenda Pública.  C.1.3)  Contrato  de  direito  de  imagem:  Neymar  Sport  x  Santos­ 10/05/2006  Em 10  de maio  de 2006,  a Neymar Sport  firmou  com o Santos  o  primeiro  contrato que previa a cessão do direito do uso de imagem de Neymar Jr. até 05 de fevereiro de  2011.  Ao longo dos anos posteriores, foram celebrados diversos aditamentos a este  contrato.  O  primeiro  aditivo,  firmado  em  05  de  fevereiro  de  2010,  determinou  que  a  participação da Neymar Sport seria a de 50% dos resultados obtidos pelo Santos na exploração  do direito de uso de imagem de Neymar Jr. Posteriormente, novos aditivos foram celebrados  determinando que a participação da Neymar Sport  fosse majorada para 70% e 90%, até que,  em meados de 2013, o vínculo entre Neymar Jr. e o Santos se encerrou.  Em relação a tal contrato, a fiscalização alega inconsistências em relação: (i)  à  legitimidade  da  Neymar  Sport  em  contratar  o  direito  de  uso  de  imagem  do  atleta;  (ii)  à  previsão de exploração exclusiva da  imagem do atleta  independente de sua utilização ou não  pelo Santos;  (iii)  à  efetiva  exploração  da  imagem do  atleta  e  (iv)  à  vinculação  intrínseca  ao  contrato de trabalho, desqualificando­o diante do disposto no art. 87A da Lei Pelé.  Considerando  que  as  infrações  ora  analisadas  se  referem  a  fatos  geradores  ocorridos nos anos de 2011 a 2013, e considerando­se ainda a existência de um outro contrato  celebrado  entre  as mesmas  partes,  com o mesmo objeto,  em 19  de  agosto  de  2010,  ou  seja,  posterior  ao  ano  de  celebração  do  contrato  em  tela  específica,  fica  claro  que o mais  recente  deve  ser  considerado  legítimo  para  reger  a  relação  das  partes  nos  anos  de  2011  a  2013  em  detrimento daquele celebrado em 2006.  Neste  sentido,  vale  transcrever  a  clausula  décima  segunda  do  contrato  celebrado em 19 de agosto de 2010:  CLÁUSULA  DÉCIMA  SEGUNDA:  O  presente  instrumento  substitui  e  revoga  quaisquer  entendimentos  prévios  mantidos  entre  as  partes  com  relação  ao  seu  objeto,  incluindo,  em  especial, o Instrumento Particular de Cessão do Uso de Imagem  celebrado  entre  as  PARTES  em  05  de  fevereiro  de  2010  e  o  Aditamento  ao  Instrumento  Particular  de  Cessão  do  Uso  de  Imagem  assinado  em  31  de  março  de  2010.  Este  instrumento  somente poderá ser alterado por instrumento escrito e assinado  pelas partes, devidamente representadas, não valendo, para tais  fins, mensagens eletrônicas trocadas entre as partes. (grifei)  Fl. 16583DF CARF MF     74  Passo, dessa forma, à análise do contrato de 19 de agosto de 2010.  C.1.4)  Contrato  de  direito  de  imagem:  Neymar  Sport  x  Santos­ 19/08/2010  Em 19 de agosto de 2010, houve celebração de novo Instrumento Particular  de Cessão de Direito de Uso de Imagem, de Desenvolvimento Conjunto de Carreira e Outras  Avenças.  Conforme já mencionado no item C.1.2.1 acima, o direito de uso de imagem  de atleta de futebol é legitimamente passível de ser cedido a terceiros, contanto que observe o  determinado no dispositivo de regência, qual seja Art. 87­A da Lei 9.615/98, alterado pela Lei  12.935/11.  Art. 87­A. O direito ao uso da imagem do atleta pode ser por ele  cedido  ou  explorado, mediante  ajuste  contratual  de  natureza  civil  e  com  fixação  de  direitos,  deveres  e  condições  inconfundíveis com o contrato especial de trabalho desportivo.  (Incluído pela Lei nº 12.395, de 2011).(grifei)  Tendo  em  vista  o  acima,  mister  se  faz  comparar  os  principais  direitos,  deveres e condições dos contratos envolvidos – o de cessão do direito de uso de imagem (fl.  9.987) vis­à­vis o contrato de trabalho (SP2010001856 ­ fl. 4.687), ambos celebrados em 19 de  agosto de 2010 – para que seja verificado se deveras tais elementos são mesmo inconfundíveis  para fins de aplicação da proteção da lei:  Fl. 16584DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 39          75    Santos ­ CONTRATO DIREITO DE IMAGEM (fl. 9.987) X CONTRATO DE TRABALHO (fl. 4.687)                CLAUSULAS    DIREITO DE IMAGEM     CONTRATO DE  TRABALHO  PARTES       Santos x Neymar Sport e Neymar Jr.        Santos x Neymar Jr.   PRAZO       19/08/2010 a 19/08/2015       19/08/2010 a 19/08/2015  OBJETO       Cessão pela Neymar Sport dos direitos sobre o uso e  exploração do nome, apelido desportivo, voz e imagem do  Atleta Neymar no Brasil e no exterior ao Santos.      1  Santos, Neymar Sport e o Atleta Neymar serão  conjuntamente responsáveis pela execução das práticas de  desenvolvimento da carreira.      2  A execução da atividade de exploração da imagem do  Atleta caberá, conjuntamente, ao Santos e à Neymar Sport         Obrigações da Neymar Sport:      3  Ceder ao Santos direitos de uso de imagem      4  Comunicar ao Santos recebimento de quaisquer ofertas.      5  Cumprir fielmente com as obrigações do  "ProjetoNeymar"         Obrigações de Neymar Jr.       6  Participar dos eventos para exploração da imagem      7  Cumprir fielmente com as obrigações do  "ProjetoNeymar"      8  Manter conduta pessoal compatível      9  Utilizar o material esportivo do fornecedor;      10 Ceder ao Santos direitos de uso de imagem     PRINCIPAIS  DEVERES E  DIREITOS     11 Utilizar somente referências elogiosas ao Santos e seus  patrocinadores.    Não há nos autos copia integral  do contrato de trabalho  celebrado em 19/0/2010.  Somente resumo e extrato das  clausulas extras que aqui  menciono.    1  R$ 900.000,00 ­ Contrapartida Financeira Inicial  Independentemente do valor das receitas auferidas a partir  da exploração da imagem    1 R$ 150.000/mês ­ salário    2  Primeiro R$ 1.000.000,00 de receita auferida a cada ano  caberá exclusivamente ao Santos,    2 Multas por rescisão  contratual ou rompimento e  pagamentos em caso de  transferência do atleta;    3  Percentual sobre o valor liquido do resultado de exploração  da imagem (70% x 30%)    3    4  Comissão de 10% para Neymar Sport em caso de  transferência a outro clube       Comissão de 10% para  Neymar Sport em caso de  transferência a outro clube    5  R$ 300.000,00 ­ Contrapartida Variável em função de  convocações específicas;    4  REMUNERAÇÃO    6  R$ 3.500.00/ano ­ Contrapartida Fixa em função da  comercialização dos diversos espaços dos uniformes de  jogo de sua equipe de futebol  profissional;       O resumo do contrato faz  menção expressa aos valores  a serem pagos a titulo do  contrato de cessão de direito  de uso de imagem  Remuneração  global       Mínimo de R$ 18.400.000,00 pelo período contratual total       Mínimo de R$ 9.000.000,00  pelo período contratual total    Fl. 16585DF CARF MF     76  Em análise ao quadro comparativo acima, verifica­se que direitos, deveres e  condições não são, de fato, inconfundíveis, do ponto de vista contratual.  Primeiramente, vale destacar que dentre as obrigações constantes do contrato  de exploração de direito de imagem estão:  i) a Contrapartida fixa no valor de R$ 3.500.000,00 para a Neymar Sport "em  função  da  comercialização  dos  diversos  espaços  dos  uniformes  de  jogo  de  sua  equipe  de  futebol  profissional". Não há  uma vinculação  expressa  entre  a  remuneração  estabelecida  e  a  imagem do atleta, tendo em vista que o uniforme é utilizado por todos os jogadores.  ii)  a  Comissão  de  10%  para  Neymar  Sport  em  caso  de  transferência  de  Neymar Jr. a outro clube. Não há sentido o estabelecimento de comissão por transferência de  clube em contrato de cessão de direito de uso de direito de imagem.  Em segundo lugar, em relação ao contrato de trabalho vale mencionar:  i) Ausência de remuneração por convocações especiais. Tal reconhecimento  foi estipulado exclusivamente no contrato de cessão de uso de direito de imagem.  ii) O  resumo do contrato  faz menção expressa  aos valores  a  serem pagos  a  título  de direito  de  imagem. Tal menção  sugere  que  a  remuneração  por  cessão  de direito  de  imagem está vinculada à pessoa física do atleta e faz parte de um "pacote" de remuneração do  contrato de trabalho. Vejamos:    Fl. 16586DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 40          77  Percebe­se que há uma conexão entre a relação laboral de Neymar Jr. com a  exploração  do  direito  de  uso  de  sua  imagem. Apesar  de  ser  natural  que  haja  certa  conexão,  afinal o contrato de imagem advém do contrato de trabalho, no entanto, o que se nota aqui é um  entrelaçamento ente as condições de ambos os contratos.  A maioria dos elementos de conexão se encontra presente, ainda, no contrato  de trabalho celebrado em 22/12/11 ­ SP2011018161, quando comparado ao contrato de cessão  de  uso  de  direito  de  imagem  de  19/08/2010  e  seus  aditivos  futuros,  válidos  para  os  fatos  geradores  ocorridos  entre  dezembro/12  até  o  fim  de  vinculo  empregatício  do  atleta  com  o  Santos.  Outro fato que merece atenção é a desproporcionalidade dos valores globais  mínimos  estabelecidos  em  cada  um  dos  dois  contratos.  Nota­se  que,  de  acordo  com  as  clausulas contratuais, o valor mínimo a ser recebido a título de exploração de direito de uso de  imagem  é  de  R$  18.400.00,00,  enquanto  o  mínimo  estabelecido  no  contrato  de  trabalho  é  inferior à metade, R$ 9.000.000,00.  Em verdade, quando se considera todo o período do lançamento, analisando­ se  os  valores  recebidos  pela  Neymar  Sport  do  Santos  nos  anos  2011  a  2013,  temos  que  a  remuneração fixa paga pelo Santos, a título de exploração de direito de uso de imagem foi mais  de 5 vezes superior ao salário pago ao atleta (fl. 7.148).  Em  um  cenário  cujo  contrato  de  cessão  de  direito  de  uso  de  imagem  é  acessório ao contrato de trabalho, conforme, inclusive, já se posicionou o Superior Tribunal de  Justiça7,  não  há  lugar  para  tal  desproporção.  Neste  sentido,  vale  citar  precedente  jurisprudencial8:  ATLETA  PROFISSIONAL  DE  FUTEBOL  (JOGADOR)  –  DIREITO DE  IMAGEM  (DIREITO DE ARENA)  – NATUREZA  SALARIAL  DA  VERBA  –  CABÍVEL  INTEGRAÇÃO  NA  REMUNERAÇÃO  PARA  FINS  TRABALHISTA,  PREVIDENCIÁRIO  E  FISCAL  –  Parcela  paga  atleta  profissional de futebol  (jogador) a  título de direito de  imagem  ou arena, possui natureza jurídica salarial, cabendo integração  remuneratória  para  fins  trabalhista,  previdenciário  e  fiscal,  mormente  quando  o  valor  pago  é  157%  superior  ao  salário  para  jogar  futebol,  entrar  em  campo.  O  direito  de  imagem,  embora  personalíssimo  e  de  arrimo  constitucional,  civil  e  trabalhista,  decorre  do  contrato  de  emprego  firmado  com  o  clube, cujo ganho é acessório, não podendo suplantar o salário  pela atividade principal contratada (jogar bola). A dissimulação  salarial  fica  evidente,  não  só  pela  desproporção  da  paga  pelo  direito  de  imagem,  mas  em  razão  da  forma  do  pagamento:  através de empresa simulada de divulgação e eventos em nome  do  reclamante. Não passando pelo  crivo dos arts.  9º.  e 444 da  CLT. Sentença mantida.”.(grifei)                                                              7 CC 34.504/SP, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, Rel. p/ Acórdão Ministro RUY ROSADO DE AGUIAR,  SEGUNDA SEÇÃO, julgado em 12/03/2003, DJ 16/06/2003, p. 256.  8 TRT 15ª. R. – RO 00564­2004­092­15­00­0 . 6ª. T. – Rel. Juiz Édson dos Santos Pelegrini – Data de Publicação  18/11/2014.  Fl. 16587DF CARF MF     78  Conclui­se, desta forma, que os rendimentos recebidos pela Neymar Sport a  título de uso de direito de imagem de Neymar Jr., pelo Santos, constituem­se, em verdade, em  complementação da remuneração do contrato de trabalho de Neymar Jr.  Desta  forma,  é  procedente  a  argumentação  de  que  os  valores  pagos  pelo  Santos, devem ser reclassificados de forma a serem considerados como rendimentos da pessoa  física de Neymar J. pagos a título de complementação salarial.  Não obstante tais razões, no curso do julgamento preponderou, no Colegiado,  a  respeito  deste  item,  o  entendimento  trazido  na  declaração  do  Conselheiro  Ronnie  Soares  Anderson, o qual passa a integrar a fundamentação desta parte do voto.  Vejo  como muito  bem  caracterizado  pelas  autoridades  lançadoras  o  caráter  eminentemente  salarial dos valores pagos pelo SFC à Neymar Sport a  título de remuneração  pelo direito de imagem.  Apenas  uma  leitura  açodada do Relatório  Fiscal  pode  levar  à  conclusão  de  que  se  trata  tal  constatação  de  inovação  do  julgamento  de  primeira  instância,  como  alude  a  defesa,  pois,  como  bem  frisado  nas  contrarrazões,  às  fls.  7133/7134,  7143,  e  7147/7148  daquele  documento  está  clarificado  o  entendimento  do  Fisco  de  que  tais  pagamentos  têm  natureza salarial.  Noutro  giro,  cabe  lembrar  que  a  cessão  de  uso  da  imagem  do  atleta  profissional vem sendo bastante utilizada no exterior, particularmente na Europa. A respeito,  Jorge  Miguel  Costa  Soares,  em  "Direito  de  Imagem  e  Direito  de  Arena  no  Contrato  de  Trabalho do Atleta Profissional9", p. 84, menciona:  Os exemplos são muitos e variados. Há clubes que estabelecem uma rotina de  apresentações  de  seus  atletas  em  lojas  de  souvenirs.  A  agenda  de  cada  um  é  divulgada  com  antecedência  e  a  torcida  sabe  o  dia  e  a  hora  em  que  determinado  jogador  estará  na  loja.  Assim,  naquele  dia,  vende­se  todo  tipo  de  produto  relacionado  a  ele  ­  camisas,  bonés,  fotografias,  pôsteres,  canecas,  cadernos,  etc.  ­  gerando  uma  valiosa  fonte  de  receita  para  os  clubes.  Da  mesma  forma,  as  agremiações  vinculam  a  imagem  do  atleta  a  seus  patrocinadores.  Por  exemplo,  a  montadora de veículos que patrocina o clube usa os jogadores em seus comerciais de  televisão.  No Brasil, contudo, o instituto tomou muitas vezes rumo diverso. Conforme  explica esse autor (ibidem, p. 86), no país:  O "contrato de imagem", assinado em paralelo ao contrato de trabalho, como  não faz qualquer utilização da imagem do jogador, torna­se unicamente uma fraude  ao  contrato  de  trabalho,  uma  forma  de  burlar  tributos  e  fugir  de  obrigações  trabalhistas.  Essa  fraude  é  facilmente  comprovada  pelas  próprias  características  dos  instrumentos assinados. Os "contratos de imagem" produzidos pela grande maioria  dos  clubes  nacionais  pagam  grandes  somas  aos  atletas  pelo  uso  de  sua  imagem  pessoal. São contratos onerosos, que remuneram com muitos milhares de reais essa  utilização,  valores  que muitas  vezes  são  200% ou 300% maiores  que  o  salário do  atleta.  Esses  impressionantes  valores  remuneram  a  suposta  utilização  da  imagem,  mas não estabelecem qualquer contrapartida a esse pagamento.                                                              9  SOARES.  JORGE MIGUEL ACOSTA. Direito  de  Imagem  e Direito  de  Arena  no  Contrato  de  Trabalho  do  Atleta Profissional. São Paulo: LTR, 2008.  Fl. 16588DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 41          79  Na  espécie,  insolitamente,  a  remuneração  fixa  paga  pelo  SFC  a  título  de  exploração do direito do uso de imagem do recorrente nos anos em apreço, foi quase 5 (cinco)  vezes  superior  às  verbas  salariais  acrescidas  de  toda  premiação  (R$  33.004.418,77  x  R$  6.741.340,27).  Vale anotar, por oportuno, que Melo Filho10 refere que, quando da edição da  Lei nº 12.395/11, que introduziu o art. 87­A na Lei Pelé, havia proposta para limitar os ganhos  a título de direito de imagem ao salário percebido pelo atleta, a qual quedou por não prevalecer.  Diante dos abusos verificados no período subsequente, dentre os quais o ora examinado, a Lei  nº  13.155/15  introduziu  no  art.  87­A  da  Lei  Pelé  parágrafo  único,  o  qual  limitou  a  40% da  remuneração  total  paga  ao  atleta  o  montante  retribuído  a  título  de  cessão  do  direito  de  imagem11.  Também impende destacar que as obrigações assumidas contratualmente pelo  recorrente, como parte dos contratos de cessão de uso firmados entre o SFC e a Neymar Sport,  tais como divulgar e expor a marca SFC em todas as apresentações públicas que fizer, com os  demais membros da equipe de futebol, ou ceder o uso de sua imagem para o clube em todas as  atividades  desportivas  em  que  a  equipe  de  futebol  se  apresentar,  ou  promoções  que  o  SFC  viesse a fazer, não restaram comprovadas.  Ao  contrário  do  que  aduz  o  autuado,  o  SFC  foi  devidamente  chamado  no  curso do procedimento a atestar tais ações de marketing em que teria sido utilizado a imagem  daquele,  encaminhando  tão  somente DVD contendo alguns vídeos,  para  consumo  interno do  clube,  o  que  em  nada  se  assemelha  à  documentação  que  demonstrasse  a  existência  de  real  estrutura  voltada  à  exploração  de  imagem  tal  como  a  usualmente  realizada  pelos  clubes  europeus, mencionada no trecho de doutrina mais acima.  Eventual  responsabilização  do  SFC  face  aos  fatos  constatados  é  matéria  estranha à presente lide, não sendo apropriadas maiores digressões a respeito.  A  arguição  de  que  o  recorrente  não  pode  ser  culpado  pelo  clube  não  ter  utilizado sua imagem, outrossim não se sustenta. A propósito, merecem colação, uma vez mais,  as palavras de Jorge Miguel Costa Soares (ibidem, pp. 87/88):  Pode­se argumentar que a licença para utilização da imagem do indivíduo não  obriga necessariamente o licenciado a vir a usá­la. A cessão do uso não determina  que  esta  venha  a  ser  realmente  aproveitada.  A  imagem  da  pessoa  pode  ser  licenciada aguardando evento futuro e este não vir a acontecer. No caso do atleta  profissional,  o  não  aproveitamento  não  define  a  fraude,  mas  sugere­a.  Um  clube, que contrata a  imagem de um  jogador que é seu  funcionário, paga quantias  milionárias  por  sua  utilização  e  não  a  utiliza,  indica  ao  magistrado  [julgador  administrativo]  que  ali  pode  estar  ocorrendo  uma  fraude  contra  a  legislação  trabalhista  [fiscal]. Esse elemento,  somado aos anteriores  ­  ausência de obrigações  específicas,  pagamento  de valores  elevados  ­,  denota  que  o  "contrato  de  imagem"                                                              10 FILHO, Álvaro Melo. Nova Lei Pelé: Avanços e Impactos. Rio de Janeiro: Maquinária, 2011, p.131.  11 Lei 9615/98.  Art. 87­A  (...)  Parágrafo único. Quando houver, por parte do atleta, a cessão de direitos ao uso de sua imagem para a entidade de  prática desportiva detentora do contrato especial de trabalho desportivo, o valor correspondente ao uso da imagem  não  poderá  ultrapassar  40%  (quarenta  por  cento)  da  remuneração  total  paga  ao  atleta,  composta  pela  soma  do  saslário e dos valores pagos pelo direito ao uso da imagem.  Fl. 16589DF CARF MF     80  teria sido assinado apenas para garantir ao clube uma grande economia sobre a folha  de pagamentos. (grifei)  Com  efeito,  a  não  comprovação  de  que  o  clube  se  utilizou  do  direito  de  imagem  cedido  pelo  jogador,  ainda  que  se  cogite  não  estar,  por  si  só,  apta  a  definir  a  dissimulação da percepção de salários, resta consistente com os demais elementos verificados  no procedimento,  tais como recebimento de valores mensais  sistemáticos e  independentes da  efetiva utilização da imagem, de modo a denotar o real caráter dessas quantias.  Na  verdade,  os  contratos  de  cessão  estão  todos  conexos  ao  contrato  de  trabalho  do  jogador.  E  neles  há  cláusulas  que  estipulam  categoricamente,  que,  independentemente do  resultado obtido pelo SFC com a exploração do direito de  imagem, o  recorrente receberia contrapartidas fixas em razão da pretensa cessão.  Tal se deu no contrato celebrado em 19/8/2010 (fls. 7517 e ss), em que são  assegurados  pagamentos  "independentemente  do  valor  das  receitas  auferidas  a  partir  da  exploração da imagem " (contrapartida financeira inicial), e explicitado que o clube "garantirá  os  pagamentos  independentemente  dos  patrocinadores  que  consiga  viabilizar  para  estampar  suas marcas" (contrapartida fixa).  Na  cláusula  sexta  do  contrato  celebrado  em  7/11/2011  (fls.  7528  e  ss),  constam regras similares, sendo inclusive de se destacar disposições que enunciam que, ainda  que  o  clube  não  consiga  cotas  de  patrocínio  de  empresas  estatais  em  dado  montante,  ele  complementaria o valor mensal acordado de R$ 333.333,34 a ser pago ao atleta, pretensamente  vinculado a esses patrocínios.  Fica evidente que a menção aos patrocínios e demais receitas que suportariam  a  retribuição  pela  cessão  é  meramente  formal,  pois  independentemente  de  outras  considerações,  restava  sempre  assegurado  o  pagamento  da  remuneração mensal  ao  jogador,  consoante avençado. Em palavras mais simples: paga­se tendo como causa o recebimento de  certas receitas pelo clube; mas se não ocorrerem tais receitas, paga­se do mesmo jeito.  Aliás,  o  Presidente  do  SFC  à  época  e  signatário  dos  indigitados  contratos,  Luís Álvaro de Oliveira Ribeiro, didaticamente explanou ao Fisco (fls. 5471/5419):  (...) essa prática de pagar a maior parte da remuneração do atleta como direito  de imagem é comum no mundo do futebol, pois agrada aos atletas.  Ademais, mas não em demasia, merece recordar que o clube pagou, nos anos­ calendário  2011  a  2013, muito mais  ao  jogador  (cerca  de  R$  33 milhões)  para  explorar  os  direitos de  imagem do que  recebeu, em contrapartida,  fruto dessa exploração  (cerca de R$ 3  milhões).  O recorrente alega genericamente, que isso se deve ao incremento da receita  do  clube  proporcionada  pela  presença  do  jogador  no  time,  o  que  consistiria  em  "direito  de  imagem coletivo".  Ainda que seja inegável que o vínculo do atleta como jogador no time tenha  reflexo, de várias maneiras, no incremento dos resultados do SFC nos anos em questão, isso de  forma  alguma  se  traduz  em  retribuição  advinda  de  cessão  de  direitos  de  imagem,  ainda  que  alcunhada de "coletiva", por incompatibilidade conceitual.  Fl. 16590DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 42          81  Aliás,  inviável definir em que proporção a  receita do SFC foi majorada em  função do recorrente fazer parte do time, e em que medida o foi em virtude de outros possíveis  fatores, como melhoria na gestão de marketing, presença de outros jogadores, etc.  Conforme salientado, a simples leitura das cláusulas contratuais desvela que  os pagamentos à Neymar Sport estavam, na prática, desvinculados dos contratos publicitários  firmados  pelo  SFC  com  terceiros,  por  corresponderem  a  contrapartidas  predeterminadas,  e  fixadas  com  antecedência  a  qualquer  exploração  efetiva  da  imagem,  tendo  ínsita  natureza  remuneratória do trabalho prestado ao clube pelo jogador.  Merece ressalvar serem inaplicáveis ao caso as disposições do art. 129 da Lei  nº  11.196/05,  a  uma  porque  esse  artigo  trata  da  prestação  de  serviços  intelectuais,  e  não  de  exploração  de  direitos  de  imagem  de  atleta,  em  relação  aos  quais  existe  norma  posterior  e  específica, o art. 87­A da Lei Pelé, vigente no período em tela.  A  duas,  porque,  ainda  que  sob  esse  prisma  se  considerasse  aplicável,  tal  norma  não  prepondera  quando  verificado  que  está,  na  realidade,  a  dissimular  retribuição  de  cunho  salarial,  como  se  evidencia  na  situação  em  foco.  Nesse  sentido,  é  copiosa  a  jurisprudência trabalhista e administrativa.  Por conseguinte, tratam­se os valores recebidos pela Neymar Sport do SFC a  título  de  remuneração  pela  exploração  de  direitos  de  imagem  cedidos,  na  verdade,  de  rendimentos de natureza salarial, visto que decorrentes da prestação de serviços do recorrente  como  jogador  profissional  da  agremiação,  dentro  de  um  contexto  de  subordinação,  não  eventualidade, onerosidade e pessoalidade.  Deve­se, então, ser mantida a exigência no particular.  C.1.5)  Validade  dos  contratos  de  direito  de  imagem  celebrados  com  terceiros  De acordo com o TDF, a maioria dos contratos de publicidade firmados teria  tentado ocultar o real contribuinte (Neymar Jr.), aquele que teria tido relação direta e pessoal  com o fato gerador, qual seja a efetiva prestação de serviços (art. 121, I, do Código Tributário  Nacional), qualificando­o simplesmente como anuente.  A  fiscalização  alega  que  estes  contratos  teriam  utilizado  subterfúgios  para  manter o vínculo jurídico obrigacional em relação ao atleta.  ***  Preliminarmente,  vale  ressaltar  que  eventuais  contratos  que  mencionem  Neymar  Jr.  como  parte  na  relação  contratual,  seja  na  qualidade  de  anuente,  interveniente,  atleta, contratado, esportista ou outra denominação do gênero, não comprometem a exploração  econômica  de  direito  de  uso  de  imagem  por  parte  da  pessoa  jurídica,  mormente  porque  demonstrada a substância da Neymar Sport (item C.1.5.2 abaixo).  Tendo  em  vista  que  a  imagem  que  está  sendo  explorada  é  o  do  atleta,  é  natural que a empresa contratante queira garantir que o mesmo esteja ciente da extensão do seu  envolvimento nas obrigações contratadas.  Fl. 16591DF CARF MF     82  O mestre e doutor Rafael Pandolfo,  ex­conselheiro deste colegiado,  levanta  outro ponto interessante, que a anuência contratual do atleta assegura, ainda, que a exploração  não viole nenhum dos direitos morais relacionados à imagem do mesmo. Vejamos12:  Mesmo  após  a  cessão  desses  direitos  patrimoniais  à  pessoa  jurídica,  os  contratos  firmados  pela  empresa  cessionária  deverão  ter  a  anuência  do  cedente  (atleta,  artista,  etc.),  para  assegurar  que  a  forma  de  exploração  econômica  que  será  realizada  pela  cessionária  não  violará  nenhum  dos  direitos  morais do autor.  Assim, a participação do autor/atleta no instrumento contratual  não  possui  outro  significado  senão  a  preservação  de  uma  prerrogativa  assegurada  pelo  ordenamento,  não  infirmando  o  regime jurídico eleito para exploração dos direitos patrimoniais  pela pessoa jurídica.(grifei)  Antes  de  nos  debruçarmos  individualmente  sobre  os  contratos  destacados  pela fiscalização, cabe realizar uma análise prévia em relação a outro aspecto comum levantado  em relação a quase todos os contratos citados, qual seja, a natureza personalíssima dos serviços  realizados por Neymar Jr. e a consequente impossibilidade, na opinião da fiscalização, destes  serem prestados por meio de pessoa jurídica.  C.1.5.1) Serviços personalíssimo x exploração por pessoa jurídica  O ponto mais  importante  da  análise dos  contratos  celebrados  com  terceiros  seria  a  alegada  impossibilidade  de  serviços  personalíssimos  serem  explorados  através  de  pessoa jurídica.  Não obstante já ter me posicionado brevemente em relação a essa questão, no  item C.1.2.1 acima, vale neste momento dedicar maior aprofundamento, tendo em vista ter sido  ela mencionada repetidas vezes pelas autoridades fiscais em relação aos contratos celebrados  com terceiros e agora analisados.  O enfoque nesse tópico é um pouco diferente do item C.1.2.1 acima, pois se  antes  tratou­se  da  possibilidade  de  cessão  contratual  (obrigação  de  dar/ceder)  do  uso  da  imagem,  aqui  será  tratada  a  possibilidade  da  exploração,  por  meio  de  pessoa  jurídica,  de  serviços  que,  fundamentalmente,  demandam  atos  personalíssimos,  ou  seja,  aqueles  necessariamente  exercidos  por  uma  pessoa  física  para  que  se  caracterize  a  sua  execução  (obrigação de fazer).  Entende­se por serviço personalíssimo aquele que é intuito personae, ou seja,  cuja  realização  deve  ser  feita  pela  própria  pessoa  física  contratada.  Em  outras  palavras,  personalíssimo é aquele ato/serviço que depende essencialmente do indivíduo a que se refere  para ser realizado.  É  justamente  por  ser  infungível  que  a  fiscalização  alega  a  impossibilidade  jurídica  do  objeto,  pois,  uma  vez  que  a  prestação  de  serviços  requer  a  presença  física  de  Neymar  Jr.,  a  tributação  deveria  seguir  igual  racional  e  ser  reclassificada  para  o  mesmo,  conforme defendido no TDF.                                                              12 PANDOLFO, Rafael. Como se dá a tributação da exploração econômica do direito de imagem de atleta. Revista  Consultor Jurídico, 21 de maio de 2016.   Fl. 16592DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 43          83  Ressalta­se  que,  no  presente  processo,  não  foi  alegado  pela  fiscalização  qualquer  vício  de  nulidade  nos  contratos  celebrados  com  terceiros  que  pudesse,  consequentemente,  gerar  tal  deslocamento  de  rendimentos.  Aqui  o  ponto  da  fiscalização  tampouco é a ilicitude da cessão do direito de uso da imagem em si, mas sim a impossibilidade  da efetiva realização dos atos personalíssimos decorrentes da exploração do direito de uso de  imagem poder se dar por meio de pessoa jurídica.  Transcreve­se abaixo alguns extratos do TDF que explicita a discordância da  fiscalização em relação a este ponto (fl. 7.124):  Como a Neymar Sport poderia assumir o encargo de fazer com  que o atleta cumpra as obrigações acima relacionadas, já que se  tratam de obrigações de fazer?  Não podemos esquecer que o contrato entabulado entre o atleta  e a empresa Neymar Sport  é de  cessão de direitos de  imagem  (obrigação de dar), enquanto a imensa maioria das obrigações  contratadas são de fazer.  Ou seja, a Neymar Sport jamais poderia assumir uma obrigação  de fazer com que o atleta preste serviços para outras empresas.  Portanto,  só  há  uma  resposta  a  estas  clausulas  incomuns:  os  contratos  possuem  como  objeto  a  prestação  de  serviços  personalíssimos,  a  serem  executados  pelo  atleta  Neymar  Junior.  Todavia,  para  usufruir  de  uma  tributação  mais  favorecida,  redigem  os  contratos  transferindo  as  obrigações  para  a  Neymar  Sport.  Como  consequência  temos  este  "Frankenstein" jurídico, quer dizer, clausulas redigidas para dar  garantia  aos  contratantes,  mas,  sem  lógica  jurídica  alguma.(grifei)  ***  Conceito de Imagem  Cabe, nesse momento, realizar um parêntesis para citar um trecho do TDF em  que a fiscalização considera legítima a exploração do direito de imagem quando são utilizadas  imagens antigas do atleta, ou seja, sem o elemento de "fazer" presente, como se o conceito de  exploração de imagem se traduzisse apenas no uso de sua representação estática e preexistente.  Neste sentido, transcreve­se trecho (fl. 7.129) em que a fiscalização comenta  o contrato celebrado com a Globo Comunicações:  E  o  mais  curioso  é  que  justamente  nesse  caso  a  contratada  poderia  ser a  empresa Neymar Sport,  pois,  tratando­se de um  documentário,  provavelmente  só  foram divulgadas  imagens  já  existentes. Ou seja, o atleta não precisou assumir obrigações de  fazer. (grifei)  Tendo em vista o trecho acima transcrito, cabe ponderar brevemente sobre o  alcance do conceito de imagem para fins de exploração econômica por uma pessoa jurídica. Ou  seja, se a exploração de imagem abarcaria somente a utilização de fotografias preexistentes à  celebração do contrato ou englobaria  também a utilização de outras  formas de  representação  Fl. 16593DF CARF MF     84  visual da figura humana, que pudessem vir a ser constituídas, posteriormente à celebração do  contrato, mediante serviços encomendados.  Em outras  palavras,  as  obrigações  de  fazer por  parte  da  pessoa  física  (usar  boné com símbolo do patrocinador após disputas esportivas, postar determinado conteúdo em  redes sociais, dirigir determinado veículo de marca do contratante, ingerir determinada bebida  em público, etc.) podem ser interpretadas como exploração de imagem por pessoa jurídica?  Em se  tratando de direito de personalidade,  conforme demonstrado no  item  C.1.2.1, não há limites para as formas de exploração da imagem conquanto esteja vinculado à  corporeidade  e  identidade  visual  da  pessoa  física  contratada.  Neste  sentido,  temos  que  a  imagem inclui qualquer expressão da personalidade humana:  “Toda  expressão  formal  e  sensível  da  personalidade  de  um  homem  é  imagem  para  o  Direito.  A  ideia  de  imagem  não  se  restringe, portanto, à representação do aspecto visual da pessoa  pela arte da pintura, da escultura, do desenho, da fotografia, da  figuração caricata ou decorativa, da reprodução em manequins  e máscaras. Compreende, além, a imagem sonora da fonografia  e  da  radiodifusão,  e  os  gestos,  expressões  dinâmicas  da  personalidade.  A  cinematografia  e  a  televisão  são  formas  de  representação integral da figura humana.” 13 (grifei)  Explorar  uma  imagem para  fins  comerciais,  portanto,  é  relacionar qualquer  aspecto da  figura/personalidade humana ao produto ou serviço que se pretende divulgar. Em  outras  palavras,  independente  de  como  se materializará  essa  vinculação,  seja  pela  televisão,  internet, anúncios em revistas, comerciais  televisivos ou mesmo ao vivo, através da aparição  em festas ou eventos, estará se explorando a imagem, mormente no que tange à comunicação  visual.  Não se pretende aqui realizar complexo aprofundamento sobre a extensão do  conceito de imagem e nem alargar esse conceito para fins de aplicação da legislação tributária.  Pelo  contrario,  se pretende  salientar que,  quando  a Constituição Federal  tratou  do  direito  de  imagem no art. 5º,  inciso X14, na qualidade de direito da personalidade, buscou a acepção de  imagem  em  seu  sentido  mais  amplo.  Entender  de  forma  diferente,  reduzindo  o  conceito  de  imagem  para  uma  realidade  puramente  estática  (fotografia)  é  extrapolar  a  competência  delegada às autoridades fiscais.  No  próprio  âmbito  deste  colegiado,  a  inclusão  de  obrigações  de  fazer  por  parte  de  atletas  já  foi  aceita  como  parte  dos  contratos  de  exploração  de  uso  de  imagem  celebrados entre as empresas detentoras de tais direitos e os patrocinadores.  Um recente exemplo de que a exploração do uso do direito de imagem pode  se dar através de serviços pessoais prestados pelo atleta foi admitida pelo CARF no âmbito do  processo nº 10935.005578/201045, Acórdão nº 2202003.682, de 08/02/2017, cujo contribuinte  era o atleta Alexandre Rodrigues da Silva (popularmente conhecido como Alexandre Pato).                                                              13 MORAES, Walter. Direito à própria  imagem I. Revista dos Tribunais. São Paulo: Revista dos Tribunais, ano  61, n. 443, setembro de 1972, p. 64.  14 Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo­se aos brasileiros e aos  estrangeiros  residentes  no  Pais  a  inviolabilidade  do  direito  à  vida,  à  liberdade,  à  igualdade,  à  segurança  e  à  propriedade, nos termos seguintes: (...) X ­ são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das  pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação.    Fl. 16594DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 44          85  Transcreve­se abaixo excerto do voto do relator, o ilustre Conselheiro Marco  Aurélio de Oliveira Barbosa:  CONTRATO COM A NIKE  Quanto  ao  contrato  celebrado  entre  a  NIKE  European  Operations  Netherlands  B.V.  e  a  ALGE  Promoções  Ltda.,  entendo  que  se  enquadra  como  um  verdadeiro  contrato  de  exploração  econômica  do  direito  de  imagem,  possuindo  natureza eminentemente civil.  Esse contrato foi firmado em 20/11/2007 e tinha como objeto (i)  a utilização do nome, imagem e outros atributos do jogador; (ii)  os  serviços  pessoais  do  jogador  e  seus  conhecimentos  sobre  futebol,  e  (iii)  o  endosso  do  jogador  à marca  e  uso  dos  seus  produtos;  tendo  como  prazo  o  período  entre  1º/06/2008  e  31/08/2018 (fls. 101 a 127) (grifei)  Sendo somente esse breve comentário o que se pretendia realizar, retorna­se  ao tema foco item em questão.  ***  Serviço Personalíssimo  Há  muito  se  discute  o  tema  da  legitimidade  da  prestação  de  serviços  personalíssimos através de pessoas jurídicas. A discussão se torna ainda mais sensível quando  se trata do regime tributário aplicável, face à constante reclassificação ou deslocamento, pelas  autoridades  fiscais,  dos  rendimentos  obtidos  pela  pessoa  jurídica  para  a  pessoa  física,  como  ocorre no presente processo.  Como bem ensinava o saudoso Prof. Alberto Xavier15, "há que se distinguir o  exercício efetivo da atividade profissional dos direitos patrimoniais dele decorrentes".  Não há duvidas de que  toda e qualquer prestação de serviços,  sobretudo os  personalíssimos,  somente  pode  ser  realizada  por  pessoa  física,  tendo  em  vista  ser  qualquer  pessoa jurídica, entidade abstrata. O que a pessoa jurídica explora são os direitos patrimoniais  dos serviços personalíssimos que lhe foram cedidos pela pessoa física.  Na maioria dos casos em que a pessoa física é sócia, a cessão de tais direitos  patrimoniais ocorre via contrato social (art. 981 do CC/02). No entanto, plenamente legítima é  também  a  cessão  através  de  negócio  jurídico  (art.  104  do  CC/02)  quando  a  pessoa  física  envolvida não é sócia da entidade, como no caso em tela.  A  possibilidade  de  exploração  de  serviços  de  caráter  personalíssimo  por  pessoa  jurídica  foi  expressamente  reconhecida pela  legislação  tributária  em 2005, quando da  edição da Lei nº 11.196/05, mais precisamente, no seu artigo 129, vejamos:                                                              15 XAVIER, Alberto. Tributação das pessoas jurídicas tendo por objeto direitos patrimoniais relacionados com a  atividade profissional de atletas, artistas, jornalistas, apresentadores de rádio e TV, bem como a cessão de direito  ao  uso de  imagem, nome, marca  e  som de voz. Parecer.  In: ANAN Jr.,  Pedro, PEIXOTO, Marcelo Magalhães  (coord.).  Prestação  de  Serviços  Intelectuais  por  Pessoas  Jurídicas:  Aspectos  Legais,  Econômicos  e  Tributários.  São Paulo: MP Editora, 2008, pág 220.  Fl. 16595DF CARF MF     86  Art.  129.  Para  fins  fiscais  e  previdenciários,  a  prestação  de  serviços intelectuais, inclusive os de natureza científica, artística  ou  cultural,  em caráter  personalíssimo  ou  não,  com  ou  sem  a  designação de quaisquer obrigações a sócios ou empregados da  sociedade prestadora de serviços, quando por esta realizada, se  sujeita  tão­somente à  legislação aplicável às pessoas  jurídicas,  sem  prejuízo  da  observância  do  disposto  no  art.  50  da  Lei  no  10.406, de 10 de janeiro de 2002 ­ Código Civil. (grifei)  Mais  adiante,  em  relação  à  exploração  de  serviços  personalíssimos  vinculados  ao  uso  de  imagem,  a  Lei  nº  12.441/11  que  alterou  o  Código  Civil  permitiu  tal  exploração por empresa individual de responsabilidade limitada. Com a edição da referida lei,  foi inserido o artigo 980­A ao Código Civil, que dispõe:  Art.  980­A.  A  empresa  individual  de  responsabilidade  limitada  será  constituída  por  uma única  pessoa  titular  da  totalidade  do  capital social, devidamente integralizado, que não será inferior a  100 (cem) vezes o maior salário­mínimo vigente no País. (...)  §  5º  Poderá  ser  atribuída  à  empresa  individual  de  responsabilidade  limitada  constituída  para  a  prestação  de  serviços  de  qualquer  natureza  a  remuneração  decorrente  da  cessão de direitos patrimoniais de autor ou de  imagem,  nome,  marca ou voz de que seja detentor o  titular da pessoa  jurídica,  vinculados à atividade profissional. (grifei)  Por fim, no que se refere especificamente à exploração de serviços de caráter  personalíssimo vinculados ao uso de imagem de atletas, o já mencionado art. 87A da Lei Pelé,  ao  reconhecer  a  possibilidade  de  cessão  do  mesmo,  consentiu,  por  conseguinte,  que  a  sua  exploração  efetiva,  que  se  dá  através  da  realização  de  atos  personalíssimos  por  parte  do  detentor  da  imagem,  seria  cabível  por  pessoa  jurídica.  Pensar  de  outra  forma  seria  impossibilitar o exercício do comando legal citado.  Em  conclusão,  forçoso  concluir  que  as  legislações  civil  e  tributária  reconhecem expressamente a possibilidade de realização de obrigações de  fazer por parte do  detentor da imagem, mesmo após o direito patrimonial de uso da mesma ser cedida a pessoa  jurídica, mantendo­se nesse caso a tributação na respectiva pessoa jurídica.  Elemento de empresa  Não  obstante  a  expressa  permissão  legal,  deve­se  considerar,  ainda,  a  estrutura  operacional  da  Neymar  Sport,  que  permitiu  que  a  contratação  fosse  realizada  e  a  prestação de serviço concretizada. Em outras palavras, deve se considerar o elemento empresa.  Considerando  que  Neymar  Jr.  não  é  sócio  das  empresas,  a  presença  do  elemento de empresa se torna essencial para justificar a tributação pela pessoa jurídica.  Quando o contrato envolve obrigações de  fazer pela pessoa física detentora  da imagem, observa­se igualmente um envolvimento da pessoa jurídica detentora da cessão do  direito de uso.  Neymar  Jr.,  em  2010,  época  em  que  se  despertou  o  interesse  de  muitos  patrocinadores,  possuía  18  anos  apenas, mas  já  alcançava  notoriedade  como  profissional  de  futebol  e  como  celebridade,  o  que  resta  comprovado  no  interesse  do  Barcelona  em  sua  Fl. 16596DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 45          87  contratação já no ano seguinte e na celebração de inúmeros contratos de patrocínio, como os  ora analisados.  Diante desta  realidade,  cogente  concluir  que  ele  necessitava  de  um  suporte  empresarial  que  o  garantisse  a  oportunidade  de  contratar  e  performar  tais  obrigações  contratuais.  Juntamente  com  a  permissão  legal  (Art.  87A  da  Lei  9.615/98),  a  presença  deste  suporte  legitima  a  tributação  na  pessoa  jurídica  por  ele  determinada  a  lhe  auxiliar  e  apoiar, a Neymar Sport.  Ou  seja,  o  que  se  infere  aqui  é  que  há  um  suporte  empresarial  que  se  faz  necessário para a prática dos inúmeros atos que, sejam prévios ou posteriores à execução dos  serviços personalíssimos, é igualmente essencial para a concretização dos mesmos.  Seriam  estes,  por  exemplo,  os  derivados  do  auxílio  jurídico,  contábil,  financeiro,  administrativo  e  até mesmo  logístico,  que  ausentes  não  o  permitiriam  prestar  os  serviços.  Em  termos  práticos,  apesar  de  ser  o  atleta  a  pessoa  a  utilizar  o  boné  ou  o  squeeze com a marca do patrocinador, não se pode esperar que seja o próprio atleta que cuide  para que o referido artigo esteja ao seu dispor quando sair do campo de futebol, que o contrato  seja revisado em língua estrangeira por ele próprio (tendo em vista que a maioria é composta  por  patrocinadores  estrangeiros),  que  diante  de  eventual  descumprimento  de  cláusulas  contratuais pelo contratante seja ele a protestar junto ao respectivo contratante, ou que seja ele  a  lidar com uma eventual ausência do motorista que vai  levá­lo ao seu compromisso. Enfim,  não se pode afastar todo o suporte que há por trás de uma celebridade por entender que uma  parte da execução do contrato é exclusivamente executada pela pessoa física.  Neste sentido, ensina a doutrina16:  "Assim,  mesmo  para  serviços  de  caráter  pessoal  se  concretizarem, há casos em que se faz necessária uma série de  atos  que  não  dependem  exclusivamente  dela  própria,  pessoa  física individualizada. Desse modo, o que gera, em suma, um ato  personalíssimo, em sua essência, é o fato de ser concretizado do  início ao fim por uma só pessoa sem contar com mais ninguém.  (...) E,  neste  contexto,  não  há  como  conceber  ato  puramente  personalíssimo  para  fins  de  tributação,  haja  vista  o  engajamento  de  elemento  de  empresa  que  confere  personalidade  jurídica  e  não  mais  dependência  exclusiva  da  pessoa física para a realização.  (...) Tal como referido acima, não é porque o contrato envolve  pessoa especifica que caracteriza o ato como personalíssimo na  sua  integralidade.  A  contratação  da  pessoa  especifica  para  a  concretização  do  ato,  pode  requerer  a  atuação  de  outras  pessoas na execução completa do trabalho." (grifei)                                                              16 RODRIGUES, Meigan e RODRIGUES, Edison em artigo intitulado "Atos Personalissimos e sua Tributação",  publicado  na  obra  "Prestação  de  Serviços  Intelectuais  por  Pessoas  Jurídicas — Aspectos  legais,  econômicos  e  tributários", IVIP Editora, 2008 ­pág. 364.  Fl. 16597DF CARF MF     88  Nesse  sentido,  verifica­se  que  este  suporte  foi  devidamente  oferecido  pela  Neymar Sport, na qualidade de empresa operacional, legitimando a presença de tais elementos  de empresa nas contratações com terceiros que envolvem obrigações de fazer pelo atleta. Ou  seja,  apesar  da  fiscalização  apontar  que  a Neymar Sport  participava  apenas  de maneira  pró­ forma, tal argumento não procede. Vejamos a comprovação de sua substância a seguir.  C.1.5.2) Substância da Neymar Sport  A Neymar Sport e Marketing Ltda  foi constituída em 26 de Abril  de 2006,  tendo  como  sócios  Neymar  da  Silva  Santos  e  Nadine  Gonçalves  da  Silva  Santos,  pais  de  Neymar Jr. Seu objeto social é a "Exploração de imagem pessoal e marketing pessoal, roupas e  materiais esportivos", conforme consta na cláusula segunda de seu contrato social.  Alegam  as  autoridades  fiscais  que  a Neymar  Sport  teria  sido  criada  com  o  objetivo de deslocar a tributação incidente sobre contratos publicitários firmados por Neymar  Jr.  (direito  de  uso  de  sua  imagem)  junto  a  diversos  clientes,  tributando  na  pessoa  jurídica  rendimentos que deveriam ter sido tributados na pessoa física do atleta.  Um dos argumentos trazido pela fiscalização para reclassificar as receitas da  Neymar Sport para Neymar Jr. se baseia na alegação de que a empresa não teria uma estrutura  empresarial  para  gerir  e  administrar  a  carreira  do  mesmo,  pois  tinha  poucos  funcionários,  utilizando­se de profissionais do Santos para obter receitas da exploração de imagem.  A autoridade fiscal traz como prova a participação do Sr. Eduardo Musa e da  Sra.  Gabriela  Pozzi,  funcionários  do  Santos,  como  testemunhas,  em  dezenas  de  contratos  publicitários celebrados pela Neymar Sport. Relembra que estas pessoas ainda aparecem como  responsáveis  pelo  recebimento  de  notificações  ou  comunicações,  referentes  a  diversos  contratos publicitários.  Nesse  sentido,  aduz  a  defesa  do  contribuinte  que  a  participação  dos  colaboradores do Santos teria se dado na época porque o Santos deteria 100% do recebimento  dos  recursos  advindos  da  imagem  do  atleta.  Com  a  mudança  desse  cenário  em  2010,  os  assessores  teriam  sido  contratados  e  pagos  pela  Neymar  Sport.  Alega,  ainda,  que  não  necessariamente a quantidade de empregados serviria para avaliar o propósito empresarial da  empresa, já que a mesma às vezes se valeria de terceiros.  Alega a defesa do contribuinte que não seria possível sustentar que, em 2006,  quando  Neymar  Jr.  tinha  apenas  14  anos  e  ainda  não  era  jogador  profissional,  seus  pais  já  soubessem  que  ele  seria  uma  celebridade  internacional  de  futebol  e  que  receberia  valores  milionários por sua imagem.  A defesa do contribuinte sustenta, ainda, que a Neymar Sport  teria crescido  conforme passou a deter participação na exploração do direito de imagem do atleta.  A  PGFN,  por  sua  vez,  sustenta  que,  ao  longo  do  TDF,  a  autoridade  administrativa  teria demonstrado cabalmente que  a Neymar Sport  não possuiria  funcionários  para  desenvolver  o  objeto  social,  o  que  demonstraria  a  artificialidade  da  referida  pessoa  jurídica para desempenhar a exploração do direito de imagem de Neymar Jr.  Argumenta, a PGFN, que a Neymar Sport teria confessado que a gestão dos  contratos de publicidade era desenvolvida, à época, por funcionários contratados pelo Santos, o  que se traduziria em mais um indício da artificialidade da Neymar Sport.  Fl. 16598DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 46          89  Conclui a PGFN que, na realidade, a Neymar Sport teria se comportado como  titular do direito de exploração da imagem do atleta apenas no que diz respeito ao recebimento  dos valores, enquanto todo o ônus de buscar os contratos de publicidade e patrocinadores teria  sido delegada a funcionários do Santos.  Alega a PGFN que, até 2011, a Neymar Sport não  teria contratado nenhum  profissional na área de marketing ou publicidade. Não obstante ter firmado diversos contratos  de publicidade, que tinham por objeto o direito de uso da imagem do atleta.  A PGFN ressalta que, nos exercícios objeto da fiscalização (2012 a 2014), a  Neymar Sport possuiria somente 2 empregados, que teriam sido contratados para desempenhar  a função de segurança, informação esta extraída das GFIP e não contestada pelo contribuinte.  Desse modo,  acredita  a  PGFN que  estaria  evidenciada  a  incompatibilidade  entre o aspecto formal da Neymar Sport, que no “papel” teria figurado como responsável pela  exploração  do  direito  de  imagem,  e  o  aspecto material,  ou  seja,  a  inexistência  de  atividades  operacionais da citada pessoa jurídica voltadas para a consecução de contratos ou de patrocínio  vinculados à imagem de Neymar Jr.  ***  Malgrado  não  estar  positivada  na  legislação,  a  expressão  “substância  da  pessoa jurídica” consagrou­se na prática internacional, especialmente como uma manifestação  da doutrina da prevalência da substância sobre a forma.  O ilustre professor Alberto Xavier ensinava17 que “substância é conceito que  exprime a relação de adequação da estrutura da empresa às funções que constituem seu objeto  social”,  devendo  ser  analisada  caso  a  caso  e  não  de  forma  genérica.  Deve  haver  uma  verificação  in  casu  de  uma  estrutura  jurídica  (forma)  efetivamente  atrelada  a  uma  realidade  concreta (substância).  Assim, para  fins de verificação de adequada substância, passamos à análise  fático­probatória das obrigações da Neymar Sport diante dos contratos assinados, de seu objeto  social vis­a­vis sua estrutura operacional.  Entre os anos de 2006 e 2009, o Santos era titular de 100% dos rendimentos  pagos pelos patrocinadores a título de serviços de publicidade, conforme contrato celebrado em  10 de Maio de 2006 (fls. 9.972 e segs).  Em  outras  palavras,  até  2009,  a  atuação  da  Neymar  Sport  se  restringiu  a  sublicenciar o direito de uso de imagem de Neymar Jr. ao Santos, mormente celebração de um  único contrato com cláusulas simples e diretas que previam basicamente a cessão do direito de  uso da imagem e exigência de utilização, pelo atleta, do material esportivo especificado, com  as marcas dos patrocinadores, mediante contraprestação pecuniária.  Vejamos  tais clausulas contratuais do contrato celebrado em 10 de maio de  2006, que vigorou até 05 de fevereiro de 2010:  CLÁUSULA TERCEIRA: A CEDENTE obriga­se a:                                                              17 XAVIER, Alberto. Direito tributário internacional do Brasil. Rio de Janeiro: Forense, 2010, p. 274.  Fl. 16599DF CARF MF     90  3.1­  Ceder,  em  caráter  de  exclusividade,  o  nome,  apelido  desportivo, voz e imagem do atleta de futebol em formação, Sr.  Neymar da Silva Santos Junior, para o fim específico de divulgar  e expor a marca do Santos Futebol Clube  (CESSIONÁRIO) em  todas  as  apresentações  públicas  que  fizer,  com  os  demais  membros da equipe de futebol de base do CESSIONARIO;  3.2­ Exigir o uso pelo mencionado atleta, nos  treinos,  jogos e  viagens,  do  material  esportivo  usado  pelos  demais  jogadores  integrantes da equipe, com as marcas dos patrocinadores, exceto  tênis e chuteiras.  3.3­  Ceder  o  nome,  apelido  desportivo,  voz  e  imagem  do  referido atleta para uso com exclusividade do CESSIONÁRIO  (e  seus  patrocinadores)  em  todas  as  atividades  desportivas  coletivas  em  que  a  equipe  de  futebol  de  base  se  apresentar,  ficando  em  disponibilidade  também  para  quaisquer  promoções  que o CESSIONÁRIO venha a fazer, dentro de princípios, morais  e  dos  bons  costumes,  para  promoção  institucional  do  Santos  Futebol  Clube,  podendo,  ainda,  o  CESSIONÁRIO  ceder  a  terceiros os direitos cedidos.  3.4­ Não ceder qualquer direito que possua sobre a imagem do  mencionado  atleta  para  participar  de  promoções  ou  propagandas  promovidas por  quaisquer  empresas  ou  entidades  concorrentes  do  CESSIONÁRIO  e  de  seus  patrocinadores.  (grifei)  Tendo em vista as cláusulas pactuadas acima, nota­se que não era necessária  complexa  estrutura  operacional  para  desempenhar  as  obrigações  da  empresa  perante  seu  cliente. Dessa forma, há razão em defender que a estrutura necessária para o funcionamento da  Neymar  Sport  fosse  reduzida,  contando  apenas  com  o  trabalho  dos  seus  administradores,  a  princípio.  Entendo  que  tal  estrutura  reduzida  não  teria  sido  impedimento  para  que  a  empresa pudesse desempenhar seu objeto social de agenciar os interesses do Recorrente no que  diz respeito à sua atuação perante o Santos.  Afinal muitas empresas são constituídas apenas por seus sócios no início do  desenvolvimento  de  seu  objeto  social,  sobretudo  tendo  em  vista  que  possuía  um  único  contratante (Santos).  Em relação ao fato de a empresa ter como administradores os pais do atleta,  entendo  o  fato  como  natural  em  se  tratando  de  um  atleta  de  14  anos  de  idade,  prática  de  mercado  inclusive  comum  entre  celebridades mirins,  pois  além  da  preocupação  com  ganhos  financeiros  advindos  da  exploração  de  sua  imagem,  estes  se  preocupam,  ainda,  com  seus  interesses  pessoais  (estudos,  segurança,  saúde  física  e  emocional),  e  possuem,  em  última  análise, responsabilidade legal pelo menor.  Em  01  de  Abril  de  2009,  a  Neymar  Sport  celebrou  seu  segundo  contrato  publicitário,  desta  vez  com  a  Nike.  O  contrato  possuía  a  duração  de  5  anos  e  montante  milionário a ser pago pela participação em campanhas publicitárias. Tal contrato foi celebrado  diretamente com a Neymar Sport, sem interferência do Santos, razão pela qual, inclusive, suas  receitas nunca foram partilhadas com o clube.  Fl. 16600DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 47          91  Não  é  razoável  imaginar  que  os  profissionais  do  Santos  participariam  na  negociação de contrato que não lhes rendesse qualquer rendimento ou que Neymar Jr., sozinho,  naquele momento já aos 17 anos de idade, teria negociado com um dos maiores patrocinadores  esportivos do mundo e revisado as cláusulas contratuais em língua estrangeira de um contrato  de  54  páginas  (apesar  do  contrato  ter  sido  redigido  em  inglês  e  português,  ainda  assim  o  jogador precisaria de ajuda para confirmar a tradução) sem o auxílio profissional de seu agente,  a Neymar Sport e terceiros subcontratados por esta.  Nota­se que a partir de 2009, foram celebrados pela Neymar Sport dezenas de  contratos  de  publicidade  com  grandes  empresas,  em  cifras milionárias,  conforme  consta  dos  autos. Não seria aceitável  imaginar que não foi envolvida qualquer atuação da Neymar Sport  na negociação, revisão e celebração dos contratos, além do gerenciamento dos compromissos  pactuados, recebimentos, pagamentos de tributos decorrentes e demais obrigações que advém  dos mesmos, utilizando­se, para tal atuação, inclusive, da contratação de terceiros.  Não há como se desprezar o papel dos sócios da Neymar Sport, mormente o  trabalho  e  aptidão  de  Sr.  Neymar  da  Silva  Santos  aos  negócios,  fato  público,  amplamente  divulgado  pela  mídia  e  confirmado  pelo  próprio  atleta  em  diversas  entrevistas.  A  Neymar  Sport,  conjuntamente  com  profissionais  e  empresas  terceirizadas,  atuava  na  consecução  dos  contratos. Entre tais profissionais, vale citar o Sr. Eduardo Musa e a 9Nine (fl. 8.035, 8.206 e  8.403), além de diversos escritórios de advocacia (fl. 8.048).  A  argumentação  da  fiscalização  de  que  os  profissionais  do  Santos  eram  aqueles  que  efetivamente  cuidavam  do  gerenciamento  do  atleta  não  foi  devidamente  comprovado nos autos.  Aos  autos  foram  colacionados  extratos  de  contratos  em  que  constam  os  funcionários  do  Santos,  mormente  o  Sr.  Eduardo  Musa  e  a  Sra.  Gabriela  Pozzi,  como  testemunhas  ou  como  responsáveis  pelo  recebimento  de  notificações  ou  comunicações  referentes a diversos contratos publicitários.  Entendo  ser  natural  que  constem  como  testemunhas  ou  responsáveis  pelo  recebimento de notificações, tendo em vista que o Santos recebia uma parcela dos rendimentos  advindos de tais contratos. No entanto, a conclusão de que tais elementos, por si só, denunciam  uma falta de substância da Neymar Sport, extrapola o poder probatório destes itens contratuais.  Foram  mencionados,  ainda,  pela  fiscalização  dois  depoimentos,  o  do  ex­ presidente do Santos, Sr. Odílio Rodrigues Filho e do então Presidente residente do Santos, Sr.  Luis Álvaro. Transcreve­se abaixo extratos dos depoimentos:  Sr. Odílio Rodrigues Filho:  Lembra que no início de sua gestão, resolveram criar um projeto  para  a  carreira  do  atleta  Neymar  Júnior,  chamado  “Projeto  Neymar”.  Com  isso  resolveram  que  o  SFC  colocaria  vários  funcionários para cuidar da gestão da  carreira do Neymar Jr.,  dentre  eles  Eduardo Muza,  conhecido  como  “Duda”, Gabriela  Pozi,  Galo  e  outros.  Essas  pessoas  cuidavam  da  gestão  da  carreira do Neymar Júnior, tais como marketing, mídia training  (treinamento para entrevistas), prospecção de negócios, agenda,  viagens, etc.  Fl. 16601DF CARF MF     92  Sr. Luis Álvaro  Logo depois da copa do mundo da África, no segundo semestre  de 2010, O Sr. Neymar, pai do atleta Neymar Júnior, procurou o  declarante,  em  Nova  Iorque,  onde  a  seleção  brasileira  estava  jogando, e pediu para o declarante fazer o favor de acompanhá­ lo  numa  reunião  com  representantes  do  clube  inglês  Chelsea,  que  estavam  pressionando  o  pai  do  atleta  para  adquirirem  o  Neymar Júnior.  (...) Nessa oportunidade,  tendo em vista que o Chelsea oferecia  um plano para cuidar da carreira do atleta Neymar Júnior, caso  este  se  transferisse  para  aquele  clube,  o  declarante  resolveu  criar  um  projeto  para  a  carreira  do  atleta  Neymar  Júnior,  chamado “Projeto Neymar”.  Com isso resolveu que o SFC colocaria vários funcionários para  cuidar da gestão da carreira do Neymar Jr., dentre eles Eduardo  Muza,  conhecido como “Duda”, Gabriela Pozi, Galo  e  outros,  que  ficaram  conhecidos  como  “turma  do  Neymar”.  Esclarece  que  todos  esses  profissionais  eram  funcionários  do  Santos  Futebol Clube. Essas pessoas cuidavam da gestão da carreira do  Neymar  Júnior,  tais  como  marketing,  mídia  training  (treinamento para entrevistas), prospecção de negócios, agenda,  viagens, etc.  Pela  leitura dos  depoimentos  acima,  verifica­se  que,  em nenhum momento,  foi afirmado que a gestão da carreira de Neymar Jr. foi realizada exclusivamente pelo Santos.  O  que  fica  claro  é  que,  da  parte  do  Santos,  encarregavam­se  o  Sr.  Eduardo Musa  e  a  Sra.  Gabriela Pozzi, o que não impede a participação conjunta de profissionais da Neymar Sport ou  de seus terceiros subcontratados.  No depoimento do Sr. Luis Álvaro, este declara que foi acompanhar o pai do  Neymar Jr. em uma reunião do Chealsea (clube de futebol inglês). Ou seja, há aqui conotação  clara de cooperação entre ambos os interessados (Santos e Neymar Sport) na consecução dos  negócios relacionados à carreira de Neymar Jr.  Outro elemento que corrobora a efetiva participação da Neymar Sport  foi a  resposta do Santos ao Termo de Intimação Fiscal nº 01 – fls. 3839 a 3844 aqui transcrita:  “o presente Clube está impossibilitado de respondê­lo, visto que  as  contratações  foram  feitas  pela Neymar  Sport  e Marketing,  onde  o  Santos  FC  figurou  como  Interveniente  Anuente,  de  forma que tal pergunta deverá ser diretamente á Neymar Sport e  Marketing”. (grifei)  Ademais,  a análise do  livro diário da empresa período de 2011 a 2013  (fls.  2.276 a 2.450), anos relativos ao  lançamento ora debatido, corrobora que a empresa  incorreu  em diversos gastos relacionados aos contratos negociados e tratava­se de empresa operacional  com despesas usuais de escritório (luz, água e telefone), IPTU, salários e encargos trabalhistas  de funcionários, tributos (IRPJ, Pis, Cofins e ISS) e contratação de terceiros (i.e. advogados),  empréstimo, aplicações financeiras, etc.  Transcreve­se  abaixo,  a  título  exemplificativo,  algumas  das  despesas  contabilizadas pela Neymar Sport  no  ano de 2011 que corroboram as  conclusões  acima  (fls.  2.276 a 2.450):  Fl. 16602DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 48          93                            Fl. 16603DF CARF MF     94  Tendo  em  vista  todo  o  acima,  a  substância  da  Neymar  Sport  se  mostrou  suficiente –  sobretudo quando considerado que  o processo  trata de  fatos geradores  ocorridos  nos anos de 2011 a 2013 e não no ano de 2006 a 2010 – para desenvolver seu objeto social,  tendo como comprovação a assinatura de dezenas de contratos de publicidade, administração  dos compromissos advindos de tais contratos e estrutura operacional presente.  ***  Não  obstante  o  acima,  considerando  que  a  fiscalização  destacou  alguns  contratos por conterem cláusulas específicas que alegam ser atípicas à natureza contratual em  questão, passaremos à análise individualizada dos mesmos.  C.1.5.2)  Contratos  firmados  com  terceiros  e  Neymar  Jr./Neymar  Sport/Santos:  Vale  adiantar  que,  a  despeito  do  esforço  realizado  pela  fiscalização  em  desqualificar  a  natureza  jurídica  de  cada  um  dos  contratos  a  seguir  analisados,  todos  são  legítimos contratos de exploração do direito de uso de imagem do atleta por patrocinadores.  a) Red Bull ­ fl. 596  A fiscalização afirma, em relação a tal contrato, as seguintes conclusões:  Analisando  a  cláusula  primeira  (objeto  do  contrato)  podemos  extrair várias conclusões:  A Red Bull patrocinou o ESPORTISTA mediante o pagamento de  uma  remuneração  (veremos  a  seguir  o  valor  estipulado)  e  o  fornecimento  de  alguns  produtos  e  acessórios  da  marca  Red  Bull;  Em  contrapartida  ao  patrocínio,  o  ESPORTISTA  consentiu,  cedeu  e  autorizou  a Red Bull,  sem  exclusividade,  o  uso  de  sua  imagem,  nome,  dados  biográficos  e/ou  som  de  sua  voz  para  a  promoção  e  divulgação  da marca/produto Red Bull,  nos meios  de comunicação;  A autorização e a cessão do uso dos direitos de imagem do atleta  foram feitas pelo próprio jogador.  A  fiscalização  defende  que  as  cláusulas  acima mencionadas  demonstrariam  que  o  “Contrato  de Cessão  de  Imagem”  firmado  entre Neymar  Jr.  e  a Neymar Sport  no  dia  01/04/2009  é  uma  ficção  já  que  o  contrato  feito  com  a  Red  Bull  se  deu  em  01/01/2011.  Argumenta que se  realmente os direitos de uso da  imagem do atleta pertencessem à Neymar  Sport, então não haveria motivo para a Red Bull contratar diretamente o atleta.  A  fiscalização  destaca  que,  conforme  cláusula  terceira,  as  obrigações  do  atleta seriam:  Utilizar, em algumas situações o boné com as marcas Red Bull;  Utilizar o squeeze;;  Participar em pelo menos 01  (um)  evento organizado pela Red  Bull, por trimestre, como convidado especial;  Fl. 16604DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 49          95  Compromete­se  em  não  participar  de  quaisquer  atividades  que  sejam organizadas por empresas que sejam concorrentes diretas  ou indiretas da Red Bull;  Divulgará o produto Red Bull por meio do consumo do produto,  e  aparição  da  lata  em  mãos,  no  dia  a  dia,  sempre  que  for  possível;  Providenciar,  através  da  Neymar  Sport,  a  emissão  de  recibos  detalhados  em  nome  da  Red  Bull  para  cada  valor  recebido;  Abster­se de qualquer prática difamatória às marcas Red Bull.  Alega a  fiscalização  que  o  teor  destacado  acima provaria que  esta  empresa  seria  uma  interposta  pessoa,  utilizada  apenas  para  transferir  a  tributação  da  pessoa  física  (atleta) para ela, reduzindo significativamente a carga tributária.  Na  cláusula  quarta  o  atleta  teria  ratificado  a  cessão  dos  direitos  de  uso  de  imagem  à  Red  Bull.  Na  cláusula  sexta  a  Red  Bull  disporia  sobre  o  pagamento,  a  título  de  remuneração e de bônus. Tal cláusula também determinaria que os pagamentos dos valores da  remuneração e dos bônus, “por expressa solicitação do esportista”, seriam efetivados em favor  da Neymar Sport.  A  fiscalização destaca ainda que, conforme cláusula oitava,  as hipóteses de  rescisão contratual seriam:  Incapacidade  física  ou  mental  que  impeça  de  jogar  futebol  profissional;  Repasse a terceiros de qualquer acessório das marcas Red Bull;  Se expressar negativamente sobre a Red Bull ou representá­la de  maneira prejudicial à reputação da marca;  Se realizar propaganda ou patrocínio de concorrentes;  Se  envolver  voluntariamente  em  caso  de  doping;  todos  os  contratos  firmados,  demonstrando que  o  atleta  é  o  responsável  tanto  pela  execução  dos  contratos,  quanto  pelas  hipóteses  de  rescisão.  A fiscalização defende que as cláusulas acima demonstrariam que em todos  os contratos firmados as obrigações ficariam sempre a cargo do atleta, até porque os serviços  prestados seriam personalíssimos. E para segurança das empresas contratantes, sempre existiria  uma cláusula em que o atleta (pessoalmente) se comprometeria a cumprir o contratado.  Alega  a  fiscalização,  que  a própria Red Bull  teria  entendido  que  a  conduta  não  era  legal,  posto  que  inseriu  a  cláusula  6.2.1,  transcrita  abaixo,  se  eximindo  da  responsabilidade da quantia que seria paga ao atleta. Chamou a atenção, ainda, para o fato de  que não obstante o pagamento ser feito à Neymar Sport, a quitação seria dada pelo atleta.  6.2.1 A NEYMAR SPORT será a única responsável pelo repasse  das  importâncias  ao  ESPORTISTA,  não  existindo,  portanto,  nenhuma responsabilidade da RED BULL em relação à quantia  estipulada com o ESPORTISTA e a NEYMAR SPORT. (grifei)  Fl. 16605DF CARF MF     96  Conclui  o  TDF,  afirmando  que  não  restaria  dúvida,  portanto,  que  os  rendimentos  auferidos  pelo  atleta,  oriundos  da  prestação  de  serviços  personalíssimos  à  Red  Bull, deveriam ser submetidos à tabela progressiva do IRPF.  ***  Conforme  já mencionado,  considerando  que  o  direito  de  imagem  que  está  sendo explorado é o de Neymar Jr., é natural que a empresa contratante queira garantir que o  mesmo esteja ciente da extensão do  seu  envolvimento nas obrigações  contratadas  e que,  por  isso, seja  incluído como contratado. Tal  inclusão não invalida a natureza jurídica do contrato  celebrado entre Neymar Jr. e a Neymar Sport em 01 de abril de 2009.  O mesmo pode se dizer em relação as clausulas de garantia em que Neymar  Jr. se compromete pessoalmente ao cumprimento do contrato ou aquelas atinentes as causas de  rescisão contratual, quando se referem a condutas do atleta.  Quanto ao tipo de serviço a ser prestado ter natureza personalíssima, o item  C.1.5.1  acima  já  tratou  sobre  a  legitimidade  da  prestação  deste  tipo  de  serviço  através  de  pessoa jurídica, mormente quanto esta apresenta adequada substancia, como o caso da Neymar  Sport.  Em referencia à citada clausula 6.2.1, em verdade esta confirma a conclusão  de  que  o  contrato  entre  Neymar  Jr.  e  Neymar  Sport  não  é  fictício  e  apenas  exime  a  responsabilidade  de  Red  Bull  em  relação  ao  valor  que  será  repassado  a  jogador.  Não  há  qualquer  base  para  se  afirmar  que  a Red Bull  teria  entendido  que  a  conduta  era  ilegal,  seja  porque não há  ilicitude presente,  seja porque seria difícil  aceitar que uma marca de  tamanha  notoriedade se exporia desta forma.  b) Johnson Controls ­ Bateria Heliar ­ fl. 1.150  A fiscalização alega que neste contrato Neymar Jr. e a Neymar Sport seriam  denominados, conjuntamente, como contratados, não obstante todas as obrigações diretamente  relacionadas à prestação do serviço ficarem com o atleta enquanto a empresa cumpriria apenas  com obrigações pró­forma.  Sendo  assim,  aduz  a  fiscalização  o  caráter  personalíssimo  dos  serviços,  mencionando a lista de obrigações do mesmo:  Participar  em  3  (três)  diárias  para  a  realização  de  sessões  de  filmagem ou  de  3  (três) horas  para  a  realização de  sessões  de  fotografias e/ou tomadas de áudio;  Fazer referências elogiosas, sempre que questionado em público  sobre a contratante;  Publicar  em  seu  twitter  vários  posts  (mensagens)  ao  ano,  mencionando a empresa, marca e/ou a campanha publicitária da  Heliar;  Em  contrapartida,  ressalta  a  natureza  pró­forma  das  obrigações  da Neymar  Sport, quais sejam:  Responsabilizar­se pelas obrigações que vier a contrair perante  terceiros, em virtude do contrato;  Fl. 16606DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 50          97  Fazer referências elogiosas, sempre que questionado em público  sobre  a  produtos  e  nunca  aparecer  em  público  com  produtos  concorrentes;  Arcar com os tributos de sua responsabilidade.  Questiona  a  fiscalização  como  seria  possível  a Neymar  Sport  não  aparecer  em público com produtos concorrentes e ressalta que, de fato, quem teria prestado os serviços  seria Neymar Jr.  Na cláusula 13.1, que trata da rescisão contratual, ressalta a fiscalização que  todas as hipóteses diriam respeito somente ao  inadimplemento por parte do atleta. Ou seja, a  Neymar Sport teria sido totalmente ignorada.  Por  fim,  adverte  a  fiscalização,  que  as  notificações  e/ou  comunicações  a  serem  enviadas  a  qualquer  das  partes  deveriam  ser  formalizadas  por  escrito  e  enviadas  mediante entrega com aviso de recebimento para o Sr. Eduardo Musa, funcionário do Santos e  gestor  da  carreira  do  atleta,  e  para  a  Neymar  Sport  encaminhadas  ao  Sr.  Lissandro  Silva  Florêncio,  advogado  associado  da Brunatti &  Florêncio  que  cuidava  do  jurídico  da Neymar  Sport.  Ademais,  a  fiscalização  aduz  que  as  partes  teriam  reconhecido  que  as  obrigações assumidas são de caráter personalíssimo e  intransferíveis, ou seja, apenas o atleta  Neymar Jr. poderia prestá­las.  Por  todo  o  exposto,  a  fiscalização  conclui  que  os  serviços  personalíssimos  foram  prestados  por  Neymar  Jr.,  que  teria  assumido  todas  as  obrigações  dos  contratos  firmados, devendo a remuneração auferida ser tributada na pessoa física do atleta.  ***  Conforme já mencionado acima, a  inclusão de obrigações personalíssimas a  serem realizadas por Neymar Jr. não  invalida a efetiva participação da Neymar Sport. Assim  como a presença de clausulas de rescisão que se referem a condutas pessoais do atleta (clausula  13.1).  Quanto ao tipo de serviço a ser prestado ter natureza personalíssima, o item  C.1.5.1  acima  já  tratou  sobre  a  legitimidade  da  prestação  deste  tipo  de  serviço  através  de  pessoa jurídica, mormente quanto esta apresenta adequada substancia, como o caso da Neymar  Sport.  c) Volkswagen do Brasil ­ fl. 727  Conforme  relatado  pelas  autoridades  fiscais,  neste  contrato  o  atleta  e  a  Neymar Sport também teriam sido denominados como “contratados”. Não obstante a empresa  ter sido incluída como contratada, todas as obrigações contratuais teriam ficado com o atleta.  Alega a fiscalização que, mais uma vez a contratante se cerca de argumentos  jurídicos  visando  vincular  o  real  prestador  de  serviços:  o  atleta  profissional  Neymar  Jr.  Reforça, a fiscalização, que se a licença de utilização dos direitos de imagem pertencesse, de  fato, à Neymar Sport, não haveria razão alguma para que o atleta figurasse neste contrato como  anuente.  Fl. 16607DF CARF MF     98  A  fiscalização  defende  que  só  haveria  uma  explicação:  como  os  serviços  prestados  seriam  personalíssimos,  a  única  forma  de  a  Volkswagen  garantir  a  efetiva  participação do atleta seria figurando­o como anuente.  No  entanto,  a  fiscalização  ressalta  que  seria  percebido  pela  análise  dos  contratos, claramente, que as obrigações assumidas por Neymar Jr. não seriam as de um mero  anuente,  figura passiva em um negócio  jurídico simplesmente concordando com a realização  do pacto. Nos contratos realizados, Neymar Jr. seria protagonista, ou seja, somente ele poderia  prestar os serviços contratados.  Alega  que,  enquanto  as  obrigações  do  atleta  seriam  extensas,  diretamente  relacionadas à prestação de serviços, as obrigações da empresa (Neymar Sport) seriam apenas  pro­forma:  Obrigações do atleta:  Participar  em 8  (oito)  diárias  para  a  realização  de  sessões  de  filmagem ou  de  3  (três) horas  para  a  realização de  sessões  de  fotografias;  Participar em 3  (três) diárias para relações públicas  figurando  como Embaixador da Volkswagen;  Usar  veículos  da  marca  Volkswagen  em  todos  os  seus  compromissos;  Fazer referências elogiosas, sempre que questionado em público  sobre a Volkswagen;  Responder  solidariamente  por  qualquer  valor  devido  pela  Empresa à Volkswagen em razão deste contrato.  Obrigações da Neymar Sport:  Abster­se de fazer, direta ou indiretamente, qualquer pagamento  a  funcionário  público,  administrador,  etc.,  que  possa  constituir  uma violação à legislação aplicável;  Abster­se de condutas que possam denegrir a  imagem do atleta  e/ou da Volkswagen  Responder solidariamente por qualquer valor devido pelo atleta  à Volkswagen em razão deste contrato.  Alegam  as  autoridades  fiscais  que  o  instituto  da  solidariedade  teria  sido  amplamente  utilizado  pelas  contratantes  visando  garantir  a  prestação  de  serviços  personalíssimos por parte de Neymar Jr.  Vejamos alguns contratos nos quais constam esta cláusula: i) Volkswagen do  Brasil; ii) Dentsu Inc. (Panasonic); iii) Companhia de Bebidas das Américas – AMBEV; Banco  Santander Brasil S/A; _ Lupo S/A; iv) Doyen Sport Marketing Ltda.  ***  Conforme mencionado acima, a  inclusão de obrigações personalíssimas não  invalida a participação da Neymar Sport,  assim  como nenhuma das demais cláusulas citadas  pela fiscalização desqualificam a natureza jurídica do contrato assinado com o patrocinador.  Fl. 16608DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 51          99  d) Universo dos Livros ­ fl. 854  Neste contrato a  fiscalização aponta que o atleta,  seu pai e a Neymar Sport  seriam  denominados  como  “contratados”.  E  questiona  quais  seriam  as  razões  lógicas  para  o  atleta autorizar a licença de seus direitos de imagem se na data do contrato (26/06/2013) estes  direitos já pertenciam à Neymar Sport.  ***  A lógica para incluir o atleta como autorizador da licença serve para reforçar  a anuência do mesmo em relação ao que está sendo contratado. Conforme mencionado, tendo  em  vista  que  o  contrato  tem  como  foco  a  exploração  da  imagem  do  atleta,  natural  que  o  patrocinador queira garantia sua ciência e concordância.  e) AMBEV ­ fl. 1.202  Neste  contrato,  a  fiscalização  aponta  que,  não  obstante  figurarem  como  “contratados” Neymar Jr. e a Neymar Sport, é o atleta quem está licenciando o uso dos direitos  de  imagem  à  AMBEV  conforme  assentado  nas  cláusulas  segunda  e  terceira  do  mesmo  contrato.  Aduz  a  fiscalização  que,  novamente,  teria  ficado  claro  que  as  obrigações  contratuais previstas deveriam ser cumpridas pessoalmente pelo atleta. Ademais, ressalta que a  cláusula  décima  primeira  disporia  sobre  a  obrigação  da  contratante  (Ambev)  em  pagar  a  remuneração diretamente ao atleta.  A  fiscalização  alega  que  não  restariam  dúvidas  que  os  serviços  personalíssimos  teriam  sido  prestados  por  Neymar  Jr.,  que  este  teria  assumido  todas  as  obrigações constantes dos contratos firmados, devendo a remuneração auferida ser tributada na  pessoa física do atleta.  ***  O fato da cessão do direito de uso de imagem ser realizada pela pessoa física  de  Neymar  Jr.,  não  obstante  o  contrato  assinado  com  a  Neymar  Sport,  se  justifica  como  anuência do mesmo em relação ao que está sendo contratado. Conforme mencionado, tendo em  vista  que  o  contrato  tem  como  foco  a  exploração  da  imagem  do  atleta,  natural  que  o  patrocinador queira garantia sua ciência e concordância.  Quanto ao tipo de serviço a ser prestado ter natureza personalíssima, o item  C.1.5.1  acima  já  tratou  sobre  a  legitimidade  da  prestação  deste  tipo  de  serviço  através  de  pessoa jurídica, mormente quanto esta apresenta adequada substancia, como o caso da Neymar  Sport.  Malgrado  a  clausula  décima  primeira,  a  clausula  sexta  estabelece  que  a  remuneração  será  paga  a  Neymar  Sport.  Tal  dissonância  se  justifica  na  medida  em  que  o  próprio  contrato  dispõe  que Neymar  Jr.  e Neymar Sport  serão  tratados  conjuntamente  como  contratados, oferecendo uma conotação de que a AMBEV os enxerga como uma única parte.  f) Dentsu/Panasonic ­ fl. 1.270  Fl. 16609DF CARF MF     100  A fiscalização alega que, mais uma vez, o atleta teria anuído o licenciamento  dos  direitos  de  uso  de  sua  imagem  para  a  Dentsu.  Aduz  a  fiscalização  que,  apesar  de  formalmente não ter mais direitos sobre a utilização de sua imagem (cedidos à Neymar Sport),  consta na cláusula “D” que o atleta tem interesse em conceder à Dentsu (Panasonic) o uso de  seus direitos.  A  fiscalização  questiona  qual  seria  a  razão  de  o  atleta  ceder  o  uso  de  seu  direito  de  imagem  à  Panasonic  se  esses  direitos  pertenceriam  (pelo  menos  formalmente)  à  Neymar Sport. Ademais, questiona como poderia o atleta “deixar” a empresa (Neymar Sport)  se ele não faz parte do contrato social. Indaga, ainda, como a Neymar Sport poderia assumir o  encargo de fazer com que o atleta cumpra as obrigações acima relacionadas, já que se tratam de  obrigações de fazer personalíssimas.  Ressalta a fiscalização que o contrato entabulado entre o atleta e a empresa  Neymar  Sport  seria  de  cessão  dos  direitos  de  uso  de  imagem  (obrigação  de  ceder/dar),  enquanto que a imensa maioria das obrigações contratadas seria a de fazer. Assim, a Neymar  Sport  jamais  poderia  assumir  uma  obrigação  de  fazer  com  que  o  atleta  preste  serviços  para  outras empresas.  Conclui a fiscalização que os contratos possuem como objeto a prestação de  serviços personalíssimos, a serem executados pelo atleta Neymar Jr. Todavia, para usufruir de  uma tributação mais favorecida, teriam redigido os contratos transferindo as obrigações para a  Neymar  Sport,  o  que  gerou  como  consequência  esse  “Frankenstein”  jurídico,  quer  dizer,  cláusulas que teriam sido redigidas para dar garantia aos contratantes, mas, sem lógica jurídica  alguma.  ***  O fato da cessão do direito de uso de imagem ser realizada pela pessoa física  de  Neymar  Jr.,  não  obstante  o  contrato  assinado  com  a  Neymar  Sport,  se  justifica  como  anuência do mesmo em relação ao que está sendo contratado. Conforme mencionado, tendo em  vista  que  o  contrato  tem  como  foco  a  exploração  da  imagem  do  atleta,  natural  que  o  patrocinador queira garantia sua ciência e concordância.  Quanto ao tipo de serviço a ser prestado ter natureza personalíssima, o item  C.1.5.1  acima  já  tratou  sobre  a  legitimidade  da  prestação  deste  tipo  de  serviço  através  de  pessoa jurídica, mormente quanto esta apresenta adequada substancia, como o caso da Neymar  Sport.  Quanto a clausula 6, item j, e ao questionamento da fiscalização de que como  poderia  o  atleta  “deixar”  a  empresa  (Neymar  Sport)  se  ele  não  faz  parte  do  contrato  social,  verifica­se  que  tal  interpretação  está  equivocada.  A  clausula  6,  item  j,  trata  da  hipótese  de  Neymar Jr. rescindir seu contrato de cessão de direito de uso de imagem com a Neymar Sport,  vejamos a transcrição de tal dispositivo contratual:  6.  j) Se o Atleta deixar a Empresa e ceder seus direitos a outra  empresa,  a  Empresa  informará  imediatamente  a  Dentsu  sobre  esta  situação.  Nesse  caso,  a  Empresa  deverá,  com  o  consentimento  prévio  por  escrito  da  Dentsu,  realizar  qualquer  um  dos  seguintes  itens,  e  deverá  garantir  que  as  obrigações  a  seguir serão executadas;  Fl. 16610DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 52          101  Não obstante, mesmo que se  tratasse da hipótese do atleta deixar a Neymar  Sport no sentido de não mais  compor o quadro  social da mesma,  tal  falha não  implicaria na  desqualificação do contrato como um todo ou de seus efeitos tributários.  g) Banco Santander ­ fl. 1.363  A  fiscalização  alega  que,  não  obstante  neste  contrato  figurarem  como  “contratados”  tanto o atleta quanto a Neymar Sport, nas cláusulas  segunda e  terceira  restaria  claro que é o atleta quem está licenciando o uso dos direitos de imagem ao Santander.  A fiscalização aduz que, não obstante a empresa constar como contratada, em  verdade, as principais obrigações contratuais ficariam a cargo do atleta:  Obrigações do atleta:  Participar  em  4  (três)  diárias  para  a  realização  de  sessões  de  filmagem;  Participar  de  publicidade  e  ações  promocionais  em  conjunto  com  outros  atletas  e  personalidades  patrocinados  pelo  Santander;  Participar  de  publicidade  e  ações  promocionais  para  a  promoção  de  eventos  esportivos,  institucionais  ou  de  responsabilidade social;  Participar de, no mínimo, 08 (oito) interações por mês, por meio  de redes sociais promovidas pelo Santander;  Participar  de  02  (duas)  promoções  institucionais  promovidas  pelo Santander a cada período de 12 (doze) meses de contrato;  Produzir  até  08  (oito)  interações  por  ano  de  áudio  e  vídeo  gerados  pelo  atleta;  _ Fazer  referências  elogiosas,  sempre  que  questionado em público sobre o Santander.  A fiscalização destaca que, por outro lado, dentre as obrigações do Santander  estaria  somente  o  pagamento  da  remuneração  ao  atleta  pelos  serviços  prestados.  Conclui,  portanto, que o atleta prestaria os serviços e a Neymar Sport emitiria a nota fiscal, receberia os  rendimentos e pagaria os tributos com uma tributação favorecida.  ***  A lógica para incluir o atleta como autorizador da licença serve para reforçar  a anuência do mesmo em relação ao que está sendo contratado. Conforme mencionado, tendo  em  vista  que  o  contrato  tem  como  foco  a  exploração  da  imagem  do  atleta,  natural  que  o  patrocinador queira garantia sua ciência e concordância.  Quanto ao tipo de serviço a ser prestado ter natureza personalíssima, o item  C.1.5.1  acima  já  tratou  sobre  a  legitimidade  da  prestação  deste  tipo  de  serviço  através  de  pessoa jurídica, mormente quanto esta apresenta adequada substancia, como o caso da Neymar  Sport.  h) Glaxosmithkline ­ fl. 1.329  Fl. 16611DF CARF MF     102  A fiscalização alega que consta, na cláusula “C” do contrato, que a Neymar  Sport  e  o  Santos  (anuente)  seriam  os  detentores  dos  direitos  de  imagem do  atleta  e  que,  no  entanto,  mais  adiante,  na  cláusula  “2.3”,  o  atleta  teria  outorgado  a  licença  de  uso  de  sua  imagem à Glaxosmithkline.  A fiscalização, mais uma vez chama a atenção para a fragilidade jurídica do  contrato entabulado entre o atleta Neymar Jr. e a empresa Neymar Sport, pois neste contrato,  iniciado em 01/04/2009, constaria que “O ATLETA, neste ato, cede e transfere para a Neymar  Sport  e  Marketing,  todo  e  qualquer  direito  de  sua  imagem  a  partir  desta  data,  até  31  de  dezembro de 2020.”  A  fiscalização  questiona  que  se  a  empresa  Neymar  Sport  era  detentora  de  “todo e qualquer” direito da  imagem do atleta, o mesmo não poderia  ser detido pelo Santos.  Ressalta, ainda, que o objeto deste contrato é a prestação de serviços pelo atleta.  A  fiscalização aduz que o contrato  firmado demonstraria que  as obrigações  deveriam ser atendidas de forma pessoal pelo atleta. Ou seja, não restariam dúvidas de que o  contribuinte, aquele que tem relação direta e pessoal com o fato gerador, seria o próprio atleta.  No entanto, indica que, a remuneração somente é creditada à Neymar Sport.  ***  A lógica para incluir o atleta como autorizador da licença serve para reforçar  a anuência do mesmo em relação ao que está sendo contratado. Conforme mencionado, tendo  em  vista  que  o  contrato  tem  como  foco  a  exploração  da  imagem  do  atleta,  natural  que  o  patrocinador queira garantia sua ciência e concordância.  Quanto ao tipo de serviço a ser prestado ter natureza personalíssima, o item  C.1.5.1  acima  já  tratou  sobre  a  legitimidade  da  prestação  deste  tipo  de  serviço  através  de  pessoa jurídica, mormente quanto esta apresenta adequada substancia, como o caso da Neymar  Sport.  i) Lupo S/A ­ fl. 1.391  A fiscalização aduz que o atleta é qualificado neste contrato como “esportista  e/ou  co­responsável”.  E  que,  na  cláusula  “4.1”,  haveria  mais  uma  anuência  concedida  pelo  atleta para o uso de sua imagem.  Contudo,  alega  a  fiscalização  que,  restaria  claro  que  não  só  a  autorização,  mas também a prestação de serviços, teria sido executada pelo atleta.  Defende  a  fiscalização  que,  por  fim,  entraria  em  jogo  a  Neymar  Sport,  recebendo  os  recursos  relativos  à  prestação  de  serviços  do  atleta.  Em  razão  desse  fato,  a  contratante teria colocado uma cláusula de garantia, informando que o “cachê” devido ao atleta  deveria ser repassado pela Neymar Sport.  ***  A lógica para incluir o atleta como autorizador da licença serve para reforçar  a anuência do mesmo em relação ao que está sendo contratado. Conforme mencionado, tendo  em  vista  que  o  contrato  tem  como  foco  a  exploração  da  imagem  do  atleta,  natural  que  o  patrocinador queira garantia sua ciência e concordância.  Fl. 16612DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 53          103  Quanto ao tipo de serviço a ser prestado ter natureza personalíssima, o item  C.1.5.1  acima  já  tratou  sobre  a  legitimidade  da  prestação  deste  tipo  de  serviço  através  de  pessoa jurídica, mormente quanto esta apresenta adequada substancia, como o caso da Neymar  Sport.  j) HWT Promoções Esportivas ­ fl. 2.454  A  fiscalização  aduz  que  em  tal  contrato  figurariam  como  contratados  a  Neymar  Sport  e  o  atleta  Neymar  Jr.  Todavia,  o  objeto  seria  de  impossível  execução  pela  Neymar Sport visto que se trata de uma obrigação personalíssima que só poderia ser cumprida  pelo atleta.  A  fiscalização  questiona  como  poderia  a  Neymar  Sport  participar  pessoalmente  de  uma  partida  de  futebol.  Alega  que  estaria  claro  que  seria  o  atleta  quem  assumiria  essas  obrigações  de  fazer,  pois  elas  não  poderiam  ser  assumidas  pela  empresa  Neymar Sport. Destaca que a cláusula nona desse contrato  teria estabelecido que,  se o atleta  desistisse  de  participar  do  evento,  teria  que  devolver  o  valor  antecipado  pela  contratante  (depositado na conta bancária da Neymar Sport – R$100.000,00).  ***  Quanto ao tipo de serviço a ser prestado ter natureza personalíssima, o item  C.1.5.1  acima  já  tratou  sobre  a  legitimidade  da  prestação  deste  tipo  de  serviço  através  de  pessoa jurídica, mormente quanto esta apresenta adequada substancia, como o caso da Neymar  Sport.  l) Globo Comunicações S/A ­ fl. 2.452  Alega a fiscalização que, por meio deste contrato, o atleta e o Santos teriam  autorizado  a  Globo  a  utilizar  os  direitos  de  imagem  do  jogador  relativo  ao  documentário  “Neymar Jr. e o herdeiro da coroa”:  Imputa  a  fiscalização  que  não  há  participação  da  Neymar  Sport  neste  contrato, inferindo que o motivo da ausência está no fato de que a autorização de uso ter sido  gratuita.  Tendo  em  vista  que  não  foi  levantada  qualquer  infração  em  relação  a  este  contrato, os argumentos levantados pela fiscalização serão desconsiderados.  m) CSU Cardsystem S/A ­ fl. 1.439  Alega  a  fiscalização  que  apenas  a  Neymar  Sport  figura  como  contratada  ainda  que  o  objeto  contratual  seja  uma  prestação  personalíssima  (obrigação  de  fazer)  a  ser  cumprida pelo atleta. Aduz que, novamente, o atleta presta os serviços e a Neymar Sport emite  a nota fiscal e recebe os recursos.  ***  Quanto ao tipo de serviço a ser prestado ter natureza personalíssima, o item  C.1.5.1  acima  já  tratou  sobre  a  legitimidade  da  prestação  deste  tipo  de  serviço  através  de  Fl. 16613DF CARF MF     104  pessoa jurídica, mormente quanto esta apresenta adequada substancia, como o caso da Neymar  Sport.  n) Claro S/A ­ fl. 1.227  De início, a fiscalização aponta que o objeto deste contrato seria a “prestação  de serviços artísticos pelo ESPORTISTA” e ressalta a impropriedade do termo utilizado.  A  fiscalização  conclui  que,  de  acordo  com  o  objeto  e  demais  termos  do  contrato firmado com a Claro, restaria comprovado que o objeto do contrato foi a prestação de  serviços de publicidade (propaganda e marketing), viabilizadas com a utilização da imagem do  atleta. As obrigações constantes do referido contrato seriam de caráter personalíssimo, somente  podendo ser executadas pelo atleta, já que se tratariam de obrigações de fazer.  Conforme  mencionado  acima,  a  inclusão  de  cláusulas  que  envolvem  obrigações personalíssimas não invalida a participação da Neymar Sport, assim como nenhuma  das demais cláusulas citadas pela fiscalização.  o) Tots Toys/Rede Bom dia ­ fl. 2.474  A  fiscalização  aponta  que,  de  acordo  com  os  documentos  de  fls.  2.474  a  2.476 e 2.484 a 2.493, o  atleta  teria  autorizado a  empresa  contratante,  a  confeccionar objeto  caricato utilizando sua imagem.  Alega  a  fiscalização  que  apesar  de  na  data  deste  contrato  (25/06/2010)  os  direitos  de  uso  da  imagem  do  atleta  pertencerem  à  Neymar  Sport  (formalmente),  ela  não  apareceria neste contrato como contratada. Seria esta mais uma demonstração de que a Neymar  Sport é uma pessoa jurídica interposta, utilizada apenas para a redução da tributação incidente  nos serviços prestados pelo jogador de futebol Neymar Jr.  Diferentemente  do  alegado  pela  fiscalização,  a  Neymar  Sport  figura  como  parte  do  contrato.  Além  disso,  conforme  mencionado  acima,  a  inclusão  de  cláusulas  que  envolvem  obrigações  personalíssimas  não  invalida  a  participação  da  Neymar  Sport,  assim  como nenhuma das demais cláusulas citadas pela fiscalização.  p) Beats electronics ­ fl. 933  De  acordo  com  a  fiscalização,  o  objeto  deste  contrato  seria  a  utilização  da  imagem e a prestação dos serviços por parte do atleta. Todavia, apesar da prestação de serviços  ser pessoal (personalíssima), executada pelo atleta, a remuneração seria auferida pela Neymar  Sport.  Aduz  a  fiscalização  que,  tendo  em  vista  que  os  pagamentos  são  feitos  à  Neymar  Sport,  que,  de  fato,  não  prestaria  serviço  algum  (somente  emitiria  a  nota  fiscal),  a  contratada  teria  redigido uma cláusula para  se  resguardar  ao  atribuir  a  responsabilidade para  que  a Neymar  Sport  efetue  ao  atleta  os  pagamentos  relativos  à  remuneração  pelos  serviços  prestados.  Quanto ao tipo de serviço a ser prestado ter natureza personalíssima, o item  C.1.5.1  acima  já  tratou  sobre  a  legitimidade  da  prestação  deste  tipo  de  serviço  através  de  pessoa jurídica, mormente quanto esta apresenta adequada substancia, como o caso da Neymar  Sport.  Fl. 16614DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 54          105  C.2) Omissão de rendimentos de fontes situadas no exterior, oriundos do  direito  de  preferência/direitos  federativos  e  econômicos  futuros  pagos  pelo  Barcelona  tributados na N&N Consultoria  Todas  as  negociações  relativas  à  futura  transferência  de  Neymar  Jr.  ao  Barcelona, ocorreram no ano de 2011 e foram levadas a cabo pela empresa N&N Consultoria.  Tal pessoa  jurídica foi constituída em 18 de outubro de 2011 (data de protocolo do Contrato  Social na JUCESP) e conforme seu contrato social  tinha como objeto consultoria esportiva e  empresarial:  CLÁUSULA SEGUNDA – OBJETO SOCIAL  A  sociedade  tem  por  objetivo  social  "CONSULTORIA  ESPORTIVA E EMPRESARIAL" representação; assessoria e  participações empresarial e esportiva. (grifei)  C.2.1)  Contrato  de  consultoria  esportiva:  N&N  Consultoria  x  Neymar  Jr.­ 27/04/2011  Para fins de representação de Neymar Jr., a N&N Consultoria celebrou com o  mesmo os seguintes instrumentos:  27/04/2011  –  Instrumento  Particular  de  Contrato  de  Consultoria  Esportiva  (fls. 10.105 e segs).  10/11/2011  –  Aditamento  para  que  a  N&N  Consultoria  negociasse  e  recebesse diretamente do  clube  europeu o valor  relativo  a opção  futura  de  transferência  (fls.  10.110 e segs).  25/03/2014 – Distrato do contrato datado de 27/04/11 que corrige a data do  contrato original para 27/10/11 em substituição a 27/04/11, e concede quitação recíproca, pois  os resultados foram alcançados com sucesso.  Para melhor entendimento do escopo contratual, vale transcrever as cláusulas  primeira e terceira do Instrumento Particular de Contrato de Consultoria Esportiva (fls. 10.111  e 10.112):  CLAUSULA PRIMEIRA ­ DO OBJETO: o presente Contrato tem  por objeto a prestação, por parte da contratada, de serviços de  consultoria  esportiva  em  geral  e  de  planejamento  da  carreira  do ATLETA, sempre objetivando o bom desenvolvimento de suas  atividades  pessoais  e  profissionais  e  a  otimização  de  seus  resultados  e  escolhas  esportivas  bem  como  o  planejamento  e  organização  de  sua  agenda  de  compromissos  pessoais  e  profissionais  e a  contratação de  serviços necessários para seu  cumprimento,  bem  como  o  direito  de  negociar  e  concluir  quaisquer  negócios  que  envolvam  a  sua  transferência  para  clubes  europeus  na  condição  de  free  agent,  podendo  em  seu  nome  e  em  seu  favor  fixar  salário,  remuneração, dentre  outros  direitos decorrentes do novo vinculo contratual.(...) (grifei)  CLAUSULA  TERCEIRA  ­  DA  REMUNERAÇÃO:  Em  contraprestação aos serviços prestados, o ATLETA, concede a  Fl. 16615DF CARF MF     106  CONTRATADA,  o  direito  de  receber  diretamente  do  Clube  Europeu que venha a ser aceito pelo mesmo,  todos os valores  eventualmente  decorrentes  da  sua  condição  de  free  agent,  somente se restarem cumpridos todos os objetivos estabelecidas  (sic) na CLAUSULA PRIMEIRA, parágrafo primeiro.(grifei)  C.2.1.1) Simulação: Data do contrato x emissão do CNPJ  Em  relação  aos  contratos  acima  mencionados,  as  autoridades  fiscais  argumentam que em 27/04/2011, data do primeiro instrumento celebrado, a N&N Consultoria  nem  existiria,  já  que  o  Contrato  Social  foi  protocolado  na  Junta  Comercial  de  São  Paulo  ­  JUCESP em 18/10/2011.  Sustenta que a N&N Consultoria teria corrigido essa “falha”, por meio de um  “distrato”, celebrado no dia 25/03/2014 (após o início da ação fiscal), alegando “erro formal”  na data aposta nos contratos  realizados  (tanto do  Instrumento Particular originário quanto do  Aditamento  celebrado). Afirmou que  a  data  correta  em que  o  referido  contrato  fora  firmado  seria a de 27/10/2011.  Vale  transcrever, nesse sentido, as cláusulas primeira e segunda do Distrato  (fls. 10.116):  Clausula Primeira ­ Da correção formal: Antes de pronunciar a  quitação recíproca, as partes, por mera liberalidade, ratificam a  data  que  foi  inserida  no  contrato  originário  e  reproduzida  no  aditamento,  em  relação  a  data  da  assinatura  do  instrumento,  tendo em vista que o termo inicial do contrato é, na realidade,  27 de outubro de 2011 e não 27 de abril de 2011,  tratando­se  apenas  de  um  erro  de  digitação,  formal,  portanto,  que  fica  expressamente corrigido.  Clausula  Segunda  ­  Da  quitação  recíproca:  Tendo  o  contrato  sido  executado  com sucesso,  com o  alcance mutuo  de  todos  os  objetivos  traçados,  por  conta  do  presente  distrato  as  partes  outorgam,  mutua  e  reciprocamente,  a  mais  ampla  e  geral  quitação  quanto  ao  objeto  do  contrato  e  seu  respectivo  aditamento,  nada  tendo  a  reclamar  uma  da  outra,  a  qualquer  titulo. (grifei)  Dessa  forma,  de  acordo  com  a  fiscalização,  tal  instrumento  teria  sido  simulado,  nos  termos  do  Art.  167,  parágrafo  1º,  inciso  III  do  Código  Civil18,  pois  embora  alegadamente datado de 27 de outubro de 2011, já continha o CNPJ da empresa, o qual só teria  sido emitido pela JUCESP em 17 de novembro de 2011, sendo, portanto, antedatado.  Alega a defesa do contribuinte, em contrapartida, que a N&N Consultoria já  gozaria de personalidade  jurídica desde outubro de 2011, data em que  teria  levado a  registro  seus atos constitutivos, portanto, estaria legitimada, assim, a celebrar o contrato. Sustenta que,  neste caso, as partes teriam inserido no contrato a data em que pretendiam que ele tivesse sido  assinado  e  quando  já  se  sentiam  vinculadas, mas  que,  por motivos  alheios  a  seu  controle,  a  assinatura teria ocorrido alguns dias depois.                                                              18 Art.  167.  É  nulo  o  negócio  jurídico  simulado, mas  subsistirá  o  que  se  dissimulou,  se  válido  for  na  substância  e  na  forma.  §  1o Haverá simulação nos negócios jurídicos quando: (...) III ­ os instrumentos particulares forem antedatados, ou pós­datados.          Fl. 16616DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 55          107  Dessa  forma,  apesar  de  antedatado,  o  contrato  não  poderia  ser  considerado  como fraude visto a ausência de dolo, elemento intrínseco da simulação.  A defesa do contribuinte refuta as alegações da fiscalização de que a variação  de dias teria o condão de alterar fatos geradores futuros e considerar nulos estes contratos para  fins fiscais, visto que a diferença de datas é irrelevante para arrecadação dos tributos. Frisa que  as dúvidas levantadas pelo fisco são apenas em relação às datas e não ao conteúdo do contrato  que permanecem válidos nos termos do próprio art. 167 do CC/02.  ***  Tendo em vista todo o acima exposto, não se pode negar que o instrumento  analisado foi antedatado, nos moldes do artigo 167, parágrafo 1º, III do Código Civil/02, tendo  em vista  que  foi  assinado  antes  de 17/11/2011  (data  de  emissão  do CNPJ), mas  já  continha  menção do CNPJ da N&N Consultoria.  Em uma análise superficial, seria possível, portanto, entender que o negocio  jurídico foi simulado e considerado nulo para efeitos legais em consequência. No entanto, antes  de considerar nulos seus efeitos, sobretudo para fins ficais, é necessário avaliar a real vontade  das  partes  e  eventual  intenção  em  prejudicar  terceiros,  mormente  a  Fazenda  Pública,  em  respeito à aplicação do próprio art. 167 do CC/02, invocado pela fiscalização.  C.2.1.2) Vontade e intenção das partes  Não obstante  serem o contrato e  seu aditivo antedatados, conforme alegado  pela defesa do contribuinte, as partes contratantes deixam clara sua intenção de contratar, o que  é corroborado pelo sucesso nas negociações de transferência do atleta, assinatura do Barcelona  com a N&N Consultoria, recebimento por esta última dos valores relacionados à transferência  e  ausência  de  qualquer  insurgência  de  Neymar  Jr.  quanto  a  estes  fatos  –  na  verdade,  pelo  contrario, o atleta é parte contratante no contrato celebrado entre Barcelona e N&N Consultoria  (fl. 10.367).  Vejamos  alguns  extratos  deste  segundo  contrato  (Barcelona  x  N&N  Consultoria) que corrobora  a  real  vontade  e  intenção de Neymar  Jr.  em  ceder  seu direito de  preferência,  conferindo  legitimidade  à  N&N  Consultoria  em  negociar  tal  direito  com  o  Barcelona:  Que,  igualmente,  o  JOGADOR  assinou  um  acordo  com  a  N&N, em virtude do qual cedeu os direitos econômicos futuros,  uma  vez  que  venha  a  ocorrer  a  condição  de  free  agent,  pela  qual  a  referida  sociedade,  disporá  dos  direitos  econômicos  de  contratação,  assim  como  o  direito  exclusivo  de  decidir  e  determinar  o  clube  ou  entidade  esportiva  com  a  qual  o  JOGADOR  deverá  estabelecer  sua  nova  condição  trabalhista  como jogador de futebol profissional, com o direito da referida  sociedade  de  receber  o  pagamento  que,  por  tais  direitos  econômicos e direito exclusivo de decisão,  sejam estabelecidos  com o  terceiro  clube ou entidade  esportiva nas  condições  que  lhe sejam convenientes. (grifei)  Ou  seja,  uma  vez  comprovada  que  a  intenção  do  contrato  celebrado  entre  Neymar Jr. e N&N Consultoria era realmente a de ceder o direito de preferência à empresa, a  Fl. 16617DF CARF MF     108  mera indicação de data anterior não tem o condão de atrair nulidade ao negócio jurídico, tendo  em  vista  que  a  data  seria  um  elemento  acessório  no  que  se  refere  à  validade  dos  contratos,  mormente quando não acarreta em qualquer consequência jurídica.  Em  termos  tributários,  o  documento  analisado  ser  antedatado  em  nada  significou vantagem, já que não houve realização de fato gerador entre a assinatura do contrato  (seja  27/04/2011,  27/10/2011  ou  mesmo  17/11/2011)  e  a  obtenção  do  CNPJ  da  N&N  Consultoria (17/11/2011).  Em verdade, o primeiro fato gerador,  indiretamente advindo do contrato em  análise, somente ocorre no dia 15/12/2011, no recebimento do valor de €10 milhões, conforme  pactuado  em  contrato  de  empréstimo  em  06/12/2011  celebrado  entre  N&N  Consultoria  e  Barcelona. Ou seja, a diferença de datas é irrelevante para fins de arrecadação tributária.  Sou  da  opinião  de  que  as  partes  contratantes  deixam  clara  sua  intenção  de  contratar e que o transcurso do tempo caracterizado pela efetiva representação de Neymar Jr.  pela  empresa  N&N  Consultoria  é  indubitável,  consagrando  a  vontade  das  partes  no  caso  debatido.  Em outras palavras, não há o que se falar em simulação no presente caso, ou  pelo menos, não aquela passível de imputar nulidade aos efeitos tributários do negócio jurídico  celebrado, com base no art.167, parágrafo 1º, inciso III do CC/02.  No  entanto, mesmo  que  considerado  o  contrário,  estabelece  o  artigo  citado  que subsistirá o que se dissimulou, se válido for na substância e na forma. Como por negócio  dissimulado  entende­se  aquele  que  efetivamente  se  queria  celebrar,  mas  foi  oculto  pela  simulação, cai­se mais uma vez na mesma conclusão, ou seja, que se a vontade das partes era  de que o direito de preferência fosse explorado pela N&N Consultoria, deve ser este respeitado  tendo em vista, ser o contrato válido, ainda, em sua forma.  C.2.1.3) Formalidades: Registro Público  De  acordo  com  os  argumentos  já  exposados  no  item  C.1.2.3,  considero  o  negócio jurídico legítimo a projetar seus efeitos jurídicos tributários, não havendo sustento nos  argumentos  trazidos  pelas  autoridades  fiscais  de  que  a  falta  de  formalidades  contratuais,  mormente registro público, desqualificaria o acordo celebrado entre as partes.  C.2.2)  Contrato  de  opção  de  contratação  futura:  N&N  Consultoria  x  Barcelona ­ 15/11/2011  Em 15/11/2011 foi celebrado o primeiro contrato entre a N&N Consultoria, o  Neymar Jr. e o Barcelona (fls. 10.637 e segs) cujo objeto foi a opção de contratação futura, que  consistia na faculdade do Barcelona adquirir os direitos federativos e econômicos do jogador  quando estive estivesse na condição de "free agent".  A remuneração acordada foi de € 40 milhões, a ser pago da seguinte forma: i)  €10.000.000  como  compensação  da  amortização  de  empréstimo  a  ser  concedido  a  empresa  N&N Consultoria e; ii) €30.000.000 no momento em que o jogador se tornaria free agent.  Vale destacar que a clausula sétima do contrato dispunha que caso qualquer  das partes descumprisse o acordo deveria pagar à outra parte uma clausula penal compensatória  no valor de € 40 milhões.  Fl. 16618DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 56          109  Alega a  fiscalização que o contrato celebrado entre a N&N Consultoria e o  Barcelona, trataria­se de negociação de uma futura transferência do atleta, como uma espécie  de direito de preferência.  As autoridades fiscais repisam que este contrato teria sido pactuado em data  (15/11/2011)  em que  a N&N Consultoria  ainda  não  poderia  ser  titular do mesmo,  tendo  em  vista  que  o  contrato  entre  a  esta  e Neymar  Jr.  ainda  não  teria  sido  celebrado,  pois  neste  já  constava ao CNPJ da N&N Consultoria, que somente teria sido emitido em 17/11/2011.  As  autoridades  concluem,  portanto,  que  a  N&N  Consultoria  somente  foi  constituída para que o pagamento do Barcelona fosse tributado por pessoa jurídica.  A defesa  do  contribuinte,  por  sua  vez,  argumenta  que o  contrato  celebrado  por Neymar Jr. junto à N&N Consultoria teria como objetivo o desenvolvimento de um plano  de  carreira  a  longo  prazo,  visando  oportunidades  a  partir  de  2014,  quando  ele  estaria  desvinculado do Santos.  A defesa do contribuinte sustenta que, em novembro de 2011, como o atleta  não tinha pretensão de renovar o contrato de trabalho após 2014, o Santos concedeu a Neymar  Jr.  uma  autorização  para  que  ele  pudesse  negociar  seus  direitos  econômicos  e  federativos  quando encerrasse seu compromisso com o Santos (na condição de  free agent). Dessa forma,  mediante anuência do Santos, a N&N Consultoria concedeu uma opção futura ao Barcelona de  contratar o  jogador quando o seu vínculo com o Santos expirasse. Argumenta que  tal prática  está de acordo com o direito desportivo e nunca foi questionada pela FIFA ou CBF.  C.2.2.1) Objeto: Cessão de direitos econômicos futuros  Em relação ao objeto do contrato, as autoridades fiscais alegam que, pelo que  foi  pactuado,  a  N&N  Consultoria  garantiu  ao  Barcelona  a  cessão  dos  direitos  econômicos  futuros  que  possui  com o  jogador  com a  finalidade  da  contratação do  jogador  para  a  sua  incorporação à primeira equipe do FC Barcelona, a partir da data em que o jogador tenha a  condição de free agent, e, em todo o caso, até o dia 25 de agosto de 2014, com aquisição pelo  Barcelona,  no  referido  momento,  da  totalidade  dos  direitos  federativos  e  econômicos  do  jogador, cuja propriedade naquele momento seria da N&N Consultoria (fls. 4.006 a 4.031).  A fiscalização alega que pela atual legislação do futebol brasileiro não mais  existiria a figura do passe, previsto no artigo 11 da Lei nº 6.354/76. O passe foi extinto pelo  artigo 28 da Lei nº 9.615/98, conhecida como “Lei Pelé”, que estabeleceu, em seu parágrafo 5º,  que  o  vínculo  desportivo  tem  natureza  acessória  ao  contrato  de  trabalho  e  se  extingue  juntamente com este. Aduz que a Lei Pelé teria substituído o "passe" por uma cláusula penal  para o caso de rompimento ou rescisão do contrato de trabalho, a qual seria reduzida a cada ano  de cumprimento do acordo.  Nesse  sentido,  afirma a  fiscalização que a  lei  retromencionada  teria,  assim,  beneficiado  os  atletas  que,  após  encerrado  o  vínculo  contratual,  ganhariam  "passe  livre",  no  linguajar  futebolístico.  Ou  seja,  com  o  decurso  normal  do  prazo  do  contrato,  nenhuma  indenização compensatória  seria devida por quaisquer dos contratantes,  ficando o atleta  livre  para se transferir para outro clube independentemente do pagamento de qualquer valor ao seu  ex­clube.  Fl. 16619DF CARF MF     110  As autoridades fiscais defendem que, a partir dessa mudança, teria surgido no  futebol a figura do “direito econômico”, que seria uma compensação financeira que um clube  receberia para abrir mão do contrato que tem com um atleta, liberando­o para jogar por outra  equipe. Dessa  forma, o  direito  econômico estaria atrelado  ao direito  federativo, que,  por  sua  vez, estaria atrelado ao vínculo empregatício (contrato de trabalho entre o atleta e um clube).  Dessa forma, concluem as autoridades fiscais que o “acordo” celebrado entre  a N&N Consultoria e o Barcelona não poderia estabelecer a “futura transferência dos direitos  federativos  e  econômicos  do  atleta” a partir  da data  em que  este  tivesse  a  condição de “free  agent", já que não existiriam direitos federativos e econômicos após o término do contrato de  trabalho.  Ou  seja,  o  acordo  com  o  Barcelona,  entabulado  em  15/11/2011,  para  futura  transferência  do  atleta  para  aquele  clube,  não  poderia  se  referir  à  compra  dos  direitos  econômicos do jogador, pois na referida data estes pertenceriam ao Santos e empresários.  Por outro lado, as autoridades fiscais alegam que mesmo admitindo­se tratar­ se de negociação de uma futura transferência do atleta para o Barcelona, como uma espécie de  direito de preferência, ainda assim esse direito não seria da N&N Consultoria, tendo em vista  que quando o acordo foi pactuado com o Barcelona, no dia 15/11/2011, o contrato em que o  atleta teria passado esse direito para a N&N Consultoria ainda não havia sido efetuado, já que,  conforme  teria  sido  demonstrado,  o  mesmo  não  poderia  ter  sido  efetuado  antes  do  dia  17/11/2011, data em que a N&N Consultoria teria obtido o seu CNPJ, cujo número já constaria  no mencionado contrato.  Em  contrapartida  aos  argumentos  da  fiscalização  mencionados  acima,  a  defesa  do  contribuinte  faz  algumas  considerações  a  respeito  do  termo  "direitos  federativos",  "direitos econômicos" e "jogador livre" ou free agent.  Aduz  a  defesa  do  contribuinte  que,  com  o  advento  da  Lei  9.615/98  ("Lei  Pele"),  teria  sido  extinta  a  figura  do  "passe"  na  forma  como  prevista  no  Artigo  11  da  Lei  6.354/76  –  já  revogada,  e  que  deixaria  o  atleta  à  mercê  da  conveniência  de  um  clube,  prejudicando  sobremaneira  sua  carreira  desportiva.  Desta  forma,  a  partir  do  advento  da  Lei  Pelé teria surgido o conceito de "jogador livre" ou "free agent", que corresponderia à faculdade  do atleta de livremente optar por um clube de sua escolha para celebrar um novo contrato de  trabalho  após  o  término  do  corrente,  sem  que  qualquer  valor  fosse  devido  ao  antigo  clube  empregador.  Prossegue  a  defesa  do  contribuinte  defendendo  que,  por  sua vez,  quando o  atleta celebra um novo contrato de trabalho com uma nova agremiação, ele vincularia os seus  direitos  federativos  a  esse  novo  clube.  A  esse  respeito  esclarece  que  "direitos  federativos  seriam aqueles adquiridos pelo clube empregador, que passaria a deter o vínculo desportivo do  atleta  após  o  registro  do  contrato  de  trabalho  na  confederação".  Já  os  direitos  econômicos  nasceriam  desse  vínculo,  consistindo  na  receita  econômica  futura  e  eventual,  decorrente  da  cessão provisória (empréstimo) ou definitiva dos direitos federativos, em razão da existência de  contrato de trabalho e cláusula indenizatória."  Desse modo, concluem as peças de defesa que apesar dos direitos federativos  estarem  originalmente  vinculados  ao  clube  empregador  do  atleta,  o  resultado  natural  dos  direitos  federativos seriam os direitos econômicos e que seriam considerados como um ativo  do clube (quando o atleta estivesse vinculado sob contrato de  trabalho com um clube) ou do  atleta (quando o atleta estivesse usufruindo a condição de “free agent”).  A  defesa  do  contribuinte  assevera  que  teria  sido  neste  sentido  que  a N&N  Consultoria  teria  sido  contratada  para  potencializar  o  seu  plano  de  carreira  e  respectivos  Fl. 16620DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 57          111  direitos  econômicos  futuros  quando  ele  já  estivesse  desvinculado  do  Santos  e,  portanto,  usufruindo do  status de  “free agent". Caberia  à N&N Consultoria negociar  tais direitos  com  terceiros, de forma a maximizá­los, justamente o que teria levado a empresa a entrar em acordo  com opção futura para o Barcelona.  A defesa do contribuinte menciona, ainda, que todas as tratativas feitas com  Barcelona  teriam ocorrida mediante  a anuência  expressa do Santos  e nos  termos  autorizados  pela FIFA. A esse respeito, junta interessante parecer emitido pelo Sr. Paolo Lombardi, antigo  responsável pelo Departamento de Governança e Disciplina da FIFA.  ***  Tendo em vista todo o acima, passa­se a análise do objeto contratual. Nesse  sentido, vale, primeiramente, transcrever as disposições relativas constantes no contrato:  Todas as partes reconhecendo­se na capacidade necessária para  a outorga do presente contrato,  MANIFESTAM  Que o Santos FC é o pleno e legitimo titular de todos os direitos  federativos  do  JOGADOR,  direitos  que  não  se  encontram  gravados  nem  limitados  por  nenhum  acordo  com  terceiros  embora o JOGADOR tenha chegado a um acordo com o Santos  FC para rescindir seu contrato no verão europeu de 2014, época  em que o JOGADOR terá a condição de free agent e, portanto,  poderá dispor de todos os seus direitos federativos e econômicos  Para  estes  efeitos,  agrega­se  como  Anexo  I  a  este  contrato,  copia  da  clausula  do  contrato  de  trabalho  assinado  entre  Santos FC e o JOGADOR, e autoriza o JOGADOR, para que,  em  relação  ao  artigo  18.3  do  Regulamento  sobre  Estatuto  e  Transferência de Jogadores da FIFA, possa a partir de agora  negociar  ele,  ou  quem  tenha  os  direitos  econômicos,  sua  incorporação  a  outro  clube  a  partir  da  referida  data,  com  cessão ao referido terceiro clube de todos os direitos federativos  e econômicos do JOGADOR, assim como a assinar a partir de  agora, qualquer acordo ou contrato neste sentido, nos termos e  condições  que  o  JOGADOR  ­  e;ou  quem  tenha  os  direitos  econômicos  ­  e  o  terceiro  clube  estabelecerem,  e  sem  a  necessidade de que algum deles tenha que comunicar ao Santos  FC  a  respeito  de  tais  negociações  ou  dos  termos  do  acordo  definitivo.  Que, igualmente, o JOGADOR assinou um acordo com a N&N,  em virtude do qual cedeu os direitos econômicos futuros, uma  vez que venha a ocorrer a condição de free agent, pela qual a  referida  sociedade,  disporá  dos  direitos  econômicos  de  contratação,  assim  como  o  direito  exclusivo  de  decidir  e  determinar  o  clube  ou  entidade  esportiva  com  a  qual  o  JOGADOR  deverá  estabelecer  sua  nova  condição  trabalhista  como jogador de futebol profissional, com o direito da referida  sociedade  de  receber  o  pagamento  que,  por  tais  direitos  econômicos  e  direito  exclusivo  de  decisão,  sejam  estabelecidos  Fl. 16621DF CARF MF     112  com o terceiro clube ou entidade esportiva nas condições que lhe  sejam convenientes.  Que  é  interesse  do  FC  Barcelona  adquirir  todos  os  direitos  federativos  e econômicos do  JOGADOR a partir da  temporada  2014/15  isto  é,  a  partir  do  momento  de  extinção  do  atual  contrato  de  trabalho  entre  o  JOGADOR  e  o  Santos  FC,  formalizando  o  correspondente  contrato  de  trabalho  com  o  JOGADOR por um período de cinco temporadas, ou seja, até 30  de Junho de 2019.  Que N&N e o FC Barcelona chegaram a um acordo, pelo qual  a primeira garante a segunda a cessão dos direitos econômicos  que  possui  em  relação  ao  JOGADOR,  com  a  finalidade  de  contratação do JOGADOR para a sua incorporação a primeira  equipe do FC Barcelona a partir da data em que o JOGADOR  tenha a condição de free agent e, em todo o caso, até o dia 25 de  agosto  de  2014,  com  aquisição  pelo FC Barcelona  no  referido  momento da totalidade dos direitos federativos e econômicos do  JOGADOR, propriedade naquele momento da N&N.(grifei).  Verifica­se  pela  leitura  do  trecho  acima  transcrito  que  há  reconhecimento  pelas partes de que os direitos federativos pertencem ao Santos e que o objeto pactuado trata  dos direitos econômicos de Neymar Jr. quando este se tornar “free agent".  Conforme  mencionado  no  trecho  acima,  o  Regulamento  sobre  Estatuto  e  Transferência  de  Jogadores  da  FIFA  determina  que  quando  houver  pretensão  de  nova  celebração contratual deve­se informar ao clube atual19.  A comprovação de tal informação e autorização do Santos se deu através de  oficio emitido pelo clube em 08/11/2011, vejamos:  Santos FUTEBOL CLUBE, associação civil e recreativa sem fins  lucrativos  estabelecida  na  cidade  de  Santos,  Estado  de  São  Paulo,  na  Rua  Princesa  Isabel,  s/n  ­  Vila  Belmiro,  inscrita  no  CNPJ/MF. sob no 58.196.684/0001­ 29, vem por meio deste, nos  termos  do  artigo  18.3  da  Regulations  on  the  Status  and  Transfer  of Players  da Federation  Internacionale  de Football  Association  (FIFA),  informar  expressamente  que  concorda  e  autoriza  o  Atleta  Neymar  a  iniciar,  desde  já,  tratativas  com  quaisquer  entidades  de  prática  desportiva,  nacionais  ou  internacionais,  podendo  concretizar  eventual  transferência,  desde  que  isso  somente  ocorra  a  partir  de  2014  e  respeite  os  termos do contrato mentido com Santos Futebol Clube. (grifei)  Nesse  sentido,  há  congruência  na  vontade  de  todas  as  partes  envolvidas  quanto à possibilidade de negociação dos direitos  econômicos  futuros de Neymar Jr. quando  este alcançar sua condição de “free agent", ou seja, quando do fim do vínculo laboral com o  Santos.                                                              19 Art. 18.3 O clube que pretenda celebrar um contrato com um jogador profissional deve, em momento prévio às  negociações e por escrito, informar o clube atual do jogador.(Tradução livre)  Art. 18.3   A club  intending  to conclude a contract with  a professional must  inform  the player’s current club  in  writing before entering into negotiations with him.   http://www.fifa.com/mm/document/affederation/administration/regulations_on_the_status_and_transfer_of_playe rs_en_33410.pdf     Fl. 16622DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 58          113  Tendo  em  vista,  ainda,  que  não  foi  trazido  aos  autos  pela  fiscalização  a  legislação  que  proíba  tal  objeto  contratual  (pelo  contrário,  foi mencionada  normativa  – Art.  18.3  do  Regulamento  da  FIFA  –  que  condiciona  a  possibilidade  de  negociação  mediante  anuência do Santos, clube cujo contrato estava em vigor à época), e que tal consentimento foi  concedido  previamente  à  celebração  do  acordo  entre  N&N  Consultoria  e  Barcelona,  não  identifica­se qualquer vício de objeto na contratação ora analisada.  Em  conclusão,  prevalece  a  autonomia  de  vontade  das  partes  na  forma  admitida  pela  legislação  desportiva,  seja  na  denominação  dada  de  “cessão  de  direitos  federativos  e  econômicos  futuros”  ou  mesmo  “cessão  de  direito  de  preferência”  conforme  considerado pela autoridade fiscal, não importando tal denominação aos efeitos tributários do  caso ora analisado.  C.2.3) Empréstimo entre Barcelona e N&N Consultoria  Em 06/12/2011,  foi celebrado entre Barcelona e N&N Consultoria Contrato  de empréstimo (fls. 10393 e segs.) no valor de €10 milhões, cuja menção havia sido feita na  cláusula quarta do primeiro contrato celebrado entre as partes em 15/11/2011.  Em  relação  ao  empréstimo,  a  autoridade  fiscal  alega  que  configuraria  um  adiantamento referente à transferência de Neymar Jr. ao Barcelona.  Menciona que a N&N Consultoria não teria capital financeiro ou econômico  para  devolver  os  €10.000.000,  e  que  esse  seria  o  motivo  que  explica  porque  o  Barcelona  contratou uma apólice de seguro para garantir o recebimento do valor emprestado em caso de  ocorrência de alguma das hipóteses de ressarcimento previstas (lesão ou morte do atleta).  Ressalta que a N&N Consultoria apenas teria recolhido o IOF incidente nas  operações de crédito no dia 28/03/2014, ou seja, após a ciência do Termo de Início da Ação  Fiscal, ocorrida em 12/03/2014.  Argumenta  que  a  N&N  Consultoria  não  teria  justificado  a  necessidade  de  contratação do  referido empréstimo nem mesmo utilizou seus recursos na consecução de seu  objeto social. De forma contrária, teria repassado o mesmo valor recebido pelo Barcelona aos  seus sócios logo após o recebimento do mesmo.  A  defesa  do  contribuinte,  por  sua  vez,  alega  que  são  infundadas  as  ilações  realizadas com o intuito de descaracterizar o negócio jurídico. Argumenta, ainda, que existem  documentos comprovando as transações envolvidas, quais sejam:  i) crédito na conta da N&N Consultoria em 15/02/2012 de €10.000.000;  ii) quitação do contrato mútuo pelos sócios na conta da N&N Consultoria em  01/09/2014 e remissão da dívida contraída pela N&N Consultoria e Barcelona. Destaca ainda  que  todos  os  efeitos  tributários  das  transações  foram  devidamente  reconhecidos  e  tributos  pagos (IOF, ganho de capital, rendimentos de aplicação financeira).  Em relação ao empréstimo, sustenta que este reforçaria a obrigação da N&N  Consultoria e seria um desmotivador para negociação com outros clubes.  Fl. 16623DF CARF MF     114  Alega, ainda que a cláusula  relativa ao seguro de vida ou  lesão permanente  do atleta seria previsão padrão em qualquer contrato de prestação de serviços com esportistas.  A PGFN, por sua vez, alega a existência da Cláusula Sétima, segundo a qual  a parte descumpridora da obrigação de subscrever o contrato futuro do atleta, na qualidade de  “free agent”, deveria pagar à outra parte o montante de € 40 milhões.  Argumenta  a  PGFN  que,  tendo  em  vista  esta  clausula,  se  o  Barcelona  contratasse  o  atleta  diretamente  junto  ao  Santos  –  o  que  efetivamente  ocorreu  –  também  restaria  configurado  o  descumprimento  contratual,  de  modo  que  caberia  ao  Barcelona  “indenizar” a N&N Consultoria.  Sustenta a PGFN que, desta forma, o empréstimo seria uma simulação, pois  uma parcela do valor de 40 milhões de euros, o equivalente a 10 milhões de euros seria “paga”  via compensação do empréstimo contraído pela N&N Consultoria junto ao Barcelona. Ou seja,  seria uma forma de encontro de contas.  Destaca  a  PGFN  mais  um  elemento  que  reforçaria  a  descaracterização  do  “empréstimo”,  qual  seja:  o  seguro  contratado  a  fim  de  proteger  o  Barcelona  em  caso  de  sinistros. Questiona a necessidade de uma apólice de seguro para cobrir riscos que já estariam  cobertos pela obrigação, assumida pela N&N Consultoria, de ressarcir os € 10 milhões pagos  pelo Barcelona.  Em outras palavras, alega a PGFN que o “empréstimo” seria inevitavelmente  quitado,  mas  nunca  com  recursos  da  própria  N&NConsultoria,  pois  haveria  ou  uma  compensação ou a utilização da apólice de seguro.  Esses seriam os motivos da PGFN que levariam a acreditar que o valor de €  10 milhões, recebido pela N&N Consultoria, teria sido, em verdade, adiantamento de parte do  valor pactuado para ter a preferência do atleta na sua futura contratação, e não um empréstimo.  ***  Mesmo que o empréstimo de € 10 milhões, recebido pela N&N Consultoria,  se  tratasse,  em  verdade,  de  adiantamento  de  parte  do  valor  pactuado  para  o Barcelona  ter  a  preferência de Neymar Jr. na sua futura contratação, tal reclassificação de receita somente teria  impacto  fiscal  na  N&N  Consultoria  caso  esta  fosse  considerada  como  empresa  interposta,  sendo desconsiderada sua personalidade jurídica para fins de atingir seus sócios.  Em  outras  palavras,  a  eventual  reclassificação  do  empréstimo  em  adiantamento do direito de preferência não implica em infração tributária por parte de Neymar  Jr., uma vez que este cedeu  legitimamente  seus direitos  federativos e econômicos  futuros ou  direito de preferência a N&N Consultoria.  C.2.4) Indenização recebida pela N&N Consultoria  Em  31/05/2013  foi  celebrado  acordo  entre  o  Barcelona  e  o  Santos  para  transferência  do  atleta  ao  clube  europeu,  tendo  como  contrapartida  o  pagamento  de  €17  milhões. Desse modo, encerrou­se o vínculo de Neymar Jr. com o Santos ainda na vigência do  contrato de trabalho.  Tendo em vista a celebração deste contrato,  foi reconhecido pelo Barcelona  em 03/06/2013 o descumprimento do acordo de opção futura celebrado em 15/11/2011 com a  Fl. 16624DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 59          115  N&N Consultoria. A clausula indenizatória, foi, portanto, executada no valor de € 40 milhões à  N&N Consultoria.  De  acordo  com  a  fiscalização,  este  acordo  entre  a  N&N  Consultoria  e  o  Barcelona  não  passa  de  uma  simulação.  Questiona  qual  seria  o  fato  que  justificaria  o  pagamento de indenização, tendo em vista o atleta foi contratado pelo Barcelona nas condições  pactuadas anteriormente.  Argumenta  que  o  fato  do  Barcelona  ter  se  antecipado  à  contratação  de  Neymar Jr. junto ao Santos não mudou as condições pactuadas anteriormente com o jogador,  mas apenas a situação entre o Barcelona e o Santos, já que se o Barcelona esperasse o término  do contrato com o Santos nada teria que pagar a este clube.  Note­se que tudo foi orquestrado para que o valor de € 40 milhões fosse pago  a  uma  pessoa  jurídica  (visando  uma  tributação  favorecida)  e  na  forma  de  indenização  por  quebra de acordo.  A  defesa  do  atleta,  por  sua  vez,  traz  a  baila  parecer  do  responsável  pelo  Departamento de Governança e Disciplina da FIFA em que este pacifica o direito legitimo da  N&N de receber a multa punitiva pelo descumprimento do Barcelona. Sustenta que a natureza  indenizatória  da  clausula  penal  paga  pelo  Barcelona  seria  é  amplamente  admitida  como  compensação por “perda de chance”.  Cita  jurisprudência  que  confirma  que  “a  teoria  da  perda  de  chance  visa  à  responsabilização  do  agente  causador  não  de  um  dano  emergente,  mas  de  precisamente  da  perda de se buscar posição mais vantajosa que muito provavelmente se alcançaria, não fosse o  ato ilícito praticado.”  A PGFN, por sua vez, classifica o contrato, firmado no dia 03/06/2011, entre  o Barcelona e a N&N Consultoria como um dos contratos que compuseram o “fechamento” do  planejamento  tributário  em  03/06/2013,  neste  caso,  seria  a  justificativa  formal  para  o  pagamento  da  “indenização”  prevista  no  contrato  firmado  pelas  mesmas  partes,  no  dia  15/11/2011.  Lembra que em 08/11/2011, o presidente do Santos teria autorizado tratativas  com clubes estrangeiros. Argumenta que tal carta foi emitida quando já teriam se iniciado as  negociações  entre  o  Barcelona  e  Neymar  Jr.  Justifica  este  argumento  pois  o  arranjo  para  efetivar  a  transferência  já  estava  em  curso:  (a)  constituição  da  N&N  Consultoria  em  18/10/2011;  (b)  contrato  firmado  com a N&N Consultoria,  no  qual  o  jogador  confere  a  esta  pessoa  jurídica  todos  os  proveitos  econômicos  que  viessem  a  ser  recebidos  em  negociação  como free agent – apesar de ter sido pré­datado, isso não retira o fato de que a preparação para  repassar recursos à N&N já estava ocorrendo; (c) contrato firmado entre a N&N Consultoria e  o Barcelona, prevendo o pagamento de “futuros direitos econômicos” do atleta, na condição de  free agent em 15/11/2011.  ***  Mesmo que o a indenização de €40 milhões, recebido pela N&N Consultoria,  se tratasse, em verdade, de efetivo pagamento pelo direito de preferência, tal reclassificação de  receita somente  teria  impacto fiscal na N&N Consultoria ou, caso este  fosse entendida como  Fl. 16625DF CARF MF     116  empresa  interposta,  em  uma  eventual  desconsideração  da  personalidade  jurídica,  nos  seus  sócios.  Em outras palavras, a eventual reclassificação da indenização em pagamento  do direito de preferência, não implica em infração tributária por parte de Neymar Jr., partindo­ se  da  premissa  que  este  cedeu  legitimamente  seus  direitos  econômicos  futuros  ou  direito  de  preferência a N&N Consultoria.  C.2.5) Substância da N&N Consultoria  Um dos argumentos trazido pela fiscalização para reclassificar as receitas da  N&N Consultoria para a pessoa física de Neymar Jr. se baseia na alegação de que a empresa  não  teria  realizado  qualquer  operação  relacionada  com  o  seu  objeto  social,  não  teria  funcionários contratados à época dos fatos apurados (com exceção dos pais do atleta e de uma  funcionária),  possuiria  baixo  capital  social  integralizado  e  não  teria  praticado  nenhuma  atividade operacional autônoma. Seria portanto,  pessoa  jurídica  interposta,  constituída com o  único objetivo de simular negócios jurídicos e reduzir carga tributária.  Além  disso,  o  fato  de  ter  obtido  seu CNPJ  em  17/11/2011  e  ter  celebrado  contratos  anteriores  a  essa data  constituiria  também  indício de negócios  jurídicos  simulados,  especialmente,  o  acordo  com  opção  de  futura  transferência  dos  direitos  federativos  e  econômicos do contribuinte ao clube Barcelona, em 15/11/2011.  Por  sua  vez,  a  defesa  do  contribuinte  alega  que  o  site  da  empresa  (www.nnconsultoria.com)  e  os  contratos  firmados  com  atletas/artistas  agenciados  por  ela  demonstrariam seu propósito negocial, sendo infundada a acusação de ausência de substância  econômica na consecução de suas atividades.  A  defesa  do  contribuinte  sustenta  o  propósito  da  constituição  da  empresa  N&N Consultoria argumentando que a partir de 2011, ano em que Neymar Jr. já tinha 19 anos,  este  já  apresentava  repercussão  nacional  e  internacional,  sendo  necessária  atenção  a  sua  carreira,  como  a  venda  futura  a  algum  time  internacional,  assim  como  atenção  às  suas  atividades  publicitárias.  Neste  contexto,  a  Neymar  Sport  não  estaria  capacitada  a  atuar  em  focos tão diversificados sendo necessária a constituição de uma estrutura mais robusta.  Segundo a defesa do  contribuinte,  a N&N Consultoria viria para  cumprir  o  papel de assistir o jogador nas escolhas de clubes, assessorá­lo nas negociações de contratos de  trabalho e participar de decisões estratégicas em relação a evolução de sua carreira. Cita como  exemplo  a  contratação  de  fisioterapeuta  e  preparador  físico,  cuja  atribuição  era  levar  o  desempenho do jogador a níveis superiores aqueles propostos pelo clube.  Em  relação  a  substancia,  a  defesa  do  contribuinte  refuta  as  alegações  das  autoridades  fiscais  de  que  a  N&N  Consultoria  não  teria  realizado  qualquer  operação  relacionada  ao  seu  objeto  social  afirmando  que  executou  diversos  serviços  de  consultoria  e  assessoria vinculados ao esporte e carreira artística de personalidades. Sustenta que a empresa  conta, ainda, com aparelhamento e estrutura condizentes com seus negócios e 20 empregados  contratados.  Em contrapartida,  a PGFN alega  que o  primeiro  indício  para  caracterizar  a  artificialidade da N&N Consultoria seria o fato de o capital social da referida pessoa jurídica  somente  ter  sido  integralizado  em  21/12/2011,  ou  seja,  após  toda  a  negociação  com  o  Barcelona.  Fl. 16626DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 60          117  A  PGFN  ressalta,  que  os  recursos  para  a  integralização  do  capital  social  teriam  sido  disponibilizados  pela Neymar Sport,  o  que  seria  uma demonstração  de  confusão  patrimonial entre as empresas.  Alega  A  PGFN  outra  evidência  da  artificialidade  da  N&N  Consultoria  baseando­se no fato que esta não ter contratado nenhum funcionário até 13/09/2013, conforme  informações  extraídas da GFIP de 12/2013 – o  que não  teria  sido  contestado pela defesa do  contribuinte.  ***  Diferentemente do caso dos contratos publicitários celebrados com terceiros  (item C.1.5 acima), aqui não se observa a necessidade de realização de qualquer atividade a ser  realizada por Neymar Jr. que necessitasse de apoio de estrutura empresarial.  Desta  forma,  para  fins  de  imputação  individual  dos  valores  recebidos,  não  importa  a  presença  dos  elementos  de  empresa  necessários  como  quando  se  trata  de  uma  prestação  de  serviços,  bastando  que  a  empresa  tenha  sido  legalmente  constituída,  o  que  é  o  caso.  Dessa forma, mesmo que seja entendido que a N&N Consultoria não possuía  substancia  ou  propósito  negocial,  isto  apenas  implicaria  em  potenciais  efeitos  tributários  perante os sócios da mesma em caso de desconsideração da personalidade jurídica.  O fato de Neymar Jr. não ser sócio da N&N Consultoria e que os negócios  jurídicos celebrados entre ele a empresa são legítimos, leva a conclusão de que não há que se  falar em qualquer tipo de infração por parte do mesmo, por uma eventual falta de substancia da  N&N Consultoria, que justifique sujeição passiva nos termos do lançamento ora debatido.  C.3) Omissão de rendimentos de fontes situadas no exterior, do trabalho  com  vínculo  empregatício  pagos  pelo  Barcelona  a  Neymar  Sport;  N&N  Consultoria  e  N&N Administração  Em  31/05/2013  foi  celebrado  acordo  entre  o  Barcelona  e  o  Santos  para  transferência  do  atleta  ao  clube  europeu. Desse modo,  encerrou­se  o  vínculo  de Neymar  Jr.  com o Santos, ainda na vigência do contrato de trabalho.  Após a contratação de Neymar Jr. pelo Barcelona em junho de 2013, foram  assinados  uma  serie  de  instrumentos  contratuais  entre  o  Barcelona  e  as  empresas  Neymar  Sport, N&N Consultoria e N&N Administração, cuja análise passa­se a realizar.  C.3.1) Contrato de Agência: Barcelona x Neymar Sport  O  Contrato  de  agência  foi  celebrado  em  30/07/2013  entre  as  empresas  Neymar Sport e Barcelona  tendo como objeto a prestação de  serviços pela Neymar Sport de  agenciamento de  profissionais  para  atividades  esportivas,  culturais  e  artísticas,  propaganda e  marketing.  De acordo com o TDF, este contrato foi omitido pela empresa, ou seja, não  foi  entregue  à  fiscalização,  que  somente  tomou  conhecimento  de  sua  existência  após  o  encaminhamento pela Justiça Espanhola, por meio do Ministério Público Federal.  Fl. 16627DF CARF MF     118  As  autoridades  fiscais  chamam  a  atenção  para  a  clausula  relativa  aos  “honorários” que comprovaria a sua fragilidade, pois apesar de o contrato ser firmado entre o  Barcelona e a Neymar Sport, por diversas vezes cita a empresa N&N Consultoria, que não faz  parte  deste  contrato.  Ademais,  o  valor  pactuado  entre  as  partes  (€800.000)  é  fixo,  independentemente  de  êxito  na  exploração  da  imagem  do  Barcelona  e  no  recebimento  de  quaisquer recursos.  Teria  restado  comprovado,  portanto,  de  acordo  com  as  autoridades  fiscais,  que os valores pagos pelo Barcelona à Neymar Sport,  a  título de “Contrato de Agência”, no  ano­calendário de 2013, pertencem, de fato, ao atleta Neymar Jr., e são decorrentes do acordo  de transferência do atleta ao Barcelona “fatiados” em diversos contratos (rubricas), tributados  indevidamente na Neymar Sport.  O  TDF  defende,  por  fim,  que  os  valores  pagos  a  Neymar  Sport  pelo  Barcelona mediante o contrato de agencia ora analisado, devem ser tributados na pessoa física  do jogador com base no art. 3º, parágrafo 1º da Lei 7.713/88.  ***  Tendo em vista o acima, o cerne da questão diz  respeito à possibilidade de  identificação entre a remuneração recebida a titulo do contrato de agencia pela Neymar Sport e  Neymar Jr.  Considerando  que  o  que  está  em  análise  conforme  auto  de  infração,  é  a  omissão de rendimentos alegadamente realizada por Neymar Jr. e que há falta de comprovação  de que os respectivos valores recebidos tiveram qualquer vinculação com atividades realizadas  pelo jogador, a análise deve ser encerrada, não merecendo aqui qualquer análise mais profunda.  Os  argumentos  trazidos  pelas  autoridades  fiscais,  de  que  tal  pagamento  decorre  do  acordo  de  transferência  do  atleta  ao  Barcelona  “fatiados”  em  diversos  contratos  (rubricas),  tributados  indevidamente  nas  empresas  do  grupo  não  procedem,  pois  carecem  de  comprovação. Me parece que tal conclusão é apenas uma conclusão intelectual extraída de um  raciocínio  indutivo  da  fiscalização,  e  não  uma  asserção  baseada  no  conjunto  probatório  dos  autos.  Sendo  assim,  uma  vez  que  não  há  qualquer  atividade  a  ser  realizada  por  Neymar Jr. em relação ao objeto contratual, Neymar Jr. não é sócio da Neymar Sport e não há  comprovação de recebeu qualquer repasse de valores da mesma, se torna impossível conectar  os valores pagos pelo Barcelona ao atleta.  C.3.2)  Contrato  de  Scouting/Arrendamento  de  serviços  profissionais:  Barcelona x N&N Consultoria  O Contrato de scouting foi celebrado em 30/07/2013 entre as empresas N&N  Consultoria e Barcelona tendo como objeto a prestação de serviços pela N&N Consultoria de  arrendamento de serviços profissionais.  Pela prestação de serviços a N&N Consultoria receberia €400.000 anuais, por  um contrato de 05 (cinco) anos de duração, totalizando €2.000.000.  De acordo com a defesa do contribuinte, este contrato a prestação de serviços  foi necessária em razão do acordo de colaboração celebrado entre o Santos e o Barcelona, no  dia 25/07/2013 (Convênio de Colaboração em Matéria de Futebol de Base e Reconhecimento  de Direitos sobre Jogadores).  Fl. 16628DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 61          119  Com  efeito,  por  este  acordo  o  Santos  recebeu  do  Barcelona  a  quantia  de  €7.900.000  (sete  milhões  e  novecentos  mil  euros)  para  dar  “direito  de  preferência”  numa  eventual venda dos direitos federativos de 3 (três) atletas:  ­ Victor Andrade Santos;  ­ Gabriel Barbosa Almeida (“Gaby Gol”);  ­ Givanildo Pulgas da Silva.  Defendem  as  autoridades  fiscais  que  salta  aos  olhos  o  valor  pago  pelo  Barcelona pelo referido “direito de preferência”( €7.900.000). Este valor representaria quase a  metade  do  valor  total  pago  na  aquisição  dos  direitos  econômicos  do  atleta  Neymar  (€17.100.000).  Teria  restado  comprovado,  portanto,  de  acordo  com  as  autoridades  fiscais,  que os valores pagos pelo Barcelona à N&N Consultoria, a título de “Contrato de Scouting”,  no  ano­calendário  de  2013,  pertencem,  de  fato,  ao  atleta  Neymar  Jr.,  e  são  decorrentes  do  acordo de transferência do atleta ao Barcelona.  A  defesa  do  contribuinte,  por  sua  vez,  aduz  que  os  valores  recebidos  decorrentes  do  contrato  de  arrendamento  de  serviços  profissionais,  assinado  entre  a  empresa  N&N Consultoria  e o Barcelona, não  estariam  relacionados  à  sua  atividade  como  jogador;  a  empresa  teria  executado  plenamente  as  atividades  para  as  quais  foi  contratada,  conforme  relatórios encaminhados ao Barcelona sobre jogadores em atividade; seria prova suficiente de  que teria propósito negocial e substância desvinculada da relação de trabalho do contribuinte.  ***  Assim como no contrato de agência, analisado no item logo acima, o cerne da  questão diz respeito à possibilidade de identificação entre a remuneração recebida a  título do  contrato de scouting pela N&N Consultoria e Neymar Jr.  Considerando  que  o  que  está  em  análise,  conforme  auto  de  infração,  é  a  omissão de rendimentos alegadamente realizada por Neymar Jr. entendo que, diante da falta de  comprovação  de  que  os  respectivos  valores  recebidos  teriam  qualquer  vinculação  com  atividades realizadas pelo jogador, a análise deve ser encerrada, não merecendo aqui qualquer  análise mais profunda.  Os  argumentos  trazidos  pelas  autoridades  fiscais  de  que  tal  pagamento  decorre  do  acordo  de  transferência  do  atleta  ao  Barcelona  “fatiados”  em  diversos  contratos  (rubricas),  tributados  indevidamente  nas  empresas  do  grupo  não  procedem,  pois  carecem  de  comprovação. Me parece que tal conclusão é apenas uma conclusão intelectual extraída de um  raciocínio  indutivo  da  fiscalização,  e  não  uma  asserção  baseada  no  conjunto  probatório  dos  autos.  Sendo  assim,  uma  vez  que  não  há  qualquer  atividade  a  ser  realizada  por  Neymar Jr. em relação ao objeto contratual, Neymar Jr. não é sócio da N&N Consultoria e não  há  comprovação  de  recebeu  qualquer  repasse  de  valores  da  mesma,  se  torna  impossível  conectar os valores pagos pelo Barcelona ao atleta.  Fl. 16629DF CARF MF     120  C.3.3)  Contrato  de  Representação  e  Gestão:  Barcelona  x  N&N  Consultoria  Em 03/06/13  foi assinado entre Barcelona e N&N Consultoria,  tendo como  interveniente  o  jogador  Neymar  Jr,  Contrato  de  Representação  e  Gestão  mediante  o  qual  a  N&N Consultoria  se  compromete  e  se  obriga  perante  o  Barcelona  a  prestar  assessoramento  profissional em relação a continuidade e controle dos compromissos pactuados entre o atleta e  o  Barcelona,  até  a  finalização  do  contrato  de  trabalho  ou  cessão  de  imagem,  os  quais,  respectivamente, os vincula. Em contraprestação, a N&N Consultoria receberá um percentual  equivalente a 5% de todos os valores, fixos e variáveis, pagos ao atleta ou a Neymar Sport de  acordo  com  os  contratos  pactuados  (contrato  de  trabalho  e  imagem),  inclusive  à  titulo  de  indenização.  De acordo com o TDF, o contrato ora analisado teria como origem a cláusula  terceira,  do  aditamento  contratual  firmado  entre  a N&N Consultoria  e  o  atleta Neymar  (fls.  10.110 e segs). Alega que pelo que foi pactuado neste contrato, a N&N Consultoria teria direito  a  receber 5% sobre os  rendimentos pagos pelo clube. Ou seja, o  fundamento do recebimento  pela N&N Consultoria, de um percentual sobre os rendimentos tributáveis auferidos pelo atleta  seria um acordo simulado.  As autoridades alegam, ainda, que o Contrato de Gestão e Representação foi  celebrado no dia 03/06/2013, mesma data  em que  foram  entabulados o Contrato de  Imagem  (Barcelona x N&N Adm) e o Contrato de Trabalho (Barcelona x atleta).  Alegam as autoridades, que a idéia era de transferir para a N&N Consultoria,  não só os valores pagos pelo Barcelona para assegurar a contratação do atleta (40 milhões de  euros) e os valores pagos pelo Barcelona a  título de “Scouting”  (400 mil euros  anuais), mas  também 5%  sobre  todos  os  rendimentos  auferidos  pelo  atleta,  inclusive  sobre  os  direitos  de  imagem, mesmo que pagos em nome de outras pessoas jurídicas do grupo.  O  TDF  aduz  que,  não  obstante  essa  previsão  de  recebimento  de  5%  sobre  todos os rendimentos auferidos pelo atleta, inclusive sobre os direitos de imagem, mesmo que  pagos em nome das pessoas jurídicas do grupo, o fato é que não foi  identificado pagamentos  feitos  à N&N Consultoria,  sob  a  rubrica  de  “representação  e  gestão”,  no  ano­calendário  de  2013.  Em  sua  resposta  ao  Termo  de  Intimação  Fiscal  nº  04,  a N&N Consultoria  teria  afirmado  que  não  teria  havido  recebimento  de  pagamentos  feitos  pelo  Barcelona  referentes à porcentagem de 5% sobre o contrato de trabalho firmado pelo atleta com o citado  clube.  Por  todo  o  exposto,  as  autoridades  fiscais  concluem  que,  teria  restado  comprovado que a N&N Consultoria teria sido constituída com um único objetivo: receber os  valores pagos pelo Barcelona, a  título de direito de preferência numa  futura  transferência do  atleta,  tributando os valores  com uma  alíquota  reduzida. Desta  forma, os valores pagos pelo  Barcelona à N&N Consultoria, para  ter preferência na futura contratação do  jogador Neymar  Júnior, bem como os valores pagos a título de “Scouting”, deveriam ser  tributados na pessoa  física do atleta, com base na tabela progressiva do imposto de renda, nos termos do artigo 3°, §  1º, da Lei n° 7.7 13/88.  ***  Fl. 16630DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 62          121  Tendo  em  vista  que  não  foi  identificado  pelas  autoridades  fiscais  qualquer  valor  recebido  pelo  Barcelona  em  virtude  do  contrato  ora  analisado,  desta  forma,  não  há  qualquer  relevância  a  análise  dos  termos  contratuais  para  fins  das  infrações  alegadamente  realizadas pelo contribuinte.  A  análise  deste  contrato  realizada  apenas  para  corroborar  uma  suposta  vinculação  de  todos  os  valores  pagos  pelo  Barcelona  como  forma  de  remuneração  complementar  de  Neymar  Jr.  não  pode  prosperar,  pois,  conforme  já  mencionado  acima,  tal  argumentação é vazia, não suportada por qualquer elemento do conjunto probatório dos autos.  C.3.4) Contrato de cessão de direito de uso de imagem: Neymar Sport x  N&N Administração  Em 01/06/2013, a Neymar Sport transferiu para a N&N Administração uma  parte do direito de uso de imagem do atleta, denominada “imagem coletiva”.  Argumenta  a  fiscalização  que  a  N&N  Administração  teria  sido  interposta  para  os  mesmos  fins  identificados  em  relação  à  Neymar  Sport,  qual  seja:  receber  a  remuneração a título de direito de imagem por intermédio de uma pessoa jurídica, a qual está  submetida ao regime do lucro presumido.  Sustenta  a  fiscalização  que,  desta  forma,  o  contribuinte  pretendia manter  a  estrutura  tributária mais  benéfica,  ao  escapar  das  regras  de  tributação  da  renda  das  pessoas  físicas e apurar os seus ganhos na sistemática do lucro presumido.  A fiscalização relembra a cronologia dos contratos:  a) 31/05/2013  ­ Acordo  entre  o Santos  e Barcelona  para  a  transferência  do  atleta ao clube espanhol.  b) 01/06/2013 (sábado) ­ Acordo entre Neymar Sport e N&N Administração  transferindo uma parte do direito de uso de imagem do atleta, denominada “imagem coletiva”.  c)  03/06/2013  (segunda­feira)  ­  Contrato  entre  o  Barcelona  e  a  N&N  Administração em relação a exploração dos direitos de imagem coletiva do atleta.  As autoridades fiscais alegam evidência sobre a transferência formal de parte  das receitas de direito de imagem à N&N Administração demonstrando a utilização meramente  artificial da empresa, a qual teria conseguido firmar um contrato para exploração de direito de  imagem,  com  o  Barcelona,  logo  no  primeiro  dia  útil  após  ter  sido  contemplada  como  cessionária do referido direito.  Argumenta  a  fiscalização  que  a  Neymar  Sport  adotava  o  regime  do  lucro  presumido  e que  no  ano­calendário  de  2012,  obteve  faturamento  anual  de R$ 48.000.000,00  (quarenta  e  oito  milhões  de  reais),  limite  legal  para  o  aproveitamento  do  regime  do  lucro  presumido.  Aduz  a  fiscalização  que,  considerando  que  o  atleta  seria  transferido  pro  Barcelona,  a  empresa  tinha  expectativa  no  aumento  do  faturamento,  assim,  para  manter  a  situação fiscal vantajosa, foi direcionado à N&N Administração parte da remuneração devida a  Fl. 16631DF CARF MF     122  título  de  direito  de  imagem,  mantendo  as  duas  no  regime  do  lucro  presumido  e,  com  isso,  permanecendo com a carga tributária menos onerosa.  Alega  a  fiscalização  que  trata­se  de  planejamento  tributário  conhecido  que  realiza uso abusivo de pessoas jurídicas, privilegiando a forma sobre a substância. Com efeito,  a mesma atividade empresarial é desenvolvida por pessoas jurídicas formalmente distintas, mas  que representam, em essência, uma única entidade ou pessoa – o controlador do grupo.  Reforça  a  fiscalização  que  a  N&N  Administração  não  detinha  estrutura  empresarial  para desempenhar  a  exploração  do  direito  de  imagem. Cita  a GFIP  da  empresa,  relativa ao ano­calendário 2013, em que constava apenas um único funcionário contratado.  ***  Considerando que as infrações tributarias alegadamente realizadas no âmbito  do auto de infração analisado são relacionadas a pessoa física de Neymar Jr. e o contrato acima  citado foi celebrado entre duas empresas as quais o mesmo não possui vinculação societária,  conclui­se que a análise da relação contratual e eventual realização de planejamento tributário  abusivo não é objeto do presente processo.  C.3.5)  Contrato  de  cessão  de  uso  de  imagem:  Barcelona  x  N&N  Administração  Em  03/06/2013,  foi  celebrado  entre  o  Barcelona  e  a  N&N  Administração  contrato de administração e exploração conjunta dos direitos de imagem coletiva do atleta.  Em relação a tal contrato, as autoridades fiscais destacam a clausula sexta que  determinaria  o  recebimento  de  “luvas”,  no  valor  de  €1.500.000,  e  o  recebimento  anual  de  valores fixos (€900.000) e variáveis. Ademais, realizam um cotejo entre os valores que teriam  sido  pactuados  pelo  direito  de  uso  de  imagem  e  os  salários  e  prêmios  do  atleta  conforme  previsto em seu contrato de trabalho:    Fl. 16632DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 63          123  Aduz  a  fiscalização  que,  a  remuneração  paga  pelo  Barcelona  à  N&N  Administração  representa  exatos  17,65%  dos  rendimentos  auferidos  pelo  atleta. Questiona  a  justificativa para que os pagamentos a título de direito de imagem sejam valores proporcionais  aos  rendimentos  auferidos  pelo  atleta  (17,65%),  ou  seja,  sem  levar  em  consideração  a  exploração efetiva da imagem do jogador.  A defesa do contribuinte, por sua vez, aduz que a N&N Administração cuida  dos direitos de imagem coletiva perante os clubes desportivos e demais bens e ativos geridos  pelos  sócios. Argumenta que  restou demonstrada:  i)  a  regularidade  e  a  razão dos direitos de  imagem pagos pelo Barcelona; ii) o efetivo benefício financeiro que o clube de futebol tem por  usar a imagem do atleta e iii) a incorreção das premissas assumidas e a não observância quanto  ao entendimento da Justiça do Trabalho.  Sendo  assim,  de  acordo  com  a  defesa  do  contribuinte,  as  receitas  da N&N  Administração possuiriam natureza comercial enquanto que a remuneração auferida pelo atleta  diretamente pelo Barcelona teria natureza salarial.  A PGFN, por sua vez, repisa os argumento das autoridades fiscais e sustenta  que  não  teria  havido  preocupação  no  sentido  de  destinar  à  N&N  Administração  apenas  rendimentos relacionados à pretensa exploração de direito de imagem do jogador.  Com  efeito,  aduz  a  PGFN,  que  os  17,65%  recairiam  sobre  todos  valores  auferidos pelo atleta, mesmo que não dissessem respeito à sua imagem, tais como: prêmios por  campeonatos eventualmente vencidos pelo Barcelona, prêmio por ser eleito melhor jogador da  FIFA,  salário,  “luvas”,  etc.  Isso  afastaria  qualquer  alegação  de  que  a  N&N  Administração  estaria recebendo pela exploração de direitos de imagem do atleta.  ***  Conforme já mencionado no item C.1.2.1 acima, o direito de uso de imagem  de atleta de  futebol é  legitimamente passível de  ser cedido a  terceiros,  contanto que, quando  celebrado  com  o  clube  o  qual  o  atleta  é  federado,  observe  o  determinado  no  dispositivo  de  regência, qual seja Art. 87­A da Lei 9.615/98, alterado pela Lei 12.935/11.  Tendo  em  vista  o  acima,  compara­se  os  principais  direitos,  deveres  e  condições dos contratos envolvidos, qual seja, o de cessão do direito de uso de imagem vis a  vis  o  contrato  de  trabalho,  para  fins  de  verificação  de  que  tais  elementos  são,  deveras,  inconfundíveis para fins de aplicação da proteção da lei:  Fl. 16633DF CARF MF     124    CONTRATO DE TRABALHO X CONTRATO DIREITO DE IMAGEM Barcelona                CLAUSULAS    DIREITO DE IMAGEM    CONTRATO DE TRABALHO                PARTES       N&N Adm e Neymar Jr. x Barcelona       Neymar Jr. X Barcelona  PRAZO       29/07/2013 a 30/06/2018       29/07/2013 a 30/06/2018    1 Vinculação ao contrato de trabalho    1 Rescisão do contrato de trabalho com o  Santos pelo jogador  PREMISSAS    2 Legitimidade da N&N Adm. ­ coletivos +  individuais    2 Capacidade para assinatura do contrato  OBJETO       Cessão de direitos de imagem (coletivos +  individuais como jogador)      Integração do jogador na primeira equipe do  Barcelona, mediante sua participação como  jogador profissional de futebol nas atividades  esportivas e sociais do clube.    1 N&N Adm. se compromete a fazer com que  o atleta aja da forma  exigida pelos acordos realizados pelo  Barcelona    1 Participar de treinamento, atividades  preparatórios e de recuperação física.    2 Nenhuma das partes poderá assinar um  acordo com um terceiro que  suponha a utilização de direitos da imagem  parte sem a aprovação expressa  desta.    2 Manter sua condição física e esportiva ao  maior nível possível, mantendo regime de  vida adequado para tal.    3 N&N Adm manterá  o Barcelona informado de todos os contratos  de exploração de imagem que  assine com terceiros.    3 Abster­se de realizar atividades incompatíveis  com sua atividade de futebolista profissional.           5 Comparecer como representante em todos os  atos sociais que lhe sejam requeridos pelo  clube   PRINCIPAIS  DEVERES E  DIREITOS            6 Realizar seus maiores esforços para integrar­ se na sociedade catalã    1 €1.500.000 ­ Contraprestação por aceitar a  cessão de determinados direitos e imagem.    1 €8.500.000 ­ Contraprestação por aceitar a  transferência de seus direitos federativos e  aceitar a oferta de incorporar­se a sua  primeira equipe de futebol.    2 €900.000 por temporada ­ Remuneração fixa   2 €5.000.000 por temporada ­ Em conceito de  salário e verbas complementares    3 Percentual dos contratos celebrados pelo  Barcelona (50%x50% ou 80%x20%)    3 €100.000 por temporada ­ Compensação por  troca de posição ou abstenção de jogo.    4 Quantias adicionais por prêmios recebidos  pelo atleta    4 Quantias adicionais por prêmios recebidos  pelo atleta  REMUNERAÇÃO    5 €8.100.000 ­ Garantia de remuneração final  ao término do contrato    5 €45.900.000 ­ Garantia de remuneração final  ao término do contrato  Remuneração  global       15%       85%      Fl. 16634DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 64          125  Considerando que em análise ao quadro comparativo acima, verifica­se que  direitos, deveres e condições são, de fato, inconfundíveis, do ponto de vista contratual, verifica­ se  que  o  contrato  de  exploração  de  direito  de  uso  de  imagem  é  válido  a  fim  de  encontrar  guarida na legislação citada acima.  Ou seja, não há como entender que os valores pagos à N&N Administração  se constituem como salário do jogador quando não há obrigações compatíveis com o contrato  de trabalho e, ainda, quando as obrigações personalíssimas relacionadas ao direito de imagem  são aquelas legítimas de serem passiveis de cessão, conforme já exaustivamente fundamentado  acima.  Julgo  que  a  única  possibilidade  para  reclassificação  das  receitas  da  pessoa  jurídica para a pessoa física do jogador, uma vez que verifica­se que as condições contratuais  são legítimas, seria uma comprovação, por parte das autoridades fiscais que a situação prática  distorceu a realidade contratada. Ou seja, que os aspectos fáticos da relação entre atleta e clube  demonstram vínculo empregatício.  Tendo em vista que as autoridades fiscais sequer mencionaram os elementos  que  configuram  relação  empregatícia  não  há  que  se  falar  em  reclassificação  de  rendimentos  para a pessoa física do atleta.  A  questão  levantada  pelas  autoridades  fiscais  em  relação  a  remuneração  contratual  ­  que  os  pagamentos  a  título  de  direito  de  imagem  são  valores  proporcionais  aos  rendimentos auferidos pelo atleta (17,65%), ou seja, não levam em consideração a exploração  efetiva da imagem do jogador ­ não tem o condão de implicar caráter salarial ao jogador.  Vale ressaltar que não há como, baseado nos documentos trazidos aos autos,  determinar  se  o  percentual  de  17,65%  seria  ou  não  compatível  com  a  exploração  efetiva  da  imagem  do  jogador,  pois  o  único  montante  recebido  pela  N&N  Administração  no  período  fiscalizado  foi o de €1.500.000, pago pelo Barcelona como contraprestação pela anuência de  sublicenciar os direitos de uso de imagem do atleta.  Vale  salientar,  ademais,  conforme  ressaltado  oralmente  em  sessão,  que  percentual de 15%, parcela a ser recebida por cessão de direito de uso de imagem em relação  remuneração global dos contratos, é determinado pela própria legislação fiscal espanhola (art.  92  da  Lei  nº  35/2006).  Este  mesmo  tipo  de  limitação  foi  imposto  pela  legislação  tributária  brasileira, em agosto de 2015, através de inserção do parágrafo único do Art. 87­A da Lei Pelé:  Parágrafo único. Quando houver, por parte do atleta, a cessão  de  direitos  ao  uso  de  sua  imagem  para  a  entidade  de  prática  desportiva  detentora  do  contrato  especial  de  trabalho  desportivo,  o  valor  correspondente  ao  uso  da  imagem  não  poderá ultrapassar 40% (quarenta por cento) da remuneração  total  paga  ao  atleta,  composta  pela  soma  do  salário  e  dos  valores pagos pelo direito ao uso da imagem. (Incluído pela Lei  nº 13.155, de 2015) (grifei)  Ou seja, mesmo não havendo comprovação da efetiva exploração da imagem  do  atleta  por  parte  do Barcelona,  verifica­se  que  o  percentual  definido  está  em  consonância  com a legislação fiscal de regência.  C.4) Qualificação da Multa de Ofício  Fl. 16635DF CARF MF     126  O TDF sustenta que os negócios jurídicos mencionados se traduziriam como  verdadeiras fraudes, visando reduzir, de forma indevida, a carga tributária.  No presente caso, de acordo com as autoridades fiscais, estaria configurado o  disposto nos artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502 de 1964, tendo em vista que os integrantes do  Grupo Neymar constituíram três pessoas jurídicas para receberem os recursos provenientes do  trabalho do atleta e também os valores decorrentes de sua transferência para o Barcelona.  Ou  seja,  conforme  argumentos  da  fiscalização,  essas  pessoas  jurídicas  interpostas teriam sido utilizadas para modificar as características essenciais do fato gerador da  obrigação  tributária  principal  de  modo  a  reduzir  o  montante  do  imposto  devido.  Também  teriam  confeccionado  vários  contratos  simulados,  alegadamente  utilizados  para  impedir  ou  retardar,  total  ou  parcialmente,  o  conhecimento  por  parte  da  autoridade  fazendária,  da  ocorrência  do  fato  gerador  da  obrigação  tributária  principal,  sua  natureza  ou  circunstâncias  materiais.  E, por  fim, alega a  fiscalização, que teria  restado comprovado que  todos os  integrantes  do  Grupo  Neymar  agiram  em  conluio.  Assim  sendo,  o  lançamento  deveria  ser  efetuado com multa agravada de 150%.  A defesa do contribuinte argumenta que em nenhum momento houve fraude  ou  dolo  pois  os  contratos  refletem  a  verdadeira  intenção  das  partes.  Sustenta  que  um  descasamento de poucos dias seria resultado de intenção de fraudar o fisco seria absurdo, ainda  mais no contrato assinado em 2006, data em que Neymar Jr. tinha apenas 14 anos.  Alega a defesa do contribuinte que a diferença de datas não caracteriza fraude  por  três  motivos:  i)  não  houve  dolo  ou  intuito  de  fraude,  elementos  imprescindíveis  para  configurar  nulidade  do  negocio  jurídico;  ii)  não  há  parte  prejudicada,  pois  nenhum  dos  contraentes do pacto alegou prejuízo; iii) nenhum efeito monetário vantajoso foi produzido no  ínterim  da  diferença  de  dias,  nenhum  valor  foi  pago  pelo  Santos,  ou  seja,  não  houve  fato  gerador de imposto de renda.  Ressalta  a  defesa  do  contribuinte  que  para  efeitos  da  autuação  fiscal  que  abrange os exercícios de 2011 a 2013 vale o contrato de cessão de direito de uso de imagem  assinado em 01/04/2009 sobre o qual não há qualquer questionamento de data.  A  defesa  do  contribuinte  reafirma,  ainda,  a  ausência  de  dolo  e  que  não  há  comprovação do mesmo nos autos, sendo portanto inaplicável a multa agravada de 150%.  Argumenta  a  defesa  que  não  há  nos  autos  qualquer  elemento  necessário  a  caracterização  da  hipótese  de  simulação  com  propósito  de  enganar  o  Fisco:  i)  não  há  falsa  aparência a ser desconstituída; ii) não há benefício econômico do atleta Neymar Jr; iii) não há  qualquer divergência entre a vontade interna e a vontade manifestada no negócio;  iv) não há  redução  de  carga  tributária;  v)  há  vedação  expressa  para  que  a  fiscalização  desconsiderar  a  pessoa jurídica nesse caso.  A defesa do contribuinte alega, ainda, que não há comprovação do dolo dos  responsáveis solidários e que a decisão recorrida sustenta a aplicação de multa qualificada pela  suposta vantagem fiscal obtida por meio da atual estrutura de negócios. Desta  forma, a mera  presunção de ocorrência de fraude não pode legitimar a aplicação da multa agravada.  Sustenta a defesa que a Neymar Sport foi constituída em 2006 com propósito  negocial  claro,  sendo  impossível,  à  época  de  sua  constituição,  alegar  que  arquitetavam  uma  estrutura mais benéfica sob a ótica tributária.  Fl. 16636DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 65          127  Ressalta a defesa que os rendimentos pagos as pessoas jurídicas nunca foram  remetidos a pessoa de Neymar Jr., tendo como prova os extratos bancários e sua Declaração de  Imposto de Renda que pode ser consultada a qualquer tempo.  Sustenta a defesa que Neymar Jr. não é sócio de nenhuma das empresas e que  não  teria  recebido  nenhum  rendimento  das  mesmas.  Sustenta,  ainda,  que  não  haveria  comprovação  do  benefício  econômico  de  Neymar  Jr.,  pois  todas  as  receitas  teriam  sido  recebidas  pelas  empresas,  desta  forma,  não  haveria  capacidade  contributiva  a  ser  atribuída  a  Neymar Jr.  Afirma a defesa do contribuinte que cabe as autoridades fiscais comprovar a  ocorrência  do  auto  fraudulento,  o  que  não  ocorre  no  caso.  Tendo  em  vista  a  ausência  de  simulação e fraude pelos envolvidos, não há que se falar em conluio.  Em relação a alegação de desvio de finalidade refuta a defesa do contribuinte  argumentando que:  i) não houve simulação nos  contratos;  ii) não houve economia  tributária;  iii)  as pessoas  jurídicas  envolvidas de  fato desenvolvem as atividades a que se propõe;  iv) a  fiscalização desconsiderou o contexto da formação de Neymar Jr. e constituição das empresas;  v) a despeito das datas dos contratos, houve um acordo válido entre as partes e vi) não houve  premeditação para lesar o fisco.  Em  relação  a  alegação  de  confusão  patrimonial,  a  defesa  do  contribuinte  argumenta que há clara distinção patrimonial entre as pessoas envolvidas e que: i) as empresas  possuem  contabilidade  própria  e  recolhem  seus  tributos  de  acordo  com  a  natureza  das  atividades desenvolvidas; ii) a fiscalização não aponta vício, falha ou equivoco contábil; iii) a  fiscalização  não  identificou  receita  omitida  ou  despesas  indevidas;  iv)  a  fiscalização  não  identificou pagamento de dívidas de Neymar Jr pelas empresas; v) os bens moveis e  imóveis  foram  adquiridos  com as  receitas oriundas das  atividades operacionais das pessoas  jurídicas;  vi) não foi encontrada irregularidade nas aquisições realizadas pelas pessoas envolvidas e vii) a  integralização do capital da N&N Consultoria e amortização dos empréstimos foram realizada  com recursos próprios dos sócios das pessoas jurídicas.  A  defesa  do  contribuinte  cita  o  Instituto  Neymar  Jr.,  projeto  com  área  de  8.400  m2  e  cujo  objetivo  seria  auxiliar  a  comunidade  carente  do  Estado  de  São  Paulo,  comprovaria que há propósito corporativo para as empresas.  Em relação ao  instituto da  simulação no âmbito  tributário,  a PGFN destaca  que deveria haver perfeição da vontade manifestada cujos vícios acarretam a invalidade do ato  jurídico. Cita art.167 do Código Civil.  Sustenta  a  PGFN  que  o  desfazimento  do  negócio  simulado  é  medida  desnecessária no âmbito da Administração Tributária, pois é suficiente reconhecer que houve a  invalidade para dar o adequado tratamento ao verdadeiro negócio ocorrido. Cita os arts. 109,  118 e 149, VII, todos do CTN.  Alega  a  PGFN  que  mesmo  que,  a  princípio,  pudesse  haver  uma  “coincidência”  entre  a  intenção  das  partes  e  os  atos  jurídicos  formalizados,  ainda  assim  tais  atos poderiam não surtir efeitos jurídicos tributários. Ou seja, mesmo havendo compatibilidade  formal  com  as  normas  civis,  o  ato  não  surtiria  efeitos  tributários  se  restasse  evidenciada  a  finalidade  preponderante  de  escapar  de  uma  tributação  específica.  Cita  jurisprudência  do  CARF.  Fl. 16637DF CARF MF     128  Deste  modo,  conforme  já  estaria  pacificado  na  jurisprudência  do  CARF,  segundo  a  PGFN,  os  efeitos  tributários  não  seriam  definidos  simplesmente  pelos  atos  formalmente  praticados.  Notadamente  quando  identificada  a  simulação,  situação  na  qual  os  atos  meramente  formais  não  podem  ser  opostos  ao  Fisco.  Assim,  argumenta  que  ao  caso  examinado deve ser conferido o tratamento tributário que o verdadeiro ato dissimulado produz.  Cita a PGFN o inciso II do art. 44 da Lei nº 9.430/96 e sustenta que o Fisco,  em  razão  dos  fatos  ocorridos,  tem  um  interesse  a  ser  protegido  (um  crédito  a  haver)  que  é  impedido ou frustrado pela conduta de Neymar Jr. ­ fraude.  A  PGFN  alega,  no  que  diz  respeito  especificamente  à  fraude,  que  os  documentos  antedatados  são  prova mais  do  que  suficiente  da  simulação. Com  efeito,  houve  claramente a união de vontades direcionada para o planejamento tributário abusivo, qual seja:  utilização  de  pessoas  jurídicas  de  forma  artificial  e  abusiva,  com  o  notório  propósito  de  redução de carga tributária.  Por  fim,  a  PGFN  sustenta  ser  inacreditável  que  o  recorrente  alegue  que  as  pessoas  jurídicas  interpostas  não  ofereceram  nenhum  benefício  econômico  ao  atleta.  Com  efeito, defende que para que a tese do defesa faça sentido, ter­se­ia que vislumbrar a seguinte  situação:  a  maior  parte  do  potencial  econômico  do  jogador  foi  transferida  a  terceiros,  gratuitamente,  sem  qualquer  vantagem  ao  jogador,  situação  que  permanecera  até  a  presente  data.  Frisa a PGFN que o proveito econômico se encontraria justamente na redução  significativa  da  carga  tributária  que  Neymar  Jr.  teria  obtido  ao  interpor  diversas  pessoas  jurídicas  para  receber  rendimentos  que  são  de  sua  titularidade.  Entende  que  são  justamente  esses  elementos  que  demonstrariam  que  o  atleta  teria  percebido  proveito  econômico.  Exemplifica citando o iate adquirido por R$ 15 milhões, que consta do ativo não­circulante da  Neymar Sport.  ***  A  questão  a  ser  apreciada  cingese  à  aplicação  do  percentual  previsto  no  parágrafo 1º do artigo 44 da Lei nº 9.430/96, abaixo reproduzido:  Art. 44. Nos  casos de  lançamento de ofício,  serão aplicadas as  seguintes multas:  I  ­  de  75%  (setenta  e  cinco  por  cento)  sobre  a  totalidade  ou  diferença  de  imposto  ou  contribuição  nos  casos  de  falta  de  pagamento  ou  recolhimento,  de  falta  de  declaração  e  nos  de  declaração inexata;  II ­ de 50% (cinqüenta por cento), exigida isoladamente, sobre o  valor do pagamento mensal:  a)  na  forma  do  art.  8º  da  Lei  nº  7.713,  de  22  de  dezembro  de  1988,  que  deixar  de  ser  efetuado,  ainda  que  não  tenha  sido  apurado  imposto  a  pagar  na  declaração  de  ajuste,  no  caso  de  pessoa física;  b)  na  forma  do  art.  2o  desta  Lei,  que  deixar  de  ser  efetuado,  ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo  negativa  para  a  contribuição  social  sobre  o  lucro  líquido,  no  ano­calendário correspondente, no caso de pessoa jurídica.  Fl. 16638DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 66          129  §  1o  O  percentual  de multa  de  que  trata  o  inciso  I  do  caput  deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e  73  da  Lei  nº  4.502,  de  30  de  novembro  de  1964,  independentemente  de  outras  penalidades  administrativas  ou  criminais cabíveis. (grifei)  Por  sua  vez  a  Lei  nº  4.502/64,  em  a  seguinte  redação  nos  artigos  que  nos  interessam:  Art  .  71.  Sonegação é  toda ação ou omissão dolosa  tendente a  impedir ou retardar,  total ou parcialmente, o conhecimento por  parte da autoridade fazendária:  I  ­  da  ocorrência  do  fato  gerador  da  obrigação  tributária  principal, sua natureza ou circunstâncias materiais;  II ­ das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar  a  obrigação  tributária  principal  ou  o  crédito  tributário  correspondente.  Art  .  72.  Fraude  é  toda  ação  ou  omissão  dolosa  tendente  a  impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato  gerador  da  obrigação  tributária  principal,  ou  a  excluir  ou  modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir  o  montante  do  imposto  devido  a  evitar  ou  diferir  o  seu  pagamento.  Art  . 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas  naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos  arts. 71 e 72. (grifei)  A  leitura  atenta dos  dispositivos  legais  acima  citados  nos  leva  as  seguintes  conclusões:  1. A multa de ofício deve ser aplicada em dobro quando ocorrerem uma das  situações previstas nos artigos 71 a 73 da Lei nº 4.502/64 ­ sonegação, fraude e conluio.  2. Além da prática das ações e omissões definidas como sonegação, fraude ou  conluio, para que se aplique a multa em dobro se  faz necessário que o  sujeito passivo  tenha  agido de maneira dolosa.  3. Por expressa determinação legal, somente o dolo, a intenção em buscar um  resultado ilícito, enseja a aplicação da multa em dobro. A contrário senso, a conduta culposa,  embora reprovável, não atrai a sanção.  Assentes  nos  requisitos  legais  para  aplicação  da  denominada  multa  qualificada,  recordemos  as  exigências  do  Decreto  nº  70.235/72,  recepcionado  pela  Carta  de  1988, como lei, exige, em seu artigo 9º, sobre a formalização do crédito tributário:  Art.  9o  A  exigência  do  crédito  tributário  e  a  aplicação  de  penalidade isolada serão formalizados em autos de infração ou  notificações  de  lançamento,  distintos  para  cada  tributo  ou  penalidade,  os  quais  deverão  estar  instruídos  com  todos  os  termos,  depoimentos,  laudos  e  demais  elementos  de  prova  Fl. 16639DF CARF MF     130  indispensáveis à comprovação do ilícito. (Redação dada pela Lei  nº 11.941, de 2009)  Como cediço, e bem explicitado na legislação tributária, o crédito tributário  deve  estar  embasado  em  provas  da  ocorrência  do  fato  gerador,  de  sua  quantificação  e  das  condições  ensejadoras  da  penalidade  aplicada.  Necessário,  portanto,  para  que  se  aplique  ao  caso  concreto  a  multa  qualificada,  que  a  fiscalização  tenha  de  desincumbido  de  seu  ônus  probatório.  Vale neste momento transcrever parte do TDF, no que diz respeito ao item 8 ­  Agravamento da Multa de Ofício:  No presente caso, está configurado o disposto nos artigos 71, 72  e 73 da Lei nº4.502 de 1964,  tendo em vista que os integrantes  do  Grupo  Neymar  constituíram  três  pessoas  jurídicas  para  receberem  os  recursos  provenientes  do  trabalho  do  atleta  e  também os valores decorrentes de sua transferência para o FCB.  Ou  seja,  essas  pessoas  jurídicas  interpostas  foram  utilizadas  para modificar as características essenciais do  fato gerador da  obrigação tributária principal de modo a reduzir o montante do  imposto devido.  Também confeccionaram  vários  contratos  simulados,  utilizados  para impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento  por  parte  da  autoridade  fazendária,  da  ocorrência  do  fato  gerador  da  obrigação  tributária  principal,  sua  natureza  ou  circunstâncias materiais.  E,  por  fim,  restou  comprovado  que  todos  os  integrantes  do  Grupo Neymar  agiram  em  conluio. Assim  sendo,  o  lançamento  será efetuado com multa de 150%.  Antes  de  analisarmos  a  legislação  de  referência  vis  a  vis  a  argumentação  realizada no TDF, importante definir em relação a quais negócios jurídicos poderia se imputar  o agravamento da multa de ofício.  Tendo em vista que a única infração tributária realizada por Neymar Jr. foi a  omissão  dos  rendimentos  recebidos  pelo  Santos  sob  a  égide  do  contrato  de  exploração  de  direito de imagem, pois, conforme fundamentado acima, possuem verdadeira natureza jurídica  salarial,  apenas  tal  negócio  jurídico  será  analisado  neste  tópico.  Vale  lembrar  que  não  foi  alegada pela fiscalização simulação com base no art. 167, inciso III do Código Civil em relação  a este contrato.  Avulta, de todo o exposto, que a questão que se encontra em xeque é se, para  fins de caracterização da conduta dolosa do sujeito passivo, a constituição da empresa Neymar  Sport  teria  se  dado  para modificar  as  características  essenciais  do  fato  gerador  da  obrigação  tributária principal de modo a reduzir o montante do imposto devido, atuando esta como pessoa  jurídica interposta. E, neste sentido, se os integrantes do chamado “Grupo Neymar” agiram em  conluio na realização dos alegados crimes fiscais.  Neste  ponto,  o  deslinde  da  questão  não  se mostra  de maior  complexidade,  pois uma vez que a Neymar Sport não foi constituída por Neymar Jr., não há que se falar em  conduta dolosa do mesmo neste sentido. Além disso, não poderia, na perspectiva de Neymar  Jr.,  ser  interposta,  pois  o  atleta  não  recebeu  nenhum  rendimento  decorrente  do  Santos  em  virtude do contrato de exploração de imagem celebrado com a Neymar Sport.  Fl. 16640DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 67          131  Novamente, a ausência de recebimento por Neymar Jr. dos valores recebidos  por terceiros e o fato do mesmo não ser sócio das empresas envolvidas, concede singularidade  ao caso.  C.5) Responsabilidade Solidária  De  acordo  com  o  TDF,  sustenta  a  fiscalização  que  a Neymar  Sport,  N&N  Consultoria, N&N Administração seriam pessoas jurídicas interpostas, de titularidade dos pais  do atleta, que teriam recebido os recursos oriundos de rendimentos tributáveis da pessoa física  de  Neymar  Jr.,  acumulado  patrimônio  e,  portanto,  teriam  sido  beneficiárias  das  infrações  praticadas.  Em  relação  aos  pais  do  atleta  e  sócios  das  empresas  Neymar  Sport,  N&N  Consultoria  e  N&N Administração,  afirma  a  fiscalização  que,  em  conluio  com Neymar  Jr.,  teriam  sido  os  responsáveis  diretos  pelas  infrações  praticadas. Aduz  que os  recursos  obtidos  teriam sido utilizados na aquisição de dezenas de bens e direitos, de forma que o patrimônio  total do grupo Neymar teria superado, em 31/12/2013, R$244 milhões.  Desta  forma,  argumenta  a  fiscalização  que  a  solidariedade  estaria  fundamentada no artigo 124, inciso I, do Código Tributário Nacional (CTN).  Em sede de impugnação, a defesa do contribuinte destaca que as autoridades  fiscais  teriam  atribuído  responsabilidade  solidária  entre  Neymar  Jr.,  seus  pais  e  as  três  empresas  relacionadas  com  base  no  art.  124  I  do  CTN,  alegando  suposto  abuso  de  personalidade  jurídica das empresas,  suposta vinculação gerencial  e coincidência de  sócios  e  administradores,  tendo destacado ausência de capacidade operacional, confusão patrimonial e  prática de atos fraudulentos.  A  defesa  do  contribuinte  ressalta  que  os  argumentos  levantados  pela  fiscalização  provariam  apenas  a  ligação  entre  as  pessoas  envolvidas,  jamais  simulação,  interposição  fraudulenta  e  falta de propósito negocial que  autorize  tributar uma pessoa  física  que não é sócia ou se aproveitou do resultado destas empresas. Adverte que não é possível a  desconsideração da personalidade jurídica neste caso, seja pela não observância do disposto no  art.  50  do  Código  Civil,  seja  pela  proteção  do  art.  129  da  Lei  11.196/05.  Cita  interessante  parecer emitido pela Professora Maria Ferragut.  A DRJ decidiu que conforme extrato da ementa:  CRÉDITO  TRIBUTÁRIO.  RESPONSABILIDADE  SOLIDÁRIA.  Respondem solidariamente pelo crédito  lançado as pessoas que  tenham  interesse  comum  na  situação  que  constitua  o  fato  gerador  da  obrigação  principal,  evidenciado  na  participação  direta ou indireta nas operações e no desfrute de seus resultados  em caso de fraude.  Em sede de  recurso voluntário, a defesa  repisa os  argumentos mencionados  na  impugnação  aduzindo,  em  resumo,  que  as  autoridades  fiscais  teriam optado  por primeiro  desconsiderar a personalidade jurídica das mencionadas empresas e depois decidiram incluí­las  no pólo passivo da mesma obrigação tributária como devedoras solidárias.  Alega a defesa do contribuinte que a solidariedade veiculada pelo inciso I do  art.  124  do  CTN  não  se  trata  de  transferência  da  responsabilidade  tributária  a  terceiros,  Fl. 16641DF CARF MF     132  estranhos ao liame obrigacional. Exige, na verdade, que as partes  tidas por solidárias estejam  igualmente ligadas ao fato que deu ensejo ao nascimento de uma relação jurídica cujo resultado  é o pagamento do tributo previsto em lei.  A PGFN, por sua vez, argumenta que a responsabilidade tributária solidária  exsurge quando o responsável é chamado para adimplir o crédito tributário concomitantemente  com o contribuinte,  arcando,  independentemente deste,  com o pagamento  integral  do  crédito  tributário.  A PGFN cita o art. 124 do CTN e sustenta que,  o  inciso  I disporia  sobre a  solidariedade quando os sujeitos estão na mesma relação obrigacional. Neste caso, haveria um  interesse  comum  das  pessoas  que  participam  da  situação  que  origina  o  fato  gerador  para,  conseqüentemente, passarem à condição de devedores solidários.  Destaca  que  a  PGFN  que  a  economia  fiscal  obtida  com  os  atos  simulados  teria beneficiado tanto os sócios quanto Neymar Jr., pois o patrimônio construído por meio da  exploração dos direitos ligados ao atleta acabou sendo revertido em benefício de todos.  C.5.1) Art. 124, I do Código Tributário Nacional  Acerca  da  responsabilidade  solidária  por  interesse  comum,  dispõe  o  artigo  124, inciso I do CTN:  Art. 124. São solidariamente obrigadas:  I  ­  as  pessoas  que  tenham  interesse  comum  na  situação  que  constitua o fato gerador da obrigação principal;  O dispositivo acima pugna pela solidariedade quando há interesse comum na  constituição  do  fato  gerador  da  obrigação  principal.  Ou  seja,  não  basta  que  haja  interesse  financeiro nos resultados advindos da situação, mas um envolvimento direto na materialização  do  fato  econômico  tributável.  Em  outras  palavras,  há  que  se  reconhecer  que  tal  interesse  comum é um interesse jurídico e não um interesse meramente econômico.  Em linha com este entendimento, são precisas as palavras do Professor Luís  Eduardo Schoueri20:  Interesse  comum  só  têm as  pessoas  que estão no mesmo pólo  na situação que constitui o fato jurídico tributário. Assim, por  exemplo,  os  condôminos  têm  ‘interesse  comum’  na  propriedade;  se  esta  dá  azo  ao  surgimento  da  obrigação  de  recolher  o  IPTU,  são  solidariamente  responsáveis  pelo  pagamento  do  imposto  todos  os  condôminos.  Note­se  que  o  débito  é  um  só,  mas  todos  os  condôminos  se  revestem  da  condição de sujeitos passivos solidários. (grifei)  O  responsável  obrigado  solidário  ­  para  utilizar  a  redação  do  Código  Tributário Nacional – portanto, é a pessoa que esteja relacionada intrinsecamente, em comum  com outra,  na  realização  do  núcleo  do  aspecto material  da  respectiva hipótese  de  incidência  tributária. Desta forma, resta­se configurado o interesse jurídico de tal solidário.                                                              20 SCHOUERI, Luís Eduardo. Direito Tributário. 3 ed. São Paulo: Saraiva, 2013, p. 525.    Fl. 16642DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 68          133  Ou seja não basta nem a mera participação na situação fática que gera o fato  gerador e nem o benefício econômico para se caracterizar o interesse comum. Prossegue, neste  sentido, o Professor Luís Eduardo Schoueri21:  Mesmo que duas partes em um contrato  fruam vantagens por  conta do não recolhimento de um tributo, isso não será, por si,  suficiente  para  que  se  aponte  um  ‘interesse  comum’.  Eles  podem  ter  ‘interesse  comum’  em  lesar  o  Fisco.  Pode  o  comprador, até mesmo, ser conivente com o fato de o vendedor  não ter recolhido o imposto que devia. Pode, ainda, ter tido um  ganho financeiro por isso, já que a inadimplência do vendedor  poderá  ter  sido  refletida  no  preço.  Ainda  assim,  comprador  e  vendedor não têm ‘interesse comum’ no fato jurídico tributário.  (grifei)  Deste  modo,  somente  é  possível  sustentar  a  responsabilidade  solidária  por  interesse  comum  se  autoridade  fiscal  demonstrar  o  interesse  jurídico  dos  aludidos  sujeitos  passivos em relação a situação que constitui os lançamentos fiscais.  Será  portanto  com  base  nestas  premissas  que  passa­se  a  analisar, mediante  apreciação do contexto fático­probatório trazido aos autos pela fiscalização, a configuração da  responsabilidade passiva das pessoas abaixo relacionadas:  1. Neymar Sport, N&N Consultoria e N&N Administração  2. Neymar da Silva Santos e Nadine Gonçalves da Silva Santos  C.5.2) Fato gerador x Interesse comum  Mister  se  faz  identificar  quais  foram  os  fatos  geradores,  conforme  alegado  pelas autoridades fiscais, que serviram de base para os  lançamentos ora analisados, para que,  então, se possa buscar uma eventual co­participação.  As  autoridades  defendem,  conforme  já  exposto  acima,  que  Neymar  Jr.  realizou  serviços  personalíssimos  relativos  ao  direito  de  imagem  mediante  atividades  de  publicidade, alegou, ainda, que, em relação as negociações com o Barcelona, os  rendimentos  tratavam­se  de  remuneração  salarial  ou  direito  de  preferência  para  futura  contratação,  transferida  a  pessoa  jurídica  mediante  contrato  nulo,  ou  seja,  o  direito,  na  realidade,  permaneceu com o próprio atleta.  Neste  sentido,  verifica­se  que  todos  os  fatos  geradores  mencionados  relacionam­se  a  situações  realizadas  particularmente  por Neymar  Jr. Vejamos  os  extratos  do  TDF que corroboram esse racional:  Direito de imagem : Serviços personalíssimos  Portanto,  o  direito  à  imagem,  por  ser  de  natureza  personalíssima,  não  pode  ser  alienado  ou  cedido,  já  que  pertence  ao  próprio  titular.  Todavia,  existe  a  possibilidade  de                                                              21 SCHOUERI, Luís Eduardo. op. cit. p. 526.    Fl. 16643DF CARF MF     134  concessão  (mediante  cessão  ou  licença)  a  terceiros,  de  forma  estrita e limitada, do uso do direito de imagem.  Logo, da  forma como consta o objeto do contrato, o atleta não  cedeu  à  Neymar  Sport  o  direito  de  uso  da  imagem,  mas,  o  “direito de sua imagem”, o que é proibido por tratar­se de um  direito personalíssimo.(fl. 7093) (grifei)  Também demonstraremos a  tentativa  de  disfarçar o verdadeiro  contratado  pelas  empresas,  que  é  o  Sr.  Neymar  Júnior,  incluindo­o como  interveniente anuente,  e  tornando o principal  responsável  pelo  cumprimento  dos  contratos,  bem  como  a  principal causa para a sua ruptura.(fl. 7089) (grifei)  Não resta dúvida, portanto, que os rendimentos auferidos pelo  atleta, oriundos da prestação de serviços personalíssimos à Red  Bull  deverão  ser  submetidos  à  tabela  progressiva  do  IRPF.(fl.  7115) (grifei)  Ja  mencionamos  que  os  contratantes  se  cercam  de  diversas  formas para vincular o atleta ao cumprimento do contrato, pois  sabem que a prestação de serviços é personalíssima e que não é  a Neymar Sport quem vai cumpri­la.(fl.7717) (grifei)  Por  todo  o  exposto,  não  resta  dúvidas  que  os  serviços  personalíssimos  foram  prestados  por  Neymar  Júnior,  que  assumiu todas as obrigações dos contratos firmados, devendo a  remuneração  auferida  ser  tributada  na  pessoa  física  do  atleta.(fl. 7718) (grifei)  Direito de imagem : Remunera(grifei)ção salarial (Santos)  Veremos a seguir, que os pagamentos feitos pelo SFC à Neymar  Sport,  como  Cessão  de  Uso  de  Direito  de  Imagem,  possuem  natureza  jurídica  salarial,  pois  foram  pagos  sem  a  efetiva  prestação de serviços por parte da Neymar Sport. Aliás, restará  comprovado  que  a  “exploração”  dos  direitos  de  imagem  realizada pelo SFC está conexa com as obrigações oriundos do  contrato de trabalho firmado pelo jogador.( Fl. 7134) (grifei)  Cumpre  ressaltar  que  os  pagamentos  são  feitos  pelo  SFC  em  parcelas  fixas  (11  parcelas  de  R$15.000,00  –  por  exemplo),  demonstrando  a  natureza  salarial  dos  valores  pactuados.  (Fl.  7143) (grifei)  Restou claro, nesta cláusula, que os pagamentos feitos pelo SFC  a  título  de  “direito  de  imagem”,  possuem,  de  fato,  natureza  jurídica salarial.( Fl. 7148) (grifei)  Barcelona: Remuneração salarial  Por  todo  o  exposto  restou  comprovado  que  o  pagamento  feito  pelo  FCB  à  N&N  Administração  de  Bens,  sob  a  rubrica  “Direito  de  Imagem”,  possui  natureza  jurídica  salarial  e  representa  uma  parcela  (17,65%)  dos  rendimentos  auferidos  pelo atleta junto ao FCB, desviados para a N&N Adm. de Bens  apenas por uma conveniência tributária.( Fl. 7202) (grifei)  Fl. 16644DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 69          135  Para  melhor  compreensão,  dividiremos  esse  tópico  em  três  subtópicos,  a  saber:  “rendimentos  oriundos  dos  serviços  de  publicidade  prestados  pelo  atleta”;  “rendimentos  oriundos  do  direito  de  preferência  para  futura  transferência  ao  FCB”  e  “rendimentos  oriundos  do  trabalho  com  vínculo  empregatício  (direitos de imagem, scouting e contrato de agência)”. (grifei)  Barcelona: Direito de preferência  Aliás,  os  negócios  jurídicos  pactuados  entre  a  N&N  e  o  atleta  Neymar Júnior, por meio dos contratos datados de 27/10/2011 e  10/11/2011 são nulos, pois foram simulados, nos termos 167 do  código civil, abaixo transcrito:  (...)  Portanto,  o  único  que  poderia  negociar  a  sua  futura  transferência para o FCB, quando se tornasse free agent, era o  próprio atleta. E foi isso o que ocorreu. (fl.7061) (grifei)  Em resumo, Neymar jr. teria auferido rendimentos advindos de:  a) Prestação de serviços personalíssimos;  b) Atividade laboral ­ salário (Santos e Barcelona) e  c)  Direito  de  preferência  ou  direitos  federativos  e  econômicos  quando  da  condição de free agent;  De  acordo  com  o  encadeamento  de  idéias  da  fiscalização,  verifica­se  que  todos  os  fatos  geradores  somente  poderiam  ter  sido  realizados  individualmente  por  se  vincularem, no racional das autoridades fiscais, a direitos ou obrigações pessoais do atleta.  Ou  seja,  conforme  fundamentos  do  lançamento,  não  ha  como  admitir  co­ participação para  fins de  imputação do artigo 124,  I do CTN por  impossibilidade  jurídica de  realização  conjunta  do  fato  gerador,  requisito  necessário  para  aplicação  da  responsabilidade  solidária.  Tal  conclusão  se  torna  ainda  mais  simples,  quando  acautelo,  conforme  fundamentação  acima,  que  não  houve  omissão  de  receitas  pelo  atleta  no  que  se  refere  a  prestação de  serviços personalíssimos  a  terceiros  e que não houve envolvimento pessoal nas  negociações com o Barcelona.  Ou  seja,  a  única  infração  cometida  pelo  atleta  seria  a  relacionada  ao  recebimento de salário pelo Santos na forma de remuneração por uso de seu direito de imagem,  cujo fato gerador relativo (atividade laboral) é individual, ou seja, não admite solidariedade.  Neste sentido, não pode a autoridade fiscal  invocar o artigo 124,  I do CTN,  artigo que pressupõe uma conexão da pessoa  jurídica  imputada ao  fato gerador,  e ao mesmo  tempo fundamentar defendendo que a pessoa física realizou sozinha todos os fatos geradores.  Tem  em  vista  todos  os  argumentos  acima  expostos,  resta  clara  a  impossibilidade da aplicação da solidariedade passiva das pessoas envolvidas no caso concreto.  C.6) Concomitância das multas de ofício e isolada  Fl. 16645DF CARF MF     136  Em  relação  aos  rendimentos  recebidos  de  fonte  no  exterior,  a  defesa  destacou,  em sede de  impugnação, que houve excesso no  lançamento  relativo  a  cobrança de  multa. Aduz que no  auto de  infração  teriam sido  exigidas duas multas:  a multa de ofício de  150% sobre o montante de valores recebidos de fonte no exterior e, ainda, a multa isolada de  50% pelo não recolhimento na competência do recebimento (carnê­leão) sobre a mesma base  de  cálculo. A  imposição das duas multas  representariam,  então, 200% em virtude da mesma  situação  fática,  o  que  fere  os  princípios  da  razoabilidade,  do  não  confisco  e  da  proporcionalidade.  A  DRJ,  em  análise  a  este  tema  específico,  manteve  a  exigência  das  duas  multas argumentando que a  aplicação da multa  isolada decorre de descumprimento do dever  legal  de  recolhimento  mensal  de  carnê­leão,  não  se  confundindo  com  a  multa  proporcional  aplicada sobre o valor do imposto apurado nos casos de falta de pagamento ou recolhimento,  de falta de declaração ou de declaração inexata.  Em sede de recurso voluntário, a defesa repisou os argumentos mencionados  na impugnação aduzindo que tal prática fere os princípios constitucionais da razoabilidade, do  não confisco e proporcionalidade. Invoca a Súmula CARF nº 105 e precedentes do CARF.  ***  Não há dúvidas quanto  a  impossibilidade de concomitância entre  as multas  mencionadas  (de oficio e  isolada), pois  implicaria na duplicidade de  sanções  sobre o mesmo  fato.  Neste sentido, verifica­se que em caso análogo (Caso Guga), a 6ª Câmara do  1º  Conselho  de Contribuintes,  na  sessão  do  dia  05  de  dezembro  de  2008,  de  acordo  com  o  Acórdão nº 106­17.147, deu parcial provimento ao Recurso Voluntário nos seguintes termos:  MULTA  ISOLADA  E  DE  OFÍCIO  ­  CONCOMITÂNCIA  ­  MESMA BASE DE CÁLCULO. Não pode prevalecer a exigência  da multa  isolada  pela  falta  de  recolhimento  do  IRPF  devido  a  titulo de camê­leão, na hipótese em que cumulada com a multa  de oficio incidente sobre a omissão de rendimentos recebidos de  fontes  situadas no  exterior,  quando as  bases  de  cálculo  de  tais  penalidades são idênticas. Multa excluída.  Mesmo que  houvesse  qualquer  duvida  quanto  a  questão  em  tela,  a  Súmula  CARF nº 105 espanca a matéria:  Súmula  CARF  nº  105:  A  multa  isolada  por  falta  de  recolhimento de estimativas, lançada com fundamento no art. 44  § 1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996, não pode ser exigida ao  mesmo  tempo  da  multa  de  ofício  por  falta  de  pagamento  de  IRPJ e CSLL apurado no ajuste anual, devendo subsistir a multa  de ofício. (grifei)  Verifica­se  que  a  impossibilidade  de  cumulação  das  multas  foi  exaustivamente debatida na esfera administrativa, motivo pelo qual, uma vez consolidada em  sentido favorável ao contribuinte, foi acolhida a proposição de Sumula relacionada, ocasião em  que foi editada citada súmula.  Desta forma, em razão da concomitância entre a aplicação destas duas multas  (isolada e de oficio) no presente caso, voto no sentido de excluir a parcela da multa isolada do  lançamento.  Fl. 16646DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 70          137  C.7) Compensação de crédito entre pessoa jurídica e pessoa física  Em sede de  impugnação, alega a defesa do contribuinte que os  tributos que  teriam  sido  pagos  pelas  pessoas  jurídicas  deveriam  ser  considerados  na  quantificação  do  crédito tributário constituído, sob pena de caracterização de bis in idem.  Por sua vez, a DRJ decidiu que o suposto crédito advindo do pagamento de  impostos  pela  pessoa  jurídica  não  é  passível  de  compensação  com débito  do  sujeito  passivo  (pessoa física).  Em sede de recurso voluntário, a defesa alega que as autoridades fiscais não  consideraram os  tributos que  já  teriam sido pagos pelas empresas solidárias no período. Este  posicionamento,  que  teria  sido  chancelado  pela  decisão  recorrida,  configuraria  confisco  e  promoveria enriquecimento sem causa da União  Por  seu  turno,  a  PGFN  alega  que  o  fato  de  as  pessoas  jurídicas  terem  recolhido tributo não apaga a existência de simulação, fato que está sendo objeto de inquérito e  investigação por autoridades brasileiras e espanholas.  A PGFN acredita ser despropositada a alegação de confisco,  levantada pelo  contribuinte, visto que tal inconformismo centra­se na aplicação da multa qualificada de 150%.  Ressalta que o princípio da vedação ao confisco coíbe a utilização de tributos de maneira tão  exacerbada que  implique  efeito  confiscatório. Entretanto,  defende que não há  como estender  esse  raciocínio  às  penalidades,  que  visam  reprimir  condutas  indesejadas  ou  compensar  prejuízos causados.  ***  Quanto aos créditos tributários devidamente reclassificados à pessoa física de  Neymar  Jr.,  deve  ser  concedida  a  compensação  dos  tributos  já  recolhidos  pelas  pessoas  jurídicas envolvidas.  Neste  mesmo  sentido  foi  decidido  o  Caso  Guga,  já  mencionado  acima  e  análogo ao ora em análise, em que a 6ª Câmara do 1º Conselho de Contribuintes, na sessão do  dia 05 de dezembro de 2008, de acordo com o Acórdão nº 106­17.147, deu parcial provimento  ao recurso voluntário nos seguintes termos:  Acordam os membros do Colegiado, pelo voto de qualidade, dar  provimento parcial ao recurso para aproveitar os tributos pagos  pela Pessoa Jurídica para reduzir o imposto sobre a omissão de  rendimentos decorrentes do trabalho sem vinculo empregatício  e da cessão de direitos recebidos de pessoas jurídicas, vencidos  os Conselheiros Roberta de Azeredo Ferreira Pagetti (Relatora),  Janaina  Mesquita  Lourenço  de  Souza,  Ana  Paula  Locoselli  Erichsen  (Suplente  convocada)  e  Gonçalo  Bonet  Allage,  que  excluíram essa exigência e, por maioria de votos, excluir a multa  isolada  do  carnê­ledo,  vencidos  os  Conselheiros  Maria  Lúcia  Moniz  de  Aragão  Calomino  Astorga  e  Sérgio  Galvdo  Ferreira  Garcia  (Suplente  convocado).  Designado  para  redigir  o  voto  vencedor  quanto  h.  omissão  de  rendimentos  decorrentes  do  trabalho  sem  vinculo  empregatício  e  da  cessão  de  direitos  recebidos de pessoas jurídicas o Conselheiro Giovanni Christian  Fl. 16647DF CARF MF     138  Nunes  Campos.  O  Conselheiro  Gonçalo  Bonet  Allage  apresentará declaração de voto.(grifei)  A ementa do acórdão supra mencionado é ainda mais explícita:  RECLASSIFICAÇÃO  DE  RECEITAS  DE  PESSOA  JURÍDICA  PARA  RENDIMENTOS  DE  PESSOA  FÍSICA  DO  .SÓCIO  ­  COMPENSAÇÃO  DOS  TRIBUTOS  PAGOS  NA  PESSOA  JURÍDICA COM AQUELE LANÇADO NA PESSOA FÍSICA EM  DECORRÊNCIA  DOS  RENDIMENTOS/RECEITAS  RECLASSIFICADOS  ­ HIGIDEZ. Em  respeito  ao  princípio  da  moralidade administrativa,  uma  vez  que  foram reclassificados  os rendimentos da pessoa jurídica para a pessoa física do sócio,  deve­se adotar o mesmo procedimento em relação aos  tributos  pagos  na  pessoa  jurídica  vinculados  aos  rendimentos/receitas  reclassiticados,  ou  seja,  apurado  o  imposto  na  pessoa  fisica,  deste  devem­se  abater  os  tributos  pagos  na  pessoa  jurídica,  antes dos acréscimos legais de oficio.  IMPOSTO  PAGO  NO  EXTERIOR  ­  ACORDO  ­  RECIPROCIDADE DE TRATAMENTO ­ COMPENSAÇÃO  As  pessoas  físicas  que  recebam  rendimentos  provenientes  de  fontes situadas no exterior poderão deduzir do imposto apurado  na  declaração  de  ajuste,  o  cobrado  pela  nação  de  origem  daqueles  rendimentos  ­  desde que haja previsão para  tanto  eia  acordo ou convenção internacional fixada com o pais de origem  dos  rendimentos,  ou  que  haja  reciprocidade  de  tratamento  em  relação aos  rendimentos  produzidos  no Brasil. O acordo,  ou  a  lei  que  estabeleça  a  reciprocidade,  têm  que  estar  um  vigor  no  ano­calendário para o qual a compensação é pleiteada, sob pena  da a mesma não ser permitida. Ademais, caberá ao contribuinte  comprovar,  através  da  documentação  pertinente,  a  data  e  o  montante do imposto recolhido. (grifei)  Em obediência ao princípio da moralidade administrativa, seria desarrazoado  reclassificar as receitas da pessoa jurídica para rendimentos da pessoa física, mantendo intactos  os tributos já recolhidos, obrigando as respectivas pessoas jurídicas a solicitar restituição, para  compensação posterior, sofrendo o ônus de eventual decadência do direito creditório ou mesmo  da imposição global da multa de oficio aqui lançada, quando se sabe que, contemporaneamente  ao  fato  gerador  das  receitas  reclassificadas,  houve  pagamento  parcial  dos  tributos  sobre  tais  receitas/rendimentos.  Ante  o  exposto,  voto  no  sentido  do  deferimento  do  pleito  compensatório  conforme acima  fundamentado,  inclusive em  relação ao  imposto de  renda  retido na  fonte de  fontes pagadoras no exterior.  Tendo  em  vista  o  colegiado  ter  se  posicionado  favoralmente  à  tese  da  Fazenda de reclassificação para a pessoa física de Neymar Jr. do empréstimo obtido junto ao  Barelona  pela  empresa N&N Consultoria,  julgou­se  que  seriam  igualmente  compensáveis  os  tributos pagos em decorrência da contratação de tal empréstimo, nos termos apresentados pelo  contribuinte em suas peças de defesa.  C.8) Erro na Base de Cálculo  Fl. 16648DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 71          139  Requer a defesa do contribuinte que, caso não haja reforma total da decisão  recorrida,  que  seja  reconhecida  sua  reforma  parcial  no  que  diz  respeito  a  base  de  cálculo  utilizada no lançamento.  Aponta que caso os valores considerados para fins de base de cálculo sejam  confirmados  como  recebidos  por  pessoa  física,  que  a  conversão  de  valores  recebidos  do  exterior,  siga  aquela  conforme  foi  escriturada  pelas  pessoas  jurídicas  afastadas,  pois  representam, de fato, os valores recebidos.  De  acordo  com  a  defesa,  a  base  de  cálculo  considerada  na  autuação  fiscal  teria  superado  os  valores  efetivamente  recebidos  em  mais  de  R$  4  milhões  (quadro  demonstrativo na fl. 16.149) por conta da taxa de cambio utilizada pela fiscalização.  ***  Em obediência ao princípio da moralidade administrativa, seria desarrazoado  que  a  conversão  de  valores  recebidos  do  exterior  fossem  calculados  de  outra  forma  do  que  aquela  que  já  foi  escriturada  nos  livros  fiscais  da  pessoa  jurídica  (Art.  394,  inciso  I,  do  RIR/99).  Desta  forma,  ante  o  exposto,  voto  no  sentido  do  deferimento  do  pleito  do  contribuinte, conforme acima fundamentado, de forma que não seja aplicado o art. 16 da IN nº  208/02.  D) CONCLUSÕES  Tendo  em  vista  todo  o  acima,  voto  no  sentido  de  CONHECER  recurso  voluntário, ACOLHER  a  preliminar  de  nulidade  por  falta  de motivação  legal  e,  no mérito,  DAR PROVIMENTO PARCIAL para:  a) excluir da base de cálculo do  lançamento os valores  recebidos do Santos  relacionados  a  repasses  de  terceiros  com  base  no  percentual  pactuado  no  contrato  celebrado  entre Neymar Sport e Santos em 19/08/2010, mantendo­se os recebidos diretamente do Santos  relativos à infração “Omissão de rendimentos do trabalho sem vínculo empregatício, relativos  aos  serviços de publicidade não  tributados na pessoa física e/ou  tributados  indevidamente na  empresa Neymar Sport .”  b)  excluir  da base de  cálculo do  lançamento os  valores  relativos  a  infração  “Omissão de rendimentos de fontes situadas no exterior, oriundos dos serviços de publicidade  não tributados na pessoa física e/ou tributados indevidamente na empresa Neymar Sport .”  c)  excluir  da base  de  cálculo  do  lançamento  os  valores  relativos  a  infração  “Omissão  de  rendimentos  de  fontes  situadas  no  exterior,  oriundos  do  direito  de  preferência,  pagos  pelo  Barcelona,  não  tributados  na  pessoa  física  e/ou  tributados  indevidamente  na  empresa N&N Consultoria.”  d)  excluir  da base de  cálculo do  lançamento os  valores  relativos  a  infração  “Omissão  de  rendimentos  de  fontes  situadas  no  exterior,  oriundos  do  trabalho  com  vínculo  empregatício (contrato de agência, scouting e direitos de imagem), pagos pelo Barcelona, não  tributados na pessoa  física e/ou  tributados  indevidamente nas empresas Neymar Sport; N&N  Consultoria e N&N Administração.”  Fl. 16649DF CARF MF     140  e)  excluir  da base  de  cálculo  do  lançamento  os  valores  relativos  a  infração  “Falta de recolhimento do IRPF devido a título de carnê­leão, ensejando a exigência da Multa  Isolada.”  f)  excluir  do  pólo  passivo,  como  responsáveis  solidários  pelo  crédito  tributário  constituído,  Neymar  da  Silva  Santos  e  Nadine  Gonçalves  da  Silva  Santos,  assim  como, as empresas Neymar Sport; N&N Consultoria e N&N Administração.  g) afastar a exigência da multa de ofício qualificada, no percentual de 150%,  por falta de reconhecimento de dolo na infração verificada;  f) reconhecer erro na base de cálculo considerada pelas autoridades fiscais no  que se refere aos valores recebidos de fontes no exterior;  g)  reconhecer  a  inaplicabilidade  concomitante  de multa  isolada  e multa  de  ofício sobre a mesma base de cálculo;  h) deferir o pleito compensatório em relação aos valores pagos pelas pessoas  jurídicas envolvidas.  (assinado digitalmente)  Bianca Felícia Rothschild.  Fl. 16650DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 72          141  Voto Vencedor  Conselheiro Ronnie Soares Anderson ­ Redator Designado    B.2) NULIDADE POR FALTA DE MOTIVAÇÃO LEGAL  Tenho que a  fiscalização refere adequada e suficientemente os  textos  legais  que  embasam  a  constituição  do  crédito  tributário,  no  decorrer  dos  autos  de  infração  e  respectivo  relatório  fiscal.  E  em  momento  algum  faz  alusão  a  estar  efetuando  a  desconsideração  da  pessoa  jurídica  nos  termos  do  art.  50  do  Código  Civil,  o  que  pode  ser  constatado mediante leitura atenta do relatório que acompanha a autuação.  Cabe  alertar,  ainda  que  sinteticamente,  para  qual  é  imputação  fiscal.  A  autoridade  fazendária  atribui  ao  recorrente  e  aos  demais  responsáveis  a  participação  em  simulação  voltada  a  direcionar  rendimentos  de  sua  pessoa  física  para  pessoas  jurídicas  interpostas as quais, no período abordado, anos­calendário 2011 a 2013, teriam como objetivo  principal não a realização das atividades previstas em seus objetos sociais, mas sim viabilizar a  diminuição  da  carga  tributária  decorrente  de  tal  redirecionamento.  Nesse  rumo,  o  Fisco  identificou  quem  considerou  ser  o  real  beneficiário  dos  rendimentos,  e,  com  amparo  nos  ditames do art. 142 do CTN, efetuou a lavratura dos autos de infração.  De  fato,  é  recorrente  que  em  casos  de  planejamento  tributário  abusivo,  o  objetivo  seja  justamente  fazer  com  que  valores  que  deveriam  ter  seu  fluxo  financeiro  naturalmente destinado a uma determinada pessoa sejam “desviados” e redirecionados a outras  pessoas físicas ou jurídicas, de maneira a ocultar o real beneficiário dos rendimentos.  Nesse  contexto,  não  há  falar  em  nulidade  por  falta  de  motivação  legal  do  lançamento,  pois  este  possui  intrínseca  coerência  em  seus  fundamentos,  tendo  em  vista  a  imputação nele constante, acima referida.  Além disso, compulsando os autos, verifica­se que a fiscalização foi bastante  clara  na  sua  exposição  e  acostou  farto  material  probatório,  referido­se  adequadamente  aos  dispositivos  legais  aplicáveis;  de  outra  parte,  foi  propiciado  ao  contribuinte,  no  curso  do  procedimento  fiscal  e  neste  contencioso  administrativo,  oportunidade  de  defesa,  direito  amplamente exercido. Não se constata, assim, sob qualquer ótica, prejuízo à defesa que enseje  a declaração de nulidade, nos termos do rito do art. 59 do Decreto nº 70.235/72, ou mesmo no  de outros diplomas processuais.  Acrescente­se que a jurisprudência do CARF há bastante tempo é assente ao  considerar  que  tais  aspectos  dizem  respeito  ao  mérito  da  causa  discutida,  cabendo  citar,  ilustrativamente, os Acórdãos nº 104­20.915 (j. 11/08/2005) e nº 2202­00.252 (j. 23/9/2009),  os  quais  tratam  de  temática  similar  à  ora  enfrentada.  Também  merece  ser  citado  recente  acórdão da CSRF, de nº 9202­004014  (j.12/5/2016),  do qual  reproduzo  o  seguinte  trecho de  ementa:  VÍCIO.  ERRO  NA  CAPITULAÇÃO  LEGAL.  NULIDADE.  INOCORRÊNCIA  Fl. 16651DF CARF MF     142  Inexiste  nulidade  do  auto  de  infração  em  virtude  de  erro  na  capitulação legal, quando os fatos estão devidamente descritos na  autuação e não há prejuízo à defesa.  Concluo por rejeitar a decretação de nulidade.  C.2).  OMISSÃO  DE  RENDIMENTOS  DE  FONTES  SITUADAS  NO  EXTERIOR,  ORIUNDOS  DE  ALEGADOS  DIREITOS  DE  PREFERÊNCIA  PAGOS  PELO BARCELONA E TRIBUTADOS NA N & N CONSULTORIA.  São  variados,  consistentes,  e  significativos  os  elementos  reunidos  pela  fiscalização no sentido de que a N&N Consultoria foi constituída com o propósito específico  de deslocar a tributação dos rendimentos recebidos do Barcelona, vinculados à transferência de  clube de futebol, da pessoa física do recorrente para aquela pessoa jurídica.  Entre esses elementos de prova, tem­se os sucessivos “enganos” verificados,  como  antedatamento  de  CNPJ  em  contratos,  e  distrato  efetuado  em  25/3/2014,  tão  somente  após  o  início  da  ação  fiscal,  realizado  claramente  pretendendo  suprir  inconsistências  no  contrato de prestação de serviços firmado entre a empresa e o atleta datado de 27/4/2011, tendo  em vista que então a empresa sequer existia.  Também há claros sinais de simulação tais como sua constituição às vésperas  do acordo com o Barcelona (18/10/2011), ausência de estrutura operacional e de funcionários  (só contratado um funcionário em 2013), bem como de falta de capacidade econômica para a  consecução  dos  objetivos  sociais  ­  consultoria  esportiva  e  empresarial,  representação,  assessoria e participações empresarial e esportiva.  Acrescente­se  que  nos  anos­calendário  em  comento,  conforme  destaca  a  fiscalização, não  foram  lançados nos  livros contábeis uma única operação relacionada com o  objeto social.  Por  mais  que  a  D.  Relatora  se  esmere  ao  defender  não  ser  necessário  expressivo número de  funcionários  para dar  conta do desenvolvimento das  atividades objeto  social da empresa, tal linha de raciocínio surge com verdadeiro eufemismo, quando se está, em  apertada  síntese,  perante  sociedade  constituída  às  pressas,  de  forma  até mesmo  atabalhoada,  que não possui quaisquer  funcionários, não possui capital  integralizado e que não registra na  contabilidade qualquer atividade relacionada com o objeto social.  É essa, em apertada síntese, a sociedade que fecha contrato em 15/11/2011 o  qual  alcança  a  cifra  de  dezenas  de  milhões  de  euros  com  o  Futebol  Clube  Barcelona,  vinculados à transferência do recorrente para essa agremiação esportiva.  A  sequência  de  operações  abaixo  transcrita  demonstra  a  artificialidade  e  a  precipitação  na  constituição  da  sociedade  em  referência,  situações  as  quais,  diga­se,  deram  ensejo aos diversos “equívocos” constatados:  ­ 18/10/2011: Data da abertura da N&N Consultoria (na JUCESP);  ­  27/10/2011: Contrato  entre Neymar  Júnior  e N&N Consultoria,  pelo  qual  esta  empresa  prestará  ao  atleta  gratuitamente  serviços  de  consultoria  e  planejamento  de  carreira,  podendo  também  acordar  remuneração  com  terceiros  que  eventualmente  possam  contratar  o  atleta,  no  qual  consta  CNPJ  só  obtido  em  17/11/2011,  ou  seja,  contrato  às  escancaras antedatado;  Fl. 16652DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 73          143  ­  08/11/2011:  Autorização  do  SFC  para  que  o  atleta  negocie  seus  futuros  direitos econômicos e federativos a partir de 25/8/2014;  ­  10/11/2011:  Aditamento  do  contrato  celebrado  em  27/10/2011  entre  o  jogador e a N&N Consultoria, atribuindo a esta o direito de negociar sua transferência a clubes  europeus  na  condição  de  free  agent  (contrato  com  CNPJ  que  só  seria  expedido  em  17/11/2011);  ­  15/11/2011:  Contrato  para  futura  transferência  dos  direitos  federativos  e  econômicos do atleta para o FCB, até a data de 25/8/2014, quando seria free agent;  ­ 17/11/2011: expedição do CNPJ utilizado no aditamento contratual datado  de 10/11/2011;  ­ 06/12/2011: Contrato de empréstimo efetuado entre a N&N Consultoria e o  Barcelona, no valor de 10 milhões de euros;  ­ 21/12/2011: integralização do capital de N&N Consultoria;  De sua parte,  o  contribuinte  faz,  às  fls.  88/89 do  recurso voluntário,  alusão  genérica a uma série de atividades que a empresa teria desempenhado desde a sua constituição,  mas  nenhuma prova  produz  nesse  sentido  no  que  se  refere  aos  anos­calendário  examinados,  2011  a  2013.  Os  documentos  colacionados  às  fls.  7652  e  ss,  referentes  ao  agenciamento  e  consultoria da carreira de outras personalidades,  tocam a períodos decorridos a partir do ano­ calendário 2014, o que em nada favorece suas ilações.  Quanto aos demais aspectos da questão,  importa, de  início, contextualizar a  legislação aplicável antes de adentrar ao exame dessas negociações.  Com o fim da lei do passe, buscou­se forma alternativa dos clubes de futebol  obterem  reparação  econômica  pelo  intempestivo  rompimento  do  vínculo  contratual  por  iniciativa do jogador, resguardando­se esse direito do atleta, o que foi viabilizado de início pela  imposição de uma cláusula penal, e, a partir do advento da Lei nº 12.395/11, com a cláusula  indenizatório  desportiva,  que  tem  a  natureza  de  multa  penitencial  (e  não  indenização  verdadeiramente), assim prevista no art. 28 da Lei nº 9.615/98:  Art.  28.  A  atividade  do  atleta  profissional  é  caracterizada  por  remuneração  pactuada  em  contrato  especial  de  trabalho  desportivo, firmado com entidade de prática desportiva, no qual  deverá  constar,  obrigatoriamente:(Redação  dada  pela  Lei  nº  12.395, de 2011).  I  ­ cláusula  indenizatória desportiva,  devida  exclusivamente  à  entidade  de  prática  desportiva  à  qual  está  vinculado  o  atleta,  nas seguintes hipóteses:  a)  transferência  do  atleta  para  outra  entidade,  nacional  ou  estrangeira, durante a vigência do contrato especial de trabalho  desportivo; ou  b)  por  ocasião  do  retorno  do  atleta  às  atividades  profissionais  em  outra  entidade  de  prática  desportiva,  no  prazo  de  até  30  (trinta) meses; e  Fl. 16653DF CARF MF     144  II ­ cláusula compensatória desportiva, devida pela entidade de  prática desportiva ao atleta, nas hipóteses dos incisos III a V do  § 5o.  § 1º O valor da cláusula indenizatória desportiva a que se refere  o  inciso  I do caput deste artigo será  livremente pactuado pelas  partes e expressamente quantificado no instrumento contratual:  I ­ até o limite máximo de 2.000 (duas mil) vezes o valor médio  do salário contratual, para as transferências nacionais; e  II  ­  sem  qualquer  limitação,  para  as  transferências  internacionais.  (...)  §  2º  São  solidariamente  responsáveis  pelo  pagamento  da  cláusula indenizatória desportiva de que trata o inciso I do caput  deste  artigo  o  atleta  e  a  nova  entidade  de  prática  desportiva  empregadora. (grifei)  Explica Baía22 em sua obra “Direitos econômicos do atleta de futebol” que,  nesse contexto, a doutrina nacional criou duas figuras denominadas de “direitos federativos” e  “direitos econômicos”, passando a delinear os primeiros:  Os  “direitos  federativos”  são  a  expressão  do  vínculo  desportivo,  isto  é,  o  direto  de  a  entidade  de  prática  desportiva  registrar  o  contrato  de  trabalho  firmado  com o atleta na própria entidade de prática desportiva.  Prossegue esse autor, citando Álvaro Melo Filho23:  Vale  dizer,  direito  federativo  é  exclusivo  do  clube  que  detém  a  titularidade  temporária  (resultante  do  contrato  de  trabalho  profissional  desportivo  registrado)  sobre o atleta profissional contratado.  Assim,  ao  contrário  do  que  insinua  o  contribuinte  à  fl.  79  do  recurso  voluntário ­ “quando o atleta celebra um novo contrato de trabalho com uma nova agremiação,  vincula os  seus direitos  federativos  a  esse novo  clube”,  os direitos  federativos não  são  seus,  mas sim exclusivos do clube, não podendo ser negociados pelo jogador. Denota­se, então, que  diversamente  do  alardeado  na  peça  recursal,  o  “evidente  desconhecimento”  dos  temas  em  apreço parece afligir não a autoridade fiscal, mas sim a peça recursal.  Retorna Baía, na sequência, explicando o conceito de direitos econômicos:  A negociação entre as entidades de prática e os “investidores” gira em torno  dos “direitos econômicos”. Estes são o conteúdo econômico dos direitos federativos,  ou seja o valor constante na cláusula indenizatória desportiva inserta no contrato de  trabalho profissional.  E arremata, citando novamente Melo Filho:  Ou,  em  outras  palavras,  os  direitos  econômicos  desportivos  decorrem  do  proveito  dos  direitos  federativos,  ou  seja,  são  as  receitas  promanadas  da                                                              22  BAÍA,  Júlio  César  de  Paula  Guimarães.  Direitos  Econômicos  do  atleta  de  futebol:  uma  análise  de  sua  negociação para investidores. Belo Horizonte: D'plácido, 2015, pp. 99/102.  23  MELO  FILHO,  Álvaro.  Futebol  Profissional;  Direitos  federativos  e  econômicos  no  futebol  ­  distorções  e  correções jurisprudenciais. Revista Brasileira de Direito Desportivo, São Paulo, ano VI, n. 13, pp. 7­14, jan.­jun.,  2008.  Fl. 16654DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 74          145  transferência dos direitos  federativos pelo  clube a que  está vinculado,  com caráter  exclusivo, o atleta.  Verifica­se, daí, a  impertinência da alusão do recorrente quanto aos direitos  econômicos futuros quando já estivesse ele desvinculado do SFC, pois os direitos econômicos  decorrem  da  cláusula  indenizatória  desportiva  regrada  pelo  inciso  I  do  art.  28  da  Lei  Pelé,  sobre a qual é cabível falar tão somente durante a vigência do contrato de trabalho desportivo,  e que dizem respeito a valores devidos pelo jogador ao clube em caso de rescisão antecipada do  contrato de trabalho, por conta do primeiro.  À  luz  desses  conceitos  da  doutrina  especializada,  examine­se  o  seguinte  excerto do contrato firmado entre a N&N e o Barcelona em 15/11/2011:  Quinta ­ Transferência de direitos.  O  FC  BARCELONA  pagará  à  N&N,  a  título  de  contraprestação  e  compensação  e  (i)  pela  execução  em  favor  do  FC  BARCELONA  do  direito  exclusivo de designar o novo clube empregador do JOGADOR a partir da data de  encerramento de seu contrato com o SANTOS F.C., e isso no máximo até o dia 25  de agosto de 2014;  (ii) por  realizar conjuntamente com o JOGADOR quantos atos  sejam necessários ou convenientes à efetuação da referida condição de “free agent”,  e  (iii)  pela  aquisição  pelo  FC  BARCELONA  de  todos  os  direitos  federativos  e  econômicos do JOGADOR, a quantidade de quarenta milhões de euros (40.000.000  €), na seguintes formas e prazos:  (...)  Ora, causa profunda espécie tal cláusula, pois como a N&N poderia negociar  direitos federativos com o Barcelona, se tais direitos, consoante uníssona doutrina, pertencem,  por  sua  intrínseca natureza,  ao  clube que possui  registro do  jogador,  no  caso, o SFC? Nesse  rumo,  eventual  autorização  do  clube  para  que  o  jogador  negociasse  seus  futuros  direitos  federativos e econômicos, ainda que na condição de free agent, é totalmente inócua.  Tratar­se­ia,  à  toda  vista,  de  contrato  com  objeto  juridicamente  impossível,  atraindo, aliás, a sua nulidade, ex­vi do inciso II do art. 166 do CC24. Merece ressalvar que não  se está aqui a inovar na argumentação, mas sim a se destacar a propriedade da abordagem da  fiscalização.  Os direitos econômicos, por sua vez, como visto estão associados à cláusula  indenizatória  desportiva  e  vinculados  ao  contrato  de  trabalho  e  direitos  federativos,  pertencendo à época em parte ao SFC (60%) e em parte (40%) à DIS. E, uma vez encerrado o  contrato, e sobrevindo para o atleta a condição de free agent, não mais haveria falar em direitos  econômicos.  Estava,  então,  a  N&N  a  negociar  algo  que  não  lhe  pertencia,  e  que  não  tinha  sentido em termos jurídicos.  Como bem se apercebeu a autoridade lançadora, na realidade o contrato em  tela, bem como os demais associados a essas tratativas, refletem que “primeiro o grupo Neymar  fez  um  acordo  com  o  FCB  para  dar  preferência  ao  clube Catalão  na  futura  transferência  do                                                              24 CC:  Art. 166 . É nulo o negócio jurídico quando:  (...)  II ­ for ilícito, impossível ou indeterminável o seu objeto;  (...)  Fl. 16655DF CARF MF     146  atleta, mediante o recebimento de uma adiantamento de 10.000.000€, e mais 30.000.000€ após  a  assinatura  do  contrato;  depois,  visando  a  diminuição  da  carga  tributária,  simulou  diversos  contratos tentando imputar à N&N as obrigações tributárias do atleta”.  Sobre o referido valor de 10.000.000€, também não dissinto do entendimento  da fiscalização de que ele se trata, na verdade, de adiantamento de parte do valor pactuado para  ter a preferência do recorrente na futura contratação pelo Barcelona, camuflado de empréstimo.  A operação toda envolvida com o pagamento desse valor à N&N, definida na  cláusula 4ª do contrato firmado em 15/11/2011, assoma de modo flagrante como artificial. A  que  título  o  Barcelona,  instituição  não  financeira,  faria  empréstimo  sem  quaisquer  encargos  financeiros  a  empresa  recém  constituída,  sem  funcionários,  e  destituída  de  qualquer  capital  social?  Mais: porque somente após o início da ação fiscal foi pago o IOF associado  ao pretenso empréstimo? Mais um engano, em relação a um “detalhe”?  A apólice de seguro contratada pelo Barcelona para se precaver de eventual  inadimplemento por parte da N&N revela preocupação da agremiação com a possibilidade de  não chegar a operação a seu correto termo, sendo que as alegações do recorrente no sentido que  cláusulas  desse  gênero  são  correntes  em  negociações  similares  não  têm  qualquer  peso,  na  medida em que desprovidas de documentação a lhes fundamentar.  As  provas  corroboram  as  conclusões  da  autoridade  lançadora,  de  que  dito  empréstimo era mero simulacro, pouco convincente, adiantando pagamento à N&N via criação  de dívida desta para com o Barcelona, a ser convenientemente quitada por compensação com a  ulterior obrigação do clube de pagar à empresa os valores correlacionados com a transferência  do jogador. Ou seja, era mera parcela adiantada dos 40.000.000€ atinentes à operação global.  Aliás,  convém  chamar  a  atenção  que,  como  bem  discernido  nas  contrarrazões, o ganho do “Grupo Neymar” estava garantido na operação.  Caso  o  contrato  chegasse  a  seu  final  o  contrato  do  atleta  com  o  SFC,  e  efetuada  a  transferência  para  o  clube  catalão,  a N&N  receberia  afinal  o  total  os  40 milhões  acordados, estando resguardado seu “direito de preferência”.  Caso o Barcelona adquirisse o jogador do SFC antes do prazo acordado com  a  N&N,  como  ocorreu  quando  o  clube  comprou  efetivamente  os  direitos  federativos  e  econômicos  do  jogador  por  17.000.000€,  teria  a  agremiação  de  pagar  a  essa  empresa  os  40  milhões  de  euros  pela  “quebra”  da  avença,  sob  o  pretexto  de  indenização  por perda de  uma  chance, de acordo com o raciocínio trilhado na peça recursal.  E, se nenhuma das situações se concretizasse, e o jogador fosse adquirido por  outro clube, de todo modo este teria logicamente de cobrir, pelo menos, o valor de 40 milhões  de  euros que  a N&N  teria de pagar  ao Barcelona,  além de oferecer  condições vantajosas no  contrato para superar a proposta contratada com o clube espanhol.  Noutro giro, melhor sorte não favorece o recorrente, ainda que se aceite a tese  de que os valores em questão estariam associados a indenização por perda de uma chance.  Aqui,  necessário  fazer  breve  digressão.  Danos  materiais  podem  ser  indenizados, costumeiramente via reparação de danos emergentes e/ou de lucros cessantes. Se  com  relação  aos  danos  emergentes  a  isenção  de  imposto  de  renda  é  consenso  doutrinário  e  jurisprudencial, com relação aos lucros cessantes o consenso é em sentido oposto.  Fl. 16656DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 75          147  Ou seja, visto que não recompõe patrimônio pré existente, o recebimento de  valores  a  eles  associados  gera  acréscimo  patrimonial,  tributável  conforme  legislação  de  imposto de renda. O STJ tem entendimento pacificado sobre a matéria, valendo transcrever a  ementa do recente acórdão prolatado no REsp nº 1.464.786/RS, j. 25/8/2015:  PROCESSUAL CIVIL E  TRIBUTÁRIO. RECURSO ESPECIAL.  OFENSA  AO  ART.  535  DO  CPC.  FUNDAMENTAÇÃO  DEFICIENTE.  SÚMULA  284/STF.  VERBA  RECEBIDA  EM  DECORRÊNCIA  DE  ATO  ILÍCITO  PRATICADO  POR  TERCEIRO.  NATUREZA  DE  LUCROS  CESSANTES.  INCIDÊNCIA DO IMPOSTO DE RENDA.  1. A alegada ofensa ao art. 535 do Código de Processo Civil foi  apresentada de  forma genérica  pela  recorrente,  tendo  em  vista  que não demonstrou, de maneira clara e específica, a ocorrência  de omissão no julgado, atraindo, assim, o enunciado da Súmula  284 da Suprema Corte.  2. Os valores percebidos a título de pensionamento por redução  da capacidade laborativa decorrente de dano físico causado por  terceiro,  em  cumprimento  de  decisão  judicial,  são  tributáveis  pelo imposto de renda e sujeitam a fonte pagadora à retenção do  imposto por ocasião do pagamento.  3.  Recurso  especial  conhecido  em  parte  e,  nessa  extensão,  provido. (grifei)  É  natural  que  assim  seja,  pois,  consoante  a  1ª  Seção  desse  E.  Tribunal  já  assentou  no  EResp  nº  695.499/RJ  (j.  9/5/2007),  “mesmo  que  caracterizada  a  natureza  indenizatória  do  quantum  recebido,  ainda  assim  incide  Imposto  de  Renda,  se  der  ensejo  a  acréscimo patrimonial, como ocorre na hipótese de lucros cessantes”.  E  porque  tal  questão  é  pertinente  no  particular?  Porque  se  os  valores  associados a lucros cessantes, os quais se reportam a uma clara violação de direitos subjetivos,  estão  submetidos  à  incidência  do  imposto  de  renda,  tanto  mais,  consequentemente,  os  que  correspondem à perda de uma chance, que derivam da mera perda de uma oportunidade.  O que importa, ao final, é que em ambos os casos, e com mais propriedade  ainda  os  valores  relativos  à  perda  de  uma  chance,  ocorre  nítido  acréscimo  patrimonial,  tributável pelo imposto de renda, como ressoa a jurisprudência.  Não bastasse, há que se  ter em foco que quem teria “perdido a chance” é o  jogador Neymar  Júnior,  o qual deixaria de obter  contrato de  atleta profissional  em melhores  condições do que  as  acertadas previamente  com  o Barcelona, não pessoa  jurídica  interposta.  Ao menos que se defenda que a empresa realize atividades típicas de um jogador de futebol, o  que se configura bastante inusitado.  Inequívoco, por conseguinte, que tais rendimentos, se associados a “perda de  uma chance”, teriam por verdadeiro e único titular o recorrente, e não a N&N Consultoria.  Assim,  o  que  se  conclui  é  que,  mesmo  que  restasse  comprovado  que  os  valores  de  40.000.000€  percebidos  pelo  recorrente,  via  interposta  pessoa N&N Consultoria,  fossem  provenientes  de  indenização  por  perda  de  uma  chance,  mais  flagrante  ainda  seria  Fl. 16657DF CARF MF     148  incidência do imposto de renda pessoa física sobre tais valores, por força do § 1º do art. 3º da  Lei nº 7.713/88:  Art.  3º  O  imposto  incidirá  sobre  o  rendimento  bruto,  sem  qualquer dedução, ressalvado o disposto nos arts. 9º a 14 desta  Lei.  § 1º Constituem rendimento bruto todo o produto do capital, do  trabalho  ou  da  combinação  de  ambos,  os  alimentos  e  pensões  percebidos  em  dinheiro,  e  ainda  os  proventos  de  qualquer  natureza,  assim  também entendidos  os  acréscimos  patrimoniais  não correspondentes aos rendimentos declarados.  E, uma vez mais, cumpre destacar que, para que rendimentos  recebidos por  pessoa  física  sejam  tributados  na  pessoa  jurídica,  é  necessário  que  haja  permissivo  legal  expresso  nesse  sentido,  como  acontece  nos  casos  em  que  aplicável  o  art.  129  da  Lei  nº  11.196/05.  Se  assim  não  o  fosse,  nada  impediria  que  qualquer  pessoa  física,  mesmo  assalariada  ou  profissional  liberal,  criasse  pessoa  jurídica,  sob  o  pretexto  de  liberdade  ou  autonomia empresarial,  para  redirecionar  rendimentos e proventos diversos para a  sociedade.  Seguir  tal  equivocada  pretensão,  torna,  na  prática,  se  levada  às  últimas  consequências,  sem  efeito a legislação do imposto de renda pessoa física.  De sua parte,  aquele dispositivo da Lei nº 11.196/05 cuida de prestação  de  serviços  intelectuais,  situação  bem  diversa  da  ora  versada,  em  que  se  verifica  o  acréscimo  patrimonial  do  jogador  face  ao  recebimento  de  valores  devidos  em  decorrência  de  sua  transferência de clube de futebol, situação relativamente à qual não permissivo legal algum que  possa contemplar seja tais proventos tributados sob pessoa jurídica.  Esses  valores,  à mingua  de  qualquer  base  normativa  diversa,  e  conforme  a  lógica mais  óbvia,  são  proventos  do  atleta,  não  de  terceira  empresa,  como  a  interposição  da  N&N Consultoria visou fraudulentamente simular.  De  uma  forma  ou  de  outra,  por  conseguinte,  deve  o  imposto  de  renda  ter  como  sujeito  passivo  da  obrigação  tributária  o  recorrente,  por  ser  ele  o  verdadeiro  titular da  capacidade contributiva, revelada pelos ganhos oriundos da transferência para o Barcelona.  Sob essas razões, há que se manter a exigência fiscal.  C.3.4 e C.3.5) CONTRATO ENTRE A BARCELONA E N&N ADM.  Entende­se que aqui, mais uma vez, a autoridade lançadora bem caracterizou  o pagamento, sob o título de direito de imagem, de verbas de natureza salarial ao atleta, ainda  que direcionadas a interposta pessoa.  Tem­se  que,  como  descrito  anteriormente,  o  jogador,  de  início,  cedeu  contratualmente  a exploração de  seus direitos de  imagem de  forma gratuita à Neymar Sport,  empresa que verificou­se dotada de capacidade, ainda que incipiente, de gerir tal serviço.  Entretanto,  em um  segundo passo,  a Neymar Sport  contratou  em 1º/6/2013  (fls. 5502/5506), um sábado, para fins de administrar e gerenciar a imagem coletiva do atleta  junto ao Barcelona, a N&N Administração de Bens, empresa criada em 19/6/2012 pelos pais  do recorrente.  Fl. 16658DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 76          149  Na  segunda­feira  imediatamente  posterior,  como  fecho,  a  N&N  Administração  de  Bens  acordou  com  o  Barcelona  “Contrato  de  Imagem”  em  3/6/2013  (fls.  5521/5553), cedendo tais direitos ao clube espanhol.  Pois  bem,  a N&N Administração  de  bens  não  possuía  nenhum  funcionário  até  13/9/2013  e  não  possuía  entre  seus  objetos  sociais  a  atividade  de  gestão  de  imagem  (o  objetivo social é “administração de bens próprios e de terceiros, participações e investimentos  em bens móveis e imóveis”.  O próprio recorrente se contradiz na fl. 90 de seu arrazoado, ao apontar que,  conforme cadastro junto à Receita Federal, a empresa desenvolve a “gestão e administração da  propriedade imobiliária”, e depois, afirma que dentre as atividades por ela desenvolvidas está  “a  administração  dos  direitos  de  imagem  coletiva  recebidos  do  Barcelona”.  Se  olvidou,  evidentemente,  de  explicar  como  se  confundem  direitos  de  imagem  com  propriedade  imobiliária.  Com  razão  a  fiscalização,  quando  aponta,  à  luz  da DIPJ  da Neymar Sport,  que  tudo  indica  que  parte  da  gestão  de  imagem  foi  cindida  à  conveniência  das  partes  envolvidas, de modo que a N&N Administração assumisse o papel de intermediária na cessão  de  direitos  de  imagem  ao  Barcelona,  de  modo  que  as  receitas  da  Neymar  Sport  não  ultrapassassem o limite da tributação pelo lucro presumido a partir do ano­calendário 2013.  Desse modo, por  intermédio de  sucessivas  cessões de direito de  imagem, o  verdadeiro  beneficiário  dos  valores  pagos  a  esse  título,  o  autuado,  restou  artificialmente  afastado da percepção dos  rendimentos pagos a esse  título pelo clube, os quais  findaram por  tributados no regime do lucro presumido de pessoa jurídica sem qualquer substância efetiva.  De  sua  parte,  os  termos  em  que  estabelecidos  o  contrato  de  pagamento  de  exploração  de  imagem  coletiva,  com  parcelas  fixas  pagas  à  razão  de  17,65%  sobre  os  rendimentos de ínsita natureza remuneratória do trabalho auferidos pelo jogador, a despeito de  qualquer comprovação ou sinal de contraprestatividade relativamente ao uso daquela imagem,  corroboram o entendimento do fisco sobre a natureza de tais valores.  Tal  entendimento,  aliás,  ao  contrário  do  cogitado  pelo  recorrente,  foi  bem  delineado no Relatório Fiscal, vide fl. 7202 ­ “restou comprovado que o pagamento feito pelo  FCB  à  N&N  Administração  de  Bens,  sob  a  rubrica  'Direito  de  Imagem',  possui  natureza  salarial” ­ não havendo falar, daí, em inovação efetuada pela decisão vergastada.  O  montante  em  tela,  merece  ser  destacado,  trata­se  de  mero  percentual  adicional  aplicado  sobre  os  rendimentos  de  natureza  salarial,  pago  independentemente  de  qualquer circunstância, e condicionado apenas à vigência do contrato de trabalho.  E,  sendo  indissociável  da  avença  laboral,  mero  valor  adicional  aos  recebimentos  a  este  vinculados,  está  de  modo  reflexo,  obviamente,  condicionado  ao  atendimento dos requisitos daquele, tais como subordinação, pessoalidade e onerosidade.  Considero,  aliás,  que  as  diferenças  apontadas  pela  D.  Relatora  entre  o  contrato de trabalho e o contrato de direito de imagem firmados com o Barcelona não possuem  o  condão  de  suprir  a  falta  de  indícios  mínimos  de  que  os  termos  do  contrato  de  imagem  espelham efetiva materialidade da exploração daquele direito.  Fl. 16659DF CARF MF     150  Até mesmo  porque,  conforme  assinalado  na  tabela  constante  em  seu  voto,  consta  no  contrato  de  imagem  firmado  entre  o  Barcelona  e  a  N&N  Administração  que  “nenhuma das partes poderá assinar um acordo com um  terceiro que suponha a utilização de  direitos da imagem parte sem a aprovação expressa desta”.  Daí se infere logicamente que a N&N Administração, caso atuasse realmente  conforme  estipulado  contratualmente,  e  não  como mera  empresa  de  fachada,  teria  acesso  a  todos esses contratos firmados pelo Barcelona com terceiros, firmados a partir da assinatura do  contrato de cessão de direito de imagem em 03/06/2013. Poderia desse modo apresentá­los à  fiscalização  tributária,  demonstrando  corresponderem  efetivamente  os  valores  percebidos  em  questão, a ganhos por exploração de direito de imagem.  Nada foi trazido, contudo.  Exsurge  então  que muito  conveniente  e  fácil  parece  ser,  a  toda  percepção,  pagar um adicional percentual pré­estipulado sobre o salário e luvas percebidos pelo jogador e  atribuir­lhe  a denominação de uso de  imagem coletiva,  sem carrear prova  alguma de que os  fatos subjacentes correspondem a objeto formalizado contratualmente.  Note­se que não se está a defender, por óbvio, que a exploração do direito de  imagem não possa ter valor para um determinado clube. Aliás, pode­se cogitar que nos anos­ calendário seguintes, o contrato examinado possa ter respaldado a efetiva percepção de valores  associados a esse direito. O que não se pode admitir, contudo, é que meras alegações retóricas,  sem respaldo documental, possam prevalecer frente às bem conduzidas e atestadas conclusões  da autoridade fiscal.  Destarte,  à míngua de qualquer evidência  em sentido diverso,  tem­se  como  correta a imputação fiscal nesse aspecto.  C.4) QUALIFICAÇÃO DA MULTA DE OFÍCIO  Cabe  analisar,  primeiramente,  a  imputação  de multa  qualificada  à  infração  atinente  aos  recebimentos  do  SFC  a  título  de  remuneração  por  exploração  de  cessão  de  imagem, dado ter sido constatado possuírem aqueles verdadeira natureza salarial.  Gizam  os  arts.  71  a  73  da  Lei  nº  4.502/64,  que  integra mediante  remissão  expressa o texto do inciso II do art. 44 da Lei nº 9.430/96:  Art  .  71.  Sonegação é  tôda ação ou omissão dolosa  tendente a  impedir ou retardar,  total ou parcialmente, o conhecimento por  parte da autoridade fazendária:  I  ­  da  ocorrência  do  fato  gerador  da  obrigação  tributária  principal, sua natureza ou circunstâncias materiais;  II ­ das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar  a  obrigação  tributária  principal  ou  o  crédito  tributário  correspondente.  Art  .  72.  Fraude  é  tôda  ação  ou  omissão  dolosa  tendente  a  impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato  gerador  da  obrigação  tributária  principal,  ou  a  excluir  ou  modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o  montante do impôsto devido a evitar ou diferir o seu pagamento.  Fl. 16660DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 77          151  Art  . 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas  naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos  arts. 71 e 72.  Por  seu  turno,  a  definição  de  conluio  também  pode  ser  encontrada,  dentre  outras fontes, no verbete de De Plácido e Silva25:  CONLUIO.  Derivado  do  latim  colluidium,  de  cum  e  ludus,  possui,  originariamente, o sentido de com jogo.  E,  na  linguagem  jurídica,  tem,  mais  ou  menos,  esta  significação,  pois  que  conluio,  com  o  mesmo  sentido  de  colusão  (arranjo,  combinação),  designa  o  concerto, conchavo ou combinação maliciosa ajustada entre duas ou mais pessoas,  com objetivo de  fraudarem ou  iludirem uma  terceira pessoa, ou de  se  furtarem ao  cumprimento da lei.  O conluio, dá, assim, a idéia do que é simulado. Tem o sentido de simulação.  (grifos do original)  No caso  concreto,  verificou­se  que o  recorrente,  em  comunhão de  esforços  com seus genitores e com a empresa por eles administrada, a Neymar Sport, firmou uma série  de contratos com o SFC com repercussão nos anos­calendário 2011 a 2013, mediante os quais  rendimentos que seriam submetidos à tributação na pessoa física, mais gravosa, foram sujeitos  à tributação por pessoa jurídica optante do lucro presumido, claramente mais favorável, ainda  que se leve em conta eventuais encargos de ISS, como bem apontado nas contrarrazões.  Lecionava Marcos Bernardes de Mello26 que “o que caracteriza a simulação  é  precisamente,  o  não  ser  verdadeira,  intencionalmente,  a  manifestação  de  vontade.  Na  simulação quer­se o que não aparece, não se querendo o que aparece”.  Sublinha com propriedade, também, Pereira27, que:  Na  simulação  relativa  efetua­se  negócio  jurídico  cujas  consequências  são  efetivamente desejadas, mas se encobre este negócio com um ou várias declarações  de vontade que fazem crer que é outro o negócio praticado e não aquele que o foi  efetivamente. Nada melhor para ilustrar o que ocorre quando presente a simulação  relativa, que a passagem de PONTES DE MIRANDA, onde diz: “Na simulação digo  que vou por aqui, mas em verdade vou por ali.  Existe  portanto,  no  negócio  relativamente  simulado,  conforme  ensina  Chamoun,  algo  de  efetivamente  desejado,  que  é  encoberto  pela  criação  de  uma  aparência ou ficção.  Segundo o escólio de Ferrara28,  ainda que se possa admitir dificuldades em  provar a simulação, pois visa esta justamente ludibriar terceiros, ela pode ser atestada através  de  todos  os  meios  admitidos  em  direito,  inclusive  indícios  e  presunções,  bem  como  por  documentos que demonstrem o negócio jurídico real que se buscou dissimular.                                                              25 Silva, De Plácido e. Rio de Janeiro: Editora Forense, 2003,  p. 350.  26 Mello, Marcos Bernardes de. Teoria do Fato Jurídico: plano da validade. São Paulo: Saraiva, 1995, p.153.  27 PEREIRA, Regis Fichtner. A fraude à lei. Rio de Janeiro: Renovar, p. 52.  28 FERRARA, Francisco (apud Acórdão DRJ POA nº 4.681/04, relator Victor Augusto Lampert). A simulação nos  negócios jurídicos. Campinas: Red Livros, pp. 430 e 432. Ap  Fl. 16661DF CARF MF     152  Nesse  rumo,  traz  alguns  requisitos  para  o  reconhecimento  da  existência  de  simulação, os quais devem ser confrontados com as circunstâncias do caso em tela:  1º requisito ­ existência de motivo para a simulação, ou seja, “interesse que  leva as partes a estabelecer um acto simulado, a razão que conduz a fazer aparecer um negócio  que não existe ou  a mascarar um negócio  sob uma  forma diferente:  é o porquê do  engano”.  Essa causa deve ser “séria e importante (suficiente e idônea)” de forma a justificar a simulação.  Como  visto,  a  aparência  de  cessão  de  direitos  de  imagem  mascarava  a  percepção de rendimentos de natureza salarial, levando a impactos significativos em termos de  diminuição da carga tributária sobre eles incidente, não se podendo esquecer, sem dúvida, dos  encargos trabalhistas indevidamente exonerados.  2º requisito ­ a conduta das partes deve estar em consonância com aquilo que  foi  acordado;  havendo  discrepância,  há  indício  de  que  também  existe  descompasso  entre  a  vontade real e a vontade manifestada.  Note­se  que  aqui,  ainda  que  se  tenham  avençados  contratos  de  cessão  de  direitos de imagem ao SFC, não há evidências de que este tenha realizado a exploração efetiva  desses direitos. Ou seja, a conduta não encontra correspondência com a vontade formalmente  manifestada nos contratos.  3º requisito ­ no campo do objeto do negócio, destaque­se a divergência entre  a natureza e a quantidade dos bens e direitos e o respectivo preço.  Mais  clara  ainda  a  existência  de  simulação  sob  esse  enfoque,  pois  o  preço  pago pelas cessões ­ remunerações fixas mensais ­ era dissociado de qualquer uso concreto da  imagem  pelo  cessionário,  sendo  o  pagamento  realizado,  como  visto,  independente  de  tal  utilização, o que revela seu precípuo caráter salarial.  Assim, tem­se que a simulação verificada pelo autoridade lançadora está bem  alicerçada  nos  documentos  e  argumentos  por  ela  carreados  ao  processo,  e  efetivamente  comprovada, ao contrário do que argúi o autuado. Lembre­se, ademais, que atos simulados não  produzem efeitos perante o Fisco, forte nos arts. 167 do CC, c/c arts. 109, 118 e 149, VII do  CTN.  Por oportuno, vale referir que o tópico referente à qualificação constante no  Relatório  Fiscal,  ainda  que  por  si  só  bastante  suficiente,  veicula  síntese  das  situações  simulatórias exaustivamente circunstanciadas ao longo daquele documento, e repisadas adiante  quando do item relativo à responsabilidade, quando mais uma vez são explicitadas as fraudes e  o conluio que foram verificados pela autoridade fiscal.  De seu turno, o recorrente traz ainda uma série de alegações, afirmando que  não  há  falsa  aparência  a  ser  desconstituída,  quando  o  que  se  constatou  foi  exatamente  o  contrário, que houve o mascaramento da percepção de salários sob as vestes de retribuição por  cessão de direitos.  A divergência entre a vontade interna e a vontade manifestada também resta  hialina, pois as provas demonstram que a vontade emanada no sentido de acordar recepção de  retribuição  por  exploração  de  direitos  de  imagem  não  correspondia  ao  auferimento  de  remuneração de cunho salarial evidenciado, e que revela a efetiva vontade interna.  Por outra via, já foi referido reiteradamente que houve sim, redução de carga  tributária,  sendo  inquestionável  que  a  tributação  sob  o  lucro  presumido  é  substancialmente  Fl. 16662DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 78          153  menor do que a que atinge a pessoa física. A mera arguição de que já teria sido pago mais que  o devido não se sustenta, na falta de evidências que a suportem.  Acrescente­se,  uma  vez  mais,  que  não  houve  desconsideração  de  pessoa  jurídica,  mas  o  reconhecimento  pela  fiscalização,  com  base  na  legislação  em  vigor,  do  verdadeiro sujeito passivo da obrigação tributária, dada a revelação do esquema simulatório já  narrado. Ineficaz a simulação perante o Fisco, por força de lei, a imputação dos fatos tributários  ao real contribuinte surge como poder­dever legal da administração.  Então, os fatos examinados demonstram ter ocorrido fraude mediante conluio  formado  pelo  recorrente,  seus  pais  e  a  pessoa  jurídica  Neymar  Sport,  visando  dissimular  a  percepção  de  rendimentos  salariais,  e  ocultá­los  sob  as  vestes  de  retribuição  por  cessão  de  direito de imagem, de modo a diminuir o imposto devido sobre esses rendimentos.  Almejou­se, em vinculação com aquele intento, impedir o conhecimento por  parte  do  Fisco  do  real  beneficiário  dos  rendimentos,  de  modo  a  afetar  o  crédito  tributário  decorrente.  Deve também ser salientado que no enunciado das normas contidas nos arts.  72 e 73 da Lei nº 4.502/64, parágrafos acima transcritos, não há menção alguma sobre qual dos  envolvidos  tenha  de  se  beneficiar  diretamente  da  redução  de  imposto  obtida  pelo  conluio  fraudulento.  Justamente  por  isso,  a  jurisprudência  administrativa  vem  seguidamente  reconhecendo  a  existência  de  conluio  quando,  por  exemplo,  contador  auxilia  contribuinte  a  prestar declaração falsa ao Fisco, com vistas a diminuir o imposto devido pelo seu cliente.  Repare­se  que  nessa  situação  hipotética  o  contador  não  tem  sua  carga  tributária diminuída, somente o seu cliente, mesmo assim atua conscientemente ­ sendo o caso  ­ para reduzir o montante do imposto devido sobre os rendimentos daquele, caracterizando­se a  formação do conluio nos termos dos precitados artigos.  Abstraindo­se  do  exemplo,  tem­se  assim  que,  na  norma  jurídica  em  evidência, não existe qualquer referência à necessidade de comprovação de que essa ou aquela  pessoa, ou ainda todas, tenham de se beneficiar do esquema fraudulento, ainda mais mediante a  eventual percepção de fluxo financeiro ou benefício direto. Basta ler o seu dispositivo.  Na espécie, a fiscalização bem apontou tratar­se de conluio entre integrantes  de uma unidade familiar, onde a relação de fidúcia prepondera, e determinados atos, de índole  fraudulenta ou não, só podem ser compreendidos tendo em vista tal contexto.  Desse modo, se os envolvidos concertaram dissimular salário por retribuição  de  direito  de  imagem,  é  porque  sabiam  que  os  rendimentos  permaneceriam  no  “Grupo  Neymar”,  e,  sendo  em  boa  parte  convertidos  em  dividendos  ou  mesmo  restando  na  pessoa  jurídica  Neymar  Sport,  poderiam  multiplicar  o  patrimônio  conjunto  com  carga  tributária  reduzida, o que se constitui em inequívoca vantagem comum.  E,  de  todo modo,  caso  se  considere  relevante  a  demonstração  de  benefício  pessoal do recorrente ­ em clara contrariedade ao enunciado legal, como referido ­ há que se  destacar que todo o esquema simulatório foi engendrado justamente para ocultar a verdadeira  Fl. 16663DF CARF MF     154  natureza dos rendimentos percebidos, como sói acontecer nos casos de planejamento tributário  ilícito.  Decerto,  a  interposição  de  empresas,  pessoas  físicas,  para  fins de ocultação  do real receptor dos rendimentos é situação corriqueira, sendo muito comum serem utilizados  com esse fito empregados, pessoas jurídicas, e, destacadamente, parentes, por motivos óbvios.  Pode­se cogitar, por exemplo, de funcionário de uma empresa que demande a  seu empregador que deposite seu salário na conta corrente de pessoa jurídica cujos sócios são  parentes seus. Imagine­se, ainda, que ele não utilize ou lance mão desses valores.  Por  esses  motivos,  alguém  cogitaria  que  esse  profissional  não  prestou  serviços, ou que os valores por ele  redirecionados a seus parentes não se consubstanciam em  rendimentos seus? Claro que não.  Isso porque a  apuração materialidade do  fato gerador do  imposto de  renda,  frise­se,  prescinde  da  verificação  da  eventual  destinação  dada  aos  rendimentos,  seja  ela  consumo, investimento, etc. Auferidos rendimentos pelo sujeito passivo, incide o tributo.  Também  é  costumeira,  em  casos  fraudulentos,  a  interposição  de  pessoas  jurídicas  para  que  rendimentos  e  proventos  em  geral,  auferidos  por  pessoas  físicas,  sejam  tributados em sociedades, alegando­se para tanto mero exercício da autonomia da vontade ou  de liberdade negocial.  Tal  possibilidade  existe,  reconheça­se,  mas  está  circunscrita  aos  estreitos  limites  permissivos  estabelecidos  pelo  legislação,  como  por  exemplo  os  contidos  na  Lei  da  EIRELI (Empresa Individual de Responsabilidade Limitada ­ Lei nº 12.418/11), e no art. 129  da Lei nº 11.196/05. Fora dessas estritas situações, incidem os ditames do art. 123 do CTN:  Art.  123.  Salvo  disposições  de  lei  em  contrário,  as  convenções  particulares,  relativas  à  responsabilidade  pelo  pagamento  de  tributos,  não  podem  ser  opostas  à  Fazenda  Pública,  para  modificar  a  definição  legal  do  sujeito  passivo  das  obrigações  tributárias correspondentes.  Não fosse dessa maneira, estaria facultado a toda pessoa física interessada, à  sua conveniência, se organizar como pessoa jurídica e eximir­se de submeter­se à legislação do  imposto  de  renda  pessoa  física,  relegando  à  total  ineficácia  as  normas  pertinentes  ao  tema  insculpidas no Código Tributário Nacional e demais diplomas de regência.  Interpretação equivocada do gênero não possui, assim, o menor fundamento,  concluindo­se,  daí,  que  situações  de  interposição  indevida,  diga­se,  sem  respaldo  legal,  de  pessoas  jurídicas  entre  os  rendimentos  e  seu  real  beneficiário,  traduzem­se  em  sinais  inequívocos de fraude.  A  revelação  desses  artifícios  constitui  parte  importante  da  atuação  da  fiscalização,  e  do  seu  cotidiano.  Notoriamente,  se  verificam  casos  em  que  pessoas  colocam  formalmente bens em nomes pessoas jurídicas criadas tendo como sócios parentes, ou demais  pessoas de sua confiança, mas que são de fato os  reais proprietários desses bens,  tendo estes  sob sua plena disponibilidade.  No  caso  focado,  aliás,  há  indícios  consistentes  no  sentido  de  que  os  bens  patrimoniais adquiridos com o esquema simulatório, ao menos em parte, eram destinados a uso  corriqueiro e principal do recorrente, tais como iates, carros esporte, etc., sem falar em imóveis.  Fl. 16664DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 79          155  Apesar de o  recorrente desqualificar  tais  evidências,  por  serem oriundas de  reportagens da mídia, tratam­se na verdade de elementos perfeitamente válidos de prova, ainda  que atípicas. Não podem ser, certamente, o elemento fundamental ou único para a formação da  convicção  do  julgador,  mas  são  relevantes  e  eficazes,  tanto  mais  quando  convergentes  e  coerentes com a versão dos fatos apresentada fundamentadamente nos autos pelas autoridades  lançadoras.  Curioso  é,  aliás,  que  o  recorrente  procure  desqualificar  referido  gênero  de  prova, pois seguidas vezes, em suas peças recursais usa tal expediente de ampla maneira para  embasar  seu  arrazoado,  como  pode  ser  visto,  ilustrativamente,  às  fls.  7538/7564,  e  13889/14032. Parece assim defender a tese de que esse tipo de prova vale quando é manejado  pela defesa, mas quando é utilizado pelo Fisco, de nenhuma serventia  tem. Dois pesos, duas  medidas; onde está a coerência?  Também  causa  estranheza  que  o  contribuinte  avente,  no  que  tange  especificamente ao  iate constante no patrimônio da Neymar Sport, que este era utilizado não  por ele, mas sim pela empresa na prospecção de clientes.  Ora,  sendo  assim,  ninguém melhor  do  que  a  própria  empresa  para  trazer  à  colação  elementos,  ou  ao  menos  inícios  de  prova  de  que  os  fatos  se  deram  dessa  maneira.  Aliás, poderia ter comprovado, nessa trilha, que os diversos carros de luxo, e helicóptero, eram  também utilizados de alguma maneira pela Neymar Sport,  já que constam contabilizadas em  seu patrimônio.  Ausente  qualquer  prova  produzida  nesses  termos,  contudo.  Destarte,  nada  convincentes, e tampouco auxiliam a defesa, alegações do gênero. Por seu turno, a fiscalização  reuniu  várias  notícias,  inclusive  com  fotos,  corroborando  sua  versão  dos  fatos,  e  desincumbindo­se de seu ônus probatório.  No  confronto  entre,  por  um  lado, meras  alusões,  à  evidência  sem  qualquer  fundamento,  e  de  outro,  reportagens  de  jornal,  que  se  coadunam  com os  fatos  notoriamente  comprovados no processo, não é difícil para o julgador sopesar em que sentido verte a balança  na formação da convicção.  Cabe reforçar, de qualquer maneira, que o fato gerador do imposto de renda  não  requer,  sob  quaisquer  dos  componentes  de  sua  matriz  de  incidência  tributária,  nos  reportando aqui à lição de Paulo de Barros Carvalho, que se faça qualquer conjetura acerca do  eventual destino dos rendimentos auferidos.  Assim,  é  irrelevante  para  a  aferição  do  imposto  de  renda,  a  destinação  do  acréscimo patrimonial revelado, seja para consumo, investimento ou mesmo doação caritativa.  Os esforços do recorrente em alardear não ter tido nenhum benefício pessoal  com  os  fatos  narrados  buscam,  na  verdade,  desviar  o  foco  de  que  a  renda  recebida  foi  em  virtude  de  seu  trabalho  e  reveladora  de  sua  capacidade  contributiva,  consoante  demonstrado  pela fiscalização.  Em  outro  giro,  necessário  frisar  que  o  recorrente  tomou  parte  ativa  no  conluio,  assinando  como  parte  interessada  os  sucessivos  contratos  envolvendo  a  cessão  de  direitos  de  imagem  pela  Neymar  Sport  ao  SFC,  e  assumindo  diversas  obrigações  deles  decorrentes ­ ver fls. 7517 e ss.  Fl. 16665DF CARF MF     156  Inclusive, chegou a firmar o contrato datado de 21/12/2011 no qual abriu mão  pela cláusula 1.2 (fl. 7147), explicitamente, de seu salário, para que os valores correspondentes  fossem recebidos por aquela empresa como retribuição por uso de direito de imagem cedida.  Tal cláusula é bastante  representativa, pois desnuda, ao  fim e ao cabo, dois  aspectos essenciais da situação.  Primeiro,  que  o  salário  pago  pelo  SFC  ao  jogador  e  a  remuneração  pelo  direito de imagem cedido, pago pelo clube à Neymar Sport, eram tidas, pelas próprias partes,  como totalmente intercambiáveis, ou seja, refletindo o mesmo gênero de prestação.  Segundo, que a Neymar Sport, para fins dos contratos de cessão de direitos  acordados com o SFC, tinha o papel de interposta pessoa, pois inexistia efetiva exploração dos  direitos de imagem pelo clube e a sua interposição buscava, basicamente, o deslocamento dos  salários recebidos de pessoa física para pessoa jurídica, com as vantagens fiscais e trabalhistas  daí decorrentes.  Note­se  que  nos  anos­calendário  examinados,  2011  a  2013,  o  contribuinte  possuía entre 19 e 21 anos de idade, e os seus pais, larga experiência adquirida na negociação  de contratos, já que o vinham fazendo junto ao SFC, ao menos desde o ano de 2004 (fls. 7490 e  ss).  A  tese  de  inexperiência  dos  pais  dos  jogadores,  aliás,  não  subsiste  minimamente  à  luz  do  depoimento  colhido  pela  fiscalização  junto  ao  ex­presidente  do SFC,  Luís Álvaro (fl. 7185):  O declarante  afirma que  as negociações  com o pai do  atleta Neymar  Júnior  sempre  foram complicadas,  tendo em vista que o Sr. Neymar é uma pessoa muito  interessada  em  ganhar  sempre  para  o  lado  dele,  especialmente  quando  envolve  dinheiro.  Portanto  pode  deduzir  que  a  negociação  com  o  FCB  não  deve  ter  sido  rápida, pois o Sr. Neymar é muito exigente.  Por  seu  turno,  o  recorrente  havia  alcançado  a  maioridade  civil  desde  5/2/2010, em pleno gozo de  suas  faculdades mentais no período em questão,  s.m.j.,  e apto a  manifestar  sua  vontade  livremente  e  a  responder  pelas  consequências  de  seus  atos,  tudo  conforme as leis em vigência neste país29.  Não há, por sinal, nenhum indício de que tenha havido algum tipo de vício de  consentimento na formação da vontade do jogador, como erro ou coação, nos termos dos arts.  138/144  e  arts.  153/155  do  CC,  manifestada  nos  contratos  em  apreço.  E,  com  relação  aos  contratos  firmados  antes  de  sua  maioridade,  consentiu  com  os  seus  termos,  pois  após  tal  advento nada questionou, quedando silente a respeito da validade daqueles.  Assim,  responde ele  pelos  seus  atos,  inclusive  pela  participação  no  conluio  que ensejou a qualificação imposta no lançamento, no que tange aos aspectos examinados neste  tópico.  Em  outros  termos,  pautou  sua  conduta  com  plena  consciência  de  suas  ações,  a  consciência  do  resultado,  a  consciência  do  nexo  causal  entre  a  conduta  e  o  resultado,  e  a  vontade de atuar no sentido de provocar o resultado infringente das normas jurídico­tributárias,  mediante a deliberada participação na simulação verificada.  Nesse  compasso,  há  que  se  chamar  a  atenção  para  o  dever  de  coerência  intrínseca das decisões. Se entende­se, por uma via, que o recorrente tomou parte em manifesta                                                              29 Código Civil, art. 5º : A menoridade cessa aos dezoito anos completos, quando a pessoa fica habilitada à prática  de todos os atos da vida civil.  Fl. 16666DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 80          157  simulação visando a diminuição no tributo devido, consoante descrito ­ e que não há qualquer  evidência de engano, força maior, erro escusável ou situação minimamente verossimilhante a  embasar eventual hipótese de ausência de dolo ­ impõe­se a manutenção da qualificação, visto  que ele responde civilmente pelos seus atos.  Desse  modo,  e  retornando  ao  cerne  da  qualificação,  repita­se  que  ficou  evidenciado que o recorrente, em conluio com seus genitores e a Neymar Sport, praticou fraude  via  simulação,  com  a  consequente  redução  do  imposto  devido  sobre  os  rendimentos  em  questão.  Preenchidos os pressupostos estabelecidos no art. 44,  II da Lei nº 9.430/96,  c/c arts. 71 a 73 da Lei nº 4.502/64, deve ser mantida a multa qualificada no que concerne aos  valores  associados  ao  pagamento  por  exploração  de  direitos  de  imagem  efetuados  pelo  cessionário SFC.  No que tange aos contratos e negociações envolvendo o Barcelona, cabe de  pronto registrar que a multa qualificada não deve persistir no que tange aos valores recebidos  em  razão  dos  contratos  de  agência  e  de  scouting,  por  não  prosperarem  as  infrações  a  ele  relacionados, à vista do discutido no item C.3.1.  Com respeito as demais  infrações correlatas, entende­se que as negociações  com o Barcelona envolveram elementos mais do que suficientes para amparar a qualificação da  multa de ofício lavrada pela fiscalização.  A fiscalização atestou que se trataram de operações entre pessoas vinculadas  por laços familiares ­ o recorrente e seus genitores, bem como pessoas jurídicas interpostas das  quais estes últimos eram os administradores.  As  operações  são  anormais  e  fogem ao  padrão  de mercado,  pois  envolvem  empréstimo  sem  juros  realizado  por  clube  de  futebol  e,  pretensa  indenização  por  perda  de  chance  não  evidenciada.  Também  versam  sobre  negociação  com  terceiros  realizada  por  empresa  cuja  existência  à  época  dos  fatos  não  foi  comprovada,  de  direitos  econômicos  e  federativos de atleta profissional, sendo cediço, em toda a doutrina especializada, que ao menos  os direitos federativos são exclusivos de agremiação esportiva.  Além disso, as operações foram sistematicamente organizadas em sequência,  em  curto  lapso  temporal,  valendo  a pena  reprisá­las  no  essencial,  ainda  que  já mencionados  especificamente no item correspondente ao seu exame:  ­ 18/10/2011: Data da abertura da N&N Consultoria (na JUCESP);  ­  27/10/2011: Contrato  entre Neymar  Júnior  e N&N Consultoria,  pelo  qual  esta  empresa  prestará  ao  atleta  gratuitamente  serviços  de  consultoria  e  planejamento  de  carreira,  podendo  também  acordar  remuneração  com  terceiros  que  eventualmente  possam  contratar o atleta;  ­  08/11/2011:  Autorização  do  SFC  para  que  o  atleta  negocie  seus  futuros  direitos econômicos e federativos a partir de 25/8/2014;  ­  10/11/2011:  Aditamento  do  contrato  celebrado  em  27/10/2011  entre  o  jogador e a N&N Consultoria, atribuindo a esta o direito de negociar sua transferência a clubes  Fl. 16667DF CARF MF     158  europeus  na  condição  de  free  agent  (contrato  com  CNPJ  que  só  seria  expedido  em  17/11/2011);  ­  15/11/2011:  Contrato  para  futura  transferência  dos  direitos  federativos  e  econômicos do atleta para o FCB, até a data de 25/8/2014, quando seria free agent;  ­ 17/11/2011: expedição do CNPJ utilizado no aditamento contratual datado  de 10/11/2011;  ­ 06/12/2011: Contrato de empréstimo efetuado entre a N&N Consultoria e o  Barcelona, no valor de 10 milhões de euros;  ­ 21/12/2011: integralização do capital de N&N Consultoria;  ­ 22/12/2011: novo Contrato de Trabalho entre o SFC e o atleta,  reduzindo  termo  do  vínculo  de  laboral  para  dia  13/7/2014,  viabilizando  a  transferência  do  jogador  no  prazo acordado pelo contrato de 15/11/2011;  ­  15/02/2012: Data  em  que  a N&N Consultoria  recebe  o  “empréstimo”  no  valor de 10.000.000 €;  ­ 17/02/2012: Data em que a N&N Consultoria “empresta” o valor recebido  para os genitores do atleta;  ­  30/07/2013:  Contrato  de  arrendamento  de  serviços  profissionais  entre  a  N&N Consultoria e o FCB.  ­  24/10/2013: Data  do  pagamento  da  “indenização”,  pelo  FCB  à N&N,  no  valor de 25.000.000 €.  Tais  fatos  corroboram  o  entendimento  de  que  houve  ajuste  doloso  entre  o  atleta  e  seus  genitores  para  que  fossem  reduzidos  os  tributos  incidentes  sobre  as  quantias  recebidas no curso da negociação para transferência do jogador para o Barcelona.  Com  esse  fim,  sociedade  sem  substância  efetiva/estrutura  empresarial  ­  a  N&N Consultoria ­ conduziu operações por meio das quais esses valores foram recebidos pela  pessoa  jurídica,  simuladas  como  “indenização  por  perda  de  chance”  e  “empréstimo”,  acarretando  significativa  redução  do  imposto  de  renda  devido  sobre  esses  rendimentos,  que  deveriam  ter  sido  tributados na pessoa  física do  jogador,  conforme prescreve a  legislação de  regência, não houvesse o esquema arquitetado.  Não é demasiado  lembrar que o recorrente participou ativamente em etapas  decisivas no procedimento simulatório, como firmando contrato em 27/10/2011, anteriormente  mencionado,  a  fim  de  permitir  que  empresa  sem  qualquer  estrutura  operacional,  a  N&N  Consultoria, pudesse gerir a negociação com o Barcelona. Também foi signatário do contrato  de  trabalho  com  o  SFC,  datado  de  22/12/2011,  o  qual  possibilitou  que  as  negociações  evidenciadas  como  fraudulentas pudessem dar­se dentro do prazo previsto  com aquele  clube  catalão.  Revelada  a  conduta  deliberada  visando  a  infringência  das  normas  jus  tributárias, cabe manter a multa qualificada no que se refere as infrações vinculadas à empresa  N&N Consultoria.  Fl. 16668DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 81          159  Sorte  diversa  não  advém  no  tocante  à  qualificação  da  multa  de  ofício  relativamente às infrações relacionadas à N&N Administração de Bens.  Foi o  jogador que cedeu contratualmente em 1º/4/2009 a exploração de uso  do direito de imagem a Neymar Sport. Reconheça­se, porém, conforme dantes explicado neste  voto, que não restou comprovado pela  fiscalização que essa empresa não possuía capacidade  operacional ou conhecimento na área de gestão, de modo a suportar a tese de falta de propósito  negocial.  Desse  modo,  a  assinatura  desse  contrato,  isoladamente,  não  pode  ser  associado  a  conduta fraudulenta ou similar.  Contudo, o recorrente tomou parte ativa e foi signatário do contrato efetuado  em 3/6/2013  (fls.  5468 e  ss), mediante  o  qual,  em  conjunto  com a N&N Administração  e o  Barcelona, foram os rendimentos decorrentes de seu trabalho como jogador integrante daquela  agremiação, simulados em recebimentos a título de cessão de direito de exploração de imagem  coletiva.  Por  essa  via, manifestou  livremente  sua  vontade,  e  deliberadamente  tomou  parte  no  conluio  simulatório  que  se  extrai  da  análise  dos  documentos  dos  autos,  o  que  ocasionou  a modificação  das  características  essenciais  do  fato  gerador,  de modo  a  reduzir  o  montante  do  imposto  devido  sobre  seus  rendimentos,  redirecionados  a  interposta  pessoa  jurídica.  Ao final, deve ser  lembrado que a jurisprudência do CARF é consolidada e  vem  repetidamente manifestando­se  no  sentido  de  manter  a  qualificação  quando  constatado  estratagema  simulatório,  inclusive  em  casos  similares  ao  dos  autos,  em  que  se  busca  redirecionar, sem respaldo normativo, rendimento de pessoa física para pessoa jurídica, como  atestam,  ilustrativamente, os acórdãos nos 9202­002451  (j. 8/11/12), 106­14244  (j. 20/10/04),  104­18641, 9202­002764 (ago13), 2201­002.506 (set/14).  C.5) RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA  Reza o art. 124 do CTN:  Art. 124. São solidariamente obrigadas:  I  ­  as  pessoas  que  tenham  interesse  comum  na  situação  que  constitua o fato gerador da obrigação principal;  II ­ as pessoas expressamente designadas por lei.  Rubens  Gomes  de  Souza30,  autor  do  anteprojeto  do  Código  Tributário  Nacional, explicava que:  É solidária a pessoa que realiza conjuntamente com outra, ou outras pessoas, a  situação que constitui fato gerador, ou que, em comum com outras, esteja em relação  econômica  com  o  ato,  fato  ou  negócio  que  dá  origem  à  tributação;  por  outras  palavras,  (...)  pessoa  que  tira  uma  vantagem  econômica  do  ato,  fato  ou  negócio  tributado.                                                              30 SOUZA, Rubens Gomes de Souza. Cômpendio de  legislação tributária. Rio   de Janeiro: Edições Financeiras,  1964, p. 67.  Fl. 16669DF CARF MF     160  Nessa esteira, tem­se que quando duas ou mais pessoas estiverem ligadas por  interesse  comum  na  situação  que  constitui  o  fato  gerador  dar­se­á  a  solidariedade  legal  presumida, sendo considerada devedoras solidárias com relação ao crédito tributário.  Oportuno  é  salientar  que  o  enunciado  legal  é  bastante  claro  ao  assinalar  interesse comum na situação que constitui o fato gerador, não sendo necessário, assim, como  alguns  aventam,  que  o  solidário  participe  pessoalmente  na  constituição  ou  criação  do  fato  gerador em si, seja este “individual” ou não.  Já  o  STJ  possui  uníssono  entendimento  segundo  o  qual,  apesar  de  a  solidariedade  não  poder  ser  reconhecida  pela  mera  participação  em  grupo  econômico,  é  verificada  quando  há  atuação  conjunta  na  situação  que  constitui  o  fato  imponível. Cite­se  a  título ilustrativo, os REsp nº 834.044, p.15/12/2008 e AgRg no Ag nº 1.055.860, p. 26/3/2009.  Na obra de Kiyoshi Harada31  que vem amparando em grande medida  essas  decisões do referido E. Tribunal, é enfrentado o assunto, citando­se o preclaro ensinamento de  Carlos Jorge Sampaio Costa:  Há  interesse  comum  imediato  em  decorrência  do  resultado  do  fato  gerador  quando  mais  de  uma  pessoa  se  beneficia  diretamente  com  sua  ocorrência.  Por  exemplo,  a  afixação  de  cartazes  de  propaganda  de  empresa  distribuidora  de  derivados de petróleo em postos de gasolina é, geralmente, um fato gerador de taxa  municipal  cuja  ocorrência  interessa  não  somente  à  empresa  distribuidora,  beneficiária da propaganda, como também ao posto de gasolina, que é solidário com  aquela no pagamento da taxa. (...)  Na fraude ou conluio, o interesse comum se evidencia pelo próprio ajuste  entre as partes, almejando a sonegação. A solidariedade passiva no pagamento  de tributos por aqueles que agiram fraudulentamente é pacífica. (...)  Aliás, no caso de fraude, pagam até os representantes pelos representados.(...)  Importante  distinguir,  pois,  interesse  comum  no  resultado  da  exploração  da  atividade  econômica  ensejadora  do  fato  gerador  da  obrigação  tributária,  com  o  interesse comum na situação que constitua o fato gerador. Aquele é irrelevante para  gerar a responsabilidade solidária. Este acarreta a responsabilidade solidária, porque  as  pessoas  envolvidas  praticam  conjuntamente  a  atividade  tipificada  pela  norma  tributária. (grifei)  Na espécie, a fiscalização demonstrou que Neymar da Silva Santos, Nadine  Gonçalves  da Silva Santos,  e  as  empresas  das  quais  eram  sócios  administradores,  a Neymar  Sport, a N&N Consultoria e a N&N Administração de Bens atuaram em união de esforços  e  vontades, de maneira coordenada com o recorrente, com vistas a:  ­  simular o  recebimento de  remuneração de caráter  salarial de pessoa  física  sob as vestes de retribuição à pessoa jurídica por cessão de exploração de direito de  imagem  coletiva, advinda seja do SFC, seja do Barcelona;  ­  e  simular  o  recebimento  de  rendimentos  de  pessoa  física  em  razão  da  transferência  de  clube  do  jogador  de  futebol,  sob  a  máscara  de  indenização  por  perda  de  chance, devida a pessoa jurídica.                                                              31 HARADA, Kiyoshi. Responsabilidade tributária solidária por interesse comum na situação quje constiua o fato  gerador. Disponível em <htpt://direito.memes.com.br/portal/portal.jsf?post=1610>.  Fl. 16670DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 82          161  A  realização  conjunta  da  situação  configuradora  do  fato  gerador,  contaminado pelo estratagema simulatório, deu­se através dos expedientes já recorrentemente  mencionados  ao  longo  deste  julgamento,  tais  como  interposição  de  pessoas  jurídicas  apenas  formais, contratos avençados que não espelhavam os fatos subjacentes, etc.  E para tanto, os pais do jogador, especialmente, tomaram medidas expressas  tais como deliberações em reuniões societárias, e assinatura de vários contratos com terceiros e  entre as  sociedades  relacionadas,  em  interesse  jurídico  caracterizado nos  atos veiculados por  esses documentos, e que trazem à tona o afã de reduzir a incidência dos impostos previstos na  legislação tributária.  Tal  proceder  “deslocou”  artificialmente  o  fato  gerador  de  rendimentos  de  pessoa física para pessoa jurídica, de modo a ocultar sua verdadeira natureza, em contrariedade  frontal  ao  art.  123  do  CTN.  Registre­se,  por  oportuno,  que  a  marcante  atuação  do  pai  do  recorrente  nos  fatos  examinados  é  destacada  tanto  pelos  administradores  do  SFC  (fls.  7108,  7185) como do FC Barcelona (fls. 7084/7085).  É de se refutar com veemência arguição ventilada pelo recorrente, com base  em parecer, segundo o qual haveria incoerência em se considerar como responsáveis solidárias,  pessoas jurídicas tidas pela fiscalização como de fachada.  Ora,  o  objetivo  da  fraude  era  justamente  esse  redirecionamento  dos  rendimentos da pessoa  física para pessoas  jurídicas meramente  formais. Eram sim, empresas  comprovadamente  sem maior  substância, mas que serviram proficuamente como  receptáculo  desses rendimentos desviados, ainda que não desempenhassem as atividades que eram de seu  objeto social.  Caso se aceite alegação daquele gênero, considerando ditas pessoas jurídicas  “inalcançáveis” pela responsabilidade, estaria­se justamente premiando esses atos fraudulentos.  Bastaria em uma dada situação, o real sujeito passivo criar pessoas jurídicas  de fachada, direcionar rendimentos seus para as referidas, e aguardar comodamente o decurso  do  prazo  decadencial,  mantendo­se  os  recursos  e  patrimônio  desviados  nas  empresas  interpostas, e então, feito! Nada mais seria devido ao Fisco.  Não  há,  à  toda  vista,  como  prosperar  tal  preocupante  e  irrazoável  linha  de  entendimento.  No  caso,  tem­se  que  todas  as  pessoas  físicas  e  jurídicas  precitadas  empenharam  esforços  na  perfectibilização  dos  esquemas  simulatórios  que  literalmente  “distorceram” as características do fato gerador das obrigações  tributárias, buscando  impedir,  consoante registrado à saciedade nos autos, o conhecimento por parte da autoridade fazendária  das condições pessoais do contribuinte, e dele se beneficiaram, com a consequente redução da  carga de impostos.  Isso  pode  ser  verificado  claramente  no  caso  dos  genitores,  que  auferiram  como dividendos isentos de imposto de renda valores originalmente decorrentes de salário e da  transferência para o  clube  espanhol,  como  a  fiscalização demonstrou;  já  as pessoas  jurídicas  puderam alcançar volumoso patrimônio sem vínculo algum com as atividades previstas em seu  objeto social, como bem aponta a fiscalização.  Fl. 16671DF CARF MF     162  Assim,  tem­se  na  espécie  marcadamente  preenchidas  as  condições  para  o  reconhecimento  da  existência  de  responsabilidade  tributária:  “interesse  jurídico,  vinculado  à  atuação  comum  ou  conjunta  da  situação  que  constitui  o  fato  imponível”,  e  o  benefício  daí  decorrente, devidamente circunstanciado nos autos e constatável, conforme abalizada doutrina,  face à comprovada presença de simulação.  O  entendimento  aqui  exposto  está,  necessário  mencionar,  em  consonância  com  reiterada  jurisprudência do CARF sobre  a  imputação de  solidariedade  com base no  art.  124,  I  do  CTN,  nos  casos  em  que  se  apresenta  simulação.  Cite­se,  a  título  de  exemplo,  os  acórdãos nos 1803­01345 (j. 13/6/2011), 1302­00641 (j. 30/6/2011), 3202­00059 (j. 13/8/2009),  2402­003238  (j.  22/3/2013),  1402­001447  (j.  11/9/2013),  1102­001.120  (j.  3/6/2014),  2102­ 003014 (j. 16/7/2014), 1302­001706 (j. 25/3/2015), 1401­001507 (j. 21/1/2016) e 2301­004716  (j. 14/6/2016). Transcreva­se, para ilustrar, a ementa do Acórdão nº 1302­001706:  RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. INTERESSE COMUM.  Atribui­se a responsabilidade solidária a terceira pessoa quando  comprovado o nexo existente entre os fatos geradores e a pessoa  a  quem  se  imputa  a  solidariedade  passiva,  nos  termos  do  art.  124, inciso I do CTN.  RESPONSABILIDADE  SOLIDÁRIA.  TRIBUTOS.  CONTRIBUIÇÕES. MULTA AGRAVADA E QUALIFICADA.  A  responsabilidade  solidária  não  se  restringe­se  aos  tributos  e  contribuições  exigidos,  abrangendo  também  as  multas  imputadas,  inclusive  a multa  de  ofício  agravada  e  qualificada,  em vista de sua natureza patrimonial e não pessoal.  DECADÊNCIA.CSLL.FRAUDE. PRAZO.  Diante  da  caracterização  de  conduta  fraudulenta,  com  a  conseqüente qualificação da multa de ofício, a decadência rege­ se pelo artigo 173, inciso I, do Código Tributário Nacional, não  se  consumando  para  os  fatos  geradores  em  que  houve  formalização do crédito tributário.  MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. CONDUTA DOLOSA.  Verificado pelo agente fiscal que o contribuinte incorreu em uma  conduta  dolosa  tendente  a  impedir  ou  retardar,  total  ou  parcialmente,  o  conhecimento  por  parte  da  autoridade  fazendária,  da  ocorrência  do  fato  gerador  da  obrigação  tributária  principal,  é  obrigatória  a  aplicação  da  multa  qualificada, nos termos da Lei.  Por  consequência,  deve  ser  mantida  a  responsabilidade  tributária  apurada  pelo fiscalização.  C.6) CONCOMITÂNCIA DAS MULTAS DE OFICIO E ISOLADA  Divirjo do entendimento da D. Relatora.  A  respeito  do  tema,  já me manifestei  em  oportunidade  anterior,  quando  da  prolação do Acórdão nº 2802­003267 (j. 3/12/2014), o qual reproduzo, no essencial, para fins  de compor esta parte da minha fundamentação.  Fl. 16672DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 83          163  Consoante  giza  o  artigo  8º  da  Lei  7.713/88,  c/c  os  arts.  4º  e  6º  da  Lei  nº  8.134/90, o rendimento do trabalho sem vínculo empregatício e o ganho de capital,  recebido de pessoa física ou do exterior, quando em valor superior ao limite mensal  de isenção,  fica sujeito ao carnê­leão mensal, a titulo de antecipação do que vier a  ser apurado na Declaração de Ajuste Anual.  Constatado  pela  fiscalização  tributária  que  não  ocorreu  o  recolhimento  do  carnê­leão mensal em conformidade as normas de regência, verifica­se a infração de  multa  isolada  sobre  o  respectivo  imposto  apurado  mensalmente,  nos  termos  previstos no art. 44 da Lei nº 9.430/96.  Esse artigo, em sua redação original, assim versava sobre essa multa:  Art.  44.  Nos  casos  de  lançamento  de  oficio,  serão  aplicadas  as  seguintes  multas,  calculadas sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição:  1­  de  setenta  e  cinco  por  cento,  nos  casos  de  falta  de  pagamento  ou  recolhimento,  pagamento ou recolhimento após o vencimento do prazo,  sem o acréscimo de multa  moratória, de falta de declaração e nos de declaração inexata, excetuada a hipótese  do inciso seguinte;  II – de cento e cinqüenta por cento, nos casos de evidente intuito defraude, definido  nos  arts.  71,  72  e  73  da  Lei  n°  4.502,  de  1964,  independentemente  de  outras  penalidades administrativas ou criminais cabíveis.  (...)  § 1° As multas de que trata este artigo serão exigidas:  I – juntamente com o imposto, quando não houver sido anteriormente pago;  (...)  III ­ isoladamente, no caso de pessoa física sujeita ao pagamento mensal do imposto  (carnê­leão)  na  forma  do  art.  8°  da  lei  n°  7.713,  de  22  de  dezembro  de  1988,  que  deixar  de  fazê­lo,  ainda  que  não  tenha  apurado  imposto  a  pagar  na  declaração  de  ajuste.  Tal enunciado legal padecia de uma melhor redação, por não deixar claro se  as hipóteses constantes dos incisos I e III do § 1º do art. 44 da Lei nº 9.430/96 eram  prescrições a incidirem de forma alternativa ou concomitante.  Em  decorrência,  reiteradas  decisões  da  segunda  instância  administrativa  reconheceram que a leitura mais adequada desses preceitos é a de que se tratam de  situações alternativas, por não ser concebível a aplicação simultânea de duas multas  sobre  os  mesmos  fatos.  Entre  outros  argumentos,  tais  como  ocorrência  de  bis  in  idem  e  falta  de  proporcionalidade,  também  foi  considerado  que  tais  incisos  se  referem, na verdade, a duas formas distintas de cobrança da multa.  Ainda  que  não  partilhe  de  uma  forma  mais  ampla  dos  diversos  óbices  levantados à concomitância das multas, dos quais apenas se vislumbrou um estreito  quadro,  é  forçoso  reconhecer  que  tais  empecilhos  justificam  a  controvérsia  instaurada, face à já mencionada precariedade redação dos dispositivos em tela.  Diverso, porém, é o arcabouço legal instaurado a partir da edição do art. 14 da  Medida  Provisória  nº  351/07,  posteriormente  convertida  na  Lei  nº  11.488/07,  que  modificou o art. 44 da Lei nº 9.430/96 nos seguintes termos:  Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas:  Fl. 16673DF CARF MF     164  I ­ de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou  contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração  e nos de declaração inexata;  II ­ de 50% (cinqüenta por cento), exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento  mensal:  a) na forma do art. 8o da Lei no 7.713, de 22 de dezembro de 1988, que deixar de ser  efetuado, ainda que não tenha sido apurado imposto a pagar na declaração de ajuste,  no caso de pessoa física;  A  partir  de  2007,  então,  ficaram  claramente  apartadas  no  texto  legal  as  hipóteses de incidência que motivam cada uma das multas. Para o imposto de renda  de  pessoa  física,  a  multa  proporcional  é  aplicada  caso  haja  diferença  a  pagar  decorrente  do  ajuste  anual;  já  a  multa  isolada  é  cabível  no  descumprimento  da  obrigação de fazer o recolhimento das antecipações mensais a título de carnê­leão.  São  hipóteses  de  fato  distintas,  cujo  descumprimento  gera  sanções  jurídicas  também  distintas;  descabido,  portanto,  falar  em  bis  in  idem,  dado  que  os  fatos  antecedentes  às  respectivas  exigências  tributárias  são  diversos,  sob  os  aspectos  temporal e quantitativo.  Também  não  prospera  raciocínio  segundo  o  qual  a  multa  isolada  só  seria  passível  de  aplicação  entre  o  momento  do  inadimplemento  da  obrigação  de  antecipação  e  o  do  ajuste,  pois  tal  entendimento  vai  de  encontro  à  prescrição  da  alínea 'a' do inciso II do art. 44 da Lei nº 9.430/96, a qual regra expressamente que a  multa em apreço deve ser aplicada mesmo que não  tenha sido apurado imposto na  declaração de ajuste, no caso da pessoa física.  Ora,  advirta­se  que  se  deve  compreender  as  palavras  da  lei  como  tendo  alguma eficácia, só sendo adequada a interpretação que encontra um significado útil  e efetivo para cada expressão do texto normativo.  Nesse  contexto,  oportuno  anotar  que  eventual  aplicação  do  princípio  da  consunção na espécie encontra severas dificuldades frente ao caráter patrimonial das  respectivas  obrigações  jurídicas,  segundo  o  qual  o  dever  de  pagar  a  antecipação  independe  da  existência  de  imposto  devido,  e  está  vinculado  à  perspectiva  de  antecipação  no  ingresso  de  recursos  com  vistas  à  viabilização  da  atuação  estatal,  inexistindo, destarte, relação de meio e fim entre as exigências.  À evidência, é perfeitamente possível que ocorra a  falta de  recolhimento do  carnê­leão mas que  ao  final do  ajuste não haja  imposto  a pagar,  ou  até mesmo  se  verifique  tributo  a  restituir.  Da  mesma  forma,  podem  ser  recolhidas  todas  as  antecipações  devidas  e  restar  saldo  de  imposto  a  pagar,  sujeito  a  lançamento  de  ofício. Exsurge, assim, não uma relação meio­fim ou causa e efeito necessária entre  o cometimento das infrações em comento, mas sim a de independência entre elas.  A  edição  da  Súmula  105  pelo  CARF,  em  8/12/2014,  não  mudou  esse  panorama,  pelo  contrário;  o  exame  cuidadoso  de  seus  precedentes  revela  que  todos,  sem  exceção, concernem a anos­calendário bem anteriores à mudança legislativa acima explicitada,  época na qual, conforme demonstrado, careciam os dispositivos legais de adequada precisão.  Sem  dúvida,  a  análise  algo  equivocada  do  real  alcance  dos  enunciados  sumulares  é  risco  sempre  presente  quando  se  está  diante  da  chamada  jurisprudência  dos  precedentes. Não por acaso, o novo Código de Processo Civil alerta, em seu art. 489:  Art. 489. São elementos essenciais da sentença:  (...)  Fl. 16674DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 84          165  §  1oNão  se  considera  fundamentada  qualquer  decisão  judicial,  seja ela interlocutória, sentença ou acórdão, que:  (...)  V ­ se limitar a invocar precedente ou enunciado de súmula, sem  identificar seus fundamentos determinantes nem demonstrar que  o caso sob julgamento se ajusta àqueles fundamentos;  VI  ­  deixar  de  seguir  enunciado  de  súmula,  jurisprudência  ou  precedente invocado pela parte, sem demonstrar a existência de  distinção  no  caso  em  julgamento  ou  a  superação  do  entendimento.  Sem  embargo,  e  na  linha  do  mais  acima  compreendido,  vêm  a  1ª  e  a  2ª  Seções da CSRF esclarecendo com lucidez dito alcance e a distinção necessária a ser realizada,  sendo importante destacar, nessa senda, os Acórdãos nº 9202­004022 (j. 10/5/2016), nº 9101­ 002502  (j.  12/12/2016)  e  nº  9101­002.251  (j.  1º/3/2016),  sendo  que  deste  último  trago  o  seguinte trecho de ementa:  MULTA  ISOLADA.  LEI  Nº  11.488,  DE  2007.  BASE  DE  CÁLCULO.  O artigo 44 da Lei nº 9.430, de 1996, com a redação dada pela  Lei nº 11.488, de 2007, preceitua que a multa  isolada deve ser  calculada sobre o valor do pagamento mensal apurado sob base  estimada  ao  longo  do  ano, materialidade  que  não  se  confunde  com a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição.  MULTA  DE  OFÍCIO.  MULTA  ISOLADA.  LEI  Nº  11.488,  DE  2007. CUMULATIVIDADE.  Em  face  da  nova  redação  dada  ao  art.  44  da  Lei  nº  9.430,  de  1996,  pela  Lei  nº  11.488,  de  2007,  é  cabível  a  exigência  cumulativa da multa de ofício sobre a totalidade ou diferença de  imposto ou contribuição, não recolhida, e da multa isolada sobre  o  valor  do  pagamento  mensal  apurado  sob  base  estimada  ao  longo do ano, não efetuado, relativamente aos anos­calendário a  partir de sua vigência.  Nessa mesma decisão, os olhares atentos do relator discerniram que “não se  aplica ao presente caso o contido na Súmula CARF nº 105 por se referir, esta, expressamente, à  redação original do art. 44 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, anterior ao advento da  Lei nº 11.488, de 15 de junho de 2007”.  Anoto,  como  fecho,  que  os  acórdãos  a  respeito  do  tema  citados  tanto  pelo  recorrente, quanto pela relatora, se referem a períodos anteriores ao da alteração legislativa em  destaque, sendo, daí, inaplicável dita Súmula.  Nesses  termos,  escorreita  a  autuação  nesse  ponto,  não  procedendo  as  alegações do contribuinte.  (assinado digitalmente)  Ronnie Soares Anderson.  Fl. 16675DF CARF MF     166  Declaração de Voto  Conselheiro Túlio Teotônio de Melo Pereira  Embora  vencido,  registro,  em  apertada  síntese,  as  razões  para  entender  caracterizado o fato gerador e devido o tributo lançado para as seguintes infrações.  1.  Omissão  de  rendimentos  do  trabalho  sem  vínculo  empregatício,  relativos  aos  serviços  de  publicidade  não  tributados  na  pessoa  física  e/ou  tributados  indevidamente na empresa NEYMAR SPORT E MARKETING S/S LTDA – ME, CNPJ  08.007.812/0001­70, decorrentes dos contratos de publicidade celebrados entre a Neymar  Sport  e  terceiros,  exceto  os  firmados  com  o  Santos  Futebol  Clube  referidos  nos  itens  4.1.3.3.1 e 4.1.3.3.2 do TDF:  De  acordo  com  o  TDF  (fls.  7043/7235),  o  Autuado  teria  recebido  rendimentos por meio de pessoa jurídica interposta, a empresa Neymar Sport e Marketing S/S  LTDA  ­  ME,  de  agora  em  diante  denominada  somente  Neymar  Sport.  Desse  modo,  teria  reduzido drasticamente o tributo devido.  Nesse ponto, entendemos que restou abundantemente comprovado nos autos  que:  ·  a  empresa  Neymar  Sport  não  possui  atividade  econômica  própria,  mas  todas  as  suas  receitas são provenientes dos serviços prestados diretamente pelo Autuado, que era o único  responsável pelo cumprimento dos contratos com terceiros;  ·  pequena estrutura operacional da empresa Neymar Sport, com capital social  incompatível  com  suas  operações  (R$  5.000,00).  Em  2011,  contava  somente  com  2  empregados.  A  Fiscalização demonstrou, pelos cargos ocupados, não seria possível para a empresa fazer a  gestão da carreira do desportista;  ·  A  empresa  Neymar  Sport  não  participou  da  prestação  dos  serviços.  Os  serviços  eram  executados por equipe do SFC (Eduardo Musa e Gabriela Pozzi);  ·  contrato de cessão dos direitos de imagem do Autuado para a Neymar Sport atípico: cessão  de “todo e qualquer direito de sua imagem” sem nenhuma restrição; contrato gratuito, não  prevendo  qualquer  compensação  financeira  pela  exploração  da  imagem  do  atleta;  sem  qualquer obrigação para as partes, mormente para a empresa beneficiada;  ·  A negociação gratuita do direito de imagem não é vedada pela lei, mas da forma como foi  feita, sem qualquer restrição na exploração do direito de imagem e sem qualquer obrigação  para as partes, destoa dos padrões de mercado e revela a ausência de propósito negocial;  ·  Além de haver cedido gratuitamente o direito ao uso de imagem, os contratos firmados pela  Neymar Sport exigiam uma prestação de serviços por parte do Autuado que, mais uma vez,  não foi remunerado.  ·  a gestão da carreira do atleta era feita por equipe do Santos Futebol Clube (SFC), conforme  contratos, notificações e reportagens trazidas aos autos.  Fl. 16676DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 85          167  ·  contrato  antedatado  da  Neymar  Sport  com  o  Santos  Futebol  Clube,  assinado  em  10/05/2006,  constatado  por  constar  do  instrumento  o  CNPJ  da  Neymar  Sport,  somente  obtido em  Em  que  pese  a  exploração  do  direito  de  imagem  possuir  natureza  jurídica  tipicamente  civil,  há que  se  reconhecer  a  natureza  salarial  dos  valores  recebidos  quando,  no  caso concreto, a entidade não consegue comprovar a efetiva exploração do direito de imagem  contratada  com  o  atleta,  a  parcela  é  ajustada  em  valores  fixos,  independentemente  da  exploração da imagem, ou ainda quando supera o valor nominal do salário do atleta.  De notar­se que, para a exploração por pessoa jurídica do direito de imagem  do atleta, mister que exista uma relação jurídica do atleta com a empresa, de modo a garantir a  prestação  dos  serviços,  que  é  pessoal. Assim,  o  atleta  pode  ser  sócio  ou  ser  contratado  para  prestar  os  serviços.  Sem  nenhuma  relação  com  a  pessoa  jurídica  que  explora  o  direito  de  imagem,  como  no  caso  que  se  examina,  a  empresa  sequer  pode  negociar  livremente,  necessitando  sempre  da  interveniência  do  atleta,  como  se  observa  nos  contratos  trazidos  ao  feito, revelando que os serviços foram pessoalmente prestados, e que os rendimentos devem ser  tributados na pessoa física.  Por  todo  o  exposto,  e  pelo  vasto  cabedal  probatório  constante  dos  autos,  convenço­me de que a Neymar Sport foi constituída visando exclusivamente tributar na pessoa  jurídica, de forma favorecida, os  rendimentos da pessoa física provenientes da exploração do  seu direito de imagem.  Assim, voto por negar provimento ao recurso nessa matéria.  2. Omissão  de  rendimentos  de  fontes  situadas  no  exterior,  oriundos do  trabalho com vínculo empregatício (contrato de agência, scouting e direitos de imagem),  pagos pelo FCB (Futbol Club Barcelona), não tributados na pessoa física e/ou tributados  indevidamente  nas  empresas  NEYMAR  SPORT  E  MARKETING  S/S  LTDA  –  ME,  CNPJ  08.007.812/0001­70,  N  &  N  CONSULTORIA  ESPORTIVA  E  EMPRESARIAL  LTDA,  CNPJ  14.625.902/0001­28  e  N  &  N  ADMINISTRAÇÃO  DE  BENS,  PARTICIPAÇÕES E INVESTIMENTOS LTDA, CNPJ 15.913.144/0001­06 (tópico 5.2.3  do Termo de Descrição dos Fatos).  A auditoria fiscal comprovou exaustivamente que os rendimentos percebidos  pelas  empresas  em  razão  dos  contratos  de  agência,  scouting  e  direitos  de  imagem  correspondiam  a  rendimentos  do  atleta,  tributados  indevidamente  nas  empresas. Em  resumo,  temos demonstrados os seguintes fatos:  ·  Até  2013,  a Neymar  Sport  não  tinha  capacidade  operacional  para  executar  as  atividades  propostas no contrato de agência;  ·  apesar de o contrato ser firmado entre Barcelona e Neymar Sport, por diversas vezes consta  do instrumento a empresa N&N, que não faz parte do contrato de agência;  ·  o valor pactuado é fixo, independentemente de qualquer êxito na exploração da imagem ou  no recebimento de recursos pelo clube;  Fl. 16677DF CARF MF     168  ·  contrato antedatado do Autuado com a empresa N&N, bem como aditamento, revelando a  simulação  no  negócio  jurídico.  Na  data  de  assinatura  do  contrato,  a  empresa  não  tinha  registro na JUCESP nem CNPJ;  ·  N&N sem capacidade operacional para executar o contrato de scouting, visto que não tinha  nenhum  funcionário  até  13/09/2013.  Também  não  comprovou  a  prestação  dos  serviços,  nem exibiu os rapports que deveriam ser produzidos de acordo com o contrato, mas apenas  coletâneas de artigos e reportagens publicadas em diversos portais da internet;  ·  O  SFC  declarou  que  desconhece  qualquer  acordo  celebrado  pela  N&N  com  jogadores  vinculados ao SFC, relativo a assessoria desportiva;  ·  O  faturamento  da  Neymar  Sport  chegou  aos  R$  48.000.000,00  no  ano­calendário  2012,  limite máximo para se manter no lucro presumido. Por isso, foi necessário “repassar” para  outra empresa do grupo, a N&N Administração de Bens os direitos de imagem coletiva do  Autuado;  ·  Os valores recebidos pela N&N pelos direitos de imagem eram fixos e correspondiam a um  percentual (17,65%) dos valores recebidos pelo atleta, sem levar em consideração a efetiva  exploração da imagem do atleta;  ·  O objetivo social da empresa N&N não contempla a administração e exploração de direito  de imagem.  Nessa matéria, nos convencemos de que restou comprovado nos autos que os  valores recebidos pelas empresas, decorrentes dos contratos de agência, scouting e direitos de  imagem, pertencem, de fato, ao Autuado, e são decorrentes do acordo de transferência do atleta  para o Barcelona, “fatiado” em diversos contratos, tributados indevidamente nas empresas.  Assim, voto por negar provimento ao recurso na matéria.  3. Da solidariedade  A autoridade fiscal relata que as empresas Neymar Sport, N&N Consultoria,  N&N Administração seriam pessoas jurídicas interpostas, de titularidade dos pais do atleta, que  teriam recebido os recursos oriundos de rendimentos tributáveis da pessoa física de Neymar Jr.  Diante da simulação exposta pela auditoria  fiscal, mister se faz uma análise  cuidadosa da relação jurídico­tributária, de modo a identificar os sujeitos passivos. Foi o que  fez a Fiscalização.  Note­se  que  são  as  empresas  que  formalmente  assinam  os  contratos  e  adquirem os rendimentos. Logo,  formalmente, cada empresa é sujeito passivo do  imposto de  renda. No entanto, de fato, a  renda pertence ao  atleta, pessoa  física, que executa os diversos  contratos. Logo, é o atleta que é o verdadeiro sujeito passivo.  Assim, cada empresa assume a posição de sujeito passivo no negócio jurídico  simulado (diversos contratos), enquanto o atleta autuado ocupa a posição de sujeito passivo no  negócio  jurídico  dissimulado,  visto  que  os  rendimentos  são  decorrentes  diretamente  do  seu  trabalho ou da exploração do seu direito de imagem.  A partir desta visão panorâmica, observa­se que, tendo em conta a simulação,  tanto  a  empresa  quanto  o  atleta  se  sobrepõem  e  ocupam  o mesmo  pólo  passivo  da  relação  jurídico  tributária.  Logo,  ambos  têm  interesse  comum  na  aquisição  da  renda,  situação  que  Fl. 16678DF CARF MF Processo nº 15983.720065/2015­11  Acórdão n.º 2402­005.703  S2­C4T2  Fl. 86          169  constitui o fato gerador da obrigação principal. Em decorrência, dá­se a solidariedade do atleta  com as empresas na satisfação do crédito tributário ora lançado, prevista no art. 124, inciso I,  do CTN, conforme registrado pela auditoria fiscal.  Também os sócios das empresas têm interesse na situação que constitui o fato  gerador da obrigação principal, visto que atuaram em conjunto com o atleta com o objetivo de  reduzir  indevidamente  a  tributação  incidente  nos  rendimentos  tributáveis  auferidos  por  ele  e  obtendo  rendimentos  transferidos  aos  sócios  (pais  do  atleta),  mediante  a  “distribuição  de  lucros” pelas empresas. Portanto, também tiveram interesse comum na situação que constituiu  o fato gerador da obrigação principal, resultando a sua solidariedade nos termos do artigo 124,  inciso I, do CTN.  Gize­se que o  instituto da solidariedade  tem a  finalidade de dar garantia ao  crédito  tributário.  Uma  vez  que  formalmente  os  rendimentos  foram  agregados  ao  ativo  das  empresas,  a  interpretação  teleológica  do  art.  124,  inciso  I  do  CTN  determina  que  os  bens  constantes  do  patrimônio  das  pessoas  jurídicas  beneficiadas  sejam  chamados  a  responder  solidariamente pelo crédito tributário.  Uma vez mais, voto por negar provimento ao recurso.    (assinado digitalmente)  Túlio Teotônio de Melo Pereira.  Fl. 16679DF CARF MF

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Numero do processo: 10980.011329/2007-48
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Apr 04 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue May 02 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Exercício: 2003 ILEGITIMIDADE DA UNIÃO. ART. 157, I, DA CF/88. IMPROCEDÊNCIA. O art. 157, I da CF/88 trata de tema de direito financeiro, não afetando a competência exclusiva da União para legislar sobre o imposto de renda, inclusive quanto às respectivas hipóteses de isenção. MULTA DE OFÍCIO. CABIMENTO. A imputação da multa de 75% advém da constituição do crédito tributário via procedimento conduzido de ofício pela fiscalização tributária, e está prevista no inciso I do art. 44 da Lei nº 9.430/96. JUROS MORATÓRIOS. TAXA SELIC. SÚMULA CARF Nº 4. Súmula CARF nº 4: A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC para títulos federais. IRPF. RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE. FORMA DE TRIBUTAÇÃO. JULGAMENTO DO STF EM REPERCUSSÃO GERAL. Nos casos de rendimentos recebidos acumuladamente, deve o imposto de renda ser calculado de acordo com as tabelas e alíquotas vigentes à época em deveriam ter sido pagos, sob pena de violação dos princípios da isonomia e da capacidade contributiva, consoante assentado pelo STF no julgamento do RE nº 614.406 realizado sob o rito do art. 543-B do CPC, não prosperando, assim, lançamento constituído em desacordo com tal entendimento.
Numero da decisão: 2402-005.727
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em afastar a preliminar de ilegitimidade da União e, no mérito, por maioria, dar provimento ao recurso. Vencidos os Conselheiros Túlio Teotônio de Melo Pereira, Mário Pereira de Pinho Filho e Kleber Ferreira de Araújo, que davam provimento parcial no sentido de que o crédito tributário fosse recalculado de acordo com o regime de competência. (assinado digitalmente) Kleber Ferreira de Araújo, Presidente (assinado digitalmente) Ronnie Soares Anderson, Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Kleber Ferreira de Araújo, Ronnie Soares Anderson, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Túlio Teotônio de Melo Pereira, Theodoro Vicente Agostinho, Mário Pereira de Pinho Filho, Bianca Felícia Rothschild e João Victor Ribeiro Aldinucci.
Nome do relator: Ronnie Soares Anderson

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2402­005.727  –  4ª Câmara / 2ª Turma Ordinária   Sessão de  04 de abril de 2017  Matéria  IRPF  Recorrente  LIZETE BITTENCOURT  Recorrida  FAZENDA NACIONAL    ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA ­ IRPF  Exercício: 2003  ILEGITIMIDADE  DA  UNIÃO.  ART.  157,  I,  DA  CF/88.  IMPROCEDÊNCIA.   O  art.  157,  I  da  CF/88  trata  de  tema  de  direito  financeiro,  não  afetando  a  competência  exclusiva  da  União  para  legislar  sobre  o  imposto  de  renda,  inclusive quanto às respectivas hipóteses de isenção.   MULTA DE OFÍCIO. CABIMENTO.  A imputação da multa de 75% advém da constituição do crédito tributário via  procedimento conduzido de ofício pela fiscalização tributária, e está prevista  no inciso I do art. 44 da Lei nº 9.430/96.  JUROS MORATÓRIOS. TAXA SELIC. SÚMULA CARF Nº 4.  Súmula  CARF  nº  4:  A  partir  de  1º  de  abril  de  1995,  os  juros  moratórios  incidentes sobre débitos  tributários administrados pela Secretaria da Receita  Federal  são  devidos,  no  período  de  inadimplência,  à  taxa  referencial  do  Sistema Especial de Liquidação e Custódia ­ SELIC para títulos federais.  IRPF.  RENDIMENTOS  RECEBIDOS  ACUMULADAMENTE.  FORMA  DE  TRIBUTAÇÃO.  JULGAMENTO  DO  STF  EM  REPERCUSSÃO  GERAL.  Nos  casos  de  rendimentos  recebidos  acumuladamente,  deve  o  imposto  de  renda ser calculado de acordo com as tabelas e alíquotas vigentes à época em  deveriam ter sido pagos, sob pena de violação dos princípios da isonomia e  da capacidade contributiva, consoante assentado pelo STF no julgamento do  RE nº 614.406 realizado sob o rito do art. 543­B do CPC, não prosperando,  assim, lançamento constituído em desacordo com tal entendimento.      Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.     AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 98 0. 01 13 29 /2 00 7- 48 Fl. 120DF CARF MF   2 Acordam os membros do colegiado,  por unanimidade de votos, em afastar a  preliminar  de  ilegitimidade  da  União  e,  no mérito,  por maioria,  dar  provimento  ao  recurso.  Vencidos  os  Conselheiros  Túlio  Teotônio  de Melo  Pereira, Mário  Pereira  de  Pinho  Filho  e  Kleber Ferreira de Araújo, que davam provimento parcial no sentido de que o crédito tributário  fosse recalculado de acordo com o regime de competência.    (assinado digitalmente)  Kleber Ferreira de Araújo, Presidente     (assinado digitalmente)  Ronnie Soares Anderson, Relator    Participaram  do  presente  julgamento  os  Conselheiros  Kleber  Ferreira  de  Araújo,  Ronnie  Soares  Anderson,  Jamed  Abdul  Nasser  Feitoza,  Túlio  Teotônio  de  Melo  Pereira, Theodoro Vicente Agostinho, Mário Pereira de Pinho Filho, Bianca Felícia Rothschild  e João Victor Ribeiro Aldinucci.                                Fl. 121DF CARF MF Processo nº 10980.011329/2007­48  Acórdão n.º 2402­005.727  S2­C4T2  Fl. 42          3 Relatório  Examina­se  recurso  voluntário  interposto  contra  acórdão  da  Delegacia  da  Receita  Federal  de  Julgamento  em  Curitiba  (PR)  ­  DRJ/CTA,  que  julgou  procedente  Notificação  de  Lançamento  de  Imposto  de  Renda  Pessoa  Física  (IRPF)  relativo  ao  ano­ calendário 2002.  Tratando­se  de  retorno  de  processo,  oportuno  reproduzir  o  relatório  da  Resolução  nº  2201­000.073,  prolatada  quando  do  conhecimento  do  litígio  pela  1ª  Turma  Ordinária da 2ª Câmara da 2ª Seção do CARF:  A  infração  que  ensejou  o  lançamento  foi  a  omissão  de  rendimentos  decorrentes  do  trabalho  com  vínculo  empregatício  recebidos  de  pessoa  jurídica.  Trata­se  de  rendimentos  recebidos  em  decorrência  de  ação  ordinária movida  pelo  Contribuinte contra o Estado do Paraná.  A Contribuinte impugnou o lançamento e alegou, em síntese, que a União não  seria parte legítima para exigir o imposto, que seria da responsabilidade do estado.  Supletivamente, pede a exclusão de multa e juros.  A DRJ­CURITIBA/PR julgou procedente o lançamento com base, em síntese,  na  consideração  de  que  os  rendimentos  recebidos  pela  Contribuinte  são  verbas  trabalhistas  e  como  tais  tributáveis  e  que  a União  é  a  titular  da  competência  para  exigir o Imposto de Renda e de que, constatada a omissão de rendimentos, é devida  a exigência do imposto correspondente com multa e juros de mora.  A Contribuinte tomou ciência da decisão de primeira instância em 16/02/2011  (fls.  92)  e,  em  17/03/2011,  interpôs  o  recurso  voluntário  de  fls.  93/102  no  qual  reitera, em síntese, as alegações e argumentos da impugnação.  Em 14/8/2012 aquela Turma do CARF observou:  Compulsando  os  autos  verifica­se  que  os  rendimentos  objeto  da  autuação  foram  recebidos  de  forma  acumulada  em  decorrência  de  decisão  judicial.  Os  documentos de  fls. 60/65, peças da ação ordinária  referida que  trazem os  cálculos  dos  valores  pagos  á  ora  Recorrente,  claramente  demonstram  que  os  valores  recebidos  por  ela  em  2002,  acumuladamente,  referem­se  a  diferenças  de  remuneração que lhe eram devidas no período de 05/1985 a 04/1995.   Nessa  esteira  resolveu,  considerando  que  o  Recurso  Extraordinário  614.406/RS,  o  qual  versa  acerca  da  matéria,  tivera  sua  repercussão  geral  reconhecida  em  20/10/2010  e  ainda  se  encontrava  pendente  de  julgamento  pelo  Supremo  Tribunal  Federal  (STF), sobrestar o julgamento nos termos do art. 62­A do Anexo II do Regimento Interno do  CARF então vigente. Com a revogação dos §§ 1º e 2º do art. 62­A daquele Regimento Interno  pela  Portaria Ministério  da  Fazenda  nº  545/2013,  sem  respaldo  quedou  o  sobrestamento  do  feito, que foi redistribuído a este Conselheiro.  É o relatório.      Fl. 122DF CARF MF   4 Voto             Conselheiro Ronnie Soares Anderson, Relator  O  recurso  já  foi  conhecido  pelo  CARF,  razão  pela  qual  passo  a  sua  apreciação.   Inicialmente,  deve  ser  esclarecido  que  não  procedem  as  alegações  preliminares de incompetência da União dado o recebimento em questão ter sido proveniente  da Secretaria da Fazenda do Estado do Paraná, o que atrairia a competência da Justiça Estadual  para "conhecer das causas de retenção de imposto de renda, no pagamento de vencimentos de  servidor público estadual".  Cumpre  destacar  que  a  União  detém  competência  exclusiva  para  legislar  sobre  o  imposto  de  renda,  inclusive  no  que  tange  à  amplitude  de  incidência  e  hipóteses  de  isenção do tributo, por força do art. 153, III da Constituição Federal de 1988 (CF), c/c os arts.  7º, caput  e  6º,  parágrafo  único,  do Código Tributário Nacional  (CTN). O  art.  157,  I  da CF,  invocado  pelo  autuado  para  defender  a  tese  da  ilegitimidade  da  União  no  caso  em  análise,  traduz  disposição  que  trata  de  matéria  diversa,  a  repartição  das  receitas  tributárias,  na  sua  essência, tema afeto ao direito financeiro.  A  rigor,  apenas  limitada  faceta  da  capacidade  tributária  ativa  da União  foi  delegada ao ente político diverso, qual seja, a atribuição de arrecadar o  imposto por meio de  retenção na fonte sobre as remunerações pagas aos seus servidores.  Ademais, a exigência em foco se refere ao imposto de renda incidente sobre  rendimentos da pessoa física (IRPF) e não ao IRRF, assim, tanto a exigência do tributo, quanto  o julgamento do presente lançamento fiscal, é da competência exclusiva da União.  Noutro  giro,  também  é  necessário  esclarecer  que  a  imputação  da multa  de  75%  advém da  constituição  do  crédito  tributário  via  procedimento  conduzido  de  ofício  pela  fiscalização, nas situações em que o contribuinte não cumpre suas obrigações tributárias, e está  prevista no inciso I do art. 44 da Lei nº 9.430/96. Sua aplicação, portanto, é mera decorrência  da  legislação,  e  coerente  com a constatação da  autoridade  fiscal  na  espécie,  a qual  entendeu  não ter sido declarado corretamente o tributo devido.  No  que  diz  respeito  à  incidência  de  juros  à  taxa  Selic,  registre­se  que  a  referida  tem  expressa  previsão  legal  nos  arts.  13  da  Lei  nº  9.065/95  e  61,  §  3º,  da  Lei  nº  9.430/96;  não  bastasse,  a  matéria  já  foi  sumulada  pelo  CARF,  incidindo  na  espécie  o  já  mencionado art. 72 do RICARF. Leia­se o teor da súmula:  Súmula  CARF  nº  4:  A  partir  de  1º  de  abril  de  1995,  os  juros  moratórios  incidentes  sobre  débitos  tributários  administrados  pela  Secretaria  da  Receita  Federal  são  devidos,  no  período  de  inadimplência,  à  taxa  referencial  do  Sistema  Especial  de  Liquidação e Custódia ­ SELIC para títulos federais.  Veja­se, portanto, que tanto a multa de ofício quanto a incidência dos juros de  mora tem sua aplicação prevista em lei, como consequência da verificação de descumprimento  de obrigação tributária, do que decorre o descabimento, no particular, da menção ao parágrafo  único  do  art.  100  do CTN. Ademais,  a mera  leitura  dos  correspondentes  diplomas  legais  de  Fl. 123DF CARF MF Processo nº 10980.011329/2007­48  Acórdão n.º 2402­005.727  S2­C4T2  Fl. 43          5 regência,  revela  ser  irrelevante  a  existência  de  boa  ou  má  fé  permeando  a  conduta  do  contribuinte, para a incidência dos gravames em tela.  De sua parte, o exame do restante do mérito da controvérsia requer a colação  do art. 12 da Lei nº 7.713, de 22 de dezembro de 1988:  Art.  12. No  caso  de  rendimentos  recebidos  acumuladamente,  o  imposto incidirá, no mês do recebimento ou crédito, sobre o total  dos  rendimentos,  diminuídos  do  valor  das  despesas  com  ação  judicial necessárias ao seu recebimento, inclusive de advogados,  se tiverem sido pagas pelo contribuinte, sem indenização  Essa  opção  do  legislador,  no  sentido  de  que  os  rendimentos  recebidos  acumuladamente fossem tributados pelo regime de caixa, foi objeto de questionamento judicial  por parte dos contribuintes por diversas razões, dentre as quais se destaca a possibilidade de a  incidência  de  uma  só  vez,  do  imposto  de  renda  sobre  o  somatório  das  prestações  mensais  devidas, causar violação aos princípios da isonomia e da capacidade contributiva, visto que se  tivessem  os  beneficiários  recebidos  na  época  própria,  poderiam  estar  dentro  dos  limites  de  legais de isenção do tributo.   Estando  a  discussão  desde  2005  na  esfera  do  Superior  Tribunal  de  Justiça  (STJ),  este,  em  sua  missão  constitucional  de  uniformizar  a  interpretação  da  lei  federal,  submeteu o tema ao rito previsto no art. 543­C do Código de Processo Civil (CPC), ensejando  a prolação da seguinte decisão no REsp nº 1.118.429/SP, julgado pela 1ª Seção (Relator Min.  Herman Benjamin, DJe de 14/5/2010), cuja ementa transcrevo:  TRIBUTÁRIO. IMPOSTO DE RENDA PESSOA FÍSICA. AÇÃO  REVISIONAL DE BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO. PARCELAS  ATRASADAS RECEBIDAS DE FORMA ACUMULADA.  1.  O  Imposto  de  Renda  incidente  sobre  os  benefícios  pagos  acumuladamente deve ser calculado de acordo com as tabelas e  alíquotas vigentes à época em que os valores deveriam ter sido  adimplidos,  observando  a  renda  auferida  mês  a  mês  pelo  segurado. Não  é  legítima a  cobrança  de  IR  com parâmetro  no  montante global pago extemporaneamente. Precedentes do STJ.  2. Recurso Especial não provido. Acórdão sujeito ao regime do  art.543­C do CPC e do art. 8º da Resolução STJ 8/2008.  Por  força  do  §  2º  do  art.  62  do  RICARF  (Regimento  Interno  do  CARF,  Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2015), tornou­se obrigatória a reprodução dessa decisão  no julgamento dos recursos na esfera do CARF.  Persistiu dissenso no âmbito das Turmas componentes da 2ª Seção do CARF,  contudo,  no  tocante  à  aplicação  dessa  decisão  em  recurso  repetitivo  nos  litígios  envolvendo  lançamentos  realizados com base no  art. 12 da Lei nº 7.713/88. Em linhas gerais  e  apertada  síntese, pode­se dividir os entendimentos divergentes em duas vertentes principais, sendo que a  primeira  concedia  parcial  provimento  aos  recursos  interpostos  contra  tais  lançamentos,  determinando  que  fossem  aplicadas  aos  rendimentos  recebidos  acumuladamente  as  tabelas  vigentes à época em que os valores deveriam ter sido originalmente pagos.  Fl. 124DF CARF MF   6 Já  a  segunda  corrente  entendia  que  tal  aplicação  implicaria  em  alteração  substancial do critério jurídico adotado no lançamento, o qual, consequentemente, deveria ser  cancelado  devido  à  não  observância da  norma  fixada pelo STJ  em  recurso  repetitivo,  dando  provimento integral ao recurso voluntário.   Entrementes, e paralelamente, a controvérsia acerca da incidência do imposto  de renda sobre os rendimentos  recebidos acumuladamente assumiu contornos constitucionais,  com  o  reconhecimento  de  sua  repercussão  geral  pelo  Supremo  Tribunal  Federal  (STF)  em  20/10/2010, no decorrer de julgamento da questão de ordem em agravo regimental no Recurso  Extraordinário  (RE)  nº 614.406/RS,  face  à  declaração  da  inconstitucionalidade do  art.  12  da  Lei  nº  7.713/88  levada  a  efeito  pelo  Tribunal  Regional  Federal  da  4ª  Região,  em  sede  de  controle difuso.  Explique­se que na Arguição de Inconstitucionalidade nº 2002.72.05.000434­ 0/SC,  a Corte Especial  daquele  e. Tribunal declarou em 22/10/2009  a  "inconstitucionalidade  sem redução de texto ou interpretação conforme a Constituição" do art. 12 da Lei nº 7.718/88,  "no  tocante  aos  rendimentos  recebidos  acumuladamente  decorrentes  de  remuneração,  vantagem  pecuniária,  proventos  e  benefícios  previdenciários,  como  na  situação  vertente,  recebidos a menor pelo contribuinte em cada mês­competência e cujo recolhimento de alíquota  prevista em lei se dê mês a mês ou em menor período".  Interposto  então  o  RE  nº  614.406/RS  pela  União  para  afastar  a  aplicação  dessa declaração de  inconstitucionalidade em dado caso sob  litígio  (cujo processo de origem  foi a ação ordinária de nº 2008.71.13.0001658­8/RS), formou­se com base nesse leading case o  Tema  368  ­  "Incidência  do  imposto  de  renda  de  pessoa  física  sobre  rendimentos  percebido  acumuladamente" de repercussão geral, o qual foi submetido ao rito regrado pelo art. 543­B do  CPC .  O  julgamento  do  recurso  representativo  da  controvérsia  restou  findo  em  23/10/2014, sendo que o Tribunal Pleno, por maioria, decidiu a matéria negando provimento ao  recurso e exarando acórdão cuja ementa foi assim redigida:  IMPOSTO  DE  RENDA  –  PERCEPÇÃO  CUMULATIVA  DE  VALORES – ALÍQUOTA.   A percepção cumulativa de valores há de ser considerada, para  efeito  de  fixação  de  alíquotas,  presentes,  individualmente,  os  exercícios envolvidos.  (RE  614406,  Relator(a):  Min.  ROSA  WEBER,  Relator(a)  p/  Acórdão: Min. MARCO AURÉLIO, Tribunal Pleno,  julgado em  23/10/2014,  ACÓRDÃO  ELETRÔNICO  REPERCUSSÃO  GERAL  ­ MÉRITO DJe­233 DIVULG 26­11­2014 PUBLIC 27­ 11­2014)  No Informativo STF de nº 764, referente ao período compreendido entre 20 e  24 de outubro de 20101, consta o seguinte resumo da conclusão da votação em apreço:  IRPF e valores recebidos acumuladamente ­ 4  É  inconstitucional  o  art.  12  da  Lei  7.713/1988  (“No  caso  de  rendimentos  recebidos acumuladamente, o  imposto  incidirá, no mês do  recebimento ou crédito,  sobre o total dos rendimentos, diminuídos do valor das despesas com ação judicial                                                              1  Disponível  em:  <http://www.stf.jus.br//arquivo/informativo/documento/informativo764.htm>.  Acesso  em  30/01/2015.  Fl. 125DF CARF MF Processo nº 10980.011329/2007­48  Acórdão n.º 2402­005.727  S2­C4T2  Fl. 44          7 necessárias ao seu recebimento, inclusive de advogados, se tiverem sido pagas pelo  contribuinte,  sem  indenização”).  Com  base  nessa  orientação,  em  conclusão  de  julgamento e por maioria, o Plenário negou provimento a recurso extraordinário em  que  se  discutia  a  constitucionalidade  da  referida  norma —  v.  Informativo  628. O  Tribunal afirmou que o sistema não poderia apenar o contribuinte duas vezes. Esse  fenômeno  ocorreria,  já  que  o  contribuinte,  ao  não  receber  as  parcelas  na  época  própria, deveria ingressar em juízo e, ao fazê­lo, seria posteriormente tributado com  uma alíquota superior de imposto de renda em virtude da junção do que percebido.  Isso porque a exação em foco teria como fato gerador a disponibilidade econômica e  jurídica da renda. A novel Lei 12.350/2010, embora não fizesse alusão expressa ao  regime de competência, teria implicado a adoção desse regime mediante inserção de  cálculos que direcionariam à consideração do que apontara como “épocas próprias”,  tendo  em  conta  o  surgimento,  em  si,  da  disponibilidade  econômica. Desse modo,  transgredira  os  princípios  da  isonomia  e  da  capacidade  contributiva,  de  forma  a  configurar  confisco  e  majoração  de  alíquota  do  imposto  de  renda.  Vencida  a  Ministra Ellen Gracie, que dava provimento ao recurso por reputar constitucional o  dispositivo questionado. Considerava que o preceito em foco não violaria o princípio  da  capacidade  contributiva.  Enfatizava  que  o  regime  de  caixa  seria  o  que melhor  aferiria a possibilidade de contribuir, uma vez que exigiria o pagamento do imposto  à luz dos rendimentos efetivamente percebidos, independentemente do momento em  que  surgido o  direito  a  eles.RE 614406/RS,  rel.  orig. Min. Ellen Gracie,  red.  p/  o  acórdão Min. Marco Aurélio, 23.10.2014. (RE­614406)   Merecem  transcrição,  também,  os  seguintes  excertos  do  voto  condutor  de  lavra do Ministro Marco Aurélio e dos debates então verificados, cuja leitura permite melhor  esclarecer o posicionamento do STF sobre o tema:  Qual  é a consequência de  se  entender de modo diverso do que  assentado  pelo  Tribunal  Regional  Federal  da  4ª  Região?  Haverá, como ressaltado pela doutrina, principalmente a partir  de  2003,  transgressão  ao  princípio  da  isonomia.  Aqueles  que  receberam  os  valores  nas  épocas  próprias  ficaram  sujeitos  a  certa alíquota. O contribuinte que viu resistida a satisfação do  direito  e  teve  que  ingressar  em  Juízo  será  apenado,  alfim,  mediante a incidência de alíquota maior. Mais do que isso, tem­ se  o  envolvimento  da  capacidade  contributiva,  porque  não  é  dado  aferi­la,  tendo  em  conta  o  que  apontei  como  disponibilidade  financeira,  que  diz  respeito  à  posse,  mas  o  estado jurídico notado à época em que o contribuinte teve jus à  parcela  sujeita ao  Imposto  de Renda. O desprezo  a  esses  dois  princípios conduziria a verdadeiro confisco e, diria, à majoração  da alíquota do Imposto de Renda.  (...)  O SENHOR MINISTRO MARCO AURÉLIO – Por isso, no caso,  desprovejo  o  recurso,  assentando  a  inconstitucionalidade  do  artigo 12 – não do 12­A, que resultou da medida provisória, da  conversão  em  lei  –,  no  que  conferida  interpretação  alusiva  à  junção  do  que  alcançado  pelo  contribuinte,  considerados  os  vários exercícios. Mantenho o acórdão.   O  SENHOR  MINISTRO  CEZAR  PELUSO  (PRESIDENTE)  ­  Nega provimento?   Fl. 126DF CARF MF   8 O SENHOR MINISTRO MARCO AURÉLIO – Porque, de outro  modo, o contribuinte – como disse – será apenado, quer dizer, o  devedor não satisfaz a parcela, compele­o a entrar em Juízo e,  posteriormente, cobra o imposto pela alíquota maior. (grifei)  O acórdão em comento transitou em julgado em 9/12/2014, sem interposição  de recurso por qualquer das partes, ou atribuição de modulação aos efeitos dessa decisão.  Destarte,  restou  assim  consolidado  o  entendimento  de  que  a  incidência  do  imposto  de  renda  pessoa  física  sobre  verbas  recebidas  acumuladamente  deve  considerar  as  datas e as alíquotas vigentes na época em que a verba deveria  ter sido paga, em respeito aos  princípios  da  isonomia  e  da  capacidade  contributiva,  firmando­se,  por  conseguinte,  a  inconstitucionalidade do art. 12 da Lei nº 7.713/88 quanto a esse aspecto.  Nos  termos do  inciso  I  do § 6º do art. 26­A do Decreto nº 70.235, de 6 de  março  de  1972,  não  se  aplica  a  vedação  aos  órgãos  de  julgamento  administrativo  fiscal  ao  afastamento de lei sob o fundamento de inconstitucionalidade, nos casos de lei que tenha sido  declarada inconstitucional por decisão plenária definitiva do STF ­ no mesmo passo, tem­se o  disposto no art. 62 do RICARF.  Cumpre observar, por oportuno, que as decisões do STF exaradas nos moldes  do art. 543­B do CPC possuem o caráter de palavra final e definitiva daquele tribunal sobre as  questões  jurídica  nelas  objetivamente  decididas,  conforme  já  alertava,  com  propriedade,  o  Parecer PGFN/CRJ nº 492, de 30 de março de 2011.  E, nesse contexto, o § 2º do art. 62 do RICARF contém a seguinte regra:  § 2º As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo  Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria  infraconstitucional,  na  sistemática  prevista  pelos  arts.  543­B  e  543­C  da  Lei  nº  5.869,  de  1973  ­  Código  de  Processo  Civil  (CPC),  deverão  ser  reproduzidas  pelos  conselheiros  no  julgamento dos recursos no âmbito do CARF.  Por conseguinte, a decisão definitiva de mérito proferida pelo Tribunal Pleno  do  STF  sob  a  sistemática  prevista  pelo  art.  543­B  do  CPC  deverá  ser  reproduzida  por  este  colegiado no  julgamento do presente  recurso voluntário. E essa  reprodução da decisão, salvo  melhor  juízo,  significa  aplicação  da  norma  jurídica  geral,  consolidada  no  julgamento  da  repercussão geral, no caso em exame.  No caso concreto, a Notificação de Lançamento vergastada foi amparada na  prescrição  contida no  art. 12 da Lei nº 7.713/88, não havendo sido observada  a  tese  jurídica  vinculante fixada em sede de repercussão geral, segundo a qual "O Imposto de Renda incidente  sobre verbas  recebidas  acumuladamente deve observar o  regime de competência,  aplicável  a  alíquota correspondente ao valor recebido mês a mês, e não a relativa ao total satisfeito de uma  única vez".  Então,  não  ocorreu  apenas  uma  mera  desconformidade  superficial  ou  diminuta entre a base de cálculo apurada e a correta, passível de correção ou ajuste mediante o  expurgo do excesso eventualmente constatado, a ser efetuado pela administração tributária.  Diversamente,  o  consequente  normativo  da  regra  matriz  de  incidência  tributária foi inequivocamente desatendido no seu aspecto quantitativo, visto que tanto a base  de cálculo quanto as alíquotas aplicadas para o cômputo do  imposto devido afastaram­se em  Fl. 127DF CARF MF Processo nº 10980.011329/2007­48  Acórdão n.º 2402­005.727  S2­C4T2  Fl. 45          9 sua  essência do  entendimento  sufragado pelo STF para  situações  do  gênero,  acarretando  em  elevado e significativo gravame tributário a afligir a capacidade contributiva do sujeito passivo.   Deve ser  registrado não ser o caso de se cogitar de nulidade, ao menos nos  termos regrados pelo art. 59 do Decreto nº 70.235/72, visto ter sido o lançamento realizado por  autoridade competente, com o devido respeito ao direito de defesa.  Contudo,  não  se  vislumbra,  de  um  modo  geral,  a  possibilidade  de  seu  aproveitamento  ou  recálculo,  já  que  evidenciado  flagrante  grau  de  descompasso  entre  suas  facetas  constitutivas  e  a  decisão  do  STF  acerca  do  tema,  e  tendo  em  mente  a  ausência  de  competência  do  julgador  administrativo  em determinar  a  reconstituição  do  crédito  tributário,  quanto mais nessa amplitude.   Importa  observar  alguns  aspectos  adicionais  da  situação,  como  fecho  desta  fundamentação.  Primeiramente,  vale  anotar  que  sob  o  mecanismo  de  repercussão  geral,  a  suprema  corte  não  gera  uma  disposição,  necessariamente,  que  se  pronuncie  acerca  da  constitucionalidade  de  uma  norma  jurídica,  à  semelhança  do  que  ocorre  quando  atua  no  controle concentrado da leis, mas sim julga o mérito de uma determinada questão em controle  difuso, em decisão que atinge uma série de processos que versem sobre tal tema.  Sob  essa  ótica,  o  enunciado  da  ementa  do  "leading  case"  não  prescinde  de  conter  uma  prescrição  explícita  declarando  uma  norma,  parcialmente  ou  no  todo,  inconstitucional,  porém  veicula  conclusão  definitiva  daquele  tribunal  sobre  a  matéria  controversa,  gerando  previsibilidade  no  direito  aplicável  às  contendas  travadas  em  outras  esferas judiciais ou administrativas.  À  ocasião,  o  caso  versava  justamente  sobre  a  declaração  de  inconstitucionalidade do art. 12 da Lei nº 7.713/88  levada a efeito pelo TRF da 4ª Região, a  qual, não obstante o recurso da União, quedou mantida por razões de mérito, como evidencia a  fundamentação da decisão do STF.   Salvo  melhor  juízo,  se  essa  Corte  decidiu  no  RE  nº  614.406  que  tal  declaração  do  Tribunal  Regional  era  perfeitamente  harmônica  com  o  texto  constitucional,  firmou­se então entendimento quanto à inconstitucionalidade daquela norma. Lembre­se que a  ementa do  acórdão  sintetiza as  conclusões do Colegiado, não podendo  ser  lida abstraindo­se  das razões do julgamento.  Também merece ser registrado que não caberia ao STF tecer considerações,  nas disposições conclusivas do julgamento, acerca dos efeitos da decisão então acordada sobre  eventuais  autuações  do  Fisco  realizadas  com  base  na malfadada  norma,  visto  que  o  exame  travado naquela seara deu­se,  reitere­se, debruçado sobre declaração de  inconstitucionalidade  exarada no TRF da 4ª Região, direito em tese, e não, por exemplo, à luz de ação anulatória de  débito fiscal ou lide similar.  Além disso, cabe frisar que a eventual inexistência de prejuízo consequente à  realização  de  recálculo  do  lançamento  não  serve  de  escusa  para  a  sua  manutenção,  quando  revelada  sua  desconformidade  com  o  ordenamento  constitucional.  Tal  conclusão  persevera,  ainda que tal conhecimento não fosse facultado à autoridade fiscal, quando da autuação.  Fl. 128DF CARF MF   10 Ante  o  exposto,  voto  no  sentido  de  sentido  de  afastar  a  preliminar  de  ilegitimidade  da  União  e,  no  mérito,  dar  provimento  ao  recurso  voluntário,  para  fins  de  cancelar a exigência.  (assinado digitalmente)  Ronnie Soares Anderson                                Fl. 129DF CARF MF

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Numero do processo: 13971.916308/2011-02
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Mar 28 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Apr 20 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Ano-calendário: 2002 COFINS. ART. 3º, §1º DA LEI 9.718/98. BASE DE CÁLCULO. FATURAMENTO. RECEITA. ALARGAMENTO. INCONSTITUCIONALIDADE. APLICAÇÃO DO ART. 62, §2º, do RICARF. RESTITUIÇÃO DE INDÉBITO TRIBUTÁRIO. CABIMENTO. A base de cálculo das contribuições ao PIS e a COFINS é o faturamento e, em virtude de inconstitucionalidade declarada em decisão plenária definitiva do STF, devem ser excluídas da base de cálculo as receitas que não decorram da venda de mercadorias ou da prestação de serviços. Aplicação do art. 62, §2º do RICARF. Recurso Voluntário Provido.
Numero da decisão: 3402-003.932
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário. (Assinado com certificado digital) Antonio Carlos Atulim - Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Antonio Carlos Atulim, Jorge Freire, Diego Diniz Ribeiro, Waldir Navarro Bezerra, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto.
Nome do relator: ANTONIO CARLOS ATULIM

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3402­003.932  –  4ª Câmara / 2ª Turma Ordinária   Sessão de  28 de março de 2017  Matéria  PIS.  9.718/98  Recorrente  FEY PARTICIPACOES E EMPREENDIMENTOS S.A.  Recorrida  FAZENDA NACIONAL    ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP  ANO­CALENDÁRIO: 2002  COFINS.  ART.  3º,  §1º  DA  LEI  9.718/98.  BASE  DE  CÁLCULO.  FATURAMENTO.  RECEITA.  ALARGAMENTO.  INCONSTITUCIONALIDADE.  APLICAÇÃO  DO  ART.  62,  §2º,  do  RICARF. RESTITUIÇÃO DE INDÉBITO TRIBUTÁRIO. CABIMENTO.  A base de cálculo das contribuições ao PIS e a COFINS é o faturamento e,  em virtude de inconstitucionalidade declarada em decisão plenária definitiva  do STF, devem ser excluídas da base de cálculo as receitas que não decorram  da venda de mercadorias ou da prestação de serviços. Aplicação do art. 62,  §2º do RICARF.  Recurso Voluntário Provido.      Acordam  os  membros  do  Colegiado,  por  unanimidade  de  votos,  em  dar  provimento ao Recurso Voluntário.    (Assinado com certificado digital)  Antonio Carlos Atulim ­ Presidente e Relator  Participaram  da  sessão  de  julgamento  os  Conselheiros  Antonio  Carlos  Atulim,  Jorge  Freire,  Diego  Diniz  Ribeiro,  Waldir  Navarro  Bezerra,  Thais  De  Laurentiis  Galkowicz,  Maria  Aparecida  Martins  de  Paula,  Maysa  de  Sá  Pittondo  Deligne  e  Carlos  Augusto Daniel Neto.    Relatório     AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 97 1. 91 63 08 /2 01 1- 02 Fl. 71DF CARF MF     2  Por  trazer  clara  síntese  do  processo  até  a  interposição  da Manifestação  de  Inconformidade,  adoto  o  relatório  da  decisão  de  primeira  instância,  no Acórdão  da DRJ  em  Florianópolis:    "Trata  o  presente  processo  de  Pedido  de  Restituição  PER,  apresentado  pela  contribuinte acima qualificada.  Em análise do pedido, a Delegacia da Receita Federal do Brasil em Blumenau/SC  decidiu  indeferi­lo  (...),  em  razão  de  que  o  valor  recolhido  via  DARF,  indicado  como  fonte  do  crédito  contra  a  Fazenda  Nacional,  já  havia  sido  integralmente  utilizado  para  pagamento  de  débito  da  contribuinte,  não  restando  crédito  disponível para restituição solicitada no PER.  Inconformada com o não deferimento de seu Pedido de Restituição, a contribuinte  esclarece, em síntese, que os créditos pleiteados se referem a pagamentos a maior  originados  da  declaração  de  inconstitucionalidade  do  artigo  3º,  §1º  da  Lei  nº  9.718/98, pelo Supremo Tribunal Federal, em 9 de novembro de 2005.  A  contribuinte  alega,  ainda,  a  nulidade  do Despacho Decisório,  por  ausência  de  diligência  sobre  o  crédito  pleiteado,  nos  termos  do  artigo  65  da  Instrução  Normativa nº 900/2008." (grifei)    A  Manifestação  de  Inconformidade  foi  julgada  improcedente  naquela  oportunidade, tendo sido o referido acórdão ementado nos seguintes termos:    "ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO  Ano­calendário: 2002  PEDIDO  DE  RESTITUIÇÃO.  PAGAMENTO  INDEVIDO  OU  A  MAIOR.  COMPROVAÇÃO DA CERTEZA E LIQUIDEZ DO CRÉDITO. REQUISITO.  A  certeza  e  liquidez  do  crédito  é  requisito  essencial  para  o  deferimento  da  restituição,  devendo  restar  comprovado o  efetivo  pagamento  indevido  ou  a maior  que o devido.  ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL  Ano­calendário: 2002  PRELIMINAR.  NULIDADE.  AUSÊNCIA  DE  REALIZAÇÃO  DE  DILIGÊNCIA.  NÃO OCORRÊNCIA.  A  autoridade  competente  para  decidir  sobre  restituição  poderá  condicionar  o  reconhecimento do direito creditório à apresentação de documentos, bem como tem  a faculdade de determinar a realização de diligência. Se pela DCOMP apresentada  já  é  possível  concluir  que  o  crédito  pleiteado  carece  de  liquidez  e  certeza,  desnecessária a realização de diligência.  ARGÜIÇÃO  DE  ILEGALIDADE  E  INCONSTITUCIONALIDADE.  INCOMPETÊNCIA DAS INSTÂNCIAS ADMINISTRATIVAS PARA APRECIAÇÃO.  As  autoridades  administrativas  estão  obrigadas  à  observância  da  legislação  tributária vigente no País, sendo incompetentes para a apreciação de argüições de  inconstitucionalidade e ilegalidade de atos legais regularmente editados.  Manifestação de Inconformidade Improcedente  Direito Creditório Não Reconhecido"    Intimada pessoalmente desta decisão, foi apresentado Recurso tempestivo no  qual  a  Recorrente  alega,  em  síntese,  a  validade  do  crédito  de  PIS  objeto  do  Pedido  de  Restituição, vez que calculado com base nas receitas não operacionais auferidas pela empresa,  que não podem ser consideradas como base de cálculo do PIS e da COFINS como reconhecido  pelo  Supremo  Tribunal  Federal  nos  Recursos  Extraordinários  346.084,  358.273,  357.950  e  390.840. Alega ainda a nulidade do despacho decisório, por ausência de diligência prévia para  verificação da validade do crédito.  Fl. 72DF CARF MF Processo nº 13971.916308/2011­02  Acórdão n.º 3402­003.932  S3­C4T2  Fl. 3          3  Anexou  ao  Recurso  Voluntário  cópia  do  livro  razão  e  planilha  com  a  composição do crédito apurado.  Em seguida, os autos foram remetidos a esse Conselho.  É o relatório.  Voto             Antonio Carlos Atulim, Relator   O  julgamento  deste  processo  segue  a  sistemática  dos  recursos  repetitivos,  regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de  junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplica­se o decidido no Acórdão 3402­003.923, de  28 de março de 2017, proferido no julgamento do processo 13971.916330/2011­44, paradigma  ao qual o presente processo foi vinculado.  Transcreve­se,  como  solução  deste  litígio,  nos  termos  regimentais,  o  entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3402­003.923):  "Conheço  do  Recurso  Voluntário,  por  tempestivo,  adentrando em suas razões.  Em recente julgado desta turma relatado pela Conselheira  Thais de Laurentiis Galkowicz,  foi reconhecimento o cabimento  dos  pedidos  de  restituição  que,  tal  como  o  presente,  se  respaldam  na  inconstitucionalidade  do  art.  3º,  §1º,  da  Lei  n.º  9.718/98. Trata­se do acórdão n.º  3402­003.399,  ementado nos  seguintes termos:  "Assunto:  Contribuição  para  o  Financiamento  da  Seguridade  Social  ­  Cofins  Período  de  apuração:  01/08/2005  a  31/08/2005  COFINS.  ART.  3º,  §1º  DA  LEI  9.718/98.  BASE  DE  CÁLCULO. FATURAMENTO. RECEITA. ALARGAMENTO.  INCONSTITUCIONALIDADE.  APLICAÇÃO  DO  ART.  62,  §2º,  do  RICARF.  RESTITUIÇÃO  DE  INDÉBITO  TRIBUTÁRIO. CABIMENTO.  A base de cálculo das contribuições ao PIS e a COFINS é  o  faturamento  e,  em  virtude  de  inconstitucionalidade  declarada  em  decisão  plenária  definitiva  do  STF,  devem  ser  excluídas  da  base  de  cálculo  as  receitas  que  não  decorram  da  venda  de  mercadorias  ou  da  prestação  de  serviços. Aplicação  do  art.  62,  §2º do RICARF." (Número do Processo 10980.911525/2010­10.  Data  da  Sessão  29/09/2016  Relatora  Thais  de  Laurentiis  Galkowicz. Acórdão n.º 3402­003.399)    A  situação  trazida  sob  julgamento  nos  presente  autos  é  idêntica  àquela  julgada naquela  oportunidade,  razão  pela  qual  Fl. 73DF CARF MF     4  adoto  integralmente  as  razões  delineadas  por  aquela  Ilustre  Conselheira Relatora, à  luz do art. 50, §1º da Lei n.º 9.784/99,  cujo voto foi acompanhado por unanimidade por esta Turma:  "A questão  de  direito  controversa  no presente  processo  é  amplamente conhecida. Trata­se do inconstitucional alargamento  da  base  de  cálculo  da  Contribuição  para  o  Financiamento  da  Seguridade Social (“Cofins”), sobre o qual cumpre tecer algumas  breves explanações.  A Cofins, sucessora do FINSOCIAL, foi disciplinada pela  Lei n. 9.718, de 27 de novembro de 1998 (“Lei n. 9.718/98”).  Nos  termos do  artigo 3º da citada Lei,  ficou estabelecido  que a Cofins incidiria sobre a receita bruta de pessoa jurídica. Por  sua  vez,  o  §1º  do  mesmo  artigo  veio  definir  o  que  abrangia  o  termo "receita", dispondo que:   entende­se  por  receita  bruta  a  totalidade  das  receitas  auferidas  pela  pessoa  jurídica,  sendo  irrelevantes  o  tipo  de  atividade  por  ela  exercida  e  a  classificação  contábil  adotada  para as receitas.  Contudo,  à  época  da  edição  da  Lei  n.  9.718/98,  a  Constituição  da  República  brasileira,  em  seu  artigo  195,  estabelecia que as Contribuições Sociais a  serem recolhidas aos  Cofres da União pelos empregadores, dentre as quais se enquadra  a Cofins, somente poderiam incidir sobre o “faturamento”.  Diante  dessa  delimitação  constitucional,  o  Supremo  Tribunal Federal (“STF”) declarou que o §1º do artigo 3º da Lei  n.  9.718/98  é  inconstitucional,  no  julgamento  dos  Recursos  Extraordinários  (“RE”)  n.  357950,  390840,  358273,  346084  e  336134 em 09 de novembro de 2005.  Posteriormente, o Pretório Excelso, no  julgamento do RE  n.  585.235,  publicado  em  28/11/2008,  julgou  pela  aplicação  da  repercussão  geral  sobre  matéria  em  exame,  reconhecendo  a  inconstitucionalidade do § 1º do artigo 3º da Lei nº 9.718/98. A  ementa do referido julgado foi lavrada nos seguintes termos:  RECURSO. Extraordinário.  Tributo. Contribuição  social.  PIS. COFINS.   Alargamento  da  base  de  cálculo.  Art.  3º,  §  1º,  da  Lei  nº  9.718/98. Inconstitucionalidade. Precedentes do Plenário (RE nº  346.084/PR, Rel. orig. Min. ILMAR GALVÃO, DJ de 1º.9.2006;  REs  nos  357.950/RS,  358.273/RS  e  390.840/MG,  Rel.  Min.  MARCO  AURÉLIO,  DJ  de  15.8.2006)  Repercussão  Geral  do  tema.  Reconhecimento  pelo  Plenário.  Recurso  improvido.  É  inconstitucional  a  ampliação  da  base  de  cálculo  do  PIS  e  da  COFINS prevista no art. 3º, § 1º, da Lei nº 9.718/98.  Isto  porque,  segundo  o  entendimento  dos  Ministros  do  STF, esse dispositivo alargou indevidamente a base de cálculo da  COFINS,  uma  vez  que  igualou  o  conceito  de  faturamento  (ou  receita operacional) ao conceito de receita . Explica­se.  Fl. 74DF CARF MF Processo nº 13971.916308/2011­02  Acórdão n.º 3402­003.932  S3­C4T2  Fl. 4          5  Enquanto  o  faturamento  é  constituído  pelas  receitas  advindas  da  venda  de  bens  e  serviços,  a  receita  compreende  "entrada  de  recursos  financeiros  remuneradores  dos  diferentes  negócios jurídicos da atividade empresarial”, segundo a lição de  José Antonio Minatel. 1 Assim, o faturamento (espécie) é menos  amplo que a receita (gênero).  Ocorre  que  tais  conceitos  não  podem  ser  livremente  manejados  pelo  legislador,  pois  o  artigo  110  do  Código  Tributário Nacional determina que:  A lei tributária não pode alterar a definição, o conteúdo e  o  alcance  de  institutos,  conceitos  e  formas  de  direito  privado,  utilizados,  expressa  ou  implicitamente,  pela  Constituição  Federal,  pelas  Constituições  dos  Estados,  ou  pelas  Leis  Orgânicas  do Distrito Federal  ou  dos Municípios,  para  definir  ou limitar competências tributárias.  Destarte,  se  a  Constituição  determinava  que  a  COFINS  somente  poderia  incidir  sobre  o  faturamento;  e  o  faturamento  constitui  as  receitas  provenientes  da  venda  de  bens  e  serviços  pela pessoa jurídica; conclui­se pela inconstitucionalidade da lei  que  determina  a  incidência  sobre  a  receita  sem  sentido  amplo,  pois essa é mais abrangente que o faturamento2.   Buscando  solucionar  os  vícios  constitucionais  de  que  padecia a Lei n. 9.718/98, o Poder Legislativo editou a Emenda  Constitucional  n.  20,  de  15  de  dezembro  de  1998  (“EC  n.  20/98”).  Tal Emenda alterou o texto do artigo 195 da Constituição,  o qual restou positivado nos seguintes dizeres:  Art.  195. A  seguridade  social  será  financiada por  toda a  sociedade,  de  forma  direta  e  indireta,  nos  termos  da  lei,  mediante  recursos  provenientes  dos  orçamentos  da União,  dos  Estados,  do Distrito Federal  e  dos Municípios,  e  das  seguintes  contribuições sociais:  I  ­  do  empregador,  da  empresa  e  da  entidade  a  ela  equiparada  na  forma  da  lei,  incidentes  sobre:  (Redação  dada  pela Emenda Constitucional nº 20, de 1998)  a)  a  folha  de  salários  e  demais  rendimentos  do  trabalho  pagos  ou  creditados,  a  qualquer  título,  à  pessoa  física  que  lhe                                                              1 MINATEL, José Antonio. Conteúdo do Conceito de Receita e Regime Jurídico para sua Tributação. MP Editora.  São Paulo, 2005, p. 132.   2 Ademais, há de se ressaltar que a Lei n. 9.718/98 tem status jurídico de lei ordinária, o que torna ainda mais  patente a sua inconstitucionalidade, tendo em vista que somente por meio de lei complementar é que poderia ser  criada outra  fonte de custeio da seguridade social  (incidente  sobre outra materialidade), nos  termos do artigo  195, §4 e do artigo 154, inciso I, ambos da Constituição.  Disto depreende­se que somente  seria  legítima a  cobrança da COFINS sobre a  receita, hipótese que na época  não estava prevista no rol de incisos do artigo 195 da Constituição, caso tal situação tivesse sido instituída por  meio  de  lei  complementar.  Afinal,  tratar­se­ia  de  nova  fonte  de  custeio  da  seguridade  social.  Como  a  Lei  n.  9.718/98  foi votada e publicada pelo  rito  legislativo próprio das  leis ordinárias, mais uma vez conclui­se pela  inconstitucionalidade da exação.   Fl. 75DF CARF MF     6  preste  serviço, mesmo  sem  vínculo  empregatício;(Incluído  pela  Emenda Constitucional nº 20, de 1998)  b)  a  receita  ou  o  faturamento;  (Incluído  pela  Emenda  Constitucional nº 20, de 1998).  Em síntese, a EC n. 20/98 alargou a hipótese de incidência  das contribuições sociais devidas pelo empregador, uma vez que  a partir de então não só o faturamento pode ser tributado, como  também a receita em sentido amplo.  Entretanto,  essa  mudança  no  texto  da  Constituição  não  teve o poder de convalidar os dizeres da Lei n. 9.718/98, pois o  sistema  jurídico  brasileiro  não  admite  a  constitucionalidade  superveniente, vale dizer, tendo sido promulgada e publicada lei  que  contraria  a  Constituição,  não  é  possível  que  posterior  alteração  da  própria  Constituição,  por  via  de  emenda,  traga  de  forma retroativa a validade da lei. Foi assim que decidiu o STF.  Pois  bem.  Tendo  sido  decidida  a  questão  em  sede  de  recurso extraordinário com repercussão geral reconhecida, torna­ se imperioso o seu acatamento por este Conselho, nos moldes do  artigo 62, §2º do Regimento Interno do CARF, o qual prescreve a  necessidade  de  reprodução,  pelos  Conselheiros,  das  decisões  definitivas de mérito proferidas pelo Supremo Tribunal Federal,  na sistemática da repercussão geral:  §  2º  As  decisões  definitivas  de  mérito,  proferidas  pelo  Supremo Tribunal  Federal  e  pelo  Superior  Tribunal  de  Justiça  em  matéria  infraconstitucional,  na  sistemática  prevista  pelos  arts.  543­B  e  543­C  da  Lei  nº  5.869,  de  1973  ­  Código  de  Processo  Civil  (CPC),  deverão  ser  reproduzidas  pelos  conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF.  Nesse sentido, é  tranquila a  jurisprudência do Conselho a  respeito  da  necessidade  de  reprodução  das  decisões  proferidas  pelo STF  sobre  a  inconstitucionalidade  do  alargamento  da  base  de  cálculo  da  Cofins  –  citadas  alhures  ­  aos  processos  administrativos  fiscais,  nos  quais  os  contribuintes  formulam  pedidos de restituição de valores indevidamente pagos a título da  contribuição  social  em  questão,  exatamente  como  ocorre  no  presente caso.  Destaco  a  seguir  alguns  julgados  representativos  do  entendimento sobre a matéria:  Assunto:  Contribuição  para  o  Financiamento  da  Seguridade Social ­ Cofins  Período de apuração: 01/02/1999 a 30/06/2000  PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. TRIBUTOS SUJEITOS AO  LANÇAMENTO  POR  HOMOLOGAÇÃO.  PRAZO  DECADENCIAL. 10 ANOS. PEDIDO REALIZADO ANTES DA  ENTRADA EM VIGOR DA LEI COMPLEMENTAR 118/2005.  O  prazo  decadencial  para  o  direito  de  restituição  de  tributos  sujeitos ao  lançamento por homologação é de 10  (dez)  anos,  a  contar  do  fato  gerador  quando  o  pedido  for  realizado  Fl. 76DF CARF MF Processo nº 13971.916308/2011­02  Acórdão n.º 3402­003.932  S3­C4T2  Fl. 5          7  antes  da  entrada  em  vigor  da  Lei  Complementar  118/2005,  conforme entendimento do STF.  COFINS. ALARGAMENTO DA BASE DE CÁLCULO ­  APLICAÇÃO DE DECISÃO DO STF NA SISTEMÁTICA DA  REPERCUSSÃO GERAL ­ POSSIBILIDADE.  Nos  termos  regimentais,  reproduzem­se  as  decisões  definitivas  de  mérito,  proferidas  pelo  Supremo  Tribunal  Federal  (STF) na sistemática de  repercussão geral. A base de  cálculo  das  contribuições  para  o  PIS  e  a  Cofins  é  o  faturamento, assim compreendido a  receita bruta da venda de  mercadorias,  de  serviços  e  mercadorias  e  serviços,  com  fundamento na declaração de inconstitucionalidade do § 1º do  art. 3º da Lei nº 9.718/98 pelo Excelso STF.  COFINS. REPETIÇÃO DE INDÉBITO. PAGAMENTO  A MAIOR OU INDEVIDO DE TRIBUTO. POSSIBILIDADE.  Caracterizado  o  pagamento  a  maior  ou  indevido  da  contribuição, o contribuinte tem direito à repetição do indébito,  segundo  o  disposto  no  art.  165,  I,  do  Código  Tributário  Nacional (CTN).  Recurso Voluntário Provido   (Processo  11618.002043/2005­19,  MARCOS  ANTONIO  BORGES, Nº Acórdão 3801­001.835)  Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep  Período de apuração: 28/02/1999 a 31/05/2000  DECADÊNCIA.  INDÉBITO  TRIBUTÁRIO.  PEDIDO  DE  RESTITUIÇÃO. LEI COMPLEMENTAR 118/05.  O  prazo  estabelecido  na  Lei  Complementar  118/05  somente se aplica para os processos protocolizados a partir 9 de  junho  de  2005,  e  que  anteriormente  a  este  limite  temporal  aplica­se a tese de que o prazo para repetição ou compensação  de  tributos  sujeitos  a  lançamento  por  homologação  é  de  dez  anos,  contado  de  seu  fato  gerador,  de  acordo  com  decisão  do  Supremo Tribunal Federal (STF) na sistemática de repercussão  geral.  PIS.  ALARGAMENTO  DA  BASE  DE  CÁLCULO  ­  APLICAÇÃO  DE  DECISÃO  DO  STF  NA  SISTEMÁTICA  DA  REPERCUSSÃO GERAL ­ POSSIBILIDADE.  Nos  termos  regimentais,  reproduzem­se  as  decisões  definitivas  de  mérito,  proferidas  pelo  Supremo  Tribunal  Federal  (STF) na sistemática de  repercussão geral. A base de  cálculo  das  contribuições  para  o  PIS  e  a  Cofins  é  o  faturamento, assim compreendido a  receita bruta da venda de  mercadorias,  de  serviços  e  mercadorias  e  serviços,  com  fundamento na declaração de inconstitucionalidade do § 1º do  art. 3º da Lei nº 9.718/98 pelo Excelso STF.  Fl. 77DF CARF MF     8  PIS.  REPETIÇÃO  DE  INDÉBITO.  PAGAMENTO  A  MAIOR OU INDEVIDO DE TRIBUTO. POSSIBILIDADE.  Caracterizado  o  pagamento  a  maior  ou  indevido  da  contribuição, o contribuinte tem direito à repetição do indébito,  segundo  o  disposto  no  art.  165,  I,  do  Código  Tributário  Nacional (CTN).  Recurso Voluntário Provido.   (Processo 13855.001146/2005­86, Relator(a) FLAVIO DE  CASTRO PONTES, Nº Acórdão , 3801­001.722)  COFINS.  ART.  3º,  DA  LEI  9.718/98.  BASE  DE  CÁLCULO.  ALARGAMENTO.  INCONSTITUCIONALIDADE.  APLICAÇÃO DO ART. 62, §1o,  I, do RICARF. RESTITUIÇÃO  DO INDÉBITO. CABIMENTO.   A base de cálculo das contribuições ao PIS e a COFINS  é  o  faturamento  e,  em  virtude  de  inconstitucionalidade  declarada  em  decisão  plenária  definitiva  do  STF,  devem  ser  excluídas da base de cálculo as  receitas que não decorram da  venda  de mercadorias  ou  da  prestação  de  serviços. Aplicação  do art. 62A do RICARF.   COFINS.  ART.  3º,  §1º,  DA  LEI  9.718/98.  BASE  DE  CÁLCULO.  ALARGAMENTO.  INCONSTITUCIONALIDADE.  RESTITUIÇÃO  DO  INDÉBITO.  CABIMENTO.  CORREÇÃO  MONETÁRIA.   Em face da inconstitucionalidade da alteração da base de  cálculo da contribuição a COFINS, promovida pelo art. 3º, §1º,  da  Lei  nº  19.718/98,  é  cabível  o  deferimento  da  restituição  do  indébito,  devendo  a  autoridade  preparadora  verificar  a  comprovação do pagamento indevido ou a maior para compor o  crédito a  ser deferido ao contribuinte. Sobre o crédito apurado  incide  correção  pela  incidência  da  SELIC  desde  a  data  do  pagamento indevido ou a maior, na forma do §4º, do Art. 39, da  Lei nº 9.250/95.   Recurso Parcialmente Provido.   (Processo  10950.000184/2006­26,  Relator(a)  JOAO  CARLOS CASSULI JUNIOR, Acórdão 3402­001.697)  COFINS. FALTA DE RECOLHIMENTO.   Mantém­se  o  lançamento  quando  constatada  a  falta  de  recolhimento  da  Contribuição  para  o  Financiamento  da  Seguridade Social COFINS, no período compreendido pelo auto  de infração.   COFINS.  COMPENSAÇÃO.  PROCEDIMENTO  PRÓPRIO.   Eventual direito à compensação da COFINS, em razão de  recolhimento indevido ou efetuado a maior, deve  ser apreciado  no  procedimento  administrativo  próprio  de  restituição/compensação, e não em processo de formalização de  Fl. 78DF CARF MF Processo nº 13971.916308/2011­02  Acórdão n.º 3402­003.932  S3­C4T2  Fl. 6          9  exigência de crédito  tributário. Todavia, nada  impede Requerê­ la em procedimento próprio.   PEDIDO  DE  RESTITUIÇÃO  E  COMPENSAÇÃO.  APRECIAÇÃO. COMPETÊNCIA.   O conselho Administrativo de Recursos Fiscais CARF não  é competente para apreciar pedidos de restituição/compensação.  A competência é da unidade da Receita Federal que jurisdiciona  o  contribuinte.  Aos  órgãos  julgadores  do  CARF  compete  o  julgamento  de  recursos  de  ofício  e  voluntários  de  decisão  de  primeira instância, bem como os recursos de natureza especial,  que  versem  sobre  tributos  administrados  pela  Secretaria  da  Receita Federal do Brasil. (art. 1º da Portaria MF nº 256/2009)   MULTA  DE  OFÍCIO.  APLICAÇÃO  E  PERCENTUAL.  LEGALIDADE   Aplicável  a  multa  de  ofício  no  lançamento  de  crédito  tributário  que  deixou  de  ser  recolhido  ou  declarado  e  no  percentual determinado expressamente em lei.  COFINS.  ALARGAMENTO  DA  BASE  DE  CÁLCULO.  APLICAÇÃO  DE  DECISÃO  DO  STF  NA  SISTEMÁTICA  DA  REPERCUSSÃO GERAL. POSSIBILIDADE.   Nos  termos  regimentais,  reproduz­se  as  decisões  definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal  (STF)  na  sistemática  de  repercussão  geral. A  base de  cálculo  das contribuições para o PIS e a Cofins é o faturamento, assim  compreendido  a  receita  bruta  da  venda  de  mercadorias,  de  serviços  e  mercadorias  e  serviços,  com  fundamento  na  declaração de inconstitucionalidade do § 1º do art. 3º da Lei nº  9.718/98 pelo Excelso STF.   Recurso Voluntário Provido em Parte   (Processo  10680.006962/2008­80, Relator(a)  JOSE LUIZ  BORDIGNON, Acórdão 3801­000.984)  Portanto é  incontroverso o bom direito da Recorrente  em  relação  à  restituição  dos  recolhimentos  indevidamente  feitos  a  título de Cofins, no período de apuração em questão, haja vista  que  a  presente  lide  administrativa  tem  como  objeto  principal  a  declaração de  inconstitucionalidade do  artigo 3º,  § 1º da Lei nº  9.718/98  pelo  STF  (alargamento  inconstitucional  da  base  de  cálculo da Cofins).  Com  efeito,  como  já  tive  a  oportunidade  de  destacar  em  dissertação sobre o tema:  Tanto a edição de leis inconstitucionais como a cobrança  de  tributos  com  base  em  tais  leis  tributárias  inconstitucionais  são atos ilícitos praticados pelo Poder Público.   O  primeiro  constitui  ilícito  constitucional  (edição  de  lei  contrária  aos  dizeres  da  Constituição),  enquanto  o  segundo  Fl. 79DF CARF MF     10  caracteriza  ilícito  tributário  (cobrança  pelo  Estado  e  consequente  pagamento  pelo  contribuinte  de  tributo  inválido).  Lembrando que as normas jurídicas em sua feição completa são  impreterivelmente  dotadas  de  uma  sanção  em  caso  de  descumprimento, aos citados atos ilícitos o ordenamento jurídico  atrela  as  respectivas  sanções:  a  declaração  de  inconstitucionalidade,  com  o  objetivo  de  preservar  a  integralidade e coerência da ordem  jurídica;  e a  restituição de  tributos  inconstitucionais,  cuja  função  é  conferir  segurança  jurídica e isonomia aos administrados. 3  Cumpre  ainda  salientar  que  à  restituição  de  tributos  inconstitucional,  cuja natureza  e  regime  jurídico  são  tributários,  são totalmente aplicáveis as regras relativas às demais hipóteses  de repetição de indébito dispostas no CTN (artigo 165 a 169).  Entretanto,  com  relação  ao  quantum  devido  como  restituição  do  tributo  inconstitucional,  compete  à  autoridade  administrativa  preparadora,  com  base  na  documentação  apresentada  pelo  contribuinte  no  decorrer  do  processo  administrativo,  efetuar  os  cálculos  e  apurar  o  valor  do  direito  creditório.  Por  fim,  saliento  que  apurado  o  crédito,  os  valores  originais devem sofrer correção pela incidência da SELIC, desde  a data do pagamento  indevido, como  impõe o artigo 39, §4º da  Lei nº 9.250/95, até a data do efetivo aproveitamento dos créditos  pelo contribuinte.  Dispositivo  Por  tudo  quanto  exposto,  voto  no  sentido  de  dar  parcial  provimento  ao  recurso  voluntário,  haja  vista  a  necessidade  de  liquidação  do  julgado,  nos  termos  descritos  acima."  (grifos  no  original)  Diante do exposto, voto no sentido de dar provimento ao  Recurso Voluntário para reconhecer o direito à  restituição dos  valores de COFINS calculados sobre receitas não operacionais  auferidas  pela  empresa  com  fulcro  no  dispositivo  inconstitucional da Lei n.º 9.718/98 (dentre as quais as receitas  financeiras  mencionadas  pela  Recorrente  de  "JUROS  RECEBIDOS",  "VARIAÇÃO  CAMBIAL"  e  os  valores  de  "ALUGUÉIS RECEBIDOS")."  Importante  consignar  que  os  documentos  analisados  no  julgamento  do  paradigma  (razão  e  planilha  de  apuração)  encontram  correspondência  com  os  documentos  juntados ao presente processo, variando apenas o período de apuração e os valores envolvidos.  Aplicando­se  a  decisão  do  paradigma  ao  presente  processo,  em  razão  da  sistemática  prevista  nos  §§  1º  e  2º  do  art.  47  do  RICARF,  dou  provimento  ao  recurso  voluntário para reconhecer o direito à restituição dos valores de PIS calculados sobre receitas  não operacionais auferidas pela empresa com fulcro no dispositivo  inconstitucional da Lei nº  9.718/98  (dentre  as  quais  as  receitas  financeiras  mencionadas  pela  Recorrente  de  "JUROS  RECEBIDOS", "VARIAÇÃO CAMBIAL" e os valores de "ALUGUÉIS RECEBIDOS").                                                              3 LAURENTIIS, Thais de. Restituição de Tributo Inconstitucional. São Paulo: Noeses, 2015.  Fl. 80DF CARF MF Processo nº 13971.916308/2011­02  Acórdão n.º 3402­003.932  S3­C4T2  Fl. 7          11  assinado digitalmente  Antonio Carlos Atulim                                Fl. 81DF CARF MF

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Numero do processo: 16327.720855/2014-11
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Mar 30 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Apr 06 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 01/01/2011 a 31/01/2011 DAÇÃO EM PAGAMENTO. CESSÃO DE CRÉDITO. EFICÁCIA. O efeito que a dação em pagamento produz é a extinção do crédito, qualquer que seja o valor da coisa dada em substituição. Juridicamente, não importa que valha mais ou menos de que a quantia devida ou a coisa que deveria ser entregue, pois a sua eficácia liberatória é plena. RECEITA BRUTA. CONCEITO CONTÁBIL E JURÍDICO. REDUÇÃO DE PASSIVO. O conceito contábil de receita, para fins de demonstração de resultados, não se confunde com o conceito jurídico, para fins de apuração das contribuições sociais. Na esteira da jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, receita bruta pode ser definida como o ingresso financeiro que se integra no patrimônio na condição de elemento novo e positivo, sem reservas ou condições. A mera redução de passivo, conquanto seja relevante para apuração de variação do patrimônio líquido, não se caracteriza como receita tributável pelo PIS e Cofins, por não se tratar de ingresso financeiro. Recurso Voluntário Provido Crédito Tributário Exonerado
Numero da decisão: 3402-004.002
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, ror maioria de votos, em dar provimento integral ao recurso voluntário. Vencidos os Conselheiros Jorge Freire, Waldir Navarro Bezerra e Maria Aparecida Martins de Paula. Designado o Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto. Sustentou pela recorrente o Dr. Luiz Roberto Peroba, OAB/SP 130.824. (assinado digitalmente) Antonio Carlos Atulim - Presidente (assinado digitalmente) Maria Aparecida Martins de Paula - Relatora (assinado digitalmente) Carlos Augusto Daniel Neto - Redator Designado Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Antonio Carlos Atulim, Jorge Olmiro Lock Freire, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Maria Aparecida Martins de Paula, Thais De Laurentiis Galkowicz, Waldir Navarro Bezerra, Diego Diniz Ribeiro e Carlos Augusto Daniel Neto.
Nome do relator: MARIA APARECIDA MARTINS DE PAULA

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3402­004.002  –  4ª Câmara / 2ª Turma Ordinária   Sessão de  30 de março de 2017  Matéria  PIS/Cofins  Recorrente  SILVIO SANTOS PARTICIPAÇÕES S/A  Recorrida  FAZENDA NACIONAL    ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO  Período de apuração: 01/01/2011 a 31/01/2011  DAÇÃO EM PAGAMENTO. CESSÃO DE CRÉDITO. EFICÁCIA.  O efeito que a dação em pagamento produz é a extinção do crédito, qualquer  que  seja o valor da  coisa dada  em substituição.  Juridicamente,  não  importa  que valha mais ou menos de que a quantia devida ou a coisa que deveria ser  entregue, pois a sua eficácia liberatória é plena.  RECEITA  BRUTA.  CONCEITO  CONTÁBIL  E  JURÍDICO.  REDUÇÃO  DE PASSIVO.  O conceito contábil de receita, para fins de demonstração de resultados, não  se confunde com o conceito jurídico, para fins de apuração das contribuições  sociais.   Na esteira da jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, receita bruta pode  ser  definida  como  o  ingresso  financeiro  que  se  integra  no  patrimônio  na  condição de elemento novo e positivo, sem reservas ou condições.  A  mera  redução  de  passivo,  conquanto  seja  relevante  para  apuração  de  variação  do  patrimônio  líquido,  não  se  caracteriza  como  receita  tributável  pelo PIS e Cofins, por não se tratar de ingresso financeiro.  Recurso Voluntário Provido  Crédito Tributário Exonerado      Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.  Acordam os membros do colegiado, ror maioria de votos, em dar provimento  integral ao recurso voluntário. Vencidos os Conselheiros Jorge Freire, Waldir Navarro Bezerra  e Maria Aparecida Martins de Paula. Designado o Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto.  Sustentou pela recorrente o Dr. Luiz Roberto Peroba, OAB/SP 130.824.     AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 32 7. 72 08 55 /2 01 4- 11 Fl. 2361DF CARF MF   2 (assinado digitalmente)  Antonio Carlos Atulim ­ Presidente  (assinado digitalmente)  Maria Aparecida Martins de Paula ­ Relatora  (assinado digitalmente)  Carlos Augusto Daniel Neto ­ Redator Designado  Participaram  do  presente  julgamento  os  Conselheiros:  Antonio  Carlos  Atulim, Jorge Olmiro Lock Freire, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Maria Aparecida Martins de  Paula, Thais De Laurentiis Galkowicz, Waldir Navarro Bezerra, Diego Diniz Ribeiro e Carlos  Augusto Daniel Neto.   Relatório  Trata­se de recurso voluntário contra decisão da Delegacia de Julgamento de  em  Curitiba,  que  julgou  improcedente  a  impugnação  da  contribuinte,  conforme  ementa  abaixo:   ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO   Período de apuração: 01/01/2011 a 31/01/2011   NULIDADE. PRESSUPOSTOS.  Ensejam a nulidade apenas os atos e termos lavrados por pessoa  incompetente  e  os  despachos  e  decisões  proferidos  por  autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa.  MULTA DE OFÍCIO. TAXA SELIC.  Cobram­se  juros  de  mora  equivalentes  à  taxa  referencial  do  Sistema  Especial  de  Liquidação  e  Custódia  (Selic),  e multa  de  ofício, por expressa previsão legal.  JUNTADA DE PROVAS DOCUMENTAIS.  As provas documentais devem ser apresentadas juntamente com  a  peça  impugnatória,  sob  pena  de  preclusão,  salvo  exceções  taxativamente previstas.  ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP   Período de apuração: 01/01/2011 a 31/01/2011   PIS.  BASE  DE  CÁLCULO.  RECEITAS  TRIBUTÁVEIS.  REMISSÃO DO CAPITAL DE DÍVIDAS.  A base de cálculo da contribuição não cumulativa para o PIS é o  total  das  receitas  auferidas  no  mês  pela  pessoa  jurídica,  independentemente  de  sua  denominação  ou  classificação  contábil,  observadas  apenas  as  exclusões  expressamente  previstas na legislação, devendo ser considerada como tributável  a receita decorrente da remissão do capital de dívidas.  ASSUNTO:  CONTRIBUIÇÃO  PARA O  FINANCIAMENTO DA  SEGURIDADE SOCIAL ­ COFINS   Período de apuração: 01/01/2011 a 31/01/2011   COFINS. BASE DE CÁLCULO. RECEITAS TRIBUTÁVEIS.  REMISSÃO DO CAPITAL DE DÍVIDAS.  Fl. 2362DF CARF MF Processo nº 16327.720855/2014­11  Acórdão n.º 3402­004.002  S3­C4T2  Fl. 3          3 A base de cálculo da contribuição não cumulativa para a Cofins  é  o  total  das  receitas  auferidas  no  mês  pela  pessoa  jurídica,  independentemente  de  sua  denominação  ou  classificação  contábil,  observadas  apenas  as  exclusões  expressamente  previstas na legislação, devendo ser considerada como tributável  a receita decorrente da remissão do capital de dívidas.  Impugnação Improcedente   Crédito Tributário Mantido  Versa  o  processo  sobre  Autos  de  Infração  lavrados  em  15/09/2014,  pela  Delegacia  Especial  de  Instituições  Financeiras  em  São  Paulo  –  DEINF/SÃO  PAULO,  no  montante total de R$645.066.787,50, calculado até setembro de 2014, relativamente à Cofins,  no  valor  principal  de  R$254.600.000,00,  e  ao  PIS/Pasep,  no  valor  principal  de  R$55.275.000,00, além de multa de ofício de 75% e juros de mora, em face da "insuficiência  na declaração e recolhimento do PIS e da COFINS, do período de apuração de janeiro de 2011,  incidente  sobre  a  receita  decorrente  de  remissão  de  dívidas,  no  montante  de  R$  3.350.000.000,00, oriundas de aportes financeiros efetivamente recebidos.”  Apurou a fiscalização, em síntese, que:  ­ A fiscalizada (Sílvio Santos Participações S/A ­SSP), empresa holding do Grupo  Sílvio  Santos  (GSS),  detinha,  em  31  de  dezembro  de  2010,  dentre  outras,  as  seguintes  participações  acionárias:  37,27% do  capital  social  do Banco Panamericano  (BP);  99,51 % do  capital  social  da BF  Utilidades Domésticas Ltda; e 61,88 % do capital social da Panamericano Administradora.  ­  Em  31  de  janeiro  de  2011,  a  SSP  possuía  dívidas  com  o  Fundo  Garantidor  de  Crédito  (FGC),  no  valor  total  de R$ 3.800.000.000,00,  as  quais  foram  contraídas  com  o  objetivo  de  sanear  e  reestruturar  o  Banco  Panamericano  S.A.,  devido  à  descoberta  de  inconsistências  contábeis  apuradas pelo Banco Central do Brasil – Bacen, no ano de 2010. Relativamente a esse passivo, ele foi  resultante da contratação de duas dívidas: a primeira no valor de R$ 2,5 bilhões e a segunda no valor de  R$ 1,3 bilhão, na seguinte forma:  a)  quanto  à  primeira  dívida:  (i)  foi  contraída  mediante  a  emissão  privada  de  debêntures da SSP, com duas séries de 125.000 cada, num total de 250.000 debêntures, tendo o FGC  subscrito a totalidade dessa emissão, na qualidade de investidor exclusivo; (ii) os documentos que lhe  deram suporte foram o “Instrumento Particular de Escritura da Primeira Emissão Privada de Debêntures  da Sílvio Santos Participações S.A. (Escritura)” e o “Instrumento Particular de Assunção Recíproca de  Obrigações (Acordo)”, ambos datados de 05 de novembro de 2010; e (iii) o valor emprestado, por conta  e  ordem  da  SSP,  foi  depositado  diretamente  em  conta  corrente  do  Banco  Panamericano,  tendo  a  operação resultado nos seguintes lançamentos contábeis da fiscalizada:    b) quanto à segunda dívida: (i) ela foi contraída por meio de um contrato de mútuo,  assinado em 31/01/2011, entre a SSP (Devedora) e o FGC (credora); (ii) em igual forma ao que ocorreu  na  contratação  da  primeira  dívida,  o  valor  emprestado,  por  conta  e  ordem  da  SSP,  foi  transferido  diretamente do FGC para o Banco Panamericano; e (iii) a operação foi registrada na contabilidade da  SSP da seguinte forma:  Fl. 2363DF CARF MF   4   Na  mesma  data  (31/01/2011),  a  SSP  e  a  BF  Utilidades  Domésticas  Ltda  (sua  controlada) efetuaram a venda do controle acionário do Banco Panamericano ao Banco BTG Pactual  S.A,  pelo  valor  total  de  R$  450.000.000,00,  e  que  referida  venda  foi  concretizada  por  meio  do  “Contrato  de Compra  e Venda  de Ações  e Outras Avenças”,  celebrado  em  31/01/2011,  e  paga  com  créditos  a  receber  nos  valores  de R$  446 milhões  e  de R$  4 milhões  (SSP  e BF,  respectivamente),  exigíveis no dia 28 de julho de 2028, corrigidos por 110% da Taxa DI, ou índice que vier substituí­la,  ou o valor de R$ 3,8 bilhões,  sem correção monetária,  dos dois  o menor. Essa operação  resultou no  seguinte lançamento contábil na SSP:    Ainda nessa mesma data,  a SSP e  a BF Utilidades Domésticas Ltda  celebraram o  "Instrumento Particular de Dação em Pagamento" com o FGC, por meio do qual esse último aceitou o  crédito  no  valor  de R$  450 milhões  como  dação  em  pagamento  pela  dívida  de  R$  3,8  bilhões.  Em  decorrência dessa operação (dação em pagamento) as contas passivas que registravam os debêntures e o  mútuo, bem como a conta passiva  relativa ao crédito com o Banco BTG,  foram baixadas,  tendo sido  apurado uma receita no valor de R$ 3,35 bilhões, conforme os registros contábeis abaixo:    ­  Ao  ser  intimada,  para  justificar  a  ausência  de  declaração  e  recolhimento  das  contribuições no período (PIS e Cofins), incidentes sobre a receita acima, a contribuinte respondeu que  “O  resultado gerado com a operação de dação em pagamento para quitação da dívida  contraída pela  SSP com o FGC, em nosso entendimento, não está sujeito ao PIS/COFINS”.  ­ Entende a fiscalização que a referida receita deve ser tratada como uma remissão  de dívida (perdão), sobre a qual deve incidir tanto o PIS como a Cofins. Sustenta que o perdão de dívida  constitui­se em uma receita para a pessoa jurídica devedora, tanto nos termos da Resolução CFC nº 750,  de  1993,  como na Resolução CFC nº  1.374,  de  2011,  sendo que,  na  jurisprudência  administrativa,  é  unânime  o  entendimento  de  que  essa  receita  não  tem  natureza  de  receita  financeira,  devendo  ser  classificada (contabilmente) em Outras Receitas Operacionais e objeto de tributação pelas contribuições  sociais.   ­ Conclui ao final a  fiscalização que "a remissão de dívida representou um efetivo  acréscimo  patrimonial  para  a  SSP,  tanto  que  foi  contabilizada  como  receita  eventual.  Entretanto,  independentemente  da  classificação  contábil  adotada  pela  contribuinte,  deve  ser  considerada  como  outras receitas operacionais (distinta da receita financeira) e, por não haver norma isentiva ou redução  de alíquota, essa receita deve ser integrada à base para fins de incidência das contribuições ao Pis e à  Cofins na sistemática da não­cumulatividade, na qual a SSP está sujeita".   A interessada apresentou impugnação, alegando e requerendo, em síntese:  a) Sustenta que, apesar de os fatos e circunstâncias relativos aos supostos débitos de  IRPJ  e  CSLL,  relativos  aos  anos  de  2009  a  2011,  serem  os mesmos  dos  alegados  débitos  de  PIS  e  Fl. 2364DF CARF MF Processo nº 16327.720855/2014­11  Acórdão n.º 3402­004.002  S3­C4T2  Fl. 4          5 Cofins,  “NÃO  há  qualquer  questão  prejudicial  entre  os  processos  administrativos  fiscais  nºs  10882.721304/2014­93 (IRPJ e CSLL) e 16327.720855/2014­11 (PIS e COFINS)”.  b) Requer a nulidade dos autos de  infração sob o argumento de que a fiscalização  assumiu um premissa que não condiz com a realidade: a de que “as prestações previstas no Contrato de  Pagamento  necessariamente  importariam um perdão  de  dívida  com  relação  às obrigações  financeiras  previstas  nas  Debêntures  e  no  Contrato  de Mútuo”.  Argumenta  que  a  autoridade  deixou  de  retratar  adequadamente os fatos e que esse vício,  insanável, atinge a validade do ato administrativo, uma vez  que afronta o art 50 da Lei 9.784, de 1999, e art 10 do Decreto 70.235, de 1972.  c) No mérito, a contribuinte contesta as exigências fiscais por meio de três linhas de  raciocínio a seguir:  (i)  que  a  eventual  receita  auferida  em  razão  do  desconto  recebido  quando  da  quitação antecipada dos passivos (debêntures e mútuo) tem natureza de receita financeira, devendo ser  tributada, tanto no PIS quanto na Cofins, à alíquota zero, nos termos do Decreto nº 5.442, de 2005;  (ii) que se houver o entendimento de que a baixa dos passivos deve ser caracterizada  como perdão de dívida, que esse mesmo (perdão) não enseja, do ponto de vista jurídico, auferimento de  receita passível de tributação pelo PIS e pela Cofins;  (iii) que eventual receita auferida em contrapartida ao suposto perdão de dívida tem  natureza de receita financeira, devendo, da mesma forma que no item “i”, ser tributado à alíquota zero.  d) Por  fim,  a  impugnante  insurge­se  contra  a aplicação dos  juros de mora sobre a  multa  de  ofício.  Diz  que  tal  cobrança  não  tem  amparo  legal  e  que,  consoante  a  jurisprudência  administrativa, o juros de mora somente podem ser cobrado sobre os valores dos débitos de tributos e  contribuições.  A Delegacia  de  Julgamento  não  acatou  os  argumentos  da  impugnante,  em  síntese, sob os seguintes fundamentos:  ­ Não existem dúvidas de que a operação, consubstanciada na dação em pagamento  do crédito de R$ 450 milhões da interessada junto ao Banco BTG Pactual para quitação das divídas, no  valor total de R$ 3,8 bilhões, com o FGC, representou um auferimento de receita. O conceito contábil  de  receitas  está  intimamente  ligado  ao  “aumento  nos  benefícios  econômicos”  da  entidade,  ou  seja,  quando um fato contábil representar um aumento, mesmo que futuro, nos benefícios econômicos para a  empresa  esse  aumento  deve  ser  reconhecido  como  receita  [Resolução  CFC  (Conselho  Federal  de  Contabilidade)  nº  1.374,  de  2001].  A  diminuição  do  passivo,  resultante  da  liquidação  dos  passivos  (debêntures  e  mútuo),  deve  ser  reconhecida  pela  empresa  como  uma  receita.  A  própria  interessada  admitiu  que  o  fato  em  discussão  ocasionou  uma  diminuição  em  seu  passivo,  reconhecendo  contabilmente (conta 3510909010017 – Receitas Eventuais – Operação PAN), tendo em vista a facílima  mensuração (R$ 3.800.000.000,00 – R$ 450.000.000,00), que houve um auferimento de receita no valor  de R$ 3.350.000.000,00.  ­ Na ausência de definição expressa, a natureza da receita financeira ou da despesa  financeira deve ser obtida a partir da identificação do elemento comum entre eles, qual seja, receitas e  despesas  financeiras  são  sempre  decorrentes  da  aplicação  ou  da  origem  de  recursos  financeiros.  Consistiriam as receitas e despesas financeiras em formas de remuneração pela aplicação dos recursos  (pecuniários) próprios ou a utilização de recursos (pecuniários) de terceiros.  ­  Os  abatimentos  obtidos  pela  contribuinte  para  a  liquidação  de  seus  passivos  (debêntures e mútuo)  junto  ao FGC,  jamais poderiam ser  classificados como  receitas  financeiras. Na  verdade,  ao  se  admitir  o  entendimento  da  interessada,  ter­se­ia  uma  situação  totalmente  contrária  à  definição corrente de “receitas financeiras”, pois de forma  inusitada a empresa  teria conseguido obter  Fl. 2365DF CARF MF   6 receita por meio de empréstimos. A tese de obtenção de receita financeira contraria de forma absurda o  conceito de debênture. A empresa que emite debêntures, normalmente, paga, além do valor de face do  título emitido, uma remuneração adicional (juros) como prêmio pelo valor que lhe foi emprestado, ou  seja,  quem  recebe  a  receita  financeira  é  o  debenturista,  aquele  que  adquira  o  título  ou,  em  última  instância, empresta o dinheiro para a emissora do debênture, e não a empresa emissora do título.  ­ No  tocante  à  argumentação  de  que  a  receita  obtida  deve  ser  caracterizada  como  receita financeira porque houve a quitação antecipada das dívidas é de se destacar dois pontos cruciais:  a)  os  valores  que  foram  emprestados  pela  FGC  para  a  interessada  tinham  a  obrigação  de  serem  devolvidos somente com a correção do poder aquisitivo da moeda, sem qualquer juros compensatórios,  assim  não  houve  abatimento  de  juros  por  pagamento  antecipado  simplesmente  por  que  não  haviam  juros a pagar; e b) a forma como o problema do Banco Panamericano foi resolvido deixa muito claro  que  o  abatimento  das  dívidas  (debêntures  e mútuo)  foi  concedido  na  operação  conjunta  (contrato  de  mútuo/venda  das  ações/dação  em  pagamento),  com  a  aprovação  e  recursos  oriundos  do  FGC,  para  evitar  a  insolvência  do Banco Panamericano,  não  podendo  se  admitir  a  tese  da  interessada  de  que  a  redução  nos  valores  das  dívidas  trataram­se  de  descontos  financeiros,  mesmo  porque,  não  houve  qualquer lapso temporal entre a data de obtenção do empréstimo e a data de sua liquidação, tendo em  vista  os  instrumentos  de  concessão  (“Contrato  de  Mútuo”)  e  quitação  (“Instrumento  de  Dação  em  Pagamento”) terem sido assinados na mesma data.  ­ O perdão de dívidas não pode ser  considerado como  receita  financeira,  uma vez  que não decorre da aplicação de recursos da empresa. Com efeito, o pagamento de obrigações (dívidas)  constitui  destinação,  mas  não  aplicação  dos  recursos  financeiros  no  sentido  aqui  utilizado.  O  adimplemento de dívidas não é objeto de remuneração (obtenção de juros), eis que, nesse caso, não há  disponibilização  de  recursos  próprios  para  terceiros.  Assim,  tem­se  que  o  abandono  de  parte  ou  da  integralidade de dívida por parte do credor, constitui para o devedor uma receita,  insubsistência ativa  que, dado seu caráter não usual, deve ser registrada como item extraordinário.  ­  Ora  como  se  verifica,  o  FGC  aceitou  e  financiou  a  operação  conjunta  anteriormente mencionada  (contrato  de mútuo/venda das  ações/dação  em pagamento),  assumindo,  de  forma indireta, o saneamento do Banco Panamericano, e sabendo de antemão que somente iria receber o  valor  injetado  na  operação,  sem  qualquer  correção  monetária  ou  juros,  em  28  de  julho  de  2028,  denotando­se, muito claramente, o perdão da maior parte das dívidas da contribuinte junto ao FGC (R$  3.350.000.000 = R$ 3.800.000.000­ R$ 450.000.000). Nesse sentido, mostra­se falaciosa a afirmação da  interessada de que o FGC deverá recuperar  todo o valor emprestado. É evidente que o dinheiro a ser  recebido do Banco Pactual não cobrirá todo o valor colocado na operação e que o prejuízo decorrente  das inconsistências contábeis detectadas pelo Banco Central do Brasil foram suportados, em boa parte,  pelo  FGC,  pois,  como  visto,  o  valor  de  até  R$  3,8  bilhões  somente  será  recuperado,  sem  qualquer  correção monetária ou juros, após 17 (dezessete) anos.  A contribuinte foi regularmente cientificada da decisão de primeira instância  em 17/03/2016, pela via postal, e apresentou recurso voluntário em 15/04/2016, alegando, em  síntese, que:  III. NULIDADES DOS AUTOS DE INFRAÇÃO E DO V. ACÓRDÃO RECORRIDO  (i)  A  Nulidade  dos  Autos  de  Infração  ­  Falta  de  fundamentação  para  desconsideração de atos jurídicos praticados  ­ Conforme se verifica pela leitura do Contrato de Pagamento, a operação realizada  entre a Requerente e o FGC não envolveu nenhuma oferta de remissão/perdão de dívida por parte do  FGC e, tampouco, ocorreu qualquer aceite por parte da Requerente com relação ao perdão de dívidas.  Em  outras  palavras,  o  ato  formal  de  remissão/perdão  de  dívidas  jamais  ocorreu,  posto  que  não  foi  pactuado entre as partes. Assim, tendo em vista que a principal premissa utilizada pela D. Fiscalização  na fundamentação dos Autos de Infração está equivocada, tem­se por demonstrada a NULIDADE que  acomete os Autos de Infração.   Fl. 2366DF CARF MF Processo nº 16327.720855/2014­11  Acórdão n.º 3402­004.002  S3­C4T2  Fl. 5          7 (ii) A Nulidade do V. Acórdão recorrido ­ Falta de análise dos argumentos de defesa  apresentados  ­ A DRJ/CTA efetivamente se esquiva de analisar, abordar e debater o ponto trazido  pela Requerente em sua Impugnação, qual seja, se os documentos celebrados indicam a ocorrência de  um perdão de dívidas, como alega a D. Fiscalização no TVF, ou um desconto financeiro, como alega a  própria  Requerente.  Isso  é  causa  de  evidente  nulidade  da  decisão  consubstanciada  no  v.  Acórdão  recorrido conforme se verifica do artigo 31 e 59 do Decreto n° 70.235/72, bem como dos precedentes do  CARF que analisaram tal dispositivo.  IV. IMPOSSIBILIDADE DE EXIGÊNCIA DO PIS E COFINS SOBRE A BAIXA DE  PASSIVOS  A.  Ausência  de  acréscimo  patrimonial  ­  Impossibilidade  de  exigência  do  PIS  e  COFINS sobre mera redução de dispêndios  ­  Em  primeiro  lugar  a  Requerente  destaca  que  não  auferiu  qualquer  acréscimo  patrimonial efetivo em razão do Contrato de Pagamento, ou quitação antecipada das Debêntures e do  Contrato  de Mútuo,  não  sendo  correto  afirmar,  como  faz  a  D.  Fiscalização  e  a  DRJ/CTA,  que  tais  negócios jurídicos ensejaram a ocorrência do fato gerador do PIS e da COFINS.  ­ A Requerente apenas contabilizou determinados passivos em razão da captação de  recursos  junto  ao  FGC  por  meio  das  Debêntures  e  do  Contrato  de Mútuo  e  que,  em  seguida,  após  liquidar tais passivos por meio de dação em pagamento, foi devidamente liberada da obrigação relativa  ao saldo remanescente em razão de quitação expressa outorgada pelo seu credor (FGC ­ fl. 3 do TVF).  ­ Muito embora numa análise meramente contábil a Requerente tenha auferido um  "resultado  escritural  positivo"  em  decorrência  da  diminuição  do  passivo,  não  se  verifica,  como  quer  fazer crer as DD. Fiscalização e DRJ/CTA, qualquer auferimento de receita, pelo simples fato que esse  "resultado escritural positivo" simplesmente não representa  ingresso de novos valores em decorrência  de  uma  atividade  operacional  ou  não  operacional  praticada  pela  Requerente  (i.e.  compra,  venda,  investimentos etc).  B.  Ainda  que  tenha  havido  um  perdão  parcial  dos  passivos,  não  há  valores  a  recolher de PIS e COFINS  ­ As reduções de dispêndios por meio de perdão de dívidas não configuram receitas  propriamente ditas e, por conseguinte, não ensejam a ocorrência do fato gerador do PIS e da COFINS.  Assim,  caso  se  considere  que  o  montante  relativo  à  baixa  de  passivos    realizada  no  contexto  narrado  acima  seja  juridicamente  reconhecido  como  um  ganho, não se trata de uma "receita" para fins de incidência do PIS e da COFINS.  C.  Se é que houve receita, essa receita possui natureza financeira  ­ Ainda que, por hipótese, se possa falar em receita, tal rendimento auferido quando  da dação em pagamento possui natureza de receita financeira e, portanto, está sujeita à alíquota zero do  PIS e da COFINS.  ­ Isso porque o que ocorreu no caso em questão foi um pagamento antecipado dos  passivos  incorridos  junto  ao  FGC  (que  só  teriam  vencimento  em  05.11.2020  e  30.11.2020,  respectivamente), por meio da dação em pagamento do Crédito BTG. Por conseguinte, foi concedido  pelo FGC um DESCONTO FINANCEIRO à Requerente, em virtude do referido pagamento antecipado  dessas dívidas.  ­ A própria DRJ/CTA, ao tecer longas considerações acerca da suposta inexistência  de definição legal para o conceito jurídico de "receitas financeiras" (fl. 2243), acabou por reconheceu  Fl. 2367DF CARF MF   8 que: (i)o RIR/99 conceitua o "desconto" como uma das hipóteses que podem ensejar o reconhecimento  de receitas financeiras; (ii)"descontos obtidos no pagamento antecipado" e "prêmios de resgatede títulos  e debêntures" ensejam a verificação de receitas financeiras (fl.2245); e (iii) as receitas financeiras são  sempre  decorrentes  da  aplicação  recursos  pecuniários,  ou  originadas  com  relação  aos  mesmos  (fl.  2245). Ora, se todas essas premissas são aceitas como verdadeiras pela D. DRJ/CTA, simplesmente não  é possível afirmar, a partir delas, que a receita supostamente auferida pela Requerente não teria natureza  financeira. Com isso, a conclusão da DRJ/CTA é contraditória com as premissas adotadas como razão  de decidir pela própria decisão.  ­  E  não  só  isso.  A  referida  conclusão  está  dissociada  dos  fatos  amplamente  comprovados nos presentes autos. Isso porque, conforme amplamente documentado nos autos, em uma  operação  realizada  nos  termos  determinados  pelo  BACEN,  o  credor  (FGC)  da  Requerente  aceitou  receber menos do que lhe seria devido, e conferiu quitação total ante tal pagamento, tendo em vista que  seria  realizado o pagamento  antecipado da dívida  (que de outra  forma  só venceria em 2020). Assim,  estamos diante de uma situação em que foi concedido um desconto em razão do pagamento antecipado  da dívida. E os descontos obtidos quando do pagamento  antecipado de duplicatas  e de outros  títulos  estão compreendidos dentro do conceito de receitas financeiras.  ­ Além disso, não se pode perder de vista, ainda, que o FGC deverá recuperar todo o  valor  inicial  de  principal  que  entregou  à  Requerente  quando  da  subscrição  das  Debêntures  e  da  assinatura do Contrato de Mútuo. Diferentemente do afirmado pelo V. Acórdão no sentido de que "o  dinheiro a ser  recebido do Banco Pactuai não cobrirá  todo o valor colocado na operação", o valor de  face de R$ 450 milhões do Crédito BTG está sujeito à incidência de juros de 110% da taxa DI, e deverá  ser  liquidado  em  2020  por,  no  mínimo,  os  mesmos  R$  3,8  bilhões  que  foram  originalmente  disponibilizados à Requerente.  ­  Tem­se,  portanto,  que,  admitindo­se  que  as  operações  descritas  no  Contrato  de  Pagamento  ensejem o  reconhecimento de  uma  receita,  essa  receita  decorreria  de  desconto  concedido  quando da quitação antecipada dos passivos, a qual possui clara natureza jurídica "receita financeira" e,  como  tal,  está  sujeita  ao  PIS  e  a  COFINS  à  alíquota  zero,  nos  termos  do  artigo  Io  do  Decreto  n°  5.442/05.  ­ Ainda que se admita que no presente caso teria havido um perdão de dívida E que  esse perdão  tenha gerado uma  receita,  a Requerente destaca que  esse  suposto perdão  remonta  a uma  dívida  de  natureza  claramente  financeira  (i.e.  obrigação  de  pagar  com  relação  aos  instrumentos  financeiros "Debêntures" e "Contrato de Mútuo"). Pelo princípio segundo o qual "o acessório segue o  principal,"  não  poderia  o  perdão  de  uma dívida  dessa  natureza  resultar  no  auferimento  de  receita  de  natureza diversa, como equivocadamente indicado no V. Acórdão recorrido. O suposto perdão de dívida  concedido pelo FGC se operou com relação a passivos de natureza evidentemente financeira, que foram  contraídos pela Requerente junto a uma entidade claramente inserida no contexto do Sistema Financeiro  Nacional (i.e. FGC), e em razão de uma operação financeira que resultou na redução do montante de  principal desse mesmo passivo financeiro.  ­ Imaginando­se uma situação em que fosse possível descaracterizar todos os atos e  negócios jurídicos realizados para se tentar encontrar uma explicação para a situação analisada, ter­se­ia  o  seguinte:  a  controladora  de  um  banco,  que  após  a  verificação  em  problemas  na  administração  do  negócio, se vê obrigada, para o resgate da instituição, a tomar uma série de atos jurídicos legítimos com  a participação do poder público, mas cujo resultado prático culminou na alienação da sua participação  societária na instituição financeira.  V. A MULTA DE OFÍCIO E OS JUROS APLICADOS  ­ Caso  seja mantida  a  exigência  consubstanciada nos Autos  de  Infração,  o  que  se  admite  apenas  para  argumentar,  a  Requerente  requer,  então,  que  a  exigência  dos  juros  seja  limitada  única  e  exclusivamente  aos  valores  de  principal,  excluindo­se  tal  exigência  com  relação  à multa  de  ofício, acaso não cancelada ante a sua evidente abusividade.  Fl. 2368DF CARF MF Processo nº 16327.720855/2014­11  Acórdão n.º 3402­004.002  S3­C4T2  Fl. 6          9 A União,  por meio  da  PFN,  apresentou  suas  contrarrazões  ao  recurso  voluntário,  aduzindo, em síntese, que:  2. DO DIREITO  2.1 Da receita operacional  ­ É indene de dúvidas que a dação em pagamento do crédito de R$ 450 milhões da  interessada  junto  ao Banco BTG Pactual para quitação das dívidas,  no valor  total  de R$ 3,8 bilhões,  com o FGC,  representa um auferimento de  receita. Veja­se o que diz a Resolução CFC nº 1.374, de  2011. Por outro lado, veja­se o conceito contábil de receita delineado na revogada Resolução CFC nº  1121, de 2008.  ­  De  acordo  com  as  regras  contábeis,  a  receita  relativa  ao  ganho  auferido  com  a  remissão  de  dívidas  considera­se  realizada  quando  da  extinção  do  correspondente  passivo.  Nesse  sentido  dispõe  a  Resolução  do  CFC  nº  750,  de  1993.  Dispõe  a  Resolução CFC  nº  774/94  que  "(...)  Embora  esta  seja  a  forma mais  usual  de  geração  de  receita,  também  há  uma  segunda  possibilidade,  materializada na extinção parcial ou total de uma exigibilidade, como no caso do perdão de multa fiscal,  da anistia total ou parcial de uma dívida, da eliminação de passivo pelo desaparecimento do credor, pelo  ganho  de  causa  em  ação  em  que  se  discutia  uma  dívida  ou  o  seu  montante,  já  devidamente  provisionado, ou outras circunstâncias semelhantes (...)".  ­ Portanto, não há dúvidas que que a diminuição do passivo, resultante da liquidação  dos passivos (debêntures e mútuo), deve ser reconhecida pela empresa como uma receita.  ­  Segundo  a  sistemática  não  cumulativa,  as  contribuições  incidem  sobre  o  faturamento  mensal,  assim  entendido  como  a  totalidade  das  receitas  auferidas  pela  pessoa  jurídica,  independentemente de sua denominação ou classificação contábil.  2.2 Da natureza jurídica da receita  ­ Ao  se analisar os  fatos decorrentes dos  autos,  chega­se  à conclusão óbvia que o  abatimento  do  capital  obtido  pela  contribuinte  com  a  dação  em  pagamento  jamais  poderia  ser  classificado como receita financeira. O que houve no caso foi uma remissão de dívidas, que não pode  ser considerado receita financeira.  ­ O pagamento de obrigações (dívidas) constitui destinação, mas não aplicação dos  recursos financeiros no sentido aqui utilizado. O adimplemento de dívidas não é objeto de remuneração  (obtenção  de  juros),  eis  que,  nesse  caso, não  há  disponibilização  de  recursos próprios  para  terceiros.  Assim, tem­se que o abandono de parte ou da integralidade de dívida, por parte do credor, constitui para  o devedor uma receita,  insubsistência ativa que, dado seu caráter não usual, deve ser registrada como  item extraordinário.  ­  Tratando­se,  pois,  de  remissão  (seja  total  ou  parcial),  mesmo  sendo  um  ato  bilateral, vê­se que sua natureza assemelha­se a um desconto incondicional, o qual não é tratado nem  como despesa financeira (pelo vendedor/credora) ou como receita financeira (pelo comprador/devedor).  Da mesma forma, um desconto incondicional pode ser aceito ou não pelo comprador, mas continua a  ser um ato liberatório de vendedor, que não implica a caracterização de “resultado financeiro”. Portanto,  não  assiste  razão  à  contribuinte,  pois  a  remissão  parcial  dos  passivos  foi  sim  um  ato  liberatório  do  credor em favor da devedora.  2.3 Dos juros sobre a multa  Fl. 2369DF CARF MF   10 ­ O próprio art. 161 do CTN manda incidir juros de mora sobre o crédito tributário,  ou seja, sobre o principal e a penalidade pecuniária, não havendo nenhuma disposição legal que diga o  contrário.  É o relatório.  Voto Vencido  Conselheira MARIA APARECIDA MARTINS DE PAULA, Relatora  Atendidos  aos  requisitos  de  admissibilidade,  toma­se  conhecimento  do  recurso voluntário.  III.  "NULIDADES  DOS  AUTOS  DE  INFRAÇÃO  E  DO  V.  ACÓRDÃO  RECORRIDO"  (i)  "A  Nulidade  dos  Autos  de  Infração  ­  Falta  de  fundamentação  para  desconsideração de atos jurídicos praticados"  Suscita a recorrente a nulidade dos autos de infração, tendo em vista que não  teria ocorrido o "perdão de dívidas", alegado pela fiscalização como premissa da autuação.   Ocorre  que,  não  obstante  não  existisse  nenhum  documento  ou  contrato  mencionando  literalmente  os  termos  "remissão"  ou  "perdão  de  dívida",  a  fiscalização,  motivadamente,  qualificou  juridicamente  os  fatos  descritos  nos  documentos  da  contribuinte  como um verdadeiro "perdão de dívidas", não havendo nisso qualquer nulidade, mas a legítima  interpretação  dos  negócios  da  contribuinte  em  conformidade  com  o  disposto  no  art.  112  do  Código Civil: "Nas declarações de vontade se atenderá mais à intenção nelas consubstanciada  do que ao sentido literal da linguagem".  No  mais,  a  questão  de  saber  de  os  fatos  narrados  pela  fiscalização  caracterizaram ou não um "perdão de dívidas" é tema a ser discutido no mérito.  (ii) "A Nulidade do V. Acórdão recorrido ­ Falta de análise dos argumentos  de defesa apresentados"  Improcede  a  alegação  da  recorrente de  que  a Delegacia  de  Julgamento  não  teria debatido a nulidade suscitada pela então impugnante.   Conforme se vê no início do voto da decisão recorrida, o julgador sustentou a  legitimidade  dos  autos  de  infração,  eis  que  estão  "devidamente  motivados  e  contêm,  minudentemente,  a  indicação  dos  fatos  e  dos  fundamentos  jurídicos",  nos  termos  da  Lei  nº  9.784/99, do art.  art. 10 do Decreto nº 70.235/72,  sem que  representem qualquer  situação de  nulidade descrita no art. 59 desse Decreto.  Na  sequência,  como  era  de  se  esperar,  não  tendo  verificado  situação  de  nulidade  na  lavratura dos  autos  de  infração,  o  julgador  deixou  a  alegação  da  impugnante da  "falsa premissa" na autuação, de que não seria o caso de "perdão de dívida", para a análise na  parte do mérito, nos seguintes termos:  (...)  Por fim, é de se mencionar, conforme se verifica a seguir na análise do mérito, que  a fiscalização fundamentou os autos de infração na realidade fática, não tendo sido  realizada, portanto, a adoção de falsa premissa.  Fl. 2370DF CARF MF Processo nº 16327.720855/2014­11  Acórdão n.º 3402­004.002  S3­C4T2  Fl. 7          11 Afasta­se dessa forma a preliminar de nulidade levantada. [grifei]  (...)  IV. "IMPOSSIBILIDADE DE EXIGÊNCIA DO PIS E COFINS SOBRE A  BAIXA DE PASSIVOS"  Em  breve  resumo,  podemos  assim  descrever  as  negociações  efetuadas  pela  contribuinte Sílvio Santos Participações (SSP) que redundaram na conclusão da fiscalização de  que houve um perdão parcial da dívida entre a contribuinte e o Fundo Garantidor de Crédito  (FGC), no montante de R$ 3,35 bilhões (= R$ 3.8 bilhões ­ R$ 450 milhões):  a)  a  contribuinte  contraiu  duas  dívidas  com o Fundo Garantidor de Crédito  (FGC),  no  valor  total  de  R$  3,8  bilhões,  o  qual  foi  repassado  diretamente  ao  Banco  Panamericano;  b)  a  contribuinte  e  sua  controlada BF venderam a  totalidade  das  ações  que  detinham  do  Banco  Panamericano  ao  BTG  Pactual,  o  qual,  em  contrapartida,  lhes  pagou  o  valor de R$450 milhões em créditos a receber;  c) a contribuinte e a BF celebraram o "Instrumento Particular de Dação em  Pagamento" com o FGC, por meio do qual esse último aceitou o crédito no valor de R$ 450  milhões em créditos a receber como dação em pagamento pela dívida de R$ 3,8 bilhões.  Conforme explica Venosa1, a remissão2 é o ato ou efeito de remitir, perdoar  uma dívida,  ocorrendo quando o  credor  libera o  devedor,  no  todo  ou  em parte,  sem  receber  pagamento. Ressalva o autor que, apesar da  remissão ser uma espécie de  renúncia,  "com ela  não se confunde, pois, embora possa ser um ato unilateral, não prescinde da concordância do  devedor".  Prossegue  Venosa  esclarecendo  que  "nada  impede  que  a  remissão  tome  a  forma  bilateral de um contrato, mas não é sua essência. Essencial é a aquiescência do devedor, ainda  que presumida ou tácita".  No caso concreto, não pairam dúvidas do ato de vontade do FGC de liberar a  contribuinte  parcialmente do  pagamento  da dívida  e  da  concordância  desta  última no  ato. A  contribuinte e a BF cederam os seus créditos ao FGC, em valor correspondente somente a parte  da  dívida,  e  o  FGC  os  aceitou  como  quitação  integral  das  dívidas  da  contribuinte,  restando  caracterizada remissão parcial da dívida da contribuinte, conforme consta na "Consolidação do  Instrumento de Dação em Pagamento" (fls. 414/421):                                                              1 VENOSA,  Sílvio  de Salvo. Direito Civil:  teoria  geral  das  obrigações  e  teoria  geral  dos  contratos.  4.  ed.  São  Paulo: Atlas, 2004, p. 335.  2 Código Civil  Da Remissão das Dívidas  Art. 385. A remissão da dívida, aceita pelo devedor, extingue a obrigação, mas sem prejuízo de terceiro.  Art.  386.  A  devolução  voluntária  do  título  da  obrigação,  quando  por  escrito  particular,  prova  desoneração  do  devedor e seus co­obrigados, se o credor for capaz de alienar, e o devedor capaz de adquirir.  Art. 387. A restituição voluntária do objeto empenhado prova a renúncia do credor à garantia real, não a extinção  da dívida.  Art. 388. A remissão concedida a um dos co­devedores extingue a dívida na parte a ele correspondente; de modo  que, ainda reservando o credor a solidariedade contra os outros, já lhes não pode cobrar o débito sem dedução da  parte remitida.    Fl. 2371DF CARF MF   12       Alega  a  recorrente  que  contabilizou  determinados  passivos  em  razão  da  captação de recursos junto ao FGC, por meio das Debêntures e do Contrato de Mútuo e que,  em  seguida,  após  liquidar  tais  passivos  por meio  de  dação  em  pagamento,  foi  devidamente  liberada da obrigação relativa ao saldo remanescente em razão de quitação expressa outorgada  pelo seu credor. No entanto, acredita que esse "resultado escritural positivo" não representaria  ingresso de novos valores em decorrência de uma atividade operacional ou não operacional por  ela praticada, de forma que não estariam sujeitos à incidência das contribuições sociais.  Não  assiste  razão  à  recorrente.  A  baixa  parcial  das  suas  dívidas  sem  o  correspondente pagamento, no montante de R$ 3,35 bilhões, constitui uma receita originada da  extinção de um passivo (obrigação) sem o desaparecimento concomitante de um ativo de igual  ou superior valor, constituindo, sim, um acréscimo patrimonial.  Para  a  Equipe  de  Professores  da  FEA/USP3,  a  receita  pode  ser  assim  definida:  (...)  Entende­se por Receita a entrada de elementos para o ativo, sob  forma  de  dinheiro  ou  direitos  a  receber,  correspondentes  normalmente  à  venda  de  mercadorias,  de  produtos  ou  à  prestação  de  serviços.  Uma  receita  também  pode  derivar  de  juros sobre depósitos bancários ou  títulos, de aluguéis e outras  origens.  Às  vezes,  a  Receita  ocorre  em  função  da  redução  de  um  passivo. [negritei]  (...)  Conforme já dispunha4 a Resolução CFC nº 750, de 29/12/1993, no seu art.  9º, §3º, II, "§ 3º As receitas consideram­se realizadas: (...) II – quando da extinção, parcial ou  total, de um passivo, qualquer que seja o motivo, sem o desaparecimento concomitante de um  ativo de valor igual ou maior (...)".  Posteriormente, mediante  a Resolução CFC nº 1.374, de 8 de dezembro  de  2011, assim se pronunciou o Conselho Federal de Contabilidade nos parágrafos 4.25 e 4.47,  inclusive mencionando o "perdão de dívidas" como um exemplo de uma receita:  (...)                                                              3 IUDÍCIBUS. Sérgio (coord). Contabilidade Introdutória. 11. ed. São Paulo: Atlas, 2010, p. 65.  4 Antes de sua alteração pela Resolução CFC nº 1282, de 28 de maio de 2010.  Fl. 2372DF CARF MF Processo nº 16327.720855/2014­11  Acórdão n.º 3402­004.002  S3­C4T2  Fl. 8          13 4.25.Os  elementos  de  receitas  e  despesas  são  definidos  como  segue:   (a)  receitas  são aumentos nos benefícios  econômicos durante o  período  contábil,  sob  a  forma  da  entrada  de  recursos  ou  do  aumento de ativos ou diminuição de passivos,  que resultam em  aumentos do patrimônio líquido, e que não estejam relacionados  com  a  contribuição  dos  detentores  dos  instrumentos  patrimoniais;   (...)  Reconhecimento de receitas   4.47.  A  receita  deve  ser  reconhecida  na  demonstração  do  resultado  quando  resultar  em  aumento  nos  benefícios  econômicos futuros relacionado com aumento de ativo ou com  diminuição  de  passivo,  e  puder  ser  mensurado  com  confiabilidade.  Isso  significa, na prática, que o  reconhecimento  da  receita  ocorre  simultaneamente  com  o  reconhecimento  do  aumento nos ativos ou da diminuição nos passivos (por exemplo,  o  aumento  líquido  nos  ativos  originado  da  venda  de  bens  e  serviços  ou  o  decréscimo  do  passivo  originado  do  perdão  de  dívida a ser paga). [negritei]  O Regulamento do Imposto de Renda, assim se pronuncia sobre as receitas e  despesas financeiras:  Subseção I  Receitas e Despesas Financeiras   Receitas   Art. 373. Os juros, o desconto, o lucro na operação de reporte e  os rendimentos de aplicações  financeiras de renda  fixa, ganhos  pelo  contribuinte,  serão  incluídos  no  lucro  operacional  e,  quando  derivados  de  operações  ou  títulos  com  vencimento  posterior ao encerramento do período de apuração, poderão ser  rateados pelos períodos a que competirem (Decreto­Lei nº 1.598,  de 1977, art. 17, e Lei nº 8.981, de 1995, art. 76, §2º,  e Lei nº  9.249, de 1995, art. 11, §3º).  Despesas   Art.  374.  Os  juros  pagos  ou  incorridos  pelo  contribuinte  são  dedutíveis,  como  custo  ou  despesa  operacional,  observadas  as  seguintes  normas  (Decreto­Lei  nº  1.598,  de  1977,  art.  17,  parágrafo único):  I­  os  juros  pagos  antecipadamente,  os  descontos  de  títulos  de  crédito,  e  o  deságio  concedido  na  colocação  de  debêntures  ou  títulos  de  crédito  deverão  ser  apropriados,  pro  rata  temporis,  nos períodos de apuração a que competirem;  II  ­  os  juros  de  empréstimos  contraídos  para  financiar  a  aquisição ou construção de bens do ativo permanente, incorridos  durante  as  fases  de  construção  e  pré­operacional,  podem  ser  registrados no ativo diferido, para serem amortizados.  (...)  Na ausência da completa definição na legislação sobre o que seriam receitas e  despesas financeiras, depreende­se do dispositivo acima, que as receitas e despesas financeiras  Fl. 2373DF CARF MF   14 são decorrentes da aplicação ou da origem de recursos financeiros, de forma que poderiam ser  conceituadas como receitas pela aplicação de  recursos pecuniários próprios ou despesas pela  utilização de recursos de terceiros.  Como explicado na Solução de Consulta nº 306 ­ SRRF/9ª RF/Disit, de 31 de  agosto de 2007, "entendem Silvério das Neves e Paulo Viceconti que os descontos financeiros  são aqueles ligados ou condicionados ao pagamento ou recebimento de títulos por antecipação:  “são os descontos obtidos na liquidação antecipada de obrigações”. Ademais, prescrevem esses  autores que a conta “Descontos Financeiros Obtidos” (Receita Financeira) deverá ser encerrada  a  crédito  de  resultado  do  exercício”.  Por  sua  vez,  entendem  ainda  que  os  descontos  incondicionais são “parcelas redutoras dos preços de compra e venda, constantes da nota fiscal  ou da fatura de serviço e não dependentes de evento posterior à emissão desses documentos”  (NEVES,  Silvério  das.  VICECONTI,  Paulo  Eduardo  Vilchez.  Contabilidade  básica.  12.  ed.  rev. e atual. São Paulo: Frase Editora, 2004. pp. 115­116)".  Nessa  esteira,  conclui­se  com  os  fundamentos  utilizados  nessa  Solução  de  Consulta,  abaixo  transcritos,  que  o  perdão  de  dívida  não  pode  ser  considerado  como  um  desconto financeiro, mas uma espécie de desconto incondicional, não considerado como uma  receita financeira:  (...)  11.8.8. In casu, não houve desconto por pagamento antecipado,  nem  prêmio  por  resgate  de  título,  ou  seja,  nenhum  confronto  entre  aspectos  financeiramente  favoráveis  e  desfavoráveis, mas  sim um simples perdão de dívida  (ato  liberatório) pela credora  em  favor  da  devedora  (consulente)  que  se  coaduna  com  o  desconto  incondicional,  o  qual  não  é  tratado  como  “receita  financeira”.  Logo,  a  presente  insubsistência  ativa  (do  passivo)  não  há  de  ser  tratada  como  uma  “Receita  Financeira”,  mas  como  “Receita  ­  Outros  Resultados Operacionais”,  o  que  leva  ao  entendimento  que  a  remissão  de  dívida  é  fato  imponível  da  Cofins e do PIS.  11.8.9. O desconto tem natureza de receita financeira quando há  novação em virtude de uma contraposição de fatores favoráveis  e  desfavoráveis  (pagamento  antecipado  que  gera  uma  redução  de  juros –  recebimento em função do  tempo de recebimento do  crédito),  o  que  é  diferente  do  caso  em  tela  que  retrata  uma  remissão  da  dívida  (ato  liberatório  da  credora  em  favor  da  devedora),  pela  qual  houve  um  abandono  do  próprio  capital  (principal).  11.8.10. Depreende­se, portanto, que o valor relativo às dívidas  perdoadas,  seja  parcial  ou  integral,  constitui  receita  para  o  devedor.  Para  que  as  receitas  sejam  consideradas  como  “financeiras”,  há  de  haver  como  característica  um  ganho  em  razão  da  disponibilidade  de  recursos  para  terceiros  em  função  de certo período de tempo. Sendo assim, o perdão da dívida ou  sua  redução,  seja  mediante  renegociação  ou  novação,  não  constitui  receita  financeira.  É  irrelevante  para  caracterizar  a  receita  tratar­se  de  perdão  do  principal  ou  da  multa  e  juros.  Portanto, o perdão de multa e juros também não constitui receita  financeira,  pois,  como  acessórios,  acompanham  a  natureza  do  principal.  Fl. 2374DF CARF MF Processo nº 16327.720855/2014­11  Acórdão n.º 3402­004.002  S3­C4T2  Fl. 9          15 12. Do exposto, conclui­se que o perdão de dívida pela credora é  um ato  jurídico que  faz acrescer o patrimônio da devedora, de  modo  que  revela  capacidade  contributiva  (objetiva),  que,  por  caracterizar  uma  receita  operacional  (diversa  da  receita  financeira),  implica  receita  tributável  pela  Cofins  e  pelo  PIS,  com a alíquota superior a zero (diversamente do que trata o art.  1º do Decreto nº 5.442, de 09/05/2005, c/c o §2º do art. 27 da Lei  nº 10.865, de 30/04/2004).  (...)  Sustenta a recorrente, sem razão, que, no caso concreto, estar­se­ia diante de  uma situação em que foi concedido um desconto em razão do pagamento antecipado da dívida,  sendo  que  os  descontos  obtidos  quando  do  pagamento  antecipado  de  duplicatas  e  de  outros  títulos estariam compreendidos dentro do conceito de receitas financeiras.  Como  bem  argumentado  na  decisão  recorrida,  os  abatimentos  obtidos  pela  interessada  para  a  liquidação  de  seus  passivos  (debêntures  e  mútuo)  junto  ao  FGC,  jamais  poderiam ser classificados como receitas financeiras, eis que:  Na verdade, ao se admitir o entendimento da interessada, ter­se­ ia  uma  situação  totalmente  contrária  à  definição  corrente  de  “receitas financeiras”, pois de forma inusitada a empresa  teria  conseguido  obter  receita  por  meio  de  empréstimos,  ou  seja,  a  empresa, magicamente, teria emprestado dinheiro do FGC para  cobrir  as  inconsistências  contábeis  detectadas  pelo  Banco  Central do Brasil  e ainda, assim, ao realizar a quitação desses  empréstimos teria obtido receitas de origem financeira.  Veja­se,  também,  que  a  tese  de  obtenção  de  receita  financeira  contraria de forma absurda o conceito de debênture. A empresa  que emite debêntures, normalmente, paga, além do valor de face  do  título  emitido,  uma  remuneração  adicional  (juros)  como  prêmio pelo valor que lhe foi emprestado, ou seja, quem recebe a  receita  financeira  é o debenturista,  aquele que adquira o  título  ou, em última instância, empresta o dinheiro para a emissora do  debênture, e não a empresa emissora do título. No presente caso,  ao se aceitar a tese da interessada,  teríamos a situação  ilógica  pela  qual  a  empresa  emissora  dos  debêntures  (SSP)  obteria  receita financeira com a baixa dos títulos e a debenturista (FGC  que tomou os debêntures em garantia aos valores emprestados)  teria que reconhecer uma despesa financeira.  Ademais,  valores  que  foram  emprestados  pelo  FGC  para  a  contribuinte  tinham  a  obrigação  de  serem  devolvidos  somente  com  a  correção  do  poder  aquisitivo  da  moeda,  sem qualquer  juros  compensatórios,  não podendo  ter havido,  assim, o  abatimento de  juros por pagamento antecipado. Além do que os  instrumentos  legais  (“Contrato de Mútuo”,  “Contrato  de Compra  e  Venda  de Ações  e Outras Avencas”  e  o  "Instrumento  Particular  de  Dação em Pagamento") foram todos assinados na mesma data, em 31/01/2011.  Assim,  o  perdão  parcial  da  dívida  da  contribuinte  constitui  uma  receita,  decorrente de um acréscimo patrimonial  para o  devedor,  que não pode  ser qualificada  como  uma receita financeira, vez que não decorre de ganho em face da disponibilização de recursos  Fl. 2375DF CARF MF   16 para terceiros em certo período de tempo. O perdão de uma dívida representa uma receita, de  natureza não  financeira,  cuja consequência é o nascimento da capacidade contributiva para o  PIS/Pasep e a Cofins.  Nesse  sentido,  a  Cosit  ­  Coordenação­Geral  de  Tributação  já  manifestou  entendimento de que a remissão de dívida representa uma receita operacional, tributável pelo  IRPJ, CSLL, PIS/Pasep e Cofins:  SOLUÇÃO DE CONSULTA Nº 17, DE 27 DE ABRIL DE 2010   ASSUNTO: Normas Gerais de Direito Tributário   EMENTA:  REMISSÃO  DE  DÍVIDA.  INCIDÊNCIA  DE  IRPJ,  CSLL, PIS/PASEP E COFINS.   A  remissão  de  dívida  importa  para  o  devedor  (remitido)  acréscimo  patrimonial  (receita  operacional  diversa  da  receita  financeira),  por  ser  uma  insubsistência  do  passivo,  cujo  fato  imponível se concretiza no momento do ato remitente.  DISPOSITIVOS LEGAIS: art.9º, § 3º, II da Resolução CFC No ­  750, de 1993; PARECER CT/CFC N o ­ 11, de 2004; art.187 da  Lei N o ­ 6.404, de 1976; arts. 373 e 374 do RIR, de 1999; art.3º  da Lei N o  ­  9.718, de 1998; art.  1º,  § 3º, V,  "b" da Lei N o  ­  10.833, de 2003; , art. 1º, § 3º, V, "b", da Lei N o ­ 10.637/2002;  art.53  da  Lei  N  o  ­  9.430,  de  1996;  arts.  2º  e  3º  do  Ato  Declaratório Interpretativo SRF N o 25, de 2003; art. 111, II do  CTN.  A  questão  do  perdão  de  dívida  já  foi  apreciada,  no  âmbito  do  IRPJ,  pelo  extinto  Primeiro  Conselho  de  Contribuintes  (1º  CC),  na  1ª  Câmara,  mediante  o  Acórdão  10197.057, de 16/12/2008, Relatora Sandra Maria Faroni, com a seguinte ementa: "PERDÃO  DE DÍVIDA. TRIBUTAÇÃO. Constitui receita tributável o valor correspondente ao perdão de  dívida concedido à empresa".  Também a 1ª Turma da 4ª Câmara da 1ª Seção do CARF manifestou­se no  mesmo  sentido  sobre  o  perdão  de  juros  de  mora,  classificando­o  como  "outras  receitas  operacionais", tributáveis pelo IRPJ, CSLL e PIS/Cofins, conforme ementa abaixo:  Processo nº 10245.003784/2008­74   Acórdão nº 1401001.113– 4ª Câmara / 1ª Turma Ordinária   Sessão de 11 de fevereiro de 2014  Relator: Antonio Bezerra Neto  Ementa:  ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO   Ano­calendário: 2004, 2005, 2006, 2007   PERDÃO  DE  JUROS  DE  MORA.  NORMAS  GERAIS  DE  DIREITO.  O valor relativo à redução de dívida decorrente de remissão não  tem natureza de receita financeira, devendo ser registrada como  "outras receitas operacionais".  Fl. 2376DF CARF MF Processo nº 16327.720855/2014­11  Acórdão n.º 3402­004.002  S3­C4T2  Fl. 10          17 PERDÃO  DE  JUROS  DE  MORA.  NORMAS  GERAIS  DE  DIREITO TRIBUTÁRIO.   A  remissão  de  dívida  importa  para  o  devedor  (remitido)  acréscimo  patrimonial  (receita  operacional  diversa  da  receita  financeira),  por  ser  uma  insubsistência  do  passivo,  cujo  fato  imponível se concretiza no momento do ato remitente.  Na Câmara Superior de Recursos Fiscais já foi ratificado o entendimento de  que  o  perdão  de  juros  produz  acréscimo  patrimonial  tributável  pelo  IRPJ,  exceto  no  que  concerne ao lucro presumido, conforme trechos abaixo extraído do Voto Condutor do Acórdão:  Processo nº 10245.003789/200805   Acórdão nº 9101002.052– 1ª Turma   Sessão de 11 de novembro de 2014   Matéria: Lucro Presumido. Perdão de dívida de juros.  Relator: RAFAEL VIDAL DE ARAUJO  (...)  13. Na  ciência  contábil,  tem­se  que  o  desaparecimento  de  uma  obrigação,  sem  o  surgimento  de  outro  passivo,  ou  o  desaparecimento  de  um  ativo  de  igual  ou  maior  valor  caracteriza a realização de uma receita. Com efeito, é o que se  extrai da Resolução CFC nº 750, de 29/12/1993, no dispositivo a  seguir transcrito:  (...)  14. No mesmo sentido a Resolução CFC nº 7746, de 16/12/1994:  "2.6.3 – Alguns detalhes sobre as receitas e seu reconhecimento  A  receita  é  considerada  realizada  no  momento  em  que  há  a  venda  de  bens  e  direitos  da  Entidade  ...  Embora  esta  seja  a  forma  mais  usual  de  geração  de  receita,  também  há  uma  segunda  possibilidade,  materializada  na  extinção  parcial  ou  total  de  uma  exigibilidade,  como  no  caso  do  perdão  de  multa  fiscal, da anistia  total ou parcial de uma dívida, da eliminação  de passivo pelo desaparecimento do credor, pelo ganho de causa  em  ação  em  que  se  discutia  uma  dívida  ou  o  seu montante,  já  devidamente  provisionado,  ou  outras  circunstâncias  semelhantes. ..."  15.  In  casu,  vê­se  claramente  que  quando  há  extinção  de  uma  obrigação (passivo), sem o desaparecimento concomitante de um  bem ou direito  (ativo), de  igual ou superior valor,  é  inegável a  ocorrência  de  um  acréscimo  patrimonial.  Logo,  a  remissão  da  dívida há de  ser  reconhecida como  receita,  o que  repercute no  lucro líquido positivamente.  15.1. A tal fato dá­se o nome de “insubsistência do passivo” ou  “insubsistência ativa” (desaparecimento de uma obrigação), que  é um  fato modificativo aumentativo do patrimônio  (aumento de  disponibilidade  de  recursos  –  acréscimo  patrimonial  –  sem  obrigação comutativa).  Ou  seja,  o  perdão  de  um  passivo  importa  em  aumento  do  patrimônio  líquido  da  empresa  agraciada.  O  lançamento  contábil é o seguinte:  D Juros a pagar (conta de passivo extinção da dívida)  Fl. 2377DF CARF MF   18 C  Insubsistência  ativa  (conta  de  resultado  receita  em  “sentido  amplo”)  15.2. Sobre o conceito de Insubsistência Ativa, ensina Ricardo J.  Ferreira o seguinte:  13.7 Insubsistências e superveniências   Insubsistência Passiva   “Insubsistência” é a condição de algo que deixa de existir, que  desaparece. O vocábulo “passiva” tem o sentido de “negativa”  ou  “que  causa  efeito  negativo",  que  não  se  confunde  com  a  expressão  “do  passivo"  (das  obrigações,  do  passivo  exigível).  Logo, a insubsistência passiva é relativa àquilo que, ao deixar de  existir,  provoca  efeito  negativo  sobre  o  patrimônio.  A  mercadoria  perdida  em  um  incêndio,  por  exemplo,  é  uma  insubsistência  passiva.  Não  se  trata,  porém,  de  uma  insubsistência do passivo. Como o que deixou de existir  foi  um  bem, com a perda da mercadoria, houve insubsistência do ativo.  Portanto,  a  conta  Insubsistências  Passivas  é  de  despesa  (de  natureza devedora).  Insubsistência Ativa   Por analogia, “insubsistência ativa” é quando algo que deixou  de existir provoca o aumento do patrimônio, vale dizer, significa  “o  efeito  positivo  de  algo  que  deixou  de  existir".  Exemplo:  a  prescrição de uma dívida, que é uma insubsistência do passivo.  A  conta  Insubsistências  Ativas  é  de  receita  (de  natureza  credora).  (...)  16.  Uma  vez  que  tal  acréscimo  patrimonial  advém  de  uma  receita,  depreende­se  que  foi  concretizado  um  fato  que  influenciará na base de cálculo do IRPJ e da CSLL, pois houve  aumento do lucro líquido (ou redução do prejuízo contábil).  16.1.  Perdoada  a  dívida  sem  o  pagamento  dos  juros,  tal  valor  ficará  disponível  à  empresa,  que  poderá  empregá­lo  da  forma  que  melhor  lhe  aprouver.  A  disponibilidade  econômica  ou  jurídica decorrente de acréscimo patrimonial é  fato gerador do  imposto  de  renda,  tal  como  previsto  no  art.  43,  II,  do CTN,  in  verbis:  (...)  16.2.  Destarte,  é  irrefutável  o  acréscimo  patrimonial  (renda  proveniente de disponibilidade) por parte da devedora, que é a  presente  recorrente,  do  qual  há  o  inexorável  surgimento  de  capacidade  contributiva  objetiva.  Isso  posto,  o  perdão  de  uma  dívida de juros é fato gerador do imposto de renda.  17. Pelo  entendimento como  receita,  encontram­se os  seguintes  pronunciamentos da RFB:  Solução de Consulta nº 17 SRRF01/ Disit  (...)   DECISÃO Nº 297 de 21/12/2000 SRRF06   EMENTA: INSUBSISTÊNCIA PASSIVA.   À  baixa  de  valor  registrado  no  passivo,  por  insubsistência  da  obrigação  de  pagar  (insubsistência  passiva)  corresponde  uma  receita tributável, no momento desta baixa.  Fl. 2378DF CARF MF Processo nº 16327.720855/2014­11  Acórdão n.º 3402­004.002  S3­C4T2  Fl. 11          19 Solução de Consulta nº 306 SRRF09/ Disit   O valor relativo à redução de dívida decorrente de remissão não  tem natureza de receita financeira, devendo ser registrada como  “outras receitas operacionais”.  Solução de Consulta nº 31 SRRF10/ Disit   "LUCRO REAL. PERDÃO DE DÍVIDA. CRÉDITO DE SÓCIO.  Constitui  receita  da  pessoa  jurídica  devedora  a  importância  correspondente ao perdão de dívida, não havendo previsão legal  para  sua exclusão do  lucro  líquido para  efeito de apuração do  lucro real."  (...)    V. "A MULTA DE OFÍCIO E OS JUROS APLICADOS"  Por fim, quanto à insurgência relativa a incidência de juros de mora sobre a  multa aplicada, entendo que os juros de mora são devidos, nos termos do art. 61, caput e §3° da  Lei nº 9.430/96,  sobre os  "débitos para com a União, decorrentes de  tributos e contribuições  administrados  pela  Secretaria  da  Receita  Federal"  não  pagos  no  prazo  previsto,  incidindo,  portanto, também sobre a multa de ofício, após o respectivo vencimento:  Art. 61. Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e  contribuições  administrados  pela  Secretaria  da  Receita  Federal,  cujos  fatos  geradores  ocorrerem  a  partir  de  1º  de  janeiro  de  1997,  não  pagos  nos  prazos  previstos  na  legislação  específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa  de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso.  (...)  § 3º Sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros  de mora calculados  à  taxa a que  se  refere o § 3º do art.  5º, a  partir  do  primeiro  dia  do  mês  subseqüente  ao  vencimento  do  prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no  mês de pagamento”.  Além disso,  a  exigência  dos  juros  de mora  sobre  a multa  de  ofício  após  o  respectivo vencimento encontra amparo também no Decreto­lei nº 1.736/795, cujos dispositivos  abaixo transcritos dispõem sobre a incidência dos juros de mora sobre os débitos para com a  Fazenda Nacional de natureza tributária,  inclusive durante o prazo em que a cobrança estiver  suspensa em face da interposição de recurso administrativo ou de decisão judicial, cuja regra  não se aplica somente na hipótese de depósito administrativo ou judicial do montante integral6:                                                              5 Solução de Consulta Cosit nº 47,de 04 de maio de 2016   ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO EMENTA: OS  JUROS DE MORA  INCIDEM  SOBRE A TOTALIDADE DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO, DO QUAL FAZ PARTE A MULTA LANÇADA DE  OFÍCIO.DISPOSITIVOS LEGAIS:  Lei  nº  5.172,  de  1966  (CTN),  arts.  113,  §  1º,  139 e  161;  Lei  nº  9.430,  de  1996, arts. 44 e 61, § 3º; Decreto­Lei nº 1.736, de 1979, arts. 2º e 3º.    6 (...)  Fl. 2379DF CARF MF   20 Art.  1º  Os  débitos  para  com  a  Fazenda  Nacional,  de  natureza  tributária, não pagos no vencimento, serão acrescidos de multa  de mora, consoante o previsto neste decreto­lei. (Redação dada  pelo Decreto­Lei nº 2.287, de 1986)   Parágrafo  único.  A  multa  de  mora  será  de  20%  (vinte  por  cento),  reduzida  a  10%  (dez  por  cento)  se  o  pagamento  for  efetuado no prazo de 90 (noventa) dias, contado a partir da data  em que o tributo for devido. (Redação dada pelo Decreto­Lei nº  2.287, de 1986)   Art 2º ­ Os débitos de qualquer natureza para com a Fazenda  Nacional serão acrescidos, na via administrativa ou judicial, de  juros de mora, contados do dia seguinte ao do vencimento e à  razão  de  1%  (um  por  cento)  ao  mês  calendário,  ou  fração,  e  calculados sobre o valor originário.    Parágrafo  único.  Os  juros  de  mora  não  são  passíveis  de  correção  monetária  e  não  incidem  sobre  o  valor  da  multa  de  mora de que trata o artigo 1º.   Art 3º  ­ Entende­se por valor originário o que corresponda ao  débito,  excluídas  as  parcelas  relativas  à  correção  monetária,  juros de mora, multa de mora e ao encargo previsto no artigo 1º  do  Decreto­lei  nº  1.025,  de  21  de  outubro  de  1969,  com  a  redação  dada  pelos  Decretos­leis  nº  1.569,  de  8  de  agosto  de  1977, e nº 1.645, de 11 de dezembro de 1978.    Art  4º  ­  A  correção  monetária  continuará  a  ser  aplicada  nos  termos do artigo 5º do Decreto­lei nº 1.704, de 23 de outubro de  1979,  ressalvado  o  disposto  no  parágrafo  único  do  artigo  2º  deste Decreto­lei.    Art 5º ­ A correção monetária e os juros de mora serão devidos  inclusive  durante  o  período  em  que  a  respectiva  cobrança  houver sido suspensa por decisão administrativa ou judicial.   (...)  Assim,  pelo  exposto,  voto  no  sentido  de  negar  provimento  ao  recurso  voluntário.                                                                                                                                                                                           004 Haverá  a  incidência de  juros de mora durante o período  em que  a  cobrança do  débito  estiver pendente de  decisão administrativa?  Sim.  De  acordo  com  a  legislação  tributária,  há  incidência  de  juros  de  mora  sobre  o  valor  dos  tributos  ou  contribuições  devidos  e  não  pagos  nos  respectivos  vencimentos,  independentemente da  época  em que ocorra o  posterior pagamento e de se encontrar o crédito tributário na pendência de decisão administrativa ou judicial.  A  única  hipótese  em  que  se  suspenderá  a  fluência  dos  juros  de  mora  é  aquela  em  que  houver  o  depósito  do  montante  integral  do  crédito  tributário  considerado  como  devido,  desde  a  data  do  depósito,  quer  seja  este  administrativo ou judicial.  Se  o  valor  depositado  for  inferior  àquele  necessário  à  liquidação  do  débito  considerado  como  devido,  sobre  a  parcela  não  depositada  incidirão  normalmente  os  juros  de  mora  por  todo  o  período  transcorrido  entre  o  vencimento e o pagamento.  Normativo: RIR/1999, art. 953, § 3º, e Decreto­Lei nº 1.736, de 1979, art. 5º.  (...)  Extraído do Perguntas e Respostas no sítio da RFB:  http://idg.receita.fazenda.gov.br/orientacao/tributaria/declaracoes­e­demonstrativos/dipj­declaracao­de­ informacoes­economico­fiscais­da­pj/respostas­2012/caputulo­xviii­acruscimos­legais­revisada­2012.pdf,  acesso  em 08/09/2016.    Fl. 2380DF CARF MF Processo nº 16327.720855/2014­11  Acórdão n.º 3402­004.002  S3­C4T2  Fl. 12          21 (Assinatura Digital)  Maria Aparecida Martins de Paula ­ Relatora         Fl. 2381DF CARF MF   22 Voto Vencedor  Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto  1. Peço vênia à Ilustre Relatora para divergir de seu voto quanto aos aspectos  que serão devidamente expostos abaixo, iniciando meu voto por uma retomada dos fatos para  contextualização da discussão que irá ser desenvolvida adiante.  2. Em síntese, os fatos são os seguintes:  3. A Silvio Santos Participações S.A.  (SSP)  é uma  sociedade holding  que  detém participações societárias em diversas pessoas jurídicas que fazem parte do Grupo Silvio  Santos.  Em  relação  ao  presente  caso,  convém  ressaltar  que  a  SSP  detinha  participação  societária no Banco Panamericano (PANAMERICANO).  4.  Ao  final  de  2010,  o  Banco  Central  do  Brasil  (BACEN)  apurou  irregularidades  na  contabilidade  do  Panamericano,  ao  verificar  o  descumprimento  do  Patrimônio  de Referência Exigido,  cuja observância  é  indispensável  ao  funcionamento  deste  tipo de instituição, conforme as disposições da Basiléia II e da regulação prudencial do Bacen.  5. Diante disso, o Bacen determinou, através do Termo de Comparecimento  DESUP/GTSP4­2010/0003, de 04/11/2010, que a SSP: i) aportasse recursos no Panamericano,  visando  recompor  o  Patrimônio  Líquido  daquela  instituição  ao  montante  exigido;  e,  ato  contínuo, ii) alienasse a participação societária detida pela SSP, no Panamericano; sob pena de  liquidação extrajudicial ex officio, nos termos do artigo 15, I da Lei nº 6.024/1974.  6.  Em  razão  disso,  o  SSP  tomou  recursos  junto  ao Fundo Garantidor  de  Crédito  (FGC)  no  valor  de  R$  3.800.000.000,00  (três  bilhões  e  oitocentos  milhões),  para  aporte  no  Panamericano,  concretizadas  da  seguinte  forma:  i)  “Instrumento  Particular  de  Assunção Recíproca  de Obrigações”  (Acordo),  de  5  de  novembro  de  2010;  ii)  “Instrumento  Particular  de  Escritura  da  1ª  Emissão  Privada  de Debêntures  da  Sílvio  Santos  Participações  S.A.” (Escritura), de 5 de novembro de 2010 e o iii) “Contrato de Mútuo” (Mútuo), de 31 de  janeiro de 2011.  7. Após a regularização da situação patrimonial do Panamericano, o controle  acionário  foi  vendido  ao Banco  BTG Pactual  (BTG)  por meio  do  “Contrato  de Compra  e  Venda  de  Ações  e  Outras  Avenças”  (Contrato),  celebrado  no  dia  31  de  janeiro  de  2011.  Através  do  contrato,  a  SSP  e  a BF Utilidades Domésticas  Ltda  (BF)  tinham  um  crédito  a  receber descrito na forma do item 1.4 do contrato:  1.4.  As  Partes,  de  comum  acordo,  atribuem,  nesta  data,  como  contrapartida  à  aquisição  das  Ações,  o  menor  dos  seguintes  valores:  (i)  R$  450.000.000,00  (quatrocentos  e  cinquenta  milhões de reais) corrigido, a partir da Data de Fechamento até  da Data de Pagamento (conforme abaixo definida),  por 110%  da Taxa DI, o qual poderá ser pago, a critério único e exclusivo  da Compradora, a partir da Data de Fechamento até 31 de julho  de 2028; OU  (ii) R$3.800.000.000,00  (três bilhões e oitocentos  milhões de  reais), o qual  somente será exigível em 31 de  julho  de 2028, não sofrendo qualquer tipo de correção, remuneração  ou atualização até a referida data (o menor destes dois valores,  doravante  denominado  o  “Preço”).  A  data  em  que  a  Fl. 2382DF CARF MF Processo nº 16327.720855/2014­11  Acórdão n.º 3402­004.002  S3­C4T2  Fl. 13          23 Compradora  realizar  o  pagamento  do  Preço  será  doravante  como “Data de Pagamento”.  8. O crédito  total de R$ 450 milhões foi contabilizado na SSP que, por sua  vez,  ficou  devedora  da  BF,  em  relação  aos  R$  4  milhões,  registrando­o  como  Crédito  a  Receber do BTG, no valor nominal do título.  9.  Em  seguida,  a  SSP  e  o  FGC  celebraram  um  Instrumento  Particular  de  Dação  em  Pagamento  ("Contrato  de  Pagamento")  para  ajustar  termos  e  condições  do  pagamento das obrigações  financeiras  contratadas  junto  ao FGC. Conforme a  avença,  a SSP  cedeu  o  Crédito  a  Receber  do  BTG  ao  FGC,  para  quitar  as  obrigações  no  valor  de  R$  3,8  bilhões de reais.  10. Em contrapartida, o FGC outorgou quitação à SSP, o que levou à baixa  do  passivo  existente  e  o  registro,  na  contabilidade  da SSP,  de um valor  de R$ 3,35  bilhões,  referente à diferença entre o valor total das obrigações financeiras e o valor de face do crédito  BTG. As debêntures emitidas pela SSP e subscritas integralmente pelo FGC foram canceladas  e  todas  as  garantias  prestadas  pela  SSP,  pelas  demais  sociedades  controladas  por  ela  e  pelo  acionista controlador, Senor Abravanel, foram liberadas e extintas pelo FGC.  11.  A  Receita  Federal  entendeu,  com  fundamento  na  Resolução  CFC  nº  750/1993 que a extinção de um passivo sem o desaparecimento concomitante de um ativo de  valor  igual  ou  maior  corresponderia  a  perdão  de  dívida,  constituindo  receita  para  a  SSP,  passível de incidência de PIS e Cofins.  12. É esta a síntese do presente caso.  13. O primeiro  ponto  a  ser  enfrentado  diz  respeito  à  consideração  do  valor  escriturado pela contabilidade da SSP relativo ao crédito a receber do BTG, registrado no valor  de R$ 450 milhões e utilizado, como objeto de dação em pagamento, para arcar com o passivo  existente junto ao FGC.  14.  Em  primeiro  lugar,  verifica­se  do  dispositivo  contratual  citado  no  parágrafo  7  deste  voto  que  o  contrato  consubstancia  um  crédito  que  apto  a  ser  realizado  imediatamente,  na  modalidade  "i"  de  adimplemento,  ou  apenas  após  31/07/2028  para  a  modalidade "ii", devendo ser atendido o menor valor:  (i)  R$  450.000.000,00  (quatrocentos  e  cinquenta  milhões  de  reais) corrigido, a partir da Data de Fechamento até da Data de  Pagamento (conforme abaixo definida), por 110% da Taxa DI, o  qual  poderá  ser  pago,  a  critério  único  e  exclusivo  da  Compradora, a partir da Data de Fechamento até 31 de  julho  de 2028; OU  (ii)  R$3.800.000.000,00  (três  bilhões  e  oitocentos  milhões  de  reais), o qual somente será exigível em 31 de julho de 2028, não  sofrendo qualquer tipo de correção, remuneração ou atualização  até a referida data  15. Como é sabido, os direitos de uma companhia que, em uma determinada  fase do ciclo operacional, ainda não foram realizados financeiramente, isto é, substituídos por  dinheiro, devem ser computados no balanço pelo valor de realização. Assim sendo, tal crédito,  Fl. 2383DF CARF MF   24 na condição de ativo circulante da SSP, deveria ser avaliado nos termos do artigo 183, I, "b" da  Lei nº 6.404/76:  Art.  183.  No  balanço,  os  elementos  do  ativo  serão  avaliados  segundo os seguintes critérios:  I  ­  as  aplicações  em  instrumentos  financeiros,  inclusive  derivativos, e em direitos e  títulos de créditos, classificados no  ativo circulante ou no realizável a longo prazo: (Redação dada  pela Lei nº 11.638,de 2007)  a)  pelo  seu  valor  justo,  quando  se  tratar  de  aplicações  destinadas à negociação ou disponíveis para venda; e (Redação  dada pela Lei nº 11.941, de 2009)   b)  pelo  valor  de  custo  de  aquisição  ou  valor  de  emissão,  atualizado conforme disposições legais ou contratuais, ajustado  ao  valor  provável  de  realização,  quando  este  for  inferior,  no  caso  das  demais  aplicações  e  os  direitos  e  títulos  de  crédito;  (Incluída pela Lei nº 11.638,de 2007)  16. Como  ensina  o Professor Modesto Carvalhosa  (Comentários  à Lei  das  Sociedades  Anônimas,  3º  Volume.  São  Paulo:  Saraiva,  2011,  p.  821­822),  a  Lei  nº  11.638/2007 alterou o inciso I do artigo citado acima, passando a adotar uma concepção mais  ampla  do  conceito  de  instrumentos  financeiros,  determinando  a  sua  avaliação  de  forma  coerente  com  os  princípios  da  contabilidade  internacionalmente  aceitos,  e  reconhecendo  a  separação de duas categorias:  16.1.  Aqueles  destinados  à  negociação  ou  disponíveis  para  venda,  para  os  quais determina a avaliação pelo seu "valor de mercado", como critério precípuo de avaliação;  e   16.2.  As  demais  aplicações,  direitos  e  títulos  de  crédito,  para  os  quais  mantém a exigência de avaliação pelo custo de aquisição ou pelo valor de emissão, ajustando  de acordo com as disposições legais e contratuais e pelas eventuais perdas em comparação com  o valor provável de realização.  17. Salienta também o citado professor que a Lei nº 11.638/2007 não chegou  a definir o que seria um "instrumento financeiro", manejando o termo em seu sentido contábil  refletido no Pronunciamento Técnico CPC 39:  11.  Os  termos  seguintes  são  utilizados  neste  Pronunciamento  com os seguintes significados:   Instrumento financeiro é qualquer contrato que dê origem a um  ativo  financeiro  para  a  entidade  e  a  um  passivo  financeiro  ou  instrumento patrimonial para outra entidade.   Ativo financeiro é qualquer ativo que seja:   (a) caixa;  (b) instrumento patrimonial de outra entidade;  (c) direito contratual:   (i) de receber caixa ou outro ativo financeiro de outra entidade;  ou   Fl. 2384DF CARF MF Processo nº 16327.720855/2014­11  Acórdão n.º 3402­004.002  S3­C4T2  Fl. 14          25 (ii)  de  troca  de  ativos  financeiros  ou  passivos  financeiros  com  outra  entidade  sob condições potencialmente  favoráveis para a  entidade;   (d)  um  contrato  que  seja  ou  possa  vir  a  ser  liquidado  por  instrumentos patrimoniais da CPC 39 6 própria entidade, e que:   (i)  não  é  um  derivativo  no  qual  a  entidade  é  ou  pode  ser  obrigada  a  receber  um  número  variável  de  instrumentos  patrimoniais da própria entidade; ou   (ii)  um  derivativo  que  será  ou  poderá  ser  liquidado  de  outra  forma que não pela troca de um montante fixo de caixa ou outro  ativo  financeiro,  por  número  fixo  de  instrumentos  patrimoniais  da  própria  entidade.  Para  esse  propósito,  os  instrumentos  patrimoniais  da  própria  entidade  não  incluem  os  instrumentos  financeiros com opção de venda classificados como instrumentos  patrimoniais de acordo com os itens 16A e 16B, os instrumentos  que imponham a obrigação a uma entidade de entregar à outra  parte  um  pro  rata  como  parte  dos  ativos  líquidos  da  entidade  apenas  na  liquidação  e  são  classificados  como  instrumentos  patrimoniais  de  acordo  com  os  itens  16C  e  16D,  ou  os  instrumentos  que  são  contratos  para  futuro  recebimento  ou  entrega de instrumentos patrimoniais da entidade  18. Não resta dúvidas, para nós, que o crédito a receber do BTG corresponde  a um ativo financeiro de imediatamente disponível para utilização por parte da SSP, razão pela  qual o seu registro e avaliação deverá se dar, nos termos do artigo 183, I, "b" da Lei das S/A,  pela  adoção  do  chamado  custo  de  aquisição.  Tal  parâmetro  de  preço  é  justificado  pelos  seguintes motivos, explicados por Alfredo Lamy e Bulhões Pedreira (Direito das Companhias,  V.  II.  Rio  de  Janeiro:  Forense,  2009,  p.1596):  a)  os  bens  realizáveis  destinam­se  a  ser  convertidos em dinheiro e não devem ser avaliados por valor superior ao de mercado na data  do  balanço  porque  esse  é  o  limite  de  realização  do  capital  neles  aplicado;  b)  se  o  valor  de  mercado na data do balanço é superior ao custo de aquisição, o bem deve continuar avaliado  pelo custo porque a diferença é lucro potencial, que somente deverá ser reconhecido nas contas  de resultado quando realizado; c) se o valor de mercado na data do balanço é inferior ao custo  de  aquisição,  a  sociedade  empresária  sofreu  perda  potencial  que  deve  ­  de  acordo  com  o  princípio de conservadorismo ­ ser reconhecida independentemente de realização.  18.1. A única hipótese de reavaliação do ativo, prevista no próprio art. 183, I,  "b"  da  Lei  das  S/A  é  a  hipótese  da  realização  do  crédito  gerar  valor menor  que  o  custo  de  aquisição, o que implicaria no provisionamento do prejuízo.  18.2. Isso implica em dizer que a SSP agiu corretamente em registrar no seu  ativo  o  valor  de  face  do  crédito,  visto  que  não  há  como  determinar  o  valor  de  realização,  especialmente ante a possibilidade da liquidação antecipada do crédito na forma do item "i" da  cláusula 1.4 do contrato entre a SSP e a BTG.  19.  Além  disso,  cabe  ponderar  também  a  necessidade  de  observância  da  Resolução  CFC  nº  1.282/2010,  cujo  artigo  10  trata  do  chamado  princípio  da  prudência  ou  princípio da cautela, que determina,  em condições de  incerteza, que os ativos e  receitas não  sejam superestimados e os passivos e despesas não sejam subestimados. Segundo ele, deve­se  adotar o menor valor para os componentes do Ativo e o maior para os do Passivo, sempre que  Fl. 2385DF CARF MF   26 estejam  presentes  alternativas  igualmente  válidas  para  a  quantificação  das  mutações  patrimoniais que alterem o patrimônio líquido.  20. Fica claro, no presente caso, que o crédito a receber da BTG possui, como  menor valor possível, o montante nominal de R$ 450 milhões, que seria devido na hipótese de  "Data  de  Fechamento"  e  "Data  de  Pagamento"  coincidirem.  Há,  no  caso,  a  necessidade  de  reconhecimento da receita, pela definitividade do ingresso, ao passo que há a incerteza quanto  ao  valor  real  da  receita  a  ser  reconhecida,  em  razão  da  impossibilidade  de  determinar  com  precisão o valor final. Diante disso, o valor a ser escriturado é o valor de face, como o fez a  SSP.   21. Essa digressão contábil é relevante por um importante motivo:   21.1. Por um lado, verifica­se a nível de evidência que se trata de um crédito  de  valor  muito  superior  ao  seu  valor  de  face  ­  bastaria  uma  pequena  simulação  em  uma  calculadora financeira para verificar que o ajuste do valor inicial (R$ 450 milhões) pela CDI,  por  alguns  anos,  bastaria  para  ultrapassar  o  montante  de  R$  3,8  bilhões,  implicando  na  aplicação do menor valor em relação às duas possibilidades de liquidação do crédito.  21.2. Por outro lado, a contabilidade determina que se registre esse ativo com  o menor valor possível, preservando, nesse caso, o seu custo de aquisição.  22. A relevância de tal ponto se dá em razão da Receita Federal ter construído  toda  a  sua  argumentação  sobre  a  consideração  de  que  a  "receita  contábil"  surgida  da  transferência  do  Crédito  a  receber  do  BTG  e  sucessiva  quitação  do  passivo  perante  o  FGC  corresponderia: i) a perdão de dívida; e ii) a receita tributável pelo PIS e pela Cofins.  23.  Deve­se  frisar,  nesse  ponto,  que  diferentemente  do  pugnado  pela  autoridade  fiscalizadora,  ao  adotar  a  definição  contábil  de  "receita  para  demonstração  de  resultados",  o  conceito  de  receita  tributável  no  âmbito  do  PIS/Cofins  não  é  contábil,  mas  constitucional,  jurídico,  haja  vista  que  se  trata  de  expressão  invocada  pelo Constituinte  para  definir a competência da União no artigo 195, I, "b" da Constituição Federal.  24.  Da  mesma  forma,  o  conceito  de  "dação  em  pagamento",  "cessão  de  crédito"  e  "perdão  de  dívida"  são  conceitos  jurídicos  do Direito  Privado,  onde  possuem  um  sentido técnico específico que não pode ser distorcido com vistas a qualificar juridicamente a  perspectiva de determinado caso que o contabilidade forneceu.  25.  Pode­se  afirmar,  categoricamente,  que  a  forma de  registro  contábil  não  determina a  incidência  tributária. Esse  é papel da  lei,  exclusivamente. Havendo discrepância  entre  um  registro  contábil  e  uma  realidade  jurídica,  não  deve  restar  dúvida  ao  julgador  da  prevalência desta sobre aquela.  26. Passa­se, pois, a enfrentar especificamente os argumentos da autuação.  I) O conceito de receita tributável pelo PIS e pela Cofins  27.  A  fiscalização  tributária  adotou,  para  fins  de  incidência  tributária,  o  conceito de receita veiculado pela Resolução CFC nº 1.374/2011, que qualificaria o "perdão de  dívidas" como espécie de receita:  Reconhecimento de receitas   4.47.  A  receita  deve  ser  reconhecida  na  demonstração  do  resultado  quando  resultar  em  aumento  nos  benefícios  Fl. 2386DF CARF MF Processo nº 16327.720855/2014­11  Acórdão n.º 3402­004.002  S3­C4T2  Fl. 15          27 econômicos futuros relacionado com aumento de ativo ou com  diminuição  de  passivo,  e  puder  ser  mensurado  com  confiabilidade. Isso significa, na prática, que o reconhecimento  da  receita  ocorre  simultaneamente  com  o  reconhecimento  do  aumento nos ativos ou da diminuição nos passivos (por exemplo,  o  aumento  líquido  nos  ativos  originado  da  venda  de  bens  e  serviços  ou  o  decréscimo  do  passivo  originado  do  perdão  de  dívida a ser paga).   28.  De  fato,  a  fiscalização  apontou  precisamente  um  dispositivo  de  pronunciamento do Conselho Federal de Contabilidade que se presta  a definir a  receita, mas  olvidou  em  distinguir  que  se  trata  de  um  reconhecimento  de  receita  "na  demonstração  do  resultado". Trata­se de um escopo específico e distinto do reconhecimento de receita para fins  de tributação, como expressamente reconhecimento no item 8A do Pronunciamento CPC nº 30,  verbis:  8A. A divulgação da receita na demonstração do resultado deve  ser  feita  a  partir  das  receitas  conforme  conceituadas  neste  Pronunciamento. A entidade deve fazer uso de outras contas de  controle  interno,  como  “Receita  Bruta  Tributável”,  para  fins  fiscais e outros.  29. Como se vê, cai por terra o fundamento contábil da autuação a partir do  reconhecimento, pela própria contabilidade, da diversidade entre o conceito de receita para fins  de demonstração de resultado e para fins de cálculo das contribuições sociais devidas ­ tratam­ se de finalidades absolutamente distintas que demandam registros coerentes com seus próprios  escopos.  30.  Resta,  ultrapassada  a  fronteira  de  um  conceito  contábil  de  receita,  o  enfrentamento de um conceito  constitucional  e  legal de  receita para  fins de determinação da  hipótese  de  incidência  das  contribuições  sociais,  bem  como  a  delimitação  de  sua  base  de  cálculo.  31. Em se tratando de um conceito utilizado pela Constituição Federal e com  reflexos  nos  textos  do  artigo  1º  das  Leis  nº  10.637/02  e  10.833/03,  que  determinam  a  incidência  do  PIS/Cofins  não  cumulativo  sobre  o  total  das  receitas  auferidas  no  mês  pela  pessoa jurídica, "independentemente de sua denominação ou classificação contábil".  32.  Tal  redação  do  dispositivo,  como  explica  o  Professor  Marco  Aurélio  Greco, tem o condão de desatrelar da contabilidade o conceito de receita gerando dois efeitos  opostos,  mas  complementares:  de  um  lado,  se  contabilmente  algo  não  está  registrado  como  receita,  mas  tem  essa  natureza,  as  contribuições  devem  incidir;  de  outro  lado,  se  algo  está  registrado  contabilmente  como  receita,  mas  não  tem  essa  natureza,  não  há  incidência  das  contribuições. Outro não foi o entendimento do Órgão Pleno do Supremo Tribunal Federal, ao  julgar o Recurso Extraordinário nº 606.107/RS, sujeito à sistemática de repercussão geral:  O  conceito  de  receita,  acolhido  pelo  art.  195,  I,  “b”,  da  Constituição Federal, não se confunde com o conceito contábil.  Entendimento, aliás, expresso nas Leis 10.637/02 (art. 1º) e Lei  10.833/03 (art. 1º), que determinam a incidência da contribuição  ao PIS/PASEP e da COFINS não cumulativas sobre o total das  receitas,  “independentemente  de  sua  denominação  ou  Fl. 2387DF CARF MF   28 classificação  contábil”.  Ainda  que  a  contabilidade  elaborada  para fins de informação ao mercado, gestão e planejamento das  empresas possa ser tomada pela lei como ponto de partida para  a  determinação  das  bases  de  cálculo  de  diversos  tributos,  de  modo algum subordina a tributação.  33. Como não poderia deixar de ser, não cabe ­ nem deve caber ­ ao Conselho  Federal de Contabilidade ou aos demais órgãos definidores de regras contábeis a definição da  hipótese de incidência dos tributos brasileiro, sob pena de subversão da sistemática normativa  de delimitação de competência pela Constituição e definição da incidência pelas leis.  34.  Sob  uma  perspectiva  histórica,  o  que  se  pode  constatar  é  a  tentativa  constante de União de estender a hipótese de incidência das contribuições sociais, esbarrando  sempre  no  conceito  constitucional  de  receita  tributável  e  nas  limitações  legais.  Tal  levantamento  é  feito  de  forma  extremamente  competente  pelo  Conselheiro  Antonio  Carlos  Atulim, em declaração de voto apresentada no Acórdão nº 3402­003.071, julgado em Maio de  2016, cujo conteúdo reproduzo abaixo:  Historicamente  essas  contribuições  sempre  incidiram  sobre  o  faturamento,  entendido como o produto da venda de mercadorias e da prestação de serviços.  A tentativa de a União incluir no rol de incidência das contribuições todas as  receitas operacionais da pessoa jurídica  tornou­se uma odisseia que  teve início em  julho  de  1988,  quando  se  pretendeu  alterar  a  base  de  cálculo  do PIS  por meio  da  edição de dois decretos­leis.  O PIS foi instituído por meio da Lei Complementar nº 7, de 7 de setembro de  1970,  a qual previa que  as  empresas privadas passariam a  contribuir  para o  fundo  com duas parcelas, sendo uma com base na dedução do imposto de renda devido e  outra com base no faturamento (arts. 1º e 3º).  Esse quadro legislativo se manteve até julho de 1988, quando foram editados  os Decretos­Leis nº 2.445, de 29 de  junho de 1988, e nº 2.449, de 21 de  julho de  1988,  por  meio  dos  quais  as  contribuições  mensais  até  então  devidas  sobre  o  faturamento,  passariam  a  incidir  sobre  a  receita  operacional  bruta  (art.  1º,  V,  do  Decreto­Lei nº 2.445/88).  A  tentativa  de  a  União  ampliar  a  base  de  cálculo  do  PIS  por  essa  via  foi  rechaçada  pelo  Supremo  Tribunal  Federal  no  julgamento  do  RE  nº  148.754,  por  meio do qual o Tribunal declarou a inconstitucionalidade formal dos Decretos­Leis  nº 2.445 e 2.449, ambos de 1988.  Relativamente ao  financiamento da Seguridade Social, a odisseia  teve  início  com  a  instituição  do  Fundo  de  Investimento  Social  ­  FINSOCIAL,  por  meio  da  edição  do  Decreto­Lei  nº  1.940,  de  25  de  maio  de  1982,  quando  foi  criada  uma  contribuição devida pelas empresas equivalente a 0,5% (cinco décimos por cento) do  faturamento (art 1º, § 1º).  Sobreveio  então  a Constituição Federal  de  1988  e com o  passar  dos  anos  a  alíquota inicial de 0,5% do FINSOCIAL foi sendo elevada ao mesmo tempo em que  foi criada a Contribuição Social sobre o Lucro (Lei nº 7.689, de 15 de dezembro de  1988).  Houve contestação judicial por parte dos contribuintes e o Supremo Tribunal  Federal mais uma vez foi chamado a  intervir. No julgamento do RE nº 150.764, o  Tribunal manteve a cobrança do FINSOCIAL com a configuração existente na data  da  promulgação  da  CF/88,  declarando  inconstitucionais  as majorações  procedidas  em sua alíquota após o advento da nova ordem constitucional.  Fl. 2388DF CARF MF Processo nº 16327.720855/2014­11  Acórdão n.º 3402­004.002  S3­C4T2  Fl. 16          29 Diante  da  inviabilidade  do  aumento  da  contribuição  ao  FINSOCIAL,  foi  editada a Lei Complementar nº 70, de 30 de dezembro de 1991, por meio da qual foi  revogado  o  FINSOCIAL,  instituindo­se  a  Contribuição  para  o  Financiamento  da  Seguridade  Social  ­  COFINS,  com  alíquota  de  2%  incidente  sobre  o  faturamento  (art. 2º).  Esse  quadro  legislativo  se manteve  até  a  edição  da  Lei  nº  9.718,  de  27  de  novembro de 1998, por meio da qual a União mais uma vez tentou ampliar as bases  de  cálculo  das  contribuições  ao  PIS  e  COFINS  redefinindo  o  conceito  de  faturamento (art. 3º, § 1º).  E mais uma vez a União viu sua tentativa frustrada, pois por meio do RE nº  390.840 o Supremo Tribunal Federal declarou a inconstitucionalidade do art. 3º, § 1º  da Lei nº 9.718/98.  Desse breve retrospecto legislativo, resulta a comprovação da assertiva inicial  deste voto, no sentido de que historicamente essas contribuições  sempre  incidiram  sobre o faturamento e que a intenção da União, pelo menos a partir de 1988, sempre  foi ampliar o campo de incidência para abarcar a receita operacional.  Todas  as  vezes  em  que  a  União  tentou  ampliar  as  bases  de  cálculo  das  contribuições ao PIS e COFINS para alcançar as receitas operacionais das empresas,  houve declaração de inconstitucionalidade da norma infraconstitucional.  Esse quadro mudou com o advento da Emenda Constitucional nº 20, de 15 de  dezembro de 1998, por meio do qual foi alterado o texto do art. 195, I, "b" da CF/88,  que  passou  a  prever  a  incidência  das  contribuições  destinadas  ao  custeio  da  seguridade social sobre a "receita ou o faturamento".  A partir dessa alteração constitucional, passou a existir permissão para que o  legislador  incluísse  nas  bases  de  cálculo  das  contribuições  destinadas  ao  financiamento  da  seguridade  social  qualquer  receita  auferida  pela  pessoa  jurídica,  pois o texto constitucional utilizou o vocábulo "receita" sem nenhuma qualificação  ou limitação.  Com  lastro  nessa  alteração  constitucional,  foram  editadas  as  Medidas  Provisórias nº 66, de 2002 e 135, de 2003, que resultaram na Lei nº 10.637, de 30 de  dezembro de 2002 e na Lei nº 10.833, de 29 de dezembro de 2003, respectivamente,  que nas suas redações originais definiram as bases de cálculo das contribuições nos  seguintes termos:  Lei nº 10.637:  "  Art.  1oA  contribuição  para  o  PIS/Pasep  tem  como  fato  gerador  o  faturamento mensal, assim entendido o total das receitas auferidas pela pessoa  jurídica, independentemente de sua denominação ou classificação contábil.  1oPara  efeito  do  disposto  neste  artigo,  o  total  das  receitas  compreende  a  receita bruta da venda de bens e  serviços nas operações em conta própria ou  alheia e todas as demais receitas auferidas pela pessoa jurídica.  §  2oA  base  de  cálculo  da  contribuição  para  o  PIS/Pasep  é  o  valor  do  faturamento, conforme definido no caput.  (...)"  Lei nº 10.833  Fl. 2389DF CARF MF   30 "Art.  1oA  Contribuição  para  o  Financiamento  da  Seguridade  Social  ­  COFINS, com a incidência não­cumulativa, tem como fato gerador o faturamento  mensal,  assim  entendido  o  total  das  receitas  auferidas  pela  pessoa  jurídica,  independentemente de sua denominação ou classificação contábil.  § 1oPara efeito do disposto neste artigo, o total das receitas compreende a  receita bruta da venda de bens e  serviços nas operações em conta própria ou  alheia e todas as demais receitas auferidas pela pessoa jurídica.  §  2oA  base  de  cálculo  da  contribuição  é  o  valor  do  faturamento,  conforme  definido no caput.  (...)"  A  primeira  leitura  desses  dispositivos  legais  aparentemente  autoriza  a  pretensão  fiscal  de  incluir a na base de  cálculo das  contribuições  qualquer  tipo de  receita, seja ela operacional ou não operacional.  Mas embora exista autorização na constituição para a  tributação da "receita"  em  geral,  o  legislador  não  se  valeu  dessa  faculdade,  pois  não  só  vinculou  "a  totalidade das receitas" ao termo "faturamento", mas também excluiu expressamente  da incidência as receitas não operacionais nos parágrafos 3º dos arts. 1º dessas duas  leis.  Nas cabeças dos arts. 1º de ambas as leis, a menção ao termo "faturamento",  limita a amplitude do "total das receitas auferidas" ao total das receitas operacionais,  uma  vez  que  as  receitas  não­operacionais  não  se  identificam  com  faturamento,  já  que não decorrem da execução do objeto social da pessoa jurídica.   Tal afirmação parece ser confirmada pelos parágrafos 3º dos dois dispositivos  citados, que se encarregaram de excluir da incidência das contribuições as receitas  não operacionais, nos seguintes termos:  Lei 10.637/2002:  § 3oNão integram a base de cálculo a que se refere este artigo, as receitas:  I a IV ­ omissis...  V­ referentes a:  a) vendas canceladas ou aos descontos incondicionais concedidos;  b)  reversões  de  provisões  e  recuperações  de  créditos  baixados  como  perda, que não representem ingresso de novas receitas, o resultado positivo da  avaliação  de  investimentos  pelo  valor  do  patrimônio  líquido  e  os  lucros  e  dividendos  derivados  de  investimentos  avaliados  pelo  custo  de  aquisição,  que  tenham sido computados como receita.  VI–não operacionais, decorrentes da venda de ativo imobilizado. (incluído  pela Lei nº 10.684/2003)  Lei nº 10.833/2003:  § 3oNão integram a base de cálculo a que se refere este artigo as receitas:  I­ omissis  II­ não­operacionais, decorrentes da venda de ativo permanente;  III e IV­ omissis  Fl. 2390DF CARF MF Processo nº 16327.720855/2014­11  Acórdão n.º 3402­004.002  S3­C4T2  Fl. 17          31 V­ referentes a:  a) omissis  b) reversões de provisões e recuperações de créditos baixados como perda  que  não  representem  ingresso  de  novas  receitas,  o  resultado  positivo  da  avaliação  de  investimentos  pelo  valor  do  patrimônio  líquido  e  os  lucros  e  dividendos  derivados  de  investimentos  avaliados  pelo  custo  de  aquisição  que  tenham sido computados como receita.  (...)"  Ao contrário do entendimento de alguns, esse rol de exclusões das receitas  não operacionais não é exaustivo, pois o legislador, no momento da elaboração da  norma, não tem condições de prever todas as hipóteses de receitas não operacionais  que podem se apresentar no mundo real.  Tanto isso é verdade que com o advento da Lei nº 12.973, de 13 de maio de  2014, houve alteração na técnica de redação dos artigos 1º das Leis nº 10.637/2002 e  10.833/2003,  pois  ao  mesmo  tempo  em  que  o  legislador  especificou  e  limitou  a  incidência às receitas estabelecidas no art. 12 do Decreto­Lei nº 1.598/77 e no art.  183, VIII da Lei nº 6.404/76, houve ampliação do rol de exclusões de receitas não­ operacionais  das  bases  de  cálculo,  fato  que  comprova  que  o  rol  de  exclusões  anteriormente existente não era exaustivo. Se fosse exaustivo, não seria necessário e  nem logicamente possível que uma lei posterior viesse a ampliá­lo.  Assim, se historicamente o legislador nunca pretendeu incluir as receitas não  operacionais nas bases de cálculo do PIS e COFINS e se existe previsão expressa de  exclusão dessas receitas nas leis que instituíram as contribuições não cumulativas, é  incabível a pretensão da fiscalização tributá­las.  35. Com razão o Ilustre Conselheiro retrocitado. A legislação do PIS/Cofins  não  cumulativo  vigente  à  época  das  operações  realizadas  pela  SSP  e  o  FGC  previa  em  seu  artigo 1º o seguinte:  Art. 1o A contribuição para o PIS/Pasep tem como fato gerador o  faturamento  mensal,  assim  entendido  o  total  das  receitas  auferidas  pela  pessoa  jurídica,  independentemente  de  sua  denominação ou classificação contábil.  §  1o  Para  efeito  do  disposto  neste  artigo,  o  total  das  receitas  compreende  a  receita  bruta  da  venda  de  bens  e  serviços  nas  operações  em  conta  própria  ou  alheia  e  todas  as  demais  receitas auferidas pela pessoa jurídica.  36. Tal dispositivo enseja uma leitura conjunta com o art. 12 do Decreto­Lei  1.598/77,  que  definia  expressamente  o  conceito  de  faturamento  mensal  e  receita  bruta,  nos  seguintes termos:  Art  12  ­  A  receita  bruta  das  vendas  e  serviços  compreende  o  produto  da  venda  de  bens  nas  operações  de  conta  própria  e  o  preço dos serviços prestados.  37. Não se está diante, no presente caso, de receita bruta decorrente da venda  de bens e serviços, caracterizado pela legislação de regência como o conjunto de fatos aptos a  Fl. 2391DF CARF MF   32 configurar a incidência do PIS e da Cofins. É preciso mais do que simples "ganho" para que se  configura receita tributável, como também consignou o STF, no mesmo REx 606.107/RS:  Sob  o  específico  prisma  constitucional,  receita  bruta  pode  ser  definida  como  o  ingresso  financeiro  que  se  integra  no  patrimônio  na  condição  de  elemento  novo  e  positivo,  sem  reservas ou condições. (grifo nosso)  38. No caso em tela, resta claro que o perdão de dívida ­ considerando aqui o  fundamento  da  fiscalização  ­  nunca  poderia  ser  tratado  como  receita  para  fins  de  tributação  (apenas para fins de demonstração de resultado da empresa), por não configurar ingresso. Ele  não se  integra ao patrimônio de forma  inaugural  ­ não há aquisição de disponibilidade nova,  mas apenas eliminação de um comprometimento patrimonial existente.   39. E mais, não se trata de uma distinção que estamos inaugurando aqui, mas  sim de elemento de discrímen não apenas consagrado jurisprudencialmente como também pela  própria  legislação,  que  não  se  furtou,  em  diversas  oportunidades,  em  deixar  claro  que  a  eliminação  de  um  passivo,  conquanto  represente  um  ganho,  não  deve  ingressar  na  base  de  cálculo do PIS e Cofins, como no artigo 1º, §3º, incisos V, "b", X e XII da Lei nº 10637/02:  Art. 1º (...)  § 3o Não integram a base de cálculo a que se refere este artigo,  as receitas:  V  ­  referentes  a:  b)  reversões  de  provisões  e  recuperações  de  créditos  baixados  como  perda,  QUE  NÃO  REPRESENTEM  INGRESSO DE NOVAS  RECEITAS,  o  resultado  positivo  da  avaliação de investimentos pelo valor do patrimônio líquido e os  lucros  e dividendos derivados de participações  societárias,  que  tenham sido computados como receita;  X ­ de subvenções para investimento, inclusive mediante isenção  ou  redução  de  impostos,  concedidas  como  estímulo  à  implantação ou expansão de empreendimentos econômicos e de  doações feitas pelo poder público;  XII  ­ relativas ao valor do  imposto que deixar de  ser pago em  virtude  das  isenções  e  reduções  de que  tratam as  alíneas “a”,  “b”, “c” e “e” do § 1o do art. 19 do Decreto­Lei no 1.598, de 26  de dezembro de 1977;  40.  A  lei  é  categórica:  sempre  que  estiver  ausente  o  elemento  de  ingresso  financeiro,  o  "ganho"  não  pode  se  enquadrar  na  categoria  de  "receita  tributável"  ­  quando  muito, no conceito de receita contábil para fins de demonstração do resultado.  41.  Frise­se,  todavia,  que  se  está  enfrentando  aqui  a  impossibilidade  da  receita decorrente de perdão de dívida  compor  a base de cálculo do PIS e da Cofins  apenas  para  enfrentar  o  argumento  da  autuação  em  suas  próprias  bases,  pois  logo  em  seguida  será  demonstrado extensivamente que a operação de dação em pagamento do crédito a receber do  BTG, entre a SSP e o FGC, não configura, de forma alguma, perdão de dívida.    II) Da Dação em Pagamento  Fl. 2392DF CARF MF Processo nº 16327.720855/2014­11  Acórdão n.º 3402­004.002  S3­C4T2  Fl. 18          33 42. Outro ponto de sustentação da autuação e da decisão da DRJ se funda no  argumento de que  teria  havido um "perdão de dívida" na operação,  sob  argumento de que o  FGC teria recebido, como condição da quitação do passivo existente na SSP, um crédito com  valor de face menor do que o crédito que possui perante o devedor.  43.  Todavia,  é  preciso  observar  que  a  operação,  no  caso,  envolveu  uma  dação em pagamento, regulada nos artigos 356 a 359 do Código Civil:  CAPÍTULO V Da Dação em Pagamento   Art. 356. O credor pode consentir em receber prestação diversa  da que lhe é devida.  Art. 357. Determinado o preço da coisa dada em pagamento, as  relações entre as partes regular­se­ão pelas normas do contrato  de compra e venda.  Art. 358. Se for título de crédito a coisa dada em pagamento, a  transferência importará em cessão.  Art. 359. Se o credor for evicto da coisa recebida em pagamento,  restabelecer­se­á  a  obrigação  primitiva,  ficando  sem  efeito  a  quitação dada, ressalvados os direitos de terceiros.  44.  A  dação  em  pagamento  possui  como  elemento  básico  a  alteração  do  objeto  do  contrato,  mantendo­se  o  liame  obrigacional,  através  da  substituição  da  coisa  que  deveria  ser prestada ou  entregue por outra  ­ aliud pro alio. Como pontua Orlando Gomes, o  credor não é obrigado a receber coisa diversa da que constitui objeto da prestação devida, mas  a partir de sua aquiescência no recebimento de outro bem ou prestação, não há que se distinguir  a  dação  em  pagamento  de  qualquer  outro  meio  normal  de  cumprimento  da  prestação  (Obrigações, 17ªed. Rio de Janeiro: Forense, 2008, p.145).  45.  Mais  ainda,  uma  vez  concordando  com  a  dação  em  pagamento,  a  operação  tem  pleno  efeito  liberatório  ­  daí  a  importância  do  consentimento,  em  vista  de  se  tratar de uma operação de caráter não compulsório para ser tomada como válida. Desse modo,  não há que se confundir ­ confusão esta presente no argumento fiscal ­ entre modos de extinção  da  obrigação  e  o  dimensionamento  da  dívida.  Orlando  Gomes  novamente  esclarece  a  esse  respeito:  O  efeito  que  a  dação  em  pagamento  produz  é  a  extinção  do  crédito,  qualquer  que  seja  o  valor  da  coisa  dada  em  substituição.  Não  importa  que  valha  mais  ou  menos  de  que  a  quantia  devida  ou  a  coisa  que  deveria  ser  entregue.  Se  valer  menos, o credor não poderá exigir a diferença. Se valer mais, o  devedor não terá o direito de exigir a restituição do excedente.  Mas,  se  o  crédito  for  inexistente,  impõem­se  a  devolução  da  coisa  entregue  ou  do  seu  valor.  (Obrigações,  17ªed.  Rio  de  Janeiro: Forense, 2008, p.146).  46. O  regime civil  dos efeitos da dação em pagamento  implica na  imediata  extinção da obrigação  (PONTES DE MIRANDA. Tratado de Direito Privado, v. 25, §3000,  nº4, p.6) e, em se tratando de dação de título de crédito, aplica­se o disposto nos artigos 286 a  299 do Código Civil, relativos à cessão de crédito.  Fl. 2393DF CARF MF   34 47.  Conforme  definido  por Antunes  Varela,  "A  cessão  de  crédito  consiste,  precisamente, no contrato pelo qual o credor de determinada prestação transmite a terceiro,  independentemente  do  consentimento  do  devedor,  a  totalidade  ou  parte  do  seu  crédito"  (Direito das Obrigações, v.2. Rio de Janeiro: Forense, 1978, p.308). Tal negócio jurídico tem a  finalidade  de  transmitir  um  crédito  preexistente  a  terceiro,  que  não  participou  da  relação  jurídica originária ­ no caso em tela, a SSP pretendeu transmitir ao FGC crédito decorrente de  negócio assumido junto ao BTG.  48. A distinção principal da cessão de crédito clássica daquela prevista como  espécie de dação em pagamento no art. 358 do Código Civil diz respeito à eficácia liberatória  que  terá  em  relação  a uma obrigação assumida  entre o  cessionário  e o  cedente do  crédito,  a  revelia do devedor do crédito cedido.   49. É preciso  frisar, mais uma vez, que a natureza consensual da dação em  pagamento é o que lhe garante a eficácia liberatória independente do valor da dívida e do bem  ou serviço aceito como contraprestação ­ por exemplo, seria possível que um devedor de uma  dívida de R$ 100 mil reais oferecesse como pagamento um imóvel do valor de R$ 150 mil, sem  que sequer se pudesse cogitar do surgimento de uma inversão nas posições originais, passando  o credor a ser devedor da diferença de R$ 50 mil.  50. A dação em pagamento não exige uma preciso quid pro quo de valores  para ter sua eficácia liberatória.  51. Esse parece ter sido exatamente o erro no argumento da autuação fiscal,  ao interpretar o oferecimento de um crédito de R$ 450 milhões como pagamento de uma dívida  de R$ 3.8 bilhões como uma dação em pagamento de parcela numericamente equivalente da  dívida original, seguida de uma remissão do valor de R$ 3.35 bilhões.  51.1. Como foi dito, a dação em pagamento não exige, para sua realização,  que o valor do bem dado seja equivalente ao valor da dívida existente ­ o que é corroborado  pela eficácia liberatória plena, sem que eventuais excessos ou déficits de valores gerem novas  relações de crédito. Assim, cabe um último esclarecimento.   51.2.  A  fiscalização  considerou  o  valor  registrado  contabilmente  no  cruzamento com o valor do passivo baixado após a quitação dada pelo FGC, que resultou na  receita eventual de R$ 3.35 bilhões. Todavia, é preciso retomar o que foi dito sobre o regime  contábil  de  registro  de  receitas,  que  segue  regras  específicas  que  determinaram  que  lá  fosse  colocado o valor de face do título.  51.3. Entretanto, não é preciso entrar em minúcias econômicas para perceber  que o crédito em questão possui um valor real, isto é, o valor de realização dele, muito maior  do que os R$ 450 milhões que constam como valor nominal, na "Data de Fechamento". Não é  a toa que, quando o crédito for realizado, cabe à SSP retificar o valor do ativo cedido na sua  contabilidade, para adequá­lo ao valor da realização da qual gozou o FGC.  51.4. Isso quer dizer que se na data X o crédito foi realizado no valor de, por  exemplo, R$ 2.5 bilhões, o montante da receita eventual da SSP deveria ser retificado, à partir  da retificação do valor do ativo para o montante  realizado. Da mesma forma, se na data Y o  crédito for realizado por R$ 3.8 bilhões (conforme a regra "ii"), se verifica que o montante de  "receita eventual" deveria ser retificado para zero.  51.5. Imaginem, dentro do exemplo do parágrafo anterior, que essa realização  se deu apenas em 2025, e que o PIS/Cofins sobre a receita eventual apurada do confronto entre  Fl. 2394DF CARF MF Processo nº 16327.720855/2014­11  Acórdão n.º 3402­004.002  S3­C4T2  Fl. 19          35 o  passivo  e  o  valor  de  face  do  crédito  já  fora  cobrado  em  2017.  Estaríamos  na  canhestra  situação de vultosas contribuições cobradas sobre uma receita que simplesmente desapareceu  após a realização do crédito cedido, e sem qualquer possibilidade da SSP pedir restituição ou  compensação do tributo pago indevidamente, em razão da decadência.  51.6. O exemplo deixa claro que se trata de uma receita meramente contábil,  mas que não consubstancia ingresso financeiro, e está sujeita inclusive a desaparecer quando da  realização do crédito cedido, ocasião em que a SSP poderia corrigir o valor do ativo cedido.  51.7. Resta claro, assim, que a divergência entre o valor de face do crédito e o  passivo da SSP existe apenas em razão das regras vigentes de contabilidade, visto que o valor  real daquele é muito superior ao tomado como referência pela fiscalização.  52. Trata­se de um equívoco que contraria a lógica dos institutos do Direito  Civil, cuja observância na seara tributária deve ser respeitada por força dos artigos 109 e 110  do Código Tributário Nacional, verbis:   Art. 109. Os princípios gerais de direito privado utilizam­se para  pesquisa  da  definição,  do  conteúdo  e  do  alcance  de  seus  institutos,  conceitos  e  formas,  mas  não  para  definição  dos  respectivos efeitos tributários.  Art.  110.  A  lei  tributária  não  pode  alterar  a  definição,  o  conteúdo e o alcance de institutos, conceitos e formas de direito  privado,  utilizados,  expressa  ou  implicitamente,  pela  Constituição Federal, pelas Constituições dos Estados, ou pelas  Leis  Orgânicas  do  Distrito  Federal  ou  dos  Municípios,  para  definir ou limitar competências tributárias.  53. Assim,  é  juridicamente  impossível  que  após  uma  dação  em  pagamento  tomada com efeito  liberatório  total da obrigação original exista algo  a  ser  remido, perdoado,  pois a dívida já foi inteiramente extinta.  54.  Diferentemente  do  sustentado  pela  Ilustre  Conselheira  relatora,  não  se  trata de caso de aplicação da Solução de Consulta nº 306 ­ SRRF/9ª RF/Disit, haja vista que  não  há  descontos  financeiros,  o  que  há,  efetivamente,  é  o  encerramento  do  vínculo  obrigacional entre o FGC e a SSP, em razão do efeito liberatório da dação em pagamento. Não  há necessidade do bom entrega na dação em pagamento  tenha exatamente o valor do crédito  que se pretende extinguir, tampouco procede a afirmação de que em caso de diferença a menor  ou  a  maior  se  possa  falar  em  surgimento  de  uma  nova  relação  creditícia,  relativa  a  essa  diferença.  55. Por fim, cabe também o contraste com a figura da remissão, definida por  Venosa  como  "o  ato  ou  efeito  de  remitir,  perdoar  uma  dívida,  ocorrendo  quando  o  credor  libera o devedor, no todo ou em parte, sem receber pagamento".(como citado pela relatora).  55.1. Toda obrigação, para alcançar plena eficácia, depende do adimplemento  ou pagamento da mesma ­ é a sua morte natural. Todavia, existem diversos modos pelos quais  uma  obrigação  pode  ser  extinta  ­  é  a  lição  da  doutrina  italiana  (especialmente MESSINEO.  Manuale Elementare  di Diritto Civile  e Commerciale,  v.  2,  p.356),  ao  distinguir  os modos  entre satisfatórios e não­satisfatórios.   Fl. 2395DF CARF MF   36 55.2. Ensina Orlando Gomes que são satisfatórios os modos através dos quais  o credor  recebe a prestação, direta ou  indiretamente. Diretos são aqueles em que o objeto da  prestação  é  entregue,  sendo  o  pagamento  a  hipótese  por  excelência,  ao  passo  que  indiretos  seriam aqueles em que ainda que não se receba a prestação, há uma desobrigação do devedor,  como nos casos de confusão ou compensação. Por outro lado, não satisfatórios são os modos  que desobrigam o devedor sem que o credor receba a prestação, como na novação, remissão,  prescrição  e  impossibilidade  superveniente  de  caráter  fortuito  (Obrigações,  17ªed.  Rio  de  Janeiro: Forense, 2008, p.151).  55.3. Não restam dúvidas de que a dação em pagamento nada mais é do que  modalidade  satisfatória  direta,  pois  se  trata,  ao  fim  e  ao  cabo,  de  simples  modalidade  de  pagamento, como reconhecido de forma ampla pela doutrina civilista.  55.4. Muito longe disso, a remissão ou perdão de dívida implica em um ato  unilateral  do  credor,  com  vistas  à  extinção  do  crédito,  através  da  renúncia  expressa  do  seu  direito. Ao se verificar o recebimento de um crédito, já resta absolutamente claro que o FGC  não praticou remissão, mas sim recebeu um direito de crédito perante terceiro como pagamento  pela dívida assumida, como de resto já foi abordado anteriormente.  55.5.  Portanto,  trata­se  de  rotunda  impropriedade  técnica  a  qualificação  da  operação entre a SSP e o FGC como uma espécie de remissão ou perdão, sendo, nos termos da  legislação de Direito Privado, espécie de dação em pagamento.    c) Da inaplicabilidade dos precedentes citados da CSRF  56. Da mesma  forma, descabe  aplicar no  caso os precedentes  apontados da  Câmara  Superior  de  Recursos  Fiscais  relativos  ao  julgamento  de  IRPJ.  Tratam­se  de  materialidades  tributárias  absolutamente  distintas:  enquanto  o  PIS/Cofins  incidem  sobre  receitas decorrentes da atividade de venda de bens e serviços, o  IR  tem como fato gerador a  aquisição de disponibilidade econômica ou  jurídica do produto do  capital,  do  trabalho ou de  ambos, bem como de proventos e quaisquer acréscimo patrimonial, nos  termos do art. 43 do  CTN.  57. É  clara  na  contabilidade  a diferença  entre  receitas  propriamente  ditas  e  simples  "ganhos",  da  mesma  forma  que  nem  toda  receita  compõe  renda  tributável,  e  nem  sempre a renda tributável depende de receita.   57.1. Por  exemplo:  a  receita da venda de bens  do  ativo não circulante,  nos  termos  do  art.  1º,  §3º,  VI  é  enquadrada  como  receita,  mas  excluída  da  base  de  cálculo  do  PIS/Cofins,  ao  passo  que  sequer  poderia  ser  cogitada  como  materialidade  da  IR  (salvo  na  realização de ganho de capital), pois não implica em acréscimo patrimonial, exigido pelo art.  43, II do CTN.  57.2. Outro exemplo seria o ajuste a valor presente de um imóvel do ativo da  empresa,  para  fins  de  oferecê­lo  como  garantia  em  um  empréstimo.  Antes  da  Lei  nº  12.973/2014,  tal  situação  não  seria  enquadrada  como  receita,  mas  poderia  se  reconhecer  acréscimo patrimonial, nos  termos do art. 43,  II do CTN, ainda que a  legislação ordinária só  reconheça a realização dessa renda com a alienação do ativo (diferentemente, por exemplo, de  como  decidiu  a  Suprema  Corte  norte  americana  no  caso  Helvering  v.  Bruum,  em  1940,  desvinculando a realização financeira da realização econômica).  Fl. 2396DF CARF MF Processo nº 16327.720855/2014­11  Acórdão n.º 3402­004.002  S3­C4T2  Fl. 20          37 58. Estes exemplos servem para deixar claro que as hipóteses de  incidência  do PIS/Cofins e IRPJ são absolutamente distintas, não sendo válida a invocação de precedentes  da CSRF sobre este último, para orientar quanto ao primeiro.   59. Este Colegiado já enfrentou a distinção entre receita e renda com bastante  rigor técnico, na ocasião do julgamento do Acórdão 3402­003.239, julgado em Agosto de 2016  e de relatoria da Conselheira Maria Aparecida, que em seu voto consignou e aderiu à posição  do Professor José Antônio Minatel, citada abaixo:  O  ingresso  financeiro  é  um  dos  atributos  que  permitem  qualificar  o  conteúdo material da receita, mas nem  todo  ingresso  tem natureza de  receita. É  preciso  caráter  de  definitividade  da  quantia  ingressada  e  que  tenha  como  causa  o  exercício de atividade empresarial".  (...)  "Já afirmamos que receita pressupõe ingresso, no sentido de contraprestação  em  dinheiro  recebida,  por  exemplo,  pelo  comerciante  proveniente  da  venda  de  mercadorias,  ou  pela  atividade  desempenhada  pelo  prestador  de  serviços,  assim  como  se  qualificam  no  contexto  de  receita  os  juros  que  remuneram  o  capital  transferido num contrato de mútuo. Nessa concepção, foram tomados sob o genérico  rótulo  de  receita,  por  não  ser  demais  repetir  que  tais  eventos  têm  configuração  instantânea  de  circulação de  riqueza,  aferível  na  contrapartida  instantânea  de  cada  negócio  ou  operação,  portanto,  prescindem  de  apuração  de  resultado  mediante  confronto  com  os  custos  correspondentes.  O  mesmo  não  acontece  com  a  renda,  conceito  relacional,  pois  pressupõe  avaliação  técnica  do  efetivo  resultado,  num  determinado período de tempo, segundo métodos e critérios predefinidos, para o que  são  relevantes  todos  os  fatores  interrelacionados para  exteriorizá­lo."  (MINATEL,  José Antonio. O Conteúdo do conceito de receita. São Paulo: MP Editora, 2005)  60. Desse modo, não restam dúvidas de que o raciocínio esgrimido nos casos  de IRPJ não tem aplicabilidade no âmbito da discussão travada no presente caso.    d)  Das  preliminares  de  nulidade  e  da  impossibilidade  de  cobrança  de  juros sobre multa de ofício  Em razão da divergência em relação ao voto da relatora ter se dado quanto ao  mérito,  e nos  termos do artigo 59, §3º do Decreto 70.235/72  (§ 3º Quando puder decidir do  mérito a favor do sujeito passivo a quem aproveitaria a declaração de nulidade, a autoridade  julgadora não a pronunciará nem mandará repetir o ato ou suprir­lhe a falta.), em resolvendo  de modo favorável ao Contribuinte o mérito do Recurso, deixo de apreciar as preliminares de  nulidade.  Prejudicado  também  o  argumento  da  incidência  de  juros  sobre  multa  de  ofício, em razão do provimento de mérito.    e) Conclusão  Pode­se concluir que, em síntese, que:  Fl. 2397DF CARF MF   38 I)  A  cessão  do  crédito  a  receber  da  SSP  para  o  FGC  corresponde,  juridicamente, a uma operação de dação em pagamento, tendo eficácia liberatória plena.  II) A "receita eventual" apurada no confronto entre o ativo cedido e o passivo  baixado não corresponde ao conceito de receita tributável do PIS e Cofins, por não se tratar de  ingresso financeiro, e por não decorrer das atividades econômicas da empresa.  III) A "receita eventual" decorre, em rigor, de uma disparidade entre o valor  do registro contábil, que adotou o valor de face do título, e o valor real do mesmo, e não de um  "perdão de dívida", como sustentado pela fiscalização.  Ante  o  exposto,  voto  por  dar  PROVIMENTO  INTEGRAL  ao  Recurso  Voluntário do Contribuinte, nos termos do presente voto.  É como voto.  Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto                  Fl. 2398DF CARF MF

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Numero do processo: 12898.000809/2009-18
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Apr 04 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed May 03 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2004, 2005 LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO. ERRO NA IDENTIFICAÇÃO DO SUJEITO PASSIVO DA OBRIGAÇÃO TRIBUTÁRIA. EXERCÍCIO DO CONTRADITÓRIO E DA AMPLA DEFESA. INEXISTÊNCIA DE PREJUÍZO. AUSÊNCIA DE NULIDADE. Mera irregularidade, consistente na imprecisão da caracterização do sujeito passivo da obrigação tributária, que não prejudique o exercício do contraditório e da ampla defesa, não gera nulidade do ato de lançamento. Precedentes do TRF3, do STJ e do STF.
Numero da decisão: 9101-002.756
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, por voto de qualidade, em dar-lhe provimento com retorno dos autos à Unidade de Origem, nos termos do voto do relator, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, José Eduardo Dornelas Souza e Gerson Macedo Guerra, que lhe negaram provimento. Nos termos do Art. 58, §5º, Anexo II do RICARF, o conselheiro Carlos Alberto Freitas Barreto não votou nesse julgamento, por se tratar de processo originalmente relatado pelo conselheiro Marcos Aurélio Pereira Valadão, que ocupou a posição de Presidente, com voto já proferido e consignado. Conforme Portaria CARF nº 107, de 04/08/2016, alterada pela Portaria CARF nº 07, de 02/03/2017, designado pelo presidente do colegiado, como redator ad hoc, o Conselheiro Rafael Vidal de Araujo. (documento assinado digitalmente) Carlos Alberto Freitas Barreto - Presidente. (documento assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araujo – Redator designado ad-hoc. Participaram da sessão em que se concluiu o julgamento os conselheiros Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Luis Flavio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Jose Eduardo Dornelas Souza, Gerson Macedo Guerra e Carlos Alberto Freitas Barreto (Presidente). Julgamento iniciado na sessão de 08 de fevereiro de 2017, em que se colheram os votos do Relator (Conselheiro Marcos Aurélio Pereira Valadão) e dos Conselheiros Adriana Gomes Rego e André Mendes de Moura pelo provimento do recurso especial com retorno dos autos à Unidade de Origem, e da Conselheira Cristiane Silva Costa pelo não provimento do recurso especial.
Nome do relator: RAFAEL VIDAL DE ARAUJO

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9101­002.756  –  1ª Turma   Sessão de  05 de abril de 2017  Matéria  IRPJ­CSLL  Recorrente  FAZENDA NACIONAL  Interessado  ARGOLIS HOLDING S.A., sucedida por TELEMAR PARTICIPAÇÕES S.A.    ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL  Ano­calendário: 2004, 2005  LANÇAMENTO  TRIBUTÁRIO.  ERRO  NA  IDENTIFICAÇÃO  DO  SUJEITO  PASSIVO DA  OBRIGAÇÃO  TRIBUTÁRIA.  EXERCÍCIO  DO  CONTRADITÓRIO  E  DA  AMPLA  DEFESA.  INEXISTÊNCIA  DE  PREJUÍZO. AUSÊNCIA DE NULIDADE.  Mera  irregularidade,  consistente  na  imprecisão  da  caracterização  do  sujeito  passivo  da  obrigação  tributária,  que  não  prejudique  o  exercício  do  contraditório e da ampla defesa, não gera nulidade do ato de lançamento.   Precedentes do TRF3, do STJ e do STF.      Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.  Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer  do  Recurso  Especial  da  Fazenda Nacional  e,  no  mérito,  por  voto  de  qualidade,  em  dar­lhe  provimento  com  retorno  dos  autos  à  Unidade  de  Origem,  nos  termos  do  voto  do  relator,  vencidos  os  conselheiros  Cristiane  Silva  Costa,  Luís  Flávio  Neto,  José  Eduardo  Dornelas  Souza  e Gerson Macedo Guerra,  que  lhe  negaram  provimento. Nos  termos  do Art.  58,  §5º,  Anexo  II  do  RICARF,  o  conselheiro  Carlos  Alberto  Freitas  Barreto  não  votou  nesse  julgamento, por se tratar de processo originalmente relatado pelo conselheiro Marcos Aurélio  Pereira  Valadão,  que  ocupou  a  posição  de  Presidente,  com  voto  já  proferido  e  consignado.  Conforme  Portaria  CARF  nº  107,  de  04/08/2016,  alterada  pela  Portaria  CARF  nº  07,  de  02/03/2017,  designado  pelo  presidente  do  colegiado,  como  redator  ad  hoc,  o  Conselheiro  Rafael Vidal de Araujo.    (documento assinado digitalmente)     AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 12 89 8. 00 08 09 /2 00 9- 18 Fl. 1064DF CARF MF Processo nº 12898.000809/2009­18  Acórdão n.º 9101­002.756  CSRF­T1  Fl. 3          2 Carlos Alberto Freitas Barreto ­ Presidente.   (documento assinado digitalmente)  Rafael Vidal de Araujo – Redator designado ad­hoc.    Participaram  da  sessão  em  que  se  concluiu  o  julgamento  os  conselheiros  Adriana  Gomes  Rego,  Cristiane  Silva  Costa,  André  Mendes  de  Moura,  Luis  Flavio  Neto,  Rafael  Vidal  de  Araújo,  Jose  Eduardo  Dornelas  Souza,  Gerson  Macedo  Guerra  e  Carlos  Alberto Freitas Barreto (Presidente).   Julgamento  iniciado  na  sessão  de  08  de  fevereiro  de  2017,  em  que  se  colheram  os  votos  do  Relator  (Conselheiro  Marcos  Aurélio  Pereira  Valadão)  e  dos  Conselheiros  Adriana Gomes  Rego  e André Mendes  de Moura  pelo  provimento  do  recurso  especial com retorno dos autos à Unidade de Origem, e da Conselheira Cristiane Silva Costa  pelo não provimento do recurso especial.    Relatório  Designou­me a Presidência para redigir o acórdão, à fl. 1063, em razão de o  Relator  ter  se  afastado  provisoriamente  por  período  superior  a  dois  meses  após  o  início  da  votação. Faço­o adotando ementa, relatório e voto elaborados por ele e lidos na primeira sessão  em que o recurso foi por ele colocado no sistema eletrônico de votação no dia 08 de fevereiro  de 2017.  Passo a transcrição de como o recurso foi por ele relatado:  Por  bem  descrever  os  fatos,  reproduzo  o  relatório  da  decisão  recorrida (destaques do original):  Trata­se  de  autos  de  infração  de  IRPJ  e  CSLL  (fls.  382/394),  fatos  geradores  31/12/04  e  31/12/05,  no  valor  total  (principal)  de  R$  3.948.077,67 (três milhões, novecentos e quarenta e oito mil, setenta e  sete reais e sessenta e sete centavos), cientificados ao contribuinte em  13/07/09 (fls. 383 e 389).  As  autuações  decorreram  da  constatação  de  glosa  de  “...Despesas  financeiras  não  necessárias,  decorrentes  de  empréstimos  contraídos  e  repassados  a  empresa  interligada,  sem  qualquer  encargo  financeiro”.  No “Termo de Constatação Fiscal” (fls. 380/381), após discorrer sobre  as  providências  adotadas  no  curso  do  procedimento  fiscal,  a  fiscalização assim concluiu:  “[...] Dentro do exposto e da documentação apresentada, observa­se que  o contrato de compra e venda de ações de emissão de Brasil Telecom  Participações  S.A.  foi  complemento  do  contrato  98.2.345.3.2  de  adiantamento  para  futura  subscrição  de  debêntures  de  emissão  de  Techold, tendo em vista que o contribuinte fiscalizado não possuía, na  Fl. 1065DF CARF MF Processo nº 12898.000809/2009­18  Acórdão n.º 9101­002.756  CSRF­T1  Fl. 4          3 época  do  término  do  contrato  98.2.345.3.2,  recursos  suficientes  para  liquidá­lo.  Desta  forma  o  contribuinte  fiscalizado  utilizou­se  dos  financiamentos  obtidos, com o único objetivo de favorecimento a empresa interligada,  conforme constatado através deste relatório e da documentação anexa,  sendo,  portanto,  desnecessárias  suas  despesas  financeiras  relativas  ao  período fiscalizado.”  A Primeira Turma da DRJ – Rio de Janeiro (RJ) considerou ter havido  erro  na  identificação  do  sujeito  passivo,  tendo  declarado  a  nulidade  dos  lançamentos,  conforme  acórdão  que  recebeu  a  seguinte  ementa  (fls. 941/945):  LANÇAMENTO. IDENTIFICAÇÃO DO SUJEITO PASSIVO. VÍCIO  MATERIAL. NULIDADE.   É  nulo  o  auto  de  infração  lavrado  contra  empresa  já  extinta  por  incorporação, em virtude de erro na identificação do sujeito passivo da  obrigação tributária.  Em razão do valor exonerado, interpôs­se Recurso de Ofício.  Devidamente  cientificado  do  acórdão  em  28/05/12  (fl.  952),  o  contribuinte não apresentou Recurso Voluntário.  A  Terceira  Turma  Ordinária  da  Primeira  Câmara  da  Primeira  Seção do CARF proferiu o Acórdão nº 1103­000.830, de 7 de março de 2013, cujas  ementa e decisão transcrevo, respectivamente:  ASSUNTO:  IMPOSTO  SOBRE A  RENDA DE PESSOA  JURÍDICA  –  IRPJ  Data do fato gerador: 31/12/2004, 31/12/2005  RECURSO DE OFÍCIO. INCORPORAÇÃO. EXTINÇÃO DA PESSOA  JURÍDICA.  RESPONSABILIDADE  DA  INCORPORADORA.  ERRO  NA IDENTIFICAÇÃO DO SUJEITO PASSIVO. NULIDADE.  Sendo a sociedade incorporadora a responsável pelos tributos devidos  pela  incorporada  até  a  data  da  sucessão,  declara­se,  por  erro  na  identificação  do  sujeito  passivo,  a  nulidade  dos  autos  de  infração  formalizados  em  face  da  pessoa  jurídica  incorporada,  já  extinta  quando da lavratura, tendo a fiscalização conhecimento de tal fato no  curso do procedimento fiscal.  Recurso de ofício negado.  Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.  Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em NEGAR  provimento  ao  recurso  de  ofício,  vencido  o Conselheiro Aloysio  José  Percínio da Silva.  Inconformada, a Fazenda Nacional apresenta recurso especial por  divergência, argumentando, em síntese:  Fl. 1066DF CARF MF Processo nº 12898.000809/2009­18  Acórdão n.º 9101­002.756  CSRF­T1  Fl. 5          4 a) que inexistiu nulidade do lançamento por erro na identificação  do sujeito passivo;  b)  que  ao  tempo  da  ocorrência  dos  fatos  geradores,  a  empresa  ARGOLIS HOLDING S/A existia;  c)  que  a  incorporadora,  à  época  da  incorporação,  detinha  100%  das ações da incorporada;  d)  que  a  fiscalização  foi  iniciada  em  março  de  2008,  antes,  portanto, do ato de incorporação, finalizando em julho de 2009, após a extinção da  empresa ARGOLIS HOLDING S/A.;  e)  que,  nesse  interregno,  a  pessoa  jurídica  incorporadora  foi  intimada pela auditoria fiscal a apresentar documentos e esclarecimentos;  f)  que,  do mesmo modo,  a TELEMAR PARTICIPAÇÕES S.A.  foi devidamente cientificada do lançamento, e dele se defendeu;  g)  que,  do  teor  das  insurgências  acostadas  ao  feito,  percebe­se  que  a  pessoa  jurídica  incorporadora  compreendeu  claramente  o  conteúdo  do  lançamento;  h) que não houve, pois, prejuízo à ampla defesa;  i) que há, no caso, mera irregularidade formal na identificação do  sujeito passivo, passível de ser superada, convalidada;  j)  que,  sendo  inquestionável  a  responsabilidade  da  TELEMAR  PARTICIPAÇÕES  S.A.,  a  qual,  como  incorporadora  da  ARGOLIS  HOLDING  S/A.,  a  sucede  em  todos  os  direitos  e  obrigações,  inclusive  respondendo  pelos  tributos devidos por esta até a data do ato de incorporação, e tendo em vista que a  ARGOLIS  cometeu  infrações  de  natureza  tributária,  das  quais  decorreram  recolhimento  a  menor  de  tributos,  estes  devem,  efetivamente,  ser  cobrados  da  TELEMAR,  ainda  que  os  Autos  de  Infração  tenham  sido  lavrados  em  nome  da  sucedida;  k) que, no caso, o formalismo não pode prevalecer;  l)  que,  entendendo  existir  motivo  apto  a  ensejar  a  nulidade  do  lançamento, a natureza do vício é formal, e não material;  m)  que  um  lançamento  tributário  é  anulado  por  vício  formal  quando não se obedece às formalidades necessárias ou indispensáveis à existência  do ato, isto é, às disposições de ordem legal para a sua feitura;  n) que, na hipótese em apreço, há erro na identificação do sujeito  passivo,  vício  apontado  pelo  colegiado  como  causa  do  cancelamento  do  auto  de  infração, mas que,  todavia,  não pode ser  considerado como de natureza material,  pois  se  assim  fosse  estar‑ se‑ ia  afirmando  que  o  motivo  (fato  jurídico)  nunca  existiu;  Fl. 1067DF CARF MF Processo nº 12898.000809/2009­18  Acórdão n.º 9101­002.756  CSRF­T1  Fl. 6          5 o) que, contudo não é essa a situação retratada nos autos, pois a  infração  tributária  resta  devidamente  evidenciada no Relatório Fiscal  do Auto  de  Infração,  este  que  também  se  fez  acompanhar  dos  devidos  documentos  comprobatórios  dos  fatos  ali  noticiados,  e  sequer  foi  negado  pela  autoridade  julgadora; e  p) que o acórdão recorrido mostra­se equivocado ao afirmar que a  ilegitimidade  da  parte  seria  suficiente  para  decidir  pela  nulidade  do  Auto  de  Infração,  uma vez  que,  se  vício  existe  no  lançamento,  este  é de  natureza  formal,  visto que relacionado a elemento de exteriorização do ato administrativo.  O  recurso  foi  admitido  pelo  presidente  da  Primeira  Câmara  da  Primeira Seção do CARF.  Devidamente  cientificado,  o  contribuinte  apresentou  contrarrazões, a seguir resumidas:  a) que a ARGOLIS, empresa identificada como sujeito passivo no  Auto  de  Infração,  já  se  encontrava  extinta  desde  30/06/2008,  quando  foi  integralmente incorporada pela TELEMAR;  b)  que  a  baixa  de  seu  CNPJ  por  incorporação  já  constava  do  Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica perante a Receita Federal;  c)  que  a  ARGOLIS  já  tinha  apresentado  Declarações  de  Informações  Econômico­fiscais  da  Pessoa  Jurídica  (DIPJ)  relativa  ao  período  de  18/04/2008  a  30/06/2008  (data  da  incorporação/evento),  inclusive  com  a  devida  baixa na JUCERJA;  d)  que,  dessa  forma,  é  evidente  que,  à  época  da  lavratura  dos  Autos de  Infração de  IRPJ e CSLL, em 08/07/2009, a ARGOLIS,  indicada como  sujeito passivo pela Receita Federal, não mais existia no ordenamento jurídico;  e) que a fiscalização da Receita Federal tinha pleno conhecimento  da  extinção  da ARGOLIS  quando  da  lavratura  dos Autos  de  Infração  de  IRPJ  e  CSLL,  o  que  atrai  a  aplicação  do  basilar  brocardo  jurídico  segundo  o  qual  “o  direito não socorre aos que dormem”;  f) que a incorporação resulta no fim da personalidade jurídica da  empresa  incorporada,  com  a  transferência  de  seus  direitos  e  obrigações  à  incorporadora;  g)  que  justamente  pela  impossibilidade  de  autuação  de  empresa  extinta que não há qualquer restrição ao lançamento em face de sua incorporadora;  h)  que  o  equívoco  na  identificação  do  sujeito  passivo,  considerando  uma  pessoa  jurídica  que  não  mais  existe  e  não  mais  é  sujeito  de  direito,  faltando­lhe,  portanto,  capacidade  para  integrar  qualquer  relação  jurídica,  representa manifesto vício insanável no lançamento tributário, fato que leva à sua  pronta anulação;  Fl. 1068DF CARF MF Processo nº 12898.000809/2009­18  Acórdão n.º 9101­002.756  CSRF­T1  Fl. 7          6 i) que se está diante de um erro material, em virtude de infração  direta ao art. 142 do CTN; e  j)  que  a  ilegitimidade  passiva  representa  vício  material,  e  não  meramente  formal,  com  a  possibilidade  de  eventual  correção  e  novo  lançamento  pela Autoridade Administrativa.  É o Relatório.  Esse foi o relatório do Conselheiro Marcos Aurélio Pereira Valadão.  Voto             Conselheiro Rafael Vidal de Araujo, Redator ad­hoc designado  Reproduzo  a  seguir  o  voto  proferido  pelo Conselheiro Dr. Marcos Aurélio  Pereira Valadão:  O  recurso  é  tempestivo,  entendo  que  a  divergência  restou  comprovada e, por isso, conheço do especial.  A matéria posta à apreciação desta Câmara Superior refere­se aos  efeitos processuais da indicação, no auto de infração, do nome da empresa sucedida  por incorporação, ou seja, se tal fato corresponderia a mera irregularidade, a vício  formal ou a vício material.  Entendo que, no presente caso, não houve, propriamente, “erro na  identificação do sujeito passivo da obrigação tributária”. Extinto ou não, o sujeito  passivo (contribuinte) foi devidamente identificado.  Na  verdade,  ocorreu  apenas  “erro  na  qualificação  do  autuado”  (art.  10,  inciso  I,  do  Decreto  nº  70.235,  de  6  de  março  de  1972  –  Processo  Administrativo  Fiscal  ­  PAF),  que  deveria  ter  sido  descrito  como  “sucedido  por  incorporação”, e não o foi.  Ou  seja,  está  correto  o  critério  pessoal  da  regra­matriz  de  incidência;  apenas  deixou­se,  por  um  lapso,  de  indicar  que,  na  hipótese,  teria  ocorrido a figura da responsabilidade por sucessão (incorporação).  Evidentemente  que,  se  tivesse  constado  do  auto  de  infração  a  expressão “sucedida por”, “incorporada por” ou “sucedida por  incorporação por”,  nenhuma arguição de nulidade (vício formal ou material) seria feita contra aquele  lançamento.  A própria decisão recorrida reconhece esse fato, ao afirmar que:  Acrescente­se que não haveria problema se a fiscalização houvesse, no  encerramento  da  ação  fiscal,  fixado  a  responsabilidade  da  incorporadora, mesmo indicando como sujeito passivo a incorporada.  Tal acusação estaria devidamente formalizada, contra a qual poderia o  sujeito passivo indireto apresentar contrarrazões.  Fl. 1069DF CARF MF Processo nº 12898.000809/2009­18  Acórdão n.º 9101­002.756  CSRF­T1  Fl. 8          7 Portanto  —  reitere­se  —,  não  houve,  propriamente,  “erro  na  identificação  do  sujeito  passivo  da  obrigação  tributária”  (contribuinte),  mas,  apenas, “erro na qualificação do autuado” (art. 10, inciso I, do PAF).  Nesse sentido, menciono a Solução de Consulta  Interna Cosit nº  8, de 8 de março de 2013, assim ementada:   NORMAS  GERAIS  DE  DIREITO  TRIBUTÁRIO  LANÇAMENTO  TRIBUTÁRIO.  ANULAÇÃO.  ERRO  NA  IDENTIFICAÇÃO  DO  SUJEITO PASSIVO. VÍCIO FORMAL OU MATERIAL.  Mera  irregularidade  na  identificação  do  sujeito  passivo  que  não  prejudique  o  exercício  do  contraditório  não  gera  nulidade  do  ato  de  lançamento.  [...].  Dessa SCI, extraio o seguinte trecho (grifei):  6. A primeira situação é a inexistência de nulidade ou anulabilidade do  lançamento por algum equívoco na identificação do sujeito passivo.  6.1.  O  art.  59  do  PAF  determina  serem  nulos  os  atos  lavrados  por  autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Já o  art. 60 dispõe que meras irregularidades,  incorreções e omissões não  importarão em nulidades, mormente quando não influírem na solução  do litígio.  6.2.  A  questão  é  definir  o  que  são  esses  atos meramente  irregulares.  Utiliza­se o conceito de Celso Antônio Bandeira de Mello:  Atos irregulares são aqueles padecentes de vícios materiais irrelevantes,  reconhecíveis  de  plano,  ou  incursos  em  formalização  defeituosa  consistente em transgressão de normas cujo real alcance é meramente o  de  impor  a  padronização  interna  dos  instrumentos  pelos  quais  se  veiculam os atos administrativos. (in Curso de Direito Administrativo,  29ª ed., p. 478)  6.3.  Não  há  nulidade  sem  prejuízo  da  parte.  No  caso  de  erro  na  identificação do sujeito passivo que não macule o seu direito de defesa  nem  o  normal  andamento  do  processo  administrativo  fiscal,  não  há  necessidade de se proceder a um novo lançamento. Conforme Leandro  Paulsen:  Não  há  requisitos  de  forma  que  impliquem  nulidade  de  modo  automático  e  objetivo.  A  nulidade  não  decorre  propriamente  do  descumprimento  do  requisito  formal,  mas  dos  seus  efeitos  comprometedores do direito de defesa assegurado constitucionalmente  ao contribuinte já por força do art. 5º, LV, da Constituição Federal. Isso  porque  as  formalidades  se  justificam  como  garantidoras  da  defesa  do  contribuinte; não são um fim, em si mesmas, mas um instrumento para  assegurar o exercício da ampla defesa.  Alegada  eventual  irregularidade,  cabe  à  autoridade  administrativa  ou  judicial  verificar,  pois,  se  tal  implicou  efetivo  prejuízo  à  defesa  do  contribuinte.  Daí  falar­se  do  princípio  da  informalidade  do  processo  Fl. 1070DF CARF MF Processo nº 12898.000809/2009­18  Acórdão n.º 9101­002.756  CSRF­T1  Fl. 9          8 administrativo. (PAULSEN, Leandro. Constituição e Código Tributário  à luz da doutrina e da jurisprudência. 13ª ed. Porto Alegre: Livraria do  Advogado, 2011)  6.4.  Citam­se  exemplos  (não  exaustivos)  de  irregularidades  que  não  ensejam nulidade ou anulabilidade do lançamento:  a)  erro  na  grafia  do  sujeito  passivo  ou  do  número  de  seu  CPF  ou  CNPJ, desde que ele esteja perfeitamente identificável.  b)  efetuação  de  lançamento  contra  pessoa  jurídica  que  tenha  sido  incorporada  ou  fundida  em  outra  pessoa  jurídica,  mas  cuja  identificação é possível.  c)  lançamento  em  que  esteja  incluído  o  nome  de  solteiro  contra  o  autuado atualmente com o sobrenome do cônjuge.  Assim,  somente  haveria  —  rigorosamente  falando  —  “erro  na  identificação  do  sujeito  passivo  da  obrigação  tributária”  se  houvesse  sido  feito  lançamento contra a sucedida,  relativo a  fatos geradores ocorridos posteriormente  ao ato de sucessão.  Se os fatos geradores são — como no presente caso — anteriores  a  essa  sucessão,  não  se  pode  ter  como ocorrido  “erro  na  identificação  do  sujeito  passivo  da  obrigação  tributária”,  mas  simples  imprecisão  na  sua  caracterização,  imprecisão,  essa,  que  nenhum  prejuízo  trouxe  a  qualquer  das  partes  da  relação  jurídico­tributária (princípio do pas de nullité sans grief).  Ora,  da  mesma  forma  que  não  se  cancelaria  um  lançamento  unicamente  porque  o  fiscal  autuante  teria  indicado  o  sujeito  passivo  com  a  terminação “Ltda.” em vez de “S.A.”, ou vice­versa, também não se pode cancelar  o  lançamento  apenas  porque  deixou,  aquela mesma  autoridade  administrativa,  de  indicar  que  o  “contribuinte”  fora  sucedido  por  incorporação  por  outra  empresa,  considerada, em decorrência desse evento, como “responsável tributário”.  Cumpre  destacar,  aliás,  que  “sucessão”  não  é  o  mesmo  que  “substituição”. O que ocorre, no caso, é uma operação de “sucessão”, de um sujeito  passivo por outro; não de “substituição”, daquele por este (o que se denominaria de  “substituição  tributária”).  Não  há,  pois,  exigência  de  modificação  do  sujeito  passivo (“contribuinte”) da relação jurídico­tributária; há, na realidade, necessidade  de mera complementação, pela referência, também, ao “responsável tributário”.   Ilustrando  o  que  se  disse,  menciono,  a  respeito  a  seguinte  jurisprudência do TRF3:  EMBARGOS À EXECUÇÃO ­ JUÍZO DE RETRATAÇÃO ­ RECURSO  REPETITIVO  ­  IPTU  ­  INAPLICABILIDADE  DA  IMUNIDADE  TRIBUTÁRIA  RECÍPROCA  À  RESPONSABILIDADE  TRIBUTÁRIA  POR SUCESSÃO ­ REC. EXT. 599.176, DO C. STF ­ CDA ­ CERTEZA  E  LIQUIDEZ  ­  EXECUÇÃO  FISCAL  CONTRA  A  FAZENDA  PÚBLICA.  POSSIBILIDADE  ­  ADAPTAÇÃO DO  RITO  ­  ENTREGA  DA  GUIA  DE  RECOLHIMENTO  AO  CONTRIBUINTE  ­  NOTIFICAÇÃO  PRESUMIDA  ­  PRESCRIÇÃO  E  DECADÊNCIA  –  INOCORRÊNCIA.  Fl. 1071DF CARF MF Processo nº 12898.000809/2009­18  Acórdão n.º 9101­002.756  CSRF­T1  Fl. 10          9  [...].   4. Referente à alegação de nulidade da CDA por erro na identificação  do  sujeito  passivo,  esta  há  de  ser  igualmente  afastada,  porquanto  a  União, que sucedeu a RFFSA, que, por  sua vez,  resultou da  fusão de  várias empresas ferroviárias, dentre elas a executada (fl. 76), não teve  prejudicada  sua  defesa. Outrossim,  o  fato  de  ter  constado  na CDA a  Estrada de Ferro Santos a  Jundiaí como devedora, considera­se  erro  meramente formal, não comprometendo a CDA. [...].  (AC  00141052920104036105,  DESEMBARGADOR  FEDERAL  MAIRAN MAIA, TRF3 ­ SEXTA TURMA, e­DJF3 Judicial 1 DATA:  19/06/2015)   DIREITO  PROCESSUAL  CIVIL.  AGRAVO  INOMINADO.  EMBARGOS À EXECUÇÃO FISCAL. NULIDADES E EXCESSO DE  EXECUÇÃO.  JUROS MORATÓRIOS. NOVO CÓDIGO CIVIL E LEI  11.960/2009. PROVIMENTO PARCIAL.  [....].   2. A certidão de dívida ativa contém todos requisitos  formais exigidos  pela legislação, estando apta a fornecer as informações necessárias à  defesa  do  executado  que,  concretamente,  foi  exercida  com  ampla  discussão  da  matéria  versada  na  execução.  Afastada  a  alegação  de  nulidade da CDA por erro na  identificação do sujeito passivo, pois a  União, que sucedeu a RFFSA, que, por sua vez, incorporou a FEPASA,  não  teve  prejudicada  sua  defesa  e,  por  outro  lado,  sendo  erro  meramente formal, não comprometeu a CDA. [...].   (AC  00013088820104036115,  DESEMBARGADOR  FEDERAL  CARLOS  MUTA,  TRF3  ­  TERCEIRA  TURMA,  e­DJF3  Judicial  1  DATA: 24/08/2012)  No mesmo  sentido de que, não  sendo prejudicada  a defesa,  não  há que se acolher a arguição de nulidade do lançamento por “erro na identificação  do  sujeito  passivo  da  obrigação  tributária”,  recordo  caso  similar,  julgado  contrariamente  à  empresa  sucessora  por  incorporação,  tanto  no  STJ  quanto,  em  seguida, no STF, nos recursos especial e extraordinário por ela interpostos:  PROCESSUAL  E  TRIBUTÁRIO  ­  IMPRECISÃO  NA  CARACTERIZAÇÃO  DO  SUJEITO  PASSIVO  ­  ASSINATURA  DE  TERMO  DE  SUJEIÇÃO  PASSIVA  ­  INTIMAÇÃO  ­  PROCESSO  ADMINISTRATIVO FISCAL ­ FORMALIDADE ­  INEXISTÊNCIA DE  NULIDADE  SEM  PREJUÍZO  ­  IMPUGNAÇÃO  ­  PRINCÍPIO  DA  EVENTUALIDADE  ­  VENIRE  CONTRA  FACTUM  PROPRIUM  ­  AUSÊNCIA DE COTEJO ANALÍTICO  ­  AUSÊNCIA DE VIOLAÇÃO  AO ART. 535 DO CPC.  1.  Hipótese  em  que,  ao  longo  do  processo  administrativo  fiscal,  a  recorrente foi caracterizada ora como contribuinte solidária, ora como  responsável  solidária,  não  tendo  sido  mencionada  expressamente  no  auto  de  infração,  embora  tenha  assinado  Termo  de  Sujeição Passiva  Solidária.  Fl. 1072DF CARF MF Processo nº 12898.000809/2009­18  Acórdão n.º 9101­002.756  CSRF­T1  Fl. 11          10 2. Não obstante a inconsistência na qualificação específica da empresa  em momentos  distintos  (contribuinte/responsável),  o  auto  de  infração  determinou a intimação tanto do contribuinte quanto do responsável, o  que é suficiente para suprir a exigência de que o sujeito passivo tenha  ciência do ato administrativo.  3.  A  formalidade  é  característica  do  processo  administrativo  fiscal,  mas não há nulidade sem que tenha havido prejuízo, o qual, no caso,  consistiria na supressão da oportunidade de apresentar impugnação. E  o prejuízo foi afastado exatamente pela apresentação da impugnação.  4.  Não  é  relevante  a  ausência  de  considerações  sobre  o  lançamento  tributário  na  impugnação,  pois  a  abrangência  da  defesa  deduzida  é  determinada  pela  impugnante.  Incide  no  processo  administrativo  o  princípio da eventualidade. Se não observado, impossibilita seja dada  à  impugnante outra oportunidade para sanar dificuldade  imposta por  sua própria conduta (venire contra factum proprium).  [...].  7.  Recurso  especial  parcialmente  conhecido  e,  nessa  parte,  não  provido.  (REsp  949.959/PR,  Rel.  Ministra  ELIANA  CALMON,  SEGUNDA  TURMA, julgado em 10/11/2009, DJe 19/11/2009)  [...].  AGRAVO  REGIMENTAL.  TRIBUTÁRIO.  RESPONSABILIDADE  TRIBUTÁRIA.  AUSÊNCIA  DE  CORRETA  CARACTERIZAÇÃO  JURÍDICA POR ERRO DA AUTORIDADE FISCAL. VIOLAÇÃO DO  CONTRADITÓRIO, DA AMPLA DEFESA E DO DEVIDO PROCESSO  LEGAL. INEXISTÊNCIA NO CASO CONCRETO.   Os  princípios  do  contraditório  e  da  ampla  defesa  aplicam­se  plenamente  à  constituição  do  crédito  tributário  em  desfavor  de  qualquer espécie de sujeito passivo, irrelevante sua nomenclatura legal  (contribuintes, responsáveis, substitutos, devedores solidários etc).   Porém, no caso em exame, houve oportunidade de impugnação integral  da  constituição  do  crédito  tributário,  não  obstante  os  lapsos  de  linguagem da autoridade fiscal.   [...].   Agravo regimental ao qual se nega provimento.  (RE  608426  AgR,  Relator(a): Min.  JOAQUIM BARBOSA,  Segunda  Turma,  julgado  em  04/10/2011,  DJe­204  DIVULG  21­10­2011  PUBLIC 24­10­2011 EMENT VOL­02613­02 PP­00356 RT v. 101, n.  917, 2012, p. 629­633)  Do  exposto,  voto  por  dar  provimento  ao  recurso  especial  da  Fazenda  Nacional,  devendo  o  processo  retornar  ao  órgão  julgador  de  primeira  instância, para apreciação do mérito do litígio.   (documento assinado digitalmente)  Fl. 1073DF CARF MF Processo nº 12898.000809/2009­18  Acórdão n.º 9101­002.756  CSRF­T1  Fl. 12          11 Marcos Aurélio Pereira Valadão – Relator  Esse foi o voto do relator Conselheiro Marcos Aurélio Pereira Valadão.  Com  base  nessas  judiciosas  considerações,  que  acompanhei,  decidiu  o  colegiado dar provimento ao recurso especial da Fazenda Nacional como proposto pelo douto  relator.  (documento assinado digitalmente)  Rafael Vidal de Araujo – Conselheiro designado Redator ad­hoc                                     Fl. 1074DF CARF MF

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Numero do processo: 11444.000387/2008-67
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Mon Dec 12 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Wed Feb 08 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2005 a 31/05/2006 APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo. Recurso Especial do Procurador Provido.
Numero da decisão: 9202-004.894
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em dar-lhe provimento. Votou pelas conclusões a conselheira Patrícia da Silva. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Presidente em exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Gerson Macedo Guerra e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri.
Nome do relator: LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS

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9202­004.894  –  2ª Turma   Sessão de  12 de dezembro de 2016  Matéria  RETROATIVIDADE BENIGNA, NATUREZA DA MULTA NOS  LANÇAMENTOS PREVIDENCIÁRIOS ANTERIORES A MP 449/2008,  CONVERTIDA NA LEI 11.941/2009  Recorrente  FAZENDA NACIONAL  Interessado  J.E.G.M. ZIMMER REFEICOES ­ ME    ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS  Período de apuração: 01/01/2005 a 31/05/2006  APLICAÇÃO  DE  PENALIDADE.  PRINCÍPIO  DA  RETROATIVIDADE  BENIGNA.  LEI  Nº  8.212/1991,  COM  A  REDAÇÃO  DADA  PELA  MP  449/2008,  CONVERTIDA  NA  LEI  Nº  11.941/2009.  PORTARIA  PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009.   Na aferição  acerca  da  aplicabilidade  da  retroatividade  benigna,  não  basta  a  verificação  da  denominação  atribuída  à  penalidade,  tampouco  a  simples  comparação  entre dispositivos,  percentuais  e  limites. É necessário,  antes  de  tudo,  que  as  penalidades  sopesadas  tenham  a  mesma  natureza  material,  portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta.  O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria  PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito  passivo.  Recurso Especial do Procurador Provido.      Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.  Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer  do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito,  em dar­lhe provimento. Votou pelas  conclusões a conselheira Patrícia da Silva.     AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 44 4. 00 03 87 /2 00 8- 67 Fl. 151DF CARF MF Processo nº 11444.000387/2008­67  Acórdão n.º 9202­004.894  CSRF­T2  Fl. 0          2   (assinado digitalmente)  Luiz Eduardo de Oliveira Santos ­ Presidente em exercício e Relator  Participaram  da  sessão  de  julgamento  os  Conselheiros  Luiz  Eduardo  de  Oliveira  Santos  (Presidente  em  exercício),  Maria  Helena  Cotta  Cardozo,  Patrícia  da  Silva,  Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior,  Gerson Macedo Guerra e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri.  Relatório  O presente recurso foi objeto de julgamento na sistemática prevista no art. 47, §§ 1º  e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, adoto o  relatório objeto do processo paradigma deste julgamento, n° 10380.005876/2007­53.  A divergência em exame reporta­se à aplicação do princípio da  retroatividade  benigna  previsto  no  artigo  106,  inciso  II,  alínea  “c”,  do  CTN,  em  face  das  penalidades  aplicadas  às  contribuições  previdenciárias,  previstas  na  Lei  nº  8.212/1991,  com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na  Lei nº 11.941/2009.  A Fazenda Nacional interpôs recurso especial requerendo que a  retroatividade  benigna  fosse  aplicada,  essencialmente,  pelos  critérios  constantes  na  Portaria  PGFN/RFB  nº  14  de  04  de  dezembro de 2009.   Cientificado, o sujeito passivo não apresentou contrarrazões.  É o relatório.  Voto             Conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos ­ Relator  Este  processo  foi  julgado  na  sistemática  dos  recursos  repetitivos,  regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de  junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplica­se o decidido no Acórdão 9202­004.792, de  12/12/2016, proferido no julgamento do processo 10380.005876/2007­53, paradigma ao qual o  presente processo foi vinculado.  Transcreve­se,  como  solução  deste  litígio  nos  termos  regimentais,  o  inteiro  teor do voto proferido naquela decisão (Acórdão 9202­004.792):  O  Recurso  Especial  interposto  pela  Fazenda  Nacional  é  tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade,  portanto deve ser conhecido.  Fl. 152DF CARF MF Processo nº 11444.000387/2008­67  Acórdão n.º 9202­004.894  CSRF­T2  Fl. 0          3 Cinge­se  a  controvérsia  às  penalidades  aplicadas  às  contribuições  previdenciárias,  previstas  na  Lei  nº  8.212/1991,  com as alterações promovidas pela MP nº 449/2008, convertida  na Lei nº 11.941/2009, quando mais benéfica ao sujeito passivo.  A solução do litígio decorre do disposto no artigo 106, inciso II,  alínea “a” do CTN, a seguir transcrito:  Art. 106. A lei aplica­se a ato ou fato pretérito:  I  ­  em  qualquer  caso,  quando  seja  expressamente  interpretativa,  excluída  a  aplicação  de  penalidade  à  infração dos dispositivos interpretados;   II ­ tratando­se de ato não definitivamente julgado:  a) quando deixe de defini­lo como infração;  b)  quando  deixe  de  tratá­lo  como  contrário  a  qualquer  exigência de ação ou omissão, desde que não  tenha  sido  fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento  de tributo;  c)  quando  lhe  comine  penalidade  menos  severa  que  a  prevista  na  lei  vigente  ao  tempo  da  sua  prática.  (grifos  acrescidos)  De inicio, cumpre registrar que a Câmara Superior de Recursos  Fiscais (CSRF), de forma unânime pacificou o entendimento de  que  na  aferição  acerca  da  aplicabilidade  da  retroatividade  benigna,  não  basta  a  verificação  da  denominação  atribuída  à  penalidade,  tampouco a  simples comparação entre dispositivos,  percentuais  e  limites.  É  necessário,  basicamente,  que  as  penalidades  sopesadas  tenham  a  mesma  natureza  material,  portanto  sejam  aplicáveis  ao mesmo  tipo  de  conduta.  Assim,  a  multa de mora prevista no art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, não é  aplicável  quando  realizado  o  lançamento  de  ofício,  conforme  consta do Acórdão nº 9202­004.262  (Sessão de 23 de  junho de  2016), cuja ementa transcreve­se:  AUTO  DE  INFRAÇÃO  ­  OBRIGAÇÃO  ACESSÓRIA  ­  MULTA  ­  APLICAÇÃO NOS LIMITES DA  LEI  8.212/91  C/C  LEI  11.941/08  ­  APLICAÇÃO  DA  MULTA  MAIS  FAVORÁVEL  ­  RETROATIVIDADE  BENIGNA  NATUREZA DA MULTA APLICADA.  A  multa  nos  casos  em  que  há  lançamento  de  obrigação  principal lavrados após a MP 449/2008, convertida na lei  11.941/2009,  mesmo  que  referente  a  fatos  geradores  anteriores a publicação da referida lei, é de ofício.  AUTO DE  INFRAÇÃO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL E  ACESSÓRIA  ­  COMPARATIVO  DE  MULTAS  ­  APLICAÇÃO  DE  PENALIDADE.  RETROATIVIDADE  BENIGNA.  Fl. 153DF CARF MF Processo nº 11444.000387/2008­67  Acórdão n.º 9202­004.894  CSRF­T2  Fl. 0          4 Na  aferição  acerca  da  aplicabilidade  da  retroatividade  benigna,  não  basta  a  verificação  da  denominação  atribuída  à  penalidade,  tampouco  a  simples  comparação  entre percentuais e limites. É necessário, basicamente, que  as  penalidades  sopesadas  tenham  a  mesma  natureza  material,  portanto  sejam  aplicáveis  ao  mesmo  tipo  de  conduta. Se as multas por descumprimento de obrigações  acessória e principal foram exigidas em procedimentos de  ofício,  ainda  que  em  separado,  incabível  a  aplicação  retroativa  do art.  32­A,  da Lei  nº  8.212,  de 1991,  com a  redação  dada  pela  Lei  nº  11.941,  de  2009,  eis  que  esta  última  estabeleceu,  em  seu  art.  35­A,  penalidade  única  combinando as duas condutas.  A legislação vigente anteriormente à Medida Provisória n° 449,  de  2008,  determinava,  para  a  situação  em  que  ocorresse  (a)  recolhimento insuficiente do tributo e (b) falta de declaração da  verba tributável em GFIP, a constituição do crédito tributário de  ofício, acrescido das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o,  ambos  da  Lei  n°  8.212,  de  1991,  respectivamente.  Posteriormente,  foi  determinada,  para  essa  mesma  situação  (falta de pagamento e de declaração), apenas a aplicação do art.  35­A da Lei n° 8.212, de 1991, que faz remissão ao art. 44 da Lei  n° 9.430, de 1996.  Portanto,  para  aplicação  da  retroatividade  benigna,  resta  necessário  comparar  (a)  o  somatório  das  multas  previstas  nos  arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, e (b) a  multa prevista no art. 35­A da Lei n° 8.212, de 1991.   A  comparação  de  que  trata  o  item  anterior  tem  por  fim  a  aplicação da retroatividade benigna prevista no art. 106 do CTN  e,  caso  necessário,  a  retificação  dos  valores  no  sistema  de  cobrança, a fim de que, em cada competência, o valor da multa  aplicada no AIOA somado com a multa aplicada na NFLD/AIOP  não  exceda  o  percentual  de  75%.  Prosseguindo  na  análise  do  tema,  também  é  entendimento  pacífico  deste  Colegiado  que  na  hipótese  de  lançamento  apenas  de  obrigação  principal,  a  retroatividade  benigna  será  aplicada  se,  na  liquidação  do  acórdão, a penalidade anterior à vigência da MP 449, de 2008,  ultrapassar  a  multa  do  art.  35­A  da  Lei  n°  8.212/91,  correspondente aos 75% previstos no art. 44 da Lei n° 9.430/96.  Caso  as  multas  previstas  nos  §§  4º  e  5º  do  art.  32  da  Lei  nº  8.212,  de  1991,  em  sua  redação  anterior  à  dada  pela MP  449  (convertida  na  Lei  11.941,  de  2009),  tenham  sido  aplicadas  isoladamente  ­  descumprimento  de  obrigação  acessória  sem  a  imposição  de  penalidade  pecuniária  pelo  descumprimento  de  obrigação  principal  ­  deverão  ser  comparadas  com  as  penalidades previstas no art. 32­A da Lei nº 8.212, de 1991, bem  assim  no  caso  de  competências  em  que  o  lançamento  da  obrigação principal  tenha sido atingida pela decadência. Neste  sentido,  transcreve­se  excerto  do  voto  unânime  proferido  no  Acórdão nº 9202­004.499 (Sessão de 29 de setembro de 2016):  Fl. 154DF CARF MF Processo nº 11444.000387/2008­67  Acórdão n.º 9202­004.894  CSRF­T2  Fl. 0          5 Até  a  edição  da  MP  449/2008,  quando  realizado  um  procedimento fiscal, em que se constatava a existência de  débitos  previdenciários,  lavrava­se  em  relação  ao  montante  da  contribuição  devida,  notificação  fiscal  de  lançamento de débito ­ NFLD. Caso constatado que, além  do montante devido, descumprira o contribuinte obrigação  acessória,  ou  seja,  obrigação  de  fazer,  como  no  caso  de  omissão em GFIP  (que  tem correlação direta com o  fato  gerador),  a  empresa  era  autuada  também  por  descumprimento de obrigação acessória.  Nessa época os dispositivos legais aplicáveis eram multa ­  art.  35  para  a  NFLD  (24%,  que  sofria  acréscimos  dependendo da fase processual do débito) e art. 32 (100%  da  contribuição  devida  em  caso  de  omissões  de  fatos  geradores  em  GFIP)  para  o  Auto  de  infração  de  obrigação acessória.  Contudo, a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009,  inseriu o art. 32­A, o qual dispõe o seguinte:  “Art.  32­A.  O  contribuinte  que  deixar  de  apresentar  a  declaração  de  que  trata  o  inciso  IV  do  caput  do  art.  32  desta  Lei  no  prazo  fixado  ou  que  a  apresentar  com  incorreções ou omissões será intimado a apresentá­la ou a  prestar  esclarecimentos  e  sujeitar­se­á  às  seguintes  multas:   I – de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez)  informações incorretas ou omitidas; e   II – de 2% (dois por cento) ao mês­calendário ou fração,  incidentes sobre o montante das contribuições informadas,  ainda  que  integralmente  pagas,  no  caso  de  falta  de  entrega da declaração ou entrega após o prazo, limitada a  20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3o deste  artigo.   § 1o Para efeito de aplicação da multa prevista no inciso  II  do  caput  deste  artigo,  será  considerado  como  termo  inicial  o  dia  seguinte  ao  término  do  prazo  fixado  para  entrega  da  declaração  e  como  termo  final  a  data  da  efetiva  entrega  ou,  no  caso  de  não­apresentação,  a  data  da  lavratura  do  auto  de  infração  ou  da  notificação  de  lançamento.   § 2o Observado o disposto no § 3o deste artigo, as multas  serão reduzidas:   I – à metade, quando a declaração for apresentada após o  prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício; ou   II  –  a  75%  (setenta  e  cinco  por  cento),  se  houver  apresentação  da  declaração  no  prazo  fixado  em  intimação.   Fl. 155DF CARF MF Processo nº 11444.000387/2008­67  Acórdão n.º 9202­004.894  CSRF­T2  Fl. 0          6 § 3o A multa mínima a ser aplicada será de:   I – R$ 200,00 (duzentos reais), tratando­se de omissão de  declaração  sem  ocorrência  de  fatos  geradores  de  contribuição previdenciária; e   II – R$ 500,00 (quinhentos reais), nos demais casos.”   Entretanto,  a  MP  449,  Lei  11.941/2009,  também  acrescentou o art. 35­A que dispõe o seguinte,   “Art. 35­A. Nos casos de lançamento de ofício relativos às  contribuições  referidas  no  art.  35  desta  Lei,  aplica­se  o  disposto no art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de  1996.”   O inciso I do art. 44 da Lei 9.430/96, por sua vez, dispõe o  seguinte:  “Art.  44.  Nos  casos  de  lançamento  de  ofício,  serão  aplicadas as seguintes multas:  I ­ de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a  totalidade  ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta  de  pagamento  ou  recolhimento,  de  falta  de  declaração  e  nos de declaração inexata “  Com  a  alteração  acima,  em  caso  de  atraso,  cujo  recolhimento  não  ocorrer  de  forma  espontânea  pelo  contribuinte,  levando ao  lançamento de ofício,  a multa a  ser  aplicada  passa  a  ser  a  estabelecida  no  dispositivo  acima  citado,  ou  seja,  em  havendo  lançamento  da  obrigação principal  (a antiga NFLD), aplica­se multa de  ofício  no  patamar  de  75%.  Essa  conclusão  leva­nos  ao  raciocínio  que  a  natureza  da  multa,  sempre  que  existe  lançamento,  refere­se a multa de ofício e não a multa de  mora referida no antigo art. 35 da lei 8212/91.  Contudo,  mesmo  que  consideremos  que  a  natureza  da  multa  é  de  "multa  de  ofício"  não  podemos  isoladamente  aplicar  75%  para  as  Notificações  Fiscais  ­  NFLD  ou  Autos  de  Infração  de  Obrigação  Principal  ­  AIOP,  pois  estaríamos  na  verdade  retroagindo  para  agravar  a  penalidade aplicada.  Por outro lado, com base nas alterações  legislativas não  mais  caberia,  nos  patamares  anteriormente  existentes,  aplicação  de  NFLD  +  AIOA  (Auto  de  Infração  de  Obrigação Acessória) cumulativamente, pois em existindo  lançamento de ofício a multa passa a  ser  exclusivamente  de 75%.  Tendo  identificado  que  a  natureza  da multa,  sempre  que  há  lançamento,  é  de  multa  de  ofício,  considerando  o  princípio  da  retroatividade  benigna  previsto  no  art.  106.  inciso  II,  alínea “c”,  do Código Tributário Nacional,  há  Fl. 156DF CARF MF Processo nº 11444.000387/2008­67  Acórdão n.º 9202­004.894  CSRF­T2  Fl. 0          7 que  se  verificar  a  situação  mais  favorável  ao  sujeito  passivo, face às alterações trazidas.  No  presente  caso,  foi  lavrado  AIOA  julgada,  e  alvo  do  presente  recurso  especial,  prevaleceu  o  valor  de  multa  aplicado nos moldes do art. 32­A.  No  caso  da  ausência  de  informação  em GFIP,  conforme  descrito no relatório a multa aplicada ocorreu nos termos  do art.  32,  inciso  IV, § 5º,  da Lei nº 8.212/1991  também  revogado, o qual previa uma multa no valor de 100% (cem  por  cento)  da  contribuição  não  declarada,  limitada  aos  limites previstos no § 4º do mesmo artigo.  Face  essas  considerações  para  efeitos  da  apuração  da  situação mais  favorável,  entendo que há que  se observar  qual  das  seguintes  situações  resulta  mais  favorável  ao  contribuinte:  ·  Norma  anterior,  pela  soma  da  multa  aplicada  nos  moldes do art.  35,  inciso  II  com a multa prevista no art.  32,  inciso IV, § 5º, observada a  limitação imposta pelo §  4º do mesmo artigo, ou   · Norma atual, pela aplicação da multa de setenta e cinco  por cento sobre os valores não declarados, sem qualquer  limitação,  excluído  o  valor  de  multa  mantido  na  notificação.  Levando  em  consideração  a  legislação mais  benéfica  ao  contribuinte,  conforme  dispõe  o  art.  106  do  Código  Tributário  Nacional  (CTN),  o  órgão  responsável  pela  execução do acórdão deve, quando do trânsito em julgado  administrativo,  efetuar  o  cálculo  da  multa,  em  cada  competência, somando o valor da multa aplicada no AI de  obrigação  acessória  com  a  multa  aplicada  na  NFLD/AIOP, que não pode exceder o percentual de 75%,  previsto  no  art.  44,  I  da  Lei  n°  9.430/1996.  Da  mesma  forma,  no  lançamento  apenas  de  obrigação  principal  o  valor das multa de ofício não pode exceder 75%. No AI de  obrigação acessória, isoladamente, o percentual não pode  exceder  as  penalidades  previstas  no  art.  32A  da  Lei  nº  8.212, de 1991.  Observe­se  que,  no  caso  de  competências  em  que  a  obrigação  principal  tenha  sido  atingida  pela  decadência  (pela antecipação do pagamento nos termos do art. 150, §  4º,  do  CTN),  subsiste  a  obrigação  acessória,  isoladamente,  relativa  às  mesmas  competências,  não  atingidas pela decadência posto que regidas pelo art. 173,  I,  do  CTN,  e  que,  portanto,  deve  ter  sua  penalidade  limitada ao valor previsto no artigo 32­A da Lei nº 8.212,  de 1991.  Fl. 157DF CARF MF Processo nº 11444.000387/2008­67  Acórdão n.º 9202­004.894  CSRF­T2  Fl. 0          8 Cumpre  ressaltar  que  o  entendimento  acima  está  em  consonância  com  o  que  dispõe  a  Instrução  Normativa  RFB  nº  971,  de  13  de  novembro  de  2009,  alterada  pela  Instrução  Normativa  RFB  nº  1.027  em  22/04/2010,  e  no  mesmo diapasão do que estabelece a Portaria PGFN/RFB  nº 14 de 04 de dezembro de 2009, que contempla tanto os  lançamentos de obrigação principal quanto de obrigação  acessória, em conjunto ou isoladamente.  Neste passo, para os fatos geradores ocorridos até 03/12/2008, a  autoridade  responsável  pela  execução  do  acórdão,  quando  do  trânsito  em  julgado administrativo,  deverá  observar a Portaria  PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 ­ que se reporta à  aplicação  do  princípio  da  retroatividade  benigna  previsto  no  artigo  106,  inciso  II,  alínea  “c”,  do  CTN,  em  face  das  penalidades  aplicadas  às  contribuições  previdenciárias  nos  lançamentos  de  obrigação  principal  e  de  obrigação  acessória,  em  conjunto  ou  isoladamente,  previstas  na  Lei  nº  8.212/1991,  com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na  Lei nº 11.941/2009. De fato, as disposições da referida Portaria,  a seguir transcritas, estão em consonância com a jurisprudência  unânime desta 2ª Turma da CSRF sobre o tema:  Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009  Art. 1º A aplicação do disposto nos arts. 35 e 35­A da Lei  nº 8.212, de 24 de julho de 1991, com a redação dada pela  Lei  nº  11.941,  de  27  de maio  de  2009,  às  prestações  de  parcelamento  e  aos  demais  débitos  não  pagos  até  3  de  dezembro  de  2008,  inscritos  ou  não  em  Dívida  Ativa,  cobrados por meio de processo ainda não definitivamente  julgado, observará o disposto nesta Portaria.  Art. 2º No momento do pagamento ou do parcelamento do  débito pelo contribuinte, o valor das multas aplicadas será  analisado  e  os  lançamentos,  se  necessário,  serão  retificados,  para  fins  de  aplicação  da  penalidade  mais  benéfica, nos termos da alínea "c" do inciso II do art. 106  da  Lei  nº  5.172,  de  25  de  outubro  de  1966  ­  Código  Tributário Nacional (CTN).  § 1º Caso não haja pagamento ou parcelamento do débito,  a  análise  do  valor  das  multas  referidas  no  caput  será  realizada no momento do ajuizamento da execução  fiscal  pela Procuradoria­Geral da Fazenda Nacional (PGFN).  §  2º  A  análise  a  que  se  refere  o  caput  dar­se­á  por  competência.  §  3º  A  aplicação  da  penalidade mais  benéfica  na  forma  deste artigo dar­se­á:  I  ­  mediante  requerimento  do  sujeito  passivo,  dirigido  à  autoridade  administrativa  competente,  informando  e  comprovando que se subsume à mencionada hipótese; ou  Fl. 158DF CARF MF Processo nº 11444.000387/2008­67  Acórdão n.º 9202­004.894  CSRF­T2  Fl. 0          9 II  ­  de  ofício,  quando  verificada  pela  autoridade  administrativa a possibilidade de aplicação.  § 4º Se o processo encontrar­se em trâmite no contencioso  administrativo  de  primeira  instância,  a  autoridade  julgadora  fará  constar  de  sua  decisão  que  a  análise  do  valor das multas para verificação e aplicação daquela que  for mais benéfica, se cabível,  será realizada no momento  do pagamento ou do parcelamento.  Art.  3º  A  análise  da  penalidade mais  benéfica,  a  que  se  refere  esta  Portaria,  será  realizada  pela  comparação  entre  a  soma  dos  valores  das  multas  aplicadas  nos  lançamentos por descumprimento de obrigação principal,  conforme  o art.  35  da  Lei  nº  8.212,  de  1991,  em  sua  redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e de  obrigações acessórias,  conforme §§ 4º  e 5º do art.  32 da  Lei  nº  8.212,  de  1991,  em  sua  redação  anterior  à  dada  pela Lei nº 11.941, de 2009, e da multa de ofício calculada  na forma do art. 35­A da Lei nº 8.212, de 1991, acrescido  pela Lei nº 11.941, de 2009.  § 1º Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da  Lei  nº  8.212,  de  1991,  em  sua  redação  anterior  à  dada  pela Lei  nº  11.941,  de  2009,  tenham  sido  aplicadas  isoladamente,  sem a  imposição de penalidade pecuniária  pelo descumprimento de obrigação principal, deverão ser  comparadas com as penalidades previstas no art. 32­A da  Lei  nº  8.212,  de  1991,  com  a  redação  dada  pela Lei  nº  11.941, de 2009.  § 2º A comparação na forma do caput deverá ser efetuada  em  relação  aos  processos  conexos,  devendo  ser  considerados,  inclusive,  os  débitos  pagos,  os  parcelados,  os não­impugnados, os inscritos em Dívida Ativa da União  e os ajuizados após a publicação da Medida Provisória nº  449, de 3 de dezembro de 2008.  Art. 4º O valor das multas aplicadas, na forma do art. 35  da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada  pela Lei  nº  11.941,  de  2009,  sobre  as  contribuições  devidas  a  terceiros,  assim  entendidas  outras  entidades  e  fundos,  deverá  ser  comparado  com o  valor das multa  de  ofício  previsto  no art.  35­A daquela  Lei,  acrescido  pela Lei nº 11.941, de 2009, e, caso resulte mais benéfico  ao sujeito passivo, será reduzido àquele patamar.  Art.  5º  Na  hipótese  de  ter  havido  lançamento  de  ofício  relativo  a  contribuições  declaradas  na  Guia  de  Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço  e  Informações  à  Previdência  Social  (GFIP),  a  multa  aplicada limitar­se­á àquela prevista no art. 35 da Lei nº  8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de  2009.  Fl. 159DF CARF MF Processo nº 11444.000387/2008­67  Acórdão n.º 9202­004.894  CSRF­T2  Fl. 0          10 Em  face  ao  exposto,  dou  provimento  ao  recurso  para  que  a  retroatividade  benigna  seja  aplicada  em  conformidade  com  a  Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009.  Em  face  do  acima  exposto,  voto  por  conhecer  do  Recurso  Especial  da  Fazenda  Nacional  e,  no  mérito,  dar­lhe  provimento,  para  que  a  retroatividade  benigna  seja  aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009.    (assinado digitalmente)  Luiz Eduardo de Oliveira Santos                              Fl. 160DF CARF MF

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6662887 #
Numero do processo: 10850.003252/2007-18
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Feb 21 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Mar 02 00:00:00 UTC 2017
Numero da decisão: 3402-000.875
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o presente julgamento em diligência, nos termos do relatório e voto que integram a presente Resolução. (assinado digitalmente) Antonio Carlos Atulim - Presidente. (assinado digitalmente) Carlos Augusto Daniel Neto - Relator. Participaram da sessão de julgamento os seguintes Conselheiros: Antônio Carlos Atulim (Presidente), Jorge Olmiro Lock Freire, Carlos Augusto Daniel Neto, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz e Waldir Navarro Bezerra.
Nome do relator: CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO

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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 2; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1658; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S3­C4T2  Fl. 2          1 1  S3­C4T2  MINISTÉRIO DA FAZENDA  CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS  TERCEIRA SEÇÃO DE JULGAMENTO    Processo nº  10850.003252/2007­18  Recurso nº            Voluntário  Resolução nº  3402­000.875  –  4ª Câmara / 2ª Turma Ordinária  Data  21 de fevereiro de 2017  Assunto  PER/DCOMP  Recorrente  DM MOTORS DO BRASIL LTDA  Recorrida  FAZENDA NACIONAL    Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.  Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o  presente  julgamento  em  diligência,  nos  termos  do  relatório  e  voto  que  integram  a  presente  Resolução.   (assinado digitalmente)  Antonio Carlos Atulim ­ Presidente.   (assinado digitalmente)  Carlos Augusto Daniel Neto ­ Relator.  Participaram da sessão de julgamento os seguintes Conselheiros: Antônio Carlos  Atulim  (Presidente),  Jorge  Olmiro  Lock  Freire,  Carlos  Augusto  Daniel  Neto,  Maysa  de  Sá  Pittondo Deligne, Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis  Galkowicz e Waldir Navarro Bezerra.    Trata­se  de  processo  administrativo  decorrente  de  manifestação  de  inconformidade interposta pelo contribuinte, por meio de seus representantes legais, em face de  Despacho Decisório eletrônico resultante da apreciação de Pedido de Restituição de fls.2 e ss.,  correspondente aos períodos e tributos lá discriminados.   A análise da liquidez e certeza do crédito pleiteado foi efetuada pela Delegacia  da  Receita  Federal  do  Brasil  em  São  José  do  Rio  Preto,  que  emitiu  Despacho  Decisório  eletrônico no qual a autoridade competente indeferiu o Pedido de Restituição, em virtude dos     RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 08 50 .0 03 25 2/ 20 07 -1 8 Fl. 242DF CARF MF Processo nº 10850.003252/2007­18  Resolução nº  3402­000.875  S3­C4T2  Fl. 3          2 pagamentos  localizados  terem  sido  integralmente  utilizados  para  quitação  de  débitos  da  contribuinte, não restando crédito disponível para restituição.  Inconformado, o contribuinte manifestou­se alegando, quanto ao mérito: i) falta  de aprofundamento na investigação dos fatos; ii) inconstitucionalidade do art. 3º, §1º da Lei nº  9.718/98 e advento de decisão do STF declarando­a sob a sistemática de Repercussão Geral, o  que  implicaria  em  novo  cálculo  dos  débitos,  com  a  base  de  cálculo  correta,  e  apuração  do  pagamento indevido.  A DRJ  julgou  improcedente  a  sua manifestação  de  inconformidade,  pelo  que  apresentou o Contribuinte Recurso Voluntário ao CARF, reiterando as razões de seu pleito.  É o relatório, em síntese.  O  presente  caso  é  recorrente  neste  Conselho,  visto  que  todos  aqueles  que  recolheram contribuições sociais ao PIS e a COFINS com a base de cálculo ampliada pelo §1º  do artigo 3º da Lei nº 9718/98 passaram a ingressar administrativamente, dentro do interregno  legal do direito à restituição, buscando reaver os valores pagos indevidamente.  O  contribuinte  junta  ao  seu  Recurso  Voluntário  planilhas  que  indicam  a  existência  de  receitas  financeiras  na  apuração  da  base  de  cálculo  das  contribuições  sociais,  indicando de forma perfunctória o direito pleiteado.  Assim sendo, entendo que o processo não está maduro para julgamento, cabendo  a realização de Diligência Fiscal para esclarecimento dos fatos que estão aqui sendo discutidos.  Desse modo, voto por converter o presente julgamento em diligência para:  I)  Que  a  DRF  intime  o  contribuinte  a  apresentar  os  livros  contábeis  e  a  documentação fiscal necessária à identificação da natureza das receitas que compuseram a base  de cálculo das contribuições sociais do período cuja restituição pleiteia o Recorrente.  II)  Após  o  recebimento  e  análise  da  documentação  a  ser  entregue  pelo  Recorrente, a autoridade fiscalizadora deverá elaborar relatório discriminando a parcela da base  de  cálculo  correspondente  às  receitas  excluídas  por  força  do  Recurso  Extraordinário  RE  585.235,  julgado  sob  sistemática  de  Repercussão  Geral,  calculando  o  valor  do  tributo  correspondente.  III) Elaborado o relatório, deve­se dar ciência ao contribuinte para manifestação  sobre  o  teor  do  relatório  da  diligência,  retornando  então  o  processo  a  este  Colegiado,  para  julgamento.  É como voto.  Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto    Fl. 243DF CARF MF

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6665735 #
Numero do processo: 10480.900447/2012-21
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Jan 25 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Mar 06 00:00:00 UTC 2017
Numero da decisão: 3401-001.018
Decisão: Resolvem os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência. (assinado digitalmente) Robson José Bayerl - Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Robson José Bayerl, Rosaldo Trevisan, Augusto Fiel Jorge d'Oliveira, Eloy Eros da Silva Nogueira, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Rodolfo Tsuboi e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco.
Nome do relator: ROBSON JOSE BAYERL

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3401­001.018  –  4ª Câmara / 1ª Turma Ordinária  Data  25 de janeiro de 2017  Assunto  PIS E COFINS. COMPENSAÇÃO. ALARGAMENTO.  Recorrente  RODOBENS CAMINHÕES PERNAMBUCO LTDA.  Recorrida  FAZENDA NACIONAL    Resolvem  os  membros  do  Colegiado,  por  unanimidade  de  votos,  converter  o  julgamento em diligência.  (assinado digitalmente)  Robson José Bayerl ­ Presidente e Relator  Participaram  da  sessão  de  julgamento  os  Conselheiros  Robson  José  Bayerl,  Rosaldo Trevisan, Augusto Fiel Jorge d'Oliveira, Eloy Eros da Silva Nogueira, André Henrique  Lemos,  Fenelon  Moscoso  de  Almeida,  Rodolfo  Tsuboi  e  Leonardo  Ogassawara  de  Araújo  Branco.  Relatório  Trata  o  presente  processo  administrativo  de  PER  que  pretende  obter  reconhecimento de direito creditório das contribuições por suposto pagamento a maior.  O  sistema  informatizado  da Receita  Federal  emitiu  o Despacho Decisório  em  processamento automatizado  indeferindo o pedido, afirmando que o valor do DARF de onde  viria  o  crédito  já  estava  totalmente  comprometido  em  quitação  de  débito  constante  de  declaração prestada pelo contribuinte ao Fisco.  A contribuinte manifestou inconformidade, explicando que:  1.  A  autoridade  de  administração  e  a  autoridade  fiscal  não  tomaram  conhecimento  das  razões  da  contribuinte  para  seu  direito,  nem  se  aprofundaram  em  sua  análise,  nem  buscaram  investigar  os  fatos;  a  contribuinte  não  foi  intimada  a  explicar  os  fundamento  do  seu  pedido  antes do despacho decisório;     RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 04 80 .9 00 44 7/ 20 12 -2 1 Fl. 194DF CARF MF Processo nº 10480.900447/2012­21  Resolução nº  3401­001.018  S3­C4T1  Fl. 3          2  2.  seu  direito  repousa  no  fato  de  que  ela  indevidamente  tinha  incluído  na  base  de  cálculo  do  tributo  receitas  (tais  como  receitas  financeiras,  e  outras), face a declaração de inconstitucionalidade pelo STF para o § 1º  do artigo 3º da Lei 9.718/1998; pois a base de tributação deve se cingir às  receitas  de  faturamento  pela  venda  de  mercadorias  e  da  prestação  de  serviços.  3.  Pede  a  reunião  dos  vários  processos  administrativos  que  tratam  da  mesma matéria/tributo, mudando  apenas  os  períodos  de  apuração,  para  serem julgados na mesma ocasião.  Os  Julgadores  de  1º  piso  não  acolheram  o  pedido  de  reunião  dos  vários  processos. Eles também consideraram improcedente o recurso da contribuinte, entendendo pela  insuficiência de provas pelo alegado. Seria da contribuinte o ônus de provar o direito objeto do  seu  pedido,  no  momento  da  interposição  da  Manifestação  de  Inconformidade,  sob  pena  de  preclusão, ressalvadas as exceções legalmente previstas, nos termos do art. 16, caput, III e §4°,  do Decreto 70.235/72, conforme consta do voto da decisão recorrida.  Concluíram, os Julgadores a quo, pelo não reconhecimento do direito creditório,  nos termos do Acórdão 11­041.042.   Inconformada, a contribuinte ingressou com recurso voluntário por meio do qual  repisou  as  alegações  apresentadas  na  manifestação  de  inconformidade,  e  acrescentou  as  seguintes:  ●  não é verdade que houve insuficiência de provas, pois apresentou planilha,  balancete e livro obrigatório da contabilidade da contribuinte;  ●  a  autoridade  fiscal  não  questionou  a  efetividade  dos  pagamentos  em  discussão;  ●  não  pode  prevalecer  o  entendimento  ­  esposados  pelos  julgadores  de  1º  piso  ­  de  que  houve  preclusão  para  a  juntada  de  provas;  isso  fere  o  disposto na letra "c" do § 4º do artigo 16 do Decreto n. 70.235, de 1972  (apresentar provas que se destine a contrapor fatos e razões posteriormente  trazidas aos autos). Cita doutrina, acórdãos e jurisprudências;  ●  a falta de retificação da DCTF não deve servir de justificativa para não se  analisar e se deferir o direito da contribuinte;  ●  Não procede o entendimento dos Julgadores a quo de que a declaração de  inconstitucionalidade do § 1º do art. 3º da Lei n. 9.718/1998 proferida pelo  STF não seja de observação obrigatória no processo administrativo fiscal;  ●  a  Verdade  Material  deve  prevalecer,  e  a  autoridade  deve  realizar  um  exame completo dos fatos.  É o relatório    Fl. 195DF CARF MF Processo nº 10480.900447/2012­21  Resolução nº  3401­001.018  S3­C4T1  Fl. 4          3  Voto  Conselheiro Robson José Bayerl, Relator  O  julgamento  deste  processo  segue  a  sistemática  dos  recursos  repetitivos,  regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de  junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplica­se o decidido na Resolução 3401­000.984,  de  25  de  janeiro  de  2017,  proferida  no  julgamento  do  processo  10480.900040/2012­01,  paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.  Transcreve­se,  como  solução  deste  litígio,  nos  termos  regimentais,  o  entendimento que prevaleceu naquela Resolução (3401­000.984):  "Tempestivo  o  Recurso  e  atendidos  os  demais  requisitos  de  admissibilidade.  Temos diante de nós mais um caso de despacho decisório processado  automaticamente,  sem  que  haja  qualquer  intervenção  humana  para  rever o seu teor e a eventual existência de razões para questionar sua  conclusão.  É freqüente, nessas situações, que a contribuinte somente compreenda  totalmente  a  situação  quando  recebe  a  decisão  da  Delegacia  da  Receita  Federal  de  Julgamento  mantendo  o  indeferimento  eletrônico  inicial, geralmente por falta de provas ou de contra argumentações por  parte da contribuinte. Nessa toada, há os que se escudam no instituto  da  preclusão  probatória  para  justificar  a  impossibilidade  de  reverter  as negativas até então impostas à contribuinte.  Coerente  com  minhas  propostas  de  votação  anteriores  em  situações  semelhantes,  baseado  no  argumento  de  que  o  princípio  da  verdade  material deve prevalecer, relativizando as formalidades e os institutos  preclusivos e assemelhados, e no argumento de que não é do interesse  público maior praticar a injustiça fiscal ­ qual seja, a manutenção no  Tesouro  do  pagamento  indevido  ­  ,  é  que  proponho  que  se  tome  providências  para  garantir  substantivamente  o  contraditório  (e  não  apenas  formalmente)  e  para  se  verificar  a  verdade  do  alegado  pelas  partes.  As  teses  que  esposo  divergem  das  postas  no  acórdão  de  1º  piso:  (a)  para uma visão absoluta do ônus probatório e do instituto da preclusão  probatória, argumento em favor de que prevaleça a Verdade Material,  e  que  os  julgadores  do  processo  administrativo  possam  agir  e  determinar  providências  nessa  direção,  aliás  como  expus  em  outros  votos quando fiz alusão aos modelos trazidos pelo novo CPC; (b) que a  negativa  em pedidos de  restituição e/ou  compensações motivada pela  inexistência  de  créditos  líquidos  e  certos  passe  a  considerar  que  a  liquidez  e  certeza  possam  ser  demonstradas  ao  longo  do  processo  administrativo,  não  se  limitando  ao  que  o  instruiu  antes  de  sua  chegada à instância de julgamento.  Ressalto que a contribuinte, segundo que foi relatado, em sua primeira  contestação havia juntado balancetes e planilhas, o que poderia ser no  mínimo considerado princípio de prova.  Fl. 196DF CARF MF Processo nº 10480.900447/2012­21  Resolução nº  3401­001.018  S3­C4T1  Fl. 5          4  Por  isso,  tendo em vista que a administração  tributária de  jurisdição  não apreciou as razões do suposto direito creditório, proponho a este  Colegiado  a  conversão  do  julgamento  em  diligência  para  que  a  unidade  de  jurisdição  local  analise  e  informe  a  respeito  do  alegado  pela  contribuinte,  e  também  a  respeito  da  existência  de  retificação  realizada  ou  tentada  pela  contribuinte  com  relação  ao  (débitos  e  créditos) discutido neste processo administrativo.  Que se dê ciência à contribuinte desta decisão e também do relatório  conclusivo e da informação fiscal resultantes da diligência, e prazo de  30 dias para ela se manifestar em cada uma dessas intimações."  Aplicando­se  a  decisão  do  paradigma  ao  presente  processo,  em  razão  da  sistemática  prevista  nos  §§  1º  e  2º  do  art.  47  do  RICARF,  converto  o  julgamento  deste  processo em diligência para que a unidade de jurisdição local analise e informe a respeito do  alegado pela contribuinte, e também a respeito da existência de retificação realizada ou tentada  pela contribuinte com relação ao (débitos e créditos) discutido neste processo administrativo.   (assinado digitalmente)  Robson José Bayerl      Fl. 197DF CARF MF

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6688536 #
Numero do processo: 10886.001372/2009-35
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Feb 07 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Mar 17 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2007 DILIGÊNCIA. COMPROVAÇÃO. MOLÉSTIA GRAVE. PROVENTOS DE APOSENTADORIA. ISENÇÃO. São isentos do imposto de renda pessoa física os rendimentos provenientes de aposentadoria, reforma, reserva ou pensão, uma vez comprovado, por laudo pericial emitido por serviço médico oficial da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios, que o interessado é portador de uma das moléstias apontadas na legislação de regência como aptas à concessão do benefício. Recurso Voluntário Provido.
Numero da decisão: 2402-005.606
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso e dar-lhe provimento. (assinado digitalmente) Kleber Ferreira de Araújo - Presidente (assinado digitalmente) Bianca Felícia Rothschild - Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Kleber Ferreira de Araújo, Ronnie Soares Anderson, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Túlio Teotônio de Melo Pereira, Theodoro Vicente Agostinho, Mário Pereira de Pinho Filho, João Victor Ribeiro Aldinucci e Bianca Felicia Rothschild.
Nome do relator: BIANCA FELICIA ROTHSCHILD

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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2007 DILIGÊNCIA. COMPROVAÇÃO. MOLÉSTIA GRAVE. PROVENTOS DE APOSENTADORIA. ISENÇÃO. São isentos do imposto de renda pessoa física os rendimentos provenientes de aposentadoria, reforma, reserva ou pensão, uma vez comprovado, por laudo pericial emitido por serviço médico oficial da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios, que o interessado é portador de uma das moléstias apontadas na legislação de regência como aptas à concessão do benefício. Recurso Voluntário Provido.

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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso e dar-lhe provimento. (assinado digitalmente) Kleber Ferreira de Araújo - Presidente (assinado digitalmente) Bianca Felícia Rothschild - Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Kleber Ferreira de Araújo, Ronnie Soares Anderson, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Túlio Teotônio de Melo Pereira, Theodoro Vicente Agostinho, Mário Pereira de Pinho Filho, João Victor Ribeiro Aldinucci e Bianca Felicia Rothschild.

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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 6; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1090; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S2­C4T2  Fl. 2          1  1  S2­C4T2  MINISTÉRIO DA FAZENDA  CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS  SEGUNDA SEÇÃO DE JULGAMENTO    Processo nº  10886.001372/2009­35  Recurso nº               Voluntário  Acórdão nº  2402­005.606  –  4ª Câmara / 2ª Turma Ordinária   Sessão de  07 de fevereiro de 2017  Matéria  IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA ­ IRPF  Recorrente  SINÉSIO ANTÔNIO DA SILVA  Recorrida  FAZENDA NACIONAL    ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA ­ IRPF  Ano­calendário: 2007  DILIGÊNCIA.  COMPROVAÇÃO.  MOLÉSTIA  GRAVE.  PROVENTOS  DE APOSENTADORIA. ISENÇÃO.  São isentos do imposto de renda pessoa física os rendimentos provenientes de  aposentadoria,  reforma,  reserva ou pensão, uma vez comprovado, por  laudo  pericial emitido por serviço médico oficial da União, dos Estados, do Distrito  Federal  ou  dos  Municípios,  que  o  interessado  é  portador  de  uma  das  moléstias  apontadas  na  legislação  de  regência  como  aptas  à  concessão  do  benefício.  Recurso Voluntário Provido.      Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.     AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 6. 00 13 72 /2 00 9- 35 Fl. 76DF CARF MF     2    Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer  do recurso e dar­lhe provimento.    (assinado digitalmente)  Kleber Ferreira de Araújo ­ Presidente    (assinado digitalmente)  Bianca Felícia Rothschild ­ Relatora    Participaram  do  presente  julgamento  os  Conselheiros:  Kleber  Ferreira  de  Araújo,  Ronnie  Soares  Anderson,  Jamed  Abdul  Nasser  Feitoza,  Túlio  Teotônio  de  Melo  Pereira,  Theodoro  Vicente  Agostinho,  Mário  Pereira  de  Pinho  Filho,  João  Victor  Ribeiro  Aldinucci e Bianca Felicia Rothschild.  Fl. 77DF CARF MF Processo nº 10886.001372/2009­35  Acórdão n.º 2402­005.606  S2­C4T2  Fl. 3          3    Relatório  Trata­se de  lançamento de  Imposto de Renda de Pessoa Física do exercício  2008,  ano­calendário  2007,  devido  à  apuração  de  omissão  de  rendimentos  recebidos  da  Assembléia Legislativa do Estado do Ro de Janeiro (fls. 06).  Na  impugnação,  o  contribuinte  alegou  que  os  rendimentos  são  isentos  em  virtude de ser portador de cardiopatia grave, conforme  laudo de fls. 09/10 e comprovante de  aposentadoria de fls. 12/14.  A  impugnação  foi  indeferida  sob  fundamento  de  que  não  foi  cumprido  o  requisito  legal  correspondente  à  comprovação  de  que  os  rendimentos  são  proventos  de  aposentadoria,  pois  apesar  de  comprovado  que  o  contribuinte  aposentou­se  em  1995  (fls.  12/14),  os  contracheques  relativos  ao  ano  de  2009  e  comprovante  de  rendimentos  no  ano­ calendário 2007 demonstram que, além dos proventos de aposentadoria, o contribuinte recebia  rendimentos  de  outra  natureza,  tais  como  diversas  modalidades  de  gratificações  e  sessão  extraordinária, além de a fonte pagadora ter informado os demais rendimentos como tributáveis  (fls. 16 e 30) e a análise dos proventos de aposentadoria recebidos em 2009 demonstrar que os  proventos encontram­se na faixa de isenção para contribuintes com mais de 65 anos (fls. 16).  A ciência do acórdão ocorreu em 23/10/2012 (fl. 58) e o recurso voluntário  foi interposto no dia 12/11/2012 (fl. 61), assentado nas seguintes razões:  1.  os  rendimentos  são  proventos  de  aposentadoria,  entre  os  quais  estão  incluídos direitos  legais adquiridos que estão discriminados no documento emitido pela fonte  pagadora;  2.  os  rendimentos  foram  informados  pela  fonte  pagadora  como  tributáveis  porque  não  tinha  conhecimento  da  documentação  que  comprovaria  a  doença  grave  do  contribuinte,  porém,  no  momento  em  que  tal  fato  aconteceu,  imediatamente,  cessaram  os  descontos na fonte; e  3.  os  contracheques  estão  corretos,  a  Resolução  189/1984  dispõe  sobre  o  direito do aposentado de receber proventos alusivos à participação em sessões extraordinárias  nos quatro anos imediatamente anteriores à aposentadoria; e  4.  espera  ver  comprovada  a  natureza  de  proventos  dos  contracheques  e,  o  estorno do lançamento e a devolução do que foi pago a título de IR e que não era devido.  Foi requerida prioridade de tramitação em função do estatuto do idoso.  O processo foi incluído na pauta da sessão realizada em 11 de março de 2015,  tendo a 2ª Turma Especial, da 1ª Câmara, da 2ª Seção proferido a Resolução nº 2802000.227  (fls. 70/72), que, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência pelas razões  abaixo mencionadas:    Fl. 78DF CARF MF     4  O  acórdão  recorrido  indicou  que  os  comprovantes  de  rendimentos  e  contracheques  demonstram  que  o  servidor  aposentado recebe diversas rubricas, não somente proventos. De  fato  é  o  que  ocorre  nos  contracheques  (fls.  13;  numeração  digital fls. 15).  O  recorrente  alega  que  todas  as  rubricas  são  proventos,  decorrente do direito que é assegurado aos aposentados da Alerj  com base na Resolução nº 189/1984, como exemplo, cita o art. 2º  que se refere à extensão aos  inativos de pagamentos alusivos a  serviços  prestados  em  sessões  extraordinárias  nos  quatro  anos  imediatamente anteriores à sua aposentadoria.  Todavia,  não  está  suficientemente  comprovado  que  os  rendimentos  sejam  proventos.  Tomando­se  o  exemplo  apresentado  pelo  recorrente,  o  dispositivo  transcrito  pelo  recorrente  refere­se  ao  direito  a  inclusão  nos  proventos  de  parcela  correspondente  ao  valor médios  de  sessões,  que  tenha  participado  nos  quatro  anos  imediatamente  anteriores  à  aposentadoria, levando à revisão dos proventos. O que esse texto  está  indicando é que haveria inclusão nos proventos,  logo  tudo  que vier a ser recebido, em razão dessa previsão, é proventos.  Contudo, os contracheques não  indicam somente proventos. Há  também as seguintes rubricas:  Grat. Ded. Serv. Legisl. PR;  Sessão Extraordian. Pro;  Grat. Repr. Gabinete. Pro;  Grat. Adicional Prov;  Resolução 722/95; e  Parcela Fixa Prov.  Somente a fonte pagadora pode  informar seguramente  se  todos  rendimentos  pagos  ao  recorrente  são  proventos.  Dessa  forma,  em  homenagem  ao  princípio  da  busca  da  verdade  material,  o  julgamento deve ser convertido em diligência.  Em  resposta  à  diligencia,  foram  acostados  aos  autos,  informe  do  Departamento  de  Preparo  de  Pagamento  da  Assembléia  Legislativa  do  Estado  do  Rio  de  Janeiro (fl. 90), emitido em 21/05/2015.  Cumprida  a  referida  diligência,  os  autos  retornaram  ao  atual  Conselho  Administrativo de Recursos Fiscais para prosseguimento.  É o relatório.  Fl. 79DF CARF MF Processo nº 10886.001372/2009­35  Acórdão n.º 2402­005.606  S2­C4T2  Fl. 4          5    Voto             Conselheira Bianca Felícia Rothschild ­ Relatora  O recurso é TEMPESTIVO, eis que intimado da decisão no dia 23/102012,  interpôs  recurso  voluntário  no  dia  12/11/2012,  atendendo  também  às  demais  condições  de  admissibilidade. Portanto, merece ser CONHECIDO.  Discute­se o direito à isenção do imposto de renda com base no inciso XIV  do art. 6º da Lei nº 7.713, de 1988, tendo como ponto central a eventual comprovação de que  os rendimentos ora discutidos referem­se a aposentadoria.   Art.  6º  Ficam  isentos  do  imposto  de  renda  os  seguinte  rendimentos percebidos por pessoas físicas:  (...)  XIV  ­  os  proventos  de  aposentadoria  ou  reforma,  desde  que  motivadas  por  acidente  sem  serviços,  e  os  percebidos  pelos  portadores de moléstia profissional, tuberculose ativa, alienação  mental,  esclerose­múltipla,  neoplasia  maligna,  cegueira,  hanseníase,  paralisia  irreversível  e  incapacitante,  cardiopatia  grave,  doença  de  Parkinson,  espondiloartrose  anquilosante,  nefropatia grave, estados avançados da doença de Paget (osteíte  deformante),  contaminação  por  radiação,  síndrome  da  imunodeficiência adquirida, com base em conclusão da medicina  especializada, mesmo que a doença tenha sido contraída depois  da aposentadoria ou reforma; (Redação dada pela Lei nº 8.541,  de 1992) (Vide Lei 9.250, de 1995)   Dos dispositivos transcritos, extraem­se os dois requisitos para o exercício do  direito à isenção pleiteada:  a) que os rendimentos sejam oriundos de aposentadoria, reforma ou pensão;  b) que o contribuinte seja portador de uma das doenças enumeradas no inciso  XIV, do art. 6o, da Lei no 7.713/1988.  Conforme se depreende da decisão recorrida, a questão se torna incontroversa  no  que  tange  ao  fato  de  o  Recorrente  ser  portador  de  moléstia  grave.  Vejamos  extrato  da  decisão recorrida que comprova tal conclusão (fl. 37):  A  fim  de  comprovar  a  existência  da  moléstia  grave,  o  contribuinte  juntou  o  laudo  de  fls.  09/10  emitido  por  serviço  médico oficial  do Município de  Iguaba Grande, que  testa que  este é portador de cardiopatia grave desde 2003.  (...)  Fl. 80DF CARF MF     6  Note­se  que  apesar  de  restar  comprovado  que  o  contribuinte  aposentou­se  em  1995  (fls.  12/14),  os  dois  contracheques  juntados na fl. 15, relativos ao ano de 2009,demonstram, a título  exemplificativo,  que  além  dos  proventos  de  aposentadoria  o  contribuinte  recebia  rendimentos  de  outra  natureza,  tais  como  diversas modalidades de gratificações, “sessão extraordinária”,  entre outros.  Desta forma, permaneceu pendente a comprovação de que os rendimentos do  Recorrente são provenientes de aposentadoria.  Tendo em vista que foi  juntado aos autos, após procedimento de diligencia,  informe do Departamento de Preparo de Pagamento da Assembléia Legislativa do Estado do  Rio  de  Janeiro  (fl.  90),  emitido  em  21/05/2015,  registrando  que  "os  rendimentos  brutos  do  funcionário  inativo  SINESIO ANTONIO DA SILVA,  nos  anos  de  2007  a  2008,  consta  em  nosso cadastro de pagamento como proventos de aposentadoria".  Neste  sentido,  entendo  que  foram  cumpridos  os  requisitos  estabelecidos  na  legislação  tributária  para  fins  do  gozo  da  isenção  de  imposto  de  renda  dos  proventos  ora  debatidos.  Diante  do  exposto,  voto  por CONHECER  do  recurso  e,  no mérito, DAR­ LHE PROVIMENTO para reconhecer o direito à isenção do imposto de renda incidente sobre  os rendimentos de aposentadoria no ano­calendário 2007.    (assinado digitalmente)  Bianca Felícia Rothschild.                                Fl. 81DF CARF MF

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6664912 #
Numero do processo: 19515.003098/2004-17
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Feb 08 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Mar 03 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 1999, 2000 DEPÓSITOS BANCÁRIOS. ORIGEM DOS RECURSOS. NÃO COMPROVAÇÃO. OMISSÃO DE RECEITA. Caracterizam omissão de receita ou de rendimento os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. TRANSFERÊNCIAS DE OUTRAS CONTAS. COMPROVAÇÃO. Para efeito de determinação da receita omitida, os créditos serão analisados individualizadamente, devendo ser excluídos aqueles comprovadamente decorrentes de transferências de outras contas da própria pessoa física ou jurídica. MULTA. JUROS DE MORA. PREVISÃO LEGAL. A multa e os juros de mora estão previstos expressamente em dispositivos de Lei vigentes, cabendo à autoridade administrativa a sua aplicação, sob pena de responsabilidade. É vedado ao julgador administrativo afastar a aplicação da lei por suposta inconstitucionalidade. Recurso Voluntário Provido em Parte.
Numero da decisão: 2402-005.657
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso para dar-lhe provimento parcial no sentido excluir da base de cálculo do imposto de renda os depósitos indicados na tabela 1 do voto do Relator. (assinado digitalmente) Kleber Ferreira de Araújo – Presidente (assinado digitalmente) Túlio Teotônio de Melo Pereira - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Kleber Ferreira de Araújo, Ronnie Soares Anderson, Mario Pereira de Pinho Filho, Túlio Teotônio de Melo Pereira, Jamed Abdul Nasser Feitoza, João Victor Ribeiro Aldinucci, Bianca Felicia Rothschild e Theodoro Vicente Agostinho.
Nome do relator: TULIO TEOTONIO DE MELO PEREIRA

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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 13; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1646; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S2­C4T2  Fl. 2          1  1  S2­C4T2  MINISTÉRIO DA FAZENDA  CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS  SEGUNDA SEÇÃO DE JULGAMENTO    Processo nº  19515.003098/2004­17  Recurso nº               Voluntário  Acórdão nº  2402­005.657  –  4ª Câmara / 2ª Turma Ordinária   Sessão de  08 de fevereiro de 2017  Matéria  IRPF. DEPÓSITOS BANCÁRIOS.  Recorrente  JOSÉ D´ÂNGELO COSTA  Recorrida  FAZENDA NACIONAL    ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA ­ IRPF  Ano­calendário: 1999, 2000  DEPÓSITOS  BANCÁRIOS.  ORIGEM  DOS  RECURSOS.  NÃO  COMPROVAÇÃO. OMISSÃO DE RECEITA.  Caracterizam omissão de receita ou de rendimento os valores creditados em  conta de depósito ou de  investimento mantida junto a instituição financeira,  em  relação  aos  quais  o  titular,  pessoa  física  ou  jurídica,  regularmente  intimado,  não  comprove, mediante  documentação  hábil  e  idônea,  a  origem  dos recursos utilizados nessas operações.  DEPÓSITOS BANCÁRIOS. TRANSFERÊNCIAS DE OUTRAS CONTAS.  COMPROVAÇÃO.  Para efeito de determinação da receita omitida, os créditos  serão analisados  individualizadamente,  devendo  ser  excluídos  aqueles  comprovadamente  decorrentes  de  transferências  de  outras  contas  da  própria  pessoa  física  ou  jurídica.  MULTA. JUROS DE MORA. PREVISÃO LEGAL.  A multa e os juros de mora estão previstos expressamente em dispositivos de  Lei vigentes, cabendo à autoridade administrativa a sua aplicação, sob pena  de responsabilidade. É vedado ao julgador administrativo afastar a aplicação  da lei por suposta inconstitucionalidade.  Recurso Voluntário Provido em Parte.      Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.     AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 51 5. 00 30 98 /2 00 4- 17 Fl. 449DF CARF MF     2    Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer  do recurso para dar­lhe provimento parcial no sentido excluir da base de cálculo do imposto de  renda os depósitos indicados na tabela 1 do voto do Relator.    (assinado digitalmente)  Kleber Ferreira de Araújo – Presidente    (assinado digitalmente)  Túlio Teotônio de Melo Pereira ­ Relator    Participaram  do  presente  julgamento  os  Conselheiros:  Kleber  Ferreira  de  Araújo,  Ronnie  Soares  Anderson,  Mario  Pereira  de  Pinho  Filho,  Túlio  Teotônio  de  Melo  Pereira, Jamed Abdul Nasser Feitoza, João Victor Ribeiro Aldinucci, Bianca Felicia Rothschild  e Theodoro Vicente Agostinho.  Fl. 450DF CARF MF Processo nº 19515.003098/2004­17  Acórdão n.º 2402­005.657  S2­C4T2  Fl. 3          3    Relatório  Tem­se  em pauta  recurso voluntário do  sujeito passivo  contra o  acórdão no  14.009,  de  15/12/2005,  da  Delegacia  de  Julgamento  São  Paulo  (fls.  152/168),  que  assim  relatava o feito até aquele momento:  Em  ação  fiscal  efetuada  no  contribuinte  acima  qualificado,  foi  apurado crédito tributário no montante de R$ 1.882.108,80 ( um  milhão,  oitocentos  e  oitenta  e  dois  mil,  cento  e  oito  reais  e  oitenta  centavos),  relativo ao  Imposto  de Renda Pessoa Física,  nos  anos­calendários  1999  e  2000,  sendo  R$  757.242,92  referentes  ao  imposto,  R$  567.932,18  referentes  à  multa  proporcional  e  R$  556.933,70  referentes  aos  juros  (calculados  até  30/11/2004),  consubstanciado  no  Auto  de  infração  às  fls.  93/98. A autuação foi fundamentada na seguinte legislação : art.  42 da Lei n° 9.430/96, art. 4o da Lei n° 9.481/97, art. 21 da Lei  n° 9.532/97, art. Io da Lei n° 9.887/99, art. 849 do RIR/99.  2.  O  procedimento  fiscal,  que  culminou  na  constituição  do  crédito tributário acima referido, encontra­se relatado no Termo  de  Verificação  Fiscal  (fls.  88  a  92),  o  qual  nos  dá  conta  dos  seguintes pontos principais:  2.1 Em 23/09/2004, o contribuinte foi intimado a: a) apresentar  os  extratos  bancários  relativos  à  contas  bancárias  que  deram  origem  à  sua  movimentação  financeiro­bancária  nos  anos­ calendários 1999 e 2000; b) comprovar, mediante documentação  hábil, a origem dos recursos creditados nas contas bancárias e  demonstrar a correta tributação dos valores citados;  2.2 Em 18/10/2004, a Repartição Fiscal recepcionou documento  com  arrazoado  do  fiscalizado,  cópias  de  extratos  bancários  e  Procuração em nome de João José Cardoso (fls. 13 a 71);  2.3 Em seu arrazoado, o contribuinte solicita o cancelamento da  fiscalização em curso pelos seguintes motivos: 1) tratando­se de  microempresário dinâmico,  trabalhador, honesto, cumpridor de  suas obrigações, deixou de cumprir, no período de 1999 a 2000,  por  ser  leigo  no  assunto,  o  que  era  determinado  pelas  leis  tributárias; 2) todas as antecipações de clientes, provenientes de  vendas, eram depositadas nas contas correntes remuneradas da  empresa  Coinvalores  Distribuidora  de  Títulos  e  Valores  Mobiliários  Ltda.;  3)  para  efetuar  pagamentos,  fazia  transferências das contas mencionadas para o Banco Itaú S/A e  emitia  cheques  para  liquidação  de  compromissos;  4)  ocorreu  distribuição  de  lucros  no  importe  de  R$  105.915,00  no  ano­ calendário  1999;  5)  não  aumentou  o  seu  patrimônio,  o  que  caracterizaria enriquecimento ilícito;  2.4 Em 29/10/2004, o Auditor Fiscal Autuante lavrou o Termo de  Intimação N° 01/2004, às fls. 76 a 80, intimando o fiscalizado a  Fl. 451DF CARF MF     4  comprovar, por meio de documentação hábil e idônea, a origem  dos  recursos  creditados  em  suas  contas  bancárias,  em  consonância  com o Demonstrativo de Apuração dos Depósitos,  em  anexo,  e,  também,  a  demonstrar  o  exato  oferecimento  à  tributação dos valores apurados;  2.5  Em  19/11/2004,  a  Fiscalização  recepcionou  petição  solicitando prorrogação de prazo por trinta dias;  2.6  O  Auditor  Fiscal  Autuante  registra  que  a  falta  de  demonstração  da  origem  dos  recursos  creditados,  em  1999  e  2000, em contas de depósito que o fiscalizado manteve junto às  instituições  financeiras  discriminadas  no  citado  Demonstrativo  de Apuração de Depósitos (fls. 77 a 80; e­fl. 80/83), configura a  hipótese prevista no caput do art. 42 da Lei n° 9.430/96, a saber,  caracterizam a omissão de rendimentos os valores creditados em  contas bancárias cujo titular, intimado, não comprove a origem.  2.7  O  Auditor  Fiscal  consolidou,  então,  os  valores  de  origem  não­comprovada na tabela à fl. 91 (e­fl. 95), e lavrou o Auto de  Infração a eles correspondente, para constituição e exigência do  crédito tributário devido à Fazenda Nacional.  3.  O  Auto  de  Infração  foi  lavrado  em  08/12/2004,  vindo  o  contribuinte  dele  tomar  ciência  por  via  postal  em  20/12/2004,  conforme  faz prova o Aviso de Recebimento anexado à  fl.  100.  Irresignado,  o  contribuinte  ingressou  com  a  impugnação  (fls.  102  a  136)  em  06/01/2005,  na  qual  procura  demonstrar  a  improcedência da autuação.  Por unanimidade de votos, o acórdão no 14.009, de 15/12/2005, da Delegacia  de  Julgamento  São  Paulo  (fls.  152/168),  rejeitou  os  argumentos  de  defesa  e  julgou  o  lançamento integralmente procedente. A ementa da decisão foi redigida nos seguintes termos:  Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física ­IRPF  Ano­calendário: 1999, 2000  Ementa: PRELIMINAR. APLICAÇÃO DA LEI NO TEMPO.  Aplica­se  ao  lançamento  a  legislação  que,  posteriormente  à  ocorrência do fato gerador da obrigação, tenha instituído novos  critérios de apuração ou processos de fiscalização, ampliando os  poderes  de  investigação  das  autoridades  administrativas  (Art.144, §1o, do CTN).  DEPÓSITOS BANCÁRIOS. OMISSÃO DE RENDIMENTOS.  A Lei n° 9.430/1.996, no seu art. 42, estabeleceu uma presunção  legal de omissão de  rendimentos que autoriza o  lançamento do  imposto correspondente, sempre que o titular da conta bancária,  regularmente  intimado,  não  comprove, mediante  documentação  hábil  e  idônea, a origem dos  recursos  creditados em sua conta  de depósito ou de investimento.  JUROS DE MORA. TAXA SELIC.  Devidos os juros de mora calculados com base na taxa SELIC na  forma da legislação vigente. Eventual inconstitucionalidade e/ou  Fl. 452DF CARF MF Processo nº 19515.003098/2004­17  Acórdão n.º 2402­005.657  S2­C4T2  Fl. 4          5  ilegalidade  da  norma  legal  deve  ser  apreciada  pelo  Poder  Judiciário.  MULTA DE OFICIO DE 75%. PREVISÃO LEGAL.  A multa de ofício é prevista em disposição legal específica e tem  como  suporte  fático  a  revisão  de  lançamento,  pela  autoridade  administrativa competente, que implique imposto ou diferença de  imposto a pagar.  Lançamento Procedente  Cientificado da decisão em 15/02/2006 (fl. 172), o sujeito passivo apresentou  recurso voluntário (fls. 174/188), em 13/03/2006 (fl. 173), aduzindo, em síntese, as seguintes  teses de defesa:  1.  duplicidade dos lançamentos e comprovação da origem:   1.1.  laborou  em  erro  a  Delegacia  de  Julgamento  ao  não  excluir  do  lançamento  as  transferências,  resgates  de  aplicações,  cujos  valores  foram  reaplicados  no mesmo dia,  provocando tributação em duplicidade;  1.2.  grande  parte  dos  valores  omitidos  indicados  pela  fiscalização  refere­se  a  distribuição  antecipada  de  lucros  da  empresa Affair  telecomunicações  ltda,  da qual  o  recorrente  é  sócio com mais de 95% das contas (doc. 7/57);  2.  das modificações ocorridas na legislação:  2.1.  a  Lei  no  10.174/2001  somente  pode  gerar  efeitos  a  partir  da  publicação,  nunca  para  períodos anteriores;  2.2.  demonstrada a nulidade do procedimento porque surgindo do  indevido cruzamento de  informações de cobrança da CPMF;  3.  Da impossibilidade de presunção de omissão de receita :  3.1.  o  rendimento  tributável  do  contribuinte  não  pode  ser  vislumbrado  através  de  mera  análise da conta bancária;  3.2.  os  depósitos  bancários  em  si  não  representam  individualmente  matéria  tributável,  enquanto  não  provada  pelo  Fisco  a  existência  ou  ocorrência  de  disponibilidade  econômica;  4.  do excesso de juros e multa: os valores apontados de juros e multa extrapolam em muito  os preceitos dispostos no art. 150,  inciso  IV, da Constituição Federal,  caracterizando o  confisco.  Ao  final,  requer  que  seja  declarada  a  nulidade  do  lançamento.  Juntou  documentos (fls. 189/319).  O  julgamento  foi  convertido  em  diligência,  consoante  resolução  (fls.  328/333) para que a unidade de origem: (i) obtenha cópia dos livros Diário da empresa Affair  Fl. 453DF CARF MF     6  telecomunicações  ltda;  (ii) diligencie  junto à  empresa Coin valores CCVM ltda,  instruindo o  processo com informação de todas as aplicações financeiras do contribuinte.  A  auditoria  intimou  o  contribuinte  e  informou  (fl.  373)  que  o  mesmo  não  possui os livros Diário, por terem sido descartados após o prazo de decadência. Acrescenta que  o contribuinte apresentou cópias ilegíveis  (fls. 239, 241 e 243) e contas de chegada (fl. 188),  concluindo pela manutenção da exigência fiscal.  Em  29/09/2008,  o  sujeito  passivo  apresentou  manifestação  (fls.  378/379)  acerca da diligência fiscal, informando que os documentos remontam aos anos de 1999 e 2000,  por  isso  podem  estar  ilegíveis.  Junta  novas  cópias  "que  podem  estar  mais  legíveis"  (fls.  380/391). Que  quanto  à  afirmação  fiscal  de  que  teria  apresentado  "contas  de  chegada",  não  merece acolhida pois os documentos foram considerados isoladamente e fora do contexto.  Não  tendo  sido  atendida  a diligência  a  contento,  o  feito  retornou  à origem,  nos termos da resolução de fls. 393/397, para responder aos questionamentos faltantes.   Em  resposta  (fls.  426/428)  à  requisição  de  diligência,  a  auditoria  registrou  que:  I.  a  empresa  Affair  telecomunicações  ltda  informa  que,  no  ano­calendário  1999, era  tributada pelo  lucro presumido, e não possui  livros Diário, por estar dispensada de  sua escrituração. Diz ainda que o Livro Caixa foi arquivado pelo prazo previsto no art. 173 e  parágrafo único do art. 195 do CTN, tendo sido descartado. Esclarece que, nos anos de   1999  e  2000, foram repassados ao sócio José D´Ângelo Costa , os montantes de R$ 773.238,40 e R$  158.002,00, respectivamente, a título de dividendos (distribuição de lucros);  II.  A  empresa  Coin  Valores  CCVM  apresentou  a  documentação  que  encontrou: ficha cadastral do cliente (fls. 411/412), extrato de conta corrente (fl. 413) e extrato  de  aplicação  financeira  (fls.  414/416).  Acrescentou  que  não  possui  outros  documentos,  em  razão de ter sido ultrapassado o prazo legal para sua guarda;  III. a auditoria informa que, conforme extrato apresentado, os valores a título  de CPMF para o contribuinte, nos período de janeiro de 1999 a novembro de 2000, foi de R$  300,00. Não há  indicação de valores  recolhidos a  título de CPMF para este contribuinte pela  dita empresa financeira (fl. 9);  IV.  a  auditoria  conclui  que  os  elementos  trazidos  com  a  diligência  não  alteraram a base presuntiva, tendo em vista não haver novos dados.  Foi  tentada  a  ciência  postal  da  diligência  ao  sujeito  passivo. No  entanto,  a  tentativa foi frustrada, tendo o aviso de recebimento retornado com a informação "mudou­se"  (fls. 431/433). A seguir, procedeu­se à ciência via edital (fls. 435/437), afixado em 06/02/2014.  Em 09/04/2014, o sujeito passivo atravessou petição (fls. 443/446) afirmando  que recebeu em dezembro o termo de encerramento de diligência e, ao dirigir­se à repartição  fiscal solicitando vista do processo, foi informado de que não haveria vista ou direito de defesa.  Acusa  violação  ao  direito  de  defesa  e  requer  que  seja  dada  oportunidade  ao  contribuinte  de  acesso ao que obtido pelo Fisco para posterior manifestação, obedecendo o contraditório.  É o relatório.  Fl. 454DF CARF MF Processo nº 19515.003098/2004­17  Acórdão n.º 2402­005.657  S2­C4T2  Fl. 5          7    Voto             Conselheiro Túlio Teotônio de Melo Pereira ­ Relator    O  recurso  voluntário  é  tempestivo  e  preenche  os  demais  requisitos  de  admissibilidade, pelo que deve ser conhecido.    Do direito à defesa e ao contraditório  Foi  tentada  a  ciência  postal  da  diligência  ao  sujeito  passivo. No  entanto,  a  tentativa foi frustrada, tendo o aviso de recebimento retornado com a informação "mudou­se"  (fls. 431/433). A seguir, procedeu­se à ciência via edital (fls. 435/437), afixado em 06/02/2014.  Em sua última manifestação (fls. 443/446), recebida em 09/04/2014, o sujeito  passivo  aponta  cerceamento  do  seu  direito  de  defesa,  por  supostamente  não  ter­lhe  sido  franqueado acesso aos autos do processo. A argumentação, no entanto, não merece prosperar.   O acesso do sujeito passivo aos autos de processos administrativos fiscais à  época dos fatos era regulamentado pelo Decreto no 7.574/2011 que assim dispõe:  Art. 146. Os processos administrativos fiscais relativos a tributos  e a penalidades isoladas e as declarações não poderão sair das  unidades  da  Secretaria  da  Receita  Federal  do  Brasil,  salvo  quando se tratar de (Lei no 9.250, de 1995, art. 38):  I ­ encaminhamento de recursos à instância superior;  II ­ restituições de autos aos órgãos de origem; ou  III ­ encaminhamento de documentos para fins de processamento  de dados.   § 1o Nos casos a que se referem os incisos I e II do caput, deverá  ficar cópia autenticada dos documentos essenciais na respectiva  unidade (Lei no 9.250, de 1995, art. 38, § 1o).   § 2o É facultado o fornecimento de cópia do processo ao sujeito  passivo ou a seu mandatário (Lei no 9.250, de 1995, art. 38, §  2o).   § 3o É facultada vista do processo ao sujeito passivo ou a seu  mandatário. (grifou­se)  Vê­se, portanto, que é facultado ao sujeito passivo, a qualquer tempo, tanto o  fornecimento de cópia do processo, quanto a vista dos autos.   Fl. 455DF CARF MF     8  O  recorrente,  embora  alegue  ter­lhe  sido  negado  o  acesso  aos  autos,  não  trouxe qualquer elemento de prova das suas alegações, pelo que a argüição há que ser rejeitada.   Uma  vez  que  a  intimação  se  deu  em  obediência  ao  art.  23  do  Decreto  no  70.235/1972, tendo sido aberto prazo para alegações do sujeito passivo, foi respeitado o devido  processo  legal,  pelo  que  não  se  constata  qualquer  mácula  ao  seu  direito  de  defesa  e  contraditório. Recurso rejeitado na matéria.    Das modificações na legislação e irretroatividade da lei  O sujeito passivo aduz que o lançamento não deve prosperar por decorrer dos  dados obtidos a partir das informações sobre a contribuição provisória sobre movimentação ou  Transmissão de valores e de créditos e direitos de natureza financeira (CPMF), recolhida sobre  sua movimentação financeira, nos anos­calendário de 1999 e 2000, o que era vedado pelo art.  11, §3o, da Lei no 9.311/1996. De acordo com o  recorrente,  a modificação neste dispositivo,  trazida pela Lei no 10.174/2001, somente poderia gerar efeitos a partir de 10/01/2001, data de  publicação da lei.  Da  leitura  do  termo  de  verificação  fiscal  (fls.  92/96)  e  do  auto  de  infração  (fls.  100/102),  observa­se  lançamento  relativo  a  omissão  de  rendimentos  caracterizada  por  depósitos bancários com origem não comprovada. No entanto, os valores objeto do lançamento  foram  apurados  nos  extratos  de  contas  de  depósito  e  contas  de  investimento  (fls.  22/53),  fornecidos  voluntariamente  pelo  sujeito  passivo  em  atendimento  à  intimação  fiscal.  No  enquadramento  legal,  constante  do  Termo  de  verificação,  sequer  há  indicação  da  Lei  no  9.311/1996, vejamos:    Portanto,  impertinente  a  argumentação  relativa  a  CPMF,  por  representar  matéria  estranha  ao  feito,  visto que não  foram utilizados dados  relativos a  este  tributo  como  fundamento para o lançamento.    Da omissão de receita  O contribuinte entende que os depósitos bancários não caracterizam omissão  de  receitas  já  que,  em  si,  não  representam  individualmente matéria  tributável,  enquanto  não  provada pelo Fisco a existência ou ocorrência de disponibilidade econômica.  A argumentação, no  entanto,  não merece prosperar,  por  existir  norma  legal  em sentido contrário. Vejamos a dicção do art. 42 da Lei no 9.430/1996:  Fl. 456DF CARF MF Processo nº 19515.003098/2004­17  Acórdão n.º 2402­005.657  S2­C4T2  Fl. 6          9  Art.  42.  Caracterizam­se  também  omissão  de  receita  ou  de  rendimento  os  valores  creditados  em  conta  de  depósito  ou  de  investimento mantida  junto a  instituição  financeira,  em  relação  aos  quais  o  titular,  pessoa  física  ou  jurídica,  regularmente  intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea,  a origem dos recursos utilizados nessas operações.  §  1º  O  valor  das  receitas  ou  dos  rendimentos  omitido  será  considerado  auferido  ou  recebido  no  mês  do  crédito  efetuado  pela instituição financeira.   § 2º Os valores cuja origem houver sido comprovada, que não  houverem  sido  computados  na  base  de  cálculo  dos  impostos  e  contribuições  a  que  estiverem  sujeitos,  submeter­se­ão  às  normas de tributação específicas, previstas na legislação vigente  à época em que auferidos ou recebidos.   § 3º Para efeito de determinação da receita omitida, os créditos  serão analisados individualizadamente, observado que não serão  considerados:  I ­ os decorrentes de transferências de outras contas da própria  pessoa física ou jurídica;  II ­ no caso de pessoa física, sem prejuízo do disposto no inciso  anterior, os de valor  individual  igual ou  inferior a R$ 1.000,00  (mil  reais),  desde  que  o  seu  somatório,  dentro  do  ano­ calendário,  não  ultrapasse  o  valor  de  R$  12.000,00  (doze  mil  reais).   § 4º Tratando­se de pessoa física, os rendimentos omitidos serão  tributados no mês em que considerados recebidos, com base na  tabela progressiva vigente à época em que tenha sido efetuado o  crédito pela instituição financeira.  Da  interpretação  das  normas  transcritas,  observa­se  que  foi  estabelecida  presunção legal de omissão de receitas toda vez que o contribuinte, devidamente intimado, não  comprovar a origem dos depósitos. De logo, necessário esclarecer que a origem quer significar  a que  título  foi  feito o depósito,  ou  seja,  a natureza  jurídica da operação que deu origem ao  depósito.  Nesse  sentido,  não  basta  o  sujeito  passivo  indicar  que  o  valor  corresponde  a  um  depósito  feito em seu nome por  tal pessoa. Mister comprovar a operação que deu origem ao  recurso, para que o Fisco possa verificar se o valor já foi tributado anteriormente (pagamento  por prestação de serviços, p. ex.),  se não é  tributada (p. ex. empréstimo). Não comprovada a  origem do depósito, o valor será objeto de lançamento de ofício.  Logo, ao contrário do que pretende o contribuinte, os depósitos bancários de  origem  não  comprovada,  como  é  o  caso  do  presente  lançamento,  caracterizam  omissão  de  receitas  por  expressa  presunção  legal.  Representam,  portanto,  matéria  tributável,  pelo  que  resulta improcedente o recurso na matéria.      Fl. 457DF CARF MF     10  Dos depósitos bancários de origem não comprovada  O sujeito passivo foi intimado (fl. 79) para comprovar a origem dos recursos  depositados nas contas bancárias de sua titularidade, conforme demonstrativo de apuração de  depósitos (fls. 80/83), bem como demonstrar o exato oferecimento à tributação dos valores ali  apurados.  Não  havendo  atendido  à  intimação  fiscal,  nem  demonstrado  a  origem  dos  recursos,  foi  lavrado o presente  auto de  infração para  exigência do  imposto de  renda pessoa  física  devido  sobre  os  referidos  depósitos  bancários,  com  fundamento  no  art.  42  da  Lei  no  9.430/96.  De  notar­se  que,  já  no  termo  de  verificação  fiscal  (fls.  92/96),  a  auditoria  registrou  que,  no  levantamento  dos  depósitos,  já  expurgara  os  decorrentes  de  cheques  depositados e devolvidos, de estornos de lançamentos, de transferências entre contas do próprio  fiscalizado, de resgates de aplicação financeira, de empréstimos bancários. Vejamos:    Com a impugnação, o contribuinte também não  trouxe qualquer documento  para comprovar a origem dos depósitos.   Entretanto, fez juntar ao recurso voluntário diversos documentos em busca de  comprovar  a  origem  dos  depósitos  (fls.  189/319).  Além  disso,  após  a  diligência  fiscal,  apresentou mais documentos (fls. 380/391) com a mesma finalidade.   Embora não  tenha demonstrado a ocorrência de  qualquer  condição prevista  no §.4o do art. 16, do Decreto no 70.235/1972, que pudesse autorizar a apresentação de prova  documental após a impugnação, em homenagem ao princípio da verdade material, entendemos  que os documentos devem ser examinados.  Para comprovar a origem, o sujeito passivo adotou, para cada depósito, uma  de duas explicações: (a) que teria origem em transferência de outra conta/resgate de aplicação  em  seu  próprio  nome  ou  (b)  que  corresponderia  a  distribuição/antecipação  de  lucros  pela  empresa Affair telecomunicações ltda.  Do exame da documentação trazida com o recurso voluntário (fls. 189/319) e  após a realização de diligência (fls 380/391), entendemos que o contribuinte logrou êxito em  comprovar  que  os  depósitos  tiveram  origem  numa  transferência  de  outra  aplicação  em  seu  nome, ou seja, caracteriza uma mera movimentação entre fundos de aplicação:  Tabela 1 ­ Depósitos com origem comprovada  Data  Valor  Banco  Justificativa do  contribuinte  documento  comprobatório  folha dos autos  Análise e aceitação da justificativa  05/11/1999  199.242,88  Coinvalores  Quitanda  Resgate da  CoinValores  Extrato da  CoinValores DTVM  385  ( fl. 195 ilegível.  Cópia legível na fl.  385)  Resgate de aplicação do mesmo contribuinte, no valor  de R$ 555.773,22, referente às aplicações de R$  (199.242,88 + 155.183,52 + 99.621,44 + 99.621,44)  somado às CPMF (589,70 + 378,56 + 378,56 +  757,12). Caracteriza uma transferências entre fundos  Fl. 458DF CARF MF Processo nº 19515.003098/2004­17  Acórdão n.º 2402­005.657  S2­C4T2  Fl. 7          11  Tabela 1 ­ Depósitos com origem comprovada  Data  Valor  Banco  Justificativa do  contribuinte  documento  comprobatório  folha dos autos  Análise e aceitação da justificativa  05/11/1999  155.183,52  Coinvalores  Quitanda  08/11/1999  99.621,44  Coinvalores  Quitanda  08/11/1999  99.621,44  Coinvalores  Quitanda  de aplicação do mesmo contribuinte.  02/12/1999  69.301,87  Coinvalores  Quitanda  Resgate da  CoinValores  Extrato da  CoinValores DTVM 386  (fl.198 ilegível.  Cópia legível na fl.  386)  Resgate de aplicação do mesmo contribuinte, no valor  de R$ 69.565,22, referente às aplicações de R$  69.301,87 mais a CPMF R$ 263,35. Caracteriza mera  transferências entre fundos de aplicação.  03/01/2000  201.625,96  Coinvalores  Quitanda  Resgate da  CoinValores  Extrato da  CoinValores DTVM  387  ( fl. 201 ilegível.  Cópia legível na fl.  387)  Resgate de aplicação do mesmo contribuinte, no valor  de R$ 202.392,14, referente à aplicação de R$  201.625,96 mais a CPMF R$ 766,18, na mesma data,  conforme extrato. Caracteriza mera transferências  entre fundos de aplicação.   05/09/2000  26.352,00  Coinvalores  Quitanda  Resgate da  CoinValores  Extrato da  CoinValores DTVM  210  391  Resgate de aplicação do mesmo contribuinte em  04/09/2000, conforme extrato. Caracteriza mera  transferências entre fundos de aplicação.     Por outro  lado, os documentos abaixo relacionados foram insuficientes para  comprovar a origem dos depósitos/aplicações, conforme coluna "análise e motivo da recusa":  Tabela 2 ­ Depósitos sem origem comprovada  Data  Valor  Banco  Justificativa do  contribuinte  documento  comprobatório  folha dos autos  Análise e motivo da recusa  13/07/1999  20.000,00  Itau 0037 c  57075  Resgate CoinValores  Extrato da CoinValores  DTVM  383( fl. 192  rasurada e  ilegível. Cópia  legível na fl. 383)  O extrato apresenta um débito e um crédito no  valor de R$ 20.000,00, com saldo R$ 0,00 ao  final do dia, não representando uma origem de  recursos.  30/03/2000  20.000,00  Itau 0037 c  57075  Resgate da CoinValores  Extrato do Itau  204  Crédito por DOC, proveniente da CoinValores,  mas não há comprovação de que foi proveniente  de conta do mesmo contribuinte .  29/01/1999  120.000,00  Coinvalores  Quitanda  Distribuição de lucros  da empresa Affair  System  Telecomunicações ltda  suposto extrato.   Cópia de cheque   extrato convalores  213    214  380  Extrato e cheque não comprovam que os valores  são provenientes de distribuição de lucros. Não há  qualquer documento comprovando a distribuição  de lucros pela empresa Affair.  03/03/1999  500.000,00  Coinvalores  Quitanda  Distribuição de lucros  da empresa Affair  System  Telecomunicações ltda  suposto extrato.   Cópia de cheque   controle cheque  extrato BB Affair  extrato coinvalores  218  219  220  221  381  Extrato e cheque não comprovam que os valores  são provenientes de distribuição de lucros. Não há  qualquer documento comprovando a distribuição  de lucros pela empresa Affair.  13/05/1999  10.000,00  Itau 0037 c  57075  Distribuição de lucros  da empresa Affair  System  Telecomunicações ltda  Cópia de cheque   controle cheque  comprovante Depósito  224  225  226  Não há qualquer documento comprovando a  distribuição de lucros pela empresa Affair.  08/09/1999  139.468,00  Coinvalores  Quitanda  Distribuição de lucros  da empresa Affair  System  Telecomunicações ltda  suposto extrato.   Cópia de cheque   controle cheque  Extrato coinvalores  229  230  231  384  Não há qualquer documento comprovando a  distribuição de lucros pela empresa Affair.  13/10/1999  1.660,23  Itau 0037 c  57075  Distribuição de lucros  da empresa Affair  System  Telecomunicações ltda  Cópia de cheque   controle cheque  234  235  Não há qualquer documento comprovando a  distribuição de lucros pela empresa Affair.  Fl. 459DF CARF MF     12  Tabela 2 ­ Depósitos sem origem comprovada  Data  Valor  Banco  Justificativa do  contribuinte  documento  comprobatório  folha dos autos  Análise e motivo da recusa  28/12/1999  24.000,00  Itau 0037 c  57075  Distribuição de lucros  da empresa Affair  System  Telecomunicações ltda  Cópia de cheque   controle cheque  239  240  Não há qualquer documento comprovando a  distribuição de lucros pela empresa Affair.  15/02/2000  3.000,00  Itau 0037 c  57075  Distribuição de lucros  da empresa Affair  System  Telecomunicações ltda  comprovante de depósito  242  Não há qualquer documento comprovando a  distribuição de lucros pela empresa Affair.  21/02/2000  40.000,00  Coinvalores  Quitanda  Distribuição de lucros  da empresa Affair  System  Telecomunicações ltda  controle cheque  Aviso de lançamento  (aplicação)  documento ilegível  245  246  247  388  Não há qualquer documento comprovando a  distribuição de lucros pela empresa Affair.  22/02/2000  40.000,00  Coinvalores  Quitanda  Distribuição de lucros  da empresa Affair  System  Telecomunicações ltda  controle cheque  Aviso de lançamento  (aplicação)  documento ilegível  245  246  247  388  Não há qualquer documento comprovando a  distribuição de lucros pela empresa Affair.  29/02/2000  200.000,00  Coinvalores  Quitanda  Distribuição de lucros  da empresa Affair  System  Telecomunicações ltda  cópia cheque  controle cheque  Aviso de lançamento  (aplicação)  documento ilegível  248  249  250  251  388  Não há qualquer documento comprovando a  distribuição de lucros pela empresa Affair.  02/03/2000  3.000,00  Itau 0037 c  57075  Distribuição de lucros  da empresa Affair  System  Telecomunicações ltda  extrato c/c Affair  254  Não há qualquer documento comprovando a  distribuição de lucros pela empresa Affair.  20/04/2000  1.250,00  Itau 0037 c  57075  Distribuição de lucros  da empresa Affair  System  Telecomunicações ltda  cópia cheque  controle cheque  257  258  Não há qualquer documento comprovando a  distribuição de lucros pela empresa Affair.  23/05/2000  2.000,00  Itau 0037 c  57075  Distribuição de lucros  da empresa Affair  System  Telecomunicações ltda  controle cheque  261  Não há qualquer documento comprovando a  distribuição de lucros pela empresa Affair.  31/05/2000  31/05/2000  31/05/2000  72.147,51  72.147,50  72.147,51  Coinvalores  Quitanda  Distribuição de lucros  da empresa Affair  System  Telecomunicações ltda  cópia cheque  controle cheque  cópia cheque  controle cheque  aviso lançamento  (aplicação)  aviso lançamento  (aplicação)  documento ilegível  extrato coinvalores  extrato coinvalores  264  265  266  267  268  269  270  271  272  389  390  Não há qualquer documento comprovando a  distribuição de lucros pela empresa Affair.  08/08/2000  13.000,00  Itau 0037 c  57075  Distribuição de lucros  da empresa Affair  System  Telecomunicações ltda  cópia cheque  controle cheque  275  276  Não há qualquer documento comprovando a  distribuição de lucros pela empresa Affair.  24/08/2000  27.417,00  Itau 0037 c  57075  Distribuição de lucros  da empresa Affair  System  Telecomunicações ltda  controle cheque  controle cheque  279  280  Não há qualquer documento comprovando a  distribuição de lucros pela empresa Affair.  25/08/2000  2.000,00  Itau 0037 c  57075  Distribuição de lucros  da empresa Affair  System  Telecomunicações ltda  cópia cheque  controle cheque  283  284  Não há qualquer documento comprovando a  distribuição de lucros pela empresa Affair.  22/09/2000  2.000,00  Itau 0037 c  57075  Distribuição de lucros  da empresa Affair  System  Telecomunicações ltda  controle cheque  287  Não há qualquer documento comprovando a  distribuição de lucros pela empresa Affair.  02/10/2000  7.000,00  Itau 0037 c  57075  Distribuição de lucros  da empresa Affair  System  Telecomunicações ltda  extrato c/c Affair  290  Não há qualquer documento comprovando a  distribuição de lucros pela empresa Affair.  11/12/2000  30.000,00  Itau 0037 c  57075  Distribuição de lucros  da empresa Affair  System  Telecomunicações ltda  controle cheque  comprovante de depósito  293  294  Não há qualquer documento comprovando a  distribuição de lucros pela empresa Affair.           Distribuição de lucros  da empresa Affair  System  Telecomunicações ltda  Balanço patrimonial  Affair 1998   Balanço patrimonial  Affair 1999  Balanço patrimonial  Affair 2000  295/297  298/306  307/315  Não há qualquer documento comprovando a  distribuição de lucros pela empresa Affair. Nas  demonstrações de resultado do exercício não há  registro de distribuição de lucros.  Deve­se ressaltar que o  sujeito passivo não apresentou qualquer documento  que comprovasse a distribuição ou antecipação de lucros da empresa Affair Telecomunicações  ltda. A existência de lucro no balanço patrimonial da empresa (fls. 295/315) não faz prova da  sua  distribuição,  muito  menos  do  efetivo  pagamento  ao  contribuinte.  Além  disso,  nas  demonstrações  de  resultado  de  exercício  da  empresa  Affair  não  consta  qualquer  registro  de  distribuição de lucros, fazendo prova contra o contribuinte.   Tem­se, portanto, que o sujeito passivo não logrou êxito ao tentar comprovar  a  origem  dos  depósitos/aplicações  em  suas  contas  bancárias,  exceto  para  aqueles  depósitos  Fl. 460DF CARF MF Processo nº 19515.003098/2004­17  Acórdão n.º 2402­005.657  S2­C4T2  Fl. 8          13  indicados na Tabela 1, que devem ser excluídos do lançamento. Recurso parcialmente provido  nessa matéria.  Dos acréscimos legais  Com  relação  à multa  de  ofício  aplicada,  o  percentual  é  exatamente  aquele  previsto para a espécie no art. 44, inciso I, da Lei no 9.430/1996, na redação vigente na época  dos fatos geradores.  No  tocante  aos  juros de mora,  também  foram aplicados nos  estritos  termos  legais, conforme prescreve o art. 61, §3o, da Lei no 9.430/1996.  Os  valores  dos  acréscimos  legais  aplicados  constam  do  demonstrativo  de  multa e dos juros de mora (fl. 99), bem como o enquadramento legal.   Cabe à autoridade administrativa cumprir as determinações legais, aplicando  o  ordenamento  vigente  às  infrações  concretamente  constatadas,  não  sendo  sua  competência  discutir a ocorrência de tributo com efeito de confisco.  Além disso, no âmbito do processo administrativo fiscal, é defeso ao julgador  afastar  a  aplicação  de  lei  ou  decreto,  sob  fundamento  de  inconstitucionalidade,  por  força  da  vedação  do  art.  26­A  do Decreto  no.  70.235/72,  que  dispõe  sobre  o  processo  administrativo  fiscal no âmbito federal.  Rejeitado o recurso na matéria.  Conclusão  Diante  do  exposto,  voto  por  conhecer  do  recurso  para,  no  mérito,  dar­lhe  provimento parcial para excluir da base de cálculo do imposto de renda os depósitos indicados  na tabela 1 do voto.    assinado digitalmente)  Túlio Teotônio de Melo Pereira.                              Fl. 461DF CARF MF

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