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Numero do processo: 13971.723240/2014-54
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Fri Feb 02 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Mar 09 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 3201-001.142
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência. Fez sustentação oral o patrono Dr. Marco Alexandre Soares Silva, OAB/SC 17.420, escritório Eberhardt, Carrascoza & Advogados Associados.
Winderley Morais Pereira - Presidente.
Leonardo Vinicius Toledo de Andrade - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Winderley Morais Pereira (Presidente), Tatiana Josefovicz Belisário, Paulo Roberto Duarte Moreira, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima e Leonardo Vinicius Toledo de Andrade.
Nome do relator: LEONARDO VINICIUS TOLEDO DE ANDRADE
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Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência. Fez sustentação oral o patrono Dr. Marco Alexandre Soares Silva, OAB/SC 17.420, escritório Eberhardt, Carrascoza & Advogados Associados. Winderley Morais Pereira Presidente. Leonardo Vinicius Toledo de Andrade Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Winderley Morais Pereira (Presidente), Tatiana Josefovicz Belisário, Paulo Roberto Duarte Moreira, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima e Leonardo Vinicius Toledo de Andrade. Relatório Por retratar com fidelidade os fatos, adoto, com os devidos acréscimos, o relatório produzido em primeira instância, o qual está consignado nos seguintes termos: "Trata o presente processo de Autos de Infração da COFINS (fls.18) e PIS (fl.03), lavrados em nome do contribuinte em epígrafe pertinente à RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 39 71 .7 23 24 0/ 20 14 -5 4 Fl. 966DF CARF MF Processo nº 13971.723240/201454 Resolução nº 3201001.142 S3C2T1 Fl. 3 2 insuficiência do recolhimento das contribuições, nos períodos de apuração de 09/2009 a 12/2013, conforme abaixo discriminado: No Relatório Fiscal fl.33 e ss, consta que: 1. Analisando os DACON apresentados, verificouse que a contribuinte informou valores expressivos na linha “13. Outras Operações com Direito a Crédito” das fichas 06A e 16A, fichas estas que refletem as aquisições da contribuinte passíveis de aproveitamento de créditos na apuração das contribuições ao PIS e COFINS, respectivamente. Verificouse ainda que, invariavelmente, não foram apurados valores de contribuições a pagar, e nem houve excedentes de créditos, ou seja, o total de créditos informados em cada mês de apuração foi exatamente igual ao valor das contribuições apuradas; 2. Em atendimento da intimação formulada, a contribuinte apresentou a planilha “Item 2.9 Contas contábeis e valores linha 13.xls”, que contém não só a indicação das contas contábeis, mas informações relativas a todos os lançamentos relacionados aos créditos pretendidos pela contribuinte. A análise desta planilha demonstrou que os créditos informados se referem a períodos de apuração antigos, abrangendo o período de outubro de 2004 a dezembro de 2013. Além disso, as contas contábeis foram indicadas apenas pelo seu código, sem apresentar a respectiva descrição da conta contábil. Como se trata de créditos extemporâneos, contabilizados desde outubro de 2004, muitas das contas citadas não estão presentes na contabilidade do período sob auditoria; 3. Mesmo para as contas cujos códigos puderam ser identificados na contabilidade, não há certeza sobre a sua identificação, pois o plano de contas da contribuinte pode ter sofrido alterações no decorrer do período; 4. O que se percebe é que a contribuinte pretende um alargamento do conceito de insumo, indo muito além do previsto na legislação do PIS e COFINS, adiante comentada. Para pautar seu procedimento, se socorre de acórdão emanado pelo CARF, e afirma que "a esmagadora maioria da doutrina e da jurisprudência, inclusive administrativa" reconhece que o conceito de insumo, para fins da apuração não cumulativa das contribuições, abrange os custos e despesas operacionais necessários para que as receitas operacionais sejam auferida; 5. O argumento da contribuinte não pode prosperar. Diversos acórdãos mais recentes emanados pelo CARF abordam o tema, e Fl. 967DF CARF MF Processo nº 13971.723240/201454 Resolução nº 3201001.142 S3C2T1 Fl. 4 3 restringem sobremaneira o entendimento que a contribuinte pretende adotar; 6. A justificativa apresentada para os valores informados nos DACON como “outras operações com direito a crédito” foi o alargamento do conceito de insumo; 7. Questionada sobre o fato de não ter aproveitado estes créditos no correspondente período de apuração das contribuições, aproveitando os de forma extemporânea, a contribuinte asseverou que, a partir do momento em que encampou a tese do alargamento do conceito de insumos, fez um levantamento dos últimos cinco anos, retroagindo a 2004, apurando as operações que originalmente não foram consideradas como insumos para apuração destas contribuições (resposta ao quarto quesito do Termo de Intimação Fiscal 02); 8. Assim, os insumos incontroversos quanto ao creditamento das contribuições já haviam sido considerados nos próprios períodos de apuração de sua competência, enquanto os ora analisados só foram considerados como “insumos” devido ao alargamento indevido deste conceito; 9. É de se esperar, portanto, que as “demais operações com direito a crédito” assim classificadas pela RENAUXVIEW, possuam características que impeçam, à luz da legislação das contribuições, o aproveitamento de créditos para a sua apuração; 10. Ao observar a legislação de regência, verificase que, de modo geral, os créditos que podem ser descontados na apuração das contribuições são calculados em relação às seguintes operações: Aquisição de bens para revenda; Aquisição de insumos; Aluguéis pagos; Arrendamentos mercantis pagos; Despesas de depreciação de máquinas, equipamentos, edificações e benfeitorias; Devoluções de bens; e Energia elétrica; 11. Tal relação, entretanto, é apenas ilustrativa e não exaustiva, sendo importante destacar que mesmo nas operações citadas existem restrições e condições específicas para o aproveitamento de créditos, que devem ser analisadas em cada caso concreto. Uma destas restrições, por exemplo, referese ao fato de que as aquisições de bens e serviços não sujeitos ao pagamento das contribuições não geram direito ao crédito; 12. Conforme se verifica na argumentação da contribuinte, durante o procedimento fiscal, o ponto crucial de sua pretensão compreende a definição dos insumos que podem ser considerados como crédito no regime de incidência não cumulativa das contribuições PIS e COFINS, de que trata o art. 3º da Lei 10.833/2003; 13. Apesar da redação do dispositivo legal ser suficientemente clara ao vincular a utilização dos insumos com a fabricação de bens ou produtos destinados à venda, a Instrução Normativa SRF 404/2004 aborda novamente a questão, em relação à apuração da COFINS. Quanto ao PIS, disposição idêntica encontrase na INSRF nº Fl. 968DF CARF MF Processo nº 13971.723240/201454 Resolução nº 3201001.142 S3C2T1 Fl. 5 4 247/2002, especificamente em seu artigo 66, com as alterações efetuadas pela INSRF nº 358, de 2003; 14. Das planilhas apresentadas pelo contribuinte, identificando as contas contábeis e as agrupando conforme as operações que, em sua visão, geram direito ao creditamento na apuração do PIS e da COFINS, cabem as observações a seguir: A) Despesas Financeiras Em relação a valores pertinentes a despesas bancárias, despesas c/abertura carta de crédito, juros de empréstimos, correção monetária de empréstimos, juros de mora, despesas debêntures, entre outras, cuja própria denominação já é suficientemente clara para identificar a natureza de tais despesas, como tipicamente financeiras, é mister esclarecer que, apenas por um curto período foi permitido o aproveitamento de créditos sobre determinadas despesas financeiras, especificamente enquanto vigeu a redação original do inciso V do artigo 3º das Leis 10.637/2002 e 10.833/2003, alterados em 2004 pela Lei 10.865; Assim, no período sob análise, não há permissão para o creditamento pretendido. B) Despesas com Vendas As Despesas com Vendas consideradas pelo contribuinte, tais como Material de Expediente, Despesas Postais, Propaganda e Publicidade, Royalites, Amostras, Serviço de Manutenção e Reparo, Feiras e Eventos, Gratificações, Brindes Promocionais, Serviços de Terceiros, entre outros, não se enquadram nas operações que geram direito ao crédito de PIS e COFINS; C) Matériasprimas, materiais de embalagens e peças de manutenção A denominação dada a este grupo pela contribuinte, “Matériasprimas, materiais de embalagens, peças de manutenção”, dá a impressão de tratarse de insumos que podem ter sido efetivamente consumidos no processo produtivo, ou seja, passíveis de creditamento na apuração do PIS e COFINS não cumulativos; No entanto, devemos recordar que as operações sob análise só foram consideradas pela contribuinte como passíveis de creditamento a partir do momento em que foi adotado o alargamento do conceito de insumo. Assim, tais operações não foram originalmente consideradas como insumos para apuração destas contribuições, sendo previsível que contenham características que, de fato, impeçam o creditamento à luz da legislação das contribuições; Dentre as contas contábeis classificadas neste grupo a mais expressiva é a denominada “116806 Materiais Diversos”, com um total de R$ 4.208.616,56. Com apoio na planilha anexa a este termo (Lançamentos contábeis relacionados a Outras Operações com Direito a Crédito.xlsx) foram identificados os lançamentos contábeis mais representativos desta conta; O maior lançamento se refere a uma aquisição feita junto a um restaurante, denominado MANA do Brasil Restaurante Ltda, contabilizada em 25/08/2010, no valor de R$ 54.402,67. Além deste, pelo menos outros dois lançamentos dentre os 12 mais expressivos Fl. 969DF CARF MF Processo nº 13971.723240/201454 Resolução nº 3201001.142 S3C2T1 Fl. 6 5 estão vinculados a aquisição de alimentos, como denuncia o nome dos fornecedores, a saber : 18/12/2010 SEARA Alimentos S/A, no valor de R$ 16.785,40, e 18/12/2009: Atacadão Brusquense de Alimentos Ltda, no valor de RS 12.475,00; Tal constatação é suficiente para afastar a pretensão da contribuinte, pois despesas com alimentação não se enquadram no conceito de insumo para fins do regime não cumulativo de apuração das contribuições. Outras contas contábeis agrupadas pela contribuinte como “Matérias primas, materiais de embalagens, peças de manutenção” denotam, pela própria nomenclatura, não se tratar de insumos hábeis para o creditamento. É o caso da conta “116802 Material para escritório” (valor total de R$ 1.842.681,42), cuja denominação torna evidente o seu uso no setor administrativo, fugindo do conceito de insumo hábil a gerar crédito na apuração das contribuições. Há ainda neste grupo as contas “116805 Vasilhames/Embalagens de processo” e “116604 Material de Embalagem”, com valores totais de R$ 565.765,78 e R$ 394.588,93, respectivamente; A este respeito, a jurisprudência administrativa tem acatado o creditamento apenas das embalagens que são incorporadas ao produto durante o processo de industrialização, as chamadas embalagens de apresentação. Tais embalagens tem como finalidade a apresentação do produto ao consumidor final, em quantidades compatíveis com sua venda no varejo; Já as embalagens para transporte, incorporadas apenas depois de concluído o processo produtivo, não podem gerar direito ao creditamento relativo às suas aquisições; No caso da empresa fiscalizada, sua produção consiste de tecidos, a serem vendidos para outras indústrias têxteis, ou para empresas varejistas, que os vendem ao consumidor final. Tais produtos não comportam embalagens de apresentação, mas apenas para viabilizar o transporte; Por tal motivo, a contribuinte não se creditou originalmente de tais valores, mas apenas após rever e alargar, indevidamente, o conceito de “insumo” para apuração das contribuições no regime não cumulativo. D) Diversos Custos de Produção Neste grupo foram considerados lançamentos que totalizam R$ 21.345.761,93. A expressiva maioria está vinculado à conta contábil “411510 Serviços de Terceiros P.J.”, alcançando R$ 14.590.941,73; Analisando os lançamentos contábeis relacionados pela contribuinte, verificase que a maciça maioria deste valor referese ao fornecedor RIO VIVO ENGENHARIA AMBIENTAL LTDA, com diversos lançamentos alcançando o valor total de R$ 9.879.560,40 de 2004 a 2013. Conforme consulta ao sítio eletrônico da empresa (http://www.riovivo.com.br/), ela está habilitada a executar projetos, construir, gerenciar e operar Sistemas de Tratamento de Efluentes Fl. 970DF CARF MF Processo nº 13971.723240/201454 Resolução nº 3201001.142 S3C2T1 Fl. 7 6 Industriais e Sanitários,o que indica a natureza dos serviços prestados à contribuinte fiscalizada; Além deste prestador, outros identificados nos lançamentos contábeis permitem identificar a natureza dos serviços prestados, que seriam de assessoria, treinamento ou vinculados a tratamento de resíduos, tais como os seguintes: DJN ASSESSORIA E CONSULTORIA LTDA; FUNDAÇÃO BLUMENAUENSE DE ESTUDOS TÊXTEIS; RECICLE CATARINENSE DE RESÍDUOS LTDA; SENAI SERVIÇO NACIONAL DE APRENDIZAGEM INDUSTRIAL; CATARINENSE ENGENHARIA AMBIENTAL S/A; e CAÇAMBA CIDADE LIMPA LTDA; Apesar de relevantes e necessários, tais serviços são auxiliares ou complementares ao processo produtivo, não podendo ser considerados como insumos para fins de creditamento para apuração das contribuições. E) Despesas Operacionais Diversas contas integrantes de tal grupo já evidenciam, pela sua descrição, o motivo da contribuinte não ter se creditado das contribuições nos períodos originais de tais aquisições, tais como Assinatura de Jornais e Revistas, Seguros, Benfeitorias, Associação de Classe, Assinaturas e Publicações, Despesas Postais, entre outras..São operações manifestamente impróprias para a geração de créditos para apuração das contribuições; A conta principal deste grupo, com lançamentos que remontam a R$ 12.921.077,56 no período, é a denominada “440319 Serviços de Terceiros Pessoa Jurídica”. Analisando os lançamentos contábeis correspondentes, verificase que englobam despesas com advogados, serviços contábeis e de auditoria, serviços de informática, de segurança privada, dentre outros. Evidentemente não se tratam de serviços utilizados diretamente no processo produtivo das mercadorias sujeitas às contribuições PIS e COFINS; F) Gastos com Pessoal A descrição das contas contábeis e dos fornecedores indicados nos lançamentos contábeis demonstram que os gastos mais representativos se referem à alimentação, plano de saúde, bolsas de estudo, valetransporte e treinamento, que não permitem o creditamento para apuração das contribuições. G) Imobilizado A mera descrição deste grupo, e das contas contábeis que o compõem, já demonstra tratarse de instalações e equipamentos do imobilizado, sendo que apenas as respectivas despesas de depreciação podem gerar créditos na apuração das contribuições; Esta breve análise confirmou que, de fato, as operações sob análise contêm características que impedem o creditamento sobre o valor de tais aquisições, justificando o fato da contribuinte não ter aproveitado os respectivos créditos nos períodos originais de apuração das contribuições, mas apenas após rever e expandir, de maneira indevida, o conceito de insumo; Fl. 971DF CARF MF Processo nº 13971.723240/201454 Resolução nº 3201001.142 S3C2T1 Fl. 8 7 E justamente este aproveitamento de créditos a destempo caracteriza outro óbice para a pretensão da contribuinte. 15. Conforme a contribuinte afirma textualmente em sua resposta ao Termo de Intimação Fiscal 02, a partir do momento que a empresa resolveu adotar o conceito mais amplo de insumo para fins de apuração das contribuições, promoveu o "levantamento e a consequente tomada dos créditos dos cinco anos anteriores a essa tomada de decisão,a partir do que, esses créditos levantados foram sendo lançados em “outros créditos no DACON”; 16. De fato, a planilha “Item 2.9 Contas contábeis e valores linha 13.xls” apresentada em atendimento ao Termo de Início de Procedimento Fiscal demonstra que a contribuinte apurou tais créditos desde outubro de 2004 até dezembro de 2013, e os aproveitou nos períodos de apuração de setembro de 2009 a dezembro de 2013; 17. Nem mesmo ao final de 2013 o aproveitamento de créditos pretendidos pela contribuinte foi feito nos meses de apuração corretos. Somente parte do valor informado no DACON de dezembro de 2013, e apenas no caso do PIS, são originários de operações daquele mês; 18. Assim, tais créditos relativos a períodos anteriores ao fato gerador da contribuição serão aqui doravante denominados como créditos extemporâneos; 19. Tais créditos extemporâneos sujeitamse à glosa integral, independentemente da eventual procedência do direito da contribuinte caso tivessem sido informados tempestivamente (procedência que, como já visto, não encontra amparo legal). Dispondo sobre o DACON encontravase em vigor em 2009 a IN RFB n° 940, de 19/05/2009 que, no caput de seu art. 14, e em específico o seu parágrafo primeiro, aborda a retificação de demonstrativos.Tal normativa foi substituída pela IN RFB n°. 1.015, de 05/03/2010 que tratou de idêntica forma o assunto, conforme seu artigo 10; 20. Com base em tais artigos, importa concluir que o aproveitamento dos créditos sob análise deveria ter sido feito mediante a retificação dos demonstrativos dos períodos próprios dos créditos. Ademais das prescrições normativas acima indicadas, ressaltese que a posição aqui adotada, quanto ao não acatamento desses créditos extemporâneos, não se fundamenta simplesmente em excessivo rigor formal para obstaculizar o direito em questão, mas sim da inarredável constatação de que o gozo do benefício fiscal em questão cingese à existência de controles mínimos por parte do fisco, em observância ao princípio da indisponibilidade do interesse público. Não se tem como apreciar créditos de 2004 no bojo da análise dos períodos de 2009, por exemplo. Os direitos daqueles anos pretéritos haveriam de ser apreciados em conjunto com as informações pertinentes àqueles períodos, até mesmo para se verificar se tais créditos, de fato, não foram utilizados em seus períodos próprios, condição indispensável para a pretensão da contribuinte, de os aproveitar extemporaneamente; Fl. 972DF CARF MF Processo nº 13971.723240/201454 Resolução nº 3201001.142 S3C2T1 Fl. 9 8 21 Além disso, o mecanismo da nãocumulatividade insculpido nas leis de regência requer que o débito e o total dos créditos apurados sejam confrontados no mesmo período de apuração. Assim, da mesma forma que não seria cabível um eventual acréscimo de débitos de 2004 ser agora informado como compondo débitos de 2009, também não é pertinente que o débito de 2009 seja confrontado com créditos de 2004, senão com saldos remanescentes deles, para obter a contribuição devida nesses períodos de apuração de 2009; 22. Mesmo a norma do parágrafo 4o do artigo 3o das leis 10.637 e 10.833, de que o crédito não aproveitado em determinado mês poderá sêlo nos meses subsequentes, não pode ser invocada pela contribuinte, uma vez que não devem caber dúvidas quanto ao seu alcance. Tal disposição trata de crédito excedente de um determinado mês, após o desconto com os débitos do mesmo período, ou seja, referese a valores devidamente informados nos DACON próprios e não aproveitados, por serem superiores ao débito apurado. Logo tal disposição não significa autorização para que se aproveite direitos de períodos anteriores da forma como pretendeu a contribuinte; 23. Assim, restou comprovado à exaustão que não é permitido o aproveitamento de créditos relativos a operações de períodos anteriores, que deve ser feito exclusivamente pela retificação dos demonstrativos dos competentes períodos de apuração. Devidamente cientificada em 19/09/2014 fl.76, a interessada apresentou, em 20/10/2014 fl.79 e ss, impugnação, alegando em resumo que: 1. De imediato, temos que o entendimento da autoridade fazendária, de exigir a retificação dos DACONs anteriores, para apropriação de créditos extemporâneos, não encontra eco na norma de regência do PIS/COFINS. Afinal, a partir do momento em que se adota tal procedimento não há extemporaneidade, na medida em que os créditos e débitos são confrontados dentro dos respectivos períodos de apuração; 2. Com o devido respeito, causa espécie a posição adotada no caso concreto pela autoridade fazendária, pois na sua visão os trabalhos investigativos teriam validade para desconsiderar informações dos DACONs apenas naquilo que prejudica a empresa. Já nos pontos em que isso beneficia a empresa, vem a alegação de que prevalecem as informações prestadas originariamente; 3. Não se olvide, jamais, da natureza rígida e exaustiva do sistema jurídico tributário, lastreado nos princípios da legalidade e da tipicidade (CF/88, arts. 5o, caput, II; e 150, I; e CTN, arts. 3º e 97), dos quais decorrem a exigência da formalização do crédito tributário via ato administrativo de lançamento, cujo ônus da prova da ocorrência do fato gerador e da identificação do montante tributável por determinada exação é do fisco; 4. Originandose o crédito tributário da correspondente obrigação tributária e esta da ocorrência, no mundo dos fatos, da prática de algum ato que implique no dever de pagar tributo, concluise que, diferentemente das prestações contratuais, que são obrigatórias por Fl. 973DF CARF MF Processo nº 13971.723240/201454 Resolução nº 3201001.142 S3C2T1 Fl. 10 9 força da vontade das partes contratantes, na relação tributária a obrigação de prestar não é volitiva, pois se impõe diretamente da lei, independentemente da manifestação de vontade daquele a quem a lei vincula a obrigação. Isso é o que se dessume, dentre outros, dos arts. 150, I, da Constituição Federal de 1988, e dos arts. 3o e 97, do Código Tributário Nacional; 5. Ao contrário do que restou assentado no relatório fiscal, no caso o ônus da prova não é apenas do contribuinte, mas compartilhado com o fisco, e a partir do momento em que a empresa aponta a origem dos créditos compensados, a fiscalização deverá realizar os trabalhos investigativos a seu encargo, isto é, auditar as informações correspondentes. É sob este aspecto que se invoca a verdade material; 6. No que interessa ao caso dos autos, os créditos utilizados pela empresa são reais, estando materialmente incólume a sua conduta. Não será, pois, o não cumprimento de mera formalidade que terá o condão de infirmar créditos ilegítimos. O que ocorre é que estamos diante de tributos sujeitos ao lançamento por homologação, em que o contribuinte, internamente, na sua própria contabilidade, apura os valores devidos e os declara ao fisco; 7. Assim, se o DACON está em descompasso com a realidade da escrita da empresa, o que deve prevalecer é a realidade dos fatos, seja em prol do fisco (no caso de lançamento suplementar), seja a favor do contribuinte (para reconhecer crédito não acusado pelo sistema); 8. Enfim, sempre com o devido respeito, não há condições de subsistir a premissa adotada na fiscalização, no sentido de que a ausência de retificação prévia dos DACONs justificaria a glosa levada a cabo. Tratase de medida desnecessária, cabendo à autoridade fazendária adotar as medidas pertinentes à quantificação dos créditos apontados pelo contribuinte; 9. Ao tratar dos créditos extemporâneos apontados pela empresa, a fiscalização se apegou a alguns casos específicos, em torno dos quais existe certa controvérsia, sem observar, contudo, que em muitas hipóteses o crédito se sustenta mesmo diante da (incorreta) interpretação restritiva defendida pela fazenda; 10. Para todas as hipóteses levantadas pela fiscalização, com efeito, é muito claro o direito de crédito, ante o disposto no art. 3o, das Leis nºs 10.637/2002 e 10.833/2003, devendo ser provida a presente impugnação neste aspecto igualmente. Como informado ao longo do procedimento fiscalizatório, a empresa entende que o seu direito aos créditos das contribuições em destaque é muito mais amplo do que vem reconhecendo a Receita Federal e a incorreção deste ponto demonstra a impropriedade das glosas levadas a efeito; 11. Em verdade, o rol de créditos contido nas Leis nºs 10.637/02 e 10.833/03, art. 3o, é meramente exemplificativo, não se limitando às hipóteses nele previstas textualmente; 12. Para que bem se possa desvendar a matéria posta sob exame, não se pode prescindir da análise do conteúdo e alcance do princípio constitucional da nãocumulatividade tributária; Fl. 974DF CARF MF Processo nº 13971.723240/201454 Resolução nº 3201001.142 S3C2T1 Fl. 11 10 13. De fato, com a edição da Emenda Constitucional nº 42/2003, a aplicabilidade deste princípio às contribuições sociais de que se está a tratar ganhou contornos constitucionais. Assim sendo, em que pese as Leis nºs 10.637/2002 e 10.833/2003, decorrentes da conversão de medidas provisórias prévias, serem anteriores à mencionada previsão constitucional da nãocumulatividade, resta evidente que toda sua regulamentação deve ser harmonizada e compatibilizada com a sistemática constitucional vigente para esse primado tributário; 14. Nesse sentido, devese ter em mente que a tributação não cumulativa tem por finalidade neutralizar os efeitos da repercussão tributária dentro da cadeia de fabricação e circulação de produtos, impedindo que o repasse do ônus econômico da incidência do tributo ao preço do produto tributado (repercussão tributária) venha a onerar o empresário, que poderá compensar o tributo previamente incidente com o por ele devido; 15. Com isso, sob o ponto de vista econômico, tributase apenas o valor adicionado ou agregado ao produto fabricado por cada empresário e, como dito, neutralhizase o fenômeno da repercussão tributária ao longo da cadeia produtiva. Apenas o consumidor final, que não tem direito ao crédito do tributo, arcará economicamente com o ônus da imposição tributária; 16. Vale dizer, na sistemática da incidência tributária nãocumulativa, a regra é que o tributo incidente na etapa anterior seja sempre aproveitado pelo contribuinte empresário na etapa subsequente, vindo a onerar única e exclusivamente o consumidor final. Portanto, a vedação ao crédito do tributo incidente na etapa anterior, por qualquer motivo que seja, é exceção à regra, não podendo prevalecer acaso não esteja constitucionalmente autorizada; 17. Para a máxima e efetiva aplicação do princípio da não cumulatividade, todas as despesas e custos pagos ou incorridos pelos contribuintes, onerados pelo PIS/COFINS, haverão de gerar, necessariamente, créditos para o abatimento do valor devido a título de essas contribuições, sob pena de tornar sua cobrança cumulativa; 18. Especificamente em relação às despesas financeiras, cuja negativa ao crédito reside nos arts. 21 e 37, da Lei n.° 10.865/2004, tais regras apresentamse eivadas de inconstitucionalidade, pois ofensivas ao primado da nãocumulatividade tributária, de observância obrigatória também para a cobrança das contribuições a COFINS e ao PIS, tal como exigido pelo § 12 do art. 195 da Magna Carta de 1988, acrescentado pela Emenda Constitucional n. 42/2003; 19. Com efeito, citado preceito constitucional, ao impor a observância do princípio da nãocumulatividade tributária sobre essas exações, facultou a legislação infraconstitucional, única e exclusivamente, definir os setores da economia para os quais haveria a sua incidência, não lhe outorgando competência para disciplinar quais as despesas e custos pagos ou incorridos pelos contribuintes seriam ou não passíveis de gerar crédito dessas exações; Fl. 975DF CARF MF Processo nº 13971.723240/201454 Resolução nº 3201001.142 S3C2T1 Fl. 12 11 20. Dessa forma, sem prejuízo do amplo direito de crédito defendido no tópico precedente, nos casos em tela, relativos a coleta de resíduos sólidos, tratamento de efluentes, cavaco, embalagens de transporte e peças de reposição, a empresa defende pontualmente o direito de crédito, com amparo nos precedentes supra; 21. Temse ainda que a glosa de créditos deu lugar à exigência de PIS/COFINS supostamente devidos, em cuja base de cálculo, é sabido, a fazenda insiste defender a inclusão do ICMS, destinado aos Estados. Segundo o artigo 110 do CTN, os conceitos de direito privado, utilizados pelo legislador constitucional, expressa ou implicitamente, não poderão ser alterados pelo legislador e muito menos pelo aplicador da norma. Tratase de dispositivo de conteúdo meramente didático, pois, evidentemente, a Constituição prevalece sobre as demais regras do ordenamento em vigor, independentemente de qualquer disposição ordinária em tal sentido; 22. De outro lado, na hipótese de a Constituição nao lançar mão de conceito de direito privado, o legislador ordinário poderá alterar institutos, equiparando relações que não encontram correspondência direta na vida civil (artigo 109, CTN). Poderá estatuir, que a doação equivale à compra e venda, para fins de exigência de determinado tributo; 23. Destarte, inequívoco se apresenta que está consagrado na ordem jurídica vigente, como barreira intransponível para a válida e legítima incidência das contribuições sociais previdenciárias (ou de seguridade social) denominadas PIS/COFINS, a percepção de faturamento e/ou receita, sendo esse o núcleo da hipótese de incidência autorizada para a cobrança dessas exações. Ou seja, a base de cálculo das mesmas está constitucionalmente prevista; 24. Nessa direação há de se atentar que somente poderão ser tidos por faturamento/receita os valores que representarem o ingresso de recursos financeiros que se aderem definitivamente ao patrimônio e à propriedade da pessoa que os auferiu, traduzindose, pois, em riquezas novas; 25. O ICMS não representa faturamento, mas sim ônus fiscal, razão pela qual não pode ser a ele equiparado. Por tal razão, é indene de dúvidas que não pode compor a base de cálculo do PIS e da COFINS. De fato, o ICMS não constitui receita própria, mas sim receita alheia, no caso, do Estado credor. Tratase, na realidade, de ingresso de numerário que não integra o patrimônio da empresa, pois apenas transita pelos cofres e pela contabilidade desta para depois serem repassados ao Fisco Estadual sujeito ativo do referido tributo; 26. Logo, natural é que não se tribute valores que não pertencem à empresa e nem que não se refiram ao seu acréscimo patrimonial, porquanto resultaria numa tributação com efeito confiscatório, nos termos do inciso IV, do art, 150 da CF/88; 27. Outra questão a ser debatida na presente defesa circunda a impossibilidade de os juros Selic incidirem sobre a multa de ofício. O art. 161 do CTN, regra com status de lei complementar, apenas autoriza a incidência de juros sobre o principal não pago; Fl. 976DF CARF MF Processo nº 13971.723240/201454 Resolução nº 3201001.142 S3C2T1 Fl. 13 12 28. Em uma simples análise da norma, concluise que ela está a se referir ao principal, pois incidente sobre o valor não pago no vencimento, momento em que não existem acréscimos de multa ou juros; 29. Somente depois do vencimento se afigura cabível a incidência de tais acréscimos, e se a norma fala em valor devido no vencimento, ela está a se referir ao principal, e não aos seus acessórios. Entendimento diverso ao ora defendido implica em locuplemento ilícito do Estado, ante o abandono de suas funções públicas, para assumir papel de entidade privada, como se instituição bancária fosse, incorrendo em verdadeiro confisco, ao arrepio do disposto nos arts. 5º, caput, e 150, IV, da CF/88; 30. Tanto é procedente a tese ora levantada, que a própria legislação ordinária, Lei nº 9.430/96, prevê a incidência da taxa SELIC sobre os débitos relativos a tributos e contribuições, ou seja, sem qualquer menção de incidência de juros sobre multa; 31. Enfim, não colhe a conhecida prática adotada pela RFB de onerar a multa de ofício com a indevida incidência da taxa SELIC, devendo ser expurgada tal cobrança; 32. Em face do exposto, requer seja recebida e regularmente processada a presente impugnação, suspendendo a exigibilidade de todo o crédito tributário impugnado e, ao final, julgada integralmente procedente a defesa e por consequência cancelar os autos de infração combatidos, ou, quando menos, o seu cancelamento parcial, mediante expurgo das parcelas indevidas e cômputo de créditos extemporâneos legítimos, bem como exclusão dos juros de mora sobre a multa de ofício. Junto com a impugnação, o contribuinte carreou aos autos Procuração, documentos de identidade, Estatuto Social, além de cópias de diversas Notas Fiscais." A decisão recorrida julgou improcedente a impugnação e apresenta a seguinte ementa: "ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/09/2009 a 31/12/2013 EXCLUSÃO DO ICMS DA BASE DE CÁLCULO. Incabível a exclusão do valor devido a título de ICMS da base de cálculo da COFINS, pois aludido valor é parte integrante do preço das mercadorias e dos serviços prestados, exceto quando referido imposto for cobrado pelo vendedor dos bens ou pelo prestador dos serviços na condição de substituto tributário, o que não consta ser o caso da interessada. INCIDÊNCIA NÃOCUMULATIVA. APROVEITAMENTO DE CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. NECESSIDADE DE RETIFICAÇÃO DE DACON E DCTF. Fl. 977DF CARF MF Processo nº 13971.723240/201454 Resolução nº 3201001.142 S3C2T1 Fl. 14 13 É exigida a entrega de Dacon e DCTF retificadoras quando houver aproveitamento extemporâneo de créditos da Cofins. NÃO CUMULATIVIDADE. INSUMOS. Os bens e serviços caracterizados como insumos são aqueles diretamente aplicados ou consumidos na produção ou fabricação do produto. Despesas e custos indiretos, embora necessários à realização das atividades da empresa, não podem ser considerados insumos para fins de apuração dos créditos no regime da nãocumulatividade. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/09/2009 a 31/12/2013 EXCLUSÃO DO ICMS DA BASE DE CÁLCULO. Incabível a exclusão do valor devido a título de ICMS da base de cálculo do PIS, pois aludido valor é parte integrante do preço das mercadorias e dos serviços prestados, exceto quando referido imposto for cobrado pelo vendedor dos bens ou pelo prestador dos serviços na condição de substituto tributário, o que não consta ser o caso da interessada. INCIDÊNCIA NÃOCUMULATIVA. APROVEITAMENTO DE CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. NECESSIDADE DE RETIFICAÇÃO DE DACON E DCTF. É exigida a entrega de Dacon e DCTF retificadoras quando houver aproveitamento extemporâneo de créditos da Contribuição para o PIS/Pasep. NÃO CUMULATIVIDADE. INSUMOS. Os bens e serviços caracterizados como insumos são aqueles diretamente aplicados ou consumidos na produção ou fabricação do produto. Despesas e custos indiretos, embora necessários à realização das atividades da empresa, não podem ser considerados insumos para fins de apuração dos créditos no regime da nãocumulatividade. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/09/2009 a 31/12/2013 JUROS SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A multa de ofício, sendo parte integrante do crédito tributário, está sujeita à incidência dos juros de mora a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao do vencimento. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido" O recurso voluntário foi interposto de forma hábil e tempestiva, contendo, em breve síntese, os seguintes argumentos: (i) desnecessidade de retificação de declarações anteriores (DCTF e DACON); Fl. 978DF CARF MF Processo nº 13971.723240/201454 Resolução nº 3201001.142 S3C2T1 Fl. 15 14 (ii) que o art. 3°, §4°, das Leis 10637/2002 e 10833/2003 dispõe que o crédito (nãocumulativo de PIS/COFINS) não aproveitado em determinado mês poderá sêlo nos meses subsequentes; (iii) não há amparo legal para exigir a retificação de DACONS's e DCTF's anteriores, para apropriação de créditos extemporâneos; (iv) que ao caso deve se aplicar o princípio de verdade material; (v) que não é o descumprimento de mera formalidade que possui o condão de infirmar créditos legítimos; (vi) são incontroversos os créditos pleiteados (insumos), e cita como exemplo: a) algodão utilizado na fabricação de tecidos; b) fio 40/1, utilizado na fabricação de tecidos; c) DEVEKOT RN, produto químico utilizado no beneficiamento do tecido; d) combustíveis, inclusive gás natural industrial, e lubtificantes, todos utilizados no processo produtivo; e) aluguéis de máquinas e equipamentos; f) serviços prestados por terceiros ao longo do ciclo produtivo, tais como tingimento de fios/tecidos, calandragem, estamparia; g) serviços de transporte de insumos. (vii) o rol de créditos contido nas Leis 10637/2002 e 10833/2003 é meramente exemplificativo, sendo amplo; (viii) deve ser respeitado o princípio da nãocumulatividade, devendo todas as despesas e custos incorridos gerar crédito; (ix) com relação as despesas financeiras, cuja negativa de crédito se deu em função dos arts. 21 a 37 da Lei 10865/2004, que tal regramento legal está eivado de inconstitucionalidade; (x) cita outras hipóteses de créditos, tais como, a) coleta de resíduos sólidos e tratamento de efluentes; b) cavaco; c) embalagens de transporte e d) peças de reposição, que nestas situações pontuais, a jurisprudência do CARF vem reconhecendo o direito ao crédito de PIS e COFINS; (xi) que o ICMS não compõe a base de cálculo do PIS e da COFINS, por não representar faturamento; (xii) não podem incidir juros sobre a multa de ofício, sendo que os juros somente podem incidir sobre o principal de acordo com o art. 161 do CTN; Fl. 979DF CARF MF Processo nº 13971.723240/201454 Resolução nº 3201001.142 S3C2T1 Fl. 16 15 (xiii) que a Lei 9430/1996 prevê a incidência da taxa SELIC sobre os débitos relativos a tributos e contribuições, sem fazer menção de incidência de juros sobre multa, e (xiv) o lançamento é ilíquido e incerto. É o relatório. Voto Conselheiro Leonardo Vinicius Toledo de Andrade Denotase que parcela significativa do recurso referese ao direito de a recorrente se creditar do PIS e da COFINS (nãocumulatividade) sobre valores incorridos na aquisição de bens e serviços caracterizados como insumos. A recorrente cita como exemplos de insumos: a) algodão utilizado na fabricação de tecidos; b) fio 40/1, utilizado na fabricação de tecidos; c) DEVEKOT RN, produto químico utilizado no beneficiamento do tecido; d) combustíveis, inclusive gás natural industrial, e lubrificantes, todos utilizados no processo produtivo; e) aluguéis de máquinas e equipamentos; f) serviços prestados por terceiros ao longo do ciclo produtivo, tais como tingimento de fios/tecidos, calandragem, estamparia; g) serviços de transporte de insumos. Cita outras hipóteses de créditos, tais como, a) coleta de resíduos sólidos e tratamento de efluentes; b) cavaco; c) embalagens de transporte e d) peças de reposição Aqui, merece ser salientado o entendimento do Conselheiro Winderley Morais Pereira, externado no processo 10940.903774/201199 in verbis: "Estáse as voltas novamente com a discussão sobre o creditamento de insumos para apuração das contribuições sobre o PIS e a COFINS. Matéria que tem sido objeto de julgamento em diversas turmas desta terceira seção. É cediço que a situação atual do julgamento no CARF é de aplicar o conceito de insumos em relação ao processo produtivo do contribuinte, adotando uma posição intermediária entre aquela considerada pela Receita Federal, com base na IN SRF 247/02 e IN SRF 404/04 e aquela defendida por muitos contribuintes em que todas as despesas e aquisições realizadas estariam incluídas no conceito de insumo. Em razão destes posicionamentos, nos deparamos com situações distintas no processo. A Fiscalização ao auditar a empresa, utilizando as regras constantes das instruções normativas da Receita Federal, não se atem ao exame detalhado da situação das aquisições e despesas Fl. 980DF CARF MF Processo nº 13971.723240/201454 Resolução nº 3201001.142 S3C2T1 Fl. 17 16 incorridas no processo produtivo, utilizando critérios que ao sentir da Fiscalização são suficientes para afastar tais despesas do conceito de insumo, procedendo assim, as glosas aos créditos informados pelo contribuinte. De outro giro, o contribuinte ao se deparar com a posição adotada pelo Fisco e considerando o seu próprio entendimento sobre o conceito de insumo. Apresenta os seus recursos administrativos alegando que as aquisições de bens e serviços informados como insumo em sua totalidade são procedentes, aplicando um conceito amplo em que todas as despesas seriam aptas a serem consideradas para fruição dos créditos das contribuições. Conforme dito alhures, as turmas do CARF vem entendendo que para a definição das despesas com aquisição de bens e serviços que possam ser consideradas insumos para aproveitamento de créditos é necessária uma definição clara de quais produtos e serviços estão sendo pleiteados, além de identificar em qual momento e fase da processo produtivo eles estão vinculados. Assim, em muitas situações, tanto os relatórios e trabalhos de auditoria realizada pela Fiscalização da Receita Federal, quanto os documentos e argumentos apresentados pelos contribuintes em seus recursos, não são suficientes para a definição de quais despesas estariam incluídas no conceito de insumo a serem consideradas possíveis de gerar créditos no cálculo das contribuições do PIS e da COFINS não cumulativos." Pala análise dos documentos e informações constantes dos autos, entendo que não são suficientes para definir com exatidão quais são os insumos (bens e serviços) glosados pela Fiscalização que integram o processo produtivo da recorrente e quais deles fariam jus a recorrente terem como mantidos para fins de creditamento. Sendo assim, em vista de todo o exposto, em homenagem ao princípio da verdade material que norteia o processo administrativo fiscal, bem como para fins de se ter efetiva noção do processo produtivo, serviços e produtos utilizados pela recorrente, voto no sentido de converter o julgamento em diligência, para que a unidade de origem: (i) Intime a Recorrente a apresentar, no prazo de 90 (noventa) dias, prorrogável uma vez por igual período, laudo que descreva detalhadamente o seu processo produtivo, apontando a utilização dos insumos, serviços, despesas, custos ora glosados na sua produção, ou na prestação de serviços vinculados ao processo produtivo e ao seu objeto social; O laudo deverá, entre outros: a) demonstrar a função de cada bem e serviço que pretende o reconhecimento como insumo e o motivo pelo qual ele é indispensável ao processo produtivo; b) esclarecer o teor de cada uma das atividades exercidas pela recorrente vinculando ao processo produtivo ou ao seu objeto social; (ii) Cientifique a fiscalização para se manifestar sobre o resultado da diligência, se houver interesse e caso entenda ser necessário, com a elaboração de relatório; (iii) Cientifique a recorrente sobre o resultado do relatório da fiscalização, para que, se assim desejar, apresente no prazo legal de 30 (trinta) dias, manifestação. Fl. 981DF CARF MF Processo nº 13971.723240/201454 Resolução nº 3201001.142 S3C2T1 Fl. 18 17 Cumpridas as providências indicadas, deve o processo retornar ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais CARF para julgamento. É como voto. Leonardo Vinicius Toledo de Andrade Relator Fl. 982DF CARF MF
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Numero do processo: 11040.900906/2009-12
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Mar 22 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Apr 04 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Período de apuração: 01/06/2004 a 30/06/2004
DENÚNCIA ESPONTÂNEA. INAPLICABILIDADE. TRIBUTOS REGULARMENTE DECLARADOS EM DCTF. LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO.
Nos termos da Súmula 360/STJ, e dos REsp n. 962.379/RS e n. 1.149.022/SP, ambos na sistemática do art. 543-C do antigo CPC (artigo 1036 do novo Código de Processo Civil), o benefício da denúncia espontânea não se aplica aos tributos sujeitos a lançamento por homologação regularmente declarados (v.g. em DCTF), mas pagos a destempo.
Numero da decisão: 3401-004.449
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário apresentado.
ROSALDO TREVISAN Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente), Robson José Bayerl, André Henrique Lemos, Marcos Roberto da Silva (suplente convocado em substituição a Mara Cristina Sifuentes), Tiago Guerra Machado, Fenelon Moscoso de Almeida, Renato Vieira de Ávila (suplente convocado) e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vice-presidente).
Nome do relator: ROSALDO TREVISAN
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 5; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1581; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S3C4T1 Fl. 90 1 89 S3C4T1 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS TERCEIRA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 11040.900906/200912 Recurso nº Voluntário Acórdão nº 3401004.449 – 4ª Câmara / 1ª Turma Ordinária Sessão de 22 de março de 2018 Matéria DCOMP COFINS Recorrente ICALDA INDÚSTRIA DE CONSERVAS ALIMENTÍCIAS LEON LTDA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/06/2004 a 30/06/2004 DENÚNCIA ESPONTÂNEA. INAPLICABILIDADE. TRIBUTOS REGULARMENTE DECLARADOS EM DCTF. LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. Nos termos da Súmula 360/STJ, e dos REsp n. 962.379/RS e n. 1.149.022/SP, ambos na sistemática do art. 543C do antigo CPC (artigo 1036 do novo Código de Processo Civil), o benefício da denúncia espontânea não se aplica aos tributos sujeitos a lançamento por homologação regularmente declarados (v.g. em DCTF), mas pagos a destempo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário apresentado. ROSALDO TREVISAN – Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente), Robson José Bayerl, André Henrique Lemos, Marcos Roberto da Silva (suplente convocado em substituição a Mara Cristina Sifuentes), Tiago Guerra Machado, Fenelon Moscoso de Almeida, Renato Vieira de Ávila (suplente convocado) e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vicepresidente). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 04 0. 90 09 06 /2 00 9- 12 Fl. 90DF CARF MF 2 Relatório Versa o presente sobre o Pedido de Ressarcimento/Declaração de Compensação (PER/DCOMP) de fls. 2 a 61, transmitido em 31/08/2004, buscando compensar crédito de COFINS com débitos de IRPJ, no valor de R$ 121.68. No Despacho Decisório Eletrônico de fls. 7/9, informase que o pagamento foi localizado, mas utilizado integralmente para quitar débitos da empresa, não restando saldo disponível para a compensação. Ciente do despacho em 06/04/2009 (fl. 10), a empresa interpôs Manifestação de Inconformidade em 29/04/2009 (fls. 11 a 23), alegando, em síntese, que: (a) antes de qualquer notificação por parte do fisco, pagou o equivalente a R$ 6.381,31, sendo R$ 1.044,15 a título de multa de mora, quando do recolhimento em atraso de débitos de COFINS; (b) por ter havido denúncia espontânea, a multa de mora, que tem caráter sancionatório (como atesta a Súmula no 565 do STF), é indevida, tendo sido objeto de pedido de compensação com débito de IRPJ; e (c) o STJ, no REsp no 111.470/SC, entre outros, assentou que é inexigível a multa de mora em casos como o presente . A decisão de primeira instância, proferida em 03/09/2009 (fls. 41 a 43) foi, unanimemente, pela improcedência da manifestação de inconformidade, sob os fundamentos de que: (a) a empresa apresentou declaração de compensação alegando a existência de direito creditório oriundo do recolhimento de multa de mora pelo pagamento a destempo de COFINS do período de apuração 01/06/2004 a 30/06/2004, argumentando que não seria devida a multa de mora, tendo em vista o instituto da denúncia espontânea; e (b) é pacífico, administrativa e judicialmente, o entendimento de que não se configura a denúncia espontânea em relação a valores declarados em DCTF, tendo em vista já ser o débito de conhecimento do fisco. Após ciência da decisão da DRJ, em 28/09/2009 (AR de fl. 46), a empresa apresentou o Recurso Voluntário de fls. 48 a 61, em 19/10/2009, reiterando os argumentos expressos na peça inicial de defesa, e acrescentando que é equivocado o entendimento da DRJ de que valores declarados em DCTF não configuram denúncia espontânea, pois em alguns casos, como o presente, o pagamento sucede a denúncia espontânea. Em 10/08/2011, o julgamento foi convertido em diligência, por meio da Resolução no 3401001.292, para que a unidade local informasse se o débito a que o recolhimento foi vinculado consta em DCTF, e, em caso afirmativo, se ela foi entregue antes do recolhimento (ou, em caso negativo, qual o instrumento que permitiu a sua vinculação ao pagamento realizado, indicando no caso de “processo” a sua natureza, isto é, se o processo referese a parcelamento, lançamento de ofício ou outro). Em resposta, a unidade preparadora da RFB anexou os documentos de fls. 69 a 73 (excerto de DCTF e consulta de pagamento), informando que houve, efetivamente, declaração em DCTF, anterior ao recolhimento (fls. 74/75), tendo a empresa tomado ciência do resultado da diligência em 19/06/2017 (fl. 85), sem emitir considerações adicionais. No CARF, o processo foi distribuído a este relator, por sorteio, em julho de 2017. Em janeiro e fevereiro de 2018, o processo foi pautado e retirado de pauta por falta de tempo hábil para julgamento. 1 Todos os números de folhas indicados nesta decisão são baseados na numeração eletrônica da versão digital do processo (eprocessos). Fl. 91DF CARF MF Processo nº 11040.900906/200912 Acórdão n.º 3401004.449 S3C4T1 Fl. 91 3 É o relatório. Voto Conselheiro Rosaldo Trevisan, relator O recurso voluntário apresentado preenche os requisitos formais de admissibilidade e, portanto, dele se toma conhecimento. Há apenas uma discussão no presente processo, referente à incidência de multa de mora em recolhimentos espontâneos. E, sobre a matéria, já se posicionou o Superior Tribunal de Justiça (STJ), na sistemática dos recursos repetitivos (art. 543C do antigo CPC, artigo 1036 do novo Código de Processo Civil), afirmando que a apresentação de DCTF ou de outra declaração dessa natureza, prevista em lei, é modo de constituição do crédito tributário, dispensando, para isso, qualquer outra providência por parte do fisco: “TRIBUTÁRIO. TRIBUTO DECLARADO PELO CONTRIBUINTE E PAGO COM ATRASO. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. NÃO CARACTERIZAÇÃO. SÚMULA 360/STJ. 1. Nos termos da Súmula 360/STJ, “O benefício da denúncia espontânea não se aplica aos tributos sujeitos a lançamento por homologação regularmente declarados, mas pagos a destempo”. É que a apresentação de Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais – DCTF, de Guia de Informação e Apuração do ICMS – GIA, ou de outra declaração dessa natureza, prevista em lei, é modo de constituição do crédito tributário, dispensando, para isso, qualquer outra providência por parte do Fisco. Se o crédito foi assim previamente declarado e constituído pelo contribuinte, não se configura denúncia espontânea (art. 138 do CTN) o seu posterior recolhimento fora do prazo estabelecido. 2. Recurso especial desprovido. Recurso sujeito ao regime do art. 543C do CPC e da Resolução STJ 08/08.” (grifo nosso) 2 Adicionese ainda outro precedente do STJ sobre o tema, em caráter complementar, igualmente na sistemática dos recursos repetitivos (REsp no 1.149.022/SP): “PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ARTIGO 543C, DO CPC. TRIBUTÁRIO. IRPJ E CSLL. TRIBUTOS SUJEITOS A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. DECLARAÇÃO PARCIAL DE DÉBITO TRIBUTÁRIO ACOMPANHADO DO PAGAMENTO INTEGRAL. POSTERIOR RETIFICAÇÃO DA DIFERENÇA A MAIOR COM A RESPECTIVA QUITAÇÃO. 2 STJ, REsp n. 962.379RS, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, unânime, 22.out.2008. Fl. 92DF CARF MF 4 DENÚNCIA ESPONTÂNEA. EXCLUSÃO DA MULTA MORATÓRIA. CABIMENTO. 1. A denúncia espontânea resta configurada na hipótese em que o contribuinte, após efetuar a declaração parcial do débito tributário (sujeito a lançamento por homologação) acompanhado do respectivo pagamento integral, retificaa (antes de qualquer procedimento da Administração Tributária), noticiando a existência de diferença a maior, cuja quitação se dá concomitantemente. 2. Deveras, a denúncia espontânea não resta caracterizada, com a consequente exclusão da multa moratória, nos casos de tributos sujeitos a lançamento por homologação declarados pelo contribuinte e recolhidos fora do prazo de vencimento, à vista ou parceladamente, ainda que anteriormente a qualquer procedimento do Fisco (Súmula 360/STJ) (Precedentes da Primeira Seção submetidos ao rito do artigo 543C, do CPC: REsp 886.462/RS, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, julgado em 22.10.2008, DJe 28.10.2008; e REsp 962.379/RS, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, julgado em 22.10.2008, DJe 28.10.2008). 3. É que “a declaração do contribuinte elide a necessidade da constituição formal do crédito, podendo este ser imediatamente inscrito em dívida ativa, tornandose exigível, independentemente de qualquer procedimento administrativo ou de notificação ao contribuinte” (REsp 850.423/SP, Rel. Ministro Castro Meira, Primeira Seção, julgado em 28.11.2007, DJ 07.02.2008). 4. Destarte, quando o contribuinte procede à retificação do valor declarado a menor (integralmente recolhido), elide a necessidade de o Fisco constituir o crédito tributário atinente à parte não declarada (e quitada à época da retificação), razão pela qual aplicável o benefício previsto no artigo 138, do CTN. (...) 7. Outrossim, forçoso consignar que a sanção premial contida no instituto da denúncia espontânea exclui as penalidades pecuniárias, ou seja, as multas de caráter eminentemente punitivo, nas quais se incluem as multas moratórias, decorrentes da impontualidade do contribuinte. 8. Recurso especial provido. Acórdão submetido ao regime do artigo 543C, do CPC, e da Resolução STJ 08/2008.” 3 (grifo nosso) E as decisões do STJ na sistemática dos recursos repetitivos são de acolhida obrigatória por este tribunal administrativo, por força do art. 62 do Regimento Interno do CARF (em verdade, depois da Lei no 12.844/2013, que deu nova redação ao art. 19, V e § 5o da Lei no 10.522/2002, passaram a ser de acolhida obrigatória por toda a RFB). Há, inclusive, Súmula do STJ, relacionada ao primeiro precedente do STJ aqui citado, afirmando que “o benefício da denúncia espontânea não se aplica aos tributos 3 STJ, REsp n. 1.149.022SP, Rel. Min. Luiz Fux, unânime, 9.jun.2010. Fl. 93DF CARF MF Processo nº 11040.900906/200912 Acórdão n.º 3401004.449 S3C4T1 Fl. 92 5 sujeitos a lançamento por homologação regularmente declarados, mas pagos a destempo” (Súmula no 360/STJ). No presente caso, como atesta o resultado da diligência, o débito em questão, correspondente à COFINS de março/2004, código de receita 58561 – valor de R$ 5.220,74, foi declarado em DCTF, ND 1000.000.2004.1720067122, entregue em 14/05/2004, e o pagamento objeto da controvérsia foi realizado em 14/06/2004. Assim, é inequívoco que o débito estava declarado em DCTF, e que foi pago a destempo, aplicandose ao caso a citada Súmula STJ e os precedentes julgados na sistemática dos recursos repetitivos, que vinculam este tribunal administrativo. Não há, então, que se falar em denúncia espontânea, no presente caso, não remetendo o presente contencioso ao artigo 138 do Código Tributário Nacional, como demandava a recorrente. E, por consequência, inexiste crédito resultante de pagamento indevido. Pelo exposto, voto por negar provimento ao recurso voluntário apresentado. Rosaldo Trevisan Fl. 94DF CARF MF
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Numero do processo: 10850.900730/2013-88
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Terceira Seção
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Mar 15 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Apr 02 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 3001-000.051
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso em diligência à Unidade de Origem, para que aprecie os documentos apresentados pela recorrente no Recurso Voluntário, para que a autoridade fiscal da repartição de origem analise as Dacon's, bem como intime o recorrente para apresentar a respectiva escrita contábil e fiscal e os documentos a ela inerentes e, a critério da fiscalização, outros elementos de prova e/ou esclarecimentos que entenda necessários para comprovar a pertinência das informações contidas na Dacon e DCTF retificadora.
(assinado digitalmente)
Orlando Rutigliani Berri Presidente
(assinado digitalmente)
Renato Vieira de Avila - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Orlando Rutigliani Berri, Cleber Magalhães, Renato Vieira de Avila e Cássio Schappo.
Nome do relator: RENATO VIEIRA DE AVILA
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Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso em diligência à Unidade de Origem, para que aprecie os documentos apresentados pela recorrente no Recurso Voluntário, para que a autoridade fiscal da repartição de origem analise as Dacon's, bem como intime o recorrente para apresentar a respectiva escrita contábil e fiscal e os documentos a ela inerentes e, a critério da fiscalização, outros elementos de prova e/ou esclarecimentos que entenda necessários para comprovar a pertinência das informações contidas na Dacon e DCTF retificadora. (assinado digitalmente) Orlando Rutigliani Berri Presidente (assinado digitalmente) Renato Vieira de Avila Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Orlando Rutigliani Berri, Cleber Magalhães, Renato Vieira de Avila e Cássio Schappo. Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto com o fim de guerrear a decisão de piso cujo enredo a ser tratado, cingese à manutenção de negativa de homologação de compensação sob fundamento de ausência de entrega de DCTF retificadora anteriormente à entrega da DCOMP. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 08 50 .9 00 73 0/ 20 13 -8 8 Fl. 130DF CARF MF Processo nº 10850.900730/201388 Resolução nº 3001000.051 S3C0T1 Fl. 141 2 Despacho Decisório Em decisão sobre pedido de Compensação efetuado em Per/Dcomp na qual, houve reconhecimento de direito creditório que foi insuficiente para compensar integralmente os débitos informados pelo sujeito passivo, razão pela qual foi homologado parcialmente a compensação declarada não havendo valor a ser restituído/ressarcido. Manifestação de Inconformidade A recorrente, em breve síntese, alega ter ocorrido pagamento a maior de Cofins, motivo pelo qual compensou com débito posterior. Em sua defesa, socorrese ao argumento de haver enviado DCTF retificadora, inserindo, portanto, a informação sobre a operação tributária efetuada, ressaltando, ter sido entregue anteriormente à emissão do Despacho Decisório. DRJ/FNS A manifestação de inconformidade teve a seguinte ementa: Acórdão 0737.347 4ª Turma COMPENSAÇÃO. INDÉBITO ASSOCIADO A ERRO EM VALOR DECLARADO EM DCTF. REQUISITO PARA HOMOLOGAÇÃO. Nos casos em que a existência do indébito incluído em declaração de compensação está associada à alegação de que o valor declarado em DCTF e recolhido é indevido, só se pode homologar tal compensação, independentemente de eventuais outras verificações, nos casos em que o contribuinte, previamente à apresentação da DCOMP, retifica regularmente a DCTF. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido O relatório, por bem retratar a formação probatória nos autos, e, de maneira fidedigna, reproduzir o narrado, merece ser reproduzido em íntegra: Trata o presente processo de Declaração de Compensação (Dcomp) eletrônica nº 28512.44809.070313.1.3.040152, transmitida em 07 de março de 2013, por meio da qual a contribuinte solicita compensação de débito com crédito, no valor de R$ 4.316,83, que teria sido indevidamente recolhido a título de Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social, mediante Darf código 2172, em 23 de abril de 2010, no valor de R$ 44.517,99, relativo ao período de apuração de 31 de março de 2010. Na apreciação do pleito, manifestouse a Delegacia da Receita Federal do Brasil em São José do Rio Preto SP pela homologação parcial da compensação declarada, mediante Despacho Decisório, à folha 7, emitido em 04 de abril de 2013, reconhecendo somente o valor de R$ 17,23, uma vez que o valor recolhido já havia sido parcialmente utilizado para extinção de (a) débito relativo ao período de apuração a que se referia, no valor de R$ 41.789,07, e (b) no PER/Dcomp nº 08187.99631.070313.1.7.040300, restando crédito disponível inferior ao crédito pretendido, insuficiente para compensação dos débitos informados na Dcomp. Fl. 131DF CARF MF Processo nº 10850.900730/201388 Resolução nº 3001000.051 S3C0T1 Fl. 142 3 Inconformada com a homologação parcial da compensação, a contribuinte apresenta manifestação de inconformidade na qual alega, em síntese, que transmitiu a Dcomp em 07 de março de 2013 e a DCTF retificadora, com o valor correto do débito de Cofins, relativo ao período de apuração de 31 de março de 2010, em 28 de março de 2013. Ressalta a interessada que a transmissão da Dcomp e da DCTF retificadora ocorreram antes da emissão do Despacho Decisório, em 04 de abril de 2013. Após as necessárias informações fáticas, buscase nas razões de voto, a argumentação tecida para destacar o cerne discutido nestes autos e motivos de decisão, transcritos a seguir: No caso concreto que aqui se tem, a contribuinte, na data de apresentação da Dcomp (em 07 de março de 2013), não havia retificado a DCTF, documento no qual, como é sabido, são declarados, com força de confissão de dívida, os valores dos tributos devidos. Assim, não se pode dizer que, naquele momento, tivesse existência jurídica o crédito contra a Fazenda Nacional alegado pela contribuinte, motivo pelo qual a não homologação promovida pela DRF foi correta. Ainda que a contribuinte, posteriormente à entrega da Dcomp, tenha tratado de retificar formalmente a DCTF (em 28 de março de 2013), esta não teria o efeito de validar retroativamente a compensação instrumentada por Dcomp Recurso Voluntário O que se afirma, e isto sim, é que só a partir da retificação da DCTF é que a contribuinte passa a ter crédito contra a Fazenda devidamente conformado na forma da lei. Assim, a retificação efetuada pode produzir efeitos em relação a Dcomp apresentada posteriormente a esta retificação, mas não para validar compensações anteriores. Recurso Voluntário Em sede de seu peça recursal, a recorrente narra o histórico processual destacando tratarse o tema, de compensação de pagamento a maior de Cofins, cuja decisão de piso considerou legítima, sob o argumento: só se pode homologar a compensação, independentemente de outras verificações, nos casos em que o contribuinte, previamente à apresentação da Dcomp, retifica regularmente a DCTF. Neste sentido, contrapõe a decisão sob vergasta sob o fundamento de ter efetivado retificação de DCTF, posteriormente à Dcomp, mas anteriormente ao Despacho Decisório. DCTF Retificadora Alega a recorrente que, mesmo tendo ocorrido a mencionada retificação, mediante transmissão da DCTF retificadora, alega não ter sido reconhecido pelo sistema da Receita Federal, incitando, em seu favor, a IN 1.110/2010, cujo parágrafo primeiro traz conteúdo normativo autorizando à retificadora, ter a mesma natureza da declaração enviada. Traz jurisprudência desta casa em seu benefício. Fl. 132DF CARF MF Processo nº 10850.900730/201388 Resolução nº 3001000.051 S3C0T1 Fl. 143 4 É o relatório. Voto Conselheiro Renato Vieira de Avila Relator Tratase de Recurso Voluntário no qual foram satisfeitos todos os pressupostos de admissibilidade, dele, portanto, tomo conhecimento. O cerne discutido relacionase com o tema da possibilidade de alterarse a DCTF, para fins de corrigir o montante apurado, mediante transmissão de retificadora, após a prolação do despacho decisório. Ainda, de entenderse como legítimos os valores lançados anteriormente em DACON. Com o brilhantismo que lhe é peculiar, o presidente desta Turma Extraordinária vem sustentando corrente, na qual compreende em profundidade, a necessária oportunização, ao contribuinte, de momentos adequados à formação probatória, nos casos em que, consistentemente, descreveu na proposta de Resolução 3001000.043: Da justificativa para a proposta de diligência Como relatado, o caso sob exame referese ao inconformismo do contribuinte, em razão da decisão contida em despacho decisório que deferiu parcialmente o pedido de ressarcimento da contribuição pleiteada com a apresentação do Per/Dcomp, homologando em parte a compensação nele declarada, ao argumento de o crédito apurado ser inferior ao requerido, consequentemente o montante reconhecido pela autoridade fiscal ser insuficiente para extinguir a totalidade do débito declarado pelo interessado. O contribuinte, desde a sua manifestação de inconformidade, sustenta que equivocouse quando do preenchimento do demonstrativo anexo ao Per/Dcomp em questão, posto que indicou que o crédito solicitado seria oriundo de aquisições no mercado interno vinculadas a receitas não tributadas no mercado interno, quando, em verdade, parcela deste crédito decorreria de receitas de exportação; bem assim quando preencheu o respectivo Dacon, pois deixou de segregar os valores dos créditos vinculados às receitas internas daqueles originários das vendas para o mercado externo. Entretanto, o acórdão vergastado manteve o indeferimento do pedido de compensação. Tal indeferimento do pleito está fundamentado em duas premissas. A primeira, porque o colegiado a quo entendeu que o Per/Dcomp não é instrumento adequado para pleitear créditos de natureza distintas. A segunda, porque a decisão recorrida concluiu que o interessado não apresentou prova hábil suficiente para demonstrar a efetiva existência do crédito adicional, a fim de comprovar os alegados erros cometidos quando do preenchimento do Dacon e do Per/Dcomp, como, por exemplo, os demonstrativos contábeis, conferindo liquidez e certeza do crédito informado na declaração de compensação. Fl. 133DF CARF MF Processo nº 10850.900730/201388 Resolução nº 3001000.051 S3C0T1 Fl. 144 5 Portanto, em síntese, o fundamento que norteou a conclusão da decisão recorrida foi a falta de apresentação de documentação probante satisfatória, como, por exemplo, a escrituração contábilfiscal que corroborasse as informações apresentadas, notadamente, no Dacon retificador. O interessado, quando da apresentação do recurso voluntário, reafirma o cometimento dos equívocos apontados já na sua manifestação de inconformidade, qual seja erro no preenchimento dos respectivos Dacon e Per/Dcomp, razão pela qual apresentou o Dacon, referente ao mês de janeiro de 2006, em substituição do Dacon original, referente ao terceiro trimestre de 2005, salientando que na "Ficha 28B" consta a informação, de forma segregada, do crédito da contribuições ao PIS vinculado a receita nãotributada no mercado interno e proveniente de exportação e, no seu entender, seria suficiente para a solução do litígio uma vez que o fundamento do despacho decisório é a insuficiência de crédito reconhecido para compensar integralmente os débitos informados pelo sujeito passivo. Como o acórdão recorrido proferido pela 4ª Turma da DRJ/FOR indeferiu sua manifestação de inconformidade, agora pela falta de apresentação de documentação probante que demonstrasse o seu direito, o recorrente reapresentou os elementos de prova que entendeu ser suficiente para a comprovar a compensação declarada no Per/Dcomp 27809.10301.300508.1.3.118906, no Per/Dcomp 29057.71509.300508.1.3.117985, no Per/Dcomp 19492.01379.130809.1.7.116941 e no Per/Dcomp 11873.46918.120809.1.7.118359. Pois bem, creio que estarmos diante de um fato jurídico cuja aferição é direta e imediata, haja vista o que expressam as Dacon's em apreço referente ao mês de janeiro de 2006 e ao terceiro trimestre de 2005, dada a singeleza do pedido aliada à objetividade das informações coligidas aos presentes autos, para, neste sentido, considerar que existe dúvida razoável quanto à certeza e liquidez do direito creditório pleiteado. Por fim, arremata no sentido de haver a possibilidade de o contribuinte instruir os autos nesta fase recursal: É certo que é condição indispensável à compensação de tributos, a liquidez e certeza do crédito declarado, nos termos do que dispõe o art. 170A da Lei nº 5.172, de 1966 (Código Tributário Nacional CTN), o que impõe sua efetiva comprovação, mediante o oferecimento da pertinente escrita contábil fiscal do interessado. Deste modo, com vista a propiciar ao recorrente a oportunidade de comprovar os fatos alegados, em atendimento aos princípios Fl. 134DF CARF MF Processo nº 10850.900730/201388 Resolução nº 3001000.051 S3C0T1 Fl. 145 6 da verdade material, da ampla defesa e do contraditório, firmo a necessidade de o presente julgamento ser convertido em diligência. Da conclusão Do exposto, nos termos dos artigos 18 e 29 do Decreto nº 70.235 de 1972, proponho a realização de diligência para que a autoridade fiscal da repartição de origem analise as Dacon's referentes ao mês de janeiro de 2006 e ao terceiro trimestre de 2005, bem como intime o recorrente para apresentar a respectiva escrita contábilfiscal e os documentos a ela inerente e, a critério da fiscalização, outros elementos de prova e/ou esclarecimentos que entenda necessários para comprovar a pertinência das informações contidas na Dacon retificadora. Tal entendimento, exposto pelo ilustre conselheiro Orlando Rutigliani, encontra larga aceitação na jurisprudência desta Conselho, a exemplo, do acórdão abaixo transcrito, ao qual acato e cuja ementa espelha caso análogo: Acórdão 380201.111 COMPENSAÇÃO. DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO (DCOMP). CRÉDITO PASSÍVEL DE RESTITUIÇÃO NA DATA DA ENTREGA DA DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. COMPROVAÇÃO DA CERTEZA E LIQUIDEZ APENAS NA FASE RECURSAL. HOMOLOGAÇÃO DA COMPENSAÇÃO. POSSIBILIDADE. Homologase a compensação declarada quando, na fase recursal, forem comprovados os requisitos da certeza e liquidez do crédito utilizado no respectivo procedimento compensatório. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Data do fato gerador: 30/11/2002 PROVA DOCUMENTAL. APRESENTAÇÃO NA FASE RECURSAL. CONTRAPOSIÇÃO DE ARGUMENTO NOVO SUSCITADO NA DECISÃO RECORRIDA. PRECLUSÃO. INOCORRÊNCIA. Nos termos do art. 16, § 4º, “c”, do Decreto nº 70.235, de 1972, não está alcançada pela preclusão, a prova documental apresentada na fase recursal, destinada a contrapor argumento novo suscitado somente na decisão recorrida. PROCESSO DE COMPENSAÇÃO. DCTF RETIFICADORA. ENTREGA APÓS A EMISSÃO E CIÊNCIA DO DESPACHO DECISÓRIO. COMPROVAÇÃO DA REDUÇÃO DO DÉBITO ORIGINAL. ORIGEM DO CRÉDITO COMPENSADO. ADMISSIBILIDADE. No âmbito do processo de compensação, inaugurado com a prolação do Despacho Decisório, uma vez comprovada, com documentação adequada, a redução do valor débito informada na DCTF retificadora, entregue após a emissão e ciência do citado Despacho, a parcela do Fl. 135DF CARF MF Processo nº 10850.900730/201388 Resolução nº 3001000.051 S3C0T1 Fl. 146 7 débito reduzida deve ser Conclusão Diante do exposto, alinhado aos princípios da ampla defesa e do contraditório, voto por dar provimento ao recurso voluntário, para cancelar o despacho decisório por vício material. Conclusão Do exposto, proponho a realização de diligência para que a autoridade fiscal da repartição de origem analise as Dacon's, bem como intime o recorrente para apresentar a respectiva escrita contábilfiscal e os documentos a ela inerente e, a critério da fiscalização, outros elementos de prova e/ou esclarecimentos que entenda necessários para comprovar a pertinência das informações contidas na Dacon e DCTF retificadora. Desta forma, os autos devem retornar para a unidade de origem. Ao término dos trabalhos, a autoridade fiscal diligenciante deverá elaborar relatório conclusivo sobre os fatos apurados na diligência, inclusive manifestandose sobre a existência de crédito líquido e certo suscetível de ser utilizado pelo recorrente. Encerrada a instrução processual o recorrente deverá ser intimado para, em assim desejando, manifestarse quanto aos novos elementos carreados aos presentes autos, no prazo de 30 (trinta) dias, antes da devolução do processo para este CARF, para julgamento. É como voto. (assinado digitalmente) Renato Vieira de Avila Fl. 136DF CARF MF
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Numero do processo: 10830.903073/2008-00
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Terceira Seção
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Mar 13 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Apr 20 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Data do fato gerador: 15/04/2003
PEDIDO DE COMPENSAÇÃO. DIREITO PROBATÓRIO. MOMENTO PARA A APRESENTAÇÃO DE PROVAS. PRECLUSÃO.
O sujeito passivo deve trazer aos autos todos os documentos aptos a provar suas alegações, em regra, no momento da apresentação de sua Impugnação/Manifestação de Inconformidade, sob pena de preclusão. Admite-se a apresentação de provas em outro momento processual, além das hipóteses legalmente previstas, quando estas reforcem o valor probatório das provas já oportunamente apresentadas.
Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Data do fato gerador: 15/04/2003
PEDIDO DE COMPENSAÇÃO. CERTEZA E LIQUIDEZ DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO. ÔNUS DA PROVA.
A apresentação de DCTF retificadora anteriormente à prolação do Despacho Decisório não é condição para a homologação das compensações. Contudo, a referida declaração não tem o condão de, por si só, comprová-lo. É do contribuinte o ônus de comprovar a certeza e a liquidez do crédito pleiteado através de documentos contábeis e fiscais revestidos das formalidades legais.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 3002-000.021
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Votou pelas conclusões a conselheira Maria Eduarda Alencar Câmara Simões.
(assinado digitalmente)
Larissa Nunes Girard - Presidente.
(assinado digitalmente)
Carlos Alberto da Silva Esteves - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Larissa Nunes Girard (Presidente), Diego Weis Junior, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões e Carlos Alberto da Silva Esteves
Nome do relator: CARLOS ALBERTO DA SILVA ESTEVES
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ementa_s : Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Data do fato gerador: 15/04/2003 PEDIDO DE COMPENSAÇÃO. DIREITO PROBATÓRIO. MOMENTO PARA A APRESENTAÇÃO DE PROVAS. PRECLUSÃO. O sujeito passivo deve trazer aos autos todos os documentos aptos a provar suas alegações, em regra, no momento da apresentação de sua Impugnação/Manifestação de Inconformidade, sob pena de preclusão. Admite-se a apresentação de provas em outro momento processual, além das hipóteses legalmente previstas, quando estas reforcem o valor probatório das provas já oportunamente apresentadas. Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Data do fato gerador: 15/04/2003 PEDIDO DE COMPENSAÇÃO. CERTEZA E LIQUIDEZ DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO. ÔNUS DA PROVA. A apresentação de DCTF retificadora anteriormente à prolação do Despacho Decisório não é condição para a homologação das compensações. Contudo, a referida declaração não tem o condão de, por si só, comprová-lo. É do contribuinte o ônus de comprovar a certeza e a liquidez do crédito pleiteado através de documentos contábeis e fiscais revestidos das formalidades legais. Recurso Voluntário Negado.
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PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR PIS Recorrente PETROVIARIO TRANSPORTES LTDA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Data do fato gerador: 15/04/2003 PEDIDO DE COMPENSAÇÃO. DIREITO PROBATÓRIO. MOMENTO PARA A APRESENTAÇÃO DE PROVAS. PRECLUSÃO. O sujeito passivo deve trazer aos autos todos os documentos aptos a provar suas alegações, em regra, no momento da apresentação de sua Impugnação/Manifestação de Inconformidade, sob pena de preclusão. Admitese a apresentação de provas em outro momento processual, além das hipóteses legalmente previstas, quando estas reforcem o valor probatório das provas já oportunamente apresentadas. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Data do fato gerador: 15/04/2003 PEDIDO DE COMPENSAÇÃO. CERTEZA E LIQUIDEZ DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO. ÔNUS DA PROVA. A apresentação de DCTF retificadora anteriormente à prolação do Despacho Decisório não é condição para a homologação das compensações. Contudo, a referida declaração não tem o condão de, por si só, comproválo. É do contribuinte o ônus de comprovar a certeza e a liquidez do crédito pleiteado através de documentos contábeis e fiscais revestidos das formalidades legais. Recurso Voluntário Negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Votou pelas conclusões a conselheira Maria Eduarda Alencar Câmara Simões. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 83 0. 90 30 73 /2 00 8- 00 Fl. 465DF CARF MF Processo nº 10830.903073/200800 Acórdão n.º 3002000.021 S3C0T2 Fl. 465 2 (assinado digitalmente) Larissa Nunes Girard Presidente. (assinado digitalmente) Carlos Alberto da Silva Esteves Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Larissa Nunes Girard (Presidente), Diego Weis Junior, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões e Carlos Alberto da Silva Esteves Relatório O processo administrativo ora em análise trata de PER/DCOMP (fl. 14/19), transmitido em 30/07/2004, cujo crédito teria origem em recolhimento do PIS efetuado a maior. A compensação declarada não foi homologada, conforme despacho decisório (fl. 120), pelos seguintes motivos: "A partir das características do DARF discriminado no PER/DCOMP acima identificado, foram localizados um ou mais pagamentos, abaixo relacionados, mas integralmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para compensação dos débitos informados no PER/DCOMP". Após ser intimada da decisão em 20/08/2008, a ora recorrente apresentou tempestivamente Manifestação de Inconformidade (fl. 2/4), na qual informou que, primeiramente, no anocalendário de 2003, havia recolhido a contribuição para o PIS/Pasep pelo regime cumulativo, contudo, posteriormente, no início de 2004, fez uma revisão interna e optou por adotar o regime da não cumulatividade, inclusive, em relação ao ano anterior. Essa mudança de critério, segundo ela, teria gerado pagamentos a maior, os quais foram objeto de pedidos de compensação com outros tributos. Informou, ainda, que deixou de retificar suas declarações em época própria: Dacon, DIPJ e DCTF, apresentadoas juntamente com sua manifestação. A DRJ/CPS converteu o julgamento em diligência (fl. 125/126) para que a autoridade fiscal cumprisse os seguintes quesitos: "a) verifique, com exame da documentação contábilfiscal da contribuinte, a efetividade e a regularidade dos créditos da não cumulatividade apurados pela interessada. Fl. 466DF CARF MF Processo nº 10830.903073/200800 Acórdão n.º 3002000.021 S3C0T2 Fl. 466 3 b) examine a apuração da contribuição na sistemática não cumulativa, incluindo o eventual aproveitamento futuro dos créditos apurados em 2003; c) elabore relatório circunstanciado destacando a contribuição efetivamente devida." Assim, em 24/11/2011, o Serviço de Orientação e Análise Tributária da DRF/Campinas intimou o sujeito passivo (fl 128/129) a apresentar, no prazo de 20 dias, a seguinte documentação: "Apresentar documentação contábilfiscal que comprove a efetividade e a regularidade dos créditos da não cumulatividade listados na tabela acima e utilizados no DACON; Apresentar fotocópia do livro Razão relativamente à conta “PIS a pagar”, Código de Arrecadação 6912, Período de Apuração Março de 2003." Após essa data, ocorreram pedidos de dilação de prazo e reintimações. A seqüência fática encontrase bem evidenciada na Informação Fiscal (fl. 304/305) e, por isso, transcrevese excerto: "Em 24/11/2011, através da INTIMAÇÃO SEORT/DRF CPS/1669/2011 a interessada foi chamada a apresentar documentação contábilfiscal que comprovasse a efetividade e a regularidade dos créditos da não cumulatividade listados na tabela e utilizados no DACON, bem como fotocópia do livro Razão relativamente à conta “PIS a pagar”, Código de Arrecadação 6912, Período de Apuração Fevereiro de 2003 Em 14/12/2011 a interessada protocolou pedido solicitando mais 20 dias para atendimento à intimação SEORT/DRF CPS/1669/2011. A interessada teve ciência do deferimento de seu pedido em 29/12/2011. Entretanto, em 25/01/2012, através do protocolo do dossiê eletrônico nº 10010.008343/011254 (documentos juntados às folhas 156/288), a interessada apresentou documento alegando já ter prestado os esclarecimentos solicitados, anexou cópia das manifestações de inconformidade já apresentadas e pediu ainda o cancelamento da intimação. Através da intimação SEORT/DRFCPS/232/2012 este SEORT esclareceu à interessada que os documentos estavam sendo requeridos a pedido da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Campinas e que estes eram necessários para Fl. 467DF CARF MF Processo nº 10830.903073/200800 Acórdão n.º 3002000.021 S3C0T2 Fl. 467 4 análise do crédito em discussão (folhas 158/290). Assim, em 09/04/2012, a interessada novamente solicitou mais 20 dias para a apresentação dos documentos. Concedido prazo de 20 dias contados da ciência da intimação SEORT/DRFCPS/ 502/2012 (ciência em 26/06/2012) a interessada não se manifestou até 15/08/2012. Por todo o exposto, considerando as diversas tentativas improfícuas deste SEORT em receber os documentos necessários ao cálculo do crédito de PIS do período de apuração Mar/2003, informamos que não foi possível preceder à análise/cálculo do crédito em questão." (grifo nosso) Após ser cientificada da Informação Fiscal, a contribuinte apresentou Complementação à Manifestação de Inconformidade e outros documentos. Em seqüência, analisando as argumentações da contribuinte e os documentos juntados, a DRJ/CPS julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade, por decisão que possui a seguinte ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Data do fato gerador: 15/04/2003 DIREITO CREDITÓRIO. PROVA. O reconhecimento do direito creditório pleiteado requer a prova de sua existência e montante, sem o que não pode ser restituído ou utilizado em compensação. Faltando ao conjunto probatório carreado aos autos pela interessada elemento que permita a verificação da existência de pagamento indevido ou a maior frente à legislação tributária, o direito creditório não pode ser admitido. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Intimada dessa decisão, a contribuinte apresentou Recurso Voluntário (fl. 417/422), no qual requereu a reforma do Acórdão recorrido, repisando fatos e argumentos já apresentados e juntando os seguintes documentos: a) cópia do livro de registro de entrada nº 2; b) cópia do livro de registro de entradas nº 5; c) nova planilha de apuração de demonstrativo de base de cálculo do PIS não cumulativo e d) planilha das diferenças dos valores a compensar e a recolher. Fl. 468DF CARF MF Processo nº 10830.903073/200800 Acórdão n.º 3002000.021 S3C0T2 Fl. 468 5 É o relatório, em síntese. Voto Conselheiro Carlos Alberto da Silva Esteves O direito creditório envolvido no presente processo encontrase dentro do limite de alçada das Turmas Extraordinárias, conforme disposto no art. 23B do RICARF. O Recurso Voluntário é tempestivo e preenche os requisitos formais de admissibilidade e, portanto, dele tomo conhecimento. Entendo que a questão fundamental a ser decidida no presente julgamento se refere ao direito probatório em processos administrativos fiscais. O art. 173 do Código de Processo Civil (CPC) estabelece que o ônus da prova incumbe ao autor, quanto ao fato constitutivo do seu direito, e ao autor, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor. Ou seja, em regra, incumbe à parte fornecer os elementos de prova das alegações que fizer, visando prover o julgador com os meios necessários para o seu convencimento, quanto à veracidade do fato deduzido como base da sua pretensão. Seguindo essa mesma linha, o art. 36 da Lei nº 9.784, de 1999, que regula os processos administrativos federais, dispõe que cabe ao interessado a prova dos fatos que tenha alegado. Quanto ao processo administrativo fiscal, o art. 16 do Decreto 70.235/72 assim estabelece: Art. 16. A impugnação mencionará: I omissis ......................................................................................................... III os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir; (Inciso com redação dada pela Lei nº 8.748, de 9/12/1993) ......................................................................................................... § 1° omissis ......................................................................................................... § 4º A prova documental será apresentada na impugnação, precluíndo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual, a menos que: Fl. 469DF CARF MF Processo nº 10830.903073/200800 Acórdão n.º 3002000.021 S3C0T2 Fl. 469 6 a) fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior; b) refira se a fato ou a direito superveniente; c) destine se a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. (Parágrafo acrescido pela Lei nº 9.532, de 10/12/1997) ......................................................................................................... Como se percebe dos dispositivos transcritos, o dever de provar incumbe a quem alega. Assim, creio que o ônus da prova atua de forma diversa em processos decorrentes de lançamento tributário e processos decorrentes de pedido de restituição, ressarcimento e compensação. Nestes, cabe ao contribuinte provar a liquidez e a certeza do seu crédito, naqueles, cabe ao fisco provar a ocorrência do fato gerador. Por certo, não se pode olvidar do Princípio da Verdade Material, que norteia o processo administrativo, devendo o julgador buscar o esclarecimento dos fatos, adotando as providências necessárias no sentido de firmar sua convicção quanto a verdade real. Contudo, a atuação do julgador somente pode ocorrer de forma subsidiária à atividade probatória, que deve ser desempenhada pelas partes. Assim, não pode o julgador usurpar a competência da autoridade fiscal e intentar produzir provas, que validem um lançamento fiscal fracamente instruído, assim como, lhe é vedado desincumbir, pela sua atuação ativa no processo, o sujeito passivo de trazer aos autos o conjunto probatório mínimo necessário para comprovar o seu direito creditório. Dessa forma, a busca pela verdade material não pode ser entendida como ilimitada. Em realidade, nenhum Princípio é soberano e outros também regem o processo administrativo, tais como: os Princípios da Celeridade, Imparcialidade, Eficiência, Moralidade, Legalidade, Segurança Jurídica, dentre outros. Por conseguinte, será lastreado nas circunstâncias fáticas do caso concreto, que o julgador deverá ponderar e sopesar a influência de cada um dos diversos Princípios, visando a maior justeza em seu julgamento. Outro ponto nodal sobre a mesma matéria referese ao momento para a apresentação de provas. Como é cediço, a autoridade fiscal tem como limite temporal para a juntada de provas, usualmente, a lavratura do Auto de Infração. Em contrapartida, o sujeito passivo está limitado, em regra, ao momento de instauração da fase litigiosa do processo, isto é, quando da apresentação de sua Impugnação/Manifestação de Inconformidade, sob pena de preclusão, conforme o § 4º do art. 16 do Decreto 70.235/72. Entretanto, o próprio dispositivo citado enumera três circunstâncias , as quais permitiriam ao contribuinte carrear provas aos autos em outro momento processual: a) fique demonstrado a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior; b) refirase a fato ou a direito superveniente e c) destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. Fl. 470DF CARF MF Processo nº 10830.903073/200800 Acórdão n.º 3002000.021 S3C0T2 Fl. 470 7 Considerandose os Princípios da Igualdade, Moralidade, Imparcialidade e o da Verdade Material, entendo, data venia, que as exceções dispostas só podem ser validamente consideradas se estendidas a ambas as partes. A jurisprudência desse Conselho mostra que, em várias ocasiões, temse admitido a juntada de provas em fase posterior àquela definida na legislação e em circunstâncias diversas daquelas exceções legais, que afastam a preclusão. Tudo em nome do Princípio da Verdade Material. Creio que isso é possível, legal, justo e desejável. Entretanto, somente em condições bastante específicas. Entendo que somente devese admitir tais provas, quando no momento oportuno, o sujeito passivo já tenha carreado aos autos provas mínimas do que alega. Importante frisar que não basta ter apresentado documentos, que não guardam nenhum valor probatório no caso concreto analisado, há que ter sido juntado na Impugnação/Manifestação de Inconformidade um conjunto probatório mínimo. Assim, as provas excepcionalmente juntadas de forma extemporâneas são aceitáveis, quando apenas reforçam o valor probatório do material já anteriormente apresentado. Agir de forma diversa, aceitando qualquer tipo de prova, em qualquer circunstância, sem que tenha sido apresentado um conjunto probatório no momento fatal definido em lei, a fim de privilegiar a verdade material, significaria, data venia, se emprestar uma força absoluta e soberana a um Princípio em detrimento aniquilar dos outros. Ademais, estariase diante de uma verdadeira derrogação do § 4º do art. 16 do Decreto 70.235, realizada pelo intérprete e aplicador da norma, pois, na prática, o seu disposto não seria aplicado em hipótese alguma, excluindoo do ordenamento jurídico, fato que somente poderia ser realizado por lei. Ainda sobre o mesmo tema, devese tecer alguns comentários sobre o valor probatório do material eventualmente apresentado. Como consignei acima, não basta a juntada de documentos, estes devem possuir valor probatório, mínimo que seja, considerandose as vicissitude do caso concreto posto em análise. Assim, determinado documento pode guardar conteúdo probatório das alegações em um processo e, em outro, não se configurar prova. Por certo, em regra, as declarações fiscais transmitidas pelo contribuinte, assim como, seus registros contábeis, fazem prova em seu favor. Contudo, esses elementos, para possuírem algum valor probatório, devem ter sido elaborados segundo os ditames legais e em época apropriada. Vejamos, por exemplo, a DCTF retificadora. Como vem se manifestando, reiteradamente, este Conselho, a apresentação da DCTF retificadora antes da transmissão do pedido de compensação, em casos de pagamento indevido ou a maior, ou mesmo antes da ciência do Despacho Decisório, não é condição para a homologação da compensação pleiteada, pois o direito creditório não surge com a declaração, mas com o efetivo pagamento indevido ou a maior. Entretanto, a mera apresentação da DCTF retificadora não tem o condão de, por si só, comproválo. Nessa linha, outras declarações prestadas à RFB, tais como DIPJ e Dacon, poderiam fazer prova da veracidade dos dados registrados na DCTF retificadora, desde que transmitidas antes do Despacho Decisório e possuíssem informações compatíveis com o conteúdo da retificadora. Então, nesse caso, a juntada de outras declarações ao processo se constituiria num conjunto com força probatória, ainda que relativa e, por isso mesmo, não Fl. 471DF CARF MF Processo nº 10830.903073/200800 Acórdão n.º 3002000.021 S3C0T2 Fl. 471 8 afastaria a discricionariedade do julgador perquirir sobre outros elementos, visando firmar sua convicção. De forma diversa, deveriam ser consideradas essas mesmas declarações se fossem transmitidas extemporaneamente, pois não passariam de documentos sem nenhum valor probatório. Assim, registros contábeis, que não estejam revestidos das formalidades legais ou que não se possa confirmar tais requisitos, não se constituem prova. Essas considerações são de crucial importância para avaliação da caracterização de determinada prova como reforço da anteriormente apresentada e, conseqüentemente, da possibilidade de sua aceitação. Mormente, a análise das especificidades de cada caso concreto é o que deve pautar o julgador nesse desiderato, não obstante, sem se afastar do norte lógicojurídico que deve alicerçar sua decisão. No presente caso em análise, a ora recorrente restringiuse apenas a fazer alegações sobre seu suposto crédito, juntar planilha e cópia de declarações retificadoras, DCTF, DIPJ e Dacon, em sua Manifestação de Inconformidade. Ressaltese, por fundamental, que todas as declarações apresentadas foram transmitidas após a ciência do Despacho Decisório. Em seu texto, a própria recorrente reconhece sua falha: "A mudança de critério foi feita corretamente, todavia, incorreu o contribuinte no erro de deixar de retificar os documentos informativos de tais alterações referentes ao exercício de 2003, como por exemplo: DCTF, Dacom e DIPJ." Assim, seguindo o raciocínio lógicojurídico exposto anteriormente, o sujeito passivo não se desincumbiu do seu ônus de comprovar a liquidez e a certeza do suposto crédito pleiteado, pois o material apresentado não se constitui em um conjunto probatório, mas, são, apenas, meros documentos. A despeito disso, a DRJCampinas resolveu, por maioria de votos, converter o julgamento em diligência e, na prática, oportunizar à contribuinte nova chance para apresentar as provas da liquidez e certeza do crédito pleiteado. Data venia, creio que essa medida não era necessária, obrigatória, nem mesmo conveniente, tendo em vista que nenhuma prova havia sido juntada aos autos no momento oportuno. De qualquer forma, o Serviço de Orientação e Análise Tributária da Delegacia da Receita Federal em Campinas, em atendimento à diligência requisitada, intimou, por diversas vezes, a contribuinte a apresentar sua escrituração contábil e os documentos fiscais que a embasavam. Todavia, a maior interessada não cumpriu as intimações e, conseqüentemente, inviabilizou a auditoria que poderia comprovar a existência do suposto crédito. Em realidade, somente após tomar ciência da Informação Fiscal, que noticiava o término da diligência, a contribuinte apresentou peça denominada "complementação à Manifestação de Inconformidade", repisando alegações já formuladas e sem adentrar no teor das informações prestadas pelo SEORT, e juntando documentos já Fl. 472DF CARF MF Processo nº 10830.903073/200800 Acórdão n.º 3002000.021 S3C0T2 Fl. 472 9 apresentados e outros novos. Contudo, mais uma vez, esses documentos não se configuravam como prova. Do voto condutor do Acórdão guerreado, transcrevese: "A falha da contribuinte em atender às seguidas intimações para submeter aqueles elementos à verificação fiscal fragiliza, ao ponto de inviabilizar, os argumentos que apresentou para contestar o ato de não homologação. Mesmo a apresentação do que seria seu Razão Analítico Contábil, no contexto em que o foi, ou seja, após ter sido reiteradamente intimado a fazêlo no âmbito da diligência, não tem o poder de socorrêlo. Concorre para comprometer seu valor probatório o fato de que o documento não apresenta os requisitos intrínsecos e extrínsecos que permitam aferir sua regularidade e, mais importante, está desacompanhado dos documentos contábeis e fiscais que permitiriam a aferição da correção dos valores e operações que dele constam. Diante de tudo isso, concluise pela inexistência de prova, nos autos, que permita acatar a nova apuração da contribuição realizada pela contribuinte e, por conseguinte, os créditos utilizados na compensação e que nela teriam origem." (grifo nosso) Após ciência da decisão da instância a quo, a contribuinte apresentou Recurso Voluntário e juntou novos documentos aos autos. Por oportuno, frisese que documentos fiscais continuaram a não ser anexados. Embasado em todo o raciocínio lógicojurídico sobre o direito probatório, desenvolvido ao longo do presente voto, e nas circunstâncias do caso concreto, entendo não ser possível a aceitação de provas apresentadas somente em sede de Voluntário, tendo em vista que estas só poderiam ser validamente consideradas, caso reforçassem um conjunto probatório já presente nos autos. Fato que, como largamente demonstrado, não ocorre neste processo. Dessa forma, tal direito encontrase fulminado pela preclusão, conforme o disposto no § 4º do art. 16 do Decreto 70.235. Assim sendo, não tomo conhecimento dos novos documentos apresentados. Quanto ao suposto crédito, a recorrente não se desincumbiu do ônus de proválo, seja por seus erros anteriores ao Despacho Decisório, seja pela sua inércia em atender às diversas intimações, seja pela ausência da apresentação de provas válidas da sua liquidez e certeza. Desse modo, por todo o exposto, voto no sentido de negar provimento ao Recurso Voluntário e não reconhecer o direito creditório. Fl. 473DF CARF MF Processo nº 10830.903073/200800 Acórdão n.º 3002000.021 S3C0T2 Fl. 473 10 (assinado digitalmente) Carlos Alberto da Silva Esteves Fl. 474DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 18470.722334/2012-17
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Feb 05 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Mar 20 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Simples Nacional
Ano-calendário: 2012
PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. PRAZO LEGAL. RECURSO VOLUNTÁRIO INTEMPESTIVO. AUSÊNCIA DE JUSTIFICATIVA. NÃO CONHECIMENTO.
Nos termos do art. 33 do Decreto 70.235/72, é de 30 dias a partir da ciência o prazo para apresentação de Recurso Voluntário. Não podendo se conhecer de recurso apresentado fora do prazo legalmente estipulado, sem justificativa válida. Recurso Não Conhecido.
Numero da decisão: 1001-000.337
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado.
(assinado digitalmente)
LIZANDRO RODRIGUES DE SOUSA - Presidente.
(assinado digitalmente)
EDUARDO MORGADO RODRIGUES - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Edgar Brangaça Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues,José Roberto Adelino da Silva e Lizandro Rodrigues de Sousa (Presidente).
Nome do relator: EDUARDO MORGADO RODRIGUES
1.0 = *:*
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ementa_s : Assunto: Simples Nacional Ano-calendário: 2012 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. PRAZO LEGAL. RECURSO VOLUNTÁRIO INTEMPESTIVO. AUSÊNCIA DE JUSTIFICATIVA. NÃO CONHECIMENTO. Nos termos do art. 33 do Decreto 70.235/72, é de 30 dias a partir da ciência o prazo para apresentação de Recurso Voluntário. Não podendo se conhecer de recurso apresentado fora do prazo legalmente estipulado, sem justificativa válida. Recurso Não Conhecido.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado. (assinado digitalmente) LIZANDRO RODRIGUES DE SOUSA - Presidente. (assinado digitalmente) EDUARDO MORGADO RODRIGUES - Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Edgar Brangaça Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues,José Roberto Adelino da Silva e Lizandro Rodrigues de Sousa (Presidente).
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PRAZO LEGAL. RECURSO VOLUNTÁRIO INTEMPESTIVO. AUSÊNCIA DE JUSTIFICATIVA. NÃO CONHECIMENTO. Nos termos do art. 33 do Decreto 70.235/72, é de 30 dias a partir da ciência o prazo para apresentação de Recurso Voluntário. Não podendo se conhecer de recurso apresentado fora do prazo legalmente estipulado, sem justificativa válida. Recurso Não Conhecido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado. (assinado digitalmente) LIZANDRO RODRIGUES DE SOUSA Presidente. (assinado digitalmente) EDUARDO MORGADO RODRIGUES Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Edgar Brangaça Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues, José Roberto Adelino da Silva e Lizandro Rodrigues de Sousa (Presidente). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 18 47 0. 72 23 34 /2 01 2- 17 Fl. 65DF CARF MF Processo nº 18470.722334/201217 Acórdão n.º 1001000.337 S1C0T1 Fl. 3 2 Relatório Tratase de Recurso Voluntário (fls. 49 a 50) interposto contra o Acórdão nº 1254.069, proferido pela 14ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Rio de Janeiro/RJ (fls. 26 a 29), que, por unanimidade, julgou parcialmente procedente a impugnação apresentada pela ora Recorrente, decisão esta consubstanciada na seguinte ementa: "ASSUNTO: SIMPLES NACIONAL Anocalendário: 2012 INDEFERIMENTO DE OPÇÃO. REGULARIZAÇÃO APÓS O PRAZO. INCLUSÃO NÃO ADMITIDA. A regularização das pendências, quando realizada após a expiração do prazo fatal de que trata a legislação de regência, impede a opção pelo Simples Nacional no mesmo anocalendário. Manifestação de Inconformidade Improcedente Sem Crédito em Litígio" Por sua precisão na descrição dos fatos que desembocaram no presente processo, peço licença para adotar e reproduzir os termos do relatório da decisão da DRJ de origem: " Tratase de manifestação de inconformidade oposta pelo interessado acima qualificado contra ato de indeferimento de opção pelo regime de tributação especial denominado Simples Nacional, de que trata o artigo 12 da Lei Complementar nº 123/2006, para o anocalendário 2012, pelo fato de constar nos arquivos eletrônicos da Secretaria da Receita Federal do Brasil – RFB, débitos de natureza previdenciária decorrentes de divergências no batimento GFIPxGPS, nas competências 02/2010, 12/2010 e 05/2011, bem como pendência cadastral relativa ao exercício de atividade econômica vedada (CNAE 66193/99). 2. Em suas razões de impugnação, o interessado alega ter promovido alteração contratual, deferida pelo RCPJ em 17/01/2012, na qual houve alteração da atividade econômica, embora a alteração junto ao CNPJ tenha demorado a ser concluída, não ficando pronta até 31/01/2012. Além disso, as GPS foram pagas, conforme cópias em anexo. 3. Protesta pela sua inclusão no Simples Nacional." O Contribuinte foi cientificado da decisão de primeira instância na data de 18/04/2013, conforme declarou no AR de fl. 31. Somente em data de 05/09/2013 (conforme carimbo de protocolo) protocolou o presente Recurso Voluntário. É o relatório. Fl. 66DF CARF MF Processo nº 18470.722334/201217 Acórdão n.º 1001000.337 S1C0T1 Fl. 4 3 Voto Conselheiro Eduardo Morgado Rodrigues Conforme se abstrai do relatório, a ora Recorrente apresentou o presente Recurso Voluntário mais de 04 meses após o termo final do prazo de 30 dias legalmente estabelecido pelo art. 33 do Decreto 70.235/72. Desta forma, não tendo a Recorrente apresentado qualquer argumento que justifique este atraso, não resta outra possibilidade que não reconhecimento da intempestividade do recurso. Diante disto, VOTO pelo NÃO CONHECIMENTO do Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Eduardo Morgado Rodrigues Relator Fl. 67DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10746.000088/2006-01
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Feb 26 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Mar 15 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Obrigações Acessórias
Data do fato gerador: 30/01/2006
CIGARRO DE PROCEDÊNCIA ESTRANGEIRA. INTRODUÇÃO CLANDESTINA NO PAÍS. AUTORIA DA INFRAÇÃO NÃO COMPROVADA. APLICAÇÃO DA PENALIDADE. IMPOSSIBILIDADE.
É insubsistente a autuação em que não provado, nos autos, que a autuado foi quem adquiriu, transportou, vendeu, expôs à venda, teve em depósito, possuiu ou consumiu cigarro de procedência estrangeira, introduzido clandestinamente no País.
Recurso Voluntário Provido.
Numero da decisão: 3302-005.241
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède - Presidente.
(assinado digitalmente)
José Fernandes do Nascimento - Relator.
Participaram do julgamento os Conselheiros Paulo Guilherme Déroulède, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Walker Araújo, José Fernandes do Nascimento, Raphael Madeira Abad, Jorge Lima Abud, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza e José Renato Pereira de Deus.
Nome do relator: JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO
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ementa_s : Assunto: Obrigações Acessórias Data do fato gerador: 30/01/2006 CIGARRO DE PROCEDÊNCIA ESTRANGEIRA. INTRODUÇÃO CLANDESTINA NO PAÍS. AUTORIA DA INFRAÇÃO NÃO COMPROVADA. APLICAÇÃO DA PENALIDADE. IMPOSSIBILIDADE. É insubsistente a autuação em que não provado, nos autos, que a autuado foi quem adquiriu, transportou, vendeu, expôs à venda, teve em depósito, possuiu ou consumiu cigarro de procedência estrangeira, introduzido clandestinamente no País. Recurso Voluntário Provido.
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INTRODUÇÃO CLANDESTINA NO PAÍS. AUTORIA DA INFRAÇÃO NÃO COMPROVADA. APLICAÇÃO DA PENALIDADE. IMPOSSIBILIDADE. É insubsistente a autuação em que não provado, nos autos, que a autuado foi quem adquiriu, transportou, vendeu, expôs à venda, teve em depósito, possuiu ou consumiu cigarro de procedência estrangeira, introduzido clandestinamente no País. Recurso Voluntário Provido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Presidente. (assinado digitalmente) José Fernandes do Nascimento Relator. Participaram do julgamento os Conselheiros Paulo Guilherme Déroulède, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Walker Araújo, José Fernandes do Nascimento, Raphael Madeira Abad, Jorge Lima Abud, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza e José Renato Pereira de Deus. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 74 6. 00 00 88 /2 00 6- 01 Fl. 62DF CARF MF 2 Relatório Por bem descrever os fatos, adotase o relatório que integra o acórdão recorrido, que segue integralmente transcrito: O interessado foi autuado em face da “infração às medidas de controle fiscal relativas a fumo, charuto, cigarrilha e cigarro de procedência estrangeira”, tendo sido aplicada a multa capitulada no Artigo 3º, § único, do Decretolei nº 399/1968, com redação dada pelo Artigo 78 da Lei nº 10.833/2003, no valor de R$ 12.160,00. A autoridade aduaneira aduziu que 6.080 (seis mil e oitenta) maços de cigarro paraguaio, de procedência desconhecida, desacompanhados de documentação comprobatória de sua importação regular, foram encontrados em poder do interessado, PEDRO IVO PEREIRA GOMES, [...], conforme consta do Auto de Apresentação e Apreensão de fl. 08 (e processo), lavrado em 01/06/2005, pela Polícia Federal no estado de Tocantins TO. Intimado em 02/02/2006 (fl. 14 do eprocesso), o interessado apresentou impugnação em 22/02/2006, juntada às fls. 18 a 36 (eprocesso). Alegou que: 1. De início, apresentou um breve relato dos fatos que ensejaram a autuação; 2. Entende que não pode ser responsabilizado por questões de legalidade; 3. É motorista empregado de empresa transportadora, conforme descrito no Relatório da Polícia Federal anexo, assim sendo, não responde pelos riscos da empresa, conforme institui o artigo 2.º da CLT. Cita legislação; 4. Ainda conforme o Termo de Depoimento junto à Superintendência da Policia Federal em Palmas, não tinha acesso às mercadorias que estavam sendo transportadas lacradas em seu caminhão, já que é apenas o motorista da empresa, podendo apenas verificar o que consta das notas fiscais a ele entregues; 5. Tanto ele quanto a sua empresa foram surpreendidos com a apreensão das mercadorias descritas no presente auto de infração; 6. Conforme assegura a Constituição Federal e prescreve a Lei 6.580/78, em seu artigo 10, II, somente o Fisco pode violar as mercadorias que as transportadoras carregam, pois se a transportadora o fizessem caracterizaria violação de correspondência; 7. Diante disso, a empregadora é obrigada a confiar no teor das notas fiscais que lhe são entregues pelos clientes. No caso em tela, a empresa acreditava que estava transportando confecções, e não maços de cigarro; Fl. 63DF CARF MF Processo nº 10746.000088/200601 Acórdão n.º 3302005.241 S3C3T2 Fl. 63 3 8. Tanto é verdade, que a empresa responsável pelo transporte, assim que solicitado pela Polícia Federal, forneceu o nome do proprietário da mercadoria; 9. No relatório final de inquérito e na denúncia formulada pelo Ministério Publico Federal consta que a mercadoria apreendida é de propriedade do Sr. José Aparecido Silva Sousa; 10. Por derradeiro, nos termos do inciso XXII, do artigo 618, do Decreto 4.543/02, a única hipótese do transportador ser responsabilizado pela multa pretendida seria no caso de ser ocultado o sujeito passivo, o proprietário, o que, conforme se demonstrou, não é o caso; 11. Por fim, requer o reconhecimento da ilegitimidade da autuação, para que seja declarada a sua improcedência. Sobreveio a decisão de primeira instância (fls. 42/50), em que, por unanimidade de votos, a impugnação foi julgada improcedente e o crédito tributário integralmente mantido, com base no fundamento resumido no enunciado da ementa que segue transcrito: ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Data do fato gerador: 30/01/2006 Cigarros estrangeiros sem comprovação de importação irregular. Posse e transporte. Multa fiscal. Conforme peças lavradas pela autoridade policial, cigarros estrangeiros, sem comprovação da regular importação, estavam sendo transportados pelo autuado. Nesse caso, procedente o lançamento da multa prevista no Artigo 3º, § único, do DecretoLei n.º 399/1968. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Em 7/2/2014, o recorrente foi cientificado da decisão. Inconformado, em 25/2/2014, protocolou o recurso voluntário de fls. 55/60, em que reafirmou as razões de defesa suscitadas na peça impugnatória. É o relatório. Voto Conselheiro José Fernandes do Nascimento, Relator. O recurso foi apresentado tempestivamente, trata de matéria da competência deste Colegiado e preenche os demais requisitos de admissibilidade, portanto, deve ser conhecido. Fl. 64DF CARF MF 4 Não há dissenso quanto a materialização da infração capitulada no art. 3º do Decretolei 399/1968, com a redação dada pelo art. 78 da Lei 10.833/2003, que segue transcrito juntamente com o art. 2º do mesmo diploma legal, ao qual faz referência: Art 2º O Ministro da Fazenda estabelecerá medidas especiais de contrôle fiscal para o desembaraço aduaneiro, a circulação, a posse e o consumo de fumo, charuto, cigarrilha e cigarro de procedência estrangeira. Art 3º Ficam incursos nas penas previstas no artigo 334 do Código Penal os que, em infração às medidas a serem baixadas na forma do artigo anterior adquirirem, transportarem, venderem, expuserem à venda, tiverem em depósito, possuirem ou consumirem qualquer dos produtos nêle mencionados. Parágrafo único. Sem prejuízo da sanção penal referida neste artigo, será aplicada, além da pena de perdimento da respectiva mercadoria, a multa de R$ 2,00 (dois reais) por maço de cigarro ou por unidade dos demais produtos apreendidos. (Redação dada pela Lei nº 10.833, de 29.12.2003) grifos não originais. A controvérsia cingese à autoria do fato infracional, ou seja, à legitimidade do recorrente para integrar o polo passivo da presente autuação. No presente recurso, o recorrente reiterou o argumento suscitado na peça impugnatória de que, na condição de simples motorista, empregado da empresa transportadora proprietária do veículo condutor do cigarro apreendido, não era autor da infração objeto da presente autuação, logo, não podia ser responsabilizado pela multa aplicada. Como empregado, asseverou o recorrente que, segundo o disposto no art. 2º da CLT, ele não podia responder pelos riscos da empresa empregadora. A leitura do Relatório do IPL 085105SR/DPF/TO (fls. 31/33) confirma que o recorrente era motorista da empresa transportadora e que atuara apenas como condutor do caminhão transportador dos cigarros apreendidos. Para melhor compreensão, reproduz o relevante excerto extraído do citado Relatório, que segue transcrito: Inicialmente foram reduzidas a termo as declarações prestadas por Pedro Ivo Pereira Borges, motorista da empresa TRANSBURRINHO (Mesquita e Mesquita Ltda), responsável pelo transporte da mercadoria apreendida nestes autos (fls. 03/04), que afirmou, em síntese, que “quem faz o carregamento são três ajudantes que trabalham no depósito da empresa sito à Rua Francisca Costa Cunha, nº 687, Qd 676, Setor Aeroporto, Goiânia/GO; QUE, o caminhão sai da sede empresa em Goiania com lacre, que só é rompido em Gurupi/T0, em um depósito da empresa; QUE, de Gurupi/TO a Palmas/TO o caminhão vem sem lacre; QUE, só tomou conhecimento da mercadoria ora apreendida durante a fiscalização realizada pela Secretaria da Receita Estadual, no Posto do Município de Fátima/TO.” Além de ser mero motorista do veículo transportador, nas declarações prestadas perante à autoridade policial federal, não infirmadas, o recorrente confirmou que: a) não fora o responsável pelo carregamento do veículo; b) o caminhão saíra lacrado da sede da empresa em Goiânia/GO; c) só tomara conhecimento do tipo da mercadoria transportada no Fl. 65DF CARF MF Processo nº 10746.000088/200601 Acórdão n.º 3302005.241 S3C3T2 Fl. 64 5 momento da fiscalização e apreensão pelas autoridades fiscais da Secretaria da Receita do Estado do Tocantins. E as declarações do recorrente foram confirmadas pelas declarações do Sr. Cléber João Fernandes Mesquita, que afirmou que fora ele quem recebera a mercadoria na sede da empresa transportadora em Goiânia/GO e passara para o empregado colocar no caminhão, conforme consignado no texto extraído do citado relatório, que segue transcrito: Cléber João Fernandes de Mesquita em suas declarações afirma “QUE, foi o Declarante quem recebeu a mercadoria na sede da empresa em Goiânia/GO, passando par um empregado colocar no caminhão; QUE, a pessoa que mandou a mercadoria apresentouse como JOSÉ CARLOS DA SILVA, telefone 62 8143.8919, conforme consta na Minuta, mas o Declarante não confirmou sua identidade; QUE, quem preencheu a Minuta de Despacho foi a secretária da empresa, passando ao Declarante que a assinou, após o pagamento do frete; QUE após ficar sabendo da abordagem do caminhão da empresa, no Posto Fiscal deste Estado, o Declarante tentou contatar a remetente, mas a ligação caía na caixa de mensagens do celular; QUE, não possui nenhum outro registro de informações que possa auxiliar na identificação do proprietário da mercadoria;...” Além disso, segundo o referido relatório, no correspondente Inquérito Policial, a única pessoa que foi indiciada foi o Sr. José Aparecido da Silva Sousa, na condição de destinatário da mercadoria, conforme se lê no excerto que segue reproduzido: Em razão das mercadorias apreendidas e do conteúdo do interrogatório, procedeuse ao indiciamento de José .Aparecido da Silva Sousa, como incurso nas sanções do artigo 334, § 1º, alínea "d", como se vê do Auto de Qualificação e Interrogatório constante às fls. 29/30. Da mesma forma, segundo da Denúncia do MPF de fls. 34/36, a única pessoa denunciada foi o Sr. José Aparecido da Silva Sousa. Eis as razões que motivaram a denúncia do acusado: Os autos anexos do Inquérito Policial n° 085/05, instaurado pela Superintendência da Policia Federal no Estado do Tocantins, noticiam que o Denunciado, em maio de 2005, pediu a seu amigo PAULO DA SILVA SOUSA que comprasse em Goiânia maços de cigarros de origem paraguaia, para que o Denunciado os revendesse em Guarai TO. Os cigarros foram efetivamente adquiridos e enviados ao Denunciado por meio da empresa de transporte MESQUITA E MESQUITA LTDA., tendo sido apreendidos em operação da Secretaria da Receita Estadual do Tocantins. Além desses fatos demonstrarem, cabalmente, que o recorrente atuara apenas como motorista do veículo da carga transportada, no auto de infração em apreço (fls. 2/5), bem como no auto de infração e termo de apreensão e guarda fiscal de fls. 9/13, não fora apresentado o motivo da inclusão do recorrente no polo passivo da autuação nem indicado qual o fato infracional fora cometido pelo recorrente. Fl. 66DF CARF MF 6 Por todas essas razões, com base nos elementos coligidos aos autos, chegase a conclusão inexorável de que, além de não haver indicação no auto de infração do fato infracional cometido pelo recorrente, tampouco há comprovação de que o recorrente cometera qualquer das condutas infracionais às medidas de controle fiscal descritas no art. 3º do Decreto lei 399/1968, com a redação dada pelo art. 78 da Lei 10.833/2003. Em decorrência, por ausência de prova da autoria da infração, o recorrente foi indevida e ilegitimamente incluído no polo passivo da presente autuação. Por todo o exposto, votase pelo provimento do recurso, para cancelar integralmente a autuação, por ilegitimidade passiva do autuado. (assinado digitalmente) José Fernandes do Nascimento Fl. 67DF CARF MF
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Numero do processo: 10872.000323/2010-78
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Mar 14 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Apr 17 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte - Simples
Ano-calendário: 2006
PROCESSUAL - NULIDADE - INOCORRÊNCIA
Declinados os motivos de fato de direito a consubstanciar o lançamento, não que se cogitar de nulidade, mormente por não se identificar, aí, as hipótese do art. 59 do Decreto 70.235. A discordância do contribuinte quanto os motivos deduzidos encerra discussão de mérito e não de preliminar.
REVISÃO DO LANÇAMENTO PELA INSTÂNCIA INFERIOR - INOCORRÊNCIA DE NOVO LANÇAMENTO.
A revisão parcial do lançamento para manter parte do crédito tributário constituído sem que se inove os critérios adotados pela Auditoria não importa em novo lançamento, não encerrando a nulidade desta decisão.
SIMPLES FEDERAL - PRESUNÇÃO DE OMISSÃO DE RECEITAS - AUTORIZAÇÃO LEGAL
A presunção de omissão de receitas assumida a partir do confronto entre a escrita fiscal do contribuinte e dados fornecidos por terceiros, administradoras de cartão de crédito, é expressamente autorizada pela Lei 9.713, art. 18, IN 34/01, art 34 e pelo CTN, art. 197.
Numero da decisão: 1302-002.689
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar de nulidade e em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto do relator.
(assinado digitalmente)
Luiz Tadeu Matosinho Machado - Presidente.
(assinado digitalmente)
Gustavo Guimarães da Fonseca - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Tadeu Matosinho Machado (Presidente), Rogério Aparecido Gil, Lizandro Rodrigues de Sousa (Suplente Convocado), Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa, Paulo Henrique Silva Figueiredo, Flávio Machado Vilhena Dias e Gustavo Guimarães da Fonseca. Ausente justificadamente o conselheiro Carlos César Candal Moreira Filho, que foi substituído no colegiado pelo Conselheiro Julio Lima Souza Martins (suplente convocado).
Nome do relator: GUSTAVO GUIMARAES DA FONSECA
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ementa_s : Assunto: Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte - Simples Ano-calendário: 2006 PROCESSUAL - NULIDADE - INOCORRÊNCIA Declinados os motivos de fato de direito a consubstanciar o lançamento, não que se cogitar de nulidade, mormente por não se identificar, aí, as hipótese do art. 59 do Decreto 70.235. A discordância do contribuinte quanto os motivos deduzidos encerra discussão de mérito e não de preliminar. REVISÃO DO LANÇAMENTO PELA INSTÂNCIA INFERIOR - INOCORRÊNCIA DE NOVO LANÇAMENTO. A revisão parcial do lançamento para manter parte do crédito tributário constituído sem que se inove os critérios adotados pela Auditoria não importa em novo lançamento, não encerrando a nulidade desta decisão. SIMPLES FEDERAL - PRESUNÇÃO DE OMISSÃO DE RECEITAS - AUTORIZAÇÃO LEGAL A presunção de omissão de receitas assumida a partir do confronto entre a escrita fiscal do contribuinte e dados fornecidos por terceiros, administradoras de cartão de crédito, é expressamente autorizada pela Lei 9.713, art. 18, IN 34/01, art 34 e pelo CTN, art. 197.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: SISTEMA INTEGRADO DE PAGAMENTO DE IMPOSTOS E CONTRIBUIÇÕES DAS MICROEMPRESAS E DAS EMPRESAS DE PEQUENO PORTE SIMPLES Anocalendário: 2006 PROCESSUAL NULIDADE INOCORRÊNCIA Declinados os motivos de fato de direito a consubstanciar o lançamento, não que se cogitar de nulidade, mormente por não se identificar, aí, as hipótese do art. 59 do Decreto 70.235. A discordância do contribuinte quanto os motivos deduzidos encerra discussão de mérito e não de preliminar. REVISÃO DO LANÇAMENTO PELA INSTÂNCIA INFERIOR INOCORRÊNCIA DE NOVO LANÇAMENTO. A revisão parcial do lançamento para manter parte do crédito tributário constituído sem que se inove os critérios adotados pela Auditoria não importa em novo lançamento, não encerrando a nulidade desta decisão. SIMPLES FEDERAL PRESUNÇÃO DE OMISSÃO DE RECEITAS AUTORIZAÇÃO LEGAL A presunção de omissão de receitas assumida a partir do confronto entre a escrita fiscal do contribuinte e dados fornecidos por terceiros, administradoras de cartão de crédito, é expressamente autorizada pela Lei 9.713, art. 18, IN 34/01, art 34 e pelo CTN, art. 197. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar de nulidade e em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto do relator. (assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 87 2. 00 03 23 /2 01 0- 78 Fl. 470DF CARF MF Processo nº 10872.000323/201078 Acórdão n.º 1302002.689 S1C3T2 Fl. 471 2 Luiz Tadeu Matosinho Machado Presidente. (assinado digitalmente) Gustavo Guimarães da Fonseca Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Tadeu Matosinho Machado (Presidente), Rogério Aparecido Gil, Lizandro Rodrigues de Sousa (Suplente Convocado), Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa, Paulo Henrique Silva Figueiredo, Flávio Machado Vilhena Dias e Gustavo Guimarães da Fonseca. Ausente justificadamente o conselheiro Carlos César Candal Moreira Filho, que foi substituído no colegiado pelo Conselheiro Julio Lima Souza Martins (suplente convocado). Relatório Cuida o processo de autos de infração lavrados em face do recorrente, para a exigência do IRPJ, CSLL, PIS, COFINS e CPP (INSS), calculados sob a sistemática da Lei 9.317/96 (Simples Federal), em razão da constatação de pretensa omissão de receitas. Tal omissão digase, decorreria da diferença entre as receitas informadas pelo contribuintes através de sua "PJSI 2007" e aquelas verificadas pela D. Fiscalização a partir das informações prestadas pelas Administradoras de Cartão de Crédito REDCARD e VISA (Visanet). Ainda de acordo com o TVF, a apuração dos valores apontados nos autos de infração se deu pelo somatório das diferenças entre os valores declarados pelo contribuinte e aqueles informados pela administradora de cartão de crédito no anocalendário de 2006, conforme fórmula declarada pela D. Auditoria em seu relatório: 6. 0 Valor autuado mensal, foi obtido pela diferença entre o total repassado, em 2006, pelas administradoras de cartões de crédito, vide item 7 acima, e o valor declarado pelo contribuinte (...). Cientificados dos autos de infração, o contribuinte opôs a sua impugnação sustentando, em apertada síntese, que: a) o autos de infração seriam nulos a míngua de, a seu ver, existir fundamentação fático/jurídica a apontar, de forma precisa, "os fatos" e "dispositivo legal que a lmpugnante teria infringido"de sorte a lhe negar saber "se o Fisco pretendeu considerar os valores referentes as vendas informadas nos extratos dos cartões de crédito ou os valores referentes aos repasses financeiros, ou os dois"; ato contínuo, afirma ter ocorrido cerceamento de defesa; b) no mérito, que ao dar aos valores percebidos pela Visa (valores efetivamente repassados ao contribuinte caixa) e pela REDCARD (valores creditados em decorrência de vendas realizadas competência) o mesmo tratamento, desconsiderou o regime de tributação efetivamente adotado (competência), equivocandose, pois, quanto a base de cálculo adotada. Uma vez optante pelo regime de competência, o fisco não poderia ter somado Fl. 471DF CARF MF Processo nº 10872.000323/201078 Acórdão n.º 1302002.689 S1C3T2 Fl. 472 3 as receitas percebidas pela empresa aos valores faturados no mesmo período, havendo, nesta hipótese, um descasamento entre o fato imponível e os valores declinados no TVF; c) finalmente, inexistiria "previsão legal para presunção de omissão de receita decorrente de diferença entre os valores repassados pelas operadoras de cartões de créditos e a receita declarada". Recebidos os autos, a DRJ do Rio de Janeiro, por maioria de votos, deu parcial provimento à impugnação para excluir do cômputo dos tributos devidos, as receitas concernentes aos valores declinados pela Visanet, mantendose a autuação apenas em relação aos montantes concernentes às vendas noticiadas pela REDCARD. O relator, digase, julgava integralmente improcedente a impugnação por entender não ter trazido, o contribuinte, documentos hábeis a refutar a presunção contida no TVF; o voto vencedor, de outra monta, sustenta que, uma vez sujeita ao regime de competência, não poderia a fiscalização ter procedido ao simples somatório dos valores efetivamente recebidos (Visa caixa) àqueles somente creditados em decorrência das vendas realizadas (REDCARD valores meramente faturados mais ainda não percebidos competência), assim pontificando: No presente caso, foram somadas receitas obtidas pelo regime de caixa (extratos do VISA) e receitas obtidas segundo o regime de competência (extratos do Redecard) e deste total foram subtraídas as vendas informadas em DIPJ conforme o regime de competência (....) Diante de tal fato, concluo que a exigência deve prosseguir tão somente no que diz respeito às receitas oriundas dos extratos da Administradora Redecard, já que a própria interessada confirma que esta parcela da base tributável foi corretamente apurada segundo o regime de competência. Vale destacar que, como o valor exonerado não atingiu o limite de alçada, a DRJ/RJ não recorreu de ofício. O contribuinte teve ciência do resultado do julgamento em 17/10/2014 (AR de fl. 440), tendo interposto o seu recurso voluntário em 17 de dezembro daquele mesmo ano (carimbo de fl. 443), por meio do qual, além de reiterar as alegações de sua impugnação, sustentou que, ao reconhecer o erro na apuração dos tributos exigidos nos autos de infração, caberia a instância inferior reconhecer a imprestabilidade de todo o procedimento fiscal; a exclusão de parte das receitas consideradas pela Auditoria Fiscal, neste particular, representaria modificação/renovação do próprio lançamento, conduta vedada à instância julgadora. O feito foi, então, encaminhado à este Colegiado para análise e julgamento. Este, o relatório. Voto Conselheiro Relator Gustavo Guimarães da Fonseca Relator Fl. 472DF CARF MF Processo nº 10872.000323/201078 Acórdão n.º 1302002.689 S1C3T2 Fl. 473 4 O recurso é tempestivo e preenche os requisitos extrínsecos e intrínsecos de cabimento e, por isso, dele conheço. I. Preliminar de nulidade por pretensa ausência de motivação. Tanto em sua impugnação, como em seu recurso, o contribuinte sustenta a nulidade dos autos de infração ante uma alegada ausência de motivação fáticojurídica a fim de viabilizar o entendimento correto, pelo recorrente, do objeto da autuação. Em linhas gerais, alega que ao não declinar se se teria considerado o regime de caixa ou o regime de competência para proceder ao cálculo dos tributos pretensamente devidos, teria a fiscalização lhe cerceado o direito de defesa. De fato, o ato administrativo, como concretização da ação estatal jungida ao princípio da legalidade, pressupõe, por isso mesmo, a declinação exata, precisa e minudente dos motivos que justificam a sua prática, justamente para permitir ao sujeito passivo, e, frise se, à Administração Pública (em exercício do seu poder/dever de revisão de seus próprios atos), verificar a sua legalidade. Em especial, em atos que cominam penalidades ou que imponham obrigações ou, mais, que tenham reflexos patrimoniais, a identificação dos motivos que fundamentam a sua concretização, mormente pela tipificação dos motivos de fato nele declinados à norma legal autorizativa, é da essência deste mesmo ato. A mingua da exposição dos motivos de fato e de direito, o sujeito passivo se vê incapacitado de saber, justamente, porque, e em razão de que norma, a imposição, a pena ou o vilipêndio de seu patrimônio, por vontade do Estado, se sucedeu; e ato contínuo, em tais casos, vê limitado o seu direito à ampla defesa. A motivação, pois, além de decorrer de determinações constitucionais explicitas (v.g., o art. 37 da CF), é decorrência da garantia da ampla defesa. Notem, todavia, que, declinados os pressupostos fáticos e jurídicos que embasaram o ato, não mais se estará diante de vício por falta de descrição de seus motivos determinantes (salvo se houver, entre eles, manifesta incompatibilidade)... a partir dai, quaisquer questionamos sobre os efeitos deste ato, perpassam pela interpretação do motivo jurídico e a sua adequação ou não fato concreto, deixandose, evidente, nesta hipótese, que ao destinatário do ato foi garantido saber porque, quando e decorrência de qual norma terseia operado a prática de determinado ato; nesta hipótese, não se observa, mais, qualquer mácula à ampla defesa. No caso em testilha, vejam bem, os autos de infração foram suficientemente instruídos, tendo a D. Auditoria justificado as suas conclusões, faticamente, na divergência entre os valores declarados pelo recorrente em sua declaração anual e aqueles obtidos diretamente junto às empresas administradoras de cartão de crédito. Neste passo, peço vênia para reproduzir o seguinte trecho do TVF: Em atenção ao Registro de Procedimento Fiscal n° 2009.01856 0, foi realizada a fiscalização do IRPJ referente a o ano calendário 2006, tendo sido lavrado o presente auto, uma vez que foi constatado que a receita repassada pelas administradoras de cartões de crédito Redecard S/A, CNPJ 01.425.787/000104 e Cia. Brasileira de Meios de Pagamento, CNPJ01.027.058/000191, foi superior a Receita declarada pelo contribuinte (...). Fl. 473DF CARF MF Processo nº 10872.000323/201078 Acórdão n.º 1302002.689 S1C3T2 Fl. 474 5 Ou seja, o fundamento fático é a divergência entre os valores declarados e os valores detectados pela Auditoria; como o fisco partiu da premissa de que todas as receitas do contribuinte se sujeitavam ao regime de caixa (e isso se dessume pela própria exposição aposta pelo recorrente), cabe ao contribuinte, tão só, sustentar a sua discordância (como de fato o fez); não cabia, nem era imposto à fiscalização, esclarecer, explicitamente, o regime que considerou, bastando apresentar os cálculos que dariam azo à suas conclusões e, ao fim e ao cabo, autorizar a inferência quanto ao regime efetivamente considerado. Quanto ao fundamento jurídico, este também se encontra satisfatoriamente apontado no relatório fiscal, senão vejamos: (...) tendo sido cometida infração do artigo 199 do Regulamento do Imposto de Renda, baixado pelo Decreto n° 3.000, de 26 de março de 1999, e do artigo 34 da Instrução Normativa SRF n° 34, de 30 de março de 2001, os quais transcrevo abaixo: 'Art. 199 (RIR199) — Aplicamse a microempresa e a empresa de pequeno porte todas as presunções de omissão de receita existente nas legislações de regência dos impostos e contribuições referidos na Lei n° 9.317, de 1996, desde que apuráveis com base nos livros e;documentos a que estiverem obrigadas aquelas pessoas jurídicas (Lei n°9.317, de 1996, art. 18). Art. 34 (IN SRF n. 34/01) — Aplicamse à microempresa e a empresa de pequeno porte todas as presunções de omissão de receita existentes nas legislações de regência dos impostos e contribuições de que trata a Lei n°9.317, de 1996, desde que apuráveis com base nos livros e documentos a que estiverem obrigadas aquelas pessoas jurídicas ainda que fundamentadas em elementos comprobatórios obtidos junto a terceiros. Impende frisar que, como bem pontuado tanto no voto do relator, como no voto vencedor do acórdão recorrido, que o contribuinte não teve dificuldades de entender a origem e extensão da autuação, tendo declinado a sua defesa sem obstáculos (não por outra razão, inclusive, teve reconhecida a procedência de parte de suas alegações). E, lembremse, não há nulidade sem prejuízos... Diante disto, voto por afastar a preliminar aventada. II. Mérito. II.1 Da alegada modificação do critério do lançamento e da insuficiência de recolhimento. Vale destacar desde logo que o recorrente não cuidou de demonstrar a inocorrência de omissão de receitas. Não trouxe aos autos qualquer documento, ou mesmo argumento, que pudesse, de qualquer forma, ao menos em relação aos valores de venda informados pela REDCARD, afastar as conclusões fiscais pertinentes ao não oferecimento destes valores à tributação. Fl. 474DF CARF MF Processo nº 10872.000323/201078 Acórdão n.º 1302002.689 S1C3T2 Fl. 475 6 Ou seja, a "omissão de receitas" caracterizada pela falta de declaração, em sua DSPJ/2007 (juntada à fls. 2 a 17), dos valores acusados pela REDCARD, não foi oposta pelo contribuinte, restando incontroverso tal fato. O contribuinte, notem, limitase a sustentar que, uma vez reconhecido pelo órgão julgador de primeiro grau que parte das receitas consideradas pela fiscalização referiam se a valores efetivamente percebidos pela empresa e que, portanto, não poderiam compor as mesmas competências dos montantes concernentes às vendas (faturas) informadas pela REDCARD, cabialhe anular integralmente os lançamentos, e não refazêlo mediante decote daqueles montantes do cálculo engendrado pela fiscalização. Neste particular, entendo, permissa venia, que a DRJ, através do voto vencedor, não modificou os critérios do lançamento. O citado órgão julgador, considerando o regime que a que se sujeitava o recorrente (competência), apenas excluiu do cômputo das receitas tributáveis os valores que já haviam ingressado no caixa do contribuinte, mantendo a tributação, sem modificação de critérios fáticos ou jurídicos, tão só das vendas noticiadas pela REDCARD. Tivesse a DRJ refeito o lançamento para alocar as receitas efetivamente percebidas em outros períodos de competência (correspondentes à aqueles em que a empresa tivesse, v.g., emitido cupons ou notas fiscais), aí sim estaríamos diante de um novo lançamento realizado por quem não detém competência para tanto. Como dito, todavia, não foi isso que o fez o voto vencedor da DRJ, tendo mantido a exigência apenas em relação à parte do lançamento que respeitava o regime de competência a que estava sujeito o contribuinte. Peço atenção, neste particular, ao seguinte trecho do voto vencedor que expõe de forma substancialmente clara os motivos daquela decisão: Assim, salvo melhor juízo, equivocase a relatora original quando ultrapassa a alegação da defesa, relativa à inexatidão das receitas apuradas, com base no argumento de que a interessada deveria ter apresentado, juntamente com os extratos das Administradoras, os documentos e livros que permitiriam a discriminação das vendas segundo o regime de competência. Primeiro, por que não consta dos autos que tenha sido formalizada intimação específica, com vistas a tal objetivo. Segundo porque, ainda que constasse e ainda que a empresa não a tivesse atendido, não poderia o Fisco proceder ao lançamento de quantias sabidamente inexatas sob o pretexto de não ter sido possível proceder à apuração correta. Soluções alternativas, previstas na própria legislação tributária, deveriam ter sido buscadas. Ou seja o voto vencedor apontou corretamente que as receitas efetivamente percebidas que não podiam compor o lançamento sem que houvesse uma apuração exaustiva e conclusiva não só sobre a omissão das preditas receitas mas, principalmente, a sua correta alocação, insistase, nas competências respectivas mediante análise de documentos fiscais que permitissem tal conclusão. A premissa adotada pela fiscalização, não se pode olvidar, estava correta quanto às receitas informadas pela REDCARD; também não se pode discutir que a empresa, Fl. 475DF CARF MF Processo nº 10872.000323/201078 Acórdão n.º 1302002.689 S1C3T2 Fl. 476 7 provavelmente, omitiu as receitas relativas às movimentações noticiadas pela VISA mas, como a fiscalização não cuidou de observar, quanto as estas últimas, o regime de tributação que se sujeitava o contribuinte, o lançamento não podia ser mantido, mas apenas quanto a esta parte. Enfim... não se está diante de um novo lançamento, nem tampouco de readequação do lançamento realizado; decotouse deste, apenas, parte dos valores apurados porque, nesta porção, o lançamento desrespeitou o regime de competência, estando correta a decisão quanto a parte do crédito tributário mantido. Como consequência lógica, correta, também a decisão recorrida quanto a constatação da insuficiência de recolhimento de parcelas do Simples Federal (questão abordada no último tópico do recurso vonluntário). II.2 Da ausência de autorização legal para a realização do lançamento por presunção de receitas Com o devido respeito, não me alongarei sobre este argumento, já que do TVF extraise, como já alertado no tópico I, deste voto, a fundamentação jurídica para a prática do ato. O art. 199 do RIR é claro, a não mais poder, ao permitir a presunção de receitas, TAMBÉM EM RELAÇÃO ÀS EMPRESAS OPTANTES PELO SIMPLES; semelhante previsão consta também da IN 34/01 (também invocada pela D. Auditoria Fiscal) que, inclusive de forma mais evidente, destaca a viabilidade de tal presunção de receitas "sempre que "desde que apuráveis com base nos livros e documentos a que estiverem obrigadas aquelas pessoas jurídicas ainda que fundamentadas em elementos comprobatórios obtidos junto a terceiros quanto verificada". Ou seja, a IN em testilha, vai até mais além que a Lei 9.713 (cujos ditames são reproduzidos pelo citado art. 199 do RIR) e autoriza a presunção também a partir do confronto entre os documentos fiscais do contribuinte e elementos comprobatórios provenientes de terceiros (tais como DIRFs, extratos bancários e, por certo, as informações prestadas pelas administradoras de cartão de crédito). E que nem se diga, no caso, que a IN teria ultrapassado os limites legais a permitir tal confronto; primeiramente porque o contribuinte não arguiu semelhante "ilegalidade"; segundo, porque tal faculdade se encontra expressamente contemplada no próprio Código Tributário Nacional, em seu art. 197, cujo teor reproduzo a seguir: Art. 197. Mediante intimação escrita, são obrigados a prestar à autoridade administrativa todas as informações de que disponham com relação aos bens, negócios ou atividades de terceiros: I os tabeliães, escrivães e demais serventuários de ofício; II os bancos, casas bancárias, Caixas Econômicas e demais instituições financeiras; III as empresas de administração de bens; IV os corretores, leiloeiros e despachantes oficiais; Fl. 476DF CARF MF Processo nº 10872.000323/201078 Acórdão n.º 1302002.689 S1C3T2 Fl. 477 8 V os inventariantes; VI os síndicos, comissários e liquidatários; VII quaisquer outras entidades ou pessoas que a lei designe, em razão de seu cargo, ofício, função, ministério, atividade ou profissão. Não há, pois, dúvidas razoáveis acerca da autorização legal tanto para o procedimento fiscal, como para a assunção da presunção de receitas tipificadas a partir do confronto entre os "livros e documentos a que estiverem obrigadas aquelas pessoas jurídicas" e "elementos comprobatórios obtidos junto a terceiros". III Conclusão. A luz do anteriormente exposto, voto por afastar a preliminar de nulidade suscitada e, no mérito, por negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Gustavo Guimarães da Fonseca Fl. 477DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16561.720143/2016-91
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Mar 14 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Apr 17 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2010
UTILIZAÇÃO DE EMPRESA VEÍCULO. LEGALIDADE. MANUTENÇÃO DA DEDUTIBILIDADE DO ÁGIO.
A utilização de empresa veículo que viabilize o aproveitamento do ágio, por si só, não desfigura a operação e invalida a dedução do ágio, se ausentes a simulação, dolo ou fraude.
Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
Ano-calendário: 2010
TRIBUTAÇÃO REFLEXA
Sendo a tributação decorrente dos mesmos fatos e inexistindo razões que ensejem tratamento diverso, aplica-se à CSLL o quanto decidido em relação ao IRPJ.
Numero da decisão: 1302-002.634
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso voluntário, vencidos os conselheiros Paulo Henrique Silva Figueiredo (relator), Carlos Cesar Candal Moreira Filho e Lizandro Rodrigues de Sousa. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Gustavo Guimarães da Fonseca. O Conselheiro Luiz Tadeu Matosinho Machado solicitou a a apresentação de declaração de voto.
(assinado digitalmente)
Luiz Tadeu Matosinho Machado - Presidente.
(assinado digitalmente)
Paulo Henrique Silva Figueiredo - Relator.
(assinado digitalmente)
Gustavo Guimarães da Fonseca - Redator designado.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa, Paulo Henrique Silva Figueiredo, Rogério Aparecido Gil, Gustavo Guimarães da Fonseca, Flávio Machado Vilhena Dias, Lizandro Rodrigues de Sousa (suplente convocado) e Luiz Tadeu Matosinho Machado.
Nome do relator: PAULO HENRIQUE SILVA FIGUEIREDO
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2010 UTILIZAÇÃO DE EMPRESA VEÍCULO. LEGALIDADE. MANUTENÇÃO DA DEDUTIBILIDADE DO ÁGIO. A utilização de empresa veículo que viabilize o aproveitamento do ágio, por si só, não desfigura a operação e invalida a dedução do ágio, se ausentes a simulação, dolo ou fraude. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2010 TRIBUTAÇÃO REFLEXA Sendo a tributação decorrente dos mesmos fatos e inexistindo razões que ensejem tratamento diverso, aplicase à CSLL o quanto decidido em relação ao IRPJ. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso voluntário, vencidos os conselheiros Paulo Henrique Silva Figueiredo (relator), Carlos Cesar Candal Moreira Filho e Lizandro Rodrigues de Sousa. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Gustavo Guimarães da Fonseca. O Conselheiro Luiz Tadeu Matosinho Machado solicitou a a apresentação de declaração de voto. (assinado digitalmente) Luiz Tadeu Matosinho Machado Presidente. (assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 56 1. 72 01 43 /2 01 6- 91 Fl. 2664DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.665 2 Paulo Henrique Silva Figueiredo Relator. (assinado digitalmente) Gustavo Guimarães da Fonseca Redator designado. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa, Paulo Henrique Silva Figueiredo, Rogério Aparecido Gil, Gustavo Guimarães da Fonseca, Flávio Machado Vilhena Dias, Lizandro Rodrigues de Sousa (suplente convocado) e Luiz Tadeu Matosinho Machado. Relatório Tratase de Recurso Voluntário apresentado em relação ao Acórdão nº 02 72.639, da 10ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Belo Horizonte/MG (DRJ/Belo Horizonte), de 10 de abril de 2107 (fls. 2.517 a 2.545), que julgou improcedente a impugnação do sujeito passivo, conforme ementa a seguir: "ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2011 INCORPORAÇÃO DE EMPRESA. AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. NECESSIDADE DE PROPÓSITO NEGOCIAL. UTILIZAÇÃO DE EMPRESA VEÍCULO. Não produz o efeito tributário almejado pelo sujeito passivo a incorporação de pessoa jurídica, constituída sem finalidade negocial, em cujo patrimônio constava registro de ágio em decorrência de participação na incorporadora com fundamento em expectativa de rentabilidade futura. TRANSFERÊNCIA DE CAPITAL PARA AQUISIÇÃO DE INVESTIMENTO POR EMPRESA VEÍCULO, SEGUIDA DE SUA INCORPORAÇÃO PELA INVESTIDA. SUBSISTÊNCIA DO INVESTIMENTO NO PATRIMÔNIO DA INVESTIDORA ORIGINAL. Para dedução fiscal da amortização de ágio fundamentado em rentabilidade futura é necessário que a incorporação se verifique entre a investida e a pessoa jurídica que adquiriu a participação societária com ágio. Não é possível a amortização se o investimento subsiste no patrimônio da investidora original. MULTA ISOLADA. FALTA/INSUFICIÊNCIA DE RECOLHIMENTO. ESTIMATIVAS MENSAIS. IRPJ. CSLL. MULTA DE OFÍCIO. CONCOMITÂNCIA. A multa isolada prevista no inciso II do artigo 44 da Lei nº 9.430, de 1996, tem pressuposto de exigência diferente da multa de ofício prevista no inciso I do citado artigo. As penalidades decorrem de pressupostos diferentes e o lançamento delas no Fl. 2665DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.666 3 mesmo auto de infração não significa dupla penalização pela mesma conduta. CSLL. DECORRÊNCIA. INFRAÇÕES APURADAS NA PESSOA JURÍDICA. O decidido quanto ao lançamento principal, no caso de imposto sobre a renda, aplicase aos lançamentos decorrentes dos mesmos fatos e elementos de prova. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2011 MULTA QUALIFICADA. NEGÓCIO JURÍDICO FICTÍCIO. Sujeitase à multa qualificada a exigência tributária decorrente da prática de negócio jurídico fictício, que se presta, apenas, a construir um cenário semelhante à hipótese legal que autoriza a amortização do ágio pago na aquisição de investimentos. JUROS SOBRE MULTA DE OFÍCIO LANÇADA. A multa de ofício, porquanto parte integrante do crédito tributário, está sujeita à incidência dos juros de mora a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao do vencimento." Por bem sintetizar o processo, passo a transcrever o relatório do Acórdão recorrido, complementandoo, ao final: "Contra o Contribuinte, pessoa jurídica, já qualificada nos autos, foram lavrados os Autos de Infração constantes das fls. 1678 a 1696, relativos ao anocalendário 2011, que exigem o Imposto de Renda Pessoa Jurídica – IRPJ (R$ 215.327.558,62) e a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL (R$ 76.977.283,65), totalizando R$ 292.304.842,27 de crédito tributário, já incluído a multa de 150% e os juros de mora calculados na data da lavratura. Em procedimento de verificação do cumprimento das obrigações tributárias, conforme consta do Termo de Verificação Fiscal – TVF (fls. 1617 a 1677), a Autoridade Autuante concluiu que a despesa com a amortização do ágio foi deduzida indevidamente para fins fiscais. Inicialmente, explicou como a operação foi engendrada pela impugnante. Nesse cenário, têmse: Em 21/11/2006 – Constituição da empresa Guina Participações Ltda com Capital Social 100,00: Fl. 2666DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.667 4 Em 18/06/2007 – Alteração da razão social de Guina Participações Ltda para Experian Brasil Aquisições Ltda e mudança no quadro societário com a cessão e transferência pela Texpar Participações Ltda da totalidade de suas cotas (99%) para a empresa Gus Europe Holdings BV e pela Pacaembu Serviços de Participações Ltda da totalidade de suas cotas (1%) para a empresa Gus Overseas Holdings BV: Entre 25/06/2007 a 17/10/2007 (Gus Overseas e Gus Europe empresas holandesas) aumentaram e integralizaram o Capital Social da Experian Brasil Aquisições Ltda de R$ 100,00 para R$ 2.406.081.147,00: Entre 28/06/2007 a 11/10/2007 Experian Brasil Aquisições Ltda adquiriu 70% de participação na Serasa, pagando um ágio de R$ 2.286.671.078,74. (Em 28/06/2007 adquiriu o controle Fl. 2667DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.668 5 acionário da Serasa com a aquisição de 65% da ações e em 31/08/2007 adquiriu mais 5% das ações da Cia): Em 13/12/2007 – Serasa incorpora a Experian Brasil Aquisições Ltda e começa a amortizar o ágio. Após analisar essas operações e as respostas aos termos de intimação fiscal, a Autoridade Autuante concluiu que a despesa com a amortização do ágio foi deduzida indevidamente, baseada nos seguintes fundamentos: 1 Falta de propósito negocial, caracterizada pela: 1.1 realização de operações estruturadas em seqüência; 1.2 incorporação abusiva/negócio indireto da controladora pela controlada; 1.3 inexistência operacional e administrativa da Experian Brasil Aquisições Ltda, que servira de veículo para a criação do ágio e posterior amortização contábil e tributária; 1.4 Curta duração da existência da Experian Brasil Aquisições Ltda; 1.5 Falta de motivação da necessidade da constituição e posterior aquisição da empresa Experian Brasil Aquisições Ltda; Fl. 2668DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.669 6 2 – Descumprimento de requisito para dedutibilidade do ágio – inocorrência da confusão patrimonial entre as reais adquirentes e a empresa adquirida; A Autoridade Autuante considerou que a intenção das operações realizadas foi o aproveitamento do ágio pela SERASA S.A. com a dedução dos encargos de amortização desse ágio, por meio de atos elaborados em curto espaço de tempo, os quais tiveram a função de distorcer o resultado final que se daria naturalmente caso as partes não engendrassem elaborado planejamento. Concluiu que a impugnante buscou uma construção artificial e que teve como intuito único e exclusivo dificultar a análise por parte da fiscalização do real motivo da reorganização societária. Ao formalizar seus registros contábeis e societários de forma a dar uma aparência sem propósito negocial, teria pretendido a impugnante induzir a fiscalização a avaliar uma operação que, nessas circunstâncias, é inoponível à Fazenda, agindo, portanto, com dolo de sonegar e fraudar. Dessa forma, qualificou a multa. Formalizou os autos de infração relativos ao IRPJ e CSLL, com a glosa da amortização do ágio e aplicou a multa isolada por falta de recolhimento da estimativa. A ciência dos mencionados documentos de lançamento ocorreu de forma pessoal, conforme fls. 1697 e 1698, no dia 12 de dezembro de 2016. Informado com o lançamento, o interessado apresentou impugnação (fls. 1706 a 1757), por meio de solicitação de juntada, no dia 10/01/2017 (fl. 1705), a qual aceita (fl. 2510). Basicamente, defende que: 1 – a validade e legitimidade de todas as operações realizadas pelo grupo Experian em relação ao processo de aquisição continuada das ações da Requerente no anocalendário de 2007 e a regularidade quanto à amortização do ágio correspondente pela Requerente no período de 2007 a 2010 foram ratificadas pelo CARF no acórdão 1201001.507, de 14/09/2016; 2 – a sociedade holding Experian Brasil não pode ser considerada empresa veículo, com único fim de gerar benefícios fiscais, pois possuía razões empresariais e econômicas legítimas para utilizar a holding Experian Brasil nas diversas aquisições de ações fracionadas da Requerente junto a terceiros não relacionados. As razões mencionadas são: 2.1 eficiência financeira e operacional nas operações de câmbio; 2.2 pagamentos em Reais nas aquisições fracionadas de ações no Brasil em detrimento de pagamentos a partir do exterior; 2.3 – maior facilidade operacional de manutenção e atualização do registro de capital estrangeiro junto ao Banco Central; Fl. 2669DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.670 7 2.4 – maior conforto nas negociações com acionistas brasileiros, especialmente os minoritários; 3 – foram cumpridos todos os requisitos legais autorizativos à amortização e dedução do ágio; 4 – a Experian Brasil foi a “real adquirente” do investimento; 5 – a fundamentação econômica do ágio foi demonstrada tempestivamente; 6 – As operações não foram estruturas em seqüência e tampouco as reorganizações societárias foram desprovidas de substância econômica. Ademais, o Fisco teria aplicado o parágrafo único do art. 116 do CTN, o qual carece de regulamentação; 7 – os ganhos de capital auferidos pelos acionistas vendedores foram tributados; 8 – não se trata de evidente intuito de fraude, sonegação ou conluio e por isso não caberia a aplicação da multa qualificada de 150%; 9 – a multa isolada de 50% não pode ser exigida concomitantemente com a multa de ofício básica ou qualificada. A síntese dos argumentos de defesa estão reproduzidos a seguir: (i) Acórdão 1201001.507. de 14.9.2016 preliminarmente, essa I. D RJ deve levar em consideração que os mesmos fatos discutidos neste caso já foram analisados pelo E. CARF no Acórdão 1201001.507, de 14.9.2016 (doc. n° 5, acima), tendo esse colegiado concluído pela validade e legitimidade de todas as operações realizadas pelo grupo Experian em relação ao processo de aquisição continuada das ações da Requerente no anocalendario de 2007, tendo sido também expressamente reconhecida a regularidade quanto à amortização do ágio correspondente pela Requerente no período de 2007 a 2010, devendo essas mesmas conclusões serem aplicadas neste processo; (ii) as premissas equivocadas da D. Fiscalização a sociedade holding Experian Brasil não poderia ser considerada como um mero veículo utilizado pelo grupo Experian de forma abusiva, com o único fim de gerar benefícios fiscais. Ao contrário do que equivocadamente supôs a D. Fiscalização, o grupo Experian tinha razões empresariais e econômicas legítimas para utilizar a holding Experian Brasil nas diversas aquisições de ações fracionadas da Requerente junto a terceiros não relacionados. Tais razões, como ficou acima demonstrado, eram empresariais e operacionais e, portanto, existiam de forma independente dos aspectos tributários discutidos nestes autos; (iii) a premissa correta / razões empresariais o propósito maior almejado pelo grupo Experian era o de alcançar eficiência financeira e operacional nas operações de câmbio que seriam necessárias para viabilizar todo o complexo processo de Fl. 2670DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.671 8 aquisições fracionadas de ações da Requerente, com pagamentos que chegaram a totalizar 57 transferências bancárias feitas pela Experian Brasil para mais de 40 acionistas vendedores, ao longo de um prazo contratual inicialmente estipulado em até seis meses; (iv) ao optar por capitalizar a holding Experian Brasil e fazer com que essa sociedade efetuasse no País as aquisições fracionadas de ações da Requerente, o grupo Experian pôde concentrar os volumes financeiros das operações de câmbio em apenas quatro aportes de capital feitos na própria holding, ao invés de ser obrigado a efetuar 57 operações e câmbio distintas, levando evidentemente a melhores possibilidades de negociação de taxas de câmbio e tarifas associadas; (v) além disso, no início de todo o processo de aquisição da Requerente, o grupo Experian não sabia ao certo quantas aquisições teria de fazer até chegar aos 70% do capital contratualmente acordado. Por isso, fazia mais sentido manter a holding Experian Brasil atuando nessas aquisições fracionadas de ações no País, com pagamentos em Reais, que efetuar todo esse processo desde o exterior; (vi) também associado a questões de câmbio estava a maior facilidade operacional de manutenção e atualização do registro de capital estrangeiro detido na Requerente junto ao Banco Central, que seria muito mais fácil e previsível de ser feita em caso de capitalizações feitas pelo próprio grupo, que em um eventual cenário de aquisições de participações fracionadas feitas diretamente por sociedades estrangeiras; (vii) por fim, pretendiase, ainda, oferecer maior conforto nas negociações com acionistas brasileiros, especialmente os minoritários, que contratariam com sociedade brasileira e receberiam pagamentos a partir de TEDs previstas no Sistema de Pagamentos Brasileiro, que são claramente mais diretas e simples que operações internacionais de câmbio. Com isso, esperavase facilitar ao máximo a operacionallzação do processo de aquisições de minoritários como um todo, permitindo o devido cumprimento dos prazos contratualmente acordados; (viii) cumprimento de todos os requisitos legais autorizativos à amortização e dedução os próprios fatos discutidos neste caso, por si só,deixam claro que o ágio ora discutido é válido e legítimo, pois decorreu: (1) de aquisição entre PARTES NÃO RELACIONADAS: (2) com EFETIVO PAGAMENTO de preço; (3) com TRIBUTAÇÃO DO GANHO DE CAPITAL pelos vendedores; (4) com ESTUDOS PRÉVIOS à aquisição, confirmados em LAUDO DE AVALIAÇÃO de empresa independente e especializada; e, sobretudo, (5) com PROPÓSITOS NEGOCIAIS NÃO TRIBUTÁRIOS; (ix) a Experian Brasil era a "real adquirente" do investimento – ao contrário do que supõe a D. Fiscalização, a Experian Brasil efetivamente figurou como a "real adquirente" das ações da Fl. 2671DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.672 9 Requerente, já que, nos termos do artigo 481 do Código Civil, ela foi a verdadeira parte compradora da participação societária junto aos acionistas vendedores, não ocorrendo qualquer interposição de pessoas. E, ainda que assim não fosse, o que se considera apenas para argumentar, a alegação do Fisco se baseia em procedimento previsto em regras contábeis publicadas anos depois de ocorridos os fatos discutidos neste caso, não sendo aplicáveis neste caso. Mas mesmo que fossem, essas regras seriam aplicáveis de forma completamente diversa do que pretende a D. Fiscalização; (x) a Experian Brasil não pode ser considerada como uma "sociedade veículo" a Experian Brasil não poderia tampouco ser considerada como uma "sociedade veículo", na medida em que apresentava razões empresariais verdadeiras, como já reconhecido expressamente pelo E. CARF em 14.9.2016 no Acórdão 1201001.507 (doc. n° 5, acima). Além disso, o mero fato de o grupo Experian ter adquirido participação na Requerente por meio de uma sociedade holding local não lhe tiraria o direito à amortização do ágio; (xi) a demonstração da fundamentação econômica do ágio de forma tempestiva a D. Fiscalização se equivoca quanto à tempestividade da demonstração da justificativa econômica do ágio, limitandose a analisar o documento produzido pela KPMG. Os estudos internos preparados pelo grupo Experian em março de 2007 (meses antes da aquisição das ações da Requerente) são documentos hábeis e idôneos a comprovar a fundamentação econômica desses valores, servindo para fins do disposto no artigo 20, § 3o, do DL 1.598/77; (xii) indevida desconsideração de operação válida e legítima / opção fiscal do grupo Experian não houve qualquer "operação estruturada em sequência", "sociedade efêmera", "incorporação às avessas" ou "reorganizações societárias desprovidas de substância econômica", sendo essas alegações uma indevida tentativa de aplicação do disposto no artigo 116, parágrafo único, do CTN pelo Fisco. Ocorre que além de carecer de regulamentação, essa regra não pode ser aplicada a este caso, pois, diante de todas as adversidades que poderiam surgir no caso de uma aquisição realizada diretamente do exterior (variações monetárias, restrições por parte dos vendedores, maior custo para internalização de recursos e registros de capital estrangeiro perante o Banco Central do Brasil, etc), a opção empresarialmente mais apropriada para o grupo Experian seria adquirir a participação societária na Requerente por meio de uma sociedade holding estabelecida no País. Trata se, aliás, de uma opção fiscal que não pode ser desconsiderada pela D. Fiscalização, como leciona MARCO AURÉLIO GRECO, autor diversas vezes referido no Termo de Verificação Fiscal; (xiii) a tributação dos ganhos de capital auferidos pelos acionistas vendedores tratandose de ágio reconhecido a partir de operações que levaram à correspondente tributação dos ganhos de capital auferidos pelos mais de 40 vendedores, tanto a Fl. 2672DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.673 10 jurisprudência quanto a doutrina reconhecem a sua validade e a possibilidade de amortização e dedução para fins fiscais, na medida em que uma das razões para o legislador permitir a dedução das despesas de amortização fiscal de ágio é a intenção de incentivar as fusões e aquisições de empresas nacionais, levando à tributação imediata do ganho de capital do vendedor e autorizando, por outro lado, a amortização fiscal do ágio do comprador de forma apenas diferida, em pelo menos cinco anos; (xiv) multa qualificada de 150% a severa e desproporcional multa de 150% aplicada pela D. Fiscalização deve ser prontamente afastada, pois, nos termos da legislação aplicável e jurisprudência já consolidada na esfera administrativa, essa penalidade somente poderia ser imposta em casos de evidente intuito de fraude, sonegação ou conluio, quando restar provada pelo Fisco a inequívoca intenção do contribuinte de enganar, esconder ou iludir. Contudo, é claro que este não é um caso de fraude, sonegação ou conluio. Além de os fatos ora discutidos já terem sido objeto de análise pelo E. CARF, validação pelo CADE e terem sido amplamente divulgados não só no Brasil, como no exterior pela Experian plc, matriz do grupo Experian que tem ações negociadas na Bolsa de Valores de Londres, a Requerente ainda registrou todas as operações em sua contabilidade e todos os atos respectivos foram devidamente apresentados às Juntas Comerciais e demais órgãos públicos cabíveis. A Requerente sempre recebeu a D. Fiscalização com total transparência e atendeu a todas as suas solicitações com clareza e prontidão; e (xv) multa isolada de 50% a multa isolada de 50% não pode ser exigida de forma concomitante com a multa de ofício ou a qualificada, tendo em vista não apenas a posição já sumulada pela E. CSRF a esse respeito (Súmula n° 105, de 8.12.2014) e a necessidade de aplicação do princípio penal da consuncão. como também esclarecem diversos precedentes do E. STJ e do próprio E.CARF. Como visto, as alegações da D. Fiscalização de que a Lei 11.488/07 teria supostamente alterado o artigo 44 da Lei 9.430/96 para autorizar a aplicação de duas penalidades distintas são manifestamente equivocadas, e já foram expressamente rechaçadas pela jurisprudência administrativa e judicial mais recente. Do pedido Requer o cancelamento dos autos de infração e protesta pela juntada posterior de documentos que possam se fazer necessários." A DRJ/Belo Horizonte proferiu, então, o Acórdão ora recorrido (fls. 2.517 a 2.545), no qual: a) rejeitou a aplicação ao presente caso de decisão administrativa relacionada com o mesmo sujeito passivo, por não ser definitiva, pela ausência de efeito vinculante e por, no seu entender, contrariar jurisprudência da Câmara Superior de Recursos Fiscais; Fl. 2673DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.674 11 b) considerou ausente condição essencial para a amortização fiscal do ágio, qual seja, que as investidoras originárias e a investidas se transformassem em uma só universalidade; c) entendeu ausente propósito negocial, posto que a única causa para a aquisição da Impugnante pela Sociedade Experian Brasil teria sido a economia tributária que, conforme jurisprudência pacífica, não poderia ser utilizada para, "por si só, construir um planejamento tributário, quando a opção utilizada não está claramente permitida ao contribuinte"; d) concluiu que "não houve propósito negocial na aquisição das ações da impugnante pela Experian Brasil Ltda, que teve sua constituição e vigência apenas para proporcionar vantagens às reais adquirentes", quais sejam viabilizar a futura amortização fiscal do ágio; e) refutou a alegação de que teria sido indevidamente aplicado o art. 116 do CTN, já que a autoridade fiscal não teria invocado tal dispositivo, mas alegado o dolo da Impugnante, "ao formalizar seus registros contábeis e societários de forma a dar uma aparência de correção à dedutibilidade das despesas de amortização do ágio e à reestruturação societária que ocorrera sem propósito negocial", o que seria compatível com a hipótese do art. 149, inciso VII, do mesmo CTN; f) entendeu que "a tributação do ganho de capital pelos vendedores não valida a amortização fiscal do ágio, que deve observar os requisitos legais para ser aceita"; g) manteve a aplicação da multa qualificada, uma vez que considerou que o conjunto probatório dos autos revela a intenção de reduzir o tributo de maneira dolosa; h) rejeitou a impossibilidade de aplicação da multa isolada pela falta de recolhimento de estimativas com a multa de ofícío sobre o tributo apurado ao final do período de apuração, por decorrerem de infrações distintas; i) sobre a mesma infração, afastou a aplicação no Direito Tributário do Princípio da Consunção (Absorção) do Direito Penal; j) por fim, refutou a aplicação ao caso da Súmula CARF nº 105, por tratar do texto legal anteriormente da alteração promovida pela Medida Provisória nº 351, de 2007; k) manteve a incidência dos juros de mora, calculados à taxa Selic, sobre a multa de ofício, por considerar existir previsão legal para tanto; l) em último lugar, rejeitou o pedido de produção de novas provas, por não estarem presentes as condições exigidas pela legislação para possibilitar a apresentação de provas após a Impugnação. Intimado da decisão de primeira instância, em 26 de abril de 2017 (fl. 2.553), o sujeito passivo apresentou, em 25 de maio de 2017, o Recurso Voluntário de fls. 2.556 a 2.613, por meio do qual repete, basicamente, o teor da Impugnação apresentada, acrescentando que: Fl. 2674DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.675 12 a) a previsão contratual de alienação apenas para sociedade constituída e existente de acordo com as leis brasileiras não evidencia qualquer ato doloso ou abusivo, mas apenas comprova se tratar da preferência empresarial dos próprios vendedores quanto à forma de estruturação do negócio, como se observa pela expressão "alienadas", e não "adquiridas"; b) a incorporação da holding Experian Brasil não foi abusiva, despropositada ou destinada exclusivamente a gerar benefícios fiscais indevidos "sem coerência com a realidade", mas que objetivava: (i) a conclusão do processo fracionado e continuado de aquisição da Recorrente; (ii) a conclusão dos objetivos sociais pelos quais a holding havia sido adquirida e permanecido em atividade por seis meses; (iii) a intenção do grupo de manutenção de estrutura societária simples, mas válida e legítima; c) não seria possível considerar uma sociedade holding brasileira como "veículo" abusivo e desprovido de substância econômica, unicamente devido à falta de empregados próprios e à suposta utilização de "mãodeobra terceirizada"; d) a lógica econômica que teria orientado o legislador a autorizar a dedutibilidade das contrapartidas de amortização de ágio em no mínimo cinco anos e a mantê la mesmo sob a égide da Lei nº 12.973, de 2014, seria o fato de os vendedores dessas participações adquiridas com ágio oferecerem, integral e imediatamente à tributação, os ganhos de capital auferidos, o que legitimaria ainda mais o ágio registrado no presente caso; e) inexistiria base para a desconsideração da forma pela qual se deu a aquisição da Recorrente pela Experian Brasil, sua incorporação pela Recorrente e os correspondentes efeitos fiscais. Tanto o parágrafo único do art. 116 do CTN quanto o art. 149, inciso VII, do mesmo Código seriam inaplicáveis ao caso, por não ter havido qualquer ação dolosa por parte da Recorrente; f) sob o ponto de vista jurídico, não há qualquer vinculação, no conceito de compra e venda, acerca da origem dos recursos ou à forma específica pela qual deva ocorrer a operação; g) sob o ponto de vista contábil, o patrimônio da entidade não se confundiria com aqueles dos seus sócios ou proprietários, no caso de sociedade ou instituição, sejam eles residentes no País ou nãoresidentes, assim, não seria adequado o raciocínio de que o fato de uma sociedade ter sido capitalizada pelos seus sócios faria com que os recursos correspondentes à capitalização continuassem a pertencer aos seus sócios, Pelo contrário, pertenceriam à própria entidade, que poderia utilizálos de forma autônoma; h) não haveria a necessidade de "confusão patrimonial" entre a Recorrente e a Gus Overseas e a Gus Europe, já que, com a incorporação da Experian Brasil pela Recorrente, todos os requisitos legalmente previstos para que o ágio registrado na aquisição pudesse ser amortizado e dedutível para fins fiscais teriam sido devidamente preenchidos; i) o fato de a decisão recorrida minimizar e desqualificar as razões de natureza financeira para a existência da Experian Brazil e condicionar a sua efetiva existência à presença de empregados próprios teria conduzido a conclusão completamente descabida; j) a mera detenção de participação societária, administração de recursos ou atuação como adquirente de participação societária não exigiria a contratação de empregados pela holding, para que restasse configurado o seu profissionalismo ou propósito existencial; Fl. 2675DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.676 13 k) não existiria qualquer artifício astucioso, indução em erro ou vontade de enganar por parte da Recorrente, de modo que não a operação não poderia ser "requalificada", uma vez que inexistira ato doloso. Todos os atos teriam sido praticados da forma como juridicamente estruturados; l) nada haveria de artificial na operação, capaz de ensejar a imposição da multa qualificada de 150%. Não teria havido "transferência" de ágio. Todo o processo de aquisição da Recorrente pela Experian Brasil teria sido feito às claras, com razões empresariais para justificar cada movimentação e cada transferência e os valores correspondentes ao custo de aquisição teria sido efetivamente pagos com recursos próprios dessa sociedade holding aos vendedores (terceiros não relacionados); m) a dúvida quanto à natureza da penalidade aplicável teria ficado mais evidente se considerada sob a perspectiva da Medida Provisória nº 765, de 29 de dezembro de 2016, face ao conflito de interesse; n) na hipótese de decisão por voto de qualidade, terseia igualmente clara a dúvida objetiva, de modo a incidir o art. 112 do CTN. É o Relatório. Voto Vencido Conselheiro Paulo Henrique Silva Figueiredo Relator 1. DA ADMISSIBILIDADE DO RECURSO O sujeito passivo foi cientificado da decisão de primeira instância, por via postal, em 26 de abril de 2017 (fls. 2.546 a 2.553), tendo apresentado Recurso Voluntário em 25 de maio de 2017, dentro, portanto, do prazo de 30 (trinta) dias previsto no art. 33 do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972. O Recurso é assinado por Procuradores, devidamente constituídos conforme fls. 2.617 a 2.623. A matéria objeto do Recurso está contida na competência da 1ª Seção de Julgamento do CARF, conforme Art. 2º, incisos I e IV, do Anexo II do Regimento Interno do CARF (RI/CARF), aprovado pela Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2015. Isto posto, o Recurso é tempestivo e preenche os requisitos de admissibilidade, portanto, dele tomo conhecimento. 2. DA AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO FUNDAMENTOS A controvérsia posta nos autos diz respeito à possibilidade de a Recorrente amortizar ágio pago na sua aquisição por meio da pessoa jurídica Experian Brasil Aquisições Ltda, posteriormente incorporada pela Recorrente, quando os recursos para a referida aquisição foram provenientes de terceiras empresas, com sede no exterior (GUS OVERSEAS e GUS EUROPE). Fl. 2676DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.677 14 Segundo a autoridade fiscal "a verdadeira operação engendrada pelo contribuinte fiscalizado foi a criação da empresa veículo EXPERIAN BRASIL AQUISIÇÕES LTDA e a sua posterior incorporação pelo próprio fiscalizado, tendo como único objetivo amortizar o ágio, que de fato foi pago pelas empresas GUS OVERSEAS e GUS EUROPE, visando única e exclusivamente a redução indevida do pagamento de tributos". Conforme Acórdãos trazidos pela Recorrente, algumas decisões do CARF tem reconhecido a legitimidade da amortização em situações semelhantes à ora sob análise (com a importante ressalva de que algumas das decisões invocadas não se amoldam ao caso sob apreciação, outras já foram revertidas no âmbito da Câmara Superior de Recursos Fiscais CSRF, em favor da Fazenda Nacional, e outras, por fim, estão pendentes de apreciação por parte da CSRF). Contudo, observase, de outra banda, decisões do CARF em sentido contrário e a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF) tem, recorrente e uniformemente, decidido pela impossibilidade da amortização em situações exatamente similares àquela de que tratam os autos, conforme Acórdãos nº 9101002.213 1ª Turma (sessão de 3 de fevereiro de 2016, Relator Conselheiro Marcos Aurélio Pereira Valadão), nº 9101002.301 1ª Turma (sessão de 6 de abril de 2016, Relator Conselheiro André Mendes de Moura), nº 9101002.470 1ª Turma (sessão de 21 de novembro de 2016, Relator Conselheiro Rafael Vidal de Araújo), nº 9101 002.803 1ª Turma (sessão de 10 de maio de 2017, Redator designado Conselheiro André Mendes de Moura), nº 9101002.960 1ª Turma (sessão de 4 de julho de 2017, Relatora Conselheira Adriana Gomes Rêgo), nº 9101002.962 1ª Turma (sessão de 4 de julho de 2017, Relatora Conselheira Adriana Gomes Rêgo), nº 9101003.006 1ª Turma (sessão de 8 de agosto de 2017, Relator Conselheiro Rafael Vidal de Araújo), nº 9101003.060 1ª Turma (sessão de 12 de setembro de 2017, Redator designado Conselheiro André Mendes de Moura), e nº 9101003.074 1ª Turma (sessão de 12 de setembro de 2017, Relator Conselheiro André Mendes de Moura), cujas ementas basicamente repetem o teor das seguintes decisões: "ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2007, 2008 PREMISSA. INSTITUTO JURÍDICOTRIBUTÁRIO. O conceito do ágio é disciplinado pelo art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 27/12/1977 e os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 10/12/1997, e tratase de instituto jurídicotributário, premissa para a sua análise sob uma perspectiva histórica e sistêmica. APROVEITAMENTO DO ÁGIO. INVESTIDORA E INVESTIDA. EVENTOS. SEPARAÇÃO. UNIÃO. São dois os eventos em que a investidora pode se aproveitar do ágio contabilizado: (1) a investidora deixa de ser a detentora do investimento, ao alienar a participação da pessoa jurídica adquirida com ágio; (2) a investidora e a investida transformam se em uma só universalidade (em eventos de cisão, transformação e fusão). DESPESAS. AMORTIZAÇÃO. ÁGIO. Fl. 2677DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.678 15 A amortização, a qual se submete o ágio para o seu aproveitamento, constituise em espécie de gênero despesa, e, naturalmente, encontrase submetida ao regramento geral das despesas disposto no art. 299 do RIR/99, submetendose aos testes de necessidade, usualidade e normalidade. DESPESAS. FATOS ESPONTÂNEOS. Não há norma de despesa que recepcione um situação criada artificialmente. As despesas devem decorrer de operações necessárias, normais, usuais da pessoa jurídica. Não há como estender os atributos de normalidade, ou usualidade, para despesas derivadas de operações atípicas, não consentâneas com uma regular operação econômica e financeira da pessoa jurídica. CONDIÇÕES PARA AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. TESTES DE VERIFICAÇÃO. A cognição para verificar se a amortização do ágio passa por verificar, primeiro, se os fatos se amoldam à hipótese de incidência dos arts. 385 e 386 do RIR/99, segundo, se requisitos de ordem formal estabelecidos encontramse atendidos, como arquivamento da demonstração de rentabilidade futura do investimento e efetivo pagamento na aquisição, e, terceiro, se as condições do negócio atenderam os padrões normais de mercado, com atuação de agentes independentes e reorganizações societárias com substância econômica. AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. HIPÓTESE DE INCIDÊNCIA. INVESTIDOR E INVESTIDA. MESMA UNIVERSALIDADE. Os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 10/12/1997 se dirigem às pessoas jurídicas (1) real sociedade investidora, aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura, decidiu pela aquisição e desembolsou originariamente os recursos, e (2) pessoa jurídica investida. Devese consumar a confusão de patrimônio entre essas duas pessoas jurídicas, ou seja, o lucro e o investimento que lhe deu causa passam a se comunicar diretamente. Compartilhando do mesmo patrimônio a controladora e a controlada ou coligada, consolidase cenário no qual os lucros auferidos pelo investimento passam a ser tributados precisamente pela pessoa jurídica que adquiriu o ativo com mais valia (ágio). Enfim, tomase o momento em que o contribuinte aproveitase da amortização do ágio, mediante ajustes na escrituração contábil e no LALUR, para se aperfeiçoar o lançamento fiscal com base no regime de tributação aplicável ao caso e estabelecer o termo inicial para contagem do prazo decadencial. CSLL. DECORRÊNCIA. Aplicase à CSLL o decidido no IRPJ, vez que compartilham o mesmo suporte fático e matéria tributável." (Acórdão nº 9101 Fl. 2678DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.679 16 003.130 1ª Turma, sessão de 3 de outubro de 2017, Redator designado Conselheiro André Mendes de Moura) "ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2007, 2008, 2009 ÁGIO ORIUNDO DE AQUISIÇÃO COM USO DE RECURSOS FINANCEIROS DE OUTREM. AMORTIZAÇÃO. INDEDUTIBILIDADE. A hipótese de incidência tributária da possibilidade de dedução das despesas de amortização do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, requer que participe da "confusão patrimonial" a pessoa jurídica investidora real, ou seja, aquela que efetivamente acreditou na "mais valia" do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição. Não é possível o aproveitamento tributário do ágio se a investidora real transferiu recursos a uma "empresaveículo" com a específica finalidade de sua aplicação na aquisição de participação societária em outra empresa e se a "confusão patrimonial" advinda do processo de incorporação não envolve a pessoa jurídica que efetivamente desembolsou os valores que propiciaram o surgimento do ágio, ainda que a operação que o originou tenha sido celebrada entre terceiros independentes e com efetivo pagamento do preço. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2007, 2008, 2009 TRIBUTAÇÃO REFLEXA Sendo a tributação decorrente dos mesmos fatos e inexistindo razões que ensejem tratamento diverso, aplicase à CSLL o quanto decidido em relação ao IRPJ." (Acórdão nº 9101003.132 1ª Turma, sessão de 3 de outubro de 2017, Redator designado Conselheiro Rafael Vidal de Araújo) A matéria, portanto, se não está pacificada (posto que a maior parte das referidas decisões foi tomada pelo chamado "voto de qualidade"), encontrase consolidada no âmbito da Câmara Superior de Recursos Fiscais. A par disso, conquanto o entendimento da CSRF não seja vinculante, a profundidade da análise reiteradamente empreendida sobre a matéria deve, ao menos, servir de abalizado subsídio para a apreciação da matéria pelos demais julgadores, de modo a construir a tão almejada segurança jurídica. Trago, portanto, a lição do eminente Conselheiro André Mendes de Moura, no Acórdão nº 9101003.130, traçando com clareza e densidade, a análise histórica e sistêmica sobre o tema, e cujas razões adoto como fundamento do meu voto: Fl. 2679DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.680 17 "1. Conceito e Contexto Histórico Podese entender o ágio como um sobrepreço pago sobre o valor de um ativo (mercadoria, investimento, dentre outros). Tratandose de investimento decorrente de uma participação societária em uma empresa, em brevíssima síntese, o ágio é formado quando uma primeira pessoa jurídica adquire de uma segunda pessoa jurídica um investimento em valor superior ao seu valor patrimonial. O investimento em questão são ações de uma terceira pessoa jurídica, que são avaliadas pelo método contábil da equivalência patrimonial. Ou seja, a empresa A detém ações da empresa B, avaliadas patrimonialmente em 60 unidades. A empresa C adquire, junto à empresa A, as ações da empresa B, por 100 unidades. A empresa C é a investidora e a empresa B é a investida. Interessante é que emergem dois critérios para a apuração do ágio. Adotandose os padrões da ciência contábil, apesar das ações estarem avaliadas patrimonialmente em 60 unidades, deveriam ainda ser objeto de majoração, ao ser considerar, primeiro, se o valor de mercado dos ativos tangíveis seria superior ao contabilizado. Assim, supondose que, apesar do patrimônio ter sido avaliado em 60 unidades, o valor de mercado seria de 70 unidades, considerase para fins de apuração 70 unidades. Segundo, caso se constate a presença de ativos intangíveis sem reconhecimento contábil no valor de 12 unidades, temse, ao final, que o ágio, denominado goodwill, seria a diferença entre o valor pago (100 unidades) e o valor de mercado mais intangíveis (60 + 10 + 12 = 82 unidades). Ou seja, o ágio passível de aproveitamento pela empresa C, decorrente da aquisição da empresa B, mediante atendimento de condições legais, seria no valor de 18 unidades. Ocorre que o legislador, ao editar o DecretoLei nº 1.598, de 27/12/1977, resolveu adotar um conceito jurídico para o ágio próprio para fins tributários. Isso porque positivou no art. 20 do mencionado decretolei que o denominado ágio poderia ter três fundamentos econômicos, baseados: (1) no sobrepreço dos ativos; e/ou (2) na expectativa de rentabilidade futura do investimento adquirido e/ou (3) no fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. E, posteriormente, os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 10/12/1997, autorizaram a amortização do ágio nos casos (1) e (2), mediante atendimento de determinadas condições. Na medida em que a lei não determinou nenhum critério para a utilização dos fundamentos econômicos, consolidouse a prática de se adotar, em praticamente todas as operações de transformação societária, o reconhecimento do ágio amparado exclusivamente no caso (2): expectativa de rentabilidade futura do investimento adquirido. O ágio passou a ser simplesmente a Fl. 2680DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.681 18 diferença entre o custo de aquisição e o valor patrimonial do investimento. Assim, voltando ao exemplo, a empresa C, investidora, ao adquirir ações da empresa investida B avaliadas patrimonialmente em 60 unidades, pelo valor de 100 unidades, poderia justificar o sobrepreço de 40 unidades integralmente com base no fundamento econômico de expectativa de rentabilidade futura do investimento adquirido. Na realidade, a legislação tributária ampliou o conceito do 'goodwill'. E como darseia o aproveitamento do ágio? Em duas situações. Na primeira, quando a empresa C realizasse o investimento, por exemplo, ao alienar a empresa B para uma outra pessoa jurídica. Assim, se vendesse a empresa B para a empresa D por 150 unidades, apuraria um ganho de 50 unidades. Isso porque, ao patrimônio líquido da empresa alienada, de 60 unidades, seria adicionado o ágio de 40 unidades. Assim, a base de cálculo para apuração do ganho de capital seria a diferença entre 150 e 100 unidades, perfazendo 50 unidades. Na segunda, no caso de a empresa C (investidora) e a empresa B (investida) promoverem uma transformação societária (incorporação, fusão ou cisão), de modo em que passem a integrar uma mesma universalidade. Por exemplo, a empresa B incorpora a empresa C, ou, a empresa C incorpora a empresa B. Nesse caso, o valor de ágio de 40 unidades poderia passar a ser amortizado, para fins fiscais, no prazo de sessenta meses, resultando em uma redução na base de cálculo do IRPJ e CSLL a pagar. Naturalmente, no Brasil, em relação ao ágio, a contabilidade empresarial pautouse pelas diretrizes da contabilidade fiscal, até a edição da Lei nº 11.638, de 2007. O novo diploma norteou se pela busca de uma adequação aos padrões internacionais para a contabilidade, adotando, principalmente, como diretrizes a busca da primazia da essência sobre a forma e a orientação por princípios sobrepondose a um conjunto de regras detalhadas baseadas em aspectos de ordem escritural. Nesse contexto, houve um realinhamento das normas contábeis no Brasil, e por consequência do conceito do 'goodwill'. Em síntese, ágio contábil passa (melhor dizendo, volta) a ser a diferença entre o valor da aquisição e o valor patrimonial justo dos ativos (patrimônio líquido ajustado pelo valor justo dos ativos e passivos). E recentemente, por meio da Lei nº 12.973, de 13/05/2014, o legislador promoveu uma aproximação do conceito jurídico tributário do ágio com o conceito contábil da Lei nº 11.638, de 2007, além de novas regras para o seu aproveitamento, que não são objeto de análise do presente voto. Fl. 2681DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.682 19 Enfim, resta evidente que o conceito do ágio tratado para o caso concreto, disciplinado pelo art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 27/12/1977 e os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 10/12/1997, alinhase a um conceito jurídico determinado pela legislação tributária. Tratase, portanto, de instituto jurídicotributário, premissa para a sua análise sob uma perspectiva histórica e sistêmica. 2. Aproveitamento do Ágio. Hipóteses Apesar de já ter sido apreciado singelamente no tópico anterior, o destino que pode ser dado ao ágio contabilizado pela empresa investidora merece uma análise mais detalhada. Há que se observar, inicialmente, como o art. 219 da Lei nº 6.404, de 1.976 trata das hipóteses de extinção da pessoa jurídica: Art. 219. Extinguese a companhia: I pelo encerramento da liquidação; II pela incorporação ou fusão, e pela cisão com versão de todo o patrimônio em outras sociedades. E, ao se tratar de ágio, vale destacar, mais uma vez, os dois sujeitos, as duas partes envolvidas na sua criação: a pessoa jurídica investidora e a pessoa jurídica investida, sendo a investidora é aquela que adquiriu a investida, com sobrepreço. Não por acaso, são dois eventos em que a investidora pode se aproveitar do ágio contabilizado: (1) a investidora deixa de ser a detentora do investimento, ao alienar a participação da pessoa jurídica adquirida com ágio; (2) a investidora e a investida transformamse em uma só universalidade (em eventos de cisão, transformação e fusão). Podese dizer que os eventos (1) e (2) guardam correlação, respectivamente, com os incisos I e II da lei que dispõe sobre as Sociedades por Ações. 3. Aproveitamento do Ágio. Separação de Investidora e Investida No primeiro evento, tratase de situação no qual a investidora aliena o investimento para uma terceira empresa. Nesse caso, o ágio passa a integrar o valor patrimonial do investimento para fins de apuração do ganho de capital e, assim, reduz a base de cálculo do IRPJ e da CSLL. A situação é tratada pelo Decreto Lei nº 1.598, de 27/12/1977, arts. 391 e 426 do RIR/99: Art. 391. As contrapartidas da amortização do ágio ou deságio de que trata o art. 385 não serão computadas na determinação do lucro real, ressalvado o disposto no art. 426 (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 25, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso III). Fl. 2682DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.683 20 Parágrafo único. Concomitantemente com a amortização, na escrituração comercial, do ágio ou deságio a que se refere este artigo, será mantido controle, no LALUR, para efeito de determinação do ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação do investimento (art. 426). (...) Art. 426. O valor contábil para efeito de determinar o ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação de investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor de patrimônio líquido (art. 384), será a soma algébrica dos seguintes valores (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 33, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso V): I valor de patrimônio líquido pelo qual o investimento estiver registrado na contabilidade do contribuinte; II ágio ou deságio na aquisição do investimento, ainda que tenha sido amortizado na escrituração comercial do contribuinte, excluídos os computados nos exercícios financeiros de 1979 e 1980, na determinação do lucro real; III provisão para perdas que tiver sido computada, como dedução, na determinação do lucro real, observado o disposto no parágrafo único do artigo anterior. (...) (grifei) Assim, o aproveitamento do ágio ocorre no momento em que o investimento que lhe deu causa foi objeto de alienação ou liquidação. 4. Aproveitamento do Ágio. Encontro entre Investidora e Investida Já o segundo evento aplicase quando a investidora e a investida transformaremse em uma só universalidade (em eventos de cisão, transformação e fusão). O ágio pode se tornar uma despesa de amortização, desde que preenchidos os requisitos da legislação e no contexto de uma transformação societária envolvendo a investidora e a investida. Contudo, sobre o assunto, há evolução legislativa que merece ser apresentada. Primeiro, o tratamento conferido à participação societária extinta em fusão, incorporação ou cisão, atendia o disposto no art. 34 do DecretoLei nº 1.598, de 1977: Art 34 Na fusão, incorporação ou cisão de sociedades com extinção de ações ou quotas de capital de uma possuída por outra, a diferença entre o valor contábil das ações ou quotas extintas e o valor de acervo líquido que as substituir será computado na determinação do lucro real de acordo com as seguintes normas: (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) Fl. 2683DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.684 21 I somente será dedutível como perda de capital a diferença entre o valor contábil e o valor de acervo líquido avaliado a preços de mercado, e o contribuinte poderá, para efeito de determinar o lucro real, optar pelo tratamento da diferença como ativo diferido, amortizável no prazo máximo de 10 anos; (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) II será computado como ganho de capital o valor pelo qual tiver sido recebido o acervo líquido que exceder o valor contábil das ações ou quotas extintas, mas o contribuinte poderá, observado o disposto nos §§ 1º e 2º, diferir a tributação sobre a parte do ganho de capital em bens do ativo permanente, até que esse seja realizado. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) § 1º O contribuinte somente poderá diferir a tributação da parte do ganho de capital correspondente a bens do ativo permanente se: (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) a) discriminar os bens do acervo líquido recebido a que corresponder o ganho de capital diferido, de modo a permitir a determinação do valor realizado em cada períodobase; e (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) b) mantiver, no livro de que trata o item I do artigo 8º, conta de controle do ganho de capital ainda não tributado, cujo saldo ficará sujeito a correção monetária anual, por ocasião do balanço, aos mesmos coeficientes aplicados na correção do ativo permanente. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) § 2º O contribuinte deve computar no lucro real de cada períodobase a parte do ganho de capital realizada mediante alienação ou liquidação, ou através de quotas de depreciação, amortização ou exaustão deduzidas como custo ou despesa operacional. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) O que se pode observar é que o único requisito a ser cumprido, como perda de capital, é que o acervo líquido vertido em razão da incorporação, fusão ou cisão estivesse avaliado a preços de mercado. Contudo, para que se consumasse a perda de capital prevista no inciso I, o valor contábil deveria ser maior do que o acervo líquido avaliado a preços de mercado, e tal situação se mostraria viável, especialmente, quando, imediatamente após à aquisição do investimento com ágio, ocorresse a operação de incorporação, fusão ou cisão. Ocorre que tal previsão se consumou em operações um tanto quanto questionáveis por vários contribuintes, mediante aquisição de empresas deficitárias pagandose ágio, para, em Fl. 2684DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.685 22 logo em seguida, promover a incorporação da investidora pela investida. As operações ocorriam quase simultaneamente. E, nesse contexto, o aproveitamento do ágio, nas situações de transformação societária, sofreu alteração legislativa. Vale transcrever a Exposição de Motivos da MP nº 1.602, de 1997, que, posteriormente, foi convertida na Lei nº 9.532, de 1997. 11. O art. 8º estabelece o tratamento tributário do ágio ou deságio decorrente da aquisição, por uma pessoa jurídica, de participação societária no capital de outra, avaliada pelo método da equivalência patrimonial. Atualmente, pela inexistência de regulamentação legal relativa a esse assunto, diversas empresas, utilizando dos já referidos "planejamentos tributários", vem utilizando o expediente de adquirir empresas deficitárias, pagando ágio pela participação, com a finalidade única de gerar ganhos de natureza tributária, mediante o expediente, nada ortodoxo, de incorporação da empresa lucrativa pela deficitária. Com as normas previstas no Projeto, esses procedimentos não deixarão de acontecer, mas, com certeza, ficarão restritos às hipóteses de casos reais, tendo em vista o desaparecimento de toda vantagem de natureza fiscal que possa incentivar a sua adoção exclusivamente por esse motivo. Não vacilou a doutrina abalizada de LUÍS EDUARDO SCHOUERI ao discorrer, com precisão sobre o assunto: Anteriormente à edição da Lei nº 9.532/1997, não havia na legislação tributária nacional regulamentação relativa ao tratamento que deveria ser conferido ao ágio em hipóteses de incorporação envolvendo a pessoa jurídica que o pagou e a pessoa jurídica que motivou a despesa com ágio. O que ocorria, na prática, era a consideração de que a incorporação era, per se, evento suficiente para a realização do ágio, independentemente de sua fundamentação econômica. (...) Sendo assim, a partir de 1998, ano em que entrou em vigor a Lei nº 9.532/1997, adveio um cenário diferente em matéria de dedução fiscal do ágio. Desde então, restringiramse as hipóteses em que o ágio seria passível de ser deduzido no caso de incorporação entre pessoas jurídicas, com a imposição de limites máximos de dedução em determinadas situações. Ou seja, nem sempre o ágio contabilizado pela pessoa jurídica poderia ser deduzido de seu lucro real quando da ocorrência do evento de incorporação. Pelo contrário. Com Fl. 2685DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.686 23 a regulamentação ora em vigor, poucas são as hipóteses em que o ágio registrado poderá ser deduzido, a depender da fundamentação econômica que lhe seja conferida. Merece transcrição o Relatório da Comissão Mista que trabalhou na edição da MP 1.602, de 1997: O artigo 8º altera as regras para determinação do ganho ou perda de capital na liquidação de investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor do patrimônio líquido, quando agregado de ágio ou deságio. De acordo com as novas regras, os ágios existentes não mais serão computados como custo (amortizados pelo total), no ato de liquidação do investimento, como eram de acordo com as normas ora modificadas. O ágio ou deságio referente à diferença entre o valor de mercado dos bens absorvidos e o respectivo valor contábil, na empresa incorporada (inclusive a fusionada ou cindida), será registrado na própria conta de registro dos respectivos bens, a empresa incorporador (inclusive a resultante da fusão ou a que absorva o patrimônio da cindida), produzindo as repercussões próprias na depreciação normal. O ágio ou deságio decorrente de expectativa de resultado futuro poderá ser amortizado durante os cinco anoscalendário subsequentes à incorporação, à razão de 1/60 (um sessenta avos) para cada mês do período de apuração. (...) Percebese que, em razão de um completo desvirtuamento do instituto, o legislador foi chamado a intervir, para normatizar, nos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, sobre situações específicas tratando de eventos de transformação societária envolvendo investidor e investida. Inclusive, no decorrer dos debates tratando do assunto, chegou se a cogitar que o aproveitamento do ágio não seria uma despesa, mas um benefício fiscal. Em breves palavras, caso fosse benefício fiscal, o próprio legislador deveria ter tratado do assunto, como o fez na Exposição de Motivos de outros dispositivos da MP nº 1.602, de 1997 (convertida na Lei nº 9.532, de 1997). Na realidade, a Exposição de Motivos deixa claro que a motivação para o dispositivo foi um maior controle sobre os planejamentos tributários abusivos, que descaracterizavam o ágio por meio de analogias completamente desprovidas de sustentação jurídica. E deixou claro que se trata de uma despesa de amortização. E qual foram as novidades trazidas pelos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997? Primeiro, há que se contextualizar a disciplina do método de equivalência patrimonial (MEP). Fl. 2686DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.687 24 Isso porque o ágio aplicase apenas em investimentos sociedades coligadas e controladas avaliado pelo MEP, conforme previsto no art. 384 do RIR/99. O método tem como principal característica permitir uma atualização dos valores dos investimentos em coligadas ou controladas com base na variação do patrimônio líquido das investidas. As variações no patrimônio líquido da pessoa jurídica investida passam a ser refletidas na investidora pelo MEP. Contudo, os aumentos no valor do patrimônio líquido da sociedade investida não são computados na determinação do lucro real da investidora. Vale transcrever os dispositivos dos arts. 387, 388 e 389 do RIR/99 que discorrem sobre o procedimento de contabilização a ser adotado pela investidora. Art. 387. Em cada balanço, o contribuinte deverá avaliar o investimento pelo valor de patrimônio líquido da coligada ou controlada, de acordo com o disposto no art. 248 da Lei nº 6.404, de 1976, e as seguintes normas (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 21, e DecretoLei nº 1.648, de 1978, art. 1º, inciso III): (...) Art. 388. O valor do investimento na data do balanço (art. 387, I), deverá ser ajustado ao valor de patrimônio líquido determinado de acordo com o disposto no artigo anterior, mediante lançamento da diferença a débito ou a crédito da conta de investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 22). (...) Art. 389. A contrapartida do ajuste de que trata o art. 388, por aumento ou redução no valor de patrimônio líquido do investimento, não será computada na determinação do lucro real (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 23, e DecretoLei nº 1.648, de 1978, art. 1º, inciso IV). (...) Resta nítida a separação dos patrimônios entre investidora e investida, inclusive as repercussões sobre os resultados de cada um. A investida, pessoa jurídica independente, em razão de sua atividade econômica, apura rendimentos que, naturalmente, são por ela tributados. Por sua vez, na medida em que a investida aumenta seu patrimônio líquido em razão de resultados positivos, por meio do MEP há uma repercussão na contabilidade da investidora, para refletir o acréscimo patrimonial realizado. A conta de ativos em investimentos é debitada na investidora, e, por sua vez, a contrapartida, apesar de creditada como receita, é excluída na apuração do Lucro Real. Com certeza, não faria sentido tributar os lucros na investida, e em seguida tributar o aumento do patrimônio líquido na investidora, que ocorreu precisamente por conta dos lucros auferidos pela investida. Fl. 2687DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.688 25 E esclarece o art. 385 do RIR/99 que se a pessoa jurídica adquirir um investimento avaliado pelo MEP por valor superior ou inferior ao contabilizado no patrimônio líquido, deverá desdobrar o custo da aquisição em (1) valor do patrimônio líquido na época da aquisição e (2) ágio ou deságio. Para a devida transparência na mais valia (ou menor valia) do investimento, o registro contábil deve ocorrer em contas diferentes: Art. 385. O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20): I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo seguinte; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o inciso anterior. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 1º). § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico (Decreto Lei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 2º): I valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; II valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; III fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam os incisos I e II do parágrafo anterior deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 3º). (grifei) Como se pode observar, a formação do ágio não ocorre espontaneamente. Pelo contrário, deve ser motivado, e indicado o seu fundamento econômico, que deve se amparar em pelo menos um dos três critérios estabelecidos no § 2º do art. 385 do RIR/99, (1) valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade, (2) valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios Fl. 2688DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.689 26 futuros (3) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. E, conforme já dito, por ser a motivação adotada pela quase totalidade das empresas, todos os holofotes dirigemse ao fundamento econômico com base em expectativa de rentabilidade futura da empresa adquirida. Tratase precisamente de lucros esperados a serem auferidos pela controlada ou coligada, em um futuro determinado. Por isso o adquirente (futuro controlador) se propõe a desembolsar pelo investimento um valor superior ao daquele contabilizado no patrimônio líquido da vendedora. Por sua vez, tal expectativa deve ser lastreada em demonstração devidamente arquivada como comprovante de escrituração, conforme previsto no § 3º do art. 385 do RIR/99. E, finalmente, passamos a apreciar os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, consolidados no art. 386 do RIR/99. Como já dito, em eventos de transformação societária, quando investidora absorve o patrimônio da investida (ou vice versa), adquirido com ágio ou deságio, em razão de cisão, fusão ou incorporação, resolveu o legislador disciplinar a situação: Art. 386. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no artigo anterior (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, e Lei nº 9.718, de 1998, art. 10): I deverá registrar o valor do ágio ou deságio cujo fundamento seja o de que trata o inciso I do § 2º do artigo anterior, em contrapartida à conta que registre o bem ou direito que lhe deu causa; II deverá registrar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso III do § 2º do artigo anterior, em contrapartida a conta de ativo permanente, não sujeita a amortização; III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do § 2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; IV deverá amortizar o valor do deságio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do § 2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração do lucro real, levantados durante os cinco anoscalendário subseqüentes à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no mínimo, para cada mês do período de apuração.(...) (grifei) Fl. 2689DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.690 27 Fica evidente que os arts. 385 e 386 do RIR/99 guardam conexão indissociável, constituindose em norma tributária permissiva do aproveitamento do ágio nos casos de incorporação, fusão ou cisão envolvendo o investimento objeto da mais valia. 5. Amortização. Despesa. Definido que o aproveitamento do ágio pode darse por meio de despesa de amortização, mostrase pertinente apreciar do que trata tal dispêndio. No RIR/99 (DecretoLei nº 3.000, de 26/03/1999), o conceito de amortização encontrase no Subtítulo II (Lucro Real), Capítulo V (Lucro Operacional), Seção III (Custos, Despesas Operacionais e Encargos). O artigo 299 do diploma em análise trata, no art. 299, na Subseção I, das Disposições Gerais sobre as despesas: Art. 299. São operacionais as despesas não computadas nos custos, necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47). § 1º São necessárias as despesas pagas ou incorridas para a realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, § 1º). § 2º As despesas operacionais admitidas são as usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, § 2º). § 3º O disposto neste artigo aplicase também às gratificações pagas aos empregados, seja qual for a designação que tiverem. Para serem dedutíveis, devem as despesas serem necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora, e serem usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa. Por sua vez, logo após as Subseções II (Depreciação de Bens do Ativo Imobilizado) e III (Depreciação Acelerada Incentivada), encontra previsão legal a amortização, no art. 324, na Subseção IV do RIR/99. Percebese que a amortização constituise em espécie de gênero despesa, e, naturalmente, encontrase submetida ao regramento geral das despesas disposto no art. 299 do RIR/99. 6. Despesa Em Face de Fatos Construídos Artificialmente No mundo real os fatos nascem e morrem, decorrentes de eventos naturais ou da vontade humana. O direito elege, para si, fatos com relevância para regular o convívio social. Fl. 2690DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.691 28 No que concerne ao direito tributário, são escolhidos fatos decorrentes da atividade econômica, financeira, operacional, que nascem espontaneamente, precisamente em razão de atividades normais, que são eleitos porque guardam repercussão com a renda ou o patrimônio. São condutas relevantes de pessoas físicas ou jurídicas, de ordem econômica ou social, ocorridas no mundo dos fatos, que são colhidas pelo legislador que lhes confere uma qualificação jurídica. Por exemplo, o fato de auferir lucro, mediante operações espontâneas, das atividades operacionais da pessoa jurídica, amoldase à hipótese de incidência prevista pela norma, razão pela qual nasce a obrigação do contribuinte recolher os tributos. Da mesma maneira, a pessoa jurídica, no contexto de suas atividades operacionais, incorre em dispêndios para a realização de suas tarefas. Contratase um prestador de serviços, comprase uma mercadoria, operações necessárias à consecução das atividades da empresa, que surgem naturalmente. Ocorre que, em relação aos casos tratados relativos á amortização do ágio, proliferaramse situações no qual se busca, especificamente, o enquadramento da norma permissiva de despesa. Tratamse de operações especialmente construídas, mediante inclusive utilização de empresas de papel, de curtíssima duração, sem funcionários ou quadro funcional incompatível, com capital social mínimo, além de outras características completamente atípicas no contexto empresarial, envolvendo aportes de substanciais recursos para, em questão de dias ou meses, serem objeto de operações de transformação societária. Tais eventos podem receber qualificação jurídica e surtir efeitos nos ramos empresarial, cível, contábil, dentre outros. Situação completamente diferente ocorre no ramo tributário. Não há norma de despesa que recepcione um situação criada artificialmente. As despesas devem decorrer de operações necessárias, normais, usuais da pessoa jurídica. Impossível estender atributos de normalidade, ou usualidade, para despesas, independente sua espécie, derivadas de operações atípicas, não consentâneas com uma regular operação econômica e financeira da pessoa jurídica. Admitindose uma construção artificial do suporte fático, consumarseia um tratamento desigual, desarrazoado e desproporcional, que afronta o princípio da capacidade contributiva e da isonomia, vez que seria conferida a uma determinada categoria de despesa uma premissa completamente diferente, uma liberalidade não aplicável à grande maioria dos contribuintes. 7. Hipótese de Incidência Prevista Para a Amortização Fl. 2691DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.692 29 Realizada análise do ágio sob perspectiva do gênero despesa, cabe prosseguir com a apreciação da legislação específica que trata de sua amortização. Vale recapitular os dois eventos em que a investidora pode se aproveitar do ágio contabilizado: (1) a investidora deixa de ser a detentora do investimento, ao alienar a participação da pessoa jurídica adquirida (investida) com ágio; (2) a investidora e a investida transformamse em uma só universalidade (em eventos de cisão, transformação e fusão). E repetir que estamos, agora, tratando da segunda situação. Cenário que se encontra disposto nos arts. 7º e 8º da Lei n° 9.532, de 1997, e nos arts. 385 e 386 do RIR/99, do qual transcrevo apenas os fragmentos de maior interesse para o debate: Art. 385. O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20): I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo seguinte; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o inciso anterior. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 1º). § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico (Decreto Lei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 2º): I valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; II valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; III fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam os incisos I e II do parágrafo anterior deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 3º). Art. 386. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou Fl. 2692DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.693 30 deságio, apurado segundo o disposto no artigo anterior (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, e Lei nº 9.718, de 1998, art. 10): (...) III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do § 2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; (...) (grifei) Percebese claramente, no caso, que o suporte fático delineado pela norma predica, de fato, que investidora e investida tenham que integrar uma mesma universalidade: A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio. A conclusão é ratificada analisandose a norma em debate sob a perspectiva da hipótese de incidência tributária delineada pela melhor doutrina de GERALDO ATALIBA. Esclarece o doutrinador que a hipótese de incidência 'se apresenta sob variados aspectos, cuja reunião lhe dá entidade'. Ao se apreciar o aspecto pessoal, merecem relevo as palavras da doutrina, ao determinar que se trata da 'qualidade que determina os sujeitos da obrigação tributária'. E a norma em análise se dirige à pessoa jurídica investidora originária, aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, coordenou e comandou os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição, e à pessoa jurídica investida. Ocorre que, em se tratando do ágio, as reorganizações societárias empreendidas apresentaram novas pessoas ao processo. Como exemplo, podemos citar situação no qual a pessoa jurídica A adquire com ágio participação societária da pessoa jurídica B. Em seguida, utilizase de uma outra pessoa jurídica, C, e integraliza o capital social dessa pessoa jurídica C com a participação societária que adquiriu da pessoa jurídica B. Resta consolidada situação no qual a pessoa jurídica A controla a pessoa jurídica C, e a pessoa jurídica C controla a pessoa jurídica B. Em seguida, sucedese evento de transformação societária, no qual a pessoa jurídica B absorve patrimônio da pessoa jurídica C, ou vice versa. Ocorre que os sujeitos eleitos pela norma são precisamente a pessoa jurídica A (investidora) e a pessoa jurídica B (investida) cuja participação societária foi adquirida com ágio. Para fins fiscais, não há nenhuma previsão para que o ágio contabilizado na pessoa jurídica A (investidora), em razão de reorganizações Fl. 2693DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.694 31 societárias empreendidas por grupo empresarial, possa ser considerado "transferido" para a pessoa jurídica C, e a pessoa jurídica C, ao absorver ou ser absorvida pela pessoa jurídica B, possa aproveitar o ágio cuja origem deuse pela aquisição da pessoa jurídica A da pessoa jurídica B. Da mesma maneira, encontramse situações no qual a pessoa jurídica A realiza aportes financeiros na pessoa jurídica C e, de plano, a pessoa jurídica C adquire participação societária da pessoa jurídica B com ágio. Em seguida, a pessoa jurídica C absorve patrimônio da pessoa jurídica B, ou vice versa, a passa a fazer a amortização do ágio. Mais uma vez, não é o que prevê o aspecto pessoal da hipótese de incidência da norma em questão. A pessoa jurídica que adquiriu o investimento, que acreditou na mais valia e que desembolsou os recursos para a aquisição foi, de fato, a pessoa jurídica A (investidora). No outro pólo da relação, a pessoa jurídica adquirida com ágio foi a pessoa jurídica B. Ou seja, o aspecto pessoal da hipótese de incidência, no caso, autoriza o aproveitamento do ágio a partir do momento em que a pessoa jurídica A (investidora) e a pessoa jurídica B (investida) passem a integrar a mesma universalidade. São as situações mais elementares. Contudo, há reorganizações envolvendo inúmeras empresas (pessoa jurídica D, E, F, G, H e assim por diante). Vale registrar que goza a pessoa jurídica de liberdade negocial, podendo dispor de suas operações buscando otimizar seu funcionamento, com desdobramentos econômicos, sociais e tributários. Contudo, não necessariamente todos os fatos são recepcionados pela norma tributária. A partir do momento em que, em razão das reorganizações societárias, passam a ser utilizadas novas pessoas jurídicas (C, D, E, F, G, e assim sucessivamente), pessoas jurídicas distintas da investidora originária (pessoa jurídica A) e da investida (pessoa jurídica B), e o evento de absorção não envolve mais a pessoa jurídica A e a pessoa jurídica B, mas sim pessoa jurídica distinta (como, por exemplo, pessoa jurídica F e pessoa jurídica B), a subsunção ao art. 386 do RIR/99 tornase impossível, vez que o fato imponível (suporte fático, situado no plano concreto) deixa de ser amoldar à hipótese de incidência da norma (plano abstrato), por incompatibilidade do aspecto pessoal. Em relação ao aspecto material, há que se consumar a confusão de patrimônio entre investidora e investida, a que faz alusão o caput do art. 386 do RIR (A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio...). Com a confusão patrimonial, aperfeiçoase o encontro de contas entre o real investidor e investida, e a Fl. 2694DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.695 32 amortização do ágio passa a ser autorizada, com repercussão direta na base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Na realidade, o requisito expresso de que investidor e investida passam a compor o mesmo patrimônio, mediante evento de transformação societária, no qual a investidora absorve a investida, ou vice versa, encontra fundamento no fato de que, com a confusão de patrimônios, o lucro auferido pela investida passa a integrar a mesma universalidade da investidora. SCHOUERI, com muita clareza, discorre que, antes da absorção, investidor e investida são entidades autônomas. O lucro auferido pela investida (que foi a motivação para que a investidora adquirisse a investida com o sobrepreço), é tributado pela própria investida. E, por meio do MEP, eventual acréscimo no patrimônio líquido da investida seria refletido na investidora, sem, contudo, haver tributação na investidora. A lógica do sistema mostrase clara, na medida em que não caberia uma dupla tributação dos lucros auferidos pela investida. Por sua vez, a partir do momento em que se consuma a confusão patrimonial, os lucros auferidos pela então investida passam a integrar a mesma universalidade da investidora. Reside, precisamente nesse ponto, o permissivo para que o ágio, pago pela investidora exatamente em razão dos lucros a serem auferidos pela investida, possa ser aproveitado, vez que passam a se comunicar, diretamente, a despesa de amortização do ágio e as receitas auferidas pela investida. Ou seja, compartilhando o mesmo patrimônio investidora e investida, consolidase cenário no qual a mesma pessoa jurídica que adquiriu o investimento com mais valia (ágio) baseado na expectativa de rentabilidade futura, passa a ser tributada pelos lucros percebidos nesse investimento. Verificase, mais uma vez, que a norma em debate, ao predicar, expressamente, que para se consumar o aproveitamento da despesa de amortização do ágio, os sujeitos da relação jurídica seriam a pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, 'em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio', ou seja, investidor e investida, não o fez por acaso. Tratase precisamente do encontro de contas da investidora originária, que incorreu na despesa e adquiriu o investimento, e a investida, potencial geradora dos lucros que motivou o esforço incorrido. Prosseguindo a análise da hipótese de incidência da norma em questão, no que concerne ao aspecto temporal, cabe verificar o momento em que o contribuinte aproveitase da amortização do ágio, mediante ajustes na escrituração contábil e no LALUR, evento que provoca impacto direto na apuração da base de cálculo tributável. Registrese que a consumação do aspecto temporal não se confunde com o termo inicial do prazo decadencial. Fl. 2695DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.696 33 Isso porque, partindose da construção da norma conforme operação no qual "Se A é, B deveser", onde a primeira parte é o antecedente, e a segunda é o consequente, a consumação da hipótese de incidência localizase no antecedente. Ou seja, "Se A é", indica que a hipótese de incidência, no caso concreto, mediante aperfeiçoamento dos aspectos pessoal, material e temporal, concretizouse em sua plenitude. Assim, passase para a etapa seguinte, o consequente ("B deveser"), no qual se aplica o regime de tributação a que encontra submetido o contribuinte (lucro real trimestral ou anual), efetuase o lançamento fiscal com base na repercussão que as glosas despesas de ágio indevidamente amortizadas tiveram na apuração da base de cálculo, e, por consequência, determinase o termo inicial para contagem do prazo decadencial. 8. Consolidação Considerandose tudo o que já foi escrito, entendo que a cognição para a amortização do ágio passa por verificar, primeiro, se os fatos se amoldam à hipótese de incidência, segundo, se requisitos de ordem formal estabelecidos pela norma encontramse atendidos e, terceiro, se as condições do negócio atenderam os padrões normais de mercado. A primeira verificação parece óbvia, mas, diante de todo o exposto até o momento, observase que a discussão mais relevante inserese precisamente neste momento, situado antes da subsunção do fato à norma. Falase insistentemente se haveria impedimento para se admitir a construção de fatos que buscam se amoldar à hipótese de incidência de norma de despesa. O ponto é que, independente da genialidade da construção empreendida, da reorganização societária arquitetada e consumada, a investidora originária prevista pela norma não perderá a condição de investidora originária. Quem viabilizou a aquisição? De onde vieram os recursos de fato? Quem efetuou os estudos de viabilidade econômica da investida? Quem tomou a decisão de adquirir um investimento com sobrepreço? Respondo: a investidora originária. Ainda que a pessoa jurídica A, investidora originária, para viabilizar a aquisição da pessoa jurídica B, investida, tenha (1) "transferido" o ágio para a pessoa jurídica C, ou (2) efetuado aportes financeiros (dinheiro, mútuo) para a pessoa jurídica C, a pessoa jurídica A não perderá a condição de investidora originária. Podese dizer que, de acordo com as regras contábeis, em decorrência de reorganizações societárias empreendidas, o ágio legitimamente passou a integrar o patrimônio da pessoa jurídica C, que por sua vez foi incorporada pela pessoa jurídica B (investida). Ocorre que a absorção patrimonial envolvendo a pessoa jurídica C e a pessoa jurídica B não tem qualificação jurídica para fins tributários. Fl. 2696DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.697 34 Isso porque se trata de operação que não se enquadra na hipótese de incidência da norma, que elege, quanto ao aspecto pessoal, a pessoa jurídica A (investidora originária) e a pessoa jurídica B (investida), e quanto ao aspecto material, o encontro de contas entre a despesa incorrida pela pessoa jurídica A (investidora originária que efetivamente incorreu no esforço para adquirir o investimento com sobrepreço) e as receitas auferidas pela pessoa jurídica B (investida). Mostrase insustentável, portanto, ignorar todo um contexto histórico e sistêmico da norma permissiva de aproveitamento do ágio, despesa operacional, para que se autorize "pinçar" os artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, promover uma interpretação isolada, blindada em uma bolha contábil, e se construir uma tese no qual se permita que fatos construídos artificialmente possam alterar a hipótese de incidência de norma tributária. Caso superada a primeira verificação, cabe prosseguir com a segunda verificação, relativa a aspectos de ordem formal, qual seja, se a demonstração que o contribuinte arquivar como comprovante de escrituração prevista no art. 20, § 3º do DecretoLei nº 1.598, de 27/12/1977 (1) existe e (2) se mostra apta a justificar o fundamento econômico do ágio. Há que se verificar também (3) se ocorreu, efetivamente, o pagamento pelo investimento. Enfim, referese a terceira verificação a constatar se toda a operação ocorreu dentro de padrões normais de mercado, com atuação de agentes independentes, distante de situações que possam indicar ocorrência de negociações eivadas de ilicitude, que poderiam guardar repercussão, inclusive, na esfera penal, como nos crimes contra a ordem tributária previstos nos arts. 1º e 2º da Lei nº 8.137, de 1990." 3. DA AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO CASO CONCRETO Como reconhecido em diversos momentos nos autos, a criação e capitalização da Experian Brasil Aquisições Ltda teve por objetivo a aquisição da participação societária na Recorrente. Fica evidente, desde logo, portanto, que a decisão de adquirir a referida participação societária e a expectativa sobre a rentabilidade futura da Recorrente jamais foram da Experian Brasil Aquisições Ltda, mas daqueles que realizaram a sua criação e capitalização. Como se lê no Recurso Voluntário, a aquisição da Recorrente foi decisão do grupo EXPERIAN, que, então, operava no Brasil por meio das pessoas jurídicas Experian Brasil Ltda e Experian Marketing Services Ltda. É o que se lê, textualmente, também no documento de fls. 697 a 710: Fl. 2697DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.698 35 (...) Conforme se constata das 2ª a 5ª alterações contratuais da Experian Brasil Aquisições Ltda (fls. 76 a 124), os recursos para a capitalização da Experian Brasil Aquisições Ltda tiveram como origem as sociedades GUS EUROPE HOLDINGS BV e GUS OVERSEAS HOLDINGS BV (após uma aquisição simbólica por R$ 100,00), integrantes do grupo EXPERIAN, conforme fls. 170 e 171. A Experian Finance, PLC (Controladora do Grupo EXPERIAN) figura como Garantidora no Contrato firmado para a compra e venda da Recorrente (fls. 717 a 766), sendo que a demonstração da capacidade financeira para a operação é baseada em suas demonstrações financeiras, conforme cláusula 7.1(d). A Experian Finance, PLC figura, ainda, na Cláusula 11.5(a) como "principal pagadora das obrigações de pagamento da Compradora". Fica evidente, portanto, que tanto do lado dos alienantes, quanto do lado dos adquirentes, não havia dúvidas de que a aquisição estava sendo realizada pelo Grupo EXPERIAN, com o sacrifício financeiro suportado por empresas integrantes deste grupo (na prática, GUS EUROPE HOLDINGS BV e GUS OVERSEAS HOLDINGS BV). Neste contexto, a Experian Brasil Aquisições Ltda era mero instrumento de realização da transação. Jamais a Experian Brasil Aquisições Ltda foi a investidora, aquela que "efetivamente acreditou na mais valia do investimento, coordenou e comandou os estudos de rentabilidade futura do investimento a ser adquirido e desembolsou os recursos para a aquisição". As pessoa jurídicas investidoras, como bem apontado pela autoridade fiscal, são a GUS EUROPE HOLDINGS BV e GUS OVERSEAS HOLDINGS BV: "As empresas situadas no exterior GUS OVERSEAS e GUS EUROPE foram as reais adquirentes da SERASA S.A.. A empresa veículo EXPERIAN BRASIL somente foi utilizada como veículo para receber o capital necessário à aquisição da SERASA com ágio e em seguida ser incorporada por esta a fim de dar início à amortização fiscal do ágio e, por conseguinte, reduzir o lucro tributável. No entanto, verificase que ao final das “reestruturações societárias” ora sob análise, as empresas Fl. 2698DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.699 36 no exterior GUS OVERSEAS e GUS EUROPE, reais adquirentes da SERASA, continuam detentoras de participação societária desta, não tendo ocorrido a confusão patrimonial com a adquirida SERASA. Esta, no entanto, em decorrência do planejamento tributário realizado, passou a amortizar fiscalmente o ágio pago em sua própria aquisição." Assim, o fato de a Recorrente incorporar a Experian Brasil Aquisições Ltda jamais se amolda à previsão legal para a amortização do ágio pago na sua aquisição, posto que ausente em tal operação as investidoras, que são as destinatárias da norma legal. Interpretandose o conteúdo do art. 386 do RIR/1999 sob a perspectiva da hipótese de incidência tributária, verificase que não restaram observados, no caso concreto, os aspectos pessoal e material necessários à subsunção da situação fática à previsão normativa. A amortização operada pela Recorrente não teve amparo dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 ou dos arts. 385 e 386 do RIR/1999. Conforme se viu, a possibilidade de aproveitamento fiscal do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, só tem sentido em situações em que a investidora de fato, responsável por arcar com o dispêndio que faz nascer o ágio, incorpora a pessoa jurídica em que possua participação societária (investimento) ou seja por ela incorporada. A operação, portanto, não passa sequer na primeira verificação necessária para referendar a amortização do ágio, de modo que, tal fato, por si só, respalda a manutenção da exigência fiscal. Caso analisemos a amortização do ágio sob a ótica de despesa e, tendo em vista o que discorremos nos itens 5 e 6 do Tópico anterior, podemos concluir que, in casu, houve a odiosa construção artificial do suporte fático de modo a conferir a aparência de uma operação abrangida pelo dispositivo legal que permite a amortização do ágio pago. Tal fato já se evidencia pela efemeridade e artificialidade da empresa Experian Brasil Aquisições Ltda. Criada como "empresa de gaveta", em 2006, foi adquirida pela EXPERIAN em junho de 2007, pelo valor de R$100,00. Recebeu aportes para aumentar seu capital social em julho de 2007 (R$ 2.251.021.660,00), agosto de 2007 (R$ 73.811.248,00) e setembro/outubro de 2007 (R$ 81.248.299,00), ao mesmo tempo em que adquiriu o controle acionário da Recorrente. Finalmente, foi incorporada pela Recorrente em dezembro de 2007. Fica patente a utilização de empresa sem nenhuma substância, com o propósito deliberado de fabricar uma despesa com repercussão na base tributável. O Termo de Verificação Fiscal de fls. 1.617 a 1.677 dedicou todo o tópico 4.1 para analisar o que chamou de "falta de propósito negocial" da operação, sendo destacado ali: "4.1.1 Operações estruturadas em sequência (...) O caso em foco é composto de operações estruturadas em sequência, vale dizer, de uma sequência de etapas em que cada uma corresponde a um tipo de ato ou deliberação societária ou Fl. 2699DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.700 37 negocial encadeado com o intuito de obter determinado efeito Fiscal mais vantajoso. Neste caso, cada etapa só tem sentido se existir a que lhe antecede e se for deflagrada a que lhe sucede. Uma operação estruturada como a que ora está sendo examinada indica a existência de um objetivo único, predeterminado à realização de todo o conjunto, indicando, também, uma causa jurídica única. Nesta hipótese, cumpre examinar se há motivos autônomos ou não, pois, se estes inexistirem, o fato a ser enquadrado é o conjunto e não cada uma das etapas. No caso examinado, nenhum motivo autônomo se apresenta nos autos que venha a justificar a realização de cada uma das etapas da operação. Isto é, não existia uma finalidade diferente para cada etapa das operações que as justificasse. A finalidade era uma única e somente seria obtida ao término de todas as etapas, ou seja, a redução indevida do pagamento de tributos em função da amortização de um ágio artificialmente introduzido na SERASA S.A. (...) 4.1.2 Incorporação às avessas a empresa veículo EXPERIAN BRASIL AQUISIÇÕES LTDA adquire, com ágio, 70% das ações da SERASA S.A. e logo em seguida é incorporada pela controlada (...) A legislação reconhece esta figura de caráter inverso (controlada incorporando a controladora), mas isto não afasta a relevância das circunstâncias que podem cercar o caso concreto, pois esta operação inversa pode, eventualmente, estar sendo realizada abusivamente ou como negócio indireto em desrespeito à lei (talvez não à lei societária que regula a incorporação, mas à lei tributária ou outra lei relevante aplicável ao caso concreto). A incorporação às avessas apresentase como hipótese fora do perfil objetivo do instituto jurídico e, por isso, demanda uma razão específica relevante que afaste a estranheza da operação e que mostre sua perfeita adequação à realidade fática do caso. No caso em questão, em etapa anterior à “incorporação às avessas”, a SERASA S.A. tornouse controlada da EXPERIAN BRASIL AQUISIÇÕES LTDA pela aquisição, por esta última, com ágio, de 70% de suas ações, deste fato resultando uma situação inusitada: a empresa de pequeno porte, que até então não havia realizado qualquer operação econômica, constituída inicialmente com capital social de apenas R$ 100,00 (cem reais), posteriormente aumentado com o fim específico de adquirir 70% das ações da SERASA S.A. que, por sua vez, possuía na ocasião um capital social de R$196.350.465,24 e Fl. 2700DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.701 38 Receita de Prestação de Serviços no valor de R$ 745.867.351,97 no período entre 01/01/2007 e 13/12/2007. Portanto, não há qualquer razão específica sustentável, a não ser o desejo de dedutibilidade das despesas de amortização do ágio, para a ocorrência da referida incorporação às avessas. 4.1.3 Inexistência operacional e administrativa da EXPERIAN BRASIL AQUISIÇÕES LTDA O elemento relevante quando se está perante uma pessoa jurídica não é apenas a sua existência formal; tão ou mais importante, em matéria tributária, que o preenchimento das formalidades legais para sua constituição, é a identificação do empreendimento que justifica sua existência. A criação de uma pessoa jurídica tem sentido na medida em que corresponda à vestimenta jurídica de um determinado empreendimento econômico ou profissional. A ideia de empresa é o núcleo a ser investigado. O próprio Código Civil dá a definição de empresa, no “caput” do artigo 966, ao dispor: Considerase empresário quem exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços. Vale dizer, a atividade econômica é materializada pela produção e circulação de bens e serviços mediante organização de fatores de produção, por exemplo, capital, trabalho, matériaprima etc. A empresa EXPERIAN BRASIL AQUISIÇÕES LTDA, conforme consta na DIPJ 2007, anocalendário 2006, estava inativa. Já na DIPJ 2007, anocalendário 2007, informou que não possuía empregados, e que não realizou despesas operacionais a título Remuneração a Dirigentes, Prestação de Serviços por Pessoa Física sem Vínculo Empregatício e Prestação de Serviços por Pessoa Jurídica. Todavia, quando questionada pela fiscalização através do Termo de Intimação Fiscal nº 02 (do processo 10880.734249/201179) a esclarecer “quem foram os responsáveis operacionais pela compra das ações da SERASA S.A., pelos pagamentos dessas ações, pelos controles e movimentações das contas bancárias, pelo pagamento das despesas da sede da empresa (aluguel, luz, condomínio, outras) e por outras atividades da empresa”, o contribuinte informou em resposta ao referido Termo que “os responsáveis operacionais pela compra das ações da SERASA S.A. foram os administradores da EXPERIAN BRASIL AQUISIÇÕES LTDA, os quais contaram com a colaboração de prestadores de serviço contratados para a execução de assessoria contábil e administrativa.” Ora, se o contribuinte não remunera dirigentes e não possuiu qualquer despesa a título de Prestação de Serviços por Pessoa Física sem Vínculo Empregatício e Prestação de Serviços por Pessoa Jurídica, como foi possível o mesmo ter contratado esses serviços? Houve prestação de serviço sem remuneração? Os dirigentes trabalharam sem remuneração? Fl. 2701DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.702 39 A resposta é que, de fato, a empresa veículo EXPERIAN BRASIL AQUISIÇÕES LTDA não possuía qualquer estrutura operacional e administrativa. Mais uma vez fica claro que a única função da EXPERIAN BRASIL AQUISIÇÕES LTDA, no conjunto de operações realizadas, foi servir de veículo para a criação do ágio carreado indevidamente para dentro da empresa SERASA S.A. e posterior amortização contábil e tributária do mesmo, e nada mais. 4.1.4 Curta duração da existência da EXPERIAN BRASIL AQUISIÇÕES LTDA (...) O simples fato de a sociedade ser efêmera não significa haver contaminação na operação. Podem existir razões suficientes que levem à extinção imediata da pessoa jurídica ou mesmo à sua constituição de manhã e à sua extinção à tarde, por exemplo, caso algum fato externo venha a justificar tal operação. Não é pelo simples fato de ser efêmera que a operação estará contaminada, mas ser efêmera gera uma interrogação quanto ao motivo pelo qual foi efêmera. Por que foi criada e extinta em tão pouco tempo? Por vezes, dentro de um planejamento, a sociedade é criada para participar de determinado negócio ou receber determinado patrimônio ou recurso em trânsito para uma outra pessoa jurídica, eventualmente ligada à figura do ágio. Feito isto, pode ser extinta. (...) 4.1.5 Improcedência da motivação alegada pelo fiscalizado da necessidade da constituição e posterior aquisição da empresa EXPERIAN BRASIL AQUISIÇÕES LTDA (...) Intimada através do Termo de Intimação Fiscal nº 03 (do processo 10880.734249/2011 79) a esclarecer o motivo de as sociedades estrangeiras GUS EUROPE e GUS OVERSEAS não terem adquirido diretamente 70% das participações na SERASA, mas através da EXPERIAN BRASIL AQUISIÇÕES LTDA, a fiscalizada justificouse através dos mesmos argumentos já previamente apresentados no Esclarecimento 3 da alínea “a” do item 3.2.2 deste Termo de Verificação Fiscal, cujos comentários feitos pela fiscalização encontramse logo abaixo do referido esclarecimento. Ainda acerca das justificativas de tal operação, o contribuinte conclui em sua resposta: “Neste contexto, do ponto de vista estritamente jurídico, fosse possível a aquisição do controle acionário da SERASA S.A diretamente pelas sociedades acima mencionadas (GUS EUROPE e GUS OVERSEAS), do ponto de vista negocial referida alternativa seria inviável por contrariar os interesses, Fl. 2702DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.703 40 não somente das partes diretamente envolvidas, mas também dos acionistas minoritários que poderiam ser prejudicados”. Ora, o fato da SERASA S.A. passar a ter como controlador uma empresa com sede no exterior em nada altera os direitos dos acionistas minoritários, uma vez que todos os acionistas estão sob a égide da legislação do Brasil. Contudo, caso 70% das ações da SERASA S.A tivessem sido adquiridas diretamente pelas empresas GUS EUROPE e GUS OVERSEAS, o ágio pago por essa aquisição estaria registrado na contabilidade das empresa adquirentes sediadas no exterior e como consequência não haveria ágio algum a ser amortizado pela SERASA S.A. para reduzir o pagamento de tributos devidos pela mesma. Isso sim contrariaria os interesses das partes diretamente envolvidas." Finalmente, conclui a autoridade fiscal: "Diante de todo o exposto, em face da ausência de substância econômica ou de uma motivação extratributária na “reestruturação societária” empreendida pelo grupo GUS, e estando evidente que o único objetivo perseguido foi a indevida transferência do potencial direto à dedução de despesas do ágio pertencente à investidora estrangeira GUS EUROPE e a GUS OVERSEAS para a empresa investida SERASA S.A., temse que o ágio ilegitimamente projetado para dentro do sujeito passivo não pode gerar efeitos tributários oponíveis ao Fisco, não se admitindo o aproveitamento fiscal dos encargos de amortização desse ágio desde o momento de sua transferência artificiosa e ilícita." É sabido que a utilização do teste do "propósito negocial" (importado do direito estadunidense, pelo qual não devem produzir efeitos contra o Fisco os negócios jurídicos que tenham por finalidade única a obtenção da economia do tributo) ou a rejeição à ausência de motivação extratributária enfrentam fortes críticas por parte de doutrinadores e Conselheiros deste CARF. De fato, a utilização de tais elementos deve ser realizada com extrema cautela, já que, no meu entender, o que deve ser combatido não é o planejamento tributário empreendido por meio de operação realizada sem propósito negocial ou sem motivação extratributária (o que pode ser plenamente lícito, vide o prosaico exemplo da escolha de um casal entre apresentar a declaração de rendimentos em conjunto ou em separado), mas aquele realizado por meio da dissociação entre a vontade expressa formalmente nos atos praticados e a real motivação para a sua prática. Ricardo Lobo Torres (Planejamento Tributário: elisão abusiva e evasão fiscal. 2ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013) faz importante síntese acerca dos parâmetros de aproximação que podem ser utilizados nos casos de planejamento tributário: "O problema da elisão fiscal está intimamente ligado ao das posições teóricas fundamentais em torno da interpretação do direito tributário. Fl. 2703DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.704 41 O positivismo normativista e conceptualista defende, com base na autonomia da vontade, a possibilidade ilimitada de planejamento fiscal. A elisão, partindo de instrumentos válidos, seria sempre lícita. Essa posição foi defendida com veemência por Sampaio Dória. O positivismo sociológico e historicista, com a sua consideração econômica do fato gerador, chega à conclusão oposta, defende a ilicitude generalizada da elisão, que representaria abuso da forma jurídica escolhida pelo contribuinte para revestir juridicamente o seu negócio jurídico ou a sua empresa. Amilcar de Araújo Falcão representou moderadamente essa orientação. A jurisprudência dos valores e o póspositivismo aceitam o planejamento fiscal como forma de economizar imposto, desde que não haja 'abuso de direito'. Só a elisão abusiva ou o planejamento inconsistente se tornam ilícitos. (...) O combate ao abuso do direito consiste, sobretudo, na busca de superação do posicionamento formalista e conceptualista, com o cuidado para não cair no exagero oposto do substancialismo, do historicismo ou do causalismo economicista. No direito tributário vivese, a partir dos anos 1990, na incessante procura do equilíbrio entre forma e substância, que só poderá ser obtido evitandose o abuso das formas ('Missbrauch von Gestaltungsmöglichkeiten Formen' dos alemães)." Da mesma obra, extraise ainda a seguinte passagem atribuída ao tributarista italiano Victor Uckman: "Enquanto no direito privado a 'rationale' da teoria do abuso consiste em proteger os direitos de outros indivíduos, no setor fiscal se utiliza o princípio para proteger os interesses do Estado frente à liberdade do contribuinte de utilizar as formas jurídicas que eleja para desenvolver as suas atividades produtoras de renda." O que deve ser combatido, portanto, é o uso da liberdade negocial própria das pessoas jurídicas, para construir situações artificiais apenas e tãosomente visando à economia tributária, posto que contrária à boafé característica da moderna interpretação do Direito. O fato é que, independentemente de a opção pela aquisição por meio da utilização da "empresaveículo" ser uma opção válida do Grupo EXPERIAN, sob a ótica econômica, não pode, como já dito, ser utilizada como subterfúgio para conferir a aparência de uma operação abrangida pelo dispositivo legal que permite a amortização do ágio pago. O atendimento a requisitos legais nos ramos civil e empresarial não tem repercussão na esfera tributária. As supostas razões extrafiscais da Recorrente foram examinadas e refutadas adequadamente pela autoridade fiscal e pelo Acórdão recorrido (sem que qualquer contraponto Fl. 2704DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.705 42 relevante tenha sido apresentado no Recurso Voluntário) e, mais importante, não se sustentam frente ao desfecho da operação, que foi a incorporação da Experian Brasil Aquisições Ltda pela Serasa (com a contestada amortização do ágio), distante do efetivo negócio ocorrido, a aquisição da Serasa pelas GUS EUROPE HOLDINGS BV e GUS OVERSEAS HOLDINGS BV. Jamais há como se reconhecer, portanto, que a despesa de amortização do ágio criado em tais circunstâncias é usual, normal e necessária à atividade da Recorrente, de modo a ser admitida como redutora da base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Por mais essa razão, portanto, deve ser negado provimento ao Recurso quanto à amortização do ágio e mantido o lançamento. 4. DA IMPOSIÇÃO DA MULTA QUALIFICADA A aplicação da multa qualificada de 150% foi fundamentada pela autoridade fiscal na presença de sonegação e fraude, conforme arts. 71 e 72 da Lei nº 4.502, de 1964, nos seguintes termos: "Nesses termos, o que qualifica o agir do sujeito passivo como sonegação ou fraude é o dolo. Significa, portanto, que basta evidenciar o dolo para que se justifique a qualificação da multa de ofício. (...) A idéia de máfé está implícita na de dolo; todavia, esta é muito mais restrita do que aquela. Providencial é a distinção, feita por Calo Alberto Funaioli, entre máfé, dolo e fraude. Sendo o conceito de máfé mais amplo, engloba os outros dois. Lembra, ainda, esse jurista que a boa e a máfé são estados psicológicos subjetivos, são modos de ser do espírito humano. Por outro lado, ensina que o dolo não é o conhecimento, a ciência de algo, mas o comportamento voluntário de induzir alguém em erro, uma atuação intencional e específica, nesse sentido, nãosomente uma genérica ação de máfé. A fraude, completa o mesmo jurista, é o dolo em sentido mais restrito, é o comportamento malicioso para causar dano a outrem, ou a particular qualificação do engano, constituindo a mais específica e extrema aplicação do conceito de engano, contrapondose ao estado genérico da máfé. Comentando o presente artigo, objetivo o estudo do dolo como vício da manifestação da vontade, traçando seu conceito. O dolo não existe sem o embuste, sem premeditação, sem vontade objetivando especificamente a causação de prejuízo, sem a vontade de enganar (animus decipiendi). (...) Fl. 2705DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.706 43 Nesse sentido, o contribuinte, ao formalizar seus registros contábeis e societários de forma a dar uma aparência de correção à indedutibilidade das despesas de amortização do ágio e à reestruturação societária sem propósito negocial, pretende induzir a fiscalização a avalizar uma operação que, nessas circunstâncias, é inoponível à Fazenda." A tentativa do sujeito passivo de enquadrar a situação como mera divergência de interpretação da legislação aplicável foi refutada pelo julgador a quo, para quem ficou demonstrada "a ilicitude da conduta da impugnante, que deduziu indevidamente da base de cálculo do IRPJ e da CSLL valores decorrentes de operações sem propósito negocial e sem que houvesse a confusão patrimonial entre a investidora originária e a investida". De fato, o dolo da Recorrente na prática dos atos é plenamente evidenciado nos autos, em seus elementos cognitivo e volitivo. Desde o princípio, a operação foi engendrada com o propósito definido de fazer parecer a situação abrangida pela norma permissiva da amortização do ágio, quando sabidamente não se estava diante dela. A situação, portanto, enquadrase perfeitamente às hipóteses dos dispositivos legais que fundamentam a qualificação da multa: "Art . 71. Sonegação é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; II das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Art . 72. Fraude é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do impôsto devido a evitar ou diferir o seu pagamento." Diversos passos foram tomados, situações jurídicas fictícias foram formalizadas, tudo com o propósito de induzir o Fisco ao erro na apreciação dos fatos. Não há como tal conduta receber a mesma punição prevista para os casos em que o contribuinte tãosomente deixa de realizar o pagamento ou faz uma declaração inexata isoladamente. Há um plus na conduta, que faz merecer um plus na penalidade. Em caso similar (Acórdão nº 9101002.802 1ª Turma, sessão de 10 de maio de 2017), a Câmara Superior de Recursos Fiscais decidiu pela qualificação da multa, cabendo destacar trechos do voto da Relatora, Conselheira Adriana Gomes do Rego: "Pois bem, entendo que a qualificação da multa de ofício é devida no presente processo pois, em que pesem todos os fatos Fl. 2706DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.707 44 terem sido registrados e contabilizados, sob o aspecto tributário, não se tem dúvida de que todo o planejamento visou alterar as características do fato gerador da obrigação tributária, de modo a reduzir o montante do imposto devido, nos termos do art. 72 da Lei nº 4.502, de 1964. Para tanto, conforme demonstrado nos autos, a aquisição da PRODESMAQ S/A pela CCL INC (negócio real) foi dissimulada pela interposição de uma empresa meramente escritural, como se fosse a verdadeira compradora (negócio fictício), a qual somente serviu para viabilizar o mecanismo de transferência do ágio para a PRODESMAQ S/A, tanto que desapareceu em poucos dias. (...) Apesar de a redução do custo tributário ser uma meta válida na atividade empresarial, observase que aqui não está em discussão a ética empresarial, mas sim a legislação tributária, em cujo âmbito, a dissimulação do fato gerador ou a redução dissimulada do valor devido são considerados ilícitos tributários qualificados que dão ensejo à exasperação da multa de ofício." É totalmente descabida a invocação da Recorrente ao art. 112 do CTN, posto não existir qualquer dúvida no caso em apreço. Igualmente descabida a alegação de conflito de interesses, face a Medida Provisório nº 765, de 2016, que poderia ensejar impedimento dos Conselheiros Representantes da Fazenda Nacional, conforme explicitado na Portaria CARF nº 01, de 18 de janeiro de 2017. Também não afasta a imposição da penalidade o fato de o ágio efetivamente ter sido pago, bem como o fato de os acionistas haverem submetido o ganho de capital à incidência do imposto de renda. Tais fatos tem relevância naqueles planejamentos tributários em que há dúvida sobre a existência do próprio pagamento do ágio, como notadamente ocorre nas situações que envolvem pessoas relacionadas (o chamado "ágio interno"). No caso em apreço, não é disto que se trata. O pagamento do ágio não é contestado, mas a criação de uma pessoa jurídica e de atos negociais para camuflar uma operação que não possibilitava, à luz da legislação, a amortização do ágio pago. Isto posto, voto pela manutenção da imposição da multa qualificada. 5. DA IMPOSIÇÃO DA MULTA ISOLADA Adicionalmente, a pessoa jurídica argumenta, em seu Recurso, que a multa isolada pelo não recolhimento de estimativas de IRPJ e CSLL não poderia ser imposta após o encerramento do anocalendário e em concomitância com a exigência de tais tributos com multa de ofício de 150%, uma vez que isso configuraria duplicidade de penalidade. Ademais, no seu entender, a falta de pagamento do tributo estimado seria meio preparatório para a supressão do tributo apurado ao final do exercício. A argumentação da Recorrente não merece ser acolhida. Fl. 2707DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.708 45 Conforme art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, não há impedimento para a aplicação concomitante das referidas penalidades, que possuem bases de cálculo distintas: "Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata;(Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) II de 50% (cinqüenta por cento), exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) a) na forma do art. 8o da Lei no 7.713, de 22 de dezembro de 1988, que deixar de ser efetuado, ainda que não tenha sido apurado imposto a pagar na declaração de ajuste, no caso de pessoa física; (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) b) na forma do art. 2o desta Lei, que deixar de ser efetuado, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no anocalendário correspondente, no caso de pessoa jurídica. (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) § 1o O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei no 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007)" A multa de ofício sobre o ajuste anual é embasada no inciso I c/c o §1º do referido dispositivo e calculada sobre a diferença de imposto apurada ao final do exercício; a multa isolada tem por base o inciso II, e é calculada sobre o valor devido no mês correspondente. A primeira alegação da Recorrente é totalmente despida de sentido, já que o momento de aplicação da penalidade isolada é exatamente após o encerramento do ano calendário. Antes disso, a autoridade fiscal exigirá o próprio tributo devido por estimativa. É essa a justificativa, portanto, para a Súmula CARF nº 82. Quanto à concomitância e subsunção de penalidades, também não há razão para acolhêlas. Os argumentos trazidos pela Recorrente para fundamentar a sua tese se referem à redação anterior do referido art. 44 (e que se apresentam em consonância com a Súmula CARF nº 105). É que na redação original do dispositivo legal, a multa de ofício aplicada ao final do exercício e a multa pelo não recolhimento da estimativa tinham, ambas, como fundamento legal o inciso I do citado art. 44, razão pela qual se firmou a tese da inaplicabilidade concomitante. Fl. 2708DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.709 46 Após a alteração da redação, promovida pela Lei nº 11.488, de 2007, entendese plenamente cabível a aplicação concomitante das duas penalidades. O Princípio da Subsunção, por outro lado, constituise em princípio geral do Direito Penal, sem transposição para o Direito Penal Tributário, dadas às especificidades da norma penal tributária. Cabe neste momento a transcrição de trecho do voto da Conselheira Adriana Gomes Rêgo, no Acórdão nº 9101002.438 (1ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, sessão de 20 de setembro de 2016), de sua relatoria, que rejeita tanto a aplicação do Princípio em questão, quanto a vedação à concomitância das penalidades, como invocado pela Recorrente: "Quanto à transposição do princípio da consunção para o Direito Tributário, vale a transcrição da oposição manifestada pelo Conselheiro Alberto Pinto Souza Junior no voto condutor do Acórdão nº 1302001.823: Da inviabilidade de aplicação do princípio da consunção O princípio da consunção é princípio específico do Direito Penal, aplicável para solução conflitos aparentes de normas penais, ou seja, situações em que duas ou mais normas penais podem aparentemente incidir sobre um mesmo fato. Primeiramente, há que se ressaltar que a norma sancionatória tributária não é norma penal stricto sensu. Vale aqui a lembrança que o parágrafo único do art. 273 do anteprojeto do CTN (hoje, art. 112 do CTN), elaborado por Rubens Gomes de Sousa, previa que os princípios gerais do Direito Penal se aplicassem como métodos ou processos supletivos de interpretação da lei tributária, especialmente da lei tributária que definia infrações. Esse dispositivo foi rechaçado pela Comissão Especial de 1954 que elaborou o texto final do anteprojeto, sendo que tal dispositivo não retornou ao texto do CTN que veio a ser aprovado pelo Congresso Nacional. À época, a Comissão Especial do CTN acolheu os fundamentos de que o direito penal tributário não tem semelhança absoluta com o direito penal (sugestão 789, p. 513 dos Trabalhos da Comissão Especial do CTN) e que o direito penal tributário não é autônomo ao direito tributário, pois a pena fiscal mais se assemelha a pena cível do que a criminal (sugestão 787, p.512, idem). Não é difícil, assim, verificar que, na sua gênese, o CTN afastou a possibilidade de aplicação supletiva dos princípios do direito penal na interpretação da norma tributária, logicamente, salvo aqueles expressamente previstos no seu texto, como por exemplo, a retroatividade benigna do art. 106 ou o 'in dubio pro reo' do art. 112. Oportuna, também, a citação da abordagem exposta em artigo publicado por Heraldo Garcia Vitta: O Direito Penal é especial, contém princípios, critérios, fundamentos e normas particulares, próprios desse ramo jurídico; por isso, a rigor, as regras dele não podem ser Fl. 2709DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.710 47 estendidas além dos casos para os quais foram instituídas. De fato, não se aplica norma jurídica senão à ordem de coisas para a qual foi estabelecida; não se pode pôr de lado a natureza da lei, nem o ramo do Direito a que pertence a regra tomada por base do processo analógico.[Carlos Maximiliano, Hermenêutica e aplicação do direito, p.212] Na hipótese de concurso de crimes, o legislador escolheu critérios específicos, próprios desse ramo de Direito. Logo, não se justifica a analogia das normas do Direito Penal no tema concurso real de infrações administrativas. A ‘forma de sancionar’ é instituída pelo legislador, segundo critérios de conveniência/oportunidade, isto é, discricionariedade. Competelhe elaborar, ou não, regras a respeito da concorrência de infrações administrativas. No silêncio, ocorre cúmulo material. Aliás, no Direito Administrativo brasileiro, o legislador tem procurado determinar o cúmulo material de infrações, conforme se observa, por exemplo, no artigo 266, da Lei nº 9.503, de 23.12.1997 (Código de Trânsito Brasileiro), segundo o qual “quando o infrator cometer, simultaneamente, duas ou mais infrações, serlheão aplicadas, cumulativamente, as respectivas penalidades”. Igualmente o artigo 72, §1º, da Lei 9.605, de 12.2.1998, que dispõe sobre sanções penais e administrativas derivadas de condutas lesivas ao meio ambiente: “Se o infrator cometer, simultaneamente, duas ou mais infrações [administrativas, pois o disposto está inserido no Capítulo VI –Da Infração Administrativa] serlheão aplicadas, cumulativamente, as sanções a elas cominadas”. E também o parágrafo único, do artigo 56, da Lei nº 8.078, de 11.9.1990, que regula a proteção do consumidor: “As sanções [administrativas] previstas neste artigo serão aplicadas pela autoridade administrativa, no âmbito de sua atribuição, podendo ser aplicadas cumulativamente, inclusive por medida cautelar antecedente ou incidente de procedimento administrativo”.[Evidentemente, se ocorrer, devido ao acúmulo de sanções, perante a hipótese concreta, pena exacerbada, mesmo quando observada imposição do mínimo legal, isto é, quando a autoridade administrativa tenha imposto cominação mínima, estabelecida na lei, ocorrerá invalidação do ato administrativo, devido ao princípio da proporcionalidade.] No Direito Penal são exemplos de aplicação do princípio da consunção a absorção da tentativa pela consumação, da lesão corporal pelo homicídio e da violação de domicílio pelo furto em residência. Característica destas ocorrências é a sua previsão em normas diferentes, ou seja, a punição concebida de forma autônoma, dada a possibilidade fática de o agente ter a intenção, apenas, de cometer o crime que figura como delitomeio ou delitofim. Fl. 2710DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.711 48 Já no caso em debate, a norma tributária prevê expressamente a aplicação das duas penalidades em face da conduta de sujeito passivo que motive lançamento de ofício, como bem observado pelo Conselheiro Marcos Aurélio Pereira Valadão no já citado voto condutor do Acórdão nº 9101002.251: [...]Ora, o legislador, no caso, fez mais do que faria se apenas acrescentasse “mais uma alínea no inciso II da nova redação do art. 44 da [Lei nº] 9.430/1996”. Na realidade, o que, na redação primeira, era apenas um inciso subordinado a um parágrafo do artigo (art. 44, § 1º, inciso IV, da Lei nº 9.430, de 1996), tornouse um inciso vinculado ao próprio caput do artigo (art. 44, inciso II, da Lei nº 9.430, de 1996), no mesmo patamar, portanto, do inciso então preexistente, que previa a multa de ofício. Vejase a redação do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, dada pela Lei nº 11.488, de 2007 (sublinhei): Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; II de 50% (cinquenta por cento), exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: [...]; Dessa forma, a norma legal, ao estatuir que “nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas”, está a se referir, iniludivelmente, às duas multas em conjunto, e não mais em separado, como dava a entender a antiga redação do dispositivo. Nessas condições, não seria necessário que a norma previsse “a possibilidade de haver cumulatividade dessas multas”. Pelo contrário: seria necessário, sim se fosse esse o caso, que a norma excetuasse essa possibilidade, o que nela não foi feito. Por conseguinte, não há que se falar como pretendeu o sujeito passivo, por ocasião de seu recurso voluntário em “identidade quanto ao critério pessoal e material de ambas as normas sancionatórias”. Se é verdade que as duas normas sancionatórias, pelo critério pessoal, alcançam o mesmo contribuinte (sujeito passivo), não é verdade que o critério material (verbo + complemento) de uma e de outra se centre “no descumprimento da relação jurídica que determina o recolhimento integral do tributo devido”. O complemento do critério material de ambas é, agora, distinto: o da multa de ofício é a totalidade ou diferença de Fl. 2711DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.712 49 imposto ou contribuição; já o da multa isolada é o valor do pagamento mensal, apurado sob base estimada ao longo do ano, cuja materialidade, como visto anteriormente, não se confunde com aquela. (grifos do original) A alteração legislativa promovida pela Medida Provisória nº 351, de 2007, portanto, claramente fixou a possibilidade de aplicação de duas penalidades em caso de lançamento de ofício frente a sujeito passivo optante pela apuração anual do lucro tributável. Somente desconsiderandose todo o histórico de aplicação das penalidades previstas na redação original do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, seria possível interpretar que a redação original não determinou a aplicação simultânea das penalidades. A redação alterada é direta e impositiva ao firmar que "serão aplicadas as seguintes multas". Ademais, quando o legislador estipula na alínea "b" do inciso II do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, a exigência isolada da multa sobre o valor do pagamento mensal ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base negativa no anocalendário correspondente, claramente afirma a aplicação da penalidade mesmo se apurado lucro tributável e, por conseqüência, tributo devido sujeito à multa prevista no inciso I do seu art. 44. Acrescentese que não se pode falar, no caso, de bis in idem sob o pressuposto de que a imposição das penalidades teria a mesma base fática. Basta observar que as infrações ocorrem em diferentes momentos, o primeiro correspondente à apuração da estimativa com a finalidade de cumprir o requisito de antecipação do recolhimento imposto aos optantes pela apuração anual do lucro, e o segundo apenas na apuração do lucro tributável ao final do anocalendário. A análise, assim, não pode ficar limitada, por exemplo, à omissão de receitas ou ao registro de despesas indedutíveis, especialmente porque, para fins tributários, estas ocorrências devem, necessariamente, repercutir no cumprimento da obrigação acessória de antecipar ou na constituição, pelo sujeito passivo, da obrigação tributária principal. A base fática, portanto, é constituída pelo registro contábil ou fiscal, ou mesmo sua supressão, e pela repercussão conferida pelo sujeito passivo àquela ocorrência no cumprimento das obrigações tributárias. Como esta conduta se dá em momentos distintos e com finalidades distintas, duas penalidades são aplicáveis, sem se cogitar de bis in idem." Essa tem sido a jurisprudência dominante sobre o tema, inclusive no âmbito da Câmara Superior de Recursos Fiscais, conforme ilustra a ementa a seguir referenciada: "Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Anocalendário: 2008, 2009, 2010 (...) MULTA ISOLADA. MULTA DE OFÍCIO. LEI. NOVA REDAÇÃO. FATOS GERADORES A PARTIR DE 2007. Fl. 2712DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.713 50 Tratam os incisos I e II do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996 de suportes fáticos distintos e autônomos com diferenças claras na temporalidade da apuração, que tem por consequência a aplicação das penalidades sobre bases de cálculo diferentes. A multa de ofício aplicase sobre o resultado apurado anualmente, cujo fato gerador aperfeiçoase ao final do anocalendário, e a multa isolada sobre insuficiência de recolhimento de estimativa apurada conforme balancetes elaborados mês a mês ou ainda sobre base presumida de receita bruta mensal. O disposto na Súmula nº 105 do CARF aplicase aos fatos geradores pretéritos ao ano de 2007, vez que sedimentada com precedentes da antiga redação do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, que foi alterada pela MP nº 351, de 22/01/2007, convertida na Lei nº 11.489, de 15/07/2007." (Acórdão nº 9101003.060 1ª Turma, sessão de 12 de setembro de 2017, Redator designado Conselheiro André Mendes de Moura) Após a alteração da redação, entendese, como já dito, plenamente cabível a aplicação concomitante das duas penalidades. Desta forma, rejeito o Recurso apresentado também quanto a este tópico. 6. DA APLICAÇÃO DOS JUROS SOBRE A MULTA Por fim, a Recorrente defende a impossibilidade de aplicação de juros de mora sobre a multa de ofício imposta. Mais uma vez, não há como se concordar com a tese defendida. A incidência dos juros de mora sobre as multas é extraída diretamente da interpretação lógicosistêmica do próprio texto do CTN, conforme se observa pela leitura dos arts. 113, 139 e 161 daquela Norma: "Art. 113. A obrigação tributária é principal ou acessória. § 1º A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extinguese juntamente com o crédito dela decorrente. § 2º A obrigação acessória decorre da legislação tributária e tem por objeto as prestações, positivas ou negativas, nela previstas no interesse da arrecadação ou da fiscalização dos tributos. § 3º A obrigação acessória, pelo simples fato da sua inobservância, convertese em obrigação principal relativamente à penalidade pecuniária." (Destacouse) Art. 139. O crédito tributário decorre da obrigação principal e tem a mesma natureza desta. "Art. 161. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e Fl. 2713DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.714 51 da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária. § 1º Se a lei não dispuser de modo diverso, os juros de mora são calculados à taxa de um por cento ao mês. § 2º O disposto neste artigo não se aplica na pendência de consulta formulada pelo devedor dentro do prazo legal para pagamento do crédito." (Destacouse) Se o art. 113 designa de obrigação principal o tributo e a penalidade pecuniária; e se o art. 139 identifica a obrigação principal com o crédito tributário, outra não pode ser a interpretação senão que, de acordo com o art. 161, os juros de mora devem incidir sobre todo o crédito tributário (o texto não fala em tributo ou em principal), razão pela qual se inclui o tributo e as penalidades a ele relacionadas. Tratando do tema das multas como obrigação principal, Luís Eduardo Schoueri (Direito Tributário. São Paulo: Saraiva, 2011. pp. 414415) leciona: "Tem sido motivo de censura a decisão do legislador de incluir as multas na obrigação tributária 'principal'. Com efeito, como considerar compreendido no gênero de 'obrigação tributária' algo que não é tributo? A crítica não é justa. O legislador complementar não utilizou o adjetivo 'tributária' para qualificar o conteúdo da obrigação (obrigação de pagar tributo), mas apenas com o intuito de identificar sua origem (obrigação de pagar, em virtude da legislação tributária). Afinal, é certo que as normas tributárias prevem o pagamento de tributo, também é certo que elas ( as mesmas normas tributárias) preveem sanções, no caso de seu descumprimento. Não se previssem sanções, faltarlhesia o principal requisito para se verem obedecidas. Há, assim, sanções por ilícitos tributários. Tais sanções podem, por sua origem, ser qualificadas sanções tributárias, nada impedindo, daí, que estejam compreendidas no gênero das obrigações tributárias. (...) Ocorre que o legislador complementar quis assegurarse de que a instituição e cobrança de multas estaria sujeita à mesma rigidez dos tributos. Assim, ao incluir a penalidade pecuniária na obrigação tributária, nada mais houve que remissão da disciplina jurídica da obrigação tributária às penalidades pecuniárias." A lição de Regina Helena Costa (Curso de Direito Tributário, 1ª ed. São Paulo: SAraiva, 2009, pp. 174175) é muito próxima: "O CTN, assim, emprega o conceito de obrigação como 'gênero', a significar relação jurídica que pode assumir caráter patrimonial ou não patrimonial, de acordo com a natureza da prestação correspondente: na primeira hipótese, o objeto é o 'pagamento de tributo' ou 'penalidade pecuniária (obrigação Fl. 2714DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.715 52 principal)'; na segunda, um 'comportamento positivo ou negativo do sujeito passivo (obrigação acessória)'. Portanto, para o direito tributário, a patrimonialidade não constitui elemento necessário à configuração de vínculo obrigacional. A concepção ora adotada repele, assim, a crítica doutrinária dirigida às normas contidas nos §§1º e 3º, 'in fine', do art. 113, CTN, segundo as quais a penalidade pecuniária cuja imposição é legitimada à vista do nãopagamento de tributo ou do não atendimento de obrigação acessória não pode constituir objeto da obrigação principal, pois representaria contradição ao disposto no art. 3º, que, ao definir o conceito de tributo, destaca que este não se confunde com multa.. O caráter pecuniário do objeto da relação jurídica é, singelamente, a nota necessária à configuração da obrigação principal." A mesma autora (Op. cit, p. 247), expressamente, manifesta aquilo que é fundamento para a imposição dos juros de mora sobre as multas de ofício: "O crédito tributário, como sabido, compõese do valor do tributo e de seus consectários (correção monetária, juros moratórios e multa),..." Também no art. 43 da Lei nº 9.430, de 1.996, o fato de a multa integrar o crédito tributário fica explícito: "Art.43. Poderá ser formalizada exigência de crédito tributário correspondente exclusivamente a multa ou a juros de mora, isolada ou conjuntamente. Parágrafo único. Sobre o crédito constituído na forma deste artigo, não pago no respectivo vencimento, incidirão juros de mora, calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento." (Destacouse) "Art.61. Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1º de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. §1º A multa de que trata este artigo será calculada a partir do primeiro dia subseqüente ao do vencimento do prazo previsto para o pagamento do tributo ou da contribuição até o dia em que ocorrer o seu pagamento. §2º O percentual de multa a ser aplicado fica limitado a vinte por cento. §3º Sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do Fl. 2715DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.716 53 prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento." (Destacouse) Ao contrário do sustentado pela Recorrente, o entendimento majoritário no âmbito de todas as Turmas da Câmara Superior de Recursos Fiscais é no sentido da incidência dos juros de mora sobre as multas, conforme ementas a seguir: "ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2008 JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic." (Acórdão nº 9101003.126 1ª Turma, sessão de 3 de outubro de 2017, Redatora designada Conselheira Adriana Gomes Rego) "ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2008 a 31/12/2008 (...) JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic." (Acórdão nº 9202005.470 2ª Turma, sessão de 24 de maio de 2017, Redator designado Conselheiro Heitor de Souza Lima Júnior) "ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO DE INTERVENÇÃO NO DOMÍNIO ECONÔMICO CIDE Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2008 (...) INCIDÊNCIA DE JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. POSSIBILIDADE. O crédito tributário, quer se refira a tributo quer seja relativo à penalidade pecuniária, não pago no respectivo vencimento, está sujeito à incidência de juros de mora, calculado à taxa Selic até o mês anterior ao pagamento, e de um por cento no mês de pagamento." (Acórdão nº 9303005.293 3ª Turma, sessão de 22 de junho de 2017, Redator designado Conselheiro Demes Brito) Deste modo, não deve ser acatado o Recurso Voluntário, quanto a esta matéria. 7. CONCLUSÃO Fl. 2716DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.717 54 Por todo o exposto, voto por NEGAR PROVIMENTO ao Recurso Voluntário, mantendo integralmente o lançamento. (assinado digitalmente) Paulo Henrique Silva Figueiredo Voto Vencedor Conselheiro Gustavo Guimarães da Fonseca Redator designado Com a devida vênia às sempre judiciosas e técnicas ponderações do D. Relator, mas ouso, aqui, discordar de suas conclusões (no que fui acompanhado pela maioria de meus pares, ainda que por voto de qualidade), mesmo considerando as premissas comumente utilizadas tanto pela Fiscalização, como por aqueles que se embasam na teoria da substância econômica para emprestar efeitos tributários válidos à planejamentos societários/fiscais. É verdade, e não tenho deixado de fazer as críticas que entendo cabíveis à tese acima suscitada, que tem, hoje, talvez, como o seu maior expoente, o celebrado professor Marco Aurélio Grecco. Não pretendo, no feito em análise, discorrer novamente sobre os preconceitos que permeiam o meu entendimento, seja quanto ao benefício descrito nos artigos 7º e 8º da Lei 9.532/96, seja sobre a extensão da regra encartada no art. 116, parágrafo único, do CTN. Isto porque, diferentemente dos casos em que este Colegiado vem, hodiernamente, se debruçando, o processo sub examine não revela a existência de operações complexas, recheadas de etapas sem fim, como troca de ativos ou pagamentos em dação de quotas ou ações. O caso, vejam bem, comporta apenas três operações (pelo que, inclusive, se vê desnecessária a reprodução gráfica do "passoapasso" dos negócios engendrados): a) a constituição, por empresas sediadas no exterior, de uma holding no Brasil (Experian Brasil Aquisições Ltda.), de vida efêmera, é verdade; b) a aquisição pela citada holding da empresa Serasa S/A, cujo investimento foi avaliado por expectativa de rentabilidade futura e adquirido mediante emprego de recursos em espécie, gerando aí, de um lado, ganho de capital tributado e, de outro turno, um custo de aquisição superior ao valor contábil da empresa adquirida. registrado na contabilidade da adquirente (desdobrado em patrimônio líquido e, obviamente, o ágio em si); c) a incorporação reversa da holding pela Serasa S/A, concretizandose, neste particular, a confusão patrimonial exigida pelo art. 386 do Decreto 3.000/99 que, ao fim e ao cabo, permitiu a amortização do ágio, objeto desta demanda. O fundamento único, digase, utilizado pela D. Auditoria para inquinar de ilegalidade as operações acima, e, consentaneamente, para glosar as despesas deduzidas pela recorrente a título de amortização de ágio, foi o uso de uma "empresa de passagem", de vida curta, para efetuarse a aquisição do investimento mencionado alhures; ao ver da fiscalização, da DRJ, da PGFN e, também, do D. Relator, a criação de aludida empresa veículo não teria, em Fl. 2717DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.718 55 si, um fundamento econômico suficiente para justificar os negócios pactuados, tal qual como concebidos, identificandose, assim, um intuito exclusivamente fiscal. Venia concessa, mas tal entendimento, na minha opinião e com o devido respeito aos que dela divergem, a criação de uma empresa de passagem para a aquisição, por empresas estrangeiras, de investimento lotado em território nacional está adstrita à liberdade de reorganização empresarial, calcada, inclusive, na garantia constitucional encartada no art. 170 da CF88. Dizerse, neste particular, que determinadas companhias estrangeiras estão obrigadas à efetuar a compra de ativos instalados no Brasil de forma direta e sem interposição de qualquer outra entidade, revela, insisto, na minha visão, pretensão de pautar a estrutura societária e institucional de entes privados. Mais que isso, vale o destaque, o simples fato de se verificar o uso de uma empresa veículo, não é, per se, suficiente para retirar dos negócios pactuados, sob a ótica fiscal, a necessária substância econômica dos negócios, mormente quando, as próprias "normas" (entendase "orientações") contábeis usualmente invocadas para considerar inválidas determinadas operações societárias, admitem, de forma explícita, o uso de empresas veículos na combinação de negócios. É o que se infere do item 27 do CPC 15, cujo teor reproduzo a seguir: Nos casos em que há incorporações da controlada na controladora e que a controladora é somente uma empresa “veículo” sem operações, o saldo do ágio deve ser baixado, por meio de provisão, em contrapartida ao patrimônio líquido, no momento da incorporação. Quando aplicável e houver evidência de recuperação devem ser registrados o imposto de renda e a contribuição social diferidos ativos, de acordo com as práticas contábeis sobre esse tipo de ativo. Daí, também, se verificar a existência de decisões deste mesmo Conselho afirmando que, o simples uso de empresasveículo, não afasta, de per si, o propósito negocial inerente às operações societárias idealizadas para, além da própria reorganização institucional, aproveitar determinados ganhos do ponto de vista tributário: PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO. PROPÓSITO NEGOCIAL. EMPRESAVEÍCULO. Os dispositivos legais concernentes ao registro e amortização do ágio fiscal não vedam que as operações societárias sejam realizadas, única e exclusivamente, com fins ao aproveitamento do ágio. Bem como, notase que tal regra não está presente em nenhum outro dispositivo legal de nosso sistema jurídico, seja nacional ou federal. Neste tom, registrase, nenhuma norma pátria veda que a realização de negócios tenha por finalidade a redução da carga tributária de forma lícita. É o que se observa no §3º, art. 2 o da Lei das SA, o qual dispõe que a companhia pode ter por objeto participar de outras sociedades (empresa veículo), também, como forma de beneficiarse de incentivos fiscais. Somese a tal assertiva o fato de que a contribuinte possuía motivação negocial, clara, posto que encontravase impedida, por regras da ANEEL, de realizar a incorporação diretamente. Fl. 2718DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.719 56 Motivo pelo qual se valeu de uma empresa veículo. (Acórdão nº 1302001.978;Relatora: Talita Pimenta Felix; Data da Sessão: 14/09/2016) REQUISITOS PARA DEDUTIBILIDADE DO ÁGIO. EXISTÊNCIA DE PROPÓSITO NEGOCIAL. Ausente conduta tida como simulada, fraudulenta ou dolosa, a busca de eficiência fiscal em si não configura hipótese de perda do direito de dedução do ágio, ainda que tenha sido a única razão aparente da operação. A existência de outras razões de negócio que vão além do benefício fiscal, apenas ratifica a validade e eficácia da operação. UTILIZAÇÃO DE EMPRESA VEÍCULO. LEGALIDADE. MANUTENÇÃO DA DEDUTIBILIDADE DO ÁGIO. A utilização de empresa veículo que viabilize o aproveitamento do ágio, por si só, não desfigura a operação e invalida a dedução do ágio, se ausentes a simulação, dolo ou fraude. (Acórdão nº 1201001.507; Relator: Luis Fabiano Alves Penteado; Data da Sessão: 14/09/2016). Insisto e repiso que, se estivéssemos diante de uma sucessão de operações criadas de sorte a tentar ocultar fatos ou dissimular atos (na acepção estritamente objetiva e técnica do art. 167 do Código Civil), sem o emprego de recursos em espécie e sem se observar efeitos concretos tanto sob o plano econômicosocietário, como no plano fiscal, o uso da empresa veículo poderia ser considerado como prova adicional da ausência de substância econômica dos negócios (ou ausência do alardeado "intento negocial"); não é, contudo, o que se observa no caso em testilha. Lado outro, como afirmado acima, ainda que os valores utilizados na aquisição da recorrente tenham advindo de empresas situadas no exterior, tais valores foram enviados ao Brasil pelo canais legais e obrigatórios e, uma vez empregados, geraram, ganho de capital oferecido à tributação (documento 56, acostado à impugnação à efls. 2.394 e 2.395). Este fato, na minha concepção, é suficiente inclusive para afastar eventual alegação de simulação (ou, de outra sorte, terseia que admitir, também, o direito da empresa adquirida pleitear a restituição do IR/recolhido sob o aludido ganho de capital dado que o imposto não pode incidir sobre fato ilícito, conforme definição do art. 3º do CTN). Em resumo, não vejo nas operações aqui tratadas qualquer mácula que possa, a luz dos preceitos dos artigos 116, parágrafo único, e 167 do Código Civil, autorizar a desconsideração dos negócios avençados, dotados que foram de efeitos econômicos e tributários concretizados. As despesas com amortização de ágio licitamente formado, o foram com a estrita observâncias das regras encartadas nos artigos 7º e 8º da Lei 9.532, pelo que, entendo, descabível a sua glosa, venia concessa. Por tais razões, voto pelo provimento integral do recurso voluntário. (assinado digitalmente) Gustavo Guimarães da Fonseca Fl. 2719DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.720 57 Declaração de Voto Conselheiro Luiz Tadeu Matosinho Machado Em que pese o bem fundamentado voto, do i. conselheiro relator, entendo que, desta feita, se está diante de uma operação de aquisição de participação societária em que foi gerado um ágio que atende aos requisitos de amortização como despesas, nos termos da legislação fiscal. A acusação fiscal, no presente caso, centrouse na utilização, por parte de duas empresas estrangeiras que integram o mesmo grupo econômico, de uma empresa veículo para a aquisição da participação societária de uma empresa brasileira, com o único propósito de economia tributária e que a falta de outros propósitos negociais na utilização dessa empresa, vicia a operação do ponto de vista tributário, e impede o reconhecimento e a dedução do ágio pago. A fiscalização aponta que a real adquirente da participação societária na empresa Serasa, não seria a empresa Experian Brasil Aquisições Ltda (empresa veículo), mas sim duas empresas do grupo Experian situadas no exterior (GUS EUROPE HOLDINGS BV e GUS OVERSEAS HOLDINGS BV), que foram as responsáveis pela capitalização da sua controlada no Brasil. Ressalta, também, a fiscalização o curto espaço de duração da empresa Experian Brasil e a incorporação reversa ocorrida como elementos demonstrativos da falta de substância econômica daquela empresa na operação. A recorrente, por sua vez, defende a dedutibilidade do ágio, na medida em que a aquisição ocorreu entre partes não relacionadas (independentes: 40 vendedores); que houve efetivo pagamento (por meio de 57 TEDs); que houve a tributação de ganho de capital pelos vendedores; que foram apresentados os estudos prévios quanto à rentabilidade futura que deu ensejo ao pagamento do ágio, confirmados em laudos posteriores; que existiram propósitos negociais na aquisição. Com relação à utilização da holding Experian Brasil para efetuar a aquisição, a recorrente aponta que esta tinha entre seus propósitos: 1 o pagamento local do preço a um número indeterminado de vendedores (57 TEDs a 40 vendedores); 2 mitigar riscos financeiros de variação cambial; 3 facilitar registro de investimento no Banco Central; 4 adquirir investimentos com recursos próprios; e, 5 confidencialidade dos banco de dados Experian. Com relação ao fundamento principal da autuação, concernente à utilização de empresa veículo como forma de viabilizar a posterior amortização do ágio pago, entendo que estando devidamente comprovado nos autos que houve o efetivo pagamento (sacrifício patrimonial) para a aquisição do investimento por parte da empresa adquirente e tendo a própria lei reguladora permitido a incorporação reversa para fins de amortização da despesa, a forma utilizada pela recorrente para a realização do negócio encontrase dentro dos limites da liberdade de organização de seus negócios, não lhe sendo vedado utilizar aquela que lhe propicie, dentro do ordenamento legal, o menor custo tributário (maior vantagem tributária, em verdade). Fl. 2720DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.721 58 É oportuno registrar que não estou entre aqueles que defendem que os contribuintes podem fazer tudo que a lei não veda. Entendo que os negócios jurídicos realizados devem respeitar os princípios da boafé e a função social da empresa. Assim, não se admitem negócios puramente formais, sem qualquer substância, que visam unicamente a obtenção de benefícios fiscais, como os observados na criação de ágio em operações internas ao grupo econômico. No presente caso, entendo que a operação se amolda à previsão legal que autoriza a amortização do ágio. Existe um valor efetivamente pago que supera o valor patrimonial, amparado na expectativa de rentabilidade futura. Por outro lado, a adquirente foi absorvida por incorporação pela adquirida, verificandose a confusão patrimonial exigida por lei para viabilizar a amortização da despesa. Neste passo, com a devida vênia do entendimento fiscal e do adotado pelo i. relator, o meu entendimento é o de que a utilização da empresa chamada "veículo" para a aquisição do investimento encontra respaldo no ordenamento societário e fiscal e, efetivamente, encontrase dentro da esfera de liberdade que a empresa tem para conduzir os seus negócios, inclusive de modo a lhe propiciar o menor custo ou a maior vantagem tributária. Notese que o negócio de compra e venda é real. O que se discute é se o contribuinte poderia adotar a estrutura societária que utilizou para a sua concretização. Ora, ao par dos motivos apresentados pela recorrente quanto a utilização da empresa holding, ainda que esta tenha tido efêmera existência, o objetivo de aproveitar o benefício fiscal do ágio, previsto nos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 (arts. 385 e 386 do RIR/1999), me parece legítimo neste caso e é parte da própria estruturação do negócio realizado, levando em conta o ordenamento societário e fiscal. Entendo que a lei fiscal deve ser interpretada, especialmente aquelas que tratam de renúncia fiscal, em consonância com seus objetivos, não se limitando à sua literalidade. Daí meu entendimento no sentido de afastar a sua aplicação em operações internas, realizadas entre partes dependentes, sem qualquer sacrifício patrimonial e justificativa econômica. No entanto, não se pode buscar um sentido à lei que a afaste dos institutos que ela pretende regular ou a eles se refira. No presente caso, a possibilidade legal de aproveitamento do ágio (uma vez que este tenha ocorrido e sido demonstrado legitimamente) decorre da absorção do patrimônio de um pessoa jurídica pela outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio apurado na forma do § 2º. Inc II do art. 385 do RIR/1999, inclusive quando a empresa incorporada, fusionada ou cindida for aquela que detinha a participação. Assim dispõe o art. 386 do RIR/1999: Art. 386. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no artigo anterior (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, e Lei nº 9.718, de 1998, art. 10): Fl. 2721DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.722 59 I deverá registrar o valor do ágio ou deságio cujo fundamento seja o de que trata o inciso I do § 2º do artigo anterior, em contrapartida à conta que registre o bem ou direito que lhe deu causa; II deverá registrar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso III do § 2º do artigo anterior, em contrapartida a conta de ativo permanente, não sujeita a amortização; III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do § 2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; IV deverá amortizar o valor do deságio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do § 2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração do lucro real, levantados durante os cinco anoscalendário subseqüentes à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no mínimo, para cada mês do período de apuração. § 1º O valor registrado na forma do inciso I integrará o custo do bem ou direito para efeito de apuração de ganho ou perda de capital e de depreciação, amortização ou exaustão (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, § 1º). § 2º Se o bem que deu causa ao ágio ou deságio não houver sido transferido, na hipótese de cisão, para o patrimônio da sucessora, esta deverá registrar (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, § 2º): I o ágio em conta de ativo diferido, para amortização na forma prevista no inciso III; II o deságio em conta de receita diferida, para amortização na forma prevista no inciso IV. § 3º O valor registrado na forma do inciso II (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, § 3º): I será considerado custo de aquisição, para efeito de apuração de ganho ou perda de capital na alienação do direito que lhe deu causa ou na sua transferência para sócio ou acionista, na hipótese de devolução de capital; II poderá ser deduzido como perda, no encerramento das atividades da empresa, se comprovada, nessa data, a inexistência do fundo de comércio ou do intangível que lhe deu causa. § 4º Na hipótese do inciso II do parágrafo anterior, a posterior utilização econômica do fundo de comércio ou intangível sujeitará a pessoa física ou jurídica usuária ao pagamento dos tributos ou contribuições que deixaram de ser pagos, acrescidos Fl. 2722DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.723 60 de juros de mora e multa, calculados de conformidade com a legislação vigente (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, § 4º). § 5º O valor que servir de base de cálculo dos tributos e contribuições a que se refere o parágrafo anterior poderá ser registrado em conta do ativo, como custo do direito (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, § 5º). § 6º O disposto neste artigo aplicase, inclusive, quando (Lei nº 9.532, de 1997, art. 8º): I o investimento não for, obrigatoriamente, avaliado pelo valor do patrimônio líquido; II a empresa incorporada, fusionada ou cindida for aquela que detinha a propriedade da participação societária. § 7º Sem prejuízo do disposto nos incisos III e IV, a pessoa jurídica sucessora poderá classificar, no patrimônio líquido, alternativamente ao disposto no § 2º deste artigo, a conta que registrar o ágio ou deságio nele mencionado (Lei nº 9.718, de 1998, art. 11). Analisando o dispositivo acima, verificase que a confusão patrimonial decorre da absorção do patrimônio de uma pessoa jurídica pela outra. É este o requisito que, uma vez atendido, permite a utilização do benefício de amortização antecipada do ágio pago. E, no caso, concreto, a pessoa jurídica que detinha o investimento era, indubitavelmente, a empresa holding que foi a responsável pela aquisição da participação societária no Brasil, ainda que os recursos tenham vindo, confessadamente, de empresas situadas no exterior. Portanto, os reais detentores do investimento no Brasil eram as empresas do grupo Experian situadas no exterior, mas ao contrário do que sustenta a fiscalização e o i. relator do voto vencido, a lei não estabelece a confusão patrimonial entre investidora (de fato) e investida, mas, sim e expressamente, entre a "pessoa jurídica" que detém a participação societária na outra "pessoa jurídica" adquirida com ágio com esta última, ou viceversa, por meio de processos de incorporação, fusão ou cisão. A figura da companhia holding encontrase prevista no art. 2º, § 3º da Lei nº 6.404/1976 (Lei das S/A), verbis: Art. 2º Pode ser objeto da companhia qualquer empresa de fim lucrativo, não contrário à lei, à ordem pública e aos bons costumes. § 1º Qualquer que seja o objeto, a companhia é mercantil e se rege pelas leis e usos do comércio. § 2º O estatuto social definirá o objeto de modo preciso e completo. § 3º A companhia pode ter por objeto participar de outras sociedades; ainda que não prevista no estatuto, a participação é Fl. 2723DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.724 61 facultada como meio de realizar o objeto social, ou para beneficiarse de incentivos fiscais. Da mesma forma os institutos da incorporação, fusão e cisão, estão previstos em diversos dispositivos da Lei nº 6.404/1976, em especial os seguintes: Art. 227. A incorporação é a operação pela qual uma ou mais sociedades são absorvidas por outra, que lhes sucede em todos os direitos e obrigações. [...] Art. 228. A fusão é a operação pela qual se unem duas ou mais sociedades para formar sociedade nova, que lhes sucederá em todos os direitos e obrigações. [...] Art. 229. A cisão é a operação pela qual a companhia transfere parcelas do seu patrimônio para uma ou mais sociedades, constituídas para esse fim ou já existentes, extinguindose a companhia cindida, se houver versão de todo o seu patrimônio, ou dividindose o seu capital, se parcial a versão. Com efeito, todos estes institutos estão expressamente previstos na lei comercial, não podendo ter a sua definição, conteúdo e alcance serem interpretados de forma diversa para definição de seus efeitos tributários, nos termos dos art. 109 e 110 do CTN1. A referência às companhias e sociedades pela Lei das S/A, que detém participações em outras companhias e às operações societárias (incorporação, fusão e cisão), acima descritas, remetem à relação imediata de umas com as outras sociedades, independente do seu controle direto ou indireto por outras pessoas jurídicas. Dito de outro modo. A lei regula, por meio dos dispositivos citados, institutos que disciplinam o objeto das sociedades mercantis e suas transformações em caráter individual, como entidades autônomas, não importando sua condição dentro de um grupo econômico ou quem detenha o seu controle. Ora, a lei tributária, nos casos os arts. 385 e 386 do RIR/1999 (amparados nos arts. 7ª e 8º da Lei nº 9.532/1997), simplesmente remete a estes institutos previstos na lei comercial para fins de definição do benefício fiscal de amortização antecipada do ágio, não existindo espaço para interpretálos de forma diversa. 1 CTN: Art. 109. Os princípios gerais de direito privado utilizamse para pesquisa da definição, do conteúdo e do alcance de seus institutos, conceitos e formas, mas não para definição dos respectivos efeitos tributários. Art. 110. A lei tributária não pode alterar a definição, o conteúdo e o alcance de institutos, conceitos e formas de direito privado, utilizados, expressa ou implicitamente, pela Constituição Federal, pelas Constituições dos Estados, ou pelas Leis Orgânicas do Distrito Federal ou dos Municípios, para definir ou limitar competências tributárias. Fl. 2724DF CARF MF Processo nº 16561.720143/201691 Acórdão n.º 1302002.634 S1C3T2 Fl. 2.725 62 Decorre daí, também, o meu entendimento já manifestado em outros julgamentos, quanto a impossibilidade de transferência do ágio pago por uma empresa para outra criada unicamente para permitir o aproveitamento fiscal do ágio. Embora considere que a previsão legal que autoriza a amortização antecipada do investimento como despesa, conflite com princípios de justiça fiscal em face dos demais contribuintes, e, ainda, que não se justifica tal incentivo tanto do ponto de vista da política fiscal quanto do ponto de vista econômico, entendo que enquanto vigente a lei, nos casos que nela se enquadrem, tal dedução deve ser respeitada pelo Fisco. Diante desses pressupostos, estando, ao meu ver, atendidos os requisitos para a dedutibilidade do ágio no presente caso, a glosa efetuada pela fiscalização deve ser cancelada. Ante ao exposto, voto por dar provimento ao recurso voluntário quanto a este ponto da autuação. (assinado digitalmente) Luiz Tadeu Matosinho Machado Fl. 2725DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10880.720108/2006-10
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Oct 20 00:00:00 UTC 2011
Ementa: Processo Administrativo Fiscal
Ano calendário: 2003
DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. PER/DCOMP. ÔNUS DA PROVA.
É ônus processual do contribuinte fazer prova dos fatos alegados em contraposição à pretensão fiscal.
Assunto: Compensação
Ano calendário: 2003
DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. PER/DCOMP.
Não são aceitas PER/DCOMP que declaram compensação de estimativa
mensal de IRPJ e CSLL com saldo negativo de IRPJ do mesmo ano calendário da estimativa.
Recurso Voluntário desprovido.
Numero da decisão: 1402-000.773
Decisão: ACORDAM os membros da 4ª câmara / 2ª turma ordinária da primeira SEÇÃO DE JULGAMENTO, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado.
Nome do relator: Carlos Pelá
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ementa_s : Processo Administrativo Fiscal Ano calendário: 2003 DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. PER/DCOMP. ÔNUS DA PROVA. É ônus processual do contribuinte fazer prova dos fatos alegados em contraposição à pretensão fiscal. Assunto: Compensação Ano calendário: 2003 DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. PER/DCOMP. Não são aceitas PER/DCOMP que declaram compensação de estimativa mensal de IRPJ e CSLL com saldo negativo de IRPJ do mesmo ano calendário da estimativa. Recurso Voluntário desprovido.
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PER/DCOMP. ÔNUS DA PROVA. É ônus processual do contribuinte fazer prova dos fatos alegados em contraposição à pretensão fiscal. Assunto: Compensação Anocalendário: 2003 DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. PER/DCOMP. Não são aceitas PER/DCOMP que declaram compensação de estimativa mensal de IRPJ e CSLL com saldo negativo de IRPJ do mesmo ano calendário da estimativa. Recurso Voluntário desprovido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Fl. 260DF CARF MF Impresso em 08/02/2012 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 01/02/2012 por CARLOS PELA, Assinado digitalmente em 01/02/2012 por CARL OS PELA, Assinado digitalmente em 08/02/2012 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA Processo nº 10880.720108/200610 Acórdão n.º 140200.773 S1C4T2 Fl. 2 2 ACORDAM os membros da 4ª câmara / 2ª turma ordinária da primeira SSEEÇÇÃÃOO DDEE JJUULLGGAAMMEENNTTOO, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. (assinado digitalmente) Albertina Silva dos Santos Lima Presidente (assinado digitalmente) Carlos Pelá Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Antônio José Praga de Souza, Carlos Pelá, Frederico Augusto Gomes de Alencar, Moisés Giacomelli Nunes da Silva, Leonardo Henrique Magalhães de Oliveira e Albertina Silva Santos de Lima. Relatório Tratase de manifestação de inconformidade, apresentada pela contribuinte contra Despacho Decisório, proferido pela Divisão de Orientação e Análise Tributária/EQPIR, da Delegacia de Administração Tributária em São Paulo DERAT (fls. 120 a 126), que reconheceu parcialmente o direito creditório da contribuinte, homologando parcialmente as DCOMP's apresentadas, todas relativas ao saldo credor de IRPJ do anocalendário de 2003. Esclareçase, para logo, que a contribuinte solicitou, por meio dos PER/DCOMP relacionados a seguir, a compensação de débitos no valor total de R$ 1.151.931,39 (um milhão, cento e cinqüenta e um mil, novecentos e trinta e um reais e trinta e nove centavos), com crédito de saldo negativo de IRPJ do anocalendário 2003. Processo Total de débitos 41300.86764.180309.1.7.023900 (Retificadora em 18/03/2009 Exercício 2004) 08371.47816.270804.1.7.02.8952 (Retificadora em 27/08/2004 Exercício 2003) 04796.81213.130704.1.3.029068 (Original em 13/07/2004 Exercício 2003) 491.803,74 27341.71741.200707.1.3.021275 (original em 31/12/2003 Exercício 2004) 13.176,05 01639.13951.180309.1.7.023170 (Retificadora em 18/03/2009 Exercício 2004) 06879.94115.190307.1.7.023591 (Retificadora em 19/03/2007 Exercício 2004) 10275.98739.290606.1.3.023003 (original em 29/06/2003 Exercício 2004) 77.063,20 13816.36928.180309.1.7.025640 (Retificadora em 18/03/2009 Exercício 2004) 01897.65129.200707.1.3.022831 (Original em 20/07/2007 Exercício 2004) 569.888,40 1.151.931,39 Fl. 261DF CARF MF Impresso em 08/02/2012 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 01/02/2012 por CARLOS PELA, Assinado digitalmente em 01/02/2012 por CARL OS PELA, Assinado digitalmente em 08/02/2012 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA Processo nº 10880.720108/200610 Acórdão n.º 140200.773 S1C4T2 Fl. 3 3 A 5ª Turma da DRJ/SP1 julgou procedente em parte a manifestação de inconformidade da contribuinte para reconhecer, adicionalmente, o direito creditório no valor de R$ 865.386,90, oriundo de Imposto de Renda retido na fonte (IRRF). Entretanto, a decisão recorrida não reconheceu o valor de R$ 109.606,84, referente a suposto crédito oriundo de saldo negativo de IRPJ recolhido por estimativa, uma vez que o referido crédito, "sendo estimativa de IRPJ de janeiro de 2003, não poderia ter sido oferecido à compensação com saldo do próprio anocalendário 2003". Nesse passo, a contribuinte apresenta recurso voluntário para contestar, tão somente, a parcela não homologada. Transcrevo trecho de sua peça (fls. 182/189): No anocalendário de 2003, ao invés de auferir lucro, a Empresa obteve prejuízo fiscal, não apurando IRPJ, antes de descontar as deduções, por conseguinte, obteve crédito de saldo negativo de IRPJ (R$ 109.606,84), além de crédito de IRRF (R$ 891.526,97), oriundo de rendimentos de aplicação financeira. Totalizando um crédito em favor da Recorrente no montante de R$ 1.001.133,81 (Hum milhão e mil cento e trinta e três reais e oitenta e um centavos) devidamente declarado em sua DIPJ 2004 (Ano Calendário 2003). 0 que ensejou a elaboração dos PER/DCOMP's, objeto da presente, para compensar o aludido crédito de Imposto de Renda que lhe é devido. Ocorre que o citado acórdão (n° 1625.501), da lavra da 5ª Turma da DRJ/SP01, não reconheceu como crédito da Recorrente, passível de compensação, os valores (R$ 109.606,84) referentes ao saldo negativo de IRPJ mensal pago por estimativa. Sob o fundamento de que tal crédito de R$ 109.606,84 (Cento e nove mil, seiscentos e seis reais e oitenta e quatro centavos), sendo estimativa de IRPJ de janeiro de 2003, não poderia ter sido oferecido à compensação com saldo do próprio anocalendário 2003. No entanto, conforme demonstraremos nas seguintes razões de direito, descabe tal alegação da 5ª Turma da DRJ/SP01, isso porque boa parte desse crédito (R$ 109.606,84) não se origina propriamente de estimativa de janeiro de 2003, mas se constitui de saldo acumulado (R$ 93.799,10) de estimativa de IRPJ do ano de 2002, que conforme determina a legislação de regência (caso não utilizado) é transferido para o ano seguinte. (...) Neste sentido, conforme se depreende claramente a partir da análise da D1PJ 2003 (AnoCalendário: 2002) através da Ficha 11 Pags. 8 a 10 (acostada aos autos através do presente recurso com fulcro no artigo 16, § 4º , "c" do Decreto n° 70.235/72), o saldo que a 5ª Turma da DRJ/SPO1 (no importe de R$ 93.799,10) afirma ser de janeiro de 2003, na verdade foi constituído em maio de 2002 e foi sendo transferido de mês a mês até ser incorporado a janeiro de 2003. Fl. 262DF CARF MF Impresso em 08/02/2012 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 01/02/2012 por CARLOS PELA, Assinado digitalmente em 01/02/2012 por CARL OS PELA, Assinado digitalmente em 08/02/2012 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA Processo nº 10880.720108/200610 Acórdão n.º 140200.773 S1C4T2 Fl. 4 4 É o Relatório. Voto Conselheiro CARLOS PELÁ, Relator O recurso atende a todos os pressupostos de admissibilidade. Deve, pois, ser conhecido. Verificase do PER/DCOMP 04796.81213.130704.1.3.029068, que parte do débito declarado referese a IRPJ estimativa de Janeiro de 2003 no valor de R$ 109.606,84. Além disso, também fora compensado R$ 42.552,86 relativamente à CSLL estimativa de Janeiro de 2003. Os demais valores compensados referemse a PIS, COFINS, IR e CSLL estimativa, todos do anocalendário 2002. Por sua vez, o PER/DCOMP 08371.47816.270804.1.7.02.8952, retificador do PER/DCOMP 04796.81213.130704.1.3.029068, indica as mesmas compensações acima mencionadas. Contudo, em virtude de erro na informação do valor principal de um dos débitos que estava sendo compensado, o valor total dos débitos informados no PER/DCOMP aumentou de R$ 491.803,74 para 491.805,13. Na intimação de fl. 49, a Recorrente noticia que o PER/DCOMP 08371.47816.270804.1.7.02.8952, que retificou a DCOMP 04796.81213.130704.1.3.02.9068, diz respeito, na verdade, ao saldo negativo de IRPJ apurado no anocalendário 2003, conforme DIPJ/2004, e não ao Exercício 2003, anocalendário 2002, como erroneamente constou naquele PER/DCOMP. Assim, a Recorrente, em 18/03/2009, novamente retificou o PER/DCOMP 04796.81213.130704.1.3.02.9068, corrigindo o equívoco, consoante PER/DCOMP retificador nº. 41300.86764.180309.1.7.023900. Entretanto, esse último PER/DCOMP retificador continua noticiando a compensação de débitos de IRPJ e CSLL estimativa de Janeiro de 2003 com créditos do ano calendário 2003 (Exercício 2004). Logo, mantenho o entendimento da decisão recorrida, pois, ainda que por força do princípio da verdade material se aceite a retificação levada a cabo em 18/03/2009, débitos do anocalendário 2003 não poderiam ter sido compensados com crédito oriundo de saldo negativo de IRPJ do anocalendário de 2003. Transcrevo trecho da decisão recorrida neste ponto: E ainda, como o auditor fiscal apontou, não é possível compensar estimativa mensal de IRPJ com saldo negativo de IRPJ desse mesmo ano, pois essa estimativa estaria sendo compensada com saldo negativo ainda não existente, ou seja, somente ao final do período de apuração, seria possível saber o valor do saldo negativo de IRPJ e somente ai seria possível utilizálo para compensação. Fl. 263DF CARF MF Impresso em 08/02/2012 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 01/02/2012 por CARLOS PELA, Assinado digitalmente em 01/02/2012 por CARL OS PELA, Assinado digitalmente em 08/02/2012 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA Processo nº 10880.720108/200610 Acórdão n.º 140200.773 S1C4T2 Fl. 5 5 Assim a compensação de R$ 109.606,84, não será considerada como tendo sido feita. Neste tocante, alega a Recorrente que parte do crédito utilizado para pagamento dos débitos de IRPJ e CSLL referentes a Janeiro de 2003, no valor de R$ 93.799,10, não seriam, em verdade, créditos do anocalendário 2003, mas, sim, do ano calendário 2002. Para provar o alegado, a Recorrente traz aos autos a DIPJ 2003, conforme fls. 207/209. Digase também, por oportuno, que a Recorrente nada alega sobre o valor de R$ 15.807,74, correspondente a diferença do crédito por ela compensado no PER/DCOMP em questão. Analisando a DIPJ 2003, verificase que a mesma está incompleta, faltando, principalmente, as páginas que correspondem à discriminação do Imposto de Renda mensal por estimativa dos meses de janeiro, fevereiro e março, bem assim como a ficha de apuração do Imposto de Renda a pagar naquele anocalendário. Dessa forma, do que se pode conferir, existe, em dezembro de 2002, um saldo negativo de Imposto de Renda a pagar de R$ 93.799,10. Com efeito, não anexou a Recorrente aos autos os comprovantes de recolhimento de IRPJ estimativa que formam o saldo de recolhimento a maior de R$ 93.799,10 no anocalendário de 2002. Por assim ser, entendo que não logrou a Recorrente comprovar suas alegações, mormente de que o PER/DCOMP em questão estaria eivado de erro mesmo após duas retificações , já que crédito utilizado para pagamento dos débitos de IRPJ e CSLL estimativa de Janeiro de 2003 não seriam do anocalendário 2003, mas, sim, do anocalendário 2002. É importante ressaltar que, quando a matéria "sub judice" se restringe à compensação de créditos tributários, a incumbência principal do julgador se resume em avaliar as provas apresentadas pelo contribuinte para comprovação do direito creditório alegado. Isso porque, a regra do art. 16, III, do Decreto 70.235/72 é clara ao dispor que cabe ao contribuinte a prova dos fatos alegados em contraposição à pretensão fiscal. Desse modo, não tendo a recorrente, tanto na impugnação, quanto no recurso voluntário, apresentado os documentos hábeis à comprovação dos fatos alegados, não é possível aferir a certeza e a liquidez do crédito tributário pleiteado, que são requisitos legais indispensáveis à compensação tributária (art. 170 do CTN). Posto isso, voto no sentido de negar provimento ao recurso para manter a nãohomologação do crédito de R$ 109.606,84 pleiteado pela Recorrente. (assinado digitalmente) Carlos Pelá Fl. 264DF CARF MF Impresso em 08/02/2012 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 01/02/2012 por CARLOS PELA, Assinado digitalmente em 01/02/2012 por CARL OS PELA, Assinado digitalmente em 08/02/2012 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA Processo nº 10880.720108/200610 Acórdão n.º 140200.773 S1C4T2 Fl. 6 6 Fl. 265DF CARF MF Impresso em 08/02/2012 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 01/02/2012 por CARLOS PELA, Assinado digitalmente em 01/02/2012 por CARL OS PELA, Assinado digitalmente em 08/02/2012 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA
score : 1.0
Numero do processo: 10425.721604/2014-60
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Feb 28 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Apr 11 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2012
DEDUÇÃO. PENSÃO ALIMENTÍCIA JUDICIAL. FILHOS.
Para fins de dedução do IRPF, a pensão alimentícia deve ser paga a filhos em decorrência de obrigação judicial comprovadamente vigente no ano-calendário da declaração e nos limites estipulados na decisão ou acordo judicial. Súmula CARF nº 98.
Numero da decisão: 2002-000.016
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(Assinado digitalmente)
Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez - Presidente
(Assinado digitalmente)
Fábia Marcília Ferreira Campêlo - Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez, Fábia Marcília Ferreira Campêlo, Thiago Duca Amoni e Virgilio Cansino Gil.
Nome do relator: FABIA MARCILIA FERREIRA CAMPELO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2012 DEDUÇÃO. PENSÃO ALIMENTÍCIA JUDICIAL. FILHOS. Para fins de dedução do IRPF, a pensão alimentícia deve ser paga a filhos em decorrência de obrigação judicial comprovadamente vigente no ano-calendário da declaração e nos limites estipulados na decisão ou acordo judicial. Súmula CARF nº 98.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (Assinado digitalmente) Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez - Presidente (Assinado digitalmente) Fábia Marcília Ferreira Campêlo - Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez, Fábia Marcília Ferreira Campêlo, Thiago Duca Amoni e Virgilio Cansino Gil.
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 8; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1320; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S2C0T2 Fl. 83 1 82 S2C0T2 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS SEGUNDA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 10425.721604/201460 Recurso nº Voluntário Acórdão nº 2002000.016 – Turma Extraordinária / 2ª Turma Sessão de 28 de fevereiro de 2018 Matéria IRPF PENSÃO ALIMENTÍCIA Recorrente JOSÉ JANUÁRIO FILHO Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2012 DEDUÇÃO. PENSÃO ALIMENTÍCIA JUDICIAL. FILHOS. Para fins de dedução do IRPF, a pensão alimentícia deve ser paga a filhos em decorrência de obrigação judicial comprovadamente vigente no ano calendário da declaração e nos limites estipulados na decisão ou acordo judicial. Súmula CARF nº 98. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (ASSINADO DIGITALMENTE) Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez Presidente (ASSINADO DIGITALMENTE) Fábia Marcília Ferreira Campêlo Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez, Fábia Marcília Ferreira Campêlo, Thiago Duca Amoni e Virgilio Cansino Gil. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 42 5. 72 16 04 /2 01 4- 60 Fl. 83DF CARF MF Processo nº 10425.721604/201460 Acórdão n.º 2002000.016 S2C0T2 Fl. 84 2 Relatório Lançamento Tratase de notificação de lançamento de IRPF nos seguintes valores (fl. 29): Rubrica Valor em reais Imposto 4.667,74 Multa de ofício 3.500,80 Juros de mora 540,99 Total à época 8.709,53 O lançamento decorreu da glosa de R$ 29.450,83 deduzido a título de pensão alimentícia judicial. De acordo com a descrição dos fatos (fl. 30): O direito de deduzir dos rendimentos tributáveis os valores pagos aos filhos a título de pensão alimentícia cessa a partir da maioridade, salvo se comprovada incapacidade física ou mental para o trabalho ou, quando maiores até 24 anos, estejam cursando estabelecimento de ensino superior. Eventuais repasses financeiros efetuados pelos pais aos filhos após o atingimento de sua maioridade decorrem de liberalidade. No presente caso, conforme informações dos sistemas da RFB e da Previdência Social, os filhos já completaram 32 e 30 anos no ano de 2012. Mantido o valor pago a título de pensão alimentícia à ex cônjuge, Umbelina Martins de Oliveira. Tempestividade da impugnação O prazo para impugnar é de 30 dias1. Considerando que o contribuinte tomou ciência do lançamento no dia 06/08/2014 (fl. 35) e protocolou sua peça no dia 28/08/2014 (fl. 2), verificase que a impugnação é tempestiva. Impugnação Em sua impugnação (fl. 2) o contribuinte alega, em síntese, que: o valor de R$ 29.450,83 referese a pagamento efetuado a título de pensão alimentícia judicial; segue anexo comprovante de rendimentos, sentença judicial e documento de identidade do signatário, notificações às fontes pagadoras (PREVI e INSS), mandando proceder ao desconto dos alimentos definitivos nos rendimentos do alimentante. Alega ainda que (fl. 17 e ss): teve 4 filhos com a senhora Umbelina com quem foi casado de 1973 a 1995; a Sra. Umbelina interpôs ação de alimentos na qual ficou determinado judicialmente com sentença homologatória transitada em julgado o pagamento de pensão 1 Art. 15 do Decreto 70.235/72 Fl. 84DF CARF MF Processo nº 10425.721604/201460 Acórdão n.º 2002000.016 S2C0T2 Fl. 85 3 alimentícia no percentual de 40% dos valores líquidos percebidos pelo requerente para a genitora e para os filhos menores, em 08 de agosto de 1993; em 28 de abril de 1999, foram exoneradas as filhas maiores Luana e Carla após contraírem núpcias, restando ainda os filhos Kenio e Kélia; em caso de separação judicial, são considerados dependentes os filhos que ficarem sob a guarda ou os determinados em sentença judicial ou homologação de acordo judicial, podendo o responsável pelo pagamento da pensão deduzir o valor efetivamente pago aos seus dependentes; cita jurisprudência do STJ; os pagamentos efetuados pelo requerente aos filhos pensionistas não decorrem de mera liberalidade, mas sim de cumprimento de decisão judicial transitada em julgado que em caso de descumprimento é passível de punição com pena de prisão; a exoneração dos alimentos não cessa simplesmente por ter o alimentando atingido a maioridade, mas somente com uma nova sentença judicial de exoneração de alimentos; cita súmula do STJ; esse entendimento se fundamenta no caso da necessidade do alimentando persistir após a maioridade e o alimentante continuar em condições financeiras de arcar com o ônus da obrigação alimentar, não havendo motivo para extinção da pensão alimentícia que deverá permanecer como antes; com a maioridade muda apenas o fundamento da obrigação alimentar que deixa de ser decorrente do dever de sustento e passa a ter como base o dever de solidariedade resultante do parentesco, art. 1.696 do Código Civil; as diversas hipóteses de emancipação previstas no Código Civil não acarretam, por si só, o término da obrigação alimentar, exceto no caso do casamento, por existir disposição legal específica sobre o assunto; corroborando a opinião jurídica é que o Regulamento do Imposto de Renda, reproduzindo dispositivo existente na legislação anterior, de que os filhos maiores até 24 anos que estejam cursando estabelecimento de ensino superior são considerados dependentes à luz do Direito Tributário, independente de decisão judicial; não existe nenhum critério científico para limitar o pagamento de pensão alimentícia ao filho somente até os 24 anos. A única referência legal aos 24 anos é a da norma supracitada; não faz sentido limitar um direito civil com base numa referência de legislação tributária, principalmente, como no presente caso, que existe uma determinação judicial; a vida forense está repleta de casos em que irmãos, tios, primos e sobrinhos obtêm pensão alimentícia apenas com base no binômio necessidade do alimentando e Fl. 85DF CARF MF Processo nº 10425.721604/201460 Acórdão n.º 2002000.016 S2C0T2 Fl. 86 4 possibilidade do alimentante. Seria antijurídico negar ao filho a mesma pensão alimentícia que se concede aos parentes colaterais; também não se pode ignorar o postulado da reciprocidade do dever alimentar entre pais e filhos (art. 1.696, Código Civil), sob pena de se incorrer em situações absurdas; o Código Civil não limita no tempo a duração do pagamento da pensão alimentícia; o Código Civil é uma lei ordinária enquanto o Regulamento do Imposto de Renda é um mero decreto, portanto inferior na hierarquia das normas legais; o Código Civil tem primazia para disciplinar a questão dos alimentos que se insere no Direito de Família, ramo do Direito Civil. O Regulamento do Imposto de Renda pertence ao Direito Tributário, não tendo como fundamentar qualquer decisão acerca do instituto civil dos alimentos, visto que, sendo uma regra de Direito Tributário, não guarda pertinência com a matéria alimentar. É incorreto misturar grandezas imiscíveis: alimentos pertencem ao Direito Civil, enquanto a tributação pertence ao Direito Tributário; Por fim requer que seja desconsiderado o procedimento de declaração de ajuste anual para recolhimento do valor lançado, por estar o requerente amparado legalmente pela legislação vigente. Documentos impugnação Após a impugnação constam os seguinte documentos: comprovante de rendimentos PREVI (fls. 3 e 4); comprovante de rendimentos INSS (fl. 5); sentença judicial (fl. 6 e ss); acórdão judicial (fl. 11 e ss); ofício nº 150 (fl. 14); ofício nº 149 (fl. 15); documento de identidade (fl. 16); Decisão de 1ª instância A Delegacia da Receita Federal de Julgamento (DRJ) julgou a impugnação improcedente, porque a pensão alimentícia foi concedida em favor dos filhos menores. A partir da maioridade o contribuinte poderia ter ingressado com ação de revisão de alimentos, como já havia procedido anteriormente. Indispensável assim que comprovasse a vigência da obrigação em 2012 através de certidão de objeto e pé da ação judicial. Não se trata, pois de restringir o direito do contribuinte à dedução de pensão paga a filhos maiores, mas sim do ônus que lhe incumbe de comprovar que a obrigação prevalecia no anocalendário a que se refere o lançamento (fl. 40). Fl. 86DF CARF MF Processo nº 10425.721604/201460 Acórdão n.º 2002000.016 S2C0T2 Fl. 87 5 Tempestividade do recurso voluntário O prazo para recorrer é de 30 dias2. Considerando que o contribuinte tomou ciência do acórdão de impugnação no dia 16/09/2016 (fl. 80) e protocolou sua peça no dia 06/10/2016 (fl. 47), verificase que o recurso voluntário é tempestivo. Recurso Voluntário Em seu recurso voluntário (fl. 48 e ss) o contribuinte alega, em síntese, que: que foi casado com a senhora Umbelina, com quem teve 4 filhos, tendo a relação chegado ao fim em 1995. Em 08/08/93, por meio de sentença homologatória, foi determinado o percentual de 40% dos valores líquidos percebidos pelo requerente, para a genitora e para os filhos menores. Após exoneração de alimentos das filhas Luana e Carla, restaram como dependentes os filhos, Kênio e Kélia; o art. 1.699 do Código Civil dispõe que "se fixados os alimentos, sobrevier mudança na situação financeira de quem os supre, ou na de quem os recebe, poderá o interessado reclamar ao juiz, conforme as circunstâncias, exoneração, redução ou majoração do encargo". Contudo, alega que não houve mudança da situação dos alimentandos, continuando assim a serem obrigatórios os alimentos; o responsável pelo pagamento da pensão pode deduzir do IRPF os valores pagos aos seus dependentes, sendo a dedução do imposto totalmente cabível e feita de boafé e de forma legal; os pagamentos efetuados não decorrem de mera liberalidade, mas sim de cumprimento de decisão judicial, que em caso de descumprimento é passível de punição com pena de prisão; citando a súmula 358 do STJ, alega que a exoneração de alimentos não cessa simplesmente por ter o alimentando atingido a maioridade, mas somente com uma nova sentença judicial de exoneração de alimentos, o que não ocorreu no caso em tela; a dedução se deu em decorrência de decisão judicial homologada, nos termos da alínea f, inc. II do art. 8º da Lei 9.250/1995; o Código Civil não limita a duração do pagamento da pensão alimentícia; o Código Civil é uma lei ordinária, enquanto o Regulamento do Imposto de Renda é um mero decreto, portanto inferior na hierarquia das normas legais; o Código Civil tem primazia para disciplinar a questão dos alimentos, que se insere no Direito de Família, ramo do Direito Civil, haja vista o critério da especialidade; o Regulamento do Imposto de Renda não tem como fundamentar qualquer decisão acerca do instituto civil dos alimentos, pois é regra do Direito Tributário, não guardando pertinência com a matéria alimentar; 2 art. 33 do Decreto 70.235, de 6 de março de 1972. Fl. 87DF CARF MF Processo nº 10425.721604/201460 Acórdão n.º 2002000.016 S2C0T2 Fl. 88 6 há reciprocidade do dever alimentar entre pais e filhos (art. 1.696, CC), sendo que a emancipação, por si só, não acarreta o término da obrigação alimentar; não há que se falar em aplicação de multa e juros, haja vista que as deduções da pensão alimentícia foram feita sempre de boafé e conforme a lei; Por fim, requer que seja desconsiderado o procedimento de declaração de ajuste anual para recolhimento de valor lançado, por estar o requerente amparado legalmente pela legislação vigente e que seja desconsiderada a aplicação de multa e juros, tendo em vista que as deduções foram informadas de boafé, e em cumprimento a sentença judicial homologada. Documentos recurso voluntário Após o recurso voluntário constam os seguinte documentos: intimação de ciência do acórdão da DRJ (fl. 56); cópia do acórdão da DRJ (fl. 57 e ss); demonstrativo de débito (fl. 59); DARF (fl. 60); comprovante de rendimentos INSS (fl. 61 e 64); informe de rendimentos Cooperforte Ltda (fl. 62 e 66); comprovante de rendimentos PREVI (fl. 63 e 69); demonstrativo de empréstimos e financiamentos PREVI (fl. 68); documento de identidade (fl. 70); sentença judicial (fl. 71 e ss); acórdão judicial (fl. 74 e ss); ofício nº 150 (fl. 77); ofício nº 149 (fl. 78). Voto Conselheira Fábia Marcília Ferreira Campêlo Relatora Admissibilidade O recurso é tempestivo, como acima demonstrado, e foi assinado pelo sujeito passivo, portanto dele conheço. Fl. 88DF CARF MF Processo nº 10425.721604/201460 Acórdão n.º 2002000.016 S2C0T2 Fl. 89 7 Mérito O direito de deduzir dos rendimentos tributáveis valores pagos aos filhos a título de pensão alimentícia é matéria de Direito Tributário e não de Direito Civil como alega o recorrente. A decisão judicial trazida aos autos, tem o seguinte dispositivo (fl. 73): Ex positis, para que produza seus legais efeitos, julgo por sentença, procedente a presente ação revisional, promovida por José Januário Filho, contra Umbelina Martins de Oliveira e filhos, isentando o autor de, doravante, continuar a prestar alimentos à Luana Martins de Sousa e a Carla Patrícia Martins de Sousa. Em consequência, reduzo a pensão anteriormente fixada em 40%, para 28% dos rendimentos mensais do alimentante (deduzidos descontos já estipulados), devendo este último percentual, destinarse agora, exclusivamente à sua ex consorte e filhos menores remanescente (Kênio Martins de Sousa e Kélia Martins de Sousa) Observase que a decisão supracitada concede pensão aos filhos menores e, conforme consta dos autos, à época da lavratura do lançamento, os filhos do recorrente já possuíam 32 e 30 anos de idade. Logo, esta decisão judicial não se aplica mais aos filhos que já alcançaram a maioridade, pois a sua redação delimita o seu alcance aos filhos menores. No mais, a referida decisão foi prolatada em abril de 1999, não constando dos autos comprovação da sua vigência em 2012, época do fato gerador. Tal comprovação, como já mencionado pela DRJ (fl. 40), poderia ter sido feita através da apresentação de certidão de objeto e pé da ação judicial, contudo o contribuinte não o fez. No mais, a súmula CARF 98 dispõe que: A dedução de pensão alimentícia da base de cálculo do Imposto de Renda Pessoa Física é permitida, em face das normas do Direito de Família, quando comprovado o seu efetivo pagamento e a obrigação decorra de decisão judicial, de acordo homologado judicialmente, bem como, a partir de 28 de março de 2008, de escritura pública que especifique o valor da obrigação ou discrimine os deveres em prol do beneficiário. Não tendo comprovado a validade da decisão judicial à época do fato gerador, não há como aferir se o pagamento da pensão em 2012 decorreu de decisão judicial. Sendo assim, resta prejudicada a análise da maioria de seus argumentos do recorrente, haja vista que eles pressupõem a vigência da decisão judicial naquele ano, alegação esta que foi feita sem a apresentação de provas. A aplicação da multa de ofício e do juros de mora independe da existência de máfé ou boafé do contribuinte, decorrendo tãosomente do estrito cumprimento das normas que foram citadas pela autoridade lançadora às fl. 26 dos autos, ou seja, a alegada boafé do contribuinte não elide a obrigação de pagar a multa de ofício e os juros. Fl. 89DF CARF MF Processo nº 10425.721604/201460 Acórdão n.º 2002000.016 S2C0T2 Fl. 90 8 Conclusão Isto posto, voto no sentido de conhecer do recurso voluntário, para, no mérito, negarlhe provimento, mantendo o crédito tributário. (ASSINADO DIGITALMENTE) Fábia Marcília Ferreira Campêlo Fl. 90DF CARF MF
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