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Numero do processo: 10783.916368/2009-21
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Nov 27 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Jan 24 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Normas de Administração Tributária
Período de apuração: 01/12/2004 a 31/12/2004
INCONSTITUCIONALIDADE.
Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária.
Recurso Voluntário Não Conhecido
Numero da decisão: 3302-006.163
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Gilson Macedo Rosenburg Filho, Walker Araujo, Corintho Oliveira Machado, José Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Raphael Madeira Abad, Rodolfo Tsuboi (Suplente Convocado) e Paulo Guilherme Déroulède (Presidente).
Nome do relator: PAULO GUILHERME DEROULEDE
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA Período de apuração: 01/12/2004 a 31/12/2004 INCONSTITUCIONALIDADE. Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Recurso Voluntário Não Conhecido Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso voluntário. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Gilson Macedo Rosenburg Filho, Walker Araujo, Corintho Oliveira Machado, José Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Raphael Madeira Abad, Rodolfo Tsuboi (Suplente Convocado) e Paulo Guilherme Déroulède (Presidente). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 78 3. 91 63 68 /2 00 9- 21 Fl. 41DF CARF MF Processo nº 10783.916368/200921 Acórdão n.º 3302006.163 S3C3T2 Fl. 3 2 Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto contra decisão de primeira instância que julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade apresentada, mantendo a decisão da repartição de origem de não homologação da compensação declarada, por não restar crédito disponível para a compensação dos débitos informados, em virtude do fato de que o pagamento informado já havia sido utilizado para quitar débitos do contribuinte. Em sua Manifestação de Inconformidade, o contribuinte argumentou que, considerando a alteração do regime constitucional das contribuições (PIS/Cofins) por meio da Emenda Constitucional nº 20, de 1998, eram inconstitucionais as Medidas Provisórias n° 66/2002 e nº 135/2003 que alteraram as suas base de cálculo e alíquota, carecendo de validade, por conseguinte, as Leis nº 10.637/2002 e n° 10.833/2003 delas decorrentes. Arguiu, também, o então Manifestante a inexigência da multa moratória, em razão da denúncia espontânea. A Delegacia de Julgamento (DRJ), por meio do acórdão nº 1332.420, julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade, sob o fundamento de não comprovação do indébito fiscal e da incompetência da autoridade administrativa para apreciar arguições de inconstitucionalidade de norma legitimamente inserida no ordenamento jurídico. Inconformado, o contribuinte interpôs Recurso Voluntário e requereu o reconhecimento do seu direito, reproduzindo seus argumentos apresentados em sede de Manifestação de Inconformidade. É o relatório. Voto Paulo Guilherme Déroulède, Relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF 343, de 9 de junho de 2015, aplicandose, portanto, ao presente litígio o decidido no Acórdão nº 3302006.147, de 27/11/2018, proferida no julgamento do processo nº 10783.912698/200948, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 3302006.147): O recurso voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, dele tomo conhecimento. Fl. 42DF CARF MF Processo nº 10783.916368/200921 Acórdão n.º 3302006.163 S3C3T2 Fl. 4 3 Conforme exposto anteriormente, as alegações da Recorrente se restringem a inconstitucionalidade da MP 135/2003, a saber: l. Considerando que o regime constitucional da COFINS foi alterado pela Emenda Constitucional n” 20, de 15 de dezembro de 1998, concluise ser inconstitucional a Medida Provisória n° 135/2003 que alterou a base de cálculo e alíquota da COFINS; 2. Nesse sentido, carece de validade a Lei n° 10.833/2003, pois decorre de medida provisória inconstitucionalmente editada; 3. Sendo assim, restam indevidos recolhimentos efetuados pela contribuinte com à alíquota majorada de 7,6%, pois deveria ter sido aplicada à alíquota de 3,0%. Neste cenário, impõese observar e aplicar a Súmula CARF nº 2: "O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária." Diante do exposto, voto por não conhecer do recurso voluntário. Destaquese que, não obstante o processo paradigma se referir apenas à Cofins, à Medida Provisória nº 135/2003 e à Lei nº 10.833/2003, a decisão ali tomada se aplica nos mesmos termos à Contribuição para o PIS, à Medida Provisória nº 66/2002 e à Lei nº 10.637/2002. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o colegiado decidiu não conhecer do recurso voluntário. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Fl. 43DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10880.918492/2006-81
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Dec 04 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Jan 23 00:00:00 UTC 2019
Numero da decisão: 1001-000.972
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Volutário.
(assinado digitalmente)
Lizandro Rodrigues de Sousa - Presidente.
(assinado digitalmente)
José Roberto Adelino da Silva - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues, Lizandro Rodrigues de Sousa e Jose Roberto Adelino da Silva
Nome do relator: JOSE ROBERTO ADELINO DA SILVA
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Volutário. (assinado digitalmente) Lizandro Rodrigues de Sousa - Presidente. (assinado digitalmente) José Roberto Adelino da Silva - Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues, Lizandro Rodrigues de Sousa e Jose Roberto Adelino da Silva
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score : 1.0
Numero do processo: 16561.720117/2015-82
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Nov 21 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Jan 11 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Exercício: 2010
VENDA DE PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA RECEBIDA PELOS SÓCIOS APÓS OPERAÇÃO DE REDUÇÃO DE CAPITAL. AUSÊNCIA DE SIMULAÇÃO. PLANEJAMENTO LEGÍTIMO.
Restando comprovado que a negociação da participação societária foi de fato e de direito realizada pelas pessoas físicas (ausência de simulação), bem como que a redução de capital com entrega de participação aos sócios produziu as consequências jurídicas normalmente esperadas para este tipo de operação (negócio dotado de "causa"), não há base para que o fisco desconsidere os efeitos tributários a pretexto de tributar os atos segundo o seu entendimento apenas para majorar a tributação.
Numero da decisão: 1401-003.012
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, superar as arguições de nulidade. No mérito, por maioria de votos, dar provimento ao recurso voluntário, vencido o Conselheiro Lizandro Rodrigues de Sousa.
Luiz Augusto de Souza Gonçalvez - Presidente.
Letícia Domingues Costa Braga - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente), Livia De Carli Germano, Lizandro Rodrigues de Sousa (Suplente Convocado), Abel Nunes de Oliveira Neto, Cláudio de Andrade Camerano, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Daniel Ribeiro Silva e Letícia Domingues Costa Braga
Nome do relator: LETICIA DOMINGUES COSTA BRAGA
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Exercício: 2010 VENDA DE PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA RECEBIDA PELOS SÓCIOS APÓS OPERAÇÃO DE REDUÇÃO DE CAPITAL. AUSÊNCIA DE SIMULAÇÃO. PLANEJAMENTO LEGÍTIMO. Restando comprovado que a negociação da participação societária foi de fato e de direito realizada pelas pessoas físicas (ausência de simulação), bem como que a redução de capital com entrega de participação aos sócios produziu as consequências jurídicas normalmente esperadas para este tipo de operação (negócio dotado de "causa"), não há base para que o fisco desconsidere os efeitos tributários a pretexto de tributar os atos segundo o seu entendimento apenas para majorar a tributação.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, superar as arguições de nulidade. No mérito, por maioria de votos, dar provimento ao recurso voluntário, vencido o Conselheiro Lizandro Rodrigues de Sousa. Luiz Augusto de Souza Gonçalvez - Presidente. Letícia Domingues Costa Braga - Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente), Livia De Carli Germano, Lizandro Rodrigues de Sousa (Suplente Convocado), Abel Nunes de Oliveira Neto, Cláudio de Andrade Camerano, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Daniel Ribeiro Silva e Letícia Domingues Costa Braga
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conteudo_txt : Metadados => date: 2018-12-27T17:37:06Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; Last-Modified: 2018-12-27T17:37:06Z; dcterms:modified: 2018-12-27T17:37:06Z; dc:format: application/pdf; version=1.4; Last-Save-Date: 2018-12-27T17:37:06Z; access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:modified: 2018-12-27T17:37:06Z; meta:save-date: 2018-12-27T17:37:06Z; pdf:encrypted: true; modified: 2018-12-27T17:37:06Z; Content-Type: application/pdf; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 77; pdf:charsPerPage: 1681; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf | Conteúdo => S1C4T1 Fl. 3.156 1 3.155 S1C4T1 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS PRIMEIRA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 16561.720117/201582 Recurso nº Voluntário Acórdão nº 1401003.012 – 4ª Câmara / 1ª Turma Ordinária Sessão de 21 de novembro de 2018 Matéria GANHO DE CAPITAL Recorrente NF MOTTA CONSTRUÇÕES E COMÉRCIO LTDA. Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Exercício: 2010 VENDA DE PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA RECEBIDA PELOS SÓCIOS APÓS OPERAÇÃO DE REDUÇÃO DE CAPITAL. AUSÊNCIA DE SIMULAÇÃO. PLANEJAMENTO LEGÍTIMO. Restando comprovado que a negociação da participação societária foi de fato e de direito realizada pelas pessoas físicas (ausência de simulação), bem como que a redução de capital com entrega de participação aos sócios produziu as consequências jurídicas normalmente esperadas para este tipo de operação (negócio dotado de "causa"), não há base para que o fisco desconsidere os efeitos tributários a pretexto de tributar os atos segundo o seu entendimento apenas para majorar a tributação. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, superar as arguições de nulidade. No mérito, por maioria de votos, dar provimento ao recurso voluntário, vencido o Conselheiro Lizandro Rodrigues de Sousa. Luiz Augusto de Souza Gonçalvez Presidente. Letícia Domingues Costa Braga Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente), Livia De Carli Germano, Lizandro Rodrigues de Sousa AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 56 1. 72 01 17 /2 01 5- 82 Fl. 3156DF CARF MF 2 (Suplente Convocado), Abel Nunes de Oliveira Neto, Cláudio de Andrade Camerano, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Daniel Ribeiro Silva e Letícia Domingues Costa Braga Relatório Adoto como relatório, aquele da decisão de primeira instância, complementando a seguir: Em ação fiscal levada a efeito no contribuinte acima identificado, abrangendo o ano calendário de 2010, a Autoridade identificou a fuga da tributação quanto ao ganho de capital, que incidiria com a alíquota de 34% sobre a pessoa jurídica (autuada), fazendoa incidir em 15% no ganho de capital obtido nas operações pelas pessoas físicas (sócios) de acordo com o Termo de Verificação Fiscal (TVF, fls. 1054 e ss.). O fator determinante para a abertura desse procedimento fiscal foi a aquisição de 100% da participação acionária na Rodovias Integradas do Oeste S/A (Rodovias), pela Companhia de Participações em Concessões S/A (CPC), ocorrida em 2010. Do total dessa participação, 22,16% pertenciam à Holding G4 Participações S.P.E. Ltda. (Holding G4), da qual a N.F. MOTTA CONSTRUÇÕES E COMERCIO LTDA detinha 25% das quotas. A Autoridade Fiscal afirma que a negociação foi concluída em 03/08/2010, conforme contrato de compra e venda (DOC 39 e 40, fls. 562 e ss.), quando a CPC, adquiriu a participação acionária da empresa HOLDING G4, que detinha 20,16% de participação acionária na empresa RODOVIA INTEGRADAS DO OESTE S/A – Rodovias (SPVIAS). Transcrevo abaixo trecho do Termo de Verificação Fiscal que trata do valor da alienação, custo contábil e da apuração do ganho de capital (fls 1068 e ss., grifo nosso): [...] 61. Como o registro das participações não foi individualizado, utilizouse para identificar o valor do investimento da NF Motta na Holding G4 o balancete de verificação analítico de 31/07/2010, levantado pela Holding G4 em 13/08/2010 e apresentado pela CPC em procedimento de diligência. O valor do patrimônio líquido da Holding G4 foi avaliado em R$ 17.737.636,00, conta contábil 2.3.01 (DOC 20). Sendo a NF Motta detentora de 25% das quotas da Holding G4, seu investimento correspondia a R$ 4.434.409,00. 62. De acordo com a cláusula 3.1.1 do Contrato de Compra e Venda (DOC 39 E 40) assinado em 03/08/2010, o preço de venda foi avaliado de R$ 1.289.548.372,0, em 18/03/2010, o qual deveria ser corrigido por 100% do CDI até a efetivação do negócio. Corrigindose o valor até a data do fato gerador para fins de cálculo do ganho de capital, apurase o resultado abaixo: Fl. 3157DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.157 3 63. A Holding G4 detinha 22,16% das ações da Rodovias, em decorrência, o valor do preço de venda que lhe coube foi R$ 295.706.384,07. Como detentora de 25% das quotas da Holding G4, coube à NF Motta o valor de R$ 73.926.596,02. 64. O ajuste previsto nas cláusulas 3.2.1, 3.2.2 e 3.2.3 do Contrato de Compra e Venda de 03/08/2010, referese a pagamentos diversos efetuados pela Rodovias no período de 01/01/2010 a 31/05/2010, sendo calculado em R$ 28.863.819,85 (DOC 34). Este ajuste deve ser dividido proporcionalmente à participação dos vendedores constantes no referido contrato e que possui como objeto a compra de 73,45% das ações da Rodovias. Desta forma, 30,17% (22,16 X 100 / 73,45) deste ajuste, no valor de R$ 8.708.267,50 coube à Holding G4. Como detentora de 25% das quotas da Holding G4, coube à NF Motta o valor de R$ 2.177.066,87. 65. A quantia de R$ 13.750.074,68 referente a comissão devida pelos vendedores ao Itaú BBA, foi paga diretamente pela CPC ao Itaú BBA, por conta e ordem dos Vendedores engloba o preço de venda. Desta forma, acrescentamos o valor de R$ 761.754,14 que caberia à NF Motta. 66. Desta forma, apurouse o seguinte ganho de capital: 67. Os valores efetivamente pagos pela CPC em 22/10/2010 (DOC 32) de acordo com os comprovantes apresentados foram: 68. Desta forma, a parcela de R$ 62.826.592,20 referente ao ganho de capital foi reconhecida em 22/10/2010 e o restante, no valor de R$ 5.250.282,09, no dia 31/12/2010, conforme dispõe a IN 343/03. A apuração do ganho de capital em 02 momentos distintos decorreu da opção do contribuinte pelo regime de caixa e por ter ultrapassado o limite da receita que lhe permitiria optar pelo lucro presumido no AC 2011. 69. A diferença entre o preço de venda informado pela CPC no total de R$ 1.364.711.014,20 (22/10/2010) e o preço calculado na data da assinatura do contrato no total de R$ 1.334.415.090,58 será tributada como receita financeira em 22/10/2010. Da diferença total de R$ 30.295.923, coube à NF Motta, R$ 1.678.394,17. Concluiu a Autoridade Fiscal que a transferência da participação societária da NF Motta na Holding G4 para seus sócios, Nelson Floduardo da Motta e Ivan Lopes da Silva, faz parte de um planejamento tributário abusivo que almejava, como único objetivo, reduzir a tributação sobre o ganho de capital, significando uma economia tributária indevida. Esta economia tributária se dá pela aplicação da alíquota de 15%, pelo qual é tributado o ganho de capital auferido por pessoa física (IRPF), em detrimento das alíquotas de IRPJ e da CSLL a que estão sujeitas as pessoas jurídicas e que totalizam 34%. Fl. 3158DF CARF MF 4 No Termo de Verificação Fiscal (fls. 1054 e ss.) a autoridade lançadora descreve minuciosamente os fatos que levaram à autuação. Tempestivamente a autuada apresentou a peça impugnatória, conforme transcrito abaixo: II O DIREITO II. a) A precariedade do trabalho fiscal Ofensa ao art. 142 do Código Tributário Nacional CTN Antes de tudo, é preciso dizer que os lançamentos de ofício ofendem ao art. 142 do CTN, já que o AFRFB, mesmo ao desqualificar arbitrariamente atos legais, perfeitos e acabados, não logrou comprovar que (i) a alienação da participação societária da Rodovias teria sido feita na pessoa jurídica da Requerente e (ii) muito menos que o fruto da venda feita pelas pessoas físicas teria voltado, de forma integral, ao seu próprio caixa. Deveras, desde a fiscalização o AFRFB insistiu, com ameaças de imposição de multa por embaraço à Fiscalização, na obtenção de documentos que sustentariam a sua presunção de que a alienação da participação indireta da Rodovias feita pelas pessoas físicas teria sido feita, na realidade, pela Requerente como pessoa jurídica (fls. 44/55 e 145/146). Ainda na fase inquisitória o AFRFB fez assertivas de que a Requerente teria participado formalmente de negociações com a CPC, mas nos termos de intimações deixou de apresentar os referidos documentos, em menoscabo ao direito de manifestação da Requerente (fls. 46/50). Finalizada a fiscalização e perpetrados os lançamentos de ofício, o AFRFB não trouxe aos autos 1 (um) documento sequer que comprove sua tese de que o negócio entre as pessoas físicas (sócias) e a CPC teria sido realizado, na realidade, pela Requerente. A tese fiscal é pautada em documentos apresentados pela CPC (propostas, laudos e contratação de banco intermediário) que, simplesmente, retratam o interesse dela na compra da Rodovias ao longo dos anos, sem qualquer formalização ou ato praticado pela Requerente. Na realidade, os documentos acostados aos autos demonstram que as pessoas físicas realizaram o negócio de venda e compra (562/899) e os ajustes da operação, como se nota do apontamento de recolhimento de IRPF feitos pela própria fiscalização (fls. 1071). Da mesma forma, o AFRFB não logrou demonstrar e comprovar que o preço (da venda feita pelas pessoas físicas, sócias da Requerente) teria voltado, na integralidade, para a Requerente (a suposta vendedora na concepção fiscal). Para afirmar tal fato, o AFRFB apresentou apenas cópia dos aportes realizados na Requerente por seus sócios (fls. 131/151), deduzindo, sem apresentar qualquer outro elemento probatório adicional, que tais comprovantes demonstrariam o retorno do preço praticado pelas pessoas físicas em razão da alienação de sua participação na Holding G4. Nesse peculiar aspecto, a própria fiscalização revela que os sócios da Requerente fizeram aporte de valor correspondente à apenas uma parte do preço. Se, é parte, e pequena, digase de passagem, não se pode dizer que houve "retorno de investimento”, como sugeriu o AFRFB. Fl. 3159DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.158 5 Aliás, como será esmiuçado adiante, não se tem como atrelar uma redução de capital iniciada em 12/2008 a uma venda de participação fechada apenas 11/2010 e os posteriores pequenos aportes feitos pelos sócios da Requerente, como se fosse uma ação prevista. Ora, não é crível que os sócios da Requerente, já em 2008, pensassem numa venda e depois num reduzido aporte em 2010. E não se trata só de uma questão temporal. A fiscalização fechou os olhos para as condições suspensivas para a redução de capital e não notou aquelas previstas para efetivação do negócio pelas pessoas físicas (fls. 562/599 e doc. 10). Mais do que isso. o AFRFB fez um trabalho superficial, pois deixou de verificar, como se notará à frente, que os sócios da Requerente tinham patrimônio para realização de aporte em 2010 e que esse tipo de ação era costumeiro, sendo feito em anos anteriores (2008 e 2009). O AFRFB, apesar de dizer que os aportes foram parciais, deixou de apontar que eles, em dados numéricos, representaram valor ínfimo frente ao valor do preço da operação de alienação realizada pelas pessoas físicas. O fato é que ponto relevante da construção dos lançamentos de ofício deixou de ser comprovado nos autos. O fundamento do lançamento, neste particular, é a suposição do AFRFB, nada mais! Por tais razões, os 2 (dois) pontos tidos como relevantes pelo AFRFB para desqualificar a operação de venda e compra entre as pessoas físicas (sócias da Requerente) e a CPC, sob o manto da suposta ocorrência de “planejamento tributário abusivo" ou “simulação objetiva”, não foram comprovados nos autos. Quer dizer, a verificação do fato jurídico tributário que suporta a exigência do IRPJ e reflexos na situação em tela deixou de ser, efetivamente, evidenciada, maculando o lançamento de ofício e, consequentemente, prejudicando a defesa da Requerente. Rememorese, neste pormenor, que o art. 142, do CTN, determina que o fato jurídico tributário deve ser constatado e comprovado de maneira clara pela fiscalização, sem o qual o lançamento de ofício não se aperfeiçoa: [...] Igualmente, o art. 10, do Decreto 70.235/72 dispõe que o fato jurídico deve ser efetivamente descrito e comprovado, sem o qual torna o lançamento de ofício nulo: [...] Isso significa que o fato jurídico tributário deve ser efetivamente VERIFICADO, para que se possa ser exigido o IRPJ e reflexos; ou seja, a fiscalização não poderia agir de forma superficial, sem fazer a prova cabal de suas presunções. Para que o resultado da atividade e da Administração Pública seja equivalente a um ato de lançamento, mister que se verifique uma “sucessão de formalidades’ (atos jurídicos, prazos, mera execução material de tarefas burocráticas) que objetiva constituir o crédito tributário, isto é, investigar todas as circunstâncias que envolvem a identificação do dever jurídico de pagar um tributo: desde a verificação da ocorrência do fato tributável, até o quanto a pagar, passando pela individuação do sujeito obrigado. ” (Edvaldo Brito, in Revista de Direito Tributário vol. 42. pág. 187, “Lançamento”, grifouse). Fl. 3160DF CARF MF 6 Nesse particular, são precisas as palavras de Paulo Celso B. Bonilha, de cuja leitura tornase clara a importância da produção da prova da ocorrência do fato jurídico tributário: “Bem de ver, neste particular, que a prova da existência dos pressupostos que legitimam a pretensão do Fisco já foi produzida (ou deveria ter sido) ao ensejo do procedimento de lançamento. O ato administrativo pressupõe a comprovação da ocorrência do fato jurídico tributário. Tratase, como ensina Francesco Tesauro, da ‘instrução primária’ do processo, pois a instrução probatória, efetuada na fase processual, não se destina a substituíla, mas, em verdade, servir de ponto de referência para a sua confirmação ou rejeição." O procedimento tendente a constatar a ocorrência do fato jurídico tributário de IRPJ é muito distante do que ocorreu no caso concreto. Isso porque não houve prova de que o negócio teria sido feito pela pessoa jurídica e nem de que o fruto da alienação da participação dos sócios da Requerente teria voltado à Requerente em sua totalidade. A situação se torna ainda mais grave na situação em apreço porque essas suposições redundaram na desqualificação de atos jurídicos perfeitos e acabados, ou seja, a prova deveria ser muito mais do que robusta. A esse respeito, é clara a jurisprudência da egrégia Câmara Superior do CARF e das Câmaras Ordinárias também, que não permite a falta de descrição dos contornos do fato jurídico tributário e caracterização geral de relações jurídicas, como foi feito pelo AFRFB: “NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO. DECADÊNCIA. LANÇAMENTO DECLARADO NULO. (...) No presente caso a nulidade do primeiro lançamento foi declarada em face da ausência da perfeita descrição do fato gerador do tributo, em virtude da não caracterização da existência da cessão de mão de obra, o que caracteriza violação ao art. 142 do CTN. (...) Com efeito, sob o pretexto de corrigir o vício formal detectado, não pode o Fisco intimar o contribuinte para apresentar informações, esclarecimentos, documentos, etc. tendentes a apurar a matéria tributável. Se tais providências forem efetivamente necessárias para o novo lançamento, significa que a obrigação tributária não estava definida e o vício apurado não seria apenas de forma, mas, sim, de estrutura ou da essência do ato praticado. (...) Recurso especial provido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso. (Câmara Superior de Recursos Fiscais CSRF ACÓRDÃO: 9202002.727 Data de decisão: 11/06/2013; Data de publicação: 24/07/2013 — grifouse) “A determinação exata da matéria tributável, em relação a valor e a data de sua ocorrência é dever da autoridade administrativa. A dúvida quanto a quaisquer dos requisitos contidos no artigo 142 do CTN vicia o lançamento tornandoo imprestável. Salvo os casos especificados na lei, o ônus da prova cabe à autoridade Fl. 3161DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.159 7 administrativa que realizar o lançamento. (Ac. n° 10706773, I Conselho de Contribuintes, Ac. 10706773, j. 17.09.2002 grifouse). Destarte, por ter deixado de comprovar as presunções que levaram à desqualificação de atos jurídicos perfeitos e acabados feitos pela Requerente e seus sócios e, por conseguinte, a composição do fato jurídico tributário, os autos de infração devem ser integralmente cancelados. II. b) Erro na determinação do período de apuração Ofensa aos art. 31 do Decretolei n° 1.598/77 (art. 421, do RIR/99) e 142 do CTN • O Regime de Competência Adotado pelo AFRFB Erro Além da precariedade do trabalho fiscal, os lançamentos de ofício devem ser cancelados, dado que, em razão do pagamento do preço ter sido feita de forma parcelada por pendência de cumprimento de cláusulas suspensivas, os períodos de apuração do IRPJ e da CSLL deveriam ter sido segregados pelo regime de caixa do lucro presumido (2010 e 2012) e diferimento do lucro real em 2011 (caixa). Depreendese do TVF que o AFRFB alocou os seguintes valores tidos como decorrentes de omissão de receita na apuração do lucro presumido do IRPJ (fls.1.029/ 1.032 doc. 2) e da CSLL: O AFRFB para o valor de R$ 62.826.592.20 usou o regime de caixa do lucro presumido, com base nos recebimentos das pessoas físicas (fls. 1.067). Embora tenha usado o regime de caixa, incluiu, indistintamente, o valor de R$ 1.678.394,176 7, que não foi recebido pelos sócios da Requerente, em acréscimo ao montante inicial, e nem comprovado pela fiscalização. Já para o valor de R$ 5.250.282,09, correspondentes aos recebimentos de 2011 (R$ 2.33.04.63 — fls. 494/496/501502) e 2012 (R$ 2.541.034,63 fls. 493/497/500/503), o AFRFB alocou tudo no último período base de 2010, com base no disposto no art. 1º da IN 345/2003: estouro de lucro presumido e reconhecimento de “receitas auferidas e não recebidas” (lucro real). Temse duas situações: (i) os recebimentos percebidos em 2010 foram apurados e lançados pelo lucro presumido e (ii) os pagamentos realizados em 2011 e 2012 ensejaram lançamento fiscal efetivado também com base no lucro presumido, mas com fundamento na regra do lucro real (competência) pelo estouro de receita havido em 2010 (IN 345/2003) — fls. 1068. Foi tudo errado e confuso (fls. 1068); tudo somado como lucro presumido do período de 4o trimestre de 2010, ora por caixa, ora por competência, conforme o demonstrativo de apuração do IRPJ e da CSLL (doc. 2). Fl. 3162DF CARF MF 8 Na verdade, em 2010, o valor de R$ 62.826.592,20 deveria ser reconhecido pelo regime de caixa do lucro presumido, sem inclusão do R$ 1.678.394,17, que está nele inserido. Em 2011 somente o valor de R$ 2.333.04,63 deveria ser reconhecido pelo regime de caixa do lucro real. E, em 2012, apenas o valor R$ 2.541.034,63 deveria ser reconhecido pelo regime de caixa do lucro presumido. Tudo isso porque as parcelas recebidas pelos sócios da Requerente decorreram do cumprimento de cláusulas suspensivas. Por tal razão, em 2011 deveria ser preservado o regime de caixa, nos termos do art. 421 do RIR, e em 2012 o regime do lucro presumido escolhido pela Requerente e não excedido, pelo necessário regime de caixa, nos moldes do DecretoLei 1.598/77 e a IN 84/79. Apesar de ter estipulado a data da celebração do contrato inicial (08/2010) como o momento segundo o qual a Requerente teria auferido receita, mas não recebido (IN 345/2003), para justificar a delimitação do período de 2011 e 2012 como sendo o 4o trimestre de 2010 (31/12), não se atentou o AFRFB de que o pagamento do preço determinado no contrato foi efetivado em 3 parcelas advindas de cumprimento de cláusulas suspensivas. Deveras, o contrato de venda e compra foi assinado em 03/08/2010, mas o negócio jurídico só se efetivou em 22/10/2010, depois do cumprimento das condições suspensivas determinadas no acordo. Vejase, por oportuno, o seguinte trecho do contrato (fls. 602/603 e doc. 171): “5.1. Condições Precedentes às Obrigações do Comprador. O Comprador somente estará obrigado a consumar o Fechamento se forem implementadas ou verificadas, conforme o caso, antes ou no Fechamento, as seguintes condições precedentes (sem prejuízo do direito do Comprador de renunciar a qualquer das referidas condições, exceto no tocante à Aprovação da ARTESP e à condição estabelecida na alínea “b” desta Cláusula 5.1V (a) a obtenção da Aprovação da ARTESP até o 90° (nonagésimo) dia contado da data de assinatura deste Contrato; (b) a efetiva e concomitante aquisição, direta ou indireta, na Data de Fechamento, das ações de emissão da Companhia não detidas por G4 Participações, Latinoamericana, Vialco e Planova, representativas de cerca de 26,55% (vinte e seis inteiros e cinquenta e cinco centésimos por cento) do capital social total e votante da Companhia, de forma que, com a consumação do Fechamento, o Comprador passe a deter, direta e indiretamente, 100% (cem por cento) das Ações Rodovias; e (c) o cumprimento, pelos Vendedores, até ou na Data de Fechamento, das obrigações previstas nas Cláusulas 6.3 (a), 6.3 (b), 6.3 (c), 6.3 (g), 6.3 (h), 6.3 (i), 6.3 (1), 6.3 (m)." "‘5.2. Condições Precedentes às Obrigações dos Vendedores. Os Vendedores somente estarão obrigados a consumar o Fechamento se forem implementadas ou verificadas, conforme o caso, antes ou no Fechamento, as seguintes condições precedentes (sem prejuízo do direito dos Vendedores de renunciar a qualquer das referidas condições, exceto no tocante à Aprovação da ARTESP e à condição estabelecida na alínea *‘b” desta Cláusula 5.2): (a) a obtenção da Aprovação da ARTESP até o 90° (nonagésimo) dia contado da data de assinatura deste Contrato; (b) a efetiva e concomitante aquisição, direta ou indireta, na Data de Fechamento, das ações de emissão da Companhia não detidas por G4 Participações, Latinoamericana, Vialco e Planova, representativas de cerca de 26,55% (vinte e seis inteiros e cinquenta e cinco centésimos por cento) do capital social total e votante da Fl. 3163DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.160 9 Companhia, de forma que, com a consumação do Fechamento, o Comprador passe a deter, direta e indiretamente, 100% (cem por cento) das Ações Rodovias; e (c) o cumprimento, pelos Vendedores, até ou na Data de Fechamento, das obrigações previstas nas Cláusulas 6.2 (a), 6.2 (b), 6.2 (e). ” Como se nota, tanto para o comprador (CPC), como para os vendedores (sócios da Requerente e outros), o negócio só se consumaria com (i) a provação da ARTESP no tocante à substituição do direito à concessão decorrente da alienação E (ii) com a aquisição da participação de grupo formado por outros acionistas (26,55% do capital), para efeito de aquisição de 100% da participação da Rodovias. Nesse aspecto, aliás, vale trazer à colação às cláusulas que deixam patente que, se não tivessem sido cumpridas as condições suspensivas acima, o negócio não seria consumado e as partes não teriam o dever de indenizar, já que eram fatos alheios à vontade dos contratantes: “11.3. Não Consumação do Fechamento por Razões Alheias à Vontade das Partes. O presente Contrato será rescindido de `pleno direito, por meio de notificação com efeitos rescisórios imediatos entregue pelo Comprador aos Vendedores ou por um Vendedor ao Comprador e demais Vendedores, na forma da Seção 12, conforme for o caso, sem que seja devida por/para qualquer das Partes quaisquer penalidades ou indenizações, a qualquer tempo e a qualquer título, na hipótese de não obtenção da Aprovação na ARTESP até o término do prazo estabelecido na Cláusula 5.1 (a) e 5.2(a), desde que a não obtenção da Aprovação da ARTESP não tenha decorrido de culpa ou dolo de qualquer uma das Partes (caso em que se aplicará o disposto na Cláusula 11.2). Na hipótese de que trata a presente Cláusula 11.3, a data da rescisão, para todos os fins e efeitos deste Contrato, será estabelecida em conformidade com o disposto na Cláusula 11.2.1.” (fls. 637e doc. 17 grifouse). “6.4. Inadimplemento da Obrigação de Consumar o Fechamento. Sem prejuízo da irrevogabilidade e da irretratabilidade prevista na Cláusula 13.3, caso o Fechamento deixe de ocorrer, por ato ou omissão de qualquer das Partes, que tenha resultado no descumprimento de obrigações específicas para a realização do Fechamento ou para a verificação de condições precedentes que esteiam sob sua responsabilidade, o presente Contrato poderá ser rescindido nos termos da Seção 1 1 deste Contrato, (fls. 608 e doc. 17 — grifouse) E somente quando consumadas as condições suspensivas é que ocorreria a venda, para todos os fins e efeitos de direito, ou seja, o acordo inicial de 03/08/2010 não era definitivo, como pensou o AFRFB: 6.5. Execução Específica da Obrigação de Consumar o Fechamento. (...) de forma que o Fechamento, quando consumado, resulte na venda para o Comprador da TOTALIDADE das Participações e, direta ou indiretamente, das Ações Rodovias, (fls. 608 grifouse). Tanto essas condições suspensivas eram necessárias para conclusão do negócio que só em 22/10/2010, depois de elas terem sido cumpridas, é que nos termos da cláusula 6.5 acima mencionada foi celebrado o fechamento e autorizado o pagamento do preço da 1ª Parcela, como se nota do anexo termo de fechamento (doc. 8). Não foi só a primeira parcela que foi paga em função do cumprimento de cláusulas suspensivas, mas as 2a e 3a parcelas também. Fl. 3164DF CARF MF 10 Para demonstrar às cláusulas suspensivas para pagamento da diferença do preço, a Requerente colaciona abaixo o texto da condição do 1º ano (2011 fls. 631/632), similar à do 2o ano (2012 fls. 632/633), de molde a ficar claro que esses montantes poderiam, se não cumpridas as condições, não ser pagos aos sócios da Requerente: “10.8.2 . (...) (c) Lançamentos de Encerramento do Primeiro Ano: se no dia do encerramento do Primeiro Ano, (x) o valor dos créditos realizados na Conta Gráfica menos o valor dos débitos menos os valores Vinculados, conforme item (b) desta Cláusula 10.8.2, atualizados conforme o disposto na Cláusula 10,8.1(a), e observado o disposto na 10.8.5 abaixo ("Saldo da Conta Gráfica no Primeiro Ano"), for maior do que (y) R$ 141.600.000,00 (cento e quarenta e um milhões e seiscentos mil Reais), atualizado pro rala die por 100% (cem por cento) do CDI, a partir de 18 de março de 2010 até o último dia do Primeiro Ano, multiplicado pela Participação Individual Indireta do Vendedor, então o valor da diferença entre (x) e (y), atualizado até o dia de seu efetivo pagamento, será pago pelo Comprador ao Vendedor em questão, conforme Cláusula 4.3 ("Pagamento ao Vendedor no Primeiro Ano". Se, ao contrário, no dia do encerramento do Primeiro Ano, (x) não for maior do que (y), não será efetuado qualquer pagamento pelo Comprador ao Vendedor em questão. Se houver, por parte de qualquer Vendedor, uma Notificação de Oposição à Notificação Anual apresentada pelo Comprador na forma da Cláusula 10.8.9, o Comprador realizará o Pagamento ao Vendedor no Primeiro Ano da parcela incontroversa, conforme a Cláusula 4.3, e o valor controverso será pago, se devido, mediante a celebração de acordo entre tal Vendedor e o Comprador ou conforme a Decisão Final, na forma da Cláusula 10.8.9. (grifouse). Bem se vê que os pagamentos das 1a, 2a e 3a parcelas aos sócios da Requerente, pessoas físicas, pela CPC, foram feitos segregadamente de acordo com o cumprimento de cláusulas suspensivas, sendo, pois, equivocada e ilegal a aplicação da IN 345/2003, pois as receitas ainda não tinham sido auferidas. Como as receitas não tinham sido auferidas, o total do lançamento não poderia ser indicado no 4o trimestre de 2010. O AFRFB deveria ter diferenciado os valores, os períodos de apuração em trimestres e anos distintos e, ainda, usar o regime necessário de caixa em todos os anos. É bom salientar, nesse pormenor, que o AFRFB tinha ciência das cláusulas suspensivas (fls. 1.061 e fls. 562/899) e também do recebimento efetivo das parcelas pelas pessoas físicas, sócias da Requerente (fls. 1.070). Para o ano de 2011 (2a parcela) deveria ser aplicado o art. 31 do DecretoLei 1.598/77, uma vez que, na hipótese de a alienação de ativo não circulante em parcelas (caso dos autos), há ordem dizendo que o lucro deve ser reconhecido na data de recebimento de cada parcela: ‘'Art. 421. Nas vendas de bens do ativo permanente para recebimento do preço, no todo ou em parte, após o término do anocalendário seguinte ao da contratação, o contribuinte poderá, para efeito de determinar o lucro real, reconhecer o lucro na proporção da parcela do preço recebida em cada período de apuração (DecretoLei n° 1.598, de 1977, art. 31, § 2° ).’’ Já para o ano de 2012, deveria ser aplicado o art. 27, do DecretoLei 1.598/77, dada a existência de previsão de que o recebimento de parcela com cláusula suspensiva deve ser apurada pelo regime de caixa do lucro presumido: “Art. 27 (...) Fl. 3165DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.161 11 § 1º O lucro bruto na venda de cada unidade será apurado e reconhecido quando, contratada a venda, ainda que mediante instrumento de promessa, ou quando implementada a condição suspensiva a que estiver sujeita a venda. Decorrência basilar dessa ilação é que o AFRFB errou os períodos de apuração do IRPJ e da CSLL: lançou tudo no 4o trimestre de 2010, sem distinguir os períodos corretos (inicial e demais parcelas) e os regimes de apuração apropriados. A jurisprudência do CARF, em situação idêntica à tratada aqui, retrata que, na hipótese de condição suspensiva, só depois do cumprimento dela terá havido o ganho de capital e, por conseguinte, a correta adequação do período de apuração do IRPJ e da CSLL no regime de competência: [...] Logo, pelo erro contundente na imputação do período de apuração do IRPJ e da CSLL, sob o prisma da competência em ganho de capital e pelo regime do lucro presumido, os lançamentos de ofício devem ser integralmente cancelados. O Regime de Caixa Erro do AFRFB Como adiantado acima, não só houve o erro nos períodos de apuração, como também o AFRFB deixou de lançar os valores, com base nos regimes de caixa, do lucro real em 2011 do lucro presumido em 2012, em relação às datas dos efetivos recebimentos das parcelas pelas pessoas físicas (caixa). De fato, como assentado linhas atrás, o preço foi recebido, até então, em 3 (três) parcelas que só foram pagas depois de ter havido cumprimento das condições suspensivas, como se nota do contrato de venda e compra (fls. 562/599); do termo de fechamento (doc. 8); e da verificação fiscal sobre os recebimentos efetivos pelas pessoas físicas, sócias da Requerente (fls. 493/503) Vejase, a título exemplificativo, as datas de efetivo recebimento das parcelas (2010, 2011 e 2012) pelo sócio Nelson (fls. 493/503), que foram as mesmas daquelas percebidas pelo sócio Ivan: Como se nota, os sócios da Requerente receberam uma parcela de fechamento em 2010 e mais duas parcelas a título de diferença do preço de fechamento nos anos subsequentes, 2011 e 2012. As cláusulas suspensivas destacadas da 1º parcela (5.1, 6.4, 6.5 e 11.3 — fls. 602, 608, 639 e doc. 17), da 2ª parcela (10.8.2 fls. 632) e da 3ª parcela (10.8.3 fls. 633), além do termo de fechamento (doc. 8) e a verificação fiscal do recebimento líquidos delas pelas pessoas físicas, não dão margem à dúvida quanto ao erro do AFRFB na eleição dos regimes de apuração. A evidência, todos os valores recebidos pelos sócios da Requerente decorreram de cumprimento de condições suspensivas: (i) o negócio e o pagamento Fl. 3166DF CARF MF 12 do preço de fechamento foi subordinado, dentre outros aspectos, a aprovação da ARTESP e a venda da participação de outros acionistas da Rodovias; e (ii) as parcelas da diferença em 2011 e 2012, dependentes do cumprimento de metas referentes à utilização da conta de garantia. Como não havia certeza do negócio e do pagamento do preço de fechamento e também das parcelas de diferença, era dever de o AFRFB efetuar o lançamento com base nos regimes de caixa, pelo lucro real em 2011 e pelo lucro presumido em 2012, nos termos do art. 117, do CTN. Diante dos detalhes de acerto do negócio e do pagamento do preço, tornase incabível a apropriação dos valores no regime de competência previsto na IN 343/2003 (estouro do regime do lucro presumido), dado que não só a venda e compra, como o adimplemento de todas às parcelas pela CPC aos sócios da Requerente, dependiam de eventos futuros e incertos. Trazendo o trabalho fiscal à própria realidade criada pelo AFRFB, se fosse verídica a posição fiscal de que a alienação da participação societária teria sido feita pela Requerente e não pelos sócios, o que se admite só para argumentar, ela não teria como reconhecer os valores recebidos de 2011 e de 2012 como se já tivessem sido auferidos (IN 343/2003). É, pois, de rigor, que, pela falta de disponibilidades jurídica e econômica, os lançamentos dessas parcelas seguissem o regime de caixa em cada ano. Em 2011, em função do estouro de receita em 2010, pelo lucro real com reconhecimento na data do recebimento. E em 2012, em função da escolha da Requerente, pelo lucro presumido e, da mesma forma, na data de recebimento. Tal como já acima indicado, o Decretolei 1.598/77, o RIR/99 (art. 421) e a IN 104/98 (art. 1º), determinam que deveriam ser aplicados o regime do lucro real e do lucro presumido, respectivamente, com reconhecimento da receita da data do recebimento efetivo. A jurisprudência do CARF, aliás, corrobora o entendimento da Requerente de que o lançamento de ofício, nessa situação de pagamento parcelado com condições suspensivas, deve ser feito pelo regime de caixa, com comprovação dos pagamentos para inclusão no ganho de capital: “GANHO DE CAPITAL. AQUISIÇÃO DE DISPONIBILIDADE ECONÔMICA OU JURÍDICA DE RENDA. AUSÊNCIA. Considerados os elementos reunidos ao processo, restando evidenciada a ausência de disponibilidade econômica, eis que os recursos financeiros efetivamente não foram transferidos para a contribuinte, e, ausente também a disponibilidade jurídica em face da existência de cláusula contratual de garantia, descabe computar na apuração do ganho de capital a quantia retida pelo comprador para fins de eventual indenização futura.” (Acórdão n° 1301001.802, Processo n° 10580.728929/201138, Recurso n° De Ofício e Voluntário, 3ª Câmara / 1ª Turma Ordinária da 1ª Secção Sessão de 05 de março de 2015 grifouse). Na situação em apreço não havia disponibilidade jurídica e nem econômica porque sem o cumprimento das condições não haveria o negócio e nem o recebimento do preço, inclusive das parcelas que eram atreladas à movimentação da Fl. 3167DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.162 13 conta de garantia. A única medida viável, pois, seria a adoção do regime de caixa pela fiscalização. Assim, pelo erro na indicação do regime de apuração para efeito do computo do IRPJ e da CSLL lucro real por caixa em 2001 e presumido por caixa em 2012, com tudo totalizado em 2010 pelo presumido: misturando caixa e competência — os lançamentos de ofício devem ser integralmente cancelados. II. c) O erro na delimitação da base de cálculo Ofensa ao art. 142 do CTN e art. 25, II, da Lei 9.430/96 Decorrência da precariedade do lançamento é o equívoco da quantificação da base de cálculo, o que, da mesma maneira, gera a nulidade dos lançamentos de ofício, porque (i) foi feito com base em informação que não consta dos autos e incluído o montante de R$ 1.678.394,17 que já fazia parte da 1ª parcela recebida pelas pessoas físicas; (ii) não foram abatidas as despesas e custos da alienação, sendo que o AFRFB tinha em mãos os valores líquidos recebidos pelas pessoas físicas; (iii) em 2011 não houve apuração do lucro real; e (iv) em 2012 não foi apurado o lucro presumido com base no efetivo recebimento. Indispensável realçar, primeiramente, que a determinação da base de cálculo pelo AFRFB se baseia em informações alheias aos autos, apesar de a fiscalização ter ciência quanto ao real valor recebido pelas pessoas físicas. Vejase no TVF como tal vício fica claro (fl. 1.070): 69. A diferença entre o preço de venda informado nela CPC no total de RS 1.364.711.014.20 (22/10/2010) e o preço calculado na data da assinatura do contrato no total de RS 1.334.415.090,58 será tributada como receita financeira em 22/10/2010. Da diferença total de RS 30.295.923, coube à NF Motta. RS 1.678.394,17. 60. Diante de todo o exposto, lavrase os Autos de Infração anexos, do qual esse Termo é parte integrante e inseparável, cujos montantes incluem os juros e multa, conforme demonstrado a seguir:" (grifouse). O AFRFB expressamente admite que determinou a base de cálculo nesse caso pela aferição de diferença baseada em suposto documento obtido com a CPC, o qual, até agora, é desconhecido pela Requerente, pois não se encontra nos autos. Esse valor de R $ 1.678.394,17 na verdade, está englobado no recebimento do preço de fechamento. Isso reflete a precariedade do trabalho fiscal e o menoscabo ao disposto no art. 142, do CTN, citado linhas atrás, que prevê ser o lançamento ato específico a registrar o fato, a base de cálculo e a multa, o que implica no cancelamento do lançamento fiscal. Além da precariedade que, por si só, já gera o cancelamento dos lançamentos, é curial consignar que se torna impossível aceitar como válida a base de cálculo determinada, não só para o IRPJ e para a CSLL, mas também para o PIS e a COFINS, pelo AFRFB. Em relação ao PIS e COFINS, a base de cálculo foi eleita, arbitrariamente, no valor de R$ 1.678.394,17, como sendo receita financeira. Não há prova disso, como dito. A correta base de cálculo do IRPJ e da CSLL retratam que, na verdade, todas as bases imponíveis estão equivocadas. Fl. 3168DF CARF MF 14 Para melhor elucidar o raciocínio desenvolvido pelo AFRFB, a Requerente passa a transcrever trecho do TVF, in verbis (fls.1.036/1.070): ”62. De acordo com a cláusula 3.1.1 do Contrato de Compra e Venda (DOC 39 E 40) assinado em 03/08/2010, o preço de venda foi avaliado de RS 1.289.548.372,0, em 18/03/2010, o qual deveria ser corrigido por 100% do CD1 até a efetivação do negócio. Corrigindose o valor até a data do fato gerador para fins de cálculo do ganho de capital, apurase o resultado seguinte: 63. A Holding G4 detinha 22,16% das ações da Rodovias, em decorrência, o valor do preço de venda que lhe coube foi R$ 295.706.384.07. Como detentora de 25% das quotas da Holding G4, coube à NF Motta o valor de R$ 73.926.596,02. 64. O ajuste previsto nas cláusulas 3.2.1, 3.2.2 e 3.2.3 do Contrato de Compra e Venda de 03/08/2010, referese a pagamentos diversos efetuados pela Rodovias no período de 01/01/2010 a 31/05/2010, sendo calculado em R$ 28.863.819.85 (DOC 34). Este ajuste deve ser dividido proporcionalmente à participação dos vendedores constantes no referido contrato e que possui como objeto a compra de 73,45% das ações da Rodovias. Desta forma, 30,17% (22,16 X 100 / 73,45) deste ajuste, no valor de R$ 8.708.267,50 coube à Holding G4. Como detentora de 25% das quotas da Holding G4, coube à NF Motta o valor de R$ 2.177.066.87. 65. A quantia de R$ 13.750.074,68 referente a comissão devida pelos vendedores ao Itaú BBA, foi paga diretamente pela CPC ao Itaú BBA, por conta e ordem dos vendedores engloba o preço de venda. Desta forma, acrescentamos o valor de RS 761.754,14 que caberia à NF Motta. 66. Por conseguinte, apurouse o ganho de capital abaixo discriminado: " (grifouse) Depreendese dos trechos acima citados que foi levando em conta o valor atribuído à participação da Rodovias e informado no contrato de compra e venda (fls. 562/899) que o AFRFB determinou as bases de cálculo do IRPJ e da CSLL. Ora, o regime era de caixa e não havia motivo para presumir valor com base no contrato, ainda mais porque ele não era definitivo. O preço do termo de fechamento era o correto e, com base nele, as pessoas físicas receberam os valores líquidos. Ao determinar a base de cálculo dessa forma, não se atentou o AFRFB que os pagamentos efetuados em razão da alienação da participação da Rodovias foram feitos de forma parcelada, impondo, portanto, a adoção, para todos os períodos, do regime de caixa com base nos recebimentos realizados, conforme os recibos das pessoas físicas acostados aos autos (fls. 493/503). Como já dito acima, houve a assinatura do contrato de compra e venda e o pagamento do preço foi vinculado ao cumprimento de condições suspensivas: (i) termo de fechamento; (ii) parcela do primeiro ano e (iii) parcela do segundo ano, Fl. 3169DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.163 15 como se vê dos recibos anexos (fls.493/503). Vejase o recebimento de cada parcela vinculada ao cumprimento das condições acima indicadas: Notase que o ganho de capital, diversamente do que consigna o AFRFB, não foi recebido integralmente em 2010. Pelo contrário, ele foi recebido em parcelas em 2010 (cumprimento das condições de fechamento), 2011 e 2012 (ambas pelo cumprimento de metas e recebimento da conta de garantia). É bom frisar que a quantia de R$ 1.678.394,17, diferença entre o contrato e o valor recebido é inexistente. Não se trata de regime de competência, como pensou o AFRFB. Ora, as pessoas físicas receberam a 1ª parcela com base já no preço de fechamento de 22/10/2010 e, por isso, naquele valor líquido verificado pelo AFRFB e recebido na mesma data, essa quantia já estava embutida. Tanto é assim que o pagamento pelos sócios, pessoas físicas, do IRPF foi realizado de acordo com o momento do cumprimento das condições e, por conseguinte, do recebimento de tais parcelas, ou seja, em 2010, 2011 e 2012 (fls. 493/503). As bases de cálculo adotadas pelo AFRFB encontramse incorretas. Ao contrário da segregação aleatória e a exigência do preço, deveria refletir a realidade e assim expressar os valores das parcelas de acordo com o seu recebimento, pelo regime de caixa e em função do cumprimento das condições suspensivas. Nada disso foi observado. Fl. 3170DF CARF MF 16 Vejase que, em situações semelhantes, envolvendo ganho de capital em parcelas, o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais determina a necessidade de a base de cálculo refletir tal realidade, sob pena de cancelamento, como se vê da ementa abaixo transcrita a título exemplificativo: “(...) LUCRO PRESUMIDO GANHO DE CAPITAL CESSÃO DE DIREITOS PATRIMONIAIS — DIFERIMENTO a base de cálculo do IRPJ sobre o lucro presumido deve ser acrescida do valor correspondente à diferença positiva entre a valor de alienação e o do respectivo custo. Como a contratação da alienação do direito previu o seu pagamento em parcelas, o imposto sobre o ganho de capital deverá ser lançado nos meses em que foram contratados os pagamentos de tais parcelas, em vista de só nestas datas ter ocorrido a disponibilidade da renda. Recurso voluntário provido. (Acórdão 10194765, 1ª Câmara do 1º Conselho de Contribuintes, atual Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, de 10/11/2004) Reluzente, assim, que as bases de cálculo elegidas pela fiscalização (preço total segregado em parte por receita financeira) estão erradas, dado que, em função das condições suspensivas, o preço foi '‘parcelado” por decorrência de eventos futuros e incertos, cujo montante, efetivamente recebido pelas pessoas físicas era de conhecimento do AFRFB, sendo completamente nulos os autos de infração. E não é só por isso que as bases de cálculo estão incorretas. Além de não refletirem o recebimento do ganho de capital em parcelas por decorrência de cumprimento de condições suspensivas, o valor considerado pelo AFRFB não reflete o montante de acréscimo patrimonial efetivamente recebido pelas pessoas físicas. O AFRFB desprezou a realidade, por completo, ao se basear tão somente no contrato de compra e venda para determinar como ganho de capital o valor da avaliação da Rodovias, desprezando, mesmo ciente, que tal valor não foi o efetivamente o recebido pelas pessoas físicas. O AFRFB elegeu como ganho de capital o preço estipulado em contrato desprezando, aí, todos os custos havidos com a negociação, não apurando, com isso, o ganho de capital efetivo auferido pelas pessoas físicas, que deveria, ao menos, refletir na Requerente, em vistas da ilegal desconsideração da real operação. Neste cerne, é importante destacar que, apesar de não excluir os valores das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL, o AFRFB reconheceu expressamente a existência dos custos com o Banco Itaú, como se depreende do TVF (fl. 1.070): 65. A quantia de R$ 13.750.074,68 referente a comissão devida pelos vendedores ao Itaú BBA, foi paga diretamente pela CPC ao Itaú BBA, por conta e ordem dos Vendedores engloba o preço de venda. Desta forma, acrescentamos o valor de R$ 761.754,14 que caberia à NF Motta. 66. Desta forma, apurouse o ganho de capital abaixo discriminado: Da mesma forma, os demais custos havidos na operação também não foram deduzidos da base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Isso porque o AFRFB apurou, Fl. 3171DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.164 17 exatamente, os valores líquidos recebidos pelas pessoas físicas, sócias da Requerente (fls. 493/503). Se o AFRFB tinha em seu poder os valores líquidos recebidos pelos sócios e o regime era de caixa, o montante das bases de cálculo deveria refletir apenas essas quantias. Ao revés disso, as despesas na operação foram simplesmente ignoradas pelo AFRFB sem motivação alguma, em menoscabo ao real sentido do termo “ganho de capital’', que corresponde ao acréscimo da renda líquida — verificada em números exatos pela fiscalização (fls. 493/503). Constatase, por isso, que a base de cálculo determinada pelo AFRFB é equivocada, vez que é fictícia e não leva em conta o efetivo recebimento pelas pessoas físicas, sendo, pois o lançamento completamente imprestável. Mas não para por aqui. Como o valor recebido em 2011 deveria ser computado pelo lucro real e a quantia percebida em 2012 pelo lucro presumido, ambos com base na efetiva entrada de numerário aos sócios, observase, também, que as bases de cálculo estão todas erradas. Para apuração do lucro real em 2011, o AFRFB deveria apurar o lucro líquido,ajustado pelas adições ou compensações, além de reconhecer despesas e custos, nos termos da legislação de regência. Apesar da determinação legal, o AFRFB somou um valor de competência e reconheceu no 4o trimestre de 2010 em menoscabo aos mais basilares elementos de apuração do IRPJ e da CSLL. Da mesma forma, o valor recebido pelos sócios em 2012 deveria, pela tese fiscal, ser computada na base de cálculo do lucro presumido pelo regime de caixa, nos termos da legislação que o próprio AFRFB citou (doc. 2). Mesmo ciente disso e ignorando as cláusulas suspensivas, o AFRFB também alocou esse montante do preço recebido pelas pessoas físicas no 4° trimestre de 2010, sem realizar a apuração apartada. Assim, esses vícios em relação aos anos de 2011 e 2012 contaminam todas as bases de cálculo formadas no 4° trimestre de 2010, que é superficial e não reflete, ainda que baseada na tese fiscal, o ganho líquido percebido pelas pessoas físicas em períodos distintos, depois do cumprimento de cada condição suspensiva prevista em contrato. A jurisprudência do CARF é clara ao delimitar que equivocado a base de cálculo, o lançamento de ofício deve ruir. E o caso dos autos: “NULIDADE VÍCIO MATERIAL ERRO NA CONSTRUÇÃO DO LANÇAMENTO Comprovado, em grau de recurso, a existência de erro material na base de cálculo do imposto lançado, resta nulo o Auto de Infração". (Acórdão n° 192 00.015, 1º Conselho de Contribuintes, j. 08.09.2008) “ERRO NA VERIFICAÇÃO DA OCORRÊNCIA DO FATO GERADOR. NULIDADE DO LANÇAMENTO. Fl. 3172DF CARF MF 18 É nulo o lançamento que apura crédito tributário utilizando como parâmetro aspecto temporal e base de cálculo diferente da estabelecida pela regramatriz de incidência tributária. Não pode prosperar o lançamento que contém erro na apuração do crédito tributário por não respeitar a forma semanal de apuração prevista na regramatriz de exigência do crédito tributário. Tendo o fisco apurado que as infrações ocorreram em diversas datas, mas considerado o fato gerador ocorrido no último dia de cada mês, resta cancelar a exigência em face do erro material em sua constituição". (Acórdão 10248.935,1° Conselho de Contribuintes, j. 05.03.08). Logo, por todos os equívocos acima retratados, consistentes na falta de prova para conformação das bases de cálculo; na imputação de valor total, segregado em inicial e receita financeira inexistente, com desconsideração das parcelas advindas do cumprimento das cláusulas suspensivas; na falta utilização de determinação do real ganho de capital; e o erro de regime de apuração das parcelas de 2011 e 2012, é inegável que os lançamentos de ofício devem ser, integralmente, cancelados por equívoco na mensuração da base imponível. II. d) A ilegalidade do lançamento por suposto “planejamento tributário abusivo” Ofensa ao art. 37 e 150 da CF/88, art. 97 e 197 do CTN e art. 2° da Lei 9.784/99 Como se disse acima, o ponto fulcral dos lançamentos de ofício foi a indicação de suposto "‘planejamento tributário abusivo” (fls. 1.062) e, por tal razão, o ato do AFRFB é ilegal, dado que inexiste no sistema jurídico pátrio norma que permita o desfazimento de atos perfeitos e acabados para substituição de outros presumidos ao bel prazer da fiscalização por tais motivos. Com efeito, pela linha de raciocínio da acusação, o “ planejamento tributário abusivo” foi promovido pela Requerente com o propósito de diminuir a arrecadação do erário federal (fls. 1.062). Partindo dessa perspectiva, o AFRFB desqualificou a venda da participação societária da Rodovias pelas pessoas físicas à CPC e realocou o valor recebido a título de preço como sendo omissão de receita da ora Requerente, que, no seu entender, teria sido a real beneficiária da transação. Essencial destacar, desde já, que, mesmo alicerçando os lançamentos de ofício em hipotético “planejamento tributário abusivo”, todos os atos societários praticados pela Requerente foram legais, sem que houvesse registro de nenhuma ilicitude ou vício de vontade pela fiscalização. Apesar de sustentar todo o lançamento nesse único e peculiar aspecto, é certo dizer que inexiste no ordenamento jurídico pátrio dispositivo legal que (i) caracterize qualquer traço da hipótese de “planejamento tributário abusivo” e (ii) indique quais são os elementos que, com a desconstituição dos atos, darão as diretrizes da nova realidade. Quer dizer, o lançamento de ofício é totalmente ilegal e — portanto — nulo, vez que não há no sistema legal pátrio texto de Fl. 3173DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.165 19 lei que preveja a hipótese de “planejamento tributário abusivo” para efeito tributário e muito menos que descreva a consequência de sua efetiva ocorrência no contexto social. Tanto é assim que no bojo do lançamento fiscal o AFRFB deixa de indicar qual seria o fundamento legal do “planejamento tributário abusivo”, que foi o motivo primordial da autuação. E não registra, o AFRFB, o fundamento legal por um simples motivo: a norma que revelaria a hipótese e a consequência decorrente do aventado “planejamento tributário abusivo" não existe no Brasil! É sabido que, nos termos da Constituição Federal de 1988 CF/88, do Código Tributário Nacional CTN e da Lei, a Administração Pública está sujeita ao primado da legalidade estrita, sobretudo em se tratando de matéria tributária. Por outras palavras, a Administração Pública, aí incluído o AFRFB que autuou a Requerente, deve respeitar os estritos termos legais, sem qualquer margem para discricionariedade ou invenção, sob pena de enveredar na produção de ato nulo, como, de fato, se verifica na situação em apreço. Se inexiste previsão legal do que seria o '‘planejamento tributário abusivo” e a consequência de sua ocorrência no ordenamento jurídico brasileiro, evidentemente que o AFRFB, ao efetuar o lançamento baseado nessa única presunção interpretativa, praticou ato à margem da Lei. Vale lembrar, nesse pormenor, a consagrada lição de Hely Lopes Meirelles acerca do primado da legalidade e o modo de autuação da Administração Pública: "(...) no direito público, o que há de menos relevante é a vontade da administração. Seus desejos, suas ambições, seus programas, seus atos, não têm eficácia administrativa, nem validade jurídica, se não estiverem alicerçados no direito e na lei. Não é a chancela da autoridade que valida o ato e o torna respeitável e obrigatório. É a legalidade a pedra de toque de todo ato administrativo." Especificamente em relação à desqualificação de atos por “planejamento tributário abusivo”, utilizado pelo AFRFB de forma discricionária para sustentar o lançamento fiscal, a doutrina pátria também é unânime acerca de sua inexistência legal no plano do sistema normativo pátrio, corroborando a ilegalidade do ato de lançamento aqui guerreado: "Com o objetivo de coibir supostos abusos de formas jurídicas, o legislador pode utilizar a técnica de estabelecer presunções legais, criando novas hipóteses de incidência, inclusive, podendo reputar atos e negócios fraudulentos e inoponíveis ao Fisco. A realidade das infrações e crimes tributários é construída do próprio direito. "Portanto, para que as pactuacões dos particulares sejam caracterizadas como abusivas, no tocante à Fl. 3174DF CARF MF 20 forma jurídica, é imprescindível que elas sejam capturadas e incluídas como tal em expressa previsão legal’’ “Se o legislador quiser tributar a forma alternativa, basta fazê lo de modo expresso, sem deixar para o intérprete a tarefa (ilegal) de estender o tributo para situações não previstas. (...) na ausência de disciplina legal especifica, não cabe ao intérprete ou ao aplicador da lei ignorar a forma ou a estrutura jurídica e substituíla por outra, fiscalmente mais onerosa (...)" “A teoria do abuso de formas jurídicas não foi recepcionada no sistema brasileiro, em virtude da proibição do emprego da analogia gravosa em matéria tributária”. Notase que, tanto na interpretação geral do primado da legalidade, como de maneira específica sobre a inexistente previsão do que seria “planejamento tributário abusivo”, é proibida a desconstituição de atos jurídicos lícitos, como ocorre nessa situação concreta, sem Lei que estabeleça as diretrizes para tanto. Há muito, a jurisprudência do Conselho de Contribuintes, atual Conselho Administrativo de Recursos Fiscais CARF, revela que o lançamento fundado em “planejamento tributário abusivo”, sem fundamento legal, fere a legalidade e é completamente nulo, como se infere do trecho do seguinte voto em caso que tratava de operações de compra e venda de ORTN, citado na obra de Luis Eduardo Schoueri: “ (...)Nessas condições, no nosso sistema jurídico o problema resolverseá segundo o princípio da legalidade, das teorias do fato gerador e da tipicidade legal. Se o fato gerador, no sentido da hipótese de incidência, for mera situação de fato, só quando concretamente ocorrer a situação prevista em lei, com todos os seus elementos, haverá incidência do tributo." “Se a hipótese de incidência for uma situação jurídica, estabelecerseá a relação jurídica’" (Acórdão 61.269, Segundo Conselho de Contribuintes, Res. ABDF n° 5/2.5.2 — grifouse) Recentemente, inclusive, a jurisprudência do CARF reafirmou o fato de que no ordenamento jurídico pátrio não há dispositivo legal que autorize a desqualificação de atos por “planejamento tributário abusivo”, “abuso de forma”, “abuso de direito” ou qualquer outro termo usado pelo fisco para formatar a desconsideração de atos por presunção: “DIREITO TRIBUTÁRIO. ABUSO DE DIREITO. AFASTAMENTO DA NÃO INCIDÊNCIA PELA AUTORIDADE FISCAL. LANÇAMENTO. FALTA DE PREVISÃO LEGAL. Não há base no sistema jurídico brasileiro para a autoridade fiscal afastar a não incidência legal, sob a alegação de entender estar havendo abuso de direito. O conceito de abuso de direito é louvável e aplicado pela Justiça para solução de alguns litígios. Não existe previsão legal para autoridade fiscal utilizar tal Fl. 3175DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.166 21 conceito para efetuar lançamentos de oficio. O lançamento é vinculado a lei, que não pode ser afastada sob alegações subjetivas de abuso de direito. (Acórdão n° 2202002.187, Processo n° 10680.726772/201188, 2a Turma Ordinária da 2a Câmara da Segunda Seção de Julgamento, Rel. Conselheiro Newton Cardoso, Sessão de 20/02/2013 grifouse). “IMPOSSIBILIDADE DE DESCONSIDERAÇÃO DOS ATOS PRATICADOS SOBRE O FUNDAMENTO DE INEXISTÊNCIA DE PROPÓSITO NEGOCIAL OU ABUSO DE FORMAS. (...) “A aplicação da teoria do abuso de formas ao direito tributário, em razão da ausência de positivação, viola a segurança jurídica e a estrita legalidade.” (Acórdão n° 1 103001.123, Processo n° 16327.720576/201 1 13, Iª Câmara, da 3ª Turma Ordinária da Primeira Seção de Julgamento, Relator Breno Ferreira Martins de Vasconcelos Sessão de 21 de outubro de 2014 grifouse). Essa ilegalidade, como frisado, abala toda a segurança jurídica e a certeza do direito, pois retira da Requerente a possibilidade de agir preventivamente diante dos desígnios legais e. o pior, deixaa a mercê da discricionária nova reconstrução de fato e de direito realizada pelo AFRFB. Ao tratar do que chama de "sobre princípio” da segurança jurídica, Paulo de Barros Carvalho é enfático quanto à necessidade de haver previsão positiva no sistema legal, antes de qualquer especificação de fato jurídico pela Autoridade Administrativa e da consequência dela advinda: “O princípio da certeza do direito traduz as pretensões do primado da segurança jurídica no momento em que, de um lado, (i) exige do enunciado normativo a especificação do fato e da conduta regrada, bem como, de outro, (ii) requer previsibilidade do conteúdo da coatividade da norma. Ambos apontam para a certeza da mensagem jurídica, permitindo a compreensão do conteúdo, nos planos concretos e abstratos." Cintilante, desse modo, que, por falta de previsão legal, não há como sustentar o lançamento baseado na única acusação de “planejamento tributário abusivo”, sendo, pois, de rigor o cancelamento dos autos de infração. II. e) A inexistência de previsão legal de “omissão de receita” em relação ao caso concreto Ofensa aos arts. 281 a 288 do RIR/99 (DecretoLei n° 1.598/77 e Lei n° 9430/96) Não é só. É de suma relevância dizer que, em nenhum momento, foi registrado pelo AFRFB que houve escrituração à margem da contabilidade e, por tal razão, a fundamentação legal sobre a suposta omissão de receita é incabível e os lançamento de ofício são ilegais. Na realidade, o AFRF baseia a omissão de receita num único pressuposto: na suposta ocorrência do por ela denominado “planejamento tributário abusivo”. Fl. 3176DF CARF MF 22 Nada mais. Sem desconsiderar os atos legais praticados pela Requerente não se chega a nenhuma possibilidade de lançamento de ofício. Como dito anteriormente, inexiste texto legal que regule a ocorrência de “planejamento tributário abusivo” e, do mesmo modo, não há hipótese legal que preveja a ocorrência de omissão de receita por desqualificação de ato jurídico lícito. Partindo da desconstituição da alienação feita pelas pessoas físicas, sócias da Requerente, pelo aventado “planejamento tributário abusivo”, o AFRFB entendeu ter havido omissão da receita. Afora a motivação legal geral sobre base de cálculo e alíquota, para os (i) valores de R$ 62.826.592,20 (22/10/2010) e R$ 5.250.282,09 (31/12/2010) foram utilizado como parâmetro da determinação do fato jurídico tributário do IRPJ e da CSLL os arts. 521, 522 e 528 do RIR/99, enquanto que para o montante de (ii) R$ 1.678.394,17 (22/10/2010) os art. 521 e 528, do RIR/99 (fls. 1.032) Entretanto, observase que, também sob o prisma da omissão de receita, as hipóteses legais registradas pelo AFRFB não se coadunam com esse referido e suposto “fato” que ensejou o lançamento de ofício, em menoscabo aos princípios da legalidade e da tipificação tributária. Com efeito, os arts. 521 e 522, do RIR/99, tratam da apuração do ganho de capital, inclusive no que tange ao custo de aquisição. Já o art. 528, do RIR/99 estabelece de forma geral que, observada a omissão de receita, o montante deverá ser computado na apuração do IRPJ e da CSLL pelo lucro presumido. Diante desses dispositivos temse que para (i) os valores de R$ 62.826.592,20 e 5.250.282.90 foram indicadas uma hipótese geral de omissão de receita, sem qualificação da hipótese e para (ii) a quantia de R$ 1.678.394,17 nem sequer foi registrada tal situação, já que o fundamento legal trata apenas da apuração do ganho de capital. Quer dizer, até mesmo para enquadramento da suposta omissão de capital, o AFRFB agiu na ilegalidade, pois nenhum dos dispositivos legais por ele citados assemelhase aos fatos verificados no lançamento de ofício. Lembrese, nesse pormenor, que o art. 288, do RIR/99 determina o tratamento tributário a ser seguido na hipótese de constatação de omissão de receita, isto é, o regime (lucro real, presumido ou arbitrado) que deverá ser imposto e obedecido pelo contribuinte. É essencial salientar, nesse ponto, que o mencionado comando normativo revela a consequência decorrente da omissão de receita e não cuida das hipóteses nas quais ela se verifica, que, repisese, não foram fundamentadas nem qualificadas pelo AFRFB. Essas hipóteses de omissão de receita, que tratam da conduta do contribuinte, são previstas nos textos legais antecedentes (arts. 281 a 287 do RIR/99), que, de forma exaustiva, preveem as situações que ensejam a sua ocorrência. Há omissão de receita quando a fiscalização verifica a existência de saldo credor de caixa, de falta de escrituração de pagamento, de suprimento de caixa, de falta de emissão de nota fiscal etc, ou presume a existência de depósitos bancários. Nem de longe, essas hipóteses se subsumem ao suposto fato indicado no lançamento fiscal: omissão por “planejamento tributário abusivo". Fl. 3177DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.167 23 Verificase que os dispositivos legais que sustentam a acusação da suposta omissão de receita não se coadunam com os fatos apurados pelo AFRFB no lançamento fiscal. Ora, é notório que, em se tratando de omissão de receita, é preciso que haja previsão legal expressa e específica em relação ao fato de possível ocorrência que leve a essa constatação, como, por exemplo, na hipótese de manutenção de passivo de obrigações já pagas (art. 282, III, do RIR/99). Constatase que o lançamento fiscal padece de outra nulidade por ofensa à legalidade e pela inexistência de tipificação tributária, uma vez que as hipóteses de omissão de receita são exaustivas, fechadas em numerus clausus, e elas não se subsumem ao fato apontado no lançamento de ofício. Maria Rita Ferragut realça que, em matéria tributária, a tipificação é fechada, o que significa dizer que, para haver incidência e obrigação de pagamento de valor a título de tributo, a hipótese legal deve corresponder exatamente com o fato apurado; caso contrário não haverá tipificação: “O tipo tributário é, segundo nosso entendimento, fechado. A limitação é precisa, e corresponde a um tipo específico, veiculado por enunciado jurídico que descreva de forma completa todos os critérios necessários à identificação do fato relevante, o que, em outras palavras, significa que apenas deverão ser considerados para fins de tributação aqueles fatos resultantes da relação de identidade entre os enunciados denotativo e conotativo. ” Rememorese, nessa esteira, que o primado da legalidade é o pilar máximo vislumbrado pela Constituição Federal de 1988 para consolidar o Estado Democrático de Direito, não podendo ser vilipendiado, como efetivamente está sendo pelo AFRFB. À evidência, inexiste correspondência do fato às normas de omissão de receita assentadas pela AFRFB. Mister apontar, nesse sentido, a acertada lição de Paulo de Barros Carvalho, que pontifica: "Em matéria tributária, terreno sobremodo delicado, por tocar em direitos fundamentais dos administrados, quais sejam o direito de propriedade e o de liberdade, as normas que disciplinam a atividade administrativa são especialmente rígidas, com seus momentos capitais regulados por expedientes que devem guardar cabal aderência aos mandamentos que o direito positivo institui. Nenhum ato pode ser praticado sem autorização expressa da lei e o funcionário não dispõe de liberdade de ação para inovar o quadro das providências legalmente possíveis." A jurisprudência da Câmara Superior de Recursos Fiscais do CARF é pacífica quanto à impossibilidade de caracterização de omissão de receita sem que haja hipótese específica na legislação de regência para tanto: “IRPJ OMISSÃO DE RECEITA PASSIVO NÃO COMPROVADO PRESUNÇÃO LEGAL Somente a partir da vigência do art. 40 da Lei 9.430/96 a presunção de tributação baseada na figura do chamado "passivo não comprovado" adquire foros e legitimidade assim invertendo o ônus da contraprova do ilícito relativo a uma suposta omissão de receita para o sujeito passivo. Fl. 3178DF CARF MF 24 Recurso especial denegado. ” (Processo n°: 10880.007717/00 88, Recurso n°: RD/107123.123, Sessão de: 11/08/2003, Acórdão n°: CSRF/0104.590) Do julgado em destaque percebese que, antes da Lei n° 9.430/96, a presunção de omissão de receita, advinda de passivo não comprovado, era inaplicável por falta de previsão legal. Se até a edição da referida norma não existia regra de lançamento para passivo não comprovado, da mesma maneira não se pode permitir a omissão de receita por desconstituição de atos lícitos, já que inexiste hipótese legal para tanto. A situação aqui é a mesma do citado julgado: inexiste norma legal que revele a hipótese de omissão de receita por desconstituição de ato jurídico lícito, especialmente de operação legal de redução de capital seguida por venda e compra de participação societária. A jurisprudência do CARF é farta e corrobora os fundamentos jurídicos da Requerente, de que, sem previsão específica de omissão de receita, há clara ilegalidade no lançamento por falta de tipificação legal: “OMISSÃO DE RECEITA SUPRIMENTO DE CAIXA ART. 229 DO RIR/94 SUPRIDOR ESTRANHO AO QUADRO SOCIETÁRIO INAPLICABILIDADE A aplicação da presunção de omissão de receita do art. 229 do RIR/94 somente é possível quando o suprimento do caixa é realizado "por administradores, sócios da sociedade não anônima, titular da empresa individual, ou pelo acionista controlador da companhia". Sendo o supridor estranho ao quadro societário da contribuinte, sociedade limitada, é inviável a aplicação do dispositivo. (...)” (Número do Recurso:140107. Câmara: QUINTA CÂMARA, Número do Processo: 13839.004260/0007, Tipo do Recurso: VOLUNTÁRIO. Data da Sessão: 10/11/2004, Relator: Eduardo da Rocha Schmidt, Decisão: Acórdão 105 14800 grifouse) “OMISSÃO DE RECEITAS SUPRIMENTO DE NUMERÁRIO. Conforme o disposto no art. 229 do RIR/94, para a caracterização da infração de omissão de receitas por suprimento de numerário não comprovado é necessário que a contribuinte tenha sido formalmente intimada para fazer a comprovação e que o suprimento tenha sido realizado pelas pessoas indicadas no referido artigo. (...)" (Número do Recurso: 149750. Câmara: SÉTIMA CÂMARA, Número do Processo: 15374.000554/0055, Tipo do Recurso: VOLUNTÁRIO. Data da Sessão:18/10/2006 Relator: Albertina Silva Santos de Lima, Decisão: Acórdão 10708787 – grifouse) A jurisprudência nesse ponto é tão pacífica, que o CARF sumulou a matéria em relação ao “passivo não comprovado”, retratando que, somente depois da edição de Lei específica, é que se tornou válido o lançamento por omissão de receita nessa referida hipótese: Súmula CARF n° 54: “A constatação de existência de "passivo não com provado" autoriza o lançamento com base em presunção legal de omissão de receitas somente a partir do anocalendário de 1997.” Fl. 3179DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.168 25 Da mesma forma dos casos acima, temse que, como não há hipótese específica de omissão de receita por desconstituição de ato lícito, a jurisprudência do CARF ratifica o fundamento de ilegalidade ora suscitado pela Requerente. Logo, pela falta de amparo normativo, a omissão de receita e o consequente lançamento de IRPJ e reflexos são ilegais (R$ 62.826.592,20 e 5.250.282,09), sobretudo quanto ao valor de R$ 1.678.394,17 que nem sequer foi enquadrado como tal, os autos de infração, também por esses motivos, devem ser cancelados. II. f) O descabimento da desconsideração da alienação feita pelas pessoas físicas (motivação, substância e realidade) — Ofensa à Legalidade e à Tipicidade Nada obstante os erros incorrigíveis dos lançamentos de ofício, não há como manter a desqualificação fiscal dos atos praticados pela Requerente e seus sócios, baseado na ideia de que houve “planejamento tributário abusivo”, dado que foi seguida à Lei e não houve qualquer tipo de manipulação da real intenção na operação. Demonstrase. • Os atos jurídicos, perfeitos e acabados da Requerente, pautados em fatos reais e motivados Antes de tudo, é bom grifar que, desde 2008, havia o interesse dos sócios da Requerente de realizar a redução de capital, com o objetivo de isolar sua participação da Rodovias, para diminuir os possíveis riscos incidentes sobre tal investimento considerando a sua própria operação, além de formar bloco de acionistas minoritários na referida concessionária pública. Lembrese, nesse aspecto, que a Requerente é empresa de forte natureza operacional, como se nota de seu contrato social (doc. 6) e sua DIPJ acostadas aos autos (fls. 2/43), que revela a receita apurada por essa natureza de atividade. Rememorese, da mesma forma, que a Requerente possuía diversas participações em empresa operacionais, o que também eleva o risco de suas atividades, que era e ainda é diversificada. A Requerente trás à colação, a propósito disso, os anexos atos societários de 07 (sete) empresas distintas, tais como, Capuan Agrícola S/A, Bioenergética Vale do Paracatu S/A, Sagres S/A, entre outras (doc. 3), que demonstram ser ela mantenedora de participação em outras empresas operacionais. De outro lado, a manutenção simultânea de diversos investimentos societários paralelos, além de representar boas expectativas de ganho, também multiplica os riscos a que a Requerente estava sujeita, no exercício de suas atividades. Por estar envolvida em outras operações societárias, das quais a Requerente constitui elo comum, havia efetivo interesse por parte de seus sócios de isolar os investimentos na Rodovias, em razão de sua solidez e credibilidade. Com essa intenção em mente, os sócios da Requerente, em 12/11/2008 (quase 2 anos antes da venda do investimento pelas pessoas físicas), diante do excesso de capital, decidiram por realizar publicação de ata visando a redução do seu capital, tudo para isolála do restante de sua operação (doc. 4). Tal ato observou o disposto no § 1º, do art. 1082, do Código Civil, o que reforça a licitude do ato, que, em momento algum, foi contestado pela fiscalização (docs. 2 e 4). Fl. 3180DF CARF MF 26 Para fazer essa transição plenamente, a Requerente não podia efetivála de imediato, haja vista que, segundo as regras da ARTESP (doc. 9), pessoas físicas não poderiam deter participação na Rodovias, e, havia, ainda, a projeção da formação do bloco na referida concessionária. Diante disso e também para formar bloco político de minoritários na Rodovias, a Requerente, juntamente com outras empresas parceiras, formaram a Holding G4 em 20/12/2008 (doc. 5), cujo objetivo era justamente a administração conjunta da referida participação na concessionária pública. Nesse ponto, vale realçar que, por terem conhecimento das constantes atividades negociais praticadas pela Requerente, as demais componentes do quadro societário da Holding G4 exigiram que a inclusão da Requerente deveria ser feita com o isolamento da participação da Rodovias das demais operações. O motivo dessa exigência é claro e simples: a inclusão das pessoas físicas na Holding G4, com a titularidade da participação da Rodovias, iria mitigar eventuais riscos decorrentes da inclusão da operação da Requerente. Esse pleito era feito pelas demais empresas da Holding G4 e, paralelamente, pela própria Requerente em relação a elas. Isto é, os demais membros da Holding G4 não almejam correr os riscos da operação da Requerente, do mesmo modo que ela não queria ter a sua participação contaminada pelos referidos terceiros. O objetivo era formar bloco político e melhor administrar, mas minimizando ao máximo qualquer prejuízo com a contaminação de negócios entre as partes. Quer dizer, desde 2008 a Requerente praticou atos visando a redução de capital para isolar a participação da Rodovias de sua operação e depois das demais empresas do grupo formado pela Holding G4, como condição de existência de criação do bloco político e administração conjugada das ações da referida concessionária pública. Apesar de o AFRFB tratar todos os atos como advindos, de um grande e maquiavélico plano contra o fisco, a Requerente, desde 2008 (2 anos antes da venda da participação à CPC pelos sócios), já tinha definido e formalizado a sua vontade de entregar a participação da Rodovias às pessoas físicas. Vale ressaltar, nesse aspecto, que a participação da Rodovias, de um modo geral,sempre foi alvo de propostas e especulações sobre vendas de participação, como se nota do anexo prospecto de 2008, no qual consta, dentre a CPC, citada pela fiscalização, mais 28 empresas interessadas (doc. 10). Aliás, nada obstante o AFRFB dizer que "as negociações foram iniciadas em 2006 e interrompidas em 2008” (fls. 1058 com a CPC, o fato é que a Rodovias (e não a Requerente) não recebeu propostas apenas da referida empresa, mas de outras também (doc. 10), sem que houvesse nenhuma relação efetiva e conjugada. Já em 05/01/2009, ainda sem nenhuma proposta efetiva de venda e compra, muito menos da CPC, a Requerente integralizou a participação que detinha na Rodovias na Holding G4, para realizar a ideia de formar grupo político de minoritários (doc. 5). É bom salientar que a efetivação da participação se deu mediante cláusula suspensiva, pois, como dito acima, era necessária a aprovação da ARTESP, da CEF e do BNDES (docs. 5 e 12). Nesse passo, é curial desde já destacar que as condições tiram a presunção fiscal de que tudo foi feito visando a venda pelas pessoas físicas em 2010, vez que Fl. 3181DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.169 27 esse ato poderia não se confirmar e vedar a existência da própria Holding G4 na Rodovias, tendo sido realizado muito tempo antes da efetivação do negócio. Da mesma maneira, fica fora da realidade acreditar que, com o ato de 2008 e as condições suspensivas para efetivação da participação na Holding G4, os sócios, pessoas físicas, pudessem vislumbrar vender a participação indireta para a CPC e usar parte do preço para fazer aporte na Requerente. Evidentemente que esse não era o intuito e nem poderia ser previsto. Como se constata, outrossim, os sócios e a Requerente estavam buscando concretizar, diante do excesso de capital, seu ideal de 2008: conseguiram formar o bloco político, mas ainda não podiam executar seu desejo de separar as operações, dado que, por questões condicionais e formais, eram necessárias as citadas aprovações. Em 15/07/2009, a Rodovias, a pedido da Requerente e do grupo formado pela Holding G4, enviou carta à ARTESP pleiteando a substituição formal dela e das demais empresas na participação da referida concessionária (doc. 12). A autorização formal da ARTESP veio em 29/10/2009 (doc. 12). Aqui vale uma ressalva. O AFRFB diz ser relevante a ata de Assembléia Geral Extraordinária AGE da Rodovias (fls. 350/351), realizada em 31/08/2009. na qual são acertados (i) o fornecimento de fiança e garantias pelo Banco Itaú BBA S/A, doravante “Itaú”, e (ii) a reserva de assessoria em futura estruturação, de forma marginal. Como foi esclarecido na fase inquisitória, o acerto entre a Rodovias e o Itaú foi feito pela diretoria da referida concessionária, como consta, inclusive da ata, sem qualquer participação da Requerente e confirmado pela fiscalização (fls. 1058 item 10), que descartou a apresentação de tal documento. E, ainda, bem antes e sem qualquer vinculação com o negócio que seria feito em 2010 por meio das pessoas físicas com a CPC, tenho como objeto a participação da Holding G4. Conforme a AGE (fls. 350/351), tal assessoria financeira teria como principal objetivo a obtenção de financiamento e de fiança bancária. A contratação para eventual e futura estruturação societária foi ribeirinha; uma clara moeda de troca para que a Rodovias pudesse, na realidade, obter as garantias que necessitava, o que é comum e evidente em negociações com instituições financeiras. Não se trata, à evidência, de afirmativa improcedente, como indica o AFRFB (fls. 1058). É notório que as instituições financeiras se aproveitam do poder de barganha, dar crédito, no caso, para obter alguma vantagem futura em termos de prestação de serviço. Além disso, esse acerto da diretoria da Rodovias (e não da Requerente) era geral, sem qualquer vinculação específica com a venda e compra realizada pelas pessoas físicas, sócias da Requerente, em 2010. Na sequência de atendimento das condições e de posse da autorização mais emblemática da ARTESP, a Rodovias, uma vez mais a pedido do referido grupo, enviou cartas às seguintes instituições financeiras pedindo a substituição da Requerente e das aludidas empresas pela Holding G4, na condição de devedora dos empréstimos e das fianças até então por elas avalizadas como acionistas: (i) 29/10/2009 para o BNDES e (ii) 23/11/2009 para a CEF (doc. 12). Essencial dizer que, tal como no passado, a Rodovias era alvo de especulação de venda e compra, mas, sem nada que formalizasse e vinculasse à Requerente e Fl. 3182DF CARF MF 28 nem ela a qualquer negócio, que seguiu atendendo e caminhando em direção ao seu objetivo. Com a autorização da ARTESP e com a ciência de que as instituições financeiras não se oporiam ao pedido de substituição da Rodovias, já que procederam às autorizações posteriormente (doc. 12), a Requerente pode, desde logo, dar andamento no seu objetivo de isolamento da participação na mencionada concessionária. Essa medida, como dito linhas atrás, visou separar a participação da Rodovias em face das demais operações da Requerente, como forma de isolar risco e segregar resultados, como, repisese, pensado e iniciado em 2008. Curial frisar, nesse pormenor, que tudo isso se deu antes da presunção fiscal de que havia "negociação em 2009" com a Requerente, que, repitase, não foi comprovada. Ou seja, tudo o que foi projetado pela Requerente até aqui só teve repercussão formal em 2010. Por isso, é despiciendo o pensamento, com todo respeito, criativo do AFRFB, de que tudo se deu com a finalidade de uma venda e compra (com suposta concretude em 03/08/2010), mas finalizada, de fato, em 22/10/2010 pelas pessoas físicas. Para formalizar tudo isso, as aprovações da ARTESP, CEF e BNDES, em 22/04/2010, a Holding G4, por meio de alteração de contrato social, (i) confirmou a integralização de capital em 05/01/2009 e (ii) a entrega a transferência da participação da Rodovias aos sócios da Requerente (doc. 5). Em seguida, por meio de alteração de contrato social e expressa alusão à ata publicada em 12/11/2008, a Requerente, depois de cumpridas todas as condições e formalidades acima, ratificou a redução de capital em 03/05/2010, com entrega da participação da Rodovias para uma participação das pessoas físicas na Holding G4. Um dia depois desse ato, em 04/05/2010, que, repisese, só não foi concluído em 2008 por questões condicionais adstritas a aprovações de terceiros (ARTESP, BNDES e CEF), foi formalizada a transferência da participação da Rodovias na Holding G4 para os sócios pessoas físicas. Vêse, assim, que toda projeção e anseio da Requerente em 2008 só teve repercussão formal em 05/2010, sendo, pois, despiciendo o pensamento, com todo respeito, criativo do AFRFB, de que teria havido (i) negociação em nome da Requerente em 12/2009 e (ii) todos os atos tiveram a finalidade de uma venda e compra simulada pelas pessoas físicas, inclusive com volta de capital na pessoa jurídica. Do histórico acima, na realidade, se vê o contrário. A Requerente e seus sócios não poderiam, como pretendiam, realizar todos os atos em 2008. Havia condições de terceiros e formalidades que impediam tal situação, de sorte que levar a efeito a presunção fiscal é ignorar esses fatos, pois o AFRFB trata como se tudo tivesse sido calculado para efetivar a venda à CPC em 22/10/2010 (data do fechamento doc. 8). Evidentemente, não foi. Sob esse enfoque, é essencial dizer que assertiva fiscal de que seria coerente a formação de bloco na Holding G4, mas incoerente a transferência da participação da Rodovias às pessoas físicas não se sustenta, vez que embasada apenas na ideia fixa de desconstituição dos atos perfeitos e acabados em vista de arrecadar por meio de uma tese imaginária. Com o cumprimento das condições e dessas formalidades, a Requerente e as demais empresas da Holding G4 conseguiram mitigar os riscos decorrentes de outros negócios e, concomitantemente, segregar os resultados de cada uma delas. Fl. 3183DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.170 29 Rememorese, nesse aspecto, que esse era o anseio da Requerente desde 2008: separar os negócios, sobretudo o referente a Rodovias. Primeiro em relação à própria operação e depois em defesa das operações das demais empresas que formavam a Holding G4. Além desses objetivos peculiares da Requerente, desde o início e pela própria natureza de uma empresa holding, o objetivo principal da Holding G4 era reunir e administrar, da melhor forma possível, a participação de todos do grupo na Rodovias, como bem frisou o AFRFB (fls. 1.059). Desnecessário dizer que administrar um ativo, à evidência, significa minimizar riscos e prejuízos, ampliar o investimento, se possível, e resguardálo de qualquer situação que pode deteriorálo, notadamente na constância de diversidade de sócios com interesse comum. Com a criação da Holding G4 a medida de segregação de negócios se tornou uma necessidade, pois, com as conjunções de participação na Rodovias, o risco de contaminação de passivo com as demais empresas operacionais foi multiplicado por 4 (quatro), dado serem pessoas jurídicas distintas. Tal fato fica ainda mais evidente diante da constatação de que a Requerente é empresa fortemente operacional e participa de diversos outros negócios envolvendo empresas terceiras, assim como as demais empresas da Holding G4. Não se tratou, assim, de nenhuma incoerência, como pensou o AFRFB. Com essas ações a Requerente e o grupo preservaram o bloco político na Rodovias e eliminaram a possibilidade de sofrer prejuízos com isolamento das participações, sem influências negativas de outras operações das empresas, que poderiam inviabilizar e rachar o grupo. Igualmente não houve qualquer tipo de alteração da verdade dos fatos. A projeção pensada pela Requerente teve substância e finalidade. A Alienação da participação da Holding G4 pelas pessoas físicas foi legal e legítima, baseada em dados reais que resultaram em pagamento de IRPF à União Federal. E a construção, por períodos e obrigações, demonstra que não havia a menor possibilidade de a redução de capital (iniciada em 2008) estar vinculada a uma ideia de venda e aportes de 2010. Enfim, de 11/2008 a 05/2010, ANTES do início da alienação pelas pessoas físicas, a Requerente atuou de forma ordenada, com atendimento à legalidade e com substância, objetivando a organização de sua participação societária na Rodovias, com redução de riscos e buscando uma participação de minoritários, em grupo. Vejase, a propósito, a linha do tempo, resumida, de ações da Requerente e da Holding G 4, que, por condições de terceiros, de atendimento fiel a legislação de regência e a burocracia, foram, por isso, somente concretizadas em 2010 e não em 2008, como era o plano inicial: Fl. 3184DF CARF MF 30 Fl. 3185DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.171 31 Bem se vê que todos os atos jurídicos, perfeitos, acabados e motivados foram praticados ANTES da venda (contrato de 03/08/2010 e fechamento efetivo em 22/10/2010) efetuada pelas pessoas físicas, sócias da Requerente (fls. 562/899 e doc. 16), à CPC, de sorte que a presunção fiscal não encontra qualquer guarida no contexto da realidade. De fato, se vê do contrato de venda de 03/08/2010 (fls. 562/899) com cláusulas suspensivas, do termo de fechamento de 22/10/2010 (fls. 560/561 e doc. 8) momento pelo qual se deu efetivamente a alienação, e nos demais documentos sobre o negócio, que, refletindo a realidade legal e material, quem praticou os atos foram as pessoas físicas, sócias da Requerente (fls. 562/899 e doc. 13). Como, de fato, foram as pessoas físicas que praticaram a alienação da participação indireta da Rodovias, foi corretamente recolhido o IRPF sobre o ganho de capital de cada um mais uma vez em obediência à legislação de regência (doc. 13). Diante de toda essa explanação, que dão motivação e substância aos atos da Requerente, não há como subsistir a ampla presunção fiscal, que vincula todos esses acontecimentos à venda da participação da Holding G4 à CPC pelas pessoas físicas, como se a Requerente tivesse, com todo respeito, poderes para prever o futuro. Cita vasta jurisprudência: Fl. 3186DF CARF MF 32 Portanto, todos os atos praticados pela Requerente foram legais (como atestado pela fiscalização), além de terem substância, motivação e finalidade, como comprovado acima, motivo pelo qual os autos de infração devem ser cancelados. • O equívoco da presunção fiscal Venda efetiva pelas Pessoas Físicas, sócias da Requerente — Inexistência de retorno de investimento Além de todos os atos acima demonstrados serem motivados e representarem a realidade vivenciada no mundo real, a presunção fiscal de que teria havido venda disfarçada pelas pessoas físicas em razão da suposta volta do preço para a Requerente não deve prevalecer. Como dito e redito acima, apesar do esforço do AFRFB na fiscalização, não há nenhuma prova de que a Rodovias e a Requerente tivessem celebrado qualquer acordo formal de venda e compra antes da redução de capital e da entrega da participação às pessoas físicas. O AFRFB se apoia em propostas para a Rodovias e não para a Requerente, que não possuem relevância jurídica alguma para comprovar a existência de negócio formalizado com a CPC quando ela ainda detinha a participação societária na referida concessionária, inclusive por meio da Holding G4. Como atestado acima, aliás, sempre foram muitas as propostas endereçadas à Rodovias com intenção de compra de participação. Em 24/03/2010, como se nota da carta anexa, ainda havia discussão da cúpula da Rodovias sobre possível venda à companhia Atostrade Per I ' Itália (doc. 11). Quer dizer, a CPC não era a única interessada na compra da Rodovias, inclusive em 2010, sendo, pois, corriqueiras as inúmeras propostas havidas no período e irrelevantes as suposições do AFRFB de que teria existido algum negócio formal com a CPC antes da transferência da participação da Requerente para as pessoas físicas. É notório que uma empresa do porte da Rodovias, como qualquer outra, trata de propostas de venda e compra entre os principais acionistas. Se esses consentirem com algo, somente depois serão envolvidos os minoritários. O AFRFB trata da questão, com todo acatamento, num mundo desconexo da realidade, no qual minoritário tem o mesmo poder de majoritário. O alvo dos compradores sempre foi a Rodovias e não a Requerente de maneira isolada, ainda mais se levada em conta sua participação inexpressiva frente ao todo. Deveras, como ressaltado desde a fase inquisitória, a Requerente era minoritária, ainda que considerado o grupo formado pela Holding G4 e, ao contrário do que pensa o AFRFB, não participava de tomada de decisões, não recebia propostas e muito menos efetivava negociações com eventuais compradores. Nesse ponto, ainda, vale dizer que o AFRFB, ao citar o sócio da Requerente, Ivan, como '‘Conselheiro de Administração” da Rodovias em 2009 (fls. 1.059), nada altera o fato de ela ser minoritária e não participar de decisões importantes, como é uma alienação. Ora, Ivan era conselheiro e não está entre as competências de titular ou suplente de conselho de administração deliberação sobre alienação das ações da companhia. E mais, ele não era diretor e, desse modo, não assinava nada em nome da Rodovias, inclusive sobre matéria de alienação. Tanto é assim que o AFRFB faz essa assertiva, com todo respeito, leviana, mas não traz à baila nenhum documento que ele tenha assinado em nome da Rodovias. E não traz porque não existe, especialmente no tocante à CPC. Fl. 3187DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.172 33 Por outro lado, os documentos fornecidos (contrato com banco intermediário, propostas e laudos de auditoria) pela CPC traduzem o seu interesse, mas, de nenhuma forma, revelam pré ou acordo formal para venda e compra de participação da Rodovias e. muito menos da pequena parcela que se pretende atinente à Requerente. Ora, qual vínculo teria a Requerente com a contratação de instituição financeira (Banco BTG Pactual S/A) para atender aos interesses da compradora, CPC, num negócio futuro? Nenhum! Qual seria a relação da Requerente e o levantamento em auditoria, feito pela compradora, CPC, para formar estimativa de valor de uma empresa que ela tinha interesse em comprar? Nenhum. O AFRFB, com o devido respeito, colaciona informações desconexas no TVF e argumenta que todo e qualquer ato teve o objetivo de realizar um “planejamento tributário abusivo", sem fazer o exercício normal de análise do passado, do contexto incerto, duvidoso e não definitivo. Na realidade, não houve qualquer acerto formal com a pessoa jurídica da Requerente. Se houvesse qualquer préacordo antes da realização do negócio (assinado em 03/08/2010 e fechado em 22/10/2010), a própria compradora incorreria em grave ofensa às normas de livre negociação e seria duramente punida pelo Conselho de Administração de Defesa Econômica CADE e a Comissão de Valores Mobiliários CVM. Como o “Grupo CCR” era e ainda é controlador da CPC, além das disposições da Lei 6.404/76, ela estava obrigada a observar as normas regulatórias da CVM (doc. 14). Em virtude disso e nos termos do art. 157, §4° da Lei 6.404/76, era dever da CPC informar à bolsa de valores e a divulgar pela imprensa qualquer fato relevante que pudesse influir, de modo considerável, nas decisões dos investidores da companhia, como foi o caso da compra da participação da Rodovias. Da mesma forma, a CVM por meio da Instrução CVM n° 358/2002, dispõe sobre a divulgação e uso de informações sobre ato ou fato relevante relativo às companhias de capital aberto. A informação sobre qualquer ato formal e negociai, fechado entre as partes, sobre a compra da Rodovias pela CPC, consistente no ato para lá de relevante, não era mera prerrogativa da CPC, mas, sim, dever, em respeito ao livre comércio e à legalidade. Com o CADE a situação não é diferente. De acordo com o disposto nos art. 88 e seguintes da Lei n° 12.529/2011, a CPC deveria comunicar o referido órgão, se houvesse qualquer formalização de compra da Rodovias, para submissão do ato de concentração, com previsão de duras penas na hipótese de omissão. Nada foi informado a esses entes públicos antes da assinatura do contrato entre a CPC e as pessoas físicas contrato este, como adiante se mostrará, era um misto de précontrato, pois possuía importantes cláusulas suspensivas , o que leva a ilação de que inexistiu qualquer negociação formal entre a Rodovias (e muito menos com a Requerente) com a CPC antes da formalização da alienação. As publicações feitas pela CPC, inclusive, confirmam que inexistiu qualquer negócio antes de 03/08/2010, como se verifica das seguintes publicações para atendimento da CVM e do CADE (doc. 14): Fl. 3188DF CARF MF 34 “Comunicado ao mercado São Paulo, 22 de outubro de 2010. A COMPANHIA DE CONCESSÕES RODOVIÁRIAS (CCR) (Bovespa: CCR03; Bloomberg: CCR03BZ; Reuters: CCR03.SA) comunica aos seus acionistas e ao mercado em geral que nesta data, sua controlada Companhia de Participações em Concessões, concluiu as negociações anunciadas nos Fatos Relevantes divulgados em 03 e 25 de agosto de 2010, passando a deter, a partir de então, direta e indiretamente, 100,00% (cem por cento) das ações representativas do capital social da Rodovias Integradas do Oeste S.A ("RODOVIAS"), da seguinte forma: (...)” (doc. 27A grifouse) “Comunicado à imprensa Grupo CCR conclui aquisição de 100% do capital social da concessionária Rodovias Integradas do Oeste S/A O Grupo CCR, um dos maiores grupos privados de concessões de infraestrutura da América Latina, anunciou hoje ao mercado que finalizou as etapas previstas nos contratos de compra e venda assinados em agosto, adquirindo, direta e indiretamente, a totalidade do capital social da concessionária Rodovias Integradas do Oeste S.A. O investimento da companhia no negócio será de R$1.335.847.194,35 (valores atualizados). (...) São Paulo, 22 de outubro de 2010. Assessoria de imprensa Grupo CCR: (...)” (doc. 27B grifou se) “Comunicado Relações com Investidores Grupo CCR conclui a aquisição direta e indireta da Rodovias Integradas do Oeste S.A O Grupo CCR, o maior grupo privado de concessões de infra estrutura do País e um dos cinco mais representativos do mundo, comunica que finalizou em 22 de outubro de 2010 as etapas que foram previstas no Contrato de Compra e Venda de Ações e Quotas celebrado em 3 de agosto de 2010, (...) doc. 27C grifouse. A própria fiscalização atestou que o CADE foi comunicado apenas depois da assinatura do contrato, nos termos do processo administrativo n° 08012.009031/201089, iniciado em 24/08/2010 e finalizado em 03/10/2010, com aprovação pelo CADE, sem quaisquer restrições. De um lado estão os fatos, com os documentos dos sócios da Requerente, da CPC (terceira) e de órgãos públicos reguladores que demonstram a inexistência de préacordo ou negócio antes de 03/08/20210 e, de outro, está a presunção fiscal pautada, com o devido respeito, numa tese imaginária do AFRFB. Por outras palavras, a presunção fiscal de que teria havido qualquer tipo de negociação formal com a Requerente antes da venda participação societária indireta na Rodovias, de propriedade das pessoas físicas, realizada com CPC, é completamente inverídica e desprovida de qualquer prova material. Fl. 3189DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.173 35 E não é só. A fiscalização ficou tão preocupada em buscar uma “carta de intenção", sem lograr êxito, digase de passagem, que não percebeu que o próprio contrato de venda em compra, assinado em 03/08/2010 (fls. 562/899) era uma mistura de carta de intenção e contrato, vez que submetido a inúmeras cláusulas suspensivas definidoras do negócio. Tanto errou na análise do contrato, que, como demonstrado acima, fez o lançamento com equívocos do período de apuração, do regime de tributação do IRPJ e da CSLL e da base de cálculo dos aludidos tributos. De fato, como adiantado linhas atrás com reprodução das cláusulas, o contrato de venda e compra assinado pelas pessoas físicas da Requerente tinham condições que, se não fossem cumpridas, não efetivariam a venda de participação na Rodovias pelas pessoas físicas (fls. 562/899 e docs. 17 e 8). O contrato de 03/08/2010 não era efetivo (fls. 562/899 e doc. 17), como pensou o AFRFB, que repete a todo tempo e equivocadamente o suposto curto prazo para "fechamento da alienação”, que não se deu naquela data. Prazo esse, aliás, desprezível, se considerado que em 12/2008 (quase dois antes) começaram os atos, que foram efetivados em 05/2010 (três meses antes do primeiro acordo e cinco meses do fechamento). Dentre outras condições, a venda e compra só se realizaria se (i) houvesse a autorização da ARTESP e se (ii) outros acionistas da Rodovias resolvessem, também, vender as suas partes (fls. 637, fls. 560/561 e doc. 8) Notese, a propósito, que, apesar de não fazer menção, a própria fiscalização acostou aos autos cópia de carta enviada, em 09/08/2010, pela diretoria da Rodovias à ARTESP informando sobre a “possível alienação de participação" e registrando ser necessário para efetivação, além da autorização da referida estatal, a compra por terceiros e o acerto de garantias (fls. 560/561): “Essa operação está sujeita à observância de condições precedentes, dentre outras, (i) aprovação dessa Agência Reguladora: (ii) obtenção prévia de autorização para liberação das garantias prestadas, direta ou indiretamente pelos Vendedores e/ou seus afiliados, em favor da RODOVIAS; e (iii) aquisição, pela CPC, das ações representativas do percentual de 26,55% (vinte e seis e cinquenta e cinco centésimos por cento) do capital social da RODOVIAS, em condições a serem acordadas oportunamente. Considerando que a condição precedente relativa à aquisição da parcela restante do capital social da RODOVIAS (26.55% do capital social) ainda não se concretizou, não é oportuno requererse a análise da transferência parcial do controle societário da RODOVIAS ou darse ciência da transferência do controle das acionistas da concessionária, (...) Não está sendo apresentado qualquer documento, nesta oportunidade, uma vez que ainda pende condição precedente." Bem se constata que a fiscalização, mesmo ciente e diante de documentos que contam a verdade dos fatos, insistiu em descrever, com todo o respeito, uma história fantasiosa sobre uma prénegociação com a Requerente somente para dar azo à desqualificação de atos jurídicos perfeitos é aumentar a arrecadação federal. Essa incerteza, em contrariedade à posição do AFRFB, torna ainda mais claro que não houve nenhuma articulação para que a venda da participação da Rodovias Fl. 3190DF CARF MF 36 fosse nas pessoas físicas de maneira irreal. Ora, o negócio poderia ou não sair, dependendo do interesse de terceiros não vinculados à Requerente, motivo pelo qual os atos praticados pela Requerente não podem ser descaracterizados. Olhando para trás, o que se tem, ao revés do que faz parecer a fiscalização, é uma formalização negocial de intenção de venda em 03/08/2010, sem qualquer perspectiva definitiva do real acontecimento do negócio. Essa falta de certeza, por si só, abala toda a presunção fiscal de que tudo foi maquiavelicamente feito para “disfarçar uma venda pelas pessoas físicas”. E se as condições suspensivas não fossem cumpridas? Não existiria venda. E o que seria? A participação da Holding G4 permaneceria nas pessoas físicas, mas isoladas, longe de riscos operacionais de empresas, com manutenção do planejamento de isolamento de riscos dos sócios, como explicado detalhadamente acima. Na verdade, a venda e compra só foi concretizada em 22/10/2010, com o cumprimento geral das condições suspensivas e, consequentemente, com a assinatura do termo de fechamento de alienação da participação da Rodovias pelas pessoas físicas, proprietárias desse bem, sócias da Requerente (doc. 8). Depreendese do contrato de fechamento que, dentre outras condições cumpridas no acordo inicial, a ARTESP aprovou a substituição de todos os acionistas diretos e indiretos da Rodovias (doc. 8) pela CPC, e os sócios da Holding G4 venderam seu investimento: “ 1. Fechamento 1.1 Condições Precedentes. Nos termos e para os fins do Contrato, as Partes, o Garantidor, a Companhia. G4 Participações, Latinoamericana e Vialco reconhecem e declaram que as condições precedentes previstas na Seção 5 do Contrato foram devidamente cumpridas pelas Partes, conforme abaixo especificado, quitandose ampla irrevogável, irretratável e reciprocamente em relação às obrigações a elas relacionadas, para nada mais reclamarem a este título, a qualquer tempo, consignando ainda, para todos os fins do Contrato, que a Data de Fechamento foi de comum acordo estabelecida como a presente data: a) A Aprovação da ARTESP foi obtida, conforme publicado no Diário Oficial do Estado de São Paulo em 16 de setembro de 2010, no caderno Executivo I, Seção I, página 34; b) A efetiva e concomitante aquisição, direta ou indireta, nesta data, das ações de emissão da Companhia não detidas por G4 Participações, Latinoamericana, Vialco e Planova, representativas de cerca de 26,55% (vinte e seis inteiros e cinquenta e cinco centésimos por cento) do capital social total e votante da Companhia, de forma que, com a consumação do Fechamento, o Comprador passa a deter, direta e indiretamente. 100% (cem por cento) das Ações Rodovias. c) O cumprimento, pelos Vendedores, nesta data, das obrigações previstas nas Cláusulas 6.3(a), 6.3(b), 6.3(c), 6.3(g), 6.3(h), 6.3(i), 6.3(1) e 6.3(m) do Contrato; e d) O cumprimento, pelo Comprador, nesta data, das obrigações previstas nas Cláusulas 6.2(a), 6.2(b) e 6.2(e) do Contrato.” Fl. 3191DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.174 37 Vêse que, bem distante do que fez parecer o AFRFB, a venda e compra só se realizou em 22/10/2010, com a assinatura feita pelos vendedores, pessoas físicas, sócias da Requerente, proprietárias do bem, e os demais acionistas da Rodovias, e pela compradora, a CPC, do ‘termo de fechamento ' (doc. 8 e fls. 560/561). Afastadas as presunções fiscais de que os atos da Requerente não teriam substância e ela teria participado previamente do negócio no lugar das pessoas físicas, é mister deixar claro que o produto da venda feito pelas pessoas físicas não retornou para a Requerente, como, com todo respeito, maliciosamente indicou o AFRFB (fls. 1.066/1.062). Vejase, nesse ponto, a conclusão fiscal contida no TVF quanto à suposta “volta” do preço recebido pelas pessoas físicas à Requerente, sem que houvesse juntada de documentos, como citado acima, para comprovar essa “presunção”: “Este aumento de capital revela o verdadeiro alienante, vez que parte do produto da alienação retorna a sua origem. NF Motta, que era a real detentora da participação na Rodovias, de forma direta ou indireta, desde o AC 2000.”(fls. 1.065 grifouse). A assertiva fiscal é, com todo acatamento, inverídica e maliciosa, uma vez que, como será visto adiante, (i) não há como vincular atos iniciados em 2008 com os aportes parciais feitos pelas pessoas físicas em 2010; (ii) era comum os sócios fazerem investimento na Requerente, que foram realizados em 2008 e 2009,também; (iii) independentemente do produto da venda da participação à CPC, as pessoas físicas tinham patrimônio e capital para aportar; e, de qualquer forma, (iv) o montante do AFAC é irrisório frente ao valor da alienação efetivada pelos sócios. Como pisado e repisado acima, os atos praticados pela Requerente e seus sócios, especialmente em relação à redução de capital foram iniciados em 2008 e concluídos em 2010. Diante desses fatos, não há como vincular o recebimento do preço pelas pessoas físicas e o ulterior aporte parcial (reduzido, digase, de passagem) na Requerente, como um ato previsto, articulado e conexo, sugerido pelo AFRFB. Deveras, os atos da Requerente e do negócio feito pelas pessoas físicas eram todos dependentes de condições suspensivas, de modo que não poderiam ter sido perpetrados de imediato, motivo pelo qual inexiste ligação entre eles e os ulteriores aportes, sendo equivocada a presunção fiscal nesse sentido. Não é só. A presunção fiscal não deve prevalecer também, porque, desde 2008 e muito antes de receber qualquer valor pela venda da participação societária indireta da Rodovias, os sócios da Requerente estavam realizando aportes na empresa, que é operacional (fls. 04/44). Como se verifica dos documentos contábeis anexos, os sócios da Requerente fizeram aportes em 2008 e 2009 e. por isso, não se pode dar margem à posição fiscal de que aqueles realizados em 2010 só ocorreram em razão da venda perpetrada pelas pessoas físicas (doc. 15). Os sócios, Nelson e Ivan desde 2008 realizaram aportes na Requerente, isto é, a ação de investimento à referida empresa operacional era costumeira e, distante do que faz crer a fiscalização, não foi motivada pela venda da participação da Rodovias pelas pessoas físicas em 2010. Fl. 3192DF CARF MF 38 Sendo, pois, comum e corriqueiro os aportes em anos anteriores ficam despicienda a presunção do AFRFB de que só houve investimento ainda que parcial pelos sócios na Requerente por causa da alienação perpetrada com a CPC. Da mesma forma, essa presunção fiscal é elidida pelo fato de os sócios da Requerente terem patrimônio e caixa para realizar os aportes de 2010, sem que fosse necessário o valor do preço recebido pela alienação feita pelas pessoas físicas à CPC. Depreendese da DIRPF do anobase de 2009 de Nelson e Ivan tinham, respectivamente, o patrimônio de R$ 11.503.893,21 e R$ 9.987.842,92, isto é, eles poderiam aportar na Requerente sem a necessidade do produto da venda da participação indireta na Rodovias para a CPC (doc. 16). Mais do que isso, em termos de distribuição de lucro em 2009, os sócios Nelson e Ivan, receberam, em ordem seguida, os valores de R$ 831.360,00 e de R$ 802.800,00 (doc. 16). Logo, as pessoas físicas detinham recursos patrimoniais suficientes para investir na Requerente antes da alienação da participação indireta da Rodovias via Holding G4, sem precisar realizar qualquer movimento de volta de investimento da participação indireta na Rodovias por eles alienadas. E, por fim, como o próprio AFRFB disse, os aportes em 2010 se referem, em quantidade, em valores parciais do preço recebido pelas pessoas físicas, que, em percentual, são irrisórios. Além de os sócios da Requerente possuírem patrimônio, a verdade é que, de qualquer forma, em termos numéricos, não se pode dizer que houve retorno do capital, como se a alienação das pessoas físicas fosse disfarçada. Denotase do demonstrativo abaixo que, comparando o preço total da alienação indicada pelo AFRFB e os totais dos aportes constantes no TVF, o percentual é, aproximadamente, de 12,86%: Observase, que os aportes de 2010, em comparação com o preço da alienação indicada pelo AFRFB, representam por volta de 12,86% do total do montante da venda e compra feita entre as pessoas físicas e a CPC, o que, por si só, abala toda a presunção fiscal de que teria havido “retorno de capital” para a Requerente. Como bem frisou o AFRFB, os aportes representavam valores parciais, se comparados com o preço total da alienação pelas pessoas físicas. Apesar disso, deixou a acusação, tão cuidadosa com os números e gráficos dos lançamentos de ofício, de registrar que esse montante é ínfimo: 12,86%. É bom frisar, outrossim, que tal percentual é feito sem a dedução do patrimônio e dos valores que os sócios detinham em caixa, o que, ainda mais, realça o despropósito de falarse em retorno de investimento. Se houvesse retorno, o total deveria representar 100% ou quase isso. Com um percentual tão baixo, está presente a normalidade e afastadas a presunção fiscal. Aliás, dentro do histórico de aportes antes de 2010, a atitude dos sócios, pessoas físicas, com o investimento criticado pelo AFRFB, se mostra razoável e Fl. 3193DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.175 39 proporcional, sem qualquer vinculação com a alienação da participação indireta na Rodovias. E bom dizer, igualmente, que o fato de a Requerente não ter alterado seu contrato social, como dito pelo AFRFB (fls. 1061), em nada abala a lisura do procedimento. Ora, a Requerente sempre foi operacional e os aportes foram feitos em anos anteriores, sendo, irrelevante tal presunção. Em resposta a posição fiscal, ainda, é válido grafar que, como dito e redito acima, a redução de capital decorreu de excesso de capital, isolamento da participação da Rodovias e formação de bloco político. Não foi, a toda evidência, um ato isolado visando uma menor arrecadação, como pensou o AFRFB. E, ainda, assim, a economia fiscal, como salientado acima, não torna nem um ato jurídico perfeito e acabado inexistente ou nulo. Constatase, desse modo, que a presunção fiscal sobre o “retorno de capital” do valor do preço recebido pela CPC, com o devido respeito, é fraca, inverídica e fantasiosa, sem qualquer margem para suportar sua ilação ilegítima de que teria havido uma alienação disfarçada para efeito de economia fiscal. Frente aos fatos, isso é inconcebível! A consequência basilar disso é que não houve uso indevido do direito e das formas para simular uma determinada situação. A venda e compra foi, de fato, realizada, regular e legalmente, pelas pessoas físicas; o valor do preço foi recebido por elas da CPC; e essa quantia não “retornou” (foi um montante ínfimo), de maneira alguma, para a Requerente, em forma de aportes. A realidade dos documentos demonstra a verdade dos fatos, sem qualquer espaço para sustentar o suposto “planejamento tributário abusivo” indicado pelo AFRFB, já que: a redução de capital existiu, a venda efetiva foi feita na data de fechamento pelas pessoas físicas, tudo antes da ocorrência do fato jurídico tributário do IRPJ e da CSLL, sem que houvesse volta do valor total à Requerente. Comprovada, portanto, a (i) legalidade dos atos da Requerente e de seus sócios;(ii) a motivação, substância e finalidade de todos eles; (iii) a inexistência de negócio firmado pela pessoa jurídica antes do fechamento da venda e compra com a CPC; e (iv) a inverídica assertiva de que o valor do preço teria “retornado” à Requerente, todas as presunções fiscais foram afastadas, razão pela qual os lançamentos de ofício devem ser cancelados. II. g) A licitude dos atos O livre exercício de atividade A economia fiscal Não para por aqui. Além de todos os atos da Requerente e de seus sócios observarem a Lei e terem motivação e substância, sem objetivo único de pagar menos imposto a qualquer custo, é mister afastar a posição do AFRFB de que a “economia fiscal” seria, por si só, um indicativo de “planejamento tributário abusivo”. Como se demonstrou à saciedade, a finalidade dos atos societários foi, desde 2008, realizar, em linhas gerais, (i) a sucessão da Requerente; (ii) formar grupo político na Rodovias; (iii) isolar a participação de outras operações, sobretudo depois do advento da Holding G4, para manter a segregação de ativo e passivo; (v) administrar o ativo, sem interferência exterior; mantendose, assim, a participação nas pessoas físicas. Fl. 3194DF CARF MF 40 Por outro lado, embora o AFRFB ignore e deixe de lado a tributação das pessoas físicas, é certo que elas apuraram ganho de capital e pagaram generosa quantia a título de IRPF ao fisco federal (doc. 13). Sendo, assim, não há que se falar que o intento principal da Requerente foi obter “economia fiscal”, pois todos os atos foram lícitos, tiveram uma razão de ser no contexto social e, ainda, houve recolhimento do IRPF ao erário federal. Não obstante isso, nenhum contribuinte está obrigado, por nenhuma norma legal, a se esforçar para uma maior arrecadação e uma tributação excessiva, ao contrário do que faz parecer o AFRFB. Nesse aspecto, a Requerente consigna que efetuou a redução de capital, em função de seu excesso e pelos motivos acima alinhavados, nos termos do art. 1082 do Código Civil, e do art. 173 da Lei n° 6.404/76, este último aplicado subsidiariamente, atendendo aos requisitos legais. Mais do que isso, a redução de capital com a transferência da participação aos sócios pelo valor de custo encontra guarida no art. 22 da Lei n° 9.249/95, cuja hipótese foi devidamente obedecida pela Requerente. Nesse diapasão, não é exagero repetir que o próprio AFRFB atestou que a Requerente se atentou, para todos os seus atos, aos dispositivos legais cabíveis, notadamente para a redução de capital e a transferência de participação às pessoas físicas: “18. Em 03/05/2010, conforme Sexta Alteração e Consolidação do Contrato Social (DOC 1 1), a NF Motta reduziu seu Capital Social em R$ 4.434.409,00. As cotas canceladas foram pagas aos sócios Nelson Floduardo da Motta e Ivan Lopes da Silva com conferência de quotas de emissão da Holding.”(fl. 1.060). Se a Requerente respeitou a Lei, como de fato respeitou, não há como desconsiderar atos, sem base legal, por causa do aventado motivo de economia fiscal. Desde que respeitado o primado da legalidade, o dever do contribuinte é adimplir aquilo que a Lei, em sentido estrito, impõe como sendo obrigação de pagamento de montante a título de tributo. Observese o que diz a doutrina: “Se assim não fosse, logicamente se teria de concluir pelo absurdo de que o contribuinte seria sempre obrigado a escolher o caminho de maior onerosidade fiscal. ” “Em nenhum momento o nosso ordenamento exige do contribuinte a busca da via negocial mais custosa em termos tributários." (...) “A liberdade de ação das pessoas, reconhecida e tutelada pela Constituição Federal, legitima o direito à economia de tributos, pela garantia de liberdade para desenvolver atividades econômicas, inclusive a liberdade contratual. ” “Ora, ninguém é obrigado a adotar o procedimento mais oneroso de ponto de vista fiscal. Essa nãoobrigação à referida conduta implica, obviamente, a permissão de omitila, que é a liberdade à qual já nos referimos; e, dentro dessa liberdade, a pessoa que almeja redução de impacto fiscal deve promover o Fl. 3195DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.176 41 comportamento em que a obrigação correspondente seja a mais interessante. ’' “O contribuinte tem plena liberdade de escolha dos meios legais formais para estruturar seus negócios, suas operações isoladas ou complexas, se a lei não exigir uma forma específica.” A ilação fiscal consistente na sugerida busca pela economia fiscal não é fundamento válido para manter a acusação de “planejamento tributário abusivo”, especial e ironicamente porque, como demonstrado acima, ao agir assim, quem ofende ao princípio da legalidade é a fiscalização. A Constituição Federal de 1988 sobreleva a um patamar de destaque os primados da legalidade e do livre exercício de atividade econômica, como bens fundamentais ao desenvolvimento do país. Diferente da ordem emanada pelo princípio da legalidade à Administração Pública, que só pode agir rigorosamente de acordo com a Lei, salvo raras exceções de prática discricionária, a Magna Carta retrata que há liberdade nas ações privadas, desde que observados os limites legais. Corolário do primado da livre iniciativa é o direito de desenvolver qualquer atividade e também de contratar, aí incluída a redução de capital, como se nota das palavras de José Afonso da Silva: “(•••) a liberdade de iniciativa envolve a liberdade de indústria e comércio ou liberdade de empresa e a liberdade de contrato." A posição fiscal demonstra que a Requerente, ao reduzir o capital, agiu com respeito aos limites legais, afinal deixou claro o cumprimento a todos os requisitos normativos na operação como um todo. É essa, inclusive, a orientação do CARF, que confirmou o entendimento da Requerente acerca da insubsistência do fundamento, como se vê do seguinte trecho do voto do ilustre Conselheiro Relator Paulo Jacinto do Nascimento: “O argumento de que o desmembramento das atividades operacionais teve por único escopo obter economia tributária não é suficiente, por si só, para a desconsideração dos atos e negócios jurídicos realizados com amparo legal." “Diante disso, tenho por ilegítima a reunião das receitas das duas empresas para serem tributadas em conjunto como se auferidas pela recorrente, e, de consequência, por erro na quantificação da base de cálculo e na identificação do sujeito passivo, dou pela nulidade do lançamento, provendo o recurso.” (1º Conselho de Contribuintes/3a. Câmara/ACÓRDÃO 103 23.357 em 23.01.2008 1RPJ E OUTROS Ex(s): 2002, Publicado no DOU em: 25.03.2008 — grifouse). Assim, a indicação fiscal de que o Estado teria arrecadado menos do que poderia, em função da escolha legal e lícita da Requerente na realização de sua Fl. 3196DF CARF MF 42 atividade e administração de seus negócios, é subsídio precário, ilegal e ilegítimo para manter os lançamentos de ofício, que devem ser cancelados. II. h) A necessidade de abatimento do IRPF recolhido pelas pessoas físicas Caso não sejam cancelados os lançamentos de ofício pelas razões acima destacadas, o que somente se admite por amor à argumentação é preciso que, ao menos, os valores, recolhidos pelas pessoas físicas, a título de Imposto de Renda de Pessoa Física IRPF, sejam abatidos da exigência fiscal ora impugnada. Como se depreende do TVF (fls. 1.071), o AFRFB reconheceu expressamente a existência de quantia, a título de IRPF, no importe de R$ 8.941.562,87, comprovadamente recolhida por Nelson e Ivan (doc. 13), deixando, todavia, de abatêla da exigência fiscal por entender impossível tal procedimento: “71. Cumprenos consignar que os sócios da NF Motta, Nelson Floduardo da Motta e Ivan Lopes da Silva recolheram a quantia total de R$ 8.941.562,87 a título de IRPF sobre o ganho relativo à alienação das participações na Holding G4. Em razão da natureza jurídica diversa do tributo recolhido e daqueles que deveriam ter sido apurados, bem como da distinção também existente entre os seus regimes jurídicos, o montante pago de IRPF pelos senhores Nelson Floduardo da Motta e Ivan Lopes da Silva não puderam ser empregados por esta fiscalização para reduzir o crédito tributário a ser lançado a título de IRPJ e CSLL. ” (fls. 1.071 — o destaque não é do original). Ocorre que, diversamente do que acredita o AFRFB, o abatimento dos valores recolhidos a título de IRPF é. além de possível, a única medida que se coaduna com o procedimento adotado por ele, sem afetar à moralidade administrativa, ocasionar à duplicidade de exigência e o enriquecimento ilícito do Estado. Demonstrase. O abatimento do IRPF quitado pelas pessoas físicas aludidas acima é medida que se impõe por respeito à própria legislação tributária, mais especificamente, a Portaria n° 2284/2010 emitida pela Secretaria da Receita Federal do Brasil, in verbis: “Art. 1º Os processos de determinação e exigência de créditos tributários relativos aos tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil, nas hipóteses em que houver pluralidade de sujeitos passivos, serão disciplinados conforme o disposto nesta Portaria. (...) Art. 4 O pagamento efetuado por um dos autuados aproveita aos demais." Constatase que, ao regular os procedimentos a serem adotados quando da existência de mais de um sujeito passivo da obrigação tributária, a Receita Federal do Brasil exigiu, de forma expressa e irrestrita, que o pagamento realizado por um desses sujeitos fosse aproveitado pelos demais. É exatamente esse aproveitamento que foi vedado nesse caso, pois, embora o AFRFB tenha atribuído responsabilidade tributária solidária às pessoas físicas elencadas acima, impossibilita que a Requerente aproprie o pagamento por elas realizado em face da exigência tributária em discussão. Logo, em respeito à Portaria nº 2284/2010, norma regulamentar e interna da própria Receita Federal, é evidente que o pagamento realizado pelas pessoas físicas, Fl. 3197DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.177 43 independente da rubrica utilizada, deve ser considerado e abatido da exigência fiscal ora impugnada, já que foi imputada responsabilidade tributária a elas. Não é só. É preciso dizer que a atitude de deixar de abater o valor a título de IRPF recolhido pelas pessoas físicas caracterizadas como responsáveis é desarrazoado e desproporcional frente ao procedimento realizado pelo AFRFB no caso. Como dito acima, à margem da lei, o AFRFB desconstituiu diversos atos jurídicos lícitos realizados pela Requerente e seus sócios. O esperado, diante da desconstituição realizada, seria a recomposição do status a quo ante e o abatimento dos pagamentos efetuados a título de IRPF. Se o AFRFB, de um lado, constrói uma nova realidade para exigir o IRPJ e reflexos da Requerente, de outro, ele deveria, em respeito à igualdade, abater o IRPF recolhido na operação. E, com a devida vênia, maligno exigir o tributo nessa situação e, ao mesmo tempo, se negar a abater o que já havia sido recolhido pelas pessoas físicas. O AFRFB anula, sem previsão legal, diversos atos jurídicos e, ao seu bel prazer, com o único escopo de engordar os cofres públicos, deixa de recompor a situação inicial em pé de igualdade. É desproporcional e irrazoável, anular atos, repaginar a realidade, mas só exigir, sem abater o que já foi pago. Como o AFRFB entendeu que a venda teria sido feita pela Requerente, mesmo não sendo, ele também deveria qualificar que o IRPF foi, na verdade, pago pela pessoa jurídica, para se ter o mínimo de justiça tributária. A atitude da fiscalização, à evidência, só confirma a arguição da Requerente de que o lançamento é ilegal. O AFRFB desconsidera atos sem base legal e no instante de reconstruir a realidade se utiliza da Lei como forma de se escusar ao abatimento do IRPF. E uma contradição que confirma a ilegalidade do lançamento do AFRFB, que age ao seu talante para fazer uma exigência superior ao razoável. Assim, o ato de não abater o IRPF do montante exigido nos lançamentos de ofício, fere à simetria, a razoabilidade, a proporcionalidade e o sentido mais raso de justiça tributária. E mais, a vedação ao abatimento dos valores quitados pelas pessoas físicas nesse caso deve ser afastada, pois, além das máculas acima, impõe dupla carga tributária sobre o mesmo fato jurídico tributário, o que também não pode ser admitido. O fato jurídico tributário que deu origem à exigência fiscal impugnada é a percepção de ganho de capital decorrente da alienação da participação societária indireta da Rodovias à CPC. Independentemente de quem tenha praticado o aludido fato jurídico tributário foram as pessoas físicas, mas o AFRFB entende que foi a Requerente o valor recolhido por conta da ocorrência dele, nesse caso, como expressamente admitido pelo AFRFB, no importe de R$ 8.941.562,87 é único e deve ser considerado nesse caso, sob pena de duplicidade de exigência. Dessarte, o tributo foi recolhido sobre o ganho de capital, prevalecendo ou não a posição do AFRFB quanto a quem realizou o fato, não se pode deixar de abater o tributo devido, haja vista que incidiu e foi recolhido relativamente à mesma alienação de participação societária. Fl. 3198DF CARF MF 44 Por outro giro verbal, é indispensável realçar que o Imposto de Renda é um tributo sem destinação específica e, assim, o produto arrecadado é remetido, independentemente de ser esse recolhido por pessoa física ou jurídica, ao Tesouro Nacional. Tal fato inegável enaltece a duplicidade da exigência existente nesse caso e, por outro lado, afasta a alegação do AFRFB de impossibilidade de abatimento do valor. O valor do tributo, independentemente de ter sido recolhido sob a rubrica de IRPF ou IRPJ está igualmente à disposição da União Federal e, assim, pode ser, sim, por ela utilizada para abatimento da exigência fiscal ora impugnada. Tanto é possível tal utilização pela União Federal que a própria Lei 9.430/96, quando trata da compensação tributária, possibilita que tal encontro de contas seja realizado com quaisquer tributos, desde que administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil: “Art. 74. O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizálo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão”. Destarte, pela natureza única do Imposto de Renda, a inexistência de destinação específica e, ainda, pela gama enorme para compensação de tributos federais, não há como manter, na pior das hipóteses, o abatimento do IRPF recolhido pelas pessoas físicas da exigência em comento. Não bastassem todos esses aspectos, a falta abatimento do IRPF, a toda vista, implica no enriquecimento ilícito do Estado e macula a moralidade administrativa, que devem reinar no âmbito da Administração Pública Federal. Um dos argumentos contidos no TVF é a “economia” de 19% sobre o ganho de capital, que corresponde à diferença entre a carga tributária de IRPJ que a Requerente estaria sujeita (34%) se a venda tivesse sido realizada por ela e a que os sócios pessoas físicas se submeteram de IRPF (15%). Se o argumento do “planejamento tributário abusivo” é a tal economia, e se o AFRFB tivesse razão, o que se admite apenas para argumentar, então somente poderia ser exigida exatamente o valor a menor que adentrou aos cofres públicos. A pretensão de se exigir 34%, sem abater os 15% recolhidos, corresponde a uma carga tributária total de 49%. Ao remanescer o lançamento fiscal ora impugnado, estarseia possibilitando que o Estado receba duas vezes, já que decorrente do mesmo fato jurídico tributário, o que representa verdadeiro enriquecimento ilícito do Estado. Por outro lado, estarseia também maltratando o primado da moralidade administrativa ao validar, como quer o AFRFB, a desconsideração dos valores pagos pelas pessoas físicas, eis que não se mostra moral exigirse novamente quantia que já se encontra nos Cofres Públicos. Vejase, a propósito, como a jurisprudência do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais se posiciona acerca da necessidade de se abater os valores que decorram do mesmo fato jurídico tributário, mesmo que se trate de IRPF a ser deduzido de exigência de IRPJ: Fl. 3199DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.178 45 Cita várias jurisprudências. É de se salientar, que nos casos acima citados a discussão girava em torno da mesma situação fática ora verificada: suscitação de que houve "planejamento tributário abusivo" pela alienação de bens ter se dado pela pessoa física dos sócios e não pela pessoa jurídica, supostamente para economizar tributo. Quer dizer, havendo pagamento de IRPF pelos sócios, essa quantia deve ser, necessária e obrigatoriamente, abatida do IRPJ eventualmente devido. Em situação diametralmente oposta, ou seja, o valor exigido é relativo ao IRPF e o que será aproveitado é o IRPJ, o CARF também entende válido o abatimento, tal como sustentado pela Requerente: Cita jurisprudência de DRJ´s e desse Conselho, tanto das turmas ordinárias quanto da Câmara Superior. Cintilante, assim, que deve o valor quitado a título de IRPF pelas pessoas físicas, acima descritas, ser abatido da exigência fiscal ora impugnada a título de IRPJ e reflexos. II. i) A Inexigibilidade do PIS e COFINS Receita decorrente da venda do ativo não circulante Ofensa ao art. 3°, §1° e §2°, IV da Lei 9.718/98 Ainda que o lançamento principal de IRPJ seja mantido, o que se admite apenas para argumentar, é mister expor que, como a receita tributada decorre de venda das ações da Holding G4 não há incidência de PIS e COFINS, devendo o lançamento relativo a essas contribuições ser, de qualquer forma, cancelado. Como é cediço, o art. 3º, §2°, da Lei 9.718/98 vigente à época do fato jurídico tributário (2010 e fundamento legal dos lançamentos das contribuições) veda a inclusão de certas receitas na base de cálculos do PIS e da COFINS Cumulativa, dentre elas se encontrando as receitas decorrentes da venda de bens do ativo permanente: “Art. 3º O faturamento a que se refere o artigo anterior corresponde à receita bruta da pessoa jurídica. § 1º Entendese por receita bruta a totalidade das receitas auferidas pela pessoa jurídica, sendo irrelevantes o tipo de aividade por ela exercida e a classificação contábil adotada para as receitas. § 2 ° Para fins de determinação da base de cálculo das contribuições a que se refere o art. 2o, excluem se da receita bruta: (...) IV a receita decorrente da venda de bens do ativo permanente." O que se vê, assim, é que por determinação legal, as receitas que decorrem da venda de bens do ativo permanente, atual, não circulante, dentre os quais se encontram, como visto acima, as ações da Rodovias, não podem ser inclusas na base de cálculo das aludidas contribuições. Pois bem. Como se depreende do Termo de Verificação Fiscal e dos autos de infração (fls. 1029/1074). o AFRFB considera que o valor de R$ 68.076.874,29 é receita decorrente da venda das ações da Rodovias pela Requerente: Fl. 3200DF CARF MF 46 “65 A quantia de R$ 13.750.074,68 referente a comissão devida pelos vendedores ao Itaú BBA, foi paga diretamente pela CPC ao Itaú BBA, por conta e ordem dos vendedores engloba o preço de venda. Desta forma, acrescentamos o valor de R$ 761.754,14 que caberia à NF Motta. 66. Desta forma, apurouse o ganho de capital abaixo discriminado:" Por conta disso, deixa, por bem, de incluir na base de cálculo do PIS e da COFINS o valor acima mencionado, respeitando, assim, o disposto no art. 3º, §2°, da Lei 9.718/98 vigente à época do fato jurídico tributário (2010). Por outro lado, o AFRFB, de forma totalmente discricionária e sem respaldo algum, como já dito acima, caracterizou o valor de R$ 1.678.394,17 como tendo natureza de receita financeira: “69. A diferença entre o preço de venda informado pela CPC no total de R$ 1.364.711.014,20 (22/10/2010) e o preço calculado na data da assinatura do contrato no total de R$ 1.334.415.090,58 será tributada como receita financeira em 22/10/2010. Da diferença total de R$ 30.295.923, coube à NF Motta, R$ 1.678.394,17. 70. Diante de todo o exposto, lavrase os Autos de Infração anexos, do qual esse Termo é parte integrante e inseparável, cujos montantes incluem os juros e multa, conforme demonstrado a seguir:" (fls. 1.070 grifouse). Por conta dessa conclusão, incluiu, o AFRFB, na base de cálculo do PIS e da COFINS, o valor acima citado, como se receita financeira fosse, mas tal quantia, à evidência, não pode assim ser classificada. Isso, pois, pelo prisma fiscal, o valor de R$ 1.678.394,17 decorre da verificação da diferença entre os valores de avaliação da companhia informados no: (i) contrato de compra e venda de R$ 1.334.415.090,58 (fls. 562/899) e (ii) Termo de Fechamento de R$ 1.364.711.014,20, ora juntado (doc. 10). Se isso for verdade, pois, como dito acima, o AFRFB não explicou como apurou a quantia em questão e nem sequer provou a natureza desse valor, a presunção absoluta de receita financeira é totalmente despropositada. Como dito acima, embora o contrato de compra e venda (fls. 562/899) tenha sido assinado em meados de 08/2010, a negociação dependida do implemento da condição suspensiva, sendo certo que a concretização da alienação só se deu em 10/2010 com o termo de fechamento (doc. 10). O valor, então, de avaliação da Rodovias informado no contrato de compra e venda (fls. 562/899) era meramente estimado, até porque ainda era necessário o implemento das condições suspensivas para que a negociação se efetivasse. Somente no momento do fechamento efetivo da contratação, em 10/2010, com o cumprimento das condições suspensivas, é que o negócio foi realmente firmado e, nada mais esperado, que, pelo transcurso do tempo, fosse informado novo valor da Holding G4. Vejase que tanto no contrato de compra e venda (fls. 562/899), como no termo de fechamento (doc. 10) já havia previsão expressa de correção do valor da companhia: Fl. 3201DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.179 47 Contrato de Compra e Venda (fls. 592): “3.1.1. O Valor da Companhia será corrigido pela variação pro rata die de 100% (cem por cento) do CDI, a partir de 18 de março de 2010, inclusive, e até a data de seu efetivo pagamento. ” Termo de encerramento: “2.1 Variação do CDI. Para fins de cálculo do Valor da Companhia, do Preço de Compra Alocado, devido a cada um dos Vendedores, e da Parte Contingente do Preço, as Partes acordam que, não obstante o disposto na Cláusula 3.1.1 do Contrato, foi adotada, de mútuo e comum acordo, a correção pela variação pro rata die de 100% (cem por cento) do CDI, a partir de 18 de março de 2010, inclusive, até 21 de outubro de 2010, inclusive, acrescido da variação de 100% (cem por cento) do CDI de 21 de outubro de 2010. (...) 2.2.1. Em razão do disposto na Cláusula 2.1 acima, as Partes concordam que: (a) o Valor da Companhia corresponde, nesta data, a R$ 1.364.711.014,20 (um bilhão, trezentos e sessenta e quatro milhões, setecentos e onze mil, catorze reais e vinte centavos); (b) o Valor do Ajuste (...) corresponde, nesta data, a R$ 28.863.819,85 (vinte e oito milhões, oitocentos e sessenta e três mil, oitocentos e dezenove reais e oitenta e cinco centavos); ” A diferença apurada pelo AFRFB na verdade decorre somente de diferença entre o valor estimado e o valor de fechamento, realizado, inicialmente, em 03/2010, até a data do cumprimento das condições suspensivas, ou seja, 10/2010. Dessarte, como se trata de uma diferença de preço e não de receita financeira, essa parte do preço de fechamento é insuscetível de ser inclusa na base de cálculo do PIS e da COFINS por expressa vedação legal (art. 3º, §2°, da Lei 9.718/98), devendo o lançamento relativo a tais contribuições ser cancelado. Além disso, e como demonstrado acima, o lançamento se deu pelo regime de caixa em 2010. Naquele montante recebido pelos sócios da Requerente em 22/10/2010, essa suposta diferença financeira já estava inclusa na 1ª parcela recebida por eles, que era de preço, motivo pelo qual, de qualquer forma, ela não pode ser exigida. E mesmo que se considere como receita financeira o valor de R$ 1.678.394,17, o que somente se admite por força de argumentação, o lançamento relativo à contribuição ao PIS e à COFINS continua tendo de ser cancelado, vez que tal dispositivo legal foi declarado inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal. Deveras, há muito, o Supremo Tribunal Federal já reconheceu a inconstitucionalidade do art. 3º, §1°, da Lei 9.718/98, não havendo, por isso, como subsistir o lançamento em comento: •PIS E COFINS LEI N° 9.718/98 ENQUADRAMENTO NO INCISO I DO ARTIGO 195 DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. NA REDAÇÃO PRIMITIVA. Fl. 3202DF CARF MF 48 Enquadrado o tributo no inciso I do artigo 195 da Constituição Federal, é dispensável a disciplina mediante lei complementar. RECEITA BRUTA E FATURAMENTO A sinonímia dos vocábulos Ação Declaratória n° 1, Pleno, relator Ministro Moreira Alves conduz à exclusão de aportes financeiros estranhos à atividade desenvolvida Recurso Extraordinário n° 357.9509/RS, Pleno, de minha relatoria. ” (RE 527602, Relator(a): Min. EROS GRAU, Relator(a) p/ Acórdão: Min. MARCO AURÉLIO, Tribunal Pleno, julgado em 05/08/2009, DJe213 DIVULG 12112009 PUBLIC 13112009 EMENT VOL0238205 PP 00928 LEXSTF v. 31, n. 372, 2009, p. 209226). Ademais, a Corte Suprema já declarou também a repercussão geral da questão, momento em que reafirmou o posicionamento firmado no RE 346.084/PR e outros que declaravam inconstitucional a ampliação da base de cálculo do PIS e da COFINS: “RECURSO. Extraordinário. Tributo. Contribuição social. PIS. COFINS. Alargamento da base de cálculo. Art. 3º, §1º, da Lei n° 9.718/98. Inconstitucionalidade. Precedentes do Plenário (RE n° 346.084/PR, Rel. orig. Min. ILMAR GALVÃO, DJ de 1º/9/2006; REs n°s 357.950/RS, 358.273/RS e 390.840/MG, Rel. Min. MARCO AURÉLIO, DJ de 15.8.2006) Repercussão Geral do tema. Reconhecimento pelo Plenário. Recurso improvido. É inconstitucional a ampliação da base de cálculo do PIS e da COFINS prevista no art. 3º, § 1º, da Lei n° 9.718/98.”(RE 585235 QORG, Relator(a): Min. CEZAR PELUSO, julgado em 10/09/2008, REPERCUSSÃO GERAL MÉRITO DJe227 DIVULG 27112008 PUBLIC 28112008 EMENT VOL02343 10 PP02009 RTJ VOL 00208 02 PP00871 ). Ancorado no posicionamento acima e em respeito ao art. 62, de seu Regimento Interno, o CARF é pacífico ao cancelar as autuações relativas ao PIS e à COFINS sobre receita financeira: “PIS e COFINS. Base de Cálculo. Receitas Financeiras. Inconstitucionalidade Reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal. Declarada a inconstitucionalidade do parágrafo 1º do art. 3º da Lei n° 9.718, de 1998, em acórdão transitado em julgado e exarado em sessão plenária pelo Supremo Tribunal Federal, que, inclusive, reconheceu a repercussão geral da matéria em questão, impõese, em observância ao art. 26A, parágrafo 6°, inciso I, do Decreto 70.235, de 1972, afastar a exigência de Pis e Cofins sobre receitas que a própria fiscalização identifica como financeiras e distintas daquelas decorrentes da prestação de serviços.” (Acórdão 1401001.111 de 04/12/2013, 1ª Turma Ordinária, da 4ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF) “IRPJ. PIS E COFINS. FATURAMENTO X RECEITAS FINANCEIRAS. ALARGAMENTO DA BASE DE CÁLCULO. INCONSTITUCIONALIDADE. Fl. 3203DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.180 49 Tendo em vista a declaração de inconstitucionalidade do § 1ºdo art. 3º da Lei n° 9.718/91, pelo pleno do STF, cancelamse as exigências de PIS e Cofins sobre as receitas financeiras apuradas. ” (Acórdão 1103000.286, de 30/08/2010, 3ª Turma Ordinária, da 1ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF) E, por fim, o dispositivo legal §1°, do art. 3°, da Lei 9.718/98 que possibilitava a tributação da receita financeira pelo PIS e pela COFINS já foi extirpado do ordenamento jurídico pela Lei 11.941/2009: Lei 11.941/2009: “Art.79.Ficam revogados: (...) XII o § 1° do art. 3° da Lei nº 9.718. de 27 de novembro de 1998;” Com a revogação do dispositivo acima citado, somente é passível de se exigir PIS e COFINS Cumulativo, a partir de 2009, sobre o faturamento, assim entendido a receita bruta das vendas de mercadorias ou de serviços vinculados à atividade social da Requerente. Evidentemente, o produto de venda de capital de ativo não circulante não se enquadra no conceito. Assim, por qualquer ângulo que se verifique, a questão só há uma conclusão viável: o cancelamento, de qualquer forma, do lançamento de ofício de PIS e COFINS. II. j) O descabimento da imposição da multa qualificada • A Inexistência de Fraude, Dolo e Simulação Neste estádio da impugnação, é fácil concluir que a Requerente agiu nos estritos limites da legalidade e com substância, inexistindo qualquer irregularidade em seu procedimento, sendo, pois, inconsistente a presunção de legal, indicada no TVF, de que teria havido, dolo, simulação declaração falsa, motivo pelo qual a multa agravada de 150%, aplicada com fundamento no art. 44, inciso I e § 1º, da Lei n° 9.430/96, art. 72, da Lei 4.502/64 e art. 2º, I, da Lei 8.137/90, deve ser, quando menos, cancelada. Além disso, a multa qualificada, irregularmente prevista no TVF, deve ser cancelada porque o AFRFB (i) não provou a suposta “fraude” (art. 72) e nem qualquer tipo de “declaração falsa” (art. 2º), com ação dolosa; (ii) não individualizou a pena (Requerente e os solidários); e, por fim, (iii) agiu em contrariedade à legalidade, à tipicidade e à tipificação, já que os fatos não se subsumem às hipóteses legais, que nem sequer foram elegidas especificamente pela fiscalização. Com efeito, os arts. 72 e 73 da Lei n° 4.502/64 definem o conceito de sonegação, fraude e conluio, conceitos estes que sustentam a aplicação de multa qualificada em caso de lançamento de ofício. O fundamento, aliás, do AFRFB foi de suposto "planejamento tributário abusivo”, mas ressalvada a observância a Lei. Em decorrência da interpretação dos comandos legais supracitados, a aplicação da multa em análise apenas seria possível nos casos de evidente intuito de fraude pelo contribuinte, com comprovação. Isso não ocorreu, já que o lançamento é, com todo respeito, superficial, padrão e genérico. Fl. 3204DF CARF MF 50 Estes conceitos estão postos nos dispositivos acima mencionados, onde está dito que a (i) sonegação é toda ação destinada a impedir ou retardar o conhecimento do fato gerador pela autoridade administrativa, a (ii) fraude é a ação destinada a impedir ou retardar a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária e o (iii) conluio uma associação em vistas a enganar terceiros. E o elemento específico que caracteriza tais figuras é comprovação da presença do dolo, que é a vontade consciente do sujeito de alcançar um fim ilícito, que, no caso seria a fraude, a sonegação ou conluio, com a utilização, para tanto, de subterfúgios e artifícios. Para a caracterização do dolo é necessário a verificação e comprovação dos seguintes requisitos, a saber: (i) âmbito de prejudicar ou fraudar; (ii) que a manobra ou artifício tenha sido a causa da feitura do ato ou do consentimento da parte prejudicada; (iii) a existência de nexo causal entre o artifício usado e o benefício por ele conseguido e, por fim; (iv) a participação intencional de uma das partes no dolo. Sem que exista a efetiva verificação dos quesitos acima indicados, com a comprovação do evidente intuído de fraudar, não será possível aplicação da multa qualificada. Pois bem. Feitos tais esclarecimentos, cabe relembrar que a autuação fiscal em tela está fundamentada em lançamento fiscal precário e que não obedeceu aos ditames estabelecidos no art. 142, do CTN. Isso porque, a infração que foi imputada à Requerente está fundamentada na suposta ocorrência em "planejamento tributário abusivo”, sem que houvesse, no entanto, a efetiva comprovação da prática dolosa de tais atos, afinal não existe lei que preveja tal situação. O AFRB apenas supôs que a redução do capital da Requerente foi feita com o único objetivo de se obter economia tributária. Não foi o que ocorreu, mas, mesmo, assim, fica evidente que inexistiu qualquer ato doloso com vício de vontade por parte da Requerente e seus sócios. Ao discorrer sobre os fatos que, em tese, dariam suporte à presente autuação fiscal, o AFRB não trouxe os necessários elementos probatórios capazes de comprovar a efetiva ocorrência dessa suposta “simulação subjetiva”. Apesar de concluir de forma diversa, o AFRB não comprovou que a alienação da participação societária indireta da Rodovias teria sido pela Requerente, em ato de fraude. Ao revés, todas as alegações fiscais foram consubstanciadas apenas nos documentos relacionados à operação de venda e compra da Holding G4 apresentados pela CPC que demonstram, justamente, que este negócio foi realizado pelas pessoas físicas e não pela Requerente. Tampouco existe a comprovação efetiva que o valor recebido pelos sócios, em razão da venda de sua participação na Rodovias, teria sido restituído à Recorrente, capaz de fundamentar a suposta ocorrência de "planejamento fiscal abusivo". A verdade é que as suposições veiculadas pelo AFRFB no lançamento fiscal não se sustentam, pois, em nenhum momento há a comprovação da prática de atos capazes de ensejar a aplicação da multa qualificada prevista no art. 44, inciso I e § 1º, da Lei n° 9.430/96. De outro lado, é de se observar que a redução de capital da Requerente foi realizada de forma absolutamente regular, fato este que jamais foi contestado pelo AFRFB. Fl. 3205DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.181 51 A legalidade do procedimento do Requerente, por si só, estanca a presunção da ''simulação” ou "planejamento tributário abusivo” apontada pelo AFRFB, mas vale também consignar que a Requerente apresentou toda a documentação à fiscalização. Ainda no TVF, existe menção expressa ao fato que a Requerente respondeu a todas das intimações fiscais que lhe foram enviadas, com a apresentação dos documentos tidos por necessários pelo AFRFB. O fato de a Requerente não ter fornecido documentos que comprovariam ocorrência de "planejamento tributário abusivo” — e se não o fez, é por não existir documentação emitida nesses termos — não significa que esta se omitiu a prestar os esclarecimentos solicitados pelo AFRB ou, ainda, que tenha cometido atos fraudulentos capazes de fundamentar a aplicação da multa ora atacada. Ao revés, a farta documentação e informações apresentada pela Requerente, durante todo o período da fiscalização, é que possibilitaram a lavratura do lançamento fiscal, o que reforça, mais uma vez, a regularidade de sua conduta antes e durante o início do termo de fiscalização que culminou na presente autuação. Tais fatos demonstram, novamente, que a Requerente não incorreu na prática de qualquer uma das condutas tipificadas no art. 44, inciso I e § I°, da Lei n° 9.460/96, capazes de validar a aplicação da multa qualificada no caso presente. Para tanto, não basta, apenas, alegar, de forma genérica e abstrata, a ocorrência de ato fraudulento. O AFRB deverá especificar no lançamento fiscal a exata conduta subjetiva que ensejou a qualificação da multa, dentre aquelas previstos nos artigos 71, 72 e 73, da Lei n° 4.502/64. A simples leitura dos autos de infração releva que não houve a devida indicação pelo AFRB da suposta conduta fraudulenta praticada pela Requerente. E a ausência desta indicação se justifica por um simples motivo: não houve a comprovação da ‘‘simulação" imputada à Requerente, motivo pelo qual as condutas de sonegação, fraude e conluio previstas na Lei n° 4.502/64 não se aplicam ao caso presente. A jurisprudência reforça a efetiva necessidade de que, para a aplicação da multa qualificada, a fraude, o dolo ou a simulação devem ser minuciosamente comprovadas e mensurados no lançamento fiscal: “Sobre o tema, esse Eg. Conselho de Contribuintes já assentou o entendimento de que não caracteriza evidente intuito de fraude para fins de agravamento da multa de ofício a não apresentação ou apresentação de declaração de rendimentos que informe com incorreção as receitas auferidas pelo contribuinte (declaração inexata), especialmente quando a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária pode ser facilmente constatada pelo Fisco mediante exame dos livros fiscais e demais documentos contábeis do contribuinte, tal como ocorre no caso dos autos” . (Acórdão 10323028, j. 23.05.07, 3ª C. do 1º CC) “COFINS. MULTA DE OFÍCIO. EVIDENTE INTUITO DE FRAUDE. SONEGAÇÃO, FRAUDE E CONLUIO. PROVA. Não basta, para configurar a sonegação, a fraude ou o conluio, a Fl. 3206DF CARF MF 52 insustentável presunção da ocorrência de evidente intuito de fraude. Para a imposição da penalidade sob tal rubrica é inafastável existir a evidência, na forma da devida e inequívoca prova de sua ocorrência." “As simples diferenças constatadas pela autoridade autuante entre os valores recolhidos e os potencialmente devidos apurados no trabalho fiscal, bem como a inexistência de DCTF, não constituem prova em desfavor do contribuinte para amparar a mencionada exigência. (...) (20177608, Rel. Rogério Gustavo Dreyer, de 11/05/2004, 1ª Câmara do 2° CC) “IRPF RESULTADO DE DILIGÊNCIA CORREÇÃO DA BASE DE CALCULO. Corrigida a base de cálculo do imposto em diligência fiscal, deve ser reduzido o valor do imposto lançado. MULTA DE LANÇAMENTO DE OFÍCIO QUALIFICADA FRAUDE JUSTIFICATIVA PARA APLICAÇÃO DA MULTA Qualquer circunstância que autorize a exasperação da multa de lançamento de ofício de 75%, prevista como regra geral, deverá ser minuciosamente justificada e comprovada nos autos. Além disso, para que a multa de 150% seja aplicada, exigese que o contribuinte tenha procedido com evidente intuito de fraude, nos casos definidos nos artigos 71, 72 e 73 da Lei n°4.502, de 1964. A falta de inclusão, como rendimentos tributáveis, na Declaração de Imposto de Renda, de valores que transitaram a crédito em conta corrente bancária pertencente ao contribuinte, caracteriza falta simples de omissão de rendimentos, porém, não caracteriza evidente intuito de fraude, nos termos do art. 992, inciso II, do Regulamento do Imposto de Renda, aprovado pelo Decreto n° (10418640, Rel. Nelsom Mallmann, 19/03/2002, 2ª Câmara 2a Seção de Julgamento). “A Recorrente não arquitetou procedimento no intuito de fraudar, sonegar ou até mesmo simular a não existência de receitas, não há comprovação de dolo nos autos, o que há é mero inadimplemento”. (Acórdão I 10 100.041, j. 12.05.09, Iª Câmara da Ia Turma Ordinária da Ia Seção de Julgamento) Cita jurisprudência. Destarte, tendo em vista (i) que a redução de capital praticada pela Requerente foi realizada de forma regular e dentro dos estritos ditames legais, (ii) que houve a apresentação de todos os documentos e informações solicitados pelo ARFB durante o procedimento fiscalizatório e, por fim, (iii) a inexistência da comprovação da prática fraudulenta que está sendo atribuída à Requerente, a aplicação da multa qualificada nos termos do art. 44, inciso I e §1º, da Lei n° 9.460/96 deverá ser afastada. II. 1) A não incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício Cita doutrina e jurisprudência sobre a matéria. III O PEDIDO Fl. 3207DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.182 53 Diante de todo exposto, requerse, seja recebida e julgada a impugnação, para o fim de que: (i) Sejam cancelados integralmente os lançamentos de IRPJ, CSLL, PIS e COFINS, além de todas as condenações dele advindas, em razão das razões acima expostas, ou, quando menos, (ii) Seja abatido da exigência de IRPJ e reflexos os valores de IRPF recolhidos pelas pessoas físicas, devidamente corrigidos pela SELIC, na operação desconstituída ilegalmente pela fiscalização e.por conseguinte,cancelados em parte os lançamentos de ofício; e/ou (iii) Sejam cancelados os lançamentos de PIS e COFINS e seus respectivos consectários legais, dada à inexistência de receita financeira e, de qualquer forma, a inconstitucionalidade da exigência das referidas contribuições sobre valores dessa natureza reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal e pelo CARF; e/ou (iv) Seja cancelada a aplicação da multa qualificada de 150% e determinado que a Taxa Selic não seja aplicada sobre a multa de ofício. Os responsáveis solidários Jose Pinheiro Baracho, Ivan Lopes Da Silva e Nelson Floduardo da Motta apresentaram impugnação, cujas alegações transcrevo abaixo (fls. 1909 e ss.): [...] II O DIREITO Antes de tudo, o Requerente passa primeira e especificamente a afastar a imposição da responsabilidade solidária a ele imputada com base nos arts. 121 e 135. III. do CTN para, posteriormente, (ii) ratificar e resumir os argumentos apresentados pela NF MOTTA também no dia de hoje, que deixam de ser replicados por economia processual e para não tumultuar o processo, mas que justificam a impropriedade dos lançamentos fiscais na sua pessoa. II. 1) A inexistência de fiscalização em relação ao Requerente Lançamento Precário Cerceamento de Defesa A responsabilidade tributária atribuída ao Requerente deve ser cancelada, antes de tudo, pela inexistência de fiscalização contra ele, a precariedade do trabalho fiscal nesse aspecto e o cerceamento do seu direito de defesa. Depreendese do TVF que o mote principal da fiscalização para realizar os lançamentos foi o tal do "planejamento tributário abusivo", com desconsideração de atos lícitos e uma ilegal suposição de omissão de receitas pela N F Motta. Como base nisso, foi desconstituída (i) a redução de capital; (ii) a venda da Holding G4 (participação indireta da Rodovias) pelos sócios e não o Requerente; (iii) o recebimento do preço pelas pessoas físicas com participação; e (iv) a apuração e o pagamento do IRPF. Afora a redução de capital, todos os demais atos desqualificados por presunção do AFRFB dizem respeito às pessoas físicas na figura dos sócios e não ao Requerente (gerente, apenas), que alienaram a participação da Holding G4. Fl. 3208DF CARF MF 54 Mesmo havendo essa absurda imposição de responsabilidade solidária ao Requerente, que, repitase, não é sócio, era obrigatório que ele fosse fiscalizado e participasse da fase inquisitória. Ora, o AFRFB anulou atos praticados pelos solidários e não pela NF MOTTA e incluiu o Requerente indistintamente como responsável solidário. Sem que ela tenha participado de nada (não era sócio), não teve a possibilidade de apresentar esclarecimentos e documentos de forma preventiva. Evidente, nesse aspecto, que a falta de fiscalização do Requerente reduziu o seu direito de defesa, razão pela qual a responsabilidade solidária imposta pelo AFRFB, à revelia da ampla defesa e do contraditório, deve ser afastada de plano. Não é só. Os lançamentos de ofício foram fundamentados em suposta omissão de receita que, embora ilegais e desconexos da realidade, como amplamente demonstrado na Impugnação da N F Motta, revelam que o Requerente não deveria ser incluído como responsável solidário, mas como foi, deveria, necessariamente, participar da fase inquisitória. E certo que a famigerada omissão de receita, presumida pelo AFRFB, não decorre de averiguação de conta bancária fora da contabilidade e nem de receita escriturada à margem dela. De qualquer forma, é obrigatório, como nas mesmas hipóteses citadas, que o Requerente fosse intimado na fase de fiscalização e participasse do procedimento inquisitório, já que nem sócio ele é e era. Com efeito, é sabido e ressabido que, em caso de omissão de receita por conta bancária fora da escrituração, é indispensável que, se a conta for conjunta, os titulares devem ser intimados na fase inquisitória, caso contrário haverá nulidade. A ideia dessa jurisprudência, consolidada em súmula pelo CARF, é a de que as pessoas que conjugam do mesmo interesse e podem dar, em esclarecimentos e provas, azo a desqualificação da omissão de receita sejam ouvidas antes do lançamento de ofício. Embora o caso aqui, repitase, não seja de escrituração à margem da contabilidade, ao motivar os lançamentos em suposta omissão de receita e atribuir a responsabilidade solidária ao Requerente apenas como gerente (sem participação) pautada, também, em atos desqualificados das pessoas físicas dos sócios, era indispensável que o AFRFB o intimasse a participar do processo inquisitório. Como esse direito foi tolhido, como o próprio o AFRFB atestou, a imputação de responsabilidade solidária é descabida e deve ser cancelada, em homenagem aos primados da ampla defesa e do contraditório. Na verdade, essa falta do AFRFB não só gerou as incorreções nos lançamentos, como também, sob o prisma da defesa do Requerente, reduziu o seu campo de atuação e tornou o trabalho fiscal, em relação à sua suposta responsabilidade solidária de gerente não sócio, imprestável. Para se ter uma idéia da precariedade do trabalho fiscal e da supressão do direito de defesa em relação ao Requerente, trazse à baila o seguinte julgado do CARF que, por muito menos, cancelou o lançamento: “IRPJ ARBITRAMENTO DE LUCROS APRESENTAÇÃO DE LIVROS E DOCUMENTOS CONCESSÃO DE PRAZO Incabível o arbitramento do lucro tributável motivado pela falta de apresentação de livros, documentos e demonstrativos contábeis e fiscais, base para a tributação pelo lucro real, Fl. 3209DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.183 55 quando o Fisco não concede prazo razoável para o atendimento à intimação que exigia tais elementos. " (Número do recurso: 155938 Câmara: Oitava Câmara Primeiro Conselho de Contribuintes. Relator: Nelson Lósso Filho: Publicado no DOU em 07/11/2008, Acórdão n° 108.09.574 grifouse). É óbvio que qualquer lançamento contra o Requerente só poderia ser feito mediante regular procedimento administrativo contra ela instaurado (CF, art. 5°, L1V e LV), especialmente porque, repitase, ele não era sócio, mas tão somente gerente. Neste pormenor, é curial assentar que, nos termos do art. 142. do CTN, o fato jurídico tributário deve ser efetivamente verificado, para que se exija o valor correspondente a título de tributo. Deve, dessa maneira, ser acatada essa arguição de precariedade do trabalho fiscal e cerceamento de defesa, para que se proceda ao cancelamento da imputação de responsabilidade tributária ao Requerente. II. 2 O Descabimento da Aplicação do art. 121, do CTN Os equívocos da presunção fiscal. Além do cerceamento de defesa, o lançamento em relação ao Requerente por responsabilidade solidária, com base no art. 121, do CTN. deve ser afastada completamente, vez que não houve prova da ocorrência das situações previstas no referido dispositivo, nem escolha de uma delas, em menoscabo a tipificação e. mesmo que houvesse, as hipóteses previstas na referida norma não são aplicáveis ao caso. Com efeito, sobre a responsabilidade tributária que está sendo atribuída ao Requerente (gerente não sócio) e aos demais sócios da N F Motta. é de se verificar que o AFRFB se fundamentou, primeiramente, nas disposições contidas no art. 121. incisos I e II. do CTN. de forma genérica, cujo texto é o seguinte: ““Art. 121. Sujeito passivo da obrigação principal é a pessoa obrigada ao pagamento de tributo ou penalidade pecuniária. Parágrafo único. O sujeito passivo da obrigação principal diz se: I contribuinte, quando tenha relação pessoal e direta com a situação que constitua o respectivo fato gerador: II responsável, quando, sem revestir a condição de contribuinte, sua obrigação decorra de disposição expressa de lei.'"' O comando normativo em destaque prevê que o sujeito passivo da obrigação tributária principal poderá ser (i) o próprio contribuinte, quanto este mantiver relação direta com o respectivo fato gerador ou, ainda, (ii) o responsável, nos casos em que sua obrigação decorra de lei. Ainda que exista uma clara distinção sobre os possíveis sujeitos passivos da obrigação tributária principal contribuinte ou responsável — o AFRFB não indicou qual das duas situações legais se enquadraria ao caso em tela. Fl. 3210DF CARF MF 56 Ao revés, o AFRFB transcreveu a íntegra do art. 121. do CTN (fls. 1.073), sem indicar, contudo, se a obrigação tributária imposta ao Requerente decorreria do inciso 1 (contribuinte) ou II (responsável). Vejase: O Requerente era só gerente! E, sem que tenha ocorrido a descrição exata da norma que enseja a responsabilidade que está sendo imposta ao Requerente, é de se concluir pela precariedade do lançamento fiscal ora atacado, por ser superficial e genérico. Como é cediço, o lançamento fiscal deverá conter todos os elementos capazes de identificar a conduta supostamente praticada pelo sujeito passivo, assim como preconizado no art. 142, do CTN. Ao fundamentar a responsabilidade que está sendo atribuída ao Requerente, o AFRFB indicou, de forma superficial e genérica, as disposições contidas no art. 121, do CTN, sem indicar, ao menos, qual seria a hipótese supostamente aplicável ao caso concreto inciso I ou II. A inexistência da indicação expressa do inciso I ou II, do art. 121, do CTN. para motivar a responsabilidade tributária ora atacada, macula a validade do próprio lançamento fiscal, nos termos do art. 142, do CTN. além de implicar em verdadeiro cerceamento do direito de defesa do Requerente. Há, pois, superficialidade no lançamento, falta de prova e. o pior, ofensa à legalidade, à tipicidade e à tipicidade tributária, o que macula essa extensão da exigência ao Requerente. Esse erro fica ainda mais grave, diante da constatação de que o Requerente não pode ser enquadrado em qualquer uma das situações descrita no art. 121, do CTN, seja aquela indicada no inciso I, seja aquela do inciso II. Ao analisar a situação sob a ótica inciso I, do art. 121. do CTN, verificase que, ao desconsiderar a alienação da participação societária da Holding G4 efetivada pelos sócios da N F Motta, o AFRFB jamais poderia ter enquadrado aquelas pessoas físicas supostamente envolvidas nessa operação como contribuintes e muito menos o Requerente, que era só gerente. E tal ocorre, pois, considerando os fatos construídos pela AFRFB, a venda desta participação societária teria sido feita e arquitetada pela N F Motta, tida por ele, como a supostamente a real beneficiária dessa operação de alienação de ativo não circulante. A obrigação tributária estabelecida pelo AFRFB, se prevalecesse a presunção fiscal, o que se admite só para argumentar, seria única: a obrigação da NF MOTTA efetuar o recolhimento do IRPJ e reflexos sobre o ganho de capital por ela auferido ao Fisco, como o sujeito passivo, sem qualquer espaço para indicação de outra pessoa. Não existem terceiros envolvidos, dado que os sócios e o Requerente na condição de gerente sem participação, nessa situação presumida pelo o AFRFB, não estariam relacionados pessoal e diretamente com o fato jurídico tributário:auferimento de ganho de capital na alienação de participação societária. Ora, o Requerente nem alienou participação, simplesmente porque não tinha nenhuma. Portanto, seguindo essa linha de raciocínio, o Requerente jamais poderia ter sido enquadrado como contribuinte responsável da obrigação tributária, nos termos do inciso I. do art. 121, do CTN e sob a presunção construída pelo AFRFB, uma vez que, nessa situação, o contribuinte seria tão somente a N F Motta. Fl. 3211DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.184 57 De outro lado, ao se considerar a realidade dos fatos por meio da qual a alienação da participação societária da Holding G 4 foi realizada pelos sócios da NF MOTTA a obrigação tributária constituída entre as pessoas físicas e o fisco federal foi integralmente cumprida em razão dos recolhimentos realizados aos cofres públicos a título de IRPF. Nessa segunda hipótese, ainda referente ao inciso I, do art. 121, do CTN. a relação tributária estabelecida entre as pessoas físicas (sócias) e o fisco é direta, mas foi completamente cumprida com o pagamento do IRPF. O Requerente nem aí pode ser enquadrado, dado que não tinha participação alguma! Isto é, não há margem para aplicação do referido dispositivo legal. Assim, a imposição da responsabilidade solidária com base na hipótese do inciso I, do art. 121, do CTN não poderia jamais se enquadrar aos fatos vivenciados nos autos, ainda que fosse tida como correta, o que se admite só para arguir, a presunção fiscal de que a venda teria sido feita pela N F Motta. Igualmente, não se faz possível a aplicação da disposição contida no inciso II, do art. 121, do CTN. De sua leitura, é possível extrair que será considerado como responsável pela obrigação tributária principal aquele cuja obrigação decorra de lei. Mesmo sendo a indicação genérica, não se pode imputar essa responsabilidade, haja vista que ela se preza a terceiro não envolvido com o fato jurídico tributário, mas indicado expressamente pela Lei para participar de obrigação determinada por Lei. O artigo 121, inciso II, trata, claramente, de situações de responsabilidade solidária, que são atribuídas a pessoas que não guardam correlação com o fato gerador da obrigação principal, em decorrência de lei editada nesse sentido. É o caso, por exemplo, da obrigação legal imposta às pessoas jurídicas tomadoras de serviços prestados por pessoas jurídicas de direito privado e que estão sujeitas ao recolhimento do Imposto de Renda Retido na Fonte, à alíquota de 1.5% (art. 647, do RIR/99). Evidentemente não é o caso. Na situação em apreço o IRPF era devido pelos sócios c por eles foi recolhido. O Requerente nem participou disso. Na presunção legal, a relação seria entre a NF MOTTA e a União Federal, sem qualquer Lei que atribua obrigação desconexa ao fato jurídico tributário a terceira pessoa. Logo, a hipótese do inciso II, do art. 121, do CTN. mesmo diante da generalidade da imposição fiscal nesse aspecto, também não aplicável ao caso, devendo, assim, ser afastado. E. nem se diga, por outro lado, que a disposição do art. 121, do CTN pode ser vinculada com o disposto no art. 135, do CTN, com faz parecer furtivamente o AFRFB. sem. mais uma vez, fazer a subsunção do fato à norma. Com o intuito de embasar o cabimento legal da regra contida no art. 121, inciso II, do CTN, de forma superficial, repitase, o AFRFB indicou que a responsabilidade do Requerente e demais sócio da NF MOTTA decorreria das disposições trazidas no art. 135, inciso II, do CTN (fls. 1.073): "87. Sendo assim, c de acordo com a previsão legal contida no inc. III, no art. 135, da Lei n° 5.172/66 (CTN), constatase a SUJEIÇÃO PASSIVA POR RESPONSABILIDADE PESSOAL dos sócios com poderes de administração Nelson Floduardo da Motta e Ivan Lopes da Silva e do Diretor Gerente. José Fl. 3212DF CARF MF 58 Pinheiro Baracho, pelos valores lançados em nome da empresa NF MOTTA, relativos ao período fiscalizado de 01/01/2010 a 31/12/2010." Tal como será doravante demonstrado, o art. 135, inciso III, do CTN não se aplica ao caso presente: ele trata de responsabilidade por ato de administração e não uma obrigação de terceiro como previsto no art. 121, do CTN. cm relação ao sujeito passivo. Inexiste, portanto, qualquer previsão legal que valide a responsabilização atribuída ao Requerente pela obrigação tributária descrita pela AFRFB no TVF. E ainda que assim não fosse o que se admite apenas por amor ao debate não seria possível a aplicação conjunta das disposições contidas no art. 121, inciso II, do CTN. com as hipóteses de responsabilidade previstas no art. 135, do CTN. Isso porque a responsabilidade descrita no art. 135, do CTN é classificada como responsabilidade de terceiros e não se confunde com aquela inicialmente prevista no art. 121, inciso II, do CTN: é pessoal, direta e depende da atuação com o fato jurídico tributário ou da participação de terceiro indicado por Lei para assumir a obrigação. Trata de sujeição passiva e dever de recolher tributo, mas não de responsabilidade solidária. Para a configuração da responsabilidade prevista no art. 135, inciso III, do CTN. é necessária a confirmação de que os administradores/gerentes de pessoa jurídica de direito privado tenham agido em nome desta, visando obter benefício econômico, por meio da prática de atos com excesso de poderes, infração a lei ou atos societários. O Requerente, como gerente não sócio, não se encaixa nisso de nenhuma forma. Tratase de uma forma de responsabilização pessoal e diversa daquela prevista no art. 121, do CTN. As hipóteses não se confundem e nem sequer podem ser aplicadas conjuntamente ao caso concreto. A norma do art. 121 do CTN trata de incidência direta, da regra matriz de incidência do tributo e os fatos a ela correspondentes. Já a norma do art. 135 do CTN cuida de responsabilidade pessoal, por ato ilícito do administrador. São normas completamente distintas e não podem ser aplicadas cm conjunto. Por esse motivo, a aplicação agregada do art. 121, inciso II e art. 135, inciso III, ambos do CTN, está equivocada, por tratar de conceitos diferentes e que não podem se confundir e ser vinculados, como fez o AFRFB. A jurisprudência do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – CARF, por diversas vezes, já asseverou (cita várias julgados) Aliás, essa confusão, com o devido respeito, feita pelo AFRFB, só atesta que a responsabilidade solidária foi imputada de forma genérica e superficial, com indicação de dispositivos legais que não se complementam e tratam de situações extremamente diferentes. Assim, sob qualquer ângulo que se analise o precário trabalho fiscal, é de se concluir que os atos em apreço não alcançam as situações previstas no art. 121, incisos I e 11 do CTN e. por isso, a responsabilidade tributária deve ser afastada pela generalidade da imputação, falta de tipificação e. de qualquer forma, pela inexistência de aderência entre o fato e à norma. II. 3 A inexistência de responsabilidade solidária Inaplicação do art. 135 do Código Tributário Nacional – CTN Não é só a indicação do art. 121, do CTN que é errônea, arbitrária e ofende os primados da legalidade e seus corolários. A pretendida responsabilidade tributária Fl. 3213DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.185 59 prevista no art. 135, do CTN é descabida e ilegal, visto que (i) o Requerente era gerente não sócio e não poderia, de forma, alguma ter cometido qualquer ato infracional: (ii) o AFRFB não provou a existência de excesso de poderes, infração de lei ou de contrato social e de ato doloso, realizando lançamento superficial: e. ainda, (iii) ele feriu à legalidade, à tipicidade e à tipificação, já que os fatos não se subsumem à hipótese legal, que não foi elegida especificamente. Demonstrase. • A inexistência de responsabilidade tributária inexistência de nexo causal entre o ato infrator e os poderes de gerência conferidos ao Requerente Art. 135 do CTN. Antes de tudo, é preciso dizer que o Requerente, na figura de gerente, sem participação societária, no caso concreto ora em debate, não pode sofrer a responsabilidade tributária atribuída pelo AFRFB, vez que não cometeu nenhum ato previsto no art. 135. III, do CTN. Lembrese que a suposta infração que ensejou a lavratura da autuação principal e. por via reflexa, a imputação de responsabilidade solidária ao Requerente (gerente não sócio), decorreu da redução de capital praticada pela N F Motta,mediante a entrega da participação societária da Holding G 4 para seus sócios, com o suposto objetivo de se obter indevida economia tributária a título de IRPJ incidente sobre o ganho de capital (fls, 1.064). "Após a análise dos elementos colhidos durante o procedimento fiscal instaurado e devidamente explicitada anteriormente, chegase à conclusão de que a transferência da participação societária da NF Motta na Holding G4 para seus sócios. Nelson Floduardo da Motta e Ivan Lopes da Silva, faz parte de um planejamento tributário abusivo que almejava, como único objetivo, reduzir a tributação sobre o ganho de capital, significando uma economia tributária indevida na ordem de 19%. Esta economia tributária se dá pela aplicação da alíquota de 15%, pelo qual é tributado o ganho de capital auferido por pessoa física (IRPF), em detrimento das alíquotas de IRPJ e da CSLL a que estão sujeitas as pessoas jurídicas e que totalizam 34%. ” O cerne da infração principal decorre da cogitada prática de "planejamento tributário abusivo", resultante redução de capital da NF MOTTA efetivada em favor de seus sócios que, nessas condições, puderam alienar, na pessoa física, a participação societária da empresa Holding G4. O AFFRB não indicou atos específicos sobre a responsabilidade tributária. Nessa parte, o TVF é extremamente genérico, pois não individualiza nem as hipóteses e nem as ações pessoais dos indivíduos envolvidos. Apesar desse grave defeito, que, por si, já abala o lançamento fiscal, se a presunção fiscal recai sobre a redução de capital, não há como se imputar responsabilidade solidária ao Requerente, que, apesar de ser titulado como gerente administrativo, não teve nenhuma participação decisiva nesse ato. Ora, o Requerente, na figura de gerente, sem participação de cotas, nem que quisesse, poderia decidir pela redução ou não do capital da N F Motta. Essa é uma decisão particular dos sócios, sendo completamente descabida a imputação de responsabilidade tributária. Aliás, o AFRFB cita o Requerente no TVF, mas deixa de ressalvar que ele não possuía participação societária na N F Motta. A fiscalização, incorretamente, o Fl. 3214DF CARF MF 60 coloca como sendo parte comum na redução de capital, mas evidentemente, não foi. Vejase o que diz a fiscalização: "83. Conforme art. 8º do Contrato Social consolidado em 01/05/2008. Nelson Floduardo da Motta é identificado como Diretor Administrativo da NF Motta e como Diretores Gerente. Ivan Lopes da Silva e José Pinheiro Baracho. Até a data em que foi encerrada a presente ação fiscal, os três nomes citados compuseram a Diretoria e assinaram os atos que visaram a redução da incidência tributária." (grifouse). Considerando que, segundo a presunção fiscal, os atos societários praticados para a redução de capital da NF MOTTA teriam por objetivo ocultar a real beneficiária do ganho de capital apurado na alienação da Holding G4, não há como imputar qualquer responsabilidade solidária prevista no art. 135. III. do CTN ao Requerente. Com efeito, o art. 135, III, do CTN elenca como pessoalmente responsáveis, em caso de prática de atos com excesso de poder ou infração de lei, contrato social ou estatuto, os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas. Notase que o dispositivo legal em comento vincula a responsabilidade tributária à prática de atos com excesso de poderes ou infração de lei e atos societários. Nenhum desses atos foi praticado pelo Requerente na condição de gerente administrativo não sócio, repisese. sem participação societária na N F Motta. Para melhor elucidar essa questão. Maria Rita Ferragut esclarece que "(...) a infração não diz respeito ao fato jurídico tributário, que é sempre lícito, mas à decisão de sua prática, contrária aos objetivos sociais contemplados no contrato social ou no estatuto, à competência pessoal para a tomada de decisões e, ainda, aos limites fixados em lei. ” Verificase que o importante para qualificação, ainda que rasa da responsabilidade do art. 135. II. do CTN. seria a decisão sobre a prática da redução de capital. É óbvio, sob esse enfoque, que o Requerente em nada participou dessa decisão. Nesse passo, convém reafirmar que, nos termos do contrato de redução de capital (doc. 6 da impugnação da PJ) da N F Motta, que o Requerente foi eleito como diretor gerente não sócio da empresa, responsável por sua administração, somente com aprovação de algum sócio. Isso significa, à evidência, que o Requerente não detinha nenhum poder para realizar a redução de capital, alvo da crítica fiscal. Ele, como diretor gerente, apenas administrava o cotidiano da empresa, sem, contudo, participar desse tipo de decisão, que, evidentemente, é afeita aos sócios. E bom grafar, outrossim, que administração feita por terceiro não sócio é prevista no art. 1.061, do Código Civil, sendo, pois, legal essa previsão, mas, a toda vista, diferente da posição e envergadura de um sócio administrador: "Art. 1.061. Se o contrato permitir administradores não sócios, a designação deles dependerá de aprovação da unanimidade dos sócios, enquanto o capital não estiver integralizado, e de dois terços, no mínimo, após a integralização." Fl. 3215DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.186 61 Vêse que a administração exercida pelo Requerente estava vinculada aos estritos poderes que lhe foram conferidos no contrato social, sem exercer, no entanto, qualquer atividade inerente ao sócio da empresa E, por sua vez, a redução de capital da N F Motta, que foi justamente o ato que deu fundamentou à lavratura das autuações fiscais em tela, apenas pode ser praticada por ato de vontade de seus sócios, o que excluiu, por completo, qualquer atribuição de responsabilidade ao Requerente sob esta motivação. Tal ocorre, pois, a deliberação para aumento ou redução de capital de sociedade limitada está vinculada à aprovação dos sócios da empresa, que são os detentores dos valores investidos na empresa. Os poderes de gerência atribuídos ao administrador não sócio estão adstritos, repitase, a questões gerenciais e administrativas, que nada se confundem com as tomadas de decisão relacionadas à modificação do capital social da empresa, que são atos exclusivos e personalíssimos de seus sócios. E mais, a redução do capital social de empresa limitada, praticada por seu sócio, deve seguir uma série de regramentos e normas que não vinculam o mero administrador, em razão de sua função meramente gerencial. Como se vê, diante da constatação de que o Requerente ocupava cargo de diretor gerente não sócio, este ficava alheio a qualquer decisão relacionada à modificação do capital social da N F Motta. E sem a demonstração do nexo causal entre a infração descrita, de forma genérica e superficial, pelo AFRFB redução de capital da NF Motta visando indevida economia tributária — e os atos praticados pelo Requerente, não é possível vislumbrar a ocorrência de qualquer uma das hipóteses de responsabilidade solidária. A jurisprudência do CARF destaca a importância da demonstração do elo existente entre a infração descrita no lançamento fiscal e o ato efetivamente praticado por seu administrador: "(...) RESPONSABILIDADE DE TERCEIRO POR ATO ILÍCITO. PRESSUPOSTOS, LIMITES E REQUISITOS. A responsabilidade tributária de terceiro pela prática de ato ilícito não decorre do simples inadimplemento do tributo, mas sim de conduta ilícita que deve ser devidamente descrita, com identificação de seu agente e do nexo causai entre a conduta ilícita e o não pagamento do tributo pelo contribuinte direto. Não subsiste a responsabilidade tributária imputada a terceiro, por ato ilícito, sem que seja descrita a infração praticada, identificado o seu agente e o nexo da conduta com o não adimplemento dos tributos. (Acórdão n° 1402001.430 – 2ª Turma Ordinária, da 4ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. 07/08/2013 grifouse). Denotase que a responsabilidade prevista no art. 135, do CTN está vinculada à efetiva prática e competência para a tomada de decisões, em nome da pessoa jurídica, que constituam infrações tributárias. Fl. 3216DF CARF MF 62 No caso presente, repitase. o Requerente, na qualidade de gerente não sócio, não possuía capacidade decisória ou gerencial para determinar a redução de capital da NF MOTTA e. assim, incorrer na "infração", superficial, genérica e não individualizada descrita pelo AFRFB. O fato de o Requerente, em conjunto com os demais sócios administradores, ter participado da reunião em que se deliberou a redução de capital da N F Motta, tal como mencionado pelo AFRFB (fl. 1.073) não lhe atribui competência para a prática desse ato. Ora, ele só assinou porque o contrato foi consolidado e ele nomeado gerente administrador. Nada mais. A assinatura do Requerente nos atos societários que resultaram na redução do capital da NF MOTTA não constitui prova de que este, verdadeiramente, decidiu, deliberou e efetivou tal ato. Ele, querendo ou não, por óbvio, não poderia interferir no ato de redução de capital, que depende da vontade do sócio. Ao revés, os poderes que lhe foram atribuídos na condição de diretor gerente não abarcavam deliberações sobre a modificação do capital da NF MOTTA que, como é de notório conhecimento, são exclusivos de seus sócios. Tanto é assim que, no decorrer de todo o procedimento administrativo em tela, há pouquíssimas citações do Requerente pelo AFRFB. Com exceção à indicação de que ele teria assinado ata de reunião de sócios na qual houve a deliberação da redução de capital da NF MOTTA (fls. 1.073), não existem alegações adicionais de que o Requerente teria arquitetado o "planejamento tributário abusivo" mencionado pelo AFRFB, recebido qualquer vantagem econômica em razão da alienação das quotas da Holding G4 ou efetuado posteriores aportes na N F Motta. Não há prova de nada. E nem poderia ser, pois, os poderes de gerência atribuídos ao Requerente, não sócio, não lhe autorizam a tomar decisões/providências dessa natureza. Enfim, inexistiu qualquer ato do Requerente que justificasse a atribuição de responsabilidade solidário pelos atos desconsiderados pelo AFRFB, que resultaram no lançamento tributário. Desse modo, a responsabilidade tributária atribuída ao Requerente nos moldes do art. 135, do CTN. além de ser geral e superficial, como será demonstrado abaixo, não se sustenta, diante da constatação de que ele não possuía poderes para determinar a redução de capital da N F Motta, tida como estopim da infração tributária descrita pelo AFRFB. • Falta de prova de infração de lei ou contrato social, excesso de poderes e de atitude dolosa Art. 135, III, e art. 142 do CTN Os lançamentos de ofício por responsabilidade tributária também devem ser cancelados porque o AFRF não indicou e muito menos comprovou que o Requerente teria praticado ato doloso com (i) excesso de poderes ou (ii) infração de lei, (iii) contrato social ou estatutos, como determina o art. 135, III, do CTN. Extraise do TVF, na parte referente à imputação de responsabilidade solidária (fls. 1.072/1.703), que os lançamentos fiscais nesse aspecto são extremamente superficiais e genéricos, o que agride o disposto no art. 135. III, do CPC. A situação de generalidade nesse caso é, com todo respeito, tamanha, que o art. 135. III, do CTN indica 3 (três) possibilidades possíveis de responsabilidade tributária e o AFRFB nem sequer especificou e provou cm qual delas o Requerente se encaixaria. Fl. 3217DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.187 63 De fato, o AFRFB não indicou e nem provou qual teria sido o "excesso de poderes" praticado pelos sócios e muito menos ao Requerente (fls. 1.072/1.073), que, repisese, era apenas gerente não sócio. É ler o TVF para notar que a atribuição da responsabilidade solidária foi feita de forma geral, sem especificação, justificação e prova algumas de qualquer tipo de ato com "excesso de poderes" do Requerente. Do mesmo modo, inexistiu registro e lastro probatório de que o Requerente teria praticado "ato com infração de lei". Tanto é assim que, afora o art. 135. III. do CTN. o AFRFB não cita nenhuma norma de conduta, exteriorizada por Lei, que caracterizasse e justificasse a imposição da responsabilidade solidária. Nenhuma! Consoante prevê o CTN, aliás, a regra de infração de lei se refere à norma de caráter societário, haja vista cuidar dos detalhes e atos de administração. Não se trata, a toda evidência, de qualquer norma jurídica. E nesse diapasão, como o AFRFB não contestou os atos praticados pelas pessoas físicas, sócias da NF MOTTA que culminaram na redução de capital e transferência de participação das pessoas físicas que, ao revés, obedeceram todas as normas e regramentos sobre o assunto, não existe infração de lei. Se inexiste aos sócios, muito menos ao Requerente, que não possuía qualquer participação e interesse no ato societário. Nesse aspecto, o Requerente consigna que a redução de capital foi efetuada, em função do excesso de capital da N F Motta, e preservação de ativos, nos termos do art. 1082 do Código Civil, e do art. 173 da Lei n° 6.404/76, este último aplicado subsidiariamente, atendendo aos requisitos legais. Mais do que isso, a redução de capital com a transferência da participação aos sócios pelo valor de custo, encontra guarida no art. 22 da Lei n° 9.249/95, cuja hipótese foi devidamente obedecida pelas pessoas físicas. Tudo isso, apesar de legal, não teve a participação decisiva do Requerente, mas somente formal pela assinatura do contrato social. Não só houve omissão e falta de prova com relação à hipótese de "excesso de poderes" e "infração de lei". O AFRB também não consignou e nem comprovou qual ”ato contra o contrato social" da NF MOTTA teria sido praticado pelo Requerente (fls.1.072/ 1.073). Depreendese do TVF que a fiscalização apenas indica cláusula de administração do contrato social para, ainda indicar os administradores da N F Motta, inclusive o Requerente como gerente não sócio. Não fez mais nada, além disso. Para que haja a mínima chance de imputar a responsabilidade tributária nessa referida hipótese ao administrador, é mister, evidentemente, indicar a cláusula ultrajada c comprovar a execução do ato ilícito. O AFRFB, repitase. de maneira genérica e evasiva, em momento algum registrou ou fez prova de que o Requerente, de fato, teria agido em desrespeito a qualquer cláusula do contrato social da N F Motta, o que, uma vez mais, denota à impropriedade da imputação da responsabilidade solidária. Fl. 3218DF CARF MF 64 E sob essa perspectiva é preciso dizer que, não só definição da hipótese, a indicação da prática e sua comprovação são necessárias à imposição da responsabilidade solidária do art. 135, do CTN. é indispensável a demonstração inconteste do dolo, da vontade de executar o excesso de poderes, a infração de lei ou do contrato social. Essa é a posição da doutrina: '"A existência de uma infração é condição necessária ao desencadeamento da responsabilidade do administrador, mas não suficiente. Para que identifiquemos o fato típico e antijurídico previsto no art. 135, a conduta do agente deve ser necessariamente dolosa. (...) É a partir desse prisma que a responsabilidade prevista no artigo 135 deve ser interpretada. Caso contrário, a intervenção no patrimônio particular e na liberdade do administrador será injurídica e totalmente incompatível com as garantias que a Constituição defere a todos, a título de direitos fundamentais. Assim, para que reconheçamos a recepção do artigo 135 pela ordem constitucional de 1988, é indispensável a aplicação de seu preceito em fiel harmonia com a necessidade da presença da conduta dolosa, de modo que a responsabilidade pessoal não atinja senão aqueles que cometeram dolosamente o ilícito típico." Se o AFRFB nem sequer indicou qual das hipóteses do art. 135. III. do CTN a situação do Requerente se enquadra, então fica óbvio e desnecessário tecer maiores delongas quanto à falta de prova em relação ao dolo, que ficou longe de ser construída pela acusação. De qualquer maneira, em relação ao Requerente, que só era gerente sem participação, fica mais nítida, ainda, a inexistência de conduta dolosa, já que, de forma alguma, ele participou de ato decisivo no tocante à redução de capital. Toda essa omissão, superficialidade, falta de qualquer prova quanto a ocorrência, dolosa e efetiva, de ato praticado ato com (i) excesso de poderes, (ii) infração de lei, ou (iii) contrato social, fere de morte o art. 142 e também o próprio art. 135, ambos do CTN, pela fatal de demonstração cabal das hipóteses de responsabilidade tributária. Cita jurisprudência do CARF. Logo, pela generalidade da imposição da responsabilidade solidária prevista no art. 135. III. do CTN. e a inexistência de qualquer prova e demonstração de dolo excesso de poderes, infração de lei, ou contrato social, essa imputação ilegal deve ser cancelada totalmente. • Ofensa à legalidade e à tipicidade Tipificação: falta de subsunção do fato à norma do art. 135, III, e art. 142 do CTN Decorrência basilar da superficialidade da imputação de responsabilidade solidária e da falta de prova de ato doloso do Requerente (i) excesso de poderes, (ii) infração de lei, ou (iii) contrato social, nos termos do art. 135. III. do CTN. é a mácula ao princípio da legalidade e da tipicidade, que impedem à imposição de obrigação tributária sem a correspondência perfeita do fato à norma. Tal como pisado e repisado linhas atrás, o AFRFB, em resumo, não indicou qual. especificamente, das hipóteses legais do art. 135, III, do CTN (norma) seria aplicável ao Requerente e concomitantemente, deixou de provar a ocorrência, efetiva e dolosa, dos atos supostamente praticados por ela (fato) em correspondência à previsão da conduta legal (subsunção). Fl. 3219DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.188 65 A AFRFB infringiu, sob esse ângulo, a legalidade e a tipicidade tributária, uma vez que não indicou objetivamente a norma de aplicação cabível e, por outro lado, a tipificação, haja vista que não comprovou o fato que se adequaria à hipótese legal e nem fez essa correspondência necessária. Inexistiu, pois, a imperiosa subsunção do fato à norma. Lembrese, nesse pormenor, que a norma tributária, como qualquer outra, tem sua incidência condicionada ao acontecimento de um fato (fato jurídico tributário) previsto na hipótese legal (hipótese de incidência); fato este que, comprovado no contexto social, acarreta a incidência do mandamento. Incidência, portanto, é o fenômeno, especificamente jurídico, da subsunção de um fato a uma hipótese legal que, quando se dá, por meio de linguagem jurídica competente (prova), imputa a este fato as consequências jurídicas previstas na norma ao qual ele se subsumiu. Para que houvesse, no caso concreto, a responsabilidade tributária, indispensável era (i) a indicação de uma das hipóteses do art. 135, III, do CTN e. ao mesmo tempo, a comprovação da realização dolosa pelo Requerente de ato com excesso de poderes, contrário à Lei ou ao contrato social. Nada disso aconteceu no TVF! Por falta de indicação específica da hipótese legal houve ofensa à legalidade e à tipicidade, pois, sem saber qual é a hipótese normativa específica a ser aplicada, se torna impossível, consequentemente, a tipificação, com a adequação perfeita de qualquer conduta no mundo fenomênico ao desenho legal. Deveras, não houve tipificação, dado que inexistiu a aderência, a incidência, a adequação do suposto fato às hipóteses legais do art. 135. III. do CTN. Assim como no Direito Penal, que também é um ramo do Direito Público, fato típico, para o Direito Tributário, é aquele que se contém perfeitamente na descrição legal, que se subsume inteiramente ao desenho normativo, sem faltar nem sobrar, nem fato nem norma. Ou seja, é sempre preciso que haja uma "perfeita adequação do fato concreto ao tipo" descrito na norma. Por mais essa falha do AFRFB, não há como sustentar a manutenção da imposição da responsabilidade ao Requerente por falha na aplicação da Lei ao suposto fato e também porque essa omissão nem dá espaço para uma defesa ampla e específica. A jurisprudência do CARF confirma o entendimento da Requerente: Cita jurisprudência desse Conselho e também do STJ. II.4 Argui sobre a necessidade de abatimento do IRPF já pago com o suposto IRPJ devido. II. 5) A multa qualificada Pena com teor personalíssimo impossibilidade de responsabilidade solidária (acréscimo de argumento em relação à defesa da NF Motta) II. 6) A impugnação apresentada pela NF MOTTA Serviços Gerais Ltda Ratificação Economia Processual Quando do julgamento na DRJ/RPO, a decisão restou assim ementada: Fl. 3220DF CARF MF 66 ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2010 PRECARIEDADE DO TRABALHO FISCAL. OFENSA AO ART. 142. Não há ofensa ao art. 142 do CTN, quando a Autoridade Fiscal, em face de atos simulados, aponta todos os elementos previstos no citado artigo, quando da realização do lançamento de oficio com fulcro no art. 149. ERRO NA DETERMINAÇÃO DO PERÍODO DE APURAÇÃO. Quando optante pelo Lucro Presumido, sob o regime de caixa, há de se computar as receitas auferidas no período de apuração em que houver o efetivo recebimento. Caso, durante o ano calendário, passar a ser obrigada à apuração do lucro real, deverá oferecer à tributação as receitas auferidas e ainda não recebidas no período de apuração anterior àquele em que ocorrer a mudança do regime de tributação. ERRO NA DELIMITAÇÃO DA BASE DE CÁLCULO. O contrato de compra e venda tornase perfeito e válido quando as partes acordam acerca da coisa e do preço. Sendo possível determinar o preço na data da assinatura, é este valor que deve ser considerado pela fiscalização como o preço de venda, independentemente do efetivo pagamento. Caso as partes acordem em aplicar um índice financeiro sobre o preço de venda, incidindo entre a celebração do contrato e o efetivo pagamento, a diferença dos valores configura receita financeira. Quando optante pelo Lucro Presumido, sob o regime de caixa, os valores referentes ao ganho de capital e receita financeira devem ser acrescidos à base do cálculo, quando do efetivo pagamento, para consequente aplicação da alíquota dos tributos. A ILEGALIDADE DO LANÇAMENTO POR SUPOSTO PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO ABUSIVO. Para produzir efeitos tributários, é necessário que os eventos sejam apresentados de acordo com a substância dos atos e não meramente com forma lícita. Não se deve aceitar como lícito um planejamento tributário que envolva contratos “vazios”, desprovidos de causa geradora, porquanto visam retratar negociação que existe apenas para economizar tributos que são devidos. INEXISTÊNCIA DE PREVISÃO LEGAL DE OMISSÃO DE RECEITA. Nos termos do art. 521 do RIR que “Os ganhos de capital, os rendimentos e ganhos líquidos auferidos em aplicações financeiras, as demais receitas e os resultados positivos decorrentes de receitas não abrangidas pelo art. 519, serão Fl. 3221DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.189 67 acrescidos à base de cálculo” para efeito de incidência do imposto. Haverá o lançamento de ofício quando o sujeito passivo não oferecer à tributação as receitas provenientes de ganhos de capital e de ganhos financeiros. DESCABIMENTO DA DESCONSIDERAÇÃO DE ATOS JURÍDICOS PERFEITOS E ACABADOS. O Princípio da BoaFé e o da Função Social devem ser considerados não apenas entre as partes do negócio jurídico, mas também perante a sociedade, visto que há interesse público em obter receitas tributárias para consecução do bem comum. Inarredável, portanto, a observância desses princípios norteadores, que limitam o excesso do exercício da autonomia privada em face de interesses maiores, como o interesse público em auferir receita tributária quando ocorre o fato gerador previsto na lei. Não pode simplesmente as partes inovar no exercício da autonomia privada quando há prejuízo à sociedade. LICITUDE DOS ATOS. LIVRE EXERCÍCIO DA ATIVIDADE. ECONOMIA FISCAL. Sob a égide da livre iniciativa, não pode o interessado praticar atos unicamente para eximirse das obrigações tributárias, devendo a Autoridade Fazendária, em face dessa circunstância, obrigatoriamente, identificar o real fato gerador e efetuar o lançamento dos tributos devidos. ABATIMENTO DO VALOR DO IRPF RECOLHIDO PELAS PESSOAS FÍSICAS. Para que haja a compensação, os débitos devem ser próprios, ou seja, pertencer ao mesmo sujeito passivo que apurou o crédito que se deseja compensar. A INEXIGIBILIDADE DO PIS E COFINS SOBRE RECEITAS FINANCEIRAS. É incabível a cobrança da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins sobre receita financeira, quando não decorrente do objeto social da pessoa jurídica optante pelo Lucro Presumido, sujeita ao regime de apuração cumulativa. DESCABIMENTO DA MULTA QUALIFICADA. Não há como afastar a imputação fiscal de planejamento tributário abusivo e fraudulento e a consequente aplicação da multa qualificada se comprovadas pela Fiscalização circunstâncias que demonstram a ocorrência de negócios jurídicos simulados, os quais foram celebrados com o único objetivo de esquivarse da tributação que, de qualquer outra forma escolhida, seria incidente. JUROS SOBRE MULTA. POSSIBILIDADE. Fl. 3222DF CARF MF 68 O Código Tributário Nacional, em seu art. 113, § 1º, estabelece que a obrigação principal tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária (multa) e extinguese juntamente com o crédito dela decorrente. O art. 161, por sua vez, prescreve que o crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis. Destarte, o conceito de crédito utilizado pelo CTN alcança não apenas o tributo, mas também a penalidade pecuniária. INEXISTÊNCIA DE FISCALIZAÇÃO. CERCEAMENTO DE DEFESA. A ampla defesa, que assegura aos responsáveis solidários o direito de contestar a exigência contra eles formulada, é exercida por meio das impugnações apresentadas. DESCABIMENTO DA APLICAÇÃO DO ART. 121 DO CTN. Nos termos do art. 121 do CTN, a responsabilidade tributária só pode decorrer de Lei. O Código Tributário Nacional (art. 135) determina imputar a responsabilidade àquele que praticar ato ilícito. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. ART. 135 CÓDIGO TRIBUTÁRIO NACIONAL. Os atos da pessoa jurídica são manifestados por meio dos representantes legais. Simular negócio jurídico para eximirse de pagamento de tributo, configura ato ilícito, justificando a responsabilização dos que concorreram para a prática de tais atos. MULTA QUALIFICADA PENA COM TEOR PERSONALÍSSIMO IMPOSSIBILIDADE DE RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. Praticar atos ilícitos, na qualidade de administrador, decorrentes de planejamento tributário ilícito, abusivo, inevitavelmente haverá a responsabilização tributária (art. 135 do CTN). Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte Cientificados da decisão, e inconformados com o resultado do julgamentos, apresentaram os responsáveis os respectivos recursos: 01)NF Motta: 1a) A Inovação da DRJ/RPO – Ilegalidade do Lançamento de Ofício Citação da DRJ ao art. 149 do CTN conforme abaixo: Vejase, neste peculiar aspecto, a conclusão da DRJ/RPO de que a motivação para o lançamento fiscal seria a aplicação do art. 149, do CTN em clara inovação à fundamentação jurídica contida no TVF: Fl. 3223DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.190 69 “Essa desconsideração dos atos praticados pelo contribuinte foi feita com fulcro no art. 149, VII, do CTN, o qual determina que o lançamento deve ser efetuado de ofício quando houver dolo, fraude ou simulação.” (fls. 2.422). Apesar da assertiva fiscal, observase do TVF (fls. 1.054.1.074) que o AFRFB em nenhum momento motivou o lançamento de ofício em tal dispositivo legal e nem sequer o citou. 1b) A precariedade do trabalho fiscal – Ofensa ao art. 142 do Código Tributário Nacional CTN repetição das mesmas razões da impugnação e acrescenta: No caso em apreço, o AFRFB não apresentou nenhum documento probatório de que a venda teria sido feita pela Recorrente e também que inexistiria substância na operação. São palavras e mais palavras fundamentadas numa montanha de conjecturas. Sem qualquer prova. A DRJ/RPO, por sua vez, deixou de analisar todo o histórico da operação e os documentos trazidos na impugnação, que claramente comprovam a motivação de todo o negócio, com influência de terceiros e de órgãos estatais, como a ARTESP, CVM e o CADE. E, com todo o acatamento, o Colegiado a quo fez apenas só negações, sem resposta efetiva sobre os fatos e as arguições da Requerente. (...) 1c) O Erro na determinação do período de apuração Ofensa aos art. 13, §2º Da Lei 9.718 (art.516 do RIR/99) e 142 do CTN • O Regime de Competência Adotado pelo AFRFB Erro 1d) O erro na delimitação da base de cálculo – Ofensa ao art. 142 do CTN e art. 2º, da Lei 9.430/96 1e) A ilegalidade do lançamento por suposto “planejamento tributário abusivo” – Ofensa ao art. 37 e 150 da CF/88, art. 97 e 197 do CTN e art. 2º da Lei 9.784/99 1f) A inexistência de previsão legal de “falta de contabilização de ganho de capital” e “apuração incorreta resultado” 1g) O descabimento da desconsideração da alienação feita pelas pessoas físicas (motivação, substância e realidade) – Ofensa à Legalidade e à Tipicidade 1h) O equívoco da presunção fiscal Venda efetiva pelas Pessoas Físicas, sócias da Requerente — Inexistência de retorno de investimento 1i) A licitude dos atos O livre exercício de atividade A economia fiscal 1j) A necessidade de abatimento do IRPF recolhido pelas pessoas físicas e do IRRF 1k) O descabimento da imposição da multa qualificada 1l) A não incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício Os responsáveis, por sua vez, argumentaram o seguinte: 2a) A inexistência de fiscalização em relação à Recorrente – Lançamento Precário – Cerceamento de Defesa Fl. 3224DF CARF MF 70 2b) inexistência de responsabilidade solidária – Inaplicação do art. 124, I e 135 do Código Tributário Nacional CTN 2c) necessidade de abatimento do IRPF já recolhido (acréscimo de argumento em relação à defesa da CCI Concessão) 2d) A multa qualificada – Pena com teor personalíssimo impossibilidade de responsabilidade solidária 2e) A impugnação apresentada pela NF MOTTA – Ratificação – Economia Processual Este é o relatório do essencial Voto Conselheiro Letícia Domingues Costa Braga Relatora I Recursos Voluntários Os recursos voluntários são tempestivos e preenchem os requisitos de admissibilidade, portanto deles conheço. A acusação da autoridade autuante é de que a Recorrente não teria contabilizado o ganho de capital apurado na venda do investimento na NF Motta Comércio e Construções Ltda. Que houve uma sequência de operação simuladas e que na verdade a transferência das ações para a holding G4 não teria ocorrido e, tampouco a devolução de capital da holding para as pessoas físicas também não teria acontecido. Nesse sentido, considerouse que a operação foi efetivamente realizada pela recorrente, NF Motta Construções, empresa acionista de Rodovias desde 2000 e que há responsabilidade pessoal tanto dos acionistas da NF Motta, qual seja os Srs. Nelson Floduardo da Motta e Ivan Lopes da Silva e os administradores: Ivan Lopes da Silva e José Pinheiro Baracho Com relação à parte exonerada pela DRF, qual seja, o PIS e a COFINS sobre as receitas financeiras, verificase que o valor não atinge o mínimo para a interposição de recurso de ofício. II Da nulidade da decisão da DRJ Não se pode qualificar a conclusão da DRJ como modificação no critério jurídico adotado pelos autuantes no exercício do lançamento. E a nulidade de uma decisão como o caso da DRJ, só se justifica se ocorrer a preterição do direito de defesa, conforme estatuem os arts. 59 e 60 do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972. A preterição do direito de defesa não ocorreu, pois a impugnação que apresentou foi apreciada e o recurso voluntário ao CARF foi apresentado e acolhido para julgamento. Fl. 3225DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.191 71 Ou seja, identificou a ausência de propósito negocial, pois tratavase de operação simulada, arquitetada apenas para economia de tributos, visto que não existiria de outro modo, senão para eximirse de pagamento dos tributos que são devidos. Essa desconsideração dos atos praticados pelo contribuinte foi feita com fulcro no art. 149, VII, o qual determina que o lançamento deve ser efetuado de ofício quando houver dolo, fraude ou simulação. Tratase de “norma geral”, a qual deve ser atendida em harmonia com os requisitos traçados pelo art. 142, quando da realização do lançamento. E a autoridade lançou corretamente, demonstrando tanto no Termo de Verificação Fiscal (fl. 1066 e ss.) quanto nos Autos de Infração o respectivo enquadramento legal que ampara a constituição do crédito tributário, conforme dispõe o art. 10 do Decreto 70.235/72. Nesse sentido, tais razões apenas complementam as razões da autuação, não havendo qualquer nova fundamentação capaz de macular o direito de defesa da recorrente. III No mérito Das Razões extratributárias Como já defendido em inúmeras decisões deste Conselho, na análise de reorganizações societárias complexas compostas por etapas diversas deve ser afastada a análise isolada de cada uma das etapas como se fossem fotos estáticas sem relação entre sim, pelo contrário, a análise deve ser conjunta e levar em conta o encadeamento das etapas como se fossem cenas contínuas de um filme. Pois bem, o histórico da operação, pode ser assim resumido, conforme descrito no TVF: Fl. 3226DF CARF MF 72 Fl. 3227DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.192 73 Fl. 3228DF CARF MF 74 Não vejo como extrair dos fatos acima citados que a operação tenha sido simulada. Muito embora a autoridade autuante tenha realizado um minucioso trabalho de investigação, não há nos autos sequer início de prova de que, na prática, a venda da participação societária da Rodovias tenha sido realizada ou mesmo negociada pela Recorrente. Até porque a participação da recorrente era minoritária e a citada participação de um de seus acionista no Conselho de Administração da rodovias não conferia a esse o poder de decisão sobre venda ou não de qualquer participação societária. A fiscalização prefere ignorar que as reduções de capital e transferências de participações societárias na Holding G4 foram negociadas e instrumentalizadas em 12 de novembro de 2008, e que apenas a efetivação de tal operação é que ocorreu em 2010, após a autorização dos credores e da agência reguladora. Assim, é verdade que, perante terceiros (isto é, conforme os registros na Junta Comercial) a Recorrente foi proprietária da participação na Holding G4 até 2010. Todavia, a transferência de tal participação já tinha ocorrido desde novembro de 2008, apenas a efetiva entrega e registro dos respectivos atos societários é que aguardava o cumprimento de condições suspensivas, quais sejam, as autorizações dos credores e da agência reguladora, fatos estes que dependiam exclusivamente de terceiros e que portanto ocorreriam independentemente de manifestação da Recorrente ou dos adquirentes. Explicado isso, fica fácil compreender o porque de a participação societária na Holding G4 ter sido negociada por quem ainda não era, perante os registros societários, detentor de tais cotas. Lado outro, justifica a fiscalização que restou demonstrado que houve retorno do capital social para a recorrente, tendo em vista que os acionistas aportaram capital na empresa no ano seguinte. Não se pode entender, portanto, que há sequer início de prova de que tenha havido simulação na operação em questão. Por economia processual e por se tratar de fatos quase idênticos ao tratado nesses autos, reproduzo voto da brilhante conselheira integrante dessa Turma, Lívia De Carli Germano que em 10 de abril do corrente ano, relatou o recurso voluntário da CCI em que essa turma, por unanimidade, julgou procedente o recurso voluntário da recorrente: Considerando todo o contexto acima não vejo como se possa considerar a Recorrente como a real alienante da participação societária. No máximo, o que houve foi planejamento, no sentido de que foram estudadas alternativas para a alienação da participação na Holding G4 e houve atuação preventiva de forma a minimizar os impactos tributários. Mas isso é, inclusive, o dever de um bom administrador, já que os tributos são, em última análise, custos como quaisquer outros, os quais devem ser, na medida do possível e desde que licitamente, reduzidos em prol da saúde financeira de qualquer pessoa, física ou jurídica. Assim, não se pode tratar o planejamento de forma pejorativa, como se todo empresário que planejasse praticasse um ilícito. Repitase: qualquer administrador probo deve planejar, ou seja, buscar antecipar os efeitos dos negócios a serem praticados e estudar alternativas que tragam menor custo ou maior benefício. Fl. 3229DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.193 75 Tal planejamento será lícito desde que cada ato analisado individualmente e também no conjunto com outros atos tenha uma função, ou seja, produza as consequências jurídicas que se espera daquele ato. É o que muitos chamam de "causa" do negócio. Assim, não se pode pretender tributar uma operação tal como a fiscalização entendia que ela devesse ter sido feita. O fato de uma operação não ter tido o "desfecho previsível" que a fiscalização esperava não significa que ela não tenha tido "propósito negocial". De fato, já observei em outros votos que temos presenciado com preocupante frequência a utilização, pelas autoridades fiscais, de uma versão extrema e literal da suposta "teoria do propósito negocial" por meio do qual se defende que a simples ausência sob a ótica do fisco de outros "motivos" para a operação que não o alcance do benefício fiscal já seria elemento suficiente para invalidar as operações ou, ao menos, as vantagens fiscais daí resultantes. Tal racional, além de carecer de suporte jurídico, guarda certa contradição com diversas regras e estruturas criadas há muito tempo pelo legislador pátrio, por meio das quais são oferecidas vantagens fiscais a contribuintes que cumpram determinados requisitos expressos na legislação. Daí é que o que se vê, frequentemente, é a criação de requisitos adicionais àqueles previstos na legislação, sem qualquer amparo jurídico, e fundado exclusivamente em uma premissa falsa, e quase preconceituosa de que uma operação que vise a atingir vantagem fiscal legalmente prevista "não vale para fins fiscais". Dizemos que não é preciso ir tão longe já que a questão é bem mais simples: em uma redução de capital motivada por excesso de capital social, o que se espera é que tal ato efetivamente gere a descapitalização da empresa e devolução de recursos aos sócios. Se, mantidas as mesmas circunstâncias, houver uma subsequente recapitalização desta mesma pessoa jurídica, seja mediante aumento de capital, AFAC ou mesmo empréstimo dos sócios, podese dizer que a redução de capital foi simulada, eis que o instituto redução de capital não produziu os efeitos que lhe são próprios e necessários (significa dizer, em termos jurídicos, que não teve "causa"). Vamos a um exemplo um pouco mais extremo, apenas no intuito de ilustrar o que se diz acima: nossa legislação garante determinadas reduções de tributos a contribuintes que se estabeleçam na Zona Franca de Manaus. Pois bem. Quando as autoridades fiscais investigam os contribuintes que se beneficiam de tais incentivos, não questionam qual foi o motivo extratributário que levou à decisão de se estabelecer em tal área. Pelo contrário, muitas vezes tais contribuintes realmente não têm outra justificativa, eis que se distanciam de seu mercado consumidor e não raro não encontram lá uma melhor infraestrutura ou maior oferta de mão de obra qualificada. O objetivo é, portanto, o gozo do incentivo fiscal, e isso é garantido às empresas que cumpram todos os requisitos da legislação independentemente do "propósito negocial" da decisão de se estabelecer na Zona Franca de Manaus. Mas o que se espera de tais pessoas jurídicas? Que elas realmente se estabeleçam na região da Zona Franca de Manaus e lá produzam seus produtos. Assim, uma pessoa jurídica que o faça apenas formalmente, "no papel", não terá direito ao gozo dos benefícios não porque a operação não tenha "propósito Fl. 3230DF CARF MF 76 negocial", mas simplesmente porque a pessoa jurídica não existe como "sociedade empresária", ou seja, por não haver "empresa"1 naquele local. O mesmo se pode dizer da redução de capital. A legislação traz condições para que o capital social de uma pessoa jurídica possa ser reduzido e, uma vez que estas são preenchidas e efetivamente se atinge o resultado pretendido, a consequência da operação (que no caso foi a entrega da participação na Holding G4 aos sócios) deve ser considerada legítima independentemente dos "motivos não fiscais" que levaram à decisão por tal forma de transferir a participação. Daí porque alguns talvez de maneira não técnica qualificam alguns negócios como "abusivos". Tal "abuso" é a qualificação dada à utilização de um instituto jurídico (no caso, o da redução de capital) sem se atingir seu fim próprio ou sua "causa" (e que, no caso, é a descapitalização da empresa e entrega de recursos aos sócios/acionistas). Em resumo, por entender que, de um lado, não houve simulação já que a negociação da participação societária não foi nem de fato nem de direito realizada pela Recorrente, e, de outro, que o planejamento não pode ser considerado ilegítimo eis que a redução de capital e entrega da participação na Holding G4 a seus sócios foi um ato dotado de "causa" (entendida como função econômicosocial ou, como alguns preferem, "propósito negocial"), não vejo como manter a autuação. Não pode ser mantida a autuação no caso em que não há indícios convergentes de prática de simulação ou de "abuso" (este último entendido como resultado ilégítimo dos atos praticados, a despeito de todos serem individualmente lícitos, conforme detalhado acima). Pelo acima exposto, tendo em vista as razões brilhantemente expostas, não há como olvidar que foi feita a operação da forma como descrita pela recorrente sendo que não logrou êxito a fiscalização em demonstrar a suposta simulação da operação. Conclusão: Ante o exposto, oriento meu voto para negar provimento às nulidade e dar provimento ao recurso voluntário da Recorrente, ficando prejudicados os recursos voluntários dos responsáveis. Letícia Domingues Costa Braga Relatora 1 O conceito de empresa pode ser extraído da definição de empresário constante do Código Civil, interpretandose empresário como aquele que exerce empresa: "Art. 966. Considerase empresário quem exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços." Fl. 3231DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.194 77 Fl. 3232DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10280.906271/2009-71
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jan 23 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Mon Feb 25 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
Ano-calendário: 2004
CSLL. COMPENSAÇÃO. REQUISITOS.
A certeza e liquidez do crédito são requisitos indispensáveis para a compensação autorizada por lei, sob pena de não homologação do pleito. A mera apresentação de DIPJ e DCTF Retificadoras, desacompanhadas dos documentos contábeis e fiscais de suporte, não constituem provas hábeis do indébito.
Numero da decisão: 1201-002.709
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado em negar provimento ao recurso voluntário, por unanimidade de votos.
(assinado digitalmente)
Neudson Cavalcante Albuquerque - Presidente.
(assinado digitalmente)
Luis Henrique Marotti Toselli - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Allan Marcel Warwar Teixeira, Luis Henrique Marotti Toselli, Sérgio Abelson (Suplente convocado), Rafael Gasparello Lima, Lizandro Rodrigues de Sousa (Suplente convocado), Gisele Barra Bossa, Breno do Carmo Moreira Vieira (Suplente convocado) e Neudson Cavalcante Albuquerque (Presidente em exercício).
Nome do relator: LUIS HENRIQUE MAROTTI TOSELLI
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COMPENSAÇÃO. REQUISITOS. A certeza e liquidez do crédito são requisitos indispensáveis para a compensação autorizada por lei, sob pena de não homologação do pleito. A mera apresentação de DIPJ e DCTF Retificadoras, desacompanhadas dos documentos contábeis e fiscais de suporte, não constituem provas hábeis do indébito. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado em negar provimento ao recurso voluntário, por unanimidade de votos. (assinado digitalmente) Neudson Cavalcante Albuquerque Presidente. (assinado digitalmente) Luis Henrique Marotti Toselli Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Allan Marcel Warwar Teixeira, Luis Henrique Marotti Toselli, Sérgio Abelson (Suplente convocado), Rafael Gasparello Lima, Lizandro Rodrigues de Sousa (Suplente convocado), Gisele Barra Bossa, Breno do Carmo Moreira Vieira (Suplente convocado) e Neudson Cavalcante Albuquerque (Presidente em exercício). Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 28 0. 90 62 71 /2 00 9- 71 Fl. 932DF CARF MF 2 A Recorrente transmitiu DCOMP (fls. 1/5), por meio do qual busca compensar parte do alegado crédito de Saldo Negativo de CSLL relativo ao anocalendário de 2004 com débito próprio. O Despacho Decisório (fls. 6/7) não homologou o pleito do contribuinte, sob a alegação de insuficiência de crédito, uma vez que o pagamento tido por maior já teria sido utilizado para liquidar outros débitos do contribuinte. A empresa, então, apresentou Manifestação de Inconformidade (fls. 12/16). Sustenta, em resumo, que o crédito tributário é oriundo de pagamento a maior de CSLL no anocalendário de 2004, no montante de R$ 2.612.217,12, tributo este que, consoante legislação atinente ao assunto, é administrado pela Secretaria da Receita Federal e é passível de restituição ou compensação, com atualização pela Selic a partir do primeiro dia do ano seguinte, nos termos da lei. Em Sessão de 31 de maio de 2012, a 3ª Turma da DRJ/BEL, por unanimidade de votos, julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade por meio do Acórdão nº 0125.095 (fls. 64/67), cuja ementa recebeu o seguinte descritivo: DCOMP. PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. ÔNUS DA PROVA. Considerase não homologada a declaração de compensação quando não reste comprovada a existência do crédito apontado como compensável. Em sede de compensação, o contribuinte possui o ônus de prova do seu direito. DIREITO CREDITÓRIO. PROVA. DIPJ. INSUFICIÊNCIA. A DIPJ, na condição de documento confeccionado pelo próprio interessado, não exprime nem materializa, por si só, o indébito fiscal. Intimada da decisão de primeira instância em 08/06/2012 (fl. 70), a Recorrente interpôs recurso voluntário (fls. 72/91), por meio do qual repisa as alegações de defesa e reitera a legitimidade do Saldo Negativo informado em DIPJ Retificadora. Encaminhados os autos ao E. CARF, o julgamento do recurso voluntário foi convertido em diligência por meio da Resolução nº 1201000.152 (fls. 204/207), nos seguintes termos: No caso em tela, o contribuinte demonstrou em sua DIPJ um saldo negativo de CSLL, visto que no ano de 2004, foi pago o total de estimativa de R$ 37.690.247,12, contudo, o valor devido era de R$ 35.078.029.99, gerando desta forma o saldo negativo de R$ 2.612.217,13. Ocorre que no momento da formalização do referido crédito através da declaração de compensação, o contribuinte selecionou a opção de “pagamento indevido ou a maior”, Fl. 933DF CARF MF Processo nº 10280.906271/200971 Acórdão n.º 1201002.709 S1C2T1 Fl. 3 3 contudo, para essa situação o correto seria “ saldo negativo de CSLL”. Por se tratar desta modalidade de compensação, o primeiro procedimento realizado foi a checagem na DCTF do período, porém tal valor não foi identificado em DCTF como pago a maior, por se tratar de saldo negativo da CSLL. O contribuinte deveria ter assinalado a opção de saldo negativo no momento inicial da confecção da declaração de compensação. Pela utilização indevida do instrumento de restituição/compensação, o crédito ficou disposto apenas na DIPJ do anocalendário de 2004. No entanto, essa obrigação acessória não é suficiente para formalizar a utilização do referido crédito. Em documento de fls. 121, encontrase um demonstrativo da existência do crédito tributário, contudo, o mesmo não é suficiente para efetivar o crédito em questão. Por este motivo, entendo ser necessária a diligência para confirmação e autenticação do possível saldo negativo da CSLL no ano calendário de 2004. Diante do exposto, voto por CONVERTER o julgamento em DILIGÊNCIA para que a Delegacia de origem verifique junto ao Contribuinte a existência e respectivo valor do saldo negativo de CSLL no anocalendário de 2004, bem como, confirme se tal crédito já foi objeto de outras compensações. Após a emissão de intimação e resposta do contribuinte, a autoridade responsável pela diligência elaborou o Relatório de fls. 888/895, do qual o contribuinte se manifestou às fls. 905/919. É o relatório. Voto Conselheiro Luis Henrique Marotti Toselli, Relator. O recurso voluntário é tempestivo e atende os demais pressupostos de admissibilidade. Dele, portanto, conheço e passo a apreciálo. De acordo com o despacho decisório, o crédito pleiteado pela Recorrente não existiria, uma vez que teria sido utilizado para quitar outro débito, não havendo, com isso, pagamento a maior ou indevido passível de compensação. Fl. 934DF CARF MF 4 Ocorre, porém, que o contribuinte alega erro e demonstra que o Saldo Negativo foi declarado em DIPJ Retificadora, o que levou a realização de diligência tendente a analisar a origem da apuração. Para tanto, foi emitido Termo de Intimação (fl. 219), por meio do qual foram solicitados as apurações mensais e respectivos balancetes contábeis dos meses de janeiro a dezembro de 2004. Após dois pedidos de prorrogação de prazo (fls. 226 e 252), a Recorrente atendeu parcialmente o termo, apresentando, além da DIPJ Retificadora e DCTF, os documentos contábeis (fls. 262/784) apenas do período de janeiro a novembro, mas não de dezembro de 2004. Em face da omissão da apresentação da escrituração e movimentos de dezembro/2004 documentos essenciais para verificar a procedência ou não do direito creditório postulado , assim concluiu a diligência: 14. Do exame das declarações apresentadas pela empresa, verificouse que as parcelas de antecipação da CSLL, referentes aos meses de janeiro a novembro do anocalendário 2004, foram quitadas por meio de pagamento (DARF) ou mediante apresentação de declaração de compensação, conforme se demonstra no Quadro 2, a seguir. 15. Constatouse, ainda, que o total dos valores pagos/compensados a título de CSLL, sob o código 6773, (ajuste anual) coincide com a CSLL apurada por estimativa para o mês de dezembro/2004 informada na DIPJ original (nº 0735726), no montante de R$5.983.063,30. Essa equivalência de valores, associada ao fato de que, na DIPJ, o ajuste anual não resultou em CSLL a pagar, permitiria, a princípio, considerar plausível a alegação da contribuinte de que teria se equivocado ao utilizar o código 6773, quando o correto seria 2484 (CSLL – estimativa mensal), e que tal equívoco teria se repetido no preenchimento da DCTF, do DARF e das duas declarações de compensação utilizadas para quitar as parcelas desse débito. [...] 16. Ocorre que a DIPJ foi posteriormente retificada, tendo o valor da estimativa mensal da CSLL referente ao mês de dezembro/2004 sido alterada de R$ 5.983.063,30 para R$ 3.370.846,18. Mantidas as demais antecipações da CSLL inalteradas, tal ajuste gerou um saldo negativo no montante de R$ 2.612.217,12, conforme se demonstra a seguir: Fl. 935DF CARF MF Processo nº 10280.906271/200971 Acórdão n.º 1201002.709 S1C2T1 Fl. 4 5 17. Somente o exame direto dos registros contábeis e fiscais permitiria atestar o exato montante da CSLL apurada por estimativa para o mês de dezembro/2005 (R$5.983.063,30 ou R$ 3.370.846,18) e, na sequência, esclarecer se o ajuste anual resultou ou não na apuração de saldo negativo e em que montante. Contudo, conforme mencionado anteriormente, a documentação apresentada pela contribuinte é insuficiente para que se comprove, de forma inequívoca, qualquer um desses pontos. CONCLUSÃO 18. Com base nos fatos acima descritos, podese concluir que: i. O fato de que o ajuste anual da CSLL referente ao ano calendário 2004 não resultou em saldo a pagar, nem na DIPJ original, nem na DIPJ retificadora, permite inferir que a contribuinte pode, de fato, terse equivocado, utilizando o código 6773 no lugar de 2484 ao informar a CSLL estimada para o mês de dezembro/2004 na DCTF e, também, ao preencher o DARF e as declarações de compensação com o intuito de quitar esse débito, cujo valor inicialmente declarado totalizava R$5.983.063,30. [...] iii. O conhecimento do montante exato da CSLL apurada por estimativa para o mês de dezembro/2004 é determinante para que se faça a correta valoração do resultado apurado no ano calendário 2004. Caso a estimativa da CSLL de dezembro/2004 tenha alcançado o valor de R$5.983.063,30, o ajuste anual produziria resultado igual a zero. Se, de outra forma, a CSLL apurada em dezembro/2004 tiver totalizado R$3.370.846,18, o ajuste resultaria em saldo negativo de R$ 2.612.217,12, conforme procurouse demonstrar no Quadro 3, acima. Considerandose que na compensação tributária a contribuinte é autora do pedido de aproveitamento de crédito contra a Fazenda Nacional, temse que à luz do artigo 373, I, do CPC (Lei nº 13.105, de 2015), de aplicação subsidiária no processo Fl. 936DF CARF MF 6 administrativo tributário federal, compete à contribuinte o ônus da prova do fato constitutivo do seu direito de crédito alegado, mediante apresentação de elementos de prova hábeis e idôneos da existência do crédito contra a Fazenda Nacional para que seja aferida a liquidez e certeza, nos termos do art. 170 do Código Tributário Nacional. Temse, ainda, que o crédito é certo quando não há dúvida relativa à sua existência e é líquido quando é conhecido seu exato valor, ou seja, certeza diz respeito à existência do crédito e liquidez diz respeito ao seu montante. Sendo líquido e certo o crédito (premissa básica à compensação), procedese ao encontro das contas devedora e credora. Nesse contexto, o crédito de saldo negativo de CSLL referente ao anocalendário 2004 informado nas declarações de compensação nºs 31026.57854.090206.1.3.046782, 26635.46220.130306.1.3.047411, 38785.45868.100406.1.3.04 3128, 33506.95295.130406.1.3.042193, 21802.02124.120506.1.3.047107, 34137.15569.140606.1.7.04 9950, 31975.75722.130706.1.3.046619 e 32667.62949.150708.1.3.047806 não atendem aos requisitos de certeza e de liquidez, visto que a documentação juntada ao processo pela contribuinte não é suficiente para comprovar os fatos por ela informados na DIPJ e na DCTF, tanto no que se refere ao valor das estimativas mensais quanto ao resultado do ajuste anual da CSLL do anocalendário 2004. [...] Observase, assim, que após minucioso trabalho investigativo, a autoridade fiscal demonstrou que o alegado direito creditório não é líquido e certo, uma vez que o valor exato da estimativa de dezembro não restou demonstrado e não pôde ser aferido tendo em vista que a documentação relativa a competência de dezembro nunca foi apresentada. Já a contribuinte, embora tenha apresentado os documentos referentes ao período de janeiro a novembro/2004, e já ciente da referida omissão, novamente não apresenta a documentação pertinente para aferir o valor exato da estimativa de dezembro. Mais precisamente, o contribuinte parece ignorar a razão da negativa da autoridade diligenciante, justificando o alegado direito ao crédito exatamente na mesma linha do que já havia dito em sua Manifestação e recurso voluntário, qual seja: Fl. 937DF CARF MF Processo nº 10280.906271/200971 Acórdão n.º 1201002.709 S1C2T1 Fl. 5 7 Isso significa dizer que, muito embora o fisco tenha noticiado a Recorrente de que seu crédito estaria condicionado a comprovação do valor da estimativa de dezembro, ela nunca sanou esse vício quanto a instrução probatória, optanto apenas por reiterar as razões já expostas e não aceitas. De qualquer forma, o fato é que, para fazer jus ao Saldo Negativo que diz ter direito, realmente deveria o contribuinte ter comprovado que a referida estimativa monta R$ 3.370.846,18 (e não R$5.983.063,30), o que se faria por meio da apresentação de documentação hábil e idônea, e não somente com a DIPJ retificada e DCTF, declarações estas cuja validade e confiabilidade das informações dependem justamente dos documentos contábeis e fiscais de suporte. Como bem observou a autoridade fiscal, ainda que a ocorrência do equívoco seja admissível, a simples consulta às DIPJ original e retificadora não permite quantificar de forma definitiva o exato montante da CSLL apurada no mês de dezembro/2004 – se R$ 5.983.063,30 ou R$ 3.370.846,18. O que se tem no caso, contudo, é uma compensação cujo crédito não restou efetivamente comprovado, prejudicando o direito correlato. Em se tratando de compensação, a comprovação da liquidez e certeza do crédito constitui ônus da contribuinte, conforme interpretase do 170 do CTN, in verbis: “Artigo 170 A lei pode, nas condições e sob as garantias que estipular, ou cuja estipulação em cada caso atribuir à autoridade administrativa, autorizar a compensação de créditos tributários com créditos líquidos e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda Pública.” Grifei. Vale assinalar, nesse contexto, que a jurisprudência do CARF, conforme atestam as ementas dos julgados abaixo, admite a possibilidade de compensação de indébito, mas desde que haja comprovação cabal quanto à liquidez e certeza do crédito pleiteado, o que não ocorreu. “RESTITUIÇÃO DO INDÉBITO TRIBUTÁRIO. PROVA. ÔNUS. O ônus da prova do crédito tributário pleiteado no Per/Dcomp Pedido de Restituição é da contribuinte (artigo 333, I, do CPC). Não sendo produzida nos autos, indeferese o pedido e não homologase a compensação pretendida entre crédito e débito tributários.” (Ac. 1102000.890. Sessão de 14/08/2013). “DESPACHO DECISÓRIO E DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. São válidos o despacho decisório e a decisão que apresentam todas as informações necessárias para o entendimento do contribuinte quanto aos motivos da nãohomologação da compensação Fl. 938DF CARF MF 8 declarada. REPETIÇÃO DE INDÉBITO. RETIFICAÇÃO DE DCTF. PROVA DO INDÉBITO. O direito à repetição de indébito não está condicionado à prévia retificação de DCTF que contenha erro material. A DCTF (retificadora ou original) não faz prova de liquidez e certeza do crédito a restituir. Na apuração da liquidez e certeza do crédito pleiteado, devese apreciar as provas apresentadas pelo contribuinte”. (Ac. 3302 002.383.. Sessão de 02/11/2013). “PER/DCOMP. RETIFICAÇÃO DA DCTF. PROVA DO DIREITO CREDITÓRIO. AUSÊNCIA. COMPENSAÇÃO NÃO HOMOLOGADA. O contribuinte, a despeito da retificação extemporânea da Dctf, tem direito subjetivo à compensação, desde que apresente prova da liquidez e da certeza do direito de crédito. A simples retificação, desacompanhada de qualquer prova, não autoriza a homologação da compensação” (Ac. 3802002.076. Sessão de 14/08/2013). À falta, então, da demonstração cabal e comprovação de que a estimativa de dezembro/2004 apurada e devida seria de R$ 3.370.846,18, e não de R$5.983.063,30, o direito do indébito pleiteado milita contra a Recorrente. Nesse sentido, e em face do que foi exposto, NEGO PROVIMENTO ao RECURSO VOLUNTÁRIO. É como voto. (assinado digitalmente) Luis Henrique Marotti Toselli Fl. 939DF CARF MF
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Numero do processo: 13846.000796/2008-66
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Dec 05 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Jan 23 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Obrigações Acessórias
Ano-calendário: 2004
DCTF. FALTA DE ENTREGA. MULTA.
A falta de entrega da DCTF sujeita o contribuinte à multa estabelecida pela legislação tributária.
LITISPENDÊNCIA.
A litispendência entre processos, na forma preconizada pelo CPC, é verificada a partir da igualdade das partes, do pedido e da causa de pedir.
Numero da decisão: 1001-001.012
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado.
(assinado digitalmente)
LIZANDRO RODRIGUES DE SOUSA - Presidente.
(assinado digitalmente)
EDUARDO MORGADO RODRIGUES - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues, José Roberto Adelino da Silva e Lizandro Rodrigues de Sousa (Presidente)
Nome do relator: EDUARDO MORGADO RODRIGUES
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado. (assinado digitalmente) LIZANDRO RODRIGUES DE SOUSA - Presidente. (assinado digitalmente) EDUARDO MORGADO RODRIGUES - Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues, José Roberto Adelino da Silva e Lizandro Rodrigues de Sousa (Presidente)
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Anocalendário: 2004 DCTF. FALTA DE ENTREGA. MULTA. A falta de entrega da DCTF sujeita o contribuinte à multa estabelecida pela legislação tributária. LITISPENDÊNCIA. A litispendência entre processos, na forma preconizada pelo CPC, é verificada a partir da igualdade das partes, do pedido e da causa de pedir. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado. (assinado digitalmente) LIZANDRO RODRIGUES DE SOUSA Presidente. (assinado digitalmente) EDUARDO MORGADO RODRIGUES Relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 84 6. 00 07 96 /2 00 8- 66 Fl. 73DF CARF MF Processo nº 13846.000796/200866 Acórdão n.º 1001001.012 S1C0T1 Fl. 3 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues, José Roberto Adelino da Silva e Lizandro Rodrigues de Sousa (Presidente) Relatório Tratase de Recurso Voluntário (fls. 60 a 69) interposto contra o Acórdão nº 1425098, proferido pela 3ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Ribeirão Preto/SP (fls. 51 a 53), que, por unanimidade, julgou improcedente a Impugnação apresentada pela ora Recorrente, decisão esta consubstanciada na seguinte ementa: " Assumo: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Anocalendario: 2004 DCTF. FALTA DE ENTREGA. MULTA. A falta de entrega da DCTF sujeita o contribuinte à multa estabelecida pela legislação tributária. LITISPENDÊNCIA. A litispendência entre processos, na forma preconizada pelo CPC, é verificada a partir da igualdade das partes, do pedido e da causa de pedir. Lançamento Procedente" Por sua precisão na descrição dos fatos que desembocaram no presente processo, peço licença para adotar e reproduzir os termos do relatório da decisão da DRJ de origem: " Versa o presente processo sobre auto de infração (fl. 12), mediante o qual é exigido da contribuinte acima identificada crédito tributário relativo à multa por falta de entrega da Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais (DCTF), relativa ao 4º trimestre do anocalendário de 2004, no valor de R$ 500,00. Ciente do lançamento, a contribuinte ingressou com impugnação (fls. 1/1 1) na qual alegou que, por ter sido excluída do Simples, em 01/03/ 1999, por atividade econômica não permitida, ingressou com ação declaratória de reconhecimento de enquadramento em regime tributário especial e conseqüente declaração de nulidade de ato cancelatorio de inscrição, com pedido de tutela antecipada (processo n° 2004.61.22.0005157). Informou que, em razão da improcedência da apelação, apresentou recursos especial ao STJ (processo n° 2008.03.00.0129108) e extraordinário ao STF (processo n° 2008.03.00.00129110), tendo o TRF da 3” Região negado seguimento a tais recursos, estando pendentes de julgamento os agravos de instrumento impetrados (2008.065.009AGRESP/DRAD e 2008.0650l0AGREX/DRAD). Concluiu que ocorreu litispendência, pois se a ação declaratória for julgada procedente, a consequência será a extinção da presente execução. Assim, o presente lançamento deve ser cancelado ou, no mínimo, sobrestado até que a decisão final daquela ação seja transitada em julgado. Fl. 74DF CARF MF Processo nº 13846.000796/200866 Acórdão n.º 1001001.012 S1C0T1 Fl. 4 3 Alegou que ocorreu a decadência do direito de a Fazenda Pública lançar a multa exigida nos autos de infração n° 803737701, 803737715, 803737729 e 803737732. Solicitou, se não for decretada a extinção do lançamento, que seja determinada a suspensão da exigência dos períodos em que não ocorreu decadência, tendo em vista a existência de litispendência, porque demonstrada a existência de ação tramitando na Justiça Federal.”. Inconformada com a decisão de primeiro grau que indeferiu a sua Impugnação, a ora Recorrente apresentou o recurso sob análise com base nos mesmos elementos que já havia apresentado em primeira instância. É o relatório. Voto Conselheiro Eduardo Morgado Rodrigues O presente Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, portanto, dele conheço. Em atenção ao disposto no §3º do art. 57 do RICARF, e por concordar com seu teor, adoto as razões exaradas pela decisão da DRJ ora combatida. Para tanto, reproduzo os tópicos atinentes às matérias ora tratadas: "(...) Tratase de analisar lançamento referente à multa por falta de entrega da DCTF relativa ao 4° trimestre do anocalendário de 2004, no valor de R$ 500,00. Inicialmente, cabe registrar que a contribuinte não alega a decadência do presente lançamento, consubstanciado no auto de infração de n° 803737785 (fl.12). Alega que ocorreu litispendência, pois ingressou com ação declaratória de reconhecimento de enquadramento em regime tributário especial (processo n° 2004.61.22.0005157), devendo, o presente lançamento ser cancelado ou, no mínimo, sobrestado até que a decisão final daquela ação seja transitada em julgado. Cabe esclarecer que a litispendência busca evitar pronunciamentos diversos sobre a mesma matéria, proferidos por juízos distintos. A verificação de litispendência impede a instauração válida de um segundo processo idêntico a outro já em curso, mas o impedimento só se aplica quando ambos os processos correm perante o Poder Judiciário; sendo um judicial e o outro administrativo, isso não ocorre. Fl. 75DF CARF MF Processo nº 13846.000796/200866 Acórdão n.º 1001001.012 S1C0T1 Fl. 5 4 Ademais, no presente caso não se configura a identidade entre este processo administrativo e a ação judicial mencionada, pois enquanto aqui se discute a cobrança de multa por falta de entrega da DCTF, na Justiça o litígio se refere ao enquadramento no Simples. Assim, não há que se falar em cancelamento ou Sobrestamento do presente processo, tendo em vista a ocorrência de litispendência. Verificase que a contribuinte foi excluída do Simples em 01/03/1999 e ingressou na justiça solicitando o cancelamento dessa exclusão. Entretanto, não obteve nenhum provimento judicial que lhe beneficiasse. Dessa forma, permanece excluída do referido regime, estando obrigada a entregar a DCTF. Não tendo cumprido essa obrigação estabelecida pela legislação, mantémse o lançamento. Assim, com base nos argumentos supra colacionados, provenientes da DRJ de origem, entendo que os argumentos esposados pela Recorrente não devem ser acolhidos. Portanto, a decisão de primeira instância não merece qualquer reparo. Desta forma, VOTO no sentido de NEGAR PROVIMENTO ao Recurso Voluntário, mantendo in totum a decisão de primeira instância. É como voto. (assinado digitalmente) Eduardo Morgado Rodrigues Relator Fl. 76DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10950.902990/2009-83
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Fri Jan 18 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Fri Feb 08 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Exercício: 2006
PEDIDO ELETRÔNICO DE RESTITUIÇÃO E DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. PER/DCOMP. CRÉDITO INFORMADO DECORRENTE DE PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR A TÍTULO DE ESTIMATIVA MENSAL. POSSIBILIDADE. SÚMULA N.º 84 DO CARF. NULIDADE DO ACÓRDÃO.
O crédito informado no PER/DCOMP, por tratar-se de pagamento a título de estimativa mensal de pessoa jurídica tributada pelo lucro real, pode ser objeto de compensação, não sendo apenas utilizado na dedução do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) ou da Contribuição Social sobre o Lucro Liquido (CSLL) devida ao final do período de apuração ou para compor o saldo negativo de IRPJ ou CSLL do período. Nos termos da Súmula CARF n.º 84, é possível a caracterização de indébito, para fins de restituição ou compensação, na data do recolhimento de estimativa.
Não sendo analisado a contento o direito creditório do contribuinte, especialmente por ter se firmado posição precedente baseada em argumento superado pelo Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, já constante de verbete sumular, é nulo o acórdão da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento.
Recurso Voluntário Provido Parcialmente
Aguardando Nova Decisão
Numero da decisão: 1002-000.596
Decisão:
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, e declarar a nulidade da decisão de primeiro grau do contencioso administrativo fiscal, determinando o retorno dos autos à DRJ para que se profira nova decisão.
(assinado digitalmente)
Ailton Neves da Silva - Presidente.
(assinado digitalmente)
Leonam Rocha de Medeiros - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ailton Neves da Silva (Presidente), Ângelo Abrantes Nunes, Breno do Carmo Moreira Vieira e Leonam Rocha de Medeiros.
Nome do relator: LEONAM ROCHA DE MEDEIROS
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PER/DCOMP. CRÉDITO INFORMADO DECORRENTE DE PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR A TÍTULO DE ESTIMATIVA MENSAL. POSSIBILIDADE. SÚMULA N.º 84 DO CARF. NULIDADE DO ACÓRDÃO. O crédito informado no PER/DCOMP, por tratarse de pagamento a título de estimativa mensal de pessoa jurídica tributada pelo lucro real, pode ser objeto de compensação, não sendo apenas utilizado na dedução do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) ou da Contribuição Social sobre o Lucro Liquido (CSLL) devida ao final do período de apuração ou para compor o saldo negativo de IRPJ ou CSLL do período. Nos termos da Súmula CARF n.º 84, é possível a caracterização de indébito, para fins de restituição ou compensação, na data do recolhimento de estimativa. Não sendo analisado a contento o direito creditório do contribuinte, especialmente por ter se firmado posição precedente baseada em argumento superado pelo Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, já constante de verbete sumular, é nulo o acórdão da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento. Recurso Voluntário Provido Parcialmente Aguardando Nova Decisão Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 95 0. 90 29 90 /2 00 9- 83 Fl. 34DF CARF MF Processo nº 10950.902990/200983 Acórdão n.º 1002000.596 S1C0T2 Fl. 35 2 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, e declarar a nulidade da decisão de primeiro grau do contencioso administrativo fiscal, determinando o retorno dos autos à DRJ para que se profira nova decisão. (assinado digitalmente) Ailton Neves da Silva Presidente. (assinado digitalmente) Leonam Rocha de Medeiros Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ailton Neves da Silva (Presidente), Ângelo Abrantes Nunes, Breno do Carmo Moreira Vieira e Leonam Rocha de Medeiros. Relatório Cuidase, o caso versando, de Recurso Voluntário (efls. 27/28) ― autorizado nos termos do art. 33 do Decreto n.º 70.235, de 6 de março de 1972, que dispõe sobre o processo administrativo fiscal, interposto com efeito suspensivo e devolutivo ―, protocolado pela recorrente, indicada no preâmbulo, devidamente qualificada nos fólios processuais, relativo ao inconformismo com a decisão de primeira instância (efls. 19/22), proferida em sessão de 08 de dezembro de 2011, consubstanciada no Acórdão n.º 0634.838, da 2.ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Curitiba/PR (DRJ/CTA), que, por unanimidade de votos, julgou improcedente a manifestação de inconformidade (efl. 11) que pretendia desconstituir o Despacho Decisório (DD), emitido em 20/04/2009 (efl. 7), emanado pela Autoridade Administrativa que analisou o Pedido Eletrônico de Restituição e a Declaração de Compensação (PER/DCOMP) n.º 27442.18879.240806.1.3.047470, transmitido em 24/08/2006, e não homologou a compensação declarada, por não reconhecer o direito creditório, negando a restituição, cujo acórdão restou assim ementado: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2006 COMPENSAÇÃO. PAGAMENTO INDEVIDO DE ESTIMATIVAS DE IRPJ OU CSLL. VIGÊNCIA DA IN/SRF N.º 600/2005. IMPOSSIBILIDADE. Na vigência da IN/SRF n.º 600/2005, o pagamento indevido de estimativas de IRPJ ou CSLL somente poderá ser utilizado ao final do período, para ser deduzido na apuração do tributo devido, sendo irrelevante a revogação da limitação pela IN RFB n.º 900/2008, a qual não retroage, por força da regra de direito intertemporal do tempus regit actus. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Vejase o contexto fático dos autos, incluindo seus desdobramentos e teses da manifestação de inconformidade, conforme se extrai do relatório constante no Acórdão do juízo a quo: Fl. 35DF CARF MF Processo nº 10950.902990/200983 Acórdão n.º 1002000.596 S1C0T2 Fl. 36 3 Trata o processo de Declaração de Compensação (PER/DCOMP) n.º 27442.18879.240806.1.3.047470, às fls. 02/06, em que foram declarados crédito de pagamento indevido de estimativa de IRPJ (código 2362) do período 01/2006, pago em 24/02/2006, no valor originário de R$ 7.247,47, e débitos de estimativa de IRPJ (código 2362) dos períodos 03/2006 e 04/2006, e de Cofins, do período 07/2006. Conforme Despacho Decisório emitido pela DRF/Maringá, em 20/04/2009, à fl. 07, a autoridade fiscal não homologou a compensação. Cientificado da decisão em 30/04/2009, conforme informação de fl. 10, tempestivamente, em 26/05/2009, o contribuinte interpôs a manifestação de inconformidade de fl. 11, acompanhada dos documentos de fls. 12 e seguintes, que se resume a seguir: a. Alega que, no balancete de suspensão para pagamento do IRPJ e CSLL por estimativa em janeiro de 2006 e conforme DCTF, do primeiro trimestre de 2006, não houve imposto recolher; b. Afirma que o valor pago em Darf foi recolhido indevidamente ou a maior, sendo objeto de compensação conforme IN 625/2006; c. Solicita o cancelamento do processo. O Despacho Decisório informa que o limite do crédito analisado, para fins de restituição, era da ordem de R$ 1.985,93, correspondente ao valor do crédito original na data de transmissão, o qual seria utilizado para efetivar a compensação, no entanto, analisadas as informações prestadas na declaração, foi constatada a improcedência do crédito informado no PER/DCOMP por tratarse de pagamento a título de estimativa mensal de pessoa jurídica tributada pelo lucro real, caso em que o recolhimento somente pode ser utilizado na dedução do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) ou da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) devida ao final do período de apuração ou para compor o saldo negativo de IRPJ ou CSLL do período, razão pela qual não se homologou a compensação, pelo que o débito informado para compensar não foi extinto, isto é, não foi compensado. Temse o seguinte quadro sintético no Despacho Decisório: Características do DARF discriminado no PER/DCOMP Período de Apuração (PA) Código de Receita Valor total do DARF Data de Arrecadação 31/01/2006 2362 R$ 7.247,47 24/02/2006 Débitos indevidamente compensados, para pagamento até 30/04/2009 Principal: R$ 1.776,33 Multa: R$ 355,26 Juros: R$ 608,41 A tese de defesa não foi acolhida pela DRJ, mantendose o não reconhecimento do crédito e, por conseguinte, não homologando a compensação, eis, em síntese, nas palavras do juízo de primeira instância, as razões de decidir do meritum causae: Trata o processo de Declaração de Compensação (PER/DCOMP) n.º 27442.18879.240806.1.3.047470, às fls. 02/06, em que foram declarados crédito de pagamento indevido de estimativa de IRPJ (código 2362) do período 01/2006, pago em 24/02/2006, no valor originário de R$ 7.247,47, e débitos de estimativa de IRPJ (código 2362) dos períodos 03/2006 e 04/2006, e de Cofins, do período 07/2006. Fl. 36DF CARF MF Processo nº 10950.902990/200983 Acórdão n.º 1002000.596 S1C0T2 Fl. 37 4 Pelo despacho proferido pela DRF/Maringá, à fl. 07, a compensação não foi homologada, sob a justificativa de que pagamento de estimativa mensal somente pode ser utilizado na dedução do IRPJ ou CSLL devido ao final do período de apuração ou para compor o saldo negativo de IRPJ ou CSLL do período. O exame da matéria indica que o despacho decisório não deve ser reformado. Na peça de defesa, a impugnante esforçase em demonstrar que pagou indevidamente, a maior, estimativas de IRPJ. O contribuinte enviou três DCTFs do primeiro trimestre de 2006. Nas três, transmitidas em 04/10/2006, 14/07/2010 e 15/09/2010, o contribuinte declarou o mesmo valor de R$ 6.769,24 de estimativas de IRPJ de janeiro, conforme fl. 17. Quanto à DIPJ, consta somente uma declaração, com informação de débito de idêntico valor para a estimativa de janeiro de 2006. Dessa forma, não há como acatar a alegação de pagamento indevido da estimativa de IRPJ do período 01/2006, já que, ao contrário do que alega a impugnante, foi apurado valor para essa estimativa. Além disso, considero correta a decisão contida no despacho decisório, já que tal pagamento somente poderia ser utilizado para compor o saldo negativo do IRPJ de 2006, a teor do art. 10 da Instrução Normativa SRF n.º 600, de 28 de outubro de 2005, vigente à época da transmissão da declaração (24/08/2006). Verificouse ainda que o contribuinte apresentou a Per/Dcomp n.º 01965.07721.310507.1.3.020052, com crédito de saldo negativo do ano calendário 2006, de forma que o suposto pagamento indevido deverá ser analisado naquela compensação. Art. 10. A pessoa jurídica tributada pelo lucro real, presumido ou arbitrado que sofrer retenção indevida ou a maior de imposto de renda ou de CSLL sobre rendimentos que integram a base de cálculo do imposto ou da contribuição, bem assim a pessoa jurídica tributada pelo lucro real anual que efetuar pagamento indevido ou a maior de imposto de renda ou de CSLL a título de estimativa mensal, somente poderá utilizar o valor pago ou retido na dedução do IRPJ ou da CSLL devida ao final do período de apuração em que houve a retenção ou pagamento indevido ou para compor o saldo negativo de IRPJ ou de CSLL do período. Não se desconhece que a mencionada vedação acabou sendo superada, com o advento da Instrução Normativa RFB n.º 900, de 30 de dezembro de 2008, que revogou a IN SRF n.º 600/2005. Na nova redação, foi suprimida a expressão relativa aos pagamentos de estimativas, de forma que a via única de utilização ao final do mesmo período de apuração restringese às retenções. Art. 11. A pessoa jurídica tributada pelo lucro real, presumido ou arbitrado que sofrer retenção indevida ou a maior de imposto de renda ou de CSLL sobre rendimentos que integram a base de cálculo do imposto ou da contribuição somente poderá utilizar o valor retido na dedução do IRPJ ou da CSLL devida ao final do período de apuração em que houve a retenção ou para compor o saldo negativo de IRPJ ou de CSLL do período. Há que se considerar, contudo, que um instrumento legislativo revogador não retroage para alcançar fatos anteriores à sua publicação, já que, em se tratando de regra de direito material, de natureza civil, vale a regra do tempus regit actus. Além disso, caso a vontade da Administração fosse no Fl. 37DF CARF MF Processo nº 10950.902990/200983 Acórdão n.º 1002000.596 S1C0T2 Fl. 38 5 sentido de fazer valer a possibilidade de utilização de estimativas de IRPJ ou CSLL como crédito passível de compensação, para declarações enviadas anteriormente a 30/12/2008, não teria ela inserido, nos programas de processamento de Per/Dcomps, critério inibidor da referida compensação. Em outras palavras, o próprio procedimento adotado pela RFB, ao manter a vedação daquele tipo de compensação, confirma que deve prevalecer o entendimento segundo o qual a IN RFB n.º 900/2008 somente se aplica para fatos posteriores à sua publicação, o que está de acordo com as regras de direito intertemporal acima comentada. Nem se haveria de cogitar eventual incompatibilidade da revogada Instrução Normativa com o regime da compensação previsto em lei (art. 170 do CTN; art. 74 da Lei n.º 9.430/96), eis que – nunca é demais lembrar – é dever do julgador observar os atos normativos da RFB, conforme prescrevem o art. 116 da Lei n.º 8.112/1990 e art. 7.º da Portaria MF n.º 58 de 17 de março de 2006, abaixo transcritas: Art. 116. São deveres do servidor: III observar as normas legais e regulamentares; __________ Art. 7.º O julgador deve observar o disposto no art. 116, III, da Lei n.º 8.112, de 11 de dezembro de 1990, bem assim o entendimento da SRF expresso em atos normativos. À vista do exposto, voto no sentido de julgar improcedente a manifestação de inconformidade, para manter o despacho decisório da DRF/Maringá. No recurso voluntário, em síntese, o contribuinte, pessoa jurídica tributada pelo lucro real, reitera os termos da impugnação. Diz que não foi homologada a compensação, sob a justificativa de que pagamento de estimativa mensal somente poderia ser utilizado na dedução do IRPJ ou CSLL devido ao final do período de apuração ou para compor o saldo negativo de IRPJ ou CSLL do período. Sustenta que não podia retificar a DCTF, pois o processo já estava em curso. Advoga que resta comprovado o pagamento indevido, apresentando quadro sintético. Ao final, requer o acolhimento do recurso. Nesse contexto, os autos foram encaminhados para este Egrégio Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), sendo, posteriormente, distribuído para este relator. É o que importa relatar. Passo a devida fundamentação analisando os juízos de admissibilidade e de mérito para, posteriormente, finalizar em dispositivo. Voto Conselheiro Leonam Rocha de Medeiros, Relator Admissibilidade Inicialmente, observo a plena competência deste Colegiado, na forma do art. 23B, do Regimento Interno do CARF, com redação da Portaria MF n.º 329, de 2017, haja vista que as turmas extraordinárias são competentes para apreciar recursos voluntários Fl. 38DF CARF MF Processo nº 10950.902990/200983 Acórdão n.º 1002000.596 S1C0T2 Fl. 39 6 de reconhecimento de direito creditório, até o valor em litígio de 60 (sessenta) salários mínimos, assim considerado o valor constante do sistema de controle do crédito tributário. Outrossim, a Portaria CARF n.º 111, de 20 de julho de 2018, que estabelece o momento da verificação do valor em litígio para fins de definição da competência das Turmas Extraordinárias (TE's), disciplina que a verificação do valor em litígio, para fins de definição da competência das TE's, será realizada pela Divisão de Sorteio e Distribuição da Coordenação de Gestão do Acervo de Processos (Disor/Cegap) no momento do sorteio do processo administrativo fiscal para a turma de julgamento, bem como define que permanecerá na competência das referidas turmas o recurso voluntário cujo processo administrativo fiscal sofra atualização de valor após o sorteio para a turma ou para o conselheiro relator, desde que a partir dessa atualização o valor em litígio não exceda a 120 (cento e vinte) salários mínimos. Neste caso cabe informar que o valor constante no sistema do eprocesso para o direito creditório que a contribuinte busca reconhecer está registrado como sendo de R$ 1.985,93. Observo, ainda, que o Recurso Voluntário atende aos pressupostos de admissibilidade intrínsecos, uma vez que é cabível, há interesse recursal, a recorrente detém legitimidade e inexiste fato impeditivo, modificativo ou extintivo do poder de recorrer. Outrossim, atende aos pressupostos de admissibilidade extrínsecos, pois há regularidade formal, inclusive estando adequada a representação processual, e apresentase tempestivo (intimação em 04/05/2012, efls. 24/25, e protocolo recursal em 11/05/2012, efl. 27), tendo respeitado o trintídio legal, na forma exigida no art. 33 do Decreto n.º 70.235, de 1972, que dispõe sobre o processo administrativo fiscal. Portanto, conheço do Recurso Voluntário. Mérito Quanto ao mérito, observo nulidade parcial parcial no acórdão recorrido, inclusive seguindo as razões de decidir dos Acórdãos ns.º 1302002.855 e 1302002.866, ambos de 13/06/2018, bem como o Precedente deste Colegiado da 2.ª Turma Extraordinária, da sessão de 09 de agosto de 2018, Acórdão n.º 1002000.359, os Precedentes desta 2.ª Turma Extraordinária, da sessão de 12 e 13 de setembro de 2018, Acórdãos ns.º 1002000.393, 1002000.394, 002000.395, 1002000.396, 1002000.397, 1002 000.398, 1002000.404, 1002000.406, 1002000.408, 1002000.409 e, por fim, os Precedentes desta 2.ª Turma Extraordinária, da sessão de 06 de novembro de 2018, Acórdãos ns.º 1002000.462, 1002000.465, 1002000.466, 1002000.467 e 1002000.468. Explico. Trata o presente caso de pedido de restituição (CTN, art. 165, I), alegando o contribuinte que possui crédito contra a Administração Tributária, combinado com pedido de declaração de compensação, na qual o contribuinte confessa débito (Lei 9.430, art. 74, § 6.º) ao mesmo tempo em que efetua o encontro de contas, sob condição resolutória de sua ulterior homologação pela Autoridade Fiscal (Lei 9.430, art. 74, caput, §§ 1.º e 2.º), para fins de extinção do crédito tributário (CTN, art. 156, II). Afinal, como reza o Código Civil, se duas pessoas forem ao mesmo tempo credor e devedor uma da outra, as duas obrigações extinguemse, até onde se compensarem (CC, art. 368). Fl. 39DF CARF MF Processo nº 10950.902990/200983 Acórdão n.º 1002000.596 S1C0T2 Fl. 40 7 O regime jurídico da compensação tem fundamento no art. 170 do Código Tributário Nacional (CTN) dispondo que a lei pode, nas condições e sob as garantias que estipular, ou cuja estipulação em cada caso atribuir à autoridade administrativa, autorizar a compensação de créditos tributários com créditos líquidos e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda Pública. Neste diapasão, inicialmente, o instituto da compensação tributária foi regido pelo art. 66 da Lei n.º 8.383, de 1991, sendo, posteriormente, fixadas novas regras para compensação de tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil no art. 74 da Lei n.º 9.430, de 1996, com suas alterações. Para que se tenha a compensação tornase necessário que o contribuinte comprove que o seu crédito (montante a restituir) é líquido e certo. Cuidase de conditio sine qua non, isto é, sem a qual não pode ocorrer a compensação. O ônus probatório do crédito alegado pelo contribuinte contra a Administração Tributária é especialmente dele, de toda sorte as partes têm o dever de cooperar para que se obtenha decisão de mérito justa e efetiva, de mais a mais, devese buscar a revelação da verdade material na tutela do processo administrativo fiscal. Pois bem. No caso em comento, entendendo possuir crédito, decorrente de pagamento indevido ou a maior a título de estimativa mensal de pessoa jurídica tributada pelo lucro real, o contribuinte transmitiu PER/DCOMP objetivando a extinção das obrigações por força do instituto da compensação. No entanto, o despacho decisório negou o direito creditório, sob o fundamento de que as estimativas pagas a maior só poderiam ser utilizadas na dedução do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) ou da Contribuição Social sobre o Lucro Liquido (CSLL) devida ao final do período de apuração ou para compor o saldo negativo de IRPJ ou CSLL do período. Desta forma, em verdade, com tal conclusão, o direito creditório não chegou a ser efetivamente analisado e, neste sentido, a decisão da DRJ, de igual modo, também não se aprofundou acerca do crédito, o que, no meu entender e seguindo os precedentes anteriormente citados, ocasiona a nulidade da decisão da primeira instância recursal. Vejase que nos precedentes citados as conclusões foram as mesmas: Acórdão n.º 1302002.866 ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Data do fato gerador: 28/12/2006 COMPENSAÇÃO ESTIMATIVAS. POSSIBILIDADE. NULIDADE ACÓRDÃO Nos termos da súmula 84 do CARF, é possível a compensação de estimativas pagas indevidamente ou a maior. Não sendo analisado o direito creditório do contribuinte, sob o argumento já superado pelo CARF, é nulo o acórdão da Delegacia da Receita Federal de Julgamento. Acórdão n.º 1302002.855 ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Data do fato gerador: 08/08/2006 Fl. 40DF CARF MF Processo nº 10950.902990/200983 Acórdão n.º 1002000.596 S1C0T2 Fl. 41 8 COMPENSAÇÃO ESTIMATIVAS. POSSIBILIDADE. NULIDADE ACÓRDÃO Nos termos da súmula 84 do CARF, é possível a compensação de estimativas pagas indevidamente ou a maior. Não sendo analisado o direito creditório do contribuinte, sob o argumento já superado pelo CARF, é nulo o acórdão da Delegacia da Receita Federal de Julgamento. Acórdão n.º 1002000.359 ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL AnoCalendário: 2004 PEDIDO ELETRÔNICO DE RESTITUIÇÃO E DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. PER/DCOMP. CRÉDITO INFORMADO DECORRENTE DE PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR A TÍTULO DE ESTIMATIVA MENSAL. POSSIBILIDADE. SÚMULA N.º 84 DO CARF. NULIDADE DO ACÓRDÃO. O crédito informado no PER/DCOMP, por tratarse de pagamento a título de estimativa mensal de pessoa jurídica tributada pelo lucro real, pode ser objeto de compensação, não sendo apenas utilizado na dedução do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) ou da Contribuição Social sobre o Lucro Liquido (CSLL) devida ao final do período de apuração ou para compor o saldo negativo de IRPJ ou CSLL do período. Nos termos da Súmula CARF n.º 84, o pagamento indevido ou a maior a título de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento, sendo passível de restituição ou compensação. Não sendo analisado o direito creditório do contribuinte, sob argumento superado pelo Conselho Administrativo de Recursos Fiscais já constante de verbete sumular, é nulo o acórdão da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento. Recurso Voluntário Provido Parcialmente Aguardando Nova Decisão Efetivamente, nos termos da Súmula CARF n.º 84, a última instância recursal já pacificou entendimento no sentido de que "É possível a caracterização de indébito, para fins de restituição ou compensação, na data do recolhimento de estimativa." (Súmula revisada conforme Ata da Sessão Extraordinária de 03/09/2018, DOU de 11/09/2018). A súmula acima transcrita foi confeccionada a partir dos seguintes acórdãos precedentes: Acórdão n.º 120100.404, de 23/2/2011, Acórdão n.º 120200.458, de 24/1/2011, Acórdão n.º 110100.330, de 09/7/2010, Acórdão n.º 910100.406, de 02/10/2009, Acórdão n.º 10515.943, de 17/8/2006. Ressaltese, ademais, que o art. 10 da Instrução Normativa da Secretaria da Receita Federal do Brasil (SRF) n.º 600, de 2005 (originalmente constante no art. 10 da IN SRF n.º 460, de 2004), que proibia expressamente a compensação da estimativa fiscal nos termos defendidos pelo despacho decisório e pela decisão recorrida, foi posteriormente Fl. 41DF CARF MF Processo nº 10950.902990/200983 Acórdão n.º 1002000.596 S1C0T2 Fl. 42 9 revogado pela Instrução Normativa SRF n.º 900, de 2008, que não trouxe igual disciplina proibitiva, inexistindo, para o contexto destes autos, dúvidas quanto a possibilidade de utilização de crédito decorrente de pagamento indevido ou a maior de estimativa fiscal de pessoa jurídica tributada pelo lucro real. Ademais, há sim efeito retroativo da Instrução Normativa SRF n.º 900, de 2008, posto que mais benéfica. Deveras, a CoordenaçãoGeral de Tributação, da Secretaria da Receita Federal do Brasil, aprovou a Solução de Consulta COSIT n.º 19, de 05 de dezembro de 2011, apreciando indagação interna relacionada ao mesmo objeto ora em discussão, tendo concluído que: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO ESTIMATIVAS. PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. RESTITUIÇÃO E COMPENSAÇÃO. O art. 11 da IN RFB n.º 900, de 2008, que admite a restituição ou a compensação de valor pago a maior ou indevidamente de estimativa, é preceito de caráter interpretativo das normas materiais que definem a formação do indébito na apuração anual do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica ou da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido, aplicandose, portanto, aos PER/DCOMP originais transmitidos anteriormente a 1.º de janeiro de 2009 e que estejam pendentes de decisão administrativa. Caracterizase como indébito de estimativa inclusive o pagamento a maior ou indevido efetuado a este título após o encerramento do período de apuração, seja pela quitação do débito de estimativa de dezembro dentro do prazo de vencimento, seja pelo pagamento em atraso da estimativa devida referente a qualquer mês do período, realizado em ano posterior ao do período da estimativa apurada, mesmo na hipótese de a restituição ter sido solicitada ou a compensação declarada na vigência das IN SRF n.º 460, de 2004, e IN SRF n.º 600, de 2005. A nova interpretação dada pelo art. 11 da IN RFB n.º 900, de 2008, aplicase inclusive aos PER/DCOMP retificadores apresentados a partir de 1.º de janeiro de 2009, relativos a PER/DCOMP originais transmitidos durante o período de vigência da IN SRF n.º 460, de 2004, e IN SRF n.º 600, de 2005, desde que estes se encontrem pendentes de decisão administrativa. Dispositivos Legais: Lei n.º 9.430, de 27 de dezembro de 1996, arts. 2.º e 74; IN SRF n.º 460, de 18 de outubro de 2004; IN SRF n.º 600, de 28 de dezembro de 2005; IN RFB n.º 900, de 30 de dezembro de 2008. Além disto, como consta daqueles precedentes citados no início deste voto, a própria Secretaria da Receita Federal do Brasil, através da Divisão de Tributação da 9.ª Região Fiscal da Superintendência Regional da Receita Federal do Brasil da 9.ª Região Fiscal, já se posicionou no sentido de admitir o procedimento adotado pela recorrente, por meio da Solução de Consulta n.º 285 SRRF/9.ª RF/Disit, de 17 de julho de 2009, eis a ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Fl. 42DF CARF MF Processo nº 10950.902990/200983 Acórdão n.º 1002000.596 S1C0T2 Fl. 43 10 SALDO NEGATIVO. PAGAMENTO A MAIOR. COMPENSAÇÃO. (...) A diferença a maior, decorrente de erro do contribuinte, entre o valor efetivamente recolhido e o apurado com base na receita bruta ou em balancetes de suspensão/redução, está sujeito à restituição ou compensação mediante entrega do PER/Dcomp. Dispositivos Legais: Lei n.º 9.430, de 1996, arts. 2.º e 6.º; Lei n.º 8.981, de 1995, art. 35; ADN SRF n.º 3, de 2000; IN RFB n.º 900, de 2008, arts. 2.º a 4.º e 34. Portanto, não sendo analisado o direito creditório do contribuinte, sob argumento superado pelo Conselho Administrativo de Recursos Fiscais já constante de verbete sumular, concluo que é nulo o acórdão da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento. No mais, destacando que o fato discutido nos autos é a não homologação da compensação do débito de estimativa mensal, declarada em PER/DCOMP, sob o fundamento de que o crédito utilizado referese, de igual modo, a pagamento a título de estimativa mensal de pessoa jurídica tributada pelo lucro real, entendo por bem destacar que o art. 6.º da Lei n.º 13.670, de 30 de maio de 2018, que deu nova redação ao inciso IX do § 3.º do art. 74 da Lei n.º 9.430, de 1996, para estabelecer que não poderão ser objeto de compensação os débitos relativos ao recolhimento mensal por estimativa do IRPJ e da CSLL, não é aplicável na regulamentação das Declarações de Compensação transmitidas antes da publicação da referida nova lei, na forma do art. 11, inciso II, da Lei n.º 13.670, de 30 de maio de 2018. Destaquese que o entendimento deflagrado no Despacho Decisório, o qual estava equivocado, conforme enunciado sumular do CARF, foi, posteriormente, ratificado pela decisão recorrida, de modo que, efetivamente, não houve uma efetiva análise da legitimidade do direito creditório indicado no PER/DCOMP, pelo que se dá provimento parcial ao recurso para reconhecer a possibilidade de se compensar pagamento indevido ou a maior de estimativas mensais, reformandose o acórdão neste ponto, devendo a DRJ proceder a análise do direito creditório. Aliás, a DRJ pode, inclusive de ofício, independentemente de requerimento expresso do sujeito passivo, na forma do art. 18 do Decreto n.º 70.235, de 1972, determinar a realização de diligências para aferir a autenticidade, ou não, do crédito declarado pelo contribuinte. Considerando o até aqui esposado e reconhecendo a possibilidade de se compensar o pagamento indevido ou a maior das estimativas, entendo pela nulidade do julgamento da DRJ, devendo ser proferida nova decisão. Dispositivo Ante o exposto, de livre convicção, relatado, analisado e por mais o que dos autos constam, voto em conhecer do recurso voluntário e, no mérito, em lhe dar provimento parcial para anular o acórdão proferido, determinando o retorno dos autos à instância a quo para que esta análise o direito creditório do Recorrente, podendo, inclusive, Fl. 43DF CARF MF Processo nº 10950.902990/200983 Acórdão n.º 1002000.596 S1C0T2 Fl. 44 11 determinar a realização de diligências, em busca da verdade material, para um melhor entendimento do crédito indicado no pedido de compensação. É como Voto. (assinado digitalmente) Leonam Rocha de Medeiros Relator Fl. 44DF CARF MF
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Numero do processo: 11610.015931/2002-11
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jan 22 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Tue Feb 26 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 1989, 1990
ILL. PEDIDO DE RESTITUIÇÃO ANTERIOR À VIGÊNCIA DA LEI COMPLEMENTAR N° 118/2005. DECADÊNCIA. PRAZO DECENAL. JURISPRUDÊNCIA STJ E STF.
Consoante jurisprudência vinculante firmada no âmbito do Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal, a propósito da inconstitucionalidade da parte final do artigo 4° da Lei Complementar n° 118/2005, que prevê a aplicação retroativa de seus preceitos, tratando-se de pedido de restituição de tributo sujeito ao lançamento por homologação, no caso, Imposto Sobre o Lucro Líquido ILL, formulado anteriormente à vigência do mencionado diploma legal, o prazo a ser observado é de 10 (dez) anos contados da data da ocorrência do fato gerador.
Tendo a contribuinte pleiteado devolução do ILL, em 18/07/2002, de valores referentes a fatos geradores ocorridos em 31/12/1989 e 31/12/1990, estava transcorrido o prazo legal para pleitear essa devolução.
SÚMULA CARF N° 91:
Ao pedido de restituição pleiteado administrativamente antes de 9 de junho de 2005, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, aplica-se o prazo prescricional de 10 (dez) anos, contado do fato gerador.
Numero da decisão: 1301-003.660
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao recurso voluntário em razão da decadência, vencida a Conselheira Bianca Felícia Rothschild que votou por afastar a ocorrência da decadência, manifestando ainda interesse em apresentar declaração de voto.
(assinado digitalmente)
Fernando Brasil de Oliveira Pinto - Presidente.
(assinado digitalmente)
Amélia Wakako Morishita Yamamoto - Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Roberto Silva Junior, José Eduardo Dornelas Souza, Nelso Kichel, Carlos Augusto Daniel Neto, Giovana Pereira de Paiva Leite, Amélia Wakako Morishita Yamamoto, Bianca Felícia Rothschild e Fernando Brasil de Oliveira Pinto (Presidente).
Nome do relator: AMELIA WAKAKO MORISHITA YAMAMOTO
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PEDIDO DE RESTITUIÇÃO ANTERIOR À VIGÊNCIA DA LEI COMPLEMENTAR N° 118/2005. DECADÊNCIA. PRAZO DECENAL. JURISPRUDÊNCIA STJ E STF. Consoante jurisprudência vinculante firmada no âmbito do Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal, a propósito da inconstitucionalidade da parte final do artigo 4° da Lei Complementar n° 118/2005, que prevê a aplicação retroativa de seus preceitos, tratandose de pedido de restituição de tributo sujeito ao lançamento por homologação, no caso, Imposto Sobre o Lucro Líquido ILL, formulado anteriormente à vigência do mencionado diploma legal, o prazo a ser observado é de 10 (dez) anos contados da data da ocorrência do fato gerador. Tendo a contribuinte pleiteado devolução do ILL, em 18/07/2002, de valores referentes a fatos geradores ocorridos em 31/12/1989 e 31/12/1990, estava transcorrido o prazo legal para pleitear essa devolução. SÚMULA CARF N° 91: Ao pedido de restituição pleiteado administrativamente antes de 9 de junho de 2005, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, aplicase o prazo prescricional de 10 (dez) anos, contado do fato gerador. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao recurso voluntário em razão da decadência, vencida a Conselheira Bianca Felícia Rothschild que votou por afastar a ocorrência da decadência, manifestando ainda interesse em apresentar declaração de voto. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 61 0. 01 59 31 /2 00 2- 11 Fl. 88DF CARF MF Processo nº 11610.015931/200211 Acórdão n.º 1301003.660 S1C3T1 Fl. 89 2 (assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto Presidente. (assinado digitalmente) Amélia Wakako Morishita Yamamoto Relatora. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Roberto Silva Junior, José Eduardo Dornelas Souza, Nelso Kichel, Carlos Augusto Daniel Neto, Giovana Pereira de Paiva Leite, Amélia Wakako Morishita Yamamoto, Bianca Felícia Rothschild e Fernando Brasil de Oliveira Pinto (Presidente). Relatório ARNO S/A, já qualificado nos autos, recorre da decisão proferida pela 1a Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em São Paulo (SP) DRJ/SP1 (efls. 69 e ss), que, por unanimidade de votos, julgou improcedente a manifestação de inconformidade apresentada. Segundo o Relatório do acórdão recorrido: Versa o presente processo sobre manifestação de inconformidade em face do indeferimento do Pedido de Restituição (fls. 01) de valores recolhidos em 30 de novembro de 1989, 30 de abril de 1990 e 30 de abril de 1991, a titulo de Imposto de Renda na Fonte sobre o Lucro Líquido (ILL), conforme Documentos de Arrecadação de Receitas Federais (DARFS), cujas cópias se encontram de fls. 16 e 17 e demonstrativo de fls. 02, cumulado com Declaração de Compensação (fi. 43), com fulcro na declaração parcial de inconstitucionalidade do artigo 35 da Lei n° 7.713 de 22 de dezembro de 1988, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), conforme acórdão proferido no Recurso Extraordinário n° 172.0581 e publicado em 13 de outubro de 1995, na Resolução do Senado n° 82/1996 e na Instrução Normativa do Secretário da Receita Federal (IN/SRF) n° 63, de 24 de julho de 1997 (fls. 03 a 07). Despacho Decisório da DRF, fls. 19/20 2. A autoridade administrativa, às fls. 19 e 20, indeferiu o pedido, protocolizado em 18 de julho de 2002, sob o fundamento de que o direito de o contribuinte pleitear a restituição do indébito estaria decaído, conforme o disposto no Ato Declaratório SRF n° 96, de 26 de novembro de 1999. Da Manifestação de Inconformidade Fl. 89DF CARF MF Processo nº 11610.015931/200211 Acórdão n.º 1301003.660 S1C3T1 Fl. 90 3 Nos termos da decisão da DRJ, segue o relato da Manifestação de Inconformidade, (fls. 22 e ss) que aduziu os seguintes argumentos: 3. Cientificada em 14/10/2005 (fls. 21 verso) do despacho decisório de fls. 19 e 20, a contribuinte, irresignada, apresentou, representada por procuradores (fls. 33 a 42) a manifestação de inconformidade de fls. 22 a 33, instruída com os documentos de fls. 34 a 54, na qual alega em síntese que: 3.1. o Tenno Inicial para a contagem do prazo decadencial do direito de pleitear a restituição de ILL é, conforme jurisprudência do Conselho de Contribuintes, 25 de julho de 1997, data de publicação da IN/SRF n° 63/1997, cujo caput do artigo 1° ao vedar a constituição do ILL para as sociedades anônimas foi a primeira norma administrativa a reconhecer o descabimento deste imposto para estas pessoas jurídicas; e 3.2. o entendimento disposto no subitem anterior é esposado pelo Parecer do Coordenador da Coordenação do Sistema de Tributação (Cosit) n° 58/1998 e por jurisprudência do Conselho de Contribuintes. Em julgamento realizado em 13 de agosto de 2007, a 1ª Turma da DRJ/SP1, considerou improcedente a manifestação apresentada e prolatou o acórdão 1614.370, assim ementado: Assumo: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 1989, 1990, 1991 RESTITUIÇÃO. DECADÊNCIA. O direito de o contribuinte pleitear a restituição de tributo e acessórios pagos indevidamente, ou em valor maior que o devido, extinguese após o transcurso do prazo de 5 (cinco) anos, contado da data da extinção do crédito tributário. Rest/Ress. Indeferido Comp. não homologada Do Recurso Voluntário A contribuinte apresentou recurso voluntário às efls. 76 e ss, onde reforça os argumentos já apresentados em sede de manifestação de inconformidade, atendose aos seguintes pontos: do direito de compensação foi pleiteado dentro do prazo legal Recebi os autos por sorteio em 20/11/2018. É o relatório. Fl. 90DF CARF MF Processo nº 11610.015931/200211 Acórdão n.º 1301003.660 S1C3T1 Fl. 91 4 Voto Conselheira Amélia Wakako Morishita Yamamoto, Relatora. A contribuinte foi cientificada do teor do acórdão da DRJ/SP1 e intimada ao recolhimento do débito em 14/09/2007 (sextafeira), (AR à efl. 77), e apresentou em 16/10/2007, recurso voluntário, juntados às efls. 76 e ss. Já que atendidos os requisitos de admissibilidade previstos no Decreto nº 70.235/72, e tempestivo, dele conheço. Tratase de Pedido de Restituição de ILL, protocolados em 18/07/2002, pagos indevidamente relativos aos anosbases de 1989 e 1990, com DARFs pagos em 30/11/1989, 30/04/1990 e 30/04/1991, cumulados com pedido de compensação. Segundo o Despacho Decisório, de efls. 23, não se tomou conhecimento do pedido de restituição do contribuinte em razão da decadência do direito à restituição do indébito, que se findou após 5 anos do pagamento indevido ou a maior, nos termos do art. 165, I e 168, I do CTN. O contribuinte foi cientificado do referido despacho em 14/10/2005 AR de fl. 26. De igual forma entendeu o acórdão recorrido, que no caso operouse a decadência do direito à restituição, já que ultrapassados os 5 anos da extinção do crédito. Por outro lado, a recorrente alega que a contagem do prazo para pedir restituição do ILL deveria ter como termo inicial a data do pronunciamento oficial da RFB, que se deu por meio da IN 63, de 25/07/1997, que considerou extinto os créditos tributários relativos ao ILL que já tinham sido constituídos em favor da Fazenda Nacional, dessa forma, a decadência somente ocorreria após 5 anos dessa data, o que se daria em 25/07/2002, já que o protocolo se deu em 18/07/2002, o direito não estaria decaído. Passemos aos fatos. Tratamos aqui de pedido de restituição de ILL, apresentado em 18/07/2002, referente a período de 1989 e 1990, ou seja, antes da vigência da LC 118/2005, nesse ponto de se aplicar o decidido pelo RE 566.621, do STF, sob a sistemática do art. 543B, §3º do CPC. bem como aplicar a Súmula CARF 91, aplicandose assim, o prazo decenal: “DIREITO TRIBUTÁRIO – LEI INTERPRETATIVA – APLICAÇÃO RETROATIVA DA LEI COMPLEMENTAR Nº 118/2005 – DESCABIMENTO – VIOLAÇÃO À SEGURANÇA JURÍDICA – NECESSIDADE DE OBSERVÂNCIA DA VACACIO LEGIS – APLICAÇÃO DO PRAZO REDUZIDO PARA REPETIÇÃO OU COMPENSAÇÃO DE INDÉBITOS AOS PROCESSOS AJUIZADOS A PARTIR DE 9 DE JUNHO DE 2005. Quando do advento da LC 118 /05, estava consolidada a orientação da Primeira Seção do STJ no sentido de que, para os tributos sujeitos a lançamento por homologação, o prazo para repetição ou Fl. 91DF CARF MF Processo nº 11610.015931/200211 Acórdão n.º 1301003.660 S1C3T1 Fl. 92 5 compensação de indébito era de 10 anos contados do seu fato gerador, tendo em conta a aplicação combinada dos arts. 150, § 4º, 156, VII, e 168, I, do CTN. A LC 118/05, embora tenha se autoproclamado interpretativa, implicou inovação normativa, tendo reduzido o prazo de 10 anos contados do fato gerador para 5 anos contados do pagamento indevido. Lei supostamente interpretativa que, em verdade, inova no mundo jurídico deve ser considerada como lei nova. Inocorrência de violação à autonomia e independência dos Poderes, porquanto a lei expressamente interpretativa também se submete, como qualquer outra, ao controle judicial quanto à sua natureza, validade e aplicação. A aplicação retroativa de novo e reduzido prazo para a repetição ou compensação de indébito tributário estipulado por lei nova, fulminando, de imediato, pretensões deduzidas tempestivamente à luz do prazo então aplicável, bem como a aplicação imediata às pretensões pendentes de ajuizamento quando da publicação da lei, sem resguardo de nenhuma regra de transição, implicam ofensa ao princípio da segurança jurídica em seus conteúdos de proteção da confiança e de garantia do acesso à Justiça. Afastandose as aplicações inconstitucionais e resguardandose, no mais, a eficácia da norma, permitese a aplicação do prazo reduzido relativamente às ações ajuizadas após a vacatio legis, conforme entendimento consolidado por esta Corte no enunciado 445 da Súmula do Tribunal. O prazo de vacatio legis de 120 dias permitiu aos contribuintes não apenas que tomassem ciência do novo prazo, mas também que ajuizassem as ações necessárias à tutela dos seus direitos. Inaplicabilidade do art. 2.028 do Código Civil, pois, não havendo lacuna na LC 118/08, que pretendeu a aplicação do novo prazo na maior extensão possível, descabida sua aplicação por analogia. Além disso, não se trata de lei geral, tampouco impede iniciativa legislativa em contrário. Reconhecida a inconstitucionalidade art. 4º, segunda parte, da LC 118/05, considerandose válida a aplicação do novo prazo de 5 anos tãosomente às ações ajuizadas após o decurso da vacatio legis de 120 dias, ou seja, a partir de 9 de junho de 2005. Aplicação do art. 543B, § 3º, do CPC aos recursos sobrestados. Recurso extraordinário desprovido.” “Súmula CARF nº 91: Ao pedido de restituição pleiteado administrativamente antes de 9 de junho de 2005, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, aplica se o prazo prescricional de 10 (dez) anos, contado do fato gerador.” Dessa forma, com a aplicação do prazo decenal contados a partir do fato gerador, que ocorreu em 30/12/1989 e 31/12/1990, temos que se encontram decaídos os pedidos realizados em 18/07/2002, desde finais de 1999 e 2000. CONCLUSÃO Diante de todo o acima exposto, voto por conhecer do Recurso Voluntário do contribuinte, e no mérito NEGARLHE PROVIMENTO, em razão da decadência. (assinado digitalmente) Amélia Wakako Morishita Yamamoto Fl. 92DF CARF MF Processo nº 11610.015931/200211 Acórdão n.º 1301003.660 S1C3T1 Fl. 93 6 Fl. 93DF CARF MF Processo nº 11610.015931/200211 Acórdão n.º 1301003.660 S1C3T1 Fl. 94 7 Declaração de Voto Conselheira Bianca Felicia Rothschild, Preliminar Decadência Em relação à preliminar de decadência, a ilustre relatora assim se posicionou em seu voto: Tratamos aqui de pedido de restituição de ILL, apresentado em 18/07/2002, referente a período de 1989 e 1990, ou seja, antes da vigência da LC 118/2005, nesse ponto de se aplicar o decidido pelo RE 566.621, do STF, sob a sistemática do art. 543B, §3º do CPC. bem como aplicar a Súmula CARF 91, aplicandose assim, o prazo decenal: “DIREITO TRIBUTÁRIO – LEI INTERPRETATIVA – APLICAÇÃO RETROATIVA DA LEI COMPLEMENTAR Nº 118/2005 – DESCABIMENTO – VIOLAÇÃO À SEGURANÇA JURÍDICA – NECESSIDADE DE OBSERVÂNCIA DA VACACIO LEGIS – APLICAÇÃO DO PRAZO REDUZIDO PARA REPETIÇÃO OU COMPENSAÇÃO DE INDÉBITOS AOS PROCESSOS AJUIZADOS A PARTIR DE 9 DE JUNHO DE 2005. Quando do advento da LC 118/05, estava consolidada a orientação da Primeira Seção do STJ no sentido de que, para os tributos sujeitos a lançamento por homologação, o prazo para repetição ou compensação de indébito era de 10 anos contados do seu fato gerador, tendo em conta a aplicação combinada dos arts. 150, § 4º, 156, VII, e 168, I, do CTN. A LC 118/05, embora tenha se autoproclamado interpretativa, implicou inovação normativa, tendo reduzido o prazo de 10 anos contados do fato gerador para 5 anos contados do pagamento indevido. Lei supostamente interpretativa que, em verdade, inova no mundo jurídico deve ser considerada como lei nova. Inocorrência de violação à autonomia e independência dos Poderes, porquanto a lei expressamente interpretativa também se submete, como qualquer outra, ao controle judicial quanto à sua natureza, validade e aplicação. A aplicação retroativa de novo e reduzido prazo para a repetição ou compensação de indébito tributário estipulado por lei nova, fulminando, de imediato, pretensões deduzidas tempestivamente à luz do prazo então aplicável, bem como a aplicação imediata às pretensões pendentes de ajuizamento quando da publicação da lei, sem resguardo de nenhuma regra de transição, implicam ofensa ao princípio da segurança jurídica em seus conteúdos de proteção da confiança e de garantia do acesso à Justiça. Afastandose as aplicações inconstitucionais e resguardandose, no mais, a eficácia da norma, permitese a aplicação do prazo reduzido relativamente às ações ajuizadas após a vacatio legis, conforme entendimento consolidado por esta Corte no enunciado 445 da Súmula do Tribunal. O prazo de vacatio legis de 120 dias permitiu aos contribuintes não apenas que tomassem ciência do novo prazo, mas também que ajuizassem as ações necessárias à tutela dos seus direitos. Inaplicabilidade do art. 2.028 do Código Civil, pois, não havendo lacuna na LC 118/08, que pretendeu a aplicação do novo prazo na maior extensão possível, descabida sua aplicação por analogia. Além disso, não se trata de lei geral, tampouco impede iniciativa legislativa em contrário. Reconhecida a inconstitucionalidade art. 4º, segunda parte, da LC 118/05, considerandose válida a aplicação do novo prazo de 5 anos tãosomente às ações ajuizadas após o decurso da vacatio legis de 120 dias, ou seja, a partir de 9 de junho de 2005. Aplicação do art. 543B, § 3º, do CPC aos recursos sobrestados. Recurso extraordinário desprovido.” Fl. 94DF CARF MF Processo nº 11610.015931/200211 Acórdão n.º 1301003.660 S1C3T1 Fl. 95 8 “Súmula CARF nº 91: Ao pedido de restituição pleiteado administrativamente antes de 9 de junho de 2005, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, aplicase o prazo prescricional de 10 (dez) anos, contado do fato gerador.” Dessa forma, com a aplicação do prazo decenal contados a partir do fato gerador, que ocorreu em 30/12/1989 e 31/12/1990, temos que se encontram decaídos os pedidos realizados em 18/07/2002, desde finais de 1999 e 2000. Divergência A posição adotada pela ilustre relatora é posição majoritária e uniforme nesta Turma, tendo meus votos, inclusive, endossado este posicionamento em outras oportunidades. No entanto, amadurecendo a questão, ouso, com data maxima venia, em oferecer algumas reflexões sobre o assunto que me fizeram alterar minhas conclusões sobre o tema para casos específicos, como o ora em julgamento. A questão que reclama solução reside em saber se o contribuinte decaiu ou não do direito de requerer a restituição/compensação do Imposto de Renda na Fonte sobre o Lucro Líquido (IRRF/ILL), cujos pagamentos se deram em 30 de novembro de 1989, 30 de abril de 1990 e 30 de abril de 1991, considerando que tal pedido foi efetuado em 18 de Julho de 2002. Entendo que a decadência não atingiu o direito da recorrente, merecendo ser reformado o acórdão recorrido. O IRRF/ILL, previsto no artigo 35 da Lei n° 7.713/88, era tributo sujeito ao regime do lançamento por homologação, pois cabia ao contribuinte verificar a ocorrência do fato gerador, determinar a matéria tributável, identificar o sujeito passivo, calcular e recolher o tributo devido, independentemente de qualquer iniciativa da autoridade administrativa, que apenas homologaria, expressa ou tacitamente, a atividade exercida pelo obrigado. A regra geral relativa ao prazo decadência para pedido de restituição de tributos sujeitos ao lançamento por homologação resulta da interpretação dos artigos 150, § 4", 165, inciso I e 168, inciso I, todos do CTN, os quais estão assim dispostos: "Art. 150. O lançamento por homologação, que ocorre quanto aos tributos cuja legislação atribua ao sujeito passivo o dever de antecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade administrativa, operase pelo ato em que a referida autoridade, tomando conhecimento da atividade assim exercida pelo obrigado, expressamente a homologa. (...) §4°. Se a lei não fixar prazo à homologação, será ele de 5 (cinco) anos, a contar da ocorrência do fato gerador; expirado esse prazo sem que a Fazenda Pública se tenha pronunciado, considerase homologado o lançamento e definitivamente extinto o crédito, salvo se comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação.'' "Art. 165. O sujeito passivo tem direito, independentemente de prévio protesto, à restituição total ou parcial do tributo, seja qual for a modalidade do seu pagamento, ressalvado o disposto no § 4o do art. 162, nos seguintes casos: Fl. 95DF CARF MF Processo nº 11610.015931/200211 Acórdão n.º 1301003.660 S1C3T1 Fl. 96 9 I cobrança ou pagamento espontâneo de tributo indevido ou maior que o devido em face da legislação tributária aplicável, ou da natureza ou circunstâncias materiais do fato gerador efetivamente ocorrido;'' "Art. 168. O direito de pleitear a restituição extinguese com o decurso do prazo de 5 (cinco) anos, contados: I nas hipóteses dos incisos I e II do art. 165, da data da extinção do crédito tributário. Da conjugação desses dispositivos legais concluise que, como regra, para os tributos sujeitos ao lançamento por homologação, o contribuinte tem 5 (cinco) anos, a contar da ocorrência do fato gerador, para requerer a restituição de exação indevidamente recolhida. Ocorre, que para algumas hipóteses excepcionais, a jurisprudência, inclusive advinda da Câmara Superior de Recursos Fiscais, tem admitido um novo início de prazo decadencial, que não se confunde com o fato gerador da obrigação tributária. Dentre as exceções consignadas pela jurisprudência, relevante destacar a declaração de inconstitucionalidade de norma tributária proferida pelo Supremo Tribunal Federal STF, a expedição de Resolução do Senado Federal, prevista no artigo 52, inciso X, da Carta Fundamental ou, ainda, o reconhecimento, por parte do poder tributante, de que uma exigência tributária é indevida. Pelo entendimento que sigo, a data em que ocorrer alguma dessas situações é o dies a quo do prazo para que o contribuinte peça a restituição de tributo indevidamente recolhido. A título ilustrativo, cumpre destacar o acórdão CSRF/0104.950, proferido pela Câmara Superior de Recursos Fiscais, o qual está assim ementado: DECADÊNCIA PEDIDO DE RESTITUIÇÃO TERMO INICIAL Em caso de conflito quanto à legalidade da exação tributária, o termo inicial para contagem do prazo decadencial do direito de pleitear a restituição de tributo pago indevidamente iniciase: a) da publicação do acórdão proferido pelo Supremo Tribunal Federal em ADIN; b) da Resolução do Senado que confere efeito erga omnes à decisão proferida inter partes em processo que reconhece a inconstitucionalidade de tributo; c) da publicação de ato administrativo que reconhece caráter indevido de exação tributária. Recurso conhecido e improvido.'' (Câmara Superior de Recursos Fiscais, Primeira Turma, Acórdão CSRF/01 04.950, Relator Conselheiro Wilfrido Augusto Marques, julgado em 13/04/04) A restituição pretendida no caso concreto está relacionada ao IRRF/ILL, previsto no artigo 35 da Lei n° 7.713/88, nos seguintes termos: "Art. 35. O sócioquotista, o acionista ou titular de empresa individual ficará sujeito ao imposto de renda na fonte, à alíquota de 8% (oito por cento), calculada Fl. 96DF CARF MF Processo nº 11610.015931/200211 Acórdão n.º 1301003.660 S1C3T1 Fl. 97 10 com base no lucro líquido apurado pelas pessoas jurídicas na data do encerramento do período base.' No julgamento do Recurso Extraordinário n° 172.0581/SC, o Egrégio STF reconheceu a inconstitucionalidade do artigo 35 da Lei n° 7.713/88, especificamente no que se refere à expressão "o acionista". Para conferir efeito erga omnes à decisão do STF, suspendendo a execução artigo 35 da Lei n° 7.713/88, no que diz respeito à expressão "o acionista", o Senado Federal fez publicar a Resolução n° 82, em 19/11/1996. Assim, restou reconhecida a inconstitucionalidade da exigência do ILL para as sociedades por ações. Para as demais empresas, que não as sociedades por ações, a Secretaria da Receita Federal editou a Instrução Normativa n° 63, em 24/07/1997, em cujo artigo 1 ° está expresso que: "Art. 1o. Fica vedada a constituição de créditos da Fazenda Nacional, relativamente ao imposto de renda na fonte sobre o lucro líquido, de que trata o art. 35 da Lei n° 7.713, de 22 de dezembro de 1988, em relação às sociedades por ações. Parágrafo único: O disposto neste artigo se aplica às demais sociedades nos casos que o contrato social, na data do encerramento do período base de apuração, não previa a disponibilidade, econômica ou jurídica, imediata ao sócio cotista, do lucro líquido apurado.'' Portanto, a Instrução Normativa n° 63/97 reconheceu o caráter indevido da exigência do ILL para as sociedades por quotas de responsabilidade limitada, entre outras, desde que o contrato social, na data do encerramento do período base de apuração, não previsse a disponibilidade, econômica ou jurídica, imediata ao sócio cotista, do lucro líquido apurado. Perfilhando o posicionamento já defendido diversas vezes no âmbito deste Colegiado e diante do fato de que o pleito da recorrente está relacionado com recolhimentos efetuados por sociedade por cotas de responsabilidade limitada, entendo que o dia 25/07/97 data de publicação da IN SRF n° 63 marca o início do prazo decadencial para a busca da devolução dos valores recolhidos a título de IRRF/ILL pois é nesse momento que a Administração Tributária reconhece o caráter indevido do tributo para as demais empresas, que não as sociedades por ações. Princípio da confiança na lei fiscal O professor Alberto Xavier traça preciosas lições de direito acerca da questão relativa ao termo inicial do prazo decadencial aplicável aos casos de reconhecimento de inconstitucionalidade de imposições fiscais, no seu Do Lançamento — Teoria Geral do Ato, do Procedimento e do Processo Tributário, Forense, 1998, página 97. Confirase o teor de seus ensinamentos, totalmente aplicáveis à hipótese dos autos: Fl. 97DF CARF MF Processo nº 11610.015931/200211 Acórdão n.º 1301003.660 S1C3T1 Fl. 98 11 "Devemos, no entanto, deixar aqui consignada a nossa opinião favorável à contagem do prazo para pleitear a restituição do indébito com fundamento em declaração de inconstitucionalidade, a partir da data dessa declaração. A declaração de inconstitucionalidade, na verdade, um fato inovador na ordem jurídica, suprimindo desta, por in validade uma norma que até então nela vigorava com força de lei. Precisamente porque gozava de presunção de validade e tinha, portanto, força de lei, os pagamentos efetuados à sombra da sua vigência foram pagamentos `devidos'. O caráter 'indevido' dos pagamentos efetuados só foi revelado 'a posteriori', com efeitos retroativos, de tal modo que só a partir de então puderam os cidadãos ter reconhecimento do fato novo que revelou o seu direito restituição. A contagem do prazo a partir da data a declaração de inconstitucionalidade é não só corolário do principio da confiança na lei fiscal, fundamento do Estadode Direito, como conseqüência implícita, mas necessária, da figura da ação direta de inconstitucionalidade prevista na Constituição de 1988. Não poderia este prazo ter sido considerado à época da publicação do Código Tributário Nacional, quando tal ação, com eficácia 'erga omnes' não existia. A legitimidade do novo prazo não pode ser posta em causa, pois a sua fonte não é a interpretação extensiva ou analógica de norma infra constitucional, mas da própria Constituição, posto se tratar de conseqüência lógica da própria figura da ação direta de inconstitucionalidade." Dessa forma, tendo em conta que a inconstitucionalidade da exigência de IRRF/ILL das sociedades por cotas de responsabilidade limitada somente foi expressamente reconhecida, pela União Federal (Fazenda Nacional), na data de publicação da Instrução Normativa n° 63/88, ou seja, dia 25/07/1997, dúvidas não devem restar que, naquele momento, começou a correr o prazo qüinqüenal de decadência para os contribuintes pleitearem a devolução dos valores indevidamente pagos por força do disposto no artigo 35 da Lei n° 7.713/88. Em analisa ao caso concreto, a recorrente protocolizou pedido de restituição em 18/07/2002, relativamente a recolhimentos efetuados no decorrer dos anos de 1989, 1990, 1991, portanto , ao meu ver, não há aferição de decadência. Reconheço, no entanto, inclusive por vinculação obrigatória ao artigo 45 do Anexo II do Regimento Interno do CARF (Portaria MF Nº 34 de 09 de junho de 2015) que, a partir da alteração de posicionamento do STJ relativo a esta matéria e, posterior, posicionamento do STF no RE 566.621, do STF, sob a sistemática do art. 543B, §3º do CPC, houve alteração da jurisprudência deste colegiado, inclusive do CSRF que gerou, uma vez que pacificada a matéria, edição de Sumula CARF 91: SÚMULA CARF N° 91: Ao pedido de restituição pleiteado administrativamente antes de 9 de junho de 2005, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, aplicase o prazo prescricional de 10 (dez) anos, contado do fato gerador. Fl. 98DF CARF MF Processo nº 11610.015931/200211 Acórdão n.º 1301003.660 S1C3T1 Fl. 99 12 Entendo, no entanto, que no caso concreto, não seria caso de aplicação da Sumula 91 pelas especificidades que passo a detalhar abaixo. Princípio da Segurança Jurídica Jurisprudência recente do STF Recentemente, em junho de 2018, o Supremo Tribunal Federal, considerou a tesa acima em ação protocolada antes da alteração de entendimento do STJ em 2004, por força do princípio da Segurança Jurídica, em voto do Ministro Dias Toffoli no ARE 951533. Vejamos: No agravo regimental, defendese, em síntese, que: 1) “o termo inicial do prazo prescricional da ação de repetição de indébito de tributo declarado inconstitucional deve ser a data da decisão desse Eg. STF”; 2) “a modificação na jurisprudência do STJ e dos TRF´s em matéria de prescrição não pode retroagir para considerar prescrita pretensão que não o era à época do ajuizamento da demanda”; 3) “o Poder Judiciário não pode se recusar a apreciar e aplicar lei superveniente ao julgamento nas instâncias ordinárias, reconhecedora do direito do contribuinte”. (...) Com a devida vênia, entendo que a tese de número 2 acima identificada merece ser acolhida, com base diretamente no princípio da segurança jurídica. Vejamos. Conforme consta dos autos, até o julgamento do EREsp nº 435.835/SC, acórdão publicado em 4/6/07, o STJ entendia que o prazo prescricional relativo à pretensão de restituição de tributo declarado inconstitucional tinha início a partir da data da declaração de inconstitucionalidade da exação pelo Supremo Tribunal Federal ou da resolução do Senado Federal. Com o julgamento daqueles embargos de divergência, a Corte Superior mudou sua jurisprudência, passando a consignar que, independentemente de declaração de inconstitucionalidade, deveria prevalecer, para efeito de fixação do prazo prescricional, a tese conhecida como “cinco mais cinco”, isto é, no caso de tributos sujeitos a homologação, cinco anos contados a partir do fato gerador mais cinco anos contados da data da homologação tácita. Em face disso, interpôsse o recurso extraordinário sob a alegação de afronta ao princípio da segurança jurídica, uma vez que a mudança jurisprudencial não teria sido acompanhada de qualquer espécie de regra de adaptação, passando a ser aplicada, de imediato, não só às ações movidas após o referido julgamento, mas também àquelas que já haviam sido ajuizadas, respeitandose o prazo prescricional anteriormente consolidado. Desse modo, por força unicamente daquela guinada jurisprudencial, diversos contribuintes que já haviam ingressado em juízo e contavam com decisões favoráveis nas instâncias ordinárias – observandose o prazo prescricional anterior – teriam visto suas pretensões ser automaticamente fulminadas, apesar de nunca terem ficado inertes. A parte ora recorrente é um desses contribuintes. Resta saber se seria possível a Corte, em sede de recurso extraordinário, conceder, com base diretamente no princípio da segurança jurídica (confiança no tráfego jurídico e acesso à Justiça), espécie de provimento que, ao cabo, resulte em modulação temporal dos efeitos da decisão proferida pelo STJ no julgamento dos embargos de divergência. Fl. 99DF CARF MF Processo nº 11610.015931/200211 Acórdão n.º 1301003.660 S1C3T1 Fl. 100 13 É importante ter em mente que não se pleiteia, por meio da tese ora em discussão, a manutenção ad eternum do entendimento prevalecente na Corte Superior anteriormente ao julgamento daquele caso paradigmático (EREsp nº 435.835/SC). O que se requer é que, com base diretamente no princípio da segurança jurídica, a mudança brusca da jurisprudência acerca do prazo prescricional não alcance a presente ação, a qual estava em curso na data do julgamento ou da publicação do acórdão (4/6/07), questão constitucional passível de análise em sede de recurso extraordinário. (...) Merece ser destacado que, de acordo com aquela orientação anteriormente prevalecente no STJ, o prazo prescricional da ação de repetição de indébito em que se discutia inconstitucionalidade de exação se iniciava com a declaração da inconstitucionalidade do tributo pelo Tribunal Pleno desta Corte, não só em sede de controle abstrato, mas também em sede de controle difuso. (...) Como bem salientou o Ministro Relator Gilmar Mendes, os marcos jurígenos para a contagem do prazo prescricional do direito do contribuinte estão dispostos no Código Tributário Nacional. Todavia, acertadamente ou não, o Superior Tribunal de Justiça, na interpretação dessas normas, criou um marco inicial de prazo prescricional diverso, qual seja, a data da declaração de inconstitucionalidade do tributo pelo STF em controle concentrado ou difuso. Nesse cenário, a aplicação imediata da nova jurisprudência do STJ fixando novos marcos prescricionais a partir de 2004 significou aplicarse retroativamente a nova regra de contagem do prazo prescricional às pretensões já ajuizadas em curso, com ofensa, em meu entender, ao primado da segurança jurídica. Por todo o acima, entendo que não há decadência no caso concreto. Enfim, o contribuinte não tem culpa na demora do julgamento. Se tivesse sido julgado até 2004, data em que a jurisprudência foi radicalmente alterada pelos tribunais superiores, não haveria Sumula CARF 91 e o presente julgamento seguiria a jurisprudência da época. Ressalto que este entendimento deve ser aplicado somente para processos em que a empresa constituída sob a forma de sociedade limitada possua contrato social em que não se preveja imediata disponibilidade jurídica ou econômica dos lucros e cujo protocolo do pedido de restituição/compensação do ILL retido tenha se dado no prazo de cinco anos a contar da publicação da IN 63 de dia 25/07/1997, ou seja, pedidos protocolados até 25/07/2002. Em resumo: 1. Para as sociedades por ações: 5 anos a contar de 19/11/1996 (data de publicação da Resolução do Senado Federal n° 82) 2. Para as sociedades limitadas cujo contrato social não prevê imediata da disponibilidade jurídica ou econômica dos lucros: 5 anos a contar de 25/07/1997 (data de publicação da IN SRF 63) Fl. 100DF CARF MF Processo nº 11610.015931/200211 Acórdão n.º 1301003.660 S1C3T1 Fl. 101 14 Desta forma, entendo que a tese a ser aplicada tem que ser a mais favorável ao contribuinte. Reforço, que o que se pretende, não seria a manutenção do entendimento do STJ anterior ao julgamento do EREsp nº 435.835/SC, mas apenas, que, em nome do principio da segurança jurídica e da confiança na lei fiscal, que a alteração brusca da jurisprudência não alcance processos que já estavam em curso na data do julgamento do processo que alterou o entendimento já anteriormente pacificado. (assinado digitalmente) Bianca Felicia Rothschild Fl. 101DF CARF MF
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Numero do processo: 16561.720111/2017-77
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Dec 11 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Jan 11 00:00:00 UTC 2019
Numero da decisão: 1302-000.702
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, ultrapassar as preliminares suscitadas e converter o julgamento em diligência, vencidos os conselheiros Flávio Machado Vilhena Dias (relator), Gustavo Guimarães Fonseca e Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa que, no mérito, davam provimento ao recurso voluntário. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Paulo Henrique Silva Figueiredo.
(assinado digitalmente)
Luiz Tadeu Matosinho Machado - Presidente
(assinado digitalmente)
Flávio Machado Vilhena Dias - Relator
(assinado digitalmente)
Paulo Henrique Silva Figueiredo - Redator designado
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa, Paulo Henrique Silva Figueiredo, Rogério Aparecido Gil, Maria Lúcia Miceli, Gustavo Guimarães da Fonseca, Flávio Machado Vilhena Dias e Luiz Tadeu Matosinho Machado.
Nome do relator: FLAVIO MACHADO VILHENA DIAS
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Acordam os membros do colegiado, ultrapassar as preliminares suscitadas e converter o julgamento em diligência, vencidos os conselheiros Flávio Machado Vilhena Dias (relator), Gustavo Guimarães Fonseca e Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa que, no mérito, davam provimento ao recurso voluntário. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Paulo Henrique Silva Figueiredo. (assinado digitalmente) Luiz Tadeu Matosinho Machado Presidente (assinado digitalmente) Flávio Machado Vilhena Dias Relator (assinado digitalmente) Paulo Henrique Silva Figueiredo Redator designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa, Paulo Henrique Silva Figueiredo, Rogério Aparecido Gil, Maria Lúcia Miceli, Gustavo Guimarães da Fonseca, Flávio Machado Vilhena Dias e Luiz Tadeu Matosinho Machado. Relatório Tratase de Auto de Infração no qual foram constituídos créditos tributários de IRPJ e CSLL, em desfavor da ora Recorrente, Ambev S/A. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 65 61 .7 20 11 1/ 20 17 -7 7 Fl. 28847DF CARF MF Processo nº 16561.720111/201777 Resolução nº 1302000.702 S1C3T2 Fl. 28.848 2 Como se depreende do Termo de Verificação Fiscal (fls. 8.911 a 9.092), devidamente autorizado por MPF, a fiscalização constatou supostas infrações cometidas pelo Recorrente, em especial no que tange à tributação dos lucros das suas controladas no exterior. De pronto, como muito bem esclarecido no TVF, devese pontuar que as infrações que serão objeto da presente análise "são concernentes à sociedade incorporada COMPANHIA DE BEBIDAS DAS AMÉRICAS – AMBEV, CNPJ: 02.808.708/000107", que foi incorporada pela Recorrente, AMBEV S/A (CNPJ sob o nº 07.526.557/000100) em Janeiro de 2014. Pelo TVF, podese observar que autuação se baseou em 04 (quatro), das 06 (seis) empresas controladas diretas no exterior da sucedida da Recorrente COMPANHIA DE BEBIDAS DAS AMÉRICAS – AMBEV, CNPJ: 02.808.708/000107 no ano de 2012, sendo que as acusações fiscais podem ser assim resumidas: 1) Lambic AS Empresa com sede na Argentina, sendo a Recorrente detentora 87,10% do capital social. A fiscalização conclui que a empresa, em que pese ter declarado lucro auferido no período, não os ofereceu à tributação, tendo em vista o Tratado para evitar a dupla tributação firmado entre Brasil e Argentina, Contudo, o entendimento do agente autuante é de que o "acordo para evitar a dupla tributação celebrado entre o Brasil e a Argentina não afastava a necessidade de a Ambev disponibilizar, para fim de determinação das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL, os lucros auferidos pela Lambic Holding, em obediência ao que prescreve o artigo 74 da Medida Provisória nº 2.15835/2001". Assim, após demonstrar o câmbio do peso argentino no dia 31/12/2012 e a participação da AMBEV naquele sociedade, concluiu que "tendo em vista que a Ambev não disponibilizou quaisquer valores a título de lucros do exterior apurados em 2012 pela Lambic Holding S.A., serão constituídos de ofício créditos tributários do IRPJ e da CSLL, correspondentes a uma base tributável de R$ 35.248.455,15, em decorrência dos lucros auferidos por essa sociedade argentina". 2) Hohneck Sociedade Anônima Empresa com sede na Argentina, sendo a Recorrente detentora 50,69% do capital social. A fiscalização, com base nas demonstrações financeiras e contábeis fornecidas pela Recorrente e após concluir pela "inexistência de prejuízo anterior a ser compensado com o lucro do ano de 2012 da sociedade argentina", afirma que "os lucros apurados pela Hohneck S.A. antes do imposto de renda no ano calendário de 2012 alcançaram $ 635.481.774 (valor em pesos argentinos)". Conclui, assim, que haveria necessidade de se oferecer os lucros auferidos à tributação, na proporção da participação do capital social da Recorrente naquela sociedade, uma vez que "o acordo para evitar a dupla tributação celebrado entre o Brasil e a Argentina não afastava a necessidade de a Ambev disponibilizar, para fim de determinação das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL, os lucros auferidos pela Hohneck S.A., nos termos do artigo 74 da Medida Provisória nº 2.15835/2001". Portanto, após demonstrar o percentual da participação da Recorrente naquela sociedade e a taxa de câmbio vigente em 31/12/2012, a fiscalização conclui que a "Ambev não disponibilizou quaisquer valores a título de lucros do exterior apurados em 2012 pela Hohneck S.A." e, por isso, afirma que "serão constituídos de ofício créditos tributários do IRPJ e da CSLL, correspondentes a uma base tributável de R$ 134.004.295,87, em decorrência dos lucros auferidos por essa sociedade argentina". Fl. 28848DF CARF MF Processo nº 16561.720111/201777 Resolução nº 1302000.702 S1C3T2 Fl. 28.849 3 3) Maltaria Pampa Empresa sediada na Argentina, com participação da Recorrente em 60% do capital social. Do mesmo modo que procedeu com as duas empresas listadas acima, a fiscalização demonstra, no TVF, que, no ano de 2012, "a Malteria Pampa S.A. auferiu nesse exercício um lucro antes do imposto de renda no valor de $ 762.170.117 (valor em pesos argentinos)", que não foram levados à tributação. Assim, a fiscalização afirma, no TVF, "que serão constituídos de ofício créditos tributários do IRPJ e da CSLL, correspondentes a uma base tributável de R$197.874.605,77, em decorrência dos lucros auferidos por essa sociedade argentina." 4) AMBEV Luxemburgo empresa sediada em Luxemburgo, sendo a Recorrente detentora de 89,83% da participação societária. Como se depreende do TVF, mesmo existindo um Tratado firmado com Luxemburgo para evitar a dupla tributação, a Recorrente "disponibilizou, para fim de apuração das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL, lucros apurados por esta controlada estrangeira no valor de R$ 2.461.457.251,11". A acusação fiscal ainda demonstrou a estrutura da empresa Labatt AS (com sede anterior na Dinamarca), para concluir que "a Labatt AS não foi apenas 'posteriormente denominada Ambev Luxemburgo'. Em verdade, tratavase de sociedade domiciliada na Dinamarca que, em 17/12/2012, transferiu suas participações societárias na Labatt Brewing Company Limited (sociedade canadense), na Quilmes International Bermudas Ltd (sociedade bermudense) e na Ampar BBVA (sociedade belga) para a então recém constituída sociedade luxemburguesa. Ainda em conformidade com a resposta acima transcrita, três dias após essa transferência de ativos, a Labatt AS teria sido liquidada." Assim, após demonstrar todas as operações societárias realizadas pelas empresas coligadas e controladas àquela sociedade, em especial a contabilização de ágios relativos às empresas Labatt Brewing Company Limited e Quilmes International Bermudas Ltd., a fiscalização, considerando a amortização destes ágios como indevidos, concluiu que: 121. Para fim de determinação dos lucros do exterior a serem disponibilizados em 2012 pela Companhia de Bebidas das Américas – Ambev, nos termos da legislação que rege a Tributação em Bases Universais no Brasil, as amortizações dos ágios relativos à Labatt Brewing Company Limited e à Quilmes International Bermudas Ltd não poderiam reduzir os resultados de suas controladas estrangeiras Labatt Holding A/S e Ambev Luxemburgo. Haja vista que tais amortizações reduziram reflexamente os lucros do exterior disponibilizados pela Ambev, impõese a reconstituição de seu resultado fiscal e o lançamento dos correspondentes créditos tributários de IRPJ e de CSLL. Logo após a esta conclusão, a fiscalização tece longo arrozoado no TVF, na tentativa de demonstrar que a contabilização e amortização dos mencionados ágios nos lucros da entidade teriam sido feitos de forma incorreta e ao arrepeio da "legislação brasileira" sobre o tema. Neste sentido, no que tange à empresa afirma Labatt Brewing Company Limited que "mesmo que adotada qualquer uma das duas acepções da 'legislação brasileira' (comercial ou tributária), as amortizações do ágio relativo à cervejaria canadense não podem ser deduzidas na apuração dos lucros das controladas estrangeiras a serem disponibilizados pela controladora no Brasil, justificando as glosas aqui formalizadas. Fl. 28849DF CARF MF Processo nº 16561.720111/201777 Resolução nº 1302000.702 S1C3T2 Fl. 28.850 4 Em que pese as peculiariadades da outra operação, a acusação fiscal, no que tange ao ágio da empresa Quilmes International Bermudas Ltd., parte da mesma premissa: a amortização do ágio pela empresa sediada em Luxemburgo se deu ao arrepio da legislação brasileira. Por outro lado, como se depreende do Termo de Verificação Fiscal, houve o indeferimento de compensação dos tributos pagos no exterior, uma que a fiscalização concluiu "pela inexistência de imposto de renda pago no exterior passível de compensação com os créditos de IRPJ e de CSLL ora constituídos, decorrentes da disponibilização de lucros auferidos por controladas no exterior em 2012." Como de não bastasse, em tópico específico daquele TVF, a fiscalização entendeu pela qualificação da multa "sobre os créditos tributários decorrentes das glosas das amortizações do ágio referente à Quinsa." Por fim, a fiscalização demonstrou a "responsabilidade da Ambev S.A. pelos tributos devidos pela sucedida Companhia de Bebidas das Américas – Ambev, bem como a licitude da cominação de multas fiscais que lhe são impostas em decorrência de infrações cometidas pela sociedade incorporada". Devidamente intimada do teor dos Autos de Infração que foram lavrados, a Recorrente apresentou extensa Impugnação Administrativa, sendo resumidos desta forma pelo acórdão recorrido (não irá se transcrever o conteúdo de cada um deles, uma vez que foram bem detalhados no acórdão ora recorrido que foi proferido pela DRJ de Brasília): c) quanto ao art. 74 da MP 2.15835/2001: d) quanto à preliminar de nulidade: e) quanto aos argumentos acerca dos lucros das controladas argentinas (Lambic, Hohneck e Malteria Pampa): e.1) quanto aos ADT firmados pelo Brasil: f) quanto aos argumentos comuns às controladas argentinas e à AMBEV Luxemburgo: e.2) quanto a especificidade do ADT Brasil/Argentina: g) quanto ao direito de compensação dos impostos pagos no exterior pelas controladas argentinas: h) quanto aos argumentos acerca dos lucros da AMBEV Luxembugo: h.1) quanto à nulidade pela confusão indevida dos lucros da LABTT e Ambev Luxemburgo: h.2) quanto ao ADT Brasil/Dinamarca: h.3) quanto ao ADT Brasil/Luxemburgo: h.4) quanto à impossibilidade de questionar os lucros apurados pela LABATT e a AMBEV Luxemburgo: i) quanto ao direito de compensação dos impostos pagos no exterior pela LABATT e AMBEV Luxemburgo: Fl. 28850DF CARF MF Processo nº 16561.720111/201777 Resolução nº 1302000.702 S1C3T2 Fl. 28.851 5 j) quanto à multa qualificada: k) quanto à incidência de juros de mora sobre a multa de ofício Em análise aos argumentos e fundamentos apresentados em sede de Impugnação, a douta Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento entendeu por bem deferir parcialmente o pleito do contribuinte, recebendo o acórdão proferido a seguinte ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2012 CONVENÇÃO BRASILARGENTINA PARA EVITAR A DUPLA TRIBUTAÇÃO E PREVENIR A EVASÃO FISCAL. TRIBUTAÇÃO DE CONTROLADAS. INTERPRET AÇÃO DA ISENÇÃO SOBRE PAGAMENTO DE DIVIDENDOS. Por força do disposto no art. 7º da Portaria MF 341/11 c/c o art. 9º da IN RFB 1.396/13, este Colegiado está vinculado às decisões da COSIT exaradas em Soluções de Consulta. A Solução de Consulta nº 400 Cosit, de 2017, firmou o entendimento que a isenção prevista no artigo XXIII, parágrafo 2, do ADT Brasil/Argentina não se aplica ao IRPJ devido em razão do art. 74 da MP 2.15835/2001, por controladora no Brasil sobre a receita de participação nos lucros de controlada na Argentina. TRIBUTAÇÃO EM BASES UNIVERSAIS. CONTROLADA EM LUXEMBURGO. DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS. INAPLICABILIDADE DA LEI BRASILEIRA. As demonstrações financeiras das filiais, sucursais, controladas ou coligadas, no exterior, serão elaboradas segundo as normas da legislação comercial do país de seu domicílio (art. 6º da IN 213/02). A tributação em base universais (TBU) introduzida pela Lei 9.249/95 significa apenas que as receitas da pessoa jurídica domiciliada no Brasil auferidas em qualquer parte do mundo serão tributadas no Brasil, mas não dá competência ao Fisco brasileiro para auditar as contas de uma pessoa jurídica domiciliada no exterior e, pior, fazendo o à luz da sua interpretação da lei brasileira. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte Não concordando com o que restou decidido naquele julgado da DRJ de Brasília, notadamente na parte em que foi mantido o crédito tributário constituído pela fiscalização, o Recorrente apresentou Recurso Voluntário a este colegiado, no qual repisa os argumentos apresentados em sua Impugnação Administrativa. Como houve exoneração de parte do crédito tributário pela DRJ de Brasília, foi apresentado Recurso de Ofício a esta colegiado, devolvendose a discussão a esta instância de julgamento na parte em que o Recorrente teve êxito em seu apelo. Fl. 28851DF CARF MF Processo nº 16561.720111/201777 Resolução nº 1302000.702 S1C3T2 Fl. 28.852 6 A douta Procuradoria da Fazenda Nacional, às fls. 28.798 a 28.844, apresentou contrarrazões, na qual, após rebater os argumentos do Recorrente, faz requerimento para que "seja negado provimento ao recurso voluntário interposto pela contribuinte". Este é o relatório. Voto Vencido Conselheiro Flávio Machado Vilhena Dias Relator DA TEMPESTIVIDADE Como se denota dos autos, o Recorrente AMBEV S/A foi intimado do teor do acórdão recorrido, via intimação eletrônica, em 07/03/2018 (fl. 27.269), apresentando o Recurso Voluntário ora analisado no dia 06/04/2018 (comprovante de fl. 27.631 e 27.632), ou seja, dentro do prazo de 30 dias, nos termos do que determina o artigo 33 do Decreto nº 70.235/72. Portanto, sem maiores delongas, uma vez que cumpre os demais requisitos de admissibilidade, o Recurso Voluntário deve ser analisado por este colegiado. DA MATÉRIA POSTA EM DISCUSSÃO Pelo o que restou acima demonstrado, para fins didáticos, as matérias de mérito, das quais se tratará a seguir podem ser divididas da seguinte forma: i) Suposto erro cometido pela fiscalização, tendo em vista a impossibilidade de questionamento do lucro apurado pela investida no exterior (AMBEV Luxemburgo) Recurso de Ofício. ii) Aplicação do tratado para evitar a dupla tributação assinado pelo Brasil com a Argentina (Decreto nº 87.976, de 22 de Dezembro de 1982), em detrimento do que preconiza o artigo 74 da Medida Provisória nº 2.158 35/2001. Empresas Lambic AS; Hohneck Sociedade Anônima e Maltaria Pampa. iii) exclusão da reserva legal do lucro tributável; iv) compensação dos impostos pagos no exterior; v) incidência dos juros sobre as multas aplicadas. Antes, contudo, de se analisar estes temas, se faz necessário analisar as duas preliminares, que são prejudiciais à discussão de mérito, apresentadas pelo Recorrente no Recurso Voluntário. DAS PRELIMINARES DA ILEGITIMIDADE DA DISPONIBILIZAÇÃO FICTA DO ART. 74 DA MP 2158 35/2001 – VIOLAÇÃO AO CTN E CF/88. Fl. 28852DF CARF MF Processo nº 16561.720111/201777 Resolução nº 1302000.702 S1C3T2 Fl. 28.853 7 Em sede preliminar, a Recorrente afirma que "o julgamento do RE 541.090/SC não representa em absoluto o posicionamento final do Supremo Tribunal Federal a respeito da validade da regra do art. 74 da MP 2.15835/2001 quanto às controladas situadas em países não sujeitos a regime de tributação privilegiada, como é o caso, pendendo essa questão de decisão perante o Supremo Tribunal Federal". Com esta afirmação, alega, em síntese, que não poderia prevalecer a constituição de crédito tributário de lucro auferido por controlada não domiciliada em paraíso fiscal com base no disposto no artigo 74 daquela MP. Contudo, a mesma Recorrente aduz que não desconhece o fato de não poder "o julgador administrativo afastar a aplicação de lei sob fundamento de inconstitucionalidade a não ser após sua declaração pelo Supremo Tribunal Federal". No presente caso, como será demonstrado ao longo deste voto, em que pese não ter sido alcançada, no plenário do Supremo Tribunal Federal, a maioria de votos no julgamento da ADI 2.588/DF (cujo entendimento foi posteriormente ratificado pelo RE nº 541.090/SC), no ponto em que se discutia a possibilidade de se tributar o lucro auferido por controladas não domiciliadas em paraísos fiscais, não houve a declaração de inconstitucionalidade daquele dispositivo por parte da Suprema Corte. Assim, na restrita análise que compete a este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, não se pode desprezar o comando legal, sob pena, inclusive, de se ferir o que preceitua a Súmula CARF nº 02, in verbis: "O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária". E a própria Recorrente afirma isso como demonstrado, aduzindo, ainda, que a preliminar foi invocada, para "que não reste preclusa a questão caso o E. Supremo Tribunal Federal venha futuramente a declarar a inconstitucionalidade do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, hipótese em que deverá o julgador administrativo observar tal decisão (§ 6º inciso I do art. 26A do Decreto nº 70.235/72)". Como não houve, até o momento, qualquer declaração de inconstitucionalidade, com efeito erga omnes, do dispositivo da MP 2.15835, no ponto de controvérsia dos presentes autos, REJEITASE a preliminar de nulidade invocada no Recurso Voluntário. DA NULIDADE DO LANÇAMENTO REALIZADO EM DESACORDO COM O CRITÉRIO JURÍDICO FIXADO EM AUTUAÇÃO ANTERIOR (ART. 146 DO CTN) E COM A LEGISLAÇÃO EM VIGOR. Em outra preliminar lançada no Recurso Voluntário, a Recorrente alega que houve "a ocorrência no caso concreto de modificação introduzida de ofício pela autoridade fiscal no critério jurídico adotado no lançamento anterior", tendo em vista que " na qualidade de sucessora por incorporação da empresa Eagle Distribuidora de Bebidas S.A. (doc. 02 da defesa), já sofreu no passado outra fiscalização tendo por objeto a tributação de lucros auferidos por suas controladas no exterior, sendo que no processo nº 16327.000530/200528 foi adotado pelo ilustre fiscal autuante, conforme decisão da Câmara Superior de Recursos Fiscais, critério de lançamento totalmente diverso daquele introduzido nos presentes autos, a ensejar a nulidade do lançamento por violação ao artigo 146 do Código Tributário Nacional." Fl. 28853DF CARF MF Processo nº 16561.720111/201777 Resolução nº 1302000.702 S1C3T2 Fl. 28.854 8 O argumento da Recorrente, em síntese, é de que o entendimento que prevaleceu na autuação dos autos do processo de nº 16327.000530/200528 confirmado pela Câmara Superior de Recursos Fiscais do CARF seria pelo acerto do lançamento que "teria tributado individualizadamente os lucros de cada controlada indireta, e que seria este o procedimento correto de acordo com a legislação aplicável." Assim, a Recorrente defende, com base no disposto do artigo 146 do CTN, que, no presente caso, haveria nulidade na autuação, uma vez que a fiscalização, ao constituir o crédito tributário em seu desfavor, "não realizou o lançamento apurando individualizadamente o lucro de cada controlada indireta, mas sim procedeu exatamente de acordo com a segunda metodologia que o v. acórdão da CSRF consignou expressamente não ser aquela pela qual optou o legislador: apurou o lançamento apenas do lucro auferido por cada controlada direta, que consolida os resultados de suas investidas por equivalência patrimonial". De fato, o artigo 146 do CTN preceitua que a mudança do critério jurídico, introduzida de ofício ou em consequência de decisão de autoridade administrativa ou judicial, só pode ser realizada para fatos geradores ocorridos após a alteração do entendimento. Vejase a redação do dispositivo: Art. 146. A modificação introduzida, de ofício ou em consequência de decisão administrativa ou judicial, nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa no exercício do lançamento somente pode ser efetivada, em relação a um mesmo sujeito passivo, quanto a fato gerador ocorrido posteriormente à sua introdução Contudo, com toda venia, entendese como mais restritiva a aplicação do mencionado dispositivo, não tendo o alcance pretendido pelo Recorrente. É que, se o agente fiscal, em face de uma decisão judicial ou administrativa, alterasse os critérios jurídicos de um lançamento considerado, por exemplo, nulo e efetivasse novo lançamento, sobre os mesmo fatos geradores, mas com critérios distintos, estarseia em flagrante ofensa ao que preceitua o artigo 146 do CTN citado acima. Os ensinamentos de Alberto Xavier são neste norte: O Artigo 146 nada mais é, pois, que simples corolário do princípio da não retroatividade, extensível às normas complementares, limitandose a esclarecer que os lançamentos já praticados à sombra de 'velha interpretação' não podem ser revistos com fundamento em 'nova interpretação'. Reparese que o artigo 146 pressupõe que, antes da modificação operada nos critérios jurídicos, tenha sido previamente praticado um ato individualizado de lançamento, caso contrário não se justificaria a referência a 'um mesmo sujeito passivo' . O que o artigo 146 pretende é precisamente que os atos administrativos concretos já praticados em relação a um sujeito passivo não possam ser alterados em virtude de uma alteração dos critérios genéricos da interpretação da lei já aplicada. Assim, como corolário da garantia genérica em favor de todos os sujeitos passivos de não aplicação retroativa da lei e de interpretação superveniente, constante do artigo 144, o artigo 146 explicita a garantia subjetiva em favor de cada sujeito passivo individualmente considerado de que a interpretação superveniente não pode conduzir à modificação do lançamento que o tenha como destinatário. Esta é também a solução consagrada pela LPAF (Lei 9.784/98), que dispõe no seu art. 2º, inciso XIII, ser 'vedada aplicação Fl. 28854DF CARF MF Processo nº 16561.720111/201777 Resolução nº 1302000.702 S1C3T2 Fl. 28.855 9 retroativa de nova interpretação (Xavier, Alberto. Do Lançamento no Direito Tributário Brasileiro, p. 277) Neste sentido, não se pode perder de vista que a imutabilidade do lançamento é decorrente do princípio da segurança jurídica, que, para alguns autores, dentre eles o professor Paulo de Barros Carvalho, é um sobreprincípio que deve nortear todo o ordenamento jurídico. Contudo, no presente caso, se houve mudança no critério jurídico, esta foi feita para valorar fatos geradores posteriores aos que anteriormente haviam sido analisados pela fiscalização. Não houve aplicação pretérita, tampouco aplicação de entendimentos distintos para os mesmo fatos geradores. Por outro lado, em que pese a Recorrente afirmar que, no presente caso, a fiscalização aplicou entendimento contrário do que havia sido proferido pela Câmara Superior de Recursos Fiscais (entendimento, inclusive, oposto ao que defendia a Recorrente), como muito bem assentado no acórdão da DRJ, as decisões daquele órgão julgador não vinculam a administração pública, tampouco as instância de julgamento administrativo a quo (DRJ's e Turmas Ordinárias do CARF). Assim, a irresignação da Recorrente não merece acolhida, uma vez que não há qualquer nulidade na autuação, que se baseia em outros argumentos para fundamentar a constituição do crédito tributário, mesmo que estes argumentos sejam diferentes de outro lançamento em face do contribuinte, mas de períodos pretéritos. Portanto, também REJEITASE a preliminar de nulidade do lançamento por suposta alteração dos critérios jurídico, como aduzido no Recurso Voluntário. DO MÉRITO DO RECURSO DE OFÍCIO ITEM "i" IMPOSSIBILIDADE DE QUESTIONAMENTO DO LUCRO APURADO PELA INVESTIDA NO EXTERIOR. Como se depreende do acórdão recorrido, a decisão final que prevaleceu no colegiado da DRJ de Brasília foi de exonerar parte do crédito tributário, uma vez que entendeu se que "ao Fisco brasileiro, cabe apenas verificar qual o lucro apurado pela investida no exterior, conforme a legislação do país de domicílio (...)". Assim, aquela DRJ concluiu que: Como se vê, todo o enorme trabalho fiscal neste ponto partiu de uma premissa totalmente equivocada, ao entender que demonstrações financeiras de pessoas jurídicas domiciliadas no exterior poderiam ser auditadas pelo Fisco brasileiro e à luz da sua interpretação da lei brasileira, razão pela qual voto por dar provimento à impugnação neste ponto, para excluir das bases tributáveis os valores de: a) R$ 726.694.307,81, decorrente da glosa das despesas de amortização do ágio relativo à Labatt Brewing Company Limited nas demonstrações financeiras das Labatt Holding e Ambev Luxemburgo (vide tabela a fls. 9027); b) R$ 30.322.233,27, decorrente da glosa das despesas de amortização do ágio relativo à Quilmes International Bermudas Ltd nas demonstrações financeiras das Labatt Holding e Ambev Luxemburgo (vide tabela a fls. 9027). Fl. 28855DF CARF MF Processo nº 16561.720111/201777 Resolução nº 1302000.702 S1C3T2 Fl. 28.856 10 Como a multa qualificada incidiu apenas sobre a CSLL e o IRPJ incidentes sobre essas bases que ora voto por excluir das bases tributáveis, consequentemente, o meu voto importa em cancelamento das multas qualificadas. Como o crédito tributário exonerado supera o valor de alçada de R$2.500.000,00, nos termos da Portaria MF nº 63/2017, o Recurso de Ofício interposto deve ser conhecido e analisado por este colegiado. Como se depreende do Termo de Verificação Fiscal, a fiscalização entendeu que, supostamente, estariam equivocadas as demonstrações contábeis da empresa com sede em Luxemburgo, sob o argumento de que, em síntese, seriam indevidas as despesas de ágio registradas pela Labatt Holding A/S e pela Ambev Luxemburgo. Por isso, o lucro desta entidade seria maior do que aquele registrado no balanço. Balanço este devidamente auditado por empresa independente. Assim, no Auto de Infração foram constituídos créditos tributários, de acordo com o entendimento da fiscalização de como deveria ter sido apurado o lucro da empresa sediada em um primeiro momento na Dinamarca e posteriormente em Luxemburgo, mais especificamente: entendeu o douto fiscal que se aplicaria, na apuração daquele lucro, o que dispõe a legislação brasileira. Em sua Impugnação (fls. 9.103 e seguintes), a Recorrente defendeu, em síntese, que "segundo as normas legais e infralegais que disciplinam o regime de Tributação em Bases Universais o lucro das controladas no exterior, a ser tido como disponibilizado à controladora brasileira, é aquele apurado com base nas normas da legislação comercial do país de domicílio das controladas, sendo incabível qualquer ajuste com base nas normas comerciais ou tributárias brasileiras." E, neste ponto, assiste razão à Recorrente. Como será demonstrado ao longo deste voto, o Fisco brasileiro, com a promulgação da Lei nº 9.249/95, mais especificamente com a redação dada ao artigo 25 deste diploma legal, abandona de vez o critério da territorialidade da tributação da renda, adotando o princípio da "tributação em bases universais" (TBU). Assim, independentemente de todas as discussões que se iniciaram a partir daí, não se pode desprezar a mudança do contexto e a possibilidade de a Fazenda Nacional fazer incidir tributos sobre a renda auferida por entidades com domicílio no exterior, mas ligadas às empresas brasileiras (fazendose a ressalva quanto às limitações quando existem Tratado para evitar Dupla Tributação, como explorado acima). Contudo, mesmo com a abertura dessa possibilidade de tributação universal, não houve autorização para uma "fiscalização universal", ou seja, não foi estendida a competência dos auditores da Receita Federal do Brasil, ao ponto de estes poderem interpretar a legislação estrangeira e aplicála de acordo com o seu entendimento e com fundamento na legislação brasileira. Com toda venia, mesmo que fosse dada esta autorização (o que é ilógico), não teriam estes auditores capacidade técnica de analisar e interpretar as legislações existentes nos mais de 190 países do mundo. Para cumprir o primado da tributação com bases universais, ao Fisco Federal é franqueada apenas a possibilidade de verificar qual o lucro auferido pela empresa estrangeira, nos termos da legislação onde tem domicílio a entidade no exterior, mas nunca, reiterese, Fl. 28856DF CARF MF Processo nº 16561.720111/201777 Resolução nº 1302000.702 S1C3T2 Fl. 28.857 11 contestar aquele lucro com base na legislação brasileira. Este é, inclusive, o comando do artigo 6º da Instrução Normativa nº 213/02. Vejase a redação do dispositivo: Art. 6º As demonstrações financeiras das filiais, sucursais, controladas ou coligadas, no exterior, serão elaboradas segundo as normas da legislação comercial do país de seu domicílio. § 1º Nos casos de inexistência de normas expressas que regulem a elaboração de demonstrações financeiras no país de domicílio da filial, sucursal, controlada ou coligada, estas deverão ser elaboradas com observância dos princípios contábeis geralmente aceitos, segundo as normas da legislação brasileira. O que se depreende da leitura do artigo transcrito, mais especificamente do parágrafo primeiro, é que só seria possível analisar e contestar as demonstrações financeiras das entidades domiciliadas no exterior, caso não existissem normas locais (do país estrangeiro) que regulassem como estas demonstrações deveriam ser elaboradas. Não é o caso, entretanto, de Luxemburgo, onde tem sede a empresa Ambev Luxemburgo. Por outro lado, não se sustenta a argumentação tecida no TVF, no sentido de que, da leitura do art. 25, da Lei nº. 9.249/95, "depreendese do inciso I do dispositivo antes transcrito que os lucros auferidos por sociedade controlada devem ser apurados segundo as normas da legislação brasileira. De acordo com o inciso II desse mesmo dispositivo, esses lucros – apurados segundo as normas da legislação brasileira – devem ser adicionados ao lucro líquido da controladora, na proporção de sua participação, para a apuração do seu resultado fiscal". Esta conclusão, como se verifica ao longo daquele Termo, advém de uma interpretação literal o art. 25, §2º, I, da Lei nº. 9.249/95, que tem a seguinte redação: Art. 25. Os lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior serão computados na determinação do lucro real das pessoas jurídicas correspondente ao balanço levantado em 31 de dezembro de cada ano. (...) § 2º Os lucros auferidos por filiais, sucursais ou controladas, no exterior, de pessoas jurídicas domiciliadas no Brasil serão computados na apuração do lucro real com observância do seguinte: I as filiais, sucursais e controladas deverão demonstrar a apuração dos lucros que auferirem em cada um de seus exercícios fiscais, segundo as normas da legislação brasileira; Contudo, entendese, com toda venia, que demonstração não se confunde com apuração. E este entendimento é, inclusive, corroborado com a leitura do caput do artigo 6º da IN/SRF nº 213/02 em conjunto com o § 2º do mesmo artigo (destacase que a IN 38/96 tinha esta mesma redação). Confirase o que dispõe o § 2º: § 2º As contas e subcontas constantes das demonstrações financeiras elaboradas pela filial, sucursal, controlada ou coligada, no exterior, depois de traduzidas em idioma nacional e convertidos os seus valores em Reais, deverão ser classificadas segundo as normas da legislação Fl. 28857DF CARF MF Processo nº 16561.720111/201777 Resolução nº 1302000.702 S1C3T2 Fl. 28.858 12 comercial brasileira, nas demonstrações financeiras elaboradas para serem utilizadas na determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL. Vejase que os dispositivos tratam de coisas e momentos diversos, não se podendo admitir e encampar a interpretação dada pela fiscalização. Em síntese, o 'caput' do dispositivo determina a adoção das normas da legislação comercial do país de domicílio quando da realização das demonstrações financeiras das controladas. E o § 2º acima transcrito estatui que as contas e subcontas daquelas demonstrações financeiras sejam classificadas nos termos da legislação comercial brasileira. E não poderia ser outra a interpretação do dispositivo que apenas regulamenta o que dispõe a legislação, em especial aquela que trata da Tributação em Bases Universais, uma vez que a Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro. (antiga "Lei de Introdução ao Código Civil"), positivada através do DecretoLei nº 4.657/42, preceitua em seus artigos 9º e 11 o seguinte. Art. 9º Para qualificar e reger as obrigações, aplicarseá a lei do país em que se constituírem. (...) Art. 11. As organizações destinadas a fins de interesse coletivo, como as sociedades e as fundações, obedecem à lei do Estado em que se constituírem. Não há dúvidas na leitura destes dispositivos: obrigações são regidas pelas leis vigentes do país onde esta mesma obrigação for constituída, sendo obrigatório às sociedades obedecerem "à lei do Estado em que se constituirem." Assim, é ilógico pensar, como mencionado acima, que o Fisco brasileiro teria como questionar a apuração do lucro auferido por entidade com domicílio no exterior e o que é pior: aplicar a legislação brasileira para afirmar que houve erro na apuração do lucro auferido pela empresa estrangeira. A esta mesma conclusão chegou o acórdão proferido pela DRJ de Brasília, que, após citar as ilações da fiscalização constantes no TVF, assim se pronunciou: O equívoco da Fiscalização está estampado nesses últimos parágrafos acima transcritos, pois a AMBEV Luxemburgo e a Labatt Holding não são contribuintes brasileiras nem se subordinam à legislação nacional, logo, não poderia o autuante auditar as suas demonstrações financeiras à luz da legislação brasileira. Tratase de um rotundo equívoco, pois a tributação em base universais (TBU) introduzida pela Lei 9.249/95 significa apenas que as receitas da pessoa jurídica domiciliada no Brasil auferidas em qualquer parte do mundo serão tributadas no Brasil, mas tal lei não poderia jamais dar competência ao Fisco brasileiro para auditar as contas de uma pessoa jurídica domiciliada no exterior e, pior, fazendoo à luz da interpretação que o Fisco brasileiro tenha da lei brasileira. Fl. 28858DF CARF MF Processo nº 16561.720111/201777 Resolução nº 1302000.702 S1C3T2 Fl. 28.859 13 Ao Fisco brasileiro, cabe apenas verificar qual o lucro apurado pela investida no exterior, conforme a legislação do país de domicílio, o que está explícito nas Instruções Normativas 213/02: (...) Portanto, por ausência completa de competência do Fisco brasileiro de aplicar a legislação brasileira na apuração dos lucros auferidos pela empresa controlada com sede em Luxemburgo, não se sustenta a autuação que constituiu créditos tributários em face da Recorrente, devendo ser mantido o acórdão proferido pela DRJ de Brasília (DF). Neste ponto, NEGASE PROVIMENTO ao Recurso de Ofício. ITEM "ii" DA APLICAÇÃO DOS TRATADOS PARA EVITAR A DUPLA TRIBUTAÇÃO EM DETRIMENTO DO QUE PRECONIZA O ARTIGO 74 DA MP 215835/2001. DOS PRESSUPOSTOS FÁTICOS E DAS PREMISSAS PARA ANÁLISE DA DEMANDA. Primeiramente, antes de se analisar os argumentos da Recorrente lançados em seu Recurso Voluntário, para se verificar se há ou não razão no lançamento combatido, cumpre verificar os pressupostos da legislação e fixar algumas premissas. Neste ponto, inclusive, de partida, são de grande valia as colocações do Ministro do Superior Tribunal de Justiça, Napoleão Nunes Maia Filho, no voto proferido nos autos do Resp nº 1.325.709/RJ, que assim argumenta: Em síntese, o que é possível concluir é que o propósito de evitar evasão fiscal não legitima a infração aos ditames das garantias subjetivas do contribuinte, bem como aos conceitos básicos do sistema tributário, inclusive a preservação dos Tratados Internacionais, que trazem, como se sabe, as normas que devem reger a sua própria interpretação; assim, certos conceitos, essenciais à compreensão de sua inteireza positiva (essa expressão é do Professor PINTO FERREIRA) são ministrados no seu próprio texto, neste caso, o conceito de renda tributável. Pois bem. Com base neste entendimento, é que se analisará os pressupostos do ordenamento jurídico, em especial da legislação nacional e dos Tratados firmados pela República Federativa do Brasil, que dispõem sobre a possibilidade (ou impossibilidade) de tributação dos lucros auferidos pelas controladas e coligadas de empresas brasileiras que são domiciliadas no exterior, bem como o entendimento dos Tribunais. Historicamente, o Estado brasileiro, desde o início da cobrança do Imposto sobre a renda, que se deu em 1924, através do Decreto nº 16.581/24, sempre tributou a renda auferida no território nacional (critério da territorialidade), ou seja, o Imposto sobre a renda não alcançava os rendimento e ganhos obtidos no exterior, independente do grau de vínculo (sucursal, filial, empresas coligas ou controladas) da entidade localizada em outro país com a entidade brasileira. Após algumas tentativas de se alterar a forma de tributação, em especial pelas modificações legislativas ocorridas nos anos de 1987 e 1988 (vide decretos 2.397/87, 2.413/88, 2.413/88 e 2.429/88), só com a redação dada ao artigo 25, da Lei 9.259/95, é que o sistema Fl. 28859DF CARF MF Processo nº 16561.720111/201777 Resolução nº 1302000.702 S1C3T2 Fl. 28.860 14 tributário brasileiro abandona de vez o critério da territorialidade, adotando o princípio da "renda mundial" ou da "tributação em bases universais". Neste sentido, como ensina Marciano Seabra de Godoi, "pelo critério da renda mundial, os Estados soberanos tributam tanto as rendas produzidas por seus residentes nos limites de seu território, quanto a renda produzida por seus residentes fora dos limites do seu território" (GODOI, Marciano de Godoi. A Nova Legislação sobre Tributação de Lucros Auferidos no Exterior (Lei 12.973/2014) como resultado do Diálogo Institucional Estabelecido entre o STF e os Poderes Executivos e Legislativo da União. In Grandes questões atuais do direito tributário. 18º Volume. São Paulo: Dialética, 2014. Pág. 278.) A mudança na forma de tributação e o alcance que a norma pretendia dar foram motivos de críticas de grande parte da doutrina, o que forçou, s.m.j, o ente competente para instituir e cobrar o Imposto sobre a renda União Federal a alterar a legislação anteriormente posta, dispondo, a Lei nº 9.532/97, que o imposto só teria incidência, em síntese, quando da disponibilização às sociedades residentes no Brasil dos lucros auferidos. Entretanto, sobreveio, em 2001, a edição da Lei Complementar 104, acrescentando dois parágrafos no artigo 43 do Código Tributário Nacional, que passou a ter a seguinte redação: Art. 43. O imposto, de competência da União, sobre a renda e proventos de qualquer natureza tem como fato gerador a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica: I de renda, assim entendido o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos; II de proventos de qualquer natureza, assim entendidos os acréscimos patrimoniais não compreendidos no inciso anterior. § 1o A incidência do imposto independe da denominação da receita ou do rendimento, da localização, condição jurídica ou nacionalidade da fonte, da origem e da forma de percepção. § 2o Na hipótese de receita ou de rendimento oriundos do exterior, a lei estabelecerá as condições e o momento em que se dará sua disponibilidade, para fins de incidência do imposto referido neste artigo. (destacouse) Com essa modificação legislativa, em especial com a redação dada ao parágrafo 2º transcrito acima, houve o entendimento, por parte da União Federal, de que a adoção do critério da universalidade da renda, para fins de incidência do IR, estaria definitivamente autorizada pelo ordenamento jurídico pátrio, podendo, de fato, o legislador ordinário trazer as hipóteses em que se dariam a tributação das empresas localizadas no exterior, em especial, as controladas e coligadas. Assim, foi editada a MP 2.158/2001, que em seu artigo 74 determinava que "os lucros auferidos por controlada ou coligada no exterior serão considerados disponibilizados para a controladora ou coligada no Brasil na data do balanço no qual tiverem sido apurados, na forma de regulamento". Neste ponto, se vale, mais uma vez, dos ensinamentos de Marciano Seabra de Godoi, que, após discorrer sobre a edição daquela MP, assim se posiciona sobre a mudança legislativa então ocorrida: Fl. 28860DF CARF MF Processo nº 16561.720111/201777 Resolução nº 1302000.702 S1C3T2 Fl. 28.861 15 "Portanto, a primeira database definida para a imputação dos lucros foi 31 de dezembro de 2002. Menos de três meses antes dessa data, a Secretaria da Receita Federal expediu a Instrução Normativa 213. No art. 7º dessa Instrução Normativa, determinouse que a tributação dos lucros auferidos no exterior se realizasse por intermédio dos ajustes dos valores dos investimentos conforme o método da equivalência patrimonial. Nos termos do parágrafo 1º do art. 7º, 'os valores relativos ao resultado positivo da equivalência patrimonial, não tributados no transcorrer do anocalendário, deverão ser considerados no balanço levantado em 31 de dezembro do anocalendário para fins de determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL'. Segundo o art. 8º da mesma Instrução Normativa, os lucros decorrentes dos investimentos que a legislação comercial (lei das Sociedades por ações) não mandar avaliar pelo método de equivalência patrimonial continuariam a ser tributados pelo imposto brasileiro somente na proporção em que ocorresse sua disponibilização (crédito ou pagamento do lucro) para a empresa investidora". (GODOI, Marciano de Godoi. A Nova Legislação sobre Tributação de Lucros Auferidos no Exterior (Lei 12.973/2014) como resultado do Diálogo Institucional Estabelecido entre o STF e os Poderes Executivos e Legislativo da União. In Grandes questões atuais do direito tributário. 18º Volume. São Paulo: Dialética, 2014. Pág. 282 e 283). Feita essa breve contextualização histórica quanto à tributação com bases universais pela sistema tributário brasileiro, sem, contudo, ter a pretensão de se esgotar o tema, em especial, acerca das mudanças imposta pela Lei 12.973/2014 no ordenamento jurídico pátrio, cumpre registrar que a redação do artigo 74 da MP 2.158/2001 foi objeto de diversas críticas da doutrina e de questionamentos dos contribuinte junto ao Poder Judiciário. A discussão judicial desaguou, como não poderia deixar de ser, no Supremo Tribunal Federal, que, através da ADIN 2.588, julgou a (in)constitucionalidade do malfadado artigo 74. No julgamento, que durou mais de 10 anos, com intenso debate entre os Ministros e a confecção de longos acórdãos, não se chegou a uma maioria de votos em diversos pontos da discussão. A ementa do julgado recebeu a seguinte redação: Ementa: TRIBUTÁRIO. INTERNACIONAL. IMPOSTO DE RENDA E PROVENTOS DE QUALQUER NATUREZA. PARTICIPAÇÃO DE EMPRESA CONTROLADORA OU COLIGADA NACIONAL NOS LUCROS AUFERIDOS POR PESSOA JURÍDICA CONTROLADA OU COLIGADA SEDIADA NO EXTERIOR. LEGISLAÇÃO QUE CONSIDERA DISPONIBILIZADOS OS LUCROS NA DATA DO BALANÇO EM QUE TIVEREM SIDO APURADOS (“31 DE DEZEMBRO DE CADA ANO”). ALEGADA VIOLAÇÃO DO CONCEITO CONSTITUCIONAL DE RENDA (ART. 143, III DA CONSTITUIÇÃO). APLICAÇÃO DA NOVA METODOLOGIA DE APURAÇÃO DO TRIBUTO PARA A PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS APURADA EM 2001. VIOLAÇÃO DAS REGRAS DA IRRETROATIVIDADE E DA ANTERIORIDADE. MP 2.15835/2001, ART. 74. LEI 5.720/1966, ART. 43, § 2º (LC 104/2000). 1. Ao examinar a constitucionalidade do art. 43, § 2º do CTN e do art. 74 da MP 2.158/2001, o Plenário desta Suprema Corte se dividiu em quatro resultados: 1.1. Inconstitucionalidade incondicional, já que o dia 31 de dezembro de cada ano está dissociado de qualquer ato jurídico ou econômico necessário ao pagamento de participação nos lucros; 1.2. Fl. 28861DF CARF MF Processo nº 16561.720111/201777 Resolução nº 1302000.702 S1C3T2 Fl. 28.862 16 Constitucionalidade incondicional, seja em razão do caráter antielisivo (impedir “planejamento tributário”) ou antievasivo (impedir sonegação) da normatização, ou devido à submissão obrigatória das empresas nacionais investidoras ao Método de de Equivalência Patrimonial – MEP, previsto na Lei das Sociedades por Ações (Lei 6.404/1976, art. 248); 1.3. Inconstitucionalidade condicional, afastada a aplicabilidade dos textos impugnados apenas em relação às empresas coligadas, porquanto as empresas nacionais controladoras teriam plena disponibilidade jurídica e econômica dos lucros auferidos pela empresa estrangeira controlada; 1.4. Inconstitucionalidade condicional, afastada a aplicabilidade do texto impugnado para as empresas controladas ou coligadas sediadas em países de tributação normal, com o objetivo de preservar a função antievasiva da normatização. 2. Orientada pelos pontos comuns às opiniões majoritárias, a composição do resultado reconhece: 2.1. A inaplicabilidade do art. 74 da MP 2.15835 às empresas nacionais coligadas a pessoas jurídicas sediadas em países sem tributação favorecida, ou que não sejam “paraísos fiscais”; 2.2. A aplicabilidade do art. 74 da MP 2.15835 às empresas nacionais controladoras de pessoas jurídicas sediadas em países de tributação favorecida, ou desprovidos de controles societários e fiscais adequados (“paraísos fiscais”, assim definidos em lei); 2.3. A inconstitucionalidade do art. 74 par. ún., da MP 2.15835/2001, de modo que o texto impugnado não pode ser aplicado em relação aos lucros apurados até 31 de dezembro de 2001. Ação Direta de Inconstitucionalidade conhecida e julgada parcialmente procedente, para dar interpretação conforme ao art. 74 da MP 2.15835/2001, bem como para declarar a inconstitucionalidade da clausula de retroatividade prevista no art. 74, par. ún., da MP 2.158/2001.(ADI 2588, Relator(a): Min. ELLEN GRACIE, Relator(a) p/ Acórdão: Min. JOAQUIM BARBOSA, Tribunal Pleno, julgado em 10/04/2013, DJe027 DIVULG 07022014 PUBLIC 10022014 EMENT VOL0271901 PP00001) Pelo o que se observa da ementa e, em especial, dos votos proferidos pelos Ministros, podese sintetizar as conclusões a que chegou o Supremo Tribunal Federal da seguinte forma: Investida Localização Validade do artigo 74 da MP 2.158/01 Eficácia "erga omnes" e efeito vinculante Jurisdição normal Inconstitucional Sim Coligadas Paraíso Fiscal Constitucional (não alcançou a maioria) Não Jurisdição normal Constitucional (não alcançou a maioria) Não Controladas Paraíso Fiscal Constitucional Sim Ainda, da análise das decisões e do quadro acima, cumpre registrar que o Supremo Tribunal Federal chegou a três importantes conclusões no julgamento da ADIN 2.588, quais sejam: Fl. 28862DF CARF MF Processo nº 16561.720111/201777 Resolução nº 1302000.702 S1C3T2 Fl. 28.863 17 1) Há que se diferenciar a tributação das investidoras com investidas com sede em paraísos fiscais, daquelas com sede em países com tributação normal. 2) Controladas e coligadas devem ter tratamento distinto; e 3) O princípio da irretroatividade, no caso da renda obtida no exterior, deve ser respeitado. No que importa para o caso em análise, como se verifica do quadro acima, o Supremo Tribunal Federal não chegou a uma maioria vinculativa no que tange aos lucros de controladas não domiciliadas em “paraíso fiscal”, nem para com lucros de coligadas domiciliadas em “paraíso fiscal”. Estáse diante de lucros de controladas não domiciliadas em “paraíso fiscal”. Como se sabe, contudo, mesmo não havendo um efeito vinculante, neste ponto, na decisão do STF, a este órgão é defeso se manifestar sobre constitucionalidade de norma legal, conforme Súmula CARF nº 2. Assim, a princípio, estava vigente e válido, à época dos fatos imponíveis, o disposto no artigo 74, da MP 2.158/01, que diz que o momento da tributação das controladas domiciliadas em países sem tributação favorecida seria aquele em que os lucros fossem disponibilizados nos balanços das entidades. Contudo, não foi objeto de análise, por parte daquela Corte, a implicação ou aplicação do disposto na MP no caso de a entidade controlada ser domiciliada em países que firmaram Tratados para evitar a dupla tributação da renda com a República Federativa do Brasil. Esta ausência de análise por parte do STF é clara quando se verifica o excerto da decisão proferida nos autos do Recurso Extraordinário nº 541.090, em que também se discutia a (in)constitucionalidade do artigo 74 da MP 2.158/01. Vejase: Prosseguindo no julgamento, o Tribunal, por maioria, deu parcial provimento ao recurso extraordinário para considerar ilegítima a tributação retroativa, nos termos do parágrafo único do art. 74 da MP nº 2.15835/2001, vencidos os Ministros Joaquim Barbosa (Relator), Ricardo Lewandowski, Marco Aurélio e Celso de Mello. Determinado o retorno dos autos ao Tribunal de origem para que se pronuncie sobre a questão atinente à vedação da bitributação baseada em tratados internacionais, vencido o Ministro Dias Toffoli, não havendo se manifestado, no ponto, o Ministro Marco Aurélio. Votou o Presidente, Ministro Joaquim Barbosa. Redigirá o acórdão o Ministro Teori Zavascki, que reajustou seu voto. Impedido o Ministro Luiz Fux. Plenário, 10.04.2013. (destacouse) No que se refere aos tratados, as suas implicações e a sua hierarquia dentro do ordenamento jurídico brasileiro, o Superior Tribunal de Justiça tem inúmeros julgados que exploram o tema, como também Supremo Tribunal Federal. Não se entrará aqui, até mesmo para não se perder o foco da autuação, na discussão que se dá entre os aderentes do sistema monistas ou dualistas dos ordenamentos jurídicos e, principalmente, na discussão doutrinária acerca do status dos Tratados firmados pelo Brasil, ou seja, se os Tratados se equiparariam às leis ordinárias ou às leis complementares. Fl. 28863DF CARF MF Processo nº 16561.720111/201777 Resolução nº 1302000.702 S1C3T2 Fl. 28.864 18 No presente voto, aceitase como premissa que os tratados integram a ordenamento jurídico e eventual conflito com normas internas deverão ser solucionadas de acordo com os critérios cronológicos e da especialidade, como se observa do julgado abaixo proferido pelo Supremo Tribunal Federal: E M E N T A: EXTRADIÇÃO CRIMES DE CORRUPÇÃO PASSIVA E DE CONCUSSÃO DISCUSSÃO SOBRE MATÉRIA PROBATÓRIA INADMISSIBILIDADE DERROGAÇÃO, NESTE PONTO, DO CÓDIGO BUSTAMANTE (ART.365, 1, IN FINE), PELO ESTATUTO DO ESTRANGEIRO PARIDADE NORMATIVA ENTRE LEIS ORDINÁRIAS BRASILEIRAS E CONVENÇÕES INTERNACIONAIS PROCESSO EXTRADICIONAL REGULARMENTE INSTRUÍDO JURISDIÇÃO PENAL DO ESTADO REQUERENTE SOBRE OS ILÍCITOS ATRIBUÍDOS AOS EXTRADITANDOS JULGAMENTO DA CAUSA PENAL, NO ESTADO REQUERENTE, POR TRIBUNAL REGULAR E INDEPENDENTE RECONHECIMENTO DA PRESCRIÇÃO PENAL EXTRAORDINÁRIA CONCERNENTE AO DELITO DE CORRUPÇÃO PASSIVA ACOLHIMENTO PARCIAL DA POSTULAÇÃO EXTRADICIONAL UNICAMENTE QUANTO AO CRIME DE CONCUSSÃO PEDIDO DEFERIDO EM PARTE. CÓDIGO BUSTAMANTE ESTATUTO DO ESTRANGEIRO (...) A normatividade emergente dos tratados internacionais, dentro do sistema jurídico brasileiro, permite situar esses atos de direito internacional público, no que concerne à hierarquia das fontes, no mesmo plano e no mesmo grau de eficácia em que se posicionam as leis internas do Brasil. A eventual precedência dos atos internacionais sobre as normas infraconstitucionais de direito interno brasileiro somente ocorrerá presente o contexto de eventual situação de antinomia com o ordenamento doméstico , não em virtude de uma inexistente primazia hierárquica, mas, sempre, em face da aplicação do critério cronológico (lex posterior derogat priori) ou, quando cabível, do critério da especialidade. Precedentes. (...) .(Ext 662, Relator(a): Min. CELSO DE MELLO, Tribunal Pleno, julgado em 28/11/1996, DJ 30051997 PP23176 EMENT VOL 0187101 PP00015) E o Superior Tribunal de Justiça, mesmo que partindo de outra premissa da que partiu o julgado acima (uma vez que coloca os Tratados no mesmo patamar das Leis Complementares), no julgado consubstanciado no REsp nº 1.161.467, coloca uma pá de cal sobre a discussão, quando afirma que os Tratados que tem como matéria de regulação a bi tributação da renda terão prevalência sobre o direito brasileiro, quando nitidamente se confrontarem (antinomia) com leis internas. O critério da especialidade é invocado pelo STJ. Confirase trecho da ementa do julgado: TRIBUTÁRIO. CONVENÇÕES INTERNACIONAIS CONTRA A BITRIBUTAÇÃO. BRASILALEMANHA E BRASILCANADÁ. ARTS. VII E XXI. RENDIMENTOS AUFERIDOS POR EMPRESAS ESTRANGEIRAS PELA PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS À EMPRESA BRASILEIRA. PRETENSÃO DA FAZENDA NACIONAL DE TRIBUTAR, NA FONTE, A REMESSA DE RENDIMENTOS. Fl. 28864DF CARF MF Processo nº 16561.720111/201777 Resolução nº 1302000.702 S1C3T2 Fl. 28.865 19 CONCEITO DE "LUCRO DA EMPRESA ESTRANGEIRA" NO ART. VII DAS DUAS CONVENÇÕES. EQUIVALÊNCIA A "LUCRO OPERACIONAL". PREVALÊNCIA DAS CONVENÇÕES SOBRE O ART. 7º DA LEI 9.779/99. PRINCÍPIO DA ESPECIALIDADE. ART. 98 DO CTN. CORRETA INTERPRETAÇÃO. (...) 7. A antinomia supostamente existente entre a norma da convenção e o direito tributário interno resolvese pela regra da especialidade, ainda que a normatização interna seja posterior à internacional. 8. O art. 98 do CTN deve ser interpretado à luz do princípio lex specialis derrogat generalis, não havendo, propriamente, revogação ou derrogação da norma interna pelo regramento internacional, mas apenas suspensão de eficácia que atinge, tão só, as situações envolvendo os sujeitos e os elementos de estraneidade descritos na norma da convenção. 9. A norma interna perde a sua aplicabilidade naquele caso especifico, mas não perde a sua existência ou validade em relação ao sistema normativo interno. Ocorre uma "revogação funcional", na expressão cunhada por HELENO TORRES, o que torna as normas internas relativamente inaplicáveis àquelas situações previstas no tratado internacional, envolvendo determinadas pessoas, situações e relações jurídicas específicas, mas não acarreta a revogação, stricto sensu, da norma para as demais situações jurídicas a envolver elementos não relacionadas aos Estados contratantes. (...) 11. Recurso especial não provido. (REsp 1161467/RS, Rel. Ministro CASTRO MEIRA, SEGUNDA TURMA, julgado em 17/05/2012, DJe 01/06/2012) (destacouse) Ao comentarem o posicionamento do Superior Tribunal de Justiça, que entende o critério da especialidade como uma das formas de se solucionar o conflito entre os Tratados e eventual norma de direito interno, Marcus Lívio Gomes e Renata S. Cunha Pinheiro assim se posicionam: "O Superior Tribunal de Justiça tem entendimento acerca desse ponto no sentido de que o disposto no art. 98 do CTN confere aos tratados caráter especial em face da legislação interna e, em razão dessa especialidade, afasta a incidência da norma nas situações sobre as quais se refira. Ressaltou a Corte que a antinomia supostamente existente entre a norma da convenção e o direito tributário interno resolvese pela regra da especialidade, ainda que a normatização interna seja posterior à internacional. Assentou que o art. 98 deve ser interpretado à luz do princípio lex specialis der rogat generalis, não havendo, propriamente, revogação ou derrogação da norma interna pelo regramento internacional, mas apenas suspensão de eficácia que atinge, tão só, as situações envolvendo os sujeitos e os elementos de estraneidade descritos na norma da convenção. (GOMES, Marcus Lívio e Pinheiro Renata S. Cunha. A Lei nº 12.973/2014 e os tratados para evitar a dupla tributação da renda. In Estudos Tributários do II Seminário CARF / Confederação Nacional da Indústria; Conselho Administrativo de Recursos Fiscais CARF; Francisco Marconi de Fl. 28865DF CARF MF Processo nº 16561.720111/201777 Resolução nº 1302000.702 S1C3T2 Fl. 28.866 20 Oliveira, Marcus Lívio Gomes, Marcos Aurélio Pereira Valadão, Coordenadores. Brasília: CNI, 2017. Págs. 101 e 102). Não se pode olvidar, neste ponto, como mencionado na ementa do julgado do STJ acima transcrita, que o Código Tributário Nacional, em seu artigo 98, preceitua que os "tratados e as convenções internacionais revogam ou modificam a legislação tributária interna, e serão observados pela que lhes sobrevenha". Exatamente por isso devese aplicar o critério da especialidade para a solução de eventual conflito entre normas de direito interno e os Tratados Internacionais. No que se refere ao critério da especialidade, o jurista italiano Norberto Bobbio, que teve grande influência na formação do pensamento jurídico brasileiro, já pontificava em seu clássico “Teoria do Ordenamento Jurídico”, que esse critério deve ser utilizado para solução de antinomias dentro de um ordenamento jurídico. Em suas palavras: O terceiro critério, dito justamente da lex specialis, é aquele pelo qual, de duas normas incompatíveis, uma geral e uma especial (ou excepcional), prevalece a segunda: lex specialis derogat generali. Também aqui a razão do critério não é obscura: lei especial é aquela que anula uma mais geral, ou que subtrai de uma norma uma parte da sua matéria para submetêla a uma regulamentação diferente (contrária ou contraditória). A passagem de uma regra mais extensa (que abrange um certo genus) para uma regra derrogatória menos extensa (que abrange uma species do genus) corresponde a uma exigência fundamental de justiça, compreendida como tratamento igual das pessoas que pertencem à mesma categoria. A passagem da regra geral à regra especial corresponde a um processo natural de diferenciação das categorias, e a uma descoberta gradual, por parte do legislador, dessa diferenciação. (...) Entendese, portanto, por que a lei especial deva prevalecer sobre a geral: ele representa um momento ineliminável do desenvolvimento de um ordenamento. Bloquear a lei especial frente à geral significa paralisar esse desenvolvimento. (BOBBIO, Norberto. Teoria do ordenamento jurídico. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 10ª edição, 1999. pág. 95 e 96) (destacouse) Por fim, no que tange aos tratados e a necessidade de sua aplicação pelos Estados contratantes, imperioso transcrever passagem de trabalho de autoria de Paulo Ayres Barreto e Caio Augusto Takano, no qual, de forma cirúrgica, apontam a importância e a motivação dos Tratados para evitar a dupla tributação, em especial aqueles que seguem o modelo da OCDE, como no caso do Tratado Brasil/Argentina: (...) Nesse cenário, os tratados em matéria tributária são meios pelos quais Estados soberanos se esforçam, usualmente em bases bilaterais, para harmonizar as regras de suas leis tributárias internas, estabelecendo limites a partir dos quais leis nacionais não se aplicam. Por meio dos tratados internacionais que visam evitar a dupla tributação da renda, o Brasil obrigouse espontaneamente perante outros Estados de Direito a não exigir, no todo ou em parte, tributos a eles reservados. É esse o caso dos lucros. Conforme art. 7º, parágrafo 1º da Convenção Modelo da OCDE, 'os lucros de uma empresa de um Estado Contratante só podem ser tributados nesse Estado (...)". Exceção são os lucros apurados por estabelecimentos permanentes Fl. 28866DF CARF MF Processo nº 16561.720111/201777 Resolução nº 1302000.702 S1C3T2 Fl. 28.867 21 situados em outro Estado Contratante, os quais serão tributados, na parte em que oriundos do estabelecimento. Como relata Philip Baker, esse dispositivo possui um longo histórico e reflete o consenso internacional de que, em regra, até que uma empresa de um dos Estados contratantes possua um estabelecimento permanente em outro Estado (art. 5º da Convenção Modelo da OCDE), ele não deverá ser considerado como um participante na vida econômica desse Estado, não sendo, portanto, a ele conferido o direito de tributar os seus lucros. (BARRETO, Paulo Ayres e TAKANO, Caio Augusto. Tributação do Resultado de Coligadas e Controladas no Exterior, em face da Lei nº 12.973/2014. In Grandes questões atuais do direito tributário. 18º Volume. São Paulo: Dialética, 2014. Pág. 368 e 369) Assim, por tudo até aqui exposto, podese afirmar que (i) o Supremo Tribunal Federal declarou como constitucional a tributação de controladas no exterior, nos termos preconizados pelo artigo 74 da MP 2.158/2001; (ii) os tratados integram o ordenamento jurídico pátrio; e, (iii) no caso de conflito entre o disposto em norma interna e um Tratado Internacional, tendo em vista o critério da especialidade, deverá prevalecer o disposto no Tratado. Fixadas essas premissas, se analisará a seguir a motivação da autuação e se assiste razão à Recorrente quando alega que, no presente caso, deve prevalecer o que dispõem o Tratado firmado entre a República Federativa do Brasil e a Argentina (Decreto nº 87.976, de 22 de Dezembro de 1982), em detrimento do que preceitua a legislação interna que regula a tributação dos lucros de controladas e coligadas domiciliadas no exterior. DA TRIBUTAÇÃO DOS LUCROS DAS CONTROLADAS NO EXTERIOR QUANDO DA EXISTÊNCIA DE TRATADOS QUE VISAM EVITAR A TRIBUTAÇÃO DOS DOMICILIADOS NOS ESTADOS CONSIGNATÁRIOS. De pronto, devese ressaltar que não há nos autos controvérsias acerca do fato de que as empresas sediadas na Argentina (Maltaria Pampa, Lambic e Hohneck) são controladas diretas da Recorrente, nos exatos termos definidos pelo artigo 243, § 2º da Lei 6.404/76, que tem a seguinte redação: Art. 243. O relatório anual da administração deve relacionar os investimentos da companhia em sociedades coligadas e controladas e mencionar as modificações ocorridas durante o exercício. (...) § 2º Considerase controlada a sociedade na qual a controladora, diretamente ou através de outras controladas, é titular de direitos de sócio que lhe assegurem, de modo permanente, preponderância nas deliberações sociais e o poder de eleger a maioria dos administradores. O termo de verificação fiscal, com base na documentação carreada nos autos, afirma que, "conforme se denota das Fichas 34 e 35 de sua DIPJ do anocalendário de 2012 (fls. 5019/5419), a Ambev detinha seis controladas diretas no exterior. Quatro dessas Fl. 28867DF CARF MF Processo nº 16561.720111/201777 Resolução nº 1302000.702 S1C3T2 Fl. 28.868 22 controladas serão objeto de detido exame, porquanto seus lucros não foram (total ou parcialmente, conforme se verá adiante) disponibilizados pela controladora brasileira.". E esta informação é confirmada pela própria Recorrente, desde a peça de ingresso (Impugnação), quando aduz que "a autuação tem por base exclusivamente a disponibilização ficta dos lucros auferidos por controladas da Impugnante no exterior". Assim, no Auto de Infração, no item ora em análise, não se tem dúvida de que a obrigação tributária em discussão tem nascimento nos lucros auferidos por controladas (investidas) domiciliadas na Argentina de empresa domiciliada em território nacional (investidora). Por outro lado, nos termos da IN RFB nº 1.037/2010 (inclusive suas alterações posteriores), a Argentina não é considerada como paraíso fiscal pela Receita Federal do Brasil. E a pergunta que precisa ser respondida para a solução do presente caso é: tendo em vista o tratado para evitar a dupla tributação firmado entre o Brasil e Argentina (Decreto nº 87.976, de 22 de Dezembro de 1982), teria o Estado brasileiro competência para tributar riqueza (lucro) produzida no outro Estado signatário daqueles Tratados? Para responder ao questionamento feito, não se pode olvidar que, como se depreende do TVF, a fiscalização motivou a lavratura do Auto de Infração, após afastar a aplicação dos Tratados ao presente caso, pelo fato de que, no seu entendimento, o disposto no artigo 74 da Medida Provisória 2.15835/2001 autoriza a tributação, uma vez que "a Receita Federal do Brasil, por meio de manifestação da CoordenaçãoGeral de Tributação (Cosit), externou o entendimento de que a aplicação do artigo 74 da Medida Provisória nº 2.158 35/2001 não viola os tratados internacionais para evitar a dupla tributação celebrados pelo Brasil". Assim, a princípio, aos olhos da fiscalização, o art. 74 da MP 2.158/01 autoriza a tributação dos lucros auferidos no exterior (variação patrimonial), em detrimento do que restou firmado nos Tratados assinados pela República Federativa do Brasil para evitar a dupla tributação. Contudo, pela leitura do artigo 7º do Tratado firmado entre a República Federativa do Brasil com a Argentina, não há dúvidas de que o Brasil está impedido (norma de bloqueio), pelo princípio da residência, de tributar lucros auferidos em sociedades independentes (mesmo que seja controlada direta), domiciliadas naqueles países. Vejase a redação do tratado firmado com a Argentina (Decreto nº 87.976, de 22 de Dezembro de 1982): ARTIGO VII Lucros das empresas Os lucros de uma empresa de um Estado Contratante só são tributáveis nesse Estado, a não ser que a empresa exerça sua atividade no outro Estado Contratante por meio de um estabelecimento permanente aí situado. Se a empresa exercer sua atividade na forma indicada, seus lucros são tributáveis no outro Estado, mas unicamente à medida em que sejam atribuíveis a esse estabelecimento permanente. 2. Com ressalva das disposições do parágrafo 3, quando uma empresa de um Estado Contratante exercer sua atividade no outro Estado Contratante por meio de um estabelecimento permanente aí situado, serão atribuídos, em cada Estado Contratante, a esse estabelecimento Fl. 28868DF CARF MF Processo nº 16561.720111/201777 Resolução nº 1302000.702 S1C3T2 Fl. 28.869 23 permanente, os lucros que obteria se constituísse uma empresa distinta e separada, exercendo atividades idênticas ou similares em condições idênticas ou similares, e transacionando com absoluta independência com a empresa de que é um estabelecimento permanente. 3. No cálculo dos lucros de um estabelecimento permanente, é permitido deduzir as despesas que tiverem sido feitas para a consecução dos objetivos do estabelecimento permanente, incluindo as despesas de direção e os encargos gerais de administração assim realizados. 4. Nenhum lucro será atribuído a um estabelecimento permanente pelo simples fato de comprar bens ou mercadorias para a empresa. 5. Quando os lucros compreenderem elementos de rendimentos tratados separadamente nos outros artigos da presente Convenção, as disposições desses artigos não serão afetadas pelas disposições deste Artigo. Mais uma vez, se vale dos ensinamento de Paulo Ayres Barreto e Caio Augusto Takano, que assim interpretam o artigo 7º do modelo OCDE: Parecenos correto asserverar, com apoio em Klaus Vogel, que há no art. 7º, parágrafo 1º duas normas jurídicas: (i) se uma empresa residente em um dos Estados contratantes exerça uma atividade e dela auferir lucros, então apenas o Estado de residência daquela empresa poderá tributálos (regra geral); e (ii) se uma empresa exercer suas atividades no outro Estado por meio de um estabelecimento permanente aí situado, então esse Estado (e não o Estado de residência) poderá tributar lucros, mas unicamente na medida em que forem imputáveis ao estabelecimento permanente (regra de exceção). (...) Destarte, não se tratando de estabelecimentos permanentes, mas de empresas dotadas de personalidade jurídica própria, sejam elas coligadas ou controladas, devese aplicar a regra geral, que contém, na feliz expressão de Alberto Xavier, uma 'norma de reconhecimento de competência exclusiva' do país em que se encontra domiciliada a sociedade controlada. (BARRETO, Paulo Ayres e TAKANO, Caio Augusto. Tributação do Resultado de Coligadas e Controladas no Exterior, em face da Lei nº 12.973/2014. In Grandes questões atuais do direito tributário. 18º Volume. São Paulo: Dialética, 2014. Pág. 368 e 369) O citado artigo 7º do Tratado firmado pelo Brasil é muito claro no que visa proteger: os lucros auferidos pela empresa no exterior, devendo estes serem tributados somente no país onde a empresa independente tenha domicílio. Não há dúvidas, data venia, quanto a interpretação do dispositivo. Não há que se argumentar que, neste caso, a tributação estaria autorizada por ser uma exceção ao cumprimento do Tratado, como tentou direcionar o agente fiscal na sua fundamentação. Em julgamento realizado por este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, o então relator, Conselheiro Marcos Shigueo Takata, após discorrer sobre o CFC e as Fl. 28869DF CARF MF Processo nº 16561.720111/201777 Resolução nº 1302000.702 S1C3T2 Fl. 28.870 24 peculiaridades da tributação em bases universais pretendida pelo fisco brasileiro, traz argumentos intocáveis para afastar a alegação de não aplicação de um tratado internacional que tem as mesmas bases do tratado ora analisado (modelo OCDE). Vejase as lúcidas ponderações lançadas no voto proferido nos autos do processo administrativo de nº 12897.000193/201011 (acórdão nº 1103001.122): A redação do art. 74 da MP 2.158/01 pode dar a impressão de que se tributam dividendos fictos ou dividendos fictamente distribuídos. Mas, podem ser tributados dividendos fictos? Antes de falar sobre dividendos fictamente distribuídos, trato do argumento de que o suporte fático eleito pela norma legal não são os dividendos, pois o que se tributa são os lucros antes de descontado o tributo pago no país de origem. E, por óbvio, só se cogita de dividendos após todas as despesas incorridas, nas quais se inclui o tributo pago sobre os lucros no país de origem. O que a sociedade delibera distribuir aos sócios ou acionistas, como dividendos, só pode ser o resultado líquido do tributo pago sobre o lucro. Essa dimensão do pressuposto fático de incidência tributária é prevista textualmente no art. 1º, § 7º, da Instrução Normativa SRF 213/02: § 7º. Os lucros, rendimentos e ganhos de capital de que trata este artigo a serem computados na determinação do lucro real e da base de cálculo de CSLL, serão considerados pelos seus valores antes de descontado o tributo pago no país de origem. O argumento não me impressiona, se interpretado o art. 1º, § 7º, da Instrução Normativa SRF 213/02 em seus devidos termos. Dividendos são distribuição de lucros apurados pela sociedade a seus sócios ou acionistas. E só há lucros distribuíveis após a despesa com pagamento de tributo sobre o lucro. Entretanto, o mesmo argumento caberia para tributação de lucros da sociedade controlada ou coligada no exterior. Lucros da sociedade são o resultado líquido de um período, após a despesa incorrida com tributo: só se pode falar de lucros, ainda mais lucros distribuíveis, após a despesa incorrida com tributo pago sobre o lucro; afinal o objeto da tributação, se não forem dividendos, é o lucro líquido auferido pela controlada ou coligada no exterior. A meu ver, o que o art. 1º, § 7º, da IN 213/02 fez, ao interpretar o comando legal, foi o seguinte. A norma legal confere o tax credit correspondente ao tributo pago no exterior, com a instituição da tributação em bases universais para a pessoa jurídica. Ao se ver sistematicamente o objeto da tributação, em bases universais, o valor do tributo pago no exterior não é despesa, mas ativo da controladora ou da coligada participante no Brasil – afinal, referido valor é compensável no País – ou melhor, desde que e no limite do que seja compensável no País. Logo, como a lei confere o tax credit relativo ao tributo pago no país de origem, o legislador infralegal, ao falar que os lucros do exterior da Fl. 28870DF CARF MF Processo nº 16561.720111/201777 Resolução nº 1302000.702 S1C3T2 Fl. 28.871 25 controlada ou coligada serão considerados antes de descontado o tributo pago no país de origem, simplesmente utilizou a expressão como técnica tributária de se reconhecer que tal valor não deve reduzir a base tributável, por ser um ativo. E a leitura que faço do art. 1º, § 7º, da IN SRF 213/02 é a de considerar os lucros antes de descontado o tributo pago no país de origem, no limite do compensável no País. Nesse passo, e nos termos acima expostos, cuidase de técnica tributária que não desborda o limite legal. I.e., versase técnica de aplicação e, assim, de interpretação das normas legais, desde que (o antes de descontado) nos limites do imposto que seja compensável no País. Não se está, com isso, a tributar algo por ficção ou mesmo por presunção, ou precisamente: não se está definindo materialidade ou seu aspecto temporal por ficção, ou mesmo por presunção. É como entendo. Daí ter dito que o argumento não impressiona, interpretado o preceito em comentário em seus devidos termos. Como disse, a redação do art. 74 da MP 2.158/01 pode dar a impressão de que se tributam dividendos fictos ou dividendos fictamente distribuídos. Retomo, pois, a questão que considero fundamental: podem ser tributados dividendos fictos? A tributação do art. 74 da MP 2.158/01 recai sobre dividendos fictos? É sabido que não se pode empregar ficção legal para alcançar materialidade ou se antecipar seu aspecto temporal quando a Constituição Federal usa essa materialidade na definição de competência tributária dos entes políticos. Nesse sentido, o art. 110 do CTN seria inclusive despiciendo, assumindo feição didática. Também, por óbvio que o CTN não pode dar “carta branca” ao legislador ordinário, para, dessa forma, voltear a materialidade, inclusive em seu aspecto temporal, empregada pela Constituição Federal para outorga de competência tributária. Não é a isso que se presta o § 2º do art. 43 do CTN. E também não é diferente o que se passa em relação ao § 1º do art. 43 do CTN. Não é a lei ordinária que, a bel prazer, e a seu exclusivo talante, irá determinar como e quando se dá a disponibilidade econômica ou jurídica da renda, da receita ou do rendimento. Além disso, é regra hermenêutica elementar que o parágrafo de um artigo se subordina à cabeça (caput) dele. Sublinhese, ainda que seja evidente: o pressuposto adotado é a constitucionalidade do § 2º do art. 43 do CTN. Fl. 28871DF CARF MF Processo nº 16561.720111/201777 Resolução nº 1302000.702 S1C3T2 Fl. 28.872 26 Mais. Vejase o que dispõe o art. 10 do Tratado BrasilHolanda, incorporado ao direito doméstico pelo Decreto 331/92, que, na essência, é igual ao art. 10 do Tratado BrasilArgentina (há uma variação no § 5º do art. 10, a qual não afeta a questão em dissídio): ARTIGO 10 Dividendos 1. Os dividendos pagos por uma sociedade residente em um Estado Contratante a um residente no outro Estado Contratante podem ser tributados nesse outro Estado. 2. Todavia, esses dividendos podem também ser tributados no Estado Contratante onde reside a sociedade que os paga, e nos termos da lei desse Estado; mas, se a pessoa que os receber for o beneficiário efetivo dos dividendos, o imposto assim incidente não poderá exceder 15% (quinze por cento) do montante bruto dos dividendos. O disposto neste parágrafo não prejudica a tributação da sociedade, no que diz respeito aos lucros dos quais se originaram os dividendos pagos. 3. O termo "dividendos", empregado no presente artigo, designa os rendimentos provenientes de ações ou direitos de fruição; ações de empresas mineradoras; partes de fundador ou outros direitos de participação em lucros, com exceção de créditos, bem como rendimentos de outras participações de capital assemelhados aos rendimentos de ações pela legislação tributária do Estado em que reside a sociedade que realiza a distribuição. 4. Não se aplica o disposto nos parágrafos 1 e 2 se o beneficiário dos dividendos, residente em um Estado Contratante, realiza negócios no outro Estado Contratante em que reside a sociedade que paga os dividendos, por intermédio de estabelecimento permanente ali situado, e se a participação, em virtude da qual os dividendos são pagos, se relaciona efetivamente ao estabelecimento permanente. Nesse caso aplicase o disposto no Artigo 7. 5. Quando um residente em um Estado Contratante tiver um estabelecimento permanente no outro Estado Contratante, este estabelecimento permanente pode estar, ali, sujeito a imposto retido na fonte, nos termos da legislação daquele Estado. Todavia, tal imposto não excederá 15% (quinze por cento) do montante bruto dos lucros do estabelecimento permanente, apurado após o pagamento do imposto de renda de sociedades, incidente sobre aqueles lucros. 6. Quando uma sociedade residente em um Estado Contratante recebe lucros ou rendimentos do outro Estado Contratante, esse outro Estado Contratante não poderá cobrar qualquer imposto sobre os dividendos pagos pela sociedade, exceto se tais dividendos forem pagos a residente desse outro Estado, ou se a participação em virtude da qual os dividendos são pagos, relacionarse efetivamente a um estabelecimento permanente situado nesse outro Estado; nem poderá sujeitar os lucros não distribuídos da sociedade a imposto sobre lucros não distribuídos, ainda que os dividendos pagos ou os lucros não distribuídos consistam, no total ou parcialmente, de lucros ou rendimentos provenientes desse outro Estado. Fl. 28872DF CARF MF Processo nº 16561.720111/201777 Resolução nº 1302000.702 S1C3T2 Fl. 28.873 27 7. As limitações de alíquota do imposto previstas nos parágrafos 2 e 5 não se aplicam aos dividendos ou lucros pagos antes do final do primeiro ano calendário seguinte ao ano de assinatura desta Convenção. É muito claro que o dispositivo convencional trata dos dividendos pagos, ao versar sobre a competência tributária cumulativa dos Estados contratantes sobre a materialidade em questão. O problema da qualificação de dividendos é resolvido pelo próprio art. 10 do Tratado BrasilHolanda (e do art. 10 do Tratado Brasil Argentina), em seu § 3º. Ainda, o referido § 3º do art. 10 do tratado não permite que se considerem como dividendos os distribuídos fictamente. E também remete ao Estadofonte, i.e., ao Estado contratante em que reside a sociedade distribuidora dos dividendos, a qualificação residual de dividendos, mas coloca como um dos limites: a distribuição efetiva. É expressa nesse sentido a parte final do § 3º do art. 10 do tratado em questão. Interditase, pois, inserir na moldura de dividendos os fictos ou os distribuídos fictamente. Ainda, registrese que o § 6º do art. 10 do tratado prevê – tal como no Modelo OCDE – cláusula de salvaguarda. Impedese que um Estado contratante pretenda tributar indiretamente como dividendos ou até mesmo como lucros não distribuídos (o que é diferente de dividendos) certos valores correspondentes a lucros ou rendimentos. Os lucros e rendimentos de uma sociedade residente no Estado contratante “X” são realizados no Estado contratante “Y”. Se aquela sociedade residente no Estado “X” pagar dividendos a quem não seja residente no Estado “Y”, mesmo que os dividendos pagos sejam originários de lucros ou rendimentos realizados no Estado “Y”, tais dividendos não poderão ser tributados nesse Estado “Y”. O mesmo vale para lucros não distribuídos. Vedase uma tributação extraterritorial em tais moldes. Ao fazer esse registro, quero dizer que o tratado não dá margem a permitir que o art. 10 seja aplicado a dividendos fictos ou distribuídos fictamente. Todo o art. 10 do tratado em comentário cuida de dividendos pagos, ao delinear a competência tributária cumulativa do Estado contratante em que reside o sócio ou o acionista, com a do Estado contratante em que reside a sociedade que distribui (paga) os dividendos. Como o pressuposto é a constitucionalidade do art. 74 da MP 2.158/01, só posso concluir que o regime de transparência fiscal adotado não tem como materialidade os dividendos, pois, como se viu, não há como se tributarem dividendos fictos ou dividendos distribuídos fictamente. Adiante esclareço a materialidade do art. 74 da MP 2.158/014. Fl. 28873DF CARF MF Processo nº 16561.720111/201777 Resolução nº 1302000.702 S1C3T2 Fl. 28.874 28 A técnica de tributação não pode ser manejada ou manipulada para alcançar materialidade ou seu aspecto temporal por ficção legal, nos termos deduzidos alhures. Por outro lado, seja como corolário do que se deduziu, seja pela interpretação e aplicação direta do art. 10 dos tratados em jogo, fica evidenciado claramente o seguinte: o art. 10 do Tratado Brasil Holanda e o art. 10 do Tratado BrasilArgentina são inaplicáveis sobre o suporte fático em dissídio. Não vejo como se possa dar interpretação diversa. Essas são as duas primeiras exegeses extraíveis. Tais exegeses funcionam como fundamentos para a conclusão da inaplicabilidade do art. 10 dos tratados em debate sobre a materialidade em dissídio. Reiteroas. Pelo art. 74 da MP 2.158/01 não se tributam dividendos fictos ou dividendos fictamente distribuídos. O art. 10 dos tratados em discussão, ao estabelecer a competência cumulativa dos Estados contratantes, não alcança os lucros auferidos e não distribuídos por controlada e coligada domiciliadas num dos Estados contratantes: ele delimita a competência cumulativa dos Estados contratantes, para a tributação dos dividendos efetivamente distribuídos Criticando a posição adotada na Solução de Consulta Interna COSIT nº 18/2013 (que foi utilizada pela fiscalização), Marcus Lívio Gomes e Renata S. Cunha Pinheiro são taxativos quando afirmam pela impossibilidade de tributação dos lucros das empresas controladas, que estejam sediadas em países que firmaram Tratado para evitar a duplatributação com o Brasil, como no presente caso. Vejase o entendimento exarado por aqueles autores: Sustentouse na Solução de Consulta que o art. 74 da MP 2.158/2001 previa a tributação da renda dos sócios brasileiros decorrente de sua participação em empresas domiciliadas no exterior, de forma que a norma interna estaria incidindo em contribuinte brasileiro, não gerando qualquer conflito com os dispositivos do tratado que versam sobre a tributação de lucros. SCHOUERI (2013, p. 74) criticou o posicionamento, explicitando que o raciocínio desenvolvido peca ao não perceber que não é verdade que o art. 7º se limita a proteger do imposto brasileiro as empresas sediadas no exterior, aduzindo que o escopo do art. 7º não é subjetivo (as empresas), mas objetivo (os lucros das empresas). Com efeito, é falso o dilema que examina quem assume o ônus do imposto, posto que a limitação do art. 7º alcança os lucros de uma empresa de um Estado Contratante, pouco interessando, in casu, indagar quem suporta o encargo, seja a empresa estrangeira, seja a nacional, importando que nem uma nem outra estão sujeitas ao imposto brasileiro calculado sobre o lucro da empresa localizada no exterior. Destarte, a opção feita pela tributação da pessoa jurídica brasileira como sujeito passivo da relação jurídica tributária é equivocada, pois o Brasil não teria como exercer sua pretensão Fl. 28874DF CARF MF Processo nº 16561.720111/201777 Resolução nº 1302000.702 S1C3T2 Fl. 28.875 29 arrecadatória diretamente em face do lucro da pessoa jurídica estrangeira. (...) Ao prever a inclusão do lucro real da 'parcela do ajuste do valor do investimento' [previsto na Lei nº 12.973/14], tributase, na verdade, o lucro tranvestido de outro nome para justificar o argumento de que os lucros tributados seriam, de fato, pertencentes à controladora no Brasil e não da controlada no exterior, de modo a afastarse a incompatibilidade com o art. 7º dos tratados para evitar a dupla tributação. Valeuse o legislador, em deliberada intenção de evitar o conflito entre a tributação prevista para as controladas diretas e indiretas no exterior, e para as coligadas equiparadas às controladas, de nova denominação parcela do ajuste do valor do investimento , mas que em nada altera a sistemática anterior que se resume à tributação do lucro. (GOMES, Marcus Lívio e Pinheiro Renata S. Cunha. A Lei nº 12.973/2014 e os tratados para evitar a dupla tributação da renda. In Estudos Tributários do II Seminário CARF / Confederação Nacional da Indústria; Conselho Administrativo de Recursos Fiscais CARF; Francisco Marconi de Oliveira, Marcus Lívio Gomes, Marcos Aurélio Pereira Valadão, Coordenadores. Brasília: CNI, 2017. Págs. 109 e 110). Este argumento também foi enfrentando pelo Superior Tribunal de Justiça, nos autos do Resp nº 1.325.709, quando o Ministro Relator, Napoleão Nunes Maia, assim se manifestou em seu voto, para afastar a tese da Fazenda Nacional de que se estaria, em verdade, tributando os dividendos fictamente distribuídos: 63 Repitase que a sistemática adotada pela Fazenda Pública, de adicionar o lucro obtido pela empresa controlada no Exterior para cômputo do lucro real da empresa controladora importa na tributação daquele mesmo lucro, em contraste com o disposto nas referidas Convenções Internacionais. Inclusive, não se pode deixar de mencionar que, no citado Resp, julgado pelo STJ, discutiase caso semelhante ao presente e a Corte de Justiça, cuja uma das funções é de pacificar o entendimento dos demais tribunais brasileiros, proferiu decisão privilegiando o disposto nos Tratados firmados pela República Federativa do Brasil, em detrimento da legislação que determina a tributação dos lucros, mesmo que eles não tenham sido disponibilizados (ou o tenham sido "por ficção", nas palavras do agente fiscal). Vejase a ementa do acórdão proferido: RECURSO ESPECIAL TRIBUTÁRIO E PROCESSUAL CIVIL. MANDADO DE SEGURANÇA DENEGADO NA ORIGEM. APELAÇÃO. EFEITO APENAS DEVOLUTIVO. PRECEDENTE. NULIDADE DOS ACÓRDÃOS RECORRIDOS POR IRREGULARIDADE NA CONVOCAÇÃO DE JUIZ FEDERAL. NÃO PREQUESTIONAMENTO. SÚMULAS 282 E 356/STF. IRPJ E CSLL. LUCROS OBTIDOS POR EMPRESAS CONTROLADAS NACIONAIS SEDIADAS EM PAÍSES COM TRIBUTAÇÃO REGULADA. PREVALÊNCIA DOS TRATADOS SOBRE BITRIBUTAÇÃO Fl. 28875DF CARF MF Processo nº 16561.720111/201777 Resolução nº 1302000.702 S1C3T2 Fl. 28.876 30 ASSINADOS PELO BRASIL COM A BÉLGICA (DECRETO 72.542/73), A DINAMARCA (DECRETO 75.106/74) E O PRINCIPADO DE LUXEMBURGO (DECRETO 85.051/80). EMPRESA CONTROLADA SEDIADA NAS BERMUDAS. ART. 74, CAPUT DA MP 2.15735/2001. DISPONIBILIZAÇÃO DOS LUCROS PARA A EMPRESA CONTROLADORA NA DATA DO BALANÇO NO QUAL TIVEREM SIDO APURADOS, EXCLUÍDO O RESULTADO DA CONTRAPARTIDA DO AJUSTE DO VALOR DO INVESTIMENTO PELO MÉTODO DA EQUIVALÊNCIA PATRIMONIAL. RECURSO ESPECIAL CONHECIDO E PARCIALMENTE PROVIDO, PARA CONCEDER A SEGURANÇA, EM PARTE. 1. Afastase a alegação de nulidade dos acórdãos regionais ora recorridos, por suposta irregularidade na convocação de Juiz Federal que funcionou naqueles julgamentos, ou na composição da Turma Julgadora; inocorrência de ofensa ao Juiz Natural, além de ausência de prequestionamento. Súmulas 282 e 356/STF. Precedentes desta Corte. 2. Salvo em casos excepcionais de flagrante ilegalidade ou abusividade, ou de dano irreparável ou de difícil reparação, o Recurso de Apelação contra sentença denegatória de Mandado de Segurança possui apenas o efeito devolutivo. Precedente: AgRg no AREsp. 113.207/SP, Rel. Min. CASTRO MEIRA, DJe 03/08/2012. 3. A interpretação das normas de Direito Tributário não se orienta e nem se condiciona pela expressão econômica dos fatos, por mais avultada que seja, do valor atribuído à demanda, ou por outro elemento extrajurídico; a especificidade exegética do Direito Tributário não deriva apenas das peculiaridades evidentes da matéria jurídica por ele regulada, mas sobretudo da singularidade dos seus princípios, sem cuja perfeita absorção e efetivação, o afazer judicial se confundiria com as atividades administrativas fiscais. 4. O poder estatal de arrecadar tributos tem por fonte exclusiva o sistema tributário, que abarca não apenas a norma regulatória editada pelo órgão competente, mas também todos os demais elementos normativos do ordenamento, inclusive os ideológicos, os sociais, os históricos e os operacionais; ainda que uma norma seja editada, a sua efetividade dependerá de harmonizarse com as demais concepções do sistema: a compatibilidade com a hierarquia internormativa, os princípios jurídicos gerais e constitucionais, as ilustrações doutrinárias e as lições da jurisprudência dos Tribunais, dentre outras. 5. A jurisprudência desta Corte Superior orienta que as disposições dos Tratados Internacionais Tributários prevalecem sobre as normas de Direito Interno, em razão da sua especificidade. Inteligência do art. 98 do CTN. Precedente: (RESP 1.161.467RS, Rel. Min. CASTRO MEIRA, DJe 01.06.2012). 6. O art. VII do Modelo de Acordo Tributário sobre a Renda e o Capital da OCDE utilizado pela maioria dos Países ocidentais, inclusive pelo Brasil, conforme Tratados Internacionais Tributários celebrados com a Bélgica (Decreto 72.542/73), a Dinamarca (Decreto 75.106/74) e o Principado de Luxemburgo (Decreto 85.051/80), disciplina que os lucros de uma empresa de um Estado contratante só Fl. 28876DF CARF MF Processo nº 16561.720111/201777 Resolução nº 1302000.702 S1C3T2 Fl. 28.877 31 são tributáveis nesse mesmo Estado, a não ser que a empresa exerça sua atividade no outro Estado Contratante, por meio de um estabelecimento permanente ali situado (dependência, sucursal ou filial); ademais, impõe a Convenção de Viena que uma parte não pode invocar as disposições de seu direito interno para justificar o inadimplemento de um tratado (art. 27), em reverência ao princípio basilar da boafé. 7. No caso de empresa controlada, dotada de personalidade jurídica própria e distinta da controladora, nos termos dos Tratados Internacionais, os lucros por ela auferidos são lucros próprios e assim tributados somente no País do seu domicílio; a sistemática adotada pela legislação fiscal nacional de adicionálos ao lucro da empresa controladora brasileira termina por ferir os Pactos Internacionais Tributários e infringir o princípio da boafé na relações exteriores, a que o Direito Internacional não confere abono. 8. Tendo em vista que o STF considerou constitucional o caput do art. 74 da MP 2.15835/2001, aderese a esse entendimento, para considerar que os lucros auferidos pela controlada sediada nas Bermudas, País com o qual o Brasil não possui acordo internacional nos moldes da OCDE, devem ser considerados disponibilizados para a controladora na data do balanço no qual tiverem sido apurados. 9. O art. 7o, § 1o. da IN/SRF 213/02 extrapolou os limites impostos pela própria Lei Federal (art. 25 da Lei 9.249/95 e 74 da MP 2.158 35/01) a qual objetivou regular; com efeito, analisandose a legislação complementar ao art. 74 da MP 2.15835/01, constatase que o regime fiscal vigorante é o do art. 23 do DL 1.598/77, que em nada foi alterado quanto à não inclusão, na determinação do lucro real, dos métodos resultantes de avaliação dos investimentos no Exterior, pelo método da equivalência patrimonial, isto é, das contrapartidas de ajuste do valor do investimento em sociedades estrangeiras controladas. 10. Ante o exposto, conheço do recurso e doulhe parcial provimento, concedendo em parte a ordem de segurança postulada, para afirmar que os lucros auferidos nos Países em que instaladas as empresas controladas sediadas na Bélgica, Dinamarca e Luxemburgo, sejam tributados apenas nos seus territórios, em respeito ao art. 98 do CTN e aos Tratados Internacionais em causa; os lucros apurados por Brasamerican Limited, domiciliada nas Bermudas, estão sujeitos ao art. 74, caput da MP 2.15835/2001, deles não fazendo parte o resultado da contrapartida do ajuste do valor do investimento pelo método da equivalência patrimonial. (REsp 1325709/RJ, Rel. Ministro NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO, PRIMEIRA TURMA, julgado em 24/04/2014, DJe 20/05/2014) (destacouse) Em que pese o citado precedente do STJ não ter sido proferido na sistemática dos Recursos Repetitivos e, por isso, não ser de aplicação vinculada deste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais e dos demais órgãos da administração pública, não se pode, data venia, desprezar a interpretação dada pelo Poder Judiciário em caso idêntico ao travado nos autos e, digase, em sentido diametralmente oposto ao que restou decidido no acórdão recorrido, sob pena de tornar completamente inseguras as relações entre fisco e os contribuintes. Fl. 28877DF CARF MF Processo nº 16561.720111/201777 Resolução nº 1302000.702 S1C3T2 Fl. 28.878 32 Neste ponto, vale o alerta feito por Marcus Lívio Gomes e Renata S. Cunha Pinheiro, que, após demonstrarem que a Lei nº 12.973/14 em nada alterou a materialidade tributável estabelecida pela MP 2.15835/2001, que é o lucro auferido pela controlada no exterior, afirmam o seguinte: A nosso ver, esse ponto é de suma importância dado o cenário que se apresenta, em que o Brasil tem buscado ampliar sua participação nas políticas de combate ao planejamento tributário agressivo capitaneadas pela OCDE já que, se mantido o entendimento de que é possível tributar de forma automática os lucros auferidos pela pessoa jurídica no exterior antes da sua disponibilização à pessoa jurídica brasileira, quando auferido em país com o qual exista tratado para evitar a dupla tributação da renda, será tornar letra morta o disposto no art. 7º de todas as convenções firmadas pelo Brasil, o que torna sua posição no contexto mundial bastante contraditória e controvertida. (GOMES, Marcus Lívio e Pinheiro Renata S. Cunha. A Lei nº 12.973/2014 e os tratados para evitar a dupla tributação da renda. In Estudos Tributários do II Seminário CARF / Confederação Nacional da Indústria; Conselho Administrativo de Recursos Fiscais CARF; Francisco Marconi de Oliveira, Marcus Lívio Gomes, Marcos Aurélio Pereira Valadão, Coordenadores. Brasília: CNI, 2017. Pág. 108). (destacouse) E o entendimento exarado pelo Superior Tribunal de Justiça, já é acompanhado pelos Tribunais pátrios, como se observa da ementa dos julgados abaixo citadas: TRIBUTÁRIO. IRPJ. CSLL. LUCROS AUFERIDOS POR EMPRESAS CONTROLADAS SEDIADAS NO EXTERIOR. TRATADOS INTERNACIONAIS PARA EVITAR A DUPLA TRIBUTAÇÃO. CONFLITO DE NORMAS. ART. 74, CAPUT, DA MP Nº 2.158 35/2001. PRINCÍPIO DA ESPECIALIDADE. PREVALÊNCIA DA NORMA VEICULADA NOS TRATADOS. TRIBUTAÇÃO EXCLUSIVA DOS LUCROS NO PAÍS DE DOMICÍLIO. REAVALIAÇÃO POSITIVA DOS INVESTIMENTOS EM CONTROLADAS SITUADAS NO EXTERIOR. NEUTRALIDADE DO MÉTODO DA EQUIVALÊNCIA PATRIMONIAL PARA FINS FISCAIS. ART. 23, PARÁGRAFO ÚNICO, DO DL Nº 1.598/1977. 1. Em matéria tributária, dispõe o art. 98 do CTN que os tratados e as convenções internacionais revogam ou modificam a legislação tributária interna, e serão observados pela que lhes sobrevenha. A doutrina adverte quanto à imprecisão técnica do dispositivo, porquanto não se trata, a rigor, de revogação da legislação interna, mas de suspensão da eficácia da norma tributária nacional, que readquirirá a sua aptidão para produzir efeitos se e quando o tratado for denunciado (Ricardo Lobo Torres). 2. A despeito da controvérsia no STF sobre a hierarquia normativa entre tratados em matéria tributária e lei interna, a questão se resolve no plano infraconstitucional. As disposições veiculadas nos tratados e convenções internacionais em matéria tributária, após se submeterem ao procedimento previsto no art. 49, inciso I, da CF, passam a integrar o ordenamento jurídico nacional. Eventual antinomia, assim, resolve se pelo princípio da especialidade, prevalecendo o regramento internacional naquilo que conflitar com a norma interna de tributação. A norma interna deixa de ser aplicada na hipótese específica regulada pelo tratado, mas continua válida e aplicável a todas as situações que Fl. 28878DF CARF MF Processo nº 16561.720111/201777 Resolução nº 1302000.702 S1C3T2 Fl. 28.879 33 não envolvem os sujeitos e os elementos de estraneidade definidos no tratado. Ocorre, dessa forma, a suspensão da eficácia da norma interna e não propriamente revogação ou modificação. 3. Entender que a superveniência de norma interna conflitante com o tratado internacional modificaria o regramento a ser aplicado implica denúncia implícita do acordo, sem a adoção dos procedimentos constitucionais e legais para tanto, desprezando, ademais, os princípios da boafé, da segurança e da cooperação que norteiam as relações internacionais. Em favor da prevalência dos tratados, cabe invocar não somente o art. 98 do CTN, mas também o art. 5º, § 2º, da Constituição Federal e o art. 27 do Decreto nº 7.030/2009, que promulga a Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados. 4. O Brasil firmou acordos visando a evitar a dupla tributação e a prevenir a evasão fiscal, em matéria de imposto de renda, com a China (Decreto nº 762/1993) e a Itália (Decreto nº 85.985/1981). Ambos oferecem tratamento uniforme à matéria, seguindo o Modelo de Acordo Tributário sobre Renda e Capital da OCDE. O art. 7º dos Tratados adota o princípio da residência no tocante à tributação dos lucros das empresas, estabelecendo a competência exclusiva do país de domicílio da empresa para a tributação de seus lucros. 5. O ponto nodal da controvérsia decorre do disposto no art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835/2001, que considera disponibilizados os lucros auferidos por controlada ou coligada no exterior para a controladora ou coligada no Brasil na data do balanço no qual tiverem sido apurados, independente de sua efetiva distribuição. 6. Equivocase a Fazenda Nacional ao sustentar que a tributação incide sobre os lucros obtidos por empresa sediada no Brasil, provenientes de fonte situada no exterior, na medida em que refletem positivamente no patrimônio da controladora, valorizando suas ações e demais ativos, pois a reavaliação positiva dos investimentos realizados em empresas controladas situadas no exterior não constitui renda tributável, conforme o disposto no parágrafo único do art. 23 do DL nº 1.598/1977 (na redação vigente até a Lei nº 12.973/2014). A norma do art. 74 da Medida Provisória nº 2.158 35/2001 em nada alterou o regime fiscal vigorante desde o art. 23 do DL nº 1.598/1977, que estabelece a neutralidade do método da equivalência patrimonial para efeitos fiscais, porque seu resultado positivo, relevante para a contabilidade, não é tributado. 7. Diante do evidente conflito do disposto no art. 74 da MP nº 2.15835, que determina a adição dos lucros obtidos pela empresa controlada no exterior, para o cômputo do lucro real da empresa controladora, na data do balanço no qual tiverem sido apurados, deve prevalecer a norma do art. 7º dos Decretos nº 762/1993 e nº 85.985/1981, a fim de evitar a tributação dos lucros das empresas controladas pela impetrante na China e na Itália. (TRF4, APELREEX 2003.72.01.0000144, PRIMEIRA TURMA, Relator JOEL ILAN PACIORNIK, D.E. 23/09/2015) (destacouse) IRPJ. CSLL. LUCROS AUFERIDOS POR EMPRESAS CONTROLADAS NO EXTERIOR. Considerando que as disposições dos Tratados Internacionais Tributários prevalecem sobre as normas de Direito Interno (conforme disposto no art. 98 do CTN e a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça acerca do tema REspº 1.325.709/RJ e REsp 1161467/RS), é descabida a cobrança de IRPJ e de CSLL sobre os lucros auferidos por empresa controlada situada no Fl. 28879DF CARF MF Processo nº 16561.720111/201777 Resolução nº 1302000.702 S1C3T2 Fl. 28.880 34 exterior. (TRF4, AC 2008.71.08.0066980, SEGUNDA TURMA, Relator RÔMULO PIZZOLATTI, D.E. 21/03/2016) (destacouse) Ademais, em diversas oportunidades, este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais enfrentou o tema sobre a tributação de lucro de controladas e coligadas de empresas brasileira que tenham domicílio no exterior. Vejase, neste sentido, ementa do julgado que se transcreveu parte do voto alhures (Processo administrativo de nº 12897.000193/201011 Acórdão nº 1103001.122): Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Ano calendário: 2005, 2006 IRPJ LUCROS DE CONTROLADAS NA HOLANDA DIVIDENDOS FICTOS LUCROS TRATADO ART. 10 OU ART. 7º 1 A tributação do art. 74 da MP 2.158/01 não recai sobre dividendos fictos. Não se pode empregar ficção legal para alcançar materialidade ou se antecipar seu aspecto temporal quando a Constituição Federal usa essa materialidade na definição de competência tributária dos entes políticos. Ademais, o art. 10 do Tratado BrasilHolanda trata dos dividendos pagos, não permitindo que se considerem como dividendos os distribuídos fictamente. O problema da qualificação de dividendos é resolvido pelo próprio art. 10 do Tratado BrasilHolanda. Inaplicabilidade do art. 10 do tratado. 2 O regime de CFC do Brasil do art. 74 da MP 2.158/01 considera transparente as controladas no exterior (entidade transparente ou passthrough entity): considera como auferidos pela investidora no País os lucros da investida no exterior; são os lucros em dissídio. Isso é considerar auferidos os lucros no exterior pela investidora no País, por intermédio de suas controladas no exterior. Não é o mesmo que ficção legal: é parecença com a consideração do lucro de grupo societário (tax group regime). O art. 7º do Tratado BrasilHolanda é norma de bloqueio: define competência exclusiva para tributação dos lucros da sociedade residente num Estado contratante a este Estado. Regra específica em face de regra geral. A não aplicação da norma de bloqueio do art. 7º aos lucros em dissídio seria simplesmente desconsiderar, no âmbito de tratado, a personalidade jurídica da sociedade residente na Holanda. No mesmo sentido, bastaria um dos Estados contratantes proceder a uma qualificação a seu talante do que (não) sejam lucros de controlada residente noutro Estado contratante, para frustrar norma de tratado que as partes honraram respeitar. Intributabilidade com o IRPJ dos lucros em discussão, pela aplicação do art. 7º do Tratado BrasilHolanda. IRPJ, CSLL LUCROS DE COLIGADA NA ARGENTINA ADI 2.588 DF No julgamento da ADI 2.588DF, com trânsito em julgado em 17/2/14, reconheceuse a inconstitucionalidade do art. 74 da MP 2.158/01 em relação a lucros de coligadas não situadas em “paraíso fiscal”. Efeitos do julgamento da ADI 2.588DF sobre os lucros da coligada residente na Argentina. Intributabilidade, no País, desses lucros. CSLL LUCROS DE CONTROLADAS NA HOLANDA TRATADO Sofrem incidência da CSLL os lucros das pessoas jurídicas controladas sediadas na Holanda. Fl. 28880DF CARF MF Processo nº 16561.720111/201777 Resolução nº 1302000.702 S1C3T2 Fl. 28.881 35 MULTA ISOLADA CONCOMITÂNCIA MULTA PROPORCIONAL Apenado o continente, incabível apenar o conteúdo. Penalizar pelo todo e ao mesmo tempo pela parte do todo seria uma contradição de termos lógicos e axiológicos. Princípio da consunção em matéria apenatória. A aplicação da multa de ofício de 75% sobre a CSLL exigida exclui a aplicação da multa de ofício de 50% sobre CSLL por estimativa dos mesmos anoscalendário. (Acórdão nº 1103001.122, sessão de 21/10/2014) Há de se ressaltar, inclusive, no que tange ao Tratado firmado com a Argentina, esta mesma Turma de Julgamento, em composição diversa da atual, digase, já privilegiou a aplicação das disposições do Tratado em detrimento do que preconiza o malfadado artigo 74 da MP nº 2.15835/2001. Vejase a ementa do acórdão: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Ano calendário: 2003, 2005, 2006 PROCESSUAL PRECLUSÃO. A impugnação deve trazer todos os argumentos e provas necessários à defesa do contribuinte, ressalvadas, apenas, as hipóteses descritas no art. 16 do Decreto 70.235, sob pena de preclusão. LUCROS APURADOS POR COLIGADA NO EXTERIOR. ADI 2.588 E A INCONSTITUCIONALIDADE PARCIAL DA MP 2.15835. Tratandose de lucros apurados por coligada estabelecida no exterior, em pais que não preveja tributação favorecida, há que prevalecer o entendimento do Supremo quando do julgamento da ADI 2.588, inclusive em respeito ao art. 62 do RICARF. MP 2.15835, ART. 74. AFASTAMENTO. TRATADO FIRMADO PELO BRASIL E PELA ARGENTINA. PREVALÊNCIA DESTE ÚLTIMO. Os lucros apurados por controlada sediada na Argentina não podem ser objeto de tributação pelo Brasil, em relação a sua controladora aqui sediada, a luz do que reza o art. 7º do Tratado BrasilArgentina. (Processo nº 16561.000111/200866 Acórdão nº 1302002.347 Sessão de 16/08/2017) Por fim, devese mencionar que deve ser aplicado à CSLL o aqui desenvolvido com relação ao IRPJ. É que o tratado firmado pelo Brasil (modelo OCDE) fala no item 3, do artigo 2 que a "convenção aplicase também a quaisquer impostos idênticos ou substancialmente semelhantes que forem estabelecidos após a data de sua assinatura, adicionalmente ou em substituição aos impostos mencionados no parágrafo 2.", sendo os impostos que incidem sobre a renda, como é o caso também da CSLL. Sabese que, tecnicamente, a CSLL, por ter o fruto de sua arrecadação uma destinação específica, não pode ser caracterizada como um imposto e sim como uma contribuição. Contudo, ele é substancialmente igual ao Imposto sobre a renda, em todos os seus aspectos de apuração. Ademais, não se pode olvidar que, à época da celebração do Tratado não havia entrado em vigor a Constituição Federal de 1988, que, na interpretação dada pelo STF (vide ADI nº 447), previu a existência de cinco espécies tributárias passíveis de serem instituídas. A cobrança da CSLL nos moldes hoje exigidos pela União Federal não era possível quando da celebração do tratado. Fl. 28881DF CARF MF Processo nº 16561.720111/201777 Resolução nº 1302000.702 S1C3T2 Fl. 28.882 36 Colocando uma pá de cal acerca dessa discussão, com o objetivo de interpretar a legislação, o artigo 11, da Lei nº 13.202/2015, estipulou, expressamente, que os tratados para evitar dupla tributação englobam também a CSLL. Vejase: Art. 11. Para efeito de interpretação, os acordos e convenções internacionais celebrados pelo Governo da República Federativa do Brasil para evitar dupla tributação da renda abrangem a CSLL. (destacouse) Neste sentido, por se tratar de uma lei interpretativa, os seus efeitos podem retroagir a fatos pretéritos, mesmo que ocorridos antes da entrada em vigor da legislação, nos exatos termos do comando do artigo 106 do Código Tributário Nacional, que diz que a lei será aplicada a atos e fatos pretéritos, "em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados". Por todo exposto, neste ponto, DÁSE PROVIMENTO ao Recurso Voluntário, para se cancelar os créditos tributários constituídos em decorrência dos lucros auferidos pelas empresas com sede na Argentina, quais sejam: Lambic AS; Hohneck Sociedade Anônima e Maltaria Pampa. Como no presente caso, se está dando, no mérito, provimento integral ao Recurso Voluntário e negandose provimento ao Recurso de Ofício, não há que se falar em análise aos argumentos subsidiários apresentados pela Recorrente, notadamente no que tange à exclusão da reserva legal do lucro tributável; a compensação dos impostos pagos no exterior e a incidência dos juros sobre as multas aplicadas. (assinado digitalmente) Flávio Machado Vilhena Dias VOTO VENCEDOR Paulo Henrique Silva Figueiredo Redator designado Acompanho o Relator quanto à improcedência das preliminares de ilegitimidade da distribuição ficta tratada pelo Art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, e de nulidade do lançamento. No mérito do Recurso Voluntário, porém, por possuir posição já conhecida no sentido da inexistência de antinomia entre o citado art. 74 e as regras trazidas pelas convenções firmadas pelo Brasil, nos moldes da ConvençãoModelo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico OCDE (posição, inclusive, majoritária neste Colegiado), considero necessários alguns esclarecimentos previamente ao julgamento. É que um dos pedidos da Recorrente é a compensação dos impostos pagos no exterior pelas controladas argentinas e pela Labatt e Ambev Luxemburgo. Neste sentido, caso seja negado provimento ao Recurso Voluntário, quanto à matéria de fundo, somente é possível a deliberação quanto ao pedido subsidiário, mediante a certeza acerca dos pagamentos invocados pela Recorrente. Fl. 28882DF CARF MF Processo nº 16561.720111/201777 Resolução nº 1302000.702 S1C3T2 Fl. 28.883 37 A Recorrente apresentou, junto com a Impugnação, farta documentação destinada à comprovação dos tributos pagos no exterior (fls. 9.323 a 11.215). A autoridade julgadora de primeira instância, porém, ao analisar o pleito de compensação, assim se manifestou sobre as provas reunidas aos autos: "Ora, ao compulsar o anexo à impugnacã̧o intitulado “doc. 06”, só constatei três únicos documentos relativos ao imposto de renda argentino (impuesto a las ganancias), quais sejam, os documentos: a fls. 9516, um comprovante de arrecadação no valor de 53,8 milhões de pesos; a fls. 9517, um comprovante de pagamento no valor de 172.289,97 pesos; e, a fls. 9518/9519, uma declaração que informa um saldo de imposto a favor do Fisco Argentino no valor de 59.097.515,83 pesos. Primeiro, os documentos de arrecadação apresentados (a fls. 9516 e 9517) não informam o nome/denominação do contribuinte que estaria recolhendo o tributo, razão pela qual sequer podemos garantir que seja de uma das controladas argentinas em tela. Segundo, o somatório dos valores supostamente pagos conforme referidos comprovantes não corresponde ao valor supostamente devido ao Fisco argentino (AFIP) na declaração a fls. 9517. Terceiro, é verdade que o documento de arrecadação argentino, por força do Acordo, por troca de notas, sobre Simplificação de Legalizações em Documentos Públicos, de 16 de outubro de 2003, publicado no Diário Oficial da União (DOU) em 23 de abril de 2004 (Seção 1, páginas 82 e 83), está dispensado de reconhecimento pelo Consulado da Embaixada Brasileira, mas, para ser aqui aceito, deveria ter sido reconhecido pelo órgão arrecadador argentino, conforme disposto no § 2º do art. 26 Lei 9.249/95. Com o Recurso Voluntário, o sujeito passivo reitera o pedido de compensação, formulando as seguintes considerações sobre a análise realizada pela instância julgadora: "Primeiramente, não considerou a r. decisão recorrida que nos termos da legislação aplicável (art. 14, parágrafo 6º da IN 213/2002), a Impugnante apresentou comprovantes de impostos pagos no exterior relativos a 4 (quatro) empresas nas quais possui participação societária (de forma direta ou indireta), conforme "Quadro de Estrutura Societária de 2012" de fls. 11.426: NCAQ S/A, Dunvegan S/A e Malteria Uruguay S/A, domiciliadas no Uruguai, e Malteria Pampa, com domicílio na Argentina. Em relação aos comprovantes dos impostos pagos no exterior relativos à empresa uruguaia Malteria Uruguay S/A, por exemplo, não considerou a r. decisão recorrida que os formulários 2176 apresentados referemse às antecipações mensais (a exemplo da nossa legislação) relativas porém a diversos tributos dentre os quais o equivalente ao nosso imposto de renda (IRAE), havendo no referido formulário, como por exemplo se verifica do formulário de fls. 11.469/11.474 a identificação do contribuinte ("RUBRO 1"), o período a que se refere a declaração, constando no "RUBRO 4", linha 34, o valor do imposto a ser antecipado "IRAE anticipo a pagar", no "RUBRO 7" um quadro resumo dos tributos a pagar (total dos créditos, total dos débitos e saldo devedor), sendo o "saldo devedor" apurado pago de 2 formas: uma diretamente em instituição bancária e outra Fl. 28883DF CARF MF Processo nº 16561.720111/201777 Resolução nº 1302000.702 S1C3T2 Fl. 28.884 38 mediante o denominado "pagos a cuenta" (dedução de valores já anteriormente pagos, de forma antecipada), o que explica a suposta "divergência" apontada pela r. decisão recorrida entre o valor do imposto apurado como devido e o comprovante do imposto pago perante a instituição bancária ("Boletos de Pago"). A r. decisão recorrida não considerou também que os formulários 2149 referemse às apurações anuais de tributos no país uruguaio, equivalentes à DIPJ, que indicam o valor do IRAE apurado como devido no ano e que deve ser considerado como crédito em favor da Recorrente, o mesmo ocorrendo em relação aos formulários 713 do país argentino, sendo que tanto no Uruguai como na Argentina o exercício social tem início em outubro de um determinado ano civil e encerramento em setembro do ano seguinte. Outrossim, não considerou ainda a r. decisão recorrida que em relação às empresas NCAQ S/A e Dunvegan S/A, a Recorrente juntou todos os comprovantes de recolhimento de IRRF (DARFs) do período relativos a juros de empréstimos contraídos pela Recorrente junto a empresas ligadas no exterior, conforme contratos de câmbio apresentados, cujos valores compuseram os lucros das referidas empresas no exterior. Portanto, além dos documentos de arrecadação de fls. 9516/9517 há diversos outros documentos juntados às fls. 11.439 a 12.504 dos autos que comprovam os impostos pagos no exterior e que não foram considerados pela fiscalização. Por fim, diante da alegação da r. decisão recorrida de que só encontrou 3 únicos documentos relativos ao imposto de renda, a Recorrente vem apresentar os documentos anexos (doc. j.), que correspondem em parte aos documentos já apresentados com a defesa no doc. 06, e em parte a alguns documentos adicionais, os quais todavia foram organizados de forma mais sistemática para melhor compreensão desses documentos, que comprovam o pagamento do imposto no exterior." Isto posto, voto por converter o presente julgamento em diligência, para este processo retorne à Unidade de origem, de modo a que a autoridade administrativa se manifeste sobre se os documentos juntados pelo Recorrente (fls. 27.633 a 28.786) comprovam os tributos pagos no exterior e atendem as exigências previstas na legislação, para o seu aproveitamento no Brasil. Para a realização da Diligência, a autoridade administrativa poderá intimar o sujeito passivo a apresentar esclarecimentos, justificativas e documentos complementares, que entender necessários à análise demandada, incluindo, dentre outros pontos (caso inexistentes nos autos): a) o esclarecimento, de forma clara e objetiva, do vínculo societário e do percentual de participação relativo a cada empresa cujo pagamento no exterior estiver sendo objeto de pedido de compensação; b) a apresentação, de forma objetiva, do demonstrativo de que o lucro relativo aos valores a serem compensados foi oferecido à tributação, no país de origem, de forma deixar Fl. 28884DF CARF MF Processo nº 16561.720111/201777 Resolução nº 1302000.702 S1C3T2 Fl. 28.885 39 clara a composição dos totais constantes das declarações, bem como os correspondentes documentos contábeis; c) a apresentação do demonstrativo de cálculo do limite de compensação, nos termos do § 1º do artigo 395 do RIR/99, individualizados por empresa no exterior; d) a apresentação dos comprovantes de quitação consularizados, ou, a comprovação de que eles são legítimos, o que pode ser feito com a juntada da lei que estabelece sua utilização com tradução juramentada; e) a apresentação do demonstrativo de conversão para o Real dos impostos pagos no exterior; Após o término dos trabalhos, a autoridade fiscal deve produzir relatório circunstanciado, descrevendo suas análises e conclusões daí resultantes, dele cientificando a interessada, abrindo prazo de 30 dias para o exercício do contraditório. Após, reencaminhese o processo à este Colegiado para continuação do julgamento. (assinado digitalmente) Paulo Henrique Silva Figueiredo Fl. 28885DF CARF MF
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Numero do processo: 10875.002303/2005-44
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Dec 12 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Jan 24 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/07/2005 a 31/07/2005
NÃO CONHECIMENTO. RECURSO ESPECIAL. FUNDAMENTOS AUTÔNOMOS. AUSENTE COMPROVAÇÃO DA DIVERGÊNCIA.
Não se conhece de recurso especial quando o acórdão recorrido assenta-se em mais de um fundamento, todos autônomos e suficientes para manutenção do acórdão recorrido e a parte não traz divergência jurisprudencial com relação a todos eles.
Além disso, igualmente não se pode conhecer do recurso especial quando, com relação ao fundamento atacado, a Recorrente não traz acórdão paradigma apto a comprovar a divergência jurisprudencial em razão da ausência de similitude fática.
Numero da decisão: 9303-007.814
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Especial.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Vanessa Marini Cecconello - Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas.
Nome do relator: VANESSA MARINI CECCONELLO
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RECURSO ESPECIAL. FUNDAMENTOS AUTÔNOMOS. AUSENTE COMPROVAÇÃO DA DIVERGÊNCIA. Não se conhece de recurso especial quando o acórdão recorrido assentase em mais de um fundamento, todos autônomos e suficientes para manutenção do acórdão recorrido e a parte não traz divergência jurisprudencial com relação a todos eles. Além disso, igualmente não se pode conhecer do recurso especial quando, com relação ao fundamento atacado, a Recorrente não traz acórdão paradigma apto a comprovar a divergência jurisprudencial em razão da ausência de similitude fática. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Especial. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Vanessa Marini Cecconello Relatora AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 87 5. 00 23 03 /2 00 5- 44 Fl. 1215DF CARF MF Processo nº 10875.002303/200544 Acórdão n.º 9303007.814 CSRFT3 Fl. 1.216 2 Participaram do presente julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas. Relatório Tratase de recurso especial de divergência interposto pela Contribuinte VISTEON SISTEMAS AUTOMOTIVOS LTDA com fulcro nos artigos 67 e seguintes do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 256/09, buscando a reforma do Acórdão nº 3302002.894 proferido pela 2ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da Terceira Seção de Julgamento, em 08 de dezembro de 2015, no sentido de negar provimento ao recurso voluntário, com ementa nos seguintes termos: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/07/2005 a 31/07/2005 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. PROVA. Cabe ao contribuinte o ônus de comprovar as alegações que oponha ao ato administrativo. Inadmissível a mera alegação da existência de um direito sem os documentos fiscais comprobatórios de suas alegações. COMPENSAÇÃO TRIBUTÁRIA Somente os créditos líquidos e certos são passíveis de compensação nos termos do artigo 170 do Código Tributário Nacional. Recurso Voluntário Negado Direito Creditório Não Reconhecido A Turma a quo entendeu por negar provimento ao recurso voluntário da Contribuinte pois, em síntese, não teria ela se desincumbido do ônus de comprovar o seu direito creditório, bem como em razão da impossibilidade de apreciação dos argumentos trazidos pela Recorrente somente na via recursal e cujo litígio não foi instaurado desde a primeira instância. Além disso, no acórdão recorrido, foi consignado ter ocorrido a juntada de documentos pelo Sujeito Passivo em data posterior ao próprio julgamento do recurso voluntário, corroborando a afirmação contida no decisum de não insurgência da Contribuinte, por meio de manifestação de inconformidade, quanto ao segundo Termo de Constatação Fiscal, deixando transcorrer in albis o prazo para a sua defesa. Fl. 1216DF CARF MF Processo nº 10875.002303/200544 Acórdão n.º 9303007.814 CSRFT3 Fl. 1.217 3 Em face da referida decisão, a Contribuinte opôs embargos de declaração, os quais foram rejeitados conforme despacho s/n.º, por inexistir quaisquer vícios de omissão, obscuridade ou contradição no julgado. Não resignada, a empresa interpôs recurso especial alegando divergência jurisprudencial quanto à (a) apreciação de provas trazidas em sede recursal, nos termos do art. 16 do Decreto n.º 70.235/72; e (b) aplicação da regra da preclusão, consoante art. 17 do Decreto n.º 70.235/72, com relação à possibilidade de apreciação dos argumentos suscitados apenas em sede de recurso voluntário e cuja controvérsia não foi instaurada em primeira instância administrativa. Para comprovar o dissenso interpretativo, colacionou como paradigmas os acórdãos n.ºs 9303001.842 e 910100.514, respectivamente. Foi admitido o recurso especial do Sujeito Passivo por meio do despacho S/Nº, de 18 de janeiro de 2017, proferido pelo ilustre Presidente da 3ª Câmara da Terceira Seção de Julgamento, por entender comprovada a divergência jurisprudencial quanto à apresentação extemporânea de documentos e à aplicação da regra da preclusão. A Fazenda Nacional apresentou contrarrazões postulando, preliminarmente, o não conhecimento do recurso especial, por ausência de cotejo analítico e de similitude fática entre os acórdãos recorrido e paradigmas, e, no mérito, a sua negativa de provimento. O presente processo foi distribuído a essa Relatora, estando apto a ser relatado e submetido à análise desta Colenda 3ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais 3ª Seção de Julgamento do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais CARF. É o Relatório. Voto Conselheira Vanessa Marini Cecconello, Relatora Admissibilidade O recurso especial de divergência interposto pela Contribuinte é tempestivo, restando analisarse o atendimento aos demais pressupostos de admissibilidade constantes no art. 67 do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015 (anterior Portaria MF n.º 256/09). Depreendese da análise do acórdão recorrido ter o mesmo fundamento em dois pontos: (a) não ter a Contribuinte se desincumbido do seu ônus probatório com relação ao crédito pleiteado, bem como (b) ausência de apresentação de defesa com relação ao segundo Termo de Constatação Fiscal no prazo legal estabelecido, o que foi corroborado pela juntada de documentos após o julgamento do recurso voluntário, impossibilitando a sua apreciação. Para elucidar a assertiva, pertinente a transcrição de trechos do acórdão recorrido, in verbis: Fl. 1217DF CARF MF Processo nº 10875.002303/200544 Acórdão n.º 9303007.814 CSRFT3 Fl. 1.218 4 [...] No presente caso, a regra acima quanto ao ônus probatório, se inverte, incumbindo ao autor a prova quanto ao fato constitutivo do seu direito. No caso em exame, a interessada declarou à Administração Tributária possuir um montante de crédito, utilizado para extinguir os débitos compensados. Nesses termos, cabe à interessada a prova da existência de seu direito, demonstrando a liquidez e certeza dos créditos alegados, utilizados para extinção do crédito tributário sob condição resolutória, através da apresentação ao fisco, quando solicitado, dos livros e documentos estabelecidos pela legislação para a comprovação da exatidão de suas informações. [...] Conforme relatado, a DCOMP apresentada foi submetida a análise pela autoridade competente para decidir acerca do direito pleiteado: ∙ Seort da DRF/Guarulhos emitiu o Despacho Decisório n° 536/2009, por meio do qual não homologou a compensação, sob o fundamento de que a documentação apresentada pela contribuinte em resposta às diversas intimações seria insuficiente para reconhecimento do crédito pleiteado, registrando ainda que o contribuinte não atendeu integralmente as intimações nos prazos fixados, deixando de apresentar elementos essenciais ao exame do pleito, Restando não homologados os créditos pleiteados, demonstrase a seguir de forma sumarizada os desdobramentos e tramitação processual respectivos. Uma vez nãohomologada a compensação declarada à Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB), é facultada ao sujeito passivo a apresentação de manifestação de inconformidade às Delegacias da Receita Federal do Brasil de Julgamento DRJ contra a nãohomologação da compensação pela autoridade competente para decidir o pleito (no prazo de trinta dias da ciência da nãohomologação), assim como a apresentação de recurso ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais CARF contra o acórdão das DRJ que manteve a não homologação da compensação (no prazo de trinta dias da ciência do acórdão), conforme previsão dos §§ 7º a 10 do art. 74 da Lei nº 9.430, de 1996. Usando da faculdade que lhe o confere o referenciado dispositivo legal, o contribuinte ingressou com a Manifestação de Inconformidade acompanhada dos documentos de fls. 273/554. Na sequência, a 3ª Turma da DRJ/Campinas decidiu converter o julgamento em diligência, por meio da Resolução nº 2.961, de 14/06/2010. [...] Ante o exposto constatase que foram feitas várias intimações, antes de ser exarado o Despacho Decisório não homologatório de fls. n° 536/2009 e ainda, após instaurado o litígio, a instância julgadora a quo, diante da novel documentação apresentada na Manifestação de Inconformidade converteu o julgamento em diligência, em razão de sua competência regimental, nos termos do 1art.233, inciso IV, da Portaria MF nº 203, de 2012, DOU de Fl. 1218DF CARF MF Processo nº 10875.002303/200544 Acórdão n.º 9303007.814 CSRFT3 Fl. 1.219 5 17/05/2012, que aprova o Regimento Interno da Secretaria da Receita Federal do Brasil RFB para julgamento de litígio instaurando em decorrência de apresentação de inconformidade contra apreciações das autoridades em processos relativos a compensação, para que a autoridade jurisdicionante, competente para decidir o pleito procedesse a análise da documentação apresentada, ensejando em decorrência os dois termos de constatação fiscal acima mencionados, sendo importante ressaltar que ao exarar o primeiro Termo de Constatação, após cientificado, o contribuinte solicitou prazo adicional para apresentação de documentos, sendo acolhido, se não expressamente, de maneira tácita, já que novos documentos foram apreciados, resultando no segundo Termo de Constatação Fiscal, fls. 713/717. Verificase assim que quanto ao aspecto material, visando conferir a liquidez e certeza do crédito alegado, foi procedida a verificação junto ao contribuinte do suporte probatório que lhe competia demonstrar, conforme dispõe a legislação de regência, quantos às operações que ensejariam referido crédito, no entanto como já sobejamente explicitado, o contribuinte ofereceu apenas parte da documentação, que se mostrou insuficiente para homologar totalmente o crédito pleiteado. Digno de nota que embora regularmente cientificado do segundo Termo de Constatação Fiscal, declinou o contribuinte de exercer o seu direito de defesa, já que não houve a contestação na Manifestação de Inconformidade quanto ao referido termo. Inferese portanto que o contribuinte não desincumbiu do ônus probatório que lhe competia para demonstrar a certeza e liquidez de seu crédito. Inexistindo contestação acerca do segundo termo de contestação a instância a quo procedeu ao julgamento com a apreciação das matérias litigadas na Manifestação de Inconformidade apresentada e o resultado da diligência solicitada, cujo conteúdo decisório se demonstra a seguir, por alguns excertos: [...] Do ponto de vista formal, com fulcro no art. 17 do Decreto nº 70.235, de 1972, com a redação da Lei nº 9.532, de 1997, [Art. 17. Considerarseá não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo impugnante. (Redação dada pelo art. 67 da Lei n.º 9.532/1997), assim os argumentos de mera presunção quanto ao direito à via recursal, ainda que silente em relação à primeira instância, não podem ser acolhidos, uma vez que as matérias submetidas à primeira instância determinam os limites do litígio na via contenciosa administrativa, de modo que a matéria não contestada em primeira instância administrativa, suscitada pela recorrente somente na peça recursal, tornase preclusa, visto que não instaurado o litígio quanto à essa matéria, condição, segundo a norma que rege o processo administrativo fiscal para submeterse ao duplo grau de jurisdição. [...] Digno ainda de nota que a solicitação de juntada de documentos em 15/12/2015, conforme relatado foi efetuada após o julgamento do presente processo, corroborando a fundamentação já delineada quanto a não Fl. 1219DF CARF MF Processo nº 10875.002303/200544 Acórdão n.º 9303007.814 CSRFT3 Fl. 1.220 6 apresentação de manifestação de inconformidade relativa ao segundo Termo de Constatação no prazo legal estabelecido com os motivos de fato e de direito para fundamentar sua contestação, bem como os pontos de discordância, as razões e provas que visassem infirmar o referido termo. Assim os documentos apresentados somente em 15/12/2015 não encontram respaldo nas disposições excepcionais previstas nos §§ 4º, 5º e 6º do art. 16 do Decreto nº 70.235, de 1972 e alterações respectivas: [...] Nesse mister, ante os fundamentos acima expostos deixo de conhecer a contestação somente em sede recursal quanto ao segundo Termo de Constatação Fiscal, fls. 713/717, mantendo in totum a decisão de piso, bem como os documentos cuja solicitação de juntada foi posterior ao julgamento do presente processo. [...] A Contribuinte, ao apresentar o seu recurso especial, insurgiuse tão somente quanto ao argumento da análise de provas apresentadas posteriormente à manifestação de inconformidade e à preclusão, não tendo realizado a comprovação da divergência com relação à atribuição do ônus probatório. Assentandose a decisão em mais de um fundamento, sendo eles autônomos entre si para a manutenção do julgado, é necessário que a parte se insurja quanto a todos eles para que tenha prosseguimento o recurso especial. Nesse sentido é a Súmula do STF n.º 283: " É inadmissível o recurso extraordinário, quando a decisão recorrida assenta em mais de um fundamento suficiente e o recurso não abrange todos eles". Além disso, com relação ao tema de insurgência análise de provas juntadas aos autos após a manifestação de inconformidade e preclusão não houve a devida comprovação da divergência jurisprudencial por meio dos paradigmas apresentados, conforme despacho de exame de admissibilidade exarado no processo n.º 16098.000064/200955, do mesmo Contribuinte, o qual tem idênticos acórdãos recorrido e paradigmas. Naqueles autos, a negativa de seguimento ao apelo especial deuse em razão da ausência de comprovação do dissenso interpretativo, com base nos seguintes argumentos, que passam a integrar o presente julgado: [...] 1 – COFINS – PROVA – APRECIAÇÃO DE PROVAS APRESENTADAS EXTEMPORANEAMENTE – ART. 16 DO DECRETO Nº 70.235/72 Para comprovar o dissenso foi colacionado, como paradigma, o Acórdão nº CSRF/9303001.842. Vejamos sua ementa: [...] Fl. 1220DF CARF MF Processo nº 10875.002303/200544 Acórdão n.º 9303007.814 CSRFT3 Fl. 1.221 7 Inicialmente importa ressaltar que o recurso especial é remédio para solução de divergências na interpretação da legislação tributária. Não cabe à Instância Especial a reapreciação do conjunto probatório. A recorrente parte da premissa equivocada de que o acórdão recorrido teria rechaçado a possibilidade de apreciar provas apresentadas extemporaneamente. Tal não se deu. Não há decisão, no acórdão recorrido, que negue a apreciação das provas apresentadas a destempo, em tese. A rejeição às provas juntadas extemporaneamente, no presente caso, fundamentase no fato material de terem sido apresentadas, conforme a exposição da relatora, depois da data julgamento do acórdão recorrido. Sustenta a recorrente que o acórdão recorrido teria cometido equívoco, ao considerar a data da apresentação das provas em 15/12/2015, quando, alega, foram apresentadas em 01/12/2015. Alega ainda que tal circunstância foi objeto de sustentação oral, porém não acatada pela Turma (folha 1.177 e 1.178). Tais alegações foram rebatidas, em despacho de admissibilidade de embargos, em outros processos da empresa julgados na mesma sessão pela Turma. Neste presente processo os embargos foram rejeitados porque intempestivos. De qualquer modo, o que resta é que o fundamento do acórdão recorrido, neste aspecto, é a ausência das provas quando do julgamento, portanto, decorre a incomparabilidade com o paradigma apresentado. Assim, sendo diversos os fundamentos dos arestos comparados, não há demonstração de divergência jurisprudencial quanto a esta matéria. 2 – COFINS – MATÉRIA PRECLUSA ART. 17 DO DECRETO Nº 70.235/72 Para comprovar o dissenso foi colacionado, como paradigma, o Acórdão nº CSRF/910100.514. Vejamos sua ementa, transcrita na parte de interesse ao presente exame: [...] O paradigma expressa a tese de que, no contexto da apreciação do instituto da preclusão, previsto no art. 17 do Decreto nº 70.235/72, devese diferenciar a “defesa” dos “fundamentos de defesa”. A primeira não poderia ser inovada, enquanto os segundos, sim. Em outras palavras, a preclusão incidiria sobre as infrações cometidas e não defendidas, isto é, se todas as infrações tiverem sido contestadas em recurso inicial, eventual recurso a instância superior poderia apresentar novas teses jurídicas. Porém, o acórdão recorrido considerou que o contribuinte não apresentou nenhuma defesa nem defesa, nem fundamentos de defesa perante as infrações apontadas no resultado da diligência fiscal, resultado da diligência fiscal que restou convalidado pela DRJ. Com efeito, o acórdão recorrido relata que o contribuinte foi intimado a manifestarse acerca dos resultados da diligência fiscal que calculou o crédito afinal acatado pela instância julgadora a quo e não o tendo feito, não remanesceu qualquer litígio. Confirase trecho (folha 966): [...] Fl. 1221DF CARF MF Processo nº 10875.002303/200544 Acórdão n.º 9303007.814 CSRFT3 Fl. 1.222 8 Ressalto que fato de o cálculo ter sido feito apenas em sede de diligência fiscal solicitada pela DRJ foi responsabilidade do contribuinte, posto que não apresentou, na fase anterior, os documentos solicitados. Portanto, a responsabilidade para que a oportunidade de defesa sobre as infrações apontadas tenha se dado após a manifestação de inconformidade também é do contribuinte. [...] Portanto, nenhuma das infrações e diferenças de cálculo apontadas na referida diligência fiscal final foi objeto de “defesa” ou “fundamentos de defesa” por parte do contribuinte, na primeira instância administrativa. Desse modo, a distinção vazada pelo paradigma se revela inócua no presente caso, razão pela qual concluise que não foi demonstrada a divergência quanto a esta matéria. [...] Diante do exposto, não se conhece do recurso especial da Contribuinte. É o voto. (assinado digitalmente) Vanessa Marini Cecconello Fl. 1222DF CARF MF
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Numero do processo: 15954.000026/2010-36
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Jan 31 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Thu Feb 14 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Obrigações Acessórias
Data do fato gerador: 31/01/2010
MULTA ATRASO ENTREGA DACON. PRECLUSÃO. INOVAÇÃO DE DEFESA. NÃO CONHECIMENTO.
Considerar-se-á não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pela impugnante, precluindo o direito de defesa trazido somente no Recurso Voluntário. O limite da lide circunscreve-se aos termos da Impugnação Administrativa.
Recurso Voluntário Não Conhecido.
Numero da decisão: 3402-006.124
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, não conhecer do Recurso Voluntário.
(assinado digitalmente)
Waldir Navarro Bezerra - Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Waldir Navarro Bezerra, Rodrigo Mineiro Fernandes, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo, Thais De Laurentiis Galkowicz e Cynthia Elena de Campos.
Nome do relator: WALDIR NAVARRO BEZERRA
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PRECLUSÃO. INOVAÇÃO DE DEFESA. NÃO CONHECIMENTO. Considerarseá não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pela impugnante, precluindo o direito de defesa trazido somente no Recurso Voluntário. O limite da lide circunscrevese aos termos da Impugnação Administrativa. Recurso Voluntário Não Conhecido. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, não conhecer do Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Waldir Navarro Bezerra, Rodrigo Mineiro Fernandes, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo, Thais De Laurentiis Galkowicz e Cynthia Elena de Campos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 95 4. 00 00 26 /2 01 0- 36 Fl. 36DF CARF MF Processo nº 15954.000026/201036 Acórdão n.º 3402006.124 S3C4T2 Fl. 3 2 Relatório Tratase de Notificação de Lançamento para exigência de multa por atraso de entrega do DACON. Inconformada, a empresa apresentou Impugnação Administrativa, alegando problemas com o provedor da internet, julgada improcedente nos termos do Acórdão da DRJ nº 09042.642. Intimada desta decisão, a empresa apresentou Recurso Voluntário tempestivo alegando, em síntese, que a impugnação apresentada configurou forma de denúncia espontânea, sendo o tributo autodeclarado pela empresa antes de qualquer procedimento administrativo. É o relatório. Voto Conselheiro Waldir Navarro Bezerra O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3402006.109, de 31 de janeiro de 2019, proferido no julgamento do processo 10840.000562/201003, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevemse, como solução deste litígio, nos termos regimentais, os entendimentos que prevaleceram naquela decisão (Resolução 3402006.109): "Não obstante o Recurso Voluntário seja tempestivo, observese que os argumentos de mérito nele desenvolvidos não foram levados à análise da Delegacia de Julgamento, não merecendo ser conhecido. Com efeito, em seu Recurso Voluntário, sustenta a Recorrente, exclusivamente, a ocorrência de suposta denúncia espontânea, com fulcro no art. 138, do CTN. Por sua vez, em sua impugnação, a empresa se ateve a afirmar o descabimento da multa em razão dos problemas incorridos no provedor da internet. Observase, portanto, que a Recorrente pretende que seja aqui analisada matéria que não foi objeto de Impugnação e que não foi analisada pela DRJ (denúncia espontânea). Assim, como a discussão travada no Recurso Voluntário se restringe à matérias que não foram trazidas em sede de Impugnação, sua análise restou preclusa nesta instância administrativa, na forma Fl. 37DF CARF MF Processo nº 15954.000026/201036 Acórdão n.º 3402006.124 S3C4T2 Fl. 4 3 do art. 17 do Decreto n.º 70.235/721. Com isso, não se tratando de matérias passíveis de serem conhecidas de ofício por este colegiado, delas não tomo conhecimento sob pena de supressão de instância e de ferir o devido processo legal. Nesse sentido é o entendimento deste E. CARF: "Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/12/2003 a 31/12/2003 PRECLUSÃO. INOVAÇÃO DE DEFESA. NÃO CONHECIMENTO Considerarseá não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pela manifestante, precluindo o direito de defesa trazido somente no recurso voluntário. O limite da lide circunscrevese aos termos da manifestação de inconformidade." (Processo 10875.903610/200978 Relator Juliano Eduardo Lirani Acórdão n.º 3803004.666. Unânime grifei) Diante do exposto, voto por não conhecer do Recurso Voluntário." Importa registrar que nos autos ora em apreço, a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada no paradigma, de tal sorte que o entendimento lá esposado pode ser perfeitamente aqui aplicado. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o colegiado decidiu por não conhecer do Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra 1 "Art. 17. Considerarseá não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo impugnante." Fl. 38DF CARF MF
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