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Numero do processo: 13896.910978/2011-57
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Mar 28 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Apr 20 00:00:00 UTC 2017
Numero da decisão: 3402-000.923
Decisão: Resolvem os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência.
(assinado digitalmente)
Antônio Carlos Atulim - Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Antonio Carlos Atulim, Jorge Freire, Diego Diniz Ribeiro, Waldir Navarro Bezerra, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto.
Nome do relator: ANTONIO CARLOS ATULIM
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Recorrida FAZENDA NACIONAL Resolvem os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência. (assinado digitalmente) Antônio Carlos Atulim Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Antonio Carlos Atulim, Jorge Freire, Diego Diniz Ribeiro, Waldir Navarro Bezerra, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto. Relatório Tratase de recurso voluntário interposto em face da decisão proferida pela Delegacia da Receita Federal de Julgamento (“DRJ”) de Fortaleza/CE que julgou improcedente a manifestação de inconformidade apresentada pela Contribuinte, a qual pretendeu a reforma do despacho decisório que, por sua vez, indeferiu a homologação da compensação de créditos da Contribuição ao Programa de Integração Social (“PIS”) com outros tributos administrados pela Receita Federal do Brasil. Por bem consolidar os fatos ocorridos até a decisão da DRJ, colaciono o relatório do acórdão recorrido in verbis: Consta no referido Despacho Decisório o seguinte motivo para indeferimento do Pedido: A partir das características do DARF discriminado no PER/DCOMP acima identificado, foram localizados um ou mais pagamentos, abaixo relacionados, mas integralmente utilizados para quitação de débitos do RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 38 96 .9 10 97 8/ 20 11 -5 7 Fl. 99DF CARF MF Processo nº 13896.910978/201157 Resolução nº 3402000.923 S3C4T2 Fl. 112 2 Contribuinte, não restando crédito disponível para compensação dos débitos informados no PER/DCOMP. ... De acordo com a Defesa, as operações que destinem mercadorias à Zona Franca de Manaus – ZFM se equiparam, para todos os efeitos fiscais, a uma exportação para o exterior, conforme disposto no art. 4º da Decretolei nº 288/1967. O disposto no referido artigo foi recepcionado pelo art. 40 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias – ADCT, que garante a manutenção do referido benefício por prazo determinado. No entanto, o § 2º, inciso I, do art. 14 da Medida Provisória nº 1.858/1999, posteriormente reeditada pela Medida Provisória nº 2.037/2000, excluiu da isenção das receitas de exportação das Contribuições PIS/COFINS, as vendas efetuadas a Empresas instaladas na Zona Franca de Manaus. Ocorre que o Plenário do Supremo Tribunal Federal, no julgamento de Medida Cautelar na Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 2.348, em 07/12/2000, por unanimidade, concedeu a liminar pleiteada, para “suspender a eficácia do artigo 51 da Medida Provisória nº 2.03724, de 23 de Novembro de 2000, relativamente ao inciso I do § 2º do artigo 14 quanto à expressão ‘na Zona Franca de Manaus’ ”. Assim, tendo em vista a suspensão da eficácia do disposto no art. 14, § 2º, inciso I, quanto às Empresas instaladas na Zona Franca de Manaus, entende o Manifestante que restou assegurada a isenção das Contribuições PIS/COFINS sobre a receita de vendas efetuadas à Empresa estabelecida na citada região. Com efeito, nos termos do art. 165 do Código Tributário Nacional, deve ser reconhecido o direito à restituição dos valores indevidamente recolhidos pelo Manifestante. Sobreveio então o Acórdão 0831.121, da 3ª Turma da FOR/CE, negando provimento à manifestação de inconformidade da Contribuinte, cuja ementa foi lavrada nos seguintes termos: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2000 Ementa: PEDIDO DE COMPENSAÇÃO. INEXISTÊNCIA DO DIREITO CREDITÓRIO. Mantémse o Despacho Decisório de não homologação da compensação, quando a Defesa não comprova a certeza e liquidez do crédito pretendido. Irresignada, a Contribuinte apresentou Recurso Voluntário a este Conselho repisando os argumentos trazidos em sede de manifestação de inconformidade, bem como apresentando notas fiscais por amostragem que dizem respeito às vendas à Zona Franca de Manaus, o que, no seu entender, suprimiria o problema da falta de prova Fl. 100DF CARF MF Processo nº 13896.910978/201157 Resolução nº 3402000.923 S3C4T2 Fl. 113 3 É o relatório Voto Conselheiro Antônio Carlos Atulim, relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido na Resolução nº 3402000.905, de 28 de março de 2017, proferida no julgamento do processo 13896.910963/201199, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu na Resolução 3402000.905: "Como se depreende do relato acima, o pedido de restituição da Recorrente fundase na alegação de ter tributado indevidamente a Contribuição ao PIS sobre receitas de vendas de produtos à estabelecimentos localizados na Zona Franca de Manaus, sendo que tais receitas seriam isentas pela legislação federal, uma vez que foram equiparadas às exportações (artigo 4º do Decreto lei nº 288/1967). Tal direito ao indébito, em tese, foi reconhecido pelo julgamento da DRJ, que somente não conferiu o direito em concreto por falta de provas a certeza e liquidez do crédito pretendido. Para suprir tal falta, a Recorrente trouxe em seu recurso voluntário cópias de notas fiscais de vendas, do período em questão, de bens para empresas localizadas na Zona Franca de Manaus. Tais provas, apesar de induzirem à conclusão do direito ao crédito, não lhe confere certeza e liquidez, de modo que não foi completamente suprido o ônus da prova da Recorrente, nos moldes do artigo 373 do Código de Processo Civil, uma vez que se trata de pedido de restituição de indébito, de sua iniciativa. Assim é que tem decidido esse Colegiado, conforme se depreende do conteúdo do Acórdão 3402002.881. 1 Pelos os motivos acima expostos, justifico a necessidade de conversão do presente processo em diligência, como requer o artigo 18 caput do Decreto 70.235/72 (PAF), para o arremate do convencimento deste Colegiado sobre os fatos em discussão. Para tanto, devem ser tomadas as seguintes providências pela Repartição Fiscal de origem: i) analisar os documentos adequados para a verificação do crédito, quais sejam: o Demonstrativo de Apuração da Contribuição ao PIS, cópias das folhas dos livros fiscais (Registro de Saídas e de Apuração 1 Nas palavras do Conselheiro Relator do caso, Antonio Carlos Atulim: “É certo que a distribuição do ônus da prova no âmbito do processo administrativo deve ser efetuada levandose em conta a iniciativa do processo. Em processos de repetição de indébito ou de ressarcimento, onde a iniciativa do pedido cabe ao contribuinte, é óbvio que o ônus de provar o direito de crédito oposto à Administração cabe ao contribuinte. Já nos processos que versam sobre a determinação e exigência de créditos tributários (autos de infração), tratandose de processos de iniciativa do fisco, o ônus da prova dos fatos jurígenos da pretensão fazendária cabe à fiscalização (art. 142 do CTN e art. 9º do PAF). Assim, realmente andou mal a turma de julgamento da DRJ, pois o ônus da prova incumbe a quem alega o fato probando. Se a fiscalização não provar os fatos alegados, a consequência jurídica disso será a improcedência do lançamento em relação ao que não tiver sido provado e não a sua nulidade." Fl. 101DF CARF MF Processo nº 13896.910978/201157 Resolução nº 3402000.923 S3C4T2 Fl. 114 4 do ICMS ou do IPI) e contábeis (Razão) do respectivo período de apuração do crédito pleiteado, notas fiscais, entre outros; ii) elaborar relatório conclusivo a respeito do crédito pleiteado; iii) dar ciência do Relatório à Recorrente, abrindolhe prazo regulamentar para manifestação; e iv) devolver o processo para esta 2ª Turma Ordinária, da 4ª Câmara, 3ª Seção do CARF, para prosseguimento do julgamento. Importante registrar que os documentos apresentados pelo contribuinte no paradigma são os mesmos que instruem o presente processo, de tal sorte que os elementos que justificaram a conversão do julgamento em diligência no caso daquele também se justificam neste. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, determino a conversão do autos em diligência para que a Repartição Fiscal de origem adote as seguintes providências: i) analisar os documentos adequados para a verificação do crédito, quais sejam: o Demonstrativo de Apuração da Contribuição ao PIS/COFINS, cópias das folhas dos livros fiscais (Registro de Saídas e de Apuração do ICMS ou do IPI) e contábeis (Razão) do respectivo período de apuração do crédito pleiteado, notas fiscais, entre outros; ii) elaborar relatório conclusivo a respeito do crédito pleiteado; iii) dar ciência do Relatório à Recorrente, abrindolhe prazo regulamentar para manifestação; e iv) devolver o processo para esta 2ª Turma Ordinária, da 4ª Câmara, 3ª Seção do CARF, para prosseguimento do julgamento. (Assinado com certificado digital) Antônio Carlos Atulim Fl. 102DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11516.721881/2011-73
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Feb 20 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Mar 22 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/01/2008 a 31/03/2008
REGIME DE INCIDÊNCIA NÃO CUMULATIVA. INSUMO DE PRODUÇÃO OU FABRICAÇÃO. DEDUÇÃO DE CRÉDITOS. SIGNIFICADO E ALCANCE.
No regime de incidência não cumulativa da Cofins, insumo de produção ou fabricação compreende os bens e serviços aplicados diretamente no processo de produção (insumos diretos de produção) e os demais bens e serviços gerais utilizados indiretamente na produção ou fabricação (insumos indiretos de produção), ainda que agregados aos bens ou serviços aplicados diretamente no processo produtivo.
REGIME DA NÃO CUMULATIVIDADE. AQUISIÇÃO DE BENS NÃO SUJEITOS AO PAGAMENTO DA CONTRIBUIÇÃO. APROPRIAÇÃO DE CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE.
Por expressa determinação legal, é vedada a apropriação de crédito da Contribuição para o PIS/Pasep e Cofins em relação à aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento das referidas contribuições.
REGIME DA NÃO CUMULATIVIDADE. ATENDIMENTO DOS REQUISITOS LEGAIS. VENDA COM SUSPENSÃO POR PESSOA JURÍDICA OU COOPERATIVA QUE EXERÇA ATIVIDADE AGROINDUSTRIAL. OBRIGATORIEDADE.
É obrigatória a suspensão da cobrança da Contribuição para o PIS/Pasep e Cofins na operação de venda de insumo destinado à produção de mercadorias de origem animal ou vegetal, realizada por pessoa jurídica que exerça atividade agroindustrial ou por cooperativa agroindustrial, se o adquirente for pessoa jurídica tributada pelo lucro real (art. 9º, III, da Lei 10.925/2004).
CRÉDITO PRESUMIDO AGROINDUSTRIAL. INSUMOS APLICADOS NA PRODUÇÃO DE MERCADORIAS DE ORIGEM ANIMAL. PERCENTUAL DE PRESUNÇÃO DEFINIDO SEGUNDO O TIPO DA MERCADORIA PRODUZIDA. POSSIBILIDADE.
A pessoa jurídica que exerça atividade agroindustrial de produção de bens de origem animal destinados à alimentação humana ou animal, especificado no § 3º, I, do art. 8º da Lei 10.925/2004, independentemente da natureza do insumo agropecuário, tem o direito de apropriar-se do crédito do presumido da Contribuição para o PIS/Pasep e Cofins, calculado pelo percentual de 60% da alíquota normal das referidas contribuições, a ser aplicado sobre o custo de aquisição do insumo utilizado no processo de produção.
VENDAS COM FIM ESPECÍFICO DE EXPORTAÇÃO. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DOS REQUISITOS LEGAIS. MANUTENÇÃO DA ISENÇÃO. IMPOSSIBILIDADE
Para caracterizar as receitas como decorrentes de vendas efetuadas com o fim específico de exportação e, consequentemente, usufruir da isenção da Contribuição para o PIS/Pasep e Cofins, faz-se necessário a comprovação que os produtos foram remetidos diretamente do estabelecimento industrial para embarque de exportação ou para recintos alfandegados, por conta e ordem da empresa comercial exportadora.
REGIME DA NÃO CUMULATIVIDADE. VENDAS A EMPRESAS EXPORTADORAS. ISENÇÃO. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA.
No âmbito do regime não cumulativo das Contribuições para o PIS e da Cofins, a responsabilidade tributária pelo pagamento das contribuições devidas e seus consectários legais, no caso de venda (com fins específicos de exportação) a empresa exportadora sem o preenchimento dos requisitos legais da isenção no momento da venda, é do contribuinte vendedor das mercadorias.
Recurso Voluntário Provido em Parte.
Numero da decisão: 3302-003.607
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares. Por maioria de votos, em negar provimento ao recurso voluntário quanto à reclassificação dos créditos vinculados às receitas desconsideradas como fim específico de exportação, vencidos os Conselheiros Domingos de Sá Filho e Lenisa Rodrigues Prado. Por maioria de votos, em negar provimento ao recurso voluntário quanto ao crédito sobre aquisições de pallets, vencido o Conselheiro Hélcio Lafetá Reis que dava provimento em relação ao paletes "one way" e os Conselheiros Lenisa Rodrigues Prado e Walker Araújo que davam provimento total. Por maioria de votos, em dar provimento ao recurso voluntário quanto aos créditos sobre facas, vencidos os Conselheiros José Fernandes do Nascimento, Maria do Socorro Ferreira Aguiar e Hélcio Lafetá Reis. Por qualidade, em dar provimento ao recurso voluntário quanto ao créditos sobre as demais peças, equipamentos para manutenção, vencidos os Conselheiros Domingos de Sá Filho, José Fernandes do Nascimento, Maria do Socorro Ferreira Aguiar e Hélcio Lafetá Reis. Por maioria de votos, em negar provimento ao recurso voluntário quanto ao crédito de gasolina comum combustível, vencidos os Conselheiros Lenisa Rodrigues Prado e Sarah Maria Linhares de Araújo Paes De Souza. Por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário quanto ao crédito de óleo diesel e álcool etílico combustível. Por maioria de votos, em negar provimento ao recurso voluntário quanto ao crédito sobre produtos de desinfecção e limpeza, vencida a Conselheira Lenisa Rodrigues Prado. Por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao recurso voluntário quanto à glosa de créditos de aquisições de PJ com suspensão obrigatória, reconhecendo os créditos presumidos relativos a estas aquisições. Por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso voluntário quanto aos créditos de serviços, para reconhecer os créditos sobre "Serviço de Expedição e Armazéns", "Serviço de Transporte de Aves e Serviço de Carga e Descarga (transbordo) e "serviços de sangria". Por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário quanto às glosas de despesas de armazenagem e fretes nas operações na venda. Por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário para a aplicação da alíquota de 60% das alíquotas básicas das contribuições a ser aplicada sobre o valor do custo de aquisição de todos insumos utilizados na fabricação dos produtos discriminados no art. 8º, § 3º, I, da Lei 10.925/2004. Por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso voluntário para reconhecer o direito ao crédito sobre as aquisições de pintos de 1 dia adquiridos de pessoa jurídica que exerça atividade agropecuária e cooperativa de produção agropecuária, à alíquota de 60% das alíquotas gerais das contribuições. O Conselheiro José Fernandes do Nascimento foi designado para redigir o voto vencedor. Fez sustentação oral: Dr. Fabio Calcini - OAB 197.072 - SP.
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède - Presidente.
(assinado digitalmente)
Lenisa Rodrigues Prado - Relatora.
(assinado digitalmente)
José Fernandes do Nascimento - Redator Designado
Participaram do julgamento os Conselheiros Paulo Guilherme Déroulède, José Fernandes do Nascimento, Domingos de Sá Filho, Lenisa Rodrigues Prado, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Hélcio Lafetá Reis, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza e Walker Araújo.
Nome do relator: LENISA RODRIGUES PRADO
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camara_s : Terceira Câmara
ementa_s : Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/01/2008 a 31/03/2008 REGIME DE INCIDÊNCIA NÃO CUMULATIVA. INSUMO DE PRODUÇÃO OU FABRICAÇÃO. DEDUÇÃO DE CRÉDITOS. SIGNIFICADO E ALCANCE. No regime de incidência não cumulativa da Cofins, insumo de produção ou fabricação compreende os bens e serviços aplicados diretamente no processo de produção (insumos diretos de produção) e os demais bens e serviços gerais utilizados indiretamente na produção ou fabricação (insumos indiretos de produção), ainda que agregados aos bens ou serviços aplicados diretamente no processo produtivo. REGIME DA NÃO CUMULATIVIDADE. AQUISIÇÃO DE BENS NÃO SUJEITOS AO PAGAMENTO DA CONTRIBUIÇÃO. APROPRIAÇÃO DE CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE. Por expressa determinação legal, é vedada a apropriação de crédito da Contribuição para o PIS/Pasep e Cofins em relação à aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento das referidas contribuições. REGIME DA NÃO CUMULATIVIDADE. ATENDIMENTO DOS REQUISITOS LEGAIS. VENDA COM SUSPENSÃO POR PESSOA JURÍDICA OU COOPERATIVA QUE EXERÇA ATIVIDADE AGROINDUSTRIAL. OBRIGATORIEDADE. É obrigatória a suspensão da cobrança da Contribuição para o PIS/Pasep e Cofins na operação de venda de insumo destinado à produção de mercadorias de origem animal ou vegetal, realizada por pessoa jurídica que exerça atividade agroindustrial ou por cooperativa agroindustrial, se o adquirente for pessoa jurídica tributada pelo lucro real (art. 9º, III, da Lei 10.925/2004). CRÉDITO PRESUMIDO AGROINDUSTRIAL. INSUMOS APLICADOS NA PRODUÇÃO DE MERCADORIAS DE ORIGEM ANIMAL. PERCENTUAL DE PRESUNÇÃO DEFINIDO SEGUNDO O TIPO DA MERCADORIA PRODUZIDA. POSSIBILIDADE. A pessoa jurídica que exerça atividade agroindustrial de produção de bens de origem animal destinados à alimentação humana ou animal, especificado no § 3º, I, do art. 8º da Lei 10.925/2004, independentemente da natureza do insumo agropecuário, tem o direito de apropriar-se do crédito do presumido da Contribuição para o PIS/Pasep e Cofins, calculado pelo percentual de 60% da alíquota normal das referidas contribuições, a ser aplicado sobre o custo de aquisição do insumo utilizado no processo de produção. VENDAS COM FIM ESPECÍFICO DE EXPORTAÇÃO. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DOS REQUISITOS LEGAIS. MANUTENÇÃO DA ISENÇÃO. IMPOSSIBILIDADE Para caracterizar as receitas como decorrentes de vendas efetuadas com o fim específico de exportação e, consequentemente, usufruir da isenção da Contribuição para o PIS/Pasep e Cofins, faz-se necessário a comprovação que os produtos foram remetidos diretamente do estabelecimento industrial para embarque de exportação ou para recintos alfandegados, por conta e ordem da empresa comercial exportadora. REGIME DA NÃO CUMULATIVIDADE. VENDAS A EMPRESAS EXPORTADORAS. ISENÇÃO. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. No âmbito do regime não cumulativo das Contribuições para o PIS e da Cofins, a responsabilidade tributária pelo pagamento das contribuições devidas e seus consectários legais, no caso de venda (com fins específicos de exportação) a empresa exportadora sem o preenchimento dos requisitos legais da isenção no momento da venda, é do contribuinte vendedor das mercadorias. Recurso Voluntário Provido em Parte.
turma_s : Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares. Por maioria de votos, em negar provimento ao recurso voluntário quanto à reclassificação dos créditos vinculados às receitas desconsideradas como fim específico de exportação, vencidos os Conselheiros Domingos de Sá Filho e Lenisa Rodrigues Prado. Por maioria de votos, em negar provimento ao recurso voluntário quanto ao crédito sobre aquisições de pallets, vencido o Conselheiro Hélcio Lafetá Reis que dava provimento em relação ao paletes "one way" e os Conselheiros Lenisa Rodrigues Prado e Walker Araújo que davam provimento total. Por maioria de votos, em dar provimento ao recurso voluntário quanto aos créditos sobre facas, vencidos os Conselheiros José Fernandes do Nascimento, Maria do Socorro Ferreira Aguiar e Hélcio Lafetá Reis. Por qualidade, em dar provimento ao recurso voluntário quanto ao créditos sobre as demais peças, equipamentos para manutenção, vencidos os Conselheiros Domingos de Sá Filho, José Fernandes do Nascimento, Maria do Socorro Ferreira Aguiar e Hélcio Lafetá Reis. Por maioria de votos, em negar provimento ao recurso voluntário quanto ao crédito de gasolina comum combustível, vencidos os Conselheiros Lenisa Rodrigues Prado e Sarah Maria Linhares de Araújo Paes De Souza. Por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário quanto ao crédito de óleo diesel e álcool etílico combustível. Por maioria de votos, em negar provimento ao recurso voluntário quanto ao crédito sobre produtos de desinfecção e limpeza, vencida a Conselheira Lenisa Rodrigues Prado. Por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao recurso voluntário quanto à glosa de créditos de aquisições de PJ com suspensão obrigatória, reconhecendo os créditos presumidos relativos a estas aquisições. Por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso voluntário quanto aos créditos de serviços, para reconhecer os créditos sobre "Serviço de Expedição e Armazéns", "Serviço de Transporte de Aves e Serviço de Carga e Descarga (transbordo) e "serviços de sangria". Por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário quanto às glosas de despesas de armazenagem e fretes nas operações na venda. Por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário para a aplicação da alíquota de 60% das alíquotas básicas das contribuições a ser aplicada sobre o valor do custo de aquisição de todos insumos utilizados na fabricação dos produtos discriminados no art. 8º, § 3º, I, da Lei 10.925/2004. Por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso voluntário para reconhecer o direito ao crédito sobre as aquisições de pintos de 1 dia adquiridos de pessoa jurídica que exerça atividade agropecuária e cooperativa de produção agropecuária, à alíquota de 60% das alíquotas gerais das contribuições. O Conselheiro José Fernandes do Nascimento foi designado para redigir o voto vencedor. Fez sustentação oral: Dr. Fabio Calcini - OAB 197.072 - SP. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède - Presidente. (assinado digitalmente) Lenisa Rodrigues Prado - Relatora. (assinado digitalmente) José Fernandes do Nascimento - Redator Designado Participaram do julgamento os Conselheiros Paulo Guilherme Déroulède, José Fernandes do Nascimento, Domingos de Sá Filho, Lenisa Rodrigues Prado, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Hélcio Lafetá Reis, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza e Walker Araújo.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/01/2008 a 31/03/2008 REGIME DE INCIDÊNCIA NÃO CUMULATIVA. INSUMO DE PRODUÇÃO OU FABRICAÇÃO. DEDUÇÃO DE CRÉDITOS. SIGNIFICADO E ALCANCE. No regime de incidência não cumulativa da Cofins, insumo de produção ou fabricação compreende os bens e serviços aplicados diretamente no processo de produção (insumos diretos de produção) e os demais bens e serviços gerais utilizados indiretamente na produção ou fabricação (insumos indiretos de produção), ainda que agregados aos bens ou serviços aplicados diretamente no processo produtivo. REGIME DA NÃO CUMULATIVIDADE. AQUISIÇÃO DE BENS NÃO SUJEITOS AO PAGAMENTO DA CONTRIBUIÇÃO. APROPRIAÇÃO DE CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE. Por expressa determinação legal, é vedada a apropriação de crédito da Contribuição para o PIS/Pasep e Cofins em relação à aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento das referidas contribuições. REGIME DA NÃO CUMULATIVIDADE. ATENDIMENTO DOS REQUISITOS LEGAIS. VENDA COM SUSPENSÃO POR PESSOA JURÍDICA OU COOPERATIVA QUE EXERÇA ATIVIDADE AGROINDUSTRIAL. OBRIGATORIEDADE. É obrigatória a suspensão da cobrança da Contribuição para o PIS/Pasep e Cofins na operação de venda de insumo destinado à produção de mercadorias de origem animal ou vegetal, realizada por pessoa jurídica que exerça atividade agroindustrial ou por cooperativa agroindustrial, se o adquirente for pessoa jurídica tributada pelo lucro real (art. 9º, III, da Lei 10.925/2004). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 51 6. 72 18 81 /2 01 1- 73 Fl. 1561DF CARF MF 2 CRÉDITO PRESUMIDO AGROINDUSTRIAL. INSUMOS APLICADOS NA PRODUÇÃO DE MERCADORIAS DE ORIGEM ANIMAL. PERCENTUAL DE PRESUNÇÃO DEFINIDO SEGUNDO O TIPO DA MERCADORIA PRODUZIDA. POSSIBILIDADE. A pessoa jurídica que exerça atividade agroindustrial de produção de bens de origem animal destinados à alimentação humana ou animal, especificado no § 3º, I, do art. 8º da Lei 10.925/2004, independentemente da natureza do insumo agropecuário, tem o direito de apropriarse do crédito do presumido da Contribuição para o PIS/Pasep e Cofins, calculado pelo percentual de 60% da alíquota normal das referidas contribuições, a ser aplicado sobre o custo de aquisição do insumo utilizado no processo de produção. VENDAS COM FIM ESPECÍFICO DE EXPORTAÇÃO. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DOS REQUISITOS LEGAIS. MANUTENÇÃO DA ISENÇÃO. IMPOSSIBILIDADE Para caracterizar as receitas como decorrentes de vendas efetuadas com o fim específico de exportação e, consequentemente, usufruir da isenção da Contribuição para o PIS/Pasep e Cofins, fazse necessário a comprovação que os produtos foram remetidos diretamente do estabelecimento industrial para embarque de exportação ou para recintos alfandegados, por conta e ordem da empresa comercial exportadora. REGIME DA NÃO CUMULATIVIDADE. VENDAS A EMPRESAS EXPORTADORAS. ISENÇÃO. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. No âmbito do regime não cumulativo das Contribuições para o PIS e da Cofins, a responsabilidade tributária pelo pagamento das contribuições devidas e seus consectários legais, no caso de venda (com fins específicos de exportação) a empresa exportadora sem o preenchimento dos requisitos legais da isenção no momento da venda, é do contribuinte vendedor das mercadorias. Recurso Voluntário Provido em Parte. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares. Por maioria de votos, em negar provimento ao recurso voluntário quanto à reclassificação dos créditos vinculados às receitas desconsideradas como fim específico de exportação, vencidos os Conselheiros Domingos de Sá Filho e Lenisa Rodrigues Prado. Por maioria de votos, em negar provimento ao recurso voluntário quanto ao crédito sobre aquisições de pallets, vencido o Conselheiro Hélcio Lafetá Reis que dava provimento em relação ao paletes "one way" e os Conselheiros Lenisa Rodrigues Prado e Walker Araújo que davam provimento total. Por maioria de votos, em dar provimento ao recurso voluntário quanto aos créditos sobre facas, vencidos os Conselheiros José Fernandes do Nascimento, Maria do Socorro Ferreira Aguiar e Hélcio Lafetá Reis. Por qualidade, em dar provimento ao recurso voluntário quanto ao créditos sobre as demais peças, equipamentos para manutenção, vencidos os Conselheiros Domingos de Sá Filho, José Fernandes do Nascimento, Maria do Socorro Ferreira Aguiar e Hélcio Lafetá Reis. Por maioria de votos, em negar provimento ao recurso voluntário quanto ao crédito de gasolina comum combustível, vencidos os Conselheiros Lenisa Rodrigues Prado e Sarah Maria Linhares de Araújo Paes De Souza. Por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário quanto ao crédito de óleo diesel e álcool etílico combustível. Por maioria de votos, em negar provimento ao recurso voluntário quanto ao Fl. 1562DF CARF MF Processo nº 11516.721881/201173 Acórdão n.º 3302003.607 S3C3T2 Fl. 1.562 3 crédito sobre produtos de desinfecção e limpeza, vencida a Conselheira Lenisa Rodrigues Prado. Por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao recurso voluntário quanto à glosa de créditos de aquisições de PJ com suspensão obrigatória, reconhecendo os créditos presumidos relativos a estas aquisições. Por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso voluntário quanto aos créditos de serviços, para reconhecer os créditos sobre "Serviço de Expedição e Armazéns", "Serviço de Transporte de Aves e Serviço de Carga e Descarga (transbordo) e "serviços de sangria". Por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário quanto às glosas de despesas de armazenagem e fretes nas operações na venda. Por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário para a aplicação da alíquota de 60% das alíquotas básicas das contribuições a ser aplicada sobre o valor do custo de aquisição de todos insumos utilizados na fabricação dos produtos discriminados no art. 8º, § 3º, I, da Lei 10.925/2004. Por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso voluntário para reconhecer o direito ao crédito sobre as aquisições de pintos de 1 dia adquiridos de pessoa jurídica que exerça atividade agropecuária e cooperativa de produção agropecuária, à alíquota de 60% das alíquotas gerais das contribuições. O Conselheiro José Fernandes do Nascimento foi designado para redigir o voto vencedor. Fez sustentação oral: Dr. Fabio Calcini OAB 197.072 SP. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Presidente. (assinado digitalmente) Lenisa Rodrigues Prado Relatora. (assinado digitalmente) José Fernandes do Nascimento Redator Designado Participaram do julgamento os Conselheiros Paulo Guilherme Déroulède, José Fernandes do Nascimento, Domingos de Sá Filho, Lenisa Rodrigues Prado, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Hélcio Lafetá Reis, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza e Walker Araújo. Relatório A questão submetida a este Colegiado tem início em pedido eletrônico de ressarcimento (PER), transmitido em 25/08/2009, de créditos de contribuições para o PIS/Pasep e COFINS de incidência nãocumulativa, vinculados à receita de exportação, apurados no período entre 2006 a 2008. O pedido de ressarcimento foi indeferido pela fiscalização que, após averiguar a situação dos créditos informados no Demonstrativo de Apuração de Contribuições Sociais (DACON), concluiu pela inexistência de quaisquer créditos. Além das glosas efetuadas, a autoridade fiscal recalculou os valores dos créditos a descontar do PIS/Pasep e da COFINS do período, com o ajuste na base de cálculo da contribuição. A autoridade fiscal relata que, como não houve exportação direta registrada no SISCOMEX e as vendas com fim específico de exportação não cumpriram os requisitos legais, Fl. 1563DF CARF MF 4 não houve a venda para o mercado externo que pudessem ser exoneradas das Contribuições ao PIS e a COFINS. Assim, foram consideradas como receitas auferidas no mercado interno as receitas registradas pela recorrente como decorrentes das vendas de mercadorias com fim específico de exportação (Notas Fiscais com CFOP 5501/6501). A contribuinte apresentou manifestação de inconformidade contra o despacho decisório, oportunidade na qual alega que a Receita Federal exigiu, indevidamente, os valores decorrentes das contribuições de PIS e da COFINS sobre as operações de vendas com fim específico de exportação. Isso porque o Fisco não admitiu as vendas com a finalidade específica de exportação para a Perdigão Agroindustrial S.A. (habilitada no Siscomex), pelo fato que as mercadorias destinadas a essa adquirente ficaram armazenadas em locais que não seriam entrepostos aduaneiros (foram transportadas para os armazéns Arfrio e Refribras). Ademais não foram reconhecidos créditos vinculados ao regime não cumulativo de PIS e COFINS, relacionados a bens e serviços utilizados como insumos, despesas com armazenagem e frete na operação de venda, bem como o crédito presumido da atividade agroindustrial. Os argumentos defendidos pela contribuinte foram rechaçados pela Delegacia da Receita Federal de Julgamentos em Florianópolis, em acórdão que recebeu a seguinte ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano calendário: 2008 INCONSTITUCIONALIDADE. ILEGALIDADE. AUTORIDADE ADMINISTRATIVA. INCOMPETÊNCIA. As autoridades administrativas estão obrigadas à observância da legislação tributária vigente no País, sendo incompetentes para a apreciação de argüições de inconstitucionalidade e ilegalidade de atos legais regularmente editados. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano calendário: 2008 NULIDADE. CERCEAMENTO DE DEFESA. Respeitados pela autoridade administrativa os princípios da motivação e do devido processo legal, improcedente é a alegação de cerceamento de defesa e nulidade do feito fiscal. DIREITO DE CRÉDITO. COMPROVAÇÃO. ÔNUS DO CONTRIBUINTE. É do contribuinte o ônus de demonstrar e comprovar ao Fisco a existência do crédito utilizado por meio de desconto, restituição ou ressarcimento e compensação. DILIGÊNCIA. PERÍCIA. Fl. 1564DF CARF MF Processo nº 11516.721881/201173 Acórdão n.º 3302003.607 S3C3T2 Fl. 1.563 5 Em estando presentes nos autos do processo os elementos necessários e suficientes ao julgamento da lide estabelecida, prescindíveis são as diligências e perícias requeridas pelo contribuinte, cabendo a autoridade julgadora indeferilas. DIREITO DE CRÉDITO. ALEGAÇÕES CONTRA O FEITO FISCAL. PROVA. ÔNUS DO CONTRIBUINTE. Nos processos administrativos referentes ao reconhecimento de direito creditório, deve o contribuinte, em sede de contestação ao feito fiscal, provar o teor das alegações que contrapõe aos argumentos postos pela autoridade fiscal para não reconhecer, ou reconhecer apenas parcialmente o direito pretendido. PIS. COFINS. REGIME DA NÃO CUMULATIVIDADE. APURAÇÃO DO CRÉDITO. DACON. No âmbito do regime não cumulativo das Contribuições para o PIS e da COFINS, a apuração dos créditos é realizada pelo contribuinte por meio do Dacon, não cabendo a autoridade tributária, em sede de contencioso administrativo, assentir com a inclusão, na base de cálculo desses créditos, de custos e despesas não informados ou incorretamente informados neste demonstrativo. PIS. COFINS. REGIME DA NÃO CUMULATIVIDADE. VENDAS A EMPRESAS EXPORTADORAS. ISENÇÃO. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. No âmbito do regime não cumulativo da Contribuição para o PIS e da Cofins, a responsabilidade tributária pelo pagamento das contribuições devidas e seus consectários legais, no caso de venda a empresa exportadora sem o preenchimento dos requisitos legais da isenção no momento da venda, é do contribuinte vendedor das mercadorias. Assunto: Contribuição para o PIS/PASEP Ano calendário: 2008 PIS. REGIME DA NÃO CUMULATIVIDADE. HIPÓTESES DE CREDITAMENTO. As hipóteses de crédito no âmbito do regime não cumulativo de apuração da contribuição para o PIS são somente as previstas na legislação de regência, dado que esta é exaustiva ao enumerar os custos e encargos passíveis de creditamento, não estando suas apropriações vinculadas à caracterização de sua essencialidade na atividade da empresa ou à sua escrituração na contabilidade como custo operacional. PIS. REGIME DA NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITO. CONCEITO DE INSUMO. No regime não cumulativo da contribuição para o PIS, somente são considerados como insumos, para fins de creditamento de valores: os combustíveis e lubrificantes, as matérias primas, os Fl. 1565DF CARF MF 6 produtos intermediários, o material de embalagem e quaisquer outros bens que sofram alterações, tais como o desgaste, o dano ou a perda de propriedades físicas ou químicas, em função de sua aplicação direta na prestação de serviços ou no processo produtivo de bens destinados à venda; e os serviços prestados por pessoa jurídica, aplicados ou consumidos na prestação de serviços ou na produção ou fabricação de bens destinados à venda. PIS. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITO PRESUMIDO. ATIVIDADE AGROINDUSTRIAL. No âmbito do regime não cumulativo da contribuição para o PIS, a natureza do bem produzido pela empresa que desenvolva a atividade agroindustrial é considerada para fins de aferir seu crédito ao aproveitamento do crédito presumido, já no cálculo do crédito deve ser observada a alíquota conforme a natureza do insumo adquirido. PIS. NÃO CUMULATIVIDADE. SUSPENSÃO DA INCIDÊNCIA DA CONTRIBUIÇÃO. REQUISITOS ESTABELECIDOS NA LEGISLAÇÃO. OBRIGATORIEDADE. É obrigatória a suspensão estabelecida pelo art. 9º da Lei n. 10.925/2004 na operação de venda dos produtos a que este se refere, quando o adquirente seja pessoa jurídica tributada com base no lucro real, exerça atividade agroindustrial e utilize o produto adquirido com suspensão como insumo na fabricação de produtos de que tratam os incisos I e II do art. 5º da IN SRF 660/2006. PIS. NÃO CUMULATIVIDADE. ISENÇÃO. VENDA COM FIM ESPECÍFICO DE EXPORTAÇÃO. Para que a operação de venda se enquadre na definição de fim específico de exportação e faça jus à isenção da contribuição o produtorvendedor deve remeter os produtos vendidos a empresa exportadora diretamente para embarque de exportação, por conta e ordem do exportador, ou para recinto alfandegado. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Irresignada contra a decisão acima detalhada, a contribuinte interpôs recurso voluntário, oportunidade na qual repisa os argumentos expostos na manifestação de inconformidade. Em 22/07/2014 a 1ª Turma da 1ª Câmara desta 3ª Seção de julgamentos converteu o julgamento do recurso voluntário em diligência, por constatar que a ausência de provas inviabilizaria a devida análise do caso. Naquela oportunidade determinouse que a autoridade preparadora intimasse o contribuinte para que: a) Apresentasse laudo técnico descritivo de todo o processo produtivo da empresa, subscrito por profissional habilitado e com anotação de responsabilidade técnica do órgão regulador profissional, com a indicação individualizada da fase de produção cujos insumos adquiridos, objeto do litígio, foram Fl. 1566DF CARF MF Processo nº 11516.721881/201173 Acórdão n.º 3302003.607 S3C3T2 Fl. 1.564 7 utilizados, incluindo sua completa identificação e descrição funcional dentro do processo; b) Identifique cada insumo à respectiva exigência de órgão público, se assim for, descrevendo o tipo de controle ou exigência, e qual o órgão que exigiu , apresentando o respectivo ato (Portaria, Resolução, Decisão, etc) do órgão público ou agência reguladora. Em resposta a diligência ordenada, o contribuinte trouxe aos autos os seguintes documentos: (i) laudo técnico do INT Instituto Nacional de Tecnologia, onde está retratado o processo de produção e a utilização de diversos insumos; (ii) fluxograma do processo produtivo com a respectiva descrição deste por meio de seu engenheiro responsável; (iii) fluxograma de processo produtivo com ilustrações; (iv) plantas da estrutura dos estabelecimentos; (v) atos regulatórios pertinentes (portarias, resoluções, etc); (vi) planilha descritiva de diversos bens utilizados como insumos. Cumpridas as determinações insertas na resolução, os autos retornaram a este Conselho para julgamento do recurso voluntário. É o relatório. Voto Vencido Conselheira Relatora Lenisa Prado A contribuinte foi intimada sobre o teor do acórdão proferido no julgamento da manifestação de inconformidade e, tempestivamente interpôs o recurso voluntário em sob julgamento. Por esse motivo, é de rigor o seu conhecimento. Serão apreciados, a seguir, os principais argumentos apresentados no recurso voluntário sob julgamento1. 1. PRELIMINARES. 1 Insta registrar que "não há omissão quando o Tribunal de origem se manifesta fundamentadamente a respeito de todas as questões postas à sua apreciação,(...) o Magistrado não está obrigado a rebater, um a um, os argumentos apresentados pela parte" (RESP 1.146.772/DF, Ministro Benedito Gonçalves, Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça, julgado em 24/02/2010, publicado em 04/03/2010. Fl. 1567DF CARF MF 8 1.1. NULIDADE. AUSÊNCIA DE MOTIVAÇÃO CLARA E EXPLÍCITA PARA INDEFERIR OS PEDIDOS DE RESSARCIMENTO DE CRÉDITOS DE PIS E COFINS. CERCEAMENTO AO DIREITO DE DEFESA E AO DEVIDO PROCESSO LEGAL ADMINISTRATIVO. A recorrente sustenta que o despacho decisório violou o Princípio da Motivação (art. 2º da Lei n. 9.784/1999), já que não apresentou as razões de fato e de direito que embasaram o indeferimento do pedido de ressarcimento dos créditos das contribuições. Em suas palavras: "O termo de verificação fiscal vinculado ao lançamento de ofício NÃO TRAZ qualquer fundamentação jurídica e fática sobre os créditos glosados, valores e as razões de direito e de fato que permitiriam esta conduta em desfavor do contribuinte (...) Não é possível remeter aos eventuais processos de ressarcimento e compensação. Isto não é motivação! O descumprimento fica ainda mais evidente a partir do fato de que o lançamento de ofício e o termo de verificação é o elemento principal no caso concreto. Equivale dizer: quando os créditos não são suficientes no regime nãocumulativo, primeiro se faz o lançamento de ofício, depois se indefere o ressarcimento/ compensação. O movimento não é inverso. (...) Vale ainda ressaltar que juntamente com a entrega do lançamento de ofício ou mesmo do indeferimento dos pedidos de ressarcimento/compensação, NÃO houve a entrega de uma planilha com os bens, os serviços e itens glosados e as justificativas fáticas e jurídicas. O que se entregou para a recorrente foi o lançamento de ofício com o termo de verificação fiscal, bem como os indeferimentos dos pedidos de ressarcimento/compensação. Não houve, pois, a entrega juntamente com a notificação de qualquer relação dos itens glosados com a respectiva fundamentação fática e jurídica. Muito menos de eventual planilha e documento que dão suporte. Isto pode ser facilmente comprovado pelo TERMO DE CIÊNCIA a própria fiscalização informa que na notificação somente entregou à recorrente o termo de verificação fiscal, demonstrativo consolidado do crédito tributário e autos de infração. Nada mais. Era dever e ônus do Fisco entregar juntamente com o auto de infração, do termo de verificação fiscal e eventual planilha e documentos que davam suporte ao lançamento e glosa, sob pena de nulidade, principalmente, quando inexiste adequada fundamentação e justificativa dos itens e a razão da glosa". Fl. 1568DF CARF MF Processo nº 11516.721881/201173 Acórdão n.º 3302003.607 S3C3T2 Fl. 1.565 9 A recorrente alega que a ausência de fundamentação na decisão que indeferiu seu pedido, a par de ensejar violação direta ao art. 9º do Decreto n. 70.235/19722, também acarreta, por conseqüência, o cerceamento ao direito a ampla defesa. Os documentos que constam nos autos não respaldam a objeção do recorrente. Ao contrário. Como restará demonstrado ao longo deste voto, o documento intitulado Informação Fiscal, acostado às folhas eletrônicas 962 a 993 aponta, de forma suficiente, os motivos que ensejaram as glosas objeto do recurso voluntário sob análise. 1.2. ILEGITIMIDADE PASSIVA. RESPONSABILIDADE DA PERDIGÃO AGROINDUSTRIAL S.A. EXPORTAÇÃO. A recorrente defende que o lançamento é nulo, já que a fiscalização desconsiderou as exportações realizadas e, por esse motivo, lavrou a exigência das contribuições de PIS e COFINS. A recorrente BRF Foods S.A., na qualidade de vendedora dos produtos exportados sustenta ser parte ilegítima para figurar no pólo passivo da ação onde deveria ser alocada a empresa compradora, Perdigão Agroindustrial S.A. de acordo com a lógica retratada nos art. 7º da Lei n.10.637/2002 e 9º da Lei n. 10.833/2003, os quais reproduzo: Lei n. 10.637/2002 Art. 7. A empresa comercial exportadora que houver adquirido mercadorias de outra pessoa jurídica, com o fim específico de exportação para o exterior, que, no prazo de 180 (cento e oitenta) dias, contado da data da emissão de nota fiscal pela vendedora, não comprovar o seu embarque para o exterior, ficará sujeita ao pagamento de todos os impostos e contribuições que deixaram de ser pagos pela empresa vendedora, acrescidos de juros de mora e multa, de mora ou de ofício, calculados na forma da legislação que rege a cobrança do tributo não pago. Lei n. 10.833/2003 Art. 9. A empresa comercial exportadora que houver adquirido mercadorias de outra pessoa jurídica, com o fim específico de exportação para o exterior, que, no prazo de 180 (cento e oitenta) dias, contados da data da emissão da nota fiscal pela vendedora, não comprovar o seu embarque para o exterior, ficará sujeita ao pagamento de todos os impostos e contribuições que deixaram de ser pagos pela empresa vendedora, acrescidos de juros de mora e multa, de mora ou de ofício, calculados na forma da legislação que rege a cobrança do tributo não pago. No entanto, percebese que não existem empresas vendedoras e consumidoras, mas sim sucessão empresarial, de acordo com o que atesta o documento intitulado Informação Fiscal, onde está esclarecido que: 2 Art. 9. A exigência do crédito tributário e a aplicação da penalidade isolada serão formalizados em autos de infração ou notificações de lançamento, distintos para cada tributo ou penalidade, os quais deverão estar instruídos com todos os termos, depoimentos, laudos e demais elementos de prova indispensáveis à comprovação do ilícito. Fl. 1569DF CARF MF 10 "A pesquisa no sistema CNPJ comprova a incorporação da Perdigão Agroindustrial Mato Grosso pela Perdigão S.A., CNPJ 01.838.723/000127 (...) Ainda de acordo com o cadastro do CNPJ , a Perdigão S.A. mudou seu nome empresarial para Brasil Foods S.A. e estabeleceu seu domicílio tributário em Itajaí/ SC. Em virtude da incorporação, caracterizase a responsabilidade tributária por sucessão, consoante o art. 129 e 132 do Código Tributário Nacional, e, por esse motivo, a BRF Brasil Foods S.A. foi intimada de todos os atos de ofício". A ora recorrente não se insurge sobre a alegada sucessão empresarial informada e a conseqüente transmissão de responsabilidades tributárias (artigos 129 e 132 do CTN). Deste modo, devem ser considerados verídicos e incontestes os fatos sobre a sucessão empresarial. 2. MÉRITO 2.1. SOBRE A EXISTÊNCIA DE CRÉDITOS. DOS FATOS INCONTROVERSOS QUE COMPROVAM QUE OS PRODUTOS FORAM EXPORTADOS. A recorrente inicia seus argumentos esclarecendo que às operações de exportação, a Constituição Federal lhes confere imunidade tributária objetiva, destinada à desonerar os custos de exportação (§ 2º do art. 149 da Constituição Federal de 1988), e não isenção. Nessa mesma linha, é o conteúdo dos art. 5º da Lei n. 10.637/20023 e art. 6º da Lei n. 10.833/20034, bem como os artigos 44 e 45 do Decreto n. 4.524/20025, que desoneram as exportações das Contribuições PIS e COFINS. Deste modo, conclui que não poderia a fiscalização simplesmente desconsiderar as operações de exportação pelo fato que as mercadorias vendidas à exportadora foram alocadas nos armazéns Arfrio e Refribras, e não em entrepostos aduaneiros. 3 Art. 5º. A contribuição para o PIS/Pasep não incidirá sobre as receitas decorrentes das operações de: I exportação de mercadorias para o exterior; (...) III vendas a empresa comercial exportadora com o fim específico de exportação. 4 Art. 6º. A COFINS não incidirá sobre as receitas decorrentes das operações de: I exportação de mercadorias para o exterior; (...) III vendas a empresa comercial exportadora com o fim específico de exportação. 5 Art. 44. O PIS/Pasep nãocumulativo não incide sobre as receitas decorrentes das operações de I exportação de mercadorias para o exterior; II prestação de serviços para pessoa física ou jurídica domiciliada no exterior, com pagamento em moeda conversível, e; III vendas a empresa comercial exportadora com o fim específico de exportação. Art. 45. São isentas do PIS/Pasep e da Cofins as receitas: (...) VIII de vendas realizadas pelo produtorvendedor às empresas comerciais exportadoras nos termos do Decreto lei n. 1.248, de 29 de novembro de 1972, e alterações posteriores, desde que destinadas ao fim específico de exportação para o exterior; e (...) IX de vendas, com fim específico de exportação para o exterior, a empresas exportadoras registradas na Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio. §1º Consideramse adquiridos com o fim específico de exportação os produtos remetidos diretamente do estabelecimento industrial para embarque de exportação ou para recintos alfandegados, por conta e ordem da empresa comercial exportadora. Fl. 1570DF CARF MF Processo nº 11516.721881/201173 Acórdão n.º 3302003.607 S3C3T2 Fl. 1.566 11 Sustenta que existem nos autos "diversos fatos relevantes e incontroversos capazes de conduzir à correta conclusão no sentido de que a recorrente realizou a exportação, mesmo que indireta, por meio da venda com fim específico". São os fatos apontados pela recorrente que corroboram a comprovação da exportação: 1. Não há no relatório fiscal uma afirmação ou um dado sequer que sustente a assertiva que os produtos não foram exportados pela Perdigão Agroindustrial S.A; 2. As exportações ocorreram dentro do prazo de 180 dias previsto nas normas de regência; 3. Como a recorrente comercializou as mercadorias com o fim específico de exportação, essa receita não gera créditos no regime não cumulativo das Contribuições de PIS e COFINS; 4. As notas fiscais e a escrituração contábil da recorrente demonstram que as vendas realizadas para a Perdigão Agroindustrial S.A. tinham a finalidade específica de exportação. Diante desses fatos, a contribuinte concluiu que a questão dos autos é, ao que tudo consta, a apuração de mera irregularidade perpetrada pela empresa Perdigão Agroindustrial S.A., já que foi a responsável pelo depósito das mercadorias por ela adquiridas. Por ser essencial ao deslinde da questão submetida a julgamento, reproduzo os fundamentos adotado pela autoridade fiscal na decisão que indeferiu o pedido do ora recorrente: "Segundo os DACON, a contribuinte teria auferido em 2008 receitas de exportação ou de vendas, com fim específico de exportação, que foram incluídas das bases de cálculo de PIS e COFINS. No entanto, durante o procedimento de verificação, constatamos que não houve qualquer exportação direta para o exterior registrada no SISCOMEX no período em tela e que quase todas as vendas de mercadorias com fim específico de exportação destinaramse à filial 108 da Perdigão Agroindustrial S.A., situada na rua Jorge Tzachel, 475, Itajaí/SC. (...) Tendo em vista que a unidade 108 da Perdigão Agroindustrial S.A. não é armazém alfandegado, foram tomadas duas providências: primeiro, foi intimada a Perdigão Agroindustrial S.A., por meio do Termo de Intimação Fiscal n. 004/01109 a explicar o funcionamento da filial 108; depois, foi intimada a Perdigão Agroindustrial Mato Grosso Ltda., por meio do Termo de Intimação 003/01111, a prestar esclarecimentos e juntar documentos acerca das vendas com fim específico de exportação. Novamente, é preciso lembrar que as duas intimações foram entregues à BRF Brasil Foods S.A., que é sucessora de ambas. Sinteticamente, a BRF Brasil Foods informou (..) que: (a) a Perdigão Agroindustrial depositava em oito armazéns as mercadorias recebidas de terceiros com fim específico de exportação e que, destes, três eram alfandegados (Brasfrigo, Fl. 1571DF CARF MF 12 Martini e Ponta do Felix) e cinco não eram alfandegados (Arfrio dois, Refribrás, Safrio e Itazem); (b) que a exportação era efetuada após o contêiner ser 'estufado'; e (c) que estava autorizada por atos administrativos a proceder ao embarque antecipado da mercadoria destinada à exportação. (...) Regularmente intimada, a BRF Brasil Foods informou, em relação à Perdigão Agroindustrial Mato Grosso Ltda que: (a) as vendas eram feitas para as filiais 107 e 108 da Perdigão Agroindustrial S.A. e que ambas eram 'trading companies'; (b) relacionou os mesmos recintos onde eram depositadas as mercadorias; (c) que os depósitos eram de uso público e não de uso privativo da Perdigão Agroindustrial S.A. Apresentou, também, planilha detalhando as vendas com fim específico de exportação".(grifos nosso). Percebese que a conclusão adotada pela autoridade fiscal e rechaçada pela recorrente está amparada, essencialmente, nas seguintes premissas: 1. Não existem registros no SISCOMEX sobre as supostas exportações diretas para o exterior realizada pela recorrente para o período sob fiscalização, e; 2. Todas as mercadorias destinadas à exportação foram remetidas à filial 108 da Perdigão Agroindustrial S.A. É importante considerar que o SISCOMEX (Sistema Integrado de Comércio Exterior) é o procedimento regulamentar disponibilizado pela administração pública para obtenção das autorizações, certificações e licenças para exportar produtos brasileiros. O fato de terem sido exportadas as mercadorias, ainda que sem o registro no SISCOMEX, não convalida a conclusão da autoridade fiscal, já que tratarseiam, em tese, de vendas promovidas pela recorrente para trading company. A fiscalização desconsiderou essa peculiaridade e considerou, apenas, o fato que as mercadorias foram entregues a recintos não alfandegados. Transcrevo a conclusão do fiscal : "Ao apreciar a planilha que detalha as vendas com fim específico de exportação (doc. 857 a 961), constatamos que a maior parte das operações não cumpriu os requisitos minuciosamente estudos acima porque as mercadorias eram entregues em recintos não alfandegados de uso público. Concluímos, a partir das informações prestadas e dos documentos apresentados pela contribuinte e obtidos junto à Perdigão Agroindustrial S.A. que , na maior parte das vendas com CFOP 5501/6501, não se configurou o 'fim específico de exportação', de acordo com as normas detalhadas acima". Sobre a remessa dos produtos à filial 108 da Perdigão Agroindustrial (suposta trading company), a recorrente afirma que estava autorizada por atos administrativos a proceder o embarque antecipado das mercadorias destinadas à exportação, remetendoos aos recintos não alfandegados (Arfrio, Refribrás, Sagrio e Itazem) e que esses entrepostos eram de uso público, o que lhes conferia a característica própria de recinto alfandegado. Importa esclarecer que a recorrente apresentou os documentos que atestam a autorização administrativa conferida e, sobre tais documentos, o fiscal autuante não teceu considerações. Fl. 1572DF CARF MF Processo nº 11516.721881/201173 Acórdão n.º 3302003.607 S3C3T2 Fl. 1.567 13 Não se questiona, diante de uma interpretação sistêmica e ajustada do §2º do art.39 da Lei n. 9.532/1997 que as vendas às empresas comerciais exportadoras podem ser incluídas no cálculo de crédito presumido, e não apenas as vendas as empresas favorecidas pelo tratamento tributário conferido pelo DecretoLei n. 1.248/1972. Isso porque o artigo 39 da Lei n. 9.532/1997 prevê a suspensão do IPI não apenas quando da aquisição por empresa comercial exportadora, com o fim específico de exportação, como também quando o produto for remetido à recintos alfandegados ou outros locais onde se processo o despacho aduaneiro da exportação. A propósito: Art. 39. Poderão sair do estabelecimento industrial, com suspensão do IPI, os produtos destinados à exportação, quando: I adquiridos por empresa comercial exportadora, com o fim específico de exportação; II remetidos a recintos alfandegados ou a outros locais onde se processo o despacho aduaneiro de exportação. § 1º. Fica assegurada a manutenção e utilização do crédito do IPI relativo às matériasprimas, produtos intermediários e material de embalagem utilizados na industrialização dos produtos a que se refere este artigo. § 2º. Consideramse adquiridos com o fim específico de exportação os produtos remetidos diretamente do estabelecimento industrial para embarque de exportação para recintos alfandegados, por conta e ordem da empresa comercial exportadora. § 3º. A empresa comercial exportadora fica obrigada ao pagamento do IPI que deixou de ser pago na saída dos produtos do estabelecimento industrial, nas seguintes hipóteses: a) transcorridos 180 dias da data da emissão da nota fiscal de venda pelo estabelecimento industrial, não houver sido efetivada a exportação; b) os produtos forem revendidos no mercado interno; c) ocorrer a destruição, o furto ou roubo dos produtos. Importa ressaltar que vendido o produto para empresa comercial exportadora, com o fim específico de exportação, passa a ser dela a responsabilidade pela exportação no prazo de 180 dias. De modo que a empresa exportadora tem, portanto, 180 dias para demonstrar a exportação dos produtos, caso contrário deverá arcar com o tributo suspenso quando da sua aquisição. Recintos alfandegados são áreas demarcadas pela autoridade aduaneira competente, na zona primária dos portos organizados ou na zona secundária a estes vinculada, a fim de que nelas possam ocorrer, sob controle aduaneiro pela Receita Federal, movimentação, armazenagem e despacho aduaneiro de mercadorias procedentes do exterior, a para lá destinadas, inclusive sob regime aduaneiro especial. Fl. 1573DF CARF MF 14 A questão é regulamentada pelo Decreto n. 6.759/09, artigo 9º, Incisos I a III, que assim dispõe: Art. 9º. Os recintos alfandegados serão assim declarados pela autoridade aduaneira competente, na zona primária ou na zona secundária, a fim de que neles possam ocorrer, sob controle aduaneiro, movimentação, armazenagem e despacho aduaneiro de: I – mercadorias procedentes do exterior, ou a ele destinadas, inclusive sob regime aduaneiro especial; II – bagagem de viajantes procedentes do exterior, ou a ele destinados, e; III – remessas postais internacionais. Parágrafo único. Poderão ainda ser alfandegados, em zona primária, recintos destinados à instalação de lojas francas. Sobre o tema, importa conhecer os termos do Decreto Lei n. 1.455, de 7 de abril de 1976, que traz a seguinte exceção: Art. 10. O regime de entreposto aduaneiro na exportação compreende as modalidades de regimes comum e extraordinário e permite a armazenagem da mercadoria destinada a exportação, em local alfandegado I – de uso público, com suspensão do pagamento de impostos, no caso da modalidade de regime comum; II – de uso privativo, com direito a utilização dos benefícios fiscais previstos para incentivo à exportação, antes do seu efetivo embarque para o exterior, quando se tratar de modalidade de regime extraordinário. §1º. O regime de entreposto aduaneiro na exportação, na modalidade extraordinário, somente poderá ser outorgado a empresa comercial exportadora constituída na forma prevista pelo DecretoLei n. 1.248, de 29 de novembro de 1972, mediante autorização da Secretaria da Receita Federal § 2º Na hipótese de que trata o § 1º, as mercadorias que forem destinadas a embarque direto para o exterior, no prazo estabelecimento em regulamento, poderão ficar armazenadas em local não alfandegado Aqui evidenciase o equívoco na interpretação conferida pelo fiscal, já que o parágrafo segundo do art. 10 do Decreto lei 1.455/19766 expressamente dispõe sobre a entrega 6 Sobre a exceção prevista no Decreto Lei acima transcrito, a Superintendência Regional da Receita Federal da 6ª Região Fiscal, ao responder a processo de consulta, reconhece que na hipótese de venda a comercial exportadora é possível a remessa dos produtos ao recinto não alfandegado: "Considerase fim específico de exportação a remessa direta dos produtos vendidos a embarque de exportação ou a recinto alfandegado, por conta e ordem da empresa comercia exportadora. Se a venda for feita a comercial exportadora constituída nos termos do Decreto lei n. 1.248, de 1972, também se considera fim específico de exportação a remessa direta dos produtos vendidos ao recinto de uso privativo de que trata o art. 14 da Instrução Normativa SRF 241, de 20026". (Processo de Consulta n. 40/12, Superintendência Regional da Receita Federal SRRF/ 6ª RF). Fl. 1574DF CARF MF Processo nº 11516.721881/201173 Acórdão n.º 3302003.607 S3C3T2 Fl. 1.568 15 das mercadorias nesses locais, em operação por conta e ordem da empresa comercial exportadora. Ou seja, o parágrafo segundo admite a possibilidade, na hipótese de venda com fim específico de exportação, que a empresa comercial exportadora que adquire o produto, mas, por sua conta e ordem, manda entregálo diretamente para exportação ou para recinto alfandegado. Mas, naturalmente, essa regra não significa que a empresa comercial exportadora não pode adquirir diretamente e contar com a entrega do produto em seu estabelecimento, pois, como o próprio artigo 39 estabelece que ela dispõe de 180 dias para efetivar a exportação da venda realizada pela industrializadora, que, no presente caso, é a Recorrente. Desta forma, resta evidente que o dispositivo estabelece obrigação não para a Recorrente, na qualidade de industrial, mas sim para a comercial exportadora, porém em hipótese específica, quando, por sua conta e ordem, determinar a entrega do produto por ela adquirido para embarque de exportação ou recinto alfandegado. No presente caso, a recorrente tomou o cuidado não apenas de comprovar a venda por ela realizada, mas também comprovou que a exportação foi efetivamente realizada dentro do prazo legalmente determinado. Dai porque assiste razão a recorrente, de tal forma que as receitas de tais operações devem ser incluídas no cálculo presumido, pois demonstrada a venda para comercial exportadora com fim específico de exportação7. Ademais, o próprio auditor não contesta a alegação que os produtos foram efetivamente exportados dentro do prazo de 180 (cento e oitenta) dias, sequer a afirmação que a filial 108 da Perdigão Agroindustrial é uma trading company. Diante da precariedade de fundamentos que ensejaram a resposta da autoridade, é de rigor reconhecer o acerto nos argumentos da recorrente e a validade para fins de apuração de crédito das vendas realizadas sob o CFOP 5501/6501, já que amparado pelas provas e normas pertinentes. 2.2. SOBRE AS GLOSAS. CRÉDITOS DE INSUMOS. PIS E COFINS. A recorrente apresenta a cronologia das normas e leis sobre o aproveitamento de créditos no regime não cumulativo, bem como robusta doutrina e recentes precedentes deste Conselho. Mais especificamente sobre cada glosa, a recorrente aponta os desacertos das autuação e motivos pelos quais não devem prevalecer: Ficha 6A Linha 02 Bens utilizados como insumos * foram glosados os valores empenhados na aquisição de bens porque que não se enquadrariam na definição restritiva de insumos adotada na legislação de regência do IPI. Esta glosa também padece da ausência de descrição dos produtos rechaçados; 7 Nesse mesmo sentido é o voto proferido pelo Cons. Luiz Rogério Sawaya Batista no julgamento do recurso voluntário objeto do Processo Administrativo n. 10840.901468/200841 pela 3ª Turma da 4ª Câmara da 3ª Seção em 10/12/2014, que resultou na publicação do Acórdão n. 3403003.440 Fl. 1575DF CARF MF 16 * a fiscalização não descreve no termo de autuação qualquer item, mesmo que exemplificativamente, que demonstrem que os bens utilizados como insumos foram adquiridos à alíquota zero de PIS/COFINS; * não estão descritas nos termos de autuação quais foram os itens glosados sob a justificativa que as notas fiscais apresentam códigos de operação que não concedem os créditos reclamados. Ficha 6A Linha 03 Serviços utilizados como insumos * foram glosados os valores empenhados na contratação de serviços porque que não se enquadrariam na definição restritiva de insumos adotada na legislação de regência do IPI. Esta glosa também padece da ausência de descrição dos serviços contratados; * não estão descritas nos termos de autuação quais foram os itens glosados sob a justificativa que as notas fiscais apresentam códigos de operação que não concedem os créditos reclamados. Ficha 6A Linha 04 Despesas com energia elétrica * Foram glosados o valor das notas fiscais em valor inferior ao lançado em DACON. A recorrente alega que os valores foram lançados em livros fiscais e se presumem verdadeiros. Requer diligência ou perícia para comprovar a diferença Ficha 6A Linha 07 Despesas com armazenagem e frete na operação de venda *A fiscalização desconsiderou os créditos devidos pelos serviços portuários de carga e descarga (transbordo) e outros não identificados nas operações de venda (art. 3º, IX, da Lei n. 10.637/2002). Ficha 16A Linhas 25 e 26 Crédito presumido da atividade agroindustrial (art. 8º da Lei n.10.925/2004) * A recorrente informa que os motivos que ensejaram as glosas sobre os créditos oriundos da atividade agroindustrial foram: (i) aplicação incorreta do percentual de 60% (art. 8º, § 3º, I da Lei n. 10.925/2004); (ii) inclusão de aquisições que não se enquadram no conceito de insumos (animais reprodutores, animais para lactação, animais para recria, laudo técnicos, lenha, retentores, e; (iii) inclusão de insumos sujeitos à alíquota zero (pinto de 1 dia, pois este não está sujeito à suspensão, mas sim à alíquota zero). A recorrente considera que tais glosas refletem a interpretação incongruente e desconexa da lei (Lei n. 10.925/2004, artigo 8º) com a realidade, isto porque: "dentro da cadeia produtiva deste setor, os produtos dos Capítulos 2 a 4, 16 e nos códigos 15.01 a 15.06, 1516.10, e as misturas ou preparações de gorduras ou de óleos animais dos códigos 15.17 e 15.18, que permitem a alíquota de 60% para apuração do crédito presumido, são os produzidos por esta e não adquiridos". A Relação das Notas Fiscais Glosadas (folhas 489 a 505) apresenta, de forma detalhada, os itens que não foram admitidos para fins de contabilização do pedido de ressarcimento feito pelo ora recorrente. Naquele documento, a fiscalização apresenta os códigos que informam o motivo de cada um das glosas8. Por ser demasiadamente repetitiva a 8 NI Não é insumo,serviço, frete ou armazenagem com direito a crédito CFOP O Código fiscal de operação indica operação sem direito a crédito Fl. 1576DF CARF MF Processo nº 11516.721881/201173 Acórdão n.º 3302003.607 S3C3T2 Fl. 1.569 17 relação, para melhor compreender o que foi indeferido pela fiscalização e quais os motivos, podemos organizar os itens em 6 grupos: a) pallets, b) peças de reposição, conserto e equipamentos, c) combustíveis em geral e energia elétrica. d) produtos químicos vinculados à desinfecção e limpeza, e) serviços, e f) crédito presumido da atividade agroindustrial (art. 8º da Lei n.10.925/2004). *SOBRE O CONCEITO DE INSUMO: A recorrente aponta que a divergência entre seu posicionamento e o das autoridades fiscais e julgadoras repousa, unicamente, no conceito de insumos para fins de apuração de créditos de PIS e COFINS. Sustenta que o seu pedido de ressarcimento foi indevidamente negado, pois adotado pelos fiscais o conceito restritivo de insumo, equivalente àquele adotado na legislação que rege o IPI. Sobre a questão, é pacífico o entendimento deste Conselho9 no sentido que não se aplica, para apuração do insumo de PIS ou COFINS não cumulativos (previsto no art. 3º da Lei n. 10.833/2003) o critério estabelecido para insumos do sistema não cumulativo de IPI/ICMS, uma vez que não importa, no caso das contribuições, se o insumo consumido obteve ou não algum contato com o produto final comercializado. Da mesma forma, não interessa em que momento do processo de produção o insumo foi utilizado. Por outro giro, também não se aplica o conceito específico do imposto de renda que define custo e despesas necessárias. Isso porque os sistema da não cumulatividade do IPI se diferencia do sistema do PIS/COFINS, na medida em que no IPI a técnica utilizada é imposto contra imposto (inciso II, do § 3º do art. 153 da CF/88), enquanto no PIS/COFINS a técnica é de base contra base (§ 12, do art. 195 da CF/88 c/c com o § 1º dos arts. 2º e 3º das Leis n. 10.637/2002 e 10.833/2003). É no mesmo sentido a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça que confirma que a "a conceituação de insumos, para efeitos do art. 3º, II, da Lei n. 10.637/2002 e art. 3º, II, da Lei n. 10.833/2003, não se identifica com a conceituação adotada na legislação do Imposto sobre Produtos Industrializados IPI, posto que excessivamente restritiva" (RESP n. 1.246.317/MG, relatoria do Ministro Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, DJe 29/06/2015). O Parecer Normativo CST n. 65/79 consigna a interpretação adotada pela Fazenda Nacional que, para que sejam gerados créditos de IPI, o produto intermediário deve assemelharse à matériaprima, pois a base de incidência do IPI é o produto industrializado. A NT Mercadoria sujeita a alíquota zero de PIS/PASEP e COFINS. Dentro do grupo de notas glosadas pela justificativa NT, a fiscalização apresentou a subdivisão dos motivos determinantes: CAPT78 e 0407ovos Lei n. 10.865/04, art. 28, inciso III CORR25 Lei n. 10.925/04, art. 1, inciso IV Defensivo Lei n. 10.925/04, art. 1º, inciso II FARMilho Lei n. 10.925/04, art.1º, inciso IX Inc V Lei n. 10.925/04, art. 1º, inciso V LEITE Lei n. 10.925/04, art. 1º, inciso XI (Lei n. 11.196/05) NA Não é armazenagem 9 Sobre o tema adoto os fundamentos contidos no Acórdão n. 3302002.260, este proferido no julgamento do recurso voluntário interposto pela Sucocítrico Cutrale Ltda, nos autos do Processo Administrativo n. 12893.000208/200785, sob a relatoria da Conselheira Fabíola Cassiano Keramidas. Fl. 1577DF CARF MF 18 partir dessa premissa é certo afirmar que para se apropriar de créditos oriundos dos produtos intermediários, esse que não se incorpora ao produto final, é imprescindível que este sofra desgaste ou alteração em suas propriedades químicas ou físicas quando em contato direto com o produto em sua fabricação. Já no regime não cumulativo das contribuições ao PIS e à COFINS, os eventos que dão direito à apuração do crédito estão citados no art. 3º das Leis n. 10.637/2002 e 10.833/2003, onde se percebe que houve uma ampliação das hipóteses que conferem créditos em relação àquelas previstas na legislação do IPI. Concluise, da leitura dos dispositivos mencionados, que a diferença entre os regimes jurídicos do IPI e das contribuições PIS/COFINS não cumulativas está que no IPI o direito a crédito vinculase ao produto industrializado, já no âmbito nas contribuições está relacionados ao processo produtivo. Contudo, tal ampliação do conceito de insumo não autoriza a inclusão de todos os custos e despesas operacionais a que alude a legislação do Imposto de Renda, pois no rol de despesas operacionais existem gastos que não estão diretamente relacionados ao processo produtivo da empresa. Ou seja, para o regime não cumulativo das contribuições PIS/COFINS, adotase o conteúdo semântico de insumos mais amplo do que aquele previsto na legislação que rege o IPI, porém mais restrito do que aquele previsto nas normas do Imposto de Renda, abrangendo os bens e serviços que não sendo expressamente vedados em lei, forem essenciais ao processo produtivo para que se obtenha o produto ou serviço desejado. Como visto, o conceito de insumo para o sistema não cumulativo do PIS e da COFINS é próprio, sendo que deve ser considerado insumo aquele que for utilizado direta ou indiretamente pelo contribuinte na produção/fabricação de produtos/serviços; for indispensável para a formação do produto/serviço final e for relacionado ao objeto social do contribuinte. Em virtude dessas especificidades, os créditos oriundos dos insumos postulados no recurso voluntário devem ser analisados individualmente. Para análise, item a item, dos produtos e serviços que foram glosados pela fiscalização, é oportuno lembrar que a recorrente é (em sua própria definição): "tradicional e importante agroindústria, tendo por objeto social as atividades no mercado interno e externo de industrialização, comercialização e exploração de alimentos em geral, principalmente, derivados de proteína animal e produtos alimentícios que utilizem a cadeia de frio como suporte e distribuição, industrialização, e comercialização de ração, prestação de serviços de alimentação em geral, industrialização e refino de óleos vegetais, exploração, conservação, armazenamento, ensilagem e comercialização de grãos, entre outras atividades". A. PALLETS A fiscalização considerou que os pallets de madeira não são insumos da atividade econômica praticada pela recorrente. Por sua vez, a recorrente afirma (amparada no laudo técnico apresentado em resposta à diligência ordenada), que: Fl. 1578DF CARF MF Processo nº 11516.721881/201173 Acórdão n.º 3302003.607 S3C3T2 Fl. 1.570 19 "os pallets são amplamente aplicados dentro do processo produtivo da requerenda, sendo essenciais. São relevantes e participam do processo produtivo, uma vez que são utilizados na: (i) industrialização (emprego para movimentar as matérias primas e os produtos em fase de industrialização a serem utilizados); (ii) armazenagem de matériasprimas em condições de higiene para serem utilizados no processo fabril; (iii) armazenagem de produto industrializado a ser comercializado, e; (iv) armazenagem durante o ciclo de industrialização". Está esclarecido no laudo técnico apresentado em resposta à diligência que: "No sistema de movimentação de cargas de pequenas dimensões, na maioria aquelas que possam ser empilhadas manualmente, empregase uma espécie de estrado com geometria plana que facilita e aumenta a velocidade de transporte de arrumação dos produtos sobre ele empilhados. Tratase de dispositivo denominado pallet que foi normalizado nacional e internacionalmente com o objetivo de garantir segurança na carga em movimentação, mecanização para levantamento e deslocamento da massa transportada, entre outros, e principalmente, buscar a unitização de todo um quantitativo de produtos ou até mesmo de matériasprimas entre fornecedor e cliente, entre setores produtivos internos a uma mesma unidade industrial e, ainda, com a possibilidade do pallet ser retornável ou não". "Em suma, os pallets são relevantes para toda a indústria, especialmente a alimentícia, pois, participa do processo produtivo, uma vez que são utilizados na própria industrialização para movimentação das matériasprimas e dos produtos em fase de industrialização a serem utilizados, evitando que estes fiquem em contato direto com o solo (diminuindo o risco de contaminação)". E a utilização dos pallets é indispensável para atender aos requisitos das normas de vigilância sanitária, a qual a recorrente deve obediência. A propósito e a título ilustrativo, trago a conhecimento o conteúdo da Portaria SVS/MS (Secretaria de Vigilância Sanitária do Ministério da Saúde) n. 326, de 30 de julho de 1997, que aprova o Regulamento Técnico; “Condições HigiênicosSanitárias e de Boas Práticas de Fabricação para Estabelecimentos Produtores/Industrializadores de Alimentos”: “5.3.10Os insumos, matériasprimas e produtos terminados devem estar localizados sobre estrados e separados das paredes para permitir a correta higienização do local” “8.8Armazenamento e transporte de matériasprimas e produtos acabados; 8.8.1 – As matériasprimas e produtos acabados devem ser armazenados e transportados segundo as boas práticas respectivas de forma a impedir a contaminação e/ou a proliferação de microrganismos e que protejam contra a alteração ou danos ao recipiente ou embalagem. Durante o Fl. 1579DF CARF MF 20 armazenamento deve ser exercida uma inspeção periódica dos produtos acabados, a fim de que somente sejam expedidos alimentos aptos para consumo humano e sejam cumpridas as especificações de rótulo quanto as condições e transporte, quando existam”. A utilização de pallets, portanto, atende a exigência de acondicionamento e transportes previstas pelo Ministério da Saúde, e tem por finalidade impedir a contaminação do produto final, o que lhe garante a característica de insumo para as atividades da recorrente. B. PEÇAS DE REPOSIÇÃO, CONSERTO E EQUIPAMENTOS Algumas peças de reposição, conserto e equipamentos foram excluídas do cálculo pela fiscalização, a fiscalização considerou que os códigos CFOP registrados nas Notas Fiscais indicavam produtos que não conferiam direito ao crédito reclamado, por que não condiziam com operações de aquisição de insumos. O laudo técnico acostado aos autos descreve da seguinte forma a finalidade de alguns produtos descartados pela fiscalização: *Rolamentos Utilizado na produção de mortadela, steaks, frango, bacon. Também é utilizado na caldeira. *Esteira Utilizada na produção de steak e presunto. *Correias São utilizadas nas linhas de corte de frango, de suínos, e na produção de bacon. *Respirador São utilizados nas granjas. *Mangueiras são peças de reposição de empilhadeiras e também existem as que são utilizadas nas produção de mortadela, bacon. *Mangote é utilizado em toda indústria. *Chapas São utilizadas na produção de lingüiças. *Parafusos e porcas São utilizados nas produções de mortadelas, bacon, steak. *Bucha É utilizada na produção de mortadela . *Suporte Bronze Mordaça São utilizados no processo de abate do frango. *Lateral Mordaça É utilizada no processo de abate do frango. *Bucha Bronze É utilizada no processo de abate do frango. *Pinto de 1 dia (macho e fêmea) São utilizados na integração das aves no primeiro dia de granja. *Faca Inox São utilizadas nos cortes dos frangos *Peneira Moinho É utilizada na fabricação da ração moinho da fábrica e moinho de milho. *Filtro de ar é utilizado no abate de frango, na sala de cortes e na fabricação de ração e farinhas. Fl. 1580DF CARF MF Processo nº 11516.721881/201173 Acórdão n.º 3302003.607 S3C3T2 Fl. 1.571 21 *Filtro de óleo é utilizado no abate de frango, na sala de cortes e na fabricação de ração e farinhas. Considerando as informações contidas no laudo técnico e a simples descrição dos produtos feita pelo próprio fiscal, considero que os produtos efetivamente são insumos (em conformidade com a definição adotada e já esclarecida), já que evidentemente indispensáveis para a industrialização dos produtos comercializados pela recorrente. C. COMBUSTÍVEIS EM GERAL E ENERGIA ELÉTRICA Dentro dessa categoria, foram glosados os seguintes itens: GAS GLP 13 Óleo diesel combustível Gasolina Comum Álcool etílico. Por sua vez, conta no laudo técnico que tais produtos têm finalidades diversas além da típica (abastecer veículos automotores) como, por exemplo, manter em funcionamento o equipamento que serve para manter a temperatura de frigoríficos. Trago a conhecimento as utilidades: *Óleo Diesel É utilizado para geração de energia do frigorífico, da incubadora e das caldeiras. *Álcool combustível É utilizado nos túneis de congelamento. *Gasolina combustível É utilizada nos veículos da empresa. Vêse, portanto, que os combustíveis, diante do que esclarece o laudo técnico, é integrado ao próprio processo produtivo da recorrente, já que sem ele não seria possível obter o produto final comercializado. Como já esclarecido, é coerente afirmar que os insumos que propiciam ao contribuinte a obtenção de créditos estão relacionados à prestação de serviços ou industrialização. Seguindo tal raciocínio, o Superior Tribunal de Justiça, ao julgar recurso interposto por indústria de alimentos considerou que é possível o creditamento de PIS e COFINS dos custos incorridos pela aquisição de combustíveis. Transcrevo a ementa do julgamento: TRIBUTÁRIO. CONTRIBUIÇÕES AO PIS E COFINS NÃO CUMULATIVAS. CREDITAMENTO. COMBUSTÍVEIS, LUBRIFICANTES E PEÇAS UTILIZADAS COMO INSUMOS NA PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS DE ENTREGA DE Fl. 1581DF CARF MF 22 MERCADORIAS VENDIDAS PELA PRÓPRIA EMPRESA. ARTS. 3º, II, DAS LEIS N. 10.647/2002 E 10.833/2003. 1. O creditamento pelos insumos previsto nos arts. 3º, II, da Lei n. 10.833/2003 e 10;637/2002 abrange os custos com peças, combustíveis e lubrificantes utilizados por empresa que, conjugada com a venda de mercadorias, exerce também a atividade de prestação de serviços de transporte da própria mercadoria que revende. 2. Recurso especial provido. (Recurso Especial n. 1.235.979/RS, julgado em , sob a relatoria do Ministro Herman Benjamin pela Primeira Seção). Nesse mesmo sentido assim decidiu a 3ª Turma da 4ª Câmara desta 3ª Seção de julgamentos: CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS CARF Terceira Seção MATÉRIA: COFINS RESSARCIMENTO ACÓRDÃO: 3403002.915 Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social Cofins Período de apuração: 01/07/2006 a 30/09/2006 COFINS. CRÉDITOS DE ICMS CEDIDOS A TERCEIROS. NÃO INCIDÊNCIA. RE 606.107/RSRG. Não incidem a Contribuição para o PIS/PASEP e a COFINS sobre créditos de ICMS cedidos a terceiros, conforme decidiu definitivamente o pleno do STF no RE no 606.107/RS, de reconhecida repercussão geral, decisão esta que deve ser reproduzida por este CARF, em respeito ao disposto no art. 62A de seu Regimento Interno. COFINS. NÃOCUMULATIVIDADE. INSUMO. CONCEITO. O conceito de insumo na legislação referente à Contribuição para o PIS/PASEP e à COFINS não guarda correspondência com o extraído da legislação do IPI (demasiadamente restritivo) ou do IR (excessivamente alargado). Em atendimento ao comando legal, o insumo deve ser necessário ao processo produtivo/fabril, e, conseqüentemente, à obtenção do produto final. São exemplos de insumos os combustíveis utilizados em caminhões da empresa para transporte de matérias primas, produtos intermediários e embalagens entre seus estabelecimentos. Por outro lado, não constituem insumos os combustíveis utilizados em veículos de passeio, motocicletas, e kombis que eventualmente transportam funcionários. Considerando que além das finalidades atípicas, os combustíveis são necessários para o transporte dos insumos vivos (frangos, suínos, bovinos) das granjas para o abatedouro, entendo que devem ser considerados como insumos para fins de creditamento, diante da evidente essencialidade e indispensabilidade dos produtos para a recorrente. Fl. 1582DF CARF MF Processo nº 11516.721881/201173 Acórdão n.º 3302003.607 S3C3T2 Fl. 1.572 23 No que concerne os gastos com energia elétrica, entendo que concluiu mal o auditor fiscal ao glosar tal insumo. Isso porque o inciso IX do art. 3º da Lei n. 10.637/200210 e o inciso III do art. 3º da Lei n. 10.833/200311 expressamente permitem o desconto de créditos das contribuições do PIS e da COFINS correspondente aos valores gastos pelos custos de energia elétrica utilizadas pelas pessoas jurídicas. Assim, por estar em evidente desalinho com a previsão legal, entendo que é de rigor o cancelamento da glosa sobre os gastos com energia elétrica. D. PRODUTOS QUÍMICOS VINCULADOS À DESINFECÇÃO E LIMPEZA Sobre as glosas determinadas pela fiscalização sobre os produtos químicos utilizados para limpeza e desinfecção, a recorrente esclarece que são indispensáveis para atender as determinações dos órgãos reguladores e fiscalizadores aos quais está submetida por ser frigorífico e produtor de alimentos para consumo humano (Anvisa, Ministério da Agricultura, Ministério da Saúde, dentre outros). Cita, como exemplo, a regulamentação prevista na Resolução n.10, de 31/07/1984 emitida pelo Ministério da Agricultura, que determina a forma de conservação dos produtos industrializados perecíveis até a chegada ao consumidor final. Além dos motivos já apresentados no item a pallets, entendo que os produtos químicos glosados são essenciais para a desinfecção e limpeza dos abatedouros e locais de processamento dos produtos da recorrente. Adoto como fundamentos específicos aqueles apresentados pelo Ministro Mauro Campbell Marques ao julgar recurso que trata sobre matéria similar a que aqui está submetida a julgamento: PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. AUSÊNCIA DE VIOLAÇÃO AO ART. 535, DO CPC. VIOLAÇÃO AO ART. 538, PARÁGRAFO ÚNICO, DO CPC. INCIDÊNCIA DA SÚMULA N. 98/STJ. CONTRIBUIÇÕES AO PIS/PASEP E COFINS NÃO CUMULATIVAS. CREDITAMENTO. CONCEITO DE INSUMOS. ART. 3º, II, DA LEI N. 10.637/2002 E ART. 3º, II, DA LEI N. 10.833/2003. ILEGALIDADE DAS INSTRUÇÕES NORMATIVAS SRF N. 247/2002 E 404/2004. (...) 4. Conforme interpretação teleológica e sistemática do ordenamento jurídico em vigor, a conceituação de "insumos", para efeitos do art.3º, II, da Lei n. 10.637/2002, e art. 3º, II, da Lei n. 10.833/2003, não se identifica com a conceituação adotada na legislação do Imposto sobre Produtos Industrializados IPI, posto que excessivamente restritiva. Do mesmo modo, não corresponde exatamente aos conceitos de 10 Art. 3º. Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos em relação a: IX energia elétrica consumida nos estabelecimentos da pessoa jurídica. 11 Art. 3º.Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos em relação a: III energia elétrica e energia térmica, inclusive sob a forma de vapor, consumidas nos estabelecimentos da pessoa jurídica. Fl. 1583DF CARF MF 24 "Custos e Despesas Operacionais" utilizados na legislação do Imposto de Renda IR, por que demasiadamente elastecidos. 5. São "insumos", para efeitos do art. 3º, II, da Lei n.10.637/2002, e art. 3º, II, da Lei n. 10.833/2003, todos aqueles bens e serviços pertinentes ao, ou que viabilizam o processo produtivo e a prestação de serviços, que neles possam ser direta ou indiretamente empregados e cuja subtração importa na impossibilidade mesma da prestação do serviço ou da produção, isto é, cuja subtração obsta a atividade da empresa, ou implica em substancial perda de qualidade do produto ou serviço daí resultantes. 6. Hipótese em que a recorrente é empresa fabricante de gêneros alimentícios sujeita, portanto, a rígidas normas de higiene e limpeza. No ramo a que pertence, as exigências de condições sanitárias das instalações se não atendidas implicam na própria impossibilidade da produção e em substancial perda de qualidade do produto resultante. A assepsia é essencial e imprescindível ao desenvolvimento de suas atividades. Não houvessem os efeitos desinfetantes, haveria a proliferação de microorganismos na maquinaria e no ambiente produtivo que agiriam sobre os alimentos, tornandoos impróprios para o consumo. Assim, impõese considerar a abrangência do termo "insumo" para contemplar, no creditamento, os materiais de limpeza e desinfecção, bem como os serviços de dedetização quando aplicados no ambiente produtivo de empresa fabricante de gêneros alimentícios. 7. Recurso especial provido. (REsp 1246317/MG, Rel. Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, SEGUNDA TURMA, julgado em 19/05/2015, DJe 29/06/2015 grifos nossos) Diante do exposto, considero que conferem direito a crédito os valores despendido para aquisição dos produtos químicos destinados à limpeza e desinfecção do estabelecimento industrial da recorrente. E. SERVIÇOS Os serviços não reconhecidos como insumos para fins de apuração de crédito foram aqueles elencados na linha 03, da ficha 06A dos DACONS12. A recorrente defende que os serviços são insumos, por constituírem custos essenciais no processo produtivo. Os serviços não reconhecidos pelo auditor fiscal são: Serviço de mãodeobra Serviço de expedição e armazenagem de cereais Serviço técnico mecânicos Serviços gerais Serviço de transporte de funcionários Serviço imobilizado geral Serviço apanhe de animais Serviço de carga e descarga Fl. 1584DF CARF MF Processo nº 11516.721881/201173 Acórdão n.º 3302003.607 S3C3T2 Fl. 1.573 25 Serviço de sangria. Transbordo Armazenagem e frete Consta no parecer técnico oportunamente acostado aos autos as seguintes definições: *Serviços de Expedição e Armazéns São necessários na produção de rações. *Serviços de Transporte de Aves São utilizados nas granjas de matrizes e transferem as aves das granjas de recria para as granjas de produção. *Serviços de Carga e Descarga São necessárias para realizar o recebimento de cereais que serão utilizados na composição das rações. É de fácil conclusão que os serviços acima listados e descritos são empregados na atividade precípua da recorrente fabricação de alimentos para consumo humano. São essenciais para as etapas descritas no laudo técnico e, percebese ainda, que não são passíveis de substituição pelas máquinas, o que reforça a essencialidade e indiscutível característica de insumo. Mais especificamente sobre o serviço de sangria, o laudo técnico informa que: "A unidade industrial do interessado em Carambei/PR produz frangos que são exportados para o Oriente Médio e, por isso, contratualmente por exigência dos clientes as aves são abatidas conforme os preceitos da religião islâmica. As exigências contratuais incluem a forma em que é feita a sangria que inclui a impossibilidade de automação da linha de corte e, mais ainda, que seja feita por pessoas com formação espiritual islâmica e nunca por funcionários da própria BRF S.A. Para viabilizar este requisito do contrato de exportação existe pessoal que atende a estes princípios e que são organizados para prestarem seus serviços nesta etapa de produção industrial". Percebese que a essencialidade do serviço de sangria decorre da atuação da recorrente no mercado internacional, o que torna indiscutível o seu reconhecimento como insumo para fins do creditamento reclamado. A Secretaria da Receita Federal do Brasil adota a conceituação de transbordo13 como sendo a transferência direta de mercadoria de um para outro veículo. No caso da agroindústria, admitese o creditamento não só dos bens e serviços qualificados, com insumos na própria industrialização, mas também daqueles insumos utilizados na fase agrícola que lhe precede14. Não encontra amparo no inciso IX do art. 3º das 13 Disponível em http://idg.receita.fazenda.gov.br/orientacao/aduaneira/manuais/transito aduaneiro/topicos/controledoregime/transbordoebaldeacao 14 Nesse mesmo sentido está o Acórdão n. 3402003.041, lavrado no julgamento do recurso voluntário apresentado pela Usina Moema Açúcar e Álcool objeto do Processo Administrativo n. 16004.720550/201371, julgado pela 2ª Turma da 4ª Câmara da 3ª Seção de julgamentos em 27 de abril de 2016. Fl. 1585DF CARF MF 26 Leis n. 10.833/2003 e 10.637/2002, a pretensão de descontar os valores das contribuições das despesas que não são de armazenagem, mas que corroboram essa atividade. Há de se ter em mente o laudo técnico que esclarece que os animais vivos são transportados em caminhões, dentro de caixas com controle de temperatura. Assim que chegam ao local do abate, não são desembarcados um a um. A caixa em que chegam é transbordada para o caminhão que percorre os vários locais dentro da planta industrial (alimentação, limpeza e abate dos animais). São custos com serviços indispensáveis para o transporte dos insumos dentro da indústria da recorrente, já que existem peculiaridades técnicas que exigem a manutenção da temperatura e a diminuição dos fatores que possam estressar os animais antes do momento do abate. O transbordo é, ao meu ver, essencial para o processo produtivo, já que sem a prestação desse serviço não é possível obter o produto final. No que concerne os créditos oriundos dos serviços de frete e armazenagem considero que tais são devidos, sem sobra de dúvidas. Isso porque o inciso IX do art. 3º da Lei n. 10.833/2003 permite expressamente que a contribuinte desconte créditos calculados em relação a "armazenagem de mercadoria e frete na operação de venda, no caso dos incisos I e II, quando o ônus for suportado pelo vendedor". F. CRÉDITO PRESUMIDO DA ATIVIDADE AGROINDUSTRIAL (ART. 8º DA LEI N. 10.925/2004). De forma sucinta, os motivos que ensejaram as glosas sobre os créditos oriundos da atividade agroindustrial foram: (i) aplicação incorreta do percentual de 60% (art. 8º, § 3º, I da Lei n. 10.925/2004); (ii) inclusão de aquisições que não se enquadram no conceito de insumos (animais reprodutores, animais para lactação, animais para recria, laudo técnicos, lenha, retentores, e; (iii) inclusão de insumos sujeitos à alíquota zero (pinto de 1 dia, pois este não está sujeito à suspensão, mas sim à alíquota zero). Sobre as aquisições se enquadrarem ou não no conceito de insumos, não houve qualquer esclarecimento mais específico no laudo técnico apresentado. Assim, por ausência de fundamentos aptos a ensejar a reforma da decisão recorrida, esta deve ser mantida (apenas no que concerne esses insumos: animais reprodutores, para lactação, para recria, lenha, laudos técnicos e retentores). Já no que concerne a interpretação do inciso I, do § 3º do artigo 8º da Lei n. 10.925/2004, passo a tecer as seguintes considerações. Ao julgar o Recurso Especial n. 993.164/MG, este submetido a sistemática dos recursos repetitivos e apontado como paradigma da tese, o Superior Tribunal de Justiça definiu que é ilegal ato que exclui da base de cálculo do benefício do crédito presumido do IPI as aquisições, relativamente aos produtos oriundos de atividade rural, de matériaprima e insumos de fornecedores não sujeito à tributação pelo PIS/Pasep e COFINS. E trouxe o seguinte esclarecimento: “É que (i) a COFINS e o PIS oneram em cascata o produtor rural e, por isso, estão embutidos no valor do produto final adquirido pelo produtorexportador, mesmo não havendo incidência na sua última aquisição; (ii) o Decreto n. 2.367/98 – Regulamento do IPI , posterior à Lei n. 9.363/96, não fez restrição às aquisições de produtos rurais, e; (iii) a base de cálculo do ressarcimento é o valor total das aquisições dos Fl. 1586DF CARF MF Processo nº 11516.721881/201173 Acórdão n.º 3302003.607 S3C3T2 Fl. 1.574 27 insumos utilizados no processo produtivo (art. 2º), sem condicionantes”. Estabelecida a premissa inicial que é ilegal a exclusão da base de cálculo do benefício do crédito presumido do IPI as aquisições, relativamente aos produtos oriundos de atividade rural, de matériaprima e insumos de fornecedores não sujeito à tributação pelo PIS/Pasep e COFINS passo ao seguinte ponto, que é definir o percentual a que a recorrente tem direito. Da leitura sistemática da Lei n. 10.925/2004 é possível concluir que o critério de definição dos percentuais de crédito é a natureza dos produtos a que dá saída. Sendo os produtos de origem animal, configura devido os 60% defendidos pela recorrente. E tal conclusão é robustecida pelo texto da Lei n. 12. 865/2013 que em seu artigo 33 acrescentou o § 10 ao artigo 8º da Lei n. 10.925/2004, que passou a constar nos seguintes termos: §10. Para efeito de interpretação do inciso I do § 3º, o direito ao crédito na alíquota de 60% (sessenta por cento) abrange todos os insumos utilizados nos produtos ali referidos. Esse dispositivo é nitidamente interpretativo, de modo que deve prestar os seus efeitos benéficos ao contribuinte ora recorrente, nos moldes do que determina o inciso I do artigo 106 do Código Tributário Nacional. Diante do exposto, voto por dar provimento integral nessa parte. Lenisa Prado Relatora Voto Vencedor Conselheiro José Fernandes do Nascimento, Redator Designado. Na Sessão do dia 26 de janeiro de 2017, este Conselheiro pediu vistas deste processo, para melhor análise do litígio. Após minuciosa análise dos autos, não se vislumbra qualquer dissenso quanto os fundamentos do voto da i. Relatora sobre às questões preliminares suscitadas pela recorrente. Já no que tange às questões de mérito, este Relator, com a devida vênia, discorda parcialmente do entendimento da nobre Relatora, pelas razões a seguir aduzidas. Do lote processos que este integra Inicialmente, cabe esclarecer que, o presente processo, faz parte de um lote composto de 9 (nove) processos, sendo um relativo a auto de infração (processo n° 11516.721009/201214) e os demais relativos a pedidos de ressarcimento de créditos da Contribuição para o PIS/Pasep e Cofins dos 1º ao 4º trimestres de 2008, a seguir relacionados: TRIMESTRE PROCESSO DO PIS PROCESSO DA COFINS 1º TRI/2008 10183.905478/201141 11516.721881/201173 Fl. 1587DF CARF MF 28 2º TRI/2008 11516.721876/201161 11516.721884/201115 3º TRI/2008 11516.721875/201116 11516.721882/201118 4º TRI/2008 11516.721877/201113 11516.721883/201162 Os processos de n°s 11516.721009/201214 (autos de infração) e 10183.905478/201141 (PIS 1º trimestre de 2008), na Sessão de 9/12/2015, foram distribuídos para o Conselheiro Waldir Navarro Bezerra, integrante da 2ª Turma Ordinária da 4ª Câmara desta Seção. Na Sessão de 11/7/2016, com respaldo no art. 6º, do Anexo II, do RICARF/2015, por meio da Resolução nº 3402000.799, o processo de n° 11516.721009/2012 14 (autos de infração) foi convertido em diligência perante a DRF Florianópolis (SC), para fim de aguardar a conclusão do julgamento dos demais (oito) processos acima referenciados e, que após concluído o dito julgamento, retornasse ao CARF, com os respectivos julgados anexados (a este PAF), com vistas ao prosseguimento do julgamento do recurso voluntário colacionados aos presentes autos. Por sua vez, na Sessão de 20/7/2016, o processo de n°10183.905478/201141 (PIS 1º trimestre de 2008) foi submetido a julgamento, formalizado por meio do Acórdão nº 3402003.153, em que, por maioria, o Colegiado deu provimento parcial ao recurso voluntário, para reverter as glosas quanto “aos itens ‘peças de reposição de máquinas e equipamentos’, discriminados no item 8.1.3 do voto; óleo diesel e álcool combustível, conforme item 8.1.4 do voto; e crédito presumido das atividades agroindustriais.” Em 13/9/2016, o Fazenda Nacional interpôs recurso especial perante a 3ª Turma da CSRF, o qual encontrase em fase de triagem no âmbito deste Conselho, conforme informação extraída do sítio do CARF no dia 6/2/201715 Os demais processos do lote (sete), incluindo este, foram distribuídos para a Conselheira Lenisa Rodrigues Prado, integrante deste Colegiado, na Sessão de 22/7/2016. Com exceção do processo nº 11516.721882/201118 (Cofins 3º trimestre de 2008), os restantes foram colocados na pauta de julgamento do dia 26 de janeiro de 2017, quando, após leitura parcial do voto pela Relatora, este Conselheiro pediu vistas, para melhor análise do litígio. Com base nesses breves esclarecimentos, fica evidenciado que os 8 (oito) processos que tratam dos pedidos de ressarcimento estão vinculados por conexão, conforme definido no art. 6º, § 1º, I, do Anexo II do Regimento Interno deste Conselho, aprovado pela Portaria MF 343/2015 (RICARF/2015). Logo, por força dessa condição, antes de prolatada a decisão, todos os processos conexos poderiam ter sido distribuídos ao conselheiro prevento, ou seja, aquele que primeiro recebeu um ou parte dos processos conexos. Entretanto, no caso em tela, essa providência não revelase impossibilitada, haja vista que, os dois processos distribuídos ao Conselheiro Waldir Navarro Bezerra, integrante da 2ª Turma Ordinária da 4ª Câmara desta 3ª Seção, já foram julgados, o que afasta a possibilidade de remessa dos demais processos conexos, ainda pendentes de julgamento, ao citado Conselheiro, por expressa disposição do art. 6º16, § 2º, do Anexo II do RICARF/2015. 15 Disponível em: <https://carf.fazenda.gov.br/sincon/public/pages/ConsultarInformacoesProcessuais/ exibirProcesso.jsf> 16 "Art. 6º Os processos vinculados poderão ser distribuídos e julgados observandose a seguinte disciplina: § 1º Os processos podem ser vinculados por: I conexão, constatada entre processos que tratam de exigência de crédito tributário ou pedido do contribuinte fundamentados em fato idêntico, incluindo aqueles formalizados em face de diferentes sujeitos passivos; Fl. 1588DF CARF MF Processo nº 11516.721881/201173 Acórdão n.º 3302003.607 S3C3T2 Fl. 1.575 29 Dessa forma, passase analisar as questões de mérito em relação as quais não há concordância com as razões de decidir apresentadas pela nobre Relatora. A) DAS QUESTÕES DE MÉRITO Nos presentes autos, o mérito da controvérsia cingese às razões que motivaram o indeferimento integral do Pedido Eletrônico de Ressarcimento (PER) do saldo remanescente dos créditos da Contribuição para o PIS/Pasep de incidência não cumulativa do 3º trimestrecalendário de 2008, vinculados à receita de exportação do respectivo período de apuração. Portanto, aqui não serão analisadas as questões atinentes ao auto de infração integrante do processo nº 11516.721009/201214, por ser matéria estranha. De acordo com a Informação Fiscal colacionada aos autos, o motivo do indeferimento foi (i) a glosa parcial dos valores de determinados itens integrantes da base cálculo da Contribuição para o PIS/Pasep e Cofins e (ii) reclassificação de parte do valor da receita de exportação (isenta/imune) para receita de venda no mercado interno (tributada). I DA GLOSA DA BASE DE CÁLCULO DOS CRÉDITOS. As glosas recaíram sobre os valores, totais ou parciais, dos seguintes itens informados no Dacon e memória de cálculo pela recorrente: a) bens utilizados como insumos; b) serviços utilizados como insumos; c) despesas com energia elétrica; d) despesas de armazenagem e fretes na operação de venda; e e) crédito presumido agroindustrial. 1 Da glosa dos Bens Utilizados Como Insumos (Ficha 16A Linha 02) Em relação aos bens utilizados como insumos, as glosas foram realizadas sobre os valores das (i) aquisições de bens que não se enquadram no conceito de insumo, (ii) aquisição de bens sujeitos à alíquota zero, (iii) notas fiscais cujo CFOP não representa aquisição de insumos e nem outra operação com direito a crédito e (iv) notas fiscais que representam aquisições de pessoas jurídicas, que deveriam ter ocorrido com suspensão obrigatória da Contribuição para o PIS/Pasep e Cofins. Na “Relação De Notas Fiscais Glosadas de 2008”, elaborada pela autoridade fiscal, estão identificadas todas as notas fiscais, valores glosados e a indicação clara e precisa dos respectivos motivo e fundamentação legal da glosa, o que é suficiente para demonstrar a improcedência da alegação de nulidade do procedimento fiscal, bem como a desnecessidade da produção da requerida prova pericial. 1.1 Da aquisição de bens que não se enquadram no conceito de insumo (Grupo NI) II decorrência, constatada a partir de processos formalizados em razão de procedimento fiscal anterior ou de atos do sujeito passivo acerca de direito creditório ou de benefício fiscal, ainda que veiculem outras matérias autônomas; e III reflexo, constatado entre processos formalizados em um mesmo procedimento fiscal, com base nos mesmos elementos de prova, mas referentes a tributos distintos. § 2º Observada a competência da Seção, os processos poderão ser distribuídos ao conselheiro que primeiro recebeu o processo conexo, ou o principal, salvo se para esses já houver sido prolatada decisão. § 3º A distribuição poderá ser requerida pelas partes ou pelo conselheiro que entender estar prevento, e a decisão será proferida por despacho do Presidente da Câmara ou da Seção de Julgamento, conforme a localização do processo. [...]" Fl. 1589DF CARF MF 30 De acordo com a referida Informação Fiscal, a autoridade fiscal glosou os valores das aquisições dos bens que não se enquadravam no conceito insumo, veiculado pelo art. 8º, § 4º, I, “a”, da Instrução Normativa SRF 404/2004. De outra parte, a recorrente alegou a improcedência das referidas glosas, baseada no entendimento de que de todos os dispêndios ocorridos que contribuíram, direta ou indiretamente, para a obtenção da receita auferida e submetida à tributação da Contribuição para o PIS/Pasep e Cofins. Assim, fica evidenciado que o cerne da controvérsia gira em torno do significado e alcance do termo insumo, utilizado no art. 3º, II, das Leis 10.637/2002 10.833/2003, a seguir transcrito: Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: [...] II bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustíveis e lubrificantes, [...]; (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) grifos não originais O entendimento deste Relator é um pouco mais amplo do que aquele apresentado pela autoridade fiscal (extraído da legislação do IPI), porém, um pouco mais restrito do que o utilizado pela recorrente (veiculado pela legislação do Imposto sobre Renda da Pessoa Jurídica). Cabe ainda consignar que, no âmbito da jurisprudência deste Conselho, vem se firmando também entendimento intermediário, que considera insumo tanto as matérias primas, produtos intermediários e material de embalagem utilizados diretamente na produção ou fabricação do bem destinado à venda, que, em termos financeiros, equivalem aos custos diretos de produção ou fabricação, quanto os bens e serviços gerais utilizados indiretamente na produção ou fabricação dos citados bens, que, em termos financeiros, equivalem aos custos indiretos de produção ou fabricação. Com a ressalva de que insumo e custo são termos que representam a mesma realidade de forma dista. O insumo representa a coisa, o bem material ou imaterial (ou serviço), enquanto que o custo representa o valor financeiro despendido na aquisição do respectivo bem. Em outros termos, o insumo representa o fluxo físico, enquanto o custo representa o fluxo financeiro da mesma realidade. E, no âmbito da pessoa jurídica, enquanto o fluxo financeiro é relevante para a contabilidade, o fluxo físico interessa à administração e auditoria do estoque. Com base nessa breve digressão, entende este Relator, com a devida vênia aos que entendem diferente, essa é a definição que melhor reflete o significado e alcance jurídico do termo insumo, veiculado pelos citados preceitos legais. Assim, respaldado nesse entendimento, podese asseverar que, no âmbito do regime não cumulativo da referida contribuição, enquadramse na definição de insumo tanto a matéria prima, o produto intermediário e o material de embalagem, que integram o produto final, quanto aqueles bens ou serviços aplicados ou consumidos no processo de produção ou fabricação, que compreendem os insumos diretos de produção. Também são considerados insumos os bens ou serviços previamente incorporados aos bens ou serviços diretamente aplicados no processo produtivo, desde que estes bens ou serviços propiciem direito a créditos da referida contribuição. Fl. 1590DF CARF MF Processo nº 11516.721881/201173 Acórdão n.º 3302003.607 S3C3T2 Fl. 1.576 31 Por outro lado, não integram a definição de insumo de produção ou fabricação os bens e serviços não aplicados ou consumidos no processo de produção ou fabricação. Em outras palavras, todos os bens ou serviços utilizados antes do início ou após a conclusão do processo de produção ou fabricação, que incluem os bens e serviços utilizados (i) na etapa anterior ao processo de produção ou fabricação, que, em termos financeiros, compreende às despesas préindustriais, ou (ii) na etapa posterior ao processo de produção ou fabricação, que, em termos financeiros, equivalem às despesas operacionais ou não operacionais da pessoa jurídica (as despesas de propaganda, administrativas, de vendas, financeiras etc.). Com base nesse entendimento, aqui será analisada as glosas dos créditos apropriados sobre os valores de aquisição de bens e serviços utilizados como insumo de fabricação pela recorrente. Inicialmente, rejeitase a alegação da recorrente de que os itens glosados a título “de bens que não se enquadram no conceito de insumo” não foram identificados pela fiscalização. Diferentemente do alegado, na referida “Relação De Notas Fiscais Glosadas de 2008” consta, além do número da nota fiscal, o grupo e motivo da glosa e a correspondente descrição do bem adquirido. E se da simples leitura da referida descrição foi possível a este Relator identificar o tipo de bens descritos, certamente, não se revela crível que a recorrente, que dispõe de todos os dados sobre os bens adquiridos, conforme se verifica na memória de cálculo por ela elaborada, não tenha identificado os itens glosados. Pela mesma razão, afastase o alegado cerceamento do direito de defesa, por falta de motivação. Ainda em relação a presente glosa, a recorrente afirmou que os itens glosados, a exemplo do barbante e pallets, davam direito a crédito por serem produtos utilizados direta ou indiretamente no seu processo produtivo. Esclareceu que o barbante era utilizado dentro do processo produtivo industrial para costura e também embalagem dos bens produzidos e destinados ao comércio. Acerca dos pallets acrescentou: O pallet e demais produtos glosados e não identificados em relatório são relevantes e participam do processo produtivo, uma vez que são utilizados na: (i) industrialização (emprego para movimentar as matériasprimas a serem utilizados); (ii) – armazenagem de matériasprimas em condições de higiene para serem utilizadas no processo fabril; (iii) armazenagem de produto industrializado a ser comercializado; (iv) armazenagem durante o ciclo de industrialização. [...]Portanto, tais materiais objetivam garantir regras de higiene e limpeza, como enuncia a ANVISA e MINISTÉRIO DA AGRICULTURA (SIF). As alegações genéricas dispensam qualquer análise e rejeitase de plano, por se revelarem improcedentes. No que tange ao barbante, compulsando a coluna da “Descrição do Material” da referida “Relação De Notas Fiscais Glosadas de 2008”, não foi encontrada menção à glosa do custo de aquisição desse tipo de produto, o que dispensa qualquer consideração a respeito. Fl. 1591DF CARF MF 32 Em relação aos pallets, cabe trazer a lume os esclarecimentos apresentados no Relatório Técnico nº 000.903/13, da lavra do Instituto Nacional de Tecnologia (INT), anexado pela recorrente em atendimento ao pedido de diligência deste Conselho, que se encontra colacionado aos autos. Especialmente, a partir do item 13, em que apresentadas a descrição e forma de utilização, no estabelecimento da interessada, dos vários tipos pallets. De todos, merece destaque especial o item 15, que segue transcrito: No caso da BRF S. A., nas unidades visitadas, foi apurado que existem três tipos de paletes em uso sendo dois de madeira e outro em fibra de vidro (sic). Nos casos das peças fabricadas em madeira há um tipo que é retornável (denominado PBR) e outro que é enviado para o cliente e descartado pelo mesmo (denominado “one way”), ambos utilizados sempre nas movimentações externas às linhas de produção. Já no ambiente interno, onde são utilizados para armazenar e transportar matériasprimas e produtos em elaboração no interior da unidade produtora, há exigência do Serviço de Inspeção Federal – SIF para que sejam utilizados somente paletes de fibra de vidro [...] (sic). destaques não originais. Com base no texto transcrito, fica esclarecido que a recorrente utiliza três tipos pallets: um de fibra de vidro e os outros dois de madeira. E conforme explicitado, apenas os pallets de fibra de vidro são utilizados nas linhas de produção, logo, os custos de aquisição, se não ativados, são considerados insumo de produção. E assim entendeu a autoridade fiscal, uma vez que não houve glosa desse tipo de pallet, conforme se infere da leitura da citada “Relação De Notas Fiscais Glosadas de 2008”. No que concerne aos pallets de madeira há um tipo que é retornável e o outro descartável. E conforme explicitado no texto transcrito, ambos são utilizados nas “movimentações externas às linhas de produção”. Logo, inferese que tais pallets não são utilizados no processo produtivo, portanto, não são considerados insumos de produção, incluindo os descartáveis. E dada essa forma de utilização, chegase a conclusão de que, no âmbito da atividade da recorrente, os pallets de madeira são considerados meros equipamentos de transporte dos produtos acabados. Aliás, sabidamente, os pallets são considerados unidades de carga destinadas a viabilizar a otimização do transporte dos produtos acabados, por meio do uso de paleteiras e empilhadeiras. Logo, em face dessa condição e forma utilização, os referidos pallets de madeira, em hipótese alguma, podem ser considerados insumos de produção, porque utilizados exclusivamente no transporte dos produtos acabados, e tampouco despesas de armazenagem ou de frete, conforme alegado, alternativamente, pela recorrente, especialmente, aqueles retornáveis, que, dependendo do prazo de vida útil, devem ser registrados no ativo permanente e não contabilizados como despesas. E como não se trata de insumo nem despesa de armazenagem ou de frete, obviamente, não tem qualquer relevância para o deslinde da controvérsia o fato de a utilização dos referidos pallets atender ou não exigências referentes à higiene e limpeza determinada em normas da Anvisa e do Ministério da Agricultura. Por todas essas considerações e tendo em conta que os custos de aquisição dos pallets de madeira não são considerados insumos de produção nem despesa de armazenagem ou frete, conforme definido no art. 3º, II e IX, das Leis 10.637/2002 e 10.833/2003, por falta de previsão legal, não integram a base de cálculo dos créditos da Fl. 1592DF CARF MF Processo nº 11516.721881/201173 Acórdão n.º 3302003.607 S3C3T2 Fl. 1.577 33 Contribuição para o PIS/Pasep e Cofins, portanto, deve ser mantida, integralmente, a glosa realizada pela fiscalização. 1.2 Da aquisição de bens sujeitos à alíquota zero Com base nos dados da memória de cálculo apresentada pela recorrente, a autoridade fiscal procedeu a glosa das aquisições dos bens sujeitos à alíquota zero, para os quais há expressa vedação à apropriação de créditos das referidas contribuições, nos termos do art. 3º, § 2º, II, das Leis 10.637/2002 e 10.833/2003, a seguir reproduzido: Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: [...] § 2º Não dará direito a crédito o valor: (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) [...] II da aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição, inclusive no caso de isenção, esse último quando revendidos ou utilizados como insumo em produtos ou serviços sujeitos à alíquota 0 (zero), isentos ou não alcançados pela contribuição. (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) grifos não originais Na manifestação de inconformidade e no recurso em apreço, a recorrente alegou cerceamento do direito de defesa, por falta de identificação dos itens glosados e da motivação da glosa. No entanto, contraria o alegado, a afirmação da própria recorrente de que “diversos produtos descritos como tributados por meio de alíquota zero, nos moldes da Lei nº 10.925/2004, em seu art. 1º, não se tipificam nas classificações fiscais descritas” e cita o manjericão como “provável” item glosado indevidamente. No mesmo sentido, a simples leitura da referida “Relação De Notas Fiscais Glosadas de 2008” evidencia a improcedência da referida alegação. No referido documento, verificase que, para cada nota fiscal glosada, além da descrição e valor de aquisição do bem, há expressa indicação do motivo da glosa, acompanhado da menção ao respectivo dispositivo legal, que reduziu a zero a alíquota das citadas contribuições. E ao perceber o equívoco de tal alegação, ao se manifestar sobre o resultado da diligência, a recorrente alegou que: Temos ainda produtos químicos, desinfetantes e afins que são bens utilizados especialmente no processo produtivo da recorrente, inclusive, em razão de normas que regulam a atividade e emitidas por órgãos reguladores e fiscalizadores, tais como ANVISA, MAPA, SIF, entre outros. Neste sentido foram glosados: Calc. Calcit. Pá 38% Cálcilo, Desinfetante Hipoclorito Sódio, DL Metionina Pà 99%, Desinfetante Enilconazole, Desinfetante Glut 40%, Desinfetante TEK, Ceftiofur, Treonina 98,5%, Antibiótico Amoxicilina 50%, Sulfato de Beomicina 50%. Fl. 1593DF CARF MF 34 Na seqüência, a recorrente concluiu que: [...] não pode a Receita Federal desconsiderar um custo ou despesa vinculado à atividade empresarial que é obrigatória e necessária ao próprio desempenho desta. A noção de insumo é técnica e, muitas vezes, os órgãos que fiscalizam e orientam determinada atividade, possuem mais condições de evidenciar o que é relevante para aquela atividade. No caso, inexiste controvérsia de que o motivo da glosa foi o fato de os referidos produtos terem sido adquiridos sem a tributação das referidas contribuições (produtos sujeitos à alíquota zero). Por conseguinte, a condição deles serem insumos de produção ou não, induvidosamente, não tem qualquer relevância para infirmar o motivo da glosa, já que a natureza produto não teve qualquer influência em ralação ao motivo da glosa. Também não procede a alegação da recorrente de que era totalmente viável a manutenção do crédito em relação aos produtos “vinculados à noção de insumos”, tais como “vacinas, antibióticos, treonina, ivermectina, entre outros”, pinto de 1 dia (macho e fêmea) etc. A razão, segundo a recorrente, era evidente: se não houve cobrança das referidas contribuições na aquisição desses produtos, logo, era vedado o direito de apropriação de crédito, por expressa determinação no citado preceito legal. Enfim, por expressa proibição, determinada no art. 26A do Decreto 70.235/1972, no âmbito deste Conselho, não cabe a análise da alegação no sentido de que a glosa de créditos, na hipótese de aquisição sem tributação, se sujeita à tributação na operação posterior, viola o princípio da não cumulatividade e da capacidade contributiva, bem como implica efeito confiscatório. Aliás, em conformidade com essa proibição, exisnte o entendimento manifestado no enunciado da Súmula CARF nº 02, de acatamento obrigatório por todos os integrante deste Conselho, por força do disposto no art. 62 do Anexo II do RICARF/2015. Em relação à aquisição dos produtos agropecuários (por exemplo, pinto de 1 dia, entre outros), relacionados no art. 8º da Lei 10.925/2004, em caráter alternativo, a recorrente pleiteou a manutenção, pelo menos, do crédito presumido, “pois esta lei especial se sobrepõe ao art. 3º, § 2º, II, da Lei nº 10.637/2002 e 10.833/2003, como também art. 1º, da Lei n. 10.925”. Assiste razão à recorrente apenas no que tange às aquisições dos pintos de 1 dia, desde que, adquiridos de pessoa jurídica que exerça atividade agropecuária e cooperativa de produção agropecuária, nos termos do art. 8º, § 3º, III, da Lei 10.925/2004, uma vez que, inequivocamente, tais animais integram o processo produtivo dos produtos de origem animal da posição 02.07 “carnes e miudezas, comestíveis, frescas, refrigeradas ou congeladas, das aves da posição 01.05”, produzidos pela recorrente e destinados à alimentação humana. Assim, ainda que tais bens tenham sido adquiridos com alíquota zero das referidas pessoas jurídicas, sobre tais aquisições a recorrente faz jus a apropriação do crédito presumido previsto no art. 8º da Lei 10.925/2004. Por todas essas razões, restabelecese apenas o direito de a recorrente apropriar, parcialmente, do crédito presumido agroindustrial, calculados mediante a aplicação do percentual de 60% das alíquotas normais das contribuições, previsto no art. 8º, § 3º, I, da Lei 10.925/2004, sobre o valor das aquisições dos pintos de 1 dia. 1.3 Notas fiscais com CFOP de operação sem direito a crédito Fl. 1594DF CARF MF Processo nº 11516.721881/201173 Acórdão n.º 3302003.607 S3C3T2 Fl. 1.578 35 De acordo com a citada Informação Fiscal, foram glosados os valores das notas fiscais, listadas na “Relação De Notas Fiscais Glosadas de 2008”, cujo CFOP não representava operação de aquisição de bens e nem outra operação com direito a crédito. Da leitura da referida listagem, constatase que as notas fiscais glosadas em razão de o CFOP “indicar operação sem direito de crédito” estão identificadas na coluna "Motivo glosa" com a informação “CFOP”, que significa “Código Fiscal da operação indica operação sem direito a crédito”. As referidas glosas foram integralmente mantidas pela decisão recorrida, com base nos seguintes argumentos, in verbis: [...] os CFOP de tais notas não representam operações que consistam de aquisição de bens ou outra operação que dê direito a crédito, tais como as representadas pelas notas com os seguintes: os CFOP 2.556 Compra de material para uso ou consumo e 1.653 Compra de combustível ou lubrificante por consumidor ou usuário final. De outro turno, tendo em conta a "Descrição do Material", verificase que os bens claramente não consistem de insumo ou não há como afirmar que o sejam, haja vista não ser possível identificar sua real natureza e aplicação dentro da atividade da empresa. Na manifestação de inconformidade e no recurso em apreço, a recorrente limitouse em alegar a legitimidade dos créditos, por serem bens “caracterizados pela utilidade, inerência e relevância no processo produtivo”. Evidentemente, tratase de alegação genérica, desprovida de qualquer respaldo probatório. Já na manifestação sobre o resultado da diligência, a recorrente apresentou novas alegações, a seguir analisadas. 1.3.1 Das Peças, equipamentos e ferramentas em geral Na referida manifestação, com base nos fluxogramas integrantes do Laudo Técnico do INT, a recorrente informou que, na relação de bens glosados, havia peças e diversos itens de reposição de máquinas, equipamentos e ferramentas utilizados no processo produtivo, tais como: Suporte Bronze Mordaça, Lateral Mordaça, Bucha Bronze, Anel vedante, Anel trava, Rolamento, Fuso, Gancho, Engrenagem, Mola, Bucha, Placa Sincronizadora, Retentor, Pistão Hidráulico, Arruela Lisa, Correias do carro, Espátula, Bloco alumínio, Bucha Inox, Módulo completo, Acoplamento, Mangueira, Chave bloco, chave segurança, Bloco Bronze, Anel elástico, Cilindro bomba, Reparo de Pistão, Conectores, Faca Inox, Esteira placa quente, Peneira Moinho, Filtro Ar, Filtro óleo, Frezas Sep. vísceras PM 300, Navalha CW System e Filtro de óleo. E, em seguida, alegou que tais itens: São peças, equipamentos, ferramentas em geral destinadas à manutenção e consecução do processo produtivo. A mais disso, o próprio Laudo técnico deixa evidente que tais itens estão vinculados ao processo produtivo da recorrente, Fl. 1595DF CARF MF 36 especialmente, diante de sua atividade e plantas industriais juntadas. Ora, se a própria recorrente afirmou que tais bens eram “peças, equipamentos, ferramentas em geral destinadas à manutenção e consecução do processo produtivo”, certamente, eles não eram insumos de produção. E pelas características e aplicação, informadas na “planilha complementar referente aos insumos utilizados na produção”, colacionada aos autos, apresentada após a referida manifestação, inferese que, se efetivamente utilizados na produção, o custo de aquisição de tais bens era passível de apropriação como créditos, mas sob forma de encargo de depreciação, nos termos do art. 3º, VI, e § 1º, III, das Lei 10.637/2002 e 10.833/2003, a seguir reproduzido: Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2oa pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: [...] VI máquinas, equipamentos e outros bens incorporados ao ativo imobilizado, adquiridos ou fabricados para locação a terceiros, ou para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços;(Redação dada pela Lei nº 11.196, de 2005) [...] § 1o Observado o disposto no § 15 deste artigo, o crédito será determinado mediante a aplicação da alíquota prevista no caput do art. 2º desta Lei sobre o valor: (Redação dada pela Lei nº 11.727, de 2008) [...] III dos encargos de depreciação e amortização dos bens mencionados nos incisos VI, VII e XI do caput, incorridos no mês;(Redação dada pela Lei nº 12.973, de 2014) grifos não originais. Assim, em vez da apropriação como crédito de insumo de produção, como equivocadamente fez a recorrente, com suporte nos citados preceitos legais, se aplicados na produção, a apropriação correta e permitida do crédito sobre o valor do custo de aquisição dos referidos bens era sob forma de encargo mensal de depreciação, segundo os procedimento determinados por legislação específica, o que não foi feito pela recorrente. Por essas razões, fica demonstrado que os referidos bens eram insumo produção, portanto, não merece reparo a glosa dos créditos calculados sobre o valor do custo de aquisição dos mencionados bens. 1.3.2 Dos combustíveis em geral Sobre a glosa dos combustíveis, na referida manifestação, a recorrente alegou o seguinte: Temos ainda, os combustíveis (Óleo Diesel), Álcool Combustível, Gasolina Combustível, etc), que além de existir expressa previsão legal para o crédito, também se vinculam diretamente ao processo de produção, como se pode notar claramente dos fluxogramas e laudo juntado. Fl. 1596DF CARF MF Processo nº 11516.721881/201173 Acórdão n.º 3302003.607 S3C3T2 Fl. 1.579 37 Na referida planilha complementar, a recorrente informou que o Óleo Diesel fora utilizado no gerador de energia do Frigorífico, no gerador do Incubatório e nas Caldeiras 1 e 2, enquanto que o Álcool Combustível fora utilizado no setor de Embalagem final e nos Túneis de congelamento (diminuição do gelo acumulado no frigorífico). Como tais itens foram utilizados na área fabril, eles são considerados insumos de produção e como tal o valor do custo de aquisição foram corretamente apropriado como créditos das referidas contribuições. Consta da referida planilha a Gasolina Comum Combustível fora utilizada nos veículos da empresa, o que desqualifica tal produto como insumo de produção, logo, deve ser mantida a glosa. Dessa forma, fica restabelecido o direito de a recorrente apropriarse apenas do valor do crédito calculado sobre o valor de aquisição do Óleo Diesel e do Álcool Etílico Combustível. Em relação aos demais combustíveis, fica mantida a glosa dos créditos apurada pela fiscalização. 1.4 Das aquisições de pessoas jurídicas sujeitas à suspensão obrigatória da cobrança da contribuição De acordo com a referida Informação Fiscal, o que motivou a glosa dos créditos normais apurados sobre os valores das aquisições de pessoas jurídicas de frangos vivos (Posição 0105) e demais produtos agropecuários, utilizados como insumos de produção pela recorrente, foi o fato de tais aquisições não estarem sujeitas à cobrança, mas à obrigatória suspensão da cobrança da Contribuição para o PIS/Pasep e Cofins, nos termos dos arts. 8º, 9º e 15 da Lei 10.925/2004. Segundo a autoridade fiscal, as operações de venda de produtos agropecuários, para a pessoa jurídica Perdigão Agroindustrial Mato Grosso Ltda, preenchiam todos os requisitos fixados no art. 4º da Instrução Normativa SRF 660/2006, logo, por força do disposto nos referidos arts. 8º e 9º, tais aquisições não estavam sujeitas a cobrança das referidas contribuições. Porém, asseverou a autoridade fiscal, caso o vendedor tivesse apurado e recolhido as ditas contribuições sobre as vendas dos citados produtos, tal recolhido era indevido. E, sabidamente, o pagamento indevido não assegurava o direito ao crédito ao comprador, mas repetição de indébito ao contribuinte, no caso o vendedor, conforme preceituava o art. 165, I, do CTN. Por sua vez, a recorrente defendeu a manutenção integral do crédito, sob o argumento de que as aquisições ocorreram mediante tributação de 9,25% (Cofins + Contribuição para o PIS/Pasep) e que a Lei 10.925/2005 somente era aplicável, nas condições estipuladas, quando houvesse venda com suspensão das referidas contribuições; se houve aquisição de insumo sem a suspensão, aplicavase o art. 3º das Leis 10.833/2003 e 10.637/2002. Alegou ainda que se podia concluir, da redação descrita pela IN SRF 660/2006 e a posterior alteração dada pela IN RFB 977/2009, que antes desta última IN a suspensão da Contribuição para o PIS/Pasep e Cofins era uma faculdade e dependia de procedimentos formais (declaração). Alternativamente, a interessada pleiteou que se reconhecesse a procedência parcial do crédito, mediante aplicação do percentual do crédito presumido agroindustrial, previsto no art. 8º da Lei 10.925/2004. A partir da vigência da Lei 10.925/2005, foi permitido às pessoas jurídicas produtoras de mercadorias de origem animal ou vegetal, destinadas à alimentação humana ou animal, classificadas nos capítulos e códigos mencionados no caput do art. 8º da referida lei, Fl. 1597DF CARF MF 38 deduzirem da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, devidas em cada período de apuração, crédito presumido calculado mediante a aplicação de alíquota diferenciada sobre o montante dos insumos adquiridos de pessoa jurídica com atividade agropecuária ou de cooperativa de produção agropecuária. Em decorrência, suspendeu a cobrança das referidas contribuição nas vendas dos referidos insumos, realizadas pelas pessoa jurídicas que exerçam atividade agropecuária e cooperativa de produção agropecuária, nos termos do art. 9º da citada Lei que segue transcrito: Art. 9º A incidência da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins fica suspensa no caso de venda: (Redação dada pela Lei nº 11.051, de 2004) I de produtos de que trata o inciso I do § 1º do art. 8º desta Lei, quando efetuada por pessoas jurídicas referidas no mencionado inciso; (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) II de leite in natura, quando efetuada por pessoa jurídica mencionada no inciso II do § 1º do art. 8º desta Lei; e (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) III de insumos destinados à produção das mercadorias referidas no caput do art. 8º desta Lei, quando efetuada por pessoa jurídica ou cooperativa referidas no inciso III do § 1º do mencionado artigo. (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) § 1º O disposto neste artigo: (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) I aplicase somente na hipótese de vendas efetuadas à pessoa jurídica tributada com base no lucro real; e (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) II não se aplica nas vendas efetuadas pelas pessoas jurídicas de que tratam os §§ 6º e 7º do art. 8º desta Lei. (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) § 2º A suspensão de que trata este artigo aplicarseá nos termos e condições estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal SRF. (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) grifos não originais Da simples leitura do referido preceito legal, inferese que, uma vez existentes as condições nele estabelecidas, a pessoa jurídica vendedora, obrigatoriamente, adotará o regime suspensão da cobrança das referidas contribuições. Se a assim não procedeu, a citada pessoa jurídica agiu descompasso com a lei e se cobrança houve das referidas contribuições, elas foram indevidas e assim devem ser tratadas. Em consonância com o disposto no transcrito art. 9º, § 2º, o assunto foi regulamentado, inicialmente, por meio da Instrução Normativa SRF 636/2006, depois revogada pela Instrução Normativa SRF 660/2006, com as alterações da Instrução Normativa SRF 977/2009. Como a recorrente alegou que antes das alterações da Instrução Normativa SRF 977/2009 a suspensão da cobrança da Contribuição para o PIS/Pasep e Cofins era uma faculdade e dependia de procedimentos formais (declaração), reveste de todo oportuno, para melhor análise, transcrever os seguintes trechos relevantes da redação originária da Instrução Normativa SRF 660/2006: Fl. 1598DF CARF MF Processo nº 11516.721881/201173 Acórdão n.º 3302003.607 S3C3T2 Fl. 1.580 39 Art. 1º Esta Instrução Normativa disciplina a comercialização de produtos agropecuários na forma dos arts. 8º, 9º e 15 da Lei nº 10.925, de 2004. Da Suspensão da Exigibilidade das Contribuições Dos produtos vendidos com suspensão Art. 2º Fica suspensa a exigibilidade da Contribuição para o PIS/Pasep e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) incidentes sobre a receita bruta decorrente da venda: [...] III de produto in natura de origem vegetal destinado à elaboração de mercadorias classificadas no código 22.04, da NCM; e IV de produtos agropecuários a serem utilizados como insumo na fabricação dos produtos relacionados no inciso I do art. 5º. § 1º Para a aplicação da suspensão de que trata o caput, devem ser observadas as disposições dos arts. 3º e 4º. § 2º Nas notas fiscais relativas às vendas efetuadas com suspensão, deve constar a expressão "Venda efetuada com suspensão da Contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS", com especificação do dispositivo legal correspondente. Das pessoas jurídicas que efetuam vendas com suspensão Art. 3º A suspensão de exigibilidade das contribuições, na forma do art. 2º, alcança somente as vendas efetuadas por pessoa jurídica: [...] III que exerça atividade agropecuária ou por cooperativa de produção agropecuária, no caso dos produtos de que tratam os incisos III e IV do art. 2º. §1º Para os efeitos deste artigo, entendese por: [...] II atividade agropecuária, a atividade econômica de cultivo da terra e/ou de criação de peixes, aves e outros animais, nos termos do art. 2º da Lei nº 8.023, de 12 de abril de 1990; e [...] Das condições de aplicação da suspensão Art. 4º Aplicase a suspensão de que trata o art. 2º somente na hipótese de, cumulativamente, o adquirente: I apurar o imposto de renda com base no lucro real; Fl. 1599DF CARF MF 40 II exercer atividade agroindustrial na forma do art. 6º; e III utilizar o produto adquirido com suspensão como insumo na fabricação de produtos de que tratam os incisos I e II do art. 5º. § 1º Para os efeitos deste artigo as pessoas jurídicas vendedoras relacionadas nos incisos I a III do caput do art. 3º deverão exigir, e as pessoas jurídicas adquirentes deverão fornecer: I a Declaração do Anexo I, no caso do adquirente que apure o imposto de renda com base no lucro real; ou II a Declaração do Anexo II, nos demais casos. § 2º Aplicase o disposto no § 1º mesmo no caso em que a pessoa jurídica adquirente não exerça atividade agroindustrial. [...] Do Crédito Presumido Do direito ao desconto de créditos presumidos Art. 5º A pessoa jurídica que exerça atividade agroindustrial, na determinação do valor da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins a pagar no regime de não cumulatividade, pode descontar créditos presumidos calculados sobre o valor dos produtos agropecuários utilizados como insumos na fabricação de produtos: I destinados à alimentação humana ou animal, classificados na NCM: [...] Dos insumos que geram crédito presumido Art. 7º Somente gera direito ao desconto de créditos presumidos na forma do art. 5º os produtos agropecuários: I adquiridos de pessoa jurídica domiciliada no País com o benefício da suspensão da exigibilidade das contribuições, na forma do art. 2º; II adquiridos de pessoa física residente no País; ou III recebidos de cooperado, pessoa física ou jurídica, residente ou domiciliada no País. (grifos não originais) Dos referidos comandos regulamentares, extraise que, se atendidas as condições estabelecidas nos incisos I a III do art. 4º, acima transcrito, obrigatoriamente, a receita de venda auferida pelas referidas pessoas jurídicas fica sujeita a suspensão da cobrança das referidas contribuições e, em decorrência dessa situação, a pessoa jurídica vendedora obrigase a exigir e a compradora obrigase a fornecer as declarações mencionadas nos incisos I e II do § 1º do citado artigo. Logo, temse que as condições estabelecidas nos incisos do art. 4º são necessárias e suficientes para a adoção obrigatório do regime de suspensão em comento, enquanto que os incisos do § 1º do art 4º apenas estabelecem obrigações acessórias a serem cumpridas pelas partes envolvidas na operação. Fl. 1600DF CARF MF Processo nº 11516.721881/201173 Acórdão n.º 3302003.607 S3C3T2 Fl. 1.581 41 Diferentemente do alegado pela recorrente, antes da edição da Instrução Normativa SRF 977/2009, que deu nova redação ao art. 4º em comento, deixou expressa a obrigatoriedade da referida suspensão e revogou o § 1º, que previa a exigência de apresentação da referida obrigação, com vigência desde 4 de abril de 2006, conforme explicitado na nova redação, que segue transcrita: Art. 4º Nas hipóteses em que é aplicável, a suspensão disciplinada nos arts. 2º e 3º é obrigatória nas vendas efetuadas a pessoa jurídica que, cumulativamente: (Redação dada pela Instrução Normativa RFB nº 977, de 14 de dezembro de 2009) I apurar o imposto de renda com base no lucro real; II exercer atividade agroindustrial na forma do art. 6º; e III utilizar o produto adquirido com suspensão como insumo na fabricação de produtos de que tratam os incisos I e II do art. 5º. § 1º (Revogado pela Instrução Normativa RFB nº 977, de 14 de dezembro de 2009) §2º (Revogado pela Instrução Normativa RFB nº 977, de 14 de dezembro de 2009) § 3º É vedada a suspensão quando a aquisição for destinada à revenda. (Incluído pela Instrução Normativa RFB nº 977, de 14 de dezembro de 2009) [...] Art.11. Esta Instrução Normativa entra em vigor na data de sua publicação, produzindo efeitos: I em relação à suspensão da exigibilidade da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins de que trata o art. 2º, a partir de 4 de abril de 2006, data da publicação da Instrução Normativa nº 636, de 24 de março de 2006, que regulamentou o art. 9º da Lei nº 10.925, de 2004; (grifos não originais) Portanto, não foi a edição da Instrução Normativa SRF 660/2006 e tampouco a referida alteração que tornaram obrigatória a suspensão da cobrança das contribuições em apreço. Tal obrigatoriedade, certamente, já existia desde a vigência dos arts. 8º e 9º da Lei 10.925/2004. As referidas normas regulamentares apenas explicitaram tal obrigatoriedade, bem como os requisitos implícitos nos referidos preceitos legais. Assim, resta demonstrado que a venda com suspensão constitui direito do vendedor, quando presente as condições estabelecidas implicitamente no referido preceito legal e expressamente no referido preceito regulamentar. Assim, se tal operação de venda foi indevidamente tributada pelo vendedor, essa condição não permite que o adquirente se aproprie do crédito normal (integral) das contribuições, por se tratar de procedimento contrário ao prescrito nos mencionados comandos normativos. No caso, se houve pagamento de contribuição indevida, em tese, o direito de repetir o indébito pertencente à pessoa jurídica vendedora. Entretanto, por falta de amparo legal, essa circunstância não assegura à pessoa jurídica compradora o direito de apropriarse do crédito normal (integral) das contribuições. Fl. 1601DF CARF MF 42 Enfim, em caráter alternativo, a recorrente solicitou o restabelecimento parcial do crédito glosado, “mediante aplicação do percentual do crédito presumido”, instituído no art. 8º do da Lei 10.925/2004. O referido pedido alternativo merece acolhida, porque as referidas aquisições de insumos aplicados na produção de mercadoria de origem animal foram feitas de pessoa jurídica que exercem atividade agropecuária e cooperativa de produção agropecuária, portanto, em conformidade com disposto no art. 8º, § 1º, III, combinado com o disposto no art. 9º, III, da Lei 10.925/2004, tais operações asseguram ao estabelecimento agroindustrial adquirente o direito de deduzir crédito presumido em destaque, calculado mediante aplicação do percentual de 60% sobre o valor das aquisições dos insumos agropecuários aplicados na produção dos produtos de origem animal destinados à alimentação humana ou animal. Com base nessas considerações, deve ser restabelecido, parcialmente, o direito de a recorrente apropriarse do valor do crédito presumido agroindustrial, calculado mediante aplicação do percentual de 60% das alíquotas normais das contribuições sobre o valor dos insumos agropecuários adquiridos de pessoas jurídicas sujeitas à suspensão, mas indevidamente tributadas. 2 Da glosa dos Serviços Utilizados Como Insumos (Ficha 06A, Linha 03) De acordo com a Informação Fiscal, a autoridade fiscal glosou as aquisições de serviços que não se enquadravam no conceito de insumo, nos termos do o art. 8º, § 4º, I, “b” da Instrução Normativa SRF 404/2004. A glosa compreende os valores das notas fiscais cujo CFOP não representa aquisição de serviços e nem outra operação com direito a crédito. A recorrente contestou essa glosa remetendo “a todos os fundamentos ventilados até o momento” acerca da “noção de insumo no sistema não cumulativo de PIS e COFINS” e aduziu que o termo de verificação fiscal não mencionava expressamente um item sequer glosado e a razão fática e jurídica. Diferentemente do alegado, embora não tenha sido mencionado na informação fiscal, há na “Relação De Notas Fiscais Glosadas de 2008” identificação das notas fiscais glosadas, descrição e valor do serviço, bem como o motivo da glosa, procedido da informação “NI” que indica que o serviço “Não é insumo”. E da leitura da descrição das operações glosadas, não é possível saber se os serviços são ou não insumos de produção e não há elementos suficientes para essa confirmação, haja vista não ser possível identificar sua real natureza e aplicação dentro da atividade da empresa. Para ratificar o afirmado, a título de exemplo, apresentase a descrição das seguintes operações: SERVIÇOS GERAIS, SERVICO MÃODEOBRA, SERVICO IMOBILIZADO GERAL. Na manifestação sobre a diligência, a recorrente informou que “com clareza meridiana são considerados insumos, em especial: Serviços de Expedição e Armazéns, Serviço Técnico Mecânico, Serviço de transporte de aves, Serviço de carga e descarga, entre outros.” Na referida planilha complementar, nos itens 53 a 56, foi informado o local onde era prestado o serviço e a sua descrição. Com base nessas informações e tendo em conta o conceito de insumo aqui adotado, são considerados insumos apenas os seguintes serviços: “Serviço de Expedição e Armazéns”, “Serviço de Transporte de Aves” e “Serviço de Carga e Descarga”. Fl. 1602DF CARF MF Processo nº 11516.721881/201173 Acórdão n.º 3302003.607 S3C3T2 Fl. 1.582 43 Em relação aos demais serviços glosados, a recorrente não dignou apresentar elementos suficientes, com vistas a demonstrar que eram insumos de produção, portanto, deve ser mantida a glosa. Por essas razões, deve ser restabelecido o crédito, apenas para custo de prestação dos seguinte serviços: Serviço de Expedição e Armazenagem Gerais, Serviço de Transporte de Aves e Serviço de Carga e Descarga. 3 Das Despesas com Energia Elétrica (Ficha 06A Linha 04) De acordo com a “Relação De Notas Fiscais Glosadas de 2008”, verificase que foram glosados os valores informados na Ficha 06A Linha 04 do Dacon, que não representavam despesas com energia elétrica consumida. As operações glosadas, por exemplo, tinha a seguinte descrição: PALLET MAD 120X100X14CM EXPORT PL7 REFO, CALC. CALCIT. Pà 38% CALCIO BAG 1300KG, PINTO 01 DIA MATRIZ COBB FEMEA, ANTIB AMOXICILINA 50% BALDE 5KG SC 200G. Com base apenas na descrição, já fica demonstrados que tais operações não são despesas com energia elétrica. Entretanto, diante tão evidente equívoco, a recorrente teve a coragem de alegar que os valores das despesas com energia foram lançados em livros fiscais, que se presumia verdadeiros, pelo que requereu a realização diligência ou perícia com o objetivo de comprovar a diferença mediante ofício à concessionária de energia. Inacreditável! Em vez de apresentar as provas do que alegara, invertendo as regras sobre ônus da prova, sem qualquer justificativa plausível, a recorrente alegou que era autoridade fiscal que deveria provar que aquisição de pallet de madeira era despesa de energia elétrica consuma. Assim, na ausência de provas de que os valores registrados não eram despesas com energia elétrica ou térmica, mantém a glosa integral determinada pela fiscalização. 4 Despesas de Armazenagem e Fretes na Operação de Venda (Ficha 16A Linha 07) De acordo com a planilha que integra a Informação Fiscal, foram excluídos da base de cálculo (glosados) as diferenças entre os valores informados no Dacon e os informados na memória de cálculo, apresentada pela recorrente. Segundo a autoridade fiscal, a referida glosa diz respeito aos custos com “SERVICO CARGA E DESCARGA ( TRANSBORDO) e outros, que não se enquadravam no prescrito pelo art. 3º, inciso IX, da Lei nº 10.833/2003”. Cabe informa ainda que não há na “Relação De Notas Fiscais Glosadas de 2008” a indicação de notas fiscais para Linha 07 da Ficha 16A do Dacon, porque as glosas referemse às diferenças apuradas entre os valores informados no Dacon e os informados na memória de cálculo, para cada mês do trimestre. Fl. 1603DF CARF MF 44 A recorrente alegou que o frete na venda e armazenagem “inclui o procedimento a fim de realizar a exportação do transbordo” por tratarse de “serviço natural e essencial ligado ao frete para a exportação do bem”. Sem razão à recorrente. O teor do art. 3º, IX, das Leis 10.637/2002 e 10.833/2003 não comporta sentido e alcance tão amplo, de modo a incluir os demais serviços relacionados ao transporte do bem. Além disso, a recorrente não apresentou qualquer documento que comprovasse a realização da parcela das despesas glosadas. Por todas essas razões, deve mantida a glosa realizada pela autoridade fiscal. 5 Créditos Presumidos das Atividades Agroindustriais (Ficha 06A Linhas 25 e 26) Da referida Informação Fiscal, extraise que, em relação aos insumos não pertencentes ao inciso I do § 3º do art. 8º da Lei 10.925/2004, no cálculo do crédito a alíquota aplicada foi reduzida de 60% da alíquota normal da contribuição, percentual utilizada pela interessada, para 35% da alíquota normal, nos termos do inciso III do mesmo parágrafo. No corpo do relatório fiscal, encontrase uma listagem contendo os insumos adquiridos com o benefício do crédito presumido que sofreram glosa, totalizados por descrição em cada mês, e na planilha “Crédito Presumido – Detalhe”, colacionada aos autos, encontram se individualizadas as notas fiscais correspondentes. A recorrente, por seu turno, alegou que o art. 8º da Lei 10.925/2004, ao definir os percentuais (60% ou 35% da alíquota da contribuição) para fins de cálculo do crédito presumido a ser apropriados pelas pessoas jurídicas que produzissem mercadorias de origem animal, destinadas à alimentação humana e classificadas nos capítulos e códigos que indica, não vincula tais percentuais ao tipo de bem que é adquirido pela pessoa jurídica, mas sim ao tipo de produto que é fabricado com o bem adquirido. Com base nesse entendimento, a recorrente defendeu a legitimidade do crédito presumido apurado no percentual de 60% da alíquota normal da contribuição, em relação aos insumos destinados à fabricação dos produtos destinados a alimentação humana ou animal, descritos nos Capítulos 2 a 4, 6 da NCM e nos códigos 15.01 a 15.06, 1516.10, e às misturas ou preparações de gorduras ou de óleos animais dos códigos 15.17 e 15.18. Do cotejo entre os dois posicionamentos, fica evidenciado que a controvérsia cingese ao parâmetro de definição do percentual de apuração do crédito presumido agroindustrial. Para a recorrente, seria a natureza do bem produzido pela pessoa jurídica que desenvolvesse a atividade agroindustrial, ao passo que, para autoridade fiscal, seria a natureza do insumo adquirido pelo referido estabelecimento agroindustrial. Para melhor compreensão da controvérsia, veja o teor do caput e do § 3º, I e III, do art. 8º da Lei 10.925/2004, na época vigentes, que seguem transcritos: Art. 8º As pessoas jurídicas, inclusive cooperativas, que produzam mercadorias de origem animal ou vegetal, classificadas nos capítulos 2, 3, exceto os produtos vivos desse capítulo, e 4, 8 a 12, 15, 16 e 23, e nos códigos 03.02, 03.03, 03.04, 03.05, 0504.00, 0701.90.00, 0702.00.00, 0706.10.00, 07.08, 0709.90, 07.10, 07.12 a 07.14, exceto os códigos 0713.33.19, 0713.33.29 e 0713.33.99, 1701.11.00, 1701.99.00, 1702.90.00, 18.01, 18.03, 1804.00.00, 1805.00.00, 20.09, Fl. 1604DF CARF MF Processo nº 11516.721881/201173 Acórdão n.º 3302003.607 S3C3T2 Fl. 1.583 45 2101.11.10 e 2209.00.00, todos da NCM, destinadas à alimentação humana ou animal, poderão deduzir da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, devidas em cada período de apuração, crédito presumido, calculado sobre o valor dos bens referidos no inciso II do caput do art. 3º das Leis nºs 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e10.833, de 29 de dezembro de 2003, adquiridos de pessoa física ou recebidos de cooperado pessoa física. (Redação dada pela Lei nº 11.051, de 2004) [...] § 3º O montante do crédito a que se referem o caput e o § 1º deste artigo será determinado mediante aplicação, sobre o valor das mencionadas aquisições, de alíquota correspondente a: I 60% (sessenta por cento) daquela prevista no art. 2º das Leis nºs 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e 10.833, de 29 de dezembro de 2003, para os produtos de origem animal classificados nos Capítulos 2 a 4, 16, e nos códigos 15.01 a 15.06, 1516.10, e as misturas ou preparações de gorduras ou de óleos animais dos códigos 15.17 e 15.18; e [...] III 35% (trinta e cinco por cento) daquela prevista no art. 2º das Leis nºs 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e10.833, de 29 de dezembro de 2003, para os demais produtos. (Incluído pela Lei nº 11.488, de 2007) No âmbito deste Conselho, até a vigência do art. 33 da Lei 12.865/2013, que acrescentou o § 12 ao art. 8º da Lei 10.925/2004, havia amplo dissenso sobre a questão. A partir de então, em face da natureza interpretativa do novel preceito legal, por força do disposto no art. 106, I, do CTN, passou a ser aplicada o entendimento em que o percentual de presunção seria definido em função da natureza do produto industrializado e não dos insumos nele aplicado. Senão, veja como ficou a redação do citado § 10: Art. 8º [...] [...] § 10. Para efeito de interpretação do inciso I do § 3o, o direito ao crédito na alíquota de 60% (sessenta por cento) abrange todos os insumos utilizados nos produtos ali referidos. (Incluído pela Lei nº 12.865, de 2013) grifos não originais Com base nessas considerações, deve ser restabelecido o direito de a recorrente apropriarse do valor do crédito presumido agroindustrial, mediante a utilização do percentual de 60% da alíquota normal das referidas contribuições, respectivamente, definidas no art. 2o das Leis 10.637/2002 e10.833/2003, a ser aplicado sobre o valor do custo de aquisição de todos insumos utilizados na fabricação dos produtos discriminados no art. 8º, § 3º, I, da Lei 10.925/2004, independente do tipo, adquiridos de pessoa física ou recebidos de cooperado pessoa física, ou de pessoa jurídica que exerça atividade agropecuária e de cooperativa agropecuária, na forma do art. 8º, § 1º, da Lei 10.925/2004. II DA GLOSA DAS RECEITAS COM FIM ESPECÍFICO DE EXPORTAÇÃO Fl. 1605DF CARF MF 46 De acordo com referida Informação Fiscal, a autoridade fiscal apurou que a recorrente não havia registrado operação de exportação no Siscomex o ano de 2008 e que grande parte das vendas com fim específico de exportação, realizadas com CFOP 5501/6501, não cumpriram os requisitos da legislação de regência, porque as mercadorias eram entregues em recintos não alfandegados de uso público. A autoridade fiscal ainda informou que: Em verdade, era a Perdigão Agroindustrial S/A, em seu próprio nome, que “estufava” os contêineres e realizava as exportações. Dessarte, as vendas da Perdigão Agroindustrial Mato Grosso Ltda para a Perdigão agroindustrial S/A eram vendas normais no mercado interno. Em decorrência dessa constatação, a autoridade procedeu a reclassificação das referidas vendas do grupo das receitas de exportação para o das receitas de vendas tributadas no mercado interno, bem como procedeu o recálculo das proporções entre os valores das receitas de vendas no mercado interno (tributadas e não tributadas) e das receitas de exportação, para fim de determinação do novo percentual de rateio dos créditos das referidas contribuições, passíveis de ressarcimento e compensação, nos termos da legislação vigente. A relação das notas fiscais glosadas, emitidas pela recorrente em nome da exportadora Perdigão Agroindustrial S/A., encontramse discriminadas na Planilha denominada “Listagem de locais de entrega das vendas com fim específico de exportação fornecida pelo contribuinte e formatada pela fiscalização”, colacionada aos autos, em que, além de outras, consta a informação do local onde foram armazenados os produtos remetidos pela recorrente. Assim, fica demonstrado que o motivo da glosa em apreço foi a descaracterização da receita de venda com fim específico de exportação em razão do descumprimento dos requisitos estabelecido para o referido regime de isenção. No recurso em apreço, a recorrente alegou que a não incidência (desonerações) das referidas contribuições sobre as receitas decorrentes das operações de exportação de mercadorias para o exterior, estabelecida nas Leis nºs 10.637/2002 e 10.833/2003, não se tratava de hipótese de isenção, mas de imunidade tributária objetiva, prevista no art. 149, § 2, I, da Constituição Federal de 1988 (CF/1988), que objetivava “desonerar receitas vinculadas (direta ou indiretamente) à exportação”. Além de ser matéria estranha ao motivo da glosa em apreço, para a recorrente não existe diferença entre a imunidade tributária da operação de exportação, estabelecida no art. 149, § 2, I, da CF/1988, a isenção das operações de “vendas a empresa comercial exportadora com o fim específico de exportação”, previstas no art. 5º17, III, da Lei 10.637/2002 e no art. 6º18, III, da Lei 10.833/2002, respectivamente, para a Contribuição para o PIS/Pasep e Cofins do regime de incidência não cumulativa. No caso, diferentemente do regime de imunidade tributária das operações de exportação, o regime de isenção em comento está condicionado a que a venda seja feita (i) a empresa comercial exportadora e (ii) para o fim específico de exportação. Logo, tratase 17 “Art. 5º A contribuição para o PIS/Pasep não incidirá sobre as receitas decorrentes das operações de: I exportação de mercadorias para o exterior; [...] III vendas a empresa comercial exportadora com o fim específico de exportação.” 18 “Art. 6º A COFINS não incidirá sobre as receitas decorrentes das operações de: I exportação de mercadorias para o exterior; [...] III vendas a empresa comercial exportadora com o fim específico de exportação.” Fl. 1606DF CARF MF Processo nº 11516.721881/201173 Acórdão n.º 3302003.607 S3C3T2 Fl. 1.584 47 matéria regulada por lei, cuja análise de compatibilidade com a CF/1988 é expressamente vedada aos integrantes deste Conselho pelo art. 26A do Decreto 70.235/1972. Assim, uma vez demonstrada a possibilidade de afastamento, passase a analisar o significa e alcance dos preceitos legais que disciplinam o assunto. No ordenamento jurídico do País, existem duas espécies de empresas comerciais exportadoras: (i) a empresa comercial exportadora comum, constituída de acordo com a legislação comum (Código Civil e legislação esparsa) e registrada como exportadora no Registro de Exportadores e Importadores (REI) da Secex e (ii) a trading company (ou ECE), constituída na forma do art. 2º19 do Decretolei 1.248/1972. Enquanto que as vendas com o fim específico de exportação devem os requisitos estabelecidos no parágrafo único do art. 1º Decretolei 1.248/1972, a seguir transcrito: Art.1º As operações decorrentes de compra de mercadorias no mercado interno, quando realizadas por empresa comercial exportadora, para o fim específico de exportação, terão o tratamento tributário previsto neste DecretoLei. Parágrafo único. Consideramse destinadas ao fim específico de exportação as mercadorias que forem diretamente remetidas do estabelecimento do produtorvendedor para: a) embarque de exportação por conta e ordem da empresa comercial exportadora; b) depósito em entreposto, por conta e ordem da empresa comercial exportadora, sob regime aduaneiro extraordinário de exportação, nas condições estabelecidas em regulamento. (grifos não originais) Na exportação, o regime de entreposto aduaneiro, que compreende as modalidades de regimes comum e extraordinário, encontrase definido no art 10 do Decretolei nº 1.455/1976, a seguir reproduzido: Art. 10. O regime de entreposto aduaneiro na exportação compreende as modalidades de regimes comum e extraordinário e permite a armazenagem de mercadoria 19 "Art. 2º O disposto no artigo anterior aplicase às empresas comerciais exportadoras que satisfizerem os seguintes requisitos mínimos: I Registro especial na Carteira de Comércio Exterior do Banco do Brasil S/A. (CACEX) e na Secretaria da Receita Federal, de acordo com as normas aprovadas pelo Ministro da Fazenda; II Constituição sob forma de sociedade por ações, devendo ser nominativas as ações com direito a voto; III Capital mínimo fixado pelo Conselho Monetário Nacional. § 1º O registro a que se refere o item I deste artigo poderá ser cancelado, a qualquer tempo, nos casos: a) de inobservância das disposições deste DecretoLei ou de quaisquer outras normas que o complementem; b) de práticas fraudulentas ou inidoneidade manifesta. § 2º Do ato que determinar o cancelamento a que se refere o parágrafo anterior caberá recurso ao Conselho Monetário Nacional, sem efeito suspensivo, dentro do prazo de 30 (trinta) dias, contados da data de sua publicação. § 3º O Conselho Monetário Nacional poderá estabelecer normas relativas à estrutura do capital das empresas de que trata este artigo, tendo em vista o interesse nacional e, especialmente, prevenir práticas monopolísticas no comércio exterior." Fl. 1607DF CARF MF 48 destinada a exportação, em local alfandegado: (Redação dada pela Medida Provisória nº 2.15835, de 2001) I de uso público, com suspensão do pagamento de impostos, no caso da modalidade de regime comum; (Incluído pela Medida Provisória nº 2.15835, de 2001) II de uso privativo, com direito a utilização dos benefícios fiscais previstos para incentivo à exportação, antes do seu efetivo embarque para o exterior, quando se tratar da modalidade de regime extraordinário. (Incluído pela Medida Provisória nº 2.15835, de 2001) § 1º O regime de entreposto aduaneiro na exportação, na modalidade extraordinário, somente poderá ser outorgado a empresa comercial exportadora constituída na forma prevista peloDecretoLei no1.248, de 29 de novembro de 1972, mediante autorização da Secretaria da Receita Federal. (Redação dada pela Medida Provisória nº 2.15835, de 2001) § 2º Na hipótese de que trata o § 1o, as mercadorias que forem destinadas a embarque direto para o exterior, no prazo estabelecido em regulamento, poderão ficar armazenadas em local não alfandegado. (Redação dada pela Medida Provisória nº 2.15835, de 2001) O entreposto aduaneiro na exportação encontrase regulamentado nos arts. 410 a 415 do Decreto 6.759/2009 (Regulamento Aduaneiro de 2009 RA/2009), dos quais, pela pertinência, transcrevese os arts. 410 e 411 a seguir: Art. 410. O regime especial de entreposto aduaneiro na exportação é o que permite a armazenagem de mercadoria destinada a exportação (DecretoLei nº 1.455, de 1976, art. 10, caput, com a redação dada pela Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, art. 69). Art. 411. O entreposto aduaneiro na exportação compreende as modalidades de regime comum e extraordinário (DecretoLei nº 1.455, de 1976, art. 10, caput, com a redação dada pela Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, art. 69). § 1º Na modalidade de regime comum, permitese a armazenagem de mercadorias em recinto de uso público, com suspensão do pagamento dos impostos federais (DecretoLei nº1.455, de 1976, art. 10, caput, inciso I,com a redação dada pela Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, art. 69). (Redação dada pelo Decreto nº 8.010, de 2013) § 2º Na modalidade de regime extraordinário, permitese a armazenagem de mercadorias em recinto de uso privativo, com direito a utilização dos benefícios fiscais previstos para incentivo à exportação, antes do seu efetivo embarque para o exterior (DecretoLei nº 1.455, de 1976, art. 10, inciso II,com a redação dada pela Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, art. 69). § 3º O regime de entreposto aduaneiro na exportação, na modalidade extraordinário, somente poderá ser outorgado a empresa comercial exportadora constituída na forma prevista no art. 229, mediante autorização da Secretaria da Receita Federal Fl. 1608DF CARF MF Processo nº 11516.721881/201173 Acórdão n.º 3302003.607 S3C3T2 Fl. 1.585 49 do Brasil (DecretoLei nº 1.455, de 1976, art. 10, §1º, com a redação dada pela Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, art. 69). § 4º Na hipótese de que trata o § 3o, as mercadorias que forem destinadas a embarque direto para o exterior, no prazo estabelecido pela autoridade aduaneira, poderão ficar armazenadas em local não alfandegado (DecretoLei nº 1.455, de 1976, art. 10, § 2º, com a redação dada pela Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, art. 69). Com base nos referidos comandos normativos, inferese que as vendas com fim específico de exportação, para serem beneficiadas com a isenção das referidas contribuições e integrarem a receita de exportação, para fim rateio do crédito apropriado, depende do cumprimento dos seguintes requisitos: a) remessa das mercadorias para embarque de exportação ou entrega em entreposto aduaneiro de regime comum ou extraordinário, nas vendas para trading companies; e b) remessa das mercadorias para embarque de exportação ou entrega em entreposto aduaneiro de regime comum, nas vendas para demais comerciais exportadoras comum. Assim, quer os produtos sejam vendidos a trading companies, quer o sejam vendidos a empresas exportadoras comuns, para usufruir os benefícios fiscais de incentivo à exportação, o produtorvendedor de remetêlos diretamente para embarque de exportação, por conta e ordem da empresa adquirente, ou para depósito alfandegado de uso público ou privativo (neste último caso, se a venda foi para trading company). A única exceção a exigência de armazenamento em local não alfandegado, encontrase prevista no art. 411, § 4º, do RA/2009. Porém, ela se aplica apenas às vendas realizadas à trading company e para “as mercadorias que forem destinadas a embarque direto para o exterior, no prazo estabelecido pela autoridade aduaneira”, situação que não se vislumbra no caso em apreço, em que a adquirente dos produtos fora uma empresa comercial exportadora comum. Dessa forma, para que as vendas fossem consideradas com fim específico de exportação, a remessa das mercadorias deveriam ter sido realizadas sob a forma de (i) embarque direto para o exterior ou (ii) armazenagem das mercadorias em recinto alfandegado de uso público sob regime de entreposto aduaneiro comum. Nos presentes autos, inexiste controvérsia quanto ao fato de que a recorrente não cumpriu nenhum dos dois requisitos. De fato, a própria recorrente reconheceu que, o caso concreto envolvia a venda com fim específico de exportação da recorrente (Perdigão Agroindustrial Mato Grosso S/A.) para a Perdigão Agroindustrial S/A., “a qual, após estufar contêineres, realiza a exportação dentro do prazo de 180 dias do recebimento dos produtos.” Para a recorrente, a fiscalização se apegou a formalismo desnecessário (desproporcional), ao descaracterizar as vendas com fim específico exportação e reenquadrá las como vendas normais no mercado interno, “na medida em que os fatos confirmam claramente que houve uma exportação, atingindo claramente a finalidade normativa, desde a Constituição Federal até as demais legislações”. Com a devida vênia, diferentemente da recorrente, entendese que as formalidades estabelecidas na referida legislação não são desnecessárias e tampouco Fl. 1609DF CARF MF 50 desproporcional. Deveras, tais requisitos visam assegurar o controle da utilização do regime de isenção e dos benefícios fiscais de incentivo à exportação, especificamente, para evitar que haja utilização da isenção e utilização em duplicidade dos correspondentes benefícios fiscais. Também não procede a alegação da recorrente de que o suposto descumprimento da exigência do depósito da mercadoria em armazém alfandegado não se dera por mera liberalidade sua, mas em razão da falta de estrutura do próprio Estado, uma vez que, diante da quantidade de produtos exportados pela recorrente, a Receita Federal não tinha locais suficientes. A uma, porque não há provas do alegado. A duas, porque parte das mercadorias foram depositadas em depósito alfandegado, o que não justifica que as demais não o tenham. A recorrente alegou ainda que a responsabilidade e a culpa por esta “mera irregularidade” não podia serlhe imputada, mas a pessoa jurídica adquirente dos produtos. Sem razão a recorrente. Ora, se cabia a recorrente o cumprimento da exigência legal, para que a venda por ela realizada fosse caracterizada com fim específico de exportação, logo somente se a operação tivesse sido feita de acordo com os requisitos legais, certamente, ela deixaria de ser a responsável por quaisquer créditos tributários decorrentes de tais operações, mesmo que a exportação eventualmente não fosse efetivada pela adquirente/exportadora. Porém, no caso em tela, não foi o que aconteceu, conforme anteriormente demonstrado. Por todas essas razões, deve ser mantida integralmente a glosa do valor da receita das vendas com fim específico de exportação. B) DA CONCLUSÃO Por todo o exposto, no mérito, votase pelo PROVIMENTO PARCIAL do recurso, para restabelecer: a) o direito ao crédito da contribuição a ser calculado sobre (i) o custo de aquisição do Óleo Diesel e do Álcool Etílico Combustível e (ii) custo de prestação dos seguintes serviços: Serviço de Expedição e Armazenagem Gerais, Serviço de Transporte de Aves e Serviço de Carga e Descarga, nos trimestres em que adquiridos tais insumos; e b) o direito de apropriarse do valor do crédito presumido agroindustrial, mediante a utilização do percentual de 60% da alíquota normal das referidas contribuições, a ser aplicado sobre o valor do custo de aquisição de todos os insumos aplicados na fabricação dos produtos de origem animal utilizados na alimentação humana e animal, discriminados no art. 8º, § 3º, I, da Lei 10.925/2004, incluindo o valor (i) das aquisições dos pintos de 1 dia, adquiridos com alíquota zero de pessoa jurídica com atividade agropecuária e cooperativa de produção agropecuária e (ii) das aquisições de pessoa jurídica com atividade agropecuária e cooperativa de produção agropecuária, sujeitas a obrigatória suspensão, mas indevidamente tributadas pelas contribuições. (assinado digitalmente) José Fernandes do Nascimento Fl. 1610DF CARF MF Processo nº 11516.721881/201173 Acórdão n.º 3302003.607 S3C3T2 Fl. 1.586 51 Fl. 1611DF CARF MF
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Numero do processo: 11543.004450/2004-92
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Mar 14 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Apr 07 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2000, 2001
NULIDADE DO LANÇAMENTO. CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA.
Não padece de nulidade a autuação que seja lavrada por autoridade competente, com observância ao art. 142, do CTN, e arts. 10 e 59, do Decreto nº 70.235/72, contendo a descrição dos fatos e enquadramentos legais, permitindo ao contribuinte o pleno exercício do direito de defesa, mormente quanto se constata que o mesmo conhece a matéria fática e legal e exerceu, com lógica e nos prazos devidos, o seu direito.
Não há requisitos de forma que impliquem nulidade de modo automático e objetivo. Alegada eventual irregularidade, cabe à autoridade julgadora verificar se tal implicou efetivo prejuízo à defesa do contribuinte. Daí falar-se do princípio da informalidade do processo administrativo.
DEPÓSITOS BANCÁRIOS. MOMENTO DO FATO GERADOR. DECADÊNCIA. INOCORRÊNCIA.
Súmula CARF nº 38 (VINCULANTE): O fato gerador do Imposto sobre a Renda da Pessoa Física, relativo à omissão de rendimentos apurada a partir de depósitos bancários de origem não comprovada, ocorre no dia 31 de dezembro do ano-calendário.
Para o ano calendário de 1999, ocorreu em 31/12/1999. Cientificado da autuação em 11/12/2004, não havia decorrido o período decadencial, portanto.
MOMENTO DA APRESENTAÇÃO DAS PROVAS. PRECLUSÃO.
Os artigos 14 e 15 do Decreto 70.235/1972 (PAF), que dispõe sobre o processo administrativo fiscal, dizem que é a impugnação da exigência, formalizada por escrito e instruída com os documentos em que se fundamentar, apresentada ao órgão preparador no prazo de trinta dias, que instaura a fase litigiosa do procedimento. A norma do PAF, art. 16, § 4º, estabelece que as provas devem ser apresentadas juntamente com a impugnação, precluindo o direito de fazê-lo em outro momento processual.
DEPÓSITOS BANCÁRIOS. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. ARTIGO 42 DA LEI Nº 9.430, DE 1996. PRESUNÇÃO. ANÁLISE INDIVIDUALIZADA. SÚMULA CARF Nº 26. SÚMULA CARF Nº 02.
Caracterizam omissão de rendimentos os valores creditados em conta de depósito mantida junto à instituição financeira, quando o contribuinte, regularmente intimado, não comprova, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações.
A conclusão de inaplicabilidade do dispositivo legal, artigo 42 da Lei nº 9.430, de 1996, não pode se dar por indícios e em termos genéricos, isso porque a análise de depósitos bancários (créditos), para fins de aplicação do supracitado artigo, deve se dar individualizadamente, para efeito de determinação da receita omitida, a teor de seu § 3º.
A presunção estabelecida no art. 42 da Lei nº 9.430/96 dispensa o Fisco de comprovar o consumo da renda representada pelos depósitos bancários sem origem comprovada.
O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária.
DILIGÊNCIAS OU PERÍCIAS.
Não cabe à Administração suprir, por meio de diligências, má instrução probatória ou instrução insuficiente realizada pelo contribuinte. Sua denegação, pois, não constitui cerceamento do direito de defesa que possa determinar a nulidade da decisão nos termos dos arts. 59 e 60 do Decreto 70.235/72. A ausência de prova do direito alegado, autoriza seu indeferimento. Precedentes da CSRF. Acórdão nº 9303-002.548.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 2202-003.736
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, rejeitar as preliminares de nulidade e decadência, indeferir o pedido de diligências e, no mérito, negar provimento ao recurso. Os Conselheiros Martin da Silva Gesto e Dilson Jatahy Fonseca Neto votaram pelas conclusões.
Assinado digitalmente
Marco Aurélio de Oliveira Barbosa Presidente.
Assinado digitalmente
Marcio Henrique Sales Parada - Relator.
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Marco Aurélio de Oliveira Barbosa (Presidente), Júnia Roberta Gouveia Sampaio, Dilson Jatahy Fonseca Neto, Rosemary Figueiroa Augusto, Martin da Silva Gesto, Cecília Dutra Pillar, Marcio Henrique Sales Parada e Theodoro Vicente Agostinho (Suplente Convocado).
Fez sustentação oral, pelo Contribuinte, o advogado César Piantavigna, OAB/ES nº 6740.
Nome do relator: Marcio Henrique Sales Parada
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CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Não padece de nulidade a autuação que seja lavrada por autoridade competente, com observância ao art. 142, do CTN, e arts. 10 e 59, do Decreto nº 70.235/72, contendo a descrição dos fatos e enquadramentos legais, permitindo ao contribuinte o pleno exercício do direito de defesa, mormente quanto se constata que o mesmo conhece a matéria fática e legal e exerceu, com lógica e nos prazos devidos, o seu direito. Não há requisitos de forma que impliquem nulidade de modo automático e objetivo. Alegada eventual irregularidade, cabe à autoridade julgadora verificar se tal implicou efetivo prejuízo à defesa do contribuinte. Daí falarse do princípio da informalidade do processo administrativo. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. MOMENTO DO FATO GERADOR. DECADÊNCIA. INOCORRÊNCIA. Súmula CARF nº 38 (VINCULANTE): O fato gerador do Imposto sobre a Renda da Pessoa Física, relativo à omissão de rendimentos apurada a partir de depósitos bancários de origem não comprovada, ocorre no dia 31 de dezembro do anocalendário. Para o ano calendário de 1999, ocorreu em 31/12/1999. Cientificado da autuação em 11/12/2004, não havia decorrido o período decadencial, portanto. MOMENTO DA APRESENTAÇÃO DAS PROVAS. PRECLUSÃO. Os artigos 14 e 15 do Decreto 70.235/1972 (PAF), que dispõe sobre o processo administrativo fiscal, dizem que é a impugnação da exigência, formalizada por escrito e instruída com os documentos em que se fundamentar, apresentada ao órgão preparador no prazo de trinta dias, que AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 54 3. 00 44 50 /2 00 4- 92 Fl. 2061DF CARF MF Processo nº 11543.004450/200492 Acórdão n.º 2202003.736 S2C2T2 Fl. 2.062 2 instaura a fase litigiosa do procedimento. A norma do PAF, art. 16, § 4º, estabelece que as provas devem ser apresentadas juntamente com a impugnação, precluindo o direito de fazêlo em outro momento processual. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. ARTIGO 42 DA LEI Nº 9.430, DE 1996. PRESUNÇÃO. ANÁLISE INDIVIDUALIZADA. SÚMULA CARF Nº 26. SÚMULA CARF Nº 02. Caracterizam omissão de rendimentos os valores creditados em conta de depósito mantida junto à instituição financeira, quando o contribuinte, regularmente intimado, não comprova, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. A conclusão de inaplicabilidade do dispositivo legal, artigo 42 da Lei nº 9.430, de 1996, não pode se dar por indícios e em termos genéricos, isso porque a análise de depósitos bancários (créditos), para fins de aplicação do supracitado artigo, deve se dar individualizadamente, para efeito de determinação da receita omitida, a teor de seu § 3º. A presunção estabelecida no art. 42 da Lei nº 9.430/96 dispensa o Fisco de comprovar o consumo da renda representada pelos depósitos bancários sem origem comprovada. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. DILIGÊNCIAS OU PERÍCIAS. Não cabe à Administração suprir, por meio de diligências, má instrução probatória ou instrução insuficiente realizada pelo contribuinte. Sua denegação, pois, não constitui cerceamento do direito de defesa que possa determinar a nulidade da decisão nos termos dos arts. 59 e 60 do Decreto 70.235/72. A ausência de prova do direito alegado, autoriza seu indeferimento. Precedentes da CSRF. Acórdão nº 9303002.548. Recurso Voluntário Negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, rejeitar as preliminares de nulidade e decadência, indeferir o pedido de diligências e, no mérito, negar provimento ao recurso. Os Conselheiros Martin da Silva Gesto e Dilson Jatahy Fonseca Neto votaram pelas conclusões. Assinado digitalmente Marco Aurélio de Oliveira Barbosa – Presidente. Assinado digitalmente Marcio Henrique Sales Parada Relator. Participaram do presente julgamento os conselheiros: Marco Aurélio de Oliveira Barbosa (Presidente), Júnia Roberta Gouveia Sampaio, Dilson Jatahy Fonseca Neto, Fl. 2062DF CARF MF Processo nº 11543.004450/200492 Acórdão n.º 2202003.736 S2C2T2 Fl. 2.063 3 Rosemary Figueiroa Augusto, Martin da Silva Gesto, Cecília Dutra Pillar, Marcio Henrique Sales Parada e Theodoro Vicente Agostinho (Suplente Convocado). Fez sustentação oral, pelo Contribuinte, o advogado César Piantavigna, OAB/ES nº 6740. Relatório Adoto como relatório, em parte, aquele elaborado pela Autoridade Julgadora de 1ª instância (fl. 857), complementandoo ao final: Trata o presente processo de lançamento de oficio de Imposto sobre a Renda de Pessoa Física (IRPF), referente aos anos calendário de 1999 e 2000, consubstanciado no Auto de Infração às fls. 768 a 774. 2 O valor lançado inclui imposto suplementar de R$ 2.947.074,08, multa de oficio de 75%, no valor de R$ 2.210.305,56, e acréscimos moratórios cabíveis. 3 A descrição dos fatos e o enquadramento legal encontramse detalhados no demonstrativo às fls 770 e 771 e Termo de Constatação e Verificação Final às fls. 724 a 767, versando sobre a seguinte infração: 001 — DEPÓSITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA. OMISSÃO DE RENDIMENTOS CARACTERIZADA POR DEPÓSITOS BANCÁRIOS COM ORIGEM NÃO COMPROVADA. 4 Mediante Termo de Início de Fiscalização (13/02/2004 fls. 44 a 46), o contribuinte foi intimado a apresentar os extratos bancários de todas as contas por ele movimentadas, tendo sido solicitado, na ocasião, a apresentar a documentação comprobatória da origem de todos os créditos efetuados nestas contas. O contribuinte, inicialmente (26/03/2004), apresentou apenas parte dos extratos, referentes ao Banco do Brasil (fls. 78 a 116), e informou (fl. 55, item 5.4) que apresentaria a documentação referente às operações realizadas pelo requerente e que deram origem aos créditos efetuados nas contas bancárias juntamente com o restante dos extratos do HSBC tão logo estes fossem entregues pelo banco. 5 O contribuinte apresentou posteriormente os extratos do HSBC (fls. 467 a 562) e esclareceu (15/06/2004 fl. 310 e 311), com a apresentação de planilhas explicativas, que a maior parte dos recursos que transitaram em suas contas correntes eram provenientes de intermediação de negócios diversos — cereais, animais, veículos e outros bens, inclusive imóveis próprios e de terceiros — além da obtenção de empréstimos junto a pessoas físicas amigas para pagamento a prazo. Os recursos movimentados em suas contas seriam, portanto, de terceiros. Fl. 2063DF CARF MF Processo nº 11543.004450/200492 Acórdão n.º 2202003.736 S2C2T2 Fl. 2.064 4 6 De posse dos extratos de movimentação financeira do contribuinte obtidos mediante RMF — Requisição de Informações sobre Movimentação Financeira (17/04/2004 fls. 574 a 712), a fiscalização selecionou uma série de depósitos bancários e intimou (15/07/2004 fls. 121 a 140) o contribuinte a comprovar a origem dos valores creditados em suas contas. 7 Novamente o contribuinte esclareceu (26/08/2004 — fls. 1E47 e 148), com apresentação de planilhas explicativas, que os recursos que transitaram em suas contas correntes eram provenientes de intermediação de negócios diversos, além de venda de imóveis e produtos agrícolas, bem como obtenção de empréstimos junto a pessoas físicas amigas para pagamento a prazo e transferências entre contas bancárias do próprio contribuinte. 8 Da análise do que foi apresentado pelo contribuinte, a fiscalização concluiu que as alegações apresentadas não estavam corroboradas por nenhum documento comprobatório e intimou (14/09/2004 — fls. 567 e 568) o contribuinte a apresentar as notas fiscais da atividade rural e documentos que guardassem consonância com os créditos bancários e/ou operações comerciais realizadas, com explicação individualizada por documento. 9 Em resposta (20/09/20009 — fls. 569 571), o contribuinte informou que um funcionário seu, pensando que os blocos das notas não tinham mais serventia, destruiuos junto com papéis velhos que estavam guardados em um paiol. O fiscalizado esclareceu, ainda, que não possuía escrituração individualizada das remessas efetuadas em razão das operações de intermediação realizadas por ele. 10 Entendendo que o contribuinte não comprovou a origem dos valores questionados exceto pelo itens "c", "e" e "f" à fl. 731, transferências entre contas de mesma titularidade à fl. 733 e estornos às fls. 762 e 763 , a fiscalização, com base no art. 42, da Lei n.° 9.430/96, lavrou auto de infração considerando como receita omitida os valores listados às fls. 733 a 765, com discriminação individualizada de banco, agência, conta, data, histórico e valor. DA IMPUGNAÇÃO 11 Cientificado do Auto de Infração em 11/12/2004 (fl. 777), o contribuinte, por intermédio de seu procurador (instrumento de mandato à fl. 57; cópia da carteira de identidade à fl. 828), protocolizou impugnação em 10/01/2004 (fls. 784 a 800), em que apresenta as seguintes razões: 12 Alega, inicialmente, que, tendo recebido o Auto de Infração em 11/12/2004, um sábado, o termo inicial do prazo se deu na terçafeira, dia 14/12/2004, é tempestiva a sua impugnação protocolizada em 10/01/2005. Fl. 2064DF CARF MF Processo nº 11543.004450/200492 Acórdão n.º 2202003.736 S2C2T2 Fl. 2.065 5 13 No que se refere à venda de veículos, afirma que é prática comercial comum deixar o carro em consignação com um intermediário de confiança, com um preço mínimo de venda, ficando a diferença positiva entre o preço final e o piso fixado pelo vendedor com o agenciador de negócios (intermediário), como seu ganho no processo de venda. 14 Na Grande Vitória atuariam mais de 1.000 empresas e mais de 3.000 pessoas físicas, num ambiente de forte concorrência, pequena margem de lucro e baixa capacidade de financiamento de capital de giro, sendo a consignação com preço mínimo a sistemática mais utilizada nesse mercado. 15 A fim de garantir que o intermediário receba a sua parte e o ressarcimento pelos anúncios, a tradição nesse setor seria no sentido de se depositar o valor da venda na conta do agenciador, para que este, descontando a sua comissão e despesas, repasse posteriormente ao vendedor. 16 Essa prática, pela qual o certificado que comprova a venda não passa pelo nome do intermediário, proporcionaria um alto volume financeiro, mas os rendimentos que ficariam efetivamente com o intermediário seriam muito pequenos. A margem bruta de lucratividade, em termos médios, seria de 1,5%. 17 O contribuinte enaltece as suas habilidades comerciais e alega que é documentalmente impossível apresentar documentos para cada depósito bancário, pois grande parte das vendas é feita com documentos de terceiros. Nesse sentido, afirma que se a integralidade da quantia que passou por suas contas bancárias lhe pertencesse, o seu nível de vida social e econômico seria muito superior. 18 Alega que, ao apresentar a descrição pormenorizada de suas operações, gerou a oportunidade de a fiscalização comprovar suas afirmações e, com a quebra do sigilo bancário, a Receita Federal teria elementos de comparação entre as informações prestadas pelo fiscalizado e a listagem dos cheques depositados em suas contas bancários. 19 Afirma que não manteve em seu poder cópia de todos os documentos das negociações realizadas com veículos, e apresenta demonstrativo de valores relacionados a certificados de registro de veículo à fl. 791. 20 Reclama que a fiscalização não considerou os rendimentos já declarados e/ou tributados, admite que houve omissão parcial dos rendimentos referentes às comissões auferidas na intermediação de negócios e bens de terceiros, e afirma que o Conselho de Contribuintes e a Câmara Superior de Recursos Fiscais já se posicionaram no sentido de que cabe a tributação apenas da margem de lucro e que são improcedentes as autuações que se baseiam somente em depósitos bancários, sem uma pesquisa da destinação dos recursos. Apresenta decisões do Conselho de Contribuintes. Fl. 2065DF CARF MF Processo nº 11543.004450/200492 Acórdão n.º 2202003.736 S2C2T2 Fl. 2.066 6 21 Para demonstrar que desenvolvia atividade de emprestar e tomar emprestado recursos de pessoas amigas, junta cópia de duas notas promissórias. 22 A fim de provar que parte expressiva dos recursos que transitaram por suas contas pertence a terceiros, assevera que foi entregue à Fiscalização cópias de várias DOCs emitidos em favor de outras pessoas físicas e pessoas jurídicas, conforme listagem em anexo. 23 Cita decisão administrativa do Conselho de Contribuintes, levando aos autos trechos do posicionamento do relator Remis Almeida Estol. 24 Fazendo um resumo da jurisprudência administrativa, conclui que, mesmo com o advento da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, é necessário que os recursos depositados na conta corrente de um cidadão sejam convertidos em renda; que os depósitos tributados pela fiscalização em um determinado mês servem de subsídio para cobrir depósitos bancários realizados nos mês posteriores e que o saldo apurado em 31/12 de um determinado ano, repassase; e que o contribuinte pessoa física não precisa ter escrituração semelhante à de uma empresa, com a obrigatoriedade de observância de sincronismo ou coincidência de datas e valores, devendo ser aceitos os argumentos que guardem correlação entre si e justifiquem a variação patrimonial correspondente ao mês calendário examinado. 25 Ao final, diante do que expõe, requer a improcedência integral do lançamento. Ao julgar a manifestação do contribuinte, a DRJ no Rio de Janeiro/RJ II , em resumo, dispôs que a Lei nº 8.021/1990, primeiramente, estabeleceu a possibilidade de arbitramento de rendimentos com base em depósitos bancários. Posteriormente, a Lei nº 9.430/1996 deu disciplina diferente, criando uma presunção legal que exige exclusivamente do contribuinte demonstrar a exata correlação entre cada valor depositado e a origem do recurso correspondente. Informações genéricas sobre intermediação de negócios, sem demonstrar a natureza da operação e sem prova documental, não podem ilidir a presunção legal. Decidiuse assim pela improcedência da impugnação. Cientificado dessa decisão em 02/09/2009, pela ciência pessoal da Procuradora, na fl. 867, o contribuinte apresentou recurso voluntário em 02/10/2009, com protocolo na fl. 870. Em sede de recurso, em suma, assim se manifesta: 1 a fiscalização foi exigente ao determinar a comprovação individualizada dos depósitos, sem considerar o tempo decorrido desde os fatos averiguados. 2 alude especificamente à comprovação de transações envolvendo veículos, sustentando ter indicado a correlação entre comprovantes de depósitos bancários e certificados de registros de veículos, em operações de compra e venda. A fiscalização furtouse de circularizar os envolvidos nessas transações, o que seria um procedimento comum. Fl. 2066DF CARF MF Processo nº 11543.004450/200492 Acórdão n.º 2202003.736 S2C2T2 Fl. 2.067 7 3 houve pressa em encerrar a fiscalização, sem efetuar as devidas averiguações, por causa da risco de decadência dos fatos ocorridos em 1999. 4 a exigência de que fosse comprovada a movimentação de forma individualizada submeteu uma pessoa física ao tratamento fiscal de uma pessoa jurídica. Cita termos do artigo 42 da Lei 9.430, de 1996, para entender que o preceito destinase a pessoa jurídicas, apenas. 5 o contribuinte apresentou Escritura de compra de imóvel, ao invés de Escritura de venda. Se a fiscalização o tivesse intimado, teria contornado o lapso, como foi feito nas fls. 810/813, no sentido de justificar o valor de R$ 221.000,00 nos anos de 1999 e 2000 ("A negociação envolveu o total de R$ 260.000,00. Porém, deste valor o recorrente só recebeu R$221.000,00 nos anos de 1999 e 2000, por intermédio de 17 (dezessete) promissórias de R$ 13.000,00 cada, cujos vencimentos se deram a partir do mês de JULHO de 1999. A respeito, consultese a fl. 811 dos autos"). 6 anexa documentos para comprovar que a fiscalização incorreu em erro, inclusive planilhas que especificam as pessoas com que o recorrente celebrou transações e declaração prestada em cartório de pessoa com quem realizou numerosas negociações que perfizeram o montante de R$ 2.409.259,07, nos anos de 1999 e 2000. 7 defende que a anexação de provas no processo administrativo é admitida a qualquer tempo, em respeito ao princípio da verdade material. 8 com sua defesa, também demonstrou que dispunha de crédito de R$ 252.522,50 junto a Osny Alvarenga, com vencimento ajustado para 15.07.1999, conforme evidenciado em Nota Promissória na fl. 808. O crédito referente está na fl. 663. 9 diz que houve cerceamento de defesa ao não serem analisados esses pontos. PEDE a decadência tocante ao período de 01/1999 a 11/1999; cancelamento por cerceamento do direito de defesa ou redução a "montantes compatíveis com rendimentos tributáveis". Alternativamente, a conversão do julgamento em diligência, a fim de que se proceda a "nova estimativa de crédito tributário", com base nos documentos anexados ao presente feito. São anexadas centenas de documentos, que não foram especificados no recurso. Na fl. 1996, consta Sentença Judicial que trata de pedido do contribuinte para produção de prova testemunhal, a fim de ser considerada neste processo administrativo. Ata de audiência e depoimentos das testemunhas nas fls. 1989 a 1994. Na fl. 2042 consta a Resolução 2202000.492, de 18 de junho de 2013, que decidiu pelo sobrestamento do julgamento, em vista da decisão do STF no sentido de reconhecer a repercussão geral do tema baseado no acesso aos dados bancários do contribuinte, diretamente pelo Fisco. Superadas as razões do sobrestamento, o processo retorna à pauta de julgamentos. Fl. 2067DF CARF MF Processo nº 11543.004450/200492 Acórdão n.º 2202003.736 S2C2T2 Fl. 2.068 8 É o Relatório. Voto Conselheiro Marcio Henrique Sales Parada, relator. O recurso é tempestivo, conforme relatado, e atendidas as demais formalidades legais, dele tomo conhecimento. A numeração de folhas a que me refiro a seguir é aquela existente após a digitalização do processo, transformado em arquivo magnético (arquivo .pdf) NULIDADES. CERCEAMENTO DE DEFESA. O contribuinte pugna pela nulidade do procedimento fiscal porque a fiscalização não teria circularizado terceiros e acatado os documentos que lhe foram apresentados para excluir do montante dos depósitos bancários considerados na autuação. No Termo de Constatação e Verificação Fiscal, que consta das fls. 742 e seguintes, o Auditor Fiscal analisa toda a documentação que lhe fora apresentada até então, e motiva individualizadamente porque aceitou ou não cada documento. Planilhas elaboradas não foram aceitas pois desacompanhadas de documentos, por exemplo. Além disso, foram considerados alguns créditos decorrentes da venda de imóveis, com a apresentação de escrituras, e não considerados outros, pois a escritura era de compra e não de venda. Manifestouse ainda, fundamentadamente, sobre os documentos de transferência de veículos apresentados. Existem listagens pormenorizadas dos valores apurados, dos considerados comprovados e daqueles não comprovados, permitindo ao contribuinte saber exatamente, um a um, quais créditos em contas bancárias foram levados à apuração no Auto de Infração. Na folha 799, consta que obteve acesso e cópia dos autos. Nada lhe foi cerceado. Assim, foi possível ao contribuinte impugnar de forma lógica e dentro do prazo legal, apresentando suas razões. Conforme relatado, também o julgador de 1ª instância apresentou decisão motivada, relatando a autuação e a impugnação. Baseouse na ausência de comprovação específica para cada depósito, não aceitando genericamente a descrição das operações comerciais do recorrente e a não indicação do depósito a que se referiam cada uma de suas alegações. Entendeu necessária "exata correlação entre cada valor depositado e a origem do recurso correspondente". De acordo com os artigos 14 e 15 do Decreto nº 70.235, de 1972, é a impugnação da exigência, formalizada por escrito e instruída com os documentos em que se fundamentar que instaura a fase litigiosa do procedimento. Entendo no mesmo sentido em que leciona LEANDRO PAULSEN, de que o reconhecimento de vício formal depende de se observar eventual prejuízo à defesa. Vejamos: “Não há requisitos de forma que impliquem nulidade de modo automático e objetivo. A nulidade não decorre propriamente do descumprimento do requisito formal, mas dos seus efeitos comprometedores do direito de defesa assegurado Fl. 2068DF CARF MF Processo nº 11543.004450/200492 Acórdão n.º 2202003.736 S2C2T2 Fl. 2.069 9 constitucionalmente ao contribuinte já por força do art. 5º, LV, da Constituição Federal. Isso porque as formalidades se justificam como garantidoras da defesa do contribuinte; não são um fim, em si mesmas, mas um instrumento para assegurar o exercício da ampla defesa. Alegada eventual irregularidade, cabe, à autoridade administrativa ou judicial, verificar, pois, se tal implicou efetivo prejuízo à defesa do contribuinte. Daí falar se do princípio da informalidade do processo administrativo.” (PAULSEN, Leandro. Direito tributário: Constituição e Código Tributário....15. ed. Porto Alegre : Livraria do Advogado Editora, ESMAFE, 2013, p.1197) Não verifico nenhuma nulidade no Auto de Infração, do qual o contribuinte deveria defenderse. Não padece de nulidade a autuação que seja lavrada por autoridade competente, com observância ao art. 142, do CTN, e arts. 10 e 59, do Decreto nº 70.235/72, contendo a descrição dos fatos e enquadramentos legais, permitindo ao contribuinte o pleno exercício do direito de defesa, mormente quanto se constata que o mesmo conhece a matéria fática e legal e exerceu, com lógica razoável e nos prazos devidos, o seu direito de defesa. DECADÊNCIA No recurso também é aventada decadência do direito de lançar relativo a fatos geradores ocorridos entre 01/1999 e 11/1999. O lançamento foi cientificado ao sujeito passivo em 11/12/2004, conforme AR na fl. 795. Diz a Súmula CARF nº 38: Súmula CARF nº 38 (VINCULANTE): O fato gerador do Imposto sobre a Renda da Pessoa Física, relativo à omissão de rendimentos apurada a partir de depósitos bancários de origem não comprovada, ocorre no dia 31 de dezembro do ano calendário.(destaquei) Assim, para o ano calendário de 1999 não ocorrem, no caso, fatos geradores mensais, decorrentes da omissão de depósitos, sendo toda ela levada ao ajuste anual, quando ocorre o fato gerador periódico, por ficção, em 31/12. Em 11/12/2004 não haviam se passado cinco anos, portanto. MOMENTO DE APRESENTAÇÃO DAS PROVAS No dizer de Humberto Theodoro Júnior, “enquanto processo é uma unidade, como relação processual em busca da prestação jurisdicional, o procedimento é a exteriorização dessa relação e, por isso, pode assumir diversas feições ou modos de ser.” Ensina o renomado autor que “procedimento é, destarte, sinônimo de ‘rito’ do processo, ou seja, o modo e a forma por que se movem os atos do processo” (Theodoro Junior, Humberto in Curso de Direito Processual Civil, vol. I, 41 ed. Forense, Rio de Janeiro, 2004, p.303) Pois bem, o procedimento está estruturado segundo fases lógicas, que tornam efetivos os seus princípios fundamentais, como o da iniciativa da parte, o do contraditório e o do livre convencimento do julgador. Fl. 2069DF CARF MF Processo nº 11543.004450/200492 Acórdão n.º 2202003.736 S2C2T2 Fl. 2.070 10 Conforme os artigos 14 e 15 do Decreto 70.235/1972, que dispõe sobre o processo administrativo fiscal, é a impugnação da exigência, formalizada por escrito e instruída com os documentos em que se fundamentar, apresentada ao órgão preparador no prazo de trinta dias, que instaura a fase litigiosa do procedimento. (grifei) A norma do PAF, Decreto nº 70.235/1972, art. 16, § 4º, estabelece que as provas devem ser apresentadas juntamente com a impugnação, precluindo o direito de fazêlo em outro momento processual. A alegação do contribuinte de que as provas podem ser apresentadas em qualquer momento, até o julgamento, desconsidera totalmente desse dispositivo. O sistema da oficialidade, adotado no processo administrativo, e a necessidade da marcha para frente, a fim de que o mesmo possa atingir seus objetivos de solução de conflitos e pacificação social, impõem que existam prazos e o estabelecimento da preclusão. A análise fria da norma chocase, prima facie, com os princípios da verdade material, sempre considerado nos julgamentos administrativos, e com a ampla defesa, homenageada no texto constitucional. A Lei nº 9.784/1999, que regula o processo administrativo em geral, no art. 3º, possibilita a apresentação de alegações e documentos antes da decisão e, no art. 38, permite que documentos probatórios possam ser juntados até a tomada da decisão administrativa. Entende abalizada doutrina, contudo, que, apesar disso, a lei específica, no caso o Decreto nº 70.235/1972, aplicarseia ao processo administrativo fiscal, em detrimento da lei geral. Entretanto, como concluem ressalvando correntes em contrário , Maria Teresa Martínez Lopez e Marcela Cheffer Bianchini, sobre o momento da apresentação da prova no processo administrativo fiscal, verificase a tendência de atenuar os rigores da norma, afastando a preclusão em alguns casos excepcionais, que indicam trataremse daqueles que se referem a fatos “notórios ou incontroversos”, no tocante a documentos que permitem o fácil e rápido convencimento do julgador. Assim, o direito da parte à produção de provas posteriores, até o momento da decisão administrativa comporta graduação, a critério da autoridade julgadora, com fulcro em seu juízo de valor acerca da utilidade e da necessidade, de modo a assegurar o equilíbrio entre a celeridade, a oficialidade, a segurança indispensável, a ampla defesa e a verdade material, para a consecução dos fins processuais. (A Prova no Processo Tributário, Coord. NEDER, Marcos Vinícius e outros – São Paulo : Dialética, 2010, p. 34 a 51) É preciso, portanto, analisar a situação objetivamente. No caso de depósitos bancários, especificamente, com a tributação baseada na presunção estabelecida pelo artigo 42, da Lei nº 9.430, de 1996, entendo que essa questão deva ser vista de forma bastante restrita. Vejamos que se a autoridade fiscal intima o contribuinte a justificar, nos termos da lei, a origem dos depósitos e o mesmo se cala, durante a fase inquisitória, o lançamento será escudado no supracitado dispositivo legal. Se ainda durante a impugnação, não apresenta documentos, a DRJ mantém o lançamento com base em depósitos bancários de Fl. 2070DF CARF MF Processo nº 11543.004450/200492 Acórdão n.º 2202003.736 S2C2T2 Fl. 2.071 11 origem não comprovada. Aí, em sede recursal, apresenta documentos para comprovar a origem dos depósitos? Inviabiliza a aplicação da presunção legal, bastando calarse na fase inquisitória, e suprime instância, no caso, não submetendo os documentos à análise da DRJ. Não é possível que se aceite todo e qualquer documento, a não ser que servissem para demonstrar que aqueles depósitos eram referentes a rendimentos isentos ou não tributáveis, ou que foram já tributados na declaração de rendimentos ou que fosse motivada a impossibilidade de apresentálos antes, valendose da previsão das alíneas do § 4º do artigo 16 do Decreto nº 70.235, de 1972 (PAF): § 4º A prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual, a menos que: (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) (Produção de efeito) a) fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior; (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) (Produção de efeito) b) refirase a fato ou a direito superveniente; (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) (Produção de efeito) c) destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) (Produção de efeito) Não verifico qualquer prova sobre a impossibilidade acima suscitada nem existem as hipóteses das alíneas 'b' ou 'c', no caso. MÉRITO O lançamento foi lastreado no artigo 42 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, com base na omissão de rendimentos caracterizada por depósitos bancários não comprovados. A partir dos extratos bancários, o Auditor Fiscal intimou o contribuinte a justificar, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos depositados. Não havendo resposta individualizada, foi feito o lançamento com base na presunção estabelecida no dispositivo legal. A pequena parte em que o contribuinte comprovou a correlação entre operação e depósito, com a apresentação de documentos, foi excluída da tributação. Antes de tudo, importante esclarecer que a artigo 42 da Lei nº 9.430, de 1996 é dispositivo legal em pleno vigor e que diz a Súmula CARF nº 2, de observância obrigatória, que: "O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária". Diz o artigo 42 da Lei nº 9.430, de 1996: Art. 42. Caracterizamse também omissão de receita ou de rendimento os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente Fl. 2071DF CARF MF Processo nº 11543.004450/200492 Acórdão n.º 2202003.736 S2C2T2 Fl. 2.072 12 intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. § 1º O valor das receitas ou dos rendimentos omitido será considerado auferido ou recebido no mês do crédito efetuado pela instituição financeira. § 2º Os valores cuja origem houver sido comprovada, que não houverem sido computados na base de cálculo dos impostos e contribuições a que estiverem sujeitos, submeterseão às normas de tributação específicas, previstas na legislação vigente à época em que auferidos ou recebidos. § 3º Para efeito de determinação da receita omitida, os créditos serão analisados individualizadamente, observado que não serão considerados: I os decorrentes de transferências de outras contas da própria pessoa física ou jurídica; II no caso de pessoa física, sem prejuízo do disposto no inciso anterior, os de valor individual igual ou inferior a R$ 12.000,00 (doze mil reais), desde que o seu somatório, dentro do ano calendário, não ultrapasse o valor de R$ 80.000,00 (oitenta mil reais). § 4º Tratandose de pessoa física, os rendimentos omitidos serão tributados no mês em que considerados recebidos, com base na tabela progressiva vigente à época em que tenha sido efetuado o crédito pela instituição financeira. § 5o Quando provado que os valores creditados na conta de depósito ou de investimento pertencem a terceiro, evidenciando interposição de pessoa, a determinação dos rendimentos ou receitas será efetuada em relação ao terceiro, na condição de efetivo titular da conta de depósito ou de investimento. § 6o Na hipótese de contas de depósito ou de investimento mantidas em conjunto, cuja declaração de rendimentos ou de informações dos titulares tenham sido apresentadas em separado, e não havendo comprovação da origem dos recursos nos termos deste artigo, o valor dos rendimentos ou receitas será imputado a cada titular mediante divisão entre o total dos rendimentos ou receitas pela quantidade de titulares. Quanto a matéria relativa a autuação com base apenas em presunção de renda caracterizada pelos depósitos bancários, fundada exclusivamente nos extratos, destaco que já há entendimento pacificado no âmbito do CARF, com a seguinte Súmula: Súmula CARF nº 26 A presunção estabelecida no art. 42 da Lei nº 9.430/96 dispensa o Fisco de comprovar o consumo da renda representada pelos depósitos bancários sem origem comprovada. Assim, não é necessário, na hipótese legal, o Fisco efetuar demonstração de que os depósitos foram consumidos ou que são receitas novas para o contribuinte. Fl. 2072DF CARF MF Processo nº 11543.004450/200492 Acórdão n.º 2202003.736 S2C2T2 Fl. 2.073 13 Isso porque existe, no caso, a inversão do ônus da prova, não necessitando o Fisco demonstrar que aquele depósito tratase de ingresso patrimonial inédito na esfera de disponibilidade do contribuinte, portanto passível de tributação, cabendo ao sujeito passivo demonstrar o contrário. As presunções legais são admitidas em diversos casos para fins de tributação e isso não é inovação ou exclusividade da legislação brasileira. Regina Helena Costa e Misabel Derzi ensinam que o legislador, para tornar viável a aplicação da lei, muitas vezes cria presunções, ficções, padronizações, dentro do que as autoras definem como "praticabilidade da tributação" (COSTA, Regina Helena, Praticabilidade e justiça tributária. Exequidade de Lei Tributária e Direitos do Contribuinte. São Pauto: Malheiros, 2007, p.52 e DERZI, Misabel. Princípio da Praticabilidade do Direito Tributário, in Revista de Direito Tributário nº 47. São Paulo: Malheiros, janmar/1989, p.166179) Assim, os extratos bancários constantes dos autos são suficientes para a comprovação dos depósitos bancários e sobre estes é correta a aplicação da presunção de omissão de rendimentos, quando o contribuinte, regularmente intimado, não demonstra, com documentação hábil e idônea, a origem dos recursos. A comprovação da origem dos recursos deve ser feita "individualizadamente", como expressamente prescrito no § 3º do artigo 42, da Lei em comento. Alegações genéricas não podem ilidir a presunção legalmente estabelecida. Vejamos a recente jurisprudência da Câmara Superior de Recursos Fiscais: Acórdão 9202003.823, de 08 de março de 2016 Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física IRPF Exercício: 1999 LANÇAMENTO COM BASE EM DEPÓSITOS BANCÁRIOS. PRESUNÇÃO DE OMISSÃO DE RENDIMENTOS. Quando da constatação de depósitos bancários cuja origem reste não comprovada pelo sujeito passivo, de se aplicar o comando constante do art. 42 da Lei no 9.430, de 1996, presumida, assim a omissão de rendimentos. (...) O que o recorrente procurou demonstrar, com os documentos que trouxe, é que o contribuinte realizava atividade comercial com circulação de dinheiro em suas contas correntes de pessoa física. Na impugnação, foi descrito como um comerciante nato, muito requisitado na intermediação de negócios de toda espécie. Ainda que fosse superada a questão da apresentação das provas apenas na fase recursal, para que se pudesse excluir depósitos com base na alegação de se referirem a negócios típicos de pessoas jurídicas, deverseia analisar depósito a depósito, com apreciação da razoável coincidência entre datas e valores e as operações comerciais alegadas. Nas folhas 894 e ss. foram anexadas planilhas com o nome de diversas pessoas físicas e jurídicas, colunas de crédito, débito e total. Mas o que é isso? O recurso não diz. A que depósitos bancários listados nos extratos se referem? Fl. 2073DF CARF MF Processo nº 11543.004450/200492 Acórdão n.º 2202003.736 S2C2T2 Fl. 2.074 14 Nas folhas 931 e ss. vem centenas de folhas (muitas rabiscadas) de uma escrituração tipográfica sem qualquer registro oficial em nome de Rodoviário Sudeste. Que empresa é essa? Qual a relação com os depósitos bancários constantes dos extratos? Nas fls. 1410 e ss. constam comprovantes de movimento bancário, mas a que operação se referem? Justamente porque é preciso se verificar a questão da tributação da operação. É compra e venda? Doação? Empréstimo? Já havia alertado o Julgador de 1ª instância que (fl. 862): Por outro lado, esclareço que a acepção da palavra origem utilizada no artigo 42 da Lei n2 9.430/96, não significa simplesmente demonstrar quem é o responsável pelo depósito, mas, principalmente, identificar e comprovar a natureza da operação que deu causa ao crédito. Nas folhas 1440 e ss. há contratos mercantis aos quais o recurso não faz qualquer alusão. Juntar um grande volume de documentos ao recurso não justifica que se determine diligência para nova análise de questões que já foram tratadas pela autoridade fiscal em sua conclusão do trabalho. O contribuinte junta milhares de documentos, sem fazer nenhuma alusão pontual a eles no seu recurso, especialmente tratandose de tributação muito específica, baseada no artigo 42 da Lei nº 9.430, de 1996. Por exemplo, de que se trata a Certidão Simplificada de Registro na Junta Comercial do Espírito Santo da empresa Refrigerantes Iate S/A, da qual são sócios John Ellis e Eleanor Williams, que consta da folha 1457? Qual a relação com os extratos bancários? Entendo mesmo impróprio o pedido de diligência porque a impugnação deveria ser instruída com os documentos que se basear, como já aqui mencionado, e não cabe devolver à autoridade fiscal estes autos para que refaça seu trabalho, já bem concluído em Termo específico. De acordo com o artigo 18 do PAF, as diligências ou perícias servem para sanar dúvidas do julgador, dentro daquilo que entende imprescindível para formar sua convicção, não para que a autoridade administrativa faça provas das alegações do contribuinte. Neste caso, entendo que deva ser indeferido pedido nesse sentido. Vejamos a jurisprudência da Câmara Superior de Recursos Fiscais: Acórdão nº 9303002.548, de 09/10/2013. NORMAS PROCESSUAIS. NULIDADE. Não cabe à Administração suprir, por meio de diligências, mesmo em seus arquivos internos, má instrução probatória realizada pelo contribuinte. Sua denegação, pois, não constitui cerceamento do direito de defesa que possa determinar a nulidade da decisão nos termos dos arts. 59 e 60 do Decreto 70.235/72. A ausência de prova do direito alegado, autoriza seu indeferimento. Recurso Especial do Contribuinte Negado. Prosseguindo, a análise de depósitos bancários, para fins de aplicação do supracitado artigo 42, deve se dar "individualizadamente". Vejamos: Fl. 2074DF CARF MF Processo nº 11543.004450/200492 Acórdão n.º 2202003.736 S2C2T2 Fl. 2.075 15 § 3º Para efeito de determinação da receita omitida, os créditos serão analisados individualizadamente, observado que não serão considerados:(grifei) Assim, entendo que manter diversas relações comerciais com João Gilberti Sartório em 1999 e 2000, como aludem os documentos e declarações não pode justificar os depósitos "em bloco". Bem como também não ilidem a tributação os depoimentos de testemunhas que o contribuinte manejou judicialmente, como se observa na Sentença de fls. 1996 e nos depoimentos de fls. 1990 e seguintes. O contribuinte era um comerciante que realizava atividades e auferia rendimentos sem qualquer registro. Vejamos que apesar de descrito na Impugnação (fl. 805): Desde adolescente é um comerciante nato, que enxerga bons negócios e que se dedica 12 horas por dia para pesquisar oportunidades, convencer ao dono a concederlhe a preferência de venda via consignação (a quase totalidade das vezes), localizar o interessado, satisfazer às partes e ainda conseguir um mark up. Tem o dom para intermediar de tudo. Na área rural aprecia os mercados de leguminosas e grãos. Por ter credibilidade, com telefonemas pode aproximar pessoas que gostariam de vender e comprar. Em 1999, exercício de 2000, apresentou Declaração de Ajuste Anual Simplificada (fl. 37) com um total de rendimentos tributáveis de R$ 32.956,00, mais rendimentos isentos e não tributáveis de R$ 45.677,00. Na listagem de bens e direitos (fl. 38) consta a alienação de dois bens: a Manoel C. Pessanha, em setembro de 1999, e outro a Delano Silva em julho de 1999. Declarou ainda atividade rural, com receitas de 74.780,00 e despesas de R$ 14.147,00, mas sem apurar resultado tributável (fl. 39). Em 2001, exercício de 2000, novamente valeuse do modelo simplificado de declaração (fl. 41) para informar rendimentos tributáveis totais de R$ 13.827,40, rendimentos isentos e não tributáveis de R$ 31.091,60. O total de bens passou de R$ 193.917,21 para R$ 375.236,30. Nessa declaração, registrouse a venda de dois imóveis a Osny Alvarenga, um por R$ 50.000,00 e outro por R$ 10.000,00. Foi informado o preço de venda igual ao de compra. Aqui apurouse um resultado tributável de atividade rural de R$ 13.827,40, ou seja, todo o rendimento tributável do contribuinte, em 2000, decorreu de atividade rural e os rendimentos não tributáveis foram decorrentes do resultado correspondente também da atividade rural. Nada foi declarado como rendimento de sua intensa atividade na intermediação de diversos negócios. Nenhum rendimento dessa atividade foi oferecido à tributação. Não houve também nenhum rendimento oferecido à tributação decorrente de ganho de capital na compra e venda de imóveis. Assim, superada a fase de lavratura do Auto de Infração, apresentar documentos para comprovar que dispunha de crédito de R$ 252.522,50 junto a Osny Alvarenga, com vencimento ajustado para 15.07.1999, conforme evidenciado em Nota Promissória na fl. 808 ("o crédito referente está na fl. 663") não pode ilidir a presunção legal. De que decorre esse crédito? Foi compra e venda? Prestação de serviços? Onde foi tributado? (obs: a nota está na folha 829 e o extrato na fl. 677 da numeração digitalizada). Não constando Fl. 2075DF CARF MF Processo nº 11543.004450/200492 Acórdão n.º 2202003.736 S2C2T2 Fl. 2.076 16 de sua declaração de rendimentos, ou demonstra que eram rendimentos não tributáveis, ou que já foram tributados ou está correta a presunção legal de omissão de rendimentos. Tivesse apresentado a Nota Promissória aludida ao Auditor Fiscal e informado a operação que deu origem a esse crédito junto a Osny Alvarenga, seria possível evitar a tributação com base em depósitos de origem não comprovada, verificandose a tributação correta. Não o fazendo, correta a aplicação da tributação na forma do artigo 42 da Lei nº 9.430, de 1996. Repito o que disse o Julgador de 1ª instância que (fl. 862): Por outro lado, esclareço que a acepção da palavra origem utilizada no artigo 42 da Lei n2 9.430/96, não significa simplesmente demonstrar quem é o responsável pelo depósito, mas, principalmente, identificar e comprovar a natureza da operação que deu causa ao crédito.(destaquei) O mesmo raciocínio aplico à operação de alienação de imóvel, a Delano Delfino da Silva e sua esposa (fl. 831). A Escritura diz que o imóvel foi vendido por R$ 260.000,00, para pagamento em parcelas de R$ 13.000,00, a partir de 14/07/1999. Essa alegação foi de fato feita à fiscalização, mas não foi apresentado o documento correto. Apresentar escritura de compra não pode servir para justificar depósitos bancários em suas contas. O termo de conclusão fiscal tratou disso. Esse imóvel vendido a Delano constava na DAA do contribuinte pelo valor de R$ 200.000,00, adquirido no mesmo ano de 1999. Ou seja, na compra e venda de imóvel, dentro do mesmo ano, o contribuinte obteve um ganho de capital de R$ 60.000,00. Onde foi tributado? Onde esteve apurado? E mais, onde estão depositadas as parcelas de R$ 13.000,00 mensais? Não verifiquei que o recorrente apontasse isso no recurso, para conferir com os extratos bancários. Transitaram por suas contas correntes? Lembro que o contribuinte foi apresentado como um comerciante intenso, que realizava "todo tipo de intermediação". Assim, é possível que essas parcelas tenham sido repassadas diretamente a terceiros, para subsidiar outros negócios. No mesmo ano, como está registrado em suas DAA, comprou e vendeu imóveis com intervalo de meses, apenas. Portanto, não se pode presumir que todas as parcelas de R$ 13.000,00 transitaram por suas contas correntes (existe a inversão do ônus), para excluir o valor total da venda do imóvel da apuração, cabendo a ele, pelo que está estabelecido na lei, apontar especificamente o depósito, nos extratos. Na mesma linha de raciocínio, não compete, no caso, à fiscalização circularizar contribuintes para verificar se as alegações do interessado são verdadeiras. No caso da compra e venda de veículos, deveria apresentar a documentação de transferência e correspondêla ao depósito, individualizadamente. Não entendo que o "manuscrito anexado à fl. 245"(fl. 254 dos autos eletrônicos) seja documento válido para o fim a que se propõe. A despeito disso, entretanto, na peça recursal, fl. 877, à guisa de ilustração, o contribuinte diz que a partir desse manuscrito é possível verificar a operação referente à negociação de um caminhão, no dia 04/01/1999, pelo valor de R$ 19.340,00, remetendo ao extrato bancário que está na folha 480. O valor de R$ 19.340,00 está lançado no extrato "a débito", ou seja, é uma Fl. 2076DF CARF MF Processo nº 11543.004450/200492 Acórdão n.º 2202003.736 S2C2T2 Fl. 2.077 17 saída de recurso, não uma entrada, que é o foco da fiscalização. Na folha 254 consta "pagamento referente a um caminhão", manuscrito. O que a fiscalização pretendeu é que ele comprovasse "os créditos" em suas contas correntes, não os débitos. Esse caminhão foi comprado em 04/01/1999 e quando foi vendido? Por quanto? O contribuinte auferiu rendimentos nessa operação? Estão declarados? Não concordo com a leitura que fez o contribuinte do artigo 42 da Lei nº 9.430, de 1996, de que somente pessoas jurídicas estariam obrigadas a fazer a comprovação individualizada de depósitos bancários, quando intimados por autoridade fiscal. No caput está escrito: Art. 42. Caracterizamse também omissão de receita ou de rendimento os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. E no parágrafo 3º, que alude especificamente à análise individualizada, o inciso II referese taxativamente a pessoas físicas, vejamos: § 3º Para efeito de determinação da receita omitida, os créditos serão analisados individualizadamente, observado que não serão considerados: I os decorrentes de transferências de outras contas da própria pessoa física ou jurídica; II no caso de pessoa física, sem prejuízo do disposto no inciso anterior, os de valor individual igual ou inferior a R$ 12.000,00 (doze mil reais), desde que o seu somatório, dentro do ano calendário, não ultrapasse o valor de R$ 80.000,00 (oitenta mil reais). (destaquei) Assim, sua interpretação não me parece correta. É claro que o dispositivo legal referese a "pessoa física ou jurídica". CONCLUSÃO Em face do exposto, VOTO por rejeitar as preliminares de nulidade e decadência, indeferir o pedido de diligências e, no mérito, negar provimento ao recurso. Assinado digitalmente Marcio Henrique Sales Parada Fl. 2077DF CARF MF Processo nº 11543.004450/200492 Acórdão n.º 2202003.736 S2C2T2 Fl. 2.078 18 Fl. 2078DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10983.721118/2014-16
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Feb 21 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Apr 06 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Obrigações Acessórias
Data do fato gerador: 07/12/2011
INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA. PENA DE PERDIMENTO. CONVERSÃO EM MULTA. NÃO OCORRÊNCIA.
Não constatada a interposição fraudulenta e ocultação do real sujeito passivo, mediante simulação, nas operações de comércio exterior, a pessoa jurídica indicada como interposta e os indicados como beneficiários dessa interposição não respondem pela infração que lhes foi imputada.
RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. INDICAÇÃO NO AUTO DE INFRAÇÃO. NÃO OCORRÊNCIA.
Não ocorre a responsabilidade solidária por mera indicação dos responsáveis solidários, pela autoridade autuante. Não havendo fraude, não há responsabilidade solidária.
Numero da decisão: 3201-002.581
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento aos Recursos Voluntários. Votaram pelas conclusões os Conselheiros Mércia Trajano Damorim, José Luiz Feistauer de Oliveira, Paulo Roberto Duarte Moreira e Winderley Morais Pereira. Ficou de apresentar declaração de voto o Conselheiro Paulo Roberto Duarte Moreira. Acompanhou o julgamento, pela recorrente, o Advogado Solon Sehn, OAB nº 20987-B/SC.
(assinatura digital)
WINDERLEY MORAIS PEREIRA - Presidente Substituto.
(assinatura digital)
PEDRO RINALDI DE OLIVEIRA LIMA- Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: WINDERLEY MORAIS PEREIRA (Presidente), JOSE LUIZ FEISTAUER DE OLIVEIRA, MERCIA HELENA TRAJANO DAMORIM, CASSIO SCHAPPO, ANA CLARISSA MASUKO DOS SANTOS ARAUJO, PEDRO RINALDI DE OLIVEIRA LIMA, PAULO ROBERTO DUARTE MOREIRA, TATIANA JOSEFOVICZ BELISARIO.
Nome do relator: PEDRO RINALDI DE OLIVEIRA LIMA
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PENA DE PERDIMENTO. CONVERSÃO EM MULTA. NÃO OCORRÊNCIA. Não constatada a interposição fraudulenta e ocultação do real sujeito passivo, mediante simulação, nas operações de comércio exterior, a pessoa jurídica indicada como interposta e os indicados como beneficiários dessa interposição não respondem pela infração que lhes foi imputada. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. INDICAÇÃO NO AUTO DE INFRAÇÃO. NÃO OCORRÊNCIA. Não ocorre a responsabilidade solidária por mera indicação dos responsáveis solidários, pela autoridade autuante. Não havendo fraude, não há responsabilidade solidária. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento aos Recursos Voluntários. Votaram pelas conclusões os Conselheiros Mércia Trajano Damorim, José Luiz Feistauer de Oliveira, Paulo Roberto Duarte Moreira e Winderley Morais Pereira. Ficou de apresentar declaração de voto o Conselheiro Paulo Roberto Duarte Moreira. Acompanhou o julgamento, pela recorrente, o Advogado Solon Sehn, OAB nº 20987 B/SC. (assinatura digital) WINDERLEY MORAIS PEREIRA Presidente Substituto. (assinatura digital) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 98 3. 72 11 18 /2 01 4- 16 Fl. 481DF CARF MF 2 PEDRO RINALDI DE OLIVEIRA LIMA Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: WINDERLEY MORAIS PEREIRA (Presidente), JOSE LUIZ FEISTAUER DE OLIVEIRA, MERCIA HELENA TRAJANO DAMORIM, CASSIO SCHAPPO, ANA CLARISSA MASUKO DOS SANTOS ARAUJO, PEDRO RINALDI DE OLIVEIRA LIMA, PAULO ROBERTO DUARTE MOREIRA, TATIANA JOSEFOVICZ BELISARIO. Relatório Tratase de Recurso Voluntário de fls. 429 do contribuinte e fls. 453 do responsável solidário diante de Acórdão da DRJ/SP, fls 349, que julgou o lançamento para configuração da ocorrência de interposição fraudulenta em operação de importação procedente, conforme relatório e ementa desta decisão de primeira instância, transcritos a seguir: "Trata o presente processo de auto de infração, lavrado em 04/09/2014, em face do contribuinte em epígrafe, formalizando a exigência de multa proporcional ao valor aduaneiro, no valor de R$ 1.153.096,05 em face dos fatos a seguir descritos. A fiscalização apurou que a empresa em epígrafe operava como interposta pessoa em comércio exterior, praticando assim infração à legislação aplicável à matéria com previsão de pena de perdimento às mercadorias transacionadas. Face ao que determina o art. 23, inciso V, c/c o §3º, do DecretoLei n° 1.455, de 07 de abril de 1976, foi lavrado o presente Auto de Infração para a aplicação de multa equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias importadas pela impossibilidade de apreensão de tais mercadorias. Foram autuados pelo presente Auto de Infração: Como Contribuinte (Importador): · IDB DO BRASIL TRADING LTDA. Como Responsável Solidário (Adquirente das mercadorias): · empresa INTERMIX COMÉRCIO DE MONTAGENS ELETROELETRÔNICAS LTDA. A empresa IDB DO BRASIL foi cientificada do auto de infração, via Aviso de Recebimento, em 10/09/2014 (fls. 189). Fl. 482DF CARF MF Processo nº 10983.721118/201416 Acórdão n.º 3201002.581 S3C2T1 Fl. 481 3 A Empresa INTERMIX foi cientificada do auto de infração, via Aviso de Recebimento, em 18/09/2013 (fls. 191). A empresa IDB DO BRASIL protocolizou impugnação, tempestivamente em 06/10/2014, na forma do artigo 56 do Decreto nº 7.574/2011, de fls. 196 à 215, instaurando assim a fase litigiosa do procedimento. O impugnante alegou que: DOS FATOS: O Auto de Infração impugnado tem por objeto a constituição e a cobrança de multa substitutiva à pena de perdimento, cominada com fundamento no art. 23, V, § 3º, do DecretoLei n. 1.455/1976, no valor de R$ 1.153.096,05. De acordo com o "Relatório de Ação Fiscal", ao proceder a auditoria das importações diretas realizadas pela Impugnante, constatouse que a mesma "... ocultou (acobertou) o verdadeiro destinatário das mercadorias importadas nas Declarações de Importação sob fiscalização (tabela 1), configurando a prática de ocultação do real comprador e responsável pelas operações de importação, mediante fraude e simulação". A Fiscalização, em face de suposta impossibilidade de apreensão das mercadorias, aplico u multa equivalente aos valores aduaneiros das operações de importação amparadas nas Declarações de Importação n° 11/15502915, 11/17321934, 11/18137304, 11/20647330, 11/21543580, 12/00010835, 12/04855678, 12/05002628 e 12/11161015 com saída para a empresa INTERMIX Comércio e Montagens EletroEletrônicas Ltda.. Todavia, como restará demonstrado, a exigência fiscal mostrase totalmente indevida e ilegal, à medida que as operações de importação foram realizadas de forma lícita e regular, bem como ausentes os pressupostos caracterizadores da interposição fraudulenta. DO DIREITO DA FRAGILIDADE DOS INDÍCIOS APONTADOS PELA FISCALIZAÇÃO A Impugnante, por meio das Declarações de Importação n° DIs 11/15502915, 11/1732193 4, 11/18137304, 11/20647330, 11/21543580, 12/00010835, 12/04855678, 12/05002628 e 12/11161015 com saída para a empresa INTERMIX Comércio e Montagens EletroEletrônicas Ltda. realizou importações diretas de mercadorias visando comercializálas no território nacional (cópia das DIs anexas doc. 03). Fl. 483DF CARF MF 4 As mercadorias foram regularmente revendidas à empresa INTERMIX. A Fiscalização, porém, entendeu que tais operações configurariam interposição fraudulenta. Todavia, com o devido respeito, tais indícios não são idôneos nem tampouco suficientes para se concluir pela caracterização da interposição fraudulenta no caso concreto, uma vez que: I. Todas as mercadorias importadas com amparo nas DIs fiscalizadas foram vendidas para a empresa INTERMIX Produtos para Cerâmicas Ltda., quando, segundo "Relatório de Ação Fiscal", na importação direta, deveriam ter ocorrido vendas pulverizadas no mercado interno; Todas as mercadorias importadas com amparo nas DIs fiscalizadas foram vendidas para a empresa INTERMIX Produtos para Cerâm icas Ltda., quando, segundo "Relatório de Ação Fiscal", na importação direta, deveríam ter ocorrido vendas pulverizadas no mercado interno; II. A proximidade das datas de desembaraço e datas de emissão de notas fiscais de entrada e saída, bem como os números eram sequenciais; III. Os pagamentos realizados pela INTERMIX à Impugnante foram feitos em datas próximas e/ou anteriores ao registro das DIs que ampararam as operações fiscalizadas; IV. Não houve transporte das mercadorias do recinto alfandegado até o estabelecimento da Impugnante para prévio armazenamento; V. Não houve ingresso das mercadorias no estoque da empresa; VI. Falta de habilitação da empresa adquirente das mercadorias importadas para operar no comércio exterior; VII. Houve, em tese, utilização indevida de benefício fiscal relativo ao Icms pelas empresas IDB e INTERMIX, o que configura fraude tributária; Todavia, com o devido respeito, tais indícios não são idôneos nem tampouco suficientes para se concluir pela caracterização da interposição fraudulenta no caso concreto, uma vez que: a) Não é adequado afirmar que, de toda importação direta, decorrem "vendas pulverizadas no mercado interno". A venda pode ocorrer no varejo ou no atacado; b) A armazenagem dos produtos importados foi realizada no Município de Itajaí, nos depósitos das empresas Multlog S.A. e Poly Terminais Portuários S.A., que são alfandegadas pela Receita Federal e prestam tais serviços, conforme notas fiscais de prestação de serviço em anexo (doc. 04); Fl. 484DF CARF MF Processo nº 10983.721118/201416 Acórdão n.º 3201002.581 S3C2T1 Fl. 482 5 c) As mercadorias foram contabilizadas no estoque. Tanto é assim que foram emitidas notas fiscais de entrada e de saída; d) As datas das notas (de entrada e de saída) e os números sequenciais justificamse porque a venda ocorreu no atacado, logo após o ingresso no território nacional; e) A forma de pagamento (datas próximas ou anteriores aos registros das DIs) foi acordada entre as partes no momento da revenda da mercadoria (após a compra internacional); f) A habilitação das empresas adquirentes no Sistema Integrado de Comércio Exterior (Siscomex) não é exigida para a compra de bens no mercado interno; g) Não basta meros indícios de dano ao Erário para aplicação da pena de perdimento. Ora, o simples fato de a Impugnante ter revendido as mercadorias logo após a compra internacional não tem o condão de desqualificar a importação realizada. A intermediação de compra de mercadorias para revenda constitui justamente a essência do ato de mercancia. Cabe destacar que, à época dos fatos, a Impugnante estava habilitada no Siscomex, na modalidade ordinária, para realizar operações de comércio exterior com cobertura cambial, em cada período consecutivo de seis meses, até o limite US$ 328.000,00 CIF (importações) e US$ 328.000,00 FOB (exportações) (doc. 06). A Impugnante, portanto, tinha capacidade financeira e porte econômico absolutamente compatíveis com as importações realizadas. Ademais, no curso da fiscalização foram apresentadas provas documentais de que todas as despesas com o Sixcomex, com os tributos incidentes na importação e fechamento de câmbio foram pagos e debitados diretamente em conta corrente de titularidade da Impugnante e dos despachantes aduaneiros indicados nas DIs. Por fim, devese ter presente que, nos casos envolvendo operações de interposição fraudulenta, a Fiscalização, como se sabe, invariavelmente se depara com situações nas quais a importadora ostensiva não apenas utiliza recursos de terceiros (dos reais adquirentes) como também se limita a receber uma comissão por sua atuação como "presta nome”. Junta textos da Jurisprudência Administrativa: (Acórdão n. 31014100.521). Nesse sentido, importa destacar que, do exame das notas fiscais de entrada e saída (doc. 07), depreendese que a Impugnante efetivamente vendeu as mercadorias importadas no mercado interno, auferindo Fl. 485DF CARF MF 6 lucratividade incompatível com a conduta de quem se limita a receber comissão em operação de terceiro. Dito de outro modo, a margem de lucro adotada evidencia que o importador não atuou como prestador de serviço (remunerado com simples comissão). Mas que, ao contrário do que entendeu a Fiscalização, realizou uma operação em seu próprio interesse econômico, auferindo margem de lucro compatível com uma importação própria, real e efetiva. A prova cabal nesse sentido decorre do confronto entre as notas fiscais de entrada e saída, que denotam a prática de margem de lucro da revenda no mercado interno de até 87% (oitenta e sete por cento), percentual bastante superior para operações de comercialização. Tanto é que a legislação do imposto de renda estabelece, para efeitos de presunção da receita bruta auferida, o percentual de 8% (oito por cento) para atividade de comércio (RIR, art. 223). Vejase, como exemplo, a NFe n° 1.175 e venda emitida para a empresa INTERMIX Esta comprova que o produto de código 4595 "cabos para USB KVM para uso no Display 16 Port. KVM ’ foi revendido pelo preço do valor unitário R$ 10,86, sendo que o valor de aquisição correspondia a R$ 5,7949 (NFe de entrada n° 1.175); ou seja, com margem de lucro de 87%. Não há dúvidas, portanto, de que houve, com o devido respeito, um excesso na interpretação dos fatos. Afinal, não houve emprego de recursos de terceiros e as operações foram absolutamente compatíveis com a capacidade financeira da importadora. Assim, a existência de meros indícios não é suficiente para aplicação da multa substitutiva à pena de perdimento, de sorte que para a infração ser devidamente caracterizada, depende de pressupostos específicos, que, como será devidamente evidenciado no item seguinte, não estão presentes no presente caso concreto. DA AUSÊNCIA DOS PRESSUPOSTOS DE CARACTERIZAÇÃO DA INFRAÇÃO A Fiscalização, como já destacado, entendeu que houve ocultação do real destinatário das mercadorias importadas nas DIs fiscalizadas, mediante interposição fraudulenta, configurando a infração prevista no art. 23, V, do DecretoLei n. .455/1976, com redação dada pela Lei n. 10.637/2002. Da análise do texto normativo, temse que o pressuposto para caracterização da infração é a comprovação da "ocultação" de quaisquer dos intervenientes na operação expressamente mencionados, "mediante fraude ou simulação". Fl. 486DF CARF MF Processo nº 10983.721118/201416 Acórdão n.º 3201002.581 S3C2T1 Fl. 483 7 Junta textos da Jurisprudência Administrativa: (Acórdão n. 3403 002.842). A simples ocultação, portanto, não constituirá infração. Há necessidade de comprovação da ocorrência de fraude ou simulação. No presente caso, notase, a partir da fundamentação contida no "Relatório de Ação Fiscal" (item 6.3.1), que a autoridade fazendária se limita a indicar que "em tese" houve fraude tributária sem, contudo, comprovar. Ora, a ocorrência de fraude "em tese" existe na conduta prevista na norma, de modo que sua configuração depende da comprovação no caso concreto. Junta textos da doutrina de Roberto Ferreira dos Santos. Ora, ainda que se impute a Impugnante a intenção de "ocultar” o real destinatário das mercadorias importadas, não houve comprovação de insuficiência no pagamento dos tributos aduaneiros. Junta textos da doutrina de Luiz Roberto Domingo e Angela Sartori. Junta textos da jurisprudência do STJ: (REsp 639252/PR). As mercadorias, como já destacado, foram importadas e nacionalizadas por conta e risco da Impugnante que, no mercado interno, vendeu com margem de lucro e pagamento de todos os tributos incidentes na operação. Portanto, diante da ausência de comprovação do efetivo dano ao Erário, bem como da ocultação "mediante fraude ou simulação", mostrase totalmente descabida a aplicação da multa prevista no art. 23, V, § 3e, do DecretoLei n° 1.455/1976. DO PRINCÍPIO DO NE BIS IN IDEM: Por outro lado, sucessivamente, caso se entenda pela ocorrência da infração (o que se admite apenas para efeitos de argumentação), deve se ter presente que, com o advento da Lei ng 11.488/2007, a multa de 100% do valor aduaneiro (DecretoLei n. 1.455, de 1976, art. 23, § 3°) deixou de ser aplicável ao importador ostensivo. Isso porque a legislação superveniente, em seu art. 33, estabeleceu sanção específica ap licável na hipótese de pessoa jurídica que ceder o nome para realização de operações de comércio exterior. Transcreve o artigo 33 da Lei n. 11.488/2007. Fl. 487DF CARF MF 8 Ademais, considerando que a pena de perdimento da mercadoria (penalidade originária) não atingiría o proprietário, mas o real destinatário da mercadoria, incabível a aplicação da multa pecuniária substitutiva em face do importador, principalmente porque existe pena específica para empréstimo do nome. Junta textos da doutrina de Luiz Roberto Domingo e Angela Sartori. Transcreve os artigos 99 e 100 do Decreto Lei n. 37/1966. Assim, na hipótese de manutenção da exigência fiscal (o que se admite apenas para fins de argumentação], requerse a redução da multa aplicada para 10% (dez por cento) do valor da operação, em consonância com o princípio da especificidade e retroatividade da lei da mais benigna, previsto no art. 106, II, "c”, do Código Tributário Nacional. DO PEDIDO Ante todo o exposto, requerse, respeitosamente, a Vossa Senhoria: a) o recebimento e o processamento da presente impugnação, nos termos dos arts. 14, 15 e 16 do Decreto ns 70.235/1972, suspendendo se a exigibilidade do crédito tributário nos termos do art. 151, inciso III, do CTN; b) o acolhimento da presente impugnação para fins de cancelamento da exigência fiscal, nos termos da fundamentação supra; c) alternativamente, na hipótese de manutenção da exigência fiscal (o que se admite apenas para fins de argumentação), a redução da multa aplicada para 10% (dez por cento) do valor da operação, em consonância com os princípios da especificidade e da retroatividade benigna previsto no art. 106, II, "c", do CTN. A empresa INTERMIX protocolizou impugnação, tempestivamente em 09/10/2014, na forma do artigo 56 do Decreto nº 7.574/2011, de fls. 300 à 316. DOS FATOS Tratase de Auto de Infração lavrado para exigência de crédito tributário, no valor de R$ 1.153.096,05, na condição de responsável solidário, relativo a cominação da multa prevista no § 3 o, inciso V, do art. 23 do DecretoLei n° 1.455 1976, com redação dada pelo art. 59 da Lei n° 10.637/2002 (doe. 02). A fiscalização, consoante se depreende do relatório de ação fiscal, ao analisar as importações por conta própria realizadas pela empresa IDB do Brasil Importação e Exportação Ltda., no período compreendido entre os anos de 2011 e 2012, constatou que as mercadorias importadas com amparo nas DIs 11/15502915, 11/17321934, 11/18137304, Fl. 488DF CARF MF Processo nº 10983.721118/201416 Acórdão n.º 3201002.581 S3C2T1 Fl. 484 9 11/20647330, 11/21543580, 12/00010835, 12/04855678, 12/05002628 e 12/11161015, foram vendidas integralmente à empresa INTERMIX Comércio e Montagens Eletro Eletrônicas Ltda., ora Impugnante. Em virtude disso, concluiu que a empresa IDB, a importadora, “ocultou (acobertou) o verdadeiro destinatário das mercadorias importadas nas Dl sob fiscalização”, aplicandolhes a multa equivalente ao valor aduaneiro das operações. A exigência fiscal, no entanto, mostrase totalmente improcedente, à medida que, como restará demonstrado, o adquirente de boafé não pode ser responsabilizado por eventual irregularidade no processo de importação, bem como não restou caracterizada a ocorrência da interposição fraudulenta. DO DIREITO DA AUSÊNCIA DE RESPONSABILIDADE PELA INFRAÇÃO A responsabilidade da Impugnante, de acordo com o relatório de ação fiscal, tem amparo no art. 95, V, do DecretoLei n° 37/1966. Transcreve o artigo 95, V, do DecretoLei n° 37/1966. A regra de responsabilidade não se aplica no presente caso, uma vez que não restou comprovado no procedimento fiscal que as importações foram realizadas por “conta e ordem” da ora Impugnante ou, ainda, que a mesma tenha concorrido com a prática da infração ou dela se beneficiado. Junta textos da jurisprudência do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais: (Acórdão 3202000.614). A compra das mercadorias no mercado nacional, conforme cópia das notas fiscais em anexo (doc. 03), foi amparada por documentos idôneos, emitidas por pessoa jurídica regularmente estabelecida, razão pela qual a Impugnante não pode ser responsabilizada por eventual irregularidade no processo de importação. A pena de perdimento de mercadoria de procedência estrangeira, somente é cabível quando não estiverem acompanhadas da nota fiscal. Transcreve o nos termos do art. 87 da Lei n° 4.502/1964. A Impugnante, no exercício regular de um direito, optou por adquirir peças e equipamentos eletrônicos no mercado interno, diretamente, da empresa IDB. Assim, em razão da própria natureza da compra e venda, não teve acesso ou tomou conhecimento do procedimento adotado pela IDB para Fl. 489DF CARF MF 10 aquisição no exterior e, tampouco, das negociações e compromissos assumidos por ela com o fabricante estrangeiro. Portanto, a Impugnante não possuía nenhum controle sobre as importações realizadas pela IDB, adquirindo mercadorias amparadas por notas fiscais regulares emitidas pela fornecedora, não podendo responder solidariamente com a mesma. Junta textos da jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça: (AgRg no Ag 518995/RS); (REsp 413333/PR) e (REsp 718.021/DF). É descabido, dessa forma, exigir que o adquirente da mercadoria de procedência estrangeira, antes de realizar a compra, investigue se a mesma ingressou no País mediante processo de importação regular ou, ainda, se a importadora possuía ou não capacidade operacional e financeira para realizar tais operações. Com efeito, para o adquirente, basta que a compra tenha sido realizada legalmente, com a emissão de nota fiscal por pessoa jurídica regularmente estabelecida, documento exigível nessas operações. Requerse, assim, o afastamento da responsabilidade pela infração, porquanto não restou comprovado pela fiscalização que as mercadorias foram importadas por “conta e ordem” da Impugnante ou, ainda,apresentado elementos capazes de afastar a presunção de boafé da adquirente das mercadorias. · DA IMPOSSIBILIDADE DE CONVERSÃO DA PENA DE PERDIMENTO EM MULTA Transcreve o § 3 o do art. 23 do DecretoLei n° 1.455/1976. Junta textos da jurisprudência do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais: (Acórdão 30239997). Verificase, no presente caso, que a Autoridade Fiscal embasou a conversão da pena de perdimento em multa no simples fato de que "... as mercadorias importadas não estavam mais na posse da importadora e nem na posse da empresa INTERMIX, por terem sido revendidas ”. A compra e venda, como se sabe, perfectibilizase com a entrega da coisa (CC, art. 1.267). Logo, ao contrário do afirmado pela autoridade fiscal, a Impugnante não está obrigada a apresentar as mercadorias mesmo após a venda. A fiscalização, não obstante a Impugnante tenha indicado no curso do procedimento fiscal para quem haviam sido revendidas as mercadorias, sequer intimou as adquirentes para prestar informações sobre a sua localização. Ante disso, requerse a anulação da multa aplicada pela falta de demonstração da nãolocalização ou do consumo das mercadorias. Fl. 490DF CARF MF Processo nº 10983.721118/201416 Acórdão n.º 3201002.581 S3C2T1 Fl. 485 11 DA NÃO OCORRÊNCIA DA INFRAÇÃO No caso em apreço, em nenhum momento restou demonstrado pela fiscalização a falta de capacidade econômica da empresa importadora ou mesmo a utilização de recursos da Impugnante nas operações de importação. A forma e as condições de pagamento foram ajustadas com a fornecedora das mercadorias no momento da compra. A Impugnante, dessa forma, não tinha conhecimento de que, eventualmente, a fornecedora poderia utilizar os valores para pagamento dos custos da importação das mercadorias. Os eventos colacionados pela Autoridade Fiscal revelam, na verdade, meros indícios de falta de capacidade operacional da empresa IDB, que não se apresentam suficientemente fortes e homogêneos para provar o nexo de causalidade entre estes e o fato presumido. Tratandose, assim, de uma presunção legal, caberia a Fiscalização provar os chamados fatos indiciários no caso, a não comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados para que se presumissem acontecidos os fatos indiciados ou presumidos — no caso, a interposição fraudulenta (suscetível da multa aplicada). Junta textos da doutrina de Alfredo Augusto Becker e Maria Rita Ferragut. Junta textos da jurisprudência do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais: (Acórdão 3202000.275). Junta textos da doutrina de Fabiana Del Padre Tomé e Maria Rita Ferragut. A impugnante não realizou importações de mercadorias por sua “conta e ordem”, pois, conforme demonstrado, tal fato somente seria presumido mediante comprovação da utilização dos seus recursos nas operações. Dessa forma, os elementos coletados pela Fiscalização revelam presunções simples, que não se apresentam suficientemente robustas e sérias para provar a infração, razão pela qual se impõe a declaração de nulidade da penalidade aplicada. DA AUSÊNCIA DE DANO AO ERÁRIO Não obstante a ausência dos pressupostos caracterizadores da infração, não foi demonstrada a ocorrência do dano ao Erário no procedimento fiscal, como prevê o já mencionado art. 23 do DecretoLei n° 1.455/1976. Fl. 491DF CARF MF 12 A multa substitutiva da pena de perdimento, apesar da natureza de sanção administrativa, visa o ressarcimento do Estado pelos danos causados, na sua expressão econômicofinanceira. As mercadorias foram importadas por conta e risco da empresa IDB (importadora) que, no mercado interno, vendeu para a Impugnante com margem de lucro e pagamento de todos os tributos incidentes na operação. Nas operações de importação por conta e ordem, como se sabe, a importadora se limita a receber uma comissão por sua atuação, o que não se verificou no presente caso. A partir da fundamentação contida no relatório de ação fiscal, que a autoridade administrativa se limitou a afirmar que houve quebra da cadeia do IPI e utilização indevida do beneficio fiscal relativo ao Icms pelas empresas IDB do Brasil e INTERMIX, o que configura fraude tributária. No que tange ao Icms, por se tratar de regime especial concedido pelo Estado de Santa Catarina, foge da competência do fisco federal qualquer alegação relativa ao interesse arrecadatório dos demais Estados. Da mesma forma, não há que se falar em dano ao Erário federal, à medida que o pagamento dos tributos federais foi majorado em função da compra dos produtos com margem de lucro praticada pela IDB se comparado a eventual importação direta realizada pela Impugnante. Junta textos da jurisprudência do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais: (Acórdão 3402002.362). Junta textos da jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça: (REsp 331548/PR); (REsp 639252/PR). Portanto, diante da ausência de comprovação do efetivo dano ao Erário, bem como da corrência de fraude ou simulação, mostrase totalmente descabida a aplicação da multa substitutiva prevista no art. 23, V, § 3o, do DecretoLei n° 1.455/1976. DO PEDIDO: Ante o exposto, requerse, respeitosamente, a Vossa Senhoria, o recebimento da presente impugnação, nos termos dos arts. 14, 15 e 16 do Decreto n° 70.235/1972, com a consequente suspensão da exigibilidade do crédito tributário. E, ao final, o seu acolhimento para fins de cancelamento da exigência fiscal. É o Relatório." Fl. 492DF CARF MF Processo nº 10983.721118/201416 Acórdão n.º 3201002.581 S3C2T1 Fl. 486 13 Segue Ementa desta decisão de primeira instância administrativa destes autos: "ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A IMPORTAÇÃO II Data do fato gerador: 18/08/2011 Dano ao Erário por infração de ocultação do verdadeiro interessado nas importações, mediante o uso de interposta pessoa. Pena de perdimento das mercadorias, comutada em multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria. O objetivo pretendido pelos interessados atentou contra a legislação do comércio exterior por ocultar o real adquirente das mercadorias estrangeiras e consequentemente afastálo de toda e qualquer obrigação cível ou penal decorrente do ingresso de tais mercadorias no país. A atuação da empresa interposta em importação tem regramento próprio, devendo observar os ditames da legislação sob o risco de configuração de prática efetiva da interposição fraudulenta de terceiros. A aplicação da pena de perdimento não deriva da sonegação de tributos, muito embora tal fato possa se constatar como efeito subsidiário, mas da burla aos controles aduaneiros, já que é o objetivo traçado pela Receita Federal do Brasil possuir controle absoluto sobre o destino de todos os bens importados por empresas nacionais. Impugnação Improcedente. Crédito Tributário Mantido." Os autos foram distribuídos e pautados conforme regimento interno deste Conselho. Relatório proferido. Voto Conselheiro Relator Pedro Rinaldi de Oliveira Lima. Conforme o Direito Tributário, a legislação, as provas, documentos e petições apresentados aos autos deste procedimento administrativo e, no exercício dos trabalhos e atribuições profissionais concedidas aos Conselheiros, conforme portaria de condução e Regimento Interno, apresentase este voto. Por conter matéria preventa desta 3.ª Seção do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, os tempestivos Recursos Voluntários devem ser conhecidos. Fl. 493DF CARF MF 14 O Auto de Infração e o Relatório Fiscal (fls. 2 e 9) foram lavrados em face do contribuinte e do responsável solidário, com aplicação de multa de 100% do valor aduaneiro das operações de mercadorias importadas em suposta operação de interposição fraudulenta, no total de R$ 1.153.096,05, não atualizado, referente ao período de 18/08/2011 por meio das DIs n° 11/15502915, 11/17321934, 11/18137304, 11/20647330, 11/21543580, 12/00010835, 12/04855678, 12/05002628 e 12/11161015 com saída para a empresa INTERMIX Comércio e Montagens EletroEletrônicas Ltda. O A.I. foi lavrado principalmente com fundamento no Art 23, V, § 1.º e § 3.º do Decreto 1.455/76, que estabelece a ocorrência do Dano ao Erário sem a presunção de interposição fraudulenta para ocultação de terceiros em eventual não comprovação da origem de recursos, transferências e recursos próprios para realização das operações. De acordo com o Relatório Fiscal de fls. 10, as mercadorias tinham a Intermix Ltda como destinatário prédeterminado, que a Intermix Ltda era conhecida da IDB do Brasil antes da importação, que houve proximidade das notas fiscais de entrada e saída, que todas as mercadorias daquelas DIs foram vendidas para a Intermix Ltda e inclusive as mercadorias da DI 12/04855678 vendidas à empresa Juri Comércio Ltda (NF 937) foram vendidas da própria Juri à Intermix (NF 152) e que um sócio da Intermix adiantou por depósito os valores à Juri Ltda (fls 166), que pagamentos e transferências bancárias da Intermix Ltda estão na conta "adiantamento de importação" na contabilidade da IDB, que a IDB recebeu transferências da Intermix Ltda em valores equivalentes nos exatos dias em que liquidou os contratos de câmbio dessas DIs e em datas anteriores aos registros destas, que a Intermix Ltda pagou mercadoria que não havia sido desembaraçada (NFs 938, 653, 747). O Recurso Voluntário em face do acórdão proferido pela DRJ/SP, redistribuído por sorteio eletrônico para esta Turma e sob esta relatoria, sustenta em síntese e com relação ao mérito que não houve interposição de terceiros, que havia independência nas decisões administrativas das empresas, que não houve fraude, que as empresas vendiam as mercadorias no atacado, que possuíam capacidade econômica, margem de lucro alta em vez de uma pequena comissão, que não há responsabilidade solidária, que as NF de entrada e saída comprovam a venda no mercado interno e o estoque, que venda pulverizada é incompatível com a dinâmica mercantil, que não tinha destinatário predeterminado ou qualquer garantia nas vendas, que pagou normalmente os tributos e fechamentos de câmbio e despesas Siscomex, que não está associado a lavagem de dinheiro ou ocultação de bens, que o dano ao erário não foi demonstrado e somente presumido e de forma alternativa ao provimento solicitou a aplicação da lei mas benéfica (11.488/2007 com multa de 10%). DAS OPERAÇÕES DE IMPORTAÇÃO, DA PRESUNÇÃO DE FRAUDE, COMPROVAÇÃO DA ORIGEM DE RECURSOS PRÓPRIOS E DAS CONDIÇÕES MERCADOLÓGICAS: A burocracia, a alta carga tributária, as exigências e requisitos, as responsabilidades e as conseqüências tributárias e criminais atribuídas solidariamente a todos os envolvidos nas operações legais de importação por conta e ordem de terceiro, conforme DL 37/96, IN SRF 225/02 e 247/02 e 650/06, levaram muitas empresas a ocultar o sujeito passivo real adquirente das mercadorias. A fraude no setor é uma realidade, principalmente porque a legislação ou não corresponde aos formatos comerciais de negócios internacionais ou propositadamente, foram criadas para determinar suas limitações. Fl. 494DF CARF MF Processo nº 10983.721118/201416 Acórdão n.º 3201002.581 S3C2T1 Fl. 487 15 Esquemas fraudulentos de interposição de terceiros atingiram diversos países e se tornaram operações nocivas ao erário público uma vez que menos tributos são recolhidos, além de interferir e criar competitividade desleal com os produtos internos (nacionais). Por muitos motivos se justifica a atuação da fiscalização, mas é importante lembrar que a livre iniciativa é direito consagrado e pilar de um Estado Democrático de Direito, sob o regime Capitalista e, em observação a esta regra, assim como em preservação da segurança jurídica do contribuinte, toda situação apresentada como fraude ou crime tributário deve ser analisada de forma concreta e individualizada. Portanto, este voto pretende traçar pontos fundamentados nos fatos e na estrita legalidade, de forma que tanto o crédito da União quanto o direito à livre iniciativa sejam prestigiados. O §1.º e §3.º, Art. 23 do DL 1.455/76, capitulação principal deste procedimento, tem como núcleo do tipo a conduta dolosa de ocultar o real adquirente de mercadorias importadas, que promove a entrada de mercadoria por meio de fraude. Conforme previsto, diante da expressa determinação do §2.º do Art. 23 do DL 1455/76, a não comprovação da origem dos recursos empregados nas operações de comércio exterior poderia caracterizar a presunção prevista nesse tipo legal. Mas este tipo legal não foi elencado no lançamento (AI, Relatório Fiscal). Por raciocínio lógico diretamente inverso, a comprovação de recursos próprios é suficiente para descaracterizar a presunção de interposição fraudulenta de terceiros para ocultar sujeito passivo (real adquirente). A autoridade fiscal contestou a suficiência dos recursos próprios da IDB do Brasil para operar no comércio exterior em comparação com as DIs em questão, objeto do lançamento, com importações no valor exato de R$ 1.153.096,05 (fls 04). Em razão de entender que a Intermix Ltda era a real adquirente e financiava toda a operação de importação, solicitou a comprovação dos pagamentos e transferências bancárias em casos específicos, conforme apresentado na introdução deste voto. Contudo, para atingir uma solução de qualidade para a presente lide, é importante fazer uma reflexão. Necessariamente o interposto (no caso de interposição fraudulenta na importação) precisa ser uma empresa sem capacidade financeira? A origem dos recursos (determinada no tipo legal) se refere a ter ou não capacidade econômica e financeira ou a determinado recurso ou transferência que foi recebido? Esta é uma reflexão que todo julgador e autoridade fiscal aduaneira deveria fazer, porque se na capitulação dos fatos a autoridade fiscal não trouxe o conceito da "presunção" prevista no §2.º do Art 23 DL 1455/76, a interposição fraudulenta somente poderá ser configurada se realmente for comprovado o a fraude, o conluio, o dano ao erário e demais requisitos taxativos do tipo legal. Fl. 495DF CARF MF 16 É necessário que a mencionada troca de recursos tenha acontecido de forma fraudulenta, consciente e dolosa e, somente a verdadeira necessidade econômica e documentos como uma correspondência, emails e interceptação telefônica, por exemplo, comprovaria isto. Nova reflexão: se uma das partes tem a necessidade econômica (a ponto de fraudar a lei) mas a outra não tem, é possível concluir pela ocorrência do crime tributário em questão? Não, porque necessariamente a interposição fraudulenta exige o conluio, ou seja, o elemento subjetivo de ambas as partes. "A" e "E" principalmente, conforme quadro que será apresentado a seguir neste voto. Principalmente no tipo legal que não contém a "presunção", de forma que o lançamento realmente necessite convencer o julgador de que os contribuintes acusados não possuam recursos próprios suficientes para a realização das operações de importação. Então ainda que alguma operação tenha indícios ou até provas de "transferências" bancárias de terceiro, é possível concluir pela interposição fraudulenta de terceiros? Não. Necessariamente o lançamento teria de ter demonstrado a falta de Patrimônio Líquido da interposta, falta de capacidade financeira e estrutural para importar as mercadorias, mas assim não procedeu a autoridade lançadora. Necessariamente, todos os indícios comerciais apresentados neste caso, como o adiantamento de recursos, a carteira de clientes e as vendas adiantadas, terão de compor o rol de requisitos de indícios e provas que levam à configuração de interposição fraudulenta, de modo que, isoladamente são insuficientes para a configuração do tipo legal. É neste ponto que existe o limite legal entre a atuação da consagrada autonomia da vontade civil e o limite do poder do Estado. E a partir deste ponto a avaliação de casos em concreto dependerá da posição doutrinária e jurisprudencial do julgador, e a exata linha que estabelece para este limite. Importante contextualizar que, se a partir de indícios comerciais se verificou que houve a interposição em nome de terceiro, não fraudulenta e, modalidade de importação diversa da declarada, existe tipo legal específico para esta situação, a multa de 10% prevista no Art. 33 da Lei 11.488/2007. Mas esta multa não foi capitulada no lançamento e, portanto, não faz parte desta lide e não pode ser aplicada. No presente caso, sem considerar margem de lucro da IDB e sem avaliar os demais aspectos comerciais e de contabilidade da empresa, o fiscal argumenta e fundamenta o seu lançamento a partir de uma premissa equivocada, a premissa de que o contribuinte não tem liberdade para empregar seus recursos ou recursos recebidos de terceiro da forma que melhor atender seus negócios. Mesmo na modalidade de importação direta, existe uma flexibilidade nos detalhes financeiros e comerciais e o contribuinte tem a posse e o direito sobre estes recursos e qualquer limitação determinada na modalidade de importação, dependerá de expressa previsão em lei ou acordo celebrado entre as partes, sob a garantia consagrada da máxima pacta sunt servanda, representada pela autonomia da vontade civil. Fl. 496DF CARF MF Processo nº 10983.721118/201416 Acórdão n.º 3201002.581 S3C2T1 Fl. 488 17 E dentro desta linha de raciocínio está uma das principais razões pela qual o contribuinte merece interpretação favorável, uma vez que não há nos autos uma prova comercial mais contundente de que estaria se tratando de outra modalidade que não a da importação direta, a prova de que o real adquirente realmente tenha encomendado a mercadoria. O que poderia ser comprovado somente na situação em que algum documento ou troca de email ou correspondência demonstrasse que o interposto tem o direito de crédito da importação sobre o encomendante, que firma compromisso prévio de pagamento ao encomendar a mercadoria. Somente este cenário se poderia cogitar a alegada ausência do risco comercial na revenda das mercadorias importadas. Ficou evidente que não há qualquer garantia que minimize o risco comercial na revenda das mercadorias e, muito menos, qualquer prova que demonstre existir qualquer combinação ou os direitos e deveres inerentes das importações por encomendas, assim como outros aspectos comerciais como a comissão. No entendimento deste relator, comprovada ou não a origem desses recursos em específico, a capitulação do lançamento somente poderia ser analisada sem que se considerasse o instrumento da “presunção”, porque não foi capitulada, poderia prosseguir somente na oportunidade dos fatos realmente subsumirem às normas, conforme previsto no Artigos 112, 113 e 142 do Código Tributário. A partir desta exclusão da presunção na avaliação da ocorrência ou não da interposição fraudulenta, é necessário que esteja presente o elemento subjetivo do tipo e os demais requisitos para que a conclusão pela ocorrência da interposição fraudulenta tenha validade. Este elemento subjetivo, em resumo, se concretiza na vontade consciente e na intenção de reduzir tributo e causar prejuízo ao fisco para auferir ganho econômico, conforme Art. 72 da Lei 4502/64. Neste contexto, a operação comercial e a estrutura societária teria de causar ilusão e ter exagerada distinção entre a realidade e a aparência, ou seja, o interposto (IDB do Brasil) não teria real interesse nas importações e o reais adquirentes não poderiam "aparecer" nas operações. Aos reais adquirentes são destinadas as mercadorias e o interposto nada mais faz do que ser interposto, uma proteção aos reais adquirentes, uma empresa ou pessoa que suportaria todas as persecuções patrimoniais e penais. Os principais fatos que motivam a fraude, além do ganho econômico, costumam ser a proteção do patrimônio e da integridade do real adquirente de possível execução fiscal, a proteção contra eventuais processos criminais decorrentes das importações e da venda de produtos importados sem nota fiscal, sem recolhimento do tributo ou lavagem de dinheiro. No presente processo, todos estes encargos estariam apontados aos sócios da IDB do Brasil, os possíveis laranjas da operação, que seriam os interpostos entre a União e os reais adquirentes. Segue exemplo de operação fraudulenta publicada pela própria Receita Federal (internet): Fl. 497DF CARF MF 18 Conforme publicado: "Este modelo permite ocultar o real adquirente("E") das mercadorias importadas, adquiridas por este junto ao seu fornecedor no exterior ("A"), bem como ocultar os elementos da própria transação comercial. A negociação de fato ocorre sempre entre "A" e "E", os quais definem preços, condições de pagamentos, mercadorias, quantidades e demais providências." Não há nos autos comprovação de que os sócios da Intermix Ltda negociaram com as exportadoras ou mesmo escolhiam os produtos a serem importados, não comprovado o repasse de mercadorias ou subfaturamento de preços, não comprovada a quebra da cadeia do IPI e, principalmente, não estão comprovados nos autos os elementos subjetivos do tipo. Levantou o contribuinte também que os tributos foram regularmente adimplidos e nesse ponto, não houve qualquer contestação da fiscalização ou da DRJ. Não é possível constatar fraude e dano ao erário sem que ao menos tenham sido juntadas provas de quebra da cadeia de recolhimento do IPI, falta de destaque do tributo e consequente ausência do recolhimento do tributo nas demais etapas de comercialização da mercadoria importada. É o que poderia justificar possível ocultação do sujeito passivo na importação. O que leva a crer que a IDB operou de forma direta nas importações (operação legalizada conforme IN SRF 680/06, 650/06 por exemplo), acertando as compras, as condições de pagamentos, frete e seguro, por sua conta (seus recursos) e por seu risco (ordem). Cabe destacar que, à época dos fatos, o contribuinte comprovou em anexos do seu recursos voluntário que estava habilitada no Siscomex, na modalidade ordinária, para realizar operações de comércio exterior com cobertura cambial, em cada período consecutivo de seis meses, até o limite US$ 328.000,00 CIF (importações) e US$ 328.000,00 FOB (exportações) (doc. 06). A Impugnante, portanto, tinha autorização, capacidade financeira e porte econômico absolutamente compatíveis com as importações realizadas. Afirmase novamente: o crédito provado tem o condão de firmar o convencimento de que os fatos não subsumem ao tipo elencado, de forma que se a não comprovação da origem dos recursos empregados nas operações de comércio exterior poderia caracterizar a presunção previstas nos tipos legais elencados (AI, Relatório Fiscal),em especial o Art. 23 do DL 1455/76 (Lei 10637/02), por raciocínio lógico diretamente inverso, a Fl. 498DF CARF MF Processo nº 10983.721118/201416 Acórdão n.º 3201002.581 S3C2T1 Fl. 489 19 comprovação de recursos próprios é suficiente para descaracterizar a presunção de interposição fraudulenta de terceiros para ocultar sujeito passivo (real adquirente). O Auditor Fiscal descreve “Conversão do Perdimento em Multa Impossibilidade de Apreensão de Mercadoria”, mas não existem sequer fatos que possam subsumir às disposições legais que poderiam fundamentar a lavratura do Auto de Infração. Não há fundamento, objeto ou razão para o Auto de Infração prosperar, pois a falta de recolhimento não está configurada e foi arbitrada de forma insustentável. Feita esta introdução geral do caso, cabe ao relator expor os demais fatos que necessitam de análise específica. DA HABILITAÇÃO DA ADQUIRENTE, DOS CONTRATOS DE CÂMBIO DAS DECLARAÇÕES DE IMPORTAÇÃO n° 11/15502915, 11/17321934, 11/18137304, 11/20647330, 11/21543580, 12/00010835, 12/04855678, 12/05002628 e 12/11161015. A autoridade fiscal em seu Relatório de fls 10, utilizou como indício de ocorrência da interposição fraudulenta a falta de habilitação da Intermix Ltda à época dos fatos, conforme segue: "Á época das importações, a empresa Intermix estava com sua habilitação no Siscomex suspensa, não possuindo portanto habilitação para operar no comércio exterior. Dessa forma, sem possuir habilitação para operar no comércio exterior a Intermix não poderia ser declarada como adquirente das mercadorias importadas no momento do registro das declarações porque não se submeteu aos rigores do procedimento de habilitação estabelecidos nas Instruções Normativas da SRF nº 650 e 634, de 2006. Hoje a empresa Intermix está habilitada no Siscomex na modalidade Simplificada – Encomendante." E neste ponto este Relator acredita que se concentra o ponto central da solução da lide, na medida em que a autoridade fiscal afirma o seguinte: "O que se pretende com tais regulamentações, ao obrigar tanto o adquirente e o encomendante de submeteremse ao procedimento de habilitação, é afastar a possibilidade do emprego de terceiras pessoas para práticas ilícitas diversas, tais como sonegação fiscal, lavagem de dinheiro e descaminho. Somente desse modo, podese estabelecer o devido acompanhamento dos importadores, adquirentes e encomendantes de mercadorias importadas, verificando a origem lícita dos recursos empregados e o devido recolhimento de tributos." Primeiro é importante deixar claro que a falta de habilitação do adquirente pode ser um indício, mas no presente caso, o lançamento deixou claro que pretende evitar práticas ilícitas, tais como sonegação fiscal, lavagem de dinheiro e descaminho. Fl. 499DF CARF MF 20 Também, agora o que seriam os principais indícios da ocorrência da interposição fraudulenta conforme a autoridade fiscal, verificase nos autos que existem débitos e créditos não comprovados em razão das transferências que supostamente cobriram antecipadamente os custos de câmbio das DIs, assim como as mercadorias da DI 12/04855678 vendidas à empresa Juri Comércio Ltda (NF 937) foram vendidas da própria Juri à Intermix (NF 152) e que um sócio da Intermix adiantou por depósito os valores à Juri Ltda (fls 166). As provas juntadas pela autoridade fiscal conferem e o contribuinte realmente não provou o contrário nestes principais indícios, o que realmente pode ser considerado com uma prova de que a IDB do Brasil não era totalmente independente como fez crer o contribuinte em suas peças de defesa. Contudo, em razão do disposto no Art. 112 do CTN e, considerando que o contribuinte apontou e comprovou a margem de lucro de 87,40% com as vendas consubstanciadas nas NFs 1165 e 1175 (em anexo ao RV), que realmente um longo período de estocagem e a venda pulverizada não são compatíveis com a natureza dinâmica do mercado do atacado. Considerando que, de acordo com um dos principais requisitos que demonstram o conluio e o dolo (elemento subjetivo) na interposição fraudulenta, o controle financeiro e administrativo da empresa IDB do Brasil era exercido pelos sócios da Intermix Ltda, não foi comprovado. O efetivo controle financeiro que poderia caracterizar a fraude no presente caso, seria aquele que permitiria aos sócios da Intermix Ltda toda a negociação com os exportadores, a definição dos produtos, das condições de pagamento e todas aquelas típicas de quem importa o produto. Concluir que houve interposição fraudulenta de terceiros por existirem débitos e créditos entre a IDB do Brasil e a Intermix Ltda em disparidade, seria ignorar os outros fatos que deveriam ter sido comprovados no lançamento e não foram, para que os fatos possam subsumir ao tipo legal. Este critério da similitude fática encontra respaldo nos limites legais determinados pela análise sistêmica dos seguintes dispositivos: Art. 93, inciso IX da Constituição Federal, bem como ao prescrito no art. 31 do Decreto n. 70.235/723 e art. 2.º da lei n. 9.784/99 em confronto com os Arts. 112, 113, 142 e 146 do CTN. Desta forma, neste lançamento em específico, não podem ser considerados como provas conclusivas em prejuízo ao contribuinte os documentos, apresentados pelos contribuintes em fiscalização, que não comprovam algumas das transferências recebidas pela Intermix Ltda, seja a título de adiantamento do pagamento da importação ou simples pagamento das mercadorias. Principalmente porque mesmo na modalidade de importação direta, é necessário considerar a possibilidade da operaçãp não ser resultado de um conluio criminoso entre todos os envolvidos, assim como outras variáveis e/ou que as empresas sempre possuirão débitos e créditos, que podem muitas vezes terem sido registrados à míngua da complexidade fiscal brasileira, por exemplo. Merecem provimento os Recursos Voluntários dos contribuintes. Fl. 500DF CARF MF Processo nº 10983.721118/201416 Acórdão n.º 3201002.581 S3C2T1 Fl. 490 21 DA RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA: O lançamento presume que houve o conluio entre a IDB do Brasil e a Intermix Ltda e lavrou tanto no lançamento quanto na Representação Fiscal para fins Penais a Intermix Ltda e seus sócios como responsáveis solidários. Primeiro, é muito importante diferenciar a constituição do crédito tributário da ocorrência de crime e a responsabilidade solidária nestas situações. Assim, se no lançamento a presunção da ocorrência tivesse sido capitulada e o contribuinte não tivesse comprovado a origem de recursos ou transferências que financiaram as operações de importação, poderiase presumir pela ocorrência da interposição fraudulenta e, logo, pela responsabilidade solidária. Mas não é este o caso dos autos. O lançamento não foi capitulado com a presunção da ocorrência da interposição fraudulenta prevista no §2.º do Art, 23 do Decreto 1.455/76. Dessa forma, a autoridade fiscal deveria ter investigado o caso, até mesmo acompanhado de investigação policial, para detectar e provar de forma inequívoca a participação da Intermix Ltda e, principalmente, a participação de seus sócios. E mais uma vez, não foi o que aconteceu. É de conhecimento que tanto o Direito Tributário quanto o Direito Penal possuem caráter disciplinar e sancionatório, com arcabouço legislativo proveniente de princípios em comum. Contudo, de forma pragmática, verificase que o procedimento administrativo não possui o mesmo rigor do processo penal, talvez em razão de não haver um Código de Processo Administrativo como existe no Direito Penal o Código de Processo Penal. Logo, desta constatação surge a preocupação de que, em processo penais, os Juízes de Direito possam se utilizar unicamente da constituição definitiva do crédito para concluir que há materialidade e autoria. Em se tratando de justiça, não há nada mais perigoso e injusto para a sociedade e para o contribuinte do que a condenação “automática” de cidadãos e contribuintes. É sobre o tema em litígio que o nobre doutrinador, Juiz Federal aposentado, Doutor Hugo de Brito Machado, lançou o livre “Crime Contra a Ordem Tributária”. Verifica se inclusive na contra capa de seu livro que o autor identificou uma lacuna no conhecimento jurídico, o fato de que “... os penalistas geralmente pouco conhecem do Direito Tributário, e os tributaristas quase nada sabem do Direito Penal”. Com algumas ressalvas às generalizações feitas pelo autor em desfavor às autoridades fiscais, porque muitas autoridades realizam seu trabalho com ética e qualidade, cito a preocupação do nobre autor em fls. 21 desta mencionada obra, no sub capitulo “O Direito Penal e o combate ao crime”, conforme segue: Fl. 501DF CARF MF 22 “O melhor instrumento para o combate ao crime, no que concerne especificamente aos crimes contra a ordem tributária, é o respeito ao contribuinte. Respeito que começa pela redução da enorme carga tributária a ele imposta. Passa pelo atendimento desatencioso e absolutamente inadequado e insuficiente a ele dispensado nas repartições da Administração Tributária. Vai até mesmo às interpretações inteiramente inadmissíveis, visivelmente distorcidas, das normas da legislação tributária, tendentes a lhes negar os direitos mais elementares. Enfim, a total falta de respeito na relação tributária, que induz no contribuinte o sentimento de que a lei só existe contra ele, ou pelo menos só é aplicada contra ele, posto que as disposições a ele favoráveis são sempre ignoradas pelas autoridades da Administração tributária. A pretensão de arrecadar tributos indevidos somada às emaças levianas do uso da lei penal contra contribuintes somente degradam a relação tributária e terminam por banalizar o Direito Penal. E não obstante seja o Direito Penal de grande importância como elemento de controle social, realmente a sua utilização não poder ser banalizada. Na medida em que ilícitos de menor importância social, e sobretudo aqueles que menos afetam os sentimentos éticos das pessoas, e por isto mesmo despertam menor censura da opinião pública, são definidos como crime, o Direito Penal se banaliza e perde a eficácia.” A autoridade de origem teria de ter instruído o processo de forma não existisse dúvida se o contribuinte e os responsáveis solidários teriam participado das diversas aquisições fraudulentas e de quais, não sendo possível a presunção de que o contribuinte e os responsáveis solidários tinham conhecimento de que em todas as operações havia fraude ou ilegalidade. Em observação ao disposto no Art. 124, inciso I do CTN, poder ser concluído que há interesse em comum, porque todos os empreendedores desejam prosperar e desenvolver o negócio, gerar emprego, aquecer a economia, ter mais lucro e aquecer o mercado, este é o objetivo de toda empresa. Mas tal interesse é comum não só para os empreendedores envolvidos nos trabalhos da Intermix Ltda, é comum para todos em um regime capitalista e, portanto, licito e legal. Dessa forma, com fundamento no Art. 112, 113 e 142 do CTN, os responsáveis solidários também devem ser excluídos do lançamento. CONCLUSÃO Em face do exposto, com fundamento no Art. 60 e 61 do Decreto 70.235/72 (Lei do Processo Administrativo Fiscal), no Art. 112, 113, 142 e 145 do Código Tributário Nacional e Art. 4.º, I, Anexo II do Regimento Interno deste Conselho, votase para DAR PROVIMENTO aos Recursos Voluntários, restando improcedente o lançamento, exonerados todos os créditos tributários, multas e responsabilidades solidárias. Voto proferido. Fl. 502DF CARF MF Processo nº 10983.721118/201416 Acórdão n.º 3201002.581 S3C2T1 Fl. 491 23 (assinado digitalmente) Conselheiro Relator Pedro Rinaldi de Oliveira Lima. Declaração de Voto DECLARAÇÃO DE VOTO Conselheiro Paulo Roberto Duarte Moreira Utilizo desta declaração de voto para externar posicionamento quanto à caracterização da infração de ocultação fraudulenta de terceiros nas operações de comércio exterior, na modalidade prevista no inciso V, do art. 23 do Decretolei nº 1.455/76. Trata o presente litígio da acusação de interposição fraudulenta de terceiro (IDB DO BRASIL IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO LTDA) na importação de mercadoria em que a fiscalização atribuiu a condição de real adquirente e responsável pela operação de comércio exterior à empresa INTERMIX COMÉRCIO E MONTAGENS ELETROELETRÔNICA LTDA, que fora ocultada nos documentos instrutivos do despacho aduaneiro de importação. Cumpre, assim, analisar a operação em comento à luz da legislação que rege a matéria. A ocultação dos reais intervenientes configura, por força legal, dano ao erário, punível com a pena de perdimento das mercadorias, nos termos definidos no art. 23, inciso V, do DecretoLei nº 1.455/76. "Art. 23. Consideramse dano ao Erário as infrações relativas às mercadorias: ... V estrangeiras ou nacionais, na importação ou na exportação, na hipótese de ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros.(Incluído pela Lei nº 10.637, de 30.12.2002) § 1o O dano ao erário decorrente das infrações previstas no caput deste artigo será punido com a pena de perdimento das mercadorias. (Incluído pela Lei nº 10.637, de 30.12.2002) (...) § 3o As infrações previstas no caput serão punidas com multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria, na importação, ou ao preço constante da respectiva nota fiscal ou documento equivalente, na exportação, quando a mercadoria não for localizada, ou tiver sido consumida ou revendida, observados o rito e as competências estabelecidos no Decreto no 70.235, de 6 de março de 1972. (Redação dada pela Lei nº 12.350, de 2010) Fl. 503DF CARF MF 24 A interposição fraudulenta que trata o comando legal é aquela em que um terceiro participa na operação de comércio exterior com o objetivo de ocultar o real vendedor, comprador ou o responsável pela operação, utilizandose de artifícios fraudulento ou simulado. Significa que aquele que deveria configurar no polo passivo da relação jurídica aduaneira como importadoradquirente da mercadoria estrangeira investe um terceiro, por interposição, como se titular fosse das obrigações decorrentes, omitindo o verdadeiro negócio jurídico realizado sob a forma de outro diverso. A interposição comprovada modalidade prevista no inciso V do art. 23 do DL 1455/76 que exige a fraude ou simulação, deve reunir provas diretas ou indiretas que apontam, sem sombra de dúvida, tratarse de uma evidente incompatibilidade entre o negócio declarado e as possibilidades reais para a sua efetivação no plano fático. Ou seja, devese provar a ocorrência da infração (materialidade) e de sua autoria (importação foi efetuada em favor de terceira pessoa, o qual conduziu e pagou pela compra internacional ordem e risco) Como consequência, a interposição fraudulenta na operação de comércio exterior é tipificada como conduta de dano erário punível com a pena de perdimento. Dano ao erário O dano ao erário, figura que abarca rol exaustivo nos incisos I a V do art. 23 do DL 1.455/76, expressa situações em que o bem tutelado é o controle aduaneiro. A Aduana brasileira alocada na estrutura funcional da Receita Federal exerce o controle aduaneiro que envolve uma gama de procedimentos executados com vistas à proteção das fronteiras do País, como efetivo exercício da soberania nacional, em relação a diversas demandas objetos do interesse público em áreas como segurança pública, meio ambiente, patrimônio cultural, concorrência desleal, lavagem de dinheiro, evasão de divisas. Assim, o dano que exsurge na seara aduaneira não visa apenas questões tributárias, mas sim a proteção do País em relação aos mais diversos ilícitos. O combate e aplicação de sanções à interposição fraudulenta de pessoas em operações de comércio exterior foram implementados com o objetivo de exercer um controle efetivo sobre a parcela de operadores que praticam as mais diversas fraudes aduaneiras. O dano ao erário não está relacionado à eventual prejuízo pecuniário, ocorre por violação ao controle político do Estado, na espécie, o aduaneiro. Constitui, portanto, uma infração de mera conduta, tornandose desnecessário a apuração de eventual economia tributária; inócua também a discussão sobre sua existência, eis que decorre de expressa disposição legal. De se ressaltar, contudo, que não se dispensa na conduta considerada dano ao Erário a intenção dolosa de praticar a fraude ou simulação, com fins à interposição de terceiro na operação de comércio exterior. A fraude ou simulação não comporta a figura culposa, depende sim da intenção deliberada do agente em praticar o ato ilícito. O dolo estará caracterizado uma vez que na demonstração do ato ilícito fraude ou simulação há de se aflorar qual a real intenção e características da operação. Infração tipificada como dano ao erário A tipificação da infração considerada dano ao erário é a ocultação de pessoas participante da operação de comércio exterior cuja materialidade se traduz na ação de encobrir ou esconder das autoridades aduaneiras os verdadeiros agentes dessas operações, deixando de informar corretamente nos documentos instrutivos do despacho aduaneiro e na própria Declaração de Importação DI. Contudo não é qualquer ocultação a ser apenada; há aquelas plenamente lícitas, v.g, a ocultação de fornecedores ou clientes para a realização de negócios sob o manto do "segredo comercial", prática mercantil lícita. Apenada será aquela com a prática deliberada de fraude ou de simulação, o que caracterizaria a conduta típica prevista no comando do DL 1455/76. A intenção de ocultar pessoas envolvidas da operação implica a utilização de meio ardiloso, com recurso fraudulento ou simulado para o alcance do objetivo. De observar que no caso de interposição fraudulenta, a fraude não está relacionada apenas à questão tributária (ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar a ocorrência do fato gerador da obrigação Fl. 504DF CARF MF Processo nº 10983.721118/201416 Acórdão n.º 3201002.581 S3C2T1 Fl. 492 25 tributária, ou excluir ou modificar suas características essenciais), isto porque envolve situações atinentes ao controle aduaneiro. Dito de outra forma, apontase para a possibilidade de fraudar com vistas à ocultação de pessoas, sem qualquer conotação tributária. Em relação à simulação, é aquela conceituada no código Civil1 que confere o significado de, em um negócio jurídico, formalizar algo diferente da realidade dos fatos, dandolhe uma forma jurídica não correspondente à realidade, tendo em vista lesar terceiro. Luís Eduardo Garrosino Barbieri bem exemplifica a simulação no despacho aduaneiro: Em regra, as partes envolvidas, em conluio, acordam o ato simulatório, de modo a assentar o que será declarado às autoridades aduaneiras em divergência da realidade dos fatos (p. ex. informase na declaração de importação que a modalidade de importação é por conta própria, quando na realidade há uma terceira pessoa o real adquirente conduzindo toda a operação). (BARBIERI, Luís Eduardo G.. Coord. Demes Brito. Questões controvertidas do direito aduaneiro. Artigo: Interposição fraudulenta de pessoas. São Paulo: IOB SAGE: 2014, p. 423424) Comprovação do dolo Entendo imprescindível a comprovação do dolo por parte da fiscalização para a tipificação da interposição fraudulenta de pessoas, na situação do inciso V do art 23 do DL 1455/76, ou seja, a denominada "ocultação comprovada". O legislador atribuiu a responsabilidade subjetiva à infração de interposição fraudulenta, clara situação de excepcionalidade à regra de responsabilidade objetiva no bojo do § 2º do art. 94 do DL 37/66, e, igualmente, à do art. 136 do CTN. Assim, a responsabilização pela infração depende da intenção de ocultação dos partícipes da operação, materializada na utilização de meios fraudulentos ou simulados. Mais uma vez o ensinamento de Barbieri: O legislador, a nosso ver, prescreveu a necessidade da comprovação da conduta dolosa em caso de ocultação dos agentes envolvidos na operação. Quem comete fraude ou ato simulado o faz com manifesta intenção de enganar alguém, causando lhe prejuízo, imbuído de máfé. Na ocultação, alguém, dolosamente, por meio de fraude ou simulação, esconde ou encobre o verdadeiro beneficiário da transação e, na maioria das vezes, o mentor intelectual da operação. Há a deliberada intenção de causar dano ao Erário, bem como a terceiras pessoas jurídicas nos casos de concorrência desleal, pirataria ou contrafação. Assim, na análise da regularidade de uma operação de importação, caso se constate a existência de omissão de informação sobre algum agente envolvido na operação (sujeito passivo, o real vendedor, o real comprador ou o responsável pela operação), é importante verificar se restou comprovada a ocorrência de fraude ou simulação com propósito da ocultação do responsável pela operação. 1 Lei nº 10.406/2002 Art. 167 (...) § 1o Haverá simulação nos negócios jurídicos quando: I aparentarem conferir ou transmitir direitos a pessoas diversas daquelas às quais realmente se conferem, ou transmitem; II contiverem declaração, confissão, condição ou cláusula não verdadeira; III os instrumentos particulares forem antedatados, ou pósdatados. Fl. 505DF CARF MF 26 A prova da ocorrência da infração aduaneira, portanto, deve ser feita demonstrando se a existência de conduta dolosa fraude ou simulação na ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, do real comprador ou de responsável pela operação. (BARBIERI, Luís Eduardo G.. Coord. Demes Brito. Questões controvertidas do direito aduaneiro. Artigo: Interposição fraudulenta de pessoas. São Paulo: IOB SAGE: 2014, p. 427) De outra banda, a infração restará tipificada com a comprovação da ocultação do agente, por meio fraudulento ou simulatório, não se exigindo, para sua consumação, o fim alcançado com a conduta (resultado). José Fernandes do Nascimento2 leciona que a demonstração da ocorrência da infração de interposição fraudulenta depende da prova (imediata) da ocultação dolosa da pessoa interveniente na operação de importação, mediante (i) a identificação do real interveniente ou beneficiário oculto na operação de importação; e (ii) a comprovação de que a ocultação do real interveniente ou beneficiário foi efetivada mediante fraude ou simulação. Repisase que a interposição , seja provada ou presumida, há de revelar que quanto ao interposto, e à operação de comércio exterior que declara realizar por sua conta (recursos próprios) e risco (ordem), há uma evidente incompatibilidade entre o negócio declarado e as possibilidades reais para a sua efetivação no plano fático. Nesse mister, a fiscalização deve reunir provas diretas ou indiretas que apontam, sem sombra de dúvida, tratarse dessa incompatibilidade entre o negócio declarado e aquele de fato revelado na operação. Pontuam Maria Regina Godinho de Carvalho e Sonia Maria Coutinho de Luna Freire que: Cabe enfatizar que a RFB recebe informações não verdadeiras, inidôneas, quando o importador de direito processa o despacho aduaneiro declarando na DI, ser o adquirente da mercadoria, responsável pela negociação comercial, quando, de fato, está ocultando o nome do verdadeiro adquirente, o que vem a caracterizar e tipificar a figura da interposição fraudulenta, mediante simulação e conluio, entre o importador e o real adquirente. [...] Nesses caso, a fiscalização, para identificar os participantes desta fraude, na busca de provas, precisa amparar sua fundamentação num conjunto de indícios, decorrentes de outros fatos [...]. (Maria Regina Godinho de Carvalho e Sonia Maria Coutinho de Luna Freire. A interposição fraudulenta no comércio exterior. In A Prova no processo tributário.Coordenação de Marcos Vinicius Neder, Eurico Marcos Diniz de Santi e Maria Rita Ferragut. São Paulo: Dialética: 2010, p. 144145) Atividade fiscal comprobatória da conduta dolosa: identificação do interveniente oculto e da fraude ou simulação Sem a pretensão de se elaborar rol exaustivo de meios de prova da conduta dolosa de ocultação do interveniente na operação de comércio exterior e da fraude ou simulação, propõese estabelecer pontos a serem identificados que poderiam conduzir o trabalho fiscal na atividade probatória. Importa asseverar que haverá situações que isoladas e de per si não passam de meros indícios mas que no conjunto reforçam ou convergem para a evidência da incompatibilidade da operação, na identificação do oculto e na fraude/simulação. O trabalho fiscal é apurar todas as provas e evidências da interposição trazendo à lume os fatos que em seu entender corroboram o conjunto probatório da interposição fraudulenta. 2 NASCIMENTO, José Fernandes. Ensaio de Direito Aduaneiro. Org. Cláudio Augusto Gonçalves Pereira e Raquel Segalla Reis. Artigo: As formas de comprovação da interposição fraudulenta na importação. São Paulo: Intelecto Soluções, 2015, p. 409410. Fl. 506DF CARF MF Processo nº 10983.721118/201416 Acórdão n.º 3201002.581 S3C2T1 Fl. 493 27 Coligidas as provas aos autos, cabe ao julgador analisar o conjunto probatório, contrapondoos aos argumentos e provas em contrário do interposto e/ou do acusado, interveniente, até que à luz dos fatos e sua subsunção ou não ao direito possa decidir. Portanto, importa ao julgador, com o fim de trazer justiça pela aplicação do direito analisar cada uma das acusações e argumentos contrários, ponderálos, balanceálos e decidir se a operação de comércio exterior é ou não eivada, por presunção legal ou conjunto probatório, da incompatibilidade entre o negócio declarado e o que se desnudou e revelou no plano fático. Assentadas as premissas, cumpre apontar os elementos que podem servir de provas diretas ou indiretas na atividade probatória da interposição fraudulenta comprovada. Comprovação do real adquirente na operação de importação Deverá a fiscalização perquirir os elementos da a operação relacionados a pessoas, documentos, logística: 1. Tratase do efetivo comprador da mercadoria no exterior, diretamente do fornecedor ou exportador, mediante assinatura de contratos e/ou condução das tratativas comerciais; 2. Tratase do efetivo provedor e/ou remetente dos recursos financeiros para a aquisição da mercadoria no exterior, diretamente ou na forma de adiantamento, anterior ao pagamento, ao importador interposto; 3. Tratase do responsável devedor pela assunção de dívidas relacionadas às mercadorias importadas; 4. Tratase do responsável por conduzir a negociação e logística de transporte/seguro da mercadoria procedente do exterior, ou seja, tem exerce efetivo comando e direção quanto aos trâmites de remessa da mercadoria importada ao País; 5. Documentos emitidos no exterior, em data que antecede a aquisição da mercadoria importada, trazem consignado o nome do real adquirente; 6. O processo de "follow the money" no pagamento da mercadoria ou dos tributos na importação revelam a intermediação irregular ou incomum do real adquirente; 7. Transferência de recursos do adquirente oculto ao importador ostensivo, anteriormente à compra internacional; 8. Celebração de contrato de prestação de serviços de importação entre importador ostensivo e real adquirente 9. Outras provas de que o importador ostensivo o é somente na aparência Comprovação da fraude ou simulação Deverá, também, perquirir quanto a outros elementos reveladores da operação e conduta dos intervenientes: 1. Existência de conluio entre importador ostensivo e real adquirente na prática de ato fraudulento ou simulado, em quaisquer das etapas de aquisição de mercadoria no exterior e/ou sua importação; 2. O recurso utilizado na aquisição da mercadoria no exterior e/ou no pagamento dos tributos e/ou outras despesas relacionadas com importação suportadas pelo real adquirente; Fl. 507DF CARF MF 28 3. A operação por conta própria declarada foi simulada, e a importação verdadeira foi realizada por conta e ordem dissimulada; 4. Ocultação ocorreu mediante indícios de incapacidade operacional, econômica e financeira do importador, de subfaturamento na revenda da mercadoria ao real adquirente, de revenda com prejuízo ou com lucro reduzido; 5. A mercadoria importada não tem características de fungibilidade comercial, isto é, sua especificidade dificulta e/ou inviabiliza a revenda não é mercadoria de "prateleira"; 6. A mercadoria não se destina à comercialização a qualquer cliente de um mesmo ramo de atividade, em decorrência de sua especificidade; 7. Mercadoria é adquirida com especificações que a torna inservíveis a outros clientes; 8. O importador tem o conhecimento de que não poderá revender a mercadoria a qualquer clientes; 9. Mercadoria é exclusiva e/ou específica de uso do cliente adquirente; 11. Documentos ou logística de transporte após desembaraço aduaneiro revela mercadoria não entregue ao importador ou providências de remoção/retirada a cargo do adquirente oculto; 12. Permissividade do importador ostensivo em relação aos comandos diretivos do adquirente oculto na operação de importação ou na gestão empresarial do interposto; 13. Negócios mantidos entre as sociedades interposta e oculta revelam situação de sócios comuns, pessoas com incapacidade profissional na direção da interposta, sócios da interposta possuem vínculo trabalhista com a oculta, terceiros com poder de gerência procurações com plenos poderes; 14. Compartilhamento de instalações, pessoas, bens e despesas entre interposta e oculta; 15. Escrituração contábil e/ou fiscal da pessoa oculta revela provas negociação e/ou pagamento ao exterior realizada em relação à mercadoria importada pela pessoa interposta; 16. Adquirente da mercadoria importada é vinculado ao exportador ou fornecedor estrangeiro; 17. Nota fiscal emitida pelo importador ostensivo na saída de mercadoria em revenda ao adquirente oculto revela custo unitário de mercadoria inferior ao preço unitário consignado na respectiva nota fiscal de entrada, considerandose as despesas e gastos incorridos após a chegada da carga, tais como: descarga, armazenagem, taxa de registro da DI, tributos incidentes na importação, despesas com despachante aduaneiro; 18. Constatação de outros fatos fraudulento ou simulado, com o objetivo de acobertar os referidos intervenientes e beneficiários. Diante das provas apontadas pela fiscalização a interposição fraudulenta somente restará comprovada se demonstrado que a auditoria fiscal não se limitou a simples enunciação dos fatos indiciários apresentados; ao contrário, realizou efetiva demonstração lógica da correlação dos fatos indiciários com as conclusões expostas tornando evidenciada a incompatibilidade entre o negócio declarado e as possibilidades reais para a sua efetivação no plano fático. Da acusação fiscal e provas coligidas A acusação fiscal, em síntese, é no sentido de que as importações realizadas pela IDB, foram operações simuladas, uma vez que a real adquirente, a empresa INTERMIX foi ocultada. A conclusão a que chegou a fiscalização está fundada nos registros da escrituração contábil e fiscal da empresa IDB e nos documentos e informações prestados pela IDB e INTERMIX, que podem ser extraídos dos tópicos do Relatório Fiscal. De suma importância ressaltar que a fiscalização não coligiu aos autos nenhum dos documentos instrutivos do despacho aduaneiro das DIs auditadas, bem como aqueles relacionados às operações de comércio exterior, a saber: fatura comercial, conhecimento de transporte, extrato das DIs, contratos de câmbio. Anexou tão só: Cópia livro Razão. Fl. 508DF CARF MF Processo nº 10983.721118/201416 Acórdão n.º 3201002.581 S3C2T1 Fl. 494 29 Os documentos anexados, apresentados em respostas às intimações, foram exibidos pela IDB e INTERMIX, quais sejam: Livro Diário (IDB) e cópias de extratos bancários, comprovantes de depósitos bancários e de notas fiscais (INTERMIX) Vejamos os tópicos relacionados no item "4.2 Da análise das informações e documentos apresentados" dos quais a fiscalização apurou a interposição fraudulenta. 1. Tópico "4.2.1 Da proximidade das datas de desembaraço e datas de emissão das notas fiscais de entrada e saída" Entendeu a fiscalização que proximidade entre as datas de desembaraço, de entrada e de saída das notas fiscais relativas às mercadorias importadas, amoldandose à figura de importação por conta e ordem de terceiros ou por encomenda e constatado que a IDB as vendia antes mesmo de elas estarem desembaraçadas e conclui que: "Isto demonstra claramente que as mercadorias, relacionadas na DI sob análise e mencionada na Tabela 2, tinham como destinatário predeterminado a empresa INTERMIX" 2. Tópico " 4.2.2 Da vinculação entre DI e notas fiscais de saída" Constatou "da análise das informações contidas nas DI" que toda mercadoria importada pela IDB destinouse à INTERMIX; assim concluiu que "... a empresa IDB, ora fiscalizada, promoveu a venda casada das mercadorias importadas por meio da Declaração constante da Tabela 1, operação em que nada se assemelha à modalidade de importação por conta própria como alega ter promovido e formalmente assim declarou ao registrar sua DI. Não houve a demanda da própria importadora para realizar as internações tampouco risco comercial na revenda das mercadorias, uma vez que a venda já estava acertada antes mesmo do embarque destas", fato que em seu entender não condiz com a assunção de riscos pelo importador, uma vez que a mercadoria destinase a comprador certo. 3. Tópico " 4.2.3 Do pagamento dos tributos incidentes na importação e do fechamento de câmbio" Com base nas premissas de que (i) as datas e valores de pagamentos informados tanto pela INTERMIX quanto pela IDB não coincidem; (ii) os registros na contabilidade da IDB dão conta que os valores recebidos da INTERMIX foram escriturados como "adiantamento de importação"; e (iii) a IDB recebia da INTERMIX, em datas próximas ao do fechamento do contrato de câmbio, os valores que cobriam o pagamento, em valores exatos ou próximos, conclui que: " Percebese então que todos os fatos analisados até o momento, seja a contabilidade da empresa IDB (ContabTransfBanc e ContabTransfBancNãoInformado), sejam as transferências bancárias feitas pela INTERMIX para a empresa IDB, mostram que houve sim adiantamento de recursos para pagamento dos tributos incidentes na importação e para pagamento dos contratos de câmbio feito pela empresa INTERMIX para a IDB, remetendo para a confirmação de venda casada das mercadorias importadas, caracterizando as importações por conta e ordem de terceiros (e não por conta própria como declarou a empresa IDB ao registrar as DI sob fiscalização) e a ocultação do real adquirente das mercadorias importadas (empresa INTERMIX)" Da comprovação da fraude e simulação pela fiscalização Asseverou que a fraude consubstanciase no fato da IDB gozar de benefício fiscal do diferimento do ICMS no estado de Santa Catarina, o que levou declarar a importação como direta, por sua conta e risco. Quanto à simulação, assentada nas constatações de que as mercadorias importadas pela IDB eram, em verdade, predestinadas à INTERMIX, enquadraria a operação na modalidade por conta e ordem de terceiros, descumprido assim todos os requisitos legais para amoldarse a tal modalidade de importação. Afirma ainda que as empresas combinaram a conduta para iludir o fisco para obter vantagens indevidas, o que configura a prática de simulação. Ademais, as informações prestadas nas DIs e documentos apresentados nos despachos aduaneiros ocultaram o real negócio praticado. Análise da operação, da peça acusatório e do recurso voluntário Repisase que a acusação fiscal de interposição fraudulenta teve por fundamento constatações acerca de: Fl. 509DF CARF MF 30 1. A IDB não assumiu os riscos inerentes à compra de mercadoria no exterior, pois por se tratar de "venda casada" não há que se falar em compra direta (por sua ordem); 2. Venda de toda mercadoria importada pela IDB a um único cliente a INTERMIX; 3. Coincidência ou proximidade nas datas de emissão de NFs de entrada no importador e saída para cliente; 4. Coincidência na quantidade de mercadoria importada pela IDB e revendida à INTERMIX; 5. Depósitos efetuados pela INTERMIX imediatamente antes dos compromissos financeiros da IDB, em algumas das operações: fechamento do câmbio e data registro DI. Os fatos elencados são indícios por vezes considerados fortes suficientes que exigiriam aprofundar na averiguação de outros elementos que comprovariam a ocultação do real adquirente mediante artifício fraudulento ou simulado. Todavia, até mesmos os documentos basilares para se rastrear o pagamento da importação, tributos e demais despesas acessórias, onde se conferem, especialmente, valores, datas e seus partícipes, não foram trazidos aos autos pela fiscalização. Digase, ausentes as informações contidas na fatura comercial, contratos de câmbios. conhecimentos de carga (BL), notas fiscais e conhecimentos rodoviários de carga terrestre e os extratos da DIs restará prejudicada a análise das constatações e indícios apontados. Por outro lado, ainda que possível conhecer do conteúdo dos documentos instrutivos dos despachos aduaneiros e das operações de importação, certas constatações, isoladamente, não passam de meros indícios. A venda de toda mercadoria importada a um único cliente não atesta venda casada premeditada desde a celebração da negociação internacional. Faltaram outros elementos que poderiam apontar a ocultação mediante fraude, tais como: comprovação de que o real adquirente cliente do importador conduziu a negociação, pagou ou assumiu o encargo pelo pagamento da mercadoria, tem exclusividade na comercialização da mercadoria importada ou sua especificidade é tal que dificulte ou impossibilite a venda para outro cliente do importador, ou ainda, evidentemente a mercadoria não é de "prateleira" caso de determinados dispositivos/máquinas que requeiram fornecimento de soluções técnicas complexas que meros importadores atacadistas não atendem. Coincidência ou proximidade de datas entre o desembaraço e o transporte da mercadoria importada diretamente para estabelecimento do clienteadquirente não constitui venda casada premeditada, eis que é prática usual e revela a eficiência logística e comercial do importador; ademais, não há empecilho legal para a venda da mercadoria logo após a efetivada a negociação internacional. A exigência do importador de pagamentos antecipados pelos clientes adquirentes de mercadoria negociada no exterior não revela compra casada. O pagamento, integral ou parcial, constitui negócio válido e usual e tem por objeto garantir o compromisso assumido pelo cliente. Inexiste nos autos qualquer evidência do vínculo entre a INTERMIX e o fornecedor ou exportador estrangeiro. A falta de comprovação do pagamento da mercadoria importada ou o descompasso entre seus valores na DI e no contrato de câmbio não passou de mera acusação fiscal, faltou o conjunto probatório mínimo capaz de apontar o pagamento da diferença pela INTERMIX. O benefício fiscal do ICM e a quebra da cadeia do IPI não são elementos de prova para caracterizar a importação por encomenda. Pelo exposto até aqui, não se está a infirmar a ocultação fraudulenta do real adquirente a INTERMIX mediante artifícios fraudulentos ou simulados. Ao contrário, entendo sim a presença de indícios que exigiriam aprofundamento nas investigações para que restasse configurado e comprovado ou não o ilícito doloso com fins à ocultação dos intervenientes. O presente caso consubstanciase na ausência de elementos comprobatórios, em seu conjunto, da prática dolosa, mediante fraude e/ou simulação, da ocultação da INTERMIX pela IDB segundo os quais a fiscalização não logrou êxito em fazer prova da infração capitulada no inciso V, do art. 23 do DL 1.455/76, tanto pela ausência de documentos como na enunciação dos fatos indiciários cuja correlação lógica não amparam as conclusões expostas. Fl. 510DF CARF MF Processo nº 10983.721118/201416 Acórdão n.º 3201002.581 S3C2T1 Fl. 495 31 In casu, não evidenciada incompatibilidade entre o negócio declarado e o relato dos fatos na linguagem das provas, necessária à formação da certeza jurídica a este julgador. Ao meu ver, não se provou a autoria nem a materialidade da infração e, "uma vez não provada a autoria, há ilegitimidade passiva; não provada a materialidade, inexiste infração a ser punida".3 Neste sentido é a decisão deste CARF sob a relatoria do Cons. Rosaldo Trevisan, acompanhado por unanimidade pela Turma, que se aplica o excerto da ementa ao presente processo, reproduzida: INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA. ÔNUS PROBATÓRIO. Nas autuações referentes ocultação comprovada (que não se alicerçam na presunção estabelecida no § 2o do art. 23 DecretoLei no 1.455/1976), o ônus probatório da ocorrência de fraude ou simulação (inclusive a interposição fraudulenta) é do fisco, que deve carrear aos autos elementos que atestem a ocorrência da conduta tal qual tipificada em lei. (Acórdão, 3403002.842, 4ª Câmara, 3ª Turma Ordinária, Rel. Cons. Rosaldo Trevisan, julgado em 25/03/2014) Trevisan assenta em seu voto que "Não pode o fisco, diante de casos que classifica como 'interposição fraudulenta', olvidarse de produzir elementos probatórios conclusivos. Devem os elementos de prova não somente insinuar que tenha havido nas operações um prévio acordo doloso, mas comprovar as condutas imputadas, o que não se vê no presente processo." Quanto ao recurso voluntário, merece enfrentamento o argumento da recorrente de que a margem de lucro obtida na revenda de duas mercadorias importadas é "prova cabal" de que a IDB não atuou como mero prestador de serviço, para o qual seria remunerado com simples comissão (fls. 438/439). Assevera e exemplifica que a venda do produto importado identificado com o código "3662" e descrito como " Display 16 Port KVM Console Drawer Ref LKM1U16P " foi revendido pelo preço unitário de R$ 1.358,42, ao passo que seu custo foi de R$ 726,2137, proporcionandolhe margem de lucro de 87,05 %. Também declara que a venda do produto importado identificado com o código "4595" e descrito como " Cabos USB KVM para uso no Display 16 Port KVM. Ref KCU 1.8" foi revendido pelo preço unitário de R$ 10,86 (NF nº 1.175), ao passo que seu custo foi de R$ 5,7949 (NF nº 1.165), proporcionandolhe margem de lucro de 87,40 %. Merecem reparos as conclusões quanto ao custo do referido produto, ao valor obtido com sua revenda e ao resultado (lucro ou prejuízo). Os documentos pertinentes foram colacionados em sede de Impugnação (fls. 196/297). Os produtos foram importados por meio da DI nº 12/1116015. O de código 3662, na adição 001, item 01 (único), descrito como " Display 16 Port KVM Console Drawer Ref LKM1U16P ", total de 10 unidades ao preço unitário de usd 225,00 (fl. 265); e o de código 4595, na adição 002, item 01 (único), descrito como " Cabos USB KVM para uso no Display 16 Port KVM. Ref KCU 1.8", total de 160 unidades ao preço unitário de usd 1,80 (fl. 266) Extraise da DI outras informações: peso líquido da DI (193,30 kg), da adição 001 (171,50 kg) e da adição 002 (21,80 kg); frete total, usd 1.467,93; taxa de utilização do Siscomex, R$ 244,00; taxa de conversão dolar/real, R$ 2,0443; total de tributos pagos DI e adição (II, IPI, PIS/PASEP e Cofins), R$ 3.688,17; condição de venda FOB (FREE ON BOARD), que significa preço da mercadoria sem despesas de frete e seguro, a cargo do importador. 3 BARBIERI, Luís Eduardo G.. Ensaio de Direito Aduaneiro. Org. Cláudio Augusto Gonçalves Pereira e Raquel Segalla Reis. Artigo: A prova da interposição fraudulenta de pessoas no processo tributário. São Paulo: Intelecto Soluções, 2015, p. 380381. Fl. 511DF CARF MF 32 De pronto, verificase que o preços unitários (peça) das mercadorias na condição FOB é de R$ 459,9675 (225,00 x 2,0433) para a mercadoria código 3662; e de R$ 3,6797 (1,80 x 2,0443) para a mercadoria código 4595. O engano da recorrente está em considerar os preços consignados na nota fiscal de entrada nº 001.165, de 20/06/2012 (fl. 284) como o de custo da mercadoria importada, o qual confrontado com o preço de venda na nota fiscal de saída nº 001.175, de 22/06/2012 (fl. 285), proporcionoulhe o lucro aproximado de 87 %, em cada uma das mercadorias. A incorreção no cálculo do resultado de compra/venda do produto importado é elementar pois a IDB ignorou as demais despesas incorridas e suportadas por si, após a chegada da carga, que certamente comporão o custo de revenda que, normalmente, é repassada ao cliente adquirente. Essas despesas são extraídas dos documentos apresentados pela IDB, relacionadas: 1. Despesas com tributos da DI = R$ 3.688,17 (fl. 263); 2. Despesas com tributos na adição 001 = R$ 3.367,99 (fl. 265); 3. Despesas com tributos na adição 002 = R$ 320,18 (fl. 266); 4. Frete total da DI = USD 1.467,93 (R$ 3.00,89); 5. Taxa de Siscomex = R$ 244,00 (fl. 264); A soma desses despesas (pós chegada no porto) resulta no valor de R$ 6.933,06. Por certo que a IDB na revenda da mercadoria importada por sua conta e ordem há de incluir tais despesas adicionais ao custo unitário de cada produto revendido à INTERMIX. Isto é realizado, normalmente, mediante rateio proporcional à quantidade ou valor unitário da mercadoria importada, conforme a correspondência entre despesa e peso/valor. Assim, o rateio proporcional ao valor, será efetuado em relação à taxa siscomex e aos tributos devidos; enquanto que o proporcional ao peso, será efetuado em relação ao frete. O quadro 1 demonstra os cálculos do custo unitário dos produtos códigos "3662" e "4595" em relação aos valores de Taxa de siscomex e tributos (II, IPI, PIS/PASEP e COFINS). QUADRO 1 PR um USD tx moeda PR un. R$ Produto 3662 225,00 2,0443 459,9675 Produto 4595 1,80 2,0443 3,67974 Tributos VMCV ad (usd) preço un. (usd) prop. preço tributo ad. (R$) Tributo un. (R$) "3662" cálculo un. 2.250,00 225,00 0,1000 3.367,99 336,7990 "4595" cálculo un. 288,00 1,80 0,0063 320,18 2,0011 SISCOMEX TT 244,00 Taxa siscomex Valor DI usd Valor ad. usd prop. preço siscomex ad. R$ Siscomex un. R$ "3662" cálculo un. 2.538,00 2.250,00 0,8865 216,3121 21,6312 "4595" cálculo un. 2.538,00 288,00 0,1135 27,6879 0,1730 Produto 3662 Custo un. adicional prop. à tx siscomex e tributos R$ 358,4302 Produto 4595 Custo un. adicional prop. à tx siscomex e tributos R$ 2,1742 O quadro 2 demonstra os cálculos do custo unitário dos produtos códigos "3662" e "4595 em relação aos valores de frete. QUADRO 2 PR um USD tx moeda PR un. R$ frete TT R$ Frete R$ 2.662,45 338,43 3.000,89 Fl. 512DF CARF MF Processo nº 10983.721118/201416 Acórdão n.º 3201002.581 S3C2T1 Fl. 496 33 peso ad. peso di prop. peso frete adiçao frete un. (R$) "3662" cálculo frete un. 171,50 193,30 0,8872 2.662,45 266,25 "4595" cálculo frete un. 21,8 193,30 0,1128 338,43 2,12 Produto 3662 Custo un. adicional prop. ao frete R$ 266,2455 Produto 4595 Custo un. adicional prop. ao frete R$ 2,1152 A soma dos rateios proporcionais ao peso e preço Quadro 1 e 2 resulta no custo adicional total de R$ 624,6757 (R$ 358,4302 + R$ 266,2455) ao produto "3662", e R$ 4,2894 (R$ 2.1742 + R$ 2,1152) ao produto "4595" . Registrase a inexistência de documentos de despesas com serviços de despachante aduaneiro, de armazenagem e transportes, que acrescentaria valor ao custo total apurado. Por fim, o custo do produto "3662", sem considerar custos e despesas não informados dentre eles com o despachante aduaneiro, armazenagem e transportes é de R$ 1.084,6432 (R$ 459,9675 + R$ 624,6757, e do produto "4595" é de R$ 7,9691 (R$ 3,6797 + R$ 4,2894). Quanto ao preço de venda do produto "3662" consignado em R$ 1.358,42 (fl. 285) é de se observar que nele se encontra o ICMS de R$ 1.630,10, a alíquota de 12% valor unitário de R$ R$ 163,01 (R$ 1.358,42 x 12%) que é calculado "por dentro"; portanto, não representa receita do vendedor. O valor do produto revendido será, portanto, de R$ 1.195,4096 (R$ 1.358,42 R$ 163,01); e do produto "4595", preço de venda em R$ 10,86, com ICMS unitário de R$ 1,30 (R$ 10,86 x 12%), o valor de revenda será de R$ 9,5568 (R$ 10,86 R$ 1,3032) Comparando os efetivos preços unitários de custo e de revenda do produto "3662" temse que a venda representa receita de R$ 1.195,41, frente ao custo de R$ 1.084,64; e o produto "4595" na venda a receita será de R$ 9,56, frente ao custo de R$ 7,97. A conclusão que se chega é que, efetivamente, quanto ao produto de código "3662", a operação de importação direta pela IDB e revenda à INTERMIX proporcionou ao importador o lucro unitário de R$ 110,77 (R$ 1.195,41 R$ 1.084,64), proporção de 9,27%, e não como assentado em seu recurso, que apontou lucro de 87,05 %; e em relação ao produto "4595", o lucro unitário foi de R$ 1,59 (R$ 9,56 R$ 7,97), proporção de 16,61%, e não o lucro de 87,40%. Contudo, esta pequena margem de "lucro" seria drasticamente reduzida por certo acusando prejuízo na operação ao acrescentar ao custo dos produtos "3662" e "4595" as parcelas relativas às despesas ocorridos para as quais não se tem documentos juntados aos autos, a saber: (i) armazenagem; (ii) despesas com despachante aduaneiro; e (iii) transporte entre o recinto alfandegado e o estabelecimento importador/adquirente, após desembaraço e liberação da mercadoria. Pelo exposto, concordo com as conclusões adotadas no voto do relator, mas a partir dos argumentos externados nesta declaração. Paulo Roberto Duarte Moreira Fl. 513DF CARF MF
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Numero do processo: 10675.907653/2009-89
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Mar 16 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed May 03 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2006
ESTIMATIVA. COMPENSAÇÃO. POSSIBILIDADE.
Pagamento indevido ou a maior a título de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento, sendo passível de restituição ou compensação (Súmula CARF nº 84).
Numero da decisão: 9101-002.635
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em negar-lhe provimento, com retorno dos autos à Unidade de origem para verificação da certeza e liquidez do crédito tributário.
[assinado digitalmente]
Carlos Alberto Freitas Barreto - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Luis Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra e Carlos Alberto Freitas Barreto.
Nome do relator: CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em negar-lhe provimento, com retorno dos autos à Unidade de origem para verificação da certeza e liquidez do crédito tributário. [assinado digitalmente] Carlos Alberto Freitas Barreto - Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Luis Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra e Carlos Alberto Freitas Barreto.
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COMPENSAÇÃO. POSSIBILIDADE. Pagamento indevido ou a maior a título de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento, sendo passível de restituição ou compensação (Súmula CARF nº 84). Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em negarlhe provimento, com retorno dos autos à Unidade de origem para verificação da certeza e liquidez do crédito tributário. [assinado digitalmente] Carlos Alberto Freitas Barreto Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Luis Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra e Carlos Alberto Freitas Barreto. Relatório Tratase de Recurso Especial apresentado pela Fazenda Nacional contra o Acórdão nº 180100.921, que julgou o recurso voluntário interposto pela contribuinte acerca da possibilidade de compensação de créditos de pagamentos de estimativas. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 67 5. 90 76 53 /2 00 9- 89 Fl. 124DF CARF MF Processo nº 10675.907653/200989 Acórdão n.º 9101002.635 CSRFT1 Fl. 3 2 O Acórdão recorrido deu provimento parcial ao recurso voluntário para afastar o argumento jurídico da não homologação, entendendo ser possível a compensação de créditos de pagamentos de estimativas. Em seguida, para comprovar a divergência de interpretação necessária ao conhecimento do seu recurso, a Fazenda Nacional interpôs o presente recurso especial de divergência, por entender que a decisão de reconhecer a possibilidade de compensação do valor indevidamente pago, ou pago a maior, de estimativa é fruto de interpretação da legislação tributária que conflita com a interpretação adotada no acórdão paradigma colacionado aos autos. O recurso foi admitido por meio do despacho do Presidente da Câmara. Após, sobrevieram contrarrazões em que o sujeito passivo defende o acerto da decisão questionada e pugna pela sua manutenção. É o Relatório. Voto Conselheiro Carlos Alberto Freitas Barreto, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9101002.610, de 16/03/2017, proferido no julgamento do processo 10280.900603/200912, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 9101002.610): O recurso é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, motivo pelo qual dele tomo conhecimento, na forma como foi admitido. O contribuinte apresentou DCOMP apontando indébito oriundo de pagamento a maior de estimativa. Ao apreciar a referida declaração, a Receita Federal não homologou a compensação, sob o fundamento de que o pagamento de estimativa não é passível de compensação, devendo compor a apuração anual do tributo. A decisão recorrida foi no sentido oposto, reconhecendo o direito de o contribuinte compensar o indébito de estimativa, devolvendo os autos para a unidade de origem, para verificação da certeza e liquidez do crédito tributário pleiteado, vez que essa matéria ainda não sofreu apreciação pela Administração Tributária. O recurso especial veio para que esta Câmara Superior reforme a decisão recorrida, restabelecendo a declaração de impossibilidade de o contribuinte compensar crédito de estimativa, nos termos da legislação infralegal então em vigor. Fl. 125DF CARF MF Processo nº 10675.907653/200989 Acórdão n.º 9101002.635 CSRFT1 Fl. 4 3 Todavia, a IN RFB nº 900, de 2008, retirou a referida proibição do ordenamento tributário e é pacífico na jurisprudência administrativa o entendimento de que seus efeitos devem retroagir para alcançar as compensações pendentes de decisão administrativa. Esse entendimento é adotado pela própria Administração Tributária, exteriorizado por meio da Solução de Consulta Interna Cosit n° 19, de 05/12/2011, assim ementada: ESTIMATIVAS. PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. RESTITUIÇÃO E COMPENSAÇÃO. O art. 11 da IN RFB nº 900, de 2008, que admite a restituição ou a compensação de valor pago a maior ou indevidamente de estimativa, é preceito de caráter interpretativo das normas materiais que definem a formação do indébito na apuração anual do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica ou da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido, aplicandose, portanto, aos PER/DCOMP originais transmitidos anteriormente a 1º de janeiro de 2009 e que estejam pendentes de decisão administrativa. Caracterizase como indébito de estimativa inclusive o pagamento a maior ou indevido efetuado a este título após o encerramento do período de apuração, seja pela quitação do débito de estimativa de dezembro dentro do prazo de vencimento, seja pelo pagamento em atraso da estimativa devida referente a qualquer mês do período, realizado em ano posterior ao do período da estimativa apurada, mesmo na hipótese de a restituição ter sido solicitada ou a compensação declarada na vigência das IN SRF nº 460, de 2004, e IN SRF nº 600, de 2005. A nova interpretação dada pelo art. 11 da IN RFB nº 900, de 2008, aplicase inclusive aos PER/DCOMP retificadores apresentados a partir de 1º de janeiro de 2009, relativos a PER/DCOMP originais transmitidos durante o período de vigência da IN SRF nº 460, de 2004, e IN SRF nº 600, de 2005, desde que estes se encontrem pendentes de decisão administrativa. No âmbito deste Tribunal Administrativo, a matéria foi pacificada por meio da Súmula CARF nº 84: Súmula CARF nº 84: Pagamento indevido ou a maior a título de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento, sendo passível de restituição ou compensação. Por todo o exposto, voto no sentido de negar provimento ao recurso especial da Procuradoria, com retorno dos autos à unidade de origem para verificação da certeza e liquidez do crédito tributário. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, conheço do recurso especial da Fazenda Nacional, e, no mérito, negolhe provimento, com retorno dos autos à unidade de origem para verificação da certeza e liquidez do crédito tributário. assinado digitalmente Fl. 126DF CARF MF Processo nº 10675.907653/200989 Acórdão n.º 9101002.635 CSRFT1 Fl. 5 4 Carlos Alberto Freitas Barreto Fl. 127DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 37216.000776/2007-99
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Feb 09 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Mar 17 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/05/2001 a 31/12/2005
RECURSO VOLUNTÁRIO. PARCELAMENTO. DESISTÊNCIA PARCIAL. RECURSO PARCIALMENTE CONHECIDO.
1. O recorrente desistiu parcialmente da irresignação, considerando ter aderido ao programa instituído pela Lei 11.941/2009.
2. De conformidade com o § 2º do art. 78 do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (RICARF), o pedido de parcelamento importa a desistência do recurso.
CONTRIBUIÇÕES DEVIDAS À SEGURIDADE SOCIAL. DECADÊNCIA. INEXISTÊNCIA DE DOLO, FRAUDE OU SIMULAÇÃO. EXISTÊNCIA DE RECOLHIMENTOS PARCIAIS. REGRA DO ART. 150, § 4º, DO CTN.
1. O prazo decadencial para o lançamento é regido pelo art. 150, § 4º, do CTN, se, inexistindo dolo, fraude ou simulação, houver pagamento parcial.
2. O critério de determinação da regra decadencial (art. 150, § 4º ou art. 173, inc. I, do CTN) é a existência de pagamento antecipado do tributo, ainda que parcial, mesmo que não tenha sido incluída na sua base de cálculo a rubrica ou o levantamento específico apurado pela fiscalização.
Recurso Voluntário Provido.
Numero da decisão: 2402-005.674
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer em parte do recurso, para, na parte conhecida, por maioria de votos, dar-lhe provimento, vencido o Conselheiro Túlio Teotônio de Melo Pereira que encaminhava pela conversão do julgamento em diligência.
(assinado digitalmente)
Kleber Ferreira de Araújo - Presidente
(assinado digitalmente)
João Victor Ribeiro Aldinucci - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Kleber Ferreira de Araújo, Ronnie Soares Anderson, Amílcar Barca Teixeira Júnior, Tulio Teotonio de Melo Pereira, Theodoro Vicente Agostinho, Mário Pereira de Pinho Filho, Bianca Rothschild e João Victor Ribeiro Aldinucci.
Nome do relator: JOAO VICTOR RIBEIRO ALDINUCCI
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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/05/2001 a 31/12/2005 RECURSO VOLUNTÁRIO. PARCELAMENTO. DESISTÊNCIA PARCIAL. RECURSO PARCIALMENTE CONHECIDO. 1. O recorrente desistiu parcialmente da irresignação, considerando ter aderido ao programa instituído pela Lei 11.941/2009. 2. De conformidade com o § 2º do art. 78 do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (RICARF), o pedido de parcelamento importa a desistência do recurso. CONTRIBUIÇÕES DEVIDAS À SEGURIDADE SOCIAL. DECADÊNCIA. INEXISTÊNCIA DE DOLO, FRAUDE OU SIMULAÇÃO. EXISTÊNCIA DE RECOLHIMENTOS PARCIAIS. REGRA DO ART. 150, § 4º, DO CTN. 1. O prazo decadencial para o lançamento é regido pelo art. 150, § 4º, do CTN, se, inexistindo dolo, fraude ou simulação, houver pagamento parcial. 2. O critério de determinação da regra decadencial (art. 150, § 4º ou art. 173, inc. I, do CTN) é a existência de pagamento antecipado do tributo, ainda que parcial, mesmo que não tenha sido incluída na sua base de cálculo a rubrica ou o levantamento específico apurado pela fiscalização. Recurso Voluntário Provido.
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PARCELAMENTO. DESISTÊNCIA PARCIAL. RECURSO PARCIALMENTE CONHECIDO. 1. O recorrente desistiu parcialmente da irresignação, considerando ter aderido ao programa instituído pela Lei 11.941/2009. 2. De conformidade com o § 2º do art. 78 do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (RICARF), o pedido de parcelamento importa a desistência do recurso. CONTRIBUIÇÕES DEVIDAS À SEGURIDADE SOCIAL. DECADÊNCIA. INEXISTÊNCIA DE DOLO, FRAUDE OU SIMULAÇÃO. EXISTÊNCIA DE RECOLHIMENTOS PARCIAIS. REGRA DO ART. 150, § 4º, DO CTN. 1. O prazo decadencial para o lançamento é regido pelo art. 150, § 4º, do CTN, se, inexistindo dolo, fraude ou simulação, houver pagamento parcial. 2. O critério de determinação da regra decadencial (art. 150, § 4º ou art. 173, inc. I, do CTN) é a existência de pagamento antecipado do tributo, ainda que parcial, mesmo que não tenha sido incluída na sua base de cálculo a rubrica ou o levantamento específico apurado pela fiscalização. Recurso Voluntário Provido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 37 21 6. 00 07 76 /2 00 7- 99 Fl. 774DF CARF MF 2 Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer em parte do recurso, para, na parte conhecida, por maioria de votos, darlhe provimento, vencido o Conselheiro Túlio Teotônio de Melo Pereira que encaminhava pela conversão do julgamento em diligência. (assinado digitalmente) Kleber Ferreira de Araújo Presidente (assinado digitalmente) João Victor Ribeiro Aldinucci Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Kleber Ferreira de Araújo, Ronnie Soares Anderson, Amílcar Barca Teixeira Júnior, Tulio Teotonio de Melo Pereira, Theodoro Vicente Agostinho, Mário Pereira de Pinho Filho, Bianca Rothschild e João Victor Ribeiro Aldinucci. Fl. 775DF CARF MF Processo nº 37216.000776/200799 Acórdão n.º 2402005.674 S2C4T2 Fl. 3 3 Relatório Os autos já foram relatados neste Colegiado, conforme Resolução de fl. 564: Tratase de recurso voluntário apresentado contra Decisão da Delegacia da Secretaria da Receita Previdenciária (DRP), Rio de Janeiro Centro / RJ, DecisãoNotificação (DN) 17.401.4/0059/2007, fls. 0251 a 0262, que julgou procedente o lançamento, efetuado pela Notificação Fiscal de Lançamento de Débito (NFLD), por descumprimento de obrigação tributária legal principal, fl. 001. Segundo a fiscalização, de acordo com o Relatório Fiscal (RF), fls. 072 a 079, o lançamento referese a contribuições destinadas à Seguridade Social, incidentes sobre a remuneração paga aos segurados empregados, correspondentes a contribuição dos segurados, da empresa, a contribuição para o financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrentes dos riscos ambientais do trabalho (GILRAT) e as contribuições devidas aos Terceiros. Ainda segundo o RF, os fatos geradores são oriundos de pagamentos de indenizações e abonos diversos, fls. 075. Os motivos que ensejaram o lançamento estão descritos no RF e nos demais anexos da NFLD. Em 18/01/2006 foi dada ciência à recorrente do Mandado de Procedimento Fiscal (MPF) e do Termo de Intimação para Apresentação de Documentos (TIAD), fls. 027 e 035. Em 20/11/2006 foi dada ciência à recorrente do lançamento, fls. 001. Contra o lançamento, a recorrente apresentou impugnação, fls. 088 a 0109, acompanhada de anexos. A DRP analisou o lançamento e a impugnação, julgando procedente o lançamento. Inconformada com a decisão, a recorrente apresentou recurso voluntário, fls. 0290 a 0311, acompanhado de anexos. No recurso, a recorrente alega, em síntese, que: O prazo decadencial deve ser o disposto no Código Tributário Nacional (CTN); Os valores oriundos de indenização não devem integrar o SC, devido sua natureza nãoretributiva; As indenizações não se assemelham a gratificações; Fl. 776DF CARF MF 4 O Superior Tribunal de Justiça (STJ) reconhece a impossibilidade de indenizações não retributivas serem integradas ao SC, conforme jurisprudência citada; As indenizações não são habituais; A própria lei 8.212/1991, § 9º, e, I, Art. 28, exclui a incidência de contribuição sobre ganhos eventuais e abonos desvinculados do salário; As indenizações estão ligadas à dispensa do segurado e a característica altruística e assistencial; A utilização do Decreto 3048/1999 Art. 214, § 9º , V, " j " para fundamentar a decisão é descabida; Somente Lei pode criar obrigação tributária; O Decreto não pode alterar ou ampliar o alcance de determinação legal; Os órgãos julgadores devem seguir a Lei; As convenções coletivas retiram o caráter salarial dos abonos; Ante o exposto, a recorrente pede que o recurso seja atendido e que lhe seja dado provimento. Posteriormente, a DRP emitiu contrarazões, fls. 0373 e 0374, onde, em síntese, mantém a decisão proferida, enviando o processo ao Conselho de Recursos da Previdência Social (CRPS). O julgamento do recurso voluntário foi convertido em diligência, a fim de que a fiscalização elaborasse parecer conclusivo sobre as dúvidas expostas no voto. Elaborado o parecer, fls. 626 a 629, a recorrente foi devidamente intimada. Antes mesmo da referida ciência, a recorrente peticionou pedindo desistência parcial, por ter aderido ao parcelamento instituído pela Lei 11.941/2009, fls. 631/632. O processo estava aguardando sistema disponível para desmembramento dos débitos a serem encaminhados ao parcelamento. Nesse ínterim, sobreveio Resolução no PAF 37216.000782/200746, convertendo o julgamento daquele processo em diligência, a fim de que fossem apensados os três processos que mantêm correlação com o assunto tratado: PAF 37216.000782/200746; PAF 37216.000684/200717; e o presente processo. Foi efetuado o desmembramento, sendo criada nova NFLD para recepção dos débitos a serem encaminhados ao parcelamento, NFLD 374654530, PAF 17091720017/2016 83, permanecendo neste processo a parte pendente de julgamento. Sem contrarrazões. É o relatório. Fl. 777DF CARF MF Processo nº 37216.000776/200799 Acórdão n.º 2402005.674 S2C4T2 Fl. 4 5 Voto Conselheiro João Victor Ribeiro Aldinucci Relator 1 Conhecimento 1.1 DO PARCELAMENTO O recurso voluntário é tempestivo, mas o recorrente, às fls. 631/632, desistiu parcialmente da irresignação, considerando ter aderido ao parcelamento instituído pela Lei 11.941/2009. Diante disso, deve ser aplicado o disposto no § 2º do art. 78 do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (RICARF), segundo o qual o pedido de parcelamento importa a desistência do recurso. Vejase: Art. 78. Em qualquer fase processual o recorrente poderá desistir do recurso em tramitação. § 1º A desistência será manifestada em petição ou a termo nos autos do processo. § 2º O pedido de parcelamento, a confissão irretratável de dívida, a extinção sem ressalva do débito, por qualquer de suas modalidades, ou a propositura pelo contribuinte, contra a Fazenda Nacional, de ação judicial com o mesmo objeto, importa a desistência do recurso. § 3º No caso de desistência, pedido de parcelamento, confissão irretratável de dívida e de extinção sem ressalva de débito, estará configurada renúncia ao direito sobre o qual se funda o recurso interposto pelo sujeito passivo, inclusive na hipótese de já ter ocorrido decisão favorável ao recorrente. § 4º Havendo desistência parcial do sujeito passivo e, ao mesmo tempo, decisão favorável a ele, total ou parcial, com recurso pendente de julgamento, os autos deverão ser encaminhados à unidade de origem para que, depois de apartados, se for o caso, retornem ao CARF para seguimento dos trâmites processuais. § 5º Se a desistência do sujeito passivo for total, ainda que haja decisão favorável a ele com recurso pendente de julgamento, os autos deverão ser encaminhados à unidade de origem para procedimentos de cobrança, tornandose insubsistentes todas as decisões que lhe forem favoráveis. (destacouse) Destarte, o recurso deve ser conhecido apenas no tocante às parcelas que não foram objeto do parcelamento. Fl. 778DF CARF MF 6 2 Da decadência Diante da desistência parcial, remanesce controvérsia apenas no tocante às competências 05/2001, 07/2001 e 08/2001. Em seu recurso voluntário, o sujeito passivo alega que as contribuições relativas a tais períodos estariam decaídas, considerando o transcurso de prazo superior a cinco anos, contado da data do fato gerador, em contraponto à decisão a quo, segundo a qual o citado prazo seria de dez anos. A recorrente tem razão quando alega que o prazo decadencial é de cinco anos. Em 2008, o Supremo Tribunal Federal editou a Súmula Vinculante nº 08, segundo a qual são inconstitucionais o parágrafo único do artigo 5º do DecretoLei nº 1.569/1977 e os artigos 45 e 46 da Lei nº 8.212/1991, que tratam de prescrição e decadência de crédito tributário, prevalecendo, quanto ao prazo de constituição, aquele previsto no Código Tributário Nacional, em seus arts. 150 ou 173. Como sabido, súmula de tal natureza tem efeito vinculante em relação aos demais órgãos do Poder Judiciário e à administração direta e indireta, nas esferas federal, estadual e municipal, ex vi do art. 103A da Constituição Federal. O RICARF, em seu art. 62, § 1º, inc. II, alínea a, combinado com o seu art. 45, inc. VI, claramente obriga o Conselheiro a observar o enunciado de súmula vinculante. Em sendo assim, não há dúvidas de que o prazo de constituição do crédito tributário é de cinco, e não de dez anos. Resta aferir, pois, se o lustro deve ser contado na forma do art. 150, § 4º, ou na forma do art. 173, inc. I. Nesse quadro, observase que o critério de determinação da regra decadencial é, basicamente, a constatação acerca da existência de pagamento antecipado do tributo, ainda que parcial, mesmo que não tenha sido incluída na sua base de cálculo a rubrica ou o levantamento específico apurado pela fiscalização. Se o sujeito passivo antecipa o montante, mesmo que em valor inferior ao efetivamente devido, o prazo para a autoridade administrativa manifestar se concorda ou não com o recolhimento tem início; em não havendo concordância, deve haver lançamento de ofício no prazo determinado pelo art. 150, § 4º, salvo a existência de dolo, fraude ou simulação, casos em que se aplica o art. 173, inc. I. Expirado o prazo, considerase realizada tacitamente a homologação pelo Fisco, de maneira que essa homologação tácita tem natureza decadencial. Especificamente quanto às contribuições devidas à seguridade social, deve ser citado o verbete sumular abaixo reproduzido: Súmula CARF nº 99: Para fins de aplicação da regra decadencial prevista no art. 150, § 4°, do CTN, para as contribuições previdenciárias, caracteriza pagamento antecipado o recolhimento, ainda que parcial, do valor considerado como devido pelo contribuinte na competência do fato gerador a que se referir a autuação, mesmo que não tenha Fl. 779DF CARF MF Processo nº 37216.000776/200799 Acórdão n.º 2402005.674 S2C4T2 Fl. 5 7 sido incluída, na base de cálculo deste recolhimento, parcela relativa a rubrica especificamente exigida no auto de infração. Sobreleva ressaltar o entendimento do colendo Superior Tribunal de Justiça, em sede de recurso representativo de controvérsia: PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ARTIGO 543C, DO CPC. TRIBUTÁRIO. TRIBUTO SUJEITO A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. INEXISTÊNCIA DE PAGAMENTO ANTECIPADO. DECADÊNCIA DO DIREITO DE O FISCO CONSTITUIR O CRÉDITO TRIBUTÁRIO. TERMO INICIAL. ARTIGO 173, I, DO CTN. APLICAÇÃO CUMULATIVA DOS PRAZOS PREVISTOS NOS ARTIGOS 150, § 4º, e 173, do CTN. IMPOSSIBILIDADE. 1. O prazo decadencial quinquenal para o Fisco constituir o crédito tributário (lançamento de ofício) contase do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, nos casos em que a lei não prevê o pagamento antecipado da exação ou quando, a despeito da previsão legal, o mesmo inocorre, sem a constatação de dolo, fraude ou simulação do contribuinte, inexistindo declaração prévia do débito (Precedentes da Primeira Seção: REsp 766.050/PR, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 28.11.2007, DJ 25.02.2008; AgRg nos EREsp 216.758/SP, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, julgado em 22.03.2006, DJ 10.04.2006; e EREsp 276.142/SP, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 13.12.2004, DJ 28.02.2005). 2. É que a decadência ou caducidade, no âmbito do Direito Tributário, importa no perecimento do direito potestativo de o Fisco constituir o crédito tributário pelo lançamento, e, consoante doutrina abalizada, encontrase regulada por cinco regras jurídicas gerais e abstratas, entre as quais figura a regra da decadência do direito de lançar nos casos de tributos sujeitos ao lançamento de ofício, ou nos casos dos tributos sujeitos ao lançamento por homologação em que o contribuinte não efetua o pagamento antecipado (Eurico Marcos Diniz de Santi, "Decadência e Prescrição no Direito Tributário", 3ª ed., Max Limonad, São Paulo, 2004, págs.. 163/210). 3. O dies a quo do prazo quinquenal da aludida regra decadencial regese pelo disposto no artigo 173, I, do CTN, sendo certo que o "primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado" corresponde, iniludivelmente, ao primeiro dia do exercício seguinte à ocorrência do fato imponível, ainda que se trate de tributos sujeitos a lançamento por homologação, revelandose inadmissível a aplicação cumulativa/concorrente dos prazos previstos nos artigos 150, § 4º, e 173, do Codex Tributário, ante a configuração de desarrazoado prazo decadencial decenal (Alberto Xavier, "Do Lançamento no Direito Tributário Brasileiro", 3ª ed., Ed. Forense, Rio de Janeiro, 2005, págs.. Fl. 780DF CARF MF 8 91/104; Luciano Amaro, "Direito Tributário Brasileiro", 10ª ed., Ed. Saraiva, 2004, págs.. 396/400; e Eurico Marcos Diniz de Santi, "Decadência e Prescrição no Direito Tributário", 3ª ed., Max Limonad, São Paulo, 2004, págs.. 183/199). 5. In casu, consoante assente na origem: (i) cuidase de tributo sujeito a lançamento por homologação; (ii) a obrigação ex lege de pagamento antecipado das contribuições previdenciárias não restou adimplida pelo contribuinte, no que concerne aos fatos imponíveis ocorridos no período de janeiro de 1991 a dezembro de 1994; e (iii) a constituição dos créditos tributários respectivos deuse em 26.03.2001. 6. Destarte, revelamse caducos os créditos tributários executados, tendo em vista o decurso do prazo decadencial quinquenal para que o Fisco efetuasse o lançamento de ofício substitutivo. 7. Recurso especial desprovido. Acórdão submetido ao regime do artigo 543C, do CPC, e da Resolução STJ 08/2008. (REsp 973.733/SC, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 12/08/2009, DJe 18/09/2009) (destacouse) Neste caso concreto, houve recolhimentos nas competências controvertidas. Conforme Termo de Encerramento de Auditoria Fiscal (TEAF), fl. 56, foram examinadas as GFIPs e também os comprovantes de recolhimentos apresentados pelo sujeito passivo. Desse exame, foram apuradas apenas contribuições incidentes sobre rubricas específicas, tais como indenização, ganho eventual, abono, seguro de vida, bolsa e PLR, mas não sobre as rubricas usualmente pagas por uma empresa, o que demonstra que a recorrente recolhia as contribuições incidentes sobre os valores que entendia serem de natureza remuneratória. As GFIPs e os comprovantes de recolhimentos foram devolvidos ao sujeito passivo em meio eletrônico (fl. 58), razão pela qual não se encontram nestes autos. Ademais, o relatório fiscal, no item 3.1, é taxativo ao informar que a recorrente fazia suas informações em GFIP. Mais importante ainda, no item 3.2, o relatório alega, de forma cristalina, a existência de recolhimentos. Por outro lado, e como já sugerido, em nenhum dos levantamentos fiscais foram apuradas contribuições incidentes sobre parcelas salariais usualmente pagas, o que corrobora o fato de que os lançamentos são atinentes às diferenças de contribuições. Expressandose de outra forma, com exceção de determinas rubricas específicas (indenização, ganho eventual, abono, seguro de vida, bolsa e PLR), podese concluir que a recorrente pagava mensalmente as contribuições incidentes sobre os valores que entendia serem remuneratórios. Não é mesmo crível que uma empresa de tal porte não tivesse efetuado qualquer recolhimento de contribuição no período fiscalizado, aplicandose, aqui, as regras de experiência comum, subministradas pela observação do que ordinariamente acontece. Por fim, e não menos importante, cabe destacar que, quando do julgamento do processo conexo, PAF nº 37216.000688/200797, período de apuração 01/04/2001 a Fl. 781DF CARF MF Processo nº 37216.000776/200799 Acórdão n.º 2402005.674 S2C4T2 Fl. 6 9 31/01/2006 (coincidente, pois, com o período controvertido nestes autos), alusivo à parcela do seguro de vida, constatouse que o Fisco teria verificado a existência de recolhimentos. Vejase, nesse sentido, a informação extraída do PAF 37216.000782/2007 46, no qual se encontra o acórdão prolatado naquele outro processo: Cabe destacar que na análise dos autos encontramos informação de que o Fisco verificou recolhimentos, fls. 0636. Cabe destacar, também, que na guia de recolhimento não havia diferenciação entre rubricas, ou que possibilitasse a origem do que foi reconhecido. A título de ilustração, segue a ementa do julgamento conexo: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/04/2001 a 31/01/2006 LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. ANTECIPAÇÃO DE PAGAMENTO. AUSÊNCIA DE OCORRÊNCIA DE DOLO, FRAUDE OU SIMULAÇÃO. PRAZO DECADENCIAL REGIDO PELO § 4°, ART. 150, DO CTN. Comprovada a ocorrência de pagamento parcial, a regra decadencial expressa no CTN a ser utilizada deve ser a prevista no § 4°, Art. 150 do CTN, conforme inteligência da determinação do Art. 62A, do Regimento Interno do CARF (RICARF), em sintonia com o decidido pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), no Recurso Especial 973.733. No caso, há recolhimentos efetuados, acarretando a utilização da regra expressa na determinação legal contida no § 4°, Art. 150 do CTN. SALÁRIO DE CONTRIBUIÇÃO. SEGURO DE VIDA EM GRUPO. PRINCÍPIO DA EFICIÊNCIA. RECONHECIMENTO PELA PGFN. DESISTÊNCIA EM AÇÕES JUDICIAIS. Segundo Ato Declaratório PGFN 12/2011 quanto à incidência de contribuições previdenciárias sobre seguro de vida em grupo contratado pelo empregador, se não existir individualização de montante que beneficie cada um dos segurados deve ser dispensada a apresentação de recursos e deve ocorrer a desistência dos recursos já interpostos. No presente caso, a acusação fiscal não trata de individualização de montante para benefício de cada segurado, a fim de motivar a procedência do lançamento, devendo, portanto, pelo Princípio da Eficiência, ser dado provimento ao recurso, conforme posição da PGFN. Recurso Voluntário Provido. Nesse contexto, o prazo de decadência deve ser contado na forma do art. 150, § 4º, do Código, ou seja, a partir da ocorrência do fato gerador. Fl. 782DF CARF MF 10 Determinada a regra aplicável, passase ao exame do transcurso do lustro decadencial. Nesse sentido, constatase que o fato gerador da última contribuição controvertida ocorreu em agosto de 2001. Com efeito, o § 2º do art. 42 da Lei 8.212/1991, exemplificativamente, preleciona que o fato gerador das contribuições sociais considerase ocorrido na data da prestação do serviço. Sendo assim, quando da notificação do lançamento ao sujeito passivo, em 30/11/2006, fl. 4, já havia transcorrido, integralmente, o prazo decadencial para a constituição das contribuições questionadas nestes autos, devendo ser declarada, pois, a sua extinção (art. 156, inc. V, do Código Tributário Nacional). Por tais razões, na parte conhecida, o recurso voluntário deve ser integralmente provido, para reformar a decisão recorrida e declarar a extinção das contribuições das competências 05/2001, 07/2001 e 08/2001. 3 Conclusão Diante do exposto, votase no sentido de CONHECER PARCIALMENTE do recurso voluntário, para, na parte conhecida, DARLHE PROVIMENTO, nos termos da fundamentação. (assinado digitalmente) João Victor Ribeiro Aldinucci. Fl. 783DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10665.000563/2009-84
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Mar 21 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Apr 10 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Exercício: 2004, 2005
NULIDADE DO AUTO DE INFRAÇÃO. INOCORRÊNCIA.
Somente ensejam a nulidade os atos e termos lavrados por pessoa incompetente ou com preterição do direito de defesa do contribuinte. Descabe a alegação de nulidade quando não existirem no processo atos insanáveis, ainda mais quando comprovado que a autoridade lançadora observou, durante os trabalhos de auditoria, os procedimentos previstos na legislação tributária.
ARBITRAMENTO. NÃO APRESENTAÇÃO DE DOCUMENTOS. CABIMENTO.
A não apresentação, pela interessada, dos livros previstos pela legislação ou de qualquer outro documento para o qual tenha sido devidamente intimada, exige a adoção dos procedimentos previstos no artigo 530 do Decreto n. 3000/99, que trata das hipóteses de arbitramento.
AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DOCUMENTAL. INEFICÁCIA.
Para a comprovação de seus argumentos, deve o recurso ser instruído com todos os documentos e provas necessários. Meras alegações, desacompanhadas dos documentos comprobatórios, não são suficientes para infirmar a procedência do lançamento efetuado.
DEPÓSITOS BANCÁRIOS. OMISSÃO DE RECEITA.
Evidencia omissão de receita a existência de valores creditados em conta de depósito mantida em instituição financeira, em relação aos quais a contribuinte, regularmente intimada, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações.
PESSOA FÍSICA. EQUIPARAÇÃO À PESSOA JURÍDICA.
As pessoas físicas que, em nome individual, explorem, habitual e profissionalmente, qualquer atividade econômica de natureza civil ou comercial, com o fim especulativo de lucro, mediante venda a terceiros de bens ou serviços, equiparam-se à pessoa jurídica, e devem inscrever-se no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ).
MULTA DE OFÍCIO. APLICABILIDADE.
A multa de ofício possui base legal e tem como fundamento o artigo 44 da Lei n. 9.430/96, devendo ser aplicada quando apurada falta ou insuficiência de recolhimento do imposto.
OMISSÃO DE RECEITAS. RECORRÊNCIA. MULTA QUALIFICADA DE 150%. CABIMENTO.
Quando as provas carreadas aos autos pelo Fisco evidenciam a intenção dolosa de evitar o conhecimento da ocorrência do fato gerador, pela prática reiterada de desviar receitas da tributação, cabe a aplicação da multa qualificada.
RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA.
São solidariamente obrigadas as pessoas que comprovadamente atuaram, com infração à lei, na administração da sociedade, ainda que de fato ou irregular.
TRIBUTAÇÃO REFLEXA. PIS, COFINS E CSLL. DECORRÊNCIA.
Tratando-se de tributação reflexa decorrente de irregularidades apuradas no âmbito do Imposto sobre a Renda, constantes do mesmo processo, aplicam-se ao PIS, à COFINS e à CSLL, por relação de causa e efeito, os mesmos fundamentos do lançamento primário.
Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Exercício: 2004, 2005
PEDIDO DE PERÍCIA. INDEFERIMENTO. NECESSIDADE.
A perícia só se faz necessária quando o procedimento for essencial para a compreensão dos fatos e o convencimento dos julgadores. Quando ausentes tais requisitos, ante a comprovação de que constam dos autos elementos suficientes para a resolução da controvérsia, deve o pedido ser indeferido.
Numero da decisão: 1201-001.593
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em NEGAR provimento aos recursos voluntários, vencido o Conselheiro José Carlos, que lhes dava provimento.
(documento assinado digitalmente)
Roberto Caparroz de Almeida Relator e Presidente
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Roberto Caparroz de Almeida, Luis Fabiano Alves Penteado, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Luis Henrique Marotti Toselli, Eva Maria Los, Luiz Paulo Jorge Gomes e José Carlos de Assis Guimarães.
Nome do relator: ROBERTO CAPARROZ DE ALMEIDA
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INOCORRÊNCIA. Somente ensejam a nulidade os atos e termos lavrados por pessoa incompetente ou com preterição do direito de defesa do contribuinte. Descabe a alegação de nulidade quando não existirem no processo atos insanáveis, ainda mais quando comprovado que a autoridade lançadora observou, durante os trabalhos de auditoria, os procedimentos previstos na legislação tributária. ARBITRAMENTO. NÃO APRESENTAÇÃO DE DOCUMENTOS. CABIMENTO. A não apresentação, pela interessada, dos livros previstos pela legislação ou de qualquer outro documento para o qual tenha sido devidamente intimada, exige a adoção dos procedimentos previstos no artigo 530 do Decreto n. 3000/99, que trata das hipóteses de arbitramento. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DOCUMENTAL. INEFICÁCIA. Para a comprovação de seus argumentos, deve o recurso ser instruído com todos os documentos e provas necessários. Meras alegações, desacompanhadas dos documentos comprobatórios, não são suficientes para infirmar a procedência do lançamento efetuado. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. OMISSÃO DE RECEITA. Evidencia omissão de receita a existência de valores creditados em conta de depósito mantida em instituição financeira, em relação aos quais a contribuinte, regularmente intimada, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. PESSOA FÍSICA. EQUIPARAÇÃO À PESSOA JURÍDICA. As pessoas físicas que, em nome individual, explorem, habitual e profissionalmente, qualquer atividade econômica de natureza civil ou AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 66 5. 00 05 63 /2 00 9- 84 Fl. 3849DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 3 2 comercial, com o fim especulativo de lucro, mediante venda a terceiros de bens ou serviços, equiparamse à pessoa jurídica, e devem inscreverse no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ). MULTA DE OFÍCIO. APLICABILIDADE. A multa de ofício possui base legal e tem como fundamento o artigo 44 da Lei n. 9.430/96, devendo ser aplicada quando apurada falta ou insuficiência de recolhimento do imposto. OMISSÃO DE RECEITAS. RECORRÊNCIA. MULTA QUALIFICADA DE 150%. CABIMENTO. Quando as provas carreadas aos autos pelo Fisco evidenciam a intenção dolosa de evitar o conhecimento da ocorrência do fato gerador, pela prática reiterada de desviar receitas da tributação, cabe a aplicação da multa qualificada. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. São solidariamente obrigadas as pessoas que comprovadamente atuaram, com infração à lei, na administração da sociedade, ainda que de fato ou irregular. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. PIS, COFINS E CSLL. DECORRÊNCIA. Tratandose de tributação reflexa decorrente de irregularidades apuradas no âmbito do Imposto sobre a Renda, constantes do mesmo processo, aplicamse ao PIS, à COFINS e à CSLL, por relação de causa e efeito, os mesmos fundamentos do lançamento primário. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Exercício: 2004, 2005 PEDIDO DE PERÍCIA. INDEFERIMENTO. NECESSIDADE. A perícia só se faz necessária quando o procedimento for essencial para a compreensão dos fatos e o convencimento dos julgadores. Quando ausentes tais requisitos, ante a comprovação de que constam dos autos elementos suficientes para a resolução da controvérsia, deve o pedido ser indeferido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em NEGAR provimento aos recursos voluntários, vencido o Conselheiro José Carlos, que lhes dava provimento. (documento assinado digitalmente) Roberto Caparroz de Almeida – Relator e Presidente Fl. 3850DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 4 3 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Roberto Caparroz de Almeida, Luis Fabiano Alves Penteado, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Luis Henrique Marotti Toselli, Eva Maria Los, Luiz Paulo Jorge Gomes e José Carlos de Assis Guimarães. Relatório Tratase de Autos de Infração lavrados em decorrência de omissão de receitas, nos anoscalendário de 2004 e 2005, para exigência do IRPJ e reflexos, com multa qualificada de 150% e demais acréscimos legais. A questão fática debatida nos autos é bastante extensa e foi assim descrita no relatório da decisão ora recorrida, com excertos retirados do Termo de Verificação Fiscal (grifos no original): Em síntese, os fatos mais relevantes são os seguintes: A As contas bancárias mantidas na Caixa Econômica Federal (CEF) e na Credipeu em nome de Glauciane Maria de Sousa foram movimentadas para efetuar operações de empréstimos a terceiros, tendo como financiador (emprestador) Glauciane e/ou Jamir de Souza Machado. B Essas contas bancárias eram movimentadas com assinaturas da correntista Glauciane ou seus procuradores, muito embora o Sr. Jamir também possuísse procuração específica e ampla para movimentar essas contas. Na realidade, as movimentações dessas contas atendiam aos interesses da correntista e do Sr. Jamir, não sendo possível identificar a propriedade dos recursos de cada um, embora Glauciane nunca tenha demonstrado condições econômicas e financeiras para movimentar e possuir tais recursos, conforme dados das Declarações de Imposto de Renda Pessoa Física. Assim sendo, pela falta de informação das partes, foram rateados proporcionalmente aos dois utilizadores dos benefícios das contas bancárias, os créditos bancários sujeitos à comprovação e caracterizados como omissão de receita nos termos do art. 42 e seus parágrafos da Lei n° 9.430, de 1996, principalmente os parágrafos 5° e 6°, incluídos pela Lei n° 10.637, de 2002. C Essas operações de empréstimos são atividades de pessoas jurídicas e sujeitam o responsável à inscrição no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas CNPJ, voluntariamente ou de ofício. D As operações deverão ser escrituradas, com base em documentos, obedecidas as demais normas de controle e autorizações do Banco Central do Brasil (Bacen) estabelecidas pela Lei n° 4.595, de 1964. A tributação dessa atividade é pelo regime do lucro real ou pelo lucro arbitrado. Fl. 3851DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 5 4 E Glauciane foi intimada várias vezes, não tendo apresentado nenhum documento ou escrituração, o que motivou o arbitramento do lucro. A tributação é feita com a base apurada em cada tipo de origem dos créditos, quando identificados, ou pelo arbitramento com aplicação do maior percentual relativo às atividades desenvolvidas, quando não é possível apurar cada atividade em separado, sobre os créditos relacionados com os valores dos empréstimos pagos pelos clientes, conforme preceituam os arts. 841 e 845 c/c art. 530, incisos I, III e VI, arts. 532, 533 e 537 e seu parágrafo único do RIR/1999. F A multa de ofício cabível é de 150%, tendo em vista: o montante omitido; a ocorrência, smj, de sonegação, fraude e conluio; o exercício de atividades financeiras sem autorização do Bacen. Em decorrência da omissão de receitas, também foram lavrados os autos de infração abaixo especificados, cujos valores indicados representam o montante da contribuição lançada, multa de ofício de 150% e juros de mora calculados até 31/03/2009, abrangendo fatos geradores compreendidos nos exercícios de 2005 e 2006: • Contribuição para o Programa de Integração Social (PIS) R$ 376.982,64 fls.14/25; • Contribuição para Financiamento da Seguridade Social (Cofins) R$ 2.319.896,27 fls. 26/37; • Contribuição Social s/ Lucro Líquido (CSLL) R$ 623.602,66 fls. 38/49. O Termo de Encerramento foi juntado às fls. 51/52, enquanto o Termo de Sujeição Passiva Solidária n° 001 foi anexado às fls. 53/55, no qual constam arroladas como responsáveis solidários as pessoas físicas Glauciane Maria de Sousa e Jamir de Souza Machado. No TVF anexado às fls. 56/85, foram relatados os procedimentos fiscais, com destaque para a ciência do Termo de Início de Ação Fiscal, as intimações expedidas, além das respostas e documentos apresentados pelo contribuinte. Foi feita ainda a análise da documentação bancária, consubstanciada nos demonstrativos fiscais de apuração de fls. 86/181 (Anexos 1 a 3), contendo a motivação para a equiparação da pessoa física como pessoa jurídica em razão da atividade desempenhada pelo contribuinte, nos casos especificados, além das justificativas para o arbitramento do lucro e para a qualificação da multa de ofício aplicada ao lançamento. Constam também registros acerca da formalização da Representação Fiscal para Fins Penais, da lavratura do Termo de Sujeição Passiva Solidária e sobre o arrolamento de bens e direitos. Fl. 3852DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 6 5 Os demais documentos que fundamentam a exigência fiscal constam das fls. 182/1661. Consoante despacho de fl. 1662, o competente processo de representação fiscal para fins penais foi formalizado sob n° 10665.000567/200962. Glauciane Maria de Sousa e Jamir de Souza Machado foram cientificados do lançamento em 06/05/2009, conforme Aviso de Recebimento AR (doc. fls. 1663 e 1668). Às fls. 1664/1667 e 1669/1676 consta solicitação de cópia de documentos e pedido do contribuinte, com o registro de deferimento da autoridade competente, a respeito de dilação de prazo para impugnação. Glauciane Maria de Sousa, por intermédio de seus procuradores, apresentou a impugnação em 05/06/2009, anexada às fls. 1677/1895, cujo resumo se passa a explicitar. I. DA TEMPESTIVIDADE DA IMPUGNAÇÃO A impugnante sustenta a tempestividade da impugnação tendo ressaltado que recebeu, via carta com AR, o Auto de Infração ora impugnado no dia 06/05/2009 (quartafeira). Assim, a contagem do prazo de 30 dias se iniciou no dia 07/05/2009 (quintafeira), findando no dia 05/06/2009. II. DOS FATOS A impugnante faz referência às intimações fiscais expedidas, tendo destacado que envidou esforços na tentativa de obter os documentos e informações solicitadas. Nesse sentido, ressalta que entendeu abusiva a conduta da fiscalização na obtenção dos extratos bancários e, em relação aos termos fiscais especificados, dá ênfase às providências tomadas e aos esclarecimentos prestados no curso da ação fiscal, inclusive no tocante a aspectos acerca das operações mantidas com Jamir e das procurações outorgadas. Apresentouse, portanto, a descrição pormenorizada dos fatos, necessária pela conduta da fiscalização, que distorceu alguns fatos ocorridos no curso do procedimento fiscal, principalmente em relação à acusação de que a impugnante não estaria colaborando com a fiscalização. Outrossim, todos os pedidos de dilação de prazo requeridos foram feitos devidamente justificados, bem como foram realizados no intuito de se obter as informações necessárias junto às instituições bancárias, o que, posteriormente, não se mostrou viável em sua plenitude. Ressaltase, por outro lado, que a RFB poderia ter solicitado tais informações utilizando de suas prerrogativas, mas preferiu não fazêlo, donde se conclui que a impugnante colaborou sim durante todo o procedimento fiscal, contudo a fiscalização não tomou nenhuma providência a fim de permitir a comprovação Fl. 3853DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 7 6 das afirmações feitas pela impugnante, preferindo a via mais fácil da presunção e do arbitramento. Assim, passa a impugnante a demonstrar que a equiparação à pessoa jurídica não se mostra viável no presente caso, bem como a utilização do arbitramento é procedimento incompatível com os autos, uma vez que é possível a apuração do eventual lucro obtido com as operações. Além disso, ficará demonstrado que a vinculação das operações realizadas pela impugnante a Jamir de Souza Machado decorre de interpretação casuística dos auditores fiscais. Por fim, se concluirá que a aplicação da multa majorada de 150% não se molda ao caso dos autos, todos estes argumentos que resultarão na nulidade do auto de infração, como se passa a demonstrar. III. DO DIREITO III.1. Impossibilidade de Equiparação da impugnante à Pessoa Jurídica Instituição Financeira É totalmente absurda e equivocada a pretensão da Receita Federal em considerar como Instituição Financeira pessoa física que jamais realizou as atividades previstas na legislação (art. 17 da Lei n° 4.595, de 1964), quais sejam: intermediação ou aplicação de recursos financeiros próprios ou de terceiros, em moeda nacional ou estrangeira, e a custódia de valor de propriedade de terceiros. Como se passa a demonstrar, o enquadramento da impugnante como empresa financeira contradiz tudo que foi dito no curso do procedimento fiscal, inclusive no TVF. Afirmou a fiscalização que as operações de empréstimos exercidas pela contribuinte eram atividades comerciais: "as operações de empréstimos, factoring, mútuos e similares, quando habituais são atividades comerciais e/ou civis". As factoring não são instituições financeiras, nos termos da Lei n° 4.595, de 1964, possuindo, inclusive, tratamento próprio, previsto no art. 58 da Lei n° 9.430, de 1996, para fins de imposto de renda. Assim, tendo sido constatado, no curso da ação fiscal, que a impugnante exercia atividades de "factoring", estranhamente, só no TVF, último ato do procedimento fiscal, os auditores fiscais, depois de afirmar que devem aplicar o maior percentual possível no arbitramento, mudam de idéia. Essa contradição é evidenciada especialmente quando se considera que os auditores fiscais declaram que pretendem aplicar o maior percentual do arbitramento (45%) próprio das instituições financeiras, enquanto que as factoring, mesmo em caso de arbitramento, estão sujeitas a percentual inferior. Os mútuos realizados, conforme confirmado pela auditoria fiscal nas inúmeras diligências realizadas, em relação aos mutuários da impugnante, eram praticados por meio da emissão de cheques ou transferências pela impugnante para os mutuários, em troca Fl. 3854DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 8 7 de cheques dos mutuários ou de terceiros, ou seja, a impugnante realizava verdadeira troca de títulos, o que enquadra perfeitamente na previsão do art. 58 da Lei n° 9.430, de 1996, que estabelece o conceito de operações de factoring. Como relatado no procedimento fiscal, a impugnante troca cheques, "prédatados" para curto ou médio prazo, apresentados pelos mutuários, cheques estes de terceiros, obtidos pelos mutuários certamente em decorrência de vendas mercantis, por recursos à vista. Considerando que os cheques são direitos creditórios e decorrem de operações mercantis fica caracterizada a operação de factoring, afastando a possibilidade de equiparação à instituição financeira. III.2. Impossibilidade de exigência de escrituração contábil nos termos do art. 160 do RIR Como já relatado, a fiscalização equiparou a impugnante à instituição financeira, com base nos arts. 150 e 160 do RIR, contudo o art. 160 não se adequa ao caso dos autos. Verificase que o mencionado art. 160 do RIR/1999 referese tãosomente à hipótese de equiparação de pessoas físicas a "Empresas Individuais Imobiliárias" (Capítulo II Seção II), ou seja, atividade absolutamente estranha à atividade desenvolvida pela impugnante. Concluise, assim, que a aplicação do art. 160 do RIR à impugnante é flagrantemente ilegal, pois a norma não se amolda à espécie dos autos. Logo, todas aquelas consequências que os fiscais querem imputar à impugnante de que haveria obrigação de manutenção de escrituração contábil deve ser afastada. Constatase, novamente, que a fiscalização deveria ter utilizado de suas prerrogativas legais para requerer as informações necessárias às instituições financeiras, ao invés de pretender imputar à impugnante a responsabilidade por provar o impossível a ela, pois, agora, não resta alternativa senão julgar improcedente o combatido auto de infração. Frisase que o afastamento da aplicação do art. 160 do RIR põe por terra a aplicação do arbitramento, nos termos do art. 530, III do mesmo dispositivo. III.2.1. Impossibilidade do Arbitramento Possibilidade de Apuração do eventual Ganho na Atividade de Empréstimo O suporte legal adotado pelos fiscais para aplicar a tributação com base no arbitramento não merece prevalecer. Em primeiro lugar, durante todo o procedimento, os fiscais jamais apontaram qual livro precisariam para verificar a regularidade, ou seja, se precisaria do livro caixa, do livro diário, ou qualquer outro. Fl. 3855DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 9 8 Em segundo lugar, não se pode negar que outro elemento passível de utilização deve ser considerado, ou seja, no caso aqui em análise os comprovantes de todas as movimentações bancárias extratos. Nesse sentido, somente poderia ocorrer o arbitramento do lucro para fins de imposto de renda, quando efetivamente outro meio hábil não possa ser utilizado. Sendo assim, não se pode olvidar o flagrante equívoco do lançamento fiscal ao desconsiderar os aspectos corretos do caso, que se encontram à disposição da fiscalização. Se ela fez diligência nas Instituições Financeiras para pegar uma série de informações e cópia de documentos, porque não exigiu a apresentação de todos os detalhes da movimentação, se a própria impugnante comprovou que realizou o pedido e não foi atendida. III.2.2. Vedação à utilização do Arbitramento em Razão da Possibilidade de se apurar o Lucro Real Ficará demonstrado ainda que é possível a apuração da eventual renda da impugnante pela sistemática do lucro real, determinandose sua renda efetiva, o que afastaria por completo a possibilidade de utilização do arbitramento. Tal assertiva foi confirmada inúmeras vezes pela própria fiscalização, como, por exemplo, na descrição dos fatos e fundamentos legais do auto de infração, onde afirma: "A forma de tributação desta atividade é o Lucro Real ou na impossibilidade da apuração por esta forma, o Lucro Arbitrado;". Sem rodeios, a jurisprudência citada demonstra que, ainda que seja o último recurso passível de utilização, não se pode olvidar que a movimentação bancária pode ser importante instrumento para tributação de Imposto de Renda. Em miúdos, para afastar a malfadada tributação de arbitramento, que só tem vez em última instância, até mesmo a sistemática acima apontada pode ser utilizada. III.2.2.A Da possibilidade de apuração do ganho obtido nas operações de mútuo Impossibilidade do arbitramento Como se constata, não há dúvida de que a movimentação da impugnante decorre das operações de mútuo realizada por esta. Assim, como é notório e presumido, pelo art. 591 do CC/2002, que o mútuo de dinheiro é oneroso, ou seja, incidem juros, deve se concluir que os juros cobrados pela impugnante são os ganhos (o lucro) obtidos na realização das operações. Diferentemente do entendimento da fiscalização, sendo as operações de mútuo realizadas através de emissão de cheques, transferências, TEDs e DOCs e do recebimento de Cheques e depósitos, fica evidente que é possível calcular o montante dos empréstimos realizados e, por consequência, aplicar os juros cobrados sobre tal montante para se apurar os ganhos. Fl. 3856DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 10 9 Em seguida, a impugnante passa a explicitar o procedimento que tornaria possível a apuração do lucro real, com base nos juros cobrados nas operações de mútuo, afastando por completo a possibilidade do arbitramento. Para demonstrar a funcionalidade desse método de apuração do lucro real, a impugnante elaborou uma planilha seguindo o passo a passo por ela descrito (documento anexo). Verificase, pelo resultado apurado, que o valor obtido é infinitamente inferior aos 45% utilizado na apuração da base de cálculo a partir do equivocado arbitramento realizado, distanciado do rendimento real da impugnante e da previsão legal para sua utilização. Enquanto na apuração pela sistemática do arbitramento a base de cálculo do Imposto de Renda atingiu a vultuosa e surreal quantia de R$ 38.032.359,19, a apuração com base no lucro real, considerado o valor dos juros cobrados nas operações de mútuo não ultrapassou 5% do valor supra mencionado. Não espera a impugnante que a planilha apresentada seja aceita como valor definitivo; pelo contrário, a impugnante deseja e requererá que seja realizada perícia técnica para a apuração precisa dos ganhos obtidos através da cobrança de juros nas operações de mútuos, até porque acredita que um técnico poderá colaborar com a certeza esperada de todo procedimento fiscal. Vale ressaltar que a demonstração, acima explicitada, da forma de apuração da base de cálculo (ganho) do imposto de renda e da contribuição social sobre o lucro líquido deixa claro que os auditores fiscais não primaram pela busca da verdade material. III.2.2.B. Da possibilidade da apuração do lucro real mediante a consideração das "entradas" como receitas e das "saídas" como despesas, como admitido pela própria fiscalização Impossibilidade do arbitramento. A fiscalização, durante o procedimento fiscal, afirmou que "Nas operações de empréstimos, factoring ou mútuo, os pagamentos dos clientes representam as receitas, enquanto que os valores repassados a eles representam os custos." Sendo assim, pressupondo que a impugnante se equipare a factoring ou mesmo instituição financeira, o que faz para argumentar, os valores recebidos pela impugnante dos mutuários representam a receita, enquanto que os valores emprestados representam os custos, ou seja, as despesas. Vale ressaltar que os extratos bancários disponibilizados à fiscalização durante o procedimento fiscal podem e devem ser considerados como a própria escrituração fiscal da impugnante, uma vez que todas as operações de mútuo eram realizadas mediante movimentação bancária, sendo que os extratos são o próprio livro caixa da impugnante, estando neles registradas todas as operações. Fl. 3857DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 11 10 Para demonstrar como seria simples a apuração do lucro real (ganho) considerando as "entradas" de recursos nas contas bancárias como receitas e as "saídas" de recursos como despesas, assim como foi feito no tópico anterior, a impugnante fez uma breve exposição dos procedimentos para se chegar à base de cálculo do imposto de renda (documentos anexos), tendo ressaltado que, pelo resultado apurado, o valor obtido é infinitamente inferior ao arbitramento realizado, demonstrando a incorreção deste. III.3. Solidariedade entre Glauciane e Jamir Impropriedade Falta de previsão legal Violação à legalidade tributária Conforme se pode auferir no relatório fiscal e na vasta documentação anexada, as transações realizadas entre Jamir e Glauciane são extremamente reduzidas e de valor monetário ínfimo, comparandose com todas as demais operações praticadas, a ponto de poderem ser mencionadas uma a uma pelos auditores fiscais, enquanto as operações realizadas com terceiros nem sequer puderam ser identificadas. Ora, dentre inúmeras operações realizadas pela impugnante, bastaram apenas cerca de quatro com Jamir para se rotular uma sociedade? Ademais, o argumento trazido à baila perde força principalmente pelo fato de a fiscalização desconsiderar totalmente outras operações realizadas pela Sra. Glauciane com terceiros ou seja, não o Sr. Jamir, em quantidade muito maior e com movimentação financeira também mais elevada. E isso ganha ainda maior plausibilidade pelo fato de Jamir assentar na sua DIRPF a realização de mútuo com a ora impugnante. Outro fundamento apresentado pela fiscalização para anotar a existência de solidariedade tem supostamente suporte no fato de Jamir ser procurador da impugnante, assim como, ambos possuírem procuradoresprepostos em comum. Mais uma vez, imperioso destacar que ambos vivem em uma cidade do interior. Atuam na mesma área. Assim, a impugnante achou por bem, a título de prudência, outorgar Procuração para Jamir, pessoa de sua inteira confiança e com a qual mantém relacionamento pessoal, no caso de alguma medida urgente. É de se destacar com grande ênfase que, muito embora Jamir possua procuração outorgada pela impugnante, ele jamais realizou qualquer ato sequer em nome dela. No que se refere a ambos possuírem procuradorpreposto em comum, a sustentação supra se encaixa aqui. Essas pessoas são das poucas na cidade que têm capacidade ou que prestam essas espécies de serviço, com desenvoltura, tendo ressaltado que os serviços praticados foram meramente superficiais. Segundo os fiscais, algumas operações bancárias realizadas foram praticadas em conjunto com Jamir. No entanto, tal conduta não pode significar parceria ou sociedade. Qualquer Fl. 3858DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 12 11 pessoa que passe os olhos na presente peça poderá verificar que os fatos e argumentos se entrelaçam e estão em perfeita sintonia. Ora, como os prepostosprocuradores são, em algumas oportunidades, comuns, podem, por praticidade, realizar o ato de forma conjunta. Em síntese, pode até ser que ocorra coincidência de transferência financeira do Sr. Jamir e a impugnante em uma mesma operação em favor de terceiro. Isso se deve pela suposta praticidade do funcionário que realiza o ato, que no caso é um preposto em comum. Vale lembrar que, tanto Jamir quanto a impugnante, realizam seus mútuos através do recebimento de cheques do mutuário ou de terceiros; logo, apesar da operação de empréstimo ser, eventualmente, realizada em conjunto, por praticidade do executor da transferência dos recursos, que é o mesmo, os recebimentos dos empréstimos se dá de forma totalmente isolada, uma vez que Jamir deposita os cheques que recebeu, que somados compreendem o valor do empréstimo por ele realizado, e Glauciane deposita aqueles que estão em seu poder trocados com o mutuário. Os fiscais apresentam outro argumento para justificar a solidariedade entre Jamir e a impugnante. Desta feita, assinalam que a impugnante passou a aumentar a sua capacidade econômica substancialmente, enquanto Jamir, ao seu turno, passou a reduzir. Não existe nenhum suporte lógico e coerente que fundamente essa conclusão. Talvez, essa premissa possa ser concluída de outras formas. A começar, ela é falha porque se pauta em presunções e não em provas. Em seguida, porque, conforme é cediço, Jamir tem outras atividades, sendo certo que, em alguns períodos pode ter reduzido o trabalho de mútuo por estar necessitando de recursos para suas outras atividades. Sempre importante ressaltar que outro fundamento relevante é o que a impugnante é uma forte concorrente e pode ter atraído mais interessados que Jamir, por exemplo, por praticar taxas menores. Logo, mais sensata tal conclusão para justificar o progresso de um e regresso de outro. Por fim, alega a impugnante que, como não existe previsão legal, para não aparecer absurda a conclusão alcançada, a fiscalização assentou a suposta solidariedade nos artigos 134 e 135 do C'TN. Nessa esteira, algumas considerações devem ser observadas. A primeira e mais importante, é que não existe sociedade entre Jamir e a impugnante. Impossível alcançar tal conclusão fática ou juridicamente. A propósito, a própria fiscalização reconhece tal fato na medida em que criou CNPJ separadamente para Jamir e a impugnante. Se é o caso de sociedade, por que não um CNPJ único? Por exclusão lógica, a hipótese que o Sr. Jamir e a impugnante poderiam se enquadrar seria no art. 134, VII e 135, I do CTN, ou seja, sócios. Nessa esteira argumentativa, inexiste qualquer Fl. 3859DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 13 12 possibilidade de, no caso concreto, sociedade de pessoas. Ora, tudo gira em torno de capital, recursos, mútuo etc. A sociedade de pessoas passou a ser denominada no Código Civil de 2002, como sociedade simples, caracterizando pela realização de atividade intelectual, científica, literária ou artística, o que certamente se diferencia da atividade de mútuo, realizada pela impugnante. Ademais, a responsabilidade subsidiária somente terá vez no caso de liquidação. Destaquese novamente que inexiste sociedade. E, se ela existisse, não se pode afirmar, evidentemente, que ela estaria em sede de liquidação. Refutada, portanto, a alegação do art. 134, VI do CTN. Logo, o art. 135, que fala em responsabilidade pessoal, também não tem aplicabilidade no caso concreto. Isso porque a fiscalização não demonstrou cabalmente qual seria a lei, ou Contrato social, ou estatuto ou os excessos de poderes que teriam sido violados. Além disso, o art. 135 não trata de responsabilidade solidária, trata de responsabilidade pessoal do sócio em relação à pessoa jurídica e não de solidariedade entre supostos sócios de empresa que nunca existiu. Por fim, não se pode olvidar que outra falha gritante da fiscalização foi deixar de observar que, relativamente à penalidade, com exceção à de caráter moratório, esta jamais poderá ser alvo de solidariedade, sob pena, inclusive, de violação expressa de disposição normativa art. 134, parágrafo único do CTN. III.4 Multa Aplicada III.4.1 Multa de 150% art. 44, II da Lei n° 9.430/96 Falta de previsão legal A penalidade aplicada teria previsão legal no art. 44, II da Lei n° 9.430, de 1996. Nessa linha, exsurge a primeira questão: como os fiscais chegaram à conclusão de que se deveria pagar multa no importe de 150% do valor do tributo, de acordo com a redação atual do art. 44, II da Lei 9.430, de 1996? Principalmente, pelo fato de o lançamento tributário ter sido concretizado em maio de 2009, ou seja, cerca de três anos após as multas de 150% terem sido excluídas do referido diploma normativo? Evidentemente, a conduta adotada está desamparada de suporte legal, em total ausência de sintonia com os princípios da legalidade e da tipicidade tributárias, positivadas no texto constitucional. Nesse sentido, pois, não deve prevalecer a penalidade imposta, devendo ser imediatamente afastada. Fl. 3860DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 14 13 III.4.2 Inaplicabilidade do art. 44 da Lei n° 9.430/1996 Efeito confiscatório da penalidade aplicada Violação do art. 150, IV da CRFB A penalidade deve ser afastada de plano, pois além de atualmente não existir previsão legal para sua aplicação, ela tem evidente efeito confiscatório. Em reiteradas decisões, o Supremo Tribunal Federal (STF) tem utilizado o enunciado normativo do art. 150, inciso IV, da Constituição da República para afastar multa tributária exorbitante decorrente de descumprimento de obrigação tributária. Destaquese: tributo e penalidade tributária não podem ter efeito confiscatório. Logo, multa correspondente a uma vez e meia ao tributo a ser pago, viola o direito à propriedade e, consequentemente, possui caráter de confisco. III.4.3 Inaplicabilidade do art. 44 da Lei n° 9.430/1996 Tipicidade cerrada tributária flagrantemente violada Violação ao postulado da coerência Conforme restou consignado durante todo o curso da ação fiscal, todas as intimações enviadas para a impugnante traziam em seu corpo que, em caso de falta de atendimento, ou quiçá, reiteração das requisições apresentadas, ensejaria aplicação da penalidade prevista no art. 968 do RIR. Assim, a partir do momento em que a fiscalização insere em uma carta oficial de intimação que, em caso de descumprimento, ensejará multa nos termos do art. 968 do RIR, indubitavelmente, até mesmo em respeito ao postulado da coerência, que o Auditor Fiscal não pode se valer de outros mecanismos para aplicar penalidade mais severa. Isso é quebrar com os princípios da segurança jurídica e o da boafé na relação Estadocontribuinte. Portanto, caso não seja afastada a penalidade imposta, em primeiro lugar, porque inexiste conduta típica; em segundo, em razão de o dispositivo legal utilizado como suporte inexistir no ordenamento jurídico; em terceiro lugar, porque resta flagrante o efeito confiscatório do ato, em total falta de sintonia com art. 150, IV da CRFB, seja a penalidade desqualificada e, por conseguinte, aplicado o enunciado previsto no art. 968 do RIR, conforme previsto no ordenamento jurídico brasileiro e inserido no corpo do texto de todas as cartas. III.4.4. Eventualidade: inaplicabilidade do art. 44 da Lei n° 9.430/1996 Inexistência de fraude Retroatividade benigna Lei n° 11.488/2007. Talvez os Auditores Fiscais tenham observado indevidamente a legislação em vigência à época da concretização dos supostos fatos geradores. No entanto, ela não terá aplicabilidade ao caso concreto, quer em razão da inexistência de fraude, dolo etc; quer Fl. 3861DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 15 14 em virtude da aplicação da retroatividade benigna da lei com relação às penalidades, nos termos do art. 106 do CTN. Nessa linha argumentativa, pois, devese destacar que em nenhum momento o impugnante teve como escopo agir com fraude, isto é, visando prejudicar o fisco. E mais, os Auditores Fiscais responsáveis não assinalaram isso com veemência e, muito menos, comprovaram verdadeiro intuito de fraude. Passa se a discorrer. III.4.5.1 Inexistência de fraude no caso concreto Inaplicabilidade da antiga redação do art. 44, II da lei n° 9.430/1996 A fiscalização pressupôs uma série de condições, sem levar em consideração as condutas corretas e realmente praticadas pela contribuinte, totalmente em sentido contrário àquelas que visam agir com fraude. Vejase, pois, alguns exemplos: a) a contribuinte sempre apresentou declaração de Imposto de Renda; b) ela sempre teve como escopo atender às solicitações deste renomado órgão federal, comprovando documentalmente que estava diligenciando junto às instituições financeiras; c) apresentou informações relativas ao seu patrimônio, quando solicitada; d) quando teve acesso a informações junto às instituições bancárias relativamente à origem de recursos, sempre compartilhou informações com a RFB; e) todas as indagações formuladas ao longo da fiscalização foram respondidas. Então, a partir dessa conduta realizada pela impugnante e que deveria ter sido detectada pela fiscalização, questionase: (i) existe fraude no caso concreto? (ii) O contribuinte teve realmente intenção de macular? Ora, todos esses fatos e provas em conjunto demonstram evidentemente a boafé na conduta da impugnante ao longo dos anos, por conseguinte, faltando elemento essencial para se caracterizar a fraude: o animus. Sem a existência do elemento subjetivo, devidamente presente e comprovado, não há que se falar em fraude e/ou sonegação. Conforme exaustivamente debatido e decidido pelo Conselho de Contribuintes, a fraude, para ser configurada, dependerá de prova inequívoca ou ser minuciosamente justificada e comprovada nos autos pela fiscalização. No caso dos autos, não se pode esquecer que existem três situações evidentes que afastam a fraude: (i) a autoridade fiscalizadora não atendeu aos requisitos legais, isto é, ela não apontou de forma minuciosa e não houve prova nenhuma em Fl. 3862DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 16 15 relação à suposta conduta fraudulenta; (ii) a autoridade administrativa fundamentou e apurou o crédito tributário por meio de presunções, equivocadas, no entanto; e (iii) voluntariamente, a contribuinte demonstrou a seriedade dos seus atos, comprovando e fundamentando a sua interpretação da legislação tributária, inclusive atendendo todas as solicitações realizadas durante o processo de fiscalização. Ocorre que se, por suposição, a interpretação da legislação tributária feita pelo contribuinte estiver equivocada, ou seja, mera omissão de receita porventura existente, isso, por si só, não resulta necessariamente em fraude. Assim sendo, não se pode olvidar que o instituto da fraude não se caracterizou no caso concreto, devendo, por conseguinte, ser afastada a multa qualificada aplicada e as demais consequências. III.4.5.2 Aplicação da lei em vigência quando da constituição do suposto crédito tributário Lançamento tributário art. 144 CTN Amparandose na antiga redação da Lei n° 9.430/1996, a fiscalização aplicou multa qualificada de 150%. Ocorre, entretanto, que a referida lei, que sustenta a aplicação da mencionada multa, foi revogada pela Lei n° 11.488/2007 com vigência a partir da sua publicação. Portanto, mais do que evidente que o dispositivo sofreu alteração substancial na sua redação, conforme anteriormente exposto. De acordo com art. 144 do CTN, o lançamento tributário deverá ser regido pela lei vigente à época da ocorrência do fato jurígeno. Entretanto, tal regra é aplicada tãosomente no que se refere à obrigação tributária principal de pagar tributo. Logo, em relação às penalidades por descumprimento de obrigação tributária, a regra será outra. O Capítulo III do Livro II do CTN, especificamente os arts. 105 e 106, dispõem acerca da aplicação da legislação tributária. O diploma legal, inspirado no direito penal, ao tratar das sanções em matéria tributária, determina a aplicação da lei mais favorável ou mais branda em favor do contribuinte. Já foi sustentada acima a inexistência de fraude no caso concreto, motivo pelo qual a multa aplicada deve ser afastada. Entretanto, em respeito ao princípio da eventualidade, a penalidade deverá ser reduzida e ser pautada de acordo com a legislação atual Lei n° 11.488/2007. E, assim sendo, em sede de conclusão, a penalidade não deverá permanecer porque: (i) inexiste conduta atípica que faça incidir multa ou qualquer penalidade tributária; (ii) a penalidade aplicada no Auto de Infração não possui previsão legal no ordenamento jurídico; (iii) a penalidade aplicada não está em sintonia com o texto constitucional, sendo mais do que evidente a existência de caráter confiscatório; (iv) simples omissão de Fl. 3863DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 17 16 receita, que não é a hipótese dos autos, não corresponde necessariamente à fraude, motivo pelo qual totalmente imprópria a aplicação da redação antiga da Lei; (v) diante da flagrante inexistência de fraude, conforme salientado, caso tenha que ser mantida penalidade, que, ao invés de 150% do valor do tributo, seja aplicada a penalidade prevista no art. 968 do RIR, conforme destacado pelo fiscal em todos os termos de intimação, ou, quiçá a redação atual da Lei n° 11.488, de 2007. IV Dos PEDIDOS Por tudo quanto exposto, requer seja julgado improcedente o Auto de Infração, por conseguinte, extinto o lançamento tributário e afastado o pretenso crédito tributário tributo e multa. Em respeito à eventualidade, caso não seja acolhido o pedido supra, que seja afastada a possibilidade de aplicação do arbitramento, e apurado o ganho efetivo e real das operações de mútuo, para que tais valores sirvam de base de cálculo para a tributação. Requer, ainda, que seja afastada a penalidade aplicada 150% do valor do tributo , pois esta não existe no ordenamento jurídico brasileiro, bem como pelo fato de inexistir fraude, dolo ou sonegação no caso concreto e, principalmente, por não ter sido devidamente demonstrada pela autoridade fiscal; por ter evidente caráter confiscatório. Ainda em respeito à eventualidade, caso seja considerado típico qualquer ato praticado, que a penalidade seja aplicada, de acordo com a legislação nacional em vigência e asseverada nos termos de intimações fiscais, ou seja, o disposto no art. 968 do RIR. Por fim, caso nenhuma das alternativas acima seja admitida, requer que, em última instância, seja aplicada a penalidade prevista no art. 44, II da Lei n° 9.430/1996, redação atual, em respeito ao disposto no art. 106 do CTN. Requer, também, a produção de prova documental, ainda não disponibilizada pelas instituições financeiras, mas, especialmente, produção de prova pericial, considerando a necessidade de comprovação de que é possível apurar o ganho da impugnante pela sua movimentação bancária (Quesitos em anexo). Foram juntados ao contraditório apresentado os documentos de fls. 1726/1895. Por sua vez, a impugnação apresentada por Jamir de Souza Machado foi anexada às fls. 1898/2098, tendo sido postada em 15/06/2009, conforme documento de fls. 2099/2100. I. DA TEMPESTIVIDADE DA IMPUGNAÇÃO Fl. 3864DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 18 17 O impugnante recebeu a notificação do Auto de Infração ora impugnado no dia 06/05/2009 (quartafeira), tendo solicitado cópia integral do Procedimento Fiscal. Considerando que a Delegacia Regional pediu um prazo de 10 dias para fornecer as cópias solicitadas, imprescindíveis à defesa do impugnante, foi requerido o restabelecimento do prazo para impugnação pelo menos em idêntico período, ou seja, de 10 dias, em razão do manifesto cerceamento de defesa, o que foi deferido pelo Delegado da Receita Federal. Assim, tendo a intimação do Auto de Infração ocorrido no dia 06/05/2009, e considerando o restabelecimento de mais 10 dias para se tentar minimizar o cerceamento de defesa, temse que o prazo final para apresentação da impugnação encerrouse em 17/06/2009, estando demonstrada a tempestividade da presente impugnação, interposta em 15 de junho do corrente ano. II. DA REDUÇÃO DO PRAZO LEGAL DE IMPUGNAÇÃO, DA IMPRESTABILIDADE DA CÓPIA DO PROCESSO ADMINISTRATIVO E O DIREITO DE DEFESA DO IMPUGNANTE Conforme relatado, o impugnante requereu cópia integral do Processo Tributário Administrativo (PTA) a fim de exercer seu direito ao contraditório e à ampla defesa garantidos constitucionalmente. Tendo em vista a redução do prazo de defesa garantido legalmente pelo art. 15 do Decreto n° 70.235, 1972, em razão da burocracia da RFB para se obter simples cópias do PTA, bem como em razão das cópias fornecidas estarem praticamente imprestáveis, verificase que o direito de defesa do impugnante sofreu visível abalo. Devese reconhecer que, em razão da limitação do prazo de defesa do impugnante, outras provas que não foram obtidas pela escassez de tempo de defesa deverão ser admitidas oportunamente, assim como alguns argumentos aqui apresentados poderão ser complementados para uma melhor compreensão da questão colocada nos autos ao longo do procedimento fiscal, sob pena de tornar inválido o presente processo tributário administrativo, já que demonstrado o cerceamento do direito de defesa do impugnante. III. DOS FATOS O impugnante faz referência aos fatos que motivaram a autuação, tendo salientado que a fiscalização conduziu o procedimento fiscal, sempre tentando vincular o impugnante à Sra. Glauciane Maria de Souza. Logo, a partir da condução subjetiva e do préjulgamento realizado pelos auditores fiscais, desde o início dos trabalhos, concluiu a fiscalização de acordo com sua mera convicção inicial, em absoluto desprezo do conjunto probatório. Fl. 3865DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 19 18 A presente impugnação tem como intuito combater as conclusões equivocadas da fiscalização em relação ao PTA n° 10665.000563/200984, enquanto os demais PTAs serão impugnados por meio de peças processuais autônomas. IV. DO DIREITO IV.1. PréJulgamento Presunção de Inocência No que tange à parte do direito da presente peça, afirma que as condutas praticadas pelos fiscais estão em total dessintonia com os princípios basilares do Estado Democrático de Direito. A começar pelo fato de se afastar do princípio da legalidade, previsto no art. 5°, II, art. 37 e 150, I, todos da Constituição. A busca pela verdade material foi deixada de lado e em seu lugar foram incluídas presunções, ou melhor, ficções não jurídicas. Nessa linha, não se pode olvidar que, além de violar o princípio da legalidade, outro, basilar do Estado de Democrático de Direito, também o foi: "presunção da inocência". Portanto, a partir do momento em que os fiscais se afastaram de princípios basilares do ordenamento jurídico, o da presunção da inocência, não se pode olvidar flagrante vício em todo o procedimento fiscalizatório. IV.2 Vinculação do Impugnante à Sra. Glauciane e o Sr. Jamir Impropriedade Falta de previsão legal Violação à legalidade tributária IV.2.1 Da inexistência de fundamentação legal para atribuir ao impugnante a movimentação realizada na contada Sra. Glauciane. O impugnante faz a transcrição do art. 42 da Lei n° 9.430, de 1996, com destaque dos §§ 5° e 6°. Em seguida, ressalta que o parágrafo 5° aplicase exclusivamente aos casos de interposição de terceiros, ou seja, quando "provados que os valores creditados na conta de depósito ou de investimento pertencem a terceiro", o que não ocorreu no presente caso. A ausência de provas foi reconhecida pela própria fiscalização, que apenas afirmou que haveriam indícios da interposição de terceiro, mas não provas, tanto que fundamentou a imputação da movimentação bancária da Sra. Glauciane ao impugnante por outros argumentos. No tocante ao parágrafo 6°, salienta o impugnante que este se aplica, exclusivamente, "Na hipótese de contas de depósito ou de investimento MANTIDAS EM CONJUNTO", em trecho adiante tal fato é ressaltado "o valor dos rendimentos ou receitas será imputado a cada titular mediante divisão entre o total dos rendimentos ou receitas pela quantidade de TITULARES." Fl. 3866DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 20 19 Ora, o impugnante e a Sra. Glauciane nunca tiveram contas conjuntas, ou seja, nunca foram titulares de uma mesma conta bancária. Como, apesar de todos os esforços da fiscalização, as provas coletadas levavam a conclusão diversa daquela tomada em pré julgamento, a fiscalização, para não aceitar o equívoco cometido e para justificar todo o trabalho realizado, forçou a aplicação dos dispositivos supramencionados, sem qualquer correlação lógicalegal. Ademais, impossível não admitir que as provas coletadas não demonstram a ocorrência de interposição de terceiros. Dessa forma, imperioso o cancelamento do Auto de Infração lavrado contra o impugnante, uma vez que não há fundamento legal que lhe dê suporte. Além disso, como ficará comprovado a seguir, não há fundamento fático também, pois as movimentações bancárias da Sra. Glauciane são exclusivamente dela. IV.2.2. Da existência de recursos próprios da Sra. Glauciane que justificam a movimentação bancária por ela apresentada. Salienta o impugnante que, ao contrário do que afirmou a fiscalização, a Sra. Glauciane possuía bem mais do que R$ 53.791,11 para a realização das operações de mútuo. Além desse valor, verificase que a Sra. Glauciane efetuou um saque o valor de R$ 891.000,00 em sua conta corrente n° 4.719 5 da CEF, no dia 30/12/2003. Considerando que seria impossível que todo esse valor fosse gasto pela Sra. Glauciane antes da virada do ano, tornase lógico que esse valor também estava disponível para a Sra. Glauciane realizar suas operações de mútuo. Além disso, como a Sra. Glauciane realizava empréstimos para recebimento futuro, é certo que vários créditos em suas contas bancárias, realizados nos primeiros meses de 2004, referemse a recursos que já eram de propriedade da Sra. Glauciane e que se encontram emprestados a terceiros. Por fim, vale ressaltar que o montante movimentado nas contas bancárias depende muito mais do prazo em que os empréstimos são realizados do que propriamente do valor disponível para tanto. Ademais de ser absurda a hipótese de que os empréstimos realizados pela Sra. Glauciane seriam feitos com prazo de 1 dia, se considerarmos que na verdade ela teria a sua disposição R$ 1,4 milhões, e que a movimentação real nas contas bancárias nas quais a fiscalização constatou as operações de empréstimos, excluindose as devoluções de cheques, alcança tãosomente R$ 38 milhões e não R$ 60 milhões, como alegado pela fiscalização, os valores parecem mais compatíveis. Fl. 3867DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 21 20 Não se tem a pretensão de sustentar ou comprovar a disponibilidade financeira da Sra. Glauciane, bem como a possibilidade ou não de tais recursos justificarem sua movimentação financeira. Pretendeuse tãosomente demonstrar que as afirmações vagas da fiscalização, desprovidas de qualquer demonstração metodologicamente compreensível, não podem sustentar que a Sra. Glauciane não teria recursos para realizar a movimentação bancária constante de suas contas correntes, e, menos ainda, de demonstrar a vinculação com o impugnante. Constatase, portanto, que se trata de mera alegação de que a Sra. Glauciane não teria recursos suficientes para justificar sua elevada movimentação bancária, mera suposição da fiscalização. Mesmo que assim o fosse, isso em nada a vincula ao impugnante, que, digase de passagem, na lógica da fiscalização também não teria recursos para justificar sua movimentação bancária, quem dirá, a sua e da Sra. Glauciane. IV.2.3. Das Supostas operações comerciais entre o impugnante e a Sra. Glauciane. Conforme se pode auferir no relatório fiscal e na vasta documentação anexada, as transações realizadas entre Jamir e Glauciane são extremamente reduzidas e de valor monetário ínfimo, comparandose com todas as demais operações praticadas, a ponto de poderem ser mencionadas uma a uma pelos auditores fiscais, enquanto as operações realizadas com terceiros, nem sequer puderam ser identificadas na sua integralidade. Ora, dentre inúmeras operações realizadas pelo impugnante, bastaram algumas poucas, cerca de dez operações com a Sra. Glauciane para se rotular uma sociedade? Ademais, o argumento trazido à baila perde força principalmente pelo fato de a fiscalização desconsiderar totalmente outras operações realizadas pela Sra. Glauciane com terceiros ou seja, não o Sr. Jamir , em quantidade muito maior e com movimentação financeira também mais elevada, conforme exemplos citados. Ocorre que, em meio a essas tantas operações, a fiscalização de forma casuística pretende sustentar que o impugnante movimentou recursos através das contas da Sra. Glauciane, porque não os demais? Vale ressaltar que o impugnante não ocultou as operações de mútuo realizadas com a Sra. Glauciane. Pelo contrário, estas foram declaradas na sua DIRPF, sendo as movimentações bancárias entre o impugnante e a Sra. Glauciane decorrentes desta operação de mútuo. IV.2.4. Dos procuradores comuns Outro fundamento apresentado pela fiscalização para anotar a existência de sociedade entre o impugnante e a Sra. Glauciane seria a existência de procuração dela para ele movimentar suas contas bancárias e dela para o Sr. Anderson e o Sr. Frank, que também são procuradores do impugnante. Fl. 3868DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 22 21 Com relação à procuração outorgada pela Sra. Glauciane para o impugnante, como informado durante o procedimento fiscal, o impugnante é pessoa de confiança da Sra. Glauciane, tendo esta solicitado que ele figure como seu procurador junto a instituição financeira para numa eventual necessidade representar a Sra. Glauciane. Ocorre que o impugnante nunca utilizou tal procuração, ou seja, não foi realizada nenhuma operação pelo impugnante em nome da Sra. Glauciane, uma vez que esta nunca o solicitou. No que se refere a ambos possuírem procuradorpreposto em comum, a sustentação supra se encaixa aqui. Essas pessoas são das poucas na cidade que têm capacidade ou que prestam essas espécies de serviço, com desenvoltura. Em verdade, o impugnante utilizase dos serviços do Sr. Anderson e do Sr. Frank há mais tempo para a realização das citadas operações de mútuo, sendo estes pessoas de absoluta confiança do mesmo, tendo indicado essas pessoas, quando a Sra. Glauciane passou a exercer tal atividade e com o crescimento do volume de movimentações. Verificase que tal fato em nada compromete as operações realizadas pelo impugnante ou pela Sra. Glauciane, bem como não vincula uma pessoa a outra, pelo contrário, demonstra que ambos realizam operações de mútuo, mas cada um seus negócios individualmente (necessário nesta atividade), sendo os prepostosprocuradores os responsáveis pela operacionalização. IV.2.5. Das supostas transferências comuns de recursos entre o impugnante e a Sra. Glauciane. O defendente afirma que a fiscalização distorceu as informações prestadas por terceiros apenas para tentar justificar a sua conduta abusiva de vinculação do impugnante à Sra. Glauciane. Inicia a explanação pelas informações prestadas pelas instituições financeiras e pelos documentos apresentados por estas, conforme foi registrado às fls. 37 a 41 do Termo de Verificação Fiscal. Com relação à alegação da fiscalização de que teriam sido efetuados saques na conta da Sra. Glauciane e depositados nas contas do impugnante, verificase, no ANEXO 1 do Termo de Verificação Fiscal, que foram identificados duas operações dessa natureza, uma no importe de R$ 5.000,00 de 18/05/2004 e outra de R$ 3.842,00 do dia 12/04/2004. Como já afirmado anteriormente, o impugnante realizou operação de mútuo com a Sra. Glauciane, tendo tal fato sido, inclusive, registrado em sua DIRPF. Assim, a realização dessas duas únicas transferências em valores módicos, comparativamente com as demais operações realizadas pela Sra. Glauciane, deixa evidente que tal fato em nada demonstra que o impugnante utilizavase das contas bancárias desta. Fl. 3869DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 23 22 Além dessas duas operações, consta do mesmo ANEXO 1 do Termo de Verificação Fiscal, algumas operações (identificadas pelos documentos de n. 39 a 58) descritas pela fiscalização como sendo "CH a Glauciane p/finalidades de utilizações diversas, c/possivel depósito em dinheiro p/Jamir". Na realidade, a fiscalização não sabe para que foram utilizados os recursos, por isso afirmou que seriam destinados a "utilizações diversas", aproveitando a impossibilidade de se determinar o destino dos recursos supôs que teriam sido destinados ao impugnante. Isto resta claro pelo próprio termo utilizado "c/possível" , fica evidente que se trata de suposição sem qualquer comprovação. Ademais, verificando os documentos identificados como de n. 39 a 58; não se vê nenhuma menção ao impugnante, sequer há indicio de que os valores teriam sido depositados nas contas bancárias deste. Foram identificadas algumas operações realizadas pela Sra. Glauciane com o Sr. Murilo Ribeiro Reis, sócio do impugnante em algumas empresas. Como demonstrado anteriormente, a Sra. Glauciane realiza muitas operações de mútuo, com diversas pessoas, dentre elas também com o Sr. Murilo Ribeiro Reis, por acaso sócio do impugnante. Não há no relatório da fiscalização qualquer indício de que as operações realizadas pela Sra. Glauciane com o Sr. Murilo Ribeiro Reis merecessem tamanho destaque, a não ser pelo fato de o mesmo ser sócio do impugnante, ou seja, as operações não alcançam valores diferentes dos comumente operados pela impugnante; as operações não são realizadas com maior frequência do que com outras pessoas; o modus operandi também não se diferencia, ou seja, não há qualquer razão para se destacar tais operações, a não ser a subjetividade e imparcialidade da fiscalização em tentar demonstrar alguma vinculação entre a Sra. Glauciane e o impugnante, mesmo que, para isso, fuja de qualquer critério de razoabilidade, beirando o absurdo. O último indicativo da suposta vinculação entre a Sra. Glauciane e o impugnante, apontado pela fiscalização, seria a realização de saque, débitos autorizados no caixa etc. na conta da Sra. Glauciane, cujos recursos foram utilizados para envio pelo Sr. Jamir a terceiros e viceversa, bem como a realização da mesma operação com complementação de recursos da Sra. Glauciane e do Sr. Jamir para realização uma única transferência para terceiro. Mais uma vez, como já esclarecido acima, o que se verifica, de fato, é que os documentos acostados nos autos não comprovam as afirmações feitas pela fiscalização. Conforme ANEXO 1 do Termo de Verificação Fiscal, na tabela "Débitos autorizados realizados na conta corrente da Glauciane Maria de Souza", os documentos n. 42 a 61, 64, 66, 67, 68, 71, 85, 124 e 126 seriam os comprovantes da realização das operações em conjunto pelo impugnante e pela Sra. Glauciane. Fl. 3870DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 24 23 As operações representadas pelos documentos estão registradas unicamente em nome de uma delas, algumas em nome do impugnante, outras vezes, em nome da Sra. Glauciane. Não há qualquer indício de que o recurso sacado na conta de um tenha sido utilizado pelo outro para a realização de TEDs e DOCs. Os comprovantes de saques possuem a identificação precisa da conta sacada; bem como do titular desta, não havendo qualquer menção a outra pessoa. Da mesma forma, os documentos relativos às transferências realizadas identificam perfeitamente o sacado (conta e nome) e o beneficiário do recurso, não havendo nenhuma informação que indique que o recurso provém da conta bancária da Sra. Glauciane e foi realizada a transferência pelo impugnante, ou viceversa. A alegação da fiscalização de que haveria saque na conta de um e utilização dos recursos por outro, ou complementação de recurso do impugnante e da Sra. Glauciane para realização de uma única operação em nome de apenas um deles, simplesmente foi presumida pela fiscalização, não havendo sequer um documento que demonstre tal operação, nem mesmo que contenha o nome dos dois (salvo as operações realizadas diretamente entre eles, já explicadas). Acreditase que, a partir de anotações manuscritas, teria a fiscalização concluído que a identificação do nome da Sra. Glauciane e de valores seria prova de que houve a alegada complementação de valores entre o Sra. Glauciane e o Sr. Jamir. Inicialmente, vale destacar que anotações sem identificação de autoria, praticamente incompreensíveis não apenas quanto à leitura, mas também no que estariam relacionadas às operações representadas nos documentos, não podem ser admitidas como prova de nada. Afinal, qualquer um poderia ter realizado tal anotação, utilizando do documento, inclusive como uma forma de rascunho. Ademais, poderiam tais anotações ter sido realizadas em momento distinto da realização das operações representadas nos documentos, estando desvinculadas destas. Ora, como os prepostosprocuradores são, em algumas oportunidades, comuns, podem, por praticidade, realizarem o ato de forma conjunta. Em outros termos e em síntese, pode até ser que ocorra coincidência de transferência financeira do impugnante e da Sra. Glauciane em uma mesma operação em favor de terceiro, mas isso se deve, exclusivamente, pela suposta praticidade do funcionário que realiza o ato. Encerrada a demonstração que as diligências realizadas nas instituições financeiras em nada corroboraram com a alegação da fiscalização de que o impugnante utilizaria as contas correntes da Sra. Glauciane para operações de mútuo, passase à análise das diligências realizadas junto a terceiros, que receberam ou enviaram recursos à Sra. Glauciane, descritas no ANEXO 2 do Termo de Verificação Fiscal. Fl. 3871DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 25 24 Ressalta que, das 33 diligências realizadas pela fiscalização, em apenas 11 houve suposta relação com o impugnante, tendo todas as outras comprovado que a Sra. Glauciane realizava autonomamente operações de mútuo com terceiros. IV.2.6. Análise das 11 diligências em que, supostamente, teria vinculado o impugnante às movimentações nas contas bancárias de titularidade da Sra. Glauciane. Prossegue o defendente com a análise das 11 diligências em que, supostamente, teria se vinculado às movimentações nas contas bancárias de titularidade da Sra. Glauciane. Ao final conclui o impugnante que o resultado das diligências foi distorcido pela fiscalização a fim de tentar demonstrar que o impugnante teria participação nestas movimentações, contudo, ponto a ponto foi demonstrado que as conclusões da fiscalização não merecem crédito. Assim, inexiste qualquer possibilidade de imputação ao impugnante da movimentação bancária da Sr. Glauciane, motivo pelo qual requer o cancelamento do auto de infração combatido. IV.2.7. Impropriedade da atribuição de solidariedade Falta de previsão legal Alega o impugnante que, como não existe previsão legal, para não aparecer absurda a conclusão alcançada, a fiscalização assentou a suposta solidariedade nos artigos 134 e 135 do CTN. Nessa esteira, algumas considerações devem ser observadas. A primeira e mais importante, é que não existe sociedade entre o Sr. Jamir e a Sra. Glauciane. Impossível alcançar tal conclusão fática ou juridicamente. A propósito, a própria fiscalização reconhece tal fato na medida em que criou CNPJ separadamente para a Sra. Glauciane e o impugnante. Se é o caso de sociedade, por que não um CNPJ único? Por exclusão lógica, a hipótese que o Sr. Jamir e a impugnante poderiam se enquadrar seria no art. 134, VII e 135, I do CTN, ou seja, sócios. Nessa esteira argumentativa, inexiste qualquer possibilidade de, no caso concreto, sociedade de pessoas. Ora, tudo gira em torno de capital, recursos, mútuo etc. A sociedade de pessoas passou a ser denominada no Código Civil de 2002, como sociedade simples, caracterizando pela realização de atividade intelectual, científica, literária ou artística, o que certamente se diferencia da atividade de mútuo, realizada pelo impugnante. Ademais, a responsabilidade subsidiária somente terá vez no caso de liquidação. Destaquese novamente que inexiste sociedade. E, se ela existisse, não se pode afirmar, evidentemente, que ela estaria em sede de liquidação. Refutada, portanto, a alegação do art. 134, VI do CTN. Logo, o art. 135, que fala em responsabilidade pessoal, também não tem aplicabilidade no caso concreto. Isso porque a Fl. 3872DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 26 25 fiscalização não demonstrou cabalmente qual seria a lei, ou contrato social, ou estatuto ou os excessos de poderes que teriam sido violados. Além disso, o art. 135 não trata de responsabilidade solidária, trata de responsabilidade pessoal do sócio em relação à pessoa jurídica e não de solidariedade entre supostos sócios de empresa que nunca existiu. Por fim, não se pode olvidar que outra falha gritante da fiscalização foi deixar de observar que, relativamente à penalidade, com exceção a de caráter moratório, esta jamais poderá ser alvo de solidariedade, sob pena, inclusive, de violação expressa de disposição normativa art. 134, parágrafo único do CTN. Os fiscais apresentam outro argumento para justificar a solidariedade entre o Sr. Jamir e a impugnante. Desta feita, assinalam que a impugnante passou a aumentar a sua capacidade econômica substancialmente, enquanto o Sr. Jamir, ao seu turno, passou a reduzir. Não existe nenhum suporte lógico e coerente que fundamente essa conclusão. Talvez, essa premissa possa ser concluída de outras formas. A começar, ela é falha porque se pauta em presunções e não em provas. Em seguida, porque, conforme é cediço, o Sr. Jamir tem outras atividades, sendo certo que, em alguns períodos pode ter reduzido o trabalho de mútuo por estar necessitando de recursos para suas outras atividades. Sempre importante ressaltar que outro fundamento relevante é o que a impugnante é uma forte concorrente e pode ter atraído mais interessados que o Sr. Jamir, por exemplo, por praticar taxas menores. Logo, mais sensata tal conclusão para justificar o progresso de um e regresso de outro. Assim, diante de todos esses argumentos expostos que, faticamente, inexiste qualquer possibilidade de imputação de solidariedade e, juridicamente, tal conclusão não possui suporte legal. IV.3. Equiparação do Impugnante à Instituição Financeira A fiscalização equiparou o impugnante à Instituição Financeira, com base nos arts. 150 e 160 do RIR/1999. Nos termos legais, são atividades das instituições financeiras a "intermediação ou aplicação de recursos financeiros próprios ou de terceiros, em moeda nacional ou estrangeira, e a custódia de valor de propriedade de terceiros." As atividades das instituições financeiras em nada se confundem com as operações realizadas pelo impugnante que, como foi afirmado durante todo o procedimento fiscal e comprovado pela Fl. 3873DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 27 26 própria fiscalização, consistiam na realização de empréstimos por meio da troca de títulos de crédito de terceiros. Para que não reste dúvidas, vale rememorar que os empréstimos realizados pelo impugnante eram feitos por meio da compra de títulos de crédito, ou seja, o impugnante recebia dos mutuários "cheques prédatados", próprios ou de terceiros, e notas promissórias disponibilizando o recurso financeiro representado por esses títulos de forma imediata através da emissão de cheques ou realização de transferências bancárias para os mutuários. Assim, quando do vencimento dos "cheques pré datados", estes eram depositados nas contas do imPugnante e as notas promissórias eram resgatadas pelos mutuários pela entrega de cheques, dinheiro ou transferências para as contas do impugnante. A realização de empréstimos ou mútuos tem regulamentação pela lei civil e não pela legislação das instituições financeiras, podendo ser praticada por qualquer pessoa física ou jurídica nos termos do Código Civil. Assim demonstrado, tornase impossível a aplicação do arbitramento nos termos do art. 533 do RIR/1999 como pretende a fiscalização, uma vez que tal previsão se aplica exclusivamente a instituições financeiras que realizem as operações elencadas no referido dispositivo. Como se verifica de trecho do "Termo de Verificação Fiscal" do PTA n° 10665.000564/200929, os auditores expressamente afirmam que o arbitramento deve ser realizado "com aplicação do maior percentual para se apurar o lucro". Esse trecho demonstra que a fiscalização não estava preocupada em aplicar o arbitramento adequado ao caso, mas tãosomente aplicar o maior percentual para se apurar o lucro, mesmo que para tanto tivesse que inventar que as operações do impugnante tratavamse de operações próprias de instituições financeiras, apenas para aplicar o maior percentual possível para apuração do lucro no arbitramento, no caso, 45% para definição da base de cálculo. O enquadramento do impugnante como instituição financeira contradiz tudo que foi dito no curso do procedimento fiscal tanto pelo impugnante quanto pela fiscalização. Afirmou a fiscalização, por diversas vezes, como se depreende dos TIF n. 003, 004, 005 e 006, que as operações de empréstimos exercidas pelo contribuinte seriam operações comerciais de factoring. As factoring não são instituições financeiras, nos termos da Lei n° 4.595, de 1964, possuindo, inclusive, tratamento próprio, previsto no art. 58 da Lei n° 9.430, de 1996, para fins de imposto de renda. Assim, tendo durante todo o procedimento fiscal ficado demonstrado que as operações de mútuo realizadas pelo impugnante se equivalem à atividade de "factoring", não poderia a fiscalização, no TVF, último ato do procedimento fiscal, sem a ocorrência de nenhum fato novo, alterar o seu entendimento Fl. 3874DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 28 27 apenas para aplicar o maior percentual possível do arbitramento, ou seja, apenas para arrecadar mais. Inclusive, corroborando todas essas afirmações e a configuração da operação de factoring, a título exemplificativo, o impugnante faz referência à diligência 06.1.07.002008004327 realizada pela fiscalização junto à Bonet Madeiras e Papéis Ltda., tal contribuinte esclareceu a finalidade dos recebimentos de recursos como sendo decorrentes das operações; de factoring; e à diligência n° 06.1.07.002008004211, realizada junto ao Sr. Nelson Adriano dos Santos, que também deixaria claro que as operações eram realizadas mediante já troca de cheques, o que descaracteriza totalmente as operações realizadas como operações de instituições financeiras, pois, como se sabe, estas são impedidas de realizar estes negócios jurídicos, estando obrigadas a sempre realizar a compensação dos cheques. Considerando que os cheques são direitos creditórios e decorrem de operações mercantis, fica caracterizada a operação de factoring, afastando a possibilidade de equiparação à instituição financeira. Assim, ainda que o órgão julgador entenda ser hipótese de arbitramento, as operações realizadas devem ser consideradas de factoring e não como próprias de instituições financeiras. IV.4. Impossibilidade da Realização do Arbitramento IV.4.1.Impossibilidade de exigência de escrituração contábil nos termos do art. 160 do RIR, como fundamento jurídico para a realização do arbitramento Como já relatado, a fiscalização equiparou o impugnante à instituição financeira, utilizandose da previsão do art. 150 do RIR/1999. Apesar de confusa a fundamentação apresentada pela fiscalização para sustentar a realização do arbitramento, com muito exercício hermenêutico, é possível concluir que tal sistemática foi adotada em razão da ausência de escrituração contábil, nos termos do art. 160 do RIR. Ocorre que o art. 160 do RIR, fundamento legal para exigência da escrituração contábil, que, por sua vez, foi o fundamento para a realização do arbitramento, não se adequa ao caso dos autos, sendo certo que a mesma não está obrigada ao cumprimento das determinações do referido dispositivo, como sustentaram os Auditores Fiscais. Verificase que o mencionado art. 160 do RIR/1999 referese tãosomente à hipótese de equiparação de pessoas físicas a "Empresas Individuais Imobiliárias" (Capítulo II— Seção II), ou seja, atividade absolutamente estranha à atividade desenvolvida pelo impugnante. Como ficou demonstrado, não se aplicando o art. 160 do RIR ao impugnante e, por consequência, não estando o mesmo obrigado Fl. 3875DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 29 28 à manutenção de escrituração fiscal, afastase por completo todas as hipóteses legais para a utilização do arbitramento como forma de determinação da base de cálculo do tributo, uma vez que tais hipóteses pressupõem a exigência de manutenção da escrituração fiscal. IV.4.2 Vedação à utilização do Arbitramento em Razão da Possibilidade de se apurar o Lucro Real, ou seja, a renda efetiva Ficará demonstrado, ainda, que é possível a apuração da eventual renda do impugnante pela sistemática do lucro real, determinandose sua renda efetiva, o que afastaria por completo a possibilidade de utilização do arbitramento. Tal assertiva foi confirmada inúmeras vezes pela própria fiscalização, como, por exemplo, na descrição dos fatos e fundamentos legais do auto de infração, onde afirma: forma de tributação desta atividade é o Lucro Real ou na impossibilidade da apuração por esta forma, o Lucro Arbitrado". Assim, passase a demonstrar as possibilidades de apuração da base de cálculo do imposto de renda e da CSLL a partir do ganho efetivo nas operações de mútuo, que pode ser determinado pela movimentação bancária do impugnante. IV.4.2.1. Da possibilidade de apuração do ganho obtido nas operações de mútuo Impossibilidade do Arbitramento Como se constata, não há dúvida de que a movimentação do impugnante decorre das operações de mútuo realizada por este. Assim, como é notório e presumido, pelo art. 591 do CC/2002, que o mútuo de dinheiro é oneroso, ou seja, incidem juros, deve se concluir que os juros cobrados pelo impugnante são os ganhos (o lucro) obtidos na realização das operações e devem ser apurados para determinar a base tributável. As operações de mútuo eram realizadas através de emissão de cheques, transferências, TEDs e DOCs e do recebimento de cheques de terceiros. Logo, fica evidente que é possível calcular o montante dos empréstimos realizados e, por conseqüência, aplicar o juros cobrados sobre tal montante para se apurar os ganhos. Em seguida, o impugnante passa a explicitar o procedimento que tornaria possível a apuração do lucro real, com base nos juros cobrados nas operações de mútuo, afastando por completo a possibilidade do arbitramento. Para demonstrar a funcionalidade desse método de apuração do lucro real, o impugnante elaborou uma planilha seguindo o passo a passo por ele descrito (documentos anexo). Verificase, pelo resultado apurado, que o valor obtido é infinitamente inferior aos 45% utilizado na apuração da base de cálculo a partir do equivocado arbitramento realizado, distanciado do rendimento real do impugnante e da previsão legal para sua utilização. Fl. 3876DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 30 29 Enquanto na apuração pela sistemática do arbitramento a base de cálculo do Imposto de Renda atingiu a vultuosa e surreal quantia de aproximadamente R$ 7,5 milhões, apenas das duas contas consideradas pela fiscalização, o levantamento efetuado com base no lucro real, apurado sobre o valor dos juros e correção monetária cobrados nas operações de mútuo, não ultrapassou 5% do valor supra mencionado. Não espera o impugnante que a planilha apresentada seja simplesmente acolhida e aceita como valor definitivo. Pelo contrário, o impugnante deseja e requererá que seja realizada perícia técnica para a apuração precisa dos ganhos obtidos através da cobrança de juros nas operações de mútuos, até porque acredita que um técnico poderá colaborar com a certeza esperada de todo procedimento fiscal. Vale ressaltar que a fiscalização pode confirmar o montante dos juros e correção monetária com a verificação das próprias diligências realizadas no curso do procedimento, já que alguns contribuintes que realizaram operações com o impugnante informaram exatamente o valor dos títulos trocados e o valor pago na liquidação do mútuo, tornando evidente a possibilidade de apuração dos valores. IV.4.2.2. Escrituração das operações com base nos extratos bancários Além da possibilidade de apuração do valor do juros cobrados como acima demonstrado, o impugnante, em um trabalho minucioso a partir dos extratos bancários, buscou identificar algumas operações para determinar qual o montante emprestado e o valor recebido. Como ressaltado durante o procedimento fiscal, o impugnante só teria condição de identificar cada uma das operações, com valor emprestado, valor recebido e beneficiário, a partir da obtenção da microfilmagem dos cheques emitidos e recebidos. Porém, diante da dificuldade de obtenção nas instituições financeiras das microfilmagens dos cheques (conforme informado durante o procedimento fiscal e solicitação feita após a autuação doc. anexo), o impugnante buscou identificar cada uma das operações, por meio de "borderôs". Em cada borderô foi identificado o cheque ou transferência que representa a realização do empréstimo ao mutuário e, em contrapartida, foram identificados os depósitos que representam a quitação do referido empréstimo, a título de amostragem. A partir desse levantamento, ficará cabalmente comprovado o lucro/ganho real em cada uma das operações, afastando por completo a necessidade e possibilidade de realização do arbitramento. Vale ressaltar que se tratando de um trabalho minucioso e sendo as operações em grande número, o que é agravado pela falta dos cheques que demonstram a operação, ainda não foi possível o Fl. 3877DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 31 30 levantamento completo das informações, o que se pretende concluir ao longo do processo administrativo. Assim, a partir dessas operações identificadas tornase possível o cálculo do juros médios das operações e, aplicandose esses juros médios sobre os demais empréstimos realizados terseá a base de cálculo da tributação do Imposto de Renda e da Contribuição Social sobre o Lucro. Tais fatos deixam claro que a fiscalização não primou pela busca da verdade material, ficando evidenciado o interesse de apenas aumentar a arrecadação dos tributos, mesmo que, para isso, tenha que se afastar da legalidade e da razoabilidade, o que torna impossível a realização do arbitramento. Ainda que se admita o arbitramento, não se pode olvidar que os elementos disponibilizados durante todo o procedimento de fiscalização devem ser observados, conforme exposto acima. O presente caso concreto não é de instituição financeira, mas sim de factoring, cujo tratamento legislativotributário é específico. Nessa linha, pois, devese ter em mente que, ao contrário do que foi estipulado pelos fiscais, nem todas as entradas na empresa de factoring devem ser equiparadas à receita/faturamento e renda, para fins de tributação. Isso reflete não só para fins de IR, mas também e em mesmo grau, para CSLL, PIS e Cofins. Fazendo referência a disposições do Ato Declaratório SRF n° 9, de 23/02/2000 e à jurisprudência, ressalta o impugnante que o lançamento deverá observar os preceitos normativos elencados, enfatizando que somente os ganhos (diferença entre saída e entrada de recursos) devem ser observados. IV.4.2.3. Da possibilidade da apuração do lucro real mediante a consideração das "entradas" como receitas e as "saídas" como despesas, como admitido pela própria Fiscalização Impossibilidade do arbitramento. A fiscalização em praticamente todos os Termos de Intimação Fiscal, afirmou que "Nas operações de empréstimos, factoring ou mútuo, os pagamentos dos clientes representam as receitas, enquanto que os valores repassados a eles representam os custos." (TIF n. 006, pg.1). Sendo assim, pressupondo que o impugnante se equipare a factoring ou mesmo instituição financeira, o que faz para argumentar, os valores recebidos pelo impugnante dos mutuários representam a receita, enquanto que os valores emprestados representam os custos, ou seja, as despesas. Vale ressaltar que os extratos bancários disponibilizados à fiscalização durante o procedimento fiscal podem e devem ser considerados como a própria escrituração fiscal do impugnante, uma vez que todas as operações de mútuo eram realizadas Fl. 3878DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 32 31 mediante movimentação bancária, sendo que os extratos são o próprio livro caixa do impugnante, estando neles registradas todas as operações. Para demonstrar como seria simples a apuração do lucro real (ganho) considerando as "entradas" de recursos nas contas bancárias como receitas e as "saídas" de recursos como despesas, assim como foi feito no tópico anterior, o impugnante fez uma breve exposição dos procedimentos para se chegar a base de cálculo do imposto de renda (documentos anexos), tendo ressaltado que, pelo resultado apurado, o valor obtido é infinitamente inferior ao arbitramento realizado, demonstrando o equívoco, quer pelo seu distanciamento no tocante à verdade material, ao efetivo ganho do impugnante, quer pela ausência, repitase, de previsão legal para sua utilização. V MULTA APLICADA V.1 Multa de 150% art. 44, II da Lei n° 9.430/96 falta de previsão legal A penalidade aplicada teria previsão legal no art. 44, II da Lei n° 9.430, de 1996. Nessa linha, exsurge a primeira questão: como os fiscais chegaram à conclusão de que se deveria pagar multa no importe de 150% do valor do tributo, de acordo com a redação atual do art. 44, II da Lei 9.430, de 1996? Principalmente, pelo fato de o lançamento tributário ter sido concretizado em maio de 2009, ou seja, cerca de três anos após as multas de 150% terem sido excluídas do referido diploma normativo? Evidentemente, a conduta adotada está desamparada de suporte legal, em total ausência de sintonia com os princípios da legalidade e da tipicidade tributárias, positivados no texto constitucional. Nesse sentido, pois, não deve prevalecer a penalidade imposta, devendo ser imediatamente afastada. V.2 Inaplicabilidade do art. 44 da Lei n° 9.430/1996 Efeito confiscatório da penalidade aplicada Violação do art. 150, IV da CRFB A penalidade deve ser afastada de plano, pois além de atualmente não existir previsão legal para sua aplicação, ela tem evidente efeito confiscatório. Em reiteradas decisões, o Supremo Tribunal Federal (STF) tem utilizado o enunciado normativo do art. 150, inciso IV, da Constituição da República para afastar multa tributária exorbitante decorrente de descumprimento de obrigação tributária. Destaquese: tributo e penalidade tributária não podem ter efeito confiscatório. Logo, multa correspondente a uma vez e meia ao tributo a ser pago, viola o direito à propriedade e, consequentemente, possui caráter de confisco. Fl. 3879DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 33 32 V.3 Inaplicabilidade do art. 44 da Lei n° 9.430/1996 Tipicidade cerrada tributária flagrantemente violada Violação ao postulado da coerência Conforme restou consignado durante todo o curso da ação fiscal, todas as intimações enviadas para o impugnante traziam em seu corpo que, em caso de falta de atendimento, ou quiçá, reiteração das requisições apresentadas, ensejaria aplicação da penalidade prevista no art. 968 do RIR. Assim, a partir do momento em que a fiscalização insere em uma carta oficial de intimação que, em caso de descumprimento, ensejará multa nos termos do art. 968 do RIR, indubitavelmente, até mesmo em respeito ao postulado da coerência, que o Auditor Fiscal não pode se valer de outros mecanismos para aplicar penalidade mais severa. Isso é quebrar com os princípios da segurança jurídica e o da boafé na relação Estadocontribuinte. Portanto, caso não seja afastada a penalidade imposta, em primeiro lugar, porque inexiste conduta típica; em segundo, em razão de o dispositivo legal utilizado como suporte inexistir no ordenamento jurídico; em terceiro lugar, porque resta flagrante o efeito confiscatório do ato, em total falta de sintonia com art. 150, IV da CRFB, seja a penalidade desqualificada e, por conseguinte, aplicado o enunciado previsto no art. 968 do RIR, conforme previsto no ordenamento jurídico brasileiro e inserido no corpo do texto de todas as cartas. V.4 Eventualidade: inaplicabilidade do art. 44 da Lei n° 9.430/1996 Inexistência de fraude Retroatividade benigna Lei n° 11.488/2007. Talvez os Auditores Fiscais tenham observado indevidamente a legislação em vigência à época da concretização dos supostos fatos geradores. No entanto, ela não terá aplicabilidade ao caso concreto, quer em razão da inexistência de fraude, dolo etc; quer em virtude da aplicação da retroatividade benigna da lei com relação às penalidades, nos termos do art. 106 do CTN. Nessa linha argumentativa, pois, devese destacar que em nenhum momento o impugnante teve como escopo agir com fraude, isto é, visando prejudicar o fisco. E mais, os Auditores Fiscais responsáveis não assinalaram isso com veemência e, muito menos, comprovaram o verdadeiro intuito de fraude. Passase a discorrer. V.5 Inexistência de fraude no caso concreto Inaplicabilidade da antiga redação do art. 44, II, da Lei n° 9.430/1996 A fiscalização, quando impingiu a multa qualificada, pressupôs uma série de condições, sem levar em consideração as condutas corretas e realmente praticadas pelo contribuinte, totalmente em sentido contrário àquelas que visam agir com fraude. Vejase, pois, alguns exemplos: Fl. 3880DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 34 33 a) o contribuinte sempre apresentou declaração de Imposto de Renda; b) ele sempre teve como escopo atender às solicitações deste renomado órgão federal, comprovando documentalmente que estava diligenciando junto às instituições financeiras; c) apresentou informações relativas ao seu patrimônio, quando solicitado; d) quando teve acesso a informações junto às instituições bancárias relativamente à origem de recursos, sempre compartilhou informações com a RFB; e) todas as indagações formuladas ao longo da fiscalização foram respondidas. Então, a partir dessa conduta realizada pelo impugnante e que deveria ter sido detectada pela fiscalização, questionase: (i) existe fraude no caso concreto? (ii) O contribuinte teve realmente intenção de macular? Ora, todos esses fatos e provas em conjunto demonstram evidentemente a boafé na Conduta do impugnante ao longo dos anos, por conseguinte, faltando elemento essencial para se caracterizar a fraude: o animus. Sem a existência do elemento subjetivo, devidamente presente e comprovado, não há que se falar em fraude e/ou sonegação. Conforme exaustivamente debatido e decidido pelo Conselho de Contribuintes, a fraude, para ser configurada, dependerá de prova inequívoca ou ser minuciosamente justificada e comprovada nos autos pela fiscalização. No caso dos autos, não se pode esquecer que existem três situações evidentes que afastam a fraude: (i) a Autoridade Fiscalizadora não atendeu aos requisitos legais, isto é, ela não apontou de forma minuciosa e não houve prova nenhuma em relação à suposta conduta fraudulenta; (ii) a Autoridade Administrativa fundamentou e apurou o crédito tributário por meio de presunções, equivocadas, no entanto; e (iii) voluntariamente, o impugnantecontribuinte demonstrou a seriedade dos seus atos, comprovando e fundamentando a sua interpretação da legislação tributária, inclusive atendendo todas as solicitações realizadas durante o processo de fiscalização. Desde a primeira manifestação, o impugnante vem afirmando que realizava operações de mútuo, tendo sido tal fato confirmado pela fiscalização. Também afirmou que não 'possuía nenhum documento de controle das operações, uma vez que elas eram controladas pelos próprios títulos (cheques). Ressaltese que em diligências realizadas pelos Auditores Fiscais nas instituições financeiras e mutuários, os fatos foram integralmente confirmados. Verdadeiramente, o que se verifica nos autos é que tudo que foi dito pelo contribuinte foi demonstrado, justificado e comprovado pela própria Fl. 3881DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 35 34 fiscalização. Logo, como imputar ao impugnante a condição da fraude, em razão de não manter escrituração fiscal, se este entendia que não estava obrigado e afirmou textualmente esta condição quando questionado. Assim sendo, não se pode olvidar que o instituto da fraude não se caracterizou no, caso concreto, devendo, por conseguinte, ser afastada a multa qualificada aplicada e as demais consequências. V.6 Aplicação da lei em vigência quando da constituição do suposto crédito tributário Lançamento tributário art. 144 CTN Amparandose na antiga redação da Lei n° 9.430/1996, a fiscalização aplicou multa qualificada de 150%. Ocorre, entretanto, que a referida lei, que sustenta a aplicação da mencionada multa, foi revogada pela Lei n° 11.488/2007 com vigência a partir da sua publicação. Portanto, mais do que evidente que o dispositivo sofreu alteração substancial na sua redação, conforme anteriormente exposto. De acordo com art. 144 do CTN, o lançamento tributário deverá ser regido pela lei vigente à época da ocorrência do fato jurígeno. Entretanto, tal regra é aplicada tãosomente no que se refere à obrigação tributária principal de pagar tributo. Logo, em relação às penalidades por descumprimento de obrigação tributária, a regra será outra. O Capítulo III do Livro II do CTN, especificamente os arts. 105 e 106, dispõem acerca da aplicação da legislação tributária. O diploma legal, inspirado no direito penal, ao tratar das sanções em matéria tributária, determina a aplicação da lei mais favorável ou mais branda em favor do contribuinte. Já foi sustentada acima a inexistência de fraude no caso concreto, motivo pelo qual a multa aplicada deve ser afastada. Entretanto, em respeito ao princípio da eventualidade, a penalidade deverá ser reduzida e ser pautada de acordo com a legislação atual Lei n° 11.488/2007. E, assim sendo, em sede de conclusão, a penalidade não deverá permanecer i porque: (i) inexiste conduta atípica que faça incidir multa ou qualquer penalidade tributária; (ii) a penalidade aplicada no Auto de Infração não possui previsão legal no ordenamento jurídico; (iii) a penalidade aplicada não está em sintonia com o texto constitucional, sendo mais do que evidente a existência de caráter confiscatório; (iv) simples omissão de receita, que não é a hipótese dos autos, não corresponde necessariamente à fraude, motivo pelo qual totalmente imprópria a aplicação da redação antiga da Lei; (v) diante a flagrante inexistência de fraude, conforme salientado, caso tenha que ser mantida penalidade, que, ao invés de 150% do valor do tributo, seja aplicada a penalidade prevista no art. 968 do RIR, conforme destacado pelo fiscal em todos os termos de intimação, ou, quiçá. Fl. 3882DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 36 35 VI DOS PEDIDOS Por tudo quanto exposto, requer seja julgado improcedente o Auto de Infração, por conseguinte, extinto o lançamento tributário e afastado o pretenso crédito tributário tributo e multa. Em respeito à eventualidade, caso não seja acolhido o pedido supra, que seja afastada a possibilidade de aplicação do arbitramento, e apurado o ganho efetivo e real das operações de Mútuo, para que tais valores sirvam de base de cálculo para a tributação. Requer, ainda, que seja afastada a penalidade aplicada 150% do valor do tributo , pois esta não existe no ordenamento jurídico brasileiro. Ademais, deve ser afastada pelo fato de inexistir fraude, dolo ou sonegação no caso concreto e, principalmente, por não ter sido devidamente demonstrada pela Autoridade Fiscal; além de possuir evidente caráter confiscatório. Ainda em respeito à eventualidade, caso seja considerado típico qualquer ato praticado; que a penalidade seja aplicada, de acordo com a legislação nacional em vigência e asseverada nos termos de intimações fiscais, ou seja, o disposto no art. 968 do RIR. Por fim, caso nenhuma das alternativas acima seja admitida, requer que, em última instância, seja aplicada a penalidade prevista no art. 44, II da Lei n° 9.430/1996, redação atual, em respeito ao disposto no art. 106 do CTN. Requer, também, a produção de prova documental, ainda não disponibilizada pelas instituições financeiras, mas, especialmente, produção de prova pericial, considerando a necessidade de comprovação de que é possível apurar o ganho do impugnante pela sua movimentação bancária (Quesitos em anexo). Os documentos anexados à impugnação constam das fls. 1977/2098. O documento de fls. 2047/2096 tratase de cópia de impugnação apresentada por Glauciane pertinente ao processo n° 10665.000564/200984. Em sessão de 11 de agosto de 2009, a 2a Turma da Delegacia de Julgamento de Belo Horizonte, por unanimidade de votos, decidiu pela improcedência da impugnação, com a manutenção integral dos montantes lançados e afastou, ainda, o pedido de perícia formulado. Com a ciência da decisão, a interessada interpôs recurso, no qual repisou, basicamente, os argumentos da impugnação, acrescidos de farta documentação, notadamente cópias de borderôs e de cheques. Em 05 de agosto de 2010, esta Turma, a partir da relatoria do Conselheiro Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, resolveu converter o julgamento em diligência para que a autoridade preparadora informasse se fora dada ciência ao responsável Jamir de Souza Machado, posto que não fora encontrado, nos autos, recurso voluntário em seu nome. Fl. 3883DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 37 36 Consta dos autos, ainda que fora de ordem cronológica, manifestação de Glauciane Maria de Souza, pela qual requer a juntada de documentos obtidos a partir das cautelares impetradas contra instituições financeiras e cooperativas, com o objetivo de obter dados que comprovassem as suas alegações. A copiosa documentação foi acostada às fls. 3.229 e seguintes. Por força da Resolução exarada neste Conselho, a autoridade preparadora promoveu a ciência da decisão de primeira instância ao responsável solidário Jamir de Souza Machado, que, por seu turno, interpôs o correspondente Recurso Voluntário (fls. 3.682 e ss.), no qual repisou, em síntese, os argumentos formulados na impugnação. Posteriormente, o Voluntário em nome do Sr. Jamil foi emendado, para que o julgamento dos autos fosse sobrestado até que o STF se manifestasse no RE 389.808/PR, em que se discute o acesso a dados bancários sem ordem judicial. Depois de diversos trâmites internos neste Conselho, os autos foram distribuídos, por conexão, a este Relator, em 04 de agosto de 2015. Em sessão de 19 de janeiro de 2016, esta Turma resolveu, por unanimidade, converter o julgamento em diligência, para que os documentos trazidos pela responsável solidária Sra. Glauciane fossem apreciados pela autoridade fiscal, nos seguintes termos (destaques no original): Nesse sentido, em homenagem ao princípio da verdade material, que deve nortear o processo administrativo e, por decorrência, as decisões deste Conselho, aliado ao fato de que a Justiça Estadual reconheceu liminarmente a pretensão da Recorrente quanto à apresentação dos documentos, entendo conveniente a baixa dos autos em diligência, para que a autoridade competente: a) Analise a documentação acostada aos autos, por força das liminares concedidas, e elabore parecer conclusivo, com os cálculos pertinentes, sobre: se os documentos possuem ou não o condão de alterar os lançamentos efetuados ou qualquer dos seus fundamentos; se, à luz dos documentos, deve ser promovida qualquer alteração no que tange à responsabilidade solidária imputada às pessoas físicas. b) Intime, nos termos e na forma que julgar convenientes, os sujeitos passivos, contribuintes e responsáveis, para que estes prestem, caso necessário, esclarecimentos adicionais ou apresentem documentos complementares. c) Ao final, promova a ciência dos interessados acerca das conclusões, abrindolhes prazo para manifestação. Ressaltese que o processo deverá tramitar em conjunto com os autos de n. 10665.000564/200929, que discutem a mesma matéria fática e jurídica, razão pela qual o presente feito foi distribuído a este Relator, por conexão. Fl. 3884DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 38 37 Assim, ambos deverão ser encaminhados às autoridades de jurisdição do contribuinte e, após a adoção das providências solicitadas em diligência, deverão retornar a este Conselho, para apreciação e julgamento em conjunto. Em atendimento à Resolução deste Colegiado, a autoridade fiscal elaborou Termo de Diligência (fls. 3.819 e ss.), no qual apresenta suas conclusões. Os interessados foram cientificados do termo lavrado pela autoridade diligenciante. A Sra. Glauciane apresentou contrarrazões, que constam das fls. 3.829 e seguintes dos autos. O processo retornou a este Conselho e Relator para apreciação. É o relatório. Voto Conselheiro Roberto Caparroz de Almeida, Relator Os recursos são tempestivos e atendem aos pressupostos legais, razão pela qual deles conheço. Como os recursos dos solidários e as manifestações posteriores à diligência determinada por este Colegiado veiculam diversos argumentos, faremos a análise tópica dos pontos levantados pelas respectivas defesas. a) Preliminar de cerceamento de defesa O Sr. Jamir alega a imprestabilidade das cópias extraídas do processo, nos seguintes termos: As cópias foram reproduzidas de forma desorganizada e desconexa, sendo que a grande maioria encontrase com a identificação da página apagada, tornando impossível a organização das mesmas. Ademais, as páginas foram numeradas apenas o rosto das páginas, sendo que os versos não estão em seqüência. A despeito do argumento, não constatamos nos autos qualquer vício ou problema em relação à documentação acostada, que inviabilizasse o direito de defesa pelo interessado, que foi exercido em sua plenitude, como bem demonstra o longuíssimo Recurso Voluntário apresentado e as contrarrazões oferecidas ao término dos trabalhos de diligência. Descabe, portanto, a preliminar, que não deve ser acolhida. b) Preliminar de que a diligência não atendeu aos questionamentos determinados pelo CARF Entende a defesa da Sra. Glauciane que a autoridade diligenciante não atendeu aos questionamentos formulados por este Colegiado: Fl. 3885DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 39 38 O que se observou na presente manifestação fiscal é que a Auditoria Fiscal não apreciou os documentos juntados aos autos, especialmente os "borderôs", de forma precisa e minuciosa como o caso demandava, muito menos, considerando as alegações trazidas pelo Recorrente e pela Sra. Glauciane no decurso do processo administrativos, ou seja, a auditoria não realizou a diligência conforme os ditames deste i. Órgão Julgador. Neste ponto, penso que não assiste razão ao Recorrente, visto não se tratar de hipótese de nulidade, cujos requisitos são expressamente veiculados pelo artigo 59 do Decreto n. 70.235/72: Art. 59. São nulos: I – os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II – os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Sendo os atos e termos lavrados por pessoa competente, dentro da estrita legalidade e garantido o mais absoluto direito de defesa, não há que se cogitar de nulidade dos autos de infração ou da decisão de 1a instância. A diligência teve por objetivo dar oportunidade para que a autoridade fiscal se manifestasse acerca dos novos documentos trazidos aos autos pela Sra. Glauciane, o que efetivamente foi feito. A análise sobre o juízo emitido pela autoridade compete a este Colegiado, que o apreciará no mérito do processo, sem qualquer possibilidade de que as conclusões aduzidas, porventura contrárias ao entendimento da defesa, acarretem qualquer nulidade. Na esteira do artigo 18 do Decreto n. 70.235/72, com a redação dada pela Lei n. 8.748/93, este Relator encaminhou pela realização de diligência e a entende satisfatoriamente cumprida, razão pela qual não há espaço para a realização de novos procedimentos, como pretende o interessado: Art. 18. A autoridade julgadora de primeira instância determinará, de ofício ou a requerimento do impugnante, a realização de diligências ou perícias, quando entendêlas necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis, observando o disposto no art. 28, in fine. (grifamos) Afasto, portanto, a preliminar suscitada. c) Quanto ao Mérito: Presunção de inocência Aduz a defesa do Sr. Jamir que a fiscalização se preocupou em lhe imputar o descumprimento de normas tributárias sem verificar se houve efetiva violação dos respectivos dispositivos. Fl. 3886DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 40 39 Nesse contexto, entende que houve violação ao princípio constitucional da presunção de inocência e que este suposto desrespeito a preceitos basilares macularia o procedimento fiscal, pois teria havido "parcialidade na conduta e indução nas respostas obtidas". O argumento não prospera, dado que se constata a observância, durante os trabalhos de auditoria, de todos os procedimentos e fundamentos exigidos pela legislação, como se depreende dos autos de infração e dos termos de verificação, que descreveram minuciosamente as práticas observadas e a elas atribuíram os efeitos jurídicos prescritos pelo ordenamento. De se notar que a atividade fiscal é vinculada, nos termos do artigo 142 do Código Tributário Nacional, e que a eventual discordância dos contribuintes em relação às constatações das autoridades inaugura o contraditório, com a possibilidade de discussão das infrações e do exercício da ampla defesa, como se observa nos autos. Como inexiste vícios ou omissões nos lançamentos efetuados não há de se falar em nulidade, de sorte que não assiste razão ao Recorrente. d) Impropriedade na qualificação da suposta sociedade entre os solidários Neste ponto, os dois Recorrentes alegam falta de previsão legal para o entendimento de que atuavam conjuntamente, vale dizer, defendem que jamais existiu a sociedade de fato descrita pela autoridade fiscal, o que afastaria qualquer responsabilização solidária pelas atividades praticadas. Ambos alegam que em relação às contas bancárias da CREDIPÉU (de n. 31.6415 e 4.7195) toda a movimentação é de responsabilidade exclusiva da Sra. Glauciane, titular das referidas contas, o que, por si só, afastaria a responsabilidade do Sr. Jamir. Ocorre que a fiscalização demonstrou, à exaustão, a verdadeira confusão patrimonial e financeira entre as pessoas do Sr. Jamir e da Sra. Glauciane. Mais do isso: resta evidente que a Sra. Glauciane não possuía condições financeiras para realizar os vultosos empréstimos que lhe são atribuídos, o que nos leva a concluir que parte significativa dos recursos que ingressavam em suas contas era de fato suprida pelo Sr. Jamir, como atestam as constatações fiscais, a seguir reproduzidas: Na primeira etapa, foram solicitadas às Instituições Financeiras, cópias de documentos escolhidos por amostragens, baseados nos históricos e tipos de transações, com o objetivo de confirmar as declarações prestadas por Glauciane Maria de Sousa, de que as suas contas bancárias eram utilizadas para realizar operações de mútuos, com cobrança de juros de 1% (um por cento) ao mês, onde ela recebia do cliente cheques de terceiros ou não, em troca da entrega da disponibilidade de recursos no dia da transação. Os documentos selecionados, estão relacionados no "ANEXO 1: DOCUMENTOS REQUISITADOS AOS BANCOS", como segue: Fl. 3887DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 41 40 15.1) Cheques emitidos com débito na conta corrente da Sra. Glauciane (pagos no caixa, compensados e avulsos); constatamos as seguintes transações, observandose a obrigatoriedade da identificação do beneficiário, pela legislação em vigor: Cheques nominais a outras pessoas físicas não ligadas; Cheque no valor de R$ 64.976,00, sem condições de identificação, tendo em vista no local da identificação do beneficiário do cheque constar uma assinatura resumida; Cheques nominais a outras pessoas jurídicas não ligadas; Cheques nominais a pessoas físicas ligadas: Murilo Ribeiro Reis (pessoa que é sócia de empresas juntamente com o Sr. Jamir de Souza Machado) e Anderson Ferreira de Freitas (trabalha para o Sr. Jamir e para a Sra. Glauciane, com poderes para movimentar contas bancárias); Cheque no valor de R$ 45.481,00, com a identificação do beneficiário a designar; Cheques nominais ao Sr. Jamir de Souza Machado, muito embora a Sra. Glauciane e o Sr. Jamir tenham afirmado a inexistência de transações comerciais entre eles, podendo existir uma operação de mútuo; Cheques nominais a Glauciane, de valores expressivos,muito embora autenticados no caixa, serviram para efetuar diversas operações, inclusive para depósito em dinheiro em contas do Sr. Jamir de Souza Machado; Cheques nominais a Glauciane, de valores expressivos, muito embora autenticados no caixa, serviram para efetuar diversas operações que a princípio não possuem relação direta com o Sr. Jamir de Souza Machado, exceto em possíveis transações triangulares não investigadas para esses valores. 15.2) Créditos provenientes de depósitos ou transferências ou lançamentos contábeis, efetuados na conta bancária da Glauciane, selecionados por amostragem com base nos históricos dos extratos bancários, assim agrupados: Depósito em dinheiro realizado por pessoas físicas; Créditos na conta corrente da Glauciane, provindos de transferências de pessoas físicas; Créditos na conta corrente da Glauciane, provindos de transferências de pessoas jurídicas; Remessas efetuadas por empresas de arrendamento mercantil, fomento ou financeira a crédito da conta corrente da Glauciane; Transferência realizada pela empresa Alto da Boa Vista Mineração, no valor de R$ 200.000,00, (sendo que um dos sócios Fl. 3888DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 42 41 é o Sr. Jamir de Souza Machado), a crédito na conta corrente da Glauciane. Créditos realizados na conta corrente da Glauciane, com identificação das instituições financeiras de onde pessoas (físicas e/ou jurídicas) enviaram os recursos. Transferência de R$ 52.000,00 originária da conta corrente de Jamir de Souza Machado. Crédito proveniente a impugnação da devolução de cheque n° 8500035. 15.3) Débitos autorizados realizados na conta corrente de Glauciane Maria de Sousa, selecionados por amostragem, com o objetivo de verificar a destinação daqueles recursos. Destacamos as operações cruzadas de saques e débitos em conta corrente da Glauciane e/ou Jamir, cujos valores eram destinados à realização de suas operações de mútuo. Agrupamos as ocorrências semelhantes, com a identificação das origens dos recursos e suas aplicações, como segue: Valores debitados com autorização na conta corrente da Glauciane para a realização de transferências, depósitos e créditos em conta para pessoas físicas .(Doc. 1 a 30). Valores debitados com autorização na conta corrente e complementados com cheques nominais a Glauciane os quais foram sacados no caixa com o objetivo de efetuar o pagamento de débito de imposto (DAE) de empresas e depósitos em contas correntes e transferências de pessoas físicas e jurídicas.(doc. 31 a 41). Valores originários de débitos autorizados na conta corrente da Glauciane e complementados com saque no caixa de cheque emitido pela Glauciane, cujo montante foi destinado à remessa a pessoa jurídica, pelo Jamir, via TED. (Doc. 42 a 43) Valor originário de débito autorizado na conta corrente da Glauciane e complementado com saque no caixa de cheque emitido pelo Jamir, cujo montante foi destinado à remessa pelo Jamir de créditos a pessoas físicas e jurídicas. (Doc 44 a 46). Valores originários de débitos autorizados na conta corrente da Glauciane e complementados com saques no caixa de cheques emitidos pela Glauciane e cheque ou autorização de débito na conta do Jamir, cujos montantes foram destinados a remessas pelo Jamir de créditos a pessoas físicas e jurídicas. (Doc 47 a 65). Valores originários de débitos autorizados na conta corrente da Glauciane para crédito na conta corrente do Jamir para envio de TED a pessoa jurídica. (Doc 66 a 67). Fl. 3889DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 43 42 Valores originários de débitos autorizados na conta corrente da Glauciane e complementados com saques no caixa de cheques emitidos pela Glauciane e Jamir, cujos montantes foram destinados a remessas pela Glauciane de créditos a pessoas jurídicas e físicas (com alguns casos para o Sr. Murilo Ribeiro Reis, sócio do Jamir em algumas empresas) e pagamentos de contas diversas. (Doc 68 a 90). Valores debitados na conta da Glauciane e complementados com cheques emitidos pela mesma com a finalidade de efetuar transferências ou depósitos a pessoas físicas e jurídicas, inclusive ao sócio do Jamir, Sr. Murilo Ribeiro Reis. (Doc. 91 a 123). Valores debitados na conta corrente da Glauciane para crédito na conta do Jamir. (Doc. 124 a 126). Valor de transferência entre contas da Glaciane na Credipéu e Banco do Brasil, cuja origem de recursos está comprovada. (doc. 127). O valor do débito em conta no valor de R$ 845.000,00, acrescidos de saques em cheques de clientes da CREDIPÉU (R$ 34.351,00), perfazendo o total de R$ 880.000,00, foram disponibilizados para saque em nome da Glauciane no Banco do Brasil pela CREDIPÉU, uma vez que o Banco do Brasil é o supridor de recursos dos Bancos na praça de Pompéu, orientado pelo Banco Central do Brasil. Esses valores disponibilizados no Banco do Brasil podem ser em espécie ou utilizados para transferências ou créditos a terceiros, pagamentos, etc. A título de conclusão sobre a origem e a natureza das operações, a autoridade fiscal assim se manifestou: As contas correntes n's 47195 da agência 1426 da Caixa Econômica Federal e 31.6415 da agência 3161 da CREDIPÉU, em nome de Glauciane Maria de Sousa foram movimentadas com a finalidade de atender interesses em conjunto da Glauciane e do Jamir, sem a definição e comprovação das origens dos recursos e aplicando indistintamente o nome de um ou do outro, cujos fatos contradizem as declarações dos dois, quanto à inexistência de operações comerciais entre eles e à existência de apenas amizade e confiança recíproca; A vinculação dos recursos movimentados na conta em nome de Glauciane Maria de Sousa na CREDIPÉU com o Sr. Jamir de Souza Machado é evidenciada pelas transações citadas neste Termo e nos documentos ora anexados, cujos vínculos foram percebidos pela própria CREDIPÉU, conforme documento apresentado, em atenção à Intimação e às Requisições de Informações sobre Movimentação Financeira dirigidas àquela instituição. A Glauciane Maria de Sousa afirmou que a movimentação bancária se refere a empréstimo mútuo, cuja operação foi Fl. 3890DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 44 43 confirmada, com os documentos apresentados em decorrência das Requisições de Informações sobre Movimentações (...) As contas bancárias n° 4.7195 da Agência 1426 junto à Caixa Econômica Federal e n° 31.6415 da Agência 3161 da Cooperativa de Crédito Rural de Pompéu CREDIPÉU cadastradas em nome de Glauciane Maria de Sousa, CPF 057.582.43604, foram movimentadas em operações comerciais de empréstimos, com remuneração de juros, com participação na movimentação bancária das mesmas, direta ou indiretamente, do Sr. Jamir de Souza Machado, CPF 445.016.41649, cujas operações eram realizadas, com predominância, pelos seus procuradores em comum, Srs. Anderson Ferreira de Freitas e Frank Corrêa Lacerda Campos. Essas operações são comerciais e tributadas na Pessoa Jurídica. Glauciane Maria de Sousa, CPF 057.582.43604, e Jamir de Souza Machado, CPF 445.016.41649, foram inscritos de ofício no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas CNPJ, como pessoa jurídica equiparada, nos termos dos artigos 150 e 160, e seus parágrafos e incisos do Regulamento do Imposto de Renda RIR, Decreto 3.000/99, c/c artigos 10 e 19 da Instrução Normativa RFB n° 748 de 28/06/2007, tendo em vista a prática usual de operações comerciais de empréstimos a terceiros. O conjunto probatório é robusto e demonstra, à evidência, que o Sr. Jamir e a Sra. Glauciane, a partir de recursos comuns, fornecidos pelo primeiro e mediante a utilização de contas cuja titularidade pertencia à Sra. Glauciane, atuavam conjuntamente com o objetivo de lucro. A constatação ganha força com a comprovação de que ambos possuíam procuradores comuns, autorizados a movimentar as contas bancárias. A defesa dos dois solidários, conquanto tenha apresentado diversos argumentos teóricos, em nenhum momento consegue refutar, de forma cabal, as conclusões da autoridade fiscal. Nosso entendimento é compatível com a linha de raciocínio desenvolvida pela decisão de piso: Primeiramente, na impugnação apresentada por Jamir, foi salientada a existência de recursos próprios de Glauciane que justificariam a movimentação bancária questionada no procedimento fiscal. Nesse sentido, alegou que Glauciane, em 31/12/2003, efetuou saque no valor de R$ 891.000,00 em sua conta corrente na CEF, montante disponível para a realização dos empréstimos que, somado a R$ 470 mil ingressados até 31/03/2004, já poderiam alcançar R$ 1.400.000,00. Também argumentou que a movimentação real nas contas bancárias de Glauciane seria de "tão somente R$ 38 milhões", e não R$ 60 milhões como alegado pela fiscalização. Fl. 3891DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 45 44 No caso, cumpre observar que não há comprovação documental alguma de que o suposto saque, efetuado em 31/12/2003, tenha efetivamente se destinado aos empréstimos realizados ao longo dos períodos subsequentes. Sequer há confirmação de que tal numerário tenha figurado no patrimônio declarado da contribuinte nesse período. Pelo contrário, conforme consta do TVF, a própria Glauciane, em atendimento à intimação fiscal, afirmara que "a contribuinte não possui demonstrativo de rendimentos e faz declaração de isento para fins de Imposto de Renda" (fl. 250), tendo a fiscalização constatado, efetivamente, o seguinte: (...) As alegações da Contribuinte carecem de documentos para sustentação fática, principalmente quando se destacam os totais de créditos em conta corrente de quase sessenta milhões de reais e o saldo inicial em conta de cinqüenta e três mil reais, diante cia declaração de isento de imposto de renda apresentada à Receita Federal. A Declaração Anual de Isento (DAI), comose sabe, se destinava às pessoas físicas dispensadas da apresentação da Declaração de Ajuste Anual do Imposto de Renda (DIRPF), situação que não se enquadra o contribuinte que detivesse, em 31/12/2003, a importância de R$ 891.000,00. No tocante às cifras movimentadas nas contas bancárias analisadas no presente lançamento, o registro fiscal feito no TVF deu realce à importância de R$ 38.000.000,00, e não somente aos R$ 60.000.000,00 como sugeriu o impugnante, evidenciando a distinção entre o total movimentado e os valores passíveis de comprovação de origem: (...) Desse modo, permanece incólume nessa parte a constatação feita pela fiscalização, que atestou que os rendimentos e o patrimônio declarados de Glauciane Maria de Sousa eram incompatíveis com a movimentação de numerário dessa envergadura nas contas bancárias de sua titularidade. No tocante às vinculações entre Jamir e Glauciane, os impugnantes procuraram justificar a existência de procuração de Glauciane para Jamir, dos procuradores em comum e a realização de operações financeiras diretamente com o próprio Jamir, com sócio deste e com empresas nas quais tem participação societária. (...) As procurações outorgadas por Glauciane para o próprio Jamir e para os prepostos comuns (Anderson e Frank), diferentemente do que querem fazer crer os impugnantes, constituem prova direta do uso comum das contas bancárias de titularidade de Glauciane; indo muito além de um ato de mera confiança entre as partes envolvidas. Esse elo fica ainda mais evidente quando Fl. 3892DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 46 45 se verifica a existência de procuração, feita conjuntamente por Glauciane e Jamir, num mesmo documento, nomeando como procurador Anderson Ferreira de Freitas (fls. 1255/1256). Conforme foi ressaltado no TVF, no tocante às contas bancárias de Glauciane, o que diferencia essencialmente as operações com Jamir, com sócio deste (Murilo Ribeiro Reis) e com empresas nas quais possui participação societária, daquelas feitas com as demais pessoas físicas e jurídicas que transacionaram nessas contas é o fato de a procuração, conferindo amplos poderes, ter sido outorgada apenas a Jamir de Souza Machado e aos prepostos em comum. Ou seja, as demais pessoas, que teriam realizado operações de empréstimos, não detinham procuração em seu nome para gerir as contas bancárias de Glauciane. Entendo que não merece reparos a decisão recorrida. Todo o conjunto probatório demonstra, para além de qualquer dúvida, a confusão jurídica e financeira entre os solidários. Diante de tal circunstância, a defesa apresenta páginas e páginas de argumentos jurídicos, evoca princípios constitucionais da maior relevância, inclusive as sagradas garantias do contraditório e da ampla defesa, mas, curiosamente, delas não faz uso para trazer documentos hábeis aos autos. Entendo que o tempo e o esforço dedicados ao processo seriam mais bem empregados se buscassem apresentar ao julgador documentos, planilhas, lançamentos contábeis, cópias de DARFs ou declarações, enfim, qualquer informação capaz de subsidiar seu pretenso direito. Todavia, as intimações foram apenas parcialmente atendidas e as peças de defesa não alteraram este cenário, à exceção de uma ou outra planilha. Igual sorte se observa nos documentos posteriormente trazidos pela Sra. Glauciane ao processo, que foram objeto de diligência, por determinação deste Colegiado. Com efeito, a autoridade fiscal, ao analisar toda a documentação, constatou que eram documentos de emissão da própria interessada e concluiu que: Inicialmente, cabe registrar que parte da documentação apresentada pelo sujeito passivo no seu recurso voluntário, chamada por ele de “borderôs”, manteve as mesmas características daquela juntada à impugnação e que não foi acatada pelos julgadores de primeira instância por estar desacompanhada de documentos comprobatórios das origens dos numerários depositados nas contas bancárias. Esclarecemos também que todas as referências, neste termo, a números de folhas do processo, se referem ao processo digitalizado. (...) analisamos os dados nela contidos e apresentamos a seguir quadro resumo dos mesmos comparados com os totalizadores dos dados constantes no anexo 3 ao Termo de Verificação Fiscal Fl. 3893DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 47 46 (fls. 137 a 287) vinculado ao Auto de Infração IRPJ objeto do recurso: Com relação ao quadro acima, cumprenos observar que: 5.1. As supostas baixas de empréstimos, por meio da tentativa de vinculação de créditos bancários a cheques emitidos contra as contas bancárias do sujeito passivo, carecem de documentos comprobatórios das origens dos referidos créditos, uma vez que apenas foram apresentadas no recurso voluntário cópias de microfilmagens dos cheques debitados nas contas do recorrente. Além disso, tais baixas representam menos de 9% (nove por cento) do total dos créditos de origem não comprovada aos quais os sujeitos passivos se esforçaram para vincular. 5.2. Apesar dos recorrentes terem vinculado supostas baixas de empréstimos a créditos efetuados em três contas bancárias, apenas duas delas (as de número 4.7195 e 31.6415) foram incluídas no Auto de Infração IRPJ objeto desse processo (fl. 99, item 20 do Termo de Verificação Fiscal). Isso porque, nem no decorrer da fiscalização, nem nas peças de defesa, ficou comprovada a utilização de outras contas para a realização de empréstimos a terceiros com vinculação das mesmas aos dois responsáveis solidários ora recorrentes. Assim, os créditos bancários de origem não comprovada vinculados à outra conta constante do quadro supra foram objeto de Auto de Infração IRPF de responsabilidade exclusiva da titular Glauciane Maria de Sousa e formalizado em processo administrativo fiscal distinto (número 10665.000562/200930). 5.3. Os valores da penúltima coluna do quadro supra se referem aos totais líquidos dos CRÉDITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA de responsabilidade de Glauciane Maria de Sousa e Jamir de Souza Machado, já descontadas as devoluções de cheques e demais estornos de créditos também relacionadas no anexo 3 do citado Termo de Verificação Fiscal. 5.4. O processo administrativo fiscal ora em recurso voluntário, objeto dessa diligência, resumese apenas a parte dos lançamentos de ofício decorrentes da ação fiscal referente aos sujeitos passivos supracitados, a qual tratou ainda de infrações à legislação do Imposto de Renda da Pessoa Física bem como de outras infrações relativas ao IRPJ sem vinculação entre os interessados ora recorrentes. Fl. 3894DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 48 47 (...) De todo o exposto, e após análise da documentação juntada aos autos do presente processo no recurso voluntário, entendemos que não foram apresentados novos elementos materiais que possam alterar os lançamentos efetuados ou qualquer dos seus fundamentos, ou ainda modificar as conclusões da primeira instância, a qual manteve integralmente as exigências relativas a IRPJ, CSLL, COFINS e PIS consubstanciadas nos autos de infração de fls. 003 a 319 do processo digitalizado, acrescidas de multa de ofício de 150% e dos juros de mora pertinentes. Concluímos também que os documentos juntados não possuem o condão de ensejar qualquer alteração no que tange à responsabilidade solidária imputada às pessoas físicas. Entendo que não há margem para dúvidas, sendo forçoso concluir que as operações de empréstimo praticadas pelos solidários efetivamente ocorreram, nos termos apurados pela fiscalização, e que os interessados não lograram êxito em demonstrar, mediante documentos hábeis, qualquer equívoco em relação aos lançamentos efetuados. Também não procedem os argumentos da defesa do Sr. Jamir, que tentam associar os resultados de 11 diligências da autoridade fiscal ao fato de que não teria qualquer participação com a atividade nas contas da Sra. Glauciane. O assunto foi extensamente analisado pela decisão recorrida, às fls. 2.856 e seguintes, cujos fundamentos acolhemos e ratificamos. e) Da impossibilidade de equiparação dos solidários a pessoa jurídica Conquanto a defesa atribua a responsabilidade das contas bancárias somente à Sra. Glauciane, como vimos, os solidários questionam a equiparação, pela autoridade fiscal, das atividades por ela desenvolvidas à de instituições financeiras. Convém reproduzir, neste passo, o fundamento para a equiparação, conforme descrição do Termo de Verificação Fiscal: As operações de empréstimos freqüentes com remuneração, como consta nos extratos bancários e documentos ora anexados e citados neste Termo, praticados pelos responsáveis pelas movimentações bancárias, são serviços financeiros prestados, de natureza comercial e similar às operações de instituições financeiras, nos termos do parágrafo único do artigo 17 da Lei 4.595/64, cujas atividades são típicas de pessoas jurídicas no que diz respeito à aplicação da legislação tributária. O volume movimentado, quase R$ 60.000.000,00 (sessenta milhões de reais) de créditos em dois anos, sendo que só de crédito passível de comprovação de origem é de R$ 38.000.000,00 (trinta e oito milhões de reais), desdobrados em mais de 1.000 (uma mil) operações individuais, com a utilização de serviços de duas pessoas para concretizálas, demonstram a habitualidade e fins lucrativos; Fl. 3895DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 49 48 O fato gerador do tributo independe das formalidades exigidas e do nome dado à operação. Equiparamse às pessoas jurídicas, para os efeitos do Imposto de Renda, "as pessoas físicas que, em nome individual, explorem, habitual e profissionalmente, qualquer atividade econômica de natureza civil ou comercial, com o fim especulativo de lucro, mediante venda a terceiros de bens e serviços", conforme dispõe o Inciso II do artigo 150 do Regulamento do Imposto de Renda, Decreto 3.000/99. Portanto, os dispositivos que lastrearam a equiparação são os seguintes: Art. 17 da Lei n° 4.595, de 1964: Art. 17. Consideramse instituições financeiras, para os efeitos da legislação em vigor, as pessoas jurídicas públicas ou privadas, que tenham como atividade principal ou acessória a coleta, intermediação ou aplicação de recursos financeiros próprios ou de terceiros, em moeda nacional ou estrangeira, e a custódia de valor de propriedade de terceiros. Parágrafo único. Para os efeitos desta lei e da legislação em vigor, equiparamse às instituições financeiras as pessoas físicas que exerçam qualquer das atividades referidas neste artigo, de forma permanente ou eventual. Artigo 150 do Decreto n. 3.000/99: Art. 150. As empresas individuais, para os efeitos do imposto de renda, são equiparadas às pessoas jurídicas (DecretoLei n. 1.706, de 23 de outubro de 1979, art. 22). § 1° São empresas individuais: 1 as firmas individuais (Lei n 2 4.506, de 1964, art. 41, §1 2, alínea "a"); II as pessoas físicas que, em nome individual, explorem, habitual e profissionalmente, qualquer atividade econômica de natureza civil ou comercial, com o fim especulativo de lucro, mediante venda a terceiros de bens ou serviços (Lei n. 4.506, de 1964, art. 41, §1 2, alínea "b"; De se notar que um dos fundamentos para a autuação foi o artigo 150 do Decreto n. 3.000/99 e não o artigo 160 do mesmo instrumento, que também foi mencionado, em outro trecho do TVF, circunstância bastante combatida pelas defesas, sob o argumento de que não se aplicaria à situação dos autos, o que já foi analisado pela decisão de piso, cujos argumentos acolhemos. O enorme volume de operações (mais de mil transações) e o elevado montante dos empréstimos, superior a R$ 60 milhões, são fatos suficientes para demonstrar os conceitos de habitualidade e o desempenho profissional atribuídos pela fiscalização. Em nada socorre a defesa o argumento de que a Sra. Glauciane exercia exclusivamente atividade trabalhista diversa quando se comprova a relevância e a assiduidade das operações de mútuo. Fl. 3896DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 50 49 A tese, aliás, discrepa da própria linha de argumentação dos interessados, que pretendem atribuir exclusivamente à Sra. Glauciane os recursos que transitaram pelas suas contas bancárias. Não é crível nem factível que alguém movimente mais de R$ 60 milhões em suas contas bancárias e realize centenas de empréstimos a terceiros sem que isso constitua, de fato, sua principal atividade econômica, ainda mais quando se constata que a Sra. Glauciane percebia como remuneração algo em torno de R$ 1.000,00 mensais. Ante a correta capitulação dos fatos pela autoridade fiscal, a equiparação obriga o contribuinte à observância das regras atinentes às pessoas jurídicas. Conquanto tenham sido intimados, em diversas oportunidades e ao longo de dois anos, os interessados não trouxeram qualquer documentação aos autos, sob o singelo argumento de que as operações ocorriam em situações "precárias e informais", o que obviamente não se coaduna com o volume das operações e os montantes transacionados. Entendo corretos os procedimentos fiscais, inclusive no que tange à inscrição de ofício para fins de CNPJ, como determina o artigo 19 da Instrução Normativa n. 748/2007: Art. 19. O AuditorFiscal da Receita Federal do Brasil (AFRFB) que, no exercício de suas funções, constatar a existência de entidade não inscrita no CNPJ deverá proceder à intimação do titular, sócio ou responsável para providenciar, no prazo de dez dias, sua inscrição. § 1o O não atendimento à intimação prevista no caput, no prazo determinado, acarretará a inscrição de ofício pelo titular da unidade da RFB cadastradora com jurisdição sobre o domicílio tributário da entidade. Descabe, ainda, o argumento de que os solidários não tinham como cumprir as exigências do artigo 160 do RIR/99, posto que, como bem ressaltado pela decisão recorrida, tal dispositivo não se conforma à situação dos autos, cujas atividades foram equiparadas a de instituição financeira. A simples menção do dispositivo pela autoridade fiscal em nada macula ou prejudica os lançamentos efetuados, que tiveram outros fundamentos, notadamente a omissão de receitas. f) Da qualificação como instituição financeira A defesa argúi que a atividade dos solidários não poderia ser enquadrada como típica de instituições financeiras e que seria, de modo diverso, relacionada ao conceito de factoring. Entende que o enquadramento foi efetuado pelas autoridades fiscais apenas com o objetivo de impor aos solidários tributação mais gravosa. De plano, convém destacar que as autuações decorrem de omissão de receitas, decorrente da não comprovação pelos interessados da origem dos recursos depositados, tanto assim que a autoridade fiscal só conseguiu apurar a base de cálculo tributável a partir das informações obtidas diretamente por meio das RMF. Fl. 3897DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 51 50 Nenhum dos interessados trouxe aos autos quaisquer documentos, ao tempo da fiscalização, capazes de comprovar a real natureza das operações praticadas. Diante dessa circunstância, em nada socorre o argumento de que seriam operações creditícias, enquadradas como atividades de factoring, em detrimento da qualificação de instituição financeira imputada pelas autoridades fiscais. A base legal do auto de infração é o artigo 42 da Lei n. 9.430/96, que confere presunção de omissão de receita aos depósitos cuja origem não seja comprovada pelo titular, nos seguintes termos: Art. 42. Caracterizamse também omissão de receita ou de rendimento os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. §1º O valor das receitas ou dos rendimentos omitido será considerado auferido ou recebido no mês do crédito efetuado pela instituição financeira. §2º Os valores cuja origem houver sido comprovada, que não houverem sido computados na base de cálculo dos impostos e contribuições a que estiverem sujeitos, submeterseão às normas de tributação específicas, previstas na legislação vigente à época em que auferidos ou recebidos. §3º Para efeito de determinação da receita omitida, os créditos serão analisados individualizadamente, observado que não serão considerados: I os decorrentes de transferências de outras contas da própria pessoa física ou jurídica; II no caso de pessoa física, sem prejuízo do disposto no inciso anterior, os de valor individual igual ou inferior a R$ 1.000,00 (mil reais), desde que o seu somatório, dentro do ano calendário, não ultrapasse o valor de R$ 12.000,00 (doze mil reais). A presunção contida no artigo 42 tem o condão de inverter o ônus da prova, normalmente a cargo do Fisco, nas hipóteses em que o Contribuinte omite os valores depositados em conta de sua titularidade. Nesses casos, a lei determina que compete ao interessado fazer prova da origem de tais recursos, até então desconhecidos. A prova exigida deve ser hábil e idônea, ou seja, suficiente e conclusiva em relação aos fatos que originaram os respectivos depósitos ou transferências. A não comprovação pelo interessado ou a apresentação de documentos frágeis ou insuficientes materializa, no campo jurídico, a presunção, e torna de rigor o lançamento do montante detectado. Fl. 3898DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 52 51 Por óbvio que cabe à autoridade fiscal intimar, averiguar e determinar a apresentação dos documentos que considera necessários para a comprovação dos depósitos. Com efeito, foi isso o que ocorreu, conforme relato presente do TVF: Os contribuintes Glauciane Maria de Sousa e Jamir de Souza Machado não apresentaram documentos idôneos que comprovassem as operações realizadas, com as devidas vinculações de cada uma delas. As pessoas sabem como elas mesmas realizam as suas operações e portanto, a Sra. Glauciane e o Sr. Jamir sabem se realmente existem operações entre os dois, movimentando a conta bancária, direta ou indiretamente, para atender aos seus clientes de empréstimos. Verificada a ocorrência de irregularidade, cabe também a Receita Federal colher provas quanto à forma da prática da irregularidade, no sentido de demonstrar e existência de mero esquecimento ou falha na apuração, sem qualquer intenção, a fim de aplicar a correta alíquota da multa de oficio. Assim sendo, não cabe ao fisco comprovar as operações realizadas pelo contribuinte, porém compete apresentar os elementos, como descritos nos Anexos n's 1 e 2 e detalhados nos itens 15 a 19 deste Termo, para evidenciar por amostragem as operações e seus "modos operantes", o que torna claro a relação de negócios da Sra. Glauciane com o Sr. Jamir em conjunto, com os seus clientes tomadores de empréstimos mútuos, além das movimentações diretas ou indiretas de valores entre as contas de suas titularidades. No que tange à discussão sobre a real natureza das operações, se exclusivamente relativas à atividade de factoring ou mais amplas, para preencher o conceito de equivalência a instituições financeiras, a ausência de qualquer comprovação pelos interessados certamente não lhes favorece, pois a postura de negativa geral durante os procedimentos de auditoria exigiu que a fiscalização apurasse as operações de acordo com as informações de que conseguiu dispor. O que é determinante para o deslinde da questão é que os interessados não apresentaram qualquer prova do alegado, de forma que não pode o julgador se basear, ainda que em homenagem ao princípio da verdade material, em meras elucubrações ou argumentos hipotéticos, até porque a verdade material exige, ao menos, fortes indícios de sua real ocorrência no mundo fenomênico. Existe um postado clássico que não se pode criar do nada, muito menos em matéria jurídica. Ademais, o ordenamento corrobora o entendimento da fiscalização: o Conselho Monetário Nacional (CMN), por exemplo, exarou a Resolução n° 2.144/95 para esclarecer que factoring é uma atividade comercial, mista e atípica, que soma prestação de serviços à compra de ativos financeiros, praticada por empresas de fomento mercantil e que se distingue das atividades das instituições financeiras, não podendo aquelas empresas praticar qualquer operação privativa de instituição financeira, como bem destacou a decisão de piso. Fl. 3899DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 53 52 No mesmo sentido, o Código Civil também faz distinção entre as operações de cessão de crédito e as de mútuo, como atestam os seus artigos 286 e 586. Nesse contexto, não merece reparos o raciocínio desenvolvido pela decisão de piso (destacaremos): Conforme se depreende das normas supratranscritas, as operações de crédito, entre outras, abarcam empréstimos sob qualquer modalidade, aquisição de direito creditório e mútuo de recursos financeiros, entretanto, a legislação limitou a atuação das factoring a atividades de prestação cumulativa e continua de serviços de assessoria creditícia, mercadológica, gestão de crédito, seleção de riscos, administração de contas a pagar e a receber, compra de direitos creditórios resultantes de vendas mercantis a prazo ou de prestação de serviços. Diferentemente das alegações do impugnante, não há nenhuma evidência da atuação do contribuinte como factoring, uma vez que não ficou demonstrado que sua atividade compreende exclusivamente as atividades específicas acima assinaladas. É importante notar também que na impugnação não foi anexado nenhum documento que comprove a atuação como empresa de factoring, tendo restringido o impugnante a relatar que fazia transações com cheques prédatados e notas promissórias, sem que ficasse demonstrado que as supostas operações eram resultantes de vendas mercantis a prazo ou de prestação de serviços. Nesse ponto, a única iniciativa, no caso da impugnação apresentada por Jamir, foi citar exemplos que, no seu entendimento, evidenciariam a atividade como sendo factoring. Assim, pinçou das diversas diligências realizadas pela fiscalização, os seguintes casos: empresa Bonet Madeiras e Papéis Ltda. e Nelson Adriano dos Santos (Anexo 04 fls. 101 e 104). Os documentos relativos às situações descritas pelo impugnante, anexado pela autoridade fiscal às fls. 1341/1369 e 1521/1533, dão conta do relato a respeito da ocorrência de "desconto de duplicatas" e "troca de cheques". Entretanto, além de limitadas aos dois casos citados, tais operações não são de exclusividade das empresas de factoring, podendo ser realizadas também por instituições financeiras. Isto porque a instituição financeira pode antecipar ao cliente o valor da duplicata ou do cheque pré datado custodiado, mediante um desconto sobre o valor nominal do título de crédito. Em verdade, conforme foi relatado no TVF, no processo investigatório que antecedeu o presente lançamento, foi constatada a realização de operações de empréstimos (mútuo) para pessoas físicas ou jurídicas, utilizandose das contas bancárias especificadas. (...) Fl. 3900DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 54 53 Operações de mútuo (intermediação de recursos financeiros próprios ou de terceiros art. 17 da Lei n° 4.595, de 1964), que se diferenciam das aquisições de direito creditório, a teor das já mencionadas disposições do Código Civil, não figuram entre as atribuições das factoring, lembrando ainda que é vedado às pessoas físicas atuarem em atividades privativas de instituições financeiras, sob pena de serem a elas equiparadas. Isto porque, de acordo com o parágrafo único do art. 17 da Lei n° 4.595, de 1964, equiparamse às instituições financeiras as pessoas físicas que exerçam qualquer das atividades referidas nesse artigo, de forma permanente ou eventual. Fato é que, tendo o contribuinte atuado em operações de mútuo com terceiros (não incluídas entre as atividades das empresas de factoring), ainda que tivesse também realizado desconto ou antecipação de valores pertinentes a títulos de crédito, está correto o procedimento fiscal ao caracterizálo como instituição financeira, que contempla ambas as atividades descritas. Desta forma, podese concluir que fica afastada a possibilidade de tributação do contribuinte sob as regras aplicáveis às empresas de factoring, quando constatado, em procedimento fiscal que, dentre suas atividades, está a realização de empréstimo de mútuo, de forma habitual e sistemática, própria de instituição financeira. Corretos, portanto, os procedimentos e a qualificação atribuídos pela autoridade fiscal às atividades dos solidários. g) Do arbitramento Conquanto os interessados entendam que o lucro não deveria ser arbitrado, porque seria possível apurar o lucro real, os fatos comprovam exatamente o oposto e, nesse sentido, sequer comportam maiores digressões. Ora, conforme atestado pela autoridade lançadora, a não apresentação dos registros contábeis ou dos livros previstos pela legislação exigiu a adoção dos procedimentos previstos no artigo 530, do Decreto n. 3.000/99, que trata das hipóteses de arbitramento: Art. 530. O imposto, devido trimestralmente, no decorrer do ano calendário, será determinado com base nos critérios do lucro arbitrado, quando (Lei nº 8.981, de 1995, art. 47, e Lei nº 9.430, de 1996, art. 1º): I – o contribuinte, obrigado à tributação com base no lucro real, não mantiver escrituração na forma das leis comerciais e fiscais, ou deixar de elaborar as demonstrações financeiras exigidas pela legislação fiscal; (grifamos) (...) III – o contribuinte deixar de apresentar à autoridade tributária os livros e documentos da escrituração comercial e Fl. 3901DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 55 54 fiscal, ou o Livro Caixa, na hipótese do parágrafo único do art. 527; (grifamos) De se notar que os lançamentos com base no lucro arbitrado, efetuados pela autoridade fiscal, decorrem de comando normativo expresso, que se amolda perfeitamente aos fatos narrados nos autos. Não faltaram intimações ou tempo para que os interessados apresentassem documentos. Durante todo o processo de auditoria vários questionamentos foram feitos aos solidários, de forma que, ao assim proceder, agiu a autoridade lançadora com a devida diligência e o cuidado que devem nortear as hipóteses de omissão de receitas, no sentido de perquirir e dar oportunidade para que o Contribuinte apresente documentos, notadamente os relativos a custos ou despesas. Ante a perfeita subsunção dos fatos à diretriz normativa, aprecio e rechaço todos os argumentos trazidos pela Contribuinte contra à utilização do arbitramento pela autoridade fiscal. h) Da qualificação da multa Os fundamentos para a qualificação das multas foram assim resumidos pela autoridade lançadora: Por todo o exposto, destacandose a recusa de apresentar os extratos bancários através do uso de pedidos de prorrogações intermináveis, uso de contas correntes em nome de apenas um titular para uso coletivo de duas pessoas, sendo movimentada por procuradores para mascarar a movimentação da segunda pessoa, valores de receitas omitidas apuradas de R$ 38.032.359,19 (trinta e oito milhões, trinta e dois mil, trezentos e cinqüenta e nove reais e dezenove centavos), sem incluir os demais procedimentos de auditagem fiscal em andamento, em contrapartida com os rendimentos declarados pela Glauciane, na faixa de isenção do Imposto de Renda em torno de R$ 12.000,00 (doze mil reais), fortes indícios desta conta pertencer à pessoa interposta, prática de operações exclusivas de instituições financeiras registradas e autorizadas pelo Banco Central do Brasil, enseja a qualificação da multa de ofício, aplicada sobre todo crédito tributário ora levantado, com a aplicação da multa de 150% (cento e cinqüenta por cento), nos termos do artigo 44, Parágrafo 10 da Lei 9.430/96, com a redação dada pela Lei 11.488/2007, c/c o artigo 957,inciso II do Regulamento do Imposto de Renda, Decreto 3.000/99, tendo em vista, s.m.j., a existência de sonegação, fraude e conluio, nos termos dos artigos 71, 72 e 73 da Lei 4.502/1964, que assim dispõem: (...) Em decorrência dos motivos que ensejaram a qualificação da multa de ofício, citados no item anterior, e da falta de constituição formal da empresa e de autorização do Banco Central do Brasil para operar no mercado financeiro, nos Fl. 3902DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 56 55 termos da Lei 4.595/64, foi elaborada Representação Fiscal para Fins Penais, nos termos da Portaria RFB n° 665 de 24/04/2008. Os atos praticados pelos solidários demonstram o propósito deliberado de impedir ou retardar o conhecimento por parte da autoridade fazendária da ocorrência do fato gerador, almejando como resultado a redução do montante do tributo devido. Ressaltese que não se trata de atos isolados, mas de conduta reiteradamente praticada, que ensejou a omissão de valores expressivos. Assim, podemos apurar de forma objetiva a intenção dos agentes, seja pela prática de centenas de operações sem qualquer escrituração ou declaração, seja pelo montante omitido e não comprovado, da ordem de R$ 38 milhões. Correto, pois, o procedimento da fiscalização em aplicar a multa qualificada de 150% sobre os tributos oriundos dos depósitos bancários sem comprovação de origem. Também não prospera o argumento de violação ao princípio da tipicidade cerrada, posto que descabe a este Conselho a apreciação de questões de ordem constitucional, para a partir delas afastar a incidência de lei válida e eficaz, no caso o artigo 44 da Lei n. 9.430/96, base legal para a aplicação da multa qualificada. Ressaltese, ainda, que as supostas alterações no dispositivo, alegadas pelos interessados, em nada alteram o conceito e as premissas para a qualificação das multas, posto que as circunstâncias que ensejam tal medida estão amplamente comprovadas nos autos, nos exatos termos preconizados pela lei. Quanto a este aspecto, os inusitados argumentos de que a multa de 150% teria sido "revogada" do ordenamento ou de que aplicarseia á espécie a retroatividade benéfica do artigo 112 do CTN já foram apreciados pela decisão de piso, cujos fundamentos são mais do que suficientes para afastálos: No tocante à multa de ofício, os impugnantes alegaram que a exigência está lastreada em redação antiga, não mais vigente, do art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996, tendo evidenciado as alterações ocorridas com a Lei n° 11.488, de 15 de junho de 2007. Consoante consta dos autos de infração que compõem o presente processo, a multa foi exigida no percentual de 150%, de acordo com o disposto no art. 44, inciso II da Lei n° 9430, de 1996, que, na sua redação original, assim dispõe: Art. 44. Nos casos de lançamento de oficio, serão aplicadas as seguintes multas, calculadas sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição: I de setenta e cinco por cento, nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, pagamento ou recolhimento após o vencimento do prazo, sem o acréscimo de multa moratória, de falta de declaração e nos de declaração inexata, excetuada a hipótese do inciso seguinte; II cento e cinqüenta por cento, nos casos de evidente intuito de fraude, definido nos arts. 71, 72 e 73 da Lei n° 4.502, de 30 Fl. 3903DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 57 56 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. (grifos acrescentados) Os impugnantes enfatizaram a nova redação dada ao art. 44 supra pela Lei n° 11.488, de 2007, que também foi indicada no TVF, na parte que tratou da exigência da multa de oficio, cujo art. 14 preceitua o seguinte: (...) Conforme se vê, não houve alteração na norma legal no que respeita à imputação da multa de ofício qualificada, já que apenas foram modificados os incisos, alíneas e parágrafos, mas a essência da norma continuou a mesma. A alteração normativa ficou restrita à redução do percentual da multa isolada para 50%. Em verdade, seja na redação original do art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996 (citada nos autos de infração, e vigente nos períodos correspondentes aos fatos geradores objeto do lançamento), seja pela redação que lhe foi dada pela Lei n° 11.488, de 2007 (citada na impugnação e no TVF), a multa qualificada foi fixada no percentual de 150%, nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei n° 4.502, de 1964. Assim, não há porque se falar na retroatividade benigna em razão de aplicação de penalidade menos severa prevista no art. 106, alínea 'c' do CTN, aventada pelos impugnantes, se a multa de oficio qualificada foi mantida no mesmo percentual de 150%. Ou seja, a penalidade prescrita com a nova redação dada ao art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996, pela Lei n° 11.488, de 2007, no caso de qualificação da multa, não é mais nem menos severa do que aquela prevista na redação original da lei, vigente à época dos fatos geradores objeto do lançamento ora discutido. i) Da responsabilidade solidária Como já extensamente apreciado ao longo deste voto, é inequívoca a participação conjunta dos Sr. Jamir e da Sra. Glauciane na movimentação financeira omitida e autuada. A fiscalização imputou a ambos responsabilidade solidária pela prática das atividades financeiras, cuja síntese reproduzimos a seguir: As pessoas físicas Glauciane Maria de Sousa, CPF 057.582.436 04, e Jamir De Souza Machado, CPF 445.016.416 /49, respondem solidariamente e pessoalmente pelo crédito tributário total apurado neste procedimento fiscal, conforme descrito neste Termo de Verificação Fiscal n° 001, independentemente dos sujeitos passivos identificados serem as pessoas jurídicas distintas, em nome de cada um deles, tendo em vista tratarse de operações de empréstimos realizadas por eles, em conjunto e/ou em sem separado, com terceiros, conforme consta no TERMO DE SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA N° 001 em Fl. 3904DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 58 57 anexo, lavrado com base nos artigos 133, 135 e 136 do Código Tributário Nacional, Lei N° 5.172/66. Restou demonstrado que os Sr. Jamir e a Sra. Glauciane atuaram de forma comum, mediante confusão jurídica e financeira, que evidenciam a existência de uma sociedade de fato ou irregular, que não atuou de acordo com as regras tributárias, realizando centenas de operações financeiras que ficaram à margem de qualquer escrituração ou declaração para a apuração dos tributos devidos. Pouco importa, na espécie, a existência de contrato ou qualquer outro instrumento formal, pois a irregularidade se caracteriza justamente pela supressão de qualquer registro ou informação às autoridades competentes. O volume das transações afasta qualquer alegação de erro ou não habitualidade, pois havia evidente organização com vistas à obtenção de lucro, inclusive com o envolvimento de terceiros que atuavam mediante procuração. Assim, a autuação dos valores omitidos nas pessoas jurídicas constituídas de ofício, por equiparação, enseja a responsabilização solidária dos reais agentes e beneficiários das operações, de acordo com o que preceituam os artigos 134 e 135 do Código Tributário Nacional. Não merece reparos, portanto, a imputação de responsabilidade solidária às pessoas físicas, assim como está correto o critério de divisão dos resultados oriundos das atividades econômicas, na proporção de 50% para cada interessado. j) Efeito confiscatório das multas Acerca do hipotético efeito confiscatório das multas aplicadas, já nos posicionamos no sentido de que não compete à autoridade administrativa apreciar arguições desse jaez para declarar ou reconhecer a inconstitucionalidade de lei, posto que tal competência foi atribuída, em caráter privativo, ao Poder Judiciário, conforme artigo 102 da Constituição. A vedação do efeito confiscatório é uma limitação dirigida ao legislador, que deve atender aos diversos princípios veiculados pela Constituição. Ante a existência de lei válida e vigente no ordenamento descabe à autoridade fiscal deixar de aplicála, dada a vinculação do ato do lançamento, assim como não se encontra na esfera de competência do julgador administrativo a possibilidade de negarlhe efeitos. A questão está sumulada no âmbito deste Conselho e não exige maiores digressões, razão pela qual não há como acolher a pretensão dos interessados: Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Ante o exposto CONHEÇO dos Recursos Voluntários e, no mérito, voto por NEGARLHES provimento. É como voto. Fl. 3905DF CARF MF Processo nº 10665.000563/200984 Acórdão n.º 1201001.593 S1C2T1 Fl. 59 58 (documento assinado digitalmente) Roberto Caparroz de Almeida Relator Fl. 3906DF CARF MF
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Numero do processo: 19515.000797/2004-13
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Jan 18 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Feb 16 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 1999, 2000, 2001, 2002, 2003
LIMITES DA COISA JULGADA. CSLL. EFEITOS DO RESP. Nº 1.118.893/MG.
No que respeita à CSLL, ao se aplicar o REsp nº 1.118.893/MG, decidido pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), sob a sistemática dos chamados Recursos Repetitivos, de seguimento obrigatório pelos Conselheiros do CARF, a teor do disposto no art. 62, § 2º, do RICARF-Anexo II, quando da análise dos efeitos específicos da decisão transitada em julgado, há que se verificar os exatos termos dessa decisão, as normas que foram por ela cotejadas, a extensão precisa dos seus efeitos e a data da ocorrência dos fatos geradores a que se aplica. Verificado o descompasso entre a decisão que transitou em julgado e os efeitos do REsp nº 1.118.893/MG, descabe sua aplicação ao caso.
Numero da decisão: 9101-002.531
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em rejeitar a preliminar de sobrestamento do processo em virtude da arguição de impedimento dos conselheiros representantes da Fazenda, suscitada de ofício pelo conselheiro Demetrius Nichele Macei (suplente convocado em substituição à conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio), vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto, Demetrius Nichele Macei e Gerson Macedo Guerra. Por unanimidade de votos, acordam em rejeitar a preliminar de impedimento dos conselheiros representantes da Fazenda Nacional. Votaram pelas conclusões os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Demetrius Nichele Macei e Gerson Macedo Guerra. A declaração por escrito, dos conselheiros fazendários, manifestando-se pelo não impedimento e suas razões, será anexada aos autos. Acordam, ainda, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto e Gerson Macedo Guerra, que não conheceram do recurso e, no mérito, em dar-lhe provimento com retorno dos autos ao colegiado a quo, para análise das demais questões postas no recurso voluntário, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e Gerson Macedo Guerra, que lhe negaram provimento. Solicitou apresentar declaração de voto o conselheiro Luís Flávio Neto.
(assinado digitalmente)
Marcos Aurélio Pereira Valadão - Presidente em Exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Luis Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Demetrius Nichele Macei (suplente convocado em substituição à conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio), Gerson Macedo Guerra e Marcos Aurélio Pereira Valadão (Presidente em Exercício). Ausente, justificadamente, o conselheiro Carlos Alberto Freitas Barreto (Presidente) e ausente a conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio.
Nome do relator: MARCOS AURELIO PEREIRA VALADAO
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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 1999, 2000, 2001, 2002, 2003 LIMITES DA COISA JULGADA. CSLL. EFEITOS DO RESP. Nº 1.118.893/MG. No que respeita à CSLL, ao se aplicar o REsp nº 1.118.893/MG, decidido pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), sob a sistemática dos chamados Recursos Repetitivos, de seguimento obrigatório pelos Conselheiros do CARF, a teor do disposto no art. 62, § 2º, do RICARF-Anexo II, quando da análise dos efeitos específicos da decisão transitada em julgado, há que se verificar os exatos termos dessa decisão, as normas que foram por ela cotejadas, a extensão precisa dos seus efeitos e a data da ocorrência dos fatos geradores a que se aplica. Verificado o descompasso entre a decisão que transitou em julgado e os efeitos do REsp nº 1.118.893/MG, descabe sua aplicação ao caso.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em rejeitar a preliminar de sobrestamento do processo em virtude da arguição de impedimento dos conselheiros representantes da Fazenda, suscitada de ofício pelo conselheiro Demetrius Nichele Macei (suplente convocado em substituição à conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio), vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto, Demetrius Nichele Macei e Gerson Macedo Guerra. Por unanimidade de votos, acordam em rejeitar a preliminar de impedimento dos conselheiros representantes da Fazenda Nacional. Votaram pelas conclusões os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Demetrius Nichele Macei e Gerson Macedo Guerra. A declaração por escrito, dos conselheiros fazendários, manifestando-se pelo não impedimento e suas razões, será anexada aos autos. Acordam, ainda, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto e Gerson Macedo Guerra, que não conheceram do recurso e, no mérito, em dar-lhe provimento com retorno dos autos ao colegiado a quo, para análise das demais questões postas no recurso voluntário, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e Gerson Macedo Guerra, que lhe negaram provimento. Solicitou apresentar declaração de voto o conselheiro Luís Flávio Neto. (assinado digitalmente) Marcos Aurélio Pereira Valadão - Presidente em Exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Luis Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Demetrius Nichele Macei (suplente convocado em substituição à conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio), Gerson Macedo Guerra e Marcos Aurélio Pereira Valadão (Presidente em Exercício). Ausente, justificadamente, o conselheiro Carlos Alberto Freitas Barreto (Presidente) e ausente a conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio.
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ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 1999, 2000, 2001, 2002, 2003 LIMITES DA COISA JULGADA. CSLL. EFEITOS DO RESP. Nº 1.118.893/MG. No que respeita à CSLL, ao se aplicar o REsp nº 1.118.893/MG, decidido pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), sob a sistemática dos chamados Recursos Repetitivos, de seguimento obrigatório pelos Conselheiros do CARF, a teor do disposto no art. 62, § 2º, do RICARFAnexo II, quando da análise dos efeitos específicos da decisão transitada em julgado, há que se verificar os exatos termos dessa decisão, as normas que foram por ela cotejadas, a extensão precisa dos seus efeitos e a data da ocorrência dos fatos geradores a que se aplica. Verificado o descompasso entre a decisão que transitou em julgado e os efeitos do REsp nº 1.118.893/MG, descabe sua aplicação ao caso. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em rejeitar a preliminar de sobrestamento do processo em virtude da arguição de impedimento dos conselheiros representantes da Fazenda, suscitada de ofício pelo conselheiro Demetrius Nichele Macei (suplente convocado em substituição à conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio), vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto, Demetrius Nichele Macei e Gerson Macedo Guerra. Por unanimidade de votos, acordam em rejeitar a preliminar de impedimento dos conselheiros representantes da Fazenda Nacional. Votaram pelas conclusões os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Demetrius Nichele Macei e Gerson Macedo Guerra. A declaração por escrito, dos conselheiros fazendários, manifestandose pelo não impedimento e suas razões, será anexada aos autos. Acordam, ainda, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto e Gerson Macedo Guerra, que não conheceram do recurso e, no mérito, em darlhe AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 51 5. 00 07 97 /2 00 4- 13 Fl. 551DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 552 2 provimento com retorno dos autos ao colegiado a quo, para análise das demais questões postas no recurso voluntário, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e Gerson Macedo Guerra, que lhe negaram provimento. Solicitou apresentar declaração de voto o conselheiro Luís Flávio Neto. (assinado digitalmente) Marcos Aurélio Pereira Valadão Presidente em Exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Luis Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Demetrius Nichele Macei (suplente convocado em substituição à conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio), Gerson Macedo Guerra e Marcos Aurélio Pereira Valadão (Presidente em Exercício). Ausente, justificadamente, o conselheiro Carlos Alberto Freitas Barreto (Presidente) e ausente a conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio. Relatório Por bem descrever os fatos, reproduzo o relatório da decisão recorrida: CONSÓRCIO NACIONAL VOLKSWAGEN LTDA., já qualificada nos autos, inconformada com a decisão de primeira instância, que lhe foi desfavorável, recorre ao CARF, visando à reforma da mesma. Tratam os autos de exigência de CSLL, relativa aos anos calendário de 1999 a 2003, consoante o Auto de Infração de fls. 142/150. Segundo o Termo de Verificação de fls. 136/137, o lançamento decorreu da falta de recolhimento da referida contribuição, a qual não foi declarada pela Fiscalizada, nem, tampouco, deduzida na apuração do lucro real nos períodos acima, sob a alegação de que se achava dispensada de seu recolhimento, em função de ser ela beneficiária de decisão judicial transitada em julgado, que lhe assegurava a desoneração da CSLL. Inconformado com a exigência, o sujeito passivo apresentou a impugnação de fls. 153/165, invocando em seu favor os efeitos da coisa julgada, decorrente do Mandado de Segurança por ela impetrado, cuja decisão favorável transitou em julgado em agosto de 1993. Disse ainda que, além de a decisão judicial haver estendido a segurança aos demais exercícios (em relação à sentença proferida pelo Juízo singular), a lei reguladora da matéria – de nº 7.689, de 1988, declarada inconstitucional – continua a mesma, apenas sendo modificada por atos legais posteriores, em alguns elementos acessórios da CSLL, restando intacta, portanto, a causa de pedir que deu ensejo à decisão passada em julgado. A Quarta Turma Julgadora da DRJ em Fortaleza(CE) julgou procedente a ação fiscal, nos termos do Acórdão nº 6.404 (fls. Fl. 552DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 553 3 184/195), cujos fundamentos achamse consubstanciados na respectiva ementa, in verbis: Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL Anocalendário: 1999, 2000, 2001, 2002, 2003 Ementa: Processo Administrativo Fiscal. Normas Gerais de Direito Tributário. Coisa Julgada – A relação jurídica de tributação da Contribuição Social sobre o Lucro é continuativa, incidindo, na espécie, o art. 471, I, do CPC. A declaração de intributabilidade, no pertinente a relações jurídicas originadas de fatos geradores que se sucedem no tempo não pode ter o caráter de imutabilidade e de normatividade a abranger eventos futuros. A coisa julgada em matéria tributária não produz efeitos além dos princípios pétreos postos na Carta Magna, a destacar o da isonomia. Cientificada da decisão (fls. 202), a interessada, tempestivamente, interpôs o recurso voluntário de fls. 207/230, tornando a suscitar os argumentos da impugnação, assim resumidos no requerimento final: a) o instituto da coisa julgada é plenamente aplicável, sem quaisquer restrições, ao direito tributário; b) os efeitos do trânsito em julgado da decisão no processo ajuizado pela Recorrente com o fito de deixar de recolher a CSLL com base na alegação de sua inconstitucionalidade, alcançam exercícios futuros, pois tal alcance se circunscreve aos limites do pedido e do acórdão prolatado pelo Tribunal Regional Federal; c) a declaração do Supremo Tribunal Federal, inter partes, em sede de Recurso Extraordinário, quanto à constitucionalidade dos artigos 1º a 4º da Lei nº 7.689/88 não alcança terceiros, como a Recorrente, que não foram parte no processo, e que, ademais, havia obtido acórdão transitado em julgado permitindolhe absterse do recolhimento da contribuição — CSLL — em exercícios futuros; d) na hipótese da declaração de inconstitucionalidade da CSLL, no processo judicial ajuizado pela Impetrante, não sobreveio ao trânsito em julgado nenhuma modificação do estado de fato ou de direito que autorizasse a revisão da coisa julgada, nos termos do art. 471, I, do Código de Processo Civil, uma vez que a legislação superveniente na qual se embasou o Auto de Infração impõe alterações apenas acessórias ao conteúdo dos artigos 1º a 4º da Lei nº 7.689/88 que, ademais, continuam em pleno vigor; e) a revisão da coisa julgada que beneficia a Recorrente, nos termos do art. 471, I, do Código de Processo Civil, somente poderia ser obtida se a Fazenda Pública ajuizasse ação declaratória revisional, e obtivesse provimento judicial no sentido de que teria ocorrido — e na hipótese não ocorreu — modificação do estado de direito, o que não ocorreu na hipótese, sendo o Auto de Infração instrumento absolutamente inadequado a tal pretensão; e f) por fim, caso por absurdo se entenda ser cabível o lançamento de CSLL constante do Auto de Infração aqui discutido, devem Fl. 553DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 554 4 ser cancelados os juros de mora e a multa de ofício nele impostos à Impetrante, por aplicação do art. 100, parágrafo único, do Código Tributário Nacional. Da tribuna, o representante do sujeito passivo pediu que o julgamento do presente recurso levasse em conta o disposto no art. 62A do RICARF, com a obrigatória aplicação da decisão proferida pelo STJ em sede de recurso repetitivo, como ocorreu com o Resp nº 1.118.893MG, na data de 23 de março de 2011, e publicada em 9 de maio de 2011. Ao julgar o recurso, a Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção do CARF proferiu o Acórdão nº 130200.658, de 3 de agosto de 2011, cujas ementa e decisão transcrevo, respectivamente: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO – CSLL Anocalendário: 1999, 2000, 2001, 2002, 2003 CSLL. ALEGAÇÃO DE OFENSA À COISA JULGADA. APLICAÇÃO DO ART. 62A DO RICARF. É de observância obrigatória pelo CARF as decisões definitivas de mérito proferidas pelo STJ, de matéria infraconstitucional, na sistemática prevista pelo art. 543C do C.P.C. (RICARF, art. 62 A) Declarada a inexistência de relação jurídicotributária entre o contribuinte e o fisco, mediante declaração de inconstitucionalidade da Lei 7.689/88, que instituiu a CSLL, afastase a possibilidade de sua cobrança com base nesse diploma legal, ainda não revogado ou modificado em sua essência. (STJ, REsp. nº 1.118.893MG) Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso. Foram interpostos embargos de declaração pela Fazenda Nacional, acolhidos sem efeitos infringentes, conforme Acórdão nº 1302001.018, de 4 de dezembro de 2012, da Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção do CARF, assim ementado e decidido: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO – CSLL Anocalendário: 1999, 2000, 2001, 2002, 2003 CSLL. LIMITES DA COISA JULGADA. DECLARAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE DA LEI 7.689/88. APLICAÇÃO DO ART. 62A DO RICARF. FUNDAMENTO DA AUTUAÇÃO DIVERSO DO CITADO NO RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. RITO DO ART. 543 C DO CPC. OMISSÃO. A legislação aplicada ao lançamento combatido não tem o condão de modificar as conclusões do acórdão embargado, que se fundamentou no REsp. nº 1.118.893MG, vez que aquela também se refere a modificações introduzidas na base de cálculo, alíquotas ou formas de recolhimento da contribuição e Fl. 554DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 555 5 não importam na criação de nova relação jurídicotributária entre o fisco e o sujeito passivo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. ACORDAM os membros da 3ª câmara / 2ª turma ordinária da primeira seção de julgamento, por maioria de votos, em conhecer dos embargos opostos, sem lhes conceder efeitos infringentes, vencidos os Conselheiros Alberto Pinto Souza Junior e Guilherme Pollastri Gomes da Silva, que votaram pelo não conhecimento. Inconformada, a Fazenda Nacional apresenta recurso especial por divergência, argumentando, em síntese: a) que, em síntese, a turma a quo deu provimento ao recurso voluntário do contribuinte, nos termos do artigo 62A do CARF, para aplicar ao caso concreto o que foi decidido pelo STJ no Resp. nº 1.118.893/MG; b) que, data venia, o entendimento esposado no acórdão ora recorrido não se subsume ao que foi decidido pelo STJ no referido Resp; c) que, pela simples leitura do acórdão do STJ, ficou cristalino que somente se subsume ao que foi ali decidido o contribuinte que teve sentença transitada em julgado, anterior à execução, isentandoa do pagamento da CSLL, nos termos da Lei nº 7.689/88, e das Leis 7.856/89 e 8.034/90, a LC 70/91 e as Leis 8.383/91 e 8.541/92; d) que o auto de infração foi lavrado com base em legislação tributária diversa; e) que, portanto, na situação do caso concreto não se aplica o artigo 62A do Regimento Interno do CARF; f) que o cerne da questão cingese na abrangência temporal da decisão judicial proferida em favor da contribuinte, transitada em julgado, considerando a inadmissão de seus efeitos normativos, prospectivos e futuristas; g) que a relação jurídicotributária é de trato sucessivo, uma relação jurídica continuativa, que se projeta no tempo, de maneira que o decidido no mandamus não pode (deve) se sobrepor às alterações legislativas posteriores, pois presentes modificações no estado de fato e de direito, bem como diante do comando normativo enunciador da força de lei da sentença presente nos limites da lide; h) que, portanto, a imutabilidade da coisa julgada material existe sobre o pedido e sobre os fatos deduzidos na inicial, respectivamente, mas não sobre aqueles que exsurgiram após o julgado, pois não há que se falar em coisa julgada sobre a situação jurídica nova, ante a ausência do nexo de referibilidade e em observância à inteligência do principio da congruência da decisão judicial à demanda; i) que, dessa maneira, a sentença atende aos pressupostos fálicos e jurídicos do tempo em que foi proferida, sem o condão de extinguir a relação jurídica, que continua sujeita a variações dos seus elementos constitutivos, ao longo do tempo; Fl. 555DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 556 6 j) que, a bem da verdade, toda sentença proferida em tais situações contém em si a cláusula REBUS SIC STANTIBUS, adaptandoa ao estado de fato e ao direito supervenientes; k) que, logo, com a superveniência de alterações legislativas a regular a relação jurídica continuativa, surge nova equação jurídica; l) que ressaltese o teor da Súmula nº 239 da jurisprudência dominante do STF (“Decisão que declara indevida a cobrança do imposto em determinado exercício não faz coisa julgada em relação aos posteriores”), aplicável ao caso dos autos; m) que se verificou a modificação na legislação de regência da CSLL das pessoas jurídicas, sendo reafirmada a instituição deste tributo, implicando na obrigatoriedade de cobrança da CSLL; n) que, ressaltese, por razões óbvias, que a ação judicial invocada pela recorrente não apreciou as alterações posteriores, não integrando a causa de pedir da demanda, motivo pelo qual não integram a lide, ensejando o surgimento dos créditos tributários, oriundos da subsunção dos fatos geradores posteriores à decisão às hipóteses de incidência referentes à Contribuição Social sobre o Lucro Liquido; o) que a persistir na exceção da coisa julgada em relação a fatos geradores ocorridos após as alterações legislativas, na relação tributária continuativa, conferindo efeitos prospectivos, “terseia por portas travessas uma ISENÇÃO ATÍPICA, ao arrepio do principio da legalidade tributária (CF, arts. 5º, II, e 150, I, CTN, arts. 97, VI, e 175, I)”; p) que se estaria, outrossim, a romper com a Constituição Federal, tendo em vista a concordância com o tratamento desigual e injusto entre contribuintes, inobservando o principio da isonomia tributária, erigido à CLÁUSULA PÉTREA, nos termos do art. 60, parágrafo 4º, inc. IV, da CF/88; q) que, ademais, a ação judicial proposta pela recorrente traz a declaração de inconstitucionalidade da Lei 7.689/88 como causa de pedir; r) que a declaração de inconstitucionalidade da Lei 7.689/88 não consta nos dispositivos da sentença e acórdão, tendo sido a declarada pela via do controle difuso e de forma incidental, como lhe é característica; s) que, assim, como a declaração de inconstitucionalidade não integra o dispositivo das decisões, não há trânsito em julgado desta em favor da recorrente; t) que, no exercício do controle difuso, aberto por via de exceção ou de defesa, o Poder Judiciário, na decisão da lide, declara a inconstitucionalidade de ato normativo; u) que, entretanto, a declaração da inconstitucionalidade em sede de controle difuso não é o pedido do autor, não sendo o objeto central da lide, mas apenas uma questão incidental; v) que, caso o reconhecimento da inconstitucionalidade da Lei nº 7.689, de 1988, de forma incidental, fosse suficiente a afastar a cobrança da exação, inobstante não ser o caso em comento, a superveniência das Leis nº 8.034, de 1990, nº 8.212, de 1991, e da Lei Complementar nº 70, de 1991, alteraram a Fl. 556DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 557 7 disciplina da contribuição social sobre o lucro das empresas, afirmando a cobrança do tributo, impondo a obrigação tributária à recorrente; x) que, diante do exposto, restaria à contribuinte demandar judicialmente para se eximir da obrigação tributária, desta feita, insurgindose contra as alterações legislativas ulteriores, por meio de uma nova ação judicial; y) que, entretanto, fadada estaria ao insucesso, mormente em virtude de entendimento do Supremo Tribunal Federal, pelas vias do controle concentrado e difuso, afirmando a inconstitucionalidade tão somente dos arts. 8º e 9º da Lei 7.689, de 1988, restando por constitucionais os demais dispositivos instituidores da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido, tendo em vista o caráter dúplice das ações em controle concentrado; w) que a Lei nº 7.689, de 1988, já teve sua constitucionalidade reconhecida em momento anterior pelo Supremo Tribunal Federal, com exceção do art. 8º (RE nº 138.2848/CE); z) que, de todo o exposto, podese concluir pela obrigatoriedade da exação tributária da CSLL, tendo em vista as alterações legislativas posteriores, os limites objetivos do trânsito em julgado da sentença proferida na demanda judicial proposta pela recorrente, bem como os precedentes judiciais e administrativos citandos, destacandose decisão proferida pelo Supremo Tribunal Federal, pela constitucionalidade da instituição da CSLL; aa) que a recorrida traz, em seu recurso voluntário, a alegação de que a impossibilidade de se exigir a CSLL dos contribuintes que obtiveram provimento judicial reconhecendo a inconstitucionalidade da Lei nº 7.689, de 1988, foi definitivamente reconhecida pela Primeira Seção do STJ na sistemática do recurso repetitivo (art. 543C do CPC) no RESP 1.118.893/MG, julgado em 23/03/2011; e ab) que o alcance da decisão no REsp 1.118.893/MG, que a recorrida quer obter para ficar desobrigada do recolhimento da CSLL definitivamente, não merece ser acatado, não sendo esta a adequada interpretação do julgado proferido na sistemática do recurso repetitivo. O recurso especial foi admitido pela presidente da Terceira Câmara da Primeira Seção do CARF. Devidamente cientificado, o contribuinte apresentou contrarrazões, a seguir resumidas: a) que, preliminarmente, o recurso especial não merece sequer ser conhecido, por conta da falta de um dos pressupostos regimentais (ausência de um paradigma válido) e da própria ausência de interesse e/ou utilidade recursal, a saber, a aplicação obrigatória do julgamento proferido pelo STJ no Resp nº 1.118.893/MG (art. 62, § 2º, do RICARF); b) que, no mérito, as alterações sofridas pela Lei nº 7.689/1988, de fato, não acarretaram mudanças na essência da CSLL, como reconhecido pelo STJ; c) que as citadas alterações promovidas na Lei nº 7.689/1988 claramente não foram suficientes para estabelecer uma nova relação jurídicotributária entre contribuintes e União, uma vez que as normas em análise dispuseram tão somente sobre alíquotas e base de cálculo, sem alterar a regra matriz de incidência da CSLL; e Fl. 557DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 558 8 d) que a decisão proferida pelo STF no RE nº 138.284/CE não tem o condão de fazer cessar os efeitos da decisão transitada em julgado obtida pela recorrida no Mandado de Segurança nº 89.00112066. É o Relatório. Voto Conselheiro Marcos Aurélio Pereira Valadão Relator 1ª Preliminar – Sobrestamento Suscitada a preliminar de sobrestamento para melhor discussão do tema do impedimento suscitado em face do em função do Bônus de Eficiência e Produtividade Medida Provisória nº 765, de 29 de dezembro de 2015, entendo que não se trata de matéria suscetível de impor o sobrestamento do feito exatamente pelos motivos abaixo elencados, ou seja, que não há que se discutir aqui a matéria de impedimento por conta da Medida Provisória nº 765, de 29 de dezembro de 2015. 2ª Preliminar Impedimento No início do julgamento foi suscitado pelo recorrido uma preliminar de impedimento dos Conselheiros representantes da Fazenda Nacional em função do Bônus de Eficiência e Produtividade Medida Provisória nº 765, de 29 de dezembro de 2015. Nos termos do art. 44 do RICARFAnexo II, consultados, nenhum dos Conselheiros representantes da Fazenda Nacional se declarou impedido, tendo a matéria submetida à votação foi decido à unanimidade pela inexistência de impedimento, tendo sido feita manifestação por escrito dos motivos da não existência do impedimento, nos termos do art. 44 do RICARFAnexo II, conforme documento acostado aos presentes autos. Neste sentido, de forma mais detalhada, não me entendo impedido também pelos motivos que seguem adiante. Em razão da arguição de impedimento aduzida pelo patrono da contribuinte por ocasião da sustentação oral ocorrida na sessão de julgamento realizada no dia de janeiro de 2017, ao argumento de que nós, Conselheiros representantes da Fazenda Nacional, estaríamos impedidos de atuar no presente julgamento, fazse necessário juntarse aos autos a presente manifestação, nos termos do art. 44 do Anexo II do Regimento Interno do CARF RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 2015, haja vista que não reconhecemos tal impedimento. A argüição foi motivada pela publicação da Medida Provisória nº 765, de 29 de dezembro de 2015, cujo art. 5º prevê um Bônus de Eficiência e Produtividade na Atividade Tributária e Aduaneira, com o objetivo de incrementar a produtividade nas áreas de atuação dos ocupantes dos cargos de AuditorFiscal da Receita Federal do Brasil e de Analista Tributário da Receita Federal do Brasil, nos seguintes termos: Art. 5o Ficam instituídos o Programa de Produtividade da Receita Federal do Brasil e o Bônus de Eficiência e Produtividade na Atividade Tributária e Aduaneira, com o objetivo de incrementar a produtividade nas áreas de atuação dos ocupantes dos cargos de AuditorFiscal da Receita Federal do Brasil e de AnalistaTributário da Receita Federal do Brasil. § 1o O Programa de que trata o caput será gerido pelo Comitê Gestor do Programa de Produtividade da Receita Federal do Brasil, composto por representantes do Ministério da Fazenda, do Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão e da Casa Civil da Presidência da República, nos termos a serem definidos em ato do Poder Executivo federal. Fl. 558DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 559 9 § 2o O valor global do Bônus de Eficiência e Produtividade na Atividade Tributária e Aduaneira será definido pelo Índice de Eficiência Institucional, mensurado por meio de indicadores de desempenho e metas estabelecidos nos objetivos ou no planejamento estratégico da Secretaria da Receita Federal do Brasil. § 3o Ato do Comitê Gestor do Programa de Produtividade da Receita Federal do Brasil será editado até 1o de março de 2017, o qual estabelecerá a forma de gestão do programa e a metodologia para a mensuração da produtividade global da Secretaria da Receita Federal do Brasil e fixará o Índice de Eficiência Institucional. § 4o A base de cálculo do valor global do Bônus de Eficiência e Produtividade na Atividade Tributária e Aduaneira será composta pelo valor total arrecadado pelas seguintes fontes integrantes do Fundo Especial de Desenvolvimento e Aperfeiçoamento das Atividades de Fiscalização FUNDAF, instituído pelo DecretoLei no 1.437, de 17 de dezembro de 1975: I arrecadação de multas tributárias e aduaneiras incidentes sobre a receita de impostos, de taxas e de contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil a que se refere o art. 4o da Lei no 7.711, de 22 de dezembro de 1988, inclusive por descumprimento de obrigações acessórias; e II recursos advindos da alienação de bens apreendidos a que se refere o inciso I do § 5o do art. 29 do DecretoLei no 1.455, de 7 de abril de 1976. § 5o O valor global do Bônus de Eficiência e Produtividade na Atividade Tributária e Aduaneira a ser distribuído aos beneficiários do Programa corresponde à multiplicação da base de cálculo do Bônus de Eficiência e Produtividade na Atividade Tributária e Aduaneira pelo Índice de Eficiência Institucional. § 6o O valor global do Bônus de Eficiência e Produtividade na Atividade Tributária e Aduaneira não poderá ultrapassar o valor da base de cálculo de que trata o § 4o. Em apertada síntese, foi alegado que, em decorrência do §4º do supracitado artigo prever que o bônus possui como base de cálculo, além do produto da alienação de bens objeto de pena de perdimento, o valor da arrecadação das multas tributárias e aduaneiras incidentes sobre a receita de tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil e aquelas exigidas em virtude do descumprimento de obrigações acessórias, considerando que o CARF é o órgão competente para o julgamento de recursos versando sobre as multas que servirão como base de cálculo para o bônus, os resultados dos seus julgamentos deveriam repercutir no valor a ser pago aos AuditoresFiscais e AnalistasTributários, o que caracterizaria interesse econômico ou financeiro, direto ou indireto, fato que, por sua vez, impediria os Conselheiros representantes da Fazenda Nacional de atuarem no julgamento de recursos, nos termos do art. 42 do Anexo II do RICARF, ora colacionado: Art. 42. O conselheiro estará impedido de atuar no julgamento de recurso, em cujo processo tenha: I atuado como autoridade lançadora ou praticado ato decisório monocrático; II interesse econômico ou financeiro, direto ou indireto; e III como parte, cônjuge, companheiro, parente consanguíneo ou afim até o 3º (terceiro) grau. Fl. 559DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 560 10 § 1º Para efeitos do disposto no inciso II do caput, considerase existir interesse econômico ou financeiro, direto ou indireto, nos casos em que o conselheiro representante dos contribuintes preste ou tenha prestado consultoria, assessoria, assistência jurídica ou contábil ou perceba remuneração do interessado, ou empresa do mesmo grupo econômico, sob qualquer título, no período compreendido entre o primeiro dia do fato gerador objeto do processo administrativo fiscal até a data da sessão em que for concluído o julgamento do recurso. § 2º As vedações de que trata o § 1º também são aplicáveis ao caso de conselheiro que faça ou tenha feito parte como empregado, sócio ou prestador de serviço, de escritório de advocacia que preste consultoria, assessoria, assistência jurídica ou contábil ao interessado, bem como tenha atuado como seu advogado, nos últimos cinco anos. (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016) § 3º O conselheiro estará impedido de atuar como relator em recurso de ofício, voluntário ou recurso especial em que tenha atuado, na decisão recorrida, como relator ou redator relativamente à matéria objeto do recurso. § 4º O impedimento previsto no inciso III do caput aplicase também aos casos em que o conselheiro possua cônjuge, companheiro, parente consanguíneo ou afim até o 2º (segundo) grau que trabalhem ou sejam sócios do sujeito passivo ou que atuem no escritório do patrono do sujeito passivo, como sócio, empregado, colaborador ou associado. (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016) Ocorre que tal dispositivo só tem aplicação para os Conselheiros representantes dos Contribuintes, consoante o disposto no seu §1º. E, consoante a doutrina processual civil, as hipóteses de impedimento são objetivas, definidas a partir da presunção absoluta de parcialidade do julgador, de modo que se a hipótese não está prevista no diploma regulador do processo, não é possível constituíla a partir de uma interpretação extensiva da norma. De toda a sorte, há uma razão para a hipótese regimental não alcançar os Conselheiros representantes da Fazenda Nacional. Essa diferença de tratamento reside nas conseqüências advindas da não observância ao próprio dispositivo. É que, para os Conselheiros representantes dos Contribuintes, nos termos do art. 45, inciso I, do Anexo II do RICARF, configurado o impedimento, se o Conselheiro argüido assim não se reconhecer, fica caracterizada hipótese de descumprimento ao Regimento Interno, configurando hipótese de perda de mandato. No entanto, para os Conselheiros representantes da Fazenda Nacional, o descumprimento acarreta ato de improbidade administrativa, nos termos dos incisos I e VIII do art. 9º da Lei nº 8.429, de 2 de junho de 1992, punível com a demissão, nos termos do art. 132 da Lei nº 8.112, de 1990. Nesse sentido, o Presidente do CARF, no âmbito da atribuições de exarar atos administrativos complementares ao Regimento Internos, nos termos do art. 3º, incisos IV, XI e §2º do Anexo I, bem como os incisos IV e XIII do art. 20 do Anexo II, todos do RICARF, editou a Portaria CARF nº 1, de 2017, ora transcrita: O PRESIDENTE DO CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS, no uso das atribuições que lhe conferem os incisos IV, XI e § 2º do art. 3º do Anexo I, bem como os incisos IV e XIII do art. 20 do Anexo II, todos do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fl. 560DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 561 11 Fiscais RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015, em face de questionamentos suscitados por Conselheiros representantes da Fazenda Nacional diante do disposto no art. 5º da Medida Provisória nº 765, de 29 de dezembro de 2016, DECLARA: Art. 1º A hipótese de impedimento prevista no inciso II do art. 42 do Anexo II do RICARF aplicase exclusivamente aos conselheiros da representação dos contribuintes dada a especificidade de que trata o § 1º do mesmo dispositivo. § 1º O interesse econômico ou financeiro, direto ou indireto, ocorre nos casos em que o conselheiro da representação dos contribuintes, em relação ao interessado ou empresa do mesmo grupo econômico: I preste ou tenha prestado consultoria, assessoria, assistência jurídica ou contábil; ou II perceba remuneração, sob qualquer título, no período compreendido entre o primeiro dia do fato gerador objeto do processo administrativo fiscal até a data da sessão em que for concluído o julgamento do recurso. § 2º Eventual enquadramento de conselheiro da representação da Fazenda Nacional nos casos de que trata este artigo tipificaria improbidade administrativa nos termos dos incisos I e VIII do art. 9º da Lei nº 8.429, de 02 de junho de 1992. Art. 2º Há impedimento do conselheiro da representação da Fazenda Nacional: I na hipótese em que tenha atuado como autoridade lançadora, ou praticado ato decisório monocrático, nos termos do inciso I do art. 42 do Anexo II do RICARF; II quando o interesse for presumido pelo vínculo de parentesco ou de afinidade, nos termos do inciso III do mesmo artigo; e III na qualidade de relator, quando tiver atuado na condição de relator ou redator em decisão anterior. Art. 3º Esta Portaria será publicada no Boletim de Serviço do CARF. CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Com efeito, o Regimento anterior ao atual, aprovado pela Portaria MF nº 256, de 2009, vigente ao tempo em que advogados podiam atuar como Conselheiros representantes dos Contribuintes, concomitantemente com a prática da advocacia, já dispunha: Art. 42. O conselheiro estará impedido de atuar no julgamento de recurso, em cujo processo tenha: I atuado como autoridade lançadora ou praticado ato decisório monocrático; II interesse econômico ou financeiro, direto ou indireto; III como parte, cônjuge, companheiro, parentes consanguíneos ou afins até o terceiro grau; IV participado do julgamento em primeira instância. Parágrafo único. Para os efeitos do inciso II, considerase existir interesse econômico ou financeiro, direto ou indireto, nos casos em que o conselheiro representante dos contribuintes: Fl. 561DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 562 12 I preste consultoria, assessoria, assistência jurídica ou contábil ao interessado, ou dele perceba remuneração sob qualquer título, no período da instauração do processo administrativo fiscal e até a data da sessão em que for concluído o julgamento do recurso; e II atue como advogado, firmando petições, em ação judicial cujo objeto, matéria, ou pedido seja idêntico ao do recurso em julgamento Ou seja, mesmo quando o Regimento não obrigava os representantes dos Contribuintes a se licenciar da Ordem dos Advogados do Brasil, o dispositivo já era direcionado aos Conselheiros representantes dos Contribuintes. Situação diferente ocorria em Regimentos anteriores, em que a redação do dispositivo que tratava do impedimento trazia em seu bojo, a título de parágrafo, uma complementação ao caput, usando a expressão “considerase também”. A título exemplificativo, transcrevese o que constava da Portaria MF nº 147, de 25 de junho de 2007: Art. 15. O conselheiro estará impedido de participar do julgamento de recurso, em cujo processo tenha: I atuado como autoridade lançadora ou praticado ato decisório monocrático; II interesse econômico ou financeiro, direto ou indireto; e III cônjuge, companheiro ou parentes, consangüíneos ou afins, até o terceiro grau, como parte, , ou como advogado da parte. § 1º Para os efeitos deste artigo, considerase também existir interesse econômico ou financeiro, direto ou indireto, nos casos em que o conselheiro: I percebe ou percebeu remuneração do recorrente, de advogado, de sociedade de advogados, de consultoria ou assessoria que lhe preste assistência jurídica e/ou contábil, em caráter eventual ou permanente, qualquer que seja a razão ou o título da percepção, no período que medeia o início da ação fiscal e a data da sessão em que for concluído o julgamento do recurso; II figure como representante ou mandatário, legal ou convencional, em ação judicial que tenha por fundamento ou pedido, no todo ou em parte, a mesma matéria que seja objeto do recurso em julgamento. § 2º O conselheiro representante da Fazenda Nacional estará impedido de atuar como relator em recurso no Conselho de Contribuintes quando tiver atuado como relator em instância inferior.(Negritamos) É importante destacar, ainda, que ao Processo Administrativo Fiscal aplicase o Decreto nº 70.235, de 1972 e, somente em caráter subsidiário, a Lei nº 9.784, de 1999, cujo art. 69 traz disposição expressa nesse sentido: "Os processos administrativos específicos continuarão a regerse por lei própria, aplicandose lhes apenas subsidiariamente os preceitos desta Lei." E o Decreto nº 70.235, de 1972, remete ao Regimento Interno do CARF, a disciplina do seu julgamento, nos termos do art. 37, verbis: Art. 37. O julgamento no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais farseá conforme dispuser o regimento interno. Todavia, ainda que se entenda ser possível interpretação diversa aquela conferida por meio da Fl. 562DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 563 13 Portaria CARF nº1, de 2017, é oportuno esclarecer que o bônus de eficiência, tal como regulamentado por meio da Portaria RFB nº 31, de 18 de janeiro de 2017, ainda que precariamente, posto que será submetido ao Comitê Gestor do Programa de Produtividade da Receita Federal do Brasil, composto por representantes do Ministério da Fazenda, do Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão e da Casa Civil da Presidência da República, somente será devido se a Secretaria da Receita Federal do Brasil atingir as metas constantes do Anexo II. Para tanto, será necessário que os indicadores de 1 a 8, que não são atrelados à arrecadação, sejam positivos. Consoante a fórmula trazida no §2º do art. 2º, a arrecadação somente influenciará o fator de multiplicação F (Indicador 9), o qual, por sua vez, será multiplicado pela somatório de todos os demais indicadores, de onde se conclui que, se a soma não for positiva, ou, em outras palavras, se os demais indicadores de eficiência e produtividade não foram atingidos, o indicador representativo da arrecadação será multiplicado por “zero”, resultando, por conseguinte, em um bônus igual a zero. Entretanto, ainda que todos esses argumentos até então aduzidos estivessem superados, considerase oportuno registrar que nós, na condição de julgadores representantes da Fazenda Nacional, ora signatários da presente manifestação, entendemos não estar impedidos porque sempre nos vimos julgando de acordo com o melhor direito, pautado na imparcialidade que a própria condição de julgador nos impõe. Nesse sentido, e com a devida vênia aos que aduziram o nosso impedimento, entendemos ser necessário colocar e analisar os cenários possíveis decorrentes da presente problemática: Pois bem, para levantamento desses cenários possíveis, devemos considerar que: (a) a multa lançada pode ser (i) indevida ou (ii) devida e (b) no julgamento, essa multa pode ser (i) mantida ou (ii) cancelada. Dessa forma, por análise combinatória, concluímos que os cenários possíveis são: I. multa indevida mantida; II. multa indevida cancelada; III. multa devida mantida; e IV. multa devida cancelada. A seguir, analisaremos em separado cada um desses quatro possíveis cenários. O primeiro cenário, de multa indevida mantida, é justamente aquele que aparentemente tem apelo. Poderseia pensar que o conselheiro julgaria como devida uma multa indevida para aumentar a base de cálculo do bônus e, assim, aumentar sua parcela no bônus futuramente devido. Entretanto, esse pensamento é equivocado porque não considera dois pontos essenciais: a verdadeira natureza do julgamento administrativo, uma revisão de legalidade do lançamento, que é facultativa e sujeita à palavra final do Poder Judiciário; e que a base de cálculo do bônus de eficiência não é a multa mantida administrativamente, mas sim a multa efetivamente devida, aceita, conformada e recolhida. Na verdade, todo crédito tributário mantido no âmbito do Processo Administrativo Fiscal, antes de ser recolhido, pode ser questionado no Poder Judiciário, em Fl. 563DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 564 14 ação própria ou em sede de embargos à execução. E o Poder Judiciário é que tem a palavra final, é ele quem diz se a multa era efetivamente devida ou indevida. A palavra do Poder Judiciário é superior ao julgamento administrativo, podendo reformálo e, inclusive, dentro das regras legais e regimentais, vincular todos os julgamentos administrativos futuros. Nesse caso, se o Poder Judiciário efetivamente decidir que uma multa mantida no âmbito do Processo Administrativo Fiscal era indevida, não haverá qualquer possibilidade de seu valor influenciar a base de cálculo do bônus de eficiência. Ao contrário, essa situação ensejaria ônus da sucumbência. E o mais importante, esse diálogo com o Poder Judiciário sinaliza o critério a ser utilizado administrativamente em situações equivalentes. Portanto, como a multa administrativamente mantida e considerada indevida pelo Poder Judiciário não é a multa efetivamente recolhida, fica aqui afastada para esse primeiro cenário, a alegação de interesse indireto e, consequentemente, de impedimento do conselheiro fazendário. Passamos agora à análise do segundo cenário, de multa indevida cancelada. Ora, uma multa indevida e cancelada no âmbito do Processo Administrativo Fiscal, por óbvio não aumentaria a base de cálculo do Bônus de Produtividade, o que afasta também nesse cenário qualquer possibilidade de impedimento. O terceiro cenário, de multa devida mantida, é o que a sociedade espera da atuação do Estado, das autoridades tributárias e de todos os julgadores administrativos, sejam eles representantes da Fazenda Nacional, sejam eles representantes dos contribuintes: a aplicação correta da legislação. Todavia, nessa situação, para o caso de o sujeito passivo entender que a multa seria por acaso indevida, caberia a discussão junto ao Poder Judiciário, o que torna aqui aplicáveis todas as explicações já apresentadas para o primeiro cenário. Portanto, também não se pode alegar que, nesse cenário, falarseia de parcialidade e consequentemente de impedimento. Por fim, o quarto cenário, de multa devida cancelada, é o cenário que toda a sociedade quer evitar. Uma multa que pudesse ser considerada devida pelo Poder Judiciário, em face da legislação, e que fosse, entretanto, cancelada no âmbito administrativo caracteriza crédito tributário teoricamente devido, porém definitivamente perdido, porque, nesse caso, a decisão administrativa (ainda que equivocada) é definitiva, por não ter a União legitimidade para recorrer ao Poder Judiciário contra decisão administrativa, salvo que seja provada máfé, por corrupção. Esse cenário, sim, é desencorajado pelo bônus de eficiência. Mas esse cenário é ilegal, além de não interessar à sociedade e, conseqüentemente, ao Estado, aos bons contribuintes ou até mesmo aos conselheiros. Na verdade, esse cenário somente interessaria ao sonegador e àqueles que viessem a lucrar com a sonegação perpetrada. Aliás, situações relacionadas a esse cenário foram apontadas pelo que se depreende do que foi publicado na imprensa ao longo dos anos de 2015 e 2016 na chamada operação "Zelotes". Ora, não se pode dizer que um mecanismo que inibe o erro e a corrupção venha a ser motivo de impedimento de atuação do conselheiro. Portanto, afastase aqui, para esse cenário, também, a possibilidade de impedimento. Enfim, para todos os cenários possíveis: Fl. 564DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 565 15 a multa é devida ou indevida em face da legislação e não da vontade do conselheiro; e independentemente de sua vontade, nenhuma multa que o interessado considere indevida será recolhida sem que a ele seja assegurada a possibilidade de discussão junto ao Poder Judiciário. Pelo que se encontra exposto acima, resta claro que não há interesse do conselheiro, seja direto ou indireto, na multa por ele julgada. Confirmando a conclusão acima, cabe olhar mais uma vez para o passado e perquirir como aqueles que nos antecederam analisaram a situação sobre a qual agora nos debruçamos. Isso porque a presente situação é ontologicamente idêntica àquela que vigiu por mais de uma década nos Conselhos de Contribuintes, entre o início de 1989 e meados de 1999, quando a remuneração dos então AuditoresFiscais do Tesouro Nacional era composta pela RAV Remuneração Adicional Variável. A RAV, instituída pela Lei n° 7.711, de 1988, era calculada sobre o produto da arrecadação de multas em função da eficiência individual e plural da atividade fiscal. O valor dessa RAV foi limitado, inicialmente, ao valor do soldo do Almirante de Esquadra e, posteriormente, a 8 (oito) vezes o valor máximo do vencimento do AuditorFiscal e o valor da RAV devida aos conselheiros era o valor médio devido aos demais AuditoresFiscais. Ora, em tudo a RAV se assemelhava ao atual Bônus de Eficiência: a base era a mesma (produto de multas arrecadadas); o critério era o mesmo (eficiência da atividade fiscal); os limites eram equivalentes, valores máximos de soldos ou vencimentos (atualmente o limite é o vencimento de Ministro do Supremo Tribunal Federal); e o Regimento Interno vigente à época tinha dispositivo de impedimento equivalente. Entretanto, durante todo o período da RAV, nunca foi sequer apontado um caso concreto de parcialidade por interesse direto ou indireto, nem discutido o impedimento dos conselheiros representantes da Fazenda Nacional, em função dessa remuneração. No entendimento deste conselheiro, a inexistência desse questionamento se deve ao fato de os que nos antecederam terem feito a análise de cenários aqui apresentados e visualizado a inocorrência de interesse direto ou indireto dos conselheiros na multa em julgamento. Mais do que isso, não há registro, durante esse período, de aumento de multas indevidas mantidas administrativamente. Portanto, a história confirma a análise aqui realizada e corrobora a inexistência de qualquer interesse direto ou indireto do conselheiro fazendário na multa em julgamento. Aliás, se fosse possível inferir tal interesse, caberia arguir impedimento em qualquer julgamento acerca de exigências de crédito tributário promovido por funcionários públicos, quer em sede de processo administrativo ou judicial, vez que os tributos arrecadados são a principal fonte de recursos a assegurar a remuneração dos servidores públicos. Ainda, a título de reforço, cumpre fazer referência a outros tribunais administrativos que, em 22 Estados Membros da Federação, também remuneram seus agentes com base na eficiência da fiscalização e arrecadação tributárias, sem que isso implique impedimento para o julgamento administrativo dos lançamentos de ofício. Fl. 565DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 566 16 Nesse sentido, convém trazer à tona o modelo do Estado de Pernambuco, onde se tem um Tribunal Administrativo autônomo, composto por julgadores concursados especificamente para tal fim, ou seja, sequer há paridade nos termos do CARF e, a despeito disso, não há diferença entre AuditorFiscal e Julgador, pois ambos os cargos recebem, entre outros valores, um bônus de 30% da arrecadação de multas (dividido por todos os auditores e julgadores, incluindo aposentadorias e pensões). Por esses motivos não me declaro impedido. Superada estas preliminares passo à análise do recurso em si. O recurso é tempestivo, entendo que a divergência restou comprovada e, por isso, conheço do especial. De início, com relação à preliminar arguida pela recorrida — “o recurso especial não merece sequer ser conhecido, por conta da falta de um dos pressupostos regimentais (ausência de um paradigma válido) e da própria ausência de interesse e/ou utilidade recursal, a saber, a aplicação obrigatória do julgamento proferido pelo STJ no Resp nº 1.118.893/MG (art. 62, § 2º, do RICARF)” —, não a acolho. É que o objeto do recurso especial é justamente a adequada aplicação a ser dada ao decidido no Recurso Especial (REsp) do Superior Tribunal de Justiça (STJ) de nº 1.118.893/MG, proferido na sistemática de Recursos Repetitivos, como consta, aliás, da ementa que encima o acórdão paradigma apontado (Acórdão nº 1402000.920, de 16 de março de 2012) e do respectivo voto vencedor: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2005, 2006 LIMITES DA COISA JULGADA. DECLARAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE DA LEI 7.689/1988. APTIDÃO DAS LEIS Nº 8.981/1995, 9.430/1996 E ALTERAÇÕES POSTERIORES, PARA A EXIGÊNCIA DA CSLL. O trânsito em julgado da decisão que tiver desobrigado o contribuinte do pagamento da CSLL, por considerar inconstitucional a Lei nº 7.689, de 1988, não impede que a exação seja de novo exigível com base em normas legais supervenientes. As Leis nº 8.981/1995 e 9430/1996, além das alterações posteriores, constituem fundamento legal apto para exigir a CSLL de todos os contribuintes. [...]. Nos debates para julgamento dos recursos voluntários interpostos neste processo, divergi do ilustre relator, conselheiro Moises Giacomelli, quanto à matéria em litígio. Isso porque, as leis 8.981/1995 e 9.430/1996, bem como as leis subsequentes, alteraram profundamente as hipóteses de incidência e a apuração da base de cálculo da CSLL, algumas delas questionadas até judicialmente pelos contribuintes, a exemplo do art. 28 da Lei 9.430/1996 que determina que se aplicam à CSLL as mesmas exclusões do IRPJ. Por seu turno, a decisão do egrégio STJ no REsp 1.118.893/MG, trazido pela recorrente, tratou apenas dos efeitos das alterações da CSLL até a edição da Lei 8.541/1992. Fl. 566DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 567 17 Portanto, o aludido julgado não se aplica ao caso presente, haja vista que os fatos geradores autuados referemse aos anos de 2005 a 2007. A matéria posta à apreciação desta Câmara Superior, pois, referese à adequada aplicação a ser dada ao decidido no Resp do STJ de nº 1.118.893/MG, proferido na sistemática de Recursos Repetitivos. Primeiramente destaco que, em casos deste tipo, volto meu olhar com muita atenção ao que foi decidido judicialmente, pois o que deve ser cumprido é o que se contém na decisão que transitou em julgado para o contribuinte, para que não se confunda a aplicação dos aspectos materiais do caso específico à subsunção da decisão do STJ em que se sustenta a fundamentação do contribuinte, pois se estendem apenas os seus efeitos processuais em relação aos limites decididos no repetitivo, no caso o REsp. nº 1.118.893/MG, especificamente no que diz respeito à extensão e limites da coisa julgada. Para o caso presente, esta metodologia, este cuidado específico, nos remete ao teor da decisão em que se baseia o contribuinte para deixar de recolher a CSLL e, também, aos seus fundamentos. Conforme se extrai dos autos, a decisão transitada em julgado foi proferida em 18 de dezembro de 1991, sendo que os anoscalendário em que se questiona a cobrança da CSLL são os de 1999 a 2003. O teor da ementa da decisão do TRF da 3ª Região, no que aqui interessa, é o seguinte – Apelação em Mandado de Segurança nº 91.03.114260: EMENTA TRIBUTÁRIO. CONTRIBUIÇÃO SOCIAL. LEI 7.689/88. INCONSTITUCIONALIDADE. APELAÇÃO. EFEITO DEVOLUTIVO. I – O Tribunal Pleno, no julgamento da Arguição de Inconstitucionalidade suscitada na MAS nº 90.03.172943, declarou a inconstitucionalidade dos arts. 1º, 2º, 3º e 8º da Lei 8.689/88 relativa à exigência da contribuição social. [...]. ACÓRDÃO Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas. Decide a 3ª Turma do Tribunal Regional Federal da 3ª Região, por unanimidade, negar provimento á remessa oficial e dar parcial provimento à apelação, na forma do relatório e fato do Sr. Juiz Relator, que ficam fazendo parte integrante deste julgado. São Paulo, 18 de dezembro de 1991 (data do julgamento) De seu teor, destaco o seguinte trecho: Na espécie, cabe ressaltar que o reconhecimento da inconstitucionalidade dos arts. da citada lei pelo E. Plenário fundouse não somente a inobservância da vacatio legis, mas também em virtude da ofensa aos princípios constitucionais da reserva da lei complementar, da legalidade e da irretroatividade da lei. Fl. 567DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 568 18 A questão que se coloca é a determinação dos efeitos do REsp. 1.118.893/MG sobre esta decisão acima transcrita. Este ponto é central, pois o argumento de que se aplicaria o REsp. 1.118.893/MG por força do art. 62, § 2º, do RICARFAnexo II, nos levaria a aceitar uma eternização da coisa julgada, seja ela qual for. Contudo, há que se considerar outros aspectos da questão, como segue. Vejase que a legislação analisada pelo STJ no REsp. 1.118.893/MG (que remete a outras decisões na argumentação do relator) e que teria alterado a incidência da CSLL a partir da Lei 7.689/1988 corresponde à LC nº 70/1991 e Leis nºs 7.856/1989, 8.034/1990, 8.212/1991, 8.383/1991 e 8.541/1992 (citadas no julgado, ainda que nem todas tenham sido objeto de análise específica). Ora, considerando o teor da decisão transitada em julgado e o teor da decisão do STJ, resta claro que nenhuma das outras alterações posteriores que impactaram a CSLL, foram consideradas na decisão do STJ. Ou seja, a decisão só vale para os casos em que as leis mencionadas na decisão foram aplicadas ou utilizadas e, portanto, a superveniência legislativa que atinge a formatação da CSLL tem o condão de afastar a incidência do REsp. 1.118.893/MG, sem implicar em desobediência ao art. 62, § 2º, do RICARFAnexo II, ainda que se tenha que enfrentar a discussão de qual o grau modificativo dessas leis supervenientes àquelas mencionadas no REsp. 1.118.893/MG, no que diz respeito à afetação do fato gerador da CSLL. Ou seja, a questão se resolve de maneira simples: o art. 62, § 2º, do RICARF Anexo II só se aplica a lançamentos feitos relativamente a períodos até 1992, data da última lei mencionada naquele julgamento. Para os lançamento feitos em relação a períodos posteriores, sob a égide de novas leis, não se aplica necessariamente o REsp. 1.118.893/MG. No caso em questão temos dois aspectos, analisados a seguir. 1) A decisão em favor do contribuinte, exarada em 18 de dezembro de 1991, inquinou de inconstitucionalidade a Lei nº 7.689/1988 e teve como fundamento básico (ver julgado acima transcrito) o fato de que a Lei nº 7.689/1988 só poderia instituir contribuição social caso fosse editada como lei complementar e, assim, não considerou a LC nº 70/1991, publicada cerca de doze dias depois da decisão, em 30 de dezembro de 1991, aspecto que, conforme o entendimento, poderia ter sido superado, considerando o que dispõe o art. 11 da referida LC nº 70/1991 (“mantidas as demais normas da Lei nº 7.689, de 15 de dezembro de 1988”). Vejase que a coisa julgada só alberga as normas que foram afastadas, e não projeta para o futuro seus efeitos, de maneira genérica, mormente quando a superveniência legislativa atingiu o âmago do argumento, no caso, a ausência da lei complementar a tratar da exação – o que teria sido superado pela edição da LC nº 70/1991 (ainda que controverso). Assim, por este fundamento, a coisa julgada alegada pelo contribuinte não mais subsistiria, ainda que o REsp. 1.118.893/MG tenha considerado a LC nº 70/1991. Isto porque, como já foi dito, o que se aplica são os efeitos da decisão, e a decisão contida no REsp não considerou este aspecto específico – a inconstitucionalidade formal da Lei nº 7.689/1988 e sua posterior reafirmação pela LC nº 70/1991, no que diz respeito à decisão prolatada no caso proposto pelo contribuinte. É que não se pode utilizar uma decisão, ainda que em sede de recurso repetitivo, para integrar a interpretação de uma decisão anterior, pois há que existir coincidência normativa no embasamento das decisões – o que não há. Nessa esteira, há ainda, um argumento incontornável pela não aplicação do REsp. 1.118.893/MG ao presente caso. Vejase que o próprio REsp. 1.118.893/MG restringe seus efeitos àqueles casos em que a coisa julgada favorável ao contribuinte decorreu de afastamento por inconstitucionalidade material da Lei nº 7.689/1988. Porém, no caso, a coisa Fl. 568DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 569 19 julgada que pretensamente poderia socorrer o contribuinte afastou a referida Lei por inconstitucionalidade formal (não é lei complementar, conforme transcrição acima do decisão do TRF da 3ª Região), assim, confirase o item 5 da Ementa do REsp. 1.118.893/MG: 5. “Afirmada a inconstitucionalidade material da cobrança da CSLL, não tem aplicação o enunciado nº 239 da Súmula do Supremo Tribunal Federal, segundo o qual a ‘Decisão que declara indevida a cobrança do imposto em determinado exercício não faz coisa julgada em relação aos posteriores’” (AgRg no AgRg nos EREsp 885.763/GO, Rel. Min. HAMILTON CARVALHIDO, Primeira Seção, DJ 24/2/10). (negritouse e sublinhouse). Há que se ressaltar, ainda, que foi essa Lei nº 7.689/1988, tanto em 1994, quanto também em 1996 anos anteriores aos anoscalendário em referência (1999 a 2003) reafirmada constitucionalmente pelas Emendas Constitucionais nºs 1, de 1994, e 10, de 1996, (“mantidas as demais normas da Lei nº 7.689, de 15 de dezembro de 1988”), o que, por si só, convalidaria qualquer outra possível pecha de inconstitucionalidade que, até então, se lhe pudesse impingir (v.g., mesma base de cálculo e mesmo fato gerador do imposto de renda, administração e fiscalização por parte da Receita Federal do Brasil, criação antes da entrada em vigor do sistema tributário, entre outras). 2) Após prolatada a decisão em que se estriba o contribuinte, diversas normas que vieram tratar da CSLL foram editadas antes de 1999 (primeiro anocalendário do lançamento em questão), e.g.: LC nº 70/1991 (art. 11), 8.383/1991 (arts. 41, 44, 79, 81, 86, 87, 89, 91 e 95), 8.541/1992 (arts. 22, 38, 39, 40, 42 e 43), 9.249/1995 (arts. 19 e 20) e 9.430/96 (arts. 28 a 30, sendo que o art. 28 remete aos arts. 1º a 3º, 5º a 14, 17 a 24, 26, 55 e 71 da mesma Lei). Dessas normas, apenas as LC nºs 70/1991, 8.383/1991 e 8.541/1992 (além das Leis 7.856/1989, 8.034/1990 e 8.212/1991) estão cotejadas no REsp. 1.118.893/MG. Ou seja, não se pode aplicar o referido REsp. 1.118.893/MG sob os aspectos materiais do caso presente em virtude de que ele não tratou de diversas alterações legislativas que aqui se aplicam e que afetaram a materialidade e os aspectos de contorno do fato gerador da CSLL – o que, evidentemente, não teria mesmo o condão de fazer, ainda que fosse uma lei. Aceitarse isso configuraria uma extensão indevida, uma legiferação abusiva por via de decisão judicial, com efeitos prospectivos no ordenamento que só são possíveis de existir em texto constitucional. Vejase que o lançamento, consubstanciado no Auto de Infração, além da Lei nº 7.689/1988, remete expressamente à Lei nº 9.249/1995 (art. 19), à Lei nº 9.316/1996 (art. 1º) e à Lei nº 9.430/1996 (art. 28) – leis que não foram objeto de análise no REsp. 1.118.893/MG. De lembrar que, quando a Lei 9.430/1996 foi publicada, já era pacífico que a CSLL poderia ser regulada por lei ordinária, fundamento básico do acórdão que transitou em julgado a favor do contribuinte, quando afastou a incidência da CSLL com base na Lei nº 7.689/1988. Assim, por estes dois motivos, afasto a aplicação do REsp. 1.118.893/MG para o caso presente, porém, necessário destacar, sem descumprir o art. 62, § 2º, do RICARF Anexo II – é que o REsp. 1.118.893/MG não se aplica aqui. Destaco, por fim, que o presente entendimento vem sendo reiteradamente sufragado por esta Câmara Superior, por meio dos Acórdãos nºs 9101002.013, de 7 de outubro de 2014, 9101002.044, de 11 de novembro de 2014, 9101002.287, 9101002.288, 9101 002.289 e 9101002.291, de 5 de abril de 2016, e 9101002.353, de 14 de junho de 2016, entre outros. Fl. 569DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 570 20 Do exposto, voto por dar provimento ao recurso especial da Fazenda Nacional, para que, superada a questão da coisa julgada, a instância a quo examine os demais argumentos do recurso voluntário, não apreciados anteriormente. (assinado digitalmente) Marcos Aurélio Pereira Valadão Segue abaixo Declaração de Voto apresentada no prazo Regimental. Declaração de Voto Conselheiro Luís Flávio Neto Na reunião de janeiro de 2017, a e. Câmara Superior de Recursos Fiscais (doravante “CSRF”) analisou o recurso especial interposto pela PROCURADORIA DA FAZENDA NACIONAL (doravante “PFN” ou “recorrente”), no processo n. 19515.000797/200413, em que é interessada CONSÓRCIO NACIONAL VOLKSWAGEN ADMINISTRADORA DE CONSÓRCIO LTDA. (doravante “VOLKSWAGEN”, “recorrida” ou “contribuinte”). Em tal recurso, a recorrente requer a reforma do acórdão n. 130200.658 (doravante “acórdão a quo” ou “acórdão recorrido”), proferido pela r. 2a Turma Ordinária da 3a Câmara desta 1a Seção (doravante “Turma a quo”). O cerne do recurso especial em análise consiste em saber se o contribuinte possui em seu favor decisão judicial com trânsito em julgado que afaste de si a incidência da CSL nos períodos de 1999 a 2003. Em sua essência, o tema em análise traz consigo o embate de princípios constitucionais, sopesados por meio de regras objetivamente estabelecidas pelo legislador ordinário. De um lado, o contribuinte tem a seu favor o fundamento notório e comezinho de que o princípio da segurança jurídica tem na coisa julgada um de seus mais consagrados estandartes, de forma que a obediência a uma decisão transitada em julgada, na ausência de ação rescisória competente para a sua desconstituição, deve ser reconhecida como prioridade absoluta. Por sua vez, o julgamento da ADIn 15, no qual foi declarada a constitucionalidade da CSL com efeitos erga omnes pelo e. Supremo Tribunal Federal (doravante “STF”), fez surgir um contraargumento, embasado no suposto ferimento do princípio da igualdade: não seria isonômico e conforme o princípio da livre concorrência se apenas algumas empresas, detentoras de decisões com trânsito em julgado, permanecessem desobrigadas do recolhimento de CSL. No embate desses princípios, há regras objetivamente estabelecidas pelo legislador ordinário que, com fundamento no Constituição Federal, tutelam os instrumentos processuais competentes para a desconstituição da coisa julgada (notadamente a ação rescisória), bem como prescrevem as condições para que da norma emanada da decisão transitada em julgado deixe de surtir efeitos (notadamente a modificação do estado de fato ou Fl. 570DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 571 21 de direito). No âmbito do CARF, a decisão do legislador competente no sopesamento dos princípios em questão vincula o julgador administrativo (RICARF, art. 62) Ao julgar o caso, a Turma a quo prolatou acórdão que restou assim ementado: Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL Anocalendário: 1999, 2000, 2001, 2002, 2003 CSLL. ALEGAÇÃO DE OFENSA A COISA JULGADA. APLICAÇÃO DO ART. 62A DO RICARF. É de observância obrigatória pelo CARF as decisões definitivas de mérito proferidas pelo STJ, de matéria infracostitucional, na sistemática prevista pelo art. 543C do C.P.C. (RICARF, art. 62A) Declarada a inexistência de relação jurídicotributária entre o contribuinte e o fisco, mediante declaração de inconstitucionalidade da lei 7.689/88, que instituiu a CSLL, afastase a possibilidade de sua cobrança com base nesse diploma legal, ainda não revogado ou modificado em sua essência. (STJ, REsp. nº 1.118.893MG) No julgamento do recurso especial interposto, a CSRF decidiu dar provimento ao recurso especial da PFN e lhe dar provimento. Nesta declaração de voto, permissa venia, apresento os fundamentos que me fizeram votar no sentido de NÃO CONHECER o recurso especial interposto pela PFN e, no mérito, NEGARLHE PROVIMENTO, de forma a manter o acórdão recorrido. Para a adequada fundamentação deste julgamento, parece necessário enfrentar três pontos básicos, que correspondem aos três tópicos que se seguem: (1) O instituto da coisa julgada e o caso dos autos; (2) Alterações na legislação enfrentada na ação judicial com trânsito em julgado. O rito dos recursos repetitivos e o REsp 1.118.893MG; (3) Os efeitos da ADIn. 15 sobre a coisa julgada detida pelo contribuinte; (4) síntese conclusiva e a parte dispositiva do voto. 1. O instituto da coisa julgada e o caso dos presentes autos. “O significado do instituto da coisa julgada material como expressão da própria supremacia do ordenamento constitucional e como elemento inerente à existência do Estado Democrático de Direito.” Ministro Celso de Mello, STF1 O caso em análise merece que se repise o que é a coisa julgada, qual a sua importância e justificativa no sistema jurídico, bem como qual a sua tutela no Direito positivo brasileiro. Quanto à definição da coisa julgada, nada mais adequado do que o recurso à doutrina processualista. Encontrase nos ensinamentos de FRANCESCO CARNELUTTI2 que a coisa julgada consiste numa declaração de certeza, na imperatividade e na inalterabilidade – pela preclusão de recursos –, que possui o comando da sentença, comando este suplementar ao 1 STF. RE 592912 AgR, Relator Min. CELSO DE MELLO, Segunda Turma, julgado em 03.04.2012, publicado em 22.11.2012. 2 CARNELUTTI, Francesco, Instituições do processo Civil. Apud: SANTOS, Moacyr Amaral. Comentário ao Código de Processo Civil, Vol. IV, Coleção Forense. São Paulo: Forense, 1998, p. 431432. Às pgs. 184185, conclui o autor, ainda, que: “Coisa julgada, então, significa a decisão de mérito que se obtém por meio do processo de cognição ou, em outros termos, a decisão sobre questões de fundo; as questões de fundo julgadas não são apenas as expressamente resolvidas, como também aquelas cuja solução seja uma premissa necessária para a solução das primeiras e que, portanto, resolvemse implicitamente (a chamada decisão implícita). Já que as questões de ordem não concernem à lide, sua solução não constitui nunca coisa julgada.” Fl. 571DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 572 22 da lei. Na clássica doutrina nacional, CÂNDIDO RANGEL DINAMARCO3 também fornece a seguinte lição: “A coisa julgada é a situação de segurança quanto à existência ou inexistência de um direito, assegurada pela imutabilidade dos efeitos da sentença de mérito. Quer se trate de sentença meramente declaratória, constitutiva ou condenatória, ou mesmo quando a demanda é julgada improcedente, no momento em que já não couber recurso algum instituise entre as partes, e em relação ao litígio que foi julgado, uma situação, ou estado, de grande firmeza quanto aos direitos e obrigações que os envolvem, ou que não os envolvem.” Em comum na doutrina desses processualistas, é possível observar que a imutabilidade da norma é essencial para a definição do instituto da coisa julgada. Corroborando com esse entendimento GIUSEPPE CHIOVENDA observou que aludida imutabilidade das decisões já era prestigiada no Digesto romano, de forma que a res judicata imprimiria a um bem ou direito a certeza de sua fruição necessária para que a vida social se desenvolvesse da forma mais segura e pacífica. De longa data, o processualista OVÍDIO BATISTA DA SILVA4 igualmente aponta para a “imutabilidade do que foi declarado pelo juiz, no sentido de que nem as partes podem, validamente, dispor de modo diverso, transacionando sobre o sentido da declaração contida na sentença nem os juízes, em futuros processos, poderão modificar, ou sequer reapreciar, essa declaração”. A imutabilidade em questão pode alcançar apenas o processo em que foi proferida a decisão ou, ainda, estenderse em relação a outros processos, que envolvam as mesmas partes, as mesmas pretensões e o mesmo objeto. Tratase da distinção entre coisa julgada formal e material. Nas lições de PONTES DE MIRANDA5, a coisa julgada formal se dá “quando não mais se pode discutir no processo o que se decidiu”, de outra ponta, a coisa julgada material “é a que impede discutirse, noutro processo, o que se decidiu.”. Concluiu o jurisconsulto, então, que é “o direito material que determina a qualidade das suas regras, de modo que a coisa julgada formal ou material não é ofendida por essa mutabilidade, nem pela conseqüente alterabilidade dos termos da interpretação ou versão executiva inicial da sentença”. Também se colhe da obra da doutrina processualista ao menos duas perspectivas para justificar a autoridade da coisa julgada: a primeira de ordem política e a outra de ordem jurídica. O fundamento político consiste na necessidade de que a estabilização das relações sociais se opere de modo definitivo, isto porque a procura pela justiça não pode ser indefinida, à custa da instabilidade da vida em sociedade. Desse modo, MOACYR AMARAL SANTOS6, ao observar que a “verdadeira finalidade do processo, como instrumento destinado à composição da lide, é fazer justiça pela atuação da vontade da lei ao caso concreto”, destaca que a “procura da justiça, entretanto, não pode ser indefinida, mas deve ter um limite, por exigência de ordem pública, qual seja a estabilidade dos direitos que inexistiria se não houvesse um termo além daquela sentença que se tornou imutável”. No que tange a explicitação da perspectiva jurídica, ao menos duas teorias se polarizam, notadamente a sustentada por GIUSEPPE CHIOVENDA e a mantida por ENRICO TÚLIO 3 DINAMARCO, Cândido Rangel. Nova era do processo civil. 3ª ed. São Paulo: Malheiros, 2009, p. 200. 4 SILVA, Ovídio Batista da. Sentença e coisa julgada. Porto Alegre: Ed. Sergio Antonio Fabris, 1988, p. 114. 5 MIRANDA, Pontes. Comentários ao Código de Processo Civil, Tomo V, Forense, 1974, p. 144; 190. 6 SANTOS, Moacyr Amaral. Comentário ao Código de Processo Civil, Vol. IV, Coleção Forense. São Paulo: Forense, 1998, p. 461462. Fl. 572DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 573 23 LIEBMAN. Em CHIOVENDA7, encontrase a assim denominada “teoria da vontade do Estado”, segundo a qual a coisa julgada não consubstancia necessariamente a expressão da verdade dos fatos, mas a própria vontade do Estado aplicada ao caso concreto, de forma que “com a sentença só se consegue a certeza da existência de tal vontade e, pois, a incontestabilidade do bem reconhecido ou negado”. E em LIEBMAN8, por sua vez, identificase a concepção de coisa julgada não como necessariamente um efeito da sentença, mas sim um adjetivo, uma qualidade relacionada à definitividade e incontestabilidade desta. Essa segunda teoria parece encontrar maior acolhida na doutrina nacional. Assim, HUMBERTO THEODORO JÚNIOR9 suscita que o legislador, ao tutelar a coisa julgada, “não tem nenhuma pretensão de valorar a sentença diante dos fatos (verdade) ou dos direitos (justiça). Impeleo tão somente uma exigência de ordem prática, quase banal, mas imperiosa de não mais permitir que se volte a discutir acerca das questões já soberanamente pelo Poder Judiciário. Apenas a preocupação de segurança nas relações jurídicas e de paz na convivência social é que explicam a res judicata.” A proteção à coisa julgada encontra fundamento na Constituição Federal, na qual foi expressamente consagrada entre os direitos fundamentais garantidos por seu art. 5o: Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindose aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: (…) XXXVI a lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada; A Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (doravante “LINDB”) delimita o conceito de coisa julgada em seu art. 6o, conforme a redação que lhe foi dada pela Lei nº 12.376/2010: Art. 6º A Lei em vigor terá efeito imediato e geral, respeitados o ato jurídico perfeito, o direito adquirido e a coisa julgada. (...) § 3º Chamase coisa julgada ou caso julgado a decisão judicial de que já não caiba recurso.” O antigo Código de Processo Civil, de 1973 (doravante “CPC/73”), assim dispunha sobre o instituto da coisa julgada: Art. 467. Denominase coisa julgada material a eficácia, que torna imutável e indiscutível a sentença, não mais sujeita a recurso ordinário ou extraordinário. Art. 468. A sentença, que julgar total ou parcialmente a lide, tem força de lei nos limites da lide e das questões decididas. Art. 469. Não fazem coisa julgada: 7 CHIOVENDA, Giuseppe. Instituições de direito processual civil. Vol. I. Saraiva: São Paulo, 1965, p. 371372. 8 LIEBMAN, Enrico Túlio. Eficácia e autoridade da sentença e outros escritos sobre a coisa julgada. Tradução de Alfredo Buzaid e Benvindo Aires, tradução dos textos posteriores à edição de 1945 e notas relativas ao direito brasileiro vigente de Ada Pellegrini Grinover. 4ª ed., Rio de Janeiro: Forense, 2006, p. 5. “A autoridade da coisa julgada não é um efeito da sentença, como postula a doutrina unânime, mas, sim, modo de manifestarse e produzirse dos efeitos da própria sentença, algo que a esses efeitos se ajunta para qualificalos e reforçalos em sentido bem determinado. Caem todas as definições correntes no erro de substituir uma qualidade dos efeitos da sentença por um efeito seu autônomo. Assim, quando HELLWIG – como já se viu – define a coisa julgada como o efeito específico da sentença, confunde justamente o efeito normal da sentença com a definitividade e incontestabilidade deste efeito.” 9 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de Direito Processual Civil. Vol. I, 34ª ed. Rio de Janeiro : Forense, p. 466. Fl. 573DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 574 24 I os motivos, ainda que importantes para determinar o alcance da parte dispositiva da sentença; II a verdade dos fatos, estabelecida como fundamento da sentença; III a apreciação da questão prejudicial, decidida incidentemente no processo. Art. 470. Faz, todavia, coisa julgada a resolução da questão prejudicial, se a parte o requerer (arts. 5o e 325), o juiz for competente em razão da matéria e constituir pressuposto necessário para o julgamento da lide. Art. 471. Nenhum juiz decidirá novamente as questões já decididas, relativas à mesma lide, salvo: I se, tratandose de relação jurídica continuativa, sobreveio modificação no estado de fato ou de direito; caso em que poderá a parte pedir a revisão do que foi estatuído na sentença; II nos demais casos prescritos em lei. Art. 472. A sentença faz coisa julgada às partes entre as quais é dada, não beneficiando, nem prejudicando terceiros. Nas causas relativas ao estado de pessoa, se houverem sido citados no processo, em litisconsórcio necessário, todos os interessados, a sentença produz coisa julgada em relação a terceiros. Art. 473. É defeso à parte discutir, no curso do processo, as questões já decididas, a cujo respeito se operou a preclusão. Art. 474. Passada em julgado a sentença de mérito, reputarseão deduzidas e repelidas todas as alegações e defesas, que a parte poderia opor assim ao acolhimento como à rejeição do pedido. Art. 475. Está sujeita ao duplo grau de jurisdição, não produzindo efeito senão depois de confirmada pelo tribunal, a sentença: I proferida contra a União, o Estado, o Distrito Federal, o Município, e as respectivas autarquias e fundações de direito público; II que julgar procedentes, no todo ou em parte, os embargos à execução de dívida ativa da Fazenda Pública (art. 585, VI). § 1o Nos casos previstos neste artigo, o juiz ordenará a remessa dos autos ao tribunal, haja ou não apelação; não o fazendo, deverá o presidente do tribunal avocálos. § 2o Não se aplica o disposto neste artigo sempre que a condenação, ou o direito controvertido, for de valor certo não excedente a 60 (sessenta) salários mínimos, bem como no caso de procedência dos embargos do devedor na execução de dívida ativa do mesmo valor. § 3o Também não se aplica o disposto neste artigo quando a sentença estiver fundada em jurisprudência do plenário do Supremo Tribunal Federal ou em súmula deste Tribunal ou do tribunal superior competente. O Novo Código de Processo Civil, publicado em 2015 (doravante “CPC/2015”), embora trate do instituto do trânsito em julgado em outros dispositivos esparsos, tutelou a matéria especialmente em seus arts. 502 a 508: Art. 502. Denominase coisa julgada material a autoridade que torna imutável e indiscutível a decisão de mérito não mais sujeita a recurso. Art. 503. A decisão que julgar total ou parcialmente o mérito tem força de lei nos limites da questão principal expressamente decidida. § 1. O disposto no caput aplicase à resolução de questão prejudicial, decidida expressa e incidentemente no processo, se: Fl. 574DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 575 25 I dessa resolução depender o julgamento do mérito; II a seu respeito tiver havido contraditório prévio e efetivo, não se aplicando no caso de revelia; III o juízo tiver competência em razão da matéria e da pessoa para resolvêla como questão principal. § 2. A hipótese do § 1o não se aplica se no processo houver restrições probatórias ou limitações à cognição que impeçam o aprofundamento da análise da questão prejudicial. Art. 504. Não fazem coisa julgada: I os motivos, ainda que importantes para determinar o alcance da parte dispositiva da sentença; II a verdade dos fatos, estabelecida como fundamento da sentença. Art. 505. Nenhum juiz decidirá novamente as questões já decididas relativas à mesma lide, salvo: I se, tratandose de relação jurídica de trato continuado, sobreveio modificação no estado de fato ou de direito, caso em que poderá a parte pedir a revisão do que foi estatuído na sentença; II nos demais casos prescritos em lei. Art. 506. A sentença faz coisa julgada às partes entre as quais é dada, não prejudicando terceiros. Art. 507. É vedado à parte discutir no curso do processo as questões já decididas a cujo respeito se operou a preclusão. Art. 508. Transitada em julgado a decisão de mérito, considerarseão deduzidas e repelidas todas as alegações e as defesas que a parte poderia opor tanto ao acolhimento quanto à rejeição do pedido. No caso dos autos, em 1989, o contribuinte impetrou perante a Justiça Federal o Mandado de Segurança n. 89.00112066 (fls. 78 e seg. do eprocesso). A causa de pedir da ação pode ser aferida às fls. 86 e 87 do eprocesso, in verbis: 15 – Pelo exposto nos tópicos precedentes, sobressai, por evidente, que a contribuição social sobre o lucro das pessoas jurídicas não se adequa aos princípios insertos na Constituição Federal, apresentando vícios de origem, pois vinculada através de medida provisória e não por lei complementar, conforme exigido pela combinação dos Artigos 195, § 4º, e 154, item 1, da Constituição Federal, e de conteúdo, pois, sua incidência recai sobre contribuição social já existente, com o que não reúne condições jurídicas para ser exigida. 16 – No entanto, mesmo que pudesse passar ao largo dessas inconstitucionalidades, ainda assim, referida contribuição social seria inconstitucional. E, basicamente, por ofender ao primado da estabilidade e segurança jurídica, expressos no princípio constitucional da irretroatividade das leis tributárias que visem criar ou aumentar tributos. A aludida ação tenha sido julgada parcialmente procedente em primeira instância e, interposto o recurso de apelação em Mandado de Segurança n. 91.03.114260, lhe foi dado parcial provimento pelo Tribunal Regional Federal da 3ª Região (doravante “TRF3”), para reconhecer a inconstitucionalidade formal da CSLL (fl. 130 do eprocesso). Destacamse os seguintes trechos do r. acórdão, in verbis (fls. 129 e 130 e seg. do eprocesso): Fl. 575DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 576 26 “A questão relativa à constitucionalidade da contribuição social, instituída pela Lei nº 7.689, de 15.12.88, encontrou solução no âmbito deste Tribunal que, por maioria do seu E. Plenário, decidiu pela inconstitucionalidade dos arts. 1º, 2º, 3º e 8º da mencionada lei (Argüição de Inconstitucionalidade na Apelação em Mandado de Segurança nº 90.03.172943, DOE de 01.07.91, pág. 68, Rel. Juíza Lúcia Figueiredo, prolatora do voto condutor e ementa que seguem em anexo)”; “Na espécie, cabe ressaltar que o reconhecimento da inconstitucionalidade dos arts. da citada lei pelo E. Plenário fundouse não somente na inobservância da vacatio legis, mas também em virtude de ofensa aos princípios constitucionais da reserva da lei complementar, da legalidade e da irretroatividade da lei”. O referido acórdão restou assim ementado (fls. 127 e seg. do eprocesso): TRIBUTÁRIO. CONTRIBUIÇÃO SOCIAL. LEI 7.689/88. INCONSTITUCIONALIDADE. APELAÇÃO. EFEITO DEVOLUTIVO. I – O Tribunal Pleno, no julgamento da Argüição de Inconstitucionalidade suscitada na AMS nº 90.03.172943, declarou a inconstitucionalidade dos arts. 1º, 2º, 3º e 8º da Lei 7.689/88 relativa à exigência da contribuição social. II – Matéria suscitada somente em grau de apelação, não merece ser conhecida por esta E. Corte, (art. 515, § 1º, do CPC). III – Sentença reformada. Contra o acórdão do TRF3 foram interpostos os recursos especial e extraordinário pela PFN, aos quais, contudo, foi negado seguimento (fls. 186 do eprocesso). Finalmente, foi certificado o TRÂNSITO EM JULGADO da referida ação em 16.08.1993 (fl. 77 do eprocesso), afastandose a incidência da CSL em face da contribuinte. 1.1. A interpretação da súmula n. 239 do STF: a posição da Suprema Corte quanto à coisa julgada atinente às relações jurídicotributárias de trato continuado. A Súmula n. 239, enunciada pelo STF nos idos de 13.12.1963, possui a seguinte redação: “Decisão que declara indevida a cobrança do imposto em determinado exercício não faz coisa julgada em relação aos posteriores.” A aludida Súmula foi editada em um momento histórico muito peculiar e, ainda, vocacionada a tutelar exclusivamente uma categoria de ações judiciais bem definida: ações repressivas, que se voltam contra um débito tributário específico, já existente e previamente identificado. Nessa categoria, estão a ação anulatória, os embargos à execução, a ação de repetição de indébito tributário e o mandado de segurança repressivo. Assim, por exemplo, se o contribuinte ajuizar ação anulatória em face da cobrança do IPTU do ano de 2010, cujo lançamento tributário já concretizado considere ilegal ou inconstitucional e, ao final, obtiver decisão favorável transitada em julgado, nada impedirá a administração municipal de prosseguir a cobrança em relação aos demais anos. A Súmula n. 239, do STF, nada mais faz que espancar dúvidas quanto a isso. A Súmula n. 239 não é aplicável em face de ações preventivas, que têm como objetivo essencial obter declaração do Poder Judiciário quanto à impossibilidade de Fl. 576DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 577 27 estabelecimento de relação jurídicotributária entre o contribuinte e o respectivo ente tributante, ainda que nenhum lançamento tributário já tenha sido realizado. Nessa categoria, destacamse a ação declaratória de inexistência de relação jurídicotributária e o mandado de segurança preventivo. Essa distinção foi bem observada pelo Ministro TEORI ALBINO ZAVASKI, quando do julgamento do AgRg no Recurso Especial n. 703.526MG, in verbis: “Todavia, há certas relações jurídicas sucessivas que nascem de um suporte fático complexo, formado por um fato gerador instantâneo, inserido numa relação jurídica permanente. Ora, nesses casos, pode ocorrer que a controvérsia decidida pela sentença tenha por origem não o fato gerador instantâneo, mas a situação jurídica de caráter permanente na qual ele se encontra inserido, e que compõe o suporte desencadeador do fenômeno de incidência. Nestes casos, admitese a eficácia vinculante da sentença também em relação aos eventos recorrentes.” Ainda em seus fundamentos, o i. Ministro conclui que o juízo de certeza desenvolvido pela sentença sobre determinada relação jurídica concreta de caráter duradouro decorre de uma situação bem mais ampla que o fenômeno da incidência. A sentença irradia eficácia vinculante enquanto se mantiverem inalterados o direito e o suporte fático sobre os quais estabeleceu o juízo de certeza. Tais concepções são correntes no âmbito do STF, como se observa deste recente julgado: Embargos de declaração no agravo regimental no agravo de instrumento. Omissão. Ocorrência. Súmula 239/STF. Não aplicabilidade. 1. No acórdão recorrido, tomaramse por base os fatos e as provas dos autos para se concluir que as exações objeto de autuação estariam abrangidas pela decisão declaratória, de modo que incide, na espécie, a Súmula 279/STF. 2. A Súmula 239/STF só é aplicável nas hipóteses de processo judicial em que tenha sido proferida a decisão transitada em julgado de exercícios financeiros específicos. 3. Embargos de declaração acolhidos, sem efeitos infringentes. (STF, AI 791071 AgRED, Relator Min. DIAS TOFFOLI, Primeira Turma, julgado em 18/02/2014, ACÓRDÃO ELETRÔNICO DJe053 DIVULG 1703 2014 PUBLIC 18032014) Também o e. Superior Tribunal de Justiça (doravante “STJ”) possui posição bastante consolidada sobre a matéria, como se observa das ementas a seguir: TRIBUTÁRIO E PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL. VIOLAÇÃO A DISPOSITIVOS CONSTITUCIONAIS. IMPOSSIBILIDADE NESTA VIA. VIOLAÇÃO DOS ARTIGOS 165, 458, 463,II, E 535 DO CPC. INOCORRÊNCIA. CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE AUXÍLIO ALIMENTAÇÃO PAGO EM RAZÃO DE HORAS EXTRAS. COISA JULGADA. LIMITAÇÃO PELO PEDIDO E CAUSA DE PEDIR. PRECEDENTE DA PRIMEIRA SEÇÃO. RCL n. 4.421/DF. SÚMULA 239/STF, INAPLICÁVEL, NO CASO. RECURSO ESPECIAL PROVIDO. (...) 3. Discutese nos presentes autos a ocorrência ou não de coisa julgada a impedir o prosseguimento de execução fiscal para a cobrança de contribuição previdenciária patronal sobre valores referentes a auxíliorefeição quando da prestação de serviços extraordinários, haja vista a existência de anterior sentença transitada em julgado na qual se concluiu pela procedência do pedido de nulidade das NFLDs, cuja causa de pedir foi a natureza indenizatória das verbas sobre as quais se pretende a incidência da contribuição. Fl. 577DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 578 28 4. A princípio, há coisa julgada em razão da identidade do pedido (inexistência de exigibilidade da exação) e causa de pedir (impossibilidade de incidência de contribuição previdenciária sobre parcela cunho indenizatório, especificamente valerefeição pago em razão de horas extraordinárias). 5. Todavia, não seria recomendável conclusão acerca do tema em estudo, sem antes analisar o teor da Súmula 239 do Supremo Tribunal Federal, que estabelece: "decisão que declara indevida a cobrança do imposto em determinado exercício não faz coisa julgada em relação aos posteriores." 6. Segundo precedente do Supremo Tribunal (AI 11.227) que esclarece a aplicação da Súmula, quando a decisão se firma pela improcedibilidade da exação em razão de peculiaridades do ato de lançamento ou em razão de reconhecimento de prescrição, a coisa julgada ali reconhecida, é restrita àquele exercício. Todavia, se a conclusão for em razão de ilegalidade do imposto em si mesmo, ou de sua inconstitucionalidade, ou referirse a tributabilidade, então, tratandose de imposto continuativo e de obrigação periódica, o julgado proferido conservará sua eficácia, protegido sob o manto da coisa julgada. Se, todavia, a decisão que afasta a cobrança do tributo se restringe a determinado exercício (a exemplo dos casos onde houve a declaração de inconstitucionalidade somente do art. 8º, da Lei n. 7.689/88), aplicase o enunciado n. 239 da Súmula do STF, por analogia, in verbis: "Decisão que declara indevida a cobrança do imposto em determinado exercício não faz coisa julgada em relação aos posteriores". 7. No caso dos autos, há julgado anterior, envolvendo as mesmas partes, afirmando a nulidade de NFLD'S em razão de contribuição previdenciária incidir sobre parcela reconhecida de natureza indenizatória. Assim, a decisão ataca o tributo em seu aspecto material da hipótese de incidência, não havendo como exigir o seu pagamento sem ofender a coisa julgada, ainda que para exercícios posteriores. Precedente: EREsp Nº 731.250 PE, Primeira Seção, Rel. Min. José Delgado, julgado em 28.5.2008; e REsp Nº 731.250 PE, Segunda Turma, Rel. Min. Eliana Calmon, julgado em 17.4.2007. 8. Recurso especial parcialmente conhecido, e, nesta parte, provido. (STJ, REsp 1057733/RS, Rel. Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, SEGUNDA TURMA, julgado em 28/06/2011, DJe 03/08/2011) TRIBUTÁRIO. ICMS. VENDA A PRAZO. ENCARGOS INCIDENTES. BASE DE CÁLCULO. VALOR TOTAL. LEGALIDADE DA INCLUSÃO. COISA JULGADA. SÚMULA 7/STJ. (...) 3. A orientação do STJ é de que, em matéria tributária, se a conclusão da sentença transitada em julgado "for em razão de ilegalidade do imposto em si mesmo, ou de sua inconstitucionalidade, ou referirse a tributabilidade, então, tratandose de imposto continuativo e de obrigação periódica, o julgado proferido conservará sua eficácia, protegido sob o manto da coisa julgada" (REsp 1.057.733/RS, Rel. Ministro Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, DJe 3/8/2011). 4. Contudo, no mesmo precedente, ficou assentado que, "Se, todavia, a decisão que afasta a cobrança do tributo se restringe a determinado exercício (a exemplo dos casos onde houve a declaração de inconstitucionalidade somente do art. 8º, da Lei n. 7.689/88), aplicase o enunciado n. 239 da Súmula do STF, por analogia, in verbis: 'Decisão que declara indevida a cobrança do imposto em determinado exercício não faz coisa julgada em relação aos posteriores'" (destaquei). (...) (AgRg no AREsp 501.291/RS, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, julgado em 07/05/2015, DJe 01/07/2015) Fl. 578DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 579 29 Tal questão não passou desapercebida pelo STJ ao prolatar o REsp 1.118.893, atinente ao tema da CSL ora sob julgamento, que assim consignou: “6. Segundo um dos precedentes que deram origem à Súmula 239/STF, em matéria tributária, a parte não pode invocar a existência de coisa julgada no tocante a exercícios posteriores quando, por exemplo, a tutela jurisdicional obtida houver impedido a cobrança de tributo em relação a determinado período, já transcorrido, ou houver anulado débito fiscal. Se for declarada a inconstitucionalidade da lei instituidora do tributo, não há falar na restrição em tela (Embargos no Agravo de Petição 11.227, Rel. Min. CASTRO NUNES, Tribunal Pleno, DJ 10/2/45)”. Desse modo, a Súmula n. 239 do STF não obsta a fruição dos efeitos da coisa julgada obtida pelo contribuinte, não se prestando, portanto, como argumento para a manutenção dos lançamentos tributários impugnados. 2. Alterações na legislação enfrentada na ação judicial com trânsito em julgado. O rito dos recursos repetitivos e o REsp 1.118.893MG. A imutabilidade inerente às decisões transitadas em julgado deve representar a certeza absoluta quanto à aplicação de um determinado regramento legal a uma situação potencialmente praticável pelo beneficiário da medida judicial. Tratase, como se viu, de um direito fundamental, reconhecido pelo art. 5o, XXXVI, da Constituição, à estabilização das expectativas. A autoridade da coisa julgada deverá ser observada de maneira absoluta, salvo na hipótese de observarem uma das seguintes condições: Fatores legislativos: O legislador não possui competência para fazer cessar pura e simplesmente os efeitos da coisa julgada sem alterar o estado de direito por ela tutelada (CF, art. 5o, XXXVI). No entanto, a modificação do estado de direito promovida pelo legislador torna ineficaz a norma prescrita pela sentença, que passará a ter como objeto um sistema normativo já revogado. Fatores jurisdicionais: O Poder Judiciário, por meio de instrumento processual próprio (notadamente a ação rescisória) e em hipóteses restritas, tem competência para desconstituir a coisa julgada. Tanto o novo quanto o antigo Código de Processo Civil são expressos a respeito de duas hipóteses para que cessem os efeitos jurídicos da decisão transitada em julgado que tutela relações jurídicas de trato continuado: Antigo Código de Processo Civil Art. 471. Nenhum juiz decidirá novamente as questões já decididas, relativas à mesma lide, salvo: I se, tratandose de relação jurídica continuativa, sobreveio modificação no estado de fato ou de direito; caso em que poderá a parte pedir a revisão do que foi estatuído na sentença; (...). Novo Código de Processo Civil Art. 505. Nenhum juiz decidirá novamente as questões já decididas relativas à mesma lide, salvo: Fl. 579DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 580 30 I se, tratandose de relação jurídica de trato continuado, sobreveio modificação no estado de fato ou de direito, caso em que poderá a parte pedir a revisão do que foi estatuído na sentença; (...). A aplicação da norma processual requer que se identifique quando há “modificação no estado de fato ou de direito”, isto é, em que hipótese haveria essa mudança substancial no esquema normativo capaz de tornar ineficaz a coisa julgada. Para essa questão fulcral à solução do caso ora sob julgamento, há conceitos teóricos fundamentais que não podem ser desprezados, muitos deles retratados por TÉRCIO SAMPAIO FERRAZ JR10 em trabalho publicado sobre o tema, da qual se destaca, in verbis: “Um regime jurídico é sempre um sistema significativo, isto é, conjunto de relações entre elementos, determinadas por regras (estrutura) e um conjunto de elementos determinados por regras (estrutura) e um conjunto de elementos, determinados por seus atributos (repertório), que conferem ao regime o seu sentido jurídico. Um sistema é alterado quando sua estrutura é modificada, quer pela introdução de novas regras, que substituem ou acrescem as anteriores, o que pode acontecer pela introdução de novos elementos, que também substituem ou acrescem os anteriores, exigindo novas regras. Mas nem toda alteração das regras ou dos elementos provoca uma mudança no sistema, isto é, muda o seu sentido. As relações (estrutura do sistema) são básicas ou secundárias, conforme sejam básicas ou secundárias as regras. Básicas são as regras cuja mudança mantém o sentido das relações. Por exemplo, admitindose que o jogo de xadrez é um sistema, a regra de que o cavalo se movimenta por duas casas em linha, com um terceiro movimento à casa esquerda ou direita é básica. Mudála é alterar a estrutura e o sentido do jogo (sistema). Já a regra que autoriza principiar o jogo com o movimento de um peão branco é secundária: se for combinado ao contrário, o sentido do jogo permaneceria. (...) no sistema da língua normativa que disciplina a pesca por razões ambientais, em termos de direito público, a substituição da regra: é proibido pescar em lagos sob proteção ambiental sob pena de multa de R$ 100,00 a ser recolhido ao Funda Nacional de Pesca pela regra é permitido pescar em determinado lago antes submetido à proteção ambiental altera a relação entre o eventual pescador e autoridade (muda o regime jurídico); já a substituição pela regra: é proibido pescar em lagos protegidos sob pena de R$ 200,00 a ser recolhido ao Fundo Nacional de Pesca não altera a relação (de proibição). Já os atributos, que definem os elementos, são essenciais ou contingentes. O atributo do recolhimento ao Fundo Nacional de Pesca é contingente, mas é essencial ao recolhimento a explicitação de algum destino a um determinado fundo público dado à multa. Esta é a base da colmatação das chamadas lacunas técnicas (no caso, quando se determina o recolhimento a um fundo, sem explicar qual).” A identificação de qual regra básica, cuja mudança seria capaz de fazer cessar os efeitos da coisa julgada, depende da análise do objeto da respectiva ação judicial. A título de exemplo, podese cogitar de uma ação judicial promovida em face de uma lei municipal que estabelecesse alíquota de ISS no patamar de 15%, julgada procedente por decisão transitada em julgado, cujo pedido requeresse a declaração de 10 FERRAZ JR., Tércio Sampaio. Coisa julgada em matéria tributária e as alterações sofridas pela legislação da contribuição social sobre o lucro Lei n. 7.689/88. In: Revista Dialética de Direito Tributário, n. 125. São Paulo: Dialética, 2006, p. 91. Fl. 580DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 581 31 inconstitucionalidade ou ilegalidade de cobranças superiores ao limite estabelecido por Lei Complementar, com fulcro no art. 156, § 3º, I, da Constituição Federal. Nessa hipótese, a questão fundamental residiria em um elemento da obrigação tributária (e não da hipótese de incidência): a alíquota. Seriam indiferentes à autoridade da coisa julgada, por exemplo, alterações legislativas atinentes a questões procedimentais ou vocacionadas ao melhor delineamento da hipótese de incidência. A abrangência do pedido tornaria indiferente à autoridade da coisa julgada alterações na lei municipal que reduzissem a alíquota do ISS para 14% ou qualquer outro patamar superior àquele previsto pela Lei Complementar, notadamente no art. 8O, II, da Lei Complementar n. 116, no qual o atual limite é de 5%. A abrangência do pedido formulado também tornaria indiferente à autoridade da coisa julgada, por exemplo, alterações legislativas realizadas no texto da Lei Complementar 116, elevando o percentual máximo para 6% ou reduzindoo para 4%. A autoridade da coisa julgada permaneceria hígida, devendo o novo percentual da lei complementar ser respeitado. Em todas essas situações, teríamos a tutela de “relação jurídica de trato continuado”, em que NÃO “sobreveio modificação no estado de fato ou de direito”, o que obriga o respeito à coisa julgada (CPC/2015, art. 505, I). Nesse caso hipotético, fica claro como são restritas as hipóteses de modificação do estado de direito capaz de fazer cessar os efeitos da coisa julgada. Para tanto, seria necessário, por exemplo, que o município passasse a exigir o ISS dentro dos limites previstos pela Lei Complementar ou, ainda, que houvesse uma Emenda Constitucional que revogasse a competência do Legislador Complementar para estabelecer limites máximos às alíquotas de ISS estabelecidas pelos municípios. Outro exemplo ilustrativo é fornecido por HELENILSON CUNHA PONTES11, in verbis: “Imaginese o efeito de uma lei que altera a alíquota ou a base de cálculo de um tributo em relação a um contribuinte que possui em seu favor declaração judicial transitada em julgado reconhecendolhe a isenção ou imunidade desse tributo enquanto preenchidas certas condições (juízo sobre a realidade). Nesse caso, embora o parâmetro legal existente à época da propositura da ação judicial pelo contribuinte tenha sido alterado por norma superveniente, tal modificação no estatuto jurídico da relação tributária não tem o condão de afastar a eficácia da coisa julgada antes existente.” Tratandose da CSL, os questionamentos suscitados perante o Poder Judiciário em meados da década de 90 gravitaram geralmente em torno de dois eixos: Inconstitucionalidade formal: exigência de lei complementar para a criação do tributo, o que tornaria indevida sua exigência pela adoção lei ordinária (Lei n. 7.689, de 15.12.1988). Inconstitucionalidade material: identidade da hipótese de incidência do IRPJ e da CSL, com a sobreposição de tributos sobre uma manifestação de riqueza. No caso dos autos, como se aferiu acima, foi certificado em 16.08.1993 o TRÂNSITO EM JULGADO da decisão proferida no Mandado de Segurança promovido pela VOLKSWAGEN, reconhecendose, então, a inconstitucionalidade formal desse tributo (fl. 77 do eprocesso). No que se refere à inconstitucionalidade formal, a norma individual e concreta detida pelo contribuinte continuará a surtir os efeitos até que o estado de direito que foi objeto da respectiva ação judicial seja alterado, ou seja, até que sejam veiculadas por Lei 11 PONTES, Helenilson Cunha. Coisa julgada tributária e inconstitucionalidade. São Paulo: Dialética, 2005, p. 137. Fl. 581DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 582 32 Complementar as normas que prescrevem todos os elementos mínimos necessários à incidência, ao cálculo e a identificação do sujeito passivo da CSL. 2.2. A evolução legislativa da CSL: alterações realizadas sobre a Lei n. 7.689/88 até o período compreendido nos autos de infração. A Lei n. 7.689, de 15.12.1988, que instituiu a CSL, estabeleceu a matriz legal desse tributo, apresentando a seguinte redação original: Art. 1º Fica instituída contribuição social sobre o lucro das pessoas jurídicas, destinada ao financiamento da seguridade social. Art. 2º A base de cálculo da contribuição é o valor do resultado do exercício, antes da provisão para o imposto de renda. § 1º Para efeito do disposto neste artigo: a) será considerado o resultado do períodobase encerrado em 31 de dezembro de cada ano; b) no caso de incorporação, fusão, cisão ou encerramento de atividades, a base de cálculo é o resultado apurado no respectivo balanço; c) o resultado do períodobase, apurado com observância da legislação comercial, será ajustado pela: 1 exclusão do resultado positivo da avaliação de investimentos pelo valor de patrimônio líquido; 2 exclusão dos lucros e dividendos derivados de investimentos avaliados pelo custo de aquisição, que tenham sido computado como receita; 3 exclusão do lucro decorrente de exportações incentivadas, de que trata o art. 1º, § 1º do Decretolei nº 2.413, de 10 de fevereiro de 1988, apurado segundo o disposto no art. 19 do Decretolei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977, e alterações posteriores; 4 adição do resultado negativo da avaliação de investimentos pelo valor de patrimônio líquido. § 2º No caso de pessoa jurídica desobrigada de escrituração contábil, a base de cálculo da contribuição corresponderá a dez por cento da receita bruta auferida no período de 1º janeiro a 31 de dezembro de cada ano, ressalvado o disposto na alínea b do parágrafo anterior. Art. 3º A alíquota da contribuição é de oito por cento. Parágrafo único. No exercício de 1989, as instituições referidas no art. 1º do , pagarão a contribuição à alíquota de doze por cento. Art. 4º São contribuintes as pessoas jurídicas domiciliadas no País e as que lhes são equiparadas pela legislação tributária. Art. 5º A contribuição social será convertida em número de Obrigações do Tesouro Nacional OTN, mediante a divisão de seu valor em cruzados pelo valor de uma OTN, vigente no mês de encerramento do períodobase de sua apuração. § 1º A contribuição será paga em seis prestações mensais iguais e consecutivas, expressas em número de OTN, vencíveis no último dia útil de abril a setembro de cada exercício financeiro. Fl. 582DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 583 33 § 2º No caso do art. 2º, § 1º, alínea b, a contribuição social deverá ser paga até o último dia útil do mês subseqüente ao da incorporação, fusão, cisão ou encerramento de atividades. § 3º Os valores da contribuição social e de cada parcela serão expressos em número de OTN até a segunda casa decimal quando resultarem fracionários, abandonandose demais. § 4º Nenhuma parcela, exceto parcela única, será inferior ao valor de dez OTN. § 5º O valor em cruzados de cada parcela será determinado mediante a multiplicação de seu valor, expresso em número de OTN, pelo valor da OTN no mês de seu pagamento. A Lei n. 7.738, de 09.03.1989, estabeleceu o vencimento da CSL para o último dia útil do mês de janeiro do exercício seguinte ao da apuração do resultado, facultado ao contribuinte o direito de optar pelo recolhimento parcelado de que tratava o art. 5º, §1º da Lei n. 7.689, de 15.12.1988: Art. 16. A contribuição social instituída pela Lei nº 7.689, de 15 de dezembro de 1988 e o imposto de renda na fonte de que trata o art. 35 da Lei nº 7.713, de 22 de dezembro de 1988, serão pagos até o último dia do mês de janeiro do exercício financeiro, ressalvado o direito à opção prevista no art. 17. Parágrafo único. As prestações da contribuição social, determinadas com base no balanço levantado em 31 de dezembro de 1988, pelos seus valores em cruzados, convertidos em cruzados novos pela paridade de CZ$ 1.000,00/NCz$ 1,00, serão atualizados monetariamente com base no coeficiente obtido com a divisão do índice do mês do efetivo pagamento pelo índice do mês de abril de 1989. Art. 17. A partir do exercício financeiro de 1990, a pessoa jurídica poderá optar pelo pagamento do saldo do imposto de renda, da contribuição social e do imposto de renda na fonte a que se referem o caput dos arts. 15 e 16, nos prazos de que tratam os arts. 3º, II e III, 6º e 7º do DecretoLei nº 2.354, de 24 de agosto de 1987, o art. 1º, § 1º, do DecretoLei nº 2.426, de 7 de abril de 1988, o art. 5º, § 1º, da Lei nº 7.689, de 15 de dezembro de 1988, e o art. 37 da Lei nº 7.713, de 22 de dezembro de 1988, pelos seus valores atualizados monetariamente. Parágrafo único. A atualização monetária será determinada mediante a multiplicação do valor em cruzados novos da quota do imposto de renda, da prestação da contribuição social ou do imposto de renda na fonte pelo coeficiente obtido com a divisão do índice do mês do efetivo pagamento pelo índice do mês do encerramento do períodobase. Art. 18. O imposto de renda devido pelas pessoas jurídicas, a contribuição social instituída pela Lei nº 7.689, de 15 de dezembro de 1988, e o imposto de renda na fonte de que trata o art. 35 da Lei nº 7.713, de 22 de dezembro de 1988, correspondentes a períodobase encerrado a partir de 1º de janeiro de 1989, em virtude de incorporação, fusão ou cisão serão pagos até o último dia útil do mês em que ocorrer a incorporação, fusão ou cisão, ressalvado o direito à opção prevista no artigo seguinte. A Lei n. 7.799/89, de 10.07.1989 (conversão da MP n. 68/89) substituiu o índice de atualização monetária de ONT para BTN fiscal: Art. 42. A contribuição social de que trata a Lei n° 7.689, de 15 de novembro de 1988, será convertida em BTN Fiscal, mediante a divisão de seu valor em Fl. 583DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 584 34 cruzados novos pelo valor do BTN Fiscal no dia do encerramento do período base de sua apuração. § 1° A contribuição social será paga segundo o disposto nos §§ 1°, 2° e 3° do art. 5° da Lei n° 7.689, estabelecendose que as referências feitas a OTN, nessa Lei, ficam substituídas para BTN Fiscal. (Vetado) § 2° Nenhuma parcela da contribuição social, exceto parcela única, será inferior ao valor de cinqüenta BTN Fiscal. § 3° O valor em cruzados novos de cada parcela da contribuição social será determinado mediante a multiplicação de seu valor, expresso em BTN Fiscal, pelo valor do BTN Fiscal no dia do pagamento. § 4° O valor da reserva de reavaliação, baixado durante o períodobase, cuja contrapartida não tenha sido computada no resultado do exercício, deverá ser adicionado ao lucro líquido para determinação da base de cálculo da contribuição social. A Lei n. 7.787, de 30.06.1989, também inseriu a regra de antecipação por estimativas para a CSL, à semelhança do IRPJ: Art. 8º A contribuição instituída pela Lei nº 7.689, de 15 de dezembro de 1988, será paga, juntamente com as parcelas do Imposto de Renda Pessoa Jurídica, sob a forma de antecipações, duodécimos ou cotas, observadas, no que couber, as demais condições estabelecidas nos arts. 2º a 7º do DecretoLei nº 2.354, de 24 de agosto de 1987 A Lei n. 7.856, de 24.10.1989, elevou a alíquota da CSL de 8% para 10%, e para 14% no caso de instituições financeiras, a incidir já sobre os resultados apurados em 31.12.1989: Art. 2º A partir do exercício financeiro de 1990, correspondente ao período base de 1989, a alíquota da contribuição social de que se trata o artigo 3º da Lei nº 7.689, de 15 de dezembro de 1988, passará a ser de dez por cento. Parágrafo único. No exercício financeiro de 1990, as instituição referidas no art. 1º do DecretoLei nº 2.426, de 7 de abril de 1988, pagarão a contribuição à alíquota de quatorze por cento. A Lei n. 7.988, de 28.12.1989, incluiu o lucro decorrente de exportações beneficiadas com incentivos fiscais na base de cálculo da CSL: Art. 1º A partir do exercício financeiro de 1990, correspondente ao período base de 1989: I passará a ser 18% (dezoito por cento) a alíquota aplicável ao lucro decorrente de exportações incentivadas, de que trata o art. 1º do DecretoLei nº 2.413, de 10 de fevereiro de 1988; II o lucro decorrente de exportações incentivadas não será excluído da base de cálculo da contribuição social, de que trata a Lei nº 7.689, de 15 de dezembro de 1988; Art. 9º Revogamse o art. 8º da Lei nº 6.468, de 14 de novembro de 1977, o DecretoLei nº 1.692, de 29 de agosto de 1979, o § 1º do art. 17 do DecretoLei nº 2.433, de 19 de maio de 1988, alterado pelo DecretoLei nº 2.451, de 29 de julho de 1988, o nº 3 da alínea c do § 1º do art. 2º da Lei nº 7.689, de 15 de dezembro de 1988, e demais disposições em contrário. Fl. 584DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 585 35 A Lei n. 8.034, de 12.04.1990, deu nova redação à alínea “c”, § 2o, art. 2o, da Lei n. 7.689/88, promovendo a elevação da base de cálculo da CSL para inclusão dos itens ali arrolados, para os resultados apurados a partir de 01.01.1990: Art. 2º A alínea c do § 1º do art. 2º da Lei nº 7.689, de 15 de dezembro de 1988, passa a vigorar com a seguinte redação: "Art. 2º....................................................................... 1º.................................................................................. c ) o resultado do períodobase, apurado com observância da legislação comercial, será ajustado pela: 1 adição do resultado negativo da avaliação de investimentos pelo valor de patrimônio líquido; 2 adição do valor de reserva de reavaliação, baixada durante o períodobase, cuja contrapartida não tenha sido computada no resultado do períodobase; 3 adição do valor das provisões não dedutíveis da determinação do lucro real, exceto a provisão para o Imposto de Renda; 4 exclusão do resultado positivo da avaliação de investimentos pelo valor de patrimônio líquido; 5 exclusão dos lucros e dividendos derivados de investimentos avaliados pelo custo de aquisição, que tenham sido computados como receita; 6 exclusão do valor, corrigido monetariamente, das provisões adicionadas na forma do item 3, que tenham sido baixadas no curso de períodobase. A Lei n. 8.114, de 12.12.90, fixou a alíquota de 15% de CSL para as instituições financeiras: Art. 11. A partir do exercício financeiro de 1991, as instituições referidas no artigo 1º do Decretolei nº 2.426, de 07 de abril de 1988, pagarão a contribuição prevista no artigo 3º da Lei nº 7.689, de 15 de dezembro de 1988, à alíquota de quinze por cento. O Decreto n. 332, de 04.11.1991, ao regular a Lei nº 8.200 de 28.06.1991, fixou novas regras para a base de cálculo da contribuição social a incidir sobre os resultados de 31.12.91, determinando a adição dos valores referentes à parcela dos encargos de depreciação, amortização, exaustão, ou do custo de bem baixado a qualquer título, que corresponder à diferença de correção monetária pelo IPC e pelo BTN Fiscal: Art. 41. 0 resultado da correção monetária de que trata este capítulo não influirá na base de cálculo da contribuição social (Lei nº 7.689/88 e do imposto de renda na fonte sobre o lucro líquido (Lei nº 7.713/88, art. 35). § 1º Caso o resultado seja credor, sua distribuição a sócio ou acionista pessoa física acarretará a cobrança do imposto de renda na fonte, calculado segundo o previsto no art. 25 da Lei nº 7.713, de 22 de dezembro de 1988, devendo essa incidência ocorrer, também, na hipótese da redução do capital aumentado com parcela do referido resultado, na proporção do valor da redução. § 2º Os valores a que se refere o art. 39, computados em conta de resultado, deverão ser adicionados ao lucro líquido na determinação da base de cálculo da contribuição social (Lei nº 7.689/88) e do imposto sobre o lucro líquido (Lei nº 7.713/88, art. 35). 3º Não será atribuído custo às ações ou quotas recebidas em bonificação pelos acionistas ou sócios em razão da capitalização do saldo credor da correção monetária das contas referidas neste capítulo. Fl. 585DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 586 36 Em 24.07.1991, a Lei n. 8.212 elevou a alíquota geral da CSL de 8% para 10% e fixou a alíquota de 15% de CSL todas as pessoas jurídicas cuja constituição, organização funcionamento e operações são fiscalizadas pela SUSEP, atribuindo, assim, mesmo tratamento dado às instituições financeiras: Art. 23. As contribuições a cargo da empresa provenientes do faturamento e do lucro, destinadas à Seguridade Social, além do disposto no art. 22, são calculadas mediante a aplicação das seguintes alíquotas: I 2% (dois por cento) sobre sua receita bruta, estabelecida segundo o disposto no § 1º do art. 1º do Decretolei nº 1.940, de 25 de maio de 1982, com a redação dada pelo art. 22, do Decretolei nº 2.397, de 21 de dezembro de 1987, e alterações posteriores; 9 II 10% (dez por cento) sobre o lucro líquido do períodobase, antes da provisão para o Imposto de Renda, ajustado na forma do art. 2º da Lei nº 8.034, de 12 de abril de 1990. 10 § 1º No caso das instituições citadas no § 1º do art. 22 desta Lei, a alíquota da contribuição prevista no inciso II é de 15% (quinze por cento). 11 § 2º O disposto neste artigo não se aplica às pessoas de que trata o art. 25. No mesmo ano, a Lei Complementar n. 70, de 30.12.1991, elevou a alíquota da CSL exclusivamente das instituições financeiras e para as pessoas jurídicas sujeitas à fiscalização da SUSEP, de 15% para 23%: Art. 11. Fica elevada em oito pontos percentuais a alíquota referida no § 1° do art. 23 da Lei n° 8.212, de 24 de julho de 1991, relativa à contribuição social sobre o lucro das instituições a que se refere o § 1° do art. 22 da mesma lei, mantidas as demais normas da Lei n° 7.689, de 15 de dezembro de 1988, com as alterações posteriormente introduzidas. Parágrafo único. As pessoas jurídicas sujeitas ao disposto neste artigo ficam excluídas do pagamento da contribuição social sobre o faturamento, instituída pelo art. 1° desta lei complementar. Ainda naquele ano, a Lei n. 8.383, de 30.12.1991, introduziu modificações no parâmetro de atualização e prazo para pagamento da CSL, dispondo, ainda, sobre a possibilidade de compensação de créditos provenientes de pagamento indevido ou a maior: Art. 44. Aplicamse à contribuição social sobre o lucro (Lei n.° 7.689, de 1988) e ao imposto incidente na fonte sobre o lucro líquido (Lei n° 7.713, de 1988, art. 35) as mesmas normas de pagamento estabelecidas para o imposto de renda das pessoas jurídicas. Parágrafo único. Tratandose da base de cálculo da contribuição social (Lei n° 7.689, de 1988) e quando ela resultar negativa em um mês, esse valor, corrigido monetariamente, poderá ser deduzido da base de cálculo de mês subseqüente, no caso de pessoa jurídica tributada com base no lucro real. Art. 79. O valor do imposto de renda incidente sobre o lucro real, presumido ou arbitrado, da contribuição social sobre o lucro (Lei n° 7.689, de 1988) e do imposto sobre o lucro líquido (Lei n° 7.713, de 1988, art. 35), relativos ao exercício financeiro de 1992, períodobase de 1991, será convertido em quantidade de Ufir diária, segundo o valor desta no dia 1° de janeiro de 1992. Parágrafo único. Os impostos e a contribuição social, bem como cada duodécimo ou quota destes, serão reconvertidos em cruzeiros mediante a multiplicação da quantidade de Ufir diária pelo valor dela na data do pagamento. Fl. 586DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 587 37 Art. 80. Fica autorizada a compensação do valor pago ou recolhido a título de encargo relativo à Taxa Referencial Diária (TRD) acumulada entre a data da ocorrência do fato gerador e a do vencimento dos tributos e contribuições federais, inclusive previdenciárias, pagos ou recolhidos a partir de 4 de fevereiro de 1991. Art. 81. A compensação dos valores de que trata o artigo precedente, pagos pelas pessoas jurídicas, darseá na forma a seguir: (...) II os valores referentes à TRD pagos em relação às parcelas da contribuição social sobre o lucro (Lei n° 7.689, de 1988), do Finsocial e do PIS/Pasep, somente poderão ser compensados com as parcelas a pagar de contribuições da mesma espécie; Art. 89. As empresas que optarem pela tributação com base no lucro presumido deverão pagar o imposto de renda da pessoa jurídica e a contribuição social sobre o lucro (Lei n° 7.689, de 1988): I relativos ao períodobase de 1991, nos prazos fixados na legislação em vigor, sem as modificações introduzidas por esta lei; II a partir do anocalendário de 1992, segundo o disposto no art. 40. A Lei n. 8.541, de 23.12.1992, por sua vez, dispôs sobre a apuração e pagamento da CSL, estatuindo a base de cálculo do tributo em 10% da receita bruta mensal para empresas tributadas com base no lucro real, optantes pelo pagamento do imposto mensal calculado por estimativa: Art. 38. Aplicamse à contribuição social sobre o lucro (Lei n° 7.689, de 15 de dezembro de 1988) as mesmas normas de pagamento estabelecidas por esta lei para o Imposto de Renda das pessoas jurídicas, mantida a base de cálculo e alíquotas previstas na legislação em vigor, com as alterações introduzidas por esta lei. § 1° A base de cálculo da contribuição social para as empresas que exercerem a opção a que se refere o art. 23 desta lei será o valor correspondente a dez por cento da receita bruta mensal, acrescido dos demais resultados e ganhos de capital. § 2° A base de cálculo da contribuição social será convertida em quantidade de Ufir diária pelo valor desta no último dia do períodobase. § 3° A contribuição será paga até o último dia útil do mês subseqüente ao de apuração, reconvertida para cruzeiro com base na expressão monetária da Ufir diária vigente no dia anterior ao do pagamento. Art. 39. A base de cálculo da contribuição social sobre o lucro, apurada no encerramento do anocalendário, pelas empresas referidas no art. 38, § 1°, desta lei, será convertida em Ufir diária, tomandose por base o valor desta no último dia do período. § 1° A contribuição social, determinada e recolhida na forma do art. 38 desta lei, será reduzida da contribuição apurada no encerramento do anocalendário. § 2° A diferença entre a contribuição devida, apurada na forma deste artigo, e a importância paga nos termos do art. 38, §1°, desta lei, será: a) paga em quota única, até a data fixada para entrega da declaração anual, quando positiva; Fl. 587DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 588 38 b) compensada, corrigida monetariamente, com a contribuição mensal a ser paga nos meses subseqüentes ao fixado para entrega da declaração anual, se negativa, assegurada a alternativa de restituição do montante pago a maior. A Lei n. 8.981, de 20.01.1995, aproximando ainda mais a CSL do IRPJ, introduziu os seguintes enunciados prescritivos: Art. 57. Aplicamse à Contribuição Social sobre o Lucro (Lei nº 7.689, de 1988) as mesmas normas de apuração e de pagamento estabelecidas para o Imposto de Renda das pessoas jurídicas, mantidas a base de cálculo e as alíquotas previstas na legislação em vigor, com as alterações introduzidas por esta lei. § 1º Para efeito de pagamento mensal, a base de cálculo da contribuição social será o valor correspondente a dez por cento do somatório: a) da receita bruta mensal; b) das demais receitas e ganhos de capital; c) dos ganhos líquidos obtidos em operações realizadas nos mercados de renda variável; d) dos rendimentos produzidos por aplicações financeiras de renda fixa. § 2º No caso das pessoas jurídicas de que trata o inciso III do art. 36, a base de cálculo da contribuição social corresponderá ao valor da receita bruta ajustada, quando for o caso, pelo valor das deduções previstas no art. 29. § 3º A pessoa jurídica que determinar o Imposto de Renda a ser pago em cada mês com base no lucro real (art. 35), deverá efetuar o pagamento da contribuição social sobre o lucro, calculandoa com base no lucro líquido ajustado apurado em cada mês. § 4º No caso de pessoa jurídica submetida ao regime de tributação com base no lucro real, a contribuição determinada na forma dos §§ 1º a 3º será deduzida da contribuição apurada no encerramento do período de apuração. Art. 58. Para efeito de determinação da base de cálculo da contribuição social sobre o lucro, o lucro líquido ajustado poderá ser reduzido por compensação da base de cálculo negativa, apurada em períodosbase anteriores em, no máximo, trinta por cento. Art. 59. A contribuição social sobre o lucro das sociedades civis, submetidas ao regime de tributação de que trata o art. 1º do DecretoLei nº 2.397, de 1987, deverá ser paga até o último dia útil do mês de janeiro de cada anocalendário. Art. 117. Revogamse as disposições em contrário, e, especificamente: (...) II o parágrafo único do art. 44 e o art. 47 da Lei nº 8.383, de 30 de dezembro de 1991; A Lei n. 9.065, de 20.06.1995, deu nova redação à alteração outrora introduzida pela Lei 8.981/95, estabelecendo a alíquota da CSL em 9% sobre a receita bruta ajustada, especificadamente para instituições financeiras: Art. 1º Os dispositivos da Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995, adiante indicados, passam a vigorar com a seguinte redação: (...) Fl. 588DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 589 39 Art. 57. Aplicamse à Contribuição Social sobre o Lucro (Lei nº 7.689, de 1988) as mesmas normas de apuração e de pagamento estabelecidas para o imposto de renda das pessoas jurídicas, inclusive no que se refere ao disposto no art. 38, mantidas a base de cálculo e as alíquotas previstas na legislação em vigor, com as alterações introduzidas por esta Lei. (...) § 2º No caso das pessoas jurídicas de que trata o inciso III do art. 36, a base de cálculo da contribuição social corresponderá ao valor decorrente da aplicação do percentual de nove por cento sobre a receita bruta ajustada, quando for o caso, pelo valor das deduções previstas no art. 29. A Lei n. 9.249, de 26.12.1995, novamente alterou a alíquota da CSL, que passou a ser, em geral, de 8% e de 18% para as instituições arroladas no § 1º do art. 22 da Lei nº 8.212, de 24.07.1991, e a base de cálculo da CSL mensal para 12% da receita bruta: Art. 19. A partir de 1º de janeiro de 1996, a alíquota da contribuição social sobre o lucro líquido, de que trata a Lei nº 7.689, de 15 de dezembro de 1988, passa a ser de oito por cento. Parágrafo único. O disposto neste artigo não se aplica às instituições a que se refere o § 1º do art. 22 da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, para as quais a alíquota da contribuição social será de dezoito por cento. Art. 20. A partir de 1º de janeiro de 1996, a base de cálculo da contribuição social sobre o lucro líquido, devida pelas pessoas jurídicas que efetuarem o pagamento mensal a que se referem os arts. 27 e 29 a 34 da Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995, e pelas pessoas jurídicas desobrigadas de escrituração contábil, corresponderá a doze por cento da receita bruta, na forma definida na legislação vigente, auferida em cada mês do anocalendário. A Lei n. 9.316, de 22.11.1996, por sua vez, vedou a exclusão do valor da CSL na sua própria base de cálculo: Art. 1º O valor da contribuição social sobre o lucro líquido não poderá ser deduzido para efeito de determinação do lucro real, nem de sua própria base de cálculo. Parágrafo único. Os valores da contribuição social a que se refere este artigo, registrados como custo ou despesa, deverão ser adicionados ao lucro líquido do respectivo período de apuração para efeito de determinação do lucro real e de sua própria base de cálculo. Art. 2. A contribuição social sobre o lucro líquido, devida pelas instituições a que se refere o § 1º do art. 22 da Lei no 8.212, de 24 de julho de 1991, será calculada à alíquota de dezoito por cento. A Lei n. 9.430, de 27.12.1996, em especial, determinou: Art. 28. Aplicamse à apuração da base de cálculo e ao pagamento da contribuição social sobre o lucro líquido as normas da legislação vigente e as correspondentes aos arts. 1º a 3º, 5º a 14, 17 a 24, 26, 55 e 71, desta Lei. Art. 29 dessa última Lei determinou que a apuração da base de cálculo da contribuição social sobre o lucro líquido corresponderá [...] à soma dos valores: I – de que trata o art. 20 da Lei nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995; II – os ganhos de capital, os rendimentos e ganhos líquidos auferidos em aplicações financeiras, as demais receitas e os resultados positivos decorrentes de receitas não abrangidas pelo inciso anterior e demais valores determinados nesta Lei, auferidos naquele mesmo período. Fl. 589DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 590 40 A Lei n. 9.532, de 10.12.1997, trouxe alterações em relação a inclusões e deduções da base de cálculo da CSLL: Art. 60. O valor dos lucros distribuídos disfarçadamente, de que tratam os arts. 60 a 62 do DecretoLei nº 1.598, de 1977, com as alterações do art. 20 do DecretoLei nº 2.065, de 26 de outubro de 1983, serão, também, adicionados ao lucro líquido para efeito de determinação da base de cálculo da contribuição social sobre o lucro líquido. Ao tutelar a tributação das controladas e coligadas no exterior, a MP n. 2158 35/2001 previu que para fim de determinação da base de cálculo da CSLL, os lucros, rendimentos e ganhos de capital seriam considerados disponibilizados na data do balanço no qual fossem apurados: Art.74. Para fim de determinação da base de cálculo do imposto de renda e da CSLL, nos termos do art. 25 da Lei no 9.249, de 26 de dezembro de 1995, e do art. 21 desta Medida Provisória, os lucros auferidos por controlada ou coligada no exterior serão considerados disponibilizados para a controladora ou coligada no Brasil na data do balanço no qual tiverem sido apurados, na forma do regulamento. Parágrafo único. Os lucros apurados por controlada ou coligada no exterior até 31 de dezembro de 2001 serão considerados disponibilizados em 31 de dezembro de 2002, salvo se ocorrida, antes desta data, qualquer das hipóteses de disponibilização previstas na legislação em vigor. A Lei n. 10.637, de 30.12.2002 fixou a alíquota da CSL em 9% para os fatos geradores ocorridos a partir de 01.01.2003. Art. 37. Relativamente aos fatos geradores ocorridos a partir de 1o de janeiro de 2003, a alíquota da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), instituída pela Lei no 7.689, de 15 de dezembro de 1988, será de 9% (nove por cento). Por fim, houve ainda uma alteração legislativa em 2008 e uma em 2015, que não são aplicáveis ao caso concreto em vista do princípio da anterioridade, que impõe a sua vigência para fatos ocorridos a partir de 2009 e 2016, respectivamente. No entanto, as referidas alterações apresentam a mesma natureza das anteriores. 2.3. Inexistência de alterações substanciais sobre a legislação enfrentada na respectiva ação judicial: manutenção do “estado de direito” objeto da ação judicial. Analiticamente, as reformas legislativas implementadas “apenas modificaram a alíquota e a base de cálculo da contribuição instituída pela Lei 7.689/88, ou dispuseram sobre a forma de pagamento, alterações que não criaram nova relação jurídicotributária”. Nenhuma delas foi substancial a ponto de representar “modificação no estado de fato ou de direito” capaz de fazer cessar os efeitos da coisa julgada, conforme prescrito pelo art. 505, I, do CPC/2015. No que é pertinente à inconstitucionalidade formal, é possível observar que apenas uma lei complementar tutelou a CSL até o momento. A Lei Complementar 70/91, como se viu, apenas elevou a alíquota da CSL em situações específicas, não se propondo a regrar quaisquer outros aspectos do tributo. Permanece inalterado, portanto, o estado de direito analisado pela decisão transitada em julgado, que reconheceu a aludida inconstitucionalidade formal do tributo. Materialmente, do mesmo modo, não houve reforma legislativa capaz de modificar o estado de direito declarado materialmente inconstitucional pela decisão Fl. 590DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 591 41 transitada em julgado detida pelo contribuinte. As referidas reformas, como se pôde constatar, trataram de questões procedimentais, de alíquotas e de detalhes da base de cálculo. Alterações na alíquota da CSL são completamente irrelevantes, mantendo a coisa julgada sua plena eficácia. Notese que a alíquota da CSL sequer foi objeto da ação judicial transitada em julgado proposta pelo contribuinte. As alterações realizadas na legislação atinente à base de cálculo da CSL igualmente não foram capazes de modificar o estado de direito tutelado pela ação judicial detida pelo contribuinte: referida norma individual e concreta impede que a CSL tenha como hipótese de incidência substrato que se sobreponha à hipótese de incidência do IRPJ, afastando a possibilidade de cobrança da contribuição. Por consequência, alterações pontuais na base de cálculo da CSL, que em nada modificaram a aludida sobreposição da CSL e do IRPJ, em nada modificam o estado de direito tutelado pela coisa julgada. Desde a sua criação até os tempos atuais, a CSL não alterou a sua hipótese de incidência: a pessoa jurídica domiciliada no Brasil (e as que lhe forem equiparadas) que vier a auferir lucro deverá apurar e recolher a contribuição social. Nem sequer uma única reforma foi realizada no art. 1o da Lei 7.689/88, que prescreve o aspecto material da hipótese de incidência da CSL, qual seja, auferir lucro (“Art. 1º Fica instituída contribuição social sobre o lucro das pessoas jurídicas, destinada ao financiamento da seguridade social”.) Nenhuma alteração tampouco foi realizada no caput do art. 2o da Lei 7.689/88, segundo o qual “a base de cálculo da contribuição é o valor do resultado do exercício, o qual deve ser considerado antes mesmo da provisão para o imposto de renda. Em especial, o § 1º, “c”, embora tenha ganho nova redação em 1989, 1990 e 2014, mantevese essencialmente inalterado. Conforme a Lei 7.689/88, o art. 2o, § 1º, “c”, seja em sua redação original ou em sua mais atual, a base de cálculo da CSL consiste basicamente no “o resultado do período base, apurado com observância da legislação comercial”, ajustado por adições, exclusões e compensações. A mesma diretriz da redação original da Lei 7.689 permanece inalterada desde a sua publicação, em 1988: a base de cálculo da CSL corresponde a acréscimos patrimoniais, ao “lucro” reconhecido pela legislação de regência. Mais evidente ainda é a insignificância, ao presente caso, das alterações de natureza meramente procedimental, atinentes à data ou à forma de recolhimento do tributo. Ao analisar o período compreendido entre 1988 e meados de 2005, TÉRCIO SAMPAIO FERRAZ JR12 obteve a mesma conclusão, explicitando fundamentos irretocáveis, in verbis: “(...) para haver mudança nos ‘termos da relação’ é preciso que a modificação daquela consequência ocorra por força da modificação do fato gerador e não por simples alteração da alíquota, mantendose a mesma hipótese de incidência. Ora, a Lei n. 7.689/88 foi, de fato, submetida a inúmeras modificações. Nenhuma delas, porém alterou os ‘termos da relação’, de modo que, por se tratar de norma nova, pudesse ser ignorada a decisão transitada em julgado. (...) Ora, essa insistência na manutenção das demais normas da referida Lei aponta, justamente, para o cerne do esquema de ação julgado inconstitucional, 12 FERRAZ JR., Tércio Sampaio. Coisa julgada em matéria tributária e as alterações sofridas pela legislação da contribuição social sobre o lucro Lei n. 7.689/88. In: Revista Dialética de Direito Tributário, n. 125. São Paulo: Dialética, 2006, p. 90 e seg. Fl. 591DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 592 42 cuja sentença transitou em julgado. Esse cerne do esquema de ação julgado inconstitucional, cuja sentença transitou em julgado. Esse cerne está em que a Lei n. 7.689/88 é, toda ela, inconstitucional por violação dos artigos 146 – III, 154 – I, 165 §5º, inc. III e 195, §§4º e 5º da Constituição Federal de 1988. Não se trata de inconstitucionalidade por elevação de alíquota ou aumento de tributo por alteração da base de cálculo, nem por ilegalidade nas disposições referentes à sua apuração etc. O cerne diz respeito à instituição de contribuição social por lei ordinária, por seu fato gerador ou sua base de cálculo coincidirem com impostos ou contribuições já existentes (lucro das pessoas jurídicas) e nesse cerne não se vê alterado pela legislação posterior que, a esse respeito, mantém as normas da Lei n. 7.689/88, o que, inclusive, é, reiterada e expressamente, disposto. (...) Em suma, devese entender que o caso da lei que instituiu a Contribuição sobre o Lucro Líquido (Lei n. 7.689/88) é exemplo típico de alteração legislativa que, por cingirse a alterações nominais e acessórias, que não modificam o estado de fato ou de direito (CPC, art. 471, I) existente à época de sua edição, não caracteriza alteração de regime jurídico, não podendo prejudicar a coisa julgada.” Concluise, portanto, que NÃO houve reforma legislativa para a introdução de alterações substanciais, capazes de inaugurar um novo esquema normativo com a modificação do estado de direito que foi objeto da ação judicial proposta pelo contribuinte e que goza da autoridade da coisa julgada. 2.4. O REsp 1.118.893, decidido pelo STJ sob a sistemática dos recursos repetitivos (CPC/73, art. 543C, CPC/2015, arts. 1.036 a 1.040). A fundamentação deste voto, até aqui exposta, poderia ser suplantada com fundamento no art. 62, § 2o, do RICARF. Ocorre que o STJ, sob a sistemática dos recursos repetitivos, por meio do REsp 1.118.893, assentou decisão exatamente sobre o tema ora sob julgamento, como se observa de sua ementa: CONSTITUCIONAL. TRIBUTÁRIO. PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. RITO DO ART. 543C DO CPC. CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO CSLL. COISA JULGADA. DECLARAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE DA LEI 7.689/88 E DE INEXISTÊNCIA DE RELAÇÃO JURÍDICO TRIBUTÁRIA. SÚMULA 239/STF. ALCANCE. OFENSA AOS ARTS. 467 E 471, CAPUT, DO CPC CARACTERIZADA. DIVERGÊNCIA JURISPRUDENCIAL CONFIGURADA. PRECEDENTES DA PRIMEIRA SEÇÃO DO STJ. RECURSO ESPECIAL CONHECIDO E PROVIDO. 1. Discutese a possibilidade de cobrança da Contribuição Social sobre o Lucro CSLL do contribuinte que tem a seu favor decisão judicial transitada em julgado declarando a inconstitucionalidade formal e material da exação conforme concebida pela Lei 7.689/88, assim como a inexistência de relação jurídica material a seu recolhimento. 2. O Supremo Tribunal Federal, reafirmando entendimento já adotado em processo de controle difuso, e encerrando uma discussão conduzida ao Poder Judiciário há longa data, manifestouse, ao julgar ação direta de inconstitucionalidade, pela adequação da Lei 7.689/88, que instituiu a CSLL, ao texto constitucional, à exceção do disposto no art 8º, por ofensa ao princípio da irretroatividade das leis, e no art. 9º, em razão da incompatibilidade com os arts. 195 da Constituição Federal e 56 do Ato das Disposições Constitucionais Fl. 592DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 593 43 Transitórias ADCT (ADI 15/DF, Rel. Min. SEPÚLVEDA PERTENCE, Tribunal Pleno, DJ 31/8/07). 3. O fato de o Supremo Tribunal Federal posteriormente manifestarse em sentido oposto à decisão judicial transitada em julgado em nada pode alterar a relação jurídica estabilizada pela coisa julgada, sob pena de negar validade ao próprio controle difuso de constitucionalidade. 4. Declarada a inexistência de relação jurídicotributária entre o contribuinte e o fisco, mediante declaração de inconstitucionalidade da Lei 7.689/88, que instituiu a CSLL, afastase a possibilidade de sua cobrança com base nesse diploma legal, ainda não revogado ou modificado em sua essência. 5. Afirmada a inconstitucionalidade material da cobrança da CSLL, não tem aplicação o enunciado nº 239 da Súmula do Supremo Tribunal Federal, segundo o qual a “Decisão que declara indevida a cobrança do imposto em determinado exercício não faz coisa julgada em relação aos posteriores” (AgRg no AgRg nos EREsp 885.763/GO, Rel. Min. HAMILTON CARVALHIDO, Primeira Seção, DJ 24/2/10). 6. Segundo um dos precedentes que deram origem à Súmula 239/STF, em matéria tributária, a parte não pode invocar a existência de coisa julgada no tocante a exercícios posteriores quando, por exemplo, a tutela jurisdicional obtida houver impedido a cobrança de tributo em relação a determinado período, já transcorrido, ou houver anulado débito fiscal. Se for declarada a inconstitucionalidade da lei instituidora do tributo, não há falar na restrição em tela (Embargos no Agravo de Petição 11.227, Rel. Min. CASTRO NUNES, Tribunal Pleno, DJ 10/2/45). 7. "As Leis 7.856/89 e 8.034/90, a LC 70/91 e as Leis 8.383/91 e 8.541/92 apenas modificaram a alíquota e a base de cálculo da contribuição instituída pela Lei 7.689/88, ou dispuseram sobre a forma de pagamento, alterações que não criaram nova relação jurídicotributária. Por isso, está impedido o Fisco de cobrar a exação relativamente aos exercícios de 1991 e 1992 em respeito à coisa julgada material" (REsp 731.250/PE, Rel. Min. ELIANA CALMON, Segunda Turma, DJ 30/4/07). 8. Recurso especial conhecido e provido. Acórdão sujeito ao regime do art. 543C do Código de Processo Civil e da Resolução 8/STJ. (REsp 1118893/MG, Rel. Ministro ARNALDO ESTEVES LIMA, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 23/03/2011, DJe 06/04/2011) O STJ delimitou com clareza o objeto do REsp 1.118.893, que tem abrangência para tutelar, conforme as regras dos recursos repetitivos (CPC/2015, art. 543C), “decisão judicial transitada em julgado declarando a inconstitucionalidade formal e material da exação conforme concebida pela Lei 7.689/88, assim como a inexistência de relação jurídica material a seu recolhimento”. 2.4.1. A construção da norma geral e concreta emanada do STJ pelo rito dos recursos repetitivos: a ratio decidendi do REsp 1.118.893 que vincula os Conselheiros do CARF. “Esta conclusão é inexorável em virtude da função que para nós exerce o STJ ao julgar o recurso especial: impor, ao resto do país, a obediência à interpretação que lhe parece a melhor (e, portanto, a única correta) acerca da lei federal”. TERESA ARRUDA ALVIM WAMBIER13 Os mecanismos processuais, vocacionados a oferecer aos indivíduos segurança e efetividade na composição de conflitos, vêm experimentando constante evolução 13 WAMBIER, Teresa Arruda Alvim. Recurso especial, recurso extraordinário e ação rescisória. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2008 , p. 266. Fl. 593DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 594 44 no Direito brasileiro. E é esse o contexto do advento da Lei 11.672, de 08.05.2008 que, ao introduzir o art. 543C ao CPC/73, regulamentou, no âmbito do STJ, o rito dos chamados “recursos repetitivos” ou “recursos representativos de controvérsia”. No CPC/2015, o rito dos recursos repetitivos passou a constar em seus arts. 1.036 a 1.040, com alterações pontuais. Em comum no CPC de 1973 e no de 2015, há dois elementos fundamentais na aplicação do rito dos recursos repetitivos: (i) multiplicidade de recursos sobre a matéria. Por meio deste aspecto quantitativo, fazse a segregação dos casos que seguirão o procedimento comum dos recursos especiais submetidos ao STJ daqueles afetados ao rito dos recursos repetitivos. (ii) idêntica questão de direito. As matérias afetadas pelo rito dos recursos repetitivos versam sobre questões de direito, de tal forma que a respectiva decisão do STJ terá eficácia sobre outras ações que apresentem pedido e causa de pedir equivalentes, sendo indiferentes aspectos subjetivos. Em uma espécie de julgamento por amostragem, são levados à apreciação dos i. Ministros do STJ tantos recursos especiais quanto sejam necessários para a “mais precisa percepção possível não apenas da questão de direito cuja relevância há de se aferir, como também do conflito em que ela se insere”14. Os casos selecionados devem propiciar a ventilação dos mais relevantes argumentos no tocante a interpretação que deve ser atribuída à legislação federal, pois a norma decorrente do julgamento proclamado pelo STJ deverá ser aplicada a todos os demais casos que apresentem questão de direito equivalente. Atribuise à decisão do STJ, então, a feição de precedente com “força necessária para servir como ratio decidendi para o juiz subsequente”15. A norma enunciada pelo STJ, por meio de julgamento conduzido conforme o rito dos recursos repetitivos, deverá ser aplicada à generalidade dos processos que, em massa, forem conduzidos perante o Poder Judiciário, com uma decisão in concreto sobre a questão controvertida (ratio decidendi). Tratase, portanto, de norma geral e concreta16. A força vinculante das referidas decisões condiz com a função do STJ de corte uniformizadora, obrigando a todos “em favor da segurança jurídica que o ordenamento deve e precisa proporcionar aos que convivem no grupo social, como o fazem as normas de caráter geral positivadas pela função legislativa”17. E é de natural relevância ao presente julgamento notar que a norma em questão, emanada do STJ, não têm eficácia apenas perante os membros do Poder Judiciário. A referida ratio decidendi pode também influenciar os julgamentos de Tribunais Administrativos, como é o caso do CARF. São relevantes as observações de SAMUEL MEIRA BRASIL JUNIOR18, in verbis: 14 TALAMINI, Eduardo. Julgamento de recursos no STJ ‘por amostragem’. Informativo Justen, Pereira Oliveira e Talamini, 2008. Disponível em www.justen.com.br/informativo. 15 MESQUITA, José Ignácio Botelho et al. A repercussão geral e os recursos repetitivos: economia, direito e política, In: Revista de Processo, São Paulo, v. 38, n. 220, p. 1332, jun. 2013, p. 29. 16 Vide: CARVALHO, Paulo de Barros. Direito tributário: fundamentos jurídicos da incidência. 7ª ed. São Paulo: Saraiva, 2009, p. 3541. 17 PASSOS, Calmon de. Súmula vinculante. Revista do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, v. 9, n. 1, jan. mar. 1997, p. 163176. 18BRASIL JUNIOR, Samuel Meira, Precedentes vinculantes e jurisprudência dominante na solução das controvérsias. Tese de doutorado apresentada à Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. São Paulo, USP, 2010, p. 299300. Fl. 594DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 595 45 “Mas e a administração pública? Poderíamos dizer que a administração pública não está obrigada a seguir o entendimento do STJ? Poderíamos sustentar que a interpretação do STJ sobre determinada lei não precisa ser observada pela administração pública? Haveria espaço para “dois direitos” – se é que podemos chamar assim , um ditado pelo STJ, outro advindo de interpretação contrária da administração pública? O STJ pode dizer que determinada exação tributária não incide e a administração pública pode dizer que incide, porque as decisões do STJ não vinculam? Os órgãos administrativos podem se recusar a reconhecer uma vantagem funcional (ou a reconhecêla, e for o caso), quando os precedentes do STJ dizem o contrário? A administração pública pode insistir em manter um procedimento licitatório quando o STJ afirma que um requisito essencial, com a falta de competitividade, não foi atendido? (...) A resposta a todas essa perguntas é um sonoro e convicto não! Não há como reconhecer a existência de duas interpretações para um só direito. A interpretação divergente de lei federal dada pela administração pública causa grave insegurança jurídica e acarreta a multiplicação desnecessária de processos. A interpretação unificadora do direito federal dada pelo STJ dever ser impositivamente observada, inclusive pela administração pública direta e indireta, nas esferas federal, estadual e municipal. Se o tributo é inexigível, então a respectiva pessoa jurídica de direito público não poderá reclamálo, justificando que os precedentes do STJ não são vinculantes. O mesmo argumento pode ser usado para as demais relações com a administração pública, sejam funcionais, contratuais ou outra qualquer. Portanto, não se compreende o porque da administração pública não estar vinculada aos precedentes do STJ. É dizer que os juízes não podem decidir contra o STJ, mas a administração pública pode. Ora, isso é incongruente! Como justificar essa dualidade de ações? O direito é um só, seja aplicado pela administração pública, seja aplicado pelos juízes. Não é possível dizer que um sistema normativo convive com dois ‘direitos’ distintos, aquele dos juízes e aquele da administração pública.” Em especial, o art. 62, § 2o, do RICARF, obriga aos seus Conselheiros que reproduzam as decisões do Supremo Tribunal Federal (doravante “STF”) e do STJ, desde que tenham sido proferidas pela sistemática da repercussão geral (CPC/73, art. 543B) e dos recursos repetitivos (CPC/73, art. 543C). O STJ, ao determinar a observância do REsp 1.118.893 conforme o regime dos recursos repetitivos, considerou o contexto da criação da CSL pela Lei n. 7.689/88 e de alterações legislativas realizadas na sua matriz legal. A decisão proferida prescreveu a sua abrangência a todas as situações em que leis supervenientes “apenas modificaram a alíquota e a base de cálculo da contribuição instituída pela Lei 7.689/88, ou dispuseram sobre a forma de pagamento, alterações que não criaram nova relação jurídicotributária”. Esse é o critério de distinção estabelecido no REsp 1.118.893, representando o núcleo da ratio decidendi dotada de efeito vinculante e que, por dever de ofício, estão os julgadores do CARF obrigados a reproduzir. Além da enunciação da norma geral e concreta sob o regime dos recursos repetitivos (ratio decidendi), também foi prolatada norma individual e concreta no julgamento do REsp 1.118.893, direcionada às partes do respectivo processual judicial cujo recurso especial foi selecionado. Naturalmente, a decisão individual e concreta em questão adotou a ratio decidendi que passou a ser aplicável a todos os demais litígios que versem sob a matéria. Ao aplicar a ratio decidendi consagrada pelo rito dos recursos repetitivos àquele caso concreto, o STJ observou que os períodos de apuração cuja cobrança pretendia o Fl. 595DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 596 46 fisco correspondiam a 1991 e 1992. Desse modo, adotandose para o caso em questão o critério indicado para todos os demais casos que tratem da matéria, o STJ investigou a Lei n. 7.856/89, a Lei n. 8.034/90, a LC n. 70/91, a Lei n. 8.212. , a Lei n. 8.383/91 e a Lei n. 8.541/92, constando que nenhuma delas teve o condão de alterar de substancialmente o tributo que houvera sido objeto de decisão transitada em julgado, mas apenas modificaram alíquotas, alguns detalhes da base de cálculo ou dispuseram sobre a forma de pagamento. Para o caso concreto, então, concluiu que, “Por isso, está impedido o Fisco de cobrar a exação relativamente aos exercícios de 1991 e 1992 em respeito à coisa julgada material”. Não se pode confundir (i) a ratio decidendi da norma geral e concreta emanada pelo STJ conforme o rito dos recursos repetitivos, cuja reprodução é dever de ofício dos julgadores do CARF, (ii) com a norma individual e concreta veiculada no REsp 1.118.893 para a resolução do litígio estabelecido naquele específico processo, a qual consistiu na aplicação da ratio decidendi ao específico período de apuração ali discutido e cujo resultado interessa apenas às partes litigantes. No presente julgamento administrativo, os valores exigidos do contribuinte a título de CSL se referem ao período de 1999 a 2003, fazendose necessário, então, verificar a natureza das alterações legislativas realizadas na matriz legal do tributo até esse período. Esse exercício, como se viu, decorre da necessidade da adoção do critério enunciado pelo STJ para a aplicação do REsp 1.118.893 à massa de casos concretos tutelados pelo regime dos recursos repetitivos (ratio decidendi). Nesse mesmo sentido vem decidindo esta CSRF, como se constata dos acórdãos a seguir ementados. CSRF, Sessão de 20.01.2015, acórdão n. 9101002.087. Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL Anocalendário: 2005 RELAÇÃO JURÍDICO TRIBUTÁRIA CONTINUATIVA. DECISÃO TRANSITADA EM JULGADA EM AÇÃO JUDICIAL QUE DECLARA A INCONSTITUCIONALIDADE DA EXIGÊNCIA DA CSLL NOS TERMOS DA LEI Nº 7.689/88. COISA JULGADA. DECISÃO POSTERIOR EM AÇÃO DIRETA DE CONSTITUCIONALIDADE. EFEITOS. ALCANCE TEMPORAL. RECURSO ESPECIAL 1.118.893 MG (2009/00111359), SUBMETIDO AO REGIME DO ARTIGO 543C DO CPC. ARTIGO 62 A DO REGIMENTO INTERNO DO CARF. Segundo entendimento do STJ proferido no julgamento do Recurso Especial 1.118.893 MG, submetido ao artigo 543 C do CPC: Nos casos que envolvem relação jurídico tributária continuativa, a decisão transitada em julgado, declarando a inexistência de relação jurídico tributária entre o contribuinte e o fisco, faz coisa julgada em relação a períodos posteriores. Nos casos em que há decisão judicial transitada em julgado, em controle difuso, declarando a inexistência de relação jurídico tributária entre o contribuinte e o fisco, mediante declaração de inconstitucionalidade de lei que instituiu determinado tributo, a decisão posterior, em controle concentrado, mediante Ação Declaratória de Constitucionalidade, em sentido oposto à decisão judicial transitada em julgado em nada pode alterar a relação jurídica estabilizada pela coisa julgada. CSRF. Sessão de 04.06.2012. Acórdão n. 9101001.369 Fl. 596DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 597 47 LIMITES DA COISA JULGADA – Tendo o Superior Tribunal de Justiça, sob a sistemática dos chamados Recursos Repetitivos, reconhecido, na espécie, a efetiva ofensa à coisa julgada, nas hipóteses em que a decisão obtida pelo contribuinte reconhece a inconstitucionalidade incidenter tantum da exigência da CSLL originalmente, pelas disposições da Lei 7689/88 , sejalhe exigida, agora, com a simples referência à existência de diplomas normativos posteriores que rege a matéria, deve os conselheiros desta Corte, reproduzir tal entendimento no julgamento dos recursos no âmbito do CARF, a teor do disposto no art. 62A do Regimento É, portanto, equivocado cogitar que o REsp 1.118.893, julgado sob o rito dos recursos repetitivos, teria eficácia técnica para alcançar exclusivamente lançamentos tributários realizados até os anos de 1991 e 1992. Tal interpretação destoa dos propósitos de segurança jurídica e de pacificação social em nossa sociedade, que exigem a distribuição em massa da justiça e que justificam os recursos repetitivos, de forma a conduzir para a insegurança jurídica e, em última análise, ao abarrotamento do Poder Judiciário, cuja única solução possível – ao menos diante dos elementos atuais do sistema jurídico brasileiro – será a aplicação do REsp 1.118.893. A ratio decidendi da norma competente emanada pelo STJ, como se evidenciou acima, é perfeitamente aplicável a quaisquer períodos, especialmente porque, até a presente data, não houve de fato alteração ao estado de direito atinente à CSL. 3. Os efeitos da ADIn. 15 sobre a coisa julgada detida pelo contribuinte. Como não foram realizadas modificações substanciais na matriz legal da CSL, mantendose o estado de direito tutelado pela Mandado de Segurança n. 89.00.00811 0, deve ser acatada a autoridade da coisa julgada. A essa norma individual e concreta prescrita pela decisão judicial transitada em julgada deve ser dada plena eficácia, salvo na hipótese de uma outra decisão competente do Poder Judiciário lhe retira do sistema. Para a solução do caso ora sob julgamento, portanto, é fundamental analisar a necessidade de ação rescisória para desconstituir a coisa julgada ou, como se sustenta no Parecer PGFN/CRJ n. 492/2011, se da ADIn n. 1519, julgada pelo STF em 2007, surtiriam efeitos para desconstituir automaticamente a decisão transitada em julgado detida pelo contribuinte. 3.1. O respeito à coisa julgada e a essencialidade de nova norma individual e concreta decorrente de ação rescisória. 19 STF, ADI 15, Relator Min. SEPÚLVEDA PERTENCE, Tribunal Pleno, julgado em 14.06.2007, publicado em 31.08.2007. Ementa: ADIn: legitimidade ativa: "entidade de classe de âmbito nacional" (art. 103, IX, CF): compreensão da "associação de associações" de classe. Ao julgar, a ADIn 3153AgR, 12.08.04, Pertence, Inf STF 356, o plenário do Supremo Tribunal abandonou o entendimento que excluía as entidades de classe de segundo grau as chamadas "associações de associações" do rol dos legitimados à ação direta. II. ADIn: pertinência temática. Presença da relação de pertinência temática, pois o pagamento da contribuição criada pela norma impugnada incide sobre as empresas cujos interesses, a teor do seu ato constitutivo, a requerente se destina a defender. III. ADIn: não conhecimento quanto ao parâmetro do art. 150, § 1º, da Constituição, ante a alteração superveniente do dispositivo ditada pela EC 42/03. IV. ADIn: L. 7.689/88, que instituiu contribuição social sobre o lucro das pessoas jurídicas, resultante da transformação em lei da Medida Provisória 22, de 1988. 1. Não conhecimento, quanto ao art. 8º, dada a invalidade do dispositivo, declarado inconstitucional pelo Supremo Tribunal, em processo de controle difuso (RE 146.733), e cujos efeitos foram suspensos pelo Senado Federal, por meio da Resolução 11/1995. 2. Procedência da arguição de inconstitucionalidade do artigo 9º, por incompatibilidade com os artigos 195 da Constituição e 56, do ADCT/88, que, não obstante já declarada pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento do RE 150.764, 16.12.92, M. Aurélio (DJ 2.4.93), teve o processo de suspensão do dispositivo arquivado, no Senado Federal, que, assim, se negou a emprestar efeitos erga omnes à decisão proferida na via difusa do controle de normas. 3. Improcedência das alegações de inconstitucionalidade formal e material do restante da mesma lei, que foram rebatidas, à exaustão, pelo Supremo Tribunal, nos julgamentos dos RREE 146.733 e 150.764, ambos recebidos pela alínea b do permissivo constitucional, que devolve ao STF o conhecimento de toda a questão da constitucionalidade da lei. Fl. 597DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 598 48 “(...) se a rescisória é cabível, é, antes, necessária; sendo necessária, não se pode, fora dela, obterse o efeito jurídico que só por ela se pode licitamente obter.” ADA PELLEGRINI GRINOVER20 A hipótese de ajuizamento de ação rescisória para a desconstituição da coisa julgada, em face de pronunciamento definitivo do STF em sentido contrário, pode encontrar fundamento no art. 485, V, do CPC/73 Art. 485. A sentença de mérito, transitada em julgado, pode ser rescindida quando: (...) V violar literal disposição de lei; O CPC/2015 trata da ação rescisória especialmente em seu no art. 966. O inciso V desse dispositivo assim dispõe: Art. 966. A decisão de mérito, transitada em julgado, pode ser rescindida quando: (...) V violar manifestamente norma jurídica; O CPC/2015 também traz uma novidade aplicável à hipótese de execuções ajuizadas pelo particular contra as fazendas públicas. Art. 535. A Fazenda Pública será intimada na pessoa de seu representante judicial, por carga, remessa ou meio eletrônico, para, querendo, no prazo de 30 (trinta) dias e nos próprios autos, impugnar a execução, podendo arguir: (...) § 5. Para efeito do disposto no inciso III do caput deste artigo, considerase também inexigível a obrigação reconhecida em título executivo judicial fundado em lei ou ato normativo considerado inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal, ou fundado em aplicação ou interpretação da lei ou do ato normativo tido pelo Supremo Tribunal Federal como incompatível com a Constituição Federal, em controle de constitucionalidade concentrado ou difuso. § 6. No caso do § 5, os efeitos da decisão do Supremo Tribunal Federal poderão ser modulados no tempo, de modo a favorecer a segurança jurídica. § 7. A decisão do Supremo Tribunal Federal referida no § 5 deve ter sido proferida antes do trânsito em julgado da decisão exequenda. § 8. Se a decisão referida no § 5 for proferida após o trânsito em julgado da decisão exequenda, caberá ação rescisória, cujo prazo será contado do trânsito em julgado da decisão proferida pelo Supremo Tribunal Federal. Esse é o único exemplo previsto no Direito positivo para que haja a desconstituição de decisão transitada em julgado sem o manejo de ação rescisória: como resposta à execução forçada do particular para o recebimento de devolução de tributo declarado inconstitucional por decisão transitada em julgado após decisão do STF que tenha definitivamente julgado constitucional a cobrança. A doutrina processualista é incisiva neste sentido. Confirase o magistério de HUMBERTO THEODORO JÚNIOR21: 20 GRINOVER, Ada Pellegrini. A marcha do processo. Rio de Janeiro : Forense, 2000, p. 335. 21 THEODORO JR., Humberto. Coisa julgada em matéria fiscal lastreada em reconhecimento de inconstitucionalidade de lei – posterior declaração positiva de constitucionalidade da mesma lei pelo STF – efeitos. In: Revista Síntese de Direito Civil e Direito Processual Civil, n. 80, nov./dez. 2012, p. 99100. Fl. 598DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 599 49 “Só por meio de outra decisão judicial é que, nos termos do próprio art. 471, I, do CPC, se admite reconhecer a cessação de eficácia de uma sentença transitada em julgado. O efeito da declaração de constitucionalidade ou de inconstitucionalidade não apaga, automaticamente, a coisa julgada. Em nome da segurança jurídica, a parte, para se subtrair à força da res iudicata, haverá de se valer da ação rescisória, ou de outro remédio processual equivalente, desde que ainda não atingido por preclusão ou decadência. É nesse sentido que se estabeleceu solidamente a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal.” Na mesma linha, assevera LEONARDO GRECO22: “A segurança jurídica, como direito fundamental, é limite que não permite a anulação do julgado com fundamento na decisão do STF. O único instrumento processual cabível para essa anulação, quanto aos efeitos já produzidos pela sentença transitada em julgado, é a ação rescisória, se ainda subsistir prazo para sua propositura.” Em igual sentido, NELSON NERY JÚNIOR23 leciona: “O sistema jurídico brasileiro não admite a relativização (rectius: desconsideração) da coisa julgada fora dos casos autorizados em numeros clausus, pois nesse caso houve negação do fundamento da república do Estado democrático de Direito (art. 1º, caput, da CF), que é formado, entre outros elementos, pela autoridade da coisa julgada.” Dado o seu caráter excepcional, as restritas hipóteses de cabimento da ação rescisória há tempos é objeto de controle do STF. Assim, na Sessão Plenária de 13.12.1963, o STF proclamou a sua Súmula n. 343, que restou assim ementada: “Não cabe ação rescisória por ofensa a literal disposição de lei, quando a decisão rescindenda se tiver baseado em texto legal de interpretação controvertida nos tribunais. A essência desse antigo enunciado sumular consiste na compreensão de que não se pode considerar que uma decisão transitada em julgado ofenda literal disposição de lei quando, no tempo de sua prolação, os Tribunais do país apresentavam entendimentos divergentes quanto ao conteúdo normativo controvertido. Se havia dissenso jurisprudencial, não seria possível afirmar ser “manifesta” a violação normativa. Assim se verificando, nos termos da Súmula n. 343 do STF, a ação rescisória fundada em ofensa a literal disposição de lei, em violação manifesta da norma jurídica, deve ser julgada improcedente ou sequer ser conhecida. Sob o rito da repercussão geral, a referida Súmula n. 343 foi objeto de interpretação e, sob uma certa perspectiva, aparente flexibilização pela Suprema Corte. Assim restou ementado o RE 590.809, de 22.10.2014: AÇÃO RESCISÓRIA VERSUS UNIFORMIZAÇÃO DA JURISPRUDÊNCIA. O Direito possui princípios, institutos, expressões e vocábulos com sentido próprio, não cabendo colar a sinonímia às expressões “ação rescisória” e “uniformização da jurisprudência”. AÇÃO RESCISÓRIA – VERBETE Nº 343 DA SÚMULA DO SUPREMO. O Verbete nº 343 da 22GRECO, Leonardo. Eficácia da declaração erga omnes de constitucionalidade ou inconstitucionalidade em relação à coisa julgada anterior, relativização da coisa julgada – enfoque crítico. Salvador: Jus Podivm, 2004, p. 156. 23 NERY JR., Nelson. Coisa julgada e estado democrático de direito. In: Estudos em homenagem à Profª Ada Pellegrini Grinover. YARSHELL, Flavio Luiz et al (coord.). São Paulo: DPJ editora, 2005, p. 727. Nelson Nery, ainda aduz que em “havendo choque entre esses dois valores(justiça da sentença e segurança das relações sociais e jurídicas), o sistema constitucional brasileiro resolve o choque, optando pelo valor segurança (coisa julgada) que deve prevalecer em relação à justiça que será sacrificada.” (op. cit., p. 717). Fl. 599DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 600 50 Súmula do Supremo deve de ser observado em situação jurídica na qual, inexistente controle concentrado de constitucionalidade, haja entendimentos diversos sobre o alcance da norma, mormente quando o Supremo tenha sinalizado, num primeiro passo, óptica coincidente com a revelada na decisão rescindenda. (STF, RE 590809, Relator Min. MARCO AURÉLIO, Tribunal Pleno, julgado em 22/10/2014, ACÓRDÃO ELETRÔNICO REPERCUSSÃO GERAL MÉRITO DJe230 DIVULG 21112014 PUBLIC 24112014) Não obstante a prolação de decisão de mérito sob o rito da repercussão geral no RE 590.809, o STF aparentemente prossegue com a adoção de interpretação restritiva quanto às hipóteses de cabimento da ação rescisória. Destacase, nesse sentido, o posterior julgamento do segundo Agravo Regimental na Ação Rescisória n. 1415, de 09.04.2015, assim ementado: SEGUNDO AGRAVO REGIMENTAL NA AÇÃO RESCISÓRIA. INEXISTÊNCIA DE VIOLAÇÃO A LITERAL DISPOSIÇÃO DE LEI. SÚMULA 343 DO STF. INCIDÊNCIA TAMBÉM NOS CASOS EM QUE A CONTROVÉRSIA DE ENTENDIMENTOS SE BASEIA NA APLICAÇÃO DE NORMA CONSTITUCIONAL. PRECEDENTE. AGRAVO DESPROVIDO. 1. Não cabe ação rescisória, sob a alegação de ofensa a literal dispositivo de lei, quando a decisão rescindenda se tiver baseado em texto legal de interpretação controvertida nos tribunais, nos termos da jurisprudência desta Corte. 2. In casu, incide a Súmula 343 deste Tribunal, cuja aplicabilidade foi recentemente ratificada pelo Plenário deste Tribunal, inclusive quando a controvérsia de entendimentos se basear na aplicação de norma constitucional (RE 590.809, Rel. Min. Marco Aurélio, DJe de 24/11/2014). 3. Agravo regimental a que se nega provimento. (STF, AR 1415 AgRsegundo, Relator(a): Min. LUIZ FUX, Tribunal Pleno, julgado em 09/04/2015, ACÓRDÃO ELETRÔNICO DJe079 DIVULG 2804 2015 PUBLIC 29042015) Merece destaque, ainda, o julgamento do Agravo Regimental na Ação Rescisória n. 2370, julgada pelo STF em 22/10/2015, assim ementado: AÇÃO RESCISÓRIA. ART. 485, V, DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL. MATÉRIA CONSTITUCIONAL. RESCISÃO DE ACÓRDÃO QUE APLICOU JURISPRUDÊNCIA DO STF POSTERIORMENTE MODIFICADA. NÃO CABIMENTO DA AÇÃO RESCISÓRIA COMO INSTRUMENTO DE UNIFORMIZAÇÃO DA JURISPRUDÊNCIA DO TRIBUNAL. PRECEDENTE. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS EM RESCISÓRIA. FIXAÇÃO. 1. Ao julgar, em regime de repercussão geral, o RE 590.809/RS, (Min. MARCO AURÉLIO, DJe de 24/11/2014), o Plenário não operou, propriamente, uma substancial modificação da sua jurisprudência sobre a não aplicação da Súmula 343 em ação rescisória fundada em ofensa à Constituição. O que o Tribunal decidiu, na oportunidade, foi outra questão: ante a controvérsia, enunciada como matéria de repercussão geral, a respeito do cabimento ou não da “rescisão de julgado fundamentado em corrente jurisprudencial majoritária existente à época da formalização do acórdão rescindendo, em razão de entendimento posteriormente firmado pelo Supremo”, a Corte respondeu negativamente, na consideração de que a ação rescisória não é instrumento de uniformização da sua jurisprudência. 2. Mais especificamente, o Tribunal afirmou que a superveniente modificação da sua jurisprudência (que antes reconhecia e depois veio a negar o direito a creditamento de IPI em operações com mercadorias isentas ou com alíquota zero) não autoriza, sob esse Fl. 600DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 601 51 fundamento, o ajuizamento de ação rescisória para desfazer acórdão que aplicara a firme jurisprudência até então vigente no próprio STF. 3. Devidos honorários advocatícios à parte vencedora segundo os parâmetros do art. 20, § 4º, do CPC. 4. Agravo regimental da União desprovido. Agravo regimental da demandada parcialmente provido. (STF, AR 2370 AgR, Relator(a): Min. TEORI ZAVASCKI, Tribunal Pleno, julgado em 22/10/2015, PROCESSO ELETRÔNICO DJe225 DIVULG 1111 2015 PUBLIC 12112015) É de extrema relevância para o julgamento do presente caso observar que o núcleo de todo esse debate no âmbito do STF consiste na interpretação restritiva ou ampliativa das hipóteses de cabimento da ação rescisória, consagrando a imprescindibilidade desta específica ação para a desconstituição da coisa julgada. A jurisprudência do STF, ao discutir a expansão ou não das hipóteses de ajuizamento de ações rescisórias, reafirma a consagrada imprescindibilidade da propositura deste específico instrumento processual para a competente desconstituição da coisa julgada. Sem decisão em ação rescisória, a higidez da autoridade da coisa julgada é plena de eficácia. É justamente devido a esse monopólio detido pela ação rescisória que as hipóteses de seu ajuizamento são discutidas de forma tão elevada perante o STF. A imprescindibilidade de ação rescisória para a desconstituição da coisa julgada corresponde a uma regra fundamental do sistema jurídico brasileiro. A autoridade da coisa julgada decorre essencialmente da necessidade da sociedade contar com decisões imutáveis que permitam a previsibilidade dos negócios jurídicos (perspectiva política), cujo paralelo jurídico encontra repouso no princípio da segurança jurídica e da certeza do direito (perspectiva jurídica). Há aqui uma relação interessante: caso a regra de desconstituição da coisa julgada não seja ela própria respeitada e aplicada nos estritos termos prescritos pelo legislador, com incerteza e insegurança quanto à sua extensão, logicamente ruiria a segurança jurídica e a certeza do direito de todo o sistema (perspectiva jurídica), com nefastas consequências à sociedade, como crises no mercado e na economia nacional (perspectiva política). Não há outra solução possível: devem ser coerentemente aplicáveis, do início ao fim, regras objetivamente prescritas pelo CPC/73 e, agora, pelo CPC/2016, para a tutela do específico instrumento processual de desconstituição da coisa julgada (ação rescisória). 3.2. Os efeitos da ADIn n. 15, julgada pelo STF em 2007, sobre decisões judiciais anteriormente transitadas em julgado. É preciso ter muito claro quais são as consequências de uma decisão do STF, em sede de ADIn, ADC ou sob a sistemática da repercussão geral, sobre uma decisão obtida no passado pelo contribuinte. O STF, em julgados como o do RE 592.912 AgR, prolatado em 03.04.2012, tem afirmado que “a superveniência de decisão do Supremo Tribunal Federal, declaratória de inconstitucionalidade de diploma normativo utilizado como fundamento do título judicial questionado, ainda que impregnada de eficácia “ex tunc” (...) não se revela apta, só por si, a desconstituir a autoridade da coisa julgada, que traduz, em nosso sistema jurídico, limite insuperável à força retroativa resultante dos pronunciamentos que emanam, “in abstracto”, da Suprema Corte”. O referido julgamento restou assim ementado: RECURSO EXTRAORDINÁRIO COISA JULGADA EM SENTIDO MATERIAL INDISCUTIBILIDADE, IMUTABILIDADE E COERCIBILIDADE: ATRIBUTOS ESPECIAIS QUE QUALIFICAM OS Fl. 601DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 602 52 EFEITOS RESULTANTES DO COMANDO SENTENCIAL PROTEÇÃO CONSTITUCIONAL QUE AMPARA E PRESERVA A AUTORIDADE DA COISA JULGADA EXIGÊNCIA DE CERTEZA E DE SEGURANÇA JURÍDICAS VALORES FUNDAMENTAIS INERENTES AO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO EFICÁCIA PRECLUSIVA DA “RES JUDICATA” “TANTUM JUDICATUM QUANTUM DISPUTATUM VEL DISPUTARI DEBEBAT” CONSEQUENTE IMPOSSIBILIDADE DE REDISCUSSÃO DE CONTROVÉRSIA JÁ APRECIADA EM DECISÃO TRANSITADA EM JULGADO, AINDA QUE PROFERIDA EM CONFRONTO COM A JURISPRUDÊNCIA PREDOMINANTE NO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL A QUESTÃO DO ALCANCE DO PARÁGRAFO ÚNICO DO ART. 741 DO CPC MAGISTÉRIO DA DOUTRINA RECURSO DE AGRAVO IMPROVIDO. A sentença de mérito transitada em julgado só pode ser desconstituída mediante ajuizamento de específica ação autônoma de impugnação (ação rescisória) que haja sido proposta na fluência do prazo decadencial previsto em lei, pois, com o exaurimento de referido lapso temporal, estar seá diante da coisa soberanamente julgada, insuscetível de ulterior modificação, ainda que o ato sentencial encontre fundamento em legislação que, em momento posterior, tenha sido declarada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal, quer em sede de controle abstrato, quer no âmbito de fiscalização incidental de constitucionalidade. A superveniência de decisão do Supremo Tribunal Federal, declaratória de inconstitucionalidade de diploma normativo utilizado como fundamento do título judicial questionado, ainda que impregnada de eficácia “ex tunc” como sucede, ordinariamente, com os julgamentos proferidos em sede de fiscalização concentrada (RTJ 87/758 RTJ 164/506509 RTJ 201/765) , não se revela apta, só por si, a desconstituir a autoridade da coisa julgada, que traduz, em nosso sistema jurídico, limite insuperável à força retroativa resultante dos pronunciamentos que emanam, “in abstracto”, da Suprema Corte. Doutrina. Precedentes. O significado do instituto da coisa julgada material como expressão da própria supremacia do ordenamento constitucional e como elemento inerente à existência do Estado Democrático de Direito. (RE 592912 AgR, Relator Min. CELSO DE MELLO, Segunda Turma, julgado em 03.04.2012, ACÓRDÃO ELETRÔNICO DJe229 DIVULG 21.11.2012 PUBLIC 22.11.2012) Outros julgados do STF seguiram de maneira uniforme para a mesma conclusão, como se observa das ementas a seguir: AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO EXTRAORDINÁRIO. EMBARGOS À EXECUÇÃO. DESAPROPRIAÇÃO. BENFEITORIAS. PAGAMENTO EM ESPÉCIE. DISPOSITIVOS LEGAIS DECLARADOS INCONSTITUCIONAIS PELO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. COISA JULGADA. DESCONSTITUIÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. É certo que esta Suprema Corte declarou a inconstitucionalidade de dispositivos que autorizam o pagamento, em espécie, de benfeitorias fora da regra do precatório. Isso não obstante, no caso dos autos, esse pagamento foi determinado por título executivo que está protegido pelo manto da coisa julgada, cuja desconstituição não é possível em sede de recurso extraordinário interposto contra acórdão proferido em processo de embargos à execução. Precedente: RE 443.356AgR, Relator o Ministro Sepúlveda Pertence. Agravo regimental desprovido. (RE 473.715AgR, rel. Min. CARLOS BRITTO, Primeira Turma, DJe de 25 052007) Fl. 602DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 603 53 Desapropriação: recurso do INCRA contra decisão proferida em execução, onde se alega impossibilidade do pagamento de benfeitorias úteis e necessárias fora da regra do precatório: rejeição: preservação da coisa julgada. Malgrado o Supremo Tribunal Federal tenha se manifestado, por duas vezes, quanto à inconstitucionalidade dos dispositivos legais que autorizam o pagamento das benfeitorias úteis e necessárias fora da regra do precatório (ADIn 1.187 MC, 09.02.1995, Ilmar; RE 247.866, Ilmar, RTJ 176/976), a decisão recorrida, exarada em processo de execução, tem por fundamento a fidelidade devida à sentença proferida na ação de desapropriação, que está protegida pela coisa julgada a respeito. (RE 431.014 AgR, rel. Min. SEPÚLVEDA PERTENCE, Primeira Turma, DJe de 25052007) Mais recentemente, no RE 730.462, sob a sistemática da repercussão geral, o STF novamente afirmou que as suas decisões não se prestam a automaticamente rescindir sentenças já transitadas em julgado, sendo imprescindível o ajuizamento de ação rescisória para tal fim. O aludido acórdão restou assim ementado: CONSTITUCIONAL E PROCESSUAL CIVIL. DECLARAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE DE PRECEITO NORMATIVO PELO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. EFICÁCIA NORMATIVA E EFICÁCIA EXECUTIVA DA DECISÃO: DISTINÇÕES. INEXISTÊNCIA DE EFEITOS AUTOMÁTICOS SOBRE AS SENTENÇAS JUDICIAIS ANTERIORMENTE PROFERIDAS EM SENTIDO CONTRÁRIO. INDISPENSABILIDADE DE INTERPOSIÇÃO DE RECURSO OU PROPOSITURA DE AÇÃO RESCISÓRIA PARA SUA REFORMA OU DESFAZIMENTO. 1. A sentença do Supremo Tribunal Federal que afirma a constitucionalidade ou a inconstitucionalidade de preceito normativo gera, no plano do ordenamento jurídico, a consequência (= eficácia normativa) de manter ou excluir a referida norma do sistema de direito. 2. Dessa sentença decorre também o efeito vinculante, consistente em atribuir ao julgado uma qualificada força impositiva e obrigatória em relação a supervenientes atos administrativos ou judiciais (= eficácia executiva ou instrumental), que, para viabilizarse, tem como instrumento próprio, embora não único, o da reclamação prevista no art. 102, I, “l”, da Carta Constitucional. 3. A eficácia executiva, por decorrer da sentença (e não da vigência da norma examinada), tem como termo inicial a data da publicação do acórdão do Supremo no Diário Oficial (art. 28 da Lei 9.868/1999). É, consequentemente, eficácia que atinge atos administrativos e decisões judiciais supervenientes a essa publicação, não os pretéritos, ainda que formados com suporte em norma posteriormente declarada inconstitucional. 4. Afirmase, portanto, como tese de repercussão geral que a decisão do Supremo Tribunal Federal declarando a constitucionalidade ou a inconstitucionalidade de preceito normativo não produz a automática reforma ou rescisão das sentenças anteriores que tenham adotado entendimento diferente; para que tal ocorra, será indispensável a interposição do recurso próprio ou, se for o caso, a propositura da ação rescisória própria, nos termos do art. 485, V, do CPC, observado o respectivo prazo decadencial (CPC, art. 495). Ressalvase desse entendimento, quanto à indispensabilidade da ação rescisória, a questão relacionada à execução de efeitos futuros da sentença proferida em caso concreto sobre relações jurídicas de trato continuado. 5. No caso, mais de dois anos se passaram entre o trânsito em julgado da sentença no caso concreto reconhecendo, incidentalmente, a constitucionalidade do artigo 9º da Medida Provisória 2.16441 (que acrescentou o artigo 29C na Fl. 603DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 604 54 Lei 8.036/90) e a superveniente decisão do STF que, em controle concentrado, declarou a inconstitucionalidade daquele preceito normativo, a significar, portanto, que aquela sentença é insuscetível de rescisão. 6. Recurso extraordinário a que se nega provimento. (STF, RE 730462, Relator(a): Min. TEORI ZAVASCKI, Tribunal Pleno, julgado em 28/05/2015, ACÓRDÃO ELETRÔNICO REPERCUSSÃO GERAL MÉRITO DJe177 DIVULG 08092015 PUBLIC 09092015) Como se pode observar, o Ministro TEORI ZAVASCKI, relator do RE 730.462, achou por bem ressalvar do quanto decidido as relações jurídicas de trato continuado. A ressalva, no entanto, atua como obter dictum, tão só para delimitar os traços do caso analisado sob o rito da repercussão geral. Significa dizer que, aquele julgado em específico, nada diz respeito a relações jurídicas de trato continuado. Sobre o cabimento de ação rescisória na hipótese de julgamento definitivo e diverso pelo STF: Embargos de Declaração em Recurso Extraordinário. 2. Julgamento remetido ao Plenário pela Segunda Turma. Conhecimento. 3. É possível ao Plenário apreciar embargos de declaração opostos contra acórdão prolatado por órgão fracionário, quando o processo foi remetido pela Turma originalmente competente. Maioria. 4. Ação Rescisória. Matéria constitucional. Inaplicabilidade da Súmula 343/STF. 5. A manutenção de decisões das instâncias ordinárias divergentes da interpretação adotada pelo STF revelase afrontosa à força normativa da Constituição e ao princípio da máxima efetividade da norma constitucional. 6. Cabe ação rescisória por ofensa à literal disposição constitucional, ainda que a decisão rescindenda tenha se baseado em interpretação controvertida ou seja anterior à orientação fixada pelo Supremo Tribunal Federal. 7. Embargos de Declaração rejeitados, mantida a conclusão da Segunda Turma para que o Tribunal a quo aprecie a ação rescisória. (RE 328812 ED, Relator Min. GILMAR MENDES, Tribunal Pleno, julgado em 06/03/2008, DJe078 DIVULG 30042008 PUBLIC 02052008 EMENT VOL0231704 PP00748 RTJ VOL0020403 PP01294 LEXSTF v. 30, n. 356, 2008, p. 255284) Nesse cenário, uma decisão do STF, em sede de ADIn, ADC ou sob a sistemática da repercussão geral, pode corresponder a um ponto de partida (i) para uma discussão: se seria este um fato suficiente para surja a legitimidade para o ajuizamento de ação rescisória. Para se ultrapassar esse debate, será preciso demonstrar que há o contexto ao ajuizamento de ação rescisória, qual seja: uma decisão transitada em julgado que “violar literal disposição de lei” (CPC/73), “violar manifestamente norma jurídica” (CPC/2015). Caso se compreenda que há legitimidade para a propositura da ação rescisória, então esta deve ser efetivamente ajuizada (ii). Somente após a prolação de decisão judicial suspensiva ou efetivamente desconstitutiva da coisa julgada é que esta deixaria de emanar os seus efeitos com toda a sua autoridade (iii). A ADIn n. 15, do STF, corresponde, então, a um possível antecedente para o ajuizamento de ação rescisória pela Fazenda Nacional. No entanto, ao contrário do que se parece crer no Parecer PGFN/CRJ n. 492/2011, a aludida declaração de constitucionalidade NÃO desencadeia, por si só e sem o intermédio de específica ação rescisória, efeitos imediatos sobre o contribuinte que obteve a seu favor decisão judicial transitada em julgado. A desconstituição da coisa julgada é justamente uma das possíveis consequências da ação rescisória, sendo a outra consequência pode ser, naturalmente, a sua manutenção (improcedência da ação rescisória). Fl. 604DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 605 55 Todas essas reflexões apenas conduzem à constatação da absoluta imprescindibilidade da ação rescisória para a desconstituição da coisa julgado, apenas colocandose em dúvida em quais hipóteses a ação rescisória pode ser ajuizada. 3.3. A inexistência de decisão de mérito do STF com repercussão geral quanto ao tema do presente recurso especial. Como se pôde constatar, a autoridade da coisa julgada pode ser afastada por razões de ordem (i) legislativa e (ii) jurisdicional. Em relação à primeira, se o legislador não pode se voltar contra a coisa julgada (CF, art. 5o, XXXVI), a modificação do estado de direito – promovida pelo legislador – torna ineficaz a norma prescrita pela sentença que teve como objeto de sua tutela um sistema normativo já revogado. No presente caso, como se pôde concluir (tópico “2”, acima), não houve alteração substancial nas normas que tutelam a CSL e que foram objeto da decisão judicial proferida em benefício do contribuinte e que goza da autoridade da coisa julgada. Em relação à segunda, o sistema jurídico brasileiro elege a ação rescisória como instrumento processual competente para que o Poder Judiciário desconstitua a coisa julgada, nas hipóteses e condições previstas em lei. No presente caso, como se pôde concluir (tópico “3.1”, acima), não havia à época dos lançamentos tributários debatidos neste processo administrativo, como sequer há hoje enquanto julgamos o presente recurso especial, qualquer decisão obtida pela União em sede de ação rescisória para desconstituir a decisão judicial proferida em benefício do contribuinte e que goza da autoridade da coisa julgada. Não obstante, ainda em relação a uma posterior atuação do Poder Judiciário, cogitase de um segundo instrumento, que supostamente poderseia utilizar para a desconstituição da coisa julgada à revelia da propositura de ação rescisória. Para o rompimento desse monopólio, cogitase que o STF, ao analisar recurso extraordinário afetado pela sistemática da repercussão geral, possa proclamar que a declaração de constitucionalidade da CSL por meio da ADIn 15, em meados de 2007, tornou legítima a cobrança do referido tributo mesmo em face de contribuintes dotados de decisões judiciais transitadas em julgado que reconheceram a sua inconstitucionalidade e que sequer tenham sido desafiadas por ação rescisória. Tratase, contudo, de questão meramente teórica e sem consequências efetivas para o julgamento do presente recurso especial. Ocorre que o STF, até o presente momento, NÃO proferiu nenhuma decisão sob o rito da repercussão geral quanto ao aludido mérito, de forma que não há, por esse meio, norma que atribua à União legitimidade para desconsiderar os efeitos da coisa julgada obtida por decorrência automática da ADIn 15, isto é, à revelia de competente ação rescisória. A recente afetação do RE 949.297 (2016) como recurso representativo de repercussão geral, especificamente quanto ao tema objeto do presente recurso especial, é prova cabal de que o STF não possui decisão de tal magnitude. Se hoje não há decisão de mérito, mas mera afetação da matéria ao rito da repercussão geral, a segurança jurídica consagrada pelo instituto da coisa julgada conduz justamente ao dever de respeitarse a decisão judicial transitada em julgado na ação Mandado de Segurança n. 89.00112066, proposta pelo contribuinte, o que é mandatório aos conselheiros do CARF. 4. Síntese conclusiva e parte dispositiva do voto. Fl. 605DF CARF MF Processo nº 19515.000797/200413 Acórdão n.º 9101002.531 CSRFT1 Fl. 606 56 No presente caso, não há qualquer permissivo para que a administração fiscal desconsidere a decisão transitada em julgado a favor do contribuinte, à revelia de decisão do Poder Judiciário proferida em sede de competente ação rescisória. Mas para que pudesse prosperar o lançamento tributário impugnado no caso concreto, seria preciso que houvesse, ao tempo da lavratura do AIIM, decisão competente em ação rescisória promovida pela União desconstituindo a coisa julgada detida pelo contribuinte, que declarou, inter partes, a inexistência de de relação jurídicotributária atinente à CSL. Diante da inexistência de alterações substanciais na matriz legal da CSL, com a manutenção do estado de direito objeto da Mandado de Segurança n. 89.00112066, deve ser garantida ao contribuinte a plena eficácia da coisa julgada, tornando a todos cogente o respeito à sua autoridade. Restando evidenciado, ainda, que o caso sob julgamento está abrangido pela hipótese de incidência da norma geral e concreta do REsp 1.118.893, os julgadores administrativos que compõem o CARF estão vinculados à mandatória reprodução da decisão do STJ proferida pela sistemática dos recursos repetitivos (CPC, art. 543C). Reproduzir a ratio decidendi do REsp 1.118.893 não é uma opção aos Conselheiros do CARF, mas sim um dever prescrito expressamente pelo art. 62, § 2o, do RICARF. Por esses fundamentos, com fulcro no art. 67, §12, II, do RICARF, voto pelo NÃO CONHECIMENTO do recurso especial interposto pela PFN. Por ter restado vencido quanto ao não conhecimento do recurso especial, no mérito, voto por NEGARLHE PROVIMENTO, a fim de que sejam cancelados os autos de infração lavrados em afronta à decisão judicial com trânsito em julgado obtida pelo contribuinte, que lhe garante o direito à não incidência de CSL sobre as suas atividades no período em questão. (assinado digitalmente) Luís Flávio Neto Fl. 606DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16327.000646/2004-86
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue May 17 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Sat Mar 04 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Normas de Administração Tributária
Data do fato gerador: 01/01/2002
RECURSO ESPECIAL. REQUISITOS
É condição para que o recurso especial seja admitido que se comprove que colegiados distintos, analisando a mesma legislação aplicada a fatos ao menos assemelhados, tenham chegado a conclusões díspares. Sendo distinta a legislação analisada pela recorrida em confronto com aquela versada nos pretendidos paradigmas, ou opostas as situações fáticas, não se admite o recurso apresentado.
Numero da decisão: 9303-003.846
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em não conhecer do recurso.
Carlos Alberto Freitas Barreto - Presidente.
Júlio César Alves Ramos - Relator.
EDITADO EM: 27/02/2017
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Henrique Pinheiro Torres, Júlio César Alves Ramos, Demes Brito, Gilson Macedo Rosenburg Filho, Rodrigo da Costa Pôssas e Carlos Alberto Freitas Barreto e as Conselheiras Érika Costa Camargos Autran, Tatiana Midori Migiyama, Vanessa Marini Cecconello e Maria Teresa Martínez López.
Nome do relator: JULIO CESAR ALVES RAMOS
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ementa_s : Assunto: Normas de Administração Tributária Data do fato gerador: 01/01/2002 RECURSO ESPECIAL. REQUISITOS É condição para que o recurso especial seja admitido que se comprove que colegiados distintos, analisando a mesma legislação aplicada a fatos ao menos assemelhados, tenham chegado a conclusões díspares. Sendo distinta a legislação analisada pela recorrida em confronto com aquela versada nos pretendidos paradigmas, ou opostas as situações fáticas, não se admite o recurso apresentado.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em não conhecer do recurso. Carlos Alberto Freitas Barreto - Presidente. Júlio César Alves Ramos - Relator. EDITADO EM: 27/02/2017 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Henrique Pinheiro Torres, Júlio César Alves Ramos, Demes Brito, Gilson Macedo Rosenburg Filho, Rodrigo da Costa Pôssas e Carlos Alberto Freitas Barreto e as Conselheiras Érika Costa Camargos Autran, Tatiana Midori Migiyama, Vanessa Marini Cecconello e Maria Teresa Martínez López.
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REQUISITOS É condição para que o recurso especial seja admitido que se comprove que colegiados distintos, analisando a mesma legislação aplicada a fatos ao menos assemelhados, tenham chegado a conclusões díspares. Sendo distinta a legislação analisada pela recorrida em confronto com aquela versada nos pretendidos paradigmas, ou opostas as situações fáticas, não se admite o recurso apresentado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em não conhecer do recurso. Carlos Alberto Freitas Barreto Presidente. Júlio César Alves Ramos Relator. EDITADO EM: 27/02/2017 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Henrique Pinheiro Torres, Júlio César Alves Ramos, Demes Brito, Gilson Macedo Rosenburg Filho, Rodrigo da Costa Pôssas e Carlos Alberto Freitas Barreto e as Conselheiras Érika Costa Camargos Autran, Tatiana Midori Migiyama, Vanessa Marini Cecconello e Maria Teresa Martínez López. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 32 7. 00 06 46 /2 00 4- 86 Fl. 1922DF CARF MF 2 Relatório Tratase de Recurso Especial de Divergência à (CSRF), apresentado tempestivamente pela Contribuinte, em face do acórdão nº 20219.546 (2ª Câmara do 2º CC), cujas suas razões de decidir estão sintetizadas na seguinte ementa: “ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/06/1994 a 31/12/1996 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. O deferimento dos embargos de declaração pode ter, em alguns casos, efeitos infringentes, no sentido de determinar a modificação do julgamento anteriormente realizado (Acórdão CSRF/0104.539), razão pela qual retificase o Acórdão nº 20218.693, cuja ementa passa a ter a seguinte redação: ‘NORMAS PROCESSUAIS. PROCESSO DE CONTROLE E COBRANÇA. INEXISTÊNCIA DE PREVISÃO LEGAL PARA IMPUGNAÇÃO. LITÍGIO NÃO CONFIGURADO. Tratandose de processo formalizado para cobrança, não há, no Decreto nº 70.235/72, que regula o Processo Administrativo Fiscal, previsão para a interposição de impugnação ou recurso voluntário por parte da contribuinte. Processo anulado’. Embargos de declaração acolhidos e providos”. Para comprovar a divergência, o sujeito passivo arrolou os acórdãos nºs 101 96.750, 10195.732, 10195.207, 10616.815, 20313.633, 20181.274 e 30134.720, nessa ordem. O primeiro pleito de seu recurso é pelo reconhecimento, de ofício, de decadência em virtude da Súmula Vinculante nº 08 do STF. Afirma ser isso possível e traz como paradigmas os acórdãos 20313.633, 10616.815 e 30134.720. No que tange ao cabimento do rito do Decreto 70.235 a processos de cobrança de crédito já constituído, aponta como paradigma o acórdão 20181.274, cuja ementa diz: "Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep PERÍODO DE APURAÇÃO: 01105/1994 a 31/12/1994 PIS. DECADÊNCIA. REVISÃO DE OFICIO. VALORES DECLARADOS EM DCTF. A revisão de oficio, de saldos de débitos declarados em DCTF, por supostas omissão ou inexatidão, por parte da pessoa legalmente obrigada, no exercício da atividade de lançamento por homologação (art. 149, inciso V, do CTN), só pode ser feita através de auto de infração ou notificação (arts. 9° e 10 do Decreto n° 70.235/72) e iniciada enquanto não extinto o direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário (parágrafo único do art. 149 do CTN), direito este cujo prazo é de 5 (cinco) anos, a contar da ocorrência do fato gerador (cf. art. 150, § 4°, do CTN). Recurso voluntário provido. Fl. 1923DF CARF MF Processo nº 16327.000646/200486 Acórdão n.º 9303003.846 CSRFT3 Fl. 1.915 3 Traz ainda o recorrente dois acórdãos que tratam de aplicação do princípio da verdade material (10195.732 e 10807.418) cujas ementas transcreve no corpo do recurso. E finaliza com a transcrição da ementa do acórdão 10196.750 que diz: "NULIDADE DO LANÇAMENTO — Somente enseja nulidade os atos e termos lavrados por pessoa incompetente e os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de ampla defesa, hipóteses essas que se encontram ausentes nos presentes autos". O despacho de admissibilidade consigna: Para respaldar a dissonância jurisprudencial, a Recorrente aponta diversos paradigmas que sinalizam em sentido diversos ao decidido no acórdão guerreado. Tempestivas contrarrazões procedem à "análise perfunctória de cada um, haja vista a falta de manifestação explícita e fundamentada do Despacho nº 3300346 – 3ª Câmara acerca da demonstração do dissídio", para concluir pela sua inadmissibilidade, seja porque: 1. o regimento interno do CARF não admite recurso especial contra decisão que tenha anulado a decisão de primeiro grau; 2. as matérias relativas ao reconhecimento de decadência de ofício e de aplicação do princípio da verdade material não foram tratadas no acórdão recorrido e nem foram suscitadas por meio de embargos, faltandolhes o requisito do prequestionamento; 3. falta de comprovação de divergência quanto ao cabimento do rito do PAF e à aplicação de nulidade. É o Relatório. Voto Conselheiro Júlio César Alves Ramos, Relator O recurso, embora tempestivo, não pode mesmo ser admitido. Com efeito, como salientado nas contrarrazões apresentadas, longe estamos da conclusão estampada, sem qualquer fundamentação, no despacho que analisou a admissibilidade, conforme se demonstra na sequência. O recurso especial principia, antes mesmo de demonstrar o seu cabimento, com o pleito de reconhecimento de decadência. Ora, sabemos todos, primeiro é preciso admitir o recurso para passar ao exame de suas alegações, ainda que "preliminares", pois não existe preliminar ao conhecimento. Começando então pelo exame das condições para tal, forçoso é reconhecer razão à Fazenda Nacional. Não acolho, porém, o primeiro dos seus argumentos, relativo ao descabimento de recurso especial contra decisão de segundo grau que anule a decisão da DRJ: É certo que, conforme ela mesma demonstra, tanto o Regimento válido quando do julgamento Fl. 1924DF CARF MF 4 proferido e do recurso ofertado, quanto o baixado pela Portaria MF 256/2009, continham disposição literal nesse sentido. Apesar disso, contudo, entendo ser ela destinada a decisões que verificam o cometimento de algum vício na decisão proferida em primeiro grau, passível de correção pela substituição da decisão anulada por uma nova, a ser proferida no exato cumprimento daquela exarada pelo órgão de segundo grau. A motivação para tal, a meu sentir, é exatamente que a nova decisão poderá ser novamente atacada pela parte que nela restar vencida. Ora, no presente caso não é assim. Com efeito, embora o enunciado da decisão do Segundo Conselho e sua ementa tenham declarado a nulidade da decisão de primeiro grau, nenhuma outra será proferida em substituição daquela, seja pela DRJ, seja pelo CARF. Nesses termos, o que, em verdade, foi feito foi anular todo o processo desde o seu nascimento, vedado que está, no entender da Câmara recorrida, o rito do Decreto 70.235. E não havendo nova decisão a contestar, há de se resguardar, desde logo, o direito da parte a quem prejudica a nulidade apontada. Isso, entretanto, apenas garante que o recurso especial não está vedado de plano. Submetese, porém, e mesmo assim, às condições que todo recurso especial deve atender, com destaque para a comprovação de divergência jurisprudencial. E é nela que falha por completo a tentativa do sujeito passivo. Deveras, a matéria a respeito da qual teria de ser demonstrada a divergência é única: cabe o rito do decreto 70.235 quando o processo diga respeito a mera cobrança de débito, supostamente já definitivamente constituído? O colegiado recorrido entendeu que não; caberia ao recorrente trazer decisão de outro que dissesse que sim. E disso passou longe o recurso, como passo a demonstrar. Embora o especial cite diversos julgados, o único no qual se tenta ver a necessária divergência é o de nº 20181.274, proferido no processo nº 13807.006416/200197, que foi assim relatado pelo dr. Fernando Lobo d'Eça: Tratase de recurso voluntário (fls. 423/451, vol. II) contra o Acórdão DRJ/SPOI n2 1613.061, de 17/04/2007, constante de fls. 393/417 (vol. II), exarado pela 9'. Turma da DRJ em São Paulo SP, que, por unanimidade de votos, houve por bem indeferir a impugnação (fls. 310/335, vol. II), mantendo o lançamento de PIS, consubstanciado na representação de 06/06/2001 (fl. 01), notificada em 21/05/2002 (fl. 100), relativa à cobrança de saldos de PIS declarados em DCTF apurados no período de 05/94 a 12/12/94, conforme a discriminação do débito (fl. 01) e decorrentes de compensação decorrente de Ação Ordinária n12 90.00033705, que tramitou perante a 152 Vara da Justiça Federal de Sao Paulo. Nas informações prestadas às fls. 295/299 esclarece ainda a DRF de Administração Tributária em São Paulo Derat, através da Divisão de Controle e Acompanhamento Tributário Dicat, que: "O presente processo foi formalizado em 06/06/2001 para cobrança de saldos de débitos declarados pela interessada, relativos a contribuição ao PIS dos períodos de apuração de 05/94 a 12/94. Fl. 1925DF CARF MF Processo nº 16327.000646/200486 Acórdão n.º 9303003.846 CSRFT3 Fl. 1.916 5 A interessada requereu, na esfera administrativa, o cancelamento da cobrança (lis. 103 a 132), bem como impetrou o mandado de segurança 2002.61.00.0215452, distribuído à 8ª Vara Cível Federal da Seção Judiciária de Sao Paulo, no qual pleiteou liminar visando ao processamento da 'impugnação', com suspensão da exigibilidade do crédito tributário consubstanciado neste processo (l1s. 139 a 144). A liminar foi deferida em 25/10/2002 para que União ficasse obstada de exigir a exação ou aplicar quaisquer sanções decorrentes do não recolhimento até o julgamento definitivo da impugnação na via administrativa (fls. 137 e 138). A peça que a interessada denominou de 'impugnação' objeto do mencionado mandado de segurança, foi apreciada em: 16/09/2004, tendo sido proferido despacho pelo prosseguimento da cobrança (fls. 169 e 170). Ciente da decisão (fl. 172 e 172verso), a contribuinte ingressou com nova petição, datada de 18/10/2004 (/1. 192), em exame, e pleiteou o reconhecimento da prescrição dos créditos tributários em comento e, caso essa não fosse reconhecida, o encaminhamento da chamada impugnação (l1s. 193 a 241) para apreciação pela Delegacia da Receita Federal de Julgamento. Posteriormente, impetrou o mandado de segurança 2006.61.00.0184175, no qual foi deferida liminar para determinar a imediata análise da defesa de 18/10/2004, acima referida (fls. 288/289). Inicialmente, é imprescindível registrar que inexiste a divergência alegada pela interessada de que os valores que ainda permanecem depositados representam o PIS que seria devido nos termos da decisão proferida na ação ordinária 90.00033705 e de que os valores ora em cobrança referiamse ao PIS devido pelos DecretosLeis 2.445/88 e 2.449/88. Conforme relatado às fls. 80 e 81, houve depósitos na ação cautelar 90.00000955, que foram parcialmente levantados pela impetrante, tendo restado saldos nas contas de depósito, cuja conversão em renda da União já foi requerida. Efetuouse verificação dos valores ainda depositados (a serem convertidos a favor da Unido) em comparação com os débitos declarados pela contribuinte em DCTF, tendo sido constatado que eram suficientes para extinguir somente parte dos débitos. A parcela dos débitos garantida pelos depósitos consta do processo 13807.0064117/200131, que será extinto quando da efetiva conversão em renda. No presente processo são cobrados apenas os saldos não acobertados pelos depósitos a serem convertidos. Na apuração dos débitos observouse estrita obediência ao acórdão proferido na supramencionada ação ordinária, ou seja, foi aplicada a alíquota de 0,75% sobre o faturamento, nos termos da LC 07/70 e legislação posterior, não afastada pela decisão Fl. 1926DF CARF MF 6 judicial, em detrimento da sistemática trazida pelos Decretos Leis declarados inconstitucionais (cálculo à alíquota de 0,65% sobre a receita operacional); cálculos à fls. 65 a 74. Em cumprimento da ordem judicial, constante de liminar (fls. 289), passo a examinar as alegações da interessada. Não há guarida para a alegação de inexistência de lançamento (item I) e da de que teria se operado a decadência do direito de lançar de ofício, se entendido o presente procedimento de cobrança como 'típico de lançamento de ofício' dos valores não recolhidos (item II). Tratase de débito declarado pelo própria contribuinte em DCTF. Na forma do art. 5° do DecretoLei 2.124/84, os débitos informados em DCTF constituem confissão de divida, conferindo ao crédito tributário informado a liquidez e a certeza necessárias para sua inscrição em dívida ativa, para efeito de cobrança executiva. A DCTF é, portanto, instrumento hábil e suficiente para a exigência de débitos confessados, dispensando, assim, a autoridade tributária de instaurar processo fiscal de natureza contenciosa para proceder à exigência desses. Destarte, sendo o PIS tributo sujeito a lançamento por homologação, onde o próprio contribuinte presta informação no sentido de ser devido determinado tributo, não mais se opera a decadência (que será abordada amiúde posteriormente) relativamente ao que foi confessado." Como se vê, tratase mesmo de processo de cobrança, como este, mas não há nele nenhum pronunciamento quanto ao cabimento do rito do processo 70.235. Muito pelo contrário, as transcrições em negrito demonstram que somente por força de determinação judicial é que as "defesas administrativas" apresentadas foram conhecidas e apreciadas pelas unidades que antecederam o Conselho. Verificase, portanto, convergência, e não divergência interpretativa naquilo que cumpria ser demonstrado: o cabimento do rito do PAF em processos de cobrança de débitos regularmente confessados. Com tais considerações, voto por não conhecer do recurso do contribuinte. Conselheiro Júlio César Alves Ramos Fl. 1927DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10280.905800/2011-34
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Feb 21 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Mar 15 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Normas de Administração Tributária
Ano-calendário: 2002
CONEXÃO. IMPOSSIBILIDADE.
Os processos referem-se a períodos diferentes, o que ocasiona fatos jurídicos tributários diferentes, com a consequente diferenciação no que concerne à produção probatória, impossibilitando a conexão.
FALTA DE RETIFICAÇÃO NA DCTF.
Ainda que o sujeito passivo não tenha retificado a DCTF, mas demonstre, por meio de prova cabal, a existência de crédito, a referida formalidade não se faz necessária.
Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Ano-calendário: 2002
INCONSTITUCIONALIDADE DO ART. 3º, §1º, DA LEI Nº 9.718/1998. RECONHECIMENTO.
Quanto à ampliação da base de cálculo prevista pela Lei nº 9.718/1998, tal fato já foi decidido pelo Supremo Tribunal Federal em regime de repercussão geral, RE 585235 QO-RG.
Numero da decisão: 3302-003.618
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinatura digital)
Paulo Guilherme Déroulède - Presidente
(assinatura digital)
Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza - Relatora
Participaram do julgamento os Conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède, José Fernandes do Nascimento, Domingos de Sá Filho, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Lenisa Rodrigues Prado, Hélcio Lafetá Reis, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza e Walker Araujo.
Nome do relator: SARAH MARIA LINHARES DE ARAUJO PAES DE SOUZA
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ementa_s : Assunto: Normas de Administração Tributária Ano-calendário: 2002 CONEXÃO. IMPOSSIBILIDADE. Os processos referem-se a períodos diferentes, o que ocasiona fatos jurídicos tributários diferentes, com a consequente diferenciação no que concerne à produção probatória, impossibilitando a conexão. FALTA DE RETIFICAÇÃO NA DCTF. Ainda que o sujeito passivo não tenha retificado a DCTF, mas demonstre, por meio de prova cabal, a existência de crédito, a referida formalidade não se faz necessária. Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Ano-calendário: 2002 INCONSTITUCIONALIDADE DO ART. 3º, §1º, DA LEI Nº 9.718/1998. RECONHECIMENTO. Quanto à ampliação da base de cálculo prevista pela Lei nº 9.718/1998, tal fato já foi decidido pelo Supremo Tribunal Federal em regime de repercussão geral, RE 585235 QO-RG.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinatura digital) Paulo Guilherme Déroulède - Presidente (assinatura digital) Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza - Relatora Participaram do julgamento os Conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède, José Fernandes do Nascimento, Domingos de Sá Filho, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Lenisa Rodrigues Prado, Hélcio Lafetá Reis, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza e Walker Araujo.
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IMPOSSIBILIDADE. Os processos referemse a períodos diferentes, o que ocasiona fatos jurídicos tributários diferentes, com a consequente diferenciação no que concerne à produção probatória, impossibilitando a conexão. FALTA DE RETIFICAÇÃO NA DCTF. Ainda que o sujeito passivo não tenha retificado a DCTF, mas demonstre, por meio de prova cabal, a existência de crédito, a referida formalidade não se faz necessária. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Anocalendário: 2002 INCONSTITUCIONALIDADE DO ART. 3º, §1º, DA LEI Nº 9.718/1998. RECONHECIMENTO. Quanto à ampliação da base de cálculo prevista pela Lei nº 9.718/1998, tal fato já foi decidido pelo Supremo Tribunal Federal em regime de repercussão geral, RE 585235 QORG. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinatura digital) Paulo Guilherme Déroulède Presidente (assinatura digital) Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza Relatora AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 28 0. 90 58 00 /2 01 1- 34 Fl. 256DF CARF MF 2 Participaram do julgamento os Conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède, José Fernandes do Nascimento, Domingos de Sá Filho, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Lenisa Rodrigues Prado, Hélcio Lafetá Reis, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza e Walker Araujo. Relatório Relatório Tratase de retorno de diligência, por ser sintético, transcrevese o relatório da resolução nº 3803000.546, relator Jorge Victor Rodrigues, fls. 190/1951: A autoridade administrativa competente por meio de Despacho Decisório emitido em 01/11/2011, após análise do valor do direito creditório informado em Per/DComp, concluiu pela inexistência do crédito pleiteado, por conseguinte não homologando a compensação declarada. Manifestando a sua inconformidade com o decidido no referido despacho, a contribuinte aduziu sucintamente: (i) A despeito da inconstitucionalidade do § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, a autoridade administrativa houve por bem indeferir o pedido de restituição apresentado, sem que fosse fundamentadas as razões para tanto, por conseguinte não reúne condições mínimas para prosperar, pois está em desacordo com a legislação vigente e jurisprudência já pacificada sobre o tema, impondose a restituição integral da quantia pleiteada no pedido de restituição apresentado. (ii) Em homenagem ao princípio da economia processual requer a reunião dos processos adiante listados para apreciação em julgamentos simultâneos, posto que possuem o mesmo objeto, fundamento legal e partes (conexão). São eles: 10850.906133/201103, 10850.906134/201140, 10280.904439/201129, 10280.904424/201161, 10280.904436/201195, 10280.904440/201153, 10280.904438/201184, 10280.904443/201197, 10280.904441/201106, 10280.904427/201102, 10280.904425/201113, 10280.904437/201130, 10280.904426/201150, 10280.904431/201162, 10280.906137/201183, 10280.906135/201194, 10280.906136/201139, 10280.906138/201128, 10280.906139/201172, 10280.904444/201131, 10280.904446/201121, 10280.904433/201151, 10280.904430/201118, 10280.904432/201115, 10280.904445/201186, 10280.904435/201141, 10280.904447/201175 e 10280.904442/201142 (28 PAF). (iii) Reclamou pela inexistência de realização de diligência ao seu estabelecimento para verificação da exatidão das informações prestadas, em contrariedade ao disposto no art. 65 1 Todas as páginas, referenciadas no acórdão, correspondem ao eprocesso. Fl. 257DF CARF MF Processo nº 10280.905800/201134 Acórdão n.º 3302003.618 S3C3T2 Fl. 3 3 da IN RFB nº 900/08, uma vez que não foi intimada para prestar quaisquer esclarecimentos acerca da higidez de seu crédito. (iv) Com base no art. 195, I, CF/88 a LC nº 70/91 instituiu a Cofins sobre o faturamento mensal das pessoas jurídicas em geral, assim entendido "a receita bruta das vendas de mercadorias, de mercadorias e serviços e de serviço de qualquer natureza". (v) O legislador ordinário pretendeu modificar a sistemática de apuração da contribuição em comento e ampliar a sua base de cálculo, o que foi feito por meio da Lei nº 9.718/98, notadamente através dos seus arts. 2º e 3º, inclusive o caput e § 1º, deste. (vi) Ao assim proceder o legislador ordinário afrontou o mandamento constitucional do inciso I do art. 195 da Constituição Federal, bem como contrariou a norma consubstanciada no art. 110 do CTN, que proíbe a alteração, pela lei tributária, da definição, do conteúdo e do alcance dos institutos, conceitos e formas de direito privado, utilizados expressa ou implicitamente, pela Constituição Federal, pelas Constituições dos Estados, ou pelas Leis Orgânicas do Distrito Federal ou dos Municípios, para definir ou limitar competências tributárias. (vii) Essa discussão se encontra totalmente superada na jurisprudência do Supremo Tribunal Federal quando, em sessão plenária, declarou a inconstitucionalidade do § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/99, mediante decisão proferida no julgamento do RE nº 390840/MG, em 09/11/05. Após o que inúmeros outros RE foram julgados no mesmo sentido a exemplo dos números 342.051/2006, 479.612/2006, 346.084/2005 e 585.235/2008, respectivamente, este considerado como de repercussão geral, com proposta de súmula vinculante a respeito do assunto. entendimento (sic) este que já foi pacificado por meio da Lei nº 11.941/09, que revogou o malsinado § 1º do art. 3º dessa Lei. (viii) a jurisprudência administrativa já se manifestou favoravelmente à aplicação pelo Fisco, das decisões prolatadas neste sentido no âmbito do poder Judiciário, conforme os acórdãos proferidos pela CSRF do CARF em destaque: 230378, 226802 e 239790/2010 (3ª T, CSRF), 142592 e 147967/2010 (1ª T, CSRF). (ix) Ademais disso, o inciso I, do § 6º, do art. 26A, do Dec. nº 70.235/72, incluído pela Lei nº 11.941/09, veda aos órgãos de julgamento, no âmbito do processo administrativo fiscal, afastar a aplicação ou deixar de observar tratado acordo internacional, lei ou ato normativo que já tenha sido declarado inconstitucional por decisão definitiva plenária do STF, no mesmo sentido vai o art. 59 do Dec. nº 7.574/11, como também no caput do art. 62A do RICARF/09. (x) No caso concreto em comento a requerente faz jus a um crédito de R$ 5.388,86, valor que foi calculado sobre receita que Fl. 258DF CARF MF 4 não integra o seu faturamento, razão pela qual não é alcançada pela hipótese de incidência da mencionada contribuição. (xi) E para que não restem quaisquer dúvidas a esse respeito, a requerente acostou aos autos: a) cópia do respectivo DARF, o qual demonstra o recolhimento indevido (doc. 03); b) o demonstrativo por ela elaborado, onde está discriminado o valor que foi indevidamente computado à base de cálculo da COFINS (doc. 04); e c) cópia dos documentos contábeis com o registro dos valores que compõem o crédito aqui pleiteado (doc. 05). (xii) Requer provar o alegado por todos os meios de prova admitidos, especialmente a produção de perícia, a realização de diligências e a juntada de documentos para, ao final, requerer pela reforma do despacho decisório. Conclusos foram os autos para apreciação pela 4ª Turma da DRJ/RPO/SP, que em sessão realizada em 18/04/13, julgou a manifestação de inconformidade improcedente, também não reconhecendo o direito creditório, consoante os termos vazados na ementa adiante transcrita: Assunto: Processo Administrativo Fiscal. Data do fato gerador: 31/03/1999 PROVA DOCUMENTAL. PRECLUSÃO. a prova documental do direito creditório deve ser apresentada na manifestação de inconformidade, precluindo o direito de o contribuinte fazêlo em outro momento processual sem que verifiquem as exceções previstas em lei. Manifestação de Inconformidade Improcedente. Direito Creditório não Reconhecido. Relativamente à questão atinente à reunião de processos o voto condutor mencionou o contido no inciso IV do art. 1º da Portaria SRF nº 666/2008, que disciplina a formalização de processos no âmbito da SRF, para fundamentar a rejeição ao pleito, eis que os processos não são oriundos do mesmo crédito, condição no seu entender sine qua non para o atendimento ao pleito formulado pela contribuinte. Acerca do motivo do indeferimento do pedido supôs o acórdão de piso que a interessada possa haver cometido erro no preenchimento do Per/DComp, razão pela qual não foi encontrado o DARF nele indicado, eis que do confronto das informações constantes do Per/DComp com as do DARF, verificouse que houve inversão entre as datas de arrecadação e de vencimento no preenchimento do pedido. Ademais disso, remanesceu a questão do direito creditório, eis que ao realizar pesquisa aos sistemas da RFB, verificouse que a contribuinte confessou um débito de R$ 52.027,65 da Cofins para o mês de março de 1999, quitado com três DARF's, um deles no valor de R$ 45.396,03, que se encontra totalmente utilizado para quitar o referido débito, portanto dentre os débitos confessados pela própria contribuinte por meio de Fl. 259DF CARF MF Processo nº 10280.905800/201134 Acórdão n.º 3302003.618 S3C3T2 Fl. 4 5 DCTF, em valor até superior ao do recolhimento objeto do pedido de restituição. Não existe, portanto, saldo passível de restituição. Aduziu ainda o juízo de piso que para existir saldo a restituir seria necessário que a interessada houvesse retificado sua DCTF até a transmissão de seu PER/DCOMP, fazendo constar o suposto débito inferior ao declarado, o que faria exsurgir a possibilidade de se alegar pagamento a maior e, neste caso, a autoridade fiscal poderia determinar a realização de diligência nos estabelecimentos do sujeito passivo, a fim de que fosse verificada, mediante exame da sua escrituração contábil e fiscal, a exatidão das informações prestadas, conforme prevê o disposto no art. 65 da IN RFB nº 900/08, suscitada pela recorrente. No tocante à inconstitucionalidade da ampliação da base de cálculo, não se discute o entendimento do STF, exposto nos REs mencionados pela interessada, ou mesmo a vinculação do CARF em face da decisão plenária, na sistemática da repercussão geral. No entendimento vazado no acórdão de primeira instância apenas deve ser esclarecido que tal revogação não tem efeitos retroativos, e portanto não atinge o período a que se refere o PER/DCOMP em análise, isto consubstanciado em excertos do Parecer PGFN nº 2.025/11, que trata da repercussão no âmbito da inscrição, administração e cobrança administrativa e judicial da dívida ativa da União, nos casos de julgamentos submetidos à sistemática dos arts. 543B (repercussão geral) e 543C (recurso repetitivo) do CPC. Do referido Parecer concluiu a autoridade julgadora que: "podese afirmar que a adequação prática das atividades administrativas não significa concordância com a tese contrária à da Fazenda. Inexistindo alterações na legislação de regência, Parecer aprovado pelo PGFN, Súmula ou Parecer da AGU ou Súmula do CARF, que concluam no mesmo sentido do pleito do particular, não há razões jurídicas que obriguem a Fazenda Nacional a anuir à tese contrária aos interesses da União". Mencionou ainda que o contribuinte que houver pago crédito considerado indevido pelos tribunais Superiores, em virtude do julgamento proferido na forma dos art. 543B e 543C do CPC, não faz jus à restituição do montante pago, uma vez que: (i) a Fazenda Nacional, ao deixar de contestar e recorrer em razão de julgado oriundo da sistemática dos recursos extremos repetitivos, não manifesta concordância com a tese dos Tribunais Superiores. (ii) os fundamentos jurídicos que autorizam a Fazenda Nacional a absterse de cobrar não extravasam para o plano do direito material (não há remissão sem lei tributária específica). Fl. 260DF CARF MF 6 (iii) observe que o tributo é devido. A lei tributária não foi expurgada do ordenamento jurídico e o julgamento proferido na forma dos art. 543B e 543C, do CPC, embora revestido de força persuasiva qualificada, não tem propriamente efeito vinculante erga omnes. Em verdade, o que vincula a Fazenda Nacional é a decisão institucional de não contestar e não recorrer. Ademais, sobretudo para os créditos extintos por pagamento em momento anterior ao advento do julgado do STF ou STJ, não há como questionar a validade dos pagamentos efetuados. (iv) a restituição do indébito, em situações tais, dependeria de lei que considerasse indevidos os valores pagos quando houvesse julgamento na sistemática dos recursos extremos repetitivos. Dessa forma, seria possível o enquadramento nas hipóteses de restituição do art. 165, I, do CTN. Por derradeiro, ainda que os óbices quanto à utilização integral do recolhimento não existissem, e que fosse possível estender os efeitos do julgado do STF para o presente caso, a interessada não se desincumbiu de demonstrar e provar o suposto recolhimento a maior. A cópia parcial do balancete apresentada permite vislumbrar tão somente as receitas financeiras do período, mas não o faturamento da empresa. Assim, não haveria como se apurar o total da base de cálculo e a contribuição devida, para compará la com o recolhimento efetuado e concluirse pela eventual existência de recolhimento a maior, e em que montante. E mais, não tendo a interessada apresentado provas de seu suposto crédito, precluiu do direito de fazêlo em outro momento, a teor do disposto no art. 16 do Decreto nº 70.235. Cientificado da decisão de piso por meio de AR, em 30/08/13, e irresignada com o nela decidido, a contribuinte interpôs recurso voluntário em 25/09/13, para aduzir: · Relativamente à reunião de processos alegou a recorrente acerca da existência de conexão entre os mesmos, pois têm o mesmo objeto e causa de pedir, mencionando jurisprudência administrativa em prol de sua tese. · Houve falta de aprofundamento da investigação dos fatos – falta de retificação de DCTF, o que contraria o contido no art. 76 da IN RFB nº 1300/12, segundo o qual a autoridade competente para decidir sobre a restituição, o ressarcimento, o reembolso e a compensação poderá condicionar o reconhecimento do direito creditório à apresentação de documentos comprobatórios do referido direito, inclusive arquivos magnéticos, bem como determinar a realização de diligência fiscal nos estabelecimentos do sujeito passivo a fim de que seja verificada, mediante exame de sua escrituração contábil e fiscal, a exatidão das informações prestadas. Isto por força do contido no art. 142 do CTN. Notadamente porque a DCTF não é o Fl. 261DF CARF MF Processo nº 10280.905800/201134 Acórdão n.º 3302003.618 S3C3T2 Fl. 5 7 único meio hábil de prova da existência de crédito passível de restituição. · O art. 165 do CTN e nem o art. 74 da Lei nº 9.430/96 condicionam o reconhecimento do crédito à retificação de declarações. Trata se de formalidade, a qual não pode se sobrepor ao direito substantivo. · A exigência de retificação de declarações é medida que, além de não constar da lei tampouco das normas infralegais, decorre de excesso de formalismo, que restringe o direito à repetição de indébito, em detrimento do princípio da legalidade, que deve nortear não apenas a apuração de tributos, como sua restituição, além de também se distanciar do alcance do interesse público. · A recorrente, seja porque a lei não contém semelhante restrição, seja porque se trata de medida de formalismo excessivo, entendeu que a retificação de declarações não se afigura legítima como condição à restituição de indébito tributário, mencionando, inclusive jurisprudência e doutrina em defesa de sua tese. Analisando a situação por outro viés temse que o descumprimento de obrigação acessória não altera a disciplina referente à obrigação principal, e viceversa, o que, transportado ao caso em comento, significa dizer que a não retificação da DCTF não interfere na obrigação principal (recolhimento de imposto indevidamente) e, portanto, não impede o reconhecimento do direito creditório da recorrente. · A falta de retificação de uma declaração não tem o condão de tornar devido o que é indevido, sendo certo que o aproveitamento do crédito é corolário do princípio da legalidade. Além do mais, em matéria de fato, são válidos todos os meios de prova em direito admitidos, sendo certo que, desde o advento do Código Comercial de 1850, prescreve que a contabilidade em ordem faz prova em favor da pessoa jurídica, conforme se observa pela leitura de seu art. 23, III, não mais em vigor, por força do advento do Código Civil de 2002, entretanto em plena vigência e expressamente previsto no art. 923 do RIR/99 (art. 9º, § 1º, DL nº 1.598/77), citando jurisprudência administrativa em defesa de sua tese. · Acerca das provas juntadas para demonstrar a existência do crédito pleiteado, a decisão recorrida alegou a insuficiência para o intento, entretanto esse entendimento não merece prosperar, eis que os documentos colacionados são suficientes para a comprovação do direito de crédito alegado, eis que o valor em foco recolhido indevidamente sobre as receitas financeiras está devidamente lastreado nas receitas financeiras destacadas no balancete em anexo à Fl. 262DF CARF MF 8 manifestação de inconformidade, documento este obrigatório paras as pessoas jurídicas, possuindo, inclusive, força probante para recolhimento de estimativas em caso de pessoa jurídica optante pelo lucro real mensal, ex vi do art. 230 do RIR/99. · Com relação à preclusão da produção da prova, a alínea ‘c’ do §4º do art. 16 do Dec. nº 70.235/72, possibilita a produção de provas em outro momento processual, quando se destine a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos, o que ocorreu por ocasião da decisão contida no despacho decisório, o que se fez mediante a manifestação de inconformidade, inclusive para contrapor os argumentos aventados pelo acórdão recorrido, a recorrente requer com base neste fundamento, a juntada aos presentes autos do Livro Razão, o qual, por si só, tem o condão de comprovar o direito creditório ora postulado, posto que é documento obrigatório para todas as pessoas jurídicas tributadas com base no lucro real, ex vi do art. 259, do RIR/99, que incorporou os art. 14 da Lei nº 8218/91 e 62 da Lei nº 8383/91. No mais, em relação à discussão de mérito, a recorrente reitera os termos expendidos na exordial, de maneira minudente, para postular ao final, pelo provimento do recurso, pela reforma do acórdão recorrido, com o reconhecimento do direito à plena restituição da Cofins, calculada sobre receitas estranhas ao conceito de faturamento, diante da inconstitucionalidade do § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, declarada pelo STF e já reconhecida pela jurisprudência administrativa. Conforme exposto anteriormente, o presente processo é um retorno de diligência, onde o relator reconheceu a inconstitucionalidade da ampliação da base de cálculo do § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98 no transcorrer do seu voto. Ele converteu o feito em diligência para, trechos in verbis, fls. 200: Assim oriento o meu voto pela conversão do julgamento em diligência à repartição de origem, para que possa ser efetivamente apurado e informado, DETALHADAMENTE, o valor do débito e do crédito existentes na data de transmissão dos PER/DCOMPs dos processos retromencionados. Vencida esta etapa deve a autoridade administrativa informar se há o direito creditório alegado pela contribuinte, se o mesmo é suficiente para a extinção do débito existente nessa data. A Recorrente foi intimada para apresentar o livro diário geral e o livro razão. Após a elaboração da informação fiscal, ela também foi intimada a manifestarse e assim o fez. É o relatório. Voto Conselheira Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza, Relatora. Fl. 263DF CARF MF Processo nº 10280.905800/201134 Acórdão n.º 3302003.618 S3C3T2 Fl. 6 9 1. Dos requisitos de admissibilidade O Recurso Voluntário foi apresentado de modo tempestivo, tratase, portanto, de recurso tempestivo e de matéria que pertence a este colegiado. 2. Preliminar 2.1. Reunião de processos A Recorrente pleiteia pela reunião de processos listados, pois eles têm o mesmo objeto, qual seja, a restituição de crédito decorrente do recolhimento indevido da COFINS ou da contribuição para o PIS/Pasep, pautado na inconstitucionalidade do art. 3o, parágrafo 1o, da Lei nº 9.718/98. No que se refere à obrigatoriedade de reunião de processos, não há previsão legal para isso, ademais, os processos referemse a períodos diferentes, o que ocasiona fatos jurídicos tributários diferentes, com a consequente diferenciação no que concerne à produção probatória. Nesse sentido, rejeitase a preliminar suscitada. 3. Mérito 3.1. Das provas 3.1.1. Falta da aprofundamento da investigação dos fatos/falta de retificação da DCTF A Recorrente alega que não foi intimada a prestar quaisquer esclarecimentos a respeito da higidez de seu crédito e que tal postura contraria o art. 65, da Instrução Normativa RFB n. 900, de 30.12.2008, atual art. 76 da Instrução Normativa RFB n. 1300, de 20.11.2012. No que concerne à necessidade de diligências em seu estabelecimento, não há necessidade para tal procedimento no caso em análise, podendo a existência do crédito ocorrer via prova documental. A Recorrente também contestou a decisão da DRJ no que concerne ao fato de que como a DCTF, apresentada por ela confessava débito de valor igual ao do recolhimento objeto do pedido de restituição, e como, até o momento de transmissão do PER/DCOMP, não houve retificação da DCTF, cabia às autoridades julgadoras investigar suposto recolhimento a maior e não julgar no sentido de que a falta de retificação na sua DCTF até a transmissão do seu PER/DCOMP inviabilizaria a análise do crédito. Quanto à falta de retificação da DCTF e a suposta existência de crédito, este Tribunal Administrativo já se manifestou no seguinte sentido: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2006 a 30/01/2006 (...) Indícios de provas apresentadas anteriormente à prolação do despacho decisório que denegou a homologação da compensação, consubstanciados na apresentação de DARF de Fl. 264DF CARF MF 10 pagamento e DCTF retificadora, ratificam os argumentos do contribuinte quanto ao seu direito creditório. Inexiste norma que condiciona a apresentação de declaração de compensação à prévia retificação de DCTF, bem como ausente comando legal impeditivo de sua retificação enquanto não decidida a homologação da declaração. (...) (CARF; 3ª Seção; 2ª Câmara, Acórdão: 3201002.420; Relator:Winderley Morais Pereira; Data da sessão: 28.09.2016) (grifos nossos) Logo, ainda que o sujeito passivo não tenha retificado a DCTF, mas demonstre, por meio de prova cabal, a existência de crédito, a referida formalidade não se faz necessária. No caso em análise, com a baixa do processo à unidade para que se verificasse a base de cálculo sob o novo prisma do reconhecimento da inconstitucionalidade, entendese que a referida argumentação foi superada. 3.1.2. Insuficiência de provas A Recorrente também argumenta no sentido de que o v. acórdão recorrido entendeu que as provas, juntadas por ela, seriam insuficientes para basear, lastrear, o crédito por ela pleiteado. Ela salienta que apresentou comprovante de arrecadação, balancete e memória de cálculo, referentes ao período sub judice. Quanto à insuficiência de provas, tal argumento também encontrase superado, uma vez que o feito foi convertido em diligência para análise da existência ou não do crédito em questão com base nas provas apresentadas pela Recorrente. 3.1.3. Preclusão da produção de prova A Recorrente rebate a argumentação do acórdão da DRJ, tomando como premissa que os documentos apresentados não foram suficientes para comprovar o crédito, que entendeu que a prova apresentada por ela estava albergada pelo manto da preclusão. Ela alega que tal posicionamento fere o princípio da verdade material, que estaria contemplada pelo artigo 16, § 4º, do Decreto nº 70.235/1972, e colaciona uma série de precedentes deste Conselho Administrativo. Quanto à preclusão da produção de provas, mais uma vez, o argumento também encontrase superado, uma vez que o feito foi convertido em diligência para análise da existência ou não do crédito em questão com base nas provas apresentadas pela Recorrente, sendo, portanto, superada a consideração da preclusão. 3.2. Da inconstitucionalidade do art. 3º, §1º, da Lei nº 9.718/1998 e das alegações da Recorrente após a informação fiscal Quanto à ampliação da base de cálculo prevista pela Lei nº 9.718/1998, tal fato já foi decidido pelo Supremo Tribunal Federal em regime de repercussão geral: EMENTA: RECURSO. Extraordinário. Tributo. Contribuição social. PIS. COFINS. Alargamento da base de cálculo. Art. 3º, § 1º, da Lei nº 9.718/98. Inconstitucionalidade. Precedentes do Plenário (RE nº 346.084/PR, Rel. orig. Min. ILMAR GALVÃO, DJ de 1º.9.2006; REs nos 357.950/RS, 358.273/RS e 390.840/MG, Rel. Min. MARCO AURÉLIO, DJ de 15.8.2006) Fl. 265DF CARF MF Processo nº 10280.905800/201134 Acórdão n.º 3302003.618 S3C3T2 Fl. 7 11 Repercussão Geral do tema. Reconhecimento pelo Plenário. Recurso improvido. É inconstitucional a ampliação da base de cálculo do PIS e da COFINS prevista no art. 3º, § 1º, da Lei nº 9.718/98. (STF; RE 585235 QORG / MG ; Relator:Ministro Cezar Peluso; Data do julgamento: 10/09/2008) Posteriormente, a Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, revogou o dispositivo em questão. Este Tribunal Administrativo está adstrito em suas decisões ao que é julgado em regime de repercussão geral, conforme artigo 62, § 1º, "b", do regimento interno2. Com fundamento neste precedente, o relator da resolução reconheceu a inconstitucionalidade e, por maioria de votos, determinou que a unidade preparadora analisasse a base de cálculo sem a ampliação, que foi considerada inconstitucional. Do resultado da diligência, colacionamse trechos, in verbis, da informação fiscal, fls. 220/221: Através do PER – Pedido de Restituição nº 08427.53211.201106.1.2.041863, o contribuinte solicita a restituição de R$567,40, referente ao recolhimento do PIS (8109) ocorrido em 15/04/2002, no valor total de R$9.768,12. Através de pesquisas efetuadas no sistema SIEF Pagamentos localizamos referido pagamento. Identificamos também para essa competência outro pagamento a título de PIS (8109) efetuado em 22/04/2002 no valor total de R$137,30 (R$134,20 + acréscimos legais). Através de pesquisas nos sistemas da Receita Federal do Brasil não localizamos PER/DCOMP referente a este pagamento. Ambos os pagamentos foram utilizados para amortizar o débito confessado através da DCTF do PIS (8109) do Período de Apuração do mês de março de 2002. Após intimação (fls. 203), o contribuinte apresentou os Livros Diário e Razão do mês de março de 2002, que verificados conforme Balancete e Contas do Razão (fls. 207/218), bem como verificação da DIPJ referente ao anocalendário 2002 (Ficha 19A – Cálculo da Contribuição para o PIS/PASEP) apuramos através do demonstrativo abaixo o valor da base de cálculo e da contribuição do PIS referente ao mês de março de 2002: (...) Conforme demonstrado na planilha acima, o valor apurado a título de PIS para a competência março de 2002 foi 2 Art. 62. Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. § 1º O disposto no caput não se aplica aos casos de tratado, acordo internacional, lei ou ato normativo: (...) b) Decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal ou do Superior Tribunal de Justiça, em sede de julgamento realizado nos termos dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei n º 13.105, de 2015 Código de Processo Civil, na forma disciplinada pela Administração Tributária; (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016) Fl. 266DF CARF MF 12 R$11.469,84, enquanto que o valor recolhido, conforme já mencionado, foi de R$9.902,32 (R$9.768,12 + R$134,20), pelo que, apuramos um recolhimento a menor de R$1.567,52. Desta forma, proponho o não reconhecimento do direito creditório pleiteado no PER nº 08427.53211.201106.1.2.04 1863, transmitido em 20/11/2006, no valor de R$567,40 (fls. 02/04). (grifos não constam no original) Após o relatório de informação fiscal, a Recorrente manifestouse, onde alegou que, in verbis, fls. 226 e seguintes: (...) O levantamento realizado pela fiscalização, no entanto, reconheceu parcialmente o crédito pleiteado pela requerente, apesar de ter localizado o DARF discriminado no PER/DCOMP, decisão essa que não merece prevalecer. Isso porque, por um lapso, a fiscalização não excluiu da base de cálculo os montantes decorrentes da totalidade de receitas, que foram incluídas e calculadas pela empresa conforme predeterminação do parágrafo 1o, do art. 3o, da Lei 9718, e que, posteriormente foi declarado inconstitucional pelo STF, cujo entendimento já encontrase pacificado pela jurisprudência do CARF. (...) (grifos não constam no original) Não há na manifestação da Recorrente uma indicação precisa de alguma verba, que foi considerada indevidamente pela fiscalização quando da elaboração da diligência, devendo, portanto, prevalecer o resultado da informação fiscal. 4. Conclusão Por todo o exposto, conheço o recurso voluntário, rejeitando a preliminar suscitada e, no mérito, nego provimento por ausência de direito creditório, conforme resultado da informação fiscal, fls. 220/221. Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza Fl. 267DF CARF MF Processo nº 10280.905800/201134 Acórdão n.º 3302003.618 S3C3T2 Fl. 8 13 Fl. 268DF CARF MF
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