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Numero do processo: 10240.720274/2008-13
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Sep 11 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Oct 01 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural - ITR
Exercício: 2005
ITR. VTN. NÃO COMPROVAÇÃO.
Constatada - pelo Fisco - a flagrante subavaliação do VTN utilizado pelo contribuinte, a este cabe a apresentação de laudo de avaliação do imóvel, conforme estabelecido na NBR 14.653 da Associação Brasileira de Normas Técnicas - ABNT com fundamentação e grau de precisão II, com anotação de responsabilidade técnica - ART registrada no CREA, contendo todos os elementos de pesquisa identificados, com vistas a contrapor o valor obtido no SIPT.
ITR. RESERVA LEGAL. ATO DECLARATÓRIO AMBIENTAL. AVERBAÇÃO JUNTO AO RGI. OBRIGATORIEDADE.
Quanto às reservas legais, caso de fato existentes, há que se observar, cumulativamente, o preenchimento dos dois requisitos a seguir: sua averbação junto à matrícula do imóvel previamente ao exercício em que dela se pretenda usufruir e sua informação no ADA protocolizado no IBAMA no prazo de até seis meses, contado a partir do término do prazo fixado para a entrega da respectiva DITR.
ITR. IMÓVEL INVADIDO. PERDA DA POSSE. INOCORRÊNCIA.
Não se verificando a perda da posse em função da não cessação do poder sobre o bem, dentre eles, o direito de reavê-lo de quem quer que injustamente o possua ou detenha ou dele ser mantido na posse, presente a aptidão legal para figurar no pólo passivo da obrigação tributária atinente ao ITR.
Numero da decisão: 2402-006.568
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Mario Pereira de Pinho Filho - Presidente
(assinado digitalmente)
Mauricio Nogueira Righetti - Relator
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Mário Pereira de Pinho Filho, Denny Medeiros da Silveira, João Victor Ribeiro Aldinucci, Mauricio Nogueira Righetti, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini e Gregorio Rechmann Junior.
Nome do relator: MAURICIO NOGUEIRA RIGHETTI
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VTN. NÃO COMPROVAÇÃO. Constatada pelo Fisco a flagrante subavaliação do VTN utilizado pelo contribuinte, a este cabe a apresentação de laudo de avaliação do imóvel, conforme estabelecido na NBR 14.653 da Associação Brasileira de Normas Técnicas ABNT com fundamentação e grau de precisão II, com anotação de responsabilidade técnica ART registrada no CREA, contendo todos os elementos de pesquisa identificados, com vistas a contrapor o valor obtido no SIPT. ITR. RESERVA LEGAL. ATO DECLARATÓRIO AMBIENTAL. AVERBAÇÃO JUNTO AO RGI. OBRIGATORIEDADE. Quanto às reservas legais, caso de fato existentes, há que se observar, cumulativamente, o preenchimento dos dois requisitos a seguir: sua averbação junto à matrícula do imóvel previamente ao exercício em que dela se pretenda usufruir e sua informação no ADA protocolizado no IBAMA no prazo de até seis meses, contado a partir do término do prazo fixado para a entrega da respectiva DITR. ITR. IMÓVEL INVADIDO. PERDA DA POSSE. INOCORRÊNCIA. Não se verificando a perda da posse em função da não cessação do poder sobre o bem, dentre eles, o direito de reavêlo de quem quer que injustamente o possua ou detenha ou dele ser mantido na posse, presente a aptidão legal para figurar no pólo passivo da obrigação tributária atinente ao ITR. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 24 0. 72 02 74 /2 00 8- 13 Fl. 194DF CARF MF 2 (assinado digitalmente) Mario Pereira de Pinho Filho Presidente (assinado digitalmente) Mauricio Nogueira Righetti Relator Participaram do presente julgamento os conselheiros: Mário Pereira de Pinho Filho, Denny Medeiros da Silveira, João Victor Ribeiro Aldinucci, Mauricio Nogueira Righetti, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini e Gregorio Rechmann Junior. Relatório Cuida o presente de Recurso Voluntário em face do Acórdão da Delegacia da Receita Federal de Julgamento, que considerou procedente em parte a Impugnação apresentada pelo sujeito passivo. Contra a contribuinte foi lavrada Notificação de Lançamento para constituição do ITR, exercício 2005, no valor principal de R$ 85.766,62, acrescido de multa de ofício (75%) e juros legais (Selic), relativo ao NIRF 5.319.1161 SERINGAL CABECEIRA. Foram apuradas as seguintes infrações: 1 Área de Preservação Permanente não comprovada; 2 Área de Reserva Legal não comprovada; e 3 VTN declarado não comprovado. Regulamente intimado do lançamento, apresentou Impugnação, que foi julgada procedente em parte pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento DRJ fls. 112/130, para restabelecer a APP de 100 ha. Em seu Recurso Voluntário de fls. 141/162 aduz, em resumo: 1 O Imóvel objeto do Auto de Infração está encravado em área de interesse ecológico, onde se pode constatar que 100,0 % da área do imóvel ficou inserida na Zona 4 do Zoneamento sócio econômico e ecológico do estado de Rondônia. Reserva Florestal criada através da Lei Complementar nº 52/1991. Que o § 7º do artigo 10 da Lei 9.393/96 o dispensaria de fazer a prévia comprovação das APPs, das ARL e das áreas sob regime de servidão florestal. 2 Que a reserva legal corresponderia a 80% da área do imóvel, por se situar na Amazônia Legal; 3 Que está averbada junto à matrícula do imóvel, a responsabilidade da empresa em preservar todas a áreas manejadas num período de 20 anos. E isso seria o suficiente. Fl. 195DF CARF MF Processo nº 10240.720274/200813 Acórdão n.º 2402006.568 S2C4T2 Fl. 3 3 Ademais, as áreas onde foram exploradas com projeto de manejo florestal sustentado, são consideradas pela legislação como áreas produtoras de madeiras, e são isentas de imposto. 4 Que a alíquota aplicada pela Fiscalização, de 12%, configuraria confisco da propriedade privada; e 5 Que o imóvel sofreu invasão pelo movimento denominado "LIGA CAMPONESA POBRE LCP"; que devido ao esbulho possessório sofrido não pode explorar economicamente o imóvel; que a recorrente perdeu a posse do imóvel; e 6 Que com a criação de novos municípios, o imóvel passou a pertencer aos Municipios de Cujubim e Machadinho D´oesteRO; que o Município de Cujubim está muito distante do Município de Ariquemes, e as terras daquela localidade valem muito menos das localizadas no município de Ariquemes, por ser localizado fora da Br 364, local de difícil acesso. É o relatório. Voto Conselheiro Mauricio Nogueira Righetti, Relator O contribuinte tomou ciência do acórdão recorrido em 27.02.2012 e apresentou tempestivamente seu Recurso Voluntário em 16.03.2012. Observados os demais requisitos de admissibilidade, dele passo a conhecer. Da ilegitimidade passiva: Quanto à alegação de que não deveria incidir o imposto sobre o imóvel que foi invadido, em função de não poder mais dele se utilizar, tenho que não merece prosperar. De acordo com o artigo 4° da Lei n° 9.393/96, contribuinte do ITR pode ser o proprietário do imóvel rural, o titular do seu domínio útil ou o seu possuidor a qualquer título, sem ordem de preferência. A certidão de RGI acostada às fls. 183/189, lavrada em 15.09.2008, informa a propriedade do imóvel como sendo da Sra Eunice Picinato. Tanto o DIAT/DITR/2005, quanto os ADA/1997, protocolizado em 11.11.2002 e ADA/2003, protocolizado em 17.06.2004, foram apresentados em nome do recorrente. A questão sob análise resumese a avaliar se o fato de imóvel ter sido supostamente invadido afastaria, do recorrente, sua condição de possuidor para fins de sujeição passiva para o ITR. Inicialmente, cumpre destacar que não consta dos autos comprovação, sequer evidência, de que tal condição (invasão) tenha se dado/mantida à data do fato gerador em Fl. 196DF CARF MF 4 questão (01.01.2005), tampouco qual o tamanho da área suposta e efetivamente invadida. Vejamos: A cópia da Assentada da Audiência de Justificação Prévia de fls. 33, lavrada em 27.03.2002 nos autos do PJ 002.02.0019370, noticia a decisão de manutenção do recorrente na posse de imóvel que lá não especifica. Já às fls. 32, há um extrato da Sentença, supostamente publicado no DOE em 19.09.2002, que determinou que a autora (aqui recorrente) fosse definitivamente mantida na posse do imóvel lá em litígio. A certidão de fls. 37, nos autos do processo 10240.720273/200871, também de minha relatoria, além de certificar a intimação do representado legal da LCP LIGA CAMPONESA POBRE da decisão encimada, registrou a presença no local em 23.03.2002 de várias pessoas, estando algumas com capuz e outras armadas, contudo, sem que fossem regularmente identificadas. Frisese, não se identificou nada mais nos autos que demonstrassem o esbulho, sequer turbação da posse, à época do fato gerador. (01.01.2005) O Código Civil de 2002 estabelece a perda da posse quando cessar a poder sobre o bem ao qual se refere o artigo 1.196 1 do mesmo diploma. Por sua vez, aquele artigo 1.196 estabelece que o possuidor é aquele que tem de fato o exercício, pleno ou não, de algum dos poderes inerentes à propriedade. Prosseguindo, o artigo 1.228 dispõe que o proprietário tem o direito de, quanto à coisa, i) Usar, ii) Gozar, iii) Dispor; e iv) Reavêla do poder de quem quer que injustamente a possua ou detenha. Na mesma linha, especificamente no que se refere à posse, o art 1.210 prevê que "o possuidor tem direito a ser mantido na posse em caso de turbação, restituído no de esbulho, e segurado de violência iminente, se tiver justo receio de ser molestado." No mesmo sentido, o artigo 926 do CPC/73 estabelecia que o possuidor tem direito a ser mantido na posse em caso de turbação e reintegrado no de esbulho. Da dicção acima, notase que ainda que não esteja na imediata posse do bem, ao Possuidor de Direito é assegurada a Manutenção ou Reintegração efetiva na posse, além do quê, o possuidor de máfé responderá, junto ao possuidor de direito, por todos os frutos colhidos e percebidos, bem como pelos que, por culpa sua, deixou de perceber, desde o momento em que se constituiu de máfé. Não há, assim, a perda definitiva da posse se o possuidor, frisase, ainda na condição de possuidor, tomou as providências em tempo hábil, diligenciou, de forma a reaver a coisa de quem quer que injustamente a possua ou detenha. Em outras palavras: exercido a tempo o direito de reaver a posse do bem, ou nela ser definitivamente mantido, tenho que o recorrente detém legitimidade para figurar no pólo passivo da obrigação tributária do ITR, na condição de possuidor a qualquer título, consoante preceitua o artigo 4º da Lei 9.393/96. Interpretação diversa conduziria ao entendimento de que ou o imposto poderia ser cobrado dos "invasores", o que não se afigura 1 Art. 1.223. Perdese a posse quando cessa, embora contra a vontade do possuidor, o poder sobre o bem, ao qual se refere o art. 1.196. Fl. 197DF CARF MF Processo nº 10240.720274/200813 Acórdão n.º 2402006.568 S2C4T2 Fl. 4 5 razoável, sob o ponto de vista de sua identificação; ou terseia uma isenção não prevista em lei para o imóvel envolvido. VTN: No que toca ao VTN atribuído pela Fiscalização, o recorrente alega, en passant, que o VTN seria menor em função da então localização do imóvel, que teria se alterada em decorrência da criação de novos município. Todavia, no curso da ação fiscal, o autuado foi intimado a apresentar o "laudo de avaliação do imóvel, conforme estabelecido na NBR 14.653 da Associação Brasileira de Normas Técnicas ABNT com fundamentação e grau de precisão II, com anotação de responsabilidade técnica ART registrada no CREA, contendo todos os elementos de pesquisa identificados.". E mais, foi feito constar na intimação que a falta de apresentação do laudo de avaliação ensejaria o arbitramento do VTN, com base nas informações do Sistema de Preços de Terra SIPT, da RFB. Não obstante, o contribuinte não atendeu a intimação fiscal com vistas a infirmar o valor eleito pela Fiscalização. Ora, O VTN médio, por hectare, utilizado pelo autuado, correspondeu a apenas e aproximadamente, 17% daquele verificado no SIPT para os imóveis no município de Ariquemes/RO, consoante atesta a autoridade julgadora de piso, não deixando a menor dúvida quanto à sua subavaliação. A alegação de que, com a criação de novos municípios, o imóvel teria passado a pertencer a outro e a não mais ao de Ariquemes, desacompanhada do laudo de avaliação acima mencionado, não merece melhor sorte, na medida em que tanto no RGI, quando no CAFIR, cuja atualização é de responsabilidade do recorrente, a localização do imóvel permanece inalterada, ou seja, em Ariquemes/RO. Na própria DIAT/DITR/05 apresentada pelo recorrente constou este município como o de localização do imóvel. Impõese destacar, que por meio de consulta aos sites oficiais dos municípios de Machadinho D´ Oeste e Cujubim, pôdese verificar que os mesmos foram criados, respectivamente, em 11.05.1988 e 22.06.1994. A seu turno, a Escritura Pública de Compra e Venda de 27.03.2000, (em data bem posterior à criação do município mais novo) onde figuraram como outorgante vendedora a Sra Eunice Picinato e outorgante comprador o recorrente, qualificou os imóveis lá negociados da seguinte forma: Seringal Cabeceira: lote de terras rural denominado "Cabeceira", situado no município de Ariquemes/RO, com área total de 90.783.357 m2. NIRF 5.319.1161 Seringal Novo Mundo: lote de terras rural denominado "Seringal Novo Mundo", situado nos municípios de Ariquemes e Machadinho D´Oeste/RO, com área no município de Ariquemes de 19.938,99 ha e e área no município de Machadinho de 7.400,00 ha, perfazendo a área total de 27.338,99 ha. NIRF 5.316.6078 Fl. 198DF CARF MF 6 O fato acima, por si só, conduz ao entendimento de que não houve erro de fato no preenchimento do DIAT/DITR, tampouco na informação constante do CAFIR, que atestam o município de Ariquemes como o de localização do imóvel de NIRF 5.319.1161. Ademais, como esse valor médio por hectare corresponde ao valor médio apurado no universo das DITR/2005 referentes aos imóveis rurais localizados no município de Ariquemes/RO, a alegação do recorrente poderia denunciar algum prejuízo em função do VTN utilizado pela Fiscalização, apenas se demonstrado que a alteração da municipalidade tivesse se dado de fato já àquela época e que os demais contribuintes do ITR a observaram para fins de atualização do CAFIR e da apresentação das correspondentes DITR, de forma a promover significativa alteração na base sistêmica de consultas utilizada para a obtenção daquele valor médio por hectare. Não é o que se verifica nos autos. E lembrese, trata de valor estimado, utilizado pelo Fisco ao amparo do artigo 14 da Lei 9.393/96, ante à falta de comprovação, pelo contribuinte regularmente intimado, de um valor que melhor espelhe a realidade do imóvel. Aproveitamento de área não declarada na DITR, objeto do procedimento fiscal: Consoante se denota do demonstrativo de apuração do ITR devido, às fls. 41, a Fiscalização promoveu alterações na DITR do contribuinte no que toca à APP, à ARL e ao VTN declarado e sobre tais assuntos se desenvolverá a análise a seguir. Vejamos: As alterações promovidas de ofício pelo lançamento trazem repercussão direta na base imponível do tributo. Fl. 199DF CARF MF Processo nº 10240.720274/200813 Acórdão n.º 2402006.568 S2C4T2 Fl. 5 7 É de se notar, que autuado não declarou, em sua DITR, qualquer área de interesse ecológico. Entretanto, o ADA supostamente apresentado em 11.11.2002 (fls. 22), continha as seguintes informações: Diferentemente, no ADA de 2003 (fls. 80), supostamente apresentado em 17.06.2004 e do qual se valeu a DRJ para restabelecer a APP de 100 ha, não consta Área de Interesse Ecológico declarada. Confirase: Ou seja, toda a discussão calcada no aproveitamento dessas áreas, tais como, ARL de 80% do imóvel, segundo sua localização, e sua integral inserção em área de Reserva Florestal criada através da Lei Complementar nº 52/1991 do Estado de Rondônia, não deveriam, a rigor, ser aqui apreciadas, na medida em que não integraram o litígio original pelo fato de não ter sido declarada, em sua DITR, área de interesse ecológico. Fl. 200DF CARF MF 8 O não acatamento das informações que constaram essas sim em seu DIAT/DITR será, caso regularmente questionado em recurso, objeto do contencioso administrativo. Esse é, a meu ver e como regra, o limite da lide e sobre o quê se pronunciará as instâncias julgadoras. Contudo, caso efetivamente demonstrado o patente erro de fato no preenchimento da respectiva DITR, em função do equívoco na informação, seja por sua omissão, seja por sua incorreção, entendo admissível, em sede de contencioso administrativo e à luz do princípio da verdade material, a retificação das informações originalmente prestadas naquela declaração, bem como a alteração do lançamento naquilo que dele decorreu. Vale destacar, que são áreas de interesse ecológico para a proteção dos ecossistemas, assim declaradas mediante ato do órgão competente, federal ou estadual, aquelas que, destacase: ampliem as restrições de uso previstas para as APP e ARL. Em outras palavras: ainda que haja ato do poder público que declare determinada área como de interesse ecológico, caso não haja a imposição de efetivas restrições de uso que ampliem aquelas previstas para as APP e ARL, ou seja, restrições além do manejo sustentável, tenho que sua dedução, da área tributável pelo ITR, não possui suporte legal. Confirase. ITR ÁREA DE UTILIZAÇÃO LIMITADA/ÁREA DECLARADA DE INTERESSE ECOLÓGICO NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO. Para que não se tribute pelo Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural ITR a área de interesse ecológico para a proteção dos ecossistemas, assim declarada mediante ato do órgão competente, federal ou estadual, deve ser comprovada a ampliação às restrições de uso previstas para as áreas de preservação permanente e reserva legal, ou seja, restrições além do manejo sustentável. Acórdão nº 9202003.051 – Sessão de 12 de fevereiro de 2014 ÁREA DE INTERESSE ECOLÓGICO. ISENÇÃO. CONDIÇÕES. Para que as Áreas de Interesse Ecológico para a proteção dos ecossistemas sejam isentas do ITR, é necessário que sejam assim declaradas por ato específico do órgão competente, federal ou estadual, e que estejam sujeitas a restrições de uso superiores àquelas previstas para as áreas de Reserva Legal e de Preservação Permanente. O fato de o imóvel rural encontrarse inserido em zoneamento ecológico, por si só, não gera direito à isenção ora tratada. Acórdão nº 9202004.576 – Sessão de 24 de novembro de 2016 Reforçase: para efeito de exclusão do ITR, a Área de Interesse Ecológico deve ser assim declarada em caráter específico para determinada área da propriedade particular. Quer dizer com isso, que a área declarada em caráter geral não satisfaz, por si só, a condição legal para sua dedutibilidade. Portanto, se o imóvel rural estiver dentro de área declarada em caráter geral como de interesse ecológico, é necessário também o reconhecimento específico de órgão competente federal ou estadual para a área da propriedade particular. O reconhecimento dessas áreas depende de ato específico, por imóvel, expedido pelo Ibama (Ato Declaratório Ambiental – ADA). Fl. 201DF CARF MF Processo nº 10240.720274/200813 Acórdão n.º 2402006.568 S2C4T2 Fl. 6 9 Trago à colação as constatações promovidas pelo acórdão vergastado, que me fazem concluir, em função do acima exposto, pela impossibilidade do aproveitamento de tal área, como pretende o recorrente. Não obstante constar dos autos a referida Certidão da SEDAM, constatase da Descrição da área pertencente à Zona 4 que o imóvel nela situado pode ser realizado o aproveitamento extrativo com manejo dos recursos florestais. Tanto isso é verdade que a própria contribuinte declarou em sua DITR/2005, uma área de exploração extrativa de 1.200,0 ha, que não foi glosada pela fiscalização. Ademais, na Certidão de Inteiro Teor do imóvel, às fls. 65/67, constam averbações de que no imóvel estavam previstas explorações de madeira, confirmando que as áreas integrantes da referida Zona 4, foram objeto de Plano de Manejo Sustentado, aprovado pelo IBAMA, para exploração extrativa (madeira). Constatase, ainda, que existe a intenção de utilizar ou manter essa área na atividade rural, posto que nessa Certidão, não obstante o fato de a impugnante não ter juntado aos autos os documentos hábeis comprobatórios da exploração extrativa, como consta em item específico da matéria, além das averbações sobre o plano de manejo feitas no ano de 1998, existem averbações do ano de 2006 para essa finalidade. Nesse diapasão, faz parte, também, dos autos, o ADA referente a 2003, às fls. 71, no qual consta a declaração de uma área de reserva legal de 4.450,0 ha e a declaração de uma área com plano de manejo florestal de 4.000,5 ha, corroborando que essa área do imóvel estaria, de fato, destinada à exploração extrativa. Glosa da ARL: Como já dito no relatório deste voto, a DRJ restabeleceu a dedução da APP então declarada pelo recorrente. Já no que concerne à glosa da ARL, mantida pelo acórdão de piso, tenho que o procedimento e conclusão adotados não merecem reparos. Vejamos. Prosseguindo na análise, o § 1º do artigo 10 da Lei 9.393/96, que deve ser aplicado em sua literalidade por força do artigo 111 do CTN2, elenca as áreas que podem ser deduzidas da área tributável para fins de apuração do ITR. Vejamos: 2 Art. 111. Interpretase literalmente a legislação tributária que disponha sobre: I suspensão ou exclusão do crédito tributário; II outorga de isenção; III dispensa do cumprimento de obrigações tributárias acessórias. (...) Fl. 202DF CARF MF 10 Assim sendo, o artigo 10 da Lei 9.393/96 disciplina os contornos da apuração do ITR, verbis. Art. 10. A apuração e o pagamento do ITR serão efetuados pelo contribuinte, independentemente de prévio procedimento da administração tributária, nos prazos e condições estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal, sujeitandose a homologação posterior. § 1º Para os efeitos de apuração do ITR, considerarseá: I VTN, o valor do imóvel, excluídos os valores relativos a: a) construções, instalações e benfeitorias; b) culturas permanentes e temporárias; c) pastagens cultivadas e melhoradas; d) florestas plantadas; II área tributável, a área total do imóvel, menos as áreas: a) de preservação permanente e de reserva legal, previstas na Lei nº 4.771, de 15 de setembro de 1965, com a redação dada pela Lei nº 7.803, de 18 de julho de 1989; b) de interesse ecológico para a proteção dos ecossistemas, assim declaradas mediante ato do órgão competente, federal ou estadual, e que ampliem as restrições de uso previstas na alínea anterior; c) comprovadamente imprestáveis para qualquer exploração agrícola, pecuária, granjeira, aqüícola ou florestal, declaradas de interesse ecológico mediante ato do órgão competente, federal ou estadual; d) as áreas sob regime de servidão florestal.(Incluído pela Medida Provisória nº 2.16667, de 2001) e) cobertas por florestas nativas, primárias ou secundárias em estágio médio ou avançado de regeneração; (Incluído pela Lei nº 11.428, de 2006) f) alagadas para fins de constituição de reservatório de usinas hidrelétricas autorizada pelo poder público. (Incluído pela Lei nº 11.727, de 2008) As áreas de preservação permanente APP, consoante definidas na Lei 4.771/65, coberta ou não por vegetação nativa, com a função ambiental de preservar os recursos hídricos, a paisagem, a estabilidade geológica, a biodiversidade, o fluxo gênico de fauna e flora, proteger o solo e assegurar o bemestar das populações humanas, podem ser classificadas como legais (art. 2º) e administrativas (art. 3º). Fl. 203DF CARF MF Processo nº 10240.720274/200813 Acórdão n.º 2402006.568 S2C4T2 Fl. 7 11 Quanto às primeiras, as legais, temos as florestas e demais formas de vegetação natural situadas próximas a fontes de recursos hídricos e a relevos com importância a preservação dos eco sistemas, tais como: i) ao longo dos rios ou de qualquer curso d'água desde o seu nível mais alto em faixa marginal; ii) ao redor das lagoas, lagos ou reservatórios d'água naturais ou artificiais; iii) nas nascentes, ainda que intermitentes e nos chamados "olhos d'água", qualquer que seja a sua situação topográfica, num raio mínimo de 50 (cinquenta) metros de largura; iv) no topo de morros, montes, montanhas e serras; v) nas encostas ou partes destas, com declividade superior a 45°, equivalente a 100% na linha de maior declive; e vi) nas restingas, como fixadoras de dunas ou estabilizadoras de mangues. Por sua vez, as APP administrativas, declaradas por ato do poder público, são as florestas e demais formas de vegetação natural destinadas: a) a atenuar a erosão das terras; b) a fixar as dunas; c) a formar faixas de proteção ao longo de rodovias e ferrovias; d) a auxiliar a defesa do território nacional a critério das autoridades militares; e) a proteger sítios de excepcional beleza ou de valor científico ou histórico; f) a asilar exemplares da fauna ou flora ameaçados de extinção; g) a manter o ambiente necessário à vida das populações silvícolas; h) a assegurar condições de bemestar público. Percebese que há uma evidente diferença entre as duas espécies de APP. Enquanto que para as legais, já determinadas no diploma legal, a finalidade é intrínseca ao que se propõe a lei; para as administrativas, a finalidade a ser alcançada pelo administrador público está textualmente prevista nas alíneas daquele artigo 3º. Assim, indubitavelmente, a ação do poder público tornase imprescindível para a constituição dessas APP administrativas. Frisese que a supressão total ou parcial dessas áreas de preservação permanente só será admitida com prévia autorização do Poder Executivo Federal, quando for necessária à execução de obras, planos, atividades ou projetos de utilidade pública ou interesse social. Por seu turno, ainda de acordo com o diploma encimado, as reservas legais são áreas localizadas no interior de uma propriedade ou posse rural, excetuada a de preservação permanente, necessárias ao uso sustentável dos recursos naturais, à conservação e reabilitação dos processos ecológicos, à conservação da biodiversidade e ao abrigo e proteção de fauna e flora nativas, cuja vegetação não pode ser suprimida, podendo apenas ser utilizada sob regime de manejo florestal sustentável, de acordo com princípios e critérios técnicos e científicos estabelecidos. Devem ser averbadas à margem da inscrição de matrícula do imóvel, no registro de imóveis competente, após aprovada sua localização pelo órgão ambiental estadual competente ou, mediante convênio, pelo órgão ambiental municipal ou outra instituição devidamente habilitada (§ § 4º e 8º do artigo 16 da Lei 4.771/65). A Fl. 204DF CARF MF 12 obrigatoriedade da aprovação acima citada foi introduzida na lei de regência, por conta da MP 2.16667/2001. Veja, a obrigatoriedade de se ter aprovada a localização da ARL pelo órgão ambiental estadual competente ou, mediante convênio, pelo órgão ambiental municipal ou outra instituição devidamente habilitada está diretamente relacionada à vedação a que se constitua reserva legal sobre área de preservação permanente, já dedutível, observadas as exigências legais, na apuração do imposto. Com isso, tendese a evitar a utilização da mesma área, por mais de uma vez, como dedução do ITR. Assim, podese resumir: APP Pode haver a supressão, quando assim determinar o interesse público; ARL Não pode haver a supressão, mas somente sua utilização em regime de manejo florestal sustentável. E, por fim, naquilo que interessa ao caso, temos as áreas de interesse ecológico para a proteção dos ecossistemas, assim declaradas mediante ato do órgão competente, federal ou estadual, e que, destacase: ampliem as restrições de uso previstas para as APP e ARL. Em outras palavras: ainda que haja ato do poder público que declare determinada área como de interesse ecológico, caso não haja a imposição de efetivas restrições de uso que ampliem aquelas previstas para as APP e ARL, ou seja, restrições além do manejo sustentável, tenho que sua dedução, da área tributável pelo ITR, não possui suporte legal. Confirase. ITR ÁREA DE UTILIZAÇÃO LIMITADA/ÁREA DECLARADA DE INTERESSE ECOLÓGICO NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO. Para que não se tribute pelo Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural ITR a área de interesse ecológico para a proteção dos ecossistemas, assim declarada mediante ato do órgão competente, federal ou estadual, deve ser comprovada a ampliação às restrições de uso previstas para as áreas de preservação permanente e reserva legal, ou seja, restrições além do manejo sustentável. Acórdão nº 9202003.051 – Sessão de 12 de fevereiro de 2014 ÁREA DE INTERESSE ECOLÓGICO. ISENÇÃO. CONDIÇÕES. Para que as Áreas de Interesse Ecológico para a proteção dos ecossistemas sejam isentas do ITR, é necessário que sejam assim declaradas por ato específico do órgão competente, federal ou estadual, e que estejam sujeitas a restrições de uso superiores àquelas previstas para as áreas de Reserva Legal e de Preservação Permanente. O fato de o imóvel rural encontrarse inserido em zoneamento ecológico, por si só, não gera direito à isenção ora tratada. Acórdão nº 9202004.576 – Sessão de 24 de novembro de 2016 Fl. 205DF CARF MF Processo nº 10240.720274/200813 Acórdão n.º 2402006.568 S2C4T2 Fl. 8 13 Reforçase: para efeito de exclusão do ITR, a Área de Interesse Ecológico deve ser assim declarada em caráter específico para determinada área da propriedade particular. Quer dizer com isso, que a área declarada em caráter geral não satisfaz, por si só, a condição legal para sua dedutibilidade. Portanto, se o imóvel rural estiver dentro de área declarada em caráter geral como de interesse ecológico, é necessário também o reconhecimento específico de órgão competente federal ou estadual para a área da propriedade particular. O reconhecimento dessas áreas depende de ato específico, por imóvel, expedido pelo Ibama (Ato Declaratório Ambiental – ADA). Prosseguindo, a alínea "e" do inciso II, § 1º do artigo 10 da Lei 9.393/96, com a redação dada pela lei 11.428/2006, autorizou a dedução, a partir de 01.01.2007, das áreas cobertas por florestas nativas, primárias ou secundárias em estágio médio ou avançado de regeneração. Notese que áreas cobertas por florestas nativas secundárias em estágio inicial de regeneração não foram contempladas pelo dispositivo.3 Malgrada a digressão acima, seja qual for a área que, ao amparo do inciso II, do § 1º do artigo 10 da Lei 9.393/96, se pretenda expurgar daquela tributável pelo ITR, o fato é que ela deve constar consignada no competente Ato Declaratório Ambiental ADA, conforme preconiza o artigo 17O da Lei 6.938/81, com a redação dada pela Lei 10.165/2000. Confirase. Art. 17O. Os proprietários rurais que se beneficiarem com redução do valor do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural – ITR, com base em Ato Declaratório Ambiental ADA, deverão recolher ao IBAMA a importância prevista no item 3.11 do Anexo VII da Lei no 9.960, de 29 de janeiro de 2000, a título de Taxa de Vistoria.(Redação dada pela Lei nº 10.165, de 2000) § 1oA. A Taxa de Vistoria a que se refere o caput deste artigo não poderá exceder a dez por cento do valor da redução do imposto proporcionada pelo ADA.(Incluído pela Lei nº 10.165, de 2000) § 1o A utilização do ADA para efeito de redução do valor a pagar do ITR é obrigatória. (...) § 5o Após a vistoria, realizada por amostragem, caso os dados constantes do ADA não coincidam com os efetivamente levantados pelos técnicos do IBAMA, estes lavrarão, de ofício, novo ADA, contendo os dados reais, o qual será encaminhado à Secretaria da Receita Federal, para as providências cabíveis. Por sua vez, o Ato Declaratório Ambiental – ADA é um instrumento legal que possibilita ao Proprietário Rural uma redução do Imposto Territorial Rural – ITR, em até 100%, sobre a área efetivamente protegida, quando declarar no Documento de Informação e Apuração DIAT/ITR, Áreas de Preservação Permanente (APPs), Reserva Legal, Reserva Particular do Patrimônio Natural, Interesse Ecológico, Servidão Florestal ou Ambiental, áreas cobertas por Floresta Nativa e áreas Alagadas para fins de Constituição de Reservatório de Usinas Hidrelétricas. É documento de cadastro das áreas do imóvel rural junto ao IBAMA e das áreas de interesse ambiental que o integram para fins de isenção do Imposto Sobre a 3 http://www.fundacaofia.com.br/gdusm/florestas_estagios.htm Fl. 206DF CARF MF 14 Propriedade Territorial Rural ITR, sobre estas últimas. Deve ser preenchido e apresentado pelos declarantes de imóveis rurais obrigados à apresentação do ITR. O texto legal encimado evidencia uma atuação conjunta de órgãos autônomos no sentido de manter o controle em relação à desoneração tributária. Ademais, prevê a necessidade de pagamento de uma taxa de vistoria, a qual, em sendo realizada, e não se confirmando a existência das áreas excluídas de tributação, poderá ensejar o lançamento de ofício do tributo, sendo inequívoco que o ADA é obrigatório para aqueles que desejam se beneficiar da redução do tributo devido a título de ITR. É dizer: é instrumento eleito pelo legislador para controle, integração de órgãos e fonte de custeio da atividade de vistoria, questões absolutamente indispensáveis ao acompanhamento do cumprimento dos preceitos da legislação relativos à limitação da utilização de tais áreas, bem assim da correção no gozo da benesse fiscal. Nesse contexto, o legislador estabeleceu a forma que entendeu adequada para promover tal controle e fiscalização, não sendo possível a este Conselho deixar de aplicar comando legal válido e vigente apenas pela eventual convicção de que tal atividade poderia ser levada a termo de outra forma. Reprisese. Não há esforço interpretativo que, a partir da literalidade da frase "a utilização do ADA para efeito de redução do valor a pagar do ITR é obrigatória", possa ser capaz de concluir pela desnecessidade da obrigação imposta pelo legislador. É entendimento corrente neste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais que, com o advento da lei 6.938/81, com a redação dada pela Lei nº 10.165/00, é obrigatória a apresentação do ADA protocolado junto ao IBAMA. Situação diversa da verificada em períodos anteriores ao ano de 2001, como se depreende da Súmula Carf. nº 41, segundo a qual, “a não apresentação do Ato Declaratório Ambiental (ADA) emitido pelo IBAMA, ou órgão conveniado, não pode motivar o lançamento de ofício relativo a fatos geradores ocorridos até o exercício de 2000”. No caso em tela, o que se vê é a utilização da função extrafiscal do tributo, mediante sua aplicação como instrumento de política ambiental, estimulando a preservação ou recuperação da fauna e da flora em contrapartida a uma redução do valor devido a título de Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural. Contudo, a legislação impõe requisitos para gozo de tais benefícios, os quais variam de acordo com a natureza de cada hipótese de exclusão do campo de incidência do tributo e das limitações que cada situação impõe ao direito de propriedade. Voltando às reservas legais, caso de fato existentes, há que se observar, cumulativamente, o preenchimento dos dois requisitos a seguir: sua averbação junto à matrícula do imóvel previamente ao exercício em que dela se pretenda usufruir, após aprovação do local pelo órgão ambiental e sua informação no ADA protocolizado no IBAMA, no prazo estabelecido em norma regulamentar. 4 Em suma: a existência das ARL, APP, áreas cobertas por floresta nativa ou qualquer outra especificada naquele inciso II, § 1º do artigo 10 da Lei 9.393/96, por si só não assegura ao contribuinte a não tributação das áreas s que se refere. Há de se cumprir as exigências legais. 4 Artigo 9º, § 3º, I da IN SRF 256/2002. Fl. 207DF CARF MF Processo nº 10240.720274/200813 Acórdão n.º 2402006.568 S2C4T2 Fl. 9 15 Notem por sua vez, que os prazos acima destacados não se tratam de mera formalidade ou desprovidos de propósito razoável. Vejamos: Se por um lado é indubitável que as ARL devem ser averbadas à margem da inscrição de matrícula do imóvel, por outro, o que se questiona é se tal providência pode ser efetivada a qualquer tempo. Tenho que não. Tal averbação é condição legal para que o sujeito passivo possa, a rigor, se valer de tal isenção e não ter contra si constituído o crédito tributário a ela relacionada. Logo, todas as circunstâncias constitutivas 5 e fatos devem estar perfeitamente configurados à data do fato gerador da obrigação principal. E mais, a averbação em registro próprio possibilita a determinação dos limites e localização das ARL, viabiliza o efetivo controle de sua manutenção pelo poder público, além de dar publicidade de seus contornos à eventuais adquirentes da propriedade. Seria, a grosso modo, uma via de mão dupla. Assim dispõe o § 1º do artigo 12 do Decreto 4.382/2002, de obediência obrigatória por este colegiado: Art. 12. São áreas de reserva legal aquelas averbadas à margem da inscrição de matrícula do imóvel, no registro de imóveis competente, nas quais é vedada a supressão da cobertura vegetal, admitindose apenas sua utilização sob regime de manejo florestal; § 1º Para efeito da legislação do ITR, as áreas a que se refere o caput deste artigo devem estar averbadas na data de ocorrência do respectivo fato gerador. Já no que toca ao prazo para o protocolo do ADA, da mesma forma de evidente obrigatoriedade legal, veja que está relacionado á viabilidade do exercício do poder de polícia a cargo do IBAMA. Admitir o protocolo a qualquer tempo conduzira, por óbvio, ao inegável prejuízo no exercício da atividade estatal, já que poderia não mais dispor de tempo hábil à tomada de eventuais providências no âmbito do lançamento de oficio do ITR. Esvaziaria, assim entendido, o propósito legal. Na mesma linha, o inciso I do § 3º do artigo 10 daquele Decreto 4.382/2002 estabelece: Art. 10. Área tributável é a área total do imóvel, excluídas as áreas: I de preservação permanente; II de reserva legal; III de reserva particular do patrimônio natural; IV de servidão florestal; 5 o STJ, no EREsp 1.027.051/SC, reconheceu que, para fins tributários, a averbação deve ser condicionante da isenção, tendo eficácia constitutiva. Fl. 208DF CARF MF 16 V de interesse ecológico para a proteção dos ecossistemas, assim declaradas mediante ato do órgão competente, federal ou estadual, e que ampliem as restrições de uso previstas nos incisos I e II do caput deste artigo; VI comprovadamente imprestáveis para a atividade rural, declaradas de interesse ecológico mediante ato do órgão competente, federal ou estadual.. § 1º A área do imóvel rural que se enquadrar, ainda que parcialmente, em mais de uma das hipóteses previstas no caput deverá ser excluída uma única vez da área total do imóvel, para fins de apuração da área tributável. § 2º A área total do imóvel deve se referir à situação existente na data da efetiva entrega da Declaração do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural DITR. § 3º Para fins de exclusão da área tributável, as áreas do imóvel rural a que se refere o caput deverão: I ser obrigatoriamente informadas em Ato Declaratório Ambiental ADA, protocolado pelo sujeito passivo no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis IBAMA, nos prazos e condições fixados em ato normativo; E II estar enquadradas nas hipóteses previstas nos incisos I a VI em 1º de janeiro do ano de ocorrência do fato gerador do ITR. § 4º O IBAMA realizará vistoria por amostragem nos imóveis rurais que tenham utilizado o ADA para os efeitos previstos no § 3º e, caso os dados constantes no Ato não coincidam com os efetivamente levantados por seus técnicos, estes lavrarão, de ofício, novo ADA, contendo os dados reais, o qual será encaminhado à Secretaria da Receita Federal, que apurará o ITR efetivamente devido e efetuará, de ofício, o lançamento da diferença de imposto com os acréscimos legais cabíveis. Nesse diapasão, em atenção à parte final daquele inciso I do parágrafo 3º acima, a Instrução Normativa SRF nº 256/2002, que é, na forma do artigo 100 do CTN, norma complementar das leis e, portando, de observância obrigatória por todos os contribuintes, estabelece em seu artigo 9º, o prazo para a apresentação do referido ADA, para fins do seu aproveitamento em matéria tributária. Reforçase: não se trata de criar tributo ou mesmo restringir/limitar o exercício do direito do contribuinte, que se deu por força da lei 9.393/96 e artigo 17O da Lei 6.938/81, mas sim de regulamentar seu exercício. Em outras palavras: para se valer dessa isenção condicionada, seu cumprimento deve se dar de forma a efetivamente assegurar ao Estado, por meio de seu órgão ambiental, a possibilidade de se aferir o escorreito enquadramento da área a ele declarada e que pretende ver excluída da apuração do ITR. Fl. 209DF CARF MF Processo nº 10240.720274/200813 Acórdão n.º 2402006.568 S2C4T2 Fl. 10 17 Assim, não resta dúvida que para fins de exclusão da área tributável, aquelas áreas deverão ser obrigatoriamente informadas em ADA, protocolado pelo sujeito passivo no IBAMA, nos prazos e condições fixados em ato normativo. É o que exige o Decreto 4.382/2002, de observância obrigatória por este colegiado, a teor do artigo 62 do RICARF. Conforme se extrai do excerto abaixo, que constou do voto vencedor no acórdão 9202005753, da 2ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, a jurisprudência neste Conselho consolidouse no sentido de aceitar o ADA protocolizado até o início da ação fiscal. Confirase: É certo que, no caso da Área de Preservação Permanente (APP), tratase de acidentes geográficos já existentes na natureza, porém a exclusão da tributação desta área ambiental não está condicionada à criação da área e sim da sua preservação, como a própria denominação está a indicar. Como o lançamento se reporta à data de ocorrência do fato gerador do tributo (art. 144 do CTN) e, no que tange ao ITR, este foi fixado em 1º de janeiro (art. 1º da Lei nº. 9.393, de 1996), é claro que a fruição do benefício está condicionada à preservação à época do fato gerador. Nesse passo, a Receita Federal, utilizandose da prerrogativa de regulamentar a forma e os prazos para cumprimento de obrigações acessórias, estabeleceu o prazo de seis meses após a data de entrega da DITR, para que o Contribuinte providencie o protocolo do ADA. E tratandose de declarar algo que a priori já existiria na natureza, este Colegiado consolidou a jurisprudência no sentido de aceitarse o ADA protocolado antes do início da ação fiscal, em respeito à espontaneidade do Contribuinte. Não retrata, com a devida venia, o entendimento deste relator. Não seria razoável imaginar que tal informação pudesse ser prestada em data, por exemplo, próxima a da ação fiscal, porquanto a potencial vistoria pelo órgão ambiental não observaria, decerto, o lustro legal para a constituição do imposto, fosse o caso. Da mesma forma, supor que a atividade de polícia, legalmente exigida e que traria certa segurança ao considerar isentas aquelas áreas, possa ser substituída pela exclusiva atuação privada (por meio de laudos técnicos), não me parece atender ao interesse público. No mesmo sentido, como bem destacado no voto acima parcialmente colacionado, as florestas e demais formas de vegetação natural situadas, conforme estabelece a lei, em determinados locais do imóvel, são de PRESERVAÇÃO PERMANENTE existentes a época do fato gerador do tributo, consoante preceitua o inciso II do § 3º do artigo 10 do Decreto 4.382/2002. Vale dizer: as florestas e demais formas de vegetação natural devem estar em permanente preservação, sobretudo na data do fato gerador. Dito isso, como se aferir tal circunstância pelo órgão de controle ambiental, admitindose a apresentação do ADA em data significativamente distante da do fato gerador do tributo ? Fl. 210DF CARF MF 18 Em outras palavras, haveria como o IBAMA empreender alguma vistoria eficaz a partir de um ADA apresentado após 4 anos do exercício a que se referem as informações nele prestadas, ainda que tenha sido entregue antes de o início da ação fiscal ? Não basta que no imóvel existam rios ou qualquer outro curso d´água, lagoas ou reservatórios de d´ água naturais ou artificiais, topo de morros, montes ou serra, fazse necessário, aí sim, que nesses locais efetivamente haja floresta ou demais formas de vegetação natural permanentemente preservadas. Da mesma forma, não se pode imaginar que a dispensa à prévia comprovação, por parte do declarante, no que toca às APP e ARL declaradas para fins de isenção do ITR, consoante estabelece o § 7º do artigo 10 da L. 9.393/96, o estaria desincumbindo da obrigação legal imposta pelo § 1º do artigo 17O da Lei 6.938/81. Longe disso. Uma coisa é a desnecessidade da prévia apresentação da comprovação das áreas quando da entrega da DITR; outra, a obrigatoriedade de que tais informações sejam prestadas tempestivamente ao IBAMA, por meio do competente ADA e ao Fisco, quando intimado por autoridade competente no exercício de seu dever funcional. E veja, o parágrafo 7º encimado foi originalmente introduzido ao artigo 10 da Lei 9.393/96 por meio da Medida Provisória 1.95650/2000, de 26.05.2000, ao passo que aquele que impõe a obrigatoriedade do ADA, por meio da posterior Lei 10.165/2000 de 27.12.2000. Com isso, considerando o período em que ambos vigeram não há, a meu ver, como entender que aquele primeiro desobrigou a apresentação do ADA. Não há, no meu entender, qualquer antinomia entre os dispositivos, na medida em que tratam de circunstâncias diferentes. Voltando ao prazo para apresentação do ADA, a IN SRF 256/2002, em sua redação original, o estabelecia como sendo "de até seis meses, contado a partir do término do prazo fixado para a entrega da DITR". Com a entrada em vigor da obrigatoriedade de sua apresentação anual, o órgão ambiental o estabeleceu como sendo de 1º de janeiro a 30 de setembro. .6 Daí a alteração naquela IN SRF 256/2002, que passou a estabelecer, a partir da IN RFB 861, de 17 de julho de 2008, ser obrigatoriamente informadas em Ato Declaratório Ambiental (ADA), protocolado pelo sujeito passivo no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), observada a legislação pertinente." Em resumo, podese dizer, no que toca à dedução das áreas elencadas nos inciso I ao VI do artigo 10 do Decreto nº 4.382/2002, que além dos requisitos de ordem formal previstos na legislação, há de se comprovar, quando intimado, sua efetiva existência, a teor do inciso II do parágrafo 3º retro citado, por meio de laudo técnico que deve, de forma clara, especificar, detalhar, dimensionar e localizar cada uma das áreas eventualmente existente à época do fato gerador. Voltando ao caso sob análise, notase que da área de 7.262,6 ha utilizada pelo recorrente, a Fiscalização validou a de 4.539,1 ha, que se refere exatamente àquela informada no ADA de 11.11.2002 (fls. 22) e averbada, quando do fato gerador, à margem do registro do imóvel. Destaquese que no ADA de 2004, constou a informação de ARL ainda menor (4.450,0 ha). Junto à matrícula do imóvel, há, apenas em junho de 2006, retificação da ARL averbada para os 7.262,6 ha de que pretendeu se valer o autuado. 6 http://www.ibama.gov.br/imovelrural/atodeclaratorioambientalada/oqueeoada Fl. 211DF CARF MF Processo nº 10240.720274/200813 Acórdão n.º 2402006.568 S2C4T2 Fl. 11 19 Assim procedendo, agiu acertadamente a autoridade autuante, quando aceitou a ARL que constou no ADA de 2002 e que se encontrava averbada junto à matrícula do imóvel à dada do fato gerador. Da alíquota: Por fim, quanto à alegação de que a Fiscalização utilizouse de uma alíquota de 12% para o cálculo do imposto, em flagrante ofensa ao princípio constitucional do não confisco, cumpre tecer algumas considerações. Conforme se percebe do quadro "Cálculo do Imposto", do DEMONSTRATIVO DE APURAÇÃO DO IMPOSTO DEVIDO acima colado, a autoridade autuante utilizouse, diferentemente do imaginado pelo recorrente, da alíquota de 20%, a teor do artigo 11 da Lei 9.393/96. Nesse rumo, uma vez observadas as disposições legais, não cabe a este colegiado afastar sua aplicação (art. 62 do RICARF), tampouco pronunciarse acerca de sua constitucionalidade (art. 72 do RICARF c/c Súmula CARF nº 2). Frente ao exposto, voto por CONHECER do recurso e, no mérito, NEGAR LHE provimento. (assinado digitalmente) Mauricio Nogueira Righetti Fl. 212DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11020.903337/2012-09
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Jul 23 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Sep 18 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Período de apuração: 01/05/2009 a 31/05/2009
RESTITUIÇÃO/COMPENSAÇÃO
Direitos creditórios pleiteados via Declaração de Compensação - Nos termos do artigo 170 do Código Tributário Nacional, essencial a comprovação da liquidez e certeza dos créditos para a efetivação do encontro de contas, comprovação esta que é ônus do contribuinte, sendo incabível a transferência da responsabilidade ao Fisco.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 3302-005.636
Decisão:
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Fenelon Moscoso de Almeida, Walker Araujo, Vinicius Guimarães, Jose Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Diego Weis Junior, Raphael Madeira Abad e Paulo Guilherme Deroulede.
Nome do relator: PAULO GUILHERME DEROULEDE
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Recurso Voluntário Negado. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Fenelon Moscoso de Almeida, Walker Araujo, Vinicius Guimarães, Jose Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Diego Weis Junior, Raphael Madeira Abad e Paulo Guilherme Deroulede. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 02 0. 90 33 37 /2 01 2- 09 Fl. 146DF CARF MF Processo nº 11020.903337/201209 Acórdão n.º 3302005.636 S3C3T2 Fl. 3 2 Relatório Trata o presente processo administrativo de PER/DCOMP para obter reconhecimento de direito creditório do tributo por suposto pagamento a maior ou indevido e aproveitar esse crédito com débitos referentes a impostos e contribuições administrados pela RFB. Por meio de Despacho Decisório Eletrônico, a compensação pleiteada não foi homologada ante a ausência/insuficiência de créditos oponíveis contra a Fazenda Pública, uma vez que o pagamento indicado foi encontrado, encontrandose, todavia, totalmente alocado para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para compensação dos débitos informados no PER/DCOMP. Cientificado da decisão o contribuinte apresentou Manifestação de Inconformidade alegando em sede de preliminar sua nulidade. No mérito, insurgiuse contra o caráter confiscatório da multa exigida, bem como contra a taxa Selic. A Delegacia Regional de Julgamento de Porto Alegre por unanimidade de votos, julgou improcedente a manifestação de inconformidade, nos termos do Acórdão nº 10 049.317. Cientificada da Decisão da Delegacia Regional de Julgamento, a impugnante ingressou com RECURSO VOLUNTÁRIO junto ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, alegando, em síntese, que: ü A Decisão ora atacada deve ser de plano anulada por esta Colenda Câmara, uma vez que não respeitou os mais basilares princípios administrativos e constitucionais que norteiam os Atos Administrativos, pois ainda que levantados tais pontos na manifestação, os mesmos não foram devidamente apreciados, razão pela qual se impõe sejam eles devidamente analisados nesta instância de julgamento; ü A decisão elaborada não se presta a dar início ao contraditório administrativo, eis que, como visto, carente de fundamentação; ü Não houve qualquer diligência por parte da Fiscalização com o intuito de verificar a natureza do crédito postulado, sendo seu proceder tão somente na injustificada negativa do crédito pretendido e na retórica imposição do ônus da prova do crédito à Contribuinte; ü Pelo exposto, resta claro o prejuízo aos direitos da Contribuinte ao exercício de sua defesa, vez que impossibilitada de defenderse da forma apregoada no Texto Magno. Neste contexto, não pairam quaisquer dúvidas quanto ao direito dos administrados à ampla defesa Fl. 147DF CARF MF Processo nº 11020.903337/201209 Acórdão n.º 3302005.636 S3C3T2 Fl. 4 3 no processo administrativo, sendo este verdadeiro critério de validação dos atos e processos administrativos; ü A decisão recorrida, como visto, teve como fundamento a inexistência de crédito, porquanto o ônus da prova, quanto ao crédito, seria da Contribuinte. Nada mais equivocado, uma vez que, como veremos, o processo administrativo pautase pela verdade material ou verdade real, não havendo espaço para presunções legais ou mesmo de ‘verdades’ processuais decorrentes de eventual distribuição do ônus da prova; ü O valor lançado a título de multa, flagrantemente ilegal como a seguir demonstrarseá, é manifestamente excessivo ferindo, desta maneira o princípio constitucional do não confisco e dos princípios administrativos da razoabilidade e da proporcionalidade. Neste contexto, é princípio básico que a pena, no caso a multa aplicada em face de infrações, não pode ultrapassar os estritos limites da lei ou melhor, do direito como um todo valendo para o caso específico do direito tributário, a definição legal do tributo como insuscetível de servir como instrumento de penalização do contribuinte; ü A inaplicabilidade da TAXA SELIC aos supostos débitos como juros de mora e a limitação dos juros de mora dada pelo código tributário nacional; ü A possibilidade do enfrentamento pelo tribunal administrativo do argumento de inconstitucionalidade de norma legal. DO PEDIDO Pelo exposto, requer a Recorrente seja dado integral provimento ao presente Recurso Voluntário, a fim de que sejam homologadas as compensações declaradas, reconhecendose a relevância dos fundamentos de fato e de direito ora encaminhados ao seu elevado crivo, com a consequente reforma do Acórdão recorrido. É o relatório. Fl. 148DF CARF MF Processo nº 11020.903337/201209 Acórdão n.º 3302005.636 S3C3T2 Fl. 5 4 Voto Conselheiro Paulo Guilherme Déroulède, Relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3302005.615, de 23 de julho de 2018, proferido no julgamento do processo 11020.903279/201213, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3302005.615): "Da admissibilidade. Por conter matéria desta E. Turma da 3a Seção do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais e presentes os requisitos de admissibilidade, conheço do Recurso Voluntário tempestivamente interposto pelo contribuinte, considerando que a empresa MECÂNICA COMERCIAL E IMPORTADORA LTDA foi cientificada Acórdão n° 1049.299, em 15/04/2014, via Aviso de Recebimento, às folhas 76 do processo digital. A empresa MECÂNICA COMERCIAL E IMPORTADORA LTDA apresentou o seu Recurso Voluntário em 09/05/2014, às folhas 78 do processo digital. O recurso é tempestivo. Da controvérsia. Não respeito aos princípios administrativos e constitucionais que norteiam os Atos Administrativos; A decisão elaborada é carente de fundamentação; Ausência der diligência por parte da Fiscalização; A inexistência de crédito e o ônus da prova; O valor lançado a título de multa fere o princípio constitucional do não confisco e dos princípios administrativos da razoabilidade e da proporcionalidade; A inaplicabilidade da TAXA SELIC; O enfrentamento do argumento de inconstitucionalidade. Das preliminares. Não respeito aos princípios administrativos e constitucionais que norteiam os Atos Administrativos É alegado às folhas 03 do Recurso Voluntário: Fl. 149DF CARF MF Processo nº 11020.903337/201209 Acórdão n.º 3302005.636 S3C3T2 Fl. 6 5 A Decisão ora atacada deve ser de plano anulada por esta Colenda Câmara, uma vez que não respeitou os mais basilares princípios administrativos e constitucionais que norteiam os Atos Administrativos, pois ainda que levantados tais pontos na manifestação, os mesmos não foram devidamente apreciados, razão pela qual se impõe sejam eles devidamente analisados nesta instância de julgamento. Assim, de forma mais pormenorizada, passaremos em seguida a expor que a decisão que não homologou as compensações pretendidas pela ora Recorrente deixou de atender o requisito constitucional da fundamentação do ato administrativo, além de ferir os princípios também constitucionais da ampla defesa, contraditório e do devido processo legal. Sem razão a Recorrente. O Acórdão n° 1049.299, ora guerreado, de pronto explicita o motivo pelo qual a Administração não homologou a compensação: os pagamentos tidos como indevidos foram localizados, mas já se encontram “integralmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para compensação dos débitos informados no Per/Dcomp”. Portanto, a fiscalização aponta um fato preciso, certo e determinado que fulmina as pretensões da então impugnante. Reafirmando a própria argumentação do Voto exarado no Acórdão n° 1049.299, a fundamentação fática a pouco transcrita explicita o indeferimento do pleito, não necessitando de esclarecimento adicional, uma vez que os controles de conta corrente exercido pela autoridade administrativa indicavam a alocação para outro débito do suposto crédito oponível pela interessada. De outra sorte, a Recorrente não explicita o porquê que os princípios constitucionais da ampla defesa, contraditório e do devido processo legal foram desrespeitados. Assim sendo, por ora, tomase essa argumentação como mera retórica. A decisão elaborada é carente de fundamentação. É alegado às folhas 04 do Recurso Voluntário: Ora, Nobres Julgadores, como pode afirmar a Fiscalização que é inexistente o crédito que a Contribuinte pretende compensar se sequer possui meios de determinar qual seria a natureza deste crédito e sua origem??? Ademais, em atenção ao princípio processual administrativo da verdade material, o procedimento correto da Fiscalização, no caso em tela, seria intimar a Contribuinte para que prestasse informações sobre qual a origem do crédito postulado, bem como seu fundamento de validade. Isto porque não pode a Administração ‘presumir’ a inexistência de crédito e de plano não homologar as compensações declaradas pela Contribuinte. Fl. 150DF CARF MF Processo nº 11020.903337/201209 Acórdão n.º 3302005.636 S3C3T2 Fl. 7 6 Todavia, este foi o nefasto procedimento da Administração que, desta maneira, emitiu decisão desprovida da necessária fundamentação que deve conter o Ato Administrativo. Digase ainda que a necessidade de fundamentação ou motivação dos atos administrativos é obrigatória para o exame de sua legalidade, finalidade e da moralidade administrativa. A argumentação esposada não guarda sintonia com o texto do Acórdão n° 1049.299, a começar pela motivação presente no Voto do Acórdão n° 10 49.299: os pagamentos tidos como indevidos foram localizados, mas já se encontram “integralmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para compensação dos débitos informados no Per/Dcomp”. Portanto, o Acórdão n° 1049.299 contém uma fundamentação explicita que inaugura o próprio voto. No mais, depreendese da própria fundamentação transcrita que os créditos apontados pela empresa MECÂNICA COMERCIAL existem! Tanto é que já se encontram integralmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte, e por esse motivo não se prestam a atender a pretensão pleiteada. Quanto à alegação de que o procedimento correto da Fiscalização, no caso em tela, seria intimar a Contribuinte para que prestasse informações sobre qual a origem do crédito postulado, digase, em tempo, que esse é o propósito tanto da Manifestação de Inconformidade como do próprio Recurso Voluntário e em ambos os casos a empresa MECÂNICA COMERCIAL se limitou a se valer de retórica, sem trazer fatos concretos que suportassem sua argumentação e/ou desabonassem a fundamentação trazida no Voto do Acórdão n° 1049.299. Em tempo, há que se diga, que o Voto do Acórdão n° 1049.299 já faz essa advertência ao então impugnante, empresa MECÂNICA COMERCIAL, ao citar e transcrever os artigos 15 e 16 do Decreto n° 70.235/72. Ausência de diligência por parte da Fiscalização. É alegado às folhas 11 do Recurso Voluntário: Frisase novamente que não houve qualquer diligência por parte da Fiscalização com o intuito de verificar a natureza do crédito postulado, sendo seu proceder tão somente na injustificada negativa do crédito pretendido e na retórica imposição do ônus da prova do crédito à Contribuinte. Desta maneira, resta prejudicado o contraditório administrativo e, consequentemente, o devido processo legal e, ainda, a ampla e irrestrita defesa da Contribuinte. A decisão da DRJ deveria exprimir o entendimento Fiscal quanto ao crédito postulado pelo Contribuinte, deixando claro qual o Juízo de Valor utilizado para sua não aceitação. Não houve qualquer diligência nesse sentido, porque a Delegacia Regional de Julgamento se convenceu da existência de fato preciso, certo e determinado que fulmina as pretensões da então impugnante. E como o Recurso Voluntário é árido em trazer elementos de prova que desabonem esse entendimento, não se percebe a necessidade de qualquer Fl. 151DF CARF MF Processo nº 11020.903337/201209 Acórdão n.º 3302005.636 S3C3T2 Fl. 8 7 diligência, tomando essa demanda como uma tentativa de procrastinar o presente processo. Do mérito. A inexistência de crédito e o ônus da prova É alegado às folhas 11 do Recurso Voluntário: A decisão recorrida, como visto, teve como fundamento a inexistência de crédito, porquanto o ônus da prova, quanto ao crédito, seria da Contribuinte. Nada mais equivocado, uma vez que, como veremos, o processo administrativo pautase pela verdade material ou verdade real, não havendo espaço para presunções legais ou mesmo de ‘verdades’ processuais decorrentes de eventual distribuição do ônus da prova. Neste sentido, o artigo 333 do Código de Processo Civil, invocado pelo Juízo administrativo a quo, é manifestamente inaplicável ao procedimento administrativo. A comprovação dos fatos é o próprio objeto do processo administrativo, não havendo que se distribuir o ônus probatório entre as partes. (Negrito próprio) Como já mencionado em questão enfrentada alhures: os créditos apontados pela empresa MECÂNICA COMERCIAL existem! Tanto é que já se encontram integralmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte, e por esse motivo não se prestam a atender a pretensão pleiteada. Por esse motivo, não paira para a fiscalização qualquer dúvida quanto à existência, qualidade, valor e destinação do crédito, não havendo motivos para a realização de diligência. Quanto à solicitação de perícia, o artigo 36 do Decreto nº 7.574, de 29/09/2011, assim explicita: Art. 36. A impugnação mencionará as diligências ou perícias que o sujeito passivo pretenda sejam efetuadas, expostos os motivos que as justifiquem, com a formulação de quesitos referentes aos exames desejados, e, no caso de perícia, o nome, o endereço e a qualificação profissional de seu perito deverão constar da impugnação (Decreto no 70.235, de 1972, art. 16, inciso IV, com a redação dada pela Lei no 8.748, de 1993, art. 1o). § 1o Deferido o pedido de perícia, ou determinada de ofício sua realização, a autoridade designará servidor para, como perito da União, a ela proceder, e intimará o perito do sujeito passivo a realizar o exame requerido, cabendo a ambos apresentar os respectivos laudos em prazo que será fixado segundo o grau de complexidade dos trabalhos a serem executados (Decreto no 70.235, de 1972, art. 18, com a redação dada pela Lei no 8.748, de 1993, art. 1o). Fl. 152DF CARF MF Processo nº 11020.903337/201209 Acórdão n.º 3302005.636 S3C3T2 Fl. 9 8 § 2o Indeferido o pedido de diligência ou de perícia, por terem sido consideradas prescindíveis ou impraticáveis, deverá o indeferimento, devidamente fundamentado, constar da decisão (Decreto no 70.235, de 1972, arts. 18 e 28, com as redações dadas pela Lei no 8.748, de 1993, art. 1o). § 3o Determinada, de ofício ou a pedido do impugnante, diligência ou perícia, é vedado à autoridade incumbida de sua realização escusarse de cumprilas. A Lei 9.874 que se aplica subsidiariamente ao Decreto nº 7.574, de 29/09/2011, assim dispõe: Art. 38. O interessado poderá, na fase instrutória e antes da tomada da decisão, juntar documentos e pareceres, requerer diligências e perícias, bem como aduzir alegações referentes à matéria objeto do processo. § 1o Os elementos probatórios deverão ser considerados na motivação do relatório e da decisão. § 2o Somente poderão ser recusadas, mediante decisão fundamentada, as provas propostas pelos interessados quando sejam ilícitas, impertinentes, desnecessárias ou protelatórias. A relevância do fato é caracterizada por haver correspondência entre este e a situação enfocada no processo, bem como por seu reconhecimento desencadear efeitos jurídicos peculiares. A pertinência, por sua, vez, diz respeito ao relacionamento entre o fato e a lide instalada. O mesmo se pode dizer da concludência, entendida como a possibilidade de conduzir o julgador à conclusão acerca dos fatos discorridos no processo. Fato concludente, nessa concepção, não significa o enunciado que, por si só, seja suficiente para formar a convicção do julgador, mas todo fato que, ao lado de outros, possa atuar como argumento para a procedência ou improcedência da demanda, em nada se distinguindo do chamado fato pertinente. Considerado fato inconcludente aquele que leva ao convencimento da ocorrência ou inocorrência de situações não envolvidas na discussão processual (fato impertinente), sua prova seria totalmente inócua. Nesse ponto, notase o intrínseco relacionamento entre os requisitos do fato susceptível de ser objeto de prova e a função que a prova assume no sistema jurídico: sendo destinada ao convencimento do julgador, só tem cabimento a realização de enunciação probatória relativa a fatos que possam levar a essa persuasão. Não foi apresentado qualquer fato, motivo ou justificativa relevante que propiciasse a realização da perícia, a luz do que já foi exposto, mesmo porque toda perícia tem por objetivo auxiliar o julgador na formação de sua melhor convicção racional e na busca da verdade material, ação que já se processou. Das penalidades. Da arguição de confisco e desrespeito aos princípios da razoabilidade e da proporcionalidade. Quanto ao princípio do nãoconfisco, e por conseguinte o princípio da razoabilidade – proporcionalidade, agasalhase o entendimento o de que vem a ser essa uma limitação imposta pelo Legislador constituinte ao Legislador infraconstitucional (ordinário), portanto, não se podendo dizer que o princípio esteja direcionado à Administração Tributária. Fl. 153DF CARF MF Processo nº 11020.903337/201209 Acórdão n.º 3302005.636 S3C3T2 Fl. 10 9 A inaplicabilidade da TAXA SELIC Sobre o assunto, o art. 161, § 1º, do CTN, abaixo reproduzido, outorga à lei a faculdade de estabelecer os juros de mora incidentes sobre os créditos não integralmente pagos no vencimento, fixando o percentual de 1% na hipótese de a lei não dispor de forma diversa. Art. 161 O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantias previstas nesta Lei ou em lei tributária”. §1º Se a lei não dispuser de modo diverso, os juros de mora são calculados à taxa de 1% (um por cento) ao mês. Em atenção a tal dispositivo, a Lei nº 9.430/96, em seu art. 61, § 3º, estabeleceu expressamente, para o cálculo dos juros de mora, a aplicação da taxa Selic. Oportuno registrar, conforme reconhecido pela interessada, que, sobre o assunto, já existe Súmula do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (antiga súmula do Conselho de Contribuintes, renumerada pela Portaria CARF nº 106, de 21/12/2009), como segue: Súmula CARF nº 4 A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. Assim, estando a exigência devidamente fundamentada, conforme já anteriormente mencionado, não cabe a este órgão administrativo perquirir da legalidade ou inconstitucionalidade dessa norma, uma vez que, enquanto esta não é declarada inconstitucional pelos órgãos competentes do Poder Judiciário e não é expungida do sistema normativo, tem presunção de validade, presunção esta que é vinculante para a administração pública. Portanto, é defeso aos órgãos administrativos jurisdicionais, de forma original, reconhecer alegação de ilegalidade ou inconstitucionalidade de disposições que fundamentam o lançamento, ainda que sob o pretexto de deixar de aplicálas ao caso concreto. Nesse mesmo sentido, está, como já citado, o art. 26A do Decreto nº 70.235/72. Confirmando este posicionamento, já foi editada Súmula do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (antiga súmula do Conselho de Contribuintes, renumerada pela Portaria CARF nº 106, de 21/12/2009), dispondo, in verbis: Súmula CARF nº 2 O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Todavia, ainda que nos fosse possível enveredar por tais caminhos, cumpririanos lembrar que a jurisprudência do STJ já há muito se consolidou no sentido da legitimidade da aplicação da SELIC nos créditos tributários, como é possível depreender dos julgados abaixo: AgRg no Ag 932732 PRIMEIRA TURMA – Julgado em 18/12/2008: Fl. 154DF CARF MF Processo nº 11020.903337/201209 Acórdão n.º 3302005.636 S3C3T2 Fl. 11 10 “1. Os créditos tributários recolhidos extemporaneamente, cujos fatos geradores ocorreram a partir de 1º de janeiro de 1995, a teor do disposto na Lei 9.065/95, são acrescidos dos juros da taxa SELIC, operação que atende ao princípio da legalidade.(...)” REsp 1028724 PRIMEIRA TURMA – Julgado em 06/05/2008: “(...) 10. É legítima a utilização da taxa SELIC como índice de correção monetária e de juros de mora, na atualização dos créditos tributários.(...)” REsp 1086308 SEGUNDA TURMA – Julgado em 09/12/2008: “(...) 2. É legítima a utilização da taxa Selic como índice de correção monetária e de juros de mora, na atualização dos créditos tributários (Precedentes: AgRg nos EREsp 579.565/SC, Primeira Seção, Rel. Min. Humberto Martins, DJU de 11.09.06 e AgRg nos EREsp 831.564/RS, Primeira Seção, Rel. Min. Eliana Calmon, DJU de 12.02.07).(...)” Diante da mais recente jurisprudência, não haveria como considerar de outra forma. E, como argumento de reforço no sentido da aplicação justa, vale observar que o STJ posicionase no sentido da aplicação da SELIC tanto a favor da Fazenda Pública, quanto a favor dos contribuintes, como se depreende do julgado abaixo: AgRg no Ag 599960 – SEGUNDA TURMA – Julgado em 07/12/2004: “(...)A Primeira Seção deste egrégio Superior Tribunal de Justiça, na assentada de 14.05.2003, consolidou o entendimento no sentido da aplicação da Taxa SELIC, na restituição/compensação de tributos, a partir da data da entrada em vigor da lei que determinou sua incidência no campo tributário, conforme dispõe o artigo 39 da Lei n. 9.250/95.(...)” Também não merece prosperar a alegação de que o CTN, no art. 161 §1o, estabelece taxa de 1% e que uma norma com força de lei complementar não poderia ser contrariada ou modificada por uma lei ordinária, pois que o próprio texto do código já excepciona sua aplicabilidade: CTN Art. 161 § 1º Se a lei não dispuser de modo diverso, os juros de mora são calculados à taxa de um por cento ao mês. (grifo nosso) Passando à questão da revogação dos arts. 34 e 35 da Lei 8.212/91 pela MP 449/08, temos que, inicialmente, estabelecer a natureza dos juros de mora ora revogados. Há de se explicitar que os juros de mora não têm caráter punitivo, mas sim, de compensação pela falta de disponibilidade dos recursos por parte da Fazenda. Destarte, no que tange a retroatividade, as regras de aplicação da legislação tributária previstas art. 106 inciso II do CTN não alcançam os juros de mora, fazendo valer a regra geral de aplicação temporal das leis tributárias prevista no art. 144 do mesmo diploma legal: Fl. 155DF CARF MF Processo nº 11020.903337/201209 Acórdão n.º 3302005.636 S3C3T2 Fl. 12 11 CTN Art. 144. O lançamento reportase à data da ocorrência do fato gerador da obrigação e regese pela lei então vigente, ainda que posteriormente modificada ou revogada. Inobstante o fato de a mudança trazida pela nova legislação ser muito pouco significante (diferença de apenas 1% aplicável no mês do recolhimento) tal mudança não se opera retroativamente, continuando a valer a metodologia vigente à época do fato gerador. Não há, portanto, como acatar o afastamento da taxa Selic no cálculo dos juros de mora. O enfrentamento do argumento de inconstitucionalidade. A presente questão relacionase com as hipóteses de aplicação, pelas Delegacias da Receita Federal do Brasil de Julgamento, de norma declarada inconstitucional pelo STF em controle difuso, quando não há resolução do Senado Federal ou ato do Secretário da Secretaria da Receita Federal do Brasil (RF), dispensando a aplicação da lei, tratado ou ato normativo federal, declarado inconstitucional. No Brasil, em regra, o controle de constitucionalidade de leis e atos normativos compete ao Poder Judiciário e pode realizarse por duas vias distintas: a concentrada (controle abstrato) e a difusa (controle concreto). Na via concentrada, a constitucionalidade da norma é examinada em tese e o que se busca é expelir do sistema jurídico o ato inconstitucional. Não se cuida do julgamento de uma relação concreta, mas sim da validade de uma norma em abstrato frente à Constituição. É por isso que, nesse âmbito, a declaração de inconstitucionalidade tem eficácia objetiva (erga omnes), o que impossibilita a aplicação da norma viciada pelos órgãos de julgamento administrativo. Por outro lado, no controle difuso, o autor da ação não procura a tutela do Poder Judiciário preocupado com a inconstitucionalidade da lei em tese. Seu objetivo é a efetivação de determinado direito subjetivo concreto, exigível em face de alguém. A questão constitucional é apreciada apenas de forma acessória, incidental, a fim de que o Poder Judiciário possa decidir o mérito da causa, reconhecendo ou não o direito subjetivo do autor. Disso se extrai que, na via difusa, a declaração de inconstitucionalidade de ato normativo proferida no bojo de decisão judicial definitiva só alcança as partes do processo (eficácia inter partes) e, por consequência, não vincula objetivamente os órgãos de julgamento administrativo – a não ser na hipótese prevista no art. 52, inciso X, da Constituição Federal (resolução do Senado Federal), ou, no caso das Delegacias de Julgamento da Receita Federal do Brasil, na hipótese prevista no art. 4º, parágrafo único, do Decreto nº 2.346, de 10 de outubro de 1997. Essa última exceção merece maior detalhamento, pois se relaciona diretamente com a questão apresentada. O art. 77 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, autorizou o Poder Executivo a disciplinar as hipóteses em que a Administração Tributária federal pode afastar a aplicação de ato normativo declarado inconstitucional por decisão definitiva do STF: Art. 77. Fica o Poder Executivo autorizado a disciplinar as hipóteses em que a administração tributária federal, relativamente aos créditos tributários baseados em dispositivo Fl. 156DF CARF MF Processo nº 11020.903337/201209 Acórdão n.º 3302005.636 S3C3T2 Fl. 13 12 declarado inconstitucional por decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal, possa: I absterse de constituílos; II retificar o seu valor ou declarálos extintos, de ofício, quando houverem sido constituídos anteriormente, ainda que inscritos em dívida ativa; III formular desistência de ações de execução fiscal já ajuizadas, bem como deixar de interpor recursos de decisões judiciais. A regulamentação de tal dispositivo legal veio com o referido Decreto nº 2.346/1997, que, em seu art. 4º, estabeleceu o seguinte: Art. 4º Ficam o Secretário da Receita Federal e o Procurador Geral da Fazenda Nacional, relativamente aos créditos tributários, autorizados a determinar, no âmbito de suas competências e com base em decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal que declare a inconstitucionalidade de lei, tratado ou ato normativo, que: I não sejam constituídos ou que sejam retificados ou cancelados; II não sejam efetivadas inscrições de débitos em dívida ativa da União; III sejam revistos os valores já inscritos, para retificação ou cancelamento da respectiva inscrição; IV sejam formuladas desistências de ações de execução fiscal. Parágrafo único. Na hipótese de crédito tributário, quando houver impugnação ou recurso ainda não definitivamente julgado contra a sua constituição, devem os órgãos julgadores, singulares ou coletivos, da Administração Fazendária, afastar a aplicação da lei, tratado ou ato normativo federal, declarado inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal. Ou seja, na hipótese de o Secretário da Receita Federal do Brasil determinar o afastamento da aplicação de lei, tratado ou ato normativo federal declarado inconstitucional pelo STF em controle difuso, os julgadores das DRJs ficam vinculados a essa determinação. Tratase aqui de interpretação do parágrafo único do dispositivo à vista do caput. No entanto, a Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, alterou o Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, retirando a vedação antes existente de afastamento de aplicação de acordo internacional, lei ou decreto, sob o fundamento de inconstitucionalidade, somente para os casos em que a norma já tenha sido declarada inconstitucional por decisão definitiva plenária do Supremo Tribunal Federal. Tal alteração gerou divergência de entendimento acerca da possibilidade de extensão dos efeitos subjetivos de declaração de inconstitucionalidade aos processos administrativos em curso na RFB nas hipóteses em que não se verificam as mencionadas vinculações objetivas, ou Fl. 157DF CARF MF Processo nº 11020.903337/201209 Acórdão n.º 3302005.636 S3C3T2 Fl. 14 13 seja, fora dos casos previstos no art. 52, inciso X, da Constituição Federal, e no art. 4º, parágrafo único, do Decreto nº 2.346/1997. De um lado, estão os que defendem que sim, que, em determinados casos, os julgadores das DRJs podem afastar a aplicação de ato normativo declarado inconstitucional pelo STF em controle difuso. Fundamentamse, para tanto, na interpretação do §6º, inciso I, do art. 26A do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972 (redação dada pela Lei nº 11.941/2009): Art. 26A. No âmbito do processo administrativo fiscal, fica vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. (...) § 6º O disposto no caput deste artigo não se aplica aos casos de tratado, acordo internacional, lei ou ato normativo: I que já tenha sido declarado inconstitucional por decisão definitiva plenária do Supremo Tribunal Federal; Entendem, portanto, que tal dispositivo, por ser posterior ao Decreto nº 2.346/1997, tacitamente revogou o seu art. 4º, que exigia a edição de ato do Secretário da RFB que autorizasse a não aplicação de norma declarada inconstitucional, com base em decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal. Argumentam também que persistir na aplicação de dispositivos legais cuja inconstitucionalidade vem sendo reiteradamente declarada incidentalmente pelo STF traria prejuízos futuros à Fazenda Pública, em razão de eventuais ônus sucumbenciais. A rigor, o caput do artigo 26A do Decreto nº 70.235/72 veda aos órgãos de julgamento administrativo afastar a aplicação de ato normativo sob fundamento de inconstitucionalidade. No entanto, o inciso I do §6º desse mesmo artigo, dispõe que tal vedação não se aplica a ato normativo “que já tenha sido declarado inconstitucional por decisão definitiva plenária do STF”. A par disso, para a primeira corrente temse que é perfeitamente cabível o entendimento de que o inciso I do §6º do art. 26A do Decreto nº 70.235/72 estaria circunscrito às decisões tomadas em controle concreto ou difuso de constitucionalidade. Não se vislumbra possível interpretar a vedação de que trata o caput do artigo 26A no sentido de que estaria se referindo às decisões proferidas em controle abstrato ou concentrado de constitucionalidade, porquanto isso significaria esvaziálo de conteúdo, em afronta ao postulado hermenêutico de que não se deve interpretar uma norma de modo a negarlhe aplicabilidade. Afinal, não se pode perder de vista que as declarações de inconstitucionalidade em abstrato excluem a norma viciada do mundo jurídico (em regra, com efeitos ex tunc). Nesse sentido, referida norma não poderia mais ser aplicada pelos órgãos de julgamento administrativo, independentemente do disposto no inciso I do §6º do art. 26A do Decreto nº 70.235/72 Ademais, importa salientar que não se quer dizer que o inciso I do §6º do art. 26A do Decreto nº 70.235/72 determina que os órgãos de julgamento administrativo neguem aplicação a ato normativo “que já tenha sido declarado inconstitucional por decisão definitiva plenária do STF” em controle difuso. O que ele faz é afastar a vedação prevista no caput do artigo. Fl. 158DF CARF MF Processo nº 11020.903337/201209 Acórdão n.º 3302005.636 S3C3T2 Fl. 15 14 Assim, concluindo, para esta corrente o inciso I do §6º permite que os órgãos de julgamento administrativo deixem de aplicar ato normativo “que já tenha sido declarado inconstitucional por decisão definitiva plenária do STF” em controle difuso. Por outro lado, tem os que são contrários à possibilidade de os julgadores das DRJs afastarem a aplicação de ato normativo declarado inconstitucional pelo STF em controle difuso. Defendem que, em face do princípio da legalidade, nenhuma autoridade administrativa pode negar aplicação a norma vigente; que, para tal negativa, fazse necessário que referida norma seja devidamente excluída do ordenamento jurídico – quer por sua revogação, quer por declaração de inconstitucionalidade na via concentrada, quer ainda na hipótes2e do art. 52, inciso X, da Constituição Federal –, ou que seja ela objeto do ato do Secretário da RFB previsto no art. 4º do Decreto nº 2.346/1997. Em reforço, os adeptos dessa segunda corrente mencionam a Solução de Consulta Interna nº 5 Cosit, de 03 de março de 2009, que consigna em seu parágrafo 17 e 18: 17. Diante desse fato, a Administração Tributária Federal deve reconhecer que, uma vez declarada a inconstitucionalidade das disposições contidas no § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718, de 1998, mesmo que em decisão de controle difuso pelo STF, também está prejudicado o comando previsto no art. 10 do Decreto nº 4.524, de 2002, na parte em que define o faturamento (receita bruta) como sendo a totalidade das receitas auferidas pelas pessoas jurídicas, independentemente da atividade por elas exercidas e da classificação contábil adotada para a escrituração das receitas, em relação às pessoas jurídicas detentoras de declaração de inconstitucionalidade prolatada pelo Poder Judiciário, por ser o mencionado Decreto norma de caráter apenas regulamentar. 18. Entretanto, as pessoas jurídicas enquadradas no regime cumulativo de apuração da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, que não possuam quaisquer medidas judiciais declaratórias da inconstitucionalidade da ampliação da base de cálculo promovida pelo disposto no § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718, de 1998, continuam obrigadas aos recolhimentos mensais das referidas contribuições, tendo como base de cálculo o montante do faturamento (receita bruta) entendido como a totalidade das receitas auferidas, sendo irrelevantes o tipo de atividade por elas exercida e a classificação contábil adota para as receitas. (o grifo é do original) É de se registrar que, recentemente, foram aprovados pelo Ministro da Fazenda os Pareceres PGFN/CRJ nº 492/2010, de 22 de março de 2010, e o Parecer PGFN/CDA nº 2.025, de 27 de outubro de 2011. O primeiro concluiu no sentido de que a PGFN: (i) não mais apresente recursos, ordinários ou extremos, contra as decisões judiciais, desfavoráveis à Fazenda Nacional, que se mostrarem consentâneas com precedente judicial formado sob a nova sistemática de julgamento prevista nos arts. 543B e 543C do CPC; (ii) não mais interponha RESP/RE contra acórdãos proferidos em consonância com jurisprudência reiterada e pacífica do STF/STJ (indicada em lista elaborada e divulgada, periodicamente, pela CASTF/CRJ); (iii) não mais interponha agravo regimental contra decisões monocráticas de Relator (dos TRF´s, do STJ ou do STF) que, com respaldo em jurisprudência reiterada e pacífica daqueles Tribunais Superiores (indicada em lista elaborada e divulgada, periodicamente, pela CASTF/CRJ), também adotada pela respectiva Turma, neguem seguimento Fl. 159DF CARF MF Processo nº 11020.903337/201209 Acórdão n.º 3302005.636 S3C3T2 Fl. 16 15 a recursos, nos termos do art. 557 do CPC; (iv) não mais apresente impugnação/contestação contra pedido(s) formulado(s) com respaldo em precedente judicial oriundo de julgamento submetido à sistemática prevista nos arts. 543B e 543C do CPC. Por seu turno, o Parecer PGFN/CDA nº 2.025/2011, aprovado pelo Ministro da Fazenda, estabeleceu orientações a serem observadas pela ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional, pela Secretaria da Receita Federal do Brasil e pelos demais órgãos do Ministério da Fazenda, quando caracterizada hipótese de dispensa de contestação e recursos, bem como desistência dos já interpostos, de que trata a Portaria PGFN nº 294/ 2010. Em resumo, como conseqüência da aprovação dos referidos Pareceres pelo MF, a Receita Federal do Brasil passa a estar vinculada às decisões do STJ e STF nas causas repetitivas julgadas na forma dos arts. 543B e 543C do CPC, quando não houver ressalvas por parte da PGFN. No entanto, discutese, ainda, se essa vinculação ocorre para as atividades de julgamento, considerandose que o Parecer PGFN/CDA nº 2.025/2011 trata de aplicação às atividades de constituição e cobrança de créditos no âmbito da RFB, nada mencionando sobre a hipótese de julgamento administrativo. Observase que, até a edição da Lei nº 11.941/2009, que introduziu o § 6º do art. 26A do Decreto nº 70.235/72, a posição majoritária na Primeira Instância do contencioso administrativo era no sentido de não afastar a aplicação de ato normativo declarado inconstitucional pelo STF em controle difuso. A partir dessa alteração legal, essa tendência já não se confirma, uma vez que são identificadas várias decisões que defendem o afastamento da aplicação de ato normativo quando o caso se subsume ao disposto no § 6º, I, do art. 26A do Decreto nº 70.235/72. Decisões favoráveis ao não afastamento aplicação de ato normativo declarado inconstitucional pelo STF em controle difuso: Trecho de ementa: CONTROLE INCIDENTAL DE CONSTITUCIONALIDADE. MODO DIFUSO. EFICÁCIA ENTRE AS PARTES. A decisão do STF em sede de controle difuso de constitucionalidade tem efeito apenas entre as partes, ou seja, não beneficia terceiros não integrantes da lide; para que essa decisão tenha efeitos erga omnes deve haver edição de Resolução do Senado suspendendo a execução do dispositivo declarado inconstitucional, ou, em outra hipótese, para que decisões da espécie obriguem a administração pública ao seu cumprimento, carece que a inconstitucionalidade seja declarada em controle concentrado ou que o STF edite súmula vinculante, nos termos da Lei nº 11.417, de 2006. (Acórdão DRJ/CTA nº 06 34.502, 24/11/2011) Trecho de ementa: EFEITOS DE DECISÕES JUDICIAIS. INCONSTITUCIONALIDADE INCIDENTAL. SÚMULA VINCULANTE. As decisões judiciais produzem efeitos somente às partes envolvidas. A declaração incidental de inconstitucionalidade possui efeito erga omnes quando advinda de Resolução do Senado Federal ou mediante Súmula Vinculante do Supremo Tribunal Federal. (Acórdão DRJ/FNS nº 0726.431, de 27/10/2011) Fl. 160DF CARF MF Processo nº 11020.903337/201209 Acórdão n.º 3302005.636 S3C3T2 Fl. 17 16 Trecho de ementa: ARGUIÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE E ILEGALIDADE. INCOMPETÊNCIA DAS INSTÂNCIAS ADMINISTRATIVAS. As autoridades administrativas estão obrigadas à observância da legislação tributária vigente no País, sendo incompetentes para a apreciação de argüições de inconstitucionalidade e ilegalidade de atos legais regularmente editados. (Acórdão DRJ/FNS n° 07 19.634, de 23/04/2010) Trecho de ementa: COISA JULGADA MATERIAL. DECLARAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE. RESOLUÇÃO DO SENADO. SEGURANÇA JURÍDICA. INAFASTABILIDADE. A segurança jurídica, como direito fundamental, é limite que não permite a anulação do julgado, sobretudo na esfera administrativa, ainda que a norma legal que serviu de pressuposto à decisão judicial tenha sido posteriormente acoimada de inconstitucionalidade, em decisão do STF. (Acórdão DRJ/CTA nº 0615.022, 15/08/2007) Diante de tudo que foi exposto, voto no sentido de negar provimento ao Recurso da Contribuinte. É como voto." Importa registrar que nos autos ora em apreço, a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada no paradigma, de tal sorte que o entendimento lá esposado pode ser perfeitamente aqui aplicado. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o Colegiado decidiu negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Fl. 161DF CARF MF
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Numero do processo: 10970.720154/2013-21
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 14 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Sep 13 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Simples Nacional
Data do fato gerador: 01/01/2010
Ementa:
PROCESSUAL - NULIDADE - OMISSÃO - INOCORRÊNCIA
Ainda que a decisão recorrida não, neste feito, se pronunciado sobre todos os argumentos deduzidos pela parte, uma vez tendo-os enfrentados no processo em apenso, cujo julgamento foi realizado conjuntamente com este processo, incorre nulidade, seja por não restar tipificadas as hipóteses do art. 59 do Decreto 70.235, seja por não se observar qualquer prejuízo ao recorrente.
SIMPLES NACIONAL - EXCLUSÃO - ADE - NULIDADE - QUEBRA DE SIGILO FISCAL - INOCORRÊNCIA
O ADE não fundamenta na quebra de sigilo fiscal, mas, isto sim, no processo em apenso em que, por meio da obtenção de informações bancárias, identificou-se a ocorrência de depósitos de origem duvidosa; ainda assim, a LC 105 teve a sua constitucionalidade reconhecida pelo STF por ocasião do julgamento do RE 601.314/SP, com repercussão geral reconhecida.
SIMPLES NACIONAL - EXCESSO DE RECEITAS - EXCLUSÃO
Ultrapassado o limite imposto pela LC 123 para se optar pelo regime tratado por seu art. 12, impõe-se a exclusão do contribuinte já para o exercício imediatamente subsequente.
VALORES PAGOS APÓS A EXCLUSÃO - COMPENSAÇÃO COM CRÉDITOS TRIBUTÁRIO EVENTUALMENTE APURADOS
O julgamento a ser proferido pelo CARF deve ser ater aos limites da lide e do contencioso instaurado, falecendo-lhe competência para analisar eventuais créditos apurados em períodos posteriores ao tratado nos autos.
Numero da decisão: 1302-002.988
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares de nulidade suscitadas e, no mérito, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto do relator.
(assinado digitalmente)
Luiz Tadeu Matosinho Machado - Presidente.
(assinado digitalmente)
Gustavo Guimarães da Fonseca - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Luiz Tadeu Matosinho Machado, Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa, Paulo Henrique Silva Figueiredo, Rogério Aparecido Gil, Maria Lúcia Miceli, Flávio Machado Vilhena Dias e Gustavo Guimarães da Fonseca.
Nome do relator: GUSTAVO GUIMARAES DA FONSECA
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ementa_s : Assunto: Simples Nacional Data do fato gerador: 01/01/2010 Ementa: PROCESSUAL - NULIDADE - OMISSÃO - INOCORRÊNCIA Ainda que a decisão recorrida não, neste feito, se pronunciado sobre todos os argumentos deduzidos pela parte, uma vez tendo-os enfrentados no processo em apenso, cujo julgamento foi realizado conjuntamente com este processo, incorre nulidade, seja por não restar tipificadas as hipóteses do art. 59 do Decreto 70.235, seja por não se observar qualquer prejuízo ao recorrente. SIMPLES NACIONAL - EXCLUSÃO - ADE - NULIDADE - QUEBRA DE SIGILO FISCAL - INOCORRÊNCIA O ADE não fundamenta na quebra de sigilo fiscal, mas, isto sim, no processo em apenso em que, por meio da obtenção de informações bancárias, identificou-se a ocorrência de depósitos de origem duvidosa; ainda assim, a LC 105 teve a sua constitucionalidade reconhecida pelo STF por ocasião do julgamento do RE 601.314/SP, com repercussão geral reconhecida. SIMPLES NACIONAL - EXCESSO DE RECEITAS - EXCLUSÃO Ultrapassado o limite imposto pela LC 123 para se optar pelo regime tratado por seu art. 12, impõe-se a exclusão do contribuinte já para o exercício imediatamente subsequente. VALORES PAGOS APÓS A EXCLUSÃO - COMPENSAÇÃO COM CRÉDITOS TRIBUTÁRIO EVENTUALMENTE APURADOS O julgamento a ser proferido pelo CARF deve ser ater aos limites da lide e do contencioso instaurado, falecendo-lhe competência para analisar eventuais créditos apurados em períodos posteriores ao tratado nos autos.
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SIMPLES NACIONAL EXCLUSÃO ADE NULIDADE QUEBRA DE SIGILO FISCAL INOCORRÊNCIA O ADE não fundamenta na quebra de sigilo fiscal, mas, isto sim, no processo em apenso em que, por meio da obtenção de informações bancárias, identificouse a ocorrência de depósitos de origem duvidosa; ainda assim, a LC 105 teve a sua constitucionalidade reconhecida pelo STF por ocasião do julgamento do RE 601.314/SP, com repercussão geral reconhecida. SIMPLES NACIONAL EXCESSO DE RECEITAS EXCLUSÃO Ultrapassado o limite imposto pela LC 123 para se optar pelo regime tratado por seu art. 12, impõese a exclusão do contribuinte já para o exercício imediatamente subsequente. VALORES PAGOS APÓS A EXCLUSÃO COMPENSAÇÃO COM CRÉDITOS TRIBUTÁRIO EVENTUALMENTE APURADOS O julgamento a ser proferido pelo CARF deve ser ater aos limites da lide e do contencioso instaurado, falecendolhe competência para analisar eventuais créditos apurados em períodos posteriores ao tratado nos autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 97 0. 72 01 54 /2 01 3- 21 Fl. 190DF CARF MF Processo nº 10970.720154/201321 Acórdão n.º 1302002.988 S1C3T2 Fl. 190 2 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares de nulidade suscitadas e, no mérito, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto do relator. (assinado digitalmente) Luiz Tadeu Matosinho Machado Presidente. (assinado digitalmente) Gustavo Guimarães da Fonseca Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Luiz Tadeu Matosinho Machado, Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa, Paulo Henrique Silva Figueiredo, Rogério Aparecido Gil, Maria Lúcia Miceli, Flávio Machado Vilhena Dias e Gustavo Guimarães da Fonseca. Relatório Cuida o feito de procedimento de exclusão do recorrente da sistemática diferenciada de recolhimento de tributos tratada pela Lei Complementar 123/06, intentado através do Ato Declaratório de Exclusão ADE de nº 0025/2013, de 22 de maio de 2013. O citado ADE, digase, foi motivado pelo fato de ter a empresa extrapolado os limites preconizados tanto pela retro mencionada Lei Complementar, como pelo art. 12 da Resolução/CGSN de nº 15/2007. Em linhas gerais, este processo se encontra apensado aos autos de nº 10970.720148/201373, em que a fiscalização federal teria identificado a omissão de receitas incorridas pelo contribuinte, caracterizada pela constatação de depósitos bancários de origem duvidosa, mantidos à margem da sua escrituração contábil. No caso, vale destacar, o montante de receitas omitidas teria alcançado o valor, no anocalendário de 2009, de R$ 8.152.819,88, fato que, ao fim e ao cabo, motivou a lavratura de Termo de Representação Fiscal para Exclusão do Simples, juntado à efls. 2, e, consequentemente, à prolação do ADE de n. 0025/2013 (efls. 40). O recorrente opôs a sua manifestação de inconformidade nestes autos, num primeiro momento, premendo pela reunião deste processo ao já mencionado PA de nº 10970.720148/201373. Em seguida questionou a validade do ADE uma vez que calcado em quebra de sigilo bancário; demais disso, sustentou a impossibilidade de uso de presunção para justificar lançamentos tributários, mormente para se inferir a natureza dos depósitos bancários (como receitas tributáveis). Por fim, afirmou que os citados depósitos seriam mero ingressos de valores pertencentes à terceiros. A DRJ de Porto Alegre indeferiu a citada manifestação, tendo julgado conjuntamente este processo e também o PA de nº 10970.720148/201373 razão pela qual, Fl. 191DF CARF MF Processo nº 10970.720154/201321 Acórdão n.º 1302002.988 S1C3T2 Fl. 191 3 aqui, a única fundamentação utilizada no acórdão de piso foi, de fato, a extrapolação do limite de receita admitido pela LC 123 e, também, a validade do uso de informações financeiras prestadas por instituições bancárias a partir das requisições tratadas pela LC 104. As demais questões, digase, foram todas enfrentadas no processo em apenso. Após regular intimação, ocorrida em 20 de maio de 2014 (termo de intimação pessoal efls. 112), a empresa interpôs seu recurso voluntário em 18 de junho daquele mesmo ano, arguindo, preliminarmente, a nulidade do acórdão recorrido por vício de fundamentação (em verdade, seria por omissão, já que a DRJ teria se pronunciado, como já dito, apenas sobre o excesso de receita e sobre a quebra de sigilo bancário). Quanto ao mais, repetiu os argumentos lançados em sua manifestação de inconformidade acrescentando, contudo, pedido para decotar, dos valores eventualmente apurados a partir de janeiro de 2010, pelo regime geral de tributação, dos montantes pagos pela empresa a título de SIMPLES Nacional. É importantíssimo, aqui, destacar que todas as questões afeitas à presunção de omissão de receitas já se encontram definitivamente dirimidas; isto porque no PA de nº 10970.720154/201321 já foi proferido acórdão, inclusive, por este CARF, validando, integralmente, os atos de lançamento que identificaram a citada omissão, inclusive quanto a mencionada inconstitucionalidade da quebra do sigilo bancário. Curiosamente, todavia, por ocasião daquele julgamento não se procedeu à analise e, por certo, à solução da lide quanto ao recurso voluntário em análise... Semelhante lapso, frisese, motivou o requerimento apresentado pelo contribuinte à efls. 174/188 em que pede, inclusive, a nulidade do processo principal notadamente pelo fato da respectiva pauta de julgamento ter sido publicada apenas em nome da parte, e não dos seus patronos; mais que isso e, especificamente quanto a este processo, sustenta, nenhuma pauta teria sido publicada... Como dito alhures, provavelmente por um equívoco do então relator, este processo, especificamente, não foi incluído na pauta de julgamentos, não tendo ocorrido, quanto a ele, qualquer decisão, motivo pelo qual, os autos me foram redistribuídos. Ainda que entenda não ser necessária uma manifestação explicita sobre o requerimento tratado acima, abordarei a questão apenas por uma excesso de zelo. Dito isto, a matéria que nos resta apreciar, aqui, cingerseá, além da análise do requerimento de fls. 174 e ss, à preliminar de nulidade do acórdão da DRJ e, também, à alegação de nulidade do ADE por restar calcado em informações bancárias sigilosas. Este é o relatório. Voto Conselheiro Gustavo Guimarães da Fonseca Relator O recurso é tempestivo e, portanto, dele conheço. I Do requerimento de efls. 174 e ss. Fl. 192DF CARF MF Processo nº 10970.720154/201321 Acórdão n.º 1302002.988 S1C3T2 Fl. 192 4 Primeiramente, não houve cerceamento de defesa, tal como sustentado pelo requerente... este processo não constou da pauta publicada para a sessão realizada em 04 de fevereiro de 2015 porque, nesta ocasião, foi julgado, apenas, o PA de nº 10970.720148/2013 73, processo principal, não tendo sido solucionado o feito em análise... como dito no relatório, acima, esse é, de fato, e inclusive, o motivo pelo qual o processo me foi redistribuído. Quanto a alegação de nulidade do acórdão proferido no citado PA de nº 10970.720148/201373, por falta de intimação dos patronos do recorrente, vale destacar que, além de inexistir previsão regimental ou mesmo no Decreto 70.235 que imponha ao CARF tal mister (intimação dos procuradores), semelhante discussão tem que ser travada por meios próprios; isto é, falece à esta turma inclusive competência para analisar semelhante requerimento, sendo impossível, até mesmo, em obediência à instrumentalidade, convolar o pedido de efls. 174 em embargos, tendo em vista o decurso do prazo normativo prescrito para este tipo de remédio processual. Dito isto, nada há que se fazer quanto a este requerimento. II Da preliminar de nulidade da decisão recorrida. A interdependência deste processo em relação ao PA de nº 10970.720148/201373 é patente e inclusive reconhecida pelo próprio recorrente (que requereu, e teve deferida, a reunião dos feitos para julgamento conjunto). E, de fato, o que se observa do acórdão recorrido proferido naquele processo é que todas as questões, aqui inclusive reprisadas, foram satisfatoriamente resolvidas. Atentem, neste particular, para ementa do acórdão de nº 1049.627 6ª Turma da DRJ/POA, juntado à efls. 588/599 daquele feito: QUEBRA DO SIGILO BANCÁRIO. DESNECESSIDADE DE AUTORIZAÇÃO JUDICIAL. É lícito à autoridade fiscal examinar informações relativas ao contribuinte, constantes de documentos, livros e registros de instituições financeiras e de entidades a elas equiparadas, inclusive os referentes a contas de depósitos, poupança e aplicações financeiras, independentemente de autorização judicial, quando houver procedimento de fiscalização em curso e tais exames forem considerados indispensáveis. DECISÕES ADMINISTRATIVAS E JUDICIAIS. REGRA GERAL E ESPECIAL. VINCULAÇÃO. Só em casos especiais, devidamente expressos na Constituição Federal ou na legislação infraconstitucional, os julgados administrativos e judiciais têm efeitos erga omnes e em razão disso vinculam o julgador administrativo no seu ofício de julgar. A regra geral é que as decisões administrativas e judiciais tenham eficácia interpartes, não sendo lícito estender seus efeitos a outros processos, não só por ausência de permissão legal para isso, mas também em respeito às particularidades de cada litígio. ALEGAÇÕES DE ILEGALIDADE E INCONSTITUCIONALIDADE. Fl. 193DF CARF MF Processo nº 10970.720154/201321 Acórdão n.º 1302002.988 S1C3T2 Fl. 193 5 Discussões acerca da constitucionalidade de lei ou legalidade de atos normativos exorbitam da esfera de competência das autoridades administrativas, às quais cabe apenas cumprir o que determina a legislação em vigor, principalmente em se tratando de norma validamente editada, segundo o processo legislativo constitucionalmente estabelecido. PEDIDO DE JUNTADA DE DOCUMENTOS. INDEFERIMENTO A prova documental deve ser juntada por ocasião da impugnação, precluindo o direito de fazêlo em outro momento processual, quando não comprovada nenhuma das hipóteses de exceção previstas na legislação. ASSUNTO: SIMPLES NACIONAL Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2009 AUTO DE INFRAÇÃO. OMISSÃO DE RECEITAS. NULIDADE. A verificação de omissão de receitas constitui infração que autoriza a lavratura do competente auto de infração, para a constituição do crédito tributário. Dada a íntima relação de causa e efeito, aplicamse aos lançamentos reflexos o decidido no principal. O lançamento que observa as disposições da legislação para a espécie não incorre em vício de nulidade. PRESUNÇÃO LEGAL. ÔNUS DA PROVA. A presunção legal tem o condão de inverter o ônus da prova, transferindoo para o contribuinte, que pode refutála amparada em demonstração com base em oferta de provas hábeis e idôneas, descabendo solicitar ao fisco que supra aquilo que deixou de juntar à peça de defesa. Ainda que fosse de prudente alvitre a juntada do acórdão acima mencionado neste feito, o fato é que os processos estão, realmente, reunidos, de sorte que todas as peças, seja do PA de nº 10970.720148/201373, sejam as constantes destes autos, foram disponibilizadas ao contribuinte. Em linhas gerais, quando a empresa manejou os seus recursos voluntários já tinha conhecimento do teor da decisão proferida no PA de nº 10970.720148/201373 que tratou, objetivamente, de todas as questões afeitas ao problema da omissão de receitas, questões, que se encontram, até mesmo por conta do acórdão de recurso voluntário lá proferido (efls. 714 daqueles autos), definitivamente resolvidas. Seja como for, mesmo que o acórdão recorrido não tenha se manifestado, neste feito, sobre os demais argumentos deduzidos pelo recorrente, concernentes, insistase, ao problema da omissão de receitas, no processo apensado tais questionamentos foram analisados e resolvidos, não havendo, na espécie, cerceamento de defesa ou qualquer outro prejuízo identificável à parte (pas de nulitté sans grief). Diante disto, voto por afastar a preliminar aventada. Fl. 194DF CARF MF Processo nº 10970.720154/201321 Acórdão n.º 1302002.988 S1C3T2 Fl. 194 6 III Da alegada nulidade do ADE uma vez que calcado na quebra do sigilo bancário do recorrente. Primeiramente, cumpre anotar que o ADE não restou calcado em qualquer procedimento tendente à quebra do sigilo bancário do recorrente, tendo, outrossim, sido fundamentado em procedimento fiscal iniciado e concluído nos autos do PA de nº 10970.720148/201373, cujas apurações, estas sim, tiveram por base informações bancárias da empresa. E, ainda que se queira, apenas por um excesso de zelo, se reportar ao problema em testilha, além já ter sido dirimido pelo acórdão de recurso voluntário proferido nos autos do PA de nº 10970.720154/201321, a jurisprudência do Supremo já está pacificada quanto a validade dos preceitos da LC 105, mormente com advento do julgamento do Recurso Extraordinário de nº 601.314/SP, relatado pelo Min. Edson Fachin, entendendo, então, pela plena constitucionalidade da Lei Complementar supra. E aqui, inclusive para atender ao comando inserto no art. 62, §2º, do RICARF, transcrevo a seguir a respectiva ementa: RECURSO EXTRAORDINÁRIO. REPERCUSSÃO GERAL. DIREITO TRIBUTÁRIO. DIREITO AO SIGILO BANCÁRIO. DEVER DE PAGAR IMPOSTOS. REQUISIÇÃO DE INFORMAÇÃO DA RECEITA FEDERAL ÀS INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS. ART. 6º DA LEI COMPLEMENTAR 105/01. MECANISMOS FISCALIZATÓRIOS. APURAÇÃO DE CRÉDITOS RELATIVOS A TRIBUTOS DISTINTOS DA CPMF. PRINCÍPIO DA IRRETROATIVIDADE DA NORMA TRIBUTÁRIA. LEI 10.174/01. 1. O litígio constitucional posto se traduz em um confronto entre o direito ao sigilo bancário e o dever de pagar tributos, ambos referidos a um mesmo cidadão e de caráter constituinte no que se refere à comunidade política, à luz da finalidade precípua da tributação de realizar a igualdade em seu duplo compromisso, a autonomia individual e o autogoverno coletivo. 2. Do ponto de vista da autonomia individual, o sigilo bancário é uma das expressões do direito de personalidade que se traduz em ter suas atividades e informações bancárias livres de ingerências ou ofensas, qualificadas como arbitrárias ou ilegais, de quem quer que seja, inclusive do Estado ou da própria instituição financeira. 3. Entendese que a igualdade é satisfeita no plano do autogoverno coletivo por meio do pagamento de tributos, na medida da capacidade contributiva do contribuinte, por sua vez vinculado a um Estado soberano comprometido com a satisfação das necessidades coletivas de seu Povo. 4. Verificase que o Poder Legislativo não desbordou dos parâmetros constitucionais, ao exercer sua relativa liberdade de conformação da ordem jurídica, na medida em que estabeleceu requisitos objetivos para a requisição de informação pela Administração Tributária às instituições financeiras, assim como manteve o sigilo dos dados a respeito das transações financeiras do contribuinte, observandose um translado do dever de sigilo da esfera bancária para a fiscal. 5. A alteração na ordem jurídica promovida pela Lei 10.174/01 não atrai a aplicação do princípio da irretroatividade das leis tributárias, uma vez que aquela se encerra na atribuição de competência administrativa à Fl. 195DF CARF MF Processo nº 10970.720154/201321 Acórdão n.º 1302002.988 S1C3T2 Fl. 195 7 Secretaria da Receita Federal, o que evidencia o caráter instrumental da norma em questão. Aplicase, portanto, o artigo 144, §1º, do Código Tributário Nacional. 6. Fixação de tese em relação ao item “a” do Tema 225 da sistemática da repercussão geral: “O art. 6º da Lei Complementar 105/01 não ofende o direito ao sigilo bancário, pois realiza a igualdade em relação aos cidadãos, por meio do princípio da capacidade contributiva, bem como estabelece requisitos objetivos e o translado do dever de sigilo da esfera bancária para a fiscal”. 7. Fixação de tese em relação ao item “b” do Tema 225 da sistemática da repercussão geral: “A Lei 10.174/01 não atrai a aplicação do princípio da irretroatividade das leis tributárias, tendo em vista o caráter instrumental da norma, nos termos do artigo 144, §1º, do CTN”. 8. Recurso extraordinário a que se nega provimento (RE 601.314/SP, Relator Min. Edson Fachin, sessão de 24/02/2016, Tribunal Pleno, publicado no DJe198, divulgado em 1509 2016 e Publicado em 16092016). Em suma, não há mais o que se discutir acerca das disposições da Lei Complementar em análise, muito menos neste Conselho, em especial a vista dos preceitos do já citado art. 62, § 1º, II, "b", do RICARF. III Das demais questões deduzidas no recurso voluntário. Como já dito e reprisado, todos os demais argumentos deduzidos pela parte recorrente já foram objeto de julgamento por este CARF (acórdão de nº 1301001.763 – 3ª Câmara / 1ª Turma Ordinária), tendo, quanto a tais temas, se exaurido a atividade judicante... como os processos devem ser apreciados conjuntamente, a decisão proferida nos autos do PA de nº 10970.720148/201373, deve prevalecer, também, para este feito. Uma vez que lá restou assentada a correção de todo procedimento fiscal, bem como a inexistência de provas sobre a origem dos depósitos bancários realizados em conta bancária de titularidade do recorrente, tais questões se encontram, portanto, totalmente superadas: PRELIMINAR DE NULIDADE. OMISSÃO DE RECEITAS. REGULARIDADE DA APLICAÇÃO DA PRESUNÇÃO LEGAL. Nos termos do Art. 42 da Lei 9.430/96, caracterizamse também omissão de receita ou de rendimento os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. A apresentação, pela contribuinte, de "qualquer documento", não se mostra suficiente para afastar a presunção legal, sendo, para tanto, exigível que deles se extraia a efetiva comprovação da impossibilidade da consideração do montante como receita efetivamente auferida pela contribuinte. SIGILO BANCÁRIO. LEI COMPLEMENTAR 105. REGULARIDADE. SÚMULA CARF N. 02. Fl. 196DF CARF MF Processo nº 10970.720154/201321 Acórdão n.º 1302002.988 S1C3T2 Fl. 196 8 A prestação de informações bancárias às respectivas autoridades fazendárias não constitui, por si só, qualquer quebra ao sigilo bancário, nos termos especificamente apontados pelas disposições da Lei Complementar n. 105. No que tange à eventual discussão a respeito de inconstitucionalidade daquela norma, relevante observar que o CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária (Súmula CARF n. 02). SIMPLES NACIONAL. CONCEITO DE RECEITA BRUTA. INAPLICABILIDADE DE DEDUÇÕES Nos termos do Art. 3o, par. 1o., da Lei Complementar n. 123, considerase receita bruta, para fins do disposto no caput deste artigo, o produto da venda de bens e serviços nas operações de conta própria, o preço dos serviços prestados e o resultado nas operações em conta alheia, não incluídas as vendas canceladas e os descontos incondicionais concedidos. Inexistindo qualquer previsão legal para a efetivação de dedução de custos nas operações de comercialização de mercadorias ou na prestação de serviços, descabem as considerações da contribuinte de que parte dos montantes identificados em sua conta bancária pertenceria a seus fornecedores, e, por isso, efetivamente válida a consideração do total dos créditos como de efetiva receita omitida. E, como as receitas omitidas alçaram a monta de aproximadamente R$ 8.000.000,00 (valor que não encontra, mais, em disputa), a exclusão do recorrente do sistema contemplado pela LC 123 é medida que se impõe. IV Do pedido de "compensação" dos valores pagos pela empresa a título de Simples Nacional no ano de 2010, com valores relativos aos tributos federais a serem apurados com base em regime ordinário de tributação. Este pedido pode ser resumido, e melhor compreendido, a partir das próprias palavras do contribuinte, constantes de seu recurso voluntário: Desse modo, ainda que seja mantido o Ato Declaratório Executivo DRF, nº 0025/2013, de 22 de maio de 2013 (...), a autoridade fazendária, forçosamente, deverá considerar os valores pagos durante o período de exclusão do Simples Nacional (a partir do 1º de janeiro de 2010), deduzindoos do montante a ser devido no novo regime (Lucro Presumido), sob pena de indevida bitributção e de enriquecimento ilícito por parte do erário. Por óbvio, semelhante pretensão não deve ser dirigida à este Conselho, seja porque eventuais lançamentos porventura ocorridos nos anos de 2010 e seguintes não são objetos deste processo, seja porque a compensação de tributos, ou mesmo a liquidação de créditos tributários eventualmente apurados, é matéria de exclusiva competência das DRF. Por isto, não há como acolher o pedido em análise. Fl. 197DF CARF MF Processo nº 10970.720154/201321 Acórdão n.º 1302002.988 S1C3T2 Fl. 197 9 V Conclusão. Por todo o exposto, voto por negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Gustavo Guimarães da Fonseca. Fl. 198DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10469.720162/2014-28
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Aug 15 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Oct 17 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2009, 2010, 2011
OMISSÃO DE RECEITAS. PROVA DIRETA.
Caracterizam-se como prova direta da omissão de receitas, os valores escriturados pelo sujeito passivo em sua contabilidade e que não foram levados à tributação.
OMISSÃO DE RECEITAS CORRETORA DE SEGUROS
Constatados pagamentos efetuados pelas empresas seguradoras por serviços prestados a título de comissões e corretagens, seja por meio de prova direta nos livros da fiscalizada, seja por circularização junto às fontes pagadoras, seja por informação em DIRF e não sendo tais valores ofertados à tributação pela contribuinte, lícito o lançamento dos valores correspondentes como receitas omitidas.
TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO - CSLL. PIS. COFINS
Anos-calendário:2009,2010,2011
Na medida em que as exigências reflexas têm por base os mesmos fatos que ensejaram o lançamento do imposto de renda, a decisão de mérito prolatada naquele constitui prejulgado na decisão do auto de infração da CSLL decorrente.
Numero da decisão: 1402-003.347
Decisão:
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso voluntário para exonerar parte dos lançamentos de IRPJ, CSLL, PIS e COFINS, conforme definido no voto do Relator, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado.
(assinado digitalmente)
Paulo Mateus Ciccone Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Rogerio Borges, Caio Cesar Nader Quintella, Sergio Abelson (Suplente Convocado), Leonardo Luis Pagano Goncalves, Evandro Correa Dias, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Leonam Rocha de Medeiros (Suplente Convocado) e Paulo Mateus Ciccone (Presidente)
Nome do relator: PAULO MATEUS CICCONE
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2009, 2010, 2011 OMISSÃO DE RECEITAS. PROVA DIRETA. Caracterizam-se como prova direta da omissão de receitas, os valores escriturados pelo sujeito passivo em sua contabilidade e que não foram levados à tributação. OMISSÃO DE RECEITAS CORRETORA DE SEGUROS Constatados pagamentos efetuados pelas empresas seguradoras por serviços prestados a título de comissões e corretagens, seja por meio de prova direta nos livros da fiscalizada, seja por circularização junto às fontes pagadoras, seja por informação em DIRF e não sendo tais valores ofertados à tributação pela contribuinte, lícito o lançamento dos valores correspondentes como receitas omitidas. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO - CSLL. PIS. COFINS Anos-calendário:2009,2010,2011 Na medida em que as exigências reflexas têm por base os mesmos fatos que ensejaram o lançamento do imposto de renda, a decisão de mérito prolatada naquele constitui prejulgado na decisão do auto de infração da CSLL decorrente.
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 20; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1763; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S1C4T2 Fl. 408 1 407 S1C4T2 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS PRIMEIRA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 10469.720162/201428 Recurso nº Voluntário Acórdão nº 1402003.347 – 4ª Câmara / 2ª Turma Ordinária Sessão de 15 de agosto de 2018 Matéria IRPJ e REFLEXOS Recorrente NEPRON PROMOTORA E CORRETORA DE SEGUROS LTDA. Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2009, 2010, 2011 OMISSÃO DE RECEITAS. PROVA DIRETA. Caracterizamse como prova direta da omissão de receitas, os valores escriturados pelo sujeito passivo em sua contabilidade e que não foram levados à tributação. OMISSÃO DE RECEITAS CORRETORA DE SEGUROS Constatados pagamentos efetuados pelas empresas seguradoras por serviços prestados a título de comissões e corretagens, seja por meio de prova direta nos livros da fiscalizada, seja por circularização junto às fontes pagadoras, seja por informação em DIRF e não sendo tais valores ofertados à tributação pela contribuinte, lícito o lançamento dos valores correspondentes como receitas omitidas. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL. PIS. COFINS Anoscalendário:2009,2010,2011 Na medida em que as exigências reflexas têm por base os mesmos fatos que ensejaram o lançamento do imposto de renda, a decisão de mérito prolatada naquele constitui prejulgado na decisão do auto de infração da CSLL decorrente. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso voluntário para exonerar parte dos lançamentos de IRPJ, CSLL, AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 46 9. 72 01 62 /2 01 4- 28 Fl. 408DF CARF MF Processo nº 10469.720162/201428 Acórdão n.º 1402003.347 S1C4T2 Fl. 409 2 PIS e COFINS, conforme definido no voto do Relator, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. (assinado digitalmente) Paulo Mateus Ciccone – Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Rogerio Borges, Caio Cesar Nader Quintella, Sergio Abelson (Suplente Convocado), Leonardo Luis Pagano Goncalves, Evandro Correa Dias, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Leonam Rocha de Medeiros (Suplente Convocado) e Paulo Mateus Ciccone (Presidente) Fl. 409DF CARF MF Processo nº 10469.720162/201428 Acórdão n.º 1402003.347 S1C4T2 Fl. 410 3 Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto pela contribuinte acima identificada em face de decisão exarada pela 2ª Turma da DRJ/RJO em sessão de 16 de junho de 2015 (fls. 357/364)1, que julgou parcialmente procedente a impugnação apresentada perante aquela Turma Julgadora e manteve parte dos lançamentos de IRPJ e Reflexos, em Acórdão assim ementado: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2009, 2010, 2011 LANÇAMENTO. NULIDADE. FUNDAMENTO. Carece de objetividade a nulidade de lançamento à alegação de eivado de vício formal quando aquele se lastreia na legalidade objetiva e estrita atinente ao fato gerador. APURAÇÃO DE OFÍCIO. IMPOSTO PAGO NÃO CONSTANTE DE DCTF. EFEITOS. Na apuração de ofício de tributo devido deve ser excluído o tributo pago, ainda que não constante de DCTF. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2009, 2010, 2011 Ementa:LUCRO PRESUMIDO. PRESTADOR DE SERVIÇOS A INSTITUIÇÃO FINANCEIRA. Prestadores de serviço a instituição financeira, mesmo de intermediação na captação de seguros, que optem pelo lucro presumido, se sujeitam às normas aplicáveis à opção. PENALIDADE DE OFÍCIO. ENCARGOS MORATÓRIOS. INCIDÊNCIA. Inquestionável a incidência de encargos moratórios sobre penalidade de ofício. ASSUNTO: OUTROS TRIBUTOS OU CONTRIBUIÇÕES Anocalendário: 2009, 2010, 2011 PIS e COFINS. LUCRO PRESUMIDO. BASE DE CÁLCULO Sob lucro presumido a base imponível das contribuições para o PIS e a COFINS é a receita bruta, conforme definida em lei, inadmitidas quaisquer deduções de custos/despesas, mesmo de prestadores de serviços a instituições financeiras. CSLL. REFLEXIVIDADE MATERIAL. EFEITOS. Em matéria de reflexividade factual à falência de elemento relevante aplicase a mesma decisão do feito que lhe deu origem. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte Segundo o TVF (fls. 298), as infrações constatadas foram as seguintes: 1 A numeração referida das fls., quando não houver indicação contrária, é sempre a digital Fl. 410DF CARF MF Processo nº 10469.720162/201428 Acórdão n.º 1402003.347 S1C4T2 Fl. 411 4 Com a seguinte discriminação relativamente ao IRPJ (TVF fls. 300): Referidos valores, com suas respectivas especificidades, estão refletidos nos demais tributos (CSLL, PIS e COFINS) e estampados nos autos de infração (IRPJ e reflexos – fls. 187/272). Inconformada com a autuação, a contribuinte acostou Impugnação (fls, 308/348) assentando: Ø que, entre 2009 e 2011, devolveu à instituição financeira R$ 500.000,00, em virtude cancelamento de vendas, dado que referente a operações em desacordo com as normas previstas pela instituição, conforme confissão de dívida de fls. 334/339; Fl. 411DF CARF MF Processo nº 10469.720162/201428 Acórdão n.º 1402003.347 S1C4T2 Fl. 412 5 Ø com fundamento no princípio da capacidade contributiva, na forma dos arts. 27 e 31 da Lei n° 8981/95 e arts. 2º e 3º da Lei n° 9718/98, e jurisprudência administrativa reproduzida às fls. 312, devem ser excluídas das bases de cálculo das vendas canceladas; Ø conforme Resoluções BACEN n° 3013/03 e 3.156/03, art. 17 da Lei n° 4595/64, art. 1º da Lei n° 7492/86 e acórdão CARF N°20176.946, ementa reproduzida às fls.320, a impugnante se equipara a instituição financeira; Ø nessas condições teria regramento próprio para apuração de resultados, conforme art. 223, II, b, do RIR/99: 16% da receita bruta; não 32%, lançados pela auditoria; Ø para efeitos do PIS e da COFINS, os percentuais de 0,65% e de 3,00% devem incidir sobre o lucro bruto da instituição financeira, conforme arts. 8º, I da Lei n° 10.637/02, 10, I, da Lei n° 10833/03 e art. 3º, §§ 4º a 6º, da Lei n° 9.716/98; Ø ante erros de direito das autuações, estas estariam eivadas de vício insanável, devendo ser anuladas, conforme jurisprudência administrativa, ementas reproduzidas às fls. 325/326, Súmula 227 do extinto TFR e manifestação do STF acerca da imutabilidade do lançamento, ementa às fls. 327; Ø inexigibilidade de juros moratórios sobre penalidade de ofício conforme jurisprudência administrativa, fls. 328, devendo ser afastados na forma do art. 953, § 2º, do RIR/99. Apreciando a lide em 1ª Instância, a Turma Julgadora deu parcial provimento à impugnação no sentido de afastar parte dos lançamentos de IRPJ e de CSLL, conforme dispositivo do acórdão (fls. 358): “Vistos, relatados e discutidos os autos do processo em epígrafe, ACORDAM, por unanimidade de votos, os membros desta Turma em dar provimento parcial à impugnação para reduzir o IRPJ devido para, R$ 2.527.942,47; a CSLL para R$ 1.078.360,86; e ratificar o PIS de R$ 1.674,14 e a COFINS de 7.747,53, acrescidas todas as exigências de penalidade de 75% e encargos moratórios, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado”. Excertos do voto condutor mostram o posicionamento da Turma a quo (fls. 360/364): “5. Quanto à devolução de valores à instituição financeira, objeto da confissões de dívida de fls. 334/339 e 343/347, equivocase o sujeito passivo: 5.1. o valor das dívidas reconhecidas não tem relação com qualquer mês de competência tributária a que se refiram aquelas confissões; mesmo na identificação dos beneficiários, fls. 340/342; Fl. 412DF CARF MF Processo nº 10469.720162/201428 Acórdão n.º 1402003.347 S1C4T2 Fl. 413 6 5.2. não há provas de cancelamento dos contratos, apenas que foram prospectados fora das obrigações assumidas com a instituição financeira; 5.3. aludidos documentos foram assinados em 19/10/2010, fls. 339 e 09/12/2008, fls. 347, com efeitos futuros sobre valores de receitas a receber da mesma instituição financeira; não interferem nas apropriações de receitas pretéritas tomadas sobre regime de Caixa, conforme livro Caixa de fls. 42/106; 5.4. o fato de reconhecer dívidas por prospecção de operações em desacordo com as obrigações assumidas em contrato, fls. 334 e 343, conforme considerando III das aludidas confissões de dividas, não implica que a impugnante, necessariamente, não tenha apropriado as receitas respectivas às épocas de seus recebimentos. 6. Ao contrário do alegado, independentemente de se equiparar, ou não, a instituição financeira, importa observar que: 6.1. não podem optar pelo lucro presumido as mesmas instituições, conforme vedação do art. 14, II, da Lei n° 9.718/98: (...) 6.1. Assim prestadores de serviços a instituições financeiras, como serviços de captação de seguros, que optem pelo lucro presumido, não podem usufruir benefícios/privilégios atinentes àqueles obrigados ao lucro real. 6.2. No contexto, ao contrário da alegação impugnatória, a proposição regulamentar do art. 223, § 1º, II, b, do RIR/99, diz respeito ao pagamento de estimativa mensal por parte das instituições nele identificadas, sujeitas ao lucro real. O dispositivo em questão não pode ser tomado desconectado do artigo que o precede, fundamentado no art. 2º da Lei n° 9430/96: (...) 6.2.1. Atentese que, exatamente por se tratarem de pessoas jurídicas tributadas, obrigatoriamente, com base no lucro real, apenas para efeitos de pagamento de estimativas mensais de tributos a serem apurados anualmente, autoriza o art. 226, do mesmo RIR/99: (...) 6.3. Em contrapartida, para a apuração do lucro presumido, o art. 15,§ 1º, III, b, da Lei n° 9249/95 é de indiscutível clareza: (...) 7. Igualmente, ao contrário das alegações impugnatórias, tanto quanto ao PIS como a COFINS, os dispositivos legais formalizam: (...) 7.3. Exatamente por serem as instituições financeiras obrigadas à apuração do lucro real (art. 14, II, da Lei n° 9.718/98, antes reproduzido), dispõe o diploma legal ora reportado, em seu art. 3º, §§ 4º e 6º (redação da Medida Provisória n° 2.15835/01: Fl. 413DF CARF MF Processo nº 10469.720162/201428 Acórdão n.º 1402003.347 S1C4T2 Fl. 414 7 (...) 8. De todo o exposto fácil concluir que, pretendesse a impugnante, ainda que, sob a alegação de equiparação a entidade financeira, condicionarse às mesmas regras legais àquelas aplicáveis e deveria apurar o lucro real. 8.1. Ora, em se tratando de lucro presumido, insustentável qualquer alegação de custo/despesa em sua apuração. Exatamente pelo conceito de presunção de resultado tributável. 9. As disposições legais antes reproduzidas igualmente afastam a alegação de nulidade dos lançamentos por vício formal, visto fundados na legalidade estrita e objetiva, como demonstrado”. No mais, manteve a incidência de juros sobre a multa de ofício e definiu que, relativamente à CSLL, o decidido quanto ao IRPJ a ela se aplica. Cientificada do R. decisum em 24/06/2015 (fls. 370), a contribuinte interpôs recurso voluntário em 14/07/2015 (fls. 373/400) no qual, depois de rebater o decidido na decisão de 1º Grau, basicamente repisa os argumentos expendidos na defesa inaugural. É o relatório do essencial, em apertada síntese. Fl. 414DF CARF MF Processo nº 10469.720162/201428 Acórdão n.º 1402003.347 S1C4T2 Fl. 415 8 Voto Conselheiro Paulo Mateus Ciccone Relator O Recurso Voluntário é tempestivo (ciência da decisão recorrida em 24/06/2015 – fls. 370 – RV protocolizado em 14/07/2015 – fls. 401), a recorrente está corretamente representada (fls. 397/399), e os demais pressupostos para sua admissibilidade foram atendidos, pelo que o recebo e dele conheço. Antes do voto, destaco, por relevante, que estão juntados nestes autos, AI de PIS e de COFINS e que serão julgados no Processo nº 10469.720164/2001417, motivo pelo qual deixam de ser aqui apreciados e não integram a decisão a ser exarada. Os valores lá exigidos somam PIS R$ 221.052,80 (fls. 273) e COFINS R$ 1.020.243,57 (fls. 285). Feitas estas observações passo ao voto. Não há preliminares. Ao mérito. Independente de alguns tópicos sobre os quais a defesa se apóia para elidir o trabalho fiscal e que serão vistos à frente, é preciso destacar de plano que, em momento algum, a recorrente conseguiu contrapor, com provas, alegações ou documentos hábeis, a apuração dos valores colhidos pelo Fisco, i) junto aos próprios apontamentos da contribuinte (livros contábeis) ou, ii) mediante circularização/informação obtida em declarações prestadas à Receita Federal em DIRF por tomadores de serviços (fontes pagadoras) da recorrente e que se encontram tabeladas em planilha juntada ao TVF, já reproduzidas parcialmente no relatório e que acabaram por servir de suporte para a alimentação dos autos de infração. Ou seja, quanto aos valores, base de cálculo inicial dos lançamentos, nenhuma ressalva, portanto, confirmados. Todavia, em que pese a confirmação dos valores omitidos, a recorrente aduz longamente os seguintes tópicos em sua peça recursal que poderiam afetar referidos montantes e levar ao cancelamento dos autos de infração, total ou parcialmente. Passo à análise de cada um deles. DA EQUIPARAÇÃO DA RECORRENTE A INSTITUIÇÃO FINANCEIRA DO ERRO DE DIREITO Aduz a contribuinte (RV – fls. 380/389) que seria equiparada a instituição financeira. Fl. 415DF CARF MF Processo nº 10469.720162/201428 Acórdão n.º 1402003.347 S1C4T2 Fl. 416 9 Vejase o sumário de seus argumentos: O assunto nem necessita maiores digressões, posto que decidido pelo Supremo em várias oportunidades, valendo ver uma decisão recente: 21/10/2014 PRIMEIRA TURMA SEGUNDO A G .REG. NO RECURSO EXTRAORDINÁRIO 240.736 RIO GRANDE DO SUL RELATOR : MIN. DIAS TOFFOLI AGTE.( S ) : UNIÃO PROC.( A / S)(ES ) : PROCURADOR GERAL DA FAZENDA NACIONAL AGDO.( A / S ) : PROTEÇÃO CORRETORA DE SEGUROS LTDA ADV.( A / S ) : ALFREDO PEREIRA MACEDO E OUTRO ( A / S ) EMENTA Segundo agravo regimental no recurso extraordinário. Alegada violação do art. 97 da CF/88. Inexistência. Súmula nº 279/STF. Inaplicável. Prequestionamento. Existência. Artigo 2º da LC nº 84/96. Contribuição social. Majoração de alíquota quanto às instituições financeiras e equiparadas. Corretoras de seguro. Equiparação com instituições financeiras. Impossibilidade. Precedentes. 1. Não há falar em ofensa ao art. 97 da CF/88, uma vez que a decisão agravada não declarou a inconstitucionalidade do art. 2º da Lei Complementar nº 84/96, nem afastou sua aplicação sob fundamento de contrariedade à Constituição Federal. 2. Na decisão agravada, não se reexaminaram fatos e provas, o que afasta a incidência da Súmula nº 279/STF. 3. Os temas objeto do recurso extraordinário foram submetidos a efetivo debate perante o Tribunal de origem. Preenchido o requisito do prequestionamento. 4. A solução mais adequada recomenda reconhecer a distinção entre empresas corretoras de seguro e sociedades corretoras, admitindo que o predicado de instituição financeira deve ser atribuído tão somente a essa última. Isso porque a empresa corretora limitase a intermediar a captação de clientes (corretagem propriamente dita), enquanto a sociedade, indo além do agenciamento, ocupase da gestão e distribuição de títulos e valores mobiliários. 5. Agravo regimental não provido. (destacouse) Com a seguinte posição final do I. Ministro Relator: Em síntese, não se pode atribuir o caráter de sociedade corretora ou de sociedade seguradora às corretoras de seguro. A decisão agravada está Fl. 416DF CARF MF Processo nº 10469.720162/201428 Acórdão n.º 1402003.347 S1C4T2 Fl. 417 10 de acordo com a jurisprudência mais atual sobre o tema. Ante o exposto, nego provimento ao agravo regimental. Portanto, a leitura que se deve fazer do artigo 22, § 1º, da Lei nº 8.212/19912 é a de que a equiparação atinge as sociedades corretoras e não as empresas corretoras de seguro. Melhor sorte não cabe à recorrente se for tomada sua atividade como de prestação de serviços de intermediação bancária, oportunidade em que a contratada recebe comissões pelos serviços prestados, ou seja, não realiza qualquer operação exclusiva de Bancos e assemelhados, como receber depósitos, disponibilizar talões de cheques, assumir aplicações de clientes, etc. Com isso, afasto as alegações presentes neste tópico. EXCLUSÃO DA BASE DE CÁLCULO DAS VENDAS CANCELADAS Aduz a recorrente (RV – fls.376/380) que “desenvolve serviços de correspondente bancário, atuando na captação de empréstimos e financiamentos, recebendo em contraprestação valores a título de comissão”; que, ocorreram operações efetivadas em “desacordo com as normas e condições previstas pela instituição financeira, as quais terminaram por ser devidamente canceladas, obrigandose a recorrente a devolver a remuneração/comissão anteriormente já recebida em função de tais negócios”; e, que, conforme documentos juntados, teria devolvido, “no lapso temporal compreendido entre 2009 e 2011, em virtude do cancelamento de vendas, montante que supera a ordem de R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais)”. Para dar suporte ao alegado, juntou documentos (fls. 334/348) nominados de “Instrumento Particular de Reconhecimento, Confissão de Dívida e Pagamento com Sub rogação de Direitos” e “Instrumento Particular de Reconhecimento e Confissão de Dívida”, firmados respectivamente com o Bradesco e BMC e nos quais, efetivamente, é compelida a devolver valores que teria recebido anteriormente de citadas instituições financeiras por intermediação na captação de negócios. Tal obrigação financeira, ainda no dizer dos instrumentos pactuados, teria a seguinte conformação: Ø Bradesco (fls. 334): 2 Art. 22. A contribuição a cargo da empresa, destinada à Seguridade Social, além do disposto no art. 23, é de: § 1o No caso de bancos comerciais, bancos de investimentos, bancos de desenvolvimento, caixas econômicas, sociedades de crédito, financiamento e investimento, sociedades de crédito imobiliário, sociedades corretoras, distribuidoras de títulos e valores mobiliários, empresas de arrendamento mercantil, cooperativas de crédito, empresas de seguros privados e de capitalização, agentes autônomos de seguros privados e de crédito e entidades de previdência privada abertas e fechadas, além das contribuições referidas neste artigo e no art. 23, é devida a contribuição adicional de dois vírgula cinco por cento sobre a base de cálculo definida nos incisos I e III deste artigo. (Redação dada pela Lei nº 9.876, de 1999). (Vide Medida Provisória nº 2.15835, de 2001). Fl. 417DF CARF MF Processo nº 10469.720162/201428 Acórdão n.º 1402003.347 S1C4T2 Fl. 418 11 Ø BMC ( fls. 343): Nesse sentir, a recorrente teve – realmente um ônus financeiro assumido, em valores originais, de R$ 349.112,86 (Bradesco) e R$ 201.430,04 (BMC), ou seja, mais de 500 mil reais, como sustentou no seu recurso voluntário, exigíveis parceladamente de 2009 a 2012 e que constam de planilhas inseridas nos referidos instrumentos contratuais, sendo, em ambos os casos, convencionados juros remuneratórios à razão de “CDI + 0,25%” e de “CDI + 0,5%”, respectivamente. Com o Bradesco, pactuaramse 96 prestações já atualizadas na forma acima citada, gerando compromissos fixos de R$ 4.105,79 cada parcela, a primeira com data de vencimento para 01/11/2010 e a última para 27/08/2012, somando R$ 394.115,84. Para o BMC, o instrumento firmado previu 120 pagamentos reajustáveis, a primeira parcela com vencimento para 12/01/2009 fixada em R$ 1.705,05 e a última, vencível em 25/04/2011, no importe de R$ 2.755,08, totalizando R$ 262.724,94. Fl. 418DF CARF MF Processo nº 10469.720162/201428 Acórdão n.º 1402003.347 S1C4T2 Fl. 419 12 Referidas planilhas com os montantes individualizadamente considerados estão juntadas nos autos (fls. 335/337 – Bradesco e 340/342 – BMC). Analisando os instrumentos referidos e suas planilhas, a decisão recorrida pontuou por desconsiderálos para deferir a redução da base de cálculo dos tributos lançados entendendo que, “Quanto à devolução de valores à instituição financeira, objeto das confissões de dívida de fls. 334/339 e 343/347, equivocase o sujeito passivo; o valor das dívidas reconhecidas não tem relação com qualquer mês de competência tributária a que se refiram aquelas confissões; mesmo na identificação dos beneficiários, fls. 340/342; não há provas de cancelamento dos contratos, apenas que foram prospectados fora das obrigações assumidas com a instituição financeira; aludidos documentos foram assinados em 19/10/2010, fls. 339 e 09/12/2008, fls. 347, com efeitos futuros sobre valores de receitas a receber da mesma instituição financeira; não interferem nas apropriações de receitas pretéritas tomadas sobre regime de Caixa, conforme livro Caixa de fls. 42/106; o fato de reconhecer dívidas por prospecção de operações em desacordo com as obrigações assumidas em contrato, fls. 334 e 343, conforme considerando III das aludidas confissões de dividas, não implica que a impugnante, necessariamente, não tenha apropriado as receitas respectivas às épocas de seus recebimentos”. De fato, a leitura inicial dos contratos mencionados não permite afirmar categoricamente que os valores que a recorrente foi compelida a devolver aos dois estabelecimentos de crédito tivessem relação direta com o anterior faturamento ou com os valores lançados como imissão de receitas. Mais claramente, caberia à recorrente o ônus de cotejar, conjugar e vincular temporal e materialmente , os valores anteriormente por ela recebidos das fontes pagadoras, com as devoluções que se comprometeu a fazer. Vale dizer, a redução dos valores anteriormente registrados como receita parametrizamse com esta vinculação. Ainda que assim seja, não consigo visualizar que um sujeito passivo possa ser obrigado a recolher tributos incidentes sobre “receita bruta” (caso do Lucro Presumido a que se submete a recorrente) se esta “receita”, no mesmo mês ou período subsequente, se desfez. Vejase, a propósito, um singelo exemplo: uma empresa tem uma receita no mês “x” de 100; no mês “x+1” de 150; e no mês “x+2” de 200. neste mês “x+2” recebe devoluções de vendas (ou serviços) relativos ao mês “x” de 30; do mês “x+1” de 70 e do próprio mês “x+2” de 50, totalizando 150; seguindo com o raciocínio, seria correto exigir deste contribuinte que calculasse e recolhesse os tributos do mês “x+2” sobre 200 (vendas do período) sabendo que houve “devoluções”, portanto, cancelamento de vendas, desfazimento da operação, no importe de 150 (mesmo que parte destes estornos de vendas seja de período pretérito)? A resposta, não me parece difícil, ao contrário, é óbvia. Pensarse o oposto, ou seja, impedir que as devoluções e cancelamentos, ainda que de períodos anteriores sejam subtraídas da base de cálculo, além de exigir tributos sobre uma receita bruta que se desfez Fl. 419DF CARF MF Processo nº 10469.720162/201428 Acórdão n.º 1402003.347 S1C4T2 Fl. 420 13 parcialmente, feriria, de morte, o preceito dos artigos 519 e 224, parágrafo único do RIR/1999, verbis: Art.519. Para efeitos do disposto no artigo anterior, considerase receita bruta a definida no art. 224 e seu parágrafo único. Art.224. A receita bruta das vendas e serviços compreende o produto da venda de bens nas operações de conta própria, o preço dos serviços prestados e o resultado auferido nas operações de conta alheia (Lei nº 8.981, de 1995, art. 31). Parágrafo único. Na receita bruta não se incluem as vendas canceladas, os descontos incondicionais concedidos e os impostos não cumulativos cobrados destacadamente do comprador ou contratante dos quais o vendedor dos bens ou o prestador dos serviços seja mero depositário (Lei nº 8.981, de 1995, art. 31, parágrafo único). Na verdade o termo “vendas canceladas” é gênero da qual a devolução é espécie, posto que seus efeitos econômicos, financeiros e patrimoniais são os mesmos, mudando apenas o modus procedendi dos registros contábeis e fiscais. Em outro dizer, devolução nada mais é que anular, cancelar, todos os efeitos de uma operação anteriormente praticada, inclusive os contábeis e tributários. Na forma do Pronunciamento Técnico CPC nº 30, “Receita é o ingresso bruto de benefícios econômicos durante o período proveniente das atividades ordinárias da entidade que resultam no aumento do seu patrimônio líquido, exceto as contribuições dos proprietários”. Exprimase, só é receita aquilo que efetivamente adentra ao patrimônio da entidade. Venda que se cancela, serviço que não se recebe ou, se recebido, deve ser devolvido, não acresce o patrimônio da empresa. Logo, não é receita, portanto, não pode ser base de cálculo de tributo que se assenta justamente sobre esta premissa. Posição homologada pelo próprio Órgão Tributário (Solução de Consulta nº 114 – Cosit, de 22 de abril de 2014) que, mesmo tratando de PIS e COFINS (e até por isso mesmo), tem plena aplicação ao Lucro Presumido, regime que se apóia na “receita”: “No regime de competência, o cancelamento de notas fiscais, seja no mês da prestação de serviço ou em outro mês qualquer, por si só, não afeta a ocorrência do fato gerador ou a apuração da base de cálculo da Contribuição para o PIS/Pasep. Todavia, se as causas que motivarem tal cancelamento, configurarem vendas canceladas, o correspondente valor, registrado como receita de serviços, é passível de exclusão da base de cálculo dessa Contribuição no mês da devolução”. Neste contexto, mesmo que as devoluções possam se referir a períodos anteriores ou mesmo não haver uma vinculação individualizada de cada devolução com a receita anteriormente recebida (reconheçase, procedimento nem sempre fácil de ser feito), penso que exigir tributos sobre receita que foi cancelada não pode ser aceito. Claro que os valores estão inflados pelos juros remuneratórios impostos pelo Bradesco e BMC e, por isso, não poderiam ser tomados na forma em que se encontram Fl. 420DF CARF MF Processo nº 10469.720162/201428 Acórdão n.º 1402003.347 S1C4T2 Fl. 421 14 planilhados nos contratos e servir como redutores das receitas posto que, por óbvio, quando das vendas/prestações de serviços não continham tal plus. Assim, impraticável se tomar, exemplificativamente, o montante devolvido da 1ª parcela de ambos os instrumentos, R$ 4.105,79 – Bradesco – vencimento em 01/11/2010 e R$ 1.705,06 – BMC – vencimento em 12/01/2009 posto que tais números, como visto, apresentam acréscimos de CDI (+) 0,25% e (+) 0,5%, respectivamente. De outro giro, como está perfeitamente definido, em registros e contratos juntados aos autos, o valor original das devoluções (fls. 334 e 343), basta simples operação matemática de forma a determinar cada parcela pelos seus valores primários, como abaixo demonstrado: Ø Bradesco 1. – Valor Original – R$ 349.112,86 2. – Quantidade de parcelas – 96 3. – Cálculo do valor original de cada parcela: (R$ 349.112,86 / 96) 4. – Valor unitário de cada parcela – R$ 3.636,59 Ø BMC 1. Valor Original – R$ 201.430,04 2. Quantidade de parcelas – 120 3. Cálculo do valor original de cada parcela: (R$ 201.430,04 / 120) 4. – Valor unitário de cada parcela – R$ 1.678,58 A partir destes cálculos, com os valores depurados, é possível contrapor os valores devolvidos à receita imputada nos autos de infração, evidentemente observando unicamente os períodos em que realizados os lançamentos de ofício, o que leva a desconsiderar o anocalendário de 2012. Nessa linha, temse a seguinte posição: a) Bradesco – 9 parcelas incorridas em 2010 e 52 em 2011, portanto, R$ 3.636,59 (*) 61 parcelas = R$ 221.831,99 (valor a reduzir como devolução). b) BMC – 51 parcelas incorridas em 2009, 52 em 2010 e 17 em 2011, portanto, R$ 1.678,58 (*) 120 = R$ 201.430,04 (valor a reduzir como devolução). Desse modo, entendo que cabe razão à recorrente e deve ser afastada parte dos lançamentos de IRPJ e de CSLL presentes nos autos, no total de R$ 423.262,03 Fl. 421DF CARF MF Processo nº 10469.720162/201428 Acórdão n.º 1402003.347 S1C4T2 Fl. 422 15 (valor tributável), conforme demonstrativo analítico a ser a ser exibido no final deste voto, separadamente por período e tributo. Destaco, por oportuno, que a exoneração acima somente se aplica ao IRPJ e à CSLL, posto que as receitas originárias não serviram de base para os lançamentos de PIS e de COFINS aqui apreciados. DOS JUROS SOBRE A MULTA DE OFÍCIO Rebelase a recorrente contra a possibilidade da imposição de juros de mora sobre a multa de ofício aplicada no lançamento. Pois bem, ressalvando, de plano, que a incidência de juros de mora à taxa Selic sobre a Multa de Ofício é questão superveniente ao presente lançamento, passase à sua apreciação, já que, inexoravelmente, tal acréscimo virá integrar o crédito tributário objeto de discussão. Consoante dizer do art. 113 do Código Tributário Nacional – CTN, a obrigação tributária principal surge com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária, entendida esta como decorrente de obrigação tributária principal. E se referido crédito tributário (penalidade) não for pago integralmente no vencimento deve ser acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, aplicandose a taxa de 1% ao mês, se a lei não dispuser de modo diverso (art. 161, § 1º, do CTN): “Art. 161. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária. § 1º Se a lei não dispuser de modo diverso, os juros de mora são calculados à taxa de um por cento ao mês. § 2º O disposto neste artigo não se aplica na pendência de consulta formulada pelo devedor dentro do prazo legal para pagamento do crédito.”(negrejouse e grifouse) Assim, a cobrança de juros de mora sobre a penalidade pecuniária cabível encontra fundamento de validade no próprio CTN. Por outro lado, só é plausível se falar na incidência de juros de mora pelo atraso no recolhimento quando o crédito tributário inadimplido sujeitase a prazo de vencimento, o que ocorre com relação ao tributo, à contribuição e à multa de ofício, e não com a multa de mora, a menos que esta última seja exigida isoladamente, mediante lançamento de ofício. Valendose da exceção legal contida no art. 161, § 1º, do CTN, a Lei nº 9.065, de 20 de junho de 1995, dispôs que, a partir de 1º de abril de 1995, sobre os tributos e contribuições sociais não recolhidos no prazo de vencimento incidem juros de mora calculados à taxa Selic (art. 13): Fl. 422DF CARF MF Processo nº 10469.720162/201428 Acórdão n.º 1402003.347 S1C4T2 Fl. 423 16 Lei nº 9.065, de 1995: Art. 13. A partir de 1º de abril de 1995, os juros de que tratam a alínea c do parágrafo único do art. 14 da Lei nº 8.847, de 28 de janeiro de 1994, com a redação dada pelo art. 6º da Lei nº 8.850, de 28 de janeiro de 1994, e pelo art. 90 da Lei nº 8.981, de 1995, o art. 84, inciso I, e o art. 91, parágrafo único, alínea a 2, da Lei nº 8.981, de 1995, serão equivalentes à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia SELIC para títulos federais, acumulada mensalmente. Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995: “Art. 84. Os tributos e contribuições sociais arrecadados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores vierem a ocorrer a partir de 1º de janeiro de 1995, não pagos nos prazos previstos na legislação tributária serão acrescidos de: I juros de mora, equivalentes à taxa média mensal de captação do Tesouro Nacional relativa à Dívida Mobiliária Federal Interna; (...).” Seguindoa, a Lei nº 9.430, de 1996, foi mais genérica, dispondo que os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições, com fato gerador ocorrido a partir de 1º de janeiro de 1997, não pagos no vencimento, serão acrescidos de juros de mora à taxa Selic (art. 61): “Multas e Juros Art. 61. Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1º de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. § 1º A multa de que trata este artigo será calculada a partir do primeiro dia subseqüente ao do vencimento do prazo previsto para o pagamento do tributo ou da contribuição até o dia em que ocorrer o seu pagamento. § 2º O percentual de multa a ser aplicado fica limitado a vinte por cento. § 3º Sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a Fl. 423DF CARF MF Processo nº 10469.720162/201428 Acórdão n.º 1402003.347 S1C4T2 Fl. 424 17 que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento.” Consistindo a multa de lançamento de ofício em débito para com a União, de natureza de obrigação tributária principal, correta a interpretação de que, sobre referida penalidade incidem juros à taxa Selic, a partir do seu vencimento. Corroboram, ainda, a conclusão acima, as razões abaixo dispostas. De fato, a mesma Lei nº 9.430, de 1996, reportandose especificamente à multa de mora inadimplida, dispôs que sobre ela incidem juros de mora à taxa Selic, quando exigida de ofício, isolada ou conjuntamente (art. 43): “Art. 43. Poderá ser formalizada exigência de crédito tributário correspondente exclusivamente a multa ou a juros de mora, isolada ou conjuntamente. Parágrafo único. Sobre o crédito constituído na forma deste artigo, não pago no respectivo vencimento, incidirão juros de mora, calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento.” Com efeito, como já ressaltado anteriormente, sobre a multa de mora não há de se cogitar na incidência de juros, pois referida penalidade pecuniária é desprovida de vencimento, exceto quando exigida mediante lançamento de ofício, como regula o dispositivo supra, momento o qual se impõe um prazo legal para o seu adimplemento. Da mesma forma ocorre com relação aos juros. Estes não têm vencimento legal para o seu cumprimento, a menos que exigidos por meio de lançamento de ofício. Resta claro, pelo dispositivo acima transcrito, que sobre a penalidade exigida de ofício incidem juros de mora à taxa Selic. No âmbito do Poder Judiciário, o Superior Tribunal de Justiça, em recente decisão, já legitimou a incidência dos juros sobre a totalidade do crédito tributário, aí incluída a multa de ofício. Vejase: PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. MANDADO DE SEGURANÇA. JUROS DE MORA SOBRE MULTA. INCIDÊNCIA. PRECEDENTES DE AMBAS AS TURMA QUE COMPÕEM A PRIMEIRA SEÇÃO DO STJ. 1. Entendimento de ambas as Turmas que compõem a Primeira Seção do STJ no sentido de que: "É legítima a incidência de juros de mora sobre multa fiscal punitiva, a qual integra o Fl. 424DF CARF MF Processo nº 10469.720162/201428 Acórdão n.º 1402003.347 S1C4T2 Fl. 425 18 crédito tributário." (REsp 1.129.990/PR, Rel. Min. Castro Meira, DJ de 14/9/2009). De igual modo: REsp 834.681/MG, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJ de 2/6/2010. AgRg no REsp 1.335.688PR, Rel. Min. Benedito Gonçalves, julgado em 4/12/2012 DJe 10/12/2012 Acresçase que a matéria já está amplamente consolidada nesta Corte no âmbito das três turmas da CSRF: JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de ofício proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de ofício, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic. (Acórdão 9101002.180, CSRF, 1ª Turma) JUROS MORATÓRIOS INCIDENTES SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. TAXA SELIC.A obrigação tributária principal surge com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto tanto o pagamento do tributo como a penalidade pecuniária decorrente do seu inadimplemento, incluindo a multa de oficio proporcional. O crédito tributário corresponde a toda a obrigação tributária principal, incluindo a multa de oficio proporcional, sobre a qual devem incidir os juros de mora à taxa Selic. (Acórdão 9202003.821, CSRF 2ª Turma) JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA.O crédito tributário, quer se refira a tributo quer seja relativo à penalidade pecuniária, não pago no respectivo vencimento, está sujeito à incidência de juros de mora, calculado à taxa Selic até o mês anterior ao pagamento, e de um por cento no mês de pagamento. (Acórdão 9303003.385, CSRF, 3ª Turma). Assim, neste item, NEGO PROVIMENTO ao Recurso Voluntário, mantendo a incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício lançada. Concluindo, voto no sentido de DAR PROVIMENTO PARCIAL ao recurso voluntário para exonerar parte dos lançamentos nos períodos e valores abaixo discriminados: É como voto. (assinado digitalmente) Paulo Mateus Ciccone DEMONSTRATIVO DOS VALORES LANÇADOS, EXONERADOS E MANTIDOS Fl. 425DF CARF MF Processo nº 10469.720162/201428 Acórdão n.º 1402003.347 S1C4T2 Fl. 426 19 TRIBUTO IRPJ CÓDIGO 2917 VALORES MANTIDOS – BASE DE CÁLCULO – VALORES TRIBUTÁVEIS 1 2 3 4 = (2+ 3) Período LANÇADO EXONERADO MANTIDO 1º Trim.2009 917.374,26 20.143,40 897.230,86 2º Trim.2009 4.849.732,70 21.821,54 4.827.911,16 3º Trim.2009 4.956.592,96 21.821,54 4.934.771,42 4º Trim.2009 4.732.287,23 21.821,54 4.710.465,69 1º Trim.2010 3.030.167,70 21.821,54 3.008.346,16 2º Trim.2010 2.609.514,54 21.821,54 2.587.693,00 3º Trim.2010 2.969.527,45 21.821,54 2.947.705,91 4º Trim.2010 2.665.260,03 54.550,85 2.610.709,18 1º Trim.2011 2.539.306,59 69.097,21 2.470.209,38 2º Trim.2011 6.235.688,96 53.989,99 6.181.698,97 3º Trim.2011 3.699.505,35 47.275,67 3.652.229,68 4º Trim.2011 1.379.534,95 47.275,67 1.332.259,28 TOTAIS 40.584.492,72 423.262,03 40.161.230,69 (*) VALORES SUJEITOS À INCIDÊNCIA DE JUROS DE MORA NA LIQUIDAÇÃO TRIBUTO CSLL CÓDIGO 2973 VALORES MANTIDOS – BASE DE CÁLCULO – VALORES TRIBUTÁVEIS 1 2 3 4 = (2+ 3) Período LANÇADO EXONERADO MANTIDO 1º Trim.2009 917.374,26 20.143,40 897.230,86 2º Trim.2009 4.849.732,70 21.821,54 4.827.911,16 3º Trim.2009 4.956.592,96 21.821,54 4.934.771,42 4º Trim.2009 4.732.287,23 21.821,54 4.710.465,69 1º Trim.2010 3.030.167,70 21.821,54 3.008.346,16 2º Trim.2010 2.609.514,54 21.821,54 2.587.693,00 3º Trim.2010 2.969.527,45 21.821,54 2.947.705,91 4º Trim.2010 2.665.260,03 54.550,85 2.610.709,18 1º Trim.2011 2.539.306,59 69.097,21 2.470.209,38 2º Trim.2011 6.235.688,96 53.989,99 6.181.698,97 3º Trim.2011 3.699.505,35 47.275,67 3.652.229,68 4º Trim.2011 1.379.534,95 47.275,67 1.332.259,28 TOTAIS 40.584.492,72 423.262,03 40.161.230,69 (*) VALORES SUJEITOS À INCIDÊNCIA DE JUROS DE MORA NA LIQUIDAÇÃO Fl. 426DF CARF MF Processo nº 10469.720162/201428 Acórdão n.º 1402003.347 S1C4T2 Fl. 427 20 Fl. 427DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16004.000403/2008-14
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 03 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Sep 13 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Obrigações Acessórias
Período de apuração: 01/01/2003 a 31/12/2003, 01/01/2006 a 31/10/2006
NÃO OBSERVÂNCIA DO PRAZO PARA INTERPOSIÇÃO DE RECURSO VOLUNTÁRIO. INTEMPESTIVIDADE. NÃO CONHECIMENTO.
Recurso Voluntário interposto quando já transcorrido o prazo de 30 dias previsto no art. 33 do Decreto nº 70.235/72 importa em intempestividade, tendo por conseqüência o seu não conhecimento.
Numero da decisão: 2401-005.594
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, não conhecer do recurso voluntário, por intempestividade.
(assinado digitalmente)
Miriam Denise Xavier Presidente
(assinado digitalmente)
Luciana Matos Pereira Barbosa - Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Cleberson Alex Friess, Andrea Viana Arrais Egypto, Francisco Ricardo Gouveia Coutinho, Rayd Santana Ferreira, Jose Luis Hentsch Benjamin Pinheiro, Luciana Matos Pereira Barbosa, Matheus Soares Leite, Miriam Denise Xavier (Presidente).
Nome do relator: LUCIANA MATOS PEREIRA BARBOSA
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, não conhecer do recurso voluntário, por intempestividade. (assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier Presidente (assinado digitalmente) Luciana Matos Pereira Barbosa - Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Cleberson Alex Friess, Andrea Viana Arrais Egypto, Francisco Ricardo Gouveia Coutinho, Rayd Santana Ferreira, Jose Luis Hentsch Benjamin Pinheiro, Luciana Matos Pereira Barbosa, Matheus Soares Leite, Miriam Denise Xavier (Presidente).
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INTEMPESTIVIDADE. NÃO CONHECIMENTO. Recurso Voluntário interposto quando já transcorrido o prazo de 30 dias previsto no art. 33 do Decreto nº 70.235/72 importa em intempestividade, tendo por conseqüência o seu não conhecimento. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, não conhecer do recurso voluntário, por intempestividade. (assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier – Presidente (assinado digitalmente) Luciana Matos Pereira Barbosa Relatora AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 00 4. 00 04 03 /2 00 8- 14 Fl. 110DF CARF MF 2 Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Cleberson Alex Friess, Andrea Viana Arrais Egypto, Francisco Ricardo Gouveia Coutinho, Rayd Santana Ferreira, Jose Luis Hentsch Benjamin Pinheiro, Luciana Matos Pereira Barbosa, Matheus Soares Leite, Miriam Denise Xavier (Presidente). Relatório Inicialmente, destaco que encontramse apensos a estes autos, os processos nº 16004.000470/200839, 16004.000404/200869 e 16004.000405/200811. Contra o contribuinte acima qualificado foi lavrado o Auto de Infração de fl. 2, consubstanciado no DEBACD 37.117.2209, em decorrência de não recolhimento por parte da autuada das contribuições previdenciárias rurais devidas à Previdência Social, correspondente à parte da subrogação nas obrigações dos produtores rurais (pessoas físicas), conforme consta no Relatório Fiscal (fls. 24/25). Consta, ainda, do citado Relatório Fiscal, que o período de apuração referese a 01/2003 à 12/2003 e 01/2006 à 10/2006, e que tais contribuições não foram incluídas nas respectivas GFIP’s, motivando a multa de R$ 108.077,71 (cento e oito mil e setenta e sete reais e setenta e um centavos). Devidamente cientificado do lançamento em 14/07/2008 (fl. 34), o Interessado apresentou impugnação tempestiva em 29/07/2008 (fls. 38/54), alegando, em síntese: (i) que a previsão utilizada para lavratura do Auto de Infração é o art. 25, inciso I, da Lei 8.212/91, com as alterações decorrentes da Lei nº 8.540/92, nº 8.870/94 e nº 9.52897; (ii) que o caso se trata do denominado “novo FUNRURAL”, e que o artigo 30, III e IV da Lei 8.212/91 prevê o prazo e a obrigação da empresa adquirente, consumidora ou consignatária ou a cooperativa de recolher a contribuição a que trata o art. 25 daquela lei, bem como a condição de se subrogar nesta obrigação; (iii) que a constitucionalidade da referida contribuição (art. 25, Lei 8.212/91) vinha sendo discutida no Tribunais, destacandose o julgamento em segundo grau do TRF 3, tendo este suscitado incidente de inconstitucionalidade a ser submetido ao órgão especial (Processo nº 2000.61.06.00.0000013), e outra estaria sendo julgada pelo STF (RE 363.852/MG), já tendo o Min. Marco Aurélio proferido, à época, voto pela inconstitucionalidade da exação; (ii) que outros 4 Ministros, a saber, Eros Grau, Ricardo Lewandowski, Joaquim Barbosa e Carlo Brito haviam conhecido e dado provimento ao recurso em questão, tendo o Min. Cezar Peluso pedido vista; (iii) que, portanto, 5 dos 11 Ministros já haviam votado favoravelmente à causa, ou seja, pela inconstitucionalidade da contribuição previdenciária denominada “novo Funrural”; (iv) que tratandose de discussão sobre a inconstitucionalidade de exação, caberia sua suscitação em via administrativa, com base no artigo 1º do Decreto nº 2.346/97; Fl. 111DF CARF MF Processo nº 16004.000403/200814 Acórdão n.º 2401005.594 S2C4T1 Fl. 3 3 (v) que antes da EC 20/98, o art. 195 da CF definia que as contribuições devidas pela empresa e destinadas ao financiamento da Seguridade Social deveriam recair sobre a folha de saláios, ao faturamento e lucro e que ao dispor sobre a receita bruta da comercialização da produção rural, o artigo 25, I, da Lei 8.212/91, extrapolou o texto constitucional, em decorrência da instituição de nova fonte de custeio da previdência social. Cita jurisprudências e doutrinas sobre o tema; Ao final requer o acolhimento da Impugnação para: (a) declarar a improcedência do Auto de Infração e; (b) cancelamento do débito levantado pela fiscalização. A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Ribeirão Preto lavrou Decisão Administrativa contextualizada no Acórdão nº 1421.877 da 7ª Turma da DRJ/RPO, às fls. 79/83, julgando improcedente a impugnação apresentada, mantendo o lançamento fiscal. Recordese: “ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2003 a 31/10/2006 CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA DO PRODUTOR RURAL PESSOA FÍSICA SOBRE A RECEITA BRUTA PROVENIENTE DA COMERCIALIZAÇÃO DA PRODUÇÃO RURAL. SUBROGAÇÃO DA EMPRESA ADQUIRENTE. A empresa adquirente se subroga na obrigação de recolher as contribuições devidas pelo produtor rural pessoal física, destinadas ao financiamento dos Riscos Ambientais do Trabalho RAT, independentemente de as operações de venda terem sido realizadas diretamente com o produtor ou com intermediário pessoa física. LEGALIDADE E CONSTITUCIONALIDADE. É vedado à Administração Pública o exame da Legalidade e Constitucionalidade das Leis. Lançamento Procedente” Do resultado do julgamento, a empresa Recorrente foi intimada em 18/12/2009 (fl. 86). À fl. 90, a DRJ/RPO lavrou termo de perempção informando ter transcorrido o prazo para a contribuinte apresentar Recurso Voluntário, certificando, também, a ausência do pagamento do lançamento, informando as cautelas de praxe. Ainda assim, inconformada com a decisão exarada pelo órgão julgador a quo, a Recorrente interpôs Recurso Voluntário em 22/01/2010 (às fls. 91/95), argumentando o que segue, inclusive repisando argumentos já lançados em impugnação: (i) que a decisão da DRFB merece reforma, uma vez que ficou demonstrado dos autos que a cobrança do referido tributo é inconstitucional; (ii) que o artigo 30, III e IV da Lei 8.212/91 prevê o prazo e a obrigação da empresa adquirente, consumidora ou consignatária ou a cooperativa de recolher a contribuição a que trata o art. 25 daquela lei, bem como a condição de se subrogar nesta obrigação; Fl. 112DF CARF MF 4 (iii) que a constitucionalidade da referida contribuição vinha sendo discutida no Tribunais, destacandose o julgamento em segundo grau do TRF 3, tendo este suscitado incidente de inconstitucionalidade a ser submetido ao órgão especial (Processo nº 2000.61.06.00.0000013), e outra estaria sendo julgada pelo STF (RE 363.852/MG), já tendo o Min. Marco Aurélio proferido, à época, voto pela inconstitucionalidade da exação; (iii) que outros 4 Ministros, a saber, Eros Grau, Ricardo Lewandowski, Joaquim Barbosa e Carlo Brito haviam conhecido e dado provimento ao recurso em questão, tendo o Min. Cezar Peluso pedido vista; (iv) que, portanto, 5 dos 11 Ministros já haviam votado favoravelmente à causa, ou seja, pela inconstitucionalidade da contribuição previdenciária denominada “novo Funrural”; (v) que é cabível a alegação de inconstitucionalidade de exação por via administrativa e que o art. 25, I, da Lei nº 8.212/91 extrapolou o texto constitucional, em decorrência da instituição de nova fonte de custeio da previdência social e que esta só teria validade se instituída após a EC 20/98, ou por meio de Lei Complementar; (vi) que antes da EC 20/98, o art. 195 da CF definia que as contribuições devidas pela empresa e destinadas ao financiamento da Seguridade Social deveriam recair sobre a folha de saláios, ao faturamento e lucro e que ao dispor sobre a receita bruta da comercialização da produção rural, o artigo 25, I, da Lei 8.212/91, extrapolou o texto constitucional, em decorrência da instituição de nova fonte de custeio da previdência social. Diante disso, requer o provimento do recurso para se declarar a improcedência do Auto de Infração e consequentemente o cancelamento do débito levantado pela fiscalização. Após apresentação do Recurso Voluntário, o contribuinte apresentou petição com documentos (fls. 99/104), alegando que “por votação unânime, o Plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) declarou em julgamento realizado na data de 03 de fevereiro de 2010, a inconstitucionalidade do artigo 1° da Lei 8.540/92, que deu nova redação aos artigos 12, incisos V e VI, 25, incisos I e II, e 30, inciso IV, da Lei 8.212/91, com a redação atualizada até a Lei 9.528/97, que prevê o recolhimento de contribuição para o Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural (FUNRURAL)” e que “diante da inconstitucionalidade declarada pelo Colendo Supremo Tribunal Federal acima noticiada, o presente auto de infração resta prejudicado, devendo o mesmo ser declarado improcedente, e conseqüentemente cancelado o débito levantado pela fiscalização”. É o relatório. Voto Conselheira Luciana Matos Pereira Barbosa Relatora 1. DOS PRESSUPOSTOS DE ADMISSIBILIDADE A Recorrente foi cientificada da r. decisão em debate no dia 18/12/2009 (sextafeira), conforme AR juntado à fl. 86. Fl. 113DF CARF MF Processo nº 16004.000403/200814 Acórdão n.º 2401005.594 S2C4T1 Fl. 4 5 De acordo com o artigo 33 do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, “Da decisão caberá recurso voluntário, total ou parcial, com efeito suspensivo, dentro dos trinta dias seguintes à ciência da decisão”. O dies a quo teve início em 21/12/2009 (segundafeira), e o trintídio legal regulamentar encerrouse em 19/01/2010 (terçafeira). Assim, lavrou a DRJ/POR, em 20/01/2010, termo de perempção (fl. 90). Contudo, conforme se observa às fls. 91/95, a Recorrente apresentou Recurso Voluntário em 22/01/2010, ou seja, fora do prazo legal. Portanto, em razão da intempestivamente, NÃO CONHEÇO DO RECURSO já que AUSENTE os requisitos de admissibilidade. 2. CONCLUSÃO: Pelos motivos expendidos, NÃO CONHEÇO do Recurso Voluntário, pois manifestamente intempestivo. É como voto. (assinado digitalmente) Luciana Matos Pereira Barbosa. Fl. 114DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 12448.725982/2014-80
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Aug 07 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Sep 21 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2009, 2010
RECURSO ESPECIAL. REQUISITOS DE ADMISSIBILIDADE.
1- Os critérios de necessidade/utilidade traduzem o interesse processual. Não deve ser conhecido o recurso que, sendo provido, não ensejará nenhum proveito para o recorrente no âmbito do próprio processo.
2- A falta de comprovação de divergência inviabiliza o processamento do recurso especial. O acórdão paradigma não se refere a lançamento por glosa de custos/despesas (caso do acórdão recorrido), mas sim a lançamento por omissão de receitas, receitas que estariam configuradas nos valores que as controladoras no estrangeiro remeteram à controlada no Brasil. Não há paralelo entre o acórdão recorrido (que tratou de glosa de custos/despesas referentes a rubricas específicas) e o paradigma, que permita a caracterização de divergência a ser sanada mediante processamento de recurso especial. Os contextos fáticos distintos justificam as diferentes decisões.
Numero da decisão: 9101-003.683
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em não conhecer do Recurso Especial, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e Gerson Macedo Guerra, que conheceram do recurso. Nos termos do Art. 58, §5º, Anexo II do RICARF, o conselheiro Nelso Kichel não votou nesse julgamento, por se tratar de questão já votada pelo conselheiro Flávio Franco Correa na reunião anterior. Julgamento iniciado na reunião de 07/2018 e concluído 08/2018, no período da manhã.
(assinado digitalmente)
Rafael Vidal de Araujo - Relator e Presidente em Exercício.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Viviane Vidal Wagner, Luís Flávio Neto, Nelso Kichel (suplente convocado em substituição ao conselheiro Flávio Franco Corrêa), Gerson Macedo Guerra, Demetrius Nichele Macei, Rafael Vidal de Araújo (Presidente em Exercício). Ausente, justificadamente, o conselheiro Flávio Franco Corrêa.
Nome do relator: RAFAEL VIDAL DE ARAUJO
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Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2009, 2010 RECURSO ESPECIAL. REQUISITOS DE ADMISSIBILIDADE. 1 Os critérios de necessidade/utilidade traduzem o interesse processual. Não deve ser conhecido o recurso que, sendo provido, não ensejará nenhum proveito para o recorrente no âmbito do próprio processo. 2 A falta de comprovação de divergência inviabiliza o processamento do recurso especial. O acórdão paradigma não se refere a lançamento por glosa de custos/despesas (caso do acórdão recorrido), mas sim a lançamento por omissão de receitas, receitas que estariam configuradas nos valores que as controladoras no estrangeiro remeteram à controlada no Brasil. Não há paralelo entre o acórdão recorrido (que tratou de glosa de custos/despesas referentes a rubricas específicas) e o paradigma, que permita a caracterização de divergência a ser sanada mediante processamento de recurso especial. Os contextos fáticos distintos justificam as diferentes decisões. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em não conhecer do Recurso Especial, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e Gerson Macedo Guerra, que conheceram do recurso. Nos termos do Art. 58, §5º, Anexo II do RICARF, o conselheiro Nelso Kichel não votou nesse julgamento, por se tratar de questão já votada pelo conselheiro Flávio Franco Correa na reunião anterior. Julgamento iniciado na reunião de 07/2018 e concluído 08/2018, no período da manhã. (assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 12 44 8. 72 59 82 /2 01 4- 80 Fl. 3949DF CARF MF Processo nº 12448.725982/201480 Acórdão n.º 9101003.683 CSRFT1 Fl. 3 2 Rafael Vidal de Araujo Relator e Presidente em Exercício. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Viviane Vidal Wagner, Luís Flávio Neto, Nelso Kichel (suplente convocado em substituição ao conselheiro Flávio Franco Corrêa), Gerson Macedo Guerra, Demetrius Nichele Macei, Rafael Vidal de Araújo (Presidente em Exercício). Ausente, justificadamente, o conselheiro Flávio Franco Corrêa. Relatório Tratase de recurso especial de divergência interposto pela contribuinte acima identificada, fundamentado atualmente no art. 67 e seguintes do Anexo II da Portaria MF nº 343, de 09/06/2015, que aprova o Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), em que se alega divergência de interpretação da legislação tributária quanto às seguintes matérias: 1) artificialidade da divisão da operação entre os contratos de afretamento e de prestação de serviço (split contratual); e 2) impossibilidade de aplicação da multa isolada de 50% de que trata o art. 44, II, "b" da Lei nº 9.430/96, em concomitância com a multa de ofício de 75%. No exame de admissibilidade, foi dado seguimento ao recurso apenas em relação à matéria constante do item "1" acima indicado. Houve negativa de seguimento em relação à matéria tratada no item "2", conforme o despacho exarado em 02/06/2017 pelo Presidente da 4ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF. Na sequência, a contribuinte apresentou agravo contra o exame de admissibilidade feito pelo Presidente da 4ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento, mas a negativa de seguimento do recurso em relação à segunda divergência foi confirmada pelo Presidente da Câmara Superior de Recursos Fiscais, em caráter definitivo, conforme despacho decisório exarado em 21/07/2017. A recorrente insurgiuse contra o Acórdão nº 1402002.456, de 11/04/2017, por meio do qual a 2ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF, por unanimidade de votos, decidiu manter a glosa de custos/despesas que embasou o lançamento contido nos presentes autos. O acórdão recorrido contém a ementa e a parte dispositiva descritas abaixo: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2009 DECADÊNCIA. TRIBUTOS SUJEITOS A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. O prazo decadencial qüinqüenal para o Fisco constituir o crédito tributário (lançamento de ofício) contase do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, nos casos em que a lei não Fl. 3950DF CARF MF Processo nº 12448.725982/201480 Acórdão n.º 9101003.683 CSRFT1 Fl. 4 3 prevê o pagamento antecipado da exação ou quando, a despeito da previsão legal, o mesmo inocorre, sem a constatação de dolo, fraude ou simulação do contribuinte, inexistindo declaração prévia do débito (STJ Primeira Seção de Julgamento, Resp 973.733/SC, Relator Ministro Luiz Fux, julgado em 12/08/2009, DJ 18/09/2009). ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2009, 2010 CUSTOS E DESPESAS. DEDUÇÃO. A dedução dos gastos com custos ou despesas operacionais não é vinculada apenas à necessidade, usualidade e normalidade, mas à primordial verificação se o ônus foi efetivamente do sujeito passivo que computou os valores sob discussão. MULTA ISOLADA. CABIMENTO. A partir das alterações no art. 44, da Lei nº 9.430/96, trazidas pela MP nº 351/2007, convertida na Lei nº 11.488/2007, em função de expressa previsão legal deve ser aplicada a multa isolada sobre os pagamentos que deixaram de ser realizados concernentes ao imposto de renda a título de estimativa, seja qual for o resultado apurado no ajuste final do período de apuração e independentemente da imputação da multa de ofício exigida em conjunto com o tributo. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2009, 2010 AUTUAÇÃO REFLEXA. RESULTADO DO PROCESSO PRINCIPAL. Tratandose de autuação reflexa, aplicase a ela o resultado do julgamento referente ao processo tido como principal. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, em negar provimento ao recurso voluntário: i) por unanimidade de votos quanto ao mérito da exigência e: ii) por maioria de votos quanto à multa isolada. Vencidos nessa parte os Conselheiros Demetrius Nichele Macei, Leonardo Luis Pagano Gonçalves e Caio Cesar Nader Quintella, que votaram por cancelar a exigência dessa penalidade. No recurso especial, a contribuinte afirma que o acórdão recorrido deu à legislação tributária interpretação divergente da que foi dada em outros processos, relativamente às matérias acima mencionadas. Quanto à matéria admitida do recurso (artificialidade da divisão da operação entre os contratos de afretamento e de prestação de serviço split contratual), a contribuinte apresenta os seguintes argumentos: A COMPROVAÇÃO DO DISSÍDIO JURISPRUDENCIAL A ARTIFICIALIDADE DO "SPLIT" CONTRATUAL Fl. 3951DF CARF MF Processo nº 12448.725982/201480 Acórdão n.º 9101003.683 CSRFT1 Fl. 5 4 conforme já mencionado, o v. acórdão recorrido julgou procedente a autuação por entender que a fiscalização descaracterizou o "split" contratual diante da confusão entre o contrato de prestação de serviço e o contrato de afretamento. Em outras palavras, no entendimento da autuação e do acórdão recorrido, a bipartição dos contratos entre prestação de serviços (empresa brasileira) e afretamento (empresa estrangeira) é artificial na medida em que ambas as atividades foram executadas de forma conjunta à Petrobras; contudo, de forma contrária ao que foi definido pela Turma a quo e em consonância com o entendimento defendido pela recorrente, o Acórdão paradigma nº 1103 001.105, que trata da mesma situação fática, reconhece expressamente que a autuação fiscal não pode ser procedente se não houver nos autos nenhuma indicação de que os limites previstos nos editais tenham sido objeto de alguma negociação entre o licitante e os participantes do certame ou de que os recursos recebidos pela recorrente de suas "controladoras" sejam por prestação de serviços a essas e parte por prestação de serviços à contratante ou licitante; em cumprimento ao disposto pelo §6º do art. 67 do Regimento Interno do CARF, procedese a seguir ao cotejo analítico entre as ementas do acórdão recorrido e do acórdão paradigma: Ementa do Acórdão Paradigma ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2002, 2003, 2004 PRELIMINARES DE NULIDADE O uso de informações coletadas no âmbito de um MPF para a instrução primária dos lançamentos efetuados sob outro MPF não constitui emprego de prova emprestada. Tratase de continuidade da própria instrução primária dos lançamentos, a qual se iniciou com o primeiro MPFF e se concluiu com o segundo MPFF. O fato de se ter emitido novo MPFF, embora a fiscalizada tenha sido cientificada do primeiro MPFF e do início do procedimento fiscal, não viola a Portaria RFB 4.066/07, sendo, antes, medida de cautela. DECADÊNCIA CIÊNCIA DOS LANÇAMENTOS EM 27/12/2007 O IRPJ e a CSLL tiveram sua apuração anual, no anocalendário de 2002, conforme DIPJ/03, o que afasta a decadência. A exigência de PIS e de Cofins se deu somente para dezembro de 2002, ou melhor, para todo o ano calendário de 2002, definindo o momento do fato gerador para 31/12/02, de modo que se afasta a decadência. PIS, COFINS LANÇAMENTOS ANUAIS E TRIMESTRAIS Não se trata de erro matemático, mas de erro jurídico. A recondução em bases mensais, conquanto aritmeticamente possível, juridicamente não a é, sob pena de refazimento dos autos de infração. Vício substancial que inquina os lançamentos de nulidade material. Fl. 3952DF CARF MF Processo nº 12448.725982/201480 Acórdão n.º 9101003.683 CSRFT1 Fl. 6 5 IRPJ, CSLL TRANSFERÊNCIAS DO EXTERIOR DE JANEIRO A SETEMBRO DE 2003 A DIPJ/04 de evento especial de incorporação da recorrente em 30/9/03 não foi rechaçada pelo autuante. Incabível a exigência de IRPJ e de CSLL sob fato gerador em 31/12/03. IRPJ, CSLL, PIS, COFINS TRANSFERÊNCIAS DO EXTERIOR DE OUTUBRO A DEZEMBRO DE 2003 Resulta comprovado que as transferências de recursos da controladora da recorrente foram para integralizações de seus aumentos de seu capital. Exigências afastadas. FLUXO TRIANGULAR DE RECURSOS PREÇO POR PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS SUBVENÇÕES PARA CUSTEIO RECUPERAÇÕES DE CUSTOS DEDUZIDOS 1 Motivo central é de artificialidade entre os preços praticados entre a contratante com as contratadas empresas estrangeiras (por afretamento de embarcações), e os preços praticados entre a mesma contratante e a recorrente, controlada das empresas estrangeiras, emergindo a parte do preço pela prestação de serviços à contratante pela recorrente, com os recursos transferidos a essa pelas empresas estrangeiras. Os editais de licitação internacional preveem o limite percentual (sobre o preço global) a ser praticado pela prestação de serviços, sem exceção. Preços contratados conforme os limites percentuais estabelecidos nos editais de licitação. Não há nos autos nenhuma indicação de que os limites previstos nos editais tenham sido objeto de alguma negociação entre o licitante e os participantes do certame. Também não há nenhuma discriminação de que parte dos recursos recebidos pela recorrente de suas “controladoras” sejam por prestação de serviços a essas e parte por prestação de serviços à contratante licitante. 2 Motivo alternativo é de que os recursos transferidos pelas empresas estrangeiras à recorrente são subvenções para custeio ou recuperações de custos deduzidos. Recuperação de custos e subvenções para custeio não são sinônimos. Se os gastos foram em benefício das empresas estrangeiras, os valores transferidos para a recorrente até o limite dos gastos não foram subvenções para custeio. Do exame da documentação constante dos autos, não há indicação que os gastos em benefício das empresas estrangeiras tenham transitado como despesa da recorrente; o que afasta a exigência por recuperação de custos deduzidos as transferências não transitaram como receita na recorrente. Do mesmo exame, constatase a ausência nas contas dos Razão de lançamentos contábeis de ingressos de recursos de R$ 1.063.093,46 em 2002, e de R$ 17.018.000,00 em 2004. Parcelas que representam subvenções para custeio. Exigências afastadas parcialmente. Fl. 3953DF CARF MF Processo nº 12448.725982/201480 Acórdão n.º 9101003.683 CSRFT1 Fl. 7 6 CSLL FALTA DE COMPENSAÇÃO DE BASES NEGATIVA DE CSLL PARA OS TRIMESTRES DE 2004 Não consta a compensação de bases negativas de CSL apuradas nos próprios trimestres do anocalendário de 2004, como declaradas na ficha 17 da DIPJ/05. Porquanto essas bases negativas de CSL não foram questionadas pelo autuante, impõemse suas compensações na apuração dos valores tributáveis dos trimestres de 2004. a fim de deixar ainda mais evidente a divergência entre o acórdão paradigma e o acórdão recorrido, e em cumprimento do disposto pelo §6º do art. 67 do Regimento Interno do CARF, promovese a seguir ao cotejo analítico entre trechos do acórdão recorrido e dos acórdãos paradigmas: [...]; comprovado, portanto, o dissídio jurisprudencial, a recorrente passará a demonstrar o prequestionamento da matéria; COMPROVAÇÃO DO PREQUESTIONAMENTO no recurso voluntário, a questão do split contratual foi tratada com minúcia no tópico "a legitimidade do modelo contratual adotado"; COMPROVAÇÃO DA DIVERGÊNCIA DE INTERPRETAÇÃO DA LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA para fins de cumprimento do requisito do art. 67, §1º do RICARF, a legislação tributária interpretada de maneira divergente é, no que diz respeito ao split contratual, os arts. 5º e 14, da então IN 844/2008 e, posteriormente, em ratificação, o art. 1° da Lei n° 9.481/1997 (com redação conferida pelo art. 106 da Lei 13.043/14): [...]; no acórdão recorrido, interpretouse que o split contratual entre afretamento e prestação de serviços foi artificial e não correspondia a realidade, pois ambas as atividades foram prestadas em conjunto à Petrobras. À fls. 3558, o acórdão recorrido consigna de forma categórica que "ainda que a interessada utilize as normas do REPETRO para justificar a formalização dos contratos nos moldes efetuados, fato é que o Fisco não os acatou. Quanto ao advento de legislação superveniente que legitimaria os procedimentos (Lei n° 13.043/2014) não há até agora indicativo de aplicação a fatos geradores anteriores". Por sua vez, o acórdão paradigma nº 1103001.105, à fl. 5833 daqueles autos, deixa claro que um dos principais argumentos da Recorrente é que "a maior parte do preço global ficou com a empresa no exterior, sem a incidência de IR no Brasil, por aplicação da hipótese de alíquota zero do art. 1º, I, da Lei nº 9.481/97. A parcela residual do preço, atribuída à recorrente, não apresentava suficiência para que ela apresentasse lucros" e conclui que não houve artificialidade na determinação dos preços de afretamento e de prestação de serviços pela recorrente naqueles autos; DO MÉRITO A INEXISTÊNCIA DE ARTIFICIALIDADE NO SPLIT CONTRATUAL para que se tenha um perfeito entendimento da controvérsia, é preciso tecer alguns comentários sobre o modelo de contratação adotado, utilizado de forma padrão na Fl. 3954DF CARF MF Processo nº 12448.725982/201480 Acórdão n.º 9101003.683 CSRFT1 Fl. 8 7 indústria de óleo e gás, que consiste na contratação coligada em que há a celebração simultânea de um contrato de prestação de serviços, com uma entidade residente no Brasil, e de um contrato de afretamento, com uma entidade residente no exterior ("split contract"); a rejeição do Fisco ao modelo em causa está bem demonstrada no TVF: [...]; ocorre que o TVF e o Acórdão ora recorrido não poderiam ter rejeitado ou descaracterizado o modelo contratual bipartido, tendo em vista que este é legal, uma vez que jamais vedado em lei, e legítimo, incentivado pelo Regime Especial de Exportação e Importação de Bens Destinados às Atividades de Exploração e Produção de Petróleo e Gás REPETRO (IN RFB 844/08) e recentemente ratificado pelo art. 106 da Lei 13.043/14; referido modelo de contrato de afretamento acabou sendo utilizado em larga escala em razão da regulamentação do REPETRO, que considera integrante do regime tão somente os bens que "pertençam a pessoa sediada no exterior", "sejam importados sem cobertura cambial" e "procedam diretamente do exterior"; o mesmo ocorre em relação à importação temporária de "máquinas aparelhos, instrumentos, ferramentas, equipamentos e outras partes ou peças, incluídos os sobressalentes, destinados a garantir a operacionalidade do Repetro: [...]; ou seja, o sistema do REPETRO, mais que legitima, incentiva que as concessionárias importem as embarcações de empresas estrangeiras, em detrimento às embarcações de empresas nacionais e/ou em território nacional. Por outro lado, é evidente que o diaadia das prestações de serviço de extração e perfuração de poços de petróleo teria que ocorrer no local, razão pela qual tais empresas criaram subsidiárias locais para atender a estes serviços; dessa forma, durante muitos anos, as empresas foram estimuladas a manter os contratos de afretamento com empresas no exterior, sendo lógica a contratação da prestação dos serviços no Brasil; por tal razão, e a fim de acabar com a pretensão do Fisco de considerar tais estruturas ilegítimas, foi que o legislador brasileiro recentemente decidiu ratificar, através do art. 106 da Lei 13.043/14, que conferiu nova redação ao art. 1º da Lei nº 9.481/1997, a legitimidade e legalidade do modelo bipartido de contratos. In verbis: [...]; notese que os percentuais adotados no caso concreto (80% afretamento e 20% serviços) são exatamente aqueles adotados pelo legislador; logo, diferentemente do que sustenta o acórdão recorrido, o art. 1º da Lei n° 9.481/1997 (com redação conferida pelo art. 106 da Lei 13.043/14) deve sim servir como parâmetro para demonstração da legitimidade do modelo contratual utilizado por todo o setor de petróleo e dos percentuais aplicados nos contratos no caso concreto. Ainda que os fatos geradores tenham ocorrido anteriormente à entrada em vigor do novo texto legal; e não poderia ser diferente, pois os serviços são a parte menos importante dos contratos coligados, vindo a maior parte dos custos e da receita, de fato, do contrato de afretamento. Vejase abaixo tabela com outras embarcações do tipo jackup, cujo preço para construção, em dólares, chega a 530 milhões; Fl. 3955DF CARF MF Processo nº 12448.725982/201480 Acórdão n.º 9101003.683 CSRFT1 Fl. 9 8 não restam dúvidas de que o modelo de split é legítimo e que o contrato de afretamento é, de fato, o que produz maior receita, haja vista que o custo do mesmo pode chegar a ser de 10 vezes maior que os custos contabilizados pela recorrente em razão do contrato de prestação de serviços; é certo, no entanto, que tais considerações servem apenas para que os Srs. Julgadores se dissipem da rejeição incorporada pelo TVF e pelo Acórdão e vejam os fatos de forma concreta e objetiva, sem a sombra que o Fisco busca criar quanto à existência de uma suposta simulação, ou "burla", mas que não é afirmada com concretude; por consequência, não pode subsistir o acórdão recorrido quando afirma que "a rejeição dos contratos atinge em cheio a dedutibilidade dos custos e despesas" e que "não está mais em discussão se as despesas foram incorridas ou se são necessárias, mas, previamente a isso, quem efetivamente arcou com elas". Ora, uma vez derrubada a premissa do acórdão de que o split contratual é artificial, resta inevitável concluir que a Recorrente faz jus a dedutibilidade dos custos e despesas tidos no desempenho do contrato de prestação de serviços; não é demais lembrar que as despesas incorridas pela recorrente e glosadas pela Fiscalização estão contabilizadas em contas sob a rubrica "MERCADO EXTERNO", senão vejamos: [...]; como sabemos, segundo o artigo 47 da Lei nº 4.506/64 e o artigo 299 do RIR/99, para que a despesa seja dedutível, fazse necessário que o gasto (i) seja necessário à manutenção da atividade da empresa, (ii) seja usual, (iii) tenha sido efetivamente incorrido e (iv) adequadamente comprovado por todos os meios de prova admitidos pelo ordenamento jurídico. Esses requisitos estão perfeitamente presentes em todas as glosas realizadas pelo Fisco; a) A dedutibilidade das despesas da conta "Serviços Prestados MDO" esta conta referese às despesas com os pagamentos das sociedades estrangeiras Eastern Drilling AS e Seadrill Américas Inc., que cederam a mão de obra para a recorrente, chamada comumente de "expatriados"; é preciso ressaltar que a recorrente é empresa do ramo de óleo e gás, cujo objeto, descrito na Cláusula 2ª de seu contrato social, consiste, entre outros, na prestação de "serviços de operação de sondas de perfuração de poços de petróleo e gás natural, bem como de outros equipamentos e sistemas submarinos e terrestres relacionados à atividade petrolífera"; em assim sendo, são atividadesfim da recorrente tanto a prestação de serviços de operação de sondas e equipamentos, como a importação de tais equipamentos e de produtos industrializados em geral, tudo relacionado à atividade petrolífera; por sua vez, o contrato de prestação de serviços firmado entre a recorrente e a Petrobras determinou como obrigações da empresa brasileira a prestação de serviços à concessionária, cf. redação da cláusula 1.1. do contrato de prestação de serviços, notadamente "serviços de perfuração e/ou avaliação e/ou completação e/ou manutenção e ou intervenção ("workover") de poços de petróleo e/ou gás"; Fl. 3956DF CARF MF Processo nº 12448.725982/201480 Acórdão n.º 9101003.683 CSRFT1 Fl. 10 9 o instrumento contratual não só previu a prestação de serviços a ser executada pela recorrente, como também estabeleceu que a empresa brasileira seria responsável pela manutenção dos equipamentos e da própria embarcação, necessários aos serviços de perfuração prestados, devendo ainda arcar com os custos inerentes à referida manutenção, conforme disposição expressa da Cláusula 3.10.2 do contrato de prestação de serviços com a Petrobras; dessa forma, o contrato firmado com a Petrobras, de natureza vinculante e que não foi desconstituído pela fiscalização, demonstra de forma irrefutável a obrigação contratual da recorrente no que tange à prestação de serviços de perfuração e à manutenção dos equipamentos utilizados; por sua vez, a relação direta da cessão de mão de obra com a prestação dos serviços junto à Petrobras também se revela evidente, por diversos documentos; os contratos de cessão de mão de obra entre a recorrente e empresas estrangeiras (apresentados à Fiscalização e anexados como Doc.2 na Impugnação) determinam o fornecimento de mão de obra pelas empresas estrangeiras (Seadrill Américas Inc. e Eastern Drilling AS) visando o preenchimento, por profissionais capacitados, das funções constantes do Anexo I do referido contrato, das quais se extrai, a título de exemplo, as seguintes funções: Assistente de Guindasteiro; Sondador; Assistente de Torrista; Plataformistachefe; Assistente de Perfurador, [...]; a comprovação de que a referida mão de obra foi empregada pela recorrente nas sondas para prestar à Petrobras os serviços de perfuração de poços de petróleo foi feita através de organogramas e de parte das listas das pessoas a bordo das sondas ("POB" ou "People On Board"); nessa esteira, os organogramas anexados no doc. 4 da Impugnação demonstram a relação de pessoal (mão de obra terceirizada), suas respectivas funções em cada sonda, evidenciando o efetivo envolvimento da mão de obra terceirizada na prestação de serviços à Petrobras, nos termos do contrato firmado entre a recorrente e a concessionária; a título de exemplo, vejamse algumas das atividades descritas nos organogramas: [...]; como se nota, as funções exercidas no âmbito da prestação de serviços da recorrente à Petrobras se encontram em linha com o Anexo I dos contratos de cessão de mão de obra, demonstrando que a mão de obra cedida pelas sociedades estrangeiras foi direcionada aos projetos da recorrente, na prestação de serviços à Petrobras; além disso, dos organogramas extraise também a presença de funcionários brasileiros da recorrente. A título de exemplo, o organograma funcional da sonda West Eminence conta com a presença dos seguintes empregados da empresa brasileira: Leandro Ribeiro Martins, José Antonio Santana Vieira, Anselmo Serra dos Santos, e Francisco das Chagas; portanto, há clara presença não só de colaboradores terceirizados, mas de empregados da própria empresa brasileira nas sondas, fato capaz de espancar o "pano de fundo" da teoria fiscal no sentido de que os serviços estariam sendo prestados pela empresa estrangeira e não pela recorrente; Fl. 3957DF CARF MF Processo nº 12448.725982/201480 Acórdão n.º 9101003.683 CSRFT1 Fl. 11 10 ainda no intuito de ratificar que a mão de obra objeto do contrato de cessão foi efetivamente direcionada à prestação dos serviços da recorrente, esta anexou à Impugnação a cópia de parte da extensa lista de pessoal a bordo das sondas, revelando claramente que a fiscalização deixou de verificar a questão com a minúcia exigida ao caso; ora, a lista de colaboradores a bordo das sondas, separada de forma cronológica por ano e mês, demonstra a presença de funcionários terceirizados no exercício das funções da prestação de serviço contratada entre a Petrobras e a recorrente, evidenciando, assim, que a despesa para a contratação de empresa que fornecia mão de obra para a execução dos serviços da recorrente era necessária e usual; digase, por fim, que, ao contrário do que parecem entender o TVF e o Acórdão recorrido, os contratos de cessão de mão de obra envolviam a recorrente e empresas que não se encontravam inseridas no contexto do contrato de afretamento (EASTERN DRILL1NG AS e SEADRILL AMÉRICAS INC.), o que indica a ausência de relação direta entre a empresa afretadora (SEADRILL OFFSHORE AS) e a contratação da mão de obra terceirizada, reforçando a idoneidade dos contratos de cessão; quanto à efetividade da despesa, a mesma restou demonstrada por comprovante de pagamento anexo à Impugnação como doc. 8, o qual foi direcionado às empresas estrangeiras, que são partes do contrato junto com a recorrente; notese que não são realizadas contratações diretamente entre expatriados e recorrente. A empresa estrangeira é contratada, recebendo pelos custos da contratação, mais uma margem de 5%, e é ela que efetua os pagamentos, seleciona os expatriados dentro das condições estabelecidas pela contratante, substitui eventual expatriado quando necessário e é responsável pelo expatriado enquanto empregado; semelhante à estrutura de uma cooperativa de empregados, à recorrente cabia darlhe ordens sobre os serviços que deveriam ser prestados e garantir sua segurança a bordo (artigo 1º), além de assumir responsabilidade pelo trabalho por eles realizado (artigo 3.4), mas não as responsabilidades trabalhistas e previdenciárias; por essa razão, inclusive, a exigência que pretendia o TVF referente à discriminação dos salários pagos a cada contratado, era impossível para a recorrente, que fez o pagamento somente para a empresa que cedeu a mão de obra; digase, por fim, que todos os pontos acima suscitados foram ratificados pela cedente Seadrill Américas Inc., através de declaração anexada à impugnação como Doc.5; dessa forma, havendo sido demonstrada de forma cabal a necessidade, usualidade e efetividade das despesas da conta "Serviços Prestados MDO", em contraponto aos genéricos argumentos do TVF e do Acórdão, não se pode negar a dedutibilidade das despesas; b) A dedutibilidade das despesas das contas "ISS s/ custo serv. Prest Exterior" e "CIDE s/ custo serv. Prest. Exterior" esta conta trata dos tributos incidentes sobre a remuneração pela cessão de mão de obra. Ora, caindo a premissa, cai a conclusão. Ou seja, demonstrado acima que as despesas com as cessões de mão de obra são da prestadora do serviço e são dedutíveis, é Fl. 3958DF CARF MF Processo nº 12448.725982/201480 Acórdão n.º 9101003.683 CSRFT1 Fl. 12 11 preciso reconhecer que também o são os tributos incidentes sobre a receita de referida contratação; além disso, jamais se poderia sustentar que as despesas com tais tributos seriam de responsabilidade da afretadora que jamais poderia ser contribuinte de tais tributos; c) A dedutibilidade das despesas da conta "Custos dos Serviços Prestados tratase de dispêndios com a Visa Solutions para obtenção de vistos, passaportes e autorizações de trabalho para os expatriados, cedidos a fim de integrar a mão de obra da recorrente na prestação de serviços à Petrobras; tais despesas revelamse incontestavelmente dedutíveis, na medida em que necessárias à regularização da contratação da mão de obra empregada na atividadefim da recorrente; ora, sem a contratação de mão de obra qualificada não haveria como proceder à prestação de serviços dentro dos padrões de qualidade exigidos pela Petrobras e, por óbvio, a contratação de estrangeiros necessariamente envolve diversos custos com despachantes e profissionais especializados na obtenção de vistos e regularização dos expatriados junto à administração pública brasileira, que não são apenas necessários, mas também usuais; a efetividade das despesas jamais foi contestada pelo TVF nem pelo Acórdão, havendo sido devidamente demonstrada em sede de Fiscalização através de tabela e diversas notas fiscais; d) A dedutibilidade das despesas da conta "Custos com Importação" esta conta inclui as despesas aduaneiras relativas às importações de partes e peças de reparo e manutenção, pagos em geral à MS Logística (cf. demonstrado à Fiscalização quando da apresentação de notas fiscais e planilhas, as quais não foram impugnadas); não obstante a comprovação e incontrovérsia do efetivo pagamento e do beneficiário, a Fiscalização decidiu glosar tais despesas e o Acórdão manter tais glosas sob o argumento de que seriam custos de titularidade da Seadrill Offshore e não da empresa brasileira; contudo, a argumentação fiscal não se sustenta à luz de suas próprias razões, sendo fruto de análise parcial e fora do contexto da operação; a demonstração quanto ao caráter necessário das despesas com as importações de equipamentos, partes e peças para reparo e manutenção de equipamentos de perfuração utilizados na prestação de serviços em comento pode ser verificada a partir da simples leitura da cláusula 3.10.2 do contrato de prestação de serviços firmado entre a recorrente e a Petrobras, já anexado aos autos, a substituição de peças, manutenção e reparo da embarcação, devendo arcar com os respectivos custos; por sua vez, foi apresentada no doc. 6 da Impugnação relação contendo as declarações de importação e a descrição dos itens importado, a qual revela se tratarem de partes e peças de manutenção/reposição; Fl. 3959DF CARF MF Processo nº 12448.725982/201480 Acórdão n.º 9101003.683 CSRFT1 Fl. 13 12 a relação de referida prestação com o objeto da recorrente deduzse da Cláusula 2ª de seu contrato social, o qual prevê também como objeto da recorrente a "comercialização, importação e exportação de equipamentos e produtos industrializados relacionados à atividade petrolífera"; assim, em possuindo a obrigação de importar partes e peças para a manutenção da embarcação, e sendo os custos a ela imputáveis (cf. cláusula 3.10.2), é certo que despesas fiscais deveriam ser assumidas pela recorrente; e) A dedutibilidade das despesas das demais contas da rubrica "MERCADO EXTERNO": "Custos com Treinamento" e "Outros Custos com Serv Prest MDO Ext" tratase de contas relativas às despesas com pagamentos de diversas empresas de treinamento e segurança do pessoal que presta serviços em nome da recorrente; a recorrente, em sede de fiscalização, demonstrou através de notas fiscais e planilhas o pagamento a diversas destas empresas, dentre elas Step offshore, National Oilwell Varco Norway AS, Training for the Offshore Driling. Além disso, em sede de Impugnação, anexou notas fiscais e contrato de câmbio contendo a descrição dos treinamentos, sendo certo que a Fiscalização não impugnou a efetividade de qualquer dos pagamentos comprovados; no que se refere à necessidade e usualidade das despesas, evidentemente, para a prestação de serviços à Petrobras a bordo, são exigidos determinados treinamentos procedimentais antes do deslocamento às sondas e a providência de alguns equipamentos de segurança; frisese que a própria concessionária exige a realização de tais treinamentos no contrato de prestação de serviços; vêse, portanto, que se trata de despesas necessárias à atividadefim da recorrente, usuais e efetivas, cf. devidamente comprovado ao longo da fiscalização e na Impugnação; f) A glosa das despesas e os consequentes créditos em relação às receitas oferecidas à tributação caso ultrapassados os argumentos esposados acima, o que se admite para argumentar, haverá que se reconhecer os impactos fiscais decorrentes da interpretação fiscal também sob o ponto de vista da recorrente; a premissa fiscal baseiase na alegação de que as despesas em comento são da empresa estrangeira (afretadora) e não da empresa brasileira (prestadora de serviços), logo, deveriam ser glosadas. Nessa esteira, o consectário lógico de tal conclusão exigiria o reconhecimento de que toda a apuração de receitas e, via de consequência, de tributos incidentes sobre a renda, lucro e receitas brutas deverá ser reconstituída para que se desconsiderem as receitas decorrentes dos contratos de prestação de serviço em tela; logo, se a fiscalização acaba por desconsiderar substancial parte das despesas relacionadas ao contrato em razão de compreender a prestação de serviços da recorrente à Petrobras como inexistente, deverá, por conseguinte, desconsiderar a mesma proporção de receitas decorrente do instrumento contratual; Fl. 3960DF CARF MF Processo nº 12448.725982/201480 Acórdão n.º 9101003.683 CSRFT1 Fl. 14 13 destaquese que seria virtualmente impossível executar os serviços previstos no contrato de prestação de serviços com a Petrobras sem incorrer nas despesas dedutíveis (despesas operacionais), haja vista a natureza dos serviços de sondagem/perfuração e os altíssimos dispêndios associados à atividade; nesse passo, desconstituir apenas as despesas como se inexistentes fossem para, ao mesmo tempo, tributarse todas as receitas como reais e efetivas representa incoerência fiscal e até mesmo abuso de direito; a descaracterização das despesas em atenção a todo o "pano de fundo" traçado pela Fiscalização, qual seja, a suposta inexistência de prestação de serviços entre a recorrente e Petrobras, deverá acarretar a consequente descaracterização das receitas da prestação de serviços. Se não há que se falar em despesas dedutíveis em razão de ausência de efetiva prestação, não há que se falar em receitas tributáveis, também em razão de ausência de efetiva prestação de serviços; portanto, haverá a necessidade de recomposição imediata da tributação relativamente ao IRPJ, CSLL, PIS e COFINS, com o consequente reconhecimento de créditos (caso tenha havido pagamento), redução do lucro real ou majoração de prejuízos da empresa; DO PEDIDO a recorrente espera e confia que seu recurso especial seja conhecido e provido para reformar o Acórdão 1402002.456, proferido pela 2ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF, e cancelar o auto de infração que deu origem ao PAF nº 12448725.982/201480. Já foi mencionado anteriormente que o recurso especial só foi admitido em relação à divergência sobre a "artificialidade da divisão da operação entre os contratos de afretamento e de prestação de serviço (split contratual)". CONTRARRAZÕES DA PGFN Em 25/10/2017, o processo foi encaminhado à PGFN, para ciência do despacho que admitiu parcialmente o recurso especial da contribuinte, e em 07/11/2017, o referido órgão apresentou tempestivamente suas contrarrazões, com os seguintes argumentos: DA INADMISSILIDADE DO RECURSO tratase de lançamento de IRPJ e CSLL em razão das irregularidades apuradas nos anos de 2009 e 2010; o auto de infração consigna que as despesas e os custos registrados pela contribuinte são estranhos às suas atividades e, portanto, não necessários para a manutenção da respectiva fonte de receitas. Na realidade, constatouse que essas despesas são de responsabilidade da empresa Seadrill Offshore, que é a proprietária das unidades perfuradoras; o acórdão recorrido negou provimento ao recurso voluntário por entender que “A dedução dos gastos com custos ou despesas operacionais não é vinculada apenas à necessidade, usualidade e normalidade, mas à primordial verificação se o ônus foi efetivamente do sujeito passivo que computou os valores sob discussão”; Fl. 3961DF CARF MF Processo nº 12448.725982/201480 Acórdão n.º 9101003.683 CSRFT1 Fl. 15 14 desse modo, o acórdão recorrido, corroborando as razões apresentadas pela autoridade fiscal, entendeu que “os custos pertencem a quem auferiu a receita, ou seja, à controladora no exterior”; por sua vez, o recurso especial do contribuinte discute apenas a artificialidade dos contratos de afretamento e de prestação de serviço, sem questionar os fundamentos do lançamento, quais sejam as glosas dos custos erroneamente contabilizados; inicialmente, cumpre salientar que a Fazenda Nacional corrobora o entendimento consignado no despacho de admissibilidade do recurso especial no sentido de que não há interesse recursal por parte do contribuinte. Vejase: “No que concerne à primeira matéria objeto do recurso especial devese esclarecer inicialmente que o lançamento não se encontra fundamentado na ora questionada "artificialidade" da divisão da operação entre os contratos de afretamento e de prestação de serviço (split contratual). De fato, embora tenha tecido comentários sobre os contratos de afretamento (vide conceito estabelecido pelo art. 2º Lei nº 9.432/97) celebrados entre a Petrobrás e a Seadrill Offshore A.S., bem como os contratos de prestação de serviço celebrados entre a recorrente e sua controladora no exterior (Seadrill Offshore A.S.), o autor da ação fiscal glosou os custos contabilizados pela recorrente relativos aos contratos de prestação de serviços em razão de entender que tais custos foram incorridos pela Seadrill Offshor A.S., e não pela ora recorrente (correlação entre receitas e custos). Sobre o assunto o autor da ação fiscal, após analisar detidamente os custos em questão, assim se pronunciou (vide TVF à efl. 1749): DAS INFRAÇÕES APURADAS Por todo o exposto, tais custos, classificados no grupo de contas 3.1.03.02 Mercado Externo, foram considerados estranhos às atividades da fiscalizada, não necessários para a manutenção da respectiva fonte de receitas. Dessa forma foram glosados para efeito das apurações do lucro real e da base de cálculo da CSLL. Os montantes mensais foram extraídos da escrituração e os extratos dos respectivos balancetes estão anexados ao presente Termo de Verificação. (g.n.) Quem primeiro levantou a questão da "artificialidade" da divisão da operação entre os contratos de afretamento e de prestação de serviço (split contratual) foi o próprio sujeito passivo, em sua impugnação. Essa questão foi, então, examinada tanto pela decisão de primeiro grau quanto pela decisão recorrida, mas sempre, a meu ver, como obiter dictum. Em assim sendo, a meu juízo, falta à recorrente interesse recursal quanto à questão da "aritificialidade" dos contratos. Em poucas palavras, a doutrina processualista afirma haver interesse recursal quando: (i) o recorrente não dispuser de meio processual diverso para modificar o ato guerreado Fl. 3962DF CARF MF Processo nº 12448.725982/201480 Acórdão n.º 9101003.683 CSRFT1 Fl. 16 15 (necessidade do recurso); e (ii) quando o recurso propiciar situação mais vantajosa ao recorrente do que aquela posta na decisão recorrida (utilidade do recurso); Nesse sentido, o presente recurso especial revelase inútil, pois a recorrente não contestou a acusação do autor da ação fiscal, qual seja, que os custos registrados na conta "3.1.03.02 Mercado Externo" não foram incorridos pela recorrente, e sim por sua controladora no exterior. Noutros termos, ainda que a CSRF entenda que os contratos em questão não são "artificiais", a posição do sujeito passivo não será mais vantajosa, pois nada poderá ser dito pela Turma sobre a glosa dos custos, já que essa matéria não foi objeto do recurso especial. Para concluir, embora entenda que relativamente à matéria da "artificialidade" falte interesse recursal à ora recorrente, também entendo que a questão da presença ou ausência de interesse recursal não deve ser objeto deste juízo de admissibilidade, e sim do juízo de conhecimento do recurso, a ser realizado pela própria Turma da CSRF.” nesse sentido, de acordo com o Termo de Verificação Fiscal, a autoridade fiscal não precisou descaracterizar os contratos celebrados pois apenas realizou o reenquadramento dos efeitos tributários causados pelas obrigações contraídas pela Contribuinte junto à Petrobrás e as demais controladoras estrangeiras; portanto, a autoridade fiscal demonstrou que os custos apropriados pela recorrente eram, na realidade, despesas pertencentes à controladora estrangeira. Este é o fundamento do auto de infração que foi corroborado pelo acórdão recorrido e que deveria ter sido objeto do recurso especial; assim, considerando que o recurso interposto não rebateu os fundamentos do auto de infração, resta caracterizada a falta de interesse recursal. Portanto, o recurso especial não deve ser conhecido; além da falta de interesse recursal, o acórdão apresentado como paradigma não serve para configurar a divergência, pelas razões a seguir expostas; a situação fática do acórdão recorrido já foi delimitada acima. Assim, passa se a analisar a situação do acórdão de nº 1103001.105, apresentado como paradigma; pela simples leitura da ementa do acórdão, percebese que se tratam de situações diversas e que os motivos para dar provimento ao recurso voluntário decorreram da análise da documentação constante dos autos. Documentação completamente diversa da do presente processo. Vejase: "FLUXO TRIANGULAR DE RECURSOS PREÇO POR PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS SUBVENÇÕES PARA CUSTEIO RECUPERAÇÕES DE CUSTOS DEDUZIDOS 1 Motivo central é de artificialidade entre os preços praticados entre a contratante com as contratadas empresas estrangeiras (por afretamento de embarcações), e os preços praticados entre a mesma contratante e a Fl. 3963DF CARF MF Processo nº 12448.725982/201480 Acórdão n.º 9101003.683 CSRFT1 Fl. 17 16 recorrente, controlada das empresas estrangeiras, emergindo a parte do preço pela prestação de serviços à contratante pela recorrente, com os recursos transferidos a essa pelas empresas estrangeiras. Os editais de licitação internacional preveem o limite percentual (sobre o preço global) a ser praticado pela prestação de serviços, sem exceção. Preços contratados conforme os limites percentuais estabelecidos nos editais de licitação. Não há nos autos nenhuma indicação de que os limites previstos nos editais tenham sido objeto de alguma negociação entre o licitante e os participantes do certame. Também não há nenhuma discriminação de que parte dos recursos recebidos pela recorrente de suas “controladoras” sejam por prestação de serviços a essas e parte por prestação de serviços à contratante licitante. 2 Motivo alternativo é de que os recursos transferidos pelas empresas estrangeiras à recorrente são subvenções para custeio ou recuperações de custos deduzidos. Recuperação de custos e subvenções para custeio não são sinônimos. Se os gastos foram em benefício das empresas estrangeiras, os valores transferidos para a recorrente até o limite dos gastos não foram subvenções para custeio. Do exame da documentação constante dos autos, não há indicação que os gastos em benefício das empresas estrangeiras tenham transitado como despesa da recorrente; o que afasta a exigência por recuperação de custos deduzidos as transferências não transitaram como receita na recorrente. Do mesmo exame, constatase a ausência nas contas dos Razão de lançamentos contábeis de ingressos de recursos de R$ 1.063.093,46 em 2002, e de R$ 17.018.000,00 em 2004. Parcelas que representam subvenções para custeio. Exigências afastadas parcialmente." pelo simples fato de o fundamento do acórdão paradigma basearse na análise de prova já seria motivo suficiente para desconfigurar a divergência de entendimento entre os acórdãos, requisito essencial para admissibilidade do recurso especial; a seguir, transcrevese trechos do acórdão paradigma que delimitam os fundamentos da autuação, bem como os motivos pelos quais o contribuinte teve seu recurso provido: “Relatório DO TERMO DE VERIFICAÇÃO FISCAL ... A autuação ocorreu, segundo a fiscalização, por omissão de receitas de reembolsos pelas controladas, mediante um fluxo triangular de rendimento, realizado entre a empresa contratante (Petrobras), as empresas controladoras no exterior e a controlada sediada no Brasil, com o intuito de reduzir os tributos incidentes sobre o lucro e o faturamento da empresa controlada com sede no território nacional. ... Fl. 3964DF CARF MF Processo nº 12448.725982/201480 Acórdão n.º 9101003.683 CSRFT1 Fl. 18 17 Sendo assim, em suma, o que motivou o auto de infração foi a omissão de receita nas DIPJs 2002, 2003 e 2004, pois a controlada não contabilizou como receita os valores recebidos como pagamento da prestação de serviço realizado por ela, os quais deveriam ter sido acrescentados ao resultado do lucro real e da base de cálculo da CSL. ... Segundo o autuante, a recorrente e a empresa no exterior, por ser sua controladora, atribuíram com artificialidade os preços que ambas praticariam à contratante, a Petrobras, de modo que a maior parte do preço global ajustado com a contratante fosse imputável à controladora da recorrente no exterior – no caso, cerca de 90% do preço global. ... Do exame da documentação acostada aos autos, constato o seguinte. ... No Termo de Verificação Fiscal (TVF), o autuante acusa que a contratada pela Petrobras era a controladora da recorrente. Não trouxe aos autos, contudo, os contratos firmados entre a Petrobras e a controladora da recorrente, como alegado. Transcrevo excertos do TVF que indicam ter sido a controladora da recorrente a contratada pela Petrobras: ... De outra parte, a recorrente carreou aos autos cópia de cartas de decisão, de contratos de afretamento, seus anexos e aditivos, firmado entre a Petrobras e a empresa no exterior (fls. 1966 a 135, 2137 a 2289, 2388 a 2551, 2998 a 3215, 3224 a 3275 e 3341 a 3373, 3546 a 3676, 5048 a 5169). As cópias de contratos de afretamento são dos naviossonda Deepwater Navigator, Deepwater Frontier, dos navios semissubmersíveis Transocean Legend, Transocean Driller e, do navio Peregrine IV, das unidades Sedo 707 e Sedco 710 e Discoverer Sean Seas. Há cópia de contrato de afretamento contratado entre Petrobras e a R&B Falcon Drilling (International & Deepwater) Inc., e cessão da posição contratual de R&B Falcon Drilling (International & Deepwater) Inc. para Transocean Holdings Inc. (aditivo 1 do contrato de afretamento do naviosonda Deepwater Navigator – fls. 1979 a 1981 e aditivo 4 do contrato de afretamento do navio Deepwater Frontier – fls. 2140 a 2142). ... Repito. A autuante não trouxe aos autos cópia de nenhum contrato de afretamento firmado entre a Petrobrás e as empresas estrangeiras por ele indicadas como contratadas. Fl. 3965DF CARF MF Processo nº 12448.725982/201480 Acórdão n.º 9101003.683 CSRFT1 Fl. 19 18 Como se viu anteriormente, foram sócias da recorrente (Transocean Brasil Ltda.) nos períodos da autuação: Transocean Offshore Deepwater Drilling Inc.; Sedco Forex International Inc.; Transocean Sedco Forex Ventures, Limited. Nada há nos autos que indique que as empresas no exterior, contratadas pela Petrobras para o afretamento de embarcações, R&B FalconDrilling (International & Deepwater) Inc., Transocean Holdings Inc., Falcon Drillinig Co. Inc., Falcon Atlantic Ltd., Transocean UK Limited, Sedco Forex International Services S.A., sejam sócias da recorrente nos períodos autuados. Ou seja, nada há nos autos que indique que as ora citadas empresas contratadas pela Petrobras para o afretamento de embarcações sejam sócias da recorrente, e, pois, controladoras da recorrente ao tempo dos períodos autuados – diversamente ao exposto no TVF, conforme transcrição feita acima. Por outro lado, a cópia do contrato de afretamento entre a Petrobras e a Sonat Offshore Drilling Inc., cujas fls. indiquei acima, contém data de assinatura ilegível. Ao teor das cláusulas nele constantes, há fortes indícios de que tenha sido assinado entre dezembro de 1994 e fevereiro de 1995. Conforme descrevi anteriormente, antes do período autuado, constava como sócia da recorrente a Transocen Offshore Inc., anteriormente denominada Sonat Offshore Drilling Inc. E a Transocen Offshore Inc. passou a ser denominada Transocean Offshore Deepwater Drilling Inc., permanecendo como controladora da recorrente até início de junho de 2003, quando passou a ser controladora a Sedco Forex International Inc. Portanto, somente em relação ao contrato de afretamento com a Sonat Offshore Drilling Inc., pode se afirmar que a contratada da Petrobras era controladora da recorrente (contratada pela Petrobras para prestação de serviços) até o início de junho de 2003. O que se vê é que, ainda que não se possa dizer que as empresas estrangeiras contratadas pela Petrobras tenham sido sócias e controladoras da recorrente nos períodos autuados, cuidase de empresas do mesmo grupo econômico. Nesse passo, reputo curial acentuar o seguinte. Análise atenta do TVF permite concluir que o motivo central da autuação repousa sobre o estabelecimento de fluxo triangular de recursos, com artificialidade dos preços praticados com a contratante, a Petrobras. Nesse motivo central, a artificialidade dos preços se põe entre os praticados entre a Petrobras, contratante, com as contratadas empresas estrangeiras, controladoras da recorrente, segundo o TVF, e os praticados entre a Petrobras, contratante, com a contratada recorrente, controlada das empresas estrangeiras, conforme o TVF. E, dessa artificialidade dos preços, emerge a parte do preço (receita omitida autuada) pela prestação de serviços pela recorrente à contratante Petrobrás: Fl. 3966DF CARF MF Processo nº 12448.725982/201480 Acórdão n.º 9101003.683 CSRFT1 Fl. 20 19 ela é representada pelos recursos transferidos pelas controladoras estrangeiras da recorrente para esta. Ou seja, houve artificialidade dos preços na contratação pela Petrobras: parte do preço estabelecido na contratação do afretamento – contratação das empresas estrangeiras controladoras da recorrente – em realidade, compõe o preço estabelecido na contratação da recorrente (pela Petrobrás) para prestação de serviços à Petrobras. Tal conclusão é extraível da apreciação cuidadosa do “conjunto da obra” do TVF e, especialmente, da decomposição da situação fática real, como é dito no TVF, cuja descrição já transcrevi neste voto, a que faço remissão. E se reforça com a transcrição do excerto do TVF que se segue à referida descrição nele contida: ... Não há nos autos nenhuma indicação de que os limites previstos nos editais tenham sido objeto de alguma negociação entre os participantes do certame e a Petrobras. Disso tudo, a conclusão extraível é a de que não houve artificialidade na determinação dos preços de afretamento de embarcações pela SedcoForex International Services S.A., e de prestação de serviços pela recorrente, ambos contratados pela Petrobras. Resta, pois, derruído o motivo central da autuação, qual seja, o de estabelecimento de fluxo triangular de recursos, com artificialidade dos preços praticados com a contratante, a Petrobras. ... Não houve por parte do autuante, nenhuma indicação de que os valores recebidos pela recorrente de suas “controladoras” sejam maiores do que os valores das despesas dessas, a justificar que parte de tais valores foram por prestação dos serviços à Petrobras e parte por prestação de serviços às “controladoras” da recorrente. Tampouco houve indicação, muito menos discriminação, de quais valores seriam os de preço de serviços prestados à Petrobras, encobertos no preço de afretamento da SedcoForex International Services S.A., e quais seriam os de remuneração de atividade da recorrente para suas “controladoras”. Posto isso tudo, não se sustenta a conclusão de que os valores de transferência de recursos das “controladoras” da recorrente para esta são preço de prestação de serviços da recorrente às suas “controladoras”. E o mais importante. Não se sustenta a conclusão de que tais valores sejam preço de prestação de serviços pela recorrente à Petrobras (encobertos no preço dos afretamentos das empresas estrangeiras contratadas), pois já se viu que ficou incomprovada a artificialidade de preços praticados com a Fl. 3967DF CARF MF Processo nº 12448.725982/201480 Acórdão n.º 9101003.683 CSRFT1 Fl. 21 20 contratante. O motivo central resultou derruído, ante a imposição determinada pelos editais de licitação.” dos trechos acima destacados, concluise que as situações fáticas dos casos são diversas e que o acórdão acima analisou diversos documentos específicos ao caso. Não sendo possível, portanto, afirmar que os acórdãos tiveram entendimentos divergentes diante de situação fáticas semelhantes, requisito essencial à interposição de recurso especial; ora, os lançamentos, apesar de terem uma situação de fundo similiares (contratos de afretamento e de prestações de serviços com a Petrobrás), foram realizados de formas diferentes, como se pode concluir da leitura dos Termos de Verificação Fiscal. E por esse motivo, os acórdãos recorrido e paradigma analisaram situações diversas; por todo o exposto, o recurso especial não deve ser conhecido, tanto por faltar interesse recursal ao contribuinte, como por não ter sido comprovada a divergência entre os acórdãos; DO MÉRITO caso o recurso seja conhecido, seguem as razões já apresentadas em contrarrazões ao recurso voluntário, para que seja negado provimento. “2.3. DA JURISPRUDÊNCIA SOBRE OS CONTRATOS DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS FIRMADOS PELA PETROBRAS Inicialmente, impende ressaltar que essa forma de contratação fracionada (serviços e afretamento) tornouse verdadeira praxe das prestadoras contratadas com a Petrobrás e, como exemplo, citamse os processos nº 15521.000124/200504, 15521.000127/200963, 19395.720024/201262, 19395.720263/201212 e 16682.721162/201235, que constataram idêntica prática. Desses processos citados, o último processo alcançou julgamento no CARF, por meio do acórdão nº 3403002.702 (processo nº 16682.721162/201235), concluindo em seu julgamento que “a bipartição dos serviços de produção e prospecção marítima de petróleo em contratos de aluguel de unidades de operação (naviossonda, plataformas semissubmersíveis, navios de apoio à estimulação de polos e unidades flutuantes de produção, armazenamento e transferência) e de prestação de serviços propriamente dita é artificial e não retrata a realidade material das suas execuções” (destacado). Vejamos então a ementa desse julgado: Acórdão 3403002.702 Processo nº 16682.721162/201235 PETROLEO BRASILEIRO S A PETROBRAS Sessão 29/01/2014 3ª Seção – 4ª Câmara – 3ª Turma, Relator Cons. Alexandre Kern Fl. 3968DF CARF MF Processo nº 12448.725982/201480 Acórdão n.º 9101003.683 CSRFT1 Fl. 22 21 CONTRIBUIÇÃO DE INTERVENÇÃO NO DOMÍNIO ECONÔMICO CIDE Período de apuração: 01/01/2008 a 31/12/2008 CONTRATO DE “AFRETAMENTO” DE PLATAFORMAS DE PETRÓLEO. CONTRATO DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS DE PRODUÇÃO E PROSPECÇÃO DE PETRÓLEO. NATUREZA DOS PAGAMENTOS PARA FINS TRIBUTÁRIOS. A bipartição dos serviços de produção e prospecção marítima de petróleo em contratos de aluguel de unidades de operação (navios sonda, plataformas semissubmersíveis, navios de apoio à estimulação de poços e unidades flutuantes de produção, armazenamento e transferência) e de prestação de serviços propriamente dita é artificial e não retrata a realidade material das suas execuções. O fornecimento dos equipamentos é parte integrante e indissociável aos serviços contratados, razão pela qual os pagamentos efetuados ao amparo dos contratos ditos de “afretamento” sujeitamse à incidência da Contribuição. HIPÓTESE DE INCIDÊNCIA SERVIÇOS TÉCNICOS E DE ASSISTÊNCIA ADMINISTRATIVA. A incidência da Contribuição, na contratação de serviços técnicos prestados por residentes ou domiciliados no exterior, prescinde da ocorrência de transferência de tecnologia. BASE DE CÁLCULO. REAJUSTAMENTO. ILEGALIDADE. A base de cálculo da CIDE é o valor da remuneração do fornecedor domiciliado no exterior estipulada em contrato, sendo ilegais tanto a adição quanto a exclusão do IRRF da sua base de cálculo. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/01/2008 a 31/12/2008 MULTA DE LANÇAMENTO DE OFÍCIO. JUROS DE MORA. INCIDÊNCIA. IMPOSSIBILIDADE. Carece de base legal a incidência de juros de mora sobre a multa de lançamento de ofício. Recurso Voluntário Provido em Parte. E em seu voto, assevera o Conselheiro Relator Alexandre Kern os pontos de seu convencimento motivado que passo a transcrever abaixo: “Pareceme que o conjunto indiciário reunido pela Fiscalização é consistente e corrobora essa conclusão. Fl. 3969DF CARF MF Processo nº 12448.725982/201480 Acórdão n.º 9101003.683 CSRFT1 Fl. 23 22 Em primeiro lugar, os contratos ditos de afretamento de afretamento não são, pois não têm como objeto embarcação. Ademais, as unidades de perfuração e de produção de petróleo offshore, objeto dos contratos de afretamento, não são meras estruturas metálicas, sobre as quais desembarcam e atuam os operadores da companhia prestadora de serviço contratada. Em absoluto. As unidades são, justamente, os equipamentos que serão operados para a consecução do objetivo último da Petrobrás, que é a perfuração ou produção do poço de petróleo. E, penso ser evidente, tratase de equipamentos sofisticados, construídos sob encomenda, com projeto único, que incorpora, em geral, o último estágio de desenvolvimento da tecnologia. Nesse sentido, seus operadores são designados já durante a fase de construção, no estaleiro, tamanha é a intimidade com equipamento requerida para operálos. Saliento esse aspecto porque, ainda que se considere a natureza genérica dos contratos, como contrato de aluguel de bens, o que sobressai é que tal contratação é absolutamente dispensável. Bastaria que a Petrobrás celebrasse contrato único, de prestação de serviços, fosse com a nacional ou com a empresa estrangeira, ainda assim as unidades seriam fornecidas, simplesmente, porque não há como prestar os serviços sem elas. Aliás, esse é exatamente o modelo de contratação para a perfuração e produção de petróleo em terra. A Petrobrás, em terra, não se dá ao trabalho de contratar o aluguel de uma sonda de perfuração de terra SPT e, simultaneamente, contratar a prestação do serviço, pois é ilógico, desnecessário, antieconômico. E, se ainda assim, por qualquer razão que se nos escape, a Petrobrás insistisse nesse modelo de contratação, a hipotética locatária dos equipamentos jamais admitiria que os mesmos fossem operados por terceiros. Portanto, pareceme que a conclusão a que chegou a Fiscalização a respeito da essência desses contratos está correta. A bipartição do contrato em “afretamento” e prestação de serviços – a também, por óbvio, a sua coligação voluntária – é artificial, desnecessária, sem propósito. A recorrente nessa hora bradará princípios constitucionais como da Livre Iniciativa (art. 1º, IV), da Livre Concorrência (art. 170, IV) ou mesmo da Propriedade Privada (art. 170, II), e que o ordenamento jurídico brasileiro outorga ao contribuinte o direito de organizarse de forma que se lhe imponha a menor carga tributária possível. Pugnará por que se analisem os contratos celebrados sob uma concepção estritamente formal da legalidade. Enfim, invocará a clássica cantilena liberal formalista que leva à (equivocada) conclusão de que, em matéria de planejamento tributário, tudo o que não estiver expressamente proibido é lícito ao contribuinte. Marciano Seabra de Godoi diagnostica que essa postura parte de certos valores arraigados e que não mais se compatibilizam com o atual estado de arte da dogmática constitucional e tributária nacional, quais Fl. 3970DF CARF MF Processo nº 12448.725982/201480 Acórdão n.º 9101003.683 CSRFT1 Fl. 24 23 sejam, o tributo visto como uma agressão ou um castigo que se aceita mas não se justifica; a segurança jurídica como um valor absoluto; a aplicação mecânica e não valorativa da lei como um mito sagrado; o individualismo e a autonomia da vontade sobrevalorizados e hipertrofiados, como se vivêssemos em pleno século XIX. Atualmente, as bases da tributação são liberdade, igualdade e solidariedade. Neste cenário, a interpretação dos atos jurídicos e das operações não se pode valer da máxima de hipossuficiência dos contribuintes frente ao todo poderoso Estado, sob pena de se obstar a aplicação de outros princípios constitucionais. Há diversos outros que podem ser tolhidos caso planejamentos sejam indiscriminadamente considerados válidos e legítimos tãosomente porque adotaram forma jurídica prevista em texto de lei (Dignidade da Pessoa Humana, Função Social da Propriedade, Isonomia). O planejamento tributário deve ser analisado “não apenas sob a ótica das formas jurídicas admissíveis, mas também sob o ângulo da sua utilização concreta, do seu funcionamento e dos resultados que geram à luz dos valores básicos igualdade, solidariedade social e justiça”. Enfim, exigese, para além de uma economia de tributos, um propósito negocial. Nesse sentido, a doutrina propõe um teste para se constatar ausência de propósito negocial: a) o elemento temporal: já que muitas vezes se verifica que o planejamento, em geral atividade pensada e preparada, é realizada às pressas, com a assinatura de vários documentos em um único momento, alguns desfazendo transações que se celebram no mesmo instante; b) a independência ou não das partes, eis que muitas fusões, cisões e incorporações se dão apenas como forma de alocar perdas e ganhos entre empresas de mesmo grupo, sempre visando à redução da tributação; c) ausência de coerência, quando se realizam transações que não se inserem na rotina da empresa ou na lógica empresarial. Marco Aurélio Greco revela os indícios de mera tentativa despropositada de economia de tributo: a) operações estruturas em sequência, em que uma etapa não tem sentido a não ser quando vista a partir do conjunto de etapas [...]; b) operações invertidas, no sentido de serem realizadas ao contrário do que indica o juízo comum, por exemplo, a incorporação da controladora pela controlada; c) operações entre partes relacionadas, pois nestas é mais rigoroso o juízo sobre os critérios de equitatividade em que devem ser feitas certas operações quando comparadas com operações com terceiros; Fl. 3971DF CARF MF Processo nº 12448.725982/201480 Acórdão n.º 9101003.683 CSRFT1 Fl. 25 24 d) o uso de pessoas jurídicas para realizar determinadas operações, pois além de poderem configurar uma interposta pessoa, estas sociedades podem se apresentar como meros instrumentos de passagens de recursos destinados a terceiros (conduint companies) ou assumirem a condição de sociedade aparentes, fictícias ou efêmeras; e) operações que impliquem deslocamento da base tributável para o exterior, pois isto afeta a soberania e a imperatividade da norma tributária; f) as substituições ou montagens jurídicas em que as formas contratuais são construídas meramente para vestir determinado conteúdo sem que haja razões reais e efetivas que as justifiquem. O modelo de contratação da Petrobrás sucumbe em todos os testes que lhe são pertinentes: a) Quanto ao aspecto temporal, revelase a simultaneidade da celebração dos pares de contratos; b) A interdependência das partes contratantes é nota característica: a prestadora dos serviços nacional é controlada pela “fretadora” estrangeira; c) Ausência de coerência: a Petrobrás não reproduz o modelo de contratação bipartida, mutatis mutandis, nas suas operações terrestres; d) Deslocamento da base tributável para o exterior: a Petrobrás atribui ao contrato de afretamento, celebrado com a empresa estrangeira, 90% do valor total da causa dos contratos (a exploração dos poços de petróleo); e) Montagem jurídica: a bipartição de contrato que tem causa unitária – a exploração de poços de petróleo – é artificial e despropositada.” (d. n.) Observase, portanto, que nesse julgamento a turma concluiu a existência de artificialismo na contratação apartada de serviços e afretamento, especialmente quando se trata de empresas de um mesmo grupo econômico. Nesses processos, foi constatada a seguinte situação: uma única prestação de serviço é desmembrada em dois contratos, um firmado entre a Petrobrás e a sociedade estrangeira fretadora, totalizando 90% da remuneração, e o outro entre a Petrobrás e a prestadora de serviços no Brasil, com o restante (10%) dos recursos. O objetivo é enviar para o exterior a maior parte dos valores envolvidos, sob alcance de alíquota zero, que impede a retenção na fonte para receitas de afretamento de embarcações marítimas. No caso concreto, o percentual aferido foi de 80% para o contrato de afretamento e 20% para o contrato de prestação de serviços e, a bem da Fl. 3972DF CARF MF Processo nº 12448.725982/201480 Acórdão n.º 9101003.683 CSRFT1 Fl. 26 25 verdade, tais diferenças são pouco relevantes e inócuas para abalar o entendimento acima, que manteve a tributação do IR. De igual forma, esse modelo de contratação da PETROBRAS obteve entendimento idêntico da 2ª Seção, quando do julgamento sobre a Imposto de Renda Retido na Fonte no exercício de 2010. Vejamos trecho da ementa: Acórdão nº 2202003.063 Processo nº 16682.721312/201391 PETROLEO BRASILEIRO S A PETROBRAS Sessão 09/12/2015 2ª Seção 2ª Câmara 2ª Turma Ordinária Assunto: Imposto sobre a Renda Retido na Fonte IRRF Exercício: 2010 (...) ARTIFICIALIDADE DA BIPARTIÇÃO DOS CONTRATOS DE "AFRETAMENTO" DE PLATAFORMA E DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS DE EXPLORAÇÃO DE PETRÓLEO. REALIDADE MATERIAL. CONTRATO ÚNICO. A bipartição dos serviços de exploração marítima de petróleo em contratos de aluguel de unidades de operação e de prestação de serviços propriamente dita é artificial e não retrata a realidade material das suas execuções. O fornecimento dos equipamentos é parte integrante e indissociável aos serviços contratados, razão pela qual se trata de um único contrato de prestação de serviços. PAÍSES SIGNATÁRIOS DE TRATADOS INTERNACIONAIS PARA EVITAR A DUPLA TRIBUTAÇÃO. ARTIGO 12 DA CONVENÇÃO E PROTOCOLOS ADICIONAIS. PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EQUIPARADA A ROYALTIES. TRIBUTAÇÃO NA FONTE. As remessas decorrentes de contratos de prestação de assistência técnica e de serviços técnicos sem transferência de tecnologia sujeitam se à tributação de acordo com o art. 685, inciso II, alínea a, do Decreto nº 3.000, de 1999 (RIR/99).(d. n.) Em recentíssimo julgamento, datado de 15 de março de 2016, este Conselho Administrativo consolidou novo precedente sobre o modelo de contratação da PETROBRAS, no Acórdão nº 3302003.095 (processo nº 16682.721545/201394, em que a 3ª Seção, 3ª Câmara, 2ª Turma, mais uma vez, reconheceu o artificialismo desse tipo de contratação bipartida. Fl. 3973DF CARF MF Processo nº 12448.725982/201480 Acórdão n.º 9101003.683 CSRFT1 Fl. 27 26 Esse entendimento já encontrou ressonância nos tribunais pátrios, reconhecendo a ilicitude dessa forma de contratação praticada na seara dos serviços petrolíferos. ...” ante o exposto, fica claro o correto entendimento do acórdão recorrido, devendo ser negado provimento ao recurso especial do contribuinte. DO PEDIDO ante todo o exposto pugna a Fazenda Nacional para que não seja conhecido e, caso contrário, seja negado provimento ao recurso especial interposto pelo contribuinte. É o relatório. Fl. 3974DF CARF MF Processo nº 12448.725982/201480 Acórdão n.º 9101003.683 CSRFT1 Fl. 28 27 Voto Conselheiro Rafael Vidal de Araujo, Relator. O presente processo tem por objeto lançamento para a constituição de crédito tributário a título de IRPJ e CSLL sobre fatos geradores ocorridos nos anoscalendário de 2009 e 2010, e lançamento de multa isolada por falta/insuficiência de recolhimento de estimativas mensais dos referidos tributos nesses mesmos períodos. A autuação fiscal diz respeito à glosa de custos que foram considerados estranhos às atividades da contribuinte, não necessários para a manutenção da respectiva fonte de receitas. Essa glosa repercutiu tanto no ajuste anual, quanto na apuração das estimativas mensais. A decisão de primeira instância administrativa manteve o lançamento. A decisão de segunda instância (acórdão ora recorrido) também manteve o lançamento. Com seu recurso especial, a contribuinte pretende cancelar as exigências fiscais. Para tanto, ela apresenta paradigma procurando demonstrar que não há artificialidade na divisão da operação entre os contratos de afretamento e de prestação de serviço (split contratual). Na lógica dos seus argumentos, uma vez derrubada a premissa do acórdão de que o split contratual é artificial, restaria inevitável concluir que a Recorrente faz jus à dedutibilidade dos custos e despesas tidos no desempenho do contrato de prestação de serviços que ela tem com a Petrobras. Em sede de contrarrazões, a PGFN apresentou preliminar de não conhecimento do recurso. Inicialmente, ela destacou o entendimento consignado no próprio despacho de admissibilidade do recurso especial, no sentido de que não há interesse recursal por parte da contribuinte. Realmente, o despacho de admissibilidade fez essa observação em relação à falta de interesse da recorrente, mas entendeu que a questão da presença ou ausência de interesse recursal não deveria ser objeto daquele juízo monocrático de admissibilidade, e sim do juízo de conhecimento do recurso, a ser realizado por este colegiado. É interessante reproduzir novamente trechos do referido despacho de admissibilidade: [...] No que concerne à primeira matéria objeto do recurso especial devese esclarecer inicialmente que o lançamento não se encontra fundamentado na Fl. 3975DF CARF MF Processo nº 12448.725982/201480 Acórdão n.º 9101003.683 CSRFT1 Fl. 29 28 ora questionada "artificialidade" da divisão da operação entre os contratos de afretamento e de prestação de serviço (split contratual). De fato, embora tenha tecido comentários sobre os contratos de afretamento (vide conceito estabelecido pelo art. 2º Lei nº 9.432/97) celebrados entre a Petrobrás e a Seadrill Offshore A.S., bem como os contratos de prestação de serviço celebrados entre a recorrente e sua controladora no exterior (Seadrill Offshore A.S.), o autor da ação fiscal glosou os custos contabilizados pela recorrente relativos aos contratos de prestação de serviços em razão de entender que tais custos foram incorridos pela Seadrill Offshor A.S., e não pela ora recorrente (correlação entre receitas e custos). Sobre o assunto o autor da ação fiscal, após analisar detidamente os custos em questão, assim se pronunciou (vide TVF à efl. 1749): DAS INFRAÇÕES APURADAS Por todo o exposto, tais custos, classificados no grupo de contas 3.1.03.02 Mercado Externo, foram considerados estranhos às atividades da fiscalizada, não necessários para a manutenção da respectiva fonte de receitas. Dessa forma foram glosados para efeito das apurações do lucro real e da base de cálculo da CSLL. Os montantes mensais foram extraídos da escrituração e os extratos dos respectivos balancetes estão anexados ao presente Termo de Verificação. (g.n.) Quem primeiro levantou a questão da "artificialidade" da divisão da operação entre os contratos de afretamento e de prestação de serviço (split contratual) foi o próprio sujeito passivo, em sua impugnação. Essa questão foi, então, examinada tanto pela decisão de primeiro grau quanto pela decisão recorrida, mas sempre, a meu ver, como obiter dictum. Em assim sendo, a meu juízo, falta à recorrente interesse recursal quanto à questão da "aritificialidade" dos contratos. Em poucas palavras, a doutrina processualista afirma haver interesse recursal quando: (i) o recorrente não dispuser de meio processual diverso para modificar o ato guerreado (necessidade do recurso); e (ii) quando o recurso propiciar situação mais vantajosa ao recorrente do que aquela posta na decisão recorrida (utilidade do recurso); Nesse sentido, o presente recurso especial revelase inútil, pois a recorrente não contestou a acusação do autor da ação fiscal, qual seja, que os custos registrados na conta "3.1.03.02 Mercado Externo" não foram incorridos pela recorrente, e sim por sua controladora no exterior. Noutros termos, ainda que a CSRF entenda que os contratos em questão não são "artificiais", a posição do sujeito passivo não será mais vantajosa, pois nada poderá ser dito pela Turma sobre a glosa dos custos, já que essa matéria não foi objeto do recurso especial. Para concluir, embora entenda que relativamente à matéria da "artificialidade" falte interesse recursal à ora recorrente, também entendo que a questão da presença ou ausência de interesse recursal não deve ser Fl. 3976DF CARF MF Processo nº 12448.725982/201480 Acórdão n.º 9101003.683 CSRFT1 Fl. 30 29 objeto deste juízo de admissibilidade, e sim do juízo de conhecimento do recurso, a ser realizado pela própria Turma da CSRF. Dito isso, devese reconhecer que a recorrente logrou êxito em demonstrar o prequestionamento da aludida "artificialidade" da divisão da operação entre os contratos de afretamento e de prestação de serviço, conforme trechos do acórdão recorrido a seguir reproduzidos (efls. 3557/3558): [...] No que concerne à divergência interpretativa, é de se dizer que a recorrente também logrou êxito em demonstrála, como se observa pelo cotejo entre o acórdão recorrido e o seguinte trecho da ementa ao acórdão paradigma nº 1103001.105: [...] Por fim, é de se dizer que os demais pressupostos previstos no Regimento Interno para admissibilidade dessa parte do recurso encontram se satisfeitos. No que concerne à segunda matéria objeto do recurso especial, [...] O relatório feito anteriormente não corrobora a afirmação de que a "recorrente não contestou a acusação do autor da ação fiscal, qual seja, que os custos registrados na conta '3.1.03.02 Mercado Externo' não foram incorridos pela recorrente, e sim por sua controladora no exterior". A contribuinte procurou sim contestar essa acusação. O problema é que ela não trouxe paradigma em relação a isso, ou seja, à glosa de custos referentes às rubricas para as quais ela defende a dedutibilidade. O paradigma apresentado nem mesmo se refere a lançamento por glosa de custos/despesas, mas sim por omissão de receitas. A PGFN também apresentou uma outra preliminar de não conhecimento, alegando que o paradigma trata de situação diversa, e que os motivos para o provimento do recurso voluntário naquele outro caso decorreram da análise da documentação lá constante (análise de prova), o que já seria suficiente para desconfigurar a divergência jurisprudencial. Penso que as duas preliminares estão bastante relacionadas. Como já mencionado, a contribuinte apresentou paradigma procurando demonstrar que não há artificialidade na divisão da operação entre os contratos de afretamento e de prestação de serviço (split contratual). E na lógica dos seus argumentos, uma vez derrubada a premissa do acórdão de que o split contratual é artificial, restaria inevitável concluir que a Recorrente faz jus à dedutibilidade dos custos e despesas tidos no desempenho do contrato de prestação de serviços que ela tem com a Petrobras. De certa forma, a própria contribuinte explicita o problema em relação à admissibilidade de seu recurso. Fl. 3977DF CARF MF Processo nº 12448.725982/201480 Acórdão n.º 9101003.683 CSRFT1 Fl. 31 30 Ou seja, ela sabe que atacar a artificialidade do split contratual não basta para o êxito do recurso (o que evidencia o problema da falta de interesse recursal, baseada no binômio necessidade/utilidade), e por isso ela defende que, uma vez derrubada essa premissa, seria "inevitável" concluir pela dedutibilidade dos custos e despesas glosados pela Fiscalização (o que aponta para a falta de similaridade entre o acórdão recorrido e o paradigma apresentado). A preliminar de não conhecimento trazida pela PGFN é procedente. Cabe transcrever trechos do Termo de Verificação Fiscal, para bem visualizar o contexto em que se deu a apuração do crédito tributário sob exame: TERMO DE VERIFICAÇÃO FISCAL [...] A empresa tem por objeto, segundo seu contrato social, as atividades de operação de sondas de perfuração de poços de petróleo e gás natural, bem como de outros equipamentos e sistemas submarinos e terrestres relacionados à atividade petrolífera. O capital social, no final de 2010, de R$ 157 milhões, estava dividido entre duas sociedades estrangeiras, sediadas na Noruega, cujas participações eram de 84,73% para Eastern Drilling AS e de 15,27% para Seadrill Offshore AS. Em 2010 foram feitas três subscrições, integralizadas por remessas em moeda estrangeira, no montante total ao equivalente a R$ 141 milhões. Eastern Drilling contribuiu com R$ 124 milhões e Seadrill Offshore com R$ 17 milhões. Seadrill Offshore é a proprietária das unidades perfuradoras que são objetos dos contratos de afretamento firmados com a Petrobrás. São três plataformas semi submersíveis: "West Taurus", "West Eminence" e "West Orion". Há ainda uma quarta unidade, o Naviosonda "West Polaris", também propriedade da Seadrill Offshore, a serviço da Esso Exploração Santos Brasileira Ltda, contratada da Petrobrás e contratante dos serviços da fiscalizada. Como já mencionado, os contratos de afretamento, firmados por Seadrill Offshore, foram coletados junto à Petrobrás. São eles: 2050.0048094.08.02 (West Taurus), 2050.0048273.08.02 (West Eminence) e 2050.0048275.08.02 (West Orion). Já os de prestação de serviços, firmados por Seadrill Serviços de Petróleo, foram obtidos da própria fiscalizada: 2050.0048179.08.02 (West Taurus), 2050.0048274.08.02 (West Eminence) e 2050.0048276.08.02 (West Orion). Tais contratos são concomitantes, de execução simultânea (vide cláusula 2.2.1.1 em ambos os modelos). Para cada unidade a serviço da Petrobrás há um contrato de afretamento e outro de prestação de serviços. As contratadas, Seadrill Offshore e Seadrill Serviços, são solidárias em todos eles (vide cláusulas 1.4.6 e 17 dos contratos de afretamento e 1.5.4 nos de serviços). A remuneração do afretamento leva o equivalente à cerca de 80 % dos montantes totais. Seguem os valores estipulados: [...] Fl. 3978DF CARF MF Processo nº 12448.725982/201480 Acórdão n.º 9101003.683 CSRFT1 Fl. 32 31 Dessa forma, uma única prestação de serviços é contratualmente secionada com o propósito de caracterizar a sua maior parcela como remuneração de afretamento de embarcação. Assim, busca enquadrar a tributação das respectivas remessas de divisas na incidência de alíquota zero, obstando a retenção do IRRF (Lei n° 9.481/97, art 1º, inciso I). Nesse sentido, de que a realidade fática destas contratações é uma única e inseparável prestação de serviços, já se pronunciou por diversas vezes a DRJ do Rio de janeiro. Ver os acórdãos n° 1248145, 1254294, 12 62151, 1265774 e 1266837. A título ilustrativo, reproduzse a seguir a ementa do mais recente deles: [...]; Também tem sido este o entendimento do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF). Eis a ementa de acórdão recente, publicado em 01/07/2014: [...]; Não fosse suficiente, a remuneração dos contratos de prestação de serviços também não é alcançada pela tributação. A uma porque os resultados, como já demonstrado, são reiteradamente negativos, não sendo, portanto, alcançados pelo IRPJ e CSLL. A duas porque esses mesmos resultados se convertem em créditos fiscais e são utilizados para compensar débitos das contribuições incidentes sobre a receita (PIS e COFINS), através das PERDCOMP. E como são formados os referidos prejuízos? Essa é a questão que se impôs à programação desta fiscalização. Não se cogitou de questionar a respeito da remuneração dos serviços prestados, respeitandose a forma das contratações firmadas com a Petrobrás. Dessa forma, restou analisar os custos apropriados à formação dos resultados já demonstrados. Observese que os prejuízos são reiterados na série dos quatro primeiros anos de operação. Os custos são superiores à receita líquida, resultando em lucro bruto negativo. Ora, a primeira dúvida que advém é como um negócio com tais resultados se mantém ativo e longevo. O capital inicial, de R$ 17 milhões, tampouco faz frente ao investimento. Quem paga a conta são as sócias estrangeiras. Como já informado, em 2010 foram enviados, na forma de aumento de capital, recursos oportunos e suficientes para a manutenção das atividades. Tal procedimento não é exclusividade da empresa ora fiscalizada. Freqüentemente se observa nas DIPJ de empresas de atividades de apoio à extração de petróleo e gás natural, e com contratos firmados com a PETROBRÁS, informações de prejuízos consecutivos, ano após ano, sem que, contudo, deixem essas empresas de operar, saldar dívidas, honrar compromissos de pagamentos, suportar seus custos operacionais e não operacionais, além do que, as instalações e edificações das sedes são, sem exceção, novas e de ótima qualidade estrutural, com visível cuidado de conservação e manutenção. O quadro de funcionários é amplo e de boa remuneração, revelando que a ótica administrativa de viabilidade econômica dessas empresas contempla um cenário de grande retorno de investimento, correspondente à expectativa de que a atividade seja lucrativa. Com base em informes obtidos nas ações fiscais já desenvolvidas em outras empresas, puderam ser flagradas as mesmas práticas que explicam a permanência em operação no Brasil de empresas econômica e financeiramente deficitárias, ou seja, contratos distintos com a Petrobrás Fl. 3979DF CARF MF Processo nº 12448.725982/201480 Acórdão n.º 9101003.683 CSRFT1 Fl. 33 32 para afretamento e operação de unidades perfuradoras; firmados, os primeiros com empresa estrangeira, que concentra a remuneração total estipulada, e os segundos com suas controladas brasileiras que, embora tenham personalidades jurídicas distintas das sócias, estão, à evidência, sob gestão daquelas. DOS CUSTOS COM SERVIÇOS PRESTADOS MDO Ultrapassada a questão da origem dos recursos que suportam resultados tão extravagantes, passouse a indagar sobre a natureza, a origem e a efetividade de custos tão elevados em relação às receitas que lhes são atribuídas. Foram analisados diversos custos e despesas, mas o que chama a atenção são os custos declarados na rubrica de Serviços Prestados por Pessoa Jurídica (ficha 4A linha 34 das DIPJ). Na ordem de R$ 146 milhões em 2009 e de R$ 158 milhões em 2010, representam cerca de 50% dos custos totais e nada menos do que 66% e 55% das receitas líquidas dos respectivos exercícios. Inquiriuse a respeito. Reiteradamente. Há uma seqüência de intimações (TIF n° 1 item 3; TIF n° 2, item 2; TIF n° 3, item 1; TIF n° 5, itens 1 e 2; TIF n° 7, item 2; TIF n° 8, item 1 e TIF n 10, item 1) que resultaram em uma série de documentos e esclarecimentos evasivos. Tudo depois de solicitações intermináveis de prorrogação dos prazos de atendimento, conforme se pode verificar pelas diversas solicitações por escrito que se juntam aos respectivos termos. Contudo ficou constatado que se trata da folha de pagamentos da tripulação das unidades perfuradoras, composta por funcionários "expatriados", estrangeiros. Quadro cujos empregadores são as sócias norueguesas. Foi a informação obtida com o TIF 1, de 18/03/2013. À solicitação da respectiva folha de pagamentos, a fiscalizada juntou cópias das faturas emitidas pelas sócias e aduziu, em resposta ao TIF 3: "que não possui o controle requerido, já que não temos acesso à folha de pagamentos da empresa no exterior. A Cia Brasileira recebe outrossim um documento com o valor fechado que varia por sonda". Tal argumentação foi ratificada em resposta ao TIF 5, em 27/09/2013, depois de duas prorrogações no prazo de atendimento. Só nessa ocasião é que então foram apresentados os contratos de cessão de mãodeobra, firmados com as sócias norueguesas. Foi ressaltado, porém, que a documentação apresentada não é suficiente para comprovação dos referidos custos (TIF 7 e 8), e que seria imprescindível a identificação e quantificação dos prestadores e suas funções, de modo a esclarecer a natureza, as características e a efetividade dos serviços. Ao primeiro termo não foi apresentada qualquer resposta. Ao segundo, já em janeiro de 2014, respondeu ratificando as mesmas informações anteriores, acrescentando que a sócia Eastern Drilling é a empregadora e responsável pela gestão dos expatriados. Que "a empresa brasileira não tem qualquer gestão pelos empregados daquela e por ocasião do pagamento do serviço, a empresa localizada no exterior emite uma fatura contra a empresa localizada no Brasil contendo todo o valor do serviço, sem qualquer discriminação de pessoal... que o contrato firmado entre as empresas já foi entregue à presente fiscalização, de forma que a natureza e características do serviço foram esclarecidas". Os contratos mencionados são os de cessão de mão de obra. Estes, de fato, não deixam dúvidas a respeito da sua natureza. Foram firmados particularmente entre sócios e estipulam que serão, regidos, interpretados e Fl. 3980DF CARF MF Processo nº 12448.725982/201480 Acórdão n.º 9101003.683 CSRFT1 Fl. 34 33 arbitrados por normas e autoridades estrangeiras (ver artigo 10). Prevêem que os custos com a folha de pagamentos das tripulações das unidades sejam repassados para a empresa brasileira, mediante faturamentos mensais. Também é pertinente a informação quanto à gestão dos empregados. Efetivamente, fica claro que a empresa brasileira, a contratante, não tem qualquer gerência ou responsabilidade em relação a eles (art. 12°). Ou seja, de fato, tal acordo serve apenas para tentar justificar a apropriação destes custos aos resultados da empresa brasileira, que ainda lhe imputa, adicionalmente, uma taxação de 5% sobre o valor das faturas (ver art. 6º), a título de remuneração pela "cessão" de seus empregados. Fica patente, portanto, que tais encargos não podem onerar os resultados da empresa fiscalizada. Tal ônus é, à evidência, de responsabilidade das sócias estrangeiras. Assim considerado, inquiriuse sobre o motivo de tal ônus ser imputado a Seadrill Serviços de Petróleo (TIF 10, item 1). A resposta, não sem antes mais um pedido de prorrogação, não trouxe qualquer novidade. Salienta apenas que os serviços são especializados e inerentes à sua atividade e que necessita subcontratálos. Não há qualquer menção a respeito da efetiva questão que lhe foi imposta, qual seja, a titularidade dos custos. Não obstante tais evidências fáticas, há ainda estranheza na forma de contratação em relação aos padrões e costumes adotados para operações de afretamento de embarcações. Não se tem notícia de contratações feitas da forma ora verificada. Em geral a doutrina classifica tais contratos, quanto ao tipo, em três modalidades: por viagens, a casco nu e por tempo determinado. A legislação brasileira acompanha. E, a julgar pelas definições doutrinárias e legais (art. 2º, Lei 9.432/97), podese afirmar que o afretamento ora em questão é o por tempo determinado, conhecido no mercado internacional por "Time Charter Party". A principal característica desta modalidade é que a embarcação é entregue armada e tripulada, pronta para operação. É, de fato, o que ocorre no presente caso. Observe se como se pronunciou o STJ, em sede de Recurso Especial, em relação ao assunto: STJRECURSO ESPECIAL Resp 1054144 RJ 2008/00977978 Data de publicação 09/12/2009 PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL TRIBUTÁRIO. ISS. AFRETAMENTO DE EMBARCAÇÃO. ILEGITIMIDADE DA COBRANÇA. 1. Nos termas do art. 2º da Lei 9.432/97, afretamento a casco nu é o "contrato em virtude do qual o afretador tem a posse, o uso e o controle da embarcação, por tempo determinado, incluindo o direito de designar o comandante e a tripulação". Afretamento por tempo é o "contrato em virtude do qual o afretador recebe a embarcação armada e tripulada, ou parte dela, para operála por tempo determinado" e afretamento por viagem é o "contrato em virtude do qual o fretador se obriga a colocar o todo ou parte de uma embarcação, com tripulação, à disposição do afretador para efetuar transporte em uma ou mais viagens". 2. No que se refere à primeira espécie afretamento a casco nu , na qual se cede apenas o uso da embarcação, a Segunda Turma/STJ, ao apreciar o REsp 792.444/RJ , entendeu que "para efeitos tributários, os Fl. 3981DF CARF MF Processo nº 12448.725982/201480 Acórdão n.º 9101003.683 CSRFT1 Fl. 35 34 navios devem ser considerados (Rel. Min. Eliana Calmon, DJ de 26.9.2007) como bens móveis, sob pena de desvirtuaremse institutos de Direito Privado, o que é expressamente vedado pelo art. 110 do CTN". E levando em consideração a orientação do STF no sentido de que é inconstitucional a incidência do ISS sobre a locação de bens móveis (RE 116.12I/SP, Tribunal Pleno, Rel Min. Octávio Gallotti, Rel. p/ acórdão Min. Marco Aurélio, DJ de 25.5.2001), concluiu no sentido de que é ilegítima a incidência do ISS em relação ao afretamento a casco nu. De falo. no contrato em comento há mera locação da embarcação sem prestação de serviço, o que não constitui falo gerador do ISS. 3. No que tange às demais espécies, consignouse no precedente citado que: "Os contratos de afretamento por tempo ou por viagem são complexos porque, além da locação da embarcação, com a transferência do bem, há a prestação de uma diversidade de serviços, dentre os quais se inclui a cessão de mãodeobra", de modo que "não podem ser desmembrados para efeitos fiscais (Precedentes desta Corte) e não são passíveis de tribulação pelo ISS porquanto a específica atividade de afretamento não consta da lista anexa ao DL 406/68". Assim, podese afirmar que em tais espécies contratuais (afretamento por tempo e afretamento por viagem) há um misto de locação de bem móvel e prestação de serviço. Contudo, como bem observado no precedente citado, a jurisprudência desta Corte — em hipóteses em que se discutia a incidência do ISS sobre os contratos de franquia, no período anterior à vigência da LC 116/2003 — firmouse no sentido de que não é possível o desmembramento de contratos complexos para efeitos fiscais (REsp 222.246/MG. 1ª Turma, Rel. Min. José Delgado, DJ de 4.9.2000, REsp 189.225/RJ. 2ª Turma. Rel. Min. Francisco Peçanha Martins, DJ de 4.9.2001). 4. Por tais razões, mostrase ilegítima a incidência do ISS sobre o contrato de afretamento de embarcação, em relação às três espécies examinadas. Recurso especial provido. DOS CUSTOS COM IMPORTAÇÃO Auditoria em uma outra rubrica dos custos, Material Aplicado, revelou a conta de custos com importação 3.1.03.02.07. Diferente do que indica a denominação da rubrica nas DIPJ, tal conta não registra aquisição de materiais. Exame no razão indica que nela são lançadas despesas aduaneiras com importações, como impostos, taxas e armazenagem. As intimações do TIF n° 7 item 1 e TIF N° 8 item 2, procuraram esclarecer a questão, inquirindo sobre a natureza da conta, bem como a respeito das aquisições que lhe deram origem. A resposta foi lacônica. Afirma de pronto que já havia prestado tais esclarecimentos em respostas anteriores, mas não há registro de qualquer manifestação acerca do assunto antes do atendimento ao TIF 8. A intimação anterior TIF 7, não foi atendida. Mas a informação assim obtida é de que ali "são lançadas as despesas de armazenagem e eventuais taxas de liberação de mercadorias" e que "os custos referentes à importação de produtos e mercadorias são, por sua vez, lançados na conta 3.1.03.02.01". Esta última informação não foi confirmada com a análise da conta indicada. Os registros e a própria denominação da Fl. 3982DF CARF MF Processo nº 12448.725982/201480 Acórdão n.º 9101003.683 CSRFT1 Fl. 36 35 conta contradizemna. Nela, cuja denominação é Custos dos Serviços Prestados, estão lançadas despesas com serviços de consultoria, prestados, em sua maior parte, por Visa Solutions para obtenção de vistos, passaporte e autorizações de trabalho. Os montantes registrados foram de R$ 380 mil, em 2009 e de R$ 945 mil, em 2010. Essa questão foi, então, tema do TIF n° 9, no qual foram solicitados esclarecimentos adicionais, considerando a possibilidade de ter havido um lapso na indicação da referida conta. A resposta surpreende. Não há menção a tal conta que registraria as aquisições de produtos e mercadorias, pois se depreende que não há importações. O que se registra são apenas os respectivos encargos aduaneiros, já anteriormente identificados. A razão é muito simples. Como já havia ficado claro para esta fiscalização, as importações se referem à internação de equipamentos, acessórios, instalações, componentes e outros materiais inerentes às plataformas de perfuração. A resposta dá conta de que se trata de regime aduaneiro de admissão temporária, sem cobertura cambial, transcrevendo o dispositivo que o disciplinava. Ou seja, depois da hesitação inicial, a fiscalizada admitiu, ainda que de forma subjacente, que tais encargos, de evidente responsabilidade da Sedrill Offshore, proprietária dos bens importados, estão indevidamente apropriados aos seus resultados. A título de informação, registrese que duas das plataformas foram internadas em 2009 e uma terceira em 2010. Extrato do SISCOMEXImportação informa que a primeira foi desembaraçada em 12/02/2009, através da DI n° 0901586786001, no valor de US$ 850 milhões, a segunda em 19/06/2009, DI n° 0907360984001, de US$ 745 milhões e a terceira em 16/07/2010, DI n° 1012054839001, de US$ 668 milhões. Assim, não poderia ser outra a indagação do TIF n° 10 item 2. Solicitouse que se indicassem os motivos de tal ônus recair sobre a empresa brasileira. A resposta só veio um mês depois, mais uma vez com direito a prorrogação do prazo. Não há qualquer novidade, apenas se reafirmam as alegações anteriores de que referidos custos são necessários e utilizados na sua atividade. Tal procedimento da fiscalizada já havia sido objeto de análise pela DRJ do Recife. A conclusão não foi diferente. Segue a ementa do acórdão N° 1144244 de 2013 Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica Irpj Anocalendário: 2008 IRPJ. GLOSA DE CUSTOS E DESPESAS. CONTRATO DE AFRETAMENTO DE EMBARCAÇÃO ENTRE SOCIEDADE ESTRANGEIRA E EMPRESA NACIONAL QUE FIRMA COM O FISCALIZADO CONTRATO DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS DE OPERAÇÃO DA EMBARCAÇÃO. IMPORTAÇÃO DE BENS SOB RESPONSABILIDADE DA EMPRESA ESTRANGEIRA, VINCULADA AO CONTRATO DE AFRETAMENTO. IMPOSSIBILIDADE DE DEDUÇÃO DE TAIS GASTOS DA BASE DE CÁLCULO DO IRPJ E CSLL POR PARTE DO FISCALIZADO. Se efetivamente a aquisição dos bens fosse de responsabilidade do impugnante, todas as despesas e custos (dos bens e incidentes na importação) deveriam figurar em contas de resultado do fiscalizado. Fl. 3983DF CARF MF Processo nº 12448.725982/201480 Acórdão n.º 9101003.683 CSRFT1 Fl. 37 36 Ocorre que os bens foram importados sem cobertura cambial, uma vez que não haveria pagamento à sociedade estrangeira, tendo o contribuinte impugnante apenas contabilizado os impostos incidentes sobre tais importações. Ademais, como afirmado pela autoridade lançadora, sequer tais bens constaram no ativo imobilizado, muito menos em contas de estoques. Ora, se o contribuinte importa bens (máquinas, equipamentos, acessórios etc.) para fazer frente a um contrato de prestação de serviço, não se compreende como tais bens, pelo seu preço de aquisição, não figurassem na contabilidade do adquirente, nem muito menos fossem ativados em contas do imobilizado ou de estoque. A mesma estranheza avulta quando se vê que o contribuinte somente contabilizou em conta de despesa os tributos incidentes na importação de tais bens, quando poderia a impugnante ou a sociedade estrangeira solicitar o reembolso de tais despesas ao contratante nacional, e assim não procedeu. Apreende se, de tudo, que os gastos oriundos da importação estão vinculados ao contrato de afretamento de embarcação, não podendo ser despesas dedutíveis em favor do impugnante. DO PLANO DE CONTAS Quanto à classificação contábil que é dada aos custos acima analisados, o plano de contas da fiscalizada reserva um grupo sob a denominação de Mercado Externo 3.1.03.02, onde, além das duas contas supracitadas, estão as que registram os tributos ISS e CIDE e outros encargos incidentes e/ou inerentes aos próprios valores faturados pelas sócias estrangeiras a título de cessão de mãodeobra (Serviços Prestados MDO). Eis a composição ao final em cada um dos exercícios: Cod. Descrição 2009 2010 3.1 03.02 MERCADO EXTERNO 146.950.594,27 155.012.208,81 3.1.03.02.01 CUSTO DOS SERVIÇOS PRESTADOS 388.054,10 945.512,56 3.1.03.02.06 SERVIÇOS PRESTADOS MDO 110.499.603,49 125.913.461,62 3.1.03.02.07 CUSTO COM IMPORTAÇÃO 20.317.529,60 8.107.644,79 3.1.03.02.09 CUSTO COM TREINAMENTOS 27.133,29 98.812,13 3.1,03.02.10 ISS S/ CUSTO SERV. PREST. EXTERIOR 5.815.750,34 6.627.024,31 3.1.03,02.11 IRRJ S/ CUSTO SERV. PREST, EXTERIOR 15.748,00 0 3,1.03.02.12 CIDE S/ CUSTO SERV. PREST. EXTERIOR 9.886.775,45 13.254.048,75 3.1.03.02.99 OUTROS CUSTOS COM SERV PREST MDO EXT 0 65.704,65 Vejamos esse grupo de contas inserido nas demonstrações dos resultados no encerramento dos exercícios em questão: [...] Verificase, portanto, que a própria escrituração contábil segrega os custos de "Mercado Externo", indicando que eles estão à parte, que são considerados extraordinários, que não devem ser computados no resultado, posto que seriam reembolsáveis. Do contrário estariam integrados aos demais custos, da mesma natureza, classificados de Mercado Interno 3.1.03.01 e/ou Custos com Pessoal 3.01.03.04. E nem se diga que se refiram às receitas equivalentes, de serviço no mercado externo (conta Fl. 3984DF CARF MF Processo nº 12448.725982/201480 Acórdão n.º 9101003.683 CSRFT1 Fl. 38 37 4.1.02.02). Nesta são lançados meros reembolsos, faturados contra a sócia Seadrill Offshore, conforme a escrituração e os esclarecimentos prestados em atendimento aos TIF n° 01, item 4; n° 03, item 2; e n° 05 item 5 DAS INFRAÇÕES APURADAS Por todo o exposto, tais custos, classificados no grupo de contas 3.1.03.02 Mercado Externo, foram considerados estranhos às atividades da fiscalizada, não necessários para a manutenção da respectiva fonte de receitas. Dessa forma foram glosados para efeito das apurações do lucro real e da base de cálculo da CSLL. Os montantes mensais foram extraídos da escrituração e os extratos dos respectivos balancetes estão anexados ao presente Termo de Verificação. Está bem claro que a Fiscalização não questionou a divisão do valor total dos contratos firmados com a Petrobras entre as empresas citadas (o chamado split contratual). A forma de contratação, pela qual se dividiu o montante total dos contratos em 80% para o afretamento (controladora no exterior) e 20% para a prestação de serviços (controlada no Brasil), não foi em nenhum momento questionada ou alterada pela Fiscalização. O que a Fiscalização fez foi analisar os custos apropriados à formação dos resultados, partindo exatamente das receitas reconhecidas pela própria contribuinte. É bastante acertada a observação contida no despacho de admissibilidade, de que "quem primeiro levantou a questão da 'artificialidade' da divisão da operação entre os contratos de afretamento e de prestação de serviço (split contratual) foi o próprio sujeito passivo, em sua impugnação", e que "essa questão foi, então, examinada tanto pela decisão de primeiro grau quanto pela decisão recorrida, mas sempre, a meu ver, como obiter dictum". Também é importante registrar que a glosa de custos/despesas foi averiguada com profundidade no curso da fiscalização, conforme evidencia a transcrição acima do TVF, e foi dirigida para contas e rubricas específicas. A glosa não abrangeu todos os custos e despesas, como pretende sugerir a contribuinte em seu recurso. Em 2009, de um custo total de vendas e serviços na ordem de R$ 277 milhões, foram glosados valores em torno de R$ 146 milhões. Já em 2010, de um custo total de vendas e serviços na ordem de R$ 352 milhões, os valores glosados giraram em torno de R$ 155 milhões. As reivindicações da contribuinte em seu recurso especial apontam, inclusive, para uma demanda de puro reexame de provas, o que já seria bastante inapropriado para essa fase de recurso especial, que não se confunde com qualificação jurídica dos fatos (mas não é o caso deste processo, dado que a divergência que se pretende instaurar não é sobre a qualificação jurídica). O fato é que todo o questionamento em relação à artificialidade do split contratual serviria apenas para a subida do recurso, mas a conclusão pela dedutibilidade das rubricas e valores glosados pela Fiscalização não seria tão automática assim, ou "inevitável", nas palavras da contribuinte. Basta ver o conteúdo do TVF, para se perceber que a análise da glosa dos custos/despesas vai muito além dos questionamentos em relação ao split contratual. E já ficou Fl. 3985DF CARF MF Processo nº 12448.725982/201480 Acórdão n.º 9101003.683 CSRFT1 Fl. 39 38 bastante esclarecido que a Fiscalização nem mesmo fez qualquer modificação na divisão do valor total dos contratos firmados com a Petrobras entre as empresas citadas (que é o que se designa como split contratual). Desse modo, ainda que se tomasse conhecimento do recurso especial para apreciar essa questão da artificialidade do split contratual, não haveria nada a fazer em relação ao montante e à proporção das receitas reconhecidas pela própria contribuinte, porque a Fiscalização partiu exatamente desses valores para a apuração do resultado tributável. É isso o que evidencia a falta de interesse recursal no presente caso. Ainda que se tomasse conhecimento do recurso especial para apreciar essa questão da artificialidade do split contratual, caberia ainda tratar individualmente de cada rubrica glosada, e isso exigiria puro reexame de provas O que está bastante evidente é que a caracterização da divergência que a contribuinte pretendeu suscitar em seu recurso especial dependeria da apresentação de um paradigma que tratasse de glosa dos mesmos tipos de rubricas, nesse mesmo tipo de situação/ contrato, só aí se estaria pacificando a qualificação jurídica dos fatos e as provas poderiam ser revisadas. Mas como já destacado anteriormente, o paradigma apresentado, o Acórdão nº 1103001.105, nem mesmo se refere a lançamento por glosa de custos/despesas, mas sim por omissão de receitas, receitas que estariam configuradas nos valores que as controladoras no estrangeiro remeteram à controlada no Brasil. No relatório (no tópico contrarrazões da PGFN), consta transcrição de boa parte desse paradigma, e não é necessário reproduzila novamente. O que é importante registrar é que essa decisão tratou de lançamento bastante distinto do contido nestes autos. No paradigma, a Fiscalização entendeu que a contribuinte autuada e as empresas no exterior, por serem suas controladoras, atribuíram com artificialidade os preços que ambas praticariam junto à contratante, a Petrobras, de modo que a maior parte do preço global ajustado com a contratante fosse imputável às controladoras no exterior – no caso, cerca de 90% do preço global. E é a partir dessa artificialidade de preços contratados (ou seja, do split contratual) que emergiu a parte do preço (receita omitida) da prestação de serviços pela contribuinte autuada à Petrobras, representada pelos recursos que foram transferidos pelas controladoras estrangeiras para a controlada brasileira. A artificialidade dos preços na contratação pela Petrobrás estaria configurada da seguinte forma: parte do preço estabelecido na contratação do afretamento – contratação das empresas estrangeiras controladoras – em realidade, comporiam o preço estabelecido na contratação da controlada no Brasil para prestação de serviços à Petrobras. A contribuinte autuada afirmava que, por comodidade operacional, ela fazia desembolsos de despesas incorridas pelas empresas estrangeiras contratadas pela Petrobras, sendo por essas reembolsada. Ou seja, os valores recebidos das empresas estrangeiras Fl. 3986DF CARF MF Processo nº 12448.725982/201480 Acórdão n.º 9101003.683 CSRFT1 Fl. 40 39 corresponderiam a reembolsos de despesas incorridas por aquelas empresas, mas pagas pela empresa brasileira. Diante desse cenário, o acórdão paradigma registrou que não havia nos autos nenhuma indicação de que os limites previstos nos editais de licitação da Petrobras (ou seja, o split contratual) tinham sido objeto de alguma negociação entre os participantes do certame e a Petrobras. E que, portanto, não haveria artificialidade na determinação dos preços de afretamento e de prestação de serviços, ambos contratados pela Petrobras conforme o split contratual previsto nos próprios editais de concorrência e de convite, os quais menciona e transcreve. Ainda segundo o paradigma, com isso, restaria derruído o motivo central da autuação naquele caso, qual seja, o de estabelecimento de fluxo triangular de recursos, com artificialidade dos preços praticados com a contratante, a Petrobras. O acórdão paradigma entendeu que não se sustentava a conclusão de que os valores de transferência de recursos das “controladoras” da recorrente para esta eram preço de prestação de serviços da recorrente às suas “controladoras”, e que também não se sustentava a conclusão de que tais valores eram preço de prestação de serviços pela recorrente à Petrobras (encobertos no preço dos afretamentos das empresas estrangeiras contratadas). O acórdão paradigma, além de rejeitar o entendimento de que os valores repassados pelas empresas estrangeiras à empresa brasileira correspondiam a receitas referentes aos serviços prestados por esta à Petrobrás (receitas omitidas), também refutaram o argumento de que os valores recebidos pela empresa brasileira poderiam constituir, alternativamente, subvenção para custeio ou recuperações de custos por ela deduzidos. Tudo isso deixa muito evidente que não há paralelo entre o referido paradigma e o acórdão recorrido, que permita a caracterização de divergência jurisprudencial. Os contextos dos lançamentos examinados por essas decisões são muito distintos. Nem mesmo há como analisar o lançamento dos presentes autos (glosa de custos/ despesas) pela ótica do acórdão paradigma (que tratou de lançamento por omissão de receitas). Além da falta de interesse, não há como caracterizar a divergência suscitada a partir de decisões que examinaram contextos tão diferentes. E como já mencionado, o recurso especial não configura uma terceira instância destinada a simples reexame de provas desvinculado de qualificação jurídica dos fatos, que, em resumo, é o que a contribuinte busca com seu recurso. Correta a preliminar de não conhecimento suscitada pela PGFN em sede de contrarrazões. Deste modo, voto no sentido de NÃO CONHECER do recurso especial da contribuinte. (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araujo Fl. 3987DF CARF MF Processo nº 12448.725982/201480 Acórdão n.º 9101003.683 CSRFT1 Fl. 41 40 Fl. 3988DF CARF MF
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Numero do processo: 10480.914161/2009-27
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Terceira Seção
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Aug 16 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Sep 06 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/09/2000 a 30/09/2000
REGIME CUMULATIVO. RECUPERAÇÃO DE DESPESA. PRESTAÇÃO DE GARANTIA SOBRE PEÇAS. RECEITA BRUTA. INCIDÊNCIA.
A apuração cumulativa da Cofins tem como base de cálculo a receita da venda de bens, da prestação de serviços e outras receitas decorrentes da atividade ou objeto principal da empresa, salvo as expressamente excluídas por lei.
Os montantes recebido a título de reembolso pelas despesas na prestação de garantia sobre peças integram a referida base de cálculo, por falta de amparo legal para sua exclusão.
REGIME CUMULATIVO. BONIFICAÇÃO EM DINHEIRO. RECEITA BRUTA. INCIDÊNCIA.
Os valores em dinheiro recebidos pela concessionária a título de bonificação, que não reduzem o valor da nota fiscal de venda e que se efetivam em momento posterior à sua emissão, não constituem descontos incondicionais, mas receita do adquirente e, como tal, estão sujeitos à tributação pela Cofins.
Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/09/2000 a 30/09/2000
COMPENSAÇÃO. ÔNUS PROBATÓRIO DO CONTRIBUINTE.
Pertence ao contribuinte o ônus de comprovar a certeza e liquidez do crédito para o qual pleiteia compensação.
Numero da decisão: 3002-000.363
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Votou pelas conclusões a conselheira Maria Eduarda Alencar Câmara Simões.
(assinado digitalmente)
Larissa Nunes Girard - Presidente e Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Larissa Nunes Girard (Presidente), Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Carlos Alberto da Silva Esteves e Alan Tavora Nem.
Nome do relator: LARISSA NUNES GIRARD
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/09/2000 a 30/09/2000 REGIME CUMULATIVO. RECUPERAÇÃO DE DESPESA. PRESTAÇÃO DE GARANTIA SOBRE PEÇAS. RECEITA BRUTA. INCIDÊNCIA. A apuração cumulativa da Cofins tem como base de cálculo a receita da venda de bens, da prestação de serviços e outras receitas decorrentes da atividade ou objeto principal da empresa, salvo as expressamente excluídas por lei. Os montantes recebido a título de reembolso pelas despesas na prestação de garantia sobre peças integram a referida base de cálculo, por falta de amparo legal para sua exclusão. REGIME CUMULATIVO. BONIFICAÇÃO EM DINHEIRO. RECEITA BRUTA. INCIDÊNCIA. Os valores em dinheiro recebidos pela concessionária a título de bonificação, que não reduzem o valor da nota fiscal de venda e que se efetivam em momento posterior à sua emissão, não constituem descontos incondicionais, mas receita do adquirente e, como tal, estão sujeitos à tributação pela Cofins. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/09/2000 a 30/09/2000 COMPENSAÇÃO. ÔNUS PROBATÓRIO DO CONTRIBUINTE. Pertence ao contribuinte o ônus de comprovar a certeza e liquidez do crédito para o qual pleiteia compensação.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/09/2000 a 30/09/2000 REGIME CUMULATIVO. RECUPERAÇÃO DE DESPESA. PRESTAÇÃO DE GARANTIA SOBRE PEÇAS. RECEITA BRUTA. INCIDÊNCIA. A apuração cumulativa da Cofins tem como base de cálculo a receita da venda de bens, da prestação de serviços e outras receitas decorrentes da atividade ou objeto principal da empresa, salvo as expressamente excluídas por lei. Os montantes recebido a título de reembolso pelas despesas na prestação de garantia sobre peças integram a referida base de cálculo, por falta de amparo legal para sua exclusão. REGIME CUMULATIVO. BONIFICAÇÃO EM DINHEIRO. RECEITA BRUTA. INCIDÊNCIA. Os valores em dinheiro recebidos pela concessionária a título de bonificação, que não reduzem o valor da nota fiscal de venda e que se efetivam em momento posterior à sua emissão, não constituem descontos incondicionais, mas receita do adquirente e, como tal, estão sujeitos à tributação pela Cofins. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/09/2000 a 30/09/2000 COMPENSAÇÃO. ÔNUS PROBATÓRIO DO CONTRIBUINTE. Pertence ao contribuinte o ônus de comprovar a certeza e liquidez do crédito para o qual pleiteia compensação. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 48 0. 91 41 61 /2 00 9- 27 Fl. 148DF CARF MF Processo nº 10480.914161/200927 Acórdão n.º 3002000.363 S3C0T2 Fl. 149 2 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Votou pelas conclusões a conselheira Maria Eduarda Alencar Câmara Simões. (assinado digitalmente) Larissa Nunes Girard Presidente e Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Larissa Nunes Girard (Presidente), Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Carlos Alberto da Silva Esteves e Alan Tavora Nem. Relatório Trata este processo da Declaração de Compensação da Cofins paga indevidamente ou a maior, no valor original de R$ 11.044,40, relativa ao período de apuração setembro/2000, com débito de IRPJ (fls. 2 a 5). Em seu Despacho Decisório, a Delegacia da Receita Federal no Recife negou a compensação por haver constatado que o Darf discriminado no PER/Dcomp havia sido integralmente utilizado na quitação de outros débitos (fl. 6). A recorrente apresentou Manifestação de Inconformidade na qual alegou a inconstitucionalidade do § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/1998 e que seu direito à restituição proviria da exclusão das receitas financeiras da base de cálculo da Cofins (fls. 11 a 20). Instruiu seu recurso com atos constitutivos e de representação; a Dcomp; o PER de onde proveio o crédito para a compensação, transmitido em 06/06/2005; parte da DCTF do 3º trimestre/2000, relativa aos débitos e pagamentos do período que se analisa; cópia do Livro Diário relativa às receitas financeiras do 3º trimestre/2000; e o demonstrativo de cálculo da Cofins apurada sobre as receitas financeiras (fls. 21 a 66). A Delegacia de Julgamento no Recife (DRJ/Recife) decidiu por converter o julgamento em diligência para que fosse providenciada a juntada de novas cópias do Razão Geral, nítidas e com a necessária autenticação que faltou aos documentos anexados inicialmente (fls. 68 e 69). Em atendimento à intimação, o sujeito passivo providenciou a juntada dos documentos que se encontram às fls. 80 a 91. A partir da análise dos novos documentos, a DRJ/Recife proferiu o Acórdão nº 1153.101 (fls. 94 a 99), por meio do qual decidiu pela procedência parcial da Manifestação de Inconformidade, tendo em vista que, apesar de estar configurada situação para afastamento de norma por inconstitucionalidade, uma vez proferida decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal com repercussão geral e expedida manifestação da ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional, o Colegiado discordou da exclusão de certas receitas da base de cálculo, bem como da inclusão de períodos de apuração que não constavam da declaração original. A DRJ constatou que o contribuinte calculou o valor a ser restituído correspondendo a todo o 3º trimestre (R$ 11.125,26), apesar de o presente processo tratar de Fl. 149DF CARF MF Processo nº 10480.914161/200927 Acórdão n.º 3002000.363 S3C0T2 Fl. 150 3 uma declaração de compensação relativa apenas ao mês de setembro. Segundo o demonstrativo elaborado pela própria requerente, às receitas financeiras de setembro corresponderia um pagamento de Cofins de apenas R$ 5.091,26. Além disso, foi considerado como receita financeira e excluído da base de cálculo da Cofins o grupamento contábil 3201Receitas Operacionais de Comercialização, sobre o qual, segundo a DRJ, incide a contribuição. Por outro lado, concluiuse por correta a exclusão da base de cálculo do grupamento 3601Receitas Financeiras, que no mês de setembro atingiu o montante de R$ 24.482,05 e sobre o qual foi pago indevidamente Cofins no valor de R$ 734,46 (alíquota de 3%), sendo esse o montante do direito creditório reconhecido. O Acórdão foi assim ementado: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/09/2000 a 30/09/2000 REGIME CUMULATIVO. BASE DE CÁLCULO. ALARGAMENTO. RECEITAS NÃO OPERACIONAIS. INCONSTITUCIONALIDADE. DIREITO CREDITÓRIO. RECONHECIMENTO. Declarada a inconstitucionalidade do § 1º do artigo 3º da Lei nº 9.718, de 27 de novembro 1998, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em julgamento definitivo submetido à sistemática prevista no art. 543B do Código de Processo Civil (CPC), e tendo a ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (PGFN) já adotado os procedimentos estabelecidos na Portaria PGFN/RFB nº 1, de 12 de fevereiro de 2014, deve ser reconhecido o direito creditório, até o limite comprovado, advindo do recolhimento indevido ou maior que o devido, em função da incidência da Cofins, apurada pelo regime cumulativo, nas receitas não operacionais. Manifestação de Inconformidade Procedente em Parte Direito Creditório Reconhecido em Parte O contribuinte tomou ciência do Acórdão proferido pela DRJ em 21.06.2016, conforme Termo da Ciência por Abertura de Mensagem constante à fl. 109, e protocolizou seu recurso em 20.07.2016, conforme Termo de Solicitação de Juntada à fl. 110. No Recurso Voluntário (fls. 111 a 128), o contribuinte apresentou as alegações que se seguem. 1. Natureza das contas relativas a Recuperação de Despesas A recorrente informa que, como concessionária da MercedesBens, adquire caminhões para revenda, pagando o preço de aquisição dos bens e, posteriormente, recebe da montadora bonificações de venda. Esses valores são recebidos pela recorrente em decorrência das suas vendas, mas são totalmente incondicionais, eis que estão atrelados apenas às vendas dos seus caminhões. Fl. 150DF CARF MF Processo nº 10480.914161/200927 Acórdão n.º 3002000.363 S3C0T2 Fl. 151 4 Explica que as bonificações aumentam o lucro bruto, uma vez que diminuem o custo da mercadoria vendida, mas não interferem nas receitas, pois o valor das vendas não é alterado. São apenas recuperação do custo dos bens adquiridos por ela para revenda, visando à recomposição de seu patrimônio, e não a seu incremento. Da mesma maneira ocorre com as contas Recuperação de despesas com garantia de peças, Rendimentos de veículos e Rendimentos de peças. Como concessionária, é obrigada a dar garantia de partes e peças dos veículos vendidos, bem como a fazer revisões. Para formalizar a garantia ela emite uma nota fiscal para o cliente, mas é a montadora que efetua o pagamento, caso reconheça o pleito da concessionária. Esse crédito é lançado na conta Recuperação de despesas com garantia de peças. Acerca do conceito de Receita, aponta que, para fins de incidência tributária, estáse diante de um conceito jurídico, além de contábil ou econômico, não devendo um ingresso financeiro ser considerado como receita apenas em função dos registros contábeis. Receita pressupõe o ingresso de algo novo no patrimônio, um novo direito adquirido por alguém e que representa uma obrigação para terceiro. Entende não ser receita o ingresso que é reposição do que antes existia, fazendo referência a situação análoga nas exclusões da base de cálculo dos valores referentes a Reversões de provisões e Recuperações de créditos baixados como perda, que não representem ingresso de novas receitas, previstas no art. 3º da Lei nº 9.718/1998 Por fim, ressalta que a técnica contábil é de livre escolha do contribuinte e que o fato de contabilizar esses valores em conta Outras Receitas não altera a sua natureza jurídica. Cita jurisprudência do Carf, Solução de Consulta Cosit relativa a recuperação de IPTU e decisão do STJ relativa à impossibilidade de incluir o crédito presumido de ICMS na base de cálculo das contribuições, entre outros. 2. Da análise conjunta do 3º trimestre/2000 Alega que o pedido apresentado na Manifestação de Inconformidade não foi integralmente analisado pela DRJ, uma vez que o período total do fato gerador do crédito é o 3º trimestre/2000, tendo anexado planilha e Livro Razão referentes a todo o período e não apenas ao mês de setembro. Ainda que tenha errado o preenchimento do PER/Dcomp, informando apenas o mês de setembro, demonstrou o direito ao crédito em relação ao trimestre, não cabendo ser negado o direito por eventual erro na formalização de obrigação acessória, tendo em vista o princípio da legalidade e, também, o da tipicidade cerrada, segundo o qual o aplicador da lei não pode cobrar tributo quando não for verificada a concretização da hipótese legal. Transcreve diversos acórdãos do Carf, emitidos entre 1989 e 2008, sobre erro de fato e verdade material. Juntou atos constitutivos e de representação da empresa (fls. 129 a 145). É o relatório. Voto Fl. 151DF CARF MF Processo nº 10480.914161/200927 Acórdão n.º 3002000.363 S3C0T2 Fl. 152 5 Conselheira Larissa Nunes Girard Relatora O recurso voluntário é tempestivo, preenche os requisitos formais de admissibilidade, inclusive quanto à competência das Turmas Extraordinárias e, portanto, dele tomo conhecimento. Após o provimento parcial em primeira instância, o processo veio a este Colegiado com o pedido de exclusão da base de cálculo da Cofins das receitas contabilizadas no grupo 3201Receitas Operacionais de Comercialização e de reconhecimento de direito a crédito para todo o 3º trimestre/2000, apesar de a Dcomp ter sido registrada apenas para setembro/2000. Para facilitar a compreensão, anexase uma tabela com as contas analisadas pela DRJ, lembrando que foi reconhecido o direito a crédito apenas no que diz respeito às receitas de setembro do grupo 3601. 1. Contas do grupo 3201Receitas Operacionais de Comercialização Segundo o contribuinte, todas as receitas do grupo 3201 seriam recuperação de despesa, que ele também trata como bonificação de venda, de caráter incondicional, como se fossem sinônimos. De pronto, é de se dizer que tal entendimento não procede e, portanto, serão analisadas as duas hipóteses: se estamos diante de recuperação de despesas ou de bonificação de vendas. Vejamos inicialmente a legislação relativa ao cálculo da Cofins no regime cumulativo. Transcrevese o trecho pertinente da Lei nº 9.718/1998, que amplia as exclusões da base de cálculo previstas inicialmente na Lei Complementar nº 70/1991, que instituiu a Contribuição: Art. 2° As contribuições para o PIS/PASEP e a COFINS, devidas pelas pessoas jurídicas de direito privado, serão calculadas com base no seu faturamento, observadas a legislação vigente e as alterações introduzidas por esta Lei. Grupo Contábil Receitas Operacionais de Comercialização Julho Agosto Setembro Crédito Especial MBB/Veículos 79.851,80 Bonificação MBB Veículos 28.505,71 Rendimento com C/C Veículos 14.036,40 Bonificação MBB Peças/Motores 10.185,23 Rendimento c/ Conta Componentes 3.820,42 3201 Recuperação Despesas c/ Garantia Peças 10.350,43 Receitas Financeiras Outras Receitas Financeiras 6.500,69 Juros Recebidos 12.983,37 3601 Descontos Obtidos 3.474,54 Total Receitas (3201 + 3601) 106.535,68 94.597,62 169.708,59 Total COFINS pago (3%) 3.196,07 2.837,93 5.091,26 Fl. 152DF CARF MF Processo nº 10480.914161/200927 Acórdão n.º 3002000.363 S3C0T2 Fl. 153 6 Art. 3o O faturamento a que se refere o art. 2o compreende a receita bruta de que trata o art. 12 do DecretoLei no 1.598, de 26 de dezembro de 1977. § 1º (Revogado) § 2º Para fins de determinação da base de cálculo das contribuições a que se refere o art. 2º, excluemse da receita bruta: I as vendas canceladas e os descontos incondicionais concedidos; II as reversões de provisões e recuperações de créditos baixados como perda, que não representem ingresso de novas receitas, o resultado positivo da avaliação de investimento pelo valor do patrimônio líquido e os lucros e dividendos derivados de participações societárias, que tenham sido computados como receita bruta; III (Revogado) IV as receitas de que trata o inciso IV do caput do art. 187 da Lei no 6.404, de 15 de dezembro de 1976, decorrentes da venda de bens do ativo não circulante, classificado como investimento, imobilizado ou intangível; e V (Revogado) VI a receita reconhecida pela construção, recuperação, ampliação ou melhoramento da infraestrutura, cuja contrapartida seja ativo intangível representativo de direito de exploração, no caso de contratos de concessão de serviços públicos. (Incluído pela Lei nº 12.973, de 2014) (grifado) Do DecretoLei nº 1.598/1977, que trata do Imposto de Renda, extraímos a definição de receita bruta: Art. 12. A receita bruta compreende: (Redação dada pela Lei nº 12.973, de 2014) I o produto da venda de bens nas operações de conta própria; II o preço da prestação de serviços em geral; III o resultado auferido nas operações de conta alheia; e IV as receitas da atividade ou objeto principal da pessoa jurídica não compreendidas nos incisos I a III. (grifado) De se ressaltar que a redação dada pela Lei nº 12.973/2014 ao inciso IV do art. 12 expressa o entendimento de receita bruta que há anos norteia a Receita Federal, constante em diversas soluções de consulta da Cosit e em instruções normativas, inclusive a Instrução Normativa SRF nº 247/2002, que dispõe sobre PIS e Cofins, e que é o entendimento adotado neste voto. Fl. 153DF CARF MF Processo nº 10480.914161/200927 Acórdão n.º 3002000.363 S3C0T2 Fl. 154 7 Isso posto, extraise dos excertos acima que a base de cálculo da Cofins para o caso em tela é o faturamento mensal, considerado como i) o produto da venda de bens, ii) o preço da prestação de serviços e iii) outras receitas decorrentes da atividade ou objeto principal da empresa. Qualquer que seja a natureza dos valores constantes nas contas 3201, é inquestionável que se relacionam com a principal atividade da empresa, revenda de caminhões. Percebese também que a legislação foi bastante estrita ao definir quais receitas podem ser excluídas da base de cálculo. Dentre as hipóteses previstas, as que se relacionam com o caso presente são os descontos incondicionais concedidos (inciso I) e as reversões de provisões e as recuperações de créditos baixados como perda, que não representem ingresso de novas receitas (inciso II), sobre as quais faz referência o Recurso Voluntário. Analisemos, então, a tese de que todas as contas seriam recuperação de despesas. Temos no grupo 3201 seis contas distintas, sendo três relativas a veículos (Crédito especial, Bonificação e Rendimento) e três relativas a peças (Recuperação de despesas, Bonificação e Rendimento). Em relação aos veículos (Bonificação MBB Veículos), sabemos que o caminhão é comprado pelo seu preço normal, padrão. Posteriormente, após sua venda ao consumidor final, a concessionária recebe um bônus. Esse bônus seria dado em caráter incondicional, sem afetar o preço de venda, mas com efeito de reduzir o custo do caminhão comprado. Afirmase que o mesmo ocorre em relação às contas Bonificação Peças, Rendimento com Veículos e Rendimento com Componentes, sem explicar, todavia, o que caracteriza uma conta Bonificação e uma conta Rendimento. Por óbvio que essas contas tratam de fatos distintos, ainda que semelhantes, se não, sequer existiriam. Mas a defesa resumiuse a afirmar que: Da mesma forma, a recuperação de despesas com peças e os rendimentos com veículos e com peças, todos referentes a recuperações de custos e despesas da recorrente na execução de suas atividades. Em relação a essas contas, a descrição fornecida não nos permite concluir que estamos diante de custos ou despesas recuperados, não há um elemento sequer que nos permita visualizar, por exemplo, um reembolso ou ressarcimento por custos incorridos em nome da montadora ou que teria havido uma perda em relação às vendas que, ao final, foi revertida. No que diz respeito à conta Recuperação Despesas com Garantia Peças, explica o contribuinte que, como concessionária MercedesBenz, deve dar garantia de partes e peças, assim como realizar as revisões, mas quem arca com os custos é a montadora. A concessionária fatura os serviços prestados e repassa os valores para a montadora que, caso reconheça o pleito, a reembolsa no montante despendido na garantia. É a única conta para a qual se apresenta uma explicação coerente com a sua denominação contábil e que, em ocorrendo da forma como o contribuinte a descreve, teria a natureza de um reembolso. A concessionária seria responsável por prestar a garantia que, de fato, caberia à montadora. Entretanto, a própria recorrente informa que esse reembolso depende Fl. 154DF CARF MF Processo nº 10480.914161/200927 Acórdão n.º 3002000.363 S3C0T2 Fl. 155 8 de concordância da montadora com o serviço prestado, dando a entender que, eventualmente, pode não ocorrer, o que traz incerteza sobre a real natureza dessa operação. O problema que se apresenta é que temos uma defesa genérica no Recurso Voluntário, centrada na discussão teórica sobre o conceito de receita, sem a preocupação de caracterizar adequadamente os eventos que compõem cada conta contábil e, principalmente, sem trazer aos autos a documentação que seria essencial para provar a tese que defende. Ao menos deveria a recorrente ter instruído seu Recurso com o contrato firmado com a montadora, para o esclarecimento sobre a natureza dessa relação comercial e, consequentemente, da natureza dos valores recebidos pela concessionária, e com os registros contábeis das operações que se analisa, no intuito de provar que os ingressos são contabilizados de acordo com a sua defesa. Ademais, e igualmente importante, ainda que houvesse logrado provar que se trata de recuperação de despesas, não há previsão para exclusão desse tipo de receita da base de cálculo da Cofins. Como já destacado, dentre as contas de gênero similar à recuperação de despesas, temos previsão de exclusão apenas das reversões de provisões e das recuperações de créditos baixados como perda, que não representem ingresso de novas receitas. O contribuinte sugere que, por analogia, caberia também a exclusão das recuperações de despesa, mas entendo que não procede tal raciocínio. O texto legal é preciso e se fosse seu objetivo excluir todas os ingressos de natureza semelhante a uma recuperação de despesas ou reembolso, teria outra redação. Não se pode olvidar que o art. 108 do Código Tributário Nacional dispõe que a analogia será utilizada na ausência de disposição expressa, o que não é o caso, já que a Lei nº 9.718/1998 definiu claramente quais são as exclusões possíveis. Tal entendimento está em consonância com a Lei nº 4.506/1964, que dispõe sobre o Imposto de Renda, de onde provém o conceito de receita bruta que se adota na Cofins, e pelo qual se vê que as recuperações, em geral, integram a receita bruta, do que se conclui que estão excluídas apenas as que constem expressamente da lei: Art. 44. Integram a receita bruta operacional: I O produto da venda dos bens e serviços nas transações ou operações de conta própria; II O resultado auferido nas operações de conta alheia; III As recuperações ou devoluções de custos, deduções ou provisões; IV As subvenções correntes, para custeio ou operação, recebidas de pessoas jurídicas de direito público ou privado, ou de pessoas naturais. (grifado) Por fim, temos ainda no grupo 3201 a conta Crédito Especial MBB/Veículos, sobre a qual não se forneceu qualquer informação, motivo pelo qual será considerada como matéria não recorrida, como previsto no art. 17 do Decreto nº 70.235/1972: Fl. 155DF CARF MF Processo nº 10480.914161/200927 Acórdão n.º 3002000.363 S3C0T2 Fl. 156 9 Art. 17. Considerarseá não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo impugnante. Em suma, apenas a conta Recuperação Despesas com Garantia Peças teria a natureza de reembolso, mas nenhuma documentação foi trazida para suportar essa afirmação. Em acréscimo, não há previsão legal para exclusão de recuperação de despesas da base de cálculo da Cofins. O texto legal é exaustivo em suas hipóteses de exclusão, devendo ser interpretado de forma literal porque implica exclusão do crédito tributário. Passemos então à alegação do contribuinte de que as contas do grupo 3201 representariam bonificações de caráter incondicional. Sobre bonificação manifestouse a Cosit por meio do Parecer CST/SIPR nº 1.386/1982, nos seguintes termos: Bonificação significa, em síntese, a concessão que o vendedor faz ao comprador, diminuindo o preço da coisa vendida ou entregando quantidade maior que a estipulada. Diminuição do preço da coisa vendida pode ser entendido também como parcelas redutoras do preço de venda, as quais, quando constarem da Nota Fiscal de venda dos bens e não dependerem de evento posterior à emissão desse documento, são definidas, pela Instrução Normativa SRF nº 51/78, como descontos incondicionais, os quais, por sua vez, estão inseridos no art. 178 do RIR/80. (grifado) Instrução Normativa SRF nº 51/1978: 4. A receita líquida de vendas e serviços é a receita bruta das vendas e serviços, diminuídas (a) das vendas canceladas, (b) dos descontos e abatimentos concedidos incondicionalmente e (c) dos impostos incidentes sobre as vendas. (…) 4.2 – Descontos incondicionais são parcelas redutoras do preço de vendas, quando constarem da nota fiscal de venda dos bens ou da fatura de serviços e não dependerem de evento posterior à emissão desses documentos. (grifado) Por certo que o valor recebido a título de bonificação não consta da nota fiscal de venda do caminhão para a concessionária, visto que só é pago após a revenda do caminhão para o consumidor final. Consta do Recurso que a concessionária paga “o preço de aquisição do bem”, dando a entender ser o preço cheio, normal. E quanto à segunda condição, não depender de evento posterior à emissão da nota fiscal, entendo também não estar atendida, pois a tal bonificação somente é paga após a revenda do caminhão – não se sabe sob que condições. Reproduzse o trecho pertinente do Recurso Voluntário, que entendo ser uma contradição insolúvel, pois não é possível um fato ser simultaneamente incondicional e decorrer de evento posterior (fl. 114): Esses valores [bonificações] são recebidos pela recorrente em decorrência das suas vendas, mas são totalmente incondicionais, eis que estão apenas atrelados às vendas dos seus caminhões. (grifado) Fl. 156DF CARF MF Processo nº 10480.914161/200927 Acórdão n.º 3002000.363 S3C0T2 Fl. 157 10 Em casos análogos de recebimentos de bônus, vêse que os pagamentos em dinheiro visam a premiar o atendimento de uma meta, ou a estimular uma relação comercial ou podem ser mesmo um desconto, atrelado a um evento certo ou incerto, entre algumas possibilidades. Mas no caso presente não logrou o contribuinte esclarecer suficientemente sua situação ou provar de que forma tais ingressos seriam bonificações. Assim, concluise que não foi demonstrado que alguma conta se enquadre como bonificação, de caráter incondicional, seja por alegações ou seja por provas (à exceção da conta Crédito Especial MBB/Veículos, que se tem por matéria não recorrida). Sobre a natureza do bônus pago às concessionárias de veículos por montadora, pronunciouse recentemente a Receita Federal, por meio da Solução de Consulta Cosit nº 366/2017, da seguinte maneira: CONCESSIONÁRIAS DE VEÍCULOS. BÔNUS DECORRENTES DE AQUISIÇÕES REALIZADAS JUNTO A MONTADORAS DE VEÍCULOS. NATUREZA JURÍDICA. SUBVENÇÃO PARA CUSTEIO. NÃO CARACTERIZAÇÃO DE BONIFICAÇÃO OU RECEITA FINANCEIRA. Os valores pagos pelas montadoras às concessionárias de veículos a título de bônus decorrentes de aquisições de veículos e autopeças realizadas por estas junto àquelas caracterizam subvenção corrente para custeio das atividades desenvolvidas pelas concessionárias de veículos, representando receitas próprias das concessionárias de veículos. As receitas das concessionárias de veículos decorrentes do recebimento do mencionado bônus, para fins de apuração da Cofins: a) não constituem receitas financeiras; b) não estão submetidas ao regime concentrado de cobrança da contribuição, previsto no art. 1º da Lei nº 10.485, de 2002, tendo em vista não decorrerem da operação de venda de veículos pela concessionária, nem integrarem a operação antecedente de compra de veículos realizada por esta; e c) estão sujeitas ao regime de apuração (cumulativa ou não cumulativa) a que está sujeita a pessoa jurídica beneficiária. (grifado) Segue trecho da Solução de Consulta que esclarece a posição adotada e entendo por pertinente para o nosso contexto: 22. Conforme reconhece a consulente “o procedimento de concessão de tal bônus acontece após a completa perfectibilização do negócio, ou seja, depois de consumado o pagamento do preço, a montadora restitui à concessionária quantia correspondente ao desconto pactuado”. Assim, os valores são recebidos posteriormente à operação de compra, e sem registro na nota fiscal de venda da fabricante para a concessionária, não se tratando, portanto, de bonificação, nem tampouco de desconto concedido incondicionalmente. Fl. 157DF CARF MF Processo nº 10480.914161/200927 Acórdão n.º 3002000.363 S3C0T2 Fl. 158 11 23. Ainda nos termos da petição inicial apresentada, “tais bônus (...) são concedidos indistintamente às compras de veículos e de peças realizadas pela requerente junto à montadora concedente, não se vinculando a qualquer tipo de meta estratégica ou de desempenho (...) Ocorre que o bônus em questão consiste em sistema de estímulo a abastecimento do estoque das concessionárias, por meio do qual a montadora incentiva à sua rede de representantes a adquirir autopeças da fábrica, independentemente das vendas realizadas. Ou seja, há um verdadeiro incentivo à realização de operações de compra por parte da rede de concessionários sem que, em contrapartida, seja incentivada sua atividadefim (venda de mercadorias)”. Dessa forma, podese concluir que o bônus em apreço também não pode configurar um desconto condicional, tendo em vista que a sua concessão independe de qualquer evento posterior à venda, constituindo um mero incentivo concedido pela montadora às atividades das concessionárias. 24. Do exposto, resta evidente que o bônus aqui discutido não possui natureza de receita financeira. 25. Tais “bônus” são, na verdade, como afirma a própria consulente, valores pagos como forma de incentivo à realização de operações de compras, estimulando o abastecimento do estoque das beneficiárias, caracterizando, portanto, uma verdadeira subvenção corrente efetuada pela montadora como forma de auxiliar no desenvolvimento das atividades de sua rede de concessionárias. (...) 28. Como visto, as subvenções correntes para custeio ou operação são as transferências de recursos para uma pessoa jurídica com a finalidade de auxiliála nas suas operações, no seu conjunto de despesas. Tais recursos não possuem destinação específica, nem exigem qualquer contrapartida da pessoa jurídica subvencionada, tendo natureza de receitas e sendo, em regra, tributáveis. É o que se confirma através do disposto nos atos abaixo: Embora a semelhança entre os casos seja evidente, não é possível afirmar inequivocamente que se está diante de situação idêntica, pois nos faltam informações relativas às operações da recorrente. O fragmento está transcrito não para suportar uma afirmação sobre qual seria a natureza das receitas que ora se analisa, mas para reforçar as conclusões sobre o que elas não são. 2. Da análise conjunta do 3º trimestre/2000 No julgamento em primeira instância, a DRJ deu provimento apenas ao valor da Cofins pago indevidamente no mês de setembro, em referência ao Darf informado na Dcomp. Protestou a recorrente, afirmando que constava da Manifestação de Inconformidade o pedido de compensação do trimestre, que não foi integralmente analisado Fl. 158DF CARF MF Processo nº 10480.914161/200927 Acórdão n.º 3002000.363 S3C0T2 Fl. 159 12 pela DRJ. Invocou o princípio da verdade material e solicitou a este Colegiado que analise o pagamento indevido também em relação a julho e agosto. Por nenhum lado que se aborde este questionamento cabe razão à recorrente. O processo é delimitado pelo pedido inicial da Declaração de Compensação – se o contribuinte deseja ampliar esse pedido, deve fazêlo por meio de retificação da PER/Dcomp ou de transmissão de nova declaração, nos termos de instrução normativa da Receita Federal que reja a matéria. Nem a DRJ nem o Carf possuem competência para ampliar o pedido inicial. É dentro desse escopo que transcorre o julgamento. Ainda que assim não fosse, a afirmação de que a DRJ não teria apreciado a totalidade do que foi contestado na Manifestação de Inconformidade também não procede. Basta verificar o pedido formulado naquele momento, nas palavras do próprio contribuinte: Diante disso, a requerente requer que a presente manifestação seja acolhida e provida, para o fim de reconhecer o seu direito à restituição dos valores recolhidos a título da COFINS sobre as suas receitas alheias ao conceito de faturamento, auferidas no mês de setembro de 2000, e consequentemente seja homologada a respectiva compensação. (grifado) Vêse que o pedido de análise do trimestre surgiu na fase de recurso voluntário, após a DRJ alertar para a atribuição do valor correspondente a todo o trimestre ao mês de setembro. Não há previsão legal para essa inovação no pedir. Temse por totalmente inadequado invocar o princípio da verdade material para alterar o objeto do processo. Desde o seu início o processo trata do crédito relativo a setembro/2000. Esse é, igualmente, o limite da decisão da DRJ e deste Colegiado. Por todo o exposto, voto por negar provimento ao Recurso Voluntário, confirmando o provimento parcial efetuado pela primeira instância. (assinado digitalmente) Larissa Nunes Girard Fl. 159DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13839.912043/2011-90
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Jul 26 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Oct 04 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 3301-000.780
Decisão: Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento em diligência. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplica-se o decidido no julgamento do processo 13839.912032/2011-18, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
(assinado digitalmente)
Winderley Morais Pereira - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Winderley Morais Pereira (presidente da turma), Valcir Gassen (vice-presidente), Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Semíramis de Oliveira Duro, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Ari Vendramini, Salvador Cândido Brandão Junior
Nome do relator: WINDERLEY MORAIS PEREIRA
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O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplicase o decidido no julgamento do processo 13839.912032/201118, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Winderley Morais Pereira (presidente da turma), Valcir Gassen (vicepresidente), Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Semíramis de Oliveira Duro, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Ari Vendramini, Salvador Cândido Brandão Junior RELATÓRIO Trata o presente processo administrativo de pedido de restituição realizado através de PER/DCOMP para obter reconhecimento de direito creditório do tributo por suposto pagamento a maior ou indevido. A unidade de origem proferiu despacho decisório indeferindo o crédito pleiteado, sob o fundamento de que o pagamento da guia DARF do período foi identificado, no entanto, integralmente utilizado para quitação dos débitos declarados pelo contribuinte, não restando crédito disponível para restituição. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 38 39 .9 12 04 3/ 20 11 -9 0 Fl. 323DF CARF MF Processo nº 13839.912043/201190 Resolução nº 3301000.780 S3C3T1 Fl. 3 2 Intimada da decisão, a contribuinte apresentou manifestação de inconformidade para instaurar o contencioso administrativo, nos termos do Decreto nº 70.235/1972, juntando documentos para subsidiar a existência de seu crédito. Em síntese, a contribuinte afirmou: O recolhimento a maior no período de apuração decorre de uma revisão de seus lançamentos, onde identificou um crédito de tributo em virtude da inclusão de receitas financeiras na base de cálculo das contribuições PIS/COFINS, nos termos do art. 3º, § 1º da Lei 9.718/1998, antes da declaração de inconstitucionalidade proferida pelo STF. Em razão da consolidação do entendimento do STF pela inconstitucionalidade do alargamento da base de cálculo, afirma que a Administração Pública tem o dever de devolver o que restou recolhido indevidamente, em obediência aos princípios garantidos na Constituição Federal (art. 37). Transcreveu o art. 1º do Decreto nº 2346/1997, e sustentou que cabe aos órgãos administrativos aplicar o entendimento firmado pelo STF, no exercício de sua competência de apreciar a constitucionalidade das leis. Requer a aplicação do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, o qual dispõe expressamente sobre a obrigação de seus julgadores afastarem a aplicação de lei julgada inconstitucional em decisão definitiva proferida pelo Plenário do STF. Quanto ao crédito, argumentou que no mês de apuração em foco, considerando a original vigência da Lei nº 9.718, de 1998, apurou a contribuição com a inclusão de receitas financeiras à base de cálculo, conforme comprova a sua DIPJ do período, anexada aos autos. Apresenta relatórios contábeis detalhando o crédito pleiteado, afirmando que decorre exclusivamente das receitas financeiras. A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento manteve integralmente o despacho decisório, julgando improcedente a manifestação de inconformidade. Em suas razões de voto, a DRJ trouxe os seguintes argumentos: A declaração de inconstitucionalidade proferida pelo STF no controle difuso somente obriga a Administração Tributária em relação aos autores das ações em que foram prolatadas e não em relação aos demais contribuintes, mesmo nos casos, como o do §1º do art. 3º da Lei nº 9.718, de 1998, em que a inconstitucionalidade foi reconhecida pela Suprema Corte inclusive sob o rito do art. 543B, do CPC (RE nº 585.235), que trata da repercussão geral de recursos com fundamento em idêntica controvérsia. Não foi expedido o ato da Procuradoria Geral da Fazenda Nacional acerca da inconstitucionalidade do art. 3º, §1º, da Lei nº 9.718/98, e, além disto, as decisões proferidas pelo STF sobre a questão não têm efeitos erga omnes. O Despacho Decisório em exame não homologou a compensação pretendida, mediante a justificativa de inexistência de saldo disponível em favor do contribuinte, uma vez Fl. 324DF CARF MF Processo nº 13839.912043/201190 Resolução nº 3301000.780 S3C3T1 Fl. 4 3 que o recolhimento da contribuição, ora examinado, está integralmente vinculado a débitos do contribuinte. Quando da interposição da manifestação de inconformidade, o contribuinte tem o dever de apresentar as provas em torno da pertinência da restituição, total ou parcial, do pagamento espontaneamente efetuado. A DIPJ e o demonstrativo de cálculo da composição da referida receita, denominado "Referência Contábil", elaborado pelo próprio contribuinte, não é meio legítimo, por si só e independentemente dos necessários elementos comprobatórios, para justificar o direito à restituição. Inconformada da r. decisão, a contribuinte apresentou, no prazo, seu Recurso Voluntário que ora se analisa, repisando os argumentos trazidos em sua manifestação de inconformidade, acrescentando: A Procuradoria Geral da Fazenda Nacional publicou em março de 2010 a Portaria nº 294/2010, autorizando os Procuradores da Fazenda Nacional a não apresentar contestação e não interpor recursos, bem como desistir dos já interpostos, para os casos em que se discute o alargamento da base de cálculo perpretada pelo art. 3º, § 1º da Lei nº 9.718/1998, tendo em vista a decisão do Plenário do STF, no julgamento do RE nº 585.235, julgado sob o rito da repercussão geral prevista no art. 543B do CPC, que reconheceu a inconstitucionalidade do dispositivo. Ainda, para demonstrar a liquidez do crédito, junta aos autos balancetes contábeis para complementar os demonstrativos contábeis (memória de cálculo) e a DIPJ trazidos com a manifestação de inconformidade. Invocando a verdade material, requer a realização de diligência para verificação das receitas financeiras auferidas no período de apuração em referência para fins de constatar o crédito pleiteado pela Recorrente. É a síntese do necessário VOTO Conselheiro Winderley Morais Pereira, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido na Resolução 3301000.768, de 26 de julho de 2018, proferido no julgamento do processo 13839.912032/201118, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Resolução 3301000.768): "O recurso voluntário foi interposto no prazo e reúne os pressupostos legais de interposição. Realizada a suma adrede, passase a analisar as questões levantadas, especialmente sobre i) a decisão de indeferimento fundamentada no valor Fl. 325DF CARF MF Processo nº 13839.912043/201190 Resolução nº 3301000.780 S3C3T1 Fl. 5 4 informado em DCTF com a correspondente quitação do montante declarado, não havendo crédito a compensar; ii) a análise do crédito decorrente de receitas financeiras a partir das provas juntadas aos autos; iii) a declaração de inconstitucionalidade proferida pelo STF no RE nº 585.235 sob o rito da repercussão geral, art. 543B do STF; I) Do indeferimento do pedido de restituição diante da inexistência de retificação da DCTF Neste ponto, é relevante a análise da decisão que indeferiu o pedido de restituição, sob a fundamentação de que foi efetuada uma declaração por DCTF e a DARF discriminada no PER/DCOMP foi inteiramente utilizada para quitar o débito do contribuinte, não restando crédito para a restituição, verbis: A partir das características do DARF discriminado no PER/DCOMP acima identificado, foram localizados um ou mais pagamentos abaixo relacionados, mas integralmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para restituição. O significado que se extrai deste despacho decisório é que a Recorrente apresentou o PER/DCOMP, mas não realizou a retificação da DCTF do período correspondente, qual seja, 12/2000. Desta feita, o montante pago foi utilizado para cobrir integralmente um débito declarado, não havendo excesso resultante do pagamento indevido. Ressaltese, no entanto, que a retificação da DCTF, por si só, não se presta para solidificar a liquidez e certeza do crédito pleiteado pelo contribuinte, sendo indispensável a apresentação de prova, tais como demonstrativos contábeis, para aferição do crédito. Neste sentido, já se pronunciou a Câmara Superior de Recursos Fiscais deste E. CARF, no julgamento do processo 10909.900175/200812, manifestando o entendimento no acórdão nº 9303005.520 (sessão de 15/08/2017), no sentido de que, mesmo no caso de uma a retificação posterior ao Despacho Decisório, não há impedimento para o deferimento do pedido quando acompanhada de provas documentais comprovando a erro cometido no preenchimento da declaração original, comparecendo nos autos com qualquer prova documental hábil a demonstrar o erro que cometera no preenchimento da DCTF (escrita contábil e fiscal): Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 01/02/2004 a 29/02/2004 DCTF RETIFICADORA APRESENTADA APÓS CIÊNCIA DO DESPACHO DECISÓRIO. EFEITOS. A retificação da DCTF após a ciência do Despacho Decisório que indeferiu o pedido de restituição não é suficiente para a comprovação do crédito, sendo indispensável a comprovação do erro em que se funde. Recurso Especial do Contribuinte negado. Este entendimento vem sendo adotado em sede de Recurso Voluntário pelo E. CARF, conforme se destaca das ementas abaixo: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Data do fato gerador: 14/11/2003 REPETIÇÃO DE INDÉBITO. RETIFICAÇÃO DE DCTF. PROVA DO INDÉBITO. Fl. 326DF CARF MF Processo nº 13839.912043/201190 Resolução nº 3301000.780 S3C3T1 Fl. 6 5 O direito à repetição de indébito não está condicionado à prévia retificação de DCTF que contenha erro material. A DCTF (retificadora ou original) não faz prova de liquidez e certeza do crédito a restituir. Na apuração da liquidez e certeza do crédito pleiteado, devese apreciar as provas apresentadas pelo contribuinte. Recurso Voluntário Provido em Parte. (Número do Processo 10283.902681/200913. Relator WALBER JOSE DA SILVA. Data da Sessão 21/05/2013. Nº Acórdão 3302002.104) Assunto: Normas de Administração Tributária Anocalendário: 2001 CONEXÃO. IMPOSSIBILIDADE. Os processos referemse a períodos diferentes, o que ocasiona fatos jurídicos tributários diferentes, com a consequente, diferenciação no que concerne à produção probatória, impossibilitando a conexão. FALTA DE RETIFICAÇÃO NA DCTF. Ainda que o sujeito passivo não tenha retificado a DCTF, mas demonstre, por meio de prova cabal, a existência de crédito, a referida formalidade não se faz necessária. Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Anocalendário: 2011 INCONSTITUCIONALIDADE DO ART. 3º, §1º, DA LEI Nº 9.718/1998. RECONHECIMENTO. Quanto à ampliação da base de cálculo prevista pela Lei nº 9.718/1998, tal fato já foi decidido pelo Supremo Tribunal Federal em regime de repercussão geral, RE 585.235 QORG. (Número do Processo 10280.905792/201126. Relatora SARAH MARIA LINHARES DE ARAUJO PAES DE SOUZA. Data da Sessão 27/07/2017. Nº Acórdão 3302004.623) (grifo não consta do original) Esta colenda 1ª TO da 3ª Câmara da 3ª Seção do CARF tem manifestado entendimento no mesmo sentido, segundo a qual, em razão da verdade material, a liquidez e certeza do crédito pleiteado pelo contribuinte pode ser demonstrada por outros elementos de prova, independentemente da retificação da DCTF, conforme é possível constatar pelo recente acórdão relatado pela ilustre conselheira Semíramis de Oliveira Duro: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Anocalendário: 2012 COMPENSAÇÃO. APRESENTAÇÃO DE DCTF RETIFICADORA APÓS O DESPACHO DECISÓRIO. POSSIBILIDADE. Se transmitida a PER/Dcomp sem a retificação ou com retificação após o despacho decisório da DCTF, por imperativo do princípio da verdade material, o contribuinte tem direito subjetivo à compensação, desde que prove a liquidez e certeza de seu crédito. (...) Recurso Voluntário provido. Fl. 327DF CARF MF Processo nº 13839.912043/201190 Resolução nº 3301000.780 S3C3T1 Fl. 7 6 (Número do Processo 11060.900738/201311. Relatora SEMIRAMIS DE OLIVEIRA DURO.Data da Sessão 17/04/2018. Nº Acórdão 3301 004.545) Desta feita, o que é necessário verificar é a existência de comprovação pela Recorrente, nos autos, trazendo elementos de prova capaz de trazer liquidez e certeza de seu crédito. Análise a ser realizada a seguir. II) Da liquidez e certeza do crédito Neste ponto, a Recorrente argumentou que no mês de apuração em foco (12/2000), considerando a original vigência da Lei nº 9.718/1998, apurou a contribuição com a inclusão de receitas financeiras à base de cálculo. Para demonstrar o montante de crédito a que tem direito, juntou aos autos a sua DIPJ do exercício 2001 (fls. 68201), onde se constata em fls. 90, na ficha 19A, correspondente ao cálculo da contribuição ao PIS, a informação presente no tem 02 o montante de R$ 1.665.065,93 a título de receitas de variações cambiais, que corresponde exatamente ao montante de R$ 10.822,93 se aplicada a alíquota de 0,65% sobre esta base de cálculo. Também juntou em fls. 67 um demonstrativo contábil referente ao mês de dezembro/2000, onde consta este mesmo montante discriminado como "receitas financeiras líquidas". A r. decisão proferida pela d. DRJ afirmou que tais documentos são meramente informativos, não sendo capazes de informar a origem e veracidade do crédito. No entanto, a DIPJ, por ser uma obrigação acessória exigida pela legislação, constitui sim importante elemento de prova, com forte indício de veracidade das informações ali constantes. Em que pese a d. DRJ não ter aceitado a DIPJ como prova suficiente para dar liquidez e certeza ao crédito pleiteado pela Recorrente, é de se observar que as informações constantes nesta mesma DIPJ foram, na época, utilizadas para formar a base de cálculo da contribuição ao PIS e calcular o montante de imposto devido para ser informado na DCTF. Depreendese de fls. 90 (DIPJ) a informação contida no item 15, informandose o montante total das receitas auferidas no período, somandose o faturamento com as receitas financeiras, correspondendo à base de cálculo da contribuição. Sobre este montante total de R$ 83.720,52, incluindose as receitas financiras, foi declarado em DCTF e pago o montante de PIS respectivo via guia DARF (fls. 56). Assim, estas informações prestaram para subsidiar a declaração acerca do montante de tributo devido, mas, segundo a DRF, não se prestam a informar o montante de tributo recolhido a maior. Não faz sentido. As informações presentes na DIPJ, é verdade, possui caráter meramente informativo, assim como qualquer outra prova. A declaração prestada neste documento revela uma presunção de que os valores nela prestados corresponderiam ao fato gerador materializado. A Recorrente apresentou, com seu Recurso Ordinário, balancetes do exercício do ano 2000 para trazer mais elementos de prova a fim de subsidiar a liquidez e certeza do crédito pleiteado (fls. 265277). No entanto, o valor informado a título de receitas financeiras na DIPJ (fls. 90) é maior do que o valor informado no balancete de dezembro/2000 (fls. 274). Fl. 328DF CARF MF Processo nº 13839.912043/201190 Resolução nº 3301000.780 S3C3T1 Fl. 8 7 Na DIPJ resta informado um total de R$ 1.665.065,93 a título de receita financeira, o que representa o valor de R$ 10.822,93 de PIS, valor este pleiteado no PER/DCOMP. Por sua vez, tanto no demonstrativo de cálculo apresentado nas razões do Recurso Voluntário (fls. 218219), quanto nos balancetes referidos, a Recorrente afirma que o valor das receitas financeiras auferidas é de R$ 1.572.443,97, cujo montante de contribuição ao PIS representa R$ 10.220,89. Em outros termos, o montante de crédito decorrente do pagamento de PIS a maior sobre suas receitas financeiras demonstrado no recurso voluntário é um pouco inferior ao crédito pleiteado no PER/DCOMP. Não restam dúvidas, portanto, da existência de recolhimento de PIS sobre receitas financeiras no período em análise. Entretanto, apesar de não ter ocorrido a retificação da DCTF e em virtude do princípio da verdade material, acolho os balancetes juntados com o Recurso Voluntário para fins de complementação do acervo probatório. III) Da declaração de inconstitucionalidade proferida pelo STF no RE nº 585.235 sob o rito da repercussão geral, art. 543B do STF Quanto ao ponto sobre a incidência da contribuição ao PIS sobre receitas financeiras, auferidas por entidade que não desenvolva atividade financeira. Sobre este assunto, o Supremo Tribunal Federal já se manifestou, inclusive em sede de repercussão geral, acerca da inconstitucionalidade do art. 3º, § 1º da Lei 9.718/1998, por pretender alargar o conceito de faturamento, estabelecendo as receitas totais da pessoa jurídica como base de cálculo das contribuição para o PIS e COFINS. Tratase do RE nº 585.235 e desde 2010 a PGFN já se manisfestou formalmente, por meio da Portaria PGFN 294/2010, no sentido de dispensar os procuradores da fazenda nacional a contestar ou recorrer nesta matéria. E esta conduta já é adotada mesmo antes da decisão da d. DRJ proferida nestes autos, inobstante a afirmação lá contida no sentido de que não existia ato oficial da PGFN. Item 1, Anexo I, Portaria PGFN nª 294/2010 Resumo: É inconstitucional o alargamento da base de cálculo do PIS e da COFINS, promovido pelo art. 3º, §1º da Lei n. 9.718/98, eis que tais exações devem incidir, apenas, sobre as receitas decorrentes da venda de mercadorias e da prestação de serviços (conceito restritivo de receita bruta), e não sobre a totalidade das receitas auferidas pela pessoa jurídica (conceito ampliativo de receita bruta). (...) DELIMITAÇÃO DA MATÉRIA DECIDIDA: o PIS/COFINS deve incidir somente sobre as receitas operacionais das empresas, escapando da incidencia do PIS/COFINS as receitas não operacionais. Consideramse receitas operacionais as oriundas dos serviços financeiros prestados pelas instituições financeiras (serviços remunerados por tarifas e atividades de intermediação financeira). Nestes termos, é de rigor a aplicação do art. 62, § 1º, I e II, "b" e "c" do anexo II do RICARF, no sentido de que os membros das turmas de julgamento do CARF estão autorizados afastar a aplicação lei sob fundamento de inconstitucionalidade nos casos em que este entendimento já foi manifestado por decisão definitiva em sessão plenária do Supremo Tribunal Federal ou decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal, em sede de julgamento realizado em Fl. 329DF CARF MF Processo nº 13839.912043/201190 Resolução nº 3301000.780 S3C3T1 Fl. 9 8 repercussão geral nos termos dos arts. 543B do CPC/193, ou mesmo no caso de existência de Ato Declaratório da ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (PGFN) aprovado pelo Ministro de Estado da Fazenda, nos termos dos arts. 18 e 19 da Lei nº 10.522, de 19 de julho de 2002. Preenchese as três hipóteses do Regimento Interno do CARF (RICARF) este caso de alargamento da base cálculo das contribuições PIS/COFINS intentada pelo disposto no art. 3º, § 1º da Lei 9.718/1998. Neste sentido: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/01/2000 a 30/11/2002, 01/07/2003 a 31/07/2004, 01/09/2004 a 30/09/2004 Ementa: NÃO INCIDÊNCIA DO PIS SOBRE RECEITAS NÃO OPERACIONAIS E VARIAÇÃO CAMBIAL ATIVA. REGIME CUMULATIVO DO PIS. CONCEITO DE FATURAMENTO PARA INCIDÊNCIA NA BASE DE CÁLCULO. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. Por força do Art. 62A, Anexo II, do regimento interno deste Conselho, é obrigatória a aplicação do entendimento do STF sobre o conceito de faturamento ("faturamento corresponde à receita das vendas de mercadorias, de serviços ou de mercadoria e serviços" vejam julgamentos dos Recursos Extraordinários 346.084, DJ 01/09/2006 Rel p/ acórdão Min. Marco Aurélio, 357.950, 358.273 e 390.840 todos DJ 15.08.06 Rel. Min. Marco Aurélio). Sendo "receitas" não operacionais e variações cambiais ativas, e, portanto, não se tratando de "faturamento" vinculado às receitas oriundas das prestações de bens e serviços, não há como incidir o PIS. (Número do Processo 13502.000463/200585. Nº Acórdão 3201 003.681. Data da Sessão 22/05/2018) Resta, portanto, consolidado o entendimento acerca da não incidência de PIS sobre receitas financeiras, quando não constituírem receita operacional da empresa, no contexto da aplicação da Lei 9.718/1998. Como o período de apuração em que se discute o pagamento indevido é 12/2000, em tal momento aplicavase para a Recorrente o regime de tributação previsto na Lei 9.718/1998. Entretanto, apesar de não ter ocorrido a retificação da DCTF e em virtude do princípio da verdade material, como os balancetes foram juntados com o recurso voluntário e, ainda, os valores demonstrados nestas provas são inferiores aos valores pleiteados no PER/DCOMP e informados na DIPJ, tendo em vista, ainda, sua possibilidade de influência no julgamento da causa, submeto estes documentos para apreciação da Recorrida, em diligência para confirmação dos créditos, para posterior retorno para julgamento. Isto posto, uma vez comprovada a inclusão das receitas financeiras na base de cálculo da contribuição ao PIS no período em referência, e uma vez comprovada a liquidez e certeza do crédito a restituir declarado pelo contribuinte, será de rigor reconhecer o direito à restituição pleiteado pelo contribuinte. No entanto, a liquidez e certeza do crédito ainda não está clara, diante da divergência entre os valores informados no PER/DCOMP e DIPJ e os valores Fl. 330DF CARF MF Processo nº 13839.912043/201190 Resolução nº 3301000.780 S3C3T1 Fl. 10 9 informados nos balancetes a título de receitas financeiras auferiras. Por isso, é necessária a conversão do feito em diligência pra fins de: 1. verificação dos balancetes juntados com o recurso voluntário, confrontandoos com os valores demonstrados e pleiteados no PER/DCOMP e DIPJ; 2. elaboração de relatório discriminando as receitas financeiras do período; 3. a identificação do montante de PIS indevidamente recolhido, se houver receitas financeiras no período; 4. Em seguida, dêse vista ao contribuinte, para manifestação sobre o resultado da diligência em 30 dias. 5. posterior retorno para julgamento. Importante frisar que os documentos juntados pela contribuinte no processo paradigma, como prova do direito creditório, encontram correspondência nos autos ora em análise. Desta forma, os elementos que justificaram a conversão do julgamento em diligência no caso do paradigma também a justificam no presente caso. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o Colegiado decidiu converter o julgamento em diligência para fins de: 1. verificação dos balancetes juntados com o recurso voluntário, confrontando os com os valores demonstrados e pleiteados no PER/DCOMP e DIPJ; 2. elaboração de relatório discriminando as receitas financeiras do período; 3. a identificação do montante de PIS/COFINS indevidamente recolhido, se houver receitas financeiras no período; 4. Em seguida, dêse vista ao contribuinte, para manifestação sobre o resultado da diligência em 30 dias. 5. posterior retorno para julgamento. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Fl. 331DF CARF MF
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Numero do processo: 10746.720916/2016-95
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Fri Jul 27 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Oct 04 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2011, 2012, 2013, 2014
NULIDADE. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA.
Com a correta descrição dos fatos e enquadramento legal, acompanhados de planilhas e demonstrativos, não há de se cogitar em cerceamento do direito de defesa.
Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Ano-calendário: 2011, 2012, 2013, 2014
PIS/PASEP. MUNICÍPIO. BASE DE CÁLCULO. DEDUÇÃO. FUNDEB. NÃO CABIMENTO.
Integram as receitas correntes e transferências correntes recebidas pelo município para fins de incidência da Contribuição para o PIS/Pasep as transferências, ordinárias e complementares, oriundas do FUNDEB.
Recurso Voluntário Negado
Numero da decisão: 3301-004.995
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, negar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os conselheiros Marcelo Costa Marques D Oliveira, Salvador Candido Brandão Júnior e Winderley Morais Pereira, que davam provimento ao recurso voluntário, aplicando a Solução de Consulta Cosit nº 278/2017.
(assinado digitalmente)
Winderley Morais Pereira - Presidente.
(assinado digitalmente)
Valcir Gassen - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Winderley Morais Pereira, Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Salvador Cândido Brandão Junior, Ari Vendramini, Semíramis de Oliveira Duro e Valcir Gassen.
Nome do relator: VALCIR GASSEN
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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2011, 2012, 2013, 2014 NULIDADE. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. Com a correta descrição dos fatos e enquadramento legal, acompanhados de planilhas e demonstrativos, não há de se cogitar em cerceamento do direito de defesa. Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Ano-calendário: 2011, 2012, 2013, 2014 PIS/PASEP. MUNICÍPIO. BASE DE CÁLCULO. DEDUÇÃO. FUNDEB. NÃO CABIMENTO. Integram as receitas correntes e transferências correntes recebidas pelo município para fins de incidência da Contribuição para o PIS/Pasep as transferências, ordinárias e complementares, oriundas do FUNDEB. Recurso Voluntário Negado
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CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. Com a correta descrição dos fatos e enquadramento legal, acompanhados de planilhas e demonstrativos, não há de se cogitar em cerceamento do direito de defesa. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Anocalendário: 2011, 2012, 2013, 2014 PIS/PASEP. MUNICÍPIO. BASE DE CÁLCULO. DEDUÇÃO. FUNDEB. NÃO CABIMENTO. Integram as receitas correntes e transferências correntes recebidas pelo município para fins de incidência da Contribuição para o PIS/Pasep as transferências, ordinárias e complementares, oriundas do FUNDEB. Recurso Voluntário Negado Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, negar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os conselheiros Marcelo Costa Marques D Oliveira, Salvador Candido Brandão Júnior e Winderley Morais Pereira, que davam provimento ao recurso voluntário, aplicando a Solução de Consulta Cosit nº 278/2017. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Presidente. (assinado digitalmente) Valcir Gassen Relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 74 6. 72 09 16 /2 01 6- 95 Fl. 176DF CARF MF Processo nº 10746.720916/201695 Acórdão n.º 3301004.995 S3C3T1 Fl. 177 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Winderley Morais Pereira, Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Salvador Cândido Brandão Junior, Ari Vendramini, Semíramis de Oliveira Duro e Valcir Gassen. Relatório Tratase de Recurso Voluntário (fls. 143 a 146) interposto pelo Contribuinte, em 22 de março de 2017, contra decisão consubstanciada no Acórdão nº 1463.630 (fls. 120 a 134), de 12 de janeiro de 2017, proferido pela 11ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Ribeirão Preto (SP) – DRJ/RPO – que decidiu, por unanimidade de votos, julgar improcedente a Impugnação (fls. 110 a 112), mantendo o crédito tributário exigido. Visando a elucidação do caso e a economia processual adoto e cito o relatório do referido Acórdão: Trata o presente processo do Auto de Infração, lavrado em 15/08/2016, para exigência da Contribuição para o Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público PASEP, relativa aos períodos de ago/2011 a dez/2014, no valor total de R$ 282.168,81, incluindo multa de ofício agravada (112,5%) e juros de mora calculados até 08/2016, em virtude da falta/insuficiência de recolhimento da contribuição. A infração foi enquadrada nos dispositivos legais constantes de efls. 04. De acordo com o Relatório Fiscal, constante do Auto de Infração, a infração foi motivada: (i) pela dedução dos valores repassados pelo Município ao FUNDEB (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais de Educação), diante da falta de previsão legal; (ii) pelo cômputo indevido dos recursos recebidos do mesmo FUNDEB na proporção dos alunos matriculados na educação pública básica presencial, contabilizados na conta de receita orçamentária 1724.01.00.00, pelo fato de já terem sido tributados anteriormente; e (iii) pela dedução, anteriormente a maio/2013, dos valores relativos aos convênios, contratos de repasse e instrumentos congêneres de objeto definido, diante da falta de previsão legal. A fiscalização assim justifica as infrações apuradas: “3.4 No tocante às deduções legais da base de cálculo da Contribuição para o PASEP, vale mencionar o tratamento jurídico dado às Transferências ao Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais de Educação (FUNDEB). 3.5 O FUNDEB é um fundo de natureza contábil, sem personalidade jurídica própria, previsto no art. 60 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT). A dedução de valores transferidos a outras entidades públicas, com personalidade jurídica, prevista no art. 7o, da Lei no 9.715, de 1998, não inclui as transferências ao referido fundo, por falta de amparo Fl. 177DF CARF MF Processo nº 10746.720916/201695 Acórdão n.º 3301004.995 S3C3T1 Fl. 178 3 legal, em conformidade com o disposto na Solução de Divergência COSIT no 02, de 10 de fevereiro de 2009, da CoordenaçãoGeral de Tributação da Receita Federal do Brasil (RFB), senão vejamos: Solução de Divergência no 02, de 10/02/2009 / COSIT. Revisada pela Solução de Divergência no 12, de 28/04/2011 – COSIT. (...) Os valores das receitas repassados/alocados para o FUNDEB (antigo FUNDEF) pelos Estados, Distrito Federal e Municípios, não podem ser excluídos da base de cálculo da Contribuição para o PIS/Pasep do ente que efetuar o repasse/alocação, por falta de amparo legal. (...) 3.6 Portanto, não há amparo legal que se permita deduzir da base de cálculo da contribuição para o PASEP os valores repassados pelo município ao FUNDEB. (...) 3.9 Ainda referente às deduções legais da base de cálculo da Contribuição para o PASEP, vale ressaltar o tratamento jurídico dado aos convênios, contratos de repasse e instrumentos congêneres de objeto definido. Em casos como tais, somente a partir de maio/2013 devemse excluir da base de cálculo do PASEP os valores de transferências decorrentes dos instrumentos acima mencionados, em razão da inclusão do § 7o, no art.2o, da Lei no 9.715, de 1998, pela Lei no 12.810, de 15 de maio de 2013, a saber: Lei no 9.715, de 25 de novembro de 1998. (...) Art. 2o A contribuição para o PIS/PASEP será apurada mensalmente: (...) § 7o Excluemse do disposto no inciso III do caput deste artigo os valores de transferências decorrentes de convênio, contrato de repasse ou instrumento congênere com objeto definido. (Incluído pela Lei no 12.810, de 2013) 3.10 As exclusões consideradas são aquelas que têm por base a voluntariedade da transferência entre entes federativos, ou seja, aquelas que não possuem destinação vinculada em lei ou na Constituição Federal. Tal afirmação encontra guarida em uma das principais características dos contratos e convênios administrativos, qual seja, a voluntariedade. Um Ente Público assina um convênio ou contrato de repasse de forma voluntária, e não obrigado por um ato legislativo. 3.11 Nesse sentido, o Decreto Presidencial no 6.170, de 2007, que dispõe sobre as normas relativas às transferências de recursos da União mediante convênios e contratos de repasse, e dá outras providências, assim define, conforme art. 1o, § 1o: Art. 1o Este Decreto regulamenta os convênios, contratos de repasse e termos de execução descentralizada celebrados pelos órgãos e entidades da administração pública federal com órgãos ou entidades públicas ou privadas sem fins lucrativos, para a execução de programas, projetos e atividades que Fl. 178DF CARF MF Processo nº 10746.720916/201695 Acórdão n.º 3301004.995 S3C3T1 Fl. 179 4 envolvam a transferência de recursos ou a descentralização de créditos oriundos dos Orçamentos Fiscal e da Seguridade Social da União. (Redação dada pelo Decreto no 8.180, de 2013) § 1o Para os efeitos deste Decreto, considerase: I convênio acordo, ajuste ou qualquer outro instrumento que discipline a transferência de recursos financeiros de dotações consignadas nos Orçamentos Fiscal e da Seguridade Social da União e tenha como partícipe, de um lado, órgão ou entidade da administração pública federal, direta ou indireta, e, de outro lado, órgão ou entidade da administração pública estadual, distrital ou municipal, direta ou indireta, ou ainda, entidades privadas sem fins lucrativos, visando a execução de programa de governo, envolvendo a realização de projeto, atividade, serviço, aquisição de bens ou evento de interesse recíproco, em regime de mútua cooperação; II contrato de repasse instrumento administrativo, de interesse recíproco, por meio do qual a transferência dos recursos financeiros se processa por intermédio de instituição ou agente financeiro público federal, que atua como mandatário da União. (Redação dada pelo Decreto no 8.180, de 2013) III termo de execução descentralizada instrumento por meio do qual é ajustada a descentralização de crédito entre órgãos e/ou entidades integrantes dos Orçamentos Fiscal e da Seguridade Social da União, para execução de ações de interesse da unidade orçamentária descentralizadora e consecução do objeto previsto no programa de trabalho, respeitada fielmente a classificação funcional programática. (Redação dada pelo Decreto no 8.180, de 2013)(Grifouse) 3.12 Com relação ao contrato de repasse, o mesmo Dispositivo o diferencia do convênio pelo fato de a transferência dos recursos financeiros se processar por intermédio de instituição ou agente financeiro público federal, que atua como mandatário da União (Decreto no 6.170, de 2007, art.1o, § 1o, inciso II). Porém, aqui também prevalece o caráter voluntário do instituto, a reciprocidade de interesses. 3.13 No que diz respeito aos instrumentos congêneres de objeto definido, a própria definição de congênere (do mesmo gênero, da mesma natureza, parecido, semelhante) por si só é o bastante para se concluir que eles devem possuir as características básicas (natureza jurídica) de um convênio ou contrato de repasse, dentre elas, a voluntariedade, característica não presente nos comandos de uma lei, os quais são dotados, dentre outros, de generalidade, abstratividade, imperatividade e coercibilidade, não abrindo espaço para juízo de valor quanto a sua adesão ou cumprimento. 3.14 Portanto, resta impossível o enquadramento de uma lei como instituto congênere a um convênio ou contrato de repasse. Assim, verbas públicas federais transferidas para outro ente público através de lei, como ocorre em grande parte dos casos de repasses fundo a fundo (por exemplo, um repasse do Fundo Nacional de Saúde para um Fundo Municipal de Saúde) não podem ser excluídas da base de cálculo do PASEP, uma vez que não se enquadram nas disposições do § 7o do art. 2o, da Lei no 9.715, de 1998, incluído pela Lei no 12.810, de 15 de maio de 2013. Fl. 179DF CARF MF Processo nº 10746.720916/201695 Acórdão n.º 3301004.995 S3C3T1 Fl. 180 5 3.15 Além disso, cumpre observar que a Lei no 12.810, de 2013, ao excetuar da base de cálculo do PASEP os valores de transferências decorrentes de convênio, contrato de repasse ou instrumento congênere com objeto definido, trouxe verdadeira hipótese de isenção tributária, uma vez que, nas palavras de Antônio Roque Carrazza, Isenção é uma limitação legal do âmbito de validade da norma jurídica tributária que impede que o tributo nasça. (Carrazza, Roque Antônio, Curso de Direito Constitucional Tributário, 26a Edição, Malheiros Editores, pág. 955). 3.16 Dessa forma, a União, exercendo sua competência tributária constitucionalmente delimitada, instituiu a contribuição para o PASEP através da Lei no 9.715, de 1998. E, através da Lei no 12.810, de 2013, exerceu o seu poder de isentála nas hipóteses de transferências decorrentes de convênio, contrato de repasse ou instrumento congênere com objeto definido. 3.17 Logo, não há dúvidas de que o § 7o do art. 2o, da Lei no 9.715, de 1998, incluído pela Lei no 12.810, de 15 de maio de 2013, traz hipótese de isenção tributária, e, como tal, deve ser interpretada literalmente, em atendimento ao que dispõe o art. 111 do Código Tributário Nacional (Lei no 5.172, de 1966):[...]. 3.18 Portanto, como não há a possibilidade de qualificar os repasses fundo a fundo, com lastro em previsão legal, como sendo instrumento congênere a um convênio ou contrato de repasse, impossível é enquadrálos na hipótese isentiva trazida pela Lei no 12.810, de 2013, uma vez que a mesma não admite interpretação extensiva. Logo, os repasses fundo a fundo legalmente instituídos, por si só, não podem ser excluídos da base de cálculo do PASEP por falta de previsão legal. 3.19 Assim, pelas razões acima expostas, não foram excluídas da base de cálculo do PASEP as receitas oriundas de repasses fundo a fundo baseados em lei, a exemplo das rubricas 1721.33.00.00 – Transf. Recursos do SUS, 1721.34.00.00 – Transf. Recursos FNAS, 1721.35.00.00 – Transf. Recursos do FNDE e 2421.01.00.00 Transf. Recursos do SUS. 3.20 T ais deduções, só podem ser aceitas se enquadrarem nos seguintes requisitos: i) recursos recebidos a partir de maio/2013; ii) provenientes de convênios, contratos de repasses ou instrumentos congêneres com objeto definido; iii) foram apresentados cópias de tais instrumentos; iv) houve a demonstração detalhada do recebimento financeiro de cada parcela dos recursos (exemplo: extrato contendo os dados da ordem bancária, como valor e data de pagamento), v) houve a comprovação de que os referidos recursos transitaram pela contabilidade do Município como receitas (exemplo: balancete mensal das receitas contendo de maneira inequívoca e discriminada a contabilização de cada recurso recebido). 3.21 Portanto, são permitidas as seguintes deduções na base de cálculo do P ASEP: 1) Transferências de Convênios, contratos de repasses ou instrumentos congêneres com objeto definido a partir de maio/2013 (§ 7o, do art. 2o, da Lei n.o 9.715, de 1998, incluído pela Lei no 12.810, de 2013); Fl. 180DF CARF MF Processo nº 10746.720916/201695 Acórdão n.º 3301004.995 S3C3T1 Fl. 181 6 2) Transferências a outras Entidades de Direito Público Interno (art. 7o, da Lei n.o 9.715, de 1998); 3) Transferências efetuadas à União, aos Estados, ao Distrito Federal e a outros Municípios, bem como às autarquias dessas entidades (Solução de Consulta RFB n.o 31, de 28 de fevereiro de 2013 6a Região Fiscal – D.O.U. 05.03.2013); 4) Transferências efetuadas às Instituições Multigovernamentais Nacionais (criadas e mantidas por dois ou mais entes da Federação) de caráter público, criadas por lei. (Solução de Consulta RFB n.o 31, de 28 de fevereiro de 2013 – 6a Região Fiscal D.O.U.: 05.03.2013); 5) Recursos recebidos do FUNDEB pelo município, na proporção dos alunos matriculados na educação pública básica presencial, contabilizados na conta de receita orçamentária 1724.01.00.00.” A autoridade fiscal destaca que obteve as receitas que compõem a base de cálculo da contribuição no Sistema Integrado de Auditoria Pública do Tribunal de Contas do Estado do Tocantins (SICAP/TCETO), pois a contribuinte não apresentou tais informações, apesar de intimada diversas vezes, tendo sido utilizadas as informações dos Demonstrativos da Receita Corrente Líquida e dos Comparativos da Receita Orçada com a Arrecadada (Anexo 10, da Lei no 4.320, de 1964), dos exercícios de 2011 a 2014, ambas do SICAP/TCETO. E que, em consulta ao Portal dos Convênios – SICONV e ao Portal Transparência do Governo Federal, foram encontrados alguns convênios e contratos de repasses com transferência de recursos entre maio/2013 e dezembro/2014, cujo tratamento foi dado conforme a tabela seguinte: Ressalta, ainda, que foram deduzidos da base de cálculo os valores recebidos pela contribuinte a título de transferências do FUNDEB (conta de receita orçamentária 1724.01.00.00); bem como que foram deduzidas as retenções na fonte realizada pela Secretaria do Tesouro Nacional, conforme relatório constante do Anexo II – “Relatório de Retenções na Fonte da Contribuição para o PASEP”, assim como o maior valor entre o PASEP declarado na DCTF (DCTF – Anexo III) e o recolhido em DARF com o código de receita 3703 (Anexo IV). Acerca da multa de ofício, a fiscalização esclarece que foi majorada diante da falta de atendimento às intimações fiscais. Fl. 181DF CARF MF Processo nº 10746.720916/201695 Acórdão n.º 3301004.995 S3C3T1 Fl. 182 7 A interessada foi cientificada do auto de infração, por via postal, em 18/08/2016. Em 16/09/2016, a contribuinte, por intermédio de seu representante legal, apresentou impugnação, dizendo, in verbis: “As pessoas jurídicas de direito privado e as que lhe são equiparadas pela legislação do imposto de renda, inclusive as empresas públicas, as sociedades de economia mista, suas subsidiárias e as pessoas jurídicas a que se refere o §1o do art. 22 da Lei no 8.212, de 14 de julho de 1991, devem apurar a contribuição para o PIS/PASEP – Faturamento/Receita Bruta, nos termos das Leis no 9.701, no 9.715 e no 9.718, de 17, 25 e 27 de novembro de 1998, e pela Medida Provisória no 1.807, de 29 de janeiro de 1999, e reedições. Na Administração Pública, são sujeitos passivos da contribuição para o PIS/PASEP, incidente sobre Receitas Governamentais, a União, os Estados, o Distrito Federal, os Municípios, bem como suas respectivas, com exceção das fundações públicas instituídas ou mantidas pelo Poder Público. Assim, qualquer que seja a estrutura organizacional e a forma de contribuição destes entes, são também considerados contribuintes todos os órgãos do Poder Público, incluindo as entidades de caráter público criadas por lei. A contribuição é obrigatória e independe de qualquer ato de adesão ao Programa de Integração Social (PIS) ou ao Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público (PASEP). Estabelecidos quais sejam os contribuintes, a questão seguinte diz respeito à base de cálculo. De acordo com a Lei 9.715, de 25 de novembro de 1998, que dispõe sobre as contribuições para os Programas de Integração Social e de Formação do Patrimônio do Servidor Público – PIS/PASEP, e dá outras providências: [transcrição dos arts. 2o e 7o] Nos termos dos artigos transcritos, para calcular o valor do PASEP, apura se o valor das receitas totais do mês, deduzidas aquelas que já tiveram o PASEP retido. Assim, as bases de cálculo são os valores mensais: a) das receitas correntes arrecadadas; b) das receitas de transferências correntes recebidas; c) das receitas de transferências de capital recebidas. A contribuição para o Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público – PASEP está prevista na Lei Federal no 9.715, de 25 de novembro de 1998, e regulamentada pelo Decreto Federal no 4.524, de 17 de dezembro de 2002. Entretanto, não é possível ao IMPUGNANTE incluir na base de cálculo da contribuição ao PASEP as receitas do FUNDEB, o Fundo, por sua natureza contábil e transitória para o qual contribuem todos os entes da federação destinando parte de seus recursos para sua constituição, estaria fora da base de cálculo da referida contribuição. Ademais ao creditar tais valores em favor do IMPUGNANTE, a União já faria a dedução para alocação dos recursos ao FUNDEB, bem como a correlata retenção na fonte da contribuição para o PASEP. Planilhas anexas demonstram a correção no recolhimento do PASEP, com dedução dos valores referentes ao FUNDEB. Fl. 182DF CARF MF Processo nº 10746.720916/201695 Acórdão n.º 3301004.995 S3C3T1 Fl. 183 8 Diante dos fatos e fundamentos acima expostos e considerando que a obrigação tributária acima detalhada em regular, não há, assim, nenhum débito referente ao PASEP em face do IMPUGNANTE, pelo que REQUER o cancelamento do referido auto por ser a melhor forma de justiça. Por fim, o IMPUGNANTE requer sejam individualizadas as contribuições devidas, haja vista que a autuação se deu por amostragem, impossibilitando a defesa do contribuinte (Art. 16, inc. IV, Decreto no 70.235/72), ficando, desde já, qualificado como assistente pericial o contador UENDEL CARLOS RAMOS, CPF: 881.461.97191, CRC: 2059/O – TO, (63)34271184, WCARLOSRAMOS@YAHOO.COM.BR.”(destaques acrescidos) Tendo em vista a negativa do Acórdão da 11ª Turma da DRJ/RPO, que, por unanimidade de votos, julgou improcedente a Impugnação apresentada pelo Contribuinte, este ingressou com Recurso Voluntário, visando reformar a referida decisão. É o relatório. Voto Conselheiro Valcir Gassen Relator O Recurso Voluntário (fls. 143 a 146) em face da decisão consubstanciada no Acórdão nº 1463.630 é tempestivo e atende os pressupostos legais de admissibilidade, motivo pelo qual deve ser conhecido. O ora analisado Recurso Voluntário visa reformar decisão que possui a seguinte ementa: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2011, 2012, 2013, 2014 PERÍCIA. Indeferese o pedido de perícia quando se trata de matéria passível de prova documental a ser apresentada no momento da impugnação, bem como quando os elementos constantes dos autos são suficientes para formar a convicção do julgador. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. Ante a correta descrição dos fatos e enquadramento legal, acompanhados de planilhas e demonstrativos, não há de se cogitar em cerceamento do direito de defesa. PIS/PASEP. MATÉRIAS NÃO IMPUGNADAS. (I) BASE DE CÁLCULO. MUNICÍPIO PERÍODO ANTERIOR A MAIO/2013. DEDUÇÃO. CONVÊNIOS, CONTRATOS DE REPASSE E INSTRUMENTOS CONGÊNERES DE OBJETO DEFINIDO. (II) MULTA DE LANÇAMENTO DE OFÍCIO AGRAVADA. Considerase preclusa e incontroversa a matéria em relação a qual a contribuinte, a despeito de regularmente notificada, deixa de apresentar a respectiva impugnação. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Anocalendário: 2011, 2012, 2013, 2014 Fl. 183DF CARF MF Processo nº 10746.720916/201695 Acórdão n.º 3301004.995 S3C3T1 Fl. 184 9 PIS/PASEP. FALTA DE RECOLHIMENTO. A falta ou insuficiência de recolhimento do PIS apurada em procedimento fiscal enseja o lançamento de ofício com os acréscimos legais. PIS/PASEP. MUNICÍPIO. BASE DE CÁLCULO. DEDUÇÃO. FUNDEB. NÃO CABIMENTO. Integram as receitas correntes e transferências correntes recebidas pelo município para fins de incidência da Contribuição para o PIS/Pasep as transferências, ordinárias e complementares, oriundas do FUNDEB (antigo FUNDEF). Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido O Contribuinte solicitou que fossem individualizadas as contribuições devidas, visto que a autuação se deu por amostragem, e diante da negativa da administração fiscal entende que houve cerceamento de defesa e requer, em preliminar, portanto, a nulidade do acórdão. Indica inclusive profissional como assistente pericial. No mérito alega que não é possível a inclusão na base de cálculo do PASEP as receitas oriundas do FUNDEB, uma vez que por sua natureza contábil e transitória estaria fora da referida base de cálculo. Aduz ainda que “a União já faria a dedução para alocação dos recursos ao FUNDEB, bem como a correlata retenção na fonte da contribuição para o PASEP” (fls. 145). Junta aos autos planilhas com o intuito de demonstrar, de acordo com seu entendimento, o correto recolhimento da contribuição (fls. 147 a 153). Preliminar Na análise da preliminar percebese que a autoridade administrativa fiscal respeitouse o estabelecido no art. 142 do Código Tributário Nacional, bem como o art. 9º do Decreto nº 70.135/1972. O cerceamento de defesa alegado pelo Contribuinte estaria assente no fato de que a autuação se deu por amostragem, o que não condiz com os fatos, visto que a fiscalização elaborou um conjunto de demonstrativos e planilhas apontando a forma como foi apurado e calculado o crédito tributário, permitindo com isso a defesa acerca da matéria objeto da autuação. Além do aspecto de que esta não seu deu por amostragem, o Contribuinte quando da juntada das planilhas sobre o correto recolhimento da contribuição ao PASEP não aponta em nenhum momento alguma incorreção do lançamento, apenas afirma “Baseado nas planilhas, o entendimento será outro e esse órgão acolherá as razões recursais do RECORRENTE”. Com essas constatações, voto por negar provimento ao recurso quanto a preliminar de cerceamento de defesa. Mérito A questão central envolve a inclusão ou não na base de cálculo do PASEP do valor correspondente a parcela destinada ao Município advinda do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (FUNDEB). Fl. 184DF CARF MF Processo nº 10746.720916/201695 Acórdão n.º 3301004.995 S3C3T1 Fl. 185 10 Cabe citar o histórico do FUNDEF e FUNDEB, bem como a sua natureza jurídica e tributária formulado pelo il. Conselheiro José Henrique Mauri no Acórdão nº 3301 004.140 que bem contextualiza os fatos e o direito e que servem como razões para decidir: 1.1 HISTÓRICO DO FUNDEF E FUNDEB A Carta Magna de 1988 fez nascer a obrigatoriedade de se priorizar o sistema educacional brasileiro, razão pela qual foi criado o Fundef (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério), posteriormente substituído pelo Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação). A criação do Fundef (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério) em 1996 foi, sem dúvida, uma das mais importantes mudanças ocorridas na política de financiamento da educação no Brasil nas últimas décadas. Seu principal mérito talvez tenha sido o de proporcionar uma melhor redistribuição dos recursos financeiros educacionais, mediante o critério do número de alunos matriculados, com o objetivo de atenuar a enorme desigualdade regional existente no Brasil. Vale ressaltar, também, a contribuição do Fundef quanto ao aperfeiçoamento do processo de gerenciamento orçamentário e financeiro no setor educacional, bem como permitindo uma maior visibilidade na aplicação dos recursos recebidos à conta do Fundo. [Excerto de artigo extraído da web em 1/7/2017: Texto Fundeb_PROGED.doc autor não identificado] O Fundef teve como precursor a Emenda Constitucional no 14, de 1996, que alterou o art. 60, do ADCT, nos termos abaixo transcritos, com os destaques adicionados: Art. 60. Nos dez primeiros anos da promulgação desta Emenda, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios destinarão não menos de sessenta por cento dos recursos a que se refere o caput do art. 212 da Constituição Federal, à manutenção e ao desenvolvimento do ensino fundamental, com o objetivo de assegurar a universalização de seu atendimento e a remuneração condigna do magistério. (Redação dada pela Emenda Constitucional no 14, de 1996) § 1o A distribuição de responsabilidades e recursos entre os Estados e seus Municípios a ser concretizada com parte dos recursos definidos neste artigo, na forma do disposto no art. 211 da Constituição Federal, é assegurada mediante a criação, no âmbito de cada Estado e do Distrito Federal, de um Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério, de natureza contábil. (Incluído pela Emenda Constitucional no 14, de 1996) § 2o O Fundo referido no parágrafo anterior será constituído por, pelo menos, quinze por cento dos recursos a que se referem os arts. 155, inciso II; 158, inciso IV; e 159, inciso I, alíneas "a" e "b"; e inciso II, da Constituição Federal, e será distribuído entre cada Estado e seus Municípios, proporcionalmente ao número de alunos nas respectivas redes de ensino fundamental. (Incluído pela Emenda Constitucional no 14, de 1996) § 3o A União complementará os recursos dos Fundos a que se refere o § 1o, sempre que, em cada Estado e no Distrito Federal, seu valor por aluno não alcançar o mínimo definido nacionalmente. (Incluído pela Emenda Constitucional no 14, de 1996) Fl. 185DF CARF MF Processo nº 10746.720916/201695 Acórdão n.º 3301004.995 S3C3T1 Fl. 186 11 § 4o A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios ajustarão progressivamente, em um prazo de cinco anos, suas contribuições ao Fundo, de forma a garantir um valor por aluno correspondente a um padrão mínimo de qualidade de ensino, definido nacionalmente. (Incluído pela Emenda Constitucional no 14, de 1996) § 5o Uma proporção não inferior a sessenta por cento dos recursos de cada Fundo referido no § 1o será destinada ao pagamento dos professores do ensino fundamental em efetivo exercício no magistério. (Incluído pela Emenda Constitucional no 14, de 1996) § 6o A União aplicará na erradicação do analfabetismo e na manutenção e no desenvolvimento do ensino fundamental, inclusive na complementação a que se refere o § 3o, nunca menos que o equivalente a trinta por cento dos recursos a que se refere o caput do art. 212 da Constituição Federal. (Incluído pela Emenda Constitucional no 14, de 1996) § 7o A lei disporá sobre a organização dos Fundos, a distribuição proporcional de seus recursos, sua fiscalização e controle, bem como sobre a forma de cálculo do valor mínimo nacional por aluno. [Destaquei] Cumprindo o disposto no §7o, suso transcrito, foi editada a Lei no 9.424, de 1996, instituindo o Fundef Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (posteriormente substituído pelo Fundeb criado pela Lei no 11.494, de 2007), no âmbito de cada Estado e do Distrito Federal, com natureza meramente contábil. O Fundef era formado por 15% dos recursos dos Estados e Municípios decorrentes da arrecadação do ICMS (incluindo as compensações por perdas decorrentes da desoneração de exportações – LC 87, de 1996), do FPE e FPM, do IPI proporcionalmente às exportações, na forma do art. 1o, §§1o e 2o da Lei no 9.424, de 19961. 1 Art. 1o É instituído, no âmbito de cada Estado e do Distrito Federal, o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério, o qual terá natureza contábil e será implantado, automaticamente, a partir de 1o de janeiro de 1998. (Vide Medida Provisória no 339, de 2006). (Revogado pela Lei no 11.494, de 2007) § 1o O Fundo referido neste artigo será composto por 15% (quinze por cento) dos recursos: (Vide Medida Provisória no 339, de 2006). (Revogado pela Lei no 11.494, de 2007) I da parcela do imposto sobre operações relativas à circulação de mercadorias e sobre prestações de serviços de transporte interestadual e intermunicipal e de comunicação ICMS, devida ao Distrito Federal, aos Estados e aos Municípios, conforme dispõe o art. 155, inciso II, combinado com o art. 158, inciso IV, da Constituição Federal; (Vide Medida Provisória no 339, de 2006). (Revogado pela Lei no 11.494, de 2007) II do Fundo de Participação dos Estados e do Distrito Federal FPE e dos Municípios FPM, previstos no art. 159, inciso I, alíneas a e b, da Constituição Federal, e no Sistema Tributário Nacional de que trata a Lei no 5.172, de 25 de outubro de 1966; e (Vide Medida Provisória no 339, de 2006). (Revogado pela Lei no 11.494, de 2007) III da parcela do Imposto sobre Produtos Industrializados IPI devida aos Estados e ao Distrito Federal, na forma do art. 159, inciso II, da Constituição Federal e da Lei Complementar no 61, de 26 de dezembro de 1989. (Vide Medida Provisória no 339, de 2006). (Revogado pela Lei no 11.494, de 2007) § 2o Incluise na base de cálculo do valor a que se refere o inciso I do parágrafo anterior o montante de recursos financeiros transferidos, em moeda, pela União aos Estados, Distrito Federal e Municípios a título de compensação financeira pela perda de receitas decorrentes da desoneração das exportações, nos termos da Lei Complementar no 87, de 13 de setembro de 1996, bem como de outras compensações da mesma natureza que vierem a ser instituídas. (Vide Medida Provisória no 339, de 2006). (Revogado pela Lei no 11.494, de 2007) Fl. 186DF CARF MF Processo nº 10746.720916/201695 Acórdão n.º 3301004.995 S3C3T1 Fl. 187 12 A União contribuía, por sua vez, complementarmente, na forma do art. 6o da referida lei2, de modo a atingir o valor mínimo por aluno definido nacionalmente. Com o fim do prazo de vigência do Fundef [o fundo vigorou por dez anos: 1997 a 2006], foi editado a Lei n. 11.494/07, conversão da MP no 339, de 2006, que, para substituir o Fundef, instituiu o Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação) que se estenderá até o ano de 2020. O novo fundo representou um aprimoramento do antigo Fundef, especialmente quando ao volume de recursos a ele aportados (a alíquota passou de 15% para 20%, bem assim alargouse a base de cálculo) e à abrangência do sistema de ensino a ser contemplado, passando a alcançar também o ensino infantil e médio (o Fundef beneficiava unicamente o ensino fundamental). Todavia, foram preservadas, no Fundeb, as naturezas jurídica e tributária inerentes ao extinto Fundef, razão pela qual os contenciosos tributários constituídos fundamse em idênticas controvérsias, seja inaugurado sob a égide de um ou de outro fundo, v.r., questionase a incidência do Pasep sobre o repasse de recursos ao Fundo, pela União. Portanto, no presente voto farseá referência indistintamente ao Fundef ou Fundeb, independentemente de trataremse de fatos ocorridos na vigência temporal ou espacial de um ou de outro. 1.2 DA NATUREZA JURÍDICA E TRIBUTÁRIA A Secretaria do Tesouro Nacional – STN – assim dispôs em seu Manual de Contabilidade Aplicada ao Setor Público – Parte III – Procedimentos Contábeis Específicos3, ao tratar do Fundeb: “03.01.02.02 NATUREZA DO FUNDEB O Fundeb não é considerado federal, estadual, nem municipal, por se tratar de um fundo de natureza contábil, formado com recursos provenientes das três esferas de governo e pelo fato de a arrecadação e distribuição dos recursos que o formam serem realizadas pela União e pelos Estados, com a participação do Banco do Brasil, como agente financeiro do fundo. Além disso, os créditos dos seus recursos são realizados automaticamente em favor dos Estados e Municípios, de forma igualitária, com base no número de alunos. Esses aspectos do Fundeb o revestem de peculiaridades que transcendem sua simples caracterização como Federal, Estadual ou Municipal. Assim, dependendo do ponto de vista, o fundo tem seu vínculo com a esfera federal (a União participa da composição e distribuição dos recursos), a estadual (os Estados participam da composição, da distribuição, do recebimento e da aplicação final dos recursos) e a municipal (os Municípios participam da composição, do recebimento e da aplicação final dos recursos). É importante destacar, no entanto, que a sua instituição é estadual, conforme prevê a Emenda Constitucional no 53, de 19/12/2006, art. 1o. 2 Art. 6o A União complementará os recursos do Fundo a que se refere o art. 1o sempre que, no âmbito de cada Estado e do Distrito Federal, seu valor por aluno não alcançar o mínimo definido nacionalmente. (Vide Medida Provisória no 339, de 2006). (Revogado pela Lei no 11.494, de 2007) 3 https://www.tesouro.fazenda.gov.br/images/arquivos/artigos/Parte_III__PCE.pdf Fl. 187DF CARF MF Processo nº 10746.720916/201695 Acórdão n.º 3301004.995 S3C3T1 Fl. 188 13 [Destaquei] Ressaltese que, embora as considerações feitas pela STN refirase ao Fundeb, elas são igualmente aplicáveis ao extinto Fundef, pois ambos possuem a mesma natureza, conforme explicitado em tópico precedente. Ainda quanto à natureza jurídica, o artigo publicado na revista da PGFN4 Ano I – Número 1 – 2011 pondera: “3 A natureza do Fundeb e a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal A classificação dos fundos tem sido recorrentemente um problema para a Administração Pública, especialmente no que se refere aos efeitos práticos de qualquer iniciativa definitiva de taxonomia. Em âmbito federal a questão preocupa, principalmente, o Tesouro Nacional, a quem incumbe, efetivamente, o controle dos fluxos dos altíssimos valores envolvidos. Neste sentido, há previsão de fundos de gestão orçamentária, de gestão especial e de natureza contábil. O Fundeb se encontra no último grupo. Ao que consta, os fundos de gestão orçamentária realizam a execução orçamentária e financeira das despesas orçamentárias financiadas por receitas orçamentárias vinculadas a essa finalidade. De acordo com o Tesouro Nacional entre os fundos de gestão orçamentária se classificam o Fundo Nacional da Saúde, o Fundo da Criança e Adolescente e o Fundo da Imprensa Nacional, entre outros. Os fundos de gestão especial subsistem para a execução de programas específicos, mediante capitalização, empréstimos, financiamentos, garantias e avais. Exemplificase com o Fundo Constitucional do Centro Oeste, com o Fundo de Investimento do Nordeste, com o Fundo de Investimento da Amazônia. Os fundos de natureza contábil instrumentalizam transferências, redefinem fontes orçamentárias, instrumentalizam a repartição de receitas, recolhem, movimentam e controlam receitas orçamentárias (bem como a necessária distribuição) para o atendimento de necessidades específicas. É o caso do Fundo de Participação dos Estados, do Fundo de Participação dos Municípios e do Fundeb, especialmente. O fundo é uma mera rubrica contábil. Não detém patrimônio. Não é órgão. Não é entidade jurídica. Não detém personalidade própria. É instrumento. Não é fim. Propicia meios. Eventual inscrição no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (no caso de alguns fundos) é determinação que decorre da necessidade da administração tributária deter informações cadastrais. [Destaquei] O Fundeb, de modo semelhante ao Fundef, não deve ser considerado, portanto, um fundo específico de determinada esfera governamental, mas um fundo multigovernamental, que não possui personalidade jurídica própria, e que é composto por recursos complementarmente pela União, distribuído pelos Estados e, em carater complementar, pela União, sendo seus recursos aplicados por Estados e Municípios e fiscalizados de forma concorrente pelas três esferas de governo. Relativamente a sua contabilização, a STN publicou a Portaria no 328, de 2001, na qual explicita os lançamentos contábeis e assim dispôs: 4 http://www.pgfn.fazenda.gov.br/revistapgfn/revistapgfn/anoinumeroi/arnaldo.pdf Fl. 188DF CARF MF Processo nº 10746.720916/201695 Acórdão n.º 3301004.995 S3C3T1 Fl. 189 14 Art. 1o Estabelecer, para os estados, Distrito Federal e municípios, os procedimentos contábeis para os recursos destinados e oriundos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério – FUNDEF. Art. 2o As receitas provenientes do Fundo de Participação dos Estados e do Distrito Federal – FPE e dos Municípios – FPM, do Imposto sobre a circulação de mercadorias e de prestações de serviços de transporte interestadual e intermunicipal, e de comunicação – ICMS, do Imposto sobre Produtos Industrializados – IPI sobre as exportações, na forma da Lei Complementar no 61 e da Desoneração do ICMS, nos termos da Lei Complementar no 87, deverão ser registradas contabilmente pelos seus valores brutos, em seus respectivos códigos de receitas. Art. 3o Os quinze por cento retidos automaticamente das transferências citadas no artigo anterior, serão registradas na conta contábil retificadora da receita orçamentária, criada especificamente para este fim, cuja conta será o mesmo código da classificação orçamentária, com o primeiro dígito substituído pelo número 9. Neste caso, as classificações de receita 1721.01.00 e 1722.01.00 terão como contas retificadoras as contas contábeis números 9721.01.00 e 9722.01.00 – Dedução de Receita para Formação do FUNDEF. Parágrafo 1o A Proposta Orçamentária conterá a classificação própria da receita com a apresentação da previsão bruta e as deduções para a formação do FUNDEF, ficando a despesa fixada com base no valor líquido da receita prevista. Parágrafo 2o A contabilidade manterá os registros distintos da receita arrecadada em contas abertas em cada ente da federação que representarão, respectivamente a classificação da receita e a dedução correspondente, na forma definida no caput do artigo. Art. 4o Os quinze por cento deduzidos ou transferidos pelos Estados e DF do Imposto sobre Operações Relativas à Circulação de Mercadorias e sobre Prestações de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação para o FUNDEF serão registrados na conta contábil retificadora da receita orçamentária, código 9113.02.00 – Dedução para o FUNDEF, devendo aplicar esta regra de criação de contas retificadoras para as demais receitas. Art. 5o Os valores do FUNDEF repassados ao Estado, Distrito Federal e Municípios deverão ser registrados no código de receita 1724.01.00 Transferência do FUNDEF. Parágrafo único – Quando constar do montante creditado na conta do FUNDEF, parcela de complementação de seu valor o mesmo deverá ser registrado destacadamente na conta 1724.02.00 – Transferência de Complementação do FUNDEF. Art. 6o Os procedimentos de registros contábeis, estabelecidos nesta Portaria, das transferências e as respectivas deduções estão evidenciadas no Anexo I. Art. 7° Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação, aplicandose seus efeitos a partir do exercício financeiro de 2002, inclusive no que se refere à elaboração da respectiva lei orçamentária. Fl. 189DF CARF MF Processo nº 10746.720916/201695 Acórdão n.º 3301004.995 S3C3T1 Fl. 190 15 [Destaquei] O Anexo I da referida portaria descreve os lançamentos contábeis atinentes ao fundo. Depreendese que há três lançamentos distintos: (i) o recebimento das transferências correntes dos outros entes públicos, (ii) a dedução para formação do fundo e (iii) o recebimento dos recursos do fundo. Relativamente aos Municípios, que é o caso dos presentes autos, devese contabilizar, pelo seu valor bruto, os valores das transferências constitucionais recebidas da União e dos Estados e, em conta retificadora de receita, o valor relativo aos 15% destinados ao Fundef [20% na vigência do Fundeb]. Já o recebimento dos recursos oriundos do Fundef é contabilizado como transferência corrente recebida, de forma separada, entre os recursos provenientes do fundo, distribuídos pelos Estados, e os distribuídos pela União, como complementação para o valor mínimo nacional, referida no §3o do art. 60 do ADCT e no art. 6o da Lei no 9.424, de1996. A contabilização segue os ditames da Lei no 4.320, de 1964, a qual conceitua as receitas correntes, transferências correntes recebidas e efetuadas: Art. 11 A receita classificarseá nas seguintes categorias econômicas: Receitas Correntes e Receitas de Capital. (Redação dada pelo Decreto Lei no 1.939, de 20.5.1982) § 1o São Receitas Correntes as receitas tributária, de contribuições, patrimonial, agropecuária, industrial, de serviços e outras e, ainda, as provenientes de recursos financeiros recebidos de outras pessoas de direito público ou privado, quando destinadas a atender despesas classificáveis em Despesas Correntes. (Redação dada pelo Decreto Lei no 1.939, de 20.5.1982) ... Art. 12. A despesa será classificada nas seguintes categorias econômicas: (Vide DecretoLei no 1.805, de 1980) § 1o Classificamse como Despesas de Custeio as dotações para manutenção de serviços anteriormente criados, inclusive as destinadas a atender a obras de conservação e adaptação de bens imóveis. § 2o Classificamse como Transferências Correntes as dotações para despesas as quais não corresponda contraprestação direta em bens ou serviços, inclusive para contribuições e subvenções destinadas a atender à manifestação de outras entidades de direito público ou privado. Isto posto acerca do histórico do Fundef e Fundeb e sua natureza jurídica tributária, cabe citar trecho do voto do il. Conselheiro José Henrique Mauri, proferido quando do Acórdão nº 3301004.140, nesta turma de julgamento, acerca do PASEP e a legislação aplicável, bem como, da incidência da contribuição ao Pasep sobre o FUNDEB: 1.3 DO PROGRAMA DE FORMAÇÃO DO PATRIMÔNIO DO SERVIDOR PÚBLICO (PASEP) O Pasep constitui contribuição à seguridade social destinada à formação do patrimônio do servidor público, instituída pela Lei Complementar no 8/70 e, a partir Fl. 190DF CARF MF Processo nº 10746.720916/201695 Acórdão n.º 3301004.995 S3C3T1 Fl. 191 16 da Constituição Federal de 1988, art. 239, fixouse que os recursos advindos de tal tributo iriam financiar o programa do segurodesemprego e o abono salarial. Constituição Federal de 1988 Art. 239. A arrecadação decorrente das contribuições para o Programa de Integração Social, criado pela Lei Complementar no 7, de 7 de setembro de 1970, e para o Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público, criado pela Lei Complementar no 8, de 3 de dezembro de 1970, passa, a partir da promulgação desta Constituição, a financiar, nos termos que a lei dispuser, o programa do seguro desemprego e o abono de que trata o § 3o deste artigo. Lei Complementar no 8/70 Art. 1o É instituído, na forma prevista nesta Lei Complementar, o Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público. Art. 2o A União, os Estados, os Municípios, o Distrito Federal e os Territórios contribuirão para o Programa, mediante recolhimento mensal ao Banco do Brasil das seguintes parcelas: I União: 1% (um por cento) das receitas correntes efetivamente arrecadadas, deduzidas as transferências feitas a outras entidades da Administração Pública, a partir de 1o de julho de 1971; 1,5% (um e meio por cento) em 1972 e 2% (dois por cento) no ano de 1973 e subseqüentes. II Estados, Municípios, Distrito Federal e Territórios: a) 1% (um por cento) das receitas correntes próprias, deduzidas as transferências feitas a outras entidades da Administração Pública, a partir de 1o de julho de 1971; 1,5% (um e meio por cento) em 1972 e 2% (dois por cento) no ano de 1973 e subseqüentes; b) 2% (dois por cento) das transferências recebidas do Governo da União e dos Estados através do Fundo de Participações dos Estados, Distrito Federal e Municípios, a partir de 1o de julho de 1971. Parágrafo único Não recairá, em nenhuma hipótese, sobre as transferências de que trata este artigo, mais de uma contribuição. Relativamente à questão tributária, a contribuição para o Pasep sobre as receitas governamentais encontrase disposta na Lei nº 9.715, de 1998, art. 2o, inciso III, que assim dispõe: “Art.2o A contribuição para o PIS/PASEP será apurada mensalmente: (...) III pelas pessoas jurídicas de direito público interno, com base no valor mensal das receitas correntes arrecadadas e das transferências correntes e de capital recebidas. (...) §6o A Secretaria do Tesouro Nacional efetuará a retenção da contribuição para o PIS/PASEP, devida sobre o valor das transferências de que trata o inciso III. (Incluído pela Medida Provisória no 2.15835, de 2001) (...) Art.7o Para os efeitos do inciso III do art. 2o, nas receitas correntes serão incluídas quaisquer receitas tributárias, ainda que arrecadadas, no todo ou em parte, por Fl. 191DF CARF MF Processo nº 10746.720916/201695 Acórdão n.º 3301004.995 S3C3T1 Fl. 192 17 outra entidade da Administração Pública, e deduzidas as transferências efetuadas a outras entidades públicas. Art.8o A contribuição será calculada mediante a aplicação, conforme o caso, das seguintes alíquotas: (...) III um por cento sobre o valor das receitas correntes arrecadadas e das transferências correntes e de capital recebidas.” [Destaquei] Portanto, a contribuição para o Pasep sobre as receitas governamentais incide sobre as receitas correntes arrecadadas e transferências correntes e de capital recebidas. Nas receitas correntes serão incluídas quaisquer receitas tributárias, ainda que arrecadadas, no todo ou em parte, por outra entidade da Administração Pública, e deduzidas as transferências efetuadas a outras entidades de direito público interno. Por oportuno, ressaltese que a Lei no 12.810, de 2013, alterou a Lei no 9.715, de 1998, para incluir no art. 2o, o § 7o, para permitir a exclusão da base de cálculo do Pasep as transferências recebidas decorrentes de convênio, contrato de repasse ou instrumento congênere com objeto definido, nos seguintes termos: “Art.2o A contribuição para o PIS/PASEP será apurada mensalmente: (...) § 7o Excluemse do disposto no inciso III do caput deste artigo os valores de transferências decorrentes de convênio, contrato de repasse ou instrumento congênere com objeto definido. (Incluído pela Lei no 12.810, de 2013). Todavia, referida alteração não alcança o período de que cuida a exigência fiscal ora apreciada, portanto não deve ser considerada para o presente contencioso. 1.4 DA INCIDÊNCIA DO PASEP SOBRE O FUNDEB5 Conforme já explicitado em tópico precedente, a base de cálculo da contribuição para o Pasep, devida pelas pessoas jurídicas de direito público interno, será apurada com base no valor mensal das receitas correntes arrecadadas e das transferências correntes e de capital recebidas, nos termos do art. 2o, III, da Lei 9.715/98, excluindose as transferências efetuadas a outras entidades públicas(art. 7o). A Lei no 12.810, de 2013, alterou a Lei no 9.715, de 1998, para incluir no art. 2o, o § 7o, alterando a base de cálculo do Pasep, permitindo, em sua apuração, a exclusão de transferências decorrentes de convênio, contrato de repasse ou instrumento congênere com objeto definido. Porém, o novo dispositivo somente se aplica a partir de 15 de maio de 2013, início da vigência da Lei, não alcançando assim os fatos geradores do presente processo, 2008 e 2009. A receita do ente municipal é alimentada não só pelas denominadas receitas tributárias próprias, mas também pelas transferidas pelos demais entes federados. Argumentam os municípios que, ao lhes creditar tais valores, a União já faria a 5 Para a elaboração do presente tópico utilizouse de fundamentos buscados no artigo "O FUNDEB como base de cálculo da contribuição ao PASEP", de autoria de Ana Cristina Leão Nave Lamberti, pesquisado na web em 1/8/2017: http://www.ambitojuridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=9743 Fl. 192DF CARF MF Processo nº 10746.720916/201695 Acórdão n.º 3301004.995 S3C3T1 Fl. 193 18 dedução para alocação dos recursos ao Fundef/Fundeb6, bem como a correlata retenção na fonte da contribuição para o PASEP. Ocorre que, no entender de alguns entes municipais, haveria dúvida na base de cálculo do PASEP em relação a tais receitas, na medida em que os valores vertidos aos entes federados, pela União, não guardariam consonância com os valores efetivamente recebidos pelos mesmos, em decorrência dos critérios de distribuição estabelecidos pela Lei n. 11.494/2007. Advogam esses Municípios que os valores do Fundeb que compõem a base de cálculo da contribuição ao Pasep devem ser aqueles efetivamente recebidos e não a quantia alocada quando do repasse de verbas pela União. O ente municipal calca todo seu raciocínio na premissa de que o PASEP deve incidir sobre o valor que recebe do fundo e não sobre o valor alocado, o que levaria a uma retenção indevida pela União do tributo, que teria que ter sua base de cálculo reajustada. Ocorre que o fundamento acima não é sustentável em razão da sistemática do Fundeb, que não obedece à simples equação matemática pretendida pelos municípios. É fato que o valor vertido ao fundo guarda relação com o montante repassado pela União, de forma a compor a base de cálculo do Pasep, alimentada pelos recursos auferidos pelo ente público, seja via arrecadação, seja por transferência. Porém, não há correspondência, por obviedade matemática, entre o valor alocado, que o é genericamente por todos os municípios, e o valor recebido por cada ente municipal, proporcional ao número de alunos. Há de se esclarecer que o Fundeb tem como escopo o fomento da educação, guardando relação com índices que refletem justamente a situação educacional do município. Foi esse o critério utilizado pelo legislador no momento de distribuir os recursos do fundo em questão, entre os entes municipais. Nos ditames da Lei no 11.494/07, em seu art. 8o, o valor que o Município recebe do fundo, que será destinado à educação, depende diretamente do número de alunos que possui em sua rede de educação básica. É esta grandeza que irá mensurar a fatia do Fundeb que cada município irá receber. Art. 8o: A distribuição de recursos que compõem os Fundos, no âmbito de cada Estado e do Distrito Federal, darseá, entre o governo estadual e os de seus Municípios, na proporção do número de alunos matriculados nas respectivas redes de educação básica pública presencial, na forma do Anexo desta Lei. Assim, irá contribuir mais com o Pasep o ente que receber maiores recursos da União, alargando a base de cálculo da indigitada contribuição. De outra banda, o município que recebe poucos recursos da UNIÃO, terá baixa retenção ao Pasep. Contudo, isso não irá refletir necessariamente o quantum o ente efetivamente receberá da parcela dos recursos do Fundeb. Verificase a situação posta porque o parâmetro utilizado para o rateio do Fundeb a cada Município é diverso de mero cálculo aritmético encontrado pela quantificação do valor repassado pela União aos entes municipais e que é destinado à constituição do fundo. Referido valor é encontrado com base em grandeza trazida pelo texto legal, compondose do proporcional número de alunos que dado município possui matriculado nas redes de educação básica pública presencial. 6 O mesmo raciocínio aplicase ao Fundef, nos termos da Lei no 9.424/96, que vigorou até 2006 e a seu sucessor, o Fundeb, nos termos da Lei no 11.494/2007, com vigor até 2020. Fl. 193DF CARF MF Processo nº 10746.720916/201695 Acórdão n.º 3301004.995 S3C3T1 Fl. 194 19 Portanto, um Município que recebe grande quantidade de recursos da União irá contribuir sobremaneira para o Fundeb, deduzindo a União tal fatia dos recursos que transfere ao ente municipal, e já retendo o percentual ao Pasep, mas, por possuir, p.ex., poucos alunos em sua rede de ensino, receberá uma pequena parcela dos recursos existentes no Fundeb. Ao contrário, podese vislumbrar o seguinte quadro: um município que recebe menor quantidade de recursos da União irá contribuir menos com o Pasep, mas poderá receber uma quantia maior dos recursos do Fundeb por ter maior número de alunos em sua rede de ensino. Eis o parâmetro eleito pela lei para a distribuição do Fundeb a cada município. Podese verificar na situação descrita uma eficiente forma de distribuição de renda, de maneira que municípios que recebem mais recursos federais, detendo potencialmente melhor situação educacional, contribuem mais para o Fundeb, sendo tal Fundo, por sua vez, objeto de distribuição em maiores proporções aos entes municipais com deficiência em recursos para verter em educação. O intuito da norma que cuida do critério de distribuição do Fundeb a cada Município é justamente amparar a educação básica, de forma a socorrer aqueles entes municipais com potencial deficiência educacional. De qualquer forma, a base de cálculo do PASEP há de ser o valor da receita transferida ao Município pela União e destinada ao Fundeb, por imediata dedução, por compor a definição legal da base de cálculo do referido tributo, e não o valor que efetivamente recebe o ente municipal, quando do rateio do Fundo, que guarda relação com outra grandeza, conforme delineado. Os destaques relativos aos valores repassados ao Fundeb ou Fundef, nas transferências constitucionais, efetuadas pela União ou pelo Estado, possuem a mesma natureza das próprias transferências, ou seja, devem ser oferecidas à tributação da contribuição, pelo Município, sem prejuízo, do aproveitamento, se for o caso, da retenção pela STN, no caso das transferências recebidas da União. Esse entendimento alinhase com a RFB, nos termos da Solução de Divergência no 12, de 2011, assim ementada: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Base de cálculo de Município. As receitas financeiras auferidas pela União, Estados, Distrito Federal e Municípios, em decorrência da remuneração de depósitos bancários, de aplicações de disponibilidade em operações de mercado e de outros rendimentos oriundos de renda de ativos permanentes, integram suas receitas correntes arrecadadas e transferências correntes e de capital recebidas, base de cálculo mensal para a incidência da Contribuição para o PIS/Pasep, à alíquota de 1%. Os valores das receitas repassados/alocados para o FUNDEB (antigo FUNDEF) pelos Estados, Distrito Federal e Municípios, não podem ser excluídos da base de cálculo da Contribuição para o PIS/Pasep do ente que efetuar o repasse/alocação, por falta de amparo legal. Os Estados, o Distrito Federal e os Municípios ao receberem da União valores relativos às transferências constitucionais do FPE e do FPM, inclusive a parte destacada para FUNDEF/FUNDEB, devem incluílos na sua totalidade em suas respectivas bases de cálculos mensais de incidência da Contribuição para o PIS/Pasep, porque os referidos valores se enquadram como transferências recebidas de outra entidade da administração pública, cuja inclusão na base de Fl. 194DF CARF MF Processo nº 10746.720916/201695 Acórdão n.º 3301004.995 S3C3T1 Fl. 195 20 cálculo da contribuição está prevista na alínea “b” do inciso II do art. 2o da Lei Complementar no 8, de 1970, e o no inciso III do art. 2o da Lei no 9.715, de 1998. Quando ficar comprovado que houve a retenção pela Secretaria do Tesouro Nacional (STN) da Contribuição para o PIS/Pasep na fonte, à alíquota de 1%, incidente sobre o total dos valores transferidos pela União, poderão os Estados, o Distrito Federal e os Municípios excluir de suas respectivas bases de cálculos da Contribuição para o PIS/Pasep os valores recebidos a título de transferências constitucionais relativas ao FPE e ao FPM, inclusive os valores destacados para o FUNDEF/FUNDEB. Dispositivos Legais: Lei Complementar no 8, de 1970: e Lei no 9.715, de 1998, (art. 2o, inciso III, e § 6o e arts. 7o e 8o). Assim, quanto ao recebimento pelo Município das transferências da União e dos Estados, devem ser incluídas na base de cálculo do Pasep, inclusive quanto aos valores destacados para o Fundef/Fundeb. Com esse entendimento, de que as transferências para os fundos de destinação específica integram a base de cálculo da contribuição, e que no presente feito, a autoridade administrativa fiscal aceitou a dedução dos recursos recebidos do FUNDEB pelo Contribuinte, considerando a proporção de alunos matriculados na educação pública básica presencial, que foram contabilizados na conta de receita orçamentária 1724.01.00.00, visto que foram tributados anteriormente, bem como contemplou a contribuição retida na fonte. Porém, observase, conforme visto nos tópicos citados acima, que a exclusão das receitas oriundas do repasse de FUNDEB da base de cálculo de PASEP não só é vedada como acarretaria na dupla dedução da contribuição retida, ou seja, apropriação indébita do município da referida contribuição. Com isso posto, de acordo com a legislação aplicável ao caso e os autos do processo, voto por negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Valcir Gassen Fl. 195DF CARF MF
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Numero do processo: 13819.900831/2010-91
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Jul 26 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Oct 11 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 01/07/2008 a 30/09/2008
RESSARCIMENTO DE CRÉDITOS DO IPI E SUA UTILIZAÇÃO PARA COMPENSAÇÃO COM OUTROS TRIBUTOS
Para que se opere o ressarcimento de créditos de IPI e sua utilização em Declarações de Compensação, para compensação com débitos de outros tributos é necessário que o requerente demonstre, de forma inequívoca, a liquidez e certeza de tais créditos, apresentando, quando solicitado pela Secretaria da Receita Federal do Brasil, entidade competente para homologar tais compensações e reconhecer o direito creditório, todos os documentos, Livros Fiscais de registro, lançamentos contábeis, arquivos digitais, livros de controle, controle de estoques de matérias-primas, produtos intermediários e produtos acabados, na forma exigida pela legislação e, que de acordo com as regras contábeis e fiscais, devem estar em boa ordem e organizados de tal forma que seja possível a identificação dos créditos e sua correspondência com os respectivos insumos (matéria-prima, materiais intermediários e material de embalagem). Na falta desta demonstração, que é de inteira responsabilidade do requerente, impossível considerar-se líquido e certo o crédito, por consequencia não sendo possível a sua utilização no instituto da compensação no âmbito tributário.
PEDIDO DE DILIGÊNCIA. DESNECESSIDADE.
O pedido de diligência deve ser deferido em ocasiões onde o julgador percebe a necessidade de esclarecimentos em pontos específicos da ação fiscal ou das razões recursais, onde haja necessidade de verificações mais acuradas, diante de dúvidas ou imprecisões que possam influenciar no julgamento da lide. No caso presente, diante do acurado trabalho da autoridade fiscal, oferecendo diversas oportunidades para regularização das desencontradas informações, não se verifica necessidade de diligência, pois se estaria, desta forma, realizando o trabalho que deveria ter sido feito pelo requerente, ao elaborar o seu pedido de ressarcimento
Numero da decisão: 3301-004.893
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, NEGAR PROVIMENTO ao recurso voluntário.
assinado digitalmente
Winderley Morais Pereira - Presidente.
assinado digitalmente
Ari Vendramini - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Winderley Morais Pereira, Liziane Angelotti Meira, Marcelo da Costa Marques D'Oliveira, Antonio Carlos Costa Cavalcanti Filho, Salvador Cândido Brandão Junior, Semíramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Ari Vendramini (Relator)
Nome do relator: ARI VENDRAMINI
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI Período de apuração: 01/07/2008 a 30/09/2008 RESSARCIMENTO DE CRÉDITOS DO IPI E SUA UTILIZAÇÃO PARA COMPENSAÇÃO COM OUTROS TRIBUTOS Para que se opere o ressarcimento de créditos de IPI e sua utilização em Declarações de Compensação, para compensação com débitos de outros tributos é necessário que o requerente demonstre, de forma inequívoca, a liquidez e certeza de tais créditos, apresentando, quando solicitado pela Secretaria da Receita Federal do Brasil, entidade competente para homologar tais compensações e reconhecer o direito creditório, todos os documentos, Livros Fiscais de registro, lançamentos contábeis, arquivos digitais, livros de controle, controle de estoques de matérias-primas, produtos intermediários e produtos acabados, na forma exigida pela legislação e, que de acordo com as regras contábeis e fiscais, devem estar em boa ordem e organizados de tal forma que seja possível a identificação dos créditos e sua correspondência com os respectivos insumos (matéria-prima, materiais intermediários e material de embalagem). Na falta desta demonstração, que é de inteira responsabilidade do requerente, impossível considerar-se líquido e certo o crédito, por consequencia não sendo possível a sua utilização no instituto da compensação no âmbito tributário. PEDIDO DE DILIGÊNCIA. DESNECESSIDADE. O pedido de diligência deve ser deferido em ocasiões onde o julgador percebe a necessidade de esclarecimentos em pontos específicos da ação fiscal ou das razões recursais, onde haja necessidade de verificações mais acuradas, diante de dúvidas ou imprecisões que possam influenciar no julgamento da lide. No caso presente, diante do acurado trabalho da autoridade fiscal, oferecendo diversas oportunidades para regularização das desencontradas informações, não se verifica necessidade de diligência, pois se estaria, desta forma, realizando o trabalho que deveria ter sido feito pelo requerente, ao elaborar o seu pedido de ressarcimento
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Na falta desta demonstração, que é de inteira responsabilidade do requerente, impossível considerarse líquido e certo o crédito, por consequencia não sendo possível a sua utilização no instituto da compensação no âmbito tributário. PEDIDO DE DILIGÊNCIA. DESNECESSIDADE. O pedido de diligência deve ser deferido em ocasiões onde o julgador percebe a necessidade de esclarecimentos em pontos específicos da ação fiscal ou das razões recursais, onde haja necessidade de verificações mais acuradas, diante de dúvidas ou imprecisões que possam influenciar no julgamento da lide. No caso presente, diante do acurado trabalho da autoridade fiscal, oferecendo diversas oportunidades para regularização das desencontradas informações, não se verifica necessidade de diligência, pois se estaria, desta forma, realizando o trabalho que deveria ter sido feito pelo requerente, ao elaborar o seu pedido de ressarcimento AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 81 9. 90 08 31 /2 01 0- 91 Fl. 1756DF CARF MF 2 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, NEGAR PROVIMENTO ao recurso voluntário. assinado digitalmente Winderley Morais Pereira Presidente. assinado digitalmente Ari Vendramini Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Winderley Morais Pereira, Liziane Angelotti Meira, Marcelo da Costa Marques D'Oliveira, Antonio Carlos Costa Cavalcanti Filho, Salvador Cândido Brandão Junior, Semíramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Ari Vendramini (Relator) Relatório 1. Tratase de pedido de ressarcimento de IPI, e Declarações de Compensação vinculadas. Assim a DRJ/RIBEIRÃO PRETO, em seu Acórdão nº 1463.953 – 8ª Turma, combatido no Recurso Voluntário apresentado, descreveu o litígio. Por bem descrito, adoto seu texto: Tratase de manifestação de inconformidade apresentada pelo requerente ante Despacho Eletrônico da Delegacia da Receita Federal do Brasil que indeferiu totalmente o ressarcimento, no montante de R$ 262.222,06 e nãohomologou as compensações declaradas nos PER/DCOMP apresentados, fato que constou da cobrança do valor de R$ 259.015,71 mais acréscimos legais. Consta dos autos que o crédito que se pretendeu compensar diz respeito ao saldo credor do IPI apurado no 3º trimestre de 2008. A nãohomologação das compensações se deu em conseqüência de glosas de créditos considerados indevidos, em procedimento fiscal. Conforme informação fiscal, inclusa no despacho decisório anexo na internet, do procedimento de verificação dos Pedidos de Ressarcimento de Créditos Incentivados do IPI relativos aos Pedidos de Ressarcimento/Declaração de Compensação PER/DCOMP apresentados em decorrência de intimação fiscal, constatouse diversas inconsistências nos arquivos digitais entregues pela empresa. As principais sendo: a falta da entrega dos arquivos de todos os estabelecimentos; os arquivos entregues contemplam apenas os dados contábeis; não apresentam os saldos iniciais e não foram incluídos os dados fiscais ou uma alternativa (SINTEGRA). A análise dos arquivos digitais mostrou uma contabilidade desconexa e inconsistente. A lógica de algumas contas e sua contrapartida não coaduna com os princípios contábeis vigentes e alguns lançamentos não são concretamente esclarecidos. Da verificação das notas fiscais NF, após a analise do fornecedor, do material adquirido e dos valores, procurouse verificar a aquisição propriamente dita e a entrada da mercadoria (insumos) no estabelecimento. Fl. 1757DF CARF MF Processo nº 13819.900831/201091 Acórdão n.º 3301004.893 S3C3T1 Fl. 1.757 3 Neste exame se verificou os meios de pagamento e o seu fluxo, representados pelo registro nas contas Fornecedores, Caixa, Bancos e outras eventuais utilizadas pelo contribuinte. Desta verificação foram constatadas as seguintes irregularidades: Manutenção de Saldo Devedor na conta fornecedores; manutenção de Saldo Credor na conta Caixa; utilização de contas com título de Adiantamentos Diversos/Cheques a Receber com o propósito de efetuar ajustes contábeis; Saldos Iniciais e Finais das contas apresentadas nos arquivos digitais divergentes daqueles registrados na DIPJ. Também foi solicitado à contribuinte a entrega do livro Registro de Produção e Estoque (Mod. 3), para que se pudesse analisar a sua produção e assim comprovar suas compras de insumos, sua produção e vendas. A contribuinte alegou não escriturar este livro e quando instada a apresentar uma alternativa do controle de sua produção disse não efetuar qualquer registro geral, controlando a sua produção apenas por Ordens de Serviço OS individuais. Face a complexidade dos produtos e especialmente sua grande diversidade, a análise destas OS mostrou ser inviável para a montagem de um quadro geral da produção da contribuinte sem contarmos, adicionalmente com as NF de entradas e saídas correlacionadas, com o livro Registro de Inventário e com um registro geral da mesma. Desta forma, concluiuse pela impossibilidade de julgar legítimos os créditos cujo ressarcimento foi pedido através dos PER/DCOMP indicados e em decorrência, em acordo com a IN SRF n° 600/2005 e a OS DRF/SBC n°01/99, o Fisco opinou pelo eu indeferimento total, no montante de R$ 1.454.969,22 (Um milhão quatrocentos e ciquenta e quatro reais e vinte e dois centavos). Regularmente cientificada do indeferimento de seu pleito, a contribuinte apresentou manifestação de inconformidade alegando, em suma, o que segue: Da nulidade Inicialmente, o Auditor da Receita Federal confirma em suas informações se tratar de créditos de IPI passíveis de ressarcimento, inclusive, de entrada de insumos relativos aos produtos da empresa, com atendimento as obrigações acessórias. Portanto, com base nas informações prestadas pelo Auditor, estamos autorizados em afirmar se tratar de crédito passível de ressarcimento e compensação. No entanto, em virtude da contribuinte não escriturar no livro Registro de Produção e Estoque (Modelo 3) nem apresentar SUPOSTAMENTE alternativa ao controle, além das Ordens de Produção, e diante da complexidade dos produtos e especialmente a sua grande diversidade, o Auditor deixou de analisar e montar quadro geral da produção com base nas Ordens de Serviços. O Auditor não agiu com legalidade, ou seja, mesmo sujeito aos mandamentos da lei se afastou e se desviou dos mesmos, praticando um ato ilegal, devendo ser responsabilizado disciplinarmente, pois na Administração Pública não se admite liberdade com a lei ou vontade pessoal. Diferentemente da contribuinte a qual é lícito fazer o que a lei não proíbe, na Administração só é permitido fazer o que a lei autoriza e no presente caso, não há lei que autorize o Auditor a glosar créditos quando se deparar com situações complexas. Por conseguinte, o Auditor Fiscal desrespeitou a Carta Magna e os princípios que regem a Administração Pública. Por estas razões, é inaceitável a atitude do Auditor Fiscal que, por conseguinte, violou os princípios fundamentais e os norteadores da Administração Pública. E vou mais além, agiu dolosamente e Fl. 1758DF CARF MF 4 sem amparo legal, pois inexiste previsão que autorize a glosa de crédito de ressarcimento de IPI diante de situações complexas. Com esta atitude impensada o Auditor Fiscal se sobrepôs a própria Constituição. Ao ponto de desrespeitar os princípios já mencionados. Ou seja, colocou a própria vontade acima da lei. Fato inadmissível em virtude das violações mencionadas, que por si só, garante a contribuinte o cancelamento da decisão que NÃO HOMOLOGOU os créditos de ressarcimento de IPI, cuja base teve as informações prestadas pelo Auditor da Receita Federal. A "dito documentação complexa" que levou o Auditor da Receita Federal a deixar de montar quadro da produção, é fruto dos próprios documentos fiscais que foram apresentados no longo da fiscalização, ou seja, notas fiscais de aquisição; Livro de Entrada, Livro de Saída; Inventário; Livro de Apuração; Livro Razão, Livro Diário e Arquivo Magnético Sintegra,cujas informações são correlatas as do Livro Modelo 3.Por outro lado, é certo que o Auditor tem o direitodever de prestar informações corretas ao órgão julgador, sem qualquer vício ou erros. Assim, é inadmissível que por falta de vontade em analisar os ditos documentos complexos seja a contribuinte penalizada com a glosa dos créditos. É incontestável que a atitude impensada do Auditor resultou na violação direta a Constituição Federal com o desrespeito aos princípios que regem a Administração Pública (art. 37), em especial o Princípio da Eficiência, onde ficou caracterizado que o Auditor deixou de analisar e montar o quadro da produção em virtude da complexidade da documentação apresentada em substituição ao Livro de Registro de Produção (Modelo 3). Da legitimação dos créditos. Insta salientar, que o Auditor da Receita Federal, em suas Informações Fiscais, reconhece que os créditos apurados pela Contribuinte são efetivamente de insumos relativos aos produtos da empresa, cuja entrada foi devidamente registrada nos livros. Conforme se denota, não há controvérsia a respeito da origem dos créditos. O Auditor é bem claro ao afirmar que as NF's de entrada demonstram que o crédito apurado pela Contribuinte é passível de ressarcimento/compensação. Essa afirmativa, por si só, torna desnecessária qualquer discussão a respeito. Assim sendo, nos reservamos o direito apenas de demonstrar os valores apurados a título de crédito e os débitos que foram objeto de compensação. Conforme se denota, em atendimento ao artigo 11 da Lei 9.779/99, os créditos foram apurados em cada trimestrecalendário, decorrente de aquisição de matériaprima, produto intermediário e material de embalagem, aplicados na industrialização, e compensados com débitos de tributos administrados pela Receita Federal do Brasil. Portanto, restou comprovado se tratar de crédito decorrente da entrada de insumos, com registro no Livro de Entrada, e passível de ressarcimento/compensação. Do Registro de Controle de Produção e do Estoque Uma vez que a Contribuinte não mantém sistema de contabilidade de custo integrado, seu estoque de material em processamento e dos produtos acabados é arbitrado com base no artigo 296 do Regulamento do Imposto de Renda. O arbitramento é ferramenta válida para as empresas que não possuem contabilidade de custo integrado e coordenado com o restante da escritura. Assim, quando a empresa não puder determinar os valores originais da escrituração contábil que permita, ao final de cada mês, determinar o valor dos estoques de matériasprimas e outros materiais, produtos em elaboração, Fl. 1759DF CARF MF Processo nº 13819.900831/201091 Acórdão n.º 3301004.893 S3C3T1 Fl. 1.758 5 bem como de se apoiar em livros auxiliares, fichas, folhas contínuas ou mapas de apropriação ou rateio, que permita avaliar o estoque existente na data do encerramento do período de apropriação de resultados segundo os custos efetivos, deverá arbitrar seu estoque nos moldes do artigo 296 do RIR. Ao contrário do exposto, quando a empresa mantém contabilidade de custo integrado e coordenada com o restante da escritura, pressupõe que tenha o controle das entradas de insumos no estoque e a sua utilização no processo de industrialização. Por isso, estão obrigadas a manterem o Livro de Registro de Controle da Produção e do Estoque. No presente caso, a contribuinte não mantém sistema de contabilidade de custo integrada. Assim sendo, seu estoque é arbitrado nos termos do artigo 296 do RIR. Por conta dessa sistemática de apuração e valorização dos estoques, tornasse desrazoável que a Contribuinte mantenha o livro de Registro de Controle da Produção e do Estoque (Modelo 3). Por outro lado, não é demais ressaltar, que as mesmas informações lançadas no dito Livro Modelo 3 são facilmente encontradas nas Notas Fiscais de aquisição; Livro de Entrada; Livro de Saída; Inventário; Livro de Apuração do IPI; Livro Razão, Livro Diário e Arquivo Magnético Sintegra. Todos esses documentos foram tempestivamente apresentados ao Auditor Fiscal, inclusive Ordens de Produção, mas, sob alegação de complexidade, não houve montagem de um quadro geral da produção: Veja Julgador, o Auditor estava de posse de toda documentação necessária e suficiente para apurar as mesmas informações contidas no Livro Modelo 3, mas, "por falta de vontade" preferiu julgar ilegítimos os créditos de ressarcimento de IPI. Reapresentar tais documentos nesta Manifestação de Inconformidade é tarefa árdua, por se tratar de documentos volumosos e, ao invés de ajudar no julgamento, poderá atrapalhar em virtude da quantidade de folhas a serem analisadas. Por isso, a contribuinte se reserva o direito de apresentar o mínimo possível, mas suficiente, para o respeitável Julgador reconhecer o crédito pleiteado. Não obstante as dificuldades de se juntar inúmeros documentos, com objetivo de demonstrar que os insumos foram efetivamente consumidos/utilizados no processo de industrialização, a contribuinte junta amostras das Fichas de Emergência e das Estruturas dos Produtos, cujo teor demonstra que os insumos foram utilizados na composição daquele produto. Sendo certo que, se conciliado com as Notas Fiscais de entrada, facilmente se comprova que os insumos de aquisição foram efetivamente consumidos/utilizados no processo de industrialização. Desse modo, não restará qualquer dúvida a respeito do direito da Contribuinte de ver seu crédito compensado com os débitos indicados nas compensações. Por fim, requereu o recebimento, processamento e apreciação da presente manifestação de inconformidade, e ao final, julguea totalmente procedente, com a legitimação dos créditos cujo ressarcimento foi pedido através dos PER/DCOMP's. Requereu, também: a) a declaração de nulidade do despacho decisório que não homologou os Fl. 1760DF CARF MF 6 créditos, haja vista que os vícios apresentados nas Informações Fiscais, invalidam todo o processo por desrespeito aos princípios constitucionais, os quais a Administração está subordinada art. 37 da CF. b) deferimento de diligências no sentido de se apurar e se validar as compensações informadas nas DCOMP's. c) deferimento de perícia contábil, a ser realizada em prazo razoável, e juntada a posteriore; d) reconhecer a contribuinte o direito à compensação dos créditos de ressarcimento de IPI e conseqüente homologação das DCOMP's, com a conseqüente extinção dos débitos compensados, em atenção aos art. 156, VII, do CTN e) por derradeiro, que as intimações deste processo sejam encaminhadas no endereço comercial da Contribuinte, qual seja, Av. Luigi Papaiz, 783/843 – Campanário CEP: 09.931610 Diadema/SP. 2. Assim restou ementado o Acórdão exarado pela DRJ/RPO : ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/01/2007 a 31/03/2007 PEDIDO DE DILIGÊNCIA. No caso em exame, considerase desnecessária a diligência proposta pela manifestante, por entendêla dispensável para o deslinde do presente julgamento. PEDIDO DE PERÍCIA. A realização de perícia pressupõe que o fato a ser provado necessite de conhecimento técnico especializado, fora do campo de atuação do julgador, o que não é o caso dos presentes autos. A perícia solicitada não foi acompanhada com os quesitos referentes aos exames necessários, nem indicado o perito, pelo que o pedido deve ser considerado não formulado. DILAÇÃO PROBATÓRIA. Uma vez que não há a previsão para a realização de uma audiência de instrução, como no âmbito do processo civil, as provas de fato modificativo, impeditivo ou extintivo da pretensão fazendária, no caso de exigência tributária, e as alegações pertinentes à defesa devem ser oferecidas pelo sujeito passivo na impugnação. NULIDADE. No caso concreto, não se verifica a imposição de restrições à apresentação da manifestação, nem a existência de obscuridades no despacho decisório. ÔNUS DA PROVA. A parte que invoca direito deve produzir as provas necessárias do respectivo fato constitutivo. No caso em concreto, o administrado deve fazer as provas que dão lastro ao direito creditório reclamado. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido 3. Inconformada com a decisão, a empresa, após ter ciência do Acórdão em 10/02/2017 conforme Termo de Ciência por Abertura de Mensagem, ás fls. 989 dos autos digitais, apresenta Recurso Voluntário, tempestivamente, aos 14/03/2017, conforme Termo de Solicitação de Juntada, ás fls. 990 dos autos digitais, alegando : Fl. 1761DF CARF MF Processo nº 13819.900831/201091 Acórdão n.º 3301004.893 S3C3T1 Fl. 1.759 7 para que tivesse direito ao ressarcimento de créditos do IPI deveria atender a dois requisitos, quais sejam /; devem os créditos ser decorrentes de entradas de matériasprimas, produtos intermediários e materiais de embalagem, e devem ser escriturados no trimestre calendário; houve o reconhecimento da existência de tais créditos pela Fiscalização, inclusive que se tratavam de créditos oriundos das aquisições de insumos realizadas pela recorrente, tendo estas sido registradas no seu Livro de Entradas, portanto, reconh3cida a aquisição de insumos utilizados no processo industrial de bens para revenda, não pode a Fiscalização glosar a integralidade de seus créditos foram disponibilizados ao Fisco diversos livros fiscais que comprovam a aquisição de todos os insumos, anexa planilha entrada x consumo para que seja verificado o consumo dos insumos no processo produtivo, adotando a linha de que a verdade material estabelece, para a Administração, o dever de buscar, a qualquer momento, todas as provas e fatos que comprovem a verdadeira situação enfrentada, é forçoso concluir que a recorrente tem direito á homologação das compensações efetuadas, demonstrada a legitimidade dos créditos, se não se entender a comprovação suscitada, por meio dos documentos acostados aos autos, a recorrente se vê obrigada a requerer a realização de diligência e/ou perícia, apresentando os seguintes quesitos : houve aquisição por parte da recorrente de materiais utilizados na produção de bens para a revenda ?, esses materiais são considerados insumos para fins de creditamento do imposto ? ainda, caso positivo, a Recorrente poderia ter lançado como crédito os valores decorrentes da aquisição de tais materiais adquiridos ? o montante glosado a titulo de crédito do imposto representa a totalidade dos créditos lançados no período (a título do referido imposto) pela Recorrente ? é possível identificar ? requer, por fim, seja, após realizada diligência requerida, seja conhecido e provido o Recurso, para homologar as compensações realizadas e cancelar integralmente a exigência a título de principal, multa, juros e demais encargos. 4. O processo veio a mim distribuído para relatar. 5. É o relatório. Voto Conselheiro Ari Vendramini Relator 6. O Recurso Voluntário é tempestivo, atende aos demais requisitos de admissibilidade, portanto dele tomo conhecimento. 7. Passemos a analisar as razões recursais. 8. Tratase de matéria fática, qual seja a comprovação do direito pleiteado pela recorrente em Pedido Eletrônico de Ressarcimento, consubstanciado em créditos de IPI, refrentes a matériasprimas, produtos intermediários e materiais de embalagem utilizados no processo produtivo. Fl. 1762DF CARF MF 8 9. De basilar lógica admitirse que, ao formular o seu pedido, a recorrente já tivesse, de forma clara e identificável, os documentos que dariam suporte ao seu direito. 10. No caso em exame, por tratarse de créditos de IPI, que a recorrente utilizou para compensação de tributos administrados pela RFB, o direito se materializa na comprovação de que os créditos são líquidos e certos, para tal, a pleiteante, ao efetivar seu pedido, e discriminar seus créditos no próprio Pedido de Ressarcimento , por certo já teria, á disposição, a comprovação de sue direito. 11. Socorremonos do Regulamento do IPI ( Decreto nª 7.212/2010 ) que determina, em dispositivo próprio, como se realiza a escrituração dos créditos do tributo, a esse respeito vejase o disposto no artigo 251 do RIPI : Requisitos para a Escrituração Art. 251. Os créditos serão escriturados pelo beneficiário, em seus livros fiscais, à vista do documento que lhes confira legitimidade: I nos casos dos créditos básicos, incentivados ou decorrentes de devolução ou retorno de produtos, na efetiva entrada dos produtos no estabelecimento industrial, ou equiparado a industrial; II no caso de entrada simbólica de produtos, no recebimento da respectiva nota fiscal, ressalvado o disposto no § 3o; III nos casos de produtos adquiridos para utilização ou consumo próprio ou para comércio, e eventualmente destinados a emprego como matériaprima, produto intermediário ou material de embalagem, na industrialização de produtos para os quais o crédito seja assegurado, na data da sua redestinação; e IV nos casos de produtos importados adquiridos para utilização ou consumo próprio, dentro do estabelecimento importador, eventualmente destinado a revenda ou saída a qualquer outro título, no momento da efetiva saída do estabelecimento. § 1o Não deverão ser escriturados créditos relativos a matériaprima, produto intermediário e material de embalagem que, sabidamente, se destinem a emprego na industrialização de produtos não tributados compreendidos aqueles com notação “NT” na TIPI, os imunes, e os que resultem de operação excluída do conceito de industrialização ou saídos com suspensão, cujo estorno seja determinado por disposição legal. § 2o O disposto no § 1o não se aplica aos produtos tributados na TIPI que estejam amparados pela imunidade em decorrência de exportação para o exterior. § 3o No caso de produto adquirido mediante venda à ordem ou para entrega futura, o crédito somente poderá ser escriturado na sua efetiva entrada no estabelecimento industrial, ou equiparado a industrial, à vista da nota fiscal que o acompanhar. Fl. 1763DF CARF MF Processo nº 13819.900831/201091 Acórdão n.º 3301004.893 S3C3T1 Fl. 1.760 9 12. Como determina o dispositivo, os créditos devem ser escriturados a vista de documentos que lhes confiram legitimidade, o que já pressupõe a vinculação estrita entre os créditos escriturados e os documentos que os lastream. 13. O mesmo Regulamento determina como serão utilizados os créditos : Da Utilização dos Créditos Normas Gerais Art. 256. Os créditos do imposto escriturados pelos estabelecimentos industriais, ou equiparados a industrial, serão utilizados mediante dedução do imposto devido pelas saídas de produtos dos mesmos estabelecimentos (Constituição, art. 153, § 3o, inciso II, e Lei nº 5.172, de 1966, art. 49). § 1o Quando, do confronto dos débitos e créditos, num período de apuração do imposto, resultar saldo credor, será este transferido para o período seguinte, observado o disposto no § 2o (Lei no 5.172, de 1996, art. 49, parágrafo único, e Lei no 9.779, de 1999, art. 11). § 2o O saldo credor de que trata o § 1o, acumulado em cada trimestrecalendário, decorrente de aquisição de matériaprima, produto intermediário e material de embalagem, aplicados na industrialização, inclusive de produto isento, tributado à alíquota zero, ou ao abrigo da imunidade em virtude de se tratar de operação de exportação, nos termos do inciso II do art. 18, que o contribuinte não puder deduzir do imposto devido na saída de outros produtos, poderá ser utilizado de conformidade com o disposto nos arts. 268 e 269, observadas as normas expedidas pela Secretaria da Receita Federal do Brasil (Lei nº 9.779, de 1999, art. 11). Art. 257. O direito à utilização do crédito a que se refere o art. 256 está subordinado ao cumprimento das condições estabelecidas para cada caso e das exigências previstas para a sua escrituração neste Regulamento. 14. Como se vê, o artigo 257 do RIPI determina que o direito á utilização dos créditos está subordinado ao cumprimento das exigências previstas para a sua escrituração. 15. Para o ressarcimento e compensação de tais créditos, o RIPI estabelece : DA COMPENSAÇÃO, DA RESTITUIÇÃO E DO RESSARCIMENTO DO IMPOSTO Normas Gerais Art. 268. O sujeito passivo que apurar crédito do imposto, inclusive decorrente de trânsito em julgado de decisão judicial, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizálo na compensação de débitos próprios relativos a impostos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil, observadas as demais prescrições e vedações legais (Lei nº 5.172, de 1966, art. 170, Lei nº 9.430, de 1996, art. 74, Lei no 10.637, de 2002, art. 49, Lei no 10.833, de 2003, art. 17, e Lei no 11.051, de 2004, art. 4o). Fl. 1764DF CARF MF 10 § 1o A compensação de que trata o caput será efetuada mediante a entrega, pelo sujeito passivo, de declaração na qual constarão informações relativas aos créditos utilizados e aos respectivos débitos compensados (Lei nº 9.430, de 1996, art. 74, § 1º, e Lei nº 10.637, de 2002, art. 49). § 2o A compensação declarada à Secretaria da Receita Federal do Brasil extingue o crédito tributário, sob condição resolutória de sua ulterior homologação (Lei nº 9.430, de 1996, art. 74, § 2º, e Lei nº 10.637, de 2002, art. 49). Art. 269. A restituição ou o ressarcimento do imposto ficam condicionados à verificação da quitação de impostos e contribuições federais do interessado (DecretoLei nº 2.287, de 1986, art. 7º, e Lei no 11.196, de 2005, art. 114). Parágrafo único. Verificada pela Secretaria da Receita Federal do Brasil a existência de débitos em nome do contribuinte, será realizada a compensação, total ou parcial, do valor da restituição ou do ressarcimento com o valor do débito (DecretoLei nº 2.287, de 1986, art. 7º, § 1º, e Lei nº 11.196, de 2005, art. 114). 16. Assim, os créditos, por terem utilização regulada, e por se prestarem a serem devolvidos em espécie e, ainda, para serem compensados com débitos titularizados pelo deterntor de tais créditos, estes, os créditos, se transformam como que em moedas de troca, de valor inestimável, e, por tal característica, devem ter seu reconhecimento cercado de cuidados e verificações rigorosas, para que não tenham sua utilização desvirtuada. 17. Desta forma, sua escrituração deve ser a mais clara possível, sendo registrada em livros de controle que merecem todo o cuidado e preservação. 18. Para esse mister, a escrituração dos livros de controle, o Regulamento tratou de estabelecer regras claras para sua guarda e conservação : DO DOCUMENTÁRIO FISCAL Seção I Das Disposições Gerais Modelos Art. 382. O documentário fiscal obedecerá aos modelos anexos a este Regulamento, bem como àqueles aprovados ou que vierem a ser aprovados pelo Ministro de Estado da Fazenda, em atos administrativos ou em convênio com as unidades federadas (Lei nº 4.502, de 1964, arts. 48 e 56, § 1º, e DecretoLei no 400, de 1968, art. 17). Normas de Escrituração Art. 383. Os livros, os documentos que servirem de base à sua escrituração e demais elementos compreendidos no documentário fiscal serão escriturados ou emitidos em ordem cronológica, sem rasuras ou emendas, e conservados no próprio estabelecimento para exibição aos agentes do Fisco, até que ocorra a prescrição dos créditos tributários decorrentes das operações a que se refiram (Lei nº 5.172, de 1966, art. 195, e Lei nº 4.502, de 1964, arts. 57, § 1º, e 58). Fl. 1765DF CARF MF Processo nº 13819.900831/201091 Acórdão n.º 3301004.893 S3C3T1 Fl. 1.761 11 19. Diante deste norte, verificase que a escrituração dos créditos e os doscumentos que os lastream, em conjunto com os livros de controle de al escrituração, somados aos demais registros contábeis que formam um sistema coordenado de informações, é de fundamental importância para a sua apuração e verificação. 20. Por serem de tamanha importância para o controle dos créditos e de toda a sistemática que forma a lógica do IPI, inclusive para aferição da não cumulatividade a que o tributo está submetido, os livros de registro receberam tratamento regulatório nos artigos 444 a 478, sendo de destaque o disposto no artigo 461, que trata do Registro de Produção e Controle do Estoque, modelo 3 : Do Registro de Controle da Produção e do Estoque Art. 461. O livro Registro de Controle da Produção e do Estoque, modelo 3, destinase ao controle quantitativo da produção e do estoque de mercadorias e, também, ao fornecimento de dados para preenchimento do documento de prestação de informações à repartição fiscal. § 1o Serão escriturados no livro os documentos fiscais relativos às entradas e saídas de mercadorias, bem como os documentos de uso interno, referentes à sua movimentação no estabelecimento. § 2o Não serão objeto de escrituração as entradas de produtos destinados ao ativo fixo ou ao uso do próprio estabelecimento. § 3o Os registros serão feitos operação a operação, devendo ser utilizada uma folha para cada espécie, marca, tipo e modelo de produtos. § 4o A Secretaria da Receita Federal do Brasil, quando se tratar de produtos com a mesma classificação fiscal na TIPI, poderá autorizar o estabelecimento industrial, ou equiparado a industrial, a agrupálos numa mesma folha. 21. Portanto, de suma importância a escrituração dos créditos e a manutenção dos livros de registro e controle dos mesmos, em conjunto com os documentos Notas Fiscais que lhes dão lastro e legitimidade. 22. Ainda, por princípio basilar, também, há que se presumir que tais registros serão mantidos em boa ordem, como determinam as regras de registro contábil, que devem nortear todo o sistema de registro do fatos contábeis que fundamentam a vida empresarial. 23. Diante desta preocupação, o legislador cuidou de editar um diploma legal que regulasse tal procedimento, o Decretolei nº 486/1969, que dispõe sobre a escrituração dos livros mercantis e sua organização. Fl. 1766DF CARF MF 12 24. Por todo o exposto, o Termo de Verificação Fiscal, que veio quase que em sua totalidade delimitado no relatório do Acórdão de piso, é claro ao demonstrar que a recorrente, apesar de ser intimada várias vezes, não logrou demonstrar, de forma clara e organizada, a liquidez e certeza dos créditos pleiteados, inclusive afirmando que não possui o Livro Registro de Produção e Estoque, modelo 3, utilizando para o controle de sua produção, apenas Ordens de Serviço e adotando o arbitramento de estoques, previsto no artigo 296 do Regulamento do Imposto de Renda. 25. Tal arbitramento, alegado como adotado pelo recorrente, torna a apuração dos créditos mais complexa ainda, pois com a recorrente poderia comprovar a utilização dos créditos ou seu cálculo, diante de fatos arbitrados. 26. Outro importante a ser destacado é que, se a recorrente se utiliza de tal arbitramento, deveria, por força do estabelecido no § 2ª do artigo 296 do RIR, ter reconhecido tal prática na sua escrituração comercial, que, como atesta a Fiscalização, é totalmente desconexa e com registros confusos. 27. Por todo este arcabouço regulatório demonstrado, confrontado aos registros apresentados e o ateste da Fiscalização, de que não teve condições, diante da dificuldade em analisar tais registros, é que não se pode aferir a liquidez e certeza dos créditos pleiteados. DO PEDIDO DE DILIGÊNCIA / PERÍCIA 28. Solicita a recorrente a realização de diligências ou perícia, para aferir a existência e liquidez dos seus créditos, pleiteados em resasrcimento e utilizados em compensação. 29. Há eu se esclarecer que o pedido de diligência ou perícia deve ser deferido em ocasiões onde o julgador percebe a necessidade de esclarecimentos em pontos específicos da ação fiscal ou das razões recursais, onde haja necessidade de verificações mais acuradas, diante de dúvidas ou imprecisões que possam influenciar no julgamento da lide. No caso presente, diante do acurado trabalho da autoridade fiscal, oferecendo diversas oportunidades para regularização das desencontradas informações, não se verifica necessidade de diligência, pois se estaria, desta forma, realizando o trabalho que deveria ter sido feito pelo requerente, ao elaborar o seu pedido de ressarcimento Conclusão 30. Concluise, portanto, que, para que se opere o ressarcimento de créditos de IPI e sua utilização em Declarações de Compensação, para compensação com débitos de outros tributos é necessário que o requerente demonstre, de forma inequívoca, a liquidez e certeza de Fl. 1767DF CARF MF Processo nº 13819.900831/201091 Acórdão n.º 3301004.893 S3C3T1 Fl. 1.762 13 tais créditos, apresentando, quando solicitado pela Secretaria da Receita Federal do Brasil, entidade competente para homologar tais compensações e reconhecer o direito creditório, todos os documentos, Livros Fiscais de registro, lançamentos contábeis, arquivos digitais, livros de controle, controle de estoques de matériasprimas, produtos intermediários e produtos acabados, na forma exigida pela legislação e, que de acordo com as regras contábeis e fiscais, devem estar em boa ordem e organizados de tal forma que seja possível a identificação dos créditos e sua correspondência com os respectivos insumos (matériaprima, materiais intermediários e material de embalagem). Na falta desta demonstração, que é de inteira responsabilidade do requerente, impossível considerarse líquido e certo o crédito, por consequencia não sendo possível a sua utilização no instituto da compensação no âmbito tributário. 31. Quanto ao pedido de diligência ou perícia, o indefiro, por considerar que o pedido de diligência deve ser deferido em ocasiões onde o julgador percebe a necessidade de esclarecimentos em pontos específicos da ação fiscal ou das razões recursais, onde haja necessidade de verificações mais acuradas, diante de dúvidas ou imprecisões que possam influenciar no julgamento da lide. No caso presente, diante do acurado trabalho da autoridade fiscal, oferecendo diversas oportunidades para regularização das desencontradas informações, não se verifica necessidade de diligência, pois se estaria, desta forma, realizando o trabalho que deveria ter sido feito pelo requerente, ao elaborar o seu pedido de ressarcimento 32. Diante destas de convencimento, NEGO PROVIMENTO AO RECURSO para manter a decisão da DRJ/RPO em sua integralidade e indeferir o pedido de diligência ou perícia, por considerálos desnecessários no caso presente.. 33. É o meu voto. . assinado digitalmente Ari Vendramini Relator Fl. 1768DF CARF MF
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