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Numero do processo: 11516.002448/2005-97
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Apr 04 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue May 02 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2002
MULTA DE OFÍCIO. CABIMENTO.
A imputação da multa de 75% advém da constituição do crédito tributário via procedimento conduzido de ofício pela fiscalização tributária, e está prevista no inciso I do art. 44 da Lei nº 9.430/96.
JUROS MORATÓRIOS. TAXA SELIC. SÚMULA CARF Nº 4.
Súmula CARF nº 4: A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC para títulos federais.
IRPF. RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE. FORMA DE TRIBUTAÇÃO. JULGAMENTO DO STF EM REPERCUSSÃO GERAL.
Nos casos de rendimentos recebidos acumuladamente, deve o imposto de renda ser calculado de acordo com as tabelas e alíquotas vigentes à época em deveriam ter sido pagos, sob pena de violação dos princípios da isonomia e da capacidade contributiva, consoante assentado pelo STF no julgamento do RE nº 614.406 realizado sob o rito do art. 543-B do CPC, não prosperando, assim, lançamento constituído em desacordo com tal entendimento.
Numero da decisão: 2402-005.731
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso. Vencidos os Conselheiros Túlio Teotônio de Melo Pereira, Mário Pereira de Pinho Filho e Kleber Ferreira de Araújo, que davam provimento parcial no sentido de que o crédito tributário fosse recalculado de acordo com o regime de competência.
(assinado digitalmente)
Kleber Ferreira de Araújo, Presidente
(assinado digitalmente)
Ronnie Soares Anderson, Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Kleber Ferreira de Araújo, Ronnie Soares Anderson, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Túlio Teotônio de Melo Pereira, Theodoro Vicente Agostinho, Mário Pereira de Pinho Filho, Bianca Felícia Rothschild e João Victor Ribeiro Aldinucci.
Nome do relator: RONNIE SOARES ANDERSON
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CABIMENTO. A imputação da multa de 75% advém da constituição do crédito tributário via procedimento conduzido de ofício pela fiscalização tributária, e está prevista no inciso I do art. 44 da Lei nº 9.430/96. JUROS MORATÓRIOS. TAXA SELIC. SÚMULA CARF Nº 4. Súmula CARF nº 4: A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. IRPF. RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE. FORMA DE TRIBUTAÇÃO. JULGAMENTO DO STF EM REPERCUSSÃO GERAL. Nos casos de rendimentos recebidos acumuladamente, deve o imposto de renda ser calculado de acordo com as tabelas e alíquotas vigentes à época em deveriam ter sido pagos, sob pena de violação dos princípios da isonomia e da capacidade contributiva, consoante assentado pelo STF no julgamento do RE nº 614.406 realizado sob o rito do art. 543B do CPC, não prosperando, assim, lançamento constituído em desacordo com tal entendimento. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 51 6. 00 24 48 /2 00 5- 97 Fl. 94DF CARF MF 2 Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso. Vencidos os Conselheiros Túlio Teotônio de Melo Pereira, Mário Pereira de Pinho Filho e Kleber Ferreira de Araújo, que davam provimento parcial no sentido de que o crédito tributário fosse recalculado de acordo com o regime de competência. (assinado digitalmente) Kleber Ferreira de Araújo, Presidente (assinado digitalmente) Ronnie Soares Anderson, Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Kleber Ferreira de Araújo, Ronnie Soares Anderson, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Túlio Teotônio de Melo Pereira, Theodoro Vicente Agostinho, Mário Pereira de Pinho Filho, Bianca Felícia Rothschild e João Victor Ribeiro Aldinucci. Fl. 95DF CARF MF Processo nº 11516.002448/200597 Acórdão n.º 2402005.731 S2C4T2 Fl. 42 3 Relatório Examinase recurso voluntário interposto contra acórdão da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Florianópolis (SC) DRJ/FNS, que julgou procedente Auto de Infração de Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF) relativo ao anocalendário 2001. Tratandose de retorno de processo, oportuno reproduzir o relatório da Resolução nº 2801000.158, prolatada quando do conhecimento do litígio pela 1ª Turma Especial da 2ª Seção do CARF: Tratase de auto de infração resultante da revisão da declaração de ajuste anual do Interessado relativa ao anocalendário 2001, onde se exige Imposto de Renda Pessoa Física Suplementar no valor de R$ 34.701,16, acrescido de multa de ofício de 75% e juros de mora. Da leitura do "Demonstrativo das Infrações" (fl. 10), observase que a presente autuação decorre da apuração de omissão de rendimentos tributáveis recebidos em decorrência do "processo trabalhista 971/89 da 2a Vara do Trabalho de Florianópolis ". Por ser de direito, o valor do imposto de renda retido na fonte foi alterado em razão da inclusão de valores devidamente comprovados, correspondentes aos rendimentos tributáveis omitidos. Inconformado, o Interessado apresentou a impugnação de fls. 01 a 03, na qual expõe suas razões de contestação. Aduz que por força de decisão judicial (Acórdão 7649/98 da 2a Turma do TRT da 12a Região) o cálculo do imposto de renda foi efetuado com observância do regime de competência. Afirma que a presente autuação desrespeitou ordem judicial, pois observou o regime de caixa. Alega que a Receita Federal, ao lavrar a presente autuação, "estabeleceu para o requerido um regime distinto da contribuição para o fisco, em relação aos demais autores do processo trabalhista n" 971/89, que tramitou perante a 2a Vara do Trabalho de Florianópolis/SC, contribuintes que dispõem da mesma capacidade contributiva e, sujeitos ao regime de competência, consoante o comando judicial, que ora está sendo desrespeitado, e atuando em desacordo com os preceitos constitucionais vigentes ". Ressalta que "teve gastos com advogado, a título de honorários advocatícios, no importe de R$ 57.415,33". Tendo em vista as alegações apresentadas, o Interessado requereu a "sustação do auto de infração" e, sucessivamente, requereu "a desconsideração da multa de oficio e dos juros de mora, eis que não houve máfé". E o relatório.” Fl. 96DF CARF MF 4 Passo adiante, a 5ª Turma da DRJ/FNS entendeu por bem julgar o Lançamento procedente, em decisão que restou assim ementada: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA – IRPF Anocalendário: 2001 RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE. Os rendimentos recebidos acumuladamente, em decorrência de sentença judicial, relativos a trabalho assalariado, estão sujeitos à incidência do Imposto de Renda na Fonte e na Declaração de Ajuste Anual. MULTA DE OFÍCIO DE 75%. ARTIGO 44, INCISO I, DA LEI N° 9.430/1996. A exigência no lançamento de ofício da multa de 75% prevista no artigo 44, inciso I, da Lei n° 9.430/1996, não está condicionada a caracterização de máfé. JUROS. ARTIGO 61, § 3 o , DA LEI N° 9.430/1996. A cobrança de juros na forma prevista no artigo 61, § 3o , da Lei n° 9.430/1996, não está condicionada a caracterização de máfé. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Cientificado em 14/02/2011 (Fl. 57), o recorrente interpôs Recurso Voluntário em 15/03/2011 (Fls. 60 à 67), reforçando os argumentos apresentados quando da impugnação. Em 16/10/2012 aquela Turma do CARF resolveu, considerando que o Recurso Extraordinário 614.406/RS, o qual versa acerca da matéria, tivera sua repercussão geral reconhecida em 20/10/2010 e ainda se encontrava pendente de julgamento pelo Supremo Tribunal Federal (STF), sobrestar o julgamento nos termos dos §§ 1º e 2º do art. 62A do Regimento Interno do CARF então vigente. Com a revogação dos §§ 1º e 2º do art. 62A daquele Regimento Interno pela Portaria Ministério da Fazenda nº 545/2013, sem respaldo quedou o sobrestamento do feito, que foi redistribuído a este Conselheiro. É o relatório. Fl. 97DF CARF MF Processo nº 11516.002448/200597 Acórdão n.º 2402005.731 S2C4T2 Fl. 43 5 Voto Conselheiro Ronnie Soares Anderson, Relator O recurso já foi conhecido pelo CARF, razão pela qual passo a sua apreciação. Primeiramente, necessário esclarecer que a imputação da multa de 75% advém da constituição do crédito tributário via procedimento conduzido de ofício pela fiscalização, visto que o contribuinte não cumpriu suas obrigações tributárias, e está prevista no inciso I do art. 44 da Lei nº 9.430/96. Sua aplicação, portanto, é mera decorrência da legislação, e coerente com a constatação da autoridade fiscal na espécie, que entendeu não ter sido declarado corretamente o tributo devido. No que diz respeito à incidência de juros à taxa Selic, registrese que a referida tem expressa previsão legal nos arts. 13 da Lei nº 9.065/95 e 61, § 3º, da Lei nº 9.430/96; não bastasse, a matéria já foi sumulada pelo CARF, incidindo na espécie o já mencionado art. 72 do RICARF. Leiase o teor da súmula: Súmula CARF nº 4: A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. Vejase, portanto, que tanto a multa de ofício quanto a incidência dos juros de mora tem sua aplicação prevista em lei, como consequência da verificação de descumprimento de obrigação tributária, sendo irrelevante, nos correspondentes diplomas legais de regência, a existência de boa ou má fé permeando a conduta do contribuinte. O exame do restante do mérito da controvérsia requer a colação do art. 12 da Lei nº 7.713, de 22 de dezembro de 1988: Art. 12. No caso de rendimentos recebidos acumuladamente, o imposto incidirá, no mês do recebimento ou crédito, sobre o total dos rendimentos, diminuídos do valor das despesas com ação judicial necessárias ao seu recebimento, inclusive de advogados, se tiverem sido pagas pelo contribuinte, sem indenização Essa opção do legislador, no sentido de que os rendimentos recebidos acumuladamente fossem tributados pelo regime de caixa, foi objeto de questionamento judicial por parte dos contribuintes por diversas razões, dentre as quais se destaca a possibilidade de a incidência de uma só vez, do imposto de renda sobre o somatório das prestações mensais devidas, causar violação aos princípios da isonomia e da capacidade contributiva, visto que se tivessem os beneficiários recebidos na época própria, poderiam estar dentro dos limites de legais de isenção do tributo. Estando a discussão desde 2005 na esfera do Superior Tribunal de Justiça (STJ), este, em sua missão constitucional de uniformizar a interpretação da lei federal, Fl. 98DF CARF MF 6 submeteu o tema ao rito previsto no art. 543C do Código de Processo Civil (CPC), ensejando a prolação da seguinte decisão no REsp nº 1.118.429/SP, julgado pela 1ª Seção (Relator Min. Herman Benjamin, DJe de 14/5/2010), cuja ementa transcrevo: TRIBUTÁRIO. IMPOSTO DE RENDA PESSOA FÍSICA. AÇÃO REVISIONAL DE BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO. PARCELAS ATRASADAS RECEBIDAS DE FORMA ACUMULADA. 1. O Imposto de Renda incidente sobre os benefícios pagos acumuladamente deve ser calculado de acordo com as tabelas e alíquotas vigentes à época em que os valores deveriam ter sido adimplidos, observando a renda auferida mês a mês pelo segurado. Não é legítima a cobrança de IR com parâmetro no montante global pago extemporaneamente. Precedentes do STJ. 2. Recurso Especial não provido. Acórdão sujeito ao regime do art.543C do CPC e do art. 8º da Resolução STJ 8/2008. Por força do § 2º do art. 62 do RICARF (Regimento Interno do CARF, Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2015), tornouse obrigatória a reprodução dessa decisão no julgamento dos recursos na esfera do CARF. Persistiu dissenso no âmbito das Turmas componentes da 2ª Seção do CARF, contudo, no tocante à aplicação dessa decisão em recurso repetitivo nos litígios envolvendo lançamentos realizados com base no art. 12 da Lei nº 7.713/88. Em linhas gerais e apertada síntese, podese dividir os entendimentos divergentes em duas vertentes principais, sendo que a primeira concedia parcial provimento aos recursos interpostos contra tais lançamentos, determinando que fossem aplicadas aos rendimentos recebidos acumuladamente as tabelas vigentes à época em que os valores deveriam ter sido originalmente pagos. Já a segunda corrente entendia que tal aplicação implicaria em alteração substancial do critério jurídico adotado no lançamento, o qual, consequentemente, deveria ser cancelado devido à não observância da norma fixada pelo STJ em recurso repetitivo, dando provimento integral ao recurso voluntário. Entrementes, e paralelamente, a controvérsia acerca da incidência do imposto de renda sobre os rendimentos recebidos acumuladamente assumiu contornos constitucionais, com o reconhecimento de sua repercussão geral pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 20/10/2010, no decorrer de julgamento da questão de ordem em agravo regimental no Recurso Extraordinário (RE) nº 614.406/RS, face à declaração da inconstitucionalidade do art. 12 da Lei nº 7.713/88 levada a efeito pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em sede de controle difuso. Expliquese que na Arguição de Inconstitucionalidade nº 2002.72.05.000434 0/SC, a Corte Especial daquele e. Tribunal declarou em 22/10/2009 a "inconstitucionalidade sem redução de texto ou interpretação conforme a Constituição" do art. 12 da Lei nº 7.718/88, "no tocante aos rendimentos recebidos acumuladamente decorrentes de remuneração, vantagem pecuniária, proventos e benefícios previdenciários, como na situação vertente, recebidos a menor pelo contribuinte em cada mêscompetência e cujo recolhimento de alíquota prevista em lei se dê mês a mês ou em menor período". Interposto então o RE nº 614.406/RS pela União para afastar a aplicação dessa declaração de inconstitucionalidade em dado caso sob litígio (cujo processo de origem foi a ação ordinária de nº 2008.71.13.00016588/RS), formouse com base nesse leading case o Tema 368 "Incidência do imposto de renda de pessoa física sobre rendimentos percebido Fl. 99DF CARF MF Processo nº 11516.002448/200597 Acórdão n.º 2402005.731 S2C4T2 Fl. 44 7 acumuladamente" de repercussão geral, o qual foi submetido ao rito regrado pelo art. 543B do CPC . O julgamento do recurso representativo da controvérsia restou findo em 23/10/2014, sendo que o Tribunal Pleno, por maioria, decidiu a matéria negando provimento ao recurso e exarando acórdão cuja ementa foi assim redigida: IMPOSTO DE RENDA – PERCEPÇÃO CUMULATIVA DE VALORES – ALÍQUOTA. A percepção cumulativa de valores há de ser considerada, para efeito de fixação de alíquotas, presentes, individualmente, os exercícios envolvidos. (RE 614406, Relator(a): Min. ROSA WEBER, Relator(a) p/ Acórdão: Min. MARCO AURÉLIO, Tribunal Pleno, julgado em 23/10/2014, ACÓRDÃO ELETRÔNICO REPERCUSSÃO GERAL MÉRITO DJe233 DIVULG 26112014 PUBLIC 27 112014) No Informativo STF de nº 764, referente ao período compreendido entre 20 e 24 de outubro de 20101, consta o seguinte resumo da conclusão da votação em apreço: IRPF e valores recebidos acumuladamente 4 É inconstitucional o art. 12 da Lei 7.713/1988 (“No caso de rendimentos recebidos acumuladamente, o imposto incidirá, no mês do recebimento ou crédito, sobre o total dos rendimentos, diminuídos do valor das despesas com ação judicial necessárias ao seu recebimento, inclusive de advogados, se tiverem sido pagas pelo contribuinte, sem indenização”). Com base nessa orientação, em conclusão de julgamento e por maioria, o Plenário negou provimento a recurso extraordinário em que se discutia a constitucionalidade da referida norma — v. Informativo 628. O Tribunal afirmou que o sistema não poderia apenar o contribuinte duas vezes. Esse fenômeno ocorreria, já que o contribuinte, ao não receber as parcelas na época própria, deveria ingressar em juízo e, ao fazêlo, seria posteriormente tributado com uma alíquota superior de imposto de renda em virtude da junção do que percebido. Isso porque a exação em foco teria como fato gerador a disponibilidade econômica e jurídica da renda. A novel Lei 12.350/2010, embora não fizesse alusão expressa ao regime de competência, teria implicado a adoção desse regime mediante inserção de cálculos que direcionariam à consideração do que apontara como “épocas próprias”, tendo em conta o surgimento, em si, da disponibilidade econômica. Desse modo, transgredira os princípios da isonomia e da capacidade contributiva, de forma a configurar confisco e majoração de alíquota do imposto de renda. Vencida a Ministra Ellen Gracie, que dava provimento ao recurso por reputar constitucional o dispositivo questionado. Considerava que o preceito em foco não violaria o princípio da capacidade contributiva. Enfatizava que o regime de caixa seria o que melhor aferiria a possibilidade de contribuir, uma vez que exigiria o pagamento do imposto à luz dos rendimentos efetivamente percebidos, independentemente do momento em que surgido o direito a eles.RE 614406/RS, rel. orig. Min. Ellen Gracie, red. p/ o acórdão Min. Marco Aurélio, 23.10.2014. (RE614406) 1 Disponível em: <http://www.stf.jus.br//arquivo/informativo/documento/informativo764.htm>. Acesso em 30/01/2015. Fl. 100DF CARF MF 8 Merecem transcrição, também, os seguintes excertos do voto condutor de lavra do Ministro Marco Aurélio e dos debates então verificados, cuja leitura permite melhor esclarecer o posicionamento do STF sobre o tema: Qual é a consequência de se entender de modo diverso do que assentado pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região? Haverá, como ressaltado pela doutrina, principalmente a partir de 2003, transgressão ao princípio da isonomia. Aqueles que receberam os valores nas épocas próprias ficaram sujeitos a certa alíquota. O contribuinte que viu resistida a satisfação do direito e teve que ingressar em Juízo será apenado, alfim, mediante a incidência de alíquota maior. Mais do que isso, tem se o envolvimento da capacidade contributiva, porque não é dado aferila, tendo em conta o que apontei como disponibilidade financeira, que diz respeito à posse, mas o estado jurídico notado à época em que o contribuinte teve jus à parcela sujeita ao Imposto de Renda. O desprezo a esses dois princípios conduziria a verdadeiro confisco e, diria, à majoração da alíquota do Imposto de Renda. (...) O SENHOR MINISTRO MARCO AURÉLIO – Por isso, no caso, desprovejo o recurso, assentando a inconstitucionalidade do artigo 12 – não do 12A, que resultou da medida provisória, da conversão em lei –, no que conferida interpretação alusiva à junção do que alcançado pelo contribuinte, considerados os vários exercícios. Mantenho o acórdão. O SENHOR MINISTRO CEZAR PELUSO (PRESIDENTE) Nega provimento? O SENHOR MINISTRO MARCO AURÉLIO – Porque, de outro modo, o contribuinte – como disse – será apenado, quer dizer, o devedor não satisfaz a parcela, compeleo a entrar em Juízo e, posteriormente, cobra o imposto pela alíquota maior. (grifei) O acórdão em comento transitou em julgado em 9/12/2014, sem interposição de recurso por qualquer das partes, ou atribuição de modulação aos efeitos dessa decisão. Destarte, restou assim consolidado o entendimento de que a incidência do imposto de renda pessoa física sobre verbas recebidas acumuladamente deve considerar as datas e as alíquotas vigentes na época em que a verba deveria ter sido paga, em respeito aos princípios da isonomia e da capacidade contributiva, firmandose, por conseguinte, a inconstitucionalidade do art. 12 da Lei nº 7.713/88 quanto a esse aspecto. Nos termos do inciso I do § 6º do art. 26A do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, não se aplica a vedação aos órgãos de julgamento administrativo fiscal ao afastamento de lei sob o fundamento de inconstitucionalidade, nos casos de lei que tenha sido declarada inconstitucional por decisão plenária definitiva do STF no mesmo passo, temse o disposto no art. 62 do RICARF. Cumpre observar, por oportuno, que as decisões do STF exaradas nos moldes do art. 543B do CPC possuem o caráter de palavra final e definitiva daquele tribunal sobre as questões jurídica nelas objetivamente decididas, conforme já alertava, com propriedade, o Parecer PGFN/CRJ nº 492, de 30 de março de 2011. Fl. 101DF CARF MF Processo nº 11516.002448/200597 Acórdão n.º 2402005.731 S2C4T2 Fl. 45 9 E, nesse contexto, o § 2º do art. 62 do RICARF contém a seguinte regra: § 2º As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática prevista pelos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973 Código de Processo Civil (CPC), deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. Por conseguinte, a decisão definitiva de mérito proferida pelo Tribunal Pleno do STF sob a sistemática prevista pelo art. 543B do CPC deverá ser reproduzida por este colegiado no julgamento do presente recurso voluntário. E essa reprodução da decisão, salvo melhor juízo, significa aplicação da norma jurídica geral, consolidada no julgamento da repercussão geral, no caso em exame. No caso concreto, o Auto de Infração vergastado foi amparado na prescrição contida no art. 12 da Lei nº 7.713/88, não havendo sido observada a tese jurídica vinculante fixada em sede de repercussão geral, segundo a qual "O Imposto de Renda incidente sobre verbas recebidas acumuladamente deve observar o regime de competência, aplicável a alíquota correspondente ao valor recebido mês a mês, e não a relativa ao total satisfeito de uma única vez". Então, não ocorreu apenas uma mera desconformidade superficial ou diminuta entre a base de cálculo apurada e a correta, passível de correção ou ajuste mediante o expurgo do excesso eventualmente constatado, a ser efetuado pela administração tributária. Diversamente, o consequente normativo da regra matriz de incidência tributária foi inequivocamente desatendido no seu aspecto quantitativo, visto que tanto a base de cálculo quanto as alíquotas aplicadas para o cômputo do imposto devido afastaramse em sua essência do entendimento sufragado pelo STF para situações do gênero, acarretando em elevado e significativo gravame tributário a afligir a capacidade contributiva do sujeito passivo. Deve ser registrado não ser o caso de se cogitar de nulidade, ao menos nos termos regrados pelo art. 59 do Decreto nº 70.235/72, visto ter sido o lançamento realizado por autoridade competente, com o devido respeito ao direito de defesa. Contudo, não se vislumbra, de um modo geral, a possibilidade de seu aproveitamento ou recálculo, já que evidenciado flagrante grau de descompasso entre suas facetas constitutivas e a decisão do STF acerca do tema, e tendo em mente a ausência de competência do julgador administrativo em determinar a reconstituição do crédito tributário, quanto mais nessa amplitude. Importa observar alguns aspectos adicionais da situação, como fecho desta fundamentação. Primeiramente, vale anotar que sob o mecanismo de repercussão geral, a suprema corte não gera uma disposição, necessariamente, que se pronuncie acerca da constitucionalidade de uma norma jurídica, à semelhança do que ocorre quando atua no controle concentrado da leis, mas sim julga o mérito de uma determinada questão em controle difuso, em decisão que atinge uma série de processos que versem sobre tal tema. Fl. 102DF CARF MF 10 Sob essa ótica, o enunciado da ementa do "leading case" não prescinde de conter uma prescrição explícita declarando uma norma, parcialmente ou no todo, inconstitucional, porém veicula conclusão definitiva daquele tribunal sobre a matéria controversa, gerando previsibilidade no direito aplicável às contendas travadas em outras esferas judiciais ou administrativas. À ocasião, o caso versava justamente sobre a declaração de inconstitucionalidade do art. 12 da Lei nº 7.713/88 levada a efeito pelo TRF da 4ª Região, a qual, não obstante o recurso da União, quedou mantida por razões de mérito, como evidencia a fundamentação da decisão do STF. Salvo melhor juízo, se essa Corte decidiu no RE nº 614.406 que tal declaração do Tribunal Regional era perfeitamente harmônica com o texto constitucional, firmouse então entendimento quanto à inconstitucionalidade daquela norma. Lembrese que a ementa do acórdão sintetiza as conclusões do Colegiado, não podendo ser lida abstraindose das razões do julgamento. Também merece ser registrado que não caberia ao STF tecer considerações, nas disposições conclusivas do julgamento, acerca dos efeitos da decisão então acordada sobre eventuais autuações do Fisco realizadas com base na malfadada norma, visto que o exame travado naquela seara deuse, reiterese, debruçado sobre declaração de inconstitucionalidade exarada no TRF da 4ª Região, direito em tese, e não, por exemplo, à luz de ação anulatória de débito fiscal ou lide similar. Além disso, cabe frisar que a eventual inexistência de prejuízo consequente à realização de recálculo do lançamento não serve de escusa para a sua manutenção, quando revelada sua desconformidade com o ordenamento constitucional. Tal conclusão persevera, ainda que tal conhecimento não fosse facultado à autoridade fiscal, quando da autuação. Ante o exposto, voto no sentido de dar provimento ao recurso voluntário, para fins de cancelar a exigência. (assinado digitalmente) Ronnie Soares Anderson Fl. 103DF CARF MF
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Numero do processo: 11065.001382/2009-05
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jan 24 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Apr 04 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Período de apuração: 01/03/2007 a 31/03/2007, 01/08/2007 a 31/08/2007, 01/09/2007 a 30/09/2007
MULTA QUALIFICADA. CARACTERIZAÇÃO DE DOLO.
A multa qualificada prevista no artigo 44, inciso I, §1º, da Lei 9.430/96, deve ser aplicada quanto as circunstâncias materiais do caso revelem intenção dolosa de, ilicitamente, afastar ou diferir o pagamento do imposto ou contribuição.
PRINCÍPIO DA VEDAÇÃO AO CONFISCO
O princípio da vedação ao confisco é dirigido ao legislador. A multa legalmente prevista não pode ser afastada pela administração tributária por inconstitucionalidade. Súmula Carf nº 2.
QUALIFICAÇÃO DA MULTA APLICADA A CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS
O art. 74 da Lei 9.430/96, combinado com os artigos 71 e 72 da Lei 4.502/64, tipificam a conduta fraudulenta na apuração das contribuições sociais, a ensejar a qualificação da multa de ofício.
Assunto: Normas de Administração Tributária
Período de apuração: 01/03/2007 a 31/03/2007, 01/08/2007 a 31/08/2007, 01/09/2007 a 30/09/2007
CONFIRMAÇÃO DA PENALIDADE
O Decreto 70.235/72 não define nenhuma outra autoridade para confirmação de penalidades autuadas, senão os órgãos de controle da legalidade do lançamento, a saber, as Delegacias de Julgamento da Receita Federal e o Carf.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 3301-003.151
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, negar provimento ao recurso, nos termos do voto do relator. Vencidos os Conselheiros Marcelo Costa, Maria Eduarda e Semíramis que votaram pelo cancelamento do agravamento da multa.
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto do Couto Chagas- Presidente.
(assinado digitalmente)
Marcelo Giovani Vieira - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto do Couto Chagas, José Henrique Mauri, Marcelo Costa Marques d´Oliveira, Liziane Angelotti Meira, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Marcelo Giovani Vieira (suplente convocado), Semiramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen
Nome do relator: MARCELO GIOVANI VIEIRA
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CARACTERIZAÇÃO DE DOLO. A multa qualificada prevista no artigo 44, inciso I, §1º, da Lei 9.430/96, deve ser aplicada quanto as circunstâncias materiais do caso revelem intenção dolosa de, ilicitamente, afastar ou diferir o pagamento do imposto ou contribuição. PRINCÍPIO DA VEDAÇÃO AO CONFISCO O princípio da vedação ao confisco é dirigido ao legislador. A multa legalmente prevista não pode ser afastada pela administração tributária por inconstitucionalidade. Súmula Carf nº 2. QUALIFICAÇÃO DA MULTA APLICADA A CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS O art. 74 da Lei 9.430/96, combinado com os artigos 71 e 72 da Lei 4.502/64, tipificam a conduta fraudulenta na apuração das contribuições sociais, a ensejar a qualificação da multa de ofício. ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA Período de apuração: 01/03/2007 a 31/03/2007, 01/08/2007 a 31/08/2007, 01/09/2007 a 30/09/2007 CONFIRMAÇÃO DA PENALIDADE O Decreto 70.235/72 não define nenhuma outra autoridade para confirmação de penalidades autuadas, senão os órgãos de controle da legalidade do lançamento, a saber, as Delegacias de Julgamento da Receita Federal e o Carf. Recurso Voluntário Negado. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 06 5. 00 13 82 /2 00 9- 05 Fl. 229DF CARF MF 2 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, negar provimento ao recurso, nos termos do voto do relator. Vencidos os Conselheiros Marcelo Costa, Maria Eduarda e Semíramis que votaram pelo cancelamento do agravamento da multa. (assinado digitalmente) Luiz Augusto do Couto Chagas Presidente. (assinado digitalmente) Marcelo Giovani Vieira Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto do Couto Chagas, José Henrique Mauri, Marcelo Costa Marques d´Oliveira, Liziane Angelotti Meira, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Marcelo Giovani Vieira (suplente convocado), Semiramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen Relatório Copio o relatório da DRJ/Porto Alegre/RS: “Trata o presente processo de Autos de Infração para lançamento de Cofins (fls. 80 a 84) e PIS (fls. 85 a 90) dos períodos de apuração março, agosto e setembro de 2007. De Cofins, foi lançado o valor de R$ 928.243,54 mais multa de 150% e juros moratórios (até junho de 2009), perfazendo o valor total de R$ 2.514.218,30. De PIS, o valor total de contribuição lançada é R$ 203.633,97, mais a multa de R$ 150% (sic) e juros moratórios (até junho de 2009), totalizando o valor de R$ 551.542,41. A ação fiscal realizada resultou também em lançamentos de IOF e IRPJ e CSLL, lavrados em outros processos administrativos, não sendo objeto da presente lide. No desenvolvimento do trabalho fiscal, foram constatadas divergências entre os valores declarados na Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais (DCTF) e os valores escriturados, conforme Relatório da Ação Fiscal das fls. 92 a 98, que é parte integrante dos autos de infração. Para os meses acima indicados, foram apurados e escriturados valores a pagar de Cofins e PIS não cumulativos, não declarados ou pagos. A DCTF não informava valores e o Demonstrativo de Apuração das Contribuições Sociais (Dacon) apresentava valores “zerados” para os meses em questão. O Relatório Fiscal indica Fl. 230DF CARF MF Processo nº 11065.001382/200905 Acórdão n.º 3301003.151 S3C3T1 Fl. 230 3 ainda que, em resposta à intimação, inexistiu contrariedade da empresa com relação aos valores apurados. As contribuições foram lançadas com multa agravada de 150% e aberto processo de representação fiscal para fins penais (processo 11065 001383/200941). Entendeuse que estaria caracterizada a fraude (lato sensu), de acordo com o previsto nos arts. 71 a 73 da Lei 4.502/64. Nos termos do relatório: “pela reiteração da atitude, não se pode afirmar que esse fato tenha sido decorrente de um simples erro da fiscalizada, restando configurada a intenção dolosa na conduta adotada pelo contribuinte, com o propósito específico de impedir ou retardar o conhecimento, pelo fisco, do fato gerador do tributo. Inconformada com a presente exigência fiscal, da qual teve ciência em 09/07/2009, fls. 81 a 86, a autuada apresentou, em 10/08/2009, a peça impugnatória às fls. 100 a 170. Indica inicialmente que o questionamento se limita ao agravamento da multa, em 150%. considera que o disposto no auto de infração se resume a uma presunção de ação fraudulenta do AuditorFiscal, sendo reconhecido que o lançamento se limita aos valores indicados pela própria empresa em sua contabilidade, o que, em conjunto com a transmissão de declarações zeradas, demonstra justamente a inexistência de ação consciente no sentido de burlar o Fisco. Indica também que o relatório fica silente sobre os demais meses, considerando que o próprio comportamento adotado pela empresa comprova inexistência de máfé. Considera que os dispositivos legais citados no lançamento nada esclarecem sobre a multa exacerbada. Com relação a conduta fraudulenta, sustenta que o art. 72 da Lei 4.502/64 se refere unicamente a imposto, não abarcando as contribuições, ferindo o princípio da tipificação cerrada. Pleiteia, ainda, pela aplicação do art. 112 do CTN, com o enquadramento mais benigno ao contribuinte, sob pena de confisco. Argumenta, com base no art. 142 do CTN, pela falta de competência da autoridade administrativa para aplicar diretamente a penalidade, considerando que deveria propôla à autoridade superior. Transcreve textos de doutrinadores do direito em apoio as suas alegações, em especial sobre atos vinculados, sanções tributárias e interpretação teleológica. Requer, por fim, a redução da multa de ofício para 75%” A DRJ/Porto Alegre/RS manteve o lançamento. Transcrevo a ementa do Acórdão 1028.860: “MULTA AGRAVADA. COFINS. DIFERENÇA ENTRE VALOR ESCRITURADO E DECLARADO. A diferença apurada entre receitas escrituradas e as declaradas ao Fisco, quando caracterizado o intuito de fraude, implica a exigência dos tributos com a multa agravada prevista no art. 44, I e §1º da Lei nº 9.430/96.” Fl. 231DF CARF MF 4 Cientificada do acórdão em 28/12/2010, a recorrente interpõe, tempestivamente, Recurso Voluntário em 26/01/2011, repetindo os mesmos argumentos da impugnação. É o Relatório. Voto Conselheiro Marcelo Giovani Vieira: O recurso é tempestivo, e não havendo outros óbices, deve ser conhecido. a) Quanto à alegada natureza confiscatória da multa. O princípio constitucional da vedação ao efeito confiscatório da tributação (art. 150,IV), na Seção “das Limitações do Poder de Tributar”, é dirigido ao legislador e ao controle jurisdicional de constitucionalidade. Não cabe ao julgador administrativo afastar, por considerações semelhantes, a multa prevista em lei. Nesse sentido o artigo 26A do PAF (Decreto 70.235/72) e Súmula 2 do Carf. Súmula 2: O Carf não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Art. 26A do PAF: Art. 26A. No âmbito do processo administrativo fiscal, fica vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) (...) § 6o O disposto no caput deste artigo não se aplica aos casos de tratado, acordo internacional, lei ou ato normativo: (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) I – que já tenha sido declarado inconstitucional por decisão definitiva plenária do Supremo Tribunal Federal; (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) II – que fundamente crédito tributário objeto de: (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) a) dispensa legal de constituição ou de ato declaratório do ProcuradorGeral da Fazenda Nacional, na forma dos arts. 18 e 19 da Lei no 10.522, de 19 de julho de 2002; (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) Fl. 232DF CARF MF Processo nº 11065.001382/200905 Acórdão n.º 3301003.151 S3C3T1 Fl. 231 5 b) súmula da AdvocaciaGeral da União, na forma do art. 43 da Lei Complementar no 73, de 10 de fevereiro de 1993; ou (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) c) pareceres do AdvogadoGeral da União aprovados pelo Presidente da República, na forma do art. 40 da Lei Complementar nº 73, de 10 de fevereiro de 1993. (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) As exceções do §6º não estão caracterizadas. Também não se verificam as exceções tratadas no §1º do artigo 62 do Regimento Interno do Carf – RICARF. Portanto, não acato as alegações da recorrente nesta matéria. b) Necessidade de confirmação da multa Alega a recorrente que o artigo 142 do CTN determina que a autoridade fiscal apenas proponha a penalidade, e entende que caberia a outra autoridade sua confirmação. Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Não lhe assiste razão. Todas as competências do Fisco Federal brasileiro são atribuídas aos AuditoresFiscais, conforme art. 6º da Lei 10.593/2002, abaixo transcrito: Art. 6º São atribuições dos ocupantes do cargo de AuditorFiscal da Receita Federal do Brasil: (Redação dada pela Lei no 11.457, de 2007) I no exercício da competência da Secretaria da Receita Federal do Brasil e em caráter privativo: (Redação dada pela Lei n° 11.457, de 2007) a) constituir, mediante lançamento, o crédito tributário e de contribuições; (Redação dada pela Lei no 11.457, de 2007) b) elaborar e proferir decisões ou delas participar em processo administrativofiscal, bem como em processos de consulta, restituição ou compensação de tributos e contribuições e de reconhecimento de benefícios fiscais; (Redação dada pela Lei n° 11.457, de 2007) c) executar procedimentos de fiscalização, praticando os atos definidos na legislação especifica, inclusive os relacionados com o controle aduaneiro, apreensão de mercadorias, livros, documentos, materiais, equipamentos e assemelhados; (Redação dada pela Lei n° 11.457, de 2007) Fl. 233DF CARF MF 6 d) examinar a contabilidade de sociedades empresariais, empresários, órgãos, entidades, fundos e demais contribuintes, não se lhes aplicando as restrições previstas nos arts. 1.190 a 1.192 do Código Civil e observado o disposto no art. 1.193 do mesmo diploma legal; (Redação dada pela Lei n° 11.457, de 2007) e) proceder á orientação do sujeito passivo no tocante à interpretação da legislação tributaria; (Redação dada pela Lei n°11.457, de 2007) f) supervisionar as demais atividades de orientação ao contribuinte; (Incluída pela Lei n° 11.457, de 2007) II em caráter geral, exercer as demais atividades inerentes à competência da Secretaria da Receita Federal do Brasil. (Redação dada pela Lei n° 11.457, de 2007) Nos termos do art. 113 do CTN, o crédito tributário abrange o tributo e a multa: Art. 113. A obrigação tributária é principal ou acessória. § 1º A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extinguese juntamente com o crédito dela decorrente. § 2º A obrigação acessória decorre da legislação tributária e tem por objeto as prestações, positivas ou negativas, nela previstas no interesse da arrecadação ou da fiscalização dos tributos. § 3º A obrigação acessória, pelo simples fato da sua inobservância, convertese em obrigação principal relativamente à penalidade pecuniária. Desse modo, é de plena competência do AuditorFiscal, ex vi do artigo 6º, I, “a”, c.c. art. 113 do CTN, constituir a multa. A organização interna dos serviços, dentro da Secretaria da Receita Federal, pode resultar em atribuições de funções específicas, tais como delegados e inspetores, que também são auditoresfiscais, mas no exercício de função gerencial, escolhidos discricionariamente pela hierarquia administrativa do órgão. A vulneração dessa organização interna resultaria em sanções administrativas, porém sem macular a validade legal dos atos praticados, perante a sociedade, pelos AuditoresFiscais, no exercício de suas atribuições definidas no art. 6º transcrito. Isto porque as competências do AuditorFiscal são conferidas por lei, e não por hierarquia funcional, como visto. A motivação dessa estrutura jurídica as competências são definidas em lei e não por hierarquia funcional é salvaguardar as competências de Estado, tais como o Fisco e Polícia, das ingerências políticas. Fl. 234DF CARF MF Processo nº 11065.001382/200905 Acórdão n.º 3301003.151 S3C3T1 Fl. 232 7 Desse modo, não existe outra autoridade, legalmente investida, para confirmar o lançamento da multa. O que existe é o controle da legalidade de todo o procedimento fiscal, para cumprimento dos princípios constitucionais do contraditório e do direito de ampla defesa, a ser exercido, nos termos previstos no PAF (Decreto 70.235/72), pelos colegiados de julgamento, a saber, as turmas das Delegacias da Receita Federal de Julgamento e as turmas do Carf. Não havendo irregularidade no trâmite administrativo do processo, não assiste razão à recorrente. Desse modo, rejeito as alegações referentes a esta matéria. c) Tipicidade Cerrada no Conceito de Sonegação e Fraude A recorrente aponta que os artigos 71 e 72 da Lei 4.502/64 tratam de impostos, e pelo princípio da tipicidade cerrada na aplicação das penalidades, não poderia abrigar a penalidade referente a contribuições. À parte a discussão acerca da necessidade de tipicidade cerrada, no presente caso ela existe, pois o artigo 44, §1º, da Lei 9.430/96, que trata da multa aplicada, expressamente apresenta “tributo ou contribuição”, e refere os artigos 71 e 72 da Lei 4.502/64 para as situações de que trata, preenchendo toda eventual lacuna de tipificação. Portanto, não acato as alegações da recorrente nesta matéria. d) Caracterização do Dolo O artigo 71 da Lei 4.502/64, abaixo transcrito, define a sonegação: Art . 71. Sonegação é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; II das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Entendo que no presente caso resta caracterizada tal atitude. A falta de confissão do débito na DCTF no mínimo retarda a cobrança da contribuição, necessitando de procedimento de ofício para constituição do crédito tributário. Impossível caracterizar tal omissão como erro, posto que a omissão ocorreu tanto na DCTF quanto no Dacon, impedindo a detecção automática da divergência. A Dacon de março/2007 foi retificada três vezes. Não se trata, também, de erro em uma única linha, mas em todas as linhas da Dacon dos meses em referência (março, agosto de setembro de 2007). Se se tratasse de mera inadimplência, o contribuinte deveria ter confessado o débito em DCTF e informado como saldo a pagar, tal como fez com o IPI (folhas 18 e Fl. 235DF CARF MF 8 seguintes). Da forma como declarado, não haveria cobrança automática, nem detecção automática de diferenças entre o Dacon e a DCTF. Não se tratando de procedimento para abrigar mera inadimplência, tal conjunto de circunstâncias revela, a meu sentir, procedimento deliberado do contribuinte para afastar, ou ao menos, diferir, o conhecimento e a cobrança das contribuições devidas, exigindo o procedimento de ofício, e isso é suficiente para a qualificação da multa para 150%, conforme art. 44, §1º, da Lei 9.430/96. O fato de existir a contabilização correta não afasta o dolo. Não se exige que todas as declarações e informações sejam erradas, mas apenas que um conjunto de informações, com repercussões financeiras, seja deliberadamente inexata, o que ocorreu, como vimos, na DCTF e Dacon. Reitero que não cabem considerações ao alegado caráter excessivo da penalidade, primeiro porque é prevista na Lei, segundo porque a penalidade é proporcional ao valor do imposto ou contribuição sonegado. Pelo exposto, voto por negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Marcelo Giovani Vieira Relator Fl. 236DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 15504.724492/2011-90
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Apr 05 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue May 09 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/04/2006 a 31/12/2006
COMPENSAÇÃO INDEVIDA. APLICAÇÃO DO PRAZO DE HOMOLOGAÇÃO.
O procedimento adotado pela fiscalização, ao efetuar o presente lançamento, é tido como a não-homologação da compensação realizada pela contribuinte, de modo que não subsistem dois processos (um constituído pela declaração e outro pelo lançamento de ofício), pois a constituição definitiva do crédito ocorrerá com a decisão final do Processo Administrativo Fiscal, com observância do prazo homologação que tem efeito prescricional.
Numero da decisão: 2201-003.568
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso voluntário, para excluir do lançamento os valores referentes ao período de abril a setembro de 2006.
Assinado digitalmente.
CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA - Presidente.
Assinado digitalmente.
ANA CECÍLIA LUSTOSA DA CRUZ - Relatora.
EDITADO EM: 29/04/2017
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira (Presidente), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Dione Jesabel Wasilewski, José Alfredo Duarte Filho (Suplente convocado), Marcelo Milton da Silva Risso, Carlos Alberto do Amaral Azeredo e Daniel Melo Mendes Bezerra.
Nome do relator: ANA CECILIA LUSTOSA DA CRUZ
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APLICAÇÃO DO PRAZO DE HOMOLOGAÇÃO. O procedimento adotado pela fiscalização, ao efetuar o presente lançamento, é tido como a nãohomologação da compensação realizada pela contribuinte, de modo que não subsistem dois processos (um constituído pela declaração e outro pelo lançamento de ofício), pois a constituição definitiva do crédito ocorrerá com a decisão final do Processo Administrativo Fiscal, com observância do prazo homologação que tem efeito prescricional. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso voluntário, para excluir do lançamento os valores referentes ao período de abril a setembro de 2006. Assinado digitalmente. CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA Presidente. Assinado digitalmente. ANA CECÍLIA LUSTOSA DA CRUZ Relatora. EDITADO EM: 29/04/2017 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira (Presidente), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Dione Jesabel Wasilewski, José Alfredo AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 50 4. 72 44 92 /2 01 1- 90 Fl. 241DF CARF MF 2 Duarte Filho (Suplente convocado), Marcelo Milton da Silva Risso, Carlos Alberto do Amaral Azeredo e Daniel Melo Mendes Bezerra. Relatório Tratase de Recurso Voluntário contra decisão primeira instância que julgou improcedente a impugnação apresentada pelo sujeito passivo. Nesta oportunidade, utilizome do relatório produzido em assentada anterior, eis que aborda de maneira elucidativa os fatos objeto dos presentes autos, nos termos seguintes: Conforme Relatório Fiscal e anexos, o Auto de Infração em epígrafe, DEBCAD 37.341.6180, se refere a crédito tributário do período abril de 2006 a dezembro de 2006, no valor de R$ 1.303.458,62, relativo a glosa de compensação indevida de créditos oriundos da decisão judicial, processo 95.00.004356, transitado em julgado em 21/11/2005, no qual a Empresa pleiteava a compensação das contribuições previdenciárias incidentes sobre valores pagos a administradores e autônomos no período setembro de 1989 a novembro de 1994. A compensação foi indevida uma vez que, conforme Relatório Fiscal, o sujeito passivo: ao invés de compensarse dos valores das contribuições previdenciárias indevidamente recolhidas, compensouse dos valores das respectivas bases de cálculo; ao invés de atualizar os valores a serem compensados aplicando os índices utilizados pelo INSS para apuração dos créditos em atraso, aplicou os índices da Justiça Federal; ao invés de utilizar os índices 84,32 para a competência 03/90 e 44,80 para 04/90, na forma estabelecida pela Justiça Federal, utilizou esses índices em conjunto com os coeficientes utilizados pela Justiça Federal; embora não tenha recolhido contribuição de autônomo/administradores na competência 01/1991, compensouse de contribuições não recolhidas nesta competência. Inconformado com o lançamento fiscal o sujeito passivo apresentou defesa, alegando, em síntese: Extinção do crédito tributário por prescrição qüinqüenal, sob o argumento de que o caso concreto é de lançamento por homologação, eis que o comentado crédito tributário já se encontrava devidamente constituído com a entrega da GFIP e, a partir, daí exigível pela Fazenda Pública independentemente de lançamento formal. Para fundamentar sua tese de que prescrição em razão do crédito tributário já se encontrar constituído através de GFIP, cita decisão do STJ no REsp 962.379, 1ª Seção, DJ de 28/10/2008. Invoca efeitos vinculantes da citada decisão do STJ pela razões expostas pelo Ministro Luiz Fux, nos autos do REsp Fl. 242DF CARF MF Processo nº 15504.724492/201190 Acórdão n.º 2201003.568 S2C2T1 Fl. 3 3 1.111.743/DF, concluindo que as decisões com repercussão geral devem ser seguidas pelo Judiciário e pela Administração. Alternativamente alega decadência das competências abril a outubro de 2006 em razão de terem sido constituídos em 28/10/2011. Argumenta que a compensação equivale a pagamento de tributo, pois nos termos do inciso II do art. 156 do CTN, a compensação é uma das formas de extinção do crédito tributário, o que afasta a aplicação da decadência prevista no art. 173 do CTN. Valoração do indébito em desacordo com a decisão judicial transitada em julgado, uma vez que o STJ, no RESP nº 653.628 MG ( cópia anexa) que determinou: “Assim, na hipótese dos autos permanece o IPC apenas para os meses de março/90 (84,32%) e abril/90 (44,80%). Nos demais meses, devem ser aplicados aqueles legalmente fixados (Leis 7.787/89 e 8.212/91)”. Requer, portanto, novo cálculo do indébito compensável para conformálo à decisão judicial transitada em julgado, nela incluindo o recolhimento correspondente à competência 01/91. A Impugnante, à época da utilização dos valores compensáveis, distribuiu, conforme planilha anexa, percentualmente o seu crédito ao longo dos meses março a dezembro de 2006, critério que a fiscalização deveria adotar para imputação dos valores compensáveis. Alega que, conforme comprova a guia de recolhimento da matriz, CNPJ 18.214.122/000146, anexa à defesa, houve recolhimento sobre pro labore de Cr$ 1.300.000,00 na competência janeiro de 1991. Afirma que a Autoridade Fiscal considerou apenas guia de recolhimento da filial de CNPJ 18.214.122/000227. Portanto, há indébito na citada competência no valor de Cr$ 260.000,00. mais cominações legais, totalizando Cr$ 307.387,86. Requer perícia técnica, indicando assistente do perito, para apuração correta do indébito compensável em face da decisão judicial. Por fim, pede a suspensão da exigibilidade nos moldes do inciso III do art. 151 do CTN e procedência da impugnação. A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Belo Horizonte (MG) julgou improcedente a impugnação, restando mantida a notificação de lançamento, conforme a seguinte ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/04/2006 a 31/12/2006 LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. NÃO CARACTERIZAÇÃO. Fl. 243DF CARF MF 4 A remessa de informações através de GFIP de valores indevidamente compensados, sem que tenha ocorrido a atividade de pagamento, não caracteriza o lançamento por homologação. PRESCRIÇÃO . INOCORRÊNCIA. O prazo de prescrição não começa a fluir enquanto o crédito tributário não for constituído. DECADÊNCIA. LANÇAMENTO DE OFICIO. Na hipótese de lançamento de ofício, o prazo de decadência, se inicia no primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o contribuinte deveria ter realizado o pagamento. ALEGAÇÕES SEM COMPROVAÇÃO. Rejeitase as alegações desacompanhadas de provas. PERÍCIA DESNECESSÁRIA. O pedido de perícia não é acolhido quando a perícia é desnecessária. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Posteriormente, dentro do lapso temporal legal, foi interposto recurso voluntário, no qual a contribuinte reiterou, em síntese, os argumentos dispostos em sede de impugnação. É o relatório. Voto Conselheira Ana Cecília Lustosa da Cruz Conheço do recurso, pois se encontra tempestivo e presentes os requisitos de admissibilidade. Conforme narra o Relatório fiscal, houve glosa das compensações realizadas pela empresa, conforme informado nas Guias de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informação à Previdência Social GFIP, nas competências 03/06 a 12/06, cujo direito se originou do êxito obtido no processo 95.00.004356, transitado em julgado em 25/11/2005. A fiscalização constatou, com a análise da planilha entregue pela contribuinte (Demonstrativos dos pagamentos indevidos efetuados ao INSS (ANEXO I), que na coluna "valor recolhido s/ prólabore constou os valores das contribuições recolhidas pela empresa sobre os valores de prólabore e sobre os pagamentos a autônomos, acarretando assim uma Fl. 244DF CARF MF Processo nº 15504.724492/201190 Acórdão n.º 2201003.568 S2C2T1 Fl. 4 5 informação quatro vezes maior, ou seja, a empresa teria direito ao crédito da contribuição recolhida de 20% da base, como lançou a base de cálculo, seu crédito foi multiplicado por quatro. Além disso, a empresa, na mesma planilha anteriormente referida, utilizou para corrigir seus créditos os coeficientes utilizados pela Justiça Federal, quando seu pleito na ação judicial e o que consta em outra planilha (Anexo II) fornecida pela empresa é que esses créditos deveriam ser atualizados pelos mesmos critérios utilizados pelo INSS para apuração dos créditos em atraso. Também outro ponto verificado foi que a decisão judicial foi no sentido de se utilizar 84,32 e 44,80 para atualização dos valores recolhidos, nas competências 03/90 e 04/90, respectivamente, e na planilha da empresa foram utilizados esses índices em conjunto com os coeficientes utilizados pela Justiça Federal, para efeito de atualização monetária, contrariando, portanto, a decisão judicial que mandou aplicar tão somente os 84,32 para 03/90 e 44,80 para 04/90. Sobre a competência 01/1991, destacou o relatório que com a verificação das guias recolhidas para as competências incluídas na planilha de cálculo da empresa, constatamos que a da GRPS recolhida, dessa competência, não constou o valor de base de cálculo do prólabore e dos pagamentos efetuados a autônomos, havendo recolhimento apenas em relação à folha de pagamento da competência, sendo que na planilha de cálculo da empresa foi computado valor para essa competência. Em seu recurso, sustenta a contribuinte que, no caso dos autos, tributos sujeitos a lançamento por homologação, a constituição definitiva dos créditos tributários deu se com o seu lançamento nas GFIPs fato expressamente reconhecido na autuação. Dispõe que, indeferida a compensação, o débito declarado (e, portanto, efetivamente constituído) não se sujeita mais ao prazo decadencial previsto no art. 173 do CTN, e sim ao prazo prescricional de cinco anos para "a ação de cobrança"). Assim, destaca a recorrente que os créditos tributários já não podem ser exigidos, em razão da prescrição operada. Pela eventualidade, salienta a contribuinte a existência de decadência referente aos lançamentos do período de 4/06 e 10/06, pois os créditos só foram formalmente constituídos em 28/10/11, data da ciência do auto de infração, tendo sido atingidos pelo período qüinqüenal estabelecido pelo § 4º do artigo 150 do CTN. Com relação ao argumento acerca da prescrição, cabem algumas considerações: a) na sistemática dos tributos sujeitos a lançamento por homologação, a compensação equivale ao pagamento antecipado, tendo em vista que o sujeito passivo, ao invés de recolher o valor do tributo em pecúnia, registra, na escrita fiscal, o crédito oponível ao fisco e o informa; b) o pagamento antecipado extingue o crédito sob condição resolutória da ulterior homologação do lançamento, sendo que o fisco tem o prazo de 5 anos para se pronunciar sobre à Fl. 245DF CARF MF 6 homologação, sob pena de se considerar extinto o crédito tributário; c) da mesma forma que o pagamento antecipado, a compensação extingue o crédito sob condição resolutória de ulterior homologação (art. 150, § 1º, do CTN); d) em regra, quando o fisco constata irregularidade, procede ao lançamento de ofício. Nesse contexto, considerando que a compensação extingue o crédito tributário, sob condição resolutória da ulterior homologação do procedimento, não se pode considerar como definitiva a constituição do crédito pela Declaração (GFIP). Assim, observase que o procedimento adotado pela fiscalização, ao efetuar o presente lançamento, é tido como a não homologação da compensação realizada pela contribuinte, de modo que não subsistem dois processos (um constituído pela declaração e outro pelo lançamento de ofício), pois a constituição definitiva do crédito ocorrerá com a decisão final do Processo Administrativo Fiscal, observandose o prazo de homologação que tem natureza de prazo prescricional. Uma vez que se considera confissão de dívida a declaração (GFIP) realizada pelo contribuinte, sendo, portanto, exigível, sem a necessidade de lançamento de ofício, não se considera o prazo decadencial, pois já existe a constituição do crédito, mas sim o prazo para homologação para se considerar definitiva tal constituição. Tal fundamento se alinha ao entendimento do STJ, em sede de recurso repetitivo, colacionado pela recorrente. Reiterase que a própria lei dispõe sobre a condição resolutória de ulterior homologação da compensação, assim, não há dúvidas de que o crédito, nesses casos, será efetivamente constituído quando homologado expressamente pela decisão final do processo administrativo fiscal ou tacitamente pelo transcurso do prazo de homologação. Com esses esclarecimentos, insta salientar que se encontram homologadas tacitamente as competências 4/06 a 10/06, pois a ciência do auto de infração ocorreu em 28/10/2011, considerando o prazo de cinco anos das declarações. Com relação ao mérito, a recorrente argumenta que o indébito apurado pela fiscalização foi inferior aquele reconhecido judicialmente. Enquanto a decisão judicial concedeu a quantia de R$ 185.433,03 (confira planilha juntada aos autos e solenemente desconsiderada), atualizada até 3/06, data do início das compensações, a fiscalização apurou a quantia de R$ 101.515,42, nos termos da planilha juntada no anexo V do auto de infração. Além disso, sustenta que se encontra correta a planilha do indébito total compensável, que inclui o recolhimento indevido da competência 1/91, conforme comprova documentação constante nos autos solenemente desprezada, cuja juntada é reiterada na oportunidade, tendo em vista o princípio maior da busca da verdade material. Com a análise dos fundamentos dispostos no Relatório Fiscal sobre a elaboração das planilhas que evidenciaram a compensação indevida, observase que foram seguidas as determinações judiciais, de modo que foram atualizados os valores, em razão da alteração de moeda, até que chegar aos valores compensados a maior (ver anexos fls. 21 e seguintes). Fl. 246DF CARF MF Processo nº 15504.724492/201190 Acórdão n.º 2201003.568 S2C2T1 Fl. 5 7 Apesar das alegações da recorrente sobre suposto equívoco da fiscalização, não identifiquei nos autos provas que as corroborassem, não logrando êxito para desincumbir de seu ônus, de modo que mantenho a decisão recorrida, conforme abaixo transcrita: O documento de fls. 123/124 “Demonstrativos dos pagamentos indevidos efetuados ao INSS” foi elaborado pelo sujeito passivo para instruir a petição inicial da demanda judicial, em janeiro de 1995, antes mesmo de haver qualquer decisão judicial e visava demonstrar para a Justiça o quantum que a demandante entendia que tinha direito a compensarse. O documento de fls. 30 “Planilha Demonstrativa Valores compensáveis” foi elaborado pela Autoridade Lançadora para instruir o presente Auto de Infração, que foi lavrado em outubro de 2011, após a decisão judicial, e visava demonstrar o quantum de compensação efetuada pelo contribuinte foi indevida por ser maior que a autorizada pela Justiça, motivando a glosa em debate. Como se vê, o conteúdo das citadas tabelas são incapazes de comprovar a alegação de descompasso entre a ordem da justiça e o procedimento fiscal. Examinando o Relatório Fiscal, inclusive no trecho transcrito pela defesa, e demais anexos ao Auto de Infração, constatase que a autoridade lançadora seguiu os seguintes índices IPC para as competências março (:84,32) e abril de 1990 (44,80) e, nas demais competências, observou os índices fixados pela Lei 8.212/91 e demais leis apontadas nos Fundamentos Legais do Debito – FLD. Logo, não há qualquer evidência de descumprimento da ordem judicial. Sobre a competência 01/91, também não restou comprovado que a empresa tenha recolhido contribuição sobre prólabore nessa competência. Pelo exposto, voto em dar provimento parcial ao recurso para excluir do lançamento os valores referentes ao período de abril a setembro de 2006, em razão da homologação tácita. Assinado digitalmente. ANA CECÍLIA LUSTOSA DA CRUZ Relatora Fl. 247DF CARF MF 8 Fl. 248DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10855.724603/2011-64
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Jan 25 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Mar 02 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 01/01/2006 a 31/12/2008
RECURSO DE OFÍCIO.
REQUISITOS NOTA COMPLEMENTAR N.º 21-1 DA TIPI.
Como o produto fornecido é dispensado de registro no Ministério da Agricultura e Pecuária - MAPA e na Agência Nacional de Vigilância Sanitária - ANVISA, afasta-se a aplicação da Nota Complementar n.º 21-1 da TIPI e a correspondente redução da alíquota em 50%.
Recurso de Ofício Negado.
RECURSO VOLUNTÁRIO.
CRÉDITO. NCM 2106.90.10. "Ex 01"
Uma vez que está em discussão a capacidade de diluição do insumo (concentrado para refrigerante), a fiscalização foi coerente em considerar a informação prestada pelo fornecedor, vez que detentor das informações técnicas quanto ao produto por ele comercializado.
CRÉDITO AQUISIÇÃO INSUMOS NÃO TRIBUTADOS.
O princípio da não cumulatividade não assegura direito de crédito presumido de IPI para o contribuinte adquirente de insumos não tributados, isentos ou sujeitos à alíquota zero. (Supremo Tribunal Federal, RE n.º 398.365, repercussão geral). Aplicação do art. 62, §2º do Regimento Interno do CARF.
MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. IMPROCEDÊNCIA.
A qualificação da multa somente pode ocorrer quando a autoridade fiscal provar de modo inconteste, o dolo por parte da contribuinte, condição imposta pela lei. Não estando comprovado com elementos contundentes o intuito de fraude, deve ser afastada a aplicação da multa qualificada.
DECADÊNCIA. IPI.
Somente créditos admitidos pelo regulamento são aptos a caracterizar o pagamento antecipado. Em relação aos créditos não admitidos, a contagem do prazo decadencial se dá pela aplicação do art. 173, I, do CTN. Reconhece-se a decadência, à luz do art. 150, §4º, do CTN, somente em relação aos períodos de apuração para os quais houve recolhimento em DARF do valor do saldo devedor apurado.
RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. ART. 124, I, DO CTN. INTERESSE COMUM. INEXISTÊNCIA.
Para o enquadramento na regra do art. 124, I, do CTN, necessário que a fiscalização comprove, de forma contundente, a realização conjunta do fato gerador pelo autuado e correspondentes solidários, com a existência de vínculo jurídico que implica na realização conjunta do fato descrito na lei (da hipótese tributária).
Recurso Voluntário Provido em Parte.
Numero da decisão: 3402-003.806
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, por negar provimento ao recurso de ofício e por dar parcial provimento ao Recurso Voluntário da seguinte forma: a) por unanimidade de votos para (a.1) afastar a multa qualificada aplicada diante da ausência de dolo por quaisquer dos motivos apontados pela fiscalização, sendo mantida a multa de ofício no patamar de 75%, (a.2) reconhecer a decadência em relação aos fatos geradores ocorridos nos períodos 1º e 2º decêndios de 01/2006 (e-fls. 1.096/1.101), 3º-04/2006 e 1º-05/2006 (e-fls. 1.129/1.134), 3º-05/2006 e 1º-06/2006 (e-fls. 1.138/1.143), 2º-10/2006 (e-fls. 1.180/1.182), 1ª e 2º-11/2006 (e-fls. 1.186/1.191) e 1º-12/2006 (e-fls. 1.195/1.197) e (a.3) excluir do pólo passivo os responsáveis solidários Odair Momesso, Odair Momesso Júnior, Julio Cesar Momesso, João Paulo Momesso, Carmen De Fatima Garcia Momesso, Otávio Momesso, Ana Paula Momesso, Momesso Distribuidora de Bebidas Ltda e Barbaka Distribuidora e Comercio Ltda.; b) por maioria de votos, rejeitou-se a proposta de diligência formulada pela Conselheira Thais de Laurentiis Galkowicz e negou-se o provimento em maior extensão para reconhecer a imprestabilidade da prova apresentada pelo fisco em relação ao enquadramento do concentrado no ex-01. Vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz e Carlos Augusto Daniel Neto, que apresentou declaração de voto; c) pelo voto de qualidade, negou-se provimento em relação à decadência dos períodos de apuração nos quais houve saldo credor de escrita. Vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto. Designado o Conselheiro Waldir Navarro Bezerra.
Sustentou pela REFRISO REFRIGERANTES SOROCABA LTDA, o Dr. Tiago Luiz Leitão Piloto, OAB/SP 318.848.
(Assinado com certificado digital)
Antonio Carlos Atulim - Presidente.
(Assinado com certificado digital)
Maysa de Sá Pittondo Deligne - Relatora.
(Assinado com certificado digital)
Waldir Navarro Bezerra - Redator designado
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Antonio Carlos Atulim, Jorge Freire, Diego Diniz Ribeiro, Waldir Navarro Bezerra, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto.
Nome do relator: MAYSA DE SA PITTONDO DELIGNE
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Recorrente REFRISO REFRIGERANTES SOROCABA LTDA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/01/2006 a 31/12/2008 RECURSO DE OFÍCIO. REQUISITOS NOTA COMPLEMENTAR N.º 211 DA TIPI. Como o produto fornecido é dispensado de registro no Ministério da Agricultura e Pecuária MAPA e na Agência Nacional de Vigilância Sanitária ANVISA, afastase a aplicação da Nota Complementar n.º 211 da TIPI e a correspondente redução da alíquota em 50%. Recurso de Ofício Negado. RECURSO VOLUNTÁRIO. CRÉDITO. NCM 2106.90.10. "Ex 01" Uma vez que está em discussão a capacidade de diluição do insumo (concentrado para refrigerante), a fiscalização foi coerente em considerar a informação prestada pelo fornecedor, vez que detentor das informações técnicas quanto ao produto por ele comercializado. CRÉDITO AQUISIÇÃO INSUMOS NÃO TRIBUTADOS. O princípio da não cumulatividade não assegura direito de crédito presumido de IPI para o contribuinte adquirente de insumos não tributados, isentos ou sujeitos à alíquota zero. (Supremo Tribunal Federal, RE n.º 398.365, repercussão geral). Aplicação do art. 62, §2º do Regimento Interno do CARF. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. IMPROCEDÊNCIA. A qualificação da multa somente pode ocorrer quando a autoridade fiscal provar de modo inconteste, o dolo por parte da contribuinte, condição AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 85 5. 72 46 03 /2 01 1- 64 Fl. 2227DF CARF MF 2 imposta pela lei. Não estando comprovado com elementos contundentes o intuito de fraude, deve ser afastada a aplicação da multa qualificada. DECADÊNCIA. IPI. Somente créditos admitidos pelo regulamento são aptos a caracterizar o pagamento antecipado. Em relação aos créditos não admitidos, a contagem do prazo decadencial se dá pela aplicação do art. 173, I, do CTN. Reconhece se a decadência, à luz do art. 150, §4º, do CTN, somente em relação aos períodos de apuração para os quais houve recolhimento em DARF do valor do saldo devedor apurado. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. ART. 124, I, DO CTN. INTERESSE COMUM. INEXISTÊNCIA. Para o enquadramento na regra do art. 124, I, do CTN, necessário que a fiscalização comprove, de forma contundente, a realização conjunta do fato gerador pelo autuado e correspondentes solidários, com a existência de vínculo jurídico que implica na realização conjunta do fato descrito na lei (da hipótese tributária). Recurso Voluntário Provido em Parte. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, por negar provimento ao recurso de ofício e por dar parcial provimento ao Recurso Voluntário da seguinte forma: a) por unanimidade de votos para (a.1) afastar a multa qualificada aplicada diante da ausência de dolo por quaisquer dos motivos apontados pela fiscalização, sendo mantida a multa de ofício no patamar de 75%, (a.2) reconhecer a decadência em relação aos fatos geradores ocorridos nos períodos 1º e 2º decêndios de 01/2006 (efls. 1.096/1.101), 3º 04/2006 e 1º05/2006 (efls. 1.129/1.134), 3º05/2006 e 1º06/2006 (efls. 1.138/1.143), 2º 10/2006 (efls. 1.180/1.182), 1ª e 2º11/2006 (efls. 1.186/1.191) e 1º12/2006 (efls. 1.195/1.197) e (a.3) excluir do pólo passivo os responsáveis solidários Odair Momesso, Odair Momesso Júnior, Julio Cesar Momesso, João Paulo Momesso, Carmen De Fatima Garcia Momesso, Otávio Momesso, Ana Paula Momesso, Momesso Distribuidora de Bebidas Ltda e Barbaka Distribuidora e Comercio Ltda.; b) por maioria de votos, rejeitouse a proposta de diligência formulada pela Conselheira Thais de Laurentiis Galkowicz e negouse o provimento em maior extensão para reconhecer a imprestabilidade da prova apresentada pelo fisco em relação ao enquadramento do concentrado no ex01. Vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz e Carlos Augusto Daniel Neto, que apresentou declaração de voto; c) pelo voto de qualidade, negouse provimento em relação à decadência dos períodos de apuração nos quais houve saldo credor de escrita. Vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto. Designado o Conselheiro Waldir Navarro Bezerra. Sustentou pela REFRISO REFRIGERANTES SOROCABA LTDA, o Dr. Tiago Luiz Leitão Piloto, OAB/SP 318.848. (Assinado com certificado digital) Fl. 2228DF CARF MF Processo nº 10855.724603/201164 Acórdão n.º 3402003.806 S3C4T2 Fl. 2.228 3 Antonio Carlos Atulim Presidente. (Assinado com certificado digital) Maysa de Sá Pittondo Deligne Relatora. (Assinado com certificado digital) Waldir Navarro Bezerra Redator designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Antonio Carlos Atulim, Jorge Freire, Diego Diniz Ribeiro, Waldir Navarro Bezerra, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto. Relatório Por trazer uma síntese do processo e da Impugnação Administrativa apresentada, peço vênia para transcrever o relatório da r. decisão recorrida: "Contra o estabelecimento em epígrafe foi lavrado o auto de infração de fls. 1.760/1.808, para exigir R$ 3.165.132,17 de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), R$ 1.328.588,67 de juros de mora calculados até 31/11/2011 e R$ 3.990.783,88 de multa proporcional ao valor do imposto (150%), o que representa o crédito tributário total consolidado de R$ 8.484.504,72, em virtude de ter o estabelecimento industrial deixado de recolher o imposto em decorrência da escrituração e utilização de créditos indevidos de IPI. Consoante o Relatório Fiscal de fls. 1.760/1.808, a contribuinte escriturouse de créditos básicos indevidos nas seguintes situações: 1. Creditamentos de IPI baseados na aquisição de produtos nãotributados (NT), isentos ou beneficiados a alíquota zero de fornecedores diversos no território nacional, creditamento este que não encontra amparo legal, tendo sido aplicada de forma linear a alíquota de 15% (quinze por cento), ressalvados alguns produtos cujas alíquotas variam entre 115% e 515%; 2. Creditamentos de IPI baseados na aquisição de concentrados base para fabricação de bebida não alcoólica, adquiridos da empresa Polyaromas Preparados e Extratos Ltda, instalada na Zona Franca de Manaus, com classificação fiscal diferente do determinado na Tabela do IPI (NCM 2106.90.10 – Ex02 ao invés da 2106.90.10 Ex01), o que acarretou um creditamento indevido de valores à alíquota de 40%, quando o correto seria a de 27%, não tendo ainda, sido observada a disposição contida na Nota Complementar (211), constante das notas do capítulo 21 da TIPI, devendo o montante do crédito apurado nesses termos ser reduzido em 50%. Nos termos do Relatório Fiscal, para a infração comentada no item “4.3 – Crédito Básico Indevido – Não obediência à redução de alíquota preconizada pela Fl. 2229DF CARF MF 4 legislação na regular tomada de créditos de insumos oriundos da Zona Franca de Manaus” foi aplicada a multa de 75%, enquanto para as demais infrações, dos itens “4.1 – Crédito Básico Indevido – Créditos decorrentes de Insumos imunes, isentos, nãotributados ou alíquotazero” e “4.2 – Crédito Básico Indevido – Incorreção na classificação fiscal; diferença de Alíquotas – código EX – na regular tomada de créditos de insumos oriundos da Zona Franca de Manaus”, fica a multa qualificada por dolo, incidindo em dobro, no percentual de 150%. Conforme Relatório Fiscal e Termos de Sujeição Passiva Solidária nº 001/2011 a 008/2011, de fls. 1.816/1.831, foi imputada responsabilidade passiva solidária em desfavor de Ana Paula Momesso CPF 307.864.62892, Carmen Fátima Garcia Momesso CPF 057.983.40856, João Paulo Momesso CPF 156.598.96863, Júlio César Momesso CPF 220.525.51859, Odair Momesso CPF 555.761.76804, Odair Momesso Junior – CPF 212.698.01899, Otávio Momesso CPF 555.762.06800 e a empresa Barbaka Distribuidora e Comércio Ltda CNPJ 45.944.535/000159. Regularmente cientificados, a contribuinte e os responsáveis solidários apresentaram a impugnação de fls. 1.858/1.904, instruída com os documentos de fls. 1.905/2.006, alegando, em síntese, que: 1. Completado o fato gerador do IPI ao final de cada mês e não tendo verificado a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, quando da ciência do auto de infração em 23/12/2011 já se encontrava decaído o direito da Fazenda de proceder à glosa dos valores tidos como creditados pela impugnante até 23/12/2006, devendo ser declarado o débito tributário extinto pela decadência; 2. Pela sistemática da nãocumulatividade é de ser mantido o direito ao crédito do IPI mesmo quando decorrente de operações isentas, nãotributadas e alíquota zero. Inclusive, o pleno do STF, quando do julgamento do RE 212.484RS, reconheceu a nãocumulatividade na aquisição de insumos isentos. Na afirmativa que teria utilizado alíquotas que variam entre 115% e 515%, ocorreu erro de digitação, posto que a alíquota de 15% fora utilizada de forma linear; 3. A questão aventada acerca do creditamento de IPI decorrente de operações com o fornecedor Polyaromas, empresa situada na zona de livre comércio, é a controvérsia em torno da classificação fiscal do insumo denominado “concentrado para bebidas não alcoólicas (laranja, guaraná e cola)” nas posições da NCM, códigos “ex”. Consoante atesta o Técnico Responsável, o concentrado adquirido da Polyaromas foi utilizado na proporção de até 01 parte de concentrado para 10 partes de produto final, atendendo os padrões de identidade e qualidade regidos pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, bem como o registro do produto final perante este órgão, enquadrando o produto no código Ex02, sendo correta a aplicação da alíquota de 40% para fins de apuração de crédito de IPI; 4. Os fundamentos tecidos pela autoridade administrativa fiscal, no que diz respeito à incidência da Nota Complementar 21 da TIPI como forma de reduzir o crédito apurado e mantido pela impugnante em 50%, não encontram amparo em nosso ordenamento jurídico pátrio. Ainda, se a empresa Polyaromas acosa estivesse fora da Zona Franca de Manaus, para fruir do benefício descrito na Nota Complementar 21 da TIPI deveria ter seus produtos registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e abastecimento, o que não é o caso; 5. A qualificação de multas, por representar não só uma sanção ao descumprimento do dever de pagar o tributo, mas também uma repressão a uma conduta fraudulenta, com intuito claramente penal, não pode ser aplicada ao alvedrio do fisco. Pela observância da norma descrita, verificase que, somente em caso de comprovação, pelo Fisco, do intuito sonegador, do evidente intuito de fraude, poderá a fiscalização impor sanções qualificadas; 6. Não está demonstrado nos autos a ação ou omissão dolosa na qual fique evidente o intuito de sonegação, fraude ou conluio, por isso, deve ser desqualificada a multa de ofício no importe de 150%. O Conselho Administrativo de Recursos Fiscais tem mantido a presunção de boafé e de inocência dos contribuintes no julgamento de casos em que a fiscalização impõe sanções qualificadas; Fl. 2230DF CARF MF Processo nº 10855.724603/201164 Acórdão n.º 3402003.806 S3C4T2 Fl. 2.229 5 7. Não há elementos para atribuição da sujeição passiva por solidariedade aos responsáveis solidários. O conceito de solidariedade contido no inciso I do artigo 124 do CTN é vago, incompleto e impreciso, o que, exigese, por dever de ofício, o exame de cada situação que constitui o fato gerador do respectivo tributo, a fim de que se constate a existência do interesse comum; 8. Demonstrado que a contribuinte agiu de acordo com os ditames legais exigidos, resta descabida a presunção tomada pelo fisco quanto à responsabilidade solidária, sob a alegação de que simples registros fiscais, caracterizam a existência de responsabilidade de “diretores fictícios”; 9. Mesmo que considerássemos válidos os argumentos tecidos pelo auditor fiscal, os impugnantes não podem ser responsabilizados pelo pagamento do imposto, sem que haja dolo ou culpa; 10. Se os impugnantes não concorreram para a omissão do recolhimento do tributo, não há que se falar em responsabilidade solidária, sendo, medida que se impera, a sua exclusão do pólo passivo da obrigação tributária do presente processo administrativo. É o relatório." (efl. 2.047/2.049 grifei) Em julgamento desta defesa, a autuação foi reformada em parte para excluir a exigência trazida no item 4.3 do Relatório Fiscal do Auto de Infração (necessidade de observância da Nota Complementar 21 da TIPI), vez que o fornecedor Polyaromas Preparados e Extratos Ltda não está sujeito ao registro nos Ministérios da Agricultura e Reforma Agrária, Saúde e na Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Contra esta parte foi indicado no acórdão a oposição de Recurso de Ofício. O restante da autuação foi mantido, tendo sido o julgado ementado nos seguintes termos: "ASSUNTO: CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS Período de apuração: 11/11/2007 a 31/12/2008 CLASSIFICAÇÃO FISCAL. CONCENTRADOS PARA ELABORAÇÃO DE BEBIDAS. ALÍQUOTA. Os concentrados para elaboração de bebidas, com capacidade de diluição superior a 10 partes da bebida para cada do concentrado, classificamse no Ex 01 do código 2106.90.10 da TIPI, estando sujeito, em situação de tributação normal, à alíquota de 27% (vinte e sete por cento). ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/01/2006 a 31/12/2008 INSUMOS DESONERADOS. CRÉDITOS FICTÍCIOS. APROVEITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. Somente são passíveis de aproveitamento na escrita fiscal do sujeito passivo os créditos concernentes a insumos onerados pelo imposto e admitidos segundo o entendimento albergado na legislação tributária. IPI. REDUÇÃO DE ALÍQUOTA. A redução de alíquota prevista na NC (211) da TIPI depende da expedição de ato administrativo complexo por parte da Administração e não pode ser determinada de ofício pela fiscalização e nem reconhecida pelas instâncias administrativas de julgamento por absoluta falta de competência legal. DECADÊNCIA. GLOSA DE CRÉDITOS FICTOS DO IPI. É correta a glosa de créditos indevidos há qualquer tempo, pois não ocorre fato gerador do tributo no momento do creditamento. O uso indevido do crédito é que gera conseqüências tributárias, pois ao usálo deixase de pagar o tributo devido, ocorrendo prazo de decadência apenas para o lançamento de débitos decorrente Fl. 2231DF CARF MF 6 desta glosa. Nos casos de ocorrência de dolo, fraude ou simulação, o prazo de decadência para o lançamento de ofício deve ser contado pela regra do art. 173, I do CTN. MULTA DE OFÍCIO MAJORADA. CIRCUNSTÂNCIAS QUALIFICATIVAS. Observadas as circunstâncias qualificativas como a fraude e a sonegação, a multa punitiva deve ser exacerbada, com a graduação em 150%. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. INTERESSE COMUM. É cabível a atribuição de responsabilidade solidária àqueles que tiverem interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação tributária apurada (art. 124, I, do CTN). Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte" (efl. 2.045/2.046) Intimados dessa decisão em 18/03/2015, a autuada e os solidários Otávio Momesso, Odair Momesso Júnior, Ana Paula Momesso, Odair Momesso, Carmen de Fátima Garcia Momesso, João Paulo Momesso, Júlio César Momesso e Momesso Distribuidora de Bebidas Ltda., apresentaram Recurso Voluntário em 14/04/2015 reiterando os argumentos trazidos no Recurso Voluntário, sustentando, em síntese: a) decadência do período de 10/01/2006 a 20/12/2006 pela aplicação do prazo previsto no art. 150, §4º, CTN, vez que a dedução de débitos no RAIPI equivale ao pagamento na forma do art. 124, parágrafo único, III, do RIPI/2002; b) direito ao crédito decorrente de operações isentas, não tributáveis ou sujeitas à alíquota zero à luz do princípio da não cumulatividade; c) foi indevida a glosa do diferencial de alíquota na aquisição de insumos de fornecedor localizado na Zona Franca de Manaus (concentrado para bebidas não alcoólicas adquiridas do fornecedor Polyaromas preparados e extratos Ltda.), vez que o referido insumo se enquadra na classificação NCM 2106.90.10, ex "02" e não ex "01" como entendido pela fiscalização com fulcro na informação do remetente (diferença de 27% para 40%); d) necessidade de se afastar a multa qualificada aplicada, vez que ausentes os requisitos de dolo ou fraude e uma vez que a multa possui caráter confiscatório; e) a ausência de responsabilidade solidária por ausência de fundamento de validade, vez que os terceiros não praticaram qualquer conduta suscetível a atrair a aplicação do art. 137, do CTN e "alguns não poderiam responder por todo o período exigido, haja vista que as contas pessoais levantadas não correspondem a todo o períodos (sic.) fiscalizado" (efl. 2.208) É o relatório. Voto Vencido Conselheira Relatora Maysa de Sá Pittondo Deligne. Como relatado, o Auto de Infração foi lavrado em razão da glosa de créditos básicos considerados indevidos pela fiscalização por três razões distintas, assim divididas no Relatório Fiscal: Fl. 2232DF CARF MF Processo nº 10855.724603/201164 Acórdão n.º 3402003.806 S3C4T2 Fl. 2.230 7 4.1 Créditos decorrentes de Insumos imunes, isentos, nãotributados ou alíquotazero 4.2 Incorreção na classificação fiscal e diferença de Alíquotas – código EX na regular tomada de créditos de insumos oriundos da Zona Franca de Manaus 4.3 Não obediência à redução de alíquota preconizada pela legislação na regular tomada de créditos de insumos oriundos da Zona Franca de Manaus, a partir de 01/01/2007 O item 4.3 foi excluído pela decisão recorrida, sendo objeto do recurso de ofício do qual conheço na forma da Portaria n.º 3/20081, vez que o valor exonerado supera o limite de alçada (valor depreendido da comparação do valor autuado indicado na efl. 1.760 e do valor trazido no DARF para pagamento do valor remanescente após a decisão recorrida à e fl. 2.088) Adentro primeiramente em suas razões para posteriormente ingressar na análise pertinente ao Recurso Voluntário. I DO RECURSO DE OFÍCIO Neste ponto, a decisão recorrida se respaldou na disciplina normativa aplicável e na doutrina, evidenciando que a fiscalização não observou os requisitos para a aplicação da Nota Complementar n.º 211 da TIPI e a correspondente redução da alíquota em 50%. Isso porque a fornecedora Polyaromas informou que o produto fornecido é dispensado de registro no Ministério da Agricultura e Pecuária MAPA e na Agência Nacional de Vigilância Sanitária ANVISA, afastando, portanto, a aplicação da NC 211. Vejamos as exatas razões da decisão nesse ponto: "Ou seja, a discussão administrativa no caso presente cingese à questão da redução da alíquota prevista na Nota Complementar (211) da TIPI e regulada no art. 65 do RIPI/2002. Assim dispõe a Nota Complementar (211): NC (211) Ficam reduzidas de cinqüenta por cento as alíquotas do IPI relativas aos extratos concentrados para elaboração de refrigerantes, contendo suco de fruta ou extrato de sementes de guaraná, compreendidos nos “ex” 01 e 02 do código 2106.90.10, que atendam aos padrões de identidade e qualidade exigidos pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e estejam registrados no órgão competente desse Ministério. Já o art. 65 do RIPI/2002, que tem fulcro legal no art. 4º do DecretoLei nº 1.199/71 e no art. 15 da Lei nº 9.493/97, está vazado nos seguintes termos: “Art. 65. Haverá redução: I das alíquotas de que tratam as Notas Complementares NC (211) e NC (22 1) da TIPI, que serão declaradas, em cada caso, pela SRF, após audiência do órgão competente do Ministério da Agricultura, Pecuária e 1 "Art. 1º O Presidente de Turma de Julgamento da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento (DRJ) recorrerá de ofício sempre que a decisão exonerar o sujeito passivo do pagamento de tributo e encargos de multa, em valor total superior a R$ 1.000.000,00 (um milhão de reais). Parágrafo único. O valor da exoneração de que trata o caput deverá ser verificado por processo." Fl. 2233DF CARF MF 8 Abastecimento MAPA, quanto ao cumprimento dos requisitos previstos para a concessão do benefício;” A literalidade dos dispositivos não deixa dúvidas: é a autoridade competente do Ministério da Agricultura quem vai decidir se o produto preenche ou não os requisitos estabelecidos na NC (211), ou seja, se o produto atende ou não aos padrões de identidade e qualidade estabelecidos por aquele Ministério. No âmbito fiscal, após o pronunciamento do Ministério da Agricultura sobre a matéria de sua competência, é a Secretaria da Receita Federal do Brasil quem baixa o ato declaratório reconhecendo o direito do contribuinte ao benefício fiscal da redução de alíquota, tendo como pressuposto o ato administrativo anterior. São duas competências distintas. Uma para dizer se o produto atende aos padrões de identidade e qualidade e outra para declarar o direito ao benefício fiscal. O art. 65 revela que a possibilidade de fruição do incentivo se perfaz por meio de um ato administrativo complexo, ou seja, de um ato resultante da conjugação de vontades de dois órgãos administrativos distintos. Seguindo a doutrina de Celso Antonio Bandeira de Mello, o ato do Ministério da Agricultura classificase como um “ato de administração ativa”, pois visa criar uma utilidade pública, constituindo uma situação jurídica. Já o ato declaratório da Secretaria da Receita Federal do Brasil, constituise num “ato de administração controladora”, uma vez que visa impedir ou permitir a produção ou a eficácia de atos de administração ativa mediante exame prévio ou posterior da conveniência ou legalidade deles (in: Curso de Direito Administrativo. São Paulo, Malheiros, 8ª ed., pp. 244 e 247). No caso dos autos, a fornecedora Polyaromas, na resposta à demanda de diligência fiscal (fls. 1.396), informa que o produto fornecido é dispensado de registro no MAPA Ministério da Agricultura e Reforma Agrária e na ANVISA Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Portanto, se o fornecedor dos concentrados não está sujeito ao registro no Ministério da Saúde, é evidente que o concentrado não se enquadra nos requisitos da NC (211). Na verdade, tanto a NC (211), como o art. 65 do Regulamento não podem ser cumpridos, porque diante da inexistência do ato de administração ativa do Ministério da Agricultura, a Receita Federal não tem como desincumbirse de seu mister legal e expedir o ato de administração controladora que o Regulamento do IPI exige. Logo, é inequívoco que os concentrados vendidos pela Polyaromas não foram alcançados pela redução de alíquota prevista na NC (211), sendo correto à luz do direito positivo vigente o procedimento da autuada creditarse sem a redução prevista na NC (211). Portanto, entendo que a redução de alíquota não poderia ser determinada de ofício pela fiscalização e, tampouco, reconhecida em sede de julgamento administrativo por absoluta e total falta de competência das instâncias julgadoras para emitir tal juízo." (efls. 2.059/2.060 grifei) Entendo ser irretocável a decisão neste ponto, devendo ser mantido a exclusão da exigência vez que de acordo com a legislação aplicável e com a própria redação da Nota Complementar n.º 211 da TIPI2. Assim, nego provimento ao recurso de ofício, mantendo a exclusão do item 4.3 do Auto de Infração. II DO RECURSO VOLUNTÁRIO 2 Insta mencionar que à época dos fatos geradores autuados não estava vigente a base normativa do Parecer Normativo COSIT n.º 28/2013, em especial a Instrução Normativa n.º 1.185/2011, mas que igualmente traz a necessidade de observar a especificação expedida pelo MAPA dos produtos. Fl. 2234DF CARF MF Processo nº 10855.724603/201164 Acórdão n.º 3402003.806 S3C4T2 Fl. 2.231 9 Quanto aos itens remanescentes (4.1 e 4.2 do Relatório Fiscal), a autuada e responsáveis solidárias apresentaram Recurso Voluntário tempestivo, do qual tomo conhecimento. Primeiramente, adentrarei em argumentos de mérito, vez que a preliminar de decadência é influenciada pela existência, ou não, de dolo apontado pela fiscalização. Por sua vez, o dolo e a multa qualificada aplicada somente poderão ser analisados após a discussão em torno da validade do crédito básico glosado. Assim, para facilitar a análise a ser depreendida, divido esse tópico nos seguintes subtópicos: II.1. Item 4.1 do Relatório Fiscal Créditos decorrentes de operações isentas, não tributáveis ou sujeitas à alíquota zero II.2. Item 4.2 do Relatório Fiscal Classificação fiscal e diferença de Alíquotas na tomada de créditos de insumos oriundos da Zona Franca de Manaus II.3. Do dolo e da multa qualificada aplicada II.4. Da decadência do período de 01/01/2006 a 20/12/2006 II.5. Da responsabilidade solidária Feito este breve intróito, passo ao julgamento. II.1 ITEM 4.1 DO RELATÓRIO FISCAL CRÉDITO DECORRENTE DE OPERAÇÕES ISENTAS, NÃO TRIBUTÁVEIS OU SUJEITAS À ALÍQUOTA ZERO Sustenta a Recorrente com base no princípio da não cumulatividade que seria válido o crédito decorrente de insumos imunes, isentos, não tributados ou tributados à alíquota zero. Do Relatório Fiscal se depreende que este crédito não se refere à fornecedores situados na Zona Franca de Manaus, mas "de diversos fornecedores espalhados pelo território nacional" (efl. 1.733). Após uma longa e intensa discussão, esta questão foi sedimentada pelo Supremo Tribunal Federal em sede de repercussão geral no RE n.º 398.3653, publicado em setembro/2015, firmada a tese no sentido de que "o princípio da não cumulatividade não assegura direito de crédito presumido de IPI para o contribuinte adquirente de insumos não tributados, isentos ou sujeitos à alíquota zero.". A íntegra daquele julgado evidencia que foi discutido naquele processo a questão trazida nos presentes autos, inclusive com o breve histórico da jurisprudência conflitante do STF sobre a matéria: 3 "Recurso extraordinário. Repercussão geral. 2. Tributário. Aquisição de insumos isentos, não tributados ou sujeitos à alíquota zero. 3. Creditamento de IPI. Impossibilidade. 4. Os princípios da não cumulatividade e da seletividade, previstos no art. 153, § 3º, I e II, da Constituição Federal, não asseguram direito de crédito presumido de IPI para o contribuinte adquirente de insumos não tributados ou sujeitos à alíquota zero. Precedentes. 5. Recurso não provido. Reafirmação de jurisprudência." (RE 398365 RG, Relator Ministro Gilmar Mendes, julgado em 27/08/2015, DJe188 divulgado 21/09/2015, publicado 22/09/2015 grifei) Fl. 2235DF CARF MF 10 "A questão constitucional em debate diz respeito à interpretação do art. 153, § 3º, II, da Constituição Federal, que prevê o princípio da não cumulatividade do IPI com a compensação do que for devido em cada operação com o montante cobrado nas anteriores, no caso de aquisição de insumos isentos, não tributados ou sujeitos à alíquota zero. Há jurisprudência consolidada na Corte sobre o assunto. O entendimento do Supremo Tribunal Federal é no sentido de ser indevido o creditamento do IPI referente à aquisição de insumo não tributado, isento ou sujeito à alíquota zero. Como é cediço, esse tema tem como paradigmas o RE 353.657/PR, Rel. Min. Marco Aurélio, e o RE 370.682/SC, Rel. Min. Ilmar Galvão, cujas ementas transcrevo abaixo: IPI INSUMO ALÍQUOTA ZERO AUSÊNCIA DE DIREITO AO CREDITAMENTO. Conforme disposto no inciso II do § 3º do artigo 153 da Constituição Federal, observase o princípio da nãocumulatividade compensando se o que for devido em cada operação com o montante cobrado nas anteriores, ante o que não se pode cogitar de direito a crédito quando o insumo entra na indústria considerada a alíquota zero. IPI INSUMO ALÍQUOTA ZERO CREDITAMENTO INEXISTÊNCIA DO DIREITO EFICÁCIA. Descabe, em face do texto constitucional regedor do Imposto sobre Produtos Industrializados e do sistema jurisdicional brasileiro, a modulação de efeitos do pronunciamento do Supremo, com isso sendo emprestada à Carta da República a maior eficácia possível, consagrandose o princípio da segurança jurídica. (RE 353.657, Rel. Min. Marco Aurélio, Tribunal Pleno, DJe 7.3.2008) Recurso extraordinário. Tributário. 2. IPI. Crédito Presumido. Insumos sujeitos à alíquota zero ou não tributados. Inexistência. 3. Os princípios da não cumulatividade e da seletividade não ensejam direito de crédito presumido de IPI para o contribuinte adquirente de insumos não tributados ou sujeitos à alíquota zero. 4. Recurso extraordinário provido. (RE 370682, Rel. Min. Ilmar Galvão, Relator(a) p/ Acórdão: Min. Gilmar Mendes, Tribunal Pleno, DJe 19.12.2007) O mesmo entendimento, aliás, é, de certo modo, confirmado por ocasião do julgamento do já citado RERG 590.809, processoparadigma da repercussão geral. Vejase, a propósito, trecho do voto do relator do caso, Min. Marco Aurélio, onde se lê: Quanto aos insumos sujeitos à alíquota zero e não tributados, o debate ocorreu nos Recursos Extraordinários nº 350.446/PR, nº 353.668/PR e nº 357.277/RS, relator ministro Nelson Jobim, apreciados em 18 de dezembro de 2002. O Tribunal de origem havia reconhecido o crédito para insumos tanto isentos como sujeitos à alíquota zero e não tributados. A União, recorrente, aduziu que o tratamento dado à isenção não alcançaria os demais casos, não sendo possível, na situação concreta, observar o precedente do aludido Recurso Extraordinário nº 212.484/RS. Vêse que o ente federativo acatou a óptica do Supremo no tocante à isenção, mantendo a insurgência apenas em relação à alíquota zero e à não tributação. O Pleno, na linha desenvolvida pelo relator, não admitiu diferenciar os institutos para o fim de fruição dos créditos, consignando linearmente o direito da então recorrida. Essas decisões não transitaram em julgado, tendo a União interposto embargos de declaração. Tal circunstância, todavia, considerada a excepcionalidade do caráter modificativo dos declaratórios, não retirou a força persuasiva dos pronunciamentos. A embargante insistiu nas diferenças entre isenção e os regimes de não tributação e alíquota zero, inclusive quanto à dificuldade, nesses últimos casos, de definir a forma de apuração dos ditos créditos presumidos, sem arguir omissões, contradições e obscuridades. Por isso, os recursos foram desprovidos. Os segundos declaratórios também não mereceram acolhimento, mesmo em momento posterior à mudança da jurisprudência do Tribunal sobre a questão de fundo. Em Fl. 2236DF CARF MF Processo nº 10855.724603/201164 Acórdão n.º 3402003.806 S3C4T2 Fl. 2.232 11 outras palavras, apesar da inexistência de desfecho imediato desses processos, o Supremo sinalizou com cores fortes a uniformização do entendimento atinente às três hipóteses de desoneração: assentou o direito ao crédito não apenas no caso de aquisição de insumos isentos, mas também de não tributados e sujeitos à alíquota zero. (Grifou meu) Aduz também Sua Excelência, a propósito da evolução do tema nesta Corte, o seguinte: Conforme fiz ver anteriormente, apenas em 25 de junho de 2007, nos já mencionados Recursos Extraordinários nº 353.657/PR e nº 370.682/SC, presente julgamento relativo a insumos e matériasprimas não tributados e sujeitos à alíquota zero, o Tribunal reviu a posição adotada e passou a proclamar a ausência do direito. Consoante revelado nos votos vencedores, a tese firmada alcança, inclusive, os casos de isenção, no tocante aos quais o crédito também se tornou indevido. Portanto, a mudança ocorreu somente cinco anos depois das últimas decisões do Supremo favoráveis aos contribuintes. Pois bem. Não resta dúvida de que a jurisprudência do STF firmouse no sentido de que os princípios da não cumulatividade e da seletividade não asseguram direito de crédito presumido de IPI para o contribuinte adquirente de insumos não tributados ou sujeitos à alíquota zero." (grifei) Assim, consoante consolidado pelo STF, em julgado que deve ser reproduzido por este Conselho à luz do art. 62, §2º do Regimento Interno, descabido o aproveitamento do crédito de IPI nas aquisições de insumos isentos, não tributados ou sujeitos à alíquota zero. Com isso, nego provimento ao Recurso Voluntário neste ponto. II.2 ITEM 4.2 DO RELATÓRIO FISCAL CLASSIFICAÇÃO FISCAL E DIFERENÇA DE ALÍQUOTAS NA TOMADA DE CRÉDITOS DE INSUMOS ORIUNDOS DA ZONA FRANCA DE MANAUS Em conformidade com o RIPI/2002, a classificação fiscal das mercadorias é adotada de acordo com um dos códigos da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM). elencadas na TIPI Para a correta interpretação desses códigos, o Regulamento exige a observância das "Notas Explicativas do Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias (NESH), do Conselho de Cooperação Aduaneira na versão lusobrasileira, efetuada pelo Grupo Binacional Brasil/Portugal (...) bem assim das Notas de Seção, Capítulo, posições e de subposições da Nomenclatura do Sistema Harmonizado" (art. 17, RIPI) A classificação fiscal das mercadorias é, portanto, uma atividade jurídica de avaliar a subsunção do fato à norma, pautada em dados técnicos concernentes à mercadoria. Assim, para avaliar o enquadramento do produto no código correto da NCM, necessário se atentar para suas particularidades técnicas e seu correspondente enquadramento dentro da Convenção do Sistema Harmonizado (com suas Regras Gerais Interpretativas, Notas de Seção, de Capítulo e de Subposição). Esse caminho interpretativo, que deve ser observado pelos auditores fiscais quando da revisão da NCM adotada pelos contribuintes, foi muito bem elucidado em recente Fl. 2237DF CARF MF 12 julgamento neste E. CARF em julgado de relatoria do Conselheiro Rosaldo Trevisan, que consignou em sua ementa: "Assunto: Classificação de Mercadorias Data do fato gerador: 30/10/2000 CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS. FUNDAMENTO. SISTEMA HARMONIZADO (SH). NOMENCLATURA COMUM DO MERCOSUL (NCM). Qualquer discussão sobre classificação de mercadorias deve ser feita à luz da Convenção do SH (com suas Regras Gerais Interpretativas, Notas de Seção, de Capítulo e de Subposição), se referente aos primeiros seis dígitos, e com base no acordado no âmbito do MERCOSUL em relação à NCM (Regras Gerais Complementares e Notas Complementares), no que se refere ao sétimo e ao oitavo dígitos. CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS. ATIVIDADE JURÍDICA. ATIVIDADE TÉCNICA. DIFERENÇAS. A classificação de mercadorias é atividade jurídica, a partir de informações técnicas. O perito, técnico em determinada área (mecânica, elétrica etc.) informa, se necessário, quais são as características e a composição da mercadoria, especificandoa, e o especialista em classificação (conhecedor das regras do SH e outras normas complementares), então, classifica a mercadoria, seguindo tais disposições normativas. CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS. LAUDO TÉCNICO. RECONHECIDA INSTITUIÇÃO. ACOLHIDA. Solicitado pela recorrente laudo técnico complementar, por reconhecida instituição, buscando possibilitar a precisa identificação da função de um dos elementos que compõem a mercadoria que é objeto de contencioso sobre classificação, e aprovada a solicitação pelo colegiado julgador, legítima a acolhida dos resultados do laudo correspondente para a correta classificação da mercadoria. (...)" (Processo n.º 11128.006876/200309. Data da Sessão 26/09/2016. Relator Rosaldo Trevisan Acórdão n.º 3401003.229. Unânime grifei). No presente caso, como indicado no Relatório Fiscal, a autuação decorre do fato da Recorrente ter se utilizado "da classificação fiscal 2106.90.10, com “código ex” 02, que leva ao creditamento à alíquota de 40% (quarenta por cento), ao passo que, o enquadramento correto, consoante informação obtida, por insistência, junto ao fornecedor é “EX 01”, com creditamento à alíquota de 27% (vinte e sete por cento)" (efls. 1.733/1.734). Vejamos abaixo a descrição da posição NCM 2106.90.10 e seus Ex 01 e 02 na TIPI: 2106.90.10 Preparações dos tipos utilizados para elaboração de bebidas Ex 01 Preparações compostas, não alcoólicas (extratos concentrados ou sabores concentrados), para elaboração de bebida da posição 22.02, com capacidade de diluição superior a 10 partes da bebida para cada parte do concentrado Ex 02 Preparações compostas, não alcoólicas (extratos concentrados ou sabores concentrados), para elaboração de bebida refrigerante do Capítulo 22, com capacidade de diluição de até 10 partes da bebida para cada parte do concentrado Da leitura de descrição das posições, vislumbrase apenas uma diferença entre os produtos enquadrados no Ex 01 e Ex 02, qual seja, a "capacidade de diluição" do produto (concentrado). Essa capacidade pode ser superior a 10 partes da bebida para cada parte do concentrado ("Ex 01"), ou igual ou inferior a 10 partes da bebida para cada parte do concentrado ("Ex 02"). Fl. 2238DF CARF MF Processo nº 10855.724603/201164 Acórdão n.º 3402003.806 S3C4T2 Fl. 2.233 13 Importante se atentar que a finalidade dos produtos é a mesma: utilização no processo produtivo de bebidas, seja da posição 22.02 (na qual se enquadram os refrigerantes Ex 01) ou de bebidas refrigerantes do Capítulo 22 da TIPI (Ex 02) Para respaldar seu entendimento no sentido de que o produto adquirido pela Recorrente como insumo se enquadra no "Ex01", a fiscalização apresentou a resposta à intimação da empresa que forneceu os concentrados ("Polyaromas"). Conforme histórico trazido no Relatório Fiscal do auto de infração: "Na planilha de creditamento apresentada pela fiscalizada detalhando os registros do RAIPI9, vêse tomou crédito à alíquota de 40%, indicando, portanto, que os insumos adquiridos estariam enquadrados no Ex02, com diluição de até 10 partes da bebida para cada parte de concentrado. Na circularização, buscamos ratificar tal informação, indagando ao fornecedor, “Polyaromas” qual seria a correta classificação fiscal do produto fornecido, conforme se lê no item 3 do Termo de diligência Fiscal, recebido pela empresa em 09/11/2010: “3 Classificação dos produtos fabricados relacionados no item 2, contendo código NCM e Código EXTIPI, se aplicável” Ora, a reposta da diligenciada, Polyaromas, não trouxe a classificação NCM completa, pois não apontou a existência de código “EX”. Destarte, reintimamos a fornecedora, com termo específico, o Termo de Intimação Fiscal 002, entregue via postal em 03/12/2010, em que se lê: “2 Intimase seja refeita a planilha apresentada conforme itens 01 e 03 do referido "Termo de Intimação", dando destaque à informação do código EX dos produtos comercializados, e, facultativamente, coluna de "descrição complementar da mercadoria", de forma a identificar INEQUIVOCAMENTE a capacidade de diluição do concentrado fornecido.” Dessa vez, após regularmente reintimada, a Polyaromas, em resposta enviada via postal e recepcionada neste SEFIS em 14/12/2010, forneceu a classificação fiscal completa, afirmando que o produto comercializado referiase ao EX01, o que conduz à utilização da alíquota de 27% e não de 40% como praticado pela “Refriso”. Ainda buscando corroborar a assertiva de que a alíquota utilizada está em descompasso com a legislação pertinente, elaboramos os Termo de Intimação fiscal 004, de 13/01/2010, recebido pela empresa em 17/01/2010, em que se relembra os dispositivos legais relativos ao enquadramento da NCM do insumo em questão, e, dentre outros itens a serem explorados em partes específicas deste relatório, indagouse: “1.2.1.1) Das notas fiscais dos insumos adquiridos de que trata esta intimação e que foram objeto de crédito de IPI, qual a classificação fiscal (com o código "ex"), tendo por base a descrição constante na TIPI” Em resposta ao referido termo, em documento protocolado em 24/11/2011, a Refriso diz que utilizou o Ex02, e que o produto possui a diluição desse enquadramento. Já tendo reunido provas de que a classificação está incorreta, ficou a matéria reservada para a Autuação que ora se leva a termo. " (efls. 1.731/1.732 grifei) Assim, a fiscalização se respaldou na informação do fornecedor, constante do processo (termos de intimação e respostas às efls. 1.391/1.418), para concluir o enquadramento fiscal correto do produto. Fl. 2239DF CARF MF 14 Com efeito, a resposta da fornecedora foi contundente no sentido de que os produtos por ela fornecidos à Recorrente se enquadram no Ex 01 da NCM 21069010. É o se depreende das planilhas trazidas pela fornecedora às efls. 1.415/1.417. Somente para melhor visualização, transcrevo abaixo parte do teor da planilha da efl. 1.415: Esse mesmo quadro foi apresentado para todas as notas fiscais objeto da autuação emitidas pela Polyaromas (cópias às efls. 963/970 e 974/989), todas com a mesma informação da NCM/SH: "21069010 EX 01". Buscando afastar a premissa adotada pela fiscalização, a Recorrente apresentou em sua impugnação informação prestada pela Técnica Irany da Mota Barbosa no sentido de que o concentrado foi utilizado no processo produtivo da Recorrente na proporção de até uma parte de concentrado para 10 partes do produto final, considerando o próprio registro do produto final perante o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (efls. 1.931/1.960). Assim, a Recorrente procedeu com o enquadramento no "Ex 02" por considerar a forma de emprego do insumo em seu processo produtivo e alguns dos produtos finais por ela comercializados. Ora, uma vez que está em discussão a capacidade de diluição do insumo, a fiscalização foi coerente em considerar a informação prestada pelo fornecedor, vez que detentor das informações técnicas quanto ao produto por ele comercializado. O que se vislumbra no caso em tela é que a Recorrente adquiriu um concentrado com capacidade de diluição superior à dez partes das bebidas, resolvendo, para alguns produtos de sua produção (cujas informações foram trazidas aos autos), por utilizálos na proporção de 1:10, ou seja, com a efetiva diluição de até 10 vezes. Entretanto, a forma de utilização do insumo pela Recorrente em seu processo produtivo não altera sua composição e características originárias, sendo dotado de capacidade de diluição superior à efetivamente utilizada pela Recorrente, como atestado pelo fornecedor. Importante mencionar que os documentos trazidos pela Recorrente aos autos apenas trazem algumas das mercadorias por ela comercializadas com a especificação da proporção da dissolução do concentrado considerando cada bebida produzida, tal como exigido à época pelo item 4.2.1.2 do Regulamento Técnico para fixação dos padrões de identidade e qualidade do preparado ou concentrado líquido para refrigerantes, aprovado pela Portaria n.º 544/1998 do então Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento MAPA. Estes documentos, contudo, não identificam qual a capacidade de diluição original da matéria prima adquirida pela Recorrente, sendo certo que, como consignado nesta mesma Portaria, a composição e características do concentrado/preparado não deve ser alterada "pelos materiais dos recipientes, dos equipamentos utilizados no seu processamento e comercialização" (item 4.2.2.2): Fl. 2240DF CARF MF Processo nº 10855.724603/201164 Acórdão n.º 3402003.806 S3C4T2 Fl. 2.234 15 "REGULAMENTO TÉCNICO PARA FIXAÇÃO DOS PADRÕES DE IDENTIDADE E QUALIDADE PARA PREPARADO OU CONCENTRADO LÍQUIDO PARA REFRESCO OU REFRIGERANTE 1. ALCANCE 1. 1. Objetivo: Fixar a identidade e as características mínimas de qualidade a que deverá obedecer o Preparado ou Concentrado Líquido Para Refresco ou Refrigerante. 1.2. Âmbito de Aplicação: O presente Regulamento se aplica ao Preparado ou Concentrado Líquido para Refresco ou Refrigerante. (...) 4.2. Requisitos: 4.2.1. Características sensoriais e tísicoquímicas: 4.2.1.1. As características sensoriais e físicoquímicas deverão estar em consonância com a composição do produto. 4.2.1.2. O preparado ou concentrado líquido para refresco ou refrigerante, quando diluído para consumo deverá ter a sua composição de acordo com os limites fixados nos Padrões de Identidade e Qualidade para o respectivo refrigerante ou refresco. 4.2.1.3. O preparado ou concentrado líquido para refresco ou refrigerante que apresentar característica organoléptica própria da matéria prima natural de sua origem, ou cujo nome se lhe assemelhe, conterá, obrigatoriamente, esta matéria prima, nas quantidades mínimas estabelecidas nos Padrões de Identidade e Qualidade para refresco e refrigerante, no produto diluído. 4.2.1.4. O preparado ou concentrado líquido para refresco ou refrigerante que não atender ao disposto no item 4.2.1.3. será denominado de " Artificial ". (...) 4.2.2. Acondicionamento 4.2.2.1. A embalagem do produto deverá obedecer aos padrões estabelecidos na legislação. 4.2.2.2. O preparado ou concentrado líquido para refresco ou refrigerante não deverá ter suas características organolépticas e composição alteradas pelos materiais dos recipientes, dos equipamentos utilizados no seu processamento e comercialização." (grifei) Assim, entendo que deve ser mantido o lançamento, devendo ser considerada a informação prestada pelo fornecedor quanto à característica do produto por ele comercializado junto à Recorrente. Contudo, essencial desde já frisar que, em atenta análise das notas fiscais acostadas aos autos do fornecedor Polyaromas (efls. 963/970 e 974/989), não consta a identificação do "Ex" da NCM 2106.90.10 adotada pelo fornecedor. Com efeito, no campo dos dados adicionais das notas fiscais consta, apenas, o número da NCM. Vejamos a título de exemplo pela análise do campo da NF n.º 70 (efl. 974): Fl. 2241DF CARF MF 16 Além disso, a fiscalização não trouxe aos autos qualquer elemento de prova suscetível de comprovar que a Recorrente, desde o momento da aquisição dos produtos da empresa Polyaromas, tinha pleno conhecimento da sua efetiva capacidade de diluição (e, consequentemente, o "Ex" aplicável), como, por exemplo, o rótulo do produto que atestasse essa capacidade. Considero essa informação relevante para a análise do dolo e da qualificação da multa aplicada pela fiscalização, a ser analisada de forma pormenorizada no tópico a seguir. II.3 DO DOLO E DA MULTA QUALIFICADA APLICADA Segundo o Relatório Fiscal do Auto de Infração, o dolo, com "a firme intenção da empresa em promover a redução do valor da obrigação tributária principal (CTN Código Tributário Nacional), o montante do imposto devido (Lei 4502/64)" (efl. 1.737) teria sido identificada no presente caso por dois motivos, abaixo analisados. II.3.1. Motivo I Constituição por meio de Offshore visando esvaziamento patrimonial. Neste ponto, afirma a fiscalização que a Recorrente foi constituída a partir do arrendamento do ativo imobilizado da empresa Refrigerantes Vedete Ltda., de tradicionais empresários do ramo de bebidas da região de Sorocaba (núcleo familiar Momesso) e que possui somente dois sócios, uma pessoa física e outra pessoa jurídica constituída no exterior ("offshore" localizada no Uruguai denominada Telley Corp. S/A). Em resumo, afirmou que: "(...) empresa foi constituída em 2000, com dois sócios, sendo um pessoa física, e o outro pessoa jurídica, sociedade anônima, com sede no Uruguai, uma “offshore”10. O sócio pessoa física é periodicamente “substituído”, e por vezes, pessoa ligada à Fl. 2242DF CARF MF Processo nº 10855.724603/201164 Acórdão n.º 3402003.806 S3C4T2 Fl. 2.235 17 própria empresa na condição de prestador de serviço (assessoria) ou empregado. O percentual das cotas, com alteração efetuada em 08/12/2003 é de 1% para a Pessoa Física e 99% para a pessoa Jurídica. Nos estudos efetuados não consta que a pessoa jurídica “investidora”, Telley Corp. S/A tenha feito aportes de recursos, tampouco retiradas; ou tenha recebido lucros ou dividendos, juros sobre capital próprio ou quaisquer outras espécies de remuneração pelo “investimento” efetuado desde a criação da empresa." (efl. 1.738 grifei) Contudo, a fiscalização em nenhum momento confirmou o eventual esvaziamento patrimonial que teria ocorrido, ou mesmo que a Recorrente não teria capacidade econômica e financeira para arcar com os valores de imposto devido. A fiscalização se pautou a trazer considerações quanto à constituição societária da pessoa jurídica, a meu ver apenas suficientes para afirmar que haveria uma aparente constituição de grupo econômico com empresas do mencionado "núcleo familiar Momesso". Ora, em nenhum momento a fiscalização indica como essa organização societária estaria implicando em um esvaziamento patrimonial ou mesmo no não pagamento doloso do IPI lançado ou de qualquer outro tributo. Assim, entendo que a descrição e os documentos (societários) trazidos pela fiscalização neste ponto são insuficientes para infirmar a existência de um intuito doloso, inexistindo qualquer nexo de causalidade entre o fato descrito pela fiscalização (organização societária com empresa localizada no exterior) e a consequência imputada (existência de dolo na falta de pagamento de impostos e suposto esvaziamento patrimonial). A fiscalização não descreveu e não demonstrou qual teria sido a conduta dolosa ou fraudulenta praticada pelo sujeito passivo. Importante salientar que a composição analítica do ativo imobilizado da Recorrente foi apresentado à época da fiscalização (efls. 993/1.006). Nesta relação constam imóveis e veículos sobre os quais a fiscalização não se manifestou para afirmar a ocorrência de esvaziamento patrimonial. Ademais, ao contrário do que foi afirmado pela decisão de primeira instância, não entendo que teria restado "evidente o intuito de impedir ou retardar o conhecimento por parte da autoridade fazendária das condições pessoais do contribuinte" (efl. 2.062). Todas as operações societárias da Recorrente foram devidamente registradas na Junta Comercial, como confirmado pela própria fiscalização na documentação acostada aos autos. Em análise dos autos, não consegui identificar qualquer condição pessoal do contribuinte que teria sido omitida ou fraudada. Por fim, possível constatar que esse motivo não foi determinante para a fiscalização, vez que a multa qualificada em razão de dolo não foi aplicado para todo o Auto de Infração, mas apenas para os itens 4.1 e 4.2 como será pormenorizado adiante. Desta forma, não vislumbro fundamento fático ou jurídico para respaldar esse motivo trazido pela fiscalização que denotaria a existência de dolo e, por conseguinte, a aplicação da multa qualificada. Afastado esse motivo, adentro no outro descrito pela fiscalização. Fl. 2243DF CARF MF 18 II.3.2. Motivo II Tomada de crédito a alíquota superior à da TIPI Quanto a este motivo, afirmou a fiscalização que seria cabível a imposição de multa qualificada por dolo apenas para as infrações identificadas nos itens 4.1 e 4.2 do relatório fiscal do Auto de Infração "em face da intenção em utilizarse de crédito de valor superior ao que lhe seria de direito, escriturando no RAIPI o respectivo crédito, promove a redução do montante do imposto devido, subsumindose à norma legal punitiva insculpida na lei, que determina a qualificação da multa" (efl. 1.742) Primeiramente, quanto à tese jurídica em torno da possibilidade de aproveitamento de crédito sobre insumos não tributados ou tributados à alíquota zero (item 4.1), vislumbrase que no período autuado (01/01/2006 a 31/12/2008) ainda era possível encontrar posicionamentos favoráveis na jurisprudência judicial e na própria seara administrativa. A título de exemplo, menciono manifestação proferida em 24/01/2006 pela Câmara Superior: "IPI. CRÉDITO DE IPI DE PRODUTOS ISENTOS Precedentes da CSRF. Conforme decisão do Pleno do Supremo Tribunal Federal, ao julgar o Recurso Extraordinário nº 212.4842 RS, não ocorre ofensa à Constituição Federal (art. 153, § 3, II) quando o contribuinte do IPI creditase do valor do tributo incidente sobre insumos adquiridos sob o regime de isenção. Recurso especial negado." (Número do Processo 10640.001795/9987 Data da Sessão 24/01/2006 Relator Henrique Pinheiro Torres Acórdão CSRF/0202.211 grifei) A alteração no cenário jurisprudencial começou a ser perpetrada por meio dos julgados do Plenário do Supremo Tribunal Federal nos Recurso Extraordinários nº 353.657 (Relator Ministro Marco Aurélio) e nº 370.682 (Relator Ministro Ilmar Galvão) em sessão de julgamento ocorrida em 25/06/2007. Em razão da apresentação de Embargos de Declaração, referidas decisões somente transitaram em julgado em 21/09/2010. Esse histórico foi trazido no julgamento da Repercussão Geral mencionada no item II.1 deste voto, julgada apenas em 2015. Diante desse cenário, vislumbrase que a Recorrente estava respaldada em tese jurídica por ela defendida, e não negada desde o início da fiscalização, fato esse que não configura conduta dolosa. Esse entendimento já foi trazido, inclusive, em primeira instância administrativa e referendado por este CARF, como se depreende de julgamento de Recurso de Ofício de relatoria do Conselheiro Andrada Márcio Canuto Natal, proferido no Acórdão 3301 003.006, cujos fundamentos aqui adoto na forma do art. 50, §1º, da Lei n.º 9.784/99: "Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados IPI Período de apuração: 01/06/2006 a 31/12/2009 DECADÊNCIA DO LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO. Havendo pagamento antecipado, o prazo decadencial é contado de cinco anos a partir da ocorrência do fato gerador, ressalvado a prática de dolo, fraude ou simulação. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. IMPROCEDÊNCIA. A qualificação da multa somente pode ocorrer quando a autoridade fiscal provar de modo inconteste, o dolo por parte da contribuinte, condição imposta pela lei. Não estando comprovado com elementos contundentes o intuito de fraude, deve ser afastada a aplicação da multa qualificada. Fl. 2244DF CARF MF Processo nº 10855.724603/201164 Acórdão n.º 3402003.806 S3C4T2 Fl. 2.236 19 IPI. CRÉDITOS DE PRODUTOS ISENTOS. ZFM. ART. 69 DO RIPI/2002. Em regra, é inadmissível, por total ausência de previsão legal, a apropriação, na escrita fiscal do sujeito passivo, de créditos do imposto alusivos a insumos isentos, não tributados ou sujeitos a alíquota zero, uma vez que inexiste montante do imposto cobrado na operação anterior. A apropriação de crédito ficto ou presumido de IPI depende de autorização de lei específica a teor do que dispõe o § 6º do art. 150 da CF, o que não acontece no caso dos produtos adquiridos com a isenção de que trata o art. 69 do RIPI/2002. IPI. CRÉDITOS DE PRODUTOS ISENTOS. ZFM. ART. 82, III, DO RIPI/2002. A isenção prevista no art. 82, inc. III, do RIPI/2002 é condicionada a que os produtos sejam fabricados com matériaprima agrícola e extrativa vegetal de produção regional. Só nessa condição também é que o adquirente dos produtos isentos, podem apropriarse dos créditos fictos conforme autorizativo do art. 175 do RIPI/2002. Os insumos AÇÚCAR MASCAVO e CAFEÍNA não se encaixam no conceito de matériaprima agrícola e extrativa vegetal de produção regional, pois tratamse de produtos industrializados. ZFM. FISCALIZAÇÃO DE TRIBUTOS. COMPETÊNCIA DA RFB. A Secretaria da Receita Federal do Brasil tem plena competência para a fiscalização de tributos federais na ZFM, não dependendo de manifestação prévia da Suframa para o exame de operações que envolvam o cumprimento de Processos Produtivos Básicos. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA. As multas de ofício que não forem recolhidas dentro dos prazos legais previstos, estão sujeitas à incidência de juros de mora equivalentes à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais, acumulada mensalmente, até o último dia do mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês do pagamento. Recurso de Ofício Negado Recurso Voluntário Negado (...) A multa de ofício qualificada de 150% foi aplicada em relação às duas infrações em que se acusa o aproveitamento indevido de créditos de IPI nas aquisições de produtos oriundos da Zona Franca de Manaus dos fornecedores HVR e Nidala. Essas duas questões de mérito são objeto do recurso voluntário e devem ser aqui decididas por essa turma de julgamento. Como bem decidiu a decisão recorrida, tratase de enfrentamento de tese jurídica há muito em discussão nos processos administrativos e judiciais, tanto que está pendente de julgamento no STF no RE 592891, sob o rito da repercussão geral prevista no art. 543B do Código de Processo Civil. Os créditos foram aproveitados pelo contribuinte, o qual não negou a sua origem e frisese, desde o início da fiscalização, informa que foram apropriados consubstanciados em entendimentos do Supremo Tribunal Federal. Não houve a acusação de prática específica de fraude com o fim de obter referidos créditos, condição necessária para que haja a aplicação e manutenção da multa qualificada a qual só é possível mediante a comprovação da prática dos crimes previstos nos art. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/64. Para tanto a fiscalização deve demonstrar a intenção do agente em praticar a sonegação, a fraude e o conluio. Art . 71. Sonegação é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; II das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Fl. 2245DF CARF MF 20 Art . 72. Fraude é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do impôsto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. Art . 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos arts. 71 e 72 Como se depreende da leitura dos dispositivos acima, necessários se faz demonstrar a ação ou omissão dolosa por parte do agente. Penso que isto não está configurado nos autos. De fato a fiscalização demonstrou algumas omissões por parte da recorrente, como por exemplo, a omissão de não informar na DIPJ do anocalendário de 2010, que tinha relação de interdependência com o seu fornecedor HVR. Entendo que essa omissão não tem influência na apuração dos créditos do IPI. Repito, a fiscalizada não deixou de escriturar os créditos, os quais estão baseados em notas fiscais legítimas. Utilizo então parte do voto da decisão recorrida, a qual torna mais didática o entendimento aqui exposado: (...) Pelo exposto no Termo de Verificação Fiscal, entendo que não houve a devida comprovação do evidente intuito de fraude, caracterizado pelas condutas de sonegação, fraude ou conluio, dispostas nos arts. 71 a 73 da Lei nº 4.502, de 1996. Não se vislumbra uma relação de causa e efeito entre os atos praticados pela contribuinte e a autuação. A demonstrada interdependência entre a autuada e a empresa HVR CONCENTRADOS DA AMAZÔNIA LTDA não tem qualquer conseqüência em relação à utilização indevida dos créditos. A glosa destes não decorre da relação de interdependência. A omissão da relação de interdependência poderia gerar, quando muito, uma penalidade por embaraço à fiscalização, nada mais do isso. Não se pode também ignorar que o aproveitamento indevido do crédito está amparado em tese jurídica, que embora equivocada, foi e é objeto de controvérsia por mais de duas décadas, e não é possível caracterizar uma conduta dolosa quando a contribuinte apenas procede de acordo com entendimento jurídico controverso, sem fraudar qualquer dos documentos envolvidos nas operações. Quanto às operações de aquisições da empresa NIDALA DA AMAZÔNIA LTDA, as alegações da fiscalização para aplicar a multa qualificada são ainda mais frágeis. O fato da NIDALA informar à impugnante de que a escrituração do crédito presumido estaria amparada em princípios constitucionais também não caracteriza a conduta dolosa, tratandose, como mencionado anteriormente, em tese jurídica. Para aplicar a multa agravada é necessária a prova da evidente intenção de sonegar ou fraudar, condição imposta pela lei. A prova deve ser material, pois o evidente intuito de fraude não pode ser presumido. Fazse necessário que estejam perfeitamente identificadas e comprovadas as circunstâncias materiais do fato, com vistas a configurar o evidente intuito de fraude. (...) De forma que não há reparos a fazer na decisão que afastou a qualificação da multa de ofício." (Número do Processo 10830.727274/201272 Data da Sessão 22/06/2016 Relator Andrada Márcio Canuto Natal. Acórdão 3301003.006. Unânime quanto ao recurso de ofício grifei) Por sua vez, quanto ao item 4.2 e como já aditando no tópico II.2 acima, vislumbrase que a fiscalização não comprovou o intuito doloso da Recorrente em adotar a classificação "Ex 02" considerando a forma como o concentrado foi utilizado em seu processo produtivo. Fl. 2246DF CARF MF Processo nº 10855.724603/201164 Acórdão n.º 3402003.806 S3C4T2 Fl. 2.237 21 Com efeito, as notas fiscais acostadas aos autos do fornecedor Polyaromas (e fls. 963/970 e 974/989) indicam apenas a NCM 2106.90.10 adotada pelo fornecedor, sem o seu correspondente "Ex". Além disso, a fiscalização não trouxe aos autos qualquer elemento de prova suscetível de comprovar que a Recorrente, desde o momento da aquisição dos produtos da empresa Polyaromas, tinha pleno conhecimento da sua efetiva capacidade de diluição (e, consequentemente, o "Ex" aplicável), como, por exemplo, o rótulo do produto que atestasse essa capacidade. Com isso, não é possível afirmar, com as provas carreadas pela fiscalização aos presentes autos e considerando o contexto narrado pela Recorrente quanto à utilização dos concentrados em seu processo produtivo (como se se tratasse de um produto enquadrado no "Ex 02" e não no "Ex 01"), da efetiva existência intuito doloso de deixar de pagar o IPI. Diante disso, não comprovado o intuito doloso, deve ser igualmente afastado o motivo trazido pela fiscalização quanto ao item 4.2, como já entendido por este CARF: "Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Anocalendário: 2005 PASSIVO FICTÍCIO. Comprovada em parte a existência e exigibilidade das obrigações registradas no passivo, tidas como não comprovadas pelo Fisco, exonerase parcialmente o valor lançado. MULTA QUALIFICADA. DOLO NÃO COMPROVADO. NÃO CABIMENTO. Não tendo sido comprovado o intuito doloso do sujeito passivo pelo Fisco, não cabe a imposição da multa qualificada. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. AUSÊNCIA DE DOLO. Para a caracterização da previsão legal do artigo 135 do CTN deve restar provada a pratica do ato ilegal e o intuito doloso de deixar de pagar o tributo. A responsabilidade tem natureza jurídica subjetiva. Não provado o dolo deve ser excluída a responsabilidade pessoal do recorrente solidário." (Número do Processo 11516.005992/200914 Data da Sessão 24/03/2015 Relator Luiz Tadeu Matosinho Machado (ad hoc) Acórdão 1103001.197 grifei. Unânime quanto à multa qualificada) Assim, diante da ausência de dolo por quaisquer dos motivos apontados pela fiscalização, entendo que deve ser afastada a multa qualificada aplicada, sendo mantida, apenas, a exigência da multa no patamar de 75%, aplicada pela fiscalização com fulcro no art. 80, da Lei n.º 4.502/64. II.4 DA DECADÊNCIA DO PERÍODO DE 01/01/2006 A 20/12/2006 Alega a Recorrente que por ter sido notificada do Auto de Infração em 23/12/2011 (efl. 1.813), teria operado a decadência do direito da Fazenda constituir o crédito tributário em relação ao período anterior compreendido entre 01/01/2006 e 20/12/2006, vez que transcorrido o prazo de 5 (cinco) anos previsto no art. 150, ,§4º do CTN, aplicável ao IPI em conformidade com o art. 124 do RIPI/2002. Nesse ponto, entendo que assiste razão à Recorrente. Atentandose para os Registros de Apuração do IPI RIPI acostados aos presentes autos quanto ao período de 01/2006 a 12/2006 (efls. 1.095/1.204), vislumbrase que Fl. 2247DF CARF MF 22 em todos os períodos de apuração a Recorrente procedeu com o pagamento do valor do IPI, seja por meio: (i) de recolhimento de DARF do valor do saldo devedor devido apurado, conforme guias DARFs acostadas aos autos, relacionadas à efl. 2.211. Essa forma de pagamento foi realizada no 1º e 2º decêndios de 01/2006 (efls. 1.096/1.101), 3º04/2006 e 1º05/2006 (efls. 1.129/1.134), 3º05/2006 e 1º 06/2006 (efls. 1.138/1.143), 2º10/2006 (efls. 1.180/1.182), 1ª e 2º11/2006 (efls. 1.186/1.191) e 1º12/2006 (efls. 1.195/1.197) (ii) da dedução dos débitos e créditos admitido não resultando saldo a recolher, mas sim em crédito transportado para o período seguinte. Essa forma de pagamento foi realizada no 3º01/2006 (efs. 1.102/1.104), 02/2006 a 2º 04/2006 (efls. 1.105/1.128), 2º05/2006 a (efls. 1.135/1.137), 2º06/2006 a 1º10/2006 (efls. 1.144/1.179), 3º10/2006 (efls. 1.0183/1.185), 3º11/2006 (efls. 1.192/1.194) e 2º12/2006 (efls. 1.198/1.200). Com efeito, em conformidade com o art. 124, parágrafo único do RIPI/02, considerase como pagamento para fins do lançamento por homologação do IPI o recolhimento do saldo devedor apurado (parágrafo único, inciso I) e a dedução dos débitos, no período de apuração, dos créditos admitidos (parágrafo único, inciso III): "Art. 124. Os atos de iniciativa do sujeito passivo, no lançamento por homologação, aperfeiçoamse com o pagamento do imposto ou com a compensação do mesmo, nos termos dos arts. 207 e 208 e efetuados antes de qualquer procedimento de ofício da autoridade administrativa (Lei nº 5.172, de 1966, art. 150 e § 1º, Lei nº 9.430, de 1996, arts. 73 e 74, e Medida Provisória nº 66, de 2002, art. 49). Parágrafo único. Considerase pagamento: I o recolhimento do saldo devedor, após serem deduzidos os créditos admitidos dos débitos, no período de apuração do imposto; I o recolhimento do imposto não sujeito a apuração por períodos, haja ou não créditos a deduzir; ou III a dedução dos débitos, no período de apuração do imposto, dos créditos admitidos, sem resultar saldo a recolher." (grifei) Com isso, havendo regular pagamento na hipótese, aplicase o art. 150, §4º, do CTN, na forma sedimentada pelo Superior Tribunal de Justiça em sede de recurso repetitivo, no Recurso Especial n.º 973.733, que deve ser aplicado na forma do art. 62A, do regimento Interno deste Conselho. Reproduzse abaixo o teor daquele julgado: "PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ARTIGO 543C, DO CPC. TRIBUTÁRIO. TRIBUTO SUJEITO A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. INEXISTÊNCIA DE PAGAMENTO ANTECIPADO. DECADÊNCIA DO DIREITO DE O FISCO CONSTITUIR O CRÉDITO TRIBUTÁRIO. TERMO INICIAL. ARTIGO 173, I, DO CTN. APLICAÇÃO CUMULATIVA DOS PRAZOS PREVISTOS NOS ARTIGOS 150, § 4º, e 173, do CTN. IMPOSSIBILIDADE. 1. O prazo decadencial quinquenal para o Fisco constituir o crédito tributário (lançamento de ofício) contase do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, nos casos em que a lei não prevê o pagamento antecipado da exação ou quando, a despeito da previsão legal, o mesmo inocorre, sem a constatação de dolo, fraude ou simulação do contribuinte, inexistindo declaração prévia do débito (Precedentes da Primeira Seção: REsp Fl. 2248DF CARF MF Processo nº 10855.724603/201164 Acórdão n.º 3402003.806 S3C4T2 Fl. 2.238 23 766.050/PR, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 28.11.2007, DJ 25.02.2008; AgRg nos EREsp 216.758/SP, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, julgado em 22.03.2006, DJ 10.04.2006; e EREsp 276.142/SP, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 13.12.2004, DJ 28.02.2005). 2. É que a decadência ou caducidade, no âmbito do Direito Tributário, importa no perecimento do direito potestativo de o Fisco constituir o crédito tributário pelo lançamento, e, consoante doutrina abalizada, encontrase regulada por cinco regras jurídicas gerais e abstratas, entre as quais figura a regra da decadência do direito de lançar nos casos de tributos sujeitos ao lançamento de ofício, ou nos casos dos tributos sujeitos ao lançamento por homologação em que o contribuinte não efetua o pagamento antecipado (Eurico Marcos Diniz de Santi, "Decadência e Prescrição no Direito Tributário", 3ª ed., Max Limonad, São Paulo, 2004, págs.. 163/210). 3. O dies a quo do prazo quinquenal da aludida regra decadencial regese pelo disposto no artigo 173, I, do CTN, sendo certo que o "primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado" corresponde, iniludivelmente, ao primeiro dia do exercício seguinte à ocorrência do fato imponível, ainda que se trate de tributos sujeitos a lançamento por homologação, revelandose inadmissível a aplicação cumulativa/concorrente dos prazos previstos nos artigos 150, § 4º, e 173, do Codex Tributário, ante a configuração de desarrazoado prazo decadencial decenal (Alberto Xavier, "Do Lançamento no Direito Tributário Brasileiro", 3ª ed., Ed. Forense, Rio de Janeiro, 2005, págs.. 91/104; Luciano Amaro, "Direito Tributário Brasileiro", 10ª ed., Ed. Saraiva, 2004, págs.. 396/400; e Eurico Marcos Diniz de Santi, "Decadência e Prescrição no Direito Tributário", 3ª ed., Max Limonad, São Paulo, 2004, págs.. 183/199). 5. In casu, consoante assente na origem: (i) cuidase de tributo sujeito a lançamento por homologação; (ii) a obrigação ex lege de pagamento antecipado das contribuições previdenciárias não restou adimplida pelo contribuinte, no que concerne aos fatos imponíveis ocorridos no período de janeiro de 1991 a dezembro de 1994; e (iii) a constituição dos créditos tributários respectivos deuse em 26.03.2001. 6. Destarte, revelamse caducos os créditos tributários executados, tendo em vista o decurso do prazo decadencial quinquenal para que o Fisco efetuasse o lançamento de ofício substitutivo. 7. Recurso especial desprovido. Acórdão submetido ao regime do artigo 543C, do CPC, e da Resolução STJ 08/2008." (REsp 973.733/SC, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 12/08/2009, DJe 18/09/2009) Nesse sentido foi o entendimento do Conselheiro Júlio César Alves Ramos, em voto vencedor proferido na Câmara Superior, no Acórdão nº 9303003.299, proferido em 24/03/2015 (processo n.º 19515.002386/200454): "Considero que o objetivo desse dispositivo é compatibilizar as normas de apuração do imposto, em face do princípio da nãocumulatividade, àquelas do Código Tributário Nacional relativas ao lançamento por homologação. Mais claramente, dispor sobre os casos em que o contribuinte nada recolhe (em Darf) simplesmente porque entende nada ter a recolher. Registro, por isso, que só estamos a julgar sob tal dispositivo o período de apuração de agosto de 1999, em que nada foi recolhido em DARF, dado que o montante dos créditos que o contribuinte entendia possuir foi suficiente para "liquidar" todo o débito do período. O mesmo não ocorreu com respeito ao mês de junho de 1999, em que houve saldo devedor, aparentemente recolhido por meio de DARF já que a fiscalização o considerou na apuração que fez (planilha de fls. 199/202 dos autos). Fl. 2249DF CARF MF 24 Como se sabe, muito discutiu a doutrina acerca da necessidade de efetivo recolhimento para que a decadência se contasse na forma do art. 150. Os opositores a essa corrente sempre apontaram exatamente essa situação em que o sujeito passivo realiza todos os procedimentos que a Lei lhe exige, mas constata, ao final, nada ter a recolher. Isso não era bem resolvido nos tributos cumulativos, a exemplo do PIS e da COFINS, até porque a possibilidade de saldo zero era remota. No caso do IPI, porém, (e também do ICMS estadual) ela é bem real. Por isso, é que leio a equiparação a pagamento prevista no regulamento do IPI como sendo bastante ampla. Com efeito, pareceme que ela procura assegurar que uma vez escriturados os créditos a que o sujeito passivo entenda ter direito (ainda que erradamente) o prazo de que dispõe a Fazenda para revisar os procedimentos adotados é o do art. 150, salvo se em tais procedimentos comprovadamente tiver agido com dolo, fraude ou simulação. Essa leitura soame mais consentânea com a lógica daquele artigo, que transfere ao sujeito passivo responsabilidades que, a todo sentido, deveriam ser do sujeito ativo (porquanto de seu interesse) e apenas lhe traz como bônus a redução do prazo revisional. Assim, a menos que saiba ou deva saber não serem aproveitáveis (admitidos) os créditos que está a escriturar, hipótese em que essa escrituração seria dolosa, o sujeito passivo não pode apenas arcar com o ônus das disposições do art. 150, isto é, proceder a todos os controles e apurações ali previstos e ainda assim poder ter contra si lavrado auto de infração no prazo do art. 173, I. Essa interpretação, aliás, o colocaria na mesma situação de quem não adotasse qualquer daqueles procedimentos, desde que, também a este, não se pudesse imputar dolo. Notese que quando de efetivo recolhimento em Darf se trata, a situação é rigorosamente a mesma: a menos que se tenha viabilizado de forma dolosa, o recolhimento, ainda que a menor que o devido, tem a força de manter o prazo decadencial contado na forma do art. 150. Desnecessário repetir, a fiscalização não fez acusação de atitude dolosa por parte do autuado e, coerentemente, não qualificou a multa aplicada. Entendo que até o poderia porque não há na legislação do IPI qualquer dispositivo que autorize o creditamento de valores a título de "tributos pagos indevidamente", mas a sua ausência implica, a meu sentir, a manutenção das disposições relativas ao lançamento por homologação." (grifei) Ademais, consoante delineado no item II.3 deste voto, foram afastados os motivos para a existência de dolo apontados pela fiscalização, atraindo, portanto, a aplicação do art. 150, §4º, do CTN. Nesses termos, voto por reconhecer a decadência do período entre 01/01/2006 a 20/12/2006 (1º01/2006 a 2º12/2006), vez que a Recorrente somente foi notificada da autuação em 23/12/2006. II.5 DA RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA Consoante se depreende do Relatório Fiscal, o único fundamento jurídico para a aplicação da responsabilidade solidária no presente caso foi o art. 124, I, do CTN, que expressa: "Art. 124. São solidariamente obrigadas: I as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal" Fl. 2250DF CARF MF Processo nº 10855.724603/201164 Acórdão n.º 3402003.806 S3C4T2 Fl. 2.239 25 Antes de trazer considerações específicas do caso concreto, cabeme fazer maiores digressões quanto ao que se entende por "interesse comum" para fins de aplicação do dispositivo em tela. Como delineado pela doutrina pátria, o dispositivo legal em questão consagra a chamada solidariedade de fato, quando duas ou mais pessoas realizam o mesmo fato gerador, possuindo, por conseguinte, interesse comum nessa situação. Na certeira lição da Conselheira Júnia Roberta Gouveia Sampaio, em manifestação doutrinária sobre o art. 124, I, do CTN: "(...) a expressão "interesse comum" não pode ser tomada como interesse econômico ou social. É fundamental que exista interesse jurídico comum que ocorre a partir de direito e deveres idênticos, entre pessoas situadas no mesmo pólo da relação jurídica. Em outras palavras, as pessoas que se encontram no mesmo pólo da regra matriz de incidência ocupam a posição de contribuintes e não de responsáveis tributários." 4 (grifei) São igualmente claras as lições de Renato Lopes Brecho em relevante estudo sobre o tema da responsabilidade tributária dos sócios, trazendo inclusive um exemplo da solidariedade de fato: "Que é ter interesse comum no fato gerador? Pareceme ser quando há mais de uma pessoa ocupando o mesmo pólo da relação jurídica (agora não de natureza tributária). Especifiquemos melhor. Há situações econômicas em que mais de uma pessoa ocupa uma mesma posição em relação a outras. É o que ocorre na copropriedade. Quando houver mais de um proprietário (contribuinte), haverá solidariedade entre eles." 5 (grifei) Assim, para o enquadramento na regra do art. 124, I, do CTN, necessário que a fiscalização comprove a realização conjunta do fato gerador pelo autuado e correspondentes solidários, com uma verdadeira atuação negocial conjunta. Não basta, portanto, que seja verificado um mero interesse econômico no fato gerador6, mas sim um vínculo jurídico que implica na realização conjunta do fato descrito na lei (da hipótese tributária) por duas ou mais pessoas. Nesse sentido são as manifestações deste E. Conselho, como se depreende, a título exemplificativo, dos julgamentos da Câmara Superior, da 1ª Seção e desta Douta Turma: "Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário 4 SAMPAIO, Júnia Roberta Gouveia. A responsabilidade tributária nos grupos econômicos. In: MACHADO SEGUNDO, Hugo de Brito; MURICI Gustavo Lanna; RODRIGUES, Raphael Silva (Orgs.). O cinquetenário do código tributário nacional. v. 1. Belo Horizonte: D´Plácido, 2017. p. 584 5 BRECHO, Renato Lopes. A Responsabilidade Tributária dos Sócios tem Fundamento Legal? RDDT 182, p.107, novembro/2010. 6 "TRIBUTÁRIO. EXECUÇÃO FISCAL. ISS. LEGITIMIDADE PASSIVA. GRUPO ECONÔMICO. SOLIDARIEDADE. INEXISTÊNCIA. SÚMULA 7/STJ. 1. A jurisprudência do STJ entende que existe responsabilidade tributária solidária entre empresas de um mesmo grupo econômico, apenas quando ambas realizem conjuntamente a situação configuradora do fato gerador, não bastando o mero interesse econômico na consecução de referida situação. 2. A pretensão da recorrente em ver reconhecido o interesse comum entre o Banco Bradesco S/A e a empresa de leasing na ocorrência do fato gerador do crédito tributário encontra óbice na Súmula 7 desta Corte. Agravo regimental improvido." (AgRg no AREsp 21.073/RS, Rel. Ministro Humberto Martins, Segunda Turma, julgado em 18/10/2011, DJe 26/10/2011 grifei) Fl. 2251DF CARF MF 26 Exercício: 2003, 2004 RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. ART. 124, I, DO CTN. INTERESSE COMUM. CABIMENTO. Cabe a imposição de responsabilidade tributária em razão do interesse comum na situação que constitui fato gerador da obrigação principal, nos termos do art. 124, I, do CTN, quando demonstrado, mediante conjunto de elementos fáticos convergentes, que os responsabilizados não apenas ostentavam a condição de sócios de fato da autuada, como estabeleceram entre ela e outras empresas de sua titularidade atuação negocial conjunta. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. ART. 135, III, DO CTN. ADMINISTRADOR DE FATO. INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA DE PESSOAS. CABIMENTO. Cabe a imposição de responsabilidade tributária em razão da prática de atos com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos, nos termos do art. 135, III, do CTN, quando demonstrado, mediante conjunto de elementos fáticos convergentes, que os responsabilizados ostentavam a condição de administradores de fato da autuada, bem como que houve interposição fraudulenta de pessoa em seu quadro societário. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. APLICAÇÃO CONCORRENTE DOS ARTS. 124, I, E 135, III, DO CTN. POSSIBILIDADE. Não se vislumbra qualquer óbice à imputação de responsabilidade tributária aplicandose, de forma concorrente os arts. 124, I, e 135, III, do CTN. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic. Recurso Especial do Procurador Provido. Recurso Especial do Contribuinte Negado." (Número do Processo 10680.015517/200819 Data da Sessão 14/06/2016 Relatora Adriana Gomes Rego Acórdão n.º 9101002.349 grifei) "Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Anocalendário: 2008, 2009, 2010, 2011, 2012 SOLIDARIEDADE TRIBUTÁRIA. INTERESSE COMUM. NÃO DEMONSTRAÇÃO. A imputação de responsabilidade, com suporte no inciso I do art. 124 do CTN, é imprescindível se demonstre o interesse comum dos envolvidos na situação constitutiva do fato gerador. CRÉDITO. RESPONSABILIDADE. ADMINISTRADOR. O administrador responde solidariamente pelo crédito que deu causa em virtude da prática de atos ilícitos." (Número do Processo 11516.723668/201368 Data da Sessão 09/08/2016 Relator Helio Eduardo de Paiva Araújo Nº Acórdão 1301 002.096 grifei) "Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados IPI Período de apuração: 01/07/2010 a 06/02/2012 PAPEL IMUNE ALCANCE A Imunidade Tributária de que trata o artigo 150, IV, alínea "d" da Constituição Federal, está vinculada à natureza do papel, ou seja, sua potencial utilização e também à aplicação do mesmo, ou seja sua real utilização. Não há imunidade se o papel não pode ser destinado à impressão de livros, jornais e periódicos, e a imunidade deixa de existir no caso de aplicação diversa do que previsto neste dispositivo legal. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA O interesse comum indicado no artigo 124, I do CTN, que obriga solidariamente as pessoas, não decorre do interesse econômico no resultado, assim entendido o proveito da situação que constituí o fato gerador, mas sim da solidariedade jurídica, que decorre da realização conjunta da situação que constitui o fato gerador. Súmula CARF nº 2: Fl. 2252DF CARF MF Processo nº 10855.724603/201164 Acórdão n.º 3402003.806 S3C4T2 Fl. 2.240 27 O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. (...) Recursos voluntários e de ofício negados." (Número do Processo 10314.727087/201490 Data da Sessão 26/04/2016 Relator Jorge Olmiro Lock Freire Nº Acórdão 3402003.010 grifei) Atentandose para o caso em tela, vislumbrase que em qualquer momento a fiscalização comprovou a existência de interesse comum, não demonstrando que quaisquer das pessoas físicas ou jurídicas que foram relacionadas teriam realizado o fato gerador do IPI juntamente com o autuado ou que teria ocorrido uma atuação negocial conjunta. O que se depreende do Relatório Fiscal é que a fiscalização aparentemente buscou enquadrar a Recorrente dentro de um grupo econômico, identificando outras pessoas físicas e jurídicas que aparentemente teriam interesse econômico em sua atividade. Contudo, além de não ter deixado evidente esse interesse econômico, partindo de presunções baseadas em informações isoladas, atestase que a fiscalização não demonstrou qualquer interesse jurídico suscetível à atrair a regra do art. 124, I, do CTN Vejamos primeiramente pela análise das pessoas físicas apontadas como solidárias. Pela documentação societária acostada aos autos (efls. 749/761 e efls. 772/790), vislumbrase que durante todo o período autuado, a administração da sociedade foi realizada de forma exclusiva e isolada por uma pessoa indicada no contrato social: a sócia administradora Diva Aparecida Lopes (CPF n.º 032.439.50864), entre março/2003 a maio/2007 e entre julho/2008 a fevereiro/2009; e a administradora Ana Paula Momesso (CPF n.º 307.864.62892) entre maio/2007 e julho/2008. Contudo, no entender da fiscalização, outras pessoas físicas seriam supostos diretores ocultos da sociedade. A única razão para essa presunção é o fato de existirem lançamentos contábeis da Recorrente envolvendo pessoas físicas (de despesas diversas que, por vezes, faziam menção ao termo "diretoria"). Nos termos do Relatório Fiscal: "As provas coletadas na Contabilidade não corroboram a inexistência dos vínculos; pelo contrário, são contundentes em demonstrar que a Refriso, além de remunerá los, trata o núcleo familiar Momesso como proprietários; paga suas despesas operacionais de viagens, pedágios, alimentação; paga suas despesas pessoais de saúde, paga as despesas das respectivas famílias, paga despesas de manutenção das residências; efetua o recolhimento dos impostos particulares, e inclusive paga despesas supérfluas, como lavagem de carros, compra de flores, aparelhos celulares, convites de eventos, doações “beneficentes”, etc. Compulsando os Anexos das Intimações, partes deste processo e que reproduzimos nos anexos XIX a XXVI deste Relatório Fiscal, fica cristalina a relação jurídica de propriedade, de administração, que os diligenciados escusamse em reconhecer." (efl. 1.748) Com fulcro nesse raciocínio, as pessoas físicas abaixo relacionadas foram autuadas na condição de solidárias: Odair Momesso 555.761.76804 Odair Momesso Júnior – 212.698.01899 Fl. 2253DF CARF MF 28 Julio Cesar Momesso – 220.525.51859 João Paulo Momesso – 156.598.96863 Carmen De Fatima Garcia Momesso 057.983.40856 Otávio Momesso – 555.762.06800 Contudo, a menção de pagamento de despesas dessas pessoas físicas pela Recorrente nada se relaciona com os fatos geradores autuados (créditos de IPI), não tendo a fiscalização logrado êxito em posicionar as pessoas acima indicadas como diretores ocultos ou pessoas que teriam influindo para a ocorrência do fato gerador. Toda a descrição trazida pela fiscalização foi no sentido de demonstrar que essas pessoas estariam vinculadas à sociedade. O único vínculo demonstrado foi de cunho econômico, vez que a Recorrente teria arcado com algumas despesas dessas pessoas físicas. Contudo, em nenhum momento se demonstrou um efetivo vínculo jurídico e a efetiva consecução na realização dos fatos geradores autuados, requisito para a aplicação do art. 124, I, do CTN, como visto. Especificamente quanto à Ana Paula Momesso, que atuou por um período na condição de administradora da empresa, a fiscalização igualmente se pautou a afirmar que houveram lançamentos contábeis vinculados ao seu nome "registros de despesas de viagem; despesas médicas e despesas “família Ana Paula Momesso”" (efl. 1.752). Novamente a fiscalização não demonstra os requisitos para a existência de interesse comum. Cumpre mencionar que no fundamento da autuação igualmente não consta menção ao art. 135 do CTN ou de quaisquer de seus requisitos para a responsabilização do administrador (excesso de poderes ou infração à lei). Partindo para a análise das pessoas jurídicas Momesso Distribuidora de Bebidas Ltda (CNPJ 71.861.868/000124) e Barbaka Distribuidora e Comercio Ltda (CNPJ 45.944.535/000159), constatase que elas foram enquadradas como solidárias vez que a primeira é a proprietária do imóvel no qual a Recorrente está instalada (como informado durante a fiscalização) e a segunda passou a estar estabelecida no imóvel da primeira segundo os cadastros da Receita Federal. Pela leitura do Relatório Fiscal vislumbrase que o único motivo para as pessoas jurídicas terem sido arroladas foi o fato da Recorrente ter informado no curso da fiscalização que o imóvel por ela utilizado é de propriedade da Momesso Distribuidora, sendo objeto de contrato de arrendamento. Não satisfeito com essa resposta, e em razão de uma das pessoas físicas acima indicadas ser sócia dessa pessoa jurídica, a fiscalização buscou a referida empresa, oportunidade em que constatou que teria mudado. Portanto, a empresa que passou a residir no local antigo da empresa Momesso (a empresa Barbaka), passaria a ser responsável na condição de sucessora. No confuso entendimento da fiscalização: "Assim, fechando o círculo, temos o então sócio Júlio César Momesso, já apontado como solidário por participação na diretoria da Refriso, e como vínculo o Senhor Juvenal Athayde Neto, que, conforme pesquisa nos Sistema Informatizados da RFB – Anexo XXXIII, é representante da Duxmann Corporation S/A, “investidora” da Momesso Distribuidora de Bebidas Ltda; que, nos termos do artigo 133 Código Tributário Nacional, foi sucedida pela Barbakã" (efls. 1.756) Ora, novamente é possível vislumbrar com clareza a ausência de quaisquer dos requisitos para a aplicação da solidariedade de fato do art. 124, I, do CTN. A fiscalização Fl. 2254DF CARF MF Processo nº 10855.724603/201164 Acórdão n.º 3402003.806 S3C4T2 Fl. 2.241 29 não trouxe qualquer fundamento fático ou jurídico válido para a aplicação desta regra, não evidenciando em qualquer momento de que forma as pessoas jurídicas teriam concorrido na ocorrência do fato gerador. Assim, uma vez que a fiscalização não conseguiu demonstrar, com qualquer elemento concreto, a existência de interesse comum entre a Recorrente e as pessoas físicas e jurídicas autuadas na condição de solidárias, suscetível a atrair a regra do art. 124, I, do CTN, voto por excluir do pólo passivo os responsáveis solidários (Odair Momesso, Odair Momesso Júnior, Julio Cesar Momesso, João Paulo Momesso, Carmen De Fatima Garcia Momesso, Otávio Momesso, Ana Paula Momesso, Momesso Distribuidora de Bebidas Ltda e Barbaka Distribuidora e Comercio Ltda.) III CONCLUSÃO Diante do exposto, voto por negar provimento ao recurso de ofício e dar parcial provimento ao recurso voluntário para: (i) afastar a multa qualificada aplicada diante da ausência de dolo por quaisquer dos motivos apontados pela fiscalização, sendo mantida a multa de ofício no patamar de 75%; (ii) reconhecer a decadência do período entre 01/01/2006 a 20/12/2006 (1º 01/2006 a 2º12/2006), vez que a Recorrente somente foi notificada da autuação em 23/12/2006; (iii) excluir do pólo passivo os responsáveis solidários Odair Momesso, Odair Momesso Júnior, Julio Cesar Momesso, João Paulo Momesso, Carmen De Fatima Garcia Momesso, Otávio Momesso, Ana Paula Momesso, Momesso Distribuidora de Bebidas Ltda e Barbaka Distribuidora e Comercio Ltda. É como voto. Maysa de Sá Pittondo Deligne Relatora Voto Vencedor Conselheiro Waldir Navarro Bezerra, Redator designado Não obstante as sempre bem fundamentadas razões da ilustre Conselheira Relatora, peço vênia para manifestar entendimento divergente, por vislumbrar na hipótese vertente, conclusão diversa da adotada pelo nobre julgadora quanto ao posicionamento específico sobre a DECADÊNCIA referente ao período de 01/01/2006 a 20/12/2006 (decadência dos períodos de apuração nos quais houve saldo credor de escrita art. 124 do RIPI, de 2002, conforme apurado no item (ii) do tópico II.4 do voto). Conforme relatado, alega a Recorrente que por ter sido notificada do Auto de Infração em 23/12/2011 (fl. 1.813), teria operado a decadência do direito da Fazenda constituir o crédito tributário em relação ao período anterior compreendido entre 01/01/2006 e 20/12/2006, vez que transcorrido o prazo de 5 (cinco) anos previsto no art. 150, §4º do CTN, aplicável ao IPI, em conformidade com o art. 124 do RIPI/2002. Fl. 2255DF CARF MF 30 Em seu voto condutor, a Conselheira desta forma se pronunciou sobre a matéria: "(...) Atentandose para os Registros de Apuração do IPI RIPI acostados aos presentes autos quanto ao período de 01/2006 a 12/2006 (fls. 1.095/1.204), vislumbrase que em todos os períodos de apuração a Recorrente procedeu com o pagamento do valor do IPI, seja por meio: (i) de recolhimento de DARF do valor do saldo devedor devido apurado, conforme guias DARFs acostadas aos autos, relacionadas à efl. 2.211. Essa forma de pagamento foi realizada no 1º e 2º decêndios de 01/2006 (efls. 1.096/1.101), 3º04/2006 e 1º05/2006 (e fls. 1.129/1.134), 3º05/2006 e 1º06/2006 (efls. 1.138/1.143), 2º 10/2006 (efls. 1.180/1.182), 1ª e 2º11/2006 (efls. 1.186/1.191) e 1º 12/2006 (efls. 1.195/1.197), e (ii) da dedução dos débitos e créditos admitido não resultando saldo a recolher, mas sim em crédito transportado para o período seguinte. Essa forma de pagamento foi realizada no 3º01/2006 (efs. 1.102/1.104), 02/2006 a 2º04/2006 (efls. 1.105/1.128), 2º05/2006 a (efls. 1.135/1.137), 2º06/2006 a 1º10/2006 (efls. 1.144/1.179), 3º 10/2006 (efls. 1.0183/1.185), 3º11/2006 (efls. 1.192/1.194) e 2º 12/2006 (efls. 1.198/1.200)" (grifei). Como se vê, quanto ao item (ii) acima, a Relatora concluiu fundamentando que reconhece a decadência do período entre 01/01/2006 a 20/12/2006 (1º01/2006 a 2º 12/2006), vez que a Recorrente somente foi notificada da autuação em 23/12/2006 e considerando o art. 124, parágrafo único, III, do RIPI/02, o encontro de crédito e débito na escrita fiscal em que resulta saldo credor equivale a pagamento antecipado, desde que a utilização dos créditos não seja com dolo, fraude ou simulação. Pois bem. Como é cediço, nos termos do caput do art. 150 do CTN, combinado com os arts. 110 a 113 do RIPI/98 e 123 a 126 do RIPI/2002, o IPI (Imposto sobre produtos Industrializados) encontrase sujeito ao lançamento do tipo “por homologação”. Também é fato, que o art. 124 do RIPI/2002 é expresso em equiparar pagamento à compensação. Vejase: "Art. 124. Os atos de iniciativa do sujeito passivo, no lançamento por homologação, aperfeiçoamse com o pagamento do imposto ou com a compensação do mesmo, nos termos dos arts. 207 e 208 e efetuados antes de qualquer procedimento de ofício da autoridade administrativa (Lei nº 5.172, de 1966, art. 150 e § 1º, Lei nº 9.430, de 1996, arts. 73 e 74, e Medida Provisória nº 66, de 2002, art. 49). Parágrafo único. Considerase pagamento: I o recolhimento do saldo devedor, após serem deduzidos os créditos admitidos dos débitos, no período de apuração do imposto; I o recolhimento do imposto não sujeito a apuração por períodos, haja ou não créditos a deduzir; ou III a dedução dos débitos, no período de apuração do imposto, dos créditos ADMITIDOS, sem resultar saldo a recolher." Fl. 2256DF CARF MF Processo nº 10855.724603/201164 Acórdão n.º 3402003.806 S3C4T2 Fl. 2.242 31 Assim, entendo equivocado os argumentos articulados nesse ponto, pois tratandose de créditos ilegítimos (não admitidos), como se verificará adiante, a presunção de pagamento antecipado prevista no art. 124, parágrafo único, III, do RIPI/2002, não pode operar, uma vez esse dispositivo regulamentar se refere expressamente a créditos admitidos pelo Regulamento. E repisese, neste sentido o dispositivo regulamentar é de clareza vítrea: somente créditos admitidos pelo regulamento são aptos a caracterizar o pagamento antecipado. No caso concreto não ocorreu o pagamento antecipado alegado pela defesa, porque os créditos utilizados na dedução dos débitos não eram admitidos pelo Regulamento, como a seguir passo a demonstrar. Verificase nos autos que foram glosados pelo Fisco (e mantida a glosa no voto deste julgado), os créditos indevidos do IPI escriturados concernentes a: (i) aquisições de matérias primas, produtos intermediários e materiais de embalagem isentos, não tributados ou com alíquota zero (item II.1 do voto), e (ii) da classificação fiscal e diferença de alíquotas na tomada de créditos de insumos oriundos da ZFM (item II.2 do voto). Quanto a este item (ii), como indicado no Relatório Fiscal, a autuação decorre do fato da Recorrente ter se utilizado "da classificação fiscal 2106.90.10, com “código ex” 02, que leva ao creditamento à alíquota de 40% (quarenta por cento), ao passo que, o enquadramento correto, consoante informação obtida, por insistência, junto ao fornecedor é “EX 01”, com creditamento à alíquota de 27% (vinte e sete por cento)" (fls. 1.733/1.734). Portanto, com a extração dos créditos ilegítimos da escrita do contribuinte os saldos credores passaram a ser devedores, em relação aos quais não houve recolhimento prévio ao início do procedimento de Ofício. Por tal razão, a regra de contagem do prazo de decadência para esses casos em concreto (créditos não admitidos) é a prevista no art. 173, I do Código Tributário Nacional (CTN). Definido esse aspecto, devese verificar, então, se efetivamente ocorreram, ou não, pagamentos antecipados de IPI naquele período. Em face da legislação exposta, em especial, a redação do art. 124 do RIPI, de 2002, considerase pagamento: a) o recolhimento do saldo devedor, após serem deduzidos os créditos admitidos dos débitos, no período de apuração do imposto (art. 124, parágrafo único, I), motivo pelo qual não se considera pagamento o recolhimento do saldo devedor, após serem deduzidos créditos não admitidos, no todo ou em parte, dos débitos, no período de apuração do imposto; e b) a dedução dos débitos, no período de apuração do imposto, dos créditos admitidos, sem resultar saldo a recolher (art. 124, parágrafo único, III), motivo pelo qual não se considera pagamento a dedução dos débitos, no período de apuração do imposto, de créditos não admitidos, no todo ou em parte, de que resultou saldo a recolher. Sobre os créditos glosados, observase no voto condutor da Relatora, que restou definido que (grifei): "(...) Assim, consoante consolidado pelo STF, em julgado que deve ser reproduzido por este Conselho à luz do art. 62, §2º do Regimento Fl. 2257DF CARF MF 32 Interno, descabido o aproveitamento do crédito de IPI nas aquisições de insumos isentos, não tributados ou sujeitos à alíquota zero". Já quanto a classificação fiscal e da diferença de alíquotas na tomada de créditos de insumos oriundos da ZFM, desta forma consignou o voto: "(...) Assim, a fiscalização se respaldou na informação do fornecedor, constante do processo (termos de intimação e respostas às efls. 1.391/1.418), para concluir o enquadramento fiscal correto do produto. Com efeito, a resposta da fornecedora foi contundente no sentido de que os produtos por ela fornecidos à Recorrente se enquadram no Ex 01 da NCM 21069010. É o se depreende das planilhas trazidas pela fornecedora às efls. 1.415/1.417. Somente para melhor visualização, transcrevo abaixo parte do teor da planilha da efl. 1.415: (...). "(...) Assim, entendo que deve ser mantido o lançamento, devendo ser considerada a informação prestada pelo fornecedor quanto à característica do produto por ele comercializado junto à Recorrente". Repisando, verificase nos autos, cópia dos Livros de Registros de Apuração do IPI RIPI, referente ao período de 01/2006 a 12/2006, que se encontram acostados às fls. 1.095/1.204 deste processo. Desta forma, verificase que para os períodos de apuração, conforme disposto no item (ii) do tópico II.4, do voto da Relatora, que trata "[...] da dedução dos débitos e créditos admitido não resultando saldo a recolher, mas sim em crédito transportado para o período seguinte. Essa forma de pagamento foi realizada no 3º01/2006 (efs. 1.102/1.104), 02/2006 a 2º04/2006 (efls. 1.105/1.128), 2º05/2006 a (efls. 1.135/1.137), 2º06/2006 a 1º 10/2006 (efls. 1.144/1.179), 3º10/2006 (efls. 1.0183/1.185), 3º11/2006 (efls. 1.192/1.194) e 2º12/2006 (efls. 1.198/1.200)", a contagem do prazo decadencial para esses períodos iniciase a partir de 1º de janeiro de 2007, encerrandose em 31 de dezembro de 2011, aplicandose ao caso a regra do art. 173, I, do CTN, porque os créditos utilizados na dedução dos débitos não eram admitidos pelo RIPI. E, tendo a ciência do Auto de Infração ocorrido no dia 23 de dezembro de 2011 (fls. 1.812/1.815), não há que se cogitar de decadência do lançamento para estes períodos. Concluindo, nesse contexto, reconhecese a decadência somente em relação aos fatos geradores ocorridos nos períodos 1º e 2º decêndios de 01/2006 (fls. 1.096/1.101), 3º 04/2006 e 1º05/2006 (fls. 1.129/1.134), 3º05/2006 e 1º06/2006 (fls. 1.138/1.143), 2º10/2006 (fls. 1.180/1.182), 1ª e 2º11/2006 (fls. 1.186/1.191) e 1º12/2006 (fls. 1.195/1.197), cujo recolhimento de DARF do valor do saldo devedor devido apurado consta das guias DARFs acostadas aos autos (relacionadas à fl. 2.211), conforme o apurado no item (i) do tópico "II.4" do voto da Relatora. É como voto. Waldir Navarro Bezerra Redator designado Fl. 2258DF CARF MF Processo nº 10855.724603/201164 Acórdão n.º 3402003.806 S3C4T2 Fl. 2.243 33 Declaração de Voto Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto. Peço vênia para divergir da ilustre relatora acerca da classificação fiscal da preparação adquirida pela Recorrente da empresa Polyaromas. Os enquadramentos em cotejo são os seguintes: 2106.90.10 Preparações dos tipos utilizados para elaboração de bebidas Ex 01 Preparações compostas, não alcoólicas (extratos concentrados ou sabores concentrados), para elaboração de bebida da posição 22.02, com capacidade de diluição superior a 10 partes da bebida para cada parte do concentrado Ex 02 Preparações compostas, não alcoólicas (extratos concentrados ou sabores concentrados), para elaboração de bebida refrigerante do Capítulo 22, com capacidade de diluição de até 10 partes da bebida para cada parte do concentrado Observase de plano que o elemento distintivo entre eles (além da destinação mais específica a ser dada àqueles enquadrados no Ex 01) é a capacidade de diluição superior ou inferior a 10 partes da bebida para cada parte do concentrado. A fiscalização solicitou à Polyaromas, através do termo de intimação de fl. 1391 informação acerca da classificação fiscal e enquadramento no Ex tarifário, se fosse o caso, conforme o seguinte excerto: Em resposta, a Polyaromas informou que classifica suas preparações no Ex 01 da posição em discussão. Sem solicitar análise técnica do produto ou qualquer outra informação, a fiscalização assumiu como verdadeira a classificação informada para autuar a Recorrente. Entretanto, a Recorrente apresentou laudo técnico de fls. 1931 e ss, no qual é explicitado a utilização do concentrado em seu processo produtivo, deixando claro que é diluído na proporção 1:10, e que portanto deveria estar classificado no Ex 02 daquela posição da TIPI. Diante disso, entendeu a relatora do processo que: Ora, uma vez que está em discussão a capacidade de diluição do insumo, a fiscalização foi coerente em considerar a informação prestada pelo fornecedor, vez que detentor das informações técnicas quanto ao produto por ele comercializado. O que se vislumbra no caso em tela é que a Recorrente adquiriu um concentrado com capacidade de diluição superior à dez partes das bebidas, resolvendo, para alguns produtos de sua produção (cujas Fl. 2259DF CARF MF 34 informações foram trazidas aos autos), por utilizálos na proporção de 1:10, ou seja, com a efetiva diluição de até 10 vezes. Entretanto, a forma de utilização do insumo pela Recorrente em seu processo produtivo não altera sua composição e características originárias, sendo dotado de capacidade de diluição superior à efetivamente utilizada pela Recorrente, como atestado pelo fornecedor. O raciocínio esgrimido pela relatora em seu abalizado voto se fundou em três premissas: i) o fornecedor informou a capacidade técnica de diluição do produto; ii) a fiscalização deve considerar a informação prestada pelo fornecedor; e iii) a Recorrente sub utilizou o concentrado, diluindoo menos vezes que seria possível. Parecenos, todavia, que tais premissas não se sustentam pelos seguintes motivos: i) o fornecedor não informou qualquer dado técnico do produto, mas apenas a classificação que utilizava (que de resto poderia estar equivocada); ii) a fiscalização não está vinculada a informações do fornecedor, sendo dever seu proceder uma investigação técnica, através dos meios próprios, para identificar inequivocamente a classificação correta; e iii) não há qualquer provas nos autos de subutilização por parte da Recorrente pelo contrário, em se tratando do insumo mais custoso do processo produtivo, é natural da atividade econômica que ele seja consumido na maior proporção possível, por razões de racionalidade econômica industrial. Mais ainda, quanto à questão probatória, fato é que as classificações opostas são apoiadas por provas diversas: em favor do Ex 01, a declaração do fornecedor de que usa esse ex tarifário em suas notas, e em favor do Ex 02, um laudo técnico apresentado pelo Recorrente, informando que seu processo produtivo utiliza a preparação na proporção de 1:10. Entendo que, no contexto alinhavado, uma prova técnica que inclusive vem a suprir a ausência de produção desta por desídia da fiscalização possui maior valor informativo e, consequentemente, probatório que um simples declaração do fornecedor. Diante disso, parece acima de qualquer dúvida o enquadramento do insumo adquirido na posição 2106.90.10, Ex 02, como assim procedeu a Recorrente, não havendo razões para a manutenção da glosa do seu crédito. Nesses termos, dou provimento ao seu Recurso Voluntário. É como voto. Carlos Augusto Daniel Neto Fl. 2260DF CARF MF
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Numero do processo: 13629.720341/2011-21
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Jan 26 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Mar 10 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2008
LUCRO PRESUMIDO. GANHO DE CAPITAL. ALTERAÇÃO CONTRATUAL.
A venda de imóvel não compõe a receita bruta e deve ser tributada por meio da apuração do ganho de capital, quando demonstrado nos autos que a alteração do objeto social da pessoa jurídica para atividade imobiliária não se deu no campo fático e, no campo formal, só surtiu efeito após a operação de venda.
COEFICIENTE DE DETERMINAÇÃO DO LUCRO. ATIVIDADES DIVERSIFICADAS.
No caso de pessoa jurídica com atividades diversificadas tributadas com base no lucro presumido, não sendo possível a identificação da atividade a que se refere a receita, esta será considerada como referente àquela a que corresponder o percentual mais elevado.
CONSTITUCIONALIDADE. COMPETÊNCIA.
Falece competência à autoridade julgadora para a apreciação de aspectos relacionados com a constitucionalidade das normas tributárias.
CSLL. DECORRÊNCIA. INFRAÇÕES APURADAS NA PESSOA JURÍDICA.
A solução dada ao litígio principal, relativo ao IRPJ, aplica-se ao litígio decorrente quanto à mesma matéria fática.
Numero da decisão: 1302-002.033
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em NEGAR provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto do relator.
(documento assinado digitalmente)
LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO - Presidente.
(documento assinado digitalmente)
ROGÉRIO APARECIDO GIL - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Alberto Pinto Souza Júnior, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Rogério Aparecido Gil, Julio Lima Souza Martins (Suplente Convocado), Talita Pimenta Félix e Luiz Tadeu Matosinho Machado (Presidente).
Nome do relator: ROGERIO APARECIDO GIL
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Ganho de Capital Recorrente AGROPECUÁRIA MATIPÓ LTDA. Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2008 LUCRO PRESUMIDO. GANHO DE CAPITAL. ALTERAÇÃO CONTRATUAL. A venda de imóvel não compõe a receita bruta e deve ser tributada por meio da apuração do ganho de capital, quando demonstrado nos autos que a alteração do objeto social da pessoa jurídica para atividade imobiliária não se deu no campo fático e, no campo formal, só surtiu efeito após a operação de venda. COEFICIENTE DE DETERMINAÇÃO DO LUCRO. ATIVIDADES DIVERSIFICADAS. No caso de pessoa jurídica com atividades diversificadas tributadas com base no lucro presumido, não sendo possível a identificação da atividade a que se refere a receita, esta será considerada como referente àquela a que corresponder o percentual mais elevado. CONSTITUCIONALIDADE. COMPETÊNCIA. Falece competência à autoridade julgadora para a apreciação de aspectos relacionados com a constitucionalidade das normas tributárias. CSLL. DECORRÊNCIA. INFRAÇÕES APURADAS NA PESSOA JURÍDICA. A solução dada ao litígio principal, relativo ao IRPJ, aplicase ao litígio decorrente quanto à mesma matéria fática. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 62 9. 72 03 41 /2 01 1- 21 Fl. 273DF CARF MF Processo nº 13629.720341/201121 Acórdão n.º 1302002.033 S1C3T2 Fl. 3 2 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em NEGAR provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto do relator. (documento assinado digitalmente) LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO Presidente. (documento assinado digitalmente) ROGÉRIO APARECIDO GIL Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Alberto Pinto Souza Júnior, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Rogério Aparecido Gil, Julio Lima Souza Martins (Suplente Convocado), Talita Pimenta Félix e Luiz Tadeu Matosinho Machado (Presidente). Relatório Tratase de Recurso Voluntário face ao Acórdão 0937.137 da 1ª Turma da DRJ Juiz de Fora MG que, por unanimidade de votos, julgou improcedente a impugnação da recorrente. A recorrente foi constituída em abril de 2005, com o objetivo social de "produção agrícola, e pecuária, beneficiamento e comercialização no atacado e varejo de produtos agrícolas e animais, tais como: cereais, café, hortaliças, bovinos, suínos, aves e peixes". Na Declaração de Informações Econômicas Fiscais da Pessoa Jurídica DIPJ/2009, a recorrente registrou que a forma de tributação era pelo lucro presumido. A fiscalização foi iniciada em 14/10/2010. Solicitouse a apresentação para o anocalendário 2008: livro caixa ou diário e razão, recibo de entrega das declarações de rendimentos da pessoa Jurídica e das declarações DCTF, Contrato Social e suas alterações e os balanços patrimoniais levantados em 31/12/2007, 31/12/2008 e 31/12/2009. A recorrente não respondeu à intimação. Lavrouse Termo de Reintimação Fiscal. A empresa recebeu a reintimação em 22/11/2010, com a solicitação dos mesmos elementos do termo de início de procedimento fiscal. A recorrente mantevese omissa. A fiscalização encaminhou o mesmo termo de reintimação fiscal aos senhores José Alentino Costa de Sá, CPF 369.833.22649, e Israel Alvino de Sá, CPF 349.776.60625, que constavam como sócios administradores da Agropecuária Matipó no cadastro da Receita Federal do Brasil. Em 02/12/2010, os sócios tiveram ciência desse termo. Em 07/12/2010, a recorrente apresentou os seguintes elementos: Livro Diário dos anos 2005/2006/2007/2008/2009, contendo os balanços patrimoniais; Livro Razão dos anos 2005/2006/2007/2008/2009; cópia do ato constitutivo e suas alterações. Em resposta ao Termo de Intimação Fiscal nr. 001, na qual foram solicitados os comprovantes de receitas auferidas em 2008 e 2009, a recorrente informa que auferiu em 2008, R$24.192.132,01 e que parte dessa receita, no valor de R$23.182.250,00, foi motivada Fl. 274DF CARF MF Processo nº 13629.720341/201121 Acórdão n.º 1302002.033 S1C3T2 Fl. 4 3 pela venda do terreno denominado fazenda Garrafinha 3. Apresentou cópia da escritura de compra e venda deste imóvel. A recorrente alegou que não considerou a receita de tal venda, pelo fato de que a empresa tem como objeto social, a compra e venda de imóveis próprios CNAE 68.10 2/01, bem assim, pelo fato de que a Fazenda Garrafinha 3, destinavase à venda. Alegou que essa situação estava registrada em sua contabilidade. A DRF não acolheu essa alegação. A Fiscalização verificou que a recorrente transferiu, para o ativo circulante, o valor dos bens (fazendas Garrafinha e H55) que, originalmente, estavam escriturados em contas do ativo permanente (observado nas contas 1.1.6.01.001, 1.1.6.01.002, 1.3.1.01.001 e 1.3.01.002 do Livro Razão de 2008). Com essa transferência, passou a considerar como receita de sua atividade, a venda de um desses bens, quando da apuração do imposto de renda. A DRF registrou que os resultados positivos obtidos pela recorrente, tributada pelo lucro presumido, na alienação de bens do ativo permanente deveriam ter sido considerados, na sistemática do Regulamento do Imposto de Renda, como ganho de capital (§ 1°, art. 521). Tendo em vista que, tal resultado influi na base da cálculo do lucro presumido. Destacou que a Agropecuária Matipó Ltda. foi criada para exercer atividade agropecuária. Indicou, com base em seu contrato social, que a empresa foi capitalizada basicamente por dois Imóveis rurais (Fazenda Garrafinha 3 e Fazenda H55), necessários, logicamente, para o exploração deste tipo de atividade. Analisaramse os balanços registrados em 31/12/2005, 31/12/2006 e 31/12/2007 no Livro Diário e verificouse que estes dois imóveis estão registrados no ativo permanente e que em 2008 a sociedade empresária os transferiu para o ativo circulante. Mesmo assim, a recorrente alegou que não considerou a venda da Fazenda Garrafinha 3 à Usiminas como Ganho de Capital pelo fato de exercer a "atividade imobiliária" quando da alienação deste imóvel. Justificou, assim, o fato de considerar a citada venda como receita da atividade (venda de um bem do ativo circulante). Nessa linha, a recorrente apresentou à Fiscalização a Alteração de Contrato Social nr. 1, por meio da qual o objeto social da empresa foi modificado para "compra e venda de imóveis próprios CNAE 68.102/01". Essa alteração foi considerada pela DRF como mero formalismo. Pois, a única operação imobiliária realizada pela recorrente teria sido a venda da Fazenda Garrafinha 3. Sobretudo, pelo fato de que a alteração foi registrada na Junta Comercial do Estado de Minas Gerais, em 12/09/2008, enquanto que a venda do imóvel já havia se concretizado em 18/07/2008, conforme contrato de compra e venda. Concluiuse, assim, que o objeto social da recorrente sempre residiu na atividade agropecuária e que as reclassificações contábeis foram realizadas com base em critérios subjetivos, em infração às disposições da Lei nº 6.404/76, art. 179, inc. I, ao estabelecer que, somente podem ser incluídos no ativo circulante os direitos de crédito e os que tiverem por objeto mercadorias e produtos do comércio ou da indústria da companhia, além das disponibilidades e das aplicações de recursos em despesas do exercício seguinte. Como dito, nos instrumentos de constituição da pessoa jurídica (contribuinte), o imóvel em questão foi integralizado na composição do respectivo capital. Apurouse, assim, o IRPJ (Dec. nº 3.000/99, art. 521, § 1º) e a CSLL (Lei nº 9.430/96, art. 29, inc. II) devidos em decorrência do ganho de capital auferido na venda de Fl. 275DF CARF MF Processo nº 13629.720341/201121 Acórdão n.º 1302002.033 S1C3T2 Fl. 5 4 imóvel considerado como integrante do ativo permanente. Lavrouse os respectivos Autos de Infração. Também imputou à recorrente o fato de que suas demais operações, que resultaram em depósitos bancários, não poderiam ser efetivadas com base na alíquota presumida de 8%, verificado na escrituração, DIPJ e demais informações, mas sim no percentual de 32% (operações diversas da recorrente): IRPJ: R$5.330.698,44; Juros de Mora: 1.358.880,81; Multa: R$3.998.023,82; Total: R$10.687.603,07 CSLL: R$1.834.315,86; Juros de Mora: R$467.613,10; Multa: R$1.375.736,07; Total: R$3.677.665,03 A recorrente foi cientificada do Auto de Infração, em 22/06/2011 (fls. 04 e 12). Apresentou impugnação em 25/07/2011 (fls. 169/178 e 196/205; fls. 169 e 196). Dia 23 de junho de 2011 foi feriado nacional (Corpus Christ). A contagem do prazo iniciouse em 24/06/2011. A impugnação foi tempestiva. Em sua impugnação, a recorrente alega que a empresa Agropecuária Matipó Ltda. foi constituída, mediante a integralização dos dois referidos imóveis rurais, como capital social, com o objetivo de partilhar a área, em forma de loteamento urbano, com infraestrutura, abertura de ruas, iluminação, água etc. Em função de questões burocráticas e devido à demora para a transformação da área rural em área urbana, resolveu vender a área à Usiminas. Alega que baseouse no art. 14 da Lei nº 9.718/88 para declarar e pagar IRPJ e CSLL pelo lucro presumido. Justificou a alteração de seu contrato social de agropecuária para imobiliária, em atendimento a exigências formais do processo de loteamento urbano. Alegou que o fato de os imóveis encontraremse, até 2007, no ativo permanente e em 2008 ter sido desafetado para o ativo circulante, deveuse à mudança de objeto social do contribuinte. Daí, terem passado para a condição de imóveis próprios para venda. Com relação à constatação pela Fiscalização de que a alteração do objeto social ter se dado após a venda da Fazenda Garrafinha, a recorrente argumentou que antes da alteração do contrato social (01/02/2008), já existia escritura pública de alteração contratual desafetando os imóveis da conta do ativo permanente para a conta do ativo circulante, bem assim, modificando o objeto social. Salienta que esse fato não teria sido relatado pela Fiscalização. Sustentou que, diante da alteração do objeto social, não haveria como manter o imóvel no ativo permanente. Como o imóvel passou a ser mercadoria, teria sido correta a reclassificação contábil para ativo circulante. Citou o art. 27 do Declei nº 1.598/77, recepcionado pelo Dec. nº 3.000/99, sobre os imóveis destinados à vendas, classificados como ativo circulante, na conta de estoque. Argumentou que o crédito tributário está sendo exigido por mera presunção; que a exigência estaria afrontando o art. 5º, inc. II e art. 150, inc. I da CF/88; que inexiste lei Fl. 276DF CARF MF Processo nº 13629.720341/201121 Acórdão n.º 1302002.033 S1C3T2 Fl. 6 5 impondo a obrigação de pagar a exação revelada com base em meros indícios e suposição fiscal. Também alegou que não há fundamento para a fiscalização imputar a alíquota do Lucro Presumido de 32% sobre os valores de depósitos bancários sem origem declarada, já que sua atividade é compra e venda de imóveis próprios; que o correto seria 8%, independentemente de prova quanto à origem dos depósitos que somaram R$947.961,18, no anocalendário 2008. Requer que seja cobrada a alíquota de 8%, por ser a alíquota normal de comércio e indústria. Pede para que seja considerada sua espontaneidade em oferecer a soma dos depósitos à tributação sob a alíquota de 8%. Registrou que não é aplicável ao seu caso, as disposições do art. 24, § 2º da Lei nº 9.249/95, tendo em vista que sua atividade não é diversificada. Não obstante os fatos e os fundamentos arguidos pela recorrente, a DRJ concluiu pela improcedência da impugnação, cujo acórdão registrou a seguinte ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2008 LUCRO PRESUMIDO. GANHO DE CAPITAL. ALTERAÇÃO CONTRATUAL. A venda de imóvel não compõe a receita bruta e deve ser tributada por meio da apuração do ganho de capital, quando demonstrado nos autos que a alteração do objeto social da pessoa jurídica para atividade imobiliária não se deu no campo fático e, no campo formal, só surtiu efeito após a operação de venda. COEFICIENTE DE DETERMINAÇÃO DO LUCRO. ATIVIDADES DIVERSIFICADAS. No caso de pessoa jurídica com atividades diversificadas tributadas com base no lucro presumido, não sendo possível a identificação da atividade a que se refere a receita, esta será considerada como referente àquela a que corresponder o percentual mais elevado. CONSTITUCIONALIDADE. COMPETÊNCIA. Falece competência à autoridade julgadora para a apreciação de aspectos relacionados com a constitucionalidade das normas tributárias. CSLL. DECORRÊNCIA. INFRAÇÕES APURADAS NA PESSOA JURÍDICA. A solução dada ao litígio principal, relativo ao IRPJ, aplicase ao litígio decorrente quanto à mesma matéria fática. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido A recorrente foi devidamente intimada do Acórdão da DRJ, em 17/10/2011 (fl. 249). Juntou procuração, fl. 223; documentos de identidade do representante legal da Fl. 277DF CARF MF Processo nº 13629.720341/201121 Acórdão n.º 1302002.033 S1C3T2 Fl. 7 6 recorrente e do advogado subscritor do recurso, fls.224 e 225; contrato social, fls. 226. Interpôs Recurso Voluntário, em 16/11/2011, cujas razões repetem os fatos e os fundamentos arguidos na impugnação. No Recurso Voluntário, contudo, esforçase ainda mais para que a multa aplicada seja reduzida para 20%. É o relatório. Voto Conselheiro ROGÉRIO APARECIDO GIL A recorrente está devidamente representada e interpôs Recurso Voluntário, tempestivamente. Conheço do Recurso. A DRF concluiu que a venda do imóvel Fazenda Garrafinha caracterizou venda de ativo permanente, sobre a qual deveria ter sito apurado o ganho de capital, em conformidade com as disposições do art. 521 do Regulamento do Imposto de Renda de 1999. Nesse sentido, com base no § 1º do citado art. 521, considerou o valor contábil do imóvel em questão (R$208.640, 26) e o valor de sua venda à Usiminas (R$23.182.250,00) e apurou o ganho de capital de R$22.973.609,74. Os valores foram pagos à recorrente, por meio de depósitos em contas de sua titularidade mantidas nos Bancos Bradesco e Citibank (R$2.318.225,00 pagos em julho/2008 e R$20.864.025,00 pagos em agosto/2008). O IRPJ e a CSLL apurado s foram deduzidos do valor declarado em DCTF referente à escrituração da empresa, que considerou a venda da Fazenda Garrafinha como receita de atividade. A questão, portanto, reside em analisar se o produto da venda do imóvel rural, Fazenda Garrafinha 3, constituiu ou não ganho de capital para a recorrente. Por ocasião da constituição da empresa, Agropecuária Matipó Ltda., os sócios José Alentino Costa de Sá e Israel Alvino de Sá subscreveram e integralizaram como capital social da empresa recorrente, os dois citados imóveis rurais, Fazenda Garrafinha 3 e Fazenda H55. Cada um dos sócios detinha 50% da propriedade dos imóveis. A integralização realizada por ambos, portanto, resultou em 100% dos dois imóveis que passaram a constituir o patrimônio da empresa recorrente. Na forma verificada pela Fiscalização, os imóveis foram escriturados nas contas do ativo permanente da recorrente que, inaugurouse tendo como objeto social, atividades do ramo de agropecuária. Diante das razões que levaram esses dois únicos sócios à decisão por vender a Fazenda Garrafinha 3, promoveram a reclassificação contábil, por meio da qual passaram a registrar os imóveis nas contas de ativo circulante. Analisandose o caso à luz das normas aplicáveis, verificase que todos os bens e direitos que estejam ou possam estar contabilizados no Ativo Não Circulante (como Imobilizado, Investimento Permanente e/ou Intangível) quando lançados ou transferidos para o Ativo Circulante, como Estoque para Venda, como alega a recorrente, terão o mesmo Fl. 278DF CARF MF Processo nº 13629.720341/201121 Acórdão n.º 1302002.033 S1C3T2 Fl. 8 7 tratamento tributário, na forma de Ganho de Capital, que teriam se contabilizados no Ativo Não Circulante. Ou seja, o Ganho de Capital obtido na venda de bens e direitos que possam ser lançados no Ativo Não Circulante, mesmo que os bens estejam no Ativo Circulante, será acrescido ao Lucro Real ou ao Lucro Presumido obtido com as demais operações da empresa. Nos acórdãos nº 0937137/2011, 1436000/2011, 0539626/2012, na apreciação de casos semelhantes, entendeuse que deveria incidir o IRPJ e a CSLL sobre o ganho de capital, pelos seguintes motivos: falta de atividade imobiliária da empresa; alteração do objeto social da empresa para fazer constar a atividade imobiliária somente após a operação de venda do imóvel; pelo fato de o imóvel não ter sido originariamente adquirido para revenda, sendo utilizado nas atividades da empresa. Nessa linha, em conformidade com os itens 57 e 58 do Pronunciamento Técnico CPC 28, verificase que somente é possível a transferência do imóvel de "propriedade para investimento" para estoque, desde que haja uma alteração no uso, evidenciada pelo começo de desenvolvimento com o objetivo de venda, o que não se verifica no caso em tela. Além disso, destacase que somente após a venda da Fazenda Garrafinha 3, houve a mudança do objeto social da recorrente para compra e venda de imóveis próprios. Ainda que houvesse a mudança de objeto social anteriormente à venda, não se verifica, além da venda do imóvel em questão, a venda ou a compra de qualquer outro imóvel para o estoque. Não se verifica efetiva atividade de compra e venda de imóveis. Nem antes nem depois de a recorrente começar a desenvolver o objetivo de vender e comprar imóveis. Ressaltese, ainda, que também não há demonstração de que, desde a origem da empresa, a intenção da recorrente era a de empregar o imóvel em loteamento urbano e que poderia ser vendido, como sendo sua atividade, para possível investidor ou incorporador. Com base nesses fatos e fundamentos, verifico que não há como acolher as razões da recorrente para não considerar como ganho de capital a diferença entre o referido valor contábil e o valor de venda da Fazenda Garrafinha à Usiminas. Da mesma forma, não cabe a alegação de que sobre os depósitos bancários, sem a devida indicação de suas origens, deve incidir a alíquota de 8%, por se presumir comércio normal de venda e compra de imóveis, já que não há nos autos documento algum que pudesse amparar tal alegação. O mesmo se verifica, quanto ao cabimento da multa de 75%. Nesse contexto, concluise que não há fundamento para a reforma do acórdão recorrido, pelo que, voto por NEGAR PROVIMENTO ao recurso voluntário. ROGÉRIO APARECIDO GIL Relator Fl. 279DF CARF MF Processo nº 13629.720341/201121 Acórdão n.º 1302002.033 S1C3T2 Fl. 9 8 Fl. 280DF CARF MF
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Numero do processo: 10711.723040/2012-11
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Feb 21 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue May 09 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Obrigações Acessórias
Data do fato gerador: 25/05/2009
OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. INOBSERVÂNCIA AO PRAZO ESTABELECIDO PREVISTO EM NORMA. AUSÊNCIA DE PRESTAÇÃO DE INFORMAÇÃO.
É obrigação do contribuinte prestar informações sobre a desconsolidação de carga dentro dos prazos previstos no artigo 22 c/c o artigo 50 da IN SRF nº 800/2007, sob pena de sujeitar-se à aplicação da multa prevista no artigo 107, inciso I, IV, alínea "e", do Decreto Lei nº 37/66.
MULTA POR ATRASO NA PRESTAÇÃO DE INFORMAÇÃO SOBRE A CARGA. APLICAÇÃO POR MANIFESTO DE CARGA. IMPOSSIBILIDADE. ÔNUS DA PROVA DO CONTRIBUINTE.
A multa regulamentar sancionadora da infração por omissão ou atraso na prestação de informação sobre a carga transportada por empresa de transporte internacional de carga deve ser aplicada uma única vez por viagem do veículo transportador e não por cada manifesto de carga da mesma viagem. Contudo, se não estiverem presentes nos autos informações suficientes que comprovem a penalização por cada manifesto de carga, não há como cancelar o lançamento.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 3201-002.524
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário.
(assinado digitalmente)
WINDERLEY MORAIS PEREIRA - Presidente Substituto e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Winderley Morais Pereira (Presidente), Jose Luiz Feistauer de Oliveira, Mercia Helena Trajano Damorim, Cassio Schappo, Ana Clarissa Masuko dos Santos Araujo, Pedro Rinaldi De Oliveira Lima, Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisario.
Nome do relator: WINDERLEY MORAIS PEREIRA
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MULTA POR ATRASO NA PRESTAÇÃO DE INFORMAÇÃO SOBRE CARGA Recorrente CEVA FREIGHT MANAGEMENT DO BRASIL LTDA. Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Data do fato gerador: 25/05/2009 OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. INOBSERVÂNCIA AO PRAZO ESTABELECIDO PREVISTO EM NORMA. AUSÊNCIA DE PRESTAÇÃO DE INFORMAÇÃO. É obrigação do contribuinte prestar informações sobre a desconsolidação de carga dentro dos prazos previstos no artigo 22 c/c o artigo 50 da IN SRF nº 800/2007, sob pena de sujeitarse à aplicação da multa prevista no artigo 107, inciso I, IV, alínea "e", do Decreto Lei nº 37/66. MULTA POR ATRASO NA PRESTAÇÃO DE INFORMAÇÃO SOBRE A CARGA. APLICAÇÃO POR MANIFESTO DE CARGA. IMPOSSIBILIDADE. ÔNUS DA PROVA DO CONTRIBUINTE. A multa regulamentar sancionadora da infração por omissão ou atraso na prestação de informação sobre a carga transportada por empresa de transporte internacional de carga deve ser aplicada uma única vez por viagem do veículo transportador e não por cada manifesto de carga da mesma viagem. Contudo, se não estiverem presentes nos autos informações suficientes que comprovem a penalização por cada manifesto de carga, não há como cancelar o lançamento. Recurso Voluntário Negado. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) WINDERLEY MORAIS PEREIRA Presidente Substituto e Relator AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 71 1. 72 30 40 /2 01 2- 11 Fl. 115DF CARF MF Processo nº 10711.723040/201211 Acórdão n.º 3201002.524 S3C2T1 Fl. 3 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Winderley Morais Pereira (Presidente), Jose Luiz Feistauer de Oliveira, Mercia Helena Trajano Damorim, Cassio Schappo, Ana Clarissa Masuko dos Santos Araujo, Pedro Rinaldi De Oliveira Lima, Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisario. Relatório Tratase de processo referente à exigência de multa pelo descumprimento da obrigação de prestar informação sobre veículo, operação realizada ou carga transportada, na forma e no prazo estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal do Brasil. A irregularidade identificada consta do tópico "Dos Fatos", parte da Descrição dos Fatos do Auto de Infração. Segundo o relatado, consistiu na prestação intempestiva de informação referente ao conhecimento eletrônico (CE) ali indicado, o que acarretou no bloqueio automático do conhecimento no sistema Carga, conforme extrato anexado aos autos. Diante dos fatos apurados, a fiscalização entendeu configurada a infração tipificada no art. 107, IV, “e”, do DecretoLei nº 37/1966, com redação dada pela Lei nº 10.833/2003, e aplicou a multa ali cominada. Não conformada com a exigência, a contribuinte apresentou Impugnação, cujo principal argumento de defesa foi assim sintetizado pela DRJ: Bis in Idem. A impugnante foi penalizada mais de uma vez pela mesma conduta, uma vez que foram cobradas multas pelo atraso na entrega de informações referentes a cargas transportadas no mesmo navio/viagem, conforme processos administrativos indicados, não podendo subsistir mais de uma penalidade para o mesmo fato, conforme estabelece a legislação de regência. Assim, se infração houve, nesses casos só poderia ser aplicada multa uma única vez, consoante já decidiu a própria Receita Federal na Solução de Consulta Interna (SCI) nº 8, de 14/2/2008. Ao final a impugnante requer que seja cancelado o lançamento ou, subsidiariamente, que seja aplicado o entendimento de que só é cabível uma multa em relação a cada navio/viagem, excluindose as penalidades excedentes. A DRJ/Fortaleza julgou improcedente a impugnação apresentada, mantendo a exigência da penalidade nos termos do Acórdão 08033.145. No recurso voluntário foram repisadas as alegações trazidas na impugnação. É o relatório. Voto Winderley Morais Pereira, Relator. Fl. 116DF CARF MF Processo nº 10711.723040/201211 Acórdão n.º 3201002.524 S3C2T1 Fl. 4 3 O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3201002.523, de 21 de fevereiro de 2017, proferido no julgamento do processo 10711.724209/201241, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão, (Acórdão 3201002.523): "Conforme o Direito Tributário, a legislação, as provas, documentos e petições apresentados aos autos deste procedimento administrativo e, no exercício dos trabalhos e atribuições profissionais concedidas aos Conselheiros, conforme portaria de condução e Regimento Interno deste Conselho, apresento e relato o seguinte voto. Por conter matéria preventa desta 3.ª Seção do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais e considerando o tempestivo Recurso Voluntário, dele conheço. A alegação da fiscalização de 'Não Prestação de Informação sobre Carga Transportada' e a consequente aplicação de multa de R$ 5.000,00 prevista no Art. 107 do DL 37/66, em razão do descumprimento do prazo previsto na IN RFB 800/2007, Art. 22, ocorreu em razão da fiscalização ter constatado que o contribuinte era consignatário e deveria ter cumprido o prazo em no máximo até 29/07/09 às 07:58, sendo que desconsolidou o mercante agregado HBL de fls. 23 e 24 às 18:00 do mesmo dia 29. Conforme alegação de bis in idem do contribuinte em seu Recurso Voluntário, a autuação seria atrelada a dois outros autos de infração, Processos Administrativos de n°. 10711.724.250/201218 e 10711.724.251/201262, com os mesmos fatos e penalidade. Vencido no voto de diligência, para que fossem juntadas aos autos cópias dos mencionados processos e fosse verificada a possibilidade da duplicidade da pena, conforme Resolução por mim proposta na sessão de Janeiro deste ano, é certo que devo proceder à análise do mérito desta lide. Em que pese existir precedente favorável à situação do contribuinte, como o encontrado no Acórdão 3102001.988 deste Conselho, que determinou que a multa regulamentar sancionadora da infração por omissão ou atraso na prestação de informação sobre a carga transportada por empresa de transporte internacional de carga deve ser aplicada uma única vez por viagem do veículo transportador e não por cada manifesto de carga da mesma viagem, como fora consignado na autuação, não houve comprovação da existência de duplicidade ou do bis in idem, tampouco argumentos capazes de prejudicar o lançamento fiscal ou contradizer os argumentos utilizados pela turma de origem que afirmou 'que as multas aplicadas foram decorrentes de condutas similares, porém, relativas a fatos distintos'. Mas cópias dos Autos de Infração, um demonstrativo analítico, com os registros relativos às operações tratadas em cada processo apontado no recurso, não foram juntados pelo contribuinte. Esta situação (não juntada de documentos ou provas) diverge do previsto no Art. 16, inciso III e §4º, do inciso V , do Decreto nº 70.235/72, bem como do artigo 373, inciso II, do Código de Processo Civil. Fl. 117DF CARF MF Processo nº 10711.723040/201211 Acórdão n.º 3201002.524 S3C2T1 Fl. 5 4 Nestes termos, considerando que a Recorrente deixou de comprovar suas alegações, não há como acolher o pedido de nulidade do lançamento suscitado pela contribuinte. Restam prejudicados os demais argumentos do contribuinte, pois todos são decorrentes da alegação de bis in idem, exceto pela alegação de aplicação do princípio da razoabilidade, o que certamente teria valia porque é um princípio constitucional, contudo, está correta a fundamentação legal do lançamento, vigente e aplicável aos fatos narrados. O lançamento capitulou corretamente a multa regulamentar pela não prestação de informação sobre veículo ou carga transportada, ou sobre operações que executar, prevista no artigo 107, inciso IV, alínea "e", do Decreto Lei º 37/66, com a redação dada pelo artigo 77 da Lei nº 10.833/2003, pelo fato da Recorrente ter prestado informações sobre a desconsolidação da carga fora do preceitos e prazos previstos nos artigo 22 e 50, da Instrução Normativa SRF nº 800/2007. Assim, deve ser aplicada a multa prevista pela letra “e” do inciso IV, art. 107 do Decreto nº 37, isso é, no montante de R$ 5.000,00 (cinco mil reais). Diante do exposto, votase por NEGAR PROVIMENTO ao Recurso Voluntário para manter o lançamento em uma só multa no valor de R$ 5.000,00 (cinco mil reais)." Quanto à questão do bis in idem, da mesma forma que no caso do paradigma a contribuinte não juntou ao presente processo "cópias dos Autos de Infração, um demonstrativo analítico, com os registros relativos às operações tratadas em cada processo apontado no recurso". Não comprovada a ocorrência de duplicidade da exigência, não há como acolher o pleito de nulidade do presente lançamento. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, negase provimento ao recurso voluntário. assinado digitalmente Winderley Morais Pereira Fl. 118DF CARF MF
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Numero do processo: 13504.000054/2003-05
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Feb 20 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Mar 01 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/07/1998 a 31/12/1998
AUTO DE INFRAÇÃO. DIFERENÇA DCTF. COMPENSAÇÃO COM CRÉDITO RECONHECIDO POR MEDIDA JUDICIAL. DECLARAÇÃO INEXATA.
Correto o Auto de Infração lavrado exatamente por considerar a DCTF apresentada como inexata, com a corresponde falta de recolhimento do tributo nela declarado, vez que não a legislação não autorizada a compensação de crédito reconhecido judicialmente antes da apresentação de requerimento prévio à Receita Federal na forma do art. 17 da IN 21/1997 (art. 74, Lei n.º 9.430/96).
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 3402-003.843
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, por negar provimento ao Recurso Voluntário, nos termos do voto da Relatora. Vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro e Carlos Augusto Daniel Neto, que apresentou declaração de voto. Esteve presente ao julgamento o Dr. Leonardo Aguirra de Andrade, OAB/SP 298.150.
(Assinado com certificado digital)
Antonio Carlos Atulim - Presidente.
(Assinado com certificado digital)
Maysa de Sá Pittondo Deligne - Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Antonio Carlos Atulim, Jorge Freire, Diego Diniz Ribeiro, Waldir Navarro Bezerra, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto.
Nome do relator: MAYSA DE SA PITTONDO DELIGNE
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COMPENSAÇÃO. PIS. Recorrente DOW BRASIL NORDESTE LTDA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/07/1998 a 31/12/1998 AUTO DE INFRAÇÃO. DIFERENÇA DCTF. COMPENSAÇÃO COM CRÉDITO RECONHECIDO POR MEDIDA JUDICIAL. DECLARAÇÃO INEXATA. Correto o Auto de Infração lavrado exatamente por considerar a DCTF apresentada como inexata, com a corresponde falta de recolhimento do tributo nela declarado, vez que não a legislação não autorizada a compensação de crédito reconhecido judicialmente antes da apresentação de requerimento prévio à Receita Federal na forma do art. 17 da IN 21/1997 (art. 74, Lei n.º 9.430/96). Recurso Voluntário Negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, por negar provimento ao Recurso Voluntário, nos termos do voto da Relatora. Vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro e Carlos Augusto Daniel Neto, que apresentou declaração de voto. Esteve presente ao julgamento o Dr. Leonardo Aguirra de Andrade, OAB/SP 298.150. (Assinado com certificado digital) Antonio Carlos Atulim Presidente. (Assinado com certificado digital) Maysa de Sá Pittondo Deligne Relatora. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 50 4. 00 00 54 /2 00 3- 05 Fl. 3620DF CARF MF 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Antonio Carlos Atulim, Jorge Freire, Diego Diniz Ribeiro, Waldir Navarro Bezerra, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto. Relatório Por trazer uma síntese clara do processo até a prolação da decisão recorrida, peço vênia para transcrever seu relatório: "Transcrevo relatório do Acórdão DRJ/SDR nº 1519.239, proferido por esta Turma de Julgamento em 13 de maio de 2009 no presente: Tratase de Auto de Infração (fls. 24/32) lavrado contra a contribuinte acima identificada, que pretende a cobrança da Contribuição para o Programa de Integração Social – PIS relativa aos períodos de apuração de janeiro, fevereiro a dezembro de 1998. A exigência fiscal teve origem em procedimento de Auditoria Interna realizada na DCTF apresentada pela contribuinte. Cientificada da exigência fiscal em 08/07/2003, conforme fotocópia do Aviso de Recebimento – AR à folha 56, a autuada, em 05/08/2003, apresenta a impugnação de folhas 01/06, sendo essas as suas razões de defesa, em síntese: • Preliminarmente, em 08/07/2003, quando a contribuinte foi cientificada do Auto de Infração, já decaíra o direito de a Fazenda constituir o crédito tributário relativo aos períodos de apuração de janeiro e fevereiro a julho de 1998, em face do que dispõe o art. 150, § 4º do Código Tributário Nacional; • Quanto aos demais períodos de apuração, compensou a contribuição devida com crédito do PIS decorrente de recolhimentos efetuados com base nos inconstitucionais Decretoslei nº 2.445 e 2.449, de 1998, conforme sentença judicial exarada nos autos do processo nº 93.118340 (fls. 33/47), tendo solicitado, inclusive, laudo técnico de empresa especializada (fls. 48/55), no qual se apurou um crédito no valor de R$ 12.902.757,46; • Ao final, caso se entenda insuficientes os documentos acostados aos autos para comprovação da compensação, requer a realização de perícia contábil, indicando o nome do seu perito. Após despacho à folha 63, o presente processo foi encaminhado a esta DRJ para apreciação. O referido Acórdão DRJ/SDR teve a seguinte ementa: CRÉDITO TRIBUTÁRIO. DECADÊNCIA. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. Afastado, por inconstitucional, o prazo de dez anos para o lançamento das contribuições destinadas à Seguridade Social, a contagem do prazo decadencial regese pelo disposto no Código Tributário Nacional CTN, aplicandose a regra do § 4º do artigo 150 na hipótese em que houve pagamento antecipado da contribuição, ainda que parcial. CONCOMITÂNCIA ENTRE PROCESSO ADMINISTRATIVO E JUDICIAL. Tratandose de matéria submetida à apreciação do Poder Judiciário, não se conhece da impugnação administrativa, quanto ao mérito, por ter o mesmo objeto da ação judicial, em respeito ao princípio da unicidade de jurisdição contemplado na Carta Política. Fl. 3621DF CARF MF Processo nº 13504.000054/200305 Acórdão n.º 3402003.843 S3C4T2 Fl. 3.353 3 MULTA DE OFÍCIO. RETROATIVIDADE BENIGNA. Em face da retroatividade benigna, cancelase a multa de lançamento de ofício. A 1ª Turma Ordinária da 1ª Câmara da 3ª Seção de Julgamento do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – CARF, nos termos do Acórdão nº 3101001.419, deu provimento parcial ao Recurso Voluntário interposto pela interessada para afastar a concomitância e determinar o retorno dos autos ao órgão julgador de primeira instância para analisar o mérito da compensação realizada pelo sujeito passivo." (fls. 156/157) Em análise dos argumentos de mérito da impugnação, entendeu aquela instância julgadora por negar provimento, mantendo apenas o entendimento quanto à decadência do período de janeiro a junho/1998 e à exclusão da multa de ofício. O julgamento foi ementado nos seguintes termos: "ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/1998 a 31/01/1998, 31/03/1998 a 30/11/1998 CRÉDITO TRIBUTÁRIO. DECADÊNCIA. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. Afastado, por inconstitucional, o prazo de dez anos para o lançamento das contribuições destinadas à Seguridade Social, a contagem do prazo decadencial regese pelo disposto no Código Tributário Nacional CTN, aplicandose a regra do § 4º do artigo 150 na hipótese em que houve pagamento antecipado da contribuição, ainda que parcial. AUTO DE INFRAÇÃO. COMPENSAÇÃO. Restando comprovado que os débitos não foram extintos mediante compensação, mantémse o crédito tributário lançado de ofício. MULTA DE OFÍCIO. RETROATIVIDADE BENIGNA. Em face da retroatividade benigna, cancelase a multa de lançamento de ofício. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte Acórdão Acordam os membros da 4ª Turma de Julgamento, por unanimidade de votos, acatar parcialmente a preliminar de decadência em relação aos fatos geradores ocorridos em janeiro de 1998 e março a junho de 1998; manter o crédito tributário em relação aos demais períodos mas exonerar a multa de ofício, nos termos do relatório e voto, que passam a integrar o presente julgado." (fl. 155) Assim, permanece em discussão nesse processo somente os valores principais de PIS autuados com base nos valores declarados em DCTF pela empresa EDN ESTIRENO DO NORDESTE S/A (CNPJ n.º 13.565.502/000101), relativos ao período de julho de 1998 a dezembro de 1998. Com a intimação da empresa incorporadora DOW BRASIL INDUSTRIA E COMERCIO DE PRODUTOS QUIMICOS LTDA (CNPJ n.º 60.435.351/000157) em 06/02/2015 (sextafeira fl. 170), foi apresentado Recurso Voluntário no qual foi alegado, em síntese, que os valores autuados mantidos foram compensados com crédito reconhecido em sentença transitada em julgado no Mandado de Segurança n.º 93.118340, na qual foi discutida a inconstitucionalidade dos Decretosleis 2.445/88 e 2.449/88. Fl. 3622DF CARF MF 4 Informa que, com o trânsito, a empresa compensou valores de PIS pago a maior, ingressando em outubro/2000 com Pedido de Restituição n.º 13502.000428/0007 ao qual foram vinculadas compensações, sendo que as compensações dos débitos autuados neste Auto de Infração foram descontados na apuração do crédito requerido naquele pedido de restituição, conforme estaria confirmado em planilha acostada ao processo (fls. 1.227/1.228, novamente reproduzida às fls. 1.247/1.248). Afirma ainda que, como o crédito eventualmente insuficiente será cobrado naquele processo relativo ao Pedido de Restituição, os processos estão interligados, devendo ser o presente processo suspenso para aguardar a apuração de crédito no referido processo n.º 13502.000428/0007. Por fim, acosta aos autos extensa documentação relativa à validade do crédito reconhecido judicialmente. Em razão da indisponibilidade do sistema eletrônico em 10/03/2015, comprovado pelas telas anexadas pela Recorrente às fls. 199/204, o protocolo foi concretizado após atendimento presencial naquela data no CAC de Santo Amaro (fls. 205/206), que emitiu, ainda que por insistência, o comprovante de recepção dos documentos em conformidade com os arts. 2º e 14 da Instrução Normativa n.º 1.412/2013. É o relatório Voto Conselheira Relatora Maysa de Sá Pittondo Deligne. Não obstante os transtornos encontrados pela Recorrente no protocolo do Recurso Voluntário, o recibo de entrega de documentos emitido após atendimento presencial em 10/03/2015, apresentado às fls. 205/206 após as telas de falha no processo eletrônico trazidas às fls. 199/204, é suficiente para atestar sua tempestividade, razão pela qual adentro em suas razões recursais. Desde o início do processo, a Recorrente afirma que os débitos autuados teriam sido compensados na DCTF e que a sua origem seriam os créditos reconhecidos judicialmente no Mandado de Segurança n.º 93.00118340. No Recurso Voluntário, apresentou vasta documentação que comprovaria a validade deste crédito judicial. Entretanto, o procedimento adotado pela Recorrente, de compensação direta por meio de DCTF de crédito reconhecido judicialmente, não estava de acordo com a disciplina normativa da compensação vigente à época dos fatos geradores e da transmissão da DCTF. Em um breve retrospecto, a compensação de tributos federais foi autorizada originariamente pelo art. 66 da Lei n.º 8.383/19911, segundo o qual a compensação de tributos da mesma espécie e de mesma destinação constitucional poderia ser realizado de forma 1 "Art. 66. Nos casos de pagamento indevido ou a maior de tributos, contribuições federais, inclusive previdenciárias, e receitas patrimoniais, mesmo quando resultante de reforma, anulação, revogação ou rescisão de decisão condenatória, o contribuinte poderá efetuar a compensação desse valor no recolhimento de importância correspondente a período subseqüente. (Redação dada pela Lei nº 9.069, de 29.6.1995)" (grifei) Fl. 3623DF CARF MF Processo nº 13504.000054/200305 Acórdão n.º 3402003.843 S3C4T2 Fl. 3.354 5 autônoma pelo contribuinte em seus documentos fiscais e contábeis, independentemente de requerimento prévio. Nesses moldes, a compensação era realizada pelo sujeito passivo e declarada nos documentos fiscais correspondentes (DCTF, GFIP ou similares). Contudo, essa disciplina legal foi alterada pelo art. 74 da Lei n.º 9.430/96, passando a ser exigido um requerimento prévio pelo interessado para a realização da compensação com quaisquer tributos e contribuições administrados pela Receita Federal. Vejamos a redação original deste dispositivo, vigente à época dos fatos geradores autuados e da transmissão da DCTF sob análise: "Art. 74. Observado o disposto no artigo anterior, a Secretaria da Receita Federal, atendendo a requerimento do contribuinte, poderá autorizar a utilização de créditos a serem a ele restituídos ou ressarcidos para a quitação de quaisquer tributos e contribuições sob sua administração." (grifei) Assim, diferentemente do que era viabilizado no regime anterior do art. 66 da Lei n.º 8.383/1991, com a disciplina introduzida pela Lei n.º 9.430/1996 o contribuinte não mais poderia proceder de forma autônoma com as compensações nos documentos fiscais (DCTF, GFIP ou equivalente). Passou a ser exigida a apresentação de requerimento prévio à Receita Federal. Essa questão foi muito bem elucidada pelo então Ministro do Superior Tribunal de Justiça Teori Albino Zavascki, no voto proferido no Recurso Especial n.º 548.161, na qual analisou caso de contribuinte que solicitou compensação em ação judicial protocolada em 1998. Vejamos primeiramente a ementa deste julgado: "TRIBUTÁRIO. REPETIÇÃO DE INDÉBITO. TRIBUTO SUJEITO A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO DECLARADO INCONSTITUCIONAL PELO STF. PRESCRIÇÃO. NOVA ORIENTAÇÃO FIRMADA PELA 1ª SEÇÃO DO STJ, NA APRECIAÇÃO DO ERESP 423.994/MG. FINSOCIAL. COMPENSAÇÃO ENTRE TRIBUTOS DIFERENTES. CORREÇÃO MONETÁRIA. JUROS. ÍNDICES. 1. A 1ª Seção do STJ, no julgamento do ERESP 423.994/MG, Min. Peçanha Martins, sessão de 08.10.2003, consagrou o seguinte entendimento, quanto ao prazo para pleitear a restituição de tributos sujeitos a lançamento por homologação cuja cobrança foi declarada inconstitucional pelo STF: (a) se a declaração de inconstitucionalidade ocorreu em sede de ação de controle concentrado, o prazo de cinco anos inicia na data da publicação do respectivo acórdão; e (b) se a inconstitucionalidade foi declarada na via do controle difuso, o prazo qüinqüenal tem início na data da resolução do Senado Federal suspendendo a execução da norma (CF, art. 52, X). Inexistindo resolução do Senado, aplicase a regra geral adotada para a repetição de tributos sujeitos a lançamento por homologação, qual seja, a de considerar como termo inicial do cinco anos da prescrição a data da homologação do lançamento. Adotase o entendimento firmado pela Seção, com ressalva do ponto de vista pessoal. 2. No regime da Lei 9.430/96, a compensação dependia de requerimento à autoridade fazendária, que, após a análise de cada caso, efetuaria ou não o encontro de débitos e créditos. Essa situação somente foi modificada com a edição da Lei 10.637/02, que deu novas redação ao art. 74 da Lei 9.430/96, autorizando, para os tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal, a compensação de iniciativa do contribuinte, mediante entrega de declaração contendo as Fl. 3624DF CARF MF 6 informações sobre os créditos e débitos utilizados, cujo efeito é o de extinguir o crédito tributário, sob condição resolutória de sua ulterior homologação. 3. Temse, assim, que, à época da propositura da demanda (1998), não havia autorização legal para a realização da compensação pelo próprio contribuinte, sendo indispensável o seu requerimento à Secretaria da Receita Federal, razão pela qual o pedido veiculado na inicial não poderia, com base no direito então vigente, ser atendido. Fica ressalvado, contudo, o direito da autora de proceder à compensação dos créditos na conformidade com as normas supervenientes. 4. Recurso especial provido." (REsp 548.161/PE, Rel. Ministro TEORI ALBINO ZAVASCKI, PRIMEIRA TURMA, julgado em 20/11/2003, DJ 09/12/2003, p. 235 grifei) Da íntegra do julgado acima depreendese um claro histórico da legislação aplicável à compensação no âmbito federal, evidenciando a impossibilidade da compensação autônoma pelo sujeito passivo a partir de 27/12/1996: "2.À luz do quadro legislativo correspondente, e se atendendo à regra geral segundo a qual a lei aplicável à compensação é a vigente na data do encontro entre os débitos e créditos, resulta que (a) até 30.12.91, não havia, em nosso sistema jurídico, a figura da compensação tributária; (b) de 30.12.91 a 27.12.96, havia autorização legal apenas para a compensação entre tributos da mesma espécie, nos termos do art. 66 da Lei 8.383∕91; (c) de 27.12.96 a 30.12.02, era possível a compensação entre valores decorrentes de tributos distintos, desde que todos fossem administrados pela Secretaria da Receita Federal e que esse órgão, a requerimento do contribuinte, autorizasse previamente a compensação, consoante o estabelecido no art. 74 da Lei 9.430∕96; (d) a partir de 30.12.02, com a nova redação do art. 74 da Lei 9.430∕96, dada pela Lei 10.637∕02, foi autorizada, para os tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal, a compensação de iniciativa do contribuinte, mediante entrega de declaração contendo as informações sobre os créditos e débitos utilizados, cujo efeito é o de extinguir o crédito tributário, sob condição resolutória de sua ulterior homologação. O pedido formulado na inicial, datada de 1998, está expresso nos seguintes termos: "que à impetrante seja reconhecido o direito em proceder com a compensação do valor pago indevidamente a título de FINSOCIAL, com impostos e contribuições devidos ao impetrado, conforme já pacificou o STJ, ratificado pelo Decretolei 2.138∕96" (fls. 13). O Decreto mencionado regulamentava o art. 74 da Lei 9.430∕96, estatuindo em pelo menos dois artigos que a compensação seria realizada pela própria Receita Federal — exigência que, conforme já se afirmou, não existia no regime do art. 66 da Lei 8.383∕91: Art. 1º, parágrafo único: A compensação será efetuada pela Secretaria da Receita Federal, a requerimento do contribuinte ou de ofício, mediante procedimento interno, observado o disposto neste Decreto. (...) Art. 3º A Secretaria da Receita Federal, ao reconhecer o direito de crédito do sujeito passivo para restituição ou ressarcimento de tributo ou contribuição, mediante exames fiscais para cada caso, se verificar a existência de débito do requerente, compensará os dois valores. Temse, assim, que, à época da propositura da demanda (1998), não havia autorização legal para a realização da compensação pelo próprio contribuinte, sendo indispensável o seu requerimento à Secretaria da Receita Federal, que, após a análise de cada caso, efetuaria ou não o encontro de débitos e créditos. O pedido veiculado na inicial não poderia, portanto, com base no direito então vigente, ser atendido. Sobrevieram, contudo, as modificações legislativas acima aludidas, relativas à abrangência e ao procedimento da compensação. Sobreveio também a Lei Complementar 104∕2001, que introduziu no Código Tributário o art. 170A, segundo Fl. 3625DF CARF MF Processo nº 13504.000054/200305 Acórdão n.º 3402003.843 S3C4T2 Fl. 3.355 7 o qual "é vedada a compensação mediante o aproveitamento de tributo, objeto de contestação judicial pelo sujeito passivo, antes do trânsito em julgado da respectiva decisão judicial". Agregouse, com isso, novo requisito para a realização da compensação tributária: a inexistência de discussão judicial sobre os créditos a serem utilizados pelo contribuinte na compensação. Atualmente, portanto, a compensação será viável apenas após o trânsito em julgado da decisão, devendo ocorrer, de acordo com o regime previsto na Lei 10.637∕02, isto é, (a) por iniciativa do contribuinte, (b) entre quaisquer tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal, (c) mediante entrega de declaração contendo as informações sobre os créditos e débitos utilizados, cujo efeito é o de extinguir o crédito tributário, sob condição resolutória de sua ulterior homologação." (grifei) Inicialmente, no âmbito infralegal, a disciplina para a compensação trazida pela Instrução Normativa n.º 21/1997 (DOU 11/03/1997) conciliou os dois regimes trazidos pelos diplomas legais acima mencionados, autorizando a compensação por meio de documento fiscal somente de tributos da mesma espécie e destinação (art. 14), exigindo o requerimento prévio para a compensação de tributos de espécies distintas (art. 12). Entretanto, para quaisquer dessas situações, o requerimento prévio era exigido em se tratando de indébito reconhecido por sentença judicial transitada em julgado (como no caso sob análise), com a devida comprovação da desistência da execução na via judicial (art. 17). Vejamos a exata disciplina normativa: "Art. 12. Os créditos de que tratam os arts. 2º e 3º, inclusive quando decorrentes de sentença judicial transitada em julgado, serão utilizados para compensação com débitos do contribuinte, em procedimento de ofício ou a requerimento do interessado. (...) § 7º A utilização de crédito decorrente de sentença judicial, transitada em julgado, para compensação, somente poderá ser efetuada após atendido o disposto no art. l7. (...) Art. 14. Os créditos decorrentes de pagamento indevido, ou a maior que o devido, de tributos e contribuições da mesma espécie e destinação constitucional, inclusive quando resultantes de reforma, anulação, revogação ou rescisão de decisão condenatória, poderão ser utilizados, mediante compensação, para pagamento de débitos da própria pessoa jurídica, correspondentes a períodos subseqüentes, desde que não apurados em procedimento de ofício, independentemente de requerimento. (...) § 6º A utilização de crédito decorrente de sentença judicial, transitada em julgado, para compensação, somente poderá ser efetuada após atendido o disposto no art. 17. (...) Art. 17. Para efeito de restituição, ressarcimento ou compensação de crédito decorrente de sentença judicial transitada em julgado, o contribuinte deverá anexar ao pedido de restituição ou de ressarcimento uma cópia do inteiro teor do processo judicial a que se referir o crédito e da respectiva sentença, determinando a restituição, o ressarcimento ou a compensação. (Redação dada pelo(a) Instrução Normativa SRF nº 73, de 15 de setembro de 1997) Fl. 3626DF CARF MF 8 § 1° No caso de título judicial em fase de execução, a restituição, o ressarcimento ou a compensação somente poderão ser efetuados se o contribuinte comprovar junto à unidade da SRF a desistência, perante o Poder Judiciário, da execução do título judicial e assumir todas as custas do processo, inclusive os honorários advocatícios. (Redação dada pelo(a) Instrução Normativa SRF nº 73, de 15 de setembro de 1997) § 2° Não poderão ser objeto de pedido de restituição, ressarcimento ou compensação os créditos decorrentes de títulos judiciais já executados perante o Poder Judiciário, com ou sem emissão de precatório. (Incluído(a) pelo(a) Instrução Normativa SRF nº 73, de 15 de setembro de 1997)" Importante frisar que a disciplina da Instrução Normativa n.º 21/1997 acima transcrita é clara quanto aos casos semelhantes ao presente, que envolvem crédito reconhecido judicialmente por decisão judicial transitada em julgado. Em qualquer caso, o contribuinte deveria apresentar previamente pedido de restituição/ressarcimento e "comprovar junto à unidade da SRF a desistência, perante o Poder Judiciário, da execução do título judicial e assumir todas as custas do processo, inclusive os honorários advocatícios" (art. 17, §1º). Cumpre mencionar que, como noticiado pela própria Recorrente, o procedimento normativo acima transcrito para o reconhecimento e compensação do crédito reconhecido judicialmente foi posteriormente seguido com a apresentação do Pedido de Restituição no processo n.º 13502.000428/0007. Contudo, referido pedido inexistia à época da emissão da DCTF objeto deste auto de infração. Assim, a legislação pátria não autorizava o procedimento adotado pelo Recorrente de compensar tributos da mesma espécie na própria documentação fiscal com créditos decorrentes de ação judicial antes do cumprimento dos requisitos trazidos à época pelo art. 17 da Instrução Normativa n.º 21/1997. Nesse sentido já manifestou este E. Conselho: "Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Anocalendário: 1997, 1998 COMPENSAÇÃO. TRIBUTOS DA MESMA ESPÉCIE. REGIME DO ART. 66 DA LEI 8.383, DE 1991. CRÉDITO DECORRENTE DE SENTENÇA JUDICIAL. NECESSIDADE DE PEDIDO DE RESTITUIÇÃO OU RESSARCIMENTO. A compensação de tributos de mesma espécie com crédito decorrente de sentença judicial transitada em julgado, nos moldes do art. 66 da Lei nº 8.383, de 1991, não podia ocorrer somente na contabilidade do contribuinte, sendo necessária a apresentação de pedido de restituição ou de ressarcimento, nos termos dos arts. 14 e 17 da Instrução Normativa SRF nº 21, de 1997. INFORMAÇÃO DE EXTINÇÃO DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO POR PAGAMENTO. MATÉRIA ATINENTE À EXECUÇÃO DO JULGADO. O pagamento efetuado após o lançamento corresponde à aceitação da exigência pelo contribuinte, que não mais compõe a lide administrativa. O recolhimento será alocado ao débito por ocasião da execução do julgado. Recurso Voluntário Negado." (Número do Processo 11543.004121/200107. Data da Sessão 31/07/2014. Relator José Evande Carvalho Araujo. Acórdão n.º 1102 001.170 grifei) "Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL Exercício: 1998 Ementa: COMPENSAÇÃO ADMINISTRATIVA DE CRÉDITOS DECORRENTES DE DECISÃO JUDICIAL, Art. 12, Fl. 3627DF CARF MF Processo nº 13504.000054/200305 Acórdão n.º 3402003.843 S3C4T2 Fl. 3.356 9 Os créditos de que tratam os arts. 2º e 3º, inclusive quando decorrentes de sentença judicial transitada em julgado, serão utilizados para compensação com débitos do contribuinte, em procedimento de ofício ou a requerimento do interessado. (...) § 7º A utilização de crédito decorrente de sentença judicial, transitada em julgado, para compensação, somente poderá ser efetuada após atendido o disposto no art.17, (Instrução Normativa n° 21, de 10/03/1997, com a redação dada pela IN SRF no 73, de 15/09/1997)" (Número do Processo 13890.000579/200326. Data da Sessão 11/12/2008 Relator Marcos Vinícius Barros Ottoni. Acórdão n.º 19100.068 grifei) Desta forma, correto o Auto de Infração lavrado exatamente por considerar a DCTF apresentada como inexata, com a corresponde falta de recolhimento do tributo nela declarado vez que a legislação não autorizava a compensação de crédito reconhecido judicialmente antes da apresentação de pedido de restituição/ressarcimento à Receita Federal na forma do art. 17 da IN 21/1997. Com isso, ausente fundamento legal ou normativo para a realização da compensação via DCTF como o feito pela Recorrente, deve ser mantido o Auto de Infração e a conclusão da decisão de primeira instância. Diante do exposto, voto por negar provimento ao Recurso Voluntário. É como voto. Maysa de Sá Pittondo Deligne Relatora Declaração de Voto Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto Peço vênia à Ilustre Conselheira Relatora para divergir de seu abalizado voto, sob os fundamentos de fato e de direito que serão aduzidos abaixo. Tratase de Auto de Infração lavrado em face da Recorrente, sob o fundamento de que o processo judicial que daria suporte para as compensações por ela formuladas não teria sido identificado pela Receita Federal do Brasil, consubstanciado na expressão “Proc Jud Não Comprovado” (fls. 26 e ss.). Com efeito, não foram homologadas as compensações, formalizadas por meio de DCTF, dos créditos de PIS decorrentes de pagamentos realizados na vigência dos DecretosLeis nºs 2.445/88 e 2.449/88, do período de 1991 a 1994, com débitos de PIS referentes aos meses de janeiro de 1998 e março de 1998 a dezembro de 1998. Impugnada a autuação fiscal (decorrente da falta de recolhimento dos tributos que o Recorrente pretendeu compensar), comprovou o Contribuinte a existência do Mandado Fl. 3628DF CARF MF 10 de Segurança consubstanciado no Processo nº 93.118340, Apelação nº 94.01.231290/BA que declarava inconstitucional a cobrança do PISDecreto. A Ilustre Relatora, em seu voto, consignou que: Desta forma, correto o Auto de Infração lavrado exatamente por considerar a DCTF apresentada como inexata, com a corresponde falta de recolhimento do tributo nela declarado vez que não a legislação não autorizada a compensação de crédito reconhecido judicialmente antes da apresentação de pedido de restituição/ressarcimento à Receita Federal na forma do art. 17 da IN 21/1997. Entendeu desta forma por partir da assunção de que estarseia tratando nos autos de uma compensação de crédito decorrente de sentença judicial, o que exigiria a apresentação de pedido de ressarcimento ou ressarcimento acompanhado de cópia da decisão transitada em julgado. A dicção da IN nº 21/1997 é clara nesse sentido: "Art. 12. Os créditos de que tratam os arts. 2º e 3º, inclusive quando decorrentes de sentença judicial transitada em julgado, serão utilizados para compensação com débitos do contribuinte, em procedimento de ofício ou a requerimento do interessado. (...) § 7º A utilização de crédito decorrente de sentença judicial, transitada em julgado, para compensação, somente poderá ser efetuada após atendido o disposto no art.17. (...) Art. 14. Os créditos decorrentes de pagamento indevido, ou a maior que o devido, de tributos e contribuições da mesma espécie e destinação constitucional, inclusive quando resultantes de reforma, anulação, revogação ou rescisão de decisão condenatória, poderão ser utilizados, mediante compensação, para pagamento de débitos da própria pessoa jurídica, correspondentes a períodos subseqüentes, desde que não apurados em procedimento de ofício, INDEPENDENTEMENTE DE REQUERIMENTO. (...) § 6º A utilização de crédito decorrente de sentença judicial, transitada em julgado, para compensação, somente poderá ser efetuada após atendido o disposto no art. 17. (...) Art. 17. Para efeito de restituição, ressarcimento ou compensação de crédito decorrente de sentença judicial transitada em julgado, o contribuinte deverá anexar ao pedido de restituição ou de ressarcimento uma cópia do inteiro teor do processo judicial a que se referir o crédito E DA RESPECTIVA SENTENÇA, DETERMINANDO A RESTITUIÇÃO, O RESSARCIMENTO OU A COMPENSAÇÃO. (Redação dada pelo(a) Instrução Normativa SRF nº 73, de 15 de setembro de 1997) Fl. 3629DF CARF MF Processo nº 13504.000054/200305 Acórdão n.º 3402003.843 S3C4T2 Fl. 3.357 11 § 1° No caso de título judicial em fase de execução, a restituição, o ressarcimento ou a compensação somente poderão ser efetuados se o contribuinte comprovar junto à unidade da SRF a desistência, perante o Poder Judiciário, da execução do título judicial e assumir todas as custas do processo, inclusive os honorários advocatícios. (Redação dada pelo(a) Instrução Normativa SRF nº 73, de 15 de setembro de 1997) § 2° Não poderão ser objeto de pedido de restituição, ressarcimento ou compensação os créditos decorrentes de títulos judiciais já executados perante o Poder Judiciário, com ou sem emissão de precatório. (Incluído(a) pelo(a) Instrução Normativa SRF nº 73, de 15 de setembro de 1997)" Como se vê claramente, na Instrução Normativa, a compensação de crédito decorrente de sentença judicial exige que se anexe ao pedido cópia da sentença que determine a restituição, o ressarcimento ou a compensação deste crédito tributário é dizer, a sentença deve possuir, em sua parte dispositiva, provimento condenatório da Fazenda Pública, consubstanciado em título executivo judicial, cujo conteúdo é a obrigação do Estado de restituir, ressarcir ou compensar determinados valores apurados judicialmente ou em posterior liquidação. Poderseia dizer, à primeira vista, que este seria exatamente o caso dos autos, pois há: i) pedido de compensação; ii) com base em sentença judicial transitada em julgado. Além disso, toda a discussão nos autos, inclusive as manifestações de defesa da Recorrente e as decisões presentes se dão em torno de uma sentença judicial que autorizou a compensação. Compulsando a decisão judicial, todavia, verificase que não é o caso dos autos. Isso se dá em razão da verificação de que, relativamente à aplicabilidade do §6º do art. 14 da IN nº 21/1997 c/c art. 17 do mesmo diploma, conforme consta da decisão judicial proferida no Mandado de Segurança em comento, a Recorrente não obteve autorização judicial expressa para realizar as compensações em questão. Pelo contrário, o juiz expressamente afirmou que não estava autorizando tal compensação senão vejamos: Analisando a primeira hipótese, chegase à conclusão de serem realmente inconstitucionais os DLs 2445/88 e 2449/88. (...) Fixado isto, importa saber se é possível determinar à autoridade coatora compensar os valores recolhidos a maior com os débitos vencidos ou vincendos do PIS ou de outros impostos federais. Em primeiro lugar, a via mandamental é inadequada para este pedido. (...) Do exposto, e pelos mais que dos autos consta, JULGO PROCEDENTE EM PARTE a mandamental, no sentido de APENAS garantir às Impetrantes o pagamento da contribuição Fl. 3630DF CARF MF 12 para PIS nos moldes da Lei Complementar nº 07/70 (alterada pelas Lei Complementares nºs 17/73 e 26/75), por inconstitucionais os Decretosleis 2445 e 2449, de 1988”. Como se vê, o provimento foi apenas no sentido de reconhecer a inconstitucionalidade da exigência do PISDecreto, declarandoa para todos os efeitos, mas sem incluir parcela condenatória no dispositivo (vejase que se trata de Mandado de Segurança, cuja natureza mandamental do provimento já, via de regra, dispensa ação executiva, o que tornaria despicienda qualquer espécie de condenação). A sentença proferida nesse processo judicial não concedeu a segurança na parte relativa às compensações, e sim apenas quanto ao reconhecimento da inconstitucionalidade da exigência de PIS com base DecretosLeis nºs 2.445/88 e 2.449/88. Assim sendo, ao declarar a inconstitucionalidade da cobrança do PIS Decreto, o juiz o faz com efeitos ex tunc, salvo na ocorrência de modulação dos efeitos da decisão, com a eficácia prática de afetar os pagamentos pretéritos realizados pelo Contribuinte e tornandoos, para todos os fins de direito, indevidos. Portanto, ao compensar os pagamentos indevidos (com respaldo da declaração de inconstitucionalidade), o contribuinte faz isso não com respaldo em um provimento condenatório, mas com base na eficácia retroativa da decisão declaratória transitada em julgado. Assim fazendo, compensa créditos de pagamento indevido, e não créditos decorrentes de sentença judicial que determinou a compensação. Frisese que não há, no caso, sentença determinando a restituição, ressarcimento e compensação, o que é expressamente exigido pelo art. 17 da IN nº 21/1997 para que o procedimento de compensação exija a juntada de pedido acompanhado de cópia da decisão. Desse modo, o caso em tela não se insere na hipótese do art. 14, §6º da IN nº 21, 1997, mas sim no caso delineado em seu caput por se tratar apenas de pagamento indevido , afastando a necessidade de requerimento específico, e franqueando ao contribuinte o direito de fazer a compensação diretamente na sua DCTF, como seu deu na presente situação. Assim sendo, a forma adotada para compensar o tributo estava plenamente de acordo com a jurisprudência deste CARF, como se verifica das ementas colacionadas abaixo: “DIFERENÇAS APURADAS ENTRE O ESCRITURADO E O DECLARADO/PAGO. A falta ou insuficiência de recolhimento IRPJ, não confessada, constitui infração que autoriza a lavratura do competente auto de infração, para a constituição do crédito tributário. DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. NECESSIDADE. A partir de outubro de 2002 a compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos ou contribuições com crédito relativo a tributo ou contribuição administrados pela RFB deve ser efetuada necessariamente mediante a apresentação da Declaração de Compensação. COMPENSAÇÃO. CRÉDITO DA MESMA ESPÉCIE. REQUISITOS. A compensação de indébitos tributários visando extinguir crédito tributário da mesma espécie e destinação constitucional, conquanto prescinda de formalização de pedido, para ter validade, deve ser devidamente declarada em DCTF antes do início da ação fiscal ou, no mínimo, demonstrado que a compensação foi procedida em sua contabilidade”. (CARF, Acórdão nº 1401001.450, Conselheiro Relator ANTONIO BEZERRA NETO, julgado em 10.12.2015.) Fl. 3631DF CARF MF Processo nº 13504.000054/200305 Acórdão n.º 3402003.843 S3C4T2 Fl. 3.358 13 “COMPENSAÇÃO FORMALIZADA EM DCTF. CRÉDITO RECONHECIDO EM AÇÃO JUDICIAL. PRAZO PARA HOMOLOGAÇÃO. Apenas a partir da edição da IN SRF nº 323/2003, que adicionou o parágrafo 6º ao art. 21 da IN SRF nº 210/2002, passou a ser exigida a apresentação de Declaração de Compensação para a realização da compensação entre tributos da mesma espécie. Antes disso, a compensação poderia ser concretizada diretamente na DCTF (...). (CARF, Acórdão nº 3403002.647, Conselheiro Relator IVAN ALLEGRETTI, julgado em 19.03.2014) À guisa de conclusão verificase que: 1) O Mandado de Segurança não determinou a compensação de créditos tributários, limitandose a declarar a inconstitucionalidade do PISDecreto. 2) Com base nisso, o contribuinte compensou os pagamentos que se tornaram retroativamente indevidos pelo provimento declaratório com eficácia ex tunc. 3) Em não se tratando de compensação com base em provimento judicial condenatório, não há que se aplicar o art. 14, §6º e 17 da IN nº 21/1997. 4) Recaindo o caso na hipótese do art. 14, caput da IN nº 21/1997, pode o contribuinte compensar os tributos diretamente na DCTF. 5) Constatandose nos autos que tal compensação foi efetivamente feita na DCTF, não há qualquer óbice que se opor a ela. Ante o exposto, e forte nessas razões e com a devida vênia em relação ao entendimento da I. Relatora, voto por dar PROVIMENTO INTEGRAL ao Recurso Voluntário do Contribuinte. É como voto. Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto Fl. 3632DF CARF MF
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Numero do processo: 10120.005376/2010-88
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Mon Dec 12 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Wed Feb 08 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/06/2007 a 31/12/2009
APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009.
Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta.
O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo.
Recurso Especial do Procurador Provido.
Numero da decisão: 9202-004.795
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em dar-lhe provimento. Votou pelas conclusões a conselheira Patrícia da Silva.
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Presidente em exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Gerson Macedo Guerra e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri.
Nome do relator: LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS
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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/06/2007 a 31/12/2009 APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo. Recurso Especial do Procurador Provido.
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PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo. Recurso Especial do Procurador Provido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em darlhe provimento. Votou pelas conclusões a conselheira Patrícia da Silva. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 12 0. 00 53 76 /2 01 0- 88 Fl. 201DF CARF MF Processo nº 10120.005376/201088 Acórdão n.º 9202004.795 CSRFT2 Fl. 0 2 (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Gerson Macedo Guerra e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri. Relatório O presente recurso foi objeto de julgamento na sistemática prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, adoto o relatório objeto do processo paradigma deste julgamento, n° 10380.005876/200753. A divergência em exame reportase à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. A Fazenda Nacional interpôs recurso especial requerendo que a retroatividade benigna fosse aplicada, essencialmente, pelos critérios constantes na Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. Cientificado, o sujeito passivo não apresentou contrarrazões. É o relatório. Voto Conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos Relator Este processo foi julgado na sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9202004.792, de 12/12/2016, proferido no julgamento do processo 10380.005876/200753, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio nos termos regimentais, o inteiro teor do voto proferido naquela decisão (Acórdão 9202004.792): O Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto deve ser conhecido. Fl. 202DF CARF MF Processo nº 10120.005376/201088 Acórdão n.º 9202004.795 CSRFT2 Fl. 0 3 Cingese a controvérsia às penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP nº 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009, quando mais benéfica ao sujeito passivo. A solução do litígio decorre do disposto no artigo 106, inciso II, alínea “a” do CTN, a seguir transcrito: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; II tratandose de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de definilo como infração; b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. (grifos acrescidos) De inicio, cumpre registrar que a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), de forma unânime pacificou o entendimento de que na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Assim, a multa de mora prevista no art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, não é aplicável quando realizado o lançamento de ofício, conforme consta do Acórdão nº 9202004.262 (Sessão de 23 de junho de 2016), cuja ementa transcrevese: AUTO DE INFRAÇÃO OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA MULTA APLICAÇÃO NOS LIMITES DA LEI 8.212/91 C/C LEI 11.941/08 APLICAÇÃO DA MULTA MAIS FAVORÁVEL RETROATIVIDADE BENIGNA NATUREZA DA MULTA APLICADA. A multa nos casos em que há lançamento de obrigação principal lavrados após a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, mesmo que referente a fatos geradores anteriores a publicação da referida lei, é de ofício. AUTO DE INFRAÇÃO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL E ACESSÓRIA COMPARATIVO DE MULTAS APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. Fl. 203DF CARF MF Processo nº 10120.005376/201088 Acórdão n.º 9202004.795 CSRFT2 Fl. 0 4 Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Se as multas por descumprimento de obrigações acessória e principal foram exigidas em procedimentos de ofício, ainda que em separado, incabível a aplicação retroativa do art. 32A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, eis que esta última estabeleceu, em seu art. 35A, penalidade única combinando as duas condutas. A legislação vigente anteriormente à Medida Provisória n° 449, de 2008, determinava, para a situação em que ocorresse (a) recolhimento insuficiente do tributo e (b) falta de declaração da verba tributável em GFIP, a constituição do crédito tributário de ofício, acrescido das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, respectivamente. Posteriormente, foi determinada, para essa mesma situação (falta de pagamento e de declaração), apenas a aplicação do art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991, que faz remissão ao art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996. Portanto, para aplicação da retroatividade benigna, resta necessário comparar (a) o somatório das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, e (b) a multa prevista no art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991. A comparação de que trata o item anterior tem por fim a aplicação da retroatividade benigna prevista no art. 106 do CTN e, caso necessário, a retificação dos valores no sistema de cobrança, a fim de que, em cada competência, o valor da multa aplicada no AIOA somado com a multa aplicada na NFLD/AIOP não exceda o percentual de 75%. Prosseguindo na análise do tema, também é entendimento pacífico deste Colegiado que na hipótese de lançamento apenas de obrigação principal, a retroatividade benigna será aplicada se, na liquidação do acórdão, a penalidade anterior à vigência da MP 449, de 2008, ultrapassar a multa do art. 35A da Lei n° 8.212/91, correspondente aos 75% previstos no art. 44 da Lei n° 9.430/96. Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela MP 449 (convertida na Lei 11.941, de 2009), tenham sido aplicadas isoladamente descumprimento de obrigação acessória sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, bem assim no caso de competências em que o lançamento da obrigação principal tenha sido atingida pela decadência. Neste sentido, transcrevese excerto do voto unânime proferido no Acórdão nº 9202004.499 (Sessão de 29 de setembro de 2016): Fl. 204DF CARF MF Processo nº 10120.005376/201088 Acórdão n.º 9202004.795 CSRFT2 Fl. 0 5 Até a edição da MP 449/2008, quando realizado um procedimento fiscal, em que se constatava a existência de débitos previdenciários, lavravase em relação ao montante da contribuição devida, notificação fiscal de lançamento de débito NFLD. Caso constatado que, além do montante devido, descumprira o contribuinte obrigação acessória, ou seja, obrigação de fazer, como no caso de omissão em GFIP (que tem correlação direta com o fato gerador), a empresa era autuada também por descumprimento de obrigação acessória. Nessa época os dispositivos legais aplicáveis eram multa art. 35 para a NFLD (24%, que sofria acréscimos dependendo da fase processual do débito) e art. 32 (100% da contribuição devida em caso de omissões de fatos geradores em GFIP) para o Auto de infração de obrigação acessória. Contudo, a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, inseriu o art. 32A, o qual dispõe o seguinte: “Art. 32A. O contribuinte que deixar de apresentar a declaração de que trata o inciso IV do caput do art. 32 desta Lei no prazo fixado ou que a apresentar com incorreções ou omissões será intimado a apresentála ou a prestar esclarecimentos e sujeitarseá às seguintes multas: I – de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas; e II – de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3o deste artigo. § 1o Para efeito de aplicação da multa prevista no inciso II do caput deste artigo, será considerado como termo inicial o dia seguinte ao término do prazo fixado para entrega da declaração e como termo final a data da efetiva entrega ou, no caso de nãoapresentação, a data da lavratura do auto de infração ou da notificação de lançamento. § 2o Observado o disposto no § 3o deste artigo, as multas serão reduzidas: I – à metade, quando a declaração for apresentada após o prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício; ou II – a 75% (setenta e cinco por cento), se houver apresentação da declaração no prazo fixado em intimação. Fl. 205DF CARF MF Processo nº 10120.005376/201088 Acórdão n.º 9202004.795 CSRFT2 Fl. 0 6 § 3o A multa mínima a ser aplicada será de: I – R$ 200,00 (duzentos reais), tratandose de omissão de declaração sem ocorrência de fatos geradores de contribuição previdenciária; e II – R$ 500,00 (quinhentos reais), nos demais casos.” Entretanto, a MP 449, Lei 11.941/2009, também acrescentou o art. 35A que dispõe o seguinte, “Art. 35A. Nos casos de lançamento de ofício relativos às contribuições referidas no art. 35 desta Lei, aplicase o disposto no art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996.” O inciso I do art. 44 da Lei 9.430/96, por sua vez, dispõe o seguinte: “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata “ Com a alteração acima, em caso de atraso, cujo recolhimento não ocorrer de forma espontânea pelo contribuinte, levando ao lançamento de ofício, a multa a ser aplicada passa a ser a estabelecida no dispositivo acima citado, ou seja, em havendo lançamento da obrigação principal (a antiga NFLD), aplicase multa de ofício no patamar de 75%. Essa conclusão levanos ao raciocínio que a natureza da multa, sempre que existe lançamento, referese a multa de ofício e não a multa de mora referida no antigo art. 35 da lei 8212/91. Contudo, mesmo que consideremos que a natureza da multa é de "multa de ofício" não podemos isoladamente aplicar 75% para as Notificações Fiscais NFLD ou Autos de Infração de Obrigação Principal AIOP, pois estaríamos na verdade retroagindo para agravar a penalidade aplicada. Por outro lado, com base nas alterações legislativas não mais caberia, nos patamares anteriormente existentes, aplicação de NFLD + AIOA (Auto de Infração de Obrigação Acessória) cumulativamente, pois em existindo lançamento de ofício a multa passa a ser exclusivamente de 75%. Tendo identificado que a natureza da multa, sempre que há lançamento, é de multa de ofício, considerando o princípio da retroatividade benigna previsto no art. 106. inciso II, alínea “c”, do Código Tributário Nacional, há Fl. 206DF CARF MF Processo nº 10120.005376/201088 Acórdão n.º 9202004.795 CSRFT2 Fl. 0 7 que se verificar a situação mais favorável ao sujeito passivo, face às alterações trazidas. No presente caso, foi lavrado AIOA julgada, e alvo do presente recurso especial, prevaleceu o valor de multa aplicado nos moldes do art. 32A. No caso da ausência de informação em GFIP, conforme descrito no relatório a multa aplicada ocorreu nos termos do art. 32, inciso IV, § 5º, da Lei nº 8.212/1991 também revogado, o qual previa uma multa no valor de 100% (cem por cento) da contribuição não declarada, limitada aos limites previstos no § 4º do mesmo artigo. Face essas considerações para efeitos da apuração da situação mais favorável, entendo que há que se observar qual das seguintes situações resulta mais favorável ao contribuinte: · Norma anterior, pela soma da multa aplicada nos moldes do art. 35, inciso II com a multa prevista no art. 32, inciso IV, § 5º, observada a limitação imposta pelo § 4º do mesmo artigo, ou · Norma atual, pela aplicação da multa de setenta e cinco por cento sobre os valores não declarados, sem qualquer limitação, excluído o valor de multa mantido na notificação. Levando em consideração a legislação mais benéfica ao contribuinte, conforme dispõe o art. 106 do Código Tributário Nacional (CTN), o órgão responsável pela execução do acórdão deve, quando do trânsito em julgado administrativo, efetuar o cálculo da multa, em cada competência, somando o valor da multa aplicada no AI de obrigação acessória com a multa aplicada na NFLD/AIOP, que não pode exceder o percentual de 75%, previsto no art. 44, I da Lei n° 9.430/1996. Da mesma forma, no lançamento apenas de obrigação principal o valor das multa de ofício não pode exceder 75%. No AI de obrigação acessória, isoladamente, o percentual não pode exceder as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Observese que, no caso de competências em que a obrigação principal tenha sido atingida pela decadência (pela antecipação do pagamento nos termos do art. 150, § 4º, do CTN), subsiste a obrigação acessória, isoladamente, relativa às mesmas competências, não atingidas pela decadência posto que regidas pelo art. 173, I, do CTN, e que, portanto, deve ter sua penalidade limitada ao valor previsto no artigo 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Fl. 207DF CARF MF Processo nº 10120.005376/201088 Acórdão n.º 9202004.795 CSRFT2 Fl. 0 8 Cumpre ressaltar que o entendimento acima está em consonância com o que dispõe a Instrução Normativa RFB nº 971, de 13 de novembro de 2009, alterada pela Instrução Normativa RFB nº 1.027 em 22/04/2010, e no mesmo diapasão do que estabelece a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, que contempla tanto os lançamentos de obrigação principal quanto de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente. Neste passo, para os fatos geradores ocorridos até 03/12/2008, a autoridade responsável pela execução do acórdão, quando do trânsito em julgado administrativo, deverá observar a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 que se reporta à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias nos lançamentos de obrigação principal e de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. De fato, as disposições da referida Portaria, a seguir transcritas, estão em consonância com a jurisprudência unânime desta 2ª Turma da CSRF sobre o tema: Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 Art. 1º A aplicação do disposto nos arts. 35 e 35A da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, às prestações de parcelamento e aos demais débitos não pagos até 3 de dezembro de 2008, inscritos ou não em Dívida Ativa, cobrados por meio de processo ainda não definitivamente julgado, observará o disposto nesta Portaria. Art. 2º No momento do pagamento ou do parcelamento do débito pelo contribuinte, o valor das multas aplicadas será analisado e os lançamentos, se necessário, serão retificados, para fins de aplicação da penalidade mais benéfica, nos termos da alínea "c" do inciso II do art. 106 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional (CTN). § 1º Caso não haja pagamento ou parcelamento do débito, a análise do valor das multas referidas no caput será realizada no momento do ajuizamento da execução fiscal pela ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (PGFN). § 2º A análise a que se refere o caput darseá por competência. § 3º A aplicação da penalidade mais benéfica na forma deste artigo darseá: I mediante requerimento do sujeito passivo, dirigido à autoridade administrativa competente, informando e comprovando que se subsume à mencionada hipótese; ou Fl. 208DF CARF MF Processo nº 10120.005376/201088 Acórdão n.º 9202004.795 CSRFT2 Fl. 0 9 II de ofício, quando verificada pela autoridade administrativa a possibilidade de aplicação. § 4º Se o processo encontrarse em trâmite no contencioso administrativo de primeira instância, a autoridade julgadora fará constar de sua decisão que a análise do valor das multas para verificação e aplicação daquela que for mais benéfica, se cabível, será realizada no momento do pagamento ou do parcelamento. Art. 3º A análise da penalidade mais benéfica, a que se refere esta Portaria, será realizada pela comparação entre a soma dos valores das multas aplicadas nos lançamentos por descumprimento de obrigação principal, conforme o art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e de obrigações acessórias, conforme §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e da multa de ofício calculada na forma do art. 35A da Lei nº 8.212, de 1991, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009. § 1º Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, tenham sido aplicadas isoladamente, sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal, deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. § 2º A comparação na forma do caput deverá ser efetuada em relação aos processos conexos, devendo ser considerados, inclusive, os débitos pagos, os parcelados, os nãoimpugnados, os inscritos em Dívida Ativa da União e os ajuizados após a publicação da Medida Provisória nº 449, de 3 de dezembro de 2008. Art. 4º O valor das multas aplicadas, na forma do art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, sobre as contribuições devidas a terceiros, assim entendidas outras entidades e fundos, deverá ser comparado com o valor das multa de ofício previsto no art. 35A daquela Lei, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009, e, caso resulte mais benéfico ao sujeito passivo, será reduzido àquele patamar. Art. 5º Na hipótese de ter havido lançamento de ofício relativo a contribuições declaradas na Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social (GFIP), a multa aplicada limitarseá àquela prevista no art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. Fl. 209DF CARF MF Processo nº 10120.005376/201088 Acórdão n.º 9202004.795 CSRFT2 Fl. 0 10 Em face ao exposto, dou provimento ao recurso para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. Em face do acima exposto, voto por conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, darlhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Fl. 210DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 12457.735120/2013-75
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Feb 20 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Mar 23 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Importação - II
Período de apuração: 26/08/2010 a 05/11/2010
Ementa:
OCULTAÇÃO. SIMULAÇÃO. DANO AO ERÁRIO. PENA DE PERDIMENTO. MULTA EQUIVALENTE.
Em consonância com a doutrina e a jurisprudência administrativa, que considera plenamente aceitável o uso da prova indireta em direito tributário, inclusive em atos fraudulentos, a fiscalização apurou um quadro indiciário que, por presunção simples, conduz ao cometimento da infração.
Os elementos indiciários apurados devem ser analisados conjuntamente. Embora a eventual existência de somente um só deles pudesse não ser suficiente para a configuração da infração, o que importa é que o conjunto probatório, considerado como um todo, convirja ao cometimento da infração veiculada pelo art. 23, inciso V e §1º e 3º do Decreto-lei n° 1.455/76.
Caracteriza dano ao Erário a importação de mercadoria com ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros.
Aplica-se a multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria na importação, quando essa não for localizada, ou tiver sido consumida ou revendida, por ocasião da apuração da infração por dano ao Erário.
Recurso voluntário negado
Numero da decisão: 3402-003.826
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, pelo voto de qualidade, em negar provimento aos recursos. Vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto. Designada a Conselheira Maria Aparecida Martins de Paula.
(Assinado com certificado digital)
Antonio Carlos Atulim - Presidente
(Assinado com certificado digital)
Thais De Laurentiis Galkowicz - Relatora
(Assinado com certificado digital)
Maria Aparecida Martins de Paula - Redatora designada
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Antonio Carlos Atulim, Jorge Freire, Diego Diniz Ribeiro, Waldir Navarro Bezerra, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto.
Nome do relator: THAIS DE LAURENTIIS GALKOWICZ
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Importação - II Período de apuração: 26/08/2010 a 05/11/2010 Ementa: OCULTAÇÃO. SIMULAÇÃO. DANO AO ERÁRIO. PENA DE PERDIMENTO. MULTA EQUIVALENTE. Em consonância com a doutrina e a jurisprudência administrativa, que considera plenamente aceitável o uso da prova indireta em direito tributário, inclusive em atos fraudulentos, a fiscalização apurou um quadro indiciário que, por presunção simples, conduz ao cometimento da infração. Os elementos indiciários apurados devem ser analisados conjuntamente. Embora a eventual existência de somente um só deles pudesse não ser suficiente para a configuração da infração, o que importa é que o conjunto probatório, considerado como um todo, convirja ao cometimento da infração veiculada pelo art. 23, inciso V e §1º e 3º do Decreto-lei n° 1.455/76. Caracteriza dano ao Erário a importação de mercadoria com ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros. Aplica-se a multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria na importação, quando essa não for localizada, ou tiver sido consumida ou revendida, por ocasião da apuração da infração por dano ao Erário. Recurso voluntário negado
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SIMULAÇÃO. DANO AO ERÁRIO. PENA DE PERDIMENTO. MULTA EQUIVALENTE. Em consonância com a doutrina e a jurisprudência administrativa, que considera plenamente aceitável o uso da prova indireta em direito tributário, inclusive em atos fraudulentos, a fiscalização apurou um quadro indiciário que, por presunção simples, conduz ao cometimento da infração. Os elementos indiciários apurados devem ser analisados conjuntamente. Embora a eventual existência de somente um só deles pudesse não ser suficiente para a configuração da infração, o que importa é que o conjunto probatório, considerado como um todo, convirja ao cometimento da infração veiculada pelo art. 23, inciso V e §1º e 3º do Decretolei n° 1.455/76. Caracteriza dano ao Erário a importação de mercadoria com ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros. Aplicase a multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria na importação, quando essa não for localizada, ou tiver sido consumida ou revendida, por ocasião da apuração da infração por dano ao Erário. Recurso voluntário negado Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 12 45 7. 73 51 20 /2 01 3- 75 Fl. 747DF CARF MF 2 Acordam os membros do Colegiado, pelo voto de qualidade, em negar provimento aos recursos. Vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto. Designada a Conselheira Maria Aparecida Martins de Paula. (Assinado com certificado digital) Antonio Carlos Atulim Presidente (Assinado com certificado digital) Thais De Laurentiis Galkowicz Relatora (Assinado com certificado digital) Maria Aparecida Martins de Paula Redatora designada Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Antonio Carlos Atulim, Jorge Freire, Diego Diniz Ribeiro, Waldir Navarro Bezerra, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto. Relatório Tratase de recursos voluntários interpostos em face da decisão proferida pela Delegacia da Receita Federal de Julgamento (“DRJ”) de São Paulo/SP, que declarou improcedente a impugnação apresentada pelo contribuinte sobre a cobrança pena de perdimento comutada em multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria, consubstanciada nos autos de infração em questão (fls 10 – 38), no valor de R$ 14.206,92. Por bem consolidar os fatos que deram ensejo ao lançamento tributário em questão, bem como os argumentos trazidos pelos contribuintes em sede de impugnação, com riqueza de detalhes, colaciono os trechos mais importantes do relatório do Acórdão da DRJ: A fiscalização apurou que a empresa a importadora das mercadorias, PONTUAL COMERCIO, IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO DE PECAS AUTOMOTIVAS LTDA não é a real adquirente das mercadorias importadas e que a mesma operava como interposta pessoa em comércio exterior, ocultando a empresa TRIGOFORTE INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE GÊNEROS ALIMENTÍCIOS LTDA praticando assim infração à legislação aplicável à matéria com previsão de pena de perdimento às mercadorias transacionadas. Face ao que determina o art. 23, inciso V, c/c o §3º, do Decreto Lei n° 1.455, de 07 de abril de 1976, foi lavrado o presente Auto de Infração para a aplicação de multa equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias importadas pela impossibilidade de apreensão de tais mercadorias. Foram autuados pelo presente Auto de Infração: Como Contribuinte (Importador): Fl. 748DF CARF MF Processo nº 12457.735120/201375 Acórdão n.º 3402003.826 S3C4T2 Fl. 748 3 ∙ TRIGOFORTE INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE GÊNEROS ALIMENTÍCIOS LTDA, CNPJ 09.182.172/000106, na figura de responsável solidária (não a única, devido ao envolvimento de outra empresa também, mas na proporção do que ela adquiriu). O contribuinte TRIGOFORTE INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE GÊNEROS ALIMENTÍCIOS LTDA foi cientificado do auto de infração, via Aviso de Recebimento, em 10/10/2013 (fls. 258). O contribuinte PONTUAL COMERCIO, IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO DE PECAS AUTOMOTIVAS LTDA foi cientificado do auto de infração, pessoalmente, em 04/10/2013 (fls. 580). O contribuinte TRIGOFORTE INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE GÊNEROS ALIMENTÍCIOS, protocolizou impugnação, tempestivamente em 12/11/2013, na forma do artigo 56 do Decreto nº 7.574/2011, de fls. 263 à 274, instaurando assim a fase litigiosa do procedimento. O impugnante alegou que: Esta defesa visa esclarecer que a Requerente,a empresa TRIGOFORT, jamais poderia ser responsabilizada por qualquer ilícito tributário que possa ter cometido à empresa importadora/adquirente Pontual, pois tratase a relação jurídica entre estas tão somente de comércio, ou seja compra e venda de insumos, dentro do território nacional, não havendo a Requerente relação alguma com as importações realizadas pelas Dl's supra citadas como se pode comprovar pelas documentações apresentadas pela empresa Pontual. Desde o primeiro momento a Requerente demonstra sua boafé em elucidar quaisquer equívocos quanto às suas relações comerciais, respondendo com exatidão todas as informações solicitadas pelo Fisco Federal. DA OPERAÇÃO DE IMPORTAÇÃO POR CONTA E ORDEM A Requerente tem relação jurídica de cliente com a empresa Pontual, desde o início de sua atividade empresarial, e devido a este tempo de relação comercial, motivo pelo qual o pagamento relativo aos pedidos por várias vezes foi efetivado no momento da solicitação do pedido, o que é o caso das Dl's aqui arroladas, bem como, foi feito posteriormente ao desembaraço aduaneiro, operações estas que foram excluídas do presente procedimento. É certo que há uma linha bem tênue entre a operação de simples comércio e a simulação de negócio jurídico que tende utilizar terceiros como laranja na importação de mercadorias. Contudo, não é o que se trata o caso em tela como pretendemos demonstrar. Conforme se extrai dos documentos acostados ao procedimento fiscal, verificase que nem toda farinha importadas (sic) pelas Dl's foram destinadas à Requerente. Fl. 749DF CARF MF 4 A relação comercial entre as empresas, não pode ser equiparada, ou gera (sic) "fortes indícios" de ocultação do real sujeito passivo nas operações de importação direta promovida única e exclusivamente pela empresa Pontual. DA SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA POR INFRAÇÃO O termo de sujeição passiva solidária imposta no processo em epígrafe, fundamentase no art. 124, I e II do CTN e art. 95, I e V do Decreto Lei n° 37/1966. A responsabilidade solidária imputada no caso em tela referese ao enquadramento legal que comina multa, não passível de redução, imposta pelo art. 23, §3° do DecretoLei N° l.455/76, com a redação dada pelo art. 59 da Lei N° 10.637/02. Conforme já discutido retro, incabível se falar em fraude, simulação, ocultação de sujeito passivo ou interposição de pessoa com intuito de obter benefício de qualquer espécie nesta operação de importação. A responsabilidade solidária na importação visa, atribuir à terceiro, que tenha interesse comum com o fato gerador ou que por força de infração, seja designada por lei sua sujeição passiva, o dever de responder pelo dano ou tributo originado. Ocorre que a Reclamante não tem interesse algum em ocultar se nas operações de importações efetuadas, uma vez que não há como se beneficiar de qualquer modo nesta infundada infração. Ainda que o termo da lei disponha que a mera ocultação do sujeito passivo, causa por si só dano ao erário público, não devemos interpretar a legislação tão somente de forma restritiva, posto que é necessário para o caso a analogia de todos elementos inerentes às operações de importações, não somente a legislação crua. Em nenhum momento, os respeitáveis auditores fiscais discorreram sobre a alíquota zero pelo qual o produto importado é beneficiado. Como se extrai das próprias declarações de importações, há a redução das alíquotas do PIS/PASEP E Cofins (art. 1, inciso XIV da Lei 10.925/2004, MP 433/2008), Imposto Importação (Decreto Exec. 550/1992), IPI (Decreto 6006/2006). Quanto ao a questão do pagamento antecipado, eis que este ocorre única e exclusivamente para garantir melhores condições na compra da farinha do trigo, contudo, a Requerente não tem acesso às informações profissionais e comerciais de seu fornecedor, se este adquire produtos antes ou depois dos pagamentos efetuados, ou qual a forma de aquisição destes. A relação jurídica com a empresa pontual é exclusivamente de aquisição direta de farinha de trigo nacionalizada, não adquirindo outro produto junto a esta, e como se apresenta pela documentação fiscal apresentada. Não há e nunca houve indícios de irregularidades fiscais, ou comerciais, nas aquisições durante todos os anos de relação de fornecedor/cliente entre as empresas. Fl. 750DF CARF MF Processo nº 12457.735120/201375 Acórdão n.º 3402003.826 S3C4T2 Fl. 749 5 Insta destacar, que o perdimento da mercadoria, substituído pela multa, incorre quando presente o dano ao erário público, infração impossível no caso em tela, não havendo nexo de causalidade a ocultação da sujeição passiva se não há benefícios que possam ser pretendidos pela Requerente. Junta textos da jurisprudência: (TRF1B R., REO 89.01.17103 1/DF, rel. Juiz Fernando Gonçalvez, j. 06.08.1990, DOU 27.08.1990) Ademais, a responsabilidade solidária em questão referese à infração, qual seja "dano ao erário” por ocultação de sujeito passivo, contudo, neste caso regulamentada pelo art. 136 e 137 do CTN, Seção IV do CTN, Responsabilidade por infrações, a responsabilidade pessoal do agente. O artigo 124, I e II do CTN, decorre primeiro do interesse comum na situação que constitui o fato gerador e é chamada de solidariedade de fato, e posteriormente do previsão legal da lei que institua o tributo, a chamada solidariedade de direito. Contudo há limites as (sic) esta previsão legal. O legislador não pode contrariar o CTN, tão pouco estabelecer solidariedade para quem não guarde relação com o fato gerador. O art. 124 não autoriza a lei colocar como solidário quem não tem relação direta com o fato gerador. Não restou configurado pela Fazenda Nacional, qual seria o “interesse comum" nas operações de importação de farinha de trigo, pois o benefício fiscal de redução a 0% as alíquotas dos impostos devidos na operação de importação, são benefícios objetivos, e dependente de quem promove a importação, seria concedido o beneficio, pelo qual a empresa TRIGOFORT não tem interesse comum nas importações realizadas pela empresa PONTUAL, por sua conta e ordem. As condições comerciais praticadas entre as empresas, onde ocorreram pagamentos antecipados por parte da Requerente, tem exclusivamente o intuito de obter melhores condições de preço junto à empresa Pontual, não podendo em hipótese alguma ser considerada ocultação do sujeito passivo, pois não há interesse em agir da Requerente. Quanto à responsabilidade de direito, imposta por lei, deve se considerar que o intuito desta é de se fazer o cumprimento da obrigação principal do tributo, o que inexiste no caso em tela. A interpretação restrita da letra da lei, não analisando a situação fática como um todo, gera não a solidariedade passiva, mas a substituição tributária irregular, trazendo total insegurança jurídica nas relações comerciais inviabilizando os negócios jurídicos Fl. 751DF CARF MF 6 perfeitamente regulares. Junta textos da jurisprudência do STJ:(STJ , Relator: Ministro FRANCISCO FALCÃO, Data de Julgamento: 15/03/2012, T1 PRIMEIRA TURMA) Desta feita, devemos buscar a primazia do Princípio da Verdade Material na relação jurídica tributária em comento, verificando que não há irregularidades nas operações realizadas entre a empresa Pontual e TRIGOFORT, não sendo ilícita, ilegal ou irregular, o ajuste comercial de pagamento antecipado, ou à vista, na aquisição de mercadoria, mesmo que oriunda do exterior. Devese frisar, que não há absolutamente nenhum interesse comum da empresa TRIGOFORT na ocorrência do fato gerador da obrigação principal nas importações, motivo pelo qual a falta de interesse de agir inviabiliza a tese da Fazenda Nacional de que houve ‘‘fortes indícios de ocultação do sujeito passivo" nas operações. DO PEDIDO Por todo o exposto, requer que, sejam acolhidos os argumentos da presente Impugnação, de que não há qualquer modalidade de fraude nas relações jurídicas entre as empresas e o Fisco Federal, para que seja julgada Improcedente a Autuação objeto no processo administrativo em epígrafe, anulando consequentemente o Termo de Sujeição Passiva Solidária e cancelamento da Multa Proporcional ao Valor Aduaneiro em R$ 14.206,92 (quatorze mil duzentos e seis reais e noventa e dois centavos). O contribuinte PONTUAL COMERCIO, IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO DE PECAS AUTOMOTIVAS LTDA, protocolizou impugnação, tempestivamente em 04/11/2013, na forma do artigo 56 do Decreto nº 7.574/2011, de fls. 282 à 301, instaurando assim a fase litigiosa do procedimento. O impugnante alegou que: A autoridade lançadora constituiu contra a impugnante crédito tributário referente à multa de 100% do valor aduaneiro das mercadorias importadas, por entender que houve ocultação do real sujeito passivo, mediante interposição fraudulenta, tendo como fundamento os artigos 23, do Decreto Lei 1.455/76 e 81, da Lei 10.833/2003. Alicerçou sua proposta (de multa no valor de 100% do valor aduaneiro, em substituição à pena de perdimento da mercadoria importada) nos seguintes fundamentos: 1. margem de lucro; 2. poucos empregados registrados na empresa; 3. datas de saída muito próximas das datas de chegada das Fl. 752DF CARF MF Processo nº 12457.735120/201375 Acórdão n.º 3402003.826 S3C4T2 Fl. 750 7 mercadorias; 4. as declarações prestadas pela sócia. 5. imprestabilidade da contabilidade. Em contestação a esses fundamentos, a impugnante aduz que: 1 O lucro de uma empresa depende de diversos fatores, entre eles a oferta e demanda, lei de mercado. A impugnante prefere ganhar na quantidade, vendendo sua mercadoria com preço mais competitivo. Ademais, não há nenhuma lei que estabeleça o percentual de lucro que determinada empresa deverá ter com cada um dos produtos que vende. Mesmo assim a autoridade fiscal considerou pouco 10% (dez por cento) de lucro em operações que totalizaram R$ 3,2 milhões em 2007, R$ 5,03 milhões em 2008, R$ 3,64 milhões em 2009, R$ 7,59 milhões em 2010, R$ 15,98 milhões em 2011 (vide quadro da fl. 14 do Auto de Infração). Junta textos da jurisprudência do STJ: (REsp 1327809 / PR). 2 O argumento “de que a autuada possui poucos empregados registrados” também não tem maior relevância pois, na maior parte das vezes, o que de fato acontece é que, assim que as mercadorias chegam ao Brasil e, naturalmente, após o desembaraço aduaneiro, são de imediato enviadas ao depósito em São Paulo ou aos depósitos da transportadora até que seja efetivada a venda e, então, encaminhadas, também imediatamente, aos compradores. Não há, portanto, necessidade de muitos empregados registrados para fazer a retirada e depois a entrega das mercadorias, pois esta tarefa é desempenhada pelos empregados da transportadora. No seu estabelecimento, a impugnante precisa apenas do número suficiente para tratar da compra com o vendedor/exportador estrangeiro e encontrar compradores no mercado interno. 3 Em terceiro lugar, quanto à proximidade das datas de chegada e saída das mercadorias importadas, cabe ressaltar que, após serem negociadas com o vendedor/exportador estrangeiro, estas demoram mais de 30 dias para chegar ao Brasil, tempo suficiente, na maioria das vezes, para se encontrar compradores no território nacional. Para esclarecer o procedimento: primeiro é feita a negociação com o fornecedor estrangeiro e, após convencionado o preço (com prazo para pagamento e conforme cartas de crédito doc. 4), buscamse compradores brasileiros; mas o recebimento do valor contratado só ocorre depois de emitidas a Licença de Importação e a Declaração de Importação, demonstrando assim que não há “encomenda” e muito menos, “importação por conta Fl. 753DF CARF MF 8 e ordem”, visto que não há recebimento de valores antecipadamente. 4 Em quarto lugar, as declarações prestadas pela Sócia Janice devem ser avaliadas levando em consideração que foram prestadas por pessoa leiga em relação aos exatos conceitos jurídicos das expressões utilizadas pelo (s) interrogante (s). Quando a representante da importadora falou que “60% ou 70% das vendas são casadas”, quis na realidade dizer que em 60% ou 70% das vendas encontra o cliente/comprador antes da nacionalização das mercadorias, ou seja, antes da emissão da Dl, mas sempre após a compra do fornecedor estrangeiro e que, no restante (40% ou 30% das vezes), encontra o cliente/comprador posteriormente à nacionalização. Ademais, quando a sócia se referiu à forma de pagamento e disse que “alguns pagamentos (eram) antecipados e outros a prazo”, quis dizer que alguns clientes/adquirentes das mercadorias importadas faziam o pagamento antes da entrega das mesmas (pois, naturalmente, a transportadora precisa de um certo tempo para entregálas), enquanto que outros compradores faziam o pagamento a prazo, ou seja, após a data de entrega, pois as mercadorias saíam de Foz do Iguaçu/PR ou São Paulo/SP e demoravam alguns dias para chegar ao destinatário. A declaração de que atuou por conta e ordem de terceiros (fl. 20), também deve ser devidamente contextualizada, pois a própria auditora fiscal consignou que isso “foi feito apenas no início para alavancar o negócio”, ou seja, no ano de 2006 quando a empresa iniciou suas atividades, período esse vale lembrar já atingido pela decadência. Quanto a declaração da empresa TRIGOFORTE de fl. 30, cumpre esclarecer que a maioria do pagamento foi feito no ato do pedido, antecipado a entrega da mercadoria (farinha), mas nunca antecipado a negociação da impugnante com a fornecedora estrangeira. 5 Por último, quanto alegação da imprestabilidade da contabilidade, cabe esclarecer que não há nenhuma ilicitude na contabilidade. Divergências de informações entre a data de pagamento indicada pelo comprador e a data de recebimento indicada pela autuada divergem por causa do sistema bancário de compensação que leva de dois a três dias úteis para creditar na conta da impugnante os valores pagos. Também, quanto a data de escrituração, não há nada de ilícito. Oras, com base em que lei, princípios ou normas considerou se imprestável a contabilidade da fiscalizada? Diante da infundada citação do fisco, a impugnante se dispõe a provar em juízo ou fora dele, por todos os meios de provas admitidas em direito, inclusiva a pericial, que a sua escrituração contábil e fiscal dos exercícios fiscalizados em questão, atende Fl. 754DF CARF MF Processo nº 12457.735120/201375 Acórdão n.º 3402003.826 S3C4T2 Fl. 751 9 plenamente aos princípios contábeis geralmente aceitos, a rigor o princípio da competência dos exercícios, aplicado regularmente em seus registros contábeis, pelo qual, as citadas vendas à vistas (denominadas de receitas), recebidas e contabilizadas a prazo, por acordos extemporâneos com seus clientes, em nada alterou o resultado do seu Balanço Patrimonial nos exercícios em questão, conforme Demonstrações Financeiras em anexo (Balanços e DRE doc. 15/16), haja vista que as vendas (receitas) são reconhecidas por e. j princípio no mês da ocorrências do fato gerador, ou seja, nas datas (mês) das emissões das notas fiscais e não nas datas dos efetivos recebimentos, e se quer tais fatos caracterizou qualquer tipo de “sonegação fiscal”, por parte da fiscalizada, logo, não há o que se falar em imprestabilidade da sua contabilidade, sem o devido fundamento legal pertinente, principalmente quando seus registros contábeis estão devidamente amparados pelos preceitos contábeis contidos no artigo 9o, Parágrafo único, da Resolução CFC n° 1.282/2010. Transcreve o artigo 9o e o artigo 177 da Resolução CFC n° 1.282/2010. É importante observar nas citações do próprio auto de infração, o curtíssimo espaço de tempo entre as datas das emissão das referidas vendas (venda à vista) e os seus recebimentos (venda a prazo), evidenciando a irrelevância deste no contesto (sic) geral da escrituração contábil da impugnante, fixando claro que nenhum dano pôde ser observado por essas ocorrências a entidade fiscalizada nem ao erário público, circunstâncias que por si só dão plena validade as peças contábeis apresentada ao fisco, diante da irrelevância dos fatos alegados e pela inalterabilidade dos resultados dos exercícios em questão, motivo pelo qual, não houve por parte da impugnante a necessidade de inserir nos Balanços Contábeis apresentado ao fisco, as costumeiras “notas explicativas”. Com relação ao item VII, do referido auto, onde o fisco cita: DA AUDITORIA DA DECLARAÇÃO DE IMPORTAÇÃO, se a impugnante de fato tivesse importado seus produtos por encomendas ou por conta e ordem de terceiros, como quer forçosamente enquadrála o fisco, em regra não teria ocorrido em seus registros contábeis, dois fatores de inegável reconhecimento prático, relacionados a seguir: a) A manutenção de relevantes valores em “estoques” dos seus produtos importados, em cada exercício contábil social (apresentado); b) Endividamentos financeiro originados pelos inúmeros empréstimos realizados junto ás instituições financeiras, para suportar partes relevantes de suas importações. Fl. 755DF CARF MF 10 Oras, Senhores Julgadores, se a impugnante houvesse atuado em suas relações comerciais por "interveniências de terceiros”, adquirindo produtos por encomendas ou por conta e ordem, não haveria a necessidade de manter os níveis de “estoques” de seus produtos, que manteve no período fiscalizado, pois quem opera nessa prática as entregas seriam realizadas diretamente dos fornecedores estrangeiros aos seus clientes sem haver estocagens, nem mesmo teria suportado partes de suas importações através de empréstimos bancários, como o fez, pois as vendas realizadas por encomendas, em regra são pagas de forma antecipadas? Diante dessas ocorrências fáticas, não se pode negar que está mais que evidenciado que a impugnante sempre atuou por “conta e risco próprio” e não por quaisquer interveniências de terceiros como alega o fisco. Como podem observar através das planilhas demonstrativas dos “estoques” mantidos e dos empréstimos financeiros realizados a seguir apresentados, que demonstra a transparência e regularidades de seus atos e fatos operacionais, não restando dúvidas quanto à legalidade de suas operações. Diante de todo exposto, é importante ainda citar com relação as vendas repetidas aos mesmos clientes, alegadas pelo fisco como fosse sinônimo de atos ilícitos ou ilegais, quando na prática esses atos são regras normais e licitas de qualquer empresa comercial que pretenda se manter no mercado, aliás, a fidelização de clientes (vendas repetidas) é uma das práticas mais almejadas de todo comercio nacional e internacional pelo mundo globalizado, representando a satisfação plena dos clientes, pela qualidades dos produtos adquiridos complementado pelo bom atendimento, e, portanto, não havendo qualquer vedação pelos Códigos civil e Comercial. Transcreve os artigos 110 e 112 do Código Tributário Nacional. Dl 10/14822060 Em relação a Declaração de Importação n 10/14822060, registrada em 26/08/2010, temse uma proforma FACTURA INVOICE n° 3702/10, emitida em 28/05/2010 (doc. 5.), data na qual houve a negociação entre PONTUAL e o MOINHO CANEPA na compra de farinha. Sendo assim, a partir dessa data a empresa impugnante já poderia negociar a farinha com seus clientes no Brasil antes da nacionalização. Percebase que foi registrada um LI (Licenciamento de importação) no ato da emissão da Factura Proforma (doc. 6), ou seja, fatura de negociação/compra de mercadoria, e assim que o LI foi deferido foi solicitado o carregamento junto ao moinho para dar sequência ao processo. A nota de compra da mercadoria é de R$ 54.914,86, sendo o valor de R$ 25,26 por bolsa e a venda da mesma foi de R$ 32,11 por bolsa, chegando a se ter um lucro de quase 30%. Indagase: onde uma empresa “interposta” obtém tanto lucro? Quanto ao fechamento de câmbio no dia 20/08/2010, vale ressaltar que foi realizado o fechamento de câmbio de duas Fl. 756DF CARF MF Processo nº 12457.735120/201375 Acórdão n.º 3402003.826 S3C4T2 Fl. 752 11 faturas distintas no mesmo dia e no mesmo momento para o mesmo moinho. Ademais, tinhase saldo suficiente em conta corrente no Banco Itaú R$ 70.963,35 desde 11/08/2010 (doc. 8), o que demorou que não foi solicitado adiantamento do cliente comprador. O valor correto do câmbio referente a essa Dl é de R$ .2.886,80, que em dólares conforme documentação em anexo (doc. 7) equivale a US$ 24.367,50, referindose também a outras faturas proforma. Portanto, a proforma Factura Invoice do dia 28/05/2010 para fechamento de câmbio. Dl 10/19567564 Com relação a Dl 10/19567564, registrada em 05/11/2010, tem se uma proforma FACTURA INVOICE n° 4066/10, emitida em 10/09/2010 (doc. 9), data em que houve a negociação entre PONTUAL e MOINHO CANEPA na compra de farinha. Sendo assim, a partir dessa data a empresa impugnante já poderia negociar a farinha com seus clientes no Brasil antes da nacionalização. Registrado o LI (Licenciamento de importação doc. 10) após ato da emissão da Factura Proforma e o mesmo sendo deferido foi solicitado carregamento junto ao moinho para darmos sequência ao processo. A nota de compra da mercadoria é de R$ 64.618,38, sendo o valor de R$ 35,67 por bolsa e a venda da mesma foi de R$ 41,00 por bolsa, obtendose uma margem de lucro de quse 20%. Indaga se: onde uma empresa “interposta” obtém tantos lucros e teria uma margem tão í ta (sic) de compra e venda? Quando do fechamento de câmbio no dia 28/10/2010 tínhase saldo suficiente para nas contas bancárias, desde em 26/10/10, no B radesco de R$ 67.138,13 e no Banco Itau de R$ 42.016,22 (docs. 12 e 13), precebese assim que não pediuse/utilizouse de adiantamento do cliente/comprador. O valor do câmbio referente a essa Dl é R$ 61.725,60 (doc. 12) que em dólares representa US$ 36.012,60. Assim, a proforma Factura Invoice do dia 10/09/2010 pertence a fatura de exportação emitida dia 28/10/2010 n° 00290000039 a qual foi utilizada para fechamento de câmbio. Ressaltase que em nenhuma das operações acima a empresa utilizou valores de terceiros para finalizar suas negociações com o exterior. Portanto, a mercadoria comprada não estava direcionada diretamente a esse cliente Trigoforte, já que comprou com valores próprios e estava aberta a negociações. Cumpre, ainda, destacar que, naturalmente, a empresa TRIGOFORTE compra outras marcas e tipos de farinhas, de Fl. 757DF CARF MF 12 diversos fornecedores, não sendo um cliente exclusivo da postulante, ou seja, a empresa impugnante não trabalha “por encomenda” nem com a referida empresa nem com nenhum outro cliente. Quanto à acusação de uso do dinheiro do comprador para fechamento do câmbio, não há a menor procedência, pois a impugnante tem todo o seu capital devidamente integralizado (doc.14). Também cabe ressaltar que a presunção constante do art. 27, da Lei 10.637/2002 admite prova em contrário, cumprindo nesse sentido afirmar que: (1) para fechamento do contrato de câmbio a impuganante não se utilizou de recursos de terceiros e sim de importâncias recebidas de diversos clientes (entre os quais a empresa TRIGOFORTE), em pagamento de legítimas operações; e (2) os anexos extratos bancários demonstram a existência, em nome da impugnante, de saldo bancário suficiente para a efetivação das operações questionadas pelo fisco (docs. 8, 12 e 13). Ademais, e apenas a título de argumentação, o fato de ter havido eventual pagamento adiantado não faz prova de que a operação de comércio exterior tenha sido feita na modalidade por “conta e ordem de terceiro”, pois é mais do que sabido que as empresas, justamente para minimizar imobilização de capital, custos e perdas de estoque, trabalham com o sistema ‘justin time’. Tratase, com efeito, de uma condição de sobrevivência no mercado moderno e “globalizado”. Observese, aliás, que tal operação é perfeitamente permitida pela Lei n. 11.281/2006. Transcreve a Lei n. 11.281/2006. O argumento utilizado de que houve quebra na cadeia do IPI, o que causaria um enorme dano ao erário, não deve prosperar. Vejamos um exemplo: o IPI é não cumulativo, portanto, na alegação do FISCO se deveria pagar o IPI sobre o valor de venda da adquirente para o consumidor final (150%) e não somente da importadora para o adquirente (100%), e isso levando em consideração um lucro de 50%. Tendo o IPI uma alíquota para farinha de 0% (isenção), não há que se falar em dano ao erário. Ainda que volte a alíquota ao patamar de 5% , no caso estar, estamos falando em torno de 2,5% do valor aduaneiro do produto importado. Assim, percebese que a multa de 100% do valor aduaneiro por uma infração, em tese, de 2,5% é medida flagrantemente desproporcional. Além da inconstitucionalidade da multa pelo confisco, há que se ressaltar ainda a dupla punição aplicada à empresa, que é proibido, pois além da multa de 100% sobre o valor aduaneiro (discutida neste Al), também houve por parte da fiscalização aplicação da multa de 10% da operação por “cessão do uso do Fl. 758DF CARF MF Processo nº 12457.735120/201375 Acórdão n.º 3402003.826 S3C4T2 Fl. 753 13 nome”, previsto no art. 33 da Lei 11.488/2007, conforme Al 12457.735118/201304, em que se cobra referente a data de 26/08/2010 e 05/11/2011 o valor de R$11.881, 14 (respectivamente R$ 5.423,30 + R$ 6.457,84). De acordo com a LINGDB, a regra nova e especial revoga a norma antiga e geral. Transcreve o artigo 33 da Lei n° 11.488. Junta textos da jurisprudência do STJ: (REsp 1144751) DO PEDIDO Diante do exposto, a impugnante requer seja acolhida a presente e tornada insubsistente a multa proposta na peça básica. I por não ter ocorrido importação por conta e ordem; II por ser a multa inconstitucional em conformidade com o Principio do não confisco. III na eventualidade, que seja aplicada apenas a multa de 10% por ser mais benéfica. Em julgamento datado de 16 de dezembro de 2014, a DRJ São Paulo/SP negou provimento à impugnação do Contribuinte (Acórdão 16064.271), nos termos da ementa a seguir colacionada: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A IMPORTAÇÃO II Data do fato gerador: 26/08/2010 Dano ao Erário por infração de ocultação do verdadeiro interessado nas importações, mediante o uso de interposta pessoa. Pena de perdimento das mercadorias, comutada em multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria. O objetivo pretendido pelos interessados atentou contra a legislação do comércio exterior por ocultar o real adquirente das mercadorias estrangeiras e consequentemente afastálo de toda e qualquer obrigação cível ou penal decorrente do ingresso de tais mercadorias no país. A atuação da empresa interposta em importação tem regramento próprio, devendo observar os ditames da legislação sob o risco de configuração de prática efetiva da interposição fraudulenta de terceiros. A aplicação da pena de perdimento não deriva da sonegação de tributos, muito embora tal fato possa se constatar como efeito subsidiário, mas da burla aos controles aduaneiros, já que é o objetivo traçado pela Receita Federal do Brasil possuir controle absoluto sobre o destino de todos os bens importados por empresas nacionais. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Fl. 759DF CARF MF 14 Irresignados os contribuintes Pontual Comércio, Importação e Exportação de Peças Automotivas (doravante designado simplesmente como “Pontual”) e Trigoforte Indústria e Comércio de Gêneros Alimentícios Ltda (doravante nomeada como “Trigoforte”), recorrem a este Conselho (fls. 682 a 717 e 655 a 666, respectivamente). A Pontual, além de repisar as razões expostas em sua impugnação, argumentou em síntese que: i) Tanto o auto de infração como a decisão da DRJ são nulos por cerceamento do direito de defesa, uma vez que não há fundamentação da conduta ilícita praticada pela Recorrente ii) Reafirma que não havia adquirente prédeterminado das mercadorias importadas. Após o licenciamento de importação, a Recorrente buscava compradores no mercado nacional, sabendo que a entrada efetiva da mercadoria nas divisas brasileira demora em torno de 30 dias. Ademais, as importações eram feitas com recursos próprios, conforme documentos acostados aos autos (saldo bancário e empréstimos bancários), restando então demonstradas a origem, efetiva transferência e disponibilidade dos recursos empregados nas importações. Portanto não há que se falar em importação por conta e ordem, tampouco em importação por encomenda. iii) Reafirma que todos os tributos foram pagos, não sendo possível então se vislumbrar qualquer dano ao Erário. iv) Aponta que a legislação tributária não define taxativamente o momento em que se considera encomendada previamente a mercadoria, razão pela qual não se pode aplicar a pena de perdimento in casu. Caberia à lei, e não à instrução normativa fazêlo, como ocorre na legislação infralegal brasileira ao estabelecer o momento do registro da DI como esse marco temporal. A seu turno, a Trigoforte expressamente coloca que contratara a Pontual para nacionalizar e, posteriormente venderlhe a matéria prima. Contudo, não pode ser considerada responsável pelo erro de procedimento de importação da Pontual (incorreto preenchimento das DIs). Insiste então de que nenhum benefício econômico teve com o procedimento realizado pela Pontual, pois a importação do trigo não é tributada pelo Brasil. Traz, por fim, farta jurisprudência em seu socorro. É o relatório Voto Vencido Conselheira Relatora Thais De Laurentiis Galkowicz A Trigoforte tomou ciência do Acórdão da DRJ em 04/02/2015, conforme AR de fls 681, apresentando Recurso Voluntário em 03/03/2015. Por sua vez, a Pontual teve ciência da decisão da DRJ em 30/01/2015 e protocolou seu recurso voluntário também em 03/03/2015. Assim, ambos os recursos voluntários são tempestivos, com base no que dispõe o Fl. 760DF CARF MF Processo nº 12457.735120/201375 Acórdão n.º 3402003.826 S3C4T2 Fl. 754 15 artigo 33 do Decreto 70.235, de 06 de março de 1972, bem como atendem às demais condições de admissibilidade, razão pela qual deles tomo conhecimento. Passo então à análise do caso. De pronto afasto a alegação de nulidade por cerceamento do direito de defesa apresentada pela Pontual. O Termo de Verificação (“TVF”) é absolutamente preciso sobre o levantamento das operações amparadas pelas DIs auditadas, trazendo elementos contundentes e o entendimento claro da autoridade fazendária a respeito da existência de interposição fraudulenta in casu. Assim, não há que se falar em nulidade nos termos do artigo 59 do Decreto 70.235/72. Sobre o mérito, em síntese, o presente litígio se resume à aferição da existência ou não ocultação do real importador, inclusive por interposição fraudulenta, nas operações de comércio exterior, apta a culminar na multa equivalente ao valor aduaneiro em razão da pena de perdimento da mercadoria, com fundamento no artigo 23, inciso V e parágrafo 2º, do Decretolei nº 1.455, de 1976, in verbis: Art 23. Consideramse dano ao Erário as infrações relativas às mercadorias: ... V estrangeiras ou nacionais, na importação ou na exportação, na hipótese de ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros. § 1 O dano ao erário decorrente das infrações previstas no caput deste artigo será punido com a pena de perdimento das mercadorias. § 2 Presumese interposição fraudulenta na operação de comércio exterior a nãocomprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados. § 3 As infrações previstas no caput serão punidas com multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria, na importação, ou ao preço constante da respectiva nota fiscal ou documento equivalente, na exportação, quando a mercadoria não for localizada, ou tiver sido consumida ou revendida, observados o rito e as competências estabelecidos no Decreto no 70.235, de 6 de março de 1972. (grifei) Pois bem. Nas fls 35 e 36 do TVF encontramos as conclusões da Fiscalização a respeito da infração aduaneira, constatada pela auditoria das DI’s sob análise no presente processo: Com fulcro na análise técnica supra, nas provas coligidas e na legislação vigente, constatase a ocorrência da infração tipificada como ocultação do sujeito passivo, do real comprador ou responsável pelas operações de importação, mediante fraude ou simulação, INCLUSIVE interposição fraudulenta de terceiros, em virtude da não comprovação da origem lícita, Fl. 761DF CARF MF 16 disponibilidade e efetiva transferência dos recursos que foram utilizados para amparar as DIs nos 10/14822060 e 10/1956756 4, registradas pela PONTUAL COMÉRCIO, IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO DE PEÇAS AUTOMOTIVAS LTDA, infração considerada dano ao Erário, conforme expresso no artigo 23, inciso V, do Decretolei nº 1.455/1976. Já o parágrafo 1º do mesmo artigo determina que essa infração deverá ser punida com a pena de perdimento das mercadorias (...) ENQUADRAMENTO LEGAL: artigo 23, inciso V, parágrafo 3º, do Decretolei nº 1.455/1976, com redação dada pelo artigo 59, da Lei nº 10.637/2002, regulamentado pelos artigos 675, inciso IV, e 689, parágrafo 1º, ambos do Decreto nº 6.759/2009. (grifei) Não há dúvidas de que nas acusações de ocultação do real sujeito passivo da operação de importação, com fulcro no artigo 23, inciso V do Decretolei n. 1.455/75, incumbe à Autoridade lançadora o ônus da prova da ocorrência da citada infração, diferentemente do que ocorre no caso de presunção de interposição fraudulenta por nãocomprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados (§2º do mesmo dispositivo legal). Sobre tal ônus probatório, ressalto desde já que os cinco fundamentos elencados pela Fiscalização para a instauração de procedimento especial para a auditoria da Pontual (1. baixa margem de lucro com as operações; 2. poucos empregados registrados na empresa; 3. datas de saída muito próximas das datas de chegada das mercadorias; 4. as declarações prestadas pela sócia; 1 5. aparentes incongruências da contabilidade2), são meros indícios (fatos conhecidos e demonstrados diferentes daquele se quer provar, mas que se conectam a ele, podendo gerar uma probabilidade ou suspeita de sua ocorrência), e não provas diretas do ilícito aduaneiro em questão, pois nenhum deles permite uma conclusão direta e objetiva sobre a existência de ocultação do real importador. Justamente por esse motivo é que a Fiscalização motivou o ato administrativo de imposição de penalidade não somente na prova de ocultação do real importador (primeira parte do inciso V do artigo 23, do Decretolei n. 1.455/75), mas também na presunção de importação por conta e ordem, calcada no artigo 27 da Lei nº 10.637/2002. É o que se constata do Tópico VII do Termo de Verificação Fiscal (fls 22 e seguintes), nomeado como DA AUDITORIA DAS DECLARAÇÕES DE IMPORTAÇÃO Nº 10/14822060 E 10/19567564, do qual destaco os seguintes excertos, que trazem todas as informações importantes para o convencimento da autoridade fiscal: 1 Segundo a Pontual, “quando a representante da importadora falou que “60% ou 70% das vendas são casadas”, quis na realidade dizer que em 60% ou 70% das vendas encontra o cliente/comprador antes da nacionalização das mercadorias, ou seja, antes da emissão da Dl, mas sempre após a compra do fornecedor estrangeiro e que, no restante (40% ou 30% das vezes), encontra o cliente/comprador posteriormente à nacionalização. “ Ademais, verifico pelas declarações constantes no autos que a sócia Janice foi indagada de maneira geral sobre os procedimentos adotados pela Pontual nas operações de importação. Com relação às específicas DIs e as transações com a Trigoforte não há informações, o que dificulta enormemente a valoração desta prova para o específico e concreto auto de infração sob análise 2 Ressalto que, segundo o FIPECAFI (2010), a contabilização das vendas pode ser efetuada pelas notas fiscais de vendas, pois a entrega dos produtos é praticamente efetuada junto com a emissão das notas fiscais. Quando este processo não ocorrer, ou seja, a data da emissão da nota fiscal for diferente a da entrega dos produtos, e a entrega se fará na empresa do comprador, o registro deverá ser feito somente na entrega dos produtos, quando a empresa já estiver de posse das mercadorias compradas. Fl. 762DF CARF MF Processo nº 12457.735120/201375 Acórdão n.º 3402003.826 S3C4T2 Fl. 755 17 DI 10/14822060: NFe 749 e 784 (de 30/08 e 14/09/2010, respectivamente); (...) “A DI em questão foi registrada em 26/08/2010. Já a fatura comercial que acobertou a transação internacional vinculada à vinda da mercadoria importada ao Brasil foi emitida 8 dias antes, em 18/08/2010 e o contrato de câmbio relacionado a tal importação foi firmado e quitado em 20/08/2010 (6 dias antes do registro da DI).” (...) “Em resposta ao Fisco, relativamente à DI nº 10/14822060, a empresa TRIGOFORTE informou ter pago pelas mercadorias importadas em 18/08 (R$4.400,00), 30/08 (R$4.000,00) e 01/09/2010 (R$84,50), diversamente do alegado pela fiscalizada.” (...) DI 10/19567564: NFe 965 e 1091 (de 12/11 e 07/12/2010, respectivamente). (...) “A DI nº 10/19567564 foi registrada em 05/11/2010; a fatura comercial que acobertou a transação internacional vinculada à vinda da mercadoria importada ao Brasil foi emitida 8 dias antes, em 28/10/2010 e o contrato de câmbio relacionado a tal importação foi firmado e quitado também em 28/10.” (...) “Também intimada sobre esta DI (através do já citado Termo de Intimação nº 51/2013), a empresa TRIGOFORTE informou ter pago pelas mercadorias importadas em 27/10 (R$4.200,00), 12/11 (R$7.175,00) e 29/11/2010 (R$3.540,00), diversamente do alegado pela fiscalizada” Por essas provas, concluiu a autoridade fiscal: “Demonstrado está que houve o provimento de recursos por parte do adquirente para o pagamento (ainda que parcial) da importação em questão, antecipadamente à quitação do contrato de câmbio, e antes também do próprio registro da DI – e que a PONTUAL informou datas posteriores possivelmente em tentativa de ludibriar o Fisco. (...) Ocorre que a operação de comércio exterior realizada com recursos de terceiro presumese por conta e ordem deste, de acordo com o artigo 27 da Lei nº 10.637/2002.” Daí já confirmamos que a fiscalização se utilizou, para reforçar a tipificação do evento da ocultação do real importador pelas provas colacionadas aos autos (artigo 23, inciso V do Decretolei n. 1.455/76), da norma que estabelece a importação por conta e ordem presumida, for força da verificação da utilização de recursos de terceiros para a operação de comércio exterior. Transcrevo abaixo o dispositivo que fundamenta tal presunção: Art. 27. A operação de comércio exterior realizada mediante utilização de recursos de terceiro presumese por conta e ordem deste, para fins de aplicação do disposto nos arts. 77 a 81 da Medida Provisória no 2.15835, de 24 de agosto de 2001. Fl. 763DF CARF MF 18 Diante desta situação, passa ao contribuinte à necessidade de comprovar que havia recursos suficientes e que estes foram utilizados para promover a importação em questão, para que faça cair por terra a presunção criada pelo dispositivo supratranscrito. Nos presentes autos, entendo que foi tranquilamente demonstrado pela Pontual que as importações, que somam R$ 14.206,92, lembrese, foram efetuadas com recursos próprios, decorrente de vendas de mercadorias já de sua propriedade (facturas invoice, doc. 5 e 9 da impugnação, fls 369 e 373), havendo saldo suficiente para tanto em sua conta corrente (doc. 8 da impugnação, fls 372), inclusive a empresa operando mediante empréstimos contratados com instituições financeiras (balanços patrimonaiais de fls 394 e seguintes) e estando seu capital social devidamente integralizado. Com relação à “antecipação” de parcela dos pagamentos único dado apresentado pela fiscalização capaz de, potencialmente, sustentar a autuação fiscal , a qual supostamente seria utilizada para o fechamento do câmbio, entendo tratarse de prova incapaz de qualificar o evento como “operação de comércio exterior realizada mediante utilização de recursos de terceiro”. A própria fiscalização assume que tal antecipação somente seria capaz de cobrir “parcialmente” o contrato de câmbio firmado pela Pontual. Ora, temos então auto de infração constituído com base em elemento absolutamente frágil, uma vez que a venda parcelada de mercadorias, para as quais o importador comprovou haver capacidade financeira para efetuar a operação internacional, não traz em si e logicamente, a aptidão de demonstrar a que recursos de terceiros foram utilizados para tanto. É certo que, uma vez demonstrado pela fiscalização que determinada importação ocorreu por meio de subsídio de terceiros, acarretando na necessidade de procedimento de nacionalização mediante a declaração “por conta e ordem de terceiro” (regulamentada pela Receita Federal do Brasil mediante a edição da IN SRF 225/2002, conforme autorizado pelo art. 80 da MP nº 2.15835/20015), e não por “importação direta”, o ônus da prova sobre sua capacidade financeira passa a ser do importador, nos termos do já citado artigo 27 da Lei n. 10.637/2002. Contudo, não se pode perder de vista que tal presunção não faz com que desapareça o quantum mínimo probatório que é atribuído à Fiscalização para tais situações: trazer provas contundentes, convergentes e conclusivas sobre a efetiva utilização de recursos de terceiro na operação de comércio exterior. Poderia haver, quando muito, a caracterização das importações como “por encomenda”, o que tornaria igualmente insubsistente o auto de infração, que qualificou como “por conta e ordem” as operações. 3 Afinal, impossível a alteração de critério jurídico para manter o trabalho fiscal. 3 Em matéria de comércio exterior, há três modalidades de importação: direta, por encomenda, e por conta e ordem. “A importação por conta própria é a tradicional modalidade de importação. É aquela modalidade de importação em que o importador adquire a mercadoria do exportador no exterior, fecha o câmbio em nome próprio, com recursos próprios, paga os tributos e a utiliza ou a vende no mercado interno para diversos compradores. Notese que nessa modalidade de importação tradicional o importador deverá fechar o câmbio e proceder ao pagamento diretamente ao exportador, recolhendo os tributos com recursos próprios...” (...) A importação por conta e ordem de terceiros é a operação pela qual uma empresa contratada, geralmente uma importadora, promove em seu nome o despacho aduaneiro de importação de mercadoria adquirida por outra empresa em razão de contrato previamente firmado entre as partes e registrado na Receita Federal do Brasil – RFB. O regramento da importação por conta e ordem foi dado pelos artigos 86 e 87 da IN n. 247 e ADI n. 07/02, os quais exigem determinados procedimentos e requisitos para sua caracterização. (...) As operações por conta e ordem são aplicáveis tão somente nas hipóteses em que a importadora atua como prestadora de serviços, isto é, uma intermediária nas importações. Em decorrência desta condição, a importadora que atua por conta e ordem não pode, em qualquer situação, adquirir a propriedade das Fl. 764DF CARF MF Processo nº 12457.735120/201375 Acórdão n.º 3402003.826 S3C4T2 Fl. 756 19 Em outras palavras, o indício apresentado pela fiscalização (antecipação parcial de valores referentes à compra e venda das mercadorias importadas, para fechamento do contrato de câmbio) não é capaz de, na convicção dessa relatora, culminar na conclusão de existência de “operação de comércio exterior realizada mediante utilização de recursos de terceiro”, a qual, por sua vez, constitui presunção de importação por conta e ordem de terceiro. Nesse sentido, é válido reavivar a lição de Paulo Celso B. Bonilha4 sobre o tema: lndício é o fato conhecido (factum probatum do qual se parte para o desconhecido (factum probadum) e que assim é definido por Moacyr Amaral Santos: ‘Assim, indício, sob o aspecto jurídico, consiste no fato conhecido que, por via do raciocínio, sugere o fato probando, do qual é causa ou efeito '. Evidenciase, portanto, que o indício é a base objetiva do raciocínio ou atividade mental por via do qual poderseá chegar ao fato conhecido. Se positivo o resultado, tratase de uma presunção. A presunção é, assim, o resultado do raciocínio do julgador, que se guia nos conhecimentos gerais universalmente aceitos e por aquilo que ordinariamente acontece para chegar ao conhecimento do fato probando. É inegável, portanto, que a estrutura desse raciocínio é a do silogismo, no qual o fato conhecido situase na premissa menor e o conhecimento mais geral da expectativa constitui a premissa maior. A conseqüência positiva do resultado do raciocínio do julgador ' é a presunção. " Em um exercício de comparação de casos a respeito do mesmo tema, vejase por exemplo as constatações do Conselheiro Marcos Tranchesi Ortiz, no Acórdão n. 3403002.593, no qual diversos elementos foram trazidos pela Fiscalização, formando conjunto probatório que claramente demonstrava a existência de financiamento das importações por terceiro: “Não se sustenta a alegação de que os pagamentos feitos pela recorrente à Plásticos Itajaí adimpliam preço de compra e venda de mercadoria já previamente nacionalizada pela vendedora. Não. A Gabiplast repassava previamente à Itajaí recursos com o propósito inequívoco de viabilizar a importação da mercadoria mercadorias importadas, possuindo somente a posse até a transferência para a empresa adquirente. Sendo assim, na importação por conta e ordem de terceiros, a remessa da mercadoria da importadora para seus clientes não configura uma operação de venda, mas sim uma operação de remessa de mercadorias. (...) A importação por encomenda é aquela em que a empresa importadora adquire no exterior com recursos próprios e promove o seu despacho aduaneiro de importação, a fim de revendelas, posteriormente, a uma empresa encomendante previamente determinada, em razão de contrato entre elas, cujo objeto deve compreender, pelo menos, o prazo ou as operações pactuadas (art. 2°, § 1°, da IN SRF n. 634/06). Assim, o importador deverá fazer a negociação com o exportador no exterior, adquirir a mercadoria junto ao exportador no exterior, providenciar sua nacionalização e a revender ao encomendante. Importante salientar que tal operação tem, para o importador contratado, os mesmos efeitos fiscais de uma importação própria. (...) Ressaltese ainda que, diferentemente da importação por conta e ordem, no caso de importação por encomenda, a operação cambial para pagamento da importação deve ser realizada exclusivamente em nome do importador, conforme determina o Regulamento do Mercado de Câmbio e Capitais Internacionais (RMCCI – Título 1, Capítulo 12, Seção 2) do Banco Central do Brasil (Bacen). (...)” (SARTORI, Ângela, DOMINGO, Luiz Roberto. Div. Autores. Tributação Aduaneira à luz da jurisprudência do CARF. São Paulo: MP Editora, 2013, pgs. 53 e ss). 4 Da Prova no Processo Administrativo Tributário, São Paulo: Dialética, 1997, p. 92. Fl. 765DF CARF MF 20 por essa empresa. A Gabiplast tinha plena consciência de que as mercadorias que estava “adquirindo” da Itajaí ainda não estavam no estoque da vendedora, e que seriam ato contínuo adquiridas por esta mediante importação, precisamente com os recursos financeiros fornecidos por ela, Gabiplast. A Gabiplast era, pois, protagonista da operação “prévia” de importação das mercadorias que a Itajaí lhe iria “vender”. Amostra inconteste do financiamento das importações pela Cajovil colhesse dos documentos trazidos pela própria recorrente (fls. 517 e ss.). A cada importação, o despachante aduaneiro da Itajaí (“Comissária Paulista S.C. Ltda.”) emitialhe uma “Solicitação de Numerário Importação”, para recolher os supostos tributos incidentes na importação; e, na mesma data, a Gabiplast fazia à Itajaí uma transferência bancária neste mesmo valor. Ou seja, é evidente que a Gabiplast sabia – e pretendia – que seus recursos financiassem as importações. São, ainda, inúmeras as faturas emitidas pelos exportadores indicando como cliente a Gabiplast, e até ordens de compra enviadas pela Itajaí ao exportador, em papel timbrado da Cajovil/Gabiplast. Tudo isso a revelar que as importações eram financiadas pela Gabiplast. E, a teor do art. 27 da Lei nº 10.637/02, essa constatação faz presumir que as importações foram realizadas por conta e ordem da Gabiplast. Percebese a diferença entre o caso supracitado para o presente. Neste primeiro foram elencados diversos indícios que de forma contundente e conclusiva demonstram o financiamento da operação de importação: pela participação do despachante aduaneiro, a sistematicidade que ocorriam as operações, as datas das transações em contas bancárias, o conhecimento da fraude pelo ocultado, a solicitação de montantes para o recolhimento de tributos, e até mesmo o timbre dos papéis utilizados pelas empresas. Já no presente, a Fiscalização se limitou na auditoria das DIs a afirmar que a antecipação de montantes seria capaz de cobrir “parcialmente” o contrato de câmbio firmado pela Pontual. Dessa forma, pela análise dos autos, entendo que a que a Fiscalização não comprovou o financiamento das importações em questão, não existindo prova cabal da infração apontada (operação de comércio exterior realizada mediante utilização de recursos de terceiro). Os demais indícios, genéricos por não se debruçarem especificamente sobre as importações objeto dessa autuação , tampouco são suficientes para concluir pela ocultação do sujeito passivo, mediante fraude ou simulação. Sobre esse último ponto, cumpre recordar o que exatamente é necessário ser objeto de prova pela fiscalização em processos desse jaez. O artigo 23, inciso V do Decretolei n. 1.455/76 fala em “ocultação (...) mediante fraude ou simulação”. As definições de “fraude” e “simulação” encontramse, respectivamente, no artigo 72 da Lei nº 4.502/64 e no § 1o, do artigo 167, do Código Civil, a seguir transcritos: Art..72. Fraude é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do impôsto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. Fl. 766DF CARF MF Processo nº 12457.735120/201375 Acórdão n.º 3402003.826 S3C4T2 Fl. 757 21 Artigo 167. § 1o Haverá simulação nos negócios jurídicos quando: I aparentarem conferir ou transmitir direitos a pessoas diversas daquelas às quais realmente se conferem, ou transmitem; II contiverem declaração, confissão, condição ou cláusula não verdadeira; III os instrumentos particulares forem antedatados, ou pós datados. Com efeito, a existência de fraude ou simulação é condição para a ocorrência da interposição fraudulenta. 5 Nas palavras do Desembargador federal Antonio Albino Ramos de Oliveira, do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, “O que se reprime, através da drástica pena de perdimento, é a fraude, o artifício malicioso para a ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, ‘inclusive a interposição fraudulenta de terceiros’. Evidente que a infração deve ser grave em sua substância, e não sob o aspecto meramente formal” (AGRAVO DE INSTRUMENTO Nº 2005.04.01.0462051/PR). Lembrese que o próprio 673 do Decreto n. 6.759/2009, em seu parágrafo único, determina que “salvo disposição expressa em contrário, a responsabilidade por infração independe da intenção do agente...”. Desse modo, a própria legislação aduaneira coloca que a responsabilidade pelas infrações é objetiva, a não ser que a própria lei trouxer regra em sentido diverso. Tendo sido qualificada pelo artigo 23, inciso V a conduta como dolosa, através da configuração de fraude ou simulação, para a tipificação da ocultação de terceiros e consequente pena de perdimento, estas não podem ser afastadas do tipo infracional em questão. No que tange à fraude, apesar do fato de, como já destacado alhures, o (não) pagamento de tributos na operação de importação não ser o único fator determinante para a ocorrência de dano ao erário, ele, pela própria redação do artigo 23, é um dos elementos a ser avaliado para, conjuntamente com eventuais outras demais provas de abuso por parte do sujeito passivo (como omissão de informações relevantes dos importadores para acobertar irregularidades nas operações de comércio internacional), caracterizar a ocultação do real importador da mercadoria. In casu, os produtos importados (farinha de trigo) são contemplados com alíquota zero do PIS/PASEP e Cofins (art. 1, inciso XIV da Lei 10.925/2004, MP 433/2008), Imposto Importação (Decreto Exec. 550/1992) e do IPI (Decreto 6006/2006). Não existiu, nem mesmo era possível existir eventual “ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do impôsto devido a evitar ou diferir o seu pagamento.” Com relação à simulação, lembrese que se trata de é um dos motivos de invalidade dos negócios jurídicos, em que há a conluio de ambas as partes visando desviar de 5 Gilberto de Castro Moreira Junior. Interposição Fraudulenta de Terceiros nas Operações de Comércio Exterior. Disponível em: www.iuscomex.com.br/site/files.php?id=546. Acesso em 09/06/2016. Fl. 767DF CARF MF 22 obrigações legais e enganar terceiros ao criar uma aparência de negócio que não se coaduna com a vontade real dos sujeitos. No caso da controvérsia aduaneira em questão, “ocultador” e “ocultado” devem conjuntamente trabalhar na prestação de informações falsas às autoridades aduaneiras. Como já foi sobejamente demonstrado por Conselheiros desta Casa, Luiz Roberto Domingo e Ângela Sartori, em artigo inserido no livro “Tributação Aduaneira à luz da jurisprudência do CARF”: 6 Percebese que tanto a fraude como a simulação dependem da existência da intenção deliberada do agente de praticar o ato criminoso, pois não comporta a figura culposa (negligência, imprudência, imperícia). A demonstração de que a produção do ato criminoso (fraude ou simulação) era desejada é o indicativo do dolo. Portanto, a peça acusatória do dano ao Erário depende de três elementos de fato, aos quais a fiscalização aduaneira não pode negligenciar: i) a prova da ocultação; ii) a prova da fraude ou da simulação; iii) a prova do dolo, cuja demonstração de que a operação foi assim intentada com o propósito de ‘lesa pátria’, é indicativa. Não foi apontada pela fiscalização a ocorrência de qualquer “ocultação” “mediante simulação” que tivesse por fim prejudicar direito, criar obrigação ou alterar a verdade sobre fato relevante para o controle aduaneiro ou para a arrecadação tributária, que justificasse a aplicação da pretendida pena de perdimento. Insisto que a lei descreve uma conduta cujo pressuposto é a comprovação da “ocultação” de quaisquer dos intervenientes na importação expressamente mencionados, “mediante fraude ou simulação”, como ressaltou a antiga composição desse Colegiado: “não basta a ‘ocultação pura e simples’, essa ocultação deve ser qualificada pela fraude ou pela simulação, para que se qualifique como dano ao erário para os fins do art. 23, V, do DL nº 1.455/76” (cf. Acórdão nº 3402002.2275, da 2ª Turma da 4ª Câm. da 3ª Seção do CARF no Proc. nº 10983.721008/201292, em sessão de 28/01/2014, Rel. Cons. Des. João Carlos Cassuli Jr). Nesse mesmo sentido, destaco a ementa do seguinte julgado: MERCADORIA NACIONAL OU IMPORTADA CONSUMIDA OU DADA A CONSUMO, COM IRREGULARIDADE, FRAUDE OU FALSIFICAÇÃO. Inexistindo demonstração dessas ocorrências dolosas no procedimento do contribuinte, descabe a aplicação de qualquer penalidade. RECURSO PROVIDO.(Acórdão n° 30332.025 da 3ª Câm. do 3º CC, Rec. nº 130.041, Proc. nº 10921.000045/200216, em sessão de 18/05/05, Rel. Cons. SÉRGIO DE CASTRO NEVES). Portanto, no presente caso a Fiscalização não demonstrou a ocorrência do dolo na conduta das partes, apta a acarretar na perda de perdimento das mercadorias. 6 DOMINGO, Luiz Roberto e SARTORI, Ângela. Dano ao Erário pela Ocultação Mediante Fraude – a interposição fraudulenta de terceiros nas operações de comércio exterior. in “A tributação Aduaneira à luz do CARF”, Ed. MP, 2013, p. 61 e53 a 68) Fl. 768DF CARF MF Processo nº 12457.735120/201375 Acórdão n.º 3402003.826 S3C4T2 Fl. 758 23 Não se caracteriza, portanto, a ocultação do real importador das mercadorias, com todos os elementos necessários para tanto, a ensejar a pena de perdimento convertida em multa, nos moldes do artigo 23, inciso V e §3º do Decretolei n. 1.455/76, o que impõe a necessidade de cancelamento do auto de infração. A multa de 10% pela cessão de nome Com relação ao argumento da Pontual sobre a impossibilidade de lhe ser atribuída a multa equivalente ao perdimento da mercadoria importada, uma vez que o artigo 33 da Lei n. 11.488/2007 trouxe, ao mesmo tipo infracional, penalidade diversa (10% dez por cento do valor da operação acobertada), entendo que lhe assiste razão. Este tema, que vem dividindo o entendimento dos conselheiros da Terceira Seção de Julgamento do CARF, foi, a meu ver, impecavelmente enfrentado pelo Conselheiro Fernando Luiz Da Gama D’Eça, no Processo n. 10314.724447/201230, Acórdão n. 3402002.362, razão pela qual tomo emprestadas suas palavras: Por derradeiro, entendo que com o advento da multa de 10% instituída pelo art. 33 da Lei nº 11.488/07 aplicável à hipótese de pessoa jurídica que ceder o nome para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas no acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários – não mais se justifica a aplicação ao importador ostensivo da multa de 100% prevista no art. 23, inc. V do Decretolei nº 1455/76, somente aplicável ao real comprador, interveniente ou responsável pela operação de importação, oculto “mediante fraude ou simulação”. A aplicação cumulativa dessas sanções sobre a importadora ostensiva não somente viola o princípio da especialidade, como constitui um ilegal bis in idem. Realmente, tratandose de dispositivos legais que tipificam uma única conduta “acobertamento” ou “ocultação” dos reais intervenientes ou beneficiários das operações de comércio exterior, evidenciase o conflito aparente de normas, que impõe a observância do princípio da especialidade que por sua vez determina a prevalência da norma especial, não sendo lícito ao fisco cumulála ou agravála sequer pela via transversa de suposta solidariedade em penalidade aplicada a outro infrator, pois como expressamente determina o art. 100 do Decretolei nº 37/66, “in verbis”: “Art. 100 – Se do processo se apurar responsabilidade de duas ou mais pessoas, será imposta a cada uma delas a pena relativa à infração que houver cometido.” Considerando que para a caracterização dos atos típicos de interposição fraudulenta “há necessidade de dois sujeitos de direito distintos” (cf. Acórdão nº 320100398 da 1ª TO da 2ª Turma da 3ª Seção do CARF, Rec. nº 140.698, Proc. nº 12466 004068/200673, em sessão de 08/12/10, Rel. Cons. Alfredo Ribeiro Nogueira; cf. tb. Acórdão nº 320100.515 da 1ª TO da 2ª Câm. da 3ª Seção do CARF, Rec. n° 344.701, Proc. n° 10936.000499/200813, em sessão de 01/07/10, Rel. Cons. Fl. 769DF CARF MF 24 Luciano Lopes de Almeida Moraes), parece evidente que a única multa aplicável à Recorrente seria a de 10% instituída pelo art. 33 da Lei nº 11.488/07, prevista para quem ceder o nome para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas no acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários, caso não fosse elidida a presunção de interposição fraudulenta de terceiros pela suposta “não comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados” (art. 23, § 2º do Decretolei nº 1455/76, na redação da Lei nº 10.637, de 30.12.2002). Nesse sentido já decidiu esta C. Turma como se pode ver da seguinte e elucidativa ementa: “ (...). IMPORTAÇÃO – INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA – MULTA APLICÁVEL AO IMPORTADOR OSTENSIVO CESSÃO DE NOME PRINCÍPIO DA ESPECIALIDADE DA SANÇÃO IMPOSSIBILIDADE DE CUMULAÇÃO. Com o advento da multa de 10% instituída pelo art. 33 da Lei nº 11.488/07, em face do princípio da especialidade da sanção, não mais se justifica a aplicação ao importador ostensivo da multa de 100% prevista no art. 23, inc. V do Decretolei nº 1455/76, sob pena de ilegal bis in idem.” (cf. Acórdão nº 3402002.262 da 2ª TO da 4ª Câm. da 3ª Seção do CARF, Proc. nº 10314.724447/201230, em sessão de 23/04/14, Rel. Gilson Macedo Rosenburg Filho) Ressalto ainda que tal entendimento em nada contradiz o quanto disposto no artigo 727, §3º do Regulamento Aduaneiro, cujo conteúdo estabelece que: Art. 727. Aplicase a multa de dez por cento do valor da operação à pessoa jurídica que ceder seu nome, inclusive mediante a disponibilização de documentos próprios, para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas ao acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários (Lei nº 11.488, de 2007, art. 33, caput). (...) § 3o A multa de que trata o caput não prejudica a aplicação da pena de perdimento às mercadorias na importação ou na exportação. (grifei) Ora, como destacado acima, com o advento da multa 10% do valor da operação peça cessão de nome (artigo 33 da Lei nº 11.488/07) esta passou a ser a penalidade aplicável ao importador ostensivo. Todavia, permanece existindo e sendo aplicável a perda de perdimento como penalidade atribuída ao importador oculto, nos exatos termos do artigo 23, inciso V e §3º do Decretolei n. 1.455/76. Vale dizer, a multa de 10% do valor da operação pela cessão de nome não prejudica a pena de perdimento das mercadorias na importação ou exportação, justamente como impõe do §3º do artigo 727 do Regulamento Aduaneiro. De fato, ambas as penalidades serão aplicáveis em caso de constatação de interposição fraudulenta, contudo sendo cada qual imposta para o respectivo infrator das normas aduaneiras, e não conjuntamente para um único sujeito passivo. Fl. 770DF CARF MF Processo nº 12457.735120/201375 Acórdão n.º 3402003.826 S3C4T2 Fl. 759 25 Dessarte, também por esse ponto, concluo que à Pontual, importadora ostensiva, não se aplica a penalidade imposta pelo artigo 23, inciso V e §3º do Decretolei n. 1.455/76, mas sim aquela de 10% do valor da operação peça cessão de nome (artigo 33 da Lei nº 11.488/07), devendo portanto ser cancelada, relativamente a este sujeito passivo, a presente autuação fiscal. CONCLUSÃO Diante do exposto, voto por dar provimento aos presentes recurso voluntários. Thais De Laurentiis Galkowicz Relatora Fl. 771DF CARF MF 26 Voto Vencedor Conselheira Maria Aparecida Martins de Paula, Redatora Designada Na sessão de julgamento deste processo ousei divergir do Voto da Ilustre Conselheira Relatora quanto à análise do mérito. A prova indireta é aquela que não tem por objeto o fato probando, mas outros a ele relacionados, de modo que, pelo raciocínio, chegase ao fato que se quer provar, in casu, a "ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros" na importação. A presunção simples é o resultado do processo lógico, mediante o qual, da existência de um fato reconhecido como certo (provas indiciárias), inferese outro fato cuja existência é provável. Com efeito, em consonância com a doutrina e a jurisprudência administrativa, que considera plenamente aceitável o uso da prova indireta em direito tributário, inclusive em atos fraudulentos, a fiscalização, no presente caso, apurou todo um quadro indiciário que, por presunção simples, conduz ao cometimento da infração. Os elementos indiciários apurados devem ser analisados conjuntamente. Embora a eventual existência de somente um só deles pudesse não ser suficiente para a configuração da infração, o que importa é que o conjunto probatório, considerado como um todo, convirja ao cometimento da infração veiculada pelo art. 23, inciso V e §§1º e 3º do Decretolei n° 1.455/76. Conforme se verifica no relatório fiscal, inicialmente a fiscalização apurou um quadro indiciário convergente no sentido de que a importadora PONTUAL realizava importações terceirizadas, declarandoas como se fossem importações diretas, e depois, concentrandose especificamente nas importações ora autuadas, concluiu que a PONTUAL importou por conta e ordem da empresa TRIGOFORTE, sem cumprir nenhum dos requisitos previstos na legislação para a importação nessa modalidade, ocultando, mediante simulação, a identificação dessa empresa na importação. Com relação ao contexto geral das operações realizadas pela PONTUAL no período fiscalizado, constatou a fiscalização que: a) A fiscalizada declarou receitas brutas de vendas decorrentes da comercialização das mercadorias importadas no mercado interno que pouco superam os dispêndios na importação, menores que 10% (com exceção de 2009, quando chegou perto de 20%), indicando uma margem de lucro pequena para uma empresa que comercializa produtos importados por conta própria. A ínfima margem de lucro é incompatível com o objeto social de uma empresa que pretenda importar mercadorias em seu nome e comercializálas posteriormente no mercado interno. b) A PONTUAL possui poucos empregados registrados desde a sua constituição, o que tornaria difícil a operacionalização e logística de uma empresa que importa toneladas de mercadorias como grãos e peças de carros, entre outros, por conta própria, para depois revendêlas no mercado interno. c) Nas sua operações, a PONTUAL emitia notas fiscais de saída de mercadorias importadas em numerações em datas próximas ou idênticas às notas fiscais de entrada destas mercadorias, com mesmas quantidades e várias vezes mesmos transportadores em ambas as notas. Fl. 772DF CARF MF Processo nº 12457.735120/201375 Acórdão n.º 3402003.826 S3C4T2 Fl. 760 27 d) A sócia da autuada, Sra. JANICE ELAINE GRINGS, prestou informação à fiscalização no sentido de que: a) a PONTUAL opera com "vendas casadas", negociando primeiro com clientes nacionais para depois contatar os fornecedores, em aproximadamente 60 a 70% das vendas; b) Houve casos em que realmente prestou serviços, atuando como importadora por conta e ordem de terceiros, mas apenas no início para conseguir uma alavancagem financeira; c) Era ela que negociava com o exportador chinês, mas eventualmente já possuía algum produto encomendado antes da importação. e) A contabilidade da PONTUAL está eivada de vícios. Várias vendas no mercado interno escrituradas na contabilidade como “à vista” (com débito da conta “Caixa” ou “Bancos”), na verdade foram pagas a prazo, segundo informações prestadas pela própria PONTUAL em atendimento às intimações feitas pelo Fisco para demonstrar alguns recebimentos de operações específicas. Essa inconsistência repetiuse nas respostas enviadas pelos adquirentes quando circularizados pela equipe de fiscalização, muitas vezes com formas e datas de pagamentos divergentes tanto em relação à escrituração contábil quanto às respostas enviadas ao Fisco pela fiscalizada. Com relação às importações autuadas no presente processo, constantes nas DI's nºs 10/14822060 e 10/19567564, apurou a fiscalização que: i) Na auditoria da DI nº 10/14822060: constatouse que a PONTUAL informou que efetuou pagamentos a partir de 26/08 – dia do registro da DI (R$ 31.400,00 neste dia, além de outros pagamentos posteriores); enquanto a empresa TRIGOFORTE informou ter pago pelas mercadorias importadas em 18/08 (R$4.400,00), 30/08 (R$4.000,00) e 01/09/2010 (R$84,50), diversamente do alegado pela fiscalizada – tendo enviado os comprovantes respectivos. Assim, houve o provimento de recursos por parte do adquirente para o pagamento (ainda que parcial) da importação em questão, antecipadamente à quitação do contrato de câmbio, e antes também do próprio registro da DI, tendo a PONTUAL tentado ocultar essa informação relevante do Fisco. ii) Na auditoria da DI nº 10/19567564, a mesma situação acima foi constatada pela fiscalização para essa importação. Além disso, verificouse inconsistência na escrituração contábil nas vendas dessas mercadorias, registradas como “à vista” (nota fiscal emitida em 30/03/2010), mas a própria fiscalizada, em resposta ao Fisco, disse que teria recebido tal pagamento a prazo, em 31/05 (R$ 67.653,00) e 16/06/2010 (R$ 34.091,65). iii) Além disso, em sua resposta ao Fisco, a TRIGOFORTE admitiu o pedido antecipado, o adiantamento de valores e o conhecimento de que a mercadoria ainda seria importada, informando que "a maioria das quitações são realizadas através de adiantamento efetuado no ato do pedido, sendo este feito com antecedência por se tratar de um produto importado". iv) Ocorre que a operação de comércio exterior realizada com recursos de terceiro presumese por conta e ordem deste, de acordo com o artigo 27 da Lei nº 10.637/2002, de forma que a operação não poderia ter sido registrada na modalidade “direta”. Dessa forma entendo que os elementos que constam nos autos, acima enumerados, tanto relativos ao contexto geral das importações da PONTUAL em determinado período, como às importações específicas ora objeto de autuação, são suficientes para a conclusão da fiscalização de que: (...) A empresa adquirente de parte das mercadorias importadas através das DIs auditadas (sendo o restante, como citado, adquirido por outra empresa pertencente aos mesmos sócios) pagara por tais mercadorias antes das quitações dos respectivos contratos de câmbio (no caso das duas importações em questão). Comprovantes das transferências bancárias atestam a provisão Fl. 773DF CARF MF 28 dos recursos para a realização de tais pagamentos. A adquirente TRIGOFORTE inclusive admitiu, como citado, que antecipara recursos, e que sabia que se tratava de mercadoria a ser importada. A Lei nº 10.637/2002, em seu artigo 27, define que a operação de comércio exterior realizada com recursos de terceiro presume se por conta e ordem deste. A PONTUAL registrou as Declarações de Importação como importações “diretas”, ou “por conta própria”, quando deveria têlas consignado como “por conta e ordem de terceiros”, identificando a TRIGOFORTE como adquirente junto ao SISCOMEX (bem como a outra empresa “compradora”, cada uma na proporção adquirida do que foi importado). Todavia, a fiscalizada optou por omitir tais informações, mantendo as intervenientes e provedoras dos recursos indevidamente afastadas de eventual responsabilização tributária. Tal conduta ajustouse à infração tipificada no artigo 23, inciso V, do Decretolei nº 1.455/1976 (grifos nossos): (...) A empresa TRIGOFORTE concorreu para a efetivação das importações ao prover os recursos antecipadamente à realização das importações auditadas, bem como à quitação dos respectivos contratos de câmbio. (...) A alegação de que não teria havido o efetivo prejuízo ao Erário para o cabimento da pena de perdimento ou da multa que lhe substitui não prospera. As hipóteses de "dano ao Erário", definidas pelo legislador ordinário no art. 23 do Decretolei n° 1.455/76, tratamse de autênticas presunções legais de dano ao Erário, não se fazendo necessária qualquer comprovação adicional de efetivo prejuízo financeiro ao Erário ou à atividade fiscalizatória. Quando ocorrem, no mundo concreto, as infrações tipificadas nos incisos desse dispositivo legal está presumido o dano ao Erário. Dessa forma, como a subtração de tributos não integra o tipo infracional sob análise, a eventual não incidência, alíquota zero ou a isenção de tributos nas importações não é relevante ao caso. Tendo ocorrido o cometimento da infração de ocultação, mediante fraude ou simulação, do comprador ou adquirente na importação, veiculada pelo art. 23, V do Decretolei nº 1.455/76, está caracterizado o "dano ao Erário". Nessa esteira, a fraude a que se refere o dispositivo deve ser entendida no sentido amplo, e não na acepção restrita do art. 72 da Lei nº 4.502/64, associada ao não pagamento ou diferimento do tributo. Também há de se esclarecer que as questões relativas à "quebra da cadeia do IPI" ou à "lavagem de dinheiro" dizem respeito às justificativas originais do legislador ordinário para coibir a interposição fraudulenta nas operações de comércio exterior, entretanto, esses temas, in concreto, não integram o tipo infracional. Dessa forma, mesmo que, no presente caso, não ocorra a quebra da cadeia do IPI ou não seja o caso de lavagem de dinheiro, esse fato, por si só, não tem o condão de afastar o cometimento da infração prevista no art. 23, V do Decretolei nº 1.455/76. Também o fato de eventualmente a empresa importadora ter recursos suficientes para realizar as operações, não a exime da presente infração, vez que não se trata de situação de presunção legal de interposição fraudulenta na importação a que se refere o §2° do art. 23 do Decretolei nº 1.455/76, mas o seu inciso V. Embora a falta de recursos próprios para Fl. 774DF CARF MF Processo nº 12457.735120/201375 Acórdão n.º 3402003.826 S3C4T2 Fl. 761 29 realizar as importações possa conduzir à conclusão de que as operações foram realizadas no interesse de outrem, pode acontecer, em tese, de a importadora ter recursos próprios para efetuar as importações, mas as realize para outros, acobertandoos por qualquer motivo, situação que também caracterizaria o cometimento da infração prevista no inciso V do art. 23 do Decretolei nº 1.455/76. A boafé alegada pelas recorrentes não restou comprovada nos autos. Embora a TRIGOFORTE tenha até colaborado com o procedimento fiscal, os documentos apresentados só vieram aos autos por solicitação da fiscalização, após a perda da espontaneidade, nos termos do art. 102 do Decretolei nº 37/66. A TRIGOFORTE contribuiu para a realização da importação com a sua ocultação, solicitando previamente os produtos a serem importados e adiantando os valores para as importações, mas sem atender ao disposto na legislação para a realização de uma operação terceirizada, que determina, dentre outras exigências, a necessidade de habilitação da empresa adquirente/encomendante para operar no comércio exterior e de apresentação à Aduana do contrato com a importadora. Dessa forma, a TRIGOFORTE responde pela infração seja porque concorreu para a sua prática, nos termos do inciso I do art. 95 do Decretolei nº 37/66, seja porque é considerada a adquirente numa operação por conta e ordem, nos termos do inciso V desse artigo. Houve a realização de operações por conta e ordem pela importadora PONTUAL com a ocultação, mediante simulação, da identificação da adquirente TRIGOFORTE nas declarações de importação, em desacordo com o disposto na legislação. Também na escrituração contábil da PONTUAL, os adiantamentos para as importações não foram contabilizados corretamente, no intuito de ocultar do Fisco o fato de que se tratavam de operações terceirizadas. Em outra situação semelhante ao presente caso neste CARF, bem consignou, em seu Voto, o Relator Rodrigo Mineiro Fernandes, no Acórdão nº 3101001.789 – 3ª Seção do CARF/ 1ª Câmara / 1ª Turma Ordinária (vide trecho abaixo), de 11 de dezembro de 2014, que a "simulação ocorre quando o importador ostensivo declara a operação como sendo por conta própria, mas, na realidade, é por conta e ordem de terceiros ou por encomenda": (...) Já a simulação, dentro da definição de Alberto Xavier como “um caso de divergência entre a vontade (vontade real) e a declaração (vontade declarada), procedente de acordo entre o declarante e o declaratório e determinada pelo intuito de enganar terceiros”, está claramente caracterizada na ocultação do sujeito passivo. Recorro também ao conceito civilista de simulação, previsto no §1º do art. 167 da Lei nº 10.406, de 2002 (Código Civil): (...) A simulação ocorre quando o importador ostensivo declara a operação como sendo por conta própria, mas, na realidade, é por conta e ordem de terceiros ou por encomenda. A natureza da operação declarada é uma (importação por conta própria) e na realidade é outra (importação por conta e ordem de terceiros ou por encomenda). Fl. 775DF CARF MF 30 Também é encontrado no direito aduaneiro a previsão de simulação, dada pela IN SRF Nº 228/2002 (grifo nosso): Art. 13. A prestação de informação ou a apresentação de documentos que não traduzam a realidade das operações comerciais ou dos verdadeiros vínculos das pessoas com a empresa caracteriza simulação e falsidade ideológica ou material dos documentos de instrução das declarações aduaneiras, sujeitando os responsáveis às sanções penais cabíveis, nos termos do Código Penal (Decretolei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940) ou da Lei nº 8.137, de 27 de dezembro de 1990, além da aplicação da pena de perdimento das mercadorias, nos termos do art. 105 do Decretolei nº 37, de 18 de novembro de 1966. (...) Da mesma forma, a omissão da informação do real importador ou responsável pela operação na Declaração de Importação, evadindose do devido controle aduaneiro na importação, caracterizase como simulação, visto que ocorre a divergência entre a vontade e a declaração, procedente de acordo entre o declarante e o declaratório e determinada pelo intuito de enganar terceiros, no caso a fiscalização aduaneira. Na ocultação fraudulenta ou simulatória, o sujeito passivo fica a margem da relações obrigacional tributária e do devido controle aduaneiro. (...) Quanto à alegação de que a multa seria confiscatória, cabe lembrar que o CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei. A eventual verificação da existência de confisco seria equivalente a reconhecer a inconstitucionalidade da incidência do tributo e da multa, o que é vedado a este Conselho Administrativo, salvo nas hipóteses previstas no art. 62, §§1º e 2º do seu Regimento Interno. Por fim, entendo que não há qualquer irregularidade na exigência da multa veiculada pelo artigo 23, inciso V e §3º do Decretolei n. 1.455/76 da importadora ostensiva. Quem primeiro responde por uma infração é o seu próprio agente, assim considerado a pessoa física ou jurídica que incorre na omissão ou ação, voluntária ou involuntária, que importe inobservância de norma legal estabelecida, nos termos do art. 94 do Decretolei nº 37/66. Além desse agente direto podem responder pela infração aduaneira as demais pessoas referidas no art. 95 do Decretolei nº 37/66 na condição de "responsáveis pela infração". Com efeito, na infração por ocultação do sujeito passivo na importação mediante fraude ou simulação, o agente direto da infração deve ser deduzido da própria conduta coibida pelo art. 23, V do Decretolei nº 1.455/76, qual seja, a ocultação fraudulenta do sujeito passivo, daí se concluindo que ele é o importador ostensivo, que é quem efetivamente pratica a ação de "ocultar fraudulentamente" o verdadeiro sujeito passivo na importação, sem prejuízo de outras pessoas também responderem por essa infração com fundamento do art. 95 do Decretolei nº 37/66, em especial, o adquirente da mercadoria na importação por conta e ordem (inciso V) e o encomendante predeterminado (inciso VI), conforme seja o caso. Assim, in casu, configurada a materialidade da infração aduaneira veiculada pelo art. 23, V, §§1º e 3º do Decretolei nº 1.455/76, não há como se afastar a aplicação da penalidade respectiva ao "responsável pela infração" (TRIGOFORTE), nos termos do art. 95 do Decretolei nº 37/66, muito menos ao seu agente direto, qual seja, a importadora ostensiva (PONTUAL). Fl. 776DF CARF MF Processo nº 12457.735120/201375 Acórdão n.º 3402003.826 S3C4T2 Fl. 762 31 De outra parte, não se configura a retroatividade benigna em favor da importadora ostensiva, vez que a multa por cessão de nome foi criada pelo legislador ordinário para conviver com a pena de perdimento das mercadorias e, em consequência, também com a multa que lhe substitui. Quando não havia previsão da multa de cessão de nome no ordenamento, ocorria que, na hipótese da aplicação (física) da pena de perdimento às mercadorias, não obstante o agente direto da infração prevista no art. 23, V do Decretolei nº 1.455/76 fosse mesmo o importador ostensivo, como se disse acima, sendo a ele aplicada a penalidade respectiva, quem poderia acabar suportando o efeito dessa penalidade era o importador oculto real adquirente da mercadoria no exterior, que seria efetivamente privado do seu uso e gozo. Nessa esteira, é que o legislador ordinário optou por inserir no ordenamento jurídico a multa prevista no art. 33 da Lei 11.488/2007 com intuito de penalizar concretamente a conduta irregular do importador ostensivo, que cedeu seu nome a outrem, eis que ele poderia restar sem punição na hipótese de aplicação (física) da pena de perdimento às mercadorias. Esse entendimento se confirma com a interpretação veiculada posteriormente pelo art. 727, §3o do Regulamento Aduaneiro/2009: Art.727. Aplicase a multa de dez por cento do valor da operação à pessoa jurídica que ceder seu nome, inclusive mediante a disponibilização de documentos próprios, para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas ao acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários (Lei nº 11.488, de 2007, art. 33, caput). §1oA multa de que trata o caput não poderá ser inferior a R$ 5.000,00 (cinco mil reais)(Lei nº 11.488, de 2007, art. 33, caput). §2oEntendese por valor da operação aquele utilizado como base de cálculo do imposto de importação ou do imposto de exportação, de acordo com a legislação específica, para a operação em que tenha ocorrido o acobertamento. §3oA multa de que trata o caput não prejudica a aplicação da pena de perdimento às mercadorias na importação ou na exportação. (Redação dada pelo Decreto nº 7.213, de 2010). No que concerne à multa por cessão de nome, o seu agente direto está definido expressamente no tipo como "a pessoa jurídica que ceder seu nome (...) para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas no acobertamento de seus intevenientes ou beneficiários", qual seja, a importadora ostensiva, sem prejuízo também da eventual responsabilização de outra pessoa física ou jurídica com base no art. 95 do Decretolei nº 37/66. Nesse ponto cabe salientar que o fato de o agente direto da infração estar expresso no tipo dessa infração não é suficiente para afastar a responsabilização de outras pessoas em face da determinação contida em outro dispositivo de lei (art. 95 do Decretolei nº 37/66). Dessa forma, entendo não ser aplicável a retroatividade benigna à importadora ostensiva ou a penalidade mais benéfica. No Acórdão n° 310100.431 1ª Camara / 1ª Turma Ordinária, de 25 de maio de 2010, Redator designadoTarásio Campelo Borges, foi decidido que "O dano ao erário nas infrações enumeradas no caput do artigo 23 do Decretolei 1.455, de 1976, com as Fl. 777DF CARF MF 32 modificações introduzidas pela Lei 10.637, de 2002, não é fato típico para a exigência da multa cominada no artigo 33 da Lei 11.488, de 2007". Também este Colegiado já decidiu por unanimidade, no Acórdão nº 3402 003.008 – 4ª Câmara / 2ª Turma Ordinária, de 26 de abril de 2016, Relator: Antonio Carlos Atulim, no sentido de que a multa por cessão de nome não prejudica a aplicação da pena de perdimento ou a multa substitutiva. Assim, pelo exposto, voto no sentido de negar provimento aos recursos voluntários. (assinatura digital) Maria Aparecida Martins de Paula Fl. 778DF CARF MF
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Numero do processo: 12448.907439/2014-07
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Mar 15 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Apr 24 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2009
ALIENAÇÃO DE PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA. DECRETO-LEI Nº 1.510/76. GANHO DE CAPITAL. ISENÇÃO. APLICAÇÃO DA LEGISLAÇÃO VIGENTE NA DATA DA OCORRÊNCIA DO FATO GERADOR.
É inaplicável a isenção de que trata a alínea "d" do art. 4º do Decreto-lei nº 1.510, de 1976, relativamente ao ganho de capital, às alienações de participações societárias ocorridas sob égide da Lei nº 7.713, de 1988, uma vez que submetidas à legislação tributária vigente na data da ocorrência do fato gerador.
ALIENAÇÃO DE PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA. DECRETO-LEI Nº 1.510/76. ISENÇÃO. GANHO DE CAPITAL. AÇÕES BONIFICADAS ADQUIRIDAS APÓS 31/12/1983. INAPLICABILIDADE.
É inaplicável a isenção de que trata a alínea "d" do art. 4º do Decreto-lei nº 1.510, de 1976, relativamente ao ganho de capital, às ações bonificadas adquiridas após 31/12/1983, em decorrência de incorporação de reservas e/ou lucros ao capital social.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 2401-004.662
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em conhecer do recurso e rejeitar a preliminar de nulidade. No mérito, por voto de qualidade, negar-lhe provimento. Vencidos os conselheiros Carlos Alexandre Tortato, Rayd Santana Ferreira, Andréa Viana Arrais Egypto e Luciana Matos Pereira Barbosa, que davam provimento ao recurso.
(assinado digitalmente)
Miriam Denise Xavier Lazarini - Presidente
(assinado digitalmente)
Cleberson Alex Friess - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Miriam Denise Xavier Lazarini, Carlos Alexandre Tortato, Cleberson Alex Friess, Luciana Matos Pereira Barbosa, Rayd Santana Ferreira, Márcio de Lacerda Martins, Andréa Viana Arrais Egypto e Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (suplente convocado).
Nome do relator: CLEBERSON ALEX FRIESS
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GANHO DE CAPITAL. ISENÇÃO. Recorrente REINALDO ARNAUD (ESPÓLIO) Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2009 ALIENAÇÃO DE PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA. DECRETOLEI Nº 1.510/76. GANHO DE CAPITAL. ISENÇÃO. APLICAÇÃO DA LEGISLAÇÃO VIGENTE NA DATA DA OCORRÊNCIA DO FATO GERADOR. É inaplicável a isenção de que trata a alínea "d" do art. 4º do Decretolei nº 1.510, de 1976, relativamente ao ganho de capital, às alienações de participações societárias ocorridas sob égide da Lei nº 7.713, de 1988, uma vez que submetidas à legislação tributária vigente na data da ocorrência do fato gerador. ALIENAÇÃO DE PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA. DECRETOLEI Nº 1.510/76. ISENÇÃO. GANHO DE CAPITAL. AÇÕES BONIFICADAS ADQUIRIDAS APÓS 31/12/1983. INAPLICABILIDADE. É inaplicável a isenção de que trata a alínea "d" do art. 4º do Decretolei nº 1.510, de 1976, relativamente ao ganho de capital, às ações bonificadas adquiridas após 31/12/1983, em decorrência de incorporação de reservas e/ou lucros ao capital social. Recurso Voluntário Negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 12 44 8. 90 74 39 /2 01 4- 07 Fl. 330DF CARF MF Processo nº 12448.907439/201407 Acórdão n.º 2401004.662 S2C4T1 Fl. 331 2 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em conhecer do recurso e rejeitar a preliminar de nulidade. No mérito, por voto de qualidade, negarlhe provimento. Vencidos os conselheiros Carlos Alexandre Tortato, Rayd Santana Ferreira, Andréa Viana Arrais Egypto e Luciana Matos Pereira Barbosa, que davam provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier Lazarini Presidente (assinado digitalmente) Cleberson Alex Friess Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Miriam Denise Xavier Lazarini, Carlos Alexandre Tortato, Cleberson Alex Friess, Luciana Matos Pereira Barbosa, Rayd Santana Ferreira, Márcio de Lacerda Martins, Andréa Viana Arrais Egypto e Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (suplente convocado). Fl. 331DF CARF MF Processo nº 12448.907439/201407 Acórdão n.º 2401004.662 S2C4T1 Fl. 332 3 Relatório Cuidase de recurso voluntário interposto em face da decisão da 9ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil em Belo Horizonte (DRJ/BHE), cujo dispositivo tratou de considerar improcedente a manifestação de inconformidade, não reconhecendo o direito creditório pleiteado pelo interessado. Transcrevo a ementa do Acórdão nº 0262.927 (fls. 276/282): ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF EXERCÍCIO: 2010 PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR QUE O DEVIDO. O contribuinte somente tem direito à restituição total ou parcial do tributo quando restar comprovado erro ou recolhimento indevido do crédito tributário. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido 2. O espólio do contribuinte, ora recorrente, protocolou Pedido de Restituição relativamente à quantia recolhida, em 30/6/2009, sob o código de pagamento 4600, no valor original de R$ 11.625,52, relativo ao período de apuração 31/5/2009, a título de Imposto sobre a Renda da Pessoa Física (IRPF) incidente sobre o ganho de capital na venda de participação societária negociada no ano de 2007. 2.1 Segundo expõe o interessado, o motivo do indébito reside no fato de que o pagamento foi efetuado indevidamente, visto que o ganho de capital foi calculado sobre a alienação de participação societária adquirida anteriormente ao prazo de 5 (cinco) anos contados da vigência da Lei nº 7.713, de 22 de dezembro de 1988, e, portanto, amparada pela regra de não incidência do imposto sobre a renda conferida pela alínea "d" do art. 4º do Decretolei nº 1.510, de 27 de dezembro de 1976. 3. A restituição foi requerida pelo sujeito passivo, em 27/6/2014, mediante utilização do programa Pedido de Restituição, Ressarcimento ou Reembolso e Declaração de Compensação (PER/DCOMP), sob o nº 00374.55135.27061.2.2.04.5608 (fls. 72/75). 3.1 A unidade local da RFB indeferiu a restituição pleiteada, por entender, em síntese, que (fls. 275): "Diante da inexistência do crédito, INDEFIRO o Pedido de Restituição" Fl. 332DF CARF MF Processo nº 12448.907439/201407 Acórdão n.º 2401004.662 S2C4T1 Fl. 333 4 4. Em face do despacho decisório da Delegacia da Receita Federal do Brasil no Rio de Janeiro, o espólio, por meio da inventariante e sucessora, Srª Alda Maria Confort Arnaud, apresentou manifestação de inconformidade contra o indeferimento do pedido (fls. 2/28). 5. Intimado em 12/1/2015, por via postal, da decisão do colegiado de primeira instância, às fls. 283/284, o espólio apresentou recurso voluntário no dia 5/2/2015 (fls. 294/316): 5.1 Em sua petição, expõe os seguintes argumentos de fato e direito: (i) em preliminar, requer a nulidade do despacho decisório, pela inexistência de qualquer diligência e/ou intimação, bem como devido à carência de motivação da decisão, o que resultou no cerceamento do seu direito de defesa; (ii) no mérito, defende o direito adquirido à não incidência do IRPF sobre o resultado da alienação da participação societária detida antes de 1984 e à restituição integral do valor pago indevidamente; (iii) cumprida a condição prevista na alínea "d" do art. 4º do Decretolei nº 1.510, de 1976, ou seja, a titularidade da participação societária por 5 anos, o direito de não recolher o imposto por ocasião da venda da participação passou a fazer parte do patrimônio do sócio cotista, caracterizando o denominado "direito adquirido"; e (iv) a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça (STJ), do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf) e das Delegacias da Receita Federal do Brasil são favoráveis à tese da recorrente. É o relatório. Fl. 333DF CARF MF Processo nº 12448.907439/201407 Acórdão n.º 2401004.662 S2C4T1 Fl. 334 5 Voto Conselheiro Cleberson Alex Friess Relator Juízo de admissibilidade 6. Uma vez realizado o juízo de validade do procedimento, verifico que estão satisfeitos os requisitos de admissibilidade do recurso voluntário e, por conseguinte, dele tomo conhecimento. Preliminar 7. Em síntese, a recorrente alega a nulidade do despacho decisório ante a falta de intimação para a apresentação de documentos, bem como em razão da carência de motivação do ato administrativo, já que apenas indeferiu o pedido de restituição, sob a justificativa de inexistência do crédito. 8. Pois bem. Embora os ganhos de capital na alienação de bens ou direitos sejam apurados e tributados em separado, cujos rendimentos estão sujeitos à tributação definitiva, devem ser informados pelo contribuinte na respectiva declaração de ajuste anual do ano calendário. 9. Segundo a peça recursal, o Sr. Reinaldo Arnaud, após a negociação da alienação da participação societária da pessoa jurídica "Suíssa Industrial e Comercial Ltda", no ano de 2007, passou a recolher o imposto de renda à medida que recebia as parcelas correspondentes ao pagamento do preço ajustado entre as partes. 9.1 No ano de 2009, além do recolhimento do imposto devido sobre a parcela recebida, houve a informação do fato gerador na declaração de ajuste do anocalendário, conforme esclareceu a decisão de piso, após consultar os dados do sistema informatizado da RFB (fls. 279). 10. Em consequência dos fatos, o pedido de restituição via PER/DCOMP dificilmente seria aceito pelos parâmetros de auditoria eletrônica da RFB, que confronta, entre outras análises, débitos e créditos em nome do interessado, dado que o pagamento indevido assinalado pelo contribuinte tinha sido integralmente utilizado para quitação de débitos declarados de mesma natureza. 11. Esta é exatamente a fundamentação que acompanha o Despacho Decisório, emitido, em 7/8/2014, pela Delegacia da Receita Federal do Brasil no Rio de Janeiro, acostado às fls. 275. Fl. 334DF CARF MF Processo nº 12448.907439/201407 Acórdão n.º 2401004.662 S2C4T1 Fl. 335 6 11.1 Ao não haver crédito disponível para restituição, pois alocado o pagamento para quitação de débito declarado pelo sujeito passivo, coerentemente concluiu a autoridade fazendária pela inexistência do direito creditório pleiteado e, por conseguinte, pelo indeferimento do pedido de restituição. 12. Provavelmente, se tivesse havido a prévia retificação da declaração de ajuste, com a indicação pelo sujeito passivo que os rendimentos não se sujeitavam ao imposto sobre a renda, outro caminho tomaria o procedimento de análise do pedido de restituição via PER/DCOMP, inclusive com a intimação, por parte da autoridade competente para decidir sobre a restituição, para que o interessado apresentasse os documentos comprobatórios do direito creditório. 13. Ao contrário do exposto na petição recursal, a Instrução Normativa (IN) RFB nº 1.300, de 20 de novembro de 2012, não determina, como ato obrigatório, a intimação do contribuinte para comprovar o seu direito de crédito, ou mesmo a realização de diligência fiscal. 13.1 Cuidase de uma faculdade, a critério da autoridade responsável pela análise do direito creditório, mediante avaliação se o caso concreto sob apreciação demanda a adoção de tais procedimentos instrutórios adicionais (art. 76, caput, e, mais recentemente, art. 107A, inc. I, da IN RFB nº 1.300, de 2012). 14. Por sua vez, até a manifestação da RFB, por intermédio do despacho decisório, não há litígio, nem litigantes. 15. O conflito de interesses aparece posteriormente à decisão administrativa, quando o Fisco negase a reconhecer o direito creditório pleiteado e indefere o pedido de restituição da importância recolhida aos cofres públicos. O início da situação conflituosa ocorre com a manifestação de inconformidade, apresentada pelo sujeito passivo no prazo legal. Presente o caráter litigioso, estabelecese o processo administrativo em sentido estrito. 16. Com o aperfeiçoamento do ato administrativo, mediante a ciência do despacho decisório, o requerente terá direito, propriamente, ao contraditório e à ampla defesa, nos termos estabelecidos no processo administrativo tributário. Como se sabe, o direito ao contraditório e à ampla defesa é garantido pelo inciso LV do art. 5º da Carta da República de 1988 apenas aos litigantes em processo administrativo e judicial, bem como aos acusados em geral. 17. Logo, não vislumbro a existência de vícios para se impor a declaração de nulidade do ato administrativo, quer sob a ótica de falta de intimação do contribuinte para apresentar documentos, quer pela motivação adotada pelo Fisco para fundamentar a decisão combatida. 18. Dessa forma, rejeito a preliminar de nulidade do ato administrativo. Fl. 335DF CARF MF Processo nº 12448.907439/201407 Acórdão n.º 2401004.662 S2C4T1 Fl. 336 7 Mérito 19. Nos últimos anos, o STJ firmou o entendimento, tendo em vista a isenção prevista na alínea "d" do art. 4º do Decretolei nº 1.510, de 1976, que o resultado da alienação de participações societárias detidas pelos contribuintes, no mínimo, cinco anos antes da entrada em vigor da Lei nº 7.713, de 1988, escapa à tributação do imposto sobre a renda, como ganho de capital. 1 19.1 Por se tratar de isenção concedida sob condição onerosa, estaria caracterizado o direito adquirido à isenção do imposto sobre a renda mesmo em relação às situações de alienações das participações societárias que ocorreram, ou ocorrem, na vigência da Lei nº 7.713, de 1988. 20. Tais precedentes, porém, ostentam apenas força persuasiva, e não vinculante nos moldes do § 2º do art. 62 do Anexo II do Regimento do Carf, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2015, na medida em que desconheço, até o momento, a existência de decisão da Corte infraconstitucional na sistemática dos recursos repetitivos. 21. Assim, sintome confortável para discordar do entendimento aparentemente consolidado no STJ e manifestar ponto de vista pessoal contrário à orientação prevalente naquela Corte. 22. Pois bem. Cediço que a alínea "d" do art. 4º do Decretolei nº 1.510, de 1976, estipulava a não incidência do imposto sobre a renda nas alienações de participações societárias efetivadas após decorrido o período de cinco anos contados da data da subscrição ou aquisição da participação: Art 4º Não incidirá o imposto de que trata o artigo 1º: (...) d) nas alienações efetivadas após decorrido o período de cinco anos da data da subscrição ou aquisição da participação. 23. O dispositivo restou revogado pelo art. 58 da Lei nº 7.713, de 1988, a partir de 1º de janeiro de 1989, de maneira tal que as operações de alienação de participação societária, desde que configurado o resultado positivo patrimonial, passaram a ser tributadas pelo imposto sobre a renda. 24. A respeito de isenção, dispõe o art. 178 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966, que veicula o Código Tributário Nacional (CTN), na redação dada pela Lei Complementar nº 24, de 7 de janeiro de 1975: Art. 178 A isenção, salvo se concedida por prazo certo e em função de determinadas condições, pode ser revogada ou modificada por lei, a qualquer tempo, observado o disposto no inciso III do art. 104. (GRIFEI) 1 Nesse sentido, REsp 1.570.781/RS, 2ª Turma, Relator Ministro Campbell Marques, julgado em 8/3/2016; EDcl no REsp 1.133.032/PR, 1ª Seção, Relator p/ acórdão Ministro Castro Meira, julgado em 14/9/2011; e EDcl no REsp 1.164.768/RS, 1ª Turma, Relator Ministro Benedito Gonçalves, julgado em 4/8/2011. Fl. 336DF CARF MF Processo nº 12448.907439/201407 Acórdão n.º 2401004.662 S2C4T1 Fl. 337 8 25. A isenção para configurar direito adquirido, de modo que torne insuscetível de revogação ou modificação por lei posterior, exige o atendimento de dois requisitos cumulativos, a saber: concedida por prazo certo e em função de determinadas condições. 26. Ainda que se admita que a isenção prevista na alínea "d" do art. 4º do Decreto lei nº 1.510, de 1976, foi outorgada a partir do implemento de condições para o seu gozo, não foi fixado, por outro lado, qualquer prazo para a fruição do benefício, caracterizandoa como isenção concedida por prazo indeterminado. 26.1 O período de cinco anos estabelecido na alínea "d" referiase ao lapso de tempo mínimo em que o detentor das participações societárias deveria permanecer com a titularidade das ações, hipótese diversa, portanto, de prazo de duração da isenção. 26.2 Por não ser por prazo determinado, não há que se falar em direito adquirido à isenção, uma vez que poderia ser revogada a qualquer momento pelo legislador. 27. Todavia, a rigor, nem mesmo foi onerosa a isenção, pois não se exigiu que houvesse ônus patrimonial ou dispêndios relacionados à necessidade de subscrição ou aquisição de novas ações ou quotas sociais, a partir do Decretolei nº 1.510, de 1976, mas tão somente a manutenção das participações societárias no patrimônio do contribuinte, pelo prazo de cinco anos. 28. Uma vez isenção não onerosa e por prazo indeterminado, a lei tributária aplicável é aquela do momento da ocorrência do fato gerador (arts. 105, 113, § 1º, e 144, do CTN). 29. Para as hipóteses de alienação de participação societária a partir do ano de 1989, como é o caso dos autos, o fato gerador se configura na vigência dos §§2º e 3º do art. 3º da Lei nº 7.713, de 1988, que determinam a incidência do imposto sobre a renda sobre o ganho de capital: Art. 3º (...) § 2º Integrará o rendimento bruto, como ganho de capital, o resultado da soma dos ganhos auferidos no mês, decorrentes de alienação de bens ou direitos de qualquer natureza, considerandose como ganho a diferença positiva entre o valor de transmissão do bem ou direito e o respectivo custo de aquisição corrigido monetariamente, observado o disposto nos arts. 15 a 22 desta Lei. § 3º Na apuração do ganho de capital serão consideradas as operações que importem alienação, a qualquer título, de bens ou direitos ou cessão ou promessa de cessão de direitos à sua aquisição, tais como as realizadas por compra e venda, permuta, adjudicação, desapropriação, dação em pagamento, doação, procuração em causa própria, promessa de compra e venda, cessão de direitos ou promessa de cessão de direitos e contratos afins. (...) Fl. 337DF CARF MF Processo nº 12448.907439/201407 Acórdão n.º 2401004.662 S2C4T1 Fl. 338 9 30. Tenho para mim que o raciocínio acima não conflita com o enunciado da Súmula 544 do Supremo Tribunal Federal (STF): Súmula 544: Isenções tributárias concedidas, sob condição onerosa, não podem ser livremente suprimidas. 30.1 A razão é bem singela. O enunciado sumulado pelo STF foi editado à luz da redação anterior do art. 178 do CTN, que estabelecia os dois requisitos de forma alternativa, bastando apenas a presença de um deles para configurar a impossibilidade de revogação da isenção. 30.2 Com a novel redação do art. 178 do CTN, a partir da Lei Complementar nº 24, de 1975, a caracterização da onerosidade da isenção passou a demandar, por opção do legislador, o cumprimento simultâneo dos dois requisitos estabelecidos no dispositivo de lei, condição e prazo certo, de maneira que a subsunção ao conceito de irrevogabilidade tornouse mais restrita. 31. Observo, igualmente, que a jurisprudência do STJ foi construída, embora não só, sob uma forte influência dos pronunciamentos reiterados no âmbito administrativo, em especial da Câmara Superior de Recursos Fiscais, que reconhecia o direito adquirido do contribuinte que alienou a participação societária após o decurso de cinco anos, ainda que a operação de venda tivesse ocorrido na vigência da lei revogadora da isenção do Decretolei nº 1.510, de 1976. 31.1 Nesse sentido, a título de exemplo, reproduzo a ementa do Recurso Especial (REsp) 1.133.032/PR, 1ª Seção, Relator Ministro Luiz Fux, Relator p/ acórdão Ministro Castro Meira, julgado em 14/3/2011: TRIBUTÁRIO. IMPOSTO DE RENDA. ALIENAÇÃO DE PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA. ISENÇÃO ONEROSA POR PRAZO INDETERMINADO. DECRETOLEI 1.510/76. DIREITO ADQUIRIDO. REVOGAÇÃO. ART. 178 DO CTN. 1. Os recorrentes impugnam acórdão proferido pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região, o qual entendeu não persistir a isenção conferida pelo art. 4º, alínea "d", do DecretoLei nº 1.510/76 ao acréscimo patrimonial decorrente da alienação de participação societária realizada após a entrada em vigor da Lei nº 7.713/88. 2. Não obstante as ponderáveis razões do voto apresentado pelo Sr. Ministro Relator, reconheço o direito adquirido do contribuinte que alienou a participação societária após o decurso de cinco anos, ainda que essa alienação tenha ocorrido na vigência da Lei nº 7.713/88, tendo em vista os reiterados pronunciamentos da Fazenda Nacional, pelo órgão máximo de sua instância administrativa, o Conselho Superior de Recursos Fiscais nesse sentido. (...) (GRIFEI) Fl. 338DF CARF MF Processo nº 12448.907439/201407 Acórdão n.º 2401004.662 S2C4T1 Fl. 339 10 32. Nada obstante ao histórico de decisões administrativas, a atual jurisprudência da Câmara Superior de Recursos Fiscais parece apontar em sentido diverso ao anterior, ou seja, contrário ao reconhecimento de direito adquirido às alienações posteriores à Lei nº 7.713, de 1988, conforme se pode verificar do recente Acórdão nº 9202003.882, julgado na sessão de 12/4/2016, e decidido pela maioria de votos do colegiado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2000, 2001 IRPF. PARTICIPAÇÕES SOCIETÁRIAS. AQUISIÇÃO SOBRE OS EFEITOS DA HIPÓTESE DE NÃO INCIDÊNCIA PREVISTOS NO DECRETO 1.510/76. NÃO OCORRÊNCIA DE DIREITO ADQUIRIDO. APLICAÇÃO DA LEGISLAÇÃO VIGENTE NA DATA DA OCORRÊNCIA DO FATO GERADOR. Se a pessoa física titular da participação societária, sob a égide do art. 4°, "d", do DecretoLei 1.510/76, E subseqüentemente ao período de 5 (cinco) anos da aquisição da participação, alienou a, aplicase a legislação vigente na data do fato gerador. Não há direito adquirido à isenção por não ter sido deferida por prazo certo e legislação posterior tornou a alienação tributável, não havendo que se falar em direito adquirido a regime jurídico. Recurso especial provido. 33. As razões expostas até aqui neste voto são suficientes para negar o reconhecimento do direito creditório pleiteado pelo espólio do "de cujus" e manter o indeferimento do pedido de restituição. 34. Identifico, entretanto, que no caso concreto sob apreço há mais um elemento desfavorável ao reconhecimento do direito creditório do recorrente. 35. Ao compulsar os contratos sociais e alterações da empresa "Suíssa Industrial e Comercial Ltda, é possível constatar a aquisição de quotas pelo contribuinte em momento posterior ao ano de 1983, ou seja, menos de cinco anos da revogação da isenção do Decretolei nº 1.510, de 1976, distribuídas via bonificação, decorrentes da incorporação de reservas e/ou lucros ao capital social (fls. 93/236). 35.1 É o caso, por exemplo, da vigésima oitava alteração contratual, em que foi mantido o mesmo valor nominal das quotas, porém com alteração do número de quotas em nome do sócio cotista, devido à incorporação de reservas e/ou lucros (fls. 215/217). 35.2 Essa peculiaridade foi detectada em outras alterações de contrato, ao longo dos anos, as quais também adotaram procedimento similar para o aumento de capital social (fls. 200/202, 220/222, etc). 36. Nessas situações há um acréscimo patrimonial, resultado do aumento do patrimônio pessoal do sócio cotista igual ao valor das quotas novas recebidas em bonificação pela incorporação de reservas e/ou lucros ao capital social. É indiferente que, ao final, a participação relativa de cada um dos sócios no capital social da empresa permaneça inalterada, equivalente ao percentual que detinha antes da operação de 33,3%. Fl. 339DF CARF MF Processo nº 12448.907439/201407 Acórdão n.º 2401004.662 S2C4T1 Fl. 340 11 36.1 Cuidase de riqueza nova, portanto, advinda dos resultados da sociedade empresarial alcançados em períodos anteriores, e representa um produto do capital, rendimento tributável pelo imposto sobre a renda (art. 3º, § 1º, da Lei nº 7.713, de 1988). 37. Em outros dizeres, mesmo que fosse admitido o direito adquirido à isenção na alienação da participação societária detidas até 1983, isto é, cinco anos antes à revogação da alínea "d" do art. 4º do Decretolei nº 1.510, de 1976, a aquisição de quotas oriunda da incorporação de reservas e/ou lucros ao capital social, via bonificação, após 31/12/1983, não pode ser considerada, para fins de isenção tributária, extensão das quotas originalmente subscritas ou adquiridas. 38. De acordo com os autos, verifico que a negociação da alienação da participação societária, no ano de 2007, correspondeu à totalidade das quotas detidas pelo contribuinte na sociedade empresarial, tanto as originalmente existentes até 31/12/1983, quanto as adquiridas via bonificação com a emissão de novas quotas, após 31/12/1983 (fls. 251/263). 39. Dessa feita, mantenho intacta a decisão de piso que deixou de reconhecer o direito creditório pleiteado e indeferiu o pedido de restituição. Conclusão Ante o exposto, CONHEÇO do recurso voluntário e, no mérito, NEGO PROVIMENTO. É como voto. (assinado digitalmente) Cleberson Alex Friess Fl. 340DF CARF MF
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