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Numero do processo: 19515.720104/2014-76
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 07 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Oct 22 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/1999 a 31/01/2003
DOCUMENTOS E INFORMAÇÕES. SOLICITAÇÃO. RECUSA. SONEGAÇÃO. APRESENTAÇÃO DEFICIENTE. ARBITRAMENTO. IMPORTÂNCIA DEVIDA.
Ocorrendo recusa ou sonegação de qualquer documento ou informação solicitada, ou sua apresentação deficiente, a autoridade tributária poderá apurar a base de cálculo das contribuições, mediante arbitramento, e lançar de ofício a importância devida.
LANÇAMENTO. OBSERVÂNCIA À LEGISLAÇÃO. DIREITO DE DEFESA. NULIDADE. INEXISTÊNCIA.
Tendo o lançamento tributário sido realizado em estrita observância à legislação de regência, com a devida ciência ao contribuinte e abertura de prazo para defesa, não há que se falar em violação ao direito de defesa.
ALEGAÇÃO GENÉRICA DE RECOLHIMENTO. SEM DEMONSTRAÇÃO. INCAPAZ DE INFIRMAR. LANÇAMENTO FISCAL.
A alegação genérica, imprecisa e sem qualquer demonstração de que teriam sido recolhidos valores suficientes para quitar as obrigações tributárias apuradas pela fiscalização não tem o condão de infirmar o lançamento fiscal.
LANÇAMENTO ANULADO. VÍCIO FORMAL. LANÇAMENTO SUBSTITUTIVO. MERA CORREÇÃO. PRAZO DECADENCIAL DO LANÇAMENTO ANULADO. NÃO SUJEIÇÃO. NOVO PRAZO.
Em havendo anulação de lançamento por vício formal, há reabertura do novo prazo de cinco anos para a realização de lançamento substitutivo, com vistas, meramente, à correção do vício formal, iniciando- se a contagem do prazo na data em que se tornou definitiva a decisão anulatória, não cabendo a aplicação do prazo decadencial a que estava sujeito o lançamento anulado.
JUROS MORATÓRIOS. TAXA SELIC. INCIDÊNCIA. CONTRIBUIÇÕES. SEGURIDADE SOCIAL. SÚMULA CARF Nº 4.
Incidem juros moratórios, à Taxa Selic, sobre os débitos administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil, dentre os quais se incluem as contribuições devidas à Seguridade Social e as contribuições devidas a Entidades e Fundos denominados Terceiros, estando tal entendimento em acordo com a Súmula CARF nº 4.
Numero da decisão: 2402-006.473
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em afastar a preliminar de nulidade, vencidos os conselheiros João Victor Ribeiro Aldinucci (relator) e Gregorio Rechmann Junior, e, no mérito, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Denny Medeiros da Silveira.
(assinado digitalmente)
Mário Pereira de Pinho Filho - Presidente
(assinado digitalmente)
João Victor Ribeiro Aldinucci - Relator
(assinado digitalmente)
Denny Medeiros da Silveira - Redator Designado
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Mário Pereira de Pinho Filho, Denny Medeiros da Silveira, João Victor Ribeiro Aldinucci, Mauricio Nogueira Righetti, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini e Gregorio Rechmann Junior.
Nome do relator: JOAO VICTOR RIBEIRO ALDINUCCI
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SOLICITAÇÃO. RECUSA. SONEGAÇÃO. APRESENTAÇÃO DEFICIENTE. ARBITRAMENTO. IMPORTÂNCIA DEVIDA. Ocorrendo recusa ou sonegação de qualquer documento ou informação solicitada, ou sua apresentação deficiente, a autoridade tributária poderá apurar a base de cálculo das contribuições, mediante arbitramento, e lançar de ofício a importância devida. LANÇAMENTO. OBSERVÂNCIA À LEGISLAÇÃO. DIREITO DE DEFESA. NULIDADE. INEXISTÊNCIA. Tendo o lançamento tributário sido realizado em estrita observância à legislação de regência, com a devida ciência ao contribuinte e abertura de prazo para defesa, não há que se falar em violação ao direito de defesa. ALEGAÇÃO GENÉRICA DE RECOLHIMENTO. SEM DEMONSTRAÇÃO. INCAPAZ DE INFIRMAR. LANÇAMENTO FISCAL. A alegação genérica, imprecisa e sem qualquer demonstração de que teriam sido recolhidos valores suficientes para quitar as obrigações tributárias apuradas pela fiscalização não tem o condão de infirmar o lançamento fiscal. LANÇAMENTO ANULADO. VÍCIO FORMAL. LANÇAMENTO SUBSTITUTIVO. MERA CORREÇÃO. PRAZO DECADENCIAL DO LANÇAMENTO ANULADO. NÃO SUJEIÇÃO. NOVO PRAZO. Em havendo anulação de lançamento por vício formal, há reabertura do novo prazo de cinco anos para a realização de lançamento substitutivo, com vistas, meramente, à correção do vício formal, iniciando se a contagem do prazo na data em que se tornou definitiva a decisão anulatória, não cabendo a aplicação do prazo decadencial a que estava sujeito o lançamento anulado. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 51 5. 72 01 04 /2 01 4- 76 Fl. 319DF CARF MF Processo nº 19515.720104/201476 Acórdão n.º 2402006.473 S2C4T2 Fl. 3 2 JUROS MORATÓRIOS. TAXA SELIC. INCIDÊNCIA. CONTRIBUIÇÕES. SEGURIDADE SOCIAL. SÚMULA CARF Nº 4. Incidem juros moratórios, à Taxa Selic, sobre os débitos administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil, dentre os quais se incluem as contribuições devidas à Seguridade Social e as contribuições devidas a Entidades e Fundos denominados Terceiros, estando tal entendimento em acordo com a Súmula CARF nº 4. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em afastar a preliminar de nulidade, vencidos os conselheiros João Victor Ribeiro Aldinucci (relator) e Gregorio Rechmann Junior, e, no mérito, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Denny Medeiros da Silveira. (assinado digitalmente) Mário Pereira de Pinho Filho Presidente (assinado digitalmente) João Victor Ribeiro Aldinucci Relator (assinado digitalmente) Denny Medeiros da Silveira Redator Designado Participaram do presente julgamento os conselheiros: Mário Pereira de Pinho Filho, Denny Medeiros da Silveira, João Victor Ribeiro Aldinucci, Mauricio Nogueira Righetti, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini e Gregorio Rechmann Junior. Relatório Inicialmente, adotase o relatório da Resolução de fls. 272 e seguintes, deste Conselho: Tratase de julgamento de recurso voluntário (fls. 207/264), interposto pelo sujeito passivo contra decisão de primeira instância (fls. 190/203), que declarou improcedente a sua impugnação apresentada contra os Autos de Infração AI integrantes do processo acima referenciado. Os lançamentos correspondem à exigência das contribuições patronais para a Seguridade Social (AI n.º 37.383.8131) e para outras entidades ou fundos (AI n.º 37.383.8140). Fl. 320DF CARF MF Processo nº 19515.720104/201476 Acórdão n.º 2402006.473 S2C4T2 Fl. 4 3 De acordo com o relatório fiscal de fls. 121/123, os lançamentos foram efetuados em substituição à Notificação Fiscal de Lançamento de Débito NFLD n.º 35.580.4522, anulada por vício formal em julgamento administrativo de segunda instância. Vale frisar que a declaração de nulidade da NFLD foi determinada pelo Acórdão n.º 2401002.498, de 20/06/2012, tendo entendido o colegiado do CARF que o erro na indicação da existência ou não de declaração dos fatos geradores na Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia e Informações à Previdência Social GFIP representa erro não passível de retificação, que acarreta na nulidade do lançamento por vício formal. Voltando ao relatório, ali se afirma que o fato da empresa não haver disponibilizado toda a documentação solicitada durante o procedimento de auditoria acarretou na lavratura de AI por descumprimento de obrigação acessória, além de apuração da base de cálculo por aferição indireta. Acerca da metodologia utilizada para apuração da matéria tributável, assim se pronunciou o fisco: A empresa foi cientificada da decisão a quo em 05/11/2014 (fl. 205) e apresentou recurso em 05/12/2014, trazendo as alegações que em síntese reproduzo. Discrepâncias e inovações em relação ao lançamento substituído decadência Apresentando os números da apuração fiscal para as competências 01/1999 e 02/1999, o sujeito passivo sustenta que as alterações promovidas pelo fisco no lançamento em relação ao original vão além da correção do vício que ensejou a sua declaração de nulidade. Acrescenta que a planilha colacionada ao lançamento substitutivo demonstra ter sido feito uma apuração mais aprofundada, além de que há divergência nos números apresentados. Conclui que tal inovação implica em considerar os AI sob enfoque como novos lançamentos, que devem respeitar os prazos decadenciais previstos no art. 150, § 4.º do CTN. Assim, os lançamentos teriam sido integralmente fulminados pela decadência, posto que se referem ao período de 01/1999 a 01/2003 e a cientificação dos mesmos somente ocorreu em 06/02/2014. Fl. 321DF CARF MF Processo nº 19515.720104/201476 Acórdão n.º 2402006.473 S2C4T2 Fl. 5 4 Apresentação de documentos Para a recorrente, o acórdão da DRJ equivocouse ao chancelar a aferição indireta em razão da falta de apresentação de documentos solicitados pelo fisco, posto que há informações nos autos do lançamento originário dando conta de que teriam sido apresentados todos os documentos exigidos pela fiscalização. Nulidade por afronta aos princípios da legalidade, da tipicidade e da verdade material Para que surja o crédito tributário consubstanciado no lançamento é indispensável que a obrigação tributária, da qual resulta o crédito, seja consequência da realização de um fato imponível que se ajuste em todos os seus contornos a uma hipótese de incidência prevista em lei. Os fatos com que a autoridade fiscal pretende embasar os lançamentos, inexistem ou, no mínimo, não foram quantificados com exatidão. Nesse sentido, não pode a norma jurídica incidir sobre uma simples "suspeita" ou "suposição". A desconsideração de documentos apresentados viola o princípio da verdade material, cuja observância é obrigatória no processo administrativo tributário. Além de que a aferição indireta, da forma como praticada, compromete a higidez do crédito tributário que se encontra superdimensionado. Nulidade por ausência de vinculação e de suporte fático O fato gerador, conforme definido no CTN, deve ser um fato cujas características em tudo se identifiquem com a descrição constante na lei. No caso em apreço, não se configurou o fato gerador pretendido pela autoridade lançadora, o que gerou uma autuação por presunção. Além de que houve arbitramento por aferição indireta, com respaldo em instrução normativa, instrumento sem força para instituição de sanções e penalidades. Ônus da prova Não basta que o fisco alegue ter ocorrido o fato gerador, é imperioso que se comprove a sua real ocorrência, através de provas, evidências ou indícios, estes últimos nas hipóteses de presunção legal, o que não é o caso. Na espécie inexistem provas, evidências ou indícios. Insubsistência dos fundamentos ensejadores da nulidade do lançamento original Em que pese o entendimento do acórdão que cancelou o lançamento original ter ido no sentido de que ocorrera vício meramente formal, há que se considerar que a indicação errônea da fundamentação não constitui mera formalidade, afetando sim a essência do lançamento. O fisco ao apontar que o lançamento está fundamentado em informações "declaradas em GFIP" induz o sujeito passivo a se Fl. 322DF CARF MF Processo nº 19515.720104/201476 Acórdão n.º 2402006.473 S2C4T2 Fl. 6 5 defender desta circunstância, se esta indicação está incorreta, é evidente que se trata de vício substancial. Identificação de recolhimentos não computados e conexão entre processos O sujeito passivo apresenta a relação de todas as NFLD lavradas durante a ação fiscal, para concluir pela existência de conexão entre os débitos sob questão e a NFLD n.º 35.580.4530 (PAF n.º 18186.000179/200714). Alega que para a competência 12/1999 não há correspondência entre os valores apropriados para todos os débitos e as quantias que foram efetivamente recolhidas, apresenta cálculos. Conclui que as divergências apontadas, que se reproduzem em todas as outras competências, tornam os dois lançamentos nulos ou improcedentes. Inclusão de valores que não correspondem a remuneração Os lançamentos devem ser declarados improcedentes, uma vez que as contribuições incidiram sobre valores que são discriminados pela legislação como não integrantes da base de cálculo das contribuições previdenciárias. Erro na base de cálculo A aferição indireta foi justificada para casos em que as remunerações constantes em folhas de pagamento estariam "muito aquém dos valores mínimos estabelecidos", todavia, o fisco não mencionou no relatório fiscal quais esses parâmetros e critérios que autorizariam a aferição indireta. No seu entender tal omissão representa causa de nulidade/improcedência do lançamento. Não cabimento da aferição indireta O saláriodecontribuição foi obtido por aferição indireta como sendo correspondente a 40% do valor constante nas notas fiscais de prestação de serviço. Ocorre que os pressupostos considerados para a adoção deste procedimento excepcional não correspondem à realidade. Aponta que o relatório da NFLD substituída afirma que foram examinadas, dentre outros documentos, folhas de pagamento, ao passo que o relato que acompanha os AI sob exame afirma que não teriam sido apresentadas algumas folhas. Todavia, em diligência realizada no processo relativo à NFLD substituída, o fisco afirmou que: Fl. 323DF CARF MF Processo nº 19515.720104/201476 Acórdão n.º 2402006.473 S2C4T2 Fl. 7 6 O mesmo ocorreu em relação ao processo conexo, NFLD n.º 35.580.4530. Isso leva à conclusão que na diligência foram apresentados os documentos que permitiriam aferir diretamente as remunerações, o que derruba a justificativa para adoção do procedimento de aferição indireta no presente caso. Inexatidão das afirmações do fisco acerca do valor da remuneração Citando o exemplo da Nota Fiscal emitida para a tomadora de serviços CODERP, para o mês de maio de 1999, conforme planilha de fl. 37, procura demonstrar que o salário médio por trabalhador foi de R$ 3.250,80, o qual jamais pode ser considerado aquém daquele praticado no mercado de trabalho. Nesse sentido, conclui que o pressuposto utilizado pelo fisco para justificar o arbitramento não se sustenta. Divergência entre documentos produzidos pelo fisco Menciona a existência de divergência entre bases de cálculo apresentadas nas planilha de fls 36/45 com aquela juntada às fls. 123/138, o que levaria inexoravelmente à conclusão de que o lançamento é impreciso e de que não deve prevalecer sua presunção de veracidade. Outros erros apontados Acrescenta que o fisco incorreu em erro ao mencionar que as notas fiscais deveriam constar das folhas de pagamento, em absoluta contrariedade às normas contábeis, que obrigam apenas a sua escrituração nos livros. As planilhas apresentadas pelo fisco são insuficientes para fundamentar os lançamentos. A correta caracterização do fato gerador e mensuração das bases de cálculo não poderiam prescindir de indicação do total de segurados, além dos termos e valores dos contratos de prestação de serviços firmados com as tomadoras da recorrente, dentre outros elementos. Contribuições a terceiros Sendo demonstrada a improcedência da base de cálculo das contribuições previdenciárias, tal fato também torna sem substância a apuração das contribuições para outras entidades e fundos. Fl. 324DF CARF MF Processo nº 19515.720104/201476 Acórdão n.º 2402006.473 S2C4T2 Fl. 8 7 Multa Não comprovada a ocorrência de infração, incabível a aplicação da norma sancionadora, devendose, portanto, afastar a imposição da multa ou, alternativamente, a relevação da penalidade. Ao final, pediu a declaração de nulidade ou insubsistência dos lançamentos, a exclusão da multa e limitação dos juros a 1% am. O processo foi juntado por conexão ao de n.º 18186.000179/200714, conforme se vê do despacho de fl. 269. O julgamento do feito foi convertido em diligência, para julgamento em conjunto com o processo conexo, PAF 18186.000179/200714. Vejase: A pedido deste Julgador, o processo sob discussão foi juntado ao de n.º 18186.000179/200714, tendo em vista a clara conexão existente entre os feitos. Considerando que o processo considerado conexo foi convertido em diligência, conforme Resolução n.º 2402000.584, exarada nesta mesma sessão, devese também converter o presente julgamento em diligência, de modo que os feitos tenham tramitação conjunta e sejam julgados na mesma ocasião. Sem contrarrazões ou manifestação pela Procuradoria. É o relatório. Voto Vencido Conselheiro João Victor Ribeiro Aldinucci Relator 1 Conhecimento O recurso voluntário é tempestivo e estão presentes os demais requisitos de admissibilidade, devendo, portanto, ser conhecido. 2 Esclarecimentos iniciais Exceto no tocante aos juros moratórios, a impugnação está centrada em afirmações que dizem respeito à nulidade do lançamento. Tais afirmações foram basicamente reprisadas em sede de recurso voluntário e serão analisadas e julgadas a seguir. 3 Da nulidade do lançamento Como afirmado, o sujeito passivo, desde a impugnação, vem defendendo que o lançamento seria nulo, pelas variadas razões expostas na defesa e reafirmadas em seu recurso voluntário. Fl. 325DF CARF MF Processo nº 19515.720104/201476 Acórdão n.º 2402006.473 S2C4T2 Fl. 9 8 Realmente, e no entender deste relator, o fisco arbitrou a base de cálculo das contribuições de forma ilegal. Devese observar que o CARF, ao declarar a nulidade do lançamento originário, por vício formal, não chegou a enfrentar essa questão, de tal maneira que sobre ela não houve trânsito em julgado. Vale transcrever, nesse contexto, parte do voto condutor do acórdão proferido no PAF 18186.000182/200738, relativo ao lançamento anulado: Noto, todavia, que não há em nenhum dos discriminativos apresentados pelo fisco uma demonstração de como as guias de pagamento foram apropriadas. Ocorre que os dois relatórios que apresentam os recolhimentos efetuados e a apropriação dos valores recolhidos, o RDA – Relatório de Documentos Apresentados e o RADA – Relatório de Apropriação dos Documentos Apresentados, não foram acostados pelo fisco. Impossível, diante dessa omissão, se saber onde foram alocados todos os recolhimento efetuados, mormente nessa ação fiscal, em que foram lavradas quinze NFLD. Diante dessa constatação, ficamos diante de duas alternativas, quais sejam: baixar o processo em diligência pela quarta vez, para que o fisco possa acostar relatório demonstrativo da apropriação das guias de recolhimento ou declarar a nulidade do lançamento, em razão do vício de cerceamento do direito de defesa do administrado. A solução que adotamos em dois outros processos originados na mesma ação fiscal (18186.000133/200703 e 18186.000179/200714) foi remeter o processo à Auditoria para que se juntasse demonstrativo de apropriação das guias recolhidas em nome do sujeito passivo. Todavia no presente caso, vejo que há um erro que ficou evidente logo na primeira solicitação de diligência fiscal. É que o fisco adotou para o levantamento FG4 a codificação “Declarado em GFIP”, esse procedimento teve como repercussão a alteração no percentual de multa, ficando a mesma reduzida, nos termos do revogado § 4.º do art. 35 da Lei n.º 8.212/1991, verbis: Art. 35 (...) § 4o Na hipótese de as contribuições terem sido declaradas no documento a que se refere o inciso IV do art. 32, ou quando se tratar de empregador doméstico ou de empresa ou segurado dispensados de apresentar o citado documento, a multa de mora a que se refere o caput e seus incisos será reduzida em cinqüenta por cento. (Redação dada pela Lei nº 9.876, de 1999). (...) Todavia, considerandose que a remuneração foi obtida por aferição indireta não haveria como tais fatos geradores terem sido declarados na GFIP, ficando evidente o erro cometido pelo fisco. Fl. 326DF CARF MF Processo nº 19515.720104/201476 Acórdão n.º 2402006.473 S2C4T2 Fl. 10 9 Diante dessas constatações, acho que a melhor saída é declarar a nulidade do lançamento, neste caso, por vício formal, haja vista que o vício situouse em elemento que não tem vinculação com os fatos geradores ou com a base tributável, referindose a incorreção na classificação do lançamento, o que, sem dúvida, não representa erro substancial. O presente lançamento, de natureza substitutiva, é relativo às contribuições incidentes sobre as remunerações e foi efetuado ao argumento de que o sujeito passivo não teria apresentado as folhas de pagamento, ou então os valores das remunerações seriam muito aquém dos valores mínimos estabelecidos. Da narrativa dos fatos, constante do relatório fiscal de fls. 121 e seguintes, extraise o seguinte: Todavia, no PAF conexo sob o nº 18186.000179/200714, a autoridade fiscal expressamente asseverou, à fl. 210, que o sujeito passivo teria apresentado os contratos de prestação de serviços, as notas fiscais, todas as folhas de pagamento respectivas, as GFIPs mês a mês e demais documentos solicitados, conforme TIAD em anexo. Vejase: A fiscalização não se limitou a afirmar que foram apresentadas as folhas de pagamento, tendo afirmado sim que foram apresentadas "todas as folhas de pagamento respectivas", donde se destaca a expressão todas a indicar a totalidade e a expressão respectivas a indicar que também seriam relativas às notas fiscais anteriormente mencionadas. O TIAD à que se referiu o agente fazendário está à fl. 208 do PAF conexo e nele se observa a extensão da documentação solicitada (vide abaixo), a qual teria sido apresentada pelo contribuinte, o que derrui a assertiva feita no relatório do lançamento substitutivo, segundo a qual a empresa não teria apresentado a documentação. Fl. 327DF CARF MF Processo nº 19515.720104/201476 Acórdão n.º 2402006.473 S2C4T2 Fl. 11 10 De outro modo, o relatório fiscal é demasiadamente sucinto e a fiscalização não conseguiu demonstrar as razões fáticas e jurídicas que permitiriam concluir que os valores das remunerações estariam muito aquém dos valores mínimos estabelecidos. Chama a atenção, aliás, essa expressão "muito aquém dos valores mínimos estabelecidos". Ela é genérica e não indica quais seriam os valores mínimos e nem quem teria estabelecido tais montantes. À outra conclusão poderia se chegar se a administração tivesse demonstrado, de forma minimamente circunstanciada, que as remunerações declaradas pelo sujeito passivo não condiziriam com os valores reais pagos e que a precariedade da documentação seria insuficiente para quantificálas. O § 3º do art. 33 da Lei 8212/91 preleciona que ocorrendo recusa ou sonegação de qualquer documento ou informação, ou sua apresentação deficiente, a Secretaria da Receita Federal do Brasil pode, sem prejuízo da penalidade cabível, lançar de ofício a importância devida. Esse dispositivo está inspirado no art. 148 do Código Tributário Nacional, segundo o qual a autoridade lançadora, mediante processo regular, arbitrará a base de cálculo do tributo sempre que sejam omissos ou não mereçam fé as declarações ou os esclarecimentos prestados, ou os documentos expedidos pelo sujeito passivo ou pelo terceiro legalmente obrigado, ressalvada, em caso de contestação, avaliação contraditória, administrativa ou judicial. Neste caso, todavia, há uma informação expressa no PAF conexo segundo a qual a recorrente teria apresentado a documentação, conforme TIAD em anexo. Portanto, como o presente lançamento está calcado num arbitramento que se revela, aos olhos deste relator, ilegal, deve ser cancelado o crédito tributário nele constituído. Dos precedentes deste Conselho, depreendese que só é admissível o arbitramento quando houver recusa ou sonegação de qualquer documento ou informação, ou sua apresentação deficiente. Vejase com destaques: Fl. 328DF CARF MF Processo nº 19515.720104/201476 Acórdão n.º 2402006.473 S2C4T2 Fl. 12 11 [...] NORMAS GERAIS DIREITO TRIBUTÁRIO. APURAÇÃO CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS POR ARBITRAMENTO. NECESSIDADE MOTIVAÇÃO NOS TERMOS DA LEGISLAÇÃO DE REGÊNCIA E DEMONSTRAÇÃO IMPOSSIBILIDADE AFERIÇÃO DIRETA NOS DOCUMENTOS OFERTADOS PELA CONTRIBUINTE. INEXISTÊNCIA. IMPROCEDÊNCIA LANÇAMENTO. De conformidade com a legislação de regência, especialmente artigo 33, §§ 3° e 4o, da Lei n° 8.212/91, a constituição do crédito tributário por arbitramento somente poderá ser levada a efeito quando devidamente demonstrada/comprovada à ocorrência da impossibilidade da aferição direta da base de cálculo de tais tributos, em face da sonegação de documentos e/ou esclarecimentos solicitados ao contribuinte ou sua apresentação deficiente. A simples constatação de pequenos equívocos na escrituração contábil ou mesmo mínimas divergências nos valores informados em GFIP e folhas de pagamento, não tem o condão de suportar o lançamento por arbitramento, mormente quando a documentação ofertada pela autuada no decorrer do procedimento fiscal ou nos documentos de arrecadação seriam suficientemente capazes de determinar as remunerações dos segurados, fatos geradores das contribuições ora indevidamente lançadas por aferição indireta. [...] Recurso de Ofício Negado; Recurso Voluntário Provido em Parte. (Número do Processo10166.723934/201315; Nº Acórdão2401 004.471, julgado em 16/08/2016) Se este Conselheiro for vencido neste ponto, cabe acrescentar que não procedem as demais alegações de nulidade por afronta aos princípios da legalidade e da tipicidade, por ausência de vinculação e de suporte fático, etc. Abstraindose a questão relativa à ilegalidade do arbitramento, a autoridade lançadora identificou o fato gerador das contribuições e determinou a matéria tributável, tendo, ainda, identificado o sujeito passivo e proposto a aplicação da penalidade correspondente. Como bem destacado pela decisão de piso, "não se cogita de dúvidas quanto a ocorrência do fato gerador tributado, mas, tão somente, acerca da falta de elementos para precisar a expressão de seu elemento valorativo – expressão econômica do fato gerador referente à base de cálculo". Por outro lado, a ação fiscal foi conduzida por servidor competente, que concedeu à recorrente os prazos legais para a apresentação de documentos e prestação de esclarecimentos; a autuação foi devidamente motivada nos demais aspectos e foi concedido ao sujeito passivo o prazo legal para a formulação de impugnação; a autuação ainda contém clara descrição do fato gerador da obrigação, da matéria tributável, do montante do tributo devido, da identificação do sujeito passivo e da penalidade aplicável; não houve nenhum prejuízo para Fl. 329DF CARF MF Processo nº 19515.720104/201476 Acórdão n.º 2402006.473 S2C4T2 Fl. 13 12 os direitos de defesa e do contraditório da recorrente, que puderam ser exercidos na forma e no prazo legal. Dito de outra forma, e tirante a questão do arbitramento, a fiscalização transcorreu dentro da mais restrita legalidade e não houve qualquer inobservância ao direito de defesa da recorrente. Em desfecho deste tópico, e como bem decidido pela DRJ, a alegação genérica e imprecisa de que teriam sido recolhidos valores suficientes para quitar as obrigações tributárias não deve ser provida, pois a administração fazendária fez a devida apropriação dos valores previamente adimplidos pelo sujeito passivo, como consta textualmente no relatório fiscal. A título elucidativo, vejase o disposto no item 8 do relatório da autuação: 4 Da decadência Não procede a alegação de decadência. Ao contrário do que afirma e sugere a recorrente, o novo lançamento é meramente substitutivo do anterior lançamento anulado por vício formal e não houve introdução de novos critérios jurídicos, nem mesmo no elemento quantitativo. Tãosomente foram apropriados os valores que a fiscalização, quando do lançamento originário, não havia apropriado, o que representa mera correção de erro de fato, e não correção de erro de direito apta a ensejar a introdução de novos fundamentos no ato administrativo. Nesse ponto, deveser observar que a fiscalização apenas agiu de boafé; e ela obviamente não pretendia efetuar um lançamento maculado com os mesmos erros de cálculo do lançamento originário. E não cabe rediscutir se o vício identificado pelo CARF, na decisão que anulou o lançamento originário, seria formal ou material, pois já ficara decidido, sob o abrigo da coisa julgada, que o vício seria formal. Não houve, por nenhuma das partes, a interposição de recurso para alterar o que ficara decidido naquela primeira ocasião e a matéria obviamente fez coisa julgada. Em havendo anulação de lançamento anterior por vício formal, há reabertura do prazo para lançamento, com início de sua contagem na data em que se tornar definitiva a decisão que julgou pela anulação. Fl. 330DF CARF MF Processo nº 19515.720104/201476 Acórdão n.º 2402006.473 S2C4T2 Fl. 14 13 Na doutrina, é uníssono o entendimento segundo o qual essa norma implica a reabertura do prazo extintivo, como demonstra o professor Leandro Paulsen, ao transcrever os excertos dos professores Paulo de Barros Carvalho, Luciano Amaro e Ives Gandra da Silva Martins1. Em verdade, a inexistência de qualquer celeuma doutrinária e mesmo jurisprudencial a esse respeito provavelmente se deva à clareza do dispositivo legal, como se vê abaixo: Art. 173. O direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extinguese após 5 (cinco) anos, contados: II da data em que se tornar definitiva a decisão que houver anulado, por vício formal, o lançamento anteriormente efetuado. Logo, negase provimento ao recurso voluntário neste ponto. 5 Dos juros moratórios A tese da recorrente relativa aos juros moratórios é rechaçada pela Súmula CARF nº 4. Desde 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre os débitos administrados pela Secretaria da Receita Federal, entre os quais se incluem as contribuições devidas à seguridade social e as contribuições devidas a terceiros (Lei 11457/07, arts. 2º e 3º), são calculáveis, no período de inadimplência, de acordo com a SELIC: Súmula CARF nº 4: A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. Logo, negase provimento ao recurso neste ponto. 6 Conclusão Diante do exposto, voto no sentido de acolher a preliminar de nulidade do lançamento. Se vencido for na preliminar, voto, no mérito, por negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) João Victor Ribeiro Aldinucci 1 PAULSEN, Leandro. Direito tributário: Constituição e Código Tributário à luz da doutrina e da jurisprudência. 10. ed. rev. atual. Porto Alegre: Livraria do Advogado; ESMAFE, 2008, p. 1164. Fl. 331DF CARF MF Processo nº 19515.720104/201476 Acórdão n.º 2402006.473 S2C4T2 Fl. 15 14 Voto Vencedor Conselheiro Denny Medeiros da Silveira Redator Designado. Acompanho o Relator nas demais questões, porém, com a maxima venia, divirjo quanto à ilegalidade do arbitramento. Antes de considerações outras, esclarecemos que todos os números de página, citados no presente voto vencedor, dizem respeito ao processo 18186.000182/200738, que corresponde ao primeiro lançamento fiscal, o qual foi anulado por vício formal, pelo CARF, em 20/6/12, segundo o Acórdão nº 2401002.498, fls. 339 a 345. Pois bem, na falta de apresentação de documentos ou pela sua apresentação deficiente, a autoridade tributária pode lançar, de ofício, a importância devida. Essa é a inteligência que se extrai da Lei 8.212, de 24/7/91, art. 33, § 3º, tanto em sua redação vigente ao tempo do primeiro lançamento, quanto em sua redação vigente ao tempo do lançamento substitutivo, senão, vejamos: Primeiro lançamento Art. 33. Ao Instituto Nacional do Seguro Social – INSS compete arrecadar, fiscalizar, lançar e normatizar o recolhimento das contribuições sociais previstas nas alíneas a, b e c do parágrafo único do art. 11, bem como as contribuições incidentes a título de substituição; e à Secretaria da Receita Federal – SRF compete arrecadar, fiscalizar, lançar e normatizar o recolhimento das contribuições sociais previstas nas alíneas d e e do parágrafo único do art. 11, cabendo a ambos os órgãos, na esfera de sua competência, promover a respectiva cobrança e aplicar as sanções previstas legalmente. (Redação dada pela Lei nº 10.256, de 2001). [...]§ 3º Ocorrendo recusa ou sonegação de qualquer documento ou informação, ou sua apresentação deficiente, o Instituto Nacional do Seguro SocialINSS e o Departamento da Receita FederalDRF podem, sem prejuízo da penalidade cabível, inscrever de ofício importância que reputarem devida, cabendo à empresa ou ao segurado o ônus da prova em contrário. Lançamento substitutivo Art. 33. À Secretaria da Receita Federal do Brasil compete planejar, executar, acompanhar e avaliar as atividades relativas à tributação, à fiscalização, à arrecadação, à cobrança e ao recolhimento das contribuições sociais previstas no parágrafo único do art. 11 desta Lei, das contribuições incidentes a título de substituição e das devidas a outras entidades e fundos. (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009). [...] § 3º Ocorrendo recusa ou sonegação de qualquer documento ou informação, ou sua apresentação deficiente, a Secretaria da Fl. 332DF CARF MF Processo nº 19515.720104/201476 Acórdão n.º 2402006.473 S2C4T2 Fl. 16 15 Receita Federal do Brasil pode, sem prejuízo da penalidade cabível, lançar de ofício a importância devida. (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009). Em seu voto, sustenta o Relator que o arbitramento realizado seria ilegal, uma vez que a justificativa para a sua realização, ou seja, a falta de apresentação de documentos, teria sido afastada (ou desacreditada) pela informação fiscal de fls. 188 a 189, que assim dispôs: Em diligência à empresa foi solicitada a apresentação dos documentos que deram origem às folhas de pagamento relativas ao período 01/99 a 01/2003, conforme TIAD em anexo, tendo sido apresentados: os contratos de prestação de serviços, as notas fiscais, todas as folhas de pagamento respectivas, as GFIPS/SEFIPS mês a mês e demais documentos solicitados. Se levarmos em conta, unicamente, essa informação fiscal, de fato, o arbitramento parece não ter se justificado, porém, dado que estamos falando de cancelamento de crédito tributário, devemos empreender uma análise mais rigorosa dos autos, que é o que faremos a partir de agora. Para tal, convém trazermos à baila, inicialmente, a informação consignada no relatório fiscal, fls. 33 a 34, referente ao primeiro lançamento (consolidado em 27/6/03), e que ensejou a apuração das contribuições por aferição indireta: 3.1 A empresa embora notificada através do TIAD (Termo de Intimação para Apresentação de Documentos), datado de 27/03/2003, deixou de apresentar a documentação pertinente aos fatos abaixo relacionados o que ensejou a lavratura do Auto de Infração n 35.510.6787, levando esta fiscalização a apurar o presente débito através da aferição indireta. 3.2 As diferenças de remunerações pagas aos segurados empregados, apuradas através do cálculo de 40% (quarenta por cento) sobre as Notas Fiscais/Faturas da empresa, quando não foram apresentadas as Folhas de Pagamentos correspondentes as referidas Notas Fiscais/Faturas discriminados na Planilha "Empresas com Valores Calculados em 40%" em negrito a coluna FOPAG, parte integrante do presente. 3.2.1 Os casos em que a coluna FOPAG não aparece em destaque, foi usado o mesmo critério (40%), tendo em vista que a Folha de Pagamento apresentada era muito aquém do valor mínimo legalmente estabelecido. Segundo se extrai dessa transcrição, não obstante ter sido intimada por meio de TIAD2, a empresa deixou de apresentar parte das folhas de pagamento e apresentou folhas de pagamento com valores "muito aquém do valor mínimo legalmente estabelecido", o que levou a fiscalização a apurar as contribuições por meio de aferição indireta, sendo considerado, como base de cálculo, o percentual de 40% do valor das notas fiscais/faturas emitidas. 2 Segundo a informação fiscal de fl. 46, do processo 18186.000182/200738, o TIAD (Termo de Intimação para Apresentação de Documentos), o TIAF (Termo e Início da Ação Fiscal), o MPF (Mandado de Procedimento Fiscal) e os contratos da empresa seguem em anexo ao Debcad nº 35.580.3801. Fl. 333DF CARF MF Processo nº 19515.720104/201476 Acórdão n.º 2402006.473 S2C4T2 Fl. 17 16 Cientificado do lançamento, segundo o Aviso de Recebimento (AR) de fl. 47, o contribuinte apresentou a defesa de fls. 48 a 67 (vinte páginas), em 21/7/03, na qual alega, exclusivamente, questões de direito, sem dizer, em uma linha sequer, que teria entregado os documentos à fiscalização e que, por isso, a aferição indireta seria indevida. Após o recebimento da defesa, o Contencioso Administrativo Previdenciário do INSS3 detectou uma inconsistência na classificação do levantamento FG4, uma vez que foi classificado, no Discriminativo Analítico do Débito (DAD), como “Fato gerador declarado em GFIP”, o que é incompatível com o procedimento de aferição indireta. Em face a isso, o processo retornou à fiscalização para que esclarecesse o ocorrido e tomasse as providências necessárias com vistas ao saneamento dessa inconsistência. A fiscalização emitiu, então, a informação de fls. 188 a 189, que serviu de base ao voto do Relator, e cujo conteúdo integral transcrevemos a seguir: Em diligência à empresa foi solicitada a apresentação dos documentos que deram origem às folhas de pagamento relativas ao período 01/99 a 01/2003, conforme TIAD em anexo, tendo sido apresentados: os contratos de prestação de serviços, as notas fiscais, todas as folhas de pagamento respectivas, as GFIPS/SEFIPS mês a mês e demais documentos solicitados. Quanto ao fato de nas competências 13/99, 01/00, 02/00 e 13/00 terem sido as guias de recolhimento a Previdência Social, quitadas e lançadas na Administração Geral e não contendo a identificação dos tomadores, informamos que tal fato não invalida os recolhimentos, sendo apenas uma obrigação acessória, salientamos que nas competências de "13 salário" as informações eram prestadas juntamente com a competência "Dezembro" na GFIP/SEFIP e quanto às informações referentes aos tomadores foi solicitado à empresa para juntamente com os tomadores de serviços providenciasse os ajustes de guias de recolhimento no setor de arrecadação da Secretaria da Receita Previdenciária. Quanto ao item 6, fls. 180, afirmando que o lançamento foi classificado com "Fato Gerador Declarado em GFIP”, esclarecemos que foram declarados em GFIP os valores das Folhas de Pagamento da empresa mês a mês, porém não poderia ter sido lançado um valor "AFERIDO", por impossibilidade de se saber de antemão o seu conteúdo. Portanto estes valores lançados não constam de declaração em GFIP. Quanto ao item 8, fls. 180: Não foram lançadas as Contribuições a Título de "Financiamento dos benefícios decorrentes dos Riscos Ambientais do Trabalho", embora os valores recolhidos em GPS/GRPS, pela empresa e retenções de 11% nas notas fiscais, englobem os mesmos. Quanto ao item 9, fls. 180: A empresa apresentou os documentos contábeis, bem como os respectivos Livros Diários, para o período de 01/99 a 01/2003. 3 Instituto Nacional do Seguro Social. Fl. 334DF CARF MF Processo nº 19515.720104/201476 Acórdão n.º 2402006.473 S2C4T2 Fl. 18 17 Quanto aos itens 11 a 15, fls. 180/181: A empresa não foi informada que houve lançamento com base no procedimento de aferição indireta art 33, §3°, da Lei 8.212. Os Fatos Geradores lançados no presente processo não foram declarados em GFIP/SEFIP, em virtude de os mesmos terem sido aferidos indiretamente. Impossibilitada a elaboração de Relatório Fiscal Substitutivo, por ter a empresa apresentado os documentos que deram origem à aferição indireta. Portanto esta fiscalização fica impossibilitada de elaborar o Relatório Fiscal Substitutivo, por ter havido lançamento incorretamente classificado. Verificado que não foram considerados todos os valores de créditos da empresa nesta fiscalização, no batimento de Folhas de pagamento X Diários X Valores recolhidos, sendo necessária ação fiscal para apuração correta de valores de divergência. (Grifos no original) Conforme se observa na transcrição acima, além de confirmar a inconsistência na classificação do levantamento, esse relato traz informações imprecisas, contraditórias e obscuras. No primeiro parágrafo consta que teria sido realizada diligência na empresa e que esta teria apresentado, dentre outros documentos, as notas fiscais e todas as folhas de pagamento respectivas, porém, não é esclarecido se essas notas fiscais e folhas de pagamento seriam aquelas já examinadas pela fiscalização. Cabe destacar, inclusive, que nenhum desses documentos, supostamente apresentados, foram carreados aos autos, apesar da empresa ter sido intimada para apresentar cópia dos documentos (vide TIAD de fl. 187). Ademais, quando a informação fiscal diz que teriam sido apresentadas "as notas fiscais, todas as folhas de pagamento respectivas", entendemos, e não vemos como se entender de forma diferente, que foram apresentadas notas fiscais (não se sabe quantas e nem quais) e que também foram apresentadas todas as folhas de pagamento referentes a essas notas fiscais. Logo, esse parágrafo da informação fiscal se mostra deveras impreciso e inconclusivo. O terceiro parágrafo da transcrição, por sua vez, encontrase eivado de clara contradição e obscuridade, pois, ao mesmo tempo em que diz que os valores foram declarados em GFIP, também diz que não foram declarados em GFIP. E, sabese lá o que o AuditorFiscal quis dizer com a frase: "porém não poderia ter sido lançado um valor ‘AFERIDO’, por impossibilidade de se saber de antemão o seu conteúdo". Por fim, no último parágrafo, é dito apenas que não “foram considerados todos os valores de créditos da empresa nesta fiscalização” e que seria “necessária ação fiscal para a apuração correta de valores de divergência”, contudo, não é feita qualquer demonstração a esse respeito, em que pese tal demonstração ser primordial, sobretudo porque está sendo questionada a regularidade do procedimento fiscal realizado. Fl. 335DF CARF MF Processo nº 19515.720104/201476 Acórdão n.º 2402006.473 S2C4T2 Fl. 19 18 Na sequência, tendo em vista as informações prestadas pela fiscalização e tratadas acima, a 13ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento (DRJ), de São Paulo I (SP), por meio do despacho de fls. 192 a 195, converteu os autos em diligência, em 26/11/07, para que fossem verificados e justificados quais seriam “os reais valores a serem lançados, indicando detalhadamente os motivos das divergências verificadas”. Em 11/9/09, por meio do Termo de Início de Diligência de fls. 216 a 217, foi solicitada à empresa a apresentação dos seguintes documentos: Atos Constitutivos e Alterações. Folhas de Pagamento de Empregados de 07/1995 a 01/2003. Folhas de Pagamento e/ou recibos de Autônomos de 07/1995 a 01/2003. Folhas de Pagamento e/ou recibos de PróLabore de 07/1995 a 01/2003. Resumos das Folhas de Pagamento. Tabela de incidência do sistema da Folha de Pagamento. Documentação de SalárioFamília. Documentação de SalárioMaternidade. Fichas ou Livro de Registro de Empregados. Processos Trabalhistas e GPS respectivas de 10/1996 a 12/1998. Plano de Contas, Livros Diário e Livros Razão dos anos 1995 a 2003. GFIPs de 12/1998 a 01/2003. Guias de FGTS de 07/1995 a 11/1998. Guias de Recolhimento de 07/1995 a 01/2003. Documentação de fornecimento de ValeTransporte Comprovantes de adesão ao Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT). Contratos de seguros, seguros médicos e similares. Notas de Fiscais de Prestação de Serviços da empresa (faturamento). Procuração para preposto outorgando poderes para atender esta fiscalização, se for o caso. Tornar disponíveis outros documentos fiscais que suportam a escrituração dos livros comerciais e fiscais. Em resposta a essa solicitação, a empresa carreou aos autos apenas a manifestação de fls. 218 a 219, datada de 17/9/09, na qual alega que a apresentação desses documentos seria desnecessária, uma vez que os “créditos da Fazenda” estariam atingidos pela “decadência e/ou prescrição”. Oras, se os documentos realmente foram apresentados à fiscalização, na diligência anterior, a empresa poderia, ao menos, ter dito isso nessa manifestação, porém, limitouse a alegar questão de direito (decadência/prescrição), nada mais dizendo. Fl. 336DF CARF MF Processo nº 19515.720104/201476 Acórdão n.º 2402006.473 S2C4T2 Fl. 20 19 Inconformada com a resposta da empresa, a DRJ de São Paulo I (SP), por meio do despacho de fls. 226 a 233, de 16/11/09, solicitou nova diligência, esclarecendo que os créditos não estariam atingidos pela decadência ou prescrição. Porém, em resposta a essa terceira diligência, fls. 238 a 241, a empresa, mais uma vez, não apresentou os documentos solicitados, alegando apenas que “a documentação outrora juntada nesses autos [seria] suficiente para afastar toda e qualquer pretensão de cobrança”, reafirmando, ainda, a tese de que os créditos estariam prescritos ou decadentes. Portanto, diante desse quadro, abstraindose a inconclusiva informação fiscal de fls. 188 a 189, é possível se inferir que, à exceção dos documentos examinados inicialmente pela autoridade lançadora, nenhum outro documento foi apresentado pela empresa, até o encerramento da terceira diligência. Desse modo, a informação fiscal de fls. 188 a 189 se revela em total dissonância com o conjunto dos autos, não tendo, dessa forma, o condão de infirmar o lançamento efetuado, exceto quanto ao erro na classificação do levantamento, o qual já foi sanado no segundo lançamento fiscal. Sendo assim, não restou evidenciada qualquer ilegalidade no arbitramento efetuado, devendo, pois, ser mantido o lançamento substitutivo, na forma como realizado pela fiscalização. Conclusão Isso posto NEGO PROVIMENTO ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Denny Medeiros da Silveira Fl. 337DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10805.904997/2009-11
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Terceira Seção
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Sep 19 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Oct 09 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 3002-000.025
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso em diligência à Unidade de Origem para que: i) confirme o pagamento em duplicidade; ii) em caso positivo, informe se o valor do Darf pago em 31/01/2005 está integralmente disponível para a compensação de que trata o presente processo; e iii) providencie a ciência ao interessado, abrindo o prazo de 30 dias para sua manifestação sobre a diligência, após o qual deve ser providenciado o retorno dos autos ao Carf.
(assinado digitalmente)
Larissa Nunes Girard Presidente e Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Larissa Nunes Girard (Presidente), Carlos Alberto da Silva Esteves, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões e Alan Tavora Nem.
Nome do relator: LARISSA NUNES GIRARD
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Recorrida FAZENDA NACIONAL Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso em diligência à Unidade de Origem para que: i) confirme o pagamento em duplicidade; ii) em caso positivo, informe se o valor do Darf pago em 31/01/2005 está integralmente disponível para a compensação de que trata o presente processo; e iii) providencie a ciência ao interessado, abrindo o prazo de 30 dias para sua manifestação sobre a diligência, após o qual deve ser providenciado o retorno dos autos ao Carf. (assinado digitalmente) Larissa Nunes Girard – Presidente e Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Larissa Nunes Girard (Presidente), Carlos Alberto da Silva Esteves, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões e Alan Tavora Nem. Relatório Trata o processo de declaração de compensação de crédito decorrente de pagamento indevido ou a maior de IPI, no valor de R$ 4.112,95, relativo ao período de apuração dezembro/2004, com débitos também de IPI (fls. 2 a 6). Por meio de Despacho Decisório à fl. 21, a Delegacia da Receita Federal em Santo André decidiu pela não homologação da compensação porque o crédito relativo ao Darf informado no PER/Dcomp havia sido utilizado integralmente na quitação de outros débitos do contribuinte. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 08 05 .9 04 99 7/ 20 09 -1 1 Fl. 71DF CARF MF Processo nº 10805.904997/200911 Resolução nº 3002000.025 S3C0T2 Fl. 66 2 Em sua Manifestação de Inconformidade (fls. 25 a 45), a recorrente esclareceu que recolheu o tributo em duplicidade e, ao elaborar o PER/Dcomp, informou erroneamente a data do primeiro Darf, 14/01/2005, que foi realmente utilizado para quitar débitos de IPI, ao invés de informar 31/01/2005, data de pagamento do segundo Darf de mesmo valor. Para comprovar sua alegação, anexou os 2 Darfs (fl. 27), acompanhados do Despacho Decisório, do PER/Dcomp e de atos de constituição e de representação da empresa. A Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Ribeirão Preto proferiu o Acórdão nº 1437.925 (fls. 52 a 54), por meio do qual decidiu pela improcedência da Manifestação de Inconformidade, sob a fundamentação de que cabia à Delegacia de Julgamento aferir a conformidade dos procedimentos fiscais em relação às normas vigentes e que, no caso em tela, havia previsão normativa para que o sujeito passivo retificasse o PER/Dcomp anteriormente ao Despacho Decisório. Uma vez proferida a decisão, a retificação não podia mais ser aceita. O Acórdão foi assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Data do fato gerador: 07/10/2005 PER/DCOMP. INEXATIDÃO MATERIAL. RETIFICAÇÃO. Na hipótese de inexatidão material verificada no preenchimento da PER/DCOMP, é admitida sua retificação, desde que se encontre pendente de decisão administrativa à data do envio do documento retificador. Considerase pendente de decisão administrativa, a declaração de compensação em relação ao qual ainda não tenha sido intimado o sujeito passivo do despacho decisório. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido O contribuinte tomou ciência do Acórdão proferido pela DRJ em 06/03/2013, conforme Aviso de Recebimento constante à fl. 68 e protocolizou seu Recurso Voluntário em 20/03/2013, conforme carimbo aposto à sua página inicial fl. 58. Em seu Recurso Voluntário (fls. 58 e 59), a recorrente esclarece que, ao constatar o pagamento em duplicidade, esteve diversas vezes na Receita Federal para solicitar orientação sobre a correção do erro. Na época não existia o eCAC e, a partir das informações que conseguiu obter, efetuou 3 retificações da DCTF do 1º semestre/2005, em 20/06/2007, 31/10/2007 e 26/09/2008, mas não teria sido orientada a retificar a DCTF do 4º trimestre/2004. Apenas após a emissão do Despacho Decisório o contribuinte ficou ciente da falha na retificação. Reforça que o pagamento de 31/01/2005 consta como disponível sem alocação e solicita que a decisão seja revista, tendo em vista o erro escusável e a dificuldade financeira pela qual passa a empresa. É o relatório. Fl. 72DF CARF MF Processo nº 10805.904997/200911 Resolução nº 3002000.025 S3C0T2 Fl. 67 3 Voto Conselheira Larissa Nunes Girard Relatora O recurso voluntário é tempestivo, preenche os requisitos formais de admissibilidade, inclusive quanto à competência das Turmas Extraordinárias e, portanto, dele tomo conhecimento. Preliminarmente, esclareçase que, em atenção ao princípio da fungibilidade, recebese como recurso voluntário o “pedido de revisão da cobrança” formulado pelo contribuinte que, em tudo o mais, atende aos pressupostos de recurso dessa natureza. Neste processo, frente à aparente comprovação do pagamento em duplicidade efetuada pelo contribuinte, por meio da juntada dos Darfs originais, a Delegacia de Julgamento respondeu que a retificação da declaração de compensação deveria ter sido solicitada anteriormente à emissão do Despacho Decisório pela DRF/Santo André, em cumprimento ao que dispõe a IN RFB nº 900/2008, e que o entendimento da RFB, expresso por meio de atos normativos, vincula a DRJ, não sendo possível desconsiderar o marco temporal definido para a retificação. Entendo que cabe razão a ambas as partes: o contribuinte provou tempestivamente o pagamento em duplicidade, pelo o que teria direito à restituição, ao passo que o julgador tem de observar limites de competência e processuais – em relação ao Darf informado na Per/Dcomp realmente não há pagamento disponível. Entretanto, considero que o erro que se discute, que a DRJ acertadamente qualificou como inexatidão material, traz como consequência a possibilidade de sua correção, não estando este Colegiado adstrito aos prazos estabelecidos em instrução normativa da Receita Federal quando há elementos suficientes nos autos para se aperceber da sua natureza e da pertinência das alegações do sujeito passivo, com suporte no art. 32 do Decreto nº 70.235/ 1972: Art. 32. As inexatidões materiais devidas a lapso manifesto e os erros de escrita ou de cálculos existentes na decisão poderão ser corrigidos de ofício ou a requerimento do sujeito passivo. (grifado) O direito a ser restituído por um pagamento em duplicidade é evidente, tendo sido providenciada a juntada tempestiva das provas. Contam a favor do contribuinte suas tentativas de corrigir a situação junto à Receita Federal, ainda que infrutíferas. Notase, pelo teor dos recursos e pelos diversos erros cometidos, uma certa dificuldade em compreender os procedimentos administrativos, mas não se constata omissão. Dessa forma, entendo que pode ser superado o óbice alegado pela primeira instância, promovendose a correção de ofício da data do Darf informado no PER/Dcomp, em atenção ao princípio da verdade material. Pelo exposto, voto por converter o julgamento em diligência à unidade de origem para que: i) confirme o pagamento em duplicidade; ii) em caso positivo, informe se o valor do Darf pago em 31/01/2005 está integralmente disponível para a compensação de que trata o presente processo; e iii) providencie a ciência ao interessado, abrindo o prazo de 30 dias Fl. 73DF CARF MF Processo nº 10805.904997/200911 Resolução nº 3002000.025 S3C0T2 Fl. 68 4 para sua manifestação sobre a diligência, após o qual deve ser providenciado o retorno dos autos ao Carf. É como voto. (assinado digitalmente) Larissa Nunes Girard Fl. 74DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10380.720316/2007-22
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Jul 11 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Sep 11 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/04/2006 a 30/06/2006
PEDIDO DE RESSARCIMENTO. COFINS NÃO-CUMULATIVA. ATUALIZAÇÃO PELA TAXA SELIC. DESCABIMENTO, POR EXPRESSA DISPOSIÇÃO LEGAL EM CONTRÁRIO.
Por expressa disposição legal, o aproveitamento de créditos solicitados em Pedidos de Ressarcimento da Cofins não-cumulativa não enseja atualização monetária ou incidência de juros sobre os respectivos valores (art. 13 da Lei nº 10.833/2003).
Numero da decisão: 9303-007.140
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em dar-lhe provimento, vencidas as conselheiras Tatiana Midori Migiyama, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe negaram provimento.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas.
Nome do relator: RODRIGO DA COSTA POSSAS
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/04/2006 a 30/06/2006 PEDIDO DE RESSARCIMENTO. COFINS NÃO-CUMULATIVA. ATUALIZAÇÃO PELA TAXA SELIC. DESCABIMENTO, POR EXPRESSA DISPOSIÇÃO LEGAL EM CONTRÁRIO. Por expressa disposição legal, o aproveitamento de créditos solicitados em Pedidos de Ressarcimento da Cofins não-cumulativa não enseja atualização monetária ou incidência de juros sobre os respectivos valores (art. 13 da Lei nº 10.833/2003).
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ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/04/2006 a 30/06/2006 PEDIDO DE RESSARCIMENTO. COFINS NÃOCUMULATIVA. ATUALIZAÇÃO PELA TAXA SELIC. DESCABIMENTO, POR EXPRESSA DISPOSIÇÃO LEGAL EM CONTRÁRIO. Por expressa disposição legal, o aproveitamento de créditos solicitados em Pedidos de Ressarcimento da Cofins nãocumulativa não enseja atualização monetária ou incidência de juros sobre os respectivos valores (art. 13 da Lei nº 10.833/2003). Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em darlhe provimento, vencidas as conselheiras Tatiana Midori Migiyama, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe negaram provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 38 0. 72 03 16 /2 00 7- 22 Fl. 254DF CARF MF Processo nº 10380.720316/200722 Acórdão n.º 9303007.140 CSRFT3 Fl. 255 2 Relatório Tratase de Recurso Especial de Divergência interposto pela Procuradoria da Fazenda Nacional (fls. 223 a 230), contra Acórdão proferido pela 3ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da 3ª Sejul do CARF (fls. 197 a 206), sob a seguinte Ementa: Acórdão nº: 3403001.292 ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/04/2006 a 30/06/2006 PEDIDO DE RESSARCIMENTO. SALDO DE CRÉDITO DE PIS E COFINS NÃOCUMULATIVOS. ATUALIZAÇÃO ENTRE O PEDIDO E O DEFERIMENTO. CABIMENTO. O direito à atualização no período compreendido entre a data do protocolo do pedido de ressarcimento e a data em que se concretiza o ressarcimento ao contribuinte, decorre da demora a que dá causa a própria Administração Tributária em reconhecer o direito do contribuinte. Entendimento judicial consolidado a respeito do ressarcimento de IPI (STJ, EREsp 468926/SC, DJ 02/05/2005), inclusive em caráter de recurso repetitivo (STJ, REsp 1035847/RS, DJe 03/08/2009), que deve ser transportado para o PIS/Cofins não cumulativo. Recurso provido. A recorrente, inicialmente, havia oposto Embargos de Declaração (fls. 210 a 214), que foram rejeitados (fls. 217 a 219). Em seu Recurso Especial, ao qual foi dado seguimento (fls. 213), a PGFN alega que (i) o artigo 13 da Lei n° 10.833/2003 veda expressamente a incidência da Taxa SELIC sobre créditos oriundos de ressarcimento da Cofins nãocumulativa e (ii) a jurisprudência do STJ na qual se escorou o Acórdão recorrido aplicase somente ao IPI e, ainda, apenas quando há oposição estatal ilegítima ao aproveitamento dos créditos. O contribuinte apresentou Contrarrazões (fls. 238 a 243). É o Relatório. Voto Fl. 255DF CARF MF Processo nº 10380.720316/200722 Acórdão n.º 9303007.140 CSRFT3 Fl. 256 3 Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, Relator Observados os requisitos e preenchidas as formalidades regimentais, conheço do Recurso Especial. A aplicação extensiva, para a Cofins nãocumulativa, das decisões judiciais vinculantes do STJ relativas à atualização pela Taxa SELIC de créditos do IPI solicitados em ressarcimento (ainda com ressalvas) é, com a devida vênia, descabida, pois, para a contribuição, há expressa disposição legal em contrário, na Lei nº 10.833/2003: Art. 13. O aproveitamento de crédito na forma do § 4º do art. 3º, do art. 4º e dos §§ 1º e 2º do art. 6º, bem como do § 2º e inciso II do § 4º e § 5º do art. 12, não ensejará atualização monetária ou incidência de juros sobre os respectivos valores. Há Acórdãos recentes desta mesma Turma neste sentido, como exemplificado a seguir (este, inclusive, de minha lavra): Acórdão nº 9303006.305 (de 26/01/2008) .................... CONTRIBUIÇÃO SOCIAL NÃO CUMULATIVA. RESSARCIMENTO. ATUALIZAÇÃO PELA TAXA SELIC. IMPOSSIBILIDADE. Por expressa disposição legal, é vedada a correção monetária ou o abono de juros sobre os valores de PIS e de Cofins aproveitados mediante ressarcimento. Como é cediço dizer, “a lei me basta”, mas, sabendo que há posições em contrário, utilizome, em caráter enfático, da mesma jurisprudência do STJ aventada no Acórdão recorrido, para demonstrar que a relativa aos créditos do IPI não se aplica às contribuições, analisando, primeiramente, a contrario sensu, o que diz o Ministro Luiz Fux logo ao início da Ementa do Acórdão no REsp nº 1.035.847/RS: PROCESSO CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ARTIGO 543C, DO CPC. TRIBUTÁRIO. IPI. PRINCÍPIO DA NÃO CUMULATIVIDADE. EXERCÍCIO DO DIREITO DE CRÉDITO POSTERGADO PELO FISCO. NÃO CARACTERIZAÇÃO DE CRÉDITO ESCRITURAL. CORREÇÃO MONETÁRIA. INCIDÊNCIA. 1. A correção monetária não incide sobre os créditos de IPI decorrentes do princípio constitucional da nãocumulatividade (créditos escriturais), por ausência de previsão legal. 2. A oposição constante de ato estatal, administrativo ou normativo, impedindo a utilização do direito de crédito oriundo da aplicação do princípio da nãocumulatividade, descaracteriza referido crédito como escritural, assim considerado aquele oportunamente lançado pelo contribuinte em sua escrita contábil. Fl. 256DF CARF MF Processo nº 10380.720316/200722 Acórdão n.º 9303007.140 CSRFT3 Fl. 257 4 Notese também, que a Súmula nº 411, do mesmo STJ, só fala do IPI: Súmula 411: É devida a correção monetária ao creditamento do IPI quando há oposição ao seu aproveitamento decorrente de resistência ilegítima do Fisco. Complementando (pois, conforme já dito, a lei me dá guarida, de forma expressa, ao não reconhecimento da aplicação da Taxa SELIC) as minhas razões de decidir, grifei o Item 2 da Ementa acima transcrita – e também parte da Súmula nº 411 –, para consignar que, ainda que este julgamento fosse aplicável também para PIS/Cofins, no caso concreto, não houve oposição estatal ilegítima (que se configura somente quando a decisão da Unidade de Origem foi revertida nas instâncias administrativas de julgamento), o que se vê reiterado, como causa para a aplicação da Taxa SELIC, na outra decisão do STJ trazida no Acórdão recorrido (REsp nº 993.164/MG, também de relatoria do Ministro Luiz Fux) a qual, apesar de versar sobre o Crédito Presumido de IPI na exportação (Lei nº. 9.363/96), nada mais faz, em relação ao tema sob discussão, que dar “aplicação analógica” à primeira decisão: PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. IPI. CRÉDITO PRESUMIDO PARA RESSARCIMENTO DO VALOR DO PIS/PASEP E DA COFINS. EMPRESAS PRODUTORAS E EXPORTADORAS DE MERCADORIAS NACIONAIS. LEI 9.363/96 ... CORREÇÃO MONETÁRIA. INCIDÊNCIA. EXERCÍCIO DO DIREITO DE CRÉDITO POSTERGADO PELO FISCO. NÃO CARACTERIZAÇÃO DE CRÉDITO ESCRITURAL... .................... 12. A oposição constante de ato estatal, administrativo ou normativo, impedindo a utilização do direito de crédito de IPI (decorrente da aplicação do princípio constitucional da não cumulatividade), descaracteriza referido crédito como escritural (assim considerado aquele oportunamente lançado pelo contribuinte em sua escrita contábil), exsurgindo legítima a incidência de correção monetária, sob pena de enriquecimento sem causa do Fisco (Aplicação analógica do precedente da Primeira Seção submetido ao rito do artigo 543C, do CPC: REsp 1035847/RS, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 24.06.2009, DJe 03.08.2009). Para comprovar que não houve reversão do decidido pela Unidade de Origem, transcrevo trecho do Relatório de Acórdão recorrido a respeito: Relatório Tratase de Pedido Eletrônico de Ressarcimento de Créditos da Contribuição para o PIS/Pasep (*) transmitido pelo contribuinte em 14/05/2007, correspondente ao saldo de créditos acumulado no 2º trimestre de 2006 (fl. 1). A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Fortaleza/CE (DRF), por meio do Despacho Decisório de fls. 69, que ratificou as conclusões da Informação Fiscal de fls. 67/68, reconheceu o direito de crédito, Fl. 257DF CARF MF Processo nº 10380.720316/200722 Acórdão n.º 9303007.140 CSRFT3 Fl. 258 5 destacando, no entanto, que sem a incidência de juros na forma SELIC, por se tratar de ressarcimento, ... (*) Na realidade, foi da Cofins (fls. 005). Na sua Manifestação de Inconformidade (fls. 131), o contribuinte pede tão somente que o Despacho Decisório seja reformado “na parte em que negou o direito da Recorrente a incidência da SELIC sobre o valor do crédito da COFINS reconhecido administrativamente ...” (anotandose que a Manifestação de Inconformidade foi considerada improcedente pela DRF/Fortaleza – fls. 161 a 153), único pedido, da mesma forma, reiterado no Recurso Voluntário (fls. 180). Por derradeiro, afasto aqui o argumento, que alguns defendem, de que o ressarcimento seria “espécie do gênero restituição". São dois institutos completamente distintos (pois senão não faria qualquer sentido a discussão em tela sobre a atualização monetária, pois expressamente prevista em lei para a repetição do indébito). O direito à restituição é decorrência "automática" do pagamento indevido ou maior que o devido, conforme art. 165, I, do CTN. O ressarcimento tem que estar previsto em lei (a regra geral é só a possibilidade da compensação dos créditos da nãocumulatividade com débitos do próprio tributo). À vista do exposto, voto por dar provimento ao Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Fl. 258DF CARF MF
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Numero do processo: 19515.720064/2016-24
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Sep 11 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Oct 16 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2011 a 31/12/2011
EMPRESA DE "MARKETING MULTINÍVEL". RELAÇÃO JURÍDICA DA EMPRESA COM OS DISTRIBUIDORES DE PRODUTOS. RELAÇÃO DE TRABALHO. INEXISTÊNCIA. PAGAMENTOS DE BÔNUS. NÃO CARACTERIZAÇÃO DE SALÁRIO DE CONTRIBUIÇÃO. NÃO INCIDÊNCIA DE CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS.
Não se verifica, no presente caso, que a relação jurídica entre a empresa de "marketing multinível" que fabrica e comercializa produtos com seus distribuidores (compradores) possui natureza de relação de trabalho, muito menos a de emprego. A relação jurídica entre as partes é puramente comercial, inexistindo relação de trabalho.
Entende-se por salário de contribuição, para o segurado contribuinte individual, a remuneração auferida em uma ou mais empresas, assim entendida a totalidade dos rendimentos pagos a qualquer título, durante o mês, destinados a retribuir o trabalho, qualquer que seja a sua forma. Portanto, inexistindo relação de trabalho e por conseqüência, remuneração pelo trabalho, torna-se insustentável a exigência de contribuição previdenciária sobre bônus pagos aos distribuidores (compradores) da empresa fornecedora dos produtos.
MULTA QUALIFICADA. DOLO, FRAUDE OU SIMULAÇÃO. NÃO COMPROVADOS. IMPOSSIBILIDADE QUALIFICAÇÃO.
De conformidade com a legislação tributária, especialmente artigo 44, inciso I, § 1º, da Lei nº 9.430/96, c/c Sumula nº 14 do CARF, a qualificação da multa de ofício, ao percentual de 150% (cento e cinqüenta por cento), condiciona-se à comprovação, por parte da fiscalização, do evidente intuito de fraude da contribuinte. Assim não o tendo feito, não prospera a qualificação da penalidade, sobretudo quando a autoridade lançadora baseou-se em meras suposições sobre o tema no Relatório Fiscal.
Numero da decisão: 2401-005.719
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, dar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os conselheiros Francisco Ricardo Gouveia Coutinho, José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro e Miriam Denise Xavier que davam provimento parcial ao recurso para excluir a qualificadora da multa incidente sobre a parcela do lançamento que foi reconhecida como devida pelo contribuinte.
(assinado digitalmente)
Miriam Denise Xavier - Presidente
(assinado digitalmente)
Rayd Santana Ferreira - Relator
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Cleberson Alex Friess, Andrea Viana Arrais Egypto, Francisco Ricardo Gouveia Coutinho, Rayd Santana Ferreira, Jose Luis Hentsch Benjamin Pinheiro, Matheus Soares Leite, Luciana Matos Pereira Barbosa e Miriam Denise Xavier.
Nome do relator: RAYD SANTANA FERREIRA
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RELAÇÃO JURÍDICA DA EMPRESA COM OS DISTRIBUIDORES DE PRODUTOS. RELAÇÃO DE TRABALHO. INEXISTÊNCIA. PAGAMENTOS DE BÔNUS. NÃO CARACTERIZAÇÃO DE SALÁRIO DE CONTRIBUIÇÃO. NÃO INCIDÊNCIA DE CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. Não se verifica, no presente caso, que a relação jurídica entre a empresa de "marketing multinível" que fabrica e comercializa produtos com seus distribuidores (compradores) possui natureza de relação de trabalho, muito menos a de emprego. A relação jurídica entre as partes é puramente comercial, inexistindo relação de trabalho. Entendese por salário de contribuição, para o segurado contribuinte individual, a remuneração auferida em uma ou mais empresas, assim entendida a totalidade dos rendimentos pagos a qualquer título, durante o mês, destinados a retribuir o trabalho, qualquer que seja a sua forma. Portanto, inexistindo relação de trabalho e por conseqüência, remuneração pelo trabalho, tornase insustentável a exigência de contribuição previdenciária sobre bônus pagos aos distribuidores (compradores) da empresa fornecedora dos produtos. MULTA QUALIFICADA. DOLO, FRAUDE OU SIMULAÇÃO. NÃO COMPROVADOS. IMPOSSIBILIDADE QUALIFICAÇÃO. De conformidade com a legislação tributária, especialmente artigo 44, inciso I, § 1º, da Lei nº 9.430/96, c/c Sumula nº 14 do CARF, a qualificação da multa de ofício, ao percentual de 150% (cento e cinqüenta por cento), condicionase à comprovação, por parte da fiscalização, do evidente intuito de fraude da contribuinte. Assim não o tendo feito, não prospera a qualificação da penalidade, sobretudo quando a autoridade lançadora baseou se em meras suposições sobre o tema no Relatório Fiscal. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 51 5. 72 00 64 /2 01 6- 24 Fl. 1162DF CARF MF 2 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, dar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os conselheiros Francisco Ricardo Gouveia Coutinho, José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro e Miriam Denise Xavier que davam provimento parcial ao recurso para excluir a qualificadora da multa incidente sobre a parcela do lançamento que foi reconhecida como devida pelo contribuinte. (assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier Presidente (assinado digitalmente) Rayd Santana Ferreira Relator Participaram do presente julgamento os conselheiros: Cleberson Alex Friess, Andrea Viana Arrais Egypto, Francisco Ricardo Gouveia Coutinho, Rayd Santana Ferreira, Jose Luis Hentsch Benjamin Pinheiro, Matheus Soares Leite, Luciana Matos Pereira Barbosa e Miriam Denise Xavier. Relatório HERBALIFE INTERNACIONAL DO BRASIL LTDA., contribuinte, pessoa jurídica de direito privado, já qualificada nos autos do processo em referência, recorre a este Conselho da decisão da 5a Turma da DRJ em Belém/PA, Acórdão nº 01033.494/2017, às efls. 1075/1098, que julgou procedente o lançamento fiscal, concernente às contribuições previdenciárias devidas ao INSS, referente à cota patronal, incidentes sobre as remunerações pagas, devidas ou creditadas aos segurados contribuintes individuais, em relação ao período de 01/2011 a 12/2011, conforme Relatório Fiscal, às fls. 766/784 e demais documentos que instruem o processo, consubstanciado no Auto de Infração abaixo relatado: Conforme depreende do Relatório Fiscal, a auditoria narra que o lançamento foi efetuado com base na Escrituração Contábil Digital (ECD), Declaração do Imposto sobre a Renda Retido na Fonte (DIRF) e Declaração de Informações Econômico Fiscais da Pessoa Jurídica (DIPJ), referentes ao Ano Calendário 2011; assim como, nas Guias de Recolhimento do Fundo de Garantia e Informação à Previdência Social (GFIP) das competências 01/2011 a 12/2011, entregues pelo contribuinte à Secretaria da Receita Federal do Brasil (SRFB). Fl. 1163DF CARF MF Processo nº 19515.720064/201624 Acórdão n.º 2401005.719 S2C4T1 Fl. 3 3 Comunica que intimou a empresa a apresentar documentos, concedeu prazo complementar, após solicitação do contribuinte, para entrega dos documentos faltantes. Narra que na impossibilidade de leitura do arquivo digital das folhas de pagamento por erro na geração, lavrou termo de constatação e reintimou a empresálo, com alternativa de que poderia apresentar planilhas mensais em EXCEL contendo as remunerações pagas aos contribuintes individuais, com respectiva base de cálculo das contribuição previdenciárias, descontos e valor devido à Previdência Social. Após nova reintimação, a empresa apresentou arquivo no padrão estabelecido no Manual Normativo de Arquivos Digitais (MANAD). Informa sobre os documentos solicitados durante a ação fiscal, intimações, reintimações, e termos de continuidade do procedimento fiscal. Noticia que pediu à empresa que discriminasse os pagamentos efetuados a contribuintes individuais declarados em DIRF e GFIP, anexando planilhas contendo as diferenças entre os valores informados nessas duas declarações, a fim de que ela as esclarecesse. Após os esclarecimentos do contribuinte, e diante de todos os documentos apresentados por ele, o lançamento foi efetuado, considerando os fatos narrados em seqüência. Assevera que quando da apresentação pela empresa, da composição do valor informado na DIPJ/2011, na linha 03/2011 (Prestação de Serviços por PF sem Vínculo Empregatício) no valor de R$ 135.204.184,34. Como essas informações não estavam discriminadas por contribuinte individual, a empresa foi intimada a informar as contas contábeis nas quais estavam escrituradas as remunerações pagas a eles e declaradas em GFIP. Em resposta à intimação, foram identificadas as seguintes contas: Entretanto, além de remuneração a contribuintes individuais, foram escriturados nessas contas pagamentos a pessoas jurídicas e a residentes no exterior, o que inviabilizou a identificação dos valores totais pagos àqueles segurados, uma vez que não estavam contabilizados em contas relacionadas à folha de pagamento. Noticia que esses segurados são em maioria representantes comerciais (distribuidores ou consultores independentes) de produtos da Herbalife, contratados para esse fim. Acrescenta que eles são vendedores que compram a mercadoria dessa empresa e revendem para o consumidor final ou para outros distribuidores, cuja remuneração decorre de percentual sobre o volume de vendas, lucro sobre vendas de atacado e de varejo, royalties, e bonificações de incentivo, conforme Plano de Vendas e Marketing da impugnante. Comunica que o lançamento foi efetuado com base nos pagamentos aos contribuintes individuais a título de “lucro no atacado” e a outros pagamentos de natureza não identificada pela empresa e não declarados em GFIP. Descreve que a entrada do distribuidor ou consultor independente na Herbalife se dá com a aquisição de um Kit Internacional de Distribuição (conjunto de produtos da empresa) de um outro Distribuidor Independente, que se torna distribuidor ascendente na Fl. 1164DF CARF MF 4 rede de vendas. Entre os elementos que compõem esse Kit está a Proposta de Distribuição Internacional, que após preenchida e assinada, passa por aprovação na sede mundial da Herbalife, dando autorização para que a aquisição de produtos seja feita diretamente da empresa ou do distribuidor ascendente. Relata que o preço da aquisição de produtos se dá de acordo com o volume de vendas do distribuidor, que ao indicar outros distribuidores como vendedores, adquire os produtos a um preço que considera tanto seu volume de vendas quanto dos distribuidores indicados por ele. Acrescenta que essa metodologia está estabelecida no Plano de Vendas e Marketing da empresa (PVM), onde cada produto possui uma pontuação, e os pontos de volume acumulados correspondem à produção de vendas dos distribuidores e são utilizadas para qualificação e benefícios; quanto mais produtos adquirem, mais eles sobem na cadeia de vendas, passando por Distribuidor Independente, Consultor Sênior, Supervisor, Membros da Equipe TAP e Presidentes, seus ganhos variam conforme o volume de compras, estabelecidos no PVM da empresa, que também oferece outros benefícios. Narra que após intimações para apresentação de comprovantes de pagamento a contribuintes individuais, com indicação de contabilização, e esclarecimentos quanto às divergências entre o declarado em GFIP e DIRF, a empresa demonstrou que as diferenças apontadas pela fiscalização decorrem dos “lucros no atacado”, sobre os quais entende não incidir contribuição previdenciária. Relata que o contribuinte esclareceu que parte das diferenças entre os valores de DIRF e GFIP se refere a ganhos comerciais dos consultores independentes, decorrentes de descontos sobre o preço das vendas (descontos remanescentes) repassados aos distribuidores, e que tais ganhos por serem tributáveis pelo Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) são informados em DIRF, e não foram informados em GFIP por não configurarem contraprestação de serviços. Quanto à rubrica “outras diferenças”, a empresa não conseguiu identificar de onde eram provenientes. Noticia ter o contribuinte informado que esses repasses constituem uma reserva de mercado dos consultores que possuem maior desconto, para permitirem que os distribuidores indicados por eles (que possuem menor desconto) comprem produtos diretamente da Herbalife, assim, aqueles recebem um ganho sobre os produtos adquiridos diretamente por seus indicados, preservando seus ganhos comerciais, e evitando conflito de interesses entre consultores, sendo que o ganho líquido da Herbalife é sempre o mesmo, independente de o distribuidor adquirir os produtos diretamente dela ou do consultor que o indicou. Acrescenta que a empresa justifica que esse valor não se trata de pagamento por bem ou serviço recebido da empresa e por isso entende não incidir contribuição previdenciária, razão pela qual não foi declarado em GFIP. Comunica que a empresa demonstrou que as diferenças apontadas pela fiscalização correspondem aos “lucros no atacado”, nomenclatura de mesma grandeza do “desconto por atacado”, já que se trata da diferença entre o preço com desconto que o consultor ascendente paga pelos produtos e o preço com desconto que o consultor descendente paga pelos produtos que comprar daquele, ou diretamente da Herbalife. Relata que em resposta à intimação a empresa entende que os lucros no atacado não remuneram serviços prestados pelos consultores independentes, papel esse feito pelos royalties e bônus pagos pela Herbalife, que remuneram as atividades de captação, treinamento, incentivo e retenção de outros consultores independentes, e por isso são declarados em GFIP. Fl. 1165DF CARF MF Processo nº 19515.720064/201624 Acórdão n.º 2401005.719 S2C4T1 Fl. 4 5 Informa que a empresa remunerou contribuintes individuais, pela venda de seus produtos, não declarou a remuneração em GFIP, e conseqüentemente, não recolheu a contribuição previdenciária devida, em função disso, foi efetuado o lançamento, que também contém valores pagos a esses segurados, cuja natureza de pagamento a empresa não conseguiu identificar, nem explicou porque eles não foram oferecidos à tributação. Acrescenta que os rendimentos obtidos pelos distribuidores (vendedores) são valores pagos pela contraprestação de serviços de vendas ou de intermediação de vendas, em decorrência de vínculo laboral pactuado entre as partes, por meio do Contrato de Distribuição, e que a nomenclatura “lucro no atacado” não descaracteriza a natureza dos pagamentos efetuados pela retribuição aos serviços prestados de vendas de produtos. Apresenta a base de cálculo utilizada no lançamento, que foi obtida da diferença entre o valor pago a contribuintes individuais, extraído da escrituração contábil, e o valor declarado em GFIP. Noticia ter aplicado a multa de 150% (cento e cinqüenta por cento), nos termos do inciso I do caput e § 1° do art. 44 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, com redação dada pela Lei n° 11.488/2007, c/c inciso I do art. 71 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964. A contribuinte, regularmente intimada, apresentou impugnação, requerendo a decretação da improcedência do feito. Por sua vez, a Delegacia Regional de Julgamento em Belém/PA entendeu por bem julgar procedente o lançamento, conforme relato acima. Regularmente intimada e inconformada com a Decisão recorrida, a autuada, apresentou Recurso Voluntário, às efls. 1.112/1.152, procurando demonstrar sua improcedência, desenvolvendo em síntese as seguintes razões: Após breve relato das fases processuais, bem como dos fatos que permeiam o lançamento, primeiramente aduz sobre as características de seu canal de vendas, nos seguintes termos: A Recorrente é empresa dedicada à comercialização de produtos por meio do canal de vendas diretas, mediante o qual, em vez de disponibilizar seus produtos a grandes varejistas, as empresas optam por vendêlos a revendedores diretos, que fazem os produtos chegarem ao consumidor final por meio de contato pessoal, sem estabelecimento fixo. Esses revendedores, dependendo do plano de negócio de cada empresa, podem vender os produtos a outros revendedores ou diretamente ao consumidor final, podendo auferir, em ambas as hipóteses, lucro com a venda do produto – no atacado ou no varejo. Alega que o consultor, ao contrário do que relata o Auditor Fiscal, não presta serviços de vendas ou intermediação, nem é representante comercial, é um revendedor, que compra e revende os produtos da recorrente em nome próprio, sendo seu parceiro comercial, explicando a metodologia do "negócio Herbalife". Fl. 1166DF CARF MF 6 Explicita que a receita líquida da recorrente se resume a 50% (cinqüenta por cento) de todas as vendas efetuadas. Tal receita jamais oscila, não importando se o produto é vendido (i) pela própria contribuinte para o consultor varejista ou atacadista ou (ii) em nome da Recorrente, mas para o consultor atacadista. Ressaltese, nesse sentido que, quando a venda é efetuada em nome da Recorrente, mas em prol do consultor atacadista, a recorrente repassa a quem de direito, de acordo com o seu plano de marketing, o valor sobressalente à sua receita líquida própria. Justamente por isso, em todos os noventa e um países em que a Recorrente tem atividades, inclusive no Brasil, os valores referentes às vendas efetuadas em seu nome, mas para o consultor independente, são contabilizados como redução de receita, não como despesa. Isto porque, de fato, tratase de verdadeira receita de terceiros que a Recorrente repassa a quem de direito. Explica que o ganhos comerciais são o “lucro no varejo” e o “lucro no atacado”, que são caracterizados por descontos outorgados pela Herbalife ao consultor, transcrevendo trechos do Manual para explicar como esses ganhos são obtidos. Ressalta que apesar de o “lucro no atacado” envolver repasse financeiro ao consultor, feito pela Herbalife, ele configura ganho comercial baseado em desconto. Assevera que os ganhos decorrentes de serviços, denominados royalties e bônus, decorrentes “das atividades de captação, desenvolvimento, treinamento e motivação das equipes de vendas”, dependem da qualificação e têm correlação direta com os volumes de venda, que servem de base para o cálculo dos próprios ganhos. Arrazoa que o consultor ao assinar o contrato e se tornar um consultor independente, constrói um verdadeiro negócio para si e para sua família, acostando aditamentos contratuais para demonstrar a transferência do negócio Herbalife a sucessores familiares dos Consultores. Expõe que o consultor qualificado ao desconto pode comprar o produto da Herbalife e revender aos seus consultores descendentes com o desconto que estes têm direito de adquirir (geralmente, menor que o da ascendente), ou pode permitir que eles comprem diretamente da Herbalife com o desconto menor, e esta devolve ao consultor ascendente a diferença do desconto que caberia a ele, sob a forma de ganho, por isso, “o lucro no atacado” é também denominado “desconto remanescente”. Argumenta que a indicação de outras pessoas, nem o volume de vendas efetuado por estas, qualificam o consultor que as indicou para níveis maiores de desconto. Acrescenta que se trata de ganho comercial, que pode ser auferido sem qualquer repasse de valores pela recorrente, nos casos em que o consultor descendente compra diretamente do consultor ascendente. Dessa forma, afirma que há equívoco da fiscalização ao relatar que “lucro no atacado” são valores pagos aos distribuidores em função do volume de vendas, e, portanto, não há prestação de serviço pelo consultor quer seja para qualificação ao nível maior de desconto, quer seja para percepção do “lucro no atacado”, inclusive porque, o consultor precisa manter anualmente a qualificação que lhe permite auferir esses ganhos, senão retorna ao status que seu volume de pontos alcançar, podendo inclusive ser ultrapassado por um consultor que estava abaixo dele na organização, evidenciando que a percepção do “lucro no atacado” não tem a ver com a indicação de pessoas para sua equipe. Arrazoa que nem todo pagamento efetuado por pessoa jurídica a pessoa física decorre de prestação de serviço. Nesse sentido, cita doutrina e art. 195, inciso I, alínea “a”, da Constituição Federal. Aduz que a fiscalização incorreu em erro na autuação, visto que não há Fl. 1167DF CARF MF Processo nº 19515.720064/201624 Acórdão n.º 2401005.719 S2C4T1 Fl. 5 7 incidência de contribuição previdenciária sem que ocorra remuneração por serviços, e por isso o Auto de Infração é improcedente. Insurgese quanto a fundamentação da decisão de piso com base Estatuto do Vendedor Direto, constante do site da Associação Brasileira de Vendas Diretas (ABEVD), norma orientativa, não restritiva, e que, quando refletida na prática de cada uma de suas associadas, admite particularidades. E, se bem se compreendeu os tipos de receita auferidos pelos consultores dependentes da Recorrente, expostos no item 16 e seguintes desta peça, notarseá que a estrutura de ganhos da Recorrente situase exatamente dentro dos patamares sugeridos pela norma da ABEVD utilizada pela ilustre Relatoria, na modalidade multinível: os ganhos comerciais (lucros no atacado e no varejo) decorrem da venda dos produtos e os ganhos remuneratórios (royalties e bônus) decorrem da captação, treinamento, motivação e retenção de outros consultores independentes. Deveras, a autoridade Julgadora utilizou de norma que não se aplica ao caso concreto, uma vez que, além de ser genérica, trata da contraprestação pelo agenciamento de novos consultores, que, como já se viu, é remunerado pela Recorrente por meio de bônus e royalties. Aduz não ser possível prosperar o entendimento da autoridade Julgadora de ‚que os valores pagos a título de ‘lucro no atacado’ aos consultores independentes decorrem da prestação de serviços de venda, e de divulgação dos produtos da empresa‛, uma vez que: (i) a lógica do lucro no atacado é exatamente inversa. Isso é, não há prestação de serviços de venda ou divulgação de produtos do consultor em prol da Recorrente. Na realidade, a atividade de Recorrente que é em prol dos consultores independentes. Ademais, também não prospera o entendimento da autoridade julgadora de que o lucro no atacado seria um "plus ao serviço prestado pelo consultor de nível superior, como forma de que este atraia mais consultores a sua rede de vendas, e por fim aumente as vendas da própria Herbalife, (...) apenas revenderia seus produtos aos consultores, uma vez que obteria o mesmo percentual de desconto.(...) A pr{tica do ‘lucro por atacado’ abre caminho para que a Herbalife venda diretamente a consultores da linha descendente de um consultor independente, incentivandoos a atrair mais pessoas à rede, e aumentarem seu volume de compras diretamente da Herbalife". Afirma que não existe o interesse do consultor em linha ascendente de fomentar as compras dos consultores em linha descente, a fim de garantir a sua qualificação para auferir o lucro no atacado, por toda sistemática da empresa na requalificação anual. Explicita que o lucro no atacado não possui natureza remuneratória. Tratase de um ganho comercial do consultor independente a ele repassado pela Recorrente. Por assim ser, não pode tal rubrica sofrer a incidência de contribuição previdenciária Argumenta que embora o consultor não esteja obrigado a se dedicar ao negócio Herbalife e trabalhar determinadas horas por dia, aqueles que evoluem na escala e obtêm lucro no atacado, acabam se dedicando e prestando serviços com habitualidade. Aponta que pessoas naturais que assim exercem sua atividade comercial, com intuito de lucro são equiparadas a pessoas jurídicas para fins fiscais, conforme art. 150, § 1o, II, do Regulamento do Imposto de Renda. Nesse sentido, transcreve jurisprudência do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF). Fl. 1168DF CARF MF 8 Cita a Solução de Consulta nº 11, de 09 de fevereiro de 2015, da Coordenação Geral de Tributação (COSIT) da Receita Federal do Brasil, que trata da equiparação à pessoa jurídica da pessoa física que explora atividade comercial com fins de lucro, mediante revenda de bens a terceiros, e sua obrigação, de uma vez equiparada, adotar os mesmos procedimentos contábeis e fiscais aplicados àquela. Para demonstrar a ocorrência da equiparação de seus consultores à pessoa jurídica, expõe que estes realizaram com habitualidade elevadas compras de produtos para revenda em nome próprio e participaram de numerosos eventos de desenvolvimento de suas equipes de venda. Nesse sentido, entende que não há cabimento a exigência de recolhimento de contribuições previdenciárias sobre pagamentos efetuados pela empresa a eles, uma vez que para fins fiscais tais pagamentos terão sido feitos a pessoas jurídicas e não a físicas, assim como, assevera ser indevida qualquer multa decorrente de falta de informação em GFIP. Insurgese contra a majoração da multa, ressaltando a inexistência de valores a serem recolhidos. Transcreve jurisprudências deste Tribunal, no sentido de que se for excluída a exigência do imposto, ou julgado improcedente o lançamento da obrigação principal, da mesma forma deve ser excluída a multa aplicada sobre ele. Explica ainda que, referida multa é indevida, porque, no caso de sonegação, além da intenção de lesar o Fisco, essa lesão deve ser feita por meio de qualquer das condutas tipificadas no art. 71 da Lei nº 4.502/64. Utilizando esse argumento, diz que não existe sonegação em tese, termo utilizado no Relatório Fiscal, ou por mera presunção, pois para a caracterização desse instituto não se admite dúvida, uma vez que na existência desta, a penalidade deve ser aplicada de forma mais favorável ao contribuinte, nos termos do art. 112, do Código Tributário Nacional. Reproduz jurisprudências do CARF para afirmar que na aplicação da multa qualificada deve haver a inequívoca comprovação do dolo. Aduz que a fiscalização majorou a multa sem comprovação do dolo por parte do contribuinte, uma vez que esta não pretendeu sonegar qualquer tributo, tendo informado à SRFB todos os pagamentos efetuados aos consultores, a exemplo da Escrituração Contábil Digital, da DIRF e da DIPJ. Nesse sentido, questiona “onde estaria o intuito de sonegação de alguém que entregou DIPJ e DIRF contendo todos os pagamentos e repasses feitos aos Consultores?”. Assevera que não declarou em GFIP os repasses de Lucro no Atacado aos consultores, porque possui convicção de que essa verba não tem natureza de remuneração por serviços prestados, e que já tinha explicado tudo o aqui alegado à fiscalização, motivo que afastaria a acusação de sonegação. Acrescenta ainda que cooperou com a fiscalização, e transcreve trechos do Relatório Fiscal, que se referem às respostas e esclarecimentos prestados pela empresa durante o procedimento fiscal. Afirma que, ao contrário do que relata a fiscalização, lançou em títulos próprios de sua contabilidade, de forma individualizada as remunerações pagas aos consultores, sobre as quais há incidência de contribuição previdenciária, assim como, os repasses de valores a eles Arrazoa que forneceu documentos auxiliares, referentes aos valores contabilizados, citando o art. 258, § 1º, do Regulamento do Imposto de Renda, que dispõe que a empresa pode fazer sua escrituração contábil de forma resumida, desde que mantenha livros auxiliares e os documentos que demonstre sua veracidade. E por isso, não concorda com as condutas de sonegação e intuito de fraude que lhe foram atribuídas. Fl. 1169DF CARF MF Processo nº 19515.720064/201624 Acórdão n.º 2401005.719 S2C4T1 Fl. 6 9 Por fim, requer o conhecimento e provimento do seu recurso, para desconsiderar os Autos de Infração, tornandoos sem efeito e, no mérito, a sua absoluta improcedência. Não houve apresentação de contrarrazões. É o relatório. Voto Conselheiro Rayd Santana Ferreira Relator Presente o pressuposto de admissibilidade, por ser tempestivo, conheço do recurso voluntário. DELIMITAÇÃO DA LIDE Como bem explicitado pela decisão a quo, tendo sido cientificada pessoalmente dos Autos de Infração em 23/01/2016, por via postal, o contribuinte optou por efetuar o pagamento do crédito tributário abaixo demonstrado, relativo aos pagamentos que não conseguiu justificar durante o procedimento fiscal, apenas quanto ao principal, juros e multa de 75% por não concordar com a multa qualificada de 150%, anexa DARF devidamente quitado (fls. 896): Portanto, em relação a tais valores não foi instaurado o contencioso administrativo pelo fato de o sujeito passivo ter efetuado o pagamento dos créditos lançados. Assim, observase que, nos termos do art. 17 do Decreto nº 70.235/72 e do art. 58 do Decreto nº 7.574, de 29 de setembro de 2011, considerase não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada. Dito isto, vamos nos ater a questão do "lucro no atacado" e a multa qualificada. MÉRITO NEGÓCIO HERBALIFE LUCRO NO ATACADO MARKETING MULTINÍVEL Primeiramente cabe esclarece quais as vertentes sobre a resolução do lançamento, são elas: Fl. 1170DF CARF MF 10 se as atividades desempenhadas pelos consultores configuramse como prestação de serviços à Herbalife, estamos diante de uma hipótese de incidência tributária, onde o “lucro no atacado” pago a eles constitui remuneração, fato gerador das contribuições sociais previdenciárias, com razão a autoridade lançadora; ou caso se conclua ser mera relação mercantil, ganho comercial, estaríamos fora da hipótese de incidência das contribuições, conforme defendido pela contribuinte. A recorrente, rebatendo as contribuições aqui exigidas, expôs todo o funcionamento de seu canal de vendas ("negócio herbalife"), diferenciando todas as "operações da cadeia" e, enfatizando sempre que a relação entre ela e os consultores independentes é, e sempre foi, comercial (de compra e revenda). Explicita que a receita líquida da recorrente se resume a 50% (cinqüenta por cento) de todas as vendas efetuadas. Tal receita jamais oscila, não importando se o produto é vendido (i) pela própria contribuinte para o consultor varejista ou atacadista ou (ii) em nome da Recorrente, mas para o consultor atacadista. Ressaltese, nesse sentido que, quando a venda é efetuada em nome da Recorrente, mas em prol do consultor atacadista, a recorrente repassa a quem de direito, de acordo com o seu plano de marketing, o valor sobressalente à sua receita líquida própria. Justamente por isso, em todos os noventa e um países em que a Recorrente tem atividades, inclusive no Brasil, os valores referentes às vendas efetuadas em seu nome, mas para o consultor independente, são contabilizados como redução de receita, não como despesa. Isto porque, de fato, tratase de verdadeira receita de terceiros que a Recorrente repassa a quem de direito. Explica que o ganhos comerciais são o “lucro no varejo” e o “lucro no atacado”, que são caracterizados por descontos outorgados pela Herbalife ao consultor, transcrevendo trechos do Manual para explicar como esses ganhos são obtidos. Ressalta que apesar de o “lucro no atacado” envolver repasse financeiro ao consultor, feito pela Herbalife, ele configura ganho comercial baseado em desconto. Assevera que os ganhos decorrentes de serviços, denominados royalties e bônus, decorrentes “das atividades de captação, desenvolvimento, treinamento e motivação das equipes de vendas”, dependem da qualificação e têm correlação direta com os volumes de venda, que servem de base para o cálculo dos próprios ganhos. Arrazoa que o consultor ao assinar o contrato e se tornar um consultor independente, constrói um verdadeiro negócio para si e para sua família, acostando aditamentos contratuais para demonstrar a transferência do negócio Herbalife a sucessores familiares dos Consultores. Expõe que o consultor qualificado ao desconto pode comprar o produto da Herbalife e revender aos seus consultores descendentes com o desconto que estes têm direito de adquirir (geralmente, menor que o da ascendente), ou pode permitir que eles comprem diretamente da Herbalife com o desconto menor, e esta devolve ao consultor ascendente a diferença do desconto que caberia a ele, sob a forma de ganho, por isso, “o lucro no atacado” é também denominado “desconto remanescente”. Argumenta que a indicação de outras pessoas, nem o volume de vendas efetuado por estas, qualificam o consultor que as indicou para níveis maiores de desconto. Acrescenta que se trata de ganho comercial, que pode ser auferido sem qualquer repasse de valores pela recorrente, nos casos em que o consultor descendente compra diretamente do consultor ascendente. Dessa forma, afirma que há equívoco da fiscalização ao Fl. 1171DF CARF MF Processo nº 19515.720064/201624 Acórdão n.º 2401005.719 S2C4T1 Fl. 7 11 relatar que “lucro no atacado” são valores pagos aos distribuidores em função do volume de vendas, e, portanto, não há prestação de serviço pelo consultor quer seja para qualificação ao nível maior de desconto, quer seja para percepção do “lucro no atacado”, inclusive porque, o consultor precisa manter anualmente a qualificação que lhe permite auferir esses ganhos, senão retorna ao status que seu volume de pontos alcançar, podendo inclusive ser ultrapassado por um consultor que estava abaixo dele na organização, evidenciando que a percepção do “lucro no atacado” não tem a ver com a indicação de pessoas para sua equipe. Arrazoa que nem todo pagamento efetuado por pessoa jurídica a pessoa física decorre de prestação de serviço. Nesse sentido, cita doutrina e art. 195, inciso I, alínea “a”, da Constituição Federal. Aduz que a fiscalização incorreu em erro na autuação, visto que não há incidência de contribuição previdenciária sem que ocorra remuneração por serviços, e por isso o Auto de Infração é improcedente. Insurgese quanto a fundamentação da decisão de piso com base Estatuto do Vendedor Direto, constante do site da Associação Brasileira de Vendas Diretas (‚ABEVD‛), norma orientativa, não restritiva, e que, quando refletida na prática de cada uma de suas associadas, admite particularidades. E, se bem se compreendeu os tipos de receita auferidos pelos consultores dependentes da Recorrente, expostos no item 16 e seguintes desta peça, notarseá que a estrutura de ganhos da Recorrente situase exatamente dentro dos patamares sugeridos pela norma da ABEVD utilizada pela ilustre Relatoria, na modalidade multinível: os ganhos comerciais (lucros no atacado e no varejo) decorrem da venda dos produtos e os ganhos remuneratórios (royalties e bônus) decorrem da captação, treinamento, motivação e retenção de outros consultores independentes. Deveras, a autoridade Julgadora utilizou de norma que não se aplica ao caso concreto, uma vez que, além de ser genérica, trata da contraprestação pelo agenciamento de novos consultores, que, como já se viu, é remunerado pela Recorrente por meio de bônus e royalties. Aduz não ser possível prosperar o entendimento da autoridade Julgadora de ‚que os valores pagos a título de ‘lucro no atacado’ aos consultores independentes decorrem da prestação de serviços de venda, e de divulgação dos produtos da empresa‛, uma vez que: (i) a lógica do lucro no atacado é exatamente inversa. Isso é, não há prestação de serviços de venda ou divulgação de produtos do consultor em prol da Recorrente. Na realidade, a atividade de Recorrente que é em prol dos consultores independentes. Ademais, também não prospera o entendimento da autoridade julgadora de que o lucro no atacado seria um "plus ao serviço prestado pelo consultor de nível superior, como forma de que este atraia mais consultores a sua rede de vendas, e por fim aumente as vendas da própria Herbalife, (...) apenas revenderia seus produtos aos consultores, uma vez que obteria o mesmo percentual de desconto.(...) A pr{tica do ‘lucro por atacado’ abre caminho para que a Herbalife venda diretamente a consultores da linha descendente de um consultor independente, incentivandoos a atrair mais pessoas à rede, e aumentarem seu volume de compras diretamente da Herbalife". Afirma que não existe o interesse do consultor em linha ascendente de fomentar as compras dos consultores em linha descente, a fim de garantir a sua qualificação para auferir o lucro no atacado, por toda sistemática da empresa na requalificação anual. Explicita que o lucro no atacado não possui natureza remuneratória. Tratase de um ganho comercial do consultor independente a ele repassado pela Recorrente. Por assim ser, não pode tal rubrica sofrer a incidência de contribuição previdenciária Fl. 1172DF CARF MF 12 Argumenta que embora o consultor não esteja obrigado a se dedicar ao negócio Herbalife e trabalhar determinadas horas por dia, aqueles que evoluem na escala e obtêm lucro no atacado, acabam se dedicando e prestando serviços com habitualidade. Aponta que pessoas naturais que assim exercem sua atividade comercial, com intuito de lucro são equiparadas a pessoas jurídicas para fins fiscais, conforme art. 150, § 1o, II, do Regulamento do Imposto de Renda. Nesse sentido, transcreve jurisprudência do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF). A situação ora em debate, se encaixa no sistema de compensação multinível (marketing multinível/marketing de rede), que se trata de uma estratégia empresarial de distribuição de bens e serviços, onde a divulgação dos produtos se dá pela indicação “boca a boca” feita por distribuidores independentes. Por esse trabalho, tais distribuidores recebem bônus, que seriam utilizados nas milionárias campanhas de propaganda tradicional. Além da indicação dos produtos, os distribuidores poderão indicar outros distribuidores e, assim, construir uma organização de escoamento de produtos com possibilidades de ganhos ilimitados. Antes mesmo de se adentrar ao mérito da questão, cumpre trazer à baila alguns apontamentos acerca da matéria (marketing multinível), por não estarmos tão habituados ao tema. O marketing multinível também tratado, às vezes, como marketing de rede, teve origem nos EUA, nos idos dos anos 1940. Desde então, passou por vários ciclos, adaptou se a diferentes momentos da economia mundial e se espalhou por diversos países. No Brasil, há vários modelos de negócios já consolidados baseados nesse formato e hoje é a atividade profissional principal (em alguns casos, a única) de muita gente. Os negócios do tipo multinível baseiam o seu sistema de comercialização em dois pilares fundamentais: a venda direta e a criação de uma rede. A venda direta consiste em ir diretamente aos consumidores para oferecer e vender os produtos ou serviços da empresa, de uma forma pessoal ou através do uso da Internet. Enquanto a criação de uma rede consiste em convidar outras pessoas para que participem como Distribuidores Independentes na empresa de multinível, na qual estás associado. Se aceitarem entrar na empresa, passarão a formar parte da rede e vai ganhar uma vantagem por cada venda feita pelos distribuidores recrutados. Vale esclarecer ainda, que não podemos confundir o MMN (marketing multinível) com as pirâmides. A primeira é uma atividade legalizada, baseada na comercialização de produtos e serviços, baseandose em princípios e fundamentos éticos e legais e pode gerar bons rendimentos aos parceiros, dependendo, é claro, dos resultados de cada um. Já as pirâmides financeiras são negócios totalmente distintos do marketing multinível. Elas são esquemas ilegais de movimentação financeira. Portanto, estamos diante de um negócio legal. Feitas às considerações encimadas, passamos a expor o nosso entendimento. Apesar de estarmos falando de uma matéria não usual, esta já foi apreciada por este Egrégio Conselho, pela 1º Turma Ordinária da 3º Câmara da 2º Seção de Julgamento, em sessão de 06 de novembro de 2014, acórdão de nº 2301004.218. Por oportuno, transcreve se o voto do ilustre Relator Wilson Antonio de Souza Correa, no tocante a matéria aqui discutida: DA INEXISTÊNCIA DE VÍNCULO DE TRABALHO ENTRE A RECORRENTE E SEUS DISTRIBUIDORES E COMPRADORES DE SEUS PRODUTOS Fl. 1173DF CARF MF Processo nº 19515.720064/201624 Acórdão n.º 2401005.719 S2C4T1 Fl. 8 13 Em síntese a Recorrente diz que faz parte do grupo FLP – Forever Living Products, que por sua vez fabrica e comercializa produtos de saúde e outros do gênero. E, como integrante do grupo FLP atua na área de vendas diretas e utiliza um ‘Plano de Marketing Único’, que incentiva e apóia a compra e o uso dos seus produtos através de uma rede de compradores. Explica que a rede de compradores funciona com indicação de outros compradores, sendo assim: A é comprador e indique B, para que indique C e assim sucessivamente, sendo que o primeiro, ou seja, A, recebe sobre as suas compras na FLP e sobre as compras dos indicados sucessivamente, formando uma rede, onde quem é o primeiro recebe mais, já que todas as compras a ele serão contabilizadas. Neste planejamento todos os compradores para comprarem e venderem mais têm que realizar mais indicação de compradores e fazer um trabalho forte de marketing, sendo que a tarefa principal não é o marketing sim a venda, para eles, distribuidores, sendo que o primeiro é um mero instrumento para realização do segundo, razão pela qual se revela impróprio o entendimento da decisão de piso ao comparar este procedimento com a venda direta que aduz o estatuto do vendedor. Desta forma, explicita, os valores pagos aos distribuidores pela Recorrente não se refere a venda, mas sim a compra por ele realizada, não esquecendo cada qual pertencer a uma rede de compradores o que possibilita a variação de ganhos, ou seja, quanto mais distribuidores ele tiver, mais ele terá de bonificação. Assim, poderemos resumir o ponto nodal da questão, pois para a Fiscalização os valores pagos aos prestadores de serviços têm como base as vendas por eles realizadas e para a Defendente os valores pagos têm como base as compras realizadas por seus contratantes/compradores. É como se ela estivesse bonificando os seus compradores, ou seja, quanto mais compra, mais recebe bônus e ela é paga por seus distribuidores para gerir este ‘Plano de Marketing Único’, ainda que seja 1 real ao mês. O contrato apresentado nos autos não deixa dúvida quanto a sua literalidade de que a prestadora de serviço é a Recorrente que também é remunerada, ainda que seja 1 real por mês. E onde ela ganha nesta transação comercial? Na venda do produto por ela produzido e no marketing gratuito do seu produto. Para a Recorrente não há legislação que tribute a operação acima e não pode a fiscalização, por analogia enquadrar os distribuidores como contribuintes individuais. Aduz também a Recorrente que os prêmios distribuídos por ela não podem ser considerados como pagamento de contraprestação de serviço, isto porque os valores que transitam pelo patrimônio dela a título de VAR, são devolvidos na forma de prêmio. Registro minhas reverências ao projeto elaborado pela Recorrente, eis que de fato ele não contraria nenhuma legislação, mas o tenho como desfigurado pelo simples fato de os Fl. 1174DF CARF MF 14 distribuidores não serem distribuidores e sim vendedores, conforme o Estatuto do vendedor que o conceitua como uma pessoa que participa do sistema de distribuição de uma empresa de venda direta. Podendo ser agente comercial independente, contratado por empreitada, revendedor ou distribuidor independente, representante empregado ou por conta própria, franqueado ou similar. Assim, não vejo razão à Recorrente, também neste quesito. DO ERRO NA DETERMINAÇÃO DA BASE DE CÁLCULO DAS CONTRIBUIÇÕES LANÇADAS – BONIFICAÇÕES A Recorrente alega que a base de cálculo utilizada pela Fiscalização está equivocada, eis que a sua operação realizada pelo seu Plano de Marketing Único é diferenciado de uma rede de vendedores/distribuidores, pois o vendedor que se encontra no topo da lista é beneficiado por compras indireta de outros distribuidores/compradores/vendedores. Como dito acima, o planejamento foi elaborado e se admitíssemos o projeto estaríamos diante de distribuidores conforme consta no contrato e não vendedores, conforme é a realidade fática. Sendo considerados vendedores a operação cai na vala comum e neste sentido a base de cálculo acompanha a regra geral, havendo como base as vendas realizadas como um todo. Entretanto, quando trata das BONIFICAÇÕES, onde informa a Fiscalização que observou divergências entre os valores declarados na DIRF como rendimento do trabalho sem vínculo empregatício e os informados na GFIP da Recorrente, sendo incluindo na base da cálculo do lançamento, o que julgo indevido, eis que ausente a comprovação de fato gerador que possa justificar. Veja, a bonificação declarada e que não consta na DIRF não representa um fato ou conjunto de fatos a que o legislador vincula o nascimento da obrigação jurídica de pagar um tributo determinado. Alguns doutrinadores do direito tributário propõem distinguir fato descrito na hipótese legal (hipótese de incidência) e fato imponível. Nesse sentido, a definição de Geraldo Ataliba é precisa: "Tal é a razão pela qual sempre distinguirmos estas duas coisas, denominando hipótese de incidência ao conceito legal (descrição legal, hipotética de um fato, estado de fato, ou conjunto de circunstâncias de fato) e fato imponível, efetivamente acontecido num determinado tempo ou local, configurando rigorosamente a hipótese de incidência". O Código Tributário Nacional do Brasil (CTN) utiliza a expressão fato gerador tanto no momento que se refere ao que Geraldo Ataliba chamou de hipótese de incidência tanto quanto ao fato imponível, deixando para que o intérprete da norma reconheça o significado referido segundo o contexto em que se encontra. O CTN faz menção ao fato gerador nos artigos 114 e 115. De acordo com o texto do artigo 114 do CTN, fato gerador da obrigação principal é a hipótese definida em lei como necessária e suficiente para o surgimento da obrigação tributária. Fl. 1175DF CARF MF Processo nº 19515.720064/201624 Acórdão n.º 2401005.719 S2C4T1 Fl. 9 15 Por sua vez, o artigo 115 diz que fato gerador da obrigação acessória é a hipótese que, na forma da legislação aplicável, impõe a prática ou a abstenção de ato que não configure obrigação principal. Nesta seara, vejo que as bonificações não estão rigorosamente incluídas em hipótese de incidência, razão pela qual excluo do lançamento, conforme requerido pelo Recorrente. Com razão em parte. Face a isto, a conclusão do ilustre Relator, consoante voto parcialmente acima transcrito, foi no sentido de, naquele caso, dar parcial provimento ao recurso voluntário para "reconhecer que não deve compor a base de cálculo as bonificações pagas ao vendedores/empregados por ausência de comprovação do fato gerador", decisão esta que foi acompanhada por unanimidade pelos demais Conselheiros daquela Colenda Turma. Com a devida vênia ao entendimento exarado pelo ilustre Conselheiro Wilson Antonio de Souza Correa, venho discordar que há uma relação de trabalho, ou até mesmo de emprego, pois os chamados "Consultores"/"Distribuidores" não podem ser considerados como "Vendedores", o que daria ensejo a incidência de contribuição previdenciária, considerandoos como contribuintes individuais, ou ainda, como empregados. Nesse sentido, em 16 de fevereiro de 2016, quando da apreciação do processo nº 16832.000057/201036, o qual sobreveio o acórdão nº 2402004.992, a 2º Turma Ordinária da 4º Câmara da 2º Seção de Julgamento deste Conselho, com a relatoria do Conselheiro Natanael Vieira dos Santos, acordaram por unanimidade em dar provimento ao recurso voluntário, por compreenderem que não há que se falar em exigibilidade da contribuição social previdenciária porque as "bonificações", não têm como contrapartida prestação de serviços à recorrente por Distribuidores/Vendedores de produto por ela fornecidos. Vejamos a ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2005 SALÁRIO DE CONTRIBUIÇÃO. SEGURADOS CONTRIBUINTES INDIVIDUAIS. Entendese por salário de contribuição dos segurados contribuintes individuais a remuneração por eles auferida em uma ou mais empresas ou pelo exercício de suas atividades por conta própria. A empresa é obrigada a recolher, nos prazos definidos em lei, as contribuições previdenciárias a seu cargo, incidentes sobre as remunerações pagas, devidas ou creditadas, a qualquer título, aos segurados contribuintes individuais a seu serviço. CONSTITUIÇÃO DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO. PRINCÍPIO DA PRIMAZIA DA REALIDADE. APLICÁVEL À RELAÇÃO PREVIDENCIÁRIA Assim como na relação trabalhista, também na relação previdenciária é aplicável o princípio da primazia da realidade, segundo o qual, a verdade dos fatos impera sobre qualquer contrato formal, ou seja, caso haja conflito entre o que está escrito e o que ocorre de fato, prevalece o que ocorre de fato, de sorte que sua realização no âmbito tributário ocorre com a aplicação do princípio da verdade material, o qual permite que no processo administrativo o julgador busque a Fl. 1176DF CARF MF 16 verdade, ainda que, para isso, tenha que se valer de outros elementos além daqueles trazidos aos autos pelos interessados. Recurso Voluntário Provido. Analisando a operação comercial da recorrente, me filio ao entendimento acima, pela não incidência de contribuições previdenciárias sobre os valores pagos a título de "lucros no atacado" aos "consultores" dos produtos da recorrente. Verificase que na modelagem de negócio da contribuinte, conforme demonstrado pelo Relatório Fiscal e pelos instrumentos contratuais acostados aos autos, é que os consultores autorizados adquirem produtos com desconto da recorrente para revendêlos e parte do valor, como obrigação da recorrente com os seus consultores, são repassados a estes, em conformidade com os critérios estabelecidos. Explico. Ao atingir determinado nível de qualificação, o consultor independente se torna um verdadeiro atacadista. A Recorrente, por sua vez, conhecedora das limitações destes consultores independentes que não possuem estrutura logística estrutura básica para a correta armazenagem dos produtos (que, no caso da Recorrente, por se tratar de produtos alimentícios, exige maiores cuidados), veículo para fazer o transporte de quantidades maiores, contrato com transportadora, dentre outros – e financeira – disponibilidade de caixa para comprar, armazenar e transportar o produto até o consumidor final , para operacionalizar sua atividade comercial, a Recorrente toma para si tais responsabilidades e garante o ganho comercial advindo da operação de venda para o consultor independente. Tratase de verdadeira reserva de mercado, assegurada pela Recorrente, e concretizada pelo repasse do lucro no atacado para o consultor para tanto qualificado. Com isso, a peticionante garante que o consultor qualificado para auferir lucro no atacado não se oponha à aquisição do produto diretamente a ela, o que poderia facilmente ocorrer se não lhe fosse dada a garantia de que seu ganho seria mantido. Nessa esteira, a Recorrente assegura também que: (i) não haverá falta de produto no mercado, por conta de eventual indisponibilidade de caixa de algum consultor; (ii) os produtos ficarão armazenados de maneira correta e conforme exigido pela legislação pertinente; (iii) os produtos chegarão ao destino com rapidez e segurança; (iv) os lucros no atacado serão repassados no prazo correto e a quem de direito, quando há mais de um consultor beneficiado pela mesma operação de venda. E, o ponto mais importante para a saúde do ‚negócio Herbalife, assegura tratativas pacíficas entre a empresa e seus consultores, evitando atritos comerciais. Entendo, portanto, que a relação jurídica entre a contribuinte, uma empresa de "marketing multinível", que fabrica e comercializa produtos de nutrição, controle de peso, entre outros do gênero, com seus consultores não possui natureza de relação de trabalho, muito menos a de emprego. A relação jurídica entre as partes, no que concerne o lucro no atacado, é puramente comercial, inexistindo relação de trabalho. Neste sentido, como muito bem destacou o ilustre Conselheiro Natanael Vieira dos Santos, no voto do acórdão nº 2402004.992, que peço vênia para substanciar os fundamentos já expostos, senão vejamos: (...) não somente pelo que se plasma nos instrumentos analisados, mas também pela realidade dos fatos, apenas para argumentar, sabese que, assim como na relação trabalhista, também na relação previdenciária é aplicável o princípio da primazia da realidade, de forma que o que vale é a ocorrência real dos fatos e não o que está escrito. Assim, mesmo que não Fl. 1177DF CARF MF Processo nº 19515.720064/201624 Acórdão n.º 2401005.719 S2C4T1 Fl. 10 17 fossem textualmente compreendidos os instrumentos envolvidos, dado ao que não se constata nenhuma prestação de serviço dos beneficiários dos bônus para a recorrente, tomandose por fundamento o princípio da primazia da realidade, não há o que se falar em ocorrência do fato gerador da contribuição social previdenciária ora exigida. Com supedâneo nesse princípio significa dizer: mesmo que fosse considerada a existência de uma relação prestacional entre a empresa e os beneficiados (compradores e vendedores), mesmo assim, reiterese, o referido bônus daquela relação não decorreria, uma vez que os ditos pagamentos consubstanciamse ou decorrem de mera devolução de valores colocados sob a guarda e/ou administração da recorrente pelos distribuidores autorizados. Do até aqui apontado, o que se constata dos autos é a inocorrência do fato gerador das contribuições ora exigidas, eis que em momento algum se verificou o pagamento por prestação de serviço remunerado pelos segurados, razão pela qual não deve subsistir o lançamento em análise, de sorte que não há caracterização da ocorrência da situação fática da obrigação tributária. Ora, entendese por salário de contribuição, para o segurado contribuinte individual, a remuneração auferida em uma ou mais empresas, assim entendida a totalidade dos rendimentos pagos a qualquer título, durante o mês, destinados a retribuir o trabalho, qualquer que seja a sua forma. Portanto, inexistindo relação de trabalho e por conseqüência, remuneração para retribuir o trabalho, tornase insustentável a exigência de contribuição previdenciária sobre o "lucro no atacado" pago aos consultores (compradores) da empresa fornecedora dos produtos. Assim, no presente caso, não há que se falar em exigibilidade da contribuição social previdenciária porque os valores pagos, como já demonstrado, não têm como contrapartida prestação de serviços a recorrente por Consultores/Vendedores de produtos por ela fornecidos. Tratandose de uma relação puramente mercantil. DA MULTA QUALIFICADA PARTE RECONHECIDA E PAGA Preambularmente, cumpre transcrever a legislação que fundamentou a exigência da multa no presente lançamento de ofício: Lei nº 9.430, de 1996: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata. (...) § 1o O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei no 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. Fl. 1178DF CARF MF 18 Como se vê, a multa de 75%, prevista no inciso I, acima transcrito, é objetiva e independe da culpa ou dolo do agente. O artigo 136 do Código Tributário Nacional assim diz: Art. 136 Salvo disposição de lei em contrário, a responsabilidade por infrações da legislação tributária independe da intenção do agente ou do responsável e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato. Contudo, a multa qualificada de 150%, em atendimento ao que disciplina o §1º, art. 44, da Lei nº 9.430, de 1996, poderá ser aplicada somente nos casos previstos nos art. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, 1964, que têm a seguinte redação: Art. 71 Sonegação é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; II das condições pessoais do contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação principal ou o crédito tributário correspondente. Art. 72 Fraude é toda ação ou omissão, dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido, ou a evitar ou deferir o seu pagamento. Art. 73 – Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos no art. 71 e 72. A sonegação pode se dar em razão de uma ação ou omissão, de uma simulação ou ocultação, e pressupõe sempre a intenção de causar dano à fazenda pública, um propósito deliberado de se subtrair, no todo ou em parte, a uma obrigação tributária. Na sonegação sempre existe o dolo, um comportamento intencional, específico, de causar dano à fazenda pública. Para ser enquadrado neste conceito, basta o contribuinte agir com dolo na desobediência da lei fiscal. A sonegação impede a apuração da obrigação tributária principal diante da ocultação de bens ou de fatos jurídicos à incidência fiscal (fato gerador já realizado) enquanto na figura da fraude a ação ou omissão visa escamotear o pagamento do imposto devido reduzilo, evitálo ou retardálo. Depreendese dos dispositivos acima transcritos que para aplicação da multa qualificada deve existir o elemento fundamental de caracterização que é o evidente intuito de fraudar ou de sonegar. Ainda de acordo com os dispositivos legais acima transcritos, impõese à autoridade lançadora a observância dos parâmetros e condições básicas previstas na legislação de regência em casos de imputação da multa qualificada, que somente poderá ser levada a efeito quando àquela estiver convencida do cometimento do crime (dolo, fraude ou sonegação), devendo, ainda, relatar todos os fatos de forma pormenorizada, possibilitando ao contribuinte a devida análise da conduta que lhe está sendo atribuída e, bem assim, ao procurador de que o delito efetivamente praticado. Em outras palavras, não basta a indicação da conduta dolosa, fraudulenta, a partir de meras presunções e/ou subjetividades, impondo a devida comprovação por parte da autoridade fiscal da intenção prédeterminada do contribuinte, demonstrada de modo concreto, Fl. 1179DF CARF MF Processo nº 19515.720064/201624 Acórdão n.º 2401005.719 S2C4T1 Fl. 11 19 sem deixar margem a qualquer dúvida, visando impedir/retardar o recolhimento do tributo devido. Este entendimento, aliás, encontrase sedimentado no âmbito do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – CARF, conforme se extrai dos julgados com suas ementas abaixo transcritas: MULTA AGRAVADA – Fraude – Não pode ser presumida ou alicerçada em indícios. A penalidade qualificada somente é admissível quando factualmente constatada as hipóteses de fraude, dolo ou simulação. (8ª Câmara do 1° Conselho de Contribuintes – Acórdão n° 10807.561, Sessão de 16/10/2003) (grifamos) MULTA QUALIFICADA – NÃO CARACTERIZAÇÃO – Não tendo sido comprovada de forma objetiva o resultado do dolo, da fraude ou da simulação, descabe a qualificação da penalidade de ofício agravada. (2ª Câmara do 1° Conselho de Contribuintes – Acórdão n° 10245.625, Sessão de 21/08/2002) MULTA DE OFÍCIO – AGRAVAMENTO – APLICABILIDADE – REDUÇÃO DO PERCENTUAL – Somente deve ser aplicada a multa agravada quando presentes os fatos caracterizadores de evidente intuito de fraude, como definido nos artigos 71 a 73 da Lei n° 4.502/64, fazendose a sua redução ao percentual normal de 75%, para os demais casos, especialmente quando se referem à infrações apuradas por presunção. (8ª Câmara do 1° Conselho de Contribuintes – Acórdão n° 10807.356, Sessão de 16/04/2003) (grifamos) Na esteira desse raciocínio, ratificando posicionamento pacífico do então 1º Conselho de Contribuintes, o CARF consagrou de uma vez por todas o entendimento acima alinhavado, editando a Súmula nº 14, determinando que: Súmula CARF nº 14: A simples apuração de omissão de receita ou de rendimentos, por si só, não autoriza a QUALIFICAÇÃO da multa de ofício, sendo necessária a comprovação do evidente intuito de fraude do sujeito passivo Pois bem. Ao meu ver, para aplicar a multa qualificada é necessária a prova da evidente intenção de sonegar ou fraudar, condição imposta pela lei. A prova deve ser material, pois o evidente intuito de sonegação não pode ser presumido. Não basta a prova da falta de recolhimento da contribuição devida, tampouco meros indícios; é necessária que estejam perfeitamente identificadas e comprovadas a circunstância material do fato, com vistas a configurar o evidente intuito de sonegar, relativamente a cada fato gerador do imposto. Assim, é nesse ponto que não concordo com o posicionamento adotado pela autoridade autuante, pois não consigo identificar a intenção dolosa de ocultar, mesmo que considerássemos que a intenção final fosse a diminuição das contribuições a serem pagas. A qualificação da multa não pode atingir aqueles casos em que o sujeito passivo age de acordo com as suas convicções, deixando às claras o seu procedimento, posto que resta evidente a falta de intenção de iludir, em nada impedindo a Fiscalização de apurar os fatos e de firmar suas convicções. Fl. 1180DF CARF MF 20 No presente caso, estamos diante de um evidente equívoco, reconhecido e corrigido (pago) pelo contribuinte, não havendo por parte do auditor fiscal qualquer indicação de conduta dolosa. Dessa forma, entendo que deve ser desqualificada a multa de ofício, reduzindoa para o percentual de 75%. Por todo o exposto, estando o Auto de Infração, sub examine, em dissonância com as normas legais que regulamentam a matéria, VOTO NO SENTIDO DE CONHECER DO RECURSO VOLUNTÁRIO para, no mérito, DARLHE PROVIMENTO, pelas razões de fato e de direito acima esposadas. É como voto. (assinado digitalmente) Rayd Santana Ferreira Fl. 1181DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10840.000221/2010-20
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 07 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Sep 19 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Simples Nacional
Ano-calendário: 2009
SIMPLES. ADESÃO. NECESSIDADE DE FORMALIZAÇÃO DA OPÇÃO.
A formalização da Opção ao Simples é requisito indispensável para a adesão ao regime, não bastando apenas o preenchimento de seus requisitos.
Numero da decisão: 1001-000.710
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado.
(assinado digitalmente)
LIZANDRO RODRIGUES DE SOUSA - Presidente.
(assinado digitalmente)
EDUARDO MORGADO RODRIGUES - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues, José Roberto Adelino da Silva e Lizandro Rodrigues de Sousa (Presidente)
Nome do relator: EDUARDO MORGADO RODRIGUES
1.0 = *:*
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ementa_s : Assunto: Simples Nacional Ano-calendário: 2009 SIMPLES. ADESÃO. NECESSIDADE DE FORMALIZAÇÃO DA OPÇÃO. A formalização da Opção ao Simples é requisito indispensável para a adesão ao regime, não bastando apenas o preenchimento de seus requisitos.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado. (assinado digitalmente) LIZANDRO RODRIGUES DE SOUSA - Presidente. (assinado digitalmente) EDUARDO MORGADO RODRIGUES - Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues, José Roberto Adelino da Silva e Lizandro Rodrigues de Sousa (Presidente)
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ADESÃO. NECESSIDADE DE FORMALIZAÇÃO DA OPÇÃO. A formalização da Opção ao Simples é requisito indispensável para a adesão ao regime, não bastando apenas o preenchimento de seus requisitos. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado. (assinado digitalmente) LIZANDRO RODRIGUES DE SOUSA Presidente. (assinado digitalmente) EDUARDO MORGADO RODRIGUES Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues, José Roberto Adelino da Silva e Lizandro Rodrigues de Sousa (Presidente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 84 0. 00 02 21 /2 01 0- 20 Fl. 118DF CARF MF Processo nº 10840.000221/201020 Acórdão n.º 1001000.710 S1C0T1 Fl. 3 2 Relatório Tratase de Recurso Voluntário (fls. 107 a 113) interposto contra o Acórdão nº 0129.745, proferido pela 2ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Belém/PA (fls. 69 a 73), que, por unanimidade, julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade apresentada pela ora Recorrente, decisão esta consubstanciada na seguinte ementa: "ASSUNTO: SIMPLES NACIONAL Anocalendário: 2009 Ementa A opção pelo Simples Nacional darseá por meio da internet, sendo irretratável para todo o anocalendário Manifestação de Inconformidade Improcedente Sem Crédito em Litígio" Por sua precisão na descrição dos fatos que desembocaram no presente processo, peço licença para adotar e reproduzir os termos do relatório da decisão da DRJ de origem: "Tratase de manifestação inconformidade (fls. 83/87), de 16/06/2014, contra Despacho Decisório (fls. 75/76), de 14/05/2014, ciência em 22/05/2014 (fl. 82), que Indeferiu pedido de inclusão retroativa no Simples Nacional a partir de 01/01/2009 (fls. 01/06). 2. Segundo aquele Despacho Decisório, não consta nenhuma solicitação (pesquisa de fl. 26) de opção pelo Simples Nacional feita durante o ano de 2009. Logo, houve descumprimento do prazo previsto no art 17A da Resolução CGSN n° 004, de 30 de maio de 2007. 3. Inconformado com o indeferimento, o contribuinte apresentou manifestação de inconformidade (fls. 83/87), de 16/06/2014, em que fundamenta suas razões: a) O Contribuinte fez sua opção pela tributação pelo simples nacional no inicio do ano de 2009 e a solicitação de opção não foi processada pelo sistema, ocorre que recolheu todos os seus impostos pelo simples nacional de acordo com a Lei complementar n° 123/2006 alterada pela Lei complementar n° 128/2008, conforme cópia dos DAS recolhidos em anexo, além disso, não existem restrições que o impeça de optar ou recolher seus impostos pelo simples nacional já que atende todas as exigências da Lei. b) Apresenta jurisprudência do Conselho de Contribuintes, que entenderia que o contribuinte que demonstrasse que tinha intenção de optar, deveria ser enquadrado de oficio retroativamente (decisões com relação à lei anterior)." Fl. 119DF CARF MF Processo nº 10840.000221/201020 Acórdão n.º 1001000.710 S1C0T1 Fl. 4 3 Inconformada com a decisão de primeiro grau que indeferiu a sua Manifestação de Inconformidade, a ora Recorrente apresentou Recurso Voluntário sustentando, em breve síntese, que preenchia os requisitos necessários para a adesão ao regime do SIMPLES, teria efetuado a solicitação de Opção, contudo por um erro de fato ela não teria sido processada regularmente. É o relatório. Voto Conselheiro Eduardo Morgado Rodrigues O presente Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, portanto, dele conheço. Primeiramente, devese estabelecer que é responsabilidade exclusiva de cada contribuinte o controle de seus negócios e o cuidado com o fiel cumprimento de todas as normas tributárias em suas atividades cotidianas. Outrossim, ainda que se acredite na boa fé da Recorrente, é obrigação, deste julgador zelar pela aplicação das normas vigentes, não cabendo a ele abertura de exceções não previstas pela lei, sob pena de descumprimento do princípio maior da legalidade. À época dos fatos, o regime do SIMPLES era regulamentado pela Resolução CGSN nº 04/07. Dentre as regras e requisitos definidos, esta resolução estabelecia o rito formal para o ingresso da pessoa jurídica optante ao regime, conforme se transcreve: Art. 7º A opção pelo Simples Nacional darseá por meio da internet, sendo irretratável para todo o anocalendário. § 1º A opção de que trata o caput deverá ser realizada no mês de janeiro, até seu último dia útil, produzindo efeitos a partir do primeiro dia do anocalendário da opção, ressalvado o disposto no § 3º deste artigo e observado o disposto no § 3º do art. 21. Desta forma, resta evidente que para a empresa poder apurar seus tributos pelo regime simplificado não bastava apenas preencher os requisitos necessários ao enquadramento, mas também realizar o ato formal de declarar à fiscalização, dentro do prazo estabelecido, a sua opção de forma irretratável. Por sua vez, às fls. 30 dos autos consta extrato do Histórico gerado pelo sistema do Simples Nacional apontando a inexistência de qualquer solicitação realizada pela Recorrente. Fl. 120DF CARF MF Processo nº 10840.000221/201020 Acórdão n.º 1001000.710 S1C0T1 Fl. 5 4 Outrossim, a Contribuinte não traz aos autos qualquer elemento que demonstre a real tentativa de realizar a Opção tempestivamente e/ou qualquer indício que aponte para a eventual ocorrência de erro por parte dos sistemas da administração fazendária. Destarte, não há qualquer subsídio que justifique a inexistência da solicitação formal pela Opção ou a sua dispensa, não sendo possível reconhecer sequer que a Contribuinte efetivamente tentou aderir ao Simples no mês de Janeiro de 2009. Repisase, ainda que tenha demonstrado estar em dia com suas obrigações e ter passado o período inteiro recolhendo seus tributos como se na sistemática do Simples estivesse, tais circunstâncias não servem para suprir a necessidade de efetiva Opção prévia. Desta forma, não há subsídio para que seja reconhecido o direito da Recorrente ao enquadramento retroativo no Simples Nacional. Em face a todo o exposto, VOTO pelo NÃO PROVIMENTO do Recurso Voluntário, com a consequente manutenção da decisão de origem. (assinado digitalmente) Eduardo Morgado Rodrigues Relator Fl. 121DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 17698.720344/2013-63
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Oct 03 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Oct 16 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2009
RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE. REGIME DE COMPETÊNCIA. STF. REPERCUSSÃO GERAL. APLICAÇÃO OBRIGATÓRIA.
Decisão definitiva de mérito proferida pelo STF na sistemática da repercussão geral, deve ser reproduzida pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais.
O imposto sobre a renda incidente sobre os rendimentos acumulados recebidos até o ano-calendário de 2009 deve ser apurado com base nas tabelas e alíquotas das épocas próprias a que se refiram tais rendimentos tributáveis, calculado de forma mensal, e não pelo montante global pago extemporaneamente.
Numero da decisão: 2401-005.804
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso voluntário para determinar, em relação aos rendimentos recebidos acumuladamente, relativos ao ano-calendário 2009, o recálculo do imposto sobre a renda, com base nas tabelas e alíquotas das épocas próprias a que se refiram tais rendimentos tributáveis, observando a renda auferida mês a mês pelo contribuinte (regime de competência).
(assinado digitalmente)
Miriam Denise Xavier - Relatora e Presidente.
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Miriam Denise Xavier, Cleberson Alex Friess, Andrea Viana Arrais Egypto, Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (suplente convocada), Rayd Santana Ferreira, José Luiz Hentsch Benjamin Pinheiro, Luciana Matos Pereira Barbosa e Matheus Soares Leite.
Nome do relator: MIRIAM DENISE XAVIER
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2009 RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE. REGIME DE COMPETÊNCIA. STF. REPERCUSSÃO GERAL. APLICAÇÃO OBRIGATÓRIA. Decisão definitiva de mérito proferida pelo STF na sistemática da repercussão geral, deve ser reproduzida pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. O imposto sobre a renda incidente sobre os rendimentos acumulados recebidos até o ano-calendário de 2009 deve ser apurado com base nas tabelas e alíquotas das épocas próprias a que se refiram tais rendimentos tributáveis, calculado de forma mensal, e não pelo montante global pago extemporaneamente.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso voluntário para determinar, em relação aos rendimentos recebidos acumuladamente, relativos ao ano-calendário 2009, o recálculo do imposto sobre a renda, com base nas tabelas e alíquotas das épocas próprias a que se refiram tais rendimentos tributáveis, observando a renda auferida mês a mês pelo contribuinte (regime de competência). (assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier - Relatora e Presidente. Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Miriam Denise Xavier, Cleberson Alex Friess, Andrea Viana Arrais Egypto, Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (suplente convocada), Rayd Santana Ferreira, José Luiz Hentsch Benjamin Pinheiro, Luciana Matos Pereira Barbosa e Matheus Soares Leite.
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OMISSÃO DE RENDIMENTOS. Recorrente ROBERTO RODRIGUES GODINHO Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2009 RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE. REGIME DE COMPETÊNCIA. STF. REPERCUSSÃO GERAL. APLICAÇÃO OBRIGATÓRIA. Decisão definitiva de mérito proferida pelo STF na sistemática da repercussão geral, deve ser reproduzida pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. O imposto sobre a renda incidente sobre os rendimentos acumulados recebidos até o anocalendário de 2009 deve ser apurado com base nas tabelas e alíquotas das épocas próprias a que se refiram tais rendimentos tributáveis, calculado de forma mensal, e não pelo montante global pago extemporaneamente. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso voluntário para determinar, em relação aos rendimentos recebidos acumuladamente, relativos ao anocalendário 2009, o recálculo do imposto sobre a renda, com base nas tabelas e alíquotas das épocas próprias a que se refiram tais rendimentos tributáveis, observando a renda auferida mês a mês pelo contribuinte (regime de competência). (assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier Relatora e Presidente. Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Miriam Denise Xavier, Cleberson Alex Friess, Andrea Viana Arrais Egypto, Claudia Cristina Noira Passos da Costa AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 17 69 8. 72 03 44 /2 01 3- 63 Fl. 311DF CARF MF Processo nº 17698.720344/201363 Acórdão n.º 2401005.804 S2C4T1 Fl. 312 2 Develly Montez (suplente convocada), Rayd Santana Ferreira, José Luiz Hentsch Benjamin Pinheiro, Luciana Matos Pereira Barbosa e Matheus Soares Leite. Relatório Tratase de notificação de lançamento de imposto de renda pessoa física IRPF no valor de R$ 42.470,52, acrescido de multa de ofício e juros de mora (fls. 6/8), resultante de revisão da Declaração de Ajuste Anual DAA correspondente ao exercício de 2010, ano calendário de 2009, em virtude de omissão de rendimentos recebidos pelo contribuinte das fontes pagadoras Despachantes Figurelli Ltda, no valor de R$ 1.247,00 e Bigfer – Indústria e Comércio de Ferragens Ltda, no valor de R$ 4.447,00 (tendo sido considerado o correspondente IRRF no valor de R$ 224,74). Foi também apurada a omissão dos rendimentos tributáveis recebidos acumuladamente pelo contribuinte em virtude do processo judicial trabalhista nº 00305.922/920, no valor de R$ 175.114,22. Em impugnação apresentada às fls. 2/5, o contribuinte concorda com a omissão de rendimentos apurada relativamente às fontes pagadoras de CNPJ nºs 87.747.168/000143 e 92.534.593/000194. Com relação à omissão de rendimentos apurada no valor de R$ 175.114,22, informa tratarse de importância recebida nos autos da Ação Trabalhista nº 00305.922/962, com Sentença prolatada referente a 83 meses, cujo valor deve ser diluído no período de 01/01/1985 a 28/02/1992, conforme documentos em anexo. Entende que tais valores são isentos. A DRJ/RJ1, julgou improcedente a impugnação, mantendo o crédito tributário, conforme acórdão 1262.246 de fls. 195/202, assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2010 OMISSÃO DE RENDIMENTOS RECEBIDOS DE PESSOA JURÍDICA. O lançamento é efetuado de ofício quando o contribuinte deixa de informar rendimentos tributáveis recebidos de pessoa jurídica em sua Declaração de Imposto de Renda da Pessoa Física, implicando redução do imposto devido no ajuste anual. RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE. FORMA DE TRIBUTAÇÃO. O total dos rendimentos recebidos acumuladamente pela pessoa física, juntamente com juros e atualização monetária, até 31 de dezembro de 2009, estão sujeitos à incidência do IRPF no mês do recebimento ou crédito, nos exatos termos do art do art. 12 da Lei Tributária nº 7.713, de 1988. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. Consolidase administrativamente o crédito tributário relativo à matéria não impugnada Fl. 312DF CARF MF Processo nº 17698.720344/201363 Acórdão n.º 2401005.804 S2C4T1 Fl. 313 3 Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Cientificado do Acórdão em 13/1/14 (cópia de Aviso de Recebimento AR de fl. 205), o contribuinte apresentou recurso voluntário em 11/2/14, fl. 207, no qual alega que os rendimentos recebidos são isentos, pois deveriam ter sido consideradas as tabelas referentes ao período de 01/01/1985 a 28/02/1992, a que ser referem os rendimentos recebidos acumuladamente em 2009. É o relatório. Voto Conselheira Miriam Denise Xavier, Relatora. ADMISSIBILIDADE O recurso voluntário foi oferecido no prazo legal, assim, deve ser conhecido. INTRODUÇÃO Dentre os diversos fatos geradores que determinaram a lavratura do auto de infração, o sujeito passivo impugnou apenas a parte relativa ao rendimento recebido acumuladamente devido à ação trabalhista. E sobre esta matéria apresentou recurso. RENDIMENTO RECEBIDO EM AÇÃO TRABALHISTA Para o rendimento recebido acumuladamente RRA até anocalendário de 2009, devese observar o disposto na Lei 7.713/98, art. 12, na redação vigente à época do fato gerador: Art. 12. No caso de rendimentos recebidos acumuladamente, o imposto incidirá, no mês do recebimento ou crédito, sobre o total dos rendimentos, diminuídos do valor das despesas com ação judicial necessárias ao seu recebimento, inclusive de advogados, se tiverem sido pagas pelo contribuinte, sem indenização. Vêse, portanto, que o comando legal vigente à época determinava que o imposto incidiria no mês do recebimento dos valores acumulados, utilizandose as tabelas e alíquotas vigentes na época do recebimento dessas parcelas, independentemente do período que deveriam ter sido adimplidos, adotandose como base de cálculo o montante global pago. Contudo, o STF, no julgamento do Recurso Extraordinário RE nº 614.406/RS, em sede de repercussão geral, reconheceu a inconstitucionalidade do art. 12 da Lei nº 7.713, de 1988, quanto à sistemática de cálculo para a incidência do imposto sobre os rendimentos recebidos acumuladamente, por violar os princípios da isonomia e da capacidade contributiva. Tal decisão, afastou o regime de caixa, determinando o regime de competência para o cálculo mensal do imposto sobre a renda devido pela pessoa física, com a Fl. 313DF CARF MF Processo nº 17698.720344/201363 Acórdão n.º 2401005.804 S2C4T1 Fl. 314 4 utilização das tabelas progressivas e alíquotas vigentes à época em que os valores deveriam ter sido pagos. O Regimento Interno do CARF RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 9/6/15, com redação dada pela Portaria MF nº 152, de 3/5/16, dispõe que: Art. 62. [...] § 2º As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. Sendo assim, deve ser adotado por este órgão julgador o entendimento exarado pelo STF e para o cálculo do IRPF incidente sobre os RRA, decorrentes de ação judicial, anocalendário 2009, devese considerar as tabelas e alíquotas das épocas próprias a que se refiram os rendimentos. CONCLUSÃO Ante o exposto, voto por CONHECER do recurso voluntário e, no mérito, DARLHE PROVIMENTO para determinar, em relação aos rendimentos recebidos acumuladamente, relativos ao anocalendário 2009, o recálculo do imposto sobre a renda, com base nas tabelas e alíquotas das épocas próprias a que se refiram tais rendimentos tributáveis, observando a renda auferida mês a mês pelo contribuinte (regime de competência). (assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier Fl. 314DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 15463.721993/2016-52
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Oct 03 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Oct 16 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2014
OMISSÃO DE RENDIMENTOS. DIRF.
A omissão de rendimentos apurada com base em DIRF da fonte pagadora determina a tributação do rendimento omitido.
JURISPRUDÊNCIA. RECURSOS REPETITIVOS E REPERCUSSÃO GERAL.
As decisões desfavoráveis à Fazenda Nacional, se proferidas na forma prevista nos artigos 543-B e 543-C do CPC/1973 ou artigos 1.036 a 1.041 do CPC/2015, vinculam os membros das turmas de julgamento do CARF.
Numero da decisão: 2401-005.798
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, negar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os conselheiros Rayd Santana Ferreira, Andréa Viana Arrais Egypto, Luciana Matos Pereira Barbosa e Matheus Soares Leite, que davam provimento ao recurso.
(assinado digitalmente)
Miriam Denise Xavier - Relatora e Presidente.
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Miriam Denise Xavier, Cleberson Alex Friess, Andrea Viana Arrais Egypto, Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (suplente convocada), Rayd Santana Ferreira, José Luiz Hentsch Benjamin Pinheiro, Luciana Matos Pereira Barbosa e Matheus Soares Leite.
Nome do relator: MIRIAM DENISE XAVIER
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2014 OMISSÃO DE RENDIMENTOS. DIRF. A omissão de rendimentos apurada com base em DIRF da fonte pagadora determina a tributação do rendimento omitido. JURISPRUDÊNCIA. RECURSOS REPETITIVOS E REPERCUSSÃO GERAL. As decisões desfavoráveis à Fazenda Nacional, se proferidas na forma prevista nos artigos 543-B e 543-C do CPC/1973 ou artigos 1.036 a 1.041 do CPC/2015, vinculam os membros das turmas de julgamento do CARF.
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OMISSÃO DE RENDIMENTOS. Recorrente ALEXANDRE DE ARAUJO LESSA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2014 OMISSÃO DE RENDIMENTOS. DIRF. A omissão de rendimentos apurada com base em DIRF da fonte pagadora determina a tributação do rendimento omitido. JURISPRUDÊNCIA. RECURSOS REPETITIVOS E REPERCUSSÃO GERAL. As decisões desfavoráveis à Fazenda Nacional, se proferidas na forma prevista nos artigos 543B e 543C do CPC/1973 ou artigos 1.036 a 1.041 do CPC/2015, vinculam os membros das turmas de julgamento do CARF. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, negar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os conselheiros Rayd Santana Ferreira, Andréa Viana Arrais Egypto, Luciana Matos Pereira Barbosa e Matheus Soares Leite, que davam provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier Relatora e Presidente. Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Miriam Denise Xavier, Cleberson Alex Friess, Andrea Viana Arrais Egypto, Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (suplente convocada), Rayd Santana Ferreira, José Luiz Hentsch Benjamin Pinheiro, Luciana Matos Pereira Barbosa e Matheus Soares Leite. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 46 3. 72 19 93 /2 01 6- 52 Fl. 99DF CARF MF Processo nº 15463.721993/201652 Acórdão n.º 2401005.798 S2C4T1 Fl. 100 2 Relatório Tratase de notificação de lançamento de imposto de renda pessoa física IRPF, fls. 7/10, decorrente de revisão da Declaração de Ajuste Anual (DAA) anocalendário 2014, exercício 2015, que apurou imposto suplementar de R$ 19.234,30, acrescido de juros de mora e multa de ofício, em virtude de omissão de rendimentos recebidos de pessoa jurídica (Petrobras), decorrentes do trabalho, indevidamente considerados como isentos, no valor de R$ 294.575,83, sujeito à tabela progressiva. Em impugnação apresentada às fls. 3/4, o contribuinte alega que os rendimentos lançados não devem ser tributados, por se tratarem de valores pagos a título de abono pecuniário de férias, de que trata o art. 143 da Consolidação das Leis do Trabalho – CLT e indenização de folgas de embarque, que são isentos. A DRJ/BSA, julgou improcedente a impugnação, mantendo o crédito tributário, conforme Acórdão 03074.2527 de fls. 66/71, assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2015 OMISSÃO DE RENDIMENTOS. Não tendo sido comprovado pelo contribuinte que os rendimentos lançados como omissos são isentos ou não tributáveis, deve ser mantida a infração apurada. ISENÇÃO. LEGISLAÇÃO. INTERPRETAÇÃO LITERAL. Interpretase literalmente a legislação tributária que disponha sobre outorga de isenção. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Cientificado do Acórdão em 18/5/17 (documentos de fl. 75), o contribuinte apresentou recurso voluntário em 29/5/17, fls. 79/81, que contém, em síntese: Alega que a Petrobras considerou como rendimento tributável o valor de R$ 225.272,66 referente à indenização de folgas de regime "offshore", após seu desligamento da empresa, conforme contracheque de 08/2014, pois calculou a indenização como se fossem horasextra (que é tributável) ao invés de folgas, que é isento. Por isso foi feito o desconto indevido do imposto de renda. Apesar de solicitado, a Petrobras não retificou a DIRF para indicar tal valor como indenização de folgas. Reconhece que se enganou com relação ao valor de R$ 41.848,22, concordando com o lançamento. Fl. 100DF CARF MF Processo nº 15463.721993/201652 Acórdão n.º 2401005.798 S2C4T1 Fl. 101 3 Aduz que quanto à indenização de folgas o STJ no RESP nº 642872 estabeleceu que: "A impossibilidade do empregado de usufruir desse benefício gera a indenização, porque, negado o direito que deveria ser desfrutado in natura, surge o substitutivo da indenização em pecúnia" [...] Em consequência, não incide imposto de renda sobre essa indenização". Afirma que se for considerada tal verba indenizatória, o valor correto dos rendimentos tributáveis pagos pela Petrobras é de R$ 206.602,93, resultando no valor a ser restituído de R$ 42.715,66. Acrescenta que com base na sua declaração original, recolheu duas cotas de imposto de renda nos valores de R$ 2.404,28 e R$ 2.690,14, os quais solicita a restituição. Requer sejam aceitas suas considerações. É o relatório. Voto Conselheira Miriam Denise Xavier, Relatora. ADMISSIBILIDADE O recurso voluntário foi oferecido no prazo legal, assim, deve ser conhecido. ISENÇÃO Quanto a isenção, assim dispõe o CTN: Art. 111. Interpretase literalmente a legislação tributária que disponha sobre: [...] II outorga de isenção; [...] A Lei 7.713/88, no art. 6º, enumera os rendimentos percebidos por pessoas físicas, inclusive provenientes do trabalho, que são isentos. Dentre os vários incisos do referido art. 6º, não há qualquer menção à denominada " indenização de folgas". O recorrente alega que a matéria discutida nos autos foi objeto de decisão pelo STJ que considerou que não incide imposto de renda sobre as "indenizações de folgas". O Regimento Interno do CARF RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 9/6/15, com redação dada pela Portaria MF nº 152, de 3/5/16, dispõe que: Art. 62. [...] § 2º As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria Fl. 101DF CARF MF Processo nº 15463.721993/201652 Acórdão n.º 2401005.798 S2C4T1 Fl. 102 4 infraconstitucional, na sistemática dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. No caso, a decisão proferida pelo STJ produz efeitos somente sobre as partes daquele processo, naquele caso concreto, não podendo ser reproduzida pelo CARF, cuja função dos conselheiros está vinculada à lei. Apenas as decisões definitivas de mérito, proferidas pelo STJ, na sistemática de recursos repetitivos, devem ser adotadas por este órgão julgador. Sendo assim, não havendo lei ou decisão que vincule o CARF, excluindo as "indenizações de folga" da base de incidência do imposto de renda pessoa física, não há como serem acatados os argumentos do contribuinte nesse sentido. Logo, correto o procedimento fiscal que apurou as diferenças de IRPF devidas. CONCLUSÃO Ante o exposto, voto por conhecer do recurso voluntário e, no mérito, negar lhe provimento. A DRF deverá confirmar se há recolhimentos efetuados pelo contribuinte em DARF relativos ao IRPF anocalendário 2014 que não foram objeto de compensação ou restituição. No caso, tais recolhimentos deverão ser apropriados no presente lançamento. (assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier Fl. 102DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10380.005176/2002-54
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 24 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Oct 05 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Ano-calendário: 1997
COMPENSAÇÃO. AÇÃO JUDICIAL.
Não se homologa a compensação de tributo realizada antes do trânsito em julgado da decisão judicial autorizadora, nos termos do artigo 170-A do Código Tributário Nacional (CTN), aprovado pela Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1.966.
O pagamento de tributo cuja exigibilidade esteja suspensa não gera direito à repetição do indébito enquanto não tiver sido proferida decisão judicial definitiva favorável ao contribuinte.
PROCESSOS ADMINISTRATIVO E JUDICIAL. CONCOMITÂNCIA.
A matéria já suscitada perante o Poder Judiciário não pode ser apreciada na via administrativa.Caracteriza-se a concomitância quando o pedido e a causa de pedir dos processos administrativos e judiciais guardam irrefutável identidade.
AÇÃO JUDICAL. PREVENÇÃO DA DECADÊNCIA.
O crédito tributário deve ser constituído pelo lançamento em razão do dever de oficio e da necessidade de serem resguardados os direitos da Fazenda Nacional contra os efeitos da decadência.
Numero da decisão: 3301-004.823
Decisão:
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Winderley Morais Pereira Presidente
(assinado digitalmente)
Liziane Angelotti Meira - Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Salvador Candido Brandão Junior, Ari Vendramini, Semiramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Winderley Morais Pereira.
Nome do relator: LIZIANE ANGELOTTI MEIRA
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Ano-calendário: 1997 COMPENSAÇÃO. AÇÃO JUDICIAL. Não se homologa a compensação de tributo realizada antes do trânsito em julgado da decisão judicial autorizadora, nos termos do artigo 170-A do Código Tributário Nacional (CTN), aprovado pela Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1.966. O pagamento de tributo cuja exigibilidade esteja suspensa não gera direito à repetição do indébito enquanto não tiver sido proferida decisão judicial definitiva favorável ao contribuinte. PROCESSOS ADMINISTRATIVO E JUDICIAL. CONCOMITÂNCIA. A matéria já suscitada perante o Poder Judiciário não pode ser apreciada na via administrativa.Caracteriza-se a concomitância quando o pedido e a causa de pedir dos processos administrativos e judiciais guardam irrefutável identidade. AÇÃO JUDICAL. PREVENÇÃO DA DECADÊNCIA. O crédito tributário deve ser constituído pelo lançamento em razão do dever de oficio e da necessidade de serem resguardados os direitos da Fazenda Nacional contra os efeitos da decadência.
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Rolim Engenharia Ltda Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Anocalendário: 1997 COMPENSAÇÃO. AÇÃO JUDICIAL. Não se homologa a compensação de tributo realizada antes do trânsito em julgado da decisão judicial autorizadora, nos termos do artigo 170A do Código Tributário Nacional (CTN), aprovado pela Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1.966. O pagamento de tributo cuja exigibilidade esteja suspensa não gera direito à repetição do indébito enquanto não tiver sido proferida decisão judicial definitiva favorável ao contribuinte. PROCESSOS ADMINISTRATIVO E JUDICIAL. CONCOMITÂNCIA. A matéria já suscitada perante o Poder Judiciário não pode ser apreciada na via administrativa.Caracterizase a concomitância quando o pedido e a causa de pedir dos processos administrativos e judiciais guardam irrefutável identidade. AÇÃO JUDICAL. PREVENÇÃO DA DECADÊNCIA. O crédito tributário deve ser constituído pelo lançamento em razão do dever de oficio e da necessidade de serem resguardados os direitos da Fazenda Nacional contra os efeitos da decadência. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 38 0. 00 51 76 /2 00 2- 54 Fl. 236DF CARF MF Processo nº 10380.005176/200254 Acórdão n.º 3301004.823 S3C3T1 Fl. 1.462 2 (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Presidente (assinado digitalmente) Liziane Angelotti Meira Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Salvador Candido Brandão Junior, Ari Vendramini, Semiramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Winderley Morais Pereira. Relatório Por bem descrever os fatos, adoto o relatório elaborado pela decisão recorrida (fls. 40 e seguintes), abaixo transcrito: Contra o sujeito passivo acima identificado foi lavrado o Auto de Infração da contribuição para o Programa de Integração Social PIS, fls. 07/12, para formalização e cobrança do crédito tributário nele estipulado, no valor total de R$ 44.040,06. O feito fiscal originouse da realização de auditoria interna onde foram constatadas irregularidades nos créditos vinculados informados pelo contribuinte nas DCTFs dos 2°, 3° e 4° trimestres de 1997, tendo em vista que não foi comprovado o crédito decorrente do processo judicial n° 96.00489904, conforme "Anexo I — Demonstrativo dos Créditos Vinculados Não Confirmados" (fls. 09/11). Inconformado com a exigência da qual tomou ciência em 18/03/2002, por meio de Aviso de Recebimento — AR (fl. 36), o contribuinte apresentou impugnação em 16/04/2002 (fls. 01/03), alegando que: a Repartição Fiscal não alocou as compensações autorizadas pelo Poder Judiciário, consoante Medida Liminar em Mandado de Segurança deferida no Processo n° 96.00489904, datada de 26/11/1996; a liminar manda compensar com os próximos recolhimentos do PIS, suspendendo a exigibilidade do crédito tributário a título de PIS até o limite de crédito da empresa, referente aos valores pagos indevidamente a título de PIS, nos moldes dos Decretoslei n°s 2.445/88 e 2449/88; compensou os valores recolhidos indevidamente com o PIS vincendo, restando um saldo a compensar no valor de R$ 64.954,96; acosta aos autos uma cópia do deferimento de medida liminar a qual constam todos os elementos necessários à extinção do crédito tributário; Fl. 237DF CARF MF Processo nº 10380.005176/200254 Acórdão n.º 3301004.823 S3C3T1 Fl. 1.463 3 conclui que os valores lançados no auto de infração já foram devidamente compensados, não persistindo débitos para o ora impugnante. A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Fortaleza julgou improcedente, conforme Acórdão nº 0810.112 48 Turma da DRJ/FOR (fls 40 e seguintes), com a seguinte ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇAO PARA O PIS/PASEP Anocalendário: 1997 Ação Judical. Prevenção da Decadência. O crédito tributário deve ser constituído pelo lançamento em razão do dever de oficio e da necessidade de serem resguardados os direitos da Fazenda Nacional, previnindose contra os efeitos da decadência. Multa. Retroatividade Benigna. Tendo em conta a nova redação dada pelo art. 25 da Lei 11.051, de 2004, ao art. 18 da Lei 10.833, de 2003, em combinação com o art. 106, inciso II, alínea "c", do CTN, cancelase a multa de oficio aplicada. Lançamento Procedente em Parte Foi apresentado Recurso Voluntário (fls. 53 e seguintes), no qual a Recorrente informa que possui acórdão transitado em julgado autorizandoa a utilizar créditos de PIS para compensar os créditos ora glosados e defende que a autuação relativa ao presente processo não pode prosperar diante da decisão judicial. Assim, requer que este CARF autorize expressamente a utilização dos créditos reconhecidos com os débitos glosados, dando total provimento ao Recurso Voluntário para declarar a improcedência do auto de infração ora vergastado É o relatório. Voto Conselheira Liziane Angelotti Meira O recurso voluntário é tempestivo e atende aos demais pressupostos legais de admissibilidade e deve ser conhecido. Sobre o requerimento do contribuinte de autorização da utilização dos créditos reconhecidos com os débitos glosados e de cancelamento do Auto de Infração em face de decisão judicial transitada em julgado a seu favor, cumpre observar que a utilização de crédito ainda pendente de decisão judicial definitiva já encontrava na época vedação no art. 170 do CTN e no art. 74 da Lei nº 9.430, de 1996, os quais transcrevemos: Código Tribuntário Nacional Art. 170. A lei pode, nas condições e sob as garantias que estipular, ou cuja estipulação em cada caso atribuir à autoridade Fl. 238DF CARF MF Processo nº 10380.005176/200254 Acórdão n.º 3301004.823 S3C3T1 Fl. 1.464 4 administrativa, autorizar a compensação de créditos tributários com créditos líquidos e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda pública. (grifouse) Lei nº 9.430, de 1996 Art. 74. O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizálo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão. (...) § 12. Será considerada não declarada a compensação nas hipóteses: (...) II em que o crédito: (...) d) seja decorrente de decisão judicial não transitada em julgado; (grifouse) Ademais, não cabe à instância administrativa manifestarse sobre matéria definitivamente decidida pelo Poder Judiciário, em função da concomitância, conforme determina a Súmula no. 1 do CARF: Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial. Portanto, não cabe no presente processo reconhecer ou autorizar matéria já decidida definitivamente pelo Poder Judiciário. Ademais, mantémse o entendimento da decisão de piso de que o lançamento de ofício deve ser realizado diante de decisão judicial com efeito suspensivo para suspender a mora. Havendo decisão integralmente favorável ao contribuinte, o Auto de Infração deve ser cancelado em decorrência da execução da decisão judicial, não da apreciação administrativa. Diante do exposto, proponho manter integralmente a decisão recorrida e voto por negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Liziane Angelotti Meira Fl. 239DF CARF MF Processo nº 10380.005176/200254 Acórdão n.º 3301004.823 S3C3T1 Fl. 1.465 5 Fl. 240DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10580.728901/2014-43
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jul 25 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Sep 11 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2012, 2013
RECURSO VOLUNTÁRIO. PRECLUSÃO TEMPORAL.
Transcorrido o prazo legal para interposição de Recurso Voluntário, a não apresentação acarreta a sua preclusão temporal.
Numero da decisão: 1401-002.746
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, não conhecer do recurso nos termos do voto do relator.
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente
(assinado digitalmente)
Cláudio de Andrade Camerano - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Livia de Carli Germano, Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa, Abel Nunes de Oliveira Neto, Cláudio de Andrade Camerano, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Daniel Ribeiro Silva e Letícia Domingues Costa Braga.
Nome do relator: CLAUDIO DE ANDRADE CAMERANO
1.0 = *:*
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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2012, 2013 RECURSO VOLUNTÁRIO. PRECLUSÃO TEMPORAL. Transcorrido o prazo legal para interposição de Recurso Voluntário, a não apresentação acarreta a sua preclusão temporal.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, não conhecer do recurso nos termos do voto do relator. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente (assinado digitalmente) Cláudio de Andrade Camerano - Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Livia de Carli Germano, Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa, Abel Nunes de Oliveira Neto, Cláudio de Andrade Camerano, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Daniel Ribeiro Silva e Letícia Domingues Costa Braga.
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PRECLUSÃO TEMPORAL. Transcorrido o prazo legal para interposição de Recurso Voluntário, a não apresentação acarreta a sua preclusão temporal. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, não conhecer do recurso nos termos do voto do relator. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Presidente (assinado digitalmente) Cláudio de Andrade Camerano Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Livia de Carli Germano, Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa, Abel Nunes de Oliveira Neto, Cláudio de Andrade Camerano, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Daniel Ribeiro Silva e Letícia Domingues Costa Braga. Relatório Consta nos autos que o processo foi encaminhado a este órgão colegiado nos seguintes termos: AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 58 0. 72 89 01 /2 01 4- 43 Fl. 11298DF CARF MF 2 DESPACHO DE ENCAMINHAMENTO Contribuinte apresentou recurso voluntário somente com a solicitação de juntada. Encaminho para providências e eventual julgamento de perempção. Em apertada síntese, e me reportando somente aos documentos que interessam ao deslinde da questão posta, depreendese dos autos que a Contribuinte teria sido cientificado do Acórdão n. 06053.310, de 28/08/2015 proferido pela DRJ/CTA, na data de 04/04/2016, por meio de seu endereço eletrônico (Caixa Postal), conforme termos abaixo reproduzidos: TERMO DE REGISTRO DE MENSAGEM NA CAIXA POSTAL COMUNICADO O destinatário recebeu mensagem com acesso aos documentos relacionados abaixo por meio de sua Caixa Postal na data de 01/04/2016 11:29:38. Acórdão de Impugnação Demonstrativos de Débitos do Processo Intimação de Resultado de Julgamento Informação Fiscal A data da ciência, para fins de prazos processuais, será a data em que o destinatário efetuar consulta à mensagem na sua Caixa Postal ou, não o fazendo, o 15 (décimo quinto) dia após a data de entrega acima informada. TERMO DE CIÊNCIA POR ABERTURA DE MENSAGEM. COMUNICADO O destinatário teve ciência dos documentos relacionados abaixo por meio de sua Caixa Postal na data de 04/04/2016 08:21:35. Data do registro do documento na Caixa Postal: 01/04/2016 11:29:38 Acórdão de Impugnação Demonstrativos de Débitos do Processo Intimação de Resultado de Julgamento Informação Fiscal TERMO DE ABERTURA DE DOCUMENTO COMUNICADO O Contribuinte acessou o teor dos documentos relacionados abaixo na data 15/09/2016 16:39, pela abertura dos arquivos digitais correspondentes no link Processo Digital, no Centro Virtual de Atendimento ao Contribuinte (Portal eCAC), através da opção Consulta Comunicados/Intimações ou Consulta Processos, os quais já se encontravam disponibilizados desde 01/04/2016. Acórdão de Impugnação Fl. 11299DF CARF MF Processo nº 10580.728901/201443 Acórdão n.º 1401002.746 S1C4T1 Fl. 11.299 3 Demonstrativos de Débitos do Processo Intimação de Resultado de Julgamento Informação Fiscal Encurtando os momentos processuais posteriores, foi emitida carta de cobrança (também para Caixa Postal do Contribuinte), e como não houve resposta foi o processo encaminhado para inscrição em Dívida Ativa, o que foi feito, conforme Termo de Inscrição em Dívida Ativa, acostado aos autos. A Contribuinte ingressou com mandado de segurança, sendo a decisão: "Sob os fundamentos esposados, DEFIRO A LIMINAR, em parte, para declarar nula a decretação de revelia no processo administrativo, restabelecendo o prazo para devida apresentação do recurso administrativo com fulcro no art.5 inciso LV da Constituição Federal, posto que não houve intimação do advogado constituído pelo impetrante na esfera administrativa." As inscrições dos débitos do presente processo foram então devidamente canceladas, ocasião em que a Unidade Origem encaminhou ao Contribuinte a Comunicação SACAT/DRF/LFS N. 265/2017, datada de 21/06/2017: Ref. Acórdão: 06053.310 Pela presente, cientificase o interessado acima qualificado em virtude de decisão em mandado de segurança no curso do processo 3202621.2016.4.01.3300 por meio de cópia em anexo: Acórdão nº 06053.310, emitido pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento (DRJ). Fica o interessado intimado a pagar, no prazo de 30 (trinta) dias, contados a partir da ciência nos termos da legislação em vigor, os débitos constantes do demonstrativo em anexo, sendo facultado recurso ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) no mesmo prazo. [...] Consta nos autos o Aviso de Recebimento de tal comunicação (em AR Comum): Fl. 11300DF CARF MF 4 Em seguida, consta uma solicitação de juntada de documento aos autos, a pedido do Contribuinte: Fl. 11301DF CARF MF Processo nº 10580.728901/201443 Acórdão n.º 1401002.746 S1C4T1 Fl. 11.300 5 Entretanto, o documento a ser juntado, em 26/07/2017, no caso, o Recurso Voluntário, não está nos autos. Por fim, emitiram uma Carta de Cobrança onde se utilizaram de ciência eletrônica, onde consideraram que a Contribuinte foi cientificada por decurso de prazo. Voto Conselheiro Cláudio de Andrade Camerano Reproduzindo o despacho final que consta nos autos: DESPACHO DE ENCAMINHAMENTO Contribuinte apresentou recurso voluntário somente com a solicitação de juntada. Encaminho para providências e eventual julgamento de perempção. Conforme relatoriado, não há recurso voluntário nos autos, de forma que este colegiado reconhece a perda de prazo para apresentação de Recurso Voluntário. É o Voto. Cláudio de Andrade Camerano (assinado digitalmente) Fl. 11302DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 12466.000917/2008-81
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Aug 29 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Sep 27 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Data do fato gerador: 10/03/2008
IMPORTAÇÃO. DANO AO ERÁRIO. OCULTAÇÃO DO REAL ADQUIRENTE. PENA DE PERDIMENTO CONVERTIDA EM MULTA.
Considera-se dano ao Erário à ocultação do real sujeito passivo na operação de importação, infração punível com a pena de perdimento, que é convertida em multa equivalente ao valor aduaneiro, caso as mercadorias não sejam localizadas ou tenham sido consumidas.
MEIOS DE PROVA. PROVA INDICIÁRIA.
A prova de infração fiscal pode realizar-se por todos os meios admitidos em Direito, podendo ser direta ou indireta, assim conceituada aquela que se apóia em conjunto de indícios capazes de demonstrar a ocorrência da infração e de fundamentar o convencimento do julgador, sendo, outro ssim, livre a convicção do julgador.
Numero da decisão: 3302-005.784
Decisão:
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário.
(assinado digitalmente)
Fenelon Moscoso de Almeida - Presidente Substituto
(assinado digitalmente)
Jorge Lima Abud - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Orlando Rutigliani Berri (Suplente convocado), Walker Araujo, Vinicius Guimaraes, Jose Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Diego Weis Junior, Raphael Madeira Abad e Fenelon Moscoso de Almeida. Ausente justificadamente o conselheiro Paulo Guilherme Déroulède.
Nome do relator: JORGE LIMA ABUD
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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Data do fato gerador: 10/03/2008 IMPORTAÇÃO. DANO AO ERÁRIO. OCULTAÇÃO DO REAL ADQUIRENTE. PENA DE PERDIMENTO CONVERTIDA EM MULTA. Considera-se dano ao Erário à ocultação do real sujeito passivo na operação de importação, infração punível com a pena de perdimento, que é convertida em multa equivalente ao valor aduaneiro, caso as mercadorias não sejam localizadas ou tenham sido consumidas. MEIOS DE PROVA. PROVA INDICIÁRIA. A prova de infração fiscal pode realizar-se por todos os meios admitidos em Direito, podendo ser direta ou indireta, assim conceituada aquela que se apóia em conjunto de indícios capazes de demonstrar a ocorrência da infração e de fundamentar o convencimento do julgador, sendo, outro ssim, livre a convicção do julgador.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Fenelon Moscoso de Almeida - Presidente Substituto (assinado digitalmente) Jorge Lima Abud - Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Orlando Rutigliani Berri (Suplente convocado), Walker Araujo, Vinicius Guimaraes, Jose Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Diego Weis Junior, Raphael Madeira Abad e Fenelon Moscoso de Almeida. Ausente justificadamente o conselheiro Paulo Guilherme Déroulède.
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DANO AO ERÁRIO. OCULTAÇÃO DO REAL ADQUIRENTE. PENA DE PERDIMENTO CONVERTIDA EM MULTA. Considerase dano ao Erário à ocultação do real sujeito passivo na operação de importação, infração punível com a pena de perdimento, que é convertida em multa equivalente ao valor aduaneiro, caso as mercadorias não sejam localizadas ou tenham sido consumidas. MEIOS DE PROVA. PROVA INDICIÁRIA. A prova de infração fiscal pode realizarse por todos os meios admitidos em Direito, podendo ser direta ou indireta, assim conceituada aquela que se apóia em conjunto de indícios capazes de demonstrar a ocorrência da infração e de fundamentar o convencimento do julgador, sendo, outro ssim, livre a convicção do julgador. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Fenelon Moscoso de Almeida Presidente Substituto (assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 12 46 6. 00 09 17 /2 00 8- 81 Fl. 5967DF CARF MF 2 Jorge Lima Abud Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Orlando Rutigliani Berri (Suplente convocado), Walker Araujo, Vinicius Guimaraes, Jose Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Diego Weis Junior, Raphael Madeira Abad e Fenelon Moscoso de Almeida. Ausente justificadamente o conselheiro Paulo Guilherme Déroulède. Relatório Trata o presente processo de auto de infração, lavrado em 10/03/2008, formalizando a exigência de multa equivalente ao valor aduaneiro (100%) no valor de R$ 6.057.665,00, pelos fatos descritos a seguir. Conforme documentos em anexo (anexos 01), inicialmente recebemos correspondência da Delegacia da Receita Federal no Chuí, onde a mesma nos comunica que apurou irregularidades em operações de comércio exterior realizada pela fiscalizada. Tais irregularidades caracterizavamse em importações realizadas em valores bem superiores aos limites permitidos para a empresa e em pagamentos irrisórios de imposto de renda em relação ao expressivo volume de importações. Também foi detectada incompatibilidade econômico financeira da empresa para realizar as operações de comércio exterior registradas em nossa base de dados. Em sua correspondência, aquela delegacia nos propõe que seja revisada a habilitação da empresa no RADAR, bem como nos propõe a inclusão da mesma em procedimento especial. Posteriormente, recebemos EMAIL da Inspetoria da Receita Federal em Florianópolis informandonos que ao se analisar duas Declarações de Importações (Dls) registradas pela auditada naquela inspetoria, e por meio de consultas efetuadas no sistema RADAR, foram identificados indícios de prática de irregularidades nas referidas operações, em especial de interposição fraudulenta. Em uma das importações, observouse a existência de etiquetas com o CNPJ da empresa Kinsberg Comércio Importação e Exportação de Tecidos LTDA, a qual encontravase com o seu CNPJ suspenso em virtude de prática de irregularidades em operações de comércio exterior. Em consultado sistema RADAR, a Inspetoria de Florianópolis verificou que .a empresa Kinsberg Comércio Importação e Exportação de Tecidos LTDA possuía uma série de registros de procedimentos especiais abertos, inclusive relativos a prática de ocultação do verdadeiro adquirente das . mercadorias importadas, sendo mencionadas, ainda, importações de produtos cujas marcas têm como representante no Brasil a empresa DASLU. Pelas irregularidades apuradas, a Inspetoria de Florianópolis nos propôs que a empresa fosse incluída em procedimento especial. Cabe ressaltar que a empresa Kinsberg foi declarada inapta ao final do procedimento especial, conforme documento em anexo. Também recebemos da Alfândega do Rio de Janeiro correspondência com proposta de inclusão da empresa em procedimento especial em virtude das seguintes razões: (a) empresa com sede em Vitória/ES; (b) sócios da empresa domiciliados em São Paulo; (c) Declaração do Imposto de Renda dos sócios incompatível com o aumento de capital registrado em 2005 (o capital social saltou de R$ 60.000,00 para R$ 1.560.000,00); (d) falta de capacidade econômicofinanceira da empresa para realizar as operações de comércio exterior registradas em nossa base de dados; (e) indícios de interposição fraudulenta nas operações de comércio exterior realizadas. Fl. 5968DF CARF MF Processo nº 12466.000917/200881 Acórdão n.º 3302005.784 S3C3T2 Fl. 3 3 Conforme determinado pelo Sr. Chefe do Serviço de Fiscalização Aduaneira (SEFIA) da Alfândega do Porto de Vitória, e conforme relatório em anexo, no mês de fevereiro/06 realizamos diligência na empresa, onde foi detectada a falta de capacidade econômicofinanceira da mesma para a realizar as suas operações de comércio exterior, bem como foi detectado que a fiscalizada havia ultrapassado o limite de importações previsto em nossa base de dados. Na referida diligência, após examinarmos as Declarações do Imposto de Renda dos sócios, também foi constatada a falta de capacidade financeira dos sócios para a integralização do Capital Social de R$ 1.500.000,00. Desta forma, propusemos que a empresa fosse incluída em procedimento especial com base na IN/SRF n2 228/02 (art. 1B) e com base na IN/SRF n2 455/04 (art. 14). Acatada a proposta, no dia 11 de maio de 2006 iniciamos o procedimento especial na empresa, conforme MPF e Termo de Início de Fiscalização em anexo (anexos 02). Após recebermos os documentos, iniciamos a análise econômica da auditada. Nessa análise, verificamos nos contratos sociais, que em 28 de março de 2005 houve uma alteração contratual, passando o Capital Social de R$ 60.000,00 para R$ 1.560.000,00 com integralização de R$ 800.000,00 oriundos da conta “Lucros Acumulados e R$ 700.000,00 para ser integralizado pelos sócios no prazo de 24 (vinte e quatro) meses. Posteriormente, em 25 de agosto de 2005, nova alteração contratual foi realizada, passando o Capital Social de R$ 1.560.000,00 para R$ 3.000.000,00 sendo que a diferença (R$ 1.440.000,00) seria integralizada pelos sócios em 05 (cinco) parcelas. Entretanto, ao analisarmos as contas representativas do Patrimônio Líquido (anexos 03), verificamos que a conta referente à distribuição de lucros aos sócios possuía, além dos pagamentos referentes às distribuições de lucros, vários outros registros referentes a outros pagamentos, tais como: (a) pagamento de empréstimos aos sócios; (b) adiantamentos aos sócios; (c) adiantamentos a empregados; (d) pagamento de despesas a terceiros; (e) pagamento de 13a salário. Notamos, também, que os lançamentos referentes à integralização do Capital Social por parte dos sócios, realizados no dia 30 de novembro de 2005, no valor total de R$ 740.000,00, não ocorreu, já que o registro contábil utilizado debita a conta referente a distribuição de lucros e credita a conta referente a capital a realizar. Tal lançamento, na verdade, é um artifício contábil não significando, portanto, o ingresso de recursos monetários na empresa. Desta forma, no quadro abaixo apresentado, o referido valor (R$ 740.000,00) não foi considerado para apuração dos valores do Patrimônio Líquido. Conforme se verifica, é total a falta de capacidade econômica da empresa para realizar as operações de comércio exterior registradas em nossa base de dados. Analisandose o Balanço Patrimonial e o Balancete de Verificação, não localizamos nenhuma conta que indicasse a existência de empréstimos obtidos pela empresa para que a mesma pudesse realizar as expressivas importações evidenciadas no demonstrativo acima. Ainda analisandose as referidas peças contábeis, observamos que não existia a conta fornecedores (indicativo de compras a prazo). Entretanto, notamos a existência no passivo da conta Câmbio Exterior Próprio com a realização de expressivos pagamentos. Desta forma, ficou caracterizada a falta de capacidade econômica da fiscalizada para a realização das operações de comércio exterior registradas em nossa base de dados; Conforme determina o artigo 27 da Lei 10.637 de 30 de dezembro de 2002, “A operação de comércio exterior realizada mediante utilização de recursos de terceiro presumese por conta e ordem deste, para fins de aplicação do disposto nos arts. 77 a 81 da Medida Provisória na 2.15835, de 24 de agosto de 2001". Entretanto, a empresa utilizouse da simulação, já que em todas as operações de comércio exterior ela registrou as importações como se fossem próprias e emitiu nota fiscal de saída de vendas. Tal simulação foi utilizada Fl. 5969DF CARF MF 4 com a finalidade de usufruir o benefício fiscal proporcionado pelo Estado do Espírito Santo, por ser empresa atacadista, conforme documento em anexo (anexos 14), e por realizar operações interestaduais. Tal benefício fiscal caracterizase por um crédito presumido de 11% (onze por cento). A existência de tal simulação provoca danos ao Erário Estadual onde estão localizados os reais adquirentes das mercadorias, já que os reais adquirentes poderão creditar se de 12% (doze por cento) do ICMS ao darem entrada nas mercadorias em seus estabelecimentos e a fiscalizada, ao final, pagará somente 1% (um por cento) de ICMS ao Estado do Espírito Santo, em virtude do benefício fiscal citado. A Gama Comercial Importadora e Exportadora Ltda, ao registrar as importações como se fossem próprias, burla a legislação e aufere vantagens indevidas, as quais também são usufruídas pelos reais adquirentes das mercadorias importadas. A utilização de tal simulação contraria a Constituição Federal, já que a mesma dispõe em seu artigo 155, § 2a, inciso IX, alínea "a”, que o ICMS devido na entrada de mercadoria procedente do exterior cabe ao Estado em que estiver situado o estabelecimento destinatário da mercadoria. Assim, chegase à conclusão de que o estabelecimento principal ou matriz da Gama Comercial Importadora e Exportadora Ltda está localizado na cidade de São Paulo, pois, como se verifica por meio das Declarações de Imposto de Renda dos sócios (anexos 14), os mesmos sempre residiram naquela cidade. Durante o curso da fiscalização, também percebemos que daquela cidade são emanadas as ordens e instruções dos sócios para que sejam realizadas as operações da fiscalizada, administrandoa, assim, diretamente de São Paulo. Esquadrinhandose a nossa base de dados de 01/01/04 até 31/12/06, capturase que todas as mercadorias importadas foram desembaraçadas em recintos alfandegados situados fora do Estado do Espírito Santo, conforme se verifica no demonstrativo “RECINTOS DE DESEMBARAÇOS” (anexos 14). Por fim, cabe destacar que, embora a fiscalizada esteja cadastrada junto à Secretaria de Estado de Fazenda do Espírito Santo como empresa atacadista, ela nunca possuiu no Espírito Santo um galpão para estocagem de mercadorias, conforme se verifica nos contratos sociais. Assim sendo, vêse que, ao se nomear a cidade de Vitória/ES como sede da empresa, tal postura foi mais uma simulação maquinada para se obter os benefícios fiscais proporcionados pelo Estado do Espírito Santo. Ou seja, na presente fiscalização os reais adquirentes das mercadorias importadas são contribuintes do IPI. Assim sendo, a fiscalizada ao simular que ela é a adquirente das mercadorias importadas, deixando de registrar as operações como por conta e ordem, descaracteriza os reais adquirentes das mercadorias importadas da condição de equiparados a estabelecimento industrial, fazendo com que os mesmos deixem de ser contribuintes do IPI. Desta forma, o valor do IPI recolhido pela fiscalizada é bem menor do que aquele que deveria ser recolhido pelos reais adquirentes das mercadorias importadas, já que, ao simular a emissão da nota fiscal de venda, a fiscalizada a emite por um valor que é praticamente igual àquele constante na nota fiscal de entrada, quando o valor real do IPI a ser recolhido seria aquele que incidiría sobre o valor total da operação de venda das mercadorias realizadas pelos reais adquirentes aos seus clientes finais. Em sendo optante do SIMPLES, o contribuinte não poderá se apropriar de créditos relativos ao IPI. Conforme se pode observar nos documentos ora abojados que foram extraídos de nossa base de dados (anexos 14), existem diversas empresas participantes do SIMPLES que utilizaram a fiscalizada para realizar as suas importações. Assim, os valores do IPI creditados pela fiscalizada, em relação às importações de tais empresas, é mais um dano provocado à União. Fl. 5970DF CARF MF Processo nº 12466.000917/200881 Acórdão n.º 3302005.784 S3C3T2 Fl. 4 5 Por fim, também se verifica que a simulação adotada pela fiscalizada causa dano ao Erário Federal na apuração do PIS/PASEP e da COFINS incidentes na importação. Pela Lei Nfl 10.865 de 30/04/04, as empresas tributadas pelo Lucro Real poderão creditarse do valor recolhido na importação referente a tais contribuições, abatendo tal valor quando da apuração do PIS/PASEP e da COFINS incidentes sobre a receita bruta apurada na venda de produtos no mercado interno. A recuperação do PIS/PASEP e da COFINS incidentes na importação, entretanto, não poderá ser utilizada pelas empresas tributadas pelo Lucro Presumido e pelo SIMPLES. Conforme se pode observar no documento citado no item anterior, existem diversas empresas que são tributadas pelo Lucro Presumido e pelo SIMPLES que utilizaram a fiscalizada para realizar as suas importações. Assim, os valores do PIS/PASEP e da COFINS creditados pela fiscalizada, em relação às importações de tais empresas, é mais um dano provocado ao Erário Federal. Por tudo que foi exposto, fica caracterizado o dano ao Erário, já que a Gama Comercial Importadora e Exportadora Ltda não é a real adquirente das mercadorias importadas, devendose, assim, ser aplicado o disposto no artigo 23, inciso V (e seus parágrafos) do DecretoLei 1.455 de 07 de abril de 1976, com as modificações introduzidas pela Lei 10.637 de 30 de dezembro de 2002 (conversão da Medida Provisória N°. 66 de 29 de agosto de 2002). Cientificadas, a contribuinte Gama Comercial importadora e Exportadora Ltda e a devedora solidária Menta & Mellow Comercial Ltda apresentaram impugnação, alegando, em síntese: Gama Comercial Importadora c Exportadora Ltda fls. 1.131 a 1.137, acompanhada dos documentos de fls. 1.138 a 1.176. ü Que em 11 de maio de 2006, iniciouse contra a impugnante o procedimento especial de fiscalização previsto na IN 228/02; ü Que, utilizandose de seu direito de defesa previsto na própria IN, apresentou contraposição, rechaçando tudo que fora levantado pelo Auditor Fiscal; ü Que no dia 7 de janeiro/2008, através do comunicado SECAT/ALF/PORTO VITÓRIA N° 001, chegou ao conhecimento da impugnante o despacho do Sr. Inspetor a respeito do Parecer n° 991/07, o qual expressamente declarou ser aquela representação totalmente insubsistente tomandoa nula; ü Que os autos de infração não estavam numerados, dificultando a identificação de cada um deles no comprot e que não contavam com a assinatura do chefe do setor responsável, conforme previsto no art. 11 do Decreto n° 70.235/72; ü Que através da decisão exarada no Parecer n° 991/07, acabouse com a possibilidade de prosperar qualquer infração porventura levantada por tal relatório; Requer, por fim, seja o auto de infração declarado nulo e insubsistente, bem como seja determinada a anulação das respectivas Representações Penais. Fl. 5971DF CARF MF 6 A empresa Menta & Mellow Comercial Ltda fls. 1.177 a 1.202, acompanhada dos documentos de fls. 1.205 a 1.245. ü Que as conclusões da autoridade fiscal defluem todas de presunções baseadas cm supostos indícios, inexistindo qualquer prova do quanto por ela alegado; ü Que o auditor fiscal é incompetente para aplicar pena de perdimento; ü Que a defendente é parte ilegítima para figurar como devedora solidária do crédito tributário; ü Que a relação da defendente com a atuada é de compra e venda; ü Que a existência de arras confirmatórias do negócio (também conhecidas como “sinal”), vale dizer, de adiantamento, por uma das partes, da prestação que é devida no negócio, é perfeitamente admissível em nosso ordenamento e não pode ser usada como fundamento para a descaracterização das intenções das partes; ü Que inexiste qualquer indicio que autorize o agente fiscalizador a falar em simulação, atribuindo a defendente a falsa qualificação de “real adquirente das mercadorias”; ü Anexa cópia do Acórdão 0710.547 TTurma da DRJ/Florianópolis, fls. 1.225/1.245, onde a defendente foi excluída do pólo passivo naquele processo administrativo fiscal; ü Que o auto de infração em debate tem como base um relatório fiscal que, em entendimento da própria fiscalização da Alfândega do Porto de Vitória, não é capaz de comprovar qualquer irregularidade que supostamente tenha praticado a autuada; ü Que para atribuir responsabilidade a defendente se levou em conta o fato de a documentação contábil da autuada apresentar indícios de irregularidades; ü Que a documentação existente, atestando a operação de compra e venda entre a autuada e a defendente, foi simplesmente desconsiderada por alegada incoerência de dados registrados pela autuada; ü Que o agente fiscal, para sustentar seu posicionamento, valeuse da presunção legal estabelecida no art. 27 da Lei n° 10.637/2002. No entanto, no caso em tela, houve apenas parcial adiantamento de recursos por parte da defendente, cuja finalidade foi simplesmente a de garantir o negócio realizado e não financiar a importação. Requer, diante do exposto, a nulidade do auto de infração por evidente falta de fundamentação e nítido descompasso com a verdade real dos fatos. Não sendo hipótese de nulidade, requer seja o mesmo julgado improcedente cm razão da inexistência de infração imputada à empresa. Fl. 5972DF CARF MF Processo nº 12466.000917/200881 Acórdão n.º 3302005.784 S3C3T2 Fl. 5 7 Em 19 de setembro de 2008, através do Acórdão n° 0714.077, a 2a Turma da Delegacia Regional de Julgamento de Florianópolis (SC), por maioria de votos, considerou procedente o lançamento, mantendo o crédito tributário exigido. Entendeu a Turma que: ü O Auto de Infração foi lavrado por servidor competente e não ocorreu a hipótese de cerceamento do direito de defesa. Se a autoridade administrativa cumpriu todos os preceitos da legislação em vigor, constando a perfeita descrição do fato e os dispositivos legais infringidos, como se verifica nos autos, não procede o argumento de que o Auto de Infração constante no processo é nulo; ü Quanto à alegação de descumprimento de requisito estabelecido no art. 11 do PAF (assinatura do Chefe do Órgão), mister se faz esclarecer que o lançamento em tela foi formalizado por meio de auto de infração (art. 10 do referido Decreto) e não por notificação de lançamento; ü Importante registrar, por oportuno, que a apuração dos fatos e as provas concernentes ao presente processo são autônomas em relação àquelas que embasaram o Parecer n° 991/07 elaborado pelo SEORT/ALFÂNDEGA/PORTO DE VITÓRIA; ü Compulsando as peças que compõem o processo, verificase que a autoridade fiscal carreou aos autos elementos que indicam uma ocultação do real adquirente; ü Por sua vez, a empresa Menta & Mellow Comercial Ltda baseou sua defesa no argumento de que o lançamento estaria assentado em meras suposições, desprovidas de qualquer comprovação material ou mesmo que o ocorrido se referiu a equívoco na contabilidade da empresa importadora (Gama); ü É importante ressaltar que, ainda que os referidos elementos apresentem um caráter de prova indireta, é inequívoca a necessidade de que a interessada, ao contraditar, demonstre não ser a real importadora das mercadorias em questão através das razões e provas que possuir; ü Quanto a empresa Gama Comercial Importadora e Exportadora Ltda, esta construiu sua defesa argüindo a nulidade do auto de infração por inobservância ao art. 11 do Decreto n° 70.235/72 (assinatura do Chefe do Órgão) e no entendimento de que não seria possível a presente autuação em razão da conclusão do Parecer SEORT/ALF/Porto de Vitória n° 991/07 que tomou sem efeito a representação para a caracterização da declaração de inaptidão, temas estes já tratados anteriormente; ü Da análise da legislação sobre o tema em tela, acima transcrita, concluise que a mercadoria importada nas condições previstas no Fl. 5973DF CARF MF 8 inciso V do artigo 23 do DecretoLei n° 1.455/76 caracteriza a infração de “dano ao erário”, sendo a mesma punida com a pena de perdimento que será convertida em multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria quando esta não for localizada ou se a mesma for consumida; ü Configurase a interposição fraudulenta toda vez que uma pessoa, física ou jurídica, apresentase como responsável por uma operação que não realizou, se inteipondo entre determinada parte (no caso o fisco) e outra (no caso, o verdadeiro sujeito passivo responsável pela promoção da entrada da mercadoria no Território Nacional); ü Assim, comprovada a ocorrência da interposição fraudulenta, resta configurado o dano ao Erário. A empresa GAMA SERVICOS E NEGOCIOS LTDA foi cientificada da Decisão da Delegacia Regional de Julgamento, via Aviso de Recebimento, em 09/10/2008 (folhas 2.528). A empresa MENTA & MELLOW COMERCIAL LTDA foi cientificada da Decisão da Delegacia Regional de Julgamento, via Aviso de Recebimento, em 13/10/2008 (folhas 2.534). Contra o acórdão recorrido, a empresa Gama Comercial Importadora e Exportadora Ltda. interpôs recurso voluntário, em 07/11/2008 (folhas 2.537) defendendo especialmente que: ü A decisão seria nula por ter alterado o critério jurídico do lançamento; que acusou a empresa de ter insuficiência de recursos, e não de ocultação do real adquirente; ü Seria nulo o lançamento por tese se baseado em Relatório tornado insubsistente pelo Parecer n° 991/07 elaborado pelo SEORT/Alfândega/Porto de Vitória, referendado pelo Inspetor da Alfândega, não tendo havido motivação para contrapor as conclusões deste; ü Não houve interposição fraudulenta ou ocultação de adquirente. A empresa Menta & Mellow Comercial Ltda interpôs Recurso Voluntário em 11/11/2008 (folhas 2.867). Foi alegado que: ü Da inexistência do dano ao erário público; ü A Recorrente agiu com boa fé no exercício de suas atividades; ü Da invalidade de lançamento fiscal escorado em presunção simples; ü Da incompetência do Auditor Fiscal da Receita Federal para aplicar pena de perdimento; Fl. 5974DF CARF MF Processo nº 12466.000917/200881 Acórdão n.º 3302005.784 S3C3T2 Fl. 6 9 ü Da ilegitimidade de parte em virtude da inexistência de solidariedade passiva; ü Da Violação ao Princípio da Busca da Verdade Material. Em 25 de fevereiro de 2014, a ilustre Turma do CARF decidiu, através da Resolução n° 3202000.190, converter o julgamento em diligência, para que a autoridade preparadora: 1. juntada aos autos a cópia integral do Processo de n° 12466.000172/200770, especialmente a documentação de fls. 1.287 a 1.680 deste, onde consta os contratos de câmbio que comprovariam a capacidade econômica da recorrente, Gama Comercial Importadora e Exportadora Ltda., de acordo com o Parecer n° 991/07; 2. intimada a unidade preparadora para analisar se a documentação de fls. 1.287 a 1.680 do Processo de n° 12466.000172/200770, onde consta os contratos de câmbio a que alude a conta contábil "Câmbio Exterior Próprio", comprovariam ou não a capacidade econômica da recorrente, Gama Comercial Importadora e Exportadora Ltda. Ao fim da instrução processual, as Recorrentes deverão ser intimadas para manifestarse no prazo de 30 (trinta) dias sobre os documentos juntados aos autos em decorrência da diligência. A fiscalização juntou informação fiscal de folhas 5.942 a 5.944 do processo digital. A empresa GAMA SERVICOS E NEGOCIOS LTDA tomou ciência por via eletrônica em 27/01/2015 (folhas 5.948). A empresa MENTA & MELLOW COMERCIAL LTDA tomou ciência por via eletrônica em 27/01/2015 (folhas 5.962). A empresa GAMA SERVICOS E NEGOCIOS LTDA se manifestou de folhas 5.952 a 5.959 do processo digital. A empresa MENTA & MELLOW COMERCIAL LTDA não se manifestou. É o relatório. Voto Conselheiro Jorge Lima Abud – Relator. Da admissibilidade. Fl. 5975DF CARF MF 10 Por conter matéria desta E. Turma da 3a Seção do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais e presentes os requisitos de admissibilidade, conheço do Recurso Voluntário tempestivamente interposto pelo contribuinte, considerando que: Ø A empresa GAMA SERVICOS E NEGOCIOS LTDA foi cientificada da Decisão da Delegacia Regional de Julgamento, via Aviso de Recebimento, em 09/10/2008 (folhas 2.528); Ø A empresa MENTA & MELLOW COMERCIAL LTDA foi cientificada da Decisão da Delegacia Regional de Julgamento, via Aviso de Recebimento, em 13/10/2008 (folhas 2.534). Contra o acórdão recorrido, a empresa Gama Comercial Importadora e Exportadora Ltda. interpôs recurso voluntário, em 07/11/2008. A empresa Menta & Mellow Comercial Ltda interpôs Recurso Voluntário em 11/11/2008 (folhas 2.867). Os recurso são tempestivos. Da controvérsia. No caso em questão, a discussão se cinge aos seguintes pontos: a) A decisão seria nula por ter alterado o critério jurídico do lançamento; que acusou a empresa de ter insuficiência de recursos, e não de ocultação do real adquirente; b) Seria nulo o lançamento por tese se baseado em Relatório tornado insubsistente pelo Parecer n° 991/07 elaborado pelo SEORT/Alfândega/Porto de Vitória, referendado pelo Inspetor da Alfândega, não tendo havido motivação para contrapor as conclusões deste; c) Não houve interposição fraudulenta ou ocultação de adquirente; d) Aplicação do princípio da retroatividade benigna, tal como articulado no Voto Vencido do acórdão recorrido. Das Preliminares. ALTERAÇÃO DO CRITÉRIO DO LANÇAMENTO Após transcrever o artigo 142 do Código Tributário Nacional, o Recorrente empresa Gama Comercial alega às folhas 06 do seu Recurso Voluntário: No caso, foi formulada uma exigência, segundo determinado critério através de todo o procedimento de lançamento, posteriormente, no momento do julgamento o conteúdo do lançamento, especificamente a matéria tributável, foi modificado sem que houvesse motivação para isso. Todo o procedimento fiscalizatório ocorreu no sentido de se comprovar a utilização pela recorrente de recursos de terceiros nas operações de comércio exterior, consequentemente toda sua Fl. 5976DF CARF MF Processo nº 12466.000917/200881 Acórdão n.º 3302005.784 S3C3T2 Fl. 7 11 defesa foi no sentido de se comprovar que nunca se utilizou de recursos de terceiros para subsidiar suas atividades, em seguida o Auditor, encarregado de analisar o procedimento da representação fiscal elaborou o parecer conclusivo. Parecer SEORT 991/07. no sentido de que não houve a utilização de recursos de terceiros nas operações da recorrente. (Grifos próprios do original) Mais adiante, às folhas 07 do seu Recurso Voluntário, a empresa Gama Comercial alega: Houve total afronta ao devido processo legal, nulificando assim seu ato, porquanto lavrou o Auto de Infração após o Parecer conclusivo n° 991/07 (SEORT), no qual julgou pela insubsistência dos motivos ensejadores da Representação Fiscal para Fins de Inaptidão, em cujo parecer constatouse a regularidade das operações realizadas pela recorrente e de que não houve a utilização de recursos de terceiros nas importações realizadas. Ademais, no Auto de Infração, não se verificou qualquer apontamento do I. Auditor Fiscal do SEFIA que indicasse que a recorrente não seria a real adquirente das mercadorias, haja vista que todo o procedimento de fiscalização foi no sentido de se comprovar, ou não, a utilização de recursos próprios na importação. O auto de infração é vago, pois o fiscal que o lavrou não o fundamenta correta e claramente, apenas apensa seu relatório conclusivo que foi considerado nulo pelo Inspetor o qual tentava comprovar que a requerente não possuia recursos próprios e a decisão advinda da Delegacia de Julgamento muda totalmente a descrição dos fatos para emitir seu Acórdão dizendo agora que se trata de ocultacão do real adquirente. E, convenhase, tal fato é muito relevante, pois muda totalmente a situação de interposição fraudulenta que foi tachada à recorrente. (Grifos próprios do original) O pleito da impugnante quer obstaculizar os efeitos da presente ação fiscal sob a alegação de que a empresa importadora já havia sido submetida a um procedimento especial de fiscalização anterior, com base na mesma Instrução Normativa n° 228/02. O argumento esposado pelo impugnante deliberadamente confunde (ou ignora) o objeto da presente ação fiscal com os efeitos próprios da Instrução Normativa n° 228/02. Para aclarar e delimitar os contornos do objeto da presente ação fiscal e dos efeitos próprios da Instrução Normativa n° 228/02, passase a discorrer sobre esse último. ❉ Os efeitos próprios da Instrução Normativa n° 228/02 Fl. 5977DF CARF MF 12 O procedimento especial de fiscalização bastante utilizado pela Receita Federal do Brasil está assim previsto: ❖ Instrução Normativa SRF n° 228/02. Art. 1º As empresas que revelarem indícios de incompatibilidade entre os volumes transacionados no comércio exterior e a capacidade econômica e financeira evidenciada ficarão sujeitas a procedimento especial de fiscalização, nos termos desta Instrução Normativa. § 1º O procedimento especial a que se refere o caput visa a identificar e coibir a ação fraudulenta de interpostas pessoas em operações de comércio exterior, como meio de dificultar a verificação da origem dos recursos aplicados, ou dos responsáveis por infração à legislação em vigor. § 2º No caso de importação realizada por conta e ordem de terceiro, conforme disciplinado na legislação específica, o controle de que trata o caput será realizado considerando as operações e a capacidade econômica e financeira do terceiro, adquirente da mercadoria. (...) Da Aplicação do Procedimento Especial Art. 3º Cabe ao titular da unidade da SRF de fiscalização aduaneira com jurisdição sobre o domicílio fiscal do estabelecimento matriz da empresa determinar o início da ação fiscalizadora, mediante expedição de Mandado de Procedimento Fiscal (MPF). Parágrafo único. Considerados a conveniência da administração e os recursos disponíveis, o Superintendente Regional da Receita Federal poderá designar outra unidade da região fiscal para conduzir o procedimento especial previsto nesta Instrução Normativa. (...) Art. 7º Enquanto não comprovada a origem lícita, a disponibilidade e a efetiva transferência, se for o caso, dos recursos necessários à prática das operações, bem assim a condição de real adquirente ou vendedor, o desembaraço ou a entrega das mercadorias na importação fica condicionado à prestação de garantia, até a conclusão do procedimento especial. Destacase que o procedimento especial de fiscalização disciplinado na IN SRF n° 228/02 tem por foco a EMPRESA, sendo aplicado sobre a matriz da empresa fiscalizada. A unidade da Receita Federal do Brasil responsável pelo desenvolvimento deste procedimento é aquela que tenha jurisdição sobre a cidade na qual se localize a matriz da empresa. O fato que propicia o implemento do procedimento especial de fiscalização disciplinado pela Instrução Normativa n° 228/02 são indícios de incompatibilidade entre os volumes transacionados no comércio exterior e a capacidade econômica e financeira da empresa importadora, consoante o estipulado em seu artigo 1º. Por conseguinte, caso detectados esses indícios, serão implementados efeitos próprios da Instrução Normativa n° 228/02, tal qual estipulado em seu artigo 7º: · a partir do momento em que é iniciado o procedimento da IN SRF n° 228/02, todas as mercadorias posteriormente importadas pela empresa sujeita ao procedimento, EM TODO O TERRITÓRIO NACIONAL, serão retidas pela Receita Federal do Brasil; Fl. 5978DF CARF MF Processo nº 12466.000917/200881 Acórdão n.º 3302005.784 S3C3T2 Fl. 8 13 · o desembaraço ou a entrega das mercadorias na importação fica condicionado à prestação de garantia, até a conclusão do procedimento especial. Portanto, os efeitos próprios da Instrução Normativa n° 228/02 são procedimentos atinentes ao desembaraço aduaneiro, cuja competência pelo seu implemento em última análise cabe ao Sr. Inspetor de Alfândega. Toda e qualquer mercadoria importada antes da instauração do procedimento, mas ainda não desembaraçada e entregue à empresa, será retida. Caso a empresa deseje desembaraçar alguma Declaração de Importação, poderá fazêlo mediante prestação de garantia. A seguir o quadro comparativo entre os mencionados procedimentos especiais: ❉ O objeto do presente Auto de Infração O objeto do presente Auto de Infração não diz respeito à procedimentos atinentes ao desembaraço aduaneiro entrega das mercadorias na importação condicionada à prestação de garantia –. O objeto do presente Auto de Infração diz respeito à: · constatação pela fiscalização de uma conduta ilícita por parte do importador – a não comprovação da origem, disponibilidade e transferência de recursos empregados na importação – conduta tipificada no §2º, do artigo 23 do Decreto Lei n° 1.455/76; · aplicação de uma sanção – a multa equivalente ao valor aduaneiro (100% do V.A.) em substituição à pena de perdimento (§3º, do artigo 23 do Decreto Lei n° 1.455/76 ) Fl. 5979DF CARF MF 14 Percebam o seguinte: · o objeto do procedimento especial de fiscalização estipulado na Instrução Normativa n° 228/02 é a incompatibilidade entre os volumes transacionados no comércio exterior e a capacidade econômica e financeira da empresa importadora; · o objeto tanto da presente ação fiscal quanto da declaração de inaptidão da inscrição da pessoa jurídica no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas – CNPJ é a não comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados nas operações de importação. Portanto, são fatos dispares que põe por terra a argumentação esposada na impugnação. No mais, há que se ressaltar a distinção de competências entre os procedimentos, a saber: a) Instauração do procedimento especial de fiscalização com base na Instrução Normativa n° 228/02, cuja competência fica a cargo do Sr. Inspetor de Alfândega; b) No caso de mercadoria desembaraçada consumida, revendida ou não localizada, o lançamento da multa equivalente ao valor aduaneiro (100% do V.A.), e uma vez esse lançamento impugnado a competência para o seu julgamento fica a cargo da Delegacia Regional de Julgamento; e c) A declaração de inaptidão da inscrição da pessoa jurídica no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas – CNPJ, com base no §1º Fl. 5980DF CARF MF Processo nº 12466.000917/200881 Acórdão n.º 3302005.784 S3C3T2 Fl. 9 15 do artigo 81 da Lei n° 9.430/96, cuja competência fica a cargo do Delegado da Receita Federal do Brasil da circunscrição da Matriz da empresa. O caso em análise diz respeito ao item (2) competência para o julgamento da multa equivalente ao valor aduaneiro (100% do V.A.) a cargo da Delegacia Regional de Julgamento. Assim como o julgamento no âmbito da Delegacia Regional de Julgamento não interfere nos demais procedimentos, a recíproca é verdadeira, pois se tratam de competências distintas. O próprio Acórdão de Impugnação comunga com esse entendimento, ao afirmar que: Importante registrar, por oportuno, que a apuração dos fatos e as provas concernentes ao presente processo são autônomas em relação àquelas que embasaram o Parecer n° 991/07 elaborado pelo SEORT/ALFÂNDEGA/PORTO DE VITÓRIA; Um breve comentário a respeito da declaração de inaptidão da inscrição da pessoa jurídica no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas – CNPJ: este Relator advoga que se trata de um ato discricionário, onde o Delegado da Receita Federal do Brasil da circunscrição da Matriz da empresa possui uma margem para avaliar as consequências e efeitos do ato, mesmo porque o legislador não estabeleceu quaisquer parâmetros. Uma empresa que possui um número pequeno de operações de importação sem compravação da origens dos recursos e instalações, ainda que parcas, e com empregados deve ter um tratamento diverso daquela que não comprove qualquer origem de suas operações de importação e não possua nenhuma estrutura e sem empregados. O que se quer enfatizar é que a declaração de inaptidão da inscrição da pessoa jurídica no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas – CNPJ necessita de um critério, uma dosagem, que só a partir da análise da realidade constatada será possível se auferir. Feito esse adendo, a exigência da multa equivalente ao valor aduaneiro (100%), a partir da incidência do §2° c/c §3° do artigo 23 do Decreto Lei n° 1.455/76, tem por gênese o Lançamento Vinculado por parte da autoridade fiscal e se submete ao rito do Procedimento Administrativo Fiscal, Decreto n° 70.235/72. Portanto, são esferas distintas e independentes, não podendo a decisão de uma interferir na outra, porque possuem critérios de avaliação distintos quanto aos seus resultados. NECESSIDADE DE REABERTURA DE PRAZO PARA DEFESA DIANTE DA MODIFICAÇÃO DO LANÇAMENTO AUSÊNCIA CERCEAMENTO DE DEFESA É alegado às folhas 08 e 09 do Recurso Voluntário pela empresa Gama Comercial: Em respeito aos princípios do contraditório, da motivação, da ampla defesa, do devido processo legal e da segurança jurídica, Fl. 5981DF CARF MF 16 eventual mudança de motivação do ato de lançamento inicial DEVE impor o reconhecimento de ofício da nufídade do Lançamento ou do Auto de Infração, demandando obrigatória lavratura de NOVA Notificação de Lançamento ou de Auto de Infração, observando os prazos decadendais e o direito de defesa; nunca a correção. A fase de julgamento examinada somente a legalidade do lançamento tributário, especialmente sobre a relação de pertinência entre os elementos contidos na Notificação de Lançamento ou no Auto de Infração, a situação fática concreta atribuível ao sujeito passivo e o seu embasamento jurídico, por meio da observância dos preceitos constitucionais e legais. Não há que se confundirem as funções administrativa (lavratura da Notificação de Lançamento ou do Auto de Infração) e executiva (diligências e providências pertinentes à retificação da Notificação de Lançamento ou do Auto de Infração), com a função de julgamento (Decisão acerca da legitimidade do lançamento tributário). Aos órgãos de julgamento compete a função de decidir a lide processual administrativa, já que sua competência é haurida pelo art 5, incisos LV e LV1, ao passo que a da autoridade lançadora tem fundamento no art 142 do CTN e no poder/dever de tributação constitucional. Assim, a autoridade administrativa ou mantem a Notificação de Lançamento ou o Auto de Infração (de forma total ou parcial) ou decretando a respectiva insubsistência e inerente cancelamento dos débitos fiscais. Para discorrer sobre a questão levantada, é mister responder a duas indagações: 1. Qual a exigência discutida no presente Auto de Infração? 2. Qual o seu fato gerador? A resposta a essas duas singelas questões demonstram a absoluta incongruência da argumentação esposada na impugnação, bem como da jurisprudência administrativa por ela transcrita. A exigência discutida no presente Auto de Infração é a multa equivalente ao valor aduaneiro (§3º, do artigo 23 do Decreto Lei n° 1.455/76) decorrente da substituição da pena de perdimento por dano ao Erário, em função da prática de interposição fraudulenta de terceiros ( inciso V, §2º do artigo 23 do Decreto Lei n° 1.455/76). E então se segue a outra questão: qual o fato gerador da pena de perdimento ou da multa equivalente ao valor aduaneiro? E a resposta categórica salta aos olhos: Não há o que se falar em fato gerador para pena de perdimento ou multa equivalente ao valor aduaneiro, porque a exigência discutida, embora proveniente de um lançamento, na sua gênese está presente um ato ilícito aduaneiro, enquanto que o fato gerador é uma atividade lícita reveladora de riqueza. Fl. 5982DF CARF MF Processo nº 12466.000917/200881 Acórdão n.º 3302005.784 S3C3T2 Fl. 10 17 A pena de perdimento, pautada no artigo 23 do DecretoLei nº 1.455/76, não possui natureza tributária. Sua finalidade é dispare da arrecadação de tributos. A aplicação da pena de perdimento tem por propósito a vedação que determinadas mercadorias cheguem ao mercado interno, seja pelo modo ilícito que ocorreu a sua importação, seja pela própria natureza da mercadoria importada de circulação proibida. A natureza jurídica da pena de perdimento é de sanção da espécie administrativa, proveniente do exercício do poder de polícia pela fiscalização aduaneira O conceito de tributo, esculpido no artigo 3º do Código Tributário Nacional, assim determina: Art. 3º Tributo é toda prestação pecuniária compulsória, em moeda ou cujo valor nela se possa exprimir, que não constitua sanção de ato ilícito, instituída em lei e cobrada mediante atividade administrativa plenamente vinculada. (Grifo Nosso) O fato gerador é o instituto responsável pela natureza jurídica específica do tributo, a luz do caput do artigo 4º do Código Tributário Nacional. Fato gerador necessariamente possui natureza dispare de ato ilícito. Fl. 5983DF CARF MF 18 Dar tratamento tributário a pena de perdimento oriunda de ato ilícito (dano ao Erário) é subverter o próprio conceito lapidar de tributo atribuído pelo artigo 3º do Código Tributário Nacional. Muitos se pegam na letra do artigo 96 do Código Tributário Nacional para dar uma conotação de infração tributária à pena de perdimento. Tributo não advém de prática de ato ilícito. Tributo não é sanção. Tributo não possui sua gênese a partir da violação do direito de alguém; não possui natureza de reparação. A gênese de um tributo é um fato gerador, jamais um ato ilícito que acarreta a aplicação da pena de perdimento. Entendese que não observar essa interpretação é violar o rigor conceitual do artigo 3º do Código Tributário Nacional ao definir tributo: ... que não constitua sanção de ato ilícito. Pena de perdimento decorre de ato ilícito, logo não pode ter tratamento de tributo. A similaridade reside que ambas as condutas são tipificadas, portanto definidas em Lei. A mesma Lei que elege a conduta dita seus efeitos caso praticada por um sujeito de direito. Contudo, ao se negar a distinção da natureza jurídica entre a incidência da multa equivalente ao valor aduaneiro (100% do V.A.) em substituição à pena de perdimento e de tributo, sem ao menos atentar para suas respectivas gêneses, deturpase conceitos cristalizados que o legislador quis separar: · A gênese da relação jurídico tributária é uma conduta comissiva, uma PRÁTICA LEGAL e incentivada do ponto de vista sócio econômico, na medida em que é um fato revelador de riqueza, que o Estado legitimamente se apropria de um quinhão; · A gênese da pena de perdimento é uma conduta que pode ser tanto omissiva quanto comissiva e possui natureza jurídica de ato ilícito. Uma PRÁTICA REPUDIADA do ponto de vista jurídico, que o legislador entendeu por bem NÃO TOLERAR. A relação jurídico tributária, cujo objeto é o tributo, por gênese um ato lícito, definido em Lei como fato gerador. A multa equivalente ao valor aduaneiro, exigida no presente Auto de Infração, tem por gênese um ato ilícito cuja a sanção é a pena de perdimento. Fl. 5984DF CARF MF Processo nº 12466.000917/200881 Acórdão n.º 3302005.784 S3C3T2 Fl. 11 19 As consequências dessa distinção são bem palpáveis quanto aos efeitos jurídicos: Para complementar a exposição, transcrevese os artigos 94 e 95 do Decreto Lei n° 37/66: Art.94 Constitui infração toda ação ou omissão, voluntária ou involuntária, que importe inobservância, por parte da pessoa natural ou jurídica, de norma estabelecida neste DecretoLei, no seu regulamento ou em ato administrativo de caráter normativo destinado a completálos. § 1º O regulamento e demais atos administrativos não poderão estabelecer ou disciplinar obrigação, nem definir infração ou cominar penalidade que estejam autorizadas ou previstas em lei. § 2º Salvo disposição expressa em contrário, a responsabilidade por infração independe da intenção do agente ou do responsável e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato. Art.95 Respondem pela infração: I conjunta ou isoladamente, quem quer que, de qualquer forma, concorra para sua prática, ou dela se beneficie; (...) V conjunta ou isoladamente, o adquirente de mercadoria de procedência estrangeira, no caso da importação realizada por sua conta e ordem, por intermédio de pessoa jurídica importadora. (Incluído pela Medida Provisória nº 2.15835, de 2001) Fl. 5985DF CARF MF 20 VI conjunta ou isoladamente, o encomendante predeterminado que adquire mercadoria de procedência estrangeira de pessoa jurídica importadora. (Incluído pela Lei nº 11.281, de 2006) (Grifo e negrito nossos) Esse arrazoado tem por objetivo demonstrar a incongruência da argumentação analisada, por invocar fundamentos próprios do Código Tributário Nacional. AUSÊNCIA DE MOTIVAÇÃO PARA MODIFICAR O LANÇAMENTO É alegado às folhas 13 do Recurso Voluntário da empresa Gama Comercial: No Auto de Infração constou que a penalidade foi aplicada à recorrente em razão da conclusão do I. Auditor Fiscal ao término do procedimento especial de fiscalização previsto náV IN/SRF n° 228/02, o qual resultou na proposta de Representação para Fins de Inaptidão do CNPJ da empresa. FRISESE que o enquadramento utilizado pelo I. Auditor Fiscal na lavratura do Auto de Infração decorreu de meras ilações, as quais foram todas refutadas pela recorrente por ocasião da apresentação da contraposição, inclusive sendo apreciada pela autoridade competente, qual analisou toda a defesa e os documentos apresentados sendo que, ao final, concluiu através do Parecer n° 991/07 (SEORT), que não ocorreu as irregularidades apontadas pelo I. Auditor Fiscal, razão pela qual julgou pela insubsistência daquelas alegações que motivaram o ato. Portanto, concluise, que o I. Auditor Fiscal CONDENOU a recorrente contrariamente ao resultado final daquele processo administrativo, o qual foi devidamente apreciado pela autoridade competente para tal. Ou seja, o auto de Infração jamais podería ter sido lavrado haja vista que os motivos que ensejaram aquela autuação foram julgados INSUBSISTENTES pelo Inspetor da Alfândega do Porto de Vitória, que tomou NULA toda a atuação realizada pelo I. Auditor Fiscal no procedimento especial de fiscalização. (Grifos próprios do original) Boa parte da argumentação apresentada já foi analisada em tópicos anteriores. A argumentação referente ao Parecer 991/07 SEORT se confunde com o mérito e lá será analisada. Do Mérito. O EXERCÍCIO DOS CONTROLES ADUANEIROS Para a instauração de Ação Fiscal há a necessidade de se selecionar a empresa a ser fiscalizada. Para que as chances de acerto na escolha da empresa a ser fiscalizada sejam maiores, é recomendável que a seleção se realize a partir de algumas das seguintes fontes: ● Representações Externas Fundamentadas Fl. 5986DF CARF MF Processo nº 12466.000917/200881 Acórdão n.º 3302005.784 S3C3T2 Fl. 12 21 Devem ser valorizadas as representações externas que já tragam os elementos indiciários que as fundamentem. Não devem ser confundidas com as demandas externas requisitórias, às quais devem ser encaminhadas para a fiscalização sem passar por crivo de seleção, passando apenas por eventual complementação. ● Representações Internas Geralmente, são representações de alta qualidade, elaboradas por servidores da RFB. Normalmente já vêm instruídas com os elementos indiciários. Costumam ser oriundas da Habilitação, da Fiscalização em zona secundária ou do Despacho Aduaneiro. ● Seleção Interna É o emprego de técnicas de cruzamento de informações fiscais e aduaneiras visando identificar um conjunto de empresas que possuam maior probabilidade de estar atuando como interposta pessoa. A seguir temos uma representação dos sistemas de informações disponibilizados pelas diferentes instâncias do controle aduaneiro durante as operações de importação, os quais acumulam informações que podem ser utilizadas na seleção interna: Além das informações obtidas durante o controle aduaneiro, temos várias outras que são oriundas dos sistemas de fiscalização e arrecadação de tributos internõsr Estas podem ser conjugadas com as informações de origem aduaneira, potencializando um aumento da qualidade e efetividade da seleção interna. A seleção interna na área da Interposição Fraudulenta normalmente considera diversos aspectos de uma empresa como a sua regularidade fiscal, rendimentos dos seus sócios, número de funcionários, etc., sendo considerado um trabalho de certa complexidade. Fl. 5987DF CARF MF 22 Normalmente não utiliza qualquer informação externa como denúncias ou representações, apenas informações contidas nos bancos de dados da RFB; visando a análise dos principais componentes de risco, tais como: · Logística: tipo de mercadoria, embalagem, rota, via de transporte, país de procedência; · Relativa à Transação Comercial: país de aquisição, forma de pagamento, marca x origem. · Componente Relativa à Qualidade dos Importadores · Estrutural: Condições financeiras para a realização das operações, sócios com conhecimento do negócio, condições financeiras e patrimoniais compatíveis; · Comportamental: Relacionada ao histórico de indícios ou infrações aduaneiras, tributárias, administrativas, penais. · Componente Relativa à Qualidade dos Terceiros Intervenientes; · Estrutural: Localização do domicílio em comparação à área de atuação; · Comportamental: Relacionada ao histórico de envolvimento com infrações aduaneiras, tributárias, administrativas, penais, ou indícios. A ausência de informação sobre o adquirente ou o encomendante do bem importado no registro da Declaração de Importação, prejudica o exercício efetivo dos órgãos responsáveis pelos controles aduaneiros. O CONCEITO DE INTERPOSIÇÃO EM OPERAÇÃO DE IMPORTAÇÃO A função da sólida construção jurisprudencial é fornecer critérios precisos para a equânime e indistinta aplicação da Lei. O dicionário eletrônico Houaiss, fornece uma definição precisa da locução interposição, que se adéqua ao contexto aqui a ser evidenciado: ato ou efeito de interpor(se) Locuções i. de pessoa jur substituição intencional por terceiro, num processo simulatório, do verdadeiro interessado num ato jurídico. Fonte: (http://houaiss.uol.com.br/busca?palavra=interposi%25C3%25A7%25C3%25A3o, em 01/08/15) A expressão “interposição fraudulenta” foi cunhada pela primeira vez em nosso Sistema Jurídico na Medida Provisória n° 66/2002. Para colher o exato alcance que pretendeu dar o legislador à citada expressão é necessário comparar termos semelhantes e seus respectivos significados. Fl. 5988DF CARF MF Processo nº 12466.000917/200881 Acórdão n.º 3302005.784 S3C3T2 Fl. 13 23 Aurélio Buarque de Holanda conceitua “interposição de pessoa” como “simulação que consiste em ocultar o verdadeiro interessado num ato jurídico, fazendo aparecer um terceiro em seu lugar”. No Vocabulário Jurídico, De Plácido e Silva, definese interposição como meterse de permeio, colocarse entre. É a intervenção de uma pessoa em negócio alheio, por ordem de seu dono ou a mandado dele. A pessoa interposta, com o fito de cumprir ou realizar aquilo que o ordenante ou mandante não pode fazer, é colocada ou posta entre este e um terceiro. A interposta pessoa nada mais é que aquela que executa um ato jurídico ou uma série de atos jurídicos, a mando ou ordem de alguém. O ato jurídico, objeto da presente análise, é justamente a operação de importação maculada pela prática de interposição fraudulenta de terceiros. Portanto, um ilícito aduaneiro. O ato de se interpor em operação de importação, pressupõe necessariamente a existência de dois participes: 1. O importador ➞ aquele que se apresenta às autoridades aduaneiras como responsável pela nacionalização da mercadoria. Importador é aquele que promove a entrada do bem no território nacional. Há dois pressupostos básicos para se caracterizar o importador: a) deve estar devidamente HABILITADO no Sistema SiscomexRADAR; b) é aquele que efetua o registro da Declaração de Importação em seu nome. 2. O sujeito passivo oculto (ou responsável pela operação de importação) ➞ aquele que se vale do importador para obter a nacionalização da mercadoria à margem dos órgãos responsáveis pelos controles aduaneiros. O sujeito passivo oculto é aquele que não pode ou não quer promover a operação de importação em seu próprio nome. Por isso se vale outro ( o importador ) para obter produto importado no mercado interno. Fl. 5989DF CARF MF 24 É de se frisar que é perfeitamente possível, à luz da legislação aplicável, que terceiro utilize o importador para obter produto importado no mercado interno. A legislação prevê duas formas de identificar o terceiro (REAL COMPRADOR no mercado interno ) responsável pela importação: I. modalidade de "importação por conta e ordem de terceiros"; e II. modalidade de "importação por encomenda". Não se valendo dessas duas modalidades de importação, fica caracterizada a seguinte situação: Ø o REAL COMPRADOR no mercado interno (sujeito passivo oculto) obtém a nacionalização do bem importado, por intermédio do importador interposto, sem a adoção formas previstas na legislação aplicável, permanecendo à margem dos órgãos responsáveis pelos controles aduaneiros. Fl. 5990DF CARF MF Processo nº 12466.000917/200881 Acórdão n.º 3302005.784 S3C3T2 Fl. 14 25 ❉ A normatização do conceito de interposição fraudulenta de terceiros em operações de importação. Coube ao artigo 59 da Lei n° 10.637/02, normatizar o conceito de interposição fictícia de pessoas para a área aduaneira, denominandoo de interposição fraudulenta de terceiros. O referido artigo alterou a redação do artigo 23, do DecretoLei nº 1.455, de 07 de Abril de 1976, que define as infrações que causam dano ao Erário, acrescentandolhe o inciso V, além de quatro novos parágrafos. ❖ Decreto Lei n° 1.455/76: Art 23. Consideramse dano ao Erário as infrações relativas às mercadorias: (...) V estrangeiras ou nacionais, na importação ou na exportação, na hipótese de ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros.(Incluído pela Lei nº 10.637, de 30.12.2002) § 1o O dano ao erário decorrente das infrações previstas no caput deste artigo será punido com a pena de perdimento das mercadorias. (Incluído pela Lei nº 10.637, de 30.12.2002) § 2o Presumese interposição fraudulenta na operação de comércio exterior a não comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados.(Incluído pela Lei nº 10.637, de 30.12.2002) § 3o As infrações previstas no caput serão punidas com multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria, na importação, ou ao preço constante da respectiva nota fiscal ou documento equivalente, na exportação, quando a mercadoria não for localizada, ou tiver sido consumida ou revendida, observados o rito e as competências estabelecidos no Decreto no 70.235, de 6 de março de 1972. (Redação dada pela Lei nº 12.350, de 2010) § 4o O disposto no § 3o não impede a apreensão da mercadoria nos casos previstos no inciso I ou quando for proibida sua importação, consumo ou circulação no território nacional.(Incluído pela Lei nº 10.637, de 30.12.2002) Deve ser feita uma observação. No inciso V, do artigo 23 do Decreto Lei n° 1.455/76, o legislador trata da mesma forma as seguintes expressões: I. sujeito passivo oculto aquele que importa o bem através de um importador interposto; II. real comprador aquele que adquire o bem importado através de importador interposto no mercado interno; e III. responsável pela operação (importação) aquele que mesmo não adquirido o bem importado no mercado interno, exerce o "Domínio do Fato" sobre a operação de importação. Essas expressões ao serem usadas pelo legislador como sinônimas, retratam a mesma pessoa: o terceiro no mercado interno (dentro do território nacional) que se vale de um importador interposto para obter a nacionalização de um bem, à margem dos órgãos responsáveis pelos controles aduaneiros. Fl. 5991DF CARF MF 26 ❉ Formas de constatação da existência do sujeito passivo oculto Existem, a princípio, duas formas de constatação da existência do sujeito passivo oculto: · Por AÇÃO DIRETA – A fiscalização evidencia a existência e identifica o sujeito passivo oculto a partir de duas situações: 1. Verificação de que a fonte dos recursos aplicados na operação de comércio exterior advém de terceiro; ou 2. Verificação que terceiro foi de fato o responsável pela operação em comércio exterior (possuiu/exerceu o “domínio do fato” sobre a transação), sendo o importador um instrumento para obter o bem importado. Em ambos os casos, o terceiro deveria se identificar aos órgãos responsáveis pelos controles aduaneiros e assim não procedeu. · Por AÇÃO INDIRETA – O fisco não identifica o sujeito passivo oculto. Contudo, o ato omissivo do importador, em não comprovar a origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados, autoriza a fiscalização a presumir que terceiro (não identificado) financia a operação em comércio exterior. Essa é a mesma conclusão da lição de Deiab Junior e Nepomuceno (2008), ao se referirem às inovações trazidas à baila pela alteração do artigo 23 do Decreto Lei n° 1.455/76: a) apenou com perdimento a mercadoria de origem estrangeira, na importação ou na exportação, quando constatada a ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros, e; b) criou a presunção legal de interposição fraudulenta de terceiros em operações de comércio exterior, quando não comprovada a origem, disponibilidade e a transferência, dos recursos empregados em tais transações. DEIAB JUNIOR, Remy; NEPOMUCENO, Bruno Carvalho. Interposição fraudulenta de terceiros em operações de comércio exterior perpetradas por pessoas físicas. Jus Navigandi, Teresina, ano 13, n. 1794, 30 maio 2008 . Disponível em: <http://jus.com.br/revista/texto/11329>. Acesso em: 16 dez. 2012. Portanto, há duas formas de constatação da prática de interposição fraudulenta de terceiros: 1. Prática efetiva da interposição fraudulenta de terceiros (Ocultação) – Conduta infracional tipificada no inciso V do artigo 23 do Decreto Lei n° 1.455/76 – É a constatação da ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável através de fraude ou simulação. Sua inspiração vem da norma geral antielisiva do Parágrafo Único do artigo 116 do CTN, que pode estar relacionada ou não com a legislação que Fl. 5992DF CARF MF Processo nº 12466.000917/200881 Acórdão n.º 3302005.784 S3C3T2 Fl. 15 27 cuida do crime relacionado à ordem tributário e a “lavagem de dinheiro”, responsável por municiar a fiscalização para o combate da interposição fictícia de pessoas em operações de comércio exterior, o que implica na necessidade de comprovação, mediante a demonstração por parte da fiscalização, de quem é de fato o real sujeito passivo beneficiado. Aplicação do processo conhecido como “follow the money”. 2. Prática presumida da interposição fraudulenta de terceiros – Conduta infracional tipificada no §2° do artigo 23 do Decreto Lei n° 1.455/76 – Advém de uma presunção legal, o que acarreta ao importador/exportador a necessidade comprovar a origem, disponibilidade e a transferência, dos recursos empregados em operações de comércio exterior. Sua inspiração vem não só da norma geral antielisiva já citada, como também do artigo 1º da Lei nº 9.613/98 e municia a fiscalização com um mecanismo de controle para coibir a prática, pelo sujeito ocultado, do crime relacionado à “lavagem de dinheiro” por sucessivas operações internacionais, podendo estar relacionado com outras irregularidades tributárias, como por exemplo, fraude no preço/valor declarado (sub ou superfaturamento). O artigo 11 da IN SRF n° 228/2002 contempla essa formatação de constatação da prática de interposição fraudulenta de terceiros e determina seus respectivos efeitos, substanciados no artigo 23 do Decreto Lei n° 1.455/76, artigo 33 da Lei n° 11.488/2007 e no artigo 81 da Lei n° 9.430/96: ° Artigo 11 da IN SRF n° 228/2002: Art. 11. Concluído o procedimento especial, aplicarseá a pena de perdimento das mercadorias objeto das operações correspondentes, nos termos do art. 23, V do Decretolei nº 1.455, de 7 de abril de 1976, na hipótese de: http://normas.receita.fazenda.gov.br/sijut2consulta/an exoOutros.action?idArquivoBinario=0 I ocultação do verdadeiro responsável pelas operações, caso descaracterizada a condição de real adquirente ou vendedor das mercadorias; II interposição fraudulenta, nos termos do § 2º do art. 23 do Decretolei nº 1.455, de 1976, com a redação dada pela Medida Provisória nº 66, de 29 de agosto de 2002, em decorrência da não comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados, inclusive na hipótese do art. 10. § 1º Na hipótese prevista no inciso I do caput, será aplicada, além da pena de perdimento das mercadorias, a multa de que trata o art. 33 da Lei nº 11.488, de 15 de junho de 2007. http://normas.receita.fazenda.gov.br/sijut2consulta/an exoOutros.action?idArquivoBinario=0(Redação dada Fl. 5993DF CARF MF 28 pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1678, de 22 de dezembro de 2016) § 2º Na hipótese prevista no inciso II do caput, além da aplicação da pena de perdimento das mercadorias, será instaurado procedimento para declaração de inaptidão da inscrição da empresa no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ). http://normas.receita.fazenda.gov.br/sijut2consulta/an exoOutros.action?idArquivoBinario=0 (Incluído(a) pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1678, de 22 de dezembro de 2016) § 3º A hipótese prevista no inciso I do caput contempla a ocultação de encomendante predeterminado. http://normas.receita.fazenda.gov.br/sijut2consulta/an exoOutros.action?idArquivoBinario=0 (Incluído(a) pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1678, de 22 de dezembro de 2016) ❉ Inftações decorrentes de cada prática de interposição fraudulenta de terceiros A prática EFETIVA da interposição fraudulenta de terceiros implica em duas infrações: ¨ Uma infração tipificada no inciso V, do artigo 23, do Decreto Lei 1.455/76, punível com a aplicação da pena de perdimento, tendo por destinatário o real adquirente da mercadoria e conseguinte conversão em multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria no caso de que não seja localizada ou que tenha sido consumida. Uma infração imprópria que pode ser cometida por qualquer um na condição de REAL COMPRADOR em coautoria com o importador interposto. ¨ Outra infração tipificada no caput do artigo 33 da Lei 11.488/2007, punível com a multa de 10% (dez por cento) do valor da operação acobertada, não podendo ser inferior a R$ 5.000,00 (cinco mil reais), tendo por destinatário a pessoa jurídica que cedeu seu nome. Uma infração própria, já que para cometêla o agente deve ter a condição de ser importador devidamente habilitado no SISCOMEX. A prática PRESUMIDA da interposição fraudulenta de terceiros também implica em duas infrações: ¨ Uma infração tipificada no §2º, do artigo 23, do Decreto Lei n° 1.455/76, punível com a aplicação da pena de perdimento e conseguinte conversão em multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria no caso de que não seja localizada ou que tenha sido consumida, tendo por destinatário o importador de direito (INTERPOSTO), em razão da não comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados na importação. Uma infração própria, já que para cometêla o agente Fl. 5994DF CARF MF Processo nº 12466.000917/200881 Acórdão n.º 3302005.784 S3C3T2 Fl. 16 29 deve ter a condição de ser importador devidamente habilitado no SISCOMEX. ¨ Outra infração tipificada no artigo 81, §1º, da Lei nº 9.430/96, que determina a declaração de inaptidão da inscrição da pessoa jurídica no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas – CNPJ, que não comprove a origem, a disponibilidade e a efetiva transferência, se for o caso, dos recursos empregados em operações de comércio exterior. Coadunase para essa constatação, o seguinte artigo: ¹ Artigo 99 do DecretoLei nº 37/66: Art.99 Apurandose, no mesmo processo, a prática de duas ou mais infrações pela mesma pessoa natural ou jurídica, aplicamse cumulativamente, no grau correspondente, quando for o caso, as penas a elas cominadas, se as infrações não forem idênticas. (Grifo e Negrito Nossos) ❉ Do ônus probatório A depender da forma de constatação da existência do sujeito passivo oculto, o ônus probatório irá oscilar: Ø Na prática efetiva o ônus probatório é da fiscalização: Cabe à ação fiscal reunir os elementos que indicam a ocorrência da interposição fraudulenta de terceiros entre o importador interposto e o sujeito passivo oculto. Ø Na prática presumida o ônus probatório é do importador: Cabe ao importador a comprovação da origem, disponibilidade e transferência de recursos empregados Fl. 5995DF CARF MF 30 na importação, na forma do §2º, do artigo 23 do Decreto Lei n° 1.455/76. ❉ A caracterização da infração O núcleo da infração da prática de interposição fraudulenta de terceiros é o USO DE INTERPOSTA PESSOA em operação de comércio exterior com o propósito de ACOBERTAR o sujeito passivo oculto. A partir disso são detectadas duas espécies da mesma infração: · Infração 1: O uso de interpostas pessoas como instrumento (meio) para acobertar a identificação do responsável pela importação (OCULTAÇÃO) por infração contra o sistema tributário nacional (FRAUDES FISCAIS/SIMULAÇÃO). · Infração 2: O uso de interpostas pessoas como instrumento (meio) para acobertar a identificação do responsável pela importação (OCULTAÇÃO) por infração contra o sistema financeiro nacional (LAVAGEM DE DINHEIRO/SIMULAÇÃO). Nesse diapasão, há três formas de se caracterizar a prática de interposição fraudulenta de terceiros: 1. A PARTIR DA NÃO IDENTIFICAÇÃO DA ORIGEM DOS RECURSOS APLICADOS A administração aduaneira deve estar atenta à movimentação de recursos financeiros de origem desconhecida ou não comprovada associada ao uso de interposta pessoa em operação de comércio exterior. 2. A PARTIR DA IDENTIFICAÇÃO DO RESPONSÁVEL DE INFRAÇÃO CONTRA O SISTEMA TRIBUTÁRIO NACIONAL A Lei nº 8.137, de 1990, define crimes contra a ordem tributária, econômica e contra as relações de consumo. Nesse contexto, a legislação objetivou não só evitar as fraudes fiscais, como também dar maior efetividade na cobrança de tributos buscando identificar o verdadeiro sujeito passivo da obrigação tributária. 3. A PARTIR DA IDENTIFICAÇÃO DO RESPONSÁVEL PELA INFRAÇÃO CONTRA O SISTEMA FINANCEIRO NACIONAL A Lei nº 9.613, de 1998, dispõe sobre os crimes de "lavagem" ou ocultação de bens, direitos e valores, bem como sobre a prevenção da utilização do sistema financeiro. Portanto, tem se também como finalidade não cuidar da questão puramente tributária, mas coibir crimes de "lavagem" ou ocultação de bens, direitos e valores. Na prática as três causas se mesclam, e assim existe a hipótese de haver infrações entrelaçadas, mas sempre com o USO DE INTERPOSTA PESSOA COMO INSTRUMENTO (MEIO) PARA DIFICULTAR A IDENTIFICAÇÃO do sujeito passivo oculto. Fl. 5996DF CARF MF Processo nº 12466.000917/200881 Acórdão n.º 3302005.784 S3C3T2 Fl. 17 31 ❉ A sanção prevista A legislação apenou a prática de interposição fraudulenta de terceiros com o perdimento da mercadoria de origem estrangeira. A nova redação do § 3º, do artigo 23, do DecretoLei nº 1.455/76, dada pela Lei nº 12.350/10, substituiu a redação originariamente dada pela Medida Provisória n° 66/2002, em 29 de agosto de 2002, e estipulou a seguinte alternância de procedimentos – ritos: · Pena de perdimento ➞ se a mercadoria em situação irregular for apreendida pela fiscalização ( rito aplicado: artigo 27 do Decreto Lei n° 1.455/76 ); ou · Multa equivalente ao valor aduaneiro (100% do valor aduaneiro) ➞ se a mercadoria passível de perdimento não for localizada, ou tiver sido consumida ou revendida ( rito aplicado: Decreto n° 7.574/2011). Estáse assim diante de uma alternância de ritos procedimentais, a depender da retenção ou não da mercadoria passível de perdimento. É de se enfatizar o seguinte: ainda que a multa equivalente ao valor aduaneiro receba a designação de “crédito tributário”, por ser advinda de um lançamento, isso não altera a natureza jurídica da prática de interposição fraudulenta de terceiros: um ato ilícito passível de sanção (pena de perdimento ou multa equivalente ao valor aduaneiro). ▣ A PRÁTICA EFETIVA DE INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA DE TERCEIROS A demonstração da prática efetiva de interposição fraudulenta de terceiros engloba três pontos: 1. Identificação do importador interposto e do sujeito passivo oculto; 2. Constatação do liame entre o importador interposto e o sujeito passivo oculto; 3. Demonstração da FRAUDE ou SIMULAÇÃO. ❉ A identificação do importador interposto e do sujeito passivo oculto Salientase que esse é o primeiro passo ou o pressuposto básico e necessário para a caracterização da prática efetiva, mas longe de ser o suficiente. Como dito, o ato de se interpor em operação de importação, pressupõe necessariamente a existência de dois participes. Na demonstração da prática efetiva, a fiscalização tem o dever de identificar tanto o importador interposto como o sujeito passivo oculto. Fl. 5997DF CARF MF 32 A fiscalização deve também evidenciar que o sujeito passivo oculto se valeu do importador interposto para obter produto importado no mercado interno. Portanto, é indispensável a demonstração pela fiscalização da revenda do produto importado no mercado interno entre os dois participes, ou a revenda do importador a alheio ( MERO COMPRADOR) sob a determinação do sujeito passivo oculto. A caracterização da prática efetiva de interposição fraudulenta de terceiros pode ocorrer através de diversos elementos, tais como: · a destinação integral e imediata das mercadorias importadas; · o conhecimento prévio ao registro da DI do destinatário das mercadorias importadas; · rotulagem das mercadorias importadas com sinais de identificação do adquirente (logotipo, marcas etc.); · especificidade das mercadorias que são importadas para um único adquirente, ou conjunto restrito de adquirentes, de tal forma que a importação não poderia ser realizada para posterior comercialização no mercado interno. Atualmente, duas formas de “terceirização” das operações de comércio exterior são reconhecidas e reguladas pela Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB): · A importação por conta e ordem uma empresa (a adquirente), interessada em uma determinada mercadoria, contrata uma prestadora de serviços (a importadora por conta e ordem) para que esta, utilizando os recursos originários da contratante. providencie, entre outros, o despacho de importação da mercadoria em nome da empresa adquirente; · A importação por encomenda uma empresa (a encomendante predeterminada), interessada em uma certa mercadoria, contrata Fl. 5998DF CARF MF Processo nº 12466.000917/200881 Acórdão n.º 3302005.784 S3C3T2 Fl. 18 33 uma outra empresa (a importadora) para que esta, com seus próprios recursos, providencie a importação dessa mercadoria e a revenda posteriormente para a empresa encomendante. A escolha entre importar mercadoria estrangeira por conta própria ou por meio de um intermediário, contratado para esse fim, é livre e perfeitamente legal, seja esse intermediário um prestador de serviço ou um revendedor. Entretanto, tanto o importador quanto o adquirente ou encomendante. conforme o caso, devem observar o tratamento tributário específico dessas operações e alguns cuidados especiais, a fim de não serem autuados ou, até mesmo, que as mercadorias sejam apreendidas. Para que uma operação de importação por encomenda ou importação por conta e ordem seja realizada de forma perfeitamente regular, é necessário, antes de tudo, que tanto as empresas encomendantes e adquirentes quanto a empresa importadora estejam habilitadas para operar no Siscomex, nos termos da legislação respectiva. Além de habilitação de todos os intervenientes (encomendante, adquirente e importador), nas operações de importação terceirizadas, é necessário apresentar, à unidade da RFB com jurisdição para fiscalização aduaneira sobre o estabelecimento matriz da encomendante ou adquirente, cópia do contrato firmado entre as empresas (encomendante ou adquirente e importadora), caracterizando a natureza de sua vinculação, a fim de que a contratante e a contratada sejam vinculadas no Siscomex. pelo prazo ou operações previstos no contrato. A fim de promover o despacho aduaneiro das mercadorias importadas, conforme determina o art. 3o, da IN SRF n° 634/06 e o art. 3o, da IN SRF n° 225/02, ao elaborar a Declaração de Importação, o importador, pessoa jurídica contratada, deve informar que não se trata de uma operação por conta própria, indicando, em campo próprio na ficha “importador” da DI, o número de inscrição do encomendante ou do adquirente no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ). A falta de indicação do encomendante ou adquirente na Declaração de Importação, bem como a ausência de habilitação de alguma das partes no Siscomex e a ausência de vinculação do contrato na Receita Federal caracterizam a situação de ocultação do Fl. 5999DF CARF MF 34 sujeito passivo ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, punível com a pena de perdimento das mercadorias (art. 23 V, do Decretolei n° 1.455/76 com a redação dada pela Lei n° 10.637/02). ❉ Das modalidades de Importação Não há propriamente uma definição normatizada e, portanto, estanque do que vem a ser a importação direta. Poderseia esboçar aqui uma definição sob o sério risco de fazêla incompleta ou até mesmo imperfeita e assim confundir mais do que auxiliar. Por isso, tomase o caminho mais fácil e seguro. Se tanto a Importação por “conta e ordem” como a Importação por “encomenda” possuem definições precisas dadas pela Lei e se apenas existem três modalidades e possibilidades de importação no Brasil, valese do critério da complementaridade para se estabelecer que aquilo que não for Importação por “conta e ordem” e Importação por “encomenda” será, portanto, uma importação direta. É mister que se compreenda um ponto chave na consolidação da legislação de combate a interposição fraudulenta de terceiros em operações de comércio exterior e que servirá para o adequado deslinde do caso ora em análise: O artigo 27 da Lei n° 10.637/02 e a IN SRF nº 225, de 18 de outubro de 2002 – responsáveis pela definição, previsão e regulamentação da modalidade de Importação por “conta e ordem” – assim como o artigo 11 da Lei nº 11.281/2006 e a IN SRF nº 634/2006 responsáveis pela definição, previsão e regulamentação da modalidade de Importação por “encomenda” não criam qualquer conduta infracional. O que elas regulamentam, simplesmente, são formas permissivas de atuação de empresa interposta na importação. Assim, temos que inicialmente o artigo 27 da Lei n° 10.637/02 (modalidade de Importação por “conta e ordem”) e posteriormente o artigo 11 da Lei n° 11.281/06 (modalidade de Importação por “encomenda”) criam formas permissivas do uso do importador interposto. Caracterizada a prática de qualquer uma dessas duas modalidades de Importação, sem a adoção dos respectivos procedimentos previstos para a adequada identificação do adquirente ou do encomendante no mercado interno, resta configurada a ocultação do sujeito passivo (real beneficiário da importação) pelo importador interposto. ❉ A identificação do liame entre o importador interposto e o sujeito passivo oculto Para a seguinte indagação: existe a possibilidade da prática de interposta pessoa (importador interposto) em operações de importação frente à legislação brasileira? A resposta é SIM: Ø seja através da Importação por “conta e ordem”; ou Ø seja através da Importação por “encomenda”. Portanto, o passo subsquente ao da identificação do importador interposto e do sujeito passivo oculto é a demonstração por parte da fiscalização de que: Fl. 6000DF CARF MF Processo nº 12466.000917/200881 Acórdão n.º 3302005.784 S3C3T2 Fl. 19 35 Ø a modalidade de importação “direta” eleita pelo importador oculta uma modalidade de "importação por conta e ordem de terceiros"; ou Ø a modalidade de importação “direta” eleita pelo importador oculta uma modalidade de "importação por encomenda". Em outros termos: justamente para não identificar o REAL COMPRADOR no mercado interno do produto importado, foi eleita a modalidade de importação “direta”. ❉ identificação da modalidade de "importação por conta e ordem de terceiros" Para uma adequada análise, partese do conceito normativo da importação por conta e ordem de terceiros: · Disciplinada pelos artigos 80, 81 da Medida Provisória n° 2.158/0135 e artigo 29 da Medida Provisória n° 66/2002, regulamentada pela Instrução Normativa SRF nº 225, de 18 de outubro de 2002, com definição jurídica dada pelo artigo 27 da Lei n° 10.637/02: Art. 27. A operação de comércio exterior realizada mediante utilização de recursos de terceiro presumese por conta e ordem deste, para fins de aplicação do disposto nos arts. 77 a 81 da Medida Provisória n° 2.15835, de 24 de agosto de 2001. Fl. 6001DF CARF MF 36 O artigo transcrito autoriza a seguinte presunção: denominar de importação por conta e ordem de terceiros a importação realizada mediante utilização de recursos de terceiros. Assim, se a operação de importação é adimplida (fechamento do câmbio) com recursos de terceiro, a modalidade de importação a ser reconhecida será a importação por conta e ordem de terceiros, na forma do artigo 27 da Lei n° 10.637/02. O fluxograma nos auxiliará na visualização do contexto: ❉ Identificação da modalidade de importação “por encomenda” Para uma adequada análise, partese do conceito normativo da importação por encomenda: · Disciplinada pelo artigo 11 da Lei 11.281/06 e regulamentada pela Instrução Normativa SRF nº 634, de 24 de março de 2006, com definição jurídica dada pelo artigo 11 da Lei n° 11.281/06: Art. 11. A importação promovida por pessoa jurídica importadora que adquire mercadorias no exterior para revenda a encomendante predeterminado não configura importação por conta e ordem de terceiros. Como dito, na redação do inciso V, do artigo 23 do Decreto Lei n° 1.455/76, o legislador se valeu de três expressões análogas: I. sujeito passivo oculto; II. real comprador; e III. responsável pela importação. Fl. 6002DF CARF MF Processo nº 12466.000917/200881 Acórdão n.º 3302005.784 S3C3T2 Fl. 20 37 Usase uma outra expressão com o mesmo significado para explorar adequadamente o conceito de importação por encomenda: “PESSOA PREDETERMINADA”. A nova expressão tem o seu propósito porque vem a retratar uma faceta específica e determinante para a identificação da modalidade de "importação por encomenda" : A tomada de risco. Se na modalidade de "importação por conta e ordem de terceiros" a regra de ouro é entender a gênese do recurso e sua consequencia no financiamento da operação de importação, na modalidade de "importação por encomenda" a regra de ouro é identificar se o importador correu risco quanto à revenda do produto importado no mercado interno. Há que se comente um detalhe de suma importância: A bem dizer, o critério tomada de risco também pode e deve ser usado para caracterizar a modalidade de "importação por conta e ordem de terceiros", pois se entende que a tomada de risco de revenda das mercadorias importadas no mercado interno é uma característica essencial da importação direta. Isso porque: Ø na Importação por “conta e ordem” no momento da nacionalização – registro da Declaração de Importação – já existe no mercado interno comprador certo (ADQUIRENTE); e Ø na Importação por “encomenda” no momento da nacionalização – registro da Declaração de Importação – já existe no mercado interno comprador certo (ENCOMENDANTE). Portanto, é perfeitamente possível ver em um Auto de Infração o uso do critério tomada de risco conjugado com o repasse de recursos para evidenciar uma importação por conta e ordem de terceiros. Contudo, é o repasse de recursos a característica essencial daquela modalidade de importação. Na importação por encomenda, dado o seu conceito normativo inexiste qualquer repasse de recursos. Por isso, que o critério tomada de risco passa a ser relevante em sua caracterização. Tomase por base um quadrinho usado comumente para retratar a modalidade de importação direta: Fl. 6003DF CARF MF 38 Ø O importador adquire a mercadoria no mercado externo com recursos próprios e a revende no mercado interno para comprador indeterminado. Um outro quadrinho auxiliará a compreensão do conceito de PESSOA PREDETERMINADA: Ø O importador adquire a mercadoria no mercado externo com recursos próprios e a revende no mercado interno para comprador determinado (REAL COMPRADOR). A pessoa predeterminada é o comprador de bem importado definido antes da data do registro da Declaração de Importação. Como dito, a tomada de risco de revenda das mercadorias é uma característica essencial da importação direta, enquanto que na Importação por “conta e ordem” e na Importação por “encomenda” no momento da nacionalização – registro da Declaração de Importação – já existe no mercado interno comprador certo (REAL COMPRADOR). Em uma operação de venda casada, como a promovida por uma interposta pessoa em operações de importação este risco é inexistente, já que toda operação de compra e venda foi previamente arranjada e seus termos são bem conhecidos no momento em que o importador promove o despacho aduaneiro das mercadorias. Fl. 6004DF CARF MF Processo nº 12466.000917/200881 Acórdão n.º 3302005.784 S3C3T2 Fl. 21 39 Essa premissa decorre de modo direto e imperioso do objetivo traçado pela Receita Federal do Brasil em pretender possuir controle absoluto sobre o destino de todas as mercadorias importadas por empresas nacionais. Aquele que é destinatário de bem importado, já conhecido no momento do registro da respectiva Declaração de Importação, deve ser necessariamente informado aos órgãos responsáveis pelos controles aduaneiros na forma da IN SRF nº 225/02 para a modalidade de Importação por “conta e ordem” e da IN SRF nº 634/2006 para a modalidade de Importação por “encomenda” , sob o risco de configuração da prática de interposição fraudulenta de terceiros e conduta tendente a burlar os controles aduaneiros. O registro da Declaração de Importação é o marco eleito para identificar a PESSOA PREDETERMINADA, pois: 1. É o aspecto temporal que define o momento da entrada do bem no território aduaneiro; 2. É o instante de nacionalização do bem possível de ser precisado; 3. Antes desse instante a legislação pátria não tem qualquer efeito sobre o bem importado; 4. Só com o registro da Declaração de Importação é que se reúne toda a gama de informações suficientes para atender os requisitos exigidos pelas Instruções Normativas citadas. E ainda se acrescenta: Antes do ingresso da mercadoria no território nacional o bem é completamente alienígena ao ordenamento jurídico pátrio. Quem comprou, porque comprou, quando comprou, como pagou são questões por ora estranhas à fiscalização aduaneira, até mesmo porque a mercadoria pode vir a ter outro destino que não o Brasil. A ação da fiscalização aduaneira brasileira, com relação à mercadoria importada, só tem sentido a partir do seu ingresso no País. Esse momento a legislação precisa muito bem, inclusive em termos de minutos e até segundos: é o registro da Declaração de Importação. A partir desse instante é que o bem passa a ter relevância ao ordenamento jurídico pátrio, em particular à ação da fiscalização aduaneira da Receita Federal do Brasil. Para poder exercer sua expertise e verificar a regularidade da importação e assim atender a premissa de possuir controle absoluto sobre o destino de todas as mercadorias importadas por empresas nacionais, no momento do registro da Declaração de Importação o importador tem o dever de informar esse fato à fiscalização aduaneira através da adoção da modalidade de Importação por “conta e ordem” ou modalidade de Importação por “encomenda” a depender da forma de financiamento da importação. Se no momento do registro da Declaração de Importação a mercadoria tem destino certo no mercado interno – PESSOA PREDETERMINADA – é dever do importador expor esse fato, sob pena de burla aos órgãos responsáveis pelos controles aduaneiros. Fl. 6005DF CARF MF 40 E nesse contexto, é inegável que o importador age como interposta pessoa, pois a mercadoria apenas transpassa por ele. Por vezes sequer adentra ao seu estabelecimento comercial. Uma questão que é comumente suscitada é a alegação de que para se caracterizar a modalidade de "importação por encomenda" é necessário que o encomendante participe da transação comercial com o fornecedor estrangeiro. O legislador contemplou essa situação nos §§ 3º e 4º, do inciso I, do artigo 112 do Regulamento Aduaneiro, aprovado pelo Decreto n° 6.759/2009: § 3o A importação promovida por pessoa jurídica importadora que adquire mercadorias no exterior para revenda a encomendante predeterminado não configura importação por conta e ordem de terceiros (Lei no 11.281, de 2006, art. 11, caput). § 4o Considerase promovida na forma do § 3o a importação realizada com recursos próprios da pessoa jurídica importadora, participando ou não o encomendante das operações comerciais relativas à aquisição dos produtos no exterior (Lei no 11.281, de 2006, art. 11, § 3o, com a redação dada pela Lei nº 11.452, de 2007, art. 18). (grifo e negrito nossos) Portanto, a participação do encomendante das operações comerciais relativas à aquisição dos produtos no exterior é irrelevante para a caracterização da modalidade de "importação por encomenda". ❉ Identificação do responsável pela importação. Está aqui diante de um terceiro modo de identificação do liame entre o importador interposto e o sujeito passivo oculto, à margem da modalidade de importação praticada: reconhecer quem foi o responsável pela importação. Fl. 6006DF CARF MF Processo nº 12466.000917/200881 Acórdão n.º 3302005.784 S3C3T2 Fl. 22 41 Um adendo se faz necessário: como já dito, usualmente, a fiscalização identifica a prática efetiva de interposição fraudulenta de terceiros pela desconstituição da modalidade de importação direta adotada pelo importador com a consequente caracterização da modalidade de "importação por conta e ordem de terceiros" ou de “por encomenda”. Todavia, há um outro modo de demonstrar esse liame, à margem de qualquer demonstração de repasse de recursos e/ou tomada de risco. É demonstrar que o responsável pela importação utilizou o importador interposto como um longa manus. É uma outra ótica da fiscalização reconhecer a prática efetiva da interposição fraudulenta de terceiros dissociada do critério da capacidade econômica: o REAL COMPRADOR no mercado interno seria identificado como sendo aquele que detém o “Domínio do Fato”. Um outro modo de compreender (identificar) o responsável pela importação é através da seguinte constatação: sem a sua vontade a importação não aconteceria. Percebam uma nova variante da prática de interposição fraudulenta de terceiros: Quem exerce o “domínio do fato” pode vir a ser ou não o destinatário dos produtos importados no mercado interno. A mercadoria transacionada PODE SEQUER passa por ele assim como o dinheiro referente à transação. Ainda assim, é ele que determina todas as coordenadas do importador. Portanto, é tido como o responsável pela importação. IMPORTANTE: Se não for constatado o liame entre os assim denominados “importador interposto” e “sujeito passivo oculto”, aquele que a fiscalização a priori identificou como REAL COMPRADOR no mercado interno perde essa qualificação e passa a ser tratado como um “MERO COMPRADOR”, não cabendo assim qualquer tipificação da conduta no inciso V, do artigo 23 do Decreto Lei n° 1.455/76. Fl. 6007DF CARF MF 42 ❉ Demonstração da FRAUDE ou SIMULAÇÃO. Como visto, o significado de “interpor”, verbo transitivo, é "pôr entre". Já a fraude representa todo artifício empregado com o fim de enganar uma pessoa e causarlhe prejuízo. Destarte, tomando como base o simples significado das palavras, é possível concluir que interposição fraudulenta é a situação fática em que determinado ente fica numa posição de "intermediário" (importador ostensivo) com o objetivo de esconder outro agente (adquirente ou encomendante), causando prejuízo ao erário ou dificultando os controles administrativos das Aduanas. Embora a fraude já esteja perfeitamente caracterizada, nos termos do art. 72 da Lei nº 4.502/1964, cumpre ainda atentar que o bem jurídico protegido pela norma contida no art. 83, inciso I, da Lei nº 4.502/1964, com a redação dada pelo art. 1º, alteração 2ª, do Decreto lei nº 400, de 30 de dezembro de 1968, não é unicamente o Erário, mas a norma visa essencialmente resguardar o controle aduaneiro e proteger a economia nacional, que se vêem afetados pela importação fraudulenta e pela entrada clandestina de mercadorias no País. Nesse passo é possível discernir entre a fraude tributária stricto sensu e a fraude aduaneira que abrange, além dos aspectos estritamente fiscais atinentes àquela, também os extrafiscais, próprios do controle aduaneiro. Nesse sentido, fraude aduaneira não se restringe à fraude exclusivamente tributária. Assim, em matéria aduaneira, a fraude assume uma feição própria, de modo que o termo “importação fraudulenta” transcende a conduta dolosa de tãosomente evitar ou reduzir o pagamento de tributo, não se restringindo à “fraude”, tal como conceituada no art. 72 da Lei nº 4.502/1964, de feição estritamente tributária. Envolve também as ações dolosas empreendidas para burlar os controles aduaneiros, com o intuito de lograr benefícios ilicitamente, com p. ex., obter vantagens cambias, remeter divisas irregularmente etc. Em tais situações, pode ocasionalmente não haver insuficiência ou falta de recolhimento de impostos, porém não se há de negar a caracterização da importação como fraudulenta, porquanto resta evidente a ação dolosa em ilidir o controle aduaneiro para fruição de vantagens ilícitas em detrimento da economia nacional, bens jurídicos que a norma visa assegurar. Então, em relação a operações aduaneiras, seria um contrasenso exigir que a fraude se caracterizasse unicamente pela falta ou insuficiência de pagamento dos impostos incidentes na importação. No ordenamento jurídico encontramos exemplos dessa acepção, em que a importação fraudulenta não necessariamente implica supressão ou redução do imposto devido. É o caso art. 23 do DecretoLei nº 1.455, de 7 de abril de 1976, com redação dada pelo art. 59 da Lei nº 10.637, de 30 de dezembro de 2002 (DOU 31/12/2002), que pune uma espécie de importação fraudulenta, caracterizada pela ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros, mesmo não havendo repercussão no recolhimento do imposto. Assim, “importação fraudulenta” significa importação com fraude ao controle aduaneiro, mitigandose a feição estritamente tributária de “reduzir ou evitar o pagamento do imposto” ocorrendo nos casos em que a falsificação ou a adulteração de documentos acarrete dano ao citado controle, mesmo que não haja repercussão no tratamento tributário. Fl. 6008DF CARF MF Processo nº 12466.000917/200881 Acórdão n.º 3302005.784 S3C3T2 Fl. 23 43 A propósito observese o lúcido ensinamento de ROOSEVELT BALDOMIR SOSA: "consiste a falsidade documental, em matéria aduaneira, em elaborar documento falso, ou alterálo total ou parcialmente de modo a iludir o controle administrativo. Também se conhece a falsidade ideológica, que é quando o documento se mostra verdadeiro, mas não expressa a verdade” (Comentário à lei aduaneira: Regulamento Aduaneiro, São Paulo: Aduaneiras, 1993, vol. III, p. 187) . A prática efetiva de interposição fraudulenta de terceiros, tipificada no inciso V, do artigo 23 do Decreto Lei n° 1.455/76. é uma conduta que o legislador entendeu por bem não tolerar, dado o seu RISCO POTENCIAL. O quadro abaixo indica as três etapas para a consumação da infração, de acordo com a prática efetiva. Para tanto, transcrevese trecho do Termo de Verificação Fiscal, às folhas 19 e 20 do processo digital: Por tudo que foi exposto até o presente momento, verificase que a contabilidade não está espelhando com fidedignidade as operações realizadas pela empresa e assim, pelo que foi até aqui relatado, há fortes indícios de que a fiscalizada não é a real adquirente das mercadorias importadas e que ocorria, portanto, a interposição de pessoas. Desta forma, mantivemos a continuidade da fiscalização e através de uma amostragem significativa, emitimos os Termos de Intimação Fiscal Ns 02, Ns 03, e Na 04, a fim de verificarmos a origem e a finalidade dos recursos monetários que ingressaram na empresa (anexos 09). Fl. 6009DF CARF MF 44 Após terem transcorrido mais de dois meses para atender as intimações, a empresa nos forneceu os documentos solicitados. Analisandose os documentos que nos foram enviados, verificamos que a fiscalizada enviounos somente 01 (um) contrato que foi assinado com um de seus “clientes”. Neste contrato verificase que a auditada não é a real adquirente das mercadorias, pois no mesmo é contratado que as operações_só serão realizadas mediante adiantamento de recursos monetários (anexos 10). De posse dos documentos, e em virtude da enorme quantidade de dados a serem verificados, inicialmente, utilizandose os “Compact Disc” (CDs) enviados pela empresa, criamos o Demonstrativo das Notas Fiscais Emitidas (anexos 12). Os dados constantes neste demonstrativo foram obtidos nos dados informados pela empresa na relação de notas fiscais (anexos 05) e na relação de identificação dos recursos monetários recebidos (anexos 11), os quais foram entregues, também, em “CD”. Analisandose o referido demonstrativo, concluímos que as informações prestadas pela fiscalizada não correspondiam à realidade. Em nossa análise constatamos as seguintes ocorrências: depósitos realizados em data anterior a de emissão das notas fiscais de saídas, caracterizando, assim, adiantamentos; valores depositados superiores aos valores totais constantes nas notas fiscais de saídas; valores depositados inferiores aos valores totais constantes nas notas fiscais de saídas; valores depositados em datas bem posteriores à data de emissão das notas fiscais de saídas (há casos em que a diferença de data é superior a um ano); um mesmo depósito referindose a notas fiscais de saídas emitidas em datas bem diferentes; informação de que os depósitos referiamse à devolução de cheques; Notas fiscais informadas nas planilhas de identificação dos recursos monetários recebidos não localizadas nas planilhas de notas fiscais. f) O conjunto de fatos apurados levounos a emitir o Termo de Intimação Fiscal Nfi 05 (anexos 13) para verificarmos os dados constantes nas notas fiscais de saídas. Ao examinarmos as notas fiscais de saídas, verificamos que todas as notas que constam no Demonstrativo das Notas Fiscais Emitidas foram emitidas como vendas a vista e não como vendas a prazo, como informado anteriormente pela empresa. Desta forma, nas informações prestadas, verificase que os depósitos realizados em parcelas para diversas notas fiscais são comprovações de que as informações prestadas não correspondem à realidade dos recursos monetários recebidos pela fiscalizada. Além destes fatos, observamos outros, os quais nos levaram a fazer correções Fl. 6010DF CARF MF Processo nº 12466.000917/200881 Acórdão n.º 3302005.784 S3C3T2 Fl. 24 45 no Demonstrativo das Notas Fiscais Emitidas elaborados pela fiscalização. Assim sendo, de posse do referido demonstrativo e de posse das notas fiscais, construímos ò Demonstrativo do Saldo Bancário (onde é demonstrado o saldo bancário da empresa nas datas especificadas), o Demonstrativo dos Valores Excluídos (onde é demonstrado os valores que não foram considerados no fluxo financeiro e o motivo da exclusão) e o Demonstrativo do Fluxo Financeiro (onde é demonstrado o real saldo de recursos monetários da empresa disponíveis para pagamento das despesas aduaneiras realizadas). No Demonstrativo do Fluxo Financeiro, fica demonstrada a total falta de capacidade financeira da empresa para realizar as operações de comércio exterior no período fiscalizado (anexos 13). Cabe destacar que quando foi gerado o Demonstrativo dos Valores Excluídos, todos os valores que foram creditados na conta “Obrigações Diversas”, e que foram debitados na conta “Bancos" como depósitos, não foram considerados como recursos monetários da empresa, já que, em contabilidade, a essência deve prevalecer sobre a forma e, assim, neste caso, não fica caracterizado que a empresa assumiu uma obrigação de pagamento de algo. Tais registros contábeis caracterizam que a empresa assumiu a obrigação de uma prestação de serviço por ter recebido recursos monetários de terceiros, caracterizando, desta forma, que tais recebimentos de recursos monetários são, na realidade, adiantamentos realizados pelos reais adquirentes das mercadorias importadas pela fiscalizada. Portanto, em planilhas anexas ao Auto de Infração, a fiscalização identificou como origem dos recursos empregados nas operações de importação, clientes da empresa Gama Comercial no mercado interno, o que caracteriza modalidade de importação por "conta e ordem". Como a figura do adquirente não aparece na Declaração de Importação, isso implica em burla aos controles aduaneiros e por conseguinte prática efetiva de interposição fraudulenta de terceiros, conduta infracional tipificada no inciso V, do artigo 23 do Decreto Lei n° 1.455/76. É alegado às folhas 16 do Recurso Voluntário pela empresa Gama Comercial: Infeliz foi o procedimento do I. Auditor Fiscal do SEFIA, pois em momento algum deixou claro no Auto de Infração qual o dispositivo legal a recorrente infringiu, somente apontou os artigos que amparam o seu relatório final do procedimento especial de fiscalização da IN/SRF n° 228/02, como se não soubesse o andamento final daquele processo que estava arquivado, já nulo, então utilizou esse Relatório para embasar o auto de infração, contrariando as ordens do Inspetor, o que demonstrou a total MÁ FÉ do I. Auditor Fiscal do SEFIA já manifestada inicialmente, quando ao invés de enviar uma intimação solicitando todos os documentos, foi solicitando aos poucos, para que a fiscalização perdurasse no tempo. Fl. 6011DF CARF MF 46 A Decisão proferida no referido Processo Fiscal emitida pelo SEORT da IRF/Vitória foi muito dara quando julgou insubsistente o Relatório e todas as irregularidades apontadas pelo I. Auditor Fiscal e, por consequência, anulando a acusação que a recorrente não teria utilizado recursos próprios para sua atividade. Através dessa Decisão da autoridade competente, acabouse com a possibilidade de prosperar qualquer infração porventura levantada por tal relatório. E é isso que consta claramente do Parecer n° 991/07 e que deixa claro em diversas passagens de seu teor, como o do primeiro parágrafo da página 17: “A representação não merece prosperar, pois a ausência da comprovação acima citada trazida pela fiscalização, capaz de fundamentar suas conclusões, faz subsistir incólume o entendimento firmado no presente parecer”. Mais adiante, o Recorrente apresenta trecho do Parecer n° 991/07: “Ademais, inexiste comprovação de que o contribuinte tenha utilizado algum meio fraudulento objetivando burlar os encargos tributários, de modo que se afigura exorbitante a decretação de inaptidão do CNPJ da mesma”. “0 princípio da segurança jurídica consubstanciase na necessidade e adequação dos meios empregados para que atinja os desideratos que a lei almeja. In casu, não se configurando a interposição fraudulenta, bem como havendo possibilidade da determinação de providência extremamente gravosa ao contribuinte, novamente menciono que se afiguraria demasiada a pena imposta”. “Desta forma, do quanto foi exposto, ressalvandose as vênias cabíveis, e considerando que os fatos levantados pela fiscalização não configuram irregularidades previstas na legislação para caracterização da declaração de inaptidão, manifesto entendimento de que deva ser acolhido o pleito sobre a ins0ubsistência da representação, tomandoa sem efeito, haja vista as razões expendidas no presente parecer”. “Todavia, não se pode conceber, em pleno Estado Democrático de Direito, como suficiente para ensejará imposição de qualquer penalidade, mesmo a mais branda, a inexistência de teto da empresa representada, não só pela efetiva demonstração de sua existência, mas também pela comprovação da origem dos recursos que agora se demonstra”. (Grifos próprios do original) São necessárias as seguintes considerações: 1. Em momento algum o Parecer n° 991/07 SEORT aborda a questão da demonstração do trinômio origem, disponibilizados e transferência de recursos empregados nas operações de importação; 2. O Parecer n° 991/07 SEORT aborda a questão da declaração de inaptidão da inscrição da pessoa jurídica no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas – CNPJ, o que foge por completo do escopo da Fl. 6012DF CARF MF Processo nº 12466.000917/200881 Acórdão n.º 3302005.784 S3C3T2 Fl. 25 47 prática efetiva de interposição fraudulenta de terceiros, tipificada no inciso V, do artigo 23 do Decreto Lei n° 1.455/76; 3. Sem querer invadir seara alheia, respeitando os motivos e fundamentos veiculados, mas parece claro, pelo menos para este Relator, que a declaração de inaptidão da inscrição da pessoa jurídica no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas – CNPJ foi denegada justamente porque se identificou a origem dos recursos empregados nas operações de importação, como sendo de terceiro identificado, o que implica em outra sanção. Portanto, o Parecer n° 991/07 SEORT, ponto basilar da defesa da Recorrente empresa Gama Comercial, não tem substância para ilidir a ocorrência da prática efetiva de interposição fraudulenta de terceiros. Da empresa Menta & Mellow Comercial Ltda. Foi identificada pela fiscalização como sendo a origem dos recursos empregados nas operações de importação praticadas pela empresa Gama Comercial e adquirente das mercadorias no mercado interno, o que implica sua condição de REAL COMPRADOR. São encontradas provas de transferências de recursos da empresa Menta & Mellow Comercial Ltda (REAL COMPRADORA) para à empresa Gama Comercial (importador interposto) às seguintes folhas: Ø 1881 do processo digital; Ø 1883 do processo digital; Ø 1887 do processo digital; Ø 1889 do processo digital; Ø 1891 do processo digital; Ø 1893 do processo digital; Ø 1895 do processo digital; Ø 1897 do processo digital; Ø 1899 do processo digital; Ø 1905 do processo digital; Ø 1907 do processo digital; Ø 1909 do processo digital; Ø 1911 do processo digital; Fl. 6013DF CARF MF 48 Ø 1913 do processo digital; Ø 1915 do processo digital; Ø 1917 do processo digital; Ø 1919 do processo digital; Ø 1933 do processo digital; Ø 1935 do processo digital; Ø 1939 do processo digital; Ø 1941 do processo digital; Ø 1943 do processo digital; Ø 1945 do processo digital; Ø 1949 do processo digital; Ø 1959 do processo digital; Ø 1963 do processo digital; Ø 1975 do processo digital; Ø 1979 do processo digital; Ø 1991 do processo digital; Ø 1993 do processo digital; Ø 1995 do processo digital; Ø 1997 do processo digital; Ø 1999 do processo digital; Ø 2001 do processo digital; Ø 2003 do processo digital. Esse quadro afasta a alegação da empresa Menta & Mellow Comercial Ltda de ilegitimidade passiva, pois sabia que estava adquirindo produto importado no mercado interno, na condição de ADQUIRENTE / REAL COMPRADOR – sem estar habilitada para tanto. ¨ O DANO AO ERÁRIO No caso em análise, o bem jurídico tutelado é o controle aduaneiro e esse controle foi violado, mediante a prática de fraude ou simulação tendente a burlar a Administração Aduaneira. Fl. 6014DF CARF MF Processo nº 12466.000917/200881 Acórdão n.º 3302005.784 S3C3T2 Fl. 26 49 Por serem os Imposto de Importação e de Exportação tributos com caráter extrafiscal, o dano ao Erário não se relaciona apenas a questão de “quanto de tributo deixou de ser recolhido”. Até mesmo porque, pela própria natureza da fraude e simulação proporciona vantagens de outra natureza. Mas mesmo assim, podem vir a serem detectadas vantagens irregulares relacionadas a nãoincidência de impostos e contribuições decorrentes da prática de interposição fraudulenta de terceiros, muito embora não se mostrem imprescindíveis para configurar o dano ao Erário. Para esclarecer o assunto, listase algumas dessas vantagens que podem ser auferidas indevidamente pela prática da interposição fraudulenta de terceiros: Burlar os controles de habilitação para operar no comércio exterior: Para que uma pessoa, física ou jurídica, possa operar no comércio exterior, é necessário que a Receita Federal lhe conceda uma habilitação para acesso ao Siscomex – Sistema Integrado de Comércio Exterior. A pessoa deve possuir Radar. Procedimentos relacionados a essa habilitação estão previstos em atos normativos que estabelecem uma série de verificações fiscais atinentes à avaliação da capacidade operacionaleconômicofinanceira da empresa e ao confronto entre as informações prestadas no requerimento e aquelas constantes na base de dados da Receita Federal (auditoria preventiva). Foi citado, em mais de uma oportunidade, que na interposição fraudulenta de terceiros aquele que não possui capacidade contributiva está intencionalmente exercendo o papel daquele que a possui, com o firme propósito de burla dos controles aduaneiros e fugir da exação tributária. Mesmo que se alegue que a exação tributária foi paga pela interposta pessoa, portanto o Erário não deixou de efetuar o recolhimento que lhe cabia, a burla dos controles aduaneiros ocorreu, pois não é o real importador que se apresenta perante à fiscalização com o seu nome no despacho aduaneiro. A burla aos controles aduaneiros pode causar: • impedir que uma determinada empresa (adquirente) seja submetida ao procedimento de habilitação; • impedir a equiparação, do real adquirente, à condição de estabelecimento industrial, contribuinte do IPI; • impedir a aplicação das restrições e determinações previstas na legislação de "valor aduaneiro" e de "preços de transferência"; . • impedir o conhecimento da verdadeira origem dos recursos; • impedir atribuir ao adquirente a condição de responsável solidário pelos tributos incidentes na importação; • impedir o devido registro contábil da propriedade dos bens, incluindo a composição de custos destes bens; Fl. 6015DF CARF MF 50 • propiciar o aproveitamento indevido de incentivos fiscais estaduais (ICMS), a chamada "guerra fiscal' entre os Estados da federação que, muitas vezes, apenas fomenta a criação , ou simulação de enpresas com o fim único de se obter tais vantagens; • impedir o efetivo controle aduaneiro e fiscal; No caso específico da modalidade Importação por “conta e ordem” ainda podem ser listadas as seguintes burlas aos controles aduaneiros: · A não vinculação do adquirente ao Importação por “conta e ordem”, no Siscomex, via Declaração de Importação; · A não apresentação do adquirente, para fins da vinculação, de requerimento à unidade aduaneira da Receita Federal do Brasil com jurisdição sobre o seu estabelecimento matriz, indicando: I nome empresarial e número de inscrição do importador no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ); e II – apresentação de cópia do contrato firmado entre as partes para a prestação dos serviços. · A não habilitação do adquirente no RADAR; · A não informação pelo Importação por “conta e ordem", do número de inscrição do adquirente no CNPJ em campo próprio da Declaração de Importação; · A exigência de garantia para autorização da entrega ou desembaraço aduaneiro de mercadorias, por parte do adquirente quando o valor das importações for incompatível com o capital social ou patrimônio líquido deste; E ainda traz outros efeitos: Blindar o patrimônio do real adquirente/encomendante: No caso de eventual lançamento tributário decorrente das operações, o real importador se beneficia de certa “imunidade” no âmbito patrimonial (cobrança de tributos e multa) e penal (conduta criminosa), uma vez que, aos olhos do Fisco, somente é conhecida a identidade da interposta pessoa. Fl. 6016DF CARF MF Processo nº 12466.000917/200881 Acórdão n.º 3302005.784 S3C3T2 Fl. 27 51 Quebra da cadeia de incidência do IPI: Por ordenamento constitucional, o IPI é um tributo de incidência nãocumulativa, compensandose o que for devido em cada operação com o montante cobrado nas anteriores (art. 153, § 3º, inciso II, da CF/88). O importador de mercadoria estrangeira é estabelecimento equiparado a industrial, consoante o artigo 13 da Lei 13.281/06. Desse modo, a saída de mercadoria do estabelecimento equiparado a industrial, mesmo quando a importação não tenha sido realizada diretamente por ele, constitui fato gerador do IPI, sendo efetivamente devido o valor do imposto em razão da diferença entre o preço de entrada e o preço de saída, pelo princípio da nãocumulatividade, conforme artigo 35 do Decreto nº 7.212/10 (RIPI). Ao não se apresentar à Receita Federal como importador de mercadorias importadas, o real adquirente intenta afastar sua condição de contribuinte (por equiparação) do IPI pela saída do produto de seu estabelecimento. Sonegação de PIS/PASEP e COFINS nãocumulativos: Em uma importação por intermédio de terceiros, o importador é contribuinte do PIS/PASEP e COFINS não cumulativos sobre a receita bruta auferida (no caso da importação por encomenda) ou sobre o valor dos serviços prestados (no caso de importação por conta e ordem), consoante o artigo 12 do Decreto nº 4.524/02. Lavagem de dinheiro e ocultação de bens e valores: Por lavagem de dinheiro entendese o procedimento utilizado para disfarçar a origem de bens e valores obtidos ilegalmente. No caso da ocultação mediante fraude ou simulação, abrese brecha para a utilização de recursos de origem desconhecida no pagamento das importações. Fruição indevida pelo importador oculto ( adquirente ) do benefício do ICMS. Esse ponto em destaque ganha abrupta relevância quando a interposta pessoa se localiza em Estado da Federação que proporciona benefícios fiscais relacionados a incidência do ICMS. Fl. 6017DF CARF MF 52 Um instrumento que a princípio teria fins de elisão fiscal, ao ser combinado com a prática efetiva da interposição fraudulenta de terceiros, via modalidade de Importação por “conta e ordem" não declarada, assume contornos de elusão fiscal. Aquele que seria em princípio instrumento para fomentar a atividade econômica de um Estado da Federação, passa a ser usado de modo ilícito ao ser combinado com a prática efetiva da interposição fraudulenta de terceiros em operações de comércio exterior. Para legitimar a sanção, basta a certificação do fato infracional, independente da existência de culpa, demonstração de boafé e ocorrência de efetivo dano ao Erário público. Este também parecer ser o entendimento da colenda jurisprudência, conforme a seguinte ementa de decisão emanada pela terceira turma do TRF da 4º Região, referente ao processo 2001.72.08.0023793/SC a respeito da natureza do dano ao erário: ADMINISTRATIVO. PENA DE PERDIMENTO. LESÃO AO ERÁRIO. ART. 136 DO CÓDIGO TRIBUTÁRIO NACIONAL. RESPONSABILIDADE OBJETIVA. Como a responsabilidade decorrente da violação à legislação tributária é objetiva, o dano ao erário deve ser entendido como de natureza meramente potencial, sob pena de se incentivar a fraude fiscal com a aparência de inocência, dada a dificuldade de se apurar o elemento subjetivo em cada caso concreto. Neste mesmo sentido: Origem: TRIBUNAL QUARTA REGIÃO Processo: 96.04.005111 UF: PR Orgão Julgador: PRIMEIRA TURMA Ementa PENA DE PERDIMENTO. DEL37/66. O DEL37/66 não foi revogado pela Constituição Federal pois, o dano causado ao erário público previsto no ART153, PAR11 da Carta Magna, não exige o prejuízo decorrente da exportação sem pagamento de tributos ou mesmo a exportação proibida, bastando configurarse uma situação vedada pela lei, fato que se assemelha ao crime de perigo previsto na lei penal.” Agreguese ainda outro julgado do mesmo Tribunal, na Apelação em Mandado deSegurança nº 2001.72.03.0009910/SC (grifouse): "Devese ter presente que dano ao erário não se configura unicamente pelo nãorecolhimento de tributos. Em matéria de controle aduaneiro, a questão não se limita aos aspectos tributários, pois a atividade alfandegária ultrapassa em muito a mera questão tributária. "... não é certo considerar o Direito Aduaneiro como um ramo do Direito Fiscal. É, sim, ramo independente que com aquele não se confunde, pois não lida apenas com o fenômeno impositivo, mas sobretudo com a complexa e variada gama de fenômenos que caracterizam o Fl. 6018DF CARF MF Processo nº 12466.000917/200881 Acórdão n.º 3302005.784 S3C3T2 Fl. 28 53 comércio internacional,tanto do ponto de vista da regulação quanto do controle estatal exercido” (ob. cit., p.52). - A QUEBRA DA CADEIA DO IPI – A INFRAÇÃO AO SISTEMA TRIBUTÁRIO Quando da publicação da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, foi estabelecida a equiparação à industrial de todo importador que promovesse a nacionalização de um determinado bem: Art. 4° Equiparamse a estabelecimento produtor, para todos os efeitos desta Lei: I os importadores e os arrematantes de produtos de procedência estrangeira; Essa equiparação atribui ao importador a obrigação de recolhimento do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) não apenas na importação, mas também na revenda/saída dos produtos importados ao mercado interno, bem como a obrigação de escriturar livros fiscais e de cumprir com as demais obrigações acessórias, ainda que o mesmo desenvolva atividade meramente comercial e que as mercadorias importadas não sejam submetidas a nenhum processo produtivo. Com o advento do uso da empresa interposta em operação de comércio exterior, percebeuse a necessidade de se estender essa mesma equiparação para a figura do adquirente que se vale de um intermediário (empresa interposta) para realizar suas importações. O artigo 79 da MP 2.158/2001 cuidou dessa previsão: Art. 79. Equiparamse a estabelecimento industrial os estabelecimentos, atacadistas ou varejistas, que adquirirem produtos de procedência estrangeira, importados por sua conta e ordem, por intermédio de pessoa jurídica importadora. O artigo 13 da Lei nº 11.281/06 estendeu também essa condição ao encomendante: Art. 13. Equiparamse a estabelecimento industrial os estabelecimentos, atacadistas ou varejistas, que adquirirem produtos de procedência estrangeira, importados por encomenda ou por sua conta e ordem, por intermédio de pessoa jurídica importadora. A partir desta nova previsão legal, a utilização de empresa interposta em operações de comércio exterior sem a adoção de uma das duas modalidades (Importação por “conta e ordem" ou Importação por “encomenda”), implica também na não observância de: o Uma obrigação tributária principal Em relação a omitir sua condição de equiparado à industrial; o Uma obrigação tributária acessória Por não realizar a escrituração do IPI. Quando uma empresa opta por uma modalidade de importação deve estar atenta não só às diferenças de custo, mas também aos diferentes efeitos e obrigações tributárias a que estão sujeitas, não só na esfera federal, mas também no âmbito estadual. Fl. 6019DF CARF MF 54 Entretanto, algumas empresas levam em consideração apenas a diferença de custos e obrigações acessórias na hora de optar entre modalidades regulamentadas pela RFB e uma outra modalidade "alternativa", sem se preocupar com as obrigações tributárias a que estão sujeitas para atuarem no comércio exterior. Algumas "economias tributárias" almejadas são inaceitáveis por agredirem a legislação em vigor. Tanto o importador quanto o adquirente de mercadoria importada por encomenda ou por sua conta e ordem são estabelecimentos equiparados a industrial. ❖ Decreto N° 7.212/2010. Art. 9° Equiparamse a estabelecimento industrial: I os estabelecimentos importadores de produtos de procedência estrangeira, que derem saída a esses produtos (Lei n° 4.502, de 1964, art. 4°, inciso I); (...) IX os estabelecimentos, atacadistas ou varejistas, que adquirirem produtos de procedência estrangeira, importados por encomenda ou por sua conta e ordem, por intermédio de pessoa jurídica importadora (Medida Provisória n° 2.15835, de 2001, art. 79, e Lei no 11.281, de 20 de fevereiro de 2006, art. 13);. A saída da mercadoria dos estabelecimentos equiparados a industrial é fato gerador do imposto, sendo devido o IPI. Assim, se uma empresa contratar uma importadora para registrar uma operação de importação "por encomenda" ou "por conta e ordem", será contribuinte do IPI e estará sujeita a recolher o imposto e ao cumprimento das obrigações acessórias (escrituração dos livros exigidos pelo RIPI, destaque do IPI nas notas fiscais, e outras). Porém, se o verdadeiro importador, o real adquirente ou encomendante se ocultar do Fisco, uma "empresa de fachada" figurará na declaração de importação e será equiparado a estabelecimento industrial e contribuinte do IPI. Após a nacionalização das mercadorias, a "empresa de fachada" acatará as ordens do verdadeiro responsável pela operação e "venderá" (remeterá) as mercadorias a quem ele determinar. Assim, o verdadeiro destinatário final das mercadorias de procedência estrangeira, fugirá da equiparação à indústria, dissimulando a condição de contribuinte do IPI. Exemplificando as perdas de arrecadação, pela quebra da cadeia de incidência do IPI, decorrentes de uma das possíveis simulações acima citadas, tomese duas situações em que a empresa "A" decide importar uma mercadoria com o valor aduaneiro de R$ 1.000,00 e vendêlo no mercado interno com uma margem de lucro de 150%. Na situação 1, a empresa "A" registra a importação como operação por conta própria. Na situação 2, a empresa A contrata a operação a um importador de fachada, a fim de ocultar sua situação como real importador. Para simplificar o exemplo, a alíquota do IPI é 20% e não existem outras despesas na importação: Fl. 6020DF CARF MF Processo nº 12466.000917/200881 Acórdão n.º 3302005.784 S3C3T2 Fl. 29 55 Além disso, a correta incidência do IPI sobre a mercadoria estrangeira equipara a carga tributária do produto importado ao produto nacional. Com a sonegação do IPI, a concorrência desleal do produto importado aumenta os obstáculos ao crescimento da indústria nacional. A pratica de interposição fraudulenta de pessoas possibilita a quebra da cadeia do IPI. com a consequente sonegação daquele tributo. Não se trata do IPI vinculado à importação, este é recolhido automaticamente no ato de registro da DI. Tratase do IPI que incide em etapa posterior ao desembaraço aduaneiro, IPI incidente sobre o lucro agregado na fase comercial posterior ao desembaraço. O seguinte esquema mostra as etapas da operação: o A empresa interposta registra importação de mercadorias a preços irrisórios no mercado exterior e recolhe IPI proporcional em função do valor aduaneiro vinculado IPI vinculado à importação; o Dá saída da mercadoria (venda) a outra empresa (sujeito passivo oculto) com destaque de IPI na nota fiscal (a recolher). IPI calculado com base em um lucro agregado nesta etapa, lucro geralmente insignificante; o Por ser insignificante o valor agregado — a importadora (empresa interposta) recolhe o IPI referente ao valor agregado por ser importadora, portanto, equiparada legalmente a industrial; o O sujeito passivo oculto (controlador de fato das operações) dá saída da mercadoria aos seus clientes com lucro comercial real ao agrega valores significativos à operação. É um risco potencial que o legislador quis evitar. O sujeito passivo oculto ao não se apresentar aos órgãos responsáveis pelos controles aduaneiros por não adotar uma das modalidades de Importação permissivas para o uso de empresa interposta em operação de comércio exterior, esquivase de assumir sua posição na cadeia do Imposto sobre Produtos Industrializados, tal qual determina a legislação. Há uma cisma por parte dos causídicos que militam na área aduaneira em querer atrelar infrações passíveis de pena de perdimento (artigo 105 do DecretoLei nº 37/66 e artigo 23 do DecretoLei nº 1.455/76) com a exigência da constatação de recolhimento de Fl. 6021DF CARF MF 56 tributos a menor. E a indagação natural que se segue a essa ilação é a seguinte: De que ordem deve ser essa sonegação para justificar a pena de perdimento: mil, cem, dez reais, ou até mesmo, um real? Ou em outros termos, se assim preferirem, vinte, dez, cinco, ou até mesmo, um por cento da base de cálculo? Ou tomando a licença de levar esse mesmo raciocínio ao seu extremo: Um único centavo sonegado, já que é a menor fração da moeda, justificaria a aplicação da pena de perdimento? Com base no que e em que? Em exame aos dispositivos citados (artigo 105 do DecretoLei nº 37/66 e artigo 23 do DecretoLei nº 1.455/76), é cristalino que o legislador não se ocupou em estabelecer tal discriminem. E isso reside no fato de que a área aduaneira tem por escopo outros interesses que não a exigência tributária. Dada que a função da fiscalização aduaneira tem por natureza o exercício do Poder de Polícia, sua função precípua é a repressão de CONDUTAS consideradas nocivas pelo legislador. Em exame analítico aos incisos dos dois artigos, percebese que o legislador se deteve no assunto do recolhimento dos tributos aduaneiros em apenas dois incisos do artigo 105 do DecretoLei nº 37/66, a saber: Art.105 Aplicase a pena de perda da mercadoria: (...) IX estrangeira, encontrada ao abandono, desacompanhada de prova de pagamento dos tributos aduaneiros, salvo as do art.58; (...) XI estrangeira, já desembaraçada e cujos tributos aduaneiros tenham sido pagos apenas em parte, mediante artifício doloso; (Grifo Nosso) Essa constatação é muito salutar para a presente análise, pois revela que quando o legislador quer atrelar a aplicação da pena de perdimento à ausência ou o pagamento parcial dos tributos incidentes no despacho aduaneiro, assim o faz. Os demais incisos de ambos os artigos (artigo 105 do DecretoLei nº 37/66 e artigo 23 do DecretoLei nº 1.455/76) dizem respeito à CONDUTAS, que o legislador entendeu por bem denominálas de “dano ao Erário”, inclusive no que tange à prática de interposição fraudulenta de terceiros em operações de comércio exterior. Portanto, esse discriminem da ausência ou pagamento parcial dos tributos não se denota na redação do inciso V, do artigo 23, do DecretoLei nº 1.455/76. Quando a fiscalização se refere à “Quebra da Cadeia do IPI", o faz com propriedade no seguinte sentido: A empresa deliberadamente não assumiu sua condição de equiparado à industrial, conforme determina a legislação aplicável. Querer que a fiscalização apure quanto deixou de ser arrecadado, se é que isso aconteceu, é uma atribuição que o legislador ao estabelecer a tipificação da infração de ocultação do sujeito passivo em operações de comércio exterior não lhe conferiu. A FRUIÇÃO DO BENEFÍCIO DO ICMS POR EMPRESA INTERPOSTA. Aquele que seria em princípio um instrumento voltado para fomentar a atividade econômica de um Estado da Federação, passa a ser usado de modo ilícito ao ser Fl. 6022DF CARF MF Processo nº 12466.000917/200881 Acórdão n.º 3302005.784 S3C3T2 Fl. 30 57 combinado com a prática efetiva da interposição fraudulenta de terceiros em operações de comércio exterior, conforme a seguinte descrição: o A empresa age como interposta pessoa em operações de comércio exterior; o A empresa interposta se apresenta aos controles aduaneiros da Receita Federal do Brasil como importador de direito; o A empresa interposta oferta o benefício do ICMS que é lhe conferido pela legislação do Estado aos seus clientes espalhados pelo território nacional; o Ao agir assim, encobre esses clientes que por força de Lei deveriam ser apresentados aos controles aduaneiros como intervenientes do comércio exterior na condição de adquirentes/encomendantes da mercadoria importada. o Em proveito da política fiscal do Estado que exonera / mitiga o ICMS, a empresa interposta consegue oferecer bens importados no mercado interno com preços inferiores aos preços normalmente praticados, propiciando aos seu cliente (sujeito passivo oculto) uma condição ímpar, deflagrando assim prática nociva à ao princípio da livre concorrência e ao princípio da isonomia; o Aquele que deveria ser o gozo de dois direitos inicialmente legítimos (fruição do benefício do ICMS e o direto de importar) ao serem combinados, sem a estrita observância da legislação pertinente a modalidade de Importação por “conta e ordem” ou por “encomenda”, assume um contorno nocivo por propiciar uma vantagem não estendida aos demais importadores; o Destarte, tanto a empresa interposta como o sujeito passivo oculto gozam de vantagens indevidas ao combinarem sinergias: enquanto que empresa interposta (importador) se credita do ICMS, o sujeito passivo oculto (cliente) obtém a mercadoria importada no mercado interno a preços vantajosos, uma condição que é inacessível a quem se submete à legislação; Assim, devese reprimir o potencial nocivo dessa vantagem diferencial decorrente da fruição do benefício do ICMS conferido pela legislação Estadual e o uso de empresa interposta em operações de comércio exterior, que passa a ofertála pais a fora como uma vitrine em um balcão de negócios. A Lei Complementar nº 87/96 (Lei Kandir), no artigo 11, inciso I, alínea d), estabelece que: Art. 11. O local da operação ou da prestação, para os efeitos da cobrança do imposto e definição do estabelecimento responsável, é: I tratandose de mercadoria ou bem: Fl. 6023DF CARF MF 58 (...) d) importado do exterior, o do estabelecimento onde ocorrer a entrada física. (Grifo Nosso) Se o estabelecimento daquele que promove a importação pela modalidade “direta” está situado em unidade da federação que fornece benefício da fruição do ICMS (crédito fictício), está evidenciado um recolhimento de ICMS a menor na importação, configurando assim uma vantagem indevida através da prática de interposição fraudulenta de terceiros, o que deve ser reprimido pela Receita Federal do Brasil. Esse crédito fictício fornecido pelo Estado de origem não entra no cômputo da do redutor da alíquota interestadual. Um exemplo é esclarecedor: Estado A tem alíquota de ICMS de 12%, ao passo que Estado B tem alíquota de ICMS de 18%. O Estado A fornece benefício da fruição do ICMS para as empresas importadoras que ali se instalarem, através de crédito fictício de 9%. Portanto, o importador só suportará a incidência da alíquota de 3%. Contudo, ao se remeter a mercadoria ao Estado B ( que tem alíquota de ICMS de 18% ), o diferencial da alíquota interestadual incidirá sobre 12% e não sobre a alíquota de 3% efetivamente pagos. Portanto, para o Estado B (de destino) o diferencial da alíquota interestadual a incidir será apenas de 6% (18 – 12) e não de 15% (18 3) como deveria. É um risco potencial que o legislador também quis evitar. É a famigerada guerra fiscal, trazendo efeitos nocivos aos princípios da capacidade econômica, da isonomia e da livre concorrência que a repressão à prática de interposição fraudulenta de terceiros visa combater. INCOMPATIBILIDADE ENTRE OPTANTE DO SIMPLES E CONTRIBUINTE DO IPI. Em sendo optante do SIMPLES, o contribuinte não poderá se apropriar de créditos relativos ao IPI. Conforme se pode observar nos documentos ora abojados que foram extraídos de nossa base de dados (anexos 14), existem diversas empresas participantes do SIMPLES que utilizaram a fiscalizada para realizar as suas importações. Assim, os valores do IPI creditados pela fiscalizada, em relação às importações de tais empresas, é mais um dano provocado à União. - DA BOA FÉ ALEGADA Oportuno agora se faz trazer comentários a respeito do alegado quanto à boa fé: É imprescindível para a análise a transcrição do artigo 136 do Código Tributário Nacional: Responsabilidade por Infrações Fl. 6024DF CARF MF Processo nº 12466.000917/200881 Acórdão n.º 3302005.784 S3C3T2 Fl. 31 59 Art. 136. Salvo disposição de lei em contrário, a responsabilidade por infrações da legislação tributária independe da intenção do agente ou do responsável e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato. Esse artigo possui o seu correspondente no DecretoLei n° 37/66: Art.94 Constitui infração toda ação ou omissão, voluntária ou involuntária, que importe inobservância, por parte da pessoa natural ou jurídica, de norma estabelecida neste DecretoLei, no seu regulamento ou em ato administrativo de caráter normativo destinado a completálos. § 1º O regulamento e demais atos administrativos não poderão estabelecer ou disciplinar obrigação, nem definir infração ou cominar penalidade que estejam autorizadas ou previstas em lei. § 2º Salvo disposição expressa em contrário, a responsabilidade por infração independe da intenção do agente ou do responsável e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato. O artigo 136 do Código Tributário Nacional é taxativo no sentido de que a responsabilidade tributária é objetiva. O §2º, do artigo 94 do Decreto Lei n° 37/66, também é taxativo no sentido de que a responsabilidade por infração aduaneira é objetiva. Assim, ainda agindo de boafé, cercado das cautelas de praxe, com razões suficientes para acreditar que está praticando um ato em conformidade com o direito, ainda que ignore o fato de seu ato ou de seus representantes estar em descompasso com a legislação, o Impugnante não pode se furtar de sua responsabilidade. O Código Tributário Nacional, ao preceituar a aplicação de sanção por infrações tributárias, utiliza a expressão “independe da intenção do agente ou do responsável e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato”. Linha absolutamente idêntica é adotada pelo DecretoLei n° 37/66. Ambos ordenamentos desconsideram a intenção do agente ou responsável como pressuposto para a aplicação da devida punição, bem como dispensa a comprovação dos efeitos e extensão dos danos à Fazenda Pública. A boa fé alegada, ainda que preponderante, por força dos artigos transcritos, não tem o condão de afastar a responsabilidade por infrações da legislação tributária. Assim, o legislador ao consagrar a responsabilidade objetiva por atos infracionais, dispensa a Fazenda Pública de perquirir fatos comprovadores da presença do dolo ou da culpa e elementos de materialidade efetiva para aplicar a sanção correspondente. A responsabilidade objetiva garante de forma mais eficaz a coercibilidade do sistema punitivo tributário. De outro modo, a atividade de fiscalização se inviabilizaria se a cada infração tivesse que se provar que o contribuinte não autorizou determinada operação por negligência, imperícia ou imprudência. Para legitimar a sanção, basta a certificação do fato infracional, independente da existência de culpa, demonstração de boafé e ocorrência de efetivo dano ao Erário público. - A INFRAÇÃO POR “CESSÃO DE NOME” Fl. 6025DF CARF MF 60 A infração por “cessão de nome” surge como uma consequencia da prática efetiva da interposição fraudulenta de terceiros. Ceder seu nome, mediante a disponibilização de documentos próprios, para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas no acobertamento de seu real beneficiário, ficando sujeita a multa tipificada no caput do artigo 33 da Lei 11.488/2007: Art. 33. A pessoa jurídica que ceder seu nome, inclusive mediante a disponibilização de documentos próprios, para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas no acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários fica sujeita a multa de 10% (dez por cento) do valor da operação acobertada, não podendo ser inferior a R$ 5.000,00 (cinco mil reais). (Grifo e negrito nossos) Chamase a atenção para a expressão utilizada pelo legislador "com vistas", o que denota que a conduta infracional tipificada pelo artigo 33 da Lei n° 11.488/2007 dispensa resultado, sendo uma infração de conduta. Uma vez caracterizada a prática efetiva de interposição fraudulenta de terceiros, com fulcro no inciso V, do artigo 23 do Decreto Lei n° 1.455/76, o importador interposto incorre também em infração por "cessão de nome". COAUTORIA DO IMPORTADOR NA PRÁTICA EFETIVA DE INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA DE TERCEIROS A questão que perdura é: Por ser a infração tipificada no inciso V, do artigo 23, do Decreto Lei 1.455/76, uma infração imprópria, o importador de direito (INTERPOSTO) responde juntamente com o importador de fato pela multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria? Bernardo Alves da Silva Júnior, Procurador da Fazenda Nacional em Brasília, em magistral explanação, vem proporcionar precisa e robusta contribuição quanto à adequada hermenêutica: NÃO É ILEGAL ACUMULAR PENALIDADES POR FRAUDE Enorme controvérsia fervilha nos órgãos judiciais e administrativos competentes para dirimir contendas Fl. 6026DF CARF MF Processo nº 12466.000917/200881 Acórdão n.º 3302005.784 S3C3T2 Fl. 32 61 tributárias acerca da aplicação das multas previstas no artigo 23, inciso V, parágrafo 3º do Decretolei 1.455/1976, e artigo 33 da Lei 11.488/2007, que prevêem infrações derivadas da interposição fraudulenta de terceiros em operações de comércio exterior. O cerne da discussão atine aos efeitos oriundos do art. 33 da Lei 11.488/2007, notadamente no que tange à interposição fraudulenta de terceiros materializada pela conduta de cessão do nome para o acobertamento dos reais intervenientes em operação de importação, a qual também é regulada pelo art. 23, inciso V, parágrafos 1º e 3º do DecretoLei 1.455/1976. Segundo o Decretolei 1.455/1976, no seu art. 23, inciso V (incluído pela Lei 10.637, de 30/12/2002), a ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, gera a penalidade de perdimento das mercadorias, convertida em multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria, caso esta não tenha sido localizada ou haja sido consumida. A seu turno, o art. 33 da Lei 11.488/2007 consigna a aplicação de multa, no montante de 10% do valor da operação, à pessoa jurídica que ceder seu nome para a realização de negócios de comércio exterior em que se acoberte os reais intervenientes ou beneficiários, vedada a penalidade de inaptidão de CNPJ. Muitas são as perspectivas adotadas para a solução da suposta colisão entre as citadas regras. No âmbito administrativo e em alguns juízos, ecoa com bastante força a tese de que a diferença das infrações tipificadas nos dispositivos legais apontados reside no fato de que a Lei 11.488/2007 dirigese ao importador ou exportador ostensivo, aquele que cede o seu nome, enquanto o Decretolei 1.455/1976 tem por objetivo sancionar o sujeito oculto, verdadeiro responsável pela operação. Para essa corrente, o importador ou exportador ostensivo deixou de se submeter à multa prescrita no Decretolei 1.455/1976 por força de derrogação pela lei posterior, de modo que referido agente a partir de então deve se submeter apenas à multa de 10% sobre o valor da operação acobertada, proibindose a declaração da inaptidão de seu CNPJ. Essa é a posição consolidada pela Delegacia da Receita Federal de Julgamento em São Paulo, 2ª Turma (Acórdão 1725849, de 17/07/2008). Recentemente, todavia, o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, examinando a fundo a questão, trilhou caminho diverso no seu enfrentamento. Em 24 de maio de Fl. 6027DF CARF MF 62 2010, as 1ª e 2ª Turmas da 1ª Câmara da 3ª Seção do CARF deram provimento a recursos de ofício para restabelecer lançamentos fiscais nos valores de mais de R$ 42 milhões e R$ 27 milhões, respectivamente (processos 10314.010132/200744 e 10314.013716/200691), ao entendimento de que mesmo após o advento da Lei 11.488/2007 o importador ostensivo deve responder pela multa substitutiva do perdimento de mercadoria prevista no art. 23, inciso V, parágrafos 1º e 3º do Decretolei 1.455/1976. O novo entendimento perfilhado pelo CARF nos parece inteiramente acertado e condizente com os regramentos legais imponíveis. Em que pese a celeuma que rodeia o tema, a sua detida análise revela que não houve derrogação do art. 23, inciso V do Decretolei 1.455/1976, sendo certo que tal regra convive harmonicamente com a disposição do art. 33 da Lei 11.488/2007, de maneira a permitir a aplicação de ambas as multas ao importador ostensivo que mediante a cessão do seu nome em operação de comércio exterior oculta, em ação fraudulenta, o real adquirente. Com efeito, a escorreita leitura do art. 33 da Lei 11.488/2007, pautada nas perspectivas literal, histórica, teleológica e sistemática, evidencia que o único efeito desse comando legal foi o de empreender a substituição da penalidade de inaptidão do CNPJ pela de multa de 10% sobre o valor da operação acobertada para os importadores que cedessem seu nome para acobertar o real interveniente em operação de comércio exterior. Referida norma não faz nenhuma alusão à pena de perdimento de mercadoria prescrita no Decretolei 1.455/1976. Razões de política fiscal levaram o legislador a extirpar a penalidade de inaptidão do CNPJ, até então prevista no art. 81 da Lei 9.430/1996 c/c art. 34, inciso III e 41, inciso III, da Instrução Normativa da Secretaria da Receita Federal 568/2005, porque se afigurava desproporcional e infenso à Economia considerarse inexistente de fato grandes empresas de intermediação em operações no comércio exterior — Trading Companies — que viessem a cometer a infração de ceder seu nome para ocultar o real adquirente em importações. Essa penalidade culminava, em verdade, com a própria aniquilação das atividades da pessoa jurídica, pelo que se reputou mais adequado imputar, em substituição, a sanção de multa. Assim, de sua parte, o art. 23, inciso V, parágrafos 1º e 3º do Decretolei 1.455/1976 continua a sancionar o agente que oculta o verdadeiro adquirente em importação, ainda que mediante a cessão de seu nome, sendolhe aplicável a pena de perdimento da mercadoria ou multa substitutiva. Fl. 6028DF CARF MF Processo nº 12466.000917/200881 Acórdão n.º 3302005.784 S3C3T2 Fl. 33 63 Antes da Lei 11.488/2007, a conduta de ceder o nome para acobertar o real interveniente em importação gerava duas penalidades: o perdimento da mercadoria ou multa substitutiva e a inaptidão de CNPJ. Agora, à luz das normas vigentes, temse como consequência da indigitada conduta a aplicação de multa de 10% no lugar da inaptidão do CNPJ, sem prejuízo do perdimento da mercadoria. A aplicação de duas ou mais penalidades em decorrência de uma única conduta não encontra nenhum óbice no ordenamento jurídico pátrio. Isso porque o ato de ceder o nome para acobertar o real adquirente em importação tem o condão de configurar o cometimento de duas infrações, previstas no art. 23, inciso V, do Decretolei 1.455 e no art. 33 da Lei 11.488, em circunstância similar ao concurso formal de infrações estampado no art. 70 do Código Penal. E a cada infração corresponde uma penalidade. O próprio art. 99 do Decretolei 37/1966 contempla a aplicação cumulativa das penas correspondentes à prática de duas ou mais infrações. É relevante destacar que as infrações em comento são distintas, notadamente porque tutelam bens jurídicos diversos. O art. 23, inciso V, do Decretolei 1.455/1976 visa a proteger o regime de controle aduaneiro e o patrimônio da União, ao passo que o art. 33 da Lei 11.488/2007 resguarda a higidez do Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas, sancionando o mau uso da inscrição no CNPJ pelas empresas. Aqui, importa relembrar que a multa de 10% sobre o valor da operação acobertada veio substituir a inaptidão de CNPJ, e apesar da modificação do consequente normativo, o suposto normativo e o seu objeto jurídico mantiveramse inalterados. Essa constatação da diversidade de objetos jurídicos, aliás, é suficiente para afastar qualquer alegação da ocorrência de bis in idem, na esteira do que vêm decidindo iterativamente os tribunais superiores. A concepção de que as sanções ora analisadas podem ser aplicadas cumulativamente foi cristalizada no art. 727, parágrafo 3º, do Decreto 6.759/2009, que trata do Regulamento Aduaneiro, no qual se consignou expressamente que a multa de 10% do valor da operação à pessoa jurídica que ceder seu nome não prejudica a pena de perdimento das mercadorias importadas ou exportadas. O Tribunal Regional Federal da 4ª Região também tem esposado essa mesma intelecção (AMS 200572080051666, Otávio Roberto Pamplona, TRF4 – 2ª Turma, 01/08/2007). Fl. 6029DF CARF MF 64 As normas em cotejo não se chocam, mas sim se complementam na defesa dos bens jurídicos que visam a proteger, de modo que ambas vigoram sem qualquer prejuízo à sua aplicação. Ou seja, mesmo após o advento da Lei 11.488/2007, o importador ostensivo continua a sujeitarse à pena de perdimento da mercadoria ou a correlata multa substitutiva. A nosso juízo, o novo entendimento sufragado pelo Conselho Administrativo de Recursos Fiscais retrata a mais escorreita exegese da matéria. Assim, firme nas considerações ora alinhavadas, forçoso é concluir que o importador que ceder seu nome para acobertamento de terceiros em operação de comércio exterior deverá responder tanto pela multa substitutiva prevista no art. 23, inciso V, parágrafo 3º, do Decretolei 1.455/1976 como pela multa do art. 33 da Lei 11.488/2007, até mesmo em atenção ao que dispõe o art. 95, incisos I, V e VI do Decretolei 37/1966. (in: www.jurisite.com.br/textosjuridicos/texto332.html Neste mesmo sentido, posicionouse o TRF4 APELAÇÃO EM MANDADO DE SEGURANÇA: AMS 5166 SC 2005.72.08.0051666, Dilação Probatória. Interposição Fraudulenta. Ocultação do Verdadeiro Importador. Pena de Perdimento das Mercadorias. Dados Gerais Processo: AMS 5166 SC 2005.72.08.0051666 Relator(a): OTÁVIO ROBERTO PAMPLONA Julgamento: 03/07/2007 Órgão Julgador: SEGUNDA TURMA Publicação: D.E. 01/08/2007 Ementa TRIBUTÁRIO. MANDADO DE SEGURANÇA. DILAÇÃO PROBATÓRIA. INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA. OCULTAÇÃO DO VERDADEIRO IMPORTADOR. PENA DE PERDIMENTO DAS MERCADORIAS. LEGALIDADE. ARTIGO 33 DA LEI Nº 11.488, DE 15 DE JUNHO DE 2007. NÃO REVOGAÇÃO DA PENA DE PERDIMENTO PREVISTA NO ARTIGO 23 DO DECRETOLEI Nº 1.455, DE 1976. AUSÊNCIA DE DIREITO LÍQUIDO E CERTO. 1. A alegada violação a direito líquido e certo deve estar demonstrada de plano, mediante prova préconstituída (artigo 8º da Lei nº. 1.533/51), sendo descabida a utilização do mandado de segurança para o fim de desconstituir ato administrativo, que goza da presunção de Fl. 6030DF CARF MF Processo nº 12466.000917/200881 Acórdão n.º 3302005.784 S3C3T2 Fl. 34 65 legitimidade e veracidade, mediante alegações de fato que demandem dilação probatória. 2. O auto de infração, que redundou na aplicação da pena de perdimento, está devidamente fundamentado, encontrando lastro nos documentos produzidos no procedimento administrativo, que dão conta de que a impetrante, de fato, promoveu a importação em favor de terceiro, sem o observância das regras pertinentes. 3. Da mesma forma, o arbitramento feito pela autoridade fiscal, no que concerne aos valores dos bens internalizados, demonstra que houve subfaturamento, não se desincumbindo a autuada de demonstrar, a contento, que as conclusões da autoridade fiscal estão equivocadas. 4. A existência de outras imperfeições formais na documentação que amparou a importação, aliada ao subfaturamento, são indicativos de que a operação, em princípio, está eivada de irregularidades. A prova produzida pela impetrante, por sua vez, apresentouse frágil para afastar a presunção de legitimidade do ato apontado como coator. 5. O artigo 33 da Lei nº 11.488, de 15 de junho de 2007, não tem o condão de afastar a pena de perdimento, porquanto não implicou em revogação do artigo 23 do DL nº 1.455/76, com a redação dada pela Lei nº 10.637/2002. Isso porque, a pena de perdimento atinge, em verdade, o real adquirente da mercadoria, sujeito oculto da operação de importação. A pena de multa de 10% sobre a operação, prevista no referido dispositivo legal, revelase como pena pessoal da empresa que, cedendo seu nome, faz a importação, em nome próprio, para terceiros. O parágrafo único do aludido artigo, por sua vez, estatui que "à hipótese prevista no caput deste artigo não se aplica o disposto no art. 81 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996". Essa complementação legal, constante do parágrafo único, abona o entendimento de que não houve a revogação da pena de perdimento para a hipótese retratada nos autos. Antes o confirma, porquanto exclui, expressamente, apenas a possibilidade da aplicação da sanção de inaptidão do CNPJ. Quanto às demais penas, permanecem incólumes, havendo a previsão, agora também, da pena pecuniária, nos termos do caput do aludido preceptivo legal. 6. A discussão acerca da sanção de declaração de inaptidão do CNPJ não pode ser enfrentada nesta segurança, pois o auto de infração impugnado não aplicou referida pena. A decisão que declarou a inaptidão do CNPJ Fl. 6031DF CARF MF 66 foi proferida por outra autoridade, em outro procedimento, o qual, aliás, é objeto de ação ordinária que tramita na 1ª Região. 7. Denegação da segurança mantida. Improvimento da apelação. Nesse sentido, citase o artigo 99 do DecretoLei nº 37/66: Art.99 Apurandose, no mesmo processo, a prática de duas ou mais infrações pela mesma pessoa natural ou jurídica, aplicamse cumulativamente, no grau correspondente, quando for o caso, as penas a elas cominadas, se as infrações não forem idênticas. (Grifo e negrito nossos) São portanto duas condutas infracionais distintas, afetando bens jurídicos tutelados dispares: ¨ Art. 33 da Lei 11.488/2007: Infração própria cometida apenas pelo importador de direito (INTERPOSTO), em razão de sua habilitação no Siscomex, por ceder seu nome, inclusive mediante a disponibilização de documentos próprios, para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas no acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários. O parágrafo único do referido artigo é explicito em determinar que sua aplicação vem a inibir a declaração de inaptidão do CNPJ do importador/exportador de direito (ou ostensivo), decorrente da previsão feita pelo §1º, do artigo 81 da Lei nº 9430/96, não fazendo referência à qualquer outro artigo. A conduta tipificada do importador de direito (INTERPOSTO) é de “ceder o nome” agindo em descompasso em relação à higidez do Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas. ¨ Art. 23, inciso V, do Decreto Lei 1.455/76: Infração imprópria cometida tanto pelo importador de direito (INTERPOSTO) como pelo importador de fato (REAL COMPRADOR) em coautoria. A conduta tipificada do importador de direito (INTERPOSTO) é de “prática de interposição fraudulenta de terceiros em operações de comércio exterior”, agindo em descompasso em relação aos controles aduaneiros. Encontrase apoio nas palavras de Luiz Flávio Gomes para se conceituar o instituto da coautoria: Ocorre coautoria (no Direito penal) quando várias pessoas participam da execução do crime, realizando ou não o verbo núcleo do tipo. Todos os coautores, entretanto, possuem o codomínio do fato. Todos praticam fato próprio. Enquanto o coautor participa de fato próprio, o partícipe contribui para fato alheio. Três são os requisitos da coautoria: Fl. 6032DF CARF MF Processo nº 12466.000917/200881 Acórdão n.º 3302005.784 S3C3T2 Fl. 35 67 1) pluralidade de condutas; 2) relevância causal e jurídica de cada uma; 3) vínculo subjetivo entre os coautores (ou pelo menos de um dos coautores, com anuência ainda que tácita do outro ou dos outros coautores). A coautoria, como se vê, conta com uma parte objetiva (concretização do fato) e outra subjetiva (acordo explícito ou tácito entre os agentes). http://jus.com.br/revista/texto/8120/conceitodeco autoriaemdireitopenal#ixzz1qoR4I4u3 Fazendo a transposição do conceito acima elucidado para a infração de interposição fraudulenta em operação de comércio exterior, temos: 1) pluralidade de condutas: a interposição fraudulenta é composta pela conduta do importador de fato (ocultado) e pela conduta do importador de direito (ocultador). Uma conduta complementa a outra. Logo ambos percorrem o fato típico da infração. 2) relevância causal e jurídica de cada uma: o importador de direito (ocultador) registra a Declaração de Importação em seu nome com recursos oriundos do importador de fato (ocultado) ou sob sua determinação. A relação entre os dois agentes é clara e cristalina com flagrante intenção de burlar os controles aduaneiros. 3) vínculo subjetivo entre os coautores: existe o liame subjetivo que liga o importador de fato (ocultado) ao importador de direito (ocultador) na clara intenção de auferir proveitos em descumprir a legislação aduaneira. É certa a exigência de que todo e qualquer importador se cadastre junto ao Siscomex (Sistema Radar) para que a Receita Federal do Brasil possa exercer um controle direto sobre suas atividades de modo a garantir, entre outros, a lisura da concorrência no mercado interno, inclusive o adquirente e o encomendante. Sabese que muitas organizações usam a figura do importador interposto para não auferir o lucro contábil e assim burlar a fiscalização no pagamento de impostos e contribuições decorrentes tanto do lucro quanto do faturamento. O vínculo que liga tanto o importador de fato ao importador de direito é justamente a consecução dessa prática visando fugir dos controles aduaneiros. O artigo 95, inciso I, do DecretoLei n° 37/66, assim determina: Art.95 Respondem pela infração: I conjunta ou isoladamente, quem quer que, de qualquer forma, concorra para sua prática, ou dela se beneficie; (Grifo e negrito próprios do impugnante) Pelo exposto, o importador de direito – importador interposto e o importador de fato – sujeito passivo oculto CONCORREM para a prática efetiva de interposição fraudulenta de terceiros, pois: Fl. 6033DF CARF MF 68 Assim, entendese que, mesmo com o advento do artigo 33 da Lei n° 11.488/2007, a infração do inciso V, do artigo 23, do DecretoLei n° 1.455/76 é imputável tanto ao importador de direito (INTERPOSTO) como ao importador de fato (OCULTO) em coautoria, , no que tange à cobrança da multa proporcional ao valor aduaneiro. Por fim, o próprio § 3º, do artigo 727, do Regulamento Aduaneiro – Decreto 6.759/2009 endossa esse entendimento. Art. 727. Aplicase a multa de dez por cento do valor da operação à pessoa jurídica que ceder seu nome, inclusive mediante a disponibilização de documentos próprios, para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas ao acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários (Lei no 11.488, de 2007, art. 33, caput). (...) § 3o A multa de que trata este artigo não prejudica a aplicação da pena de perdimento às mercadorias importadas ou exportadas. (grifo e negrito nossos) Portanto, a incidência da multa do artigo 33 da Lei nº 11.488/07 não exclui a aplicação da pena de perdimento e consequentemente a multa equivalente ao valor aduaneiro. Diante de tudo que foi exposto, voto no sentido de NEGAR PROVIMENTO ao Recurso do Contribuinte. É como voto. Jorge Lima Abud. Fl. 6034DF CARF MF Processo nº 12466.000917/200881 Acórdão n.º 3302005.784 S3C3T2 Fl. 36 69 Fl. 6035DF CARF MF
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