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Numero do processo: 10880.941616/2012-70
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Aug 30 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Oct 11 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 3301-000.818
Decisão: Vistos relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência, nos termos do relatório e voto que integram presente julgado.
(assinado digitalmente)
Winderley Morais Pereira - Presidente
(assinado digitalmente)
Semíramis de Oliveira Duro - Relatora
Participaram da presente sessão de julgamento os Conselheiros Winderley Morais Pereira (Presidente), Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Valcir Gassen, Liziane Angelotti Meira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Ari Vendramini, Salvador Cândido Brandão Junior e Semíramis de Oliveira Duro.
Nome do relator: SEMIRAMIS DE OLIVEIRA DURO
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Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência, nos termos do relatório e voto que integram presente julgado. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Presidente (assinado digitalmente) Semíramis de Oliveira Duro Relatora Participaram da presente sessão de julgamento os Conselheiros Winderley Morais Pereira (Presidente), Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Valcir Gassen, Liziane Angelotti Meira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Ari Vendramini, Salvador Cândido Brandão Junior e Semíramis de Oliveira Duro. Relatório Por economia processual, adoto o relatório da decisão recorrida: Trata o presente processo de análise e acompanhamento de PER/DCOMP transmitido pela contribuinte em 26/10/2011, através do qual pretendeu ressarcimento de valores credores de COFINS nãocumulativa vinculados à receita de exportação relativos ao 2º trimestre de 2011. Posteriormente houve transmissão de DCOMPs. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 08 80 .9 41 61 6/ 20 12 -7 0 Fl. 2495DF CARF MF Processo nº 10880.941616/201270 Resolução nº 3301000.818 S3C3T1 Fl. 2.496 2 A repartição fiscalizadora efetuou auditoria e produziu Informação Fiscal onde dissecou, pormenorizadamente, os problemas encontrados, tendo apontado valor passível de ressarcimento (fl. 1.845). Foi emitido Despacho Decisório por meio do qual foi reconhecido parcialmente o direito creditório relativo à COFINS nãocumulativa vinculado à receita de exportação (2º trimestre de 2011), sendo homologada parcialmente a compensação declarada na DCOMP nº 11588.64275.151211.1.3.09 7303. Não foram homologadas as compensações declaradas nas DCOMPs nºs 38748.66364.201211.1.3.09 3461 e 13602.96644.030112.1.3.091131. Desse Despacho Decisório a contribuinte tomou ciência em 13/05/2013 (relação SCC na fl. 2.015) e, não se conformando, apresentou, através de procuradores, longa manifestação de inconformidade onde, inicialmente, referiu à tempestividade e aos fatos, aduzindo a seguir (de forma sintética): 1) Índice de rateio proporcional relativamente às receitas de exportação e do mercado interno: a Fiscalização alterou o índice de rateio proporcional dos créditos da COFINS calculados sobre custos e despesas comuns à receita do mercado interno e de exportação. Seu entendimento era de que o momento do embarque da mercadoria é o paramento a ser considerado para a apuração dos valores exportados a cada mês, conforme o artigo 1° do Ato Declaratório Interpretativo SRF n° 22, de 5 de novembro de 2002. Considerou como receita de exportação os valores constantes no SISCOMEX conforme a data de embarque das mercadorias, extraindo os dados do sistema DW Aduaneiro. Contudo, resta totalmente equivocado o entendimento fiscal, quer em razão de que o ADI SRF n° 22/2002 não é aplicável na apuração de créditos de COFINS não cumulativa, quer por este entendimento não possuir base legal, bem como violar as normas de apuração da contribuição. Ademais, a interpretação fiscal colidiria com o § 3º do art. 6º, c/c § 8º do art. 3º da Lei nº 10.833, de 2003, que dispõe que o rateio será proporcional ao auferimento de receitas, sem impor que tenha havido o embarque da mercadoria ao exterior para que as receitas auferidas fossem consideradas de exportação. 2) Glosa de créditos sobre bens e serviços utilizados como insumos: a) inaplicabilidade das INs SRF nºs 247/2002 e 404/2004: contesta o conceito de insumo utilizado nas IN SRF nº 247, de 2002, e 404, de 2004, invocadas no DD para glosar seus créditos. b) bens/serviços utilizados como insumo pela empresa: considerando que a madeira é o principal insumo para a fabricação da pasta da celulose, todos os dispêndios com bens e serviços adquiridos para o plantio, corte, colheita, transporte das toras de madeira, mudas, fertilizantes, herbicidas, entre outros, possuem classificação jurídica e contábil como custos de produção, razão pela qual classificálos de forma distinta, e por conseqüência, glosar os créditos de COFINS é ato praticado ao arrepio da lei. Insumo e custo possuem o mesmo sentido e refletem a mesma realidade, razão pela qual, todos os itens que compõem o custo de produção ensejam o direito ao crédito de COFINS, a menos que sejam vedados expressamente pela Lei n° 10.833/2003, como é o caso, por exemplo, de custos incorridos com a aquisição de bens e serviços de pessoa física ou de pessoas jurídicas estrangeiras (§ 3º do art. 3º). Mesmo sendo custo de produção, os créditos sobre tais dispêndios são vedados, pois não implicariam na cumulatividade dos contribuintes. No caso dos autos, todos os créditos que foram glosados decorrem de bens e serviços adquiridos que representam efetivamente um custo de produção, pois são eles utilizados como insumo e indispensáveis à produção dos produtos destinados à venda pela empresa, sendo legítimo o crédito apropriado, razão pela qual deve ser dado provimento à presente manifestação. Fl. 2496DF CARF MF Processo nº 10880.941616/201270 Resolução nº 3301000.818 S3C3T1 Fl. 2.497 3 c) insumos glosados indevidamente: refere à Informação Fiscal, reclamando do entendimento exposto acerca de glosas de diversos insumos, dentre outros: bens e serviços relativos ao tratamento de resíduos, arames utilizados para transporte de fardos e celulose, embaladores de bobinas, estrados de madeira e pallets, despesas com mão de obra inespecífica, insumos relacionados à logística/transporte, baterias, pilhas, carregadores e acessórios, materiais de consumo de informática, materiais para laboratório, serviços de gerenciamentos, extintores, materiais de papelaria, palestras, festas e eventos, limpeza industrial, serviços de combate a incêndio, armazenagem de insumos, serviços de projetos, serviços relacionados a parte laboratorial, desenvolvimento de software, locação de andaimes, locação de container, assinatura de manuais de legislação, gerenciamento de arquivos, seminários da NR10, segurança patrimonial, alpinismo industrial, eventos com fórum de marketing, vigilância, serviços fotográficos e de mídia, serviços relacionados ao setor de Recursos Humanos, inspeção da NR13, serviços administrativos, reforma de mobiliário, programas de formação profissional e instalação de fibras ópticas e rede, transporte de pessoal, gastos com lanches e refeições, equipamentos de proteção individual (luvas, capuzes, botinas de segurança, entre outros) e combustíveis utilizados para o transporte e manejo dos insumos. Contudo, os bens e serviços glosados pelo Fisco são parte essencial no processo produtivo, tendo sido desconsiderados esses insumos sem qualquer critério legal, sem qualquer embasamento jurídico. Requer, em razão do grande número de insumos e o exíguo prazo para a manifestação de inconformidade, a realização de diligência para a comprovação de que os bens e serviços adquiridos pela empresa são efetivamente custos ligados à sua produção ou fabricação. d) crédito sobre insumos empregados na constituição de florestas: o Fisco glosou créditos referentes a gastos com insumos florestais, isto é, valores dispendidos necessários à formação e ao desenvolvimento das florestas. Disse que todo bem ou serviço utilizado pela empresa antes do tratamento físicoquímico da madeira em si não podem ser classificados como insumo para fins de creditamento do PIS/PASEP e do COFINS não cumulativos. Ao Invés disso, as reservas florestais devem ser tratadas como sendo um ativo Imobilizado da empresa. Mas o art. 1º da Lei n° 10.833/2003, preceitua que a COFINS na incidência nãocumulativa, tem como fato gerador o faturamento mensal, assim entendido o total das receitas auferidas pela pessoa jurídica, independentemente de sua denominação ou classificação contábil. No caso das empresas de celulose, os custos de produção se iniciam com o desenvolvimento de mudas de eucalipto, se intensificam na formação das florestas e, se encerram após a transformação da madeira em celulose. Todos os dispêndios com bens e serviços adquiridos para o plantio, corte, colheita, transporte das toras de madeira possuem a natureza jurídica de insumo, visto que são indispensáveis à elaboração da pasta de celulose, que é o produto final da empresa destinado à venda, razão pela qual a glosa dos créditos se encontra ao arrepio da lei. Assim, todos os gastos listados nas planilhas elaboradas pela fiscalização que tiverem ligação à formação de florestas ou silvicultura, por constituírem insumo na produção da celulose, devem gerar direito a crédito de COFINS. Deve ser reformado o DD. e) insumos não adquiridos de terceiros: a Fiscalização afirma que não dá direito a crédito itens tais como clonagem, pesquisa, tratamento do solo, adubação, irrigação, controle de pragas, combate a incêndio e colheita. Mas a empresa só apropria créditos decorrentes de bens/serviços adquiridos de terceiros, não se apropriando de créditos sob sua própria mão de obra. Todos os serviços citados só compuseram a base de cálculo dos créditos se foram adquiridos de terceiros. Desta forma, resta patente a improcedência da glosa sob essa rubrica, devendo ser julgada procedente sua manifestação. Fl. 2497DF CARF MF Processo nº 10880.941616/201270 Resolução nº 3301000.818 S3C3T1 Fl. 2.498 4 f) fretes: disse o Fisco que quaisquer serviços de transporte não relacionados à entrega de mercadorias diretamente aos clientes não podem ser considerados como sendo insumo. Seguindo esta orientação dada pela COSIT acerca do termo, entre outros, não foram considerados como insumo: armazenagem/transporte de papel e logística. Neste item não há diferença entre o frete pago na aquisição de insumos, na transferência de produtos em elaboração ou para colocação do produto acabado no estabelecimento vendedor. Todos estes gastos são tidos como custo de produção (art. 187, II, da Lei n° 6.404/1976), constituindo insumos, cujo crédito é assegurado pelo inciso II do art. 3º das Leis nºs 10.637/2002 e 10.833/2003. O inciso IX do art. 3º dessas leis assegura apenas o frete que constitui uma despesa de venda, que é o frete pago pelo vendedor para entregar o produto ao comprador. Os gastos de frete da empresa, portanto, até o momento em que o produto está colocado à venda, mesmo se este frete for despendido após o produto estar acabado, irão integrar o custo da mercadoria ou produto vendido (art. 187, II, da Lei nº 6.404/1976). Em todos os casos, o frete é tido como custo de produção ou fator de produção, enquadrandose no conceito de insumo. deve, também ser reparado o despacho decisório para que se restabeleça na integralidade os créditos da empresa que foram glosados no que tange aos fretes, sem qualquer exceção. g) glosa ao creditamento de bens do ativo imobilizado: entende equivocado o procedimento do Fisco de glosar o creditamento de bens do ativo imobilizado. Considera que não houve motivação precisa da glosa, o que acarretaria a nulidade do DD em relação a esta rubrica. Cita que a glosa da totalidade dos créditos oriundos da aquisição de veículos Toyota também não teria sido justificada para fins de crédito do ativo imobilizado. Ainda que houvesse a referida motivação, o entendimento fiscal não poderia perdurar pois se tratariam de veículos utilizados em atividades ligadas diretamente ao ciclo produtivo. Requer o reconhecimento da nulidade da glosa constante nos itens 99 e 100 da rubrica creditamento bens do ativo imobilizado em razão da preterição do direito de defesa. 3) Direito a créditos vinculados à receita de exportação: é inequívoco o direito ao crédito de COFINS em relação à parcela de insumos que se encontram vinculados à receita de exportação. O creditamento de COFINS sobre os custos, despesas e encargos vinculados à receita de exportação é assegurado de forma ampla pelo art. 6º, § 3° e art. 15, inciso II, da Lei n° 10.833/2003, que não impõem qualquer condição adicional para o gozo do direito. Tratase de empresa exportadora de pasta de celulose, sendo que todos os custos que estejam vinculados à receita de exportação, o que sem dúvida incluem os insumos florestais e os fretes, conferem crédito de COFINS nos moldes dos dispositivos aludidos. 4) Realização de perícia/diligência: caso não se entenda que os argumentos que apontou sejam suficientes para reformar o DD, solicita a realização de diligência/perícia para que sejam respondidos os quesitos que indica (fls. 1.916 e 1.917). Nomeia os peritos. 5) Impossibilidade de cobrança de parcelas de estimativas mensais de CSLL. Violação da Súmula 82 do CARF e da IN SRF nº 93/1997: entende pela impossibilidade de cobrança de parcelas de estimativas mensais de IRPJ e CSLL, o que violaria o disposto na Súmula 82 do CARF e na IN nº 93/1997. Aponta que a exigência dos débitos objeto dos Processos de Cobrança nº 10880921127/201382 e n° 10783 902841/201370 não poderia ser efetivada, porquanto referentes a estimativa de CSLL dos meses de janeiro de 2008 e fevereiro/abril de 2011. Fl. 2498DF CARF MF Processo nº 10880.941616/201270 Resolução nº 3301000.818 S3C3T1 Fl. 2.499 5 6) Ilegítima incidência de juros e multa de mora sobre débitos de estimativa de IRPJ e CSLL: discorda da incidência de juros e multa de mora sobre débitos de estimativa de CSLL e IRPJ, porquanto o art. 61 da Lei nº 9.430/1996 não se aplicaria ao presente caso. 7) Pedidos: a) requer, em preliminar, seja dado provimento a sua Manifestação de Inconformidade, para reconhecer as nulidades que permeiam o DD combatido, em especial a ausência de motivação em relação à glosa atinente ao ativo imobilizado; b) caso assim não se entenda, requer a realização perícia e/ou diligência fiscal, nos termos do art. 16, IV, do Decreto 70.235/1972, conforme fundamentos expostos; c) caso não acolhida a preliminar apontada e pedido perícia e/ou diligência, requer seja dado provimento a sua Manifestação de Inconformidade, reconhecendose integralmente o crédito pleiteado, homologandose, consequentemente, todas as compensações declaradas; d) em qualquer hipótese, requer o cancelamento dos débitos de estimativas de CSLL objeto dos processos n°s 10880921127/201382 e 10783 902841/201370, em respeito a Súmula CARF n° 82, ou, ao menos, requer que seja afasta a incidência de multa/juros sobre os débitos de estimativa compensados. A repartição de origem atestou a tempestividade da peça de contestação. A Delegacia de Julgamento manteve a integralidade das glosas, com decisão assim ementada: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/04/2011 a 30/06/2011 PEDIDO DE DILIGÊNCIA OU PERÍCIA. PRESCINDIBILIDADE. Não se justifica a realização de perícia/diligência quando presentes nos autos elementos suficientes para formar a convicção do julgador. REPETIÇÃO DE INDÉBITO. COMPROVAÇÃO DO DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA. CONTRIBUINTE. No âmbito específico dos pedidos de restituição, compensação ou ressarcimento, é ônus do contribuinte/pleiteante a comprovação minudente da existência do direito creditório pleiteado. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/04/2011 a 30/06/2011 ENTENDIMENTOS ADMINISTRATIVOS E MANIFESTAÇÕES DOUTRINÁRIAS. EFEITOS. NÃO VINCULAÇÃO. As referências a entendimentos de segunda instância administrativa ou a manifestações da doutrina especializada, não vinculam os julgamentos emanados pelas Delegacias da Receita Federal do Brasil de Julgamento. Fl. 2499DF CARF MF Processo nº 10880.941616/201270 Resolução nº 3301000.818 S3C3T1 Fl. 2.500 6 ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/04/2011 a 30/06/2011 REGIME NÃOCUMULATIVO. INSUMOS. CONCEITO. Para ser considerado insumo, o bem ou o serviço, desde que adquirido de pessoa jurídica, deve ter sido consumido, desgastado, ou ter perdidas as suas propriedades físicas ou químicas em razão de ação diretamente exercida sobre o produto em elaboração. REGIME NÃOCUMULATIVO. APURAÇÃO DE CRÉDITOS. RATEIO PROPORCIONAL. Na determinação dos créditos da nãocumulatividade passíveis de ressarcimento/compensação, há de se fazer o rateio proporcional entre as receitas obtidas com operações de exportação e de mercado interno (tributadas e NT). REGIME NÃOCUMULATIVO. INSUMOS PARA FORMAÇÃO DE FLORESTAS. INCORPORAÇÃO AO ATIVO IMOBILIZADO. DESCONTO DE CRÉDITO COMO EXAUSTÃO. IMPOSSIBILIDADE. Os custos de formação de floresta são incorporados ao valor desse bem registrado no ativo imobilizado, valor que, na medida da utilização da floresta, deve ser objeto de encargos de exaustão, que não dão direito a crédito por falta de previsão legal. REGIME NÃOCUMULATIVO. DESPESAS COM FRETES. CONDIÇÕES DE CREDITAMENTO. Observada a legislação de regência, a regra geral é que em se tratando de despesas com serviços de frete, somente dará direito à apuração de crédito o frete contratado relacionado a operações de venda, onde ocorra a entrega de bens/mercadorias vendidas diretamente aos clientes adquirentes, desde que o ônus tenha sido suportado pela pessoa jurídica vendedora. Em Recurso Voluntário, a empresa reitera seus argumentos da manifestação de inconformidade, combatendo ponto a ponto a decisão de piso e especificando a essencialidade de cada insumo glosado. Juntou laudo técnico da Escola Superior de Agricultura da USP, que descreve todo o processo produtivo da operação florestal e da fase de indústria da celulose, tratando as duas como interdependentes. Em petição de dezembro de 2017, a Recorrente informa ter sido notificada do lançamento de multa isolada de 50% em decorrência da não homologação de suas compensações (Processo n° 11080.730742/201793). Por isso, aduz que a multa de mora de 20% não é devida, eis que o contribuinte não pode ser duplamente penalizado: Esclareçase que a multa isolada de 50%, conquanto não debatida nestes autos, está inteiramente relacionada à multa de mora de 20% ora discutida, porque a exigência de ambas, conforme amplamente demonstrado, constitui dupla punição. E esta dupla punição é fato Fl. 2500DF CARF MF Processo nº 10880.941616/201270 Resolução nº 3301000.818 S3C3T1 Fl. 2.501 7 novo, surgido quando da notificação do lançamento da multa isolada de 50%, motivo pelo qual se mostra cabível a arguição, neste momento, do afastamento da multa de 20%, em razão da impossibilidade de dupla punição do mesmo fato (não homologação de compensação). É o relatório. Voto Conselheira Semíramis de Oliveira Duro, Relatora O recurso voluntário reúne os pressupostos legais de interposição, dele, portanto, tomo conhecimento. Na origem, houve a análise dos créditos pleiteados de PIS/COFINS não cumulativos vinculados à receita de exportação (art. 3º e 5º da Lei nº 10.637/2002 e art. 3º e 6º da Lei nº 10.833/2003). A fiscalização procedeu à auditoria das rubricas das receitas e despesas, em especial os bens para revenda, bens utilizados como insumos, serviços utilizados como insumos, fretes e combustíveis. Para tanto, informou a fiscalização que a empresa apresentou toda a documentação solicitada: Para tal, foram confrontadas: as apurações e declarações transmitidas pela empresa (DACON, DCTF, PER/DCOMP, DIPJ); os livros, documentos e arquivos eletrônicos fiscais e contábeis; e as notas fiscais eletrônicas e originais apresentadas em conformidade com a Instrução Normativa SRF nº 86, de 22 de Outubro de 2001, por meio da utilização do ContÁgil, aplicativo de auxílio ao AuditorFiscal da Receita Federal do Brasil no exercício das atividades de fiscalização. Ademais, foram ainda solicitados ao longo da fiscalização: as notas fiscais de compras de insumos, prestação de serviços utilizados como insumos; o descritivo do processo produtivo da empresa e principais insumos utilizados na industrialização, com a respectiva classificação fiscal; os laudos de utilização dos diversos tipos de combustíveis, objeto do pedido de creditamento e documentos de constituição de participação em Consórcios. Conforme relatado, foram diversos os motivos das glosas dos créditos pleiteados pela Recorrente, que podem ser separadas em três grandes grupos: i. Método de Apropriação de Custos – Rateio proporcional ii. Insumos da nãocumulatividade iii. Creditamentoativo imobilizado Como se vê, um dos pontos controvertidos nestes autos é o conceito de insumo para fins de creditamento no âmbito do regime de apuração nãocumulativa das contribuições do PIS e da COFINS. A Recorrente pleiteia todos créditos por entendêlos como essenciais para sua atividade. Fl. 2501DF CARF MF Processo nº 10880.941616/201270 Resolução nº 3301000.818 S3C3T1 Fl. 2.502 8 Entretanto, o conceito de insumo que norteou a análise fiscal na origem foi o restrito, veiculado pelas Instruções Normativas da RFB n° 247/2002 e 404/2004, segundo as quais o termo “insumo” não pode ser interpretado como todo e qualquer bem ou serviço que gera despesa necessária para a atividade da empresa, mas, sim, tão somente, como aqueles que, adquiridos de pessoa jurídica, efetivamente sejam aplicados ou consumidos na produção de bens destinados à venda ou na prestação do serviço da atividade. O mesmo critério foi utilizado no julgamento da decisão de piso. Por outro lado, para a Recorrente, o conceito de insumo é amplo, implicando na assertiva de que insumo equivale a “custo de produção”. Esta 1ª Turma Ordinária de Julgamento adota a posição de que o conceito de insumo para fins de creditamento do PIS e da COFINS, no regime da nãocumulatividade, não guarda correspondência com o utilizado pela legislação do IPI, tampouco pela legislação do Imposto sobre a Renda. Dessa forma, o insumo deve ser essencial ao processo produtivo e, por conseguinte, à execução da atividade empresarial desenvolvida pela empresa. Em razão disso, deve haver a análise individual da natureza da atividade da pessoa jurídica que busca o creditamento segundo o regime da nãocumulatividade, para se aferir o que é insumo. As atividades desenvolvidas pela Recorrente são: a) a indústria e o comércio, no atacado e no varejo de celulose, papel, papelão e quaisquer outros produtos derivados desses materiais, próprios ou de terceiros; b) comércio, no atacado e no varejo, de produtos destinados ao uso gráfico em geral; c) a exploração de todas as atividades industriais e comerciais que se relacionarem direta ou indiretamente com seu objetivo social; d) a importação de bens e mercadorias relativos aos seus fins sociais; e) a exportação dos produtos de sua fabricação e de terceiros; f) a representação por conta própria ou de terceiros; g) a participação em outras sociedades, no país ou no exterior, qualquer que seja a sua forma e objeto, na qualidade de sócia, quotista ou acionista; h) a prestação de serviços de controle administrativo, organizacional e financeiro às sociedades ligadas ou a terceiros; i) a administração e implementação de projetos de florestamento e reflorestamento, por conta própria ou de terceiros, incluindo o gerenciamento de todas as atividades agrícolas que viabilizem a produção, fornecimento e abastecimento de matéria prima para indústria de celulose, papel, papelão e quaisquer outros produtos derivados desses materiais; e j) a prestação de serviços técnicos, mediante consultoria e assessoria às suas controladas ou a terceiros. Ressaltese que há fato novo nos autos: a juntada de laudo técnico produzido pela Escola Superior de Agricultura da USP, em sede de recurso voluntário. Tal documento teve a finalidade de descrever o processo produtivo da Recorrente, desde a operação florestal até a entrega da madeira para a indústria, bem como as etapas industriais da celulose e do papel: Fl. 2502DF CARF MF Processo nº 10880.941616/201270 Resolução nº 3301000.818 S3C3T1 Fl. 2.503 9 De antemão já se configura a necessidade de conversão do julgamento em diligência, em razão de o laudo ser um fato novo, o que demanda a manifestação da autoridade fiscal, em respeito ao princípio do contraditório. Todavia, há outros pontos que demandam esclarecimento. A seguir, analisase uma a uma as glosas para delimitar o objeto da diligência proposta. MÉTODO DE APROPRIAÇÃO DOS CUSTOS RATEIO PROPORCIONAL (Lei nº 10.637/2002, art. 3º e art. 3°, 6º e 15 da Lei nº 10.833/2003) Ao longo de todo o período fiscalizado, a empresa utilizou o método do rateio proporcional para todos os custos. Ao final, a fiscalização: Através do levantamento dos valores referentes às Receitas do Mercado Interno e do Mercado Externo levantados anteriormente, chegouse a novos índices de rateio detalhados nos memoriais de cálculo desta auditoria. Para a autoridade fiscal, o momento do embarque da mercadoria é o parâmetro a ser considerado para a apuração dos valores exportados a cada mês, nos termos do art. 1º do Ato Declaratório Interpretativo SRF nº 22, de 5 de novembro de 2002: Art. 1º Para fins de isenção da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, considerase exportado para o exterior o bem que tenha saído do território nacional. Diante disso, os valores constantes no SISCOMEX (data do embarque) foram utilizados para fins de apuração dos índices de rateio e retificação dos DACON. Os dados foram extraídos pelo sistema DWAduaneiro. Por conseguinte, parte do crédito pretendido pela empresa não foi integralmente admitido, por conta do referido ajuste no percentual de rateio das receitas oriundas de exportação/mercado interno. Por outro lado, para a Recorrente, o reconhecimento da receita deve ser na emissão da Nota Fiscal. Fl. 2503DF CARF MF Processo nº 10880.941616/201270 Resolução nº 3301000.818 S3C3T1 Fl. 2.504 10 Ademais, há ponto de extrema importância levantado pelo contribuinte em sua defesa: A lide e o que tem quer ser decidido nos presentes autos é: A receita decorrente de exportação indireta (venda no mercado interno para trading, com fim específico de exportação) deve ser contabilizada como receita de exportação para fins de cálculo do rateio proporcional dos créditos, ou apenas devem ser considerados os valores constantes do SISCOMEX? Todo o arcabouço legal que regula a exportação indireta vigente leva a única conclusão possível de que os valores relativos a tais operações compõem a receita de exportação e, portanto, o índice do rateio. As empresas comerciais têm por objeto social a comercialização de mercadorias, podendo comprar produtos fabricados por terceiros para revender no mercado interno ou destinálos à exportação, bem como importar mercadorias e efetuar sua comercialização no mercado doméstico, ou seja, exercem atividades típicas de uma empresa comercial. A expressão trading company não é utilizada na legislação brasileira e na doutrina, há confusão entre as definições de “empresa comercial exportadora” e “trading company”. A distinção se faz entre as empresas comerciais exportadoras (ECE) que possuem o Certificado de Registro Especial e as que não o possuem. As empresas comerciais exportadoras são reconhecidas no Brasil pelo Decretolei nº 1.248/1972, que dispõe sobre o tratamento tributário das operações de compra de mercadorias no mercado interno, para o fim específico de exportação, essa norma assegura os benefícios fiscais concedidos por lei para incentivo à exportação, tanto ao produtor vendedor quanto à ECE. Pelo Decretolei nº 1.248/1972, apenas as empresas comerciais exportadoras que obtivessem o Certificado de Registro Especial seriam beneficiadas com os incentivos fiscais à exportação, entretanto, a legislação atual não faz essa distinção. De acordo com a legislação tributária atual, existem duas espécies de Empresas Comerciais Exportadoras (ECE): 1) as que possuem o Certificado de Registro Especial e 2) as que não o possuem. Entretanto, os benefícios fiscais quanto ao Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), às Contribuições Sociais (PIS/PASEP e COFINS) e ao Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) aplicamse, atualmente, às duas espécies, sem distinção alguma. A própria Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB) expressa esse entendimento, por meio da Solução de Consulta nº 40, de 4 de maio de 2012, publicada no Diário Oficial da União (DOU) de 7 de maio de 2012: A não incidência do PIS/Pasep e Cofins e a suspensão do IPI aplicam se a todas as empresas comerciais exportadoras que adquirirem produtos com o fim específico de exportação. Duas são as espécies de empresas comerciais exportadoras: a constituída nos termos do DecretoLei nº 1.248, de 29 de novembro de 1972, e a simplesmente registrada na Secretaria de Comércio Exterior. Como dito, atualmente, há duas categorias de Empresas Comerciais Exportadoras (ECE), sem diferenciação com relação aos incentivos fiscais. Essencialmente, as comerciais exportadoras são classificadas em dois grandes grupos: 1) as que possuem o Certificado de Registro Especial, denominadas “trading companies”, regulamentadas pelo De cretolei nº 1.428/1972, recepcionado pela Constituição Federal de 1988 com status de lei Fl. 2504DF CARF MF Processo nº 10880.941616/201270 Resolução nº 3301000.818 S3C3T1 Fl. 2.505 11 ordinária; e 2) as comerciais exportadoras que não possuem o Certificado de Registro Especial e são constituídas de acordo com Código Civil Brasileiro. As ECE devem atender certos requisitos: de acordo com o art.5º, caput, do DecretoLei nº 1.248/1972, e o art. 231 do Decreto nº 6.759/2009 ( Regulamento Aduaneiro Brasileiro), os impostos que forem devidos, bem como os benefícios fiscais de qualquer natureza, auferidos pelo produtorvendedor, com os acréscimos legais cabíveis, passarão a ser de responsabilidade da empresa comercial exportadora no caso de: a) não se efetivar a exportação dentro do prazo de cento e oitenta dias, contados da data da emissão da nota fiscal pela vendedora, na hipótese de mercadoria submetida ao regime extraordinário de entreposto aduaneiro na exportação; b) revenda das mercadorias no mercado interno; ou c) destruição das mercadorias. para obter o Certificado de Registro Especial, a Empresa Comercial Exportadora (ECE) deve atender alguns requisitos, como ser constituída na forma de sociedade por ações (S.A.) e possuir capital social mínimo, já a ECE que não se enquadra nas exigências do DecretoLei nº 1.248/1972, pode ser constituída sob qualquer forma e não precisa ter capital mínimo. Regese, pois, pelo Código Civil Brasileiro. Porém, para ser caracterizada como ECE, dever ter o fim comercial em seu objeto social, realizar operações de comércio exterior, estar habilitada na Receita Federal (RFB) para operar no SISCOMEX (Instrução Normativa RFB nº 1.288/2012) e estar inscrita no Registro de Importadores e Exportadores da SECEX/MDIC (Portaria SECEX nº 23/2011, art. 8º). atualmente, as empresas que desejam atuar como empresas comerciais exportadoras devem estar habilitadas no registro especial na Secretaria de Comércio Exterior (SECEX) e na Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB), de acordo com as normas aprovadas pelos Ministros de Estado do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) e da Fazenda (MF), respectivamente, além de outros requisitos. Tratase de exigência contida no art. 229 do Regulamento Aduaneiro Brasileiro (Decreto nº 6.759/2009), que reproduz exigência prevista no DecretoLei nº 1.248/1972, que possui status de lei ordinária. De acordo com os arts. 228 e 229 do Regulamento Aduaneiro as operações decorrentes de compra de mercadorias no mercado interno, quando realizadas por empresa comercial exportadora, para o fim específico de exportação, terão o seguinte tratamento : serão consideradas destinadas ao fim específico de exportação as mercadorias que forem diretamente remetidas do estabelecimento do produtor vendedor para embarque de exportação, por conta e ordem da empresa comercial exportadora ou para depósito sob o regime extraordinário de entreposto aduaneiro na exportação. Tal tratamento aplicase às empresas comerciais exportadoras que estiverem registradas no registro especial da Secretaria de Comércio Exterior (SECEX) e na Secretaria da Receita Federal do Brasil (SRF), de acordo com as normas aprovadas pelos Ministros do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior e da Fazenda; estar constituída sob a forma de sociedade por ações, devendo ser nominativas as ações com direito a voto e possuir capital mínimo fixado pelo Conselho Monetário Nacional. O inciso VII do artigo 20 do Anexo I do Decreto nº 7.096/2010, dispõe sobre as prerrogativas de exame e análise de solicitações de inscrição, atualização e cancelamento de registro de “trading companies”. Registrada a sistemática da exportação indireta, é de se concluir que as alegações da Recorrente são pertinentes. Fl. 2505DF CARF MF Processo nº 10880.941616/201270 Resolução nº 3301000.818 S3C3T1 Fl. 2.506 12 Logo, quanto aos índices de rateio, é necessária a conversão do julgamento em diligência, para que a autoridade fiscal verifique se as receitas decorrentes de vendas a empresas comerciais exportadoras com o fim específico de exportação restaram caracterizadas ou se foram apenas realizadas no mercado interno. Dito de outra forma, a autoridade fiscal deve investigar o valor da receita de exportação, decorrente também de exportação indireta (via trading), para que sejam computadas no rateio. Ressaltese que toda a documentação foi disponibilizada à fiscalização, como já mencionado. INSUMOS DA NÃOCUMULATIVIDADE (Arts. 3º das Leis de regência) Segundo a fiscalização, para que um bem seja considerado insumo à fabricação, além de não estar incluído no ativo imobilizado, deve enquadrarse em uma das quatro situações: ser matériaprima, produto intermediário, material de embalagem ou qualquer outro bem que sofra alterações, tais como o desgaste, o dano ou a perda de propriedades físicas ou químicas, em função da ação diretamente exercida sobre o produto em fabricação. Dessa forma, as despesas com a constituição da floresta compõem o ativo imobilizado da empresa. Por isso, na análise dos insumos, foi aplicado o seguinte critério na auditoria: “Todo bem ou serviço utilizado pela empresa antes do tratamento físicoquímico da madeira em si não podem ser classificados como insumo para fins de creditamento do PIS/PASEP e do COFINS nãocumulativos. Ao invés disso, as reservas florestais devem ser tratadas como sendo ativo imobilizado da empresa.” Por isso, apontou: 44. Resta claro que os empreendimentos florestais destinados ao corte para comercialização, consumo ou industrialização devem ser classificados no ativo imobilizado. Em relação à floresta plantada, as despesas de qualquer natureza, incorridas para a constituição da floresta devem ser contabilizadas no ativo imobilizado. O bem (floresta) sofrerá então exaustão à medida que suas árvores forem sendo derrubadas. Evidentemente que o valor da terra nua não deve aparecer na mesma conta do ativo imobilizado em que estiverem os recursos florestais, uma vez que a terra nua não pode ser objeto de exaustão. 45. Com isso, é fácil concluir que as despesas com a constituição da floresta não podem ser utilizadas como base para cálculo de créditos da Contribuição para o PIS/PASEP e da Cofins, na qualidade de insumos de seu produto final, já que o custo de constituição da floresta não é considerado custo de insumo à produção, mas custo de bem a ser incorporado ao ativo imobilizado. 46. Entre outros, não foram considerados como insumos: silvicultura, serviços florestais (manutenção, aparelhos, insumos e limpeza), Fl. 2506DF CARF MF Processo nº 10880.941616/201270 Resolução nº 3301000.818 S3C3T1 Fl. 2.507 13 tratores, adubos, serviços de viveiros, produção de mudas, monitoramento de pragas e doenças, biometria florestal, colheita, adubos, fertilizantes, inseticidas, herbicidas, estradas, terraplenagem, topografia, defensivos, análises ambientais e reparos em maquinários relacionados com a área de silvicultura (marcas de tratores, veículos e peças como a Komatsu, Caterpillar, Volvo, John Deere e Cia Olsen). Em seguida, a autoridade fiscal aduz a impossibilidade de desconto de créditos de exaustão, por não haver previsão legal para a apuração de créditos sobre encargos de exaustão incorridos sobre bens incorporados ao ativo imobilizado do contribuinte. Quanto à necessidade da aquisição dos insumos de terceiros, a fiscalização glosou as despesas relacionadas com a obtenção de madeira dos terrenos da empresa, a chamada Operação Florestal (clonagem, pesquisa, plantio, tratamento do solo, adubação, irrigação, controle de pragas, combate à incêndios e colheita). Na mesma esteira, uma vez entendido que todos os esforços despendidos na Operação Florestal compõem o ativo imobilizado, glosou os fretes pagos na aquisição dos bens que compõem o ativo imobilizado. Por outro lado, a Recorrente aduz que é devida a tomada de crédito sobre a formação de florestas: plantio, silvicultura, corte, colheita, logística e transporte de toras de madeira e etc. por indispensáveis à elaboração da celulose. Aponta as efls. 19, 78, 90, 131 e 132 do laudo técnico da USP. Acrescenta que os serviços glosados estão elencados no laudo como indispensáveis ao processo produtivo da celulose, conforme itens 4 e 5 do documento, também ligados à formação das florestas. E ainda, que os dispêndios com clonagem, pesquisa, plantio, tratamento do solo, adubação, irrigação, controle de pragas, combate a incêndios e colheita são prestados por terceiros, pessoas jurídicas. a) Embalagem de apresentação e de transporte A fiscalização aceitou como insumo a embalagem de apresentação, entendendo que sua colocação determina a fase final da produção. Por outro lado, não considerou a embalagem para transporte como insumo. Assim, entre outros, não foram considerados como insumos: correias utilizadas para transporte de fardos de celulose, estrados de madeira, pallet (palete) e caixas de papelão. O contribuinte defende o creditamento por entender que essas embalagens de transporte acondicionam as folhas de celulose produzidas, conforme descrição no laudo técnico. b) Insumos Caracterização SD 200815 Foram considerados como insumos: toras de madeira, produtos químicos utilizados no processo produtivo, tintas, feltros e telas (formação e desaguação da folha de papel) e telas de lavagem de polpa de celulose. Fl. 2507DF CARF MF Processo nº 10880.941616/201270 Resolução nº 3301000.818 S3C3T1 Fl. 2.508 14 E anda, foram considerados como insumos os “bens ou serviços adquiridos de pessoa jurídica, intrínsecos à atividade, aplicados ou consumidos na fabricação do produto ou no serviço prestado”, ocorrendo o contato direto com o produto final e/ou desgaste na sua utilização, como por exemplo: lâminas para remoção de resíduos em rolos da máquina de papel, esferas de vidro utilizadas no processo de pigmentação, pastilhas de frenagem de máquinas de papel, facas para corte de folha de celulose e de bobinas e correias de acionamento de equipamentos rotativos. Todavia, foram glosadas os seguintes: despesas com mão de obra inespecífica, insumos relacionados à logística/transporte, baterias, pilhas, carregadores e acessórios, materiais de consumo de informática, materiais para laboratório, serviços de gerenciamento, extintores, materiais de papelaria, palestras, festas e eventos, limpeza industrial, serviços de combate a incêndio, armazenagem de insumos, serviços de projetos, serviços relacionados a parte laboratorial, desenvolvimento de software, locação de andaimes, locação de container, assinatura de manuais de legislação, gerenciamento de arquivos, seminários da NR10, segurança patrimonial, alpinismo industrial, eventos como fórum de marketing, vigilância, serviços fotográficos e de mídia, serviços relacionados ao setor de Recursos Humanos, inspeção da NR13, serviços administrativos, reforma de mobiliário, programas de formação profissional e instalação de fibras ópticas e rede. Ademais, foram glosados: todos os bens e serviços relativos ao tratamento dos resíduos, "uma vez que efetivamente não são aplicados ou consumidos na produção de bens destinados à venda ou na prestação do serviço, mas sim constituindo fase posterior a fabricação dos bens comercializados pela empresa". Quanto às glosas de materiais de laboratório, sustenta a empresa que são os insumos utilizados para as análises químicas em laboratório, sendo indispensáveis ao desenvolvimento da atividade produtiva. Os clones utilizados para a produção de celulose são desenvolvidos em laboratório. Aponta as efls. 129 e 132 do laudo técnico. Acrescenta que os materiais e serviços laboratoriais são empregados também no tratamento de efluentes, serviço obrigatório das atividades industriais. Cita as efls. 122 e 123 do laudo técnico. No tocante às despesas com limpeza industrial (remoção de resíduos), esclarece que esta é voltada a remover e tratar os resíduos decorrentes da picagem e cozimento da madeira. Cita a efl. 90 do laudo técnico. c) Insumos Partes e Peças de Reposição SD 200835 Apontou a fiscalização que as partes e peças de reposição adquiridas de pessoa jurídica para manutenção de máquinas e equipamentos componentes do ativo imobilizado, utilizados diretamente na fabricação dos produtos destinados à venda (papel e celulose), são consideradas insumos para efeito de apuração de créditos relativos à contribuição para o PIS/Pasep e a Cofins nãocumulativas, desde que referidas partes e peças sofram alterações decorrentes de ação diretamente exercida sobre o bem fabricado e, desde que não estejam incluídas no ativo imobilizado. Foram considerados insumos: chapas de aço para reparos em caldeiras, cabos, barras e tubos metálicos utilizados em reparos de equipamentos, eletrodos de solda, bicos de Fl. 2508DF CARF MF Processo nº 10880.941616/201270 Resolução nº 3301000.818 S3C3T1 Fl. 2.509 15 chuveiro de lavagem de tela de máquina de secagem, peças hidráulicas de reposição (luvas, cotovelos e válvulas), graxas, óleos lubrificantes e óleos refrigerantes. E também, peças de reposição dos maquinários utilizados na obtenção de cavacos (facas do picador, contra facas, discos de facas do rotor, suporte das facas e contra facas, parafusos, porcas e placas dos picadores, mesas slashe, correntes de movimentação) e obtenção de biomassa. Entretanto, foram glosadas despesas com: as partes e peças de reposição, bem como os serviços aplicados na manutenção de máquinas e equipamentos utilizadas no corte, no tratamento e no transporte da madeira a qual será, em uma 2ª etapa, transformada em celulose, papel e papelão. Da mesma forma, as partes e peças de reposição, bem como os serviços aplicados na manutenção de máquinas e equipamentos utilizadas na área logística da empresa, seja antes ou depois da obtenção do produto final, foram glosados. Dentre outros, não foram considerados como insumos, uma vez que não são relativos aos maquinários utilizados diretamente na obtenção do produto final: peças de reposição de transpaleteiras e fixação de defensas em portos. A empresa defende que todos os dispêndios realizados na fase de produção, corte, transporte e acompanhamento logístico da madeira encontramse inseridos no processo produtivo da celulose, sendo imprescindível a aquisição de partes e peças de reposição para o maquinário de carga (antes e após a fabricação), bem como a realização dos serviços de manutenção. A Recorrente, com suporte no laudo técnico, aduz que estão descritos como essenciais as partes e reposição de peças (efls. 30, 31, 88 e 131 do laudo). d) Fretes Hipóteses de Crédito SD 200711 e g) Frete Transporte Intercompany Vedação de Crédito SD 200812 Neste tópico, entendeu a fiscalização que quaisquer serviços de transporte não relacionados à entrega de mercadoria diretamente aos clientes não podem ser considerados como insumo. Então, não foram considerados: armazenagem/transporte de papel e logística. Mas foram considerados como insumo os referentes às despesas de exportação. E não os fretes relacionados a transporte de produto acabado (ou em elaboração) entre estabelecimentos industriais; destes para os centros de distribuição ou de um centro de distribuição para outro. Já a Recorrente sustenta que todos os fretes de aquisição de matériaprima, os intercompany e o de aquisição de bens do ativo imobilizado integram o custo do produto, o que permite o creditamento. e) Insumos Alimentação, Transporte e Fardamento SD 200843 Segundo a fiscalização: Despesas efetuadas com o fornecimento de alimentação, de transporte, de uniformes ou equipamentos de proteção aos empregados, adquiridos de outras pessoas jurídicas ou fornecido pela própria empresa, não geram direito à apuração de créditos a serem descontados da Cofins, por não se enquadrarem no conceito de insumos aplicados, consumidos Fl. 2509DF CARF MF Processo nº 10880.941616/201270 Resolução nº 3301000.818 S3C3T1 Fl. 2.510 16 ou daqueles que sofram alterações, tais como o desgaste, o dano ou a perda de propriedades físicas ou químicas, em função da ação diretamente exercida no processo de fabricação ou na produção de bens destinados à venda. Por essa razão, foram glosados, dentre outros, o transporte de pessoal e gastos com lanches e refeições. Sustenta a Recorrente serem indispensáveis tais dispêndios, com apoio no laudo técnico, efl. 86. f) Combustíveis utilizados como Insumos SD 200837 A fiscalização acatou como insumo, o combustível utilizado no processo de fabricação do produto destinado à venda pela empresa; ou, em outras palavras, o empregado em máquinas e equipamentos utilizados diretamente na produção da celulose industrializada e vendida pela contribuinte. Descartou como insumo os combustíveis utilizados para o transporte e manejo dos insumos: GLP utilizado em empilhadeiras, GLP granel, Óleo diesel, Óleo biodiesel marítimo e Óleo biodiesel. Quanto aos combustíveis, a alegação da empresa é de que são fornecidos por ela e, são utilizados nas máquinas e em veículos de transporte aplicados ao processo produtivo da Operação Florestal (conforme itens 5.65, 6.6 e 8 do laudo). g) Insumos EPI (Equipamento de Proteção Individual) SD 201109 Para a fiscalização: Os valores das despesas realizadas com a aquisição de equipamentos de proteção individual (EPI) tais como: respiradores; óculos; luvas; botas; aventais; capas; calças e camisas de brim e etc., utilizados por empregados na execução dos serviços prestados de dedetização, desratização e lavação de carpetes e forrações, não geram direito à apuração de créditos a serem descontados da Contribuição para o PIS/Pasep, porque não se enquadram na categoria de insumos aplicados ou consumidos diretamente nos serviços prestados. Logo, foram glosados os equipamentos de proteção individual, como por exemplo: luvas, capuzes, botinas de segurança, entre outros. Por outro lado, afirma o contribuinte que os equipamentos de proteção individual são absolutamente indispensáveis à atividade industrial, fornece a indumentária sem qual a execução das atividades de capina e aplicação de herbicidas (por exemplo) jamais poderiam ser executadas, bem como são de uso obrigatório para evitar acidentes na fase agrícola e industrial. Cita as efls. 36, 82, 86/87 do laudo. Síntese do tópico “Insumos da nãocumulatividade” Fl. 2510DF CARF MF Processo nº 10880.941616/201270 Resolução nº 3301000.818 S3C3T1 Fl. 2.511 17 O laudo apresentado pela Recorrente em seu recurso voluntário teve o objetivo de demonstrar a essencialidade dos custos incorridos na formação, manutenção e exploração das florestas, afastando, por conseguinte, as glosas. Descreveu também as etapas industriais até o consumidor. Confirase a síntese do processo produtivo descrito no laudo técnico da USP: Fl. 2511DF CARF MF Processo nº 10880.941616/201270 Resolução nº 3301000.818 S3C3T1 Fl. 2.512 18 Fl. 2512DF CARF MF Processo nº 10880.941616/201270 Resolução nº 3301000.818 S3C3T1 Fl. 2.513 19 Na apuração de PIS/COFINS nãocumulativos, a prova da existência do direito de crédito indicado incumbe ao contribuinte. Consequentemente, confrontando o motivo das glosas, os elementos trazidos aos autos e o laudo técnico, vislumbrase como desnecessários novos esclarecimentos em sede de diligência fiscal, restando para julgamento a matéria referente à extensão do conceito de insumo e os reflexos da classificação das florestas como ativo imobilizado. CREDITAMENTO BENS DO ATIVO IMOBILIZADO (Lei nº 10.833/2003, art. 3º, VI, VII, §1º, §14 e art. 15) A fiscalização acatou o creditamento apenas referente a: depreciação de máquinas e equipamentos inseridos em centros de custo relacionados diretamente à área de produção da empresa e de edificações e benfeitorias utilizadas em quaisquer atividades da empresa, aceitos independentemente do centro de custo relacionado. Dentre as glosas, encontramse os créditos referentes aos veículos integrantes do ativo imobilizado. Em sentido oposto, a empresa sustenta que as glosas não foram motivadas, o que lhe cerceou o direito de defesa. As glosas foram fundamentadas nos dispositivos legais supracitados, ao passo que a Recorrente identificou os gastos negados, ao afirmar: Além disso, não é demais reforçarmos que o aterro industrial e as torres de transmissão, respectivamente, representam justamente a área de depósito de rejeitos sólidos e os componentes para a sustentação de Fl. 2513DF CARF MF Processo nº 10880.941616/201270 Resolução nº 3301000.818 S3C3T1 Fl. 2.514 20 linhas de transmissão de energia elétrica, restando patente a participação dos mesmos no processo produtivo da celulose. Considerando que a fiscalização acatou o creditamento referente à depreciação de máquinas e equipamentos inseridos em centros de custo relacionados diretamente à área de produção da empresa (a industrial propriamente dita), deve o contribuinte segregar o ativo imobilizado da fase agrícola e da fase industrial, apontando a utilização dos bens de acordo com a operação florestal descrita no laudo. CONCLUSÃO Pelo exposto, voto pela conversão do julgamento em diligência, para que a unidade de origem: a) Por ser o laudo da Escola Superior da Agricultura da USP fato novo, manifestese sobre ele; b) Verifique se as receitas decorrentes de vendas a empresas comerciais exportadoras com o fim específico de exportação restaram caracterizadas ou se foram apenas realizadas no mercado interno; c) Elabore relatório circunstanciado e conclusivo a respeito dos procedimentos realizados; d) Cientifique a interessada do resultado, concedendolhe prazo para manifestação; e) Intime o contribuinte para que em 30 dias apresente a segregação do ativo imobilizado da fase agrícola e da fase industrial, apontando a utilização dos bens de acordo com a operação florestal descrita no laudo; f) Após, que retorne o processo ao CARF para julgamento. (assinado digitalmente) Semíramis de Oliveira Duro Relatora Fl. 2514DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13603.723688/2010-32
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Sep 11 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Oct 05 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2007
EMBARGOS. CONTRADIÇÃO.
Verificada contradição entre a fundamentação do acórdão e a conclusão do julgamento, cabe a sua retificação via embargos, com os consequentes efeitos modificativos no resultado do julgado.
Numero da decisão: 2202-004.773
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em acolher os Embargos de Declaração para que se procedam as modificações no Acórdão nº 2803-003.693 propostas na conclusão do voto do relator, rerratificando-se o julgado quanto aos demais aspectos.
(assinado digitalmente)
Ronnie Soares Anderson - Presidente e Relator
Participaram do presente julgamento os conselheiros Ronnie Soares Anderson, Rosy Adriane da Silva Dias, Martin da Silva Gesto, José Ricardo Moreira (suplente convocado), Júnia Roberta Gouveia Sampaio e Dilson Jatahy Fonseca Neto.
Nome do relator: RONNIE SOARES ANDERSON
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ABONO FÉRIAS. PLR. Embargante METALSIDER LTDA. Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2007 EMBARGOS. CONTRADIÇÃO. Verificada contradição entre a fundamentação do acórdão e a conclusão do julgamento, cabe a sua retificação via embargos, com os consequentes efeitos modificativos no resultado do julgado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em acolher os Embargos de Declaração para que se procedam as modificações no Acórdão nº 2803003.693 propostas na conclusão do voto do relator, rerratificandose o julgado quanto aos demais aspectos. (assinado digitalmente) Ronnie Soares Anderson Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os conselheiros Ronnie Soares Anderson, Rosy Adriane da Silva Dias, Martin da Silva Gesto, José Ricardo Moreira (suplente convocado), Júnia Roberta Gouveia Sampaio e Dilson Jatahy Fonseca Neto. Relatório A 3ª Turma Especial da 2ª Seção exarou o Acórdão nº 2803003.693 em 07/10/2014 (efls. 379/386), negando provimento ao recurso voluntário, conforme ementa a seguir transcrita: AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 60 3. 72 36 88 /2 01 0- 32 Fl. 424DF CARF MF 2 ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Exercício: 2007 DEIXAR DE RETER CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS DE SEGURADOS EMPREGADOS. INFRAÇÃO. Deixar de reter contribuições previdenciárias de segurados empregados constitui infração ao Lei nº 8.212, de 24/7/1991, artigo 30, inciso I, alínea “a” combinado com o disposto no Regulamento da Previdência Social RPS, aprovado pelo Decreto nº 3.048, de 6/5/1999, artigo 216, inciso I, alínea “a”. NÃO INCIDÊNCIA. INDENIZAÇÃO POR SUPRESSÃO DE HORAS EXTRAS HABITUAIS, A indenização prevista na súmula n. 291 do tribunal superior do trabalho, em face da natureza que ostenta, não atrai a incidência de contribuições previdenciárias ABONO DE FÉRIAS. ACORDO COLETIVO. NÃO INCIDÊNCIA. Abono de férias reduzido em razão da assiduidade do empregado, concedido em virtude de convenção coletiva, desde que não excedente de vinte dias do salário, não integra a remuneração do empregado para os efeitos da previdência social, conforme dispõe o artigo144 da CLT, não estando, portanto, sujeito à incidência da contribuição previdenciária. PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS E FUNCIONÁRIOS. VALOR FIXO. CRITÉRIOS. Para fins de não incidência sobre as verbas pagas aos empregados a título de PLR, é necessário que os critérios seja vinculados à resultado e lucro, com metas bem definidas. O contribuinte interpôs embargos de declaração (efls. 2538/2540) alegando a existência de contradição entre a decisão e seus fundamentos, arguição acolhida em 30/10/2017 por meio de Despacho de Admissibilidade (efls. 418/417). É o relatório. Voto Conselheiro Ronnie Soares Anderson, Relator Dado que o contribuinte foi cientificado do acórdão de recurso voluntário em 13/7/2016 (efl. 415), constatase a tempestividade dos embargos, nos termos do RICARF, Anexo II, art. 65, § 1º, haja vista terem sido apresentados em 18/7/2016 (efl. 398). No Despacho de admissibilidade, são assim apresentadas as razões de embargos (efls. 419/421): Segundo o embargante, há contradição entre a decisão e os seus fundamentos o que determinará sua retificação, com efeitos infringentes, e a modificação do julgado. Informa que o Recurso Voluntário abordou três temas específicos : Fl. 425DF CARF MF Processo nº 13603.723688/201032 Acórdão n.º 2202004.773 S2C2T2 Fl. 425 3 A) Indenização por Supressão de Horas Extras Da Impossibilidade de sua inclusão na Base de Calculo das Contribuições Previdenciárias B) Abono de Férias Da Impossibilidade de sua inclusão na Base de Cálculo das Contribuições Previdenciárias C) Participação nos Lucros e Resultados Da Impossibilidade de sua inclusão na Base de Cita os fundamentos do acórdão em relação a cada um desses temas : "2) Quanto à incidência de contribuições previdenciárias e destinadas ao SAT sobre a indenização por supressão de horas extras pagas aos funcionários, ao contrário entendimento da decisão recorrida, tem natureza tipicamente indenizatória, penalizadora do empregador, nãoremuneratória. Ao contrário o pagamento de verbas a título de horas extras trabalhadas (art. 59, §3°, da CLT), que têm cunho remuneratório, a indenização por supressão é um acréscimo oriundo pelo não pagamento integral das primeiras (Enunciado 291, do TST), tanto que seu cálculo é diverso daquelas. A jurisprudência, inclusive o TST e STJ reconhecem que tais verbas são de cunho indenizatório, não remuneratório, como exemplo: (...) Assim, seria insubsistente o lançamento que constituiu créditos tributários com base nas indenizações pela supressão de horas extras." "3) Quanto à incidência de contribuições previdenciárias incidente a verbas pagas título abono de férias, por terem sido desenquadradas dos artigos 143 e 144 da CLT em razão de critério de assiduidade, o que teria perdido a sua natureza indenizatória, novamente, a decisão a quo merece ser reformada. Entendo que o pagamento de abonos de férias, desde previsto em Convenção e Acordo Coletivo, na forma do art. 144, da CLT, desde que não exceda 20(vinte) dias do salário, não é considerado remuneração e, conseqüentemente, fato gerador/base de cálculo de contribuições previdenciárias. Observe se que o cálculo de assiduidade não desnatura as férias, nem seus consecutários, sendo permitido pelo art. 130, da CLT, o desconto de dias de férias em razão da assiduidade, nada proíbe que o abono não lhe seja proporcional. Ou seja, abono de férias reduzido em razão da assiduidade do empregado, concedido em virtude de convenção coletiva, desde que não excedente de vinte dias do salário, não integra a remuneração do empregado para os efeitos da previdência social, conforme dispõe o artigo 144 da CLT, não estando, portanto, sujeito à incidência da contribuição previdenciáría, na forma do art. 28, §9°, e, 5, da Lei n. 8.212/1991. (...) Dessa forma, seria insubsistente o lançamento que constituiu créditos tributários com base no abono de férias (art. 144, da CLT)." "4) Quanto ao lançamento com base no PLR, passase a considerar: (...) Assim, neste ponto, não se pode acolher o pedido." Fl. 426DF CARF MF 4 Destaca também trecho do acórdão ora embargado, no que diz respeito à multa por ausência de retenção da contribuição previdenciária dos empregados : "5) Por tratarse de sanção em que a hipótese de incidência e multa são únicas, bastaria a desobediência de deixar de reter um só período de um único fato gerador para a sua aplicação, na forma do Lei nº 8.212, de 24/7/1991, artigo 30, inciso I, alínea “a” combinado com o disposto no Regulamento da Previdência Social – RPS, aprovado pelo Decreto nº 3.048, de 6/5/1999, artigo 216, inciso I, alínea “a”. Dessa forma, entendeuse que os pagamentos a título de PLR como irregulares passiveis de incidência da contribuição, a desobediência é mantida e conseqüentemente a sanção." Afirma que, os fundamentos do acórdão apontam para o provimento parcial do recurso em relação à cobrança do tributo sobre indenização paga a título de supressão de horas extras e ao Abono de Ferias, diferentemente, em relação à incidência do tributo sobre a PRL, onde os fundamentos do acórdão apontam para o não provimento do apelo, porém na conclusão do voto e no dispositivo consta a negativa total do recurso. Conclui que, sem qualquer sombra de dúvidas há no acórdão contradição entre a decisão e os seus fundamentos, motivo pelo qual os presentes embargos devem ser conhecidos e providos dandolhe efeitos infringentes, modificando a decisão prolatada no sentido de conceder provimento parcial ao Recurso interposto pelo Contribuinte. Diante de tal panorama, no aludido despacho é fundamentado a aceitação dos embargos: De fato, na leitura do voto condutor do acórdão, constatase que o relator concluiu por dar provimento ao recurso do contribuinte em duas rubricas (supressão de horas extras e abono de férias) e negar provimento em uma delas (PLR). Contudo, na conclusão do voto e no dispositivo do acórdão, constou a negativa total ao Recurso Voluntário interposto pelo Contribuinte. Portanto, entendo que os embargos devem ser aceitos e submetidos à apreciação de nova turma julgadora. Não há como se discordar de tais constatações, pois fica nítido, da leitura dos trechos da fundamentação do acórdão, mais acima transcritos, que foi dado provimento ao recurso voluntário no tocante à incidência de contribuições previdenciárias e destinadas ao SAT sobre a indenização por supressão de horas extras pagas ao funcionários, bem como no que se refere à incidência de contribuições previdenciárias sobre verbas pagas a título de abono de férias. Resta quanto ao recurso voluntário como um todo configurado o provimento parcial, visto terem ficado mantidas as infrações relativas aos pagamentos efetuados com base em Participação nos Lucros e Resultados (PLR). Tal conclusão, aliás, é coerente com os termos da ementa do julgado, supra reproduzido no relatório deste voto e que bem reflete o disposto na fundamentação. Estando o arrazoado constante do voto adequadamente articulado, tratase à evidência de erro cometido quando da formalização do acórdão, erro o qual, pelas dimensões que tomou, requer sua correção via embargos com efeitos modificativos, de maneira a superar a contradição existente. Conclusão Fl. 427DF CARF MF Processo nº 13603.723688/201032 Acórdão n.º 2202004.773 S2C2T2 Fl. 426 5 Sendo assim, voto por acolher os Embargos de Declaração para fins de que se procedam as seguintes modificações no Acórdão nº 2803003.693, rerratificandose o julgado quanto aos demais aspectos: O dispositivo passa a ter a seguinte redação: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao recurso, para fins de excluir do lançamento as exigências baseadas nos pagamentos de indenização por supressão de horas extras e nas verbas pagas a título de abono de férias. Por sua vez, a conclusão do voto do relator deverá ser assim redigida: Isso posto, voto por conhecer o recurso para, no mérito, darlhe parcial provimento para fins de excluir do lançamento as exigências baseadas nos pagamentos de indenização por supressão de horas extras e nas verbas pagas a título de abono de férias. É o voto. (assinado digitalmente) Ronnie Soares Anderson Fl. 428DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 15586.720037/2016-67
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Sep 18 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Oct 31 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2012
Incorporação de Ações. Permuta de Participações Societárias. Valor Recebido Superior ao Valor Entregue. Ganho de Capital Tributável.
A permuta de participações societárias decorrente de incorporação de ações dá ensejo à apuração de ganho de capital tributável se o valor das ações recebidas for superior ao valor das ações entregues.
Solidariedade Tributária. Pessoas Expressamente Designadas na Lei. Indicação do Fundamento Legal. Condição de Validade.
No caso de solidariedade tributária fundada no art. 124, inciso II, do CTN, é condição de validade do lançamento a indicação do dispositivo legal que abriga a hipótese de solidariedade, de modo a permitir o exercício do direito de defesa.
Juros Moratórios. Incidência Sobre Multa. Cabimento.
Os juros moratórios incidem sobre a totalidade da obrigação tributária principal, nela compreendida, além do próprio tributo, a multa.
CSLL e IRPJ. Identidade de Matéria Fática. Mesma Decisão.
Quando o lançamento de IRPJ e o de CSLL recaírem sobre a mesma base fática, há de ser dada a mesma decisão, ressalvados os aspectos específicos inerentes à legislação de cada tributo.
Numero da decisão: 1301-003.345
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, em: (i) por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso de ofício; (ii) por maioria de votos, em primeira votação, negar provimento ao recurso voluntário do contribuinte quanto à existência de matéria tributável na operação, vencida a Conselheira Amélia Wakako Morishita Yamamoto que votou por lhe dar provimento, tendo o Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto, neste ponto, acompanhado o voto do relator por suas conclusões; (iii) por unanimidade de votos, em segunda votação, negar provimento ao recurso do contribuinte no que diz respeito à base de cálculo do lançamento; e (iv) por unanimidade de votos, dar provimento aos recursos voluntários dos coobrigados para excluí-los do polo passivo da obrigação tributária. Apresentaram declaração de voto os Conselheiros José Eduardo Dornelas Souza e Carlos Augusto Daniel Neto.
(assinado digitalmente)
Fernando Brasil de Oliveira Pinto - Presidente
(assinado digitalmente)
Roberto Silva Junior - Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Roberto Silva Junior, José Eduardo Dornelas Souza, Nelso Kichel, Amélia Wakako Morishita Yamamoto e Carlos Augusto Daniel Neto. Ausente, justificadamente, a Conselheira Bianca Felícia Rothschild.
Nome do relator: ROBERTO SILVA JUNIOR
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2012 Incorporação de Ações. Permuta de Participações Societárias. Valor Recebido Superior ao Valor Entregue. Ganho de Capital Tributável. A permuta de participações societárias decorrente de incorporação de ações dá ensejo à apuração de ganho de capital tributável se o valor das ações recebidas for superior ao valor das ações entregues. Solidariedade Tributária. Pessoas Expressamente Designadas na Lei. Indicação do Fundamento Legal. Condição de Validade. No caso de solidariedade tributária fundada no art. 124, inciso II, do CTN, é condição de validade do lançamento a indicação do dispositivo legal que abriga a hipótese de solidariedade, de modo a permitir o exercício do direito de defesa. Juros Moratórios. Incidência Sobre Multa. Cabimento. Os juros moratórios incidem sobre a totalidade da obrigação tributária principal, nela compreendida, além do próprio tributo, a multa. CSLL e IRPJ. Identidade de Matéria Fática. Mesma Decisão. Quando o lançamento de IRPJ e o de CSLL recaírem sobre a mesma base fática, há de ser dada a mesma decisão, ressalvados os aspectos específicos inerentes à legislação de cada tributo.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, em: (i) por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso de ofício; (ii) por maioria de votos, em primeira votação, negar provimento ao recurso voluntário do contribuinte quanto à existência de matéria tributável na operação, vencida a Conselheira Amélia Wakako Morishita Yamamoto que votou por lhe dar provimento, tendo o Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto, neste ponto, acompanhado o voto do relator por suas conclusões; (iii) por unanimidade de votos, em segunda votação, negar provimento ao recurso do contribuinte no que diz respeito à base de cálculo do lançamento; e (iv) por unanimidade de votos, dar provimento aos recursos voluntários dos coobrigados para excluí-los do polo passivo da obrigação tributária. Apresentaram declaração de voto os Conselheiros José Eduardo Dornelas Souza e Carlos Augusto Daniel Neto. (assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto - Presidente (assinado digitalmente) Roberto Silva Junior - Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Roberto Silva Junior, José Eduardo Dornelas Souza, Nelso Kichel, Amélia Wakako Morishita Yamamoto e Carlos Augusto Daniel Neto. Ausente, justificadamente, a Conselheira Bianca Felícia Rothschild.
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 23; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1980; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S1C3T1 Fl. 1.465 1 1.464 S1C3T1 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS PRIMEIRA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 15586.720037/201667 Recurso nº De Ofício e Voluntário Acórdão nº 1301003.345 – 3ª Câmara / 1ª Turma Ordinária Sessão de 18 de setembro de 2018 Matéria IRPJ GANHO DE CAPITAL Recorrentes TRIP INVESTIMENTOS LTDA. FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2012 INCORPORAÇÃO DE AÇÕES. PERMUTA DE PARTICIPAÇÕES SOCIETÁRIAS. VALOR RECEBIDO SUPERIOR AO VALOR ENTREGUE. GANHO DE CAPITAL TRIBUTÁVEL. A permuta de participações societárias decorrente de incorporação de ações dá ensejo à apuração de ganho de capital tributável se o valor das ações recebidas for superior ao valor das ações entregues. SOLIDARIEDADE TRIBUTÁRIA. PESSOAS EXPRESSAMENTE DESIGNADAS NA LEI. INDICAÇÃO DO FUNDAMENTO LEGAL. CONDIÇÃO DE VALIDADE. No caso de solidariedade tributária fundada no art. 124, inciso II, do CTN, é condição de validade do lançamento a indicação do dispositivo legal que abriga a hipótese de solidariedade, de modo a permitir o exercício do direito de defesa. JUROS MORATÓRIOS. INCIDÊNCIA SOBRE MULTA. CABIMENTO. Os juros moratórios incidem sobre a totalidade da obrigação tributária principal, nela compreendida, além do próprio tributo, a multa. CSLL E IRPJ. IDENTIDADE DE MATÉRIA FÁTICA. MESMA DECISÃO. Quando o lançamento de IRPJ e o de CSLL recaírem sobre a mesma base fática, há de ser dada a mesma decisão, ressalvados os aspectos específicos inerentes à legislação de cada tributo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, em: (i) por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso de ofício; (ii) por maioria de votos, em primeira votação, negar provimento ao recurso voluntário do contribuinte quanto à existência de matéria tributável na AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 58 6. 72 00 37 /2 01 6- 67 Fl. 1465DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.466 2 operação, vencida a Conselheira Amélia Wakako Morishita Yamamoto que votou por lhe dar provimento, tendo o Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto, neste ponto, acompanhado o voto do relator por suas conclusões; (iii) por unanimidade de votos, em segunda votação, negar provimento ao recurso do contribuinte no que diz respeito à base de cálculo do lançamento; e (iv) por unanimidade de votos, dar provimento aos recursos voluntários dos coobrigados para excluílos do polo passivo da obrigação tributária. Apresentaram declaração de voto os Conselheiros José Eduardo Dornelas Souza e Carlos Augusto Daniel Neto. (assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto Presidente (assinado digitalmente) Roberto Silva Junior Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Roberto Silva Junior, José Eduardo Dornelas Souza, Nelso Kichel, Amélia Wakako Morishita Yamamoto e Carlos Augusto Daniel Neto. Ausente, justificadamente, a Conselheira Bianca Felícia Rothschild. Fl. 1466DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.467 3 Relatório Tratase de recursos interpostos por TRIP INVESTIMENTOS LTDA., TRIP PARTICIPAÇÕES S/A e RIO NOVO LOCAÇÕES LTDA., pessoas jurídicas já qualificadas nos autos, contra o Acórdão nº 0271.077, da 10ª Turma da DRJ Belo Horizonte, que negou provimento ao recurso da primeira autuada e deu provimento aos recursos das outras duas, tão somente para excluir a responsabilidade quanto ao IRPJ, mantendo, no mais, a exigência do crédito tributário. A infração foi descrita no Termo de Verificação Fiscal TVF de fls. 1.108 a 1.130. Consta do TVF: Trip Linhas Aéreas Brasileiras S/A, era, até 2012, uma empresa de aviação com sede em BarueriSP, controlada por três empresas (Trip Participações S/A, Trip Investimentos Ltda e Rio Novo Locações Ltda), estas por sua vez eram controladas pelo Grupo Águia Branca (Águia Branca Participações S/A) e pela Caprioli Participações Ltda. Notase que se trata de empresas pertencentes ao mesmo grupo econômico, as quais possuem controladores comuns, localizamse em endereços associados ao Grupo Águia Branca, inclusive é esta fiscalização atendida pelo mesmo representante que atende as demais empresas acima citadas. As empresas controladoras da Trip Linhas Aéreas estão localizadas em Cariacica ES. As participações societárias estavam assim distribuídas (fl. 1.109): Controladoras da TRIP Linhas Aéreas Participação Quantidade de ações Trip Participações S/A 72% 55.550.000 Tríp Investimentos Ltda. 20% 15.570.833 Rio Novo Locações Ltda. 8% 6.312.500 Disse a autoridade fiscal que, em 25 de maio de 2012, os acionistas do grupo Águia Branca firmaram acordo de combinação de negócios com os acionistas de Azul S/A, para que esta incorporasse a totalidade das ações de Trip Linhas Aéreas, passando a Azul S/A a controlar a Azul Linhas Aéreas e a Trip Linhas Aéreas. Em 30 de novembro de 2012, deuse a incorporação das ações. Todas as ações da Trip Linhas Aéreas foram transferidas para a Azul S/A e, em contrapartida, os antigos controladores da Trip Linhas Aéreas receberam 30,7% das ações da Azul S/A, avaliadas em R$ 474,526 milhões a valor justo. Também como contraprestação, a Azul S/A emitiu bônus de subscrição de ações para os antigos controladores da Trip Linhas Aéreas, assegurandolhes o direito de adquirir ações da Azul S/A em condições previamente definidas. Os antigos controladores da Trip Linhas Aéreas receberam, pelas ações dessa companhia, ações da Azul S/A e bônus de subscrição. Entendeu a autoridade fiscal que referida operação não poderia ser considerada como mera troca de ações, sem efeitos tributários, pois produziram variação patrimonial, evidenciada pela diferença de valores das ações de uma companhia em face do valor das ações da outra, acrescido do valor do bônus de subscrição. Desta forma, verificase a existência de ganho de capital, materializado no acréscimo patrimonial obtido pela Trip Investimentos Ltda., que detinha 20% do capital social da Trip Linhas Aéreas. Fl. 1467DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.468 4 Trip Investimentos Ltda. contabilizou o investimento e o ágio relativo à aquisição das ações da Azul S/A. A contrapartida foi registrada na conta 313203 Ganho de Participação Societária, porém, os valores, embora contabilizados como receita, foram excluídos da base de cálculo do IRPJ e da CSLL. A contribuinte apurou e diferiu o IRPJ e a CSLL, nos valores de R$ 32.224.480,00 e R$ 11.840.214,59 respectivamente. Os débitos foram excluídos tanto do lucro real (DIPJ e Lalur), quanto na contabilidade. Disse a autoridade lançadora que "embora tenha sido intimado a explicar o dispositivo legal no qual está amparada sua apuração de tributos diferidos, o contribuinte não apresentou qualquer embasamento legal, limitandose a informar que não há fato gerador, ou seja, o contribuinte reconhece o ganho como tributável, porém, difere sua tributação. Depreendese da argumentação do contribuinte que esta tributação só ocorreria se este transacionasse a participação na Azul S/A futuramente." (fl. 1.128) A autoridade fiscal, ao contrário, entendeu que fora obtido, da incorporação de ações, um acréscimo patrimonial, ou seja, disponibilidade econômica, elemento necessário à caracterização do fato gerador do IRPJ e da CSLL. Ademais, a legislação não prevê diferimento da tributação nesses casos. O cálculo do ganho de capital é a diferença entre o valor contábil do investimento e o valor da contraprestação recebida quando da ocorrência da transação. Em resumo, a operação consistiu na alienação do investimento na Trip Linhas Aéreas e no recebimento como contrapartida de ações da Azul S/A acrescido de bônus de subscrição, como demonstrado no quadro abaixo: DEMONSTRATIVO DO GANHO DE CAPITAL Contraprestação recebida (valor justo Ações Azul S/A) 123.345.846,25 Contraprestação recebida ( bônus de subscrição) 30.224.480,00 Investimento Trip Linhas Aéreas (valor contábil) 84.894.600,00 Ganho de capital na transação 68.675.726,25 Constatado o ganho de capital, a Fiscalização procedeu ao lançamento do crédito tributário de IRPJ e de CSLL. Por fim, entendeu a Fiscalização que estava caracterizada a existência de grupo econômico, integrado por Trip Participações S/A, Trip Investimentos Ltda. e Rio Novo Locações Ltda. Na esteira desse entendimento, lançou o crédito tributário contra as três empresas. As três autuadas apresentaram impugnação, cujos fundamentos foram resumidos pela DRJ nos seguintes termos: 1. Os processos das sociedades empresárias Trip Participações S/A, Trip Investimentos Ltda. e Rio Novo Locações Ltda. devem ser reunidos e julgados em conjunto, por conectados pelo mesmo fato e fundamento e para não gerar risco de prolação de decisões conflitantes ou contraditórias; 2. Deve ser afastada a solidariedade entre as empresas, por capitulação incorreta da responsabilidade solidária, por ausência de motivação do ato administrativo e por não comprovação da existência do grupo econômico; Fl. 1468DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.469 5 3. Na operação de Incorporação de Ações não existiu a realização de apuração de ganho de capital, por não configurar qualquer espécie de acréscimo patrimonial que a obrigasse ao recolhimento do tributo lançado. A incorporação de ações não configuraria alienação, mas espécie de troca/permuta de ações entre as sociedades; 4. Na operação de Incorporação de Ações a avaliação não representa preço de alienação das ações, sendo, tão somente, exigência procedimental contida na legislação societária, sem realização para as sociedades empresárias acionistas; 5. Na vigência do regime tributário de transição RTT, a sociedade expurgou os efeitos da avaliação a valor justo no FCONT, anulando qualquer efeito tributário da operação; 6. Eventual ganho de capital na operação somente poderia ser calculado considerando o valor patrimonial das ações em sua composição, e não o valor de mercado; 7. Inexiste renda decorrente do recebimento dos bônus de subscrição a ensejar o ganho de capital tributado, na medida em que aqueles retratam uma expectativa de subscrição futura do capital social. 8. Inexiste previsão legal de serem aplicados Juros SELIC sobre a multa lançada de ofício. (fl. 1.268) A DRJ BHE deu às impugnações provimento parcial apenas para excluir a responsabilidade tributária de Trip Participações S/A. e Rio Novo Locações Ltda., quanto ao crédito relativo ao IRPJ. O acórdão recebeu a seguinte ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2012 GANHO DE CAPITAL. ALIENAÇÃO. Na apuração do ganho de capital serão consideradas as operações que importem alienação, a qualquer título, de bens ou direitos. A alienação é gênero, do qual a transferência das ações, nos termos do art. 252 da Lei n° 6.404, de 1976, é espécie. INCORPORAÇÃO DE AÇÃO. Na incorporação de ações, há alienação pelos acionistas da incorporada de seus ativos, sendo a transmissão da propriedade dos ativos onerosa e avaliada em moeda corrente. Assim, havendo diferença positiva entre o valor da transmissão e o respectivo custo de aquisição, esta deve ser tributada como ganho de capital, independentemente da existência de fluxo financeiro. GANHO DE CAPITAL NA INCORPORAÇÃO DE AÇÕES. O acréscimo patrimonial na incorporação de ações configurase pelo confronto entre o valor recebido das ações da incorporadora a valor justo e o valor de patrimônio líquido somado a eventual ágio na aquisição do investimento das ações incorporadas, por expressão do princípio da capacidade contributiva e do direito positivo. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL. O ganho de capital auferido em decorrência de operação incorporação de ações também sofre tributação da contribuição social. Por decorrência, o mesmo procedimento adotado em relação ao lançamento principal estendese à CSLL. JUROS DE MORA. INCIDÊNCIA SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. Fl. 1469DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.470 6 A multa de ofício é débito para com a União, decorrente de tributos e contribuições administrados pela SRF, configurandose regular a incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício a partir de seu vencimento. RESPONSABILIDADE TRIBUTARIA. GRUPO ECONÔMICO. PREVISÃO LEGAL. CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS. INEXISTÊNCIA PARA IRPJ. As empresas que integram grupo econômico de qualquer natureza respondem entre si, solidariamente, pelas obrigações devidas à Seguridade Social, não havendo previsão legal expressa desta responsabilidade quanto ao IRPJ para o Grupo Econômico. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido Contra o acórdão da DRJ as recorrentes se insurgiram. Trip Investimentos Ltda. solicitou preliminarmente a reunião dos processos 15586.720036/201612; 15586 720037/201667 e 15586720086/201608, lavrados contra as recorrentes, tendo em vista a conexão existente entre eles, caracterizada pela identidade da matéria fática e pelos mesmos fundamentos jurídicos. Quanto à responsabilidade tributária, alegou capitulação incorreta, ausência de motivação do ato administrativo, e não comprovação da existência de grupo econômico. Teria havido equívoco da autoridade fiscal ao citar o art. 141 do Código Tributário Nacional CTN como fundamento legal da responsabilidade solidária. A fundamentação legal foi dada pela DRJ, no acórdão recorrido, que tentou complementar o auto de infração. A referência ao art. 30 da Lei nº 8.212/1991 e ao art. 494 da Instrução Normativa RFB nº 971/2009 figura apenas no acórdão recorrido, não tendo sido mencionada no auto de infração, nem no TVF, os quais omitem o enquadramento legal para amparar a responsabilização solidária decorrente da existência de grupo econômico. Por outro lado, o princípio da motivação do ato administrativo decorre não apenas da doutrina e da jurisprudência, mas também da Lei n° 9.784/1999, que regula o processo administrativo, preceituando, nos artigos 2º e 50, que o agente público, ao motivar o ato, deve fazêlo com a devida indicação dos fatos e dos fundamentos jurídicos necessários de forma explícita, clara e congruente, o que não ocorreu no presente caso. Por isso, existiria nulidade decorrente de vício formal. Sustenta a recorrente a não ocorrência de ganho de capital. A operação de incorporação de ações não enseja ganho de capital, nem configura hipótese de incidência de IRPJ e de CSLL. Tratase de negócio que consiste na permuta de ações entre as sociedades envolvidas, não dando causa à incidência daqueles tributos. Não ocorreu acréscimo patrimonial, pois as ações da Azul S.A. foram recebidas em contrapartida à entrega das ações da Trip Linhas Aéreas. Diferentemente do quanto exposto no acórdão recorrido, que entende a incorporação de ações como alienação em sentido amplo, a operação se subsume ao instituto da permuta. Ao contrário do que afirmado pela DRJ, as ações da Azul S/A não foram emitidas para pagamento ou liquidação de contrato, mas sim em troca das ações incorporadas da Trip Linhas Aéreas, por imposição da própria legislação societária. Fl. 1470DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.471 7 Não obstante se apliquem de forma subsidiária determinadas regras inerentes ao contrato de compra e venda, é certo que a permuta tem suas características específicas, principalmente por representar uma troca de ativos, em que as partes recebem ativos em troca de outros ativos, no caso, ações em troca de ações. Foi o que aconteceu com a recorrente na operação de incorporação de ações da Trip Linhas Aéreas pela Azul S/A: a troca de ações detidas por uma sociedade por ações emitidas em contrapartida pela sociedade incorporadora. Por se tratar de operação equivalente a permuta, que não envolve transferência de recursos, não se cogita de ganho de capital ou de renda. Porém, mesmo que a operação não possa ser qualificada tipicamente como permuta de ações, é inequívoco que não foi auferida renda pela recorrente. Para fins de IRPJ, o fato gerador é o acréscimo patrimonial, que não ocorreu. Não se pode falar em ganho no ato da incorporação das ações. Ganho de capital efetivo somente seria apurado quando e se a recorrente dispusesse da renda oriunda da alienação das ações. A troca das ações não resultou em acréscimo patrimonial para a recorrente, na medida em que, para fins fiscais, a troca se deu a valor contábil. Além disso, as novas ações não resultaram em disponibilidade de renda, razão pela qual não há que se falar em ganho de capital tributável. Para fins tributários, o valor atribuído, no âmbito da contabilidade, à incorporação de ações é irrelevante. Tal fato é importante para a compreensão do problema, na medida em que a avaliação das ações decorre de exigência da legislação societária, e somente nesse plano tem implicações, notadamente para fins de substância econômica. Na permuta, o essencial, é a deliberação de aceitar a troca pura e simples das coisas. Assim, na incorporação de ações, a avaliação não representa preço de alienação das ações, sendo apenas exigência da legislação societária, sem realização para as sociedades empresárias acionistas. A recorrente aduziu que o registro contábil da incorporação de ações deveria observar a neutralidade fiscal. Dessa forma, por estar sujeita ao regime tributário de transição RTT, se obrigava ao Controle Fiscal Contábil de Transição FCONT, de forma a expurgar, para fins fiscais, os efeitos da aplicação de métodos e critérios contábeis introduzidos pela Lei n° 11.638/2007. Em obediência a essa regra, a recorrente, por meio do FCONT, expurgou, no plano fiscal, os efeitos do recebimento das ações da Azul S/A em contrapartida à entrega das ações da Trip Linhas Aéreas. O ganho de capital apontado pela Fiscalização é resultado da avaliação das ações da Azul S/A e do bônus de subscrição a valor justo, em obediência à legislação societária. Tal avaliação, entretanto, estando restrita ao plano contábil, não criou para a recorrente qualquer obrigação de reconhecer ganho de capital tributável. Quanto ao recebimento do bônus de subscrição, insistiu, pelas razões expostas, em que a avaliação, no âmbito tributário, não pode ser feita a valor justo. Ademais, a determinação do valor desse título mobiliário depende de diversos fatores presentes na data da efetiva subscrição. Fl. 1471DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.472 8 A aferição de valor desses títulos depende da volatilidade das ações da pessoa jurídica cujo capital é subscrito. Por outro lado, o lucro depende das condições de mercado. É notório, em face desses aspectos, que inexiste renda decorrente da titularidade de bônus de subscrição em determinada data. Em resumo, não há ganho de capital decorrente de renda não realizada, vez que se trata de expectativa de, em futuro incerto, subscrever o capital social da companhia. A par das questões já levantadas no recurso, a recorrente acusou o fato de que, na apuração do ganho de capital, não teria sido considerado como custo do investimento na Trip Linhas Aéreas o ágio pago quando de sua aquisição. Por último, alegou o não cabimento da incidência de juros sobre a multa. As pessoas jurídicas arroladas como responsáveis tributárias questionaram sua inclusão no polo passivo, alegando vício na capitulação legal da responsabilidade tributária, ausência de motivação do ato administrativo, e falta de comprovação da efetiva existência de grupo econômico. A Procuradoria da Fazenda Nacional PFN apresentou contrarrazões (fls. 1.387 a 1.447), pugnando ao final pelo não provimento do recurso voluntário. Por ter sido excluída a responsabilidade tributária, quanto ao crédito de IRPJ, de Trip Participações S/A e Rio Novo Locações Ltda., impõese o reexame de ofício da decisão na parte que excluiu a responsabilidade daqueles coobrigados. É o relatório. Fl. 1472DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.473 9 Voto Conselheiro Roberto Silva Junior, Relator Admissibilidade Os recursos são tempestivos e atendem aos demais requisitos de admissibilidade. Ganho de capital A controvérsia gira em torno do ganho na incorporação de ações. A recorrente sustenta que o referido negócio jurídico não configura hipótese de incidência do IRPJ e da CSLL, pois a operação se assemelha a uma troca de ações entre as sociedades envolvidas, não atraindo incidência tributária. Refutou a afirmação contida no acórdão recorrido de que a operação possa ser considerada alienação em sentido amplo, visto que ela se subsume ao instituto da permuta ou troca. Assim, conclui que as ações da AZUL não teriam sido emitidas como forma de pagamento ou de liquidação do contrato, mas sim em troca das ações incorporadas da TRIP, o que foi feito por imposição da legislação societária. Em resumo, teria ocorrido mera substituição de ações detidas originariamente pelos investidores, as quais são trocadas por novos papéis a eles atribuídos pela sociedade incorporadora. Por se tratar de operação equivalente a permuta, sem envolver transferência de recursos, não se poderia falar em apuração de ganho de capital ou renda. De plano, é preciso afastar a ideia de que na permuta não existe alienação. Alienar, segundo a definição encontrada no Vocabulário Jurídico De Plácido e Silva, significa a ação de passar para outrem o domínio de coisa ou o gozo de direito que é nosso. Está assim o vocábulo, na tecnologia jurídica, em acordo com o radical de que se formou, alius, palavra latina que significa outrem. Alienare é, assim, tornar de outrem a coisa que era nossa e que se lhe transferiu por título inter vivos, seja gratuito ou oneroso. Segundo o mesmo autor, alienação, também chamada de alheação e alheamento, é o termo jurídico, de caráter genérico, pelo qual se designa todo e qualquer ato que tem o efeito de transferir o domínio de uma coisa para outra pessoa, seja por venda, por troca ou por doação. Também indica o ato por que se cede ou transfere um direito pertencente ao cedente ou transferente. (g.n.) É pressuposto da permuta, e ao mesmo tempo um de seus efeitos, a alienação dos bens permutados. Acerca desse contrato, a professora Maria Helena Diniz, baseandose no civilista Clóvis Beviláqua, teceu o seguinte comentário: A troca ou permuta é, segundo Clóvis Beviláqua, o contrato pelo qual as partes e se obrigam a dar uma coisa por outra que não seja dinheiro. Apresenta os seguintes caracteres jurídicos: é contrato bilateral, oneroso, comutativo, translativo de propriedade no sentido de servir como titulus adquirendi, gerando, para cada contratante, a obrigação de transferir para o outro o domínio da coisa objeto de sua prestação, e, em regra, consensual, embora excepcionalmente possa ser solene. (Curso de Direito Civil Brasileiro, volume 3: teoria das obrigações contratuais e extracontratuais. 21 edição. São Paulo: Saraiva. p 225) (g.n.) Fl. 1473DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.474 10 É certo que a permuta implica alienação. Ademais, pelas características acima apontadas, ela se aproxima do contrato de compra e venda. Não é por acaso que o Código Civil determina que à permuta se apliquem as disposições referentes à compra e venda. (caput do art. 533). Admitese, ademais, permuta envolvendo coisas de valores díspares, como se vê do inciso II do art. 533 do Código Civil: Art. 533. Aplicamse à troca as disposições referentes à compra e venda, com as seguintes modificações: (...) II é anulável a troca de valores desiguais entre ascendentes e descendentes, sem consentimento dos outros descendentes e do cônjuge do alienante. O inciso II do art. 533 do Código Civil, ao afirmar ser anulável a permuta de valores desiguais entre ascendentes e descendentes, está a admitir, implicitamente, a validade da permuta que tenha por objeto coisas de valores discrepantes. A materialização dessa hipótese caracteriza um ganho para aquele que receber o bem mais valioso. O ganho, em tese, é tributável pelo Imposto de Renda. Notese que a lei, quando quis afastar a incidência tributária, nos casos de permuta, o fez de forma expressa, como na permuta de imóvel sem torna. A questão envolvendo ganho de capital nas operações de incorporação de ações já foi trazida diversas vezes ao CARF. Existe jurisprudência formada sobre a matéria, inclusive com decisões da Câmara Superior de Recursos Fiscais CSRF, de que é exemplo o Acórdão nº 9101002.172, que trata de quase todos os pontos suscitados pela recorrente. Do voto condutor da decisão, extraise o seguinte trecho: Assim, não se trata, apenas, de ser cabível, ou não, a apuração de ganho de capital tributável na hipótese de permuta de participações societárias, mas de ser cabível, ou não, essa apuração, quando ocorre recebimento de valor superior ao entregue o que evidentemente enseja a tributação pelo ganho de capital. Porém, mesmo se assim não fosse, há que se apurar ganho de capital quando há alienação na permuta pura e simples, se as condições próprias ocorrerem, pois a permuta é uma forma de alienação do bem permutado e quando o bem recebido em troca tem um valor a ser contabilizado maior que o valor registrado do bem permutado, há que ser reconhecido o ganho de capital e devidamente tributado, conforme se demonstra a seguir. O tratamento legal da matéria corresponde à incidência da legislação que impõe apuração de ganho de capital tributável na alienação de ativos, e a base do ganho é a diferença entre o valor da alienação (o quanto de fato representa o bem alienado que corresponde ao valor do bem recebido) e o seu custo de aquisição (há diversos dispositivos que tratam da forma como se apura a base de cálculo, não citados). Ou seja, a variação patrimonial na forma prevista no art. 43 do CTN deve ser quantificada e deve ser pago o correspondente imposto de renda. Não há dúvida que na permuta há alienação do bem que está na propriedade do permutante o que traz a incidência das normas de regência. Vejase que nesses casos a base da tributação é, grosso modo, a diferença entre o valor registrado do bem objeto de alienação e o custo de aquisição do investimento recebido. Para demonstrar que essa é a mens legis genérica da legislação do Imposto de Renda, transcrevese abaixo os dispositivos do RIR/1999 (que tem por fundamento diversos dispositivos legais) que Fl. 1474DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.475 11 tratam do tema, aplicáveis às alienações e ganho de capital de pessoas físicas ou jurídicas (...): Art. 117. Está sujeita ao pagamento do imposto de que trata este Título a pessoa física que auferir ganhos de capital na alienação de bens ou direitos de qualquer natureza (Lei n° 7.713, de 1988, arts. 2°e 3°,§ 2°, Lei n° 8.981, de 1995, art. 21). (...) § 4º Na apuração do ganho de capital serão consideradas as operações que importem alienação, a qualquer título, de bens ou direitos ou cessão ou promessa de cessão de direitos à sua aquisição, tais como as realizadas por compra e venda, permuta, adjudicação, desapropriação, dação em pagamento, doação, procuração em causa própria, promessa de compra e venda, cessão de direitos ou promessa de cessão de direitos e contratos afins (Lei n° 7.713, de 1988, art 3º, § 3º). (...) Assim, da mera leitura e análise dos dispositivos legais acima reproduzidos transparece de forma cristalina que havendo alienação de ativo, e no caso presente houve, pois a empresa se desfez do ativo (via permuta), há que se apurar o ganho de capital correspondente à diferença entre o valor contábil do ativo que foi transferido e o valor do novo ativo que foi adquirido por permuta. (...) Temse que a operação de compra e venda corresponde à de permuta, dela se diferenciando apenas pelo fato de que se troca um bem por moeda (que não deixa de ser também um bem), e não por outro bem. Da mesma forma, a operação de permuta equivale a duas operações de compra e venda, nas quais a quantia em moeda, obtida na primeira operação, é convertida em bens na segunda, ambas com o mesmo contratante. (...) Não por outro motivo, a Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Novo Código Civil), em seu art. 533, ao tratar da "troca ou permuta", assim dispõe: Da Troca ou Permuta Art. 533. Aplicamse à troca as disposições referentes à compra e venda, com as seguintes modificações: I salvo disposição em contrário, cada um dos contratantes pagará por metade as despesas com o instrumento da troca; II é anulável a troca de valores desiguais entre ascendentes e descendentes, sem consentimento dos outros descendentes e do cônjuge do alienante. Por esse dispositivo legal fica clara a possibilidade de a "troca ou permuta'' ter por objeto bens de valores desiguais, o que, por si só, não a descaracteriza como tal. Vejase que, no caso de permuta de um bem por pessoa jurídica que recebe, em troca, outro bem do mesmo valor, não há diferença de valores a registrar: o novo bem ingressa no patrimônio da empresa com valor igual ao do bem substituído (o valor contábil do bem que transferido é exatamente igual ao valor do bem Fl. 1475DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.476 12 adquirido). Portanto, nessa situação, não ocorre, na permuta, nenhum ganho patrimonial a ser tributado. Mas este não é o caso dos autos. Assim, não é correto dizer como a recorrente que "não há qualquer alteração na situação patrimonial do contribuinte que troca um bem por outro" (efls. 3.115). Tal assertiva somente é verdadeira como bem afirmado pelo Acórdão nº 10808.358, de 2005, por ela mesma transcrito e destacado (efls. 3.114 e 3.115) quando houver "a mera troca de bens de valor equivalente" (o valor contábil do bem que transferido é exatamente igual ao valor do bem adquirido), o que não é o presente caso. (Relator Conselheiro Marco Aurélio Pereira Valadão) A par dessas razões, cumpre frisar que não procede a alegação de que a incidência do IRPJ só ocorre no momento da venda do bem recebido em permuta. O fato gerador do imposto não é o recebimento de dinheiro, mas o acréscimo patrimonial, aferido num determinado lapso de tempo. Portanto, havendo acréscimo, é irrelevante identificar a que elementos do patrimônio ele se deve, ou em quais elementos ele se exterioriza. Não é condição para a incidência do imposto que o acréscimo corresponda a uma disponibilidade de caixa. Nesse sentido, é cabível considerar na apuração do ganho de capital o valor do bônus de subscrição, não obstante a volatilidade apontada pela recorrente. Esse título mobiliário é passível de ser avaliado, tanto que a própria recorrente atribuiu a ele o valor de R$ 30.224.480,00, sendo irrelevante o fato de que tal avaliação se fez por imposição da lei societária. Ademais, se esses títulos podem ser negociados é porque são passíveis de avaliação em dinheiro. Por fim, importa dizer que a exigência de IRPJ e CSLL, no caso em tela, não pode ser atribuída à aplicação dos métodos e critérios contábeis introduzidos na legislação societária a partir do advento da Lei nº 11.638/2007. Em outras palavras, o lançamento não violou a regra da neutralidade tributária. O que efetivamente aconteceu é que a avaliação das ações da Azul S/A e do bônus de subscrição a valor justo evidenciou o ganho de capital. O acréscimo patrimonial tributável tem origem na diferença entre o valor da coisa entregue e o valor da coisa recebida. A avaliação a valor justo apenas mensurou essa diferença; não criou a realidade, apenas possibilitou sua constatação. Se a recorrente não estivesse obrigada pela legislação societária a fazer tal avaliação, ainda assim o ganho de capital teria ocorrido. A diferença é que ao Fisco caberia o ônus dessa avaliação e a prova do acréscimo patrimonial. Ressaltese que existe, no plano doutrinário, uma divergência quanto à natureza jurídica da incorporação de ações. Há quem veja nela um negócio cuja causa é o aumento de capital social mediante conferência de ações. Outros consideramna uma forma de reorganização societária, pela qual se cria uma subsidiária integral mediante a substituição de ações da companhia que se tornou controlada pelas ações da controladora. Essa controvérsia, a meu juízo, não interfere na tributação do IRPJ e da CSLL, que depende de que seja demonstrada a existência de dois fatos. Primeiro, a alienação das ações; depois, o acréscimo patrimonial, caracterizado pela diferença entre o valor das ações recebidas e o custo das ações entregues. O fato gerador do IRPJ e da CSLL, nesse caso, se considera ocorrido desde o momento em que se verifiquem as circunstâncias materiais necessárias a produzir os efeitos que normalmente lhe são próprios. Em outras palavras, quando houver disponibilidade econômica ou jurídica de renda. Fl. 1476DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.477 13 Por essas razões, o lançamento, nesse ponto, deve ser mantido. Ágio na aquisição das ações da Trip Linhas Aéreas S.A. A recorrente pede, na hipótese de ser mantido o lançamento, que se considere na apuração do ganho de capital o valor do ágio pago na aquisição das ações da Trip Linhas Aéreas S.A. O exame do TVF revela que a quantia paga a título de ágio foi efetivamente considerada. O que a Fiscalização rechaçou foi a pretensão de somar ao ágio o valor negativo do patrimônio líquido da empresa investida, quando da realização do investimento. Esse ponto, como frisou o acórdão recorrido, mesmo constando de forma expressa do TVF, não mereceu impugnação especificada da recorrente. O importante, porém, é deixar claro que o valor pago pelo investimento (R$ 84.894.600,00) foi efetivamente considerado na apuração do ganho de capital, como demonstra o quadro abaixo: EMPRESA RIO NOVO TRIP PARTICIPAÇÕES TRIP INVESTIMENTOS TOTAL VALOR PATRIMONIAL 6.785.773,23 55.886.083,57 22.012.386,32 84.684.243,12 ÁGIO 31.238.134,26 257.270.162,69 101.333.459,93 389.841.756,88 BÔNUS DE SUBSCRIÇÃO 9.299.840,00 76.723.680,00 30.224.480,00 116.248.000,00 BASE DE CÁCLULO 47.323.747,49 389.879.926,26 153.570.326,25 590.774.000,00 VALOR CONTÁBIL TRIP 0,00 0,00 0,00 ÁGIO INVEST NA TRIP 22.573.268,36 0,00 84.894.600,00 VALOR INVEST NA TRIP 22.573.268,36 0,00 84.894.600,00 CONTRAPRESTAÇÃO 47.323.747,49 389.879.926,26 153.570.326,25 GANHO DE CAPITAL 24.750.479,13 389.879.926,26 68.675.726,25 OBS. O valor contábil é zero porque o investimento (MEP) tinha valor negativo. Responsabilidade solidária recurso de ofício O lançamento, embora tenha colhido infração praticada por Trip Investimentos Ltda., incluiu no polo passivo Trip Participações S/A e Rio Novo Locações Ltda., entendendo existir grupo econômico, do qual faziam parte as três empresas. As recorrentes alegam que a autoridade lançadora omitiu o fundamento legal da solidariedade tributária, que só veio a ser apresentado no acórdão da DRJ, que, extrapolando sua competência, tentou complementar o auto de infração, invocando como suporte legal da solidariedade o art. 30 da Lei nº 8.212/1991 e o art. 494 da Instrução Normativa RFB nº 971/2009. O TVF, de fato, cita erroneamente o art. 141, inciso I, do CTN, que, além de não ter incisos, não cuida de responsabilidade tributária, de solidariedade e tampouco de grupo econômico. No corpo do auto de infração de IRPJ e de CSLL há referência apenas ao art. 124, inciso II, do CTN, acompanhado da seguinte descrição: Conforme relatório fiscal anexo ao auto de infração, tratamse de empresas que pertencem ao mesmo grupo econômico, tendo como sócios os Grupos Águia Branca e Caprioli Participações Ltda. Fl. 1477DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.478 14 É pacífico nesta 1ª Turma Ordinária o entendimento de que omissões e irregularidades no enquadramento legal da infração, por si sós, não acarretam nulidade do lançamento, se os fatos estiverem descritos com clareza e correção, de sorte a permitir o exercício do direito de defesa. Esse critério, entretanto, exige um cuidado maior na sua aplicação quando o tema envolve solidariedade tributária. É que o art. 124 do CTN prevê a existência de solidariedade em duas situações, a saber, i) quando houver interesse comum na situação que constitua fato gerador da obrigação principal; e ii) nos casos em que houver disposição expressa de lei prevendo a solidariedade. Eis o dispositivo legal: Art. 124. São solidariamente obrigadas: I as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal; II as pessoas expressamente designadas por lei. No primeiro caso, que cuida de interesse comum, ainda que o auto de infração seja omisso ou impreciso no enquadramento legal, não haverá nulidade se o quadro fático estiver descrito com clareza e precisão, pois é esse fato que traz à luz o interesse comum, que por sua vez deflagra a solidariedade tributária. O lançamento precisa descrever a ação conjugada ou coordenada de duas ou mais pessoas, visando a prática de ilícito tributário, do qual todos tinham conhecimento e ao qual aderiram de forma voluntária e consciente. Se a descrição fática lograr esse nível precisão e clareza, o lançamento subsistirá, a despeito de eventuais irregularidades de enquadramento legal. O mesmo, entretanto, não acontece no segundo caso. É que, de acordo com o inciso II, a solidariedade recai sobre pessoas expressamente designadas na lei, em situações também previstas de forma expressa na lei. Portanto, se a lei prevê situações específicas de solidariedade, a higidez do lançamento depende de que se indique o dispositivo legal que serve de base à solidariedade tributária. Não basta descrever a situação. Aqui é necessário citar o dispositivo legal, sob pena de inviabilizar o exercício do direito de defesa. No caso em exame, a autoridade lançadora fundamentou a solidariedade tributária na existência de grupo econômico. Porém não informou a base legal para tanto, nem esclareceu qual o conceito e o alcance da expressão grupo econômico. O CTN, quando trata da sujeição passiva, em especial dos casos de solidariedade, não cogita dessa figura. A DRJ supôs que o fundamento fosse o art. 30 da Lei nº 8.212/1991. Mas é uma conjectura. Esse dispositivo limita sua aplicação aos valores devidos à Seguridade Social. O IRPJ não se enquadra nesse perfil. Entretanto, a solidariedade foi estendida para alcançar o aludido imposto, abrindo caminho para a ilação de que a autoridade fiscal talvez tivesse em mente outro fundamento legal. Esse elemento necessário à validade do auto de infração não foi devidamente informado. Além disso, o próprio conceito de grupo econômico é impreciso, sobretudo na esfera tributária. Não há clareza quanto ao critério de reconhecimento da existência do grupo econômico. Perguntase: A relação entre as empresas do grupo deve ser vertical ou pode ser horizontal? Integram o grupo econômico empresas coligadas? Duas empresas não coligadas, mas submetidas a controle da mesma companhia, respondem solidariamente pelas dívidas tributárias uma da outra? Fl. 1478DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.479 15 As respostas a essas perguntas seriam dadas pelo enquadramento legal que, no caso, não foi feito. Enfim, o enquadramento legal da solidariedade tributária e o conceito de grupo econômico, que deram ensejo à inclusão de Trip Participações S/A e Rio Novo Locações Ltda. no polo passivo da autuação, tinham de ser expostos com clareza, mas não o foram. Portanto, não pode subsistir a responsabilidade tributária de nenhuma das duas recorrentes, nem da Trip Participações S/A, nem da Rio Novo Locações Ltda. Pelo exposto, afastase a responsabilidade solidária de Trip Participações S/A e de Rio Novo Locações Ltda. em relação à totalidade do crédito tributário lançado. Com isso, negase provimento ao recurso de ofício e, ao mesmo tempo, se dá provimento, nessa parte, aos recursos voluntários. Juros de mora sobre a multa No que concerne à aplicação de juros de mora sobre a multa imposta em lançamento de ofício, a matéria já foi diversas vezes trazida à apreciação desta Turma, que sistematicamente vem decidindo pela possibilidade dessa incidência. Para tanto, o fundamento legal estaria no art. 61 da Lei nº 9.430/1996, e nos artigos 161 e 139 ambos do CTN. Nessa linha de interpretação, emprestase um sentido amplo à expressão "débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições", constante do art. 61 da Lei nº 9.430, de forma a abarcar nessa categoria tanto o tributo propriamente dito, quanto a multa. Também esse é o entendimento que tem prevalecido na Câmara Superior de Recursos Fiscais CSRF, do qual é exemplo o Acórdão nº 9101003.369, cuja ementa, na parte relativa aos juros de mora, foi assim redigida: JUROS SOBRE MULTA DE OFÍCIO. As multas proporcionais aplicadas em lançamento de ofício, por descumprimento a mandamento legal que estabelece a determinação do valor de tributo administrado pela Receita Federal do Brasil a ser recolhido no prazo legal, estão inseridas na compreensão do § 3º do artigo 61 da Lei nº 9.430/1996, sendo, portanto, suscetíveis à incidência de juros de mora à taxa SELIC. Do voto condutor da decisão, destacamse os seguintes fundamentos: Assim, a expressão “os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal”, constante do caput do artigo 61 da Lei nº 9.430/1996, deve ser interpretada no sentido de compreender, para fins de incidência dos precitados juros moratórios, a diferença do tributo não recolhida até a data de seu vencimento, em razão de sua equivocada determinação, e a consequente multa aplicada mediante lançamento de ofício. Para tal empreitada exegética, é preciso considerar os artigos 113, § 1º; 139 e 161, caput e § 1º, do Código Tributário Nacional (CTN), verbis: (...) A teor dos artigos suprarreferidos: a) o crédito tributário é uma decorrência da obrigação tributária principal (CTN, artigo 139); Fl. 1479DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.480 16 b) essa obrigação tem por objeto o pagamento do tributo ou da penalidade pecuniária imposta como consequência do descumprimento do dever legal de entregar ao Estado credor, no prazo legal, o valor integral do tributo, apurado em consonância com as normas legais (CTN, § 1º do artigo 113); c) o crédito não integralmente pago no vencimento, de que trata o caput do artigo 161 do CTN, não se resume ao valor do tributo suprimido ao Erário, porquanto a infração consistente na supressão do tributo é fato gerador da multa proporcional a ser aplicada mediante lançamento de ofício. Portanto, o § 3º do artigo 161 do CTN abarca o valor do tributo suprimido e a multa a ser aplicada de ofício, em decorrência da supressão do tributo. (...) Do preceito acima invocado (art. 61 da Lei nº 9.430), destacase a incidência de juros de mora sobre débitos decorrentes de tributos e contribuições. Facilmente se infere que as multas ora comentadas só nascem porque há tributo devido a ser exigido de ofício. Não houvesse tributo sonegado, não haveria multa proporcional a ser lançada de ofício. Essa deve ser a linha de raciocínio para o desvendamento do que se pode entender no âmbito da expressão “débitos decorrentes de tributos e contribuições.” (grifo do original) Pelas razões acima referidas, as multas proporcionais aplicadas em lançamento de ofício, por descumprimento a mandamento legal que estabelece a determinação do valor de tributo administrado pela Receita Federal do Brasil a ser recolhido no prazo legal, estão inseridas na compreensão do § 3º do artigo 61 da Lei nº 9.430/1996, sendo, portanto, suscetíveis à incidência de juros de mora à taxa Selic. Nessa linha de entendimento, o CARF editou a Súmula 108. Súmula CARF nº 108. Incidem juros moratórios, calculados à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC, sobre o valor correspondente à multa de ofício. Em resumo e firmado nessas razões, indeferese a pretensão da recorrente de impedir a exigência de juros de mora calculados sobre a multa de ofício. CSLL Quando o lançamento da CSLL recair sobre a mesma base fática que motivou o lançamento do IRPJ, como ocorre no caso em exame, há de ser dada a mesma solução a ambos. Conclusão Pelo exposto, voto por conhecer dos recursos voluntários e de ofício para, no mérito: a) dar provimento aos recursos de Trip Participações S/A e de Rio Novo Locações Ltda., excluindoas do polo passivo da autuação; e Fl. 1480DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.481 17 b) negar provimento ao recurso de ofício e ao recurso interposto por Trip Investimentos Ltda. (assinado digitalmente) Roberto Silva Junior Declaração de Voto Conselheiro José Eduardo Dornelas Souza Durante do julgamento do presente processo, manifestei minha intenção de apresentar declaração de voto, acompanhando o relator, para registrar, a partir desse julgamento, alteração de meu posicionamento acerca da matéria discutida no presente processo. A controvérsia gira em torno da possibilidade ou não de apurar ganho de capital na incorporações de ações. Antes, afastava a imposição fiscal, sob o entendimento de que a incorporação de ações seria uma operação com características próprias, distinta da alienação, e por conseqüência, não seria suscetível de gerar ganho de capital tributável. Porém, como já afirmado, refleti melhor sobre o assunto, cujas razões são adiante consignadas. Modesto Carvalhosa, ao tratar do assunto em questão, sustenta que, na incorporação de ações, ocorre uma alienação ficta de ações pelo acionista da incorporada e uma aquisição ficta pela incorporadora. Feito isso, continua o autor, ocorre em verdade um aumento de capital da incorporadora mediante a dação de bens pelos antigos acionistas da incorporada: as próprias ações. Tratase, assim, de uma aquisição na qual o pagamento se dá em bens, pelo que não se pode falar em mera substituição ou permuta. Nesse sentido: Tratase o negócio de incorporação de ações, ao mesmo tempo de uma incorporação e de uma alienação fictas. No primeiro caso, porque não se incorpora uma sociedade em outra, na medida em que a incorporada subsiste como pessoa jurídica, ou seja, como sociedade mercantil de direito privado, revestindo o tipo companhia. No segundo caso, porque o controlador da sociedade incorporada aliena não apenas suas ações à incorporadora, mas também as dos minoritários, num negócio sui generis, que lembra a expropriação do direito administrativo. [...] No mais, tratase de aumento de capital da incorporadora, mediante a conferência de todas as ações de emissão da incorporada.1 (grifos acrescidos) Fl. 1481DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.482 18 Assim , para esse autor, a justificativa para explorar o elemento "amento de capital" é que a incorporação de ações pressupõe que haverá aumento de capital na incorporadora, conforme previsão no art. 252 da Lei nº 6.404, de 1976. Nesse ponto, importante verificar que a presença do aumento de capital da incorporadora, nos permite perceber que haverá alienação de bens para que a incorporação de ações se concretize. Assim, não se trata de mera permuta de ativos, como outrora sustentei, que as ações incorporadas e as ações emitidas pela sociedade "incorporadora" são simplesmente trocadas, atribuindose às referidas ações o mesmo valor, e por conseguinte, sem ganho de capital a ser tributado. Tratase, em verdade, de inegável possibilidade de haver apuração de ganho de capital, no caso das ações a serem incorporadas serem transferidas por valor superior ao custo de aquisição. Com efeito, se verificada diferença positiva entre o custo de aquisição do bem permutado e o valor atribuído ao mesmo para concretizar a permuta – isto é, o valor da alienação –, a legislação tributária impõe a exigência de imposto sobre a renda. O CARF já apreciou operação de permuta de ações. Tratase do Acórdão nº 1202001.075, da relatoria do Conselheiro Valentim Neto, proferido pela 1ª Turma da 2ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento, onde se decidiu, por unanimidade de votos, que na operação de permuta deveria incidir a tributação sobre o ganho de capital auferido pela diferença de valor dos bens permutados no negócio. Confirase trecho do mencionado julgado: III. A permuta de ações como fato gerador do IRPJ e da CSLL quando verificado o ganho do capital. Alega a Recorrente que “ainda que ficasse configurada a permuta nada haveria para se exigir do contribuinte, pois não há preço estipulado em que um bem constituise o pagamento do outro”, bem como “a mera diferença entre o custo dos bens não configura acréscimo patrimonial, pois, conceitualmente, os bens são permutados porque as partes os entendem como sendo da mesma valia. Todavia, deve ser mantida a decisão recorrida, por força do artigo 117, § 4º, do RIR/99, segundo o qual a operação de permuta de ações é tida como uma alienação e, na hipótese de ser auferido ganho de capital, é devido o imposto: Art. 117. Está sujeita ao pagamento do imposto de que trata este Título a pessoa física que auferir ganhos de capital na alienação de bens ou direitos de qualquer natureza (Lei nº 7.713, de 1988, arts. 2º e 3º, § 2º, e Lei nº 8.981, de 1995, art. 21). [...] § 4º Na apuração do ganho de capital serão consideradas as operações que importem alienação, a qualquer título, de bens ou direitos ou cessão ou promessa de cessão de direitos à sua aquisição, tais como as realizadas por compra e venda, permuta, adjudicação, desapropriação, dação em pagamento, doação, procuração em causa própria, promessa de compra e venda, cessão de direitos ou promessa de cessão de direitos e contratos afins (Lei nº 7.713, de 1988, art. 3º, § 3º). Colacionase, ainda, o Parecer Normativo CST nº 504, de 03/08/1971, também citado na decisão recorrida: “3 – Também a pessoa jurídica que permutar ações por outras ações de valor equivalente ao de aquisição das cedidas, por Fl. 1482DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.483 19 consequência, não alterando quantitativamente o patrimônio social, não estará sujeita à imposição de tributo. 4 – Todavia, se resultar lucro para a pessoa jurídica na alienação de ações, quer esta se faça sob a forma de venda, troca por bens de outra natureza ou permuta por outras ações, será ele necessariamente computado no resultado do exercício para fins de tributação. 5 Ressaltese, ainda, quanto à incidência na pessoa jurídica, não ser o valor nominal das ações negociadas a base de apuração do resultado na transação, e sim o valor da aquisição das por ela cedidas, em confronto com o atribuído às que receba na permuta, observandose em qualquer caso, as disposições das alíneas a e b do art. 251 e, na hipótese de prejuízo, as normas dos arts. 192 e 193 do Regulamento do Imposto de Renda (Decreto nº 58.400, de 10/05/66).” (destaque não constam do original). Deste modo, para fins de apuração de ganho de capital, devem ser consideradas todas as operações que impliquem alienação a qualquer título, inclusive a permuta. Se a pessoa jurídica auferiu ganho ou lucro na alienação de ações, quer esta se opere mediante compra e venda, incorporação ou permuta por outras ações, será o ganho ou lucro submetido à tributação, sendo a base tributável, na hipótese dos autos, o resultado entre a diferença do valor de aquisição das ações da Selenium entregues e o valor das ações da Elba recebidas pela Recorrente. (grifos acrescidos) Igualmente, merece destaque decisão da Câmara Superior de Recursos Fiscais CSRF, proferida no Acórdão 9101002.172 (Caso Fibria), que envolvia a tributação de ganho de capital proveniente de operação de permuta. Eis a ementa do referido precedente: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2007 PERMUTA DE PARTICIPAÇÕES SOCIETÁRIAS. RECEBIMENTO DE VALOR SUPERIOR AO ENTREGUE. APURAÇÃO DE GANHO DE CAPITAL TRIBUTÁVEL. CABIMENTO. Na hipótese de permuta de participações societárias, entre pessoas jurídicas, em que ocorre recebimento de valor superior ao entregue, é cabível a apuração de ganho de capital tributável, salvo nas hipóteses expressamente previstas em lei. Neste ponto, vale a pena transcrever trecho do voto do Conselheiro Marcos Aurélio Pereira Valadão (relator): O tratamento legal da matéria corresponde à incidência da legislação que impõe apuração de ganho de capital tributável na alienação de ativos, e a base do ganho é a diferença entre o valor da alienação (o quanto de fato representa o bem alienado que corresponde ao valor do bem recebido) e o seu custo de aquisição (há diversos dispositivos que tratam da forma como se apura a base de cálculo, não citados). Ou seja, a variação patrimonial na forma prevista no art. 43 do CTN deve ser quantificada e deve ser pago o correspondente imposto de renda. Não há dúvida que na permuta há alienação do bem que está na propriedade do permutante – o que traz a incidência das Fl. 1483DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.484 20 normas de regência. Vejase que nesses casos a base da tributação é, grosso modo, a diferença entre o valor registrado do bem objeto de alienação e o custo de aquisição do investimento recebido. Para demonstrar que essa é a mens legis genérica da legislação do Imposto de Renda, transcrevese abaixo os dispositivos do RIR/1999 (que tem por fundamento diversos dispositivos legais) que tratam do tema, aplicáveis às alienações e ganho de capital de pessoas físicas ou jurídicas (negritouse o dispositivo aplicável ao caso concreto em exame): (...) Assim, a regra geral é a tributação nos casos de permuta, espécie do gênero alienação. Porém há casos que não se tributa. E por que não tributa? Por que a legislação entendeu que se trata de não incidência, ou criou uma ficção jurídica que implica este efeito (além dos casos de isenção, onde há incidência mas não há tributação). Vejase que, conforme consolidado nos § 1º do art. 137 e os §§ 1º, 2º e 4º do art. 431 do RIR (aplicáveis às pessoas físicas e às jurídicas respectivamente, no âmbito do PND) – não se tributa porque há uma ficção jurídica no sentido de que os bens permutados (os dados e os recebidos), nos casos ali previstos, têm idêntico custo ou valor (ainda que contabilmente não os tenha) – o que, por óbvio, não gera ganho de capital. A Lei aqui criou uma exceção e não pode ser de forma alguma ser entendida como norma interpretativa, como alega a recorrente. Como reforço do argumento, as normas referentes às exceções à tributação na permuta sem torna, tidas como não incidência (não incluídas as isenções), seguem transcritas abaixo (incluem os casos de permuta em sede do PND e os casos de permuta de bens imóveis): [destaques não constam do original] Sendo assim, com esses fundamentos, acompanho o voto do relator que entendeu pela possibilidade de tributação do ganho de capital obtido na operação em exame. (assinado digitalmente) José Eduardo Dornelas Souza Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto Com as habituais homenagens pela clareza e precisão do voto do Ilustre Relator, peço vênia para divergir apenas quanto a um ponto de seu raciocínio, frisando desde já que esta discordância não afetará a conclusão alcançada em seu voto. A questão fulcral diz respeito à natureza jurídica da operação de incorporação de ações, se alienação ou subrogação real, para fins de subsunção ou não à regra do art. 3º, § 3º da Lei nº 7.713/88. Fl. 1484DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.485 21 A incorporação de ações é prevista no art. 252 da Lei nº 6.404/76, e se trata da operação através da qual a sociedade incorporadora incorpora ações de outra empresa, que continua a existir, porém passando a ser subsidiária integral daquela. É o que determinam seus dispositivos de regência: Art. 252. A incorporação de todas as ações do capital social ao patrimônio de outra companhia brasileira, para convertêla em subsidiária integral, será submetida à deliberação da assembléiageral das duas companhias mediante protocolo e justificação, nos termos dos artigos 224 e 225. § 1º A assembléiageral da companhia incorporadora, se aprovar a operação, deverá autorizar o aumento do capital, a ser realizado com as ações a serem incorporadas e nomear os peritos que as avaliarão; os acionistas não terão direito de preferência para subscrever o aumento de capital, mas os dissidentes poderão retirarse da companhia, observado o disposto no art. 137, II, mediante o reembolso do valor de suas ações, nos termos do art. 230. (Redação dada pela Lei nº 9.457, de 1997) § 2º A assembléiageral da companhia cujas ações houverem de ser incorporadas somente poderá aprovar a operação pelo voto de metade, no mínimo, das ações com direito a voto, e se a aprovar, autorizará a diretoria a subscrever o aumento do capital da incorporadora, por conta dos seus acionistas; os dissidentes da deliberação terão direito de retirarse da companhia, observado o disposto no art. 137, II, mediante o reembolso do valor de suas ações, nos termos do art. 230. (Redação dada pela Lei nº 9.457, de 1997) § 3º Aprovado o laudo de avaliação pela assembléiageral da incorporadora, efetivarseá a incorporação e os titulares das ações incorporadas receberão diretamente da incorporadora as ações que lhes couberem. § 4º A Comissão de Valores Mobiliários estabelecerá normas especiais de avaliação e contabilização aplicáveis às operações de incorporação de ações que envolvam companhia aberta. É uma peculiaridade dessa operação que a incorporadora aumente seu próprio capital social e o integralize com as ações adquiridas da incorporada. Os acionistas desta (incorporada), então, caso aprovem a operação, receberão em troca ações da incorporadora decorrentes do aumento do capital social em questão. Os antigos acionistas ou titulares de cotas da incorporada, portanto, passam a ser acionistas da incorporadora. É famoso o debate doutrinário em torno da tributação da incorporação de ações. Por um lado, parte da doutrina entende a incorporação como mera substituição de ações em virtude de subrogação real, em que não ocorre uma alienação e, portanto, não há ganho de capital tributável (Cf. OLIVEIRA, Ricardo Mariz de. Incorporação de ações no direito tributário conferência de bens, permuta, dação em pagamento e outros negócios jurídicos. São Paulo: Editora Quartier Latin, 2014), e, por outro lado, parte da doutrina reconhece a operação como aumento de capital mediante conferência de bens, o que implica alienação das ações incorporadas (Cf. SCHOUERI, Luís Eduardo e ANDRADE JR., Luís Carlos de. Fl. 1485DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.486 22 Incorporação de ações: natureza societária e efeitos tributários. São Paulo: Editora Dialética, Revista Dialética de Direito Tributário nº 200, maio de 2012). Com a devida vênia às abalizadas posições em sentido contrário, entendo que a operação de incorporação de ações se qualifica juridicamente como um aumento de capital mediante conferência de bens. Parecenos que o art. 252 da Lei 6404/76 é de grande clareza ao evidenciar que a incorporação de ações envolve um aumento de capital na sociedade incorporadora, e a integralização desse capital mediante a transferência das ações incorporadas. Do lado da sociedade incorporada, há uma aquisição de ações da incorporadora através da transferência de ações próprias, que serão utilizadas para a composição do capital social aumentado da incorporadora. É dizer, o pagamento pelas ações da incorporadora, decorrentes do aumento de capital, se dá através das ações dos acionistas da sociedade incorporada, caracterizando este negócio como inconteste alienação das ações detidas pelos sócios da incorporada. A tese da ocorrência de subrogação real nos parece equivocada, pois este negócio jurídico exige a substituição do objeto da relação jurídica, com a manutenção dos demais aspectos da relação originária (EIZIRIK, Nelson. "Incorporação de ações. Natureza Jurídica e principais características", p. 96). No caso da incorporação de ações, o sócio da sociedade incorporada é titular de participação nela, ao passo que após a operação ele deixa de ser sócio daquela empresa, para ser sócio da incorporadora mudam não apenas as ações, mas também a sociedade com a qual ele se relaciona, afetando a relação pretérita para além, simplesmente, do seu objeto. Além disso, o fato da operação ser realizada por meio de decisão da assembleia geral da incorporada decorre de autorização legal, que franqueia à diretoria da companhia poderes para negociar, em nome próprio e por conta dos acionistas, resguardando o direito de retirada dos minoritários, nos termos do art. 252, § 3º da Lei 6.404/76, não se afasta da lógica do princípio majoritário, que orienta as deliberações sociais1. Nesta esteira, há que se questionar se, a despeito da alienação, há realização da renda para fins de incidência do IRPJ e CSLL. Nesse ponto, também entendo ocorrida a realização, pois as ações da incorporadora passam a fazer parte do patrimônio do acionista da incorporada, que as recebe, incluindo aí o ganho de capital decorrente da diferença em relação ao custo de aquisição das ações da incorporada, estando cumpridos todos os requisitos da troca, inclusive a avaliação das ações a valor de mercado, sendo essas valores dotados de mensurabilidade e liquidez (Cf. BULHÕES PEDREIRA, José Luiz. Imposto sobre a renda: pessoas jurídicas. Rio de Janeiro: Justec, 1979, p.279) Em síntese, entendo que a incorporação de ações consiste em uma operação de alienação, no qual ações da incorporadora são adquiridas pelos sócios mediante cessão das 1 Para uma apresentação extensiva e, a meu ver, conclusiva sobre as críticas à primeira corrente, remeto a "SCHOUERI, Luís Eduardo e ANDRADE JR., Luís Carlos de. Incorporação de ações: natureza societária e efeitos tributários. São Paulo: Editora Dialética, Revista Dialética de Direito Tributário nº 200, maio de 2012. Fl. 1486DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.487 23 ações da incorporada (aumento de capital mediante conferência de bens), que tem o condão de gerar ganho de capital, a depender do valor das ações adquiridas da incorporadora. Desse modo, voto por reconhecer a incidência do IRPJ e CSLL sobre o ganho de capital na incorporação de ações. (assinado digitalmente) Carlos Augusto Daniel Neto Fl. 1487DF CARF MF
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Numero do processo: 15504.018036/2008-10
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Sep 11 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Oct 22 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2003 a 28/02/2007
AUSÊNCIA DE CONTESTAÇÃO SOBRE O FATO TRIBUTÁRIO QUE GEROU O LANÇAMENTO. PRECLUSÃO. ARTIGO 17 DO DECRETO Nº 70.235/1972.
Na hipótese em que não há impugnação no recurso voluntário quanto ao descumprimento da obrigação acessória que ensejou a imposição da penalidade, a matéria resta preclusa, não mais suscetível de apreciação nesta instância administrativa de julgamento.
CONTRATO DE LICENÇA DE USO DE MARCA. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. NÃO INCIDÊNCIA.
O que enseja a responsabilidade por sucessão é a aquisição de estabelecimento para a continuação da exploração da atividade comercial, industrial ou profissional, e não apenas o arrendamento ou locação de parte dele. Inteligência do art. 133 do CTN.
AQUISIÇÃO DE ESTABELECIMENTO EMPRESARIAL POR ENTIDADE IMUNE - TRESPASSE. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA POR SUCESSÃO. ART. 133, II DO CTN. CONTRIBUIÇÃO DOS SEGURADOS.
Eventual imunidade a que faça jus o responsável tributário não alcança as operações realizadas pelo contribuinte, a quem efetivamente se referem os fatos jurídicos tributários.
EXCLUSÃO DOS REPRESENTANTES LEGAIS DA RELAÇÃO DE COOBRIGADOS.
Não há atribuição de responsabilidade às pessoas relacionadas nos relatórios Relatório de Representantes Legais - REPLEG e Vínculos - Relação de Vínculos, mas tão somente qualificação para fins cadastrais. Matéria que não comporta discussão no âmbito do contencioso administrativo fiscal federal, a teor da Súmula CARF nº 88.
MULTA. EFEITO CONFISCATÓRIO. MATÉRIA CONSTITUCIONAL. SÚMULA CARF N° 02.
A análise de eventual caráter confiscatório da penalidade aplicada envolve a aferição de compatibilidade com a Constituição Federal da legislação tributária que fundamentou a autuação, o que é vedado a este tribunal, conforme Súmula CARF nº2.
JUROS MORATÓRIOS. CORREÇÃO PELA SELIC. SÚMULA CARF Nº 04.
É entendimento pacífico neste tribunal, constante da Súmula CARF nº 4, que os juros moratórios devidos sobre os débitos administrados pela Secretaria da Receita Federal são corrigidos pela taxa SELIC.
Numero da decisão: 2402-006.549
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Mário Pereira de Pinho Filho - Presidente
(assinado digitalmente)
Renata Toratti Cassini - Relatora
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Mário Pereira de Pinho Filho (presidente da turma), Denny Medeiros, Luis Henrique Dias Lima, Mauricio Nogueira Righetti, João Victor Ribeiro Aldinucci (vice-presidente), Jamed Abdul Nasser Feitoza, Gregório Rechmann Junior e Renata Toratti Cassini.
Nome do relator: RENATA TORATTI CASSINI
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E OUTROS Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2003 a 28/02/2007 AUSÊNCIA DE CONTESTAÇÃO SOBRE O FATO TRIBUTÁRIO QUE GEROU O LANÇAMENTO. PRECLUSÃO. ARTIGO 17 DO DECRETO Nº 70.235/1972. Na hipótese em que não há impugnação no recurso voluntário quanto ao descumprimento da obrigação acessória que ensejou a imposição da penalidade, a matéria resta preclusa, não mais suscetível de apreciação nesta instância administrativa de julgamento. CONTRATO DE LICENÇA DE USO DE MARCA. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. NÃO INCIDÊNCIA. O que enseja a responsabilidade por sucessão é a aquisição de estabelecimento para a continuação da exploração da atividade comercial, industrial ou profissional, e não apenas o arrendamento ou locação de parte dele. Inteligência do art. 133 do CTN. AQUISIÇÃO DE ESTABELECIMENTO EMPRESARIAL POR ENTIDADE IMUNE TRESPASSE. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA POR SUCESSÃO. ART. 133, II DO CTN. CONTRIBUIÇÃO DOS SEGURADOS. Eventual imunidade a que faça jus o responsável tributário não alcança as operações realizadas pelo contribuinte, a quem efetivamente se referem os fatos jurídicos tributários. EXCLUSÃO DOS REPRESENTANTES LEGAIS DA RELAÇÃO DE COOBRIGADOS. Não há atribuição de responsabilidade às pessoas relacionadas nos relatórios “Relatório de Representantes Legais REPLEG” e “Vínculos Relação de Vínculos”, mas tão somente qualificação para fins cadastrais. Matéria que não comporta discussão no âmbito do contencioso administrativo fiscal federal, a teor da Súmula CARF nº 88. MULTA. EFEITO CONFISCATÓRIO. MATÉRIA CONSTITUCIONAL. SÚMULA CARF N° 02. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 50 4. 01 80 36 /2 00 8- 10 Fl. 1088DF CARF MF Processo nº 15504.018036/200810 Acórdão n.º 2402006.549 S2C4T2 Fl. 1.089 2 A análise de eventual caráter confiscatório da penalidade aplicada envolve a aferição de compatibilidade com a Constituição Federal da legislação tributária que fundamentou a autuação, o que é vedado a este tribunal, conforme Súmula CARF nº2. JUROS MORATÓRIOS. CORREÇÃO PELA SELIC. SÚMULA CARF Nº 04. É entendimento pacífico neste tribunal, constante da Súmula CARF nº 4, que os juros moratórios devidos sobre os débitos administrados pela Secretaria da Receita Federal são corrigidos pela taxa SELIC. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Mário Pereira de Pinho Filho Presidente (assinado digitalmente) Renata Toratti Cassini Relatora Participaram do presente julgamento os conselheiros: Mário Pereira de Pinho Filho (presidente da turma), Denny Medeiros, Luis Henrique Dias Lima, Mauricio Nogueira Righetti, João Victor Ribeiro Aldinucci (vicepresidente), Jamed Abdul Nasser Feitoza, Gregório Rechmann Junior e Renata Toratti Cassini. Fl. 1089DF CARF MF Processo nº 15504.018036/200810 Acórdão n.º 2402006.549 S2C4T2 Fl. 1.090 3 Relatório Cuidase de recurso voluntário interposto em face do Acórdão nº 0228.210, da 7ª Turma da DRJ de Belo Horizonte (fls. 900/918), que julgou improcedente as impugnações apresentadas contra o Auto de Infração DEBCAB nº 37.052.8280. De acordo com o relatório fiscal de fls. 18/28, tratase de multa aplicada a ofensa ao artigo 33, §§ 2° e 3, da Lei n° 8.212/91, combinado com o art. 232 e com parágrafo único do art. 233 do Regulamento da Previdência Social — RPS, aprovado pelo Decreto 3.048, de 06/05/99, por ter deixado a empresa de apresentar à fiscalização os livros “Diário” dos anos 2003 a 2007 (fls. 08 a 13). Foi aplicada a penalidade prevista nos artigos 92 e 102 da Lei 8.212 da Lei nº8.212/91, c.c. artigos 283, II, "j" e 373 do Regulamento da Previdência Social, aprovado pelo Decreto nº 3.048/99, no valor de R$ 12.548,77 (doze mil quinhentos e quarenta e oito reais e setenta e sete centavos). Não ficaram configuradas agravantes ou atenuantes previstas, respectivamente, nos artigos 290 e 291 do RPS. Ainda de acordo com a fiscalização, ficou constatado o interesse comum entre as empresas Educação Infantil e Ensino Fundamental Savassi Ltda., CNPJ 05.385.879/0000150; Educação Infantil e Ensino Fundamental Pampulha Ltda., CNPJ 05.401.768/000190; Pampulha Ensino Fundamental Ltda., CNPJ 06.001.557/000123; Educação Infantil e Ensino Fundamental Mangabeiras Ltda., CNPJ 05.401.766/000100; Educação Infantil e Ensino Fundamental Sete Lagoas Ltda., CNPJ 05.392.395/000139; Mangabeiras Ensino Fundamental Ltda., CNPJ 06.001.546/000143; Colégio Sete Lagoas Ensino Fundamental Ltda., CNPJ 04.901.337/000120; Centro Mineiro de Ensino Superior CEMES Ltda., CNPJ 02.636.995/000107; Promove Participações Ltda.., CNPJ 05.376.569/000170; Promove Serviços Educacionais Ltda., CNPJ 05.376.559/000134; Promove Cursos Livres e Mercantil, CNPJ 42.975.896/000174, Magle Edição Comércio e Distribuição de Livros Ltda., CNPJ 05.399.437/000163 e Sociedade Educacional Sistema Ltda., CNPJ 23.840.945/000117 e, estando configurada a sujeição passiva entre elas, foram emitidos os respectivos TERMOS DE SUJEIÇÃO PASSIVA. Informa, também, o auditor, que a SOEBRAS Associação Educativa do Brasil, CNPJ 22.669.915/000127, foi eleita responsável subsidiária, nos termos do art. 133 do CTN por ter adquirido do grupo PROMOVE o direito de uso da marca PROMOVE em 01/11/2006 por meio de contrato particular de "Licença de Uso da Marca", continuando a explorar a antiga atividade econômica da autuada. Para o exercício dessas atividades, a adquirente inscreveu novos estabelecimentos no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas e manteve o mesmo endereço e CNAE da cedente. Em segundo ato, a SOEBRAS, por meio de “Contrato Particular de Alienação de Estabelecimento Empresarial — TRESPASSE”, adquiriu das empresas do grupo PROMOVE todo o complexo de bens organizados para exercício da atividade desenvolvida, composto da titularidade do estabelecimento empresarial, “incluindo ativo e passivo, (inclusive para os termos do art. 133 do Código Tributário Nacional e Art. 11º e 448 da Consolidação das Fl. 1090DF CARF MF Processo nº 15504.018036/200810 Acórdão n.º 2402006.549 S2C4T2 Fl. 1.091 4 Leis do Trabalho), bem como a propriedade de todos os seus elementos corpóreos e incorpóreos, imóveis, móveis, e semoventes e afins (...)”. Em que pese a alienação, esclarece o auditor que a autuada PROMOVE SERVIÇOS EDUCACIONAIS LTDA. não procedeu às devidas anotações nos Órgãos Oficiais de Registro, não arquivando na JUCEMG nenhuma alteração contratual de dissolução ou liquidação. Registra, também, que a autuada não cumpriu com as obrigações junto à administração tributária, permanecendo ativa no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas. Após ciência do auto de infração, aos 12/11/2008, a autuada PROMOVE SERVIÇOS EDUCACIONAIS LTDA. apresentou defesa juntamente com as empresas Promove Participações Ltda., Sociedade Educacional Sistema Ltda., Centro Mineiro de Ensino Superior CEMES Ltda., Colégio Sete Lagoas Ensino Fundamental Ltda., Educação Infantil e Ensino Fundamental Savassi S/C Ltda., Educação Infantil e Ensino Fundamental Pampulha Ltda., Pampulha Ensino Fundamental Ltda., Educação Infantil e Ensino Fundamental Sete Lagoas Ltda., Educação Infantil e Ensino Fundamental Mangabeiras Ltda., Magle Edição Comércio e Distribuição de Livros Ltda., Promove Cursos Livres e Mercantil Ltda., Mangabeiras Ensino Fundamental Ltda. e, também, com os sócios Luiz Magno da Silva Saramago, Hélio Soares Bazzoni, João Bosco Fontoura, Paulo Estevam da Silva Bastos, José Alyrio Bicalho Mourdo e o contador Carlos Alberto Moreira, alegando, em síntese: a) ILEGITIMIDADE DOS CORRESPONSÁVEIS: a inclusão dos representantes legais como corresponsáveis não merece prosperar, uma vez que não foram provados os motivos justificadores da coobrigação. Não houve, no caso, a comprovação de que os representantes legais agiram com excesso de mandato; b) NORMAS LEGAIS INFRINGIDAS. IMPOSSIBILIDADE DE IMPUGNAÇÃO. CERCEAMENTO DE DEFESA: argumentam que o Poder Judiciário já reconheceu a inconstitucionalidade da cobrança de INSS sobre pagamento de alimentação, de multas e de impostos de forma arbitrária e ilegal. c) Que a manutenção do auto de infração configura cerceamento de defesa e ofensa ao artigo 5°, LV, CF/88. A autuação não atende aos princípios básicos inerentes à Administração Pública, previstos na Lei 9.789/99, pois quando da auditoria realizada, o auditor poderia ter alertado a empresa acerca dos eventuais problemas, a exemplo da apresentação de documentos/dados faltantes, conferindolhe a oportunidade de regularizar a situação antes de proceder à atuação. d) MULTA EXCESSIVA COM EFEITO CONFISCATÓRIO. AFRONTA AO ARTIGO 150 DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL: a multa aplicada é excessiva, absurda, além de confiscatória; e) ERRÔNEA IMPOSIÇÃO DE MULTA E JUROS: em face da impossibilidade de se aferirem valores, a multa aplicada tem efeito de confisco, o que é vedado pela CF/88, razão pela qual ficam, desde já, expressamente, impugnados os lançamentos de multas e juros, mesmo porque, em sua maioria, já foram objeto de outros Autos de Infração; f) INOCORRÊNCIA DE INFRAÇÃO CRIMINAL: Como já informado anteriormente, não houve, em momento algum por parte da autuada, omissão de fatos, dados e documentos, pelo que impugna a eventual configuração de crime nos moldes do art. 337A do Código Penal Brasileiro; Fl. 1091DF CARF MF Processo nº 15504.018036/200810 Acórdão n.º 2402006.549 S2C4T2 Fl. 1.092 5 g) Requereram, por fim, a improcedência da autuação. A SOEBRAS Associação Educativa do Brasil, por sua vez, na condição de responsável subsidiária pelo crédito tributário, impugnou o lançamento, arguindo, em síntese (784/796)): a) Que arrendou, em 01/11/2006, a utilização da marca "Promove" em troca do pagamento de quantia em dinheiro para o Grupo "Promove". b) Que o Grupo Promove mantém suas atividades empresariais normais, tanto que possui as unidades Mangabeiras, Pampulha, Núcleo e Supletivo; c) Que a Promove e a SOEBRAS são empresas distintas, com sócios distintos, personalidades jurídicas próprias, independentes e atuam, cada qual, em seus objetivos sociais, não se podendo falar em sujeição passiva subsidiária; d) Contestou a cobrança da contribuição da empresa 1% SAT + 20% (FPN, PAT e RPA), contribuição de segurados (PAT e RPA), apropriação indébita contribuição descontada dos segurados (FPN), AI CFL 30 – deixar de incluir verbas salariais em FOPAG, AI CFL 35 deixar de apresentar dados em formato MANAD, AI CFL 38 – deixar de apresentar livro diário de 2003 a 2007, AI CFL 67 – deixar de informar fatos geradores em GFIP, AI CFL 68 – apresentar GFIP com dados não correspondentes aos fatos geradores, AI CFL 91 apresentar GFIP em desconformidade com o Manual; e) Que goza de isenção/imunidade tributária, por ser entidade beneficente de assistência social; f) Que pelo simples fato de ter arrendado a marca não pode ser responsabilizada pelas obrigações da empresa cedente; g) Que o arrendamento ocorreu no final de 2006 e a autuação compreendeu as competências a partir de 2003; h) Que as diversas alterações ocorridas no sistema de entrega de dados, como envio das GFIPs, causaram certa confusão e desconhecimento técnico, o que não pode ser considerado máfé. Entende que não pode ser punida sem ter concorrido para a prática de ato ilícito; i) Que apresentou pedidos de parcelamento de débitos protocolados aos 15/10/2007, pelo que requer seja transferido todo o passivo fiscal para o CNPJ 22.669.915/000127, permitindo a sua inclusão nos parcelamentos já solicitados; j) Requereu a insubsistência do Mandado de Procedimento Fiscal MPF, o não reconhecimento da sujeição passiva subsidiária, a anulação do procedimento e o reconhecimento da imunidade tributária da SOEBRAS; A DRJ julgou a impugnação improcedente, em julgado assim ementado: ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Período de apuração: 01/01/2003 a 28/02/2007 AUTO DE INFRAÇÃO. FALTA DE APRESENTAÇÃO DE DOCUMENTO. Fl. 1092DF CARF MF Processo nº 15504.018036/200810 Acórdão n.º 2402006.549 S2C4T2 Fl. 1.093 6 Constitui infração a legislação previdencidria, deixar o contribuinte de exibir h. fiscalização todos os documentos e livros relacionados com as contribuições sociais, quando solicitados. POLO PASSIVO. COOBRIGADOS. No polo passivo estão incluídas as pessoas jurídicas responsáveis pelo pagamento do crédito lançado, contribuinte e componentes do mesmo grupo econômico, por solidariedade. MULTA. ARGÜIÇÃO DE CONFISCO. INCONSTITUCIONALIDADE. A alegação de que a multa em face de seu elevado valor é confiscatória não pode ser discutida nesta esfera de julgamento, pois se trata de exigência fundada em legislação vigente, à qual este julgador está vinculado. REPRESENTAÇÃO FISCAL. Obrigação legal do Auditor Fiscal da Receita Federal do Brasil a formalização de Representação Fiscal para Fins Penais sempre que, no exercício de suas funções, constatar a ocorrência, em tese, de crime contra a Seguridade Social. JUNTADA DE DOCUMENTOS. PRAZOS. PRECLUSÃO TEMPORAL. A prova documental deve ser apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual. AQUISIÇÃO DE ESTABELECIMENTO. RESPONSABILIDADE TRIBUTARIA. A pessoa natural ou jurídica de direito privado que adquirir de outra, por qualquer titulo, fundo de comércio ou estabelecimento comercial, industrial ou profissional, e continuar a respectiva exploração, sob a mesma ou outra razão social ou sob firma ou nome individual, responde pelos tributos, relativos ao fundo ou estabelecimento adquirido, devidos até a data do ato. IMPUGNAÇÃO Considerase não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo impugnante. MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL MPF. Tendo a autoridade fiscal observado o cumprimento dos requisitos legais indispensáveis à validade do lançamento do crédito tributário, eventuais questionamentos acerca da emissão ou execução do MPF, por constituir essencialmente um instrumento de controle administrativo, não importam em nulidade do procedimento fiscal. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido O sujeito passivo PROMOVE SERVIÇOS EDUCACIONAIS LTDA. e os responsáveis solidários do grupo Promove, bem como a empresa SOEBRAS foram notificados do acórdão e, tempestivamente, aos 23.02.2011, apresentaram Recurso Voluntário único aduzindo, em breve síntese (fls. 1034/1074): a) ilegitimidade da SOEBRAS para figurar como devedora das dívidas tributárias do grupo "Promove" pela mera utilização da marca em decorrência do contrato de Fl. 1093DF CARF MF Processo nº 15504.018036/200810 Acórdão n.º 2402006.549 S2C4T2 Fl. 1.094 7 licença de uso celebrado, dado que não existe previsão legal de que o uso da marca acarreta responsabilidade por débitos tributários; b) exclusão dos representantes legais das empresas do grupo Promove da relação de coobrigados; c) redução dos juros e multas aplicados, em respeito ao mandamento inserto no art. 150, IV da CF/88, c/c art. 1º da Lei 9.784/99, por terem efeito confiscatório; d) a imunidade tributária da SOEBRÁS atinge o contrato de TRESPASSE realizado entre si a o grupo Promove. Não houve contrarrazões. Encaminhados os autos a este Conselho para julgamento do recurso, constatou a então relatora que havia notícia de que a empresa teria optado por aderir ao parcelamento de todos os débitos junto à PGFN e à Receita Federal, nos termos da Lei nº 11.941/09. O julgamento foi, então, convertido em diligência para que o Fisco informasse se os débitos em discussão foram objeto de parcelamento pelo contribuinte ou pelas demais responsáveis (solidárias ou subsidiárias) (fls. 1076), restando, por fim, esclarecido que “o débito controlado por meio do presente do processo não foi incluído em parcelamento, pois a opção do contribuinte pela modalidade da LEI 11.941RFBPREVART.1º encontrase cancelada devido à não apresentação de informações de consolidação, conforme §3º do art.15 da Portaria Conjunta PGFN/RFB nº 6/2009” (fls. 1105). É o relatório. Voto Conselheira Renata Toratti Cassini – Relatora. Na interposição do presente recurso, foram observados os pressupostos gerais de admissibilidade, pelo que dele conheço. Delimitação da matéria a ser julgada Como relatado, o lançamento tem por objeto a imposição de multa por infração ao artigo 33, §§ 2° e 3, da Lei n° 8.212/91, combinado com o art. 232 e com parágrafo único do art. 233 do Regulamento da Previdência Social — RPS, aprovado pelo Decreto 3.048/99, por ter a empresa deixado de apresentar à autoridade fiscal os livros “Diário” de 2003 a 2007. Fl. 1094DF CARF MF Processo nº 15504.018036/200810 Acórdão n.º 2402006.549 S2C4T2 Fl. 1.095 8 Inicialmente, convém pontuar que o descumprimento dessa obrigação acessória não foi objeto de impugnação sob nenhum aspecto no Recurso Voluntário. Sobre o assunto, dispõe o art. 17 do Decreto 70.235/72: “Art. 17. Considerarseá não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo impugnante.” O novo Código de Processo Civil, em seu art. 1002, disciplina o tema da seguinte maneira: “Art. 1002. A decisão pode ser impugnada no todo ou em parte.” Em comentário ao aludido dispositivo legal, ensina Nelson Nery Junior: “4. Recurso parcial. O recurso de apenas parte da decisão significa aquiescência da parte não impugnada. O recorrente concordou com parte da sentença, tanto assim que recorreu apenas da parte com a qual não se conformou (...).” (NERY JUNIOR, Nelson; NERY, Rosa Maria de Andrade. Comentários ao Código de Processo Civil. Novo CPC. Lei 13.105/2005. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2015. p. 2030, nota 4 ao artigo 1002.) Tratase, portanto, de matéria preclusa, não mais suscetível de apreciação nesta instância administrativa de julgamento. Nesse sentido, precedente da 1ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da 3ª Sessão de Julgamento deste Tribunal (acórdão nº 3401004.360): ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 31/01/2009 a 30/04/2010 CONTRIBUIÇÃO AO PIS/COFINS. OMISSÃO DE RECEITAS. AUSÊNCIA DE CONTESTAÇÃO SOBRE MATÉRIA. PRECLUSÃO. ARTIGO 17 DO DECRETO Nº 70.235/1972. Na hipótese em que não há impugnação no Recurso Voluntário quanto aos valores apontados pela Fiscalização como sujeitos à tributação pelas contribuições, operase a preclusão, tornandose definitiva a matéria, por força do artigo 17 do Decreto nº 70.235/1972. (...) Feita essa observação inicial, passase à analise da matéria impugnada pelos recorrentes no Recurso Voluntário: Ilegitimidade da SOEBRAS para figurar como devedora das dívidas contraídas pelo grupo "Promove" pela mera utilização da marca em contrato de licença de uso de marca Imunidade tributária da SOEBRÁS atinge o contrato de TRESPASSE realizado entre si a o grupo Promove Embora os itens (i) ilegitimidade da SOEBRAS para figurar como devedora das dívidas do grupo “Promove” pela mera utilização da marca em decorrência de contrato de licença de uso e (ii) imunidade tributária da SOEBRAS sobre o contrato de TRESPASSE celebrado com o grupo “Promove” tenham sido deduzidos em tópicos distintos, procederemos à sua análise de forma conjunta por se tratar de assuntos correlacionados. Fl. 1095DF CARF MF Processo nº 15504.018036/200810 Acórdão n.º 2402006.549 S2C4T2 Fl. 1.096 9 Alegam os recorrentes que a SOEBRAS, como entidade sem fins lucrativos, autonomia, e personalidade jurídica própria, arrendou o uso da marca “Promove”, mediante contraprestação de determinada quantia em dinheiro. Esclarecem que mencionado negócio jurídico, que nada mais é do que a utilização por terceiros, em troca de uma contraprestação, de um sinal visual que distingue um produto ou serviço dos demais concorrentes, é admitido pela Lei de Propriedade Industrial (Lei nº 9.279/96), e se trata da licença de uso de marca, prevista nos arts. 130, II e 139 daquela mesma Lei, nos seguintes termos: Art. 130. Ao titular da marca ou ao depositante é ainda assegurado o direito de: I ceder seu registro ou pedido de registro; II licenciar seu uso; III zelar pela sua integridade material ou reputação. Art. 139. O titular de registro ou o depositante de pedido de registro poderá celebrar contrato de licença para uso da marca, sem prejuízo de seu direito de exercer controle efetivo sobre as especificações, natureza e qualidade dos respectivos produtos ou serviços. Parágrafo único. O licenciado poderá ser investido pelo titular de todos os poderes para agir em defesa da marca, sem prejuízo dos seus próprios direitos. Pois bem. O Código Tributário Nacional, em seu art. 133, dispõe que: Art. 133. A pessoa natural ou jurídica de direito privado que adquirir de outra, por qualquer título, fundo de comércio ou estabelecimento comercial, industrial ou profissional, e continuar a respectiva exploração, sob a mesma ou outra razão social ou sob firma ou nome individual, responde pelos tributos, relativos ao fundo ou estabelecimento adquirido, devidos até à data do ato: I integralmente, se o alienante cessar a exploração do comércio, indústria ou atividade; II subsidiariamente com o alienante, se este prosseguir na exploração ou iniciar dentro de seis meses a contar da data da alienação, nova atividade no mesmo ou em outro ramo de comércio, indústria ou profissão. (...) Da leitura “a contrario sensu” do dispositivo legal em tela, extraise que o que gera a responsabilidade por sucessão é a aquisição de estabelecimento para a continuação da exploração da atividade comercial, industrial ou profissional, e não apenas o arrendamento ou locação de parte dele, como, por exemplo, o arrendamento apenas do uso da marca. A esse respeito, ensina a doutrina que: Ora, nitidamente, claramente, evidentemente, o art. 133 não disciplinou cessões temporárias de direitos. Disciplinou aquisições. Disciplinou contratos de compra e venda. Não disciplinou transferência temporária de direitos de uso, revistase da forma que se revestir (locação, arrendamento, “leasing”, usufruto temporário). Fl. 1096DF CARF MF Processo nº 15504.018036/200810 Acórdão n.º 2402006.549 S2C4T2 Fl. 1.097 10 É de se lembrar que, na cessão temporária de direitos de uso, a propriedade continua inteiramente do cedente; a “nua propriedade”, vale dizer, a substância do direito de propriedade, por titulação definitiva, não se transfere. O art. 133 do CTN, portanto, não se aplica à cessão temporária de direitos, por não caracterizar uma aquisição de bens e não ser possível utilizarse a integração analógica para alargar o campo de imposição tributária. (SILVA, Ives Gandra da. A SUCESSÃO TRIBUTÁRIA DO ARTIGO 133 DO CÓDIGO TRIBUTÁRIO NACIONAL NÃO ABRANGE CESSÃO TEMPORÁRIA DE DIREITO DE USO DE MARCA – INTELIGÊNCIA DO REFERIDO DISPOSITIVO – PARECER. Revista Dialética de Direito Tributário, n. 146, nov. 2007, p. 126136). Na linha do ensinamento acima e do disposto no art. 133 do CTN, entendo que têm razão os recorrentes quando argumentam que à SOEBRAS não pode ser imputada responsabilidade pelos débitos tributários do grupo “Promove” apenas em função do contrato de licença de uso de marca celebrado entre as partes para exploração pela SOEBRAS da marca “Promove”. Ocorre que, como os próprios recorrentes noticiam em seu recurso, confirmando o que já havia sido apontado pela autoridade fiscal no auto de infração, inicialmente a SOEBRAS obteve das empresas “Promove” o direito de uso da marca, conforme contrato particular de “Licença de Uso de Marca” datado de 01/11/2006 (fls. 22). Posteriormente, em segundo ato, a SOEBRAS, por “Contrato Particular de Alienação de Estabelecimento Empresarial – TRESPASSE” adquiriu das empresas do Grupo “Promove” todo o complexo de bens organizados para o exercício da atividade empresarial, compostos da titularidade do estabelecimento empresarial e de “todos os direitos, incluindo ativo e passivo (inclusive do art. 133 do Código Tributário Nacional e Art. 11º e 448 da Consolidação das Leis do Trabalho), bem como a propriedade de todos os seus elementos corpóreos e incorpóreos, imóveis, móveis e semoventes e afins (...)”. (fls. 24) Ora, houve, então, neste segundo momento, a “aquisição” necessária a ensejar a incidência da responsabilidade tributária por sucessão de empresas disciplinada no art. 133 do CTN. A mesma doutrina, já acima citada, esclarece que para fins de incidência do art. 133 do CTN, “O que importa considerar é o tipo de operação que gera a sucessão tributária, ou seja, a aquisição de fundo de comércio ou de estabelecimento profissional, comercial ou industrial”. (op. cit.) (grifos originais) Nessa linha, os próprios recorrentes estão de acordo com a sua responsabilidade quanto aos débitos tributários do Grupo “Promove” decorrente do contrato de TRESPASSE uma vez que afirmam que “Certo é que as dívidas contraídas pelo grupo “`Promove” foram sucedidas à SOEBRAS por ocasião do contrato realizado, assim como por disposições legais: art. 121 e 133 do CTN e Código Civil, art. 1146 (...)” (fls. 1048). No entanto, procuram elidir essa responsabilidade argumentando que gozam de imunidade tributária, nos termos do art. 150, VI, “c” da CF/88, segundo o qual: Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: (...) VI instituir impostos sobre: Fl. 1097DF CARF MF Processo nº 15504.018036/200810 Acórdão n.º 2402006.549 S2C4T2 Fl. 1.098 11 a) patrimônio, renda ou serviços, uns dos outros; b) templos de qualquer culto; c) patrimônio, renda ou serviços dos partidos políticos, inclusive suas fundações, das entidades sindicais dos trabalhadores, das instituições de educação e de assistência social, sem fins lucrativos, atendidos os requisitos da lei; (...) Sem razão os recorrentes, no entanto, no que diz respeito a essa questão. Inicialmente, a regra de imunidade contida no dispositivo constitucional supratranscrito, como deixa claro a sua redação, aplicase exclusivamente a impostos. A norma constitucional que prevê imunidade para contribuições previdenciárias é aquela prevista no art. 195, §7º da CF/88, que, embora fale em isenção, trata, em verdade, de imunidade, e dispõe que: Art. 195. A seguridade social será financiada por toda a sociedade, de forma direta e indireta, nos termos da lei, mediante recursos provenientes dos orçamentos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, e das seguintes contribuições sociais. (...) § 7º São isentas de contribuição para a seguridade social as entidades beneficentes de assistência social que atendam às exigências estabelecidas em lei. (destacamos) (...) Seja como for, independentemente da norma constitucional de regência, ocorre que, a par, também, de discussões acerca do preenchimento dos requisitos legais pela SOEBRAS para que esteja no gozo legítimo de tal benefício constitucional, e ainda que se considere tratarse de entidade legitimamente imune à incidência de contribuições previdenciárias, temse que o sujeito passivo principal da obrigação tributária é a empresa Promove Serviços Educacionais Ltda. À SOEBRAS foi atribuída apenas responsabilidade subsidiária pelo débito tributário daquela primeira, nos termos do art. 133, II do CTN. E, com razão a decisão recorrida quando ressalta que não há previsão legal que autorize a extensão àquela dos benefícios desta, se provada, de fato, a condição de imunidade. Este, aliás, também é o entendimento do Supremo Tribunal Federal no RE 202.9874/SP (rel. Min. Joaquim Barbosa, 2ª Turma, v.u., j.30/06/09, DJe 24/09/09): CONSTITUCIONAL. TRIBUTÁRIO. IMUNIDADE. ENTIDADE DE ASSISTÊNCIA SOCIAL E EDUCAÇÃO SEM FINS LUCRATIVOS. INAPLICABILIDADE ÀS HIPÓTESES DE RESPONSABILIDADE OU SUBSTITUIÇÃO TRIBUTÁRIA. IMPOSTO SOBRE OPERAÇÃO DE CIRCULAÇÃO DE MERCARODIAS – ICM/ICMS. LANÇAMENTO FUNDADO NA RESPONSABILIDADE DO SERVIÇO SOCIAL DA INDÚSTRIA – SESI PELO RECOLHIMENTO DE TRIBUTO INCIDENTE SOBRE A VENDA DE MERCADORIA ADQUIRIDA PELA ENTIDADE. PRODUTORVENDEDOR CONTRIBUINTE DO TRIBUTO. TRIBUTAÇÃO SUJEITA A DIFERIMENTO. Recurso extraordinário interposto de acórdão que considerou válida a responsabilidade tributária do Serviço Social da Indústria – SESI pelo recolhimento Fl. 1098DF CARF MF Processo nº 15504.018036/200810 Acórdão n.º 2402006.549 S2C4T2 Fl. 1.099 12 de ICMS devido em operação de circulação de mercadorias, sob o regime de diferimento. Alegada violação do art. 150, IV, c da Constituição, que dispõe sobre imunidade das entidades assistenciais sem fins lucrativos. A responsabilidade ou a substituição tributária não alteram as premissas centrais da tributação, cuja regramatriz continua a incidir sobre a operação realizada pelo contribuinte. Portanto, a imunidade tributária não afeta, tãosomente por si, a relação de responsabilidade tributária ou de substituição e não exonera o responsável tributário ou o substituto. Recurso tributário conhecido, mas ao qual se nega provimento. (destacamos) Entendemos que, realmente, eventual imunidade a que faça jus a responsável subsidiária SOEBRAS não alcança as operações realizadas pelo contribuinte, a quem efetivamente se referem os fatos jurídicos tributários. Exclusão dos representantes legais das empresas do grupo Promove da relação de coobrigados Requerem, ainda, os recorrentes, a exclusão da relação de coobrigados do auto de infração dos sócios Luiz Magno da Silva Saramago, Hélio Soares Bazzoni, João Bosco Fontoura, Paulo Estevam da Silva Bastos, José Alyrio Bicalho Mourdo, do contador Carlos Alberto Moreira e de Alexia Aparecida Andrade Freitas e de Carlos Alberto Moreira. Argumentam que conforme já decidido pelo Superior Tribunal de Justiça, “o mero inadimplemento da obrigação de pagar tributo não constitui infração legal capaz de ensejar a responsabilização dos sócios pelas dívidas tributárias da pessoa jurídica” (Resp 987.991/MG). Desse modo, o mero inadimplemento não legitima a cobrança do débito tributário das pessoas físicas dos sócios. Inicialmente, deixo de apreciar o pedido em questão em relação a Alexia Aparecia Andrade Freitas e Carlos Alberto Moreira uma vez que não integram o presente processo como parte, não sendo lícito aos recorrentes deduzirem pretensão em nome de terceiros. Com relação aos demais, entendo que a pretensão dos recorrentes não deve ser acolhida. Com efeito, o “Relatório de Representantes Legais – REPLEG”, parte integrante do auto de infração (fls. 10), contém esclarecimento expresso no sentido de que “Este relatório lista todas as pessoas físicas e jurídicas representantes legais do sujeito passivo, indicando sua qualificação e período de atuação”. O relatório “Vínculos – Relação de Vínculos”, por sua vez, também traz expressamente a finalidade à qual se destina, qual seja, listar “todas as pessoas físicas ou jurídicas de interesse da administração previdenciária em razão de seu vínculo com o sujeito passivo, representantes legais ou não, indicando o tipo de vínculo existente e o período correspondente” (fls. 12). Não há atribuição de responsabilidade às pessoas ali relacionadas, mas tão somente mera qualificação, para fins cadastrais. Essa questão, inclusive, já foi pacificada no âmbito deste tribunal, conforme Súmula CARF nº 88. Súmula CARF nº 88: A Relação de CoResponsáveis CORESP”, o “Relatório de Representantes Legais – RepLeg” e a “Relação de Vínculos – VÍNCULOS”, anexos a auto de infração previdenciário lavrado unicamente contra pessoa jurídica, não Fl. 1099DF CARF MF Processo nº 15504.018036/200810 Acórdão n.º 2402006.549 S2C4T2 Fl. 1.100 13 atribuem responsabilidade tributária às pessoas ali indicadas nem comportam discussão no âmbito do contencioso administrativo fiscal federal, tendo finalidade meramente informativa. Multa e juros aplicados efeito confiscatório Por fim, requerem os recorrentes a redução da multa e juros aplicados, ao argumento de que infringem o mandamento inserto no art. 150, IV da CF/88, c/c art. 1º da Lei 9.784/99, qual seja o princípio da vedação ao confisco. A análise de eventual caráter confiscatório da penalidade envolve a aferição de compatibilidade com a Constituição Federal da legislação tributária que fundamentou a autuação, o que é vedado a este tribunal, conforme Súmula CARF nº 2, segundo a qual “O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária”. É dizer, a este colegiado não compete a apreciação de matéria constitucional. Sobre os juros moratórios, também é entendimento pacífico neste tribunal, constante da Súmula CARF nº 4, que os juros moratórios devidos sobre os débitos administrados pela Secretaria da Receita Federal são corrigidos pela taxa SELIC, tendo sido essa a taxa aplicada para a correção do débito aplicada pela autoridade fiscal. Súmula CARF nº 4: A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. CONCLUSÃO Por todo o exposto, voto no sentido de conhecer do recurso voluntário e, no mérito, negarlhe provimento. Renata Toratti Cassini Relatora Fl. 1100DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 23034.008164/99-42
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 03 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Oct 01 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/1999 a 31/12/2005
RECURSO DE OFÍCIO. VALOR DE ALÇADA INFERIOR AO ESTABELECIDO EM PORTARIA DO MINISTRO DA FAZENDA. NÃO CONHECIMENTO.
Não se conhece de recurso de ofício cujo crédito exonerado, incluindo-se valor principal e de multa, é inferior ao estabelecido em ato editado pelo Ministro da Fazenda.
RECURSO DE OFÍCIO. LIMITE DE ALÇADA. VIGÊNCIA. DATA DE APRECIAÇÃO.
Para fins de conhecimento de recurso de ofício, aplica-se o limite de alçada vigente na data de sua apreciação em segunda instância.
Numero da decisão: 2402-006.424
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso de ofício.
(assinado digitalmente)
Mário Pereira de Pinho Filho - Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Mario Pereira de Pinho Filho, Maurício Nogueira Righetti, João Victor Ribeiro Aldinucci, Denny Medeiros da Silva, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini e Gregório Rechmann Júnior.
Nome do relator: MARIO PEREIRA DE PINHO FILHO
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 4; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1539; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S2C4T2 Fl. 2 1 1 S2C4T2 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS SEGUNDA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 23034.008164/9942 Recurso nº 1 De Ofício Acórdão nº 2402006.424 – 4ª Câmara / 2ª Turma Ordinária Sessão de 03 de julho de 2018 Matéria CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Recorrente FAZENDA NACIONAL Interessado ANDRADE GUTIERREZ ENGENHARIA S/A ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/1999 a 31/12/2005 RECURSO DE OFÍCIO. VALOR DE ALÇADA INFERIOR AO ESTABELECIDO EM PORTARIA DO MINISTRO DA FAZENDA. NÃO CONHECIMENTO. Não se conhece de recurso de ofício cujo crédito exonerado, incluindose valor principal e de multa, é inferior ao estabelecido em ato editado pelo Ministro da Fazenda. RECURSO DE OFÍCIO. LIMITE DE ALÇADA. VIGÊNCIA. DATA DE APRECIAÇÃO. Para fins de conhecimento de recurso de ofício, aplicase o limite de alçada vigente na data de sua apreciação em segunda instância. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso de ofício. (assinado digitalmente) Mário Pereira de Pinho Filho Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Mario Pereira de Pinho Filho, Maurício Nogueira Righetti, João Victor Ribeiro Aldinucci, Denny Medeiros da Silva, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini e Gregório Rechmann Júnior. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 23 03 4. 00 81 64 /9 9- 42 Fl. 81DF CARF MF Processo nº 23034.008164/9942 Acórdão n.º 2402006.424 S2C4T2 Fl. 3 2 Relatório O presente recurso foi objeto de julgamento na sistemática prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, adoto o relatório objeto do Acórdão nº 2402006.333 4ª Câmara/2ª Turma Ordinária, de 03 de julho de 2018, proferido no âmbito do processo n° 19515.722966/201271, paradigma deste julgamento. Acórdão nº 2402006.333 4ª Câmara/2ª Turma Ordinária "Tratase de Recurso de Oficio manejado, por força de reexame necessário, de acordo com o art. 34 do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, e alterações introduzidas pela Lei nº 9.532, de 10 de dezembro de 1997, tendo em vista que o crédito exonerado, principal e encargos de multa, relativos a contribuições previdenciárias de custeio, beneficio, terceiros e sanções pecuniárias, superava a época o valor de alçada estipulado no art. 1º da Portaria MF nº 03, de 03 de janeiro de 2008. O valor objeto de exoneração é inferior a R$ 2.500.000,00 (dois milhões e quinhentos mil reais), vindo a julgamento apenas o Recurso de Oficio. É o relatório." Voto Conselheiro Mário Pereira de Pinho Filho Relator Este processo foi julgado na sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 2402006.333 4ª Câmara/2ª Turma Ordinária, de 03 de julho de 2018, proferido no âmbito do processo n° 19515.722966/201271, paradigma ao qual o presente processo encontrase vinculado. Transcrevese, a seguir, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o inteiro teor do voto condutor proferido pelo Conselheiro Jamed Abdul Nasser Feitoza, digno relator da susodita decisão paradigma, reprisese, Acórdão nº 2402006.333 4ª Câmara/2ª Turma Ordinária, de 03 de julho de 2018: Acórdão nº 2402006.333 4ª Câmara/2ª Turma Ordinária “Antes de adentrar a análise do caso concreto, importa observar que o presente julgamento terá efeitos sobre lote repetitivo, eis que o caso em foco foi eleito como paradigma e terá seu resultado aplicado ao lote a que esta relacionado, nos termos do art. 47 do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF nº 343/2015 – RICARF. Fl. 82DF CARF MF Processo nº 23034.008164/9942 Acórdão n.º 2402006.424 S2C4T2 Fl. 4 3 Admissibilidade. Tratase de Recurso de Oficio manejado, por força de reexame necessário, de acordo com o art. 34 do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, tendo em vista que, à época em que foi proferida a decisão de primeira instância administrativa, o crédito exonerado superava o valor de alçada estipulado estabelecido em ato próprio. De acordo com o I do art. 34 do Decreto nº 70.235/1972: Art. 34. A autoridade de primeira instância recorrerá de ofício sempre que a decisão: I exonerar o sujeito passivo do pagamento de tributo e encargos de multa de valor total (lançamento principal e decorrentes) a ser fixado em ato do Ministro de Estado da Fazenda. (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997)(Produção de efeito) II deixar de aplicar pena de perda de mercadorias ou outros bens cominada à infração denunciada na formalização da exigência. § 1º O recurso será interposto mediante declaração na própria decisão. § 2° Não sendo interposto o recurso, o servidor que verificar o fato representará à autoridade julgadora, por intermédio de seu chefe imediato, no sentido de que seja observada aquela formalidade. (Grifouse) O colegiado a quo proferiu decisão em que julgou parcialmente procedente a impugnação, exonerando créditos relativos ao principal e encargos de multas em valor inferior a R$ 2.500.000,00 (dois milhões e quinhentos mil de reais) Cabe ao colegiado julgar a admissibilidade do Recurso de Oficio e, constatandose que o crédito exonerado é inferior àquele que levaria o caso a um reexame necessário na atualidade, não conhecer de referido recurso. O limite referido está posto na Portaria MF nº 63, de 9 de fevereiro de 2017, in verbis: Art. 1º O Presidente de Turma de Julgamento da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento (DRJ) recorrerá de ofício sempre que a decisão exonerar sujeito passivo do pagamento de tributo e encargos de multa, em valor total superior a R$ 2.500.000,00 (dois milhões e quinhentos mil reais). § 1º O valor da exoneração deverá ser verificado por processo. Fl. 83DF CARF MF Processo nº 23034.008164/9942 Acórdão n.º 2402006.424 S2C4T2 Fl. 5 4 § 2º Aplicase o disposto no caput quando a decisão excluir sujeito passivo da lide, ainda que mantida a totalidade da exigência do crédito tributário. Art. 2º Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação no Diário Oficial da União. Art. 3º Fica revogada a Portaria MF nº 3, de 3 de janeiro de 2008. Ainda que à época do julgamento de primeira instância tal valor permitisse a interposição do Recurso de Oficio ora julgado, ao caso deve ser aplicado o limite de dispensa atualmente vigente, conforme entendimento consolidado neste Conselho, nos termos da Súmula CARF 103: Súmula CARF nº 103: Para fins de conhecimento de recurso de ofício, aplicase o limite de alçada vigente na data de sua apreciação em segunda instância. Conclusão Ante ao exposto voto por não conhecer do Recurso de Oficio em razão de o crédito exonerado ser inferior ao limite estabelecido no art. 1º a Portaria MF nº 63, de 9 de fevereiro de 2017, aplicável ao caso conforme Súmula CARF 103. (assinado digitalmente) Jamed Abdul Nasser Feitoza” Conclusão Nesse contexto, pelas razões de fato e de Direito ora expendidas, voto por NÃO CONHECER do Recurso de Ofício (assinado digitalmente) Mário Pereira de Pinho Filho Fl. 84DF CARF MF
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Numero do processo: 18470.727195/2011-29
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Dec 04 00:00:00 UTC 2012
Ementa: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ
Ano-calendário: 2008
RECURSO DE OFÍCIO
DESPESAS FINANCEIRAS. DEDUTIBILIDADE.
Tratando-se de despesa ordinariamente dedutível, e não estando o auto de infração instruído com as provas que demonstrem sua atipicidade ou artificialismo, não se sustenta a glosa. Caso a fiscalização não demonstre que os empréstimos contraídos foram efetivamente repassados a terceiros, não se configuram como desnecessárias as despesas financeiras apropriadas.
OMISSÃO DE RECEITA NÃO COMPROVADA.
Insubsiste a exigência, ante a falta de subsunção do fato concretamente ocorrido à hipótese de incidência descrita genérica e hipoteticamente na lei tributária.
Numero da decisão: 1302-001.022
Decisão: ACORDAM os membros do Colegiado, por maioria, em negar provimento
ao recurso de ofício, nos termos do relatório e voto proferidos pelo Relator. Vencidos os conselheiros Eduardo e Matosinho, que davam provimento parcial, para manter a glosa de despesas financeiras.
Nome do relator: Paulo Roberto Cortez
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ementa_s : IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Ano-calendário: 2008 RECURSO DE OFÍCIO DESPESAS FINANCEIRAS. DEDUTIBILIDADE. Tratando-se de despesa ordinariamente dedutível, e não estando o auto de infração instruído com as provas que demonstrem sua atipicidade ou artificialismo, não se sustenta a glosa. Caso a fiscalização não demonstre que os empréstimos contraídos foram efetivamente repassados a terceiros, não se configuram como desnecessárias as despesas financeiras apropriadas. OMISSÃO DE RECEITA NÃO COMPROVADA. Insubsiste a exigência, ante a falta de subsunção do fato concretamente ocorrido à hipótese de incidência descrita genérica e hipoteticamente na lei tributária.
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DEDUTIBILIDADE. Tratandose de despesa ordinariamente dedutível, e não estando o auto de infração instruído com as provas que demonstrem sua atipicidade ou artificialismo, não se sustenta a glosa. Caso a fiscalização não demonstre que os empréstimos contraídos foram efetivamente repassados a terceiros, não se configuram como desnecessárias as despesas financeiras apropriadas. OMISSÃO DE RECEITA NÃO COMPROVADA. Insubsiste a exigência, ante a falta de subsunção do fato concretamente ocorrido à hipótese de incidência descrita genérica e hipoteticamente na lei tributária. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. ACORDAM os membros do Colegiado, por maioria, em negar provimento ao recurso de ofício, nos termos do relatório e voto proferidos pelo Relator. Vencidos os conselheiros Eduardo e Matosinho, que davam provimento parcial, para manter a glosa de despesas financeiras. (assinado digitalmente) Eduardo de Andrade – Presidente em Exercício (assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 18 47 0. 72 71 95 /2 01 1- 29 Fl. 646DF CARF MF Impresso em 08/02/2013 por MOEMA NOGUEIRA SOUZA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 07/02/2013 por EDUARDO DE ANDRADE Processo nº 18470.727195/201129 Acórdão n.º 1302001.022 S1C3T2 Fl. 430 2 Paulo Roberto Cortez Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Eduardo de Andrade (Presidente em Exercício), Alberto Pinto Souza Junior, Paulo Roberto Cortez, Marcio Frizzo, Luiz Tadeu Matosinho Machado e Guilherme Pollastri Gomes da Silva. Fl. 647DF CARF MF Impresso em 08/02/2013 por MOEMA NOGUEIRA SOUZA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 07/02/2013 por EDUARDO DE ANDRADE Processo nº 18470.727195/201129 Acórdão n.º 1302001.022 S1C3T2 Fl. 431 3 Relatório Tratase de Recurso de Ofício interposto pela Segunda Turma de Julgamento da DRJ no Rio de Janeiro (RJI), contra a decisão proferida no Acórdão nº 1243.126, de 21 de dezembro de 2011, que deu provimento integral à impugnação apresentada pela empresa Pan Americana S/A Indústrias Químicas, já qualificada nos presentes autos. Consta dos autos que, em ação fiscal levada a efeito, foram lavrados autos de infração de IRPJ (fls. 516/528); PIS (fls. 529/533); COFINS (fls. 534/538); e CSLL (fls. 539/543), em decorrência da constatação das irregularidades fiscais constantes no Termo de Verificação Fiscal TVF (fls. 440/445), abaixo descritas: 2.1. DESPESA INDEDUTÍVEL. 2.2. Nos anoscalendário de 2007 e 2008, o interessado obteve diversos empréstimos junto às instituições financeiras, apropriando corretamente os juros passivos. No mesmo período, concedeu empréstimos às empresas ligadas. Como os contratos de mútuo não previam juros ativos, não apropriou as receitas decorrentes dos mesmos. 2.3. A fiscalização entendeu que embora a legislação somente estabelece a obrigação do reconhecimento de receita financeira no caso de mútuo com pessoa jurídica do exterior vinculada a mutuante domiciliada no país (art. 22, §1º, da Lei nº 9.430, de 1996), a falta de apropriação de juros ativos ou quando é feita em valores inferiores à apropriação de juros passivos, caracteriza repasse indireto de empréstimos bancários obtidos para as coligadas. 2.4. Os valores correspondentes às proporcionalidades dos empréstimos ativos/empréstimos passivos aplicados aos juros passivos incorridos foram considerados como apropriação indevida de juros passivos e desnecessários à atividade do interessado nos termos do art. 249, I, do RIR/1999. Os valores glosados foram determinados nas planilhas em anexo ao auto de infração. 2.5. SUPERVENIÊNCIA ATIVA. OMISSÃO DE RECEITA. 2.6. Em 09/05/2008, o interessado adquiriu a fração de 6.735.800 m2 da área do imóvel denominado Cachoeiras de Macaé de Cima, pelo valor de R$ 11.960.000,00, conforme contrato de compra e venda. O imóvel foi avaliado em R$ 26.000.000,00 por dois técnicos credenciados no IBAMA. 2.7. A diferença entre o valor de aquisição e de avaliação (R$ 14.040.000,00) foi contabilizada em 2008 como mais valia, ainda não realizada, como a seguir demonstrado: ATIVO PASSIVO Fl. 648DF CARF MF Impresso em 08/02/2013 por MOEMA NOGUEIRA SOUZA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 07/02/2013 por EDUARDO DE ANDRADE Processo nº 18470.727195/201129 Acórdão n.º 1302001.022 S1C3T2 Fl. 432 4 Conta Descrição Valor Conta Descrição Valor 132123100 Terras de Cachoeira 11.960.000,00 222195 Títulos a Pagar 11.960.000,00 Reserva de Reavaliação 11.040.000,00 Receitas Diversas 11.040.000,00 26.000.000,00 26.000.000,00 A escritura de compra e venda lavrada em 16/10/2008 dispõe que o preço certo e ajustado do imóvel foi de R$ 4.428.071,00, em consonância com o Registro Geral do Imóvel lavrado em 06/01/2009. 2.9. Ainda no mesmo dia, lavrouse a escritura de confissão de dívida em que o interessado confessa ser devedor da quantia de R$ 7.531.915,20, relativo a negócios realizados entre os contratantes, sem qualquer menção à compra da Fazenda Cachoeiras de Macaé de Cima. 2.10. A fiscalização concluiu que o interessado cometeu irregularidades fiscais ao realizar a escritura de compra e venda por valor inferior ao valor de aquisição apropriado na conta 132123100. A diferença de R$ 7.531.915,20 foi considerada omissão de receita, decorrente de superveniência ativa. Enquadramento legal: arts. 249, II, 251 e parágrafo único, 279, 281, II e 288, do RIR/1999. 2.11. A omissão de receita originou os lançamentos de PIS, COFINS e CSLL. Cientificada da exação fiscal em 25/08/2011, a interessada apresentou em 26/09/2011 a impugnação de fls. 575/580, acompanhada dos documentos de fls.581/592, alegando, em síntese, que: a) não houve cobrança de juros sobre empréstimos concedidos a sociedades ligadas devido ao fato de que tais empréstimos simplesmente não ocorreram; b) por serem essas empresas holdings, e não possuírem atividade operacional, a receita é proveniente das distribuições de lucros da interessada; c) como não vem auferindo lucros, restou somente a opção de suportar as despesas de manutenção dessas empresas por conta de lucros futuros que venham a ser auferidos; d) mesmo que os adiantamentos caracterizassem empréstimos, não há lei que obrigue a cobrança de juros, salvo se fosse mútuo contratado com pessoa jurídica não nacional, como já mencionado pelo autuante; e) também não procede a afirmação de que tais pagamentos, ou melhor, transferências de recursos intercompanhias, foram realizados com recursos estranhos à contabilidade; f) tratase de transferências bancárias da conta do interessado para as das beneficiárias, plenamente identificadas pelo autuante e contabilizadas no Fl. 649DF CARF MF Impresso em 08/02/2013 por MOEMA NOGUEIRA SOUZA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 07/02/2013 por EDUARDO DE ANDRADE Processo nº 18470.727195/201129 Acórdão n.º 1302001.022 S1C3T2 Fl. 433 5 ativo como créditos a compensar futuramente, não como despesas. Jamais poderiam ser consideradas como recursos estranhos à contabilidade e, por não serem empréstimos, gerar receita para o interessado; g) a capitulação legal citada não se aplica aos fatos imputados; h) em 08/08/2007, adquiriu parte dos direitos de propriedade do imóvel Fazenda São Pedro com o objetivo de promover quitação de tributos devidos ao Estado do Rio de Janeiro através de sua dação em pagamento. O negócio foi desfeito porque a Procuradoria da Fazenda do Estado do Rio de Janeiro não aceitou a referida dação; i) adquiriu nova área com o mesmo objetivo ao preço ajustado de R$ 11.960.000,00, porém avaliação técnica definiu o valor real do imóvel em R$ 26.000.000,00; j) a diferença de R$ 14.040.000,00 foi contabilizada como reserva de reavaliação e oferecida como receita operacional mas excluída do LALUR por sua não realização; k) por força de cláusula contratual, interrompeu os pagamentos de sua dívida até que a dação em pagamento do imóvel junto ao Estado do Rio de Janeiro se concretize; l) devido ao grau de incerteza em que está a matéria, por conservadorismo, ajustou o patrimônio contábil revertendo o lançamento da reserva de reavaliação, consciente de que não causaria prejuízo ao fisco federal, até porque o valor transitado no LALUR não modificaria em nada o prejuízo acumulado; m) diferentemente do que se definiu no auto de infração, a capitulação (art. 2º e §§ da Lei nº 7.689, de 1988) está errada , uma vez que a legislação mencionada não mais se aplica ao caso, e sim o art. 4º da Lei nº 9.959, de 2000. Ao apreciar a peça impugnatória, a turma de julgamento de primeira instância decidiu pelo provimento integral ao pleito da contribuinte, nos termo do Acórdão nº 1243.126, de 21 de dezembro de 2011, cuja ementa tem a seguinte redação: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2008 GLOSA DE ENCARGOS FINANCEIROS. FALTA DE CARACTERIZAÇÃO DE REPASSE DE EMPRÉSTIMO Se a fiscalização não logra comprovar que os empréstimos contraídos foram de fato repassados a terceiros, não se configuram como desnecessárias as despesas financeiras incorridas. Fl. 650DF CARF MF Impresso em 08/02/2013 por MOEMA NOGUEIRA SOUZA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 07/02/2013 por EDUARDO DE ANDRADE Processo nº 18470.727195/201129 Acórdão n.º 1302001.022 S1C3T2 Fl. 434 6 OMISSÃO DE RECEITA. Insubsiste a exigência, ante a falta de subsunção do fato concretamente ocorrido à hipótese de incidência descrita genérica e hipoteticamente na lei tributária. Impugnação Procedente Crédito Tributário Exonerado Como visto acima, a Turma de Julgamento cancelou a exigência fiscal, tendo em vista que o lançamento ocorreu com base em simples presunção, baseado apenas em indícios, não tendo ficado caracterizada a determinação correta da matéria tributável, de acordo com o que preceitua o art. 142 do CTN. Diante dessa decisão, a turma julgadora recorreu de ofício. É o relatório. Fl. 651DF CARF MF Impresso em 08/02/2013 por MOEMA NOGUEIRA SOUZA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 07/02/2013 por EDUARDO DE ANDRADE Processo nº 18470.727195/201129 Acórdão n.º 1302001.022 S1C3T2 Fl. 435 7 Voto Conselheiro Paulo Roberto Cortez, Relator O presente recurso de ofício reúne os pressupostos de admissibilidade e dele conheço. Com relação a glosa levada a efeito pela fiscalização a título de despesa indedutível, a irregularidade possui a seguinte descrição no auto de infração: “ausência da adição ao lucro líquido do período, na determinação do lucro real, do valor correspondente aos juros a serem cobrados das coligadas sobre empréstimos cedidos”, cujo enquadramento legal se deu com base no art. 249, I do RIR/1999 abaixo transcrito: Art. 249. Na determinação do lucro real, serão adicionados ao lucro líquido do período de apuração (Decretolei nº 1.598, de 1977, art. 6º, § 2º): I os custos, despesas, encargos, perdas, provisões, participações e quaisquer outros valores deduzidos na apuração do lucro líquido que, de acordo com este Decreto, não sejam dedutíveis na determinação do lucro real; A infração se encontra detalhada no Termo de Verificação Fiscal, como sendo despesa não necessária à empresa, visto referirse a uma parcela das despesas financeiras incidentes sobre empréstimos obtidos nos anoscalendário de 2007 e 2008, os quais teriam sido repassados para empresas coligadas sem a cobrança dos respectivos encargos financeiros. Assim, a fiscalização considerou que os encargos apropriados com base na proporção dos empréstimos concedidos/obtidos tratarseiam de despesas não necessárias e, portanto, indedutíveis na apuração do lucro tributável. A turma julgadora de primeiro grau entendeu incabível a glosa realizada pelo fato de não existirem nos autos prova de repasse para as empresas controladas e, principalmente, pelo fato de a interessada ter efetuado mútuos com as suas empresas ligadas em percentual irrisório de 0,9% (zero vírgula nove por cento) se comparado com o montante dos empréstimos tomados. Por pertinente, reproduzo abaixo o voto condutor do acórdão recorrido que trata do assunto: De fato, despesas financeiras decorrentes de empréstimos integralmente repassados a terceiros, a custo zero, não se mostram necessárias à atividade operacional da empresa que fez a intermediação dos recursos, sendo, portanto, passíveis de glosa nos termos do artigo 299 do RIR/1999. Fl. 652DF CARF MF Impresso em 08/02/2013 por MOEMA NOGUEIRA SOUZA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 07/02/2013 por EDUARDO DE ANDRADE Processo nº 18470.727195/201129 Acórdão n.º 1302001.022 S1C3T2 Fl. 436 8 Nesse sentido existem diversos julgados do antigo Conselho de Contribuintes: DESPESAS FINANCEIRAS JUROS BANCÁRIOS GLOSA DO EXCEDENTE EM RELAÇÃO À TAXA DE REMUNERAÇÃO DE MÚTUO ATIVO REPASSE DO EMPRÉSTIMO CARACTERIZAÇÃO É admissível a glosa do excedente da taxa de empréstimo contraído com instituição financeira em relação à taxa de remuneração de mútuo com terceiros quando fica devidamente comprovado nos autos que há diferença entre o valor da captação e o repasse dos recursos, tendo como conseqüência a desnecessidade da despesa.(CSRF/0105.423 Sessão de 21/03/2006). GLOSA – DESPESAS FINANCEIRAS. O repasse de fundos para empresas ligadas, sem a incidência de juros de mercado, possibilita a glosa de parte das despesas financeiras incorridas ou pagas nos empréstimos obtidos. (Acórdão 10321850 – Sessão de 23/02/2005). DESPESAS FINANCEIRAS. O repasse de valores mutuados, sem a cobrança de juros, torna desnecessária, e, portanto, indedutível, as despesas financeiras relativas ao empréstimo contraído. (Acórdão 10808060 – Sessão de 10/11/2004). “... Revelamse desnecessários e, portanto, indedutíveis os encargos financeiros de captação externa junto à entidade financeira quando, simultaneamente, a pessoa jurídica transfere dinheiro à sua controlada a título de adiantamento para futuro aumento de capital, sem incidência de qualquer encargo” (Ac. 1º CC 1084.787/97 – DOU 09/04/98). “... Se a empresa toma empréstimos junto a bancos e repassa os recursos a empresas interligadas, assumindo, sozinha, os encargos financeiros, é óbvio que essas despesas, por ela suportadas, não são necessárias à manutenção da respectiva fonte produtora, inadmitindose sua dedutibilidade (Ac. 1º CC 1037.611/86 – DOU 24/05/1988). Registrese, ainda, o voto da Conselheira Sandra Maria Faroni, acórdão, sob nº 10196.242, de 05/07/2007, em que consignou: “Quanto à glosa dos encargos incidentes sobre empréstimos tomados, a jurisprudência deste Conselho é pacífica no sentido de que, se o valor mutuado é imediatamente repassado a outra pessoa jurídica, o empréstimo é desnecessário, sendo indedutíveis os encargos. Mas essa jurisprudência deve ser vista com razoabilidade. De fato, o repasse de empréstimo tomado no exterior pode estar embasado em legítimo propósito empresarial. Pode ser que a Recorrente tenha maiores condições de obter o empréstimo no exterior, e se ela o faz e repassa os valores obtidos a empresa ligada, em condições mais onerosas e tributando as receitas correspondentes, não há como considerar que as despesas são indedutíveis por desnecessárias. ...”. Fl. 653DF CARF MF Impresso em 08/02/2013 por MOEMA NOGUEIRA SOUZA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 07/02/2013 por EDUARDO DE ANDRADE Processo nº 18470.727195/201129 Acórdão n.º 1302001.022 S1C3T2 Fl. 437 9 No presente caso, independente da natureza jurídica dos valores mutuados (o interessado alega não se tratar de empréstimo), fato é que não restou comprovado que tais valores se originaram dos diversos empréstimos tomados pelo interessado nos anos de 2007 e 2008. Como o ônus da prova é de quem alega, conforme disposto no art. 924 do RIR/1999, caberia à fiscalização vincular cada recurso captado com o supostamente repassado, o que não foi feito. Senão vejamos: Às fls. 131/133, foram identificados os 106 (cento e seis) contratos de empréstimos vigentes nos anoscalendário de 2007 e 2008. Com base nos registros contábeis efetuados nas contas 2121, 2122 e 2131, a fiscalização elaborou as planilhas de fls. 446/457 (2007) e fls. 458/469 (2008), em que identifica a movimentação diária dos empréstimos/financiamentos passivos. Efetuandose a consolidação mensal dos empréstimos obtidos em 2007, assim considerados os valores contabilizados a crédito das referidas contas, apuramse os seguintes montantes: Total Mensal Total Trimestral Janeiro 2.513.463,32 fevereiro 3.477.207,34 Março 3.539.054,91 5.990.670,66 Abril 7.440.011,98 Maio 5.097.419,08 Junho 4.246.688,37 16.784.119,43 Julho 8.687.404,30 Agosto 5.197.025,69 Setembro 5.127.347,10 18.911.777,09 Outubro 4.479.847,44 Novembro 4.227.017,81 Dezembro 5.543.287,85 15.160.153,10 Total no ano 56.846.720,08 Nesse mesmo período, o interessado teria concedido empréstimo a suas coligadas no total de R$ 518.868,34 (fl.152) o que corresponde a 0,9% (nove décimos por cento) dos empréstimos obtidos. Os valores individualmente mutuados às coligadas encontramse registrados nas contas 1.1.3.1. e 1.2.1.4 (fls. 153/167). Tratase de valores diminutos, em sua maioria, identificados, alguns, como adiantamento por conta de despesas, sem qualquer correlação direta, em valor ou data, com os empréstimos passivos do interessado. No anocalendário de 2008, a consolidação mensal dos empréstimos obtidos monta a (fls. 458/469): Total Mensal Total Trimestral Janeiro 11.707.413,42 fevereiro 5.431.271,99 Fl. 654DF CARF MF Impresso em 08/02/2013 por MOEMA NOGUEIRA SOUZA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 07/02/2013 por EDUARDO DE ANDRADE Processo nº 18470.727195/201129 Acórdão n.º 1302001.022 S1C3T2 Fl. 438 10 Março 4.597.089,43 21.735.774,84 Abril 2.963.649,46 Maio 6.141.079,06 Junho 4.777.715,37 13.882.443,89 Julho 4.942.524,61 Agosto 8.242.535,43 Setembro 5.774.615,64 18.959.675,68 Outubro 5.392.079,97 Novembro 1.699.086,56 Dezembro 2.654.584,98 9.745.751,51 Total no ano 64.323.645,92 Os empréstimos concedidos no ano totalizaram R$ 14.170.372,71 (fl.134). A maior parte para a empresa LC Com. Prod. Químicos Ltda (90%), nos meses de setembro e outubro, conforme registrado no Livro Razão (fls. 141/145). Assim como ocorreu em relação ao anocalendário de 2007, na apuração da despesa de juros considerada não necessária, a fiscalização não identificou pontualmente os empréstimos supostamente repassados. Limitouse a calcular o percentual de repasse indireto a partir da divisão da média ponderada dos saldos dos empréstimos ativos pela média ponderada dos empréstimos passivos, conforme demonstrado no TVF (fl.442). Nos termos do art. 142 do Código Tributário Nacional, compete a autoridade administrativa determinar corretamente a matéria tributável e não presumila. Não há nos autos prova de que os recursos obtidos no mercado financeiro tiveram destinação vinculada à concessão de empréstimos a coligadas. Apenas indícios. Em sendo assim, há de se cancelar a exigência. No caso, concordo plenamente com a Turma Julgadora de primeira instância, pois a acusação fiscal deveria demonstrar claramente a desnecessidade das despesas objeto da glosa levada a efeito. De acordo com o artigo 9º do Decreto nº 70.235/72, o auto de infração deve estar instruído com todos os termos, depoimentos, laudos e demais elementos de prova indispensáveis à comprovação do ilícito. Incumbia à autoridade fiscal instruir o auto de infração com a prova de ocorrência do ilícito. O item relativo à omissão de receita no valor de R$ 7.531.915,20, caracterizada pela “não contabilização de pagamentos de despesas operacionais”, prevista no art. 281, II, do RIR/1999. No Termo de Verificação Fiscal (fls. 444), a autoridade autuante relata o seguinte: Fl. 655DF CARF MF Impresso em 08/02/2013 por MOEMA NOGUEIRA SOUZA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 07/02/2013 por EDUARDO DE ANDRADE Processo nº 18470.727195/201129 Acórdão n.º 1302001.022 S1C3T2 Fl. 439 11 Claro está que o contribuinte cometeu irregularidades fiscais ao realizar a escritura de compra e venda por R$ 4.428.071,00, valor bem inferior ao valor de aquisição apropriado (R$ 11.960.000,00) na conta 132123100 – Terras de Cachoeiras de Macaé de Cima no ativo imobilizado, sendo a diferença lançada na conta 222195000 – títulos a pagar no passivo. Em complemento ao valor da aquisição, realizou a escritura de confissão de dívida no valor de R$ 7.531.915,20 – por negócios realizados (sem qualquer especificação), não constando na contabilidade qualquer menção à confissão de dívida. Ressaltese que o contrato particular de 09/05/2008 estabelecia o valor da aquisição de R$ 11.960.000,00 (contabilizado) e não R$ 4.428.071,00 constante da escritura de 16/10/2008. Assim, a contrapartida na conta do ativo 132123100Terras de Cachoeiras de Macaé de Cima, não poderia ser utilizada para imobilização do valor total de R$ 11.960.000,00, uma vez que o custo de aquisição do bem escriturado e registrado no RGI foi de R$ 4.428.071,00, conforme documentos retro citados. Diante da constatação acima, que revela fatos tributáveis, resta à fiscalização aplicar o lançamento de ofício para o anocalendário de 2008, determinado pela seguinte base tributável, caracterizada por omissão em 09/05/2008 (2º trimestre), decorrente de superveniência ativa. Enquadramento Legal: Arts. 249, inciso II, 251 e parágrafo único, 279, 281, inciso II e 288, do RIR/99. A interessada, na qualidade de adquirente, celebrou em 09/05/2008 contrato de venda, compra e outras avenças para a aquisição de imóvel denominado Cachoeiras de Macaé de Cima, no Município de Nova Friburgo (fls.276/280), cujo preço acordado foi de R$ 11.960.000,00, conforme cláusulas 4.1 a 4.3 do contrato abaixo transcritas: Fl. 656DF CARF MF Impresso em 08/02/2013 por MOEMA NOGUEIRA SOUZA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 07/02/2013 por EDUARDO DE ANDRADE Processo nº 18470.727195/201129 Acórdão n.º 1302001.022 S1C3T2 Fl. 440 12 A empresa escriturou a operação, conforme os lançamentos contábeis abaixo: Fl. 657DF CARF MF Impresso em 08/02/2013 por MOEMA NOGUEIRA SOUZA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 07/02/2013 por EDUARDO DE ANDRADE Processo nº 18470.727195/201129 Acórdão n.º 1302001.022 S1C3T2 Fl. 441 13 Assim, diante do fato de que na escritura de compra e venda registrada no Cartório do 1º Ofício de Registro de Imóveis de Nova Friburgo, consta que o preço certo e ajustado do imóvel foi de R$ 4.428.071,00 e que, na mesma data, foi também lavrada a escritura de confissão de dívida entre a interessada (devedora) e os vendedores do imóvel (credores) no valor de R$ 7.531.915,20 a ser pago em 30 parcelas mensais, a fiscalização considerou esse valor como sendo omissão de receitas da empresa fiscalizada. O preço da transação do imóvel que consta na escritura (R$ 4.428.071,00) somado ao da confissão de divida (R$ 7.531.915,20) corresponde ao valor pactuado no contrato de venda, compra e outras avencas de R$ 11.960.000,00 e escriturado na contabilidade da empresa fiscalizada, considerando ainda uma pequena diferença de R$ 13,80. Reproduzo abaixo as considerações extraídas do voto condutor do aresto recorrido: A contabilização de ativo em valor superior ao custo de aquisição corresponde a uma irregularidade contábil. A lei tributária, entretanto, não prevê a figura do “ativo fictício” como presunção de omissão de receita. Ademais, inexiste nos autos prova de que o interessado tenha efetuado pagamento, total ou parcialmente, da dívida confessada no valor de R$ 7.531.915,20. Em sendo assim, por não haver subsunção do fato concretamente ocorrido à hipótese de incidência descrita genérica e hipoteticamente nas normas tributárias citadas, concluo pela improcedência da tributação com base no art. 281, II do RIR/1999. Constatase que, apesar de não constar na escritura registrada em cartório o valor correto da operação, mesmo assim, a autuada efetuou corretamente o registro contábil tendo registrado o imóvel pelo valor efetivamente transacionado. Se fosse o caso, deveria o Fisco diligenciar junto aos alienantes para confirmar o registro do valor da venda do citado bem. Efetivamente o fato imputado pelo autuante na empresa interessada não corresponde ao fato apurado descrito no Termo de Verificação Fiscal, inexistindo, portanto, qualquer possibilidade de manutenção do lançamento de ofício. Entendo que a decisão recorrida está devidamente motivada e os seus fundamentos de fato e de direito não merecem reparos. Nessas condições, voto no sentido de negar provimento ao recurso de ofício interposto. (assinado digitalmente) Paulo Roberto Cortez Fl. 658DF CARF MF Impresso em 08/02/2013 por MOEMA NOGUEIRA SOUZA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 07/02/2013 por EDUARDO DE ANDRADE Processo nº 18470.727195/201129 Acórdão n.º 1302001.022 S1C3T2 Fl. 442 14 Fl. 659DF CARF MF Impresso em 08/02/2013 por MOEMA NOGUEIRA SOUZA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 07/02/2013 por EDUARDO DE ANDRADE
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Numero do processo: 16095.720023/2012-12
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Sep 25 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Oct 30 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2007
OURO ATIVO FINANCEIRO / INSTRUMENTO CAMBIAL. CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE.
Quando se adquire ouro na forma de ativo financeiro/instrumento cambial não se está adquirindo uma mercadoria (um insumo). A instituição financeira não deu destino diverso ao ouro ativo financeiro, nem poderia. A alteração dessa condição vantajosa, para que o ouro seja considerado uma mercadoria pela adquirente, deverá vir acompanhado das consequências tributárias que esse fato vier a gerar, com a regência das normas impositivas do ICMS, do IPI, do PIS e da Cofins, e só a partir da primeira venda como mercadoria poderá o adquirente do ouro, então mercadoria, beneficiar-se dos créditos por ventura gerados, em conformidade com as leis de regência, antes não. Sobre o bem ouro ativo financeiro não houve incidência da contribuição para a COFINS.
Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2007
OURO ATIVO FINANCEIRO / INSTRUMENTO CAMBIAL. CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE.
Quando se adquire ouro na forma de ativo financeiro/instrumento cambial não se está adquirindo uma mercadoria (um insumo). A instituição financeira não deu destino diverso ao ouro ativo financeiro, nem poderia. A alteração dessa condição vantajosa, para que o ouro seja considerado uma mercadoria pela adquirente, deverá vir acompanhado das consequências tributárias que esse fato vier a gerar, com a regência das normas impositivas do ICMS, do IPI, do PIS e da Cofins, e só a partir da primeira venda como mercadoria poderá o adquirente do ouro, então mercadoria, beneficiar-se dos créditos por ventura gerados, em conformidade com as leis de regência, antes não. Sobre o bem ouro ativo financeiro não houve incidência da contribuição para o PIS.
Recurso Voluntário Negado
Crédito Tributário Mantido
Numero da decisão: 3402-005.581
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro, Renato Vieira de Avila (suplente convocado) e Cynthia Elena de Campos que davam provimento. O Conselheiro Diego Diniz Ribeiro apresentou declaração de voto, lida em sessão. O Conselheiro Renato Vieira de Avila (suplente convocado) votou pelas conclusões da divergência.
(assinado digitalmente)
Waldir Navarro Bezerra - Presidente.
(assinado digitalmente)
Pedro Sousa Bispo - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Waldir Navarro Bezerra (presidente da turma), Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Diego Diniz Ribeiro, Cynthia Elena de Campos, Renato Vieira de Ávila (suplente convocado), Pedro Sousa Bispo e Rodrigo Mineiro Fernandes.
Nome do relator: PEDRO SOUSA BISPO
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camara_s : Quarta Câmara
ementa_s : Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2007 OURO ATIVO FINANCEIRO / INSTRUMENTO CAMBIAL. CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE. Quando se adquire ouro na forma de ativo financeiro/instrumento cambial não se está adquirindo uma mercadoria (um insumo). A instituição financeira não deu destino diverso ao ouro ativo financeiro, nem poderia. A alteração dessa condição vantajosa, para que o ouro seja considerado uma mercadoria pela adquirente, deverá vir acompanhado das consequências tributárias que esse fato vier a gerar, com a regência das normas impositivas do ICMS, do IPI, do PIS e da Cofins, e só a partir da primeira venda como mercadoria poderá o adquirente do ouro, então mercadoria, beneficiar-se dos créditos por ventura gerados, em conformidade com as leis de regência, antes não. Sobre o bem ouro ativo financeiro não houve incidência da contribuição para a COFINS. Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2007 OURO ATIVO FINANCEIRO / INSTRUMENTO CAMBIAL. CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE. Quando se adquire ouro na forma de ativo financeiro/instrumento cambial não se está adquirindo uma mercadoria (um insumo). A instituição financeira não deu destino diverso ao ouro ativo financeiro, nem poderia. A alteração dessa condição vantajosa, para que o ouro seja considerado uma mercadoria pela adquirente, deverá vir acompanhado das consequências tributárias que esse fato vier a gerar, com a regência das normas impositivas do ICMS, do IPI, do PIS e da Cofins, e só a partir da primeira venda como mercadoria poderá o adquirente do ouro, então mercadoria, beneficiar-se dos créditos por ventura gerados, em conformidade com as leis de regência, antes não. Sobre o bem ouro ativo financeiro não houve incidência da contribuição para o PIS. Recurso Voluntário Negado Crédito Tributário Mantido
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 32; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 2156; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S3C4T2 Fl. 1.517 1 1.516 S3C4T2 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS TERCEIRA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 16095.720023/201212 Recurso nº Voluntário Acórdão nº 3402005.581 – 4ª Câmara / 2ª Turma Ordinária Sessão de 25 de setembro de 2018 Matéria PIS/COFINSAUTO DE INFRAÇÃO Recorrente UMICORE BRASIL LTDA. Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2007 OURO ATIVO FINANCEIRO / INSTRUMENTO CAMBIAL. CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE. Quando se adquire ouro na forma de ativo financeiro/instrumento cambial não se está adquirindo uma mercadoria (um insumo). A instituição financeira não deu destino diverso ao ouro ativo financeiro, nem poderia. A alteração dessa condição vantajosa, para que o ouro seja considerado uma mercadoria pela adquirente, deverá vir acompanhado das consequências tributárias que esse fato vier a gerar, com a regência das normas impositivas do ICMS, do IPI, do PIS e da Cofins, e só a partir da primeira venda como mercadoria poderá o adquirente do ouro, então mercadoria, beneficiarse dos créditos por ventura gerados, em conformidade com as leis de regência, antes não. Sobre o bem ouro ativo financeiro não houve incidência da contribuição para a COFINS. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2007 OURO ATIVO FINANCEIRO / INSTRUMENTO CAMBIAL. CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE. Quando se adquire ouro na forma de ativo financeiro/instrumento cambial não se está adquirindo uma mercadoria (um insumo). A instituição financeira não deu destino diverso ao ouro ativo financeiro, nem poderia. A alteração dessa condição vantajosa, para que o ouro seja considerado uma mercadoria pela adquirente, deverá vir acompanhado das consequências tributárias que esse fato vier a gerar, com a regência das normas impositivas do ICMS, do IPI, do PIS e da Cofins, e só a partir da primeira venda como mercadoria poderá o adquirente do ouro, então mercadoria, beneficiarse dos créditos por AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 09 5. 72 00 23 /2 01 2- 12 Fl. 1517DF CARF MF 2 ventura gerados, em conformidade com as leis de regência, antes não. Sobre o bem ouro ativo financeiro não houve incidência da contribuição para o PIS. Recurso Voluntário Negado Crédito Tributário Mantido Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro, Renato Vieira de Avila (suplente convocado) e Cynthia Elena de Campos que davam provimento. O Conselheiro Diego Diniz Ribeiro apresentou declaração de voto, lida em sessão. O Conselheiro Renato Vieira de Avila (suplente convocado) votou pelas conclusões da divergência. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra Presidente. (assinado digitalmente) Pedro Sousa Bispo Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Waldir Navarro Bezerra (presidente da turma), Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Diego Diniz Ribeiro, Cynthia Elena de Campos, Renato Vieira de Ávila (suplente convocado), Pedro Sousa Bispo e Rodrigo Mineiro Fernandes. Relatório Por bem relatar os fatos, adoto o relatório do acórdão recorrido com os devidos acréscimos: Neste processo está se discutindo a glosa de créditos em todos os meses do ano 2007 das contribuições da Cofins e do PIS (fls. 616 a 619 e 765 a 768), que geram por consequência, após sua recomposição e apuração, débitos das citadas contribuições apenas nos meses de janeiro, abril, julho, setembro, outubro e dezembro de 2007 (fl. 769 a 770 e 771 a 772, 778 e 786), sendo necessária a lavratura de Autos de Infração para constituição de crédito tributário (Cofins fls. 773 a 780, e PIS fls. 781 a 787), conforme Termo de Verificação e Constatação de Irregularidades Fiscais (TCIF, fls. 744 a 764) e planilhas anexas (fls. 765 a 772, em formato PDF), cuja ciência ocorreu em 06/02/2012 (flS. 777 e 785). Glosas essas relacionadas apenas pela não consideração da aquisição do ouro ativo financeiro / instrumento cambial como gerador de créditos da não cumulatividade, adquirido de Sociedades Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários (DTVMs). Abaixo os valores envolvidos no lançamento, das respectivas contribuições, bem como descrição da infração: Fl. 1518DF CARF MF Processo nº 16095.720023/201212 Acórdão n.º 3402005.581 S3C4T2 Fl. 1.518 3 No TCIF a autoridade fiscal assim relatou, parcialmente, o presente lançamento (com destaques nossos): [...] 4DO CREDITAMENTO IRREGULAR NA COMPRA DE OURO Com relação à conferência dos valores utilizados para compor a base de cálculo dos créditos das contribuições, percebeuse que o Contribuinte utilizou em sua composição, na linha "Bens Utilizados como Insumos" de todos os meses do período verificado, valores correspondentes a aquisições de ouro adquirido de empresas distribuidoras de títulos e valores mobiliários (DTVMs). A inclusão deste tipo de operação na base de cálculo dos créditos mereceu uma análise mais detalhada. Por isto o Contribuinte foi intimado, como dito, em 29 de novembro de 2011 a apresentar os documentos que ampararam tais Fl. 1519DF CARF MF 4 transações, de forma a esclarecer o seu efetivo direito ao crédito. De acordo com os elementos apresentados em resposta à intimação, bem como em pesquisas efetuadas junto ao Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ), pôdese concluir que o Contribuinte adquiriu, através das operações relacionadas em anexo,(DEMONSTRATIVO DAS GLOSAS DE CRÉDITOS DE PIS/COFINS AQUISIÇÃO DE OURO FINANCEIRO), ouro de instituições financeiras, mais especificamente, distribuidoras de títulos e valores mobiliários (DTVMs), que têm autorização do Banco Central do Brasil para praticar operações de compra e venda de no mercado físico de ouro, por conta própria ou de terceiro. Vale observar que o ouro pode ser classificado como ativo financeiro ou como mercadoria, dependendo de sua destinação. Considerase ativo financeiro quando destinado ao mercado financeiro, ou à execução da política cambial do Pais, em operações realizadas com a interveniência de instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional (art. 1º , Lei n° 7.766, de 11/05/89). Em relação ao caso em questão, não restam dúvidas de que as Sociedades Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários (DTVM) são instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional, autorizadas pelo Banco Central a realizar operações financeiras. Nesse mesmo sentido, ou seja, que o ouro adquirido é ouro financeiro, observamos que sua aquisição sempre esteve acompanhada da Nota Fiscal de Remessa de Ouro, e de Nota fiscal de Nota Fiscal de Negociação do Ouro, documentos instituídos pela Instrução Normativa SRF N° 49/2001, e de emissão exclusiva em operações com o ouro, quando definido como ativo financeiro ou instrumento cambial: [...] Diante das características descritas, concluise que as operações de aquisição de ouro de DTVMs são tipicamente operações financeiras, não podendo ser confundidas com aquisições ordinárias de matériaprima, mesmo considerando que o comprador assim as classifique em seus registros contábeis e fiscais, e que as utilize de fato em seu processo produtivo. Mesmo que o propósito do comprador, no momento da realização da operação, seja a utilização do ouro como matéria prima, a operação em si, considerada as partes intervenientes, e principalmente as regras de controle do Sistema Financeiro Nacional, é tipicamente de natureza financeira. Vale dizer que diante do fato do fornecedor de ouro ser instituição financeira, e das características dos documentos fiscais emitidos na operação, o Contribuinte não pode deixar de admitir que tenha praticado uma operação tipificada financeira, independentemente do "animus" em relação à utilização do produto adquirido. A importância da caracterização das aquisições de ouro como financeira está ligada à análise da tributação nessas operações pelo PIS e pela COFINS (Contribuições). As operações envolvendo o ouro ativo financeiro não sofrem a incidência dessas Contribuições, uma vez que não são definidas como seu fato gerador, pela legislação. Fl. 1520DF CARF MF Processo nº 16095.720023/201212 Acórdão n.º 3402005.581 S3C4T2 Fl. 1.519 5 O ouro, quando definido pela lei como ativo financeiro, tem um tratamento muito específico, que se inicia com o disposto no § 5º, do artigo 153, da nossa Constituição: [...] A Lei 7. 766/89 define o conceito de ouro financeiro, logo em seu artigo 1º: [...] O dispositivo presente no artigo acima prevê a dimensão e a abrangência do conceito de ouro financeiro, e permite a criação de toda uma cadeia, desde a etapa da mineração até as mais sofisticadas negociações financeiras envolvendo o metal. Por força do também citado § 5º , do artigo 153, da Constituição Federal, esta cadeia fica totalmente franqueada da incidência de outros tributos que não sejam o IOF, sendo esta incidência prevista para uma única etapa da cadeia, a compra do ativo por qualquer instituição financeira autorizada pelo Banco Central do Brasil, o que também é corroborado pelos artigo 4º e 8º da Lei 7.766/89: [...] Destaquese que a operação praticada pelo Contribuinte, onde adquiriu ouro de Instituição Financeira, subsumese integralmente ao disposto no § 2º , do artigo 1º, da Lei 7.766/89, onde é definido que operações de compra do metal no mercado de balcão são operações financeiras. A tributação das atividades financeiras pela Contribuição para o PIS e pela COFINS incide sobre suas receitas, assim consideradas conforme a definição do Plano de Contábil das Instituições do Sistema Financeiro Nacional (COSIF). Uma característica da atividade financeira, que é refletida no COSIF, é a de reconhecer como receita o produto da intermediação financeira, que, na essência, é o objeto social dessas instituições. Assim, nos casos em que estas instituições transacionam com valores mobiliários, ou quaisquer outros ativos financeiros, é pacífico que o valor registrado a título de receita é o ganho ou a renda auferida na transação, seja ela de compra ou venda do ativo. O valor do ativo transacionado não compõe o conceito da receita das instituições financeiras, como ocorre na empresa comercial, ou industrial. Diante disto, quando os artigos 1º e 2º , da Lei 9.718/98, definem a incidência do COFINS sobre a Receita Bruta da Pessoa Jurídica, o intérprete deve entender, no caso de uma instituição financeira, que esta incidência se dá sobre o valor da receita auferida (fato gerador), tomando esta conforme as normas de contabilidade bancária assim a definem, e não sobre o valor da transação realizada. A propósito, esta transação, estritamente considerada, pode nem resultar em receita, uma vez que pode haver perda na alienação de qualquer ativo. Fl. 1521DF CARF MF 6 Dito isto, não pode ser aceita a argumentação no sentido de que a operação de venda de ouro financeiro por Instituição Financeira seria uma operação sujeita ao pagamento das Contribuições. E isto se opera pelo simples fato de que esta operação (a alienação de ativo financeiro) não é enquadrada no conceito de receita, pelo COSIF. Desta forma, considerando esta não incidência das Contribuições na operação de venda de ouro financeiro, as operações de aquisição do metal de DTVMs enquadramse nos dispositivos previstos pelo § 2º, inciso II, do artigo 3º, das Leis 10.637/2002, e 10.833/2003: [...] É oportuno lembrar que a forma de tributação pelo PIS e pela COFINS das Instituições Financeiras é disciplinada pelo artigo 95, da Instrução Normativa SRF N° 247/2002. Basicamente, este dispositivo prevê que a base de cálculo mensal das Contribuições das Instituições Financeiras seja apurada com o apoio da planilha prevista no anexo I da Instrução Normativa, onde as receitas das instituições financeiras, ao final de cada mês, seguindo a planificação contábil do Sistema Financeiro Nacional (COSIF), são enumeradas. Entre estas receitas, podemos encontrar a denominada "Rendas de Aplicações em Ouro",código 7.1.5.70.002 . Segundo as instruções do Banco Central do Brasil, a função desta conta é registrar os ajustes positivos nas aplicações temporárias em ouro, que constituam receita efetiva da instituição no período. A tributação dessa receita não se confunde de maneira nenhuma com a tributação da transmissão da propriedade do ativo financeiro. O fato de um eventual rendimento auferido na alienação do ouro financeiro (eventual porque pode ser que haja perdas neste tipo de operação, também) não significa que toda a operação de alienação do ativo tenha sido submetida à tributação. É fundamental perceber que o conceito técnico contábil de Receita não envolve o valor da movimentação do ativo financeiro. Prova disso é que não encontramos no Plano de Contas das Instituições do Sistema Financeiro, dentre as receitas operacionais, qualquer item que pudesse representar o valor total da alienação de um ativo, como "receita da venda de ouro", ou receita da "venda de ações", ou ainda "receita da venda de recebíveis". O próprio conceito de receita, nas Instituições Financeiras, restringese ao valor do rendimento na operação, o que não inclui o valor do ativo negociado. Por ocasião da resposta ao Termo de Intimação de 29 de novembro de 2011, o Contribuinte cita em socorro de sua tese (legitimidade da utilização das aquisições de ouro financeiro na base de cálculo de seus créditos das Contribuições) o artigo 22, da Instrução Normativa SRF N° 247/2002, extraindo dele que "as Instituições Financeiras estão sujeitas ao pagamento do PIS e COFINS por ocasião da alienação dos ativos financeiros". Na verdade, o que de fato está disposto neste artigo é que as receitas auferidas (receitas assim consideradas de acordo com o Fl. 1522DF CARF MF Processo nº 16095.720023/201212 Acórdão n.º 3402005.581 S3C4T2 Fl. 1.520 7 COSIF) pela Instituição Financeira, produzidas em decorrência de avaliações de seus títulos e valores mobiliários a preço de mercado, somente participarão da composição da base de cálculo a partir do momento da alienação do ativo. Ou seja, o dispositivo não se preocupa alterar a definição do fato gerador ou da base de cálculo, mas sim em definir o aspecto temporal da incidência. Também em sua defesa o Contribuinte comenta que no caso do PIS e COFINS, os contribuintes podem descontar créditos sobre os custos incorridos em valor superior ao pago na etapa anterior da cadeia, reforçandose com a citação de reposta de Consulta Tributária. Este comentário, porém, não atinge o centro da questão que aqui se discute. Não se trata de considerar que houve incidência na operação anterior, com um recolhimento inferior de Contribuições, como acontece, por exemplo, no caso de aquisições de mercadorias de empresa que apura as Contribuições no regime cumulativo. Tratase, sim, de considerar que não houve incidência na operação anterior, uma vez que, como já exaustivamente demonstrado, o valor da alienação de um ativo financeiro ou valor mobiliário não se confunde com a receita financeira eventualmente auferida. O conceito de base de cálculo é em regra elemento indissociável do conceito de fato gerador. A base de cálculo, salvo nos casos expressamente previstos em lei, é nada mais nada menos do que a expressão quantitativa do fato gerador. Se o fato gerador das Contribuições é auferir receita bruta, a base de cálculo é o valor da receita auferida! Assim, se o fato gerador, no caso de movimentação de ouro financeiro é o fato da instituição auferir receita financeira, a expressão econômica desta operação é o valor desta receita financeira, e não o valor desta receita somado ao valor do ativo financeiro. Diferentemente, numa operação comercial, o fato gerador é auferir a receita da venda das mercadorias. Assim a base de cálculo das Contribuições neste caso é a receita da venda das mercadorias, e não o lucro bruto apurado na operação. Pelo exposto, concluise que a empresa não poderia ter utilizado os valores provenientes da aquisição de ouro financeiro para compor a base de cálculo de seus créditos. E não haveria nenhum sentido que diferente fosse. Como visto, toda a cadeia do ouro financeiro é livre da incidência do PIS e da COFINS. Desde a saída de empresa mineradora, as Contribuições não incidem, ou por força da não incidência Constitucional (art. 153, § 5º), ou pela incidência da alíquota zero, prevista no artigo 1º , do Decreto 5.442/2005: Art. 1º Ficam reduzidas a zero as alíquotas da Contribuição para o PIS/PASEP e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social COFINS Fl. 1523DF CARF MF 8 incidentes sobre as receitas financeiras, inclusive decorrentes de operações realizadas para fins de hedge, auferidas pelas pessoas jurídicas sujeitas ao regime de incidência nãocumulativa das referidas contribuições. Notese que o assunto "ouro como ativo financeiro ou mercadoria" já foi amplamente abordado pela Procuradoria Geral da Fazenda Nacional em seu Parecer PGFN/CRJ n° 0957, de 22/07/1999 publicado no DOU de 10/08/1999, Seção I, p 1, cujo texto, em parte, está transcrito a seguir: "A Constituição pretérita estabelecia que o ouro estava sujeito ao imposto único sobre minerais IUM, nas operações realizadas com o ouro antes da industrialização. Com a industrialização, o ouro se submetia ao IPI e ao ICM: a operação de industrialização, ou a produção de mercancia, tendo por base o ouro industrializado, o ICM. A Constituição de 1988 inovou: não há imposto único sobre minerais. Em estado natural, ou industrializado, o ouro está sujeito, nas operações mercantis, ao ICMS. Todavia, se utilizado com ativo financeiro, estará o ouro sujeito ao IOF. (C.F., art. 153, § 5º; art. 155, § 2°, X, c) . Desaparecida essa condição utilização como ativo financeiro submeterseá ao ICMS, nas operações mercantis. (José Alfredo Borges, "As e o regime Jurídico Receita do ICMS ao Ver. Jurídica da da Fazenda Estadual operações com Ouro da Repartição da Município", in ProcuradoriaGeral Minas Geral", 13/9) Com propriedade, pois, escreveu o então Juiz Ari Pargendler, no voto que embasa o acórdão recorrido, que "a destinação do ouro o identifica como mercadoria ou como mercadoria ou como ativo financeiro. A entrada do ouro no mercado financeiro e sua permanência nele lhe assegura esse regime vantajoso: o de ser tributado uma só vez (monofasicamente) e de modo exclusivo (unicamente) pelo Imposto sobre Operações de Crédito, Câmbio e Seguro Relativo a Títulos e Valores Mobiliários". Se não há incidência, em nenhuma dessas etapas foi recolhido qualquer valor a título de Contribuições. Sendo assim, não há qualquer valor de Contribuição acumulado na cadeia de comercialização que justifique crédito por parte de quem adquiriu este ouro financeiro e o desviou para a utilização como matéria prima em seu processo industrial. Mesmo que consideremos os valores recolhidos no fornecimento de insumo à pessoa jurídica mineradora de ouro, esses valores seriam passíveis de aproveitamento ou ressarcimento a essa empresa, por força do disposto no artigo 27, inciso II, da Instrução Normativa SRF N° 900/2008, ficando assim garantido o direito de que esta cadeia seja expurgada de qualquer incidência das contribuições. Fl. 1524DF CARF MF Processo nº 16095.720023/201212 Acórdão n.º 3402005.581 S3C4T2 Fl. 1.521 9 Assim, se admitido o crédito na aquisição de ouro financeiro, a adquirente ficaria em uma posição econômica imensamente favorecida em relação à empresa que trabalhasse com o ouro mercadoria, pois este produto certamente lhe custaria mais caro, uma vez que viria "carregado" pela incidência das Contribuições nas etapas precedentes do processo de produção. O princípio da nãocumulatividade tem por finalidade precípua a garantia de que o tributo pago nas etapas anteriores de uma cadeia de produção e/ou comercialização não incida em cascata nas operações subsequentes. O mecanismo do crédito é a forma pelo qual o princípio da nãocumulatividade se faz eficaz. Assim o direito ao crédito só se justifica quando há incidência de contribuição em etapas antecedentes de uma cadeia de produção/comercialização. Se esta incidência não existe, o crédito não faz o menor sentido. A não ser que haja um claro propósito do legislador no sentido de incentivar uma determinada atividade. Porém, mesmo neste último caso, o benefício deve ser expressamente previsto na lei. Se não bastasse o todo exposto, foi observado durante a auditoria fiscal que o Contribuinte destina vendas com o código fiscal de operação e prestação (CFOP) 6109, que se trata de venda de produção do estabelecimento destinada a Zona Franca de Manaus ou Áreas de Livre Comércio. Por se tratar de venda para a Zona Franca de Manaus, essas saídas são tributadas à alíquota zero de PIS/COFINS. Nesta operação, destacase como cliente a empresa COIMPA INDUSTRIAL LTDA, CNPJ 04.222.428/000130, a qual a empresa objeto da presente ação fiscal detém um percentual de 99,97% do capital (conforme consta da base de dados da RFB). Em alguns casos a venda realizada tratase de apenas, e somente, ouro em lingotes, ou seja, o mesmo ouro adquirido nas DTVM's. Estamos, assim, presenciando a seguinte situação. O Contribuinte adquire o ouro financeiro sem a tributação do PIS/COFINS. Revende o mesmo ouro para um empresa em que, claramente, detém o controle acionário, mas tributado à alíquota zero de PIS/COFINS. E, por fim, pleiteia o crédito que em nenhum momento foi recolhido ao Erário. Ao analisar situação semelhante àquela que nos é aqui apresentada, a Delegacia de Julgamento da Receita Federal em Porto Alegre decidiu em consonância com o raciocínio aqui desenvolvido, embora naquele caso, a empresa recorrente teria se utilizado de valores de aquisição de ouro financeiro na composição da base de cálculo do crédito presumido de IPI, que visaria justamente o ressarcimento de valores que teriam incididos a título de PIS e de COFINS na cadeia de produtiva de produtos exportados. [...] 6 DAS GLOSAS EFETUADAS E SUAS CONSEQUÊNCIAS Fl. 1525DF CARF MF 10 Diante de todo o exposto, consideramos que não cabe o crédito das Contribuições efetuadas na aquisição de ouro, quando adquirido de empresas Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários. Consequentemente procedemos às glosas dos referidos créditos e cujas planilhas "DEMONSTRATIVO DAS GLOSAS DE CRÉDITOS DE PIS/COFINS AQUISIÇÃO DE OURO FINANCEIRO", "DEMONSTRATIVO DE RECONSTITUIÇÃO DE CRÉDITOS DE PIS/COFINS"; fazem parte do presente Termo de Constatação e Verificação de Irregularidades Fiscais. Nos meses onde os créditos reconhecidos não foram suficientes para fazer frente aos débitos do mês, as diferenças entre esses valores foram constituídas através de Autos de Infração dos quais o presente Termo de Verificação e Constatação de Irregularidades Fiscais é parte integrante. As glosas de créditos de PIS/COFINS apropriados sobre aquisições de ouro financeiro estão relacionadas nas folhas 765 a 768, e os dois períodos que estas glosas geraram débitos constam dos demonstrativos de folhas 769 a 772, vide linhas "Glosa mês" ou que geraram débitos a lançar, conforme linha "lançamento". Por sua vez o contribuinte apresentou sua impugnação (fls. 792 a 825) em 05/03/2012, com extensos arrazoados nos seguintes tópicos: l. Dos fatos; 2. Do direito; 2.1. Da tempestividade; 2.2. Da tributação do ouro autorizada pela Constituição Federal; 2.3. Da classificação do ouro: relevância da destinação dada ao bem; 2.4. Do direito ao desconto de créditos de PIS e de COFINS nas aquisições de ouro ativo financeiro como insumo; 2.5. Da nãocumulatividade do PIS e da COFINS e da irrelevância do regime de tributação a que esteja submetido o fornecedor dos bens. 2.6 Das operações com a Zona Franca de Manaus. 3. Do pedido. A seguir parte dos argumentos trazidos: [...] A Impugnante é sociedade empresária que se dedica à industrialização comercialização, importação e exportação de produtos manufaturados e semimanufaturados, especialmente de metais preciosos e outros metais, prezando sempre pelo fiel cumprimento de suas obrigações. Por força de suas atividades operacionais, a Impugnante regularmente acumula créditos de PIS e COFINS decorrentes da sistemática nãocumulativa dessas contribuições, prevista nas Leis nºs 10.637/02 e 10.833/03. [...] Após análise de toda documentação contábil e fiscal da Impugnante, a Receita Federal do Brasil (RFB) houve por bem glosar parte do crédito pleiteado, especificamente no que tange aos valores oriundos de aquisições de ouro de Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários DTVMs. [...] Por consequência da glosa dessa parte do crédito, a RFB, nos meses em que houve saldo devedor (janeiro, abril, julho, setembro e outubro de 2007), procedeu à constituição de crédito tributário. [...] A glosa dos créditos de PIS e de COFINS, derivados da aquisição de ouro ativo financeiro, de acordo com o descrito no TVCIF pela D. Autoridade de Fiscalização, teria se verificado, em síntese, em face do seguinte: [...] Fl. 1526DF CARF MF Processo nº 16095.720023/201212 Acórdão n.º 3402005.581 S3C4T2 Fl. 1.522 11 Ocorre que, entretanto, que referido entendimento não pode prosperar, uma vez que o crédito glosado pleiteado pela impugnante é legítimo, eis que: 1. A alienação do ouro, ativo financeiro ou não, em todas as etapas de sua cadeia, sujeitase ao pagamento da contribuição ao PIS e da COFINS: 2. O ouro ativo financeiro, se e enquanto de propriedade de instituições financeiras, sujeitase à contribuição do PIS e à COFINS; 3. O ouro ativo financeiro, quando adquirido como insumo e desde que obedecidas as condições impostas pela legislação, permite o desconto de créditos das contribuições; 4. O ouro adquirido pela Impugnante é insumo de seu processo industrial, afirmação feita a partir da destinação dada pela adquirente ao bem; e 5. As operações realizadas com contribuintes localizados na Zona França de Manaus, nos termos da legislação vigente, de modo algum permite a acumulação de créditos inexistentes. [...] Dessa forma, considerando que a incidência da contribuição ao PIS e da COFINS é o faturamento, assim entendido a receita bruta auferida e não a operação com o bem ou serviço em si, podese notar que o ouro, seja ele ativo financeiro ou mercadoria, em todas as etapas de sua cadeia, indiscutivelmente sujeitase à incidência de tais contribuições. Essa é a única conclusão possível de se construir a partir da Constituição Federal. [...] Apesar de fincar orientação de que o elemento norteador da natureza jurídica da operação com o ouro é a sua destinação, a fiscalização, nos parágrafos seguintes, defende que o simples fato de uma instituição financeira participar da relação negocial envolvendo o ouro acarreta a conclusão de que o referido metal será sempre um ativo financeiro (e nunca mercadoria). Vejamos: [...] Da mera leitura do trecho acima, depreendemos que a fiscalização simplesmente abandonou a importância da destinação para valorar exclusivamente as pessoas envolvidas na operação. Nada mais equivocado e desprovido de fundamento legal. A Lei n. 7.766/89 define claramente que o ouro será considerado ativo financeiro quando destinado ao mercado financeiro (o que não é o caso), in ver bis: [...] E de forma ainda mais categórica, o artigo 4º de referida norma determina taxativamente a necessidade da destinação do ouro ao mercado financeiro, a fim de que este seja classificado como ativo financeiro. Vejamos: [...] Da exegese dos dois dispositivos supra transcritos, concluise que o elemento definidor da natureza jurídica do ouro é sua destinação. Esse entendimento, inclusive, foi brilhantemente observado pelo então Juiz Ari Pargendler, nos autos da arguição Fl. 1527DF CARF MF 12 de inconstitucionalidade n° 92.04.096250/RS do E. Tribunal Regional Federal da 4ª Região, quando decidiu que: A destinação do ouro o identifica como mercadoria ou como ativo financeiro. A entrada do ouro no mercado financeiro e sua permanência nele lhe assegura esse regime vantajoso: o de ser tributado uma só vez (monofasicamente) e de modo exclusivo (unicamente) pelo Imposto sobre Operações de Crédito, Câmbio e Seguro Relativo a Títulos e Valores Mobiliários. E indiscutível que, mesmo com a interveniência de uma instituição financeira no negócio como vendedora, se o bem não for destinado ou não permanecer no Sistema Financeiro Nacional, ele não poderá ser classificado com ativo financeiro. No caso em apreço, a destinação do ouro adquirido pela Impugnante não foi o mercado financeiro, e tampouco nele ocorre sua permanência neste mercado, o que é expressamente reconhecido no auto de infração. O auditor fiscal menciona, por diversas vezes, que o ouro adquirido pela Umicore das DTVMs, desde sua aquisição, sempre esteve direcionado/destinado à industrialização, i.e. à utilização no processo produtivo da Impugnante, o que fica evidente na seguinte frase, abaixo reproduzida a título exemplificativo: Diante das características descritas, concluise que as operações de aquisição de ouro de DTVMs são tipicamente operações financeiras, não podendo ser confundidas com aquisições ordinárias de matéria prima, mesmo considerando que o comprador assim as classifique em seus registros contábeis e fiscais, e que as utilize de fato em seu processo produtivo. (destacamos) Esse fato é novamente reconhecido no decorrer do TVIF, quando a fiscalização tenta, de forma ardilosa, imputar irregularidade na prática negocial da impugnante. Observe que a fiscalização tenta dar ênfase a um suposto desvio de finalidade no uso do ouro, como se a Impugnante estivesse utilizandoo de forma irregular. Vejamos: Não há qualquer valor de contribuição acumulado na cadeia de comercialização que justifique crédito por parte de quem adquiriu este ouro financeiro e o desviou para a utilização como matériaprima em seu processo industrial (destacamos) Entretanto, não há nada de irregular na conduta da Impugnante, industrializadora de metais preciosos. Tal "desvio" demonstra, claramente, que a destinação do ouro no caso em questão não foi o mercado financeiro, mas sim a industrialização (atividade operacional da Impugnante). E, como tal, é inequívoco seu direito creditório. Ademais, diferentemente do que restou asseverado pela fiscalização, a utilização da documentação instituída pela IN 49/2001 não define a natureza da operação, mas sim a destinação dada ao ouro. Dito de outra forma: não é o conjunto Fl. 1528DF CARF MF Processo nº 16095.720023/201212 Acórdão n.º 3402005.581 S3C4T2 Fl. 1.523 13 de documentos fiscais que define a natureza jurídica do ouro, mas sim a destinação dada a referido bem na operação. [...] No âmbito de suas atividades, a Impugnante adquire o ouro em estado bruto de Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários DTVMs e, a seguir, para que possa ser utilizado como insumo em cadeias produtivas, faz o seu refino processo que tem por escopo eliminar as impurezas e contaminantes para que o ouro possa ser utilizado industrialmente produzindo lingotes com teor de pureza de 99,99%. A partir daí, os lingotes são vendidos a clientes produtores de jóias ou indústrias que utilizam o metal já refinado como insumo, dentre estes, a Coimpa Industrial Ltda. (Coimpa), subsidiária da Umicore, localizada na Zona Franca de Manaus. Destaquese que a Coimpa especificamente citada pela d. fiscalização, foi responsável pela aquisição de 65,3% do total das vendas realizadas em 01, 04, 07, 09 10 e 12/07 para a ZFM (doc. 10), sendo que os demais 34,70% referemse a clientes não relacionados à Impugnante. Isso demonstra, indiscutivelmente, que existe propósito negocial (e não meramente eventual economia fiscal) na aquisição do ouro bruto pela Impugnante e posterior venda à Coimpa. Mas não é só. Contrariamente ao exposto pela d. fiscalização, expliquemos melhor porque a Umicore não aliena o mesmo ouro adquirido das DTVMs à Coimpa e demais clientes não relacionados (vide fotos do laudo técnico doc. 6). O ouro passa por um efetivo processo de industrialização, onde é refinado e transformado em lingotes; só então é posto ao mercado na forma de ouro puro para utilização em processo industrial. E prova disso é a descrição das operações de compra de ouro bruto e venda de ouro refinado, com os respectivos documentos que o suportam: 1. A Impugnante adquire de Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários (DTVMs) ouro em bruto, ou seja, ouro extraído do garimpo e com teor aproximado de impureza de 15% a 5% (ou seja, entre 85% a 95% de ouro). 2. A nota fiscal emitida pela DTVM apresenta os pesos em bruto (peso do produto recebido) e líquido (peso do ouro estimado contido), conforme doc. 8. 3. Os documentos fiscais relativos à compra do ouro são: nota fiscal de negociação do ouro, nota fiscal de remessa de ouro e nota fiscal fatura de entrada. Os dois primeiros são emitidos pelas DTVMs e o último pela Umicore. 4. A Umicore recebe o bem e paga o fornecedor de acordo com o valor da nota fiscal. 5. O ouro é recebido em barras fundidas. Estas barras possuem dimensões, apresentações e pesos não padronizados, pois se tratam de produto resultante da fundição de pequenos lotes oriundos da atividade de mineração (fotos constantes do laudo Fl. 1529DF CARF MF 14 doc. 6). Pela mesma razão os teores de ouro contidos nas barras recebidas variam de barra para barra. 6. A Umicore funde o ouro em bruto, coleta uma amostra e analisa o teor do ouro contido (Ficha de Recuperação de Resíduos). 7. A Umicore refina o ouro bruto teores aproximados de 85% a 95%, produzindo ouro puro equivalente ao teor de 99,99%. 8. O ouro puro refinado é fundido em lingotes (foto constante do laudo doc. 6), sendo substancialmente diferente do ouro em bruto conforme demonstrado no laudo técnico (seja no grau de impurezas, seja na apresentação). 9. A Umicore possui a qualificação Good for deliver, emitida pela London Bullion Market Association LBMA. A Impugnante é uma das duas únicas empresas brasileiras portadoras de referida qualificação, conforme apresentado na lista anexa (doc. 5). 10. A Umicore vende os lingotes por ela industrializados, destinandoos ao mercado para utilização de diversos fins (docs. 10 e 11). 11. Especificamente a Coimpa utiliza o ouro principalmente para a produção de aurocianeto de PotássioPGC (Cianeto duplo de Ouro e Potássio). Para esta aplicação o ouro precisa ter pureza 99,99% e teor de prata, como impureza, extremamente baixo, uma vez que o produto final não pode conter teor de prata superior a 10 partes por milhão (ppm) (especificação do produto PGC). Ademais, temos que: a) No exercício de 2007, a Coimpa adquiriu 70,8% do ouro em lingotes vendidos pela Umicore, enquanto que empresas não relacionadas responderam por 29,2% das vendas (doc. 10). Já nos meses autuados (01, 04, 07, 09 e 10/2007, e mês 12/07 exclusivamente para Cofins), o percentual foi de 65,3% para a Coimpa e 34,7% para as demais (doc. 10). Concluise, portanto, que a aquisição dos lingotes de empresa relacionada é fato necessário ao desenvolvimento das atividades da Coimpa, não se tratando de exclusivo planejamento fiscal desprovido de propósito negocial. E a Umicore, por sua vez, fornece os bens tanto para a Coimpa quanto para diversos outros clientes; b) Conforme já elucidado, o ouro comercializado sujeitouse às contribuições do PIS e COFINS em todas as suas etapas. Logo, se por um lado a venda à ZFM sujeitase à alíquota zero, por outro, a empresa na ZFM não desconta créditos sobre tais aquisições, não se verificando qualquer dano ao erário público. Além disso, quando da alienação pela Coimpa, de parte de sua produção ao mercado nacional, a receita de venda se sujeita ao PIS e à COFINS. E, se é verdade que na exportação, em face da imunidade constitucional não há PIS e COFINS, também é verdade que as aquisições de ouro realizadas pela Coimpa não possibilitam o desconto de créditos do ouro adquirido da Impugnante, o que também infirma a conclusão alcançada pela D. autoridade de fiscalização. [...] Fl. 1530DF CARF MF Processo nº 16095.720023/201212 Acórdão n.º 3402005.581 S3C4T2 Fl. 1.524 15 Assim, não há razão para a fiscalização questionar as transações realizadas pela Impugnante com empresas situadas na ZFM, em especial com a Coimpa. haja vista que tais operações são reais, necessárias e não configuram prejuízo aos cofres fazendários. Pelo contrário, são operações que, embora sujeitas à alíquota zero do PIS e da COFINS, não permitem ao contribuinte localizado na ZFM o direito a crédito dessas contribuições, ao passo que possibilitam à Impugnante a manutenção dos créditos, visto que o insumo utilizado no processo, ouro ativo financeiro, sujeitouse em todas as etapas da sua cadeia, à incidência das contribuições. 3. DO PEDIDO Por todo o exposto, requer seja julgada procedente a presente impugnação, para os fins de anular integralmente os autos de infração e imposição de multa de PIS e de COFINS ora impugnados, com o consequente reconhecimento do direito de descontar créditos de PIS e de COFINS sobre aquisição de ouro oriundo de DTVMs, utilizados no processo produtivo da Impugnante. Protesta pela juntada adicional de quaisquer documentos comprobatórios de todas as alegações citadas ao longo do presente petitório. Ao final o contribuinte juntou os seguintes documentos a sua impugnação: Doc. 1 Procuração; Docs. 2 e 3 Documentos pessoais dos signatários; Doc. 4 Contrato social; Doc. 5 — Cópia da página da internet (www.lbma.org.uk) que prova que apenas duas empresas brasileiras são certificadas pela The London Bullion Market Association como Goodfor deliver para a industrialização de barras de ouro com 99,99% de pureza do metal; Doc. 6 Laudo técnico descrevendo o processo de industrialização do ouro realizado pela Umicore, acompanhado de algumas fotos; Docs. 7, 8 e 9 Três jogos de notas fiscais relativos à compra do ouro bruto com impurezas, compostos por (i) nota de negociação do ouro, (ii) nota fiscal de remessa de ouro e (iii) nota fiscal fatura de entrada; Doc. 10 Planilha relativa aos adquirentes dos lingotes fabricados pela Umicore, valores e percentuais; Doc. 11 Jogo de notas fiscais fatura de saída, que subsidiam a planilha indicada como doc. 10 e comprovam as informações lá constantes; e Doc. 12 Auto de infração e imposição de multa. O contribuinte ainda juntou de forma extemporânea e sem previsão legal (em 03/08/2012, fls. 1.008 a 1.010, e anexos fls. 1.011 a 1.018) uma manifestação, tratando de acórdão do CARF em relação a crédito presumido do IPI de uma indústria de jóias. Ato contínuo, a DRJRIBEIRÃO PRETO (SP) julgou a Impugnação do Contribuinte nos seguintes termos: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social Cofins Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2007 OURO ATIVO FINANCEIRO / INSTRUMENTO CAMBIAL. CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE. Fl. 1531DF CARF MF 16 Quando se adquire ouro na forma de ativo financeiro / instrumento cambial não se está adquirindo uma mercadoria (um insumo), pois a CF/1988 assim determinou que fosse ele considerado. A instituição financeira não deu destino diverso ao ouro ativo financeiro, nem poderia. A alteração dessa condição vantajosa, para que o ouro seja considerado uma mercadoria, deverá vir acompanhado das consequências tributárias que esse fato vier a gerar, com a regência das normas impositivas do ICMS, do IPI, do PIS e da Cofins, e só a partir da primeira venda como mercadoria poderá o adquirente do ouro então mercadoria se beneficiar dos créditos por ventura gerados, em conformidade com as leis de regência, antes não. Sobre o bem ouro ativo financeiro não houve incidência da contribuição da Cofins. Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2007 OURO ATIVO FINANCEIRO / INSTRUMENTO CAMBIAL. CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE. Quando se adquire ouro na forma de ativo financeiro / instrumento cambial não se está adquirindo uma mercadoria (um insumo), pois a CF/1988 assim determinou que fosse ele considerado. A instituição financeira não deu destino diverso ao ouro ativo financeiro, nem poderia. A alteração dessa condição vantajosa, para que o ouro seja considerado uma mercadoria, deverá vir acompanhado das consequências tributárias que esse fato vier a gerar, com a regência das normas impositivas do ICMS, do IPI, do PIS e da Cofins, e só a partir da primeira venda como mercadoria poderá o adquirente do ouro então mercadoria se beneficiar dos créditos por ventura gerados, em conformidade com as leis de regência, antes não. Sobre o bem ouro ativo financeiro não houve incidência da contribuição do PIS. Impugnação Improcedente. Crédito Tributário Mantido. Em seguida, devidamente notificada, a Recorrente interpôs o presente recurso voluntário pleiteando a reforma do acórdão. Em seu Recurso Voluntário, a Empresa suscitou apenas questões de mérito, apresentando as mesmas argumentações da sua impugnação. É o relatório. Voto Conselheiro Pedro Sousa Bispo Fl. 1532DF CARF MF Processo nº 16095.720023/201212 Acórdão n.º 3402005.581 S3C4T2 Fl. 1.525 17 O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, razão pela qual dele se deve conhecer. Conforme se depreende dos autos, a autuação em tela teve por base o procedimento de verificação das Perdcomps apresentadas referentes aos trimestres de 2007, nos quais foram parte dos créditos solicitados indeferidos nos pedidos de ressarcimentos pela Autoridade Fiscal e resultou na lavratura dos autos de infração de PIS/Pasep e COFINS, em alguns meses, para cobrança de diferenças apuradas dessas contribuições decorrentes de glosas de crédito na aquisição de insumos (ouro). As glosas operadas estão relacionadas essencialmente com a não consideração da aquisição do ouro ativo financeiro/instrumento cambial como gerador de créditos da não cumulatividade, adquirido de Sociedades Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários (DTVMs). A Recorrente é uma empresa que atua no refino e na reciclagem de metais, especialmente o ouro, atuando na sua purificação, normalmente obtendo o ouro a 58% de pureza e o transformando em ouro a 99,99%, ideal para a utilização na fabricação de jóias, quando ligados com outros metais que acrescentam cor e resistência ao metal. Além de processar ouro por conta própria, a empresa também presta o mesmo serviço de industrialização por encomenda para outras empresas do ramo. Abaixo os tipos de ouro encontrados no mercado, de acordo com o seu grau de pureza: A Fiscalização procedeu a glosa dos créditos na aquisição de ouro pela Umicore pois entendeu que em toda a cadeia envolvida no ouro adquirido no mercado de balcão de empresas DTVMs (ouro ativo financeiro), desde a etapa da mineração até as negociações no mercado financeiro envolvendo o metal, não houve a incidência das contribuições ao PIS e COFINS nas operações, uma vez que a tributação do ouro se dá em uma única etapa somente pelo IOF, conforme prevê a Constituição Federal no art.153, § 5º e a legislações infraconstitucionais relativas a Lei nº7.766/89 e Decreto nº5.442/2005. Dessa forma, o ouro adquirido no mercado financeiro (ouro ativo financeiro) não dá direito a crédito, situação esta prevista na legislação do PIS e da COFINS que, expressamente, veda o desconto de créditos nas aquisições de bens e serviços que não se sujeitaram à incidência das contribuições. O Contribuinte, por sua vez, alega que a alienação do ouro, ativo financeiro ou não, sujeitase ao pagamento das contribuições ao PIS e COFINS em todas as etapas da sua cadeia, inclusive sobre o valor da intermediação financeira ocorrida nas Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários. A destinação que o comprador dar ao ouro ativo financeiro adquirido é que define o seu direito ao crédito, uma vez que este é utilizado como insumo do seu processo industrial, comprovado nos autos pela documentação fiscal e contábil, especificamente pelas notas fiscais de entrada emitidas e pela contabilização do ouro como insumo (estoque) destinado a produção, como se vê pelo código fiscal de operação e prestação de serviço (CFOP) utilizado. Considerando que a base oponível à contribuição para o PIS e a Fl. 1533DF CARF MF 18 COFINS é o faturamento, assim entendida a receita bruta oponível, e não a operação com o bem ou serviço em si, podese notar que o ouro, seja ele ativo financeiro ou mercadoria, sujeitase, indiscutivelmente, a incidência de tais contribuições em todas as etapas de sua cadeia, conforme se depreende do conteúdo da Constituição Federal. Percebese que é fato provado nos autos que a empresa adquiriu ouro ativo financeiro de empresa DTVM, nos termos previstos no art.1º, § 2º da Lei nº7.766/89 e conforme documentos anexados de notas de negociação de ouro e nota fiscal de remessa de ouro emitida pela instituição financeira. Somente após aquisição do ouro ativo financeiro foi que a empresa deu a ele destinação diversa ao produto adquirido, transformandoo em mercadoria para aplicação como insumo no seu processo de produção do ouro purificado e, posteriormente, vendeu o produto resultante para empresas que o destina à produção de jóias. Depreendese que, em suma, a discussão a ser decidida por este Colegiado referese a controvérsia quanto a possibilidade ou não de se calcular crédito das contribuições ao PIS e a COFINS sobre a aquisição de ouro como ativo financeiro, posteriormente transformado em mercadoria para aplicação na produção de ouro purificado realizado pela Recorrente Umicore. Por oportuno, fazemse algumas considerações sobre o funcionamento do mercado do ouro no Brasil e a tributação envolvida. Identificase no país dois tipos de ouro circulando no Brasil, quanto ao seu uso, que são diferenciados não pela composição física, mas sim pelas características atribuídas por lei quanto a sua destinação: ouro mercadoria e ouro ativo financeiro. O primeiro (ouro mercadoria) é aquele extraído pelos garimpeiros/cooperativas ou por empresas mineradoras e destinado ao mercado de ouro como reserva de valor de empresas e particulares ou como insumo para a produção de artefatos para computadores, comunicações, naves espaciais, motores de reação na aviação e artigos de luxo, tal como, no presente caso, para a produção de jóias. Nesses casos, o ouro se caracteriza como mercadoria, sujeitandose às mesmas regras ordinárias das demais mercadorias quanto a emissão dos documentos fiscais e a tributação relativa ao ICMS, IPI, PIS e COFINS. O segundo tipo é aquele ouro que desde a sua origem na extração é destinado a se tornar ativo financeiro ou instrumento cambial. Nesse caso, é necessário que seja formalizado compromisso de destinálo ao Banco Central do Brasil ou à instituição por ele autorizada, nos termos estabelecidos na Lei nº7.766/89. Após ser adquirido pela instituição financeira, esse ouro como ativo financeiro/instrumento cambial poderá ser negociado em bolsas de valores, de mercadorias, de futuros ou assemelhados, ou no mercado de balcão, mas em qualquer dos casos ele sempre será considerado uma operação do mercado financeiro. Os requisitos para o ouro adquirir natureza de ativo financeiro são delineados pela Lei nº7.766/89, in verbis: “Art. 1º O ouro em qualquer estado de pureza, em bruto ou refinado, quando destinado ao mercado financeiro ou à execução da política cambial do País, em operações realizadas com a interveniência de instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional, na forma e condições autorizadas pelo Banco Central do Brasil, será desde a extração, inclusive, considerado ativo financeiro ou instrumento cambial. § 1º Enquadrase na definição deste artigo: I o ouro envolvido em operações de tratamento, refino, transporte, depósito ou custódia, desde que formalizado Fl. 1534DF CARF MF Processo nº 16095.720023/201212 Acórdão n.º 3402005.581 S3C4T2 Fl. 1.526 19 compromisso de destinálo ao Banco Central do Brasil ou à instituição por ele autorizada. II as operações praticadas nas regiões de garimpo onde o ouro é extraído, desde que o ouro na saída do Município tenha o mesmo destino a que se refere o inciso I deste parágrafo. § 2º As negociações com o ouro, ativo financeiro, de que trata este artigo, efetuada nos pregões das bolsas de valores, de mercadorias, de futuros ou assemelhadas, ou no mercado de balcão com a interveniência de instituição financeira autorizada, serão consideradas operações financeiras. (...) Art. 3º A destinação e as operações a que se referem os arts. 1º e 2º desta Lei serão comprovadas mediante notas fiscais ou documentos que identifiquem tais operações. Pela leitura do conteúdo da lei transcrita, observase que o compromisso de destinação ao ouro assume condição fundamental para a sua caracterização como ativo financeiro. Quando ele é destinado ao Banco Central, ou a instituições financeiras por ele autorizadas, o ouro será considerado como ativo financeiro, desde a sua origem na extração, nos termos do compromisso firmado disposto na lei em comento. A documentação de suporte necessária para acompanhar as operações com esse ativo financeiro foram estabelecidas pela IN SRF nº49/2001. No caso sob análise, constatase que de fato a Recorrente adquiriu o produto ouro ativo financeiro de uma instituição financeira DVTM (Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários), comprovado pela documentação emitida pela empresa vendedora do ativo financeiro. Ao adquirir o ouro ativo financeiro, a empresa teria a opção de mantêlo custodiado na instituição financeira autorizada pelo Banco Central indicada por ela ou retirar o ouro em barras/linguotes e leválo consigo. A opção da Recorrente foi por retirar o ativo financeiro do Sistema Financeiro e ficar com a posse do seu ouro visando aplicálo de modo diverso daquele que até então vinha sendo utilizado. Percebese que a Umicore adquiriu tal produto com o animus de dar destinação diversa daquela que até então possuía o ativo e transformálo em mercadoria para utilização como insumo em seu processo produtivo, fato materializado pelas notas fiscais de entrada emitidas pela Recorrente constantes dos autos, que consignam o CFOP utilizado de compras de insumos para industrialização –1.101. A legislação anteriormente transcrita, a Lei n. 7.766/89, define claramente que o ouro será considerado ativo financeiro quando destinado ao mercado financeiro. No presente caso, entretanto, restou comprovado que o Contribuinte adquiriu o ouro ativo financeiro com o animus de transformálo em mercadoria (insumo). O elemento definidor da natureza jurídica do ouro, portanto, é a sua destinação. Tal entendimento, inclusive, foi brilhantemente observado pelo então Juiz Ari Pargendler (ex Presidente do Superior Tribunal de Justiça e do Conselho da Justiça Federal), nos autos da arguição de inconstitucionalidade nº 92.04.096250/RS, do E. Tribunal Regional Federal da 4ª Região, quando decidiu que: “A destinação do ouro o identifica como mercadoria ou como ativo financeiro. A entrada do ouro no mercado financeiro e sua permanência nele lhe Fl. 1535DF CARF MF 20 assegura esse regime vantajoso: o de ser tributado uma só vez (monofasicamente) e de modo exclusivo (unicamente) pelo Imposto sobre Operações de Crédito, Câmbio e Seguro Relativo a Títulos e Valores Mobiliários”. Entendese, assim, que o ouro, ao sair do sistema financeiro, por vontade do investidor para utilização em função diversa que até então possuía, não mais poderá ser classificado como ativo financeiro, mas sim como mercadoria. No caso concreto, temse que a destinação dada ao ouro ativo financeiro foi aplicálo, após a compra, como insumo no processo produtivo de produção de ouro com maior grau de pureza pela Recorrente. Entendo que, se a definição da natureza do ouro se dá pela sua destinação, embora a documentação emitida na transferência do ouro da DTVM para a Recorrente seja de tradição de um ativo financeiro, isso não impede que a empresa, agora proprietária e de posse do seu bem materializado, dê destinação diversa a ele fora do mercado financeiro, tratandoo como mercadoria/insumo. Ressaltese que não há nenhuma vedação legal a esse procedimento adotado pela empresa. Admitese, assim, a possibilidade do ouro ser adquirido como ativo financeiro e ser posteriormente transformado em mercadoria com o fim de ser aplicado como insumo no processo produtivo da Recorrente. Admitida a possibilidade do ouro adquirido ser transformado em insumo após a sua aquisição como ativo financeiro, resta analisar a possibilidade da empresa se creditar do PIS/COFINS sobre a aquisição do referido ouro ativo financeiro de acordo com as regras de creditamento presentes na legislação que rege a matéria. Inicialmente, devese entender como ocorre a tributação do ouro ativo financeiro adquirido em toda a cadeia envolvida desde a extração até a instituição financeira. A Constituição Federal previu a incidência unicamente de IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) sobre as operações com ouro definido como ativo financeiro, assim como a incidência monofásica desse imposto na entrada na instituição financeira sobre o que seria devido na operação de origem: Art. 153. Compete à União instituir impostos sobre: [...] V operações de crédito, câmbio e seguro, ou relativas a títulos ou valores mobiliários; § 5° O ouro, quando definido em lei como ativo financeiro ou instrumento cambial, sujeitase exclusivamente à incidência do imposto de que trata o inciso V do "caput" deste artigo, devido na operação de origem; a alíquota mínima será de um por cento, assegurada a transferência do montante da arrecadação nos seguintes termos: (negritos nossos) Os entes tributários ficam impedidos, assim, de criar outros tributos ou prever a incidência dos já existentes sobre as operações com ouro ativo financeiro, descritas na forma da lei. A regulamentação do citado dispositivo constitucional veio por meio da Lei nº7.766/89, in verbis: (...) Fl. 1536DF CARF MF Processo nº 16095.720023/201212 Acórdão n.º 3402005.581 S3C4T2 Fl. 1.527 21 Art. 4º O ouro destinado ao mercado financeiro sujeitase, desde sua extração inclusive, exclusivamente à incidência do imposto sobre operações de crédito, câmbio e seguro, ou relativas a títulos ou valores mobiliários. Parágrafo único. A alíquota desse imposto será de 1% (um por cento), assegurada a transferência do montante arrecadado, nos termos do art. 153, § 5º, incisos I e II, da Constituição Federal. (...) Art. 7º A pessoa jurídica adquirente fará constar, da nota fiscal de aquisição, o Estado, o Distrito Federal, ou o Território e o Município de origem do ouro. Art. 8º O fato gerador do imposto é a primeira aquisição do ouro, ativo financeiro, efetuada por instituição autorizada, integrante do Sistema Financeiro Nacional. (...) Art. 13. Os rendimentos e ganhos de capital decorrentes de operações com ouro, ativo financeiro, sujeitamse às mesmas normas de incidência do imposto de renda aplicáveis aos demais rendimentos e ganhos de capital resultantes de operações no mercado financeiro. Parágrafo único. O ganho de capital em operações com ouro não considerado ativo financeiro será determinado segundo o disposto no art. 3º, § 2º, da Lei nº 7.713, de 22 de dezembro de 1988. Art. 14. Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação. Art. 15 Revogamse as disposições em contrário.” (negritos nossos) Quanto à incidência do PIS e COFINS, entendese que as operações com ouro ativo financeiro praticadas por todos aqueles envolvidos (desde sua extração, operações de tratamento, refino, transporte, depósito ou custódia, conforme art. 1º da Lei nº 7.766/89) estão fora do campo de incidência dessas contribuições por expressa determinação constitucional, anteriormente transcrita. Esse é o mesmo entendimento do Professor Ricardo Alexandre que, explicando sobre a tributação do ouro ativo financeiro, afirma a impossibilidade de incidência de outros tributos, além do IOF, que incidam sobre mercadorias, conforme o trecho a seguir reproduzido: Quando o ouro é mercadoria, não há qualquer especificidade digna de nota, pois sobre ele incidirão os tributos que ordinariamente incidem sobre as mercadorias (ICMS, IP!, II, IE). Já nos casos em que o ouro é o próprio meio de pagamento, como se fora moeda, não há que se falar em cobrança de tributos que incidem sobre mercadorias, pois, a título de exemplo, se não incide ICMS sobre a circulação dos reais Fl. 1537DF CARF MF 22 usados para pagar determinado débito, também não pode incidir sobre o ouro' utilizado para quitar débito semelhante. 1 Nesse cenário, a afirmação da Recorrente, em sua defesa, de que o ouro ativo financeiro se sujeita normalmente a incidência do PIS e da COFINS em todas as operações envolvidas ao longo da sua cadeia não se mostra verdadeira, pois, conforme visto nos dispositivos legais anteriormente expostos, o ouro ativo financeiro tem uma carga tributária bastante reduzida se comparada como o do ouro mercadoria. Sobre as operações envolvendo o primeiro , os envolvidos na cadeia de produção do ouro ativo financeiro, desde a extração até chegar a instituição financeira, não pagam PIS e COFINS sobre essas operações, posto que são beneficiadas pela imunidade, excetuandose IOF. Tendo uma carga tributária menor, logicamente o ouro ativo financeiro/instrumento cambial tem um preço mais barato que o ouro mercadoria. As instituições financeiras autorizadas pelo Banco Central a operarem com o ouro ativo financeiro, tais como as DTVMs, por sua vez, estão sujeitas ao regime cumulativo das Contribuições para o PIS e COFINS, incidindo essas contribuições sobre as receitas de serviços bancários (cobranças de tarifas) e as de intermediação financeira. Quanto a tributação das contribuições em comento nesse ramo de atividade, reproduzse o Parecer PGFN/CAT/Nº 2.773/2007, que trata da base de cálculo dessas contribuições devidas pelas instituições financeiras e seguradoras após o julgamento do RE 357.9509/RS, no qual fica claro que as instituições financeiras tem como receita apenas serviços para fins tributários, e destes a receita pelo serviço de intermediação financeira, não tendo receitas pela venda de mercadorias, in verbis: Segundo a Nota da Cosit, após a decisão do STF, diversos questionamentos foram levantados sobre a aplicação da referida decisão às instituições financeiras e às seguradoras, sob o argumento de que tais entidades não possuem “faturamento”, propriamente dito, pois argumentam as entidades que a palavra faturamento teria acepção própria, tecnicamente construída, e corresponderia, taxativamente, ao conjunto de receitas obtidas pela pessoa jurídica na venda de mercadorias e na prestação de serviços. Não se confundiria, nem se equipararia, com receitas outras, como as receitas financeiras das pessoas jurídicas que se dedicam à indústria, ao comércio ou à prestação de serviços. 3.Entretanto, continua mencionada Nota, resta equivocado o entendimento dado pelas instituições financeiras, com base no argumento referido, no sentido de que deverão recolher os tributos em pauta apenas sobre as tarifas de emissão de extratos ou de talões de cheque, entre outras assemelhadas, considerandoas unicamente como receitas de serviços. Sabese que a maior parte das receitas das instituições citadas decorre de atividades estritamente financeiras. As instituições alegam que não importa que essas receitas sejam consideradas operacionais, visto que o conceito de faturamento não é maleável a ponto de sofrer ampliações em função da natureza das atividades do contribuinte, conforme já decidido pelo STF. 4.O argumento utilizado pelas empresas de seguros não é diferente, neste caso tais empresas dizem que a receita de prêmios de seguros também não se enquadra no conceito de 1 Alexandre, Ricardo. Direito tributário I Ricardo Alexandre 11. ed. rev. atual. e amp1. Salvador Ed.JusPodivm, 2017. Fl. 1538DF CARF MF Processo nº 16095.720023/201212 Acórdão n.º 3402005.581 S3C4T2 Fl. 1.528 23 faturamento por não se tratar de venda de serviços, de mercadorias e de serviços e mercadorias. A Nota da Cosit prossegue afirmando: 8.Portanto, são frágeis os argumentos das instituições financeiras e seguradoras no que tange à não incidência dessas contribuições sobre suas receitas financeiras, sem que antes seja examinada a natureza jurídica dessas receitas em relação às suas atividades. 9.Com efeito, o enquadramento da atividade de bancos e de seguros no setor terciário da economia (serviços) é contemplado no Acordo Geral sobre Comércio de Serviços (GATS), firmado durante a rodada de negociações multilaterais promovidas no âmbito do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio 1994 (GATT 1994) – Rodada Uruguai, promulgada pelo Decreto nº 1.355, de 30 de dezembro de 1994. 9.1.O Acordo Geral sobre Comércio de Serviços (GATS) pode ser subdivido em dois grandes blocos. O primeiro é o próprio texto do Acordo contendo as regras e as obrigações aplicáveis a todos os Membros da OMC. O segundo é composto pelos anexos que tratam de problemas específicos de alguns setores. São eles: o anexo referente ao movimento de pessoas físicas fornecedoras de serviço, o anexo sobre os serviços de transportes aéreos e os de transportes marítimos, o anexo sobre serviços financeiros, e, finalmente, os anexos concernentes a telecomunicações. 9.2.O Anexo sobre Serviços Financeiros do GATS (em anexo), em seu item 5, efetua as seguintes determinações: 5. Definições: Para os fins do presente Anexo: Por serviço financeiro se entende todo serviço financeiro oferecido por um prestador de serviço de um Membro. Os serviços financeiros incluem os serviços de seguros e os relacionados com seguros e todos os serviços bancários e demais serviços financeiros (excluídos seguros). Os serviços financeiros incluem as seguintes atividades: Operações comerciais por conta própria ou para clientes, seja em bolsa, em mercado não cotado (overthemarket) ou, em outros casos, no que se segue: instrumentos do mercado monetário (inclusive cheques, letras de câmbio, certificados de depósito); divisas; produtos derivados, tais como, mas não exclusivamente, futuros e opções; instrumentos do mercado cambial e monetário, tais como “swaps” e acordos a prazo sobre juros; valores mobiliários negociáveis; outros instrumentos e ativos financeiros negociáveis, inclusive metal; [...] Fl. 1539DF CARF MF 24 10.Assim, entendese que, sendo essas atividades caracterizadas como serviços, as receitas delas provenientes são receitas de serviços, e, portanto, integrantes do faturamento.” [...] 33. Com efeito, o conceito de serviços não se limita àqueles assim caracterizados na legislação e na doutrina especificamente bancárias, na qual as atividades da instituições financeiras, em geral, discriminadas entre operações bancárias (em síntese, relacionadas à intermediação financeira) e serviços bancários (estes, em síntese, relacionados à prestação direta de serviços pelas instituições a seus usuários, clientes ou não, e normalmente remunerados sob a forma de tarifas). [...] h) serviços para as instituições financeiras abarcam as receitas advindas da cobrança de tarifas (serviços bancários) e das operações bancárias (intermediação financeira); [...] 66. Temse, então, que a natureza das receitas decorrentes das atividades do setor financeiro e de seguros pode ser classificada como serviços para fins tributários, estando sujeita à incidência das contribuições em causa, na forma dos arts. 2º, 3º, caput e nos §§ 5º e 6º do mesmo artigo, exceto no que diz respeito ao “plus” contido no § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718, de 1998, considerado inconstitucional por meio do Recurso Extraordinário 357.9509/ RS e dos demais recursos que foram julgados na mesma assentada. A Fiscalização, ainda, discorreu de forma detalhada sobre as especificidades da sistemática de tributação do PIS e COFINS no ramo de atividade das instituições financeiras. Reproduzemse os trechos principais: A tributação das atividades financeiras pela Contribuição para o PIS e pela COFINS incide sobre suas receitas, assim consideradas conforme a definição do Plano de Contas Contábil das Instituições do Sistema Financeiro Nacional (COSIF). Uma característica da atividade financeira, que é refletida no COSIF, é a de reconhecer como receita o produto da intermediação financeira, que, na essência, é o objeto social dessas instituições. Assim, nos casos em que estas instituições transacionam com valores mobiliários, ou quaisquer outros ativos financeiros, é pacífico que o valor registrado a título de receita é o ganho ou a renda auferida na transação, seja ela de compra ou venda do ativo. O valor do ativo transacionado não compõe o conceito da receita das instituições financeira, como ocorre na empresa comercial ou industrial. Diante disto, quando os artigos 1º, 2º, da Lei nº9.718/98, definem a incidência do COFINS sobre a Receita Bruta da pessoa jurídica, o interprete deve entender, no caso de uma instituição financeira, que esta incidência se dá sobre o valor da receita auferida (fato gerador), tomando esta conforme as normas de contabilidade bancária assim a definem, e não sobre o valor da transação realizada, A propósito, esta transação, estritamente considerada pode nem resultar em receita, uma vez que pode haver perda na alienação de qualquer ativo. Fl. 1540DF CARF MF Processo nº 16095.720023/201212 Acórdão n.º 3402005.581 S3C4T2 Fl. 1.529 25 Dito isto, não pode ser aceita a argumentação no sentido de que a operação de venda de ouro financeiro por instituição financeira será uma operação sujeita ao pagamento das contribuições. E isto se opera pelo simples fato de que esta operação (a alienação de ativo financeiro) não é enquadrada no conceito de receita pelo COSIF. É oportuno lembrar que a forma de tributação pelo PIS e pela COFINS das instituições financeiras é disciplinada pelo art.95, da Instrução Normativa SRF nº247/2002. Basicamente, este dispositivo prevê que a base de cálculo mensal das contribuições das instituições financeiras seja apurada com o apoio da planilha prevista no anexo I da Instrução Normativa, onde as receitas das instituições financeiras, ao final de cada mês, seguindo a planificação contábil do Sistema Financeiro Nacional (COSIF), são enumeradas. Entre estas receitas, podemos encontrar a denominada "Rendas de Aplicações em Ouro", código 7.1.5.70.002. Segundo as instruções do Banco Central do Brasil, a função desta conta é registrar os ajustes positivos nas aplicações temporárias em ouro, que constituam receita efetiva da instituição no período. A tributação dessa receita não se confunde de maneira nenhuma com a tributação da transmissão de propriedade do ativo financeiro. O fato de um eventual rendimento auferido na alienação do ouro financeiro (eventual porque pode ser que haja perdas nesta tipo de operação, também) não significa que toda a operação de alienação do ativo tenha sido submetido à tributação. Destarte, concluise que na instituição financeira (DTVM) que recebe o ouro compromissado com natureza de ativo financeiro e o aliena a um investidor, a tributação do ouro não se dá sobre o valor do bem ouro alienado, mas tão somente sobre a receita de serviço de intermediação, incidindo sobre o ganho apurado entre a operação de compra e a de venda, se por ventura apurado, pois também se é possível apurar perda na operação. No caso ora analisado, tornase evidente que o produto (ouro) adquirido pela Recorrente, na sua origem, era, de fato, um ativo financeiro que possuía, pela Constituição e lei regulamentadora, características próprias bem distintas das do ouro mercadoria, mormente com relação as instituições autorizadas a operálo, documentação lastreadora das operações e sua forma de tributação privilegiada. Depreendese dos fatos até aqui narrados, que a Recorrente comprou um ativo financeiro e posteriormente, por vontade própria, transformouo em mercadoria, e consequentemente insumo, para aplicação no seu processo produtivo de purificação do ouro. Ressaltase que o produto adquirido foi um ativo financeiro da DTVM e não uma mercadoria, como faz crer a Recorrente. Em uma etapa posterior foi que o Contribuinte concretizou o seu animus de transformálo em mercadoria nova, quando então a utilizou como insumo. Entendo, assim, que a situação explicitada não gera direito a crédito porque a Recorrente, de forma originária, fez surgir a mercadoria que não existia nas operações anteriores, posto que o produto adquirido (ouro ativo financeiro) possuía características Fl. 1541DF CARF MF 26 próprias, distintas das mercadorias, não havendo que se falar em direito a crédito. Se a Recorrente optou pela transformação do ouro ativo financeiro em mercadoria isso deverá vir acompanhado das consequências tributárias que esse fato vier a gerar, com a regência das normas impositivas do ICMS, do IPI, do PIS e da Cofins, e só a partir da primeira venda como mercadoria poderá o adquirente do ouro, então mercadoria, beneficiarse dos créditos por ventura gerados, em conformidade com as leis de regência, antes não. Ademais, ainda que se entenda que a empresa adquiriu um insumo, o que se admite apenas para efeito de argumentação, também este não faria jus ao crédito, por não ser possível aplicar a não cumulatividade nessa operação discutida por inexistência de crédito na operação anterior. Como se sabe, o princípio da não cumulatividade tem por finalidade limitar a incidência tributária nas cadeias de produção e circulação mais extensas, fazendo com que, a cada etapa da cadeia, o tributo somente incida sobre o valor adicionado nessa etapa. A não cumulatividade se materializa por meio da previsão de creditamento das aquisições antecedentes de uma cadeia de produção/comercialização. Se não há incidência na etapa antecedente, pela lógica da sistemática, não há direito a creditamento, a não ser que haja um claro propósito do legislador no sentido de incentivar uma determinada atividade. Porém, mesmo nesse último caso, o benefício deve ser expressamente previsto em lei. Nessa direção, há expressa vedação à apropriação de créditos das referidas contribuições, nos termos do art. 3º, § 2º, II, das Leis 10.637/2002 e 10.833/2003, a seguir reproduzido: Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: [...] § 2º Não dará direito a crédito o valor: (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) [...] II da aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição, inclusive no caso de isenção, esse último quando revendidos ou utilizados como insumo em produtos ou serviços sujeitos à alíquota 0 (zero), isentos ou não alcançados pela contribuição. (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) (negritos nossos) No caso concreto, restou comprovado que o bem adquirido pela Recorrente (ouro ativo financeiro), além de não ser mercadoria no momento da aquisição, também não se sujeitou o bem, ouro ativo financeiro, a incidência das contribuições ao PIS e a COFINS ao longo da sua cadeia, desde a extração até a negociação do ativo financeiro pela DTVM, o que torna inviável a possibilidade de creditamento dessas contribuições na operação de aquisição do bem. A essa mesma conclusão chegou a Conselheira Relatora Liziane Angelotti Meira Nessa no acórdão nº 3301004.675, da 3ª Câmara / 1ª Turma Ordinária, que, em julgamento dos mesmos elementos fáticojurídicos da própria Recorrente, mas de período de apuração diferente, concluiu pela impossibilidade de creditamento na operação de aquisição do ouro na forma aqui discutida, conforme sintetizado na ementa a seguir reproduzida: Fl. 1542DF CARF MF Processo nº 16095.720023/201212 Acórdão n.º 3402005.581 S3C4T2 Fl. 1.530 27 ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2011 a 31/12/2012 OURO ATIVO FINANCEIRO / INSTRUMENTO CAMBIAL. CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE. Quando se adquire ouro na forma de ativo financeiro / instrumento cambial não se está adquirindo uma mercadoria (um insumo). A instituição financeira não deu destino diverso ao ouro ativo financeiro, nem poderia. A alteração dessa condição vantajosa, para que o ouro seja considerado uma mercadoria, deverá vir acompanhado das consequências tributárias que esse fato vier a gerar, com a regência das normas impositivas do ICMS, do IPI, do PIS e da Cofins, e só a partir da primeira venda como mercadoria poderá o adquirente do ouro então mercadoria se beneficiar dos créditos por ventura gerados, em conformidade com as leis de regência, antes não. Sobre o bem ouro ativo financeiro não houve incidência da contribuição do PIS. Por fim, cabe informar à Recorrente que as conclusões tomadas no acórdão nº3302001.492, de lavra do ilustre Conselheiro Gileno Gurjão, não tem relação com o caso ora analisado. pois lá foi discutido o direito a ressarcimento de crédito presumido de IPI na exportação previsto na Lei nº 9.363/96, no qual não é imprescindível a incidência das contribuições em comento sobre as aquisições de insumos para a requerente fazer jus ao ressarcimento (REsp nº 993.164 MG), enquanto no presente caso, em não havendo previsão legal de regra ou benefício especial de creditamento, o Contribuinte para ter direito a crédito deve adquirir o bem a ser utilizado como insumo necessariamente com incidência das referidas contribuições, nos termos estabelecidos nas Leis 10.637/2002 e 10.833/2003. Além do mais, conforme já anteriormente indicado no presente voto, o ouro adquirido nessa situação é ativo financeiro e não mercadoria (insumo), posição divergente, portanto, daquela do ilustre Relator no citado acórdão. Diante do exposto, voto no sentido de negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Pedro Sousa Bispo Relator Declaração de Voto 1. Com a devida vênia, ouso divergir do bem fundamentado voto do I. Relator do caso, o que passo a fazer nos seguintes termos. Fl. 1543DF CARF MF 28 2. Antes, todavia, de apresentarmos nossas conclusões, mister se faz nesse instante elucidar dois pontos que são fundamentais para o deslinde da presente contenda. 3. Primeiramente, insta registrar que não há dúvida quanto ao tratamento contábil atribuído pelas DTVM´s, de quem a recorrente adquire o ouro aqui questionado, na presente operação; tais empresas tratam a operação com ouro como se ativo financeiro fosse, submetendo, pois, tal operação à incidência de IOF, bem como ao PIS e à COFINS no regime cumulativo. Tanto é verdade que a declaração prestada pelas DTVM's na sua Escrituração Fiscal Digital EFD contribuições é no sentido de tratar como "rendas com títulos e valores mobiliários e instrumentos e instrumentos financeiros" aquelas receitas decorrentes das aplicações com ouro. 4. Também não existem dúvidas quanto ao objeto social da recorrente2 nem quanto ao destino dado ao ouro por ela adquirido das DTVM's. É inconteste nos autos o seu emprego como insumo para fins de industrialização. Nesse sentido, inclusive, é o teor de parte do Termo de Relatório Fiscal (fls. 839 e s.s.): (...). (...). 5. Aliás, do trecho alhures transcrito, é possível perceber que a fiscalização não nega a possibilidade do ouro ser juridicamente tratado como mercadoria e não como ativo financeiro, nos exatos termos do art. 155, § 2º, inciso X, alínea "c" da Constituição Federal. Todavia, no presente caso em concreto, a fiscalização afasta esta possibilidade uma vez que aqui (i) o ouro foi adquirido de instituição financeira na qualidade de ativo financeiro, o que (ii) estaria devidamente comprovado nos documentos fiscais emitidos pelas DTVM's e que materializaram a operação em análise. Logo, o ulterior tratamento fiscal e contábil dado pela recorrente não seria hábil para desnaturar tal operação jurídica e, por conseguinte, transmutar a qualidade do ouro adquirido pela recorrente de ativo financeiro para mercadoria. 2 Industrialização de metais preciosos, inclusive ouro, conforme cláusula 5a do se contrato social (fls. 19 e s.s.). Fl. 1544DF CARF MF Processo nº 16095.720023/201212 Acórdão n.º 3402005.581 S3C4T2 Fl. 1.531 29 6. Assim, sob uma perspectiva estritamente formal, assiste razão à fiscalização, bem como ao bem fundamentado voto do d. Relator do caso. Acontece que, a depender de determinadas particularidades fáticas do caso em concreto, a forma deve ceder espaço à essência do ato jurídico praticado, sob pena de se prestigiar um indevido formalismo exacerbado. 7. Tratando de tal questão sob uma perspectiva contábil, o que se afirma aqui é que os registros contábeis não têm o condão de criar uma realidade jurídica, já que a contabilidade deve limitarse a registrar fatos e não criálos. Ao encontro de tal assertiva, é a mudança sofrida nos últimos anos no sentido de promover a convergência da contabilidade brasileira às regras internacionais. Aliás, a respeito do tema, assim se pronuncia a Comissão de Valores Mobiliários por intermédio do seu parecer de orientação n. 37/2011, in verbis: (...) Dois conceitos interrelacionados são essenciais para o entendimento dessa nova realidade contábil: (i) a representação verdadeira e apropriada; e (ii) a primazia da essência sobre a forma. A contabilidade somente cumprirá sua função essencial de fornecer informações úteis ao processo de tomada de decisão de seus usuários se refletir verdadeiramente a realidade econômica subjacente. Para que essa representação apropriada (true and fair view) possa ser alcançada, é importante observar a primazia da essência econômica sobre a forma jurídica dos eventos econômicos. Dessa forma, com a mudança iniciada com a edição da Lei 11.638, de 2007, resgatase a característica fundamental das demonstrações contábeis, que devem representar fidedignamente a realidade dos efeitos econômicos das transações, independentemente do seu tratamento jurídico. (...) (grifos nosso). 8. Logo, um eventual equívoco nos registros contábeis das DTVM's para fins de materialização da operação fiscalizada não pode ser capaz de desnaturála em sua substância. 9. Pois bem. Feitos tais esclarecimentos convém repisar que as DTVM's indevidamente registraram que as operações aqui fiscalizadas (de venda de ouro para a recorrente) geraram receitas que foram rubricadas como "rendas com títulos e valores mobiliários e instrumentos e instrumentos financeiros". Além disso, submeteram tal operação ao IOF e ao PIS e a COFINS não cumulativos, na medida em que deram saída de tais bens na qualidade de ativos financeiros. 10. Acontece que tais empresas erraram em seus registros contábeis, uma vez que deveriam ter apontado as operações aqui tratadas como realizadoras de receita bruta, nos termos do art. 12, inciso I do Decreto n. 1.598/77, já que decorrentes de venda de ouro como mercadoria, operação esta que foge do espectro das suas atividades empresariais ordinárias e que, portanto, não pode ser originária de receita operacional3. 3 Segundo o CPC 30, vigente à éopoca dos fatos, apenas as atividades ordinárias de uma empresa se enquadram no conceito de receitas operacionais, conforme se observa do citado pronunciamento abaixo transcrito: Fl. 1545DF CARF MF 30 11. Tal equívoco contábil, entretanto, não é suficiente para, a priori, desnaturar a operação realizada entre as DTVM's e a recorrente como uma operação de venda de ouro mercadoria e não de ouro como ativo financeiro. Todavia, para efetivamente precisar se no específico caso sob julgamento o ouro adquirido pela recorrente é de fato mercadoria, mister se faz destacar o parecer emitido pela Deloitte Brasil Auditores Ltda. (fls. 1.228/1.244). 12. Conforme se observa do sobredito parecer, a Auditoria independente analisou os seguintes documento fiscais e contábeis da recorrente para o período objeto da autuação: (i) escrituração contábil digital (ECD); (ii) escrituração fiscal digital do ICMS e do IPI (EFD Fiscal); (iii) escrituração fiscal digital contribuições (EFD Contribuições); (iv) demonstrativo de apuração de contribuições sociais (DACON); e, ainda (v) notas fiscais de entrada (por amostragem e aleatórias) do ouro adquirido pela recorrente junto as DTVM's. 13. Depois de analisar tal documentação, assim concluiu o citado parecer: (...). O ouro adquirido junto às DTVMs pela Umicore foi tratado contabilmente como estoque de matériaprima. Do ponto de vista fiscal, as transações foram apresentadas como entrada de mercadoria para insumo de produção; O ouro, mesmo que inicialmente tenha sido classificado pela DTVM como ativo financeiro, deve ser classificado como mercadoria pelo adquirente industrial, quando for destinado para produção como matériaprima, e, nesse sentido, sua classificação como insumo do processo industrial, sob os aspectos contábeis e fiscais, reflete aquela que melhor expressa sua natureza. Ou seja, havendo destinação diferente do mercado financeiro, o ouro adquirido passa a ser tratado como “ouro mercadoria”. Assim, no caso específico da Umicore, do ponto de vista contábil e fiscal, a classificação do ouro como insumo é aquele que melhor expressa sua natureza; Quando da entrada do ouro na Umicore, a mesma emite nota fiscal de entrada eletrônica de emissão própria registrandoa como compra de ouro para industrialização, haja vista que a Sociedade utilizará o ouro adquirido como matériaprima na produção de lingotes que serão revendidos futuramente. Este procedimento atende o disposto estabelecido no art. 136 da Regulamento do ICMS, o qual estabelece a necessidade do contribuinte emitir nota fiscal no momento em que entrar no estabelecimento, real ou simbolicamente, mercadoria ou bem. Assim, é possível afirmar que o procedimento adotado pela Umicore de emitir nota fiscal de entrada está em consonância "Receita é o ingresso bruto de benefícios econômicos durante o período observado no curso das atividades ordinárias da entidade que resultam no aumento do seu patrimônio líquido, exceto os aumentos de patrimônio líquido relacionados às contribuições dos proprietários." Fl. 1546DF CARF MF Processo nº 16095.720023/201212 Acórdão n.º 3402005.581 S3C4T2 Fl. 1.532 31 com aquilo disposto na legislação fiscal vigente. No que tange ao CFOP utilizado na nota fiscal de entrada, entendemos que o mesmo reflete a destinação pretendida da matéria prima pela Umicore e, portanto, o CFOP utilizado pela Sociedade está condizente com a natureza da transação realizada pela Sociedade; A Umicore, com base em seu relatório de produção, demonstra a entrada do ouro bruto como insumo e sua remessa para o processo de refino, bem como é possível identificar o ingresso no estoque de produto acabado; e As entradas de ouro entre outubro de 2006 e dezembro de 2012, em sua totalidade, foram destinadas ao processo industrial como insumo, não tendo sido dada qualquer outra destinação diversa, tal como ativo financeiro. (...) (g.n.). 14. Percebese, pois, que segundo o citado parecer contábil, a integralidade do ouro adquirido pela recorrente junto as DTVM's no período fiscalizado foi utilizado na qualidade de insumo para a sua produção, o que, conjugado com os equívocos quanto aos registros contábeis perpetrados pelas DTVM's, desvela a verdadeira natureza da operação empresarial aqui debatida: a aquisição de ouro mercadoria e não de ouro ativo financeiro. 15. Tais conclusões são reforçadas quando se observa as notas fiscais emitidas pelas DTVM's para a recorrente (fls. 684/806), tal como a exemplarmente colacionada abaixo: Fl. 1547DF CARF MF 32 16. Ao se analisar o campo "característica da operação" da nota fiscal alhures o que se observa é a transferência do ouro mercadoria, inclusive com a indicação da quantidade de gramas que está sendo transferida da DTVM para a recorrente. Se de fato a operação fosse de venda de ouro como ativo financeiro, o que seria transmitido da DTVM para a recorrente seria um direito, materializado em um título e lastreado em ouro, mas não o metal precioso propriamente dito. 17. Diante deste quadro e, em especial, levando em consideração as particulares circunstâncias fáticas que gravitam em torno do caso em julgamento, resta claro que a recorrente de fato adquiriu ouro mercadoria e, como tal, faz jus a manutenção dos créditos indevidamente glosados pela fiscalização. 18. Nesse sentido, ouso divergir do d. Relator do caso para dar integral provimento ao recurso voluntário interposto pelo contribuinte. 19. É como voto. (assinado digitalmente) Diego Diniz Ribeiro Fl. 1548DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11131.001017/2008-71
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 24 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Sep 14 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Classificação de Mercadorias
Ano-calendário: 2007
LICENCIAMENTO DE IMPORTAÇÃO. NECESSIDADE DE LICENCIAMENTO ESPECÍFICO.
A licença de importação que se exige, para fins de aplicação de multa por ausência do referido documento, deve acobertar exatamente o produto importado, permitindo que lhe seja dado o adequando tratamento alfandegário.
MULTA POR CLASSIFICAÇÃO FISCAL INCORRETA. PENALIDADE OBJETIVA.
Aplica-se a multa de um por cento sobre o valor aduaneiro da mercadoria classificada de maneira incorreta na Nomenclatura Comum do Mercosul, conforme estabelece o inciso I, do artigo 84, da MP 2.158-35/2001.
Numero da decisão: 3201-004.058
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso.
(assinado digitalmente)
Charles Mayer de Castro Souza - Presidente.
(assinado digitalmente)
Tatiana Josefovicz Belisário - Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza, Marcelo Giovani Vieira, Tatiana Josefovicz Belisário, Paulo Roberto Duarte Moreira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laércio Cruz Uliana Junior.
Nome do relator: TATIANA JOSEFOVICZ BELISARIO
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ementa_s : Assunto: Classificação de Mercadorias Ano-calendário: 2007 LICENCIAMENTO DE IMPORTAÇÃO. NECESSIDADE DE LICENCIAMENTO ESPECÍFICO. A licença de importação que se exige, para fins de aplicação de multa por ausência do referido documento, deve acobertar exatamente o produto importado, permitindo que lhe seja dado o adequando tratamento alfandegário. MULTA POR CLASSIFICAÇÃO FISCAL INCORRETA. PENALIDADE OBJETIVA. Aplica-se a multa de um por cento sobre o valor aduaneiro da mercadoria classificada de maneira incorreta na Nomenclatura Comum do Mercosul, conforme estabelece o inciso I, do artigo 84, da MP 2.158-35/2001.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza - Presidente. (assinado digitalmente) Tatiana Josefovicz Belisário - Relatora. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza, Marcelo Giovani Vieira, Tatiana Josefovicz Belisário, Paulo Roberto Duarte Moreira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laércio Cruz Uliana Junior.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS Anocalendário: 2007 LICENCIAMENTO DE IMPORTAÇÃO. NECESSIDADE DE LICENCIAMENTO ESPECÍFICO. A licença de importação que se exige, para fins de aplicação de multa por ausência do referido documento, deve acobertar exatamente o produto importado, permitindo que lhe seja dado o adequando tratamento alfandegário. MULTA POR CLASSIFICAÇÃO FISCAL INCORRETA. PENALIDADE OBJETIVA. Aplicase a multa de um por cento sobre o valor aduaneiro da mercadoria classificada de maneira incorreta na Nomenclatura Comum do Mercosul, conforme estabelece o inciso I, do artigo 84, da MP 2.15835/2001. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Presidente. (assinado digitalmente) Tatiana Josefovicz Belisário Relatora. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 13 1. 00 10 17 /2 00 8- 71 Fl. 229DF CARF MF Processo nº 11131.001017/200871 Acórdão n.º 3201004.058 S3C2T1 Fl. 230 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza, Marcelo Giovani Vieira, Tatiana Josefovicz Belisário, Paulo Roberto Duarte Moreira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laércio Cruz Uliana Junior. Relatório Tratase de Recurso Voluntário apresentado pelo Contribuinte em face do acórdão nº 1676.166, proferido pela 22ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento São Paulo II (SP), que assim relatou o feito: A empresa VULCABRAS DISTRIBUIDORA DE ARTIGOS ESPORTIVOS LTDA., CNPJ nº 08.193.994/000111, foi autuada através deste processo pela classificação fiscal das mercadorias em desconformidade com as regras do Sistema Harmonizado e ausência de Licença de Importação (LI), cujo montante totalizou R$ 20.637,36. A autuação teve como objeto mercadorias importadas da China através das seguintes Declarações de Importação (DI) / Adições: DI nº 07/00997835/001; DI nº 07/00997835/002 e DI nº 07/03531489/001. A fiscalização fundamentou a autuação nos fatos abaixo descritos. 1 – Multa por classificação incorreta de mercadorias importadas: As mercadorias foram classificadas pela importadora no código tarifário (NCM) 6211.33.00 (abrigos para esporte, de uso masculino), ocorre que os documentos instrutivos das DI, bem como os catálogos apresentados, revelam a importação de jaquetas de fibras sintéticas, de uso masculino; De acordo com o teor da Nota Explicativa do Sistema Harmonizado referente a posição 6211, letra ‘A’, os abrigos abarcados por essa posição, necessariamente, devem ser constituídos por duas peças, uma para cobrir a parte superior do corpo e a outra para cobrir a parte inferior. Já as jaquetas importadas são peças individuais para utilização sobre outra peça de cobertura da parte superior do corpo; De acordo com o teor da Nota Explicativa da posição 6101 combinado com o teor da Nota Explicativa da posição 6201, as jaquetas classificamse nessa última posição; As mercadorias deveriam ter sido classificadas no código (NCM) 6201.93.00, de acordo com a 1ª e 6ª RGI do Sistema Harmonizado (texto da posição 6201 e da subposição 6201.93) e RGC 1, além das notas explicativas das posições 6101 e 6201; Fl. 230DF CARF MF Processo nº 11131.001017/200871 Acórdão n.º 3201004.058 S3C2T1 Fl. 231 3 A classificação de mercadorias em código tarifário diverso ao que deveria ter sido adotado constitui infração administrativa ao controle das importações, que deve ser penalizada com a multa prevista no artigo 636, inciso I (1% VA), do Regulamento Aduaneiro de 2002, vigente à época dos fatos, com a redação dada pelo artigo 84 da Medida Provisória nº 2.15835/2001. 2 – Multa por ausência de Licença de Importação (LI): A partir de 03/04/2006, as importações de mercadorias classificadas no código tarifário (NCM) 6201.93.00 ficaram sujeitas a licenciamento não automático pela SECEX, em decorrência da inclusão de cota para importações originárias da China; As mercadorias classificadas no código (NCM) 6211.33.00 também estavam sujeitas a licenciamento não automático, todavia, tal licenciamento não tinha como fundamento a existência de cotas em razão da origem das mercadorias; Tendo em vista que as DI foram registradas após 03/04/2006, configurouse a falta de licenciamento para as importações realizadas, o que determinou a aplicação da multa prevista pelo artigo 633, inciso II, alínea ‘a’, do Regulamento Aduaneiro de 2002. A empresa VULCABRAS DISTRIBUIDORA DE ARTIGOS ESPORTIVOS LTDA. foi cientificada da autuação em 03/09/2008 (fls. 5 e 11), tendo apresentado impugnação e documentos em 20/09/2008 (fls. 162 a 193). A unidade preparadora considerou tempestiva a impugnação apresentada (fl. 194). A defesa alegou: 1. De início, descreveu as infrações apontadas pela fiscalização; 2. A tempestividade da impugnação; 3. As infrações autuadas têm origem numa única contestação, qual seja, a classificação incorreta das mercadorias na importação; 4. A empresa obteve Licenças de Importação previamente a operação de importação para as DI nº 07/00997835 e nº 07/03531489; 5. As multas pretendidas em razão da classificação fiscal equivocada não são razoáveis, ante ao que dispõe os Atos Declaratórios Normativos nº 10, de 16/01/1997, e nº 12, de 21/01/1997. Reproduziu a legislação citada. Entende presentes as condições previstas pelos referidos Atos Declaratórios Normativos para afastamento das multas a ela indevidamente aplicadas; 6. A impugnante incorreu em equivoco, porém, não houve dolo ou máfé, pois as reclassificações adotadas pela fiscalização não importaram em qualquer diferença tributária a pagar, tanto que nenhum imposto está sendo exigido. As reclassificações Fl. 231DF CARF MF Processo nº 11131.001017/200871 Acórdão n.º 3201004.058 S3C2T1 Fl. 232 4 determinadas pela fiscalização possuem as mesmas alíquotas de Imposto de Importação e Imposto sobre Produtos Industrializados; 7. Os produtos importados foram corretamente descritos, em conformidade com os respectivos catálogos, que inclusive foram fornecidos à fiscalização; 8. Há que se aplicar ao caso os preceitos contidos nos Atos Declaratórios Normativos nº 10 e 12, ambos de 1997. Os equívocos cometidos pela impugnante não se configuram como infrações puníveis com multas. Reproduziu acórdãos administrativos e acórdão exarado pelo Poder Judiciário; 9. Citou o princípio da razoabilidade e alegou que o erro, ainda que seja admitido, é completamente escusável; 10. Ao final, pugnou pelo acolhimento da impugnação, para que o auto de infração seja anulado, com o afastamento das multas impostas, que não se coadunam com os Atos Declaratórios Normativos COSIT nº 10 e 12, de 1997, tampouco com a razoabilidade que deve pautar os atos administrativos. Após exame da Impugnação apresentada pelo Contribuinte, a DRJ proferiu acórdão assim ementado: Assunto: Classificação de Mercadorias Anocalendário: 2007 MULTA POR CLASSIFICAÇÃO FISCAL INCORRETA Aplicase a multa de um por cento sobre o valor aduaneiro da mercadoria classificada de maneira incorreta na Nomenclatura Comum do Mercosul, conforme estabelece o inciso I, do artigo 84, da MP 2.15835/2001. LICENCIAMENTO DE IMPORTAÇÃO. Nos termos do Ato Declaratório Normativo COSIT nº 12/1997, somente é afastada a multa por falta de licença de importação nos casos em que a mercadoria é corretamente descrita, com todos os elementos necessários a sua identificação e ao enquadramento tarifário pleiteado. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Inconformado, o Contribuinte apresentou Recurso Voluntário reiterando os argumentos de defesa apresentados questionando a aplicação da multa por falta de licença de importação, por entender que as licenças foram apresentadas, ainda que sob classificação fiscal diversa da utilizada pelo Fisco, bem como a multa por classificação fiscal incorreta, por entender não ter ocorrido dolo ou máfé. Após os autos foram remetidos a este CARF e a mim distribuídos por sorteio. Fl. 232DF CARF MF Processo nº 11131.001017/200871 Acórdão n.º 3201004.058 S3C2T1 Fl. 233 5 É o relatório. Voto Conselheira Tatiana Josefovicz Belisário Relatora O Recurso é próprio e tempestivo, portanto, dele tomo conhecimento. Conforme relatado, não está em litígio a classificação fiscal das mercadorias importadas. A reclassificação efetuada pela Fiscalização não foi questionada pelo contribuinte. O Recurso Voluntário apresentado tem dois únicos pedidos: (i) o afastamento da multa por ausência de Licença de Importação, uma vez que as mercadorias importadas teriam sido devidamente licenciadas, ainda que sob classificação fiscal diversa; bem como (ii) o afastamento da multa por classificação incorreta das mercadorias importadas (NCM), uma vez que inexistiu intenção fraudulenta por parte do importador e também não houve diferença de tributo lançado. Quanto à multa por falta de licença de importação, assim relatou a DRJ: 2 – Multa por ausência de Licença de Importação (LI): · A partir de 03/04/2006, as importações de mercadorias classificadas no código tarifário (NCM) 6201.93.00 ficaram sujeitas a licenciamento não automático pela SECEX, em decorrência da inclusão de cota para importações originárias da China; · As mercadorias classificadas no código (NCM) 6211.33.00 também estavam sujeitas a licenciamento não automático, todavia, tal licenciamento não tinha como fundamento a existência de cotas em razão da origem das mercadorias; · Tendo em vista que as DI foram registradas após 03/04/2006, configurouse a falta de licenciamento para as importações realizadas, o que determinou a aplicação da multa prevista pelo artigo 633, inciso II, alínea ‘a’, do Regulamento Aduaneiro de 2002. Ou seja, é incontroverso que tanto o NCM utilizado pelo Recorrente, quanto aquele reclassificado pela Fiscalização, estavam sujeitos ao licenciamento não automático. Pelo Termo de Verificação Fiscal, constatase que a Recorrente possuia licença de importação para produtos classificados na NCN 6211.93.00 (NCM utilizada), mas não possuia licença para o produto de NCM 6201.93.00 (NCN reclassificado: Conforme exposto no item 3.2, em razão da VULCABRAS DISTRIBUIDORA ter registrado importações depois de 03/04/2006 para as quais a licença não automática concedida Fl. 233DF CARF MF Processo nº 11131.001017/200871 Acórdão n.º 3201004.058 S3C2T1 Fl. 234 6 pelo Secex/Decexi foi com base em informação diversa a que deveria ter sido prestada, enquadramento no código tarifário da NCM 6211.93.00 e não no 6201.93.00 (fls. ), ainda mais porque a LI para o NCM correto é exigida em virtude de existência de quota para produto originário da China, configurase a realização de importação sem licença. (fl. 17 eprocesso) A DRJ negou o pleito de afastamento da multa por ausência de licenciamento por entender não ser aplicável à espécie o comando exonerativo previsto no Ato Declaratório Normativo COSIT nº 12/1997, já que as mercadorias importadas não estavam corretamente descritas. Estabelece o referido ato normativo: ADN COSIT nº 12/1997 “O COORDENADORGERAL DO SISTEMA DE TRIBUTAÇÃO (…) declara, em caráter normativo, às Superintendências Regionais da Receita Federal, às Delegacias da Receita Federal de Julgamento e aos demais interessados, que não constitui infração administrativa ao controle das importações, nos termos do inciso II do art. 526 do Regulamento Aduaneiro, a declaração de importação de mercadoria objeto de licenciamento no Sistema Integrado de Comércio Exterior SISCOMEX, cuja classificação tarifária errônea ou indicação indevida de destaque "ex" exija novo licenciamento, automático ou não, desde que o produto esteja corretamente descrito, com todos os elementos necessários à sua identificação e ao enquadramento tarifário pleiteado, e que não se constate, em qualquer dos casos, intuito doloso ou má fé por parte do declarante.” Em seu Recurso Voluntário, a contribuinte não reitera o argumento de aplicação do ADN COSIT nº 12/97, embora tenha arguido em sede de Impugnação. O pleito recursal é no sentido de que os produtos importados estavam amparados por licença de importação, ainda que esta licença fosse aplicável apenas ao NCM informado e não ao NCM reclassificado. Pois bem. Não obstante ambas as classificações fiscais, tanto a utilizada pelo contribuinte, como a imposta pela Fiscalização, imponham o licenciamento não automático, não se pode afirmar que tais licenciamentos sejam equivalentes. Ou seja, as razões que impõem o licenciamento não automático de determinado produto são diversas daquelas previstas para produto distinto. Ainda que ambas estejam sujeitas ao mesmo procedimento de licenciamento, os aspectos a serem analisados em cada um deles são distintos. Desse modo, considerando que o bem jurídico tutelado pelas multas aduaneiras é, em primeira análise, a regulação das operações de importação, tenho que esta resta prejudicada na hipótese presente, pois houve embaraço ao procedimento de licenciamento. Fl. 234DF CARF MF Processo nº 11131.001017/200871 Acórdão n.º 3201004.058 S3C2T1 Fl. 235 7 Quanto à multa por classificação incorreta, não assiste razão à Recorrente. As penalidades aduaneiras prescindem de dolo ou máfé. São imputações objetivas e o mero descumprimento da exigência legal atrai a incidência da penalidade prevista. Logo, sendo incontroverso que o NCN utilizado estava incorreto, atraise a aplicação da multa respectiva. É nesse aspecto que também se faz despicienda a existência de dano ao erário. As regras aduaneiras têm como bem jurídico tutelado a regulação aduaneira, com vista à preservação e controle do mercado interno. O dano ao erário é meramente secundário e, quando existentes, são punidos com as penalidades tributárias (e não aduaneiras). Pelo exposto, voto por negar provimento ao Recurso Voluntário do Contribuinte. É como voto. Tatiana Josefovicz Belisário Fl. 235DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11080.721630/2010-75
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Jul 05 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Sep 19 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2008
IMPOSTO DE RENDA. GANHO DE CAPITAL. ALIENAÇÃO DE IMÓVEL. CUSTO DE AQUISIÇÃO.
Para fins de apuração de ganho de capital, nos casos de herança, o custo de aquisição será o valor pelo qual os foram transferidos.
IMPOSTO DE RENDA. GANHO DE CAPITAL. ALIENAÇÃO DE IMÓVEL. BENFEITORIAS.
Somente entrarão no cômputo do custo de aquisição do imóvel rural, para fins de apuração do ganho de capital, os custos das benfeitorias (construções, instalações e melhoramentos) que não tiverem sido deduzidos como despesa de custeio, na apuração do resultado da atividade rural.
Recurso Voluntário Negado
Numero da decisão: 2202-004.631
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso.
(assinado digitalmente)
Ronnie Soares Anderson - Presidente
(assinado digitalmente)
Martin da Silva Gesto - Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Martin da Silva Gesto, Waltir de Carvalho, Rosy Adriane da Silva Dias, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Dilson Jatahy Fonseca Neto e Ronnie Soares Anderson.
Nome do relator: MARTIN DA SILVA GESTO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Exercício: 2008 IMPOSTO DE RENDA. GANHO DE CAPITAL. ALIENAÇÃO DE IMÓVEL. CUSTO DE AQUISIÇÃO. Para fins de apuração de ganho de capital, nos casos de herança, o custo de aquisição será o valor pelo qual os foram transferidos. IMPOSTO DE RENDA. GANHO DE CAPITAL. ALIENAÇÃO DE IMÓVEL. BENFEITORIAS. Somente entrarão no cômputo do custo de aquisição do imóvel rural, para fins de apuração do ganho de capital, os custos das benfeitorias (construções, instalações e melhoramentos) que não tiverem sido deduzidos como despesa de custeio, na apuração do resultado da atividade rural. Recurso Voluntário Negado
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Ronnie Soares Anderson - Presidente (assinado digitalmente) Martin da Silva Gesto - Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Martin da Silva Gesto, Waltir de Carvalho, Rosy Adriane da Silva Dias, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Dilson Jatahy Fonseca Neto e Ronnie Soares Anderson.
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GANHO DE CAPITAL. ALIENAÇÃO DE IMÓVEL. CUSTO DE AQUISIÇÃO. Para fins de apuração de ganho de capital, nos casos de herança, o custo de aquisição será o valor pelo qual os foram transferidos. IMPOSTO DE RENDA. GANHO DE CAPITAL. ALIENAÇÃO DE IMÓVEL. BENFEITORIAS. Somente entrarão no cômputo do custo de aquisição do imóvel rural, para fins de apuração do ganho de capital, os custos das benfeitorias (construções, instalações e melhoramentos) que não tiverem sido deduzidos como despesa de custeio, na apuração do resultado da atividade rural. Recurso Voluntário Negado Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Ronnie Soares Anderson Presidente (assinado digitalmente) Martin da Silva Gesto Relator AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 08 0. 72 16 30 /2 01 0- 75 Fl. 235DF CARF MF Processo nº 11080.721630/201075 Acórdão n.º 2202004.631 S2C2T2 Fl. 236 2 Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Martin da Silva Gesto, Waltir de Carvalho, Rosy Adriane da Silva Dias, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Dilson Jatahy Fonseca Neto e Ronnie Soares Anderson. Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto nos autos do processo nº 11080.721630/201075, em face do acórdão nº 1042.284, julgado pela 4ª Turma da Delegacia Federal do Brasil de Julgamento em Porto Alegre (DRJ/POA), em sessão realizada em 23 de janeiro de março de 2013, no qual os membros daquele colegiado entenderam por julgar procedente em parte a impugnação apresentada pelo contribuinte. Por bem descrever os fatos, adoto o relatório da DRJ de origem que assim os relatou: " Através do Auto de Infração está sendo exigido da contribuinte o imposto suplementar no valor de R$267.269,00 relativos aos exercícios de 2008 e 2009 em decorrência de omissão de ganho de capital na alienação de bens e direitos. A descrição dos fatos e a legislação infringida constam do referido Auto de Infração. O total do crédito tributário é de R$ 529.731,35. Na impugnação a contribuinte argumenta, em síntese, que: OMISSÃO DE GANHO DE CAPITAL NA ALIENAÇÃO DE BENS IMÓVEIS a fiscalização não considerou as benfeitorias realizadas nos imóveis rurais alienados, informadas destacadamente na declaração do ITR do exercício de 2007 (ano de alienação) e nas escrituração públicas de 10/06/2008 relativos aos imóveis alienados a empresa Aracruz Celulose S/A; as benfeitorias foram agregadas à terra nua ao longo de décadas, e consideradas como receita da atividade rural no ano calendário de 2008; tais benfeitorias se constituem em desembolsos das mais variadas naturezas ( moradias de empregados, galpões, mangueiras....) as quais normalmente foram realizadas com a mão de obra dos empregados e que nunca foram questionadas no passado; transcreve ementas de decisões administrativas para corroborar seu entendimento de que a prova das benfeitorias pode ser admitida nos valores que contam da Declaração do Imposto Territorial Rural, na escritura ou nas declarações de bens da atividade rural; conforme orientação extraída do sitio da RFB, nos casos em que o imóvel rural pertença ao espólio, o inventariante, enquanto não ultimada a partilha, a DITR deve ser apresentada pelo espólio, orientação essa seguida rigorosamente pela contribuinte, na consideração de inventariante; Fl. 236DF CARF MF Processo nº 11080.721630/201075 Acórdão n.º 2202004.631 S2C2T2 Fl. 237 3 na apuração do ganho de capital foram desconsiderados os valores informados na DIAT do ano de alienação (2007) não podendo ser exigido a DIAT do ano de aquisição tendo em vista que os imóveis foram transferidos aos herdeiros em 16/05/2007 (data do trânsito em julgado; a apresentação da DIAT foi regularmente feita em 2007, o que a própria autuante reconhece, sendo que o valor declarado deveria ser considerado para apuração do ganho de capital; a fiscalização adotou como ano de aquisição dos imóveis havidos por herança o ano de 2004, contrariando o própria orientação da RFB, uma vez que o adquirente, por herança só pode/deve declarar o imóvel após o encerramento do inventário, como poderia criar uma declaração com data de 2004 quando o espólio já havia apresentado sua declaração, pago tributos especialmente o ITR; a pergunta nº 587 do Perguntas e Respostas orienta no sentido de que estaria isento o produto que superasse o VTN declarado, o que resultaria em restituição do IR que foi indevidamente recolhido; o art. 136 do RIR corrobora a orientação da pergunta nº 587, uma vez que se o valor tributável da terra nua é o mesmo em 2007 e 2008, embora tenha recebido valor superior, esse cotejo deve ser pelos VTNs iguais, resultando zero de ganho de capital; com base no princípio da legalidade, cabe essa DRJ reconhecer a restituição do imposto pago indevidamente; discorda da aplicação da multa de ofício por sua natureza confiscatória e por ser inconstitucional.” A DRJ de origem entendeu pela procedência em parte da impugnação apresentada pelo contribuinte, assim, alterouse o imposto incidente sobre o ganho de capital para R$94.350,00 (agosto/2007), R$87.879,18(fevereiro/2008), R$62.311,54 (junho/2008), mantendo o valor de julho de 2008. A contribuinte, inconformada com o resultado do julgamento, apresentou recurso voluntário, às fls. 221/229, reiterando, em parte, as alegações expostas em impugnação quanto ao que foi vencida. É o relatório. Voto Conselheiro Martin da Silva Gesto Relator O recurso voluntário foi apresentado dentro do prazo legal, reunindo, ainda, os demais requisitos de admissibilidade. Portanto, dele conheço. Omissão de Ganho de Capital Fl. 237DF CARF MF Processo nº 11080.721630/201075 Acórdão n.º 2202004.631 S2C2T2 Fl. 238 4 Em 31/08/2007, foram alienados pela impugnante e sua irmã Doris (vendedoras) para a empresa Aracruz Celulose S/A (compradora) áreas de terras localizada no município de São Gabriel/RS mediante dois contratos de promessa de compra e venda (fls.51/56 e 57/60). Nas escrituras de compra e venda constam: Na impugnação apresentada ao juízo de primeira instância a contribuinte insurgiase contra: 1º) a data de aquisição dos imóveis havidos por herança; 2°) as benfeitorias que não foram comutadas no custo de aquisição das áreas de terras alienadas; 3º) o valor do custo de aquisição dos imóveis alienados atribuídos pelo fisco, tendo em vista que o correto seria o valor do VTN mais benfeitorias informados na Diat do ano de alienação; Sobre a data de aquisição do imóvel Em relação data de aquisição do imóvel, a DRJ reconheceu que no caso dos imóveis havidos por herança de Lourdes Macedo Reverbel Silveira, cujo o óbito se deu em 2004, a data de aquisição a ser considerada para fins de apuração do ganho de capital é 19/04/2004. Sobre o Custo de aquisição Para a área de 163,00ha havidas por herança de Djalma Gomes da Silveira, pai da contribuinte, a fiscalização considerou corretamente a data de aquisição 12/12/1977 e como custo de aquisição o valor de R$90.943,20 conforme registrado na declaração de bens/2004 (fls.109). Como já bem referido pela DRJ de origem, não se pode aceitar como custo de aquisição do referido imóvel o valor de R$ 163.200,00 (fls. 93) informado na declaração de ajuste anual do exercício de 2008 (situação em 2006), tendo em vista que inexiste previsão legal para atualizar a correção dos bens. Fl. 238DF CARF MF Processo nº 11080.721630/201075 Acórdão n.º 2202004.631 S2C2T2 Fl. 239 5 Quanto a área de terras de 170ha da Fazenda Rincão havidos por doação de sua mãe, em 27/12/2002, o custo de aquisição é montante de R$ 200.000,00 constante da declaração ajuste anual do exercício de 2008 (fl.93). Para o restante das áreas foram herdadas de Lourdes Macedo Reverbel da Silveira, cujo o óbito ocorreu em 2004 , conforme Declaração Final de Espólio com trânsito em julgado da decisão judicial em 16/05/2007, o custo de aquisição deve ser apurado com base na Instrução Normativa SRF nº 84, de 11 de Outubro de 2001, em seu art. 20, que dispõe: Art. 20. Na transferência de propriedade de bens e direitos, por sucessão causa mortis, a herdeiros e legatários; por doação, inclusive em adiantamento da legítima, ao donatário; bem assim na atribuição de bens e direitos a cada excônjuge ou ex convivente, na hipótese de dissolução da sociedade conjugal ou união estável, os bens e direitos são avaliados a valor de mercado ou considerados pelo valor constante na Declaração de Ajuste Anual do de cujus, doador, excônjuge ou exconvivente declarante, antes da dissolução da sociedade conjugal ou união estável. § 1º Nos casos em que o de cujus, doador, excônjuge ou ex convivente não houver apresentado Declaração de Ajuste Anual, por não se enquadrar nas condições de obrigatoriedade estabelecidas pela legislação tributária, a avaliação deve ser realizada em função do custo de aquisição conforme o disposto nos arts. 5º a 8º. § 2º O valor relativo à opção por qualquer dos critérios de avaliação a que se refere este artigo, que independe da avaliação adotada para efeito da partilha ou do pagamento do imposto de transmissão, deve ser informado na declaração: I final de espólio e na declaração do herdeiro ou legatário, correspondente ao anocalendário da transmissão; II do doador e donatário, correspondente ao anocalendário do recebimento da doação; III do excônjuge ou exconvivente a quem foi atribuído o bem, correspondente ao anocalendário da dissolução da sociedade conjugal ou união estável. § 3º Se a transferência for efetuada por valor superior ao constante na Declaração de Ajuste Anual referida no caput, ou do custo de aquisição referido no § 1º, a diferença a maior constitui ganho de capital tributável. § 4º Na hipótese do § 3º, o inventariante, no caso de espólio, o doador ou o excônjuge ou exconvivente a quem for atribuído o bem ou direito deve preencher o Demonstrativo de Apuração do Ganho de Capital e anexálo à Declaração Final de Espólio ou à Declaração de Ajuste Anual do anocalendário da doação ou da dissolução da sociedade conjugal ou união estável, conforme o caso. Fl. 239DF CARF MF Processo nº 11080.721630/201075 Acórdão n.º 2202004.631 S2C2T2 Fl. 240 6 § 5º Na apuração de ganho de capital em virtude de posterior alienação dos bens e direitos de que trata este artigo, é considerado como custo de aquisição o valor a que se refere o § 2º. § 6º Para efeito do disposto no § 5º, a comprovação do custo, constante na Declaração de Ajuste Anual, é efetuada por meio de: I Declaração Final de Espólio, no caso de transmissão causa mortis”; No caso, a Declaração Final de Espólio retificadora (fls. 112/116) foi apresentada, espontaneamente, em 26/03/2009 informando situação em “data da partilha” e do “valor de transferência”conforme se verifica a fls. 115. Portanto, verificase que na declaração final de espólio houve a opção por manter os valores de transferências idêntico aos da data da partilha e não pelo valor de mercado. Dessa forma, conforme apreciado pela autoridade julgadora de primeira instância, para fins de apuração do ganho de capital, o custo de aquisição dos imóveis alienados é o valor de transferência indicado na Declaração Final de Espólio, conforme a seguir discriminado: Importa esclarecer que o valor da terra nua –VTN informado na DIAT/2007: Fazenda Rincão (R$ 4.177.800,00 fls. 146) e Fazenda Santa Lourdes (R$3.411.900,00 fl.153) superam em muito os valores de transferência constantes da Declaração Final de Espólio, não havendo qualquer registro na declaração de bens do de cujus (exercícios 2004 e 2005 fls. 175/180 e fls. 181/186) dos supostos valores. Benfeitorias Relativamente as benfeitorias, ainda que destacadas na DIAT/2007 e nas escrituras de compra e venda lavradas em 2008, não podem integrar o custo de aquisição por falta de comprovação mediante documentos hábeis e idôneos de que o custo das benfeitorias foram consideradas como despesas da atividade rural ou tenha sido consideradas como receita da atividade rural, conforme disposto no § 2º do art. 9º da Instrução Normativa SRF nº 84, de 11/10/2001 . Além do mais, não houve qualquer registro das benfeitorias na declaração de bens de 2004, 2005 e nem da Declaração Final de Espólio. Questionada se as benfeitorias executadas no imóvel rural alienado haviam sido contabilizadas como despesas da atividade rural, a contribuinte informou que foram consideradas como receita bruta da atividade rural. Consta do Relatório de Ação Fiscal, fls. 8: “Em prosseguimento à ação fiscal, foi emitida a Intimação Fiscal Sefis n° 223/2010 (ciência em 13/05/2010), por meio da qual foram solicitados esclarecimentos, corroborados por Fl. 240DF CARF MF Processo nº 11080.721630/201075 Acórdão n.º 2202004.631 S2C2T2 Fl. 241 7 documentos comprobatórios, referentes às benfeitorias alienadas na operação de venda de imóveis rurais à Aracruz Celulose em 31/08/2007, a saber: 1) imóveis a que pertencem; 2) custo de aquisição; 3) tratamento tributário dado quando da realização da despesa: incorporação ao valor do bem na declaração de ajuste anual ou contabilização como despesa da atividade rural; 4) alienação: valores e datas de recebimento. Em resposta a essa intimação, foram apresentados em 28/05/2010 esclarecimentos, relativos às benfeitorias em questão. Informa em sua resposta que “entre os imóveis vendidos à Aracruz Celulose por escritura pública de 28/02/2008 (...) constaram as benfeitorias que foram agregadas à terra nua ao longo de várias décadas (...). Tais benfeitorias foram registradas nas declarações de ITR, em valores estimados correspondentes a R$ 225.000,00 para a Fazenda Santa Lourdes e R$ 130.000,00 para a Fazenda Rincão (...). O tratamento tributário dispensado por ocasião da construção ou reformas (...) foi como investimento de atividade rural (...). O valor por elas obtido foi considerado como receita bruta da atividade rural (...).” Foram juntadas aos esclarecimentos, cópias parciais de declarações de Imposto Territorial Rural do imóvel n° 32854218 dos exercícios 2002 e 2007. Não foram, contudo, apresentados documentos que corroborassem as informações prestadas à Receita Federal, conforme solicitado na intimação fiscal. A DRJ bem referiu que "não há dúvidas de que as benfeitorias realizadas nos imóveis objeto da alienação foram realizadas anteriormente a transmissão dos imóveis havidos por herança. Tanto é verdade que a própria contribuinte, em resposta a intimação, afirmou que “entre os imóveis vendidos a Aracruz Celulose por escritura pública de 28/02/2008 constaram benfeitorias que foram agregadas à terra nua ao longo de várias décadas”. Além do que, a partilha se deu 16/05/2007 e a alienação em 31/08/2007" (grifos originais). Assim, haja vista que as benfeitorias realizadas nos imóveis objeto da alienação foram realizadas anteriormente a transmissão dos imóveis havidos por herança, correto está o lançamento ao não considerar as benfeitorias como custo dos imóveis alienados. Com base no acima exposto, o custo de aquisição dos imóveis alienados são os que constam da tabela produzida pelo relator do acórdão da DRJ de origem, que abaixo se reproduz: Conclusão Fl. 241DF CARF MF Processo nº 11080.721630/201075 Acórdão n.º 2202004.631 S2C2T2 Fl. 242 8 Ante o exposto, voto por negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Martin da Silva Gesto Relator Fl. 242DF CARF MF
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Numero do processo: 10469.731990/2012-20
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 28 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Oct 08 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2010
DESPESAS MÉDICAS GLOSADAS. DEDUÇÃO MEDIANTE RECIBOS. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO COM DOCUMENTOS DO ANO-CALÉDÁRIO EXAMINADO.
Recibos de despesas médicas têm força probante para efeito de dedução do Imposto de Renda Pessoa Física, quando apresentados. A glosa de valores deduzidos do imposto a pagar se justifica quando não há comprovação correspondente ao período a que se refere o Lançamento. A ausência nos autos de recibos que justifiquem as despesas médicas alegadas mantém a glosa apontada no Lançamento.
MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. RECONHECIMENTO DO DÉBITO.
Considera-se não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo contribuinte.
Numero da decisão: 2001-000.626
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário.
(assinado digitalmente)
Jorge Henrique Backes - Presidente
(assinado digitalmente)
Jose Alfredo Duarte Filho Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Jorge Henrique Backes, Jose Alfredo Duarte Filho, Fernanda Melo Leal e Jose Ricardo Moreira.
Nome do relator: JOSE ALFREDO DUARTE FILHO
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DEDUÇÃO MEDIANTE RECIBOS. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO COM DOCUMENTOS DO ANO CALÉDÁRIO EXAMINADO. Recibos de despesas médicas têm força probante para efeito de dedução do Imposto de Renda Pessoa Física, quando apresentados. A glosa de valores deduzidos do imposto a pagar se justifica quando não há comprovação correspondente ao período a que se refere o Lançamento. A ausência nos autos de recibos que justifiquem as despesas médicas alegadas mantém a glosa apontada no Lançamento. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. RECONHECIMENTO DO DÉBITO. Considerase não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo contribuinte. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Jorge Henrique Backes Presidente (assinado digitalmente) Jose Alfredo Duarte Filho – Relator AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 46 9. 73 19 90 /2 01 2- 20 Fl. 66DF CARF MF 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Jorge Henrique Backes, Jose Alfredo Duarte Filho, Fernanda Melo Leal e Jose Ricardo Moreira. Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto contra decisão de primeira instância que julgou improcedente a impugnação do contribuinte, em razão da lavratura de Auto de Infração de Imposto sobre a Renda de Pessoa Física – IRPF, por glosa de Despesas Médicas e Omissão de Rendimentos. O lançamento da Fazenda Nacional exige do contribuinte a importância de R$ 10.376,10, a título de imposto de renda pessoa física suplementar, acrescida da multa de ofício de 75% e juros moratórios, referente ao anocalendário de 2010. O fundamento básico do lançamento, conforme consta da decisão de primeira instância, aponta como elemento da decisão da lavratura do lançamento, o fato de que o Recorrente não apresentou comprovação referente aos pagamentos de despesas médicas, de qualquer espécie referente ao período do Lançamento. A constituição do Acórdão recorrido segue na linha do procedimento adotado na feitura do lançamento, notadamente na falta de comprovação das despesas médicas que o Recorrente alega ter pago, como segue: Foi emitida, por Auditor Fiscal da DRF/Natal RN, a Notificação de Lançamento de fls. 11/16, referente ao imposto de renda pessoa física do exercício 2011. Foi apurado imposto suplementar de R$ 10.376,10, mais multa de ofício e juros de mora. A Notificação de Lançamento originouse da revisão da Declaração de Ajuste Anual – DAA nº 04/19.106.065. Os dados declarados foram alterados em decorrência das seguintes infrações: Omissão de Rendimentos Recebidos de Pessoa Jurídica e Dedução Indevida de Despesas Médicas, nos valores de R$ 1.945,24 e R$ 36.000,00, respectivamente. Registrese que não foi contestada a infração de Omissão de Rendimentos Recebidos de Pessoa Jurídica, por isso, conforme previsto no art. 17 do Decreto nº 70.235, de 1972, considerase matéria não impugnada. O crédito tributário decorrente foi transferido para os autos do processo nº 10469.720196/2013–31, fl. 23. Conforme disposto no artigo 8º da Lei 9.250, de 26/12/1995, a base de cálculo do imposto devido no anocalendário será a diferença entre as somas de todos os rendimentos percebidos durante o ano calendário (exceto os isentos, os nãotributáveis, os tributáveis exclusivamente na fonte e os sujeitos à tributação definitiva) e as deduções previstas na legislação, sujeitas à comprovação ou justificação. Fl. 67DF CARF MF Processo nº 10469.731990/201220 Acórdão n.º 2001000.626 S2C0T1 Fl. 67 3 Relativamente às deduções, no caso das Despesas Médicas, a regulamentação da norma legal foi editada por meio do Decreto nº 3000/1999 – Regulamento do Imposto de Renda (RIR/1999): (...) Documentação alguma foi apresentada pelo Interessado para afastar a motivação da glosa das despesas médicas de R$ 36.000,00, ou seja, a transferência dos recursos – o efetivo pagamento – aos profissionais prestadores dos serviços. Vários meios podem ser utilizados pelos contribuintes para comprovar o efetivo pagamento aos prestadores dos serviços, tais como cheques nominativos, transferências bancárias, fatura de cartões de crédito, extratos bancários com registros de saques em valores e datas compatíveis com os documentos comprobatórios. Nesse passo, encaminho o meu VOTO pela IMPROCEDÊNCIA da Impugnação, o que resulta em manutenção do crédito tributário impugnado. O imposto suplementar sobre a matéria não impugnada, com os acréscimos legais, foi transferido para os autos do processo nº 10469.720196/2013–31. Assim, conclui o acórdão vergastado pela improcedência da impugnação para manter a exigência do Lançamento na integralidade, como imposto suplementar. Por sua vez, com a decisão do Acórdão da DRJ, o Recorrente apresenta recurso voluntário com as considerações e argumentações que entende justificável ao seu procedimento, nos termos que segue: Inconformado, como ora faz, o Recorrente formalizou impugnação, que restou julgada improcedente pela Digna Terceira Turma de julgamento, que esteiou o seu acórdão no preceito do art. 73 do Decreto nº 3.000/99, que substancia o regulamento do imposto de renda. Na verdade, o citado preceito do art. 73 do Decreto nº 3.000/99 estabelece o comando de que todas as deduções estão sujeitas à comprovação ou justificação. Quanto a tal regra, não há o que increpar, visto constituirse direto inafastável da Administração Tributária certificar de que tais deduções estejam sendo feitas de forma correta, o que, em última análise implica na preservação e consolidação das atividades do Fisco, de arrecadar e controlar. No entanto, quando, não o legislador, mas tão somente o próprio Administrador, haja vista tratarse de um Decreto e não de uma Lei em sentido formal, provinda do Poder formalmente competente a legiferar, foi estabelecido que a justificativa ou comprovação emergirá a juízo da autoridade lançadora, aí, certamente, deparamo nos com intransponível ilegalidade, que, em extensão, maior resulta Fl. 68DF CARF MF 4 em inconstitucionalidade, haja vista que não se pode atribuir ao administrador pela via do juízo de valor subjetivo. (...) Na hipótese, o Recorrente firmou a sua declaração de rendimentos com recibos firmados por pessoas conhecidas e que são devidamente cadastradas junto à Receita Federal, eis que detentores de CPFs e endereços, não se justificando, portanto, o lançamento de ofício. Para que se justificasse o lançamento de ofício, não se faria bastante tão somente a desconsideração dos recibos acostados pelo Recorrente. Imprescindível que o Fisco estabelecesse de forma percuciente as razões, os motivos pelos quais tais recibos não poderiam ser aceitos, haja vista que não existe nenhum impedimento legal vedando que as deduções de despesas médicas estejam calcadas em recibos. Ora, não se pode negar que tem o Fisco, enquanto Administração Tributária todo o poder investigatório no sentido de aferir se houve ou não fraude fiscal, se os recibos apresentados são idôneos. Se formaliza a glosa, opondose aos documentos apresentados, evidente que atrai para si o ônus de produzir a prova em contrário. Os Recibos, apresentados como documentos, usufruem de presunção de verdade, presunção essa júris tantum, que pode se profligada por outros elementos de prova a desconstituíla. Mas isso é ônus, é obrigação de quem alega; não do contribuinte que apresentou o recibo ou outra forma de documento. (...) No momento em que a Receita Federal, em sua representação, a autoridade lançadora, manifestar a sua discordância entendendo como não comprovada ou justificada a despesa apresentada por via de recibos do contribuinte, terá atraído para si, ou seja para o Fisco, o inarredável ônus de prova a inidoneidade dos documentos do contribuinte, sob pena de, não o fazendo, ter o seu ato invalidade, visto que não poderá substanciálo validamente com respaldo único do seu juízo de valor, o que significa, por outras palavras afirmar que o juízo de valor da autoridade lançadora, mesmo que consignado na letra do Decreto, não terá nenhuma força a sobrepujar a idoneidade dos documentos apresentados pelo contribuinte, caso não se faça alicerçar em consistentes e vigorosos elementos de prova que posterguem a validade, a consistência dos recibos trazidos. (...) Portanto, manifesta vênia, por mais respeitável que seja a opinião, o pensamento, ou mesmo a autoridade de quem procede a fiscalização e realiza o lançamento, será inadmissível que impugne, que conteste, que considere inválido os recibos apresentados pelo Recorrente, sem o concurso de um demonstração validade, calcada em elementos aceitáveis, por mais que o Decreto que regulamenta o Imposto de Renda lhe confira tal atribuição. Assim, sob o lume de tais argumentos, concluise facilmente que a glosa realizada em relação à declaração do Recorrente poderia ter sido realizada, para fins de verificação, mas não o lançamento de ofício sem o respaldo de prova cabal da invalidade, inconsistência ou Fl. 69DF CARF MF Processo nº 10469.731990/201220 Acórdão n.º 2001000.626 S2C0T1 Fl. 68 5 mesmo falta de substância dos ditos recibos, que foram passados com a observância do preceito do art. 80 – Inciso III do Decreto nº 3.000/99. Diante de todo o exposto, prestase o presente para requerer que se digne essa Colenda Corte Administrativa de conhecer e dar provimento ao presente recurso, para fins de nulificar o lançamento de ofício relativo ao exercício de 2.12 – ano calendário 2.011 formalizado pela Receita Federal do Brasil, objeto da impugnação improcedente e do presente recurso. É o relatório. Voto Conselheiro Jose Alfredo Duarte Filho Relator O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto, deve ser conhecido. O que se evidencia como fulcro da lide é a questão da prova material da prestação de dos serviços que teria originado as despesas médicas no montante de R$ 36.000,00 e o período a que se refere o levantamento fiscal que resultou no Lançamento Tributário. A abordagem do preceito contido no art. 73 do Decreto nº 3.000/99 apresentado na peça de defesa do Recorrente, embora também abordado no contexto deste voto passa ao lado do real motivo do lançamento e da decisão da DRJ, porque o motivo da constituição do crédito tributário foi a falta de apresentação de material probante e não sua consideração de inidoneidade. O texto base que define o direito da dedução do imposto e a correspondente comprovação para efeito da obtenção do benefício está contido no inciso II, alínea “a” e no § 2º, do art. 8º, da Lei nº 9.250/95, regulamentados nos parágrafos e incisos do art. 80 do Decreto nº 3.000/99 – RIR/99, em especial no que segue: Lei nº 9.250/95. Art. 8º A base de cálculo do imposto devido no anocalendário será a diferença entre as somas: I de todos os rendimentos percebidos durante o anocalendário, exceto os isentos, os nãotributáveis, os tributáveis exclusivamente na fonte e os sujeitos à tributação definitiva; II das deduções relativas: a) aos pagamentos efetuados, no anocalendário, a médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e hospitais, bem como as despesas com exames Fl. 70DF CARF MF 6 laboratoriais, serviços radiológicos, aparelhos ortopédicos e próteses ortopédicas e dentárias; (...) § 2º O disposto na alínea a do inciso II: I aplicase, também, aos pagamentos efetuados a empresas domiciliadas no País, destinados à cobertura de despesas com hospitalização, médicas e odontológicas, bem como a entidades que assegurem direito de atendimento ou ressarcimento de despesas da mesma natureza; II restringese aos pagamentos efetuados pelo contribuinte, relativos ao próprio tratamento e ao de seus dependentes; III limitase a pagamentos especificados e comprovados, com indicação do nome, endereço e número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas – CPF ou no Cadastro Geral de Contribuintes CGC de quem os recebeu, podendo, na falta de documentação, ser feita indicação do cheque nominativo pelo qual foi efetuado o pagamento; IV não se aplica às despesas ressarcidas por entidade de qualquer espécie ou cobertas por contrato de seguro; V no caso de despesas com aparelhos ortopédicos e próteses ortopédicas e dentárias, exigese a comprovação com receituário médico e nota fiscal em nome do beneficiário. Decreto nº 3.000/99 Art. 80. Na declaração de rendimentos poderão ser deduzidos os pagamentos efetuados, no anocalendário, a médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e hospitais, bem como as despesas com exames laboratoriais, serviços radiológicos, aparelhos ortopédicos e próteses ortopédicas e dentárias. § 1º O disposto neste artigo (Lei nº 9.250, de 1995, art. 8º, § 2º): (...) II restringese aos pagamentos efetuados pelo contribuinte, relativos ao próprio tratamento e ao de seus dependentes; III limitase a pagamentos especificados e comprovados, com indicação do nome, endereço e número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas CPF ou no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica CNPJ de quem os recebeu, podendo, na falta de documentação, ser feita indicação do cheque nominativo pelo qual foi efetuado o pagamento; (grifei) A exigência da legislação especificada aponta para o comprovante de pagamento originário da operação, corriqueiro e usual, assim entendido como o recibo ou a nota fiscal de prestação de serviço, que deverá contar com as informações exigidas para identificação, de quem paga e de quem recebe o valor, sendo que, por óbvio, visa controlar se o recebedor oferecerá à tributação o referido valor como remuneração. A lógica da exigência Fl. 71DF CARF MF Processo nº 10469.731990/201220 Acórdão n.º 2001000.626 S2C0T1 Fl. 69 7 coloca em evidência a figura de quem fornece o comprovante identificado e assinado, colocandoo na condição de tributado na outra ponta da relação fiscal correspondente (deduçãotributação). Ou seja: para cada dedução haverá um oferecimento à tributação pelo fornecedor do comprovante. Quem recebe o valor tem a obrigação de oferecêlo à tributação e pagar o imposto correspondente e, quem paga os honorários tem o direito ao benefício fiscal do abatimento na apuração do imposto. Simples assim, por se tratar de uma ação de pagamento e recebimento de valor numa relação de prestação de serviço. Ocorre, neste caso, uma correspondência de resultados de obrigação e direito, gerados nessa relação, de modo que o contribuinte que tem o direito da dedução fica legalmente habilitado ao benefício fiscal porque de posse do documento comprobatório que lhe dá a oportunidade do desconto na apuração do tributo, confiante que a outra parte se quedará obrigada ao oferecimento à tributação do valor correspondente. Somese a isso a realidade de que o órgão fiscalizador tem plenas condições e pleno poder de fiscalização, na questão tributária, com absoluta facilidade de identificação, tão somente com a informação do CPF ou CNPJ, sobre a outra banda da relação pagadorrecebedor do valor da prestação de serviço. O dispositivo legal (inciso III, do § 1º, art. 80, Dec. 3.000/99) vai além no sentido de dar conforto ao pagador dos serviços prestados ao prever que no caso da falta da documentação, assim entendido como sendo o recibo ou nota fiscal de prestação de serviço, poderá a comprovação ser feita pela indicação de cheque nominativo pelo qual poderia ter sido efetuado o pagamento, seja por recusa da disponibilização do documento, seja por extravio, ou qualquer outro motivo, visto que pelas informações contidas no cheque pode o órgão fiscalizador confrontar o pagamento com o recebimento do valor correspondente. Além disso, é de conhecimento geral que o órgão tributante dispõe de meios e instrumentos para realizar o cruzamento de informações, controlar e fiscalizar o relacionamento financeiro entre contribuintes. O termo “podendo” do texto legal consiste numa facilitação de comprovação dada ao pagador e não uma obrigação de fazêlo daquela forma. Descabe, assim, o rigor na exigência para a apresentação de comprovação suplementar sobre o contribuinte possuidor da documentação originária do pagamento nas condições em que a lei estabelece, especialmente porque a autoridade fiscalizadora pode obter informação de confirmação da outra parte. Razão não há para a dissociação de ambos os polos na relação e estabelecer exigência rigorosa de um e nada de outro, porque a operação é conjunta e correspondente, com reflexos constatáveis nas informações dos dois contribuintes. No caso, há que se considerar a presunção de idoneidade da comprovação apresentada em obediência ao que dispõe a legislação. Mais ainda, em razão da ausência da apresentação, por parte do fisco, de indícios que coloquem em dúvida a idoneidade dos recibos apresentados pela Recorrente. Não basta a simples desconfiança do agente público incumbido da auditoria para que se obrigue o contribuinte a apresentar prova suplementar se não há elementos desabonadores da boa fé de quem usa a documentação especificada na lei para o exercício do direito à dedução na apuração do resultado tributário da pessoa física. O Código Civil, Lei nº 10.406/2002, em seu art. 219 diz que: “As declarações constantes de documentos assinados presumemse verdadeiros em relação aos signatários.” Neste sentido, os recibos em questão presumemse verdadeiros porque aceitos pelas partes contratantes identificadas no documento, de forma que não é razoável a decisão do Fisco de rejeitar os comprovantes como prova válida, sem a indicação de elementos que os desqualifiquem. Se os documentos são válidos para o prestador dos serviços oferecer os Fl. 72DF CARF MF 8 valores à tributação, os mesmos documentos deverão ser válidos também para a dedução legal de quem os recebe como comprovação de pagamentos. Por juízo subjetivo ou simples desconfiança, sem sequer a indicação de indícios de inidoneidade da documentação, não pode a autoridade lançadora fazer exigências fora dos limites da lei. O procedimento fiscal busca amparo no que dispõe o art. 73 e seu § 1º, do Decreto nº 3.000/99, para posicionar o ônus da prova unicamente no contribuinte, nos termos em que a seguir se descreve: Art. 73. Todas as deduções estão sujeitas a comprovação ou justificação, a juízo da autoridade lançadora (DecretoLei nº 5.844, de 1943, art. 11, § 3º). (grifei) § 1º Se forem pleiteadas deduções exageradas em relação aos rendimentos declarados, ou se tais deduções não forem cabíveis, poderão ser glosadas sem a audiência do contribuinte (DecretoLei nº 5.844, de 1943, art. 11, § 4º). (grifei) No ordenamento jurídico brasileiro o decreto regulamentador é uma norma expedida pelo poder executivo que tem como função pormenorizar os preceitos fixados na lei, dentro dos limites nela insertos, sendo considerados, por isso, atos secundários. Seu alcance cingese aos limites da lei não podendo criar situações que obrigue ou limite direitos além daqueles constantes na lei que regulamenta. Neste quesito específico das deduções de despesas médicas temos o que dispõe a Lei nº 9.250/95, em seu art. 8º, § 2º, incisos II e III, que foi objetivamente regulamentado no Decreto 3.000/99, no art. 80, § 1º, incisos II e III. Assim, a regulamentação deste item de despesa dedutível aqui se esgota porque o objeto tratado foi abordado de forma direta e específica, não permitindo outras exigências porque a lei não concede extensões de procedimento fiscalizatório nem limitação quantitativa de direitos. Neste sentido descabe a utilização do art. 73 e seu § 1º, conforme citado no Lançamento, por se tratar de dispositivo genérico que aparece no Decreto Regulamentador no capítulo das Disposições Gerais de Deduções, vinculado ao longínquo DecretoLei nº 5.844 de 1943, muito distante no tempo e do contexto jurídico atual. A rigidez dos termos do art. 73 e § 1º está mais para o período em que foi concebido do que para os dias atuais. A origem do conteúdo do texto vem do período do DecretoLei acima citado, mais precisamente do ano de 1943, anterior, portanto, às quatro últimas Constituições do Brasil (1946, 1967, 1969 e 1988) e, muito distante do conceito atual de Direito do Contribuinte e do Estado de Direito. Além disso, mesmo na vigência do referido DecretoLei a austeridade do instrumento não era plena, visto que o art. 79, § 1º, do mesmo diploma legal lhe impunha limitações, no seguinte dizer: “Art. 79. Farseá o lançamento ex officio: § 1º Os esclarecimentos prestados só poderão ser impugnados pelos lançadores, com elemento seguro de provo, ou indício veemente de sua falsidade ou inexatidão.”. A Constituição Federal de 1988, em seu art. 5º, inciso II, diz que “ninguém está obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”. Da mesma forma, o art. 150, inciso I, vai na mesma direção ao determinar que: “Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: I exigir ou aumentar tributo sem lei que o estabeleça;”. A verdade posta é que ao reduzir ou limitar deduções a Autoridade Lançadora estaria aumentando tributo sem lei que estabeleça. Estamos sob a égide da Constituição Federal de 1988 e, quando a Carta Magna menciona o termo “lei” ela se refere aquele instrumento jurídico emanado do Poder Legislativo, como órgão de representação do povo, nascido do devido processo constitucional. O decretolei, por sua vez, constituíase numa espécie de ato normativo com origem no Poder Fl. 73DF CARF MF Processo nº 10469.731990/201220 Acórdão n.º 2001000.626 S2C0T1 Fl. 70 9 Executivo em caso de urgência ou de interesse público relevante. Ou seja, um decreto que fazia às vezes de lei que vigorou até a Constituição Federal de 1988. A doutrina aceita que o decreto lei tenha valor vigorante enquanto não contrariar lei posterior. Contudo, o DecretoLei nº 5.844/1943, ao não constituirse em lei, contraria a Constituição vigente, nos dispositivos antes citados (inciso II, art. 5º e inciso I, art. 150 – CF/1988). Eventual desconfiança de que o profissional teria fornecido comprovação de serviço que não prestou caracterizaria conluio entre as partes contratantes, o que não foi apontado no histórico do Lançamento. Admitirse que os recibos não representam uma verdadeira prestação de serviço conduz à conclusão lógica de que teria ocorrido conluio entre profissional e paciente, ambos contribuintes do imposto, com o objetivo de lesar o fisco, e assim estariam enquadrados em multa qualificada, o que não foi o caso de apontamento no Lançamento. Em socorro ao posicionamento que busca resguardar o direito do contribuinte tomamse emprestados os termos da doutrina que trata da necessária clareza da motivação nos atos da administração pública, trazida pelo sempre bem citado Hely Lopes Meireles, quando descreve a necessidade da motivação do ato administrativo, que assim se posiciona: “Para se ter a certeza de que os agentes públicos exercem a sua função movidos apenas por motivos de interesse público da esfera de sua competência, leis e regulamentos recentes multiplicam os casos em que os funcionários, ao executarem um ato jurídico, devem expor expressamente os motivos que o determinaram. É a obrigação de motivar. O simples fato de não haver o agente público exposto os motivos de seu ato bastará para tornálo irregular; o ato não motivado, quando o devia ser, presumese não ter sido executado com toda a ponderação desejável, nem ter tido em vista um interesse público da esfera de sua competência funcional.” No mesmo sentido a Lei nº 9.784/99, que regula o processo administrativo no âmbito da Administração Pública Federal, no seu art. 50, diz que: “os atos administrativos deverão ser motivados, com indicação dos fatos e dos fundamentos jurídicos, quando: neguem, limitem ou afetem direitos ou interesses; imponham ou agravem deveres, encargos ou sanções; decidam processos administrativos de concurso ou seleção público; decidam recursos administrativos...”. O Novo Código de Processo Civil, embora posterior aos fatos da ocorrência do lançamento, pode ser utilizado em apoio à interpretação aqui esposada, porque mais benéfico à Recorrente, contém dispositivos pertinentes que devem ser trazidos à colação, de vez que transitam na mesma linha de entendimento que aborda a observância do direito do contribuinte de forma moderna e em consideração ao Estado de Direito. O Código avança no sentido de estabelecer o equilíbrio de forças das partes no processo de julgamento, como se vê na orientação do art. 7º, como segue: “Art. 7º É assegurada às partes paridade de tratamento em relação ao exercício de direitos e faculdades processuais, aos meios de defesa, aos ônus, aos deveres e à aplicação de sanções processuais, competindo ao juiz zelar pelo efetivo contraditório”. (grifei) Traz reforço ainda o CPC para esse entendimento quando suaviza o posicionamento anterior que atribuía ao contribuinte, de forma quase que exclusiva, o ônus da Fl. 74DF CARF MF 10 prova, e inaugura a possibilidade das partes atuarem em prol de uma instrução colaborativa, a fim de oferecer ao julgador melhores subsídios para proferir a decisão, sem que se faça uso da regra do ônus da prova de forma unilateral. Este novo procedimento está explicitado no § 1º, do art. 373, da seguinte forma: § 1o Nos casos previstos em lei ou diante de peculiaridades da causa relacionadas à impossibilidade ou à excessiva dificuldade de cumprir o encargo nos termos do caput ou à maior facilidade de obtenção da prova do fato contrário, poderá o juiz atribuir o ônus da prova de modo diverso, desde que o faça por decisão fundamentada, caso em que deverá dar à parte a oportunidade de se desincumbir do ônus que lhe foi atribuído. De forma semelhante o art. 6º do CPC reforça este entendimento colaborativo ao dizer que “Todos os sujeitos do processo devem cooperar entre si para que se obtenha, em tempo razoável, decisão de mérito justa e efetiva”. CONCLUSÃO Legítima a dedução a título de despesas médicas do valor pago pelo contribuinte, comprovado mediante apresentação de nota fiscal de prestação de serviço ou recibo, este assinado por profissional habilitado, pois tais documentos guardam ao mesmo tempo reconhecimento da prestação de serviços assim como também confirma o seu pagamento. Desnecessária qualquer declaração posterior firmada pelo profissional prestador do serviço, embora apresentadas, porque aqueles comprovantes já cumprem a função legalmente exigida. De considerar plenamente admissível que os comprovantes revestidos das formalidades legais sustentam a condição de valor probante, até prova em contrário, de sua inidoneidade. A contestação da Autoridade Fiscal sobre a validade da documentação comprobatória deve ser apresentada com indícios consistentes e não somente por simples dúvida ou desconfiança. É de acolherse como verdadeira a prova apresentada pelo contribuinte que satisfaça os requisitos previstos na legislação pertinente e, para eventual convicção contrária da Autoridade Lançadora, esta deverá ser posta com fundamentos consistentes que a sustentem legalmente e não subjetivamente. Contudo, como se disse antes, o presente caso restringese a constatação da inexistência de documentação probante das despesas médicas no período a que se refere o Lançamento. A decisão da DRJ aponta como motivação da improcedência da impugnação o fato da absoluta falta de comprovação, nos termos seguinte: Documentação alguma foi apresentada pelo Interessado para afastar a motivação da glosa das despesas médicas de R$ 36.000,00, ou seja, a transferência dos recursos – o efetivo pagamento – aos profissionais prestadores dos serviços. Agora, por ocasião do Recurso Voluntário, o Recorrente apresentou um volume de recibos que somados não atingem o quantitativo de valor utilizado para dedução do imposto, ficando muito aquém do total informado de R$ 36.000,00, como deduzido na DAA. E mais, todos referentes ao ano de 2012, período distinto ao que se refere o Lançamento. Fl. 75DF CARF MF Processo nº 10469.731990/201220 Acórdão n.º 2001000.626 S2C0T1 Fl. 71 11 Somese a isso, que no final do Recurso, no pedido, o Recorrente se manifesta como se estivesse tratando do exercício de 2012, anocalendário de 2011, o que não corresponde ao período do lançamento assim como não corresponde ao período dos recibos juntados nesta fase de julgamento. Assim que, no exame da documentação acostada ao processo, verificase que o Recorrente não apresentou documentação comprobatória das despesas médicas realizada no período correspondente ao anocalendário de 2010, razão porque se faz necessária a manutenção da glosa das despesas médicas na sua totalidade. Por fim, inexiste controvérsia quanto à omissão de rendimentos apontada pela Autoridade Fiscal, porquanto absolutamente não contestada pelo Recorrente, fazendoo reconhecedor do crédito tributário lançado a este título, o que consiste em parte não litigiosa do Lançamento. Por todo o exposto, voto por conhecer do Recurso Voluntário, e no mérito NEGAR PROVIMENTO, mantendose o crédito tributário lançado, na sua integralidade. (assinado digitalmente) Jose Alfredo Duarte Filho Fl. 76DF CARF MF
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