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Numero do processo: 15983.000082/2011-12
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Aug 06 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Tue Sep 08 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2006 a 31/12/2007 IMUNIDADE. ART 14 DO CTN. ART. 55 DA LEI Nº 8.212, DE 1991. ADI 2.028, ADI 2.036, ADI 2.621, ADI 2.228 e RE 566.622/RS. O Supremo Tribunal Federal se manifestou sobre a constitucionalidade do art. 55 da Lei nº 8.212, de 1991. Os aspectos procedimentais, referentes à certificação, à fiscalização e ao controle administrativo das entidades beneficentes, são passíveis de definição em lei ordinária. Os aspectos materiais, que tragam limitações para a obtenção e manutenção do benefício fiscal, devem ser estabelecidos por Lei Complementar, que, até a edição da LC nº 178, de 2021, estavam expressos no 14 do CTN. ENTIDADE BENEFICENTE DE ASSISTÊNCIA SOCIAL. CESSÃO DE MÃO DE OBRA. AFASTAMENTO DA IMUNIDADE POR VIOLAÇÃO DO ART 55, III DA LEI Nº 8.212, DE 1991. IMPOSSIBILIDADE. A imunidade da entidade beneficente não pode ser afastada com base no inciso III do art. 55 da Lei nº 8.212, de 1991. O artigo trata de requisito material para gozo de imunidade e não tem força de Lei Complementar. Inaplicável a intepretação dada pelo Parecer CJ nº 3237, de 2004, que a atividade habitual de cessão de mão de obra viola o inciso III do art. 55 da Lei nº 8.212, de 1991. ENTIDADE BENEFICENTE DE ASSISTÊNCIA SOCIAL. CESSÃO DE MÃO DE OBRA. AFASTAMENTO DA IMUNIDADE POR VIOLAÇÃO DO ART 55, V DA LEI Nº 8.212, DE 1991.VIOLAÇÃO DO ART 29, II DA LEI 12.101, DE 2009. NECESSÁRIA COMPROVAÇÃO DA TRANFERENCIA DE BENEFICIO FISCAL PARA TERCEIROS. A imunidade da entidade beneficente pode ser afastada com base no inciso V do art. 55 da Lei nº 8.212, de 1991, ou o inciso II do art. 29 da Lei nº 12.101, de 2009, a depender do período do fato gerador. Isso porque o requisito contido nos normativos também está presente no art. 14 do CTN, que tem força de Lei Complementar. Não se pode presumir que haja transferência indevida de benefício, no caso da cessão de mão de obra por entidade beneficente. Os requisitos apresentados no Parecer CJ nº 3237, de 2004, e admitido pela Solução de Consulta Cosit nº 10, de 2015 e pela Solução de Consulta nº 144, de 2019, para que se presuma que ocorre a transferência de benefício fiscal concedido à entidade imune, não são suficientes. É ônus da fiscalização apresentar elementos que comprove a existência de conduta ilícita.
Numero da decisão: 2301-012.245
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, dar provimento ao recurso. Vencida a Conselheira Monica Renata Mello Ferreira Stoll que negou provimento ao recurso. Assinado Digitalmente Flavia Lilian Selmer Dias - Relatora Assinado Digitalmente Diogo Cristian Denny - Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Flavia Lilian Selmer Dias, Marcelle Rezende Cota, Monica Renata Mello Ferreira Stoll, Christianne Kandyce Gomes Ferreira de Mendonca, Carlos Eduardo Avila Cabral, Diogo Cristian Denny (Presidente).
Nome do relator: FLAVIA LILIAN SELMER DIAS

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ART 14 DO CTN. ART. 55 DA LEI Nº 8.212, DE 1991. ADI 2.028, ADI 2.036, ADI 2.621, ADI 2.228 e RE 566.622/RS. O Supremo Tribunal Federal se manifestou sobre a constitucionalidade do art. 55 da Lei nº 8.212, de 1991. Os aspectos procedimentais, referentes à certificação, à fiscalização e ao controle administrativo das entidades beneficentes, são passíveis de definição em lei ordinária. Os aspectos materiais, que tragam limitações para a obtenção e manutenção do benefício fiscal, devem ser estabelecidos por Lei Complementar, que, até a edição da LC nº 178, de 2021, estavam expressos no 14 do CTN. ENTIDADE BENEFICENTE DE ASSISTÊNCIA SOCIAL. CESSÃO DE MÃO DE OBRA. AFASTAMENTO DA IMUNIDADE POR VIOLAÇÃO DO ART 55, III DA LEI Nº 8.212, DE 1991. IMPOSSIBILIDADE. A imunidade da entidade beneficente não pode ser afastada com base no inciso III do art. 55 da Lei nº 8.212, de 1991. O artigo trata de requisito material para gozo de imunidade e não tem força de Lei Complementar. Inaplicável a intepretação dada pelo Parecer CJ nº 3237, de 2004, que a atividade habitual de cessão de mão de obra viola o inciso III do art. 55 da Lei nº 8.212, de 1991. ENTIDADE BENEFICENTE DE ASSISTÊNCIA SOCIAL. CESSÃO DE MÃO DE OBRA. AFASTAMENTO DA IMUNIDADE POR VIOLAÇÃO DO ART 55, V DA LEI Nº 8.212, DE 1991.VIOLAÇÃO DO ART 29, II DA LEI 12.101, DE 2009. NECESSÁRIA COMPROVAÇÃO DA TRANFERENCIA DE BENEFICIO FISCAL PARA TERCEIROS. A imunidade da entidade beneficente pode ser afastada com base no inciso V do art. 55 da Lei nº 8.212, de 1991, ou o inciso II do art. 29 da Lei nº Fl. 797DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 2 12.101, de 2009, a depender do período do fato gerador. Isso porque o requisito contido nos normativos também está presente no art. 14 do CTN, que tem força de Lei Complementar. Não se pode presumir que haja transferência indevida de benefício, no caso da cessão de mão de obra por entidade beneficente. Os requisitos apresentados no Parecer CJ nº 3237, de 2004, e admitido pela Solução de Consulta Cosit nº 10, de 2015 e pela Solução de Consulta nº 144, de 2019, para que se presuma que ocorre a transferência de benefício fiscal concedido à entidade imune, não são suficientes. É ônus da fiscalização apresentar elementos que comprove a existência de conduta ilícita. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, dar provimento ao recurso. Vencida a Conselheira Monica Renata Mello Ferreira Stoll que negou provimento ao recurso. Assinado Digitalmente Flavia Lilian Selmer Dias – Relatora Assinado Digitalmente Diogo Cristian Denny – Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Flavia Lilian Selmer Dias, Marcelle Rezende Cota, Monica Renata Mello Ferreira Stoll, Christianne Kandyce Gomes Ferreira de Mendonca, Carlos Eduardo Avila Cabral, Diogo Cristian Denny (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de Recurso Voluntário interposto contra o Acórdão nº 05-35.769, proferido pela Delegacia da Receita Federal de Julgamento – DRJ. A decisão de piso julgou improcedente a Impugnação apresentada contra o AUTO DE INFRAÇÃO da CONTRIBUIÇÃO SOCIAL PREVIDENCIÁRIA – relativa ao período de 01/01/2006 a 31/12/2007. Ao término do procedimento fiscal foram realizados os seguintes lançamentos de crédito tributário, com multa de mora de 24%: Fl. 798DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 3  DEBCAD nº 37.228.201-6 - PATRONAL e GILRAT/SAT – Contribuição Previdenciária a cargo da empresa inclusive a destinada ao financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientais do trabalho, nos termos do art. 22, I e II da Lei nº 8.212, de 1991, no valor de R$ 1.225.042,68.  DEBCAD nº 37.228.200-8 - TERCEIROS - Contribuição Previdenciária sobre as remunerações pagas ou creditadas aos empregados devidas a outros fundos e entidades, no valor de R$ 337.664,95. O relatório da decisão recorrida faz uma síntese dos fatos e motivos que levaram à constituição do crédito tributário de oficio: FUNDAMENTOS DO LANÇAMENTO FISCAL Informa que a entidade goza da isenção do pagamento das contribuições previdenciárias, encontrando-se pendente de decisão o último requerimento de renovação/manutenção do benefício (PT n. 71010.001902/2007-77 – COMPROT n.16587.000117/2008-45 em 16/04/08). Menciona o artigo 32 da Lei 12.101/09 como fundamento legal da competência do Auditor Fiscal da Receita Federal do Brasil (AFRFB) para realizar a auditoria fiscal empreendida e informa que; “ ... iniciei o procedimento fiscal e verifiquei que mesma, quando do EFETIVO EXERCÍCIO da atividade constante de seu Estatuto, não comprovou ter preenchido os requisitos necessários à manutenção do direito à citada isenção no período de 01/06 a 13/07 conforme abaixo relacionado”. Esclarece, então, que teria analisado a situação do contribuinte com fundamento na “legislação de regência”: 7. Para fins de constituição do crédito tributário lançado neste Auto de Infração, foram observados os pressupostos contidos nas legislações de regência da matéria no período da constituição do crédito tributário (01/2006 a 13/2007) a saber: Aplicação das regras contidas no artigo 55 da Lei 8.212/91 (vigente à época e atualmente revogado pela Lei n. 12.101/2009) que estabelecia que a entidade beneficente de assistência social estaria isenta das contribuições de que tratavam os artigos 22 e 23 daquela mesma lei, desde que fossem atendidos cumulativamente aos seguintes requisitos (transcrição "in verbis")(...). Transcreve os incisos I a V do artigo 55 da Lei 8.212/91. E, na sequência, aduz que analisou os livros e demonstrativos contábeis, constatando: (...) verifiquei que o CENTRO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL CAMP - GUARUJÁ deixou de atender aos requisitos do supramencionado artigo 29 Fl. 799DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 4 "CAPUT" da Lei n. 12.101, necessários à manutenção benefício da isenção das contribuições previdenciárias (transcrição "in verbis"): Transcreve, então, parte do artigo 29 da Lei 12.101 (caput e inciso II), para destacar, quanto ao objeto social do Contribuinte: “Art. 2º. O Centro de Formação Profissional CAMP - Guarujá, tem por finalidade Social a Educação, Formação e Capacitação Humano-Profissional de crianças adolescentes e jovens". Portanto com base no referido Estatuto, a atividade exercida pelo Centro de Formação deveria ser de natureza EXCLUSIVAMENTE social; isto, prestar serviços de cunho assistencial ou melhor dizer, filantrópico. Passa, então, a caracterizar o que seja “assistência social”, valendo-se das disposições da Lei 9.742/93, nos seus artigos primeiro ao quarto e 203. Quanto à relação Contribuinte/Menor Assistido/Empresa Contratante ressalva que se trataria, na verdade de cessão de mão-de-obra: 16. Conforme acima exposto, a empresa fiscalizada atua em dois momentos distintos a saber: na primeira fase denominada "educação", formando os adolescentes e inserindo-os no mercado de trabalho, e posteriormente, na segunda fase por ela denominada como "filantropia": quando esta firma contratos através de cessão de mão-de-obra dos referidos adolescentes com empresas interessadas que pagam a entidade pelos serviços prestados pelos seus aprendizes, inserindo os mesmos no mercado de trabalho. Relata que, o Contribuinte, em face da mão-de-obra cedida, é remunerado por uma “taxa de administração” de 70% , “... calculada sobre o valor dos salários pagos aos adolescentes aprendizes”, concluindo: Entendo que tal percentual constitui-se elevado e mormente, em desacordo com a taxa corrente praticada no mercado cobrada pelas empresas cujo valor calculado para efeito de taxa de administração não alcança 70% sobre a prestação de serviços eventualmente executados nos contratos de CESSÃO DE MÃO-DE-OBRA. Não estaria, assim, ocorrendo a “integração ao mercado de trabalho”, pois: 18. Neste sentido, verifica-se que os adolescentes cedidos pela Entidade para prestar serviços ao tomador não estão sendo integrados ao mercado de trabalho em razão da cessão de mão-de-obra pelo simples motivo de que aqueles já são empregados da entidade cessionária, e portanto, encontrando-se os mesmos integrados ao mercado de trabalho. Conclui, a respeito: Nota-se que o maior beneficiário da isenção previdenciária neste caso, é a empresa tomadora de serviços, que contrata a cessão de mão-de-obra dos adolescentes que efetivamente prestam serviços a preços menores (o Fl. 800DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 5 salário-mínimo vigente na época da contratação) e, consequentemente, não o público alvo da assistência social (no caso em tela, os adolescentes carentes). A cessão onerosa de mão-de-obra, por parte das entidades isentas de contribuição para a seguridade social, deve ser encarada com mais restrição até do que outras atividades lucrativas que estas entidades venham a realizar, uma vez que o verdadeiro beneficiado nesta operação é a empresa tomadora de serviços, que nada tem de assistencial. Tal atividade – realização de cessão de mão-de-obra – não estaria incluída dentre as previstas no inciso III do artigo 203 da Constituição Federal (CF). E, tratando-se de cessão de mão-de-obra, haveria absoluta incompatibilidade com a assistência social: 21. Caso se admitisse que a cessão remunerada de mão-de-obra cumpre o objetivo de integração ao mercado de trabalho, toda e qualquer empresa deste ramo de serviços, mesmo voltada para a obtenção de lucro, teria direito à isenção das contribuições para a seguridade social, o que, certamente, não foi intenção do legislador. Esta situação fere, frontalmente, as regras constitucionais e infraconstitucionais de regência da assistência social. (...). 23. Convém elucidar que este objetivo da assistência social - integração ao mercado de trabalho - pode assumir outras formas de realização, mas é certo que a cessão de mão-de-obra nos termos em que é executada na prática, não configura em nenhuma hipótese, a promoção de integração ao mercado de trabalho. (...). ... Somente poderão ser apropriados como assistenciais, conforme o caso, os gastos despendidos na formação profissional desenvolvida pela entidade, caso tenha sido direcionada a pessoas carentes. A cessão de mão-de-obra feita POSTERIORMENTE somente pode ser considerada como atividade voltada para a obtenção de receita, portanto alheia à atividade assistencial da entidade. 24. Conforme salientado, a cessão onerosa de mão-de-obra é um exemplo de atividade que não pode ser permitida às entidades beneficentes de assistência social que gozem de isenção previdenciária. Ao menos não de forma livre, sob pena de extensão da garantia prevista no art. 195, § 7º da Constituição, a toda e qualquer empresa que queira contratar mão-de-obra terceirizada das entidades beneficentes de assistência social. O lançamento fiscal, admite, no entanto, a ocorrência de situações especiais, nas quais se poderia compatibilizar assistência social e cessão onerosa de mão-de- obra: Fl. 801DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 6 Entretanto, é possível estabelecer, a partir de um esforço hermenêutico, situações muito especiais em que a cessão onerosa de mão-de-obra pode ser feita sem retirar a natureza beneficente de assistência social da entidade. 26. Tais hipóteses passam necessariamente pela verificação de dois critérios, a saber: caráter acidental da cessão onerosa de mão-de-obra em face das atividades desenvolvidas pela entidade beneficente; e mínima representatividade quantitativa de empregados cedidos em relação ao número de empregados da entidade beneficente [destaques no original]. Não seria esta a situação do Contribuinte, pois: 28. Insta salientar que a atividade de prestação de serviços através da cessão de mão-de-obra prepondera nas receitas e nas atividades da Entidade, bem como a cessão de mão-de-obra é uma atividade permanente da entidade e não eventual. Estaria, por estas razões, caracterizado o caráter comercial e não assistencial das atividades do Contribuinte. Ademais, o Contribuinte também não teria comprovado o atendimento dos requisitos legais, quanto à regular realização de atividades educacionais: 33. No que tange a prestação de serviços assistenciais na formação acadêmica prestada aos adolescentes, observa-se que o sujeito passivo não comprovou durante o curso da ação fiscal, estar habilitado a ministrar tal formação educacional perante os órgãos representativos pertinentes, inferindo-se portanto, que a prática desta atividade por ele praticada não está fundamentada legalmente. Dessa forma demonstra tão somente que, no momento da inserção dos adolescentes assistidos no mercado de trabalho, o mesmo atua em consonância com as regras previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA e as disposições aplicáveis para o trabalho do menor aprendiz. Ainda sob o aspecto da educação, ressalva que, no caso concreto: 37. Verifica-se então que aos destinatários da educação escolar profissional, é garantido o direito de obter o devido certificado de conclusão de curso de natureza escolar profissional de acordo com as regras estabelecidas pela referida Lei. 38. Do mesmo modo, não há previsão legal que permita que a conclusão do curso seja efetivada nas dependências de empresas "interessadas" na formação dos educandos. Assim, conclui que: 39. Mediante as observações acima pormenorizadamente apontadas no período de 01/2006 a 13/2007; a falta de comprovação do efetivo Fl. 802DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 7 cumprimento das finalidades estipuladas no Estatuto bem como as exigidas para o regular exercício de atividade filantrópica sob uma visão moderna do conceito de filantropia, o qual entende que: "Considera-se como instituição filantrópica aquela que aplica recursos financeiros com o fim primordial e único de executar tarefas complementares bem como suplementares ao Estado, e para tal, exigem a realização de avaliações continuadas; a construção de indicadores; exibição de resultados; transparência além do estabelecimento de alianças, parcerias, redes intersetoriais e alinhamentos estratégicos” (in "Uma nova filantropia na sociedade brasileira: O investimento Social Privado”) - fonte bibliográfica: IDIS - Instituto para o Desenvolvimento do investimento Social - Marcos Kisil. Concluindo, o Relatório Fiscal informa: 1. Quanto aos fatos geradores considerados: “prestação de serviços remunerados por segurados empregados”. 2. O lançamento fiscal compõe-se de dois levantamentos: • “FG – FP EMPREGADOS”: relativo à remuneração constante de folhas de pagamento e paga a empregados. • “FO – FOLHA PAGTO OBRA”: relativo à mão-de-obra empregada na obra de construção civil matriculada sob o nº. 50.076.05348/76,. também constante de folhas de pagamento. 3. Os levantamentos foram enquadrados como “não declarados em GFIP” em razão do indevido enquadramento como “... empresa enquadrada tal como entidade filantrópica ...”. 4. Foi aplicada a “multa de mora de 24%” em ambos os levantamentos. A contribuinte foi intimada do lançamento do crédito tributário e, tempestivamente, apresentou Impugnação nos seguintes termos, conforme relatório da decisão recorrida: FUNDAMENTOS DA IMPUGNAÇÃO Argumenta que suas atividades estariam de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente: Na realização de seus objetivos institucionais supra transcritos, a Requerida atende os menores carentes de 14 a 16 anos incompletos, promovendo curso de formação pessoal e profissional e, posteriormente, encaminhando- os a empresas conveniadas, nas quais os jovens, na condição de aprendizes, desempenham funções administrativas, tendo todos os direitos trabalhistas e previdenciários assegurados, em consonância com o artigo 68 do Estatuto da Criança e do Adolescente, que dispõe o quanto segue: Fl. 803DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 8 Art. 68. O programa social que tenha por base o trabalho educativo, sob responsabilidade de entidade governamental ou não-governamental sem fins lucrativos, deverá assegurar ao adolescente que dele participe condições de capacitação para o exercício de atividade regular remunerada. § 1º Entende-se por trabalho educativo a atividade laboral em que as exigências pedagógicas relativas ao desenvolvimento pessoal e social do educando prevalecem sobre o aspecto produtivo. § 2º A remuneração que o adolescente recebe pelo trabalho efetuado ou a participação na venda dos produtos de seu trabalho não desfigura o caráter educativo. Quanto ao custeio dos serviços que presta, ressalva: E vale ressaltar, ainda, que todos os serviços oferecidos aos jovens carentes são totalmente GRATUITOS. O jovem não precisa contribuir pecuniariamente e nem precisa devolver futuramente os valores auferidos à Requerida. Não se trata de um financiamento ou empréstimo. A Requerida arca com todas as despesas, de modo que o atendimento aos jovens e a promoção da capacitação pessoal e profissional dos mesmos é prestado de forma inteiramente gratuita. O valor auferido é revertido integralmente à Requerida, de forma que a mesma continue a exercer suas atividades filantrópicas [destaques no original]. O Contribuinte seria detentor de Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social no período fiscalizado, pois: Nos referidos exercícios, as atividades da Requerida estavam amparadas, inicialmente, pelo "Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social" com validade de 20/09/2004 a 19/09/2007 (doc. 03), e, subsequentemente, pelo Certificado cuja validade se estendeu de 16/08/2007 a 15/08/2010 (doc. 04). Presentemente, estaria em situação regular, quanto ao “CEBAS”, já que: Sempre preocupada em desempenhar suas atividades em conformidade com os ditames legais, a Requerida, em 29/07/2010, protocolou pedido de renovação do seu Certificado de Entidade Beneficente, cuja validade expiraria no mês seguinte (doc. 05). No entanto, tal solicitação, apresentada tempestivamente pela Requerida, ainda se encontra em análise pela autoridade competente. Importa esclarecer que o fato de a autoridade ainda não ter se manifestado sobre o pedido de renovação apresentado pela Requerida não torna suas atividades atualmente em curso irregulares, pelo contrário, os artigos 24, § 2º , da Lei n° 12.101/2009, e 8º do Decreto n° 7.237/2010 determinam que o protocolo tempestivo do pedido de renovação garante a regularidade da Fl. 804DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 9 certificação até o julgamento final do respectivo processo, conforme se verifica dos trechos abaixo transcritos: (...). Quanto à natureza dos serviços que presta à sociedade, ressalva que: No tocante ao caráter assistencial das atividades desempenhadas pela Requerida, cumpre trazer à tona o brilhante voto proferido pelo Exmo. Ministro Presidente do Tribunal Superior do Trabalho no julgamento do Recurso de Revista n° 10603/20020, que ratificou o entendimento de que a CAMP é entidade de assistência social, como se vê de seus próprios termos, In verbis: O redator do acórdão, ministro Vantuil Abdala, presidente do TST, ratificou decisão de segundo grau na qual se destaca que o amparo ao menor carente 'não pode ser considerado como afronta aos comandos legais. Não há exploração da força de trabalho, mas, sim, a possibilidade do trabalho- escola, possibilitando a oportunidade para melhor qualidade de vida e educação, com o afastamento desse menor da ociosidade e marginalidade, registrou o TRT-SP nessa decisão. Ao que acrescenta ementa de Acórdão da 2a . Turma do Tribunal Regional Federal da Quarta região: Também há que se destacar o entendimento da 2a Turma do Tribunal Regional Federal da Quarta Região quanto às atividades que devem ser consideradas assistenciais, entre as quais é plenamente viável encaixar aquelas desempenhadas pela Requerida: TRIBUTÁRIO. CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. IMUNIDADE DO ART 195, § 7º DA CONSTITUIÇÃO. ENTIDADE EDUCACIONAL. VIABILIDADE. REQUISITOS DO ART. 55 DA LEI Nº 8.212/91. LEI N 9.732/98. SUSPENSÃO PELO STF. - A qualificação da entidade beneficente como de "assistência social", para os fins do art. 195, § 7º, da CF, pode gerar alguma dúvida em face da tríade estabelecida pela Constituição no regramento da Seguridade Social, dividida entre saúde, previdência e assistência. - Deve-se notar, contudo, que o que caracteriza a assistência social, conforme o art. 203 da Constituição, é a prestação a quem dela necessitar, independentemente de contribuição, de serviços ou benefícios que tenham por objetivos a proteção à família, à maternidade, à infância, à adolescência e à velhice, o amparo às crianças e adolescentes carentes, a promoção da integração ao mercado de trabalho, a habilitação e reabilitação de pessoas portadoras de deficiência e a promoção de sua integração à vida comunitária ou, ainda, a subsistência da pessoa portadora de deficiência e do idoso carentes. Nada obsta, pois, que, guardados tais requisitos, se considerem como de assistência social, eventuais serviços de saúde, como o atendimento hospitalar prestado gratuitamente a idosos, crianças e adolescentes carentes pessoas por entidade sem fins lucrativos, ou mesmo de educação, Fl. 805DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 10 eis que diz respeito à proteção à infância e promove a integração ao mercado de trabalho. Atuar no sentido da proteção à infância é, dentre outras coisas, assegurar às mesmas saúde, educação, integridade física e psicológica. Atuar no sentido de promover a integração ao mercado de trabalho é educar e capacitar, desde cedo - Preenchidos os requisitos do art. 55 da Lei nº 8.212/91, cuja constitucionalidade não foi questionada. Quanto aos convênios firmados com as empresas contratantes dos menores assistidos pelo Contribuinte, entende que: Para concretizar este trabalho, a Requerida celebra "Convênios de Cooperação Sócio Educativa" com as empresas conveniadas, e estas a remuneram pelo fornecimento da mão-de-obra, pagando a ela uma taxa de 70% (setenta por cento) sobre o salário pago aos aprendizes, verba esta que é exclusivamente direcionada à manutenção da Requerida, de forma que ela continue a desenvolver as atividades assistenciais acima mencionadas, conforme se extrai dos Balanços Patrimoniais dos exercícios questionados pela autoridade fiscal (doc. 06). Uma vez inseridos no dia-a-dia das empresas conveniadas, os jovens continuam sendo amplamente assistidos pela Requerida, sobretudo no que tange à garantia dos seus direitos. Ou seja, os serviços assistenciais prestados pela Requerida não terminam quando entra em cena a empresa conveniada, pelo contrário, toda a relação do jovem com esta e as atividades por ele realizadas em seus estabelecimentos são constantemente fiscalizadas Por isso, estaria atuando com o atendimento dos requisitos legais que lhe asseguraria a exoneração da obrigação de recolher contribuições previdenciárias patronais, ponderando que: Esta vinculação dos resultados financeiros aos objetivos institucionais cumpre a legislação aplicável ao caso, e, entre outras condições da Requerida, justifica a concessão e manutenção do benefício de isenção do pagamento de contribuições previdenciárias, porquanto preenchidos os requisitos dos artigos 55 da Lei n° 8.212/1991 e 29 da Lei n° 12.101/2009, que assim dispõe: [transcreve o artigo 29 da Lei 12.101/09]. Quanto às atividades educacionais realizadas com os menores assistidos esclarece: Conforme mencionado, previamente à inserção no mercado de trabalho, a Requerida promove uma ampla formação dos adolescentes por meio de cursos pedagógicos que abrangem disciplinas de Educação Emocional, Aprendiz Cidadão, Rotinas Administrativas e Atendimento, Informática, Datilografia, Comunicação, e outros cursos de aperfeiçoamento, como se vê de seus currículos pedagógicos que seguem em anexo (doc. 07). Fl. 806DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 11 Todos os cursos retro indicados são ministrados com o intuito de promover a assistência social com vistas a colaborar com a formação educacional e profissional dos adolescentes atendidos pela Requerida, além de serem patrocinados com recursos próprios oriundos dos convênios celebrados com empresas sérias e conceituadas no mercado [destaques no original]. E, quanto à cobrança de “taxa de administração”, justifica: Assim, a única forma encontrada pela Requerida, e por outras entidades beneficentes, de garantir que os jovens por ela assistidos tenham uma chance real de inserção no mercado de trabalho é por meio da celebração de convênios com empresas sérias (doc. 08) e visivelmente interessadas em seu desenvolvimento social e profissional. E ainda, a única forma de cumprir o exposto no parágrafo supra sem que a Requerida venha a passar por dificuldades financeiras e sem que ela seja obrigada a reduzir a qualidade dos serviços assistenciais prestados é cobrar das aludidas empresas conveniadas uma quantia módica pelo fornecimento de mãode-obra. E acrescenta: A própria jurisprudência entende que não há qualquer limitação à obtenção de renda por entidades beneficentes, as quais podem usufruir do benefício de isenção previdenciária, desde que a referida renda seja obtida licitamente e aplicada integralmente à manutenção de suas atividades assistenciais, tal como se observa dos seguintes trechos dos votos dos Ministros Celso de Mello e Marco Aurélio do Supremo Tribunal Federal, ambos proferidos nos autos do recurso extraordinário n° 210.251-2: "É certo que a instituição de assistência social pode prestar outros serviços destinados a subsidiar-lhe, financeiramente, a ação assistencial..." "Não posso assentar que, havendo a comercialização de certo produto, sendo o objetivo maior a manutenção da própria entidade, ocorra o afastamento da imunidade." Mesmo porque, se a obtenção de renda pela entidade beneficente fosse um empecilho à obtenção do benefício de isenção previdenciária, o dispositivo que regulamenta o referido benefício não exigiria, em seu inciso II, que a renda obtida pela entidade seja aplicada "integralmente no território nacional, na manutenção e desenvolvimento de seus objetivos institucionais." À caracterização da “cessão onerosa de mão-de-obra” opõem o argumento de que tal atividade estaria conforme a “Lei da Aprendizagem” e a CLT: ... Ocorre que a relação da Requerida com as empresas que recebem estes jovens vai além de uma simples cessão de mão-de-obra, o que existe entre elas são convênios totalmente fundamentados na Lei da Aprendizagem, e Fl. 807DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 12 nos artigos 429 e 430, inciso II, da CLT, que proclamam o quanto segue: [transcreve os artigos 429 e 430 da CLT]. Para corroborar esta assertiva, destaca obrigações da “Conveniente” nos respectivos convênios, concluindo, a respeito: Tem-se, portanto, que os convênios celebrados pela Requerida cumprem rigorosamente o disposto na legislação aplicável, e visam exclusivamente a capacitação profissional dos jovens aprendizes, não podendo, por isso, ser considerados meras cessões onerosas de mão-de-obra. Quanto à habilitação para prestar assistência educacional aos menores, defende que: Ocorre que as atividades desenvolvidas pela entidade no sentido de prover formação acadêmica aos jovens por ela assistidos enquadram-se na categoria de Formação Técnico-Profissional Metódica, que não possui nenhuma ligação com o Ministério da Educação, sendo, portanto, desnecessária a obtenção de qualquer habilitação perante este órgão. A Formação Técnico-Profissional Metódica está regulamentada pelo Decreto n° 5.598/2005, segundo o qual são entidades qualificadas para a prestação de serviços relacionados a este tipo de formação os Serviços Nacionais de Aprendizagem, as Escolas Técnicas, e as entidades sem fins lucrativos, que tenham por objetivos a assistência ao adolescente e a educação profissional, desde que registradas no Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, conforme se extrai do dispositivo abaixo transcrito [transcreve o artigo 8º. do Decreto 5.598/05]: (...). A respeito do que afirma estar regularmente registrada no Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, tanto presentemente, quanto na época a que se refere o lançamento fiscal e conclui: Assim, não é razoável exigir-se da Requerida a habilitação prevista na Lei n° 9.394/1996, porquanto este diploma legal regula uma modalidade de formação acadêmica denominada Educação Nacional, que não se confunde com a modalidade desempenhada pela Requerida, a qual se denomina Formação Técnico-Profissional Metódica e tem sua previsão legal no Decreto SP CAMPINAS DRJ Fl. 504 Cópia autenticada administrativamente Processo 15983.000082/2011-12 Acórdão n.º 05-35.769 DRJ/CPS Fls. 483 11 supramencionado, cujos requisitos de habilitação foram plenamente preenchidos pela Requerida. Requer o cancelamento dos Autos de Infrações e a “...produção de todas as provas em direito admitidas, inclusive provas testemunhais e periciais, caso necessário, no intuito de corroborar todo o alegado”. O colegiado da primeira instância, por unanimidade de votos, manteve o lançamento do crédito tributário, conforme ementa transcrita abaixo: Fl. 808DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 13 ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2006 a 31/12/2007 CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS PATRONAIS. ENTIDADES ISENTAS. ENTIDADE BENEFICENTE DE ASSISTÊNCIA SOCIAL NO GOZO DA ISENÇÃO DE QUE TRATAVA A LEI 8.212/91, ARTIGO 55. Tratando-se de isenção de contribuições previdenciárias, tal renúncia apenas se justifica na medida em que a entidade beneficiária sem fins lucrativos realize atividades que, em princípio, caberiam ao Estado, evidentemente voltadas às pessoas visadas pela assistência social, segundo a definição legal. É por isso que merece restrições a realização de atividades que não possam ser diretamente enquadradas neste contexto, como a cessão de mão-de-obra ou terceirização, mormente quando se trata da atividade preponderante do Contribuinte. VIGÊNCIA DO PARECER/CJ 3.272/04. A análise da possibilidade de entidades beneficentes de assistência social, que pratiquem a cessão de mão-de-obra, auferirem o benefício, então estatuído pelo artigo 55 da Lei 8.212/91, foi objeto do Parecer/CJ 3.272/04. PRODUÇÃO DE PROVAS. Quanto à realização de prova testemunhal e pericial, não foram suscitadas questões ou motivos que as justificassem (inciso IV do artigo 16 do Decreto 70.235/72). Quanto à prova pericial, não foram cumpridos os requisitos legais pertinentes, incidindo, por isso, os efeitos do parágrafo primeiro do artigo 16 e, quanto ao protesto pela posterior juntada de documentos, ressalvo a regra do parágrafo quarto do mesmo artigo 16. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido A impugnante tomou ciência do Acordão de julgamento de primeira instância em 12/12/2011. Em 10/01/2012 apresentou Recurso Voluntário reafirmando os mesmos motivos e fatos apresentados na Impugnação. O recurso apresentado foi julgado através do Acordão nº 2301-010.555, de 13/06/2023, e decidiu, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso, conforme ementa e dispositivo abaixo transcritos: Ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2006 a 31/12/2007 ENTIDADE BENEFICENTE DE ASSISTÊNCIA SOCIAL. PROGRAMA DE APRENDIZAGEM. FORMAÇÃO TÉCNICO PROFISSIONAL METÓDICA. CONTRATAÇÃO DE APRENDIZES. IMUNIDADE. CESSÃO DE MÃO DE OBRA. Fl. 809DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 14 A imunidade de contribuições previdenciárias incidentes sobre a remuneração prevista no § 7º do art. 195 da Constituição Federal se estende as receitas recebidas nos contratos de cessão de mão-de-obra feitos por entidade beneficente de assistência social a outras tomadoras conveniadas, desde que o valor aferido seja integralmente utilizado na atividade social. Dispositivo Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso. Ao tomar conhecimento da decisão, a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional apresentou Recurso Especial (fl. 659/686) pretendendo rediscutir a matéria: Abrangência da isenção/imunidade sobre as receitas decorrentes de cessão de mão-de-obra por entidade beneficente de assistência social. O Recurso Especial teve seguimento, conforme despacho de 21/09/2023 às folhas 690/699). segundo o qual após a edição da Lei Complementar nº 187, de 2021, as receitas auferidas nos contratos de cessão de mão-de-obra estão abrangidas pela isenção/imunidade da entidade. Nos paradigmas, o entendimento foi no sentido de que a cessão de mão-de-obra da forma como promovida pelas entidades desvirtua o seu caráter de entidade beneficente, não fazendo jus à imunidade tributária. Ambos os paradigmas foram proferidos quando já vigente a Lei Complementar nº 187, de 2021 e, ainda assim, optaram por aplicar a legislação vigente à época dos fatos geradores, afastando a isenção das receitas decorrentes dos contratos de cessão de mão-de-obra firmados pelas autuadas. A cessão onerosa de mão-de-obra praticada como verdadeira atividade-fim por entidades que se pretendem beneficentes de assistência social, em regra, desvirtua a promoção de assistência social beneficente. É facultado às entidades beneficentes mesclar a prestação de serviços, fazendo-o gratuitamente aos menos favorecidos e de forma onerosa aos que disponham de meios para obter tais serviços, não há como limitar, a priori, a realização de cessão de mão-de-obra por estas entidades. Contudo, também se revela óbvio que estas atividades extras, alheias às finalidades assistenciais das entidades, não podem assumir proporções, nem formas, que desvirtuem a própria natureza da entidade beneficente. Na hipótese em testilha, ao fim e ao cabo, a atividade fim da autuada, ao invés de ser a benemerência, transmudou-se na cessão de mão-de-obra desonerada em Fl. 810DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 15 virtude da imunidade da cota patronal, clara situação em que se distorce o propósito da constitucional de imunidade. Não se pode perder de vista que é a imunidade das contribuições para a seguridade social que atrai as tomadoras de serviços a contratar com as entidades beneficentes, em prejuízo das demais empresas do ramo de terceirização de serviços que pagam contribuição para a seguridade social e não podem oferecer o mesmo preço, o que subverte a finalidade da regra de imunidade. No presente caso, a entidade, de forma preponderante, não utilizou os seus recursos no desenvolvimento de seus objetivos institucionais e sim no cumprimento de tarefas inerentes a outras pessoas jurídicas não detentoras da referida imunidade, a partir de formalização de contratos/convênios de prestação de serviços mediante cessão de mão-de-obra, o que, como já dito, viola a determinação legal e impõe o a cassação da imunidade. Nos termos do Parecer da Consultoria Jurídica do MPAS de nº. 3.272/2004, somente poderão realizar cessão de mão-de-obra, sem que ocorra a suspensão (outrora cancelamento) da “isenção previdenciária”, as entidades que atendam dois critérios, a saber: caráter acidental da cessão onerosa de mão-de-obra em face das atividades desenvolvidas pela entidade beneficente; e mínima representatividade quantitativa de empregados cedidos em relação ao número de empregados da entidade beneficente. Segundo o parecer, a realização de cessão de mão-de-obra pelas entidades assistenciais tem que ser EVENTUAL, NÃO PREJUDICIAL, TEMPORÁRIA, SUBSIDIÁRIA, ACIDENTAL. Nada disso ocorreu no caso em tela, como já evidenciado pelo relato da fiscalização em diversas passagens transcritas neste recurso e, destaque-se, em nenhum momento contestado pela entidade recorrida ou mesmo pelo acórdão ora atacado. Examinadas as atividades efetivamente exercidas pela entidade autuada, a autoridade lançadora demonstra que durante todo o período fiscalizado a entidade cedeu habitualmente mão-de-obra sem atender aos critérios de caráter acidental da cessão onerosa de mão de obra pela entidade beneficente e de mínima representatividade quantitativa de empregados. Assim, tendo em vista que a contribuinte, por se dedicar precipuamente a atividades que estão fora o campo de atuação traçado pelo legislador constitucional e ordinário, não pode seguir usufruindo da desoneração da cota patronal previdenciária, pugna a Fazenda Nacional pela manutenção do lançamento. A Entidade tomou ciência do Recurso Especial da Fazenda Nacional e do despacho que o admitiu em 07/12/2023 (fl. 704) e, em 14/12/2023 (fl. 706) apresentou contrarrazões (fls.708/739): Das contrarrazões da Entidade Fl. 811DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 16 Que a Recorrente indicou os acórdãos paradigma sem instruir o recurso com a “cópia do inteiro teor dos acórdãos indicados como paradigma”, em cabal afronta às previsões contidas nos §§ 9º e 10 do art. 67 do RICARF, inadmissão que se requer em caráter preliminar O presente processo administrativo também deve ser imediatamente extinto, uma vez que o contribuinte ajuizou ação declaratória obtendo o reconhecimento de sua imunidade perante o âmbito judicial, atraindo, portanto, previsão contida no parágrafo único do art. 38 da Lei nº 6.830, de 22 de setembro de 1980 (“Lei de Execuções Fiscais”). Referimo-nos ao processo nº 5000199-74.2016.4.03.6104, que tramitou perante a 2ª Vara Federal de Santos/SP, já transitado em julgado conforme certidão de inteiro teor ora anexada, da qual se extrai que o feito transitou em julgado em 22/03/21, não tendo a Fazenda Nacional ingressado no biênio seguinte com nenhuma ação rescisória estabilizando a decisão judicial em questão em definitivo. Apesar de constar no art. 195, § 7.º da Constituição de 1988 o termo “isenções”, trata-se de imunidade e como tal deve ser tratado o dispositivo constitucional. Traz considerações a respeito do tipo de lei que seria necessário para tratar as questões relativas à imunidade, para concluir que seria necessário lei complementar. Por fim, requer que o recurso não seja conhecido e que se reconheça a renúncia da discussão administrativa face a existência de decisão judicial transitada e julgado em favor da Entidade O Recurso Especial da PGFN foi apreciado pela Câmara Superior de Recurso Fiscal que, através do Acordão nº 9202-011.485, de 18/09/2024, e determinou novo julgamento do Recurso Voluntário, conforme ementa e dispositivo abaixo transcritos: Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Data do fato gerador: 01/01/2006, 31/12/2007 ENTIDADE BENEFICENTE DE ASSISTÊNCIA SOCIAL. CESSÃO DE MÃO-DE-OBRA. RETROAÇÃO DA LEI TRIBUTÁRIA. ARTIGO 106, I, DO CTN. NÃO CARACTERIZAÇÃO. O art. 30 da Lei Complementar nº 187, de 16 de dezembro de 2021, não veicula norma expressamente interpretativa da legislação pretérita, mas regra jurídica que não existia na revogada Lei n° 12.101, de 2009, para se admitir o desenvolvimento de atividade que gere recursos, inclusive com cessão de mão- de-obra Dispositivo: Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional. Vencidos os conselheiros Rodrigo Monteiro Fl. 812DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 17 Loureiro Amorim, Leonam Rocha de Medeiros, Fernanda Melo Leal e Ludmila Mara Monteiro de Oliveira, que não conheciam. No mérito, por unanimidade de votos, acordam em dar-lhe parcial provimento para afastar a retroatividade da Lei Complementar 187 com retorno dos autos ao colegiado a quo, para analisar, à luz do arcabouço normativo vigente à época dos fatos geradores, observadas as inconstitucionalidades já definitivamente pronunciadas, o descumprimento dos requisitos elencados pela autoridade fiscal como necessários para o gozo da isenção, bem como, as alegações recursais não enfrentadas no acórdão recorrido. É o relatório. VOTO Conselheira Flavia Lilian Selmer Dias, Relatora ADMISSÃO DO RECURSO O Recurso Voluntário foi tempestivamente apresentado e será conhecido. MÉRITO Cessão de mão de obra por Entidade Beneficente A lide é a manutenção da imunidade por entidade beneficente que contrata empregados e os cede para trabalhar em outra pessoa jurídica não imune. Segundo a Fiscalização, o procedimento seria incompatível com a finalidade social da recorrente, pois a cessão de mão-de-obra seria atividade de natureza “comercial”, deste modo desatenderia os requisitos de isenção/imunidade dados pela Lei nº 8.742, de 1993. Já a recorrente alega que cumpria todos os requisitos exigidos pela lei para o gozo do benefício. Afirma que não havia incompatibilidade entre suas atividades, cessão de mão de obra dos menores e seu enquadramento. Argumenta que as receitas decorrentes dos convênios firmados eram necessárias à realização de sua finalidade social e totalmente utilizada nesta atividade. Aduz ainda que, o fato de utilizar integralmente os valores auferidos com os convênios em sua atividade social, ainda que decorrentes de atividades com caráter “econômico”, possibilitaria manter a isenção/imunidade sobre tais ganhos. Finalmente rechaça a utilização do termo cessão de mão-de-obra para sua atividade pois alega que constitui na realidade de parte de sua atividade social, que é a inserção de jovens carentes no mercado de trabalho. Fazendo uma pesquisa de como o tema da cessão de mão de obra por entidade imune foi decidido mais recentemente por este Conselho, é possível distinguir duas correntes. Fl. 813DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 18 A primeira decide pelo afastamento da imunidade e procedência do lançamento e, para isso, se pauta nos motivos apontados pelo Parecer CJ/MPS nº 3.272 de 15/07/2004, que trata da cessão de mão de obra de entidade beneficente nos termos do art. 55 da Lei nº 8.212, de 1991, da Solução de Consulta Cosit nº 10, de 2015, que trata da cessão de mão de obra de menor e portadores de deficiência considerando a publicação da Lei nº 12.101, de 2009 e da Solução de Consulta Cosit nº 144, de 2019, que trata da cessão de mão de obra de menor aprendiz, também após a publicação da Lei nº 12.101, de 2009. Todos entendem que ocorre a perda da imunidade quando o exercício da cessão de mão de obra ocorre de forma não acidental, justificando o lançamento de oficio das contribuições previdenciárias. Cito como precedentes os Acórdãos nº 2401-011.404, de 03/10/2023, 2101- 002.994, de 28/01/2025, 2302-004.123, de 09/09/2025 e 2201-011.998. Acordão nº 2401-011.404, de 03/10/2023 – voto de qualidade ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2018 a 31/12/2019 ENTIDADE BENEFICENTE DE ASSISTÊNCIA SOCIAL. CONTRATAÇÃO INDIRETA DE APRENDIZ. CESSÃO DE MÃO-DEOBRA. IMUNIDADE. DESCARACTERIZAÇÃO. A alocação de aprendizes em empresa tomadora dos serviços compromete a imunidade da entidade beneficente de assistência social. ENTIDADE BENEFICENTE DE ASSISTÊNCIA SOCIAL. CESSÃO DE MÃO-DE- OBRA. RETROAÇÃO DA LEI TRIBUTÁRIA. ARTIGO 106, I, DO CTN. NÃO CARACTERIZAÇÃO. O art. 30 da Lei Complementar nº 187, de 16 de dezembro de 2021, não veicula norma expressamente interpretativa da legislação pretérita, mas regra jurídica que não existia na revogada Lei n° 12.101, de 2009, para se admitir o desenvolvimento pela entidade beneficente de assistência social de atividade que gere recursos, inclusive com cessão de mão-de-obra, desde que instrumentalizada de modo a contribuir com as finalidades previstas no art. 2º da Lei Complementar nº 187, de 2021, e desde que a atividade seja registrada de forma segregada na contabilidade e destacada em Notas Explicativas, nas quais, por prudência, cabe a ressalva de que não se promoveu uma indevida extensão da imunidade para os tomadores dos serviços dos aprendizes em razão de o lucro obtido ter sido superior ao valor das contribuições não imunes de uma contratação direta de aprendiz pela empresa tomadora dos serviços. Acordão nº 2302-004.123, de 09/09/2025 - unanimidade Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2018 a 31/12/2019 IMUNIDADE. REQUISITOS ESTABELECIDOS EM LEI PARA FRUIÇÃO DA IMUNIDADE PREVISTA NO ART. 195, §7º DA CF. Fl. 814DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 19 A Constituição Federal confere às entidades beneficentes de assistência social a imunidade das contribuições sociais desde que atendidos, cumulativamente, todos os requisitos estabelecidos em lei, em especial, os requisitos previstos no art. 14 do CTN. ENTIDADE BENEFICENTE DE ASSISTÊNCIA SOCIAL. CESSÃO DE MÃO-DEOBRA. ATIVIDADE PREPONDERANTE. IMUNIDADE. IMPOSSIBILIDADE. É incompatível com a finalidade social do contribuinte a prestação de serviços, mediante cessão de mão-de-obra, como atividade preponderante de suposta assistência social, dada sua natureza comercial, sujeitando-se, em consequência, ao regramento tributário das empresas em geral. Acordão nº 2201-011.998, de 04/02/2025 – voto de qualidade Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2018 a 31/12/2019 (...) ENTIDADE BENEFICENTE DE ASSISTÊNCIA SOCIAL. CESSÃO DE MÃO DE OBRA EM CARÁTER HABITUAL. TRABALHADORES CEDIDOS EM NÚMERO SIGNIFICATIVO. ATIVIDADE PREPONDERANTE. DESVIO DE FINALIDADE. IMUNIDADE. IMPOSSIBILIDADE. Caracteriza desvio de finalidade da entidade beneficiada com isenção das contribuições sociais a prestação de serviço mediante cessão de mão de obra, mormente quando o quantitativo de trabalhadores envolvidos na cessão de mão de obra representa percentual significativo do total de empregados da entidade isenta. Por incompatível com a finalidade social do contribuinte a prestação de serviços, mediante cessão de mão de obra, como atividade preponderante de suposta assistência social, dada sua natureza comercial, sujeitando-se, em consequência, ao regramento tributário das empresas em geral. (grifos não originais) A segunda entende que não ocorre a perda da imunidade e decide pelo cancelamento do lançamento, argumenta que, na ausência de Lei Complementar que faça restrição à cessão da mão de obra por Entidade imune, não vê motivo para a perda do benefício fiscal, se o valor obtido com a cessão for integralmente aplicado na realização dos objetivos sociais e ainda que não se pode presumir que houve violação ao art. 14, II do CTN, sem que haja prova da transferência efetiva do benefício fiscal a empresas terceiras. Cito como precedentes os Acórdão nº 9202-011.186, de 20/03/2024, 2201-012.155, de 12/08/2025, 2201-012.163, de 12/08/2025, 2202-011.097, 07/11/2024, em que o Relator foi vencido, 9202-010.112, de 22/11/2021, 2102-003.519 06/11/2024 Acórdão nº 9202-010.112, de 22/11/2021 - unanimidade Fl. 815DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 20 ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2006 CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS. IMUNIDADE ART. 195, §7º CF/88. ART 14 DO CTN. ART. 55 DA LEI Nº 8.212/91. ADI 2.028, ADI 2.036, ADI 2.621, ADI 2.228 e RE 566.622/RS. O Supremo Tribunal Federal já se manifestou sobre a constitucionalidade do art. 55 da Lei nº 8.212/91 externando o entendimento de que aspectos meramente procedimentais referentes à certificação, à fiscalização e ao controle administrativo das entidades beneficentes serem passíveis de definição em lei ordinária. Assim, para caracterização da condição de entidade imune às Contribuições Previdenciárias deve ser demonstrado o cumprimento cumulativo dos requisitos previstos no art. 14 do CTN e das formalidades prevista na lei ordinária correlata. CESSÃO DE MÃO DE OBRA. VEDAÇÃO. AUSÊNCIA DE LEI COMPLEMENTAR. MANUTENÇÃO DA IMUNIDADE. Diante da ausência de Lei Complementar vedando que entidades imunes realizem cessão de mão de obra para empresas terceiras, deve-se afastar a imputação de violação ao art. 55 da Lei nº 8.212/91, mantendo-se o direito da entidade de usufruir da imunidade prevista no art. 195, §7º da CF. Acordão nº 2102-003.519, de 06/11/2024 - unanimidade Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Ano-calendário: 2018 ENTIDADE BENEFICENTE DE ASSISTÊNCIA SOCIAL. PROGRAMA DE APRENDIZAGEM. FORMAÇÃO TÉCNICO PROFISSIONAL METÓDICA. CONTRATAÇÃO DE APRENDIZES. IMUNIDADE. CESSÃO DE MÃO DE OBRA. A imunidade de contribuições previdenciárias incidentes sobre a remuneração prevista no § 7º do art. 195 da Constituição Federal se estende às receitas recebidas nos contratos de cessão de mão-de-obra feitos por entidade beneficente de assistência social a outras tomadoras conveniadas, desde que o valor aferido seja integralmente utilizado na atividade social. Acordão nº 2201-012.163, de 12/08/2025 Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2019 a 31/12/2020 CESSÃO DE MÃO DE OBRA. VEDAÇÃO. AUSÊNCIA DE IMPEDIMENTO LEGAL. MANUTENÇÃO DA IMUNIDADE. Diante da ausência legal expressa, vedando que entidades imunes realizem cessão de mão de obra para empresas terceiras, deve-se afastar a imputação de Fl. 816DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 21 violação ao art. 55 da Lei nº 8.212/91, mantendo-se o direito da entidade de usufruir da imunidade prevista no art. 195, §7º da CF. IMUNIDADE. CESSÃO DE MÃO DE OBRA. JOVEM APRENDIZ DESCUMPRIMENTO DO ART.14, INCISO II DO CTN. PROVA PELA AUTORIDADE FISCAL. Para a realização de lançamento fiscal, com base no descumprimento do art. 14, inciso II, do CTN, cabe à autoridade fiscal provar a transferência efetiva do benefício fiscal a empresas terceiras nos contratos envolvendo cessão de jovens aprendizes a empresas terceiras. A mera constatação da cessão de mão de obra não implica na presunção do descumprimento citado. (grifos não originais) Parecer CJ MPS nº 3272, de 2004 O Parecer CJ/MPS, de 2004, está assim ementado: EMENTA: Previdenciário e Assistencial. Isenção das contribuições para a Seguridade Social. Art. 55 da Lei nº 8.212/91. Cessão de mão-de-obra. 1. Somente poderão realizar cessão de mão-de-obra, sem perder a isenção prevista no art. 55 da Lei nº 8.212/91, as entidades que atendam dois critérios, a saber: caráter acidental da cessão onerosa de mão-de-obra em face das atividades desenvolvidas pela entidade beneficente; e mínima representatividade quantitativa de empregados cedidos em relação ao número de empregados da entidade beneficente. 2. As entidades que fazem cessão de mão-de-obra sem atentar para um destes dois critérios, na forma descrita no corpo do presente parecer, violam a exigência do inciso III do art. 55 da Lei nº 8.212/91 e não fazem jus à correspondente isenção. (grifos não originais) A conclusão da ementa é que se a cessão não for acidental e representar a maior parte do quantitativo dos empregados, ela irá, violar o inciso III do art. 55 da Lei nº 8.212, de 1991 O citado artigo, em sua redação em 2004: Art. 55. Fica isenta das contribuições de que tratam os arts. 22 e 23 desta Lei a entidade beneficente de assistência social que atenda aos seguintes requisitos cumulativamente: (Revogado pela Medida Provisória nº 446, de 2008). III - promova, gratuitamente e em caráter exclusivo, a assistência social beneficente a pessoas carentes, em especial a crianças, adolescentes, idosos e portadores de deficiência; (Redação dada pela Lei nº 9.732, de 1998). (...) V - aplique integralmente o eventual resultado operacional na manutenção e desenvolvimento de seus objetivos institucionais apresentando, anualmente ao Fl. 817DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 22 órgão do INSS competente, relatório circunstanciado de suas atividades. (Redação dada pela Lei nº 9.528, de 10.12.97). (grifos não originais) O Parecer foi produzido para responder a uma consulta da Divisão de Gerenciamento da Isenção Previdenciária, teve manifestação da Procuradoria Federal Especializada do INSS, e foi feito nas seguintes bases: 3. O consulente afirma que alguns governos municipais e estaduais estão contratando mão-de-obra por intermédio de entidades beneficentes de assistência social isentas de contribuição para a seguridade social, o que configura nova modalidade de elisão fiscal. Segundo ele, nestes contratos os entes públicos repassam às entidades isentas o total da folha de pagamentos mais encargos (sem o valor da cota patronal do INSS) mais uma taxa de administração de 10%. Cita, nesse sentido, o contrato celebrado entre a Prefeitura de Maringá e a Santa Casa de Misericórdia de Maringá. (...) 5. A Divisão de Gerenciamento da Isenção Previdenciária do INSS sustenta que a entidade que faz cessão de mão-de-obra, não estando esta atividade prevista em seu estatuto, está violando o disposto no inciso V do art. 55 da Lei nº 8.212/91, que prevê um dos requisitos para a configuração de entidade beneficente de assistência social, motivo pelo qual deve ser cancelada a sua isenção. 6. A partir destes argumentos, o consulente questiona se o Parecer CJ/MPS fere a Constituição Federal de 1988 e se tais contratos de cessão de mão-de-obra, por si só, resultariam no cancelamento da isenção, por descumprimento do disposto no inciso V do art. 55 da Lei nº 8.212/91. 7. A Coordenação Geral de Matéria Tributária da Procuradoria Federal Especializada - INSS manifestou-se sobre o objeto da presente consulta, concluindo da seguinte forma: 3.1. À vista do exposto, por qualquer aspecto que se mire, praticamente insustentável é a imunidade das entidades beneficentes de assistência social que cedem mão-de-obra, a não ser naquelas hipóteses pontuais, isoladas, em que não é objeto social da entidade tal atividade, adotando a entidade tal mister em vista da disponibilidade temporária de mão-de-obra Todavia, o art. 55 da Lei nº 8.212/91 não serve de subsídio para o cancelamento da isenção, a não ser que se comprove que, de fato, o objeto social de entidade é a cessão de mão-de-obra, hipótese em que o inciso III do dispositivo seria subsídio, ao que se somaria a representação ao CNAS para o cancelamento do CEBAS, com amparo no art. 3º, X, do Decreto nº 2.536/98, o qual erige como requisito para a obtenção do certificado não constituir a entidade patrimônio de indivíduo ou sociedade sem caráter Fl. 818DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 23 beneficente de assistência social, pois que, se o fim do dispositivo foi não permitir que os incentivos das entidades beneficentes fossem estendidos às pessoas voltadas ao lucro, aplica-se inteiramente ao caso vertente. Para as demais hipóteses, em que coexistem a cessão de mão-de-obra e as atividades beneficentes, não vislumbramos supedâneo legal para o cancelamento da isenção. Sem embargo, sendo inegável que a cessão de mão-de-obra pelas entidades beneficentes conduziria a vera evasão fiscal, sugere-se o estudo sobre a viabilidade da edição de lei com vistas a regulamentar a impossibilidade de a imunidade estender-se a essas atividades, o que não significa que se restringirá o comando constitucional, pois que este volta-se exatamente às entidades beneficentes, sendo certo que a cessão de mão-de-obra desonerada privilegia as empresas tomadoras de mão-de-obra. (...) (grifos não originais) A consulta formulada pretendeu esclarecer se a prática apontada, cessão de mão de obra para terceiros não isentos, resultaria no cancelamento do benefício fiscal para a entidade que cedia, por desatendimento do inciso V do art. 55 da Lei nº 8.212, de 1991. A Procuradoria do INSS entendeu que se há previsão de cessão de mão de obra no contrato social, o art. 55, III motivaria o cancelamento da isenção, feito por representação para que se cancele o CEBAS, mas se não constar dos objetivos sociais, então seria necessária previsão legal para afastar a imunidade. O parecer trata dos requisitos, e restringe a análise aos requisitos do art. III, e V do art. 55 da Lei nº 8.212, de 1991: 21. Com fulcro nestas afirmações, tem-se que, para o deslinde da consulta, importam as exigências previstas nos incisos III e V do art. 55 da Lei nº 8.212/91, posto que a verificação dos demais incisos pelo INSS não guarda correlação com a realização de cessão de mão-de-obra por parte da entidade que requer a isenção. O inciso IV trata da proibição de se remunerar os diretores. Por sua vez, as exigências para concessão de CEBAS e do título de utilidade pública federal e estadual ou do Distrito Federal ou municipal não podem ser julgadas pelo INSS (incisos I e II). 22. Quanto ao inciso V, o consulente entende que a entidade que faz cessão de mão-de-obra, sem que haja tal previsão em seu estatuto, viola o requisito de aplicação integral do eventual resultado operacional na manutenção e desenvolvimento de seus objetivos institucionais (...). Este inciso não veda a realização eventual de cessão de mão-de-obra por parte das entidades beneficentes que não tenham tal previsão em seu estatuto, na medida que, nesta hipótese, de cessão apenas eventual, a entidade estará, tão somente, aproveitando mão-de-obra ociosa para obter receita, e não fazendo aplicação de eventual resultado operacional. Por sua vez, se a cessão de mão-de-obra não for Fl. 819DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 24 eventual, e sim habitual, aí sim restará violado o inciso V, bem como o inciso III, ambos do art. 55. A violação nesta hipótese, de cessão onerosa habitual, é muito óbvia e será facilmente visualizada com os argumentos que serão delineados sobre a cessão eventual de mão-de-obra. (grifos não originais) E aponta que, em regra, a cessão viola o art. 55. III: 23. A cessão onerosa de mão-de-obra, em regra, desvirtua a promoção de assistência social beneficente, inclusive educacional ou de saúde, a menores, idosos, excepcionais ou pessoas carentes, violando o disposto no inciso III do art. 55 da Lei nº 8.212/91. Entretanto, quando esta cessão é feita em situações pontuais, de forma eventual, não haverá violação ao inciso III do art. 55, conforme se demonstrará adiante. (grifos não originais) Faz uma análise da possibilidade de as Entidades desenvolverem atividades econômicas para obter receita: 27. Obviamente, se é facultado às entidades beneficentes de assistência social mesclar a prestação de serviços, fazendo-o gratuitamente aos menos favorecidos e de forma onerosa aos afortunados pela sorte, não há como limitar, a priori, a realização de cessão de mão-de-obra por estas entidades, especialmente se considerarmos que grande parte das atividades assistenciais, por sua própria natureza, não suporta cobrança. 28. Contudo, também se revela óbvio que estas atividades extras, alheias às finalidades assistenciais das entidades, não podem assumir proporções, nem formas, que desvirtuem a própria natureza da entidade beneficente de assistência social. É nesse sentido que serão traçadas as soluções possíveis para a presente controvérsia jurídica, a fim de delimitar até onde uma entidade pode ceder mão-de-obra, cobrando por seus serviços, com intuito finalístico, nesta atividade, de obter receita, sem que reste suprimida a sua natureza assistencial necessária para o gozo da isenção das contribuições para a seguridade social. (grifos não originais) Tratando do alcance do termo “promoção ao mercado de trabalho”, previsto no art. 203, II, da Constituição Federal, argumenta que, se o cedido já é empregado da Entidade, não há a inserção no mercado com a cessão, assim, tal atividade não teria cunho assistencial. Como consequência, não há motivo para manter o benefício fiscal que visa justamente estimular a realização de atividade assistencial e que, ao fim, o real beneficiário seria o terceiro tomador da mão de obra, e não a entidade. 29. O primeiro ponto a ser esclarecido é o de que a cessão onerosa de mão-de- obra não atende ao objetivo assistencial de promoção ao mercado de trabalho, previsto no art. 203, III, da Constituição. Fl. 820DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 25 30. A pessoa cedida pela entidade para prestar serviços ao tomador não está sendo integrada ao mercado de trabalho em razão da cessão de mão-de-obra por um motivo muito simples: ela já é empregada da entidade cessionária, portanto devidamente integrada ao mercado de trabalho. (...) 32. À título ilustrativo, a integração ao mercado de trabalho pode ser promovida por meio da preparação da pessoa para as exigências do mercado, dotando-a de meios para a obtenção de emprego. O ensino de uma profissão, como a de marceneiro ou mecânico, constitui a mais comum forma de promover a integração de alguém ao mercado de trabalho. 33. Convém elucidar que este objetivo da assistência social - integração ao mercado de trabalho - pode assumir outras formas de realização, mas é certo que a cessão de mão-de-obra não configura, em nenhuma hipótese, a promoção de integração ao mercado de trabalho. Mesmo nas hipóteses em que a entidade ensina a pessoa uma determinada profissão e depois faz a cessão remunerada de sua mão-de-obra para terceiros não resta configurada a atividade assistencial de promoção ao mercado do trabalho na cessão de mão-de-obra realizada. Somente poderão ser apropriados como assistenciais, conforme o caso, os gastos despendidos na formação profissional desenvolvida pela entidade, caso tenha sido direcionada a pessoas carentes. A cessão de mão-de-obra feita posteriormente somente pode ser tida como atividade voltada para a obtenção de receita, portanto alheia à atividade assistencial da entidade. (...) 35. Ante o exposto até aqui, conclui-se que a cessão onerosa de mão-de-obra não caracteriza, em nenhuma hipótese, atividade assistencial para o fim de obtenção da isenção das contribuições para a seguridade social. Pelo contrário, é a isenção das contribuições para a seguridade social que atrai as empresas tomadoras de serviços a contratar com as entidades beneficentes, em prejuízo das demais empresas do ramo de terceirização de serviços que pagam contribuição para a seguridade social e não podem oferecer o mesmo preço, o que subverte a finalidade da regra de isenção, que é estimular a realização de assistência social pelos particulares. 36. No fim, quem se beneficia da isenção previdenciária, com a prática de cessão de mão-de-obra por entidades beneficentes de assistência social, é a empresa tomadora de serviços, que contrata a cessão a preços menores, e não o público- alvo da assistência social. Nesse sentido, a cessão onerosa de mão-de-obra, por parte das entidades isentas de contribuição para a seguridade social, deve ser encarada com mais restrição até do que outras atividades lucrativas que estas entidades venham a realizar, uma vez que o verdadeiro beneficiado nesta operação é a empresa tomadora de serviços, que nada tem de assistencial. (...) Fl. 821DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 26 39. Conforme salientado, a cessão onerosa de mão-de-obra é um exemplo de atividade que não pode ser permitida às entidades beneficentes de assistência social que gozem de isenção previdenciária. Ao menos não de forma livre, sob pena de extensão da garantia prevista no art. 195, § 7º, da Constituição, a toda e qualquer empresa que queira contratar mão-de-obra terceirizada das entidades beneficentes de assistência social. (grifos não originais) E conclui apontando os requisitos que teriam que ser verificados para saber em qual caso a cessão de mão de obra seria permitida e quais não seria, de modo a manter o benefício fiscal. 40. Da exposição acima resulta que as entidades que realizam cessão remunerada de mão-de-obra não podem, em regra, serem consideradas beneficentes de assistência social, e, portanto, não fazem jus à isenção prevista no art. 195, § 7º, da Constituição. Entretanto, é possível estabelecer, a partir de um esforço hermenêutico, situações muito especiais em que a cessão onerosa de mão-de-obra pode ser feita sem retirar a natureza beneficente de assistência social da entidade. 41. Tais hipóteses passam necessariamente pela verificação de dois critérios, a saber: caráter acidental da cessão onerosa de mão-de-obra em face das atividades desenvolvidas pela entidade beneficente; e mínima representatividade quantitativa de empregados cedidos em relação ao número de empregados da entidade beneficente. 42. O primeiro critério está em verificar se a entidade realiza contratações com o objetivo precípuo de fazer a cessão onerosa de mão-de-obra. Se a entidade realiza a contratação de empregados com vistas, exclusivamente, a realizar cessão de mão-de-obra destes empregados não fará jus à isenção das contribuições para a seguridade social. Em outras palavras, a entidade beneficente somente pode realizar a cessão de mão-de-obra em situações pontuais, em que os empregados cedidos tenham função dentro de suas próprias atividades - que devem ser assistenciais - mas estejam ociosos por motivos alheios à vontade da instituição. Se um ou alguns empregados são contratados, primordialmente, para prestarem serviços a terceiros, a entidade não pode ser considerada beneficente de assistência social, pois esta atividade não será acidental. 43. O segundo critério - mínima representatividade quantitativa de empregados cedidos em relação ao número de empregados da entidade beneficente - deve ser examinado caso a caso, com atenção aos seguintes fatores: ociosidade eventual, e não provocada, da força de trabalho; existência ou não de prejuízos para as atividades fins da instituição; caráter temporário da cessão onerosa de mão-de-obra; e aspecto subsidiário da atividade de cessão de mão-de-obra. 44. Os empregados eventualmente cedidos, de forma remunerada, devem estar sem função na entidade assistencial em razão de fatores alheios à vontade da Fl. 822DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 27 própria entidade assistencial, como, por exemplo, no caso de redução da demanda. Caso a entidade contrate empregados sem necessidade, ou seja, sem função em suas atividades normais, e, logo em seguida, faça a cessão remunerada destes empregados, restará caracterizada a ociosidade desejada da força de trabalho. Nessa hipótese, e em outras situações semelhantes, a entidade não fará jus à isenção prevista no art. 55 da Lei nº 8.212/91, por descumprimento do seu inciso III, pois estará visando, primordialmente, a realização de cessão de mão-de- obra como atividade principal. 45. A cessão de mão-de-obra não pode interferir no bom desempenho das atividades fins da entidade, ou seja, a força de trabalho cedida não pode afetar as atividades próprias das entidades beneficentes de assistência social, que não se confundem com a realização de cessão de mão-de-obra. A manutenção das atividades assistenciais no mesmo patamar e qualidade anteriores à cessão onerosa da mão-de-obra devem ser observados, sob pena de restar configurada a prevalência do intuito lucrativo, contido na cessão, em detrimento do fim assistencial exigível da entidade isenta. 46. A atividade de cessão remunerada de mão-de-obra não pode prolongar-se demasiadamente, com a celebração de novos contratos seguidos um do outro. Como afirmado anteriormente, a cessão tem que ser eventual, celebrada em situações pontuais e isoladas. A sedimentação de um patamar mais baixo de demanda da força de trabalho, para as atividades típicas da entidade, deve ser acompanhada da dispensa dos empregados ociosos, e não da perpetuação da cessão de mão-de-obra, na medida que a cessão somente foi autorizada em função da diminuição da quantidade de trabalho nas atividades próprias da entidade. 47. Por fim, devem ser examinados e valorados, no caso concreto, outros fatores quaisquer que indiquem ser a cessão onerosa de mão-de-obra a atividade primordial da entidade. A cessão de mão-de-obra só é permitida às entidades beneficentes num patamar mínimo em relação ao todo das atividades por elas desenvolvidas, de forma a emprestar-lhe sempre um caráter subsidiário na vida da instituição assistencial. 48. Enfim, a realização de cessão de mão-de-obra pelas entidades assistenciais tem que ser eventual, não prejudicial, temporária, subsidiária, acidental e dirigida à manutenção da atividade assistencial da instituição, sob pena de violação do art. 55, III, da Lei nº 8.212/91, e, consequentemente, de cancelamento ou indeferimento da isenção das contribuições para a seguridade social. (grifos não originais) Em resumo, os requisitos apontados são: não contratar empregado com o objetivo primeiro de ceder, o quantitativo de empregados cedidos deve ser minoritário em relação ao quantitativo total de empregados, a cessão deve alcançar os empregados sem função na entidade e deve ser temporária. Fl. 823DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 28 Diferente do apontado pela Procuradoria do INSS, não vê relevância sobre a previsão contratual da cessão de mão de obra, para o assunto: 49. Cumpre esclarecer que o fato do estatuto da entidade prever ou não a cessão de mão-de-obra como atividade fim não tem relevância para o exame do pedido de isenção, pois o que importa é se a entidade faz ou não, efetivamente, a cessão onerosa de mão-de-obra. Ainda que conste do seu estatuto a previsão dessa atividade, a entidade que ceder mão-de-obra fora dos critérios fixados no presente parecer não faz jus à isenção das contribuições para a seguridade social. De outro lado, se constar do estatuto a atividade de cessão de mão-de-obra, mas a entidade não a tiver desenvolvido efetivamente, não pode ter o seu pedido negado com base na previsão estatutária. O que importa e deve ser examinado é se foi feita, de fato, a cessão onerosa de mão-de-obra. (grifos não originais) Diante de todos os fatos apontados, conclui que a cessão não acidental e em quantitativos relevantes, configura atividade sem caráter assistencial e justifica o cancelamento do benefício fiscal. 50. Ante o exposto conclui-se que somente poderão realizar cessão de mão-de- obra, sem perder a isenção prevista no art. 55 da Lei nº 8.212/91, as entidades que atendam dois critérios, a saber: caráter acidental da cessão onerosa de mão- de-obra em face das atividades desenvolvidas pela entidade beneficente; e mínima representatividade quantitativa de empregados cedidos em relação ao número de empregados da entidade beneficente. As entidades que fazem cessão de mão-de-obra sem atentar para um destes dois critérios, na forma descrita no corpo do presente parecer, violam a exigência do inciso III do art. 55 da Lei nº 8.212/91 e não fazem jus à correspondente isenção. (grifos não originais) Solução de Consulta Cosit nº 10, de 2015 A Solução de Consulta Cosit nº 10, de 2015, está assim ementada ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Aplicabilidade do Parecer/ CJ nº 3.272, de 21 de julho de 2004, aprovado pelo Ministro da Previdência, a entidade beneficente de assistência social certificada que realiza cessão de mão de obra onerosa e habitual de trabalhadores que são o público-alvo da atividade assistencial. As orientações contidas no Parecer/CJ nº 3.272, de 21 de julho de 2004, aprovado pelo Ministro da Previdência, continuam aplicáveis após a entrada em vigor da Lei nº 12.101, de 2009, para fins de representação ao Ministério competente pela certificação da entidade e de lavratura do auto de infração relativo ao período de ocorrência de desvio de finalidade com base no inciso II do art. 29 da Lei nº 12.101, de 2009, com a automática suspensão da isenção nos termos do § 1º do art. 32 desta mesma Lei, Fl. 824DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 29 quando a fiscalização da RFB verificar a ocorrência de cessão de mão de obra que não apresente caráter acidental em face das atividades desenvolvidas pela entidade beneficente ou mínima representatividade quantitativa de empregados cedidos em relação ao número de empregados da entidade beneficente, ainda que os trabalhadores cedidos sejam o público alvo da atividade assistencial. Dispositivos Legais: § 7º do art. 195 da Constituição Federal; art. 42 da Lei Complementar nº 43/1993; inciso II do art. 48 da Lei nº 11.457/2007; arts. 1º, 29, 31 e 32 da Lei nº 12.101/2009. A consulta trata da cessão de mão de obra, conforme o Parecer CJ nº 3272, de 2004, com a revogação do art. 55 da Lei nº 8.212, de 1991 e a entrada em vigor da Lei nº 12.101, de 2009 e no caso que os trabalhadores cedidos são portadores de deficiência física com graves limitações motoras e sensoriais e menores carentes em situação de risco social: Trata-se de consulta interna decorrente de procedimentos de fiscalização em entidades beneficentes de assistência social, portadoras dos Certificados de Entidades Beneficentes de Assistência Social – CEBAS, mas que estariam, em tese, descumprindo requisitos materiais previstos no art. 29 da Lei nº 12.101, de 27 de novembro de 2009, para o gozo da isenção, por realizarem cessão de mão de obra. 2. A seguir, os termos da consulta: (...) 4 - Urge, no entanto, esclarecer que o citado Parecer, no nosso entendimento, não contempla o caso em tela, tendo em vista, ter sido constatado por esta Auditoria que são os próprios trabalhadores disponibilizados para a prestação de serviços nas empresas contratantes, o sujeito precípuo da Assistência Social desenvolvida pelas entidades, ou seja, são os trabalhadores portadores de deficiência física e vinculados às entidades filantrópicas, com graves limitações motoras e sensoriais, bem como, menores carentes em situação de risco social que prestam serviços às empresas contratantes. Esta situação não se encontra contemplada no PARECER, pelo contrário, vemos que o disposto no item 36 do PARECER confronta-se, com os fatos constatados pela Auditoria, ou seja, são os próprios trabalhadores que prestam serviços mediante cessão de mão de obra, o público-alvo da Assistência Social. Intui-se, que dificilmente, tais trabalhadores, conseguiriam se integrar ao mercado de trabalho sem a intervenção e concorrência de tais entidades. Neste sentido, no que se refere ao “menores carentes” temos a conclusão esposada no item 26, 27 e 28 do Parecer CJ/MPS n° 2.232, aprovada pelo Sr. Ministro da Previdência Social em 17 de dezembro de 2001. 5 - Desta forma, questiona-se. A prestação de serviços, mediante cessão de mão de obra pelos trabalhadores (público-alvo da Assistência Social e sujeitos da promoção e integração ao mercado de trabalho), conforme Fl. 825DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 30 descrito no caso em voga, configura o descumprimento de requisito material, tendente a cassar a isenção de tais entidades e por consequência autorizar a constituição de créditos tributários relativos às contribuições sociais previstas nos artigos 22 e 23 da Lei 8.212 de 24 de julho de 1991? (grifos não originais) Traz a obrigatoriedade de seguir as diretivas do Parecer com base no art. 42 da Lei Complementar nº 43, de 1993 e começa por verificar se ainda tem aplicabilidade com a publicação da Lei nº 12.101, de 2009: 5. A questão apresentada na consulta se volta para o Parecer/CJ nº 3.272, de 21 de julho de 2004, aprovado pelo Ministro da Previdência por meio de despacho, com o que dotou-se de imperatividade para os demais órgãos vinculados por força do art. 42 da Lei Complementar nº 43/1993. 6. Para desenvolver qualquer linha de raciocínio que envolva o Parecer, primeiramente deve-se perquirir se tem ainda aplicabilidade no âmbito da Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB) e se essa aplicabilidade se mantém após a entrada em vigor da Lei nº 12.101/2009. 7. O inciso II do art. 48 da Lei nº 11.457/2007 manteve a vigência dos atos normativos e administrativos editados pelo Ministério da Previdência Social relativos à administração das contribuições previdenciárias, enquanto não modificados pela Receita Federal do Brasil, de forma que a RFB permanece vinculada ao entendimento exarado por meio do Parecer aprovado pelo ministro da Previdência Social até que outra posição venha a ser adotada expressamente. (...) 9. O Parecer em questão foi exarado ao tempo de vigência do art. 55 da Lei nº 8.212/1991, revogado pela Lei nº 12.101/2009. Seus fundamentos, apesar de pautados em legislação revogada, ainda têm aplicabilidade no que a nova Lei tenha mantido a mesma linha de disciplina. Portanto, o fato de tratar dos requisitos previstos no art. 55 da Lei nº 8.212, por si só, não afasta de imediato sua aplicação. (grifos não originais) Fala sobre a necessidade de se obter a certificação, nos termos da Lei nº 12.101, de 2009 e o cumprimento dos requisitos do art. 29. 11. Hoje, para gozar do direito à imunidade em relação às contribuições previdenciárias, é necessário que a entidade beneficente de assistência social seja certificada pelo Ministério da área em que atua e atenda aos requisitos listados nos incisos do art. 29 da Lei nº 12.101, de 27 de novembro de 2009. (...) Fl. 826DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 31 12. Vê-se que a certificação, prevista no caput, é condição prévia para que a entidade possa usufruir o benefício fiscal, sem o que não poderá gozar a isenção, não sendo necessário sequer averiguar o cumprimento dos requisitos previstos nos incisos. Essa certificação ocorre por meio da verificação, pelos Ministérios competentes para sua concessão, acerca da efetiva promoção de assistência social, conforme arts. 3º a 25 da Lei nº 12.101/2009. (grifos não originais) E que avaliar que os critérios para a concessão da certificação, com fins a verificar se a atividade é assistencial, não é competência da RFB, como era no caso do inciso III do art. 55 da Lei nº 8.212, de 1991: 13. Apesar de disposição semelhante ao inciso III do art. 55 da Lei nº 8.212/1991 não constar do art. 29 da Lei hoje em vigor, a exigência de promover a assistência social beneficente, inclusive educacional ou de saúde, não deixou de existir, até porque compõe a essência do comando constitucional. Tanto assim que o primeiro artigo da Lei já coloca a necessidade de reconhecimento como entidades beneficentes de assistência social com a finalidade de prestação de serviços nas áreas de assistência social, saúde ou educação, o que se dá por meio da certificação (“Art. 1º A certificação das entidades beneficentes de assistência social e a isenção de contribuições para a seguridade social serão concedidas às pessoas jurídicas de direito privado, sem fins lucrativos, reconhecidas como entidades beneficentes de assistência social com a finalidade de prestação de serviços nas áreas de assistência social, saúde ou educação, e que atendam ao disposto nesta Lei.”). A disciplina legal determinou que a efetiva atuação como entidade beneficente de assistência social seja verificada no momento da concessão de certificação, de competência dos Ministérios certificadores (Educação, Saúde e Desenvolvimento Social e Combate à Fome). O requisito que antes era passível de verificação pela fiscalização do órgão arrecadador (inciso III do art. 55 da Lei nº 8.212/1991) passou a compor somente os critérios para certificação, de competência dos Ministérios de cada pasta. (grifos não originais) Mas que a Receita Federal pode (e deve) fazer uma verificação posterior se os requisitos ainda estão sendo cumpridos, mas neste caso não pode lançar de plano, precisa representar a certificadora para que ela cancele o benefício. 14. O art. 29 da Lei nº 12.101/2009 traz os requisitos para a isenção para a entidade já certificada e a atuação como entidade de assistência social foi trazida na Lei como requisito de certificação. Diante disso, apesar de condição prévia do benefício, a certificação deve ser avaliada pela fiscalização da RFB de forma objetiva, em termos de existência e validade. Na mesma linha do que foi afirmado no Parecer com relação aos antigos incisos I e II do art. 55 da Lei nº 8.212/1991 Fl. 827DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 32 15. O fato de ter de avaliar a certificação de forma objetiva não retira, entretanto, da RFB o poder-dever de averiguar se os requisitos para certificação se mantêm. Ser condição prévia do benefício confere à RFB o poder-dever de vigilância sobre o cumprimento dos requisitos para certificação e de representar ao Ministério competente sobre fato que demonstre não dever ser mantida a certificação da entidade. O que a Lei não permite à fiscalização é, de imediato, lavrar o auto de infração com base em ausência de requisito de certificação. Apenas a falta de certificação válida ou de um dos requisitos previstos nos incisos do art. 29 pode ensejar a suspensão imediata da isenção, com lavratura do respectivo auto de infração. Sendo assim, a prática da cessão de mão-de-obra fora dos padrões estabelecidos pelo Parecer do MPS deve ser representada ao Ministério competente para certificação, por descaracterizar a atividade assistencial, requisito para obtenção do certificado. (grifos não originais) Mas também trata a questão da infração ao inciso II do art. 29 Lei nº 12.101, de 2009, similar ao inciso V do art. 55 da Lei 8.212, de 1991. 16. Por outro lado, não se deve esquecer que a prática habitual e onerosa de cessão de mão-de-obra caracteriza também afronta ao inciso II do art. 29 da Lei nº 12.101/2009, à semelhança do que constava do antigo inciso V do art. 55 da Lei nº 8.212/1991, cuja redação veio a ser aprimorada pelo legislador ao mencionar aplicação não só de eventual superávit e rendas, mas também de “recursos” de forma abrangente. Por recursos pode-se entender a mãode-obra da entidade que, ao ser cedida com transferência a terceiros do benefício fiscal a que faz jus a entidade, caracteriza desvio de finalidade. Trata-se de requisito material de isenção sendo descumprido. 17. A Lei continua a disciplina da isenção, afirmando que o direito a ela será exercido imediatamente à publicação da certificação com cumprimento dos demais requisitos previstos na sessão anterior (arts. 29 e 30, sendo que o art. 30 não traz propriamente um requisito, mas apenas a proibição de outra pessoa jurídica ser beneficiada pela isenção da mantenedora, o que leva a ser considerado de fato apenas o art. 29 como lista de requisitos). Assim como a isenção é exercida sem necessidade de requerimento específico ao órgão arrecadador, a Lei nº 12.101/2009 prevê que a fiscalização da Secretaria da Receita Federal do Brasil lavrará o auto de infração relativo ao período de descumprimento dos requisitos previstos na Seção I do Capítulo IV, qual seja, art. 29, por meio de suspensão do benefício pelo período de infração, independentemente de ato cancelatório. Veja-se: (grifos não originais) E aponta que são validas as conclusões do Parecer CJ nº 3272, de 2004, de atendimento dos requisitos para verificar se há ou não infração ao inciso II do art. 29 da Lei nº 12.101, de 2009. Fl. 828DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 33 18. Tem-se, portanto, por meio da realização de cessão de mão-de-obra habitual e onerosa fora dos padrões delimitados pelo Parecer, afronta a requisito de certificação e a requisito material de isenção, o que deve ensejar duas medidas por parte da autoridade fiscal: representação ao Ministério competente para a certificação da entidade com fim de avaliar o cabimento do cancelamento do certificado; e lavratura do auto de infração relativo ao período em que se verificou a infringência ao inciso II do art. 29 da Lei nº 12.101/2009, com a automática suspensão da isenção, nos termos do § 1º do art. 32 desta mesma Lei. 19. Levando-se o entendimento do Parecer e as considerações aqui colocadas para a situação concreta trazida na consulta, temos que a cessão de mão de obra, para não descaracterizar a atividade assistencial e não afrontar o inciso II do art. 29 da Lei nº 12.101/2009, precisa atender a dois requisitos: ter caráter acidental em face das atividades desenvolvidas pela entidade beneficente e mínima representatividade quantitativa de empregados cedidos em relação ao número de empregados da entidade beneficente. 20. Isso ainda que a cessão seja do próprio público-alvo da atuação da entidade porque, como bem explicitado no Parecer, a cessão de mão de obra em si não insere o assistido no mercado de trabalho, eis que, para ser cedido, é necessário que já esteja integrado ao corpo funcional da entidade cessionária, que assume, nos termos dos contratos de cessão, a responsabilidade pela vinculação empregatícia e o ônus pelo atendimento aos encargos trabalhistas, previdenciários e fiscais. (grifos não originais) Argumenta que o não cumprimento dos requisitos, a cessão oportuniza uma transferência indevida do benefício para o tomador da mão de obra 21. Diversamente ao colocado na consulta, o item 36 do Parecer não contraria o caso concreto apresentado porque o benefício do público-alvo da entidade se dá por meio de sua contratação pela própria entidade, quem formalmente assume os encargos trabalhistas e previdenciários. Já o benefício fiscal acaba por ser transferido para as empresas contratantes, que obtêm mão de obra por custo inferior ao existente no mercado por não precisarem ressarcir a contratada pelos custos com as contribuições para a seguridade social. A cessão da mão-de- obra em si não gera benefício ao público-alvo da assistência social. Reproduza-se mais uma vez o teor do item 36 do Parecer: (grifos não originais) E conclui que o Parecer continua aplicável e que seus requisitos devem balizar se foi ou não cumprida a finalidade do inciso II do art. 29 da Lei nº 12.101, de 2009. 23. Com base no exposto, conclui-se que as orientações contidas no Parecer/CJ nº 3.272, de 21 de julho de 2004, aprovado pelo Ministro da Previdência, continuam aplicáveis após a entrada em vigor da Lei nº 12.101/2009, para fins Fl. 829DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 34 de representação ao Ministério competente pela certificação da entidade e de lavratura do auto de infração relativo ao período de ocorrência de desvio de finalidade com base no inciso II do art. 29 da Lei nº 12.101/2009, com a automática suspensão da isenção nos termos do § 1º do art. 32 desta mesma Lei, quando a fiscalização da RFB verificar a ocorrência de cessão de mão de obra que não apresente caráter acidental em face das atividades desenvolvidas pela entidade beneficente ou mínima representatividade quantitativa de empregados cedidos em relação ao número de empregados da entidade beneficente, ainda que os trabalhadores cedidos sejam o público alvo da atividade assistencial (grifos não originais) Solução de Consulta nº 144, de 2019 A Solução de Consulta Cosit nº 144, de 2019, está assim ementada ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS ENTIDADE BENEFICENTE DE ASSISTÊNCIA SOCIAL. PROGRAMA DE APRENDIZAGEM. FORMAÇÃO TÉCNICOPROFISSIONAL METÓDICA. CONTRATAÇÃO DE APRENDIZES. REEMBOLSO. IMUNIDADE. A imunidade de contribuições previdenciárias incidentes sobre a remuneração prevista no § 7º do art. 195 da Constituição Federal não se estende ao salário do aprendiz reembolsado por terceiro tomador de seu serviço. Dispositivos Legais: Lei nº 12.101/2009, arts. 18 e 29; Decreto nº 9.579/2018, arts. 50 e 57; Solução de Consulta Interna nº 10/2015. (grifos não originais) A consulta trata da cessão de mão de obra de menor aprendiz já sobre a égide da Lei nº 12.101, de 2009. 2. O questionamento da consulente diz respeito à interpretação de dispositivos constitucionais e normativos (art. 195, § 7º da CR/1988, art. 18 da Lei nº 12.101, de 2009, e arts. 8º e 15, § 2º do Decreto nº 5.598, de 2005), de modo a responder se a “imunidade tributária (...) a que faz jus (...), abarca as contribuições sociais incidentes sobre o salário do aprendiz, reembolsado por terceiro tomador do serviço dele”, no caso de contratação feita nos moldes do § 2º do art. 15 do Decreto nº 5.598/2005. (grifos não originais) A Solução, considerando inciso II do §2º do art. 18 da Lei nº 12.101, de 2009, busca determinar quais seriam as atividades tidas como de cunho assistencial no caso do menor aprendiz (CLT art. 430): Lei nº 12.101, de 2009 Fl. 830DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 35 Art. 18. A certificação ou sua renovação será concedida à entidade de assistência social que presta serviços ou realiza ações socioassistenciais, de forma gratuita, continuada e planejada, para os usuários e para quem deles necessitar, sem discriminação, observada a Lei nº 8.742, de 7 de dezembro de 1993. (Redação dada pela Lei nº 12.868, de 2013) (Vide ADIN 4480) § 1º Consideram-se entidades de assistência social aquelas que prestam, sem fins lucrativos, atendimento e assessoramento aos beneficiários abrangidos pela Lei nº 8.742, de 7 de dezembro de 1993, e as que atuam na defesa e garantia de seus direitos. (Redação dada pela Lei nº 12.868, de 2013) § 2º Observado o disposto no caput e no § 1º, também são consideradas entidades de assistência social: (Redação dada pela Lei nº 12.868, de 2013) (...) II - as de que trata o inciso II do art. 430 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), aprovada pelo Decreto-Lei no 5.452, de 1º de maio de 1943, desde que os programas de aprendizagem de adolescentes, de jovens ou de pessoas com deficiência sejam prestados com a finalidade de promover a integração ao mercado de trabalho, nos termos da Lei nº 8.742, de 7 de dezembro de 1993, observadas as ações protetivas previstas na Lei no 8.069, de 13 de julho de 1990; e (Incluído pela Lei nº 12.868, de 2013) (grifos não originais) E, usando o mesmo raciocínio do Parecer nº 3272, de 2004, delimita que a colocação em empresa terceira não seria atividade assistencial: 8. Deve-se atentar que é tão somente em relação às entidades que oferecem esse “curso de aprendizagem”, a que se refere o inciso II, art. 430 da CLT, que o inciso II, §2º do art. 18 da Lei nº 12.101, de 2009, estabeleceu como também de assistência social. Contudo, em relação a empregar o menor aprendiz e colocá-lo na empresa (art. 431 da CLT), o inciso II do §2º do art. 18 da Lei nº 12.101/2009, não estabelece a atividade como de assistência social. Veja-se: § 2º Observado o disposto no caput e no § 1º, também são consideradas entidades de assistência social: (...) II - as de que trata o inciso II do art. 430 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), aprovada pelo Decreto-Lei no 5.452, de 1º de maio de 1943, desde que os programas de aprendizagem de adolescentes, de jovens ou de pessoas com deficiência sejam prestados com a finalidade de promover a integração ao mercado de trabalho, nos termos da Lei nº 8.742, de 7 de dezembro de 1993, observadas as ações protetivas previstas na Lei no 8.069, de 13 de julho de 1990; e 9. O que a Lei 12.101/2009 determina é que uma entidade sem fins lucrativos pode oferecer o curso de aprendizagem (passo 1) e será vista como de assistência social por isso. Contudo, não afirma o mesmo em relação ao terceiro passo Fl. 831DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 36 (contratação do aprendiz). Vale dizer: não há lei estabelecendo como de assistência social a entidade que emprega o menor aprendiz para ceder a empresa que precisa preencher sua cota de contratação de aprendizes. 10. No mesmo sentido, o §2º do art. 57 do Decreto nº 9.579, de 2018, que trata da contratação indireta do aprendiz por meio da entidade sem fins lucrativos, não trata essa entidade como beneficente de assistência social. Veja: §2º A contratação de aprendiz por meio de entidades é precedida por contrato entre a empresa e a entidade que entre outras obrigações recíprocas serão estabelecidas as seguintes: I - a entidade sem fins lucrativos, simultaneamente ao desenvolvimento do programa de aprendizagem, assumirá a condição de empregador, com todos os ônus dela decorrentes, e assinará a Carteira de Trabalho e Previdência Social do aprendiz, na qual anotará, no espaço destinado às anotações gerais, a informação de que o contrato de trabalho específico decorrerá de contrato firmado com determinado estabelecimento para fins do cumprimento de sua cota de aprendizagem; 11. Outra não deveria ser a interpretação, eis que, de fato, a atividade de assistência social envolvida na situação é a de integração do aprendiz ao mercado de trabalho, o que se promove por meio de sua capacitação e contratação. Se inclusive a contratação já ocorre no âmbito da própria entidade sem fins lucrativos (eis que ela assina sua carteira de trabalho e apenas cede sua força de trabalho à empresa tomadora), toda a integração já se exauriu ali, sem que possa ser visualizada na cessão do aprendiz à empresa que receberá seu trabalho. Entendido de forma contrária, seria possível considerar a inexistência de contribuição previdenciária sobre a remuneração do aprendiz (segurado empregado da entidade que assina sua carteira) e, ao cabo, quem se beneficiaria da imunidade previdenciária não seria o público-alvo da assistência social mas sim a empresa tomadora de serviços, que teria o trabalho prestado a custos menores (sem o ônus tributário-previdenciário). (grifos não originais) Remete expressamente ao Parecer PARECER/CJ Nº 3.272, de 2004, citando trechos e ao fim conclui que a cessão não acidental de menor aprendiz, não é atividade assistencial e tem como consequência a perda da imunidade da Entidade como um todo. 13. Atente-se para o fato de que no caso em pauta a contratação do aprendiz pela entidade beneficente dar-se-á com o propósito específico de oferecer seu trabalho a empresa tomadora, que irá reembolsar a remuneração devida e paga pela entidade ao aprendiz. Não se trata de um empregado com função própria na entidade e que se encontra momentaneamente ocioso, diante do que não se vislumbra o caráter acidental da intermediação de mão-de-obra. Claramente, a imunidade das contribuições se torna elemento atraente para as empresas tomadoras de serviços, que ao contratar com as entidades beneficentes não Fl. 832DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 37 precisam arcar com o ônus previdenciário pelo qual teriam de responder caso realizassem diretamente a contratação do aprendiz, sem qualquer benefício para este, que deveria ser o alvo da assistência social. 14. Assim, entendido que essa atividade (contratação de aprendizes para cessão a empresas) não se enquadra no conceito de assistência social e, considerando que não existe imunidade parcial, coloca-se em xeque a imunidade da entidade como um todo que contratar diretamente aprendizes para prestarem serviços em outras empresas. (grifos não originais) Críticas as conclusões do Parecer Nº 3272, de 2004 da Solução de Consulta nº 10, de 2015 e da Solução de Consulta Cosit nº 144, de 2019 Infração ao inciso III do art. 55 da Lei nº 8.212, de 1991 O Parecer CJ nº 3272, de 2004, entende que a realização da cessão de mão de obra, em regra, não configura “promoção ao mercado de trabalho” e assim não tem natureza assistencial. Admite, por exceção, que se cumpridos os requisitos elencados no próprio Parecer, então poderia considerar que a atividade de cessão teria cunho assistencial. E enumera tais requisitos:  Não ter por objetivo a contratação do empregado para a cessão.  O quantitativo de empregados cedidos ser, proporcionalmente, bem menor que o quantitativo de empregados que trabalham diretamente para a Entidade.  A cessão ser temporária. O descumpridos deles gera a violação do inciso III do art. 55 da Lei nº 8.212, de 1991, justificando o cancelamento da isenção. O Parecer foi produzido em 2004, então não leva em consideração a declaração de Inconstitucionalidade proferida pela Suprema Corte em análise ao RE 566.622 e as ADI’s 2.028, 2.036, 2.621 e 2.228, convertidas em ADPFs. No julgamento conjunto dos embargos de declaração, o STF reformulou a tese relativa ao tema nº 32, declarando o inciso II do art. 55 da Lei nº 8.212/91, na redação original e nas redações que lhe foram dadas pelo art. 5º da Lei nº 9.429, de 1996 e pelo art. 3º da Medida Provisória nº 2.187-13, de 2001, expressamente constitucional e o inciso III e os parágrafos 3º, 4º e 5º, alterado e acrescidos pela Lei nº 9.732, de 1998, expressamente inconstitucionais, restando, por conseguinte, os demais incisos e parágrafos formalmente constitucionais na medida em que não interfiram na definição do modo beneficente de atuação, especificamente no que se refere à instituição de contrapartidas a serem observadas, não se configurando, por óbvio, tal interferência quando houver respaldo no art. 14 do CTN. Fl. 833DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 38 Portanto, a redação do inciso III do art. 55 da Lei 8.212, de 1991, que se deve ser considerada, é a original Art. 55. Fica isenta das contribuições de que tratam os arts. 22 e 23 desta Lei a entidade beneficente de assistência social que atenda aos seguintes requisitos cumulativamente: (Revogado pela Medida Provisória nº 446, de 2008). III - promova a assistência social beneficente, inclusive educacional ou de saúde, a menores, idosos, excepcionais ou pessoas carentes; (...) V - aplique integralmente o eventual resultado operacional na manutenção e desenvolvimento de seus objetivos institucionais apresentando, anualmente ao órgão do INSS competente, relatório circunstanciado de suas atividades. (Redação dada pela Lei nº 9.528, de 10.12.97). (grifos não originais) Outra consequência da declaração da Inconstitucionalidade é que os requisitos materiais que podem ser considerados para determinar a perda da imunidade devem constar de Lei Complementar, como é o caso do art. 14 do CTN. Art. 14. O disposto na alínea c do inciso IV do art. 9º é subordinado à observância dos seguintes requisitos pelas entidades nêle referidas: I – não distribuírem qualquer parcela de seu patrimônio ou de suas rendas, a qualquer título; (Redação dada pela Lcp nº 104, de 2001) II - aplicarem integralmente, no País, os seus recursos na manutenção dos seus objetivos institucionais; III - manterem escrituração de suas receitas e despesas em livros revestidos de formalidades capazes de assegurar sua exatidão. § 1º Na falta de cumprimento do disposto neste artigo, ou no § 1º do art. 9º, a autoridade competente pode suspender a aplicação do benefício. § 2º Os serviços a que se refere a alínea c do inciso IV do art. 9º são exclusivamente, os diretamente relacionados com os objetivos institucionais das entidades de que trata este artigo, previstos nos respectivos estatutos ou atos constitutivos. (grifos não originais) O requisito previsto no art. 55, V da Lei nº 8.212, de 1991 encontra comando similar no art. 14, II do CTN, o que permite que seja usado como parâmetro para fins de obtenção e manutenção do benefício fiscal. Já o disposto no art. 55, III da Lei nº 8.212, de 1991, não tem previsão similar no CTN. Fl. 834DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 39 O inciso III fala em “promoção da assistência social beneficente”, mas não traz um conceito de quais atividades teriam esse enquadramento, muito menos trata expressamente se a atividade de cessão de mão de obra, quer seja acidental ou não, tem cunho assistencial. Usando as palavras do relator da Solução de Consulta nº 10, de 2015, quando trata da edição da Lei nº 12.101, de 2001: 13. (...)). O requisito que antes era passível de verificação pela fiscalização do órgão arrecadador (inciso III do art. 55 da Lei nº 8.212/1991) passou a compor somente os critérios para certificação, de competência dos Ministérios de cada pasta. (grifos não originais) De fato, com publicação da lei 12.101, de 2009, não há dúvidas de quem é a competência para avaliar a natureza das atividades da entidade, a Autoridade Certificadora. Todavia, mesmo no período de validade do art. 55 da Lei nº 8.212, de 1991, o cancelamento do CEBAS cabia à certificadora. Como subsídio trago um trecho do Parecer CJ nº 3272, de 2004, com as considerações da Procuradoria do INSS na época: 7. A Coordenação Geral de Matéria Tributária da Procuradoria Federal Especializada - INSS manifestou-se sobre o objeto da presente consulta, concluindo da seguinte forma: (...) Todavia, o art. 55 da Lei nº 8.212/91 não serve de subsídio para o cancelamento da isenção, a não ser que se comprove que, de fato, o objeto social de entidade é a cessão de mão-de-obra, hipótese em que o inciso III do dispositivo seria subsídio, ao que se somaria a representação ao CNAS para o cancelamento do CEBAS, (grifos não originais) Ou seja, na hipótese de entender que o caso era violação ao III do art. 55, subsidiaria a representação para o CNAS cancelar o Certificado, e mas não autorizaria o afastamento de plano da imunidade e o lançamento do crédito tributário. Contudo, nem se o entendimento estivesse expresso no inciso III, do art. 55, se prestaria a isso, pois a Lei nº 8.212, de 1991 não tem natureza de lei complementar, logo não pode trazer requisitos materiais que restrinja o gozo da imunidade. Isso posto, não era possível afastar a imunidade simplesmente apontado o descumprimento do inciso III do art. 55 da Lei nº 8.212, de 1991, irrelevante se cumpria ou não os requisitos trazidos no Parecer nº 3272, de 2004. Infração ao inciso V do art. 55 da Lei nº 8.212, de 1991 e ao inciso II do art. 29 da Lei nº 12.101, de 2009 Fl. 835DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 40 Embora as conclusões do Parecer CJ nº 3272, de 2004, tratem somente do inciso III do art. 55, a consulta foi nos termos do descumprimento do inciso V, do 55, que, conforme já visto, é similar ao inciso II do art. 14 do CTN, assim não tem o vício da natureza da lei, apontado na declaração de inconstitucionalidade do art. 55. A SC nº 10, de 2015, aponta o mesmo fundamento, que também está no inciso II do art. 29 da Lei nº 12.101, de 2009, como motivo para ensejar o afastamento da imunidade. 16. Por outro lado, não se deve esquecer que a prática habitual e onerosa de cessão de mão-de-obra caracteriza também afronta ao inciso II do art. 29 da Lei nº 12.101/2009, à semelhança do que constava do antigo inciso V do art. 55 da Lei nº 8.212/1991, cuja redação veio a ser aprimorada pelo legislador ao mencionar aplicação não só de eventual superávit e rendas, mas também de “recursos” de forma abrangente. Por recursos pode-se entender a mão-de-obra da entidade que, ao ser cedida com transferência a terceiros do benefício fiscal a que faz jus a entidade, caracteriza desvio de finalidade. Trata-se de requisito material de isenção sendo descumprido. (grifos não originais) E entende que a falta do cumprimento dos requisitos do Parecer leva à violação do inciso II do art. 29 da Lei nº 12.101, de 2009, ou seja, que não haveria aplicação integral dos recursos no desenvolvimento dos seus objetivos institucionais. A SC nº 144, de 2019 apresenta o mesmo argumento. O motivo comum nos atos citados é que a cessão de mão de obra, feita de forma habitual, sempre constitui em uma transferência do benefício fiscal para o tomador da mão de obra, e portanto, enseja a evasão fiscal. É papel da fiscalização impedir que Instituições que gozam da imunidade sejam utilizadas para a prática de evasão fiscal. E, de fato, é possível encontrar entidade que, por supostamente prestar serviço assistencial, tem o gozo da imunidade mas, no mundo real, serve como intermediadora de mão de obra e assim transfere, de forma dolosa e fraudulenta, o benefício fiscal ao terceiro que com ela contrata. A simulação de ato, a fraude ou a má-fé, não podem ser presumidas, a não ser quando a presunção é expressa em Lei, neste caso, Lei Complementar. Os requisitos apontados em um Parecer, construídos por uso da interpretação das regras legais da época, sem base legal expressa, não podem ser utilizados como uma presunção, quase com caráter absoluto, de fraude, com o propósito de burlar o pagamento das contribuições previdenciárias. Dito em outras palavras, não basta a simples verificação se há previsão contratual de cessão de mão de obra, o percentual quantitativo de cedidos representa para a pessoa jurídica e a temporalidade do contrato, para presumir que há transferência do benefício ao Fl. 836DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 41 terceiro. É ônus inafastável da fiscalização trazer, no caso concreto, fatos, provas e indícios da ocorrência de fraude. Ela não é presumível, tem que ser comprovada. Portanto, quer seja considerando o inciso V do art. 55 da Lei nº 8.212, de 1991, quer seja considerando o inciso II do art. 29 da Lei nº 12.101, de 2009, o afastamento da imunidade só poderá ocorrer se houver a comprovação, inequívoca e a cargo da Fiscalização, que houve a transferência indevida do benefício fiscal para a tomadora da mão de obra. A simples apuração dos requisitos do Parecer não serve para isso. A Lei Complementar nº 187, de 2021, que veio regulamentar o assunto da Imunidade para as entidades beneficentes, para além de não fazer qualquer restrição a atividade de cessão de mão de obra, fez o contrário, expressamente admitiu como forma de geração de receita, nos termos do art. 30 e 31, porém com requisitos para transparência dos valores recebidos, como o registro segregado na contabilidade e o destaque em Notas Explicativas, e, se ultrapassar o limite do regulamento, a obrigatoriedade de ter as demonstrações contábeis auditadas. Art. 30. As entidades beneficentes de assistência social poderão desenvolver atividades que gerem recursos, inclusive por meio de filiais, com ou sem cessão de mão de obra, de modo a contribuir com as finalidades previstas no art. 2º desta Lei Complementar, registradas segregadamente em sua contabilidade e destacadas em suas Notas Explicativas. Art. 31. Constituem requisitos para a certificação de entidade de assistência social: (...) § 4º As entidades que atuem exclusivamente na área certificável de assistência social, ainda que desempenhem eventual atividade de que trata o art. 30 desta Lei Complementar, caso obtenham faturamento anual que ultrapasse o valor fixado em regulamento, deverão apresentar as demonstrações contábeis auditadas, nos termos definidos em regulamento. (grifos não originais) Em resumo, o relatório fiscal não pode se basear unicamente nos requisitos do Parecer CJ nº 3237, de 2004, para presumir a ocorrência de fraude de forma a justificar o afastamento da imunidade com base no inciso V do art. 55 da Lei nº 8.212, de 1991 ou do II do art. 29 da Lei 12.101, de 2009. É necessário trazer elementos de prova para demonstrar, no caso concreto, a existência de dolo, fraude ou simulação. E, até a edição da LC nº 187, de 2021, não havia regra legal que tratasse da atividade da cessão de mão de obra por entidades beneficentes, assim, se ela era portadora de CEBAS válido, não poderia a Fiscalização afastar a imunidade com base no inciso III do art. 55 da Lei nº 8.212, de 1991. Fl. 837DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 42 A partir da edição da LC nº 187, de 2021, a cessão é atividade expressamente permitida, mas com requisitos, que só são exigíveis para os fatos geradores ocorridos a partir da publicação da Lei. Análise dos elementos trazidos no Relatório Fiscal No caso concreto, o lançamento está baseado na análise dos contratos de cessão: 17. Com o fim de examinar pormenorizadamente os contratos de cessão de mão- de-obra acima citados, foram solicitadas cópias dos mesmos (conforme docs. Juntados aos autos), em especial, os que foram celebrados entre a entidade e as seguintes empresas contratantes: Prefeitura Municipal do Guarujá; Câmara Municipal do Guarujá; Santos Brasil S.A.; Translitoral Transportes Turismo e Participações LTDA; Dow Brasil S.A.; Casa Grande Hotel. Constatou-se que, em todos os convênios celebrados pela entidade fiscalizada, constam as cláusulas de prazo indeterminado relativos à duração dos contratos firmados entre a entidade e as empresas contratadas bem como fica clara a obrigação contratual por parte das referidas empresas (contratantes de serviços de mão-de-obra) pelo pagamento de uma taxa no percentual de 70% (setenta por cento) devido à Entidade, sendo esta calculada sobre o valor dos salários pagos aos adolescentes aprendizes. Entendo que tal percentual constitui-se elevado e mormente, em desacordo com a taxa corrente praticada no mercado cobrada pelas empresas cujo valor calculado para efeito de taxa de administração não alcança 70% sobre a prestação de serviços eventualmente executados nos contratos de CESSÃO DE MÃO-DE-OBRA. (...) 25. Da exposição acima resulta que as entidades que realizam cessão remunerada de mão-de-obra não podem, em regra, serem consideradas beneficentes de assistência social, e, portanto, não fazem jus à isenção prevista no art. 195, § 7, da Constituição. Entretanto, é possível estabelecer, a partir de um esforço hermenêutico, situações muito especiais em que a cessão onerosa de mão-de-obra pode ser feita sem retirar a natureza beneficente de assistência social da entidade. 26. Tais hipóteses passam necessariamente pela verificação de dois critérios, a saber: caráter acidental da cessão onerosa de mão-de-obra em face das atividades desenvolvidas pela entidade beneficente; e mínima representatividade quantitativa de empregados cedidos em relação ao número de empregados da entidade beneficente. (...) 29. Certifica-se que a contratação de serviços da forma realizada pela entidade (nos termos dos itens acima descritos) tem caráter indubitavelmente COMERCIAL e não ASSISTENCIAL o que caracteriza indubitavelmente uma distorção entre o efetivo enquadramento de natureza filantrópica da entidade (fins institucionais Fl. 838DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 43 estabelecidos no Estatuto Social e o devido enquadramento legal), resultando deste os benefícios fiscais devidos e a real natureza; execução e resultado da atividade por ela exercida. Fica claro que toda a segunda etapa do trabalho executado pela entidade em epígrafe não se insere no conceito de gratuidade sob o aspecto jurídico e social, e portanto, à margem do âmbito da "assistência social" conforme rezam os preceitos constitucionais aqui apontados. 30. Reitera-se no caso em tela a condição sob a qual a prestação de cessão de mão-de-obra é exercida (de forma permanente) , independentemente de haver previsão expressa no Estatuto Social, conduta que contraria o requisito de aplicação integral de suas rendas, recursos e eventual superávit integralmente no território nacional, na manutenção e desenvolvimento de seus objetivos institucionais. (...) (grifos não originais) O lançamento do crédito tributário foi feito com base nos incisos III e V do art. 55 da Lei nº 8.212, de 1991. Quanto ao inciso III, como já argumentado, não poderia justificar o afastamento da imunidade. Resta apreciar a possível violação do inciso V do art. 55. O único elemento concreto trazido no Relatório Fiscal foi a informação que a taxa de administração (pertencente à cessionária da mão de obra) correspondia a 70% do salário pago aos menores e tal valor estaria fora da realidade do mercado. A taxa de administração, qualquer que seja o valor, é renda da entidade e não da tomadora. Taxas maiores de administração oferecem um incremento na renda da instituição, mas não configura, de modo algum, uma redução nas despesas da tomadora, único fato que daria algum indicio de transferência de benefício fiscal. De acordo com o contrato (e-fls. 149), o valor devido pela tomadora da mão de obra era estipulado em 2,35 salários-mínimos por menor aprendiz colocado à disposição. Não vejo como tal valor denotaria indícios de transferência de benefício fiscal para a tomadora. Os demais apontamentos são baseados exclusivamente nos requisitos do Parecer CJ nº 3237, de 2004, então, não há elementos para caracteriza que tenha ocorrido transferência indevida de benefícios fiscais para terceiros a justifica o afastamento da imunidade com base no art. 14, II do CTN e V, do art. 55 da Lei nº 8.212, de 1991. CONCLUSÃO Por todo o exposto, voto dar provimento ao Recurso Voluntário. Fl. 839DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-012.245 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.000082/2011-12 44 Assinado Digitalmente Flavia Lilian Selmer Dias Fl. 840DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto admissão do Recurso Mérito Cessão de mão de obra por Entidade Beneficente Parecer CJ MPS nº 3272, de 2004 Solução de Consulta Cosit nº 10, de 2015 Solução de Consulta nº 144, de 2019 Críticas as conclusões do Parecer Nº 3272, de 2004 da Solução de Consulta nº 10, de 2015 e da Solução de Consulta Cosit nº 144, de 2019 Análise dos elementos trazidos no Relatório Fiscal Conclusão

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11489136 #
Numero do processo: 10660.720128/2019-91
Turma: Segunda Turma Ordinária da Primeira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Jun 08 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Mon Sep 07 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2015 a 31/12/2017 NULIDADE. AUTO DE INFRAÇÃO. DESCRIÇÃO DOS FATOS. FUNDAMENTAÇÃO LEGAL. CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Não padece de nulidade o lançamento que descreve adequadamente os fatos geradores, identifica a matéria tributável, indica os dispositivos legais aplicáveis e possibilita o pleno exercício do contraditório e da ampla defesa pelo sujeito passivo. ARGUIÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE. INCOMPETÊNCIA DA INSTÂNCIA ADMINISTRATIVA. SUMULA CARF N. 02 É vedado ao CARF afastar a aplicação de lei sob fundamento de inconstitucionalidade, ressalvadas as hipóteses legalmente previstas. Aplicação da Súmula CARF nº 2. CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. FUNRURAL. DÉBITOS DECLARADOS EM GFIP. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. A prévia declaração dos débitos em GFIP não impede sua constituição mediante lançamento de ofício quando constatada a ausência de recolhimento. MULTA DE OFÍCIO. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. INAPLICABILIDADE. A regularização do débito após o início do procedimento fiscal afasta a espontaneidade prevista no art. 138 do CTN, legitimando a aplicação da multa de ofício. SENAR. RECOLHIMENTO SOB CÓDIGO INCORRETO. ÔNUS DA PROVA. A mera alegação de erro no código de arrecadação, desacompanhada de prova inequívoca da vinculação dos pagamentos aos débitos lançados, não afasta a exigência tributária.
Numero da decisão: 2102-004.414
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, rejeitar a preliminar e, no mérito, negar provimento ao recurso voluntário Assinado Digitalmente Carlos Eduardo Fagundes de Paula - Relator Assinado Digitalmente Cleberson Alex Friess - Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Jose Marcio Bittes, Carlos Eduardo Fagundes de Paula, Carlos Marne Dias Alves, Christianne Kandyce Gomes Ferreira de Mendonca (substituto[a] integral), Wilderson Botto (substituto[a] integral), Cleberson Alex Friess (Presidente). Ausente(s) o conselheiro(a) Yendis Rodrigues Costa, substituído (a) pelo(a) conselheiro(a) Wilderson Botto.
Nome do relator: CARLOS EDUARDO FAGUNDES DE PAULA

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conteudo_txt : Metadados => date: 2026-09-07T00:55:21Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.5; xmp:CreatorTool: Microsoft® Word 2010; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; language: pt-BR; dcterms:created: 2026-09-07T00:55:21Z; Last-Modified: 2026-09-07T00:55:21Z; dcterms:modified: 2026-09-07T00:55:21Z; dc:format: application/pdf; version=1.5; Last-Save-Date: 2026-09-07T00:55:21Z; pdf:docinfo:creator_tool: Microsoft® Word 2010; access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:modified: 2026-09-07T00:55:21Z; meta:save-date: 2026-09-07T00:55:21Z; pdf:encrypted: false; modified: 2026-09-07T00:55:21Z; Content-Type: application/pdf; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; dc:language: pt-BR; meta:creation-date: 2026-09-07T00:55:21Z; created: 2026-09-07T00:55:21Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 7; Creation-Date: 2026-09-07T00:55:21Z; pdf:charsPerPage: 1711; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; pdf:docinfo:created: 2026-09-07T00:55:21Z | Conteúdo => D O C U M E N T O V A L ID A D O MINISTÉRIO DA FAZENDA Conselho Administrativo de Recursos Fiscais PROCESSO 10660.720128/2019-91 ACÓRDÃO 2102-004.414 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA SESSÃO DE 8 de junho de 2026 RECURSO VOLUNTÁRIO RECORRENTE GLOBAL COFFEE EXPORTACAO LTDA INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2015 a 31/12/2017 NULIDADE. AUTO DE INFRAÇÃO. DESCRIÇÃO DOS FATOS. FUNDAMENTAÇÃO LEGAL. CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Não padece de nulidade o lançamento que descreve adequadamente os fatos geradores, identifica a matéria tributável, indica os dispositivos legais aplicáveis e possibilita o pleno exercício do contraditório e da ampla defesa pelo sujeito passivo. ARGUIÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE. INCOMPETÊNCIA DA INSTÂNCIA ADMINISTRATIVA. SUMULA CARF N. 02 É vedado ao CARF afastar a aplicação de lei sob fundamento de inconstitucionalidade, ressalvadas as hipóteses legalmente previstas. Aplicação da Súmula CARF nº 2. CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. FUNRURAL. DÉBITOS DECLARADOS EM GFIP. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. A prévia declaração dos débitos em GFIP não impede sua constituição mediante lançamento de ofício quando constatada a ausência de recolhimento. MULTA DE OFÍCIO. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. INAPLICABILIDADE. A regularização do débito após o início do procedimento fiscal afasta a espontaneidade prevista no art. 138 do CTN, legitimando a aplicação da multa de ofício. SENAR. RECOLHIMENTO SOB CÓDIGO INCORRETO. ÔNUS DA PROVA. A mera alegação de erro no código de arrecadação, desacompanhada de prova inequívoca da vinculação dos pagamentos aos débitos lançados, não afasta a exigência tributária. Fl. 375DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2102-004.414 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10660.720128/2019-91 2 ACÓRDÃO Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, rejeitar a preliminar e, no mérito, negar provimento ao recurso voluntário Assinado Digitalmente Carlos Eduardo Fagundes de Paula – Relator Assinado Digitalmente Cleberson Alex Friess – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Jose Marcio Bittes, Carlos Eduardo Fagundes de Paula, Carlos Marne Dias Alves, Christianne Kandyce Gomes Ferreira de Mendonca (substituto[a] integral), Wilderson Botto (substituto[a] integral), Cleberson Alex Friess (Presidente). Ausente(s) o conselheiro(a) Yendis Rodrigues Costa, substituído (a) pelo(a) conselheiro(a) Wilderson Botto. RELATÓRIO Trata-se de Recurso Voluntário interposto por GLOBAL COFFEE EXPORTAÇÃO LTDA. em face do Acórdão nº 16-92.086, proferido pela 1ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em São Paulo/SP (DRJ/SPO), que julgou improcedente a impugnação apresentada, mantendo integralmente o lançamento tributário formalizado nos autos. A presente exigência fiscal decorre de procedimento de auditoria instaurado pela Seção de Fiscalização da Delegacia da Receita Federal do Brasil em Varginha/MG, amparado pelo Mandado de Procedimento Fiscal nº 06.1.06.00-2018-00183, do qual a contribuinte tomou ciência mediante Termo de Início de Procedimento Fiscal (TIPF) em 14/12/2018. A fiscalização abrangeu o período compreendido entre janeiro de 2015 e dezembro de 2017, tendo por objeto a constituição de créditos tributários relativos às contribuições previdenciárias incidentes sobre a comercialização da produção rural adquirida de produtores rurais pessoas físicas, cuja retenção e recolhimento incumbiam à adquirente por sub-rogação, bem como às contribuições destinadas ao Serviço Nacional de Aprendizagem Rural – SENAR. Fl. 376DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2102-004.414 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10660.720128/2019-91 3 Em decorrência dos trabalhos fiscais, foram lavrados dois autos de infração. O primeiro, objeto dos presentes autos (Processo nº 10660.720128/2019-91), formalizou exigência de contribuição previdenciária substitutiva incidente sobre a comercialização da produção rural (FUNRURAL), no montante total de R$ 2.731.109,19, compreendendo tributo, multa de ofício de 75% e juros de mora. Já o segundo lançamento, posteriormente desmembrado para o processo em apenso nº 10665.721396/2020-14, refere-se às contribuições destinadas ao SENAR, no valor de R$ 132.480,00. Ao apreciar a impugnação, a DRJ/SPO concluiu pela integral procedência do lançamento. Em síntese, entendeu o colegiado de origem que não restariam configurados os requisitos para reconhecimento da denúncia espontânea prevista no art. 138 do Código Tributário Nacional, haja vista que a adesão da contribuinte ao Programa de Regularização Tributária Rural – PRR ocorreu apenas em 19/12/2018, ou seja, posteriormente ao início formal do procedimento fiscal, ocorrido em 14/12/2018. Consignou ainda a decisão recorrida que a instauração da medida fiscalizatória afasta o requisito da espontaneidade, tornando inaplicável o benefício previsto no art. 138 do CTN. Destacou, ademais, que a contribuinte não impugnou especificamente os fundamentos essenciais do lançamento, atraindo a incidência do art. 17 do Decreto nº 70.235/72 quanto às matérias não contestadas. Irresignada, a contribuinte interpôs Recurso Voluntário. Em preliminar, suscita nulidade do lançamento por alegado vício insanável decorrente da ausência de comprovação da base de cálculo utilizada pela fiscalização. Sustenta que não teriam sido juntadas aos autos cópias dos livros fiscais e notas fiscais que embasaram a apuração do crédito tributário, circunstância que, a seu ver, teria ocasionado cerceamento do direito de defesa. No mérito, defende o descabimento do lançamento de ofício ao argumento de que os débitos já teriam sido previamente confessados em GFIP, razão pela qual não seria cabível a constituição mediante auto de infração com imposição de multa de ofício de 75%, restando admissível apenas a cobrança administrativa dos valores declarados. No tocante especificamente às contribuições destinadas ao SENAR, sustenta ter promovido o pagamento integral das exações, afirmando que teria ocorrido mero erro material no preenchimento do código de arrecadação nas guias GPS. Aduz que formulou pedido administrativo de retificação antes do julgamento de primeira instância, sem que a DRJ tivesse enfrentado adequadamente a questão, circunstância que, segundo a recorrente, ensejaria a nulidade da decisão recorrida ou, subsidiariamente, o reconhecimento da quitação dos valores exigidos. É o relatório. Fl. 377DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2102-004.414 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10660.720128/2019-91 4 VOTO Conselheiro Carlos Eduardo Fagundes de Paula – Relator Pressupostos de Admissibilidade O presente recurso encontra-se tempestivo e reúne as demais condições de admissibilidade, motivo pelo qual deve ser conhecido. 1 - Preliminarmente Alegação de inconstitucionalidade da norma de regência O contribuinte sustenta, em sede de preliminar, que a exação objeto do lançamento seria inconstitucional por violar diversos dispositivos da Constituição Federal, incluindo os arts. 146, III, 154, I e 195, §§ 4º e 8º. Entretanto, à luz do disposto no art. 26-A do Decreto nº 70.235/72, com a redação dada pela Lei nº 11.941/2009, os órgãos julgadores administrativos são impedidos de afastar a aplicação de lei ou ato normativo sob o fundamento de inconstitucionalidade, salvo nas hipóteses ali expressamente previstas. No presente caso, não há declaração definitiva de inconstitucionalidade do art. 25 da Lei nº 8.212/91, com redação dada pela Lei nº 10.256/2001, por parte do STF, sendo inaplicável a exceção prevista no § 6º do referido artigo. Nessa linha, aplica-se a Súmula CARF nº 02, segundo a qual: Súmula CARF nº 2 Aprovada pelo Pleno em 2006 O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Assim, sem maiores delongas, rejeita-se a preliminar suscitada. - Das Nulidades Conforme exposto, a Recorrente argui, preliminarmente, a nulidade do lançamento, sustentando que o Auditor-Fiscal extrapolou sua competência ao "impor" multas, tarefa que seria privativa do órgão judicante, e que o ato padece de erro latente por sua natureza meramente declaratória. Aponta ainda cerceamento de defesa por falta de descrição precisa da base de cálculo e dos dispositivos legais infringidos, além de negativa de prestação jurisdicional pela não realização de diligências e perícias solicitadas para verificar a situação dos produtores rurais. Sob o prisma criminal, insurge-se contra a Representação Fiscal para Fins Penais, qualificando-a como falsa comunicação de crime ante a ausência de prova da retenção dos valores. Contudo, tais arguições de nulidade devem ser integralmente afastadas por absoluta falta de amparo legal. À luz do artigo 10 do Decreto nº 70.235/1972, o Auto de Infração em tela cumpre rigorosamente todos os requisitos formais, contendo a qualificação da autuada, a descrição detalhada do fato gerador, a base de cálculo apurada tecnicamente e a capitulação legal Fl. 378DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2102-004.414 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10660.720128/2019-91 5 pertinente. Não se vislumbra a hipótese de nulidade prevista no artigo 59 do mesmo diploma, uma vez que o ato foi lavrado por autoridade competente e no estrito cumprimento do artigo 142 do CTN, que vincula a atividade de lançamento à proposição da penalidade cabível. Ademais, vigora no processo administrativo o princípio da ausência de nulidade sem prejuízo; a robusta peça de defesa apresentada pela Recorrente, rebatendo minuciosamente cada ponto da acusação, é prova inequívoca de que o direito ao contraditório e à ampla defesa foi plenamente exercido. Quanto à preliminar de nulidade por alegada ausência de comprovação da base de cálculo, igualmente não se verifica qualquer vício apto a macular o lançamento. A fiscalização consignou expressamente ter procedido à apuração dos valores mediante análise dos registros fiscais e documentos da contribuinte, tendo sido oportunizado pleno acesso aos elementos formadores da exigência, inexistindo demonstração concreta de prejuízo ao exercício do contraditório e da ampla defesa. A mera alegação genérica de ausência de juntada integral de documentos fiscais não é suficiente para ensejar nulidade do lançamento, sobretudo quando a Recorrente sequer impugna especificamente os valores constitutivos da exigência principal, limitando-se a sustentar tese jurídica relacionada à impossibilidade de lançamento de ofício e à aplicação da multa correspondente. Assim, rejeita-se as preliminares. Do mérito Em síntese, observa-se que a Recorrente não apresenta insurgência propriamente dita quanto à incidência das contribuições previdenciárias substitutivas sobre a comercialização da produção rural, tampouco impugna a condição de sub-rogação atribuída à adquirente da produção rural de produtores pessoas físicas, nos termos do art. 25 da Lei nº 8.212/91. Ao contrário, a própria peça recursal reconhece expressamente que os valores exigidos correspondem às contribuições declaradas pela própria contribuinte em GFIP, limitando sua irresignação, essencialmente, à forma de constituição e cobrança do crédito tributário, especialmente quanto à aplicação da multa de ofício. Com efeito, a controvérsia recursal não se desenvolve sobre a exigibilidade material do FUNRURAL, nem sobre a ocorrência dos fatos geradores, base de cálculo ou sujeição passiva tributária. O cerne da insurgência consiste na alegação de que os débitos já teriam sido previamente confessados em GFIP, circunstância que, segundo a Recorrente, afastaria a possibilidade de constituição mediante auto de infração e, por consequência, inviabilizaria a imposição da multa de ofício de 75%. Nesse contexto, a Recorrente sustenta que a autoridade fiscal apenas reproduziu, no lançamento, os mesmos valores anteriormente declarados, defendendo a impropriedade do lançamento de ofício para cobrança de débito confessado e não pago. Para amparar sua tese, invoca precedentes administrativos relacionados à impossibilidade de lançamento de ofício sobre Fl. 379DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2102-004.414 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10660.720128/2019-91 6 débitos previamente declarados em DCTF, buscando, subsidiariamente, o afastamento da penalidade aplicada. No tocante especificamente às contribuições destinadas ao SENAR, a Recorrente afirma ter promovido o recolhimento integral dos valores exigidos, alegando que teria ocorrido mero erro material no preenchimento do código de arrecadação nas GPS. Aduz, ainda, ter formulado pedido administrativo de retificação antes do julgamento em primeira instância, sem que houvesse manifestação da DRJ acerca da matéria. Desse modo, verifica-se que o Recurso Voluntário não desenvolve impugnação substancial contra a própria incidência das contribuições do FUNRURAL, limitando-se, em essência, à discussão acerca: (i) da alegada nulidade do lançamento por insuficiência probatória; (ii) da impossibilidade de lançamento de ofício sobre débitos confessados; (iii) da consequente inexigibilidade da multa de ofício; e (iv) da alegada quitação das contribuições destinadas ao SENAR mediante recolhimentos efetuados sob código incorreto. Pois bem! Inicialmente, quanto à alegação recursal de impossibilidade de imposição da multa de ofício em razão de suposta denúncia espontânea, não assiste razão à Recorrente. Conforme se extrai dos autos, o procedimento fiscal foi formalmente instaurado mediante ciência do Termo de Início de Procedimento Fiscal em 14/12/2018, circunstância expressamente reconhecida pela própria contribuinte em seu recurso voluntário. Não obstante, verifica-se que a adesão ao Programa de Regularização Tributária Rural – PRR, bem como as medidas voltadas à regularização dos débitos, ocorreram apenas posteriormente ao início da ação fiscal, circunstância suficiente para afastar a caracterização da espontaneidade prevista no art. 138 do Código Tributário Nacional. Nesse sentido, correta a conclusão da decisão recorrida ao consignar que “qualquer medida tendente à quitação do débito tributário” promovida após o início da fiscalização não possui o condão de afastar a incidência da multa de ofício, sendo plenamente cabível a constituição do crédito tributário mediante lançamento de ofício. A jurisprudência deste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais é firme no mesmo sentido. Importa destacar, ademais, que a controvérsia recursal não envolve insurgência propriamente dita quanto à incidência material das contribuições destinadas ao FUNRURAL. A Recorrente não questiona a ocorrência dos fatos geradores, a condição de sub-rogação da adquirente rural, tampouco a base normativa da exigência prevista no art. 25 da Lei nº 8.212/91. Ao revés, a própria defesa reconhece que os valores exigidos correspondem aos montantes anteriormente declarados em GFIP, limitando sua irresignação à alegada impossibilidade de formalização do lançamento de ofício e à consequente incidência da multa de ofício sobre débitos confessados. Fl. 380DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2102-004.414 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10660.720128/2019-91 7 Todavia, também não prospera tal argumento. Isso porque a circunstância de os débitos terem sido declarados em GFIP não impede, por si só, a constituição do crédito tributário mediante lançamento de ofício quando constatada a ausência de recolhimento e, sobretudo, quando a regularização pretendida somente ocorre após o início da ação fiscal. Por fim, quanto às contribuições destinadas ao SENAR, a Recorrente sustenta ter efetuado os respectivos recolhimentos, alegando mero erro no preenchimento do código de arrecadação nas GPS. Entretanto, eventual pedido administrativo de retificação de códigos de recolhimento não possui o condão, por si só, de afastar automaticamente a higidez do lançamento, sobretudo diante da ausência de comprovação inequívoca da efetiva vinculação dos pagamentos aos débitos objeto da presente exigência. Assim, ausente prova suficiente da liquidação integral do débito exigido, não há elementos aptos a justificar o cancelamento da cobrança ou a nulidade da decisão recorrida. Assim, nesse ponto, nada a prover na esfera recursal. Conclusão Face ao exposto, conheço do recurso voluntário, rejeito as preliminares e, no mérito, nego provimento. Assinado Digitalmente Carlos Eduardo Fagundes de Paula Fl. 381DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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Numero do processo: 10880.954014/2013-63
Turma: Segunda Turma Ordinária da Primeira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Apr 13 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Thu Sep 10 00:00:00 UTC 2026
Numero da decisão: 3102-000.582
Decisão: Resolvem os membros do colegiado, por maioria de votos, converter o julgamento do Recurso Voluntário em diligência, nos termos do voto condutor. Vencidos os conselheiros Jorge Luís Cabral e Fábio Kirzner Ejchel. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido na Resolução nº 3102-000.579, de 17 de abril de 2026, prolatada no julgamento do processo 10880.954011/2013-20, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Pedro Sousa Bispo - Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Fabio Kirzner Ejchel, Joana Maria de Oliveira Guimaraes, Jorge Luís Cabral, Sabrina Coutinho Barbosa, Wilson Antônio de Souza Correa, Pedro Sousa Bispo (Presidente).
Nome do relator: PEDRO SOUSA BISPO

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Vencidos os conselheiros Jorge Luís Cabral e Fábio Kirzner Ejchel. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido na Resolução nº 3102-000.579, de 17 de abril de 2026, prolatada no julgamento do processo 10880.954011/2013-20, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Pedro Sousa Bispo – Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Fabio Kirzner Ejchel, Joana Maria de Oliveira Guimaraes, Jorge Luís Cabral, Sabrina Coutinho Barbosa, Wilson Antônio de Souza Correa, Pedro Sousa Bispo (Presidente). RELATÓRIO O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023. Dessa forma, adota-se neste relatório substancialmente o relatado na resolução paradigma. Trata-se de Recurso Voluntário, interposto em face de acórdão de primeira instância que julgou improcedente Manifestação de Inconformidade, cujo objeto era a reforma do Despacho Decisório exarado pela Unidade de Origem, que denegara o Pedido de Compensação apresentado pelo Contribuinte. O pedido é referente à Declaração de Compensação de crédito de Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins, referente a pagamento efetuado Fl. 322DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3102-000.582 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10880.954014/2013-63 2 indevidamente ou a maior no período de apuração 31/03/2013, no valor de R$14.890,60, transmitida através do PER/Dcomp nº 22334.95223.250613.1.3.04-4042. Os fundamentos do Despacho Decisório da Unidade de Origem e os argumentos da Manifestação de Inconformidade estão resumidos no relatório do acórdão recorrido. A Recorrente tomou ciência da Decisão de Primeira Instância e apresentou Recurso Voluntário argumentando, em síntese: I. O motivo da não homologação da PER/DCOMP foi o fato de o crédito pretendido já ter sido utilizado integralmente, e que não procedeu à retificação da DCTF. II. Pretende trazer em Recurso Voluntário as provas de que o valor devido seria diferente daquele declarado em DCTF, e que haveria saldo suficiente para a homologação integral do PER/DCOMP. Por fim, apresenta o seguinte pedido: Diante de todo o exposto, demonstrada a insubsistência e improcedência da ação fiscal, e, por lógica, a incorreção do entendimento acolhido pelo acórdão 14- 83.591, requer seja acolhido o presente Recurso Voluntário, para fins de reconhecer-se a homologação do pedido de compensação de crédito de COFINS, transmitido no PER/DCOMP de n°. 22334.95223.250613.1.3.04- 4042, e, consequentemente, seja determinado o cancelamento integral do débito fiscal discutido. Termos que pede deferimento. Este é o relatório. VOTO Tratando-se de julgamento submetido à sistemática de recursos repetitivos na forma do Regimento Interno deste Conselho, reproduz-se o voto condutor consignado na resolução paradigma como razões de decidir. Deixa-se de transcrever o voto vencido, que pode ser consultado na resolução paradigma e deverá ser considerado, para todos os fins regimentais, inclusive de pré-questionamento, como parte integrante desta decisão, transcrevendo-se o entendimento majoritário da turma, expresso no voto vencedor do redator designado: Com todas as vênias, entendo que o processo não está maduro para julgamento e, por isso, divirjo do i. Relator. O processo trata de restituição (despacho decisório eletrônico), e o crédito não foi integralmente confirmado porque alocado para pagamento: Fl. 323DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3102-000.582 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10880.954014/2013-63 3 A premissa adotada pela DRJ e corroborada pelo i. Relator circunda a ausência de provas. Assim fundamenta o i. Relator: Entendo que, apesar do esforço da Recorrente de trazer provas contábeis em Recurso Voluntário, que aceito como válidas, a DCTF constitui confissão de dívida, e a mera apresentação de retificação da escrituração contábil das contribuições e das memórias de cálculo do DACON não são suficientes para atestar o valor do verdadeiro valor do crédito tributário para o período de apuração em questão. Como dito anteriormente, a Recorrente tomou conhecimento do indeferimento do crédito por meio de despacho eletrônico. Tão logo foi alertada pela DRJ quanto à necessidade de produção de provas, apresentou, em recurso voluntário, elementos que entendeu serem capazes de contrapor os fatos (alínea “c”, § 4º, do art. 16 do Decreto nº 70.235/72) bem como, prestou esclarecimentos. Das informações prestadas me chama atenção os seguintes fatos: (i) DACON com débito para março de 2013 no valor de R$ 26.866,42 (transmissão 03/06/2013); (ii) Retificação EFD-Contribuição reduzindo o débito de R$ 34.259,30 para R$ 26.866,42 (transmissão 04/06/2013); (iii) PER transmitido em 28/05/2013 e ciência em 11/12/2013; (iv) DCTF transmitida em 22/05/2013. Considerando os documentos e datas, entendo que o sistema da receita federal no cruzamento das informações prestadas em recorrente acabou por considerar, tão somente, DCTF (que não poderia ser objeto de retificação uma vez que transmitido o PER). No entanto, outros documentos já constavam com o valor que a recorrente aponta como devido para março de 2013 qual seja R$ 26.866,42. Assim, considerando que o despacho é eletrônico e o cruzamento do banco de dados da receita federal desconsiderou outros elementos válidos, Considerando que o DACON e a EFD-Contribuições apontam relevância jurídica da pretensão, E, em homenagem aos princípios da verdade material e do formalismo moderado, entendo que a realização de diligência confirmaria a certeza e a liquidez do crédito. Fl. 324DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3102-000.582 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10880.954014/2013-63 4 Pelo exposto, voto na conversão do julgamento em diligência para que a Unidade de Origem analise as provas carreadas aos autos e os fundamentos da recorrente que apontam a possibilidade de erro na DCTF. Sendo necessário, intime a recorrente para prestar esclarecimentos e apresentar documentação complementar, em auxílio aos trabalhos fiscais. Encerrados os trabalhos, seja elaborado relatório conclusivo de diligência informando se há crédito restituível, dando-se prazo de 30 (trinta) dias para que a recorrente se manifeste. Vencido o prazo, sejam os autos devolvidos ao CARF para conclusão do julgamento. Conclusão Importa registrar que as situações fática e jurídica destes autos se assemelham às verificadas na decisão paradigma, de sorte que as razões de decidir nela consignadas são aqui adotadas, não obstante os dados específicos do processo paradigma eventualmente citados neste voto. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do RICARF, reproduz-se o decidido na resolução paradigma, no sentido de converter o julgamento do Recurso Voluntário em diligência. Assinado Digitalmente Pedro Sousa Bispo – Presidente Redator Fl. 325DF CARF MF Original Resolução Relatório Voto

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Numero do processo: 10283.900947/2017-01
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 28 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Tue Sep 08 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Data do fato gerador: 30/04/2015 DIREITO CREDITÓRIO. APRECIAÇÃO APÓS CIÊNCIA DO DESPACHO DECISÓRIO. INEXATIDÃO MATERIAL. PROVAS. A retificação da DCTF, depois de prolatado o despacho decisório, não é impedimento para deferimento do pedido, desde que o contribuinte demonstre o erro, e por conseguinte, a existência da liquidez e certeza do crédito pleiteado, por meio de prova idônea. Súmula CARF nºs 164.
Numero da decisão: 1001-004.419
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer e acolher os embargos com efeitos infringentes para apreciar as matérias recursais suscitadas e dar provimento em parte ao recurso voluntário para aplicação do direito superveniente previsto nas determinações do Parecer Normativo Cosit n° 2, de 28 de agosto de 2015 e da Súmula CARF nº 164 para fins de reconhecimento da possibilidade de formação de indébito, mas sem homologar a compensação por ausência de análise do mérito, com o consequente retorno dos autos à DRF de Origem para verificação da existência, suficiência e disponibilidade do direito creditório pleiteado no Per/DComp devendo o rito processual ser retomado desde o início. Assinado Digitalmente Gustavo de Oliveira Machado - Relator Assinado Digitalmente Carmen Ferreira Saraiva - Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Elias da Silva Filho (substituto[a] integral), Ana Cecilia Lustosa da Cruz, Reginaldo Cezar Cardoso, Gustavo de Oliveira Machado, Carmen Ferreira Saraiva (Presidente).
Nome do relator: GUSTAVO DE OLIVEIRA MACHADO

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APRECIAÇÃO APÓS CIÊNCIA DO DESPACHO DECISÓRIO. INEXATIDÃO MATERIAL. PROVAS. A retificação da DCTF, depois de prolatado o despacho decisório, não é impedimento para deferimento do pedido, desde que o contribuinte demonstre o erro, e por conseguinte, a existência da liquidez e certeza do crédito pleiteado, por meio de prova idônea. Súmula CARF nºs 164. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer e acolher os embargos com efeitos infringentes para apreciar as matérias recursais suscitadas e dar provimento em parte ao recurso voluntário para aplicação do direito superveniente previsto nas determinações do Parecer Normativo Cosit n° 2, de 28 de agosto de 2015 e da Súmula CARF nº 164 para fins de reconhecimento da possibilidade de formação de indébito, mas sem homologar a compensação por ausência de análise do mérito, com o consequente retorno dos autos à DRF de Origem para verificação da existência, suficiência e disponibilidade do direito creditório pleiteado no Per/DComp devendo o rito processual ser retomado desde o início. Assinado Digitalmente Gustavo de Oliveira Machado – Relator Assinado Digitalmente Carmen Ferreira Saraiva – Presidente Fl. 233DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.419 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10283.900947/2017-01 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Elias da Silva Filho (substituto[a] integral), Ana Cecilia Lustosa da Cruz, Reginaldo Cezar Cardoso, Gustavo de Oliveira Machado, Carmen Ferreira Saraiva (Presidente). RELATÓRIO Per/DComp A Contribuinte formalizou o Pedido de Compensação através do Per/DComp n°. 14571.39106.200515.1.3.04-4016 utilizando-se do crédito referente ao pagamento indevido ou a maior de Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ), código 3317, no valor de R$ 813.112,95 contido no DARF do valor de R$ 813.112,95 recolhido em 30.04.2015 para compensação dos débitos ali confessados. Despacho Decisório Consta no Despacho Decisório, e-fls. 121-132: “(...) O crédito em análise corresponde ao valor necessário para compensação dos débitos declarados. Valor do crédito em análise: R$ 813.112,95 Valor do crédito reconhecido: R$0,00 CARACTERÍSTICAS DO DARF DISCRIMINADO NO PER/DCOMP (...) A partir do DARF informado para os PER/DCOMP objeto dessa análise, foram localizados um ou mais pagamentos, com a seguinte utilização: (...) Informações complementares da análise do crédito estão disponíveis na página internet da Receita Federal do Brasil e integram este despacho. Diante do exposto, NÃO HOMOLOGO a compensação declarada no PER/DCOMP acima identificado. Valor devedor consolidado, correspondente aos débitos indevidamente compensados, para pagamento até 31/05/2017. PRINCIPAL 821.244,07 MULTA 164.248,81 JUROS 211.880,97”. Fl. 234DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.419 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10283.900947/2017-01 3 Manifestação de Inconformidade e Decisão de Primeira Instância Cientificada, a Contribuinte apresentou a manifestação de inconformidade. Está registrado no Acórdão da 1ª Turma DRJ/09 nº 109-009.040, de 27.09.2021, (e-fls. 137-141): “Acordam os membros da 1ª TURMA de Julgamento, por unanimidade de votos, JULGAR IMPROCEDENTE A MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE”. Recurso Voluntário Inconformada com o teor do acórdão recorrido, a Contribuinte interpôs Recurso Voluntário, cujo teor segue abaixo em síntese (e-fls. 149/157): “(...) 2. Os fatos O presente processo tem por objeto o pedido de restituição cumulado com declaração de compensação, por meio do qual a recorrente pretende aproveitar crédito proveniente de pagamento indevidamente realizado a título de IRPJ, no valor de R$ 813.112,94, correspondente ao período de março de 2015. Ao analisar o referido pedido e sem a instauração de qualquer procedimento de fiscalização preliminar, a d. autoridade da Receita Federal do Brasil (RFB) houve por bem indeferi-lo, sob o argumento de que o referido pagamento teria sido integralmente alocado para quitação de débito de igual montante e período declarado pela própria recorrente, inexistindo saldo passível de repetição. É importante registrar que a conclusão acima decorre de mero cruzamento de informações entre os sistemas da RFB, confrontando os dados indicados em PER/DCOMP e aqueles declarados em DCTF. Nesse contexto, conforme esclarecido pela recorrente em sua manifestação de inconformidade, por mero lapso, ela deixou de retificar a sua DCTF do período, com o objetivo compatibilizar a informação constante nessa declaração com aquela consignada em PER/DCOMP. Tal fato, contudo, não justifica, por si só, o indeferimento do pedido formulado, nos termos do Parecer Normativo COSIT n. 2, de 28.8.2015. Caberia ao agente da RFB intimar a recorrente para a apresentação de esclarecimentos, inclusive para promover a retificação da declaração, se fosse o caso. Não por outra razão que, intimada sobre os termos do despacho decisório, além de suscitar as orientações do PN COSIT n. 2 mencionadas acima, a recorrente promoveu a retificação da sua DCTF do período (fls. 83-115). Fl. 235DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.419 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10283.900947/2017-01 4 Mas não é só. Além de ajustar as suas obrigações acessórias, a recorrente esclareceu que o recolhimento indevidamente realizado está relacionado com rendimento auferido em uma operação financeira de renda variável (Termo de Moedas), cujo recolhimento deve ser realizado em separado, dispensado quando o contribuinte levantar o balancete de suspensão ou redução no mês em que houver o rendimento. Essa é a orientação da própria RFB, conforme parágrafo 2º, do art. 70 da Instrução Normativa RFB n. 1585, de 31.8.2015. Confira-se: (...) Ou seja, o recolhimento realizado pela recorrente foi feito de forma indevida e em duplicidade. De um lado mediante o cômputo do rendimento por ocasião do levantamento de balancete mensal e, de outro lado, pelo próprio recolhimento do tributo em separado. Ao apreciar a defesa, o v. acórdão não divergiu das alegações mencionadas acima, no que tange à origem do crédito. A decisão manteve as conclusões do despacho decisório sob o argumento de que a recorrente não teria apresentado as provas necessárias que evidenciam a origem do seu direito creditório. Ocorre que, pelas razões de fato e de direito a seguir demonstradas, a referida decisão não merece prosperar, devendo o v. acórdão ser reformado, reconhecendo-se o direito ao crédito postulado pela recorrente, homologando-se, ainda, a declaração de compensação apresentada. É o que se passa a demonstrar. 3. As razões que justificam a reforma da decisão. Conforme demonstrado em manifestação de inconformidade, tão logo a recorrente tomou conhecimento do despacho decisório, ela prontamente retificou a sua DCTF do período, de modo a compatibilizar a informação constante nessa declaração com o crédito indicado em PER/DCOMP. É o que se verifica dos documentos acostados às fls. 42-115. Esse procedimento encontra respaldo no PN COSIT n. 2, que admite a retificação da declaração após a intimação do despacho decisório. O parecer, de igual modo, esclarece que, além desse procedimento, cabe ao contribuinte demonstrar a origem do crédito e do erro cometido por ocasião do preenchimento da obrigação acessória. Esse foi justamente o procedimento adotado pela recorrente: retificou a sua DCTF do período e esclareceu, em manifestação de inconformidade, o equívoco cometido. Além disso, demonstrou que o pagamento foi realizado de forma indevida e em duplicidade, justamente porque a recorrente, por um lapso, não observou o disposto no parágrafo 2º, do art. 70 da IN RFB n. 1585, que dispensava o pagamento do IRPJ em separado quando aquele rendimento integrasse a apuração do imposto. Fl. 236DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.419 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10283.900947/2017-01 5 Assim, conforme mencionado anteriormente, o recolhimento foi realizado de forma indevida, pois, de um lado, a recorrente computou o rendimento por ocasião da apuração do tributo e, de outro lado, recolheu o IRPJ em separado. Não por outra razão que a recorrente, com fundamento no art. 165, inciso I do Código Tributário Nacional (CTN) c/c parágrafo 2º, do art. 70 da IN RFB n. 1585 formulou o pedido de restituição, cumulado com declaração de compensação, nos termos do art. 74 da Lei n. 9430, de 27.12.1996. O v. acórdão não divergiu das alegações mencionadas acima, no que tange à origem do crédito e até mesmo da retificação realizada após o despacho decisório. A decisão manteve as conclusões do despacho decisório sob o argumento de que a recorrente não teria apresentado as provas necessárias que evidenciam a origem do seu direito creditório. Veja-se: (...) Ocorre que a decisão não merece prosperar. De início, é importante ressaltar que as provas indicadas pelo v. acórdão encontram-se em poder da própria Administração Tributária. De fato, os registros contábeis da recorrente estão disponíveis na Escrituração Contábil Digital (ECD), ao passo que a apuração do IRPJ do período encontra-se detalhada na Escrituração Contábil Fiscal (ECF). O confronto entre tais escriturações permitiria aos julgadores de 1ª instância obter a informação desejada. Daí o dever, de ofício, das d. autoridades de analisar esses documentos antes da emissão da decisão, tal como estabelece o art. 37 da Lei n. 9784, de 29.1.1999, c/c art. 29 do Decreto n. 7574, de 29.9.2011. Ainda assim, após a consulta a tais documentos e na hipótese de as d. autoridades julgadoras não conseguirem localizar as informações desejadas, com fundamento no princípio da verdade material e com base no art. 18 do Decreto n. 70235, o julgamento deveria ser convertido em diligência, seja para que a recorrente fosse intimada para prestar tais esclarecimentos, seja para solicitar que tais verificações fossem realizadas pelo agente da RFB de origem que, na data de emissão do despacho decisório, não promoveu qualquer investigação sobre a origem do crédito. O que se verifica a partir das observações acima é que há sucessivos atos que acabam por cercear o pleno exercício do direito de defesa da recorrente, atraindo a disposição do inciso II, do art. 59 do Decreto n. 70235. De um lado a inexistência de investigação adequada dos fatos por ocasião da emissão do despacho decisório, afrontando o disposto no art. 142 do CTN e, de outro lado, pela análise sumária da questão em sede de julgamento de 1ª instância, a despeito das informações estarem disponíveis nos bancos de dados do próprio Fisco, o que esbarra no art. 29 do Decreto n. 7574. Seja como for, com fundamento no parágrafo 3º, do art. 59 do Decreto n. 70235 e com o objetivo de mais uma vez elucidar a questão, a recorrente postula a Fl. 237DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.419 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10283.900947/2017-01 6 juntada dos seguintes documentos, repita-se, disponíveis nos bancos de dados da RFB, que comprovam inequivocamente o recolhimento realizado de forma indevida e em duplicidade (doc. 02): a) Razão da conta 611011501 extraído da ECD – Ajuste positivo derivativos financeiros: demonstra que em 1º.4.2015 a recorrente recebeu o montante de R$ 5.421.024,00, auferido em uma operação financeira de renda variável (Termo de Moedas); b) Recibo da ECD relativa ao ano-calendário 2015: escrituração da qual foi extraído o Razão (item “a” acima), correspondente ao Livro n. 177; c) Registro E355 da ECF - Saldo das Contas de Resultado antes do Encerramento: nesse Registro é possível observar o saldo da conta 611011501, no montante de R$ 5.421.024,00, ao final do período; d) Registro C040 da ECF – Identificador ECF: demonstra que a movimentação da ECD foi importada para a ECF, ou seja, todo o movimento contábil constante na ECD passou a compor a ECF do período; e) Registro C050 da ECF – Plano de Contas da ECD: demonstra que a conta contábil 611011501 e seu respectivo código referencial (3.01.01.05.01.02 - Ganhos Auferidos no Mercado de Renda Variável, exceto Day-Trade) correspondem a uma conta de resultado, portanto, tributável para fins de IRPJ; f) Registro K355 da ECF – Saldos Finais das contas contábeis de resultado antes do encerramento: demonstra o saldo da conta 3.01.01.05.01.02 ao final do período, no valor de R$ 5.421.024,00; g) Registro L030 da ECF - Identificação do período e Registro L300 - Demonstração do Resultado: nesses Registros é possível verificar na linha 3.01.01.05.01.02 o valor de R$ 5.421.024,00, tributado no período; h) Registro 010 da ECF – Parâmetros de tributação: nesse registro há o indicativo de levantamento de Balanço ou Balancete no mês de março de 2015, confirmando que houve o recolhimento em duplicidade do IRPJ sobre a receita auferida. Mas não é só. Não bastassem as informações acima que confirmam o oferecimento à tributação daquele rendimento e, consequentemente, a duplicidade já indicada nestes autos, a recorrente também postula a juntada dos seguintes documentos (doc. 03): i) Extrato emitido pelo Banco Santander, agência 2014, conta corrente 13-000002- 9, de titularidade da recorrente: esse documento comprova o recebimento do rendimento líquido de impostos no valor de R$ 5.420.752,95 (“liquidação termo moeda”); j) Razão da conta 1110213 extraído da ECD – Banco Santander Brasil S.A.: nesse documento é possível identificar o respectivo lançamento contábil, no valor de R$ 5.420.752,95 mencionado acima; Fl. 238DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.419 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10283.900947/2017-01 7 k) Razão da conta 1140103 extraído da ECD - IRRF Aplicações Financeiras: nesse documento é possível identificar o respectivo IRRF correspondente ao aludido rendimento, no montante de R$ 271,05, proveniente da aplicação da alíquota de 0,005% sobre o montante de R$ 5.421.024,00, justificando o recebimento do rendimento líquido de imposto no valor de R$ 5.420.752,95. O que se verifica, em suma, é que o montante de R$ 5.421.024,00 compôs a apuração da recorrente, tendo sido tributado nos termos do parágrafo 2º, do art. 70 da IN RFB n. 1585. Por outro lado, além de integrar a base de cálculo do tributo, a recorrente também efetuou o pagamento do imposto em separado. Basta verificar que a aplicação da alíquota de 15% sobre o montante de R$ 5.420.752,95 (líquido de IRRF) totaliza os R$ 813.153,60 indicados em PER/DCOMP. Deste modo, considerando que não há qualquer objeção apresentada no despacho decisório ou no acórdão recorrido a respeito do fundamento jurídico que justificou o pedido de restituição, é forçoso reconhecer que as provas apontadas pela decisão de 1ª instância seguem anexadas ao presente recurso, com fundamento na alínea “c”, do parágrafo 4º, do art. 16 do Decreto n. 70235. Logo, outra solução não cabe no presente caso senão o integral provimento ao presente recurso, reconhecendo-se o direito creditório postulado pela recorrente e homologando-se a declaração de compensação. Caso assim não se entenda, em respeito aos princípios da eventualidade, verdade material e do formalismo moderado, requer-se a conversão do julgamento em diligência, nos termos do art. 18 do Decreto n. 70235, a fim de que a recorrente possa apresentar eventuais outros documentos que confirmem todas as suas alegações apresentadas nestes autos desde a sua manifestação de inconformidade. 4. Pedido. Em face de todas as considerações acima, requer-se o conhecimento e o integral provimento do presente recurso voluntário, a fim de que o acórdão de 1ª instância seja reformado, cancelando-se integralmente o despacho decisório. Requer-se, por fim, a produção de todas as provas admitidas em direito, bem como a realização de eventuais diligências e perícias, nos termos e para os efeitos dos arts. 16 e 18 do Decreto n. 70235, em respeito ao princípio da verdade material. (...)”. Decisão de Segunda Instância Fl. 239DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.419 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10283.900947/2017-01 8 Está registrado no Acórdão da 1ª TEx/1ª Seção nº 1001-003.888, de 04.06.2025, e- fls. 198/209: “Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar suscitada e, no mérito, por maioria de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário, vencidos os Conselheiros Carmen Ferreira Saraiva e Gustavo de Oliveira Machado, que lhe deram provimento parcial. Apresentou voto divergente, por escrito, no plenário virtual, a Conselheira Carmen Ferreira Saraiva, que vencido, converte-se em declaração de voto”. Embargos de Declaração Os Embargos de Declaração foram opostos pela Contribuinte em face do Acórdão da 1ª TEx/1ª Seção nº 1001-003.888, de 04.06.2025, e-fls. 216/221, “a fim de que seja suprido o vício de omissão apontado no v. acórdão embargado, com o pronunciamento expresso a respeito das questões expostas, com a atribuição de efeitos infringentes, se cabíveis”. Despacho de Admissibilidade dos Embargos Os Embargos Inominados foram opostos pela Presidente da Turma em face do voto do Acórdão da 1ª TEx/1ª Seção nº 1001-003.888, de 04.06.2025, e-fls. 198-209, nos termos do § 1º do art. 116 e art. 117 do Anexo do Regimento do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023, tendo em vista “que não restaram integralmente estabelecidos os nexos causais entre os fatos narrados, os direitos aplicáveis aos casos e as consequências jurídicas a que se chegam relativamente a todas as matérias litigiosas”. Julgamento Após os autos foram distribuídos a minha relatoria e retornaram para análise dos embargos, com a posterior inclusão em pauta de julgamento. É o relatório. VOTO Conselheiro Gustavo de Oliveira Machado, Relator. Fl. 240DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.419 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10283.900947/2017-01 9 Tempestividade Os embargos apresentados foram admitidos nos termos do § 1º do art. 116 e art. 117 do Anexo do Regimento do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023, por restar evidenciada a incompletude da fundamentação do voto condutor do Acórdão da 1ª TEx/1ª Seção nº 1001-003.888, de 04.06.2025, e-fls. 198-209, da qual decorre a inexatidão material. Assim, deles tomo conhecimento. Delimitação da Lide Conforme princípio de adstrição do julgador aos limites da lide, a atividade judicante está constrita ao exame do mérito da existência do crédito relativo ao pagamento indevido ou a maior de Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ), código 3317, no valor de R$ 813.112,95 referente ao recolhimento em 30.04.2015 pleiteado no presente processo (art. 15, art. 141 e art. 492 do Código de Processo Civil, que se aplica supletiva e subsidiariamente ao Processo Administrativo Fiscal - Decreto nº 70.235, de 02 de março de 1972). Necessidade de Comprovação da Liquidez e Certeza do Indébito A Recorrente discorda do procedimento fiscal. O sujeito passivo que apurar crédito relativo a tributo administrado pela RFB, passível de restituição, pode utilizá-lo na compensação de débitos. A partir de 01.10.2002, a compensação somente pode ser efetivada por meio de declaração e com créditos e débitos próprios, que ficam extintos sob condição resolutória de sua ulterior homologação. Também os pedidos pendentes de apreciação foram equiparados a declaração de compensação, retroagindo à data do protocolo. O Per/DComp delimita a amplitude de exame do direito creditório alegado pela Recorrente quanto ao preenchimento dos requisitos, de modo que em regra a retificação somente é possível se encontrar pendente de decisão administrativa à data do envio do documento retificador e o seu cancelamento é procedimento cabível ao sujeito passivo na forma, no tempo e lugar previstos na legislação tributária (art. 165, art. 168, art. 170 e art. 170-A do Código Tributário Nacional, art. 74 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996 com redação dada pelo art. 49 da Medida Provisória nº 66, de 29 de agosto de 2002, que entrou em vigor em 01.10.2002 e foi convertida na Lei nº 10.637, de 30 de dezembro de 2002). Posteriormente, ou seja, em 31.10.2003, ficou estabelecido que o Per/DComp constitui confissão de dívida e instrumento hábil e suficiente para a exigência dos débitos indevidamente compensados, bem como que o prazo para homologação tácita da compensação Fl. 241DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.419 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10283.900947/2017-01 10 declarada é de cinco anos, contados da data da sua entrega até a intimação válida do despacho decisório. Ademais, o procedimento se submete ao rito do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, inclusive para os efeitos do inciso III do art. 151 do Código Tributário Nacional (§1º do art. 5º do Decreto-Lei nº 2.124, de 13 de junho de 1984, art. 17 da Medida Provisória nº 135, de 30 de outubro de 2003 e art. 17 da Lei nº 10.833, de 29 de dezembro de 2003). O pressuposto é de que a pessoa jurídica deve manter os registros de todos os ganhos e rendimentos, qualquer que seja a denominação que lhes seja dada independentemente da natureza, da espécie ou da existência de título ou contrato escrito, bastando que decorram de ato ou negócio. A escrituração mantida com observância das disposições legais faz prova a seu favor dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais. Para que haja o reconhecimento do direito creditório é necessário um cuidadoso exame do pagamento a maior de tributo como condição absolutamente essencial para fins de verificação da precisão dos dados informados. Cabe a averiguação dos livros de registros obrigatórios pela legislação fiscal específica, bem como os documentos e demais papéis que serviram de base para escrituração comercial e fiscal (art. 195 do Código Tributário Nacional, art. 51 da Lei nº 7.450, de 23 de dezembro de 1985, art. 6º e art. 9º do Decreto-Lei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977 e art. 37 da Lei nº 8.981, de 20 de novembro de 1995). Instaurada a fase litigiosa do procedimento, cabe a Recorrente produzir o conjunto probatório nos autos de suas alegações, já que o procedimento de apuração do direito creditório não prescinde da comprovação inequívoca da liquidez e da certeza do valor de direito creditório pleiteado. Devem ser detalhados os motivos de fato e de direito em que se baseiam com exposição de forma minuciosa os pontos de discordância e suas razões. A peça de defesa deve ser instruída com prova documental imprescindível à comprovação das matérias suscitadas dada a concentração dos atos em momento oportuno (art. 170 do Código Tributário Nacional e art. 15, art. 16, art. 18 e art. 29 do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972). A “escrituração mantida com observância das disposições legais faz prova a favor do contribuinte dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais” (art. 9º do Decreto-Lei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977). Nesse sentido, a legislação exige que a Recorrente produza prova de suas alegações que demonstrem a liquidez e certeza do direito creditório pleiteado (art. 170 do Código Tributário Nacional). Observe-se que no caso de “o interessado declarar que fatos e dados estão registrados em documentos existentes na própria Administração responsável pelo processo ou em outro órgão administrativo, o órgão competente para a instrução proverá, de ofício, à obtenção dos documentos ou das respectivas cópias” (art. 37 e art. 69 da Lei nº 9.784, de 29 de janeiro de 1999 e Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972). Tem-se que no processo administrativo fiscal a Administração deve se pautar no princípio da verdade material, flexibilizando a preclusão no que se refere a apresentação de documentos, a fim de que se busque ao máximo a incidência tributária (Parecer PGFN nº 591, de 17 de abril de 2014). Fl. 242DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.419 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10283.900947/2017-01 11 Em se tratando da necessidade de se demonstrar a liquidez e certeza do crédito que a Recorrente pretende utilizar no Per/DComp, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) pacificou que: “10. A compensação, posto modalidade extintiva do crédito tributário (artigo 156, do CTN), exsurge quando o sujeito passivo da obrigação tributária é, ao mesmo tempo, credor e devedor do erário público, sendo mister, para sua concretização, autorização por lei específica e créditos líquidos e certos, vencidos e vincendos, do contribuinte para com a Fazenda Pública (artigo 170, do CTN)” (Agravo Regimental no Recuso Especial nº 862.572/CE). Nesse sentido, em caso de Per/DComp inverte-se o ônus da prova, cabendo à Recorrente comprovar seu direito líquido e certo. É dever da autoridade fiscal, ao analisar os valores informados em Per/DComp para fins de decidir homologação ou não da compensação, investigar a exatidão do indébito apurado pela Recorrente. Está registrado no Acórdão da 1ª Turma da CSRF do CARF nº 9101-002.548, de 07.02.2017, cujos fundamentos de fato e direito são acolhidos de plano nessa segunda instância de julgamento (art. 50 da Lei nº 9.784, de 29 de janeiro de 1999): Tratando-se de fato constitutivo de direito, cujo ônus da prova incumbe ao autor, em conformidade com o art. 333, inciso I, do Código de Processo Civil CPC (Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015), e tendo em vista que a existência, certeza e liquidez do crédito pleiteado são requisitos essenciais ao deferimento da restituição/compensação requerida, na forma do art. 170 do Código Tributário Nacional CTN (Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966), compete ao sujeito passivo, que dele pretende se beneficiar, a efetiva comprovação daquele crédito [...]. Cabe a aplicação do enunciado estabelecido nos termos do art. 123 do Anexo do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023: “Súmula CARF nº 164 A retificação de DCTF após a ciência do despacho decisório que indeferiu o pedido de restituição ou que não homologou a declaração de compensação é insuficiente para a comprovação do crédito, sendo indispensável a comprovação do erro em que se fundamenta a retificação. (Vinculante, conforme Portaria ME nº 12.975, de 10/11/2021, DOU de 11/11/2021)”. O Parecer Normativo Cosit n° 2, de 28 de agosto de 2015, prevê: “Conclusão 22. Por todo o exposto, conclui-se: a) as informações declaradas em DCTF – original ou retificadora – que confirmam disponibilidade de direito creditório utilizado em PER/DCOMP, podem tornar o crédito apto a ser objeto de PER/DCOMP desde que não sejam diferentes das informações prestadas à RFB em outras declarações, tais como DIPJ e Dacon, por força do disposto no§ 6º do art. 9º da IN RFB nº 1.110, de 2010, sem prejuízo, no caso concreto, da competência da autoridade fiscal para analisar outras questões ou documentos com o fim de decidir sobre o indébito tributário; Fl. 243DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.419 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10283.900947/2017-01 12 b) não há impedimento para que a DCTF seja retificada depois de apresentado o PER/DCOMP que utiliza como crédito pagamento inteiramente alocado na DCTF original, ainda que a retificação se dê depois do indeferimento do pedido ou da não homologação da compensação, respeitadas as restrições impostas pela IN RFB nº 1.110, de 2010; c) retificada a DCTF depois do despacho decisório, e apresentada manifestação de inconformidade tempestiva contra o indeferimento do PER ou contra a não homologação da DCOMP, a DRJ poderá baixar em diligência à DRF. Caso se refira apenas a erro de fato, e a revisão do despacho decisório implique o deferimento integral daquele crédito (ou homologação integral da DCOMP), cabe à DRF assim proceder. Caso haja questão de direito a ser decidida ou a revisão seja parcial, compete ao órgão julgador administrativo decidir a lide, sem prejuízo de renúncia à instância administrativa por parte do sujeito passivo; d) o procedimento de retificação de DCTF suspenso para análise por parte da RFB, conforme art. 9º-A da IN RFB nº 1.110, de 2010, e que tenha sido objeto de PER/DCOMP, deve ser considerado no julgamento referente ao indeferimento/não homologação do PER/DCOMP. Caso o procedimento de retificação de DCTF se encerre com a sua homologação, o julgamento referente ao direito creditório cuja lide tenha o mesmo objeto fica prejudicado, devendo o processo ser baixado para a revisão do despacho decisório. Caso o procedimento de retificação de DCTF se encerre com a não homologação de sua retificação, o processo do recurso contra tal ato administrativo deve, por continência, ser apensado ao processo administrativo fiscal referente ao direito creditório, cabendo à DRJ analisar toda a lide. Não ocorrendo recurso contra a não homologação da retificação da DCTF, a autoridade administrativa deve comunicar o resultado de sua análise à DRJ para que essa informação seja considerada na análise da manifestação de inconformidade contra o indeferimento/não- homologação do PER/DCOMP; e) a não retificação da DCTF pelo sujeito passivo impedido de fazê-la em decorrência de alguma restrição contida na IN RFB nº 1.110, de 2010, não impede que o crédito informado em PER/DCOMP, e ainda não decaído, seja comprovado por outros meios; f) o valor objeto de PER/DCOMP indeferido/não homologado, que venha a se tornar disponível depois de retificada a DCTF, não poderá ser objeto de nova compensação, por força da vedação contida no inciso VI do § 3º do art. 74 da Lei nº 9.430, de 1996; e g) Retificada a DCTF e sendo intempestiva a manifestação de inconformidade, a análise do pedido de revisão de ofício do PER/DCOMP compete à autoridade administrativa de jurisdição do sujeito passivo, observadas as restrições do Parecer Normativo nº 8, de 3 de setembro de 2014, itens 46 a 53”. Consta no Acórdão da 1ª Turma DRJ/09 nº 109-009.040, de 27.09.2021, e-fls. 137- 143: Fl. 244DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.419 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10283.900947/2017-01 13 “(...) 23. Apesar disso e à mingua de outros detalhes, haja vista que a contribuinte não trouxe documentação contábil correspondente, não foi possível constatar em qual linha/conta contábil o alegado rendimento foi informado. Ou seja, não há comprovação de que o rendimento foi incluído na apuração das estimativas mensais do ano-calendário de 2015. 24. Desse modo, como a retificação da DCTF de março de 2015 não encontra respaldo na ECF do A.C. 2015 e nem em outro documento, conforme prevê o Parecer Normativo Cosit nº 2, de 28 de agosto de 2015, entendo que não é possível reconhecer o direito creditório pleiteado. Conclusão 25. Isto posto, voto no sentido de considerar improcedente a presente manifestação de inconformidade, mantendo o despacho decisório em todos os seus termos. (...)”. Como consta do acórdão proferido pela DRJ, “a retificação da DCTF de março de 2015 não encontra respaldo na ECF do A.C. 2015 e nem em outro documento, conforme prevê o Parecer Normativo Cosit n° 2, de 28 de agosto de 2015”. A retificação da DCTF é ato unilateral do sujeito passivo, com efeito de lançamento tributário, contudo deve ser comprovada por provas contábeis e fiscais. Tendo em vista as divergências identificadas no recurso voluntário é possível analisar a possibilidade de deferimento do indébito pleiteado nos presentes autos em cotejo com as informações constantes nos sistemas da RFB e aquelas originárias dos registros contábeis e fiscais e respectivos documentos que a Recorrente deve apresentar para fins de comprovação do indébito indicado no Per/DComp, conforme o Parecer Normativo Cosit n° 2, de 28 de agosto de 2015 e a Súmula CARF nº 164. A partir da matéria de insurgência recursal dialogando com a decisão de primeira instância cabe esclarecer que foi produzido pela Recorrente um início de prova da apuração do indébito, de acordo com o acervo fático-probatório composto da Escrituração Contábil Digital, Extratos Bancários e Livro Razão, e-fls. 164-181. As informações constantes nos sistemas da RFB devem ser cotejadas com aquelas originárias dos registros contábeis e fiscais e demais documentos que a Recorrente deve ser notificada a apresentar. Os efeitos da aplicação do direito superveniente fixam a relação de causalidade com a possibilidade de deferimento da Per/DComp. Esta legislação impõe, pois, o retorno dos autos a DRF de origem que inaugurou o litígio sob esse fundamento para que seja analisado o conjunto probatório produzido junto com o recurso voluntário referente ao mérito do pedido. Devem ser averiguadas a origem e a procedência do crédito pleiteado, em conformidade com a escrituração mantida com observância das disposições legais, desde que evidenciada por documentos hábeis, Fl. 245DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.419 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10283.900947/2017-01 14 segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais em cotejo com os registros internos da RFB. O procedimento previsto no rito do art. 74 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, pode ser revisto no caso em que foi instaurada a fase litigiosa no procedimento. A autoridade administrativa deve apreciar fato não conhecido ou não provado por ocasião ao ato original decorrente de fato ou a direito superveniente, e ainda se destine a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos, caso em que é elaborado ato administrativo complementar com efeito retroativo ao tempo de sua execução. Assim, no rito do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972, sendo afastado o óbice do despacho decisório original em que a compensação não foi homologada na sua integralidade, cabe a autoridade preparadora retomar a verificação do indébito. Registre-se que não se tratar de nova lide, mas sim a continuação de análise do direito creditório pleiteado considerando o saneamento no seu exame. Por conseguinte, não há que se falar em perda do direito de a Fazenda Pública analisar o Per/DComp nesse segundo momento, já que da ciência deste ato complementar não ocorre a homologação tácita, pois os débitos estão com exigibilidade suspensa desde a instauração do litígio. Cumpre registrar, inclusive, que, enquanto a Recorrente não for cientificada de uma nova decisão quanto ao mérito de sua compensação, os débitos compensados permanecem com a exigibilidade suspensa, por não se verificar decisão definitiva acerca de seus procedimentos. E, caso tal decisão não resulte na homologação total das compensações promovidas, deve ser possibilitada a discussão do mérito da compensação nas duas instâncias administrativas de julgamento, conforme o rito processual do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972 (§ 11 do art. 74 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996). Dispositivo Em assim sucedendo voto em conhecer e acolher os embargos com efeitos infringentes para apreciar as matérias recursais suscitadas e dar provimento em parte ao recurso voluntário para aplicação do direito superveniente previsto nas determinações do Parecer Normativo Cosit n° 2, de 28 de agosto de 2015 e da Súmula CARF nº 164 para fins de reconhecimento da possibilidade de formação de indébito, mas sem homologar a compensação por ausência de análise do mérito, com o consequente retorno dos autos à DRF de Origem para verificação da existência, suficiência e disponibilidade do direito creditório pleiteado no Per/DComp devendo o rito processual ser retomado desde o início. Assinado Digitalmente Gustavo de Oliveira Machado – Relator Fl. 246DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.419 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10283.900947/2017-01 15 Fl. 247DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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Numero do processo: 10855.901303/2014-58
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Jul 27 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Thu Sep 10 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Exercício: 1990, 1991, 1992, 1993, 1994, 1995 DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. PAGAMENTO INDEVIDO E/OU A MAIOR. PIS/PASEP. DECRETOS-LEI Nº 2.445/88 E 2.449/88. DECISÃO JUDICIAL TRANSITADA EM JULGADO. PEDIDO DE HABILITAÇÃO. APURAÇÃO DO CRÉDITO. O deferimento de pedido de habilitação não implica reconhecimento do direito creditório ou homologação da compensação. Demonstrada, em planilhas anexas ao Despacho Decisório, a apuração do crédito nele reconhecido, alegação de deferimento do pedido de habilitação e de existência de crédito maior, desacompanhada de identificação/comprovação na Manifestação de Inconformidade de inobservância, pela autoridade da DRF, da decisão judicial transitada em julgado, não é hábil a alterar o Despacho Decisório. PIS/PASEP. BASE DE CÁLCULO. SEMESTRALIDADE. A contribuição ao PASEP será calculada, em cada mês, com base na receita e nas transferências apuradas no sexto mês imediatamente anterior ao da ocorrência do fato gerador, sem correção monetária no intervalo dos seis meses, até a edição da Medida Provisória nº 1.212/95.
Numero da decisão: 3201-013.687
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Rodrigo Pinheiro Lucas Ristow - Relator Assinado Digitalmente Helcio Lafeta Reis - Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Fabiana Francisco de Miranda, Flavia Sales Campos Vale, Marcelo Enk de Aguiar, Rodrigo Pinheiro Lucas Ristow, Wagner Mota Momesso de Oliveira (substituto[a] integral), Helcio Lafeta Reis (Presidente). Ausente(s) o conselheiro(a) Barbara Cristina de Oliveira Pialarissi, substituído(a)pelo(a) conselheiro(a) Wagner Mota Momesso de Oliveira.
Nome do relator: RODRIGO PINHEIRO LUCAS RISTOW

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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Rodrigo Pinheiro Lucas Ristow - Relator Assinado Digitalmente Helcio Lafeta Reis - Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Fabiana Francisco de Miranda, Flavia Sales Campos Vale, Marcelo Enk de Aguiar, Rodrigo Pinheiro Lucas Ristow, Wagner Mota Momesso de Oliveira (substituto[a] integral), Helcio Lafeta Reis (Presidente). Ausente(s) o conselheiro(a) Barbara Cristina de Oliveira Pialarissi, substituído(a)pelo(a) conselheiro(a) Wagner Mota Momesso de Oliveira.

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PAGAMENTO INDEVIDO E/OU A MAIOR. PIS/PASEP. DECRETOS-LEI Nº 2.445/88 E 2.449/88. DECISÃO JUDICIAL TRANSITADA EM JULGADO. PEDIDO DE HABILITAÇÃO. APURAÇÃO DO CRÉDITO. O deferimento de pedido de habilitação não implica reconhecimento do direito creditório ou homologação da compensação. Demonstrada, em planilhas anexas ao Despacho Decisório, a apuração do crédito nele reconhecido, alegação de deferimento do pedido de habilitação e de existência de crédito maior, desacompanhada de identificação/comprovação na Manifestação de Inconformidade de inobservância, pela autoridade da DRF, da decisão judicial transitada em julgado, não é hábil a alterar o Despacho Decisório. PIS/PASEP. BASE DE CÁLCULO. SEMESTRALIDADE. A contribuição ao PASEP será calculada, em cada mês, com base na receita e nas transferências apuradas no sexto mês imediatamente anterior ao da ocorrência do fato gerador, sem correção monetária no intervalo dos seis meses, até a edição da Medida Provisória nº 1.212/95. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Fl. 233DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3201-013.687 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.901303/2014-58 2 Rodrigo Pinheiro Lucas Ristow – Relator Assinado Digitalmente Helcio Lafeta Reis – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Fabiana Francisco de Miranda, Flavia Sales Campos Vale, Marcelo Enk de Aguiar, Rodrigo Pinheiro Lucas Ristow, Wagner Mota Momesso de Oliveira (substituto[a] integral), Helcio Lafeta Reis (Presidente). Ausente(s) o conselheiro(a) Barbara Cristina de Oliveira Pialarissi, substituído(a)pelo(a) conselheiro(a) Wagner Mota Momesso de Oliveira. RELATÓRIO Trata-se de Recurso Voluntário interposto contra decisão proferida pela DRJ que julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade apresentada e não reconheceu o direito creditório. Por retratar com fidelidade os fatos, adoto, com os devidos acréscimos, o relatório produzido em primeira instância, o qual está consignado nos seguintes termos: Trata o presente processo de Declarações de Compensação com crédito de pagamento indevido ou a maior de Contribuição ao PIS oriundo de ação judicial assim identificado na DCOMP inicial de nº 17430.29144.240913.1.3.54-6250 (fl. 3): Conforme Despacho Decisório de fl. 26, o direito creditório foi parcialmente reconhecido (R$ 124.592,94) e as compensações foram homologadas até o limite do crédito concedido: A análise do crédito consta do demonstrativo de fl. 27, acompanhado dos anexos de fls. 28/62: O Anexo demonstrativo de pagamentos encontra-se às fls. 28/32: Demonstrativo de Apuração de Débitos encontra-se às fls. 33/38: E, às fls. 39/53, Demonstrativo Resumo das vinculações auditadas: Às fls. 54/60, Demonstrativo de Saldos de Pagamentos: De fls. 61/62 consta o Detalhamento da Compensação do crédito reconhecido: Cientificada do Despacho Decisório em 14/05/2014, a Interessada apresentou em 13/06/2014, Manifestação de Inconformidade de fls. 65/70, acompanhada de documentos, com as razões a seguir sintetizadas: Fl. 234DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3201-013.687 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.901303/2014-58 3 Alega estar a autoridade fiscal equivocada quando reconhece apenas o valor de R$ 124.592,94 como direito creditório, o qual fora conservadoramente informado pelo contribuinte em R$ 276.828,47. Argumenta que: - referido valor total do crédito atualizado informado pelo contribuinte (R$ 276.828,47) fora objeto do deferimento do pedido de habilitação de crédito reconhecido por decisão judicial transitada em julgado, passado pelo crivo da autoridade fiscal, sendo certo que este quantum encontrava-se expressamente redigido no pleito; - o correto valor total do crédito a que o contribuinte tem direito, devidamente atualizado, aplicando-se ao valor original os índices determinados na competente sentença/acórdão, transitado em julgado, perfaz o montante de R$ 540.095,05, conforme comprova mediante demonstrativo de cálculo abaixo: Em nota de rodapé à fl. 65 expõe que o contribuinte possui autorização judicial para efetuar a compensação dos valores indevidamente recolhidos a título de PIS (Decretos-leis 2445/88 e 2449/88) no período de 14/02/1990 a 14/11/1995, com débitos do próprio PIS, atualizados desde a data do recolhimento indevido (Súmula STJ 162) até a data da compensação, com aplicação da UFIR até dezembro/1995 e a incidência da taxa SELIC a partir de 01/01/1996 (art. 39,§ 4º da Lei 9250/95). Defende a suficiência do crédito para realização integral das compensações pleiteadas, devendo o mesmo ser devidamente reconhecido, sob pena de descumprimento da ordem judicial que autorizou a sua correção com aplicação da UFIR até dezembro/1995 e a incidência da taxa SELIC a partir de 01/01/1996. Finaliza requerendo o acolhimento da Manifestação de Inconformidade. Relaciona documentos que anexa como segue: (Fls. 71 a 148) Em atendimento à intimação de fls. 150, foi apresentado documento de identificação pessoal, conforme fls. 153/154. Por meio do Termo de fl. 158, foi apensado ao presente processo, aquele de número 11080.737842/2018-21, referente a notificação de lançamento de multa por compensação não homologada, sem notícia de impugnação. A decisão recorrida julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade e conforme ementa do Acórdão nº 108-015.461 - 31ª TURMA DA DRJ08 que apresentou o seguinte resultado: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Exercício: 1990, 1991, 1992, 1993, 1994, 1995 DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. PAGAMENTO INDEVIDO E/OU A MAIOR. PIS/PASEP. DECRETOS-LEI Nº 2.445/88 E 2.449/88. DECISÃO JUDICIAL TRANSITADA EM JULGADO. PEDIDO DE HABILITAÇÃO. APURAÇÃO DO CRÉDITO. Fl. 235DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3201-013.687 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.901303/2014-58 4 O deferimento de pedido de habilitação não implica reconhecimento do direito creditório ou homologação da compensação. Demonstrada, em planilhas anexas ao Despacho Decisório, a apuração do crédito nele reconhecido, alegação de deferimento do pedido de habilitação e de existência de crédito maior, desacompanhada de identificação/comprovação na Manifestação de Inconformidade de inobservância, pela autoridade da DRF, da decisão judicial transitada em julgado, não é hábil a alterar o Despacho Decisório. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido O Recurso Voluntário da Recorrente foi interposto de forma tempestiva, reproduzindo os argumentos apresentados em sede de Manifestação de Inconformidade. É o relatório. VOTO Conselheiro Rodrigo Pinheiro Lucas Ristow, Relator O recurso é tempestivo, atende os demais requisitos de admissibilidade e dele se toma conhecimento. 1 DO MÉRITO A principal argumentação da Recorrente é que o despacho decisório e o acórdão recorrido extrapolaram o quanto determinado pela decisão judicial, utilizando a semestralidade para apuração dos débitos de PIS. Todavia é possível verificar que na documentação juntada pela própria Recorrente, existe a decisão da Apelação/Reexame necessário nº 1999.61.00.001299-9, no qual podemos verificar que na ementa ela traz a regra da semestralidade, conforme se verifica abaixo: APELAÇÃO/REEXAME NECESSÁRIO Nº 1999.61.10.001299-9/SP RELATORA : Desembargadora Federal CONSUELO YOSHIDA APELANTE : EMPRESA DE ONIBUS ROSA LTDA ADVOGADO : CLEIDEMAR REZENDE ISIDORO e outro APELADO : Uniao Federal (FAZENDA NACIONAL) ADVOGADO : FERNANDO NETTO BOITEUX E ELYADIR FERREIRA BORGES REMETENTE : JUIZO FEDERAL DA 1 VARA DE SOROCABA Sec Jud SP EMENTA Fl. 236DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3201-013.687 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.901303/2014-58 5 TRIBUTÁRIO. CONSTITUCIONAL. CONTRIBUIÇÃO AO PIS. JULGAMENTO ULTRA PETITA. INCONSTITUCIONALIDADE DOS DECRETOS-LEIS N.ºS 2.445/88 E 2.449/88. COMPENSAÇÃO. PRESCRIÇÃO QÜINQÜENAL. CORREÇÃO MONETÁRIA. TAXA SELIC. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS. 1. Em se tratando de sentença ultra petita, o Tribunal pode reduzir o decisum aos limites do pleiteado na exordial. 2. A autora pleiteou o direito de compensar os valores indevidamente recolhidos a título de PIS, com base nos Decretos-Leis n.ºs 2.445/88 e 2.449/88, com débitos vincendos da mesma espécie. O MM. Juiz a quo autorizou a compensação com quaisquer tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal. 3. A inconstitucionalidade da exação, nos termos dos Decretos-leis 2445/88 e 2449/88 é questão incontroversa, já que foi declarada pelo Supremo Tribunal, quando do julgamento do RE nº 148754-RJ, havendo sido suspensa a sua execução pela Resolução nº 49 de 09/10/95 do Senado Federal. 4. Intacta a sistemática de cálculo da contribuição, prevista no parágrafo único do art. 6.º, da Lei Complementar n.º 07/70. De acordo com o dispositivo supracitado "a contribuição de julho será calculada com base no faturamento de janeiro; a de agosto com base no faturamento de fevereiro e assim sucessivamente". 5. Incabível, outrossim, a correção monetária da base de cálculo, à falta de previsão legal na LC n.º 7/70, sob pena de ofensa ao princípio da legalidade, segundo entendimento consagrado pelo STJ nos Embargos de Divergência no REsp n.º 278.227/PR. 6. Comprovado o recolhimento indevido, através das respectivas guias, é direito do contribuinte a compensação destes valores. 7. Muito embora a Lei n.º 9.430/96 tenha introduzido a possibilidade de compensação com tributos diversos administrados pela Secretaria da Receita Federal (compensação administrativa), entendo que a partir da vigência dessa lei deve ser dispensado o mesmo tratamento à denominada "compensação judicial", notadamente quanto à amplitude da compensação (tributos e contribuições compensáveis entre si), sob pena de ofensa ao princípio da isonomia. 8. Importante alteração adveio com a Lei n.º 10.637, de 30 de dezembro de 2002 (conversão da MP n.º 66/02), que alterou o art. 74 da Lei n.º 9.430/96, para atribuir ao contribuinte a iniciativa da realização da compensação. 9. Pela sistemática vigente, são dispensáveis a intervenção judicial e procedimento administrativo prévios, ficando a iniciativa e realização da compensação sob responsabilidade do contribuinte, sujeito a controle posterior pelo Fisco, restando ao Poder Judiciário examinar os critérios a respeito dos quais subsiste controvérsia (prazo prescricional e início de sua contagem, critérios e períodos da correção monetária, juros, etc.), bem como impedir que o Fisco exija Fl. 237DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3201-013.687 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.901303/2014-58 6 do contribuinte o pagamento das parcelas dos tributos objeto de compensação ou que venha a autuá-lo em razão da compensação realizada de acordo com os critérios autorizados pela ordem judicial. 10. No presente caso, possível a compensação dos valores indevidamente recolhidos a título de PIS, com base nos Decretos-Leis nºs 2.445/88 e 2.499/88, com débitos vincendos da mesma espécie, tendo em vista os limites do pedido inicial. 11. O art. 3.º, da Lei Complementar n.º 118/05 não possui caráter interpretativo, tratando-se, a bem da verdade, de nova disposição e, como tal, não pode ser aplicada às ações ajuizadas anteriormente à vigência da referida lei complementar, como ocorre no presente caso. 12. Entendimento consolidado por esta C. Turma, segundo o qual, o prazo prescricional de 5 (cinco) anos para o contribuinte pleitear a restituição ou a compensação tributária fluirá (art. 168, CTN), na hipótese de pagamento indevido, a partir da extinção definitiva do crédito. 13. Proposta a ação em 20/04/1999, transcorreu na espécie o lapso qüinqüenal em relação aos recolhimentos efetuados pela autora até 20/04/1994. 14. Os créditos do contribuinte a serem utilizados para compensação devem ser atualizados monetariamente desde a data do recolhimento indevido (Súmula STJ 162) até a data da compensação, com aplicação da Ufir até dezembro/95. 15. Incidência de juros de mora pela taxa SELIC, a partir de 1º de janeiro de 1996, com fulcro no art. 39, § 4º da Lei nº 9.250/95, devendo ser afastada a aplicação de qualquer outro índice a título de juros e de correção monetária. 16. Em razão da sucumbência recíproca, os honorários advocatícios devem ser compensados entre as partes, de acordo com o disposto no art. 21, do CPC. 17. Sentença reduzida aos limites do pedido. Apelação improvida. Remessa oficial parcialmente provida. Portanto fica claro que teve a determinação judicial para que mantivesse a apuração na sistemática da semestralidade, não podendo em se falar que o despacho decisório descumpriu ordem judicial, além disso esse formato de apuração está claro verificando jurisprudência do CARF: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/01/1992 a 31/12/1996 PRAZO PARA EFETUAR O PEDIDO DE RESTITUIÇÃO ADMINISTRATIVO. SÚMULA CARF Nº 91. Aplica-se o prazo de dez anos contados do fato gerador ao pedido de restituição pleiteado administrativamente antes de 9 de junho de 2005, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação tácita. Fl. 238DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3201-013.687 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.901303/2014-58 7 PASEP. BASE DE CÁLCULO. SEMESTRALIDADE. DECRETO Nº 71.618/72. A contribuição ao PASEP será calculada, em cada mês, com base na receita e nas transferências apuradas no sexto mês imediatamente anterior ao da ocorrência do fato gerador, sem correção monetária no intervalo dos seis meses, até a edição da Medida Provisória nº 1.212/95. (Acórdão: 3302-014.775 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA – Sessão de 22 de agosto de 2024 – Relator: José Renato Pereira de Deus) No restante do Recurso Voluntário a Recorrente traz as alegações de que possuía direito no crédito fato esse que não tem discussão, sendo que o ponto em discussão restou somente a atualização realizada pela RFB, o que conforme restou demonstrado acima está em acordo com a decisão judicial. Motivo pelo qual não verifico nenhum ajuste na decisão recorrida 2 DA CONCLUSÃO Diante do exposto voto por conhecer o Recurso Voluntário para no mérito negar provimento. Assinado Digitalmente Rodrigo Pinheiro Lucas Ristow Fl. 239DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto 1 Do mérito 2 Da conclusão

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Numero do processo: 10340.721076/2024-51
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Aug 24 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Wed Sep 09 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2021 OMISSÃO DE RECEITAS. NOTAS FISCAIS ELETRÔNICAS EMITIDAS E NÃO CANCELADAS. AUSÊNCIA DE ESCRITURAÇÃO NA ECD E ECF. PRESUNÇÃO DE REALIZAÇÃO DAS OPERAÇÕES. ESTORNOS CONTÁBEIS LANÇADOS EM CONTA DE CUSTO/DESPESA. INOBSERVÂNCIA DAS REGRAS BÁSICAS DE ESCRITURAÇÃO. AUSÊNCIA DE NOTAS FISCAIS DE DEVOLUÇÃO. MANUTENÇÃO DA EXIGÊNCIA DE IRPJ E CSLL. A emissão de notas fiscais eletrônicas ativas, desacompanhada de cancelamento regular ou de documentos fiscais de devolução, constitui elemento suficiente para caracterizar a realização das operações e a consequente omissão de receitas quando tais valores não são registrados na escrituração contábil e fiscal da recorrente. Lançamentos contábeis de estorno efetuados a crédito de contas de custo/despesa, sem lastro documental idôneo e em desconformidade com as regras elementares de escrituração, não são hábeis para demonstrar o cancelamento das operações de venda. GLOSA DE CUSTOS. AQUISIÇÃO DE MERCADORIAS. LANÇAMENTOS DE COMPRAS. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DOCUMENTAL. MANUTENÇÃO DA GLOSA PARA FINS DE IRPJ E CSLL. Devem ser mantidas as glosas dos custos registrados em conta de estoque quando não as compras registradas estão desacompanhadas de documentos idôneos ou justificativas aptas a comprovar as aquisições de mercadorias escrituradas. A alegação de que os lançamentos corresponderiam a estornos de vendas não efetivadas não se sustenta quando desacompanhada do regular cancelamento das NF-e ou de notas fiscais de devolução, especialmente diante da utilização de lançamentos em conta de custo/despesa para neutralizar receitas decorrentes de documentos fiscais ativos. ESTORNOS CONTÁBEIS DE VENDAS. LANÇAMENTOS PARCELADOS EM CONTA DE ESTOQUE. OPERAÇÕES COM EMPRESAS DO MESMO GRUPO ECONÔMICO. PRODUTOS PERECÍVEIS. AUSÊNCIA DE VEROSSIMILHANÇA. EXPEDIENTE CONTÁBIL DESTINADO À REDUÇÃO INDEVIDA DO LUCRO TRIBUTÁVEL. A escrituração de supostos estornos de vendas por meio de lançamentos parcelados na conta de estoque, ao longo de meses, envolvendo mercadorias perecíveis e destinatários integrantes do mesmo grupo econômico, revela falta de verossimilhança nas alegações da recorrente e reforça a conclusão fiscal de que houve utilização de expediente contábil artificial para anular os efeitos tributários das vendas a empresas ligadas, sem impedir o aproveitamento dos correspondentes custos e créditos tributários pelos destinatários. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. OMISSÃO DE RECEITAS. LANÇAMENTOS CONTÁBEIS SEM LASTRO DOCUMENTAL. ESTORNOS EM CONTAS INADEQUADAS. PROVA INDICIÁRIA ROBUSTA, GRAVE E CONCORDANTE. SONEGAÇÃO. A qualificação da multa de ofício deve ser mantida quando o conjunto probatório evidencia conduta reiterada, coerente e convergente destinada à redução artificial do lucro tributável, mediante omissão de receitas documentadas por NF-e, ausência de cancelamento regular dos documentos fiscais, lançamentos de supostos estornos em contas inadequadas, registro de custos e despesas sem documentação idônea e majoração de tributos sem suporte demonstrativo. Tais elementos, analisados conjuntamente, afastam a tese de mero erro contábil e caracterizam ação dolosa tendente a impedir ou dificultar o conhecimento, pela autoridade fiscal, das circunstâncias materiais dos fatos geradores, subsumindo-se ao conceito de sonegação previsto no art. 71 da Lei nº 4.502/1964. MULTA AGRAVADA. NÃO ATENDIMENTO A INTIMAÇÕES FISCAIS. NATUREZA OBJETIVA. NECESSIDADE DE EMBARAÇO CONCRETO À FISCALIZAÇÃO. SÚMULAS CARF Nº 96 E Nº 133. INAPLICABILIDADE NO CASO CONCRETO. O agravamento da multa de ofício por não atendimento a intimações fiscais pressupõe, embora dispense dolo específico, a demonstração de que a omissão do contribuinte recaiu sobre documentos ou esclarecimentos pertinentes e necessários, causando embaraço concreto à atividade fiscal. A ausência de cooperação não autoriza, por si só, a majoração da penalidade quando o Fisco logra apurar os fatos geradores por outros meios, especialmente com base em informações extraídas da própria ECD e das NF-e emitidas pela recorrente, sem dificuldade adicional relevante decorrente do descumprimento das intimações. Aplicam-se, por analogia, as Súmulas CARF nº 96 e nº 133, que afastam o agravamento quando a omissão já serviu de fundamento para a própria apuração ou presunção fiscal. MULTAS REGULAMENTARES. ECD. ECF. OMISSÕES E INCORREÇÕES DECORRENTES DOS MESMOS FATOS QUE FUNDAMENTARAM A EXIGÊNCIA PRINCIPAL E A MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. IDENTIDADE DO NÚCLEO FÁTICO. TEMA 487 DO STF. CONSUNÇÃO. NE BIS IN IDEM. AFASTAMENTO. Não subsistem as multas regulamentares relativas à ECD e à ECF quando fundadas nos mesmos fatos que deram suporte à recomposição das bases de IRPJ e CSLL e à aplicação da multa de ofício. À luz do Tema 487 do STF, a infração instrumental é absorvida pela infração material mais grave quando constitui mero instrumento, consequência ou exteriorização documental da conduta já sancionada, sob pena de violação aos princípios da consunção, proporcionalidade e ne bis in idem. EFD-CONTRIBUIÇÕES. OMISSÃO DE RECEITAS EM ESCRITURAÇÃO FISCAL DIGITAL. EXONERAÇÃO DO PRINCIPAL DE PIS E COFINS EM RAZÃO DE ALÍQUOTA ZERO. INEXISTÊNCIA DE CONSUNÇÃO. SUBSISTÊNCIA DA MULTA REGULAMENTAR. A exoneração das exigências principais de PIS e COFINS, em razão da sujeição das receitas à alíquota zero prevista no art. 1º, XIX, da Lei nº 10.925/2004, afasta a cumulação com multa de ofício, mas não elimina a infração instrumental consistente na omissão ou imprecisão de informações na EFD-Contribuições. A obrigação acessória subsiste ainda quando o tributo devido seja igual a zero, pois sua finalidade é permitir ao Fisco conhecer corretamente a ocorrência e as circunstâncias do fato gerador. Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL Ano-calendário: 2011 LANÇAMENTO REFLEXO. MESMOS EVENTOS. DECORRÊNCIA. A ocorrência de eventos que representam, ao mesmo tempo, fatos geradores de vários tributos impõe a constituição dos respectivos créditos tributários, e a decisão quanto à ocorrência desses eventos repercute na decisão de todos os tributos a eles vinculados. Assim, o decidido em relação ao Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ aplica-se à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL. Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Ano-calendário: 2021 RECEITAS OMITIDAS DECORRENTES DE VENDAS DE CARNES BOVINAS E DERIVADOS. ALÍQUOTA ZERO. ART. 1º, XIX, DA LEI Nº 10.925/2004. EXONERAÇÃO. Embora subsista a caracterização da omissão de receitas, deve ser afastada a exigência de PIS e COFINS quando os próprios elementos da autuação indicam que as mercadorias constantes das NF-e estavam sujeitas à alíquota zero das contribuições, conforme o art. 1º, XIX, da Lei nº 10.925/2004. Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Ano-calendário: 2021 RECEITAS OMITIDAS DECORRENTES DE VENDAS DE CARNES BOVINAS E DERIVADOS. ALÍQUOTA ZERO. ART. 1º, XIX, DA LEI Nº 10.925/2004. EXONERAÇÃO. Embora subsista a caracterização da omissão de receitas, deve ser afastada a exigência de PIS e COFINS quando os próprios elementos da autuação indicam que as mercadorias constantes das NF-e estavam sujeitas à alíquota zero das contribuições, conforme o art. 1º, XIX, da Lei nº 10.925/2004. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2011 NULIDADE. DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. AUSÊNCIA DE VÍCIO. CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Não se configura nulidade por ausência de fundamentação quando a decisão de primeira instância enfrenta as questões centrais da controvérsia, ainda que de forma contrária aos interesses do contribuinte. O simples inconformismo com a conclusão adotada pelo julgador não caracteriza cerceamento do direito de defesa, especialmente quando assegurados o contraditório e a ampla defesa. INCONSTITUCIONALIDADE. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. No âmbito do processo administrativo fiscal, fica vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2011 RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA SOLIDÁRIA. ART. 124, I, DO CTN. INTERESSE COMUM NA SITUAÇÃO QUE CONSTITUI O FATO GERADOR. PARTICIPAÇÃO CONSCIENTE EM ATOS ILÍCITOS. FRAUDE, INTERPOSIÇÃO DE PESSOAS E CONFUSÃO OPERACIONAL. A responsabilidade solidária prevista no art. 124, inciso I, do Código Tributário Nacional exige a demonstração de interesse comum juridicamente qualificado na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal, não se confundindo com mero interesse econômico reflexo ou benefício indireto. Caracteriza-se o interesse comum quando comprovada a participação consciente do terceiro na prática conjunta dos atos que integram a hipótese de incidência ou na realização de atos ilícitos diretamente vinculados ao fato jurídico tributário, tais como fraude, simulação, conluio ou interposição de pessoas, com nexo causal entre sua conduta e a constituição da obrigação tributária. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA SOLIDÁRIA. PRÁTICA DE ATOS COM INFRAÇÃO À LEI. INDIVIDUALIZAÇÃO DA CONDUTA DO RESPONSABILIZADO. A responsabilização dos sócios com base no art. 135 do CTN exige (i) a prática de atos com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatuto; (ii) a existência de nexo-causal entre o ato praticado e a obrigação tributária surgida. Ademais deve haver a individualização da conduta do administrador, não bastando para a atribuição de responsabilidade a simples indicação de que este possuía poderes de gestão.
Numero da decisão: 1201-007.722
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado em não conhecer do recurso voluntário apresentado por Carlos Magno Frederico; conhecer dos demais recursos apresentados para rejeitar suas preliminares e, no mérito, dar-lhes parcial provimento, nos seguintes termos: (1) por unanimidade de votos: (1.1) manter os lançamentos de IRPJ e CSLL; (1.2) afastar o agravamento das multas de ofício; (1.3) exonerar os lançamentos de PIS e Cofins; (1.4) exonerar as multas regulamentares decorrentes de omissões ou imprecisões na ECD e na ECF, por aplicação do Tema 487 da repercussão geral do STF; (1.5) manter a multa regulamentar decorrente de omissões ou imprecisões na EFD-Contribuições; e (1.6) afastar as responsabilidades solidárias atribuídas a Nostro Beef Alimentos Importação e Exportação Ltda, BMG Foods Importação e Exportação Ltda, Evandro Santos, Marçal Bissoli e Jair Antônio de Lima; e (1.7) manter a Agro Trading Serviços de Apoio Administrativo Ltda. no polo passivo, como responsável solidária, diante da ausência de recurso voluntário; e (2) por maioria de votos, manter a qualificação das multas de ofício, reduzindo-as ao percentual de 100%, vencido o Conselheiro Lucas Issa Halah, que votou por afastar a qualificação. No item 1, o Conselheiro Lucas Issa Halah acompanhou o Relator pelas conclusões. A Conselheira Isabelle Resende Alves Rocha manifestou intenção de apresentar declaração de voto. Assinado Digitalmente Marcelo Antonio Biancardi - Relator Assinado Digitalmente Nilton Costa Simoes - Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Raimundo Pires de Santana Filho, Isabelle Resende Alves Rocha, Marcelo Antonio Biancardi, Lucas Issa Halah, Ricardo Piza Di Giovanni (substituto[a] integral), Nilton Costa Simoes (Presidente).
Nome do relator: MARCELO ANTONIO BIANCARDI

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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2021 OMISSÃO DE RECEITAS. NOTAS FISCAIS ELETRÔNICAS EMITIDAS E NÃO CANCELADAS. AUSÊNCIA DE ESCRITURAÇÃO NA ECD E ECF. PRESUNÇÃO DE REALIZAÇÃO DAS OPERAÇÕES. ESTORNOS CONTÁBEIS LANÇADOS EM CONTA DE CUSTO/DESPESA. INOBSERVÂNCIA DAS REGRAS BÁSICAS DE ESCRITURAÇÃO. AUSÊNCIA DE NOTAS FISCAIS DE DEVOLUÇÃO. MANUTENÇÃO DA EXIGÊNCIA DE IRPJ E CSLL. A emissão de notas fiscais eletrônicas ativas, desacompanhada de cancelamento regular ou de documentos fiscais de devolução, constitui elemento suficiente para caracterizar a realização das operações e a consequente omissão de receitas quando tais valores não são registrados na escrituração contábil e fiscal da recorrente. Lançamentos contábeis de estorno efetuados a crédito de contas de custo/despesa, sem lastro documental idôneo e em desconformidade com as regras elementares de escrituração, não são hábeis para demonstrar o cancelamento das operações de venda. GLOSA DE CUSTOS. AQUISIÇÃO DE MERCADORIAS. LANÇAMENTOS DE COMPRAS. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DOCUMENTAL. MANUTENÇÃO DA GLOSA PARA FINS DE IRPJ E CSLL. Devem ser mantidas as glosas dos custos registrados em conta de estoque quando não as compras registradas estão desacompanhadas de documentos idôneos ou justificativas aptas a comprovar as aquisições de mercadorias escrituradas. A alegação de que os lançamentos corresponderiam a estornos de vendas não efetivadas não se sustenta quando desacompanhada do regular cancelamento das NF-e ou de notas fiscais de devolução, especialmente diante da utilização de lançamentos em conta de custo/despesa para neutralizar receitas decorrentes de documentos fiscais ativos. ESTORNOS CONTÁBEIS DE VENDAS. LANÇAMENTOS PARCELADOS EM CONTA DE ESTOQUE. OPERAÇÕES COM EMPRESAS DO MESMO GRUPO ECONÔMICO. PRODUTOS PERECÍVEIS. AUSÊNCIA DE VEROSSIMILHANÇA. EXPEDIENTE CONTÁBIL DESTINADO À REDUÇÃO INDEVIDA DO LUCRO TRIBUTÁVEL. A escrituração de supostos estornos de vendas por meio de lançamentos parcelados na conta de estoque, ao longo de meses, envolvendo mercadorias perecíveis e destinatários integrantes do mesmo grupo econômico, revela falta de verossimilhança nas alegações da recorrente e reforça a conclusão fiscal de que houve utilização de expediente contábil artificial para anular os efeitos tributários das vendas a empresas ligadas, sem impedir o aproveitamento dos correspondentes custos e créditos tributários pelos destinatários. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. OMISSÃO DE RECEITAS. LANÇAMENTOS CONTÁBEIS SEM LASTRO DOCUMENTAL. ESTORNOS EM CONTAS INADEQUADAS. PROVA INDICIÁRIA ROBUSTA, GRAVE E CONCORDANTE. SONEGAÇÃO. A qualificação da multa de ofício deve ser mantida quando o conjunto probatório evidencia conduta reiterada, coerente e convergente destinada à redução artificial do lucro tributável, mediante omissão de receitas documentadas por NF-e, ausência de cancelamento regular dos documentos fiscais, lançamentos de supostos estornos em contas inadequadas, registro de custos e despesas sem documentação idônea e majoração de tributos sem suporte demonstrativo. Tais elementos, analisados conjuntamente, afastam a tese de mero erro contábil e caracterizam ação dolosa tendente a impedir ou dificultar o conhecimento, pela autoridade fiscal, das circunstâncias materiais dos fatos geradores, subsumindo-se ao conceito de sonegação previsto no art. 71 da Lei nº 4.502/1964. MULTA AGRAVADA. NÃO ATENDIMENTO A INTIMAÇÕES FISCAIS. NATUREZA OBJETIVA. NECESSIDADE DE EMBARAÇO CONCRETO À FISCALIZAÇÃO. SÚMULAS CARF Nº 96 E Nº 133. INAPLICABILIDADE NO CASO CONCRETO. O agravamento da multa de ofício por não atendimento a intimações fiscais pressupõe, embora dispense dolo específico, a demonstração de que a omissão do contribuinte recaiu sobre documentos ou esclarecimentos pertinentes e necessários, causando embaraço concreto à atividade fiscal. A ausência de cooperação não autoriza, por si só, a majoração da penalidade quando o Fisco logra apurar os fatos geradores por outros meios, especialmente com base em informações extraídas da própria ECD e das NF-e emitidas pela recorrente, sem dificuldade adicional relevante decorrente do descumprimento das intimações. Aplicam-se, por analogia, as Súmulas CARF nº 96 e nº 133, que afastam o agravamento quando a omissão já serviu de fundamento para a própria apuração ou presunção fiscal. MULTAS REGULAMENTARES. ECD. ECF. OMISSÕES E INCORREÇÕES DECORRENTES DOS MESMOS FATOS QUE FUNDAMENTARAM A EXIGÊNCIA PRINCIPAL E A MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. IDENTIDADE DO NÚCLEO FÁTICO. TEMA 487 DO STF. CONSUNÇÃO. NE BIS IN IDEM. AFASTAMENTO. Não subsistem as multas regulamentares relativas à ECD e à ECF quando fundadas nos mesmos fatos que deram suporte à recomposição das bases de IRPJ e CSLL e à aplicação da multa de ofício. À luz do Tema 487 do STF, a infração instrumental é absorvida pela infração material mais grave quando constitui mero instrumento, consequência ou exteriorização documental da conduta já sancionada, sob pena de violação aos princípios da consunção, proporcionalidade e ne bis in idem. EFD-CONTRIBUIÇÕES. OMISSÃO DE RECEITAS EM ESCRITURAÇÃO FISCAL DIGITAL. EXONERAÇÃO DO PRINCIPAL DE PIS E COFINS EM RAZÃO DE ALÍQUOTA ZERO. INEXISTÊNCIA DE CONSUNÇÃO. SUBSISTÊNCIA DA MULTA REGULAMENTAR. A exoneração das exigências principais de PIS e COFINS, em razão da sujeição das receitas à alíquota zero prevista no art. 1º, XIX, da Lei nº 10.925/2004, afasta a cumulação com multa de ofício, mas não elimina a infração instrumental consistente na omissão ou imprecisão de informações na EFD-Contribuições. A obrigação acessória subsiste ainda quando o tributo devido seja igual a zero, pois sua finalidade é permitir ao Fisco conhecer corretamente a ocorrência e as circunstâncias do fato gerador. Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL Ano-calendário: 2011 LANÇAMENTO REFLEXO. MESMOS EVENTOS. DECORRÊNCIA. A ocorrência de eventos que representam, ao mesmo tempo, fatos geradores de vários tributos impõe a constituição dos respectivos créditos tributários, e a decisão quanto à ocorrência desses eventos repercute na decisão de todos os tributos a eles vinculados. Assim, o decidido em relação ao Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ aplica-se à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL. Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Ano-calendário: 2021 RECEITAS OMITIDAS DECORRENTES DE VENDAS DE CARNES BOVINAS E DERIVADOS. ALÍQUOTA ZERO. ART. 1º, XIX, DA LEI Nº 10.925/2004. EXONERAÇÃO. Embora subsista a caracterização da omissão de receitas, deve ser afastada a exigência de PIS e COFINS quando os próprios elementos da autuação indicam que as mercadorias constantes das NF-e estavam sujeitas à alíquota zero das contribuições, conforme o art. 1º, XIX, da Lei nº 10.925/2004. Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Ano-calendário: 2021 RECEITAS OMITIDAS DECORRENTES DE VENDAS DE CARNES BOVINAS E DERIVADOS. ALÍQUOTA ZERO. ART. 1º, XIX, DA LEI Nº 10.925/2004. EXONERAÇÃO. Embora subsista a caracterização da omissão de receitas, deve ser afastada a exigência de PIS e COFINS quando os próprios elementos da autuação indicam que as mercadorias constantes das NF-e estavam sujeitas à alíquota zero das contribuições, conforme o art. 1º, XIX, da Lei nº 10.925/2004. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2011 NULIDADE. DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. AUSÊNCIA DE VÍCIO. CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Não se configura nulidade por ausência de fundamentação quando a decisão de primeira instância enfrenta as questões centrais da controvérsia, ainda que de forma contrária aos interesses do contribuinte. O simples inconformismo com a conclusão adotada pelo julgador não caracteriza cerceamento do direito de defesa, especialmente quando assegurados o contraditório e a ampla defesa. INCONSTITUCIONALIDADE. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. No âmbito do processo administrativo fiscal, fica vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2011 RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA SOLIDÁRIA. ART. 124, I, DO CTN. INTERESSE COMUM NA SITUAÇÃO QUE CONSTITUI O FATO GERADOR. PARTICIPAÇÃO CONSCIENTE EM ATOS ILÍCITOS. FRAUDE, INTERPOSIÇÃO DE PESSOAS E CONFUSÃO OPERACIONAL. A responsabilidade solidária prevista no art. 124, inciso I, do Código Tributário Nacional exige a demonstração de interesse comum juridicamente qualificado na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal, não se confundindo com mero interesse econômico reflexo ou benefício indireto. Caracteriza-se o interesse comum quando comprovada a participação consciente do terceiro na prática conjunta dos atos que integram a hipótese de incidência ou na realização de atos ilícitos diretamente vinculados ao fato jurídico tributário, tais como fraude, simulação, conluio ou interposição de pessoas, com nexo causal entre sua conduta e a constituição da obrigação tributária. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA SOLIDÁRIA. PRÁTICA DE ATOS COM INFRAÇÃO À LEI. INDIVIDUALIZAÇÃO DA CONDUTA DO RESPONSABILIZADO. A responsabilização dos sócios com base no art. 135 do CTN exige (i) a prática de atos com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatuto; (ii) a existência de nexo-causal entre o ato praticado e a obrigação tributária surgida. Ademais deve haver a individualização da conduta do administrador, não bastando para a atribuição de responsabilidade a simples indicação de que este possuía poderes de gestão.

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NOTAS FISCAIS ELETRÔNICAS EMITIDAS E NÃO CANCELADAS. AUSÊNCIA DE ESCRITURAÇÃO NA ECD E ECF. PRESUNÇÃO DE REALIZAÇÃO DAS OPERAÇÕES. ESTORNOS CONTÁBEIS LANÇADOS EM CONTA DE CUSTO/DESPESA. INOBSERVÂNCIA DAS REGRAS BÁSICAS DE ESCRITURAÇÃO. AUSÊNCIA DE NOTAS FISCAIS DE DEVOLUÇÃO. MANUTENÇÃO DA EXIGÊNCIA DE IRPJ E CSLL. A emissão de notas fiscais eletrônicas ativas, desacompanhada de cancelamento regular ou de documentos fiscais de devolução, constitui elemento suficiente para caracterizar a realização das operações e a consequente omissão de receitas quando tais valores não são registrados na escrituração contábil e fiscal da recorrente. Lançamentos contábeis de “estorno” efetuados a crédito de contas de custo/despesa, sem lastro documental idôneo e em desconformidade com as regras elementares de escrituração, não são hábeis para demonstrar o cancelamento das operações de venda. GLOSA DE CUSTOS. AQUISIÇÃO DE MERCADORIAS. LANÇAMENTOS DE COMPRAS. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DOCUMENTAL. MANUTENÇÃO DA GLOSA PARA FINS DE IRPJ E CSLL. Devem ser mantidas as glosas dos custos registrados em conta de estoque quando não as compras registradas estão desacompanhadas de documentos idôneos ou justificativas aptas a comprovar as aquisições de mercadorias escrituradas. A alegação de que os lançamentos corresponderiam a estornos de vendas não efetivadas não se sustenta quando desacompanhada do regular cancelamento das NF-e ou de notas fiscais de devolução, especialmente diante da utilização de lançamentos Fl. 3893DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 2 em conta de custo/despesa para neutralizar receitas decorrentes de documentos fiscais ativos. ESTORNOS CONTÁBEIS DE VENDAS. LANÇAMENTOS PARCELADOS EM CONTA DE ESTOQUE. OPERAÇÕES COM EMPRESAS DO MESMO GRUPO ECONÔMICO. PRODUTOS PERECÍVEIS. AUSÊNCIA DE VEROSSIMILHANÇA. EXPEDIENTE CONTÁBIL DESTINADO À REDUÇÃO INDEVIDA DO LUCRO TRIBUTÁVEL. A escrituração de supostos estornos de vendas por meio de lançamentos parcelados na conta de estoque, ao longo de meses, envolvendo mercadorias perecíveis e destinatários integrantes do mesmo grupo econômico, revela falta de verossimilhança nas alegações da recorrente e reforça a conclusão fiscal de que houve utilização de expediente contábil artificial para anular os efeitos tributários das vendas a empresas ligadas, sem impedir o aproveitamento dos correspondentes custos e créditos tributários pelos destinatários. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. OMISSÃO DE RECEITAS. LANÇAMENTOS CONTÁBEIS SEM LASTRO DOCUMENTAL. ESTORNOS EM CONTAS INADEQUADAS. PROVA INDICIÁRIA ROBUSTA, GRAVE E CONCORDANTE. SONEGAÇÃO. A qualificação da multa de ofício deve ser mantida quando o conjunto probatório evidencia conduta reiterada, coerente e convergente destinada à redução artificial do lucro tributável, mediante omissão de receitas documentadas por NF-e, ausência de cancelamento regular dos documentos fiscais, lançamentos de supostos estornos em contas inadequadas, registro de custos e despesas sem documentação idônea e majoração de tributos sem suporte demonstrativo. Tais elementos, analisados conjuntamente, afastam a tese de mero erro contábil e caracterizam ação dolosa tendente a impedir ou dificultar o conhecimento, pela autoridade fiscal, das circunstâncias materiais dos fatos geradores, subsumindo-se ao conceito de sonegação previsto no art. 71 da Lei nº 4.502/1964. MULTA AGRAVADA. NÃO ATENDIMENTO A INTIMAÇÕES FISCAIS. NATUREZA OBJETIVA. NECESSIDADE DE EMBARAÇO CONCRETO À FISCALIZAÇÃO. SÚMULAS CARF Nº 96 E Nº 133. INAPLICABILIDADE NO CASO CONCRETO. O agravamento da multa de ofício por não atendimento a intimações fiscais pressupõe, embora dispense dolo específico, a demonstração de que a omissão do contribuinte recaiu sobre documentos ou esclarecimentos pertinentes e necessários, causando embaraço concreto à Fl. 3894DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 3 atividade fiscal. A ausência de cooperação não autoriza, por si só, a majoração da penalidade quando o Fisco logra apurar os fatos geradores por outros meios, especialmente com base em informações extraídas da própria ECD e das NF-e emitidas pela recorrente, sem dificuldade adicional relevante decorrente do descumprimento das intimações. Aplicam-se, por analogia, as Súmulas CARF nº 96 e nº 133, que afastam o agravamento quando a omissão já serviu de fundamento para a própria apuração ou presunção fiscal. MULTAS REGULAMENTARES. ECD. ECF. OMISSÕES E INCORREÇÕES DECORRENTES DOS MESMOS FATOS QUE FUNDAMENTARAM A EXIGÊNCIA PRINCIPAL E A MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. IDENTIDADE DO NÚCLEO FÁTICO. TEMA 487 DO STF. CONSUNÇÃO. NE BIS IN IDEM. AFASTAMENTO. Não subsistem as multas regulamentares relativas à ECD e à ECF quando fundadas nos mesmos fatos que deram suporte à recomposição das bases de IRPJ e CSLL e à aplicação da multa de ofício. À luz do Tema 487 do STF, a infração instrumental é absorvida pela infração material mais grave quando constitui mero instrumento, consequência ou exteriorização documental da conduta já sancionada, sob pena de violação aos princípios da consunção, proporcionalidade e ne bis in idem. EFD-CONTRIBUIÇÕES. OMISSÃO DE RECEITAS EM ESCRITURAÇÃO FISCAL DIGITAL. EXONERAÇÃO DO PRINCIPAL DE PIS E COFINS EM RAZÃO DE ALÍQUOTA ZERO. INEXISTÊNCIA DE CONSUNÇÃO. SUBSISTÊNCIA DA MULTA REGULAMENTAR. A exoneração das exigências principais de PIS e COFINS, em razão da sujeição das receitas à alíquota zero prevista no art. 1º, XIX, da Lei nº 10.925/2004, afasta a cumulação com multa de ofício, mas não elimina a infração instrumental consistente na omissão ou imprecisão de informações na EFD-Contribuições. A obrigação acessória subsiste ainda quando o tributo devido seja igual a zero, pois sua finalidade é permitir ao Fisco conhecer corretamente a ocorrência e as circunstâncias do fato gerador. Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL Ano-calendário: 2011 LANÇAMENTO REFLEXO. MESMOS EVENTOS. DECORRÊNCIA. A ocorrência de eventos que representam, ao mesmo tempo, fatos geradores de vários tributos impõe a constituição dos respectivos créditos tributários, e a decisão quanto à ocorrência desses eventos repercute na Fl. 3895DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 4 decisão de todos os tributos a eles vinculados. Assim, o decidido em relação ao Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ aplica-se à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL. Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Ano-calendário: 2021 RECEITAS OMITIDAS DECORRENTES DE VENDAS DE CARNES BOVINAS E DERIVADOS. ALÍQUOTA ZERO. ART. 1º, XIX, DA LEI Nº 10.925/2004. EXONERAÇÃO. Embora subsista a caracterização da omissão de receitas, deve ser afastada a exigência de PIS e COFINS quando os próprios elementos da autuação indicam que as mercadorias constantes das NF-e estavam sujeitas à alíquota zero das contribuições, conforme o art. 1º, XIX, da Lei nº 10.925/2004. Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Ano-calendário: 2021 RECEITAS OMITIDAS DECORRENTES DE VENDAS DE CARNES BOVINAS E DERIVADOS. ALÍQUOTA ZERO. ART. 1º, XIX, DA LEI Nº 10.925/2004. EXONERAÇÃO. Embora subsista a caracterização da omissão de receitas, deve ser afastada a exigência de PIS e COFINS quando os próprios elementos da autuação indicam que as mercadorias constantes das NF-e estavam sujeitas à alíquota zero das contribuições, conforme o art. 1º, XIX, da Lei nº 10.925/2004. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2011 NULIDADE. DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. AUSÊNCIA DE VÍCIO. CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Não se configura nulidade por ausência de fundamentação quando a decisão de primeira instância enfrenta as questões centrais da controvérsia, ainda que de forma contrária aos interesses do contribuinte. O simples inconformismo com a conclusão adotada pelo julgador não caracteriza cerceamento do direito de defesa, especialmente quando assegurados o contraditório e a ampla defesa. INCONSTITUCIONALIDADE. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. Fl. 3896DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 5 No âmbito do processo administrativo fiscal, fica vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2011 RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA SOLIDÁRIA. ART. 124, I, DO CTN. INTERESSE COMUM NA SITUAÇÃO QUE CONSTITUI O FATO GERADOR. PARTICIPAÇÃO CONSCIENTE EM ATOS ILÍCITOS. FRAUDE, INTERPOSIÇÃO DE PESSOAS E CONFUSÃO OPERACIONAL. A responsabilidade solidária prevista no art. 124, inciso I, do Código Tributário Nacional exige a demonstração de interesse comum juridicamente qualificado na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal, não se confundindo com mero interesse econômico reflexo ou benefício indireto. Caracteriza-se o interesse comum quando comprovada a participação consciente do terceiro na prática conjunta dos atos que integram a hipótese de incidência ou na realização de atos ilícitos diretamente vinculados ao fato jurídico tributário, tais como fraude, simulação, conluio ou interposição de pessoas, com nexo causal entre sua conduta e a constituição da obrigação tributária. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA SOLIDÁRIA. PRÁTICA DE ATOS COM INFRAÇÃO À LEI. INDIVIDUALIZAÇÃO DA CONDUTA DO RESPONSABILIZADO. A responsabilização dos sócios com base no art. 135 do CTN exige (i) a prática de atos com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatuto; (ii) a existência de nexo-causal entre o ato praticado e a obrigação tributária surgida. Ademais deve haver a individualização da conduta do administrador, não bastando para a atribuição de responsabilidade a simples indicação de que este possuía poderes de gestão. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado em não conhecer do recurso voluntário apresentado por Carlos Magno Frederico; conhecer dos demais recursos apresentados para rejeitar suas preliminares e, no mérito, dar-lhes parcial provimento, nos seguintes termos: (1) por Fl. 3897DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 6 unanimidade de votos: (1.1) manter os lançamentos de IRPJ e CSLL; (1.2) afastar o agravamento das multas de ofício; (1.3) exonerar os lançamentos de PIS e Cofins; (1.4) exonerar as multas regulamentares decorrentes de omissões ou imprecisões na ECD e na ECF, por aplicação do Tema 487 da repercussão geral do STF; (1.5) manter a multa regulamentar decorrente de omissões ou imprecisões na EFD-Contribuições; e (1.6) afastar as responsabilidades solidárias atribuídas a Nostro Beef Alimentos Importação e Exportação Ltda, BMG Foods Importação e Exportação Ltda, Evandro Santos, Marçal Bissoli e Jair Antônio de Lima; e (1.7) manter a Agro Trading Serviços de Apoio Administrativo Ltda. no polo passivo, como responsável solidária, diante da ausência de recurso voluntário; e (2) por maioria de votos, manter a qualificação das multas de ofício, reduzindo-as ao percentual de 100%, vencido o Conselheiro Lucas Issa Halah, que votou por afastar a qualificação. No item 1, o Conselheiro Lucas Issa Halah acompanhou o Relator pelas conclusões. A Conselheira Isabelle Resende Alves Rocha manifestou intenção de apresentar declaração de voto. Assinado Digitalmente Marcelo Antonio Biancardi – Relator Assinado Digitalmente Nilton Costa Simoes – Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Raimundo Pires de Santana Filho, Isabelle Resende Alves Rocha, Marcelo Antonio Biancardi, Lucas Issa Halah, Ricardo Piza Di Giovanni (substituto[a] integral), Nilton Costa Simoes (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de processo administrativo decorrente de lançamento de ofício de IRPJ, CSLL, PIS, COFINS e Multas Regulamentares, referente ao ano-calendário 2021. 1 DA AUTUAÇÃO A autuação encontra-se explanada no Termo de Verificação Fiscal juntado ao presente processo às folhas 2.573 a 2.608, o qual resumimos abaixo. No procedimento de fiscalização examinou-se a escrituração da recorrente relativa ao ano-calendário de 2021 e se concluiu que a empresa apresentou omissões de receitas e diversas incorreções contábeis e fiscais que reduziram artificialmente o resultado tributável e as Fl. 3898DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 7 bases de cálculo dos tributos federais. A primeira infração apontada foi a omissão de receitas decorrente da falta de registro, na Escrituração Contábil Digital (ECD), de vendas de mercadorias acobertadas por notas fiscais eletrônicas emitidas pela própria empresa. A fiscalização afirmou que o confronto entre os registros contábeis e as NF-e evidenciou receitas auferidas e não submetidas à tributação. Além disso, a autoridade fiscal glosou diversos custos, despesas e ajustes contabilizados sem documentação hábil e idônea que comprovaria da sua efetiva ocorrência. Foram considerados indevidos compras de mercadorias registradas no estoque; estornos de ICMS, PIS e COFINS; consumos de energia elétrica; serviços de armazenagem por terceiros; despesas com fretes sobre vendas; e devoluções de vendas registradas como vendas. Em todos esses casos, a fiscalização destacou que a contribuinte foi intimada a apresentar documentos, mas não os apresentou, limitando-se a solicitar prorrogação de prazo. Também foi apontada a majoração indevida dos valores de ICMS, PIS e COFINS registrados na contabilidade em relação aos valores apurados a partir das notas fiscais emitidas, circunstância que, segundo a fiscalização, reduziu artificialmente o lucro tributável. A fiscalização entendeu ainda que a ECD e a ECF de 2021 continham omissões e incorreções relevantes, justificando a aplicação de multas regulamentares por informações omitidas ou incorretas. No tocante à qualificação da multa de ofício, o TVF concluiu que as condutas se enquadram em sonegação, nos termos do art. 71 da Lei nº 4.502/1964, por representarem ações ou omissões dolosas destinadas a impedir ou retardar o conhecimento, pela autoridade fiscal, dos fatos geradores e de suas circunstâncias materiais. A autoridade fiscal afirmou expressamente que as ações e omissões caracterizaram fraude à fiscalização tributária e evidenciaram o dolo necessário à qualificação da multa. Quanto à responsabilidade solidária, a fiscalização sustentou que a recorrente, a Agro Trading, a Nostro Beef e a BMG Foods integrariam o chamado “Grupo Torlim”, identificado como grupo econômico de fato. Segundo o Termo, haveria interesse comum, atuação coordenada, confusão patrimonial e operacional e abuso da personalidade jurídica, circunstâncias que justificariam a responsabilização solidária com fundamento no art. 124, I, do CTN. Assim, foram apontadas como responsáveis solidárias as seguintes pessoas jurídicas: Agro Trading Serviços de Apoio Administrativo Ltda., por ser sócia majoritária da recorrente, integrar o grupo econômico apontado pela fiscalização e possuir interesse comum nos fatos geradores, apesar de estar inapta e com o CNPJ baixado; Nostro Beef Alimentos Importação e Exportação Ltda. e BMG Foods Importação e Exportação Ltda., por integrarem o mesmo grupo econômico de fato e compartilharem interesse comum na situação que constituiu o fato gerador da obrigação tributária. Além das empresas, a fiscalização atribuiu responsabilidade aos administradores das sociedades, por entender configurada infração à lei na forma do art. 135, III, do CTN. Foram Fl. 3899DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 8 expressamente indicados Evandro Santos, sócio-administrador da recorrente; Carlos Magno Frederico, sócio-administrador da Agro Trading; Marçal Bissoli, sócio-administrador da Nostro Beef e da BMG Foods; e Jair Antônio de Lima, apontado como presidente da Torlim Alimentos S.A. e controlador do Grupo Torlim. Segundo a autoridade fiscal, essas pessoas deveriam ter zelado pela condução regular das empresas, mas teriam participado ou permitido a prática de evasão fiscal e das condutas consideradas dolosas, voltadas à obtenção de vantagens econômicas em prejuízo do erário. O fundamento utilizado foi a prática de atos com infração à lei e a participação na estrutura empresarial que teria viabilizado as irregularidades apuradas. 2 DA IMPUGNAÇÃO Apresentaram impugnação a recorrente e a maioria dos solidários, conforme quadro abaixo1, com os argumentos abaixo apresentados. Quanto à acusação de omissão de receitas, a defesa da recorrente (contribuinte) alegou que as notas fiscais identificadas pela fiscalização correspondiam a operações que não chegaram a se concretizar. Segundo a impugnação, tratava-se de vendas canceladas ou não efetivadas que permaneceram registradas no SPED por erro operacional, embora não tenha havido pagamento, transporte de mercadorias ou efetiva realização dos negócios. Sustentou-se que, por não ter existido ingresso patrimonial, não haveria fato gerador de IRPJ, CSLL, PIS ou COFINS. Afirmou-se ainda que os produtos comercializados eram carnes bovinas sujeitas à alíquota zero de PIS e COFINS, além de ter sido requerido o reexame dos registros contábeis mediante diligência para demonstração da inexistência do débito. Em relação aos custos de aquisição de mercadorias glosados, a recorrente sustentou que os lançamentos apontados pela fiscalização correspondiam, na realidade, a ajustes contábeis vinculados a vendas não concretizadas. Argumentou que, após auditoria interna, foram identificadas operações que não haviam sido efetivamente realizadas, razão pela qual foram 1 Quadro elaborado pelo julgador da DRJ e constante do Acórdão juntado às folhas 3.444 a 3.522. Fl. 3900DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 9 efetuados lançamentos de estorno na contabilidade. Defendeu que os registros estavam devidamente refletidos na ECD, sem qualquer prejuízo ao Fisco, e que a fiscalização não considerou a conciliação completa dos lançamentos contábeis. Quanto aos estornos de ICMS, PIS e COFINS, a defesa afirmou que os valores estavam devidamente registrados e declarados na escrituração contábil e fiscal, de modo que não houve ocultação de informações nem redução indevida de tributos. Sustentou-se que todos os valores foram considerados na apuração fiscal, inexistindo dano ao erário. No tocante aos custos de energia elétrica, a recorrente alegou que os gastos eram reais e estavam amparados por notas fiscais e comprovantes de pagamento. Argumentou que a fiscalização reconheceu a existência dos lançamentos, faltando apenas a apresentação da documentação comprobatória, posteriormente juntada com a impugnação. Segundo a defesa, a infração decorreu apenas da ausência momentânea desses documentos durante a ação fiscal, atribuída a falhas internas de comunicação. Argumentação semelhante foi apresentada quanto aos custos de armazenagem. A recorrente sustentou que os serviços haviam sido efetivamente prestados e pagos, apresentando notas fiscais e comprovantes bancários para demonstrar a legitimidade dos lançamentos contábeis. Defendeu que a documentação anexada afastaria a glosa dos custos e a repercussão tributária decorrente. Por fim, a defesa requereu a conversão do julgamento em diligência para reanálise dos registros e documentos contábeis, sustentando que a busca da verdade material demonstraria a inexistência dos créditos tributários lançados. No tocante a multa qualificada a recorrente sustentou que a multa de ofício havia sido aplicada de forma indevida, pois a autoridade fiscal não teria demonstrado a ocorrência de dolo, fraude, sonegação ou conluio aptos a justificar a majoração da penalidade. Segundo a impugnante, o lançamento teria se limitado a apontar supostas irregularidades contábeis e omissões, sem identificar fatos concretos que se enquadrassem nas hipóteses previstas nos arts. 71, 72 ou 73 da Lei nº 4.502/1964, nem descrever condutas específicas que evidenciassem o intuito deliberado de suprimir ou reduzir tributos. A recorrente também alegou que o auto de infração carecia de fundamentação individualizada, uma vez que não teria demonstrado a participação de cada envolvido nos fatos imputados nem produzido provas suficientes da prática de atos fraudulentos. Defendeu que a imposição da multa qualificada exigiria demonstração robusta dos elementos subjetivos da infração, em observância aos princípios da tipicidade e da motivação dos atos administrativos, não sendo admissível a mera presunção de comportamento doloso. Além disso, a recorrente afirmou que o não atendimento às intimações fiscais e a eventual presunção de omissão de receitas não autorizariam, por si sós, a qualificação ou o agravamento da multa de ofício. Para sustentar essa conclusão, invocou as súmulas 14, 25, 96 e 133 do CARF, defendendo que exigiriam prova do evidente intuito de fraude para aplicação da Fl. 3901DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 10 penalidade qualificada e que afastariam a utilização exclusiva da falta de apresentação de documentos ou do descumprimento de intimações como fundamento para o agravamento da multa. No que se refere à atribuição de responsabilidade solidária, os responsáveis sustentaram, em linhas gerais, que a fiscalização não demonstrou os requisitos legais necessários para a responsabilização tributária, tendo se baseado em presunções, referências genéricas a grupo econômico e elementos extraídos de outros procedimentos fiscais. Argumentaram que não houve comprovação de interesse comum nos fatos geradores, confusão patrimonial, abuso da personalidade jurídica ou atuação conjunta apta a justificar a aplicação do art. 124, I, do CTN. Também alegaram que a mera existência de relações comerciais, vínculos profissionais pretéritos ou participações societárias entre empresas não autoriza a responsabilização solidária, sendo indispensável a demonstração concreta da participação de cada autuado nos fatos que deram origem ao lançamento. As pessoas jurídicas Nostro Beef, BMG Foods e Agro Trading defenderam especificamente que mantinham personalidade jurídica própria e patrimônio autônomo, inexistindo grupo econômico de fato nos moldes descritos pela fiscalização. Alegaram que a autuação confundiu relações empresariais normais com atuação integrada e fraudulenta, sem demonstrar direção comum, subordinação, confusão patrimonial ou operacional. Sustentaram ainda que a fiscalização utilizou conclusões oriundas de outros processos fiscais e aduaneiros envolvendo terceiros para tentar justificar a sua inclusão no polo passivo, sem comprovar qualquer participação direta dessas empresas nas infrações atribuídas à recorrente. Quanto aos responsáveis pessoas físicas, Marçal Bissoli, Evandro Santos e Jair Antônio de Lima sustentaram que a fiscalização não individualizou suas condutas nem demonstrou a prática de atos com excesso de poderes, infração à lei, contrato social ou estatuto, requisitos indispensáveis para a responsabilização prevista no art. 135 do CTN. Alegaram que sua inclusão no polo passivo decorreu apenas de suas posições societárias ou administrativas, sem prova de dolo, fraude ou participação efetiva nos fatos geradores objeto da autuação. Defenderam, por isso, que a responsabilidade tributária não pode ser presumida nem decorrer automaticamente da condição de sócio, administrador ou pessoa relacionada às empresas apontadas pela fiscalização. 3 DA DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA Decidiu a Delegacia de Julgamento da Receita Federal do Brasil 06, através de acórdão juntado às folhas 3.444 a 3.522, considerou as impugnações procedentes em parte, cujo voto, em suma, traz as conclusões seguintes. O julgador de piso inicialmente afastou o pedido de conversão do julgamento em diligência. Entendeu que não havia necessidade de produção adicional de provas, pois a própria contribuinte deixou de apresentar, durante a fiscalização, os documentos que lhe foram Fl. 3902DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 11 reiteradamente solicitados. Destacou que a alegação de necessidade de “reexame” documental era inadequada, uma vez que os documentos jamais chegaram a ser examinados pelo Auditor- Fiscal por falta de apresentação pelo contribuinte. Com base no art. 18 do Decreto nº 70.235/1972, concluiu que a diligência somente é cabível quando necessária ao esclarecimento de questões relevantes ao julgamento, o que não ocorria no caso. Acrescentou que o pedido configurava mera tentativa de dilação probatória extemporânea, vedada pelos arts. 15 e 16 do mesmo decreto, que exigem que a impugnação seja apresentada já instruída com as provas pertinentes. No mérito, o julgador considerou que a maior parte das alegações defensivas não era capaz de infirmar os fatos apurados pela fiscalização. Ressaltou que a autuação teve origem na constatação de omissão de receitas e na apropriação de custos, despesas, estornos, devoluções e tributos sem comprovação documental adequada, situação agravada pela ausência de atendimento às intimações fiscais. Afirmou ainda que documentos produzidos unilateralmente pelo próprio contribuinte, sem qualquer corroboração de elementos externos, não constituem prova suficiente para afastar o lançamento, aplicando o entendimento sintetizado na ementa do acórdão de que é “inaceitável como prova em favor do contribuinte um documento produzido por ele próprio”. O julgador, contudo, reconheceu parcialmente algumas razões da defesa quanto à quantificação do crédito tributário, reconhecendo a comprovação de custos com energia elétrica (R$ 712.749,89), armazenagem (R$ 673.903.59) e fretes (R$ 332.425,28) promovendo a redução dos valores exigidos dos tributos constantes da seção “Valores Devidos” do voto. Entendeu o julgado a quo que a qualificação da multa de ofício não se baseou em fraude, simulação ou conluio, mas sim na hipótese de sonegação prevista no art. 71, inciso I, da Lei nº 4.502/1964, aplicada por remissão do art. 44, § 1º, inciso VI, da Lei nº 9.430/1996. O relator observou que a própria autuação indicava expressamente a ocorrência de sonegação, consistente em ações e omissões dolosas destinadas a impedir ou retardar o conhecimento, pela autoridade fiscal, da ocorrência dos fatos geradores e de suas circunstâncias materiais. Ao examinar a impugnação, o julgador afirmou que a alegação de que teriam ocorrido apenas “meros equívocos” era genérica e desacompanhada de provas. Também considerou irrelevantes os argumentos da defesa acerca de fraude e simulação, porque a autuação não havia sido fundamentada nessas figuras típicas, mas na sonegação do art. 71 da Lei nº 4.502/1964. O voto manteve integralmente as multas regulamentares por entender que as irregularidades apuradas pela fiscalização se enquadravam exatamente nas hipóteses legais de penalização previstas na legislação aplicável. O julgador rejeitou a alegação de que as multas relativas à ECD e às EFD´s somente poderiam ser aplicadas na ausência de escrituração, destacando que o art. 12, II, da Lei nº 8.218/1991 também alcança a omissão ou prestação incorreta de informações nos registros e arquivos digitais. Afastou ainda os argumentos de Fl. 3903DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 12 revogação normativa, de duplicidade de penalização, de consunção, de desproporcionalidade e de falta de subsunção dos fatos à norma, afirmando que as escriturações continham omissões e incorreções efetivamente constatadas pela fiscalização e que a autoridade tributária está vinculada ao princípio da estrita legalidade, devendo aplicar as penalidades expressamente previstas em lei quando configuradas as respectivas infrações. Quanto à responsabilidade solidária, o julgador acolheu a tese fiscal de existência de grupo econômico de fato e de interesse comum entre as empresas envolvidas, mantendo a responsabilização da Agro Trading, BMG Foods, Nostro Beef, Carlos Magno Frederico, Evandro Santos, Jair Antônio de Lima e Marçal Bissoli. Fundamentou essa conclusão nos arts. 124, inciso I, e 135, inciso III, do Código Tributário Nacional, entendendo demonstrada a comunhão de interesses, a confusão patrimonial e a atuação conjunta das empresas, bem como a participação dos administradores nos fatos apurados. Também rejeitou as alegações de nulidade, cerceamento de defesa e ausência de motivação do lançamento. 4 DO RECURSO Irresignados, a recorrente e os responsáveis solidários Nostro Beef, BMG Foods, Evandro Santos, Marçal Bissoli, Jair Antonio de Lima e Carlos Magno Frederico apresentaram Recursos Voluntários onde apresentam sua síntese dos fatos e passaram a atacar o decisum da DRJ com os seguintes argumentos. 4.1 DAS PRELIMINARES 4.1.1 NULIDADE DO ACÓRDÃO RECORRIDO. AUSÊNCIA DE ANÁLISE DE DOCUMENTOS E FUNDAMENTOS QUE EMBASARAM A DEFESA A recorrente sustenta que o acórdão recorrido incorreu em vício de motivação por ter simplesmente reproduzido as conclusões do auto de infração, sem efetivamente examinar as planilhas, demonstrativos contábeis, documentos fiscais e demais elementos apresentados na impugnação. Argumenta que a DRJ recusou genericamente as provas sob o fundamento de que seriam documentos produzidos unilateralmente pela contribuinte, deixando de confrontá-las com os dados constantes dos sistemas oficiais de escrituração digital (ECD, ECF, EFD e SPED), em afronta aos princípios da verdade material, do contraditório e da ampla defesa. Requer, por isso, a nulidade da decisão e o retorno dos autos à instância de origem para apreciação efetiva das provas produzidas. No mesmo sentido, Evandro Santos alegou que a DRJ desconsiderou documentos contábeis e demonstrativos apresentados pela defesa, limitando-se a reproduzir a narrativa fiscal sem exame crítico das provas, além de indeferir diligências relevantes ao esclarecimento dos fatos. Fl. 3904DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 13 A BMG Foods igualmente sustentou nulidade por cerceamento de defesa, afirmando que a DRJ rejeitou suas alegações de forma genérica, sem enfrentar os argumentos apresentados e sem indicar os fundamentos que justificariam as conclusões adotadas. 4.1.2 DA NULIDADE POR DESVIO DE FINALIDADE E DEFICIÊNCIA DE MOTIVAÇÃO Marçal Bissoli alegou nulidade do auto de infração por desvio de finalidade e deficiência de motivação, sustentando que a fiscalização teria construído suas conclusões a partir de premissas fáticas que não autorizariam a aplicação das normas jurídicas invocadas. 4.2 DO MÉRITO No mérito, repisou as alegações da impugnação sustentando, em síntese, que as irregularidades apontadas pela fiscalização decorreriam de equívocos operacionais, reclassificações contábeis e ajustes internos regularmente refletidos na escrituração, e não de omissão de receitas ou glosa legítima de custos e despesas. Afirma que as NF-e tratadas como receitas omitidas corresponderiam a vendas não concretizadas, sem entrega de mercadorias, transporte ou recebimento, razão pela qual não teria havido acréscimo patrimonial tributável, além de invocar a alíquota zero de PIS e COFINS para carnes bovinas e derivados. Em relação aos custos de aquisição, estornos de tributos, energia elétrica, armazenagem, fretes e suposta majoração de tributos sobre vendas, defende que os lançamentos estavam lastreados em ajustes contábeis, notas fiscais, CT-e, comprovantes de pagamento e registros da ECD, alegando que a DRJ desconsiderou genericamente as provas apresentadas, sem análise concreta e em afronta à verdade material, à ampla defesa e ao dever de motivação. Por fim, sustenta possuir prejuízos fiscais e bases negativas de CSLL regularmente registrados em exercícios anteriores, cujo aproveitamento deveria ser admitido até o limite legal de 30%, requerendo o cancelamento das exigências ou, subsidiariamente, a realização de diligência contábil para reanálise dos documentos e registros fiscais apresentados. 4.3 DA AUSÊNCIA DE GRUPO ECONÔMICO E DA RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA A recorrente impugna integralmente a conclusão fiscal de que integraria grupo econômico de fato com Agro Trading, Nostro Beef e BMG Foods. Sustenta que a fiscalização baseou suas conclusões principalmente em fiscalizações aduaneiras pretéritas, em relações comerciais legítimas entre empresas do mesmo setor e em coincidências de fornecedores, clientes ou vínculos profissionais anteriores de determinados sócios e administradores. Argumenta que tais circunstâncias não demonstram direção unitária, confusão patrimonial ou comunhão de interesses na ocorrência dos fatos geradores. Afirma que inexistem elementos que autorizem a aplicação do art. 124, I, do CTN ou a desconsideração da personalidade jurídica das empresas envolvidas. Essa tese foi reproduzida por todos os responsáveis solidários. Fl. 3905DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 14 A Nostro Beef sustentou que não possui acesso à escrituração da recorrente e que a fiscalização não demonstrou concretamente a existência de grupo econômico, tampouco os requisitos necessários para a responsabilidade solidária prevista no art. 124, I, do CTN. A BMG Foods afirmou que mantinha apenas relações comerciais ordinárias com a recorrente e que a acusação de participação em grupo econômico foi construída a partir de ilações baseadas em vínculos profissionais pretéritos de Marçal Bissoli e em operações comerciais legítimas. Defendeu que o conceito de interesse comum exige participação direta na situação que constitua o fato gerador ou em eventual ato ilícito, circunstâncias não demonstradas pela fiscalização. Marçal Bissoli alegou que a decisão recorrida presumiu interesse comum e dolo com base em meras relações societárias e comerciais, sem demonstrar qualquer ato de gestão praticado com excesso de poderes, infração à lei ou violação contratual, como exige o art. 135, III, do CTN. Jair Antônio de Lima sustentou que a fiscalização não comprovou sua participação direta na administração da recorrente nem sua atuação nos fatos geradores objeto do lançamento, baseando-se apenas em referências a procedimentos fiscais anteriores e supostas ligações com o denominado Grupo Torlim. Evandro Santos também defendeu a inexistência de grupo econômico e de responsabilidade solidária, sustentando que a fiscalização confundiu relações comerciais legítimas com comunhão de interesses tributários e não comprovou confusão patrimonial ou operacional. 4.4 DA MULTA QUALIFICADA A recorrente sustenta que não houve fraude, simulação ou dolo aptos a justificar a qualificação da multa de ofício. Argumenta que as divergências identificadas pela fiscalização decorreriam de erros contábeis, falhas operacionais e ajustes posteriormente esclarecidos por auditoria interna, sem qualquer propósito de ocultação de receitas ou evasão tributária. Defende que a autoridade fiscal não demonstrou o elemento subjetivo necessário para aplicação da penalidade agravada. Evandro Santos reproduz essa argumentação e acrescenta que a simples divergência entre registros contábeis e interpretações fiscais não autoriza a presunção de fraude. Marçal Bissoli e os demais responsáveis solidários sustentam que a decisão recorrida presumiu a existência de dolo e de atuação coordenada sem demonstração concreta de atos fraudulentos ou de participação pessoal dos recorrentes em qualquer infração dolosa. 4.5 DAS MULTAS REGULAMENTARES A recorrente sustenta que as multas regulamentares decorrentes de supostas omissões e incorreções em ECD, ECF e EFD não podem subsistir porque as irregularidades materiais apontadas pela fiscalização não existiram. Argumenta que os registros contábeis Fl. 3906DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 15 estavam devidamente escriturados e que eventual divergência decorreu da interpretação equivocada da fiscalização sobre ajustes contábeis regularmente efetuados. Evandro Santos acrescenta que as multas regulamentares não poderiam coexistir com a multa de ofício quando fundadas nos mesmos fatos, defendendo a incidência do princípio do non bis in idem. É o relatório. VOTO Conselheiro Marcelo Antonio Biancardi, Relator. 1 DA ADMISSIBILIDADE Como já relatado, foram apresentados os seguintes recursos voluntários, nas datas abaixo especificadas: Verifica-se que a Agro Trading Serviços de Apoio Administrativo Ltda/CNPJ n°07.702.840/0001-45 deixou de apresentar recurso voluntário dentro do prazo regimental, motivo pelo qual ocorreu a perempção de seu direito de recurso, conformando-se a coisa julgada administrativa em seu desfavor, aproveitando-se, tão somente do que lhe aplicar, do resultado dos recursos dos outros sujeitos passivos. No que se refere a Carlos Magno Frederico, este deixou de apresentar impugnação no prazo legal, havendo sido decretada a sua revelia (fl. 3.349), entretanto, apresentou recurso voluntário após a decisão de primeira instância. Temos que dizer que, com a verificação de sua revelia, o responsável perdeu a capacidade postulatória no âmbito do processo administrativo, de forma que também ocorreu a perempção de seu direito de recurso, conformando-se a coisa julgada administrativa em seu desfavor. Assim, não conheço de seu recurso voluntário. Destarte, os recursos voluntários da recorrente e dos responsáveis solidários Nostro Beef Alimentos Importação e Exportação Ltda/CNPJ n° 14.515.756/0001-88 e BMG FOODS Importação e Exportação Ltda/CNPJ n° 10.989.834/0001-25, Evandro Santos, Marçal Bissoli e Jair Sujeito Passivo Impugnação Data da Ciência Data limite Data RV Admissibilidade Betampex Ok 06/10/2025 05/11/2025 05/11/2025 Tempestivo Nostro Beef Ok 06/10/2025 05/11/2025 05/11/2025 Tempestivo BMG Foods Ok 06/10/2025 05/11/2025 03/11/2025 Tempestivo Evandro Santos Ok 13/10/2025 12/11/2025 12/11/2025 Tempestivo Agro Trading Ok 06/10/2025 05/11/2025 - Perempto (ver fl. 3.880) Marçal Bissoli Ok 08/10/2025 07/11/2025 07/11/2025 Tempestivo Jair Antonio de Lima Ok 13/10/2025 12/11/2025 11/11/2025 Tempestivo Carlos Magno Frederico Revel (ver. fl. 3.349) 21/10/2025 Revel 05/11/2025 Inadimissível (Perempto) Fl. 3907DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 16 Antonio de Lima são tempestivos e atendem aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto, deles conheço. 2 DAS PRELIMINARES 2.1 NULIDADE DO ACÓRDÃO RECORRIDO. AUSÊNCIA DE ANÁLISE DE DOCUMENTOS E FUNDAMENTOS QUE EMBASARAM A DEFESA Tanto a recorrente quanto Evandro Santos alegaram que a impugnação da recorrente juntou extensa documentação, especialmente planilha elaborada por auditoria contratada, contendo a identificação dos lançamentos contábeis, notas fiscais, comprovantes de pagamento e documentos de transporte, demonstrando individualmente os pontos questionados pela fiscalização. Sustentou que a DRJ não examinou esse material, limitando-se a afirmar genericamente que os documentos eram “produzidos unilateralmente pela empresa” e, por isso, não teriam valor probatório. Argumentou que a autoridade julgadora deixou de confrontar os documentos com os demais elementos dos autos, inclusive dados extraídos de sistemas oficiais de escrituração digital (SPED, ECD e EFD), invertendo indevidamente o ônus da prova e abdicando de sua função revisora. Defendeu que a ausência de apreciação concreta das provas e dos argumentos de mérito caracterizou violação ao contraditório, à ampla defesa e ao dever de fundamentação, requerendo a anulação do acórdão para que a DRJ analisasse os documentos e fundamentos apresentados na impugnação. A alegação da recorrente não encontra respaldo no conteúdo do voto atacado. Ao contrário do que sustenta, o acórdão demonstra que a DRJ examinou especificamente a documentação apresentada na impugnação, inclusive reconhecendo parte dela como apta a comprovar determinadas despesas e, por essa razão, reduziu parcialmente o crédito tributário. Foram expressamente admitidos gastos com energia elétrica no valor de R$ 712.749,89, gastos com armazenagem no valor de R$ 673.903,59 e despesas de frete no valor de R$ 332.425,28, após análise dos documentos juntados aos autos. Tal circunstância, por si só, afasta a afirmação de que a DRJ teria simplesmente ignorado a prova documental produzida pela recorrente. O voto também registra que a recorrente apresentou "planilha em formato de Excel elaborada pela auditoria contratada", contendo a identificação dos lançamentos contábeis, notas fiscais, comprovantes de pagamento e documentos de transporte, e passa a examinar os argumentos relacionados aos diversos grupos de glosas. Assim, o julgador tinha plena ciência da documentação apresentada e a analisou no contexto de cada infração discutida. Além disso, o acórdão não desqualificou genericamente toda a documentação apresentada pela defesa. O que o voto afirmou foi que determinados documentos produzidos unilateralmente pela própria contribuinte não eram suficientes, isoladamente, para afastar as conclusões da fiscalização quando desacompanhados de documentação hábil e idônea que Fl. 3908DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 17 comprovasse as operações registradas. Essa conclusão foi alcançada após cotejo entre os registros contábeis, os documentos apresentados e os elementos colhidos pela fiscalização, não por mera recusa abstrata de valorar a prova. O voto rejeitou expressamente a alegação de ausência de provas por parte da fiscalização, afirmando exatamente o contrário: que havia "superabundância de provas acostadas pelo autor do feito". Ao enfrentar a tese relativa à multa qualificada, o julgador consignou que o auditor-fiscal havia enumerado detalhadamente as infrações apuradas e ressaltou a existência de vasto conjunto probatório constante dos autos, afirmando que a interessada não poderia alegar ignorância acerca de seu conteúdo. Também não procede a alegação de que a DRJ teria deixado de examinar os fundamentos de mérito. O voto dedica extensa fundamentação às diversas teses defensivas, enfrentando temas como omissão de receitas, compras sem comprovação documental, custos glosados, estornos de tributos, diferenças apuradas entre ECD, EFD e demais escriturações digitais, responsabilidade solidária, grupo econômico, multa qualificada e multas regulamentares. Em relação à multa qualificada, por exemplo, o julgador respondeu diretamente ao argumento de falta de individualização das condutas e de ausência de descrição dos fatos, afirmando que o auto de infração "enumera, paciente e zelosamente, as infrações cometidas pela autuada", passando a reproduzir as irregularidades descritas no Termo de Verificação Fiscal. Por fim, a própria conclusão do julgamento, repise-se, evidencia que houve efetiva apreciação das provas apresentadas pela recorrente. Se a DRJ tivesse simplesmente se recusado a analisar a documentação, o resultado lógico seria a manutenção integral do lançamento. Ocorre que o acórdão julgou a impugnação parcialmente procedente e reduziu o crédito tributário após reconhecer como comprovadas determinadas despesas, demonstrando que os documentos foram examinados e valorados, ainda que apenas parcialmente acolhidos. A discordância da recorrente quanto ao resultado da valoração probatória não se confunde com ausência de análise das provas ou falta de fundamentação do julgado. Dessarte, nota-se que não resta caracterizada a preterição do direito de defesa, a suscitar a nulidade da decisão recorrida, visto que foram apreciadas todas as alegações contidas nas peças impugnatórias, sem omissão ou contradição, não sendo o julgador obrigado a tratar, de forma expressa e de per si, de todos os argumentos contidos na contestação, dado que o seu livre convencimento permite seja uma decisão amparada em um ou mais fundamentos, contanto que considerados suficientes ao deslinde da questão. 2.2 DA NULIDADE POR DESVIO DE FINALIDADE E DEFICIÊNCIA DE MOTIVAÇÃO Marçal Bissoli sustentou que o lançamento seria nulo por desvio de finalidade e deficiência de motivação, pois a fiscalização teria fundamentado sua responsabilização em fatos extraídos de procedimentos fiscais e investigações envolvendo outras empresas, como Garantia Total, Corex, Torlim Alimentos, Best Boi e outras pessoas jurídicas supostamente vinculadas ao denominado Grupo Torlim. Argumentou que o Termo de Verificação Fiscal utilizou um alegado Fl. 3909DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 18 entrelaçamento societário e operacional construído a partir de contextos estranhos aos fatos geradores objeto da autuação, sem demonstrar de que forma tais elementos se relacionariam com as operações efetivamente realizadas pela recorrente ou com os tributos exigidos no presente processo. Afirmou, ainda, que a imputação de responsabilidade solidária foi construída com base em presunções decorrentes da alegada existência de grupo econômico, sem a demonstração concreta de sua participação nos fatos geradores ou de qualquer ato ilícito praticado por ele. Nesse contexto, invocou o Parecer Normativo Cosit/RFB nº 4/2018 para sustentar que a responsabilidade tributária por interesse comum ou por ato ilícito exige a comprovação de vínculo efetivo entre o responsável, o contribuinte e o fato jurídico tributário, bem como a demonstração de atuação comissiva ou omissiva que tenha contribuído para a ocorrência da infração. Segundo a defesa, a fiscalização não indicou qual teria sido o ato específico praticado pelo recorrente que justificaria sua responsabilização. Com base nessas premissas, Marçal Bissoli alegou que a autuação se apoiou em elementos externos ao caso concreto, sem individualização de condutas e sem demonstração do nexo entre os fatos atribuídos a terceiros e os fatos geradores discutidos nos autos. Defendeu que a utilização de conclusões extraídas de outras fiscalizações e a ausência de motivação específica quanto à sua participação nos supostos ilícitos comprometeriam a validade do lançamento, razão pela qual requereu o reconhecimento da nulidade do auto de infração e a extinção do processo sem julgamento do mérito. É fato que a autoridade fiscal admite ter utilizado provas emprestadas de fiscalizações aduaneiras anteriores (Processos Administrativos Fiscais (PAF) n° 15444.720201/2020-37, 15444.720029/2023-64, 15444.720025/2023-86, 15444.720001/2024-16, 15165.720940/2014-17, 10111.721024/2016-78, 10111.721911/2017-27), cujos elementos (documentos utilizados) foram juntados ao presente processo. Primeiramente temos que dizer que o uso de prova emprestada, por si só, não configura cerceamento ao direito de defesa, mormente quando ao recorrente foi garantida a ampla defesa e o contraditório no âmbito do presente processo. Assim, muito embora tenha se valido a autoridade fiscal de prova produzida no curso outros de procedimentos fiscais, foi assegurado aos recorrentes demonstrar, no presente processo, a invalidade ou a improcedência das constatações neles apuradas, de forma que lhe foi garantido o contraditório e a ampla defesa. Nesse sentido é a jurisprudência deste CARF: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Ano-calendário: 2004, 2005, 2006, 2008, 2009 PROVA EMPRESTADA. AUTUAÇÃO FISCAL. POSSIBILIDADE. Na instrução do processo administrativo fiscal são admissíveis como provas elementos, informações e documentos coletados por outros órgãos oficiais e regularmente compartilhados com a Receita Federal do Brasil, que tem plena Fl. 3910DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 19 independência para firmar sua convicção sobre a subsunção dos fatos coletados à norma tributária. (Acórdão nº 9101-004.792 de 06/02/2020. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA (IRPF) Exercício: 2012 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. RECURSO ESPECIAL. PRESSUPOSTOS. CONHECIMENTO. Atendidos os pressupostos regimentais, mormente quanto à demonstração da alegada divergência jurisprudencial, o Recurso Especial deve ser conhecido. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. PROVA EMPRESTADA. PROVA LÍCITA. É possível o aproveitamento da prova emprestada de outro processo, no qual não tenha sido parte aquele contra quem se pretenda fazê-la valer, desde que garantido o contraditório por ocasião da impugnação ao lançamento. SIMULAÇÃO. RECLASSIFICAÇÃO DE RECEITA TRIBUTADA NA PESSOA JURÍDICA PARA RENDIMENTOS DE PESSOA FÍSICA. APROVEITAMENTO DOS TRIBUTOS PAGOS NA PESSOA JURÍDICA. IMPOSSIBILIDADE. Inadmissível o aproveitamento, no contencioso administrativo, dos tributos recolhidos pela pessoa jurídica que teve seus rendimentos deslocados para a pessoa física, vez que não se pode dizer tenha o lançamento, que assim não o fez, incorrido em vício de legalidade. (Acórdão nº 9202-011.161 de 29/02/2024). Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2007, 2008 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. Havendo omissão no Acórdão embargado, precisa ser sanada PROVA EMPRESTADA. ADMISSIBILIDADE. As provas obtidas em outro processo do Fisco Estadual, mesmo que este ainda não tenha "transitado em julgado", são admissíveis no processo administrativo fiscal, desde que não prejudique o direito de defesa do contribuinte. (Acórdão nº 1401-001.568 de 02/03/2016) Há que se dizer ainda que a fundamentação da presente autuação não se calcou unicamente nas apurações daqueles procedimentos/processos, tendo sido procedidas intimações e apurações fiscais em fiscalização autônoma que culminou com o presente processo, de forma que a motivação do ato administrativo se encontra plenamente demonstrada. Há que se dizer ainda que o desvio de finalidade (ou desvio de poder) é um vício jurídico que ocorre quando um agente público ou uma autoridade pratica um ato formalmente legal, mas com um objetivo diferente daquele previsto em lei ou fora do interesse público. É uma modalidade clássica de abuso de poder. Assim, muito embora o recorrente tenha aventado que a autoridade fiscal teria praticado ato com desvio de finalidade, não indicou, e não se vislumbra, Fl. 3911DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 20 qual foi a finalidade pretendida pelo agente público acobertada pelo lançamento tributário, de forma que também não se pode acolher as alegações da defesa neste quesito. 3 DO MÉRITO 3.1 DA OMISSÃO DE RECEITA A autoridade fiscal identificou a falta de registro, na escrituração da recorrente (ECD e ECF), de vendas de mercadorias acobertadas por notas fiscais eletrônicas emitidas pela própria empresa. A fiscalização afirmou que o confronto entre os registros contábeis e as NF-e evidenciou receitas auferidas e não submetidas à tributação. A recorrente, por sua vez, sustenta que as notas fiscais apontadas como receitas omitidas não correspondiam a operações efetivamente realizadas. Afirma tratar-se de vendas que não chegaram a ser concretizadas, sem entrega de mercadorias, sem transporte e sem recebimento de qualquer contraprestação financeira. Afirma que tais documentos deveriam ter sido cancelados, mas permaneceram registrados em razão de erro operacional, sendo posteriormente identificados por auditoria interna. Defende que inexistiu acréscimo patrimonial apto a caracterizar receita tributável, nos termos do art. 43 do CTN. Argumenta ainda que os produtos negociados consistiam em carnes bovinas e derivados submetidos à alíquota zero de PIS e COFINS, nos termos da Lei nº 10.925/2004. Subsidiariamente, requer diligência para reanálise das provas contábeis e fiscais apresentadas. O recurso remete ao laudo acostado às folhas 2.952 a 2.968 para justificar e comprovar que aquelas vendas não existiram, muito embora admita que as respectivas NF-e não foram canceladas, permanecendo ativas no sistema SPED. Examinando as citadas justificativas, primeiramente cabe destacar que a análise procedida no laudo não é exaustiva. Muito embora o total omitido seja de R$ 7.136.568,82, conforme quadro abaixo extraído do TVF, o citado laudo limitou-se a analisar tão somente 4 (quatro) operações que somam R$ 2.541.998,11. Fl. 3912DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 21 Assim, do total de receitas omitidas apurado, R$ 4.594.570,71 restam completamente sem nenhuma comprovação e ou justificativa, a não ser pela afirmação de que tais vendas foram canceladas, muito embora as NF-e tenham permanecido ativas para todos os efeitos. Do que apresentou esclarecimentos, nota-se que a justificava apresentada é de que as citadas vendas foram “estornadas” diretamente na conta contábil de “Compras”, o que está em completo desacordo com elementos básicos das regras de escrituração contábil. Estornos devem se dar na mesma conta dos lançamentos de origem. Ressalte-se ainda, que lançamentos desse tipo são, quais sejam, lançamentos a crédito de contas de custo/despesa para “estornar” lançamentos de receita, expedientes típicos de quem pretende reduzir artificialmente o lucro. Ora, se há emissão de documento fiscal (NF-e) para terceiro que o aproveitará para todos os efeitos (custos, recuperação de tributos, etc.), impedindo, por este motivo que seu emissor o cancele, resta o artifício contábil de “criar” contrapartida de resultado com lançamentos, sem lastro, de despesas/custos, os quais anulam os efeitos das receitas que se quer omitir na apuração do lucro. É lição elementar no manual da “maquiagem” contábil. Destarte, na situação aventada pela recorrente, o procedimento de saneamento correto é demasiado simples, qual seja, o cancelamento das NF-e correspondes às vendas canceladas. Ainda assim, poder-se-ia admitir tratar-se de erro de contabilização e/ou procedimento caso os beneficiários das NF-e tivessem emitido notas de devolução, de forma que os efeitos fiscais das NF-e seriam anulados com os correspondentes lançamentos contábeis, erroneamente contidos na conta “Compras”, porém os citados “estornos”, ao que consta dos autos, não estão acobertados por notas de devolução dos supostos clientes. Note-se também que os produtos constantes das notas fiscais omitidas são perecíveis (carne in natura), já os “estornos” se deram de forma parcelada, em montantes idênticos, levando meses para a conclusão da devolução. Apenas para exemplificar, juntamos abaixo uma dessas análises: Fl. 3913DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 22 Destarte, verifica-se falta de verossimilhança nas alegações da recorrente, as quais, repise-se, estão completamente desamparadas de documentação comprobatória. A justificativa de estorno deveria vir acompanhada de lançamentos de ajuste na própria conta contábil de registro das receitas e amparadas por notas de devolução. A forma adotada pela recorrente mantém a presunção legal de existência das operações amparadas por aquelas NF-e, garantindo aos destinatários a possibilidade de apropriação dos custos e créditos dos tributos indiretos incidentes, de forma que o ônus decorrente não pode ser oposto ao Fisco em face da escrituração efetuada pela recorrente. Curial relevar também que os destinatários da integralidade das citadas vendas são empresas (ver planilha juntada folha 250) que a fiscalização comprovou fazer parte de grupo econômico da qual a recorrente é elemento integrante, de forma que o “erro” da recorrente beneficia o grupo em duplicidade: dispensa a recorrente do recolhimento dos tributos incidentes na operação; garante custos e créditos tributários para as beneficiárias das NF-e, reduzindo o ônus fiscal decorrente das suas operações. Por conseguinte, o que se tem é que as NF-e comprobatórias da omissão de receitas não foram canceladas, não existem NF-e de devolução correspondentes, a escrituração efetuada pela recorrente faz prova em seu desfavor, nos termos do art. 417 do Código de Processo Civil, os lançamentos contábeis apresentados como comprobatórios do alegado pela recorrente estão em completo desacordo com normas básicas de escrituração e desamparados de documentação comprobatória, de forma que o lançamento por omissão de receita deve ser mantido. Por outro lado, entretanto, assiste razão à recorrente no que se refere ao lançamento de PIS e COFINS decorrente da omissão de receitas. Isso porque, os produtos constantes das NF-e ensejadoras da autuação sujeitam-se à alíquota zero daquelas contribuições, conforme o art. 1º, XIX, da Lei nº 10.925/2004. Essa informação também consta da planilha produzida pela Fiscalização “VENDAS DE MERCADORIAS NÃO REGISTRADAS NA ECD DE 2021” Fl. 3914DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 23 juntada como arquivo não paginável à folha 250, onde nas colunas CST PIS e CST COFINS consta a informação “TRIBUTADO ALIQ. ZERO”. Destarte, os lançamentos de PIS e COFINS decorrentes da omissão de receitas apurada devem ser exonerados. 3.2 DOS CUSTOS NÃO COMPROVADOS 3.2.1 AQUISIÇÃO DE MERCADORIAS Segundo a autoridade fiscal, a recorrente foi intimada a apresentar a relação das Notas Fiscais ou Notas Fiscais Eletrônicas que acobertaram as aquisições de mercadorias destinadas à comercialização e/ou industrialização, registradas na conta 401 – Estoque de Mercadorias da Escrituração Contábil Digital (ECD) uma vez que não existiam no sistema SPED NF- e documentos correspondentes. Após várias reintimações sem que a recorrente apresentasse a documentação e/ou justificativa para os lançamentos contábeis, procedeu à depuração dos dados conforme SPED e à glosa dos referidos custos não comprovados. Abaixo seguem os montantes apurados pela autoridade fiscal: A recorrente sustenta que a glosa dos valores registrados na Conta 401 (Estoque de Mercadorias) decorreu de interpretação equivocada dos registros contábeis. Argumenta que os valores apontados como compras sem comprovação correspondiam, na realidade, a estornos de vendas não efetivadas, registrados mediante ajustes contábeis entre as contas de estoque, clientes e vendas. Afirma que auditoria interna identificou vendas que não se concretizaram e que os lançamentos questionados apenas refletiam a reversão dessas operações. Apresenta demonstrativos indicando correspondência integral entre os valores lançados na Conta 401 e aqueles registrados na Conta contábil “711 (Vendas)”, sustentando que não houve qualquer repercussão econômica ou fiscal apta a justificar a tributação. Requer o cancelamento integral das glosas ou, subsidiariamente, a realização de diligência contábil. Fl. 3915DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 24 Nota-se que argumentação trazida pela recorrente se assemelha a justificativa apresentada para a infração analisada anteriormente neste voto, ou seja, que procedeu “estornos” de vendas canceladas. Veja, as conclusões a respeito da escrituração que chegamos aqui são as mesmas já expostas anteriormente. O expediente adotado pela recorrente é típico de sonegação, pois cria artificialmente despesas para compensar receitas decorrentes de documentos fiscais que não podem (ou não se quer) ser cancelados, reduzindo indevidamente o lucro tributável e ocultando a efetiva incidência tributária. O procedimento de cancelamento de NF-e é demasiado simples e não foi adotado repetidamente pela recorrente, beneficiando a si e aos integrantes do grupo econômico da qual pertence. A relação de cotejamento (fl. 3.653) das duas contas contábeis (Receita x despesa) trazida no Recurso Voluntário da recorrente deixa a intenção da ocultação e a falta de verossimilhança das suas alegações evidente. Infere-se que as supostas NF-e que teriam sido canceladas tem numeração sequencial (com apenas alguns hiatos), começando na NF-e de nº 60 até a NF-e nº 329, ou seja, segundo a alegação da recorrente, a esmagadora maioria (quase a totalidade) de suas NF-e emitidas a partir de 31/03/2021 até o final do ano-calendário foram canceladas com lançamentos de “estorno” na conta “Compras”. Ressalte-se ainda que, da mesma forma que se vislumbrou na análise do item anterior, as “compras”, ou “devoluções” não se deram pela integralidade dos montantes das NF-e, mas de forma parcelada ao longo de meses, conforme se vê da escrituração da conta “Estoque 401” juntada aos autos através de arquivo não paginável à folha 251. Ou seja, segundo a recorrente, as vendas efetuadas exclusivamente para empresas de seu grupo econômico, foram integralmente canceladas a partir de março de 2021, porém tais cancelamentos foram operacionalizados de forma parcelada, ao longo de meses, muito embora os produtos vendidos sejam altamente perecíveis. Entendo ser mais crível a conclusão fiscal, qual seja, que a recorrente se valeu de expediente contábil para anular os efeitos tributários de suas vendas a empresas ligadas, mantendo hígido o aproveitamento de custos e tributos indiretos por aqueles beneficiários em decorrência das operações em voga. Procedeu tais “estornos” de forma parcelada para dissimular sua prática, tendo em vista que lançamentos em montantes idênticos a suas vendas facilitaria a identificação do artifício utilizado. Destarte, devem ser mantidas as glosas dos decorrentes custos na apuração do IRPJ e da CSLL. 3.2.2 ESTORNOS DE TRIBUTOS A Fiscalização apurou lançamentos de custo na conta contábil “401-Estoque” com a descrição de Estorno do ICMS, Estorno da COFINS e Estorno do PIS, havendo a recorrente sido intimada a apresentar a justificativa/comprovação. Fl. 3916DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 25 Em sua defesa a recorrente afirma que “os estornos de ICMS, PIS e COFINS registrados na ECD do exercício de 2021 constituem ajustes contábeis regulares, devidamente declarados e apurados, sem qualquer prejuízo fiscal. Esclareceu que não houve ocultação de tributos ou tentativa de reduzir artificialmente a base de cálculo, mas apenas o registro técnico de créditos e débitos tributários, efetuado em conformidade com a legislação aplicável e com os princípios da correção contábil e da competência.” Da mesma forma que nas infrações anteriores, verifica-se que a justificativa é insuficiente para afastar a autuação. Como já mencionado, os lançamentos de estorno devem ocorrer na mesma conta dos lançamentos que se quer anular. Assim, os citados lançamentos geraram custos indevidos que, ao contrário do asseverado pela recorrente, impactaram a apuração do lucro e, por conseguinte, dos tributos decorrentes. Sendo suas alegações genéricas e desprovidas de documentação comprobatória, devem ser mantidas as glosas dos referentes custos. 3.2.3 CUSTOS DE FABRICAÇÃO COM ENERGIA ELÉTRICA, CUSTOS DE ARMAZENAGEM E DESPESAS COM FRETES A recorrente alegou que as despesas com energia elétrica e custos de armazenagem foram integralmente comprovadas por notas fiscais e respectivos comprovantes de pagamento, esclarecendo que sua não apresentação durante a fiscalização decorreu apenas de falha administrativa posteriormente sanada. Sustentou que tais gastos são essenciais à atividade empresarial e, portanto, dedutíveis para fins de IRPJ e CSLL, afirmando que a DRJ rejeitou genericamente as provas sem apontar inconsistências concretas, em afronta aos princípios da verdade material, da ampla defesa e da motivação das decisões, razão pela qual requereu o cancelamento da glosa ou, subsidiariamente, a realização de diligência contábil. Primeiramente temos que dizer que a recorrente não apresentou provas adicionais àquelas apresentadas na Impugnação em sede de Recurso Voluntário. Diferentemente do alegado, a DRJ procedeu a exame detalhado da documentação apresentada, havendo concluído que havia, na documentação apresentada, documentos em duplicidade ou triplicidade (NF-e, boletos, comprovantes de agendamento de pagamento, etc.), de forma que tais elementos se prestam a justificar somente uma operação. Ademais, identificou, que alguns dos documentos tinham como sacado/interessado terceiros, de forma que não os considerou como dedutíveis pela recorrente. Assim, elaborou tabelas das despesas comprovadas (fl. 3.492 a 3.495) havendo afastado parcialmente as glosas decorrentes. Como já dito, em sede de recurso a recorrente não apresentou qualquer alegação a respeito das constatações da DRJ, havendo se limitado a dizer que a documentação apresentada comprovaria as despesas pleiteadas. Nota-se claramente que o recurso não dialoga com a decisão recorrida, limitando-se tão somente a repisar argumentação já apresentada em sede de Fl. 3917DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 26 impugnação, motivo pelo qual me alinho integralmente ao voto da decisão a quo, transformando- os em meus seus fundamentos, nos termos do art. 114, §12, I do RICARF, não havendo, portanto, reforma a ser reconhecida em sede de recurso voluntário. 3.3 MAJORAÇÃO DE TRIBUTOS A autoridade fiscal identificou que a recorrente lançou despesas com tributos (ICMS, PIS e COFINS) em montantes superiores àqueles destacados/apurados conforme as NF-e de sua emissão, motivo pelo qual intimou a recorrente para que apresentasse memória de cálculo dos tributos bem como a justificativa para as diferenças apuradas sem que tenha obtido resposta justificativa, procedendo assim a glosa das despesas excedentes. A recorrente, em ambas as instâncias administrativas, apresentou alegação de “que as diferenças de valores entre a ECD e as notas fiscais apontadas pela fiscalização decorrem de reclassificação tributária e autocorreção das operações, com recolhimento dos tributos devidos nos valores efetivamente corretos”. Explicou que, durante o processo de revisão interna das escriturações fiscais, foram identificadas inconsistências de classificação entre receitas sujeitas a tributação e receitas com alíquota zero ou isentas, motivo pelo qual foram efetuados os ajustes contábeis e fiscais necessários à correta representação dos fatos econômicos. Não apresentou memória de cálculo ou documentação de suporte do alegado, limitando-se a afirmar que “a divergência verificada pela fiscalização não representa majoração de tributos nem manipulação indevida de receitas, mas mero ajuste contábil de reclassificação, que não implicou omissão, supressão ou redução do quantum tributário devido. Em suma, as diferenças observadas refletem ajustes legítimos, sem qualquer impacto fiscal indevido.” Verifica-se que as alegações da recorrente se consubstanciam em negação genérica, o que não se pode admitir como suficiente para afastar o lançamento. Como já mencionado, a autoridade fiscal fez a apuração dos tributos devidos pela recorrente conforme suas NF-e e considerou aqueles montantes como despesas na apuração do lucro real. Repise-se que as NF-e tem presunção de legitimidade e produzem seus efeitos, de forma que sua desconsideração deve vir acompanhada de documentação de suporte. A simples alegação de “reclassificações tributárias” não pode ser acatada sem a apresentação de justificativa, memória de cálculo e documentação comprobatória, elementos ausentes nas peças de defesa. Verifica-se, ao final, que a majoração dos tributos incidentes (despesas) na apuração do lucro real se insere na prática corrente e demonstrada de sonegação tributária perpetrada pela recorrente, a qual utiliza de lançamentos sem lastro em contas de despesa para anular os efeitos do auferimento de suas receitas (amparadas por NF-e) na apuração do lucro real e dos tributos decorrentes. Destarte, devem ser mantidas as glosas efetuadas com esta rubrica. Fl. 3918DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 27 3.4 COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZOS FISCAIS A recorrente alegou possuir saldos de prejuízo fiscal e de base negativa da CSLL regularmente apurados e registrados na ECD e na ECF, defendendo o direito à compensação nos limites legais de 30% do lucro líquido ajustado. Sustentou que a fiscalização teria reconhecido a existência formal desses saldos, mas negado seu aproveitamento por suposta insuficiência documental, desconsiderando registros oficiais sem apontar inconsistências concretas, em afronta à verdade material e ao dever de motivação. Requereu, assim, o reconhecimento da compensação na apuração do crédito tributário ou, subsidiariamente, a realização de diligência para conferência dos registros contábeis e fiscais. Em sua peça de impugnação, apresentou os seguintes argumentos a respeito da compensação de prejuízos: Nota-se que, a rigor, a recorrente não impugnou a matéria, de forma que assim se pronunciou o julgador de piso em seu acórdão: Desta feita, as alegações trazidas em sede de recurso voluntário estão preclusas, não merecendo conhecimento. 3.5 DA MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA E AGRAVADA A autoridade fiscal aplicou a chamada “multa qualificada agravada” de 150% sobre IRPJ, CSLL, COFINS e PIS do ano-calendário de 2021, indicando como fundamento o art. 44, § 1º, VI, e § 2º, da Lei nº 9.430/1996, combinado com o art. 71, I, da Lei nº 4.502/1964. Pelo texto do TVF, a qualificação decorreu da imputação de sonegação, isto é, da prática de ações ou omissões dolosas destinadas a impedir ou retardar o conhecimento, pela autoridade fazendária, da ocorrência dos fatos geradores, de sua natureza ou de suas circunstâncias materiais; já o agravamento de 50% decorreu do não atendimento às intimações fiscais. Os elementos fáticos invocados para caracterizar o dolo e, portanto, justificar a qualificação foram: a omissão de receitas por falta de registro na ECD de vendas de mercadorias acobertadas por NF-e emitidas pela recorrente; o registro de aquisições de mercadorias, estornos de tributos, consumo de energia elétrica, serviços de armazenagem, fretes sobre vendas, vendas canceladas e tributos sobre vendas majorados sem documentação comprobatória hábil e idônea, coincidente em data e valor; e a conclusão de que essas condutas reduziram indevidamente o Fl. 3919DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 28 resultado tributável e a carga de IRPJ, CSLL, COFINS e PIS, além de contaminarem as escriturações entregues à administração tributária. Os recursos sustentam que não houve comprovação de fraude, sonegação, simulação, conluio ou dolo específico. A Betampex e Evandro Santos alegam que a fiscalização não demonstrou conduta dolosa dirigida a impedir ou retardar o conhecimento do fato gerador, nem a reduzir deliberadamente o tributo devido. Defendem que inconsistências contábeis, omissões formais, divergências entre documentos fiscais ou lançamentos considerados indevidos não bastam, por si só, para qualificar a multa. Argumentam que a multa foi mantida pela DRJ com base em presunções amplas, extraídas do conjunto de irregularidades apontadas pela fiscalização, omissão de receitas, custos e despesas não comprovados, escrituração supostamente incorreta e vínculos entre empresas, sem exame individualizado das provas apresentadas pela defesa. A Betampex afirma que apresentou documentação contábil e fiscal e que a DRJ manteve a penalidade sem demonstrar, concretamente, o elemento subjetivo exigido para a qualificação. Por isso, requereu a desqualificação da multa para o percentual ordinário de 75%. A controvérsia relativa à multa de ofício qualificada deve ser examinada à luz do conjunto probatório produzido nos autos, especialmente das constatações relativas à escrituração contábil da recorrente e à forma reiterada pela qual foram registrados lançamentos sem lastro documental apto, com impacto direto na apuração do lucro real e, por consequência, do IRPJ e da CSLL devidos. Nos termos do art. 44, § 1º, da Lei nº 9.430/1996, a qualificação da multa de ofício pressupõe a caracterização de conduta dolosa enquadrável nas hipóteses dos arts. 71, 72 ou 73 da Lei nº 4.502/1964. No caso concreto, a hipótese que se revela pertinente é a do art. 71 da Lei nº 4.502/1964, segundo o qual sonegação é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento, por parte da autoridade fazendária, da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais. É certo que a simples glosa de custos ou despesas, isoladamente considerada, não autoriza a qualificação da multa. Também é certo que divergências contábeis pontuais ou erros materiais ordinários, desacompanhados de outros elementos, não bastam para caracterizar o evidente intuito de fraude. Contudo, não é essa a situação dos autos. O que se verifica, a partir da análise do conjunto de fatos apurados, é a existência de conduta reiterada, coerente e convergente, voltada à neutralização artificial dos efeitos tributários de receitas documentadas por notas fiscais eletrônicas, mediante lançamentos contábeis em contas de custos e despesas sem comprovação idônea. A prova do dolo, em matéria tributária, raramente se apresenta de forma direta ou expressa. Não se exige, para a caracterização da sonegação, confissão do sujeito passivo ou documento formal que revele a intenção de ocultar a ocorrência do fato gerador. A intenção Fl. 3920DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 29 dolosa pode ser extraída de prova indiciária, desde que os elementos apurados sejam graves, precisos e concordantes, conduzindo a conclusão segura quanto à existência de expediente consciente e deliberado. No presente caso, os indícios não se apresentam de forma isolada ou fragmentária; ao contrário, formam um encadeamento lógico que revela padrão de escrituração incompatível com meros equívocos contábeis. Quanto aos custos lançados na conta 401 – Estoque de Mercadorias, a recorrente alegou que os valores glosados corresponderiam a estornos de vendas não efetivadas. Sustentou que determinadas notas fiscais teriam sido emitidas sem que as operações comerciais se concretizassem, razão pela qual teriam sido efetuados ajustes contábeis entre contas de estoque, clientes e vendas. Todavia, essa justificativa não se mostra verossímil diante das constatações constantes dos autos. A relação de cotejamento entre a conta de receitas e a conta de supostos custos evidencia que as notas fiscais que a recorrente afirma terem sido canceladas apresentam numeração sequencial, com poucos hiatos, iniciando-se na NF-e nº 60 e alcançando a NF-e nº 329. Em outras palavras, segundo a própria narrativa defensiva, a esmagadora maioria das notas fiscais emitidas a partir de 31/03/2021 até o encerramento do ano-calendário teria correspondido a vendas não concretizadas, posteriormente neutralizadas por lançamentos de “estorno” na conta de compras ou estoque, ou seja, em conta diversa do lançamento original. Tal circunstância afasta a tese de erro contábil eventual. A repetição do procedimento, a sequência das notas fiscais e a magnitude dos valores envolvidos indicam expediente estruturado de compensação artificial de receitas. Além disso, os lançamentos não foram realizados pela integralidade dos valores das notas fiscais em um único ato, como seria de se esperar de um cancelamento regular ou de um ajuste contábil compatível com a não concretização da operação. Ao contrário, foram operacionalizados de forma parcelada ao longo de meses, muito embora as mercadorias envolvidas sejam produtos altamente perecíveis. Essa dinâmica não se harmoniza com a tese de cancelamento de operações comerciais, revelando-se mais compatível com a utilização de lançamentos contábeis para anular, gradualmente, de forma dissimulada, os efeitos fiscais das receitas escrituradas. Também merece destaque o fato de que o procedimento regular para cancelamento de NF-e é conhecido, simples e disponível ao contribuinte dentro dos parâmetros normativos aplicáveis. A recorrente, entretanto, não procedeu ao cancelamento das notas fiscais, mantendo os documentos fiscais hígidos perante terceiros e perante o sistema fiscal, ao mesmo tempo em que promoveu registros contábeis destinados a neutralizar seus efeitos na apuração do lucro tributável. Essa conduta permitia que os destinatários das notas fiscais, notadamente empresas relacionadas como se verá adiante, aproveitassem os efeitos fiscais e comerciais dos documentos emitidos, enquanto a recorrente reduzia artificialmente seu resultado tributável por meio de lançamentos de custos sem comprovação. No mesmo sentido, quanto aos lançamentos de “estorno” de ICMS, PIS e COFINS na conta 401 – Estoque de Mercadorias, a recorrente limitou-se a alegar tratar-se de ajustes contábeis regulares, sem apresentar documentação idônea ou memória de cálculo capaz de Fl. 3921DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 30 justificar os registros. A alegação não procede. Lançamentos de estorno devem, em regra, ocorrer na mesma conta em que registrado o lançamento que se pretende anular, precisamente para preservar a coerência e a rastreabilidade da escrituração. Ao registrar supostos estornos de tributos como custos na conta de estoque, a recorrente produziu efeito redutor indevido sobre o lucro tributável, de maneira dissimulada. Não se trata, portanto, de mero ajuste técnico neutro, mas de lançamento que impactou diretamente a base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Da mesma maneira que nas infrações anteriores, a escrituração realizada é dissimulada, em conta diversa da receita, demonstrando claramente que se pretendeu ocultar na escrituração o efeito de anulação das receitas. Trata-se de conhecida “maquiagem contábil” que tem como objetivo suprimir tributos. As glosas relativas aos custos de fabricação com energia elétrica, serviços de armazenagem e despesas com fretes também reforçam o mesmo quadro indiciário. A recorrente alegou que tais despesas estariam comprovadas por notas fiscais e comprovantes de pagamento, afirmando que eventual ausência de apresentação durante a fiscalização teria decorrido de falha administrativa posteriormente sanada. Contudo, a decisão de primeira instância examinou a documentação apresentada e constatou a existência de documentos duplicados ou triplicados — notas fiscais, boletos e comprovantes de agendamento de pagamento, que se prestavam a justificar apenas uma única operação. Também foram identificados documentos em nome de terceiros, sem aptidão para comprovar despesas dedutíveis da recorrente. Diante disso, a DRJ afastou parcialmente as glosas quando encontrou suporte documental suficiente e manteve apenas aquelas não comprovadas. No recurso voluntário, a recorrente não enfrentou especificamente essas constatações, limitando-se a repetir a alegação genérica de que a documentação comprovaria os gastos. Esse ponto é relevante porque demonstra que a manutenção das glosas não decorreu de recusa abstrata à prova documental, mas de análise concreta da documentação apresentada. Quando houve comprovação suficiente, a glosa foi afastada. Quando os documentos eram duplicados, triplicados, insuficientes ou relativos a terceiros, a despesa foi mantida como indedutível. A ausência de impugnação específica a essas conclusões reforça a insuficiência da defesa e afasta a narrativa de que se trataria de simples incompreensão da escrituração pela autoridade fiscal. A mesma lógica se observa na rubrica de majoração de tributos. A autoridade fiscal identificou que a recorrente lançou despesas com ICMS, PIS e COFINS em montantes superiores àqueles destacados ou apurados conforme as notas fiscais eletrônicas de sua emissão. Intimada a apresentar memória de cálculo e justificativa para as diferenças, a recorrente não comprovou a origem dos valores. Em sede defensiva, limitou-se a afirmar que as divergências decorreriam de reclassificações tributárias e autocorreções internas, sem apresentar documentação de suporte, demonstrativos analíticos ou memória de cálculo capaz de validar a alegação. Tal negativa genérica não afasta o lançamento. Fl. 3922DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 31 A majoração artificial de tributos contabilizados como despesas insere-se no mesmo padrão de conduta identificado nas demais rubricas. A recorrente emitiu documentos fiscais que produzem efeitos próprios e possuem presunção de legitimidade, mas, em sua escrituração contábil, registrou custos, despesas e tributos em valores não comprovados, todos com efeito comum: reduzir o resultado tributável. Não se trata de uma irregularidade isolada, mas de uma sucessão de lançamentos convergentes para a mesma finalidade fiscal, qual seja, diminuir artificialmente o lucro real e, por consequência, os tributos devidos. A tese defensiva de que os fatos corresponderiam a meros erros contábeis não resiste ao exame do conjunto probatório. Erros contábeis ordinários tendem a ser pontuais, identificáveis, explicáveis e acompanhados de documentação apta à sua correção. No presente caso, porém, observa-se a emissão de notas fiscais em série, a ausência de cancelamento regular, a realização de lançamentos parcelados em conta de estoque para neutralizar receitas, o registro de estornos de tributos em conta inadequada, a apresentação de documentos duplicados ou em nome de terceiros para comprovação de custos e a majoração de tributos como despesas sem memória de cálculo ou suporte documental. Curial ressaltar que todos os supostos “erros” levam sempre à supressão do lucro, nunca ao seu incremento, o que não seria de se esperar em erros decorrentes de imperícia na contabilização. Esses elementos, analisados em conjunto, revelam unidade de propósito e convergência para a supressão ou redução indevida da carga tributária. A prova indiciária, nesse contexto, é suficiente para caracterizar o evidente intuito de sonegação. Os indícios são múltiplos, concordantes e convergem para a conclusão de que a recorrente adotou mecanismo contábil destinado a impedir ou dificultar o conhecimento, pela autoridade fiscal, das reais circunstâncias materiais dos fatos geradores. A escrituração foi utilizada não para retratar fielmente os fatos econômicos, mas para criar contrapartidas artificiais às receitas documentadas por NF-e, anulando seus efeitos na apuração do lucro real. Tal conduta se subsome ao art. 71 da Lei nº 4.502/1964, pois configura ação dolosa tendente a ocultar ou distorcer elementos relevantes da obrigação tributária principal. Também não procede a alegação de que a ausência de comprovação documental ou o não atendimento a intimações seriam os únicos fundamentos da qualificação da multa. A qualificação não decorre, aqui, da simples ausência de documentos, nem da mera desídia no curso da fiscalização. O que justifica a multa qualificada é o conjunto articulado de condutas: emissão de documentos fiscais, ausência de cancelamento regular, registros contábeis incompatíveis com a realidade alegada, lançamentos em contas inadequadas, duplicidade ou insuficiência documental e majoração de despesas tributárias sem suporte. A falta de atendimento às intimações reforça o cenário probatório, mas não constitui, isoladamente, a razão determinante da qualificação, muito embora tenha servido para a majoração da multa. Dessa forma, entendo caracterizada a sonegação prevista no art. 71 da Lei nº 4.502/1964. A conduta da recorrente extrapola a mera irregularidade formal ou o erro contábil escusável. O conjunto probatório demonstra prática reiterada e consciente de escrituração Fl. 3923DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 32 destinada a reduzir artificialmente o lucro tributável, mediante a criação de custos e despesas sem lastro documental idôneo, em contrapartida a receitas formalizadas por notas fiscais eletrônicas. Por essas razões, deve ser mantida a qualificação da multa de ofício, por restar demonstrado, mediante prova indiciária robusta, coerente e convergente, o evidente intuito de sonegação, nos termos do art. 44, § 1º, da Lei nº 9.430/1996, combinado com o art. 71 da Lei nº 4.502/1964. No que se refere ao agravamento da multa, antes de ingressarmos na análise do caso concreto, impõe-se o estabelecimento de algumas premissas jurídicas relativas ao agravamento da penalidade em exame, à luz da jurisprudência consolidada no âmbito deste Conselho. O artigo 44 da Lei nº 9.430/96 prevê a aplicação de multa de ofício no percentual de 75% sobre o valor dos tributos não pagos, a qual pode ser majorada em 50% nas hipóteses de não atendimento às intimações regularmente expedidas para apresentação de documentos ou prestação de esclarecimentos, nos termos de seu §2º. Cuida-se de medida de natureza punitiva voltada a desestimular a ausência de cooperação do contribuinte no curso da ação fiscal, distinguindo-se, sob esse aspecto, da multa qualificada, destinada a sancionar condutas dolosas de sonegação. Com efeito, enquanto a multa qualificada possui nítido caráter sancionatório em razão da prática de conduta dolosa grave, a multa agravada prevista no §2º do artigo 44 tem por finalidade assegurar a efetividade da fiscalização tributária. A ratio legis encontra fundamento no princípio da colaboração no âmbito da relação jurídico-tributária, segundo o qual incumbe ao contribuinte o dever legal de fornecer os elementos necessários à correta apuração dos fatos geradores. O descumprimento desse dever, mediante a omissão de documentos ou informações expressamente requisitados, autoriza, em tese, o agravamento da penalidade, como forma de coibir comportamentos que dificultem ou retardem os procedimentos fiscalizatórios. Trata-se, portanto, de multa de natureza objetiva, cujo núcleo reside na conduta omissiva de cooperação, prescindindo da comprovação de dolo específico por parte do contribuinte. Nesse sentido, este Conselho tem reiteradamente afirmado que, ao contrário do que ocorre com a multa qualificada, a multa agravada não exige a análise de elemento subjetivo, bastando a constatação objetiva do não cumprimento da intimação regularmente expedida. Em síntese, a multa agravada configura sanção de caráter instrumental, aplicada em razão da violação direta dos deveres de colaboração com o Fisco, desprovida de natureza penal, mas dotada de finalidade coercitiva e preventiva. Essa característica objetiva, contudo, tem suscitado debates na doutrina e na prática administrativa, notadamente quanto à eventual violação ao direito de não produzir prova contra si mesmo. Predomina, entretanto, o entendimento de que tal garantia se restringe ao âmbito penal e à confissão de ilícitos, não alcançando o cumprimento das obrigações tributárias acessórias, como a escrituração e a apresentação de documentos exigidos pela legislação fiscal. Fl. 3924DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 33 A administração tributária e a jurisprudência assentam que a pessoa jurídica está juridicamente obrigada a manter e exibir sua escrituração e os documentos fiscais correspondentes, não se tratando de hipótese de “confissão forçada”, mas do cumprimento regular de deveres instrumentais previstos em lei, a exemplo do disposto nos artigos 195 e 197 do CTN e no artigo 12 da Lei nº 8.137/90. Ademais, o Supremo Tribunal Federal já reconheceu a constitucionalidade de mecanismos de obtenção de informações independentemente do consentimento do contribuinte, como o acesso direto a dados bancários pela administração tributária, nos termos da LC nº 105/2001, entendendo que tais medidas não violam o sigilo bancário nem o direito ao silêncio, uma vez que os dados obtidos permanecem protegidos pelo sigilo fiscal e se destinam ao exercício legítimo da fiscalização. Dessa forma, o ordenamento jurídico impõe limites relativamente estritos à invocação do chamado “direito ao silêncio” em matéria tributária, não sendo lícito ao contribuinte recusar-se, sem justificativa, a exibir livros e documentos exigidos por lei. Como consequência, a multa prevista no artigo 44, §2º, da Lei nº 9.430/96 possui natureza objetiva, sendo sua aplicação condicionada à mera constatação do não atendimento à intimação, independentemente da demonstração de dolo. Tal circunstância, todavia, não autoriza sua incidência automática. A agravante somente se configura quando a falta de cooperação recai sobre elementos formalmente intimados, pertinentes e necessários à elucidação dos fatos, de modo a caracterizar embaraço concreto à ação fiscal. A controvérsia central nos casos concretos reside, portanto, na definição dos limites em que o não atendimento à intimação configura efetivo prejuízo à atividade fiscal, apto a justificar o agravamento da multa de ofício, e daqueles em que a conduta, embora censurável, não compromete a fiscalização a ponto de autorizar a aplicação da penalidade majorada. Nesse contexto, o CARF já reconheceu que a aplicação concomitante da multa de ofício e de seu agravamento, fundada no mesmo fato de não colaboração, pode configurar hipótese de bis in idem, especialmente quando a fiscalização logrou apurar o tributo devido por outros meios e quando o próprio lançamento decorreu da ausência de apresentação das informações requisitadas. Esse entendimento foi consolidado nas Súmulas CARF nº 96 e nº 133, cujos enunciados dispõem o seguinte: Súmula CARF 96 A falta de apresentação de livros e documentos da escrituração não justifica, por si só, o agravamento da multa de ofício, quando essa omissão motivou o arbitramento dos lucros. Súmula CARF 133 A falta de atendimento a intimação para prestar esclarecimentos não justifica, por si só, o agravamento da multa de ofício, quando essa conduta motivou presunção de omissão de receitas ou de rendimentos. Fl. 3925DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 34 Em outras palavras, quando a consequência da não apresentação de documentos é a adoção de métodos presuntivos legalmente previstos, como o arbitramento do lucro ou a presunção de omissão de receitas, não se mostra legítimo o agravamento da multa de ofício. Nesses casos, o Fisco já se valeu de instrumento próprio para superar a ausência de informações, de modo que a majoração da penalidade configuraria punição duplicada pela mesma falta de colaboração. Como já visto, no presente caso a autuação se deu com base em informações extraídas da ECD e da NF-e elaboradas pela recorrente, de forma que o não atendimento às intimações no curso do procedimento fiscal não implicou em dificuldade adicional à autoridade fiscal na apuração dos fatos geradores tributários, não restando, portanto, caracterizada a situação autorizadora do agravamento da multa de ofício. No mais, traz a recorrente argumentação sobre a razoabilidade, proporcionalidade e inconstitucionalidade das multas de ofício. De plano, tem-se que, em nosso ordenamento positivo, a lei em vigor produz todos os efeitos que lhe são próprios, e, até que formalmente revogada, presume-se em harmonia com o sistema jurídico em que está inserida. Nessa linha, o controle da constitucionalidade de leis compete exclusivamente ao Poder Judiciário (incisos I, alínea “a”, e III, alínea “b”, e parágrafo 1º do art. 102 da Constituição da República Federativa do Brasil). Assim, enquanto não declarada a sua inconstitucionalidade, com a sua subsequente exclusão do mundo jurídico, a lei goza de presunção de validade, vinculando todos os atos da administração pública. Acerca do fundamento de inconstitucionalidade, o Decreto nº 70.235, de 1972 (com a redação que lhe deu a Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009), dispõe: Art.26-A No âmbito do processo administrativo fiscal, fica vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. Ante a isso, as questões levantadas pela recorrente, que, ao final, versam sobre constitucionalidade e legalidade de artigo de lei, estão fora da órbita da autoridade julgadora administrativa, à qual compete verificar a correta aplicação da lei, sem, contudo, proferir juízo acerca de sua constitucionalidade ou de outros aspectos atinentes à sua validade no mundo jurídico. Ademais, a Súmula CARF n° 2 expressamente explicita este entendimento, in verbis: Súmula CARF nº 2 O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Desse modo, não se conhece das alegações de inconstitucionalidade. Fl. 3926DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 35 Destarte, deve ser mantida a qualificação da multa de ofício e afastado seu agravamento, de forma que, ao final, o percentual aplicado de 150% deve ser deve ser reduzido a 100%. 3.6 DAS MULTAS REGULAMENTARES A autoridade fiscal procedeu ao lançamento de 3 (três) multas regulamentares distintas, por omissões e incorreções na Escrituração Contábil Digital (ECD) prevista no art. 11 da IN RFB n° 1.774/2017; por omissões e incorreções na Escrituração Contábil Fiscal (ECF) prevista art. 6° da IN RFB n° 1.422/2013; e por conta de omissões nas Escriturações Fiscais Digitais (EFD's)- Contribuições prevista art. 10 da IN RFB n° 1.252/2012. Em todos os casos, as omissões ou imprecisões apontadas são as mesmas que ensejaram à constituição do crédito tributário principal, o qual, como já visto, foi acompanhado de multa de ofício. Por sua vez, os recursos sustentam que as multas regulamentares por omissões e incorreções na ECD, ECF e EFD-Contribuições deveriam ser exoneradas porque as escriturações teriam sido entregues tempestivamente e as inconsistências apontadas pela fiscalização decorreriam, no máximo, de divergências formais, reclassificações contábeis ou interpretações técnicas, sem dolo, fraude, atraso, omissão efetiva ou prejuízo fiscal; alegam, ainda, inexistência das próprias infrações materiais que deram origem às penalidades, ausência de subsunção dos fatos às normas invocadas, especialmente porque os arts. 11 e 12 da Lei nº 8.218/1991 e os atos infralegais correlatos teriam como aspecto material a não apresentação ou a falta de escrituração digital, e não meros equívocos em arquivos regularmente transmitidos, invocando inclusive a revogação da IN RFB nº 1.774/2017 pela IN RFB nº 2.003/2021 e o Parecer Normativo RFB nº 03/2013; subsidiariamente, defendem a redução das penalidades por proporcionalidade, razoabilidade e vedação ao confisco, bem como o cancelamento das multas regulamentares por bis in idem, caso mantida a multa de ofício sobre os mesmos fatos. Primeiramente temos que dizer que não procedem as alegações dos recorrentes no que se referem a vigência das normas utilizadas na autuação, tendo em vista que as citadas IN´s encontravam-se vigentes a época do lançamento, tendo sua validade calcada nos dispositivos legais que regulamentam e que permaneceram vigentes, sendo irrelevante a eventual revogação posterior das instruções normativas. Da mesma maneira, como já exaustivamente demonstrado no presente voto, as incorreções que originaram os lançamentos não se referem a simples erros contábeis, mas de efetivas imprecisões e omissões de informações relevantes nas apurações tributárias decorrentes, inseridas ou omitidas de maneira dolosa nas respectivas escriturações fiscais, de forma que tais fatos se subsomem às normas ensejadoras das penalidades. Assim, no ponto ora examinado, resta a discussão da subsistência das multas regulamentares aplicadas por omissões e incorreções na Escrituração Contábil Digital (ECD), na Escrituração Contábil Fiscal (ECF) e nas Escriturações Fiscais Digitais da Contribuição para o Fl. 3927DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 36 PIS/Pasep e da COFINS (EFD-Contribuições), em cumulação com a multa de ofício qualificada que, por premissa deste voto, permanece mantida. A fiscalização aplicou multa de ofício qualificada sobre os valores exigidos a título de IRPJ, CSLL, COFINS e contribuição ao PIS, afirmando que as condutas descritas se enquadrariam na figura da sonegação, por representarem ações ou omissões dolosas tendentes a impedir ou retardar o conhecimento, pela autoridade fiscal, da ocorrência dos fatos geradores e de suas circunstâncias materiais. O próprio Termo de Verificação Fiscal afirma, ao final, que as ações e omissões apuradas se inserem em contexto de fraude à fiscalização tributária e configuram o dolo necessário para a qualificação da multa de ofício. É bem verdade que as multas regulamentares ora examinadas, contudo, não foram exigidas por fatos autônomos em relação ao lançamento principal. A multa da ECD foi aplicada porque a escrituração teria sido apresentada com omissões decorrentes da falta de registro de receitas e com incorreções decorrentes da não comprovação de custos, custos de fabricação, despesas com vendas, vendas canceladas e tributos sobre vendas majorados, todos relacionados à redução do resultado do período. O mesmo se verifica em relação à ECF. A autoridade fiscal afirmou que essa escrituração teria sido apresentada com omissões por falta de registro de receitas e com incorreções em razão da não comprovação dos mesmos custos, despesas, devoluções e tributos majorados, com repercussão negativa na apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL. Em relação à EFD-Contribuições, a fiscalização foi ainda mais explícita ao afirmar que as omissões de registro decorreram das omissões de receita e das vendas canceladas não comprovadas, isto é, dos mesmos fatos que serviram à exigência principal de PIS e COFINS. O modo de cálculo das penalidades confirma a identidade do núcleo fático. A multa da ECD foi calculada sobre o “valor da operação total” de R$ 236.495.334,98, formado pela soma do valor da omissão e dos valores de incorreção apurados nos subtotais indicados pela fiscalização, resultando em multa de R$ 5.592.380,47 após a aplicação do limite de 1% da receita bruta. A multa da ECF, por sua vez, foi calculada sobre o mesmo valor total de omissão/incorreção de R$ 236.495.334,98, no percentual de 3%, resultando em R$ 7.094.860,05. Já a multa da EFD- Contribuições tomou por base as bases de cálculo de COFINS e PIS decorrentes das mesmas omissões de receitas, além das vendas canceladas não comprovadas. Neste ponto é mister que se relembre que o lançamento de IRPJ e CSLL, acrescidos de multa de ofício qualificada estão sendo mantidos no presente voto, entretanto, os lançamentos de PIS e COFINS estão sendo exonerados em face dos produtos comercializados (ensejadores da autuação) estarem submetidos à alíquota zero dos tributos, por força do art. 1º, XIX, da Lei nº 10.925/2004. Desta feita, no caso da ECD e ECF, tem-se o lançamento conjunto da multa de ofício com a multa regulamentar, no caso da EFD-Contribuições, persiste tão somente o lançamento da multa regulamentar. Fl. 3928DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 37 Assim, para o primeiro caso (ECD e ECF), não se está diante de infrações formais independentes, tais como atraso autônomo na entrega de escrituração, ausência de manutenção de arquivos, ou descumprimento de dever instrumental desvinculado da infração material. O que se tem é a punição das mesmas omissões e incorreções sob dois ângulos distintos: de um lado, como suporte da exigência dos tributos e da multa de ofício qualificada; de outro, como fundamento das multas regulamentares por escrituração incorreta ou omissa. O próprio Termo de Verificação Fiscal explicita essa sobreposição ao afirmar que as infrações tributárias reduziram a carga de IRPJ e CSLL, e, simultaneamente, acarretaram a entrega de escriturações “eivadas de vícios”, razão pela qual foram aplicadas multas administrativas por omissões e incorreções. Nesse contexto, incide a diretriz firmada pelo Supremo Tribunal Federal no Tema 487, de repercussão geral. No julgamento do RE 640.452/RO, o STF fixou tese segundo a qual, na aplicação da multa por descumprimento de deveres instrumentais, deve ser observado o princípio da consunção, cabendo ainda considerar parâmetros qualitativos como adequação, necessidade, justa medida, insignificância e ne bis in idem. A aplicação dessa orientação não exige, no caso concreto, a redução das multas regulamentares a determinado teto quantitativo. A questão é anterior: saber se elas podem subsistir quando a infração formal constitui mero instrumento, consequência ou exteriorização documental da infração material já sancionada de forma mais gravosa. A resposta, à luz da consunção, é negativa. A consunção impede que a infração instrumental seja sancionada de maneira autônoma quando ela é absorvida por infração mais ampla e grave, especialmente quando ambas decorrem do mesmo conjunto de fatos e tutelam, no caso concreto, o mesmo interesse fiscal. Se a multa de ofício qualificada é mantida justamente porque as omissões e incorreções foram consideradas dolosas e aptas a ocultar fatos geradores, não é proporcional manter, cumulativamente, multas regulamentares que punem as mesmas omissões e incorreções nas escriturações digitais. A conclusão também decorre do ne bis in idem. A recorrente já está sendo sancionada pela infração material, qualificada por dolo, fraude ou sonegação. A manutenção das multas da ECD e ECF faria recair nova punição sobre os mesmos fatos: as omissões de receitas, as glosas de custos e despesas sem comprovação, as vendas canceladas sem lastro e as diferenças de tributos sobre vendas, todos utilizados tanto para a recomposição das bases tributáveis quanto para a imposição das multas instrumentais. Não se nega a relevância das obrigações acessórias nem a possibilidade, em tese, de aplicação de sanções próprias pelo seu descumprimento. O que se reconhece é que, neste processo, as multas regulamentares não têm autonomia fática suficiente para subsistir ao lado da multa de ofício qualificada. A infração formal foi absorvida pela infração material mais grave, já sancionada com penalidade qualificada. Fl. 3929DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 38 Também não se trata de afastar, em abstrato, a validade dos dispositivos que preveem multas por omissões ou incorreções na ECD e ECF. O afastamento decorre da aplicação concreta do Tema 487, em sua dimensão qualitativa, diante da identidade entre os fatos que deram origem às multas instrumentais e os fatos que fundamentaram a multa de ofício qualificada mantida no lançamento. Diante do exposto, há que se dar provimento ao recurso no ponto, para afastar as multas regulamentares aplicadas por omissões ou incorreções na ECD e na ECF, com o cancelamento dos respectivos acréscimos legais, mantendo-se, quanto ao mais, a exigência principal e a multa de ofício qualificada nos termos decididos. No que se refere a EFD-Contribuições não há que se falar em consunção tendo em vista que o lançamento do principal acrescido da multa de ofício não subsiste. O que se tem é a constatação de que as receitas tributáveis constantes da EFD-Contribuições foram informadas com um decréscimo de R$ 7.136.568,82. O fato de tais receitas estarem sujeitas à alíquota zero, conforme art. 1º, XIX, da Lei nº 10.925/2004, não elide a conclusão de que as informações prestadas na EFD-Contribuições continham omissão e/ou imprecisão. A função da obrigação acessória é informar ao Fisco o delineamento do fato gerador tributário, ainda que o quantum debeatur apurado seja igual a zero. Quando a recorrente, dolosamente, omite ou informa imprecisamente parcela significativa da base tributável, está dificultando a apuração fiscal, de forma que aí reside o motivo de existência da multa regulamentar, sujeitando-se, portanto, a sua aplicação. Dessarte, a multa regulamentar por omissão ou imprecisão na EFD-Contribuições deve ser mantida. 3.7 DO GRUPO ECONÔMICO A autoridade fiscal relatou a existência de um grupo econômico de fato, do qual a recorrente é parte integrante, identificado como Grupo Torlim, com atuação coordenada de pessoas jurídicas formalmente distintas, mas economicamente integradas. 3.7.1 INFORMAÇÕES TRAZIDAS NO TERMO DE VERIFICAÇÃO FISCAL O Termo de Verificação Fiscal registra que a análise da autoridade fiscal se baseou em diversos elementos documentais e fiscais, como bases CNPJ, contratos sociais e alterações da Betampex, Agro Trading, Nostro Beef e BMG FOODS, além de NF-e, CT-e, ECD, ECF e EFD- Contribuições do ano-calendário de 2021. A fiscalização apontou a existência de grupo econômico de fato, caracterizado por vínculos societários, interesse integrado, comunhão de interesses e atuação conjunta entre Betampex, Agro Trading, Nostro Beef e BMG FOODS, afirmando que, em 2021, a Betampex esteve sob direção, controle e administração da Agro Trading. Fl. 3930DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 39 Como elemento objetivo, destacou-se que a Agro Trading detinha 98,33% do capital social da Betampex, conforme a Décima Sétima Alteração do Contrato Social, de 11/01/2021, o que, segundo a autoridade fiscal, conferia-lhe controle praticamente absoluto sobre a sociedade. O TVF também mencionou fiscalizações aduaneiras anteriores que já haviam identificado o denominado Grupo Torlim, envolvendo empresas como Frigorífico Concepción S/A, Garantia Total, Torlim Alimentos, Best Boi, Agro Trading e Betampex, bem como a atuação de empresas formalmente distintas sob uma mesma estrutura empresarial. Quanto às relações entre Betampex, Nostro Beef e BMG FOODS, o TVF apontou intensa interdependência comercial e operacional, com vendas recíprocas expressivas e fluxos direcionados de mercadorias, especialmente carne bovina e produtos derivados. Em 2021, a Betampex vendeu à Nostro Beef R$ 233.777.618,98, correspondentes a 45,57% de suas vendas a pessoas jurídicas, ao passo que a Nostro Beef vendeu à Betampex R$ 186.182.318,03, equivalentes a 24,01% de suas vendas a pessoas jurídicas. Também foram registradas operações relevantes entre Betampex e BMG FOODS, com vendas da Betampex à BMG FOODS de R$ 24.316.233,71 e vendas da BMG FOODS à Betampex de R$ 62.443.384,81. A autoridade fiscal interpretou essas operações como indicativas de comunhão de interesses, benefício recíproco e atuação coordenada, acrescentando que lançamentos na ECD da Betampex sugeriam controle centralizado de estoque da própria Betampex e da Nostro Beef, bem como tratamento não apartado das mercadorias, o que foi considerado indício de confusão patrimonial. Em relação à BMG FOODS, o TVF afirmou que determinadas mercadorias eram formalmente registradas como vendas, mas representariam, na realidade, simples repasses, sem ônus, de mercadorias importadas pela Betampex. O TVF também apontou elementos adicionais de integração entre as empresas, como o uso do mesmo representante legal nos despachos aduaneiros da Betampex, Nostro Beef e BMG FOODS, a origem predominante das mercadorias importadas do Frigorífico Concepción S/A e do Frigorífico BFC S/A, no Paraguai, e o vínculo societário entre Nostro Beef e BMG FOODS, já que a Nostro Beef detinha 40% do capital social da BMG FOODS, enquanto Marçal Bissoli possuía 60% e exercia sua administração. A fiscalização ainda resgatou conclusões de procedimentos aduaneiros anteriores, nos quais a Nostro Beef teria sido considerada mera intermediária nas vendas do Frigorífico Concepción para empresas nacionais, com forte vínculo com Jair Antônio de Lima, controlador do Grupo Torlim. Foram apontados, ainda, produtos e exportadores comuns, compradores coincidentes, representantes comerciais comuns, vínculos empregatícios anteriores de sócios com empresas de Jair Antônio de Lima, vendas recíprocas e aquisição de mercadorias da Nostro Beef pela BMG FOODS. Com base nesses elementos, a autoridade fiscal concluiu que Betampex, Nostro Beef, BMG FOODS e Agro Trading integravam o Grupo Torlim, comandado por Jair Antônio de Lima, atuando de forma sincronizada, com confusão patrimonial e operacional, abuso da Fl. 3931DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 40 personalidade jurídica, comunhão de interesses e dificuldade de separação patrimonial, circunstâncias que fundamentariam a responsabilidade solidária prevista no art. 124, I, do CTN. Para as pessoas físicas foi atribuída responsabilidade com base no art. 135, III do CTN. 3.7.2 ELEMENTOS ADICIONAIS ORIUNDOS DE OUTROS PROCEDIMENTOS/PROCESSOS ADMINISTRATIVOS A autoridade fiscal também juntou elementos e constatações de outros procedimentos/processos administrativos (fl. 1.548 a 2.316), os quais acrescentam elementos para a comprovação da existência do grupo econômico de fato. Os procedimentos anteriores relacionados à Betampex e à Agro Trading apontaram a ausência de comprovação da origem dos recursos aplicados pela Betampex em operações de comércio exterior, bem como a falta de comprovação do efetivo aporte de recursos por Carlos Magno Frederico na Agro Trading e da posterior transferência desses recursos para o capital da Betampex. Também foi indicado que a Betampex teria cedido seu nome para importações de terceiros, inclusive da própria Agro Trading, declarando importações como destinadas a “consumo” e revendendo-as de forma pontual, unívoca e integral ao sócio majoritário. Esses procedimentos registraram que a Agro Trading era destinatária de aproximadamente 54% das importações da Betampex entre janeiro de 2016 e dezembro de 2018, todas com origem no Frigorífico Concepción, além de deter cerca de 98% do QSA da Betampex desde 2015. A fiscalização anterior também apontou que as operações entre Betampex e Agro Trading não aparentavam livre mercado, mas operações preordenadas, com compras e vendas recíprocas de mercadorias dos mesmos NCM´s, ausência de agregação de valor, operações com prejuízo, empréstimos sem documentação formal, registros de saídas na Betampex sem entradas correspondentes na Agro Trading e circulação financeira rotineira entre as empresas sob rubricas de empréstimos concedidos e retribuídos, o que levou à conclusão de que a Agro Trading atuava não apenas como sócia e cliente, mas também como espécie de “instituição financeira” da Betampex. A autoridade fiscal também agregou elementos do procedimento contra a Nostro Beef, no qual foi apontado que 99,1% das exportações ao Brasil de carne, sebo e farinha de osso do Frigorífico Concepción foram direcionadas ao Grupo Torlim, sendo a quase totalidade das DI registradas por empresas do grupo importada pela Nostro Beef e pela Betampex. Nesse relatório, foi constatada íntima correlação operacional entre Nostro Beef, Betampex e BMG FOODS, com importações realizadas por uma empresa e imediatamente vendidas à outra, que revendia rapidamente a integralidade das mercadorias, tendo sido identificadas 126 DI nessa situação. Além disso, a Nostro Beef vendeu diretamente à Betampex 154 DI de carnes, correspondentes a mais de 3,7 milhões de quilos, enquanto a BMG FOODS apareceu como destinatária integral de 141 DI de carne, equivalentes a 3,5 milhões de quilos. Outro processo administrativo apontou a Betampex como interposta da Nostro Beef, ao registrar que, em 239 DI da Betampex, as mercadorias foram repassadas integralmente e, Fl. 3932DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 41 em regra, imediatamente à Nostro Beef, com margens que tornariam inviável a atuação autônoma da Betampex como importadora por conta própria. Também foi destacado o vínculo pessoal e operacional de Andressa Aparecida Pavani, indicada como pessoa de contato da Betampex, cônjuge de Marçal Bissoli, sócio da Nostro Beef, e ex-proprietária da BMG FOODS juntamente com ele. Por fim, foram incorporados elementos do procedimento contra a Corex, no qual o Frigorífico Concepción foi identificada como principal fornecedora da Corex e das demais empresas ligadas ao Grupo Torlim, com referência a Jair Antônio de Lima como presidente do Frigorífico Concepción e da Torlim Alimentos. Nesse processo, a fiscalização apontou que a Corex não possuía estrutura compatível com as operações realizadas e que as mercadorias eram remetidas diretamente do recinto alfandegado aos reais adquirentes, integrantes do Grupo Torlim, sem trânsito físico pelos estoques da importadora ostensiva. Também foram registrados suporte logístico do Grupo Torlim, utilização de veículos e transportadoras ligados ao grupo, inclusive empresa de logística relacionada a Jair Antônio de Lima, e documentos fiscais com indicação de transportadoras diferentes apesar do uso dos mesmos veículos, circunstância interpretada como possível artifício para ocultar vínculo mais intenso entre Corex e o Grupo Torlim. O procedimento concluiu, ainda, que a Corex ocultou os reais adquirentes e omitiu, nas DI cujo exportador era o Frigorífico Concepción, a vinculação entre importador ostensivo, importadores ocultos pertencentes ao Grupo Torlim e exportador estrangeiro, informação considerada indispensável ao controle aduaneiro. 3.7.3 SÍNTESE CONCLUSIVA O conjunto documental caracteriza o grupo econômico pela convergência de vários fatores: controle societário da Betampex pela Agro Trading; atuação conjunta de Betampex, Nostro Beef, BMG FOODS e Agro Trading; origem comum das mercadorias no Frigorífico Concepción e na BFC; vendas recíprocas e direcionadas; uso comum de representante legal em despachos aduaneiros; controle contábil e de estoque não apartado; circulação financeira sem lastro formal claro; vínculos pessoais, societários e profissionais entre os envolvidos; e repetição do mesmo padrão operacional em procedimentos anteriores envolvendo Corex, Garantia Total, Best Boi, Agro Trading, Nostro Beef, BMG FOODS e Betampex. Assim, a caracterização feita pela autoridade fiscal não se apoia apenas na existência de sócios ou clientes comuns, mas em um quadro de interdependência econômica, operacional, contábil, financeira e logística, no qual a Betampex aparece como parte integrante do Grupo Torlim, atuando de forma coordenada com as demais empresas para viabilizar importações, repasses, revendas e circulação de recursos dentro da mesma estrutura empresarial. Fl. 3933DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 42 3.8 DA RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA Foram atribuídas responsabilidades solidárias às seguintes pessoas jurídicas e pessoas físicas: Responsável indicado Qualificação no TVF Enquadramento legal indicado Agro Trading Serviços de Apoio Administrativo Ltda. Sócia majoritária da recorrente e apontada como integrante do Grupo Torlim, com direção, controle e administração sobre a recorrente em 2021; embora inapta, a fiscalização afirmou que a pessoa jurídica continuava existente e deveria responder pelos créditos. Art. 124, I, do CTN, por interesse comum na situação que constituiu o fato gerador, em contexto de grupo econômico de fato, evasão fiscal, abuso da personalidade jurídica e confusão patrimonial/operacional. Nostro Beef Alimentos Importação e Exportação Ltda. Apontada como integrante do mesmo grupo econômico de fato, com relações de interdependência e operações recíprocas com a recorrente. Art. 124, I, do CTN, por interesse comum na situação que constituiu o fato gerador, em razão da atuação conjunta, comunhão de interesses e confusão patrimonial/operacional. BMG Foods Importação e Exportação Ltda. Apontada como integrante do Grupo Torlim e relacionada à Nostro Beef e à recorrente por vínculos societários, operações recíprocas e atuação integrada. Art. 124, I, do CTN, por interesse comum na situação que constituiu o fato gerador, no contexto de grupo econômico de fato. Evandro Santos Sócio-administrador da recorrente. Art. 135, III, do CTN, por infração à lei atribuída a administrador de pessoa jurídica, em razão da condução das empresas em desconformidade com os parâmetros legais e em contexto de evasão fiscal. Carlos Magno Frederico Sócio-administrador da Agro Trading. Art. 135, III, do CTN, por infração à lei atribuída a administrador de pessoa jurídica, no contexto das irregularidades apuradas e da evasão fiscal identificada. Marçal Bissoli Sócio-administrador da Nostro Beef e da BMG Foods; apontado como proprietário de direito dessas empresas. Art. 135, III, do CTN, por infração à lei atribuída a administrador de pessoa jurídica. Jair Antônio de Lima Apontado como presidente da Torlim Alimentos S.A. e comandante/controlador do Grupo Torlim. Art. 135, III, do CTN, conforme listagem da fiscalização entre as pessoas naturais responsabilizadas; a motivação relaciona sua atuação à direção do grupo econômico de fato e à obtenção de resultados econômico-financeiros em prejuízo do erário. Passemos a análise individualizada de cada uma delas. 3.8.1 RESPONSABILIDADES COM BASE NO ART. 124, I DO CTN Inicialmente, analisemos a caracterização do interesse comum previsto no artigo 124, inciso I, do Código Tributário Nacional, para fins de responsabilização solidária em obrigações tributárias. Nos alinhamos ao entendimento exarado no Parecer COSIT nº 4, de 12 de dezembro de 2018, segundo o qual o interesse comum deve ser compreendido como a existência de vínculo da pessoa responsabilizada com a situação que constitui o fato jurídico tributário, vínculo este que pode decorrer tanto de ato lícito, do qual emerge a obrigação tributária, quanto de ato ilícito, que venha a desfigurá-la. O dispositivo do CTN não restringe o interesse comum ao mero proveito econômico, que, embora possa constituir indício, não é suficiente para caracterizar a solidariedade. Exige-se, ao contrário, a demonstração de uma conexão material e direta com o fato gerador ou com o sujeito passivo da obrigação tributária. Afasta-se, portanto, a interpretação restritiva que limita o interesse comum a relações jurídicas formais e lícitas. Nos casos em que se verifiquem ilícitos, o vínculo jurídico surge no âmbito tributário com a imputação da responsabilidade, pois os partícipes atuam de maneira consciente e cooperativa para lesar o Fisco. Fl. 3934DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 43 Para a configuração da solidariedade, é necessário comprovar que o responsabilizado manteve vínculo direto ou indireto com o fato gerador ou com o sujeito passivo, participando ativamente da prática de atos que culminaram na omissão ou redução indevida do tributo. Nessas hipóteses, é imprescindível a comprovação de elemento subjetivo doloso, entendido em sentido amplo como fraude, e que se revele a existência de nexo causal entre a conduta do partícipe e o resultado lesivo ao Erário. A interpretação do interesse comum pode ser estendida a situações em que haja realização conjunta do fato jurídico tributário ou comprovação de fraude e conluio, alcançando ainda hipóteses de abuso da personalidade jurídica, especialmente quando se verificar confusão patrimonial ou direção única, configurando grupo econômico irregular, bem como em casos de planejamento tributário abusivo. Este último se caracteriza pela adoção de estruturas artificiais e pela utilização indevida da personalidade jurídica com o propósito exclusivo de obter economia fiscal ilegítima, em desconformidade com a função social da pessoa jurídica. Entre os atos ilícitos que ensejam a responsabilização solidária, destacam-se a evasão e simulação fiscal, em especial a sonegação, a fraude e o conluio; os crimes contra a ordem tributária e correlatos, inclusive previdenciários e contra a Administração Pública com repercussão tributária; e a utilização abusiva da personalidade jurídica, mediante supressão de sua autonomia patrimonial ou operacional. A imputação da responsabilidade solidária exige, por fim, a construção de um conjunto probatório consistente, ainda que formado por provas indiciárias, capaz de comprovar a atuação consciente e coordenada dos envolvidos, o nexo causal de sua conduta e a prática de atos ilícitos em detrimento da Fazenda Pública. À luz do artigo 124, I, do CTN e, conclui-se que o interesse comum não se restringe ao proveito econômico, mas deve ser reconhecido sempre que houver cooperação material e consciente entre duas ou mais pessoas na constituição ou na desfiguração do fato gerador tributário, resultando em prejuízo à arrecadação tributária. A jurisprudência da Câmara Superior de Recursos Fiscais segue essa orientação. A 1ª Turma da CSRF, no Acórdão nº 9101-006.631, julgado na sessão de 11 de julho de 2023, de relatoria da Conselheira Livia De Carli Germano, assentou que o interesse comum previsto no art. 124, inciso I, do CTN é de natureza jurídica, e não meramente econômica, devendo ser direto e imediato em relação à realização do fato gerador que deu origem ao lançamento. Segundo o precedente, a solidariedade exige a participação conjunta das pessoas na prática dos atos descritos na hipótese de incidência, seja de forma direta, seja de forma indireta, nesta última situação quando efetivamente demonstrada a confusão patrimonial. Naquele julgamento, a responsabilidade foi mantida porque a fiscalização comprovou circunstâncias concretas de confusão patrimonial, tais como o recebimento habitual de benefícios financeiros injustificados e a utilização de pessoa jurídica meramente formal para titularizar bens essenciais à atividade da contribuinte, anteriormente pertencentes a ela. O Fl. 3935DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 44 precedente evidencia, portanto, que a existência de vínculo societário, econômico ou operacional não é suficiente por si só, sendo indispensável a demonstração, por meio de elementos individualizados, da participação do terceiro no fato gerador ou da confusão patrimonial relacionada às obrigações tributárias lançadas. No Acórdão nº 9303-013.315, de 18 de agosto de 2022, sendo a relatora a Conselheira Vanessa Marini Cecconello, igualmente se consignou que, para caracterizar a responsabilidade prevista no art. 124, inciso I, do CTN, deve ser demonstrado de forma inequívoca o interesse comum na situação que caracteriza o fato gerador. Por sua vez, no Acórdão nº 9202-011.166, de 29 de fevereiro de 2024, tendo como relatora a Conselheira Ludmila Mara Monteiro de Oliveira, a Câmara Superior reconheceu que a confusão patrimonial efetivamente comprovada pode atrair a responsabilidade solidária. O mesmo precedente, contudo, ressaltou que compete à fiscalização comprovar inequivocamente os motivos que justificam a imputação e que a responsabilidade deve ser examinada em relação aos fatos geradores dos quais teria participado o responsável solidário. Vê-se que esta é a jurisprudência dominante nas três Turmas da CSRF. Portanto, a análise não se encerra na constatação de vínculos econômicos, societários ou profissionais entre as recorrentes e outras pessoas jurídicas apontadas como integrantes do denominado Grupo Torlim. É necessário verificar se cada uma delas participou, direta ou indiretamente, das situações que deram origem às obrigações tributárias constituídas neste processo ou dos atos ilícitos empregados para ocultá-las ou desfigurá-las. O lançamento contra a BETAMPEX decorre de fatos relacionados à omissão de receitas, à falta de comprovação de custos e despesas, a estornos de tributos, a custos de energia elétrica, a serviços de armazenagem, a fretes sobre vendas, a devoluções de mercadorias e a inexatidões em escriturações contábeis e fiscais relativas ao ano-calendário de 2021. A existência de responsabilidade solidária exige que a fiscalização demonstre que havia confusão patrimonial entre a recorrente e as recorrentes solidárias e de que forma as solidárias participaram das infrações tributárias que originaram o lançamento ou dos atos ilícitos empregados para ocultar os correspondentes fatos geradores. Com base nessas premissas, passemos a análise individualizada. 3.8.1.1 AGRO TRADING SERVIÇOS DE APOIO ADMINISTRATIVO LTDA. Conforme Termo de Perempção juntado às folhas 3.880, transcorrido o prazo legal a empresa Agro Trading Serviços de Apoio Administrativo Ltda. não apresentou Recurso Voluntário, motivo pelo qual ocorreu o trânsito em julgado administrativo no que se refere a atribuição de responsabilidade solidária em seu desfavor. Fl. 3936DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 45 3.8.1.2 NOSTRO BEEF ALIMENTOS IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO LTDA. A fiscalização reuniu diversos elementos que revelam relacionamento comercial relevante entre a NOSTRO BEEF e a contribuinte principal. Foram mencionadas fiscalizações aduaneiras anteriores nas quais se teria concluído, em momentos distintos, que a NOSTRO BEEF funcionara como intermediária em importações de mercadorias provenientes do Frigorífico Concepción S/A e que, em outras operações, a BETAMPEX teria figurado como importadora interposta, sendo a NOSTRO BEEF a real adquirente e beneficiária das mercadorias. Também foram apontadas 126 operações nas quais uma das empresas teria realizado a importação, vendido imediatamente as mercadorias à outra e esta, em seguida, revendido integralmente os produtos ao adquirente final. Além disso, registrou-se que a NOSTRO BEEF teria vendido diretamente à BETAMPEX mercadorias relacionadas a 154 declarações de importação, correspondentes a mais de 3,7 milhões de quilogramas de carnes. A fiscalização destacou, ainda, o volume das operações recíprocas realizadas durante o ano-calendário de 2021. Segundo o Termo de Verificação Fiscal, as vendas da BETAMPEX à NOSTRO BEEF alcançaram aproximadamente R$ 233,8 milhões, enquanto as vendas da NOSTRO BEEF à BETAMPEX corresponderam a aproximadamente R$ 186,2 milhões. Foram igualmente mencionados a utilização de representantes aduaneiros comuns, a coincidência de fornecedores estrangeiros e compradores finais, os vínculos profissionais de sócios e administradores com outras empresas relacionadas ao Grupo Torlim, bem como diligência realizada no endereço cadastral da recorrente, ocasião em que não foram encontrados funcionários ou estrutura operacional em funcionamento. Tais elementos são relevantes. Em seu conjunto, revelam estreita relação comercial e operacional entre a recorrente e a contribuinte principal e justificam o aprofundamento da investigação fiscal. Não são, contudo, suficientes para demonstrar a responsabilidade solidária em relação à integralidade do crédito tributário constituído neste processo. Isso porque, o Termo de Verificação Fiscal não individualiza a participação da NOSTRO BEEF nas infrações que deram origem ao presente lançamento. Não foram identificadas as notas fiscais omitidas pela BETAMPEX que decorreriam de operações realizadas em benefício da recorrente. Também não foi demonstrado que receitas pertencentes à contribuinte principal tenham sido recebidas, apropriadas ou desviadas pela NOSTRO BEEF. Da mesma forma, não foram apontados custos ou despesas glosados que correspondessem a documentos simulados, emitidos ou utilizados pela recorrente. Não se identificaram pagamentos de obrigações da BETAMPEX realizados com recursos da NOSTRO BEEF, contas bancárias movimentadas conjuntamente, transferências financeiras sem causa, centralização de caixa ou apropriação comum dos resultados das operações que originaram o crédito tributário. Fl. 3937DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 46 As conclusões produzidas nas fiscalizações aduaneiras anteriores podem constituir prova da existência de interposição em determinadas operações de comércio exterior. Entretanto, a prática de eventual infração aduaneira não implica automaticamente a participação da recorrente nas omissões de receitas e nas inexatidões contábeis e fiscais que deram origem ao presente lançamento. Para que esses elementos pudessem fundamentar a solidariedade seria necessário demonstrar que as importações examinadas nos procedimentos anteriores correspondem às mercadorias, receitas, custos ou despesas objeto deste processo e que a NOSTRO BEEF participou conscientemente do ilícito tributário que produziu a falta de recolhimento dos tributos exigidos da BETAMPEX. Essa vinculação não foi realizada. A referência às 126 operações de importação seguidas de revenda e às 154 declarações de importação também não veio acompanhada de demonstrativo que relacionasse essas operações com as infrações que compõem o crédito tributário. Não foram identificados os valores do lançamento decorrentes de tais operações, os pagamentos realizados, o destinatário dos resultados financeiros ou a forma pela qual a recorrente teria concorrido para a não escrituração de receitas ou para o registro de custos sem documentação. O volume das operações recíprocas igualmente não basta para caracterizar confusão patrimonial. A existência de compras e vendas entre pessoas jurídicas, ainda que em valores elevados, não elimina, por si só, a autonomia patrimonial das empresas. Para tanto, seria necessária a demonstração de pagamentos cruzados, utilização indistinta de recursos, transferência de ativos sem contraprestação, assunção de obrigações de uma empresa pela outra, ausência de margens comerciais ou destinação comum dos resultados. O Termo de Verificação Fiscal menciona, ainda, registros na conta contábil 3157, denominada “Nostro Beef”, em contrapartida à conta 401, “Estoque de Mercadorias”, e deles extrai a conclusão de que existiriam estoques centralizados e repasses de mercadorias sem ônus. Essa conclusão não decorre necessariamente dos registros descritos. O débito em conta de duplicatas a receber, acompanhado de crédito em conta de estoque, pode representar contabilização relacionada a uma operação com mercadorias, mas não demonstra necessariamente transferência gratuita, pagamento realizado por terceiro ou confusão de patrimônios. A própria contabilização de valor a receber da NOSTRO BEEF revela, em princípio, o reconhecimento de um crédito da BETAMPEX contra a recorrente, circunstância que não se confunde com a utilização indistinta de patrimônios. Para confirmar a conclusão fiscal seriam necessários o exame do Razão analítico completo, dos históricos dos lançamentos, das respectivas contrapartidas, das notas fiscais, dos comprovantes de transporte, dos recebimentos bancários e da posterior destinação das mercadorias. Admite-se que a diligência realizada no endereço cadastral da NOSTRO BEEF também constitui forte elemento indiciário. A ausência de funcionários ou de estrutura Fl. 3938DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 47 operacional pode indicar irregularidade cadastral ou reduzida substância empresarial, mas não comprova, sem outros elementos, que seu patrimônio se confundisse com o da BETAMPEX. Da mesma maneira, a habilitação da NOSTRO BEEF no Siscomex, sua constituição formal, seu capital social e a existência de escrituração própria tampouco comprovam sua autonomia material, entretanto, esses elementos, como visto, faltou que a fiscalização apresentasse prova suficiente do fato constitutivo da responsabilidade tributária. Os elementos reunidos demonstram relacionamento econômico intenso e permitem suspeitar da existência de atuação coordenada entre as empresas. Não demonstram, porém, que a NOSTRO BEEF participou das situações que constituíram os fatos geradores das obrigações tributárias lançadas contra a BETAMPEX ou dos atos ilícitos empregados para ocultar tais fatos. A fiscalização partiu da existência de operações recíprocas, vínculos societários, fornecedores comuns e conclusões produzidas em procedimentos aduaneiros para afirmar a existência de grupo econômico irregular. Em seguida, extraiu da existência desse grupo a responsabilidade solidária das recorrentes solidárias pela totalidade das infrações apuradas contra a BETAMPEX. Como já visto, esse raciocínio não atende aos requisitos para atribuição de responsabilidade solidária calcada no art. 124, inciso I, do CTN, conforme orientação do Parecer COSIT nº 4/2018 e da jurisprudência da CSRF. A existência de grupo econômico, ainda que irregular, não constitui hipótese autônoma de responsabilidade tributária. O grupo pode representar o contexto no qual se desenvolveu o ilícito, mas permanece indispensável demonstrar a relação entre cada pessoa responsabilizada e os fatos geradores ou atos ilícitos que originaram o crédito exigido. A responsabilidade solidária também não pode decorrer da simples soma de circunstâncias que demonstram proximidade econômica. Os indícios devem convergir para a participação da pessoa responsabilizada no fato gerador ou no ilícito que o ocultou. No presente caso, a fiscalização não demonstrou que a NOSTRO BEEF participou da decisão de omitir receitas, da elaboração das escriturações inexatas, da criação de custos sem documentação, da realização de estornos indevidos ou da falta de comprovação das despesas contabilizadas pela BETAMPEX. Também não demonstrou que a recorrente tenha recebido valores decorrentes das receitas omitidas, financiado os ilícitos, fornecido documentos inidôneos, movimentado recursos da contribuinte principal ou se apropriado do resultado econômico da redução indevida dos tributos. A responsabilidade solidária não pode decorrer da inversão do ônus da prova. Compete à autoridade fiscal demonstrar os fatos que autorizam a inclusão de terceiro no polo passivo. Somente depois de apresentada prova individualizada do interesse comum, da confusão patrimonial ou da participação consciente no ilícito é que se pode exigir do responsável indicado a produção de prova em sentido contrário. Fl. 3939DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 48 Conclui-se, portanto, que os elementos constantes dos autos são insuficientes para caracterizar o interesse comum da NOSTRO BEEF nas situações que constituíram os fatos geradores das obrigações tributárias exigidas da BETAMPEX. Essa conclusão não significa que sejam irrelevantes os vínculos comerciais, societários e profissionais identificados pela fiscalização, nem implica reconhecer a regularidade das operações aduaneiras mencionadas no Termo de Verificação Fiscal. Significa apenas que esses vínculos e operações não foram relacionados, de maneira individualizada e causal, às infrações tributárias objeto deste processo. Destarte, deve ser afastada a responsabilidade solidária atribuída à Nostro Beef Alimentos Importação e Exportação Ltda. 3.8.1.3 BMG FOODS IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO LTDA. A fiscalização também reuniu elementos que revelam relacionamento comercial entre a BMG FOODS e a contribuinte principal. Segundo o Termo de Verificação Fiscal, no ano- calendário de 2021 a BMG FOODS vendeu mercadorias à BETAMPEX no valor de R$ 62.443.384,81, correspondente a 23,02% das vendas da recorrente para pessoas jurídicas. A BETAMPEX, por sua vez, vendeu mercadorias à BMG FOODS no valor de R$ 24.316.233,71, equivalente a 4,37% de suas vendas para pessoas jurídicas. A fiscalização também apontou que mercadorias importadas pela NOSTRO BEEF foram posteriormente adquiridas pela BMG FOODS, que a NOSTRO BEEF possuía participação societária na BMG FOODS e que Marçal Bissoli exercia a administração da BMG FOODS, além de possuir vínculos profissionais anteriores com empresas relacionadas ao Grupo Torlim. Foram igualmente mencionados a utilização de representante aduaneiro comum e o fato de as mercadorias importadas por BETAMPEX, NOSTRO BEEF e BMG FOODS possuírem, em sua maioria, os mesmos fornecedores paraguaios, especialmente o Frigorífico Concepción S/A e o Frigorífico BFC S/A. Esses elementos demonstram que a BMG FOODS mantinha relações comerciais e societárias com pessoas vinculadas ao denominado Grupo Torlim. Não comprovam, contudo, sua responsabilidade solidária pela integralidade do crédito tributário constituído contra a BETAMPEX. Isso porque, como no caso analisado anteriormente, o Termo de Verificação Fiscal não individualiza a participação da BMG FOODS nas infrações que deram origem ao lançamento. Não foram identificadas as notas fiscais omitidas pela BETAMPEX que corresponderiam a operações realizadas em benefício da recorrente. Também não foi demonstrado que receitas pertencentes à contribuinte principal tenham sido recebidas, apropriadas ou desviadas pela BMG FOODS. Da mesma forma, não foram apontados custos ou despesas glosados que correspondessem a documentos simulados, emitidos ou utilizados pela recorrente. Não se identificaram pagamentos de obrigações da BETAMPEX realizados com recursos da BMG FOODS, contas bancárias movimentadas conjuntamente, transferências financeiras sem causa, Fl. 3940DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 49 centralização de caixa, assunção recíproca de obrigações ou apropriação comum dos resultados das operações que originaram o crédito tributário. A decisão recorrida, ao examinar especificamente a situação da BMG FOODS, reconheceu que a fiscalização não afirmou que a recorrente tivesse concorrido para a prática das irregularidades atribuídas à BETAMPEX. Consignou-se que a responsabilidade decorreria do interesse da recorrente nos benefícios ilícitos supostamente obtidos pelo grupo econômico. Como já repetidamente visto, essa fundamentação não satisfaz o requisito estabelecido pelo art. 124, inciso I, do CTN. O interesse nos resultados ou benefícios econômicos obtidos por outra pessoa jurídica não se confunde com o interesse comum na situação que constitui o fato gerador da obrigação tributária. Também não substitui a demonstração da participação consciente no ilícito que desfigurou ou ocultou esse fato gerador. A afirmação de que a BMG FOODS poderia ter se beneficiado das irregularidades praticadas pela BETAMPEX permanece no campo do interesse econômico. Para que pudesse fundamentar a solidariedade, seria necessário demonstrar qual benefício foi recebido, de que operação decorreu, como ingressou no patrimônio da recorrente e qual sua relação com os tributos exigidos neste processo. Tal demonstração não foi realizada. As constatações produzidas nas fiscalizações aduaneiras anteriores também não conduzem à responsabilidade da recorrente pelo presente crédito tributário. O fato de mercadorias importadas pela NOSTRO BEEF terem sido posteriormente adquiridas pela BMG FOODS pode demonstrar a existência de operações comerciais entre essas empresas. Ainda que se admitisse a existência de interposição em determinadas importações, seria necessário demonstrar que a BMG FOODS participou da interposição e que esse ilícito possui relação causal com as omissões de receitas, custos não comprovados ou inexatidões contábeis que originaram o lançamento contra a BETAMPEX. A mera aquisição de mercadorias importadas por outra empresa não comprova que a adquirente tenha participado do planejamento da importação, financiado a operação, ocultado o real beneficiário ou concorrido para a prática das infrações tributárias posteriormente atribuídas à contribuinte principal. A participação societária da NOSTRO BEEF na BMG FOODS e a atuação de Marçal Bissoli na administração da recorrente igualmente não autorizam, por si sós, a imputação. A identidade ou proximidade do quadro societário constitui indício de vinculação empresarial, mas não elimina a autonomia patrimonial das pessoas jurídicas. O art. 124, inciso I, do CTN não estabelece responsabilidade automática entre controladora, controlada, coligada, sócios ou empresas submetidas a administração comum. Fl. 3941DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 50 Mesmo que se considere comprovada a inserção da BMG FOODS no denominado Grupo Torlim, permanece necessária a demonstração de que a recorrente participou dos fatos geradores ou dos atos ilícitos que originaram o crédito tributário. O principal elemento utilizado para sustentar a alegada confusão patrimonial consiste nos lançamentos existentes na conta contábil nº 9635, denominada “BMG Importação e Exportação Ltda.”, vinculada à conta “Duplicatas a Receber” no ativo circulante da BETAMPEX. A fiscalização tomou como exemplo a Nota Fiscal nº 100, emitida em 30 de abril de 2021, no valor de R$ 836.089,20, correspondente à venda de mercadorias da BETAMPEX à BMG FOODS, com pagamento previsto em oito parcelas. Segundo o Termo de Verificação Fiscal, foram realizados lançamentos a crédito na conta 401, “Estoque de Mercadorias”, e a débito na conta 9635, “BMG Importação e Exportação Ltda.”. A partir desses registros, a autoridade fiscal concluiu que a BETAMPEX realizava o controle do estoque da BMG FOODS e que as operações formalmente apresentadas como vendas constituíam repasses de mercadorias sem ônus. Essa conclusão não decorre necessariamente dos registros descritos. O débito em uma conta de duplicatas a receber representa, em princípio, o reconhecimento ou aumento de um crédito da BETAMPEX contra a BMG FOODS. Não representa pagamento efetuado pela recorrente. O pagamento de uma duplicata, ordinariamente, acarretaria a baixa da conta a receber mediante lançamento a crédito, e não seu débito. Da mesma maneira, o crédito em conta de estoque pode representar a saída contábil de mercadorias da BETAMPEX. Isoladamente, o registro não demonstra que a contribuinte principal controlasse o estoque pertencente à BMG FOODS, nem que as mercadorias tivessem sido transferidas sem contraprestação. A existência de nota fiscal, de conta a receber e de parcelamento é, em princípio, compatível com uma operação de venda a prazo. Para afastar essa aparência e comprovar a existência de repasse sem ônus, seria necessário examinar a integralidade dos lançamentos contábeis, suas contrapartidas, os documentos fiscais, os comprovantes de transporte, os recebimentos bancários e a posterior destinação das mercadorias. O Termo de Verificação Fiscal não demonstra que a Nota Fiscal nº 100 ou as demais notas mencionadas fossem inidôneas, que as mercadorias não tivessem sido entregues, que os valores não tivessem sido pagos ou que os pagamentos tivessem retornado à BMG FOODS. Também não se identificou que a recorrente tivesse acesso à escrituração da BETAMPEX ou participasse de sua elaboração. A existência, na contabilidade da contribuinte principal, de conta analítica destinada ao registro das operações com a BMG FOODS é procedimento ordinário de controle de clientes e não caracteriza, por si só, utilização comum da escrituração. Assim, a conclusão de que existia estoque centralizado e de que as vendas constituíam repasses sem ônus não se encontra acompanhada dos elementos contábeis e financeiros necessários à sua comprovação. Fl. 3942DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 51 O volume das operações recíprocas igualmente não basta para caracterizar confusão patrimonial. As vendas da BMG FOODS à BETAMPEX representaram 23,02% de suas vendas para pessoas jurídicas. Trata-se de percentual relevante, mas o próprio Termo de Verificação Fiscal registra que a recorrente possuía cerca de 3.320 clientes no período. Não havia exclusividade comercial. Por outro lado, as vendas da BETAMPEX à BMG FOODS corresponderam a apenas 4,37% das vendas da contribuinte principal para pessoas jurídicas, percentual que não revela dependência econômica ou identidade operacional entre as empresas. A concentração comercial pode constituir indício de proximidade entre as partes. Para convertê-la em prova de confusão patrimonial seria necessário demonstrar ausência de margens, pagamentos circulares, transferência de recursos sem causa, assunção de despesas por empresa diversa, compartilhamento de contas bancárias ou destinação conjunta dos resultados. Esses elementos não foram individualizados no lançamento. A utilização do mesmo representante aduaneiro e a aquisição de produtos provenientes dos mesmos fornecedores estrangeiros também não demonstram, isoladamente, atuação ilícita conjunta. Empresas que operam no mesmo segmento econômico podem contratar o mesmo profissional especializado e adquirir mercadorias dos mesmos produtores sem que disso resulte confusão patrimonial. Assenta-se, portanto, da mesma forma que no caso analisado anteriormente, que a fiscalização inferiu a existência de grupo econômico irregular a partir de operações recíprocas, vínculos societários, fornecedores comuns e conclusões de procedimentos aduaneiros, atribuindo, com base nisso, responsabilidade solidária à BMG FOODS pela totalidade das infrações apuradas contra a BETAMPEX. Esse raciocínio, contudo, não atende ao art. 124, inciso I, do CTN, pois a existência de grupo econômico, ainda que irregular, não constitui hipótese autônoma de responsabilidade tributária. Conforme o Parecer COSIT nº 4/2018 e a jurisprudência da CSRF, é indispensável demonstrar, de forma individualizada, a relação da pessoa responsabilizada com os fatos geradores ou com os atos ilícitos que originaram o crédito tributário. No caso, não foi comprovado que a BMG FOODS tenha participado da omissão de receitas, das inexatidões contábeis, da criação de custos sem documentação, dos estornos indevidos ou da falta de comprovação das despesas da BETAMPEX, nem que tenha recebido receitas omitidas, financiado os ilícitos, fornecido documentos inidôneos, movimentado recursos da contribuinte ou se beneficiado da redução tributária. Como o ônus dessa demonstração incumbia à autoridade fiscal, os vínculos econômicos, societários e profissionais identificados, embora relevantes como elementos indiciários, não bastam para caracterizar interesse comum, confusão patrimonial ou participação consciente nos ilícitos. Deve, portanto, ser afastada a responsabilidade solidária atribuída à BMG Foods Importação e Exportação Ltda. Fl. 3943DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 52 3.8.2 A RESPONSABILIDADE PREVISTA NO ART. 135, III DO CTN Inicialmente, cuida-se de examinar os requisitos necessários à imputação de responsabilidade tributária pessoal aos administradores de pessoas jurídicas, nos termos do art. 135, inciso III, do Código Tributário Nacional. O referido dispositivo estabelece hipótese excepcional de responsabilização, ao dispor que diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado somente respondem pessoalmente pelos créditos tributários quando estes resultarem de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos. A correta exegese do dispositivo revela que não se está diante de hipótese de responsabilidade objetiva, mas, ao contrário, de responsabilidade subjetiva, cuja caracterização exige a presença concomitante de requisitos específicos, os quais a doutrina e a jurisprudência consolidaram em dois elementos essenciais: o elemento pessoal e o elemento fático. O elemento pessoal refere-se à qualidade do sujeito a quem se pretende imputar a responsabilidade. Não basta a mera condição de sócio da pessoa jurídica. Exige-se que o indivíduo detenha efetivos poderes de gestão, isto é, que atue como diretor, gerente ou representante com capacidade decisória no âmbito da empresa. Assim, apenas aquele que exerce funções de administração, seja de direito ou de fato, pode ser responsabilizado, desde que comprovado que detinha poderes de direção no período de ocorrência dos fatos geradores. Nesse sentido, é pacífico que o sócio sem poderes de gerência não responde pelas obrigações tributárias da sociedade, tampouco aquele que não exercia administração à época dos fatos. O elemento fático, por sua vez, consiste na prática de conduta qualificada, consistente em excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatuto. Trata-se do núcleo da responsabilização prevista no art. 135 do CTN, exigindo-se a demonstração de comportamento ilícito imputável ao administrador. A infração à lei não se confunde com o mero inadimplemento da obrigação tributária. A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça firmou entendimento no sentido de que a simples falta de pagamento de tributo não é suficiente para ensejar a responsabilização do administrador, sendo indispensável a comprovação de conduta qualificada, como fraude, sonegação ou dissolução irregular. Nessa linha, a responsabilidade apenas se configura quando o inadimplemento se apresenta de forma qualificada, isto é, acompanhado de dolo, revelando atuação contrária à ordem jurídica, como ocorre, por exemplo, nos casos de sonegação fiscal, apropriação indevida de tributos retidos ou prática de atos fraudulentos. Com efeito, a caracterização da responsabilidade exige a demonstração de que o administrador praticou ato: (i) em desconformidade com a lei, o contrato social ou o estatuto; ou (ii) além dos poderes que lhe foram conferidos. Tais hipóteses incluem, entre outras, a prática de Fl. 3944DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 53 atividades vedadas pelos atos constitutivos, o exercício de funções sem autorização societária, ou a adoção de condutas ilícitas com repercussão tributária. Ademais, a responsabilidade prevista no art. 135, III do CTN pressupõe a presença de elemento subjetivo, notadamente o dolo, especialmente quando se trata de infrações como sonegação, fraude ou conluio, circunstâncias que evidenciam a intenção de lesar o Fisco. Importante ressaltar, ainda, que a análise deve ser necessariamente casuística, não sendo admissível a imputação automática de responsabilidade ao administrador sem a devida comprovação de sua participação nos atos ilícitos. A exigência de prova do elemento subjetivo impede a transformação indevida dessa responsabilidade em modalidade objetiva, sem amparo no ordenamento jurídico. Por fim, cumpre destacar que a responsabilização pode alcançar não apenas os administradores formalmente investidos no cargo, mas também aqueles que, embora não constem oficialmente como gestores, exerçam, de fato, poderes de administração, sob pena de se admitir que práticas fraudulentas sejam acobertadas por estruturas meramente formais. Diante do exposto, conclui-se que a responsabilidade tributária prevista no art. 135, III, do CTN somente se configura quando presentes, de forma cumulativa: (i) a condição de administrador com poderes de gestão à época dos fatos (elemento pessoal); e (ii) a prática de atos com excesso de poderes ou infração à lei, ao contrato social ou ao estatuto, dotados de conteúdo doloso, não sendo suficiente, para tanto, o mero inadimplemento da obrigação tributária. Nota-se que a autoridade fiscal atribuiu responsabilidade pessoal, com base no art. 135, III do CTN, as seguintes pessoas físicas pelos motivos expostos: Pessoa física responsabilizada Posição atribuída no TVF Ações/condutas atribuídas pela fiscalização Evandro Santos Sócio-administrador da Betampex. Também aparece como sócio minoritário da Betampex e vinculado à estrutura societária da Agro Trading. O TVF atribuiu a Evandro a condução formal da Betampex no período fiscalizado, cabendo-lhe zelar pela regularidade das operações contábeis, fiscais e empresariais da recorrente. Também reproduziu conclusão de fiscalização anterior segundo a qual Evandro e Carlos Magno não seriam os reais sócios de Agro Trading e Betampex, mas “testas de ferro” de estrutura maior ligada ao Grupo Torlim. Carlos Magno Frederico Sócio-administrador da Agro Trading, empresa apontada como controladora da Betampex. O TVF atribuiu a Carlos Magno a administração da Agro Trading, que detinha controle praticamente integral da Betampex. Também mencionou fiscalização anterior segundo a qual Carlos Magno não comprovou o efetivo aporte de recursos na Agro Trading, e a Agro Trading não comprovou a transferência efetiva de recursos para o capital da Betampex, deixando sem comprovação a origem dos recursos usados pela Betampex em operações de comércio exterior. Marçal Bissoli Sócio-administrador da Nostro Beef e da BMG FOODS. O TVF atribuiu a Marçal a condução de empresas consideradas integrantes do mesmo grupo econômico de fato da Betampex. A fiscalização relacionou a Nostro Beef e a BMG FOODS a operações recíprocas, repasses de mercadorias, interposição e confusão operacional com a Betampex. Também registrou vínculos profissionais anteriores de Marçal com empresas associadas a Jair Antônio de Lima e ao Grupo Torlim. Jair Antônio de Lima Apontado como comandante de fato do Grupo Torlim e figura central da estrutura econômica. O TVF atribuiu a Jair o comando do Grupo Torlim, do qual fariam parte Betampex, Agro Trading, Nostro Beef e BMG FOODS. Segundo a fiscalização, as empresas teriam atuado em sincronia, por meio de seus administradores e de Jair, para alcançar melhores resultados econômico-financeiros, em concomitância com as infrações tributárias apuradas. Também foi apontado vínculo com o Frigorífico Concepción e com a Torlim Alimentos. Verifica-se que as constatações da autoridade fiscal relacionam-se com o fato de aquelas pessoas figurarem nos quadros societários das empresas componentes do grupo econômico identificado, não havendo, entretanto, comprovações da ação direta dos Fl. 3945DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 54 responsabilizados na prática do crime de sonegação, ou qualquer outra infração à lei, diretamente relacionada com os fatos geradores apurados na presente autuação, de forma que faltante o elemento pessoal a ensejar a responsabilidade solidária fundada no art. 135, III do CTN. Destarte, as responsabilidades solidárias atribuídas a Evandro Santos, Marçal Bissoli e Jair Antônio de Lima devem ser afastadas. 4 CONCLUSÃO Ante o exposto, voto por não conhecer do recurso interposto por Carlos Magno Frederico e conhecer dos demais recursos voluntários para rejeitar suas preliminares e, no mérito, dar parcial provimento para: i. Manter os lançamentos de IRPJ e CSLL; ii. Afastar o agravamento das multas de ofício decorrentes, mantida a sua qualificação, reduzindo-as ao percentual de 100%; iii. Exonerar os lançamentos de PIS e COFINS; iv. Exonerar o lançamento das multas regulamentares em decorrência de omissões ou imprecisões na ECD e ECF por aplicação do Tema 487 do STF; v. Manter o lançamento da multa regulamentar em decorrência de omissões ou imprecisões na EFD-Contribuições; vi. Afastar a responsabilidades solidárias atribuídas a Nostro Beef Alimentos Importação e Exportação Ltda, BMG Foods Importação e Exportação Ltda, Evandro Santos, Marçal Bissoli e Jair Antônio de Lima. Assinado Digitalmente Marcelo Antonio Biancardi DECLARAÇÃO DE VOTO Conselheira Isabelle Resende Alves Rocha Apresento declaração de voto exclusivamente quanto à manutenção da qualificação da multa de ofício, ponto em que, a princípio, eu divergia, porém acompanhei o Relator após os debates realizados em sessão. Fl. 3946DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 55 Parto da premissa de que a multa qualificada exige fundamento próprio e não decorre automaticamente da comprovação da infração tributária. Nos termos do art. 44, § 1º, da Lei nº 9.430/1996, a duplicação da penalidade pressupõe a configuração de uma das hipóteses dos arts. 71, 72 ou 73 da Lei nº 4.502/1964, todas marcadas pela presença do dolo. Por isso, omissão de receitas, dedução indevida de custos ou despesas, inexatidão da escrituração ou mesmo a reiteração dessas ocorrências não são, por si sós, suficientes para a qualificação. É nesse sentido que as Súmulas CARF nº 14 e 25 afastam a possibilidade de extrair o evidente intuito de fraude da própria omissão de receitas, inclusive quando decorrente de presunção legal. Para qualificar a penalidade, é necessário identificar no relatório fiscal, expressamente, elemento adicional que revele atuação consciente destinada a ocultar, dissimular ou dificultar o conhecimento das circunstâncias materiais do fato gerador pela autoridade fiscal. Dito isso, é importante registrar também que me alinho ao Conselheiro relator, no sentido de que esse elemento não depende de prova direta. Em situações de fraude ou sonegação, dificilmente haverá documento no qual o contribuinte declare expressamente a intenção de suprimir tributos. O dolo pode ser demonstrado por prova indiciária, desde que os fatos apurados sejam suficientemente precisos, concordantes e convergentes para permitir concluir pela existência de conduta deliberada, e não apenas pela ocorrência objetiva da infração. Minha ressalva inicial neste processo dizia respeito justamente à demonstração desse elemento subjetivo no lançamento. O Termo de Verificação Fiscal descreveu omissões de receitas e diversas glosas de custos, despesas e ajustes contábeis, entre elas compras de mercadorias registradas em estoque, estornos de ICMS, PIS e COFINS, gastos com energia elétrica, armazenagem e fretes, além de diferenças nos valores de tributos contabilizados. Ao tratar especificamente da qualificação, afirmou que essas condutas configurariam ações ou omissões dolosas enquadráveis como sonegação e fraude à fiscalização. A meu ver, considerada isoladamente essa fundamentação, faltou explicitar o vínculo entre as irregularidades constatadas e a intenção de impedir ou retardar o conhecimento dos fatos pelo Fisco. Esse aspecto é relevante porque, repita-se: a qualificação não pode resultar apenas da soma de várias infrações tributárias. Ainda que numerosas e de elevado valor, omissões de receitas e glosas de despesas permanecem, em princípio, fatos suficientes para a constituição do crédito e para a aplicação da multa ordinária. Porém, para alcançar a hipótese do art. 71 da Lei nº 4.502/1964, deve ser possível identificar, no conjunto probatório, uma conduta dirigida à ocultação ou à apresentação distorcida da realidade à fiscalização, o que deve estar expresso no TVF, a meu ver. Contudo, a análise mais detida das circunstâncias descritas ao longo do TVF neste caso concreto, especialmente quando confrontadas com as próprias explicações apresentadas pela Contribuinte, me levou a acompanhar o Relator. Não se trata, aqui, de suprir a motivação do lançamento com fatos novos revelados apenas no julgamento, mas de reconhecer que os elementos objetivos já apurados pela fiscalização, embora não tenham sido articulados de forma Fl. 3947DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 56 satisfatória no capítulo específico da multa, revelam um padrão de atuação que ultrapassa as infrações tributárias tomadas isoladamente. O ponto mais significativo está na explicação apresentada para as receitas omitidas e para parte dos custos registrados na conta de estoque. A Recorrente sustentou que as notas fiscais identificadas pela fiscalização correspondiam a vendas que não teriam se concretizado e que, por essa razão, teriam sido realizados lançamentos contábeis de estorno. O voto do Relator demonstra, entretanto, que as NF-e permaneceram ativas, não foram acompanhadas de notas de devolução e que os supostos estornos foram registrados em contas de compras ou estoque, e não nas contas em que as receitas haviam sido originalmente reconhecidas. A forma e a extensão desses registros afastam a hipótese de um equívoco contábil pontual. Conforme destacado pelo Relator, as notas que a própria Recorrente afirma corresponderem a operações não concretizadas apresentam numeração praticamente sequencial, da NF-e nº 60 à nº 329, de modo que quase todas as notas emitidas a partir de 31/03/2021 até o fim do ano estariam, segundo sua versão, relacionadas a vendas posteriormente canceladas. Os lançamentos destinados a neutralizá-las, por sua vez, não foram realizados de uma só vez e pelos respectivos valores integrais, mas parceladamente ao longo de vários meses, embora as mercadorias fossem altamente perecíveis. Há ainda uma consequência relevante que não se explica pela simples alegação de erro de escrituração. As NF-e permaneceram válidas perante o sistema fiscal e podiam produzir efeitos para suas destinatárias, todas empresas relacionadas ao mesmo grupo econômico, enquanto a Recorrente reduzia seu próprio resultado mediante lançamentos de custos destinados a neutralizar as receitas correspondentes. Como registrou o i. Relator, a forma de contabilização permitia que os destinatários preservassem os custos e créditos tributários decorrentes das notas emitidas e, simultaneamente, que a emitente afastasse os efeitos tributários das vendas. O parcelamento dos supostos estornos, segundo a análise realizada pelo Relator, também dificultava a identificação imediata da correspondência entre os lançamentos e as receitas que estavam sendo anuladas. Outras constatações reforçam a mesma conclusão. Os estornos de ICMS, PIS e COFINS foram registrados como custos na conta de estoque, sem documentação ou memória de cálculo apta a demonstrar sua origem, produzindo efeito redutor sobre o lucro. Para comprovar despesas de energia elétrica e armazenagem, a Recorrente afirmou ter apresentado documentação integral, mas a análise revelou documentos duplicados ou triplicados e outros emitidos em nome de terceiros, tendo a DRJ reconhecido apenas as parcelas efetivamente comprovadas. Também foram identificados valores de ICMS, PIS e COFINS contabilizados como despesas em montantes superiores aos extraídos das próprias notas fiscais emitidas, sem que a empresa apresentasse a memória de cálculo ou os elementos que justificariam essas diferenças. Foi esse contexto, reforçado nos debates em sessão, que alterou minha compreensão inicial. A conduta revelada pelo desenrolar do processo não consiste apenas em Fl. 3948DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.722 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721076/2024-51 57 deixar de comprovar despesas ou escriturar incorretamente determinadas operações. A Contribuinte apresentou à fiscalização explicações incompatíveis com os próprios registros e documentos, atribuindo a vendas não concretizadas lançamentos que não correspondiam ao procedimento de cancelamento ou devolução, afirmando neutralidade de registros que efetivamente reduziam o resultado e oferecendo documentação que, após examinada, continha duplicidades ou se referia a terceiros. Ou seja, durante a própria fiscalização e após a instauração do contencioso, a conduta da Contribuinte se direcionou no sentido de desviar a atenção dos interlocutores para argumentos incompatíveis com a realidade. O conjunto demonstra, portanto, uma atuação dirigida não apenas à redução do tributo, mas também à criação de uma aparência contábil capaz de justificar essa redução perante a fiscalização. Por essas razões, muito embora o TVF não tenha construído claramente o elemento subjetivo de dolo na prática de sonegação, acompanhei o Relator para manter a qualificação da multa de ofício. Assinado Digitalmente Isabelle Resende Alves Rocha Fl. 3949DF CARF MF Original Acórdão Relatório 1 DA AUTUAÇÃO 2 DA IMPUGNAÇÃO 3 DA DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA 4 DO RECURSO 4.1 das PRELIMINARES 4.1.1 NULIDADE DO ACÓRDÃO RECORRIDO. AUSÊNCIA DE ANÁLISE DE DOCUMENTOS E FUNDAMENTOS QUE EMBASARAM A DEFESA 4.1.2 DA NULIDADE POR DESVIO DE FINALIDADE E DEFICIÊNCIA DE MOTIVAÇÃO 4.2 DO MÉRITO 4.3 DA AUSÊNCIA DE GRUPO ECONÔMICO E DA RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA 4.4 DA MULTA QUALIFICADA 4.5 DAS MULTAS REGULAMENTARES Voto 1 DA ADMISSIBILIDADE 2 DAS PRELIMINARES 2.1 NULIDADE DO ACÓRDÃO RECORRIDO. AUSÊNCIA DE ANÁLISE DE DOCUMENTOS E FUNDAMENTOS QUE EMBASARAM A DEFESA 2.2 DA NULIDADE POR DESVIO DE FINALIDADE E DEFICIÊNCIA DE MOTIVAÇÃO 3 DO MÉRITO 3.1 DA OMISSÃO DE RECEITA 3.2 DOS CUSTOS NÃO COMPROVADOS 3.2.1 AQUISIÇÃO DE MERCADORIAS 3.2.2 ESTORNOS DE TRIBUTOS 3.2.3 CUSTOS DE FABRICAÇÃO COM ENERGIA ELÉTRICA, CUSTOS DE ARMAZENAGEM E DESPESAS COM FRETES 3.3 MAJORAÇÃO DE TRIBUTOS 3.4 COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZOS FISCAIS 3.5 DA MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA E AGRAVADA 3.6 DAS MULTAS REGULAMENTARES 3.7 DO GRUPO ECONÔMICO 3.7.1 Informações trazidas no Termo de Verificação Fiscal 3.7.2 Elementos adicionais oriundos de outros procedimentos/processos administrativos 3.7.3 Síntese conclusiva 3.8 DA RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA 3.8.1 RESPONSABILIDADES COM BASE NO ART. 124, I DO CTN 3.8.1.1 Agro Trading Serviços de Apoio Administrativo Ltda. 3.8.1.2 Nostro Beef Alimentos Importação e Exportação Ltda. 3.8.1.3 BMG Foods Importação e Exportação Ltda. 3.8.2 A RESPONSABILIDADE PREVISTA NO ART. 135, III DO CTN 4 CONCLUSÃO Declaração de Voto

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Numero do processo: 10783.902983/2017-61
Turma: Segunda Turma Ordinária da Primeira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Jul 27 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Thu Sep 10 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Data do fato gerador: 30/04/2014 COMPENSAÇÃO. CRÉDITO JÁ APRECIADO EM PROCESSO ANTERIOR. RETIFICAÇÃO DE DCTF. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DO DIREITO CREDITÓRIO. A apresentação de DCTF retificadora e de novo PER/DCOMP não afasta decisão administrativa anterior que reconheceu a inexistência de crédito apto à compensação. Não comprovados o erro na declaração retificada nem a liquidez e certeza do crédito, nos termos da Súmula CARF nº 164 e do art. 170 do CTN, deve ser mantida a não homologação da compensação.
Numero da decisão: 1102-002.100
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Cristiane Pires McNaughton - Relatora Assinado Digitalmente Fernando Beltcher da Silva - Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Cassiano Romulo Soares, Cristiane Pires McNaughton, Gabriel Campelo de Carvalho, Gustavo Schneider Fossati, Lizandro Rodrigues de Sousa, Fernando Beltcher da Silva (Presidente).
Nome do relator: CRISTIANE PIRES MCNAUGHTON

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INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Data do fato gerador: 30/04/2014 COMPENSAÇÃO. CRÉDITO JÁ APRECIADO EM PROCESSO ANTERIOR. RETIFICAÇÃO DE DCTF. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DO DIREITO CREDITÓRIO. A apresentação de DCTF retificadora e de novo PER/DCOMP não afasta decisão administrativa anterior que reconheceu a inexistência de crédito apto à compensação. Não comprovados o erro na declaração retificada nem a liquidez e certeza do crédito, nos termos da Súmula CARF nº 164 e do art. 170 do CTN, deve ser mantida a não homologação da compensação. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Cristiane Pires McNaughton – Relatora Assinado Digitalmente Fernando Beltcher da Silva – Presidente Fl. 4964DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-002.100 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10783.902983/2017-61 2 Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Cassiano Romulo Soares, Cristiane Pires McNaughton, Gabriel Campelo de Carvalho, Gustavo Schneider Fossati, Lizandro Rodrigues de Sousa, Fernando Beltcher da Silva (Presidente). RELATÓRIO Trata-se o presente processo, na origem, de pedido de restituição (PER) nº 26180.07160.290816.1.2.04-0840 e de declaração de compensação (Dcomp) nº 23873.84271.251016.1.3.04-8090, com fundamento em pagamento indevido de IRPJ, com a utilização de crédito relativo ao período de 31/03/2014. O Despacho Decisório n. 123251089 (fl. 15), não homologou as compensações declaradas, bem como indeferiu o pedido de restituição, pois o montante comprovado das parcelas de composição do crédito foi insuficiente para respaldar integralmente o valor do saldo negativo alegado pela Recorrente: Cientificada, a Recorrente apresentou Manifestação de Inconformidade (fls. 18/21, 37/40, 56/59 e 75/78) na qual impugnou os fundamentos da decisão administrativa, sustentando que as divergências apontadas são improcedentes. Ao analisar a defesa apresentada pela Recorrente, os membros da Delegacia de Julgamento da Receita Federal do Brasil 08, proferiram o acórdão n. 108-000.153 (fls. 94/99), no qual por unanimidade de votos, decidiram por julgar improcedente a manifestação de inconformidade ora apresentada. Em síntese, a DRJ entendeu que o crédito utilizado na PER nº 26180.07160.290816.1.2.04-0840 e na DCOMP nº 23873.84271.251016.1.3.04-8090 já havia sido objeto de análise anterior, por ocasião da apreciação da DCOMP nº 11403.23086.300714.1.3.04- 0347, cuja compensação não foi homologada por meio do Despacho Decisório nº 098615920. Destacou que a manifestação de inconformidade apresentada contra esse despacho foi Fl. 4965DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-002.100 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10783.902983/2017-61 3 considerada intempestiva, não tendo sido encaminhada para julgamento pela DRJ, circunstância que tornou definitiva a decisão administrativa quanto à inexistência de crédito remanescente. Consignou, ainda, que a apresentação de novo PER e de nova DCOMP, amparados no mesmo direito creditório anteriormente rejeitado, não seria meio adequado para rediscutir matéria já decidida, ressaltando que eventual inconformismo deveria ter sido veiculado mediante a impugnação tempestiva do despacho decisório originário. Observou, ainda, que a retificação da DCTF, promovida após a perda da espontaneidade, não possui eficácia suficiente para comprovar, por si só, a existência do crédito alegado, sendo indispensável a apresentação de escrituração contábil e documentação de suporte aptas a demonstrar o alegado erro de fato e a liquidez e certeza do crédito, nos termos do art. 170 do CTN. Por fim, com fundamento na ausência de comprovação da liquidez e certeza do crédito pleiteado e citando precedentes do CARF acerca da necessidade de comprovação do erro de fato mediante documentação contábil idônea, manteve o despacho decisório recorrido, julgando improcedente a Manifestação de Inconformidade e não reconhecendo o direito creditório discutido. A Recorrente tomou ciência da Decisão da DRJ em 05/12/2023. Irresignada, interpôs Recurso Voluntário em 03/01/2024 (fls. 4.957/4.960), no qual, em síntese: 1. Alega que, em 21/05/2014, transmitiu a DCTF original (doc. 02) referente ao mês de março de 2014, na qual informou o valor de IRPJ a recolher de R$ 576.849,23, montante que afirma ter sido recolhido tempestivamente em 30/04/2014 (doc. 03). 2. Sustenta que, em 10/04/2015, após a transmissão da DCTF, constatou que o valor do IRPJ informado a recolher havia sido superior ao efetivamente devido em R$ 51.473,70. 3. Afirma que, em 29/07/2014, utilizando-se do crédito decorrente do recolhimento a maior de IRPJ mencionado no item anterior, efetuou compensação no valor de R$ 52.858,34, já acrescido de atualização monetária, por meio da DCOMP nº 11403.23086.300714.1.3.04.0347 (doc. 04), com débito de IRPJ referente ao 2º trimestre de 2014. 4. Aduz que, em 25/03/2015, tomou ciência do Despacho Decisório nº 098615920, por meio do qual não foi homologada a DCOMP nº 11403.23086.300714.1.3.04.0347 (doc. 06). 5. Informa que, em 10/04/2015 (doc. 05), após constatar que não havia retificado tempestivamente a DCTF relativa ao mês de março de 2014, promoveu sua retificação, alterando o valor do IRPJ para R$ 525.375,53. 6. Reconhece que a Manifestação de Inconformidade apresentada em face do Despacho Decisório nº 098615920 foi considerada intempestiva, por ter sido protocolada em 25/08/2015. 7. Afirma que, em 31/03/2016, efetuou o pagamento do débito objeto do Despacho Decisório nº 098615920 (doc. 07). Fl. 4966DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-002.100 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10783.902983/2017-61 4 8. Sustenta que, após a retificação da DCTF, realizada em 10/04/2015 (doc. 05), permaneceu com saldo credor no valor de R$ 51.473,70, correspondente ao IRPJ recolhido a maior, conforme demonstrado pelo comprovante de arrecadação (doc. 03). 9. Aduz que, mesmo após efetuar o pagamento exigido pela Receita Federal do Brasil (doc. 07), permaneceu disponível o crédito decorrente do recolhimento a maior. 10. Afirma que, em 25/10/2016, diante das circunstâncias anteriormente narradas, apresentou nova declaração de compensação, por meio da DCOMP nº 23873.84271.251016.1.3.04-8090 (doc. 08), utilizando os créditos que entende disponíveis perante a Receita Federal do Brasil. Relata que essa compensação também não foi homologada, conforme Despacho Decisório nº 123251089, de 07/06/2017, do qual tomou ciência em 19/06/2017 (doc. 09). É o relatório. VOTO Conselheira Cristiane Pires McNaughton, Relatora. 1 ADMISSIBILIDADE O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos legais para sua admissibilidade. Portanto, o conheço. 2 MÉRITO Verifica-se que o direito creditório objeto do PER nº 26180.07160.290816.1.2.04- 0840, posteriormente utilizado na DComp nº 23873.84271.251016.1.3.04-8090, já havia sido previamente submetido à apreciação da Administração Tributária quando da análise da DComp nº 11403.23086.300714.1.3.04-0347. Naquela oportunidade, foi proferido o Despacho Decisório de Rastreamento nº 098615920, regularmente cientificado à contribuinte em 25/03/2015, por meio do qual a compensação foi considerada não homologada. Embora a contribuinte tenha apresentado manifestação de inconformidade, esta não foi conhecida pela Delegacia de Julgamento em razão de sua intempestividade, tornando-se definitiva, na esfera administrativa, a decisão que afastou a existência do crédito então invocado. Posteriormente, em 29/08/2016, a Recorrente protocolizou novo Pedido Eletrônico de Restituição, formalizando, em 25/10/2016, a correspondente Declaração de Compensação, após promover a retificação da DCTF relativa ao débito de IRPJ. Em decorrência dessa retificação, Fl. 4967DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-002.100 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10783.902983/2017-61 5 o débito originalmente confessado, no montante de R$ 576.849,23, foi reduzido para R$ 525.375,53. Ao examinar o novo PER/DCOMP, a Autoridade Fiscal concluiu que o crédito informado permanecia vinculado aos mesmos pedidos anteriormente apreciados, relativamente aos quais já havia decisão administrativa reconhecendo a inexistência de saldo credor remanescente apto a amparar novas compensações ou pedidos de restituição. A decisão foi integralmente mantida pela DRJ. Em sede recursal, a Recorrente não logra demonstrar a existência de erro material na DCTF retificadora, nos termos da Súmula CARF nº 164, tampouco apresenta elementos capazes de comprovar a liquidez e a certeza do crédito pleiteado, requisito indispensável ao reconhecimento do direito creditório, conforme dispõe o art. 170 do Código Tributário Nacional. A mera apresentação de declaração retificadora não possui o condão de infirmar decisão administrativa anteriormente definitiva nem de restabelecer crédito cuja existência já foi afastada pela Administração Tributária, sobretudo na ausência de prova idônea apta a demonstrar a efetiva ocorrência do indébito. Não se verifica, portanto, qualquer elemento novo capaz de justificar a reforma da decisão recorrida. 3 DISPOSITIVO Diante do exposto, voto por negar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Cristiane Pires McNaughton Fl. 4968DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto 1 Admissibilidade 2 Mérito 3 dispositivo

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Numero do processo: 16327.901161/2017-26
Turma: Segunda Turma Ordinária da Primeira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Jun 15 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Thu Sep 10 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Data do fato gerador: 19/11/2012 PIS E COFINS. BASE DE CÁLCULO. INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS. A declaração de inconstitucionalidade do § 1º do art. 3º da Lei 9.718/1998 não alcança as receitas típicas das instituições financeiras. As receitas oriundas da atividade operacional (receitas operacionais) compõem o faturamento das instituições financeiras e há incidência das contribuições ao PIS e COFINS sobre este tipo de receita, pois elas são decorrentes do exercício de suas atividades empresariais. JUROS SOBRE CAPITAL PRÓPRIO. EXCLUSÃO. IMPOSSIBILIDADE. Os juros sobre o capital próprio auferidos pela sociedade empresarial decorrentes da participação no patrimônio líquido de outras sociedades constituem receita de natureza operacional, decorrente de atividade meio para realizar o objeto social da respectiva sociedade.
Numero da decisão: 3102-003.956
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, conhecer o Recurso Voluntário e negar-lhe provimento. Vencidas as conselheiras Joana Maria de Oliveira Guimarães e Sabrina Coutinho Barbosa que davam provimento ao recurso. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3102-003.954, de 19 de junho de 2026, prolatado no julgamento do processo 16327.901159/2017-57, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Pedro Sousa Bispo - Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Fabio Kirzner Ejchel, Joana Maria de Oliveira Guimaraes, Jorge Luis Cabral, Sabrina Coutinho Barbosa, Wilson Antonio de Souza Correa, Pedro Sousa Bispo (Presidente).
Nome do relator: PEDRO SOUSA BISPO

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INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Data do fato gerador: 19/11/2012 PIS E COFINS. BASE DE CÁLCULO. INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS. A declaração de inconstitucionalidade do § 1º do art. 3º da Lei 9.718/1998 não alcança as receitas típicas das instituições financeiras. As receitas oriundas da atividade operacional (receitas operacionais) compõem o faturamento das instituições financeiras e há incidência das contribuições ao PIS e COFINS sobre este tipo de receita, pois elas são decorrentes do exercício de suas atividades empresariais. JUROS SOBRE CAPITAL PRÓPRIO. EXCLUSÃO. IMPOSSIBILIDADE. Os juros sobre o capital próprio auferidos pela sociedade empresarial decorrentes da participação no patrimônio líquido de outras sociedades constituem receita de natureza operacional, decorrente de atividade meio para realizar o objeto social da respectiva sociedade. ACÓRDÃO Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, conhecer o Recurso Voluntário e negar-lhe provimento. Vencidas as conselheiras Joana Maria de Oliveira Guimarães e Sabrina Coutinho Barbosa que davam provimento ao recurso. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3102-003.954, de 19 de junho de 2026, prolatado no julgamento do processo 16327.901159/2017-57, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Pedro Sousa Bispo – Presidente Redator Fl. 178DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.956 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.901161/2017-26 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Fabio Kirzner Ejchel, Joana Maria de Oliveira Guimaraes, Jorge Luis Cabral, Sabrina Coutinho Barbosa, Wilson Antonio de Souza Correa, Pedro Sousa Bispo (Presidente). RELATÓRIO O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023. Dessa forma, adota-se neste relatório substancialmente o relatado no acórdão paradigma. Trata-se de Recurso Voluntário, interposto em face de acórdão de primeira instância que julgou improcedente Manifestação de Inconformidade, cujo objeto era a reforma do Despacho Decisório exarado pela Unidade de Origem, que julgou o PER/DCOMP apresentado pelo Contribuinte. O pedido é referente ao suposto crédito de COFINS. Os fundamentos do Despacho Decisório da Unidade de Origem e os argumentos da Manifestação de Inconformidade estão resumidos no relatório do acórdão recorrido. Na sua ementa, em síntese, estão sumariados os fundamentos da decisão, detalhados no voto: ASSUNTO: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Data do fato gerador: 19/11/2012 PIS E COFINS. BASE DE CÁLCULO. INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS. A declaração de inconstitucionalidade do § 1º do art. 3º da Lei 9.718/1998 não alcança as receitas típicas das instituições financeiras. As receitas oriundas da atividade operacional (receitas operacionais) compõem o faturamento das instituições financeiras e há incidência das contribuições ao PIS e COFINS sobre este tipo de receita, pois elas são decorrentes do exercício de suas atividades empresariais. JUROS SOBRE CAPITAL PRÓPRIO. EXCLUSÃO. IMPOSSIBILIDADE. Os juros sobre o capital próprio auferidos pela sociedade empresarial decorrentes da participação no patrimônio líquido de outras sociedades constituem receita de natureza operacional, decorrente de atividade meio para realizar o objeto social da respectiva sociedade. A Recorrente tomou ciência da decisão de Primeira Instância e apresentou Recurso Voluntário alegando, em síntese: I. Apenas a atividade típica do contribuinte pode ser computada como receita tributável para a COFINS/PIS, o que exclui juros sobre capital próprio. II. O STJ em repercussão geral já decidiu sobre o tema nos termos do REsp nº1.104.184/RS, afastando a tributação sobre JCP. Fl. 179DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.956 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.901161/2017-26 3 Por fim, apresenta o seguinte pedido: Pelo exposto, requer o Recorrente a reforma da decisão proferida pela DRJ, com o reconhecimento do direito creditório pleiteado. Este é o relatório. VOTO Tratando-se de julgamento submetido à sistemática de recursos repetitivos na forma do Regimento Interno deste Conselho, reproduz-se o voto consignado no acórdão paradigma como razões de decidir: O Recurso Voluntário é tempestivo e reveste-se dos demais requisitos de admissibilidade de forma que dele tomo conhecimento. A única questão discutida neste contencioso é sobre a inclusão de receitas de Juros sobre Capital Próprio (JCP), em face à declaração de inconstitucionalidade do § 1º, do art. 3º, da Lei nº 9.718, de 27 de novembro de 1998. A Recorrente alega que as receitas de JCP não fazem parte de sua atividade finalística, a qual não envolve deter participação em outras sociedades, e ainda que o Superior Tribunal de Justiça teria determinado no julgamento do REsp 1.104.184/RS, submetido ao rito do art. 543-C, do antigo CPC, que a cobrança de PIS/COFINS sobre receitas de JCP careceria de base legal. O Acórdão 3302-005.399, prolatado em sessão do dia 18 de abril de 2018, tratou exatamente deste tema, conforme reproduzo abaixo: Conforme relatado, o cerne da questão diz respeito à inclusão dos valores recebidos a título de juros sobre capital próprio na base de cálculo do PIS e da COFINS não cumulativos. A matéria objeto da presente lide já foi enfrentada pelo STJ no REsp 1.104.184, submetido ao regime do art. 543C do CPC, de Relatoria do Ministro Napoleão Nunes Maia Filho, quando foi decidido pela incidência das contribuições não cumulativas em relação ao juros sobre capital próprio, conforme a seguir ementado. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DA CONTROVÉRSIA (ART. 543C DO CPC c/c ART. 2º., § 1º. DA RES. STJ 8/2008). PROCESSUAL CIVIL.ALEGAÇÃO DE VIOLAÇÃO AO ART. 535, II DO CPC. INEXISTÊNCIA DE OMISSÃO, OBSCURIDADE OU CONTRADIÇÃO. TRIBUTÁRIO. PIS. BASE DE CÁLCULO. FATURAMENTO OU RECEITA BRUTA. IMPOSSIBILIDADE DE INCLUSÃO DOS JUROS SOBRE CAPITAL PRÓPRIO NO CONCEITO DE RECEITA BRUTA, TENDO EM VISTA A DECLARAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE, PELO STF, DO ART. 3º., § 1º. DA LEI 9.718/98 (RE's 346.084/PR, 357.950/RS, 390.840/MG e 358.273/RS). POSSIBILIDADE QUE SOMENTE SE AFIGURA APÓS A EDIÇÃO DAS LEIS 10.637/02 E 10.833/03, JÁ NA VIGÊNCIA DA EC 20/98, QUE AMPLIOU A BASE DE CÁLCULO DO PIS/CONFINS PARA INCLUIR A TOTALIDADE DAS RECEITAS AUFERIDAS PELA PESSOA JURÍDICA. PRECEDENTE: 1a. TURMA, RESP. 1.018.013/SC, REL. MIN. Fl. 180DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.956 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.901161/2017-26 4 JOSÉ DELGADO, DJE 28.04.2008. PARECER DO MPF PELO IMPROVIMENTO DO RECURSO. NEGADO PROVIMENTO AO RECURSO ESPECIAL. 1. Inicialmente, sói destacar que a anunciada violação ao art.535, II do CPC não ocorreu, tendo em vista o fato de que a lide foi resolvida nos limites necessários e com a devida fundamentação. Todas as questões postas a debate foram efetivamente decididas, não tendo havido qualquer vício que justificasse o manejo dos Embargos de Declaração. Observe-se, ademais, que o julgamento diverso do pretendido, como na espécie, não implica ofensa à norma ora invocada. 2. Destaca-se, ainda, que, tendo encontrado motivação suficiente para fundar a decisão, não fica o órgão julgador obrigado a responder, um a um, todos os questionamentos suscitados pelas partes, mormente se notório seu caráter de infringência do julgado. Precedente: 1a. Turma, AgRg no AREsp 12.346/RO, Rel. Min. ARNALDO ESTEVES LIMA, DJe 26.08.2011. 3. A Lei 9.718/98 (regime cumulativo) estatui que a base de cálculo do PIS/CONFINS é o faturamento, sendo este equiparado à receita bruta da pessoa jurídica, tal como apregoam os arts. 2º. e 3º. Este último preceito normativo estava acompanhado do § 1º., que dizia: entende-se por receita bruta a totalidade das receitas auferidas pela pessoa jurídica, sendo irrelevantes o tipo de atividade por ela exercida e a classificação contábil adotada para as receitas. Tal dispositivo legal fundamentava a inclusão, pelo Fisco, dos juros sobre capital próprio JCP no conceito de receita financeira, fato que permitiria a cobrança do PIS/COFINS sobre ele. 4. Todavia, a técnica adotada pelo legislador ordinário e posteriormente ratificada pelo Fisco foi definitivamente rechaçada pelo Supremo Tribunal Federal, que declarou a inconstitucionalidade do alargamento do conceito de faturamento empreendido pelo art. 3º., § 1º. da Lei 9.718/98, tendo em vista o quanto disposto no art. 195 da CRFB, inconstitucionalidade essa que não foi afastada com as modificações efetuadas pela EC 20/98, a qual, grosso modo, constitucionalizou o conceito legal de faturamento ao incluir no Texto Magno, como base de cálculo do PIS/CONFINS, também, a receita (RE's 346.084/PR, 357.950/RS, 358.273/RS e 390.840/MG). 5. Sendo assim, antes da EC 20/98, a definição constitucional do conceito de faturamento envolvia somente a venda de mercadorias, de serviços ou de mercadorias e serviços, não abrangendo a totalidade das receitas auferidas pela pessoa jurídica, tal como o legislador ordinário pretendeu. Somente após a edição da referida emenda constitucional é que se possibilitou a inclusão da totalidade das receitas incluindo o JCP como base de cálculo do PIS, circunstância materializada com a edição das Leis 10.637/02 e 10.833/03. 6. Em suma, tem-se que não incide PIS/COFINS sobre o JCP recebido durante a vigência da Lei 9.718/98 até a edição das Leis 10.637/02 (cujo art. 1º. entrou em vigor a partir de 01.12.2002) e 10.833/03, tal como no caso dos autos, que se refere apenas ao período compreendido entre 01.03.1999 e 30.09.2002. Precedente: 1ª. Turma, REsp. 1.018.013/SC, Rel.Min. JOSÉ DELGADO, DJe 28.04.2008. 7. Parecer do MPF pelo improvimento do recurso. 8. Negado provimento ao Recurso Especial. Feito submetido ao rito do art. 543C do CPC c/c art. 2º., § 1º. da Resolução STJ 8/2008. Ante os fundamentos acima demonstrados e considerando que as decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática prevista pelos arts. 543-B e 543-C Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 - Código de Processo Civil, devem ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF por força do 1 §2º do artigo 62 do RICARF, adota-se como razão de decidir a citada decisão para o fim Fl. 181DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.956 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.901161/2017-26 5 de manter a inclusão na base de cálculo do PIS e da COFINS não cumulativos dos valores recebidos a título de juros sobre capital próprio. (Acórdão nº 3302-005.399, Conselheira Relatora Maria do Socorro Ferreira Aguiar, 2ª Turma Ordinária, 3ª Câmara, da 3ª Seção do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), Sessão de 18/04/2018) O voto acima reproduzido refere-se a uma empresa de participações, o que poderia levar novamente à discussão de que deter participações em outras empresas seria o objeto principal do contribuinte, atraindo a condição de faturamento para o JCP. No entanto, a Câmara Superior de CARF também tratou do mesmo assunto sobre o caso de uma grande varejista, nos seguintes termos: (...) O recorrente alega que os juros sobre o capital próprio têm a mesma natureza dos dividendos e, por consequência, não poderiam sofrer a incidência do PIS e da Cofins. Não há como confirmar esse entendimento. Os dividendos tem natureza diversa do JCP, pois advém do lucro e não correspondem a uma despesa para quem os paga. Já o JCP, para quem os paga trata-se de uma despesa e, para quem os recebe, caso da recorrente, corresponde a uma receita tributável pelo PIS e pela Cofins pois não existe previsão legal para sua exclusão da base de cálculo das contribuições. Assim, confirmo o entendimento das decisões recorridas, com os mesmos fundamentos. Destaca-se, dessa forma, disposição literal constante do art. 1º, inc. I do Decreto nº 5.442/2005, em vigor na data do lançamento: Art. 1º Ficam reduzidas a zero as alíquotas da Contribuição para o PIS/PASEP e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social COFINS incidentes sobre as receitas financeiras, inclusive decorrentes de operações realizadas para fins de hedge, auferidas pelas pessoas jurídicas sujeitas ao regime de incidência nãocumulativa das referidas contribuições. Parágrafo único. O disposto no caput: I não se aplica aos juros sobre o capital próprio; II aplica-se às pessoas jurídicas que tenham apenas parte de suas receitas submetidas ao regime de incidência não-cumulativa da Contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS. Se os JCP não estão excluídos da base de cálculo do PIS e da Cofins por qualquer dispositivo legal e se a eles não se aplica a alíquota zero estabelecida no Decreto, evidente que sua tributação dá se de forma normal, nos termos dos art. 1º das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003: Art. 1º A Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social COFINS, com a incidência nãocumulativa, tem como fato gerador o faturamento mensal, assim entendido o total das receitas auferidas pela pessoa jurídica, independentemente de sua denominação ou classificação contábil. Além do mais, o STJ, sob a sistemática do art. 543C do CPC, no julgamento do RESP 1104184, decidiu ser possível a tributação dos juros sobre capital próprio pela Cofins e pela Contribuição para o PIS/Pasep não cumulativas, após a edição da EC nº 20. (...) 3. A Lei 9.718/98 (regime cumulativo) estatui que a base de cálculo do PIS/CONFINS é o faturamento, sendo este equiparado à receita bruta da pessoa jurídica, tal como apregoam os arts. 2º. e 3º. Este último preceito normativo estava acompanhado do § 1º., que dizia: entende-se por receita bruta a totalidade das receitas auferidas pela pessoa jurídica, sendo irrelevantes o tipo de atividade por ela exercida e a classificação contábil adotada para as receitas. Tal dispositivo legal fundamentava a inclusão, pelo Fl. 182DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.956 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.901161/2017-26 6 Fisco, dos juros sobre capital próprio JCP nº conceito de receita financeira, fato que permitiria a cobrança do PIS/COFINS sobre ele. 4. Todavia, a técnica adotada pelo legislador ordinário e posteriormente ratificada pelo Fisco foi definitivamente rechaçada pelo Supremo Tribunal Federal, que declarou a inconstitucionalidade do alargamento do conceito de faturamento empreendido pelo art. 3º., § 1º. da Lei 9.718/98, tendo em vista o quanto disposto no art. 195 da CRFB, inconstitucionalidade essa que não foi afastada com as modificações efetuadas pela EC 20/98, a qual, grosso modo, constitucionalizou o conceito legal de faturamento ao incluir nº Texto Magno, como base de cálculo do PIS/CONFINS, também, a receita (RE's 346.084/PR, 357.950/RS, 358.273/RS e 390.840/MG). 5. Sendo assim, antes da EC 20/98, a definição constitucional do conceito de faturamento envolvia somente a venda de mercadorias, de serviços ou de mercadorias e serviços, não abrangendo a totalidade das receitas auferidas pela pessoa jurídica, tal como o legislador ordinário pretendeu. Somente após a edição da referida emenda constitucional é que se possibilitou a inclusão da totalidade das receitas incluindo o JCP como base de cálculo do PIS, circunstância materializada com a edição das Leis 10.637/02 e 10.833/03. 6. Em suma, tem-se que não incide PIS/COFINS sobre o JCP recebido durante a vigência da Lei 9.718/98 até a edição das Leis 10.637/02 (cujo art. 1º. entrou em vigor a partir de 01.12.2002) e 10.833/03, tal como no caso dos autos, que se refere apenas ao período compreendido entre 01.03.1999 e 30.09.2002. Precedente: 1a. Turma, REsp. 1.018.013/SC, Rel. Min. JOSÉ DELGADO, DJe 28.04.2008. (REsp 1104184 RS, Rel. Ministro NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 29/02/2012, DJe 08/03/2012) Por fim, desprovido de qualquer fundamento o argumento do contribuinte de que a decisão do STJ não teria entrado no mérito a respeito de que o JCP teria a mesma natureza dos dividendos. Ao concluir pela possibilidade de sua tributação o fez no exato sentido em que é tratado na legislação tributária. Nesse ponto, em sede de embargos ao acórdão anterior, o recorrente alega que houve omissão pelo fato de não ter sido considerado o decidido pela 2ª Seção do STJ no REsp 1373438, julgado na sistemática dos recursos repetitivos e que teria decidido que a natureza jurídica dos JCP é de distribuição de lucros. Neste sentido, transcrevo abaixo a ementa do REsp 1373438: RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DA CONTROVÉRSIA. EMPRESARIAL E PROCESSUAL CIVIL. TELEFONIA. COMPLEMENTAÇÃO DE AÇÕES. JUROS SOBRE CAPITAL PRÓPRIO. CUMULAÇÃO COM DIVIDENDOS. CABIMENTO. PEDIDO IMPLÍCITO. DECORRÊNCIA LÓGICA DO PEDIDO DE COMPLEMENTAÇÃO DE AÇÕES. INCLUSÃO NO CUMPRIMENTO DE SENTENÇA SEM PREVISÃO NO TÍTULO EXECUTIVO. OFENSA À COISA JULGADA. 1. Para fins do art. 543C do CPC: 1.1. Cabimento da cumulação de dividendos e juros sobre capital próprio. 1.2. Nas demandas por complementação de ações de empresas de telefonia, admitese a condenação ao pagamento de dividendos e juros sobre capital próprio independentemente de pedido expresso. 1.3. Descabimento da inclusão dos dividendos ou dos juros sobre capital próprio no cumprimento da sentença condenatória à complementação de ações sem expressa previsão no título executivo. 2. Caso concreto: 2.1. Inviabilidade de se alterar, na fase de cumprimento de sentença, o valor patrimonial da ação definido expressamente nº título executivo, sob pena de ofensa à coisa julgada. Fl. 183DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.956 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.901161/2017-26 7 2.2. Descabimento da inclusão dos juros sobre capital próprio no cumprimento de sentença sem previsão expressa no título executivo. 2.3. Incidência do óbice da Súmula 211/STJ no que tange à alegação relativa ao termo 'ad quem' dos dividendos. 2.4. "Não são cabíveis honorários advocatícios pela rejeição da impugnação ao cumprimento de sentença". 2.5. "Apenas no caso de acolhimento da impugnação, ainda que parcial, serão arbitrados honorários em benefício do executado, com base no art. 20, § 4º, do CPC" (REsp 1.134.186/RS, rito do art. 543C). 3. RECURSO ESPECIAL PARCIALMENTE PROVIDO. É de se destacar que no REsp 1373438, cuja ementa está acima transcrita, não houve qualquer decisão de natureza tributária no sentido da possibilidade ou não da incidência do PIS e da Cofins sobre os JCP. E ao contrário do que disse o contribuinte, não houve conclusão de que os JCP teriam natureza de distribuição de lucros para fins tributários. Abaixo transcrevo trecho do voto do relator Ministro Paulo de Tarso Sanseverino: (...) Desse modo, optando-se por um conceito único de JCP, sacrificams-e, necessariamente, ou os propósitos tributários da Lei 9.249/95, ou os princípios societários, protegidos pelas Deliberações CVM nº 207/96 e 683/12. A melhor solução, portanto, é a cisão dos efeitos produzidos pelo instituto jurídico para efeitos tributários e para efeitos societários. Mas, como pode um ente ter, ao mesmo tempo, duas naturezas opostas? Na verdade, ontologicamente, os JCP são parcela do lucro a ser distribuído aos acionistas. Apenas por ficção jurídica, a lei tributária passou a considerar que os JCP tem natureza de juros. Ressalte-se que o Direito Tributário não é avesso a ficções jurídicas, que alteram a natureza de institutos jurídicos. Definida essa natureza ambivalente dos JCP, passa-se à análise das questões afetadas ao rito do art. 543C do Código de Processo Civil. (...) Portanto, da leitura da ementa e do voto que foi aprovado por unanimidade, evidente que não se decidiu esta matéria da natureza dos JCP em sede de aplicação do art. 543C. Mas mesmo, se fosse o caso, o julgado decidiu pela possibilidade de que os JCP possam ter dois tipos de natureza, uma para fins societários e outra para fins tributários, sendo que para esse último, tem natureza de juros, portanto receita tributável pelo PIS e Cofins por disposição expressa da lei tributária. Diante do exposto, nego provimento ao Recurso Especial do Contribuinte nessa matéria. (Acórdão nº 9303-006.689, Conselheiro Relator Andrada Márcio Canuto Natal, 3ª Turma, Câmara Superior de Recursos Fiscais, Sessão de 12/04/2018) Vemos pelo teor das decisões acima transcritas que não assiste razão à Recorrente, e que há jurisprudência no CARF suficiente para se considerar o JCP como receita tributável para o PIS/COFINS. Diante de todo o exposto, voto por conhecer o Recurso Voluntário e negar-lhe provimento. Fl. 184DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.956 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.901161/2017-26 8 Conclusão Importa registrar que as situações fática e jurídica destes autos se assemelham às verificadas na decisão paradigma, de sorte que as razões de decidir nela consignadas são aqui adotadas, não obstante os dados específicos do processo paradigma eventualmente citados neste voto. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do RICARF, reproduz-se o decidido no acórdão paradigma, no sentido de conhecer o Recurso Voluntário e negar-lhe provimento. Assinado Digitalmente Pedro Sousa Bispo – Presidente Redator Fl. 185DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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Numero do processo: 13161.901536/2017-08
Turma: Segunda Turma Ordinária da Primeira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Jun 15 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Thu Sep 10 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 01/07/2016 a 30/09/2016 CRÉDITO BÁSICO. PIS/COFINS. VENDAS COM SUSPENSÃO À COOPERATIVAS. APROVEITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. O inciso II, do § 4º, da Lei nº 10.925/2004, impede o aproveitamento de créditos básicos de PIS/COFINS, pelas pessoas listadas no § 1º, do art. 8º, desta mesma Lei.
Numero da decisão: 3102-004.146
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3102-004.125, de 19 de junho de 2026, prolatado no julgamento do processo 13161.720278/2017-52, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Pedro Sousa Bispo - Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os julgadores Fabio Kirzner Ejchel, Joana Maria de Oliveira Guimaraes, Jorge Luis Cabral, Sabrina Coutinho Barbosa, Wilson Antonio de Souza Correa, Pedro Sousa Bispo (Presidente).
Nome do relator: PEDRO SOUSA BISPO

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PIS/COFINS. VENDAS COM SUSPENSÃO À COOPERATIVAS. APROVEITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. O inciso II, do § 4º, da Lei nº 10.925/2004, impede o aproveitamento de créditos básicos de PIS/COFINS, pelas pessoas listadas no § 1º, do art. 8º, desta mesma Lei. ACÓRDÃO Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3102-004.125, de 19 de junho de 2026, prolatado no julgamento do processo 13161.720278/2017-52, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Pedro Sousa Bispo – Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os julgadores Fabio Kirzner Ejchel, Joana Maria de Oliveira Guimaraes, Jorge Luis Cabral, Sabrina Coutinho Barbosa, Wilson Antonio de Souza Correa, Pedro Sousa Bispo (Presidente). Fl. 1774DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-004.146 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13161.901536/2017-08 2 RELATÓRIO O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos prevista no art. 87, §§ 1º, 2º e 3º, do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023. Dessa forma, adota-se neste relatório substancialmente o relatado no acórdão paradigma. Trata-se de Recurso Voluntário, interposto em face de acórdão de primeira instância que julgou improcedente Manifestação de Inconformidade, cujo objeto era a reforma do Despacho Decisório exarado pela Unidade de Origem, que denegara o Pedido de Ressarcimento apresentado pelo Contribuinte. O pedido é referente a suposto crédito de PIS-PASEP/COFINS. Os fundamentos do Despacho Decisório da Unidade de Origem e os argumentos da Manifestação de Inconformidade estão resumidos no relatório do acórdão recorrido. Na sua ementa, estão sumariados os fundamentos da decisão, detalhados no voto: 1. NÃO CUMULATIVIDADE. BENS PARA REVENDA. CEREALISTA. APROVEITAMENTO DE CRÉDITOS DAS AQUISIÇÕES. VEDAÇÃO LEGAL. É vedado à empresa cerealista o aproveitamento de crédito em relação às receitas de vendas efetuadas com suspensão às pessoas jurídicas de que trata o caput do art. 8º da Lei nº 10.925, de 2004. 2. SOJA EM GRÃOS. POSIÇÃO 12.01 DA TIPI. VENDAS. SUSPENSÃO. LEI Nº 12.865/2013. A partir da vigência da Lei nº 12.865, de 9 de outubro de 2013, fica suspensa a incidência de PIS/Pasep e Cofins sobre as receitas de vendas de soja classificada na posição 12.01 da TIPI, qualquer que seja o destinatário, não se lhe aplicando mais as disposições dos artigos 8º e 9º da Lei nº 10.925, de 2004. A Recorrente tomou ciência da Decisão de Primeira Instância e apresentou Recurso Voluntário. Em seu Recurso Voluntário alega o seguinte: I. Aproveitamento de créditos em relação a vendas com suspensão (art. 8º, Lei 10.925/2004) – houve pagamento das contribuições na etapa anterior da cadeia produtiva, de forma que o crédito é devido, e ainda, que o art. 8º, da Lei nº 10.925/2004 teria sido revogado tacitamente pelo art. 17, da Lei nº 11.033/2004. II. Aproveitamento de créditos em relação a vendas com suspensão (art. 8º, Lei 10.925/2004) – não adquiriu insumos para produtos agropecuários, de forma que não há o que estornar. Por fim, apresenta o seguinte pedido: DO PEDIDO Fl. 1775DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-004.146 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13161.901536/2017-08 3 Ante o exposto, requer dignem-se Vossas Senhorias em receber o presente Recurso Voluntário, dando-lhe provimento, para o especial fim de reformar a decisão de 1ª instância, que julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade. Este é o relatório. VOTO Tratando-se de julgamento submetido à sistemática de recursos repetitivos na forma do Regimento Interno deste Conselho, reproduz-se o voto consignado no acórdão paradigma como razões de decidir: O Recurso Voluntário é tempestivo e reveste-se dos demais requisitos de admissibilidade, de forma que dele tomo conhecimento. O litígio decorre de glosa procedida pela Autoridade Tributária, em seu Despacho Decisório de análise da PER/DCOMP, identificadas no relatório acima, onde apontou que seria indevida a apropriação de créditos decorrentes da aquisição de grãos por empresa cerealista. A Informação Fiscal de e-fls 1.618 a 1622, assim descreveu a razão das glosas: Nos anos de 2012 a 2016, o contribuinte apurou o IRPJ e a CSLL pelo lucro real. Adquiriu, para revenda, milho e soja em grãos (códigos dos itens 1005.90 e 12.01, respectivamente) assumindo, assim, a condição de cerealista. Todos os grãos adquiridos tem a finalidade exclusiva de revenda no mercado interno. Nesse período, o interessado apura créditos básicos de PIS/Pasep e Cofins, no regime de incidência não-cumulativa dessas contribuições e vinculados a operações de saída não tributadas. Referente aos bens para revenda, o contribuinte efetuou as saídas com suspensão com base nos artigos 8° e 9° da Lei 10.925/04 e Instrução Normativa SRF n° 660/2006(atualmente revogada pela IN RFB 1.911/2019). A possibilidade de manutenção, pelo vendedor, dos créditos vinculados às vendas efetuadas com suspensão, isenção, alíquota zero ou não incidência na Contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS tem, como regra geral, previsão no art. 17 da Lei n° 11.0333/2004. Entretanto, conforme será demonstrado, no caso específico do interessado, não há direito a manutenção desse crédito. (...) A vedação às cerealistas do aproveitamento do crédito presumido, contida no inciso I, §4°, art. 8° é decorrência natural da própria condição de cerealista. Sendo ela uma mera revendedora do grão, não haveria que se falar em crédito presumido, o qual é direcionado exclusivamente às aquisições como insumo num processo de industrialização. Já o inciso II do mesmo parágrafo estipula que quando a cerealista vende com suspensão não pode manter créditos correspondentes àqueles grãos. Assim, os créditos tomados nas aquisições relacionados a essas revendas deverão ser estornados. Trata-se, portanto, de vedação à manutenção de crédito pela cerealista que revenda o grão com suspensão, mas que tenha apurado créditos na aquisição. Frise-se que quando esse inciso II, do §4° fala em crédito (e não crédito presumido, como trata o inciso I), refere-se a todo e qualquer crédito, incluídos, evidentemente, aqueles previstos no art. 3° das leis 10.637/2002 e 10.833/2003. Trata-se, portanto, Fl. 1776DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-004.146 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13161.901536/2017-08 4 de vedação à manutenção de qualquer crédito pela cerealista que revenda o grão com suspensão, mas que tenha apurados créditos na aquisição. Já o Recurso Voluntário assim descreve o objeto da glosa: No caso da Recorrente, as suas saídas foram efetuadas com suspensão das contribuições, baseadas nos artigos 8º e 9º da Lei nº 10.925/2004 e Instrução Normativa nº 660/2006. As aquisições, referentes ao que aqui se faz relevante, foram realizadas com a incidência dos tributos na etapa anterior. Não se trata o presente caso de pedido de ressarcimento dos créditos presumidos, onde sabe-se que não houve a tributação na cadeia anterior. Os créditos objeto do Pedido de Ressarcimento foram vinculados conforme rateio proporcional à receita bruta, aplicando-se a eles a relação percentual existente entre aquela sujeita à incidência não cumulativa e a receita bruta total, auferidas em cada mês. Perceptível, pois, que a aquisição de produtos tributados, carrega a inerente cumulatividade à Recorrente, que deve ser anulada com a possibilidade de ressarcimento conforme foi pleiteado e erroneamente indeferido pela Auditora- Fiscal. Também alega que o art. 17, da Lei nº 11.033, de 21 de dezembro de 2004, teria revogado tacitamente o inciso II, do § 4º, do art. 8º, da Lei nº 10.925, de 23 de julho de 2004. Temos então que a Autoridade Tributária glosou créditos decorrentes da aquisição de bens para a revenda, notadamente, milho e soja em grãos (NCM 1005.90 e 1201, respectivamente), e que posteriormente foram vendidos com suspensão pela aplicação dos artigos 8º e 9º, da Lei nº 10.925/2004. A Recorrente alega que houve incidência das contribuições de PIS/COFINS no ato de aquisição. Vejamos do que se trata o art. 8º, da Lei nº 10.925/2004, nos seus incisos e parágrafos de interesse para esta questão: Art. 8º As pessoas jurídicas, inclusive cooperativas, que produzam mercadorias de origem animal ou vegetal, classificadas nos capítulos 2, 3, exceto os produtos vivos desse capítulo, e 4, 8 a 12, 15, 16 e 23, e nos códigos 03.02, 03.03, 03.04, 03.05, 0504.00, 0701.90.00, 0702.00.00, 0706.10.00, 07.08, 0709.90, 07.10, 07.12 a 07.14, exceto os códigos 0713.33.19, 0713.33.29 e 0713.33.99, 1701.11.00, 1701.99.00, 1702.90.00, 18.01, 18.03, 1804.00.00, 1805.00.00, 20.09, 2101.11.10 e 2209.00.00, todos da NCM, destinadas à alimentação humana ou animal, poderão deduzir da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, devidas em cada período de apuração, crédito presumido, calculado sobre o valor dos bens referidos no inciso II do caput do art. 3º das Leis nºs 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e 10.833, de 29 de dezembro de 2003, adquiridos de pessoa física ou recebidos de cooperado pessoa física. (...) § 1º O disposto no caput deste artigo aplica-se também às aquisições efetuadas de: I - cerealista que exerça cumulativamente as atividades de limpar, padronizar, armazenar e comercializar os produtos in natura de origem vegetal classificados nos códigos 09.01, 10.01 a 10.08, exceto os dos códigos 1006.20 e 1006.30, e 18.01, Fl. 1777DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-004.146 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13161.901536/2017-08 5 todos da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM); (Redação dada pela Lei nº 12.865, de 2013) (...) § 4º É vedado às pessoas jurídicas de que tratam os incisos I a III do § 1º deste artigo o aproveitamento: I - do crédito presumido de que trata o caput deste artigo; II - de crédito em relação às receitas de vendas efetuadas com suspensão às pessoas jurídicas de que trata o caput deste artigo. (...) Art. 9º A incidência da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins fica suspensa no caso de venda: (Redação dada pela Lei nº 11.051, de 2004) I - de produtos de que trata o inciso I do § 1º do art. 8º desta Lei, quando efetuada por pessoas jurídicas referidas no mencionado inciso; (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) II - de leite in natura, quando efetuada por pessoa jurídica mencionada no inciso II do § 1º do art. 8º desta Lei; e (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) III - de insumos destinados à produção das mercadorias referidas no caput do art. 8º desta Lei, quando efetuada por pessoa jurídica ou cooperativa referidas no inciso III do § 1º do mencionado artigo. (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) § 1º O disposto neste artigo: (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) I - aplica-se somente na hipótese de vendas efetuadas à pessoa jurídica tributada com base no lucro real; e (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) II - não se aplica nas vendas efetuadas pelas pessoas jurídicas de que tratam os §§ 6º e 7º do art. 8º desta Lei. (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) § 2º A suspensão de que trata este artigo aplicar-se-á nos termos e condições estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal - SRF. (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) Faço uma observação pois entre os anos de 2005 e 2013, também constava no inciso I, do § 1º, acima reproduzido, o código 12.01 (soja em grãos), cuja redação veio a ser alterada pela Lei nº 12.865/2013. Os períodos de apuração abrangidos foram de 2012 a 2016. A interpretação dada pela Autoridade Tributária foi de que o inciso II, do § 4º, do art. 8º, da Lei nº 10.925/2004, afastaria o direito ao crédito do cerealista que vende-se grãos com suspensão do pagamento do PIS/COFINS. O art. 8º, da Lei nº 10.925/2004 dá direito ao crédito presumido na aquisição por cooperativas agropecuárias, ou seja, o ato de adquirir os produtos listados no caput deste artigo, de fornecedores que não estariam sujeitos à incidência do PIS/COFINS, por serem pessoas físicas, cooperados ou não. E também quando adquirirem os produtos listados no inciso I, do seu § 1º, de fornecedores que sejam cerealistas. Quando analisados o § 1º, do art. 8º, deparamo-nos com uma extensão do benefício tributário concedido às cooperativas pela ampliação das hipóteses de operações que dão direito ao crédito presumido para além da aquisição de produtos de fornecedores pessoas físicas (caput), incluindo também outras hipóteses de aquisição de produtos que não seriam Fl. 1778DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-004.146 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13161.901536/2017-08 6 sujeitos às contribuições, neste caso as hipóteses dos incisos de I a III, deste mesmo § 1º, todos beneficiados com suspensão do pagamento do PIS/COFINS quando destinados às cooperativas. É muito clara a redação do inciso II, do § 4º, de que não cabe o crédito referente às receitas de revendedores cerealistas às pessoas descritas no caput do art. 8º, quando feitas por suspensão do PIS/COFINS. Em outras palavras: o cerealista não pode utilizar-se do crédito presumido previsto no caput do art. 8º, o que significa dizer o crédito presumido na aquisição de insumos de fornecedores pessoas físicas, e não pode beneficiar-se de créditos, previstos nos incisos dos art. 3º, das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003, quando vender produtos com suspensão para cooperativas descritas no caput do art. 8º, da Lei nº 10.925/2004. Também entendo que a Lei nº 10.925/2004 é específica para os fatos por ela regidos, notadamente as hipóteses de crédito presumido, de suspensão do pagamento das contribuições do PIS/COFINS nas hipóteses que especifica, por outro lado, o art. 17, da Lei nº 11.033/2004 trata da regra geral para os créditos básicos e outras hipóteses não previstas em Leis específicas. Socorrendo-me no Decreto-Lei nº 4.657, de 4 de setembro de 1942, em seu artigo 3º, entendo que não cabe falar de revogação tácita do § 4º, do art. 8º, da Lei nº 10.925/2004, conforme podemos determinar pela leitura do art. 2º, da Lei de Introdução ao Direito Brasileiro, abaixo reproduzido. Art. 2º Não se destinando à vigência temporária, a lei terá vigor até que outra a modifique ou revogue. § 1º A lei posterior revoga a anterior quando expressamente o declare, quando seja com ela incompatível ou quando regule inteiramente a matéria de que tratava a lei anterior. § 2º A lei nova, que estabeleça disposições gerais ou especiais a par das já existentes, não revoga nem modifica a lei anterior. § 3º Salvo disposição em contrário, a lei revogada não se restaura por ter a lei revogadora perdido a vigência. Por último, a exigência de estorno combatida em Recurso Voluntário e decorrente da IN SRF nº 660, de 17 de julho de 2006, de fato está direcionada à venda de produtos para servirem de insumos às cooperativas agropecuárias. Mas novamente temos de considerar o texto do caput do art. 8º, da Lei nº 10.925/2004, pois a exigência de aquisição de insumos refere-se exclusivamente à possibilidade de utilização de crédito presumido por cooperativas, mas a vedação ao aproveitamento do crédito básico decorre do § 4º, deste mesmo artigo, e é muito clara em relação aos cerealistas, de forma que valho-me dos fundamentos já discutidos acima neste voto. Fl. 1779DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-004.146 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13161.901536/2017-08 7 Diante de todo o exposto, voto por negar provimento ao Recurso Voluntário. Conclusão Importa registrar que as situações fática e jurídica destes autos se assemelham às verificadas na decisão paradigma, de sorte que as razões de decidir nela consignadas são aqui adotadas, não obstante os dados específicos do processo paradigma eventualmente citados neste voto. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do RICARF, reproduz-se o decidido no acórdão paradigma, no sentido de negar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Pedro Sousa Bispo – Presidente Redator Fl. 1780DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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Numero do processo: 10380.906145/2012-94
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jun 23 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Tue Sep 08 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2009 PAGAMENTO INDEVIDO. CRÉDITO RECONHECIDO. COMPENSAÇÃO. HOMOLOGAÇÃO. Comprovado o pagamento feito a maior é de se reconhecer o direito creditório pleiteado nos termos do art 165, Inciso I, do CTN e homologar as compensações declaradas em Dcomp até o limite do crédito reconhecido.
Numero da decisão: 1402-007.782
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, conhecer do Recurso Voluntário e dar-lhe provimento, para reconhecer o direito creditório no valor de R$ 139.883,02 e homologar as compensações declaradas até o limite do montante reconhecido. Assinado Digitalmente Alexandre Iabrudi Catunda - Relator Assinado Digitalmente Sandro de Vargas Serpa - Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Alexandre Iabrudi Catunda, Mauritânia Elvira de Sousa Mendonca, Rafael Zedral, Ricardo Piza Di Giovanni, Sandro de Vargas Serpa (Presidente), Maria Angelica Echer Ferreira Feijo (substituta integral).
Nome do relator: ALEXANDRE IABRUDI CATUNDA

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CRÉDITO RECONHECIDO. COMPENSAÇÃO. HOMOLOGAÇÃO. Comprovado o pagamento feito a maior é de se reconhecer o direito creditório pleiteado nos termos do art 165, Inciso I, do CTN e homologar as compensações declaradas em Dcomp até o limite do crédito reconhecido. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, conhecer do Recurso Voluntário e dar-lhe provimento, para reconhecer o direito creditório no valor de R$ 139.883,02 e homologar as compensações declaradas até o limite do montante reconhecido. Assinado Digitalmente Alexandre Iabrudi Catunda – Relator Assinado Digitalmente Sandro de Vargas Serpa – Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Alexandre Iabrudi Catunda, Mauritânia Elvira de Sousa Mendonca, Rafael Zedral, Ricardo Piza Di Giovanni, Sandro de Vargas Serpa (Presidente), Maria Angelica Echer Ferreira Feijo (substituta integral). Fl. 329DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.782 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10380.906145/2012-94 2 RELATÓRIO Por bem descrever os fatos, adoto o relatório elaborado pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Juiz de Fora (MG). Ao final, farei as complementações necessárias: Trata o presente processo da DCOMP eletrônica nº 42011.54882.300311.1.3.048706, transmitida com objetivo de declarar a compensação do(s) débito(s) nela apontado(s), com crédito proveniente de pagamento indevido ou a maior, relativo ao DARF no valor de R$ 9.501.530,53, recolhido em 31/03/2010. A matéria foi objeto de decisão proferida por intermédio do Despacho Decisório eletrônico, no qual a Delegacia de origem, após constatar a improcedência do crédito original informado no PER/DCOMP, não reconheceu o valor do crédito pretendido e decidiu NÃO HOMOLOGAR a compensação declarada. Regularmente cientificada da não homologação, a contribuinte protocolou suas contrarrazões alegando haver transmitido DCTF retificadora na qual há a confirmação de seu crédito e que o quantum informado e pleiteado no PER/DCOMP é suficiente para a compensação do(s) débito(s) declarado(s). Em 31 de janeiro de 2014, a Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Juiz de Fora (MG) negou provimento à manifestação de inconformidade. A decisão recebeu a seguinte ementa: ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA Ano-calendário: 2010 COMPENSAÇÃO. NECESSIDADE DE DCTF ANTERIOR À TRANSMISSÃO DA DCOMP. A compensação pressupõe a existência de direito creditório líquido e certo, direito esse evidenciado na DCTF anterior ou, no máximo, contemporânea à Dcomp. PEDIDO DE PERÍCIA É de se indeferir o pedido de perícia quando considerada prescindível à solução do litígio. Cientificada (fls.70), a contribuinte interpôs o recurso voluntário de fls. 72/102, no qual reitera as alegações já suscitadas quando da manifestação de inconformidade e requer a juntada dos documentos de fls. 104/161 para comprovação do crédito pleiteado. Em sessão realizada no dia 22/06/2023, esta Turma converteu o julgamento do recurso voluntário em diligência, Resolução nº 1402-001.755, para que a DRF de origem informe a correção do direito creditório alegado pelo contribuinte, intimando-o para juntada de documentação que entender necessária. Em seguida, intimar o contribuinte para querendo, se manifestar, no prazo de 30 dias. Os resultados da diligência realizada foram apostos na Informação Fiscal nº 2.126/2024 /EQAUD-DEVAT03/DRF TERESINA, fl 307. Fl. 330DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.782 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10380.906145/2012-94 3 Após ciência da citada informação fiscal a recorrente apresenta sua manifestação às fls 316/319. Concluída a diligência, após a manifestação da recorrente sobre seus resultados os autos retornaram a essa Turma para prosseguimento do julgamento. VOTO Conselheiro Alexandre Iabrudi Catunda, Relator Da tempestividade e admissibilidade O recurso voluntário é tempestivo e, por possuir todos os requisitos para sua admissibilidade, dele tomo conhecimento. Do mérito Conforme exposto no relatório, trata o presente processo DCOMP eletrônica nº 42011.54882.300311.1.3.048706, transmitida com objetivo de declarar a compensação do(s) débito(s) nela apontado(s), com crédito proveniente de pagamento indevido ou a maior, relativo ao DARF no valor de R$ 9.501.530,53, recolhido em 31/03/2010. A matéria foi objeto de decisão proferida por intermédio do Despacho Decisório eletrônico, no qual a Delegacia de origem, após constatar a improcedência do crédito original informado no PER/DCOMP, não reconheceu o valor do crédito pretendido e decidiu NÃO HOMOLOGAR a compensação declarada. Regularmente cientificada da não homologação, a contribuinte protocolou manifestação de inconformidade alegando haver transmitido DCTF retificadora na qual há a confirmação de seu crédito e que o quantum informado e pleiteado no PER/DCOMP é suficiente para a compensação do(s) débito(s) declarado(s). A decisão recorrida negou provimento à manifestação de inconformidade apresentada pela contribuinte por entender que a DCTF constitui confissão de dívida não podendo ser retificada após o despacho decisório e que a demonstração do erro deveria estar comprovada pelos documentos contábeis não bastando a mera retificação da DCTF. Confira-se: O caso dos autos trata de suposto excesso de pagamento de crédito tributário constituído por declaração do próprio contribuinte: a DCTF. Nesses casos, a apuração de tributos é realizada na contabilidade do contribuinte, sendo seu valor informado à Administração Tributária por meio de DCTF (Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais), declaração que constitui confissão de dívida nos termos do artigo 5º, § 1º, do Decreto-lei nº 2.124/84, que dispõe que “o documento que formalizar o cumprimento de obrigação acessória, comunicando a existência de crédito tributário, constituirá confissão de dívida e instrumento hábil e suficiente para a exigência do referido crédito”. Fl. 331DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.782 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10380.906145/2012-94 4 Além de confessar o débito nos valores constantes da DCTF, o contribuinte tomou a iniciativa de quitá-lo via pagamento do montante integral. Nesse caso, é incontestável que, segundo as informações constantes da DCTF apresentada pelo contribuinte até a data entrega do PER/DCOMP, não havia pagamento a maior ou indevido que respaldasse o crédito utilizado na compensação. Após a transmissão do formulário PERDCOMP que se analisa, a interessada tomou a iniciativa de retificar sua DCTF, reduzindo o valor do débito declarado. Resta então avaliar se a simples retificação da DCTF é suficiente para comprovação do direito da requerente ou se pode o julgador, ao analisar o caso concreto, manter o indeferimento do direito creditório pretendido quando essa retificação não vem acompanhada de provas que atestem o cometimento de erro no preenchimento da DCTF retificada. Analisando o tema sob o prisma das normas regulamentares que tratam da DCTF e da DCOMP encontramos um aparente conflito. Se por um lado a norma que regula a DCTF informa que a retificadora “terá a mesma natureza da declaração originariamente apresentada e servirá para declarar novos débitos, aumentar ou reduzir os valores de débitos já informados ou efetivar qualquer alteração nos créditos vinculados” (grifei), por outro lado a norma que regula a Declaração de Compensação estabelece que “a autoridade da RFB competente para decidir sobre a restituição, o ressarcimento, o reembolso e a compensação poderá condicionar o reconhecimento do direito creditório à apresentação de documentos comprobatórios do referido direito”. Naturalmente, com a instauração do litígio, a competência para decisão acerca do pedido da contribuinte se transfere para a DRJ e a apresentação dos documentos comprobatórios deve se dar no momento processual fixado pelo art. 16, do Decreto nº 70.235/72. Podemos citar, de forma não exaustiva, alguns fundamentos jurídicos capazes de justificar com bastante robustez a aplicação da disposição regulamentar que garante à autoridade competente o poder-dever de buscar a comprovação da existência de erro no preenchimento da DCTF retificada, para só então reconhecer a existência do direito creditório invocado: O primeiro desses fundamentos é a incerteza quanto a existência do crédito pretendido. Antes da retificação da DCTF havia um débito declarado, cujo valor fora confirmado pelo pagamento, ou seja, havia, de certa forma, uma dupla afirmação do sujeito passivo quanto á existência daquele débito e naquele valor exato. As circunstâncias em que se deu a retificação faz com que o crédito que o sujeito passivo alega ter contra o fisco fique carente dos requisitos essenciais da liquidez e certeza; Ainda a favor da aplicação da norma estatuída na regulamentação da Dcomp, citada acima, milita o princípio da supremacia do interesse público e da indisponibilidade do crédito tributário. É evidente que as normas mencionadas carregam consigo um conflito de interesses entre o Estado e o contribuinte, conflito que se resolve pela aplicação da norma que garante maior Fl. 332DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.782 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10380.906145/2012-94 5 proteção ao interesse público e ao crédito tributário, que no caso está sendo reduzido com a retificação da DCTF. Temos que ter em mente que esse procedimento de aferição da liquidez e certeza do crédito buscado pela manifestante não é um procedimento de homologação, ou não homologação, do lançamento realizado pela contribuinte. Trata-se, na verdade, de um ato em que a Administração busca a comprovação da existência do direito creditório passível de restituição para ao final homologar, ou não, a Declaração de Compensação. (...)Ficou claro, então, que é totalmente regular, e até mesmo obrigatório, o ato de buscar nos autos a comprovação da liquidez e certeza do crédito solicitado em restituição, cabendo ao interessado, uma vez que nos encontramos no rito do PAF, carrear aos autos a prova de que cometeu erro de preenchimento na DCTF original e que o valor efetivamente devido é aquele declarado na DCTF retificadora (entregue após a transmissão do PER/DCOMP). Entretanto, a contribuinte limitou-se a apresentar a DCTF retificadora e a informar que o crédito decorre da retificação da DCTF. Nada mais foi trazido, como, por exemplo, escrituração contábil ou quaisquer outros documentos fiscais hábeis e idôneos que demonstrassem a liquidez e certeza do direito creditório pretendido. No presente caso, somente a apresentação de documentos integrantes da escrituração contábil e fiscal da empresa poderiam comprovar o montante do tributo devido no período, e que, desta forma, o pagamento indevido ou a maior efetuado em DARF daria ao interessado crédito passível de ser compensado. São os livros fiscais e contábeis mantidos pelo contribuinte, os elementos capazes de fornecer à Fazenda Nacional conteúdo substancial juridicamente válido para a busca da verdade material. A Recorrente, em seu recurso voluntário, alega que recolheu o valor de R$ 9.352.820,69 à título de IRPJ do exercício. Entretanto, realizada a revisão dos seus lançamentos contábeis para o período detectou erros na apuração do valor devido declarado em sua DCTF. Assim, da análise da apuração constante da DIPJ, corroborada pelos seus lançamentos contábeis, verificou crédito no valor originário de R$ 139.883,02, efetuando a compensação do valor atualizado de R$ 153.955,55. No entanto, em razão da ausência de retificação do valor original a receita ao fazer o cruzamento do valor do DARF com a DCTF original não homologou a compensação. Intimada do despacho decisório apresentou manifestação de inconformidade na qual juntou a DCTF retificadora para comprovação do crédito. A DRJ/JFA, no entanto, indeferiu a manifestação por entender que a mera apresentação da DCTF retificadora não seria suficiente para comprovar o crédito. Irresignada a Recorrente apresentou o recurso voluntário, no qual juntou os seguintes documentos: Fl. 333DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.782 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10380.906145/2012-94 6 a) Planilha de apuração do IRPJ do Ano-calendário 2009; b) Parte A do Lalur 2009; c) Informações apresentadas nas DIRF das fontes pagadoras relativas ao ano- calendário de 2009; d) Lançamentos contábeis do IRPJ do Ano-calendário de 2009; e) Planilha de atualização pela SELIC do crédito pleiteado. Esse conselho tem se manifestado favoravelmente a possibilidade da apresentação da DCTF após ter sido proferido r. Despacho Decisório, em respeito ao princípio da busca da verdade material, desde que acompanhada de documentos contábeis que comprovem o erro de fato (erro material) cometido e o direito creditório, conforme se verifica pelo teor da Súmula CARF nº 168 abaixo transcrita: Súmula CARF nº 168 Mesmo após a ciência do despacho decisório, a comprovação de inexatidão material no preenchimento da DCOMP permite retomar a análise do direito creditório. Além disso, o Parecer Normativo COSIT nº 2, de 28 de agosto de 2015 autoriza a retificação da DCTF, desde que as informações não conflitem com outras declarações prestadas à RFB tal como a DIPJ, por exemplo. Confira-se: Assunto. NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO.RETIFICAÇÃO DA DCTF DEPOIS DA TRANSMISSÃO DO PER/DCOMP E CIÊNCIA DO DESPACHO DECISÓRIO. POSSIBILIDADE. IMPRESCINDIBILIDADE DA RETIFICAÇÃO DA DCTF PARA COMPROVAÇÃO DO PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. As informações declaradas em DCTF – original ou retificadora – que confirmam disponibilidade de direito creditório utilizado em PER/DCOMP, podem tornar o crédito apto a ser objeto de PER/DCOMP desde que não sejam diferentes das informações prestadas à RFB em outras declarações, tais como DIPJ e Dacon, por força do disposto no§ 6º do art. 9º da IN RFB nº 1.110, de 2010, sem prejuízo, no caso concreto, da competência da autoridade fiscal para analisar outras questões ou documentos com o fim de decidir sobre o indébito tributário. Não há impedimento para que a DCTF seja retificada depois de apresentado o PER/DCOMP que utiliza como crédito pagamento inteiramente alocado na DCTF original, ainda que a retificação se dê depois do indeferimento do pedido ou da não homologação da compensação, respeitadas as restrições impostas pela IN RFB nº 1.110, de 2010. Retificada a DCTF depois do despacho decisório, e apresentada manifestação de inconformidade tempestiva contra o indeferimento do PER ou contra a não homologação da DCOMP, a DRJ poderá baixar em diligência à DRF. Caso se refira apenas a erro de fato, e a revisão do despacho decisório implique o deferimento Fl. 334DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.782 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10380.906145/2012-94 7 integral daquele crédito (ou homologação integral da DCOMP), cabe à DRF assim proceder. Caso haja questão de direito a ser decidida ou a revisão seja parcial, compete ao órgão julgador administrativo decidir a lide, sem prejuízo de renúncia à instância administrativa por parte do sujeito passivo. O procedimento de retificação de DCTF suspenso para análise por parte da RFB, conforme art. 9º-A da IN RFB nº 1.110, de 2010, e que tenha sido objeto de PER/DCOMP, deve ser considerado no julgamento referente ao indeferimento/não homologação do PER/DCOMP. Caso o procedimento de retificação de DCTF se encerre com a sua homologação, o julgamento referente ao direito creditório cuja lide tenha o mesmo objeto fica prejudicado, devendo o processo ser baixado para a revisão do despacho decisório. Caso o procedimento de retificação de DCTF se encerre com a não homologação de sua retificação, o processo do recurso contra tal ato administrativo deve, por continência, ser apensado ao processo administrativo fiscal referente ao direito creditório, cabendo à DRJ analisar toda a lide. Não ocorrendo recurso contra a não homologação da retificação da DCTF, a autoridade administrativa deve comunicar o resultado de sua análise à DRJ para que essa informação seja considerada na análise da manifestação de inconformidade contra o indeferimento/não- homologação do PER/DCOMP. A não retificação da DCTF pelo sujeito passivo impedido de fazê-la em decorrência de alguma restrição contida na IN RFB nº 1.110, de 2010, não impede que o crédito informado em PER/DCOMP, e ainda não decaído, seja comprovado por outros meios. O valor objeto de PER/DCOMP indeferido/não homologado, que venha a se tornar disponível depois de retificada a DCTF, não poderá ser objeto de nova compensação, por força da vedação contida no inciso VI do § 3º do art. 74 da Lei nº 9.430, de 1996. Retificada a DCTF e sendo intempestiva a manifestação de inconformidade, a análise do pedido de revisão de ofício do PER/DCOMP compete à autoridade administrativa de jurisdição do sujeito passivo, observadas as restrições do Parecer Normativo nº 8, de 3 de setembro de 2014, itens 46 a 53. Em razão da documentação acostada aos autos pela recorrente e pelos dispositivos acima citados esta Turma converteu o julgamento em diligência para que a DRF de origem informasse a correção do direito creditório alegado pelo contribuinte. Os resultados da diligência efetuada foram consubstanciados no Informação Fiscal nº 2.126/2024 /EQAUD-DEVAT03/DRF TERESINA, fls 307/309, corroborando as alegações da recorrente e confirmando o pagamento a maior de IRPJ efetuado no ano calendário de 2009, nos seguintes termos: Relatório de Diligência A 2ª Turma da Primeira Seção de Julgamento do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais determinou a realização de diligência para que a DRF de origem informe a correção do direito creditório alegado pelo contribuinte, intimando-o Fl. 335DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.782 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10380.906145/2012-94 8 para juntada de documentação que entender necessária e em seguida intimar o contribuinte para querendo, se manifestar, no prazo de 30 dias. No caso, se trata de crédito de pagamento a maior referente ao pagamento de DARF referente a IRPJ do ano calendário 2009, exercício 2010, indeferido por improcedência do crédito. O contribuinte alega que transmitiu a DCTF retificadora após a emissão do despacho decisório e que o quantum informado e pleiteado no PER/DCOMP é suficiente para compensação do débito declarado. A Recorrente, em seu recurso voluntário, alega que recolheu o valor de R$ 9.352.820,69 à título de IRPJ do exercício. Entretanto, realizada a revisão dos seus lançamentos contábeis para o período detectou erros na apuração do valor devido declarado em sua DCTF. Assim, da análise da apuração constante da DIPJ, corroborada pelos seus lançamentos contábeis, verificou crédito no valor originário de R$ 139.883,02, efetuando a compensação do valor atualizado de R$ 153.955,55. No entanto, em razão da ausência de retificação do valor original a receita ao fazer o cruzamento do valor do DARF com a DCTF original não homologou a compensação. Intimada do despacho decisório apresentou manifestação de inconformidade na qual juntou a DCTF retificadora para comprovação do crédito. A DRF, no entanto, indeferiu a manifestação por entender que a mera apresentação da DCTF retificadora não seria suficiente para comprovar o crédito. Irresignada a Recorrente apresentou o recurso voluntário, no qual juntou os seguintes documentos: a) Planilha de apuração do IRPJ do Ano-calendário 2009; b) Parte A do Lalur 2009; c) Informações apresentadas nas DIRF das fonte pagadoras relativas ao anocalendário de 2009; d) Lançamentos contábeis do IRPJ do Ano-calendário de 2009; e) Planilha de atualização pela SELIC do crédito pleiteado. Foram anexadas DIPJ original e retificadora, DCTF´s do pagamento do DARF pleiteado e estimativas e o relatório da DIRF atualizado, para análise juntamente com os documentos anexados pelo próprio contribuinte. O pagamento se refere ao IRPJ anual, portanto para verificar a correção do direito creditório deve ser verificado a apuração na DIPJ retificadora ativa, quanto ao alcance da auditoria realizada, no presente caso, por se tratar de caso similar a uma apuração de saldo negativo e que a auditoria de créditos para reconhecimento do direito creditório relacionado a declaração de compensação está disciplinada pela Portaria Conjunta Suara/Sufis nº 1, de 21 de dezembro de Fl. 336DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.782 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10380.906145/2012-94 9 2016, será feita uma análise com base na Auditoria de Conformidade mais simplificada. Portanto a análise partirá da DIPJ retificadora - Ficha 12 A - Cálculo do Imposto de Renda sobre o Lucro Real - P J em Geral - tendo em vista que serão analisados apenas os valores de imposto de renda retido na fonte e as antecipações de estimativas, no pressuposto que o restante dos valores será considerado correto, pois sua apuração demandaria uma auditoria detalhada que foge do escopo da diligência. Os valores de imposto de renda retido na fonte estão corretos conforme Relatório da DIRF atualizado, quanto aos valores de antecipação de estimativas, em março e junho de 2009 ocorreram divergências entre os valores de DCTF e pagamentos, porém os pagamentos a maior não foram objeto de PER/DCOMP, logo foram confirmados o imposto de renda mensal pago por estimativa. Diante do exposto, o valor de Imposto de Renda a pagar é R$ 9.212.937,67, portanto houve pagamento a maior no período de R$ 139.883,02, pois o valor principal pago foi R$ 9.352.820,69. Pelo que consta no relatório de diligência acima colacionado a recorrente apurou no ano calendário de 2009 o valor de R$ 34.908.695,02 de IRPJ devido, confirma os montantes de Fl. 337DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1402-007.782 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10380.906145/2012-94 10 R$ 10.031.443,23 de IRRF e R$ 10.386.870,27 de pagamento antecipado por estimativa. Além disso, reputa como correto as demais informações constantes na DIPJ. Assim, conclui o relatório que o total de IRPJ a pagar foi de R$ 9.212.937,67, enquanto o valor pago foi de R$ 9.352.820,69, resultando em um pagamento a maior de R$ 139.883,02. conforme requer a recorrente. Desta forma é de se confirmar o direito creditório, nos termos do art 165 do CTN1, conforme requer a recorrente. Conclusão Sendo assim, por todo o exposto, voto por dar provimento ao recurso voluntário para reconhecer o direito creditório no valor de R$ 139.883,02 e homologar as compensações declaradas até o limite do montante reconhecido. Assinado Digitalmente Alexandre Iabrudi Catunda 1 Art. 165. O sujeito passivo tem direito, independentemente de prévio protesto, à restituição total ou parcial do tributo, seja qual fôr a modalidade do seu pagamento, ressalvado o disposto no § 4º do art. 162, nos seguintes casos: I - cobrança ou pagamento espontâneo de tributo indevido ou maior que o devido em face da legislação tributária aplicável, ou da natureza ou circunstâncias materiais do fato gerador efetivamente ocorrido; Fl. 338DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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