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11510189 #
Numero do processo: 10880.726022/2011-50
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Aug 12 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Wed Sep 23 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2006 RECURSO VOLUNTÁRIO. INTEMPESTIVIDADE. NÃO CONHECIMENTO. Não se conhece de recurso voluntário apresentado após o prazo de 30 dias previsto no art. 33 do Decreto n. 70.235/1972.
Numero da decisão: 2302-004.658
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade votos, em não conhecer do Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Angélica Carolina Oliveira Duarte Toledo - Relator Assinado Digitalmente Johnny Wilson Araujo Cavalcanti - Presidente Participaram do presente julgamento os conselheiros Angelica Carolina Oliveira Duarte Toledo, Maria Auxiliadora de Sousa Ramalho Fonseca (substituto[a] integral), Roberto Carvalho Veloso Filho, Rosane Beatriz Jachimovski Danilevicz, Weber Allak da Silva(substituto[a] integral), Johnny Wilson Araujo Cavalcanti (Presidente) Ausente(s) o conselheiro(a) Rosimery Brandao Barbosa, substituído(a) pelo(a) conselheiro(a)Weber Allak da Silva, o conselheiro(a) Alfredo Jorge Madeira Rosa, substituído(a)pelo(a) conselheiro(a) Maria Auxiliadora de Sousa Ramalho Fonseca.
Nome do relator: ANGELICA CAROLINA OLIVEIRA DUARTE TOLEDO

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INTEMPESTIVIDADE. NÃO CONHECIMENTO. Não se conhece de recurso voluntário apresentado após o prazo de 30 dias previsto no art. 33 do Decreto n. 70.235/1972. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade votos, em não conhecer do Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Angélica Carolina Oliveira Duarte Toledo – Relator Assinado Digitalmente Johnny Wilson Araujo Cavalcanti – Presidente Participaram do presente julgamento os conselheiros Angelica Carolina Oliveira Duarte Toledo, Maria Auxiliadora de Sousa Ramalho Fonseca (substituto[a] integral), Roberto Carvalho Veloso Filho, Rosane Beatriz Jachimovski Danilevicz, Weber Allak da Silva(substituto[a] integral), Johnny Wilson Araujo Cavalcanti (Presidente) Ausente(s) o conselheiro(a) Rosimery Brandao Barbosa, substituído(a) pelo(a) conselheiro(a)Weber Allak da Silva, o conselheiro(a) Alfredo Jorge Madeira Rosa, substituído(a)pelo(a) conselheiro(a) Maria Auxiliadora de Sousa Ramalho Fonseca. Fl. 53DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.658 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10880.726022/2011-50 2 RELATÓRIO Reproduzo trecho do relatório da decisão de piso, que bem descreve o processo (e- fls. 28/32): Trata-se de Impugnação, fl. 2, em resistência à Notificação de Lançamento 2007/608451427644179, fls. 3/6, que constituiu o crédito tributário suplementar no valor total de R$ 2.866,82 em relação ao IRPF (Imposto sobre a Renda da Pessoa Física) relativo ao anocalendário de 2006, exercício 2007, em razão da dedução indevida de despesas médicas no valor de R$ 11.167,20. Em sua Impugnação o Interessado justifica que “A despesa foi lançada incorretamente e assim que verificado o erro promovi a pronta retificação”. Em nova manifestação, fl. 15, em resposta ao Termo de Intimação que solicitou a apresentação de “Comprovantes originais e cópia das despesas médicas, com a identificação do paciente, o Impugnante esclarece que: “Constatei que houve incorreção no preenchimento das despesas médicas. Também há erro na informação de contribuições previdenciárias e despesas com instruções. Diante disso, junto declaração retificadora, pedindo substituição à declaração anterior”. Os autos foram encaminhados à DRJ e os membros da 4ª Turma da DRJ/BEL, por unanimidade de votos, julgaram improcedente a impugnação, mantendo o crédito tributário exigido. Cientificado do acórdão, o recorrente apresentou recurso voluntário (e-fls. 42/49), alegando, entre outros, a tempestividade do recurso. É o relatório. VOTO Conselheira Angélica Carolina Oliveira Duarte Toledo, Relatora. 1 CONHECIMENTO Nos termos do art. 33 do Decreto n. 70.235/1972, da decisão de primeira instância cabe recurso voluntário, total ou parcial, com efeito suspensivo, no prazo de 30 dias, contado da ciência da decisão. Fl. 54DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.658 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10880.726022/2011-50 3 A contagem dos prazos no processo administrativo fiscal observa o disposto no art. 5º do Decreto n. 70.235/1972, segundo o qual os prazos são contínuos, excluindo-se na contagem o dia do início e incluindo-se o do vencimento. O parágrafo único do referido dispositivo estabelece, ainda, que os prazos só se iniciam ou vencem em dia de expediente normal no órgão em que corra o processo ou em que deva ser praticado o ato. No caso concreto, a ciência da decisão recorrida ocorreu em 04/06/2021 (e-fl. 38). Excluído o dia da ciência, o prazo recursal iniciou-se em 05/06/2021. O trigésimo dia recaiu em 04/07/2021, domingo, razão pela qual o termo final foi prorrogado para o primeiro dia útil subsequente, 05/07/2021. Ocorre que o recurso voluntário somente foi apresentado em 16/07/2021, conforme Termo de Análise de Solicitação de Juntada, no qual consta que foi registrada a solicitação de juntada dos documentos identificados como Recurso Voluntário (e-fl. 41). Verifica-se, portanto, que o recurso foi apresentado após o término do prazo legal de 30 dias previsto no art. 33 do Decreto n. 70.235/1972. Registre-se, ainda, que antes mesmo da juntada do recurso voluntário foi expedido Termo de Perempção, em 15/07/2021, consignando o decurso do prazo recursal sem apresentação tempestiva de recurso voluntário (e-fl. 39). Assim, tendo em vista que a ciência ocorreu em 04/06/2021, que o prazo recursal encerrou-se em 05/07/2021 e que o recurso voluntário somente foi apresentado em 16/07/2021, resta caracterizada sua intempestividade. 2 CONCLUSÃO Diante do exposto, voto por não conhecer do Recurso Voluntário, vez que intempestivo. Assinado Digitalmente Angélica Carolina Oliveira Duarte Toledo Fl. 55DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto 1 conhecimento 2 Conclusão

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Numero do processo: 10830.906704/2010-59
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Aug 24 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Sun Sep 27 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2005 EMBARGOS INOMINADOS. INEXATIDÃO MATERIAL DEVIDA A LAPSO MANIFESTO. JULGAMENTO SOB A SISTEMÁTICA DE RECURSOS REPETITIVOS. TRANSCRIÇÃO DE DADOS DO PROCESSO PARADIGMA. ART. 117 DO RICARF. PROLAÇÃO DE NOVO ACÓRDÃO. A referência, na ementa, no relatório e em passagens factuais do voto, a saldo negativo de CSLL, DCOMP, valores e períodos próprios do processo paradigma, quando estes autos versam sobre saldo negativo de IRPJ do ano-calendário de 2005, configura erro material objetivamente verificável e deve ser corrigida mediante novo acórdão. CORREÇÃO SEM EFEITOS INFRINGENTES. SÚMULA CARF Nº 177. PRESERVAÇÃO DO RESULTADO. Preservam-se a razão jurídica e o resultado que reconheceram a integração, ao saldo negativo de IRPJ, das estimativas compensadas e confessadas mediante DCOMP, sem nova quantificação do direito creditório.
Numero da decisão: 1302-008.045
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer dos embargos e acolhê-los, sem efeitos infringentes, nos termos do relatório e voto da relatora. Assinatura Digital Natália Uchôa Brandão - Relatora Assinatura Digital Sérgio Magalhães Lima - Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Ana Elizabeth Kwen, Henrique Nimer Chamas, Paulo Elias da Silva Filho, Miriam Costa Faccin, Natália Uchôa Brandão, Sérgio Magalhães Lima (Presidente).
Nome do relator: NATALIA UCHOA BRANDAO

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INEXATIDÃO MATERIAL DEVIDA A LAPSO MANIFESTO. JULGAMENTO SOB A SISTEMÁTICA DE RECURSOS REPETITIVOS. TRANSCRIÇÃO DE DADOS DO PROCESSO PARADIGMA. ART. 117 DO RICARF. PROLAÇÃO DE NOVO ACÓRDÃO. A referência, na ementa, no relatório e em passagens factuais do voto, a saldo negativo de CSLL, DCOMP, valores e períodos próprios do processo paradigma, quando estes autos versam sobre saldo negativo de IRPJ do ano-calendário de 2005, configura erro material objetivamente verificável e deve ser corrigida mediante novo acórdão. CORREÇÃO SEM EFEITOS INFRINGENTES. SÚMULA CARF Nº 177. PRESERVAÇÃO DO RESULTADO. Preservam-se a razão jurídica e o resultado que reconheceram a integração, ao saldo negativo de IRPJ, das estimativas compensadas e confessadas mediante DCOMP, sem nova quantificação do direito creditório. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer dos embargos e acolhê-los, sem efeitos infringentes, nos termos do relatório e voto da relatora. Assinatura Digital Natália Uchôa Brandão – Relatora Fl. 421DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1302-008.045 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10830.906704/2010-59 2 Assinatura Digital Sérgio Magalhães Lima – Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Ana Elizabeth Kwen, Henrique Nimer Chamas, Paulo Elias da Silva Filho, Miriam Costa Faccin, Natália Uchôa Brandão, Sérgio Magalhães Lima (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de Embargos Inominados em que recorre a Fazenda Nacional relativos ao Acórdão nº 1302-007.074, proferido pela Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção do CARF na sessão de 09/04/2024, no julgamento do Recurso Voluntário interposto por Transitions Optical do Brasil Ltda., atualmente sucedida por incorporação pela Essilor da Amazônia Indústria e Comércio Ltda. O processo originou-se da Declaração de Compensação nº 23224.11412.280306.1.7.02-4080, transmitida em 28/03/2006, com demonstrativo de crédito de saldo negativo de IRPJ apurado no ano-calendário de 2005, no valor originalmente informado de R$ 310.364,64. O crédito também foi utilizado na DCOMP nº 39314.99089.280306.1.3.02-2010. O Despacho Decisório nº 880578874 não reconheceu saldo negativo disponível e não homologou as compensações, apurando principal de R$ 318.552,50 relativo aos débitos considerados indevidamente compensados, conforme e-fls. 32/36: Fl. 422DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1302-008.045 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10830.906704/2010-59 3 Na Manifestação de Inconformidade de e-fls. 2/30, a contribuinte alegou, em síntese, que a análise eletrônica não considerara a integralidade dos pagamentos, das retenções na fonte e das estimativas extintas por compensação; sustentou que as DCOMP vinculadas às estimativas produziam os efeitos previstos no art. 74 da Lei nº 9.430/1996; requereu a nulidade ou reforma do despacho decisório e, subsidiariamente, a realização de diligência e prova pericial. A Sétima Turma da DRJ/BSB, por meio do Acórdão nº 03-79.236, de 22/03/2018, julgou improcedente a manifestação e não reconheceu o direito creditório. A decisão confirmou pagamentos de estimativas de IRPJ no total de R$ 2.849.980,89 e retenção na fonte de R$ 41.837,72, totalizando R$ 2.891.818,61, mas atribuiu valor zero às estimativas compensadas. Como o IRPJ devido no encerramento do período era de R$ 2.964.745,78, concluiu inexistir saldo negativo disponível, nos termos de e-fls. 187/192. Cientificada, a interessada interpôs Recurso Voluntário, juntado às e-fls. 199/217, no qual reiterou a nulidade da decisão de primeira instância, a necessidade de considerar as estimativas compensadas na composição do saldo negativo e o pedido de reconhecimento do direito creditório, formulando, subsidiariamente, requerimento de diligência e prova pericial. O processo foi vinculado, para julgamento sob a sistemática dos recursos repetitivos então prevista no art. 87 do RICARF, ao processo paradigma nº 10830.903046/2010-43. No Acórdão nº 1302-007.074, esta Turma rejeitou, por unanimidade, a preliminar de nulidade e, no mérito, deu provimento ao Recurso Voluntário para reconhecer o direito creditório relativo ao saldo negativo pleiteado e homologar as compensações até o limite do crédito reconhecido, conforme e-fls. 399/404. Fl. 423DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1302-008.045 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10830.906704/2010-59 4 Ao retornar à unidade encarregada da execução, foi observado que o acórdão se referia a saldo negativo de CSLL, à DCOMP nº 19371.48331.240206.1.3.03-2390 e a valores próprios do processo paradigma, embora o presente feito verse sobre saldo negativo de IRPJ do ano-calendário de 2005. O processo foi devolvido ao CARF pelo despacho de e-fl. 414: Pelo Despacho nº 1302-000.001, de 29/12/2025, às e-fls. 417/419, o Presidente da Turma constatou o lapso manifesto, recepcionou o apontamento como Embargos Inominados, assumiu sua autoria, com fundamento no art. 117 do RICARF, e determinou novo sorteio, porque o redator original não mais integrava o colegiado. O encaminhamento para sorteio foi formalizado em 08/01/2026, à e-fl. 420. As telas cadastrais de e-fls. 411/413 registram que a Transitions Optical do Brasil Ltda., CNPJ nº 00.786.201/0001-66, foi baixada por incorporação em 29 de fevereiro de 2024, figurando como sucessora a Essilor da Amazônia Indústria e Comércio Ltda., CNPJ nº 54.612.650/0001-17. É o relatório. VOTO Conselheira Natália Uchôa Brandão, Relatora 1. Admissibilidade e delimitação do incidente Os Embargos Inominados foram admitidos pelo Presidente da Turma no Despacho nº 1302-000.001, às e-fls. 417/419, com determinação de novo sorteio à e-fl. 420. Presentes os pressupostos reconhecidos na fase própria de admissibilidade, deles conheço. A passagem central do despacho de admissibilidade merece transcrição, porque delimita com precisão o vício submetido ao colegiado: De fato, a controvérsia nestes autos envolve pedido de compensação com alegado crédito de saldo negativo de IRPJ do ano-calendário 2005, e o ‘PERDCOMP com demonstrativo de crédito’ é de número 23224.11412.280308.1.7.02-4080 [sic] [...]. Fl. 424DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1302-008.045 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10830.906704/2010-59 5 O acórdão nº 1302-007.074, ora embargado, incorre em lapso manifesto na ementa e no relatório, quando dá a entender que a discussão nestes autos envolve ‘saldo negativo de CSLL’ (era o caso da decisão paradigma reproduzida no voto, mas não no presente processo). Portanto, confirma-se lapso que necessita ser sanado. Conclusão Diante do exposto, com fundamento no art. 117 do RICARF aprovado pela Portaria MF nº 1.634/2023, assumo a autoria dos presentes Embargos Inominados, para que seja sanado o vício acima apontado. (Despacho nº 1302-000.001, e-fls. 418/419 – grifos no original) A grafia “280308”, preservada na transcrição, constitui lapso do próprio despacho de admissibilidade. O recibo e o inteiro teor da DCOMP indicam o número correto 23224.11412.280306.1.7.02-4080 (e-fls. 54/60). Nos termos do art. 1171 do RICARF, a inexatidão material devida a lapso manifesto deve ser corrigida mediante novo acórdão. O incidente não autoriza reabrir a instrução ou alterar a deliberação já tomada; destina-se a reconduzir o texto do julgado aos dados objetivos do processo. 2. Configuração do lapso manifesto O cotejo documental é direto. O Despacho Decisório identifica saldo negativo de IRPJ do ano-calendário de 2005 e as DCOMP final 4080 e final 2010 (e-fls. 32/36). Os documentos originários das declarações confirmam o mesmo tributo e período (e-fls. 54/60 e 72/76), a DIPJ apresenta a apuração anual do IRPJ (e-fls. 61/71, especialmente e-fl. 70), os DARF comprovam as estimativas recolhidas (e-fls. 77/86) e as DCTF de janeiro a março de 2005 individualizam pagamentos e compensações vinculados às estimativas (e-fls. 87/100). O Acórdão DRJ nº 03-79.236 igualmente examina saldo negativo de IRPJ (e-fls. 187/192): Do mérito A compensação é uma modalidade de extinção do crédito tributário prevista no art. 156, II, do Código Tributário Nacional – CTN, mediante a qual se promove o encontro de duas relações jurídicas: (i) a relação jurídica de indébito tributário, na 1 Art. 117. As alegações de inexatidão material devida a lapso manifesto ou de erro de escrita ou de cálculo existentes na decisão, suscitadas pelos legitimados a opor embargos, deverão ser recebidas como embargos, mediante a prolação de um novo acórdão. § 1º Será rejeitado de plano, por despacho irrecorrível do presidente, o requerimento que não demonstrar a inexatidão ou o erro. § 2º Caso o presidente entenda necessário, preliminarmente, será ouvido o conselheiro relator, ou outro designado, na impossibilidade daquele. § 3º Será dada ciência ao requerente do despacho que indeferir o requerimento previsto no caput. Fl. 425DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1302-008.045 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10830.906704/2010-59 6 qual o contribuinte tem o direito de exigir, e o Estado tem o dever de restituir determinada quantia ao contribuinte; e (ii) a relação jurídica tributária, na qual o Estado tem o direito de exigir, e o contribuinte o dever de recolher determinada quantia aos cofres públicos (crédito tributário). O reconhecimento de direito creditório contra a Fazenda Nacional exige averiguação da liquidez e certeza do suposto pagamento a maior de tributo, conforme preceitua o art. 170 do CTN, nos seguintes termos: Art. 170. A lei pode, nas condições e sob as garantias que estipular, ou cuja estipulação em cada caso atribuir à autoridade administrativa, autorizar a compensação de créditos tributários com créditos líquidos e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda pública. No caso em análise, as parcelas de composição do crédito informadas na DCOMP foram: Retenções na fonte: R$ 41.837,72 e Pagamentos: R$ 268.526,92 totalizando R$ 310.364,64, valor este equivalente, exatamente, ao do saldo negativo a que o contribuinte entendia ter direito. Do total de pagamentos, não foi confirmado no Despacho Decisório, o valor de R$ 77.009,56 relativo a parte do pagamento efetuado para o período de apuração 30/11/2005. Considerando-se que o IRPJ devido era de R$ 2.964.745,78, a soma das parcelas constitutivas do crédito eram insuficientes para a compensação pleiteada, motivo pelo qual houve a não homologação e a apuração de inexistência de saldo negativo disponível. Em sua peça de defesa, a contribuinte enfatiza a existência do crédito pleiteado e informa que os valores de estimativa mensal recolhidos atingem o montante de R$ 2.849.980,86, juntando aos autos os comprovantes de recolhimento e cópia da DIPJ 2006 – ano-calendário 2005. Da análise da documentação constante dos autos, verificou-se que:  DIPJ (fl. 70): a contribuinte declarou na DIPJ do período saldo negativo no montante de R$ 310.364,64, tendo sido deduzidas do imposto de renda apurado sobre o lucro real parcelas referentes ao Imposto de Renda mensal pago por estimativa (R$ 3.233.272,70) e retenções na fonte no montante de R$ 41.837,72; e  Documentos da Arrecadação: a contribuinte apresentou comprovantes de pagamentos de estimativa mensal de IRPJ referente ao ano-calendário de 2005 no valor de R$ 2.849.980,89, cujo recolhimento e alocação para o tributo e período de apuração correspondentes foram comprovados pela consulta aos sistemas internos da Receita Federal (fls. 185/186). Como as inexatidões materiais podem ser corrigidas de ofício ou a pedido do sujeito passivo (art. 149 do Código Tributário Nacional), resta claro que deve ser revista a declaração, que não contemplou todos os pagamentos efetuados pelo contribuinte. Fl. 426DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1302-008.045 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10830.906704/2010-59 7 O Acórdão nº 1302-007.074, entretanto, registrou “saldo negativo de CSLL”, indicou a DCOMP nº 19371.48331.240206.1.3.03-2390 e reproduziu o crédito de R$ 96.916,70, os pagamentos de R$ 1.063.461,25 e as compensações de R$ 110.587,90 (e-fls. 399/404): Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Exercício: 2005 COMPENSAÇÃO. SALDO NEGATIVO DE CSLL. ESTIMATIVAS DECLARADAS EM DCOMP E NÃO HOMOLOGADAS. COMPÕEM PARCELA DE SALDO NEGATIVO. SÚMULA CARF N° 177. Parcelas de estimativas compensadas, declaradas em DCOMP devem compor o saldo negativo de CSLL no ano-calendário 2005, ainda que não homologadas, nos termos da Súmula CARF n° 177, eis que no presente caso, a cobrança judicial está sendo realizada. Esses elementos pertencem ao processo paradigma nº 10830.903046/2010-43, como demonstram suas e-fls. 404/408. Houve, portanto, transposição textual de dados do paradigma, e não divergência de interpretação ou insuficiência probatória. A correção deve alcançar não apenas a ementa e o relatório, expressamente mencionados na admissibilidade, mas também as passagens do voto que individualizam tributo, DCOMP, períodos e valores estranhos aos autos. Essa extensão é consequência necessária do vício admitido e não modifica a razão jurídica, o resultado unânime ou o dispositivo do julgamento. 3. Jurisprudência aplicável A solução encontra apoio direto na jurisprudência do CARF. Transcrevem-se as ementas pertinentes dos precedentes mencionados: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. Ano-calendário: 2010. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. ERRO MATERIAL. PROVIMENTO. CORREÇÃO ACÓRDÃO EMBARGADO. As alegações de inexatidões materiais devidas a lapso manifesto e os erros de escrita ou de cálculo existentes na decisão, provocados pelos legitimados para opor embargos, deverão ser recebidos como embargos inominados para correção, mediante a prolação de um novo acórdão, nos termos do artigo 66 do Regimento Interno do CARF. (Acórdão nº 3401-013.995, processo nº 13984.900165/2013-21, sessão de 23/05/2025) ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO. EMBARGOS INOMINADOS. INEXATIDÃO MATERIAL. PROLAÇÃO DE NOVO ACÓRDÃO. As alegações de inexatidões materiais devidas a lapso manifesto e os erros de escrita ou de cálculo existentes na decisão, provocados pelos legitimados para opor embargos, deverão Fl. 427DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1302-008.045 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10830.906704/2010-59 8 ser recebidos como embargos inominados para correção, mediante a prolação de um novo acórdão. (Trecho pertinente da ementa do Acórdão nº 3301-002.765, processo nº 10711.005549/2004-60, sessão de 27/01/2016) ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS. Período de apuração: 01/01/2007 a 31/07/2007. EMBARGOS INOMINADOS. INEXATIDÃO MATERIAL DEVIDA A LAPSO MANIFESTO. INOCORRÊNCIA. Nos termos do art. 66 do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2015, os embargos inominados destinam-se à correção de inexatidões materiais devidas a lapso manifesto e os erros de escrita ou de cálculo existentes na decisão. (Acórdão nº 2402-012.085, processo nº 10380.011607/2007-26, sessão de 10/08/2023) Os acórdãos, portanto, autorizam a prolação de novo acórdão quando o texto não corresponde ao processo ou à deliberação efetivamente tomada. 4. Extensão da correção e aplicação da Súmula CARF nº 177 A razão jurídica do acórdão permanece válida. A DRJ atribuiu valor zero às estimativas extintas mediante compensação, apesar de as DCTF individualizarem as compensações dos débitos estimados de janeiro, fevereiro e março de 2005 (e-fls. 87/100), e concluiu pela inexistência de crédito a partir do quadro de e-fl. 191: O Quadro 1 a seguir apresenta novo cálculo dos valores referentes às parcelas de composição do crédito, tomando por base a análise efetuada neste Acórdão. Contudo, considerando que o IRPJ devido no período totaliza R$ 2.964.745,78, conclui-se que não há crédito para o fim de se reconhecer a existência de saldo negativo disponível. Conclusão Fl. 428DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1302-008.045 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10830.906704/2010-59 9 Diante do exposto, VOTO pela improcedência da Manifestação de Inconformidade e pelo não reconhecimento do direito creditório pleiteado. (grifos no original) A controvérsia jurídica é alcançada pela Súmula CARF nº 177: “Estimativas compensadas e confessadas mediante Declaração de Compensação (DCOMP) integram o saldo negativo de IRPJ ou CSLL ainda que não homologadas ou pendentes de homologação.” (Súmula CARF nº 177) O processo paradigma aplicou essa orientação sob a seguinte ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO (CSLL). Exercício: 2005. COMPENSAÇÃO. SALDO NEGATIVO DE CSLL. ESTIMATIVAS DECLARADAS EM DCOMP E NÃO HOMOLOGADAS. COMPÕEM PARCELA DE SALDO NEGATIVO. SÚMULA CARF Nº 177. Parcelas de estimativas compensadas, declaradas em DCOMP devem compor o saldo negativo de CSLL no ano-calendário 2005, ainda que não homologadas, nos termos da Súmula CARF nº 177, eis que no presente caso, a cobrança judicial está sendo realizada. (Acórdão nº 1302-007.074, processo paradigma nº 10830.903046/2010-43, e-fl. 404) Nestes autos, a mesma tese incide sobre o saldo negativo de IRPJ. A cobrança judicial mencionada no paradigma, às e-fls. 407/408 daquele processo, não integra o enunciado da Súmula nº 177 e não constitui requisito para sua aplicação. Basta que as estimativas tenham sido confessadas e compensadas, como demonstram as DCTF e as DCOMP vinculadas (e-fls. 87/100). As Súmulas CARF nºs 1682 e 1753 não alteram essa conclusão, porque não se pretende corrigir a natureza do crédito declarada pelo contribuinte: desde a origem, as DCOMP indicam saldo negativo de IRPJ (e-fls. 54/60 e 72/76). A questão é exclusivamente a inclusão das estimativas compensadas na apuração anual. A retificação, todavia, não deve fixar novo valor de crédito. A DIPJ informa saldo negativo de R$ 310.364,64 (e-fl. 70), enquanto a DRJ reconheceu antecipações de R$ 2.891.818,61 2 Súmula CARF nº 168 Aprovada pelo Pleno em sessão de 06/08/2021 – vigência em 16/08/2021 Mesmo após a ciência do despacho decisório, a comprovação de inexatidão material no preenchimento da DCOMP permite retomar a análise do direito creditório. 3 Súmula CARF nº 175 Aprovada pela 1ª Turma da CSRF em sessão de 06/08/2021 – vigência em 16/08/2021 É possível a análise de indébito correspondente a tributos incidentes sobre o lucro sob a natureza de saldo negativo se o sujeito passivo demonstrar, mesmo depois do despacho decisório de não homologação, que errou ao preencher a Declaração de Compensação – DCOMP e informou como crédito pagamento indevido ou a maior de estimativa integrante daquele saldo negativo. (Vinculante, conforme Portaria ME nº 12.975, de 10/11/2021, DOU de 11/11/2021). Fl. 429DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1302-008.045 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10830.906704/2010-59 10 e desconsiderou as estimativas compensadas (e-fl. 191); a Manifestação de Inconformidade e o Recurso Voluntário ainda invocam retenção adicional e diferenças de pequena monta (e-fls. 17/19 e 199/217). A recomposição aritmética ultrapassaria os limites do incidente. Preserva-se, por isso, a fórmula já deliberada: reconhecimento do direito creditório relativo ao saldo negativo pleiteado e homologação das compensações até o limite do crédito reconhecido e ainda disponível, sem utilização em duplicidade. 5. Conclusão Diante do exposto, voto por conhecer e acolher os Embargos Inominados, sem efeitos infringentes, para sanar o lapso manifesto do Acórdão nº 1302-007.074, mediante a correta identificação do objeto como saldo negativo de IRPJ do ano-calendário de 2005 e a exclusão, da ementa, do relatório e das passagens factuais do voto, das referências à CSLL, à DCOMP nº 19371.48331.240206.1.3.03-2390 e aos valores e períodos específicos do processo paradigma, mantidos integralmente a razão jurídica fundada na Súmula CARF nº 177, o resultado e o dispositivo originalmente deliberados. É como voto. Assinatura Digital Natália Uchôa Brandão Fl. 430DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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Numero do processo: 11000.738083/2024-13
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Aug 05 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Wed Sep 23 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Ano-calendário: 2020, 2021, 2022 SOCIEDADE DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS MÉDICOS. PAGAMENTOS A PROFISSIONAIS FORMALMENTE INCLUÍDOS NO QUADRO SOCIETÁRIO. REGISTRO COMO ANTECIPAÇÃO OU DISTRIBUIÇÃO DESPROPORCIONAL DE LUCROS. AUSÊNCIA DE BALANCETES INTERMEDIÁRIOS E DE COMPROVAÇÃO DE LUCROS DISTRIBUÍVEIS. VALORES CALCULADOS POR HORA TRABALHADA OU PROCEDIMENTO REALIZADO. NATUREZA REMUNERATÓRIA. CONTRIBUINTES INDIVIDUAIS. INCIDÊNCIA DA CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA PATRONAL. SIMULAÇÃO. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. RESPONSABILIDADE PESSOAL DA ADMINISTRADORA. RECURSO PARCIALMENTE CONHECIDO E, NA PARTE CONHECIDA, DESPROVIDO. I. CASO EM EXAME Recurso voluntário interposto contra decisão que manteve lançamento de contribuições previdenciárias patronais incidentes sobre valores pagos, nos anos-calendário de 2020 a 2022, a médicos que prestavam serviços à pessoa jurídica recorrente. Os pagamentos foram contabilizados como antecipações ou distribuições desproporcionais de lucros, embora calculados mediante a multiplicação do número de horas trabalhadas ou de procedimentos realizados por valores unitários previamente fixados. O lançamento alcançou médicos formalmente integrantes do quadro societário, profissionais remunerados antes do ingresso ou após a retirada da sociedade e médicos que jamais figuraram no contrato social. Foram mantidas, na decisão recorrida, a exigência das contribuições previdenciárias, a multa de ofício qualificada de 100% e a responsabilidade tributária atribuída à sócia majoritária e única administradora da sociedade. II. QUESTÕES EM DISCUSSÃO As questões em discussão consistem em definir: a) se os valores pagos aos médicos constituíram efetiva distribuição de lucros ou remuneração pela prestação de serviços; b) se a regularidade formal da sociedade e a autorização contratual para distribuição desproporcional de resultados impedem a requalificação tributária dos pagamentos; c) se estão presentes os requisitos para a aplicação da multa de ofício qualificada; e d) se a sócia-administradora pode ser pessoalmente responsabilizada pelos créditos tributários. III. RAZÕES DE DECIDIR A distribuição de lucros, inclusive de forma antecipada ou desproporcional, pressupõe a existência de resultado econômico efetivamente apurado ou demonstrável. A regular constituição da sociedade e a previsão contratual de distribuição desproporcional disciplinam a repartição dos resultados, mas não comprovam, por si sós, a existência de lucro distribuível. A elaboração de demonstrações contábeis ao final do exercício e a posterior aprovação das contas sociais não demonstram que os pagamentos realizados mensalmente encontravam suporte em lucros existentes no momento de sua realização. Na hipótese de antecipação de lucros, é indispensável a existência de apuração contábil contemporânea, por meio de balanços, balancetes intermediários ou elementos equivalentes, que permita verificar a formação de resultado disponível para distribuição. A inexistência de balancetes intermediários, a ausência de complementações, devoluções ou compensações após a apuração anual e a falta de confronto entre os valores antecipados e o resultado definitivo afastam a natureza de distribuição de lucros. Valores previamente determináveis pela quantidade de horas trabalhadas ou de procedimentos realizados, multiplicada por preço unitário ajustado com cada profissional, possuem natureza de contraprestação por serviços, e não de participação em resultado societário. A autonomia profissional dos médicos e a inexistência de vínculo empregatício não afastam a incidência tributária, pois os pagamentos efetuados por pessoa jurídica a contribuintes individuais em razão de serviços prestados integram a base de cálculo prevista no art. 22, III, da Lei nº 8.212/1991. A inclusão formal dos médicos no quadro societário, com participação ínfima no capital, não prevalece sobre a realidade econômica demonstrada pela forma de cálculo e pela definitividade dos pagamentos. A realização de pagamentos antes do ingresso formal na sociedade, depois da retirada ou a profissionais que jamais integraram o quadro societário confirma que o direito ao recebimento decorria da prestação dos serviços, e não da condição de sócio. O art. 110 do Código Tributário Nacional não impede a Administração Tributária de qualificar os fatos conforme sua natureza econômica. Não se altera o conteúdo dos institutos de direito privado quando se reconhece, para fins tributários, que os valores contabilizados como lucros não estavam vinculados a resultados efetivamente apurados. Os arquivamentos de inquéritos pelo Ministério Público do Trabalho não vinculam a Administração Tributária, diante da independência entre as instâncias e da diversidade de objetos. O reconhecimento da autonomia dos médicos afasta o vínculo empregatício, mas não descaracteriza sua condição de contribuintes individuais. A multa de ofício qualificada não decorre da mera falta de recolhimento ou de simples divergência interpretativa, mas da adoção consciente e reiterada de estrutura destinada a apresentar remunerações por serviços como distribuições de lucros. A correspondência exata entre os pagamentos e os serviços executados, a inexistência de suporte contábil contemporâneo, a ausência de ajustes posteriores e a utilização sistemática da condição formal de sócio constituem elementos convergentes e suficientes para caracterizar fraude, nos termos do art. 72 da Lei nº 4.502/1964. A existência de precedentes que admitem distribuição antecipada ou desproporcional de lucros não afasta o elemento subjetivo, quando tais precedentes pressupõem lucros efetivamente apurados e circunstâncias fáticas distintas das verificadas no caso concreto. Mantém-se a multa qualificada no percentual de 100%, prevista no art. 44, § 1º, da Lei nº 9.430/1996, já aplicado em observância à retroatividade da legislação penal tributária mais benéfica. A responsabilidade da sócia-administradora não decorre exclusivamente de sua condição societária, do benefício econômico ou da mera inadimplência da pessoa jurídica. A concentração integral dos poderes administrativos, a celebração dos contratos empresariais, a movimentação financeira, a representação dos médicos, a condução das alterações societárias e a participação direta na forma de contratação, pagamento e contabilização dos valores demonstram atuação pessoal e determinante nos atos dos quais resultaram os créditos tributários. Configurada a prática de atos de gestão contrários à legislação tributária, com nexo causal entre a conduta da administradora e a falta de declaração e recolhimento das contribuições, incide a responsabilidade prevista no art. 135, III, do Código Tributário Nacional. A Súmula nº 430 do Superior Tribunal de Justiça não se aplica às hipóteses em que a obrigação tributária resulta de atos pessoalmente imputáveis ao administrador, praticados com infração de lei, e não de mero inadimplemento da sociedade. O órgão administrativo de julgamento não possui competência para afastar norma legal por fundamento de inconstitucionalidade, nos termos da Súmula CARF nº 2.
Numero da decisão: 2202-012.154
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do recurso, exceto as questões relacionadas à inconstitucionalidade, e, na parte conhecida, negar-lhe provimento. Assinado Digitalmente Thiago Buschinelli Sorrentino - Relator Assinado Digitalmente Ronnie Soares Anderson - Presidente Participaram da reunião de julgamento os conselheiros Andressa Pegoraro Tomazela, Marcelo Valverde Ferreira da Silva, Thiago Buschinelli Sorrentino, Ronnie Soares Anderson (Presidente).
Nome do relator: THIAGO BUSCHINELLI SORRENTINO

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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Ano-calendário: 2020, 2021, 2022 SOCIEDADE DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS MÉDICOS. PAGAMENTOS A PROFISSIONAIS FORMALMENTE INCLUÍDOS NO QUADRO SOCIETÁRIO. REGISTRO COMO ANTECIPAÇÃO OU DISTRIBUIÇÃO DESPROPORCIONAL DE LUCROS. AUSÊNCIA DE BALANCETES INTERMEDIÁRIOS E DE COMPROVAÇÃO DE LUCROS DISTRIBUÍVEIS. VALORES CALCULADOS POR HORA TRABALHADA OU PROCEDIMENTO REALIZADO. NATUREZA REMUNERATÓRIA. CONTRIBUINTES INDIVIDUAIS. INCIDÊNCIA DA CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA PATRONAL. SIMULAÇÃO. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. RESPONSABILIDADE PESSOAL DA ADMINISTRADORA. RECURSO PARCIALMENTE CONHECIDO E, NA PARTE CONHECIDA, DESPROVIDO. I. CASO EM EXAME Recurso voluntário interposto contra decisão que manteve lançamento de contribuições previdenciárias patronais incidentes sobre valores pagos, nos anos-calendário de 2020 a 2022, a médicos que prestavam serviços à pessoa jurídica recorrente. Os pagamentos foram contabilizados como antecipações ou distribuições desproporcionais de lucros, embora calculados mediante a multiplicação do número de horas trabalhadas ou de procedimentos realizados por valores unitários previamente fixados. O lançamento alcançou médicos formalmente integrantes do quadro societário, profissionais remunerados antes do ingresso ou após a retirada da sociedade e médicos que jamais figuraram no contrato social. Foram mantidas, na decisão recorrida, a exigência das contribuições previdenciárias, a multa de ofício qualificada de 100% e a responsabilidade tributária atribuída à sócia majoritária e única administradora da sociedade. II. QUESTÕES EM DISCUSSÃO As questões em discussão consistem em definir: a) se os valores pagos aos médicos constituíram efetiva distribuição de lucros ou remuneração pela prestação de serviços; b) se a regularidade formal da sociedade e a autorização contratual para distribuição desproporcional de resultados impedem a requalificação tributária dos pagamentos; c) se estão presentes os requisitos para a aplicação da multa de ofício qualificada; e d) se a sócia-administradora pode ser pessoalmente responsabilizada pelos créditos tributários. III. RAZÕES DE DECIDIR A distribuição de lucros, inclusive de forma antecipada ou desproporcional, pressupõe a existência de resultado econômico efetivamente apurado ou demonstrável. A regular constituição da sociedade e a previsão contratual de distribuição desproporcional disciplinam a repartição dos resultados, mas não comprovam, por si sós, a existência de lucro distribuível. A elaboração de demonstrações contábeis ao final do exercício e a posterior aprovação das contas sociais não demonstram que os pagamentos realizados mensalmente encontravam suporte em lucros existentes no momento de sua realização. Na hipótese de antecipação de lucros, é indispensável a existência de apuração contábil contemporânea, por meio de balanços, balancetes intermediários ou elementos equivalentes, que permita verificar a formação de resultado disponível para distribuição. A inexistência de balancetes intermediários, a ausência de complementações, devoluções ou compensações após a apuração anual e a falta de confronto entre os valores antecipados e o resultado definitivo afastam a natureza de distribuição de lucros. Valores previamente determináveis pela quantidade de horas trabalhadas ou de procedimentos realizados, multiplicada por preço unitário ajustado com cada profissional, possuem natureza de contraprestação por serviços, e não de participação em resultado societário. A autonomia profissional dos médicos e a inexistência de vínculo empregatício não afastam a incidência tributária, pois os pagamentos efetuados por pessoa jurídica a contribuintes individuais em razão de serviços prestados integram a base de cálculo prevista no art. 22, III, da Lei nº 8.212/1991. A inclusão formal dos médicos no quadro societário, com participação ínfima no capital, não prevalece sobre a realidade econômica demonstrada pela forma de cálculo e pela definitividade dos pagamentos. A realização de pagamentos antes do ingresso formal na sociedade, depois da retirada ou a profissionais que jamais integraram o quadro societário confirma que o direito ao recebimento decorria da prestação dos serviços, e não da condição de sócio. O art. 110 do Código Tributário Nacional não impede a Administração Tributária de qualificar os fatos conforme sua natureza econômica. Não se altera o conteúdo dos institutos de direito privado quando se reconhece, para fins tributários, que os valores contabilizados como lucros não estavam vinculados a resultados efetivamente apurados. Os arquivamentos de inquéritos pelo Ministério Público do Trabalho não vinculam a Administração Tributária, diante da independência entre as instâncias e da diversidade de objetos. O reconhecimento da autonomia dos médicos afasta o vínculo empregatício, mas não descaracteriza sua condição de contribuintes individuais. A multa de ofício qualificada não decorre da mera falta de recolhimento ou de simples divergência interpretativa, mas da adoção consciente e reiterada de estrutura destinada a apresentar remunerações por serviços como distribuições de lucros. A correspondência exata entre os pagamentos e os serviços executados, a inexistência de suporte contábil contemporâneo, a ausência de ajustes posteriores e a utilização sistemática da condição formal de sócio constituem elementos convergentes e suficientes para caracterizar fraude, nos termos do art. 72 da Lei nº 4.502/1964. A existência de precedentes que admitem distribuição antecipada ou desproporcional de lucros não afasta o elemento subjetivo, quando tais precedentes pressupõem lucros efetivamente apurados e circunstâncias fáticas distintas das verificadas no caso concreto. Mantém-se a multa qualificada no percentual de 100%, prevista no art. 44, § 1º, da Lei nº 9.430/1996, já aplicado em observância à retroatividade da legislação penal tributária mais benéfica. A responsabilidade da sócia-administradora não decorre exclusivamente de sua condição societária, do benefício econômico ou da mera inadimplência da pessoa jurídica. A concentração integral dos poderes administrativos, a celebração dos contratos empresariais, a movimentação financeira, a representação dos médicos, a condução das alterações societárias e a participação direta na forma de contratação, pagamento e contabilização dos valores demonstram atuação pessoal e determinante nos atos dos quais resultaram os créditos tributários. Configurada a prática de atos de gestão contrários à legislação tributária, com nexo causal entre a conduta da administradora e a falta de declaração e recolhimento das contribuições, incide a responsabilidade prevista no art. 135, III, do Código Tributário Nacional. A Súmula nº 430 do Superior Tribunal de Justiça não se aplica às hipóteses em que a obrigação tributária resulta de atos pessoalmente imputáveis ao administrador, praticados com infração de lei, e não de mero inadimplemento da sociedade. O órgão administrativo de julgamento não possui competência para afastar norma legal por fundamento de inconstitucionalidade, nos termos da Súmula CARF nº 2.

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PAGAMENTOS A PROFISSIONAIS FORMALMENTE INCLUÍDOS NO QUADRO SOCIETÁRIO. REGISTRO COMO ANTECIPAÇÃO OU DISTRIBUIÇÃO DESPROPORCIONAL DE LUCROS. AUSÊNCIA DE BALANCETES INTERMEDIÁRIOS E DE COMPROVAÇÃO DE LUCROS DISTRIBUÍVEIS. VALORES CALCULADOS POR HORA TRABALHADA OU PROCEDIMENTO REALIZADO. NATUREZA REMUNERATÓRIA. CONTRIBUINTES INDIVIDUAIS. INCIDÊNCIA DA CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA PATRONAL. SIMULAÇÃO. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. RESPONSABILIDADE PESSOAL DA ADMINISTRADORA. RECURSO PARCIALMENTE CONHECIDO E, NA PARTE CONHECIDA, DESPROVIDO. I. CASO EM EXAME Recurso voluntário interposto contra decisão que manteve lançamento de contribuições previdenciárias patronais incidentes sobre valores pagos, nos anos-calendário de 2020 a 2022, a médicos que prestavam serviços à pessoa jurídica recorrente. Os pagamentos foram contabilizados como antecipações ou distribuições desproporcionais de lucros, embora calculados mediante a multiplicação do número de horas trabalhadas ou de procedimentos realizados por valores unitários previamente fixados. O lançamento alcançou médicos formalmente integrantes do quadro societário, profissionais remunerados antes do ingresso ou após a retirada da sociedade e médicos que jamais figuraram no contrato social. Foram mantidas, na decisão recorrida, a exigência das contribuições previdenciárias, a multa de ofício qualificada de 100% e a responsabilidade Fl. 8530DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.154 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.738083/2024-13 2 tributária atribuída à sócia majoritária e única administradora da sociedade. II. QUESTÕES EM DISCUSSÃO As questões em discussão consistem em definir: a) se os valores pagos aos médicos constituíram efetiva distribuição de lucros ou remuneração pela prestação de serviços; b) se a regularidade formal da sociedade e a autorização contratual para distribuição desproporcional de resultados impedem a requalificação tributária dos pagamentos; c) se estão presentes os requisitos para a aplicação da multa de ofício qualificada; e d) se a sócia-administradora pode ser pessoalmente responsabilizada pelos créditos tributários. III. RAZÕES DE DECIDIR A distribuição de lucros, inclusive de forma antecipada ou desproporcional, pressupõe a existência de resultado econômico efetivamente apurado ou demonstrável. A regular constituição da sociedade e a previsão contratual de distribuição desproporcional disciplinam a repartição dos resultados, mas não comprovam, por si sós, a existência de lucro distribuível. A elaboração de demonstrações contábeis ao final do exercício e a posterior aprovação das contas sociais não demonstram que os pagamentos realizados mensalmente encontravam suporte em lucros existentes no momento de sua realização. Na hipótese de antecipação de lucros, é indispensável a existência de apuração contábil contemporânea, por meio de balanços, balancetes intermediários ou elementos equivalentes, que permita verificar a formação de resultado disponível para distribuição. A inexistência de balancetes intermediários, a ausência de complementações, devoluções ou compensações após a apuração anual e a falta de confronto entre os valores antecipados e o resultado definitivo afastam a natureza de distribuição de lucros. Valores previamente determináveis pela quantidade de horas trabalhadas ou de procedimentos realizados, multiplicada por preço unitário ajustado com cada profissional, possuem natureza de contraprestação por serviços, e não de participação em resultado societário. Fl. 8531DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.154 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.738083/2024-13 3 A autonomia profissional dos médicos e a inexistência de vínculo empregatício não afastam a incidência tributária, pois os pagamentos efetuados por pessoa jurídica a contribuintes individuais em razão de serviços prestados integram a base de cálculo prevista no art. 22, III, da Lei nº 8.212/1991. A inclusão formal dos médicos no quadro societário, com participação ínfima no capital, não prevalece sobre a realidade econômica demonstrada pela forma de cálculo e pela definitividade dos pagamentos. A realização de pagamentos antes do ingresso formal na sociedade, depois da retirada ou a profissionais que jamais integraram o quadro societário confirma que o direito ao recebimento decorria da prestação dos serviços, e não da condição de sócio. O art. 110 do Código Tributário Nacional não impede a Administração Tributária de qualificar os fatos conforme sua natureza econômica. Não se altera o conteúdo dos institutos de direito privado quando se reconhece, para fins tributários, que os valores contabilizados como lucros não estavam vinculados a resultados efetivamente apurados. Os arquivamentos de inquéritos pelo Ministério Público do Trabalho não vinculam a Administração Tributária, diante da independência entre as instâncias e da diversidade de objetos. O reconhecimento da autonomia dos médicos afasta o vínculo empregatício, mas não descaracteriza sua condição de contribuintes individuais. A multa de ofício qualificada não decorre da mera falta de recolhimento ou de simples divergência interpretativa, mas da adoção consciente e reiterada de estrutura destinada a apresentar remunerações por serviços como distribuições de lucros. A correspondência exata entre os pagamentos e os serviços executados, a inexistência de suporte contábil contemporâneo, a ausência de ajustes posteriores e a utilização sistemática da condição formal de sócio constituem elementos convergentes e suficientes para caracterizar fraude, nos termos do art. 72 da Lei nº 4.502/1964. A existência de precedentes que admitem distribuição antecipada ou desproporcional de lucros não afasta o elemento subjetivo, quando tais precedentes pressupõem lucros efetivamente apurados e circunstâncias fáticas distintas das verificadas no caso concreto. Fl. 8532DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.154 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.738083/2024-13 4 Mantém-se a multa qualificada no percentual de 100%, prevista no art. 44, § 1º, da Lei nº 9.430/1996, já aplicado em observância à retroatividade da legislação penal tributária mais benéfica. A responsabilidade da sócia-administradora não decorre exclusivamente de sua condição societária, do benefício econômico ou da mera inadimplência da pessoa jurídica. A concentração integral dos poderes administrativos, a celebração dos contratos empresariais, a movimentação financeira, a representação dos médicos, a condução das alterações societárias e a participação direta na forma de contratação, pagamento e contabilização dos valores demonstram atuação pessoal e determinante nos atos dos quais resultaram os créditos tributários. Configurada a prática de atos de gestão contrários à legislação tributária, com nexo causal entre a conduta da administradora e a falta de declaração e recolhimento das contribuições, incide a responsabilidade prevista no art. 135, III, do Código Tributário Nacional. A Súmula nº 430 do Superior Tribunal de Justiça não se aplica às hipóteses em que a obrigação tributária resulta de atos pessoalmente imputáveis ao administrador, praticados com infração de lei, e não de mero inadimplemento da sociedade. O órgão administrativo de julgamento não possui competência para afastar norma legal por fundamento de inconstitucionalidade, nos termos da Súmula CARF nº 2. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do recurso, exceto as questões relacionadas à inconstitucionalidade, e, na parte conhecida, negar-lhe provimento. Assinado Digitalmente Thiago Buschinelli Sorrentino – Relator Assinado Digitalmente Ronnie Soares Anderson – Presidente Fl. 8533DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.154 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.738083/2024-13 5 Participaram da reunião de julgamento os conselheiros Andressa Pegoraro Tomazela, Marcelo Valverde Ferreira da Silva, Thiago Buschinelli Sorrentino, Ronnie Soares Anderson (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de recurso voluntário interposto por acórdão prolatado pela 12ª Turma da Delegacia de Julgamento da Receita Federal do Brasil de Julgamento 09, que, por unanimidade de votos, julgou improcedente a impugnação apresentada por SAUDEX SISTEMA INTEGRADO DE SAÚDE LTDA. e por Cynthia Kozenieski Ayala dos Santos, indicada como responsável solidária, mantendo integralmente o crédito tributário constituído no processo nº 11000.738083/2024-13. O lançamento refere-se a contribuições previdenciárias patronais incidentes sobre valores pagos, entre janeiro de 2020 e dezembro de 2022, a médicos que prestavam serviços à autuada. Segundo consignado no acórdão recorrido, a fiscalização concluiu que os pagamentos, embora contabilizados como antecipações ou distribuições de lucros, correspondiam, em sua essência, à remuneração de contribuintes individuais, calculada com base em valores fixos por hora trabalhada ou por procedimento realizado. A decisão recorrida registrou que a autuação alcançou três grupos de profissionais: médicos que jamais integraram formalmente o quadro societário; médicos remunerados em períodos nos quais ainda não haviam ingressado, ou já haviam deixado de integrar, a sociedade; e médicos que receberam pagamentos durante o período em que figuravam formalmente como sócios. O crédito tributário consolidado foi indicado no montante total de R$ 7.315.515,46, composto de principal no valor de R$ 3.657.757,73 e multa de ofício qualificada, em igual montante. Ao descrever as constatações fiscais, a DRJ destacou que a contribuinte inseria formalmente os médicos no quadro societário com participação ínfima, correspondente a 0,01% do capital social, sem efetiva atuação administrativa, poder de gestão ou participação substancial nos riscos do empreendimento. Ressaltou que a remuneração paga aos profissionais não se vinculava à apuração de resultados, à lucratividade da empresa ou à proporção das quotas sociais, mas ao número de horas trabalhadas ou de atendimentos realizados. O acórdão mencionou, como elementos probatórios, contratos sociais, folhas de pagamento, GFIPs, documentos contábeis e informações obtidas em diligências realizadas junto a empresas e entes contratantes dos serviços médicos. Assinalou que as folhas de pagamento fornecidas pela própria contribuinte indicavam valores previamente fixados por hora, tais como R$ 80,00, R$ 85,00 e R$ 90,00, sendo os depósitos efetuados aos profissionais resultantes da multiplicação do valor unitário pelo número de horas trabalhadas ou de procedimentos realizados. A decisão registrou, ainda, que a própria fiscalizada informou não possuir balancetes ou levantamentos contábeis intermediários relativos aos períodos fiscalizados e que Fl. 8534DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.154 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.738083/2024-13 6 não houve posterior pagamento de diferenças de dividendos após a apuração dos resultados dos exercícios de 2020, 2021 e 2022. Para a DRJ, a inexistência de apuração intermediária de lucros e de ajustes posteriores entre os valores antecipados e os resultados efetivamente apurados demonstraria que os pagamentos mensais eram definitivos e remuneravam diretamente os serviços prestados. Também foram consideradas a elevada rotatividade dos médicos no quadro societário e a existência de apenas uma alteração contratual anual, apesar dos frequentes ingressos e retiradas de profissionais. Conforme relatado, muitos médicos começavam a prestar serviços antes de sua inclusão formal no contrato social, enquanto outros jamais chegaram a integrá-lo, embora igualmente recebessem valores registrados como adiantamentos ou distribuição de lucros. A DRJ consignou que diversos médicos haviam outorgado procurações amplas à sócia majoritária e administradora Cynthia Kozenieski Ayala dos Santos, conferindo-lhe poderes para representá-los em alterações contratuais, transferências de quotas, ingressos e retiradas do quadro societário. Esse procedimento, aliado à concentração de mais de 99% do capital social e dos poderes de gestão em mãos da administradora, foi considerado indicativo da ausência de participação societária efetiva dos profissionais. O acórdão recorrido também examinou reclamatórias trabalhistas ajuizadas por médicos contra a empresa. Segundo a decisão, em tais processos foram apresentadas afirmações no sentido de que os profissionais eram remunerados pelas horas trabalhadas e de que não havia participação nos lucros. Destacou-se, inclusive, manifestação da própria empresa em processo trabalhista, segundo a qual a produtividade era mensurada com base nas horas trabalhadas e nos valores previamente ajustados com os médicos, inexistindo documento que explicitasse cálculo de lucro pago aos profissionais. A partir desses elementos, a DRJ concluiu que não havia, entre os médicos e a sociedade, intenção efetiva de associação para participação nos riscos e nos resultados do empreendimento. Considerou que o ingresso formal no quadro societário funcionava como condição para o acesso às vagas de prestação de serviços administradas pela empresa e que o interesse dos profissionais se limitava à execução do trabalho e ao recebimento da remuneração correspondente. Na impugnação, a contribuinte sustentara a regularidade de sua constituição societária e a legalidade da distribuição desproporcional de lucros, com fundamento no artigo 1.007 do Código Civil e em previsão constante do contrato social. Alegara que a affectio societatis deveria ser presumida e que caberia à fiscalização demonstrar sua inexistência. Defendera, ainda, que a estrutura adotada representava planejamento tributário lícito, amparado pela autonomia privada, pela livre iniciativa e pelo direito de propriedade. A defesa também argumentara que os médicos assumiam obrigações, responsabilidades e riscos próprios da condição de sócios, bem como que a desconsideração dessa Fl. 8535DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.154 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.738083/2024-13 7 qualidade contrariaria a legislação civil e a realidade das relações estabelecidas. Para sustentar a possibilidade de distribuição desproporcional de lucros, invocara precedentes do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais e a Solução de Consulta Cosit nº 46, de 2010. A DRJ, contudo, entendeu que a discussão não dizia respeito à possibilidade abstrata de distribuição desproporcional de lucros, mas à inexistência, no caso concreto, de lucros efetivamente apurados e distribuídos. Assinalou que os precedentes citados pela impugnante tratavam de situações em que havia escrituração contábil regular, efetiva apuração de resultados e distribuição de lucros demonstrada, circunstâncias que não estariam presentes nos autos. Concluiu, assim, que a simples denominação dos pagamentos como distribuição de lucros não seria suficiente para afastar sua natureza remuneratória. Quanto à decisão de arquivamento de inquérito civil pelo Ministério Público do Trabalho, apresentada pela defesa como prova da regularidade da estrutura adotada, a DRJ afirmou a independência entre as instâncias trabalhista e tributária. Considerou que o MPT examinara a existência de vínculo empregatício e concluíra pela autonomia dos médicos, o que não impediria o reconhecimento, para fins tributários, de que os valores pagos constituíam remuneração de contribuintes individuais. Segundo a decisão recorrida, a conclusão de que os profissionais atuavam como autônomos reforçaria, e não afastaria, a exigência fiscal, uma vez que os pagamentos efetuados por pessoa jurídica a contribuintes individuais, em contraprestação por serviços prestados, integram a base de cálculo da contribuição previdenciária patronal prevista no artigo 22, inciso III, da Lei nº 8.212, de 1991. No tocante aos médicos que receberam pagamentos sem constar formalmente do contrato social, a impugnante defendera que deveriam ser reconhecidos como “sócios de fato”. A DRJ rejeitou essa alegação, por entender que os elementos concretos indicavam prestação de serviços remunerada, e não participação em resultados sociais, especialmente nos casos em que os profissionais jamais integraram o quadro societário. O acórdão recorrido concluiu que a estrutura societária havia sido utilizada para ocultar a verdadeira relação jurídica de prestação de serviços. Aplicando o princípio da primazia da realidade sobre a forma, entendeu que os negócios formalmente apresentados como distribuição de lucros eram ineficazes perante a Fazenda Pública, devendo ser considerada a substância econômica dos pagamentos. A DRJ também manteve a responsabilidade atribuída à sócia-administradora Cynthia Kozenieski Ayala dos Santos. A defesa sustentara que a mera inadimplência tributária não autorizaria a responsabilização pessoal do administrador, invocando a Súmula nº 430 do Superior Tribunal de Justiça, e que o interesse comum previsto no artigo 124, inciso I, do Código Tributário Nacional deveria ser de natureza jurídica, e não meramente econômica. A decisão recorrida afastou esses argumentos por considerar que o caso não envolvia simples falta de recolhimento de tributos. Entendeu que a administradora, titular de mais Fl. 8536DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.154 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.738083/2024-13 8 de 99% do capital social, única gestora da empresa e procuradora de grande número de médicos, teria atuado diretamente na criação e manutenção da estrutura reputada simulada, além de ter sido sua principal beneficiária econômica. Por essa razão, concluiu estarem configurados atos praticados com infração de lei, nos termos do artigo 135, inciso III, do Código Tributário Nacional, bem como interesse comum na situação constitutiva do fato gerador. Por fim, a DRJ manteve a multa de ofício qualificada no percentual de 100%. A impugnante alegara que a existência de controvérsia jurídica, de precedentes administrativos e de soluções de consulta favoráveis à distribuição desproporcional de lucros afastaria o dolo, a fraude e a simulação, requerendo subsidiariamente a redução da penalidade. O colegiado entendeu, entretanto, que não se tratava de mera divergência interpretativa, mas de conduta deliberada destinada a modificar a natureza dos pagamentos, atribuindo aparência de lucros a valores que remuneravam o trabalho dos médicos. Considerou que a criação da estrutura societária, a forma de contabilização dos pagamentos e a participação dos beneficiários na declaração dos valores como rendimentos isentos caracterizavam fraude e conluio, justificando a aplicação do artigo 44, § 1º, da Lei nº 9.430, de 1996. Com esses fundamentos, a 12ª Turma da DRJ09 reconheceu a tempestividade da impugnação, mas a julgou improcedente, mantendo integralmente as contribuições previdenciárias patronais lançadas, a multa de ofício qualificada e a responsabilidade solidária atribuída à sócia-administradora. Referido acórdão foi assim ementado: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Ano-calendário: 2020, 2021, 2022 CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA PATRONAL. REMUNERAÇÃO DISFARÇADA DE DISTRIBUIÇÃO DE LUCROS. SIMULAÇÃO. CARACTERIZAÇÃO. Valores pagos a médicos formalmente inseridos no quadro societário com participação ínfima no capital social, cuja apuração se dava com base em valor fixo por hora trabalhada ou por procedimento, sem qualquer correlação com os resultados financeiros da empresa, caracterizam remuneração por serviços prestados. A ausência de apuração de lucros e de ajustes contábeis sobre os valores pagos confirma a natureza salarial, configurando fato gerador da Contribuição Previdenciária Patronal, nos termos do art. 22, III, da Lei nº 8.212/91. DISTRIBUIÇÃO DESPROPORCIONAL DE LUCROS. INAPLICABILIDADE DA TESE. NATUREZA REMUNERATÓRIA. A tese de legalidade da distribuição de lucros de forma desproporcional, amparada no Código Civil, não se aplica quando as provas demonstram a inexistência de lucros efetivamente distribuídos. A mera rotulação dos Fl. 8537DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.154 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.738083/2024-13 9 pagamentos como “distribuição de lucros” não altera sua natureza intrinsecamente remuneratória, decorrente de contraprestação por trabalho. PRINCÍPIO DA PRIMAZIA DA REALIDADE SOBRE A FORMA. Constatada a simulação, na qual a estrutura societária serviu apenas como meio para ocultar a verdadeira relação jurídica de prestação de serviços, deve prevalecer a substância econômica dos fatos para fins de tributação. A autoridade fiscal pode e deve desconsiderar os atos e negócios jurídicos simulados para atingir o fato gerador efetivamente ocorrido. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. ADMINISTRADOR. ATOS PRATICADOS COM INFRAÇÃO DE LEI. A responsabilidade do sócio administrador não decorre de mera inadimplência, mas da sua atuação direta na criação e manutenção de um esquema fraudulento, com o objetivo deliberado de suprimir tributos. Tal conduta configura ato praticado com infração de lei, nos termos do art. 135, III, do CTN, justificando sua responsabilização solidária. MULTA QUALIFICADA. FRAUDE E CONLUIO. MANUTENÇÃO. A criação de uma estrutura societária artificial, a ocultação da natureza dos pagamentos e o ajuste com os profissionais para viabilizar a sonegação caracterizam fraude e conluio, o que atrai a aplicação da multa de ofício qualificada em 100%, conforme o §1º do art. 44 da Lei nº 9.430/96. A existência de controvérsia jurídica sobre o tema não serve como salvo-conduto para a prática de simulação dolosa. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Intimados do resultado do julgamento em 11/08/2025 (fls 8.454), os recorrentes interpuseram em 24/07/2025 (sic – provavelmente em razão da interposição prematura do recurso com base apenas na informação sobre a ocorrência do julgamento e das vicissitudes inerentes à logística dos Correios e da juntada do AR - fls. 8.379, reiterado à fls. 8.457). Nele, os recorrentes requerem a reforma integral do acórdão recorrido, com a desconstituição dos autos de infração, com base nos seguintes argumentos autônomos: 1. Higidez formal e material da estrutura societária. Sustentam que a SAUDEX foi regularmente constituída como sociedade limitada e que observa os requisitos dos arts. 104, 981, 997 e 1.052 a 1.087 do Código Civil. Alegam que houve integralização das quotas, pluralidade de sócios, participação em deliberações, elaboração e aprovação de balanços e Fl. 8538DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.154 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.738083/2024-13 10 contas e realização de reuniões anuais, inexistindo vício capaz de invalidar a sociedade. 2. Existência presumida e comprovada da affectio societatis. Defendem que a intenção de associação se presume da constituição regular da sociedade e dos atos praticados pelos sócios, cabendo à fiscalização provar sua inexistência. Afirmam que os médicos ingressaram voluntariamente na sociedade, contribuíram para o exercício da atividade empresarial e participaram da distribuição de seus resultados. 3. Legalidade da participação societária ínfima e da assimetria entre os sócios. Argumentam que o Código Civil admite quotas iguais ou desiguais e não impede a concentração do capital e da administração em um sócio, com participações minoritárias dos demais. A reduzida participação no capital social, por si só, não descaracterizaria a condição de sócio. 4. Legalidade da distribuição desproporcional de lucros. Sustentam que o art. 1.007 do Código Civil autoriza expressamente estipulação diversa da distribuição proporcional às quotas. A cláusula contratual que vincula a participação nos resultados aos negócios gerados por cada médico constituiria critério objetivo, lícito e consentido pelos sócios. Acrescentam que tal ajuste poderia ser celebrado até mesmo em ato separado ou verbalmente, pois a lei não exige forma especial. 5. Existência de lucros regularmente apurados, contabilizados e aprovados. Contestam a afirmação de inexistência de apuração de lucros. Alegam que foram elaborados inventários, balanços patrimoniais e demonstrações de resultados e que, nas reuniões anuais, foram apresentadas planilhas dos dividendos antecipados, aprovadas as contas da administração e ratificados os lucros distribuídos nos exercícios fiscalizados. 6. Impossibilidade de desconsideração, pelo Fisco, dos institutos de direito privado. Afirmam que a requalificação dos lucros como remuneração viola o art. 110 do CTN, pois a Administração Tributária não poderia alterar o conteúdo dos conceitos de sociedade, sócio e distribuição de resultados definidos pelo direito civil. Sustentam que o Fisco desconsiderou negócios jurídicos válidos com base em presunções e em discordância quanto à forma empresarial legitimamente escolhida. 7. Caracterização da estrutura como planejamento tributário lícito. Defendem que a escolha de uma organização societária menos onerosa constitui exercício da autonomia privada, da livre iniciativa e do direito de Fl. 8539DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.154 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.738083/2024-13 11 propriedade. A estrutura adotada configuraria elisão fiscal permitida, e não evasão, fraude ou simulação. 8. Existência de precedentes administrativos e judiciais favoráveis. Invocam julgados do CARF, decisões judiciais e a Solução de Consulta Cosit nº 46, de 2010, que reconhecem a possibilidade de distribuição antecipada e desproporcional de lucros em sociedades de profissionais, inclusive médicos, quando prevista no contrato social e amparada por contabilidade regular. Alegam que esses precedentes se aplicam ao caso concreto e afastam a tributação dos valores como pró-labore ou remuneração. 9. Inexistência de obrigação legal de pagamento de pró-labore mínimo. Sustentam que não há norma que obrigue o sócio a receber pró-labore, sendo possível que sua remuneração decorra exclusivamente da distribuição de lucros, desde que satisfeitos os requisitos societários e contábeis. 10. Efetiva condição societária dos médicos e assunção dos riscos do empreendimento. Alegam que os médicos integralizaram quotas, participaram das deliberações sociais, ficaram sujeitos às responsabilidades legais dos quotistas e assumiram riscos econômicos, pois os valores recebidos dependiam dos negócios gerados para a sociedade. Tais características seriam incompatíveis com a condição de empregados ou meros prestadores autônomos. 11. Ausência de demonstração de vínculo empregatício ou de outra relação jurídica substitutiva. Argumentam que a fiscalização afastou a qualidade de sócio sem demonstrar os requisitos dos arts. 2º e 3º da CLT, especialmente subordinação, pessoalidade, não eventualidade e salário. Afirmam que o lançamento deixou os profissionais em um “limbo jurídico”, pois não os reconheceu como sócios, mas também não comprovou a relação jurídica que teria efetivamente existido. 12. Autonomia profissional dos médicos. Sustentam que os profissionais administravam seu tempo e suas escolhas, não estavam subordinados à empresa e podiam organizar a prestação dos serviços, circunstâncias que afastariam a natureza salarial atribuída aos pagamentos. 13. Insuficiência e falta de contemporaneidade das reclamatórias trabalhistas. Alegam que a fiscalização se baseou em apenas quatro ações trabalhistas, número inferior a 2% do quadro societário, incapaz de representar a relação mantida com os demais médicos. Acrescentam que os reclamantes mencionados não integravam a sociedade durante os períodos fiscalizados, de modo que seus relatos não poderiam fundamentar o lançamento relativo aos anos de 2020 a 2022. Fl. 8540DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.154 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.738083/2024-13 12 14. Relevância da ausência de questionamento pela maioria dos sócios. Afirmam que a esmagadora maioria dos médicos jamais contestou a estrutura societária ou os termos contratados, o que indicaria concordância com o modelo e enfraqueceria as conclusões extraídas das poucas reclamatórias selecionadas pela fiscalização. 15. Arquivamento de inquérito civil pelo Ministério Público do Trabalho. Invocam o arquivamento do Inquérito Civil nº 003695.2020.04.000/0, no qual o MPT concluiu não se tratar de associação fraudulenta, mas de congregação de profissionais dotados de autonomia e gestores de seu tempo e de suas escolhas. Sustentam que essa conclusão deve ser prestigiada em respeito à segurança jurídica e para evitar decisões estatais contraditórias sobre a mesma estrutura. 16. Reconhecimento dos médicos não formalizados como “sócios de fato”. Quanto aos profissionais que não chegaram a constar formalmente do contrato social, defendem que a ausência de registro não afasta a relação societária efetivamente estabelecida. Invocam a teoria da aparência, a boa-fé objetiva e a prevalência da substância sobre a forma, afirmando que esses médicos atuaram como sócios, assumiram direitos e deveres societários e receberam participação nos resultados. 17. Demora burocrática na formalização das alterações contratuais. Alegam que o registro de entradas e saídas de sócios em sociedades limitadas é lento e burocrático e que, em alguns casos, o breve período de atuação do médico não permitiu a conclusão das formalidades perante a Junta Comercial. Isso, contudo, não eliminaria a affectio societatis nem os elementos substanciais da condição de sócio. 18. Inaplicabilidade autônoma do art. 124, I, do CTN. Sustentam que o art. 124, I, do CTN não constitui norma de atribuição de responsabilidade tributária, mas apenas disciplina a solidariedade entre sujeitos que já integram o polo passivo por força de outra norma legal. Assim, o dispositivo não poderia, isoladamente, incluir a administradora como responsável pelo crédito. 19. Inexistência de interesse jurídico comum no fato gerador. Defendem que o “interesse comum” exigido pelo art. 124, I, deve ser jurídico e decorrer da atuação conjunta na situação constitutiva do fato gerador, não bastando interesse econômico, benefício reflexo, participação societária, exercício da administração ou concentração do capital. Alegam que Cynthia não figurava no mesmo polo da relação jurídica tributada nem participou pessoalmente dos fatos geradores imputados à empresa. Fl. 8541DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.154 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.738083/2024-13 13 20. Ausência de prova individualizada da conduta de Cynthia. Argumentam que a responsabilidade foi atribuída com base em presunções decorrentes de sua condição de administradora, sócia majoritária e procuradora dos médicos. Sustentam que o Fisco não demonstrou concretamente sua participação em fraude, sonegação, conluio, confusão patrimonial ou atuação conjunta no fato gerador, sendo indispensável separar as condutas da pessoa jurídica das atribuíveis à pessoa física. 21. Inaplicabilidade do art. 135, III, do CTN. Alegam que a responsabilidade pessoal prevista nesse dispositivo exige ato praticado com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatuto, além de nexo causal entre a conduta ilícita do administrador e a obrigação tributária. A mera falta de recolhimento do tributo não seria suficiente. 22. Caracterização, quando muito, de mero inadimplemento tributário. Sustentam que a empresa não ocultou suas operações, pois emitiu notas fiscais, registrou informações e cumpriu obrigações acessórias. Ausente dolo ou embaraço ao conhecimento dos fatos pelo Fisco, o caso corresponderia, no máximo, a inadimplemento, que, conforme a Súmula nº 430 do STJ, não gera responsabilidade do sócio-gerente. 23. Ausência dos requisitos legais para qualificação da multa. Defendem que a multa qualificada exige prova inequívoca de sonegação, fraude ou conluio, não sendo suficientes presunções ou indícios. Alegam que a fiscalização não comprovou ação dolosa destinada a impedir ou retardar o conhecimento do fato gerador. 24. Controvérsia jurídica incompatível com o dolo. Sustentam que a existência de relevante controvérsia, inclusive no CARF, na Receita Federal e no Poder Judiciário, acerca da distribuição desproporcional de lucros demonstra a plausibilidade jurídica da conduta adotada e afasta o evidente intuito de fraude. 25. Caráter confiscatório da multa qualificada. Subsidiariamente, afirmam que a penalidade no percentual qualificado é excessiva, agride o patrimônio dos contribuintes e viola a vedação ao confisco prevista no art. 150, IV, da Constituição Federal. 26. Violação ao postulado da proporcionalidade. Alegam que a multa não satisfaz os critérios de adequação, necessidade e proporcionalidade em sentido estrito, por impor consequência excessiva e incompatível com a conduta atribuída às recorrentes. Fl. 8542DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.154 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.738083/2024-13 14 Com base nessas teses, formulam: (i) pedido principal de desconstituição integral dos autos de infração; (ii) subsidiariamente, redução das multas ao menor patamar legal; e (iii) ainda subsidiariamente, afastamento da responsabilidade atribuída a Cynthia Kozenieski Ayala dos Santos. Posteriormente, os recorrentes atravessaram petição avulsa, em que registram fato superveniente. A recorrente informa que o Ministério Público do Trabalho instaurou novo inquérito civil, o IC nº 000133.2025.04.008/6, e novamente determinou seu arquivamento. Segundo o relatório mencionado, a oitiva de ex-sócios não revelou desvirtuamento da condição societária nem irregularidades trabalhistas. O MPT teria concluído pela autonomia dos profissionais, destacando a gestão própria das escalas, a liberdade para definir períodos de afastamento e a possibilidade de troca de plantões sem autorização prévia, elementos que afastariam subordinação e pessoalidade. Em seguida, a petição afirma que essa conclusão estaria em consonância com precedentes do CARF que admitem a distribuição desproporcional de lucros em sociedades de médicos, desde que prevista no contrato social e apoiada em contabilidade regular. Ao final, sustenta-se que o CARF não deveria adotar conclusão diversa daquela alcançada pelo MPT. Pede-se, assim, que a nova decisão de arquivamento seja valorada como prova da licitude da estrutura societária da SAUDEX e como fundamento para o acolhimento da tese recursal, em nome da coerência institucional, da segurança jurídica, da razoabilidade e da unidade da Administração Pública. É o relatório. VOTO Conselheiro Thiago Buschinelli Sorrentino, Relator 1 CONHECIMENTO Presentes os pressupostos, conheço parcialmente do recurso voluntário, com exceção das matérias delineadas a seguir. Nos termos da Súmula CARF 2, “o CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária”. Desse modo, não se conhece das alegações de inconstitucionalidade. Fl. 8543DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.154 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.738083/2024-13 15 2 “PRELIMINAR” DE ANÁLISE DOS DOCUMENTOS JUNTADOS APÓS A INTERPOSIÇÃO DO RECURSO VOLUNTÁRIO. Por questões puramente expletivas, registro que os documentos juntados posteriormente à interposição do recurso voluntário contêm dados ancilares confirmatórios, incapazes de interferir no fluxo de julgamento (criação, modificação ou extinção de direitos), senão de modo simplesmente persuasivo, análogos, portanto, a memoriais. Nessa extensão, eles serão considerados. Se realmente incontornável, aponto que posições do MPF, ou do MPFT, não são vinculantes à autoridade tributária (art. 100 do CTN). 3 PRECEDENTES ESPECÍFICOS DA COMPOSIÇÃO COLEGIADA PASSADA, AINDA NÃO RECOMPOSTA Segundo argumenta o sábio juiz da Suprema Corte de Israel, Aharon Barak, ao discorrer sobre o papel de um magistrado em uma democracia (The Judge in a Democracy. Mercer County: Princeton University Press, 2009, p. 209-211), uma das funções da adjudicação é estabilizar expectativas, de modo a conferir previsibilidade e segurança jurídica. Portanto, uma vez que um dado colegiado tiver apreciado uma matéria, seria de bom aviso aos julgadores vencidos que aderissem à posição vencedora, em nome do que chamaríamos aqui de “Princípio do Colegiado”. Não obstante, em questões tidas por essenciais à própria jurisdição, prossegue Barak, deve o juiz insistir em divergência, nas hipóteses em que houver oportunidade para convencimento da maioria sobre a solução adequada a ser tomada. Evidentemente, o CARF não é um órgão jurisdicional, e seus conselheiros não são juízes. O papel do exame do recurso voluntário é realizar controle de legalidade, e não de validade amplo (SORRENTINO, Thiago B. Pode o fisco ajuizar ação para rever decisão administrativa favorável ao contribuinte?. Revista de Doutrina Jurídica, Brasília, DF, v. 111, n. 2, p. 205–225, 2020. DOI: 10.22477/rdj.v111i2.613). Contudo, há espaços de intersecção entre a jurisdição e a atividade de controle administrativo, tal como estruturada no âmbito federal, e essa sobreposição pontual permite aplicar a orientação sugerida por Barak, acerca da necessária estabilidade e previsibilidade após o exame de uma determinada questão pelo colegiado, e sobre as hipóteses que sugeririam a necessidade de propor a revisão de entendimentos já tomados. Há uma tentação que acomete o julgador de temperamento independente: a de confundir a profundidade de sua convicção com a correção absoluta de seu juízo. Esse equívoco, embora compreensível em quem sente o peso da toga como responsabilidade pessoal, desconhece a natureza essencialmente coletiva da jurisdição e o lugar que o precedente ocupa na arquitetura do Estado de Direito. O ofício de julgar não é um solilóquio. Não é o palco em que o magistrado declama suas certezas para um auditório que lhe tributa reverência; é, ao contrário, Fl. 8544DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.154 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.738083/2024-13 16 um diálogo entre gerações de intérpretes, um tecido que se vai construindo fio a fio, no qual a voz singular somente ganha sentido quando integrada ao padrão maior que o conjunto produz. A doutrina do stare decisis, nascida no common law e progressivamente incorporada às tradições de civil law que primam pela coerência sistêmica, não é uma rendição intelectual. Seu fundamento não repousa na presunção de que o precedente é infalível, mas na convicção de que a segurança jurídica, a isonomia e a previsibilidade das decisões valem mais, em regra, do que a satisfação individual de uma divergência pessoal. Quem decide em sentido contrário à orientação firmada pelo tribunal competente não demonstra coragem intelectual; demonstra, quando não existem fundamentos supervenientes que justifiquem a distinção ou a superação do precedente, uma espécie de voluntarismo que faz da função jurisdicional instrumento de expressão idiossincrática, e não de realização do direito. Segurança jurídica, dir-se- ia, é o compromisso que o Estado assume com o cidadão de que casos iguais serão tratados igualmente, ao longo do tempo e através das pessoas. Não obstante, o argumento mais profundo em favor do stare decisis transcende a dimensão pragmática da estabilidade. Ele remete a uma compreensão que a psicologia da Gestalt iluminou com a força de uma epifania: o todo é mais do que a soma das partes. O colegiado não é a justaposição mecânica de opiniões individuais, um simples somatório aritmético de convicções paralelas. É algo qualitativamente distinto, uma entidade deliberativa que produz, no encontro e no atrito das inteligências, uma síntese que nenhum de seus membros, isoladamente, seria capaz de engendrar. Quando os julgadores se reúnem em câmara, em turma, em plenário, a deliberação os transforma. A tese que emergia individual e apressada encontra resistência, nuança, a objeção que não havia sido considerada, a perspectiva que o ângulo singular não alcança. O que daí resulta, esse entendimento amadurecido e coletivamente construído, carrega uma legitimidade que a convicção solitária simplesmente não possui. Desprezá-lo, em nome da própria percepção que não foi submetida ao mesmo crisol, é um gesto de soberba epistemológica. Tal compreensão vincula-se, ademais, ao que se poderia chamar de princípio do colegiado: a ideia de que a unidade decisória não é o julgador, mas o órgão. O colegiado existe precisamente porque o direito reconhece que a complexidade das questões jurídicas supera a capacidade cognitiva de qualquer mente, por mais aguda que seja. Não há vício nessa constatação; há sabedoria institucional. O julgador que, convencido da excelência de seu raciocínio, recusa-se a acatar a orientação firmada pelo colegiado superior está, na prática, substituindo a arquitetura deliberativa do sistema pela autoridade não legitimada de sua própria consciência. Está a agir como se o tribunal fosse ele, e não aquela entidade coletiva, histórica e plural que o supera. Resulta daí que a divergência, embora legítima e até saudável quando manifestada nos espaços apropriados, não pode converter-se em dissidência permanente que mine a uniformidade da jurisprudência e fragmente a orientação que o jurisdicionado merece receber de modo coerente. Cumpre acrescentar que o respeito ao precedente não apaga a individualidade do julgador. A ratio decidendi a que ele adere não é uma jaula; é uma tradição viva, suscetível de Fl. 8545DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.154 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.738083/2024-13 17 distinção quando os fatos divergem, de superação quando a sociedade evolui, de reconsideração quando o erro originário se demonstra suficientemente grave. O stare decisis não é um mecanismo de ossificação do direito, mas de sua continuidade reflexiva. O julgador que adere ao entendimento consolidado, ainda que a contragosto, preserva algo que vai além do caso concreto: preserva a confiança de que o sistema jurídico tem memória e coerência, de que não está sujeito aos humores cambiantes de cada julgador de plantão. Essa é uma forma de respeito ao administrado que nenhuma brilhante divergência solitária jamais poderá substituir. Ao fim, a grandeza do colegiado reside exatamente nisso: na capacidade de absorver e superar as perspectivas individuais para produzir algo que as transcende. Como a catedral que nenhum artesão medieval viveu para ver concluída, mas que cada um deles construiu com dedicação anônima, o direito jurisprudencial é uma obra coletiva, intergeracional, que se ergue tijolo a tijolo, voto a voto, pela contribuição disciplinada de cada um de seus construtores. Ao julgador que diverge cabe, portanto, a nobreza da contenção: registrar sua posição nos autos com a precisão que o rigor intelectual exige, e então, resignado não à derrota, mas à grandeza do conjunto, acompanhar o entendimento do colegiado. Não porque sua voz não valha, mas porque o coro vale mais. Nesse contexto, apesar de possuir entendimento divergente, penso que é o momento de aderir nominalmente à posição desta 2ª Turma, até que haja modificação nas circunstâncias que sugiram a necessidade de reexame da matéria de direito (para os casos que sigam a tipologia deste, na linha desses precedentes). Em relação à situação da prestação de serviços intelectuais na área médica, e novamente ressalvada minha idiossincrática leitura, aplicarei o entendimento firmado por ocasião do julgamento dos seguintes precedentes: 15956.720051/2017-96 (2202-011.608), Thiago Buschinelli Sorrentino, Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção, sessão em 04 de novembro de 2025 e publicação em 05 de dezembro de 2025; 15956.720169/2016-33 (2202-011.605), Thiago Buschinelli Sorrentino, Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção, sessão em 04 de novembro de 2025 e publicação em 05 de dezembro de 2025; 15956.720051/2017-96 (2202-011.608), Thiago Buschinelli Sorrentino, Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção, sessão em 04 de novembro de 2025 e publicação em 05 de dezembro de 2025; 15956.720169/2016-33 (2202-011.605), Thiago Buschinelli Sorrentino, Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção, sessão em 04 de novembro de 2025 e publicação em 05 de dezembro de 2025. Nesses recursos voluntário, a controvérsia central consistiu em definir se os valores recebidos pelos contribuintes, declarados como rendimentos isentos a título de distribuição de lucros, correspondiam efetivamente a lucros societários ou se, como entendeu a fiscalização, constituíam remuneração por serviços médicos prestados, disfarçada sob a forma de participação societária. Fl. 8546DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.154 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.738083/2024-13 18 Neles, a fiscalização partiu da premissa de que as empresas teriam constituído uma estrutura societária apenas formal, com centenas de médicos admitidos como sócios, mas sem verdadeira affectio societatis. Os elementos apontados foram semelhantes: participação societária simbólica, em geral de R$ 1,00; concentração quase integral das cotas e do poder decisório no sócio-administrador; outorga de procurações amplas; alta rotatividade de sócios; pagamentos frequentes, inclusive várias vezes no mesmo mês ou no mesmo dia; correlação dos valores com plantões, locais de atendimento e produção individual; ausência de lastro contábil suficiente para demonstrar a apuração de lucros; existência de escalas e penalidades; e alegada promessa de recebimento de valores sem tributação. Com base nesse conjunto, a fiscalização reclassificou os valores como rendimentos tributáveis do trabalho e aplicou multa de ofício qualificada. A defesa dos contribuintes sustentou, em linhas gerais, que as empresas eram sociedades simples regularmente constituídas, voltadas à organização da prestação de serviços médicos. Alegou-se que, nesse tipo societário, a distribuição de lucros poderia ser desproporcional ao capital social e vinculada à contribuição de cada sócio para a produção de receitas, nos termos do contrato social e do art. 1.007 do Código Civil. Também se afirmou que as escalas e regras internas representavam mera organização operacional, e não subordinação trabalhista; que a multiplicidade de sócios e a rotatividade eram compatíveis com a dinâmica da atividade médica; que não havia prova individualizada de fraude ou conluio; e que, em todo caso, seria indevida a multa qualificada por ausência de dolo específico. O conselheiro relator rejeitou as preliminares de nulidade, conexão, prejudicialidade externa e insuficiência de fundamentação, por entender que o lançamento e as decisões recorridas permitiam a compreensão da acusação e o exercício da defesa. No mérito, porém, deu razão aos recorrentes. Para ele, os indícios utilizados pela fiscalização não eram suficientes, por si sós, para descaracterizar o vínculo societário e transformar os lucros declarados em remuneração tributável. O relator entendeu que a distribuição de resultados conforme a produção individual poderia ser compatível com sociedade simples de profissionais; que a participação simbólica no capital, a delegação de poderes, a concentração de gestão, a rotatividade e as escalas deveriam ser lidas à luz da economia de serviços especializados e da organização de uma sociedade médica; e que a fiscalização não teria demonstrado, de modo robusto e individualizado, simulação, fraude ou conluio. A posição deste relator também se apoiou na leitura dos precedentes do Supremo Tribunal Federal sobre terceirização, pejotização e liberdade de organização produtiva. Em sua compreensão, a ADPF 324, o RE 958.252, a ADC 66 e reclamações constitucionais posteriores indicariam que, em relações envolvendo profissionais qualificados, especialmente sem demonstração de hipossuficiência concreta, não se poderia presumir fraude apenas porque o serviço foi prestado mediante pessoa jurídica ou estrutura societária. A partir dessa premissa, concluiu que o arranjo adotado pelas empresas poderia ser juridicamente válido e que a Administração não poderia desconsiderá-lo com base em presunções genéricas. Por isso, votou Fl. 8547DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.154 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.738083/2024-13 19 pelo provimento integral dos recursos, com cancelamento do lançamento; e, subsidiariamente, afastaria a multa qualificada por ausência de prova de dolo, fraude ou conluio. Prevaleceu, contudo, a divergência aberta pela conselheira Sara Maria de Almeida Carneiro Silva, nossa colega de ontem e de sempre, a quem sempre renderemos homenagens; designada redatora para os acórdãos. Para a posição vencedora, o conjunto probatório demonstrava que os valores pagos pelas empresas aos médicos não representavam efetiva distribuição de lucros, mas remuneração por trabalho médico. A conselheira redatora atribuiu especial peso à frequência dos pagamentos, à ausência de apuração contábil compatível com distribuição de resultados, à participação societária irrisória, à concentração extrema de poder no sócio-administrador, à outorga de procurações, à rotatividade incompatível com vínculo societário estável, às escalas e penalidades e à promessa de economia tributária. Esses elementos, examinados em conjunto, foram considerados suficientes para demonstrar a simulação da condição de sócio e a natureza tributável dos valores recebidos. Assim, a posição vencedora manteve a reclassificação dos rendimentos como tributáveis pelo IRPF. A conselheira Sara concluiu que a forma societária não correspondia à realidade material da relação mantida entre os médicos e as empresas, pois os pagamentos eram vinculados à prestação de serviços, e não à participação nos resultados da sociedade. Desse modo, confirmou-se a validade do lançamento quanto ao imposto e aos juros, rejeitando-se a tese de que os valores deveriam permanecer como lucros isentos. A divergência vencedora, entretanto, não manteve integralmente a penalidade originalmente aplicada. Embora tenha reconhecido a simulação e preservado a tributação dos valores como rendimentos do trabalho, a decisão aplicou a retroatividade benigna da Lei nº 14.689/2023, que reduziu o percentual da multa qualificada, e deu provimento parcial aos recursos apenas para reduzir a multa de ofício ao patamar de 100%. O resultado, em ambos os acórdãos, foi o provimento parcial por voto de qualidade, vencidos o relator Thiago Buschinelli Sorrentino e a conselheira Andressa Pegoraro Tomazela, que davam provimento integral, e vencido também o conselheiro Marcelo Valverde Ferreira da Silva, que dava provimento parcial em maior extensão. Em síntese, os casos examinaram a validade fiscal da estrutura societária de sociedades destinadas à prestação de serviços de saúde e a natureza dos valores pagos a médicos admitidos como sócios. Este relator entendeu que o Fisco não comprovou suficientemente a simulação, que os elementos apontados poderiam ser compatíveis com sociedade simples de profissionais e que os recursos deveriam ser integralmente providos. A posição vencedora, redigida pela conselheira Sara, entendeu o oposto quanto ao mérito: considerou comprovada a simulação e manteve a reclassificação dos lucros como rendimentos tributáveis, mas reduziu a multa qualificada para 100% em razão da legislação superveniente mais benéfica. Diante da circunstância de que a atual composição deste Colegiado ainda não foi recomposta de modo tendente à estabilidade, se não houver indicação em sentido contrário, por Fl. 8548DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.154 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.738083/2024-13 20 manifestação dos colegas que participarem da sessão de julgamento, entendo ausentes os requisitos que ensejariam a revisão desse entendimento. 4 MÉRITO 4.1 QUADRO Fundamento autônomo Síntese do fundamento do lançamento Síntese do acórdão recorrido Síntese da razão recursal 1 Higidez formal e material da estrutura societária A fiscalização não negou a existência formal da sociedade limitada, mas concluiu que a estrutura foi empregada para conferir aparência societária a relações de prestação de serviços. Considerou que os atos formais não correspondiam à realidade econômica dos pagamentos. A DRJ entendeu que a regular constituição formal não impedia o reconhecimento da simulação, pois a estrutura societária teria servido para ocultar a contratação de médicos contribuintes individuais. Os recorrentes afirmam que a sociedade cumpre integralmente os requisitos do Código Civil, com contrato regularmente registrado, quotas integralizadas, deliberações, balanços e aprovação anual de contas, inexistindo fundamento para desconsiderá-la. 2 Existência da affectio societatis O lançamento concluiu que os médicos não pretendiam associar- se, assumir riscos ou desenvolver empreendimento comum, mas apenas ocupar vagas de trabalho e receber valores por hora ou procedimento. O acórdão considerou que a participação de 0,01%, a rotatividade, a ausência de gestão e os pagamentos ligados ao trabalho demonstravam inexistência de vontade associativa. O recurso sustenta que a affectio societatis se presume da constituição regular e foi confirmada pela integralização das quotas, pela participação societária e pela adesão voluntária dos médicos ao modelo empresarial. 3 Participações societárias ínfimas e assimetria entre os sócios A concentração de mais de 99% do capital e de todos os poderes administrativos em Cynthia, em contraste com dezenas de médicos titulares de 0,01%, foi tomada como indício de artificialidade da estrutura. A DRJ considerou a disparidade societária relevante quando apreciada em conjunto com a falta de poder de gestão, a rotatividade e a remuneração vinculada aos serviços. Os recorrentes argumentam que o Código Civil admite quotas desiguais e concentração da administração, não havendo regra que exija igualdade entre participações ou poderes para o reconhecimento da condição de sócio. 4 Legalidade da distribuição desproporcional de lucros A fiscalização reconheceu abstratamente a possibilidade de distribuição desproporcional, mas concluiu que, no caso, não havia distribuição de lucros: os valores decorriam exclusivamente das horas ou procedimentos realizados. O acórdão afirmou que a controvérsia não residia na validade abstrata da distribuição desproporcional, mas na inexistência concreta de lucros efetivamente distribuídos. O recurso invoca o art. 1.007 do Código Civil e a cláusula contratual que vinculava os resultados aos negócios gerados por cada sócio, defendendo a licitude da distribuição desproporcional. 5 Existência de lucros apurados, contabilizados e aprovados O lançamento destacou a inexistência de balancetes intermediários e de ajustes entre os valores antecipados e o lucro definitivo. Considerou que as atas e planilhas anuais não demonstravam que os pagamentos mensais decorreram de resultados efetivamente apurados. A DRJ entendeu que a ausência de complementação ou devolução após o encerramento dos exercícios era incompatível com autênticas antecipações de lucros. Os recorrentes alegam que foram elaborados balanços e demonstrações de resultados, apresentadas planilhas e realizadas reuniões anuais nas quais as contas e as distribuições de lucros foram aprovadas. 6 Vedação à alteração de institutos de direito privado pelo Fisco A fiscalização afirmou não estar anulando a sociedade ou seus atos entre as partes, mas apenas reconhecendo sua ineficácia perante a Fazenda e tributando os pagamentos conforme sua natureza real, com fundamento nos arts. 109 e 118 do CTN. O acórdão aplicou a primazia da realidade sobre a forma e entendeu que a denominação contratual ou contábil não impediria a tributação de pagamentos cuja substância fosse remuneratória. O recurso sustenta violação ao art. 110 do CTN, porque a Administração teria deformado os conceitos civis de sociedade, sócio e distribuição de lucros para alcançar riqueza não abrangida pela hipótese tributária. 7 Planejamento tributário lícito O lançamento qualificou a estrutura como simulação voltada à supressão de contribuição previdenciária e à falta de retenção do imposto de renda, e não como escolha lícita entre alternativas A DRJ concluiu que não houve mera economia fiscal decorrente de atos verdadeiros, mas alteração deliberada da aparência dos pagamentos para ocultar Os recorrentes afirmam que a adoção da sociedade limitada e da distribuição desproporcional representa elisão fiscal, amparada pela autonomia privada, pela livre iniciativa e pelo direito de Fl. 8549DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.154 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.738083/2024-13 21 Fundamento autônomo Síntese do fundamento do lançamento Síntese do acórdão recorrido Síntese da razão recursal negociais. remuneração. propriedade. 8 Precedentes administrativos, soluções de consulta e julgados judiciais favoráveis O lançamento não afastou a jurisprudência abstrata sobre distribuição desproporcional, mas considerou-a inaplicável porque os pagamentos não teriam sido precedidos de apuração de lucro nem lastreados em resultados sociais. A DRJ distinguiu os precedentes invocados, afirmando que eles tratavam de contribuintes com contabilidade regular, lucros efetivamente apurados e distribuição demonstrada. O recurso invoca decisões do CARF, do Poder Judiciário e a Solução de Consulta Cosit nº 46/2010 para sustentar a legalidade da distribuição antecipada e desproporcional de lucros em sociedades profissionais. 9 Inexistência de obrigação de pagamento de pró- labore mínimo A fiscalização não fundamentou a exigência na ausência de pró-labore mínimo, mas na constatação de que os pagamentos efetuados eram, materialmente, contraprestações por serviços. A DRJ igualmente não afirmou existir obrigação abstrata de pró-labore, mas requalificou os valores por sua vinculação direta às horas e aos procedimentos. Os recorrentes sustentam que nenhuma norma obriga o sócio a receber pró-labore e que sua remuneração pode decorrer exclusivamente de lucros. 10 Assunção dos riscos e deveres próprios da condição de sócio O lançamento concluiu que os médicos não participavam dos riscos, receitas, despesas ou resultados globais; receberiam valores fixos pelo trabalho mesmo na hipótese de prejuízo da empresa. A DRJ considerou que a condição formal de quotista não superava os elementos que indicavam ausência de risco empresarial e de participação material no empreendimento. O recurso afirma que os médicos integralizaram quotas, submeteram-se às responsabilidades civis dos sócios, participaram das deliberações e assumiram o risco de receber conforme os negócios gerados. 11 Ausência de demonstração de vínculo empregatício ou de relação substitutiva A fiscalização classificou os médicos como contribuintes individuais autônomos, e não necessariamente como empregados. O fato gerador decorreu da remuneração paga por pessoa jurídica a pessoas físicas prestadoras de serviços. A DRJ registrou expressamente que a inexistência de vínculo de emprego não afastava a contribuição previdenciária, pois a incidência alcança a remuneração dos autônomos. O recurso alega que a fiscalização afastou a condição de sócio sem demonstrar os requisitos da relação de emprego ou definir adequadamente outra relação jurídica, deixando os profissionais em um “limbo jurídico”. 12 Autonomia profissional dos médicos Para a fiscalização, a autonomia na execução dos serviços não eliminava a condição de contribuinte individual nem transformava a remuneração por hora em lucro societário. A DRJ entendeu que a autonomia reconhecida em outras instâncias reforçava o enquadramento como prestadores autônomos remunerados. Os recorrentes afirmam que os médicos eram gestores de seu tempo e de suas escolhas, sem subordinação, o que confirmaria a legitimidade da organização societária. 13 Insuficiência das reclamatórias trabalhistas O lançamento utilizou quatro ações trabalhistas como elementos corroborativos de que os médicos recebiam por hora e não percebiam participação nos lucros. A DRJ considerou que as ações não constituíam a única prova, mas confirmavam as folhas de pagamento, a contabilidade e as declarações da própria empresa. O recurso sustenta que quatro reclamatórias representam amostra irrisória diante do número de sócios e não poderiam fundamentar conclusão geral sobre a sociedade. 14 Falta de contemporaneidade das reclamatórias A fiscalização utilizou os relatos trabalhistas como evidências do modo de funcionamento da estrutura, embora alguns se referissem a períodos anteriores. A DRJ não lhes atribuiu valor isolado e entendeu que seu conteúdo era compatível com as provas diretas relativas aos exercícios de 2020 a 2022. Os recorrentes afirmam que os reclamantes não integravam o quadro social no período fiscalizado e que seus relatos não poderiam demonstrar irregularidades nos anos objeto da autuação. 15 Ausência de questionamento pela maioria dos médicos O lançamento considerou as características objetivas dos pagamentos e da estrutura, não atribuindo valor decisivo ao fato de a maioria dos profissionais não ter ajuizado ações. O acórdão privilegiou as provas contábeis, as folhas de pagamento e a sistemática operacional, e não a quantidade de médicos que contestaram judicialmente o vínculo. O recurso afirma que a inexistência de insurgência da esmagadora maioria dos sócios evidencia sua concordância com a estrutura e reduz o valor probatório das poucas ações selecionadas. 16 Arquivamento do inquérito pelo Ministério Público do Trabalho O lançamento não acolheu o arquivamento do inquérito como impeditivo da autuação tributária, pois seu objeto era distinto e os fatos fiscais decorreram da natureza dos pagamentos. A DRJ afirmou a independência das instâncias. Entendeu que o reconhecimento de autonomia pelo MPT não afastava, mas corroborava, a condição de contribuinte individual. Os recorrentes sustentam que o MPT reconheceu não se tratar de associação fraudulenta e qualificou os médicos como profissionais autônomos e gestores de suas escolhas, conclusão que deveria ser prestigiada por segurança jurídica. 17 Médicos não formalizados como sócios de fato A fiscalização separou os pagamentos feitos a médicos que nunca foram sócios e aos que receberam fora do período societário, entendendo que, nessas A DRJ rejeitou a tese de sociedade de fato porque os pagamentos continuavam vinculados às horas ou aos procedimentos, sem O recurso invoca a teoria da aparência, a boa-fé objetiva e a primazia da substância sobre a forma para reconhecer como sócios de fato os médicos que já atuavam Fl. 8550DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.154 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.738083/2024-13 22 Fundamento autônomo Síntese do fundamento do lançamento Síntese do acórdão recorrido Síntese da razão recursal situações, nem formalmente poderia haver distribuição de lucros. participação em resultados. enquanto se processava a alteração contratual. 18 Demora burocrática na formalização societária O lançamento reconheceu a demora nas alterações, mas entendeu que ela revelava a inviabilidade operacional da “engenharia” empregada e explicou os pagamentos feitos antes do ingresso formal ou a médicos jamais incluídos. A DRJ considerou que o início da prestação e dos pagamentos antes do ingresso — ou sem ingresso posterior — reforçava a natureza remuneratória. Os recorrentes afirmam que a coleta de assinaturas e o registro na Junta Comercial eram demorados e que a falta temporária de formalização não eliminava a vontade associativa existente desde o início. 19 Inaplicabilidade autônoma do art. 124, I, do CTN O lançamento aplicou o art. 124, I, em razão do interesse comum atribuído à administradora e também o art. 135, III, por sua atuação direta nos atos qualificados como fraudulentos. A DRJ manteve a responsabilidade com base tanto na participação central de Cynthia na estrutura quanto na prática de atos com infração de lei. O recurso sustenta que o art. 124, I, não é norma autônoma de inclusão de terceiros no polo passivo, servindo apenas para disciplinar a solidariedade entre sujeitos já definidos por lei. 20 Inexistência de interesse jurídico comum no fato gerador A fiscalização considerou que Cynthia tinha interesse comum porque controlava a sociedade, administrava a operação, representava os médicos e se beneficiava do lucro ampliado pela supressão dos tributos. A DRJ entendeu configurado interesse direto e preponderante no resultado da fraude, além da atuação conjunta na situação tributada. O recurso diferencia interesse econômico de interesse jurídico e afirma que Cynthia não ocupava o mesmo polo da relação que constituiu os fatos geradores nem recebeu os pagamentos tributados. 21 Ausência de prova individualizada da conduta de Cynthia O lançamento apontou que Cynthia era a única administradora, detinha mais de 99% do capital, assinava contratos, representava dezenas de médicos e teria sido a principal beneficiária da sistemática. A DRJ qualificou-a como figura central, arquiteta e beneficiária do esquema, entendendo suficientemente individualizada sua participação. O recurso afirma que sua responsabilidade foi presumida a partir da condição de sócia majoritária e administradora, sem prova concreta de ato doloso, confusão patrimonial, sonegação ou conluio. 22 Inaplicabilidade do art. 135, III, do CTN Para a fiscalização, a simulação deliberada, praticada por intermédio da única administradora, constituiu infração de lei diretamente relacionada à supressão tributária. A DRJ concluiu que não se tratava de mero atraso ou erro, mas de atos dolosos e simulados enquadráveis no art. 135, III. O recurso sustenta que o dispositivo exige ato pessoal com excesso de poderes ou infração de lei, contrato ou estatuto, acompanhado de nexo causal, requisitos que não teriam sido demonstrados. 23 Mero inadimplemento tributário O lançamento afastou essa caracterização porque entendeu que houve ocultação da natureza dos pagamentos, falta de declaração dos médicos como contribuintes individuais e contabilização dos honorários como lucros. A DRJ considerou inaplicável a Súmula nº 430 do STJ, pois não se tratava de simples inadimplemento, mas de simulação deliberada. Os recorrentes afirmam que as operações foram registradas, as notas fiscais emitidas e as informações disponibilizadas, inexistindo ocultação; assim, eventual débito decorreria apenas de interpretação tributária divergente. 24 Ausência de fraude e conluio para qualificação da multa A fiscalização considerou fraudulentas a atribuição de aparência societária aos médicos e a classificação dos pagamentos como lucros. Reconheceu conluio porque os beneficiários declararam os valores como rendimentos isentos. A DRJ entendeu que a estrutura e a sistemática revelavam intenção de alterar as características essenciais dos pagamentos e impedir a incidência tributária. O recurso sustenta que a qualificação exige prova inequívoca do dolo, não bastando presunções ou indícios extraídos da adoção de estrutura societária admitida pela legislação. 25 Controvérsia jurídica incompatível com o dolo O lançamento entendeu que a existência de precedentes sobre distribuição desproporcional não legitimava a simulação constatada no caso concreto. A DRJ afirmou que os precedentes favoráveis tratavam de situações distintas e não constituíam salvo- conduto para atribuir aparência de lucro a remunerações. Os recorrentes sustentam que a jurisprudência administrativa e judicial e as orientações da Receita demonstram dúvida objetiva sobre a matéria, incompatível com evidente intuito de fraude. 26 Caráter confiscatório e desproporcional da multa A fiscalização aplicou a multa qualificada de 100%, por ser mais benéfica que o percentual anteriormente vigente, com fundamento na fraude e no conluio reconhecidos. A DRJ manteve integralmente o percentual por considerar presentes as hipóteses legais de qualificação. Subsidiariamente, os recorrentes afirmam que a multa é confiscatória e viola a proporcionalidade, requerendo sua exclusão ou redução ao menor patamar legal. Fl. 8551DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.154 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.738083/2024-13 23 Como se vê, apesar da pletora de argumentos consistentes, a controvérsia pode ser consolidada em cinco eixos: a) Natureza dos pagamentos: para a fiscalização e a DRJ, os valores constituíram remuneração por serviços; para os recorrentes, foram antecipações e distribuições desproporcionais de lucros. b) Realidade da relação societária: o lançamento e o acórdão identificaram sociedade apenas aparente para os médicos minoritários; o recurso sustenta sociedade formal e materialmente válida, inclusive quanto aos sócios de fato. c) Valor das provas: a acusação apoia-se principalmente nas folhas de pagamento, nos registros contábeis, na falta de balancetes intermediários, na inexistência de ajustes e nos pagamentos anteriores ou estranhos ao período societário; o recurso enfatiza contratos, atas, balanços, aprovação de contas, precedentes e a conclusão do MPT. d) Elemento subjetivo: a fiscalização e a DRJ reconheceram simulação dolosa, fraude e conluio; o recurso sustenta planejamento tributário lícito ou, no máximo, divergência interpretativa. e) Responsabilidade e penalidade: a acusação atribui atuação central e benefício direto à administradora e aplica multa qualificada; o recurso nega interesse jurídico comum, infração pessoal, dolo e proporcionalidade da sanção. A fiscalização assentou sua conclusão central no fato de que o valor depositado correspondia exatamente à multiplicação das horas ou atendimentos pelo preço previamente fixado, sem balancetes intermediários, confronto com os resultados anuais ou ajustes posteriores. O acórdão recorrido acolheu essa leitura, concluindo que os pagamentos eram contraprestações por serviços, que a condição societária constituía mera aparência e que os precedentes relativos à distribuição desproporcional pressupunham efetiva apuração de lucros e contabilidade apta a demonstrá-los. O recurso, em sentido oposto, sustenta a validade da sociedade e da distribuição desproporcional, a existência de atos contábeis e societários regulares, a ausência de prova de vínculo ou de fraude, a impropriedade da responsabilização da administradora e, subsidiariamente, a impossibilidade de manutenção da multa qualificada. Fl. 8552DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.154 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.738083/2024-13 24 4.2 FUNDAMENTO DETERMINANTE PARA A OBRIGAÇÃO PRINCIPAL - AUSÊNCIA DE BALANCETES E DA NÃO COMPROVAÇÃO DE LUCROS DISTRIBUÍVEIS A controvérsia, neste ponto, não diz respeito à possibilidade abstrata de uma sociedade limitada distribuir lucros de maneira antecipada ou desproporcional à participação de cada sócio no capital social. Tais faculdades, em princípio, podem decorrer da legislação civil e da autonomia contratual. O que se deve examinar é questão anterior e logicamente indispensável: se os valores pagos mensalmente aos médicos correspondiam, de fato, a lucros existentes e passíveis de distribuição. A autoridade fiscal constatou que os pagamentos realizados aos médicos eram determinados mediante a multiplicação do número de horas trabalhadas — ou de procedimentos efetuados — por valores previamente fixados para cada profissional. Segundo as planilhas apresentadas pela própria contribuinte, o montante depositado mensalmente correspondia exatamente ao produto entre a quantidade de serviços prestados e o preço unitário ajustado. A fiscalização registrou, ainda, que a contribuinte declarou não possuir balancetes ou outros levantamentos contábeis intermediários elaborados durante os exercícios de 2020, 2021 e 2022. Também informou não terem ocorrido, após o encerramento desses exercícios, pagamentos complementares, restituições ou quaisquer outros ajustes dos valores que haviam sido registrados como antecipações de dividendos. A partir desses elementos, o lançamento concluiu que os pagamentos mensais não eram determinados com base em resultado contábil intermediário, estimativa de lucro, disponibilidade financeira distribuível ou qualquer outro parâmetro associado ao desempenho econômico da sociedade. O único cálculo realizado era o das horas ou dos procedimentos atribuídos a cada médico. A inexistência de posterior confronto entre os valores antecipados e os resultados definitivos também foi considerada incompatível com a natureza atribuída aos pagamentos. Para a fiscalização, se as quantias fossem efetivamente adiantamentos de lucros, seria necessário, ao final do período de apuração, verificar se os resultados realizados comportavam os valores antecipados e, conforme o caso, promover complementações, compensações ou devoluções. Por essa razão, a autoridade lançadora entendeu que a escrituração dos valores em contas denominadas “adiantamentos de lucros” ou “dividendos antecipados” não refletia sua efetiva natureza. Os pagamentos teriam sido feitos como contraprestação pelos serviços médicos e apenas posteriormente classificados contabilmente como distribuição de resultados. Os recorrentes sustentam que a sociedade mantinha escrituração regular e elaborava, ao término de cada exercício, inventário, balanço patrimonial e demonstração de resultado. Afirmam que as contas da administração e a distribuição dos lucros eram submetidas a reuniões de sócios e regularmente aprovadas, sem ressalvas. Fl. 8553DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.154 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.738083/2024-13 25 Acrescentam que foram apresentadas atas referentes aos exercícios fiscalizados e planilhas demonstrativas dos valores distribuídos. Nessas reuniões, teriam sido expostos os resultados anuais e ratificada a sistemática de distribuição antecipada e desproporcional de lucros, segundo os negócios gerados por cada sócio. Defendem, ainda, que o art. 1.007 do Código Civil permite a distribuição desproporcional e que o contrato social previa critério específico de repartição dos resultados. Para os recorrentes, o fato de os valores variarem conforme a contribuição de cada médico para a formação das receitas não os transformaria em remuneração por serviços, pois seria legítimo atribuir maior parcela dos resultados ao sócio que gerasse mais negócios para a sociedade. Também invocam precedentes administrativos segundo os quais sociedades formadas por profissionais podem distribuir lucros antecipada e desproporcionalmente, desde que haja previsão contratual e contabilidade regular. Sustentam, nesse contexto, que a fiscalização teria desconsiderado documentos contábeis e societários válidos e imposto requisito não previsto na legislação civil. Por fim, argumentam que a aprovação anual das contas e dos valores distribuídos seria suficiente para confirmar a existência dos lucros e convalidar as antecipações realizadas ao longo dos exercícios. As alegações recursais não afastam a conclusão do lançamento. É necessário distinguir a regularidade geral da escrituração contábil da demonstração específica de que determinado pagamento correspondeu a lucro distribuível. A elaboração de balanço ao final do exercício e a aprovação posterior das contas sociais não comprovam, por si sós, que cada valor pago mensalmente durante o ano encontrava suporte em resultado positivo já apurado ou razoavelmente estimado. A distribuição de lucros pressupõe, antes de tudo, a existência de lucro. Não basta que o pagamento seja efetuado a pessoa formalmente qualificada como sócia, nem que seja lançado em conta contábil com denominação societária. É indispensável que haja vínculo demonstrável entre a quantia distribuída e resultado econômico produzido pela sociedade. Quando a distribuição ocorre após o encerramento do exercício, esse vínculo pode ser verificado nas demonstrações contábeis definitivas. Quando ocorre antecipadamente, antes do fechamento anual, torna-se necessário algum instrumento contemporâneo de apuração que permita identificar a existência de resultado disponível até aquele momento. Essa função é normalmente desempenhada por balanços ou balancetes intermediários, aptos a confrontar receitas, custos, despesas e demais elementos formadores do resultado. Não se afirma, com isso, que determinada espécie ou nomenclatura de documento contábil constitua requisito civil absoluto para todo e qualquer adiantamento. O ponto decisivo é probatório: sem apuração intermediária, ou outro elemento equivalente capaz de demonstrar a Fl. 8554DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.154 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.738083/2024-13 26 formação de lucro no momento dos pagamentos, não há base objetiva para qualificá-los como antecipações de resultado. No caso concreto, a própria contribuinte informou que não elaborou balancetes ou levantamentos contábeis intermediários durante os exercícios fiscalizados. Assim, os pagamentos mensais não foram precedidos de qualquer verificação contábil da existência de lucros acumulados ou correntes disponíveis para distribuição. Além disso, os valores não eram calculados como percentual de resultado, rateio de excedente, adiantamento estimado ou parcela de lucro apurado. Eram obtidos por operação aritmética diretamente vinculada à atividade pessoal de cada médico: quantidade de horas ou procedimentos multiplicada por preço previamente estabelecido. Esse critério não é apenas um modo desproporcional de dividir lucros. Trata-se de método próprio de remuneração de serviços. A distribuição desproporcional permite que sócios recebam parcelas diferentes de um resultado societário existente; ela não converte automaticamente em lucro qualquer pagamento definido com base no volume individual de trabalho. A cláusula contratual que autoriza distribuir resultados segundo os negócios gerados pelos sócios não altera essa conclusão. A previsão somente pode operar sobre resultado efetivamente apurado. Ela disciplina como repartir o lucro, mas não substitui a demonstração de que o lucro existia. Em outras palavras, a regra contratual de distribuição resolve o problema da proporção entre os sócios, não o problema da formação da base distribuível. Também não procede a alegação de que as atas anuais teriam confirmado a natureza dos pagamentos. As atas registram a aprovação posterior das contas e da sistemática utilizada, mas não demonstram que, em cada mês, havia resultado suficiente para suportar as quantias pagas. A ratificação societária não supre a ausência de suporte contábil contemporâneo nem modifica a natureza econômica de pagamentos já realizados segundo horas e procedimentos. A ausência absoluta de ajustes ao final dos exercícios reforça essa conclusão. Antecipações verdadeiras estão sujeitas ao resultado definitivo. Se o lucro realizado for superior ao estimado, pode haver complementação; se for inferior, torna-se necessária compensação, restituição ou redução de distribuições futuras. No presente caso, não ocorreu qualquer confronto individual entre os valores pagos e o lucro final atribuído a cada sócio. Isso revela que o resultado anual não funcionava como limite, condição ou referência para os pagamentos. Os médicos recebiam integralmente os valores calculados por sua produção, e esses valores permaneciam definitivos, independentemente do desempenho global da sociedade. A aprovação anual das contas, portanto, não transformou os pagamentos anteriores em lucros. No máximo, confirmou contabilmente valores já pagos por critério alheio à Fl. 8555DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.154 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.738083/2024-13 27 apuração do resultado. A classificação contábil posterior não prevalece sobre a realidade revelada pelos próprios documentos da contribuinte. Os precedentes invocados no recurso igualmente não alteram o desfecho. Os julgados que admitem distribuição antecipada ou desproporcional de lucros partem da premissa de que os resultados foram efetivamente apurados e de que a contabilidade permite estabelecer correspondência entre o lucro realizado e os valores distribuídos. Não se extrai desses precedentes autorização para tratar como dividendos pagamentos fixados exclusivamente em razão de horas trabalhadas, sem apuração intermediária e sem ajuste posterior. Não há, portanto, oposição entre a legislação civil e a exigência tributária. Reconhece-se a possibilidade jurídica de distribuição desproporcional; o que não se reconhece, por falta de demonstração, é que os valores discutidos constituíssem lucros. A controvérsia não se resolve pela validade abstrata da cláusula contratual, mas pela qualificação dos fatos concretamente verificados. A prova produzida indica que os pagamentos eram certos quanto ao critério, definitivos quanto ao valor e diretamente proporcionais aos serviços executados. Em contrapartida, não há demonstração de resultado intermediário, de lucro disponível no momento de cada pagamento ou de posterior ajuste com base nas demonstrações anuais. Esse conjunto de circunstâncias impede considerar as quantias como antecipações de lucros. A denominação utilizada na escrituração e a aprovação societária posterior não são suficientes para afastar a natureza remuneratória evidenciada pela forma de cálculo e pela ausência de vínculo com os resultados da empresa. Conclui-se, assim, pela manutenção do entendimento de que os valores pagos aos médicos constituíram contraprestação pelos serviços prestados e integraram a base de cálculo da contribuição previdenciária patronal prevista no art. 22, III, da Lei nº 8.212/1991. Diante do exposto, rejeito o argumento. 4.3 FUNDAMENTO DETERMINANTE - MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA A autoridade fiscal aplicou a multa de ofício no percentual de 100%, com fundamento no art. 44, § 1º, da Lei nº 9.430/1996, por entender configuradas fraude e atuação concertada entre a sociedade e os beneficiários dos pagamentos. A controvérsia exige verificar se as circunstâncias apuradas revelam apenas erro de interpretação, inadequação contábil ou falta de recolhimento ou, diversamente, conduta conscientemente orientada a modificar a apresentação dos fatos relevantes para a incidência tributária. A fiscalização partiu da premissa de que a SAUDEX contratava médicos pessoas físicas para executar os serviços necessários ao cumprimento de seus contratos com os Fl. 8556DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.154 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.738083/2024-13 28 tomadores. Os profissionais eram remunerados mensalmente em função das horas trabalhadas ou dos procedimentos realizados, mediante valores unitários previamente estabelecidos. Apesar disso, a maior parte dos médicos era formalmente incluída no contrato social com participação de 0,01% do capital, e os pagamentos correspondentes eram contabilizados como antecipações de lucros ou dividendos. Para a autoridade lançadora, essa estrutura alterava apenas a aparência jurídica dos pagamentos, sem modificar sua origem material no trabalho pessoal dos profissionais. A fiscalização considerou especialmente relevantes os seguintes elementos:  a correspondência exata entre os valores pagos e a multiplicação das horas ou procedimentos pelos preços previamente ajustados;  a inexistência de balancetes ou levantamentos intermediários que demonstrassem lucros disponíveis nos momentos dos pagamentos;  a ausência de complementações, restituições ou compensações após a apuração dos resultados anuais;  o pagamento de valores antes do ingresso formal de diversos médicos na sociedade;  a realização de pagamentos a profissionais que jamais integraram o contrato social;  a elevada rotatividade do quadro societário;  a concentração de praticamente todo o capital e de todos os poderes administrativos em uma única sócia;  a classificação dos rendimentos como isentos também nas declarações pessoais dos beneficiários. Diante desse conjunto, a fiscalização entendeu que a forma societária não foi apenas utilizada como opção empresarial legítima, mas instrumentalizada para conferir aos honorários profissionais aparência de lucros isentos e não sujeitos à contribuição previdenciária. A alteração consciente das características apresentadas dos pagamentos, com o objetivo de evitar a incidência tributária, foi enquadrada como fraude, nos termos do art. 72 da Lei nº 4.502/1964. A autoridade também reconheceu conluio, por considerar que os médicos aderiram à estrutura e trataram os valores recebidos como rendimentos isentos. Em razão dessas conclusões, aplicou-se a multa qualificada de 100%, percentual previsto pela legislação superveniente mais benéfica, em substituição ao percentual de 150% anteriormente vigente, com fundamento no art. 106, II, “c”, do CTN. Fl. 8557DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.154 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.738083/2024-13 29 Os recorrentes sustentam que não houve fraude, sonegação ou conluio, mas adoção de estrutura societária permitida pelo direito privado. A distribuição desproporcional de lucros seria expressamente autorizada pelo Código Civil e prevista no contrato social da empresa. Afirmam que a sociedade mantinha escrituração contábil, elaborava demonstrações anuais e submetia suas contas e distribuições de resultados à aprovação dos sócios. A conduta, portanto, não teria sido clandestina nem destinada a impedir o conhecimento dos fatos pela Administração Tributária. Acrescentam que existem precedentes do CARF, decisões judiciais e orientação da própria Receita Federal reconhecendo a possibilidade de distribuição antecipada e desproporcional de lucros em sociedades de profissionais. A divergência sobre a aplicação desses entendimentos ao caso concreto demonstraria controvérsia jurídica objetiva, incompatível com o evidente intuito de fraude. Argumentam também que a qualificação da multa exige prova inequívoca da conduta dolosa, não sendo suficientes presunções fundadas na estrutura societária, na forma de escrituração ou na falta de recolhimento. Subsidiariamente, alegam que o percentual aplicado possui efeito confiscatório e viola o postulado da proporcionalidade, por impor consequência excessiva em relação à infração imputada. Requerem, assim, a exclusão da qualificação ou a redução da penalidade ao patamar ordinário. As razões recursais não afastam a qualificação da multa. A aplicação da penalidade agravada não pode decorrer automaticamente da falta de pagamento do tributo nem da simples requalificação jurídica de determinada operação. É indispensável identificar elementos que demonstrem comportamento consciente voltado a impedir ou retardar o conhecimento do fato gerador, ou a modificar suas características essenciais, de modo a reduzir ou evitar a obrigação tributária. Essa demonstração, contudo, não exige confissão expressa do contribuinte. O elemento subjetivo pode ser inferido de circunstâncias objetivas, desde que estas sejam convergentes, consistentes e incompatíveis com explicação razoável fundada em erro ou divergência interpretativa. No caso, a qualificação não foi sustentada apenas na existência de distribuição desproporcional de lucros. Tampouco decorreu exclusivamente da participação reduzida dos médicos no capital social. O fundamento encontra-se na combinação entre a forma de cálculo dos pagamentos, a inexistência de suporte contábil contemporâneo e a utilização reiterada da condição formal de sócio para afastar a incidência tributária. Os valores pagos não eram definidos com base em lucro intermediário, resultado acumulado, percentual sobre resultado disponível ou qualquer outra grandeza societária. Eram Fl. 8558DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.154 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.738083/2024-13 30 previamente determináveis a partir do número de horas ou procedimentos executados por cada médico. Esse dado era conhecido pela contribuinte, pois resultava de suas próprias folhas e planilhas. Também era de seu conhecimento que não havia balancetes intermediários nem posterior confronto individual entre os valores pagos e os lucros efetivamente apurados ao final dos exercícios. Não se tratou, portanto, de antecipar valores com base em resultado estimado que, por erro, veio a revelar-se insuficiente. A apuração do lucro não integrava o mecanismo de determinação ou confirmação dos pagamentos. O valor devido ao médico era fixado e tornado definitivo pelo trabalho executado. A circunstância de os pagamentos terem sido registrados na contabilidade não exclui a fraude. O art. 72 da Lei nº 4.502/1964 não exige ocultação material absoluta da operação. Também alcança a conduta destinada a excluir ou modificar as características essenciais do fato relevante para a incidência. No presente caso, os pagamentos foram registrados, mas sob categoria jurídica que lhes retirava a natureza de remuneração e, por consequência, os efeitos previdenciários correspondentes. A irregularidade apontada reside justamente na apresentação formal dos honorários como lucros societários. A emissão de notas fiscais pela empresa aos tomadores dos serviços igualmente não esclarecia a natureza dos pagamentos feitos aos médicos. Esses documentos demonstravam as receitas obtidas pela sociedade perante seus clientes, mas não revelavam, por si, se os valores posteriormente destinados aos profissionais constituíam lucros ou contraprestações por serviços. Também é relevante que a sistemática não se limitou aos profissionais que, no momento dos pagamentos, figuravam formalmente como sócios. Foram identificados valores pagos antes do ingresso no contrato social e a médicos que nunca chegaram a integrá-lo. Essas situações não representam episódios estranhos ao modelo. Ao contrário, revelam que o pagamento decorria da execução dos serviços, enquanto a formalização societária era utilizada, quando possível, para conferir aos valores tratamento tributário diverso. A alegação de demora nos registros perante a Junta Comercial não explica os pagamentos feitos a profissionais jamais incluídos no quadro social. Tampouco explica por que os valores eram determinados e pagos antes de qualquer apuração de resultados. O conjunto evidencia, assim, que a condição societária não determinava o direito ao pagamento. Era o trabalho realizado que gerava o crédito do profissional. A condição formal de sócio atuava como elemento de qualificação posterior desse pagamento. A controvérsia jurídica invocada pelos recorrentes também não afasta a qualificação. Fl. 8559DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.154 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.738083/2024-13 31 É certo que existem precedentes reconhecendo a legalidade de distribuições antecipadas e desproporcionais de lucros. Esses julgados, entretanto, não autorizam a classificação indiscriminada de qualquer valor pago a sócio como lucro. Eles pressupõem a existência de resultado efetivamente apurado ou demonstrável e a correspondência entre a contabilidade e a realidade econômica da distribuição. A dúvida jurídica seria relevante se a controvérsia se limitasse à validade de uma cláusula contratual de distribuição desproporcional ou à necessidade de pagamento de pró- labore. Não é essa, porém, a questão decisiva. O que se constatou foi a falta de demonstração de lucros distribuíveis e a existência de pagamentos mensais diretamente vinculados ao volume de serviços. A jurisprudência que admite distribuição desproporcional não oferece amparo para tratar como lucros valores desvinculados de resultados sociais. Por essa razão, os precedentes invocados não configuram orientação administrativa apta a gerar confiança legítima quanto à licitude da conduta concreta. As premissas fáticas são distintas. A repetição da sistemática durante todo o período fiscalizado reforça a conclusão. Não se está diante de classificação isolada ou de equívoco eventual. O modelo envolvia ingresso formal de profissionais, procurações, sucessivas alterações contratuais, contas contábeis específicas e aplicação uniforme do tratamento tributário aos pagamentos. A complexidade e a continuidade desses atos afastam a hipótese de falha meramente acidental. Revelam decisão organizacional consciente sobre a forma de contratação, contabilização e declaração dos valores. Quanto ao conluio, a classificação dos rendimentos como isentos nas declarações pessoais dos médicos constitui elemento corroborativo da convergência de interesses. Não é necessário, contudo, demonstrar ajuste individual e específico com cada beneficiário para manter a multa, pois a fraude atribuída à própria contribuinte já é suficiente para a qualificação prevista no art. 44 da Lei nº 9.430/1996. Em outras palavras, ainda que não fosse possível afirmar a participação subjetiva uniforme de todos os médicos, permaneceria demonstrada a conduta da fonte pagadora de alterar conscientemente a natureza apresentada dos pagamentos para evitar a incidência da contribuição. Não há sobreposição indevida entre esta conclusão e a responsabilidade atribuída à administradora. Naquele capítulo, examinou-se a vinculação pessoal de Cynthia aos atos de gestão e o nexo entre esses atos e os créditos lançados. Aqui, examina-se especificamente se a conduta da contribuinte preenche os requisitos para a aplicação da penalidade qualificada. O conjunto probatório permite concluir que a contribuinte não apenas deixou de recolher contribuição cuja incidência posteriormente veio a ser reconhecida. Ela estruturou e Fl. 8560DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.154 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.738083/2024-13 32 manteve mecanismo destinado a apresentar remunerações por serviços como distribuições de resultados, embora ausentes os elementos contábeis indispensáveis à existência desses resultados. Está, assim, caracterizada ação consciente tendente a modificar característica essencial dos pagamentos e, por essa via, evitar a incidência tributária, enquadrando-se a conduta no conceito de fraude estabelecido pelo art. 72 da Lei nº 4.502/1964. Os recorrentes sustentam, subsidiariamente, que a multa de 100% possui caráter confiscatório e viola a proporcionalidade. A penalidade, entretanto, foi aplicada no percentual expressamente previsto no art. 44, § 1º, da Lei nº 9.430/1996 para as hipóteses qualificadas. A autoridade administrativa julgadora não pode afastar norma legal vigente com fundamento em alegação genérica de inconstitucionalidade, conforme orientação consolidada na Súmula CARF nº 2. Além disso, foi aplicado o percentual de 100%, mais favorável ao sujeito passivo do que o percentual de 150% vigente ao tempo de parte dos fatos, em observância à retroatividade benigna prevista no art. 106, II, “c”, do CTN. Reconhecida a subsunção da conduta às hipóteses legais de qualificação, não cabe ao julgador administrativo substituir o percentual definido em lei por outro que considere subjetivamente mais adequado. Diante da correspondência direta entre os pagamentos e os serviços executados, da inexistência de apuração intermediária de lucros, da ausência de ajustes posteriores, da utilização da condição formal de sócio para alterar o tratamento tributário dos valores e da aplicação reiterada e organizada dessa sistemática, encontra-se demonstrado o elemento subjetivo necessário à qualificação. Voto, portanto, por manter a multa de ofício no percentual de 100%, aplicada nos termos do art. 44, § 1º, da Lei nº 9.430/1996, afastando os pedidos de redução ao percentual ordinário e de exclusão com fundamento em confisco ou desproporcionalidade. Diante do exposto, rejeito o argumento. 4.4 FUNDAMENTO DETERMINANTE DA RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA DE CYNTHIA KOZENIESKI AYALA DOS SANTOS A responsabilidade atribuída a Cynthia Kozenieski Ayala dos Santos foi fundamentada, no lançamento, nos arts. 124, I, e 135, III, do Código Tributário Nacional. A análise deve distinguir os pressupostos próprios de cada dispositivo e evitar que a manutenção da sujeição passiva dependa, neste capítulo, de antecipação das conclusões pertinentes à qualificação da penalidade. Fl. 8561DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.154 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.738083/2024-13 33 A autoridade fiscal registrou que Cynthia foi a única administradora da SAUDEX durante todo o período fiscalizado e que detinha participação superior a 99% do capital social. Conforme o contrato social, concentrava poderes para representar a sociedade, celebrar e rescindir contratos, movimentar contas bancárias, emitir ordens de pagamento e praticar isoladamente os atos de administração. Também foi consignado que Cynthia celebrou os contratos com os tomadores dos serviços médicos e recebeu procurações de grande número dos profissionais incluídos no quadro societário. Tais instrumentos lhe conferiam poderes relacionados às alterações contratuais, ao ingresso e à retirada de sócios e à transferência de quotas. A fiscalização considerou que essas circunstâncias demonstravam sua atuação efetiva na organização e na continuidade da estrutura adotada pela empresa. A inclusão formal dos médicos no quadro societário e a classificação dos valores pagos como antecipações de lucros dependeriam de atos praticados no âmbito da administração por ela exercida. O lançamento apontou, ainda, que Cynthia se beneficiava economicamente da sistemática, por ser titular de praticamente todo o capital social e destinatária do resultado residual da atividade empresarial após os pagamentos efetuados aos médicos. Com base nesses elementos, a autoridade entendeu configurado interesse comum na situação constitutiva dos fatos geradores, para fins do art. 124, I, do CTN. Considerou também que a atuação da administradora na implantação e na manutenção da forma de contratação, pagamento e contabilização dos valores caracterizava prática de atos com infração de lei, atraindo o art. 135, III, do mesmo Código. Os recorrentes sustentam que o art. 124, I, do CTN não constitui norma autônoma de atribuição de responsabilidade tributária. A solidariedade apenas disciplinaria a relação entre sujeitos que já integrem o polo passivo por força de disposição legal específica, não sendo suficiente, isoladamente, para incluir terceiro na obrigação. Alegam igualmente que o interesse comum previsto no dispositivo deve ser jurídico, e não meramente econômico. Sua configuração exigiria participação conjunta na própria situação tomada pela lei como fato gerador ou identidade de posição na relação jurídica subjacente. A condição de sócia majoritária, administradora ou beneficiária dos resultados não bastaria. Argumentam que não houve individualização de ato ilícito praticado por Cynthia. A imputação teria decorrido apenas da concentração do capital e dos poderes de gestão, fatores que não autorizariam, por si sós, sua responsabilização. Quanto ao art. 135, III, do CTN, afirmam que a responsabilidade pessoal exige demonstração de ato praticado com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatuto, além de relação causal entre esse ato e a obrigação tributária. A mera administração da sociedade ou a falta de pagamento do tributo seriam insuficientes. Fl. 8562DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.154 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.738083/2024-13 34 Sustentam, ainda, que as operações estavam registradas, que foram emitidos os documentos fiscais pertinentes e que a fiscalização teve acesso à contabilidade e às informações solicitadas. Assim, eventual insuficiência de recolhimento decorreria apenas de divergência quanto à qualificação jurídica dos pagamentos. Invocam, por fim, a Súmula nº 430 do Superior Tribunal de Justiça, segundo a qual o inadimplemento da obrigação tributária pela sociedade não gera, por si só, responsabilidade do sócio-gerente. As razões recursais não afastam a responsabilidade reconhecida. De início, cumpre registrar que a sujeição passiva de Cynthia não foi extraída unicamente de sua condição de sócia majoritária ou da designação formal como administradora. Esses dados foram considerados juntamente com elementos que demonstram participação concreta nos atos relevantes para a constituição dos créditos lançados. Durante todo o período fiscalizado, Cynthia exerceu sozinha a administração da sociedade. Seus poderes abrangiam a celebração dos contratos dos quais provinham as receitas da empresa, a movimentação financeira e a prática dos atos necessários à condução do empreendimento. Além disso, atuava como procuradora de numerosos médicos, com poderes relacionados à entrada e à saída desses profissionais do quadro societário e à transferência de suas quotas. Essa atuação não era periférica, pois a qualificação formal dos médicos como sócios constituía pressuposto da classificação dos pagamentos como lucros ou dividendos. A estrutura examinada demandava decisões reiteradas sobre contratação, ingresso societário, retirada de profissionais, pagamento, escrituração e cumprimento das obrigações tributárias. Não se tratava de evento isolado, de erro contábil pontual ou de ato praticado à margem da administração. É necessário, naturalmente, preservar a autonomia entre a pessoa jurídica e sua administradora. Essa distinção, contudo, não impede a responsabilização quando demonstrado que a pessoa natural participou diretamente dos atos de gestão que produziram a situação tributária examinada. No caso, a concentração dos poderes administrativos, a assinatura dos contratos, a representação dos médicos e a condução das alterações societárias permitem vincular pessoalmente Cynthia à implantação e à manutenção do modelo utilizado pela empresa. Quanto ao art. 124, I, do CTN, é correta a premissa recursal de que simples interesse econômico ou mera participação societária não bastam para estabelecer solidariedade. O dispositivo não pode ser aplicado de forma automática a todo sócio ou administrador que se beneficie dos resultados da empresa. A situação dos autos, porém, não se limita a benefício econômico reflexo. Cynthia interveio nos atos jurídicos e materiais que permitiram à sociedade contratar os médicos, Fl. 8563DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.154 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.738083/2024-13 35 qualificá-los formalmente como sócios e tratar os pagamentos como distribuições de resultados. Sua participação, portanto, relaciona-se diretamente à situação da qual decorreram as obrigações tributárias. Ainda assim, não é necessário atribuir ao art. 124, I, função exclusiva ou autônoma de inclusão da recorrente no polo passivo. A manutenção da responsabilidade encontra fundamento suficiente no art. 135, III, do CTN. Esse dispositivo não responsabiliza o administrador pelo simples fato de a sociedade ter deixado de pagar tributo. A incidência da Súmula nº 430 do STJ pressupõe precisamente situação de mero inadimplemento, desacompanhada de ato qualificado imputável ao gestor. A hipótese examinada é distinta. Os créditos não decorreram apenas da falta posterior de pagamento de obrigação regularmente reconhecida. Resultaram da forma pela qual os vínculos com os médicos foram organizados e os pagamentos foram classificados, contabilizados e excluídos das declarações previdenciárias. A infração atribuída à administradora consiste, portanto, nos atos de gestão que deram suporte à qualificação dos pagamentos como lucros, apesar de estes serem calculados diretamente segundo horas trabalhadas ou procedimentos realizados e não estarem vinculados à apuração de resultados distribuíveis. A existência de registros contábeis e a apresentação de documentos à fiscalização não eliminam essa vinculação. O ponto controvertido não é a ocultação física dos pagamentos, mas a qualificação jurídica e contábil conferida a eles e seus efeitos sobre as obrigações tributárias. Também se encontra demonstrado o nexo causal exigido pelo art. 135, III. A falta de declaração e de recolhimento das contribuições decorreu da opção administrativa de tratar os médicos como sócios e os respectivos pagamentos como antecipações de lucros. Esses atos integravam a esfera de decisão da única administradora e foram praticados mediante os poderes por ela exercidos. Não se afirma, neste ponto, que toda divergência na interpretação da legislação tributária implique responsabilidade pessoal do administrador. Tampouco se antecipa a análise sobre a presença dos requisitos subjetivos necessários à multa qualificada. Para os fins do art. 135, III, basta reconhecer que a obrigação resultou de atos de gestão contrários à legislação aplicável, pessoalmente vinculados à administradora. O benefício econômico decorrente da sistemática também não constitui fundamento isolado da responsabilidade. Ele apenas reforça a relação da recorrente com os fatos, pois, como detentora de quase todo o capital, recebia o resultado residual da atividade após os pagamentos aos médicos, favorecido pela ausência dos encargos incidentes sobre remunerações de contribuintes individuais. Fl. 8564DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.154 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.738083/2024-13 36 Os precedentes invocados no recurso, que afastam a responsabilidade quando fundada exclusivamente no cargo de administrador ou na mera inadimplência, não se aplicam. Aqui, a imputação está acompanhada da identificação dos poderes exercidos e dos atos concretos relacionados à organização societária e à forma de pagamento. Conclui-se, assim, pela manutenção da responsabilidade tributária de Cynthia Kozenieski Ayala dos Santos com fundamento no art. 135, III, do CTN, por sua atuação pessoal e determinante nos atos de gestão dos quais resultaram os créditos tributários. O art. 124, I, pode ser compreendido como fundamento adicional, diante de sua participação direta na situação, mas não é indispensável à manutenção da sujeição passiva. Diante do exposto, rejeito o argumento. 4.5 DEMAIS FUNDAMENTOS APLICADOS EXCLUSIVAMENTE DADO O PRINCÍPIO DO COLEGIADO Nos termos do art. 114, § 12º, I do Regimento Interno do CARF (RICARF/2023), se não houver inovação nas razões recursais, nem no quadro fático-jurídico, o relator pode aderir à fundamentação coligida no acórdão-recorrido. Assim, registro o seguinte trecho do acórdão-recorrido: A Impugnante alega que a distribuição de resultados de forma desproporcional à participação no capital social é uma prática lícita, amparada por seu contrato social e pelo artigo 1.007 do Código Civil. Sustenta que os valores pagos aos médicos são, de fato, lucros da sociedade, e não remuneração por serviços. A autoridade fiscal, por sua vez, demonstrou de forma inequívoca que os pagamentos não guardavam qualquer correlação com o resultado financeiro da empresa. A remuneração era calculada com base em critérios objetivos e fixos, alheios à apuração de lucros, como um valor predefinido por hora trabalhada ou por procedimento médico realizado. A prova material trazida aos autos pela fiscalização é cabal. As folhas de pagamento, fornecidas pela própria Impugnante, detalham a sistemática de cálculo, como no exemplo da folha de maio de 2020, que indica valores de R$ 80,00, R$ 85,00 ou R$ 90,00 por hora, sendo o total depositado na conta de cada profissional o produto exato das horas trabalhadas pelo respectivo valor/hora. O direito tributário pauta-se pelo princípio da primazia da realidade sobre a forma. O nomen iuris atribuído a uma verba ("distribuição de lucros") não tem o condão de afastar a incidência tributária quando a essência econômica do fato é outra. No presente caso, a essência do pagamento não era a partilha de um resultado empresarial, mas a contraprestação por um serviço prestado. Fl. 8565DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.154 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.738083/2024-13 37 A Impugnante confessa, em resposta à intimação fiscal, que "não possui balancetes ou outros levantamentos contábeis intermediários" e que "não houve pagamento de diferença de dividendos aos sócios após a apuração do resultado dos exercícios". Esta admissão é fatal para a sua tese. Uma genuína antecipação de lucros pressupõe, necessariamente, uma apuração posterior, ainda que ao final do exercício, para confrontar o valor adiantado com o lucro efetivamente devido ao sócio, resultando em complementação ou devolução de valores. A ausência completa de tal procedimento de ajuste confirma que os pagamentos mensais eram definitivos e calculados com base no trabalho, e não no capital. Portanto, resta evidente que os valores pagos aos médicos possuem natureza jurídica de remuneração por serviços prestados na qualidade de contribuintes individuais, constituindo base de cálculo para a Contribuição Previdenciária Patronal, nos termos do artigo 22, inciso III, da Lei nº 8.212/91. Da Caracterização da Simulação e da Ausência de Affectio Societatis A defesa da Impugnante sustenta a higidez de sua constituição societária, afirmando que a affectio societatis deve ser presumida. Contudo, a presunção de boa-fé não é absoluta e cede diante de um conjunto probatório robusto em sentido contrário, como o que foi apresentado pela autoridade fiscal. A simulação, no caso, está caracterizada pela criação de uma estrutura jurídica formal (sociedade limitada) com o único propósito de ocultar a verdadeira relação jurídica existente (contratação de serviços) e, com isso, suprimir tributos. Diversos elementos fáticos, analisados em conjunto, demonstram a ausência da intenção de se associar por parte dos médicos. A estrutura societária, com uma sócia detendo mais de 99% do capital e a totalidade dos poderes, e dezenas de outros sócios com participações ínfimas de 0,01% e nenhum poder de gestão, já é um forte indício de anormalidade. A elevadíssima rotatividade no quadro social, com constantes entradas e saídas de médicos, assemelha-se muito mais à dinâmica de um quadro de pessoal do que a de uma sociedade de capitais ou de pessoas. É inverossímil que sócios genuínos, com interesse no desenvolvimento do negócio, entrem e saiam da sociedade com a frequência e volume demonstrados. A constatação de que médicos prestavam serviços e recebiam pagamentos antes mesmo de serem incluídos no contrato social é outra prova contundente contra a tese da defesa. Se o pagamento fosse "lucro de sócio", ele só poderia ser destinado a quem efetivamente ostentasse tal condição. O mesmo se aplica, com ainda mais força, aos casos de médicos que prestaram serviços, foram remunerados, mas jamais integraram o quadro societário. Esses fatos demonstram que a condição de "sócio" era uma mera formalidade, uma "máscara", como bem definiu a fiscalização, imposta como condição para a prestação de serviços, e não o resultado de uma vontade livre e consciente de se Fl. 8566DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.154 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.738083/2024-13 38 associar para partilhar riscos e resultados de um empreendimento comum. A affectio societatis não existia. Da Análise das Provas e da Jurisprudência A Impugnante busca amparo em precedentes do CARF e em uma decisão de arquivamento de inquérito pelo Ministério Público do Trabalho (MPT). Tais argumentos, contudo, não se sustentam quando confrontados com as particularidades do caso. A jurisprudência citada pela defesa, que admite a distribuição desproporcional de lucros, não se amolda ao presente caso, pois trata de situações em que, apesar da desproporcionalidade, havia lucros efetivamente apurados e uma contabilidade regular que os demonstrava. Aqui, a questão não é a desproporcionalidade da distribuição, mas a própria inexistência de uma distribuição de lucros, sendo os pagamentos, em sua essência, honorários por serviços. Quanto ao arquivamento do inquérito pelo MPT, é preciso ressaltar a independência das instâncias. O MPT apura a existência de fraude às leis trabalhistas, cujo foco é a caracterização ou não do vínculo de emprego, com seus requisitos específicos de subordinação, pessoalidade, onerosidade e não eventualidade. A conclusão do MPT de que "não se tratar de associação fraudulenta" para fins trabalhistas e de que os médicos possuíam "suficiente grau de autonomia" não impede o reconhecimento de fraude para fins tributários. De fato, a conclusão do MPT de que os médicos eram autônomos reforça a tese fiscal. Sendo profissionais autônomos que prestam serviços a uma pessoa jurídica, a remuneração que recebem é, por definição legal, base de cálculo de contribuições previdenciárias. A fraude tributária não reside na ausência de vínculo empregatício, mas na dissimulação da natureza dessa remuneração a autônomos, tratando-a como se lucro fosse. As provas materiais colhidas pela fiscalização (planilhas de pagamento, escrituração contábil, contratos) são diretas, objetivas e foram, em grande parte, fornecidas pela própria Impugnante. Elas prevalecem sobre as teses jurídicas e as provas indiretas apresentadas pela defesa. Em suma, a decisão do MPT, ao invés de inocentar a empresa, apenas confirma que a relação não era de emprego, enquadrando os médicos como autônomos. E é justamente sobre a remuneração de autônomos que incidem as obrigações tributárias (INSS e IRRF) que a empresa deixou de cumprir ao simular uma inexistente distribuição de lucros. Da Responsabilidade Solidária da Administradora A defesa argumenta que a mera inadimplência não gera responsabilidade pessoal do sócio-gerente, citando a Súmula 430 do STJ. O argumento é correto, porém inaplicável ao caso. Fl. 8567DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.154 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.738083/2024-13 39 Não estamos diante de "mera inadimplência". A fiscalização não autuou a empresa por um simples atraso ou erro no recolhimento de tributos. O que se constatou foi a prática de atos com infração de lei, por meio de um esquema deliberado de simulação, com o objetivo claro de suprimir tributos. A Sra. Cynthia Kozenieski Ayala dos Santos não era uma administradora alheia aos fatos. Como detentora de mais de 99% do capital e única gestora com plenos poderes, ela era a figura central, a arquiteta e a principal beneficiária do esquema. Todo o lucro empresarial, inflado pela ausência do pagamento dos encargos tributários, era destinado a ela. Essa conduta se enquadra perfeitamente no artigo 135, inciso III, do CTN, que responsabiliza pessoalmente os diretores e gerentes pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com infração de lei ou contrato social. A criação de uma estrutura societária simulada é, por excelência, um ato com infração à lei. Adicionalmente, seu interesse direto e preponderante no resultado da fraude estabelece o "interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal", nos termos do artigo 124, inciso I, do CTN. A manutenção de sua responsabilidade solidária é, portanto, medida que se impõe. Da Manutenção da Multa Qualificada A Impugnante pleiteia, subsidiariamente, o afastamento da multa qualificada de 100%, alegando a existência de controvérsia jurídica sobre o tema, o que afastaria o dolo. A alegação não prospera. A multa qualificada prevista no artigo 44, §1º, da Lei nº 9.430/96, é aplicável nos casos de sonegação, fraude ou conluio, definidos nos artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/64. Fraude, nos termos do artigo 72, é "toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido". A conduta da Impugnante corresponde exatamente a essa descrição. Houve uma ação dolosa (a montagem da estrutura societária simulada) que visou modificar as características essenciais dos pagamentos (de remuneração para lucro) para impedir a ocorrência do fato gerador da contribuição previdenciária. Não se trata de uma mera divergência de interpretação da lei. A existência de alguns precedentes favoráveis aos contribuintes em situações distintas não constitui um salvo-conduto para a prática de simulação. A Impugnante não apenas interpretou a lei de maneira favorável a si, mas também alterou a realidade dos fatos, dando aparência de lucro a pagamentos que eram, em sua essência, salários por produção. Fl. 8568DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.154 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.738083/2024-13 40 O dolo está evidenciado na própria estrutura e na sistemática da operação, que não deixa margem para a interpretação de que teria havido um mero equívoco. A intenção de enganar o Fisco é manifesta. Portanto, a aplicação da multa em seu percentual qualificado é plenamente justificada e deve ser mantida. 5 DISPOSITIVO Ante o exposto, CONHEÇO PARCIALMENTE do recurso voluntário, com exceção das questões relacionadas à inconstitucionalidade, e NEGO-LHE PROVIMENTO. É como voto. Assinado Digitalmente Thiago Buschinelli Sorrentino Fl. 8569DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto 1 CONHECIMENTO 2 “PRELIMINAR” DE ANÁLISE DOS DOCUMENTOS JUNTADOS APÓS A INTERPOSIÇÃO DO RECURSO VOLUNTÁRIO. 3 PRECEDENTES ESPECÍFICOS da composição COLEGIADA passada, ainda não recomposta 4 MÉRITO 4.1 quadro 4.2 FUNDAMENTO DETERMINANTE PARA A OBRIGAÇÃO PRINCIPAL - AUSÊNCIA DE BALANCETES E DA NÃO COMPROVAÇÃO DE LUCROS DISTRIBUÍVEIS 4.3 FUNDAMENTO DETERMINANTE - multa de ofício qualificada 4.4 FUNDAMENTO DETERMINANTE DA RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA DE CYNTHIA KOZENIESKI AYALA DOS SANTOS 4.5 DEMAIS FUNDAMENTOS APLICADOS EXCLUSIVAMENTE DADO O PRINCÍPIO DO COLEGIADO 5 DISPOSITIVO

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Numero do processo: 10480.721749/2015-87
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Aug 19 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Fri Sep 25 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2008 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. VÍCIO MATERIAL. COMPROVAÇÃO. ACOLHIMENTO. Acolhe-se embargos de Declaração para sanar vício material contido no acórdão embargado. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. OMISSÃO. INEXISTÊNCIA. DESNECESSIDADE DE MANIFESTAÇÃO INDIVIDUALIZADA ACERCA DE TODOS OS ARGUMENTOS. Não viola a legislação que rege o processo administrativo tributário, nem importa negativa de prestação das alegações da Recorrente, a decisão administrativa que, mesmo sem ter examinado individualmente cada um dos argumentos trazidos no recurso interposto, adotou fundamentação suficiente para decidir de modo integral a controvérsia ora posta nos autos
Numero da decisão: 3301-015.587
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em acolher parcialmente os embargos de declaração e, na parte acolhida, dar provimento, sem efeitos infringentes, para fazer constar onde se lê 20/12/2007 a data de 24/12/2007. Assinado Digitalmente Keli Campos de Lima - Relatora Assinado Digitalmente Paulo Guilherme Deroulede - Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Marcio Jose Pinto Ribeiro, Keli Campos de Lima, Rodrigo Kendi Hiramuki, Rachel Freixo Chaves, Carlos Marcelo Gouveia, Paulo Guilherme Deroulede (Presidente).
Nome do relator: KELI CAMPOS DE LIMA

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VÍCIO MATERIAL. COMPROVAÇÃO. ACOLHIMENTO. Acolhe-se embargos de Declaração para sanar vício material contido no acórdão embargado. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. OMISSÃO. INEXISTÊNCIA. DESNECESSIDADE DE MANIFESTAÇÃO INDIVIDUALIZADA ACERCA DE TODOS OS ARGUMENTOS. Não viola a legislação que rege o processo administrativo tributário, nem importa negativa de prestação das alegações da Recorrente, a decisão administrativa que, mesmo sem ter examinado individualmente cada um dos argumentos trazidos no recurso interposto, adotou fundamentação suficiente para decidir de modo integral a controvérsia ora posta nos autos ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em acolher parcialmente os embargos de declaração e, na parte acolhida, dar provimento, sem efeitos infringentes, para fazer constar onde se lê 20/12/2007 a data de 24/12/2007. Assinado Digitalmente Keli Campos de Lima – Relatora Fl. 1353DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-015.587 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.721749/2015-87 2 Assinado Digitalmente Paulo Guilherme Deroulede – Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Marcio Jose Pinto Ribeiro, Keli Campos de Lima, Rodrigo Kendi Hiramuki, Rachel Freixo Chaves, Carlos Marcelo Gouveia, Paulo Guilherme Deroulede (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de embargos de declaração apresentado com fundamento no art. 116 do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023. Os Embargos foram opostos em desfavor do Acórdão nº 1301-001.763 – 3ª Câmara / 1ª Turma Ordinária vejamos: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2008 BEBIDAS. CLASSES DE VALORES. ENQUADRAMENTO OU REENQUADRAMENTO DE OFÍCIO. COBRANÇA DA DIFERENÇA DE IMPOSTO E DE ACRÉSCIMOS LEGAIS. Apenas com a edição da IN SRF nº 796, de 20 de dezembro de 2007, o contribuinte passou a ser obrigado a solicitar o reenquadramento das bebidas que comercializava ou industrializava. Recurso Provido em Parte. A Recorrente fundamenta os embargos na existência de erro material e omissões, nos seguintes termos (fls. 617 a 709): “(...) Com efeito, quanto ao erro material diz respeito ao afastamento do IPI relativamente às operações realizadas antes de 20/12/2007, quando editada a IN n. 796/07 (que, de acordo com o voto vencedor, legitimaria a exigência do IPI para as operações futuras). • Contudo, a Instrução em questão veio a ser publicada no DOU apenas em 24/12/2007, conforme indica o próprio texto extraído do sUe da Receita Federal na internet (doc. anexo). Considerando que a validade do referido ato, assim como de qualquer outro, tem início apenas quando de sua publicação na imprensa oficial, impõe-se a correção Fl. 1354DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-015.587 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.721749/2015-87 3 do que - ao que tudo indica - trata-se de mero erro material, ainda que dessa medida não decorram, eventualmente, alterações nos valores mantidos da autuação, o que deverá ser verificado pelas autoridades administrativas de primeiro grau. (...) Ora, ao reconhecer, o próprio acórdão, que a IN n. 796/07 "inovou o sistema" e que suas regras "não podem se voltar para o passado, devendo projetar efeitos • exclusivamente para o futuro, para osfatos ocorridos após o início de sua vigência", afigura-se contraditório ao imputar a Recorrente a falta da conduta correspondente à obrigação de, a partir de 20/12/2007, "solicitar o reenquadramento dos produtos que comercializava. " (fi. 2230) Isto porque na referida data, ou após ela, não houve qualquer modificação nos critérios de comercialização. Tanto em relação à modificação de local de produção (ref. produto Dreher 900ml) quanto no que pertine à questão da (suposta) majoração dos preços, consubstanciam-se em alterações havidas antes da edição da IN n. 796/97. (...) Em suma, o v. acórdão, a despeito da correção de sua interpretação, na linha de que a IN n. 796/07 não poderia retroagir, mostra-se contraditório ao determinar, na parte final, o recolhimento de diferenças de IPI por conta de fatos que ocorreram, justamente, antes de 20/12/2007, o que justifica a oposição dos presentes Embargos de Declaração . (...) Sucede que, desde a impugnação, a Embargante tem demonstrado que não houve reajuste de preços em 2007, ou mesmo nos anos anteriores, que pudesse justificar a modificação de classes. Foi demonstrado que, comparando-se a alteração de preços com dois dos principais indices medidores da inflação - IPCA e IBGE - os preços dos produtos "Campari 900ml" e "Old Eight 1000ml" (os únicos abrangidos nesse item - 3 - do autot mantiveram-se estáveis, com pequenas alterações positivas ou negativas (ou seja, dependendo do índice/período, teria havido até mesmo redução no preço, se descontada a inflação). Considerando que o mero reajuste de preço para acompanhar a inflação não corresponde a aumento ou majoração, já que a correção monetária não implica qualquer acréscimo, mas mero mecanismo de manutenção do poder aquisitivo, mesmo se considerada válida a IN n. 796/07 para fatos ocorridos antes de sua vigência (o que, repita-se, fora descartado pelo próprio acórdão) não poderia o Fisco, no caso em exame, ter modificado as classes por conta desse motivo . Tal argumento, contudo, deixou de ser apreciado pelo v. acórdão, impondo-se o seu acolhimento para que o tema venha a ser analisado, não se opondo a Fl. 1355DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-015.587 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.721749/2015-87 4 Embargante, inclusive, à conversão do julgamento em diligência para que as autoridades fiscais de primeiro grau analisem os números apresentados, informando se, descontada a inflação, teria havido, efetivamente, algum aumento nos preços dos referidos produtos. (...) Em exame de admissibilidade, a Presidência da turma deu seguimento aos embargos conforme despacho, vejamos: 4 Conclusão Destaque-se que o presente despacho não determina se efetivamente ocorreram os vícios. Nesse sentido, o exame de admissibilidade não se confunde com a apreciação do mérito dos Embargos, que é tarefa a ser empreendida subsequentemente pelo Colegiado. Apenas não se rejeitam os Embargos de plano, posto que não restaram como manifestamente improcedentes (art. 116, §3º do RICARF). Diante do exposto, com base nas razões acima e com fundamento no art. 116 do RICARF, DOU SEGUIMENTO PARCIAL aos Embargos de Declaração opostos pelo contribuinte para que o colegiado aprecie as matérias relativas a: - Erro Material Quanto à Data da IN 796/07; - Omissão Quanto aos Reajustes de Preços. Encaminhe-se à DIPRO para sorteio entre os conselheiros da 1ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da 3ª Seção, tendo em vista que a relatora, conselheira Andréa Medrado Darzé, não mais compõe o colegiado Os embargos foram distribuídos a minha relatoria e, assim sendo, passo a apreciar o recurso. É o relatório. VOTO Conselheira Keli Campos de Lima, Relatora. Os embargos são tempestivos e atendem aos requisitos formais, permitindo a análise dos vícios apontados. 1. Erro material quanto a data da IN 796/07. Sustenta a Recorrente erro material no que tange à data de vigência da IN 796/07 nos seguintes termos: (...) Fl. 1356DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-015.587 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.721749/2015-87 5 Com efeito, quanto ao erro material diz respeito ao afastamento do IPI relativamente às operações realizadas antes de 20/12/2007, quando editada a IN n. 796/07 (que, de acordo com o voto vencedor, legitimaria a exigência do IPI para as operações futuras). • Contudo, a Instrução em questão veio a ser publicada no DOU apenas em 24/12/2007, conforme indica o próprio texto extraído do sUe da Receita Federal na internet (doc. anexo). Considerando que a validade do referido ato, assim como de qualquer outro, tem início apenas quando de sua publicação na imprensa oficial, impõe-se a correção do que - ao que tudo indica - trata-se de mero erro material, ainda que dessa medida não decorram, eventualmente, alterações nos valores mantidos da autuação, o que deverá ser verificado pelas autoridades administrativas de primeiro grau (...) Neste ponto, assiste razão à Recorrente devendo o referido erro material ser sanado para constar como data de vigência da IN 796/07, 24/12/2007. Assim, acolho os embargos de declaração neste ponto, sem efeitos infringentes para fazer constar onde se lê 20/12/2007 a data de 24/12/2007. 2. Omissão quanto ao reajuste de preços. Em suas razões, a Embargante sustenta a existência de omissão relevante no julgado, apontando que o Colegiado, embora tenha assentado a aplicação prospectiva da IN SRF nº 796/2007 para manter a autuação de 2008, deixou de examinar argumento fático e probatório formulado desde a impugnação e reiterado no recurso voluntário. Vejamos: “(...) Os Embargos justificam-se, ainda, para sanar omissão. De fato, o item 3 do Auto trata unicamente do IPI relativo a fatos geradores ocorridos em 2008. O v. acórdão manteve integralmente esse item, por reputar que a Embargante teria o dever de proceder a novos reenquadramentos a partir de 20/12/2007, quando foi editada a IN n. 796/07. A justificativa do Auto, nesse item, diz respeito a alterações de preços havidas antes de 20/12/2007, como referido no item anterior (cf. inclusive, transcrição da nota de rodapé nO2). Alterados os preços - afirma o Auto - a Embargante, supostamente, deveria ter solicitado novas classes para 2008, após a edição da IN n. 796/07. Como não solicitou, houve o reenquadramento de ofício, do que resultaram as diferenças de IPI exigidas. Fl. 1357DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-015.587 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.721749/2015-87 6 Sucede que, desde a impugnação, a Embargante tem demonstrado que não houve reajuste de preços em 2007, ou mesmo nos anos anteriores, que pudesse justificar a modificação de classes. Foi demonstrado que, comparando-se a alteração de preços com dois dos principais indices medidores da inflação - IPCA e IBGE - os preços dos produtos "Campari 900ml" e "Old Eight 1000ml" (os únicos abrangidos nesse item - 3 - do autot mantiveram-se estáveis, com pequenas alterações positivas ou negativas (ou seja, dependendo do índice/período, teria havido até mesmo redução no preço, se descontada a inflação). Considerando que o mero reajuste de preço para acompanhar a inflação não corresponde a aumento ou majoração, já que a correção monetária não implica qualquer acréscimo, mas mero mecanismo de manutenção do poder aquisitivo, mesmo se considerada válida a IN n. 796/07 para fatos ocorridos antes de sua vigência (o que, repita-se, fora descartado pelo próprio acórdão) não poderia o Fisco, no caso em exame, ter modificado as classes por conta desse motivo . Tal argumento, contudo, deixou de ser apreciado pelo v. acórdão, impondo-se o seu acolhimento para que o tema venha a ser analisado, não se opondo a Embargante, inclusive, à conversão do julgamento em diligência para que as autoridades fiscais de primeiro grau analisem os números apresentados, informando se, descontada a inflação, teria havido, efetivamente, algum aumento nos preços dos referidos produtos. Ao analisar o Recurso Voluntário em seu item 5 verifica-se que de fato a Recorrente trouxe os referidos argumentos em suas razões recursais. Contudo, entendo que não há a alegada omissão. Consoante expressamente delimitado no voto condutor do Acórdão nº 1301- 001.763, a controvérsia referente ao período a partir da edição da Instrução Normativa SRF nº 796/2007 (fatos geradores de 2008) foi dirimida com suporte na novel disciplina jurídica inaugurada pelo referido ato administrativo (arts. 5º e 6º, II). Com efeito, restou consignado no julgado embargado que: "Dito isso, e tendo em vista que o caso concreto refere-se basicamente a duas situações: (i) estabelecimento que incorpora outro e, a partir daí, passa a industrializar determinada bebida (Dreher 900 ml) e (ii) estabelecimento que comercializa produto já comercializado por outro estabelecimento da mesma pessoa jurídica, em relação às quais a Instrução Normativa passou a impor o dever de realizar solicitação de reenquadramento (art. 5º e 6º, II, respectivamente), conclui-se que, apenas a partir de 20.12.07 a Recorrente não mais poderia recolher o IPI com base nos atos declaratórios até então existentes. Esclareça-se que a situação (i), por si só, se enquadra como modificação de condições de comercialização, razão pela qual se lhe aplica o art. 5º, independentemente, da efetiva alteração do preço. Fl. 1358DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-015.587 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.721749/2015-87 7 Em face do exposto, verifica-se que o Recorrente estava obrigado apenas a partir de 20.12.07 a solicitar o reenquadramento dos produtos que comercializava. (...)" Do trecho acima transcrito, verifica-se que o acórdão embargado considerou que o dever de solicitar o reenquadramento decorreu da modificação nas condições de comercialização dos produtos (mudança do estabelecimento e arranjo de fabricação/revenda entre matriz e filial), hipótese legal e normativa que atrai a aplicação do regime da IN SRF nº 796/2007 independentemente de ter havido ou não majoração de preços. Portanto, a aferição sobre a existência de aumento real ou de recomposição inflacionária dos preços (IPCA/IGP-M) revela-se premissa fática irrelevante para o desfecho conferido ao julgamento pelo Colegiado. Uma vez fixada a tese de que a alteração do regime de comercialização por si só impunha o reenquadramento a partir de 24/12/2007, todos os argumentos e cálculos relativos à inflação restaram prejudicados e expressamente superados pela fundamentação adotada. O julgador não está obrigado a responder exaustivamente a todos os argumentos trazidos pela parte quando a premissa jurídica adotada no julgamento é suficiente para rechaçar, por incompatibilidade lógica, a pretensão recursal. Nesse sentido, inexiste omissão sanável ou fundamento para a conversão do feito em diligência probatória, restando evidente a pretensão da Embargante de rediscutir a tese de direito já apreciada e decidida pela Turma. Dispositivo Diante do exposto, voto por acolher parcialmente embargos de declaração e na parte acolhida para dar provimento sem efeitos infringentes para fazer constar onde se lê 20/12/2007 a data de 24/12/2007. Keli Campos de Lima Assinado Digitalmente Fl. 1359DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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Numero do processo: 10340.720247/2020-09
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 25 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Wed Sep 23 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2017, 2018, 2019 RECURSO VOLUNTÁRIO. CONHECIMENTO PARCIAL. MULTA DE OFÍCIO E JUROS INCIDENTES SOBRE A PENALIDADE. MATÉRIAS ESTRANHAS AO PROCESSO DE EXCLUSÃO. As alegações relativas à multa de ofício e aos juros incidentes sobre a penalidade devem ser examinadas nos processos administrativos referentes aos lançamentos tributários decorrentes, por não integrarem o objeto do processo de exclusão do Simples Nacional. Assunto: Simples Nacional Período de apuração: 01/01/2017 a 31/12/2019 EXCLUSÃO DE OFÍCIO. CONSTITUIÇÃO POR INTERPOSTAS PESSOAS. CONJUNTO DE INDÍCIOS CONVERGENTES. CONFIGURAÇÃO. A constituição da optante por familiares da administradora da sociedade que deixaria o regime, a sucessão coordenada das participações, a atuação da antiga administradora, a identidade de atividades, o funcionamento no mesmo complexo, a concentração da folha na optante, a concentração do faturamento na outra sociedade e o financiamento contínuo daquela estrutura por mútuos demonstram que a pessoa jurídica foi utilizada como extensão do empreendimento central. A existência formal, a emissão de notas fiscais e a titularidade de ativos próprios não afastam a interposição quando compatíveis com a função instrumental efetivamente desempenhada. PRÁTICA REITERADA DE INFRAÇÃO. DIVISÃO ARTIFICIAL DA FOLHA E DO FATURAMENTO. SUCESSIVOS PERÍODOS DE APURAÇÃO. Caracteriza prática reiterada a utilização, em competências sucessivas, da mesma estrutura societária para concentrar a folha de salários na pessoa jurídica optante pelo Simples Nacional, enquanto outra sociedade do empreendimento concentra o faturamento e financia as despesas operacionais, com redução das contribuições incidentes sobre a mão de obra. Configura-se a hipótese do art. 29, V e § 9º, da Lei Complementar nº 123/2006. DESPESAS PAGAS SUPERIORES AOS INGRESSOS DE RECURSOS. ERRO NA APURAÇÃO. HIPÓTESE NÃO CONFIGURADA. A hipótese do art. 29, IX, da Lei Complementar nº 123/2006 exige comparação entre despesas efetivamente pagas e todos os ingressos de recursos no mesmo ano-calendário. Bases de remuneração informadas em GFIP não equivalem, sem demonstração, a despesas pagas; receita declarada no PGDAS não se confunde com ingressos de recursos, especialmente quando a Fiscalização reconhece o financiamento da empresa por mútuos e não apura os fluxos correspondentes. MEIO FRAUDULENTO. SEGREGAÇÃO DE RECEITAS E MÃO DE OBRA. IMPEDIMENTO DECENAL. A manutenção de pessoas jurídicas formalmente apartadas para alocar a folha à optante pelo regime favorecido e o faturamento à sociedade central constitui meio fraudulento destinado a reduzir tributos e a manter a Fiscalização em erro quanto à unidade material do empreendimento. Cabível o impedimento de nova opção durante dez anos, nos termos do art. 29, § 2º, da Lei Complementar nº 123/2006.
Numero da decisão: 1301-008.403
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos termos do voto da Relatora. Assinado Digitalmente Eduarda Lacerda Kanieski - Relatora Assinado Digitalmente Rafael Taranto Malheiros - Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Gustavo de Oliveira Machado, Iagaro Jung Martins, Rafael Taranto Malheiros, Eduarda Lacerda Kanieski, Jose Eduardo Dornelas Souza e Luis Angelo Carneiro Baptista.
Nome do relator: EDUARDA LACERDA KANIESKI

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CONHECIMENTO PARCIAL. MULTA DE OFÍCIO E JUROS INCIDENTES SOBRE A PENALIDADE. MATÉRIAS ESTRANHAS AO PROCESSO DE EXCLUSÃO. As alegações relativas à multa de ofício e aos juros incidentes sobre a penalidade devem ser examinadas nos processos administrativos referentes aos lançamentos tributários decorrentes, por não integrarem o objeto do processo de exclusão do Simples Nacional. Assunto: Simples Nacional Período de apuração: 01/01/2017 a 31/12/2019 EXCLUSÃO DE OFÍCIO. CONSTITUIÇÃO POR INTERPOSTAS PESSOAS. CONJUNTO DE INDÍCIOS CONVERGENTES. CONFIGURAÇÃO. A constituição da optante por familiares da administradora da sociedade que deixaria o regime, a sucessão coordenada das participações, a atuação da antiga administradora, a identidade de atividades, o funcionamento no mesmo complexo, a concentração da folha na optante, a concentração do faturamento na outra sociedade e o financiamento contínuo daquela estrutura por mútuos demonstram que a pessoa jurídica foi utilizada como extensão do empreendimento central. A existência formal, a emissão de notas fiscais e a titularidade de ativos próprios não afastam a interposição quando compatíveis com a função instrumental efetivamente desempenhada. PRÁTICA REITERADA DE INFRAÇÃO. DIVISÃO ARTIFICIAL DA FOLHA E DO FATURAMENTO. SUCESSIVOS PERÍODOS DE APURAÇÃO. Caracteriza prática reiterada a utilização, em competências sucessivas, da mesma estrutura societária para concentrar a folha de salários na pessoa Fl. 437DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.403 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720247/2020-09 2 jurídica optante pelo Simples Nacional, enquanto outra sociedade do empreendimento concentra o faturamento e financia as despesas operacionais, com redução das contribuições incidentes sobre a mão de obra. Configura-se a hipótese do art. 29, V e § 9º, da Lei Complementar nº 123/2006. DESPESAS PAGAS SUPERIORES AOS INGRESSOS DE RECURSOS. ERRO NA APURAÇÃO. HIPÓTESE NÃO CONFIGURADA. A hipótese do art. 29, IX, da Lei Complementar nº 123/2006 exige comparação entre despesas efetivamente pagas e todos os ingressos de recursos no mesmo ano-calendário. Bases de remuneração informadas em GFIP não equivalem, sem demonstração, a despesas pagas; receita declarada no PGDAS não se confunde com ingressos de recursos, especialmente quando a Fiscalização reconhece o financiamento da empresa por mútuos e não apura os fluxos correspondentes. MEIO FRAUDULENTO. SEGREGAÇÃO DE RECEITAS E MÃO DE OBRA. IMPEDIMENTO DECENAL. A manutenção de pessoas jurídicas formalmente apartadas para alocar a folha à optante pelo regime favorecido e o faturamento à sociedade central constitui meio fraudulento destinado a reduzir tributos e a manter a Fiscalização em erro quanto à unidade material do empreendimento. Cabível o impedimento de nova opção durante dez anos, nos termos do art. 29, § 2º, da Lei Complementar nº 123/2006. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos termos do voto da Relatora. Assinado Digitalmente Eduarda Lacerda Kanieski – Relatora Assinado Digitalmente Rafael Taranto Malheiros – Presidente Fl. 438DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.403 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720247/2020-09 3 Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Gustavo de Oliveira Machado, Iagaro Jung Martins, Rafael Taranto Malheiros, Eduarda Lacerda Kanieski, Jose Eduardo Dornelas Souza e Luis Angelo Carneiro Baptista. RELATÓRIO Trata-se de Recurso Voluntário interposto por SANTOS PANIFICAÇÃO E ALIMENTOS CONGELADOS EIRELI em face do Acórdão nº 109-007.608, proferido pela 7ª Turma da DRJ09, que julgou improcedente a Impugnação apresentada contra o Ato Declaratório Executivo DRF/FNS nº 207, de 11/11/2020, que excluiu a Contribuinte do Simples Nacional. 1. DO PROCEDIMENTO FISCAL O presente processo originou-se de procedimento de fiscalização das contribuições previdenciárias de responsabilidade da Contribuinte, relativo ao período de 01/01/2017 a 31/12/2019, o qual foi desenvolvido sob o Registro de Procedimento Fiscal nº 0920200.2020.00035. Conforme o Relatório Fiscal do Ato de Exclusão do Simples Nacional nº 207/2020 (e- fls. 3/15), a SANTOS PANIFICAÇÃO iniciou suas atividades em 15/09/2010 e, desde então, figurava como optante pelo Simples Nacional, tendo como atividade econômica principal a fabricação de produtos de panificação industrial. A Fiscalização consignou que a empresa foi originalmente constituída por Gilberto Santos Filho, titular de 99% das quotas e administrador, e por Gilberto Santos, titular de 1% das quotas. Ruth Cristine Grajauskas Santos ingressou na sociedade em 21/05/2012, adquirindo a totalidade das quotas. Em 26/08/2013, a sociedade foi transformada em Empresa Individual de Responsabilidade Limitada - EIRELI e, por alteração de 03/09/2013, registrada em 08/10/2013, passou a ter sede na Rua Arthur Ropelato, nº 131, Barracão 02, em Jaraguá do Sul/SC (e-fls. 38/42). Segundo a Autoridade Fiscal, no mesmo endereço já funcionava a SR PÃO, empresa constituída em 19/12/2002, dedicada à atividade econômica similar e anteriormente administrada por Ruth Cristine Grajauskas Santos, a qual teria transferido, em 12/06/2012, sua participação Fl. 439DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.403 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720247/2020-09 4 societária aos filhos Gilberto Santos Filho, que passou a deter 99% do capital e a administração, e Giuliana Santos, titular de 1% das quotas (e-fls. 43/62). A Fiscalização entendeu que, apesar da alteração do quadro societário da SR PÃO, Ruth Cristine Grajauskas Santos teria permanecido na administração do empreendimento, amparada por procuração pública outorgada em 23/11/2017, com amplos poderes de gestão e representação (e-fls. 63/66), pelo prazo de 1 (um) ano. Com base nessas premissas, concluiu que a SANTOS PANIFICAÇÃO teria sido constituída mediante interposição do marido e do filho de Ruth, com a finalidade de renovar a utilização dos benefícios do Simples Nacional após a exclusão da SR PÃO do regime, ocorrida em 31/12/2010. O Relatório Fiscal também registrou que as duas pessoas jurídicas exerciam a mesma atividade no mesmo endereço e que não teriam sido identificadas duas plantas industriais autônomas, portarias separadas ou sinalização suficiente da SANTOS PANIFICAÇÃO. Destacou, ainda, que somente a SR PÃO mantinha página eletrônica para divulgação do empreendimento e de seus produtos. Quanto à estrutura de pessoal, a Autoridade Fiscal apurou, com base nas GFIPs, que a SANTOS PANIFICAÇÃO declarou média mensal de 91 empregados em 2017, 114 em 2018 e 117 em 2019, além de um contribuinte individual em cada ano. A SR PÃO, por sua vez, declarou média mensal de três empregados e um contribuinte individual, havendo GFIPs somente até março de 2019. Diante dessa distribuição, a Fiscalização entendeu que a SANTOS PANIFICAÇÃO concentrava a maior parte dos trabalhadores do empreendimento, enquanto a SR PÃO concentrava quase todo o faturamento. Com base na escrituração contábil da SR PÃO e nos balancetes e demonstrações apresentados pela SANTOS PANIFICAÇÃO (e-fls. 67/91), a Fiscalização apurou as seguintes receitas brutas anuais: (i) em 2017, R$ 662.926,36 para a SANTOS PANIFICAÇÃO e R$ 15.470.029,65 para a SR PÃO, totalizando R$ 16.132.956,01; (ii) em 2018, R$ 280.686,07 e R$ 19.682.507,90, respectivamente, totalizando R$ 19.963.193,97; e Fl. 440DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.403 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720247/2020-09 5 (iii) em 2019, R$ 2.049.484,60 e R$ 22.137.314,50, respectivamente, totalizando R$ 24.186.799,10. A soma das receitas, segundo o Relatório Fiscal, superava os limites de enquadramento no Simples Nacional em todos os períodos examinados. A Autoridade Fiscal apontou, ainda, que a SANTOS PANIFICAÇÃO apresentava patrimônio líquido negativo de R$ 1.826.229,83 em 2017, R$ 4.861.049,91 em 2018 e R$ 6.418.757,27 em 2019. Os saldos de mútuos mantidos com a SR PÃO alcançavam R$ 1.163.192,42, R$ 3.341.485,65 e R$ 5.944.285,65, respectivamente, circunstância interpretada como financiamento sistemático, pela SR PÃO, das atividades e dos prejuízos da Contribuinte. Por fim, mediante confronto entre as remunerações informadas em GFIP e a receita bruta contabilizada, a Fiscalização concluiu que, mesmo consideradas apenas as despesas com mão de obra, os dispêndios da SANTOS PANIFICAÇÃO correspondiam a 322% dos ingressos em 2017, 919% em 2018 e 136% em 2019. Assentou, assim, que o valor das despesas pagas superava em mais de 20% o valor dos ingressos de recursos em cada ano-calendário. Com base nesse conjunto de elementos, a Autoridade Fiscal concluiu pela existência de empreendimento econômico único, com confusão patrimonial e de recursos humanos, fracionamento de receitas e despesas e utilização da SANTOS PANIFICAÇÃO para concentrar a folha de salários sob o regime do Simples Nacional. Enquadrou os fatos nos incisos IV, V e IX do art. 29 da Lei Complementar nº 123/2006, por entender caracterizadas a constituição mediante interpostas pessoas, a prática reiterada de infração à legislação do regime e a superação, pelas despesas pagas, em mais de 20%, dos ingressos de recursos. Em decorrência dessas conclusões, foi expedido o Ato Declaratório Executivo DRF/FNS nº 207, de 11/11/2020 (e-fl. 2), que excluiu a Contribuinte do Simples Nacional com efeitos a partir de 01/01/2017 e a impediu de realizar nova opção pelo regime pelos dez anos- calendário seguintes, ante a qualificação dos fatos como utilização de meio fraudulento, nos termos do art. 29, §§ 1º e 2º, da Lei Complementar nº 123/2006. 2. DA IMPUGNAÇÃO Fl. 441DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.403 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720247/2020-09 6 Cientificada do Ato Declaratório Executivo em 02/12/2020, conforme Aviso de Recebimento de e-fl. 93, a Contribuinte apresentou a Impugnação de e-fls. 100/153 (e-fl. 97). Em suas razões, sustentou, inicialmente, que a SANTOS PANIFICAÇÃO e a SR PÃO constituíam pessoas jurídicas autônomas, com estabelecimentos, patrimônio, gestão e operações próprios. Em relação à estrutura física, alegou a existência de três acessos ao complexo e de prédios distintos, com indicação do Barracão 02 como sede da SANTOS PANIFICAÇÃO. Para demonstrar a autonomia operacional, apresentou fotografias das portarias, das áreas de estoque e de produtos identificados com sua razão social, além de documentos relativos a veículos próprios (e-fls. 154/155), fatura de serviços de telecomunicações (e-fl. 156), apólices de seguro (e- fls. 157/171) e notas fiscais de venda emitidas entre 2017 e 2019 (e-fls. 172/207). A Impugnante afirmou que atuava em nicho comercial diverso daquele explorado pela SR PÃO, voltado predominantemente a clientes de menor porte, e que as notas fiscais juntadas demonstravam operações efetivas realizadas em nome próprio. Sustentou que as dificuldades financeiras e os mútuos recebidos da SR PÃO não autorizavam, por si sós, a conclusão de que a empresa seria fictícia, salientando que as operações foram regularmente contabilizadas e que o faturamento teria sido equalizado em 2020. No tocante à administração das sociedades, a Impugnante alegou que a procuração outorgada por Gilberto Santos Filho a Ruth Cristine Grajauskas Santos teve por finalidade permitir a representação da SR PÃO durante viagem do administrador ao exterior. Para corroborar essa versão, juntou bilhete de viagem (e-fl. 208), passaporte (e-fl. 225), comunicações eletrônicas atribuídas a Gilberto Santos Filho (e-fls. 209/224) e Declarações de Ajuste Anual de Gilberto Santos Filho, Giuliana Santos e Ruth Cristine Grajauskas Santos (e-fls. 226/339), que, segundo afirmou, demonstrariam o exercício independente da administração e o recebimento de pró-labore ou lucros das respectivas empresas. A defesa também sustentou que a Fiscalização não teria produzido prova suficiente de fraude, simulação, conluio, interposição de pessoas ou administração comum. Defendeu competir à Administração comprovar os fatos constitutivos do ato de exclusão e afirmou não ser Fl. 442DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.403 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720247/2020-09 7 possível impor à Impugnante o ônus de produzir prova negativa acerca da ausência de atuação de Ruth na SR PÃO. Quanto às hipóteses legais de exclusão, alegou que as receitas brutas individualmente auferidas pela SANTOS PANIFICAÇÃO - R$ 662.926,36 em 2017, R$ 280.686,07 em 2018 e R$ 2.049.484,60 em 2019 - permaneceram abaixo dos limites do Simples Nacional. Acrescentou que declarou regularmente seu faturamento, as despesas e o número de empregados, circunstância que afastaria o intuito de induzir a Fiscalização em erro. Impugnou, ainda, a produção retroativa dos efeitos do ADE a partir de 01/01/2017, sob o argumento de que a Receita Federal conhecia sua situação cadastral e recebeu suas declarações ao longo do período. Invocou os princípios da boa-fé, da segurança jurídica, da capacidade contributiva, da livre iniciativa e do tratamento favorecido às microempresas e empresas de pequeno porte. Embora o objeto deste processo seja o Ato Declaratório Executivo de exclusão, a Impugnante também se insurgiu contra a multa qualificada de 150% e a incidência de juros calculados pela taxa Selic sobre a penalidade, matérias relacionadas aos lançamentos tributários decorrentes. Ao final, requereu o cancelamento integral da exigência e, subsidiariamente, a redução da multa para 75%, ao fundamento de que não teria sido comprovada fraude. 3. DO ACÓRDÃO DA DRJ A 7ª Turma da DRJ09, por meio do Acórdão nº 109-007.608, proferido em sessão de 27/07/2021 (e-fls. 359/376), julgou improcedente a Impugnação, mantendo a exclusão da Contribuinte do Simples Nacional. A Autoridade Julgadora entendeu que a constituição de pessoas jurídicas distintas e a manutenção de registros formais próprios não afastavam a possibilidade de reconhecimento de empreendimento econômico único. Considerou que o conjunto dos elementos reunidos pela Fiscalização demonstrava disposição empresarial atípica, mediante concentração da mão de obra na empresa optante pelo Simples Nacional e do faturamento na SR PÃO. Fl. 443DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.403 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720247/2020-09 8 Ao examinar as fotografias apresentadas pela defesa, a DRJ reconheceu a existência de mais de um acesso, mas consignou que a entrada identificada para a SANTOS PANIFICAÇÃO era compartilhada com a SR PÃO e que não se observava separação física entre as empresas. Entendeu, ainda, que as imagens dos estoques demonstravam a existência de produtos e matérias-primas no Barracão 02, mas não comprovavam estrutura fabril autônoma, pois não foram apresentadas fotografias de maquinário ou de linha de produção própria. No que se refere à administração, a DRJ considerou que a procuração com amplos poderes outorgada a Ruth Cristine Grajauskas Santos, ainda que temporária, constituía elemento adicional de atuação unificada. Afirmou que a ausência de site próprio, isoladamente, não seria determinante, mas adquiria relevância quando examinada em conjunto com a identidade das atividades, a proximidade física, o quadro societário familiar, a distribuição desproporcional de empregados e receitas e os mútuos entre as empresas. Os documentos apresentados para demonstrar autonomia - registros de veículos, fatura de telecomunicações, apólices, contas bancárias e notas fiscais - foram considerados insuficientes para infirmar o núcleo da conclusão fiscal, pois, segundo a DRJ, o reconhecimento da atuação unificada não exigia que todas as operações fossem formalmente realizadas em conjunto. A Decisão Recorrida também reputou incompatíveis com a alegada independência os sucessivos empréstimos concedidos pela SR PÃO à SANTOS PANIFICAÇÃO, diante do capital social de R$ 70.000,00, do patrimônio líquido negativo crescente e da insuficiência do faturamento para suportar a folha de pagamento. Manteve, ademais, a consolidação das receitas das duas empresas para fins de aferição dos limites do regime e confirmou que as despesas com mão de obra da SANTOS PANIFICAÇÃO superaram, em mais de 20%, os ingressos de recursos nos três anos fiscalizados. Com base no conjunto indiciário, a DRJ concluiu que houve fracionamento das receitas, despesas, atividades e recursos entre as empresas, com a finalidade de permitir a utilização indevida do regime simplificado, mantendo o enquadramento nos incisos IV, V e IX do art. 29 da Lei Complementar nº 123/2006. Quanto aos efeitos do Ato Declaratório, assentou que as hipóteses excludentes estavam presentes desde 01/01/2017 e que a utilização de artifícios destinados a ocultar a Fl. 444DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.403 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720247/2020-09 9 atuação conjunta atraía o prazo de dez anos previsto no § 2º do art. 29 da Lei Complementar nº 123/2006. Rejeitou, assim, as alegações de irretroatividade, segurança jurídica e redução do período de impedimento. Por fim, consignou que as matérias referentes à multa qualificada e aos juros incidentes sobre a multa de ofício seriam examinadas nos processos relativos aos lançamentos tributários decorrentes, por não integrarem o objeto do processo de exclusão. 4. DO RECURSO VOLUNTÁRIO A Contribuinte foi cientificada do Acórdão recorrido em 13/08/2021, conforme Aviso de Recebimento de e-fl. 381, e apresentou Recurso Voluntário em 13/09/2021 (e-fls. 386/434). No Recurso Voluntário, a Recorrente reitera, em essência, os fundamentos deduzidos na Impugnação. Sustenta que a SANTOS PANIFICAÇÃO e a SR PÃO possuem personalidade jurídica, estrutura, patrimônio, empregados, clientes, contas e operações próprios, não sendo possível reconhecer unidade empresarial com base na ausência de site, na proximidade física dos estabelecimentos ou na relação familiar entre os sócios. Volta a afirmar que existem três acessos no local e dois prédios distintos; que mantém veículos, serviços de telecomunicações, seguros, estoques, produtos e emissão de notas fiscais em nome próprio; e que atende segmento comercial diferente, direcionado a clientes de menor porte. Defende que os mútuos recebidos decorreram de dificuldades financeiras e foram regularmente contabilizados, sem que isso revele simulação ou conluio. Quanto à gestão das empresas, reitera que a procuração conferida a Ruth Cristine Grajauskas Santos foi motivada por viagem temporária de Gilberto Santos Filho ao exterior e que os bilhetes, o passaporte, as mensagens eletrônicas e as declarações de rendimentos demonstrariam o exercício efetivo da administração pelos sócios formalmente indicados. A Recorrente insiste que caberia à Fiscalização produzir prova concreta da fraude e da interposição de pessoas, não sendo admissível exigir prova negativa da Contribuinte. Sustenta que os elementos invocados no Relatório Fiscal seriam circunstanciais e não demonstrariam a Fl. 445DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.403 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720247/2020-09 10 inexistência material da SANTOS PANIFICAÇÃO, tampouco administração comum ou unicidade do empreendimento. Reitera que sua receita bruta individual permaneceu dentro dos limites legais e que todas as informações relativas a empregados, receitas e despesas foram prestadas ao Fisco. Por essa razão, entende não configurado qualquer meio fraudulento apto a justificar o impedimento de nova opção pelo Simples Nacional durante dez anos. Também renova os argumentos de impossibilidade de produção retroativa dos efeitos da exclusão, violação à segurança jurídica, à boa-fé, à capacidade contributiva, à livre iniciativa e ao tratamento favorecido às empresas de pequeno porte. A peça recursal volta a tratar da multa qualificada e dos juros sobre a multa de ofício, reproduzindo ementa relativa aos lançamentos previdenciários decorrentes, embora o pedido final esteja dirigido ao Ato Declaratório Executivo objeto deste processo. Ao final, requer o conhecimento e o provimento integral do Recurso Voluntário, para que seja reformado o Acórdão nº 109-007.608 e cancelado o Ato Declaratório Executivo DRF/FNS nº 207/2020, com o restabelecimento da opção pelo Simples Nacional. É o relatório. VOTO Conselheira Eduarda Lacerda Kanieski, Relatora 1 DO EXAME DE ADMISSIBILIDADE A Recorrente foi cientificada do v. Acórdão em 13/08/2021 (e-fl. 381), vindo a apresentar o presente Recurso Voluntário em 13/09/2021 (e-fls. 384 e 386/434), cumprindo, portanto, o prazo de 30 (trinta) dias previsto no art. 33 do Decreto nº 70.235/1972. Outrossim, verifico a regularidade da representação processual, eis que o Recurso Voluntário foi apresentado por advogados regularmente constituídos por procuração acostada à e-fl. 348. Fl. 446DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.403 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720247/2020-09 11 Em relação aos pressupostos intrínsecos, conheço parcialmente do Recurso Voluntário, deixando de conhecê-lo quanto às alegações relativas à multa qualificada e aos juros calculados sobre a penalidade, matérias próprias dos processos referentes aos lançamentos tributários decorrentes e que não integram o objeto deste processo de exclusão. 2 DA DELIMITAÇÃO DA CONTROVÉRSIA O presente processo tem por objeto a validade do Ato Declaratório Executivo DRF/FNS nº 207, de 11/11/2020 (e-fl. 2), que excluiu a Recorrente do Simples Nacional, com efeitos a partir de 01/01/2017, e impôs o impedimento de nova opção pelo regime durante os dez anos-calendário seguintes. A Fiscalização fundamentou a exclusão, cumulativamente, nos incisos IV, V e IX do art. 29 da Lei Complementar nº 123/2006. Cabe examinar, portanto, se a prova produzida demonstra: (i) que a constituição da SANTOS PANIFICAÇÃO ocorreu por interpostas pessoas; (ii) que houve prática reiterada de infração à Lei Complementar nº 123/2006; e (iii) que, nos anos- calendário fiscalizados, as despesas pagas superaram em mais de 20% os ingressos de recursos. Somente após essa análise será possível apreciar o termo inicial dos efeitos da exclusão e o impedimento decenal. 3 DO MÉRITO 3.1 DO REGIME JURÍDICO APLICÁVEL As hipóteses utilizadas no Ato Declaratório encontram-se previstas no art. 29 da Lei Complementar nº 123/2006, na redação aplicável ao período examinado: Art. 29. A exclusão de ofício das empresas optantes pelo Simples Nacional dar-se- á quando: [...] IV - a sua constituição ocorrer por interpostas pessoas; V - tiver sido constatada prática reiterada de infração ao disposto nesta Lei Complementar; [...] Fl. 447DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.403 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720247/2020-09 12 IX - for constatado que durante o ano-calendário o valor das despesas pagas supera em 20% (vinte por cento) o valor de ingressos de recursos no mesmo período, excluído o ano de início de atividade; [...] § 1º Nas hipóteses previstas nos incisos II a XII do caput deste artigo, a exclusão produzirá efeitos a partir do próprio mês em que incorridas, impedindo a opção pelo regime diferenciado e favorecido desta Lei Complementar pelos próximos 3 (três) anos-calendário seguintes. § 2º O prazo de que trata o § 1º deste artigo será elevado para 10 (dez) anos caso seja constatada a utilização de artifício, ardil ou qualquer outro meio fraudulento que induza ou mantenha a fiscalização em erro, com o fim de suprimir ou reduzir o pagamento de tributo apurável segundo o regime especial previsto nesta Lei Complementar. [...] § 9º Considera-se prática reiterada, para fins do disposto nos incisos V, XI e XII do caput: I - a ocorrência, em 2 (dois) ou mais períodos de apuração, consecutivos ou alternados, de idênticas infrações, inclusive de natureza acessória, verificada em relação aos últimos 5 (cinco) anos-calendário, formalizadas por intermédio de auto de infração ou notificação de lançamento; ou II - a segunda ocorrência de idênticas infrações, caso seja constatada a utilização de artifício, ardil ou qualquer outro meio fraudulento que induza ou mantenha a fiscalização em erro, com o fim de suprimir ou reduzir o pagamento de tributo. As três causas de exclusão possuem pressupostos próprios. O inciso IV alcança a constituição formal de pessoa jurídica por sujeitos que, embora figurem no quadro societário, atuam em favor do efetivo titular ou do empreendimento cuja atividade se pretende artificialmente repartir. A hipótese não pressupõe que a pessoa jurídica interposta seja fictícia ou destituída de toda operação própria; também se configura quando a sociedade possui existência formal e material, mas desempenha função instrumental na organização concebida para usufruir indevidamente o regime favorecido. O inciso V exige a repetição de infrações idênticas nas condições definidas pelo § 9º. Já o inciso IX estabelece comparação objetiva entre duas grandezas específicas: as despesas efetivamente pagas e a totalidade dos ingressos de recursos ocorridos no mesmo ano-calendário. Fl. 448DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.403 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720247/2020-09 13 A prova da interposição, da simulação ou da administração comum pode resultar de um conjunto de indícios precisos e convergentes, pois arranjos dessa natureza raramente são documentados de forma expressa. Uma vez demonstrada pela Fiscalização uma sequência coerente de fatos que revele a função exercida por cada sociedade, incumbe à Recorrente apresentar elementos aptos a infirmar essa conclusão. Não se lhe exige prova de independência absoluta, mas a demonstração de que os indícios fiscais, examinados em conjunto, admitem explicação econômica e operacional incompatível com a interposição imputada. 3.2 DA ALEGADA CONSTITUIÇÃO POR INTERPOSTAS PESSOAS A Fiscalização concluiu que a SANTOS PANIFICAÇÃO foi constituída, em 15/09/2010, mediante a interposição de Gilberto Santos Filho e Gilberto Santos, filho e marido de Ruth Cristine Grajauskas Santos, para permitir que a atividade desenvolvida pela SR PÃO continuasse a usufruir dos benefícios do Simples Nacional após a exclusão desta última do regime, ocorrida em 31/12/2010. A DRJ manteve o fundamento a partir da sequência das alterações societárias, da administração material exercida pela Sra. Ruth, da posterior reunião das sociedades no mesmo complexo industrial, da concentração da folha de salários na optante, da concentração do faturamento na SR PÃO e dos mútuos utilizados para financiar as atividades da Recorrente. A Recorrente contrapõe a esse conjunto a existência de pessoas jurídicas formalmente distintas, a prática de atos de administração por Gilberto Santos Filho, o caráter temporário da procuração outorgada à Sra. Ruth e a titularidade própria de veículos, contratos, seguros, estoques e documentos fiscais. Esses elementos demonstram que a SANTOS PANIFICAÇÃO possuía existência jurídica e realizava operações em nome próprio, mas não infirmam a função que lhe foi atribuída no empreendimento familiar. Com efeito, a cronologia não revela fatos isolados. A SANTOS PANIFICAÇÃO foi constituída pelo filho e pelo marido da então controladora e administradora da SR PÃO Fl. 449DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.403 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720247/2020-09 14 aproximadamente três meses antes de esta deixar o Simples Nacional, para exercer a mesma atividade econômica. Em 21/05/2012, a Sra. Ruth ingressou na nova sociedade e adquiriu a totalidade de suas quotas. Poucos dias depois, em 12/06/2012, transferiu sua participação na SR PÃO aos filhos Gilberto Santos Filho e Giuliana Santos. Em 2013, a SANTOS PANIFICAÇÃO foi transformada em EIRELI e passou a funcionar no mesmo complexo industrial da SR PÃO (e-fls. 38/62). Essa sucessão de atos é compatível com planejamento societário familiar, mas seu alcance não se limita à reorganização formal da titularidade. Quando examinada em conjunto com a realidade econômica apurada nos anos fiscalizados, evidencia a continuidade de um único empreendimento, no qual as funções geradoras de receitas e as funções demandantes de mão de obra foram distribuídas entre pessoas jurídicas distintas. A concentração era expressiva. A SANTOS PANIFICAÇÃO declarou média mensal de 91 empregados em 2017, 114 em 2018 e 117 em 2019, enquanto a SR PÃO informou apenas três empregados e um contribuinte individual. Em sentido inverso, a receita bruta da Recorrente correspondeu a R$ 662.926,36 em 2017, R$ 280.686,07 em 2018 e R$ 2.049.484,60 em 2019, ao passo que a SR PÃO auferiu R$ 15.470.029,65, R$ 19.682.507,90 e R$ 22.137.314,50 nos mesmos anos. A empresa que concentrava praticamente toda a força de trabalho, portanto, registrava parcela mínima do faturamento global, enquanto a sociedade que concentrava as receitas declarava estrutura de pessoal incomparavelmente menor. A dissociação entre faturamento e mão de obra não era episódica. A SANTOS PANIFICAÇÃO acumulou patrimônio líquido negativo de R$ 1.826.229,83 em 2017, R$ 4.861.049,91 em 2018 e R$ 6.418.757,27 em 2019. Sua própria receita mal suportava a folha de salários declarada, razão pela qual dependia de sucessivos mútuos concedidos pela SR PÃO, cujos saldos alcançaram R$ 1.163.192,42, R$ 3.341.485,65 e R$ 5.944.285,65 nos encerramentos daqueles exercícios. Fl. 450DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.403 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720247/2020-09 15 Sob a perspectiva econômica, não se mostra plausível que uma sociedade efetivamente autônoma, com faturamento reduzido e prejuízos crescentes, mantivesse por anos estrutura de pessoal tão superior àquela exigida por suas receitas mediante endividamento contínuo perante empresa familiar que atuava na mesma atividade e concentrava quase todo o faturamento. Os mútuos tornam-se compreensíveis quando reconhecida a função desempenhada pela SANTOS PANIFICAÇÃO: suportar formalmente a folha de salários e outras despesas operacionais necessárias à atividade central desenvolvida pela SR PÃO, preservando para a empregadora formal o tratamento previdenciário favorecido do Simples Nacional. Também a atuação da Sra. Ruth deve ser apreciada nesse contexto. A procuração pública de 23/11/2017, embora posterior à constituição e dotada de prazo determinado, conferiu- lhe amplos poderes de gestão e representação da SR PÃO (e-fls. 63/66). O bilhete de viagem, o passaporte e as mensagens apresentados pela defesa conferem suporte à existência de viagem de Gilberto Santos Filho, mas não restringem objetivamente o alcance dos poderes outorgados nem afastam os demais elementos de continuidade do comando empresarial. A procuração não constitui prova isolada da interposição; confirma, em conjunto com a sequência societária e a organização econômica, que a saída formal da Sra. Ruth da SR PÃO não correspondeu ao seu afastamento material dos negócios familiares. Os registros de veículos, a fatura de telecomunicações, as apólices, as notas fiscais e as fotografias de acessos, estoques e produtos (e-fls. 154/207) tampouco desfazem essa conclusão. A interposição reconhecida não pressupõe inexistência física da Recorrente. Ao contrário, a sociedade precisava possuir empregados, ativos, contratos e alguma atividade própria para cumprir a função de concentrar despesas e mão de obra sob o regime simplificado. A realização de vendas a clientes de menor porte e a manutenção de patrimônio formalmente segregado demonstram atividade material, mas não explicam a desproporção permanente entre pessoal, faturamento, prejuízos e financiamento intragrupo. Fl. 451DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.403 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720247/2020-09 16 Não se exige, nesse quadro, a identificação individual de cada empregado que tenha atuado em benefício da SR PÃO ou de cada receita que poderia ter sido faturada pela SANTOS PANIFICAÇÃO. A acusação não se baseia em um episódio isolado de cessão de mão de obra ou de deslocamento de receita, mas na estrutura empresarial mantida ao longo de anos. A identidade da atividade, o funcionamento no mesmo complexo, a sucessão das participações familiares, a administração material, a concentração inversa de empregados e receitas e o financiamento contínuo da folha constituem indícios independentes que convergem para a mesma conclusão. A Fiscalização, portanto, demonstrou a interposição mediante conjunto probatório coerente. Cabia à Recorrente infirmá-lo com elementos capazes de explicar, em bases econômicas e operacionais próprias, por que uma empresa com faturamento tão reduzido mantinha a quase totalidade dos empregados e dependia de recursos da sociedade que concentrava as receitas. Tais elementos probatórios, contudo, não foram apresentados. Concluo, assim, que a SANTOS PANIFICAÇÃO funcionava como extensão da SR PÃO, formalmente constituída por pessoas da família e utilizada para concentrar a mão de obra e as despesas do empreendimento, enquanto a sociedade central concentrava o faturamento. Resta caracterizada a constituição por interpostas pessoas prevista no art. 29, IV, da Lei Complementar nº 123/2006. 3.3 DA PRÁTICA REITERADA DE INFRAÇÃO À LEI COMPLEMENTAR Nº 123/2006 O Relatório Fiscal enquadrou os fatos também no inciso V do art. 29 porque a Recorrente usufruiu, de forma continuada, os benefícios da Lei Complementar nº 123/2006 mediante a separação artificial da folha de salários e do faturamento entre pessoas jurídicas integrantes do mesmo empreendimento. A DRJ manteve a conclusão por considerar reiterado o fracionamento de receitas, despesas, atividades e recursos ao longo de todo o período fiscalizado. A prática reiterada não decorre, neste caso, da simples permanência formal da Recorrente no regime. A infração idêntica consistiu na utilização, em sucessivos períodos de apuração, da pessoa jurídica interposta para registrar a quase totalidade dos empregados do Fl. 452DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.403 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720247/2020-09 17 empreendimento e recolher as contribuições segundo o Simples Nacional, enquanto a SR PÃO concentrava o faturamento e financiava a folha e as demais despesas da empregadora formal. O mecanismo repetiu-se nas competências compreendidas entre janeiro de 2017 e dezembro de 2019. Em cada período, a mesma divisão funcional permitiu que contribuições previdenciárias patronais e contribuições destinadas a outras entidades e fundos deixassem de ser recolhidas segundo o regime ordinário. As ocorrências foram formalizadas nos Autos de Infração decorrentes, que abrangem, de forma individualizada, as competências do período e constituem objeto dos Processos nº 10920.725405/2020-88 e 10920.725653/2020-29. Estão presentes, portanto, as ocorrências idênticas em dois ou mais períodos de apuração exigidas pelo art. 29, § 9º, inciso I, da Lei Complementar nº 123/2006. Além disso, a repetição não resultou de equívoco declaratório isolado, mas da manutenção consciente da estrutura societária e operacional já examinada, apta a conservar a Fiscalização em erro quanto às condições materiais de fruição do regime e a reduzir as contribuições incidentes sobre a folha. As GFIPs, os PGDAS-D e a escrituração dos mútuos não afastam a infração. Tais documentos registravam separadamente os dados atribuídos a cada pessoa jurídica, mas não revelavam, por si, que a força de trabalho formalmente vinculada à SANTOS PANIFICAÇÃO atendia ao empreendimento cuja receita era concentrada na SR PÃO. A identificação do arranjo exigiu o confronto das informações das duas sociedades, de sua estrutura, de seus vínculos financeiros e da atuação de seus administradores. Configurada a utilização reiterada da mesma estrutura para a fruição indevida do regime favorecido, mantém-se também o fundamento do art. 29, V, combinado com o § 9º, da Lei Complementar nº 123/2006. 3.4 DAS DESPESAS PAGAS EM VALOR SUPERIOR AOS INGRESSOS DE RECURSOS A terceira causa de exclusão foi construída mediante o confronto entre as bases de cálculo das remunerações informadas pela Recorrente em GFIP e sua receita bruta anual. Segundo o Relatório Fiscal, as remunerações corresponderam a 322% da receita em 2017, 919% em 2018 e Fl. 453DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.403 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720247/2020-09 18 136% em 2019, razão pela qual as despesas pagas teriam superado em mais de 20% os ingressos de recursos. O inciso IX do art. 29, entretanto, não utiliza os conceitos de “base de cálculo declarada em GFIP” e “receita bruta”. A norma exige a comparação entre “despesas pagas” e “ingressos de recursos” no mesmo ano-calendário. As expressões possuem alcance próprio e não podem ser substituídas sem demonstração da equivalência concreta entre as grandezas. Quanto ao primeiro termo, a GFIP informa trabalhadores, fatos geradores e bases de cálculo das contribuições previdenciárias. Os valores de R$ 1.967.559,34 em 2017, R$ 2.370.753,03 em 2018 e R$ 2.559.665,66 em 2019, considerados pela Fiscalização, correspondem à soma das bases de cálculo declaradas para empregados e contribuinte individual (e-fls. 3/15). Essa informação é relevante para quantificar remunerações sujeitas à contribuição, mas o Relatório Fiscal não demonstrou que a totalidade desses valores foi efetivamente paga nos respectivos anos-calendário, nem realizou a apuração das demais despesas pagas a partir da movimentação financeira ou de contas contábeis de disponibilidades. Quanto ao segundo termo, “ingressos de recursos” é conceito mais amplo do que receita bruta. Abrange entradas financeiras que não constituem receita, a exemplo de empréstimos efetivamente recebidos. O próprio Relatório Fiscal reconheceu que a SANTOS PANIFICAÇÃO era financiada por mútuos da SR PÃO e registrou saldos de R$ 1.163.192,42 em 31/12/2017, R$ 3.341.485,65 em 31/12/2018 e R$ 5.944.285,65 em 31/12/2019, além de mútuos de terceiros (e-fls. 3/15 e 67/82). Apesar disso, comparou as remunerações exclusivamente com a receita bruta de R$ 662.926,36, R$ 280.686,07 e R$ 2.049.484,60. Não se pode aproveitar o mesmo fato contábil como prova de que a SR PÃO financiava as operações da Recorrente e ignorá-lo, sem motivação específica, ao determinar o total de recursos que ingressaram. Se os mútuos eram reais, compunham os ingressos. Se eram fictícios, a conclusão exigia prova própria. O Relatório Fiscal não adotou nenhuma dessas duas vias. A fragilidade não é meramente terminológica. Em 2017, por exemplo, a receita bruta de R$ 662.926,36, somada ao saldo de mútuo com a SR PÃO de R$ 1.163.192,42, alcançaria R$ 1.826.118,78. A base de remunerações de R$ 1.967.559,34 corresponderia, nessa comparação meramente ilustrativa, a aproximadamente 107,7% daquele total, abaixo do parâmetro de 120% Fl. 454DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.403 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720247/2020-09 19 previsto na norma. Esse cálculo não é utilizado para afirmar qual foi o ingresso efetivo no ano, pois o saldo de encerramento não se confunde com fluxo anual; serve apenas para evidenciar que a omissão da movimentação dos empréstimos pode alterar decisivamente o resultado da comparação e não poderia ser tratada como irrelevante. Consequentemente, o confronto efetuado não demonstra a situação prevista no art. 29, IX, da Lei Complementar nº 123/2006. Afasta-se, portanto, esse fundamento do Ato Declaratório. 3.5 DOS EFEITOS DA EXCLUSÃO E DO IMPEDIMENTO DE NOVA OPÇÃO POR DEZ ANOS A Recorrente impugna os efeitos a partir de 01/01/2017 e o impedimento de nova opção pelo Simples Nacional durante dez anos, ao argumento de que declarou regularmente suas receitas, despesas e empregados e não empregou meio destinado a induzir a Fiscalização em erro. O § 1º do art. 29 determina que a exclusão fundada nos incisos II a XII produza efeitos a partir do próprio mês em que ocorrida a hipótese, com impedimento por três anos- calendário. O § 2º eleva esse prazo para dez anos quando comprovada a utilização de artifício, ardil ou outro meio fraudulento que induza ou mantenha a Fiscalização em erro, com a finalidade de suprimir ou reduzir tributo apurável pelo regime. No caso, a estrutura apta a produzir a economia tributária já se encontrava plenamente implementada em 01/01/2017 e foi mantida durante todo o período fiscalizado. A SANTOS PANIFICAÇÃO concentrava a força de trabalho, apurava as contribuições sob o Simples Nacional e dependia de recursos da SR PÃO, que concentrava as receitas geradas pela atividade econômica comum. A partir da primeira competência fiscalizada, portanto, estavam presentes as causas de exclusão reconhecidas nos incisos IV e V. Também se encontra demonstrado o meio fraudulento referido no § 2º. A redução tributária não decorreu de mera interpretação equivocada da legislação, mas da criação e manutenção de separação societária destinada a apresentar como autônomas funções que integravam o mesmo empreendimento. A folha de salários foi alocada à optante pelo regime favorecido, enquanto o faturamento e a capacidade financeira permaneceram concentrados na SR PÃO, que transferia recursos por mútuos para suportar os custos da estrutura. Fl. 455DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.403 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.720247/2020-09 20 O fato de empregados, receitas e mútuos terem sido informados em declarações e demonstrações próprias não elimina o caráter fraudulento. A aparência de regularidade decorria justamente do registro segregado de cada parcela do arranjo. Somente o exame conjunto das duas pessoas jurídicas revelou que a empresa com reduzido faturamento suportava a quase totalidade da mão de obra e era financiada pela sociedade que concentrava as receitas. A disponibilização de dados parciais não afasta o expediente destinado a ocultar a unidade material do empreendimento. Afasto apenas a causa de exclusão prevista no art. 29, IX, porque, como demonstrado no tópico anterior, a Fiscalização comparou bases de remuneração informadas em GFIP com receitas declaradas no PGDAS, sem apurar as despesas efetivamente pagas e a totalidade dos ingressos de recursos, inclusive os fluxos de mútuos. Essa insuficiência não compromete os fundamentos autônomos dos incisos IV e V, ambos suficientes para manter o Ato Declaratório. Mantêm-se, por conseguinte, a exclusão com efeitos a partir de 01/01/2017 e o impedimento de nova opção pelo Simples Nacional durante os dez anos-calendário seguintes. 4 CONCLUSÃO Diante do exposto, voto por negar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Eduarda Lacerda Kanieski Fl. 456DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto 1 DO EXAME DE ADMISSIBILIDADE 2 DA DELIMITAÇÃO DA CONTROVÉRSIA 3 DO MÉRITO 3.1 Do regime jurídico aplicável 3.2 Da alegada constituição por interpostas pessoas 3.3 Da prática reiterada de infração à Lei Complementar nº 123/2006 3.4 Das despesas pagas em valor superior aos ingressos de recursos 3.5 Dos efeitos da exclusão e do impedimento de nova opção por dez anos 4 CONCLUSÃO

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Numero do processo: 10880.939510/2019-82
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Fri Aug 21 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Thu Sep 24 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL Ano-calendário: 2015 SALDO NEGATIVO DE CSLL. COMPROVAÇÃO DA RETENÇÃO NA FONTE. MEIOS DE PROVA. SÚMULA CARF Nº 143. A comprovação da retenção na fonte para fins de reconhecimento de saldo negativo de CSLL não se faz exclusivamente pelo comprovante de retenção emitido pela fonte pagadora, admitindo-se outros meios de prova, nos termos da Súmula CARF nº 143. JUNTADA DE PROVAS EM RECURSO VOLUNTÁRIO. POSSIBILIDADE. PRINCÍPIO DA VERDADE MATERIAL. AUSÊNCIA, NO CASO CONCRETO, DE PROVA APTA A INFIRMAR A DECISÃO RECORRIDA. É pacífico no CARF o entendimento de que a apresentação de provas em recurso voluntário é possível, à luz do princípio da verdade material, desde que não configure inovação recursal. No caso concreto, todavia, o recorrente não trouxe aos autos qualquer prova nova apta a confirmar o direito creditório pleiteado ou a contrapor os fundamentos da decisão recorrida.
Numero da decisão: 1401-008.056
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Voluntário, para, no mérito, negar-lhe provimento. Assinado Digitalmente Ana Claudia Borges de Oliveira – Relatora Assinado Digitalmente Luiz Eduardo de Oliveira Santos – Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Matheus Ferreira Azevedo, Daniel Ribeiro Silva, Alberto Pinto Souza Junior, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Ana Claudia Borges de Oliveira, Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente).
Nome do relator: ANA CLAUDIA BORGES DE OLIVEIRA

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COMPROVAÇÃO DA RETENÇÃO NA FONTE. MEIOS DE PROVA. SÚMULA CARF Nº 143. A comprovação da retenção na fonte para fins de reconhecimento de saldo negativo de CSLL não se faz exclusivamente pelo comprovante de retenção emitido pela fonte pagadora, admitindo-se outros meios de prova, nos termos da Súmula CARF nº 143. JUNTADA DE PROVAS EM RECURSO VOLUNTÁRIO. POSSIBILIDADE. PRINCÍPIO DA VERDADE MATERIAL. AUSÊNCIA, NO CASO CONCRETO, DE PROVA APTA A INFIRMAR A DECISÃO RECORRIDA. É pacífico no CARF o entendimento de que a apresentação de provas em recurso voluntário é possível, à luz do princípio da verdade material, desde que não configure inovação recursal. No caso concreto, todavia, o recorrente não trouxe aos autos qualquer prova nova apta a confirmar o direito creditório pleiteado ou a contrapor os fundamentos da decisão recorrida. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Voluntário, para, no mérito, negar-lhe provimento. Fl. 184DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-008.056 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10880.939510/2019-82 2 Assinado Digitalmente Ana Claudia Borges de Oliveira – Relatora Assinado Digitalmente Luiz Eduardo de Oliveira Santos – Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Matheus Ferreira Azevedo, Daniel Ribeiro Silva, Alberto Pinto Souza Junior, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Ana Claudia Borges de Oliveira, Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de recurso voluntário interposto em face do Acórdão nº 104-014.924 (fls. 161 a 166) que julgou parcialmente procedente a manifestação de inconformidade e não reconheceu o direito creditório pleiteado. Através do PER/DCOMP detentor do crédito nº 25623.47156.150318.1.2.03-7266 (pedido de restituição), transmitido em março de 2018, o contribuinte requereu o reconhecimento de saldo negativo de CSLL do ano-calendário 2015, no valor histórico de R$ 79.487,87, oriundo de retenções na fonte. O Despacho Decisório não homologou o pedido sob o fundamento de que havia CSLL a pagar na ECF analisada pela Fiscalização. A decisão recorrida recebeu a seguinte ementa: Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL Período de apuração: 01/01/2015 a 31/12/2015 SALDO NEGATIVO DE CSLL. AUDITORIA EXECUTADA COM BASE EM ECF CANCELADA (RETIFICADA TEMPESTIVAMENTE). AUDITORIA QUE DEVERIA CONSIDERAR AS INFORMAÇÕES DA ECF RETIFICADORA ATIVA E TEMPESTIVA. NECESSIDADE DE CONFIRMAÇÃO DAS ANTECIPAÇÕES INFORMADAS NA ECF RETIFICADORA. A auditoria não poderia tomar por base ECF cancelada, que foi retificada tempestivamente. Nesse caso, necessário considerar as informações da ECF retificadora ativa. Não havendo divergência entre a CSLL devida apurada na ECF original e na retificadora, deve esta instância apenas confirmar se as antecipações de CSLL de fato existem nos sistemas da RFB. Confirmando-se apenas parcialmente as antecipações de CSLL que constaram na ECF retificadora, deve-se decotar da CSLL devida as antecipações de CSLL confirmadas, reconhecendo, se for o caso, eventual saldo negativo. Fl. 185DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-008.056 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10880.939510/2019-82 3 Manifestação de Inconformidade Procedente em Parte Direito Creditório Não Reconhecido O contribuinte foi cientificado em 08/04/2024 (fls. 169) e apresentou recurso voluntário em 08/05/2024 (fls. 173 a ) sustentando, em síntese: a) possibilidade de juntada de provas complementares aptas a contrapor a decisão e conversão do feito em diligência; b) que demonstrou na ECD do período o total das retenções sofridas e os pagamentos de antecipações que compõem o crédito de Saldo Negativo de CSLL pleiteado e que trouxe aos autos a ECF retificadora com a informação da CSLL apurada no ano de 2015, na qual consta a informação sobre as retenções na fonte e antecipações da CSLL do período; c) que a escrituração devidamente mantida e suportada pelo contribuinte no Lucro Real faz prova acerca dos eventos econômicos e financeiros do período e que a Administração Tributária tem o ônus de comprovar a inveracidade dos fatos registrados nos documentos de apuração do Lucro Real. VOTO Conselheira Ana Claudia Borges de Oliveira, Relatora Da admissibilidade O Recurso Voluntário é tempestivo e preenche os demais requisitos de admissibilidade. Assim, dele conheço e passo à análise da matéria. Das alegações recursais O recorrente sustenta, em preliminar, a possibilidade de juntada de provas complementares aptas a contrapor a decisão e conversão do feito em diligência. No mérito, alega que demonstrou na ECD do período o total das retenções sofridas e os pagamentos de antecipações que compõem o crédito de Saldo Negativo de CSLL pleiteado e que trouxe aos autos a ECF retificadora com a informação da CSLL apurada no ano de 2015, na qual consta a informação sobre as retenções na fonte e antecipações da CSLL do período. Além disso, que a escrituração devidamente mantida e suportada pelo contribuinte no Lucro Real faz prova acerca dos eventos econômicos e financeiros do período e que a Administração Tributária tem o ônus de comprovar a inveracidade dos fatos registrados nos documentos de apuração do Lucro Real. A decisão recorrida concluiu que o Despacho Decisório havia analisado a ECF original transmitida em 29/07/2016 e não a retificadora transmitida em 07/06/2019. Na original não constavam as eventuais antecipações a título de CSLL retida na fonte e estimativas pagas, mas sim CSLL a pagar e o correto seria analisar a ECF retificadora, e não a original. Assim, passou a analisar a ECF retificadora e concluiu da seguinte forma: Fl. 186DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-008.056 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10880.939510/2019-82 4 10. Como se vê no PER/DCOMP nº 25623.47156.150318.1.2.03-7266, o contribuinte apenas informou uma CSLL retida no importe de R$ 79.487,87 (fls. 157), em igual montante ao direito creditório perseguido. 11. Compulsando as DIRFs do AC2015 nas quais o fiscalizado figura como beneficiário, vê-se uma CSLL dentro do código 5952 (considerando que a retenção em tal código é de 4,65% do valor da receita, sendo somente 1% a título de CSLL, a CSLL retida é 1/4,65 do montante constante na DIRF no código 5952) no importe de R$ 79.728,04 (R$ 370.735,42/4,65), valor ligeiramente superior ao que constou no PER/DCOMP (códigos e valores destacados em amarelo)1: (...) 12. Viu-se então que não restou comprovado a CSLL retida de R$ 226.816,90, como informado na ECF retificadora, mas tão somente uma CSLL retida na fonte de R$ 79.728,04, valor inclusive que muito próximo do que constou no PER/DCOMP. 13. Assim, aqui somente será considerado uma CSLL retida de R$ 79.728,04. 14. Indo além, no tocante às estimativas pagas de CSLL, somente foram identificadas em um montante de R$ 170.423,84, como se vê abaixo, não constando o montante informado na ECF retificadora (R$ 200.772,98): (...) 15. Com as considerações acima, neste voto somente serão consideradas como antecipações de CSLL no ano-calendário 2015 o montante de R$ 250.151,88 (R$ 170.423,84 + R$ 79.728,04), valor efetivamente confirmado nos sistemas da RFB, o que deve ser confrontado com a CSLL devida de R$ 250.356,09, daí não havendo qualquer saldo negativo de CSLL no AC2015 a ser reconhecido. 16. Ante o exposto, voto no sentido de julgar procedente em parte a manifestação de inconformidade, para reconhecer as antecipações de CSLL na forma acima, sem reconhecimento de qualquer direito creditório. Nos termos da Súmula CARF nº 80, na apuração do IRPJ, a pessoa jurídica poderá deduzir do imposto devido o valor do imposto de renda retido na fonte, desde que comprovada a retenção e o cômputo das receitas correspondentes na base de cálculo do imposto. Em relação aos meios aptos a comprovar a retenção da fonte pagadora, o CARF consolidou o entendimento que a prova da retenção não se faz, exclusivamente, pelos comprovantes de retenção, admitindo-se outros meios de prova, conforme o Enunciado da Súmula CARF 143: A prova do imposto de renda retido na fonte deduzido pelo beneficiário na apuração do imposto de renda devido não se faz exclusivamente por meio do comprovante de retenção emitido em seu nome pela fonte pagadora dos rendimentos. Fl. 187DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-008.056 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10880.939510/2019-82 5 O Decreto nº 70.235/72, que rege o processo administrativo fiscal, informa que a prova documental deve ser apresentada junto à impugnação, precluindo o direito do contribuinte fazê-lo em outro momento processual, salvo se: a) demonstrar a impossibilidade de apresentação oportuna, por motivo de força maior; b) referir-se a fato ou a direito superveniente; c) destinar a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos – art. 16, § 4º. Não obstante, ao lado desse preceito legal, encontramos, entre os princípios que regem o processo administrativo fiscal o da verdade material, que decorre do princípio da legalidade e impõe a apuração da devida ocorrência do fato gerador, podendo o julgador, inclusive de ofício, realizar diligências para verificar os fatos ocorridos. Assim, ao apreciar a prova, o julgador formará livremente sua convicção, podendo determinar as diligências que entender necessárias, inclusive de ofício, quando entender pela necessidade para formação da sua livre convicção – arts. 18 e 29 do Decreto nº 70.235/72. Nesse sentido, o artigo 16 do Decreto-Lei 70.235/72 deve ser interpretado com ressalvas, considerando a primazia da verdade real no processo administrativo. Se a autoridade tem o poder/dever de buscar a verdade no caso concreto, agindo de ofício (fundamentado no mesmo dispositivo legal - art. 18 - e subsidiariamente na Lei 9.784/99 e no CTN) não se pode afastar a prerrogativa do contribuinte de apresentar a verdade após a Impugnação em primeira instância, caso as autoridades não a encontrem sozinhas. Toda a legislação administrativa, incluindo o RICARF, aponta para a observância do Princípio do Formalismo Moderado, da Verdade Material e o estrito respeito às questões de Ordem Pública, observado o caso concreto. Diante disso, o instituto da preclusão no processo administrativo não é absoluto” (Acórdão nº 9101- 003.953, 1ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, publicado em 20/02/2019). Em complemento, tem-se que no processo administrativo fiscal a Administração deve se pautar no princípio da verdade material, flexibilizando a preclusão no que se refere a apresentação de documentos, a fim de que se busque ao máximo a incidência tributária (Acórdão nº 1003-003.475, Relatora Conselheira Carmen Ferreira Saraiva, 3ª Turma Extraordinária da 1ª Seção, publicado em 21/03/2023). O entendimento quanto à possibilidade de apreciação da prova juntada com o recurso voluntário é pacífico no CARF. Confira-se: DIREITO CREDITÓRIO. PROVAS. RECURSO VOLUNTÁRIO. APRESENTAÇÃO. POSSIBILIDADE. SEM INOVAÇÃO E DENTRO DO PRAZO LEGAL. Da interpretação da legislação relativa ao contencioso administrativo tributário, evidencia-se que não há óbice para apreciação, pela autoridade julgadora de segunda instância, de provas trazidas apenas em recurso voluntário, mas que estejam no contexto da discussão de matéria em litígio, sem trazer inovação. (Acórdão nº 9101-004.688, Relatora Conselheira Edeli Pereira Bessa, 1ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, publicado em 03/03/2020). Fl. 188DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-008.056 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10880.939510/2019-82 6 Desse modo, meu entendimento, quanto à análise jurídica, é que, além de razoável, é imprescindível a análise das provas. No entanto, no presente caso, o contribuinte não trouxe qualquer prova nova apta a confirmar o seu direito ou apta a contrapor os argumentos da decisão recorrida. Desse modo, entendo não assistir razão à empresa contribuinte, pelo que adoto, como razões de decidir, aquelas já presente no Acórdão ora recorrido. Portanto, sem razão o recorrente. Conclusão Diante do exposto, voto por conhecer do recurso voluntário e, no mérito, negar-lhe provimento. Assinado Digitalmente Ana Claudia Borges de Oliveira Fl. 189DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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11508634 #
Numero do processo: 10935.722357/2014-69
Turma: Quarta Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Aug 13 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Tue Sep 22 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2013 PEDIDO SUBSIDIÁRIO DE AVERBAÇÃO DO TEMPO DE CONTRIBUIÇÃO E DE REPETIÇÃO DO INDÉBITO EM RELAÇÃO AS CONTRIBUIÇÕES VERTIDAS PARA REGIME PRÓPRIO DE PREVIDÊNCIA SOCIAL (RPPS). POSTULAÇÕES NO CONTENCIOSO ADMINISTRATIVO FISCAL. NÃO CONHECIMENTO. O contencioso administrativo fiscal tem por objeto o controle de legalidade do lançamento de ofício que verse sobre tributos administrados pela Secretaria Especial da Receita Federal do Brasil, consequentemente não lhe é afeto debater averbação de tempo de contribuição ou a repetição do indébito por recolhimentos vertidos em Regime Próprio de Previdência Social (RPPS). TITULAR DE CARTÓRIO. REGIME PREVIDENCIÁRIO. FILIAÇÃO PRETENDIDA EM REGIME PRÓPRIO DE PREVIDÊNCIA SOCIAL (RPPS). IMPOSSIBILIDADE. SEGURADO OBRIGATÓRIO COMO CONTRIBUINTE INDIVIDUAL VINCULADO AO REGIME GERAL DA PREVIDÊNCIA SOCIAL (RGPS). A partir do advento da Emenda Constitucional nº 20, de 1998, apenas os servidores públicos efetivos da Administração Pública Direta, suas autarquias e fundações vinculam-se a Regime Próprio de Previdência Social (RPPS). O titular do cartório é considerado segurado obrigatório do Regime Geral de Previdência Social (RGPS) como contribuinte individual, ainda que tenha assumido a serventia até 20/11/1994.
Numero da decisão: 2004-000.531
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, conhecer parcialmente do recurso voluntário, exceto quanto a apreciar os pedidos subsidiários, para, na parte conhecida, no mérito, negar-lhe provimento. Assinado Digitalmente Leonam Rocha de Medeiros – Relator Assinado Digitalmente Jorge Claudio Duarte Cardoso – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Miriam Denise Xavier, Leonam Rocha de Medeiros, Ludmila Mara Monteiro de Oliveira, Jorge Claudio Duarte Cardoso (Presidente).
Nome do relator: LEONAM ROCHA DE MEDEIROS

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conteudo_txt : Metadados => date: 2026-08-27T00:19:58Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.5; xmp:CreatorTool: Microsoft® Word 2010; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; language: pt-BR; dcterms:created: 2026-08-27T00:19:58Z; Last-Modified: 2026-08-27T00:19:58Z; dcterms:modified: 2026-08-27T00:19:58Z; dc:format: application/pdf; version=1.5; Last-Save-Date: 2026-08-27T00:19:58Z; pdf:docinfo:creator_tool: Microsoft® Word 2010; access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:modified: 2026-08-27T00:19:58Z; meta:save-date: 2026-08-27T00:19:58Z; pdf:encrypted: false; modified: 2026-08-27T00:19:58Z; Content-Type: application/pdf; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; dc:language: pt-BR; meta:creation-date: 2026-08-27T00:19:58Z; created: 2026-08-27T00:19:58Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 10; Creation-Date: 2026-08-27T00:19:58Z; pdf:charsPerPage: 1671; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; pdf:docinfo:created: 2026-08-27T00:19:58Z | Conteúdo => D O C U M E N T O V A L ID A D O MINISTÉRIO DA FAZENDA Conselho Administrativo de Recursos Fiscais PROCESSO 10935.722357/2014-69 ACÓRDÃO 2004-000.531 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA SESSÃO DE 14 de agosto de 2026 RECURSO VOLUNTÁRIO RECORRENTE ANTONIO ARTUR DE SOUZA SAMPAIO INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2013 PEDIDO SUBSIDIÁRIO DE AVERBAÇÃO DO TEMPO DE CONTRIBUIÇÃO E DE REPETIÇÃO DO INDÉBITO EM RELAÇÃO AS CONTRIBUIÇÕES VERTIDAS PARA REGIME PRÓPRIO DE PREVIDÊNCIA SOCIAL (RPPS). POSTULAÇÕES NO CONTENCIOSO ADMINISTRATIVO FISCAL. NÃO CONHECIMENTO. O contencioso administrativo fiscal tem por objeto o controle de legalidade do lançamento de ofício que verse sobre tributos administrados pela Secretaria Especial da Receita Federal do Brasil, consequentemente não lhe é afeto debater averbação de tempo de contribuição ou a repetição do indébito por recolhimentos vertidos em Regime Próprio de Previdência Social (RPPS). TITULAR DE CARTÓRIO. REGIME PREVIDENCIÁRIO. FILIAÇÃO PRETENDIDA EM REGIME PRÓPRIO DE PREVIDÊNCIA SOCIAL (RPPS). IMPOSSIBILIDADE. SEGURADO OBRIGATÓRIO COMO CONTRIBUINTE INDIVIDUAL VINCULADO AO REGIME GERAL DA PREVIDÊNCIA SOCIAL (RGPS). A partir do advento da Emenda Constitucional nº 20, de 1998, apenas os servidores públicos efetivos da Administração Pública Direta, suas autarquias e fundações vinculam-se a Regime Próprio de Previdência Social (RPPS). O titular do cartório é considerado segurado obrigatório do Regime Geral de Previdência Social (RGPS) como contribuinte individual, ainda que tenha assumido a serventia até 20/11/1994. Fl. 166DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.531 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10935.722357/2014-69 2 ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, conhecer parcialmente do recurso voluntário, exceto quanto a apreciar os pedidos subsidiários, para, na parte conhecida, no mérito, negar-lhe provimento. Assinado Digitalmente Leonam Rocha de Medeiros – Relator Assinado Digitalmente Jorge Claudio Duarte Cardoso – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Miriam Denise Xavier, Leonam Rocha de Medeiros, Ludmila Mara Monteiro de Oliveira, Jorge Claudio Duarte Cardoso (Presidente). RELATÓRIO Cuida-se de Recurso Voluntário (e-fls. 151/163), com efeito suspensivo, interposto por recorrente qualificado, relativo ao inconformismo com o Acórdão nº 102-001.383 - 4ª TURMA DA DRJ02, de 25/03/2021 (e-fls. 126/140), que, por unanimidade de votos, julgou improcedente o pedido deduzido na impugnação, mantendo lançamento de ofício, sem ementa formalizada na forma Portaria RFB nº 2.724/2017. Do lançamento fiscal O lançamento, com Relatório Fiscal expondo a motivação do ato (e-fls. 63/76), foi sumariado no relatório da decisão vergastada, assim o utilizo com adaptações: Trata-se de Auto de Infração (AI) nº 51.059.259-7, no qual se exige contribuição previdenciária do segurado contribuinte individual, nas competências de 01/2009 a 12/2013, incidente sobre os rendimentos advindos de serviços prestados a pessoas físicas (CUSTAS DA SERVENTIA). Durante a ação fiscal o contribuinte intimado informou que estava vinculado a Regime Próprio de Previdência Social (RPPS) denominado “Paraná Previdência”, por isso, não contribuía para o Regime Geral de Previdência Social (RGPS). Fl. 167DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.531 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10935.722357/2014-69 3 A fiscalização anota que a condição de Titular de Cartório não o enquadrava no Regime Próprio de Previdência Social (RPPS). Informa a Auditoria que a Lei nº 12.398/1998, que criou o Sistema de Seguridade Funcional do Estado do Paraná, inseriu no regime próprio de previdência social os serventuários de justiça não remunerados pelos cofres públicos, contudo a norma foi julgada inconstitucional pelo STF na ADIN 2.791-3, portanto, o contribuinte é segurado obrigatório do Regime Geral da Previdência Social (RGPS) na qualidade de contribuinte individual, conforme art. 12, inciso V, “h”, da Lei nº 8.212/91, e art. 9º, inciso V, alínea “l”, do RPS. Cita-se, ainda, o art. 40 da Constituição Federal, bem como o art. 1º, inciso V, da Lei nº 9.717/1998. Para compor os valores devidos foi elaborada planilha com as contribuições devidas ao RGPS, tendo por base de cálculo valores auferidos pela prestação de serviços para pessoas físicas, declarados pelo contribuinte na Declaração Anual de Ajuste do Imposto de Renda Pessoa Física (DIRPF) do período de 01/2009 a 12/2013, respeitado o limite máximo do salário-de-contribuição. A fundamentação legal do débito, inclusive dos juros e multas, encontra-se detalhada no relatório “Fundamentos Legais do Débito – FLD”. Aplicou-se muta de ofício de 75%. Da Impugnação ao lançamento A impugnação, que instaurou o contencioso fiscal, igualmente, encontra-se sintetizada naquela decisão a quo, assim a utilizo como referência com adaptações: O contribuinte insurgiu-se contra o lançamento alegando que não pode suportar bitributação, pois contribui para o Regime Próprio de Previdência Social (RPPS) denominado “Paraná Previdência”. Por isso, sustenta que não deve ser enquadrado no RGPS. Advoga que a Lei nº 9.796/1999 prevê a compensação financeira entre regimes e assegura suas razões. Assevera ser serventuário da justiça não remunerado pelo Estado e contribui para o regime próprio (RPPS) desde julho de 1984. Diz que os recolhimentos ao regime estadual ocorreram por força de liminar judicial (Ação nº 49.655, movida pela ASSEJEPAR), que obrigou o órgão estadual a continuar emitindo as guias de pagamento para os serventuários inscritos até 16/12/1998. Embora o STF tenha declarado inconstitucional a inclusão de serventuários não remunerados no regime estadual (ADI 2.791), decisões em ações coletivas (como a da ANOREG nº 52.631/2008) garantiram o direito de permanência no Regime Próprio de Previdência Social (RPPS) denominado “Paraná Previdência” para todos os notários e registradores que ingressaram antes de 21/11/1994 (data da Lei nº 8.935/1994), caso do autuado. Sustenta direito adquirido e ato jurídico perfeito em seu favor. Fl. 168DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.531 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10935.722357/2014-69 4 Sustenta que não pode receber aposentadoria menor do que as contribuições vertidas, pois seus recolhimentos ao regime estadual são superiores ao teto do INSS. Caso precise migrar, receberá uma aposentadoria menor e não conseguirá restituir integralmente as diferenças do passado devido ao óbice temporal para a repetição do indébito. Requereu o cancelamento do lançamento. Do Acórdão de Impugnação Na DRJ, em primeira instância, assentou-se teses bem ilustradas na ementa transcrita alhures, concordando-se com a motivação do lançamento pela autoridade lançadora. Do Recurso Voluntário No recurso voluntário o sujeito passivo, reiterando termos da impugnação com o desenvolvimento das teses já relatadas, postula a reforma da decisão, a fim de cancelar o lançamento. Sustenta que seu vínculo nasceu em 1984 e argumenta que, a partir de 01/2014, contribui regularmente para o RGPS, porém não pode ser autuado no período de 2009 a 2013. Requer, se vencido, oportunizar a averbação no RGPS do tempo de contribuição vertido ao Regime Próprio de Previdência Social (RPPS) denominado “Paraná Previdência”. Aduz, se vencido, que se reserva ao direito de restituir os valores recolhidos que superem o teto do RGPS, haja vista que o teto do regime próprio é superior. É o que importa relatar. VOTO Conselheiro Leonam Rocha de Medeiros, Relator. Admissibilidade O Recurso Voluntário é tempestivo (notificação em 30/04/2021, e-fl. 148, protocolo recursal em 28/05/2021, e-fl. 149, e despacho de encaminhamento, e-fl. 164), mas não atende a todos os pressupostos de admissibilidade, sendo caso de conhecimento parcial. Explico. O recorrente pretende, caso vencido, que seja averbado, no RGPS/INSS, o tempo de contribuição vertido ao Regime Próprio de Previdência Social (RPPS) “Paraná Previdência”. Também, se vencido, requer que se reconheça o direito de restituir junto ao regime próprio os valores recolhidos que superem o teto do RGPS, haja vista que o teto do regime próprio é superior. Muito bem. Os pedidos subsidiários ou sucessivos não cabem ser conhecidos, pois são estranhos à lide. É certo que o contencioso administrativo fiscal tem por objeto o controle de Fl. 169DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.531 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10935.722357/2014-69 5 legalidade do lançamento de ofício que verse sobre tributos administrados pela Secretaria Especial da Receita Federal do Brasil, consequentemente não lhe é afeto debater averbação de tempo de contribuição ou a repetição do indébito por recolhimentos vertidos em Regime Próprio de Previdência Social (RPPS). Sendo assim, conheço parcialmente do recurso voluntário, não conhecendo pedidos subsidiários de averbação de tempo de contribuição e de reserva de direito ao indébito. Não se conhece dos pedidos subsidiários. Mérito A controvérsia é relativa ao inconformismo com o lançamento de ofício que exige contribuição previdenciária vertida ao Regime Geral de Previdência Social (RGPS) por segurado contribuinte individual, nas competências de 01/2009 a 12/2013, incidente sobre os rendimentos advindos de serviços prestados a pessoas físicas (CUSTAS DA SERVENTIA), tendo por base de cálculo valores auferidos conforme declarados pelo contribuinte na Declaração Anual de Ajuste do Imposto de Renda Pessoa Física (DIRPF), respeitado o limite máximo do salário-de-contribuição do RGPS. O recorrente, oficial de cartório não remunerado pelo Poder Público, questiona a exação, pois seria vinculado ao Regime Próprio de Previdência Social (RPPS), inclusive desde a década de 80. Não assiste razão ao recorrente. Ora, em relação ao regime previdenciário dos Notários e Oficiais de Registro e escreventes tem-se que asseverar que o art. 236 da Constituição Federal prescreve que os serviços notariais e de registro são exercidos em caráter privado, por delegação do poder público, a saber: Art. 236. Os serviços notariais e de registro são exercidos em caráter privado, por delegação do Poder Público. § 1º Lei regulará as atividades, disciplinará a responsabilidade civil e criminal dos notários, dos oficiais de registro e de seus prepostos, e definirá a fiscalização de seus atos pelo Poder Judiciário. § 2º Lei federal estabelecerá normas gerais para fixação de emolumentos relativos aos atos praticados pelos serviços notariais e de registro. § 3º O ingresso na atividade notarial e de registro depende de concurso público de provas e títulos, não se permitindo que qualquer serventia fique vaga, sem abertura de concurso de provimento ou de remoção, por mais de seis meses. Regulamentando o art. 236 da Constituição Federal, a Lei nº 8.935, de 18 de novembro de 1994, DOU de 21/11/1994, disciplina que: Art. 20. Os notários e os oficiais de registro poderão, para o desempenho de suas funções, contratar escreventes, dentre eles escolhendo os substitutos, e auxiliares como empregados, com remuneração livremente ajustada e sob o regime da legislação do trabalho. Fl. 170DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.531 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10935.722357/2014-69 6 Art. 40. Os notários, oficiais de registro, escreventes e auxiliares são vinculados à previdência social, de âmbito federal, e têm assegurada a contagem recíproca de tempo de serviço em sistemas diversos. Parágrafo único. Ficam assegurados, aos notários, oficiais de registro, escreventes e auxiliares os direitos e vantagens previdenciários adquiridos até a data da publicação desta lei. Neste sentido, resta consolidado que os titulares de cartório, notários, oficiais de registro, são segurados obrigatórios do Regime Geral da Previdência Social (RGPS). Para aclarar o tema, a Emenda Constitucional nº 20, de 16 de dezembro de 1998, restringiu a abrangência dos regimes próprios de previdência social (RPPS) e determinou sua aplicação somente aos servidores públicos titulares de cargos efetivos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, o que foi corroborado também pela Emenda Constitucional nº 41, de 19 de dezembro de 2003. Veja-se: Art. 40. Aos servidores titulares de cargos efetivos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, incluídas suas autarquias e fundações, é assegurado regime de previdência de caráter contributivo, observados critérios que preservem o equilíbrio financeiro e atuarial e o disposto neste artigo. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 20, de 15/12/98) Art. 40. Aos servidores titulares de cargos efetivos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, incluídas suas autarquias e fundações, é assegurado regime de previdência de caráter contributivo e solidário, mediante contribuição do respectivo ente público, dos servidores ativos e inativos e dos pensionistas, observados critérios que preservem o equilíbrio financeiro e atuarial e o disposto neste artigo. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 41, 19/12/2003). (...) § 13. Ao servidor ocupante, exclusivamente, de cargo em comissão declarado em lei de livre nomeação e exoneração bem como de outro cargo temporário ou de emprego público, aplica-se o regime geral de previdência social. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 20, de 15/12/98) Logo, o regime próprio de previdência social (RPPS) tão-somente é dirigido aos servidores públicos titulares de cargo de provimento efetivo. Deste modo, a partir do advento da EC nº 20, os oficiais registradores ou tabeliães (titulares de cartório) não titulares de cargos públicos efetivos devem vincular-se ao RGPS, inclusive ainda que tivessem sido admitidos antes de 1994. Interessante notar, ademais, que ao dispor sobre regras gerais para a organização e funcionamento dos regimes próprios de previdência social dos servidores públicos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, a Lei nº 9.717, de 27 de novembro de 1998, repisou as disposições contidas na Constituição, dispondo que a vinculação a Regime Próprio apenas pode ser realizada, por (i) servidor público titular de cargo efetivo do respectivo ente estatal ou (ii) militar, conforme destaque: Art.1º Os regimes próprios de previdência social dos servidores públicos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, dos militares dos Estados e do Distrito Fl. 171DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.531 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10935.722357/2014-69 7 Federal deverão ser organizados, baseados em normas gerais de contabilidade e atuária, de modo a garantir o seu equilíbrio financeiro e atuarial, observados os seguintes critérios: (...) V – cobertura exclusiva a servidores públicos titulares de cargos efetivos e a militares, e a seus respectivos dependentes, de cada ente estatal, vedado o pagamento de benefícios, mediante convênios ou consórcios entre Estados, entre Estados e Municípios e entre Municípios. Neste diapasão, após a EC nº 20, a partir de 16/12/1998, a situação definida na Lei nº 8.935, de 1994, foi forçosamente alterada e os escreventes e demais auxiliares de cartório nomeados antes de 20/11/1994, além dos titulares dos serviços notariais, titulares de cartório, passaram a ser abrangidos exclusivamente pelo RGPS, justamente por não serem servidores públicos ocupantes de cargo efetivo. De mais a mais, constatando-se que os escreventes e auxiliares, funcionários do recorrente, bem como o titular do cartório, não são titulares de cargo efetivo, que exige prévia aprovação em concurso público, vinculados à Administração Pública direta (União, Estados, Distrito Federal e Municípios), incluindo-se aí também os servidores de suas autarquias e fundações públicas, instituídas na modalidade de pessoa jurídica de direito público, nos termos dispostos no art. 37, inciso II, da Constituição Federal, não assiste razão a tese recursal. Além disso, no julgamento da ADI 575 o Supremo Tribunal Federal decidiu que titulares de cartório ou empregados dos cartórios não remunerados pelos cofres públicos não são considerados servidores públicos para fins de aplicação do art. 40 da Constituição Federal, veja-se: (...) V. Tabeliães e oficiais de registros públicos: aposentadoria: inconstitucionalidade da norma da Constituição local que além de conceder-lhes aposentadoria de servidor público que, para esse efeito, não são vincula os respectivos proventos às alterações dos vencimentos da magistratura: precedente (ADI 139, RTJ 138/14). (...) (ADI 575, Relator SEPÚLVEDA PERTENCE, Tribunal Pleno, julgado em 25/03/1999, DJ 25- 06-1999 PP-00002 EMENT VOL-01956-01 PP-00021) Em outro julgado, o STF novamente reafirmou a tese, conforme se vê na ADI 2.602. Deste modo, tem sido asseverado que os notários e os registradores que exercem atividade estatal não são titulares de cargos públicos efetivo e sequer ocupam cargos públicos, de forma que não estão submetidos à regra da aposentadoria do art. 40 da Constituição Federal, veja-se: AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. PROVIMENTO N. 055/2001 DO CORREGEDOR-GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MINAS GERAIS. NOTÁRIOS E REGISTRADORES. REGIME JURÍDICO DOS SERVIDORES PÚBLICOS. INAPLICABILIDADE. EMENDA CONSTITUCIONAL N. 20/98. EXERCÍCIO DE ATIVIDADE EM CARÁTER PRIVADO POR DELEGAÇÃO DO PODER PÚBLICO. INAPLICABILIDADE DA APOSENTADORIA COMPULSÓRIA AOS SETENTA ANOS. INCONSTITUCIONALIDADE. 1. O artigo 40, § 1º, inciso II, da Constituição do Brasil, na redação que lhe foi conferida pela EC 20/98, está restrito aos cargos efetivos da União, dos Estados-membros, do Distrito Federal e dos Municípios --- incluídas as autarquias e fundações. Fl. 172DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.531 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10935.722357/2014-69 8 2. Os serviços de registros públicos, cartorários e notariais são exercidos em caráter privado por delegação do Poder Público --- serviço público não-privativo. 3. Os notários e os registradores exercem atividade estatal, entretanto não são titulares de cargo público efetivo, tampouco ocupam cargo público. Não são servidores públicos, não lhes alcançando a compulsoriedade imposta pelo mencionado artigo 40 da CB/88 --- aposentadoria compulsória aos setenta anos de idade. 4. Ação direta de inconstitucionalidade julgada procedente. (ADI 2602, Relator JOAQUIM BARBOSA, Relator p/ Acórdão: EROS GRAU, Tribunal Pleno, julgado em 24/11/2005, DJ 31-03-2006 PP-00006 EMENT VOL-02227-01 PP-0005). No mesmo sentido, tem-se a ADI 4.641, na qual o STF também entendeu pela inconstitucionalidade material de norma estadual que incluía os cartorários extrajudiciais (notários, registradores, oficiais maiores e escreventes juramentados) como seguradores obrigatórios do respectivo Regime Próprio de Previdência Social, conforme ementa: PREVIDENCIÁRIO E CONSTITUCIONAL. LEI ESTADUAL QUE INCLUIU NO REGIME PRÓPRIO DE PREVIDÊNCIA SEGURADOS QUE NÃO SÃO SERVIDORES DE CARGOS EFETIVOS NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA. ART. 40 DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. NECESSÁRIA VINCULAÇÃO AO REGIME GERAL DE PREVIDÊNCIA SOCIAL. 1. O art. 40 da Constituição de 1988, na redação hoje vigente após as Emendas Constitucionais 20/98 e 41/03, enquadra como segurados dos Regimes Próprios de Previdência Social apenas os servidores titulares de cargo efetivo na União, Estado, Distrito Federal ou Municípios, ou em suas respectivas autarquias e fundações públicas, qualidade que não aproveita aos titulares de serventias extrajudiciais. 2. O art. 95 da Lei Complementar 412/2008, do Estado de Santa Catarina, é materialmente inconstitucional, por incluir como segurados obrigatórios de seu RPPS os cartorários extrajudiciais (notários, registradores, oficiais maiores e escreventes juramentados) admitidos antes da vigência da Lei federal 8.935/94 que, até 15/12/98 (data da promulgação da EC 20/98), não satisfaziam os pressupostos para obter benefícios previdenciários. 3. Ação direta de inconstitucionalidade julgada procedente, com modulação de efeitos, para assegurar o direito adquirido dos segurados e dependentes que, até a data da publicação da ata do presente julgamento, já estivessem recebendo benefícios previdenciários juntos ao regime próprio paranaense ou já houvessem cumprido os requisitos necessários para obtê-los. (ADI 4641, Relator TEORI ZAVASCKI, Tribunal Pleno, julgado em 11/03/2015, PROCESSO ELETRÔNICO DJe-067 DIVULG 09-04-2015 PUBLIC 10-04-2015) Especificamente, como destacado pela DRJ, o Supremo Tribunal Federal (STF), no julgamento da ADIN nº 2.791-3, em 16/08/2006, considerou inconstitucional o § 1º do art. 34 da Lei nº 12.398, de 1998, do Estado do Paraná, que incluía os serventuários da justiça não remunerados pelos cofres públicos entre os filiados ao Regime Próprio do Estado do Paraná. Adicionalmente, aplica-se o já delineado pela primeira instância no que se relaciona com a argumentação do ato jurídico perfeito e ao direito adquirido alegado ao RPPS, nestes termos: É público e notório que o Tribunal de Justiça do Estado do Paraná já decidiu que os notários e registradores que ingressaram nesta atividade antes da edição Fl. 173DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.531 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10935.722357/2014-69 9 da Lei nº 8.953/94 continuam vinculados ao Regime Próprio e permanecem contribuindo para este regime. Não obstante, a decisão não desobrigaria o autuado de contribuir ao RGPS. Inclusive verifica-se que o Impugnante está recolhendo contribuições ao PARANAPREVIDÊNCIA, mediante medida liminar, concedida nos autos nº 49.655, da 4ª Vara da Fazenda Pública, Falências e Concordatas do Foro central da Comarca da Região Metropolitana de Curitiba, conforme consta da Declaração de Tempo de Contribuição Previdenciária, emitida pela citada entidade (fls. 97) e devidamente confirmado pelo próprio Litigante. Observe-se que o presente acórdão administrativo está confirmando os lançamentos de ofício da Autoridade Fiscal dos débitos previdenciários devidos pelo segurado, segundo o Regime Geral de Previdência Social, em conformidade com a EC nº 20/98 e legislação pertinente, e não tem o condão de desautorizar a opção do Suplicante pelo Regime Próprio de Previdência Social a que é filiado junto ao Estado do Paraná. Logo, o Auto de Infração não feriu ato jurídico perfeito, direito adquirido ou coisa julgada. Já a alegação de bitributação não procede porque o Litigante é obrigado a contribuir como segurado apenas para a União pelo Regime Geral de Previdência Social. O Regime Próprio de Previdência Social gerido pelo Estado do Paraná lhe é facultativo, observando-se também que a lei não proíbe o recorrente de contribuir para planos de previdência privada. (...) No presente caso, o Contribuinte não demonstrou ter preenchido os requisitos exigidos para aposentadoria antes do advento da Emenda Constitucional nº 20/98, o que caracteriza a inexistência de direito líquido e certo à sua manutenção no RPPS. (...) Diante de tudo que foi exposto, depreende-se que os notários e os registradores somente possuem direito de serem mantidos no regime próprio dos servidores públicos efetivos (RPPS), se tiverem atendido a todos os requisitos para a aposentadoria em época anterior à EC nº 20/98. No presente caso, não há provas de que o Impugnante tenha preenchido todos os requisitos para a aposentadoria em época anterior à EC nº 20/98. Logo, não pode pertencer ao Regime Próprio de Previdência Social (RPPS). Diante de todo o contexto analisado e das normas vigentes que regem a matéria, bem como dos elementos dos autos, sobressalta que o recorrente é contribuinte individual ligado obrigatoriamente ao Regime Geral da Previdência Social (RGPS), independentemente de outras opções previdenciárias, e, por consequência, são devidas as contribuições previdenciárias lançadas. Sendo assim, sem razão o recorrente neste capítulo. Fl. 174DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.531 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10935.722357/2014-69 10 Conclusão quanto ao Recurso Voluntário Em apreciação racional com base na legislação tributária e processual, relatado, analisado e por mais o que dos autos constam, em resumo, conheço parcialmente do recurso, não conhecendo pedidos subsidiários de averbação de tempo de contribuição e de reserva de direito ao indébito (pedidos subsidiários); e no mérito, nego-lhe provimento, mantendo íntegra a decisão recorrida. Alfim, finalizo em sintético dispositivo. Dispositivo Ante o exposto, voto por conhecer parcialmente do recurso, exceto quanto a apreciar os pedidos subsidiários; e no mérito, em NEGAR-LHE PROVIMENTO. É como Voto. Assinado Digitalmente Leonam Rocha de Medeiros Fl. 175DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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Numero do processo: 16682.722902/2016-84
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon May 18 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Sun Sep 27 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Ano-calendário: 2015 PIS/PASEP-IMPORTAÇÃO. RETIFICAÇÃO DE DECLARAÇÃO DE IMPORTAÇÃO. QUANTIDADE DE MERCADORIA EFETIVAMENTE IMPORTADA INFERIOR À DECLARADA. RECOLHIMENTO A MAIOR. RESTITUIÇÃO. ART. 166 DO CTN. INAPLICABILIDADE. Comprovadas nos autos a retificação da Declaração de Importação e a redução da quantidade efetivamente importada, caracteriza-se o recolhimento indevido de PIS/PASEP-Importação e COFINS-Importação incidentes sobre parcela da mercadoria não ingressada no território nacional. O indébito decorrente da inexistência parcial do fato gerador não se submete à restrição prevista no art. 166 do CTN, por inexistir transferência jurídica do encargo financeiro a terceiros. Desnecessária, na hipótese, a comprovação de assunção do ônus financeiro para fins de reconhecimento do direito creditório. Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Ano-calendário: 2015 COFINS-IMPORTAÇÃO. RETIFICAÇÃO DE DECLARAÇÃO DE IMPORTAÇÃO. QUANTIDADE DE MERCADORIA EFETIVAMENTE IMPORTADA INFERIOR À DECLARADA. RECOLHIMENTO A MAIOR. RESTITUIÇÃO. ART. 166 DO CTN. INAPLICABILIDADE. Comprovadas nos autos a retificação da Declaração de Importação e a redução da quantidade efetivamente importada, caracteriza-se o recolhimento indevido de PIS/PASEP-Importação e COFINS-Importação incidentes sobre parcela da mercadoria não ingressada no território nacional. O indébito decorrente da inexistência parcial do fato gerador não se submete à restrição prevista no art. 166 do CTN, por inexistir transferência jurídica do encargo financeiro a terceiros. Desnecessária, na hipótese, a comprovação de assunção do ônus financeiro para fins de reconhecimento do direito creditório.
Numero da decisão: 3402-013.191
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário. O conselheiro José de Assis Ferraz Neto manifestou a intenção de apresentar declaração de voto. Assinado Digitalmente Cynthia Elena de Campos - Relatora Assinado Digitalmente Arnaldo Diefenthaeler Dornelles - Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Anselmo Messias Ferraz Alves, Cynthia Elena de Campos, José de Assis Ferraz Neto, Alessandra Lessa dos Santos, Adriano Monte Pessoa (substituto integral) e Arnaldo Diefenthaeler Dornelles (Presidente).
Nome do relator: CYNTHIA ELENA DE CAMPOS

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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário. O conselheiro José de Assis Ferraz Neto manifestou a intenção de apresentar declaração de voto. Assinado Digitalmente Cynthia Elena de Campos - Relatora Assinado Digitalmente Arnaldo Diefenthaeler Dornelles - Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Anselmo Messias Ferraz Alves, Cynthia Elena de Campos, José de Assis Ferraz Neto, Alessandra Lessa dos Santos, Adriano Monte Pessoa (substituto integral) e Arnaldo Diefenthaeler Dornelles (Presidente).

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RETIFICAÇÃO DE DECLARAÇÃO DE IMPORTAÇÃO. QUANTIDADE DE MERCADORIA EFETIVAMENTE IMPORTADA INFERIOR À DECLARADA. RECOLHIMENTO A MAIOR. RESTITUIÇÃO. ART. 166 DO CTN. INAPLICABILIDADE. Comprovadas nos autos a retificação da Declaração de Importação e a redução da quantidade efetivamente importada, caracteriza-se o recolhimento indevido de PIS/PASEP-Importação e COFINS-Importação incidentes sobre parcela da mercadoria não ingressada no território nacional. O indébito decorrente da inexistência parcial do fato gerador não se submete à restrição prevista no art. 166 do CTN, por inexistir transferência jurídica do encargo financeiro a terceiros. Desnecessária, na hipótese, a comprovação de assunção do ônus financeiro para fins de reconhecimento do direito creditório. Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Ano-calendário: 2015 COFINS-IMPORTAÇÃO. RETIFICAÇÃO DE DECLARAÇÃO DE IMPORTAÇÃO. QUANTIDADE DE MERCADORIA EFETIVAMENTE IMPORTADA INFERIOR À DECLARADA. RECOLHIMENTO A MAIOR. RESTITUIÇÃO. ART. 166 DO CTN. INAPLICABILIDADE. Comprovadas nos autos a retificação da Declaração de Importação e a redução da quantidade efetivamente importada, caracteriza-se o recolhimento indevido de PIS/PASEP-Importação e COFINS-Importação incidentes sobre parcela da mercadoria não ingressada no território nacional. O indébito decorrente da inexistência parcial do fato gerador não se submete à restrição prevista no art. 166 do CTN, por inexistir Fl. 318DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-013.191 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.722902/2016-84 2 transferência jurídica do encargo financeiro a terceiros. Desnecessária, na hipótese, a comprovação de assunção do ônus financeiro para fins de reconhecimento do direito creditório. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário. O conselheiro José de Assis Ferraz Neto manifestou a intenção de apresentar declaração de voto. Assinado Digitalmente Cynthia Elena de Campos – Relatora Assinado Digitalmente Arnaldo Diefenthaeler Dornelles – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Anselmo Messias Ferraz Alves, Cynthia Elena de Campos, José de Assis Ferraz Neto, Alessandra Lessa dos Santos, Adriano Monte Pessoa (substituto integral) e Arnaldo Diefenthaeler Dornelles (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de Recurso Voluntário interposto contra o Acórdão nº 07-44.551, proferido pela 2ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Florianópolis (SC) que, por unanimidade de votos, julgou improcedente a manifestação de inconformidade. Por bem reproduzir os fatos ocorridos até aquele momento, transcrevo o relatório da decisão recorrida: Trata o presente processo de pedido de restituição de PIS e COFINS, incidentes sobre a importação em virtude do pagamento a maior, a título de PIS-Importação e COFINS-Importação, na retificação da Declaração de Importação (DI) n° 15/0465184-9, registrada em 12/03/2015, nos valores de R$ 5.633,00 e R$ 26.004,44, tendo informado o motivo da restituição a retificação da declaração de importação. O pedido foi indeferido por despacho decisório, às fls. 146/153, por entender, após análise dos documentos e informações prestados à fiscalização, que o crédito dos tributos fora utilizado, uma vez que a interessada havia agregado o valor dos tributos ao preço de venda da mercadoria, ideia da repercussão fiscal, prevista no art. 166 do Código Tributário Nacional – CTN (Lei nº 5.172/66). Fl. 319DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-013.191 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.722902/2016-84 3 De acordo com a fiscalização, as cópias de folhas do livro Registro de Entradas apresentadas e cópia de folha de relatório de registros fiscais dos documentos de entradas de mercadorias e aquisição de serviços, o registro da entrada das mercadorias amparadas pela NF-e de entrada de nº 159648 foi efetuada pelo valor de R$ 92.968.274,90, que é o valor total da NF-e. Deste valor total apurou-se que é composto pela soma do valor das mercadorias, no valor de R$ 66.539.319,46, valor de “outras despesas acessórias”, no valor de R$ 22.914.898,87, valor total do frete R$ 3.512.883,58 e valor do seguro R$ 1.172,99 ( 66.539.319,46 + 22.914.898,87 + 3.512.883,58 + 1.172,99= 92.968.274,90). E do valor de “outras despesas acessórias”, no total de R$ 1.544.467,07, conclui- se que se refere à soma dos valores dos tributos incidentes sobre a operação de importação, quais sejam, PIS – Importação, no valor R$ 237.551,73, e COFINS – Importação, no valor de R$ 1.097.035,38, e SISCOMEX, no valor de 214,50 e Capatazia, no valor de R$ 209.665,46. ( 237.551,73 + 1.097.035,38 + 214,50 + 209.665,46 = 1.544.467,07). Sendo assim, agregados ao custo das mercadorias os valores do PISImportação e da COFINS-Importação devidos na operação de importação antes da retificação da DI, não restou provado que a interessada fazia jus ao reconhecimento do direito creditório pleiteado, tendo em vista que não comprovou o atendimento ao disposto pelo art. 166 do CTN. Cientificada do indeferimento a interessada apresenta manifestação de inconformidade às fls.160/168 alegando que a questão da não cumulatividade do PIS e da COFINS não interfere no seu indébito, uma vez que o creditamento se dá levando-se em consideração a retificação da DI. E também a dita transferência do respectivo encargo financeiro são aqueles somente previstos em lei. Observa que a Lei n° 10.865/2004, em seu art. 5°, elencou especificamente o importador como contribuinte das contribuições em questão, logo, é despropositada a alegação de inexistência de comprovação de assunção do encargo financeiro. O pedido de restituição e reconhecimento de direito de crédito são referentes a uma parcela do produto que não existiu, como comprovam os documentos nº processo. Lembra que consta no processo o excerto do Razão, nas contas "a recuperar" e "a restituir", nos valores requeridos, e junta novamente o documento que é prova suficiente para demonstrar seu direito. Pede que seja julgado procedente o pedido formulado na presente manifestação de inconformidade. E que seja juntado os documentos em anexo e os complementares que venham a contribuir para a apuração da verdade real, e também pela produção de outras provas que necessariamente contribuam para o melhor deslinde da questão. Fl. 320DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-013.191 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.722902/2016-84 4 A Contribuinte foi intimada da decisão pela via eletrônica em data de 09/03/2020, apresentando o Recurso Voluntário e documentos que o instrui em data de 07/04/2020, pelo qual pediu o provimento para declaração da legitimidade do direito à integralidade do crédito apontado para fins de restituição. Após, o processo foi encaminhado para inclusão em lote de sorteio É o relatório. VOTO Conselheira Cynthia Elena de Campos, Relatora 1. Pressupostos legais de admissibilidade O Recurso Voluntário é tempestivo e preenche os demais requisitos de admissibilidade, motivo pelo qual deve ser conhecido. 2. Mérito O presente litígio refere-se a Pedido de Restituição de PIS e COFINS incidentes sobre a importação, formulado em razão de alegado pagamento a maior das contribuições PIS- Importação e COFINS-Importação, decorrente da retificação da Declaração de Importação (DI) nº 15/0465184-9, registrada em 12/03/2015. O crédito pleiteado corresponde aos valores de R$ 5.633,00, relativos ao PIS-Importação, e R$ 26.004,44, relativos à COFINS-Importação, tendo a contribuinte indicado como fundamento do pedido a mencionada retificação da declaração de importação. A Autoridade Fiscal indeferiu o pleito ao entendimento de que, embora tenha sido constatada a retificação da DI e a consequente possibilidade de recolhimento em valor superior ao devido, não restou demonstrado o cumprimento das exigências previstas no art. 166 do Código Tributário Nacional, especialmente quanto à comprovação de que o encargo financeiro das contribuições não teria sido transferido a terceiros. Segundo a Fiscalização, as cópias das folhas do Livro Registro de Entradas apresentadas pela contribuinte, bem como a cópia do relatório de registros fiscais dos documentos de entradas de mercadorias e aquisição de serviços, indicam que o registro da entrada das mercadorias amparadas pela NF-e de entrada nº 159648 foi efetuado pelo valor de R$ 92.968.274,90, correspondente ao valor total da nota fiscal. Desse montante, verificou-se que o valor total da operação é composto pela soma do valor das mercadorias, no montante de R$ 66.539.319,46, acrescido de outras despesas Fl. 321DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-013.191 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.722902/2016-84 5 acessórias, no valor de R$ 22.914.898,87, além do valor total do frete, de R$ 3.512.883,58, e do valor do seguro, de R$ 1.172,99, totalizando R$ 92.968.274,90. No que se refere ao montante classificado como “outras despesas acessórias”, apurou-se que parte desse valor corresponde aos tributos incidentes sobre a operação de importação, compreendendo PIS-Importação, no valor de R$ 237.551,73, COFINS-Importação, no valor de R$ 1.097.035,38, taxa SISCOMEX, no valor de R$ 214,50, e despesas de capatazia, no valor de R$ 209.665,46, totalizando R$ 1.544.467,07. Diante desse cenário, concluiu a DRJ que os valores de PIS-Importação e COFINS- Importação incidentes na operação de importação antes da retificação da DI foram agregados ao custo das mercadorias, razão pela qual não restou comprovado que a interessada faria jus ao reconhecimento do direito creditório pleiteado, uma vez que não demonstrou o atendimento às exigências previstas no art. 166 do Código Tributário Nacional. Constata-se, assim, que o ponto controvertido do litígio se limita à aplicação do art. 166 do Código Tributário Nacional e à alegada necessidade de comprovação da assunção do encargo financeiro como requisito para o reconhecimento do direito creditório pleiteado. Cumpre esclarecer que, após relevante debate do Colegiado e análise dos fundamentos demonstrados no voto vencedor do ilustre Conselheiro José de Assis Ferraz Neto, proferido em processo análogo da mesma contribuinte, entendi por alterar meu posicionamento sobre a matéria, o que faço pelas razões que abaixo serão demonstradas: Observo que a efetiva retificação da Declaração de Importação encontra-se comprovada nos autos, conforme Extrato da Solicitação de Retificação da DI nº 15/0465184-9 (fls. 74/77), como já reconhecido no Despacho Decisório e na decisão da DRJ. Igualmente está comprovado nos autos o recolhimento a maior das contribuições incidentes sobre a Declaração de Importação retificada, tendo em vista a exclusão da mercadoria que não ingressou no território nacional. Com isso, a existência do indébito não é objeto de discussão. Ocorre que o indébito decorre da inexistência parcial do fato gerador, e não de mero aproveitamento de créditos na sistemática não cumulativa. Não houve circulação da parcela da mercadoria não importada, tampouco transferência jurídica do encargo financeiro a terceiros. A mera circunstância de o tributo integrar custos da atividade econômica não autoriza, por si só, a incidência do art. 166 do CTN. O dispositivo pressupõe tributo cuja natureza comporte efetiva dissociação entre contribuinte de direito e contribuinte de fato, situação não caracterizada na hipótese dos autos. Esse entendimento foi adotado por este CARF em outro no Processo Administrativo Fiscal nº 11128.001794/2009-55, da mesma Contribuinte, no qual foi proferido o Acórdão nº 3001-001.525, de relatoria do ilustre Conselheiro Luis Felipe de Barros Reche, assim ementado: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Fl. 322DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-013.191 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.722902/2016-84 6 Data do fato gerador: 29/01/2007 PIS/PASEP-IMPORTAÇÃO E COFINS-IMPORTAÇÃO. RETIFICAÇÃO DE DECLARAÇÃO DE IMPORTAÇÃO. RESTITUIÇÃO DO PAGAMENTO A MAIOR DAS CONTRIBUIÇÕES. COMPROVAÇÃO DE ASSUNÇÃO DOS ENCARGOS FINANCEIROS. DESNECESSIDADE. Desnecessária a comprovação da assunção do ônus financeiro, prevista no art. 166 do Código Tributário Nacional (CTN), na restituição das Contribuições para o PIS/PASEP/Importação e COFINS/Importação, para o deferimento de pedido de restituição, quando seu recolhimento indevido decorre de retificação de Declaração de Importação (DI) que reduz a quantidade do produto importado, por não comportar a transferência do encargo financeiro a terceiro. Em síntese, como consignado no r. voto condutor do acórdão em referência, é desnecessária a comprovação da assunção do ônus financeiro, prevista no art. 166 do Código Tributário Nacional (CTN), na restituição das Contribuições para o PIS/PASEP/Importação e COFINS/Importação, para o deferimento de pedido de restituição, quando seu recolhimento indevido decorre de retificação de Declaração de Importação (DI) que reduz a quantidade do produto importado. Como bem observado no precedente em referência, o reconhecimento do direito à restituição em apreço demanda apenas da comprovação dos pagamentos dos tributos indevidos, uma vez que “não houve o repasse do produto importado com a transferência do encargo financeiro a um eventual contribuinte de fato adquirente, pois este sequer foi importado pelo contribuinte de direito.” Por tais razões, diante da comprovação acostada aos autos e, considerando que o recolhimento indevido decorreu precisamente da inexistência parcial do fato gerador, uma vez que parcela da mercadoria originalmente declarada não foi efetivamente importada, não há que se falar em transferência jurídica do encargo financeiro a terceiros, motivo pelo qual deve ser afastada a hipótese do artigo 166 do Código Tributário Nacional e, por consequência, reconhecido o direito creditório em análise. 3. Dispositivo Ante o exposto, conheço e dou provimento ao Recurso Voluntário. É como voto. Assinado Digitalmente Cynthia Elena de Campos Fl. 323DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-013.191 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.722902/2016-84 7 DECLARAÇÃO DE VOTO Conselheiro José de Assis Ferraz Neto Trata-se de importação de nafta, mercadoria a granel do setor petroquímico, amparada pela Declaração de Importação nº 15/0465184-9, registrada em 12/03/2015. Após o desembarque, constatou-se que a quantidade efetivamente importada era inferior à originalmente manifestada, o que levou à retificação da DI no Siscomex. Em decorrência dessa retificação, os tributos incidentes sobre a importação passaram a ser devidos em valor inferior ao efetivamente recolhido no momento do registro da DI. A diferença corresponde a R$ 5.633,00 de PIS-Importação e R$ 26.004,44 de COFINS-Importação, totalizando R$ 31.637,44. Esse montante constitui o indébito objeto do pedido de restituição. Registro, desde logo, um ponto que considero fundamental: nenhuma das instâncias que analisaram o caso, nem o Despacho Decisório, nem o Acórdão da DRJ, nem o voto da ilustre Relatora, negou a existência do indébito. A retificação da DI consta do Siscomex e foi expressamente reconhecida pela fiscalização. O pagamento a maior está comprovado nos autos. A controvérsia reside exclusivamente na alegada ausência de comprovação do direito creditório, especialmente nos termos do art. 166 do CTN. Entendo que o indébito decorre de mercadoria que não foi efetivamente importada na quantidade originalmente declarada. Após o desembarque, apurou-se que a quantidade real de nafta era inferior à manifestada. A DI foi retificada para refletir essa realidade. Os tributos recolhidos sobre a parcela excedente, correspondente à mercadoria não efetivamente importada, constituem pagamento indevido. Se não houve importação da mercadoria naquela proporção, não há fato gerador de PIS e COFINS-Importação sobre essa parcela. E se não houve fato gerador, não há tributo juridicamente devido. Nessas circunstâncias, não há como cogitar transferência do respectivo encargo financeiro a terceiros. A parcela da mercadoria sequer ingressou no território nacional na quantidade originalmente declarada. Logo, não houve circulação econômica apta a justificar eventual repasse do ônus financeiro. Fl. 324DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-013.191 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.722902/2016-84 8 O que existe é pagamento indevido decorrente de erro de fato posteriormente corrigido mediante retificação da DI. Esse entendimento foi acolhido pela 1ª Turma Extraordinária da 3ª Seção deste Conselho no Acórdão nº 3001-001.524, de 14 de outubro de 2020, em caso da Petróleo Brasileiro S.A. - Petrobrás. Permito-me reproduzir trecho do voto do Conselheiro Relator Luis Felipe de Barros Reche: “Não obstante, no caso em análise, entendo que a solução do litígio passa à margem da discussão sobre comportarem ou não, as Contribuições vinculadas à importação, a transferência do respectivo encargo financeiro, visto que a mercadoria não foi efetivamente importada por ter sido constatada sua entrada no País em quantidade menor do que a declarada, retificando-se a correspondente declaração de importação. Ou seja, não houve o repasse do produto importado com a transferência do encargo financeiro a um eventual contribuinte de fato adquirente, pois este sequer foi importado pelo contribuinte de direito.” E concluiu: “Nesses termos, como não houve transferência do encargo financeiro dos tributos a terceiros, por impossibilidade material, a recorrente detém legitimidade ativa para pedir a restituição dos valores indevidos das contribuições por ela pagos e o reconhecimento do direito à restituição em apreço demanda apenas da comprovação dos pagamentos dos tributos indevidos, o que foi feito nos presentes autos, sendo desnecessária a comprovação da assunção do ônus financeiro prevista no art. 166 do Código Tributário Nacional (CTN).” A identidade fática entre aquele precedente e o caso presente é notória. Ambos tratam de importação de mercadoria a granel do setor petroquímico, em que se constatou desembarque em quantidade inferior à manifestada, com subsequente retificação da DI e pedido de restituição de PIS e COFINS-Importação. No mesmo sentido, a 1ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da 3ª Seção, no Acórdão nº 3401-008.925, de 25 de março de 2021, caso Oleoquímica Ind. e Com. Prod. Químicos Ltda., também deu provimento ao recurso voluntário em situação semelhante. Observo ainda que existem manifestações da própria Receita Federal afastando a incidência do art. 166 do CTN ao PIS/PASEP-Importação e à COFINS-Importação. Destaco, inicialmente, o Parecer Disit da 7ª Região Fiscal nº 6/2008, cuja ementa dispõe: “A Contribuição Social para o Financiamento da Seguridade Social devida pelo Importador de Bens Estrangeiros ou Serviços do Exterior — Cofins-Importação — não se constitui em tributo que, por sua natureza, comporta transferência do respectivo encargo financeiro.” Fl. 325DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-013.191 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.722902/2016-84 9 No mesmo sentido, a Solução de Consulta Interna Disit da 2ª Região Fiscal nº 12/2008 consignou expressamente: “A Cofins-Importação não se constitui tributo que, por sua natureza, comporta transferência do respectivo encargo financeiro.” E igualmente: “O PIS/Pasep-Importação não se constitui tributo que, por sua natureza, comporta transferência do respectivo encargo financeiro.” Também merece registro o Parecer COSIT nº 47/2003, que, ao tratar da transferência do encargo financeiro em tributos incidentes na importação, reconhece hipóteses em que sequer existe possibilidade concreta de repercussão econômica. A ilustre Relatora fundamenta parte de seu voto na premissa de que os elementos constantes dos autos não seriam suficientes para afastar a possibilidade de transferência do encargo financeiro ou de eventual duplo aproveitamento dos valores. Com a devida vênia, entendo que os autos contêm prova suficiente em sentido contrário. Refiro-me ao Razão Analítico apresentado pela recorrente. Os lançamentos contábeis permitem reconstituir o tratamento dado aos tributos incidentes na importação em questão. Em 12/03/2015, data do registro da DI, a empresa registrou a provisão para recolhimento dos tributos federais, lançando os valores originalmente apurados antes da retificação. Posteriormente, em 31/03/2015, efetuou o pagamento efetivo dos tributos. Na mesma data, procedeu à apropriação dos créditos de PIS e COFINS na sistemática não cumulativa. Os valores apropriados como crédito já correspondem aos montantes corretos após a retificação da DI. Ou seja, os créditos considerados na apuração não cumulativa não refletiram os valores originalmente pagos a maior. As diferenças correspondentes ao indébito foram segregadas em contas específicas de “PIS/PASEP a Restituir” e “COFINS a Restituir”. Os lançamentos demonstram, portanto: a) que os créditos apropriados observaram os valores efetivamente devidos após a retificação da DI; b) que a diferença paga indevidamente foi segregada contabilmente em contas próprias de restituição; c) que não houve aproveitamento simultâneo como crédito fiscal e como pedido de restituição. Em outras palavras, não houve duplo aproveitamento. Fl. 326DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-013.191 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.722902/2016-84 10 Esse procedimento guarda conformidade com a Solução de Consulta COSIT nº 56, de 15 de dezembro de 2022. Ao tratar de hipótese de pagamento a maior de PIS e COFINS- Importação decorrente de retificação de DI por diferença de quantidade efetivamente recebida, a COSIT reconheceu expressamente: i) a possibilidade de restituição dos valores pagos indevidamente; e ii) a necessidade de adequação dos créditos apropriados na não cumulatividade. No caso dos autos, a prova contábil demonstra essa adequação. A recorrente também trouxe aos autos o Parecer Normativo COSIT nº 1/2017. O item 36 do referido parecer dispõe: “Nos demais casos em que a importação, nos termos da legislação aplicável à apuração de créditos da contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, não implicou a apuração de créditos, o pagamento indevido ou a maior pode ser objeto de pedido de restituição.” Esse entendimento reforça a solução ora adotada. A parcela recolhida indevidamente, correspondente à mercadoria não efetivamente importada, não gerou crédito passível de aproveitamento. O creditamento ocorreu já com base nos valores da DI retificada. Logo, a restituição constitui a via adequada para recuperação do indébito. Reconheço, como bem pontuou a ilustre Relatora, que o ônus da prova incumbe ao sujeito passivo que pleiteia a restituição. Todavia, entendo que a recorrente se desincumbiu adequadamente desse ônus. Os autos contêm: i) a comprovação da retificação da DI; ii) a demonstração do recolhimento dos tributos; iii) o laudo de arqueação demonstrando desembarque em quantidade inferior; iv) o Razão Analítico com os lançamentos contábeis pertinentes; e v) os documentos que comprovam a segregação entre os créditos apropriados e os valores objeto de restituição. Nessas circunstâncias, a ausência de retificação da nota fiscal de entrada, por si só, não possui aptidão para afastar a comprovação material constante dos autos. Aliás, importa registrar que as normas aplicáveis à restituição decorrente de retificação de DI não condicionam o deferimento do pedido à prévia retificação da nota fiscal de Fl. 327DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-013.191 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.722902/2016-84 11 entrada. Nem a IN RFB nº 1.300/2012, nem a IN RFB nº 1.717/2017, nem a SC COSIT nº 56/2022 estabelecem essa exigência. Os requisitos exigidos consistem na demonstração da retificação da DI, do recolhimento indevido e da correta adequação dos créditos eventualmente apropriados. Todos esses elementos encontram-se devidamente comprovados nos autos. Ante o exposto, pelas razões acima expostas, voto por dar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente José de Assis Ferraz Neto Fl. 328DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto Declaração de Voto

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Numero do processo: 10835.901105/2017-75
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Jul 06 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Fri Sep 25 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda Retido na Fonte - IRRF Ano-calendário: 2013 IRRF SOBRE COOPERATIVA DE TRABALHO. COMPROVAÇÃO DA RETENÇÃO. AUSÊNCIA DE DIRF EM FAVOR DO CONTRIBUINTE. INSUFICIÊNCIA DE FATURA PRÓPRIA. A prova do imposto de renda retido na fonte não se faz exclusivamente pelo comprovante de retenção emitido pela fonte pagadora (Súmula CARF nº 143), mas a fatura emitida unilateralmente pelo próprio contribuinte, desacompanhada de extratos bancários ou de qualquer DIRF da fonte pagadora que corrobore a retenção, não é suficiente para comprovar o direito creditório. DIRF COM CÓDIGO DE RECEITA DIVERGENTE. ERRO ATRIBUÍVEL À FONTE PAGADORA. RECONHECIMENTO DO CRÉDITO. Constatada a coincidência de CNPJ da fonte pagadora, valor e período de apuração entre a DIRF, o PER/DCOMP e a fatura emitida, o erro no preenchimento do código de receita pela fonte pagadora não pode ser oposto ao contribuinte, sendo de se reconhecer o crédito correspondente. DILIGÊNCIA. PERÍCIA. DESNECESSIDADE. Não se converte o julgamento em diligência nem se determina perícia quando os elementos constantes dos autos são suficientes à formação da convicção do julgador e a parte teve oportunidade de produzir a prova de que dispunha.
Numero da decisão: 1002-004.413
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário apenas para reconhecer o crédito relativo às retenções informadas em DIRF sob o código de receita 1708, cujos valores, CNPJ da fonte pagadora e período de apuração coincidam com os informados nos PER/DCOMPs, determinando a homologação das compensações até o limite assim apurado, mantendo, quanto ao mais, a decisão recorrida. O Conselheiro Aílton Neves da Silva votou pelas conclusões e apresentou declaração de voto. Assinado Digitalmente Maria Angélica Echer Ferreira Feijó - Relatora Assinado Digitalmente Ailton Neves da Silva - Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Andrea Viana Arrais Egypto, Luis Angelo Carneiro Baptista (substituto[a] integral), Maria Angelica Echer Ferreira Feijo, Rafael Taranto Malheiros (substituto[a] integral), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Ailton Neves da Silva (Presidente).
Nome do relator: MARIA ANGELICA ECHER FERREIRA FEIJO

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COMPROVAÇÃO DA RETENÇÃO. AUSÊNCIA DE DIRF EM FAVOR DO CONTRIBUINTE. INSUFICIÊNCIA DE FATURA PRÓPRIA. A prova do imposto de renda retido na fonte não se faz exclusivamente pelo comprovante de retenção emitido pela fonte pagadora (Súmula CARF nº 143), mas a fatura emitida unilateralmente pelo próprio contribuinte, desacompanhada de extratos bancários ou de qualquer DIRF da fonte pagadora que corrobore a retenção, não é suficiente para comprovar o direito creditório. DIRF COM CÓDIGO DE RECEITA DIVERGENTE. ERRO ATRIBUÍVEL À FONTE PAGADORA. RECONHECIMENTO DO CRÉDITO. Constatada a coincidência de CNPJ da fonte pagadora, valor e período de apuração entre a DIRF, o PER/DCOMP e a fatura emitida, o erro no preenchimento do código de receita pela fonte pagadora não pode ser oposto ao contribuinte, sendo de se reconhecer o crédito correspondente. DILIGÊNCIA. PERÍCIA. DESNECESSIDADE. Não se converte o julgamento em diligência nem se determina perícia quando os elementos constantes dos autos são suficientes à formação da convicção do julgador e a parte teve oportunidade de produzir a prova de que dispunha. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Fl. 3271DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.413 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10835.901105/2017-75 2 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário apenas para reconhecer o crédito relativo às retenções informadas em DIRF sob o código de receita 1708, cujos valores, CNPJ da fonte pagadora e período de apuração coincidam com os informados nos PER/DCOMPs, determinando a homologação das compensações até o limite assim apurado, mantendo, quanto ao mais, a decisão recorrida. O Conselheiro Aílton Neves da Silva votou pelas conclusões e apresentou declaração de voto. Assinado Digitalmente Maria Angélica Echer Ferreira Feijó – Relatora Assinado Digitalmente Ailton Neves da Silva – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Andrea Viana Arrais Egypto, Luis Angelo Carneiro Baptista (substituto[a] integral), Maria Angelica Echer Ferreira Feijo, Rafael Taranto Malheiros (substituto[a] integral), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Ailton Neves da Silva (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de processo administrativo fiscal originado do Despacho Decisório nº 127670545, de 02/11/2017 (fl. 1278), por meio do qual a autoridade fiscal de origem homologou parcialmente as compensações declaradas em PER/DCOMP relativas a crédito de Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF) incidente sobre a prestação de serviços por cooperativa de trabalho, em decorrência de atos cooperativos, referente ao ano-calendário de 2013, com fundamento no art. 45 da Lei nº 8.541, de 1992, c/c o art. 74 da Lei nº 9.430, de 1996. Conforme o despacho decisório, foi reconhecido direito creditório no valor total de R$ 564.400,81, tendo sido homologadas parcialmente as compensações declaradas nos PER/DCOMPs referentes aos períodos de maio a novembro de 2013, e não homologada integralmente a compensação relativa ao período de dezembro de 2013, com apuração de débito consolidado, composto por principal, multa e juros (fl. 1278). A parcela do crédito não reconhecida decorreu, segundo a autoridade fiscal, da ausência de confirmação, total ou parcial, das retenções informadas pela interessada, conforme demonstrativos de análise de crédito juntados às fls. 1279/1330. Fl. 3272DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.413 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10835.901105/2017-75 3 Cientificada do despacho decisório, a interessada apresentou manifestação de inconformidade (fls. 5/24), alegando, em síntese, que exerce atividade de cooperativa de trabalho e está sujeita ao art. 45 da Lei nº 8.541/1992; que o imposto foi efetivamente retido por ocasião dos pagamentos que lhe foram feitos pelas fontes pagadoras no ano-calendário de 2013; que as divergências apontadas pela fiscalização decorreriam de equívocos das próprias fontes pagadoras no preenchimento das DIRFs, tais como erro de código de retenção ou simples ausência de informação da retenção; e que teria acostado aos autos as faturas de prestação de serviços emitidas às fontes pagadoras, aptas a comprovar o direito creditório pleiteado. Posteriormente, a interessada juntou documentação complementar (faturas), sustentando a regularidade de sua apresentação após o prazo de defesa, em razão do volume de documentos e do princípio da verdade material. A Delegacia de Julgamento (fls. 3176/3212), ao apreciar a manifestação de inconformidade, dela conheceu por tempestiva e, quanto ao mérito, consignou que o direito ao crédito de que trata o art. 45 da Lei nº 8.541/1992 pressupõe a comprovação da efetiva retenção, a qual, nos termos do art. 55 da Lei nº 7.450/1985, seria em regra demonstrada pelo comprovante de retenção emitido pela fonte pagadora, admitindo-se, contudo, outros meios de prova na sua ausência. Registrou que a interessada não apresentou os informes de rendimentos, tampouco extratos bancários ou outros documentos hábeis a demonstrar que os valores recebidos eram líquidos dos impostos discriminados nas faturas, tendo juntado apenas cópias de faturas de sua própria emissão e controles internos (fls. 25/694 e 1389/3167), além de cópias dos PER/DCOMPs (fls. 696/1277) — documentos considerados insuficientes, por si sós, para comprovar a retenção praticada por terceiro. Consignou, ainda, que as retenções informadas em DIRF sob código de receita diverso do 3280 (código exigido para a compensação em tela) não poderiam ser objeto da compensação pleiteada, por não deter a autoridade julgadora competência para retificar de ofício as informações prestadas pelas fontes pagadoras. Refez, contudo, a análise das retenções não confirmadas no despacho decisório e, nos casos em que identificada divergência de um mês no período de apuração informado em DIRF frente ao PER/DCOMP, bem como nos casos de divergência entre CNPJ de matriz e filial, reconheceu o crédito correspondente, adicionando R$ 4.433,05 ao montante já homologado. Ao final, julgou procedente em parte a manifestação de inconformidade, mantendo como não reconhecido o montante de R$ 153.482,19. Cientificada da decisão de piso, a interessada interpôs recurso voluntário (fls. 3236/3249), no qual reitera a síntese fática acima exposta e sustenta, em síntese, que: (i) a comprovação do imposto de renda retido na fonte não se faz exclusivamente pelo comprovante emitido pela fonte pagadora, nos termos da Súmula CARF nº 143; (ii) as faturas por ela emitidas, aliadas aos controles internos, seriam suficientes para demonstrar a retenção, sendo abusiva a exigência de extratos bancários, providência não prevista em lei; (iii) o eventual erro no preenchimento do código de receita nas DIRFs apresentadas pelas fontes pagadoras não pode ser oposto à recorrente, que não detém poder de gestão sobre terceiros, cabendo à fiscalização, por dever de eficiência, promover o cruzamento de dados e notificar as fontes pagadoras para a correção; e (iv) haveria precedente do CARF (Acórdão 9101-005317) determinando a conversão do Fl. 3273DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.413 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10835.901105/2017-75 4 julgamento em diligência em hipótese similar. Ao final, requer o conhecimento e provimento do recurso, para reconhecimento integral do crédito pleiteado; alternativamente, a conversão do julgamento em diligência, para que as fontes pagadoras sejam notificadas a esclarecer e corrigir eventuais erros de código nas DIRFs; e, subsidiariamente, a realização de perícia para confronto dos dados do sistema DIRF com os documentos apresentados. É o relatório. VOTO Conselheira Maria Angélica Echer Ferreira Feijó, Relatora I. Tempestividade O recurso voluntário atende aos pressupostos de admissibilidade. Foi interposto no prazo de 30 (trinta) dias previsto no art. 33 do Decreto nº 70.235, de 1972, contado da ciência da decisão recorrida, e observa os demais requisitos formais de apresentação. Dele conheço. II. Do pedido de conversão em diligência e de realização de perícia A recorrente requer, subsidiariamente, a conversão do julgamento em diligência, para que as fontes pagadoras sejam notificadas a esclarecer e corrigir os códigos de retenção informados em DIRF, bem como a realização de perícia para confronto dos dados do sistema DIRF com os documentos apresentados. A decisão recorrida não converteu o feito em diligência, tendo apreciado o mérito com base nos elementos já constantes dos autos. Não há, no caso, elementos que justifiquem a conversão em diligência ou a realização de perícia. A interessada teve oportunidade, desde a manifestação de inconformidade, de acostar aos autos a documentação que entendesse necessária à comprovação do crédito pleiteado, inclusive de forma complementar, como de fato ocorreu, sem que tenha apresentado extratos bancários ou qualquer outro elemento produzido por terceiros apto a suprir a ausência de DIRF em seu favor. A diligência não se presta a suprir a inércia probatória da parte a quem incumbe o ônus da prova, tampouco a instaurar apuração fiscal em face de terceiros estranhos à relação processual para colher prova que a própria interessada poderia, e não logrou, produzir. Quanto às retenções informadas sob código de receita diverso, a questão comporta solução direta a partir dos próprios elementos já constantes dos autos, conforme exposto no item seguinte, tornando desnecessária qualquer diligência complementar. Indefiro, portanto, o pedido de conversão em diligência e de realização de perícia. Fl. 3274DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.413 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10835.901105/2017-75 5 III. Do Mérito III.1 Da comprovação da retenção mediante fatura própria, sem DIRF em favor da interessada A recorrente sustenta que as faturas por ela emitidas, aliadas a seus controles internos, seriam suficientes para comprovar a retenção do imposto de renda na fonte, ainda que sem apresentação de extratos bancários ou de qualquer indicação da retenção em DIRF pela fonte pagadora, invocando a Súmula CARF nº 143. A decisão recorrida entendeu que tais documentos, emitidos unilateralmente pela própria interessada, não são hábeis, por si sós, a comprovar a retenção praticada por terceiro, mantendo a exigência quanto às retenções para as quais a fonte pagadora sequer apresentou DIRF em favor da recorrente. De fato, a Súmula CARF nº 143 dispõe que a prova do imposto de renda retido na fonte deduzido pelo beneficiário não se faz exclusivamente por meio do comprovante de retenção emitido em seu nome pela fonte pagadora. A súmula afasta a exclusividade do informe de rendimentos como meio de prova, mas não dispensa a comprovação por outros elementos hábeis e idôneos, sobretudo quando emanados de terceiros ou de fonte oficial, tais como extratos bancários que demonstrem o recebimento líquido dos valores, ou a própria DIRF da fonte pagadora. No caso das retenções ora em exame, não há qualquer DIRF apresentada pela fonte pagadora em favor da interessada, de modo que inexiste elemento externo que corrobore a fatura emitida unilateralmente pela própria recorrente. O ônus de comprovar o direito creditório pleiteado é da interessada, e dele não se desincumbiu, uma vez que não trouxe aos autos extratos bancários ou qualquer outro documento produzido por terceiros que demonstrasse a efetiva retenção e o recolhimento do imposto pelas fontes pagadoras que não prestaram tal informação à Receita Federal. Nego provimento ao recurso quanto a este ponto, mantendo a decisão recorrida. III.2 Das retenções informadas em DIRF sob código de receita diverso (1708, em vez de 3280) A recorrente sustenta que o erro no preenchimento do código de receita nas DIRFs apresentadas pelas fontes pagadoras não pode ser oposto à recorrente, que não detém poder de gestão sobre terceiros, e que, coincidindo os demais dados (CNPJ da fonte pagadora, valor e período de apuração), o crédito deveria ser reconhecido. A decisão recorrida entendeu que as retenções informadas sob o código de receita 1708 não poderiam ser objeto da compensação de que trata o art. 45 da Lei nº 8.541, de 1992, restrita ao código 3280, por não deter a autoridade julgadora competência para retificar de ofício as informações prestadas nas DIRFs pelas fontes pagadoras. Fl. 3275DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.413 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10835.901105/2017-75 6 Assiste razão à recorrente quanto a este ponto específico. Diferentemente das retenções tratadas no item anterior, aqui há efetiva declaração da fonte pagadora em DIRF, com CNPJ, valor e período de apuração coincidentes com os informados no PER/DCOMP e com as faturas emitidas pela recorrente — o único elemento discrepante é o código de receita utilizado pela fonte pagadora para classificar a retenção. Tratando-se de erro atribuível exclusivamente a terceiro, sobre o qual a recorrente não possui poder de gestão ou de correção, não é razoável que a consequência de tal equívoco recaia sobre a beneficiária da retenção, que efetivamente sofreu o desconto do imposto, tal como evidenciado pela própria DIRF da fonte pagadora, ainda que sob classificação incorreta. A convergência dos demais elementos objetivos (CNPJ, valor e período) permite, no caso concreto, superar o óbice do código de receita, sem que isso implique reconhecimento de direito creditório superior ao pleiteado ou retificação, pela autoridade julgadora, das informações prestadas pela própria interessada nos PER/DCOMPs, mas apenas a valoração do conjunto probatório disponível nos autos quanto às retenções cuja fonte pagadora efetivamente as declarou à Receita Federal. Dou parcial provimento ao recurso quanto a este ponto, para reconhecer o crédito relativo às retenções informadas em DIRF sob o código de receita 1708, cujos valores, CNPJ da fonte pagadora e período de apuração coincidam com os informados nos PER/DCOMPs objeto do presente processo, determinando a homologação das compensações até o limite assim apurado. IV. Conclusão Diante do exposto, voto por conhecer do recurso voluntário, por ser tempestivo, e, no mérito, dou-lhe parcial provimento apenas para reconhecer o crédito relativo às retenções informadas em DIRF sob o código de receita 1708, cujos valores, CNPJ da fonte pagadora e período de apuração coincidam com os informados nos PER/DCOMPs, determinando a homologação das compensações até o limite assim apurado, mantendo, quanto ao mais, a decisão recorrida. Assinado Digitalmente Maria Angélica Echer Ferreira Feijó DECLARAÇÃO DE VOTO Aílton Neves da Silva Fl. 3276DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.413 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10835.901105/2017-75 7 Não obstante o bem fundamentado Voto da Conselheira relatora, posicionei-me no sentido de que havia necessidade de realização de diligência para aprofundamento da análise do direito creditório postulado, entretanto, fui vencido na proposta, razão pela qual apresento a presente declaração de voto elencando as razões que, a meu ver, justificavam a medida. Conforme consta dos autos, as compensações vindicadas não foram integralmente homologadas devido à não confirmação da totalidade das retenções na fonte informadas pelo contribuinte. O Despacho Decisório eletrônico considerou apenas as retenções concernentes ao código IRRF 3280 e declarados pelas fontes pagadoras em DIRF. Na sua Manifestação de Inconformidade, o contribuinte alega que alguns de seus clientes se equivocaram ao recolher Imposto de Renda Retido na Fonte IRRF sobre serviços cooperados mediante utilização de códigos de arrecadação diferentes de 3280 (IRRF Pagamento de Pessoa Jurídica a Cooperativa de Trabalho), em sua maioria, utilizando o código 1708 (IRRF Remuneração de Serviços Profissionais Prestados por Pessoa Jurídica). O tema é Recorrente no âmbito do CARF. Diante das circunstâncias que envolvem a matéria, parte da jurisprudência deste Conselho - inclusive esta 2ª Turma Extraordinária na sua composição original- tem reconhecido o direito de o contribuinte comprovar suas alegações por meio de diligência, mormente devido às particularidades da atividade de operadora de plano de saúde, que envolve volume massivo de dados, clientes e operações e que, em face disso, está sujeita a enorme quantidade de erros de preenchimento de documentos fiscais pelos tomadores de serviço, como parece ser o caso dos autos. O excerto seguinte do Acórdão recorrido bem ilustra nossa assertiva: Fl. 3277DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.413 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10835.901105/2017-75 8 Como se observa da amostra, foi feita a glosa da quase totalidade dos créditos vindicados porque não foram declaradas pelos tomadores de serviço retenções no código 3280, mas sim, no 1708. As retenções informadas sob o código de receita 1708 (IRRF – Remuneração Serviços Prestados por Pessoa Jurídica) não podem ser objeto da compensação de que trata o art. 45 da Lei nº 8.541, de 1992, c/c o art. 74 da Lei nº 9.430, de 1996. A compensação em questão se restringe ao IRRF incidente na prestação de serviços por cooperativas de trabalho e associações profissionais exclusivamente em decorrência de atos cooperativos, que, no caso, são realizadas Fl. 3278DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.413 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10835.901105/2017-75 9 sob o código de receita 3280 (IRRF – Remuneração sobre Serviços Prestados por Associados de Cooperativas de Trabalho). Ora, o código 1708 é genérico, e deve ser informado pelos tomadores de serviço quando houver retenções decorrentes de Remuneração de Serviços Profissionais Prestados por Pessoa Jurídica que não sejam cooperativas de trabalho. Para estas, a Lei atribuiu um código específico, no caso, o 3280. O fato gerador, a base legal e a responsabilidade tributária pela retenção nesses códigos constam do Manual de Imposto de Renda Retido na Fonte (MAFON) da RFB, e são reproduzidos na sequência: Fl. 3279DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.413 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10835.901105/2017-75 10 Veja-se que a legislação tributária criou uma obrigação acessória para o tomador de serviço/fonte pagadora de efetuar as retenções, ao mesmo tempo em que garantiu o direito de compensação delas ao prestador de serviço. Em relação ao código 3280, o MAFON orienta o tomador de serviço e lhe atribui a responsabilidade de reter e recolher o IR no código 3280. Ou seja, essa responsabilidade não é do prestador, e sim do tomador de serviço, de modo que aquele não tem responsabilidade nenhuma sobre uma obrigação acessória que não é dele e que está absolutamente fora de seu controle. Noutras palavras, é irrazoável a glosa do crédito motivada essencialmente por falta de identidade entre códigos de retenção próprios de IRRF e os declarados pelas fontes pagadoras, porque isso seria atribuir ao Recorrente as consequências de erro de responsabilidade exclusiva de terceiros. A propósito, a Súmula CARF nº 143 autoriza a comprovação do IRRF eventualmente retido não apenas através do informe de rendimentos e DIRFs, mas, também, por meios alternativos: Fl. 3280DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.413 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10835.901105/2017-75 11 Súmula 143 - A prova do imposto de renda retido na fonte deduzido pelo beneficiário na apuração do imposto de renda devido não se faz exclusivamente por meio do comprovante de retenção emitido em seu nome pela fonte pagadora dos rendimentos. A jurisprudência no CARF também está alinhada a este entendimento: Acórdão nº 10616555 Sessão de 18 de outubro de 2007 IRRF – GLOSA – DIRF – ERRO DA FONTE PAGADORA. Não merece prosperar a glosa do valor do imposto de renda retido na fonte, informado pelo contribuinte na declaração de ajuste anual, quando restar comprovado, por documentos hábeis e idôneos, que o sujeito passivo sofreu, efetivamente, a retenção, embora a fonte pagadora não tenha prestado esta informação na DIRF. Em julgado semelhante, em sede de recurso repetitivo, o acórdão nº 1301-001.030, também decidiu pela conversão do julgamento do recurso em diligência, conforme mostram os excertos seguintes daquela decisão: Tratando-se de julgamento submetido à sistemática de recursos repetitivos na forma do Regimento Interno deste Conselho, reproduz-se o voto consignado na resolução paradigma como razões de decidir: O recurso voluntário é tempestivo e, uma vez atendidos também às demais condições de admissibilidade, merece ser conhecido. A discussão gira em torno do reconhecimento de direito creditório decorrente de retenção na fonte de imposto sobre a renda nos pagamentos feitos à sociedade cooperativa, relativamente a serviços prestados por seus cooperados. A decisão recorrida confirmou os termos do despacho decisório, que reconheceu parcialmente o direito creditório pleiteado, glosando os valores retidos que não foram confirmados pelos sistemas da RFB, durante o período analisado, no código 3280. Pois bem. A retenção do IRRF na hipótese de pagamento efetuado a cooperativa, como é o caso da Recorrente, está regulada no art. 45 da Lei nº 8.541, de 23 de dezembro de 1992, com a redação dada pela Lei nº 8.981/95, nos seguintes termos: Art. 45. Estão sujeitas à incidência do Imposto de Renda na fonte, à alíquota de 1,5%, as importâncias pagas ou creditadas por pessoas jurídicas a cooperativas de trabalho, associações de profissionais ou assemelhadas, relativas a serviços pessoais que lhes forem prestados por associados destas ou colocados à disposição. (Redação dada pela Lei nº 8.981, de 1995) § 1º O imposto retido será compensado pelas cooperativas de trabalho, associações ou assemelhadas com o imposto retido por ocasião do pagamento dos rendimentos aos associados.(Redação dada pela Lei nº 8.981, de 1995) Fl. 3281DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.413 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10835.901105/2017-75 12 § 2º O imposto retido na forma deste artigo poderá ser objeto de pedido de restituição, desde que a cooperativa, associação ou assemelhada comprove, relativamente a cada ano-calendário, a impossibilidade de sua compensação, na forma e condições definidas em ato normativo do Ministro da Fazenda.(Redação dada pela Lei nº 8.981, de 1995) Pela simples leitura da norma, extrai-se que a Cooperativa pode compensar com o IRRF por ocasião do pagamento dos rendimentos aos associados, sem haver qualquer menção que tal compensação somente pode ser feita se o contribuinte tiver o comprovante de rendimentos das fontes pagadoras. Logo, deve ser afastada, desde já, premissa adotada no despacho decisório e decisão recorrida, de que somente o imposto de renda retido na fonte que conste em comprovante de rendimento seria passível de compensação ou restituição. É que o contribuinte não pode ser penalizado pela ausência de entrega do comprovante de retenção por parte da fonte pagadora, sendo possível, por conseguinte, a comprovação por meio de outras provas documentais. Nesse sentido, a Súmula CARF nº 143: A prova do imposto de renda retido na fonte deduzido pelo beneficiário na apuração do imposto de renda devido não se faz exclusivamente por meio do comprovante de retenção emitido em seu nome pela fonte pagadora dos rendimentos. O mesmo raciocínio aplica-se ao recolhimento do IRRF sob o código errado, pois o contribuinte também não pode ser penalizado por eventual erro das fontes pagadoras no código de recolhimento das retenções que efetuou, ou não recolhimento, ou até mesmo recolhimento a menor. Assim, tanto se reconhece que o contribuinte beneficiário de rendimentos pode compensar o IRRF que incidiu sobre os pagamentos por ele recebidos, desde que, faça prova, pelos meios admitidos em direito, que sofreu o ônus da retenção do IRRF, como também que se as fontes pagadoras não informam os valores em DIRF ou recolhem com códigos de arrecadação equivocado, estes fatos, por si sós, não desnaturam o direito do contribuinte à compensação do IRRF que incidiu sobre as receitas que percebeu e contabilizou. O contribuinte, desde a manifestação inicial, faz esforços para trazer aos autos provas de que sofreu retenção por parte das fontes pagadoras, bem como de que o código de arrecadação do IRRF deveria ser o 3280. Os documentos que no seu entender provam os fatos controversos são: a) faturas relativas aos CNPJs que não entregaram a DIRF ou informaram o código de arrecadação errado, e; b) documentos que demonstram ter sido recebido e contabilizado os valores líquidos das fontes pagadoras (ou seja, descontado o IRRF sobre o serviço pessoal dos cooperados). Fl. 3282DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.413 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10835.901105/2017-75 13 Entendo que a fiscalização não poderia apreciar o direito creditório unicamente a partir dos valores que constam em DIRFs, mormente em um caso como o presente, em que o contribuinte recebe rendimentos de inúmeras fontes pagadoras e trouxe elementos que permitem um exame mais aprofundado. Assim, a partir do momento em que o contribuinte disponibilizou as faturas, nas quais constam os valores líquidos, com o IRRF destacado, caberia a autoridade fiscal auditar também a partir delas, sua contabilização, e inclusive, se fosse o caso, com intimação às fontes pagadoras para comprovação dos valores pagos ao Recorrente e IRRF respectivo. Ante o exposto, voto no sentido de converter o julgamento em diligência para que a Unidade de Origem, superando a mera análise a partir dos comprovantes de rendimentos ou das DIRFs, realize os procedimentos a seguir: a) a partir das faturas emitidas pelo recorrente, envie intimação para as fontes pagadoras para que informem valores e causa dos pagamentos realizados, especificando, inclusive, as retenções efetuadas, e apure o IRRF. Se entender necessário, compulsar a contabilização do fiscalizado. b) antes de concluir a diligência, facultar ao Recorrente comprovar tais retenções a partir dos seus extratos bancários. Ao final, deve ser elaborado relatório circunstanciado das providencias adotadas, e após o contribuinte deverá ser cientificado do seu resultado, facultando-lhe a oportunidade de se manifestar nos autos sobre suas conclusões, no prazo de 30 dias, em conformidade com o parágrafo único, art. 35, do Decreto 7.574/2011. Na sequência, o processo deverá retornar ao CARF para prosseguimento do julgamento, independente de sorteio. Considerando que a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada na decisão paradigma supra, adoto como fundamento desta proposta de diligência as razões de decidir nela consignadas, não obstante os dados específicos do processo paradigma citados. Em face do exposto, em respeito ao princípio da busca da verdade material e visando evitar prejuízo ao direito de defesa do contribuinte, entendi que a melhor solução para a controvérsia seria a conversão do julgamento do recurso em diligência, porém, como fui vencido na proposta, no mérito, acompanhei a relatora. Assinatura Digital Aílton Neves da Silva Fl. 3283DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto Declaração de Voto

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11508482 #
Numero do processo: 11070.901483/2016-20
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Jul 20 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Tue Sep 22 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 01/04/2013 a 30/06/2013 NÃO CUMULATIVIDADE. DESCONTO DE CRÉDITOS. MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO CIVIL. INSUMOS. IMPOSSIBILIDADE. Não dão direito a crédito, com base no inciso II do art. 3º das Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/2003 (insumo), materiais de construção civil (areia, tintas, cimento, tijolos, material elétrico, telhas, etc.) utilizados na manutenção de instalações prediais. NÃO CUMULATIVIDADE. DESCONTO DE CRÉDITOS. FRETE DE INSUMO DESONERADO. CREDITAMENTO. POSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N° 188. É permitido o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Contribuição para a COFINS não cumulativa, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições. CRÉDITOS ESCRITURAIS. RECONHECIMENTO EXTEMPORÂNEO. TEMA 1.003 DO STJ. ATUALIZAÇÃO MONETÁRIA. INCIDÊNCIA. O termo inicial da correção monetária de ressarcimento de crédito escritural excedente de tributo sujeito ao regime não cumulativo ocorre somente após escoado o prazo de 360 dias para a análise do pedido administrativo pelo Fisco, conforme tese firmada pelo Superior Tribunal de Justiça no Tema Repetitivo 1003.
Numero da decisão: 3202-004.428
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade, em dar parcial provimento ao recurso voluntário, para (i) reverter a glosa de despesas com serviços de frete sobre compras, desde que tais serviços tenham sido registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos e tenham sido efetivamente tributados pelas contribuições (por outro lado, esses valores devem ser excluídos da base de cálculo de créditos presumidos) e (ii) reconhecer como devida a atualização, pela Selic, da parcela do crédito não reconhecida no Despacho Decisório, mas posteriormente reconhecida em sede recursal, a partir do 361º (trecentésimo sexagésimo primeiro dia) contado da data de protocolo do PER/DCOMP retificador. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3202-004.255, de 24 de julho de 2026, prolatado no julgamento do processo 11070.900344/2017-60, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe - Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Wagner Mota Momesso de Oliveira, Joana Maria de Oliveira Guimaraes, Rafael Luiz Bueno da Cunha, Onizia de Miranda Aguiar Pignataro, Aline Cardoso de Faria, Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe (Presidente).
Nome do relator: RODRIGO LORENZON YUNAN GASSIBE

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DESCONTO DE CRÉDITOS. MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO CIVIL. INSUMOS. IMPOSSIBILIDADE. Não dão direito a crédito, com base no inciso II do art. 3º das Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/2003 (insumo), materiais de construção civil (areia, tintas, cimento, tijolos, material elétrico, telhas, etc.) utilizados na manutenção de instalações prediais. NÃO CUMULATIVIDADE. DESCONTO DE CRÉDITOS. FRETE DE INSUMO DESONERADO. CREDITAMENTO. POSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N° 188. É permitido o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Contribuição para a COFINS não cumulativa, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições. CRÉDITOS ESCRITURAIS. RECONHECIMENTO EXTEMPORÂNEO. TEMA 1.003 DO STJ. ATUALIZAÇÃO MONETÁRIA. INCIDÊNCIA. O termo inicial da correção monetária de ressarcimento de crédito escritural excedente de tributo sujeito ao regime não cumulativo ocorre somente após escoado o prazo de 360 dias para a análise do pedido administrativo pelo Fisco, conforme tese firmada pelo Superior Tribunal de Justiça no Tema Repetitivo 1003. ACÓRDÃO Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade, em dar parcial provimento ao recurso voluntário, para (i) reverter a glosa de despesas com serviços de frete sobre compras, Fl. 361DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.428 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11070.901483/2016-20 2 desde que tais serviços tenham sido registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos e tenham sido efetivamente tributados pelas contribuições (por outro lado, esses valores devem ser excluídos da base de cálculo de créditos presumidos) e (ii) reconhecer como devida a atualização, pela Selic, da parcela do crédito não reconhecida no Despacho Decisório, mas posteriormente reconhecida em sede recursal, a partir do 361º (trecentésimo sexagésimo primeiro dia) contado da data de protocolo do PER/DCOMP retificador. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3202-004.255, de 24 de julho de 2026, prolatado no julgamento do processo 11070.900344/2017-60, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe – Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Wagner Mota Momesso de Oliveira, Joana Maria de Oliveira Guimaraes, Rafael Luiz Bueno da Cunha, Onizia de Miranda Aguiar Pignataro, Aline Cardoso de Faria, Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe (Presidente). RELATÓRIO O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos prevista no art. 87, §§ 1º, 2º e 3º, do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023. Dessa forma, adota-se neste relatório substancialmente o relatado no acórdão paradigma. Trata-se de Recurso Voluntário, interposto em face de acórdão de primeira instância que julgou procedente em parte Manifestação de Inconformidade, cujo objeto era a reforma do Despacho Decisório exarado pela Unidade de Origem, que reconheceu em parte o direito creditório pleiteado por meio do Pedido de Ressarcimento apresentado pelo interessado, referente a crédito da Contribuição para o PIS-Pasep/Cofins não cumulativa. O reconhecimento parcial se deveu a glosas de créditos apurados sobre: i. Aquisição de bens e serviços utilizados como insumo; ii. Despesas com fretes sobre compras; iii. Bens do ativo imobilizado; e iv. Despesas com energia elétrica não comprovadas. Fl. 362DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.428 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11070.901483/2016-20 3 Os fundamentos do Despacho Decisório da Unidade de Origem e os argumentos da Manifestação de Inconformidade estão resumidos no relatório do acórdão recorrido. Na ementa do Acórdão recorrido, estão sumariados os seguintes fundamentos da decisão, detalhados no voto: i. O conceito de insumo para fins de apuração de créditos da não- cumulatividade da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou da relevância do bem ou serviço para a produção de bens destinados à venda ou para a prestação de serviços pela pessoa jurídica; ii. Gastos com serviços de transporte na compra de insumos e de mercadorias para revenda não geram direito a crédito quando o bem transportado não é passível de creditamento; iii. A correção monetária dos créditos objetos de pedidos de ressarcimento de PIS/Pasep e de Cofins somente será cabível após decorridos 360 dias da data de protocolo desse pedido sem que tenha havido manifestação do Fisco. Cientificado do acórdão recorrido, o Sujeito Passivo interpôs Recurso Voluntário, reiterando a existência do direito creditório postulado e requerendo o integral ressarcimento, aduzindo os seguintes argumentos, em síntese: i. Que os bens sobre os quais a glosa foi mantida são materiais destinados à manutenção predial de suas instalações industriais, portanto foram empregados diretamente em seu processo produtivo; ii. Que o direito de crédito sobre o frete não está condicionado ao direito de crédito dos insumos transportados; e iii. Que a atualização do crédito pela Selic começa a correr no 361º dia após o protocolo do pedido de ressarcimento original, não de sua retificação. Ao final, pugna pelo provimento do recurso. É o relatório. VOTO Tratando-se de julgamento submetido à sistemática de recursos repetitivos na forma do Regimento Interno deste Conselho, reproduz-se o voto consignado no acórdão paradigma como razões de decidir: 1. Admissibilidade Fl. 363DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.428 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11070.901483/2016-20 4 O recurso é tempestivo e preenche os demais pressupostos de admissibilidade, razão pela qual dele se conhece. 2. Mérito No mérito, a lide cinge-se a três matérias: i. Direito de apropriação de crédito sobre aquisição de materiais de construção; ii. Direito de apropriação de crédito sobre frete sobre compras; e iii. Atualização do direito creditório pleiteado pela taxa Selic. 2.1. Materiais de construção Entre os bens que tiveram o crédito glosado pela autoridade fiscal da unidade de origem, estão materiais de construção (areia, tintas, cimento, tijolos, material elétrico, telhas, etc.), cujo crédito foi apropriado pela recorrente com base no inciso II do art. 3º das Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/2003 (insumo). Em sua manifestação de inconformidade, a ora recorrente sustentou que se trata de materiais empregados na manutenção predial das instalações industriais e defendeu sua condição de insumo. O acórdão recorrido manteve as glosas, destacando que a recorrente não demonstrou a relação dos materiais com sua produção ou prestação de serviço. A recorrente volta a se insurgir em seu recurso voluntário, reiterando que se trata de materiais destinados à manutenção predial das suas instalações industriais, defendendo que “suas instalações industriais precisam estar funcionando plenamente, de modo que sem a devida manutenção seu processo produtivo resta prejudicado” e que os itens glosados, indiretamente, constituem insumos de seu processo produtivo. O argumento, contudo, não merece prosperar. Vejamos. Antes de adentrar à análise de mérito dos itens glosados importante sintetizar os critérios a partir dos quais o conceito de insumo contido no art. 3º, inciso II, da Lei nº 10.637/2002 e da Lei nº 10.833/2003 deve ser aferido para fins de creditamento da Contribuição para o PIS e da COFINS. O tema foi apreciado pela Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça (STJ) no julgamento do Recurso Especial (REsp) nº 1.221.170/PR, que se deu sob a sistemática dos recursos repetitivos e em que foram firmadas as seguintes teses (Temas Repetitivos 779 e 780): Fl. 364DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.428 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11070.901483/2016-20 5 (a) é ilegal a disciplina de creditamento prevista nas Instruções Normativas da SRF ns. 247/2002 e 404/2004, porquanto compromete a eficácia do sistema de não-cumulatividade da contribuição ao PIS e da COFINS, tal como definido nas Leis 10.637/2002 e 10.833/2003; e (b) o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios de essencialidade ou relevância, ou seja, considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item - bem ou serviço - para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo Contribuinte. Portanto, os critérios determinantes para que um bem ou serviço denote o conceito de insumo para fins de creditamento das contribuições deve levar em conta sua essencialidade ou relevância na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda. Sobre esses critérios, oportuno transcrever trecho do voto-vista da Ministra Regina Helena Costa, cuja tese foi acordada pela maioria dos Ministros no julgamento do REsp nº 1.221.170/PR. [...] tem-se que o critério da essencialidade diz com o item do qual dependa, intrínseca e fundamentalmente, o produto ou o serviço, constituindo elemento estrutural e inseparável do processo produtivo ou da execução do serviço, ou, quando menos, a sua falta lhes prive de qualidade, quantidade e/ou suficiência. Por sua vez, a relevância, considerada como critério definidor de insumo, é identificável no item cuja finalidade, embora não indispensável à elaboração do próprio produto ou à prestação do serviço, integre o processo de produção, seja pelas singularidades de cada cadeia produtiva (v.g., o papel da água na fabricação de fogos de artifício difere daquele desempenhado na agroindústria), seja por imposição legal (v.g., equipamento de proteção individual - EPI), distanciando-se, nessa medida, da acepção de pertinência, caracterizada, nos termos propostos, pelo emprego da aquisição na produção ou na execução do serviço. (grifo nosso) É importante frisar que a essencialidade e a relevância referidas pela decisão do STJ relacionam-se à atividade produtiva, e não a qualquer atividade no âmbito de uma empresa, em consonância com o que prevê o art. 3º, inciso II, da Lei nº 10.637/2002 e 10.833/2003, abaixo transcrito. Art. 3o Do valor apurado na forma do art. 2o a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: [...] II - bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive Fl. 365DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.428 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11070.901483/2016-20 6 combustíveis e lubrificantes, exceto em relação ao pagamento de que trata o art. 2º da Lei no 10.485, de 3 de julho de 2002, devido pelo fabricante ou importador, ao concessionário, pela intermediação ou entrega dos veículos classificados nas posições 87.03 e 87.04 da Tipi; (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) (grifo nosso) É nesse sentido a Nota SEI nº 63/2018, editada pela Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional com o fim de analisar a decisão do STJ. [...] tal aferição deve se dar considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item para o desenvolvimento da atividade produtiva, consistente na produção de bens destinados à venda ou de prestação de serviços. 15. Deve-se, pois, levar em conta as particularidades de cada processo produtivo, na medida em que determinado bem pode fazer parte de vários processos produtivos, porém, com diferentes níveis de importância, sendo certo que o raciocínio hipotético levado a efeito por meio do “teste de subtração” serviria como um dos mecanismos aptos a revelar a imprescindibilidade e a importância para o processo produtivo. Também nesse sentido é o Parecer Normativo COSIT/RFB nº 05/2018, editado pela Secretaria Especial da Receita Federal do Brasil (RFB). Ao analisar 15. Neste ponto já se mostra necessário interpretar a abrangência da expressão “atividade econômica desempenhada pelo contribuinte”. Conquanto essa expressão, por sua generalidade, possa fazer parecer que haveria insumos geradores de crédito da não cumulatividade das contribuições em qualquer atividade desenvolvida pela pessoa jurídica (administrativa, jurídica, contábil, etc.), a verdade é que todas as discussões e conclusões buriladas pelos Ministros circunscreveram-se ao processo de produção de bens ou de prestação de serviços desenvolvidos pela pessoa jurídica. 16. Aliás, esta limitação consta expressamente do texto do inciso II do caput do art. 3º da Lei nº 10.637, de 2002, e da Lei nº 10.833, de 2003, que permite a apuração de créditos das contribuições em relação a “bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda”. 17. Das transcrições dos excertos fundamentais dos votos dos Ministros que adotaram a tese vencedora resta evidente e incontestável que somente podem ser considerados insumos itens relacionados com a produção de bens destinados à venda ou com a prestação de serviços a terceiros, o que não abarca itens que não estejam sequer indiretamente relacionados com tais atividades. (grifo nosso) Fl. 366DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.428 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11070.901483/2016-20 7 Assentadas essas premissas interpretativas, voltemos ao caso dos autos. Conforme se infere dos autos, a recorrente se dedica, eminentemente, à fabricação e comércio de produtos lácteos, portanto, a análise do enquadramento de bens e serviços como insumo deve ter em conta sua essencialidade ou relevância na produção dos referidos produtos. Os materiais de construção relacionados às fls. 155-157 abrangem areia, cimento, tijolos, material elétrico, ferramentas. Trata-se de itens que a própria recorrente afirma serem empregados em manutenções prediais. Assim sendo, ainda que as instalações prediais sejam a estrutura física em que sua produção ocorre, não há relação direta de essencialidade ou relevância dos materiais de construção com a produção de produtos lácteos. Com efeito, tratando-se de despesas com benfeitorias realizadas em imóveis próprios ou de terceiros utilizados na atividade da empresa, a legislação de regência prevê o direito ao creditamento sobre os encargos de depreciação, conforme inciso III do §1º e inciso VII do caput do art. 3º das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003. Dessa forma, incabível a tomada de crédito com base no valor de aquisição dos materiais de construção, a título de insumo. Ante o exposto, nega-se provimento a esse tópico recursal. 2.2. Frete sobre compras A autoridade fiscal da unidade de origem também glosou da base de créditos das contribuições não cumulativas despesas com serviços de frete na compra de insumos não onerados pelas contribuições, por entender que: [...] o frete de compra é considerado custo do bem ou insumo adquirido e, portanto, poderá ser incluído na base de cálculo dos créditos se o produto adquirido for tributado pelas contribuições. Em sentido contrário, se o produto não for tributado pelo Pis e pela Cofins, o frete da compra não comporá a base de cálculo dos créditos sobre bens e insumos Além disso, em que pese ter glosado da base de cálculo dos créditos básicos, a autoridade fiscal entendeu que caberia a inclusão das despesas com frete na base de cálculo dos crédito presumido previsto art. 8º da Lei nº 10.925/2004. O entendimento foi mantido pelo acórdão recorrido. Em seu recurso voluntário, a recorrente sustenta que se trata de frete tributado, contratado de pessoa jurídica nacional e cujo ônus foi dela, Fl. 367DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.428 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11070.901483/2016-20 8 adquirente das mercadorias transportadas, e que isso basta para que o serviço de frete seja considerado insumo e, por conseguinte, sobre seu valor seja apurado crédito básico das contribuições, e não do crédito presumido do art. 8º da Lei nº 10.925/2004. Aqui, entendo que tem razão a recorrente. O entendimento de que é possível apurar crédito sobre serviço de frete de insumos não sujeitos ao pagamento das contribuições é tranquilo no âmbito deste Conselho. Mais do que isso, trata-se de matéria objeto da Súmula CARF nº 188, assim redigida: É permitido o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Contribuição para o PIS/Pasep e pela Cofins não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições. Registre-se que a Súmula em questão é de observância obrigatória por parte deste colegiado, conforme dispõe o art. 25, inciso II e §13º do Decreto nº 70.235/1977. Art. 25. O julgamento do processo de exigência de tributos ou contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal compete: (Redação dada pela Medida Provisória nº 2.158-35, de 2001) [...] II – em segunda instância, ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, órgão colegiado, paritário, integrante da estrutura do Ministério da Fazenda, com atribuição de julgar recursos de ofício e voluntários de decisão de primeira instância, bem como recursos de natureza especial. (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) [...] §13. Os órgãos julgadores referidos nos incisos I e II do caput deste artigo observarão as súmulas de jurisprudência publicadas pelo Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. (grifamos) Assim sendo, voto por dar provimento a este tópico recursal, para reverter a glosa de despesas com serviços de frete sobre compras, desde que tais serviços tenham sido registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos e tenham sido efetivamente tributados pelas contribuições. Por outro lado, esses valores devem ser excluídos da base de cálculo de créditos presumidos. 2.3. Atualização do crédito pela Selic Fl. 368DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.428 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11070.901483/2016-20 9 Nesse ponto, a controvérsia reside na definição de qual data de protocolo considerar para a contagem do prazo a partir do qual a atualização monetária pela Selic seria devida: a data do PER/DCOMP original ou a do PER/DCOMP retificador. Em sua manifestação de inconformidade, a recorrente pleiteou a correção do crédito com acréscimo de juros pela taxa Selic contados da “data do protocolo do pedido até o efetivo ressarcimento”. Considerando a tese firmada no âmbito do tema repetitivo nº 1.003 do STJ, a decisão recorrida entendeu que não seria cabível a correção monetária, pois a ciência do Despacho Decisório teria ocorrido em prazo inferior a 360 dias contados do protocolo do pedido. A recorrente, porém, contesta o fundamento da decisão em seu recurso voluntário, alegando que “a DRJ cometeu equívoco, considerando, para fins da determinação do prazo de 360 dias, a data de retificação do Pedido de Ressarcimento, e não, a data de seu protocolo original”. Continua para defender que seja reformada a decisão “a fim de que seja considerada, para contagem inicial da atualização monetária da Taxa Selic, a data de protocolo original do Pedido de Ressarcimento, qual seja, 27/10/2014”. Aqui, assiste parcial razão à recorrente. Vejamos. Em se tratando de créditos escriturais, não há previsão legal para que incida correção monetária. Por outro lado, ao apreciar o Recurso Especial nº 1.035.847/RS, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu que a oposição constante de ato estatal impedindo a utilização do direito de crédito descaracteriza o referido crédito como escritural, exsurgindo legítima a necessidade de atualizá-los monetariamente, sob pena de enriquecimento sem causa do Fisco. A decisão foi assim ementada: PROCESSO CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ARTIGO 543-C, DO CPC. TRIBUTÁRIO. IPI. PRINCÍPIO DA NÃO CUMULATIVIDADE. EXERCÍCIO DO DIREITO DE CRÉDITO POSTERGADO PELO FISCO. NÃO CARACTERIZAÇÃO DE CRÉDITO ESCRITURAL. CORREÇÃO MONETÁRIA. INCIDÊNCIA. 1. A correção monetária não incide sobre os créditos de IPI decorrentes do princípio constitucional da não-cumulatividade (créditos escriturais), por ausência de previsão legal. 2. A oposição constante de ato estatal, administrativo ou normativo, impedindo a utilização do direito de crédito oriundo da aplicação do princípio da não-cumulatividade, descaracteriza referido crédito como Fl. 369DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.428 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11070.901483/2016-20 10 escritural, assim considerado aquele oportunamente lançado pelo contribuinte em sua escrita contábil. 3. Destarte, a vedação legal ao aproveitamento do crédito impele o contribuinte a socorrer-se do Judiciário, circunstância que acarreta demora no reconhecimento do direito pleiteado, dada a tramitação normal dos feitos judiciais. 4. Consectariamente, ocorrendo a vedação ao aproveitamento desses créditos, com o consequente ingresso no Judiciário, posterga-se o reconhecimento do direito pleiteado, exsurgindo legítima a necessidade de atualizá-los monetariamente, sob pena de enriquecimento sem causa do Fisco. Os fundamentos da decisão, que tratou de créditos de IPI, foram aplicados também no julgamento do Resp nº 1.767.945/PR, que tratou da atualização monetária no ressarcimento de créditos da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins. Julgado sob a sistemática dos recursos repetitivos (tema nº 1.003), o Tribunal fixou a seguinte tese. O termo inicial da correção monetária de ressarcimento de crédito escritural excedente de tributo sujeito ao regime não cumulativo ocorre somente após escoado o prazo de 360 dias para a análise do pedido administrativo pelo Fisco (art. 24 da Lei n. 11.457/2007). Portanto, o termo inicial para a incidência da taxa Selic sobre o crédito objeto de pedido de ressarcimento ocorre após o decurso do prazo de 360 (trezentos e sessenta) dias destinados à análise do pedido administrativo, nos termos da tese firmada no Tema nº 1.003 do STJ. Como visto, no caso dos autos, a controvérsia diz respeito à definição da data de protocolo a ser considerada para essa contagem: se a do PER/DCOMP original ou a do PER/DCOMP retificador. A transmissão de um PER/DCOMP retificador implica a substituição do pedido anterior por outro, relativo ao mesmo período, porém com informações diferentes, que passam a prevalecer como parâmetro de análise do fisco. Mormente quando se trata de retificação que tem por objeto a alteração dos valores dos créditos a serem ressarcidos, como é o caso dos autos, o que se tem, na prática, é a formulação de um novo pedido. Dessa forma, no caso sob análise, o prazo de 360 (trezentos e sessenta) dias para apreciação do pedido administrativo, para fins de incidência da taxa Selic de que trata o Tema nº 1.003 do STJ, deve ser contado a partir da data de protocolo do PER/DCOMP retificador. Considerando que a ciência Fl. 370DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.428 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11070.901483/2016-20 11 do Despacho Decisório ocorreu antes do transcurso desse prazo, não é devida a atualização dos créditos nele reconhecidos. Por outro lado, no que se refere à parcela do crédito não reconhecida no Despacho Decisório, mas posteriormente reconhecida em sede recursal, verifica-se que o prazo que o fisco resistiu à pretensão creditória superou os 360 (trezentos e sessenta) dias. Assim, em relação a essa parcela, entendo que é devida a atualização, pela Selic, a partir do 361º (trecentésimo sexagésimo primeiro dia) contado da data de protocolo do PER/DCOMP retificador. Ante o exposto, voto por dar parcial provimento ao recurso voluntário, para (i) reverter a glosa de despesas com serviços de frete sobre compras, desde que tais serviços tenham sido registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos e tenham sido efetivamente tributados pelas contribuições (excluindo-se esses valores da base de cálculo de créditos presumidos) e (ii) reconhecer como devida a atualização, pela Selic, da parcela do crédito não reconhecida no Despacho Decisório, mas posteriormente reconhecida em sede recursal, a partir do 361º (trecentésimo sexagésimo primeiro dia) contado da data de protocolo do PER/DCOMP retificador. Conclusão Importa registrar que as situações fática e jurídica destes autos se assemelham às verificadas na decisão paradigma, de sorte que as razões de decidir nela consignadas são aqui adotadas, não obstante os dados específicos do processo paradigma eventualmente citados neste voto. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do RICARF, reproduz-se o decidido no acórdão paradigma, no sentido de dar parcial provimento ao recurso voluntário, para (i) reverter a glosa de despesas com serviços de frete sobre compras, desde que tais serviços tenham sido registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos e tenham sido efetivamente tributados pelas contribuições (por outro lado, esses valores devem ser excluídos da base de cálculo de créditos presumidos) e (ii) reconhecer como devida a atualização, pela Selic, da parcela do crédito não reconhecida no Despacho Decisório, mas posteriormente reconhecida em sede recursal, a partir do 361º (trecentésimo sexagésimo primeiro dia) contado da data de protocolo do PER/DCOMP retificador. Assinado Digitalmente Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe – Presidente Redator Fl. 371DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.428 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11070.901483/2016-20 12 Fl. 372DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto 1. Admissibilidade 2. Mérito 2.1. Materiais de construção 2.2. Frete sobre compras 2.3. Atualização do crédito pela Selic

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